Os meus amores contos e balladas

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Os meus amores contos e balladas

Aproximadamente 60.805 palavras.

O Rodrigues teve um risinho feroz, fitando o Escrivão da Câmara. Não lhe
respondeu. Subiu os três degraus do _pelourinho_, pausadamente, com
pompa, e chamou a atenção dos amigos. Ia ler. Abriu o _Almanaque de
Lembranças_, onde trazia um papel, e rompeu:–«Indignidade».

–Em letras bem graúdas, queiram inspeccionar.

E colou ao peito o _Almanaque_, voltando para fora na página onde o seu
dedo reboludo apontava a terrível palavra, escrita ao alto em
epígrafe.

Houve um sussurro, alguns pediram silêncio. O Rodrigues que lesse.

«Os versos intitulados _Flor do Campo_, que viram a luz no _Almanaque de
Lembranças_ do ano extinto, foram-nos remetidos pelo Sr. José Maria
Teles, escrivão.»

–Copiados por mim, uma letra floreada–esclareceu o Fernandinho.–Ele
depois assinou–e fez no ar, com o dedo, o traço complicado da firma
complicada do Teles.

Pediram silêncio outra vez. O Rodrigues continuou:

«Publicámo-los na convicção de que eram da lavra daquele senhor, pois
que ele os assinava.»

–E então?–perguntaram uns poucos, sem compreender ainda.

–«Pura ilusão!»–continuou solenemente o Rodrigues.–«Escreve-nos o
mimoso e assaz conhecido poeta Sr. Alfredo Mendonça, dizendo que os
versos lhe pertencem, e que o Sr. Teles os roubara (sic) do seu volume
_Lira Matutina_.»

Foi uma estupefacção! O Rodrigues prosseguiu mais alto, fugindo aos
comentários:

«Averiguámos, e disso alfim nos convencemos. Os leitores avaliarão a
probidade do Sr. Teles, a quem mais de uma vez tínhamos fechado a nossa
porta por incapaz. Hoje damos-lhe com ela na cara–por indigno.»

E o Rodrigues fechou o livro com estrondo, como os outros fechariam a
porta na cara do Teles escrivão; tomou praça fora, o livro debaixo do
braço, e foi-se para o estanco do Ernestinho, altivo, solene,–vingado!

Os da roda seguiram-no silenciosos, corridos de vergonha, desnorteados,
porque além de sempre terem julgado o Teles muito superior ao
Rodrigues–e o Rodrigues bem o sabia, olha ele!…–tinham dado uma
sorte de mil demónios, agora é que eles viam! distribuindo no teatro,
por ocasião da festa de Santa Barbara, a _Flor do Campo_ que eles
tinham mandado imprimir avulso–para lisonjear o Teles que tivera o
trabalho de os ensaiar no _Santo António_. Hein? quem diabo havia de
dizer que aqueles papelinhos de cor, uns verdes, outros amarelos,
chovendo sobre a plateia entre o segundo e o terceiro acto, e quase
disputados a murro, num alvoroço de seiscentos diabos, encerravam uma
insídia,–um logro à boa-fé, à credulidade ingénua de toda a comarca!

E relembravam episódios, particularidades quase extintas: o Fernandinho
vestido da menino do coro, batina vermelha e roquete de rendas,
cobrindo-se de teias de aranha lá pelo forro do teatro, de gatinhas e
com um «toco» de vela na mão, aos tropeções, só para ter o gosto de ser
ele a despejar do _óculo_ aquela papelada; o Melo da administração,
vestido de Frei António, sandálias e grande chinó de calva redonda,
feita de uma bexiga de porco, com o Teles em triunfo por entre os
bastidores, seguido pela turbamulta dos companheiros, em hábitos de
frade e fardetas de galuchos, dando vivas ao _poeta_! ao grande Teles,
ensaiador da rapaziada!

Que desastre! Afinal tinha-lhes saído um intrujão! E quase se regalavam
da sorte que tinham dado, pelo prazer que sentiam de o ver agora
humilhado, corrido, esbofeteado pelo ridículo. Bem feito!

O Antunes da Câmara, sobretudo, estava furioso. Fora ele o da lembrança
de se mandar imprimir a versalhada. Escrevera para Coimbra ao Manuel
Caetano, ao Manuel Caetano da Silva, Praça Velha n.^o 11, que mandava os
impressos para a Câmara, e pedira-lhe aquilo como especial favor. O
homem–pronto. Duzentos exemplares, quinze tostões. Quinze tostões que
se tinha combinado dividir por todos, contas do Porto, mas que
desembolsara ele só, afinal. Bem feito! ninguém o mandava ser burro.
Arre! cavalgadura!

E dava patadas no chão, cada vez mais furioso, apopléctico.

–Mas a bem dizer, tudo isso é nada!–continuou comovido o Antunes.–Ó
senhores! e a figura que eu fiz… sim, a figura que eu fiz naquele
intervalo do drama para a farsa?…

Todos desataram a rir, tinha sido fresca… Ele sempre acontece cada
uma! E relembravam:–levantara-se o pano quando os ouvintes menos o
esperavam. Os que tinham sabido lá fora, às doceiras, voltaram
apressadamente com os cartuchos na mão, ensacando os rebuçados. Ia um
reboliço pela plateia. Na «galeria dos camarotes» para onde só iam
senhoras, gente fina, começavam a aparecer caras barbadas de sujeitos
que iam saber «que tal», perguntar se ia uma pinguinha de licor, um
docinho. Em cima, na galeria alta, criadas e raparigas do povo,
debruçadas no parapeito, apontavam para o palco, de olhar atónito.

–Ele que dianho é?–perguntavam.

De baixo, da plateia, todos faziam _chut_! voltados lá para cima:

–Caluda, sua gentalha!

No palco estavam todos perfilados, trajando como na peça. O Freitas da
recebedoria com o seu fato de Marco Aurélio; o Paula de cardeal, báculo
em punho e a cara metida numa estriga; o Fernandinho de menino de
coro, todo lépido; a Ana Pisca muito acanhada no seu fatinho de Olívia;
a Margarida que tinha feito de anjo no quadro final da _Glória_, em que
ela subira num cesto vindimo à «região sidérea dos astros»; o pai de
Santo António, em ceroulas e de saia branca pelo pescoço, lívido como
saíra do túmulo; aquela canalha da tropa–todos enfim!

Nisto, entra pelo fundo o Teles todo de preto, no meio do Melo
vestido de Santo António e do Proença telegrafista que fazia de Frei
Inácio. Avançaram. Em baixo, o Felisberto mandou tocar o Hino da Carta
à meia dúzia de músicos que não entravam na peça. O hino rompeu com
grande estampido de pratos, numa cadência fúnebre. No palco, tudo
imóvel. Ninguém sabia o que era aquilo, não estava no cartaz.
Esquecimento do Fernandinho, talvez… pensavam.

Mas ao acabar o hino, o Antunes da Câmara, com farda de centurião,
durindana e botas de água, irrompe furioso do buraco do ponto e prega um
discurso na bochecha extática do Teles:

«Não era ele o mais competente, de certo, o mais… etc. Mas tinham-no
encarregado, obedecia… e tal. Só sentia não ter frases, oratória,
porque enfim estava falando a um poeta…–colaborador do _Almanaque de
Lembranças_ para Portugal e Brasil–acrescentou voltado para o público,
esclarecendo. Enfim, finalmente… vinha para aquilo: dar-lhe um abraço
em nome de todos…–e abraçou-o comovido, enquanto os espectadores
berravam _apoiados_, dando palmas–«… e para isto»–acrescentou
fazendo com a mão que se calassem, que se calassem depressa.

Houve um sussurro de aplauso, dos camarotes crianças gritavam–«ó
Emilinha!» Era com efeito a Emilinha, a filha do Alves dos Pesos e
Medidas, que saía também do buraco do ponto, vestida de anjo, tules
verdes e muita lantejoula a brilhar.

Ficou-se a olhar a plateia, imóvel, muito fria, ensaiada, enquanto o
Felisberto preludiava na flauta. Em certa altura, num requebro doce da
«melodia», ele fez-lhe com a cabeça «que entrasse», e a Emilinha rompeu
nuns guinchos, cantando a _Flor do Campo_, com música da _Muchagateira_
original do Peres do correio.

O Teles sorria, entre glorioso e modesto, falando a Santo António e a
Frei Inácio:–Era de mais, era de mais, ele não merecia…–Ora essa!
pareciam dizer-lhe os outros–seríamos ingratos se…

A «cantoria» acabou, o teatro parecia desabar com palmas, tudo berrava,
um ou outro cão latia. Se não quando, os do palco desataram a rir,
cosendo-se uns aos outros, fingindo um grande medo de que as bambolinas
do tecto desabassem.

Todos olhavam, curiosos. E naquela expectação viram de repente descer
do alto, sobre o palco, agarrado a uma corda, o Freixedas da Mercearia
vestido de Lusbel, rubro e com chavelhos. Cuidaram de estoirar a rir. Da
boca muito inchada saíam-lhe faúlhas, do algodão a arder que lá trazia
dentro. Fazia caretas horrendas, arremedando Satanás nos ímpetos da
cólera. O pano começou a descer, oblíquo, esfarrapado de uma banda. O
Freixedas, suspenso, atirou fora o algodão e gritou, furibundo:

–Alto! suas bestas! Inda não!…

Voltou-se de costas para o público, e um letreiro que trazia de ombro a
ombro dizia em caracteres amarelos–_C'est fini_! O pano desceu
então, estabalhoadamente. Os espectadores olharam uns para os outros,
não tinham percebido… Foi nesse momento que o Sr. Antoninho, que
tinha estudado em Braga, traduziu de um camarote, em voz alta:

–_É findo_!

V[AE] VICTORIBUS!

_A Maria Lucila_.

Em Dezembro, às seis é noite cerrada. Mais bocado, menos bocado, a
essa hora recolhia do monte o José Gaio, sozinho, sachola ao ombro, um
pouco atarantado com a trovoada que rugia ao longe, em surdina. Por cima
dele, o céu ia-se fazendo cada vez mais negro, dessa negrura espessa
de tempestade que infunde pavor à gente, e da qual os próprios pássaros
têm medo. Cessara de chover. Mas o vento do sul principiava agora,
agitando os grandes ramos despidos dos castanheiros, fazendo-os murmurar
não sei que estranha elegia… A um relâmpago mais vivo, o José Gaio
apressou o passo, e, benzendo-se, rezou a _Magnificat_. O trovão chegou,
depois, lúgubre, cavernoso, alastrando-se em roldões na larga amplitude
do céu. Debaixo dos pés, o José Gaio sentia o caminho lamacento,
encharcado das enxurradas valentes de todo o dia. Mas a ponte já não
ficava longe. Depois, a ladeira, e no meio da ladeira a casa.

–Vamo' lá com Deus! fazia ele animando-se.

Um clarão súbito de relâmpago deslumbrou-o. Diante dele surgiu de
repente a paisagem, e de repente desapareceu, feericamente iluminada.
Deitou então a correr, aterrado; mas tão forte veio em seguida o trovão,
que ele instintivamente parou e levou ao céu as mãos aflitas, num
gesto de quem implora misericórdia. Naquela iminência de perigo as
próprias árvores lhe pareciam imobilizadas pelo terror, à beira do
caminho. E através dos castanhais, o surdo rumor do vento era como a voz
implorativa da natureza, unindo-se à voz dele num longo coro de
suplicas…

O José Gaio ia transido. Mas pior ficou quando de repente, sem saber
donde, alguém chamou por ele, lugubremente:

–Ó José Gaio!

O homem parou. E como perto dele apenas enxergasse os braços da cruz
negra, que era o sinal de ali terem matado o José Tendeiro, há anos,
apertou o passo e tomou por um atalho, direito à ponte. Mas então a
mesma voz tornou-lhe mais de perto:

–Ó José Gaio!

Quis fugir, mas o medo parece que lhe tolhia as pernas. Nisto veio um
relâmpago que iluminou a mil cores a paisagem. Ele cerrou os olhos com
força, nervosamente, ferido por aquele deslumbramento que por milagre o
não prostrou. E quando o trovão bramiu, rudemente, uma imobilidade de
estátua prendia o camponês à terra. Foi então que veio de novo aquela
voz, como um prolongamento do trovão:

–Ó José Gaio!

Ia avançar para ganhar a ponte. Parecia-lhe que, uma vez transposta,
galgaria a ladeira num instante. Mas involuntariamente, cedendo a uma
força violentíssima, entrou de retroceder, cambaleando. Aquele rugir da
água que logo abaixo da ponte fazia cachão, rugir violento mas monótono,
infundiu-lhe um grande pavor. Teve medo e deixou-se retroceder… Senão
quando, estacou ouvindo a mesma voz:

–Ó José Gaio!

E logo atrás da voz, com um rastro, um intensíssimo relâmpago cor de
sangue. Viu tudo vermelho, afogueado, tudo menos aquela cruz preta de
longos braços, sempre abertos e sempre firmes, que pareciam desafiar a
tempestade…

Aquela serenidade da cruz estonteou-o. Dir-se-ia que esse nobre
exemplo de altivez vinha agora humilhar mais a sua fraqueza. Desviou os
olhos e cerrou violentamente as pálpebras. Mas em vão! que fora tão vivo
o deslumbramento, e tanto lhe ferira o cérebro, que num fundo cor de
sangue, como num transparente de mágica, ele via nitidamente
desenhada, sempre firme e sempre altiva, a cruz que o estonteara. Então
deram-lhe ímpetos de fugir; uma onda de coragem parecia dilatar-lhe o
peito impelindo-o. Precisamente nesse momento, a voz tornou a chamar:

–Ó José Gaio!

Sentiu-se alquebrado, transido até ao mais íntimo do seu ser. Um longo
desfalecimento invadiu-o todo, quebrando-lhe a última fibra de energia,
como se quebra um vime seco. Aquela paralisia atacou-lhe também o
cérebro: não formava um só raciocínio nem elaborava sequer uma ideia, a
mais simples. E foi preciso um grande trovão para todo ele tremer,
abalado como a própria terra. Depois, outro relâmpago fez reviver nele
a vida do espírito; sentiu um grande pavor àquele aspecto súbito do
campo que diante dele se perdia de vista, afogueado como se estivesse
todo em chamas. Aqui, um pinhal, uma ermida além, para toda a banda
Casais, surgiam de repente, nítidos nos seus contornos, definidos
maravilhosamente nas suas atitudes. As grandes árvores despidas,
sobretudo, tinham um ar fantástico, nessa pureza nítida de recorte que
traçava na luz as sinuosidades mais delicadas dos troncos e ramarias. No
meio deste cenário de mágica, a um tempo majestoso e tétrico, o triste
camponês sentia-se apavorado, jactitante e quase inerte, ali chumbado à
terra, hirto como a cruz que tinha diante. E nem um só gesto
implorativo, e nem uma só palavra de súplica lhe saía dos lábios
crispados. Porque uma vez que tentara uma palavra, o mais formidável
trovão cortara-lha na primeira sílaba. Depois, aquela voz não o
largava, imperturbável e monótona:

–Ó José Gaio!

E ele, não respondendo nem falando, pensava esconjurá-la, exorcismá-la
como se fosse a voz de um duende. E para esta evocação do sobrenatural
muito concorria, como os senhores compreendem, esse aspecto sereno da
cruz negra, inabalável sob a asa agitada da procela.

Nisto veio a chuva, em grossas gotas a princípio, em cordas de água
depois. Ela varejava-o inclemente, impelida agora por um vento sul
furioso. Não deu um passo para procurar um abrigo, não se mexeu sequer.
Como todo ele ardia em febre, aquele dilúvio era quase um celeste
benefício para a sua cabeça num vulcão. Mas quando os relâmpagos
vieram, aquela reverberação da luz nas cordas de água fez-lhe um
deslumbramento mais forte. E caiu inerte sobre o caminho lamacento por
onde a água escorria impetuosa, ao mesmo tempo que a voz do costume,
sobrelevando o trovão, repetia do lado da cruz:

–Ó José Gaio!

Cobarde, sujo como um sapo, encharcado até aos ossos, como caiu assim
ficou–de borco. Depois, quando abriu os olhos, na larga poça onde quase
tinha a cara, via reflectir-se a cruz, a cada relâmpago. Ela lá estava
no seu posto, altiva, serena, intemerata, recta como um exemplo… E
pois que parara o dilúvio, dos seus braços abertos as gotas da chuva
caíam, vermelhas à luz, como grossas lágrimas de sangue…

Cobarde! Nenhuma comparação pode dar ideia do estado de prostração desse
miserável, reduzido pelo terror a uma quase inacção de besta morta.
Dir-se-ia um imundo trapo ali caído, abandonado ali na lama ignóbil
de um caminho, à espera da enxurrada que o levasse… Era abjecto!… E
enquanto esse animal assim jazia, atordoado, como boi que uma malhoada
prostrou, ao fundo do horizonte, para sul, o encastelamento fantástico
das grandes nuvens plúmbeas, listradas de negro e roxo, metralhando com
fúria o largo espaço, aos quatro ventos, era tudo quanto o nosso
espírito pode conceber de mais grandioso e de mais sublime, épico e
trágico a um tempo, soberbo, majestoso, imponente.

Mas a voz sempre a ouvia, por cima do vento e por cima dos trovões,
aquela voz:

–Ó José Gaio!

Assim largo tempo, horas talvez. O torpor do frio agravava-lhe o outro,
o do medo. Parecia colado à lama, preso ao caminho como se fosse uma
rocha. No entanto, a espaços, tinha a compreensão clara da sua posição
e do seu estado. E então uma raiva súbita galvanizava-o: queria
erguer-se, fugir, desaparecer–erguer-se como aquela cruz, fugir como
aquele vento, desaparecer como esses relâmpagos, que nem deixam rastro
na treva…

Tais rebates de coragem eram, porém, efémeros, impotentes para lhe
provocarem um movimento. Aquele diabo tinha de morrer ali,
miseravelmente, ignobilmente, como um cão a que houvessem amputado as
quatro pernas. E esta ideia, que o instinto de viver lhe sugeriu,
apavorou-o ainda mais que a própria tempestade. Morrer ali! Mas que
dúvida, se ninguém lhe vinha acudir, se não passava por ali vivalma, a
tais desoras! Era horrível! No meio de um caminho, numa noite medonha
de tempestade, ao pé daquela cruz negra de longos braços
hirtos–morrer ali!… Eram então já por ele as lágrimas que essa cruz
parecia chorar?…

Estava nisto, quando num silêncio de acaso ouviu passos à distância.
Vinha gente. Quem quer que era tinha de passar por ali, de tropeçar
nele, talvez. Subitamente, sentiu-se reviver. Estava salvo. Em breve
estaria de pé,–de pé como essa cruz que um relâmpago muito vivo acabava
de lhe mostrar… No entanto, a voz é que se não importava:

–Ó José Gaio!

Mas os passos vinham-se chegando; e então, como se receasse que o
calcassem, reuniu num supremo esforço as máximas energias, e rebolou-se
para um lado, até ficar detrás dumas urzes. Coisa notável foi,
senhores, que esse miserável em vez de gritar calou-se, e todo se
recolheu numa absoluta quietação, com medo que o surpreendessem… E
quem quer que era passou, cabeça nua, diante da cruz gotejante… Aos
ouvidos do miserável chegou um como murmúrio de prece… Não ia só a
rezar; ia também chorando, aquele homem…

…Quem seria?

Um clarão branco de relâmpago fez irromper da treva, lívido como um
espectro, o filho do José Tendeiro…

O desgraçado ia a chorar pelo pai, ali assassinado havia anos, por uma
noite como aquela…

Passou, ladeira abaixo, na direcção da velha ponte. Só aquele cobarde
não se mexeu, prostrado sobre as urzes, quase arrumado à cruz.

E assim esteve horas e horas, até que, noite velha, cessou a tempestade,
perdida num murmúrio longínquo, lá na extrema fímbria do horizonte…
Quando a lua rompeu, lívida num céu de anil, nem a grande sombra da
cruz, incidindo sobre aquele corpo, como um beijo ou uma bênção, logrou
reanimá-lo. Tinha morrido, o estafermo!

Ao outro dia, está claro, foram lá os da justiça. O velho abade foi
depois, buscar o corpo. Os médicos nem lhe tinham mexido.

–Sangue pelos olhos, sangue pela boca, sangue pelo nariz, uma
congestão muito linda–dissera um a rir.

–E muito mal empregada–fizera o outro do lado, indiferente.

Mas quando os da maca disseram a um tempo–_Upa_!–esse bom velho do
abade caiu de joelhos diante da cruz, numa convulsão agudíssima de
choro. E elevando ao céu as mãos mirradas–ao céu que um divino azul
fazia diáfano–ele exclamou, soluçando:

–Senhor! Senhor! a vossa justiça é tremenda, como é infinita a vossa
misericórdia!

…Segredo de confissão…–mas o abade bem sabia quem tinha ali
matado o José Tendeiro…

BALADAS

_A Luís Osório_

I

MARICAS

Vocês lembram-se da Maricas, aquela magrita de cabelos muito
castanhos, quase louros, que morava defronte da redacção, lembram-se? A
boa da rapariga era nossa amiga, pois não era? Sempre benévola e
complacente para as nossas balbúrdias e algazarras de todo o dia e de
toda a noite. E vocês bem sabem que tais elas eram, as nossas
balbúrdias e algazarras…

Eu, na Maricas, admirava uma virtude rara, toda original e
encantadora–a de não mostrar jamais na sua amizade preferência por
algum de nós. Dir-se-ia que era nossa irmã, ou mesmo nossa mãe, pois
que nos queria a todos por igual, a pobre Maricas de olhar azul e
brando…

Não sei se já vos disse: adivinho o interesse com que ela vos
perguntaria por mim, nos meus dias de cábula, pela solicitude e
interesse com que me perguntava por vocês, quando faziam gazeta ao
escritório.

–Então esses cábulas? então esses marotinhos? Doente, algum?

–Na estúrdia, Maricas. Andam todos por lá…

–Ora vejam!–fazia ela quase escandalizada.

Ah, como eu me lembro neste momento da vivacidade franca dos sorrisos
que nos mandava, quando todos em pinha, furando pelos ombros uns dos
outros, palreiros conversávamos com ela de janela para janela, num
_tête-à-tête_ que durava horas, muito familiares, muito dados, quase que
chamando-lhe por tu e ela a nós!

Como eu me lembro!

Ela tinha sempre uma resposta e um sorriso para cada uma das mil
perguntas que lhe fazíamos, e então uma grande paciência inexaurível.
Nós, os estroinas, quase que chegávamos a adorar aquela ingenuidade
singela do seu coração de vinte anos. A boa da Maricas era adorável,
toda ela bondade e paciência para os nossos distúrbios e para as nossas
algazarras de toda a hora e de todo o instante.

Mas como se familiarizou ela connosco e nós com ela, é que me não
lembra, e porventura a nenhum de vocês, acho eu. O que é certo, rapazes,
é que nós como que a considerávamos uma companheira de redacção, espécie
de directora com casa à parte e viver independente pois que se entrávamos
no escritório (parece mesmo que estou a ver aquela barafunda
de escritório!) e, assomando à janela, a não víamos na sua, dizíamos
quase sem querer, mas invariavelmente:

–Mau! falta hoje a Maricas! Diacho! mas onde iria a Maricas?

E passados instantes debandávamos todos, um agora, outro logo, à
formiga, mal nos convencíamos de que ela passava a tarde fora, em casa
da _freira_ de Quebra-Costas–dessa lembram-se vocês… No entanto,
deveis recordar-vos que ela, no dia seguinte…–coitada!–…a
primeira coisa que fazia era justificar a sua falta, «estive aqui,
estive ali, fui a umas compras com a mamã», um pouco ruborizada e
confusa, como se na realidade a sua obrigação fosse estar ali a
aturar-nos. Por pouco ela nos não pedia de mãos postas que lhe
perdoássemos, a boa da rapariga.

E nós então galhofeiros, brincalhões:

–Sem mais _aquelas_, D. Maricas! A congregação risca-lhe a falta, ora
essa!…

E ela mais confusa, fazendo girar no dedo o seu anelzito de cobra:

–Pois sim, mas é que às vezes…

–Às vezes quê?…

«Não! ora adeus! Ninguém desconfiava que ela estivesse zangada
connosco. Saíra, porque tinha de sair, essa é boa…»

–Pois não era verdade–perguntávamos-lhe–que ela adorava aquela
_trupe_ de boémios?

–São todos muito bons rapazes–dizia já a sorrir.–Todos me tratam
muito bem…

E quando dizia isto, o seu rosto miudinho e muito pálido todo se
iluminava de prazer e sorria de íntima gratidão. Mas porque
simpatizava ela connosco, a pobre Maricas?

Quando nos via em palestras intermináveis, nas libações do _congnac_ e
do café, ouvia-se lá da janela um _pschiu_! muito sibilado.

–Que manda a D. Maricas? É servida?

E ela, levantando os olhos da costura, com ares de formalizada:

–Mando que escrevam, que trabalhem! Já fizeram o jornal?

O cuidado que lhe dava o jornal!

–Ora faz favor de não falar em coisas tristes? Olhem agora que
lembrança, o jornal!

Ela então, por única resposta, dizia-nos às vezes que na semana passada
o tipógrafo viera queixar-se de que havia falta de originais, quantas
vezes o garoto da imprensa viera pedir as provas emendadas.

E por falar em provas:–a Maricas sabia todos os sinais das emendas,
todos.

–Olhe lá, Maricas, está aqui uma letra a mais nesta palavra.

–Risco por cima, risco à margem, e um _d_ cortado; é fácil.

–Um _m_ de pernas para o ar, e esta?

–Risca-se, e um três cortado, à margem. Está farto de o saber…

Quando via algum sentado à mesa, a rabiscar, pedia sempre que lhe fosse
mostrando as tiras, à medida que as escrevesse, talvez porque adivinhava
que isso era um estímulo. A gente fazia-lhe então a vontade, e mal
escrevia a derradeira letra pegava da tira e dizia-lhe para a janela,
acenando-lhe com o papel:

–Maricas, cá está uma, vá contando. Veja: escrita de alto a baixo.

À terceira que se lhe mostrava, ela saía-se de lá com um _bravo_! e
recomendava, solícita, cinco minutos de folga, enquanto se fumava um
cigarro.

A Maricas era quem nos cortava as cintas para o jornal e quem nos fazia
a goma nos dias de expedição. Que ricas cintas e que bela goma! Em
paga, quando o jornal chegava da imprensa, quase sempre nos sábados à
noite, o primeiro exemplar era para ela. Como a rua era estreita
atirava-se-lhe da janela.

–Maricas, aí vai ainda fresquinho!

–'stá bem, obrigada. Vou ler, até amanhã.

Corríamos todos à janela, a dar as boas-noites à nossa amiga.

–Durma bem, ouviu?

E no dia seguinte, a Maricas repetia a cada autor frases e frases do
artigo publicado, jurava que nos conheceria no estilo ainda que
mudássemos de pseudónimo. De resto, sempre benévola: achava tudo muito
bom, «escrito com muita graça e muito bem», como ela dizia.

Nos serões que fazíamos e que por via de regra não passavam de um
interminável cavaco, dizia-se mal das mulheres, discutiam-se escândalos,
desvendavam-se segredos, tal e qual como em todas as redacções… Mas da
Maricas ninguém tinha que dizer senão bem; era a privilegiada naquelas
sessões de má língua. Quase sempre a conversa degenerava em
algazarra–um que se lembrava de cantar, outro que ia pela guitarra e
gemia fados com acompanhamento de violão. E era de ver o Santos Melo,
de olhos cerrados e cabeça à banda, como cantava a sua quadra predilecta:

Sei cantigas misteriosas,
Cantigas de endoidecer,
Que os lírios dizem às rosas,
Que as rosas me vêm dizer.

Mas no meio desta inferneira havia sempre um que recomendava silêncio.

«Com mil demónios! não viam que a Maricas não podia pregar olho…»

Todavia…–ó suprema bondade!–…ela nunca se queixava quando no dia
seguinte nos vinha dizer até que horas durara a estroinice, o que se
tinha tocado, o que se cantara, quem tinha rido mais, e, até, as vezes
que as cadeiras tinham caído.

«Ora viam?! Não a tínhamos deixado dormir! A Maricas que desculpasse;
palavra de honra! doravante…»

Ela então acudia logo, como a remediar uma grande desgraça:

–Não, não, eu até gosto. Entretém-me vê-los alegres, faz-me bem, ora
essa…

* * * * *

Pois, meus amigos, a boa da Maricas–morreu! vocês não sabiam! E morreu
tísica, a desgraçada Maricas! Só depois que o soube, é que eu comecei a
pensar naquela tossezinha muito seca em que às vezes a
surpreendíamos, naquele branco pálido das suas faces, no bistre das
suas olheiras, naquela magreza transparente das suas mãozitas de
marfim…

Pobre Maricas!

Haverá três meses que ela me desapareceu da sua janela, onde
continuei a vê-la depois que o jornal acabou. Eu sabia lá para onde ela
tinha ido?!…

Mal diria eu que estavas no cemitério, tão longe e tão só! porventura na
vala comum, sem umas folhas de rosa sobre a tua sepultura
humilde,–onde neste instante cai chuva e chuva! Ainda se as noites
fossem todas de luar… Minha triste amiga! como eu agora relembro cheio
de mágoa a tua frase de infinita bondade e de infinita resignação:

–…«Entretém-me vê-los alegres, até me faz bem»…

Compreendo agora tudo: vivias da nossa alegria, já que a tua alma era
triste… Mas porque foi que nos não disseste, pobrezinha! que nessa
frase singela ia a revelação do pressentimento que tinhas da tua morte
prematura?! Triste criança que nós não mais veremos!

* * * * *

Olha, Maricas, escrevi quatro tiras. Já me não dizes–_bravo_!–ora
não?…

* * * * *

…Bom Deus! bom Deus! para que a terra produza diamantes, e dela
rebentem flores, são talvez precisos estes corpos a avigorar-lhe as
seivas…

II

PARA A ESCOLA

No velho casarão do convento é que era a aula. Aula de primeiras
letras. A porta lá estava, amarela com fortes pinceladas vermelhas, ao
cima da grande escadaria de pedra, tão suave que era um regalo subi-la.
Obra de frades, os senhores calculam… Já tinha principiado a aula
quando a Helena entrou comigo pela mão. Fez-se um silêncio nas
bancadas, onde os rapazes mastigavam as suas lições e a sua tabuada,
num ritmo cadenciado e monótono, cantarolando. E ouviu-se então a voz
da Helena dizer para o senhor professor, um de óculos e cara rapada,
falripas brancas por baixo do lenço vermelho, atado em nó sobre a testa:

–Muito bons-dias. Lá de casa mandam dizer que aqui está a
encomendinha.

Oh! oh! a encomendinha era eu, que ia pela primeira vez à escola. Ali
estava a encomendinha!

–Está bem, que fica entregue. E lá em casa como vão?

E enquanto o velho professor me tomava sobre os joelhos, a Helena
enfiava-me no braço o cordão da saquinha vermelha, com borlas, onde ia
metido nem eu sabia o quê. Meu pai é que lá sabia… E ali estava eu
entre os joelhos do senhor professor, com o _bonnet_ numa das mãos e a
saquinha vermelha na outra, muito comprometido. A Helena, que sorria
contrafeita, baixou-se para me dar um beijo, e disse-me adeus.

–Adeus, Josezinho, logo venho cá pelo menino.

Choraminguei, quis sair na companhia dela.

–Não, agora o menino fica–disse-me a Helena.–Isto aqui é a escola, é
onde se aprende a ler.–E agachando-se, diante de mim:–Olhe tanto
menino, vê?

–Mas fica tu também–disse-lhe eu então.

Nas bancadas houve hilaridade geral. O mestre teve de intervir,
iracundo:

–Caluda, sua canalha! Não vêem que está gente de fora? Caluda, que vai
tudo raso com bolaria!

Foi então que reparei em toda aquela rapaziada. Ah, eles eram todos
meus conhecidos! Vivam lá vocês! E estavam todos alegres, p'los modos.
Reanimei-me. Então já eu podia ficar, estavam ali os meus amigalhotes,
cheguei mesmo a rir das caretas que me faziam alguns, o Estêvão
principalmente.

–Isto é preciso muita paciência, senhora Helena, muita soma de
paciência. Um mestre precisa de ser um santo.–(Pausa. Olho duro sobre
as bancadas.)–Mas está bem, diga lá que a encomendinha cá fica. Em boa
hora entrasse…

–Entrou, ele há-de estudar. Ora há-de, Josezinho?

Das bancadas alguns acenavam-me que não, arregalando muito os olhos.

–É verdade,–insistiu por sua vez o professor–o menino há-de estudar
as suas lições, não é assim?

–Diga, sim senhor–ensinou-me então a Helena.–Hei-de estudar muito e
ser sossegadinho na aula, diga.–E a meia voz para o professor:–isto em
casa é o vivo mafarrico; faz lá ideia?

Ele riu, já sabia; as crianças são todas assim, enquanto estão no mimo
das mães. Mas uma vez metidas na escola, as coisas mudavam um pouco. E
piscando o olho, designou a palmatória. A Helena ficou transida.

–Faz milagres, Sr.^a Helena. Digam lá o que disserem, olhe que faz
milagres.

Eu tinha percebido. Começava de novo a _embezerrar_, com vontade de sair
quando a Helena saísse. Aquilo sabia eu para que servia, a
palmatória…

–Mas para o nosso Zezito não há-de ser precisa, ora não?

–Diga assim: não senhor, porque eu hei-de cumprir com as minhas
obrigações, diga.

–Ora aí é que está–atalhou o professor.–Vê, Sr.^a Helena? Aqui já os
pequenos têm a sua obrigaçãozinha, os seus deveres a cumprir, as suas
coisas…

–Sim senhor, sim, enquanto que em casa…

–Em casa é o que nós sabemos. Tudo são mimos, meu menino isto, meu
menino aquilo. Vão assim criados à lei da natureza, sabe vossemecê? É
mau isso, péssimo! Porque é que os rapazes são todos teimosos?–E bateu
num «Monteverde» pousado sobre a mesa, dizendo:–Olhe, aqui está neste
livro: «_de pequenino_…

–…_é que se torce o pepino_»–concluiu rápida a Helena, orgulhosa de
saber o que estava no livro, coitada!

–Nem mais. A modos que isto faz rir. Um pepino é uma coisa que se cria
na horta…

Risota dos rapazes!

–Ora vê isto, Sr.^a Helena? vê estes brutinhos?–E com entono, de
palmatória alta, fazendo-se carrancudo:

–Caluda, seus fedelhos! Caluda, porque se peço licença à Sr.^a Helena,
começo numa ponta e levo tudo a eito, corro tudo a bolos, tudo, mas o
que se chama tudo!

E fitou-os altivo, sereno, minaz. Sob aquela ameaça, os rapazes ficaram
transidos, cabisbaixos, olhos pregados nos livros. É verdade que ele
podia pedir licença à Sr.^a Helena, e mesmo diante dela _cascar_ de
rijo… Uma sombra de terror passou por toda a sala, sossegaram; até o
Estêvão deixou de me fazer caretas.

–É o que vê, Sr.^a Helena–disse então vitorioso, a sorrir-se, o bom
do professor.–É o que vê! Um mestre sem palmatória é um artista sem
ferramenta, não faz nada. _Santa Luzia_ milagrosa! Aqui onde a vê tem
feito muitos doutores.

–Essa?–perguntou ingenuamente a Helena, disposta a venerar aquele
pedaço de pau de buxo, se na verdade ele tivesse feito muitos doutores.

–Não, mulher, se não foi esta, outras como esta, essa é boa! Isso não
faz ao caso.

Pela resposta bem se vê que foi indiscreta a pergunta da pobre Helena.
Também ele, velho naquele ofício, muitas vezes investigara com mágoa
o motivo por que a sua palmatória não fazia um único doutor… Morreria
sem ter essa «glória,» decerto! Forte martírio que a Helena veio
recordar-lhe!…

Houve uma interrupção, um rapaz que se levantou e de braço no ar pedia
para ir lá fora.

–_Licéte_!–foi como ele disse, arremedando o latim _licet_. Outros
havia que diziam, por troça, _Aniceto_!

–Ora já a mim me admirava,–tornou-lhe o professor.–Se tu não havias
de pedir para ir lá fora, tu…–E ficou-se a fitá-lo, meneando
pausadamente a cabeça.–Ora vá você lá fora.

O rapaz saiu apressado, com grande estrupido de pés.

–Olá?–chamou zangado o Sr. professor.

O outro assomou à porta, contrafeito.

–Para a outra vez faz-se menos barulho com esses pés, ouviu? Não sei se
percebes… Ora já que tem tanta pressa, eu não tenho nenhuma; faça
favor de esperar um pouco.

Pôs-se então a correr a vista pelas bancadas, resmungando:

–Tu não… tu não… tu não… Tu, olá, venha cá!

Levantaram-se uns poucos, foi um barulho.

–Canalha!–gritou-lhes então, batendo o pé.–Corja de atrevidos!
Sentados, já!

Grande silêncio nas bancadas. Um perguntou de lá, humilde, se era ele,
apontando para o peito.

–Sim, és tu, p'ra que queres os olhos? Avance e perfile-se.

Mediu-o de alto a baixo. Depois:

–Isso mesmo. Essa mão no bolso é que não é do _regulamento_, fora com
ela. Agora, sim senhor. Ora vês além aquele sujeito? o tal das
pressas?…

–Vejo, sim senhor.

–Bem sei que vês, se o não vissem é porque eras cego; que tal está o
palerma? Ora acompanhe-o, já sabe p'ra quê. E sempre quero ver se tenho
de vos ir lá buscar pelas orelhas.

Saíram. Mal tinham salvado a porta, gritou-lhes o Sr. professor:

–Olá?

Eles assomaram, outra vez, atrapalhados.

–Então, seus cabeças de avelã, torres de vento, então não falta nada?

Os dois puseram-se a coçar a cabeça, muito comprometidos. Faltava com
efeito alguma coisa…

–Então é aí?

Eles avançaram até ao meio da sala, tropeçando um no outro.

–Ora passa por esta vez, em atenção a estar aqui a Sr.^a Helena.–E
enrugando o sobrolho, comandou em tom marcial:–Ordinário! marche!

Faltava aquilo. Em obediência aos seus velhos hábitos de militar, dava
o Sr. professor aquela voz, sempre que mandava algum aluno cumprir
ordens suas:

–Ordinário! marche!

Sentou-me então no joelho e perguntou:

–Olha lá, Josezinho, tu queres ser militar, queres? Assim como o Sr.
capitão do destacamento, que lá está aboletado em casa, queres?

–Corneta, mais queria ser corneta. Ou então como o Sr. prior, dizer
missas.

Riram-se. Quem sabia lá o que dali sairia? Mas o Sr. professor fez
notar que era bom que os pequenos tivessem já assim uma tendência
qualquer. E pôs-se a puxar-me o nariz, a dar-me palmadinhas nas
bochechas.

–Corneta ou prior, hein? Pois isso é que é preciso escolher.–E para a
Helena:–Pois olhe que os tenho conhecido, Sr.^a Helena, que respondem a
pés juntos que não querem ser nada. Mau sinal, péssimo, Sr.^a Helena!
Quando eles assim dizem, de ordinário assim fazem, depois. Nunca são
gente.–E virando-se para mim:–Mas então, Josezinho, em que ficamos?
Corneta ou prior?

Preferia ser prior. Sempre me parecia melhor, mais bonito, especialmente
em dias de festa, com aquela capa toda doirada…

–Muito bem, escolheste bem. «_Telha de igreja_…

–…_sempre goteja_»–concluiu a Helena que ainda hoje é forte em
adágios.

O bom do professor tinha finalmente chegado onde queria.

–Prior, então! Está muito bem, seu reverendo. Pois olha, Josezinho,
para ser prior é preciso estudar, saber ler no missal, ora é?

–É.

–Ah!… Não é assim que se diz. É, sim senhor–emendou a Helena.

O Sr. professor teve um gesto de indulgência.

–Mas tu não sabes ainda, ora não?

–Não senhor.

Ele então, fingindo uma grande surpresa, perguntou se o que eu trazia
na saca era um livro.

–Querem ver que é um livro?…

–Diga–ensinou a Helena–é o meu livro para aprender a ler. Mostre-o lá
ao Sr. professor, tome.

Houve na sala um murmúrio, ao verem a capinha verde, toda lustrosa, do
meu livro.

–Muito bem! muito bem!–aplaudiu o Sr. professor.–Mas este livro é
mesmo para aprender a prior… O menino já tinha dito lá em casa que
queria ser prior, ora já?

Fiz que sim com a cabeça. Era verdade aquilo; mas como é que ele o
sabia?

–Bem se vê por este livro. É livro para prior. Queres então principiar,
não queres?

–Quero, sim senhor,–ensinou ainda a Helena e eu repeti.–O que eu
quero é dizer missa quanto mais cedo melhor, diga.

–Primeiro do que aqueles?–perguntou voltando-me para as bancadas.

Então fui eu mesmo que respondi:–«Sim senhor!»–contente com a
lembrança de vir a dizer missa, e de a vir a dizer primeiro do que todos
aqueles. Até podia acontecer que o Estêvão das caretas me ajudasse a
alguma…

–Ora então está muito bem, estamos entendidos.–E com intenção, ferindo
muito as palavras, para mas gravar no espírito:–A primeira coisa que é
precisa para prior é saber bem isto, vês?–E punha-me diante dos olhos o
livro aberto na primeira página.–Isto aqui é já missa, chama-se o _a b
c_, e é aquilo que os priores dizem quando vão para o altar.

–_Ito_?–inquiri curioso, furando a página com o dedo.

–Sim, isto. E amanha já me hás-de trazer sabido daqui até ali. Hein?
valeu?

–Diga que sim, menino, diga. Valeu, sim senhor.

Eram as seis primeiras letras, ainda me lembro bem. A minha primeira
lição!

_A B C D E F_!

A minha primeira lição!

–Ora sabe vossemecê o que isto é, Sr.^a Helena? isto que eu tenho
estado a fazer?

–Sim senhor, sei… é assim… como quem diz… é…

–Não sabe, não admira,–disse complacente o Sr. professor.–Puxar o
gosto, Sr.^a Helena, puxar o gosto é que isto é. Nem todos os mestres o
fazem, todos o deviam fazer. O pequeno, assim, até já vai estudar com
mais gosto, digo-lho eu; olé se vai!

«Mas ele não a queria demorar mais, tinha lá em casa as suas
obrigações, as suas voltas, e deviam ser horas.»

–Pois isso é verdade, Sr. professor; mas não sei que é, custa-me a
separar do menino…–disse a boa da Helena, quase a chorar.

–Foi ama, deu-lhe o seu leite, aí é que está a coisa. Pois tenha
paciência. Aprender é tão preciso como mamar–concluiu numa prosa que é
mesmo poesia.

–Pois é preciso, é!…

E a pobre Helena beijou-me, para se ir embora. Quando me beijou, senti
na minha cara as lágrimas daquela boa amiga. Retirava-se, deixando-me
ainda sobre o joelho do meu velho professor, quando este a chamou:

–Sr.^a Helena!

–Meu senhor!–respondeu, levando aos olhos o avental.

–Já agora, espere mais um instante.

Percorreu com a vista, minuciosamente, as bancadas todas da aula.
Depois, intimou:

–Tu, Francisco, olá, chega acima. E tu do lado, como te chamas, abaixo
um pouco.–E virando-se para a pobre mulher lacrimosa:–Ora é ali,
Sr.^a Helena, ali é que é o lugar do pequeno. Leve-o lá, ande, que lhe
não deve pesar.

E dos braços do meu professor passei para os braços da ama. Novo beijo,
lágrimas mais quentes, e saiu a boa da Helena, deixando-me no meu
lugar…–o meu primeiro posto na arriscada milícia das letras…

Depois, só vi isto: o mestre a sorrir-se para a porta e a conversar por
acenos com a pessoa que estava de fora. Pequeno como era, percebi, no
entanto. O mestre vinha a dizer na sua mímica:

–Bolos?… Não?!… Perdoe a Sr.^a Helena, mas isso, quando forem
precisos… Pois sim… lá isso sim… pequeninos… Han? mesmo com a
mão?… Está bem… Descanse… Mesmo com a mão…

E ela devia sorrir por entre lágrimas, porque foi também por entre
lágrimas que o bom velho se sorriu, dizendo adeus…

* * * * *

…Helena, minha boa amiga! Acabo de chegar ao fim da viagem que
principiei nesse dia. Não volto mais à escola! Venho hoje restituir-te,
querida amiga, aquele beijo–dulcíssimo beijo aquele!–que tu então me
deste. E afinal não fui prior, ora vê!… Mas ainda bem. Se o fosse,
acho que parecia mal beijar-te, minha boa e santa amiga! Pois ainda bem
que não fui prior, ainda bem… Não é verdade, Helena?

Em Coimbra, no dia do meu acto de formatura.

TRAGÉDIA RÚSTICA

I

_Madrugada de segunda-feira de Entrudo, tapada dos Nobres, Alentejo, à
porta do José Grilo_

Truz! truz! truz!

Os de casa acordaram, sobressaltados.

–Schiu! nem pio!–fez o José Grilo para a mulher.–Moita!

–Truz! truz! truz!

Do seu cubículo, a Ana, filha do José Grilo, pôs-se a chamar pelo
pai.–Bem ouvia, que deixasse bater. Algum bruto que se queria
divertir…

Mas logo outra vez na porta:

–Truz! truz!

–Arre que é bruto! vá bater ao inferno, quem é! gritou de dentro o José
Grilo, zangado. E pois que se pôs à coca, de orelha fita, olhos
cravados na telha-vã do casebre, sentiu distintamente os passos de
alguém que fugia.

–Eu não te disse? aquilo foi bruto que se quis divertir–explicou ele
para a mulher.

Mas palavras não eram ditas, pareceu-lhe ouvir o vagir de um
cachorrinho, mesmo rente à porta. Veio-lhe logo à ideia que lhe tinham
vindo pôr zorro…

–Ó mulher, queres tu ver que há novidade?

De um pulo saltou da cama, embrulhou-se na manta e abriu a porta do
casebre.

–Ele que demónio de embrulho…?

Pegou-lhe com muito jeito. Era efectivamente uma criança, envolta em
dois trapinhos muito velhos.

–Coitadinho! fez o ganhão achegando ao peito a criancinha.

–Grandes cadelas!–E pôs-se logo a fazer uma algazarra, alarmando a
gente da casa.

–Andem! a pé! levantem-se! está aqui este inocentinho que vem dar os
Bons-dias à gente!

Correu a filha, veio a mulher. Mas ao tempo, já o bom do José Grilo
metera a criança na cama, visto que a pobrezinha estava gelada…

–Ele quem diabo há por aí que tenha leite? A filha do António das
Varedas, é verdade, a Brites que lhe morreu o cachopo.

Despediu imediatamente a filha, a Ana, à procura da Brites que
chegasse o peito ao inocentinho. E da porta, gritando para a rapariga
que ia correndo:

–Que se não demore, ouves? que se lhe paga aquilo que for.

Mas a mulher do José Grilo, a senhora Joana, de pé no meio da casa, a
saia amarela deitada pela cabeça, de braços cruzados, muito
embezerrada, permanecia sem dizer palavra.

–Ó mulher, nada de aflições, é tal e qual como se fosse nosso, faz de
conta…–observou-lhe logo o José Grilo que percebia o ar taciturno da
fêmea.

Ela só redarguiu que _nosso_ era um modo de falar. Seria dele, mais
de qualquer desavergonhada…

O José Grilo, que estava a enfiar as calças, parou no serviço e
pregou-lhe uma gargalhada.

–Ajeita-me o pequeno, ouves? Vê lá que talvez esteja molhado. E
deixa-te de cantigas, que hoje é dia de Entrudo.

A mulher ia reguingar; mas ele, pegando-lhe de um braço, levou-a ao pé
da criança, afirmando-lhe às risadas que sim, que o pequeno era filho
dele.

–O pequeno?… mas é que pode ser cachopa–disse o José Grilo para a
mulher.–E certificando-se:–Nada! é rapaz.

Seguiu-se uma altercação. A senhora Joana, a chorar, ia jurando pela
sua salvação que «o crianço» era filho do seu homem.

–Ai Jesus que estou perdida! chamava ela muito cómica, braços no ar, o
balandrau da saia amarela enfiado pelo pescoço num jeito de
sobrepeliz.–Má hora em que me eu casei! ai Jesus que vai ser de mim!

–Olha que é rapaz, ouves? anda cá ver que é rapaz–disse-lhe de lá o
José Grilo, muito fleumático, debruçado sobre a criança.

Mas como visse que a mulher continuava num estardalhaço, muito
aflita, desaustinada pelos cantos da casa, o José Grilo virou-se para
ela e disse-lhe muito solene:

–Pois assim me Deus salve como não é meu o rapaz.

Ao ouvir assim falar o seu José, a senhora Joana voltou-se logo para
ele, olhos esbugalhados, muito suspensa.

–Juras pelas cinco chagas, ó homem?

–Juro pelas cinco chagas.

–Assim te Deus dê saúde, ó José?

–Assim me Deus dê saúde.

–Preto sejas tu como o teu chapéu?

–Preto seja eu como o meu chapéu.

A senhora Joana botou-se logo a correr para um canto da casa, e abrindo
a arca de pinho, do bragal, entrou aos beijos a uma Nossa Senhora da
Conceição, pegada na face interna da tampa, com bocadinhos de hóstia.

Depois desabafou, muito aliviada:

–Ai!

O José Grilo pôs-se a rir.–«O demónio da Joana, com ciúmes!»

–Mas ciúmes de quê, ó mulher? não farás favor de me dizer de que diabo
tens tu ciúmes?–perguntava muito casto o amigo José Grilo, sereníssimo
diante da mulher desconfiada.

A outra, muito delambida, redarguiu com ironia–«que o seu homem era um
santinho…»–O José Grilo ia defender-se. Mas ela, atalhando logo,
reguingou de alto:

–Sabes tu que mais? estafermos é o que mais há. Olha a cadela que
enjeitou este…

Aqui, fez uma suspensão; depois perguntou, muito lampeira:

–Mas quem seria a grande cadela?

Pôs-se então a mirar muito o pequeno, a ver se lhe dava ares de alguém,
murmurando frases de ódio, moralistas:

–Precisava ser enforcada, a tua mãe; quem quer que é tem mesmo
entranhas de lobo.

O pequenino entrou a vagir, muito friorento, embrulhado numa camisa do
José Grilo.

–É fome, coitadinho! o infeliz inda não sabe que coisa é mamar–disse
contristado o lavrador.

Foi-se logo à porta, a ver se a Brites chegava. Mas quem vinha com a
Ana era a outra, a Doroteia do António das Veredas.

–Tua irmã, tua irmã é que se cá precisava. Que demónio vens tu cá
fazer? Ouves? não me dirás que diabo vens tu cá fazer?–E deu um bofetão
na filha, «para que soubesse dar o recado».

A Doroteia pôs-se a explicar que a rapariga não tinha culpa. A irmã é
que a mandara para levar a criança, porque ela, adoentada, fazia-lhe
mal sair de casa assim cedo…

–Só se lhe queres tu dar de mamar–insistiu ainda o José Grilo, virado
para a Doroteia, irreverente pelos seus dezanove anos inda virgens.

A senhora Joana fez-lhe de dentro que se calasse:

–Credo, homem! essas coisas não se dizem, nem por graça.

–Eu sei lá se não se dizem?–observou o lavrador, muito zangado.–Dá cá
daí o pequeno.

Veio a senhora Joana com o embrulhinho, que entregou ao José Grilo. O
lavrador depô-lo nos braços da Doroteia, com mil cuidados, e depois
ele mesmo ajudou as mulheres a ajeitar o pequenino, em termos que fosse
bem quente.

–Roda forte, ouves? E diz lá a tua mãe que eu de tarde por lá apareço,
p'ra ver isto do ajuste.

A rapariga saiu. E como o lavrador desse fé que tinham ali ficado os
farrapos, gritou para a rapariga:

–Ó D'roteia! espera que inda cá ficou isto.

Então pôs-lhe os farrapos ao ombro–uns pedaços miseráveis de velha
chita–e a Doroteia partiu onde à irmã.

II

_Quarta-feira anterior a Domingo Gordo. Monte do Rosário. Em casa de
António Palma, casado com Rufina Maria_

O António Palma tinha acabado de jantar, rodeado da pequenada. A mulher,
a Rufina, principiava a lavar a loiça, quando à grade do quinchoso uma
voz chamou:

–Ó Sr.^a Rufina!

Vieram os pequenos, veio o António Palma, a mulher com as mãos
fumegantes. Foi preciso fazer calar o _Farrusco_ para se poder ouvir o
que dizia aquela mulher que lhes estava falando do caminho.

–Queria-lhe uma palavrinha, a si mais ao seu homem.

O Palma foi abrir o cancelório. E foi com grande desgosto que deu de
cara com a Francisca Fortunata, de grande ventre alçado, uma
desavergonhada que tinha fugido ao marido, o José Tomás negociante de
gado. Entrou, fizeram-lhe uma recepção fria. Os próprios pequenos
olhavam desconfiados e silenciosos aquela grande mulher gorda que eles
não conheciam. Ela sentou-se logo num saco, muito esfalfada, enquanto
o Palma e a mulher afectavam procurar ambos um banco, acotovelando-se,
com trejeitos de quem se sentia arreliado com a visita. O _Farrusco_
investiu com a mulher, achando-a estranha; mas uma vez enxotado com o
pontapé do Palma, fez-se na casa um grande silêncio, e a mulher começou
assim:

–Venho pedir por caridade e esmola que me deixem aqui estar uns dias.
Já vêem como eu ando, isto deve estar por pouco. Logo que tenha o meu
filho, em arribando da quebreira do parto, deixo-os e vou-me embora. Lá
em casa de minha mãe aquilo é uma grande miséria, passam-se dias que
não comemos. Não há uma cama, a gente dorme sobre umas palhas, sem
jeitos de roupa com que se cubra. Mas eu ando neste estado, bem vêem
como eu ando…

Aqui desatou a chorar, levando aos olhos o avental miserável. O Palma e
a mulher diziam não sei que monossílabos, o _Farrusco_ rosnava. A outra
prosseguiu:

–Não é por mim, sabem? não é por mim. É este inocentinho que tem de
nascer no chão, como os cães… Bem sabem que isto custa. Pouco se me
dava de morrer, afinal, mas queria que o meu filho vivesse…
Coitadinho!

Ergueu-se num ímpeto, depois caiu de joelhos, mãos erguidas para o
Palma e para a mulher.

–Pelas cinco chagas de Nosso Senhor! exclamou.

O Palma fez para a mulher um gesto resignado e de lástima. Cada um de
seu lado, ajudaram-na a levantar-se, dizendo-lhe submissamente que tudo
se havia de arranjar, que sossegasse.

–Que a falar os pontos de verdade, Sr.^a Fortunata, vossemecê é que
tem a culpa desses trabalhos, disse-lhe logo o Palma.

Ela escondeu a cara no avental, fazendo-lhe com a mão que se calasse.

–Má sorte daquele pobre José Tomás, acabou-se! Quando ele casou com
vossemecê antes tivesse quebrado uma perna.

Ela chorava cada vez mais, parecendo muito aflita.

–Agora aí o tem, anda por esses caminhos que parece doido. Nem gado,
nem o diabo. Des'que vossemecê alvorou que o rapaz não vai a uma feira.
Pois olhe que era homem para juntar, videiro como poucos.

Pôs-se a fazer um cigarro, olhando os pequenos atónitos. Depois
continuou:

–Esteve aqui um destes dias, por sinal que sentado nesse mesmo
saco…

A Fortunata levantou-se num ímpeto, como se o saco a repelisse. O
Palma prosseguiu:

–Sente-se vossemecê, mulher, o saco não faz ao caso. Pois foi aí
mesmo que ele esteve, até parecia um pobre de pedir. Nem botões na
camisa, coitado! Mas pela conversa bem se vê que inda lhe não quer mal.
Que a bem dizer ele quase não conversa, anda a modos que amalucado,
sempre a levar a mão à cabeça, como se lá dentro aquilo andasse azoado.
E mais é que bem pode o rapaz dar em doido…

A senhora Rufina foi de parecer que doido já ele andava. Passavam-se
dias que não aparecia em casa do tio José Garção, que o levara logo
para ele, mal a Sr.^a Fortunata o deixara. Por onde andava? que fazia?
Contava-se que uma noite dormira numa coutada, no mesmo telheiro que os
porcos. Que doutra vez fora ter com o vigário para que lhe baptizasse o
filho, dizendo que já tinha nascido.

–No filho inda ele aqui se pôs a falar, lembrou o Palma.–Anda com
ela ferrada que o filho já nasceu.

Aqui, a Fortunata, de pé junto à porta, rompeu numa choradeira, ouvindo
falar no filho. O Palma interveio, condoído, dizendo que se não
afligisse, que o filho sempre teria uma caminha onde nascesse.

Ela ia ajoelhar, o Palma não deixou.

–Não é por vossemecê, mulher, assim me Deus salve como não é por
vossemecê. Mas é que o inocentinho que aí traz esse é que não tem
culpa. Faço de conta que é o pai que me pede, o pobre José Tomás.
Vossemecê bem sabe que eu era amigo do José Tomás. Diabo! a gente já
diz _era_, já fala nele como se o pobre tivesse morrido…

Nisto vieram chamar o Palma, que no lameiro ali em baixo andavam uns
bois que não eram dele. Foi-se a buscar um marmeleiro, e depois,
quando já ia para sair, disse em resumo:

–Fique vossemecê então, Sr.^a Fortunata. Ouves, Rufina? Talvez que ela
inda não jantasse. Faz-lhe a cama lá dentro, e o resto arranjem-se.

Caso é que a Maria Fortunata, amanhecendo para Domingo Gordo, desentupiu
e teve um filho. Mas nem sequer o tinha ainda beijado, nem lhe tinha
feito uma carícia, quando por volta do meio-dia a avó do pequeno ali
chegou, vinda de longe. O Palma que estava no quinchoso, a dar a bolota
aos cevados, ficou espantado:

–Pois senhores! havia de jurar que você adivinha, Sr.^a Ana!

Ela, sem mais rodeios, perguntou se a criança já tinha nascido.

–Já nasceu, sim senhora, vá lá dentro se a quer ver. Venha daí.

Mas iam ainda à porta, quando a velha, filando o braço do Palma, lhe
perguntou num sobressalto:

–Vivo ou morto, Sr. António?

O Palma percebeu. O estafermo da velha queria que a criança nascesse
morta. Aquilo fez-lhe nojo, deram-lhe ganas de correr a mulher a
pontapés. Conteve-se. Mas todo ele vibrou de cólera, quando em presença
do pequenino a velha, sem o beijar, perguntou o que se lhe havia de
fazer.

O Palma, furioso, repeliu a mulher com desprezo. E como ela insistisse
com a pergunta: «que se há-de agora fazer a isto?» ele redarguiu,
irado;

–Dar-lhe de mamar, está bem visto. Inda você pergunta o que se há-de
fazer à criança. Talvez você queira que o pequeno vá já cavar…

A velha ia falar.

–Nem pio, seu estafermo! Que tal é o amor que você lhe tem, que inda
nem sequer a beijou. Nem a mãe o beijou ainda, coitadinho! Você já viu
uma cadela quando tem os filhos, já viu? Com mil diabos, qualquer
cadela vale mais que vocês duas.

O Palma ia-se pondo amarelo, a Sr.^a Rufina interveio, aconselhando-o a
que saísse.

–Saio, e vou-me embora, ouviste? Ouviste? Aparelho a égua e vou-me de
véspera até à feira.

Pôs-se a procurar pelos cantos, aqui os estribos, além o freio da égua.

–Tanto faz ir amanhã cedo, como ir já agora. É já de cara. Mete-me
qualquer coisa nos alforges, que vou já aparelhar a égua.

Daí a meia hora, o Palma montava à porta, no meio do rancho dos
cevados, e chamando a mulher dizia-lhe com má cara:

–Em estando capaz, rua!

–Daqui a três dias, talvez…

–Então até daqui a quatro. Ouves? E olha se defumas a casa, quando
esses estafermos saírem.

Ora o António Palma a virar costas, e a velha a sair porta fora–com o
embrulhinho do neto ao colo…

Como ela corre, a maldita! Parece que o leva roubado…

Onde passou ela o dia? Onde passou ela a noite? Não sei. Caso é que na
madrugada seguinte, a desavergonhada abandonava o pequenino à porta do
José Grilo.

Madrugada de Fevereiro, nevava…

III

Quando a Doroteia saiu com o pequeno, para o levar à irmã, tinha
amanhecido havia pouco. A neve cessara; mas um nordeste frigidíssimo
retalhava a cara da rapariga, encolhida sob aquela atmosfera de gelo.
Nunca o souto que ia atravessando lhe parecera tão comprido e tão
triste. Os grandes castanheiros despidos, cheios de neve até ao alto,
faziam-lhe mais viva e mais cortante aquela impressão de frio. O chão
estava coberto de neve; e lá em cima, muito alto, o céu muito azul
anunciava um dia de sol.

A rapariga ia triste. Dir-se-ia que a tristeza lhe nascia toda
daquele lado em contacto com o pequenino…

Por isso quando passou pela azenha, e que a mulher do Paulo lhe
perguntou o que levava ali, erguendo a voz sobre o ruído forte da
levada, a rapariga entrou de chorar e respondeu que era um enjeitadinho.

–Um quê, mulher? que dizes tu? insistiu a outra.

Mas o moleiro, que vinha chegando, especou diante da mulher, e repetiu
como um eco:

–…Um enjeitadinho.

Entreolharam-se os três, numa incerteza vaga.

–Sim, um enjeitadinho, deve ser isso…–continuou o moleiro.–E
daí… pode ser que não seja…

A rapariga, muito impaciente, perguntou se sabiam alguma coisa.

–Nada! pode ser que a história seja outra–elucidou o moleiro.–Onde
foi que isso foi posto?

–Esta madrugada, à porta do José Grilo.

–Olá! isso então pode ser coisa dele–observou a rir o moleiro.–Esse
diabo não é seguro.

Puseram-se a rir da lembrança. Já dentro do moinho, o homem pôs-se a
explicar à rapariga:

–É que ontem à noite veio aqui um homem pedir pousada, um homem a
modos que adoidado. Boa figura de homem, por sinal. Assim às primeiras,
tanto eu como a Luísa tivemos o nosso medo…

–Ó Doroteia! interrompeu a mulher do moleiro, dá cá o menino e
senta-te. Vou-lhe dar de mamar, que o pobrezinho há-de ter fome.

A Doroteia passou a criança para os braços da moleira. Foi uma alegria
ao verem-no sugar no peito, minúsculo, com os olhitos inda fechados.

–Meu rico anjinho, meu amor! A fome que o desgraçadinho tem! Quem seria
a desavergonhada?…

–Mas depois? inquiriu a Doroteia, voltando-se para o moleiro.

–Depois, dormiu cá, aí lhe demos da ceia e aí ficou. Mas dá-se o caso
que o homem não pregou olho em toda a noite, sempre a malucar, num
falatório pegado. «Que o filho era dele, que se a cabra da mãe
teimasse em o enjeitar, ele ia dar parte à justiça.» Um arrazoado
assim, muito comprido.

Espantada, a Doroteia ia falar.

–Mas espera, que o melhor da festa é que o homem tão depressa dizia
isto, como dizia que o filho já tinha nascido, que era muito lindo, que
onde ele o tinha escondido ninguém lho ia roubar.

Ficaram-se um instante a mirar consolados a criança.

A pobrezinha vagia, mamando com sofreguidão.

–Mas então sempre ele sabe do filho, reatou com interesse a
Doroteia.–Ora! assim este enjeitadinho soubesse quem era o pai,
coitadinho!

A Sr.^a Luísa, que não gostara que se recolhesse o homem, resumiu com ar
compungido:

–Um doido, o pobre de Cristo! Deixá-lo ir!

Fez-se um silêncio, mirando todos a criança. A taramela do moinho
batia, num ritmo vivo. Maquiando uns sacos, o moleiro explicou ainda
que o homem alvorara muito cedo, debaixo de neve, sem ao menos dizer
obrigado. Mas que perguntando-lhe onde ia aquelas horas, o outro lhe
respondera:–«Para a feira. Vender um gado.»

–Ora vá lá o diabo entender isto!–rematou por fim o moleiro. Um doido
a vender gado.

Conversaram sobre o caso, algum tempo. Até que a Doroteia, com pressa
por causa da irmã, pegou outra vez na criança e abalou pela porta fora,
direita à casa do pai.

–Olha os trapos, ó Doroteia! olha que deixas cá isto.–E o Paulo
correu a levar à rapariga os trapos segunda vez esquecidos, e que eram
todo o enxoval do triste pequenino…

Ia mais contente, a Doroteia. Ao menos levava a certeza de que a
criança não ia com fome. E para que também não fosse com frio, a boa da
rapariga achegava ao peito o enjeitadinho, numa solicitude toda
materna.

–Louvado seja Deus! ia dizendo a rapariga. Como haverá gente que seja
capaz destas crueldades! A nevar, e deixa-se assim um inocentinho,
embrulhado em dois farrapos, na soleira de uma porta! Vamos que o José
Grilo não dava fé! Ali se morria de frio o anjinho, capaz de virem
depois os cães e comê-lo.

E espreitando pela fenda estreita do xaile:

–Meu anjinho! que ruim cadela que foi a tua mãe, ora foi?

–Foi! rugiu uma voz detrás dela, como um eco.

A Doroteia deitou a fugir, espavorida. Mas aquele homem que já de
longe a acompanhava, sem ela dar fé, corria também atrás dela, e não
tardou que a filasse, como um lobo. A rapariga soltou um grito, ia cair
com o susto; mas valeu-lhe que nesse mesmo instante uma voz que ela
conhecia gritou ali de perto:

–Larga a rapariga, ó José Tomás! Larga a cachopa!

E de um pulo, o pastor caiu entre os dois, separando-os.

–É o José Tomás que está doido,–explicou o pastor.–Desde que a
mulher lhe fugiu, que o pobre anda assim, coitado!

Mas palavras não eram ditas, eis que o José Tomás de novo se arremessa
à rapariga.

–Tu que levas aí? Tu levas aí o meu filho!–rugiu ele com voz
furiosa.

E como se sentisse agarrado, e visse que acudia mais gente, o pobre
lançou-se por terra, de joelhos sobre a neve, as mãos erguidas,
impetrando a chorar que lhe dessem o seu filho…

A Doroteia cobrou ânimo, ao ver-se rodeada de gente.

E fez-se luz no seu espírito, quando reparou que os trapos do
enjeitadinho eram reconhecidos pelo doido que os estava mirando, a
rir-se…

–Conheces? perguntou-lhe a rapariga.

No êxtase em que caíra, mirando e remirando os farrapos, o doido não
respondeu.

–Se conheces isso? perguntaram-lhe uns poucos.

Nem palavra. Nada a não ser um riso nervoso que o sacudia todo. Como
estava de joelhos, quiseram levantá-lo; mas ele então opôs-se, caindo
sobre os calcanhares.

E ria… ria… enquanto dos olhos amortecidos, cravados no miserável
farrapo, as lágrimas corriam, copiosas…

Mas daí a pouco, pelas palavras soltas do doido, todos ficaram
percebendo. Os farrapos que embrulhavam a criança eram da saia da mãe. A
mãe era a mulher do José Tomás, e o pequenino era filho dele… A
grande cadela tinha abandonado o pequeno, depois de ter fugido ao
homem!

–Um raio venha que a parta! rogou do lado o pastor.–Ora vês aí um
estafermo que precisava que a matassem!

O José Tomás pôs-se a rir muito, fitando aquela gente. Uma forte
impressão de piedade estampava-se em todos os rostos.

–Ó Doroteia! chamou então um dos do grupo. Traz aqui o menino. Um pai
deve sempre beijar o seu filho. Traz cá o pequeno, ó rapariga.

Mas não foi preciso; que o José Tomás, sempre de joelhos sobre a neve,
foi para ela de mãos postas humilde como um rafeiro… E como aos
lábios do pai a rapariga achegasse o pequenino, no silêncio que se fez
ouvia-se o rir convulso do louco, beijando de joelhos o filho.

Como se fora uma chuva de pétalas, do céu de madrepérola a neve caía
mais densa…–ao mesmo tempo que nos ramos altos dos castanheiros, como
no seio imenso de um órgão, o vento sul–gemia…

ABYSSUS ABYSSUM…

Nesse dia, os dois pequenitos tinham jurado que haviam de ir ao rio.
Assim eles tivessem uma coisa boa!… Mas que tentação para ambos, o
rio! Ainda lhes soavam aos ouvidos, com todo o seu entono vibrante de
ameaça, aquelas terríveis palavras com que a mãe os intimidara, um dia
que lhe apareceram em casa tarde e às más horas.

–Ouvistes?–ralhara-lhes a mãe.–Olhai se ouvistes: se voltais ao rio,
mato-vos com pancada. Andai lá…

Ih! como ela dissera aquilo, Mãe Santíssima! Colérica, ameaçadora, com
a mão em gume sobre as suas cabecitas loiras… Lembravam-se de haver
tremido, cheios de susto, muito chegados um ao outro, humildes sob
aquela ameaça terminante. E então, nesse dia, eles não tinham ido ao
rio. Aos pássaros sim…–lá estavam as calças rotas do Manuel a
dizê-lo–…aos pássaros é que eles tinham ido. Ao rio era bom! a mãe
que o soubesse…

Ah, mas então não os deixassem dormir naquele quarto. Logo de manhã,
mal abriam as janelas, a primeira coisa que viam era o rio, uma
corrente muito lisa e esverdeada, serpeando entre os renques baixos dos
salgueiros. Lá estava a ponte velha, donde os rapazes se atiravam
despidos, de cabeça para baixo, e então o barquinho branco do
fidalgo,–lindo barquinho!–sempre à espera que o fidalgo o desamarrasse
para passar à grande quinta que tinha na margem de lá.

De modo que o primeiro desejo que logo pela manhã assaltava os dois
rapazes era o de irem por ali abaixo, muito madrugadores, tão
madrugadores como os melros, meterem-se dentro do barco, desprendê-lo
da praia, e deixá-lo ir então por onde ele quisesse, contanto que fosse
sempre para diante… Quando fechavam as janelas para se deitar, a sua
vista seguia, mesmo através da escuridão da noite, a linha que ia dar ao
barco. Era o seu–«adeus até amanhã!»–àquele pequeno objecto que valia
tesouros, que para os dois valia mais que tudo, tudo…

Ah! tivessem eles assim um barquinho, que não queriam mais nada…

–Mais nada?

–Isso não… mais alguma coisa. E a mãe que não ralhasse, está visto.

Mas nessa manhã, bela manhã, na verdade! a mãe viera acordá-los mais
cedo. Ia já pela aldeia um claro rumor de vida–gente que passava para
os campos, os solavancos dos carros no empedrado péssimo da rua, os
patos da vizinhança que saíam em rancho para a digressão pelos prados,
grasnando ruidosamente, levantando-se em voos curtos, espantados da
agressão acintosa dos rapazes. Havia mais de uma hora que ali perto
se ouvia o retimtim agudo do martelo do ferrador atarracando cravos na
bigorna. Já o reitor passara para a missa, em batina, muito hirto e
vagaroso, as chaves da igreja na mão esquerda e na direita a cabacita do
vinho. E àquela hora, onde iria já a missa! A última beata, encapuçada
e lenta, recolhera, trazendo consigo a esteira em que ajoelhara na
igreja. Havia mais de meia hora que o João carpinteiro, no meio da rua,
dava com valentia num carro cujo eixo _ardera_ na véspera, e que era
urgente compor, p'los modos. Até o Ernestinho do estanco abrira já a
loja, e subira à varanda a regar os manjericos. Começos da labuta
diária, enfim; os senhores sabem.

Pois como lhes disse, a mãe viera nessa manhã acordar mais cedo os dois
pequenos.

–Fora, mandriões, vamos! É preciso afazerem-se a madrugar, que tal
está! Ai, ai, dia claro há que tempos, vem aí o sol, e os morgadinhos
na cama.–E enquanto falava, ia-lhes abrindo as janelas.–Persignar e
vestir, vamos! Calças… colete… os jaquetões… tomem.

E pôs-lhes tudo sobre a cama.

–Mãe, a bênção!–balbuciaram os dois, tontos do sono ainda.

–Deus os abençoe. Que Deus não abençoa mandriões, ouviram? Ora eu já
volto. Queira Deus que não vos encontre cá fora, tendes que ver.

Os dois sentaram-se na cama para se vestir, contrafeitos, fechando os
olhos àquela hostilidade viva da luz que invadira o quarto num jacto
repentino e brutal. Pela abertura larga da camisa assomava-lhes o peito
que eles afagavam numa última carícia, suavemente, docemente. Seria
tão bom tornar a adormecer, assim mesmo sentados! O mais novito ainda
tentou deitar-se outra vez, pesaroso de ter de abandonar já o aconchego
morno da cama, onde se estava tão bem! onde os sonhos eram tão lindos!

Mas a mãe não tardava ali. Era preciso vestirem-se, que remédio! Foi
então que o Manuel, mais esperto do sono, olhando para o campo o achou
encantador, todo resplandecente de verduras.

–Bonita manhã, não vês? As árvores parecem mais lindas, repara. Porque
será?

O outro encolheu os ombros, não sabia: só se fosse por não haver
nuvens…

Pela janela aberta, avistava-se um trecho de paisagem que a luz viva da
manhã fazia muito nítida. As vinhas tinham um verde encantador, muito
suave, trepando encosta acima, fazendo contraste com a rama escura das
laranjeiras que cerravam alas nos pomares húmidos das baixas. Revestidos
de folhagem, ascendiam ares fora os olmos gigantescos. Pedaços de horta
estavam em toda a pompa do seu viço e da sua frescura. Viam-se as rodas
das noras, latadas compridas a cuja sombra regalam as merendas.

Um renque de choupos esguios marcava a borda do rio que nessa manhã
deslizava muito sereno, esverdeado de águas, espelhante sob aquele céu
imaculado.

–Ah! ah!…–riu-se o Manuel, contemplando-o.–O rio! Que te parece?
Olha que é lindo, o rio; ora é, ó António?

–É, lá isso… Mas _tamém_ de que vale?–tornou-lhe com desalento o
irmão.–A gente não pode lá ir… Olha se a mãe o soubesse, han?–E
mirando por sua vez a paisagem perguntou:–Já reparaste no barco, ó
Manuel?

–Tão bonito!

Os dois riram.

–Parece pintado de novo… E nem se mexe, repara.

–Pudera!…–explicou o Manuel–…amarrado com uma corda…–E depois
radiante, gesticulando para o irmão:–Mas eu era capaz de o
desamarrar…

–Ai eras!–disse duvidoso o António, para o incitar.

Calaram-se. Era bom podê-lo desamarrar, lá isso era. Ambos dentro
dele, sozinhos, isso é que seria bom! E eles então que estavam mortos
por ir às azenhas, e pelo rio era um instante enquanto lá chegavam. O
barco! Era tão bom andar no barco! E aquele então era lindo, como não
tinham ainda visto outro. Nunca lhes haviam esquecido–olhem lá não
esquecessem!–aquelas tardes em que o fidalgo os levara dentro do
barquinho, ensinando-lhes como se remava.

O Manuel foi o primeiro que se vestiu, e foi logo direito à janela.
Passava naquele instante um bando de andorinhas, chilreando.

–Está um dia lindo, avia-te.

–Olha avia-te! p'ra quê?–perguntou o António torcendo e retorcendo o
pé para enfiar o sapato, apoiado com as mãos ambas na borda da cama.

O Manuel sorriu-se, triste.–Era verdade… Aviarem-se p'ra quê? A mãe
não os deixava ir ao rio… E se não que fossem! «Mato-vos com pancada
se desceis a ladeira.» Já se vê que depois disto…–E os dois
suspiravam, desgostosos. Que pena serem pequenos!

Nisto o António chegou-se também para a janela. Que lindo, o campo!
Mas os olhos dos dois não se desfitavam do barco, fascinados. Demónio de
tentação! E para mais, tinham-no pintado de novo: sobre o branco, a todo
o comprimento, uma faixa azul-clara destacava nitidamente, parece que
apenas meio palmo acima do nível da água.

–Tate, ó Manuel! E se fugíssemos?

–Ora! se fugíssemos!… E depois? A gente tínhamos de voltar…

Ora aí esta! isso é que era o pior! A mãe, depois, era capaz de fazer o
que tinha prometido. E arregalando muito os olhos, imitando a cólera da
mãe:–«Se voltais ao rio…» Ai, ai, a triste sorte!

Recaíram em silêncio. Ficaram-se por instantes a ver o sol que rompia
ao nascente, numa explosão violenta de luz, acendendo coloridos na
largura muito ampla da paisagem.

–Mas palavra que o barco parece pintado de novo… relembrou com
alegria o Manuel.

–Mas é que está, palavra que está. Agora é que há-de ser bom andar
dentro dele…

Os dois riram-se muito àquela ideia encantadora de andarem no
barquinho, assim pintado de novo. Diacho! e porque não? Por isso,
cobrando ânimo, o António disse resoluto:

–Olha agora o medo! Seguro que nos mata.–E puxando-o pela
jaqueta:–Vamos lá, ó Manuel?

O Manuel fez que não com a cabeça, e espreitou se vinha a mãe. Como não
vinha, disse baixo ao irmão:

–À tardinha, hein? dois pulos e estamos lá. Não é tão fácil dar pela
nossa falta, ali à tardinha. A gente finge que vai para o adro.
Levam-se os peões…

–Há-de ser mesmo assim! à tardinha!–concordou o António.–Eh! eh! eu
cá desatraco.

–E eu remo,–disse logo o Manuel com gesto de quem remava.

–Ao leme vou eu: o leme é aquilo que regula–explicou.

–Pois sim, mas à vinda pertence-me a mim, remas tu. Se quiseres
assim…

–Pois está bem, quero! Assim mesmo é que há-de ser!

E recapitulando, para melhor ficarem combinados:

–Ao p'ra baixo remo eu, ora remo?

–Remas.

–E tu regulas, ora regulas?

–Regulo.

–Ao p'ra cima é às avessas, ora é?

–É.

Muito bem, basta palavra! E ambos ao mesmo tempo, um ao outro se
impuseram segredo…

–Schiu!…

–Schiu!

* * * * *

A tarde descaía límpida. Na vasta cúpula do céu, penachos de nuvens
alvejavam, imóveis.

Acesas naquela explosão rubra do ocaso, as arestas dos montes
franjavam-se de púrpura e oiro, na decoração mágica dos poentes.
Começava de cair sobre os campos a larga paz tranquila dos crepúsculos,
e uma quietação dulcíssima e vagamente melancólica entrava de adormecer
a natureza para o grande sono reparador de toda a noite.

…E a tarde ia descaindo, cada vez mais límpida.

Naquela luz indecisa de crepúsculo que mansamente se ia acentuando,
os montes do sul tomavam um torvo aspecto de sombras gigantescas,
imobilizados num fundo em que se iam apagando ao de leve todos os
cambiantes de luz. Os pormenores da paisagem perdiam-se naquela
indecisão vaga de noite que vinha descendo, e uma espécie de silêncio
confrangedor dominava a natureza toda, recolhida num como espasmo
amedrontador e sinistro que dentro de nós evoca a essa hora não sei que
vagos receios ou medos inconscientes que fazem com que na imaginação as
coisas criem vulto, e no mundo exterior obrigam a retina a exagerar as
formas às coisas…

Muda de gorjeios, atravessando o espaço em voos muito rápidos, a
passarada demandava os ninhos onde se acoitasse do frio que acordava.
Caíam já pesadas sobre os vales as sombras das montanhas, e um
fumozito subtilmente azulado nadava à flor das coisas, velando-as para o
tranquilo sono em que iam adormecer.

E a tal hora e no meio de tal silêncio, o barquinho branco deslizava
mansamente sobre a água tranquila do rio, onde as primeiras estrelas
começavam de lampejar. Dentro dele, os dois irmãozitos silenciosos
iam-se deixando enlevar naquele ruído suave dos remos abrindo fendo
nas águas… Não! era bem certo que eles não tinham jamais sentido uma
tão poderosa e viva alegria–alegria doida que lhes transvazava do peito,
fundindo-se em energia nos músculos e cristalizando-se nos lábios em
sorrisos.

Dentro daquele adorado barco, assim no meio do rio, eram senhores
absolutos da sua vontade, poderiam ir para onde lhes parecesse, livres
de admoestações alheias, sozinhos, independentes. E esta feliz convicção
de liberdade alcançada, fazia-os agora orgulhosos, além de os encher de
alegria. Por certo eles nunca tinham sido tão felizes, e quem sabe se o
seriam jamais?… No entanto a noite acentuava-se. Espertava nas
margens o marulho da água nas raízes fundas dos salgueiros. No céu alto
e sereno cintilavam as estrelas em cardumes.

–Remas, António?–perguntou o do leme.–Olha se a vês…–E apontava
para Vésper, a estrela que mais brilhava.

Tinham os dois concebido o estranho desejo de alcançar a estrela cujo
brilho diamantino os fascinava. Tão linda!

–Anda-me tu com o leme!–tornou-lhe com intimativa o Manuel.–Ai a
estrelinha! Deixa que ela faz-se fina, mas havemos de passar-lhe
adiante, só por isso…

–Olha o milagre! Ela está queda!–fez o outro, convencido da
facilidade da empresa.

–Está queda, está queda, mas sempre na frente de nós; vai lá
entendê-la. Olha como brilha, ó António.

–Mas rema que eu cá vou, falta pouco. Ao direito daquela fraga é que
ela está.

Não era difícil passar-lhe adiante, qual era? Era menos de meia hora
era certo alcançá-la.

E engastada no azul escuro do céu, a estrela parecia brilhar mais,
quanto mais a olhavam.

–De que são feitas as estrelas?–perguntou o mais novito.

–De prata, pois está visto.

Então o outro, lançando um amplo olhar à vastidão infinita do céu,
exclamou:

–Eh! tanta prata!

–O sol, esse é de oiro–disse ainda o Manuel.

–Bem de ver!–volveu-lhe convencido o irmão.–Que eu, se me dessem à
escolha, antes queria as estrelas. Olha que rebanho!

–Pois eu antes queria o sol. Com licença do teu querer, sempre é mais
grande.

E enquanto falavam, os dois não desfitavam olhos da estrela feiticeira
que perseguiam. Os remos, no entanto, iam abrindo fenda na água, com
certo ruído muito doce… E lá no alto céu, dir-se-ia que de instante
para instante a feiticeira estrela mais brilhava, incitando-os.

–Vê-la a fazer assim?–e pôs-se a pestanejar, imitando a palpitação
crebra e irregular da luz sideral.

–É que tem sono–respondeu o outro.

–Olha que não. Aquilo é a fazer-nos negaças, _tamém_ to digo.

–Ai é?! Pois que faça as negaças e que se descuide: se malha cá baixo,
bem se afoga…–E apontando-lhe um punho cerrado, gritou a rir:–Eh,
_boieira_!

Neste momento, uma estrela cadente abriu esteira de prata no azul,
sumindo-se rapidamente. Os pequenos ficaram com medo e ambos murmuraram
em tom de reza as palavras rituais:

Deus te guie bem guiada,
Que no céu foste criada.

–Vês? disse o Manuel que era dos dois o mais supersticioso.–Torna a
apontar para elas… Eu cá não aponto, que nascem «cravos» nas mãos.

–A ti talharam-te o ar, ó Manuel.

–Diz a mãe. À meia-noite levaram-me à fonte e esparrinharam-me água
para o corpo. E a água havia de estar fria… observou, encolhendo os
ombros. Depois, viraram-me para as estrelas e disse então a mãe:

Ar vejo,
Lua vejo,
Estrelas vejo:
O mal do meu corpo
Pr'a trás das costas o despejo.

Riram muito. O Manuel, despidinho, couracho ao colo da mãe, havia de ser
engraçado. E então todos de volta, a ver quando o ar se talhava.

–Mas talhou-se. Agora, em paga, uma vez por ano, ao menos uma vez por
ano, tenho de olhar pelos ralos do lenço p'r'as _cinco chagas_, umas
estrelas que além estão, e rezar uma ave-maria.

–Sempre, sempre?

–Até que morra. Depois de morrer vou morar três dias com três noites
dentro de uma.

–Ora! tornou-lhe incrédulo o irmão.–Tu não cabes lá…

–Não sei: assim é que anda nos livros.

…Mas os braços doíam já dos remos, doíam muito…

Devia ser tarde, e eles sem darem fé, enlevados como iam no desejo
louco de alcançar a estrela.

A noite estava calma, não bulia nas ramagens ramo verde de salgueiro, um
silêncio contínuo dominava tudo em volta. E amolentadora e múrmura, a
água da corrente ia espumando na quilha, com certo ruído de uma brandura
suavíssima e doce.

…Mas os braços cada vez doíam mais!…

Agora, no céu, havia muitas estrelas brilhantes, muitas, mas nenhuma
como aquela, ainda assim. Entretanto os dois pequenos entraram de olhar
menos para ela, pois que irresistivelmente a cabeça lhes pendia para o
peito, e as pálpebras se lhes cerravam, a despeito de todo o esforço.

…E os braços sempre a doerem!…

Por algum tempo, os remos foram com a pá mergulhada na corrente,
cortando-a com levíssimo ruído. Imobilizara-se também o cabo do leme,
sem que nenhum dos dois irmãos desse fé do súbito desleixo do outro.

…E os braços já não doíam, nem ao de leve sequer…

O pequeno barco vogava agora à mercê da corrente, sem impulso algum
estranho. Dentro dele… a música levíssima das respirações dos dois
pequenos adormecidos…

Algum tempo assim. Senão quando, um ruído surdo, e logo um movimento
brusco de balanço, fez acordar o do leme.

Na grande alucinação do perigo, desvairado pelo medo, gritou
imediatamente:

–Manuel! Ó Manuel!

O remador acordou, sobressaltado.

–A estrela? Ainda lá está, olha!–disse incoerente, estonteado pelo
sono.

–Uma fraga de cada lado! Ouves o rio? É já muito tarde!–continuou
aflito o António.

–Então não lhe passamos adiante?–perguntou ingenuamente o Manuel,
referindo-se ainda à estrela.

Mas o irmão, sacudindo-o convulsamente, procurando chamá-lo à realidade,
de novo lhe gritou, com lágrimas na voz:

–Manuel, acorda! Olha que estamos perdidos, Manuel!

E mal conheceram o grande perigo em que estavam, ambos romperam num
choro muito convulso, agarrados um ao outro, feridos de um terrível
susto que a hora e o lugar aumentavam cruelmente. Parecia-lhes medonho
aquele marulhar contínuo da corrente, afligia-os como se fosse o
psalmodiar monótono e rouco de uma legião de espíritos maus,
preludiando-lhes as agonias lentas da morte. Aos dois pequenos os
rochedos informes das margens afiguravam-se-lhes negros gigantes, que
num requinte de malvada indiferença houvessem jurado assistir
impassíveis e mudos à escura tragédia da sua desgraça.

E o barco sempre encalhado, não havia forças que o arrancassem dali.
Tinham perdido os remos. Teriam de esperar que amanhecesse e alguém
viesse acudir-lhes, alguém que ouvisse de longe os seus aflitivos
gritos.

Crudelíssimo transe!…

E então os braços continuavam a doer, doía-lhes agora o corpo todo, ao
mesmo tempo que uma tristeza mais e mais pesada lhes oprimia o
espírito, parece que embrutecendo-os.

–Mas a estrela sempre além…–notou ainda o Manuel, balbuciante de
medo, como se quisesse increpar a própria estrela da sua indiferença
criminosa, no meio daquele enorme infortúnio em que por causa dela
se haviam precipitado.–Se ela pudesse acudir-nos…

Até que por fim, prostrados da fadiga e das lágrimas de novo se deixaram
adormecer, era já alta noite.

Mas na sua fúria constante, a corrente que ali era muito forte não
cessava de bater contra as pedras o pobre barco indefeso. Até que após
tamanho lidar, o rio safou-o de repente para um lado onde as águas se
contorciam em remoinho, e entrou de girar com ele, violentamente.
Quando a água se precipitou para dentro, os dois pequenos assim de
súbito acordados romperam em gritos lancinantes:

–Ai quem acode! Ai Jesus, quem nos vale!

Tinha surgido a manhã, serena, tranquila, cheia de gorjeios e de azul.
Mas como ninguém acudisse e a luta no rio fosse desigual, num repelão
mais violento o pobre barco esfacelado investiu de proa com o abismo e
lá se sumiu para sempre! Feridos de morte, no último paroxismo da sua
enorme dor desesperada, os dois irmãozitos abraçados sumiram-se também
com ele!…

* * * * *

…Nesse mesmo instante…–e mais longe do que nunca–…a estrela
feiticeira acabava de cerrar também a pálpebra luminosa!…

MÃE!

_Ao Dr. J.C. da Moita Prego_

Bela cabra, a Ruça!–posso dizê-lo aos senhores. A melhor da manada,
luzida, de pêlo macio, sem saliências de ossos como as outras, altiva
de porte quando à frente do rebanho parecia comandá-lo, badalando
cadencialmente o seu chocalho enorme–tlão! tlão! Era no rebanho a que
mais dava que fazer ao pastor, requerendo vigilâncias particulares no
seu atrevimento, pois que se a deixassem livre não havia árvore a que
não trepasse, oliveira especialmente, nem rebento novo que não
triturasse esfomeada no seu dente acerado de roedora.

E depois, ali onde a viam, estava cara só pelas coimas, que muitas
vezes iludira ela a atenção do pastor, e se ficara por hortas e
quintalórios, causando estragos que os louvados depois avaliavam caro.
Por isso Alípio José, pastor, a quem doíam as denúncias, ao pescoço da
Ruça prendera o chocalhão, para dar do atrevido animal mais fácil
rumor, pois era de timbre muito distinto dos demais, e muito mais
grave.

Em pastagens pelos montados, a Ruça era de uma audácia extrema. Fazia
gosto vê-la trepar às últimas cumeadas, subir destemidamente às arestas
superiores dos rochedos, muito serena, erecta nas suas pernas delgadas,
pescoço alto, ajoelhando destemida a retoiçar as ervas dos declives
alcantilados e escorregadios, não medindo perigos nem se importando com
abismos, enquanto as companheiras se ficavam pelas encostas e córregos,
saboreando as giestas, sem se atreverem a segui-la nas suas excursões
arriscadas de _touriste_.

Se a miravam de baixo, sentia-se orgulhosa de superiores audácias, e
então cabriolava em saltos funambulescos, de rochedo em rochedo ou de
garganta em garganta, pouco se lhe dando de perigos. Cobra que
encontrasse por essas paragens era para ela um desespero–tamanha a
fúria com que a perseguia, e a insistência com que se ficava às marradas
na lura onde se lhe acoitava. O chocalho então badalava com força, e o
Alípio que dormia à sombra das azinheiras, de chapéu sobre a cara,
levantava-se sobre um cotovelo e intimava para o alto, com o seu
vozeirão que fazia eco:

–Toma tento, Ruça!

E depois, de ventre para baixo, estirado sobre a manta, cotovelos
fincados no chão, os queixos entre as mãos espalmadas, Alípio José
ficava-se a olhar a cabra, invejoso daquela facilidade em subir aos
últimos pináculos, admirado dos saltos que ela fazia para salvar
gargantas pedregosas e perpendiculares, onde, se caísse, a morte seria
infalível. E por lá andava dias inteiros a Ruça, naquela
vagabundagem por sítios inacessíveis ao resto do rebanho,
resguardando-se da chuva em recôncavos de rocha, onde as águias faziam
ninho.

* * * * *

Foi num desses sítios que a Ruça teve o primeiro filho, e por lá se
deixou ficar, acho que dormindo ou toda a noite velando. Ao outro dia
quis ela descer, e vir para o rebanho que a aguardava. Mais de cem
vezes, fitando o topo da ladeira, Alípio José gritara cá debaixo, cada
vez mais desesperado:

–Volta ao rebanho, Ruça!

E, cuidando que mais lhe feria assim a atenção, punha-se a agitar com
fúria o molho dos chocalhos, gritando sem cessar:

–Ruça! torna ao rebanho, Ruça!

Mas impossível! que a não deixava a quebreira em que toda ela ficara do
parto, nem o pequeno poderia–pobrezinho!–descer por tais ladeiras, de
pedregosas e ásperas que eram.

Mas de noite o frio era intenso naquelas alturas, e o pequeno
congelava unindo-se à mãe que o bafejava para o aquecer, e a si o
aconchegava mais e mais para lhe transmitir o natural calor do seu
corpo enfraquecido e doente.

Por altas horas da noite, na solidão lúgubre daquele sítio,
alcantilado e íngreme, entre penedias escarpadas onde o vento sibilava
lugubremente, num como choro dolente e prolongado, o balido da mãe,
traduzindo angústias e desesperos íntimos, respondia ao vagido fraco do
filhito, cuja vida parecia ir-se apagando de hora a hora e instante a
instante, inteiriçando-se-lhe com o frio os membros delicados e tenros.

Eram assim as noitadas dos desgraçados. Por tais frios e doenças,
impossível dormir. Toda a noite velavam e gemiam, achegando-se mais e
mais num como abraço de eterna despedida–amigos que se iam apartar
para uma longa viagem de trevas, com o coração alanceado pela saudade,
soluçando e gemendo, num adeus! que era infinito, como o infinito amor
que os unia…

E a cada momento, como um dobre de finados, o chocalho badalava
lugubremente, assustando o animalzinho, como se aquele fora o sinal
para o transe derradeiro…

Para maior desgraça, as noites eram sem lua. Encravadas na abóbada, as
estrelas bocejavam dormentes, numa criminosa indiferença por aquela
dor suprema de que eram as únicas testemunhas.

E balando muito, e balando sempre, a pobre cabra imprecava ao céu a vida
do filho, ao menos,–ora súplice em balidos de resignação que uma
profundíssima dor ungia, ora desvairada e louca, em gritos que
significavam blasfémias, blasfémias de desespero contra o céu que a
não ouvia, e contra a morte que bem sentia aproximar-se para lhe
estrangular o filhinho que ela amava tanto.

E a fazer-lhe mais incruenta a sua enorme dor–a ironia acerba da
chocalhada longínqua das companheiras, que se iam pelos montes da outra
banda, deixando-a a ela sozinha com o filho, à espera da morte que era
inevitável.

Então ergueu-se por instantes! Agitou convulsamente o pescoço, e pelo ar
fora o som triste do chocalho espraiou-se lentamente, num adeus! adeus!
de despedida às companheiras felizes que lá iam, num ruído longínquo de
chocalhos…

* * * * *

Naquela solidão os dias eram melhores. Com os primeiros raios do sol
entravam de reanimar-se os dois; pouco a pouco os membros desentorpeciam
e o sangue circulava.

E o cabritinho sem poder ainda descer!…

De pé, ao lado do filho, a pobre cabra lançava olhos compungidos para as
escarpas da ladeira, ia para um lado e outro, desvairada e trémula, como
que a escolher o melhor caminho por onde levasse o filho. Mas eram todas
horríveis! Silvedos e rocha viva era o que mais se via. E depois o rio,
lá baixo, rugia nas cachoeiras, aumentando-lhe o receio.

Impossível! impossível!

E sentia-se enfraquecer à míngua de sustento, pois a erva, por ali,
estava comida e recomida pela pastagem miserável de três dias.

Num momento de desespero, quando os gemidos do filho eram mais dolentes
e crebros, refez-se de coragem a cabra, e segurando entre os dentes o
chibo tentou o primeiro passo, arrastando-o pela ladeira, do lado em que
o declive era menor. Mas em breve desanimou a pobre, que o filhito,
assim arrastado, mais e mais gemia, convulsionado e trémulo…

Impossível! impossível!

Nada que signifique a dor daquela mãe, e traduzir possa em linguagem
toda a gama de sentimentos e emoções no seu balar expressos. Atirou-se
de joelhos sobre o corpinho do filho que hirto chorava e tremia,
estendido para ali, na prostração pesada do último desalento; animava-o
com carícias, aproximava-lhe da boca os úberes já flácidos e
amolentados, convidando-o a mamar, como se aquele leite pudesse levar
ao filho a coragem que a ela própria faltava em tamanho transe
aflitivo…

Mas pouco a pouco a noite ia caindo. Tinha-se já apagado a última
cambiante do poente, e sobre as gargantas dos montes passavam
subtilmente as primeiras névoas, alvadias e ténues. À medida que a treva
se condensava, decresciam os ruídos em todo o horizonte, acentuando-se
cada vez mais a melopeia sonolenta do rio nos açudes. Perpassavam pelo
ar as aves para os ninhos. Bandos de pombas, como flocos voláteis de
arminho, cortavam em voos mansos a profundidade calma do céu, demandando
os pombais e os povoados, onde se acolhessem da noite que vinha caindo.
Revoadas de perdizes e de tordos passavam por ali alegremente, num
chilrear sonoro, caindo de chofre sobre o monte, a esconderem-se nos
estevais e nas urzes. Pelas ervagens secas rastejavam apressados os
répteis, e sob os tojais bravios a lebre buscava a cama…

…E tudo tinha ninho–pombas que voavam e perdizada sonora, quem
passava no ar e quem rastejava no monte, lagartos, sardões, cobras, toda
a colónia vagabunda de répteis e de aves, que passou alegremente o seu
dia, e se ia recolher agora para recomeçar dia amanhã…

Só a desgraçada cabra, ali, junto do filho tenro, não mais fizera
passo. Com as brumas da noite, as brumas da tristeza para o seu coração
alanceado de mãe. Aí vinha o frio inclemente flagelar-lhe o filho…–o
filho que já tremia a ela aconchegado–o triste pobrezinho!

Rompia de toda a banda o gri-gri sonoro dos grilos, vivo e cantante
naquele silêncio que se definia. Cerrou de todo a noite. O céu era
baixo e torvo de nuvens. Estrelejava a espaços a abóbada, irradiando
uma luz mortiça e alvadia, que levava a pensar em últimos transes de
crianças, em que a vida gradualmente se extinguisse, num latejar
vagaroso de pálpebras sonolentas…

Mais álgida fazia a noite, e mais pesada de melancolias, essa torva
aparência da atmosfera e do céu. Noite pior do que as outras, porém
com menos balidos, pois que mãe e filho estavam extenuados de forças e
nem gemer podiam. E a morte que não vinha arrancá-los do abraço em que
se uniram, mal cerrara a noite!

A pequena distância, o monte era cortado de profundíssima garganta em
rocha viva. Do lado oposto, e quase defronte dos moribundos,
acenderam-se na treva dois pontos fosforescentes, de uma claridade
esverdeada rútila. E, imóveis, esses dois olhos estoirados de lobo, a
que parecia terem arrancado as pálpebras, projectavam a sua luz sinistra
na direcção do grupo que velava. A natureza inteira retraía-se num
como pavor medonho, concentrado de íntimos terrores e silêncios lôbregos
de horas altas. Cerrava-se mais no céu a falange muda das nuvens,
densificando-se em tintas negras, impenetráveis e caliginosas, sem
cintilas de estrelas, por fugidias e ténues que fossem…

E sempre, e constantemente imóveis na escuridão pesada, aqueles dois
olhos flamejavam, de instante a instante mais vivazes, perscrutando a
treva da direcção mais exacta do grupo. Transida de susto, arquejando
convulsamente no último paroxismo da sua enorme dor, a pobre mãe não
ousava arriscar um único movimento e mais e mais cerrava contra si o
corpo inanimado do filhito que parecia adormecido.

Assim durante horas que aquele atrocíssimo suplício fez enormes, quase
eternas, tumultuosas de acerbos sofrimentos e de indizíveis angústias,
vazias de esperança na vida do seu pequenino filho.

De repente, aqueles dois pontos brilhantes apagaram-se na treva, e de
novo os viu brilhar a cabra, mas já a maior distância. Estremeceu a
pobre de súbita alegria,–e no abalo que sofreu o seu corpo, até então
retraído, o chocalho badalou. Voltou a correr o lobo, e então a
desgraçada viu errarem na treva, como dois grandes coleópteros de asas
fosforescentes, os olhos até então imóveis do inimigo. E por ali
levou a noite toda, farejando e uivando, até que cansado de perscrutar o
insondável, se foi ladeira abaixo, aos primeiros assomos da madrugada
que vinha, docemente, alumiando píncaros e arestas.

* * * * *

Ao romper da alva o céu era azul. Apenas de longe em longe penachos de
nuvens brancas ondulavam as suas cristas alvadias, que se esfarpavam
lentamente ao menor sopro da aragem. Pouco a pouco o azul ia desmaiando,
diluindo-se na luz esbranquiçada que vinha do alto em gradações
imperceptíveis e suaves.

Começavam de animar-se os longes da paisagem, e a retina acusava já as
diferenças mais salientes dos campos e herdades, pedaços esbranquiçados
de restolhos, tons pardos de olivais, terras plantadas de vinhedo, e
pinheirais cerrados galgando desfiladeiros e investindo com o céu no
alto dos montados.

Pelas ladeiras dalém, caminhos e atalhos corriam em torcicolos até ao
areal da margem. Em turbilhões de espuma alvíssima precipitava-se a água
nos açudes, marulhando nos altos penedos marginais, denegridos e
informes, de uma mudez contemplativa e perpétua. Do tecto do moinho, lá
em baixo, uma coluna azulada de fumo elevava-se tranquilamente no ar
sereno e doce, até se desfazer no espaço amplo e benigno, como uma
ambição ou como um sonho…

* * * * *

Foi então que Alípio José, à frente do rebanho, de novo abordou àquelas
paragens, no intuito de procurar a cabra tresmalhada.

–Ruça! torna ao rebanho, Ruça!

Mas precisamente a essa hora, a Ruça exalava o último alento, pendida
sobre o cadáver do pobre filhinho morto!…

E ao pino do meio-dia, quando o sol faiscava causticando nos
rochedos–passava na direcção da montanha, crocitando lugubremente, a
esfaimada legião dos amaldiçoados corvos…

ARRULHOS

_A M. da Silva Gaio_.

Ao fundo do jardim ficava o pombal–uma casinhola redonda, com orifícios
triangulares no alto, em toda a volta, alegre na alvura impecável do
muro que falava ao longe, muito ao longe, a léguas de distância.

–Pombal da Morgada! diziam.–Lá se vê além…–E um gesto muito longo
levava a vista horizontes fora, à cata do Pombal da Morgada, que
alvejava longe, muito distante, na meia sombra dos montes sobranceiros,
como um pequenino ermitério cheio de lendas, onde santos de carne e osso
provocassem romarias, promessas avultadas de pessoas ricas, e onde
seriam encantadoras as tardes quentes de estio, à sombra de árvores
seculares em cuja ramagem trinassem pássaros em barda, pardalada sonora,
gralhadora, rindo da nossa merenda e da nossa sem-cerimónia–frangãos
assados e boa vinhaça da terra.

Pombal da Morgada porquê? História singular que vou contar-lhes. A
Morgada era uma senhora rica, muito rica, tinha vinte e cinco anos e
outras tantas quintas, viúva antes de casar, pesarosa da morte
desastrada do noivo–um trambolhão de um cavalo que o matara logo ali,
sem mais pio, num ai.

A recordar esse amor–um casal de pequeninos pombos que ele lhe dera na
véspera, simbolizando, dizia ele, a pureza da sua alma dela, e a
castidade das suas intenções dele…

Muito bem. Fez-se então o pombal, o casal procriou, vieram pombos
novos–todos brancos uns, raiados outros, de um _gris_ delicadíssimo
alguns, todos encantadores, veludíneos, muito mansos.

Belos pombos, na verdade!

Todas as tardes, quando as tintas do crepúsculo começavam de esbater-se
numa uniformidade vagarosa de tons, e a percepção clara das coisas
entrava de se desfazer em imperceptíveis _nuances_ subtis, num
_smorzando_ melancólico onde palpitavam vagos terrores de noite que vem
caindo, quando os vales se cobriam de uma sombra azulada e a vida
cessava no campo e começava no céu em cintilações argênteas de
estrelas–todas as tardes, digo, quem quer poderia ver aberta a
estreita porta do pombal, e uma mulher nova, vestida de preto,
espalhando no pavimento térreo, com solicitudes de _menagère_, as
provisões de um pequeno cabaz que lhe pendia do braço–milho em
abundância e fartura de alpista.

Assim todas as tardes, ia já em quatro anos, que não havia forças que
levassem a Morgada para fora do seu pequeno solar, onde vivia só,
retirada de tudo, a tudo indiferente, impassível a pedidos de amigas
que saíam para as praias, no Inverno para Lisboa, e que a queriam levar
para que se distraísse, para que se alegrasse–«era nova ainda, podia
arranjar noivo, nada mais fácil…»

–E as pombas? objectava.–Mas era pecado deixá-las, dizia consigo.
Quando voltasse estaria deserto o pombal, umas que fugissem, outras que
matassem, haviam de até roubá-las, entrar de noite no pombal, levá-las
todas.

–Que não e que não! insistia renitente;–que tivessem paciência, que se
divertissem muito, ela ficava.

–Platonismos! gargalhavam depois as amigas.–Saudades do outro que
rebentou do trambolhão. Bem tola!

E partiam sós, rindo da Morgada e do seu amor pelas pombas, achando-a
ridícula com aquele seu luto perpétuo, escarnecendo da simplicidade
habitual da sua _toilette_–vestido preto todo liso, muito afogado, um
pequeno _ruche_ no pescoço e mangas, nem uma prega, nem sequer um laço.

Muito respeitadas, as pombas da Morgada. Caçador que as visse não
desfechava sobre elas. Assim, a manada crescia de hoje para amanhã,
desenvolvia a propagação o bom tracto, a habitação confortável, muito
abrigada de ventos, onde a chuva não entrava e os ninhos eram
flácidos–folhas de milho mudadas cada dois dias.

Que bom, ser pombo da Morgada!

A música dos arrulhos, uma volata muito lânguida, começava com o
aclarar, muito cedo, depois do descanso do sono na placidez do ninho,
quando as forças eram sãs e as asas pediam vos.

Hora dos amores!

Pombos atrevidos, sanguíneos, de íris rutilante e índole impaciente,
lançavam-se sobre as pombas, forçavam-nas, perseguiam-nas se voejavam,
ameaçando-as de bicadas primeiro, picando-as nas cabecitas se resistiam,
possuindo-as à força, a tremer, asas em concha, penugem eriçada,
arrulhando muito, arrulhando sempre, caindo desfalecidos depois,
hirtos, pálpebras cerradas, trementes, frementes, em espasmos de luxúria
e paroxismos do gozo; enquanto elas, as pombas, se emplumavam agora de
contentes, sacudindo as asas, pescoço levantado, orgulhosas talvez,
muito felizes.

Outros então, mais meigos ou mais pachorrentos, mais velhos por certo,
quedavam-se horas seguidas, horas longas, defronte da sua eleita, numa
doçura plangente de musicais arrulhos, frementes de desejos, mas pedindo
às boas, não querendo violências, detestando-as, bem se via,
suplicando, rogando, comovendo. E se logravam intentos, redobravam os
carinhos, havia meiguices de jeitos e friccionamentos leves de
penugens, arrulhos mais doces e toques delicadíssimos de bicos–beijos
com certeza.

Isto todos os dias, nas manhãs enevoadas especialmente. Imagine-se a
vida do pombal àquelas horas:–pombas que voejavam assustadas, esquivas
mesmo, e pombos que as perseguiam; pombas que condescendiam e pombas que
queriam arrulhos: quem não voasse arrulhava, quem não arrulhasse voava;
e tudo gozava–quem era feliz e quem estava para o ser, quem era
sanguíneo e quem era pachorrento.

Ar dos campos, depois; alegres, muito amigos, pousando todos quando um
pousava, retomando voo se um voava, sempre juntos, sempre na mesma
direcção, a beber no mesmo ribeiro, em linha, todos a um tempo, num
ruído muito doce de bicos que sorviam.

Ainda com sol, iam pousar de revoada no telhado da casa onde habitava a
Morgada, participar-lhe por certo que iam recolher, cumprimentá-la ao
balcão da sua janela, alegre de trepadeiras em flor, pousar-lhe nos
ombros, na cabeça as mais ousadas ou as mais amigas, segredando-lhe não
sei que arrulhos que ora a faziam sorrir, ora lhe traziam lágrimas, mas
que sempre provocavam novos afagos, afagos intermináveis:

–Minha pombinha… minha amiguinha… minha querida…

Dali para o pombal, continuar aquela vida de boémios felizões, vida
de concubinagem, numa promiscuidade sem limites e numa libertinagem de
harém.

Poligamia desenfreada!

Excepção a ela, apenas um casal–a melhor pomba da manada, pomba
branca, de uma alvura impecável de neve, e então um pombo raiado, preto
e cinzento, de _nuances_ azuis-escuras, ares aguerridos de lutador
vaidoso, um D. Juan emplumado, tentador.

Era o pombo mais atrevido do pombal, o de génio mais insofrido e
espasmos menos longos, muita vida, numa mobilidade contínua de pescoço,
nervoso, libertino. Pomba que desejasse possuía-a, sem arrulhos prévios,
sem pedidos, brutalmente se resistia, pacificamente porque muitas se lhe
entregavam, preferiam-no, vinham deitar-se-lhe no ninho, disputando
primazias à força de bicadas.

E umas atrás de outras, e dias após dias, sempre assim!

Mas todas fugiam em seguida, não sei se de esfalfadas, se para dar lugar
a outras; uma só, a pomba branca, se quedava ao lado dele, paciente,
resignada, num arrulhar cada vez mais doce, cheio de ternuras, muito
meigo, idealmente brando, que agradava ao raiado, que o ufanava,
incitando-o, convidando-o, provocando-o. Por isso entrou de aborrecer as
outras, achando-as menos pombas, umas desavergonhadas que se iam
entregar a outros, e de se afeiçoar à branca, a ela só, acarinhando-a
muito, arrulhando com ela, alternadamente, ora um ora outro, gemendo
amores.

Não imaginam os senhores nem há nada que possa dar ideia da desordem, da
perturbação que isso levou ao rancho tão dado a instintos cómodos de
poligamia, tão avesso a duetos daquela natureza, onde os pombos eram
de todos e as pombas eram comuns.

E tal desordem subiu de ponto com o proceder do casal que levava dias
inteiros dentro do pombal, sem sair, numa concubinagem que revoltava de
egoísta. E quando saíam não se juntavam com os outros–uma desfeita! uma
ofensa!–tomavam rumo diferente: para a direita se os outros iam para
a esquerda, para a esquerda se os outros iam para a direita, sempre ao
contrário.

Recolhiam mais cedo, com sol ainda, e quando os outros vinham, já os
encontravam no pombal, em ninhos contíguos a princípio, no mesmo ninho
depois!

Um escândalo! Um desaforo!

E planeavam-se ataques, desfeitas ao casal, muitas desfeitas.

Se os dois eram felizes arrulhando manso, entravam os outros a arrulhar
forte, troça talvez, desespero decerto, todos juntos, combinados. E se
isto não bastava, começavam todos a voar, batendo muito as asas,
levantando a palha dos ninhos, precipitando-se sobre o casal, fingindo
quedas, dando bicadas os mais raivosos, ou então os mais despeitados…

Prestes o raiado saltava do ninho, opunha defesas de asas sobre a pomba
branca e tímida que o susto transia, inquieto, colérico; reagia depois,
lutava por fim, levando-os não raro de vencida, obrigando-os a fugir do
pombal em vergonhoso tropel, muito assustados, vencidos. E noite além,
entravam um a um, vagarosos, muito mansos, sem ruído de asas, receando
acordar o casal que dormia aconchegado, muito quente, pescoço escondido
sob a asa veludínea.

Dois meses assim–dois meses!–numa fidelidade conjugal ininterrupta,
digna de servir de exemplo a outros bípedes que eu conheço, que os
senhores conhecem, não?… Vida boa, na verdade, perfumada de arrulhos e
esplêndida de alegrias, passada em belas digressões campos fora,
pousando no mesmo ramo, bebendo na mesma poça, dormindo no mesmo palmo
de ninho, sonhando os mesmos sonhos, talvez…

Mas no fim desse tempo o raiado entrou de ter desconfianças, suspeitas
de inconstâncias e receios de infidelidades, de noite, enquanto dormia.
Havia certa frieza nos jeitos da pomba, menos ternura nos arrulhos,
modos de enfadada às vezes, certas perrices, resistências mal
disfarçadas. Ficava-se em casa se o raiado saía, impassível a
súplicas, muito mona, com elanguescimentos de pálpebras e quebramentos
de asas, uma desleixada; e espreitando-lhe o voo, tomava para norte se o
raiado ia para sul, vinha tarde e ia aninhar-se só, para lhe fugir.

Estava farta, vê-se. E como os outros a não queriam–rameira do
raiado!–um dia levantou voo e fez-se ao largo.

* * * * *

Abade de aldeia, conhecem, desses mui dados aos latins e ao
_vinagrinho_ de Xabregas, muito nacional e muito fino, bons velhos de
_quinzena_ e calça de alçapão, feros, muito rijos, à prova de
reumatismo e à prova de vintém, felizes na sua pobreza, amigos das
crianças, bem humorados sempre, flores de uma árvore que ora vai dando
cardos. Perto do solar da Morgada, a três quilómetros só, havia um assim,
o abade das Donas, bom pregador noutras eras, com famas de teólogo
ainda ao tempo.

–Disse-o o das Donas, colega! disse-o o das Donas!–era assim que
muitas vezes acabavam disputas acaloradas, salpicadas de vários latins,
sobre textos da Bíblia e passagens dos apóstolos.

–Teologia velha, diziam, a genuína!

A casa da residência era uma casa muito antiga, portas em arco, paredes
a desabar,–uma invernada forte e ia abaixo. O pátio da entrada era
térreo, rimas de lenha seca de um lado e doutro, seguia-se a cozinha,
um pequeno corredor, e ao fim uma velha varanda em ruínas que dava para
um quintalório, e cujas pedras se deslocavam, de mal assentes que
estavam.

Preferia-a o bom do abade para a reza das suas devoções, e nessa tarde
quem quer o poderia ver passeando-a a todo o comprimento, óculos na
ponta do nariz, breviário na mão direita, a dois palmos, a esquerda a
segurar a aba da _quinzena_, e um pequeno solidéu com borla
resguardando-lhe a calvície.

A interromper a leitura, de quando em quando, umas pequenas exclamações
de desgosto, arremessos de breviário, e por fim levantando a voz:

–Fome as pombas, Sr.^a Luísa: não fazem senão saltar…

–Bem fartas!–retorquiu de dentro, da labuta da cozinha,–mas têm lá
visita, pomba que arribou.

E depois informando:

–Pomba guapa, toda branca. São agora três ao todo, e então o pombo…

–Huum!… resmungou o abade em voz de reticências.–Percebo… percebo
perfeitamente…–E foi meter-se no quarto, continuar a
leitura.U+2014.Deixá-las! concluiu evangélico.

Era a pomba do raiado, adivinharam, que ali viera parar à reles
pelintragem daquele metro de gaiola feita de um caixão velho, com
grades só na frente, muito suja sempre, arrumada p'r'ali ao fundo da
varanda, húmida de águas entornadas, exalando maus cheiros, um nojo.

Quando a mostrava à criada, o abade dizia-lhe sempre:

–A sua vergonha, Sr.^a Luísa; a vergonha da sua cara. Como se os
animais não fossem também criaturas de Deus…

As pombas eram magras e o pombo era esquelético.

Fez-se de amores com ele, tomou-lhe os hábitos canalhas, manchando a
alvura imaculada das penas na imundície fétida da gaiola em que ambos
se aninhavam, arrulhavam, se espojavam. E como ela era gorda e bem
tratada, flácida de penugens e de carnação consistente, apetitosa, o
pombo não a largava–génio de libertino em corpo de tísico.

Em breve período entrou a pobre de emagrecer, sem forças para voar se
queria voar, quedando-se dias inteiros ao canto da gaiola, encolhida,
tristonha, arrependida talvez de ter deixado o pombal,–saudosa do
raiado, o seu primeiro amor, quem sabe!

E depois, o pombo sujo já não se importava com ela, desprezava-a,
tentara mesmo expulsá-la de parceiro com as outras, dando-lhe maus
tratos,–à intrusa. Dor incomparável!

Mas um dia o ataque foi mais violento e ela teve de fugir, de voar,
descansando amiudadas vezes, porque lhe faltavam as forças, arquejando
sempre, arrastando-se em voos baixos, sentindo vertigens se subia mais
alto. Para passar um ribeiro descansou uma hora, e quando cobrou alento
e começou o voo, viu-se na água e estremeceu, molhou ainda as asas, viu
um corvo na sua própria imagem, um corvo negro que a perseguia
silencioso, traiçoeiramente, que a ia talvez devorar… O que ela tinha
sido e o que era!…

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