Uma família ingleza Scenas da vida do Porto
VI
AO DESPERTAR DE CARLOS
Jenny ficou ainda por muito tempo immovel junto da porta, onde se
despedira do pae. O olhar corria-lhe pelos objectos que a rodeiavam; o
pensamento porém não acompanhava o olhar.
Aquellas feições, em que se podia reconhecer, mysteriosamente, combinada
á candura de uma creança não sei que severidade, toda maternal, tomavam
agora um ar de preoccupação e melancolia, uma d'essas sombras, que as
ideias graves parece projectarem no semblante de quem não aprendeu a
dissimulal-as.
Jenny presentia haver chegado uma nova occasião de ser necessario
intervir com a sua influencia pacificadora e angelica para dissipar a
nuvem, embora tenue, que assomava no horizonte domestico.
Exercera já de um dos lados essa influencia, conseguira adoçar as
disposições acerbas de Mr. Richard para com o filho; faltava-lhe porém o
resto, estava ainda incompleta a obra; era preciso ensaial-a sobre
Carlos tambem.
E Jenny, que bem conhecia o irmão, tinha fé em que o não tentaria
debalde.
Rompia porisso um raio de confiança por entre as sombras d'aquella
preoccupação.
Foi n'este estado de espirito que chamou André para que fosse acordar o
irmão.
André era o mais antigo criado da casa, especie de mordomo jubilado, que
servia Mr. Whitestone desde o seu estabelecimento no Porto e trouxera já
ao collo os dois filhos do inglez.
–Vá,–disse Jenny–diga a Charles que eu o espero na bibliotheca.
Carlos dormia tranquillamente, quando o velho André lhe entrou no
quarto. A respiração profunda, pausada e regular denunciava um somno,
livre de pesadelos e de sonhos importunos.
O criado, depois de escutar algum tempo aquelle som, unico que, com o do
bater da pendula vizinha, se percebia no quarto, caminhou com precaução,
bem escusada a quem vinha para despertar, até uma das janellas, que
entreabriu.
Espalhou-se então no aposento uma meia claridade, coada através das
longas cortinas que, soltas das abraçadeiras douradas, rojavam pelo
tapete.
Pôde então o velho observar a completa desordem que ia n'aquella sala.
Estes raios de luz, menos felizes do que os evocados pelo _fiat lux_ do
_Genesis_, póde dizer-se que vieram ainda illuminar um cháos; pois
difficilmente se encontraria mais apropriada expressão para designar o
aspecto do aposento, a cuja vista se dissolveu em sorrisos toda a sisuda
gravidade, desenhada nos labios e nas feições do mordomo.
A scena, de facto, escapa á mais esmiuçadora descripção.
Parecia que todos os objectos, alli contidos, haviam, durante a noite,
entrado em dança phantastica, de tal sorte os surprendera o dia,
deslocados da natural situação.
As cadeiras, amontoadas em desordem no meio da sala, haviam usurpado as
attribuições dos guarda-roupas; estes, abertos de par em par,
patenteavam o interior desordenado e quasi vazio, como após um saque de
cidade conquistada.
Nas mesas, nos sofás, em _voltaires_, no chão, por toda a parte emfim,
menos nos logares competentes, via-se casacos, coletes, calças, mantas
de differentes côres e feitios. O pavimento achava-se literalmente
alastrado de objectos de impossivel enumeração; aqui, umas luvas,
calçadas pela primeira vez na vespera e já postas de lado como inuteis;
alli, alguns ramos de flores desfolhadas e murchas, cuja posse,
procurada talvez com incansavel insistencia, trouxe depressa após si o
abandono e o esquecimento; n'outros pontos, charutos meio consumidos, os
fragmentos de uma preciosa jarra de porcelana da India, um livro, que
commettera o delicto de não excitar a curiosidade, uma cadeira derrubada
com o fardo que lhe pesou sobre o espaldar; cartas, collarinhos,
retratos, lenços, chicotes. As esporas no logar do relogio; este pousado
na beira do marmore do fogão; sobre o leito, um dominó de setim;
pendente á cabeceira, o jornal da vespera e um longo cachimbo com tubo
de gutta-percha; aos pés polvorinho de caça, o robe-de-chambre de
damasco e o teliz da horsa favorita; no velador, um tinteiro de prata,
transformado em cinzeiro de charutos; um chapéo pendurado na chave da
porta; o candieiro no chão, alguns livros e mappas geographicos quasi
debaixo da cama. Um _abat-jour_ de cartão envernizado com figuras
extravagantes, representando chins em posições todas chinezamente
ridiculas, servia de barrete ao busto de Shakespeare, cujo pescoço
estava além d'isso diplomaticamente enfeitado com uma gravata de baile;
defronte, Byron, coberto com chapéo de feltro de abas largas, o qual lhe
pendia galhardamente sobre a orelha esquerda, parecia fitar com
petulancia o seu illustre conterraneo; no outro angulo, era aquella
figura séria e bondosa de sir Walter Scott, com não sei que ares de
acanhado debaixo do barrete turco, que a guerra da Crimeia pozera então
á moda; e finalmente um quarto busto occultava, sob mascara de setim
preto, a expressão de candura e de soffredora tristeza do cantor dos
combates dos anjos e demonios, o sublime Milton.
Dir-se-hia que estes grandes personagens da litteratura ingleza,
obedecendo á voz do carnaval, haviam surgido da sepultura, para virem
celebrar tambem entre si, com as suas cabeças pallidas, a mais estranha
mascarada.
No meio de toda esta confusão, um enorme _terra-nova_, de ventas
leoninas e corpulencia de touro, languidamente recostado nas molles
almofadas do sofá luxuoso, pousava as patas musculosas e pelludas sobre
um magnifico album de gravuras, com a mais absoluta irreverencia pela
preciosidade, que assim lhe servia de cabeceira e de estrado.
Imagine-se o resto.
André, o methodico André, sorria e abanava a cabeça no meio de tanta
desordem. Demorou-se alguns instantes a examinar todo aquelle
desarranjo, que bem simulava os vestigios de recente lucta; depois
caminhou para o leito, afastou vagarosamente, de má vontade ainda, as
cortinas brancas, que o resguardavam, e curvando a cabeça, fitou os
olhos na fronte espaçosa e liza de Carlos, sem que se resolvesse a
acordal-o de dormir tão tranquillo.
Carlos tinha a physionomia sympathica e expressiva. O melhor do typo
saxonio encontrava-se alli. Os cabellos louros, curtos e naturalmente
annelados, deixavam-lhe livre a fronte ampla, de bossas proeminentes, e
cujos angulos se prolongavam por sobre as temporas; as côres eram do
alvo delicado, proprio dos typos septentrionaes; o nariz de perfil, em
que não entrava o elemento da mais desvanecida curva; os labios, algum
tanto grossos e levemente encrespados n'um sorriso, entre ironico e
affectuoso, prompto a caracterisar-se com facilidade igual n'um ou
n'outro d'estes sentidos; as palpebras longas, salientes e nas quaes, em
curvas azuladas, transparecia uma rede de pequenas veias, e em torno ás
orbitas o circulo de côr desmaiadamente rôxa, vestigio de longas noites
de agitadas vigilias; taes eram os traços principaes d'aquella
physionomia aberta e attrahente, que, em alguns d'elles, offerecia o que
quer que era de Byron. Os olhos, n'aquelle momento velados, possuiam
fogo correspondente á vivacidade do espirito que os animava; as feições,
paralysadas agora pelo somno, gosavam em vigilia de mobilidade extrema e
eloquente, outro ponto de analogia com as do poeta inglez, segundo a
crença dos seus biographos.
André acabou emfim por o chamar, mas com voz, que parecia de quem
desejava não ser escutado.
–Snr. Carlos–disse elle.
Apesar de pronunciada em tom baixo, e quasi a mêdo, bastou esta palavra
para o despertar.
Abriu immediatamente os olhos, fitou-os no criado e, estendendo os
braços n'aquelle quasi involuntario movimento, com que todas as manhãs
despedaçamos as ultimas cadeias com que nos algema o somno, deixou-lh'os
cair em volta do pescoço, como para apoiar-se, dizendo ainda com voz mal
distincta:
–Bons dias, André. Que horas são?
–Meio dia.
Foi a resposta que obteve, acompanhada de significativo sorriso.
–_Save us!_–exclamou Carlos, imitando a despenseira ingleza, de quem
era esta a phrase habitual, e ao mesmo tempo voltou os olhos para o
relogio fronteiro, o qual, como em resposta a esta mimica
interrogatoria, bateu doze lentas e sonoras pancadas.
–Pois não me parecia–continuou Carlos, ao acabar de contal-as.–Ia até
estranhar-te a madrugada, sabes tu? E… e… o pae?
–Saíu já.
–E… e que disse?
André encolheu os hombros, respondendo:
–Nada.
Era a maneira de exprimir que alguma cousa dissera.
Carlos comprehendeu isto mesmo, mas não perguntou mais nada.
–Toca a pôr a pé, que são horas!–dizia o André, occupando-se a
levantar alguns dos objectos que via pelo chão.
–Deshumano, cruel, que me recordas?–respondeu-lhe Carlos em tom de
recitação tragica.
–Vamos, vamos, preguiçoso.
Carlos abriu ainda outra vez a bôca em gesto quasi sentimental de
despedida ao somno que se afastava; afagou com a mão o colossal
_terra-nova_, que veio pousar-lhe a cabeça nos joelhos, e abriu ao acaso
o livro que encontrou á mão, um romance de Dickens, do qual leu algumas
linhas distrahido.
–Então?–insistiu o André, vendo-o pouco disposto a levantar-se–Fica
ahi?
–Vae-me buscar o almoço, homem. Traze-me só café. Parece-me que inda
agora terminei aquelle turbulento jantar de hontem.
–Então quer almoçar aqui?
–E julgo que é uma resolução muito louvavel.
–Mas…
–Mas o quê?… Que objecções lhe pões? Falla.
–É que miss Jenny espera-o na bibliotheca.
Carlos de um salto sentou-se na cama.
–Ó pateta! e inda agora me vens com isso? Depressa–chega-me d'ahi esse
robe-de-chambre.–Isso não… não vês que é um dominó?… Anda…
avia-te… Aquelle lenço… O outro… Bem… Vae… Dize a Jenny que
n'um momento estou com ella.
E depois de proceder com a maior celeridade áquelle ligeiro _toilette_
de manhã, Carlos entrou na bibliotheca, onde Jenny o esperava.
Era n'esta bibliotheca que muitas vezes os dois irmãos se entregavam a
leituras communs, restos de habitos adquiridos na infancia, quando pelos
mesmos livros estudavam, formando um gracioso grupo de cabeças louras,
objecto das contemplações apaixonadas e das bençãos cordiaes de Mr.
Richard Whitestone.
–Bom dia, Charles–disse Jenny, estendendo-lhe a mão, que elle apertou
affectuosamente.
–Fiz-te esperar muito, filha? Perdôa-me; mas aquelle pateta não soube
dizer-me logo que tu…
–Desculpa mandar-te acordar, mas…
–Fizeste bem; senão, dormiria até á noite.
–Vieste hontem muito tarde, Charles–disse Jenny, abaixando-se
disfarçadamente para acariciar o _terra-nova_, que se lhe deitára aos
pés.
–Pois ouviste-me?
–Ouvi.
–Então acordei-te, Jenny? Não foi por falta de cautela, porém… sempre
sou um desastrado!
–Não, não acordaste. Eu não tinha adormecido ainda.
–Não tinhas adormecido! Ás quatro horas! Estiveste doente, Jenny?
–Não, mas…
Carlos olhou para a irmã com uns modos, que procurou tornar severos.
–Querem ver que foi por minha causa?… Então que te tenho eu dito,
Jenny? Fico de mal comtigo se tornas a ter essas canceiras por mim, a
ponto de…
–Não, não foi por canceira, é que…
–É que tu és uma teimosa e o que merecias…
–Não se trata agora d'isso. Dize-me: vens hoje mais cêdo?
–Hoje! Á terça-feira de entrudo! Ó Jenny! Deixa ao menos passar o
carnaval, deixa já agora acabar esta maldita época, e depois… depois
verás que hei de ficar muitas noites em casa ao pé de ti e de… Tens-te
enfastiado muito aqui só, não tens, pobre pequena?
–Ora, não fallo por mim; mas… é que… isso faz-te doente por certo,
Charles. Esses jantares tão longos… Essas noites tão mal dormidas…
–A mim?! A mim nada me faz mal, filha; lá por isso…
–E depois… Olha, Charles, ha devéras tanto tempo já que te não vemos
comnosco, á noite… Não é por mim que fallo, repito; mas o pae… bem
sabes, antigos habitos… gosta de nos ver reunidos todos… a certas
horas. Coitado! Não digo sempre, mas… ás vezes, de quando em quando,
se te não custasse…
–Pois sim, Jenny, pois sim. Deixa voltar o verão, que eu prometto…
prometto que, muitas vezes até, hei de fazer o que dizes. Mas as noites
de inverno! As noites de inverno, não obstante tudo quanto imaginou
aquelle bom Thomson nas suas _Estações_, são tão longas para se passarem
em casa!
–As de estio… depois… já sei… has de achal-as tão formosas que…
–Não–replicou Carlos, sorrindo;–então depois de eu te prometter havia
de… Mas, olha cá, Jenny, tu és muito boa, e já sei que me vaes até
ralhar por o que eu vou dizer; mas deves concordar em que de facto é
pouco agradavel, para um rapaz da minha idade pelo menos, a maneira por
que o pae costuma passar aqui as suas _soirées_. Aquelle eterno _Times_,
aquelle _Times_ sem fim aterra-me, Jenny. A _Biblia_ é um livro que
respeito e admiro, mas tremo um pouco das paraphrases dos nossos
reverendos lettrados; confesso que tremo. O _Tristam Shandy_ do Sterne
já o sei de cor; no _Tom Jones_ de Fielding, quando o não tivesse ainda
lido, não haveria já capitulo de que não fosse bem informado, á força de
o ouvir citar; e, a fallar verdade, ter de passar uma noite a escutar,
mais uma vez, os commentarios a um e outro, com que fatalmente nos
flagella o inesgotavel enthusiasmo paterno… a fallar verdade!
–Charles!–disse Jenny, em tom reprehensivo.
–E para cumulo dos males–proseguiu Carlos–estar sempre debaixo da
permanente ameaça de uma visita do _spleen_ de Mr. Morlays ou da, não
menos para temer, jovialidade de Mr. Brains, Heraclito, e Democrito,
inglezes que o sabor nacional tornou mais difficeis de digerir ainda, do
que os proprios philosophos gregos. Ahi está o que me faz procurar
aquelles logares onde, como diz Thomson: «sussurra um publico, possuido
de todos os assumptos, e animado de mixtos discursos».
Jenny não pôde deixar de sorrir ás reflexões do irmão; mas, como para
diminuir o effeito d'esta fraqueza, apressou-se a dizer-lhe:
–Pois sim, Charles; mas nem hontem! Hontem, na verdade!… no dia dos
teus annos!…
–Então que queres, menina? Não me lembrei de tal, realmente. Acredita.
Reputo tão pouco motivo para festas o facto do meu nascimento!
–Mas os que te estimam formam melhor opinião d'esse dia. Nem lhes
queres dar o prazer de t'o affirmarem?
–Daria se… se me lembrasse.
–O pae destinava-te uma surpreza. Coitado! Fez-me pena a maneira por
que elle me encarregou, ainda ha pouco, de te entregar este
relogio–disse Jenny, passando para as mãos do irmão o presente de Mr.
Richard.
–Devéras?! Pois elle… Pobre pae! Vês? E eu que lhe roubei esse
prazer! Ai Jenny, esta minha cabeça! Tu inda ao menos sabes o que me vae
no coração, não é assim?
–Sei, Charles, sei.
–Mas os outros…
–Todos te fazem justiça, só tu é que…
–Mas repara, Jenny, é um relogio magnifico este; pois não é?! Bem; não
ha que ver, snr. Carlos; é preciso que pela sua parte faça alguma cousa
tambem. Está dito; não esperarei pelo verão. O carnaval está a expirar;
acabando elle … penitenciar-me-hei na quaresma.
–O carnaval! Muito divertidos devem ser esses bailes de mascaras, para
assim te attrahirem, Charles!
–Enganas-te, Jenny; são insipidos, mas… Tu não pódes talvez entender
isto, que não obstante é exacto… são insipidos, mas irresistiveis ao
mesmo tempo.
–Ora!
–Acredita-me. Rara é a noite em que me não encho de tédio, em que não
morro de semsaboria no meio d'aquelle infernal tumulto, e então, se de
lá me lembro de ti, do socego dos teus serões, do silencio das tuas
noites, do teu bonito quarto côr de violeta, pergunto a mim mesmo,
Jenny, por que me conservo longe d'alli, o que me afasta das portas
d'esse paraizo, voluntariamente perdido por este louco, que nem merece
ser teu irmão. Sinto vontade então de soltar uma lamentação como a de
Eva por errar n'um mundo, que ao pé do teu, Jenny, é tambem obscuro e
selvagem; por estar a respirar n'um ar bem menos puro.–Não é assim que
diz o Milton?–E comtudo não tenho nenhum archangelico poder a impôr-me
a expatriação. Vês?
–Estás a gracejar, Charles?
–Acredita que não. Outros te poderiam dizer o mesmo se…
–E é isso que te conservou por lá, ainda hoje, até ás quatro horas da
manhã?
–Hoje? Ah, mas… perdão, Jenny; tudo tem suas excepções. A noite de
hontem, por exemplo, não me deixou desagradavel memoria de si; devo
confessal-o.
–Então?
–Então… é que eu tenho que te contar, e se tiveres a paciencia de me
escutar e prometteres não me ralhar muito…
–Ah! pois temos culpas?
–Eu sei? Desconfio tanto de mim, que já me não atrevo a affirmar que
procedesse bem. Mas tu o dirás.
Jenny sorriu.
–Ouçamos–disse ella, preparando o almoço, que um criado acabava de
trazer para a sala.
VI
REVISTA DA NOITE
–Como te disse, Jenny,–principiou Carlos, procedendo áquelle
extemporaneo almoço, ás horas a que muita gente encetava a séria e
importante tarefa da digestão do jantar–hontem correu-me a noite mais
agradavel que de costume.
–Sim? Então que te succedeu?
–Eu te conto. Levantamo-nos da mesa ás onze horas; foi um longo jantar,
ao qual os brindes continuados não deixaram nunca desfallecer a
animação. Entrei no theatro, um pouco atordoado e um pouco pezaroso;
atordoado pelos effeitos excitantes d'aquellas muitas libações e
d'aquelle ruído todo…
–E pezaroso…
–Com os remorsos que a tua carta me veio despertar.
–Ah!… remorsos?!…
–Afianço-te que os tive. N'estas disposições de animo parecia-me um
inferno o theatro, verdadeiros demonios aquellas insulsas mascaras,
gritos de condemnados as desafinações da orchestra…
–E ficaste?
–E fiquei; fiquei, ancioso por que o final do divertimento me
auctorisasse a retirada. Já vejo que nem ideia fazes sequer d'estas
cousas, que aliás são verdadeiras. Deixa-me continuar.
–Continúa–disse Jenny, folheando ao acaso um livro de gravuras
inglezas, que estava na mesa.–Mas é devéras estranha essa maneira de te
divertires… martyrisando-te.
–É, confesso que é. Mas outros muitos estão n'este caso; pódes crel-o.
–Bem; vamos adiante–replicou Jenny, fitando os olhos nas lettras
douradas da brochura.
Carlos proseguiu:
–Deixei os meus companheiros e sentei-me extenuado; nem queria ver, nem
apreciava nada do que em torno de mim succedia. A final, porém, por
fazer alguma cousa, reparei nos vizinhos de hombro a hombro, entre quem
a sorte me arrojára.
Jenny ergueu para o irmão a vista, com um modo particular.
–Do lado direito, encontrei um homem gordo, que dormia. Como a
felicidade alheia não é espectaculo de que nos venha conforto, quando o
infortunio nos punge, desviei com despeito os olhos d'esta
bemaventurança e voltei-os…
–Para o lado esquerdo?
–Justamente; para o lado esquerdo.
–E… e o que achaste d'esse lado do coração, Charles?–perguntou
Jenny, sorrindo.
–Ai, Jenny! ai, minha pobre irmã! prepara a tua santa paciencia, que
aqui venho eu confiar-te mais uma das minhas paixões.
–Eu logo vi; não sei porque foi que t'o estava a ler no rosto. Então é
devéras uma paixão?
–Receio que sim.
–Pobre Charles! Que fatalidade!
–Estás a rir?–disse Carlos, sorrindo tambem e estendendo a chavena
para a encher outra vez–Ora ouve. Ao meu lado esquerdo, do lado do
coração, como dizes, estava um dóminó feminino, fitando-me de uma
maneira … como nem te sei dizer… e com uns olhos… mal sabes que
bonitos olhos eram aquelles, Jenny!
–Os da mascara?–perguntou Jenny, preparando a chavena.
–Não; os da mascarada, os quaes eu percebia através das aberturas
oculares da elegante mascara de setim preto que ella trazia. A cabeça
descaía-lhe ligeiramente sobre o hombro em postura de tanta languidez e
melancolia, e n'esta posição a sêda da mascara descobria-lhe um canto de
labios e um principio de collo tão bem modelados, que eu não pude
desviar mais d'alli o olhar extasiado, e… e… Então que quer dizer
agora esse teu sorriso, Jenny?
–Estou a admirar a rapidez com que te apaixonas e extasias.
–É que não imaginas que bonito cortôrno o d'aquelle rosto; não
imaginas! Eu digo-te uma cousa, Jenny; bem sei quantas illusões andam
ligadas á mascara de sêda, que, por descuido estudado, se afasta um
pouco, o preciso… o conveniente… Porque na maior parte dos rostos ha
pequenos pontos fracos, que a mascara artificiosamente occulta, deixando
só apparecer as perfeições. Conheço que é facil illudir-se então o olhar
e phantasiar-se falsamente o todo pela parte que se póde ver, conheço…
–Basta, basta, Charles. Pena é que de tão pouco te sirva o tanto que
conheces, visto que ainda hontem…
–Hontem não havia, não podia haver illusão. Isso é que não. Aquella
cabeça não era d'essas cabeças buliçosas, como folhas de alamo, que
morrem por ser adivinhadas. Era uma cabeça scismadora, melancolica,
cheia de sentimento, estremecendo a cada belleza que, com pezar seu, não
podéra occultar…
–Ah! Que singular cabeça!
–E depois ha certos extremos de perfeição, que a natureza, quando os
cria, não os vae desperdiçar assim em qualquer rosto, que nas mais
feições destroe d'esses primores parciaes. E n'este caso estava tudo o
que eu vira do perfil da minha sympathica vizinha, a quem dirigi a
palavra!
–A quem dirigiste a palavra!
–Sim; que achas tu de extraordinario n'isto, para fazeres esse
movimento? N'um baile de mascaras prescinde-se das apresentações,
ridicula invenção da etiqueta, que eu desconfio ser originaria da nossa
diplomatica Inglaterra.
A reflexão historica transformou n'um sorriso o movimento de surpreza de
Jenny.
Carlos continuou:
–E depois vaes ver que tudo quanto lhe disse podia bem ser repetido á
mais ingenua lady n'um dos nossos bailes de familia. A final de contas,
irmanzita, eu, que arranjei por ahi, não sei bem como, a reputação de
atrevido, tenho ainda canduras, de que muitos dos mais timidos se riam
já aos quinze annos.
Esta confissão, na qual alguma cousa havia verdadeira, desafiou em Jenny
um gesto de duvida, que o mesmo sorriso affectuoso veio porém suavisar.
–Olha que é assim–proseguiu o irmão–e senão… escuta. Como te disse,
fallei á minha sympathica vizinha. Perguntei-lhe se estava muito
fatigada. Ahi tens; a pergunta é mais do que ingenua, é quasi ridicula.
Que lhe censuras tu?
–A essa, de certo que nada. E depois?
–Ella respondeu-me:–«Bem mais fatigada d'isto tudo do que esperava,
vindo aqui, snr. Carlos.»
–Como disseste?… Snr. Carlos?!
–É verdade, «snr. Carlos». Sabia o meu nome a mysteriosa incognita;
sabia o meu nome! Está de ver que augmentou a minha curiosidade.
Continuando a conversar, vim a saber d'ella que tinha vindo alli
acompanhada de outros dóminós femininos, cujo humor mais galhofeiro
contrastava com aquella melancólica seriedade. Ficamos a conversar um
com outro, amigavelmente, innocentemente, assim como eu converso agora
comtigo. E… queres que te diga? havia até alguma cousa do teu fallar,
maneiras de dizer tuas, na conversa d'aquella rapariga; e era isto
talvez o que me impunha certo acatamento para com ella, de que não podia
livrar-me. Não imaginas a graça, o bom senso, a viveza, que revelou em
todo aquelle dialogo commigo. Mostrou-se muito informada a meu respeito
e até a respeito da nossa familia; houve um momento, em que deu mostras
de querer fallar de ti; eu porém evitei a conversa…
–Porquê?!–perguntou Jenny, fingindo-se offendida.
–Porque…–balbuciou Carlos embaraçado, e depois, com mais resolução,
continuou:–Digo-te a verdade Jenny; respeito-te muito; tenho por o teu
nome uma veneração muito grande, para que me fosse agradavel ouvil-o
pronunciar n'aquelles logares, e pronunciado de mais a mais por…–não
obstante o favoravel conceito que continuo a fazer da
desconhecida–mas… por labios que… não sei ainda… que não tenho a
certeza se serão dignos d'isso. Passadas duas horas talvez n'este
inoffensivo conversar, chegaram, já fartos de alvorotar o salão, alguns
dos rapazes, que me tinham acompanhado. Foi-me pouco agradavel,
confesso-o, a presença dos meus amigos e sobretudo desagradabilissimos
os galanteadores conceitos que dirigiram á minha interlocutora e os
gracejos com que a respeito d'ella me mimosearam.
–Coitada!
–Coitada? Ai, se já principias assim a lamental-a … mal vae á minha
historia.
–Pois acaso?…
–Escuta. Ao principio, ella não mostrou timidez; sustentou com
vivacidade o dialogo, aparando e retribuindo triumphantemente os
galanteios, que elles lhe dirigiram. Mas a lucta era desigual; porque
emfim os contendores, n'esta esgrima de palavras, tinham de reserva
armas, de que ella não podia servir-se. Foi então, ao reconhecer isto,
que se mostrou inquieta e ergueu-se para retirar-se; seguimol-a; á porta
do salão ella e as companheiras voltaram-se, viram-nos e pareceram
atemorisadas. Ella então, a desconhecida, dirigiu-se a mim e pediu-me
que lhes servisse de protector, appellou para a minha generosidade e
eu…
–Tu protegeste-as, não é verdade?–disse Jenny, juntando as mãos, e
fixando no irmão um olhar de sympathia–Protegeste, não protegeste?
–Fui, fui um D. Quixote de donzellas perseguidas. Então que queres tu?
Não te dizia eu que havia ainda em mim muito da candura dos quinze
annos?
–Não te arrependas, Charles, não te arrependas de ser generoso.
–É certo que consegui afastar os meus associados, o que não foi pequena
tarefa; fiz valer porém os direitos de descobridor e prometti-lhes
revelar o segredo d'aquella mascara, segredo cuja investigação me
competia. Feito isto, segui-as. Ao principio tudo foram effusões de
gratidão á minha nobreza de caracter, ao meu coração, aos meus
sentimentos, etc., mas, quando nos livramos das ruas mais centraes e
passou o perigo da perseguição que temiam, tudo mudou de figura e
principiaram já a pedir-me para tambem me retirar. Esta ingratidão
offendeu-me e recusei… Então? ahi estás séria outra vez!
–E com razão, Charles. Pois pediam-te e tu… Isso já não é de
generoso… Quem sabe os motivos?
–Perdôa-me, Jenny; tu é que não sabes nada d'estas cousas. Pouco
generosas eram ellas. E demais, esses pedidos seriam sinceros? A regra é
recusal-os sempre; e está certa de que quasi nunca a recusa offende.
–Basta que uma vez…
–Mas repara, Jenny… Valha-me Deus!… Ora vem cá. Tu estás-me ahi a
phantasiar uns bailes de mascaras á tua moda. Suppões que todos estes
dóminós eram… eu sei lá… outras tantas princezas disfarçadas ou
outras Jennys como tu.
–Pois bem, uma vez que o disseste, vamos que era eu?…
Carlos previu o mau terreno, em que se collocava, admittindo a hypothese
e porisso interrompeu a irmã, dizendo:
–Mas não supponho, nem posso suppôr, porque… porque ainda ninguem viu
uma Jenny n'aquelles logares; e demais ouve, que eu não sou ainda assim
merecedor de tantas severidades. Teimei, como disse, em seguil-as; para
desistir, exigia conhecel-as; ellas porém recusaram tirar a mascara e
sobretudo a tal, que eu mais desejava saber quem era. Ás tres horas e
meia estavamos aqui defronte de casa, aonde me tinham trazido
manifestamente para me tentarem a entrar. Resisti á tentação e transpuz,
sem hesitar, a porta, continuando a seguil-as. As companheiras da minha
incognita levavam já o caso a rir e acredito que não poriam grande
duvida em darem-se a conhecer; ella porém mostrava-se… ou fingia-se,
deveras afflicta; dirigiu-se a mim e de mãos juntas pediu-me que me
retirasse.
–E tu?…
–Eu… eu recusei.
–Ó Charles!
–Ouve. Ella insistiu. Disse-me que lhe poderia fazer muito mal se
teimasse, e eu insisti…
–Como és ás vezes tão mau!
–Mas se eu não acreditava na sinceridade d'aquelles mêdos, e agora
mesmo… Mas a final, a rapariga disse-me com uma voz chorosa e na qual
me pareceu descobrir tanta sinceridade: «–Peço-lhe este favor por…»
Adivinhas por quem ella me foi pedir?
–Não.
–«Peço-lhe este favor por sua irmã, por Jenny»; sim, por ti, foi por ti
que ella me pediu e fêl-o ajuntando as mãos com tal candura, que eu…
Precisas de perguntar-me se condescendi d'esta vez?
Jenny estendeu a mão ao irmão.
–Obrigada. A final o bem triumpha sempre no teu coração. Estava certa
d'isso.
Carlos baixou a cabeça, como mortificado com estes louvores da irmã.
Dir-se-hia que aquellas palavras lhe estavam a fazer sentir remorsos,
longe de os desvanecerem.
Depois de uma hesitação de momentos, terminou por dizer, com evidente
enleio:
–Olha, Jenny… eu por fim de contas não sou homem para aceitar
louvores que não mereço… repugna-me esta hypocrisia; custa-me deveras,
mas… sou forçado a dizer-te que… que não sou digno d'esses
applausos.
–Porquê?
–Porque… alguma cousa se passou… Eu não disse tudo ainda e… É
verdade que… condescendi… sim… mas não tão desinteressadamente
como… sim… porque exigi… usurpei… á maneira de compensação…
–O quê?
–Um beijo, ao qual a pobre rapariga não retirou a tempo a face e que a
lançou n'uma especie de desespêro, fingido talvez, de certo… mas bem
fingido…
Jenny reproduziu o gesto de desgosto.
–Mas não me condemnes, Jenny,–apressou-se Carlos a acrescentar–porque
a final eu nem lhe vi o rosto, e estou provavelmente condemnado a nunca
descobrir quem ella seja. Além d'isso cumpri religiosamente o
promettido, renunciando a acompanhal-a, o que me custou devéras; ainda
hoje me preoccupa o olhar, a voz d'aquella rapariga e quasi lamento…
Vamos, não continues a olhar-me d'esse modo. Pois recusas perdoar-me,
quando eu…
–A fallar verdade, mereces bem pouco que te perdoem. Mas, como cedeste
em meu nome, quasi me tiraste o direito de ser severa. O final… o
final… na verdade…
–E vês o meu endurecimento na culpa? foi isso de toda a aventura o que
me deixou mais agradavel memoria de si…
–Então!–disse Jenny, batendo-lhe com o livro na mão–Olha se queres
que retire ainda o perdão que já te dei. Que mais terás a pezar-te na
consciencia? aproveita o ensejo d'esta minha disposição benevola.
–Julgo que não tenho mais nada.
–Ahi está uma alma com excellente opinião de si! Visto isso, tens
cumprido todos os teus deveres?
–Mas… deveres de que genero?
–Que pergunta! Pois nem sabes os deveres que tens?! Maus indicios!
Deveres de christão, de cidadão, de filho, e de…
–O que ahi vae! o que ahi vae! Por quem és, Jenny! vamos por partes,
senão…
–Pois bem, quero fallar-te agora só de uns, que me parece teres
descurado um pouco.
–Falla.
–Dize-me: tens ido ao escriptorio?…
–Ai, o escriptorio!–disse Carlos, rindo–Então era d'isso que me
querias fallar? Bem longe estava eu de pensar no escriptorio.
–Tens lá ido?
–Eu não.
–Não!
–Ha já bastante tempo que lá não vou, ha… mas… achas isso grande
peccado?
–E pergúntal-o? Não é o trabalho um dever?
–O trabalho será.
–Então…
–É que faz sua differença. Tu não sabes como eu trabalho no
escriptorio? É outra d'essas imposturas sociaes, que me fariam rir
devéras, se não fossem tão fastidiosas. É preciso que saibas, minha boa
Jenny, que no escriptorio, o trabalho real, o trabalho util, o
trabalho–trabalho, está encarnado na pessoa de Manoel Quentino. Esse
sim. É quem alli faz tudo, quem a tudo dá solução, e parece-me que o
unico até capaz de o fazer. Exige-se que eu vá lá tambem, não para
trabalhar; a minha cooperação o mais que faz é impacientar o bom do
homem, distrahir os outros caixeiros e alterar a ordem methodica dos
papeis commerciaes. Eu vou só para fingir que entro n'aquellas cousas,
para representar de commerciante, embora não penetre em nenhum dos
segredos ou transacções, em que anda empenhada a firma. Hoje lembram-se
de me communicar o principio de certo negocio, do qual se julgam depois
tão dispensados de dizer-me o resultado, como eu de perguntar por elle;
ámanhã, dar-me-hão parte da conclusão de outro, cuja existencia eu
ignorava ainda. Ora aqui tens como eu sou commerciante. O pae gosta de
me ver lá em baixo, como representante da firma Whitestone & C.ª, e mais
nada. Chego ao escriptorio, abro a janella, mostro-me ao publico como
uma especie de taboleta da casa, dou tres passeios na Praça, converso em
tudo, menos no negocio, e venho embora. Se isto é trabalhar…
–Mas, já que te repugna essa ociosidade, porque não trabalhas devéras?
–Porque não é costume. O trabalho é para o guarda-livros. Nós somos uma
especie de padrinhos; damos o nome á creança e pagamos-lhes o enxoval,
mas não nos encarregamos das fadigas da sua educação. Comtudo, já uma ou
outra vez tentei trabalhar, por descargo de consciencia; mas lembrança
minha era saudada com uma risada do Manoel Quentino e com o riso mal
disfarçado dos outros caixeiros. Pelos modos era disparate certo.
–Pois bem; porisso mesmo que tão pouco se exige de ti é que devias ser
mais assiduo.
–Mas é tão monotono! Fazes lá ideia! Odeio aquella rua dos Inglezes,
Jenny; abomino-a.
–E preferes mortificar o pae, que já hoje se queixou das tuas faltas,
quando um pequeno sacrificio…
–Não lhe chames pequeno; mas, grande que seja, estou resolvido a
fazel-o para te agradar. Ámanhã…
–Ámanhã!–disse Jenny, encolhendo os hombros.
–Pois então? queres que já hoje?…
–E porque não?
–Mas vê que já é tarde…
–Mais tarde será se te demorares.
Carlos emmudeceu.
–E ao mesmo tempo–proseguiu Jenny–aproveitaria a occasião de mandar
saber d'aquella pobre viuva ingleza, que ha já tantos dias não apparece.
Não tenho querido que lá vá nenhum criado, porque, por mais que lhes
recommende, todos gostam de a aperrear, e ella, coitada, afflige-se
tanto… Se tu fosses hoje ao escriptorio, ficava-te em caminho…
Jenny sabia que qualquer acção generosa servia a Carlos de estimulo para
realisar sacrificios: por isso lhe lembrou esta visita de caridade a uma
das muitas pobres, que a familia Whitestone soccorria. Não se enganou a
previdencia da irmã.
–Está dito–disse Carlos com modo resoluto.–Vou hoje … trabalhar.
Mal sabe Manoel Quentino, que é o grande motor d'aquella machina
commercial, o que lhe está imminente. O homem dá ao demo o meu auxilio;
mas que t'o agradeça, Jenny. Manda-me o José para me ajudar a vestir;
inda hoje me não deu o gosto de o ver, o mariola.
–Ai, o José?–disse Jenny, pousando a mão no hombro do irmão–Olha,
Charles, o pobre rapaz tem a mãe tão doente, que eu tive pena d'elle e
mandei-o…
–Basta, basta; fizeste bem. Eu não me lembrava d'isso, senão…
Passaremos sem o José, e não passaremos mal.
Jenny abraçou o irmão, e saiu contente da sala.
Em consequencia d'este dialogo, Carlos appareceu na Praça Commercial
pelas duas horas da tarde.
VIII
NA PRAÇA
Havia grande actividade na larga rua chamada dos Inglezes, á hora a que
o filho de Mr. Richard Whitestone alli chegou.
A vida commercial estava então no seu auge; numerosos grupos occupavam
os passeios, o centro da rua e os portaes das velhas casas, que de um e
de outro lado limitam. Presta-se a curioso estudo o aspecto da Praça em
occasião assim.
Nas posturas, no ademan e em varias outras exterioridades dos
differentes individuos, que compõem estes grupos, póde-se encontrar
indicios da posição commercial, que elles occupam.
Vêem-se homens de aspecto grave, de movimentos pausados, de palavras
medidas e espremidas, escutados, aqui e além, por um auditorio attento,
mudo, boquiaberto, cujas cabeças, balançando-se, como as dos bonecos de
porcelana, commentam com movimentos de approvação as palavras d'estes
oraculos;–são directores de bancos, ou de companhias commerciaes de
outra qualquer natureza, bem ou mal reputados as primeiras capacidades
da Praça; os accionistas, sempre inquietos pelo seu futuro dos capitaes,
meditam cada palavra d'elles, como as de uma mensagem de Napoleão III,
na abertura do parlamento francez.
Mais longe, passeiam, com ar de quem está confiado em si, outros que não
escutam os primeiros, mas que os saudam com fraternal familiaridade. Não
teem tão numeroso cortejo a rodeial-os, porém são igualmente
cumprimentados por todas as cabeças da Praça; chamam aos labios das
pessoas, a quem se dirigem, um sorriso de affabilidade, e obrigam-lhes o
tronco á inclinação expressiva de acatamento, pouco differente da
eloquencia persuasiva, a qual, segundo um escriptor humorista, é
representada por o angulo de 85º 1/2 com o horizonte.–São estes os
negociantes, que não administram capitaes alheios, mas que dispõem de
grandes capitaes proprios; de quem menos directamente depende portanto a
numerosa turba dos pequenos capitalistas, mas cujos destinos influem,
mais ou menos, sobre os de toda a Praça. Além d'isso teem a fazel-os
valer o prestigio da riqueza, prestigio que se impõe até aos que nada
esperam d'ella.
Observa-se ás vezes um espectaculo, á primeira vista de difficil
interpretação. Um homem, humildemente vestido, de aspecto triste, de
cabeça baixa e barbas crescidas, é escutado com anciedade na roda dos
mais esplendidos membros do corpo commercial; todos parecem esforçar-se
por não perder a menor palavra das poucas e sumidas, que o tal homem
pronuncia. De vez em quando, elle murmura não sei que phrase e limpa ou
faz que limpa uma lagrima, e os outros levantam as mãos ao céo, cruzam
os braços, encolhem os hombros, coçam a cabeça, dão uma volta, como a
distrahir mágoas, e tornam a acercar-se d'elle, como se fosse o centro
de attracção d'aquelles elementos dispersos; e toda a scena se produz de
novo. Que quer dizer isto?–É um negociante fallido de pouco e rodeiado
de credores, a quem, na sua humiliação, domina e que, de quando em
quando apavora, calculando com voz dolente o diminuto dividendo que lhes
concederá. Não ha posição social, situação na vida, por mais abjecta e
precaria que pareça, que não tenha a sua aristocracia. Os ladrões teem
os monarchas conquistadores; os homicidas, os duellistas e guerreiros; a
pobre, a opprimida, a miseravel classe dos devedores, tem os grandes
negociantes fallidos.
O olhar exercitado em estudar a physiologia da praça talvez possa
distinguir do negociante, cujos pagamentos ainda em época alguma foram
suspensos, aquelles, cujas remotas _fracturas_ teem sido miraculosamente
_consolidadas_ pelos dotes das esposas. Mas a segurança e franqueza de
maneiras é tão igual nas duas especies, que á nossa analyse não é
possivel a discriminação.
A contrastar com todos estes, vê-se uma turba, igualmente numerosa,
agitar-se na Praça, sempre a passo rapido, rapazes pela maior parte com
papeis, saccas ou amostras na mão; sáem de um portal para entrar em
outro; descem a calçada do Terreiro em direcção á alfandega, ao caes ou
a bordo de algum navio mercante; consultam os individuos dos grupos, que
já mencionamos, ou aguardam pacientes que elles os descubram e
interroguem; dirigem-se-lhes então, tirando o chapéo–attenção nem
sempre retribuida–; são estes os segundos caixeiros, os chamados «de
fóra», os praticantes de escriptorio, os cobradores, e ainda os
despachantes; aquelles, emfim, sobre quem mais pesada se exerce a carga
da vida do commercio e que menos proventos auferem d'ella. Distinguem-se
pelo grau de velocidade dos passos; a dos despachantes chega a ser
incommoda de ver-se.
É digna de nota tambem a posição que tomam mais ordinariamente os dois
interlocutores dos curtos dialogos, que a cada momento se travam no meio
da rua, entre os representantes das diversas hierarchias sociaes, que se
dizem–caixeiro e patrão–. O caixeiro está perfilado, com a mão na aba
do chapéo e os olhos fitos nos labios do negociante; este responde-lhe,
olhando para o lado e, ás vezes, sorrindo até para um collega, que de
longe falla por acênos–distracção perigosa para a clareza da ordem
dada, mas cujas consequencias são attribuidas depois a quem a recebeu;
os patrões mais accessiveis levam a sua bondade a ponto de puxarem por o
botão do casaco, ou de desapertarem o do collete do subordinado,
emquante lhe dão instrucções. Quando o caixeiro expõe o resultado da
commissão que executou, é-lhe permittido o accionado, mórmente se, na
execução d'ella, houve a vencer a renitencia de algum devedor emerito,
circumstancia, na qual póde até tentar um epigramma, com a certeza de
que agradará. Porém quando são mais modestos os ares do caixeiro e mais
impertinentes os do patrão, é quando o segundo está sendo convencido por
o outro de um erro, que repugna ao seu amor-proprio confessar.
Ha ainda outra classe, tambem inquieta, apressada, incansavel, porém
muito longe das disposições para a reverencia d'esta ultima, em que
fallamos. Ha nas suas cortezias rasgadas alguma cousa de artificial, que
não illude ninguem, e ás vezes a menos ceremoniatica familiaridade
substitue até essas apparencias de respeito. São espantosos de
tenacidade a perseguirem em certos casos o commerciante, que em vão
tenta fugir-lhes; passam-lhe da esquerda para a direita, da direita para
a esquerda; atravessam-se-lhe no caminho; entram com elle nos portaes,
sobem com elle as escadas, invadem-lhe o ádito dos escriptorios,
transpõem a barreira dos mostradores, encostam-se sem ceremonia ás
escrivaninhas, batem-lhe amigavelmente nos hombros, collocam-lhe diante
dos olhos garrafas, vidros, massos de fazenda, tabellas de preços,
amostras de todos os generos commerciaveis, de que andam constantemente
munidos e a custo se resolvem a soltar das mãos a victima, que chegaram
a atacar.–São estes os corretores e agentes de casas estrangeiras.
A classe dos primeiros guarda-livros é a porção aristocratica d'esta
_bureaucracia_ ou escriptoriocracia commercial. Mostra-se principalmente
á janella dos primeiros andares, onde vem, de vez em quando, descansar
das fadigas de uma escripturação. De ordinario, conservam a penna entre
os dedos, como para significar que é momentanea a pausa–o que nem
sempre succede. Mais necessarios, e porisso mais apreciados e
attendidos, gosam já de certas franquias e privilegios entre os da sua
classe. É-lhes concedido fallarem da janella para a rua com algum
collega ou amigo que passa; a alguns até se permitte fumar na varanda um
charuto, e ausentarem-se algum tempo do escriptorio sem prévia
requisição; na rua, saudam mais desassombrados os patrões e são menos
distrahidamente correspondidos por estes.
Acrescente-se agora a progenie ociosa dos grandes
capitalistas–commerciantes honorarios, cuja vida commercial se reduz,
como a de Carlos, a passeiar na Praça até ás quatro horas da tarde; o
brazileiro retirado, distrahindo-se a presenciar, como espectador, o
labutar do negocio, á maneira da maritimo velho que se senta á beira-mar
a olhar para as ondas, de que vive arredado já; acrescente-se ainda o
empregado da alfandega, fumando o cigarro, nas frequentes entreabertas
de descanso de suas laboriosas manhãs; os carrejões em disponibilidade,
estacionados a cada esquina; os moços de escriptorio encostados ás
ombreiras das portas: os meninos dos directores de companhias, confiados
á vigilancia de algum empregado subalterno; isto tudo composto de
inglezes ruivos, de allemães louros, de brazileiros escuros, de
portuguezes de todas as côres, e ter-se-ha imaginado o aspecto da Praça
commercial do Porto, á hora em que Carlos Whitestone a atravessou.
Carlos passava pelos differentes grupos alli reunidos como por entre
gente, que toda lhe era igualmente familiar.
Como sempre, e como em toda a parte, não se constrangia alli tambem.
O genio que tinha não lhe consentia etiquetas; a sua posição social não
deixava que ninguem lhe estranhasse as familiaridades.
Enfiava o braço no de um dos mais sisudos commerciantes, a quem tratava
pelo nome de baptismo; de repente, deixava-o, para accender o charuto no
cigarro de um segundo caixeiro de escriptorio, que o estava saboreando
ás occultas, e alli mesmo pactuava com este qualquer partida de caça.
Aproximava-se do grupo de capitalistas e barões, que discutiam
acaloradamente o relatório de uma companhia, e cêdo, com suas reflexões
e commentarios, fazia degenerar a conversa para assumpto mais frivolo e
jovial; abandonava-os, e ia abraçar alguns rapazes, tão laboriosos como
elle, que fallavam dos bailes da vespera ou abriam a bôca de enfadados;
d'alli dirigia-se a cumprimentar um inglez esgalgado, que passava sobre
uma hursa, mais esgalgada ainda, e examinava com olhos de conhecedor as
qualidades physicas do quadrupede e os expedientes da arte do
cavalleiro; tolhia a passagem do despachante que atravessava a correr a
Praça e, apesar de tantas pressas, conseguia fazel-o parar a escutal-o:
chamava pelo nome o gallego da esquina, para que lhe viesse sacudir a
lama das botas, e, durante esta operação, divertia-se a bater-lhe com o
chicote na copa do chapéo. Ás vezes ouvia com apparente attenção um
homem, que lhe vinha fallar de certo negocio pendente do escriptorio
Whitestone, mas, se a exposição se demorava, o seu interlocutor, quando
menos o esperasse, achava-se só, porque Carlos fora, sem ceremonia,
conversar com o guarda-livros, seu amigo, que avistára na janella de um
primeiro andar. Tão depressa entrava em um dialogo com o mendigo que lhe
pedia esmola, como com qualquer rapariga, cujas graças o attrahissem.
N'este genero de occupações se demorou Carlos Whitestone na Praça
aquelle dia, procurando ser visto pelo pae,–unico fim que tinha na
ideia.
Mr. Richard estava porém na Assembleia Ingleza ou Feitoria, da qual era
assiduo frequentador.
Um dos muitos grupos, de que Carlos Whitestone se aproximou, compunha-se
das mais graduadas individualidades da praça.
Carlos passou o braço por cima do hombro de um barão, enfiou o outro no
de um capitalista brazileiro, e cumprimentou familiarmente um velho
inglez, que estava na companhia tambem.
–O que não ha em toda a Europa é uma Bolsa assim como a do Porto–dizia
um commerciante bem intencionado, em quem se encarnára a balda, muito
portugueza, de pendurar no pinaculo da perfeição alguma cousa boa, que
temos ainda por cá.
O inglez estremeceu de pasmo.
–_What!!_–A exclamação saiu-lhe ingleza na violencia da explosão–Na
Europa! Que diz, senhor? Vocemecê já viajou?
–Nada, não, senhor; ainda não saí do Porto; mas dizem entendedores…
–Ora então… então… A Bolsa de Londres… o Royal Exchange… não
vamos mais longe… o Royal Exchange, o moderno; porque o primeiro Royal
Exchange foi do tempo da rainha Elisabeth, construido por um architecto
chamado Gresham, em 1500 e tantos; ardeu em 1667. Dois annos depois
levantou-se o segundo; este foi construido por Jerman; ainda me lembra
bem d'elle; ardeu em 1838. Estava eu em Londres. Em 1842 lançou-se a
primeira pedra de novo, que foi segundo o plano de Tite, e dentro em
tres annos estava completo.
–E esse quando ardeu?–perguntou Carlos.
O inglez sorriu, sem responder á pergunta, e preparava-se para entrar em
circumstanciada descripção da planta baixa e alta do edificio.
Carlos interrompeu-o outra vez:
–O que estou vendo, Mr. Lyons, é que ha em Londres uma terrivel
disposição para _arderem as bolsas_.
O barão e o brazileiro acharam extraordinaria graça ao dito de Carlos, e
batendo-lhe no hombro e chamando-lhe «maganão, patusco, cabeça de
vento», e outras injurias assim amaveis, não quizeram mais saber do que
lhe dizia o inglez, o qual se viu constrangido e engulir o resto da
noticia historica e architectonica.
–Mas, senhores!–dizia em outro grupo, para o qual Carlos se dirigiu, o
meticuloso possuidor de umas cinco acções de certa companhia, a um dos
directores da mesma–Eu não vejo as cousas bem figuradas. Para que hei
de estar a dizer o contrario? Negocios com o governo nunca me agradaram.
O governo! Quem é o governo? O governo a final não é pessoa que se
penhore; porisso voto que…
–Mas repare,–dizia o director com exemplar paciencia–repare que as
garantias offerecidas são das mais seguras; o governo compromette-se…
–E adeus, minhas encommendas!–tornou o outro–Ora que é scisma! Mas
quem é o governo? Eu não sei quem é o governo! Uns valdevinos, que hoje
são tudo e ámanhã são nada… Faz-se o contracto com uns e ámanhã
respondem por elle caras novas. Não me entendo com isso. Muito bonitas
fallas, sim, senhores; mas como não respondem por o que é seu… E os
nossos capitaes…
Estes capitaes eram cem mil réis por junto.
O director pedia resignação a Deus, para não romper com o obstinado.
Carlos representou aqui de enviado celeste. Tomou o braço do accionista
dissidente, e, sem lhe attender aos esforços, afastou-o para o passeio,
dizendo-lhe a meia voz:
–O senhor já sabe do que se trata hoje na Praça? Vae organisar-se uma
companhia monstro.
–Pois sim, sim; mas deixe-me, que tenho que discutir alli com o
senhor…
–Ouça–insistia Carlos–é negocio dos accionistas ganharem quarenta por
cento, avaliando muito por baixo.
O homem, que era de ingenuidade proverbial entre os collegas, olhou para
Carlos com gesto entre desconfiado e inquiridor.
Depois a phrase «quarenta por cento» era de uma sonoridade!
A physionomia de Carlos tomára uma expressão de sisudez irreprehensivel.
–Pois sim, mas… eu agora…–dizia ainda o homem.
Carlos insistiu:
–Olhe que lhe fallo serio. É uma companhia de capitalistas inglezes,
que se vae metter n'isso. Meu pae está encarregado do trabalho da
instituição. É porisso que eu…
–Mas que é a final?–perguntou o sujeito com curiosidade.
–Demais espera-se que o governo conceda um subsidio…
O homem teve vontade de perguntar quem era o governo, mas resistiu á
tentação d'esta vez.
–Mas qual é o fim?–perguntou em vez d'isso.
–E o commercio do Porto vae resentir-se vantajosamente d'este
commettimento–continuava Carlos, devéras embaraçado em organisar a tal
companhia.
–Mas o fim da empreza? … o fim?–bradava já o outro.
–O fim? Um grande fim… uma nova via de trafego commercial entre a
cidade alta e a baixa.
–Como? Alguma rua…
–Não, senhor; aproveita-se uma riqueza ainda inexplorada, que ha no
seio da cidade.
Um enxame de ideias extravagantes esvoaçaram na imaginação do
accionista, que já com ardente curiosidade perguntou:
–Mas… que é? como?
–Nada menos do que tornar navegavel o rio da Villa.
O accionista dissidente olhou ainda alguns instantes para Carlos; mas
cêdo depois voltou-lhe as costas _desapontado_ e procurou o director,
que estivera interpellando; este porém aproveitára o ensejo e
desapparecera, esquivando-se a resolver o difficil problema que o outro
lhe apontára ao peito–Quem era o governo?
O leitor, que é do Porto, permitta-me que eu explique aos que o não são,
que este nome pomposo de rio da Villa é dado a um pequeno riacho de
aguas menos limpas que se despenha por uns sitios escusos e não mais
asseiados do que ellas, até desaguar furtivamente e como envergonhado,
no Douro.
O primeiro individuo de quem, depois d'este, Carlos se avizinhou, era
uma potencia commercial, que ouvia amavelmente o pedido que lhe fazia um
collega, para elle pedir a outro, para este pedir a terceiro e este
terceiro pedir ao ministro para o ministro empregar na alfandega o filho
do cunhado do primeiro que pedia. Esta complicação enredada de
pedidos–da qual inevitavelmente se havia de resentir o periodo, como
resentiu–parecia clarissima para o que estava sendo exorado, pois, sem
pedir explicações, e como homem que logo á primeira vista entrou no
ámago da questão, não fazia senão prometter applicar todo o seu
valimento e ser até importuno para servir o amigo.
Carlos chegou no meio d'essas promessas cordialissimas. É preciso que se
diga que Carlos sabia, por acaso, que este capitalista havia recebido,
aquella mesma manhã, uma carta de Lisboa, assegurando-lhe que fora
provido, no logar disputado, um parente seu. Esta circumstancia fez com
que o pouco dissimulado irmão de Jenny ficasse verdadeiramente abysmado
diante da impavidez, com que o negociante illudia o amigo. Obedecendo á
franqueza pouco de sociedade, que dissemos ser um dos elementos do
caracter d'elle, Carlos não pôde emfim reprimir-se, que não dissesse:
–Mas, senhor F., olhe o que promette; esqueceu-se de que o seu parente
C. foi, hontem mesmo, despachado para esse logar?
Seguiu-se uma careta entre os dois interlocutores, que trocaram algumas
phrases, em taes casos forçosamente tolas; fartos emfim de mastigar
orações sem nexo, separaram-se friamente.
O capitalista ralhou muito com Carlos; porém Carlos ainda ralhou mais
com elle pela sua pouca lisura.
E o certo é que ficaram amigos. Ha nos caracteres francos e generosos
como o de Carlos, o que quer que seja que dissipa resentimentos ainda
aos mais reservados e egoistas.
Resolveu finalmente o irmão de Jenny entrar no escriptorio.
Ao dirigir-se para lá, viu que lhe vinha ao encontro um homem gordo,
baixo e córado, que já de longe lhe estava fazendo cortezias.
Parou a escutal-o.
–V. s.ª passou bem?–disse o recem-chegado.
Carlos correspondeu ao cumprimento.
–Ora eu–continuou o homem–já ha pouco fui ao escriptorio de v. s.ª;
mas nem v. s.ª nem o senhor seu pae lá estavam. Eu não sei se v. s.ª me
conhece.
–Não, senhor–disse Carlos, entretido a olhar para o laço da gravata do
seu interlocutor.
–Eu sou o Anastacio Rebello, que fiz aquelle carregamento de laranjas o
anno passado…
Carlos fez distrahidamente um gesto affirmativo, e passou a examinar o
botão de peito do snr. Anastacio Rebello.
–Ora v. s.ª–proseguiu este–ha de estar certo de que ha dois mezes…
um meu correspondente de Braga me pediu… Eu não sei se o pae de v. s.ª
lhe disse… Talvez não dissesse…
–Talvez não–disse Carlos, sem o attender…
–Pois o negocio é simples: este meu correspondente… que é também meu
compadre… isto é, eu é que sou padrinho do filho d'elle, uma creança
de treze annos, que esteve ha mezes em minha casa, a banhos na Foz, por
causa de uns humores frios que…
Carlos assobiava já.
–Mas agora quer este meu compadre… Olhe; aqui está a carta que elle
me escreveu;–proseguiu o homem, procurando-a no casaco–eu julgo que a
trago commigo… Por ella fará ideia.
E principiou a tirar papeis sobre papeis, cartas, escriptos, ordens,
letras, contas, recibos… dizendo, ao passo que examinava cada qual por
sua vez:
–Não… isto é outra cousa… é a ordem para me pagarem uns cincoenta e
tantos mil réis… E já não veem sem tempo… Mas onde diabo puz eu a
carta?… Não é isto… Isto é o escripto de arrendamento da minha casa
do Forno Velho… Isto é… Que S. Pedro é isto?… Ah! a carta do
Maranhão… isto … isto é uma encommenda que me fazem de Bragança…
V. s.ª não me sabe dizer onde se vende… a estampa da guerra da
Crimeia?
–Eu não, senhor–disse Carlos, dando dois passos para o escriptorio.
–Encommendaram-m'a e eu…–continuava o homem, seguindo-o–Ah! achei;
cá está a carta!–exclamou, segurando Carlos pela manga do casaco–Ora
quer ler?
–Eu não, senhor–respondeu este, tentando evadir-se.
–«Prezado amigo e compadre–principiou o homem a ler.–«Recebi a sua de
13 e agradeço-lhe as recommendações, que me manda. A comadre…–é a
mulher d'elle–recommenda-se á snr.ª D. Maria do Carmo–é a minha
mulher…–e o Juca…–é o tal meu afilhado…–manda muitos beijos ao
padrinho…
–Que é o senhor–disse Carlos, já impaciente com a massada.
–Justamente–respondeu o homem, sorrindo á perspicacia de Carlos.
–Pois sim, mas eu agora não posso demorar-me–acrescentou Carlos,
fazendo outra tentativa para fugir.
–Isto tambem não interessa…–concordou o homem–aqui mais abaixo é
que… tal, tal, tal… sim, senhores…–«A festa do Bom Jesus este
anno promette ser feita com espavento e eu espero que
vocemecê…»–Elles querem que eu…
–Com licença, que estou com pressa.
–Sim; isto tambem não faz ao caso. É aqui abaixo…–«A camara
municipal foi reeleita, como sabe; a gente da opposição levou uma
derrota que…»
Carlos já não podia mais.
–Ora, meu caro senhor, que tenho eu com isso? Faz favor de me dizer?
–Tem v. s.ª razão… É que eu julgava… Tal, tal, tal–«O seguro não
quer pagar os prejuizos do incendio da minha casa da rua do
Souto…»–Olhe que tambem isto de seguros…
–Adeus–disse Carlos, rompendo de todo com o snr. Anastacio Rebello.
–Ah! é aqui; agora sim–exclamou este triumphantemente–Cá
está…–Aquella encommenda que eu fiz para Inglaterra…
Justamente quando o snr. Anastacio chegava ao ponto desejado, através
d'aquelle mar, cheio de baixios, da carta do seu correspondente, Carlos
vendo uma galante costureira, que a passos apressados atravessava a rua,
deixou-o sem ceremonia para se dirigir a ella.
–Adeus, minha flor.
A rapariga respondeu-lhe:
–Ninguem o conheceu hontem no baile.
–Então esteve lá?
E proseguiu o dialogo, mesmo em presença de toda a sisuda classe
commercial, que ao filho de Richard Whitestone tudo desculpava.
Anastacio Rebello dobrou a carta do compadre, e afastou-se escandalisado
com o que via.
Outros rapazes aproximaram-se. A rapariga fugiu.
Carlos, depois de alguns instantes tomados por occupações analogas ás
que descrevemos, caminhou emfim para o escriptorio.
Era assim que elle tratava negocios na Praça Commercial; vejamos no
escriptorio.
IX
NO ESCRIPTORIO
Na velha sala de paredes cinzentas e de soalho carcomido pelo caruncho,
onde Mr. Richard Whitestone tinha o escriptorio, havia vinte annos que
escrevia, addicionava, subtrahia, multiplicava, e dividia algarismos, e
isto tudo resmoneando, cantarolando e tossindo, o snr. Manoel Quentino,
personagem da idade do seu seculo, primeiro guarda-livros da casa, e
homem de habitos de vida, tão beneficiadores da saude do corpo, como
mantenedores da serenidade do espirito.
Manoel Quentino era a alma d'aquelle recinto. Na confusão de papeis, com
que lidava, taes como:–correspondencias, facturas, contas correntes,
contas de venda, conhecimentos, primeiras, segundas e terceiras vias de
letras, minutas de seguros, recibos e mais documentos commerciaes, elle
só, habituado desde muitos annos áquillo, podia descobrir uma disposição
ordenada.
D'isto mesmo se gabava; o que não se devia taxar de presumpção da sua
parte.
Pedissem-lhe de repente a mais insignificante carta, que elle, sem
hesitar, iria dar com ella. Era porém seu o segredo d'esta singular
classificação, que dera ás cousas; para o proprio Mr. Richard,
antolhava-se um dédalo o escriptorio, dédalo onde, ao querer
orientar-se, não dispensava nunca o fio conductor das explicações do
guarda-livros.
Homem de habitos regulares, a mais não poder ser, invariavelmente ao
soarem as sete horas da manhã no verão, e as oito, no inverno, estava
Manoel Quentino movendo a chave na porta do escriptorio; e meia hora
depois, sentado já á banca, todo entregue ao trabalho da escripta. Ás
tres da tarde, no inverno, e ás quatro, no verão, movia segunda vez a
chave, mas em sentido contrario; exceptuando uma ou outra occasião
extraordinaria, em que a affluencia de serviço o obrigava a serões.
Não era Manoel Quentino d'estes guarda-livros de mão rapida, e de
prompto expediente, que n'um momento dão solução a muitos negocios
juntos. Elle tudo queria feito com tempo, e, como a cada momento dizia:
«para pressas é que não era»; graças, porém, á paciencia e á
regularidade de trabalho, que não perdia nunca, insensivelmente o
serviço adiantava-se-lhe nas mãos e difficil seria acharem-o atrazado
alguma vez.
Observava pontualmente o judicioso preceito: _festina lente_, e
comprovava, com o exemplo, a efficacia d'elle.
Queria Manoel Quentino immensamente áquelle escriptorio, tal qual se
achava, assim mesmo desataviado e nú. Por vezes, Mr. Richard, e
principalmente Carlos, haviam procurado realisar n'elle certos
melhoramentos, que o fizessem mais commodo; tiveram porém de recuar
diante das repugnancias do velho guarda-livros, que declarou affligir-se
devéras com isso; e, como era elle a parte mais interessada no caso,
visto que alli passava grande parte da vida, foi-lhe facil vencer.
Em resultado d'isso, continuava a deliciar-se com aquellas quatro
paredes escuras, com o tecto de castanho apainelado, que o tempo
ennegrecera, com o chão aspero e picado pelos insectos, com as janellas
de construcção antiga, de pequenos caixilhos, e abundantes em fechos,
aldrabas e postigos, com a porta de fortaleza, cujos gonzos perros
tinham um chiar, que era para Manoel Quentino como o timbre de uma voz
de amigo, agradavel ainda quanto pouco harmoniosa, com as escrivaninhas,
os mochos, os cabides, o lavatorio e toda a mobilia emfim, feita segundo
os velhos modelos dos escriptorios antigos.
Eram aquellas as testimunhas do encanecimento dos seus cabellos; como
taes as amava.
Além de Manoel Quentino, compunha-se o pessoal do escriptorio de dois
segundos caixeiros e um rapaz de serviço, a todos os quaes o
guarda-livros accusava constantemente de mandriões e ao mesmo tempo
quasi os impedia de trabalhar, pela excessiva disposição que tinha para
fazer tudo por suas mãos.
Momentos antes de Carlos chegar, Manoel Quentino havia dado aos
escripturarios duas cartas insignificantes a copiar e entregára-se elle,
com todos os seus cinco sentidos, á redacção da correspondencia para
Londres.
Dos escripturarios, um, tendo terminado a sua facil tarefa,
aproveitou-se da distracção de Manoel Quentino, tirou ás escondidas da
escrivaninha um romance de Paulo de Kock e pôz-se a lel-o, com a sôfrega
curiosidade dos dezesete annos; o outro occupou o tempo a escrever uma
carta de amores á dama dos seus pensamentos, carta em que, por
incidente, foram inclusas algumas allusões epigrammaticas ao
guarda-livros, a quem entre outras cousas se chamava «Argos
desapiedado»; o rapaz de serviço, deixado tambem em disponibilidade,
entretinha-se a perseguir as moscas da vidraça ou a traçar com o dedo
lettras maiusculas nos vidros, que humedecia com o bafo. Qualquer
d'estas tres occupações, sendo pouco ruidosa, mantinha-se no escriptorio
um silencio, que agradava a Manoel Quentino.
Elle era o unico a interrompel-o, graças ao singular monologo, que
estava de contínuo murmurando á penna com que escrevia.
Dava-se effectivamente em Manoel Quentino uma illusão singular.
Á força de lidar com a penna, á força de tão indissoluvelmente a ver
associada ao seu destino, o velho guarda-livros acabára por julgal-a
quasi dotada de certa intelligencia e fallava-lhe, animando-a,
reprehendendo-a, sopeando-lhe os impetos, como a caprichoso corcel que
se pretende guiar.
–Anda, anda,–dizia elle–que ronceira que estás hoje! Olha que não
temos esse tempo, que julgas… Então?… Que é isso agora?… Pois já
queres mais tinta? Depressa gastaste a que bebeste! Vá, avia-te…
Bonito R! Isso não esperava eu de ti!… Adeus! Agora mais este
cabello!… E sujas-me todo!… Trapalhona!… Ai, que impertinente que
estás!… Adiante! adiante! adiante!… Espera, espera… Lá te esqueceu
um D!… E agora?… Agora vê se te mexes entre essas duas lettras…
Assim… Ah! … não toques nos SS … assim… Bem… Continúa, mas com
tento… Então! Não querem ver que páras outra vez? Ora isto é
demais!… Deixa estar que… Oh!
Era um borrão, que lhe caía no meio da pagina e lhe inutilisava a
correspondencia quasi no seu termo.
«Trai la rai, la rai, larai lai
Trai, larai, larai, larão, lão
Trai larai lai, larai larai lai,
Trai lari, lari, lari, larão lão.
Trai lari, lari, lari, larão lão.»
Isto era a trautear o hymno da Carta, cousa que elle fazia sempre
n'estas occasiões criticas. E sem mais alguma observação pôz a folha
suja de lado, preparou outra e encetou nova correspondencia, não sem
primeiro substituir a penna, dizendo-lhe ao deixal-a:
–Descansa. Hoje não estás nos teus dias. Vem cá tu–dizia para
outra.–Vê lá como te portas!
E, olhando fixo para ella:
–Umh! Não tens lá muito boa cara! não… Ora vamos a ver… Vá,
despacha-te, que tenho mais que fazer!… Abre os bicos… abre…
Assim… bem! Sim, senhora!… Bravo… Ninguem havia de dizer que tu…
Caspite!…
E com estas palavras de animação ia applaudindo o bom serviço da penna e
quasi lhe parecia vel-a trabalhar com mais ardor, assim estimulada.
Foi n'este momento que um valente encontrão abriu a porta do
escriptorio, e o _terra-nova_, precedendo Carlos Whitestone, invadiu o
até alli silencioso e tranquillo recinto, principiando logo por entornar
a infusa com agua, collocada a um dos cantos da sala.
Manoel Quentino, que estremecera com a subita apparição do quadrupede,
ao ver o estrago que a sua impetuosidade produzira, pôz-se a olhar
silencioso para elle e em seguida para a porta, como se contasse com
mais alguma invasão, não menos revolucionaria do que esta.
Effectivamente Carlos não se fez esperar.
–_Good Morning_, Mr. Manoel Quentino!–bradou Carlos do limiar, fazendo
para o guarda-livros uma reverencia muito rasgada.
–_Good Morning_, Mr. Charles–respondeu Manoel Quentino, encolhendo os
hombros e dando ás feições um ar de paciente resignação, uma especie de
bondoso mau humor.
Cumpre advertir aqui que Manoel Quentino fallava o inglez, graças á sua
longa convivencia com os _Her Majesty's subjects_ residentes na nossa
cidade; mas o inglez de Manoel Quentino era, até certo ponto, como o
portuguez do patrão. Causava especial sensação ouvil-o pronunciar todas
as palavras inglezas n'um tom, inflexão e maneiras, do cunho mais
genuinamente portuguez. Podia dizer-se que Manoel Quentino fallava
portuguez em inglez.
–Ditosos olhos que o vêem!–disse elle a Carlos; e depois para o rapaz
do escriptorio:–Olha aquella agua que se entornou…–e para Carlos
outra vez com gesto velhaco:–Então esteve doente?
–Eu? Tenho gosado a mais florescente saude do mundo–respondeu Carlos.
–Como não tem apparecido!–Anda, avia-te rapaz!
–Tenho-lhe talvez feito aqui muita falta?
–Umh!–resmungou Manoel Quentino.
Os caixeiros, que com a entrada de Carlos haviam escondido, um o
romance, outro o modelo epistolar, sorriram entre-olhando-se.
–E você como tem passado por aqui sem mim, minha flor?–perguntou
Carlos, mexendo-lhe nos papeis–Cada vez mais bonito, cada vez mais
contente.
–Adeus, adeus. Não bula ahi, homem! Que é o que quer? que é o que quer?
–Lumes. Não ha lumes n'esta casa? que diabo!…
–Eu logo vi. Não pensa senão em fumar. Espere lá, espere lá. Não me
desarranje isso. Eu dou-lhe lumes, eu dou. Ora ahi tem. E deixe-me.
Carlos accendeu um charuto e offereceu outro a cada um dos caixeiros,
que os afagaram com olhares ávidos, mas sem se atreverem a aceital-os.
–Fumem–insistia Carlos.
Manoel Quentino levantou os olhos e fixou-os nos dois rapazes.
Sob a influencia d'aquelle olhar, hesitaram ainda.
Carlos obrigou-os porém a aceitar, offereceu-lhes lume para accenderem,
e emquanto o faziam, voltou-se para Manoel Quentino, e vendo a cara de
contrariado com que ficava, aproximou-se d'elle:
–Que tem você, Manoel Quentino? Deixe fumar os rapazes. Não seja
fossil.
–Se o pae vier por ahi, cuida que ha de gostar de… E demais a mais, é
distrahil-os do serviço…
–Que serviço? Olhem o grande serviço que elles
faziam!–Rapaz–acrescentou logo depois, dirigindo-se ao perseguidor das
moscas da janella–vae á rua de Santo Antonio saber se aquelle meu
casaco está prompto… e chega de caminho ao theatro de S. João,
pergunta pelo bilheteiro e dize-lhe que vaes de meu mando tomar seis
cadeiras para a recita de quinta-feira… entendes? Seis cadeiras;
depois…
–E faz favor de me dizer quando é que elle ha de levar a
correspondencia ao correio?–perguntou com mau humor Manoel Quentino.
–Eu sei lá d'isso? Anda, vae…
–Mas…
–Ora! mande ao correio quem quizer… Avia-te. Salta.
O rapaz saíu a correr.
Manoel Quentino encolheu os hombros.
Carlos dirigiu-se á janella, que abriu de par em par. Uma rajada de
vento, entrando na sala, fez esvoaçar toda a papelada da banca de Manoel
Quentino.
–Lá vae! lá vae! lá vae tudo com os diabos!–exclamou o
guarda-livros–Adeus, minha vida; estou arranjado!
Carlos desatou a rir.
–Isso; ria-se, que tem muita graça! Então os senhores que
fazem?–perguntou, descarregando as iras sobre os caixeiros–Ponham-se á
palestra e a fumar, e eu que trabalhe; hein?
–Deixe estar que eu apanho isso–disse Carlos, continuando a rir.
E todos quatro principiaram a apanhar os papeis, dispersos por a sala.
–Vão lá saber agora…–proseguiu Manoel Quentino–vão lá saber agora a
ordem em que eu tinha tudo isto! Olhem… olhem… Ficou bonita a carta
do correspondente de Liverpool! Sim, senhores! Olhem para estas contas
da gerencia da capella ingleza! Tambem ficaram asseiadas! Pois estas
apolices… E o maldito cão a afocinhar-me na agua aquella minuta!…
Passa fóra! Eh!… passa fóra, tratante.
E voltando á escrivaninha pôz-se a coordenar outra vez os papeis.
–Ó Manoel Quentino–perguntou-lhe Carlos já da janella–quem é aquella
rapariga que está aqui defronte no terceiro andar? Aquella cara é nova
para mim.
–Eu sei lá d'isso, homem? Tomára que me deixassem.
–Quem é, ó Paulo, você ha de saber. Um rapaz da sua idade…–disse
Carlos, dirigindo-se familiarmente a um dos caixeiros.
Era este um rapaz ainda imberbe, pallido, com certo fundo de melancolia,
transparecendo por debaixo do jovial sorriso, proprio dos seus, ainda
incompletos, dezoito annos.
Á pergunta de Carlos, aproximou-se da janella.
–Não sei–disse depois de ver a pessoa designada–não a conheço. O
Pires ha de saber.
Pires era o nome do outro caixeiro, que por sua vez foi chamado.
E todos tres, em resultado d'esta conferencia, ficaram encostados á
varanda, praticando em varios assumptos de igual momento.
Manoel Quentino, que já tinha posto por ordem os papeis, olhava de
quando em quando para a janella e principiava:
Trai la rai…
trauteava o hymno da Carta.
O vento, depois de prejudicar a papelada do guarda-livros, dirigiu os
seus furores contra a pituitaria do mesmo; Manoel Quentino começou a
espirrar.
–Deus me salve!–dizia elle de cada vez.
Á quinta não teve mão em si, que não dissesse a Carlos:
–O' snr. Carlos! Ora a fallar a verdade, homem! Isso sempre é um gosto
exquisito! Ahi posto á janella com este vento dos diabos! Eu já
estou…–e espirrava outra vez–já estou constipado.
–N'esse caso recolho-me–disse Carlos, fechando a janella e vindo
debruçar-se na escrivaninha de Manoel Quentino, o qual começára de novo
a correspondencia.
–Sim, senhor, snr. Manoel Quentino;–dizia Carlos expellindo uma
baforada de fumo, á qual o velho fez caretas–você será parente de
Quentino Durward, de que falla o Walter Scott? Você sabe quem era o
Walter Scott, Manoel Quentino?
–Eu não, senhor…–respondeu o velho, continuando a escrever.
–Walter Scott era um romancista. Sabe o que é ser romancista? Diga-me,
já leu algum romance?
–Não, senhor, que tenho mais que fazer.
–Pois deixe estar que lhe hei de emprestar romances para ler…
–Muito agradecido.
–O primeiro ha de ser _O Cavalheiro de_…
Os dois caixeiros fungaram do outro lado da sala.
–_De Harmental_–concluiu maliciosamente Carlos–e acrescentou:–Não
sei de que se riem estes senhores.
–É porque teem a vida muito canceirosa–respondeu Manoel Quentino.
–Depois hei de emprestar-lhe a _Mademoiselle_…
O mesmo effeito nos caixeiros.
–_Mademoiselle de La Seiglière_–delicada concepção de Jules
Sandeau–concluiu Carlos, olhando-os com gravidade comica.
–Adeus, já me fez enganar!–exclamou Manoel Quentino–Por sua causa
escrevi agora–cavalheiro–em vez de–Companhia.
–Isso emenda-se.
–Ha de emendar boas cousas.
–Emenda, sim. Olhe d'esse _a_ faz-se bem um _o_; depois o _m_ fórma-se
do _v_ e do…
–O remedio é outro…
E com exemplar paciencia começou nova carta.
–Oh! com os diabos! Então vae outra vez principiar?
–É o que o senhor faz.
–O caso é que você tem bonita lettra! Invejo-lh'a. Se me ensinasse a
escrever assim!
–Não precisa.
E, para fixar a attenção, ia dizendo em voz alta o que escrevia:
–Recebi o seu favor de 14 do corrente e em resposta…
–Não preciso? Preciso tal–proseguiu Carlos–rapariga a quem eu
escreva…
–Do nosso ajuste–dizia Manoel Quentino, e fallando para Carlos
alternadamente:–Elle ahi vem com as raparigas; o que eu lhe queria eram
os cuidados!…–O preço do genero…
–Então parece-lhe indigno o assumpto? Ora diga, Manoel Quentino, diga
se, quando era rapaz, não massava tambem com o tal assumpto os velhos do
seu tempo.
–E a competente commissão.–Não que eu, quando era rapaz, já tinha mais
em que cuidar…–Em vista pois das ordens recebidas…–Cuida que me
levantava ao meio dia para pensar em moças, e que me deitava lá por
altas horas, inda por causa d'ellas?
–Então que fazia você?–insistia Carlos, tomando a penna e desenhando
uma figura na margem do jornal do dia.
–Com lucros provaveis…–O que eu fazia bem o sei; ainda me não
esqueceram as madrugadas dos meus vinte annos…
–Ah! madrugadas!… Bem entendo!…
–Para trabalhar, para trabalhar! Está muito enganado, se cuida que
todos tiveram a sua vida. Bom era isso!–A fallencia da casa Rodrigues
e…
–Grande vida a minha!–continuava Carlos–Ha lá nada mais semsabor?
Veja que precioso tempo perdido n'esta soturna sala.
E ao dizer isto ia, insensivelmente, sem reparar no que fazia,
aproximando a penna da borda da carta, que Manoel Quentino escrevia, e
quasi principiava a desenhar algum ornato n'ella.
–Oh! oh!–exclamou o velho, arredando-lhe a mão–Que ia fazer? Se lhe
parece, suje-me agora a carta.
Carlos ergueu-se rindo e pôz-se a passeiar na sala.
–O pae inda não veio hoje aqui?
–Ha que tempos!
–E não volta?
–Ha de voltar, se Deus quizer.–É preciso fechar isto mais cêdo
hoje–continuou Carlos.–Estes senhores precisam de gosar o carnaval.
–Bom carnaval é o d'este mundo!
–Que horas são?
–Duas e vinte minutos–Respondeu Manoel Quentino, sem olhar para o
relogio e não errando meio minuto.
–Se meu pae…–principiava a dizer Carlos, mas foi interrompido pelo
ranger das botas de Mr. Richard, que se ouviu nas escadas.
Restabeleceu-se a ordem no escriptorio.
Os caixeiros pozeram-se a escrever, e o proprio Carlos pegou em uma
folha ingleza e fez que a examinava na secção commercial.
Manoel Quentino curvou-se ainda mais sobre a banca e moveu com maior
agilidade a penna sobre o papel paquete, em que estava escrevendo.
Mr. Richard entrou no escriptorio com o rosto jovial e assobiando uma
das suas predilectas toadas inglezas; mas, graças ao duro ouvido musical
de que era dotado o velho _gentleman_, tão transtornada lhe saía ella,
que o proprio auctor lhe custaria de certo a reconhecel-a.
O _Butterfly_, com a leveza, que justificava o nome de lepidoptero, que
lhe tinham posto, atravessou a sala e foi cumprimentar o seu companheiro
_terra-nova_, o qual, sentado, com a lingua de fóra, o recebeu com
benevola, mas sisuda, magestade.
Todos se ergueram á entrada de Mr. Richard, em cujo rosto um olhar,
exercitado em estudal-o, facilmente descobriria certa expressão de
contentamento, despertada pela vista do filho, o qual, elle, n'aquelle
dia, estava bem longe de esperar alli.
O plano de Jenny sortira bom effeito.
Mr. Richard dirigiu-se immediatamente ao seu gabinete particular. Carlos
foi ter com elle, para lhe pedir a benção e ao mesmo tempo aproveitou a
occasião para lhe agradecer o relogio e para desculpar-se de não ter
assistido na vespera ao jantar de familia.
Mr. Richard Whitestone já não tinha cousa alguma no coração contra o
filho. A vinda d'este ao escriptorio fora bastante para dissipar a menor
sombra de resentimento.
–Não teve duvida–repetia elle muitas vezes, interrompendo a longa
justificação de Carlos–não teve duvida, não teve duvida… Pois… esse
relogio é de um fabricante muito acreditado, e, segundo o homem affirma
aos compradores, não fará differença de meio minuto em cinco annos!
Talvez seja confiança de mais!–acrescentou, rindo com vontade.
–Ou cegueira paternal–observou Carlos, rindo como elle.
–Sim, sim, ou isso, cegueira paternal, sim–concordou Mr. Richard,
rindo cada vez mais e experimentando elle mesmo tambem os effeitos da
tal cegueira.
E em seguida destapou duas garrafas de cerveja de Bass, tirou do armario
uma copiosa provisão de bolacha e, na companhia do filho, celebrou a sua
terceira refeição d'aquella manhã.
Passados minutos, voltaram ambos ao escriptorio nas melhores disposições
d'este mundo.
Se Jenny os podesse ver então, como exultaria de contentamento!
Mr. Richard encaminhou-se para a escrivaninha de Manoel Quentino, Carlos
sentou-se na escrivaninha opposta, e fingiu examinar os livros
commerciaes.
Mr. Richard dirigiu varias perguntas ao guarda-livros, sobre alguns
negocios pendentes, ás quaes Manoel Quentino deu respostas laconicas,
mas peremptorias.
O inglez consultou depois algumas cartas, entregou outras ao
guarda-livros, tomou notas, expediu ordens, examinou a escripturação,
abriu o copiador e, de repente, voltando as costas a Manoel Quentino e
dirigindo-se a Carlos:
–Já leste a carta do nosso correspondente em Londres?–perguntou com
affabilidade.
–Ainda não, senhor.
–Manoel Quentino! Então porque lh'a não mostrou?!–disse o pae,
voltando-se outra vez para o guarda-livros; e depois acrescentou de novo
para Carlos:–Ha noticias importantes e que fazem prever a probabilidade
de ser este um anno de vantajosas transacções, se por acaso…
–É um homem diligente, Mr. Leeson–notou Carlos, querendo dizer alguma
cousa, mas com tanta infelicidade, que trocou o nome do correspondente
de Londres pelo do de Liverpool.
–Ho!–disse logo Mr. Richard, mortificado–Leeson!… de Londres!
Repara!… de Londres!?
Carlos conheceu que tinha sido inconveniente a observação, mas o peior
era que não sabia corrigil-a, pois que de todo lhe esquecera o nome do
tal correspondente.
–Ai, de Londres…–dizia elle embaraçado.–Eu julguei que… sim, de
Londres; é que me pareceu…
Mr. Richard esperava ouvir o verdadeiro nome, pronunciado por o filho;
mas não succedeu assim.
Manoel Quentino, que tinha bem fundados motivos–motivos, que o leitor
deve prever quaes fossem–para não julgar de instante necessidade pôr
Carlos Whitestone ao corrente das noticias commerciaes, abriu comtudo a
escrivaninha e, procurando a carta em questão, levou-a a Carlos, não
podendo disfarçar um sorriso, ao qual este correspondeu com ligeiro
movimento de hombros.
Carlos, em vez de citar o nome do correspondente, pôz-se portanto a
examinar a carta.
–Falle-lhe n'aquelle negocio da aguardente–disse Manoel Quentino quasi
ao ouvido de Carlos, antes de se retirar outra vez para a banca onde
escrevia.
Mr. Richard pozera-se a passeiar na sala, esfregando as mãos, e de
quando em quando parava junto da vidraça, onde tocava um ligeiro rufo.
Não estava ainda de todo restabelecido da má impressão que lhe causára o
haver encontrado o filho tão pouco sciente do nome dos correspondentes
da casa.
Carlos ficou a olhar para a carta commercial, mas julgo que nem a lia.
Estava pensando como havia de aproveitar o conselho, pouco explicito, de
Manoel Quentino e fallar ao pae no tal problematico negocio da
aguardente, para elle inteiramente mysterioso.
Temia, referindo-se-lhe aventuradamente, aggravar as difficuldades da
sua posição, longe de diminuil-as.
Manoel Quentino continuava a escrever, lançando para Carlos, ao molhar
da penna, um sorriso malicioso.
Este pousou a carta.
O pae olhava-o obliquamente, como a esperar alguma reflexão.
Carlos fitou ainda Manoel Quentino, o qual lhe fez um imperceptivel
signal.
Carlos aventurou-se:
–Emquanto ao negocio da aguardente…–disse elle com certa
hesitação–nada…
O effeito foi maravilhoso!
Mr. Whitestone voltou-se com viveza e, sem disfarçar a intima
satisfação, que lhe causava ver o filho tão bem informado, exclamou:
–Ah! tambem reparaste? Foi o que logo me deu que entender. Cuidei que
nem estavas ao facto!
Carlos, animado com o resultado, proseguiu com mais coragem:
–Como era negocio de vulto…
Manoel Quentino fez porém uma carêta, que o levou a corrigir.
–Isto é… de vulto não digo… mas…
–Mas que podia bem vir a sel-o para o futuro … é assim–atalhou Mr.
Richard.
–Exactamente–concordou o filho.
Manoel Quentino sorria.
–Mas já estive a pensar–proseguiu Mr. Richard–talvez influissem
n'isto as condições do mercado em Londres. Subiria o genero a ponto de
exceder o maximo indicado nas nossas cartas.
–Póde ser, mas…–dizia Carlos, olhando para Manoel Quentino, á espera
de receber inspirações d'alli.
Este affeiçoou os labios como para pronunciar uma palavra, que a Carlos
pareceu dever ser «juro». Por isso abalançou-se outra vez a dizer:
–E tambem o juro…
Parou, porque devéras não sabia o que devesse dizer do juro, nem se era
natural imaginar que tivesse subido ou descido.
Manoel Quentino moveu a cabeça em direcção do tecto, exprimindo
mimicamente a primeira hypothese.
–Talvez o juro subisse–concluiu, em vista d'isto, Carlos Whitestone.
Mr. Richard aproveitou a insinuação do filho, e evidentemente satisfeito
notou com vivacidade:
–Effectivamente o juro está muito alto em Londres.
–Ha muito tempo que o não tivemos tão desfavoravel–apressou-se Carlos
em dizer, d'esta vez sem hesitar, visto que dava apenas nova fórma á
mesma ideia.
–É verdade que não. Creio até que ainda n'estes ultimos dez annos não
subiu tanto, como agora.
Carlos percebeu em Manoel Quentino um movimento de desapprovação, que o
animou a dizer:
–Isso é que não sei; dez annos será demais, comtudo…
–Olha que não é demais–insistiu Mr. Richard, devéras admirado das
informações do filho; e, depois de meditar algum tempo, continuou,
voltando-se para o guarda-livros:–Em que anno teve logar aquella quebra
da casa Blackfield de Londres, Manoel Quentino?
–Em outubro de 1847–respondeu este, sem levantar os olhos da escripta.
–Em 47?–Ai, então tens razão, tens; 47 a 55… 8… É isso… Porque
eu lembro-me de que estava então o juro a 8 por cento.
–E d'essa vez–acrescentou Manoel Quentino–o cambio era-nos mais
desfavoravel que hoje.
–É isso, é isso.
Esta conversa prolongou-se por algum tempo com visivel satisfação de Mr.
Richard, com bastante difficuldade para Carlos e com superior diplomacia
do bondoso Manoel Quentino, que estava sendo collaborador de Jenny, na
obra de pacificação domestica, encetada por ella.
Ouviram-se emfim tres horas na torre de S. Francisco, e Mr. Richard,
depois de ultimo exame aos livros e algumas recommendações mais, saíu do
escriptorio, dando as boas tardes a Manoel Quentino, fazendo a Carlos um
signal de despedida, menos sêcco do que de ordinario, e, o que mais era,
afagando na passagem o _terra-nova_, cousa que não praticava, senão em
occasiões de grande harmonia com o filho.
Ainda mal se tinha perdido nas escadas o som dos passos de Mr. Richard e
o dos latidos de contentamento do _Butterfly_, impaciente de liberdade,
já a carta do correspondente de Londres, descrevendo uma parabola, vinha
caír na escrivaninha ao lado de Manoel Quentino, e Carlos accendia novo
charuto e dispunha-se a seguir o exemplo paterno.
–Até que soou a hora da redempção!–exclamou elle, pondo o chapéo na
cabeça.
–Então já se vae embora?–disse Manoel Quentino, maliciosamente.
–E acha você que não tomei dóse bastante de commercio esta manhã? Isto
em pleno carnaval? Que impiedade!
–Eh! eh! eh! E que me diz do tal negocio da aguardente? Então com que,
está alto o juro, hein? Eh! eh! eh!
–Vi-me devéras embaraçado com a tal aguardente!
–Mas saíu-se bem.
–Agradeço-lhe o auxilio.
–Quer mandar dizer alguma cousa ao correspondente a tal respeito?
–Que vá para o diabo! Não me pôde occorrer o arrevezado nome d'esse
maldito. Como se chama elle?
–Então não sabe ainda? Woodfall Hope… Uma das primeiras firmas
commerciaes de Londres; e n'este negocio da aguardente…
–Não, isso mais devagar, Manoel Quentino–atalhou Carlos–não lhe aturo
nem mais uma palavra a respeito do tal negocio da aguardente. Boas
tardes. Adeus, meus senhores. Deixem isso e vão ver as mascaras. Adeus.
–_Farewell_! Mr. Charles… Eh! eh! eh!…
Dentro em pouco, ouvia-se o descer apressado de Carlos, e a pancada
violenta da meia cancella do portal impellida de encontro ao batente.
O escriptorio voltou ao primeiro silencio. A Praça estava quasi deserta.
Como era terça-feira de carnaval, terminára mais cêdo a azafama do
commercio. Os caixeiros bocejavam e o chiar da penna de Manoel Quentino
augmentavam o effeito somnifero do logar.
De repente porém foi mais ruidosamente interrompido o silencio por o
«Trai larai, larai, larai, lai» do guarda-livros.
O bom homem, revendo o trabalho feito, descobriu omissões e enganos, que
o obrigavam a refazel-o outra vez; a isto procedeu com exemplarissima
paciencia.
Voltou a si todas as culpas.
–Ora eu devia ter mais juizo. Ainda me deixo distrahir como as
creanças; merecia palmatoadas.
Depois, lembrando-se de Carlos:
–Aquelle traquinas tambem! Valha-me Deus!
Em seguida para os caixeiros:
–Os senhores podem ir embora. Vão ás mascaras, vão; e olhem se teem
juizo e não arruinem a saude. Adeus. Eu ainda fico.
–Mas se quer que o ajudemos, snr. Manoel Quentino…–disseram elles,
por deferencia.
–Eu quero, mas é que me deixem. Vão com Deus.
Os caixeiros não se fizeram rogar.
–Agora, juizo–continuou Manoel Quentino, ficando só–juizo, senão só
chego a casa á noite, e a Cecilia ha de estar com canceira já. Como se
transtornou hoje tudo! Eu, que contava acabar com isto mais cêdo, pois
levava o serviço adiantado e vae… Como diabo lhe deu o rapaz para vir
hoje ao escriptorio?… Bom moço, isso lá é, um coração de pomba… A
cabeça é que… E n'isto de negocio, então!… Eh! eh! eh!… E o pae a
imaginar ha pouco… A gente sempre tem cegueiras pelos filhos! Cala-te,
bôca, que tambem não pódes fallar! Coitados dos paes! E o velho quer-lhe
devéras… Toda a sua pena é o rapaz não tomar gosto para o commercio.
Aquillo tambem muda… Verduras! Bom rapaz! bom rapaz! Tem a quem saír.
O pae, um homem de bem ás direitas… a mãe era uma santa senhora…
Pois a irmã? Isso então nem fallemos… Um anjo! E pensar que não são
catholicos! A fallar a verdade! Ora adeus! protestantes d'estes, que
remedio tem S. Pedro senão ir recebendo-os no céo.
Em consequencia da visita de Carlos, só ás tres e meia foi que Manoel
Quentino pôde terminar a sua tarefa e fechar o escriptorio, para voltar
a casa com appetite no estomago e tranquillidade no coração. Já vê o
leitor que tinha razão Carlos ao assegurar que não era das mais
proveitosas a sua ingerencia nos negocios commerciaes.
X
JENNY
Jenny entrou no seu quarto, logo depois da partida de Carlos para o
escriptorio. Era um delicioso quarto, côr de violeta, onde se divisava o
bom gosto e a elegancia desaffectada, maravilhosamente unidos a um não
sei quê de austeridade ingleza, não em tal grau que destruisse a feição
leve e graciosa, que compete aos aposentos de uma mulher de vinte annos,
mas bastante para os despojar de certo excesso de ornamentos, que em
extremo agradam a alguns espiritos, mais que femininos, pueris.
Não lhe era cabida a descripção, que um romancista francez nos faz do
quarto de uma das suas heroinas, pintando-nos tão abundantes as
tapeçarias e alcatifas que, em todo elle, se não mediria uma pollegada
de madeira a descoberto, e tão flacidas e macias, que n'essa gaiola
perfumada poderia qualquer avesita voar, de canto a canto, sem receio de
magoar as azas.
Este requinte de molle elegancia parisiense mal se quadrava com a indole
séria e com a actividade natural de Jenny Whitestone. Ha em toda a
ingleza um pouco de puritana; no caracter das mais ternas conserva-se
sempre alguma cousa que, debaixo do ponto de vista moral, corresponde
áquelle esbelto e inflexivel de fórma, que lhes é proprio, tão diverso
do requebrar indolente e quasi morbido das mulheres meridionaes.
Não se encontrava no quarto de Jenny um unico objecto d'essa mobilia,
quasi de boneca, dos _boudoirs_ da moda, onde predominam o _papier
maché_, o pau rosa, a madeira branca e dourada; e os primores de uma
arte, que, á força de querer apurar em delicadeza os seus productos, os
faz ás vezes acanhados e ridiculos.
A elegancia, alli, não abdicava certa dignidade, á qual hoje é raro
combinar-se. Nenhum dos costumados artificios da industria moderna; tudo
era o que parecia ser; o marmore, marmore; o bronze, bronze; o damasco,
damasco; as rendas, rendas verdadeiras. Não havia nos moveis esses
tenuissimos folheados, mascarando, com madeiras de preço, outras de
menos valor; nenhumas d'essas maravilhas de imitação, obtidas com
vernizes e tintas; nenhuns metaes enfeitados, pelo galvanismo, com
falsos titulos de nobreza. Nem um só objecto mentia dentro d'aquelle
recinto.
Os caracteres, naturalmente observadores da boa fé, até n'estas cousas a
amam.
A côr predominante do quarto, de um tom que agradaria a pintores, fazia
vantajosamente sobresair a alvura dos cortinados do leito, castamente
descidos.
Côres mais garridas só as das camelias, que, em singelas jarras de
_biscuit_ e porcellana, adornavam o toucador e o fogão.
Não usurpavam o logar, devido ás pobres flores, essa profusão de
quinquilharias, hoje tanto á moda: vidros de essencias, de pomadas, de
oleo, cartonagens de todos os feitios, figuras de porcellana e de jaspe,
flores de pennas, de papel, de sola, de cascas de cebolas, de tudo com
preferencia ás verdadeiras; retratos de rainhas e de reis, sabonetes de
varias côres e fórmas e uma infinidade de pequenos objectos, que dão a
qualquer d'esses gabinetes a apparencia de bazar ou de exposição de
feira.
Alguns bronzes de arte, alguns purissimos crystaes de Inglaterra,
algumas bonitas floreiras e uma ou outra obra de litteratura ou de
religião, n'aquellas inimitaveis brochuras inglezas, era o mais que alli
se podia ver.
As paredes estavam limpas de arrebicadas lithographias coloridas,
representando meninas a disfarçarem um sorriso atraz do leque, a
brincarem com um gato, a cheirarem uma flor, a olharem-nos através de
uma luneta e em outras muitas posições todas affectadas, de tão
graciosas que querem ser; em vez d'este adorno, então commum nas salas
do Porto, notavam-se as mais afamadas producções do inexcedivel buril
britannico e algumas aquarellas, cópias fieis de paizagens inglezas.
A luz penetrava na sala por entre discretas venezianas e cortinas, que
lhe temperavam a intensidade, até o grau adequado aos habitos de viver
de Jenny.
De tudo emfim vinha a este quarto um aspecto de placido recolhimento, em
que se aprazia o espirito, pensador e inclinado á melancolia, da
amoravel irmã de Carlos.
Era alli dentro que, corridos os reposteiros e as cortinas, recostada ás
mãos a fronte pensativa, em silencio, a sós, tantas vezes, como agora, a
sympathica menina se entregava a meditações abençoadas de Deus, e das
quaes dimanavam jubilos suaves para quantos de perto a rodeiavam.
Agitado o coração de saudades, sempre vivas e pungentes, contemplava
n'esses momentos, com fervor quasi religioso, o retrato da mãe, fiel e
mimosa miniatura, que recatava como a mais preciosa das suas joias.
A imagem d'aquella, que a estremecera tanto e que parecia ainda olhal-a
com um bondoso sorriso, que nem a morte lhe apagára dos labios, produzia
em Jenny a mais poderosa impressão.
Ás vezes, á força de muito a contemplar, figurava-se-lhe que essas
amadas feições se animavam, que um ligeiro movimento lhe corria nos
labios, que um raio de vida fulgia, por instantes, nos olhos tão cheios
de piedade e de tristeza.
Que alegria para o coração da pobre Jenny! Persuadia-se de que a alma da
mãe, evocada pela sympathia filial, passára alli, illuminára
momentaneamente a imagem inerte, e abençoára a filha, que tão pequena
deixára orphã de apaixonadas caricias.
Esta illusão vivia com Jenny; era n'ella um d'esses intimos segredos do
coração humano, para os quaes não há confidentes possiveis. Perante a
amizade mais provada, perante o amor mais extremoso, a alma, por
expansiva que seja, não se revela toda. Ha uma parte obscura do nosso
mundo interior, sempre inaccessa aos olhares estranhos, onde se refugiam
esses muitos segredos do eu para o eu, segredos, de que nós mesmos nos
ririamos, se os labios ousassem pronuncial-os um dia;–que não ousam. Ha
exemplos de perfumes tão subtis, que, aberto o vaso que os contém, quasi
instantaneamente se dissipam na atmosphera; assim estes mysterios
interiores, inconsistente alimento da nossa phantasia, perdem-se tambem,
ao tentarmos communical-os.
Guarde cada um para si essa parte do pensamento, superstições
infundadas, crenças pueris, que não podem separar-se de nós, sem que nós
proprios as desconheçamos e com os estranhos zombemos d'ellas, das
pobres, que não nasceram para viver senão assim, presas á alma, de cuja
essencia parece receberem vida.
São como umas delicadas algas maritimas, cuja textura tenuissima se
expande na agua em formosas arborisações, illudindo as esperanças dos
que, namorados de tanta belleza, as arrancam de lá; fóra do ambiente, em
que vegetam, cêdo se mirram e desformam.
Bem lucida e forte era a razão de Jenny, e comtudo, no mundo interior,
nutria a crença illusoria–pelo menos illusoria me parece, a mim que de
fóra a examino–de que aquelle retrato de sua mãe não tinha uma
expressão invariavel.
Eu queria dizer que isto era sentido, e não pensado, pela bondosa
menina; mas não sei se o rigor philosophico me permittirá a linguagem; e
comtudo não vejo como de outra sorte dar conta d'este frequente
phenomeno psychologico–o da persistencia de certas crenças irracionaes,
nos espiritos mais vigorosos e logicos.
Dias havia, em que nos traços e delineamentos d'aquella miniatura, Jenny
julgava descobrir um ar de alegria, que logo se lhe insinuava no
coração; outros em que, pelo contrario, ganhavam vulto a seus olhos não
sei que sombras de tristeza que a faziam estremecer, como se fossem
presagio de mal.
Seriam reflexos de presentimentos proprios, que então a illudiam?
Talvez; e ficar-se-ha comprehendendo melhor o mysterio, interpretando-o
assim?
Presentimentos! Que espirito philosophico ha ahi, que os admitta?
Jenny era ainda uma creança, quando perdeu a mãe; no meio dos jogos e
dos brinquedos infantis veio um dia surprendel-a este profundo golpe no
coração; ao seu lado, crescera o mal ameaçador e terrivel, mas, no
descuido de tão tenros annos, só dera por elle, quando a victima lhe
caía prostrada nos braços. Feliz idade, a d'estas imprevidencias! N'um
momento a vida inteira se lhe affeiçoou muito diversa, do como até então
a antevira. Cêdo, muito cêdo, aquella creança franzina e debil, recebeu
a solemne investidura da sacrosanta missão de mulher; transmittiu-lh'a a
mãe, já moribunda; legou-lhe, nos derradeiros instantes, a tarefa
abençoada, que até o fim cumprira, sem um só dia de desalento.
Apertando nas mãos já frias as da filha lacrimosa, que só então vira a
morte, que, tanto havia, a ameaçava nos seus mais queridos affectos,
incumbiu áquelles poucos annos o pesado encargo da familia; e com a voz
trémula e os olhos turvados pelas sombras do adormecer final, disse-lhe
que a essas mãos ia deixar entregue a paz da vida interior, a felicidade
dos seus; que a ellas confiava os thesouros e balsamos de affeições e de
carinhos, com que, no lar domestico, se sanam tantas dores e
desillusões, colhidas lá fóra, nas luctas da sociedade; depois, cingindo
ao peito a filha, como em extrema recommendação, para a qual as palavras
lhe faltavam já, morreu beijando-a; ungiu-a de suas ultimas lagrimas e
impressionou-lhe a mente infantil a ponto que a orphã, depois de a
chorar sobre o tumulo, levantou-se mulher, mulher apesar dos seus doze
annos, mulher pela sisudez dos pensamentos, pela consciencia viva e
fervente da sua nova missão.
É um ensino efficaz o do infortunio! Desde essa hora fatal, como que se
abriram os olhos de Jenny para verem mais fundo no coração d'aquelles
que era dever seu tornar felizes. Só então principiou a reflectir que,
entre os corações mais nobres e puros, se estabelecem ás vezes
contrastes, de que podem resultar conflictos dolorosos; que o infortunio
e as miserias da vida nem sequer proveem da funesta influencia do mal,
de que se tenha deixado eivar completamente uma alma humana; que mais
vezes é do encontro de duas paixões, na essencia generosas, que a
tempestade se origina. No alto mar, um vento dominante póde governar o
movimento e a derrota de um navio, mas é necessario que seja extrema a
sua violencia, para que elle, por si só, o faça sossobrar; penetre porém
o vaso mais poderoso no seio d'esses redemoinhos, que formam os ventos
encontrados; e a submersão será quasi inevitavel.
É assim na vida.
Não basta que sejam grandes e sympathicos os caracteres, que laços de
familia ou de sociedade prendem uns aos outros, para que entre elles
exista harmonia. Que nas suas orbitas os animem movimentos contrarios, e
serão já de temer os embates e as perturbações fataes.
A natureza physica tambem nos mostra como venenos energicos resultam ás
vezes da combinação de elementos inoffensivos.
Tudo isto se foi esclarecendo, á força de meditações, no espirito da
pequena Jenny, que tão precoce adeus teve de dizer áquellas espontaneas
e não motivadas alegrias da infancia, que n'ella findaram com o ultimo
suspiro da mãe.
E cêdo foi, muito cedo para uma creança ingleza que, de ordinario, na
idade em que as outras principiam já a querer ser senhoras, brinca
alegre e descuidada nos parques, correndo, saltando, rindo, sem se
affligir por a fimbria dos vestidos ainda se lhe não humedecer na relva.
Esta livre expansão, que sabem e costumam dar á alegria as pequenas
inglezas, é talvez a causa de serem desaffectadamente sérias, quando
emfim a natureza, e não a arte prematura, as faz mulheres.
Cessaram pois em Jenny os risos d'essa idade, risos expansivos e
irreprimiveis, que a cada palavra, que á menor causa rebentam, como da
laranjeira florida chovem sobre o prado as pétalas nevadas e fragrantes,
á mais leve viração que lhe agita a folhagem.
Afez-se a reflectir, a votar-se toda á felicidade dos seus, procurando
insinuar-se nos pequenos segredos de caracter de cada um, para os
dirigir, sem lucta funesta, na mesma esphera de acção, no mesmo circulo,
em que tinham de viver.
Desde essa época principiou a crescer e a vigorar com rapidez o
predominio de Jenny em toda a familia–suave sujeição, grata aos que a
supportavam, como uma benção do céo.
Até então amára-se em Jenny uma creança meiga, cujas graças joviaes
faziam distrahir o espirito de preoccupações mais sérias; cêdo porém
tomou esse amor diverso e mais respeitoso caracter.
Em Mr. Richard Whitestone á affeição protectora, de que rodeiava a
filha, principiou a misturar-se uma deferencia, que tinha seus vestigios
de veneração; em Carlos, a familiaridade que as idades quasi iguaes e os
jogos e estudos communs haviam feito nascer entre ambos, degenerou
gradualmente em um sentimento de mais respeito, em uma docil submissão,
que em todos os seus actos se denunciava.
Forte com esta dupla preponderancia, ía cumprindo Jenny religiosamente o
legado da mãe, sempre com o pensamento n'ella, sempre com os olhos na
sua imagem, na qual julgava entrever os reflexos da alegria ou da
tristeza, que a sorte da familia devia por certo despertar n'aquella
alma de justa, que a contemplava do céo.
Este oraculo, para todos mudo, só eloquente para os sentidos da filha,
consultava-o Jenny com ardente fé ao encerrar-se sósinha no quarto, onde
a luz e o rumor de fóra penetravam discretamente, como convinha a logar
de tão piedosos mysterios.
Era triste a imagem d'esta vez!
Triste porquê?
Se os labios da irmã de Carlos trahissem n'aquelle momento as ideias,
que tão profundamente a absorviam, elles fallariam d'este modo:
–Pobre mãe! porque venho encontrar-te assim triste? Não passaria ainda
a nuvem d'esta manhã?… Mas era tão ligeira!… tão leve! que a mim
mesma me inquietou pouco. Que adivinhas tu, boa mãe?–Isto pensava, ao
beijar o retrato–Alegra-te; Carlos deve estar agora no escriptorio;
pobre Carlos! É tão bondoso aquelle coração! Como elle havia de amar-te,
como havia de acariciar-te, mãe, se ainda vivesses comnosco! Poucos o
conhecem bem. Mas por que estás ainda triste? Has de ver como voltarão
amigos. É facil reconciliar aquelles corações, que a final tanto se
estremecem! Uma ou outra nuvem, que passe entre ambos, gera-a o mesmo
excesso de amor. Parece-me que ia dizer como tudo se passou. A vista de
Carlos foi bastante para dissipar todo aquelle resentimento…
resentimento proprio de quem muito estima!… Então! Já não tens
confiança na tua filha? Bem vês como todos aqui me querem. Elles de
certo vêem em mim alguma cousa do teu espirito, mãe, para serem assim
tão doceis com uma pobre rapariga. É á tua alma, á tua alma, que me
acompanha, que elles obedecem a final. Continúa ao meu lado, mãe, e eu
serei forte; não me abandones, e verás que não ha fundamentos para
apprehensões. E ainda triste!–E beijava o retrato–E ainda!… e
ainda… e ainda!…–beijava-o repetidas vezes.
Depois tentava a razão dissipar aquelas piedosas illusões:
–Estou louca!–pensava então Jenny–Pois como póde um retrato…
Aproximava-se mais da luz.
As illusões voltavam outra vez, como volta o enxame de abelhas que o
vento afasta das flores.
–Não sei, não sei como isto é, não posso saber… mas esta expressão é
mais triste do que a de hontem… De que procede esta tristeza?… A
maneira por que me fallou do baile de hontem… O baile! … acaso …
aquela mascara?… Mas que póde resultar d'alli?… Meu Deus! diria que
ainda te pozeste mais triste! Deverei pois acreditar…
N'isto ouviu passos fóra da porta.
Quebrou-se o encanto! Como que se extinguiu toda a impressão do retrato
para os sentidos, meio allucinados, da commovida…
visionaria–chamar-lhe-hei assim?–Apressou-se em escondel-o.
A figura de Luiza, aquella mesma criada que já conhecemos, appareceu no
limiar.
–Que é, Luiza?
–É a filha do snr. Manoel Quentino.
–Ah! chegou finalmente Cecilia? Que entre, Luiza, que entre. Nem sei
para que a fez esperar–acudiu Jenny com vivacidade.
Era Cecilia uma das suas mais affeiçoadas amigas.
XI
CECILIA
Passados momentos, entrava no quarto, ligeira como uma andorinha,
risonha como uma creança, a filha de Manoel Quentino. Era a unica
familia que o velho guarda-livros tinha no mundo.
Jenny estendeu-lhe affectuosamente a mão … e «beijaram-se», pensará a
leitora. Pois não beijaram, não, minha senhora; as inglezas poupam muito
mais esse thesouro dos beijos, do que as mulheres dos outros paizes; um
amigavel aperto de mãos, um sorriso, uma phrase affectuosa… e mais
nada. Será para os fazer mais apreciados, quando concedidos?
Cecilia era um modelo da belleza portugueza, e portuense talvez, nas
suas mais felizes realisações.
É costume entre nós, quando se quer exaltar, no conceito dos leitores, a
belleza de uma mulher, classifical-a entre as hespanholas, entre as
italianas, entre as allemãs, e entre as inglezas, mas nunca entre as
nossas compatriotas, que soffrem, ha muitos annos, com sublime
resignação de martyres, esta velha e flagrante injustiça.
Parece que o typo nacional é indigno de referencia, e que só quando
d'elle aberra e, por um capricho da natureza, reveste a feição
estrangeira, é que uma figura de mulher merece as fórmulas, mais ou
menos sonoras e hyperbolicas, da nossa admiração.
É vulgar ouvir-se dizer:–«Como é bella! Ha n'aquelle todo vaporoso
certo ar germanico!»–«Que mulher! Tem o _salero_ de uma
hespanhola!»–«Que magestade! que _morbideza_! É uma perfeita _madonna_
italiana!»–«Que poetica gravidade! Dir-se-hia uma candida _lady_!» O
que porém se não ouve, pelo menos o que eu ainda não ouvi, é: «–Que
sympathica rapariga! É uma portugueza perfeita!»
A causa d'isto é o sermos nós uma nação pequena e pouco á moda, acanhada
e bisonha n'esta grande e luzida sociedade europeia, onde por obsequio
somos admittidos, dando-nos já por muito lisongeados, quando os
estrangeiros se deixam, benevolamente, admirar por nós.
Falta-nos certo uso de sociedade, que ensina cada qual a occupar o seu
logar. Quando não encarecemos exageradamente as cousas patrias, á
maneira d'aquelle sujeito que vimos n'um dos grupos da Praça, caímos no
excesso opposto e nem sequer fallamos d'ellas, como se nos corressemos
da origem.
Bem que peze á vaidade nacional, é forçoso o fazer aqui, em familia, uma
confissão:–Nós temos o defeito d'aquelles provincianos que, nos
circulos da capital, suffocam envergonhados, como cousa de mau gosto,
uns restos de amor da terra, que ainha os punge, e deitam-se a exaltar,
com affectação altamente comica, os prazeres e commoções da vida das
grandes cidades, que ainda mal gosaram e ainda mal saboreiam;–fallam
dos theatros, dos bailes, da cantora da moda, do escandalo do dia, sem
se atreverem a dizer uma palavra pelo menos das arvores, das paizagens,
das tradições, dos costumes locaes, do conchego domestico da sua
provincia, o que porventura os outros lhe escutariam com mais vontade; e
no fim de tudo ficam mais ridiculamente provincianos, do que nunca.
Assim tambem os portuguezes, acanhados nos circulos da Europa, não ousam
conferir diplomas de excellencia a cousa que lhes pertença;
envergonham-se de fallar nas riquezas patrias, emquanto abrem a bôca,
por convenção, a tanta insignificancia que, em todos os generos, a
vaidade estrangeira apregôa como primores: levam o excesso da modestia,
se é só modestia isso, até receiarem que as vistas dos estranhos
averiguem do que lhes vae por casa, e agradecem, com effusões de
sensibilidade, uma ou outra phrase de louvor, que, em momentos raros,
elles lhes concedem.
Se ousamos fallar de Camões, ao mesmo tempo que de Tasso, de Dante e de
Milton; se ousamos apregoar o vinho do Porto, junto com o de Xerez,
Chateau-Laffite e Tokay, é porque lhes deram lá fóra o diploma de
fidalguia; que por nós … continuariamos, calados, a ler um e a beber o
outro, sem bem conhecermos a preciosidade que liamos e que bebiamos, ou
pelo menos correndo-nos de uma nos parecer sublime, e a outra deliciosa.
Ainda que se taxe um dos similes de menos delicado, é certo que o mesmo
succede com as bellezas femininas; costumamo-nos ás exclamações á
moda:–«Ah! as hespanholas!»–«Oh! as italianas!»–«Ai, as allemãs!» e
julgariamos de mau gosto dizer em publico:–«As portuguezas!» até sem
interjeição prévia a encarecer-lhes a valia.
E isto fazem-o até muitos, que nunca transpozeram as barreiras d'esta
cidade, onde não abundam os typos d'essas varias bellezas exoticas.
Eu porém atrever-me-hei a arvorar a bandeira puritana n'esta campanha
gloriosa.
De certo não serão os leitores que m'o levarão a mal.
Deus me defenda de querer, por forma alguma, ferir a fama tradicional de
todas as já estudadas e classificadas bellezas, admittidas e exaltadas,
como taes, no mundo inteiro; a minha tolerancia abrange todas; queria
sómente que se abrisse tambem logar para as nossas patricias, que bem
merecem essa distincção.
JIM – Assistente
Jim IA: pode errar. Não digite dados pessoais. Suas mensagens são processadas por um serviço externo.
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