Os meus amores contos e balladas
Lembrou-se então do pombal, do seu primeiro ninho, do raiado… Oh! o
raiado!… Receou primeiro, quem sabe se ele a quereria, tinha pomba,
decerto… Iria?… Não iria?… O pombal ficava perto, um voo valente e
estava lá, acharia tudo em casa, era cedo ainda.
Fez-se de voo e partiu.
* * * * *
A manhã era calma e o céu era azul. Canções de cotovias vibravam pelo ar
que as balseiras alastravam de aromas, perfumando-o. A estrela da alva
tinha os últimos bocejos para fechar de todo a pálpebra cansada e
adormecer no azul; e o oriente começava de animar-se de um alaranjado
esplêndido–decoração triunfal com que se orna aguardando a visita de
quem tem de rolar pela eclíptica, alumiando o hemisfério e fecundando
tudo–o cardo que rasteja e o cedro que vê longe…
Naquele repontar da manhã, o alto céu era de uma limpidez cristalina.
Evolava-se de toda a banda um perfume virginal de dulcíssima paz, e
pelas ramagens verdejantes a volata suavíssima dos ninhos começava, como
uma saudação ao dia que vinha rompendo. No altar das laranjeiras,
florido como em Domingo de festa, o rouxinol cantava a missa de alva.
Em manhãs plácidas como aquela, quantas vezes a branca não fizera as
suas excursões alegres de _touriste_, na companhia do raiado,
perdendo-se com ele através do horizonte àquela hora tranquilo e para
toda a banda transparente!
Como tudo isto lembrava, agora!
Em todos esses pinheirais, ao largo, os dois haviam descansado muitas
vezes, muitas, expandindo em arrulhos de uma ternura inefável o amor
extraordinário que os unia! Em toda a largura não se descobria um só
campanário ou um só telhado onde não tivessem pousado ambos, alegres,
contentes, doidos! E ela sempre ufana, acompanhava o macho nos seus
voos ainda os mais arrojados, perdia-se com ele para além das serranias
mais distantes, destemida com a companhia que levava–um amigo que
empenharia a vida só para salvar a da amante.
E que bela manhã, aquela! Tudo tão alegre! Era ver como as calhandras
acordavam contentes, e se atiravam ares além no seu voo perpendicular e
rápido!
Entravam de animar-se cada vez mais as ramarias, com a vida dos ninhos;
melros ensaiavam solícitos a sua partitura vibrante. Mas a toda a
largura–nem uma asa de pomba palpitava. Ela só, desalentada e cheia de
mágoas, ia para onde a levava o destino,–quem sabe se para a morte…
Então chegou a branca ao pombal e voejou em torno espadanando as asas
contra o muro, arremetendo os buracos, desejando entrar, faltando-lhe a
coragem, voejando de novo para arremeter em seguida. Os seus antigos
companheiros sentiram-na, conheceram-na, e arrulhando muito, e
arrulhando forte, saíram em tropel e foram pousar no telhado, batendo
muito as asas combinando ataque.
E como a pomba teimava em entrar, corriam a opor-se, vedando-lhe a
passagem.
De repente, um pombo negro abriu muito as asas, agitando-as, tenteou voo
nuns pequeninos saltos nervosos e investiu com a pomba, com a
desgraçada pomba, e os mais após ele. Havia sangue nos bicos e penas
voando em elipsóides, um barulho de asas que se chocavam com fúria. Por
fim um baque, a pomba caiu no chão, toda sangrenta, um olho arrebentado,
bico aberto, num arquejar convulso, cortado de um arrulho gutural de
vida que se esvai lentamente, gradualmente, com dor. Um estremecimento
de membros por fim, uma agitação geral repentina, e–morta!
Ares além, os assassinos em bando voavam à busca talvez de um ribeiro
onde lavassem os bicos ensanguentados…
* * * * *
E o raiado?–hão-de os senhores perguntar. Demorem-se um pouco e
vê-lo-ão sair da janela das trepadeiras, alegre, felizão, boémio,
depois de uma noite passada na meia sombra dos cortinados leves de um
leito, a rir, a amar, beijando o colo da Morgada, arrulhando com ela,
arrulhando, ora um ora outro,–debicando… debicando… debicando…
BATALHAS DOMÉSTICAS
BATALHAS DOMÉSTICAS[1]
_A Luís Trigueiros_.
Para o meu propósito, é inútil narrar-lhes esse pequenino e perfumado
idílio, cor-de-rosa, que foi na vida de ambos, durante um ano, o seu
mais vivo encanto. Isto em Lisboa, onde ele, Joaquim Seabra, maior,
empregado de escritório comercial, vivia desde pequeno uma furiosa
vida de trabalho. A mãe tinha-lhe morrido, ainda ele era fedelho: e
passados poucos meses, tinha o Joaquim sete anos, uma doença complicada
levara-lhe também o pai–homem de lavoura, pobre mas honrado, bronco mas
leal, que nascera e levara a vida não me lembra em que aldeia da Beira,
nas abas da Serra da Estrela.
Sentindo-se morrer, o João Seabra pediu os sacramentos. Deram-lhos. E
quando o reitor ia retirar-se, grave, revestido, aconchegando ao largo
peito o vaso sagrado das partículas, solene sob a umbela branca de
grandes ramagens amarelas, o pobre homem preveniu o padre de que em
podendo lhe desejava uma palavra.
–Volto por aqui de caminho, dissera o reitor.
Assim fez. Mas caso é que ao abeirar-se de novo do catre do doente,
junto do qual estava o Joaquim, descalço, mal remendado, o velho,
entreabrindo os olhos e cerrando-os logo para sempre, mal tivera tempo
de lhe murmurar, designando vagamente o filho:
–O pequeno, coitadinho!
De modo que foi o próprio reitor em pessoa, quem, passados dois anos,
veio meter o órfão, como marçano, numa loja de ferragens da baixa,
loja escura, funda, com uma ventana de vidraças, combalida, dando para
uns saguões de prédios contíguos. De marçano subiu com o tempo a
caixeiro; e como era aplicado, humilde, suportando com uma placidez
resignada de beirão um trabalho por vezes superior às suas forças, pulou
um dia para a escrivaninha da casa, no andar de cima, vaga pela saída
para a cadeia do outro que cometera umas falcatruas.
–Precisava um tiro nos miolos, esse cão! dissera diante dos patrões o
Joaquim.
E a incisiva frase que fora, enquanto remexia a papelada, todo o seu
comentário ao procedimento irregular do companheiro, valera-lhe a
involuntária conquista do lugar, como revelação, que era, das qualidades
fundamentais do seu carácter,–comuns, de resto, ao tipo beirão,
profundamente animal, audaz, sóbrio, musculoso, no fundo generoso e bom.
A vida começou então a ter para ele umas entreabertas mais risonhas,
livre dessa prisão estreita da escura loja, onde os seus instintos
hereditários de independência, acordados no fundo de uma natureza
bárbara de hermínio, tinham, de quando em quando, uns bruscos, violentos
repelões de rebelião… Até que um dia, numa dessas guinadas que mesmo
à escrivaninha o assaltavam, pensou em ir à terra onde não voltara desde
pequeno. Ainda lá tinha uns tios, vivia ainda o reitor. E numa
introversão de momentos, mirando através da janela o claro céu azul,
alto naquela manhã serena de Maio, o Seabra teve a remota visão do seu
passado–das coisas da sua infância, da sua pobre e humilde aldeia
encravada num declive de serrania que ao longe elevava o dorso, nitente
de neves eternas. E como se mirasse tudo através de um binóculo
invertido, ele lá via além, muito longe para as sugestões do seu
desejo, muito afastado para as débeis reminiscências da sua memória,
tudo isso que ele dizia em três palavras–«a minha terra!»–isto é,
esse montão informe de velhos tectos chamuscados onde havia um debaixo
do qual nascera; o campanário alto e esguio; a igreja oblonga; a fita
branca do muro do cemitério onde seu pai e sua mãe jaziam; a paisagem
circundante cortada de canais e regueiras, que parecem fios de prata
serpeando na esmeralda das baixas, toda retalhada em hortejos; e então a
velha legião amiga das árvores–o zimbro ao alto dos morros nus; depois,
descendo, as urzes brancas; os piornos; os belos carvalhos altivos; e
já a meio da encosta, estendendo sobre a zona agrícola e hortícola o
verde e tenro pára-sol das suas soberbas folhas–o castanheiro, enfim.
Através da sua vida de balcão, duramente mourejada a mover barras de
ferro, feixes pesados de vergas, ceirões informes de pregaria, com
intermitências raras de descanso, algum Domingo, pelas hortas dos
arredores, ou às vezes num bote, pelo Tejo,–a sensação melancólica da
sua paisagem nativa não chegara a obliterar-se-lhe no cérebro, nem tão
pouco a lembrança dos seus velhos conhecimentos de infância, dos seus
companheiros de escola que iam todos os dias, de manhã e de tarde, à
lição a casa do reitor, naquele velho sótão da residência, com paredes
denegridas e tecto de madeira com manchas…
E que seria feito deles? Talvez que os não conhecesse, que o não
reconhecessem, agora. Talvez. E esta dúvida, esta desconfiança, dava ao
seu desejo de os ver, de se lhes mostrar,–com o seu fraque, a sua
bengala, a sua cadeia de oiro escorrendo sobre o colete claro–o encanto
subtil e ingénuo de uma vaidade. E acabou de o decidir, enfim, a propor
aos patrões essa viagem, certa imagem de rapariga loira, olhos azuis e
toda rosada de cútis, que ele, sem quase dar por isso, espontaneamente,
insensivelmente, fora sabendo, de longe, que se conservava ainda
solteira…
…a Emília!
E porque seja estranho ao meu propósito, e quase indiferente à história
que lhes vou contando, a crónica preliminar desse consórcio, direi que
a velha estola do reitor os uniu enfim uma manhã–manhã de Julho, na
velha e ampla igreja da freguesia, toda banhada de sol, toda rumorejante
de vozes, e sobre a qual caía sem despejar, como uma chuva alegre de
pétalas, a saraivada metálica dos sinos, repicando… Até que passados
dias, ei-los enfim em Lisboa, instalados não sei em que beco da Baixa,
perto da «obrigação» do Joaquim, que era, como lhes disse, o
escritório.
E aqui rompe a história; e se é do agrado dos senhores, comecemos.
* * * * *
Bem, aquele primeiro ano. Por uma banda a Emília a cuidar da casa,
toda se desvelando nos mínimos pormenores do interior, na cozinha, no
amanho das roupas, no decorativo, mesmo, dos quartos e saletas que a
mobília, comprada de novo, tornava alegres e confortáveis. Ele, por
outra banda, trazendo-lhe nos fins dos meses intacto o seu ordenado, e
trazendo-lhe, cada dia, uma carícia mais fresca e mais suave. E dada a
homogeneidade dos seus temperamentos, a proveniência comum das suas
naturezas, originárias do mesmo solo, filhas da mesma raça, temperadas
do mesmo sangue, ricas das mesmas infiltrações de seiva e de saúde,
explica-se logicamente esse paralelismo absoluto de vontades que os
dois levavam na vida, sem um choque nas suas aspirações, sem um encontro
avesso nos seus desejos, sem a mínima divergência no seu modo de ver e
de pensar. Educados em meios diferentes, embora! o que nas suas
naturezas havia de fundamental, e até de intensamente uniforme no raio
visual das suas inteligências, tornara podemos dizer nulo, sem
consequências no fio comum das suas vidas, esse largo período passado
em latitudes diferentes:–ela, onde ambos tinham nascido, debaixo do
mesmo céu, à luz do mesmo sol, à sombra das mesmas árvores; ele,
sequestrado de tudo isso, mas num meio sem cor para ele definida,
pardo, estreito como uma gaiola, e onde, portanto, a sua natureza se
conservara estagnada,–estagnada como uma pequena lagoa, dormente
debaixo do luar melancólico…
Vinha daí, e do fundo ingénuo das suas almas, estreladas das mesmas
superstições, povoadas das mesmas imagens, embaladas, ao nascerem, ao
ritmo da mesma canção, essa forte, dulcíssima corrente de ternura
espiritualizada que era o motor primeiro dos seus abraços, o mais vivo e
fresco perfume dos seus beijos, a mais alta, a mais serena e orvalhada
eflorescência do seu profundo amor… E pois que havia também no sangue
de ambos–bem como no seio de um diamante as iriações mordentes–as
rubras, incandescentes faúlhas de uma animalidade impetuosa, adivinha-se
quanto seria intensa nos dois a vida sexual,–casta a despeito de tudo,
vivente como um largo pâmpano, nimbada, enfim, como certas telas
clássicas, por umas cabecitas loiras de crianças, frescas, ridentes, cor-de-rosa…
Daí, como lhes disse no princípio, esse pequenino e perfumado idílio,
cor-de-rosa, que fora na vida de ambos, durante um ano, o seu mais vivo
encanto…
* * * * *
Em certo dia, porém, regressava o Joaquim do escritório, noite cerrada
já, quando uma rapariguita que lhes servia de criada havia dois dias,
vindo abrir a cancela, lhe desfechou estas palavras no acento beirão:
–A minha madrinha está muito mal.
–Muito mal?
–Sim, parece que lhe deu pela cabeça não sei quê.
Joaquim Seabra estacou, como que fulminado. E encostando-se à umbreira,
para não cair, sentiu passar-lhe pelo cérebro, como um tufão de peste,
uma ideia que lhe fez vertigens. Teve um pressentimento… E cobrando
alentos, confuso diante da rapariguita que o olhava, disse-lhe com a voz
trémula, no tom de quem procura, comprometido e humilde, esconder um
pensamento:
–Bem sei… Isso costuma-lhe dar… Uns ataques… Foi depois que veio
da Beira.
–Parece que lhe chamam flatos, volveu-lhe a pequena.–Fica-se como
doida…
–Sim… chamam-lhe flatos… fica-se como doida… É isso.
E como se sentissem passos subindo a escada, inquilino ou pessoa do
andar de baixo,–talvez alguém que o procurasse!–fechou a porta com
força; e apagando a luz, com um sopro trémulo, coseu-se a um canto
impondo silêncio, com a mão sobre a boca arquejante da rapariga.
–Cala-te, ouviste? disse-lhe quase com o bafo–Se te calares hei-de-te
dar dinheiro. Cala-te.
A rapariga calou-se, aniquilada, toda enroscada a um canto, como um
novelo. E passados instantes, quando um grande silêncio envolvia todo o
prédio, ouvindo-se apenas, de quando em quando, o rodar de algum trem
nas ruas próximas, o Seabra tomou nos braços trémulos a pequena, e foi,
cauteloso como um bandido, levá-la à cama.
–Ouves, Luísa? Não faças bulha. Dorme.
E fechando-lhe a porta à chave, respirou, hirto no meio do corredor em
trevas. Devia de ser assim a sepultura: aquele silêncio, aquela
escuridão impenetrável! E ele, como um cataléptico, ali encafuado
vivo…–triturado pela mágoa, roído pela dor, desfeito pela desgraça,
como se milhões de larvas o triturassem, roessem, desfizessem,
implacáveis e cruéis, famélicas da última partícula da sua carne,
sedentas da última gota do seu sangue, famélicas e sedentas até da sua
própria alma… Vivo, ó Deus cruel! ó Deus desapiedado! Vivo e no
entanto… morto: vivo para a sensação esfaceladora da sua atroz
desgraça, do seu cruel, cruciantíssimo martírio; morto, aniquilado,
desfeito, para a visão auroreal das suas esperanças…–as suas
esperanças! revoada alegre de pombas, cândidas, serenas, imaculadas,
que um tufão de desgraça varrera do ninho do seu peito, para longe e
para sempre…
E humilde como um rafeiro ou como um trapo, numa prostração de louco
embriagado, dir-se-ia que o cérebro deixara de funcionar nesse
infeliz–como relógio subitamente parado, marcando um momento fatal!–e
que tudo quanto ele sentia, e que tudo, oh Deus! quanto ele gozava!
era essa impressão aniquiladora do _Nada_, que o fundia na treva
circundante, com ela identificando-o, irmanando-o, confundindo-o, e
tanto e tão intimamente, que ele próprio nela se sentia diluído, e no
silêncio…
Súbito, porém, a um gemido, a um grito, a um ranger, escoado ali de
perto como um réptil, escoado ali de perto, como um verme,
fosforejante na treva à semelhança de um demónio, que agitasse um
_pierrot_ de cascavéis,–uma centelha de vida animou esse corpo
aniquilado, e dentro daquele cérebro fez repontar, como luz de
lâmpada funérea alumiando um cenóbio silencioso, a chama de uma
ideia… E teve então de si próprio a estranha, diabólica visão de um
esqueleto carcomido, desossado, alquebrado, mirando pelo arco imóvel
das órbitas, donde dois feixes de luz escorriam–aquele trapo
miserando ali caído, informe, esquálido, repelente, montão de gelo, e
lágrimas, e trevas…–que era ele também!…
Entretanto, e como por força mesmo dessa alucinação desvairada e
trágica, o cérebro perdera nele a recta, serena faculdade do
raciocínio, ele continuava absorto, incompreendido, estúpido, diante
da «sua desgraça»–como diante de um grande mar de negrume, profundo e
estagnado, por uma noite sem lua e debaixo de um céu sem estrelas,
torvo de um burel cerradíssimo de nuvens, a sombra de um espectro… E
assim em breve, retombou nessa altitude que diremos irracional,–mudo,
aniquilado, desfeito, no meio da treva silenciosa, como no lodo fundo
de um poço um bloco inanimado…
* * * * *
No escuro do seu cubículo, a pequena soluçava a espaços. E era como se a
própria treva soluçasse, esse chorar abafado da criança, espavorida das
coisas que a cercavam, para ela misteriosas e fúnebres. Era como se um
alegre pintassilgo, vivo, irrequieto, palreiro, fosse do seu ramo florido
de amendoeira, por uma tarde serena de Abril, pousar, num voo de acaso,
na mansarda tristonha de um morcego, em qualquer frincha desabrigada de
velho muro, abandonado algures…
E porque viera? E para que viera? Não sabia. No entanto, ao contrário do
que lhe tinham prometido, que saudade infinita, repassada de profunda
nostalgia, da telha vã do seu humilde casebre, através do qual passavam
os primeiros alvores da manhã, como um perfumado beijo de frescura! Dois
dias, apenas! Entretanto, já dois dias! Tanto tempo em tão pouco tempo!
E não tornara mais a ver pássaros! e não mais tornara a ouvir, de manhã,
tocando à missa de alva, tangendo à tarde a ave-marias, o seu querido e
alegre sino de aldeia…–além, naquela riba suave e pitoresca,
prateada, beijada do luar àquela hora!… E o fio do seu pensamento,
que outrora derivava límpido, sereno, cristalino, como pequenino
arroio murmurante que vai entre duas alas de flores singelas,
torvelinhava agora estupidamente, desnorteado, ao acaso, convertido num
veio torvo, lodoso e borbulhante, soluçando, como se fora de lágrimas,
oculto sob a folhagem pálida…
* * * * *
A dois passos, no corredor escuro, o outro continuava prostrado, junto
da porta que dava para o quarto onde a mulher, deitada, devia talvez
dormir, de borco sobre a roupa revolta, ou no chão talvez… Mas como
acontece às tempestades da natureza, também a tempestade daquela alma
de homem entrou de se diluir em pranto, pouco a pouco, serenamente,
gradualmente. Chorou. E como se fora o véu das lágrimas que lhe não
deixara ver até então os pormenores do seu infortúnio, deste
permitindo-lhe apenas uma sensação que diremos informe, entrou de se
fazer com a vazante mais lúcido o raciocínio, mais precisa e mais
esperta a ideia que se lhe acendeu no cérebro, como luz que pouco a
pouco vai surgindo na lâmpada de um claustro, alumiando nitidamente,
sob o docel frio das sombras, as arestas marmóreas de um sepulcro…
Ah! mas então, sob a impressão raciocinada e fria da sua tragedia, cujas
linhas contornais pareciam feitas de gelo, uma nova tempestade
rebentou,–como uma trovoada enorme em tarde seca de Maio. E foram
então as imprecações, os gritos estrangulados irrompendo, em surdina,
por entre as maxilas ferradas, do fundo do peito em ânsias. Então foi o
arrancar convulsivo dos cabelos, às guinadas, teimosamente, num duelo
de loucura com a dor física, desafiando-a, espicaçando-a, dando-lhe a
beber o próprio sangue do peito, rasgado pelas dez unhas crispantes,
lacerantes como se foram de abutre.
–Ah! raios do céu, e não morro!
E como o grito lhe saiu mais alto, prestes levou ao chão, como
beijando-o, os lábios estranhamente rasgados pela cólera. Veio-lhe então
o pudor melindroso da sua desgraça, o medo horrível de que se
divulgasse, de que os outros a soubessem,–de que a pequenita, mesmo, a
conhecesse… O que diriam? o que pensariam? E todo ele se encolhia, e
todo ele se sentia gelado até ao mais íntimo da sua alma, supondo-se
na rua, como outrora, ao vivo e claro sol, levando aderente às costas,
como um ferrete ou como um cáustico o olhar de «toda a gente»… E com
as unhas ferradas na testa, escondia da própria treva, com as mãos
ambas, o rosto cobarde e arrepanhado.
–Diabos do Inferno! levai-me!
A este novo grito, porém, súbito se recolheu num grande pavor
religioso. Do fundo da sua natureza alguma voz se elevou, serena, doce,
harmoniosa, como na paz tranquila do campo o fumo azul-claro de um
casal… E teve a doce visão de um arco-íris, bonançoso e rutilante,
repontando luminoso no burel aspérrimo da sua alma, onde uma clareira se
abria. E foi quase a sorrir, chorando as primeiras lágrimas tranquilas,
que dos seus lábios quase serenos voou como uma pomba alvinitente, que
transporta no rosado bico um ramo de oliveira, esta palavra de amor:
–Deus!
E para logo sentiu sobre a sua fronte, de manso e manso erguida num
como enlevo de visão, um ruflar de asas de pombas… à hora da alva…
sobre os campos… numa clara manhã de Maio, perfumada…
E como se mão invisível o erguesse, devagar, serenamente, enxugando-lhe
da orla das pálpebras a última lágrima de sangue deposta ali pela sua
alma, o pobre foi submissamente escoando-se para o quarto contíguo, onde
sua mulher estava, o seu anjo, o seu tesoiro, a sua vida… E foi
submissamente, como um cão duramente batido que volta aos afagos do
dono, que sobre os lábios da adormecida esposa, secos, pálidos,
desbotados, ao claro luar vindo do céu, o triste uniu os seus lábios
frementes,–…num beijo suavíssimo de perdão. Ao mesmo tempo que ela,
num delírio, repetia a frase cruel:
–Mais vinho!
NOTAS:
[1] Sendo necessário completar o número preestabelecido de páginas de
cada volume desta _Colecção_, número além do qual se não pode ir e
aquém do qual se não deve ficar,–o editor pediu e obteve do autor, em
vez de novo conto, um excerto do seu livro em preparação, livro
provisoriamente baptizado com o título de _Batalhas domésticas_. O
excerto pode dizer-se que constitui só por si, como os leitores verão,
um trabalho literário, independente e uno, o que de certo modo lhe dá
lugar nesta colecção, ao lado dos precedentes, estabelecendo, além
disso, a transição do espírito do autor para uma nova fase, literária
e artística.
N. do E.
ÍNDICE
Idílio rústico
Sultão
Última dádiva
Prelúdios de festa
Tipos da terra
V[ae] Victoribus
Maricas
Para a escola
Tragédia rústica
Abyssus abyssum
Mãe
Arrulhos
Batalhas domésticas
OS MEUS AMORES E A CRÍTICA
Da Revista Ilustrada (extracto da crónica):–«…_Os meus amores_, de
Trindade Coelho, é um volume de contos para toda a gente, em condições
agradabilíssimas ao paladar de ambos os sexos, e com delicadas
circunstâncias a prazerem, principalmente, ao feminino. Porque uma das
preocupações literárias mais evidentes deste escritor primoroso é
fazer jus à amizade das leitoras, e como dispõe de perícia no ferir de
certas notas emoventes e no tocar certas fragilidades de sentimento,
consegue-o.–_Alfredo Mesquita_.
Jornal da Noite:–«Trindade Coelho–Este ilustre escritor, nosso
talentoso colega do «Portugal», brindou-nos com um exemplar do seu novo
livro de contos _Os meus amores_.
De entre a plêiade de prosadores, que por aí mourejam no mundo das
letras, a individualidade de Trindade Coelho destaca-se distintamente,
e impõe-se à admiração dos que apreciam os talentos brilhantes
privilegiados.
Os trabalhos do ilustre escritor, se pela estrutura original e
encantadora são dignos do maior apreço, pela elegância da forma,
burilada a primor num estilo finíssimo e cintilante, despertam os
mais francos, sinceros e entusiásticos encómios dos que os lêem.
Quem conhece o formoso talento de Trindade Coelho, e o seu belo
carácter, avalia bem, por certo, como ambos estes seus característicos
serão traduzidos no novo livro de contos do nosso distinto colega.»
Diário Popular:–«_Os meus amores_.–Assim se chama um livro de
graciosos contos, retratando aspectos da vida da aldeia e do campo, que
acaba de aparecer, firmado por Trindade Coelho.
O escritor, como verdadeiro artista que é, localiza todas as suas
atenções, de há muito, no trabalho de apreender com fidelidade o
viver campesino, sobretudo da vasta região transmontana, a qual lhe foi
berço. Por isso o seu fabrico literário se aprimora de dia para dia
numa escala crescente de sinceridade, e por tanto mérito: _Os meus
amores_ o atestam, quando postos em paralelo com os primeiros contos
publicados avulso.
Trindade Coelho cultiva com cuidado especial o diálogo que busca e
consegue fotografar com particular exactidão. Em vez dos descritivos,
quase desprezados, são trechos sucessivos de conversas de uma
encantadora rudeza ingénua que formam o estofo principal de todas as
suas produções. Isto e a felicidade com que sabe observar, dão o cunho
pessoal da sua obra, que proporciona agradáveis e confortáveis momentos
de leitura.»
Diário Ilustrado:–«Abrem _Os meus amores_, de Trindade Coelho, com um
admirável soneto de Luís Osório, que depomos nas mãos da leitora, como o
perfumado ramo de cravos valencianos, a flor actual das suas
predilecções femininas: (_segue o soneto inicial._)
E pelo braço do poeta da _Alma lírica_ subimos ao doce convívio
espiritual da alma de Trindade Coelho.
O conto _Mãe_, uma rica jóia engastada neste livro, brilhando aí por
todas as suas facetas cortadas em diamante, e buriladas com a fina arte
de um joalheiro florentino, bastaria para autenticar-lhe o valor e para
aferir os dotes mentais de Trindade Coelho, que tem no seu brilhante
estilo moderno, fluente e sóbrio, incisivo e profundo, vibrátil e
melódico, o diploma do seu notável talento.
É principalmente pela sinceridade intuitiva e pela naturalidade
espontânea que estes contos nos cativam.
O autor diz-nos, sem preocupações de escola e sem pretensões a abrir
caminho pela deslocação do vocábulo ou pela selva escura do escândalo, o
que viu, analisou, observou e sentiu.
As suas doces narrativas, penetradas da alma campestre, deslizam
suavemente, tocadas a espaços de uma inigualável melancolia
contemplativa que lhes duplica o encanto.
Mas nesses singelos contos, artisticamente concretizados, Trindade
Coelho revela o superior poder evocativo da visão íntima, que o
singulariza.
A complexa natureza, para tantos inexpressiva e muda, tem para ele,
como para todos os artistas de raça, atitudes, expressões, cores e
sons, que o autor vê, adivinha, sente e traduz com a fascinadora
eloquência dos iniciados, e o misterioso enternecimento, que só nos
transmite a simples leitura dos poetas.
Há rápidos traços de análise emotiva ou de comoção reflexa que valem
poemas.
E não serão o _Idílio rústico_, a _Mãe_ e outros contos, soberbamente
delineados e intimamente vividos, verdadeiros poemas em prosa?
Felicitamos calorosamente Trindade Coelho, o nosso querido amigo, pelo
seu primeiro livro, que embora glorifique o seu nome, não é de certo o
seu primeiro triunfo.–_Gabriel Cláudio_.»
Jornal do Porto:–«_Os meus amores_.–A colecção António Maria Pereira
aumentou-se de um novo volume original. Intitula-se _Os meus amores_ e
está escrito pelo nosso ilustre colega e literato distinto o Sr.
Trindade Coelho.
Deste livro que, pelas suas destacadas qualidades literárias, deve
achar grande aceitação no nosso público, escreveremos em breve as
palavras apreciadoras que ele merece.»
Correio Elvense:–Trindade Coelho.–Este nosso amigo e festejado
escritor, publicou agora o seu primeiro livro de contos e baladas a
que deu o título: _Os meus amores_, editado pela acreditada livraria de
António Maria Pereira.
Trindade Coelho, que hoje ocupa um proeminente lugar no jornalismo da
capital, fez ainda há pouco algumas das suas melhores armas na imprensa
em Portalegre, onde criou dois jornais, um dos quais ainda vive, que
tiveram vida gloriosa enquanto os animou o trabalho do distinto
estilista.
Não só nos seus escritos passados, mas então, conhecemos o grande valor
que indiscutivelmente possui. Não nos surpreendem pois os seus
triunfos e rejubilamo-nos com eles com a alegria e sinceridade de bons
e sinceros amigos.
Num dos próximos números falaremos da impressão colhida em _Os meus
amores_, agradecendo desde já as expressões afectuosíssimas que
acompanham a dedicatória do livro, que o seu autor nos ofertou.»
Correio do Norte:–«_Os meus amores_.–Contos e baladas.–Trindade
Coelho, o já conhecido e apreciadíssimo escritor, acaba de publicar um
livro de contos com o título acima indicado. É esta uma bela novidade
para o nosso mundo literário, onde Trindade Coelho de há muito soube
conquistar um lugar dos mais distintos, pelo seu belo talento e
poderosas qualidades de escritor.
Limitamo-nos por agora a dar esta simples notícia do aparecimento do
novo livro, para depois escrevermos mais detidamente sobre ele.
Agradecemos ao nosso prezadíssimo amigo a delicadeza do seu
oferecimento.»
O Globo:–«_Os meus amores_.–Mais um livro editado pela livraria de
António Maria Pereira. Intitula-se _Os meus amores_ e subscreve-o o nome
de Trindade Coelho.
Não o lemos ainda porque o recebemos agora; mas há-de ser por certo
trabalho de grande valor artístico, como invenção e como execução,
porque Trindade Coelho é incapaz de produzir uma obra literária má. A
sua educação literária está feita, e os seus numerosos trabalhos tão
apreciados, tão portuguesmente escritos, tão sentidos e tão espontâneos
revelam qualidades de escritor de raça. Ele tanto pode ser um
jornalista eminente como é um contista original.
_Os meus amores_ é uma colecção de contos e baladas. Conhecemos alguns
capítulos, que são primorosos, mas carecemos de ler todo o livro para
não errar na apreciação. Vamos lê-lo com a convicção de que teremos de
saborear um desses raros mimos literários que só os privilegiados de
talento sabem oferecer aos seus leitores.»
Diário de Notícias:–«_Os meus amores_.–_Contos e
baladas_.–Anunciámos, em tempo, o próximo aparecimento deste
trabalho, com que o brilhante contista e nosso colega do _Portugal_, o
Sr. Trindade Coelho, ia aumentar a colecção, já tão valiosa, das
edições do Sr. António Maria Pereira.
O livro acha-se, enfim, publicado, e em nada desdiz do conceito que
desde logo nos autorizaram a emitir os elevados méritos literários do
seu autor, tantas vezes comprovados em numerosos escritos anteriores.
Com uma observação escrupulosa, e um pitoresco estilo, de uma pujança e
de uma riqueza não vulgares, sem atentados contra o bom gosto, nem
rebeldias contra o bom senso, os contos do Sr. Trindade Coelho são, a
todos os respeitos, um verdadeiro primor, uma obra que há-de entrar, sem
hesitações, na aceitação do público, e que há-de ficar longo tempo, a
atestar, numa formosa prova, a riqueza de um espírito, superiormente
educado, dúctil e prontamente maleável.
Porque esses contos são a obra de um genuíno artista, cuja _maneira_,
simultaneamente fácil e apuradíssima, revelando a espontaneidade de uma
fecunda fantasia, traduz e afirma a fina sensibilidade de uma alma
delicadamente temperada, a viveza de um talento exuberante de vigor e de
seiva.
Não pode entrar nos curtos limites de uma simples notícia, a mais
desenvolvida crítica desse trabalho, que tem, na próprio nome do seu
autor, o melhor e o mais seguro título de recomendação para obter do
público a consagração de um largo e legítimo sucesso.
Apenas acrescentaremos que abre o livro um encantador soneto de Luís
Osório–preciosa chave de oiro, na realidade bem merecida por aquele
rico e primoroso escrínio de verdadeiras e puras jóias literárias.»
A Actualidade:–«_Os meus amores_.–Este nome é o de um novo livro da
colecção António Maria Pereira. Pelo título presume-se um volume de
versos; mas não é, o que não quer dizer que nele se não surpreenda
legítima poesia. Trata-se de contos e baladas, originais do Sr.
Trindade Coelho, um dos nossos mais apreciados e brilhantes escritores.
Eis, muito resumidamente, as prendas que distinguem este primoroso
contista:
Estilo correcto, elegante, vivo; descrições ricas de observação e
atraentes tanto pelo colorido como pelo esmerado da forma; despidos de
grandes artifícios os entrechos, mas subjugantes pela muita
naturalidade; o diálogo, em suma, admirável pela singeleza e, sobretudo,
pela propriedade.
Com estes predicados o livro _Os meus amores_, do Sr. Trindade Coelho,
deve incontestavelmente ser de valor. E é. São encantadoras todas as
narrativas que contém. Logo ao abrir depara-se-nos um _Idílio rústico_,
que embriaga e predispõe para a leitura de todo o volume, onde se
encontram quadros soberbos, reproduzidos do natural com um notável poder
de observação e que deixam o espírito suavemente impressionado. Leiam, e
verão que não exageramos na opinião que aí deixamos rapidamente
exposta.
Ao autor o nosso reconhecimento pelo mimo da oferenda.»
Correio da Manhã:–«Registar o aparecimento de um livro bom, linguagem
elevada e singela, desartificioso e artístico, repositório vasto de
observação, vibrado por uma grande impressão pessoal e subjectiva, é
sempre agradável à crónica, neste tempo sobretudo de literatura
gafada, ou de arte ainda literária quase pornográfica.
_Os meus amores_ que amavelmente acaba de nos oferecer Sr. Trindade
Coelho é um livro desses. Colecção primorosa de contos e baladas, em
que no mais despretensioso dos estilos nos conta recordações e idílios e
nos mostra uma galeria rica de tipos e de figuras cuidadosamente
observados e primorosamente expostos.
O último conto _Para a escola_, que dessa bela colecção acabamos de
ler, é encantador de verdade, de singeleza, de arte, e assemelha-se
notavelmente à maneira de Gustavo Droz.
Não é o lugar nem a acasião de fazermos a crítica do livro e a
apreciação deste novo, deste debutante, que ao primeiro assalto parece
estar já senhor da batalha.
É por isso que sinceramente o felicitamos.»
Vanguarda:–«_Os meus amores_.–O nosso colega, o Sr. Trindade Coelho,
que quase só conhecíamos pelos seus libelos acusatórios, acaba de nos
enviar um livro primoroso com este título, no qual a feição carregada e
sombria do agente do ministério público desaparece por completo, para
nos deixar apreciar só o espírito finalmente delicado do homem de
letras conhecedor dos melhores processos de arte e verdadeiramente
sabedor do seu ofício.
Confessamos que nos apraz muito mais admirar este Trindade Coelho, que o
outro que temos visto apertado dentro da negra vestimenta de agente do
ministério público, que parece lhe oblitera às vezes as suas excelentes
faculdades.»
Primeiro de Janeiro:–«_Os meus amores_.–Acabamos de receber o
formosíssimo livro de contos «_Os meus amores_», de Trindade Coelho.
Não é ainda a ocasião de pormos em relevo todas as qualidades
literárias, complexas e brilhantíssimas, que se evidenciam neste
livro, demonstrando um dos talentos mais vivos e assinaláveis entre os
mais ilustres cultores da prosa portuguesa.
Os contos por onde «_Os meus amores_» se repartem não são apenas
maravilhas de linguagem, onde tão somente se destaquem destrezas e
fulgurações do estilo: a acção que os anima constitui uma deliciosa
galeria de quadros, aspectos íntimos e exteriores da vida, colhidos em
flagrante com uma extraordinária subtileza e lucidez de observação e
trasladados a uma forma superiormente artística, onde há firmemente
acentuados todos os caracteres de uma esplêndida organização
literária.
É um livro vibrante e magnífico–adoráveis páginas intensamente ou
delicadamente emocionadas e primorosamente escritas, cuja leitura é um
verdadeiro encanto.
As nossas cordiais felicitações a Trindade Coelho, a quem agradecemos a
gentilíssima oferta do seu livro.»
Folha do Povo:–«_Os meus amores_.–Está publicada em volume uma série
de _contos e baladas_ com que o Sr. Trindade Coelho, o brilhante
colaborador do _Portugal_, vem enriquecer a literatura _contista_
entre nós, hoje tão querida do público, depois que os trabalhos de
Fialho de Almeida deram a esse género literário um valor até então
mesquinho.
A primeira qualidade que notamos logo nos _contos e baladas_ do Sr.
Trindade Coelho é um estilo muito seu, cheio de uma cristalina
naturalidade, _afastando-se completamente dessas excrescências de mau
gosto_, que ultimamente têm abastardado a língua portuguesa,–prova da
superioridade intelectual do escritor de que nos ocupamos–, visto
que não mira a uma falsa glória, conquistada facilmente pelas
excentricidades de estilo, que são hoje uma verdadeira mania entre
alguns escritores da chamada geração moderna.
O Sr. Trindade Coelho escreveu a sua prosa obedecendo à espontaneidade
das suas impressões, ao seu sentir, sem deixar de se revelar um artista,
porque nunca a frase lhe sai banal, nem tão-pouco envolvida em ouropéis
de mau gosto literário.
E no entanto encanta-nos,–prova de que está ali um primoroso
escritor, um espírito delicado, reproduzindo todos os cambiantes da
natureza por uma forma de observação, que não é desta nem daquela
escola. É simplesmente sua, individual.
Notamos mesmo um progresso no livro do Sr. Trindade Coelho; porque as
suas primeiras produções literárias ressentiam-se de uma tal ou qual
preocupação de _efeito_ no modo de construir a frase. Hoje, o
escritor adquire a independência da sua maneira, do seu processo, e
feito a tirar decorre fatalmente dessa independência, visto que os seus
quadros obedecem apenas a uma rigorosa e fiel reprodução do que o
artista observa em volta de si.
Certamente que o público lerá com encanto o novo livro do Sr. Trindade
Coelho, pelo que felicitamos o autor, e–podemos mesmo dizer–a
literatura portuguesa.–_Silva Lisboa_.»
Diário Ilustrado:–«De tempos a tempos chegava-nos do Alentejo um
periódico que não deixávamos nunca de ler pelo fino gosto literário,
pitoresco e moderno, que se revelava em todos os seus artigos,
incluindo os políticos. Esse periódico era redigido por Trindade Coelho,
cujo talento conhecíamos desde Coimbra, e cuja individualidade
literária víamos agora acentuar-se com um vigor de originalidade
verdadeiramente notável.
De quando em quando, Trindade Coelho obsequiava-nos com um artigo para o
_Diário Ilustrado_ e, vindo estabelecer residência em Lisboa, algumas
vezes tivemos a honra de receber nesta redacção a sua visita, sempre
agradabilíssima para nós, porque a sua conversação cintilante
aligeirava as nossas pesadas horas de trabalho.
Pois bem, Trindade Coelho acaba de reunir num volume–que faz parte da
colecção _António Maria Pereira_–os seus deliciosos contos, cheios de
observação, de verdade, de simplicidade artística, que é, a nosso ver,
suprema expressão de beleza neste género de composições literárias.
_Os meus amores_ são um belo livro, em que o estilo se não contorce
atormentado, como em tantos outros, em que os rebuscados esplendores da
forma literária denunciam uma carência absoluta de espontaneidade. Tudo
ali deriva naturalmente, tanto na sequência lógica dos caracteres e dos
episódios, como na contextura fácil, mas colorida, dos períodos.
Numa palavra, _Os meus amores_ são a obra de um artista, de um homem
que sabe do seu ofício, e que tem uma individualidade bem definida por
traços profundos de verdadeira originalidade.»
Voz Pública:–«_Os meus amores_.–Trindade Coelho, inegavelmente um
talento de primeira água, acaba de brindar a literatura portuguesa com
um excelente livro de contos subordinado àquele título e que constitui
o duodécimo volume da elegantíssima _Colecção António Maria Pereira_.
_Contos e baladas_ é o subtítulo do livro, e muitos ao lerem-no
julgarão que se trata de versos; mas não, é em prosa, em prosa
vernácula, correcta e vibrante que estão escritos os belos contos de
que se compõe este livro, digno a todos os respeitos de ser lido.
São todos eles uns contos ligeiros, encantadores pela espontaneidade e
verdade dos seus tipos e das suas situações, lembrando um tudo-nada os
formosos tipos de aldeia, tão magistralmente desenhados pelo malogrado
autor da _Morgadinha dos Canaviais_ e dos _Fidalgos da Casa Mourisca_.
Lemos de um fôlego o magnífico livro, e ninguém que o comece a ler
deixará de o fazer como nós; tão atraente é a forma por que Trindade
Coelho conduz todos os ligeiros contos de que ele se compõe, que sem
querer, sem se sentir mesmo, chega-se ao fim e fica-se como triste
dele ter acabado.
Todos magníficos, dizemos, mas se alguns há que mais nos prendessem,
foram os que se intitulam _Tipos da terra_ uma galeria curiosa de tipos,
e _A mãe_, um conto de natureza, simples e comovente na sua
simplicidade, e notável pela sua originalidade.
Recomendar o livro de Trindade Coelho é prestar um serviço aos nossos
leitores.»
Ordem do Dia:–«_Os meus amores_.–Este é o titulo do 12.^o volume da
colecção António Maria Pereira, inegavelmente a publicação mais
elegante, mais barata e mais interessante do país.
_Os meus amores_ são uma série de contos e baladas, em prosa, devidos à
pena de um moço talentosíssimo, de há muito conhecido nas lides do
jornalismo, Trindade Coelho, mas que ainda não lançara ao mercado um
livro; com este debuta o autor, e é uma estreia auspiciosíssima a sua.
A leitura do volume, longe de fatigar, faz-se com agrado, e nele é
cultivado um género–o de contos, alguns à maneira de Gustave Droz, que
prendem e interessam o leitor em todo o sentido.
Foi gratíssima a impressão que ele nos deixou no espírito e esperamos
que Trindade Coelho continue a brindar o público com as suas belas
produções, porque estamos certos de que quem ler _Os meus amores_ será
com sofreguidão que esperará novo volume do distinto escritor, tal é o
encanto da sua escritura».
O Sorvete, (com o retrato do autor):–«Dr. Trindade Coelho.–Mais uma
prova do seu brilhantíssimo talento! Mais uma vez justificada a alta
competência e finíssimo espírito de escritor distintíssimo!
O novo livro de Trindade Coelho,–_Os meus amores_–contos e
baladas–editada pela casa António Maria Pereira, de Lisboa, é, no
dizer dos entendidos em literatura,–uma verdadeira jóia.»
O Esposendense:–«_Os meus amores_ (contos e baladas) por Trindade
Coelho.–Faz parte este volume da interessantíssima colecção António
Maria Pereira, tão bem aceite do público, pela superior escolha das
obras publicadas e pela modicidade extraordinária dos seus preços.
_Os meus amores_ é um precioso agrupamento de contos, alguns inéditos,
outros já conhecidos, e que Trindade Coelho espalhara com aplauso por
diferentes jornais do país. Decorridos quase todos em plena aldeia
trasmontana, cujos costumes o autor conhece de sobra, pois é natural de
Trás-os-Montes, e foi durante alguns anos, delegado do procurador régio
numa cidade de província–os contos desta colecção tornam-se
sobretudo notáveis pela propriedade e pela fidelidade da acção,
verdadeiros, nítidos, reais, palpitando da cor própria da paisagem,
vivendo da vida natural, íntima e intrínseca, dos personagens e das
coisas.
Entre as nossas obras literárias originais, _Os meus amores_ merecem,
pois, um lugar à parte, não como uma estreia auspiciosa, que o nome de
Trindade Coelho é já demasiado conhecido de todos quantos se interessam
pela literatura nacional, mas como a poderosa afirmação de um prosador
elegante e de um contista distinto, no meio da grande maioria da chata
vulgaridade indígena.
_Os meus amores_ é, em suma, um livro de valor, bem cabido nas mais
escolhidas bibliotecas.»
O Português:–«_Os meus amores_.–Delicioso título de um livro
delicioso.
O livro é uma colecção de graciosos contos, editorada pelo Sr. António
Maria Pereira; e o autor é o nosso colega do _Portugal_, Sr. Trindade
Coelho, que, nos ócios da magistratura, de que é digno representante,
cultiva as letras com desvelado amor.
Em Coimbra, estudante ainda, era já literato apreciado, colaborando,
com aplauso dos mais doutos, em jornais e revistas, que há mais de dez
anos tornaram o seu nome festejado e querido. Hoje, reúne ao seu título
de jornalista a invejável nomeada de contista esmerado, e brinda as
letras portuguesas com um volume, que está tendo a mais justa e
lisonjeira acolhida.
O primeiro conto do livro, _Idílio rústico_, não obstante ser agora
publicado pela primeira vez, cremos nós, é já nosso conhecido, porque
apareceu manuscrito num concurso literário da extinta _Associação
dos jornalistas_, sendo premiado. Depois da consagração de um júri, terá
agora a consagração do público.
Depois do _Idílio rústico_, vem o _Sultão_, um quadro magnífico da vida
campesina, notável de simplicidade e graça; e a _Última dádiva_; e os
_Prelúdios de festa_; e os _Tipos da terra_; e as _Baladas_; e a
_Tragédia rústica_; e a _Mãe_; e os _Arrulhos_; e as _Batalhas
domésticas_: outros tantos primores, que às vezes nos fazem lembrar as
deleitosas e serenas paisagens de Daudet.
Agradecendo ao autor a gentileza da sua oferta, congratulamo-nos por
não haver ainda expirado entre nós a literatura sã, que, ou nos
desperte o sorriso ou nos obrigue a lágrimas, não nos deixa no espírito
a impressão doentia das nevroses literárias…»
Jornal da Manhã, Porto:–«_Os meus amores_.–Mais um volume acaba de ser
publicado da colecção António Maria Pereira, por sem dúvida a mais
elegante, a mais escolhida e a mais económica biblioteca que se publica
em Portugal.
É o primeiro livro de Trindade Coelho, _Os meus amores_, contos e
baladas, em que o talentosíssimo escritor acaba de reunir todos os
seus contos dispersos por vários jornais, e alguns inéditos.
Do primeiro ao último, os contos que compõem _Os meus amores_ são
espécimes no género, porque, além de constituírem uma esplêndida galeria
de quadros íntimos, de retratos, de tipos, são a confirmação de uma
verdade já por nós há muito aceite: que o seu autor tem todos os
requisitos de um escritor de primeira ordem; estilista vibrante,
correcto e sempre elegante.
E se formos a escolher o melhor desses contos, ver-nos-emos em sérios
embaraços, porque são todos por igual deliciosos, constituindo a sua
leitura um verdadeiro encanto; entretanto, se há que mostrar
predilecções por algum deles parece-nos que os melhores serão _A Mãe_
e _Para a escola_, aquele uma delicada e emocionante história arrancada
flagrantemente à natureza, e este saudosas recordações de um passado que
não volta.
A edição, escusado é dizê-lo, é nitidíssima.»
O Tempo:–«_Os meus amores_.–Este livro teria vindo melhor nas noites
invernosas para serões às lareiras crepitantes:–as faíscas de ouro
subindo no tecto, o vento zunindo fora açoitando a chuva, e dentro, no
conforto recolhido, gozar-se o contraste das paisagens alegradas pelo
sol, espelhadas na água rumorosa, com gorjeios e trinados de aves,
paisagens que o Sr. Trindade Coelho sabe encantar com a delícia suave e
subtil de iludidor ameno. Mas não se pode aconselhar o leitor a que se
prive de saboreá-lo desde já, tanto mais que os tempos vão agoireiros
para a arte de manancial, e os que a cultivam têm de separar-se dos
estragadores d'Ela e das cabeças quase vazias que espremem e segregam o
pus nauseabundo do sadismo medíocre.
Estes estão agora entretendo o público arrebanhado para saborear com
prazer as estapafurdices atoleimadas, e que os iguala–o vingador–ao
imbecil que escreveu o _Senhor Dupont_ e aos autores das _Pimentinhas_
e _Berbigões Ardentes_.
Que o livro de glorificadora arte do Sr. Trindade Coelho seja o
perfumador dos excrementícios e apareça em plena luz nas mesas e nas
famílias dos que compravam os outros, é o voto que faz o alinhavador
destas linhas corredias, na certeza de que recomenda à atenção um
artista recolhido que sabe ter força nos traços ténues e meias-tintas
dos seus quadros, que capricha em suavizar idilicamente as dores
vulgares da vida aceite, da materialidade animal, dourando-as com
recantos de natureza chilreante. Que me perdoem insistir na
impertinência: mas, o que no livro mais particulariza o talento de quem
o assina é a compreensão das paisagens, o sabê-las colorir, animar,
pô-las ante os olhos que lêem.
As grandes dores obscuras e sinceras, as brandas afeições, amizades
arreigadas, a placidez do recanto habitado, os amores simples
sustentados por ingénuas crenças e suavizada fé, tudo o que a aldeia tem
de ameno, de atraente, de pitoresco, de consolador, os seus ridículos
mesmo, vestindo atitudes de paródia em teatrinho de curiosos, tudo
reveste bem o Sr. Trindade Coelho, e aligeira com um optimismo de bom
humor, sublinhando aqui e acolá umas notas reais, bem apanhadas, como se
diz, e que refrescam o rosto num aberto sorriso de ventarola. O livro
encanta porque traz todo o aroma da aldeia onde o autor encerrou por
anos a sua nostalgia–a pior de todas: nostalgia de
delegado!–apertando os voos do seu espírito de artista que ama pairar
com a fantasia para o longínquo, para o que se Imagina, para o Distante,
o Inacessível, o Insaciável. Sonhos e fantasias que morreram e se
dispersaram como o fumo e as cinzas das fogueiras a que se aqueceria nas
noites uivantes do Inverno trasmontano; mas que deixaram sementes de
recordação e de saudade donde brotou o livro, escrito decerto nas
horas feriadas do trabalho árido, com a documentação da natureza que
vivifica, com a elaboração pachorrenta de quem não tem pressa e se
compraz na arte libertadora.
Especificar um ou outro conto não é depreciar os não citados, mas dar
preferência pessoal–e talvez pecadora–ao _Idílio rústico_, à _Última
dádiva_, à _Mãe_, às _Batalhas domésticas_, que fecham o livro e deixam
entrever no autor um desejo de animar os personagens tanto como anima a
natureza onde eles sentiram. Há contos nos _Meus amores_ que fazem
lembrar um Cladel menos retumbante e por isso mesmo livram quem lê da
patada épica do que fez _Créte-Rouge_ e _Ompdrailles_.
O Sr. Trindade Coelho é um escritor tão distinto quanto aclarado pelo
jorro de arte que vem de há muito confundindo os convulsionários do
talento; os serenos no desdém; os entusiastas; o que, despindo o
metafórico, quer significar que ele está em posição artística onde
decerto o seu talento e o seu trabalho continuarão a chamar atenção e
respeito.–_M. Caldas Cordeiro_.»
António Maria, (com o retrato do autor, desenho de Rafael
Bordalo):–«_Os meus amores_ por Trindade Coelho.–A livraria
portuguesa tem tido uma enchente, como raramente lhe sucede, na última
quinzena. Depois do êxito do romance de Abel Botelho e do livro de
memórias de Luís Palmeirim, veio o volume de contos de Trindade Coelho,
com a amável denominação de _Os meus amores_.
Aqui o temos, já todo aberto, já todo lido… É originalíssimo,
agradabilíssimo o modo de escrever, de descrever, de dizer, de contar,
que usa o autor deste belo livro,–agradabilíssimo contista,
escritor originalíssimo, cujo nome a bibliografia regista hoje, tão
notavelmente, como o jornalismo de há muito o registara.
A quem o ler, garantimos, sob a palavra de honra do nosso gosto, algumas
horas muito bem passadas, passeadas por aquelas paisagens e recantos
provincianos que ele pinta, tão real e verdadeiramente como se lá se
estivesse; em companhia daqueles tipos que ele retrata, tão
fotográficos, tão nítidos, que é estar a gente a vê-los, a ouvi-los, a
falar-lhes…
–_Os meus amores_, meus amores, que encanto!»
O Tempo:–«_Os meus amores_.–É como Trindade Coelho intitula a
colecção de formosos contos, publicados em volume, editado pela
livraria do Sr. António Maria Pereira.
Há muito tempo que conhecemos e apreciamos o talento de escritor de
Trindade Coelho, desde quando lhe lemos as suas produções literárias
num jornal de Coimbra, e que eram as primícias de trabalhos mais
primorosos, como são hoje os contos a que nos vimos referindo.
O livro de Trindade Coelho é dos raros que se lêem da primeira à última
página sem um momento de cansaço ou de fastio. O espírito do leitor
delicia-se seguindo todas aquelas cenas campesinas, de uma singeleza
tão comovente, e que nos _Meus amores_ são descritas numa forma em
que se revelam todas as qualidades de um distinto e notável escritor.
Só pode apreciar bem o mérito daqueles contos quem souber quanto
cuidado há no labor paciente do artista para conseguir dar ao estilo o
tom de naturalidade e de espontaneidade, que se requer neste género de
pequenas novelas, talvez o mais difícil de todos.
Não nos demoraremos a falar dos _Meus amores_, que contém preciosas
jóias literárias, e ao qual está, sem dúvida, destinado um honroso
lugar na nossa literatura contemporânea.»
Correio Elvense:–«Trindade Coelho.–Este nosso amigo e festejado
escritor publicou agora o seu primeiro livro de contos e baladas que
deu o título: _Os meus amores_, editado pela acreditada livraria de
António Maria Pereira.
Trindade Coelho, que hoje ocupa um proeminente lugar no jornalismo da
capital, fez ainda há pouco algumas das suas melhores armas na imprensa
de Portalegre, onde criou dois jornais, um dos quais ainda vive, que
tiveram vida gloriosa enquanto os animou o trabalho do distinto
estilista.
Não só nos seus escritos passados, mas então, conhecemos o grande valor
que indiscutivelmente possui. Não nos surpreendem pois os seus
triunfos e rejubilamo-nos com eles com a alegria e sinceridade de bons
e sinceros amigos.
Num dos próximos números falaremos da impressão colhida em _Os meus
amores_.»
O Dia:–«_Os meus amores_.–Se fosse no século passado, os fazedores de
proémios, prólogos e conversações preambulares com os pios leitores, à
falta de jornalistas que noticiassem ou criticassem, por certo
aproveitariam a ocasião para sobre o nome do autor glosarem vários
elogios ao livro, visto que aquele se chama Trindade e é ao mesmo tempo
um poeta sincero, um escritor de raça, e um observador atento,
qualidades que se equilibram por tal sorte, que do conjunto nasceu uma
obra formosíssima, animada de verdadeira comoção, sentida nas suas mais
pequenas minúcias, sempre elevada, sempre humana e sempre artista.
A vida e a poesia trasmontana encontram-se a cada passo nesta reunião
de contos, que o Sr. Trindade Coelho dialogou com um cuidado meticuloso,
copiando do natural, e em que os personagens foram surpreendidos nos
seus labores de cada dia ou nas suas íntimas cogitações.
Não temos espaço nem tempo para nos alongarmos na notícia deste livro,
e por isso nos limitamos a recomendá-lo como leitura atraente, como
obra de arte tratada com esmero, embora nem sempre com a mesma igualdade
nem com o mesmo fôlego, como uma grande lição literária aos fazedores
de naturalismo brutal.
Ao autor agradecemos a remessa do seu livro, ficando fazendo votos para
que eles sejam tantos, que afoguem os autos e libelos em cujo meio o
magistrado tem de viver, e donde sai amiudadas vezes para nos provar
que quando se é artista lá de dentro, o contacto dos escrivães não
prejudica a índole do escritor.»
Novidades,(entrevista com João de Deus acerca dos
_novos_):–«_Literatura nova_.–Eu conheço limitadamente os novos,
porque não leio jornais, e não os leio porque os literários ocupam-se
na propaganda da imoralidade, e os políticos na propaganda do suicídio,
e na do jogo das lotarias, que seduz principalmente os enjeitados da
fortuna, mais sequiosos de domarem, num acaso da sorte, as agruras da
sua vida. E enquanto o rico joga o supérfluo, o pobre joga os trinta
réis de três quartos de um pão.
Mas aqui está o livro do Trindade Coelho, que me encheu de verdadeira
alegria! É um rapaz de talento! O que é preciso é que ele dispa a toga,
que lhe impede os movimentos. Não o conheço, mas dizem-me que trabalha
muito. Já leu o _Sultão_? Se ainda não leu, não o deixo sair de cá sem
lho ler.
–Li já todo o livro.
–E depois, meu amigo, nós andávamos precisados de uma coisa casta, onde
fossemos purificar o espírito dessas tais observações fisiológicas, e
não sei que mais, que por aí aparecem todos os dias. O livro do
Trindade Coelho tem o que eu chamo graça, e que não posso bem
definir-lhe. Olhe: ali está aquele quadro, em que os traços são
correctos e a execução perfeita, mas não tem graça; e aqui, este, uma
bela cabeça de rapariga, a fisionomia doce, o olhar abstracto: este
tem graça. Até a Virgem Maria se chama cheia de graça, e foi mãe de Deus
por ter graça. A graça na literatura é tudo, mas é muito rara.»
Novidades:–«_Novelas rústicas_.–Trindade Coelho.–_Os meus amores_
(contos e baladas.)–Lisboa, livraria de António Maria Pereira–1891.
No seu penúltimo artigo do _Temps_, dizia M. Anatole France, esse
céptico amável e pirrónico, que tem sido o terrível sapador de todas
as doutrinas axiomáticas da crítica: «Il y a beaucoup moins de lecteurs
pour les nouvelles que pour les romans, par cette raison suffisante que
seuls les délicats savent goûter une nouvelle exquise, tandis que les
gloutons dévorent indistinctement les romans bons, médiocres ou
mauvais.»
O conto moderno é como o romance, essencialmente analítico e
psicológico, escrito em estilo técnico, e destinado sobretudo a
apresentar uma imagem precisa de qualquer meandro torcicolado da alma
humana. A literatura contemporânea tem procurado, quase
invariavelmente, os seus temas entre os vícios, as paixões e todas as
energias depravadas do coração. A arte do Sr. Trindade Coelho é muito
diferente disso, porém. O seu idílico livro de contos e baladas,
aberto sobre um fundo de verdura reluzente, amorosamente evocado da
paisagem trasmontana, e habitado por heróis simples, colhidos com
intencional singeleza no meio do seu viver provinciano, não tem,
decerto, parentesco nenhum com os volumes carimbados com a etiqueta
actualmente em moda. É natural até que o leitor, habituado aos livros
dos escritores realistas, sinta uma profunda sensação de espanto ao
empreender a leitura dos _Meus amores_, duzentas páginas suaves e
simples, sem pedantescas pretensões a passarem como tratado didáctico de
psicologia.
Disse-se de Júlio Dinis que ele era principalmente um paisagista, e que
as suas figuras só serviam para dar expressão e vida à paisagem.
O Sr. Trindade Coelho possui, igualmente, a sensação visual
particularmente desenvolvida, e as suas descrições são também, como as
do autor das _Pupilas do Sr. Reitor_, magicamente poetizadas, como que
apercebidas de longe num esbatido vago de sentimento e de saudade.
Chega-se às vezes a ter a ilusão de que o artista está ali, páginas a dentro
do seu livro, fazendo reviver no pensamento a álacre impressão
das madrugadas lactescentes e dos poentes doirados da sua aldeia natal,
cuja lembrança, ele conserva sempre viva, como nos versos de Salvador
Rueda:
Por donde voy me sigue como memoria tierna
tu imagen que en mi pecho conduzco en un altar;
¡y mi cerebro canta como una estrofa eterna
el coro que tus árboles entonan á la mar!
Aí têm, para prova, esse trecho de um descritivo de manhã aldeã,
quando o sol começa a subir na linha ainda indecisa do horizonte:
«A esse tempo, no céu alto e lavado a estrela da alva fenecera por fim,
e o horizonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o céu em
cúpula, a luz fresca e viva da manhã vibrava harmonias estranhas que iam
despertar tudo, a cor da paisagem e a música dos ninhos, cantigas de
perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manhã de Verão, serena,
tranquila, dulcíssima. Ia pelo ar um movimento extraordinário de
asas–passarada alegre que saía agora dos ninhos e voava a matar a sede
à borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em
recôncavos de rocha e tomavam para hortejos convizinhos onde a vegetação
era mais rica de seivas e mais fácil a presa dos insectos, perdizes
gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos
vinhedos das encostas, por entre os renques verdejantes, gente em mangas
de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos em torcicolos, viam-se
os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de taleigos, e
berrando-lhes cada _cho_! que se ouvia na outra ladeira. Já nas
povoações próximas, sinos chamavam para a missa de alva ou tocavam a
ave-marias. Nas quintas Casais fumegavam os tectos, dizendo horas de
almoço. De modo que o sol quando rompeu, solene e triunfante no céu
imaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a Natureza acordada
para a labuta interminável do dia.»
No notável estudo de psicologia literária de M. Fr. Paulhan sobre a
descrição pitoresca, então habilmente apreciados os elementos
constitutivos da pintura do meio, em todas as suas maneiras diversas na
qualidade e na intensidade.
«Chama-se imaginação sensível», diz o distinto observador, «o acto pelo
qual nós nos representamos um objecto ausente, e esta representação,
como tem sido há bastante tempo notada, não é,–principalmente se
considerarmos só certas classes de imagens,–senão uma cópia
enfraquecida de uma sensação. Por exemplo, se eu trato de me representar
um momento, um quadro, uma estátua, qualquer coisa que imagino, se as
minhas recordações são bastante nítidas, é uma espécie de cópia
enfraquecida da sensação que eu terei, se vi realmente o monumento, o
quadro ou a estátua. A imaginação, tomada até no sentido restrito que
lhe damos aqui, varia muito de uma pessoa para outra, quer em
intensidade, quer em qualidade. Por um lado, certas pessoas têm as
imagens, as representações muito mais enfraquecidas, mais vivas, mais
concretas; em uma palavra, as suas imagens aproximam-se muito da
sensação; outras, pelo contrário, são inclinadas para as ideias
abstractas e têm necessidade de um esforço para se representarem as
sensações de uma maneira um pouco nítidas. Tem-se reparado que a visão
mental, nitidíssima em geral nas crianças e nas mulheres, torna-se muito
fraca e por vezes desaparece nas pessoas preocupadas sobretudo de
ideias abstractas, ou habituadas a não exercer a sua imaginação visual.
Eis uma pequena experiência indicada por Wundt, que, mostrando as
analogias entre a imagem e a sensação, parece pôr em relevo também as
diferenças individuais com relação à intensidade com que a imagem
concreta é percebida. Sabe-se que quando fixamos o olhar por algum tempo
num objecto corado, se voltamos os olhos para uma superfície parda,
vemos uma mancha corada da cor complementar da primeira. Se o objecto
era vermelho, a mancha será verde, e reciprocamente; se o objecto azul-índigo,
a mancha será amarela, etc. Ora é possível, mas isto não
sucede a toda a gente, perceber esta cor complementar não só depois de
ter fixado um objecto corado, mas simplesmente depois de o ter
imaginado. Pode-se, por exemplo, pensar numa cruz vermelha: lançando em
seguida os olhos para um papel pardo, deve-se ver uma cruz verde, se há
uma boa imaginação visual.»
Essa imaginação parece tê-la o Sr. Trindade Coelho. A vivacidade,
tonificada quiçá por um poucochinho de nostalgia, do seu descritivo,
que nos dá conjuntamente a impressão da forma, da cor, do som, e até às
vezes do aroma, representa um fenómeno especial de evocação
sensacional. E o maior encanto da sua obra é esse, e, depois desse, a
íntima satisfação que faz aflorar, aos lábios do leitor inteligente, um
sorriso de doce comoção, a cada singelo episódio das suas narrativas,
todas frescas e sadias, e cujo menor mérito não é, decerto, o de serem
escritas numa linguagem airosa e despreocupada, mas tersa e
legitimamente portuguesa.
O livro do Sr. Trindade Coelho não é para ser sujeito a longas análises
introspectivas, o papel da crítica perante _Os meus amores_ é bem fácil,
porque ela deve quase cingir-se à afirmação do seu aplauso
incondicional, ou ao registo da repulsão do processo do escritor, o que
pode muito bem representar uma livre depravação de gosto.
Por mim confesso sinceramente que me deixou no espírito a mais amável
recordação, pura e oxigenada, a leitura dessas belas novelas
rústicas, todas impregnadas de uma ideal graça campesina, tilintando de um
eco amorável de arroio murmurante, que discorre mansamente por entre
margens baixas, bordadas de sécias e papoilas: e, para a minha
simpatia, desejo mencionar especialmente o conto que abre o livro e o
caso do _Sultão_.–_Armando da Silva_.»
Tim Tim Por Tim Tim:–«Um grande poder de observação e uma enorme justeza
de expressão, constituem, quanto a mim, as duas essenciais qualidades
literárias de Trindade Coelho, puras auxiliares da sua alma de
verdadeiro artista, aberta à compreensão ampla da natureza, e fundindo
os fenómenos, as coisas e as criaturas num conjunto nítido que se
desata em descrições opulentas de vida e de calor, fulgurantes
de energias dominadoras, pródigas de imagens que o melhor cristal de
Veneza não teria reflectido tão bem, avigoradas em onomatopeias
possantes que prendem o espírito mais inculto e o obrigam, ali, a fixar
e a compreender o objecto que o autor quis frisar.
E essas qualidades ressaltam brilhantemente de todos os contos que
compõem _Os meus amores_, realçadas ainda pela fina emotividade que o
delicado sentir do autor transmitiu a cada cena onde o coração tem
parte, ou seja o coração de qualquer daqueles dois pequenos do _Idílio
rústico_, ou o da _Ruça_, a bela cabra que no meio de mil angustias de
mãe morre junto ao filhinho. E se o querem surpreender a ele próprio,
a Trindade Coelho, em flagrante de uma ternura honesta, viva e sentida,
vejam o afecto que irradia daquele _Para a escola_, quando fala da
velha e boa criada que o levou ao mestre das primeiras letras.
Se das coisas afectivas, que mais o namoram, e das descrições
naturais, que mais o apaixonam, Trindade Coelho desce a brincar um
pedaço caricaturando uns tipos com tanta sobriedade de _charge_ que mais
nos parece estar fazendo retratos, saem-nos então figurões como os da
vilória da _Comédia na província_, que entretêm a tarde na praça a
dizer mal uns dos outros. Tão verdadeiro nos _croquis_ como nos hábitos.
E quando aos tipos pode juntar um estudo de costumes, aquela _Véspera
da festa_ exemplifica vantajosamente o que ele sabe fazer.
No fim do livro, foi para mim surpresa aquele excerto das _Batalhas
domésticas_, onde me pareceu descobrir uma novíssima orientação do
autor, inspirada porventura numa atmosfera densa de inovações que vai
por aí. Claro que o seu talento adapta-se mais essa forma com a
maleabilidade com que a tudo se sujeita, mas se eu tivesse a
característica literária de Trindade Coelho, evidenciada em tantos
escritos, não a sacrificaria a coisa alguma.
O que o livro é, em suma, é um conjunto de belezas que tem sido
largamente apreciado pelos fanáticos da Arte; e oxalá seja apenas a
promessa de muitos outros, que penas como aquela não devem
calotear-nos na contribuição que nos devem.
–Mas,–perguntou-me um dia destes alguém–porquê _Os meus amores_, e
não qualquer outro título?
Não respondi. E demais eu sei porque deu Trindade Coelho esse nome ao
livro onde há tantos trabalhos de tempos que lhe são saudosos e em que
lhe foi grande parte da alma, da sua bela alma de rapaz que nenhuma
lama deste mundo é capaz de conspurcar.–_Santos Gonçalves_.»
Revolução de Setembro:–«_Os meus amores_, contos e baladas por
Trindade Coelho.–Um livro peregrino, que se lê com encanto e que nunca
mais se esquece. É um talento e é um artista quem escreve assim. Uns
contos singelos, atraentes, delicadíssimos, admiráveis de observação e
de honesto realismo. Esbocetos apenas; mas que admirável simplicidade de
colorido em alguns deles e que tons inapagáveis de verdade!
Uma bela obra de arte e uma altiva lição.
Ali está como se pode chegar ao naturalismo na literatura, sem
estropear a língua e sem chegar às torpezas da pornografia. Para
atrair, para ser original, para impor a supremacia do seu talento,
para conquistar o aplauso sincero dos que lêem, Trindade Coelho não
precisou de escrever extravagâncias, nem de escalavrar pústulas, nem de
escancarar bordéis.
Aí fica uma rápida notícia do livro. Voltaremos a falar dele, se o
tempo nos chegar para a homenagem que desejamos prestar ao seu autor.»
Correio Elvense:–«_Os meus amores_.–Com poucos dias de intervalo as
letras portuguesas contaram dois ruidosos sucessos de livraria.
Depois de apreciar o _Barão de Lavos_, obra de análise, de profunda
observação, ressentida do exagero do naturalismo e do carácter quase
científico que actualmente se pretende imprimir aos livros, que devem
ser exclusivamente literários, mas que, não obstante este pequeno
senão, confirmou plenamente todas as esperanças que o nome de Abel
Botelho criara com os seus livros anteriores, a crítica tem de render
respeitosa homenagem ao trabalho de um outro escritor novo como aquele
e como ele igualmente distinto pelos brilhantes dotes do seu espírito,
pela sua notável orientação literária e pelo esplendor de forma que
caracteriza todos os seus escritos, mesmo os mais despreocupadamente
feitos.
Sinto um delicioso prazer de consciência ao traçar estas linhas.
Momentos como este são mesmo os únicos oásis em que se reconfortam os
que, dia a dia, esgotam o melhor das suas faculdades na faina
improdutiva e inglória do jornal.
Trato de apreciar o trabalho de um amigo, de alguém a quem me unem
íntimas relações de confraternidade e simpatia e ao ter de formular o
meu juízo conheço que posso manifestar o mais incondicional louvor e
aplauso sem que se suspeite que as minhas palavras são reflexo de um
sentimento pessoal, mas sim a expressão exacta e verdadeira de uma
admiração justamente sentida, solidamente baseada.
O livro a que me refiro intitula-se: _Os meus amores_. E em tudo
corresponde ao encanto deste título.
Com que saudade li as últimas páginas!
Por vezes desejava espaçar essa leitura para demorar o delicado prazer
que sentia, noutras precipitava-a sôfrego de admirar a naturalidade
das descrições, a limpidez e o cristalino do estilo emocionante e
simples, tão delicado e ao mesmo tempo tão poderoso que dá vida aos mais
diversos sentimentos desde o pavor do remorso do assassino José Gaio,
até à recordação saudosa e terna que o autor sente do primeiro dia em
que entrou na aula de instrução primária da sua modesta aldeia.
Dando a impressão singela e despretensiosa que me causaram _Os meus
amores_, não vou referir-me demorada e especialmente a cada um dos
pequenos quadros que formam esse livro verdadeiramente consolador. Na
época actual quando os vícios da sociedade e a decadência dos nossos
dias nos gravam no espírito, a cada hora, um carimbo de desânimo e
descrença, quando a literatura, obedecendo à vertigem mais do que
nervosa, alucinada, que caracteriza o _fin de siècle_, cria as escolas
mais extravagantes que se comprazem em baralhar todas as ideias, em
apedrejar as normas mais impecáveis e até agora consagradas da arte, e
em descrever todos os aspectos da natureza com as palhetas mais escuras
e muitas vezes asquerosas, sente-se conforto, adquire-se ânimo,
desanuvia-se o espírito ao ver que ainda há alguém, a quem sobeja
talento e tenacidade, que escreve 200 páginas de prosa sã, eminentemente
sentida, deliciando-se na descrição das cenas mais simples e tocantes,
na apoteose da natureza em toda a sua magnificência e no convívio da
vida campesina, tão cheia de sinceridade e de encantos, tão livre das
convenções e pretensiosidades que dão um tom falso e mentido aos
sentimentos da sociedade em que vivemos.
Disse em cima que não me alongaria no esmiuçar de perfeições de cada um
dos contos e baladas que formam _Os meus amoes_. Não representa este
propósito ideia de menos consideração pelo livro ou por quem com tanto
amor o escreveu. Ao contrário, sinto que não posso, a não transformar
este artigo num hino laudatório, referir-me especialmente a cada um
daqueles contos e baladas. Mais do que este motivo domina-me o de não
poder alongar demasiadamente a apreciação que estou fazendo.
Muitas das páginas que Trindade Coelho reuniu no seu livro já as
havíamos lido e simultaneamente admirado, publicadas em diferentes
jornais. Como escritor conhecíamos também o primoroso estilista dos
_Meus amores_ pelos seus trabalhos jornalísticos, já na boémia coimbrã,
já em pequenas folhas de província e ultimamente nos jornais da capital,
trabalhos em que ele empregava o escrúpulo e a correcção que nunca
abandonam os verdadeiros artistas.
Pelos seus trabalhos literários há muito que formara a opinião de que
ele se podia alistar sem desdouro ao lado do Conde de Ficalho, de
Fialho de Almeida e de Teixeira de Queirós que, no meu parecer, são, em
Portugal, os mais distintos escritores contemporâneos deste género,
na aparência tão ligeiro, mas no fundo tão complexo e difícil, a que
se denomina: _Contos_.
A leitura do recente livro enraizou-me mais a opinião formada.
Pelo sentimento descritivo, pela verdade dos _tipos_, pela naturalidade
do diálogo, e pela modalidade do estilo que se apropria sem o mínimo
esforço a todas as impressões que pretende transmitir, o autor dos
_Meus amores_ prova que não desconhece nenhum dos segredos do género de
literatura que tão brilhantemente cultiva, e que não é inspirada na
amizade a opinião dos que, não obstante ele terçar agora quase as
primeiras armas, o consideram já como um escritor distintíssimo e num
futuro muito próximo um mestre consagrado.
O livro abre com um soneto formosíssimo e nem podia deixar de ser assim
desde que se saiba que o firma Luís Osório. Pórtico apropriado às
belezas que nas páginas que se seguem se acumulam com uma riqueza
oriental.
Não obstante o meu propósito de não me referir nomeadamente a nenhum dos
pequenos quadros, não posso deixar de dizer rapidamente da impressão que
me causou a _Última dádiva_, um primor de sentimento, uma página emotiva
arrancada em flagrante a uma das cenas em que tão variadamente se
divide a tragédia em que se debate a humanidade; o _V[ae] victoribus_,
onde passa um fôlego de epopeia, em que o estilo atinge alturas quase
desconhecidas, casando-se com uma verdade admirável a grandiosa ideia em
que se inspira o conto; _Para a escola_, quadro delicioso a cuja leitura
cada um de nós sente acordar uma recordação muito querida de infância
descuidada e alegre, e por últimos: os _Arrulhos_, em que Trindade Coelho
ostenta gloriosamente todas as qualidades do seu estilo tão maleável e
tão justo.
Além destes contos, que especialmente destaco pela admiração que me
inspiraram, são modelos de humorismo e de verdade os dois _Prelúdios de
festa_ e _Tipos da terra_.
Quem escreveu os _Prelúdios de festa_ e especialmente os _Tipos da
terra_, é porque estudou com muita atenção, com muito cuidado, os
personagens que mais avultam na vida das nossas aldeias e terras
pequenas. São tipos tirados do natural, com uma perfeição fotográfica
em que Trindade Coelho denota o mesmo rigor de execução que demonstra na
descrição da natureza nos seus mais variados aspectos.
Por últimos, e para não se dizer que eu neste país de má língua realizei
o cúmulo de escrever um artigo só de palavras encomiásticas e sem a
mínima censura ou reparo, devo dizer que não gostei do _Sultão_,
lastimando que Trindade Coelho gastasse tantas páginas de um estilo
formosíssimo num assunto que sem dúvida é verdadeiro, mas que não
comove o leitor, nem lhe imprime, pelo menos assim o julgamos, a mínima
impressão duradoura. Para Trindade Coelho manifestar todos os seus
recursos de estilista, não precisava realmente do _Sultão_.
O livro faz parte da edição mensal de obras portuguesas, editada por
António Maria Pereira, um trabalhador incansável a quem as letras
portuguesas devem assinalados serviços.
Está impresso com o maior escrúpulo e revisto com um cuidado e esmero a
que nem sempre estamos habituados.
Terminando estas linhas tão despretensiosas como sinceras, fazemos votos
para que Trindade Coelho possa continuar a furtar algumas horas à
sensaboria dos autos e a deliciar-nos com novos livros, tão perfeitos
como este, para honra do seu nome de escritor já tão justamente
laureado, e agradecemos ao amigo a oferta do seu livro, arquivando a
dedicatória que ele contém como nova prova de uma amizade a que somos
profundamente gratos, e devotadamente retribuidores.–_Lourenço
Caiola_.»
Tribuno Popular:–«_Os meus amores_.–Recebemos o volume da _Colecção
António Maria Pereira_, que sob aquele título contém alguns contos do
apreciado contista Trindade Coelho.
Pela rápida leitura de dois deles–_O Sultão_ e _Tipos da terra_,
parece-nos que a colecção é estimável, e que os contos são jóias de
grande preço da nossa literatura, pela linguagem pura genuinamente
portuguesa, e pela graça da contextura originalíssima, nacional, sem
laivos de imitação estrangeira, em que se pintam cenas e episódios,
cheios de verdade e de encantadoras descrições, da vida portuguesa nas
províncias.»
O Século:–«_Os meus amores_, por Trindade Coelho.–É um livro de
contos, editado pela casa editorial do António Maria Pereira, a
publicação recente que mais tem emocionado, com justo motivo, o nosso
meio literário, bem pouco acaroável e mazorro no fundo,
sobressaltando-se com tudo quanto perpetra o escândalo de não ser
rotineiro, ou vulgar, e bem pouco emocionável também–diga-se a verdade.
Parece uma contradição; mas não é. Se o nosso bom público fosse dado a
esbanjamentos de emoção artística, não o sobressaltaria tanto a
pessoalidade, e o imprevisto.
O Sr. Trindade Coelho acumula com o seu cargo oficial de magistrado
severo, a profissão, ou antes o desenfastio espiritual de ser homem de
letras, nas suas horas de remanso.
É só, porém, como homem de letras, que nos compete em tal lugar
aquilatar-lhe a estesia, e as faculdades de emoção, ou de atenção
artística.
Ambas estas possui o Sr. Trindade Coelho, em subido grau. A forma
adapta-se perfeitamente ao fundo, e é sempre fluente, vernácula,
concisa, e precisa. É sóbrio no descritivo, e não raras vezes
enternece. Não comete a velharia de desenterrar obsoletos termos
clássicos, sem incisão, sem propriedade, e sem cor, muito parecidos com
o latim, mas que no fundo não são nem latinos, nem portugueses, nem
onomatopaicos, e que fizeram a delícia de Filinto. Nem perpetra também o
mau gosto de empregar neologismos inúteis, e risíveis, possuindo na
linguagem pátria instrumentos magníficos de expressão. Sabe a sua língua,
como raros: e o conto, que é, quanto a nós, a forma mais perfeita, mais
completa, e mais delicada da prosa, e também a mais transcendente e
lapidar, achou nele um hábil e equilibrado intérprete. Os contos
_Sultão_, _Maricas_, _Tipos da terra_, _Mãe_ e sobretudo _Para a
escola_, não contam muitos rivais na língua portuguesa nem nas
estranhas.
O seu pequeno livro há-de ficar na literatura nacional, quando de
centenas de romances em seiscentos volumes já ninguém rememorar o título
sequer.–_Gomes Leal_.»
Revista Ilustrada:–«_Os meus amores_, de Trindade Coelho.–Que
deliciosa impressão me deixou aquele livro, tão adoravelmente simples e
sentido!
Antes, porém, de começar a analisar, conto por conto, esse fino trabalho
de Trindade Coelho, preciso dizer duas palavras explicando a razão
porque me merece tanta simpatia o seu autor, que de nome conheço só.
Li pela primeira vez o seu nome em umas correspondências de Portalegre,
notavelmente bem feitas, e em que ele elogiava muito um pequenito,
distinto em todos os exames.
Aqueles adjectivos de amigo bom e entusiasta fizeram-me convencer de
que–o delegado de Portalegre–era um excelente rapaz.
E digo rapaz, porque todos nós temos o hábito de considerar sempre muito
novos aqueles que são da nossa idade… Depois, graças a uma amiga
minha, escritora de grande talento soube que Trindade Coalho era um
grande admirador de Loti–o meu preferido romancista!–admiração
entusiasta que ele descrevia em cartas deliciosas de uma vibração que
fazia pena não ser repercutida mais longe… Fazia pena ser indiscrição
publicá-las!
Traduzia ele então o «Pescador de Islândia»; tradução esplêndida que a
_Gazeta de Portalegre_ publicou e que o trazia _empoigné_. Para ele era
já uma sugestão, aquele trabalho primoroso.
E desde então, Trindade Coelho ficou sendo para mim um artista. Dava a
Loti todo o valor que ele tinha e que ultimamente alguém se comprazia
em querer negar ao académico gentil.
Em seguida li uma suavíssima elegia escrita à memória de António
Fogaça–uma flor ceifada ao desabrochar!–Eram meia dúzia de palavras
cortadas por soluços:–eu sei, infelizmente, quando se escreve assim!…
Finalmente, o seu nome vibrou de novo aos meus ouvidos, quando os
jornais anunciaram que ele arrancara um preso à cadeia de Portalegre.
Um preso que era um inocente, e que, como tantos outros, estava
condenado a ouvir soar, em vida, a hora da justiça… Publicavam também
o efusivo telegrama em que Trindade Coelho agradecia ao nosso
magnânimo rei o seu perdão.
E eu dessa vez chorei! Como me sucede sempre que um homem põe a
lucidez do seu talento e o entusiasmo do seu coração ao serviço da
humanidade que sofre…
O nome do dr. Trindade Coelho gravou-se então indelevelmente na minha
alma.
Eu só fixo o nome dos bons.
E pensei em que devia ser uma grande mulher a mãe daquele homem! Os
filhos herdam, geralmente, o coração das mães…
* * * * *
Ultimamente a imprensa anunciou o livro que acabei de ler. Pedi-o
rapidamente para Lisboa, e li-o de um fôlego.
Abre com um soneto delicioso, escrito pelo espírito gentil de Luís
Osório–uma alma luminosa, que brilha na transparência dos seus versos
filigranados e vibrantes…
Segue-se o _Idílio rústico_–um amor–através do qual nós vemos subir
lentamente a estrela da alva que iluminava, coando a sua doce luz pelo
colmo da cabana, duas cabecinhas gentis, adormecidas junto uma da
outra…
Depois o _Sultão_ um conto singelíssimo cheio de naturalidade, em que o
Tomé nos comunica a sua alegria contagiosa levada à loucura com a
volta do… amigo–bem mais fiel do que muitos outros!
A _Última dádiva_, um braçado de goivos atirados por «um simples» a uma
sepultura onde lhe ficara preso o coração para sair de lá no dia em que
teve de se diluir, na esteira do barco que lhe levara o filho para o
Brasil.
A _Comédia da província_, magnifica de cor local. Magnífica,
principalmente para quem conhece tipos semelhantes e já tem visto a
_Morgadinha de Valflor_–essa pérola!–representada pelo Marques do
correio… vestido de saias! Para quem dá todo o valor a esse esplêndido
estudo de costumes provincianos.
_V[ae] victoribus_, uma sugestão de remorso primorosamente traçada…
_Maricas_, uma adorável poesia escrita em prosa. _Para a escola_, um
beijo de gratidão de uma singeleza adorável. _Tragédia rústica_, um
vibrantíssimo estudo das misérias humanas.
_Abyssus abyssum_, o agonizar de dois anjos, sob o olhar de uma
estrela… _Mãe_, a flor mais linda do ramo, enlevo e agonia de todas
as mães que eram capazes de morrer assim–sem abandonarem os filhos…
E, finalmente, as _Batalhas domésticas_.
Repito, deixou-me uma impressão deliciosa o livro de Trindade Coelho,
que é, a par de um primor de delicadeza, sentimento e arte, um livro
honesto, que não fatiga os homens nem faz corar as mulheres. Por isso
aconselho a todos que o leiam.–_Margarida de Sequeira_.»
Portugal:–«_Livros Novos_.–A acolhida feita ao notabilíssimo livro
_Os meus amores_, do nosso querido amigo e ilustre confrade, Trindade
Coelho, tem sido a que em tempo lhe vaticinámos: em toda a linha o mais
legítimo, o mais espontâneo, o mais unânime e o mais carinhoso triunfo.
Bem o merece o cristalino talento, e a inelutável tenacidade no
trabalho, do brilhante escritor, que em meio dos violentos paroxismos
que na caça de sensações e efeitos novos hoje pavorosamente
desarticulam o _meio_ literário europeu, tem uma força de restringir-se
a soltar suavemente, com uma sobriedade campesina e tranquila, a
melodia emocionante, ingénua e simples do viver aldeão; e que por entre
o estrídulo _hallali_ de obscenidades, imprecações, blasfémias, dores,
gemidos, que doloridamente reboam pelas soturnas naves deste imenso
hospital, que é o mundo, ainda encontra a suprema arte de fazer escutar,
enternecedoramente, um doce _trillo_ sentimental, uma ou outra ligeira
nota afectiva, algum limpo e cativante movimento do coração.
Bem-haja.
Do coro uníssono de quase incondicional aplauso com que a imprensa tem
celebrado a aparição d'_Os meus amores_ transcrevemos hoje um magnífico
artigo do _Correio Elvense_, devido à pena de um dos mais lúcidos e
impetuosos engenhos da novíssima geração.» (_Seguia-se a transcrição._)
Diário Ilustrado:–«_Os meus amores_, contos e baladas, por Trindade
Coelho.–A forja do tempo caldeia-nos o espírito à proporção que
envelhecemos. É por isso que os rapazes se desdoiram às vezes de ouvir
os velhos, e parece-me que têm razão, porque nem sempre o são juízo de
uma experiência larga, sabe limar as arestas da caturrice no estudo
circunspecto… Eu tenho acompanhado, cantarolando e um pouco a rir com
singular cepticismo, este meu século, que está no fim, e com ele tenho
vindo estudando e aprendendo. Ruíram as teocracias literárias,
revoluteou-se a filosofia, criaram-se novos processos de estilo,
arrancou-se o chiró às velhas frases, e todo um mundo novo,
extravagante e fantástico tem surgido,–mau grado as fúrias rábidas de
escritores paleontológicos, aparafusados à Arte e à Crítica de há 50
anos e cheios de amor e melancolia… Ora essa aprendizagem do meu
século tem-me custado amarguras aterrantes, desequilíbrios de espírito e
um desfolhar de verdes ilusões, que eu tenho visto irem-me fugindo num
_marche-marche_ triunfal, para nunca mais voltarem,–ai! para nunca
mais voltarem!…
A vida do escritor moderno, toda torturante e nevrótica, dá-me a
impressão tenebrosa dos contos de Poe, postos palpitantemente na vida
real de nossos dias. E lembro Camilo pedindo ao pedaço de chumbo de uma
cápsula o ponto final redentor de agonias crudelíssimas; Júlio Machado,
de pulsos cortados, fitando com olhar sangrento o retrato bem amado do
filho,–a alegria ruidosa dos olhos da sua alma,… e quantos outros,
bom Deus! Dir-se-ia que uma _má sina_ persegue os homens de
letras:–quando não é a navalha de barba, é o revólver, é a consumpção,
é a tísica, é o retraimento amargo, é o abandono próprio e alheio! Por
isso o meu vizinho Gervásio todo se ufana, com certo profundo bom-senso
prático, da insistência com que quer fazer do filho um _artista_
pintor–de portas, e de fora de portas…
Na _troupe_ de escritores em flor do meu tempo,–parece-me que já lá
vão 30 anos, e tudo isto é apenas de ontem!–havia, joeirados com
singular amor de arte pura, uma dúzia de rapazes de incontestável valor
literário, desabrochando esbanjamentos de talento pelas gazetas e
revistas mundanas. Poetas e prosadores, contistas e dramaturgos,
miniaturistas da poesia, do romance e da crónica, dessa plêiade de
rapazes, um tanto insubmissos e um tanto boémios, alguns treparam
triunfantes,–poucos; outros, quase o resto, ou foram ainda verdes da
vida para os cemitérios das suas aldeias, ou, o que é quase o mesmo,
deram-se a calejar as mãos, dissolvendo as suas aptidões de plumitivos
incipientes, nas minas de oiro e de ferro da luta pela vida. Dos
_felizes_, dos que triunfaram,–como quem diz, dos vencidos da
vida,–me sorria eu às vezes em horas de bom humor, lembrando-me como
eles com um livro de versos foram nomeados cônsules; com um tratado
sobre a cultura do repolho abriram o _Banco Mineral do Douro_, por
acções; com um drama em _D. Maria_ foram eleitos deputados; ou como com
uma crítica do _Salon_ de S. Francisco, se guindaram a bibliotecários
das belas artes e hortaliças correlativas… Dos outros, dos _perdidos_
pouco me lembra! Eduardo Salamonde foi-se a espantar os filisteus do
Pará, aplicando-lhes aos fígados hipertróficos a vermelha caudal da
sua prosa mirabolante; Xavier de Carvalho desapareceu em Paris pelo
alçapão macabro da _correspondência_ barata; Gualdino Gomes anda aí
amparando o seu reumatismo a uma certa _maneira_ de má língua e a uma
bengala de cana; Leopoldino Gonçalves viaja como médico da armada; e
Fortunato, quando as saudades lhe são mais amargas, abandona o Alentejo,
onde toma pulsos a doentes pela tabela da Câmara, e aparece às vezes
nédio, cor de fiambre, cheio de barbas, a olhar com tédio os copinhos de
cognac do _Leão_…
De todos os rapazes do tempo das minhas alegrias cor-de-rosa, o que me
traz mais doces recordações é Trindade Coelho,–porque eu ligara à minha
a alma dele, num tempo em que dos salgueirais de Coimbra ele me
fazia para uma folha alegre de que eu era director, umas crónicas
soberbas, vivas, rendilhadas, cheias de colorido e de afirmações de uma
personalidade literária. A sua prosa, a um tempo humana e lírica,
dava-me a impressão de um romantismo degenerado… De Coimbra, como
sabem, além de bacharéis anónimos, tem-nos vindo a _elite_ das letras. É
da tradição universitária, fazerem os doutores as suas primeiras armas
de literatos e de poetas, na academia, a intervalos do pesado estudo
do Lobão e do direito público, esvurmado às cavaleiras do nariz de
Pedro Penedo… Toda a nossa legião distintíssima de poetas e
prosadores modernos deriva literariamente da boémia
coimbrã:–Teófilo, Eça, Junqueiro, João de Deus, Antero, etc. É a
afirmação do bom António Ferreira feita axioma:
_Não fazem mal as musas aos doutores_.
E não fazem. Tem-se visto. Vão lá inquirir a Junqueiro das belezas do
Código Civil, meio metafisicamente original e meio copiado dos códigos
de Napoleão! Ah, mas em compensação que apareça aí o primeiro advogado
a escrever a _Morte de D. João_ e a _Musa em férias_!
Os cantos de Trindade Coelho são narrativas ligeiras, descrições numa
bela prosa colorida e transparente, trechos de psicologia trasmontana,
e um ou outro caso humano superiormente observado. Sobretudo a _maneira_
do proceder literário deste escritor é deliciosa de cor e de verdade,
sem grandes esmerilhamentos de frase, nem deslumbramentos de imagens na
aparência cor de oiro, que, em regra, não fascinam senão os saloios
ingénuos dos cordões de latão… Tem-se chegado aí, no abuso da
originalidade do estilo, a fazer uma prosa estrelicada, engomada,
cabelinho à banda, com risca, como os caixeiros de modas ao domingo! O
burguês já conhece os processos da _chinoiserie_, e daí não há
espantá-lo com nefelibatismos doentios, de importação barata; bem sabe
ele que debaixo dessas belezas está a oleografia reles de porta de
escada, da sultana escarlate que apara as unhas, ou do frade que enxota
a mosca do nariz,–muito de apreciar nos covis da municipal em
Alcântara…
O livro de Trindade Coelho tem um certo ressaibo de saudável trabalho,
feito com honestidade e sem as preocupações deploráveis que levam os
corifeus da escola moderníssima, mais que zolaísta, à descrição e
estudo de patologias e casos esporádicos, ou não vivos, ou pouco
vívidos. Este livro é quase um parêntesis aberto como uma clareira
consoladora na torrente ultra-realista dos últimos trabalhos
aparecidos, do _sujet_ de um dos quais, que é em todo o caso a
monografia de um carácter, assombrosamente executada, o _Gil Blas_
dizia,–_qu'on ne peut lui serrer la main que par derrière_…
A feição literária de Trindade Coelho parece-me que se define na parte
do livro subtitulada _Baladas_. Os _Arrulhos_, principalmente, são uma
dúzia de páginas encantadoras, que lembram Droz e Daudet. É uma
elegia… trágica, _encadrée_ numa linguagem cor de opala, em que a
gente parece estar vendo Hoffman braço dado a… João de Deus! É uma
obra-prima. Assim a _Tragedia rústica_ e a _Mãe_. Dos _contos_ destaco
eu os _Prelúdios de festa_, _Idílio rústico_, os _Tipos da terra_, onde
há páginas soberbamente observadas, sugestivas, _d'après nature_.
Magnífico o assassino _José Gaio_.
Trindade Coelho é inquestionavelmente um lírico. E nem eu sei como ele
chegou até aqui sem trazer na mala um volume de versos–_Florinhas de
Luar_, por exemplo! Devemos-lhe o grande favor de não conhecer os
dicionários de rimas, senão a estas horas era uma vez um contista
encantador… soçobrado!–_Inácio da Silva_.»
Nova Alvorada:–«_Meu caro Trindade Coelho_.–Sabe você, amigo Trindade,
que as palavras afectuosas que me endereçou no oferecimento do seu
livro _Os meus amores_, vislumbraram no meu espírito um mundo de
saudosas recordações, como se foram fugazes emanações balsâmicas de uma
quadra primaveril que não volta mais–a vida coimbrã?
Parece-me que tenho ainda presente na retina a sua figura um pouco baixa
mas robusta, as _suas feições másculas e enérgicas_, e a sua _allure_ um
pouco receosa ao dobrar a soleira da legendária Porta Férrea.
Com o seu olhar penetrante e incisivo, mas velado por umas lunetas de
grau apurado, sob a pasta de um quintanista, mirando à direita e à
esquerda, entrou você nos _Gerais_ resignado a um dilúvio de troças,
martírios, horrores…
Os segundanistas, de cuja respeitável corporação eu fazia
orgulhosamente parte, não o arreliaram logo, talvez porque lhe não
encontrassem uma fisionomia de chuchadeira, como a de um Armelim, nem um
rosto gretado, empedernido, de homem terciário, como o do bom Rafael do
Ranhados.
Mas em que diabo foram eles depois embicar, os malvados!
Em uma medalha de oiro que você trazia, à guisa de berloque, na corrente!
O amigo arrancou pressuroso a _pedra de escândalo_, de forma que a
tempestade de piada desanuviou-se a tempo no seu horizonte de novato.
Depois, um ou dois anos, aparece o amigo com acentuações de académico
falado, o seu nome a salientar-se das vulgaridades escolásticas, a sua
individualidade a destacar-se, como se fora um _urso_. E assim se
falava do Trindade, como do Luís Osório ou Feijó por causa dos versos,
do Pássaro pela fina chalaça, do Saraiva pela força, do Miguel
Baptista–pobre amigo!–pelo talento e pelas abstracções, do Banalidades
pela gralhadora loquacidade, e tutti-quanti.
Você desencubou o seu nome, pô-lo em evidência–o Trindade–, mas foi por
causa de um excelente resumo das lições de direito romano, de um belo
discurso no centenário pombalino, e sobretudo das suas graciosas
crónicas no _Diário Ilustrado_.
Ah! e lembra-se você daquele ano em que formámos «república» na Rua
da Trindade, tendo por criada a Sr.^a Maria de qualquer coisa, que
denominávamos a _Gorda_, matrona muito caroável e de enxundiosas formas?
Éramos uns poucos:
O Sousa, que já tem o galão branco dos tribunais administrativos,
espírito fácil, perspicaz e alegre, nada para maçadas, que tinha
orientações definidas em política partidária e expedientes reservados de
galopim graúdo contra os progressistas da Barca.
O Manuel Nunes, hoje em Barcelos, muito lucianista, devorando o
evangelho do _Correio da Noite_, sempre em questiúnculas com aquele por
causa dos seus ideais políticos encontrados, grande passeador e jogador
de manilha, um tanto lambaz porque saía mais cedo e sorrateiramente dos
teatros, dizia-se, para comer a ceia dos retardatários, guardada pela
_Gorda_ num cantinho do fogão.
E o Figueiredo que se ria pelos olhos e pelo hirsuto bigode quando lhe
chamávamos o Pegas, o Covarruvias, e lhe líamos um imaginário plano,
rigoroso e draconiano, de reforma dos Estatutos da Universidade? Muito
desconfiado e estudioso, só não encavacava quando lhe dizíamos que ele
se aplicava… 25 horas por dia!
Depois o Rocha Peixoto, o Bicho, de aspecto _sournois_, olhos à bufo, que
não falava ainda que o esmurrassem, pobre caloiro silencioso e
contumaz!
Em seguida o Sérgio Carneiro, o Grilo, seu comprovinciano e hoje
conservador algures, com cara de cera, esboçada, sem feições lavradas,
muito guitarrista e risonho, se bem que inteligente e aplicado.
Éramos mais–você e eu. Você que se metia muito com a literatura,
fechado no quarto, lendo… lendo… escrevendo…; e eu, que por sinal
dediquei um fado aos membros da república, o qual nas vésperas de
feriado se cantava, em algazarra tonitruante, quando o Grilo
condescendia em o acompanhar na guitarra.
Depois de 1883 creio que nunca mais nos vimos. O amigo marchou mais
tarde para Sabugal e eu para Cuba, e hoje está nos tribunais de Lisboa e
eu no berço da monarquia.
Agora vejo-o, literato conhecido e conceituado, a publicar os seus
belos contos em um elefante volume–_Os meus amores_.
E belos na verdade, como todos dizem.
A _Mãe_, aquela cruciante tragédia da pobre _Ruça_, morta de terror e
de amor, é para mim o mais apreciável e sentido conto da sua colecção.
Costuma-se dizer de uma mãe descaroável, de uma Francisca Fortunata–é uma
cabra!–; mas o amigo teve artes de desmentir o erro grosseiro, vingando
as caluniadas afeições dos pobres ruminantes.
Quem ler as angústias da mísera _Ruça_, na expectativa do filhito
devorado pelo esfaimado lobo circunvagante, restituirá àquele
inofensivo animal o sentimento de amor maternal, a natural compreensão
das suas obrigações de mãe e protectora.
E os _Arrulhos_? Se me não engano você escreveu esse conto em Coimbra.
Creio até que um dia, estando a jantar, o amigo recebeu um jornal
qualquer de Vigo, Corunha ou Pontevedra, em que a sua bela produção
vinha traduzida no idioma de Cervantes com o titulo de _Palomas_.
Nos restantes contos, entre os quais me não agradaram menos _V[ae]
Victoribus_, o _Abyssus abyssum_ e o _Sultão_, revela o amigo a força da
sua educada fantasia, moderada por um largo pecúlio de observação; a
sua poderosa intuição artística; o seu diálogo curto, vibrante e
natural; o seu estilo já característico pela feição franca, _saccadèe_,
de dizer e narrar; a propriedade das locuções; o bom emprego dos termos;
a verdade das suas descrições e pinturas, que, ao contrário de muitos,
não repete, tinta para aqui, tinta para acolá e vice-versa, numa
pobreza reles de palheta, que faz lembrar casacos virados ou coisa
semelhante.
Olhe, amigo. Eu careço de jeito para a crítica literária; mas, enquanto
me é licito exprimir a minha humílima opinião, dir-lhe-ei que você
alarga cada vez mais e com mais rapidez a sua reputação de literato
distinto e de contista precioso; e que este conceito é merecido,
atestam-no os seus valiosos escritos dispersos e a sua elegante
brochura recém-editada.
Resta-me felicitá-lo cordialmente, amigo Trindade, a agradecer-lhe a sua
fineza com um abraço de–Velho amigo–_Eduardo Carvalho_.»
Nova Alvorada:–«_Os meus amores_.–Acabamos de ser distinguidos com a
oferenda do novo livro de Trindade Coelho,–o simpático e distinto
escritor que de há tempos se vai honrosamente evidenciando no certame
das letras pátrias, onde já agora a sua individualidade tem uma
reputação firmada.
_Os meus amores_ é o título que o Sr. Trindade Coelho escolheu para o
seu livro de contos e baladas, e se assim lhe chama, segundo cremos,
não é porque estas 200 páginas sejam um auto-historiográfico dos
idílios romanescos do autor, naquela áurea quadra da sua vida
académica, ou um repositório de alheias aventuras amorosas com
acompanhamento obrigado ao bandolim do trovador lendário.
Não. A razão do título parece-nos antes proceder da afectividade
psicológica do autor para com a sua obra, e induzimos isto do soneto
com que Luís Osório prefacia o livro, e cuja primeira quadra diz:
_Folhas dispersas dos meus anos de ouro,
Vivo enxame das minhas alvoradas,
Tenho zelos de vós, folhas sagradas,
As Desdémonas sois de um outro mouro_.
Se não fosse assim, afirmar-se-ia mais uma vez a verdade do
aforismo–o hábito não faz o monge–, porque o _Idílio rústico_, com que
abre esta bela colecção de contos, não seria bastante para justificar
o título sob que se enfeixam.
Mais que o idílio, preponderam no correr do livro a comédia, o drama e a
tragédia: e basta percorrê-lo em rápida leitura, para averiguar-se que
se há na urdidura dos vários contos muitas situações que nos pintam o
ridículo, a desgraça ou o crime, poucas há, entretanto, que nos prendam
o espírito ao devaneio piegas de um Romeu e de uma Julieta.
Mas, ou bem ou mal baptizado, o que é consoladoramente verdadeiro é que
os contos do Sr. Trindade Coelho constituem uma das mais belas
colecções que no género conhecemos.
Uma urdidura fácil e clara, movimentada em harmonia com os melhores
preceitos da arte.
Uma linguagem correcta e elegante, sempre amoldada à naturalidade das
situações e dos diálogos.
Uns assuntos de felicíssima escolha, a reproduzirem fielmente costumes,
a pôr em jogo com a maior verdade os vícios e as virtudes do povo.
Como os contos magníficos de Bento Moreno, os contos do Sr. Trindade
Coelho são a fiel expressão da vida rústica do nosso povo, e fácil é de
compreender a importância moral que estes livros terão quando as
gerações que nos sucedam queiram inventariar nas suas tradições o modo
de viver, de sentir e de pensar das populações sertanejas, neste
período histórico em que vamos.
Sem descer aos excessos da escola ultra-realista, a que Zola preside
como Sumo Pontífice, o Sr. Trindade Coelho, consegue ser de uma verdade
inexcedível, de um realismo incontestável, de um naturalismo a toda a
prova, que por igual se evidenciam no assunto, na narração e nos
personagens.
E, sobretudo isto, há nos seus contos, como nos de François Copée e
Theodore de Bauville, a artística encenação que, sem desvirtuar-lhe a
naturalidade da forma e do fundo, lhes imprime o atractivo romanesco
que fala à imaginação do leitor.
O _Idílio rústico_, com que o livro abre, é de uma suavidade deliciosa,
e de uma naturalidade tão justa quanto encantadora.
A _Última dádiva_ é a expressão fiel de muitas cenas que a emigração
multiplica cruelmente pelas nossas províncias do norte.
A acção deste conto é conduzida com uma tal unção de sentimentalidade,
que nenhum leitor, por mais rebelde que seja a comoções, se poderá
esquivar a partilhá-la.
O conto–_Tipos da terra_ é a descrição fiel, fidelíssima, da mesquinha
intriga que fervilha invariavelmente em todas as pequenas terras de
província.
_Os Prelúdios de festa_ são de um cómico admirável; _Maricas_ é de um
sentimentalismo comovente; _V[ae] Victoribus_ de uma moralidade
edificante; _Arrulhos_, _Mãe_, _Tragédia Rústica_, tudo, tudo neste
livro é bom, e de útil e agradabilíssima leitura.
A forma–já o dissemos–é correctamente vernácula e elegantemente
rendilhada.
A título de amostra, para aqui trasladámos do conto–_Sultão_–este
belo _croquis_ de uma tarde de Agosto:
«Ao longe, fechando o horizonte que a eira dominava, as arestas dos
montes quebravam-se numa sombra igual, e embaciavam ainda o poente as
suaves e brandas pulverizações doiradas da última luz do sol. Riscos
vermelhos de nuvens, como grandes vergas de ferro levadas ao rubro,
destacavam imóveis num fundo verde-mar, esvaecido e meigo, raiado de
listrões de uma coloração leve de laranja.
Pequenos algodões transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e
além, alegremente, a monotonia profunda do azul.»
E assim o livro de Trindade Coelho: uma obra à altura da boa reputação
do autor.
A redacção da _Nova Alvorada_ congratula-se com o seu ilustre colega
por tão brilhante produção, e daqui lhe envia um cordialíssimo aperto
de mão.»
A Independência:–«_Os meus amores_.–Acabamos de ler o primoroso livro
de Trindade Coelho, _Os meus amores_. Sem largas aspirações,
modestamente, apenas com a consciência tranquila de quem escreve bem e
com critério,–Trindade Coelho juntou e concatenou no delicioso volume,
que acaba de dar à estampa, algumas produções literárias que a sua
vida de jornalista tinha atirado para a vala comum das páginas de
revistas e diários.
Não é, pois, um trabalho completo, inteiro e homogéneo o que se nos
oferece para apreciar: são pequenas jóias literárias, buriladas por
mão de artista e de um fino sabor de naturalismo.
Considerado assim, sem dependência de escola e confrontação de
originais, o livro é bom.
As suas descrições são perfeitas, correctas, desenhadas por quem se
acostumou, desde criança, a ler muita e a adivinhar mais na bíblia
riquíssima e inexaurível da Natureza.
Há vida e colorido em tudo. As telas dos céus pincelaram-se com as
tintas próprias, e os diversos personagens que nos vão passando sob os
olhos, romanescos e sérios uns, grotescos e ridículos outros, deixam-nos
uma impressão agradável de realismo, e alta compreensão. São tipos
exactos, sem os grandes enfeites que aborrecem e sem frases banais que
enjoam. António Fagote é um espécime do juiz de festa das nossas
aldeias, basofão e vingativo, pronto, olá! a gastar as últimas moedas
da venda do últimos gado e a deixar fulo e arreliado o seu antecessor; e
a deliciosa balada _Mãe_ é uma preciosidade literária, magnificamente
pensada escrita, digna da pena dos nossos primeiros escritores.
Não encomiamos, pois, o valor do livro, dizendo que ele é digno de
figurar ao pé das mais belas produções dos nossos escritores mais
consagrados.»
Correio de Portalegre:–«_Os meus amores_, contos e baladas por
Trindade Coelho.
Acorda-lhes no espírito um eco de simpatia o nome do autor, pois não?
Eu creio bem isso, porque a verdade é que apesar da celeuma que Trindade
Coelho aí levantou, granjeando com o seu génio turbulento algumas
antipatias nenhuma delas alvejou o seu talento, que os senhores
jamais negaram, e lhes ficou sendo simpático. É por isso que escolhemos
para encetar esta secção a produção brilhante do distinto literato,
editada há pouco por António Maria Pereira, um incansável editor
escrupulosíssimo.
Li o livro que o talento do autor recomenda, impondo-o, quase, a
atenção do nosso cérebro, à contemplação da nossa alma; e essa leitura,
feita numas horas que um encanto enorme fez parecer tão breves, deu-me
d'_Os meus amores_ a agradabilíssima impressão de uma carícia, que
persiste a sorrir consoladora.
Trindade Coelho, que os senhores conhecem pelo menos do _Comércio_ e da
_Gazeta_, tem, como viram, o poder invejável de dar à ideia,–algumas
vezes injusta, dirão alguns,–a mais correcta forma, iriada sempre da
limpidez mais viva; e isso, num trabalho feito agora para aparecer
amanhã, à pressa sempre, numa fugida aos calhamaços manuscritos que
demandam a sua atenção de magistrado, e em que o período mais
sugestivo é o do _Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo_.
É-lhes fácil por isso pressupor o livro, que o vagar do autor desbasta,
remodela, lima, muito tranquilamente, muito sossegadamente, sob a
vigilante direcção do seu delicado gosto artístico.
_Os meus amores_ têm poesia, e têm verdade; e na maioria dos seus
diferentes quadros, adorável descrição das cenas simples da vida do
campo, da natureza singelamente formosa, o sentimento vibra
intensíssimo, e é encantadora a frase, que um conhecimento profundo
ditou, de que uma subtil observação ressai. Há ali retratos de um brilho
sem limite, _tipos_ que resumem um estudo fidelíssimo.
É um cofre de belas jóias, o livro, que nos deixa embaraçadíssimo, se
queremos escolher alguma,–tão valiosas são todas.
Todavia,–e isto é uma modesta opinião perfeitamente pessoal,–_V[ae]
victoribus_, de tão grandiosa ideia, e de tão elevado estilo, _Para a
escola_, tão grata, a evocar uma saudosa recordação dos bons tempos de
criança, e os admiráveis contos de fina graça e tão verdadeiros,
_Prelúdios de festa_ e _Tipos da terra_, são os meus eleitos, depois
de uma dificuldade enormíssima de escolha, de entre tantos quadros da
perfeição mais rara, e onde a _Maricas_ e _Arrulhos_ cativam também a
minha admiração.
O livro é, como todos os saídos na _Colecção António Maria Pereira_,
esplendidamente impresso em bom papel, e cartonado elegantemente em
percalina.
Nesta notícia breve, digne-se o distintíssimo autor d'_Os meus
amores_ receber o preito da nossa homenagem, prestada tão agradável como
sinceramente.»
JIM – Assistente
Jim IA: pode errar. Não digite dados pessoais. Suas mensagens são processadas por um serviço externo.
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