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  • A Queda d’um Anjo Romance

    A Queda d’um Anjo Romance

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    A QUEDA D'UM ANJO

    ROMANCE

    POR

    CAMILLO CASTELLO BRANCO

    LISBOA

    LIVRARIA DE CAMPOS JUNIOR–EDITOR

    77–Rua Augusta–81

    1866

    Imprensa de J. G. de Sousa Neves–Rua do Caldeira, 17

    *DEDICATORIA*

    ILL.^{MO} E EX.^{MO} SR. ANTONIO RODRIGUES SAMPAIO

    Meu amigo.

    Volto a offerecer-lhe uma das minhas bagatelas. Chamo assim, para me
    fingir modesto, bagatelas a umas coisas que eu reputo no maximo valor.
    Se não fossem ellas, naturalmente eu não chegaria a grangear a estima de
    V. Ex.^a, que m'as tem lido, e alguma vez louvado. Já V. Ex.^a, antes de
    me conhecer, quiz encravar a roda do meu infortunio, roda com que eu
    estou sempre brincando como as creanças com os seus arcos. Que tinha eu
    feito para commover a bemquerença do meu prestante amigo? Tinha feito
    uns livros futilissimos, á imitação d'este que lhe offereço.

    Não é esta boa opportunidade de eu vir com a minha oblação de pobre a V.
    Ex.^a Lembra-me a sentença do nosso Diogo de Teive:

    _Donat cum egenus diviti
    Retia videtur tendere_.

    Os praguentos hão de querer ver aquellas _rêdes_, por que não sabem que
    V. Ex.^a já me constituiu, ha muito, no dever de eterna e profunda
    gratidão.

    Lessa da Palmeira 27 de setembro de 1865.

    CAMILLO CASTELLO BRANCO.

    I

    *O heroe do conto*

    Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de
    Freimas, tem hoje quarenta e nove annos, por ter nascido em 1815, na
    aldeia de Caçarelhos, termo de Miranda.

    Seu pae, tambem Calisto, era cavalleiro fidalgo com filhamento, e decimo
    sexto varão dos Barbudas da Agra. Sua mãe, D. Basilissa Escolastica,
    procedia dos Silos, altas dignidades da egreja, commendatarios, sangue
    limpo, já bom sangue no tempo do senhor rei D. Affonso I, fundador de
    Miranda.

    Fez seus estudos de latinidade no seminario bracharense o filho unico do
    morgado da Agra de Freimas, destinando-se a doutoramento _in utroque
    jure_. Porém, como quer que o pae lhe fallecesse, e a mãe contrariasse a
    projectada formatura, em razão de ficar sosinha no solar de Caçarelhos,
    Calisto, como bom filho, renunciou á carreira das lettras, deu-se ao
    governo da casa algum tanto, e muito á leitura da copiosa livraria,
    parte de seus avós paternos, e a maior dos doutores em canones, conegos,
    desembargadores do ecclesiastico, cathedraticos, chantres, arcediagos e
    bispos, parentella illustrissima de sua mãe.

    Casou o morgado, ao tocar pelos vinte annos, com sua segunda prima D.
    Theodora Barbuda de Figueirôa, morgada de Travanca, senhora de raro
    aviso, e muito apontada em amanho de casa, e ignorante mais que o
    necessario para ter juizo.

    Unidos os dois morgadios, ficou sendo a casa de Calisto a maior da
    comarca; e, com o rodar de dez annos, prosperou a olho, tendo grande
    parte n'este incremento a parcimonia a que o morgado circumscreveu seus
    prazeres, e, por sobre isto, o genio cainho e apertado de D. Theodora.

    _Remenda teu panno, chegar-te-ha ao anno_, dizia a morgada de Travanca;
    e, afferrada ao seu adagio predilecto, remendava sempre, e sergia com
    perfeição justamente admirada entre a familia, e fallada como exemplo na
    área de quatro leguas, ou mais.

    Em quanto ella recortava o fundilho ou apanhava a malha rôta da pinga, o
    marido lia até noite velha, e adormecia sobre os in-folios, e acordava a
    pedir contas á memoria das riquezas confiadas.

    Os livros de Calisto Eloy eram chronicões, historias ecclesiasticas,
    biographias de varões preclaros, corographias, legislação antiga,
    foraes, memorias da academia real da historia portugueza, cathalogos de
    reis, numismatica, genealogias, annaes, poemas de cunho velho, etc.

    Respeito a idiomas estranhos, dos vivos conhecia o francez muito pela
    rama; porém, o latim fallava-o como lingua propria, e interpretava
    correntemente o grego.

    Memoria prompta, e cultivada com aturado e indigesto estudo, não podia
    sair-se com menos de um erudito em historia antiga, e repositorio de
    noticias miudas sobre factos e pessoas de Portugal.

    Consultavm-n'o os sabios transmontanos como juiz indeclinavel em
    decifrar cipos e inscripções, em restabelecer épocas e successos
    controvertidos por authores contradictorios.

    Sobre castas e linhagens, coisa que elle tirasse a limpo, não dava péga
    a duvida nenhuma. Ia elle desenterrar geração já sepultada ha setecentos
    annos, e provar que, na era de 1201, D. Fuas Mendo casára com a filha de
    um mesteiral, e D. Dorzia se havia sujado casando mofinamente com um
    pagem da lança de seu irmão D. Payo Ramires.

    Farpeados pela viperina lingua d'elle, os fidalgos provincianos
    retaliavam quanto podiam a prosapia dos Benevides, propalando que
    n'aquella familia se gerára um clerigo grande femieiro, beberrão e
    lambaz, a quem o santo arcebispo D. Frei Bartholomeu dos Martyres, uma
    vez, perguntára que nome havia; e, como quer que o padre respondesse
    _Onofre de Benevides_, o arcebispo accudira dizendo: Melhor vos acertará
    com o nome, segundo a vida que fazeis, quem vos chamará de _Bene bibis_
    e _male vivis_.»[1] O remoque, talvez por ser de santo, era medianamente
    engraçado e pouco para affligir; assim mesmo Calisto Eloy, á conta
    d'esta injuria dos fidalgos comarcãos, tanto lhes esgravatou nas
    gerações, que descobriu radicalmente serem quasi todas de má casta.

    É superfluo dizer-se a qual doutrinação politica pendia o animo do
    morgado da Agra de Freimas. Estava com a decisão das côrtes de Lamego.
    Fizera-se n'ellas, e cuidava ter assistido, em 1145, áquelle congresso
    mythologico, e ter conclamado com Gonçalo Mendes da Maya, o Lidador, e
    com Lourenço Viegas, o Espadeiro: _Nos liberi summus, rex noster liber
    est_.[2] Todavia, se assim fossem todos os doutrinarios politicos, a
    gente apodrecia na mais refestelada paz, e supina ignorancia do
    andamento da humanidade.

    Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda queria que se venerasse o
    passado, a moral antiga como o monumento antigo, as leis de João das
    Regras e Martim d'Ocem, como o mosteiro da Batalha, as ordenações
    manuelinas como o convento dos Jeronymos.

    O mal que d'aqui surdia ao genero humano, a fallar verdade, era nenhum.
    Este bom fidalgo, se lhe tirassem o sestro de esmiuçar desdouros nas
    gerações das familias patriciatas, era inoffensiva creatura. D'este
    senão, a causa foi um chamado _Livro-negro_, que herdára de seu tio avô
    Marcos de Barbuda Tenazes de Lacerda Falcão, genealogico pavoroso, o
    qual gastára sessenta dos oitenta annos vividos, a colligir borrões,
    travessias, mancebias, adulterios, coitos damnados, e incestos de muitas
    familias n'aquellas satanicas costaneiras, denominadas _Livro-negro das
    linhagens de Portugal_.

    Em summa, Calisto era legitimista quieto, calado, e incapaz de impecer a
    roda do progresso, com tanto que elle não lhe entrasse em casa, nem o
    quizesse levar comsigo.

    Prova cabal de sua tolerancia foi elle acceitar em 1840 a presidencia
    municipal de Miranda. Na primeira sessão camararia fallou de feitio e
    geito, que os ouvintes cuidavam estar escutando um alcaide do seculo xv
    levantado do seu jazigo da cathedral. Queria elle que se restaurassem as
    leis do foral dado a Miranda pelo monarcha fundador. Este requerimento
    gelou de espanto os vereadores; d'estes, os que poderam degelar-se,
    riram na cara do seu presidente, e emendaram a galhofa dizendo que a
    humanidade havia já caminhado sete seculos depois que Miranda tivera
    foral.

    –Pois se caminhou, replicou o presidente, não caminhou direita. Os
    homens são sempre os mesmos e quejandos; as leis devem ser sempre as
    mesmas.

    –Mas… retorquiu a opposição illustrada, o regimen municipal expirou
    em 1211, sr. presidente! V. ex.^a não ignora que ha hoje um codigo de
    leis communs de todo o territorio portuguez, e que desde Affonso II se
    estatuiram leis geraes. V. ex.^a de certo leu isto…

    –Li, atalhou Calisto de Barbuda, mas reprovo!

    –Pois seria util e racional que v. ex.^a approvasse.

    –Util a quem? perguntou o presidente.

    –Ao municipio, responderam.

    –Approvem os srs. vereadores, e façam obra por essas leis, que eu
    despeço-me d'isto. Tenho o governo de minha casa, onde sou rei e
    govérno, segundo os foraes da antiga honra portugueza.

    Disse; saiu; e nunca mais voltou á camara.

    II

    *Dois candidatos*

    Desde o qual incidente, o morgado, convicto da podridão dos vereadores
    em particular, e da humanidade em geral, prometteu a onze retratos, que
    tinha de onze avós, pintados indignamente, nunca mais tocar o cancro
    social com suas mãos impollutas.

    N'este proposito, nem ao menos consentiu que o vigario lhe mandasse o
    _Periodico dos Pobres_ do Porto de que era assignante emparceirado com
    mais quatro reitores limitrophes, e o mestre escola e o boticario.

    Um dia, porém, quando elle saia da festividade de S. Sebastião, cujo
    mordomo era, deteve-se no adro, onde o rodearam os mais graudos
    lavradores da sua freguezia e das visinhas. N'outro grupo, fallava-se do
    sermão, e da constancia do santo capitão das guardas do barbaro
    Diocleciano, e da desmoralisação do imperio.

    Estas puchadas reflexões era o boticario que as expendia, coadjuvado
    pelo mestre de primeiras lettras, sujeito que sabia mais historia romana
    do que é permittido a um professor da preciosa e capitalissima sciencia
    de ler, contar e escrever, pelo que o sabio vinha a grangear para a
    humanidade a sciencia, e para elle nove vintens e meio por dia. E comia
    o sabio estes nove vintens e meio quotidianos, e ensinava os rapazes, e
    sobejava-lhe tempo para ler historia! Podéra!… Os governos davam-lhe
    férias grandes ao estomago, em proveito do espirito. Se elle andasse bem
    nutrido e succado de tripa, não aprendia nem ensinava coisa de monta.
    Que a pobresa é o estimulo das maiores façanhas da intelligencia.
    _Paupertas impulit audax_[3]. Isto que o Horacio faminto dizia de si,
    accomodam-no os regedores da coisa publica aos professores de primeiras
    lettras; porém, outros muitos versos do Horacio farto, esses tomam-os
    elles para seu uso.

    Estava, pois, o mestre-escola, de parceria com o boticario, a castigar a
    perversidade dos imperadores romanos, por amor do martyr S. Sebastião,
    que, segunda vez, acabava de ser fréchado no panegyrico. N'este comenos,
    abeirou-se d'elles Calisto Eloy, e para logo se callaram as duas
    capacidades, em referencia ao Salomão da terra.

    –Que dizem vocemecês?–perguntou Calisto benignamente. Continuem…
    Parece que fallavam do santo.

    –É verdade, sr. morgado–accudiu o boticario, ajustando os collarinhos
    percucientes ao lóbulo das orelhas, escarlates do atrito da
    gomma.–Fallavamos na malvadez dos imperadores pagãos.

    –Sim!–disse Calisto, com proeminencia declamatoria,–sim! Horrorosos
    tempos aquelles foram! Mas os tempos actuaes não se differençam tanto
    dos antigos, que possamos, em consciencia e sciencia, encarecer o
    presente e praguejar o passado. Diocleciano era pagão, cego á luz da
    graça: os crimes d'elle hão de ser contrapesados, e descontados, na
    balança divina, com a ignorancia do delinquente. Ai, porém, dos que
    prevaricaram fechando olhos á luz da notoria verdade, afim de se
    fingirem cegos! Ai dos impios, cujas entranhas estão afistuladas de
    herpes! No grande dia, funestissima ha de ser a sentença d'elles, novos
    Caligulas, novos Tiberios, e Dioclecianos novos!

    Relanceou o pharmaceutico uma olhadella esguelhada ao professor, o qual,
    abanando tres vezes e de compasso a cabeça, dava assim a perceber que
    abundava na admiração do seu amigo e consocio erudito em historia
    romana.

    Obrigado ás orelhas do auditorio attento, Calisto, em toada de Ezequiel,
    continuou:

    –Portugal está alagado pela onda da corrupção, que subverteu a Roma
    imperial! Os costumes de nossos maiores são mettidos a riso! As leis
    antigas, que eram o baluarte das antigas virtudes, dizem os sycophantas
    modernos, que já não servem á humanidade, a qual, em consequencia de ter
    mais sete seculos, se emancipou da tutela das leis. (Allusão bervada aos
    vereadores de Miranda, que discreparam do intento restaurador do foral
    dado por D. Affonso. Vinham a ser sycophantas os collegas
    municipalenses.) _Credite, posteri_!–exclamou Calisto Eloy com enfase,
    nobilitando a postura.

    O latim não lh'o entenderam, salvo o mestre-escola, que antes de ser
    sargento de milicias, havia sido donato no convento dominicano de
    Villa-Real.

    E repetiu: _Credite, posteri_!

    N'esta occasião, saiu da egreja a sr.^a D. Theodora Figueirôa, e disse
    ao esposo:

    –Vem d'ahi, Calisto. Vamos jantar, que é uma hora, e já lá vae o padre
    prégador para casa.

    Enguliu o morgado tres phrases de polpa, que lhe inflavam os bocios, e
    foi ao jantar, sacrificando-se á regularidade das suas horas
    inalteraveis de repasto.

    Ficaram o boticario e o professor de primeiras lettras, e mais os
    lavradores, ruminando as palavras do fidalgo, e glosando-as de notas
    illustrativas, ao alcance das capacidades.

    Um dos mais graves e anciãos lavradores, regedor, ensaiador e ponto nos
    entremezes do entrudo exclamou:

    –Aquillo é que dava um deputado ás direitas! Um homem assim, se fosse a
    Lisboa fallar ao rei, as contribuições haviam de acabar!

    –Isso não, perdoará vocemecê, tio José do Cruzeiro,–observou o
    mestre-escola–os impostos é necessario pagal-os. Sem impostos, não
    haveria rei nem professores de instrucção primaria (observem a modestia
    da gradação!) nem tropa, nem anatomia nacional.

    O mestre-escola havia lido, repetidas vezes no _Periodico dos Pobres_,
    as palavras _autonomia nacional_. Falhou-lhe d'esta feita a memoria,
    lapso que não destoou em nenhumas orelhas, exceptuadas as do boticario,
    que resmungou:

    –Anatomia nacional!

    –Que é?!–perguntou ao pharmaceutico um estudante de clerigo.

    –Parece-me que é asneira!–respondeu o outro com certa indecisão.

    Proseguiu, concluindo, o mestre-escola:

    –E, portanto os tributos, tio José do Cruzeiro, são necessarios ao
    estado como a agua aos milhos. Ora, agora, que ha muito quem bebe o suor
    do povo, isso ha; e aquelles, que deviam ser bem pagos, são os que menos
    comem da fazenda nacional. Aqui estou eu, que sou um funccionario
    indispensavel á patria, e receberia cento e noventa réis por dia, se não
    trouxesse rebatidos seis recibos a trinta e seis por cento, de modo que
    venho a receber seis e cinco! Que paiz!… O senhor morgado disse bem:
    estamos chegados aos tempos dos Dioclecianos e Caligulas!

    O auditorio já vacillava em decidir qual dos dois era mais talhado para
    ir fallar ao rei a Lisboa, se Calisto, se o mestre escola.

    III

    *O demonio parlamentar descobre o anjo*

    Fermentou na mente dos principaes lavradores e parochos das freguezias
    do circulo eleitoral a idéa de levar ao parlamento o morgado da Agra de
    Freimas.

    Os deputados eleitos até áquelle anno no circulo de Calisto Eloy, eram
    coisas que os constituintes realmente não tinham enviado ao congresso
    legislativo. Pela maior parte, os representantes dos mirandenses tinham
    sido uns rapazes bem fallantes, areopagitas do café Marrare, gente
    conhecida pela figura desde o botequim até S. Carlos, e affeita a beber
    na Castalia, quando, para encher a veia, não preferia antes beber da
    garrafeira do Matta, ou outro que tal ecónomo dos apollineos dons.

    Em geral, aquella mocidade esperançosa, eleita por Miranda e outros
    sertões lusitanos, não sabia topographicamente em que parte demoravam os
    povos seus comittentes, nem entendia que os aborigenes das serranias
    tivessem mais necessidades que fazerem-se representar, obrigados pelo
    regimen da constituição. Se algum influente eleitoral, prelibando as
    delicias do habito de Christo, obrigára a urna e o senso commum a gemer
    nos apertos do doloroso parto do paralta lisboeta, o tal influente
    considerava-se idóneo para escrever ao deputado incumbindo-lhe trabalhar
    na nomeação d'um vigario chamôrro, ou outra coisa, que foi denominação
    de bando politico, em tempo que a politica não sabia sequer dar-se nomes
    decentes. Pois o deputado não respondia á carta do influente, nem o
    requerente sabia onde procural-o, fóra do Marrare.

    Por muitos factos d'esta natureza conspiraram os influentes do circulo
    de Miranda contra os delegados do governo; e a idéa de eleger o morgado
    foi recebida entusiasticamente por todos aquelles que o ouviram fallar
    no adro da egreja, e por quantos houveram noticias da sua parlenda.

    O partido, que o mestre-escola ganhára de eloquente assalto, cedeu ao
    imperio das rasoaveis conveniencias, e conglobou-se na maioria. A
    verbosidade, porém, do professor não ficou despremiada, sendo nomeado
    secretario da junta de parochia.

    Resistiu Calisto de Barbuda tenazmente ás solicitações dos lavradores,
    que o procuraram com o mestre-escola á frente, facto que muito honra
    este desinteresseiro e reportado funccionario. N'este encontro, o
    professor excedeu o juizo avantajado que elle propriamente fazia de sua
    vocação oratoria. Mostrou as fauces do abysmo escancaradas para tragarem
    Portugal, se os sabios e virtuosos não acudissem a salvar a patria
    moribunda. Calisto Eloy, enternecido até ás lagrimas pela sorte da terra
    de D. João I, voltou-se para a esposa, e disse, como o agricultor
    Cincinnatus:

    –Aceito o jugo! Assás receio, mulher, que os nossos campos sejam mal
    cultivados este anno…

    Estavam proximas as eleições.

    A authoridade, assim que soube da resolução do morgado da Agra, preveniu
    o governo da inutilidade da lucta. Não obstante, o ministro do reino
    redobrou instancias e promessas, no intuito de vingar a candidatura de
    um poeta de Lisboa, mancebo de muitas promessas ao futuro, que tinha
    escripto revistas de espectaculos, e recitava versos d'elle ao piano,
    cuja falta ou demasia de syllabas a bulha dos sonoros martellos
    disfarçava. Redarguiu o administrador do concelho ao governador civil,
    que pedia sua demissão para não soffrer a inevitavel e desairosa
    derrota.

    Quiz assim mesmo o governo alliciar no circulo algum proprietario, que
    contraminasse a influencia do candidato legitimista, fazendo-se eleger.
    Alguns lavradores, menos afferrados á candidatura de Calisto, lembraram
    á authoridade o professor de instrucção primaria, estropeando phrases
    dos discursos d'elle, proferidos na botica. O administrador riu-se, e
    mandou-os bugiar, como parvoinhos que eram.

    Por derradeiro, o governador civil fez saber ao ministerio que os povos
    de Vimioso, Alcanissas e Miranda se haviam levantado com selvagem
    independencia e tintam fugido com a urna para os desfiladeiros das suas
    serras. Pelo conseguinte, não pôde ser proposto o poeta, que beliscado
    na sua vaidade assanhou-se contra o governo, escrevendo umas feras
    objurgatorias, as quaes, se tivessem grammatica á proporção do fel, o
    governo havia de pôr as mãos na cabeça e demittir-se.

    Á excepção de uma lista, o morgado da Agra de Freimas teve-as todas. A
    que não tinha o nome sympathico aos eleitores, votava em Braz Lobato,
    professor de instrucção primaria, secretario da junta de parochia, e
    ex-sargento das milicias de Mirandella. Parece que votára em si o
    mestre-escola. A final, maculou a alvura do nobilissimo desprendimento
    com que perorara em pró da eleição de Calisto! Fragilidade humana!

    Principiou, desde logo, o morgado eleito a refrescar a memoria com as
    suas leituras de historia grega e romana; era isto entroixar sciencia e
    enfreixar flores para o parlamento. Depois, releu a legislação dos bons
    tempos de Portugal, afim de restaurar os costumes desbaratados, fazendo
    remoçar as leis, que haviam sido o tabernaculo da moral humana guardado
    pelo temor de Deus. Tosquenejou muitas noites sobre os bacamartes
    pulvéreos; e, desde que a manhã raiava até horas de almoço, ia á margem
    do Douro, que lhe lambia a ourela da quinta, declamar, como Demosthenes
    nas ribas maritimas, ao stridor de uma açude e das rodas de duas
    azenhas. Os moleiros, que o viam bracejar, e lhe ouviam o vozeamento,
    benziam-se, pensando que o sabio treslêra, ou coisa má lhe entrara no
    corpo. A sr.^a D. Theodora Figueirôa, vendo o marido assim tresnoitado,
    seguia-o ás vezes, de madrugada, espreitava-o de um cabeço sobranceiro
    ao rio, e benzia-se tambem, dizendo: «Dão-me com o homem doido!»

    Chegou o tempo de partir para a capital.

    O deputado mandou adiante por almocreve duas cargas de livros, nenhum
    dos quaes tinha menos de cento e cincoenta annos.

    Seguia-se, na conducta dos machos portadores, uma carga de persunto e
    orelheira, substancia quotidiana da alimentação de Calisto Eloy.

    Depois, outra carga de ancoretas de vinho velho, e na entrecarga uma
    garrafeira com duas duzias de garrafas de vinho, que competia
    antiguidade com a fundação da companhia.

    A guarda-roupa do procurador dos povos era modesta, salvo o chapéo
    armado, calção de tafetá e espadim, com que elle, na qualidade de
    fidalgo cavalleiro, costumava contribuir para a magestade das procissões
    de Miranda, pegando ao pallio.

    A pessoa de Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda foi em liteira,
    e chegou a Lisboa ao decimo quinto dia de jornada, trabalhada de
    perigos, superiores á descripção de que somos capaz.

    De proposito, saltamos por cima dos pormenores da partida, para não
    descrever o quadro lastimoso do apartamento de Calisto e Theodora.

    O apartamento de Theodora e Calisto era titulo para dois capitulos de
    lagrimas.

    IV

    *Asneiras da erudição*

    Por fins de janeiro, chegou Benevides de Barbuda a Lisboa, e alugou casa
    no bairro de Alfama, por lhe terem dito que, n'aquella porção da Lisboa
    antiga, a cada esquina havia um monumento á espera de archeologo
    competente.

    Ao cabo de tres dias, Calisto mudou-se para rua mais limpa, suppondo que
    os lamaçaes de Alfama haviam tragado os monumentos, lamaçaes em que elle
    desastradamente escorregára, e d'onde saíra mal-limpo, e assoviado por
    marujos e collarejas, seus visinhos mais chegados. Mau agouro! A
    primeira chimera de Calisto, seu tanto ou quanto scientifica,
    atascara-se na lama d'aquella parte de Lisboa, que devia de ser a
    _inclita Ulissea_ de Luiz de Camões!

    O deputado, sem embargo de ir habitar o quarto andar de uma casa lavada
    de ares e muito desafogada na rua da Procissão, quiz-lhe parecer que a
    atmosphera da capital não cheirava bem.

    Abriu um dos seus livros velhos, intitulado _Do sitio de Lisboa_ etc.
    por Luiz Mendes de Vasconcellos, e leu:

    «…E assim, de todo o territorio de Lisboa, parece que da terra, fontes
    e rios, respiram suavissimos vapores, amigos da natureza humana; porque
    é coisa certissima que a benignidade dos ares d'este sitio, não só é por
    natureza deleitosa, pelo seu temperamento, mas de grandissimo proveito
    para algumas doenças, etc…»

    Calisto Eloy fechou o livro, e disse de si para comsigo, tomando uma vez
    de rapé:

    –O meu classico não podia mentir. Este mau cheiro é desconcerto da
    minha membrana pituitaria.

    E alcatroou segunda vez, as ventas com uma pitada desinfectante.

    Pareceu-lhe tambem pesada e salôbra a agua.

    Recorreu ao seu classico Luiz Mendes, no artigo _agua_, e leu que o
    chafariz de El-Rei dava uma lympha gostosa e de suave quentura, a qual
    limpava a garganta de toda a roquidão, e afinava as vozes, _e assim_,
    dizia o classico, _não errará quem disser que ella é causa das boas
    vozes que em Lisboa docemente ouvimos cantar; e tambem dos bons carões
    que conservam as mulheres_.

    Em quanto aos bons carões das mulheres, Calisto, que, de um relancear
    honesto de olhos, observára os rostos pallidos e esgrouviados de algumas
    senhoras de Lisboa, não podendo arguir de fallacia o dizer de Luiz
    Mendes, attribuiu á degeneração dos costumes e raças o descarnado e
    amarellido das caras; no tocante á suavidade das vozes, ficou indeciso,
    não querendo desmentir o seiscentista, nem formar conceito por uns
    grunhidos de cantaróla barbara com que os vendilhões pregoavam os
    comestiveis.

    Todavia, como a agua do chafariz de El-Rei aclarava o orgão vocal, e
    Calisto, á força de berrar ao pé da açuda e azenhas, estava um tanto
    rouco, mandou buscar um barril d'aquella salutifera agua, que o Mendes
    de Vasconcellos compára á das fontes camenas. Bebeu á tripa fôrra o
    deputado, e teve uma dôr de barriga precursora de febres quartãs.
    Valeu-se ainda do seu classico, e por conta d'elle mandou buscar á
    Pimenteira outro barril de agua, a qual, diz o citado author, _se busca
    para os doentes de febres_.

    O velho criado e enfermeiro, quando viu o seu amo encharcado e cada vez
    peior, foi de moto proprio em cata do cirurgião, o qual deu o morgado
    rijo e fero em quinze dias com algumas beberagens quinadas.

    Desde então, Calisto Eloy não bebeu senão vinho, e melhorou da garganta
    e do espirito, um tanto quebrantado, recitando, a cada garrafa que
    abria, o proverbio da sagrada escriptura:–_Vinum bonum laetifical cor
    hominis_.[4]

    Não obstante, o descredito do seu classico deveras lhe doeu, mormente
    pelo tom de mofa com que o cirurgião enxovalhou as cãs do honrado e
    lusitanissimo escriptor Luiz Mendes.

    Apenas convalescido, Calisto abria outro livro da mesma edade, escripto
    por identico motivo, para averiguar se o author do _Sitio de Lisboa_
    claudicára como patranheiro em materia de chafarizes.

    O bacamarte consultado era a _Fundação, antiguidades e grandezas da
    muito insigne cidade de Lisboa_, etc., escripto pelo capitão Luiz
    Marinho de Azevedo.

    –Cá está!–exclamou Barbuda em soliloquio–cá está explicada a minha
    dôr de barriga! era destemperança do figado.

    O deputado acabava de ler o seguinte periodo de Luiz Marinho:

    «Encareceu Plinio muito a agua, que vinha a Roma da fonte Marcia, e
    Vitruvio a das fontes Camenas, porque nasciam quentes e eram saborosas
    no gosto, sendo por esta causa muito sadias e proveitosas para conservar
    saude. E posto que (_sic_) Luiz Mendes de Vasconcellos queira que por
    estas propriedades tenha a agua do charariz d'El-Rei as mesmas
    qualidades; a experiencia mostra que, sendo suave no gosto, o não é nos
    effeitos, porque lhe attribuem os medicos a destemperança do figado, que
    muitas pessoas padecem, e de que procedem varias enfermidades.»

    –Fie-se lá a gente!–monologou o deputado.–É preciso cuidado com os
    classicos a respeito da agua de Lisboa.

    E, proseguindo na leitura, encontrou confirmada a maravilha de se
    afinarem as vozes com o uso da agua do chafariz d'El-Rei, por estes
    termos:

    «É causa das boas vozes dos musicos naturaes de Lisboa, ou que n'ella
    moraram, que tanto lustram em sua real capella, e na da corte de
    Madrid[5], conventos e egrejas cathedraes d'este reino e do de Castella:
    excellencia que tambem se acha nas mulheres, cuja feminina voz enleva os
    sentidos, como se experimenta ouvindo cantar as religiosas dos mosteiros
    d'esta cidade, em que mais parece se ouvem córos de anjos que vozes
    humanas.»

    Á primeira vez que saiu, andou Calisto em demanda dos conventos de
    freiras, e das festividades de cada um. Disseram-lhe, em face de um
    repertorio, que a mais proxima festa era, no domingo immediato, em Santa
    Joanna. Foi Calisto á festa para ouvir cantar as freiras. Não lhe
    pareceu cantoria o que ouviu: eram tres narizes roufinhando destoantes.
    Calisto saiu do templo, foi ao palratorio, chamou a madre-porteira, e
    disse-lhe, com a sua candura de bom homem, que recommendasse ás senhoras
    cantoras a agua do chafariz d'El-Rei. A madre ficou passada do
    disparate, e voltou-lhe as costas.

    Como quer que o morgado da Agra de Freimas não fosse homem que estudasse
    as materias perfunctoriamente, quiz esquadrinhar a respeito de aguas
    toda a substancia d'este importante elemento.

    Decepções sobre decepções!

    Quando morára na Alfama, observára elle que, n'aquelle bairro, as
    mulheres eram sardentas, rôxo-terra, e crespas de pelle. Pois o classico
    Marinho saía-lhe com este desmentido aos seus proprios olhos:

    «Tem mais outra propriedade occulta a agua do chafariz (d'El-Rei) que é
    conservar os rostos das mulheres, que com ella se lavam, em uma alvura
    engraçada, e côr natural tão encarnada, que não necessita de unturas,
    nem confecções, com que ellas se envelhecem antes de tempo: _o que se vê
    claramente na vantagem que as de Alfama levam ás dos outros bairros no
    carão, rosto mimoso, e côr que logo se conhece por natural_; e, se
    bastára isto, por desengano ás que as usam postiças, não fôra pequeno o
    fructo, que se tirára de ler este paragrapho, havendo quem lh'o
    recitasse.»

    Calisto Eloy certamente não iria recitar o paragrapho a nenhuma senhora
    pallida e magra, depois da incivil resposta, que lhe deu a porteira de
    Santa Joanna, e mais ainda com a desconfiança em que o puzeram os bons
    authores da sua predilecção.

    Parece, porém, que elle andava aporfiado em afogar o seu recto juizo nas
    aguas de Lisboa. Lêra o deputado que tambem o _chafariz dos cavallos da
    rua Nova_ tinha prodigiosas virtudes em cura de molestias d'olhos.
    Procurou a rua Nova, que o terramoto de 1755 sotterrára; procurou o
    chafariz, que segundo elle, devia de estar na rua dos Capellistas ou
    Algibebes successoras d'aquella rua. Ninguem lhe dava conta do _chafariz
    dos cavallos_; e alguns logistas interrogados suppuzeram que o
    provinciano não podia beber em fonte que não tivesse aquella
    applicação.[6]

    O erudito respondia aos chacoteadores.

    –Pois saibam que se perdeu um mirifico chafariz! Resam os meus livros
    que as saluberrimas aguas d'esta fonte perdida tinham a propriedade
    occulta de engordar as cavalgaduras que bebiam d'ella; e acrescenta
    Marinho d'Azevedo, textualissimas palavras: _e quando ella faz tão
    conhecidos effeitos nos animaes, os fizera nos corpos humanos, se a
    beberam em sua fonte_.

    Um bacharel, que ouvira as lastimas de Calisto, disse a um visinho a
    meia-voz:

    –Este homem parece que tem uma cavalgadura magra no corpo!

    Com estas zombarias é que em Portugal os sabios são premiados… Se
    Calisto fosse um parvo, o governo dava-lhe um subsidio até elle achar o
    chafariz dos cavallos.

    V

    *Estreia parlamentar de Calisto*

    Antes de apresentar-se na sala das sessões, Calisto Eloy de Barbuda leu
    o _Regimento interno da camara dos deputados_, juntamente com um collega
    transmontano, o abbade de Estevães, sujeito de annos, e doutrina
    monarchico-absolutos.

    O morgado de Agra embicou logo na fórma do juramento, e disse que não
    jurava sem aspar as palavras que o obrigavam a ser inviolavelmente fiel
    á carta constitucional. O abbade quiz amaciar-lhe a rigidez de
    espiritos, absolvendo-o do perjurio, que não era serio, porque já de si
    o juramento era irrisorio e mera brincadeira de nenhum peso na balança
    da justiça divina.

    E allegava o clerigo esclarecido que os representantes da nação, com
    quanto jurassem fidelidade á religião-catholica-apostolica-romana, eram
    aliás atheus; jurando fidelidade ao rei, injuriavam-n'o nas gazetas;
    jurando fidelidade á nação, avexavam-n'a de tributos, e alguns a queriam
    fundir na Hespanha. Comedia e comedoria! exclamava o abbade. Se os
    deixarmos a elles jurar e mentir á sua vontade, a monarchia portugueza
    d'aqui a pouco não terá mais realidade no mappamundi que a ilha
    Berataria do Miguel Cervantes, ou as ilhas beatas do poeta Alceu!

    A respeito das ilhas beatas do poeta Alceu, saiu-se Calisto de Barbuda
    com uma despropositada torrente de citações, em que a paciencia do padre
    esteve a pique. Era perigoso dar-lhe azo ás ejecções da sciencia velha,
    que não havia abafar-lhe as valvulas ejaculatorias.

    O sabio, lá na sua terra, nunca tivera auditorio digno; escutava-se a si
    proprio; admirava-se e applaudia-se com perdoavel, senão legitima
    vaidade; faltava-lhe, porém, alguma coisa, a qual coisa era o abbade de
    Estevães.

    Este clerigo, bem que tivesse exercido as funcções desembargatorias na
    relação ecclesiastica de Braga, era menos lettrado que o antiquario de
    Caçarelhos, mas um tanto mais illustrado em critica da historia. Por
    delicadesa, fingia engulir as araras que o morgado lhe ministrava
    guizadas pelo monge de Alcobaça Bernardo de Brito, por Fernão Mendes e
    Miguel Leitão d'Andrade, e centenares de outros escrevedores de polpa,
    que mentiram «mais do que permitte a força humana.»

    Convencido da irresponsabilidade seria do juramento parlamentar, foi
    Calisto Eloy de Silos empossar-se da sua cadeira na representação
    nacional. Porém, proferido o juramento, e antes de sentar-se, não teve
    mão de si, e disse:

    –Sr. presidente!

    O abbade de Estevães ainda ciciou um _cio_, como quem lembrava ao
    collega que o _Regimento_ lhe tolhia o dom da palavra assim abrupta
    n'aquelle acto; mas o presidente, como esperasse alguma extraordinaria
    reflexão, deixou violar o artigo 30.^o do titulo e ouviu-o.

    Continuou Calisto:

    –Sr. presidente! Nos primordios da humanidade, a boa fé dispensava os
    juramentos: hoje em dia, para tudo se faz mister jurar, porque a boa fé
    desappareceu _velut umbra_ da face da terra. Se bem me recordo, os casos
    de juramentos mais antigos lêem-se nas sagradas escripturas. Abrahão
    jurou ao rei de Sodoma e ao rei Abimelech; Elieser a Abrahão; e Jacob a
    Labão…

    O presidente, como o riso andasse já contagioso na sala e galerias,
    observou:

    –O sr. deputado está fóra das prescripções do regimento. Peço licença
    para o convidar a sentar-se do lado que lhe convier.

    –Eu concluo em duas palavras, tornou Calisto, conformando-me com o
    regimento, e mais ainda com o jurisconsulto Struvius, o qual no seu
    _jurisprudencia civilis syntagma_, diz que não deve exigir-se o
    juramento quando póde temer-se o perjurio. Preceito de mui remontada
    moralidade; sr. presidente! Preceito, cujo despreso, é a causa
    efficiente das apostasias que deshonram, dos sacrilegios que condemnam a
    alma, e estampam na testa dos precitos lemma de opprobrio indelevel.
    Disse.

    E foi sentar-se, flauteando cromathicamente uma pitada, á beira do seu
    amigo abbade de Estevães.

    A maior parte dos legisladores estava como indecisa entre rir-se ou
    espantar-se do aprumo com que o transmontano, atando facilmente as
    phrases, atirava á cara dos legisladores um murro indirecto. Tres brados
    lhe haviam victoriado o cabeçalho do discurso: eram expansões de
    deputados legitimistas, que entre si se ficaram victoriando de terem um
    homem bastante audaz, se necessario fosse, para fallar ao imperante como
    João Mendes Cicioso fallara a El-Rei D. Manuel.

    –Fallou á portugueza, sr. morgado; mas extemporaneamente–murmurou-lhe
    o abbade de Estevães.

    –A verdade é de todas as horas, abbade–redarguiu Calisto–mal de nós
    se havemos de esperar que ella caia a talho de fouce!… Deixem-me ir
    assim, que os meus constituintes assim me querem, Catão e Cicero,
    Hortensio e Demosthenes não fallavam pelo regimento. O conselheiro que
    disse a Affonso IV «senão procuremos outro rei» não pediu licença a
    presidente algum, nem viu no regimento se era hora de lh'o dizer. Eu li
    de tento e vagar o regimento, amigo abbade; e a mim me quiz parecer que
    tudo aquillo é um modo, o mais cerimonioso, de fazer callar aquelles
    cujos dizeres desagradam á presidencia, por via de regra, mancommunada
    com o governo.

    –_Prudentia in omnibus_, diz o sabio–retorquiu o abbade.[7]

    O morgado accudiu logo:

    –_Estote prudentes, sicut serpentes et simplices sicut columbae_, disse
    Jesus, o sabio dos sabios.[8]

    VI

    *Virtuosas parvoiçadas*

    A estreia parlamentar de Calisto de Barbuda fez hyperbolico estrondo nos
    salões da aristocracia, legitimista, que abriu suas portas ao
    esperançoso Berryer de Portugal.

    Algum tempo se andou furtando o morgado ás solicitadas apresentações.
    Impediam-n'o o natural acanhamento de provinciano, e o affecto
    entranhado aos seus classicos, que lhe eram o deleite das horas feriadas
    do dia, e dos serões do inverno.

    Como á força, fôra elle uma noite, ao theatro lyrico, em companhia do
    abbade de Estevães, que amava a musica pelo muito amor que tinha á
    guitarra, delicias da sua mocidade, e consoladora da velhice, já saudosa
    do tempo em que o coração lhe gemia nos bordões do instrumento
    apaixonado.

    Calisto inteirou-se do enredo da opera, e assistiu em convulsões ao
    espectaculo, que era a _Lucrecia Borgia_. Saiu da platéa frio de horror
    e protestou, em presença de Deus e do abbade, nunca mais contribuir com
    oito tostões para a exposição das chagas asquerosas da humanidade.
    Rompeu-lhe então do imo peito esta exclamação sentida: _Amici_, noctem
    _perdidi_! Melhor me fôra estar lendo o meu Euripides e Seneca, o
    tragico! Medéa não mata os filhos cantando, como a scelerada Lucrecia!
    As devassidões postas em musica, dão bem a entender que geração esta é!
    Brinca-se com o crime, abafando-se os gemidos da humanidade com o
    stridor das trompas e dos zabumbas. É um tripudio isto, amigo abbade!
    Quem sae do seio da natureza rude, e de repente se acha à lavareda
    d'estes focos das grandes cidades, é que atina com a providencial
    phylosophia d'estas tramoias de theatros!

    Assanhou o abbade de Estevães o azedume do fidalgo, dizendo-lhe que o
    estado subsidiava o theatro de S. Carlos com vinte contos de réis
    annuaes. Calisto fez pé atraz, e exclamou:

    –_Obstupui_!… O abbade zomba!… _O estado_!… o meu collega disse o
    estado!

    –Sim o thesouro… confirmou o clerigo.

    –A res publica? o dinheiro da nação?

    –Certamente: pois de quem hade ser o dinheiro, senão da nação?

    –Pois eu e os meus constituintes estamos pagando para estas cantilenas
    do theatro de Lisboa!

    –Vinte contos de réis.

    Calisto Eloy correu a mão pela fronte humedecida de suor civico, e
    sentou-se nas escadas da egreja de S. Roque, por que ao espanto, colera
    e dôr d'alma seguiram-se-lhes caimbras nas pernas. Minutos depois,
    ergueu-se taciturno, despediu-se do abbade, e foi para casa.

    Os alvores da primeira manhã acharam-no passeando e declamando na
    estreita saleta do seu aposento. Via-se-lhe no rosto a pallidez dos
    Fabricios.

    Ás onze horas entrou na camara. Dir-se-hia que entrava Cicero a delatar
    a conjuração de Catilina. Deu nos olhos dos seus tres correligionarios
    que entre si disseram:

    –Calisto vae fazer alguma interpellação de grande alcance!

    Acabava de sentar-se quando um deputado do Porto se ergueu, e disse:

    –Sr. presidente. Muito a meu pezar, e talvez da camara, volto de novo a
    expender as razões já tres vezes inutilmente expendidas sobre o dever, e
    justiça com que o Porto reclama um subsidio para o seu theatro lyrico.
    Sr. presidente…

    –Peço a palavra! bradou Calisto Eloy, erguendo-se inteiriço e
    fulminante–Peço a palavra!

    O representante do Porto expendeu a quarta edição peorada das suas
    idéas, sobre o dever e justiça, com que o theatro de S. João reclamava
    subsidio, e sentou-se.

    –Tem a palavra o sr. Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda,
    disse o presidente.

    O morgado da Agra escorvou-se de rapé, trombeteou a pitada, e orou
    d'este theor:

    –Sr. presidente. Em Grecia e Roma as festas annuaes eram solemnisadas
    com espectaculos. Os cidadãos timbravam em se dispenderem aporfiadamente
    para o maior realce das representações theatraes. Na Grecia, o archonte
    eponymo, a cargo de quem o estado delegava as despezas das
    representações, esmava o dispendio de cada uma em dois talentos,
    3:250$000 réis, pouco mais ou menos da nossa moeda. Este dispendio
    faziam-no espontaneamente os ricos; e se era o thesouro nacional, que
    adiantava as despezas, a concorrencia convidava pelo preço diminutissimo
    do _theorikon_ ou entrada, que correspondia ao vintem da nossa moeda. E
    de Pericles em diante, sr. presidente, tomou o estado á sua conta o
    pagamento das entradas dos pobres. Entre os romanos, eram os poderosos,
    como Lepido e Pompeu, e, ao diante, os imperadores, que sustentavam do
    seu bolsinho as representações theatraes. Os imperios opulentos, sr.
    presidente, os imperios, que digeriam a substancia do universo, os
    imperios que edificavam theatros para trinta mil espectadores, não
    impunham aos povos a obrigação de se privarem do necessario para
    abrilhantarem Athenas ou Roma, com luxuosas superfluidades. Os serranos
    das provindas do Lacio não eram constrangidos a pagarem as delicias dos
    patricios romanos. Estes, sr. presidente, quando queriam divertir-se em
    espectaculos theatraes, pagavam-os, e regalavam a gente pobre em vez de
    a obrigarem a entrar no erario com o estipendio dos actores. (_Sussurro
    e alguns «apoiados» provocados pelo sussurro_.)

    Sr. presidente–continuou o orador, tomando rapé com a soffreguidão de
    quem teme que o raio inspirativo se arrefente–sr. presidente! Eu tenho
    o desgosto de ter nascido n'um paiz, em que o mestre-escola ganha cento
    e noventa réis por dia, e as cantarinas, segundo me dizem, ganham trinta
    e quarenta moedas por noite. Eu sou de um paiz, sr. presidente, em que
    se pede ao povo o subsidio litterario para pagar com elle as tramoias da
    Lucrecia Borgia. Eu sou de um paiz, pobrissimo, em que a veia da nação
    exangue soffre cada anno a sangria de algumas duzias de contos para
    sustentar comediantes, farcistas, funambulos e dansarinas impudicas! Sr.
    presidente, v. ex.^a sorriu-se, vejo que a camara está sorrindo, e eu
    ouso dizer a v. ex.^a e aos meus collegas, como o poeta mantuano: _sunt
    lacrimae rerum_. Aqui é o ponto de se carpirem por seus filhos aquelles,
    que se cuidam muito avantajados em civilisação a seus avós. Aqui é o
    ponto de nos alembrarmos dos israelitas livres, que sorriam em
    Jerusalem, e choravam depois escravos ás margens do rio estranho. Depois
    será o declamarmos com o epico:

    Em Babylonia, sobre os rios, quando
    De ti, Sião sagrada, nos lembramos,
    Alli com gran saudade nos sentamos
    O bem perdido, miseros, chorando.

    Os instrumentos musicos deixando

    Peço á camara que repare nos tres versos, que completam a quadra e a
    prophecia:

    Os instrumentos musicos deixando
    Nos estranhos salgueiros penduramos,

    _Hic_, sr. presidente:

    Quando aos cantares que já em ti cantamos
    Nos estavam imigos incitando.

    Nos _cantares_, sr. presidente, é que bate o ponto do meu discurso:
    (_Hilaridade: susurro nas galerias: o presidente tange a campainha_).

    O _orador_:–Sr. presidente! que me não queiram persuadir de que estou
    em casa de orates! Que é isto? Que bailar d'ebrios é este em volta de
    Portugal moribundo? Como podem rir-se os enviados do povo, quando um
    enviado do povo exclama: Não tireis á nação o que ella vos não póde dar,
    governos! Não espremais o ubre da vacca faminta, que ordenhareis sangue!
    Não queiraes converter os clamores do povo em cantorias de theatro! Não
    vades pedir ao lavrador quebrado de trabalho os ratinhados cobres das
    suas economias, para regalos da capital, em quanto elle se priva do
    aprezigo de uma sardinha, por que não tem uma pogeia com que compral-a.

    E vinte contos e trinta contos de subsidios que moralidade fomentam, que
    lampadas accendem nos altares da civilisação? Eu peço á camara que leia
    attentamente o discurso theologico do padre Ignacio de Camargo, lente no
    real collegio de Salamanca, ácerca dos theatros. Não menos
    fervorosamente peço a v. ex.^a e ás camaras que leiam as mirificas
    paginas do nosso oratoriano Manuel Bernardes, sobre representações
    theatraes. O que são comedias? Responda por mim o eminente moralista, e
    mais que todos vernaculissimo escriptor: «Os assumptos das comedias pela
    maior parte são impuros cheios de lascivos amores, de galanteios
    profanos, de papeis amorosos, de rondas, passeios, musicas, dadivas,
    visitas, solicitações torpes, finezas loucas, empenhos desatinados,
    chimeras, emprezas impossiveis, que as solicita ordinariamente um
    criado, uma mulher terceira, uma chave, um jardim, uma porta falsa, um
    descuido do pae, ou do irmão, ou do marido da dama, e tudo isto costuma
    parar em uma communicação deshonesta, em um incesto, ou em um adulterio,
    em que ha muitos lances torpes, louvores lisongeiros da formosura,
    expressões affectadas de amor, promessas de constancia, competencias de
    affectos, temores, ciumes, suspeitas, sustos, desesperações, e em summa,
    uma gentilica idolatria, ajustada pontualmente ás infames leis de Venus
    e Cupido, e aos torpes documentos de Ovidio no livro de _Arte amandi_.»

    _Vozes da galeria_: _Muito bem_! _Bravo_! (Espirram as risadas de varios
    sujeitos. Gargalhada compacta).

    _O orador_: Sr. presidente! Eu irei contar aos povos, que me aqui
    mandaram, as gargalhadas com que fui recebido no seio da representação
    nacional, por que ousei dizer que um paiz carregado de dividas não
    instaura divertimentos attentatorios dos bons costumes com o dinheiro da
    nação. Irei dizer aos meus constituintes que se desfaçam das arrecadas e
    cordões de suas mulheres e filhas, para enfeitarem as gargantas
    despeitoradas das Lucrecias Borgias que custam quarenta libras por
    noite!

    Sr. presidente, nossos avós, os coevos d'el-rei D. Manuel e D. João III,
    tiveram theatros. Era no tempo em que as frotas da India rompiam Téjo
    acima carregadas de oiro. O Plauto portuguez deliciava os paços dos
    reis, e os pateos e tablados do povo. Quando se abriu o erario para
    locupletar o alto engenho de Gil Vicente? Quando foi necessario ir mundo
    fóra em cata de gritadores que vendem tão caro o ar dos pulmões vibrado
    no mechanismo da garganta?

    _Uma voz_: Fez-se a civilisação depois.

    O _orador_: E a pobreza tambem. A civilisação que canta e dança, em
    quanto tres partes do paiz choram. A civilisação dos civilisados que
    dizem: _Coronemus nos rosis antequam marcessant_[9]. A civilisação do
    perdulario irrisorio, que traja de luzente lemiste no exterior, e
    aconchêga da pelle uma camisa surrada e fetida. Magnifica civilisação!
    Não sei de selvagens que nol-a possam invejar, e queiram cambiar
    comnosco a sua selvatiqueza!

    Sr. presidente gosem nas boas horas os sátrapas da capital os deleites
    da sua civilisação theatral. Dispendam-se, arruinem-se, doudejem com
    essas ficções e visualidades, que relembram factos de alto escandalo que
    não deviam ser vistos á luz da civilisação, que o meu illustre collega
    preconisa. Se gostam, não serei eu, homem de outros tempos e gostos,
    quem lhes impugne a racionalidade de seus passatempos. O que eu
    requeiro, em nome da justiça e da pobreza do paiz, é que se não sizem os
    povos provinciaes para manutenção dos divertimentos de Lisboa. O que eu
    contesto é o direito de me fazerem pagar a mim e aos meus visinhos as
    notas garganteadas dos ganha-pães, que não tem na sua terra officio
    honesto em que vivam com seriedade e utilidade commum. O que eu
    sobretudo lamento, sr. presidente, é o silencio desapprovador dos meus
    collegas. Sou eu só: serei eu só o vencido. Não importa! _Victis
    honos_![10] As pequenas coisas tratam-n'as os pequenos: _Parvum parva
    decent_. Eu abro mão das glorias promettidas ao nobre collega, que,
    pouco ha, pediu subsidio para o theatro do Porto. Dêem-lh'o. Desenrolem
    a onda aurifera do Pactolo do nosso thesouro até Braga. Quem pede
    subsidio para o theatro bracharense? A equidade reclama-o. O meu circulo
    tambem quer um theatro. Theatro e subsidio para todo o logarejo onde
    morar um contribuinte. Estamos em vida ficticia como paiz independente.
    Somos como o sapateiro, que se veste de principe no entrudo. Pois bem!
    Comedia geral! Seja Portugal um theatro desde Monção ao cabo da Roca!
    Peço uma companhia italiana para a minha terra. Os meus constituintes
    querem provar o sabor das delicias que tem estipendiadas em Lisboa. Se
    eu não posso, sr. presidente, levar-lhes a boa nova de que vão ter
    estradas que os liguem á sua nação, seja-me permittida a gloria de lhes
    levar a Lucrecia Borgia, a incestuosa e envenenadora Lucrecia, que os ha
    de edificar e converter á civilisação. Disse.

    _Algumas vozes por entre frouxos de riso_: Muito bem! Bravissimo!

    Eram as ironias dos sublimes engenhos, que, ás vezes, não sabem como hão
    de havel-as com espiritos selvaticos do desplante montezinho de Calisto
    de Barbuda.

    VII

    *Figura, vestido, e outras coisas do homem*

    Assim que os personagens dos romances começam a ganhar a estima ou
    aversão de quem lê, vem logo ao leitor a vontade de compor a physionomia
    do personagem plasticamente. Se o narrador lhe dá o bosquejo, a
    imaginativa do leitor aperfeiçoa o que sae muito em sombra e confuso no
    informe debuxo do romancista. Porém, se o descuido ou proposito deixa ao
    alvedrio de quem lê imaginar as qualidades corporaes de um sujeito
    importante como Calisto Eloy, bem póde ser que a intuição engenhosa do
    leitor adivinhe mais depressa e ao certo a figura do homem, que se lh'a
    descrevessem com abundancia de relevos e rara habilidade no estampal-os
    na phantasia estranha.

    Não devo ater-me á imaginação do leitor n'este grave caso. Calisto Eloy
    não é a figura que pensam. Estou a adivinhar que o inquadraram já em
    molde grotesco, e lhe deram a edade que costuma authorisar, mórmente no
    congresso dos legisladores, os desconcertos do espirito, exemplificados
    pelo deputado por Miranda. Dei eu azo á falsa apreciação, por não
    antecipar o esboço do personagem. Acudo pelos creditos do personagem.

    Calisto Eloy, n'aquelle tempo, orçava por quarenta e quatro annos. Não
    era desageitado de sua pessoa. Tinha poucas carnes, e compleição, como
    dizem, afidalgada. A sensivel e dessimetrica saliencia do abdomen
    devia-se ao uso destemperado da carne de porco e outros alimentos
    intumecentes. Pés e mãos justificavam a raça que as gerações vieram
    adelgaçando de carnes. Tinha o nariz algum tanto estragado das invasões
    do rapé e torceduras do lenço de algodão vermelho. A dilatação das
    ventas e o escarlate das cartilagens não eram assim mesmo coisa de
    repulsão. Estes narizes, se não se prestam á poesia lyrica, inculcam a
    seriedade de seus donos, o que é melhor. Eram assim os narizes de José
    Liberato Freire de Carvalho e de Silvestre Pinheiro. Quasi todos os
    estadistas de 1820 se condecoravam com a rubidez nazal. Não sei que ha
    n'isto indicativo de estudo, gravidade e meditação; mas ha o quer que
    seja.

    As restantes feições de Calisto Eloy de Silos eram regulares, a não
    querermos encarecer a alta e brunida fronte, que poderia servir de
    rotulo a um talento abalisado, se o inimigo da Lucrecia Borgia não
    fosse, a meu ver, capacidade eminente, viciada pela educação e tradições
    de familia. Excedia a estatura meã, e era direito de pernas. No tronco
    havia tal qual inclinação, que denunciava o arqueamento da espinha por
    effeito da incansavel leitura, e minguado exercicio.

    O que certamente o desairava era o traje. Calisto Eloy vestia de briche
    da Gollegã, e dos alfaiates de Miranda. A gola e portinholas da casaca
    eram serias de mais para estes tempos em que um homem se veste hoje á
    moda, e d'aqui a um mez corre o perigo de sair ridiculamente entrajado.
    Não se sabe a razão por que o morgado da Agra se affeiçoara ás calças
    rematando em polainas abotoadas de madreperola. Vestira assim umas
    pantalonas em 1833, quando se matrimoniou com D. Theodora. Ou por que a
    esposa gostasse do feitio das calças, ou porque a moda se mantivesse,
    mantida pelo fidalgo, na comarca de Miranda, o certo é que desde aquella
    época todas as pantalonas de Calisto foram talhadas pelas primeiras, e a
    abotoadura sempre aproveitada.

    Ora, isto em Lisboa fez uma rasoavel impressão, especialmente no
    espirito observador dos gaiatos. Um d'estes desbragados ousou chamar
    gebo ao legislador; e outro levou a gandaíce ao extremo de planear-lhe
    um assalto ao chapéo.

    Fartas vezes o advertira o abbade de Estevães da necessidade de reformar
    o vestido, e entrajar-se conforme o costume. Calisto respondia que não
    tinha que intender em costumes, que não fossem, em lusitanissima phrase,
    ruins costumes. Em quanto a vestiduras, dizia que o estofo das suas era
    portuguez como elle, e o feitio d'ellas era o que mais se aproximava das
    usanças dos seus maiores, os quaes andavam mais apontados no trajar do
    espirito que nas galanices do corpo. Salvo o abbade, ninguem se atrevia
    a contrarial-o, desde que a um joven deputado, que lhe observou o
    archaismo do trajo perguntou se elle era o alfaiate da camara, ou se as
    modas tinham fiscal subsidiado no parlamento.

    Aconteceu ainda que outro deputado lhe analysasse galhofeiramente as
    botas aguçadas no bico. Sabia Calisto Eloy que este deputado era filho
    de um sujeito de Espozende que começara sua vida fazendo botas. Assim,
    pois, que o chocarreiro subiu da analyse das botas para a das polainas
    da calça, teve mão d'elle, dizendo-lhe: «agora, alto ahi! Em quanto o
    senhor escarneceu o feitio das minhas botas, estava no seu officio e no
    seu direito. Das botas acima, não. É o caso de eu lhe dizer como Apelles
    ao sapateiro, que lhe censurava a pintura: _ne sutor ultra crepidam_; o
    que em linguagem quer dizer: «não analyse o sapateiro acima da chinela.»
    Os circumstantes e a victima fizeram-se da côr do nariz de Calisto.

    Estas passagens, significativas do salgado espirito do provinciano,
    sobre-doiravam a reputação que o trazia nas boas graças da fidalguia
    realista.

    Sabia Calisto, como profundo genealogico, que existia illustrissima
    parentela sua em Lisboa; porém, pesavam graves motivos para que elle não
    quizesse recordar parentesco remoto com tal gente. Era o grão caso que,
    nos tempos do mestre d'Aviz estava na côrte um Martim Annes de Barbuda,
    da casa de Agra de Freimas, o qual conjurára com o Mestre na façanha do
    assassino do conde Andeiro. Até aqui havia muito para que o honrado
    portuguez se desvanecesse de tal parente. Martim Annes, todavia temeroso
    ou arrependido depois do feito, passou-se a Leonor Telles, e com ella e
    sua familia se foi a Hespanha, onde morreu, desprezado e amaldiçoado dos
    portuguezes. Na época de D. Duarte, os descendentes de Martim voltaram
    ao reino, e conseguiram perdão e posse dos seus haveres confiscados para
    a corôa. Eis aqui a razão do odio de Calisto á raça do máo portuguez.

    Estava elle, um dia, folheando a reformação das leis de 1760 por Diogo
    de Pina, no intento de cravejar de erudição um projecto de lei
    sumptuaria, quando lhe annunciaram a visita do conde do Reguengo.
    Calisto estremeceu, e disse de si comsigo: «Vens ver o que eram e o que
    são os legitimos Barbudas de Agra de Freimas… Sê bem vindo!»

    Entrou o conde, e disse com alegre alvoroço:

    –Venho apertar nos braços um parente, que me honra tanto com a
    intelligencia, quanto seus avós me honraram com a lança.

    Calisto permaneceu immovel na cadeira, e, tirando os oculos de prata,
    disse:

    –Falta saber se meus avós se honraram dos avós de v. ex.^a

    –Eu sou o conde do Reguengo—disse o outro, attonito.

    –Já sei. O conde do Reguengo é o decimo sexto varão de Martim Annes de
    Barbuda?

    –Sou eu mesmo.

    Calisto ergueu-se, montou os oculos, foi mui depausa e a passo mesurado
    á estante dos seus livros, e tirou um in-folio. Voltou a sentar-se,
    mandou sentar o conde, abriu o livro e disse:

    –Esta é a chronica dos reis, escripta por Duarte Nunes de Leão, e
    mandada publicar por D. Rodrigo da Cunha, arcebispo de Lisboa. Abro a
    pagina vinte e tres, e peço ao excellentissimo conde do Reguengo que
    leia.

    O conde recebeu entre mãos a chronica, e leu o seguinte desde o
    paragrapho indigitado por Calisto: «As razões que ao Mestre moviam a
    apressar sua ida para fóra de Portugal, era conhecer a condição da
    Rainha, que, além do natural das mulheres, que é serem vingativas, ella
    o era mais que todas; mas, como mulher de grandes espiritos, e astuta
    que era, onde maior odio tinha, alli mostrava mais benevolencia, pelo
    que o Mestre tinha por mui suspeita a mostra de amizade que lhe fazia, e
    se temia mais d'ella, e tanto cria que lhe tinha maior odio, quanto mais
    affeiçoada era ella ao conde João Fernandes, de quem elle a apartou.
    Ajuntava-se a isto ter ella mandado chamar a El-Rei de Castella. Pelo
    que, sendo ella Rainha, e tendo o favor d'El-Rei presente, não confiava
    o Mestre que sua vida estava segura, pois em vida d'El-Rei D. Fernando,
    não sendo aggravada d'elle, o fez prender e o faria matar. Além d'isto,
    (as seguintes palavras estavam sublinhadas na chronica e emendadas com
    um _proh dolor_! da letra de Calisto) muitos dos que se a elle chegaram
    o deixavam e se passavam á Rainha, como fez Vasco Porcalho, e Martim
    Annes de Barbuda, commendadores de sua ordem, e Garcia Peres Craveiro de
    Alcantara, que para elle se viera.»

    O conde entregou a chronica, e disse n'um tom de abborrido e confuso:

    –E então?

    –É v. ex.^a da progenie d'esse Barbuda infamado na pagina eterna de
    Duarte Nunes?

    –Sou–respondeu ufanamente.

    –Pois vá em paz, que eu não procedo d'esses Barbudas. Eu sou o decimo
    sexto varão de Gonçalo Pero de Barbuda, que morreu em Aljubarrota, na
    ala dos namorados. Gonçalo era irmão de Martim: mas, ao entrar na
    batalha, pediu a D. João I que lhe legitimasse um filho natural, para
    que, no caso d'elle perecer, os filhos do irmão trêdo lhe não manchassem
    o solar. Gonçalo, morreu e D. João I cumpriu a vontade do portuguez de
    lei.

    –O que d'ahi infiro–disse sarcasticamente o conde–é que v. ex.^a
    procede de um filho natural.

    –A mãe do filho natural era abbadessa de Vairão, da familia dos
    Alvins–redarguiu triumphantemente Calisto.

    –Coito damnado!–retorquiu o conde.

    –Discutamos esses pontos graves–voltou serenamente o morgado da Agra,
    tomando rapé.–A decima segunda avó de v. ex.^a Jeronyma Talha, era
    judia de Cezimbra, e esteve como covilheira dos sobrinhos de um Heitor
    de Barbuda com quem casou. Sua tresavó enviuvou sem filhos e casou com
    um filho do capellão. D'este matrimonio nasceu seu avô Luiz de Almeida
    de Barbuda, que foi o primeiro conde do Reguengo. Reconciliemo-nos, sr.
    conde, em quanto ao sangue de coito damnado, se v. ex.^a quer emparelhar
    o filho do padre com a abbadessa de Vairão, tia da mulher de Nuno
    Alvares Pereira por Alvins.

    O conde ergueu-se accendido em raiva, e disse:

    –No que não podemos emparelhar, sr. Calisto, é na tolice. Vou-me
    embora, com a vergonha de ter aqui vindo.

    –Não vá, acudiu Calisto Eloy, que eu é que me hei de forrar á vergonha
    de dizer que v. ex.^a veiu cá.

    E, passando a penna de ferro na pagina da chronica, rasgou a linha que
    dizia _Martim Annes de Barbuda_.

    VIII

    *Faz rir o parlamento*

    Andava o animo de Calisto Eloy martellado pelo desejo de pôr cobro ao
    luxo da gente de Lisboa, sendo grande parte n'este intento o haverem-lhe
    os dois pisa-verdes do parlamento mettido a riso a sua casaca de briche.
    Impugnavam-lhe a idéa o abbade de Estevães, e outros correligionarios
    cordatos, mais entrados do espirito do seculo, e convencidos da
    inutilidade de atravessar represas á torrente caudal da indole de cada
    época. O deputado de Miranda respondia que viera de sua terra a
    cauterisar as chagas do corpo social, e não a cobril-as de pachos e
    lenimentos palliativos em respeito á sensibilidade dos doentes. Rebelde
    ás admoestações sisudas de amigos, que lhe receavam alguma queda mortal
    no conceito da camara, Calisto, provocado por um debate sobre importação
    e direitos de objectos de luxo, pediu a palavra, e o mesmo foi alvorotar
    alegremente a camara, desejosa de ouvil-o.

    Concedida a palavra, e feito o silencio da curiosidade na sala,
    ergueu-se o morgado da Agra, e orou d'este feitio:

    –Sr. presidente! Os conselheiros dos antigos reis de Portugal, homens
    de claro juizo e sciencia bastante, cortavam os abusos do luxo com
    pragmaticas, quando os vassallos se desmandavam em trajos, regalos e
    ostentações ruinosas do individuo, e, portanto, da cidade. O senhor rei
    D. Sebastião, que santa memoria haja, promulgou justas e rigorosas leis
    sobre o uso das sedas. E, n'aquelle tempo, sr. presidente, Portugal
    ainda se banqueteava com a baixella d'oiro do Pegu: ainda as paredes das
    salas nobres estavam colgadas de gualdamecins e razes da Persia. Era o
    Portugal, já não robusto nem enthusiasta; mas ainda sopitado das
    embriagadoras delicias dos reinados de D. Manuel e D. João III.

    Nas Ordenações Filippinas, liv. 5.^o t. 82, § 4.^o, e seguintes, foram
    incluidas as principaes leis da reformação da justiça de 27 de julho de
    1582.

    Lá se vê quão salutar era a vara ferrea da lei no castigo dos contumazes
    em proveito da communidade. (_Um deputado boceja contagiosamente: outros
    bocejam; e o presidente de ministros adormece_). Vejamos a pena dos
    infractores: o peão perdia o vestido defezo, e pagava da cadeia quinze
    cruzados; e o nobre pagava da cadeia mais quinze cruzados que o plebeu.
    Note a camara que as reformas liberaes não complanaram tanto a egualdade
    entre poderoso e fraco. Bradam por ahi os ignaros contra os privilegios
    e exempções da fidalguia dos tempos ominosos. Estes democratas, se
    acontece de cairem nas presas da justiça, gritam pelo codigo das
    egualdades, e então experimentam o que vae da bonita redacção da lei á
    execução d'ella. Recolho-me ao assumpto, sr. presidente….

    _Um deputado_: Faz bem.

    _O orador_: Não me lisongea o beneplacito do collega. Recolho-me ao
    assumpto, sr. presidente. Lastimo este luxo que vejo em Lisboa! Por toda
    a parte, oiro, pedrarias, sedas, veludos, pompas, vaidades! Parece que
    toda esta gente voltou hontem da India nas naus que trouxeram as parias
    do Oriente! Essas ruas estrondeiam de carroagens, calechas e berlindas,
    como se cada dia se estivesse commemorando a passagem do cabo
    tormentorio ou o descobrimento da terra de Santa Cruz, atirando ás
    rebalinhas os thesouros que de lá nos vem. Por entre estas soberbas
    carroças…

    _Um deputado_: Carroças são de lixo.

    _O orador_: E bem póde ser que seja lixo o que vae n'ellas… Por entre
    estas soberbas carroças, sr. presidente, vejo eu passar mal arrimados ás
    paredes, e temerosos de serem esmagados, uns homens de aspecto
    melancholico, e mal entrajados. N'estes cuido eu vêr D. João de Castro,
    que empenhou as barbas, e tem duas arvores em Cintra; Duarte Pacheco,
    que vae entrar no hospital; e Luiz de Camões que vem de comer as sopas
    dos frades de S. Domingos. Cada época tem centenares d'estas illustres
    victimas.

    _Um deputado_: Vê coisas magnificas!

    _O orador_: E tambem vejo o dedo do propheta escrevendo na parede o
    lemma d'aquelle devasso festim… (_Pausa. O orador conserva o braço em
    postura sculptural, apontando á parede. O presidente accorda
    estremunhado, com a risada do ministro da fazenda_). O que eu vejo? quer
    o illustre deputado saber o que eu vejo? É a industria agricola de
    Portugal devorada pelas fabricas do estrangeiro; é o braço do artifice
    nacional alugado á escravidão do Brazil, porque a patria não lhe dá
    fabricas; é o funccionario publico prevaricado, corrupto e ladrão,
    porque os ordenados lhe não abastam ao luxo em que se desbarata; é o
    julgador dos vicios e crimes sociaes transigindo com os criminosos
    ricos, para poder correr parelhas com elles em regalias; é a mulher de
    baixa condição prostituida, para poder realçar pelos ornatos sua
    belleza; é a alluvião de homens, inhabeis, que rompe contra os
    reposteiros das secretarias pedindo empregos, e conjurando nas
    revoluções se lh'os não dão. O que eu vejo, sr. presidente, são sete
    abysmos, e á bocca de cada um o rotulo dos sete peccados capitaes que
    assolaram Babylonia, Cartago, Thebas, Roma, Tyro, etc. É o luxo, sr.
    presidente!

    _Um deputado do Porto_:–Peço a palavra.

    _O orador continuando_:

    –De que desconhecida lua choveu ouro sobre estes paraltas enluvados e
    encalamistrados que pejam os theatros, praças, e botequins de Lisboa?
    Foi para estes tempos que um sabio e claro varão d'outro seculo
    escreveu: «Desde o bico do pé até á cabeça anda um d'estes cavalheiros
    bizarros (ou qualquer d'estes bizarros ainda que não sejam cavalheiros)
    armado de vaidade e de estudos de sua compostura, que são captiveiros de
    espirito, corrupções dos costumes, da republica, e despezas da sua
    fazenda, ou talvez da fazenda que não é sua.»

    Aqui é que bate o ponto: _da fazenda que não é sua_. Á custa de quem se
    vestem estes Narcisos e Adonis? Que incognitos veios de ouro exploram?
    Qual é sua arte, se não devo antes perguntar quaes sejam suas manhas ou
    ronhas? Que sabe a policia d'elles?

    E eu já vi, sr. presidente, andarem as senhorias e excellencias, as
    pobres esfarrapadinhas, por meio d'estes peralvilhos, que saem de casa
    do alfayate com o fôro grande e o desaforo maior. Que desbarato e
    corruptela é esta dos tratamentos em Lisboa? Abandalha-se tudo para
    passar a rasoira por sobre um lamaçal plano? Isso é congruente; mas
    então tapem lá o rôto cofre das graças, que a toda hora nos está
    despejando corôas e veneras, cruzes e mais cruzes, cruzes onde a honra
    de Portugal geme cravejada! Fechem lá esses decretos de permanente
    carnaval, que nos trazem sempre acotovellados com mascaras, que eram
    hontem os nossos fornecedores de bacalhau, e hoje nos não conhecem a
    nós, receiosos de que os conheçamos a elles!

    Sr. presidente! v. ex.^a conhece a pragmatica do Sr. D. João V, ácerca
    de tratamentos. Eu tenho de a ler ámanhã a um tendeiro, que me vendeu
    figos de comadre, por que o homem se offendeu de receber um _vossemecê_,
    que eu longanimamente lhe dei. O alvará resa assim: «Que aos viscondes e
    barões, aos officiaes da minha casa, e aos das casas das rainhas, e
    princezas d'estes reinos; aos gentis-homens das camaras dos infantes;
    aos filhos e filhas legitimos dos grandes, dos viscondes e barões…
    como tambem aos moços fidalgos… se dê o tratamento de senhoria.»

    Senhoria aos ministros no estrangeiro; senhoria aos governadores das
    praças; reitor da universidade; senhorias ás dignidades prelaciaes e
    civis; sr. presidente, falta uma senhoria legal para o homem, que me
    vendeu os figos. Creêmos esta senhoria, para alliviarmos de escrupulos
    os que lh'a derem a medo. Legislemos a podridão dos tratamentos
    nobilitarios. Atiremos ao esterquilinio com esta moeda refece. Isto já
    não vale nada, não prova nada, não estrema coisa nenhuma. Latissima
    licença de condecorar-se a gentalha! Se algum mesteiral, uma vez,
    praticar feito nobre, que lhe conquiste justo galardão, havemos de
    honral-o chamando-lhe homem do povo, d'aquella raça de povo, que D.
    Diniz e D. João I amaram cordialmente.

    Desviei-me algum tanto, sr. presidente. Vou chegar-me á questão, e
    concluir, porque a hora me não permitte delongas, nem a camara terá a
    benevolencia de m'as tolerar.

    Invoco a attenção dos representantes do paiz para a mortal peçonha, que
    vae cancerando o machismo vital da nossa independencia. Rédeas ao luxo!
    Tranquem-se as alfandegas ás drogas estrangeiras. Carreguem-se de
    direitos as mercadorias, que incitam o appetite e prevertem as condições
    melhormente morigeradas. Vistamo-nos do que podemos colher de nossas
    possessões, e do estofo, que nossas fabricas podem dar. Sigam-se as leis
    velhas do ultimo rei da dynastia de Aviz. Coimem-se e castiguem-se os
    que venderem tecidos estrangeiros e os que os puzerem em obra.

    _Um deputado_: Como redigirá o illustre deputado similhante absurdo de
    lei?

    _O orador_: Como redigirei? Facilmente. Como D. João II legislou a
    respeito das mulas dos frades. Ora aconteceu que os frades teimaram em
    cavalgar mulas. Que fez então o estomagado rei? Deu sentença de morte
    aos ferradores, que ferrassem as mulas dos frades. E o caso foi que os
    desmontou.

    Conclui, sr. presidente.

    _O presidente_: Fica reservada para amanhã a palavra ao sr. dr. Liborio
    de Meirelles, e está fechada a sessão.

    O dr. Liborio de Meirelles era o deputado portuense, que pedira a
    palavra, durante o discurso de Calisto Eloy.

    –Que sairá d'aquelle arganaz?–perguntou o morgado de Agra ao abbade de
    Estevães.

    –Dizem que é moço de muita sabedoria, e que já escreveu livros.

    Calisto sorriu-se e disse:

    –Estou bem aviado, se elle escreveu livros!

    IX

    *O doutor do Porto*

    O dr. Liborio de Meirelles, sujeito de trinta e dois annos, cara
    honesta, e posturas contemplativas, reunia os predicados que nos outros
    paizes ou passam despercebidos, ou são solemnisados pela irrisão
    publica; mas, em Portugal, taes predicados alçam o homem ao cume da
    escala politica, e dão-lhe escolta de absurdos propicios até onde o
    parvo laureado quer guindar-se.

    Esta pessoa madrugou aos dezoito annos escrevendo poemas satyricos
    contra os titulares portuenses, não porque elle se pejasse de vel-os em
    sua plana, mas porque lhe fugiram d'ella. O progenitor de Liborio era um
    tendeiro, que entrara na estrada franca da fortuna prospera, creando de
    sua cabeça, para uso de gallegos e carretões madrugadores, um mixto
    saboroso e alcalino de licores, que ainda hoje sustentam o credito e
    primasia. Afóra isto, inventara o pae do dr. a aguardente de nabos.

    Liborio foi menos feliz que o pae, no genero a que se dedicou. Os seus
    poemas viveram alguns dias afagados pela calumnia, como a belleza das
    collarejas lisongeada pelo rosto derrancado dos libertinos. Depois, o
    filho do tendeiro, graças á baixesa de sua posição social, antes de
    grangear o odio dos insultados, já tinha caido no desprezo d'elles.

    Impellido pelo couce do pégaso, Liborio já não podia retroceder. Foi
    para Coimbra: fez-se examinar em latim, e foi reprovado. Desde este
    funesto dia de sua vida, Liborio começou a dizer que era sabio, e, por
    vingança dos examinadores, traduziu um poema latino com tanta claresa e
    fidelidade, que o poema original ficou sendo muito mais intelligivel aos
    ignorantes de latim, do que a versão; com que a memoria de Lucrecio fôra
    ultrajada.

    Formou-se e doutorou-se Liborio, sem impedimento de uns _rr_ que, alguma
    vez, lhe acalcanharam o orgulho. Em seguida foi visitar a Europa; e, de
    volta aos lares, achou-se no regaço da estupida fortuna que o beijou, na
    fronte, e lhe disse: «este anhelito de meus beiços côa-te fogo ao
    cerebro! Amo-te, porque careço de ti. Eu sou a Circe dos gregos:
    bestifico tudo que toco, e em ti delego o condão de radiares tua
    bestidade ao cerebro de quem embarrar por ti. Proponho-me transfigurar,
    não já em cochinos, mas em mais nobres alimarias, os regedores da coisa
    publica de Portugal. Tu, dilecto, vae caminho da gloria. Hoje és
    deputado; d'aqui a pouco serás ministro.»

    De feito, Liborio estava deputado, á mesma hora em que o fidalgo da Agra
    de Freimas era fadado a ser um dia verberado no parlamento pelo filho do
    inventor da aguardente de nabos.

    Calisto entrou á sala, e, digamol-o com espanto de sua fleuma, ia
    tranquillo e até contente, sem embargo de lhe haverem dito alguns
    collegas quão funesto era o contendor que a sua má sorte e imprudencia
    lhe deparara.

    O dr. Liborio, dada a palavra, ergueu-se com ademanes não vulgares,
    alisou os bigodes, encravou na orbita esquerda um vidro sem grau, e
    disse:

    –Sr. presidente, discorri cêrca d'anno por estranhas plagas. Fui-me
    mundo fóra com o meu bordão e concha de romeiro do progredimento social.
    Bebi a tragos nas enchentes de mel hybleú que desborda dos mananciaes da
    civilisação. Vi muito, vi tudo, que me abraseavam sedes de aprender,
    fomes de Ugolino que rompe seus ferros, e se defronta com lautos
    estendaes de loirejantes iguarias. Que deliquios de exultação me tomavam
    alma! como eu me sentia a tragar luz e humanidade por aquelles climas
    onde o supremo architecto chove inventos a frouxo e a flux! Vi muito, e
    vi tudo, sr. presidente. Encheu-se-me o peito de anhelos pela sorte da
    patria, e d'amores muito seus d'ella, como de filho que do imo das
    entranhas lhe quer. Volvi-me no rumo do ninho meu; e mal se enrubesceram
    os horisontes d'esta minha e tão nossa terra de fragrancias e idyllios,
    assim me coou as fibras do seio um como filtro de melancholia, que me
    subia aos olhos exsudando lagrimas.

    (_Calisto Eloy, em perigo de rebentar, ri-se. Parte da camara ciciou-lhe
    um sio prolongado. Calisto accommoda-se e desconfia que a maior parte da
    camara é tola_).

    _O orador_: É que eu, sr. presidente, muito a dentro d'alma sentia uns
    rebates de presagio. Locustas de excruciantissimos toxicos, que me
    estavam empeçonhando esperanças, enleios, arrobos e dulcissimas chimeras
    de ainda ver florejarem os agros da patria, estrellarem-se estes céos
    plumbeos e rasgarem-se os horisontes á onda fecundante d'este uberrimo
    torrão. Doeu-me alma, choraram-me olhos, e comprehendi a angustia
    virgiliana do hemestichio: _pulcia linquimus arva_. (_Muitos apoiados_.)

    Pois que, sr. presidente? Cançariam maguas a quem se lhe antolhasse ter
    de ainda ouvir n'esta casa voz de homem, de homem nado do ventre d'este
    seculo, de homem que aqui entrou a verter no gasolifacio do templo do
    eterno Christo da eterna liberdade, a drachma ou o talento, a mialha ou
    o thesouro de sua dedicação, repito, sr. presidente, quem deixára de
    estillar bagas de pranto, ao aportar em chão portuguez com o presagio de
    que, alguma hora, havia de ouvir n'este _sancta-sanctorum_ das luzes,
    blasphemias contra o luxo, que é a arteria, a órta do corpo industrial?
    Quem quizera, por tal preço, dizer ás nações cultas: «eu sou d'aquelle
    céo, nasci n'aquelle jardim de magas, onde Camões poetou glorias para
    invejas do mundo? Sou da terra dos laranjaes onde suspirou Bernardim?
    Sou da raça dos bravos que perpetuavam Aljubarrota, Badajoz, Valverde?
    (_Apoiados prolongados_.) Na minha terra… (quem quererá já dizer!)
    nasceram Gamas, nasceram Cabraes, e Castros, e Abuquerques, Nunes e
    Regras? Quem sr. presidente?

    (_Calisto pede a palavra_.)

    _O orador_: Que é o luxo? Perguntae ao selvatico das florestas invias o
    que é o seu _hamac_, e ao europeu o que é o seu almadraque de plumas,
    tão crato e flacido ás evoluções corporeas. Perguntae ás bellas europeas
    que lhes faz a grinalda de brilhantes, e ás bellas da Florida que prazer
    lhes insinuam os vitreos adornos de variegadas côres. Oh! o luxo! o
    luxo, senhores, é marco miliario de civilisação, a pomba que se volita
    da arca, e se vae espanejando de azas por céos e terras além, recobrada
    dos pavores primeiros, e saltitando de frança em frança. Oh! que
    rejubilos de coração para quem fadado lhe foi de cima o entender e amar,
    que o comprehender é amar, na phrase incisiva e galharda de Victor Hugo!

    Sr. presidente! O coração da França, o encephalo, o grande nervo da
    França é o luxo. E eu estive na França, sr. presidente, fui lá para me
    reverberarem nos cristaes d'alma os lumes d'aquella perla d'Offir! Ai! a
    França! Quando nos entreluzem os zimborios da moderna Babylonia, «_a
    esperança remonta-se-nos em rasgado vôo para tudo mais vasto, mais
    copioso, mais opulento, a espirar vida e bem para o alto, para o largo e
    de muita benção, a branquear-nos a casinha da serra, a florir-nos o
    pomar da veiga, a dar-nos canções e alegrias no artifice_.» [11]

    O luxo, sr. presidente, é o espantalho dos animos sandios e cainhos.

    _O deputado Calisto_: Seja pelo amor de Deus!

    _O orador_: Pois seja, e muito que lhe preste ao collega, que mister se
    lhe faz perdão de Deus pelas blasphemias economicas que ejaculou, sem
    dar de olhos na civilisaçao, matrona prestimosa, que toda se desentranha
    em blandicias e florinhas de viço e olor para opulentos e desremediados.

    _O deputado Calisto_: Isso que diz em vernaculo?

    _O orador_: Que me não falle á mão, se lhe sobranceio o intellecto.
    Affigura-se-me, sr. presidente, que tenho pela frente sombra, e sombra
    de que não ha temermo-n'os. Não sei, á bofé, com quem me esgrimo.
    Propugnar por artes, pôr peito a defender industrias, ruir os cancêlos
    das fabricas, bafejar incentivos á imaginativa do artifice, emfim e
    derradeiramente, encarecer a utilidade do luxo, isto me está assetteando
    o animo temeroso de desfechar injuria ao progresso, á idéa, ao _fiat_, á
    humanidade! Para que me estou aqui afadigando e derramando, sr.
    presidente se só mumias podem sair-me com esgares, de encontro ao
    civilisador principio? (_Muitos apoiados_.)

    Corre-me obrigação de silencio. Já de contricto me recolho, e da
    offensa, á luz me penitencío; que eu me estive a espancar trevas que, em
    que pese a pávidos agoireiros, já não hão de espessar-se em derredor do
    sol esplendorosissimo.

    _E, pois, antevejo que não ha mais dizer, sem entibiar-me a nota de
    repetições, aqui ponho fecho_.[12]

    _O orador foi comprimentado_.

    O _presidente_: Tem a palavra o nobre deputado Calisto Eloy de Silos de
    Benevides de Barbuda.

    –Sr. presidente!–disse Calisto–Eu entendi quasi nada, porque o sr.
    deputado dr. Liborio não fallou portuguez de gente (_riso nas
    galerias_.) As laranjas, espremidas de mais, dão sumo azedo, que corta a
    lingua. O sr. deputado fez do seu idioma laranja azeda. Se a linguagem
    portugueza fosse aquillo que eu acabo de ouvir, devia de estar no
    vocabulario da lingua bunda. Parece me que os obreiros da torre de
    Babel, quando Deus os puniu do atrevimento impio, fallaram d'aquelle
    feitio! (_Ordem_! _ordem_!)

    O _orador_: Ordem, srs. deputados, peço eu para a lingua portugueza!
    Peço-a em nome dos illustres finados Luiz de Sousa, Barros, Couto, e
    quantos, no dia do juizo, se hão de filar á perna do sr. dr. Liborio.

    O _presidente_: Peço ao illustre deputado que se abstenha de usar
    phrases não parlamentares.

    O _orador_: Tomo a liberdade de perguntar a v. ex.^a se as locuções
    repolhudas do illustre collega são parlamentares; e, se o são, peço
    ainda a mercê de se me dizer onde se estudam aquellas farfalhices.
    (Vozes: _Ordem_! _ordem_!)

    O _orador_: Quando aquelle senhor me chamou _sandio_, não foi violada a
    ordem? (_Apoiados_). Ora pois: eu não quero desordens. Vou pacificamente
    responder ao sr. deputado, como souber e podér. Estou a desconfiar que a
    minha linguagem secca e desornada raspará nos ouvidos da camara, que
    ainda agora se deleitou com a rethorica florida do sr. deputado do
    Porto. Sou homem das serras. Creei-me por lá no tracto facil e chão dos
    velhos escriptores: aprendi coisa de nada, ou pouquissimo. A mim,
    todavia, me quer parecer que o fallar gente palavras do uso commum é
    coisa util para nos entendermos todos aqui, e para que o paiz nos
    entenda. Do menospreço d'esta utilidade resulta não poder eu
    aperceber-me de razões para cabalmente responder aos argumentos do
    discreteador mancebo. Percebi, a longes, pouquinhas idéas; porém,
    querendo Deus, hei de, se me ajudar a paciencia com que estudei o idioma
    de Thucydides, decifrar os dizeres de s. ex.^a no «_Diario das
    Camaras_.» (_Riso_).

    O illustre deputado quer que o luxo indique a riqueza das nações. Isto é
    o que eu entendi do seu arrasoamento. Em França viu s. ex.^a mosquitos
    por cordas. Pois, sr. presidente, eu li que, em França, onde o luxo é
    maior, ahi é menor, em proporção, o numero dos individuos ricos (Vozes:
    _apoiado_!) Este caso, se é verdadeiro, corta pela haste as flores todas
    dos jardins oratorios do sr. dr. Liborio. Que mais disse s. ex.^a?
    Faça-me a graça de m'o achanar na linguagem caseira com que o diria á
    sua familia em _pratica como do lar_, consoante phrase a D. Francisco
    Manuel de Mello na _Carta de Guia_.

    O _dr. Liborio de Meirelles_: Não velei as armas do raciocinio para me
    ir á liça da absurdeza. Melhores fadas me fadaram; e não me estou aqui
    sabbatinando como em pleitos de bancos escolares. (Vozes: _Muito bem_.)

    O _orador_: Muito bem o que?… Vae-me parecendo historia isto, sr.
    presidente!… Eu queria-me entender com o sr. deputado, afim de
    tirarmos algum proveito d'este debate; mas s. ex.^a, pelos modos por me
    vêr assim minguado de affeites poeticos, acoima-me de absurdidade, e
    despreza-me!… Valha-me Deus! Se o sr. dr. Liborio me não lançasse da
    sua presença com tamanho desamor, havia de perguntar-lhe por que foram
    Athenas e Roma bem morigeradas quando pobres, e corrompidas quando ricas
    e luxuosas? Havia de perguntar-lhe que artes e sciencias progrediram
    entre os sybaritas e lydios, povos que a mais elevado gráo de luxo
    subiram? Havia da perguntar-lhe por que foi que os persas acaudilhados
    por Ciro cortados de vida aspera e privada do necessario, subjugaram as
    nações opulentas? Havia de perguntar-lhe porque foram os persas, logo
    que se deram ás delicias do luxo, vencidos pelos lacedemonios?

    A suprema verdade, sr. presidente, a verdade que os arrebiques da
    rhetorica não seduzem, é que á medida que os imperios antigos se
    locupletavam, o luxo ia de foz em fóra, e os costumes a destragarem-se
    gradualmente, e o pulso da independencia a quebrantar-se, e os cimentos
    das nações a estremecerem. Depois, era o cair do Egypto, da Persia, da
    Grecia e Roma.

    Até aqui a historia, sr. presidente; d'aqui em diante o sr. dr. Liborio
    de Meirelles, o moço poeta, que foi a França, e achou desmentidos
    Xenophonte e Thucidydes, Livio e Tacito, Plutarcho e Flavio.

    O sr. dr., a meu juizo, é sujeito de grande imaginativa. Bonita coisa é
    idear fabulações em academia de poetas; porém, n'esta casa, onde a nação
    nos manda depurar a verdade dos fallaciosos ornatos com que a mentira se
    arrea, mister é que sejamos sinceros. Já o insigne author dos _Apologos
    dialogaes_ disse que a _imaginação era curral do conselho, onde, por não
    ter portas, todo o animal tinha entrada_. Bom é tambem que os moços
    muito imaginativos senão pavoneem até ao philaucioso sobrecenho de
    passarem alvará de sandeus á gente que raciocina mais porque imagina
    menos. É permittido aos versistas poetarem em prosa; mas as liberdades
    poeticas não ajustam bem nos debates circumspectos da res publica.

    Vou concluir, sr. presidente, votando contra a proposta do illustre
    collega, que propoz a reducção dos direitos aduaneiros das sedas, e
    pedindo ao sr. dr. Liborio, que, se outra vez me der a honra de imbicar
    com este pobre homem lá das montanhas da raia, haja por bem de se
    expressar em linguagem correntia. Não sou homem de salvas e rodeios:
    digo as coisas á moda velha. Quero-me portuguez com os do sujeito, verbo
    e caso no seu competente logar. E, se assim não fôr, ir-me-hei com
    aquellas palavras que ouviu Arsenio: _Fuje, quíesce, et tace_; «foge,
    socega, e não falles.»

    Sentou-se Calisto Eloy. Alguns deputados anciãos do partido liberal
    foram cumprimental-o; e outros, que se pejaram de imitar os velhos,
    encararam no rustico provinciano com cortezia e tal qual veneração.
    Calisto Eloy ganhára consideração na camara e no paiz.

    Os deputados governamentaes acercaram-se d'elle, convidando-o em termos
    delicados a aceitar, no banquete do progresso, o logar que a sua
    intelligencia reclamava. Os deputados opposicionistas conjuravam-no a
    não levantar mão de sobre os projectos depredadores com que a facção
    governamental andava cavando novas voragens ao paiz.

    O morgado da Agra respondia que estava descontente de gregos e troyanos,
    e acrescentava:

    –Não sei, por ora, de qual dos lados da camara se falla peor a lingua
    patria. Tenho ouvido os quinhentistas á la moda, e os galliparlas. Todos
    ressabem á hervilhaca; uns estão gafados de francezias, outros tresandam
    nos seus dizeres o bafio que os bons seiscentistas regeitaram. Carecem
    de cunho nacional estes homens. O máo portuguez principia a sel-o, desde
    que mareia a pureza de sua lingua. Dêem-me portuguezes de lingua, e eu
    me bandearei com elles, como com portuguezes de coração. Com aquelle dr.
    Liborio do Porto nem para o céo. Tenho medo que Deus o não entenda, e
    nos ponha ambos fóra de cambulhada.

    X

    *O coração do homem*

    Entremos no coração de Calisto Eloy.

    Cuidava o leitor que não tinhamos que entender com aquella entranha do
    homem? Estou que a julgaram inviolavel ás suspeitas da historia em acto
    de tanto alcance na biographia d'este personagem!

    Já se disse que orçava pelos quarenta e quatro o morgado. N'aquella
    edade, se ha fibras virginaes no coração, eram as d'elle.

    Casára com sua prima Theodora, menina estimabilissima por virtudes, mas
    mais feia do que pede a razão que seja uma senhora honesta. A noiva
    deixou-se ir pela mão do pae á casa do esposo. Não ia alegre nem triste.
    Tanto se lhe dava casar com o primo Calisto como com o primo Leonardo.
    Logo que o pae lhe consentiu que levasse para Caçarelhos umas tres
    duzias de gallinhas e parrecos, que ella creara, não lhe ficou na casa
    natal coisa para sérias saudades.

    Encontrou marido ao pintar. Coraram ambos ao mesmo tempo, quando o
    bulicio das festas nupciaes se aquietou e a mãe do noivo lhes disse:
    «Meninos, cada môcho a seu soito» phrase amenissima que em pouco e
    depressa exprime a muita poesia de toda aquella família.

    Calisto, ao outro dia da primeira noite de esposo, por volta das sete
    horas da manhã, já estava a ler a _Viagem á terra santa_, por frei
    Pantaleão de Aveiro; e, á mesma hora a noiva andava de pé sobre um catre
    de pau preto rendilhado, com uma bassoira de giesta, a limpar teias de
    aranha do tecto.

    Almoçaram, e foram visitar o pae e o sogro, em cuja casa jantaram.
    Durante a visita, a sr.^a D. Theodora esteve a ensinar uma criada a
    engommar as camisas do pae; e Calisto, como descobrisse n'um armario um
    tratado de alveitaria de 1610, levou-o de um folego, e tirou
    apontamentos, visto que o sogro se tratava por aquelle tratado,
    diminuindo as doses das drogas. Não sei quem lhe dissera a elle que o
    sr. D. João IV, nas doenças graves, se medicava com um veterinario.

    Ora, d'este começo de amores infiram v. ex.^as o restante d'aquella doce
    vida!

    Theodora tomou a cargo os cuidados domesticos de sua sogra, e muitos do
    tracto com caseiros, vendo que o marido, tirante as horas de comer, não
    saia da livraria, onde a mulher, como amavel sombra, o ia visitar, e
    olhando com desdem sobre os infolios, dizia-lhe:

    –Ó homem, ainda não acabaste de ler estes missaes?

    –Isto não são missaes, rapariga. Não estejas a profanar os meus
    classicos.

    A esposa não entendia isto, e pedia-lhe que lhe lêsse pela vigesima vez
    as _Sete partidas de D. Pedro_. E o bom marido lia-lhe pela vigesima vez
    as _Sete partidas_, porque estavam escriptas em portuguez de lei. Vida
    para invejar! paraiso em que Deus se esqueceu de mandar o anjo do
    montante de fogo vedar a entrada!

    Discorreram annos, sem que o morgado tivesse de perguntar á sua
    consciencia a explicação do minimo alvoroto de sangue na presença de
    mulher estranha. Andava por feiras, quando a mulher o mandava comprar
    utensilios agricolas; pernoitava por diversas casas da provincia,
    famosas pela belleza das donas, e contava-lhes casos mirificos de suas
    leituras, se acontecia não achar livro velho, que lhe deliciasse o
    serão.

    Da maior, e talvez unica dôr litteraria da sua vida, fui eu causa.
    Calisto, pernoitando em não sei que solar de damas dadas á leitura
    amena, pediu algum livro, e deram-lhe um romance meu. Consta-me que
    deixou o volume com as margens annotadas de gallicismos e nodoas de toda
    a casta. Imaginem quantas punhaladas eu dei n'aquelle lusitanissimo
    coração!

    Afóra este incidente, as boninas da vida campestre floriam
    immarcessiveis para o homem de bem, raro exemplo de compostura; salvo
    quando lhe beliscavam a estirpe que, então, como já disse, retaliava
    descaridosamente, e revelava a quebra contingente de todo homem
    imperfeito de sua natureza. Isto creou-lhe inimigos; mas detrahidores de
    sua fidelidade marital nenhum tentou infamar-lhe o bom nome. Das
    virtudes conjugaes de Theodora até me treme a penna sómente de escrever
    isto para encarecel-as! Duvide-se da pureza das onze mil virgens, antes
    de maliciar suspeitas d'aquella matrona, em tudo romana, do puro estofo
    das Cornelias, Poncias e Arrias.

    Com esta pureza de vida entrara em Lisboa o morgado da Agra.

    Ahi está um como Daniel á beira da fornalha. Ahi está o homem-anjo!
    Quarenta e quatro annos immaculados! Um coração que, se algumas imagens
    tem gravadas, são as dos frontispicios apparatosos de alguma edição
    princeps, d'algum Elsevir annotado por Grenobio.

    XI

    *Santas ousadias!*

    Natural coisa é que este sujeito, intangivel ás caricias do amor, seja
    severo e intolerante com as fragilidades do coração.

    Aconteceu-lhe frequentar, uma noite por outra, a sala d'um antigo
    desembargador do paço, que era pae de duas galantes senhoras, uma casada
    e outra solteira.

    Soou aos ouvidos de Calisto Eloy, que uma das illustres damas innodoava
    sua gentileza e prosapia, violando os deveres de esposa. Fez-lhe sangrar
    o coração honrado tão funesta nova, e communicou elle o seu espanto e
    dôr ao collega abbade. O abbade desfechou-lhe na cara uma estrallada de
    riso civilisado, e disse-lhe:

    –Ora o morgado tem coisas! V. ex.^a parece que caiu, ha pouco, de algum
    planeta! Olhe que Lisboa não é Miranda, meu amigo. Se o morgado tem de
    espantar-se por cada caso d'estes que chegar ao seu conhecimento, a sua
    vida na capital tem de ser um permanente ponto de admiração!… Deixe
    correr o mundo…

    –Que remedio!–atalhou o morgado–mas o que eu farei é sacudir o pó dos
    meus botins á porta das casas, cuja desordem de costumes me escandalisa.
    Não voltarei a casa do desembargador Sarmento.

    –Faça v. ex.^a o que quizer; porém, consinta que eu reprove similhante
    procedimento, por duas razões; seja a primeira, que o desembargador e a
    familia receberam o sr. morgado com cordeal affecto; segunda razão, é
    que v. ex.^a já não está em edade de perder a sua virtude seduzida por
    máos exemplos. Faça como eu: lamente as miserias dos homens, e viva com
    elles, sem participar-lhes dos defeitos; porque, meu nobre amigo, se a
    gente vae a regeitar as relações das familias, justa ou injustamente
    abocanhadas pela maledicencia, a poucos passos não temos quem nos
    receba.

    –Eu tenho os meus livros, accudiu Calisto.

    –E os seus livros, as suas chronicas, os seus classicos gregos e
    latinos não lhe contam enormes desmoralisações? V. ex.^a, que leu a vida
    romana em Tacito, e Apuleio, e no Festim de Trimalicão de Petronio…

    –De qual Petronio?–interrompeu o morgado. Foram doze os Petronios em
    Roma, e todos escreveram com mais ou menos despejo.

    –Pois melhor. Se v. ex.^a leu doze, eu li um, que era o ecónomo, ou
    arbitro dos prazeres de Nero, e este me bastou para edificação do meu
    espirito. Pois se o meu amigo póde ler sem horror as infamias das
    saturnaes, e os mysterios da deusa Bona, e quejandas protervias dos
    antigos tempos, como póde espantar-se do que ouve dizer da filha do
    desembargador Sarmento, que a final de contas, póde estar innocente do
    crime que lhe assacam?! Não a vê v. ex.^a filha cuidadosa, mãe
    estremecida, e esposa honesta na apparencia? Já a ouviu defender theses
    da moral do adulterio? Que lhe importa a v. ex.^a o que se passa lá na
    vida privada da mulher?

    Calisto deteve-se breves instantes com a resposta, e disse:

    –Acho-lhe razão, sr. abbade, não tanto pelo que disse, como pelo que
    não disse. As pessoas de vida impolluta devem acercar-se d'aquellas que
    prevaricam. Lá vem uma hora em que o conselho é taboa salvadora… Quem
    sabe se eu terei predestinação de desviar aquella senhora do caminho
    máo!?…

    –É verdade–assentiu o abbade;–mas é justo e urbano que v. ex.^a não
    vá interrogal-a sobre coisas do fôro intimo.

    –Não me ensine as leis da cortezia, abbade–replicou algum tanto
    affrontado o fidalgo da Agra.–Eu não me fiz em alcatifas de salas; mas
    aprendi a policia e trato humano nas lições de galãs afamados como D.
    Francisco Manuel. E, demais d'isso, meu caro sr. abbade, não me peça
    Deus conta de minha soberba, se lhe eu digo que o bom sangue como que já
    tem congeniaes e infusas em si as regras da urbanidade cortezã. Não se
    fazem mister directorios de civilidade a sujeitos, que herdam com a
    fidalguia a indole de avoengos palacianos, feitos nas côrtes, e affeitos
    a sentarem-se na ourella dos thronos.

    –Não ponho duvida n'isso;–obtemperou o abbade, e accrescentou com
    malicia e bem rebuçada ironia–alguns fidalgos muito mal-creados que
    tenho topado, em quanto a mim, não lhes faltou a herança de polidez;
    foram elles que propriamente derrancaram sua indole, até se fazerem
    plebe grosseira e ignobil.

    –Acertadamente–disse o morgado.

    –Eu ensinar cortezia a v. ex.^a!–insistiu o deputado bracharense.–A
    minha observação tendia a moderar os impulsos descomedidos da sua justa
    censura aos máos costumes da sr.^a D. Catharina Sarmento. _Noli esse
    multum justum_, diz o Ecclesiastico.[13] Bem fidalgos e policiados eram
    S. Domingos de Gusmão, S. Francisco de Borgia, e Santo Ignacio de
    Loyola, todavia, bem sabe v. ex.^a com que exempção e santa descortezia
    elles invectivavam as corruptelas da mais elevada sociedade, em rosto
    dos proprios delinquentes.

    –Mas eu não sou apostolo–acudiu Calisto.–Conheço que já não vim a
    tempo, nem a missão me condecora.

    Assim mesmo, sem desaire das pessoas, hei de pôr a pontaria aos vicios,
    e, se poder, influirei pensamentos de emenda ao animo dos viciosos.

    N'uma das seguintes noites, foi Calisto ao chá do desembargador
    Sarmento. Achou mais abatido e melancholico o antigo magistrado.
    Estiveram conversando á puridade sobre o desgosto que revia á face do
    hospedeiro ancião. Crê-se que Sarmento lhe dissera que sua filha
    Catharina, depois de haver casado por paixão, com cedo se desaviera da
    vontade do marido, e este da estima d'ella; de modo que raro dia
    deixavam de altercar e renhir por motivos insignificantes. D'isto
    resultava a tristeza constante do velho, acrescentada agora com ter-lhe
    dito alguem que sua filha andava infamada pela voz publica.

    –Ferro penetrante–exclamou o desembargador–que me traspassou este
    corpo já fraco, e pendido á campa.

    Calisto apertou-o nos braços e clamou:

    –Amigo e senhor meu! A desgraça não derrete o aço dos peitos fortes.
    Tenha-se v. ex.^a arrimado ao bordão de sua honra, que não hão de
    adversidades derribal-o. Aqui me ponho de seu lado, com a fortaleza da
    amizade, para, como filho de v. ex.^a e irmão da sr.^a D. Catharina,
    minha senhora, tirar a limpo da sugidade da calumnia, se o é, a virtude
    d'ella, e o contentamento de v. ex.^a. Aqui vem de molde o repetir as
    palavras affectivas do meu dilecto Heitor Pinto, no tractado da
    _Tribulação_: «O que eu queria é que a boceta de vossas angustias
    estivesse depositada em minhas entranhas, e que os meus bens fossem
    vossos, e os vossos males fossem meus.»

    Ouvido isto, o desembargador commoveu-se até ás lagrimas, e disse com
    mui entranhado affecto:

    Quem me dera assim um marido para a minha Adelaide, que n'esta casa
    reinaria o socego da virtude! Agora vejo que lá nos escondrijos dos
    mattos da provincia se refugiaram as reliquias da honra portugueza!
    Ditosa senhora a que avassallou tão honesta alma!

    D'ahi a pouco, o morgado da Agra, buscando azo de estar apartado com
    Catharina a um canto da sala, e praticando sobre livros perigosos,
    rompeu elle n'esta pergunta:

    –A sr.^a D. Catharina já leu Homero?

    –É romance? disse ella.

    –Romance ou fabulado de alta moral lhe havemos de chamar; não já
    romances d'uns que, de oitiva o sei, por ahi impestam a sociedade. Na
    Iliada de Homero achei dois pares de casados; um é Paris, que se
    matrimoniou com Helena; o outro é Ulysses, que se casou com Peneloppe.
    Os primeiros, cubiçosos e voluptuarios, cobriram a Grecia de
    calamidades; os segundos, prudentes e discretos, foram o modelo do
    thalamo ditoso.

    Fez Calisto uma longa pausa, e proseguiu, interpollando os dizeres com
    algumas pitadas, que solemnisavam a gravidade das fallas.

    –Ninguem devera casar sem muito lêr e sem applaudir aquelles preceitos
    do casamento, escriptos pelo eminentissimo Plutarcho.

    –Não conheço, disse a dama… Li _Le mariage_, de Balzac.

    –Não sei quem é: deve ser francez.

    –Pois não leu?

    –Eu não leio francez. Não me chega o meu tempo para tirar aguas sujas
    de poços infectos. Plutarcho é oraculo n'esta materia. Um pensamento lhe
    li que me chegou á medula, e que ainda agora em Lisboa me saiu
    explicado. Diz elle algures. «Não podem as mulheres convencer-se de que
    Pasiphae, bem que esposa d'um rei, se enamorasse apaixonadamente de um
    touro; ao passo que estão vendo, sem espanto, mulheres que menospresam
    maridos benemeritos e honrados, e se dedicam a homens bestificados pela
    libertinagem.» Asseveram-me os pilotos peritos n'estes mares verdes e
    aparcellados da capital, que ha d'isto muito por aqui.

    –É possivel… balbuciou D. Catharina.

    –E porque não ha de ser, se algumas senhoras conheço eu casadas, tornou
    Calisto, que andam com os braços nus fóra das alcovas do seu leito
    nupcial!…

    –E isso que tem?–atalhou a dama–é a moda…

    –A moda, que franqueia as portas aos ruins desejos, ás cogitações
    viciosas, aos afrontamentos, ao pudor. Aquella filha de Pytagoras, a
    quem encareceram o feitio do braço, respondeu: «Bello é; mas não para
    ser visto». Na Andromacha de Euripedes, Hermion exclama:
    «Infelicitei-me, consentindo que de mim se achegassem mulheres
    preversas.» Quantas damas de hoje em dia poderão dizer, e na consciencia
    o estarão dizendo: Consenti, para minha desgraça, que preversos homens
    convisinhassem de mim!…

    –Mas onde quer v. ex.^a chegar com o seu discurso? interrompeu a filha
    do desembargador.

    –Á razão da sr.^a D. Catharina, minha senhora.

    –Como assim?! quem o auctorisa…

    –As lagrimas de seu ex.^{mo} pae.

    –Veja lá, sr. Barbuda, que se não equivocasse com as lagrimas de meu
    pae… A minha reputação e costumes repellem similhantes allusões, se o
    são.

    –Peores do que estas, sr.^a D. Catharina, minha senhora, peores
    referencias do que estas lhe faz a voz do mundo.

    –A mim?

    –Á fé! que sim! Dou-lhe em penhor da verdade a minha honra.

    –Mas–interrogou irada e rubra de despeito a dama–que ousadia a de v.
    ex.^a fallar assim a uma senhora, que apenas conhece!… Olhe que essas
    liberdades de provincia não se usam cá em Lisboa.

    –Não se moleste assim, minha senhora–tornou Calisto.–Respeito tanto
    v. ex.^a quanto estimo seu venerando pae. O atrevimento é grande, maior
    será a magnanimidade de v. ex.^a em perdoar-m'o. Lagrimas de velho e de
    pae dão estranho ousio. Desgraças sobranceiras incutem alentos
    destemidos nas mais fracas almas. No proposito de conjurar a tormenta,
    que se encapella e ameaça de sossobrar a felicidade de uma familia
    illustre, é que eu, sr.^a D. Catharina, me affoitei a ser o advogado
    espontaneo do bem de todos.

    –Agradeço o zelo; mas agradecera-lhe mais a discrição–disse D.
    Catharina; e, retirando-se, fez uma ceremoniosa mesura a Calisto.

    Não voltou mais á sala a dama. O desembargador não desfitava olhos de
    Calisto Eloy, que se assentou meditativo no mais assombrado do recinto.

    Erguera-se do voltarete o abbade de Estevães, e abeirou-se d'elle,
    dizendo:

    –Desconfiei que v. ex.^a estava missionando a dama… Amolleceu-a?

    Calisto ergueu a fronte, enclavinhou os dedos das mãos sobre o peito
    consternado, e murmurou:

    –Agora acabo de entender o meu padre Manuel Bernardes.

    E repetiu em tom cavo:

    «…Converto minha attenção, e temor a ti ó Lisboa, Lisboa, considerando
    o que em ti passa. Medo me fazem tuas corrupções tão graves e tão
    devassas, que já o lançar-t'as em rosto, não seja nos zelosos falta de
    prudencia, senão obra de magua.»

    Depois, suspirou, e cheirou rapé.

    XII

    *O anjo custodio*

    Santa audacia! Bizarra indole de antigo cavalleiro, que abriga no peito
    a generosidade com que os heroes dos Lobeiras, Barros, e Moraes se
    lançavam ás aventurosas lides, no intento de corrigir vicios e
    indireitar as tortuosidades da humana maldade!

    Não desanimou Calisto Eloy, tão desabridamente rebatido por D. Catharina
    Sarmento.

    Averiguou quem fosse o galan d'aquella cega dama, e facilmente lh'o
    nomearam. Era um gentil moço, ouzeiro e vezeiro de similhantes baldas,
    enfatuado d'ellas, e respondendo por si com sabre ou florete, quando
    gente intromettida em vidas alheias lhe fallava á mão.

    O informador do morgado esplanou diffusamente as qualidades do sujeito,
    relatando as victimas, e os acutilados na defeza d'ellas.

    Occorreu á memoria de Calisto aquella apostolica e heroica intrepidez de
    fr. Bartholomeu dos Martyres, quando foi a defrontar-se com um criminoso
    e façanhudo balio, que promettia engulir o arcebispo de Braga, e o
    collegio dos cardeaes com o proprio papa, se necessario fosse! Grande
    coisa é ter lido os bons classicos, se desejamos saber a lingua
    portugueza, e crear alentos para atacar velhacos!

    Ahi vae o esforçado Calisto Eloy de Silos em demanda de D. Bruno de
    Mascarenhas. Um escudeiro annuncia ao fidalgo um ratazana.

    –Quem é um ratazana?–pergunta D. Bruno.

    É um sujeitorio, diz o criado, vestido ratonamente, e não diz o nome,
    porque v. ex.^a o não conhece.

    –Que quer elle?

    –Fallar com v. ex.^a

    Vae perguntar-lhe quem é, d'onde vem, e que quer.

    Interrogou o criado com máo semblante o morgado.

    Calisto escreveu n'uma pagina rasgada da carteira, e perguntou ao criado
    se sabia lêr. Disse que não o interrogado.

    –Pois entrega esse papel a s. ex.^a

    D. Bruno leu, meditou algum espaço, e perguntou:

    –Sabes se em casa do desembargador Sarmento ha algum criado chamado
    Custodio?

    –Não, senhor, não havia até hontem; só se entrou hoje.

    –Esse homem que ahi está dá ares de criado?

    –Não, senhor: é assim um jarreta vestido á antiga, com uma gravata que
    parece um colete.

    –Manda-o entrar para aqui.

    D. Bruno releu a linha escripta a lapis, e disse entre si:

    –Que Custodio é este!?

    N'isto, assomou Calisto Eloy.

    Bruno de Mascarenhas adiantou-se a recebel-o, e disse-lhe maravilhado.

    –Eu já tive a honra de comprimentar v. ex.^a no escriptorio da _Nação_.
    V. ex.^a é o sr. Calisto Eloy de Barbuda.

    –Sou, e agora me recordo que já tive o prazer de o encontrar…

    –Mas v. ex.^a n'este bilhete diz que é Custodio!–tornou Bruno.

    –Custodio, que é sinonymo de anjo-da-guarda, ou anjo-custodio da
    ex.^{ma} sr.^a D. Catharina Sarmento.

    Abriu o moço a bôcca, e disse:

    –Ah… agora é que eu entendi… Mas… queira v. ex.^a sentar-se… Eu
    não sei que allusão possa ser esta… que… a respeito de…

    Calisto sentou-se, estendeu o braço direito com a mão aberta, e atalhou
    o enleio de Bruno, dizendo solemnemente:

    –Vou fallar.

    E, apoz curta pausa, relanceou discretamente os olhos á porta, como quem
    receia ser ouvido.

    –Póde v. ex.^a fallar, que eu fecho a porta, disse o confuso
    Mascarenhas.

    –O sr. Bruno de Mascarenhas–proseguiu o morgado–é solteiro. Cedo ou
    tarde ha de ser casado, por que é varão de preclarissima linhagem, e
    duas forças invenciveis hão de compellil-o a propagar-se: o sentimento
    congenito da especie, e a gloria, que vangloria não é, da prosecução da
    raça.

    (Este exordio abrupto invencilhou os espiritos de D. Bruno, os quaes
    eram pouco entendidos em estylo garrafal.)

    Façamos de conta–proseguiu Calisto–que v. ex.^a é hoje, como será,
    volvidos mezes ou annos, casado com uma dama egual em sangue, de honrada
    fama, acatada do conceito geral, dama emfim, na qual v. ex.^a empregou
    suas complacencias todas. Á boa dita de esposo succede-lhe a
    prosperidade de pae. Vê v. ex.^a em redor de si umas alegres
    creancinhas, que o beijam e o furtam com graciosas blandicias ás graves
    cogitações dos negocios, e aos aborrimentos que salteam as existencias
    mais descuidadas e desprendidas. A mãe dos filhinhos de v. ex.^a é o
    cofre de oiro: as creanças são as joias inestimaveis que v. ex.^a lá
    encontrou e lá encerra.

    A mãe é a flôr, os filhos são o fructo. V. ex.^a arde de amores d'elles
    e d'ella. Por que a sua familia é não sómente a sua alegria domestica,
    senão que lhe é fóra de casa um pregão da honestidade e honra que vae
    n'ella.

    De repente, quando v. ex.^a está meditando nos jubilos da velhice, com
    seus filhos já homens, com sua esposa laureada pelas cans sem macula, de
    repente, digo, ha um amigo em lagrimas, ou um inimigo secretamente
    satisfeito, que, lhe diz: «Tua mulher deshonra-te; essas creanças, que
    tu affagas, e para quem estás multiplicando os teus haveres, podem não
    ser teus filhos, por que tua mulher prevaricou.» Pergunto eu ao ex.^{mo}
    Bruno de Mascarenhas: a sua agonia, n'essa hora de atroz revelação, como
    hão de expressal-a os que a não sentiram ainda?

    –Não sei…–respondeu Bruno–Só, no caso de se darem as circumstancias
    que v. ex.^a diz, é que se póde responder.

    –Todavia, o seu entendimento e coração, já antes da experiencia, podem
    antever qual deva ser a agonia do marido deshonrado pela ignominia de
    sua mulher…

    –Sim…

    –Até aqui a hypothese em v. ex.^a: agora o exemplo em Duarte de
    Malafaya, marido de D. Catharina Sarmento. Duarte era rico, e dos mais
    fidalgos; por excesso de amor casou com D. Catharina, filha de um
    nobilissimo cavalheiro, porém magistrado empobrecido pelos desconcertos
    da politica. Duarte entrou n'aquella casa, restaurou a decencia antiga,
    e encostou ao seio as cans do magistrado octogenario, assegurando-lhe o
    socego e contentamentos dos annos ultimos da vida.

    Decorridos cinco annos, Duarte tem cinco filhos. São anjos que descem a
    povoar o paraiso d'aquella ditosa familia. Brincam á volta de sua mãe, e
    como que lhe estão dando os alegres emboras da felicidade que elle está
    gosando, e lhe augura a elles.

    É n'este ensejo que o inferno se abre aos pés d'esta familia honrada e
    ditosa. Surge das tenebrosas agonias um homem que despedaça ás mãos os
    laços humanos e divinos da santa união do velho, da filha, do genro, e
    dos netos. Ora, o homem que os assaltou no seu eden, foi o sr. D. Bruno
    de Mascarenhas.

    –Eu!…–exclamou o moço com artificial espanto.

    –V. ex.^a. Vejo-o admirado, não sei se da minha affoitesa, se da
    responsabilidade que lhe pesa, sr. D. Bruno!

    –Mas que houve em casa do Sarmento?–perguntou alvoroçado o fidalgo.

    –O que eu antes de hontem vi foi a face do ancião lavada de lagrimas. O
    que eu vi hontem á noite foi Duarte de Malafaya fitar os olhos nas
    creancinhas, e escondel-os para que o não vissem chorar. O que hoje
    verei em casa do desembargador Sarmento, se v. ex.^a o não presagia…
    Não temos tempo para conjecturas: a chaga deve ser cauterisada já, para
    não ser gangrena ámanhã. Quer v. ex.^a ajudar-me a conjurar a nuvem
    negra que vae rasgar-se em torrentes de desgraças?

    D. Bruno reflectiu dois segundos, como se houvesse pejo de responder, no
    primeiro instante:

    –Da melhor vontade. Eu desisto d'estas relações, para evitar desgostos
    serios á sr.^a D. Catharina.

    –Falla-me um honrado portuguez, que tem o appellido dos Mascarenhas?
    perguntou com solemnidade o Barbuda.

    –Juro pela honra de meus avós.

    –Que vae fazer v. ex.^a?–tornou Calisto.

    –Antecipo um passeio que mais tarde tencionava fazer á Europa. Parto no
    paquete de ámanhã para França.

    –Sem dizer, nem fazer saber á sr.^a D. Catharina que esteve aqui um
    amigo do desembargador Sarmento…

    –Nada direi sr. Barbuda.

    –Aperto-lhe e beijo esta mão. Agradeço-lh'o em nome dos cinco filhos de
    Duarte de Malafaya, ou dos cinco anjos que lhe chamam pae.

    –E saíu com os olhos marejados.

    * * * * *

    D. Bruno cumpriu a promessa com tanta pontualidade como o faria um
    sujeito de menos fidalgos brios, se lhe dissessem: «Afasta-te, se não
    queres o encargo de amparar uma familia, cujo esteio estás quebrando.»

    É coisa que pouquissimo custa, em condições analogas, o ser pontual. Ás
    vezes, até se vinga fama de prudente e ajuizado.

    Como quer que fosse Calisto Eloy foi d'alli em direitura á poltrona do
    magistrado, e disse-lhe:

    –Cobre animo, amigo e senhor meu. O inimigo levantou o cerco. A
    maledicencia descaridosa, se não mudar de juizo, esquece-se.

    Seguiu-se a narrativa do acontecido, e as alegrias do ancião
    interpolladas de agradecidas lagrimas.

    XIII

    *Regeneração*

    Ó coração sensivel! ó peccadora Catharina, que vaes agora expiar o teu
    crime nas agonias da saudade! Aquelle Calisto, cuidando que te salvava,
    matou-te!

    Não foi tanto quanto diz a apostrophe; mas, de feito, Catharina, quando
    recebeu de Bruno de Mascarenhas uma carta saturada de sãs doutrinas e
    reflexões, como as faria S. Francisco de Salles a mad. du Chantal,
    entendeu de si para comsigo que devia morrer de despeito e raiva. O
    fugitivo escrevia-lhe pouco antes de embarcar-se. Não referia o dialogo
    com Calisto; dava porém como certa uma tempestade a prumo das cabeças
    d'elles delinquentes. «Irei, dizia elle, morrer longe da mulher que amo,
    para lhe não sacrificar os creditos e os filhos. Se souberes que eu
    morri, recompensa-me esta virtude rara, dizendo em tua consciencia que
    eu te amei, como já ninguem ama sobre a face da terra.»

    Depois, seguiam-se na carta os conselhos ajustados á felicidade da vida.
    Expunha as consequencias funestas das paixões. E terminava dizendo que
    as lagrimas o não deixavam continuar.

    Que dama resistiria, depois d'isto, á morte?

    Encerrou-se a filha do desembargador, no intento de providenciar em
    artigo de morte, e entrouxar para a eternidade.

    N'estas cogitações a surprehendeu a mana Adelaide, mostrando-lhe uma
    carta de um certo Vasco da Cunha, que escrevia desde muito, e
    honestamente a menina solteira, no proposito de casamento. Este Vasco,
    de boa linhagem, conhecia Bruno, e via com desprazer os amores da dama,
    que havia de ser sua cunhada. Eventualmente soubera elle do embarque do
    Mascarenhas. Pessoas que o viram a bordo, referiram-lhe que o sujeito,
    perguntado ácerca dos amores de Catharina Malafaya, respondera
    fatuamente que se ia escapando a um aguaceiro de escandalos, com que
    elle não queria brincar, por que a mulher, enthusiasta e apaixonada mais
    que o necessario, seria capaz de o fazer assumir as funcções de marido
    não canonico.

    Pouco mais ou menos, era d'aquella amavel contextura o periodo que D.
    Adelaide leu a sua irmã lagrimosa.

    D. Catharina levantou-se com fidalgos brios, chamou pelos filhos,
    abraçou-se n'elles, e disse á irmã:

    –Estou bem! Deus me perdoará, rogado por estes innocentes. Meu amado
    marido, como eu te quero hoje! como eu sinto o teu coração a consolar-me
    n'estes remorsos!…

    Ora, eu não tenho a caridade de crêr nos remorsos de D. Catharina; mas
    piamente acredito que a mulher se estava sentindo mais amiga do marido,
    fineza que elle devia agradecer-lhe com as suas mais melifluas caricias.

    E veiu logo a succeder que o esposo, surprehendido pela extremosa
    ternura da senhora, estranhou o caso, e requereu brandamente a
    explicação da improvisa mudança. Catharina, imaginosa como todas as
    pessoas que amam muito, explicou, entre alegre e lagrimante, que a final
    se convencera de que o seu Duarte a não trahia: suspeita de tanta força
    para ella, que podéra empeçonhar, com as serpes do ciume, a felicidade
    de duas almas, ligadas por paixão.

    Duarte ficou lisongeado e satisfeito. Seguiu-se confessar elle tambem as
    suas vagas desconfianças emquanto á lealdade da esposa. Aqui é que foi a
    scena, digna de mais conspicuo narrador. A offendida senhora pregou os
    olhos no firmamento de madeira, espreitou por elle o azul do empyreo,
    com a dupla vista que dá a angustia, e murmurou:

    –Céos! que injustiça!

    Era dôr que lhe encolhia os folipos das lagrimas. Não arranjou a chorar.
    Caíu de golpe na poltrona de mais capacidade e flacidez para quedas
    d'aquella natureza! e, tapando a face com as mãos alvissimas, balbuciou,
    desentallando-se dos suspiros:

    –Oh! que infeliz! que infeliz!

    Duarte inclinou-se com os labios ao colo de Catharina, e disse
    affectuosamente:

    –Perdoemos um ao outro. Estes ciumes reciprocos dizem que nos amavamos
    por egual.

    Não queria a magoada senhora perdoar; porém, como lhe faltasse fôlego de
    despejo para sustentar a scena, envergonhou-se de si mesma, e teve dó do
    marido, a quem ella, e pae, e irmã, deviam a decencia, estado,
    representação e sociabilidade com as primeiras familias de Lisboa.

    Instantes foram estes de consciencia rehabilitada, que poderam muito com
    ella no decurso da vida, e promettem ser-lhe amparo até ao fim.

    É-me pequeno o peito para o prazer que sinto, relatando este caso, que é
    unico dos meus apontamentos, em egualdade de circumstancias. Ainda ha
    gente boa e de muitissima virtude: isto é que é verdade.

    O fautor d'este successo, com que a gente se consola, foi, sem debate,
    Calisto Eloy, aquelle anjo!

    Com que delicias d'alma contemplava elle a restaurada ventura d'aquelles
    casados, e o jubilo do desembargador! E os agradecimentos do ancião, que
    bem lhe faziam ao peito honrado! E os affectos de Catharina, que de todo
    ignorava ter sido elle o agente do seu socego; porém muito lhe queria
    pelo tom grosseiro, mas paternal com que lhe admoestára a culpa!

    Afóra o desembargador, uma pessoa unica sabia que o morgado tinha sido o
    conciliador engenhoso da paz da familia: era Adelaide. Esta menina
    vivera receosa de que o seu Vasco, rapaz timbroso, a não quizesse
    esposar, fazendo-a cumplice dos desvios da irmã. Agora, já mais
    esperançada na realisação do casamento, via com olhos agradecidos o bom
    provinciano, e attendia-o com os disvelos de extremosa amiga. A isto a
    incitava o pae, que frequentes vezes lhe dizia:

    –Se este honrado fidalgo fosse solteiro, e podesses amal-o, filha, que
    prazer o nosso se…

    —Oh! papá…–atalhava quasi sempre a menina–pois eu havia de casar
    com elle?…

    –Por que não? Honra, riqueza, sciencia e nobreza… que mais querias
    tu, filha?–perguntava o pae.

    Adelaide sorria-se, e murmurava de si comsigo.

    –Ainda bem que elle é casado, senão eu tinha que vêr com a jarrêta da
    creatura!…

    No entanto, a reconhecida senhora, no auge da sua gratidão, jogava a
    sueca emparceirada com Calisto de Barbuda, e ensinou-lhe a jogar as
    damas, prenda em que o morgado revelou uma inhabilidade que excede todo
    o encarecimento.

    XIV

    *Tentação! Amor! Poesia!*

    Eis que, a subitas, do coração de Calisto resalta a primeira faisca de
    amor!

    Conheço que este desastre não se devia contar sem grandes prologos. Sei
    que o leitor ficou passado com esta noticia. Grita que a
    inverosimilhança é flagrante. Não póde de boamente consentir que se lhe
    desfigure a sisuda physionomia moral do marido de D. Theodora Figueirôa.
    Quer que se limpe da fronte d'este homem o stigma de um pensamento
    adultero. Honrados desejos!

    Mas eu não posso! Queria e não posso! Tenho aqui á minha beira o demonio
    da verdade, inseparavel do historiador sincero, o demonio da verdade que
    não censentiu ao sr. Alexandre Herculano dizer que Affonso Henriques viu
    coisas extraordinarias no céo do campo de Ourique, e a mim me não deixa
    dizer que Calisto Eloy não adulterou em pensamento! Estes são os ossos
    malditos do officio; esta é a condemnação dos infelizes artifices que
    edificam para a posteridade, e exploram nas cavernas do coração humano
    os cimentos da sua obra.

    Ai! Se Calisto Eloy foi de repente assalteado do dragão do amor, como
    hei de eu inventar preludios e antecedencias que a natureza não usou com
    elle!? Se o homem, espantado, a si mesmo se interrogava, e dizia: «isto
    que é?!» como hei de eu dizer ao leitor o que foi aquillo?!

    O que elle sabia e eu sei é que, estando Calisto de Barbuda a jogar a
    sueca de parceiro com Adelaide, a razão de cruzado novo a partida, a
    menina passou a sua bolsinha de filagrana para a mão do parceiro, e
    disse-lhe:

    –Administre-me o meu thesouro, sr. morgado. Tenho ahi o meu dote.

    –Pois sejam todos muito boas testemunhas da quantia que recebo da
    ex.^{ma} sr.^a D. Adelaide, minha senhora;–disse Calisto, esvasiando a
    bolsinha.

    Com as moedas de prata e oiro, que a bolsa continha, saíu um pequeno
    coração de oiro esmaltado com iniciaes.

    Ah!–acudiu Adelaide pressurosa–isto não!…–E retirou sofregamente o
    coraçãosinho.

    Algum dos circumstantes disse:

    –Então o sr. morgado não serve para administrar corações?!

    –Serve para os dominar com a sua bondade, e enchel-os de affectuosa
    estima–respondeu com adoravel graça a menina.

    Foi n'este instante que o morgado da Agra de Freimas sentiu no lado
    esquerdo do peito, entre a quarta e quinta costella, um calor de
    ventosa, acompanhado de vibrações electricas, e vaporações calidas, que
    lhe passaram á espinha dorsal, e d'aqui ao cerebêlo, e pouco depois, a
    toda a cabeça, purpureando-lhe as maçãs de ambas as faces com o rubor
    mais virginal.

    D'isto não deu tento Adelaide nem a outra gente.

    Duas enfermidades ha ahi, cujos symptomas não descobrem as pessoas
    inexpertas; uma é o amor, a outra é a tenia. Os symptomas do amor, em
    muitos individuos enfermos, confundem-se com os symptomas do idiotismo.
    É mister muito acume de vista e longa pratica para descriminal-os. Passa
    o mesmo com a tenia, lombriga por excellencia. O aspecto morbido das
    victimas d'aquelle parasita, que é para os intestinos baixos o que o
    amor é para os intestinos altos, confunde-se com os symptomas de graves
    achaques, desde o hidrotorax até á espinhela caída.

    E aqui está que Calisto Eloy–ia me esquecendo dizel-o–tambem sentiu a
    queda da espinhela, sensação esquisita de vacuo e despêgo, que a gente
    experimenta, uma pollegada e tres linhas acima do estomago, quando o
    amor ou o susto nos leva de assalto repentinamente.

    Sem embargo da concumitancia de tantas enfermidades, Calisto de Barbuda
    embaralhou as cartas, passou-as á esquerda, e jogou a primeira partida
    com tamanha incuria e desacerto, que Adelaide, no acto do pagamento da
    aposta observou ao parceiro que era preciso administrar com mais zelo o
    dote da sua amiga.

    E ajuntou:

    –V. ex.^a esteve a compor algum bello discurso para a camara…

    O morgado cacarejou um sorriso, e mais nada.

    Proseguiu o jogo. Calisto deu provas de supina bestidade em quatro
    partidas de sueca. Adelaide, dissimulando a má sombra do fastio com que
    estava jogando, aturou até ao fim a partida, com grande desfalque do seu
    peculio.

    Tinha-se feito uma atmosphera nova em redor dos pulmões de Calisto. A
    loquacidade, embrechada de sentenças e latinismos, com que elle
    costumava aligeirar as palestras dos eruditos amigos do desembargador,
    desamparou-o n'aquella noite. Isto causou extranhesa e cuidados ao
    amoravel Sarmento, que presava Calisto como a filho.

    A partida acabou taciturna e triste.

    Fechado em seu gabinete de estudo, o morgado da Agra, sentou-se á banca,
    apanhou entre dois dedos o beiço superior, e esteve assim meditabundo
    largo espaço. Depois, ergueu-se para dar largas ao coração que pulava, e
    andou passeando com desusada agilidade e aprumo de corpo. Parou diante
    da livraria, tirou d'entre os poetas classicos o dilecto Antonio
    Ferreira, sentou-se, abriu á sorte, e leu, declamando os dois quartetos
    do soneto V;

    Dos mais fermosos olhos, mais fermoso
    Rosto, qu'entre nós ha, do mais divino
    Lume, mais branca neve, oiro mais fino,
    Mais doce fala, riso mais gracioso:

    D'um Angelico ar, de um amoroso
    Meneo, de um spirito peregrino
    S'acendeu em mim o fogo, de qu'indino
    Me sinto, e tanto mais assi ditoso.

    Repetiu, fez pausa, suspirou, e declamou ainda o primeiro verso do
    terceto:

    Não cabe em mim tal bem-aventurança!

    N'isto, a imagem de sua prima e esposa D. Theodora Figueirôa, trazida
    alli por decreto do alto, antepoz-se-lhe aos olhos enleados na imagem de
    Adelaide. Calisto estremeceu de puro pejo de sua fraqueza, e lançou mão
    da ultima carta que recebêra de sua saudosa mulher. Resava assim,
    escripta por mão de uma filha do boticario de Caçarelhos, com
    orthographia mais imaginosa que a minha:

    «Meu amado Calisto. Cá soube pelo mestre-escóla que tens botado algumas
    fallas nas côrtes, e que tens muita sabedoria. O sr. abbade já cá veiu
    ler-me um pedaço do teu dito, e oxalá que seja para bem da religião.
    Olha se botas abaixo as decimas, que é o mais necessario. Aqui veiu um
    padre de Miranda para tu o despachares para abbade; e o regedor tambem
    quer que tu lhe arranjes um habito de Christo para elle, e uma pensão
    para a tia Josepha, que é viuva de um sargento de milicias de
    Mirandella. Assim que arranjares isso, manda para cá.

    Saberás que mandei trocar os bois barrosãos á feira dos onze, e comprei
    vaccas de cria. Os sevados não saíram de boa casta, e acho que será bom
    trocal-os na feira dos dezenove. A porca russa teve dez leitões hontem
    de madrugada. E, com isto, olha se isso lá acaba depressa, que eu ando
    por cá triste e acabrunhada de saudades. Na semana que passou andei mal
    das reins, e muito despegada do peito. Hoje vou vêr medir seis carros de
    centeio, que vão para a feira, por isso não te enfado mais. D'esta tua
    mulher muito amiga, _Theodora_.»

    Por mais que recolhesse o espirito vagabundo, Calisto não dava tento
    d'estes dizeres de Theodora, encantadores de simplicidade e boa
    governança de casa. Arrumou a carta, re-abriu o seu Antonio Ferreira, e
    leu no soneto XXXIII:

    Eu vi em vossos olhos novo lume,
    Qu'apartando dos meus a nevoa escura.
    Viram outra escondida fermosura,
    Fóra da sorte e do geral costume…

    Deitou-se por deshoras, e dormitou sobresaltado. Ante-manhã espertou com
    as alvoradas de uns pintassilgos e calhandras, que lhe cantavam
    amorosamente na alma. Eram as alegrias do primeiro amor, aquelles
    momentos de céo, visita dos anjos, que todo coração hospedou na
    infancia, na virilidade, ou já na decadencia na vida. Saíu alegre do
    leito, e leu algumas lyricas de Camões e Filintho Elysio.

    Nunca em sua vida poetára Calisto Eloy de Silos. O amor não lhe havia
    dado o beliscão suavissimo, que por vezes, abre torrentes de metro da
    veia ignorada. Eis que o corisco da inspiração lhe vulcanisa o peito.
    Levanta machinalmente a mão á fronte, como a palpar a excrescencia
    febril que todo o poeta apalpa no conflicto sublimado do estro.
    Senta-se: pega da penna, e o coração distilla por ella este fragmento de
    madrigal, que, a meu vêr, foi o ultimo que o sincero amor suggeriu em
    peito portuguez:

    Senhora de grão primor,
    Meu amor,
    Formosissima deidade,
    Arde meu peito em saudade,
    Quem fui hontem, não sou hoje;
    Minha alegria me foge,
    Se vos olho.
    Já captivo em vós me acôlho,
    Havei de mim piedade;
    Sêde minha divindade;
    Não leveis a mal que eu chore
    Com tanto que vos adore
    Gentil e nobre menina
    Como Camões a Cath'rina
    E como Ovidio a Corinna.

    Posto isto, o morgado da Agra relanceou os olhos com desdem para o
    taboleiro do almoço, e com muita repugnancia, consentiu ao appetite que
    se desejuasse com uma linguiça assada, almoço que elle alternava com um
    salpicão frito.

    Depois quando se estava vestindo, olhou para a casaca de briche e para
    as pantalonas apolainadas, e teve engulho d'esta fatiota. Vestiu-se,
    saíu apressado, entrou no estabelecimento do sr. Nunes na rua dos
    Algibebes. Aqui o vestiram o mais desgraciosamente que puderam, com um
    farto paletó de panno côr de rato, e umas calças, de xadrez cinzento, e
    colete azul, de rebuço, com botões de coralinas falsas. No Chiado
    abjurou um chapéo de molas de merino, e comprou outro de castor, á
    ingleza. Cumpria-lhe vestir as primeiras luvas de sua vida. No vestil-as
    arrostou com difficuldades, que venceu, rompendo a primeira luva de meio
    a meio. Disse-lhe a luveira que não introduzisse os cinco dedos ao mesmo
    tempo, e ajudou o na ardua empreza.

    Dois mancebos galhofeiros, que estavam na loja, riram indelicadamente da
    inexperiencia do sujeito desconhecido. Um d'elles, confiado na inepcia
    tolerante do provinciano, ou supposto brazileiro, disse, a meia voz, ao
    outro:

    –Quatro pés nunca vestiram luvas.

    Calisto encarou n'elles com sorriso minacissimo, e disse á luveira:

    –As luvas são boa coisa para a gente não dar bofetadas com as mãos.

    Os joviaes sujeitos olharam-se com ar consultivo, sobre o despique digno
    da affronta, e tacitamente concordaram em se irem embora.

    Ao meio dia, entrou o morgado na camara, e fez sensação. As calças de
    xadrez eram uma das grandes desgraças, que a providencia, por intermedio
    do sr. Nunes aljubêta mandára a este mundo. Como se a substancia não
    fosse já um crime de leso gosto e lesa seriedade; ainda por cima as
    pernas caíam sobre as botas em feitio de boca de sino.

    A camara afogou o riso, salvo o dr. Liborio do Porto, que tirou de
    dentro esta facecia puchada á fieira do costumado estylo:

    –Guapamente intrajado vem mestre Calisto! Faz-se mister saber que rolos
    de pragmaticas lhe impendem entre as botinas e as pantalonas. Certo, que
    o urso se pule e lustra. Bom seria que o cerebro se lhe vestisse de
    roupagens novas e hodiernos afeites!…

    Foram festejados estes apódos pelos tolos mais convisinhos do dr.
    Liborio.

    Calisto houve noticia da zombaria do doutor: a intriga politica não
    perdeu lanço de acirrar o morgado contra Liborio, que era governamental.

    N'esta sessão fôra dada ao deputado portuense a palavra, na discussão de
    uma proposta de lei sobre cadeias. O morgado, assim que lh'o disseram,
    aguardou opportunidade de desforrar-se da chacota.

    Ai da patria, quando os talentos parlamentares se incanzinam n'estas
    pugnas inglorias!

    XV

    *Ecce iterum Crispinus…*

    Corrido um quarto de hora, fez-se na camara o silencio da subterranea
    Pompea. É que o dr. Liborio ia fallar.

    –Sr. presidente, e senhores deputados da nação portugueza!–disse
    elle–_Vem-nos agora sob a mão assumpto, até aqui pretermittido_.[14]
    Pelo que toca e friza com cadeias patrias, direi os cinco stygmas que um
    estylista de folego esculpiu nos frontaes d'esses antros:

    INJUSTIÇA!

    IMMORALIDADE!

    IMMUNDICIE!

    INSULTO!

    INFERNO!

    Inferno, sr. presidente, inferno dantesco, inferno theologico em que ha
    o ranger de dentes, _stridor dentium_!

    Que é da civilisação d'esta miserrima e tão coitada terra? Quem nos
    lampeja verdade n'esta escureza em que nos estorcemos? Ai! _A verdade
    ainda não matiza de rosicler a alvorada do novo dia_. As idéas entre nós
    estão como _flores palpitantes no gomo nascente_. Eu me esquivo, sr.
    presidente, _o lavor de historiar as successivas phases que tem
    percorrido os methodos do aprisoamento_. Urge primeiro pregoar a brados
    que se faz mister funda cauterisação na lei. O direito não se estudou
    ainda em Portugal. Pois que é o direito? _No seu todo synthetico e como
    corpo doutrinal, o direito é a sciencia da condicionalidade ao fim do
    homem_. Consoante vige e viça o nosso direito de punir, sr. presidente,
    _o juiz é o delegado de Deus, o carrasco o substituto do anjo S.
    Miguel_.[15]

    Calisto Eloy pediu a palavra. O orador proseguiu:

    –Sr. presidente, n'este paiz não se attende ás bossas. Os legisladores
    não estudam o crime com o compasso sobre um craneo esbrugado. _Se fordes
    a Windsor Castle e vos metterdes de gôrra com os guardas que mostram o
    castello, ouvireis que um dos filhos da rainha tem uma irresistivel
    tendencia para a rapina: é uma pêga humana_. Uma pêga humana,
    rapacissima, a mais não! Sr. presidente, _do nosso rei D. Miguel se
    conta, que já mancebo saodo da puericia, se entretinha a maltratar
    animaes, chegando um dia a ser encontrado arrancando as tripas a uma
    gallinha viva com um sacarolhas_.[16]

    –_Vozes_: Á ordem! Á ordem!

    –_O orador_: Pois em que me transviei da ordem?

    –_Uma voz_: Não se diz no seio da representação nacional: _o nosso rei
    D. Miguel_.

    –_O orador_: Eu referi o caso com as expressões em que o acho narrado
    n'um livro mirifico e sobre-excellente do sr. dr. Ayres de Gouveia.

    –_Uma voz_: Pois não faça obra por inepcias do dr. Ayres de Gouveia.

    –_O orador_: Retiro a dessoante phrase, que impensada destilei do
    labio, e ao ponto me revêrto. Sem a sciencia de Porta e de Blumenbache
    toda a penalidade saírá vêsga, bestial, e infernalissima. É natural, sr.
    presidente, que o sentimento se corrompa, assim como o _calculo se
    empedra, e arraiga o cancro nas entranhas, e o coração se ossifica, e o
    hydrocephalo se gera, ainda nos mais solicitos em hygiene_:

    Posto isto, sr. presidente, cumpre dividir os sexos, pelo que diz
    respeito ao calibre do castigo. Eu citarei com quanta emphase me cabe
    n'alma, algumas linhas do jovem explendido de verbo, que auspicia e
    promette o primeiro criminalista d'esta terra. Fallo de Ayres de
    Gouveia, e n'elle me estribo. O douto viajeiro diz: «O individuo, para
    quem a lei legisla, e a quem tem em vista, é o homem (_vir_), não a
    mulher (_mulier_), desde os vinte e um annos, ou época do predominio
    racional, até aos sessenta, ou principio do periodo debilitante, no
    estado generico, ou que constitue a generalidade de ser homem, não
    descendo sequer ás gradações principaes, que tornam o _homo_ homem, o
    genero especie.»[17]

    É certo, sr. presidente, que _a femina toca o requinte da depravação, e
    chega a effeituar horrores cuja narração é de si para gelar ardencias de
    sangue, para infundir pavor em peitos equanimes_, porem, o mobil dos
    crimes seus d'ellas é outro: _as faculdades da mulher agitam-se
    perturbadas; é um periodo de evolução_, e não ha ahi _arcar com
    evidencia_.

    Que farte me hei despendido em razões que superabundam no caso em que me
    empenho, de parçaria com Victor Hugo, e com quejandas lumieiras que
    esplendem na vanguarda d'esta caravana da humanidade, que se vae
    demandando a Meca da perfectibilidade. Faça-se a lei, restaure-se a
    justiça, e depois crie-se a penitencia, regimente-se o criminoso
    _aprisoado_! Aos que já metteram rêlha e adubo no torrão do novo
    plantio, d'aqui me desentranho _em louvores e muitos e francos e
    perennes_.

    Sr. presidente! Em quanto a cadeias, estamos no mesmo _pé de idéas da
    inquisição_! Que esterquilinios! que protervia! Eu quero, com o dr.
    Ayres, que _todo o preso seja de todo barbeado semanalmente, lave rosto
    e mãos duas vezes por dia, e tenha o cabello da cabeça cortado á
    escovinha_. Eu quero, com o doutor supracitado, que elle não fume, nem
    beba bebida fermentada. _Água em abundancia_, e mais nada potavel. Não
    quero que os presos se conversem, porque, no dizer do insigue patricio
    meu, e abalisado humanista, _das cadeias saem delineamentos de assaltos,
    e assassinatos de homens que sabem ricos_.

    _Lastimado isto_, sr. presidente, um preso descomedido entre os de mais,
    _é qual febricitante despedido do leito que como setta voada do arco,
    exaspera em barulho os males de toda a enfermaria_.

    Eu quero que o preso funcionne intellectivamente, e de lavores corporaes
    se não desquite. O homem sem instrucção _obra instinctivamente, obra
    egoistamente, obra septicamente_, se lhe escaceia religião. Ao preso
    _lide-lhe a mão na tarefa, sim; mas lide-lhe tambem a cabeça na idéa_.
    _Inclinando rasoamento_ para isto, em todas as cadeias europeas lustram
    sciencias, pulem saber, e se amenisam instinctos. Veja-se o que diz o
    nunca de sobra invocado Ayres, honra e joia da cidade de Sá de Menezes,
    d'Andrade Caminha, de Garrett, cidade onde me eu rejubilo de haver
    vagido nas faixas infantis. É mister que se entranhe o sacerdote no
    cancro das masmorras; mas o sacerdote _atilado de engenho e todo
    impeccavel de costumes_; e não padres cuja _uncção sacrosanta se lhes
    convertesse no corpo em lascivos amavíos_. Quem sabe ahi _joeirar o
    optimo para capellães de prisões_?

    Depois quer-se _um director, olho e norma_. _E tão boas partes se lhes
    requerem, que ainda scismando talhal-o um composto de virtudes, o não
    viriamos delinear senão escorço_.

    Deu a hora, sr. presidente. A materia é tal e tão rica, e para tamanho
    cavar n'ella, que se me confrange alma de lhe não dar largas. Aqui me
    fico, e do imo peito espido brado de louvor, que louvaminha não é, ao
    illustre membro d'esta camara que mandou para a mesa a proposta da
    reformação das cadeias. Bençãos lhe chovam, que assim, com valida mão,
    emborca a froixo urnas de balsamos sobre a esqualidez da mais ascosa
    ulcera da humanidade. (Prolongados applausos. _O orador foi
    comprimentado por pessoas graves, que tinham estado a rir-se_.)

    Calisto Eloy contemplou-o com a fixidez de medico, que estuda os
    symptomas da demencia nos olhos do enfermo. Depois, voltando-se contra o
    abbade de Estevães, disse:

    –Eu queria ver como este dr. Liborio tem a cabeça por dentro.

    E rythmando o compasso com os dedos na tampa da caixa declamou:

    Quantos folgam fallar a prisca lingua
    Qual Egas, qual fallou, Fuas Roupinho,
    Qual esse conde antigo, que levára
    A villa de Condeixa por compadre!
    Mas como a fallam? Põem sua méestria
    Em palavras sediças, termos velhos
    Termos de saibo e mofo, que arrepiam
    Os cabellos da gente…
    Que dizes d'isto?
    Como chamas a estes?…..
    Que eu não acerto a dar-lhe um nome proprio.
    Que bem quadre a tão rancidos guedelhas?
    Quando estas coisas desvairadas vejo
    Dão-me engulhos de riso, ou já bocejos,
    Como arrepiques certos de gran fome![18]

    XVI

    *Quantum mutatus!…*

    Á noite, no salão do desembargador Sarmento, soube-se que o morgado da
    Agra havia de orar no dia seguinte. Entre as pessoas alvoraçadas com a
    noticia, a mais empenhada em ouvil-o era D. Adelaide. Ao encontro de
    Calisto Eloy saiu ella pedindo-lhe com requebrada doçura, tres entradas
    na galeria das senhoras, para ella, irmã e pae.

    –Já sou considerado senhora, amigo Barbuda!–ajuntou o velho–São as
    tristes honras da ancianidade!… E lá vou, lá vamos ouvil-o. Ha seis
    mezes que não saí de casa, nem saíria para ouvir o proprio Berryer ou
    Montalembert.

    –Beijo-lhe as mãos pela cortezia, meu benigno amigo–disse Calisto;
    porém olhe que ha de chorar o tempo malbaratado. Eu não vou discorrer,
    nem cogitei ainda no que direi. Pedi a palavra, quando uma brava sandice
    me esfusiou nos tympanos, e estorcegou os nervos. Soou-me lá que o
    carrasco estava substituindo o anjo S. Miguel!… Ó meu caro
    desembargador, eu entro a desconfiar que a besta do apocalipse já tem
    tres pés bem ferrados no parlamento! Quando lá metter o quarto pé, a
    gente escorreita é posta fóra da sala a couces. Peço a vv. ex.^{as}
    perdão do pleismo do termo–disse Calisto voltando-se para as damas, que
    estavam examinando com espanto as transfiguradas vestes do morgado.–A
    boa policia, continuou elle, perde-se com a paciencia. Hei grão medo de
    volver-me ás minhas serras mais rudo do que vim.

    –Está-se desmentindo v. ex.^a–acudiu D. Catharina graciosamente–com
    os trages cidadãos que apresenta hoje! Cuidavamos que havia jurado nunca
    reformar a sua _toilette_ de 1820!

    Calisto sorriu contrafeito, e sentiu-se algum tanto molestado no seu
    pundonor e seriedade. Como a causa da mudança do vestido era pouco menos
    de irrisoria, o homem foi logo castigado pela propria consciencia. A si
    lhe quiz parecer que era já ante si proprio, outro sujeito, e que os
    estranhos lhe liam no rosto o desaire inquietador. Então lhe foi
    desabafo o coração. Soccorreu-se d'elle para contradizer as reprimendas
    do juizo; e o coração, coadjuvado pelas maneiras e ditos affectuosos de
    Adelaide despontara as ferroadas do juizo.

    Os visitantes habituaes do desembargador e as senhoras da casa notaram
    certa mudança nos modos e linguagem de Calisto. Dir-se-ia que o paletó e
    as pantalonas lhe tolhiam a liberdade dos movimentos, e aquella assim
    rude, que sympathica espontaneidade da expressão.

    Authorisados philosophos e christãos disseram que o vestido actua
    imperiosamente sobre o moral do individuo. Nas paginas immorredouras de
    fr. Luiz de Sousa está confirmado isto. «É nossa natureza muito amiga de
    si (diz o historiador do santo arcebispo) e experiencia nos ensina que
    não ha nenhuma tão mortificada, que deixe de mostrar algum alvoroço para
    uma peça de vestido novo. Alegra e estima-se ou seja pela novidade ou
    pela honra, e gasalhado que recebe o corpo. Até os pensamentos e as
    esperanças renova um vestido novo.»[19]

    O adoravel dominicano, pelo que diz da alegria que influe no animo um
    vestido em folha, enganou-se a respeito de Calisto Eloy. O homem dava ar
    de quebranto e melancholia, salvo se o jubilo se lhe introvertera ao
    coração. Creio que era isto. Era o amor abscondito a magoal-o docemente.
    E a não ser o amor, o que poderia ser senão as calças de xadrez? De
    feito, o amor quando é serio, põe ás canhas o mais pespontado espirito,
    e o mais mazorral tambem. O amoroso de grande loquella, volve-se
    parvoinho em presença da sua amada; o sandeu tem inspirações e raptos,
    que seriam influxo do céo, se não soubessemos, que o demonio tentador
    costuma incubar-se e parvoejar eloquentemente no corpo d'estes palermas.

    Calisto Eloy pagou o tributo dos espiritos esclarecidos. Umas eloquentes
    simplezas, com que elle costumava alegrar o auditorio; as maximas
    joviaes de Supico e outras com que elle intermeava a conversação; as
    gargalhadas provincianas, as liberdades desmaliciosas, o ar de familia
    com que elle se fazia bem-querer e desculpar de alguma demasia menos
    urbana do que permitte a convenção das salas: tudo isto, que lhe ia tão
    bem ao morgado, se demudou em recolhimento cogitativo, sombra triste e
    acanhada parvolez.

    N'esta noite, concorreu á partida do desembargador aquelle Vasco da
    Cunha, galanteador de Adelaide, mancebo bem composto de sua pessoa,
    sisudo, e muito catholico. Este fidalgo, representante dos melhores
    Cunhas, mencionados na «Historia Genealogica da Casa Real» e no
    «Villas-boas» além do brilho herdado, estava-se gosando de lustre
    propriamente seu, figurando sempre nos annuncios pios em que os fieis
    eram convidados a assistir a tal festividade religiosa, ou convocando
    assembléas de irmandades, para o fim de consultas attinentes á maior
    pompa do culto divino. Dito isto, dispensa o leitor que se annumerem
    outras virtudes a facto só por si tão significativo. As outras virtudes
    hão de vir apparecendo naturalmente.

    Alguem disse a Calisto Eloy que o circumspecto Vasco da Cunha não era
    estranho ao coração de Adelaide. Esta nova sobresaltou o peito do
    morgado, sem comtudo, lhe innevoar os olhos do discreto juizo, a ponto
    de se dar em espectaculo de risivel ciume. Reparou no porte de ambos; e
    tão graves e cerimoniosos os viu durante a partida, que não achou razão
    para os crer enamorados bem que, n'esta noite, Adelaide jogasse o
    voltarete com Vasco da Cunha, e seu cunhado Duarte Malafaya.

    Ás onze horas, Calisto Eloy retirou-se taciturno e contristado.

    A só com a sua consciencia, e debaixo do olhar severo dos seus livros, o
    marido de D. Theodora Figueirôa reflectiu conturbado na transformação do
    seu modo de viver e sentir. Gritou-lhe a razão que fizesse pé atraz no
    caminho que o levava á ladeira de algum abysmo, ou ás fauces
    voracissimas do amor que tão illustres victimas tinha ingulido. A
    memoria, alliada da razão, abriu-lhe os fastos desgraçados do coração
    humano, desde o perdimento de Troia até á extincção do imperio godo nas
    Hespanhas. Viu desfilarem, uma por uma, todas as mulheres fataes, desde
    Dalila até Florinda, a forçada do conde Julião; e, no couce de todas, a
    phantasia febril da insomnia afigurou-lhe Adelaide.

    Aos quarenta e quatro annos a razão póde muito, se o coração já está
    enervado e enfraquecido de luctas e quedas; todavia, a razão dos
    quarenta e quatro annos é ainda frouxa e transigente, se o coração
    começa a amar tão a deshoras. Não se calculam as miserias e parvoiçadas
    d'esta serodia mocidade!

    Não obstante, Calisto, pouco antes de adormecer por volta das quatro da
    manhã, protestára esquecer Adelaide, perguntando a si proprio se seria
    crime amal-a como os paladinos dos tempos heroicos amaram incognitamente
    grandes damas, sem mais logro de seus amores que adorarem-n'as? Com isto
    queria elle responder á imagem plangente de Theodora, que o estava
    arguindo.

    Pobre senhora! àquella hora já ella andaria a pé, a moirejar pela
    cosinha, a fim de mandar almoçados para a lavoura os servos, e cuidar
    dos leitões.

    Ai! maridos, maridos! Quando a Providencia vos enviar mulheres d'este
    raro cunho, encostae a face ao regaço d'ellas, e não queiraes saber como
    é que o inimigo de Deus enfeita as suas cumplices na perdição da
    humanidade!

    XVII

    *In Liborium*

    Estavam cheias as galerias da camara.

    Entre as mais formosas, extremava-se a filha do desembargador Sarmento.
    A pedido de Calisto Eloy, fôra o abbade de Estevães levar as entradas ao
    magistrado, e offerecer-se a conduzir as senhoras á galeria.

    O vistoso coreto das damas exornavam-n'o, talvez mais que a formosura,
    algumas senhoras doutas enfrascadas em politica, amoraveis Cormenins,
    que aquilatavam o merito dos oradores com incontrastavel rectidão de
    juizo e apurado gosto. Lisboa tem dezenas d'estas senhoras Cormenins.

    Não dírei que o renome de Calisto attrahisse as damas illustradas: era
    grande parte n'este concurso femeal a esperança de rirem. A nomeada do
    provinciano, bem que favorecida quanto a dotes intellectuaes, cobrára
    fama de coisa extravagante e impropria d'esta geração.

    Entrou Calisto na sala um pouco mais tarde que o costume, porque fôra
    vestir-se de calça mais cordata em côr e feitio. Não me acoimem de
    archivista de insignificancias. Este pormenor das calças prende mui
    intimamente com o cataclismo que passa no coração de Barbuda. Aquella
    alma vae-se transformando á proporção da roupa. Assim como o leitor, á
    medida que o amor lhe fosse avassalando o peito, escreveria paginas
    intimas, ou ainda peor, cartas corruptoras á mulher querida, Calisto, em
    vez d'isso, muda de calças.

    As damas, que o esperavam vestido conforme a fama lh'o pintára,
    desgostaram-se de vêl-o trajado no vulgar desgracioso, do commum dos
    representantes do paiz.

    Apenas Calisto Eloy se assentou, entrou-se na ordem do dia, e logo o
    presidente lhe deu a palavra.

    Cessou o reboliço e fallario d'aquella feira veneranda, assim que o
    deputado por Miranda, começou d'este theor:

    –Sr. presidente! Muito ha que se foi d'este mundo o unico sujeito, de
    que me eu lembro, capaz de entender o sr. dr. Liborio, e capaz de fallar
    portuguez digno de s. ex.^a. Era o chorado defuncto um personagem que
    foi uma vez consultar o dr. Manuel Mendes Enchundia, ácerca d'aquella
    famigerada casa que elle tinha na ilha do Pico, com um passadiço para o
    Baltico. V. ex.^a e a camara, podem refrescar a memoria, lendo aquelle
    pedaço de estylo, que presagiou estas farfalharias de hoje.

    Sr. presidente, a mim faz-me tristeza contemplar a ribaldaria, com que
    os belfurinheiros de missangas e lantejoulas adornam a lingua de Camões,
    despojando-a dos seus adereços diamantinos. A pobresinha, trajada por
    mãos de gente ignara, anda por aqui a negacear-nos o riso como moura do
    auto, ou anjo de procissão de aldeia. Se acerta de lhe pagarem os
    farrapinhos broslados de folha de Flandres em algum silvedo, a mesquinha
    fica núa, e nós a córarmos de vergonha por amor d'ella.

    É forçoso, sr. presidente, que a linguagem castiça vá com a patria a
    pique?

    Á hora final da terra de D. Manuel, não haverá quem lavre um protesto em
    portuguez de João Pinto Ribeiro, contra os Iskariotas, Juliões,
    Vasconcellos e Mouras, que nos vendem?

    _Vozes_: Á ordem!

    _O orador_: É contra o regimento d'esta casa, repetir o que está dito na
    historia, sr. presidente?

    _O presidente_: Sem offensa de particulares.

    _O orador_: Authorisa-me portanto, v. ex.^a a crer que n'esta casa está
    Iskariotas, e o bispo Julião, e Miguel de Vasconcelos, e…

    _Vozes_: Á ordem!

    _O orador_: Pois então eu calo-me, se offendo estes personagens a quem
    me não apresentaram, ainda bem! As minhas intenções são inoffensivas, no
    entanto, desconsola-me a camaradagem. Se eu soubesse que estava aqui
    similhante gente, não vinha cá, palavra de homem de bem!

    _O dr. Liborio_: Mais prestimoso fôra ao cosmos, se o sr. Calisto
    estanceasse no agro do seu covil a lidar com a fereza dos javalis.

    _O orador_: Não percebi o dito bordalengo: faça favor de explicar-se.

    _O dr. Liborio_: Já disse que não desço.

    _O orador_: Se não desce, cairá de mais alto. Refiro a v. ex.^a a fabula
    da aguia e do kágado, na linguagem lidima e chan de D. Francisco Manuel
    de Mello. É o _Relogio da Aldeia_, que falla no dialogo dos _Relogios
    fallantes_: «…Lembra-me agora o que vi succeder a um kágado com uma
    aguia, lá em certa lagoa da minha aldeia: veiu a aguia, e de repente o
    levantou nas unhas, não com pequena inveja das rãs, e de outros kágados,
    que o viam ir subindo, vendo-se elles ficar tão inferiores a seu
    parceiro. Julgavam por gran fortuna que um animal tão para pouco, fosse
    assim sublimado á vista de seus eguaes. Quando n'isto, eis que vemos
    que, retirada a aguia com sua presa a uma serra, não fazia mais que
    levantar o triste animal, e deixal-o cair nas pedras vivas, até que
    quebrando-lhe as conchas com que se defendia…» não me lembra bem se D.
    Francisco Manuel diz que a aguia lhe comeu o miolo.

    Se o sybillino collega figura na moralidade d'este conto, offerece-se-me
    cuidar que não é a aguia.

    (_Pausa do orador: riso das galerias_.)

    Sabido, pois, sr. presidente, que as citações historicas fazem
    repugnancias ao regimento e á ordem, abjuro e exorciso os demonios
    incubos e succubos da historia, pelo que rogo a v. ex.^a muito rogado
    que me descoime de desordeiro.

    Direi de Quintiliano, se este nome não desconcerta a ordem. Trata-se de
    oradores, e de estylos viciosos. Diz este mestre dos rethoricos que «ha
    um natural prazer em escutar qualquer que falla, ainda que seja um
    pedante, e d'aqui aquelles circulos que a cada hora vemos nas praças á
    roda dos charlatães» N'esta nossa edade, Quintiliano redivivo diria:
    «nas praças e nos parlamentos.»

    _Vozes_: Á ordem?

    _O orador_: Pois tambem Quintiliano?!

    Bem me quer parecer que rarissimas vezes o admittem aqui a elle!…

    _O presidente_: Lembro ao nobre deputado, que a camara não é aula de
    rethorica.

    _O orador_: Assim devo presumil-o, vendo que todos a professam com
    dignidade, exceptuado eu, que me não desdoiro, em confessar que sou o
    discipulo unico e máo de tantos mestres. Eu direi a v. ex.^a qual
    eloquencia considero necessaria n'esta casa da nação: é a eloquencia que
    a nação entenda. A arte de bem fallar, _ars béne dicendi_, é o estudo da
    clareza no exprimir a idéa. Os affectos, as galas da linguagem, que lhe
    tolhem o mostrar-se e dar-se a conhecer dos rudos, não é arte, é
    tramoya, não é luz, é escuridade. Os meus constituintes mandaram-me aqui
    fallar das necessidades d'elles em termos taes que por elles v. ex.^a e
    a camara lh'as conheçam, ponderem, e remedeiem.

    Sou da velha clientela de Quintiliano, sr. presidente. Com elle entendo
    que por de mais se enganam aquelles que alcunham de popular o estylo
    vicioso e corrupto, qual é o saltitante, o agudo, o inchado, e o pueril,
    que o mestre denomina _proedulce dicendi genus_, todo affectação
    menineira de florinhas, broslados de pechisbeque, recamos de fitas como
    em bandeirolas de arraial.

    Eis-me já de força inclinado á substancia do discurso do sr. dr.
    Liborio. Primeiro me cumpre declarar que não sei pelo claro a quem me
    dirijo. Ha dias me regalei de ler o succoso livro de um doutor grande
    lettrado que escreveu da _Reforma das Cadeias_. Achei-o lusitanissimo na
    palavra; mas hebraico na locução. Tem elle de bom e singular que tanto
    se percebe lendo-o da esquerda para a direita como da direita para a
    esquerda. Soou-me que o sr. dr. Liborio, amador do que é bom, se
    identificára com o livro, e aformosentára o seu discurso com muitas
    louçainhas d'aquelle thesouro.

    Não sei, pois, se me debato com o sr. dr. Ayres, se com o sr. dr.
    Liborio. _Se me debato_, desavisadamente disse! O discurso não dá péga a
    debates que não sejam philologicos. Estes não vem aqui de molde.
    Rethorica, grammatica e logica, se alguem quizer tratal-a n'este predio,
    entretenha-se lá em baixo no pateo com o porteiro, ou com as viuvas e
    orphãos, que pedem pão com a logica da desgraça, e com a rethorica das
    lagrimas: grammatica não sei eu se a fome a respeita: parece-me que não,
    por que na representação nacional ha famintos que a não exercitam
    primorosamente. (_Murmurio e agitação na direita. Applausos na galeria.
    Um «bravo» estridulo do desembargador Sarmento. Um cautelleiro dá palmas
    na galeria popular. A tolice é contagiosa. O presidente sacode a
    campainha. Restabelece-se o silencio. Calisto Eloy tabaqueia da caixa do
    radioso abbade de Estevães_.)

    _O presidente_: Relembro, já com magoa, ao sr. deputado que se abstenha
    de divagações alheias do debate.

    _O orador_: De maneira, sr. presidente, que v. ex.^a quer á fina força,
    subjugar as minhas pobres idéas em _aprisoamento_, como disse
    gentilmente o illustre collega!

    Pois assim sou esbulhado de um sacratissimo direito? É então certo, como
    disse o sr. dr. Liborio, que não ha direito em Portugal? V. ex.^a sem o
    querer, está sendo, na phrase ingrata do illustre deputado, o
    _substituto do anjo S. Miguel_! (_Riso_) Oh! V. ex.^a não será algoz do
    pensamento, já de si tão intanguido que não é mister matal-o: basta
    deixal-o morrer… Callar-me-hei, se estou magoando v. ex.^a.

    _Vozes_: Falle! falle!

    _O orador_: O illustre collega referiu o que vem contado no livro do sr.
    dr. Ayres de Gouveia: _que o nosso rei D. Miguel já mancebo, saido da
    puericia se entretinha a maltratar animaes, chegando um dia a ser
    encontrado, arrancando as tripas a uma gallinha com um sacarolhas_. É
    pasmoso, sr. presidente, que os dois doutores, protestando pela
    legitimidade do seu rei, um no livro, outro no discurso, refiram a
    sanguinaria historia do sacarolhas nos intestinos da deploravel
    gallinha! Eu suei quando ouvi este canibalismo, suei de afflicção, sr.
    presidente, figurando-me o desgosto da ave!

    Protesto, sr. presidente, protesto contra a suja aleivosia cuspida na
    sombra de um principe ausente, indefeso e respeitavel como todos os
    desgraçados. Que historia villã é esta? Quem contou ao sr. dr. Ayres o
    caso infando do sacarolhas nas tripas da gallinha?! Em que soalheiro de
    antigos lacaios de Queluz ou Alfeite ouviram os refundidores da justiça
    estas anedoctas hediondas, e mais torpes no squalôr de recontal-as?

    E, depois, sr. presidente, que me diz v. ex.^a e a camara áquelle filho
    da rainha da Grã-Bretanha, que é um rapinante: _uma pêga humana_! Que
    musa de tamancos! _uma pêga humana_! Que imagem! que allegoria tão
    ignobil, e extractado do vocabulario da ralé!…

    Em desconto d'estas repugnantes noticias, fez-nos o sr. doutor o bom
    serviço de nos dizer que homem em latim é _vir_, e mulher é _mulier_, e
    que, em alguns casos, _homo_ tambem é homem. Ficamos inteirados e
    agradecidos. Uma lição de linguagens latinas para nos advertir que a lei
    não legisla para a mulher!… Teremos ainda de assistir á repetição do
    concilio em que havemos de averiguar se a mulher é da especie humana? Se
    os srs. drs. Ayres ou Liborio, alguma vez, dirigirem os negocios
    judiciarios e ecclesiasticos em Portugal, receio que os legisladores
    excluam a mulher das penas codificadas, e que os bispos lusitanos as
    excluam da especie humana!… E peior será se algum d'estes ministros,
    no intento de punil-as, as classificam nas aves, e nomeadamente nas
    gallinhas! O horror dos sacarolhas, sr. presidente, não me desaperta o
    animo!

    Porque não ha de ser castigada a mulher por egual com o homem? Resposta
    séria á pergunta que tresanda a paradoxo: «Porque, no delicto, as
    faculdades da mulher agitam-se perturbadas; é um periodo de evolução.» A
    mulher, que mata, por ciume é que mata; a mulher, que propina venenos,
    por ciume é que despedaça as entranhas da victima. Isto é crime, ao que
    parece; crime, porém, de _faculdades que se agitam perturbadas, e
    periodo de evolução_. Se o termo fosse parlamentar, eu diria
    _farelório_!

    Quem ha de enristar armas de argumentação contra estes odres de vento?

    O que eu melhor entendi, graças á linguagem correntia e pedestre da
    arenga, foi que o illustre collega, avençado com o sr. dr. Ayres, querem
    _que todo o preso seja de todo barbeado semanalmente, lave o rosto e
    mãos duas vezes por dia, e tenha o cabello cortado á escovinha, e beba
    agua com abundancia, e não beba bebidas fermentadas, nem fume_.

    N'este projecto de lei a pequice corre parelhas com a crueldade. Que o
    preso lave a cara duas vezes por dia, isso bom é que elle o faça, se
    tiver a cara suja, mas obrigal-o a lavatorios superfluos, é risivel
    puerilidade, juizo pouco aceiado que precisa tambem de barrela.

    Privar do uso do tabaco o preso que tem o habito de fumar inveterado, é
    requisito de deshumanidade que sobreleva á pena de prisão perpetua ou
    degredo por toda a vida. Tirem o cigarro ao preso; mas pendurem logo o
    padecente, que elle ha de agradecer-lhe o beneficio.

    Estes reformadores de cadeias, sr. presidente, parece que tem d'olho
    apertar mais as cordas que amarram o condemnado á sentença; picar-lhe as
    veias, e desangral-o gota a gota, na intenção de o regenerar e
    rehabilitar! Optima rehabilitação! humanissimos legisladores! Querem que
    o preso se regenere hydropaticamente. Mandam-n'o lavar a cara duas vezes
    por dia. _Agua em abundancia_, conclamam os dois doutores. Fazem elles o
    favor de dar ao preso agua em abundancia; mas descontam n'esta
    magnanimidade prohibindo-os de fallarem aos companheiros de infortunio,
    com o formidavel argumento de que _sáem das cadeias delineamentos de
    assaltos, e assassinatos de homens que sabem ricos_!…

    «Delineamentos de assassinatos»! Que é isto? _Assassinato_ é coisa que
    me não cheira a idioma de Bernardes e Barros. Seja o que fôr, é coisa
    horrivel que sáe das cadeias com seus delineamentos, contra homens que
    os _presos sabem ricos_. Aqui, sr. presidente, n'este _sabem ricos_,
    quem soffre o _assassinato_ é a grammatica. O alticismo d'esta phrase é
    grego de mais para ouvidos lusitanos.

    O que é um preso descomedido, sr. presidente? Dil-o-hei? _Vox faucibus
    haesit_!…

    _É febricitante despedido do leito, que, como setta voada do arco,
    exaspera em barulho os males de toda a enfermaria_. Que se ha de fazer a
    um patife que é setta voada do arco? Faz-se-lhe lavar a cara terceira
    vez!

    Que desperdicio de poesia para descrever um preso bulhento!

    _Setta voada do arco_! Que infladas necedades assopram estes estylistas
    de má morte!

    _Inclinando rasoamento_ (peço venia para me tambem enriquecer com esta
    locução do sr. dr. Ayres) inclinando rasoamento a pôr fecho n'este
    palanfrorio com que dilapido o precioso tempo da camara, sou a dizer,
    sr. presidente, que a melhor reforma das cadeias será aquella que
    legislar melhor cama, melhor alimento, e mais christã caridade para o
    preso. Impugno os systemas de reforma que disparam em accrescentamento
    de flagelação sobre o encarcerado. Visto que Jesus Christo, ou seus
    discipulos, nos ensinam como obra de misericordia visitar os presos,
    conversal-os humanamente, amaciar-lhes pela convivencia a ferocia dos
    costumes, não venham cá estes civilisadores aventar a soledade aos
    ferrolhos, o insulamento do preso, aquelle terrivel _voe soli_! que
    exacerba o rancor, e os instinctos enfurecidos do delinquente.

    Tenho dito, sr. presidente. Não redarguo ao mais do discurso, porque não
    percebi. Sou um lavrador lá de cima, e não adivinhador de enygmas.
    _Davus sum, non OEdipus_.

    _O orador foi comprimentado por alguns provincianos velhos_.

    XVIII

    *Vae cair o anjo!*

    A respeito do ultimo discurso de Calisto Eloy, as gazetas governamentaes
    estamparam que a sala da representação nacional nunca tinha sido
    testimunha de insolencias de tamanha rudesa e tão audaciosa ignorancia.
    Os jornaes da opposição liberal disseram que o representante de Miranda,
    á parte as demasias escolares do seu discurso, déra uma util, bem que
    severissima lição, aos meninos que jogueteam com o paiz, indo ao
    sanctuario das leis bailar em acro-batismos de linguagem, que seriam
    irrisorios em palestra de estudantes de selecta segunda.

    Em casa do desembargador é que o morgado deslumbrou o renome dos
    fulminadores de catilinarias e filippicas. A numerosa roda do fidalgo
    legitimista encarava com venerabundo assombro em Calisto Eloy. As raças
    godas, que o não conheciam, concorreram a dar-lhe os emboras a casa de
    Sarmento. Sangue dos Affonsos e Joões não se dedignava de inventar em
    Calisto um primo. Todos queriam ter nas arterias sangue de Barbudas. E
    elle, o genealogico por excellencia, modestamente contradictava o
    empenho de alguns parentes honorarios; bem que, de si para si, e para
    alguns amigos, se ufanava de não carecer de tal parentella para
    egualar-se barba por barba com os mais antigos titulares em limpeza de
    sangue. As expressões laudatorias que mais calaram no animo de Calisto
    Eloy disse-as Adelaide. A menina, confessando sua surpresa no
    parlamento, foi sincera. Não o julgava tão denodado e destemido em face
    de gente nova, que parecia acovardar-se diante da coragem de um
    provinciano algum tanto achamboado. Disse ella á mana Catharina que a
    fronte de Calisto parecia allumiada, e no todo das feições e ademanes se
    revelava certa nobreza e garbo, que o faziam parecer mais novo.

    E era assim. Os quarenta e quatro annos do morgado, vividos na aldeia, e
    no resguardo da bibliotheca, viçavam ainda frescura de mocidade. A
    reforma do trajar fôra grande parte n'isto. A casaca antiga, e o
    restante da roupa trazida de Miranda, tolhiam-lhe a elegancia das
    posturas e movimentos, nos primeiros discursos.

    Cicero e Demosthenes, se entrassem de frak, no forum ou na ágora,
    desdouravam os mais luzentes relevos de suas esculpturaes orações. A
    estatuaria do orador pende grandemente do alfaiate. Vistam Casal Ribeiro
    ou Latino Coelho, Thomaz Ribeiro ou Rebello da Silva, Vieira de Castro
    ou Fontes, de casaca de brixe e gravata sepulchral da mandibula
    inferior: hão de vêr que as perolas desabotoadas d'aquellas bocas de
    oiro se transformam em graniso glacial no coração dos ouvintes.

    –Eu estava encantada de ouvil-o, sr. Barbuda–disse Adelaide–Tem uma
    voz muito sã e argentina. Gostei de vêr a presença de espirito de v.
    ex.^a, quando se levantou aquella algazarra contra as suas ironias.
    Lembrou-me então que prazer sentiria sua senhora, se o escutasse!

    –Minha prima Theodora de certo me não attendia–observou o morgado.–Em
    quanto eu fallasse, estaria ella pensando no governo da casa, e na
    calacice dos criados. Eu já disse a v. ex.^a que minha prima Theodora
    entendeu no summo rigor da expressão a palavra «casamento». _Casamento_
    deriva de _casa_. Senhora de casa e para casa é que ella é. E eu assim a
    acceitei e assim a préso.

    –Mas o coração…–atalhou Adelaide.

    –O coração, minha senhora, ninguem lá nos disse que era necessario á
    felicidade domestica. Tanto sabia eu o que era coração, como aquella
    creancinha, que sua ex.^{ma} mana tem nos braços, sabe o que é sensação
    do fogo. Ora veja como ella está estendendo as mãosinhas inexperientes
    para a chamma das velas… Se as tocar, que dôr não sentirá ella?

    –Então, volveu a filha do magistrado, hei de crêr que v. ex.^a ainda
    ignora o que seja coração… o que seja amor?

    –Se ignoro o que seja…–balbuciou Calisto.–Sabe v. ex.^a–proseguiu
    elle, reanimado, apoz longa pausa–sabe v. ex.^a que no paraizo existiu
    uma celestial ignorancia, até ao momento em que na arvore da sciencia
    tocou Eva?

    –Sim… E Adão lambem tocou…

    –Depois, minha senhora. Mas não discutamos a primasia: tocaram ambos, e
    eu comprehendo que deviam ambos peccar. Maior crime sería a resistencia
    a Eva que a Deus. Perdoe-me o céo a blasphemia!… A que hei de eu
    comparar nos nossos tempos, e n'este instante, a arvore da sciencia, da
    sciencia do coração?!… Comparo-a a v. ex.^a.

    –A mim?! que idéa!

    –A v. ex.^a. Eu contemplei-a, e… aprendi!… Hoje sei o que é
    coração: agora começo a estudar a maneira de o matar ao passo que elle
    vae nascendo.

    Calisto levantou-se, agradecendo á Providencia a chegada de um ancião
    respeitavel que se aproximava d'elle a cortejal-o.

    Adelaide quedou pensativa. Reflectiu, e considerou-se molestada e
    mescabada no respeito que devia ás suas virtudes um homem casado.

    Receiosa de ajuizar mal, por equivoca intelligencia do que ouvira,
    buscou azo de provocar explicações de Calisto Eloy. Como o ensejo lhe
    não saisse de molde, consultou a irmã, referindo-lhe o supposto
    galanteio do morgado. D. Catharina dissuadiu-a de pedir esclarecimentos,
    aconselhando-a a simular que o não entendêra.

    Pouco antes de terminada a partida, um moço legitimista recitou um
    poemeto dedicado ao nascimento do terceiro filho do sr. D. Miguel de
    Bragança. Perguntou alguem a Calisto se conversava alguma hora com as
    musas, ou se, á maneira de Cicero, escrevia o desgracioso:

    _Ó fortunatam natam, me consule, Romam_.

    Disse o morgado relanceando os olhos a Adelaide, que o seu primeiro
    parto metrico apenas tinha de vida quarenta e oito horas, e tão aleijado
    saíra, que elle se envergonhava de o offerecer ao apadrinhamento de
    pessoas authorisadas.

    Instaram damas e cavalheiros pela amostra da obra prima, que certamente
    o era, attenta a modestia do poeta.

    –São versos, disse elle, que se poderiam mostrar aos quinze annos, e
    que seriam derisão e lastima aos quarenta e quatro.

    Objectaram as damas argumentando que o homem de quarenta e quatro annos
    devia receber as inspirações dos vinte, porque no vigor da edade é que o
    coração fulgura em toda a sua luz.

    Tregeitou Calisto uns esgaros de satisfação ridicula. Eram os
    percursores de alguma enorme necedade.

    Embora resistisse á exposição da sua estreada musa, não se conteve que,
    despedindo-se de cada uma das senhoras da casa, disse, á puridade, a D.
    Adelaide:

    –V. ex.^a verá as trovas que só Deus viu, e ninguem mais verá no mundo.

    D. Adelaide ficou embaçada. Seria aggravar as meninas de dezoito annos,
    e educadas como a filha do desembargador, e amantes como ellas de um
    compromettido esposo, estar eu aqui a definir a entranhada zanga que lhe
    fez no espirito d'ella o desproposito de Calisto. A estima affectuosa
    que lhe ella ganhára, por amor d'aquella cavalheirosa acção, por onde a
    paz domestica se restaurára, não teve força de rebater o tedio e o odio
    do tom mysterioso do provinciano.

    Em quanto ella confiava da irmã o despeito e aversão com que a deixaram
    as ultimas palavras de Calisto Eloy, estava elle no seu gabinete
    retocando e peorando aquellas linhas rimadas, a cuja rebentação assistiu
    o leitor com piedosa tristeza.

    XIX

    *Ó mulheres!…*

    Seguiram-se horas de insomnia. O juizo dava-lhe tratos amarissimos ao
    coração. O homem sentava-se na cama, e remechia-se inquieto como se o
    escarneo o estivesse picando d'entre a palha do enxergão.

    Os intervalos lucidos eram-lhe intervalos do inferno. Os axiomas
    classicos sobre o amor caiam-lhe na memoria como chuva de dardos. Quem
    mais o suppliciou foi o seu mestre e amigo D. Amador Arraiz. Este santo
    bispo apresentou-se-lhe em visão, com D. Theodora Figueirôa ao lado, e
    disse-lhe as palavras do capitulo XLV dos _Dialogos_: «Em a lei de
    Christo a fidelidade que deve a mulher ao marido, essa mesma deve o
    marido á mulher; e, se as leis civis dão mais poder aos maridos que ás
    mulheres, não é para as offender e maltratar, nem para um ter mór
    jurisdição sobre si que o outro.»

    Seguiram-se outras visões de não somenos pavor. Ahi pela madrugada,
    Calisto Eloy amodorrou-se em roncado dormir; mas a fada que lhe abrira
    os thesouros virgineos do coração, a esbelta Adelaide bateu-lhe com as
    azas brancas nas palpebras, e o homem acordou estremunhado a desgrudar
    os olhos, que se haviam fechado com duas lagrimas, as primeiras que o
    amor lhe esponjára do seio, e cristalisára nos cilios, como diria o dr.
    Liborio. Então foi o trabalharem-n'o umas cogitações tão sandias, que
    seriam imperdoaveis, se não estivessem na tresloucada natureza de todo
    homem que ama.

    Entrou a inventariar as alterações que devia fazer no substancial e
    accidental da sua personalidade.

    O uso do meio grosso pareceu-lhe incompativel com um galan. Aquelles
    sibilos da pitada, bem que denotassem espiritos cogitantes e gravidade
    de juizo, deviam de toar ingratamente nos ouvidos de Adelaide. De mais
    d'isso, a saraivada de bagos de rapé que elle sacudia dos sorvedouros
    nasaes, algumas vezes obrigava as damas a formarem sobre os olhos com os
    dedos um antemural sanitario contra as insuflações immundas do sabio.
    Deliberou, portanto, immolar as delicias pituitarias.

    Viu-se no espelho de barbear, modesto utensilio do estojo de bezerro, e
    conveio no deslavado prosaismo da sua cara clerical. Resolveu deixar
    pera e meia barba, como transição para o bigode, que devia ir-lhe bem na
    tez um tanto moreno-pallida.

    Como o estudo lhe havia extenuado os olhos, e por amor d'isso usava
    oculos de prata quando lia, adoptou a luneta de oiro com molas pensis.

    N'este proposito, saiu a delinear as reformas capillares; fez alinhar as
    bases de uma cabelleira, que trouxera escadeada da provincia; e
    consentiu que lhe encalamistrassem dois topes rebeldes ao ferro.

    Depois, quando a ancia de uma pitada começava a importunal-o, fez
    provisão de charutos, e fumou o primeiro com afflictivas caretas, e
    engulhos de estomago.

    Colheu informações dos alfaiates de melhor fama, e foi ao Keil
    encommendar duas andainas de fato. O artista offereceu-lhe os figurinos;
    e, como lhe fallasse francez, Calisto suppoz que o attencioso alfaiate
    lhe dava a conhecer os retratos de alguns sujeitos illustres da França.
    Corrido do engano, depois de lêr as indicações das _toilettes_, saiu
    d'alli a procurar mestre de linguas, e a comprar diccionarios e guias de
    conversação.

    Se o leitor, mais perseguido da fortuna esquerda, nunca passou por
    lances analogos, não se tenha em conta de desgraçado.

    Quem tivesse conhecido, um mez antes, Calisto Eloy de Silos e Benevides
    de Barbuda, devia choral-o, quando o viu entrar n'um café a pedir agua
    para combater os vomitos provocados pelo charuto!

    Irá perder-se aquella alma tão portugueza, aquelle exemplar marido,
    aquelle sacerdote e glorificador dos classicos lusitanos?

    O amor abrirá no pavimento da camara um alçapão, onde se afunda aquelle
    grande brilhante, desluzido, mas promettedor de refulgente lume?

    _Di meliora piis_!

    Ó Lisboa!…

    Ó mulheres!…

    XX

    *Proh dolor!…*

    Adelaide, temerosa de algum imprevisto accidente, que a desmerecesse no
    conceito de Vasco, por causa do morgado da Agra, relatou ao pae o
    dialogo da antevespera, e a promessa da poesia para a noite seguinte.

    O desembargador duvidou do entendimento da filha, antes de acreditar na
    insania do seu melhor amigo. Como havia de crer elle no intento
    deshonesto de um homem que lhe emergira a outra filha da voragem? E,
    crendo, como se comportaria em lanço de tanto melindre?

    Meditou, e discretamente resolveu que suas filhas e genro fossem passar
    alguma temporada da primavera na sua quinta de Campolide; e se
    pretextasse a doença de uma neta, para que a saida se fizesse n'aquelle
    mesmo dia. Pôde mais com o velho a gratidão que a offensa.

    Calisto Eloy chegou á hora costumada. Já não entrava á presença do
    magistrado com a facilidade e lhanesa de outros dias. A sisudeza do
    semblante arguia o incommodo da consciencia. Mais lh'a inquietava a
    estudada jovialidade, com que Sarmento o recebeu. Antes de perguntar
    pelas senhoras, lhe disse o velho o motivo da inopinada saida para ares.
    Calisto passou o restante da noite com os amigos da casa; porém,
    insolitamente abstraido, concorreu a augmentar a lethargia d'aquelles
    velhos soporosos, que pareciam ajuntar-se para se narcotisarem, e
    entrarem emparceirados nas silenciosas regiões da morte.

    Fez sensação na assembléa tirar Calisto de uma charuteira de prata um
    charuto, e baforar columnas de fumo, com uns modos aperalvilhados, e
    improprios de sua gravidade. Sarmento, com delicada liberdade, observou
    a preponderancia que os costumes de Lisboa iam actuando sobre o animo do
    seu bom amigo. Sentiu que os ruins exemplos vingassem quebrantar aquella
    admiravel singeleza de trajo e maneiras que o morgado trouxera da sua
    provincia. Lamentou que, em menos de tres mezes, o modelo do portuguez
    dos bons tempos, se baralhasse com os usos modernos e viciosos.

    Calisto Eloy defendeu-se froixamente, allegando que as mudanças
    exteriores não faziam implicancia ás faculdades pensantes; e ajuntou
    que, sciente de que tinha sido incentivo da mofa entre os seus collegas,
    á conta da simpleza um tanto anachronica dos seus costumes, entendera
    que a prudencia o mandava viver em Lisboa consoante os costumes de
    Lisboa, e na provincia, segundo o seu genio e habitos aldeãos. Concluiu,
    dizendo que: _Cum fueris Roma, Romam vivito mora_,[20] e que o fazer-se
    singular importava fazer-se ridiculoso; e que os seus annos não eram
    ainda bastantes para authorisarem a distinguir-se no mero accidente dos
    trajos.

    Perguntado por que deixára de tomar rapé, costume indicativo de homem
    pensador e estudioso, respondeu que alguns escriptores modernos
    attribuiam á ammoniaca componente do rapé, o deperecimento das
    faculdades retentivas, pela acção deleteria que o poderoso alcali
    exercitava sobre a massa encephalica. Além de que a fumarada do charuto,
    sobre ser purificante e anti-putrida, dava aos alvéolos solidez, e
    consistencia aos dentes.

    Estas explicações não evitaram que o desembargador, com os seus velhos
    amigos, prognosticassem o derrancamento do morgado da Agra, depois que
    elle se retirou, algum tanto azedado das reflexões d'aquella gente
    encanecida.

    Sarmento não o convidára a ir visitar as filhas a Campolide, nem de
    leve; no correr da noite, fallou d'ellas. Calisto Eloy tambem não
    suscitou conversação relativa ás senhoras, porque já a doblez do
    espirito lhe tolhia a usual franqueza e familiaridade.

    Entrou a dementar-se aquella desconcertada cabeça. A saudade, em vez de
    lhe tirar lagrimas do intimo amadurou-lhe temporamente a apostêma de
    sandices, que em todo homem se cria paredes-meias com o coração. Ahi
    começa elle a imaginar que o desembargador Sarmento, adivinhando os
    amores mal recatados de Adelaide, a obrigara a sair de Lisboa.
    Corroborava a suspeita não o convidar elle a visitar as damas. Isto
    sobre excitou-lhe o sentimento; por que, a seu vêr, Adelaide estava
    penando, havia uma victima, um coração sopesado, uma alma em abafos de
    paixão.

    Esta conjectura atirou com Calisto para os tempos cavalleirosos.

    O olhar em si, e ver-se maneatado pelos vinculos sacramentaes, não o
    reduzia á compostura e honestidade de seu estado e annos. Ainda assim,
    sejamos justiceiros e ao mesmo tempo misericordiosos com esta alma
    enferma: na cabeça allucinada de Calisto de Barbuda não havia idéa
    ignobil e impudica.

    O amor, resaltando da cratera abafada quarenta e quatro annos, dizia-lhe
    que era fidalguia de alma não transigir, por conveniencias e respeitos
    sociaes, com a oppressão, e alvedrio paterno. Se Adelaide o amava como e
    quanto Calisto já não podia duvidar, sua honra d'elle era pôr peito á
    defesa da oppressa, beber metade do absyntho do seu calix, luctar, sem
    desdouro da probidade de um Barbuda, até perecer, exemplo de amadores de
    antiga tempera.

    Amou quem isto lê, e tresvariou aos vinte annos? Passou por uns hórridos
    eclipses de entendimento, que apoz si deixam lagrimas tardias e
    vergonhas insanaveis?

    Amisere-se, pois, d'aquelles lucidissimos espiritos de Calisto, que por
    um se vão apagando ao ventar rijo da paixão, quaes se apagam em céo de
    bronze as estrellas do mar alto, já quando o naufrago desesperançado
    finca os dedos recurvos na espuma das vagas.

    Ó mal-sorteado Calisto! que aureola de patriarcha te resplendia em volta
    do teu chapéo de merino e aço, quando entraste em Lisboa! Que anjo eras,
    entrajado na tua casaca de saragoça sem nodoas! Aquella scientifica boa
    fé com que procuravas monumentos em Alfama, e agua depurante do muco
    catharroso no chafariz d'El-Rei, e querias que os aljubêtas da rua de S.
    Julião te dessem conta do chafariz dos cavallos!…

    Que te valeram as maximas de boa vida colhidas a centenares nos teus
    classicos, e enceleiradas n'essa alma, refractaria á ternura de tanta
    moça escarlate e succada, que, lá em Caçarelhos, se enfeitava para achar
    graça em teus olhos?

    Cairias tu nas piozes d'esta princeza dos mares, d'esta Lisboa que
    filtra aos nervos dos seus habitantes o fogo que lhe estua nas
    entranhas?

    Cairias tu, anjo?

    XXI

    *O mordomo das tres virtudes cardeaes*

    Era por uma noite escura e fria de abril.

    O vento esfusiava nas ramalheiras de Campolide.

    A lua, a longas intermittencias, parecia, wagon dos céos, correr
    velocissima entre nuvens pardas, para ir ingolfar-se n'outras. Então era
    o carregar-se a escuridão da terra, e mais para pavores o rangido das
    arvores sacudidas pelos bulcões do septentrião.

    Soaram doze horas por egrejas d'aquelles valles. Era um como crebro
    soluçar da natureza por pulmões de bronze. Era o grão clamor da terra em
    angustias parturientes de alguma enorme calamidade.

    Áquella hora, e por aquella noite capeadora de assassinos e
    bestas-feras, Calisto Eloy, embrulhado n'um capote de tres cabeções e
    mangas, que trouxera de Caçarelhos, passava rente com o muramento da
    quinta de Adelaide.

    Depois, como saisse da vereda escura a um recio que defrontava com a
    frontaria da casa, aqui parou, e cruzando os braços, se esteve largo
    espaço quedo, e fito nas janellas.

    Nem lua nem scintilla de estrella no céo! As confidentes d'aquelle
    amador torvo como o cerrado da noite, negro como o coração que lhe arfa
    a lapela esquerda do collete, são as trevas. Quiz accender um charuto.
    Nem os phosphoros vingavam lampejar na escuridão.

    E o vento assoviava no vigamento da casa, e nas orelhas de Calisto, o
    qual, levado do instincto da conservação, levantou a gola do capote á
    altura das bossas parietaes, e disse, como Carlos VI:

    –Tenho frio!

    E passou-lhe então pelo espirito um painel da sua situação tirado pelo
    natural. Viu-se no espelho, que a razão lhe offereceu, e cobrou horror
    da sua figura.

    Bem que tal acto não implicasse delicto, nem affrontasse os bons
    costumes, Calisto, apertado no transito difficil das indoles que se
    passam do comportamento austero e captivo ás liberdades e solturas do
    vicio, olhava com saudade o seu passado, as suas alegrias puras; e, mais
    que tudo, áquella hora, como o frio cortava as orelhas, lembrou-se da
    quentura e aconchego do leito nupcial.

    E como esta visão honesta, para mais o pungir, havia de ser encarecida
    com uma imagem de mulher leal e immaculada, Calisto viu D. Theodora de
    touca, n'aquelle dormir placido de quem adormeceu com a alma quieta e
    intemerata. Não bastava a touca, tão hygienica quanto pudica, a
    penitencial-o com remordentes saudades: viu-lhe tambem o lenço de tres
    pontas de algodão azul com que ella costumava resguardar os hombros,
    antes de subir as quatro escadinhas que conduziam ao alteroso leito de
    páo santo.

    Se visões analogas, alguma vez, puzeram guerra ao demonio tentador dos
    maridos infieis e o venceram, d'esta feita não se logra a sã virtude do
    triumpho.

    É que as toucas e lencinhos pudibundos, sobre não serem enfeites mui
    seductores, algumas vezes tornam a virtude rançosa e tamsómente boa para
    adubar palestras de avós com as netas casadoiras. Este mal deve-se ás
    artes da estatuaria, artes em que a imaginativa não põe nada seu, porque
    tudo é copiado da natureza nua, ou quasi nua. Nem se quer as Niobes, as
    Lucrecias e Penelopes o buril respeita. Nos casos mais lacrimaveis e
    tragicos, querem fados máos que os olhos achem sempre pasto á cobiça,
    quando a impressão devera ser toda para levantamentos de espirito, e
    «visões altas» como diz o bom Sá de Miranda.

    Quando a arte deshonesta não despe as figuras, veste-as de feitio que
    pelo ondeado das roupas transparentes esteja o peccado a fazer negaças a
    conjecturas taes que, certo estou, Calisto Eloy, antes de se empestar em
    Lisboa, se taes impudicias visse, romperia no parlamento os vesuvios da
    sua eloquente indignação. E a posteridade, ajuizando da moral d'esta
    nossa edade de limos e alforrecas, viria a este lameiral esgaravatar a
    perola da edade aurea, caida dos labios do marido de D. Theodora, a
    qual, segundo fica dito, dormia de touca e lencinho de algodão azul de
    tres pontas.

    Esta peregrina imagem não bastou a desandar Calisto pelo caminho de
    Lisboa, e do seu gabinete, onde os pergaminhos dos seus livros pareciam
    rever lagrimas de amigos descaroavelmente desprezados. O infeliz não
    desfitava olhos de certa janella, desde que vira perpassar uma luz pelos
    resquicios das portadas. Podia a trahida Theodora antepôr-se aos olhos
    extasiados do esposo, com a pudenda touca, ou com as madeixas
    estrelladas de brilhantes, que elle não a via nem queria ver.

    Ahi por volta de meia noite estava Calisto recordando o que dissera, em
    circumstancias analogas, Palmeirim aquelle grão cavalleiro de Francisco
    de Moraes, diante do castello de Almourol que fechava em seus arcanos a
    formosa Miraguarda. N'isto scismava, comprehendendo então as phrases
    mélicas dos famosos amadores, quando as portadas da janella se abriram
    subtilmente, e logo a vidraça foi subindo mui de leve.

    O recanto, em que o morgado da Agra se abrigára do vento, estava fóra do
    caminho, e sumido aos olhos da pessoa que abrira a janella. Ao mesmo
    tempo, ouvia elle passos na estrada, e logo viu acercar-se um vulto
    rebuçado da casa de Adelaide, e parar debaixo da janella que se abrira.

    Conjecturou Calisto de Barbuda, que D. Catharina Sarmento, a esposa
    infida, reincidira nas presas do velho peccado, e sentiu algum tanto
    molestada sua vaidade de regenerador de corações estragados. Tambem
    suspeitou que Bruno de Vasconcellos, quebrando a palavra jurada, voltára
    do estrangeiro a reatar a criminosa alliança. Não lhe deram tempo a mais
    conjecturas. O encapotado espectorou um cacarejo de tosse secca; da
    janella, como contra-senha, respondeu outro cacarejo de mais sympathico
    som, e logo as duas almas se abriram n'este dialogo:

    –Ainda bem que recebeste a minha carta, Vasco!…–disse
    Adelaide–Estavas em casa da tia condessa? Eu mandei lá por me lembrar
    que se fazia lá hoje a novena das Chagas…

    –Fiquei espantado–disse Vasco da Cunha–Que rapida deliberação foi
    esta?! Vir para uma quinta com tão máo tempo! Foi caso de maior!…

    –Fui eu a causa–tornou ella–São melindres do meu coração, que, por
    amor de ti, não soffre que outra voz de homem lhe falle a linguagem que
    eu só quero e acceito de tua bocca. Antes me quero aqui escondida com a
    tua imagem, que ver-me obrigada a tolerar os atrevimentos do Calisto de
    Barbuda…

    –Que!–atalhou Vasco–pois aquelle homem tão serio!… tão temente a
    Deus!…

    –É um hypocrita com a brutalidade de um provinciano!… Offereceu-me
    uns versos em segredo! Que ultraje! que falta de respeito á minha
    posição…

    –E que desmoralisada e irreligiosa creatura! Casado, já d'aquelles
    annos, legitimista, e catholico, segundo diz, e ousar… Estou
    espantado! E a tia condessa que me tinha encarregado de o convidar para
    assistir, no domingo á festa das Chagas! Fiem-se lá!… E tu não faltes,
    á festa, Adelaide. Esto anno fazemol-a com toda a pompa. O prégador já
    me leu o discurso, e trata eruditamente a materia. A prima Lacerda vae
    cantar um _Benedicite_, e a prima viscondessa de Lagos canta um _Tantum
    ergo_. Havemos de fazer melhor festa que a do conde de Melres. Eu começo
    ámanhã a colher flores e a pedil-as para enfeitar o altar dos tres reis
    magos e das tres virtudes cardeaes, de que me fizeram mordomo, não sei
    se sabias?

    –Não sabia, meu amor–disse Adelaide, congratulando-se com os
    enthusiasmos pios do excellente moço.

    A palestra proseguiu n'este tom por espaço de uma hora. A lua espreitava
    estas duas pessoas por entre as nuvens, que a pouco e pouco se foram
    descondensando. O céo azulejou-se e estrellou-se para galardoar a
    virtude do mordomo das tres virtudes cardeaes e da bella menina
    destinada a maridar-se com o mais energico influente da festa das
    Chagas, com que o devoto conde de Melres se havia de dar a perros.

    No entanto, Calisto Eloy, consultando a sua consciencia a respeito de
    Vasco da Cunha, decidiu que o homem, se não era um santo, propendia
    grandemente para a semsaboria de idiotismo. Esta critica é a prova de um
    animo já iscado da peçonha da meia impiedade que degenera em impiedade
    inteira. Já como castigo de escarnecer um moço virtuoso, sentia elle
    encher-se-lhe de amargura o coração. Não bastava ouvir-se qualificado de
    hypocrita brutal por Adelaide; quiz de mais d'isto a providencia dos
    amantes lerdos, providencia que eu não posso escrever se não com _p_
    pequeno, quiz, digo, que Vasco da Cunha, mancebo em flor d'annos e
    gentileza, se estivesse alli rejubilando em novenas e mordomias das tres
    virtudes cardeaes, em quanto elle Calisto, a mais de meio caminho da
    morte, ardia em fogo impuro e cobiça peccaminosa, com os olhos cerrados
    á visão duas vezes pura de uma esposa de touca e lencinho azul de tres
    pontas sobre as espaduas não despeciendas, segundo me consta.

    Merecem escriptura as ultimas phrases de Adelaide e Vasco.

    A menina, interrompendo os enlevos do devoto moço, que se deleitava em
    conjecturar a zanga do conde de Melres, perguntou-lhe, com doce
    requebro, quando viria o dia suspirado de sua união.

    Vasco deteve a resposta alguns segundos, e disse:

    –Deixemos vêr se morre minha tia Quiteria, que me quer deixar os
    vinculos do Algarve.

    –Pois nós–volveu Adelaide magoada–não poderemos ser felizes sem os
    vinculos de tua tia Quiteria, meu Vasco?

    –Ninguém é feliz desobedecendo aos seus maiores, replicou Vasco. A tia
    Quiteria quer que eu espere a volta d'el-rei para depois tomar ordens
    sacras, e trazer mais uma mytra episcopal á nossa linhagem onde estavam
    como em vinculo as principaes prelazias do reino.

    Adelaide, não obstante o coração, quando aquillo ouviu, sentiu-se mal do
    estomago.

    XXII

    *Outro abysmo*

    Esta pungente lancetada não esvermou a postema do peito de Calisto de
    Barbuda. Desde que qualquer sujeito perde o siso do coração, escusado é
    esperar que a razão lh'o restaure: em tão boa hora que elle o recupera
    depois das amargas provas. O homem, porém, que amanhece tolo aos
    quarenta e quatro annos, a mim me quer parecer que ao entardecer-lhe a
    vida a tolice refinará.

    Tenho dois grandes exemplos d'isto: um é Calisto de Caçarelhos; o outro
    é Henrique VIII de Inglaterra. Este, ahi pelas alturas dos quarenta
    annos, tão bom homem era, que até escrevia contra o impio Luthero, e
    vivia santamente com sua esposa, Catharina de Aragão. Insandeceu de
    amor, vinte annos depois de marido exemplar, e d'ahi por diante sabe o
    leitor que golpes elle deu no peito invulneravel do papa e no fragil
    pescoço das pobres mulheres.

    Calisto Eloy não será capaz de repudiar nem degolar Theodora, porque
    n'este paiz ha leis que reprimem os patetas sanguinarios; todavia, eu
    não assevero que elle seja incapaz, alguma hora, de lhe chamar parva e
    hedionda, e de lhe atirar com a touca e com o lenço azul de tres pontas
    á cara vermelha de pudor. Veremos.

    Calisto, digamol-o sem refolhos, caiu. Atascou-se. Foi de cabeça ao
    fundo do pégo em que deram a ossada o ultimo rei dos godos, e Marco
    Antonio, e o rei enfeitiçado pela comborça Leonor Telles, e Simplicio da
    Paixão, e varias pessoas minhas conhecidas, que experimentaram todos os
    systemas de desfazer a vida, desde o muro de S. Pedro d'Alcantara até ás
    cabeças dos palitos phosphoricos.

    Este enguiçado Barbuda, na volta de Campolide, não teve uma lagrima que
    chorasse sobre a sua dignidade esfarrapada. Circumvagou a vista pelos
    seus livros, figurou-se-lhe vêr na lombada de cada in-folio o olho de um
    demonio zombeteiro, bem que aquelles pergaminhos encadernassem almas, no
    céo bem-aventuradas, e na terra immorredoiras, almas que n'este mundo se
    chamaram fr. João de Jesus Christo, fr. Pantaleão d'Aveiro, fr. Antonio
    das Chagas, e dezenas d'estes talismans, que tem salvado o leitor e a
    mim de soçobrarmos nos parceis que esbravejam á volta de Calisto.

    Eram duas horas da manhã, quando o morgado experimentou uma sensação,
    que viria a definir-lhe o espirito, se alguem carecesse de vêr este
    homem a luz extraordinaria.

    Nas aguas-furtadas do andar, em que elle morava, residia uma viuva de um
    tenente, senhora d'annos insuspeitos, de muitas lerias, minguada de
    recursos, e, por amor d'isso, se offerecêra a cuidar da casa e da
    cosinha do deputado. Ás duas horas, pois, bateu Calisto á porta da
    visinha, e, como ella lhe fallasse, exprimiu elle a sensação imperativa,
    que o levou alli, por estes termos:

    –Sr.^a D. Thomazia, ha por ahi alguma coisa que se coma?

    –Não ha nada feito; mas eu vou fazer chá, sr. Barbuda, e o que v. ex.^a
    quizer.

    –Olhe se me póde frigir uns ovos com presunto–volveu elle.

    –Pois lá vão ter d'aqui a pouco.

    –Veja lá que se não constipe, sr.^a D. Thomazia–recommendou elle.

    –Não tem duvida. Olhe que eu tenho muito que lhe dizer. Achou um
    bilhete de visita na escrevaninha? perguntou D. Thomazia pelo buraco da
    fechadura.

    –Não achei.

    –Pois lá está. Faz favor de ir, que eu vou vestir-me.

    –Então a sr.^a D. Thomazia está-se constipando? Ora esta! Isso é que eu
    não queria!… Cá desço, e até logo.

    O bilhete, que o deputado encontrou, dizia: Iphigenia de Teive Ponce de
    Leão, e logo a lapis: _viuva do tenente general Gonçalo Telles Teive
    Ponce de Leão_.

    Desfilaram por diante do espirito de Calisto Eloy regimentos de
    illustres familias oriundas dos Telles e dos Teives e dos Ponce de Leão.
    Na linhagem dos Barbudas tambem alguma vez tinham entrado os Teives, e
    uma decima nona avó de Calisto viera de Hespanha, e era Ponce, dos
    Ponces genuinos dos duques de Banhos.

    Estava o morgado combinando estes parentescos contrahidos ahi pelo
    ultimo quartel do seculo XII, quando D. Thomazia entrou com o presunto e
    ovos. Calisto assentou o prato sobre dois volumes da Historia
    Geneologica, que lhe tomavam a banca: e quanto a deglutição lh'o
    permittia, n'alguns intervalos, foi perguntando:

    –Então quem é esta senhora, que me procurou?

    –Eu só sei dizer, respondeu D. Thomazia, que é uma creatura linda,
    linda quanto se póde ser!

    –Como assim?! atalhou Calisto, retendo uma lasca de presunto entre os
    dentes molares, pois ella não é a viuva de um tenente general, que
    naturalmente havia de morrer velho?

    –Póde ser que elle morresse velho; mas a viuva o mais que póde ter é
    trinta annos.

    –E com que então galante?

    –É uma imagem de cera. V. ex.^a ha de vêl-a. E então elegante! A
    cintura cabe aqui, proseguiu D. Thomazia, formando um annel com dois
    dedos. Eu, quando ouvi parar uma carruagem, cuidei que era v. ex.^a e
    vim abrir as portas do escriptorio. A senhora veiu subindo, e puchou á
    campainha. Eu espreitei lá de cima, e, a fallar verdade, lembrei-me se
    seria a sua esposa, que lhe quisesse fazer uma agradavel surpreza.
    Perguntou-me ella pelo sr. Barbuda de Benevides, e foi entrando comigo
    para a sala. Levantou o véo, e disse: «Não está em casa?» Que voz, sr.
    morgado, que voz de creatura aquella!

    –E isso a que horas foi? atalhou Calisto. Era por noite alta?

    –Não, meu senhor. Eram seis horas da tarde. V. ex.^a tornou ás oito,
    mas saiu logo; e, quando eu voltei de fazer uma visita, já o não achei
    para lhe dar esta noticia.

    –E depois a senhora que mais disse?

    –Mostrou-se pesarosa de o não encontrar, e prometteu de voltar hoje ás
    tres horas.

    –E a sr.^a D. Thomazia saberá o que me quer essa dama?

    –Não sei; o que ella sómente disse foi que v. ex.^a era um genio.

    –Pois ella disse-lhe isso sem mais nem menos?

    –Foi a respeito de vêr aqui estes livros muito grandes, acho eu. Esteve
    a reparar n'elles com uma luneta… E a graça com que ella punha a
    luneta!… Mulher assim!… Os homens ás vezes por mais asneiras que
    façam, teem desculpa!…

    –As paixões, minha sr.^a D. Thomazia…–obtemperou o morgado, e lambeu
    os beiços molhados da libação de um vinho nervoso d'aquella garrafeira
    já mencionada. E proseguiu.–As paixões do amor… Nem os grandes sabios
    nem os grandes santos se exemptaram d'ellas. Somos todos de quebradiço
    barro; somos uns pucarinhos de Extremoz nas mãos infantis das mulheres.
    O tributo é fatal: quem o não pagou aos vinte annos, ha de pagal-o aos
    quarenta, e mais tarde, quando Deus quer… Deus ou o demonio, que eu
    não sei ao justo quem fiscalisa estes malaventurados successos de amor,
    que a historia conta e a humanidade experimenta cada dia…

    –É um gosto ouvil-o!–interrompeu D. Thomazia–Bem no disse aquella
    senhora: v. ex.^a é um genio, e falla de modo que se mette no coração da
    gente. Quer que lhe diga a verdade, sr. Barbuda? Foi bom que v. ex.^a me
    encontrasse n'esta edade. Se eu fosse moça e bonita, como dizem que fui,
    um homem como v. ex.^a havia de me dar cuidados.

    –Ora, minha sr.^a D. Thomazia, isso é lisonja e favor. Eu já não estou
    tambem na edade de tocar corações, nem os meus habitos vão muito para
    ahi!

    –Edade!–accudiu a viuva do tenente–v. ex.^a póde dizer que tem trinta
    e cinco annos, que ninguem lh'o duvida. É mania agora dos rapazes
    quererem á fina força passar por velhos. Pergunte quem quizer á visinha
    do primeiro andar se o acha velho. Está-me sempre a perguntar se v.
    ex.^a me diz d'ella alguma coisa… Conhece-a?

    –Bem sei: uma mocetona cheia, com umas fitas escarlates na cabeça…
    Não é má…

    –E sabe v. ex.^a que mais? Eu vou apostar que esta senhora, que veiu
    cá, traz coisa no coração, que a obrigou. Assim uma senhora nova,
    sosinha, tão encantadora!… Aquillo, em quanto a mim, é que já o ouviu
    no parlamento, e apaixonou-se. Ha muitos casos assim cá em Lisboa de
    senhoras apaixonadas pelos homens de talento. O talento é uma coisa
    muito bonita! Meu marido casou comigo quando era sargento do treze de
    infanteria, e andava nos estudos. Era feio, e ao principio tinha-lhe
    medo; mas assim que elle me mandou um acrostico… V. ex.^a sabe fazer
    acrosticos?

    –Ainda não me puz a isso.

    –Pois como eu me chamo Thomazia Leonor e tenho quatorze letras fez-me
    elle um soneto que me deu volta á cabeça, e tamanho incendio me tomou o
    peito, que o amei até á morte, e ainda agora, ficando eu viuva aos
    trinta e nove annos, fui, sou e serei fiel á sua memoria.

    N'este ponto, D. Thomazia, ferida n'alma pelo acrostico memorando,
    chorou.

    Calisto represou-lhe os prantos com algumas maximas consoladoras sobre a
    morte, e bocejou, já por que eram tres horas e meia da manhã, já por que
    o dialogo descaira nos aborrimentos de uma palestra em dia de fieis
    defuntos. D. Thomazia começou a espirrar, por que se não agasalhára
    bastantemente, e assim se apartaram estas duas pessoas, que uma hora de
    expansão aproximara.

    Calisto, conforme ao antigo uso, levou um livro para a cabeceira do
    leito. Escolheu poeta, e saiu-lhe o seu já tão querido outr'ora Sá de
    Miranda. Abriu ao acaso, e saiu-lhe n'uma pagina _d'Os Estrangeiros_
    esta maxima: _Duas sortes de homens ha no mundo que se possam servir: ou
    muito parvos ou muito namorados, e ainda os namorados tem grande
    vantagem_.

    A meu vêr, o espirito d'aquelle honrado doutor, que tão santo marido
    fôra de Briolanja de Azevedo, até de saudades d'ella se deixar morrer,
    alli lhe viera, áquella hora, relembrar occasionalmente e a ponto uma de
    suas maximas, como em paga do affectuoso respeito com que Barbuda o lia
    e inculcava á mocidade depravada.

    Calisto Eloy pôde ainda admirar o lidimo portuguez da maxima, e
    adormeceu.

    XXIII

    *Tenta o seu anjo da guarda salval-o mediante uma carta da esposa*

    Calisto dormiu mal.

    As alvoradas de um dia feliz são mais temporãs que as da estrella
    d'alva. O coração acorda primeiro que os passaros. O amor diz o seu
    _fiat lux_ primeiro que Deus. Estas tres sentenças, a meu vêr, são mais
    intelligiveis que o contentamento do morgado da Agra, ao levantar-se da
    cama em que dormitára algumas escassas horas alvoroçadas.

    O desastre de Campolide quebrantaria um homem qualquer que viesse a
    cumprir n'este mundo os vulgares destinos da maxima parte dos mortaes.
    Individuos notaveis já sairam scepticos e bravos cynicos de aperturas
    menos dilacerantes. Os annaes ensanguentados da humanidade estão cheios
    de facinoras, empuxados ao crime pela ingratidão injuriosa de mulheres
    muito amadas e perversissimas. Superabundam casos de embaçadellas
    analogas á de Calisto: d'estes lances obscuros tem saido aparvalhada
    muita gente que era escorreita, e que se volve daninha á republica. São
    uns homens que vos namoram as criadas, se vos não podem requestar a
    familia; uns vampiros de sangue femeal, que trazem o demonio da vingança
    no corpo, demonio meridiano e nocturno, que bebe lagrimas de mulher, em
    quanto os possessos d'elle bebem cognac e absyntho. Um homem d'estes,
    encostado a frade de esquina, é o leão que espreita da sua caverna
    lybica a antilopa descuidosa. Officiala de modista, que se espaneja nas
    verduras do jardim da Estrella, como alvéola nas praias borrifadas de
    espuma, se o anjo da guarda a desampara um quarto de hora, tem os seus
    dias contados. O scelerado, com o simples auxilio de um gallego, em que
    por vezes se ingere e chafurda o confidente de Fausto, arranca da fronte
    da alegre palmilhadeira de botinhas a grinalda de laranjeira em botão,
    que esperava a sua primavera, o seu abrir-se e rescender, no primeiro
    dia nupcial. Que tristeza! E ninguem falla d'isto senão eu, porque me
    cumpre fazer o elogio de Calisto Eloy, que não fez cousa nenhuma
    d'aquellas.

    Assim que se ergueu cuidou em aformosear a saleta, cuja decoração era
    menos de modesta. Saiu açodado ao armazem dos mais elegantes estofos, e
    comprou alfaias magnificas. O homem pasmava dos nomes d'aquelles
    objectos, nenhum dos quaes soava portuguezmente.

    –Porque chamam a isto _chaise-longue_?–perguntava Calisto Eloy ao
    engenhoso Margoteau.

    –Porque chamam?!

    –Sim: eu creio que se não offende a França no caso de chamarmos a este
    movel uma cadeira longa, ou uma preguiceira, que sôa melhor. E _étagère_
    e _console_ e _téte-à-tête_, e _onaise_? E é carissimo tudo isto! A
    gente, pelos modos, de fóra parte os objectos, tambem paga a lição de
    francez de samblador, que vem aqui aprender?

    Sem embargo d'estes reparos, o oiro saiu-lhe generosamente da algibeira
    bem apercebida.

    A pobre saleta do morgado, dentro em pouco, transformou-se em recinto
    digno de uma Ponce de Leão. Calisto, refestelado nos coxins elasticos da
    ottomana, contemplava os restantes adornos do aposento, quando lhe
    chegou do correio carta da sua esposa.

    Dizia assim:

    «Já com esta são tres que te escrevo, e ó por hora nem uma nem duas da
    tua parte. Marido! que fazes tu, que não respondes? Ando a futurar que
    não tens o miolo no seu logar. Longe da vista, longe do coração, diz lá
    o ditado. Ora, queira Deus que não seja por minga de saude; e, se é,
    dil-o para cá, que eu estou aqui estou lá.

    «O primo Affonso de Gamboa esteve cá ha dias, e a modo de caçoada foi-me
    dizendo que lá na capital as mulheres inguiçam os homens, e fazem
    d'elles gato sapato. Eu fiquei sem pinga de sangue, meu Calisto! Mal fiz
    eu em te deixar ir ás côrtes. Bem tolo é quem está bem na sua casa, e se
    mette n'estas coisas dos governos, que só servem para quem não tem que
    perder, como diz o primo Affonso.

    O peor é se tu pegas a doidejar com as mulheres, e saes do teu sério.
    Eras um marido perfeito como a santa religião o quer, e tenho cá uns
    agouros no peito que me não deixam fechar olho ha tres noites. Deus te
    defenda, homem, e te traga aos braços da tua mulher são e escorreito da
    alma e do corpo.

    Saberás que o mestre-escola anda de candeias ás avessas por que tu lhe
    não respondes á carta em que elle te pediu uma venera. Olha se lhe
    arranjas isso ainda que te custe pedir ao rei ou lá a quem é a tal
    coisa. O homem tem-me feito favores, quando eu preciso que elle me leia
    a relação dos foreiros. A vacca preta comeu o bicho, e morreu hontem á
    noite. Lá se vão cinco moedas e um quartinho com a breca. O centeio da
    tulha do meio deu-lhe o gorgulho, e tratei de o vender, a trezentos e
    quinze, foi bem bom arranjo; eram mil e duzentos alqueires.

    Olha cá, meu Calisto, disse-me a Joanna Pedra, que ouvira dizer ao
    Manuel da Loja, que ouviu dizer ao compadre Francisco Lampreia, que veiu
    de Bragança que lá lhe disseram que tu mandaras ir de casa de um
    negociante mais de cem moedas de ouro!!! Fiquei estarrecida. Pois tu lá
    não recebes do rei dinheiro que te sobre? Em que affundes tu tantas
    moedas, homem? Vê lá no que andas mettido, Calisto! E, se te fôr muito
    necessario algum dinheiro, cá estou eu para t'o mandar. Aquelle caixote
    de peças de duas caras fui ha dias escondêl-o na lareira da cosinha
    velha, porque tenho medo á ladroeira desde que tu andas por lá.

    Não te enfado mais. Responde sem demora, que estou muito consternada.

    Tua mulher que muito te quer
    _Theodora_.»

    Calisto Eloy dobrou a carta vagarosamente, e disse de si para comsigo:

    –Pobre mulher! já me sinto enfadado com as tuas cartas… Já as tuas
    sinceras babozeiras me incommodam e enjoam!… Agora vejo que tu eras
    quasi nada na minha vida. Não sei em que logar do meu coração estiveste,
    porque não dou pela falta, nem sequer a saudade me chama para ti!… Os
    contentamentos da minha vida passada deu-m'os o estudo. O coração dormia
    como os ventos da tempestade no bojo da nuvem negra, que serenamente se
    vae acastellando no horisonte. Eil-a começa a desfechar agora relampagos
    e coriscos. Mas o viver é isto! eu quero e preciso amar. Levam-me os
    impetos de uma vontade juvenil, e «a vontade é vida» como diz o Jorge
    Ferreira na Eufrozina. Amor! amor! que me caldeaste e retemperaste o
    peito nas tuas forjas! emborca-me os teus nectareos phyltros,
    embriaga-me este coração, que já não póde respirar de afogado nos seus
    ardores!…

    Disse, e tirou de uma charuteira de canudos de prata um havano, cujas
    ondulações de fumo lhe perfumaram o quarto e subtilisaram a phantasia.

    Depois, com forçado tregeito, estendeu o braço sobre uma banqueta de
    charão, em que assentava um tinteiro de crystal, e escreveu á esposa,
    n'este theor:

    «Prima Theodora e estimada esposa.

    Passo bem de saude; mas saudoso de ti. Não te tenho escripto, porque os
    negocios do estado me levam todo o tempo. Mandei vir dinheiro de
    Bragança, para emprezas de grande vantagem. Não te dê cuidado os meus
    gastos, que somos muito ricos, e não temos filhos. Até aqui vivemos
    miseravelmente, quando eu voltar a casa, quero que mudes de vida, prima.
    Hei de reformar o nosso palacete de Miranda, e viveremos como nossos
    avós, com representação e commodidades proprias d'este tempo. É preciso
    gosarmos a vida, que é curta. Não andes por lá a medir grão nem a tratar
    das aves. Entrega isso ás criadas, e faz-te a senhora e fidalga que és.

    Em quanto ao mestre-escola, e á sua exigencia do habito de Christo, devo
    dizer-te que o mestre-escola é um asno. Não respondo a taes cartas.
    Manda-o á tabua, e não admittas similhante palerma á tua conversação.
    Lembra-te que és uma Figueirôa, casada com um Barbuda.

    Se receberes ordem minha, em mão de algum negociante de Bragança, paga o
    dinheiro que disser a ordem.

    Não te lembres de infidelidades do teu Calisto. O primo Gamboa é um
    patarata sem juizo, que te diz essas coisas para te disfructar.

    Quando vier o recoveiro de Miranda, manda-me presunto, salpicões, e
    algumas ancoretas do vinho da Ribeira.

    Teu muito affecto e extremoso
    _Calisto_.»

    XXIV

    *A mulher fatal*

    Ás tres horas em ponto, parou uma sege de praça, á porta de Calisto Eloy
    de Silos. O bolieiro subiu ao terceiro andar, perguntando se s. ex.^a
    estava em casa. O morgado arregaçou com o pente as mechas do cabello,
    que lhe escondiam porção das escampadas fontes, apertou os cordões do
    rob-de-chambre na volta mais airosa da cintura, e desceu ao pateo a
    receber a visita.

    Saltou da sege, amparando-se levemente na mão de Calisto, uma mulher
    d'aquellas que Lucifer fazia, quando assaltava no deserto a pudicicia
    dos Antonios, dos Paulos, dos Pacomios e Hilarioens.

    Era alta e pallida: rutilavam-lhe os olhos como lustrosos azeviches á
    flor de um busto de marfim, algum tanto emaciado. Calisto machinalmente
    levou a mão ao coração: traspassara-lh'o uma azagaia electrica.

    –É muita delicadeza da parte de v. ex.^a, disse Iphigenia.

    –Oh, minha senhora!… tartamudeou o morgado da Agra, offerecendo-lhe o
    braço.

    –Parece, tornou ella quando iam subindo, que o meu palpite não me
    enganou…

    –O palpite de v. ex.^a?

    –Sim… eu contava com um cavalheiro no rigor da palavra… Delicadeza
    egual ao talento, qualidades que raras vezes se conformam.

    Entraram á sala. O morgado conduziu Iphigenia ao sophá, e disse com voz
    tremida:

    –A que devo eu a honra d'esta visita, minha senhora?

    –Abreviarei a minha historia e a minha pretenção. As suas horas deve-as
    v. ex.^a ao bem da patria, e indiscreta fui eu obrigando-o a estar fóra
    do parlamento a esta hora…

    –Minha senhora… que vale a patria, em comparação da honra que v.
    ex.^a me dá?! atalhou Calisto Eloy, com o coração nos labios a sorrir.

    –Sou brazileira. Pela falla me terá já conhecido…

    –Sim: eu estava notando no fallar de v. ex.^a, uma graça indisivel…

    –Meu pae era portuguez, capitão de mar e guerra. Foi de Portugal com D.
    João VI, e casou no Rio de Janeiro, com minha mãe, senhora de boa
    linhagem, mas de pouquissimos recursos. Nasci em 1830, e casei em 1846
    com um official general, do exercito do imperador do Brazil. Meu marido
    tinha sessenta e seis annos. Emigrára em 1834, com a patente de
    brigadeiro dada por D. Miguel, tendo sido coronel ainda no reinado de D.
    João. Gonçalo Telles offereceu a sua espada e intelligencia a Pedro II,
    serviu bravamente o imperio, e subiu em postos. Eu vivia orphã de pae e
    mãe, na companhia de parentes maternos, que pensavam constantemente em
    me dar posição. Casaram-me, e, se me não fizeram feliz, deram-me pae,
    amigo e mestre na pessoa de Gonçalo Telles.

    Ha dois annos que meu marido morreu. Deixou-me pouco, porque ninguem
    póde grangear muito com honra, principalmente na vida militar. Pouco
    antes de cair enfermo, me disse que, se algum dia me faltassem recursos
    e beneficios do governo brazileiro, viesse a Portugal e procurasse o
    amparo de alguns grandes fidalgos, seus parentes que elle me nomeou um
    por um; e ajuntou que, se os parentes me não amparassem, pedisse ao
    estado uma tença em attenção aos muitos serviços que elle fizera á
    patria em trinta annos, até ao dia em que foi promovido a coronel de
    cavallaria.

    Ha tres mezes que cheguei a Lisboa. Procurei os parentes do meu marido.
    Apeei á porta de grandes palacios, e esperei largas horas em grandes
    salas de espera, como viuva que anda requerendo esmola. Enganaram-se.

    Alguns, por mais tractos que deram á memoria, já não conseguiram
    lembrar-se de Gonçalo Telles de Teive Ponce de Leão; outros, os mais
    velhos, recordavam-se do sujeito, e lastimavam que elle deixasse o
    serviço da patria. Quando eu não tinha mais que lhes dizer nem elles a
    mim, eu levantava-me, elles levantavam-se, e despediamo-nos
    cerimoniosamente. A altivez com que eu os despreso, sr. Barbuda,
    authorisa-me a dizer-lhe que os miseraveis são elles: eu tenho comigo a
    riqueza do meu orgulho; e, se conservo os appellidos de meu marido, é
    porque elle foi talvez o unico de sua raça que os não desdourou…

    –Diz v. ex.^a muito bem–atalhou Calisto.–Que nobre alma as suas
    palavras me manifestam!

    –Ha dias, por não ter de portas a dentro coisa que me distraisse de
    pensares melancholicos, fui ao parlamento. Segui umas senhoras que iam
    subindo para as galerias. Um homem pediu-me o meu bilhete de admissão:
    eu não tinha bilhete, e ia descer algum tanto envergonhada, quando um
    deputado cortezmente me disse: «aqui tem uma entrada, minha senhora.»
    Agradeci, posto que a minha vontade seria regeitar. Entrei, quando v.
    ex.^a começava a fallar. Impressionou-me a sua eloquencia chã, os seus
    ares graves, a compostura, um não sei quê mais sério que os seus annos,
    permitta-me assim fallar. E, ao mesmo tempo, lembrou-me a recommendação
    de meu marido, respectivamente aos direitos que elle tinha de ser
    remunerado na pessoa de sua viuva. Eu nada sei de leis nem consultei
    quem as soubesse; ignoro se tenho direito a reclamar o que meu marido
    nunca reclamou. V. ex.^a póde de prompto responder-me?

    –Não, minha senhora. O que eu de prompto posso asseverar a v. ex.^a é
    que, em honra da memoria e cinzas do honrado brigadeiro do sr. D.
    Miguel, não erguerei minha voz humilde no parlamento, pedindo aos
    inimigos de D. Miguel favores para a viuva de Gonçalo Telles.

    –Em tal caso…–balbuciou D. Iphigenia–baldou-se a minha pretenção.

    –Queira v. ex.^a ouvir-me…–Molesta-se com o fumo do
    charuto?–perguntou elle erguendo-se.

    –Não, senhor.

    Calisto accendeu o charuto com ademanes theatraes, e voltou a sentar-se,
    proseguindo:

    –Se o marido de v. ex.^a houvesse profundamente estudado a sua arvore
    genealogica, ajuntaria alguns nomes, mais obscuros mas não menos
    antigos, á lista dos parentes em Portugal. Mais obscuros, digo eu;
    porém, a illustração dos mais claros não é de invejar, minha nobilissima
    senhora. Entre aquelles que se honram do parentesco dos Telles, dos
    Teives e ainda dos leonezes chamados Ponces de Leão, ha um que dispensou
    estes appellidos por se não demasiar em composturas nobiliarias. E esse,
    minha senhora e prima, sou eu.

    –V. ex.^a?!–acudiu Iphigenia.

    –Eu, que não costumo fallar de meus antepassados, sem invocar o
    testemunho dos tratadistas nobliarchicos, dos chronistas, dos
    genealogicos impressos e não impressos. Devo poupal-a a discursos, aliás
    curiosos, de agradaveis e historicas noticias: mais tarde v. ex.^a
    ouvirá com interesse as allianças travadas entre os meus maiores e os de
    meu parente Gonçalo Telles de Teive. Achou, pois, v. ex.^a um parente em
    Portugal. Boa estrella nos fez confluir a Lisboa; em boa hora me deixei
    vencer das instancias dos meus constituintes.

    –Eu estou maravilhada!…–exclamou Iphigenia–Ha presentimentos
    prodigiosos!… Que força estranha era esta que me impellia para v.
    ex.^a!? Subi as escadas de sua casa com desusada affoiteza. Comecei a
    fallar-lhe com segurança e tranquilidade extraordinarias! Não me lembrei
    que estava diante de um cavalheiro, que podia intender-me falsa e
    desairosamente… Em fim, eu fallava a v. ex.^a como se deve fallar… a
    um primo.

    –E mais que tudo a um amigo. E, como amigo, ouso perguntar a v. ex.^a
    qual é actualmente a sua situação.

    –Francamente responderei. Entrei em Lisboa com dinheiro, que poderia
    bastar á minha economica subsistencia de dois annos; porém, como ao fim
    de tres mezes, não se me antolhava amparo de ninguem, nem esperanças de
    alcançar a paga dos serviços de meu marido, pensei em trabalhar para não
    exhaurir o peculio que tinha. Li um annuncio, convidando mestra de
    linguas ingleza e franceza para collegio. Confiei bastante em mim, e
    apresentei-me aos directores. Fallei francez, e cuidaram que eu nascêra
    em França; em quanto a inglez, deram-me como bastante conhecedora da
    lingua. Pareceu-me que a minha posição melhorava; mas enganei-me. Eu
    levava comigo o fatal condão de algumas mulheres; dizem que ainda não
    estou velha nem feia…

    –Que favor lhe fazem, minha senhora!–atalhou Calisto mui risonho.

    –Pois este accidente, de que tanto se desvanecem algumas mulheres,
    tornou-se para mim supplicio. Não querem crêr que eu envolvi meu coração
    na mortalha de meu marido, no tumulo d'elle o fechei; e, se podesse,
    este resto de formosura atirara áquella campa, que me roubou um pae.

    –Então é certo que minha prima abjurou todas as alegrias do
    coração?–perguntou Calisto, já ferido n'alma por este desengano á
    paixão que o ia queimando com um crescer e desenvolvimento para pavores!

    –Todas as que não condigam com a minha situação de viuva.

    –Pois se a Providencia lhe deparasse um marido digno…

    –Maridos dignos são unicamente aquelles que affagam como a filhas as
    mulheres; são aquelles que as mulheres estremecem como paes; são os que
    concentram todo o seu viver no pequenino ambito da familia, na placidez
    e silencios de almas que se contemplam mudas, quando as vozes do coração
    já não tem que dizer. Eu experimentei estes contentamentos ao lado de um
    pae, que me deu todo o seu saber quando já não tinha forças para manejar
    a espada. Não se podem repetir as situações do meu passado; lembro-as
    com saudade; mas não cogito nem levemente em revivêl-as. Aqui tem v.
    ex.^a a sincera exposição do que sou. Veiu isto a dizer-lhe que a vida
    de mestra, que adoptei, me é golpeada de desgostos e repugnancias que me
    fazem desgraçada.

    –E como seria v. ex.^a feliz?–interrompeu Calisto.

    –N'uma casinha entre duas arvores, com os meus livros e com as minhas
    saudades. Ambiciono muito, porque ha pessoas abastadas que nunca puderam
    conseguir esta felicidade, tão moderada apparentemente.

    Ergueu-se Calisto Eloy de golpe, avisinhou-se da brazileira, tomou-lhe a
    mão com solemnidade, e abriu do peito estas graves e doces vozes:

    –Prima Iphigenia, eu não permittirei que a sua mocidade vá
    emmurchecer-se n'uma casinha entre duas arvores. Para as arvores e
    flôres se fizeram as aves; e, todavia, na estação desabrida, umas aves
    desferem remontado vôo a outros climas, e outras pipilam enfezadas de
    frio e fome. Na estação das manhãs regorgeadas e das tardes inspirativas
    terá v. ex.^a a sua casa bem assombrada de arvores e rodeada de relvas e
    fontes que retemperem as calmas do estio. Porém, no inverno, gosará o
    aconchêgo e regalos que as grandes populações offerecem. Não lhe admitto
    replicas, prima. Achou um parente de edade authorisada, que requer
    obediencia. Agora, fallar-lhe-hei de mim. Sou rico, não tenho filhos,
    com quanto seja casado…

    N'este ponto do discurso, Calisto de Barbuda fez ama visagem funebre, e
    correu os dedos vertiginosamente por sobre o bigode, ainda escasso.
    Depois, desentranhou um suspiro cavo, e continuou:

    –Minha prima e mulher, se alguma vez se encontrar com v. ex.^a
    abrir-lhe-ha os braços de parenta. É uma creatura feita no campo, dotada
    apenas das luzes naturaes, que a levam pelo melhor caminho da felicidade
    n'este mundo. Casei, por que era necessario que o vinculo dos Figueirôas
    voltasse á casa d'onde saíra. Acho-me ha vinte e alguns annos ligado á
    mulher, que não devia ser minha. E, se ella é feliz, isso prova a muita
    probidade e resignação com que me tenho conformado ao meu destino…

    Fez uma breve pausa, e proseguiu:

    –V. ex.^a deu largas á sua alma: consinta que eu seja avaro do prazer
    de uma expansão.

    –Porque não ha de sêl-o?–accudiu D. Iphigenia, interessada na
    commovente historia.

    –Não sei o que é felicidade. Tenho quarenta e quatro annos, e ainda não
    vi uma aurora benigna. Muitos annos procurei aturdir-me no estudo.
    Roía-me o abutre de um desejo vago; mas eu, que me segregára do mundo
    para o escondrijo da minha bibliotheca, se ás vezes passava de relance
    entre mulheres, que poderiam espertar-me paixões, fitava n'ellas como
    idiota que perdeu a memoria da terra natal, e se quêda espantado das
    coisas que ligeiramente lhe espertam a lembrança. Se alguma vez me
    surpresou algum sentimento estranho de affecto, podia tanto comigo a
    consciencia da sujeição ao dever, que o mesmo era cerrar os ouvidos da
    alma ao quer que era, entidade dupla, que me segredava delicias de uma
    vida incognita. Estas breves e poucas pelejas, com o discorrer dos
    annos, cessaram. Eu tinha consummado a paralysia do coração, e chamado
    sobre mim todos os habitos da velhice. A minha vinda para Lisboa foi o
    resurgimento da vida, sepultada antes de haver consciencia de si.
    Achei-me entre homens, aquecidos á luz d'este seculo. Na athmosphera
    d'esta cidade ha perfumes que vaporam do coração das esposas amadas, das
    amantes queridas, das pombas ideaes, que volteam á volta dos espiritos
    anhelantes de cada homem. Pulou-me como arfar de vulcões a vida no
    peito. Vi-me no passado, e tive pesar, e saudade, e pejo da minha
    mocidade… Onde vão estas candidas revelações do meu pobre coração? Não
    na enfadam porventura minha senhora?

    –Interessam-me e commovem-me–disse com affectuosa sympathia a
    brazileira–Vae dizer-me que se apaixonou?

    –Tive um delirio–respondeu o morgado, compassando as palavras em tom
    muito do intimo–Um delirio, sonho de infeliz, que se desperta a
    arrancar do seio uma frecha. Foi o estremecer do terremoto, que alarma
    terrores, e se aquieta. Medi a profundeza da minha alma, e pude vêr que
    eu seria capaz de um crime… E, todavia, se algum seio de mulher
    podesse comprehender quanta pureza sanctificava os meus affectos!… Se
    alguem visse a aguia que por tão alto avoeja, sem descer ás searas a
    roubar um grão!… Fallo a um espirito elevado, que tem obrigação de me
    comprehender… Agora, senhora, perdão! Eu disse tudo: confessei-me
    diante de um anjo de Deus. Mostrei-lhe o desamparo d'este meu viver. E,
    se estas lagrimas alguma coisa significam, é uma supplica de amizade. Eu
    vejo ahi uma formosura que dobra a alma, e ouso procurar o
    compadecimento de uma amiga, porque sei agora que ha mulheres, diante
    das quaes um homem precisa chorar.

    Calou-se o morgado. Iphigenia encarava n'elle com certo assombro e
    estranheza de pessoa que não póde, nem quer conhecer dos sentimentos que
    a alvoroçam. O inesperado remate d'este dialogo figurou-se-lhe a ella a
    passagem de um romance, que se não presa de muito verosimil. Porém, como
    quer que a viuva do general Ponce de Leão fosse grandemente lida em
    novellas francezas, o caso não lhe pareceu tão extraordinario como ao
    leitor e a mim, quando m'o referiram.

    Passados momentos, Iphigenia, contemplando, sem as vêr, umas figuras
    chinezas do seu leque, disse:

    –De maneira que esta apparição imprevista de uma mulher desafortunada,
    se deu logar á expansão, tambem foi causa a uma dôr de v. ex.^a!…

    Calisto entrelaçou os dedos em postura supplicante, e exclamou:

    –Chovam-lhe os archanjos do Senhor quantas felicidades a
    bem-aventurança encerra! Nunca uma nuvem escura lhe ennegreça os seus
    sonhos de felicidade! Multipliquem-se em alegrias eternas para v. ex.^a,
    estes instantes de ventura que me deu, minha misericordiosa amiga!

    Nenhuma paixão subita estalou ainda com estrondos d'este tamanho. A
    gente comprehende como estas coisas acontecem; casos se podem ter dado
    comnosco da mesma natureza, mas o que nós não fizemos nunca, se o amor
    nos assaltou de improviso, foi fallar assim, romper tão depressa em
    vehemencias de enthusiasmo. Nós, homens creados mais ou menos por salas,
    affeitos a subordinar o sentimento ás praticas da civilidade,
    desafogâmos em extasis e suspiros, contemplamos embellezados a mulher
    que nos endoudece, respondemos com frioleiras gagas a uma pergunta, que
    nos ella faz com toda a presença do seu espirito. Toda a lastima é pouca
    para os ridiculissimos tregeitos que fazemos então.

    Ora, isto é bom que assim continue a ser. Esse quarto de hora de suprema
    realeza das mulheres é tudo que ellas tem, e pouco mais. Esse espaço de
    fascinação, que nos embrutece, é a divinisação d'ellas. Ás pobresinhas,
    quando o tempo as apêa dos altares, e os maridos convertem a prata dos
    thuribulos em caixas de rapé, fica-lhes sempre a memoria consolativa
    d'aquelle quarto de hora.

    Tornando ao ponto, queria eu dizer, que o morgado da Agra de Freimas não
    fallaria d'aquelle modo, nem tão do intimo da alma apaixonada, se
    tivesse experiencia dos usos da boa sociedade. Os bons usos ordenam que
    o homem se declare á mulher que ama, depois que as impressões repetidas
    de vêl-a e ouvil-a bajam desfalcado o vigor do sentimento. A praxe
    requer primeiro o extasis, depois as semsaborias tratamudas, ultimamente
    a declaração, com intervalo de tres mezes ao extasis.

    XXV

    *Perdido!*

    Fecharam-se as camaras.

    Calisto Eloy desamparára a sua cadeira do parlamento, quinze dias antes
    de encerrada a legislatura. Era opinião geral que o deputado de Miranda,
    desgostoso do governo e da opposição, se retirara, convicto da fraqueza
    de seus hombros contra o colosso, que tombava sobre o desangrado
    Portugal.

    As gazetas realistas indigitavam Calisto como exemplo de peito illustre
    e invulneravel no marnel de febres podres em que ardiam e patinhavam
    miseraveis ambiciosos. Deram-lhe, á conta d'isso, varios nomes gregos e
    romanos, que lhe ajustavam tão a primor, como a verdade historica á
    legenda das fabulosas virtudes de Grecia e Roma. A opposição liberal
    lamentava que as medidas obnoxias e hybridas do governo afugentassem da
    camara um deputado como Benevides de Barbuda, a cuja alta intelligencia
    e virtude repugnavam os desatinos da camarilha. Calisto Eloy lia estas
    coisas nas gazetas, e dizia entre si:

    –Como hei de eu crer no que vejo escripto a respeito dos outros!…

    Ao tempo que estes juizos dos publicistas eram impressos e mandados á
    posteridade, estava o morgado da Agra no hotel de Cíntra, cuidando em
    alugar e trastejar com elegancia britannica uma casa, entre moitas de
    arbustos, a qual parecia feita para a rainha das flores ou para
    repousar-se em fresca sesta a aurora.

    Decoradas as paredes interiores, cobertos de oleado os pavimentos, e
    afestoadas as paredes exteriormente com lilazes e jasmineiros, baunilhas
    e eras de verdejante urdidura, entrou n'aquella casa D. Iphigenia,
    conduzida pelo braço de Calisto, e seguida de uma senhora de porte
    honesto e recommendavel, que vinha a ser aquella D. Thomazia Leonor, em
    honra de quem as musas do defuncto tenente suspiraram acrosticos. Mais
    atraz, iam duas criadas, e um servo fardado de casimira côr de pombo,
    com gola e canhões escarlates, golpeados de listas amarellas,
    distinctivos da libré dos Ponces de Leão de Hespanha.

    Iphigenia foi surprehendida pelo seu gabinete de estudo, decorado de
    graciosas estantes e _étagères_, cheias de livros luxuosamente
    encadernados, acondicionados com tão elegante symetria que induziam
    muito mais á contemplação que á leitura. O restante d'aquella vivenda de
    fadas era por egual magnifico, em gosto e riqueza.

    Calisto deu posse da casa a sua prima, e retirou-se ao hotel, para que
    ella sestiasse e se recobrasse da fadiga e calma da jornada.

    Ao descair da tarde, o morgado foi bater á porta d'aquelle eden.
    Iphigenia saiu-lhe ao encontro com um ramilhete de flores, e disse-lhe:

    –Aqui tem as primicias do seu jardim, primo.

    Calisto aspirou o aroma das flores, osculou a mão que lh'as offerecera,
    e murmurou:

    –Fechem-se os meus olhos, quando eu as poder vêr sem lagrimas de
    gratidão.

    –Lagrimas… para que?–Volveu ella com meiguice.–As lagrimas
    deixemol-as aos infelizes. O primo não comparte do meu contentamento?
    Não vê que me realisou o meu sonho com tamanho excesso de delicias, que
    eu não me atrevera, sequer, a imaginar? Sinto-me ditosa!… Ainda não
    quiz pensar um instante se estas alegrias podem descair em magoas…
    Estou sonhando, e não quero que me acordem. Seria crueldade dizerem-me
    que ha viboras debaixo d'estas alcatifas de flores. Isto deve ser
    paraizo sem culpa, ignorancia santa do porvir sem pomo de arvore da
    sciencia que m'o descubra. Não é assim?…

    –Que fallar o seu prima!–disse com vehemente, mas suffocado amor, o
    morgado–Que melodias!… Eu não sei responder-lhe… Apenas sei
    escutal-a. N'uma composição dramatica de Sá de Miranda, chamada
    _Vilhalpandos_, ha um epitheto dado a uma mulher, o qual eu não podia
    perceber, sem que o baptismo das doces lagrimas me chamassem o coração á
    vida.

    –Sempre lagrimas!…–atalhou Iphigenia–Então que é que diz o Sá de
    Miranda?

    –Na bocca de um amante, que encontra a sua amada, põe estas palavras:
    «mulher santissima». Quem disse mais n'este mundo? os seus poetas
    francezes disseram coisa mais peregrina?… E n'esta mesma scena, poucas
    linhas abaixo, diz o amante a Fausta: «Sabes que sonho?». Que immenso
    amor devia de ser o de Antonioto, que assim perguntava á vida de sua
    alma: «Sabes que sonho?»

    –_Fausta_!… é um nome lindo, disse a mimosa viuva.

    –Se não existisse Iphigenia…–accudiu Calisto. Já este nome me soava
    docemente quando, na minha mocidade relia as angustias da filha da
    Agamemnão, cujo sacrificio o oraculo de Aulida demandava.

    –Ah! tambem eu conheço essas angustias da tragedia de Racine. Quantas
    vezes eu, nas minhas horas tristes, repetia com a Iphigenia do grande
    poeta francez, e com o espirito na alma de minha mãe, assim como ella o
    tinha no afflicto rosto da sua:

    _Ah!
    Sous quel astre-cruel avez-vous mis au jour
    Le malheureux objet d'un si tendre amour?_

    O primo, continuou ella, conhece perfeitamente Racine e Corneille?

    –Perfunctoriamente. Conheço melhor Euripedes e Seneca. Pendi sempre á
    lição de classicos gregos, latinos e portuguezes. Crê-se nas provincias
    que o saber humano está n'isto. Os francezes começo a presal-os agora,
    porque… não ha linguagem que não sôe divinamente fallada por minha
    prima.

    –Essas lisonjas–volveu ella sorrindo–aprendeu-as nos seus livros
    velhos, primo Calisto?

    –A lisonja deixará alguma hora de ser mentira?… Eu não podia
    mentir-lhe, prima Iphigenia. Não!… Os meus classicos só me ensinaram
    duas palavras, que eu possa dizer-lhe: Mulher Santissima!

    Iphigenia deixou-se amorosamente beijar nos dedos.

    A natureza de Cintra, incluindo os rouxinoes d'aquellas ramarias,
    poderia espantar-se: eu, não.

    XXVI

    *E ella amava-o!*

    Era já pleno estio. Os galans mais hardidos de Lisboa estanceavam por
    Sitiaes, por Pisões, e por aquellas varzeas de Collares, a engarrafar
    lyrismo para gastarem por salas nas noites de inverno.

    O primeiro d'elles que descortinou por entre arvores a formosa
    brazileira foi alviçarando aos outros a ondina incognita, que saira das
    vagas a buscar camilha de folhagem e boninas entre as fragas da serra da
    lua.

    Entram os agitados monteiros da estranha caça a circumvagarem nas
    encostas e oiteirinhos que rodeavam a vivenda de Iphigenia. Uns a viam
    ao sol posto, outros ao arraiar da manhã, e outros, quando ella
    perpassava por entre aleas de cylindras para uma gruta fechada como
    concha de perola.

    A presença de Calisto Eloy, confundido com os arbustos floridos da
    casinha mysteriosa, augmentou a curiosidade dos indagadores. Uns
    consideraram esposa do deputado a bella esquiva; outros aventaram
    hypotheses mais romanticas, mas menos honestas. Á primeira conjectura
    oppunha-se uma forte razão negativa: se era marido, porque vivia no
    hotel do Victor? Á segunda conjectura, contradictava outra razão
    ponderavel: se era amante, que descuidado amante era elle, que se
    encerrava no seu quarto do hotel, durante as noites,–facto averiguado
    minudenciosamente pelos interessados? O mysterio, pelo conseguinte, a
    nublar-se, e as esporas de uma curiosidade impaciente a picar os moços
    ociosos, e os ricassos velhos, que espreitavam por entre a rede das
    sebes verdejantes, esta Susana, mais cuidadosa do que a outra, que
    accendia fogos nos lubricos juizes de Israel.

    Entre os mancebos, estremava-se um, que passava grandes espaços de tempo
    em quietismo esculptural debaixo de um olmo, que sobranceava a casa de
    Iphigenia. Sempre que ella, á hora da maior calma, se aproximava da
    janella do seu gabinete a respirar o frescor do jardim, via o
    contemplativo sujeito de braços cruzados, e olhos fitos. Mas, assim que,
    ao intardecer, os arredores da casa começavam a ser frequentados, o
    moço, como quem se resguarda, desapparecia.

    Era este sujeito aquelle Vasco da Cunha, que esperava a herança de uma
    tia para casar com Adelaide Sarmento. Os olhos indifferentes de
    Iphigenia assetearam-lhe a pia alma, n'um d'aquelles dias em que elle
    viera de Lisboa a Cintra para assistir á novena de Santo Antonio de
    Padua, celebrada solemnemente na capella de uma tia marqueza. Ou porque
    o ascetico fidalgo andasse com o coração amollecido pelas praticas
    piedosas, ou porque Iphigenia se lhe figurasse algum d'aquelles
    seraphins que visitavam os anachoretas da Thebaida, o certo é que não
    houve mais despegar-se-lhe a phantasia d'aquella imagem, que se
    interpunha entre elle e o santo filho de Martim de Bulhões.

    Iphigenia attentou na pertinacia do homem, e contou ao primo Calisto,
    gracejando, a tempestade amorosa que lhe andava imminente na pessoa
    d'aquelle sujeito. Assomaram differentes côres ao rosto do morgado.
    Quizera elle dissimular o sobresalto com o sorriso: mas a rubidez
    sanguinea dos olhos, se o dramaturgo inglez a visse, arranjaria
    d'aquelle aspeito feroz assumpto para mais scelerado preto.

    Iphigenia lisongeou-se d'aquella explosão de lavas que archejavam na
    testa do homem.

    _Lisongeou-se_!… Pois amava-o ella?!

    Não sei com que direito me fazem esta pergunta assim com uns visos de
    espanto! Amava-o como quem não tinha amado nunca. E para lisongear-se de
    incutir ciume não lhe fôra mister amal-o, digamol-o de passagem, e em
    nome da consciencia incorruptivel das senhoras, cuja attenção e reparo é
    felicidade que eu anteponha a todas.

    Amava-o, sem pensar os beneficios extremamente delicados com que elle
    lhe dulcificava a existencia. Amava-o captiva do quer que é que primeiro
    prende a vontade da mulher, sem dependencia dos dons da alma. Calisto
    Eloy de Silos estava uma esbelta figura de homem. A cara compuzera-se
    arabicamente. O bigode cerrado e negro caía-lhe sobre as claviculas. O
    descostume da leitura restituira-lhe o aprumo da espinha dorsal. O
    ventre baixou ás proporções rasoaveis. No trajar; refinava em elegancia
    e gosto, subordinando-se ao alvitre do alfaiate. Todo aquelle ar de
    meneios, posturas e geitos accusava os fidalgos espiritos, resgatados da
    brutesa da antiga vida. Póde ser que alguma affectação lhe maculasse os
    modos e garbo das attitudes: sem embargo, o senhor da Agra de Freimas
    era homem para merecer, sem favor, a consideração de qualquer dama
    superciliosa na escolha.

    Se isto não bastasse a ponderar no animo de Iphigenia, mal poderia
    resistir-lhe o coração aos respeitos, porventura demasiados, com que
    elle interpunha largo stadio entre as expansões da palavra e o minimo
    vislumbre de qualquer intento menos decoroso. Casos houve era que ella o
    surprehendeu com os olhos marejados de lagrimas e um sorriso nos labios,
    sorriso supplicante, de perdão para as lagrimas. Casos houve em que ella
    sentiu ferver-lhe o desejo de lhe pedir que, em vez de lagrimas, lhe
    desse um beijo na face, um d'aquelles beijos, que não tiram nada á
    formosura do corpo nem da alma, porque no rosto augmentam o rubor–o que
    é bello–; e na alma convencem a consciencia da adoração–o que é
    sublime. Difficil coisa será achar a virtude que se furta a estes
    conflictos! Virtude, que se esconde e encolhe para não ser alcançada
    pela flecha de um beijo, ás vezes acontece que, por muito esquivar-se,
    apouca-se, vapora-se, safa-se e ninguem sabe como ella se foi, nem como
    é possivel que um vaso fechado de essencias aromaticas appareça vasio
    sem ter sido quebrado. Este caso, naturalmente, anda explicado na
    esthetica. Eu hei de vêr o que é isto quando tiver vagar.

    Vamos já rodeando por longe dos ciumes de Calisto Eloy. Revertamos ao
    assumpto.

    Iphigenia tomou-lhe amorosamente da mão e disse-lhe:

    –Meu primo, eu não quero lêr em sua alma uma pagina que se não
    assimelha ás outras.

    –Pois que é, prima?… perguntou elle enleado e tremente.

    –Eu não quero ter de justificar-me, tornou ella balbuciante.

    –Justificar-se….

    –Sim. Duas palavras que bastem a definir-me. Se eu perder a sua
    amizade, quero morrer. Veja quanto eu farei para lh'a merecer.

    Calisto dobrou o joelho, e beijou a mão, que lhe estreitava
    calorosamente, a d'elle.

    Seguiu-se silencio de alguns minutos.

    Se houvesse elos na cadeia da felicidade humana, o ultimo, a maxima
    perfeição, devia prender com os gosos celestiaes. Esse ultimo elo não o
    ha: se existisse, o morgado, n'aquelle instante, perderia a consciencia
    d'esta vida, e entraria na exaltação beatifica dos anjos.

    A fortuna dos corações que desbordam da felicidade no amor, deve ser
    aquella _Fortuna parva_, á qual Servio Tullio erigiu templos. Tito
    Livio, a meu vêr, toma o _parva_ no sentido de _baixa_ ou _pequena_: eu
    traduzo latamente «fortuna lorpa»; porque não conheço, quem, n'uns
    lances analogos ao de Calisto, mantivesse a inteireza de sua razão e
    espiritos. É que o morgado não disse coisa que mereça escriptura, elle
    que tão donosamente, em supremos apertos, face a face do dr. Liborio,
    tirou da veia copiosa repuchos de eloquencia!

    No dia seguinte, quando as aves abraseadas do sol das onze horas, se
    embrenhavam nos tufos das ramagens, lá estava Vasco da Cunha debaixo da
    arvore.

    Á mesma hora, Calisto Eloy circuitava a parede da matta em que se
    emboscava o religioso mancebo, saltava de manso, e quasi a subitas
    passava rente d'elle hombro a hombro.

    Vasco não conheceu o homem que o fitava com sobranceria. Tres mezes
    antes se havia encontrado em casa do desembargador Sarmento com um
    Calisto, que não tinha que vêr com aquelle homem.

    Sorriu-se o morgado, e disse-lhe:

    –Costuma v. ex.^a intermear as suas novenas com a oração mental nas
    brenhas e florestas, á imitação dos antigos padres? Ou está pedindo aos
    deuses infernaes que lhe levem a alma da tia, e lhe deixem o vinculo da
    mesma para poder maridar-se com a sr.^a D. Adelaide Sarmento?

    Alumiou-se Vasco de uns longes de suspeita, e cuidou estar ouvindo a voz
    mesurada e sonora de Calisto.

    –O senhor… disse elle.

    –Eu, que?–atalhou o morgado á suspensão do moço.

    –Com que direito vem aqui incommodar-me?–tornou o mordomo das tres
    virtudes cardeaes.

    –Não o incommodo, nem me incommodo. Dir-lhe-hei muito de relance que
    mora alli n'aquella casa uma prima de um Barbuda, e accrescentarei que
    tal dama não faz novenas a santo nenhum das particulares devoções de v.
    ex.^a. Se o sr. Vasco da Cunha aqui voltar ámanhã, continuaremos a
    palestra.

    Vasco não voltou.

    XXVII

    *A saudade e a sciencia em dialogo*

    Dois mezes depois de fechado o parlamento, D. Theodora Figueirôa, farta
    de escrever cartas, e de esperar respostas que lhe iam a razão de uma
    por dez, mandou chamar aquelle Braz Lobato, professor de instrucção
    primaria, e, com os olhos vermelhos de chorar, abriu do peito oppresso
    estas palavras:

    –Que me diz vocemecê sr. Braz, á demora do meu homem?

    –Eu estou passado, fidalga!–disse o mestre-escola empunhando e
    sacudindo o queixo inferior.–Seu marido, a minha opinião é que ficou
    por lá embeiçado n'alguma mulher. Lisboa é uma Babylonia, fidalga. Quem
    para lá vae com um bocado de temor de Deus, perde-o; e quem não tiver
    muito lume no olho, e alguns annos de tarimba e experiencia do mundo,
    como eu, póde contar que em lá chegando fica reduzido á expressão mais
    simples.

    –E que é ficar reduzido á… que? como disse vocemecê? perguntou D.
    Theodora.

    –Quero dizer que dá com as canastras n'agua. Foi o que succedeu ao
    fidalgo, futura-se-me isto! Sabio era elle, mas faltava-lhe a pratica do
    mundo. Foi uma asneira mandal-o a côrtes; eu bem não queria… mas
    emfim… tanto me azoinaram os abbades e os lavradores, que eu deixei-me
    ir com os outros… (O impostor que tinha votado em si!) E que diz elle
    nas cartas a v. ex.^a?

    –Lá por milagre recebo alguma… Aqui tem vocemecê a que veiu aqui ha
    dias atraz. Ora leia lá isso.

    Braz montou os oculos de cobre, e leu:

    «Prima Theodora. Cessa de ter cuidado com a minha saude: eu passo
    soffrivelmente. Não me pude ainda desembaraçar dos negocios do estado,
    que me não deixam tomar fôlego. Á vista te contarei o que tenho feito a
    favor da nação. Tem tu saude, e descança da vida trabalhosa que tens. Ha
    de ir ahi um sujeito de Bragança para lhe entregares oito centos mil
    réis. Vende o grão todo que houver, e diz aos lavradores que por lá tem
    dinheiro a juro que eu preciso recolher essas quantias para negocio de
    mais interesse. Teu primo e affectuoso marido _Calisto_.»

    Ahi tem vocemecê!–continuou a esposa atribulada, com os braços em cruz
    e as mãos nos sovacos.–O dinheiro, que ha sete mezes tem saido d'esta
    casa, é um louvar a Deus! Ainda o dinheiro vá que o leve a breca! mas
    andar-me por lá o marido, o meu homem, que d'antes, se ficava uma noite
    fóra de casa, era lá uma vez de anno a anno, e dizia elle que não estava
    bem senão á beira de sua mulher!… Que me diz a isto sr. Braz? Então
    vocemecê é de parecer que elle está por lá embeiçado? Pois o meu Calisto
    seria capaz d'isso?!

    –Olhe fidalga–respondeu o professor de instrucção primaria fazendo com
    os beiços um bico e logo um arco, tregeitos meditabundos com que elle
    usava solemnisar os dizeres graves.–Um homem cá nas aldeias é uma
    coisa, e nas cidades é outra. Eu corri mundo, e sei o que fui. As
    mulheres das cidades tem umas artes e manhas, que, se um homem se não
    precata, ás duas por tres, não sabe de que freguezia é. Ainda que a
    gente não queira aquelles demonios taes esparrelas armam, que não ha
    remedio senão cair em fragilidades proprias da fragil natureza humana,
    como o outro que diz. O sr. morgado já não é rapaz; mas tambem não é
    velho. Aquillo, em quanto a mim, e oxalá que eu me engane, deu por lá
    com alguma menina que o embruxou…

    –Sabe vocemecê que mais–interrompeu com abrupta resolução D.
    Theodora–pégo em mim, metto-me n'uma liteira, e vou por ahi abaixo até
    á capital. É o que eu faço!

    –Essa idéa precisa de ser pensada com prudencia–observou o
    mestre-escola, erguendo-se, e dando alguns passeios na eira, onde
    estavam dialogando–Se a fidalga fôr, esta casa fica sem dono, entregue
    á criadagem, e o sr. morgado póde zangar-se. De mais a mais, ora
    supponhamos nós que o senhor seu esposo está, como elle diz na sua,
    occupado em negocios do estado; a ida de v. ex.^a vae atrapalhal-o, por
    que elle não a ha de deixar sosinha na estalagem. Depois a fidalga vae,
    palavra puxa palavra, um diz uma coisa, outro diz outra, e afinal
    desavem-se, e começam a viver de esguêlha. A minha opinião é que v.
    ex.^a se deixe estar em sua casa, e espere a vêr para onde correm os
    ventos. Se elle por lá anda com a cabeça a juros, deixal-o pagar o
    tributo, que elle cairá em si. Antes isso que quebrar uma perna. Lá o
    dinheiro isso é o menos. A casa dá para tudo, graças a Deus. A fidalga
    não sabe o que tem de seu. Lá em quanto ao marido, uma extravagancia não
    lhe dá nem tira. Salomão foi o mais sabio dos homens e teve trezentas
    mulheres e setecentas concubinas, e mais acho que foi santo. David,
    tambem era santo, e caiu tambem na fraqueza de amar a mulher de um
    capitão, general, ou uma coisa assim. As sagradas escripturas contam
    muitos casos d'estes… Pois emfim, a fidalga não esteja ahi a chorar.
    Seu marido ha de voltar são e salvo. O mais que eu posso fazer-lhe é ir
    por ahi abaixo ter com elle, e desenganar-me por meus proprios olhos.

    –Isso é que era bom, sr. Braz!–exclamou Theodora, limpando as lagrimas
    ao avental de chita.

    –Eu estou ainda com a idéa ferrada do habito de Christo. É cá uma birra
    com o boticario, que disse ao cirurgião que eu havia de ser cavalleiro
    do habito quando elle fosse papa. O sr. morgado não me responde ás
    cartas: é um ingrato d'aquella casta; mas, emfim, os favores que lhe fiz
    na eleição não me arrependo de lh'os fazer… Emfim, fidalga, se v.
    ex.^a quer, eu vou ter-me com o sr. morgado, e póde ser que venha com
    elle para cima e com o habito.

    –Está dito!–clamou Theodora–Vocemecê vae, e eu faço-lhe as despezas.

    –Isso lá como v. ex.^a quizer… Eu, a fallar verdade, não estou muito
    indinheirado, e alguns vintens que tenho todos me hão de ser precisos
    para pagar os direitos da mercê.

    * * * * *

    Ahi vem Braz Lobato, caminho de Lisboa.

    XXVIII

    *Ingratidão de um deputado*

    Braz Lobato, antigo sargento de milicias, e antigo borra de frades
    franciscanos, era legitimo homem para farejar Calisto em Lisboa. Cuidou
    elle que encontraria o marido de D. Theodora de Figueirôa nos logares
    mais celebrados e admirados da capital, segundo é fama nas provincias.
    Como o não encontrasse na Memoria do Terreiro do Paço, foi procural-o ao
    Aqueducto das Aguas-Livres. Depois de baldadas estas pesquisas, outro
    qualquer sujeito desanimaria; Braz Lobato, porém, resolveu ir ao Paço
    das Necessidades em busca do seu patricio, porque, no seu modo de julgar
    as correlações dos altos poderes do estado, Calisto Eloy devia
    frequentar regularmente a casa real.

    Perguntou o mestre-escola affoitamente á sentinella do paço se o
    representante nacional, morgado da Agra estava em palacio. A sentinella
    mandou-o entrar, e que perguntasse ao commandante da guarda. O
    commandante mandou-o a um fidalgo que vinha descendo, e o fidalgo
    interrogado mandou-o á fava.

    Com o quê, Braz Lobato saiu á rua, e perguntou a um aguadeiro se alli
    não morava o rei. E, como soubesse que a familia real estava em Cintra,
    conjecturou que os deputados, e particularmente Calisto, deviam estar em
    Cintra para de lá governarem a monarchia.

    Chegou o mestre-escola a Cintra, e descavalgou do jumento portador, á
    porta do palacio. Fez as suas perguntas á sentinella com aquelle ar
    marcial que lhe ficou das milicias. Esperou a vinda de um camarista,
    velho fidalgo attencioso, que sorriu da supposição do provinciano, e lhe
    disse que o deputado Calisto Eloy residia no hotel do Victor.

    Chegado ao hotel, á hora mais de passeio, por fim da tarde, não
    encontrou Calisto, e foi demandal-o nos logares mais frequentados.
    Abeirou-se de um grupo de sujeitos, que inculcavam gente grave, e
    perguntou por Calisto Eloy de Silos Benevides de Barbuda.

    Esta pergunta coincidiu com o caso de estarem aquelles individuos
    aventando hypotheses sobre a formosa solitaria, cujo ninho de folhas e
    flores apenas Calisto de Barbuda frequentava.

    O ar provinciano de Braz fez crêr aos curiosos que o homem, sendo
    patricio de Calisto, poderia esclarecel-os ácerca da creatura
    mysteriosa.

    –D'onde conhece vocemecê o sr. Barbuda?–perguntou um.

    –Conheço-o desde menino, que é da minha terra, e eu sou o professor de
    instrucção primaria lá do concelho do sr. morgado da Agra de Freimas.

    –Então, volveu outro, ha de saber se a senhora que está com elle em
    Cintra é parenta d'elle, ou mulher ou amante.

    –A mulher do sr. morgado ficou em casa; parenta não me consta que elle
    tenha cá nenhuma. Isso ha de ser negocio de contrabando, em quanto a
    mim. Fazem favor vv. s.^as de me ensinarem o caminho da casa onde elle
    está?

    Conduzido á espessa cancella de ferro, que estremava o jardim do caminho
    publico, Braz Lobato puchou a campainha. Fallou lhe um criado de libré,
    o qual, perguntado se o sr. morgado estava em casa, respondeu que
    n'aquella casa morava a viuva do general Ponce de Leão.

    Dada a resposta, o criado rodou solemnemente nos calcanhares, e deixou o
    mestre-escola com o nariz n'um orificio da grade, e os olhos n'outros
    orificios, espreitando os massiços de murtas, que escondiam a fachada da
    casa.

    D'ahi a pouco lobrigou elle entre os arbustos um galhardo homem com uma
    senhora pelo braço, atravessando vagarosamente para um bosque de
    aveleiras.

    Fitou-se n'elle; mas não viu coisa que lhe désse lembranças do fidalgo
    da Agra. Cuidou que o tinham enganado os lisboetas, e desandou para a
    hospedaria.

    Novamente informado, resolveu esperar que o morgado entrasse ás dez
    horas, consoante o costume.

    Sentou-se á porta do pateo.

    Viu entrar um empavesado sujeito retorcendo as guias do bigode, com os
    olhos postos na lua atravez de uma luneta. Levou urbanamente a mão ao
    chapéo. Calisto, divertido pela acção civil do sujeito, ia corresponder,
    quando reconheceu o mestre-escola.

    –Você aqui, Braz! disse elle.

    O professor arregaçou as palpebras, e exclamou:

    –Que vejo! a voz é a do fidalgo!

    –Sou eu, não tenha duvida nenhuma.

    Braz levou a mão á testa, e da testa ao peito, e de um hombro ao outro,
    murmurando:

    –Em nome do Padre, e do Filho, e do Espirito Santo! Coisa assim nunca
    os meus olhos esperaram vêr!… V. ex.^a é outro homem!… Eu estarei a
    dormir! E esfregava os olhos, desconfiando seriamente que estava
    dormindo.

    –Entre cá dentro, disse o morgado.

    Entrados á sala, perguntou o fidalgo com um ar secco:

    –Que novidade o traz aqui?

    –Vim por ahi abaixo, afim de vêr v. ex.^a, e ao mesmo tempo…

    –Bem sei no que quer fallar. O habito de Christo, sim?

    –Não sendo coisa muito de costa acima…

    –Ha de arranjar-se. E que mais?

    —E que mais?…

    Braz Lobato sentia-se como esmagado pelo tom rispido e sobranceria do
    fidalgo. A concisão e rapidez das perguntas enleavam-no a ponto de o
    engasgarem nas respostas.

    –Como ficou minha prima? disse Calisto.

    –Está muito contristada, senhor.

    –Porque?

    –São saudades. Ainda na vespera da minha vinda esteve a chorar na
    eira… O melhor seria que v. ex^a viesse comigo para casa… Mas como o
    fidalgo está mudado!… Então v. ex.^a, pelos modos, era o mesmo que eu
    vi, ao fim da tarde, n'aquella casa que tem porta de ferro! Bem me
    diziam que v. ex.^a estava lá com uma madama, e eu não o conheci.

    –Aonde?–atalhou desabrido o morgado.

    –N'aquella casa que tem muitas flores.

    –Quem o mandou lá?

    –Uns fidalgos a quem eu perguntei por v. ex.^a

    –E quem o manda perguntar por mim?! Quem lhe disse que eu estava em
    Cintra?

    –Foi no palacio do rei que…

    –Então foi-me procurar ao palacio do rei! O sr. Braz é parvo!… Bem.
    Eu preciso recolher-me. Quer mais alguma coisa?

    –Não, sr. fidalgo… E v. ex.^a não quer nada lá para a terra?–volveu
    logo o antigo sargento com o nariz rubro de colera.

    –Não quero nada.

    –Pois eu para cá vou. Passe muito bem por cá, e até lá.

    Não pôde ter mão de si o professor: voltou ao limiar da porta, que se
    fechava, e disse:

    –Sr. morgado…

    –Que é?

    –Eu, para a outra vez, elegerei deputado que me arrange o habito de
    Christo. Faça favor de se não incommodar.

    –É asno!–murmurou Calisto batendo a porta com impeto.

    XXIX

    *O demonio em Caçarelhos*

    Estava D. Theodora presidindo á limpeza do lagar em que se havia de
    fabricar o azeite, quando Braz Lobato, ainda empoado da jornada, assumou
    á porta, e chamou de parte a fidalga.

    –O meu homem veiu!–exclamou ella.

    –Faz favor de me ouvir aqui fóra, disse elle á puridade.–E, retirados
    ao escuro de um bosque de castanheiro, continuou:

    –Seu marido está perdido, sr.^a morgada.

    –Que me diz? bradou a pallida consorte.

    –Estragou-se; d'alli ao inferno não tem mais que morrer.

    –Credo! Então que é?

    –Seu marido está tolhido! A mulher que o roubou á patria, e á esposa, e
    aos amigos, está lá n'uma serra, cercada de arvores, e de grades de
    ferro![21] Dizem que é a viuva de um general, e bonita como os serafins.
    Eu ainda a enxerguei pelo braço do fidalgo; ia vestida de branco, e
    parecia uma estrella.

    –Ai! que eu estalo! clamou Theodora, apertando a cabeça entre as mãos.

    –Seu marido, se a senhora o vir agora não o conhece. Está mais apanhado
    do corpo; aquella barriga, que elle tinha, sumiu-se-lhe. Tem um bigode
    muito grande, e aqui no queixo uma moita de pellos, como os bodes. Traz
    os cabellos puchados para cima e retorcidos. Usa oculos á moderna, de
    oiro, pendurados ao pescoço. O panno de roupa luzia como vidro, e andava
    apertado n'ella e puchado á substancia que parecia espremido no peso do
    lagar. Repito: a sr.^a morgada, se o vir, não o conhece.

    –E então elle está lá com essa mulher? insistiu soluçando a quebrantada
    senhora.

    –É verdade, lá a tem como uma princeza. Agora já sabe a fidalga no que
    elle estraga o dinheiro.

    –E vocemecê não lhe disse que viesse para sua casa?

    –Ora se disse! chamou-me parvo e asno. Asno a mim fidalga! E eu
    acommodei-me, porque não quero testilhas com doidos. Afinal, eu estava a
    vêr quando me empurrava pela porta fóra! Aqui tem o que ha a tal
    respeito. Sirva-lhe de governo, sr.^a morgada. Agora, faça por ter mão
    na manta. A casa é grande; mas tem-se visto acabarem casas maiores. O
    que a fidalga deve fazer é não deixar ir pela agua abaixo o seu
    patrimonio.

    –Não, que eu vou a Lisboa!–exclamou ella batendo o pé, e vibrando
    murros contra o ar.–Vou a Lisboa, e faço lá o diabo!… Então a tal
    mulher está n'uma serra? Vocemecê disse que ella estava n'uma serra?…

    –É serra; mas a terra é bonita. Ha por lá arvores do começo do mundo, e
    cada pedaço de jardim que dava trezentos alqueires de centeio. Chama-se
    Cintra, e está lá o rei e a fidalguia.

    –Pois vou lá, que o meu homem é meu–vociferou ella voz em grita.–Se
    elle não quizer vir para casa, vou fallar ao rei e aos governos.

    –Fidalga, pense bem no que faz, e ouça o que lhe diz o senhor seu primo
    Lopo de Gamboa, que sabe mais do que eu. D'aqui me vou a vêr a minha
    gente, e até amanhã, fidalga.

    Doida de afflicção, a traida esposa mandou logo um criado á casa da
    Verdoeira chamar o primo Lopo de Gamboa.

    Este Lopo, bacharel em direito, homem de trinta e tantos annos, e sagaz
    até á protervia, vivia na companhia do irmão morgado, comendo o
    rendimento da sua escassa legitima de filho segundo. Tinha máo nome em
    materia de mulheres. A bruteza dos espiritos não lhe implicava o
    exercicio de tramoias e bom palavriado com que mareara a reputação de
    muitas moças, que, á conta d'elle, ficaram solteiras; e tambem de
    algumas casadas, que não conservam as costellas todas.

    Calisto desadorava este primo de sua mulher, em razão das suas ruins
    manhas; não obstante, admittia-o ao seu trato familiar, e consentia que
    Theodora, uma vez por outra, lhe désse alguns pintos para charutos, já
    que o morgado lh'os não dava, sem lançar o emprestimo a desconto da
    legitima.

    Theodora, com quanto o excedesse em edade uns quatro annos, tinha sido
    creada com elle, e por suas mãos lhe fizera o enxoval, que o primo Lopo
    levou para Coimbra. Esta poesia de infancia converteu-se n'ella em
    sentimentos benignos de generosidade para com as privações monetarias do
    sujeito, algumas das quaes lhe remediou liberalmente a occultas do
    marido. Mais se afervorou a estima da prima Theodora, quando viu que
    Lopo, na ausencia de Calisto, amiudava as visitas, e lhe fazia companhia
    ao serão nas noites de inverno.

    Mandou, pois, a esposa angustiada chamar o primo Lopo de Gamboa. Já
    raivosa, já em mavioso soluçar, contou Theodora o que ouvira ao
    mestre-escola.

    –Bem t'o agourava eu, prima!–disse Lopo, concluidos os queixumes de
    Theodora.–Eu sei o que são homens. Quando meu irmão morgado e outros
    santarrões me apontavam como exemplo as virtudes de teu marido,
    dizia-lhes eu: «Tirem-n'o da aldeia para Lisboa ou Porto, deixem-n'o lá
    estar dois mezes, e fallem-me depois á mão.» O Calisto vivia bem com
    todo o mundo e comtigo, Theodora, porque se apaixonou pela livralhada, e
    encheu a cabeça d'aquellas velhas arólas dos seus classicos, e não
    queria saber de mais nada. E, além d'isso, diz-me tu prima, que grande
    amor era o d'elle por ti? Passavam-se dias e noites que o não vias,
    senão enterrado na livraria. Nunca lhe vi fazer-te uma meiguice!

    –Pois fazia; estás enganado, Lopo–atalhou D. Theodora, molestada no
    instincto da sua vaidade de esposa.

    –Parecia-te isso, prima, porque tu não viste ainda como os bons maridos
    acariciam as suas mulheres. Nunca te levou aos banhos do mar, precisando
    tu de tonicos; nunca te levou a festa nenhuma de Miranda nem de
    Bragança; sendo tu a mais rica herdeira d'estes arredores, deixou-te
    viver para ahi sujamente; a cuidar em sevados e gallinhas. As senhoras,
    que não te chegam em fidalguia aos calcanhares, vivem á lei da nobreza,
    visitam-se, tem os seus bailes, vão ás romarias ricamente vestidas; e
    tu?… chorava-me o coração, quando vim de me formar, e te visitei, e
    vim dar comtigo a cortar couves para fazer a comida dos patos.

    –Isso é porque eu gosto.

    –Muito embora gostasses; teu marido não devia consentir que o fizesses.
    Trabalhar é bom e necessario; mas cada qual trabalhe segundo a pessoa
    que é. As senhoras cozem, bordam, marcam, e dão-se a outros muitos
    cuidados domesticos e limpos. Os serviços, que tu fazias, pertencem ás
    criadas da cosinha. De maneira que a tua riqueza não te dava o descanço
    e bem estar que desfrutam as pessoas da lavoira. Esta casa parecia-me
    sordida; e, apezar das grandes sabenças de teu marido, ainda não vi
    casados que tão estupidamente vivessem! Ahi está agora teu marido a
    despejar sacas de dinheiro no regaço de uma amasia, e tu aqui de vestido
    de chita e chinellas! Tu!… de chinellas!… Foi bom que levasses vida
    de negra vinte annos para elle agora levar em Lisboa vida de principe!

    –Não ha de levar, que eu vou lá!–bradou Theodora assanhada pelas
    reflexões do primo.

    –Não vaes, prima, que os teus parentes não consentem que tu vás ser em
    Lisboa motivo de gargalhadas d'aquella gente, e maltratada por Calisto.
    A morgada de Travanca, a filha de Francisco de Figueirôa, não vae, como
    as mulherinhas da ralé, procurar o marido fóra de sua casa. Se elle
    vier, veiu; se elle ficar, fique embora. Gaste o que quizer, mas que não
    gaste a casa de sua mulher. N'este paiz ha leis que separam do máo
    marido a esposa affrontada, e prohibem que os bens dos Figueirôas sejam
    desbaratados em devassidões de um extravagante.

    –Eu não quero separar-me do meu homem!–balbuciou ella afogada de
    soluços.

    –Tambem te não aconselho a que o faças por em quanto, prima. Ainda é
    cedo. Póde ser que teu marido caia em si, e se arrependa. Isto da
    separação é um remedio extremo, que se ha de applicar no caso de
    continuarem os saques de dinheiro como até aqui, e os embustes infames
    com que o Calisto te tem enganado. Ai! prima, prima, grande desgraça foi
    para ti e para mim, que te esquecesses do nosso amor de creanças, e tão
    depressa aceitasses o casamento com este homem! Eu estava a concluir a
    minha formatura, resolvido a pedir-te, e casar comtigo, quer teu pae
    quizesse, quer não. Nunca t'o disse; digo-t'o agora, porque a minha dôr
    me obriga. Não serias tu mais feliz, se casasses com teu primo Lopo?

    –Eu sei cá?…–disse ella, alimpando as lagrimas.

    –Pois duvidas, Theodora?

    –Tu tens sido um estroina com mulheres…

    –E não sabes por que?

    –Não…

    –Desesperado por te encontrar casada, quando cheguei de Coimbra, não
    tratei mais de me ligar seriamente ao coração de mulher nenhuma. Queria
    distrahir-me, e fazia desatinos que me tornavam ainda mais desgraçado. A
    minha consolação unica era estar alguns momentos ao pé de ti; mas
    quantas vezes, eu saía do teu lado com o coração cheio de fel!… Nunca
    te disse uma palavra por onde tu desconfiasses o meu estado, pois não?

    –Tu o que me dizias ás vezes é que estavas afflicto por causa de
    dividas, e eu dava-te o dinheiro que podia arranjar…

    –É verdade: foste sempre o meu bom anjo, prima; mas olha que essas
    mesmas dividas as fazia eu para poder sair d'estes sitios; ia para as
    feiras, para as caldas, por toda a parte á busca de distracções, e não
    achava coisa que me distraisse de ti o pensamento. Toda a gente da nossa
    parentella me aborrecia, menos tu. Ora imagina, prima, que tormentosa
    vida a minha desde os dezenove annos! Amar-te, amar-te sempre, e vêr-te
    mulher de outro homem; e, de mais a mais, de outro homem indigno de ti!
    Céos! que martyrio! que martyrio!

    Lopo cobriu a cara deslavada com as mãos enormes.

    Theodora estava como idiota a olhar para aquillo, sem poder atinar com
    as sensações atrapalhadas que aquellas palavras lhe causavam.

    Ergueu-se o velhaco de golpe, e disse:

    –Adeus, prima: eu estou profundamente magoado com a tua desgraça;
    doem-me mais os teus pezares que os meus. Disse-te o que me pareceu
    rasoavel a respeito de teu marido, d'esse cruel que me roubou a mulher
    do meu coração, da minha alma, da minha vida, e da minha morte. Adeus,
    prima!

    –Tu vaes afflicto, Lopo!–exclamou ella, resahindo do spasmo tolo em
    que estivera–Vem cá; se te aconteceu alguma desgraça, remedeia-se como
    poder ser.

    –Ha doenças sem remedio, prima. A minha é mortal.

    –Então que tens, primo? que te dóe?

    –Doe-me a certeza de que estou morrendo desde o primeiro dia da tua
    união com este homem!… a certeza de que o has de amar sempre, ainda
    que elle te despreze como já te desprezou.

    –Pois se elle é o meu homem recebido á face do altar!…

    –Por isso, por isso, é que eu perdi o teu amor, Theodora!…

    –Pois eu sou casada, bem no sabes, senão teria casado comtigo.

    –Não fallemos mais n'isto–atalhou com muita serenidade Lopo–Já
    chorei, e fiquei melhor!–continuou elle esborrachando os olhos até
    elles reverem agua–Estas lagrimas estavam aqui no peito ha vinte annos.
    Foi bom que tu as visses para que saibas que o homem que chora por ti,
    bem mais te merecia que o outro que te despreza… Queres mais alguma
    coisa de mim, prima? Queres que eu escreva a teu marido, e lhe diga que
    seja honrado e digno da melhor das esposas? Queres que eu mesmo o vá
    procurar a Cintra?

    –Se tu lá fosses, Lopo, não seria máo!–disse ella.

    Lopo de Gamboa, como grande farçola que era, sentiu impulso de desfechar
    uma risada na cara da prima. O homem viu-se ridiculo até onde a
    consciencia de um bargante se póde vêr a si mesma.

    Reteve-o, porém, a coherencia do seu plano. Resolutamente disse que iria
    a Cintra, bem que nenhum sacrificio lhe podesse ser mais cruelmente
    imposto ao coração.

    –Irei, disse elle, irei buscar o marido da mulher que adoro. Venha mais
    esta punhalada da tua mão, prima.

    —Valha-me Deus!–exclamou ella afflictivamente.–Tu dizes-me coisas
    que me fazem endoudecer! Pois tu não vês que eu já não posso dar o meu
    coração a outro em quanto fôr casada com um?

    –Vejo que me não amaste nunca, Theodora. Diz a verdade… Nunca me
    tiveste amor?

    –Eu sei cá, primo!… Se me casasse comtigo, tinha-te amor… Assim
    como casei com o meu marido, que hei de eu fazer agora?

    –Matar-me!–disse com vehemencia Lopo, deixando cair os braços, e
    descendo ao chão os olhos amortiçados.

    –Ai! que peccados os meus! exclamou Theodora–Eu não sei o que te hei
    de fazer, Lopo!

    –Diz-me quando queres que eu parta para Lisboa–tornou elle gravemente.

    –Então sempre queres ir, primo?

    –Ámanhã, hoje, quando quizeres.

    –E não te custa?

    –E a ti não te custa que eu vá?

    –Eu queria que fosses, a vêr se trazias para casa aquelle perdido.

    –Irei, já t'o disse.

    –Então eu vou buscar-te dinheiro, primo, quanto queres tu levar?

    –Nada, prima. Se alguma vez aceitei as tuas franquezas, foi por que tu
    ignoravas quanto eu te amava, e eras minha proxima parenta, filha de uma
    prima de minha mãe. Hoje que sabes que te amo, não posso, não me
    consente a minha honra que receba de ti o mais pequeno favor de
    dinheiro.

    –Então não quero que vás–accudiu ella–que tu não podes ir á tua
    custa…

    N'este comenos, Theodora escuta muito attenta um rumor de campainhas, e
    brada:

    –É uma liteira! Será o meu homem?

    Corre a uma janella; o primo vae depoz ella: affirmam-se na liteira que
    desce uma congosta, e reconhece Calisto Eloy, não pela figura; mas por
    que uns rapazes vinham adiante gritando que era o fidalgo. Theodora
    espede tres ais, que pareciam de ave nocturna, e perde os sentidos. Lopo
    amparou-a nos braços, foi sental-a n'uma cadeira incourada de espaldar
    alto, e desceu ao pateo a receber nos braços o primo Calisto de Barbuda.

    XXX

    *Como ella o amava!*

    O morgado previu o seguimento funesto da desabrida recepção e despedida
    que deu ao mestre-escola.

    A sua felicidade era d'aquellas que o possuidor receia, a cada hora,
    perder; e o desaccordo com sua mulher podia redundar-lhe em dissabores
    grandissimos. De todos, o de que elle mais se temia,–o dissabor por
    excellencia monstruoso–era a vinda de Theodora a Cintra, a isso
    aguilhoada por o professor de primeiras lettras, azedado pelo desprezo.
    Envergonhava-se elle, além de muitas outras vergonhas, que a morgada de
    Travanca lhe apparecesse em Cintra com a cintura do vestido sobre o
    estomago, com as ancas desprovidas de balão, com a cara incavernada n'um
    chapéo de 1832, que lá chamavam barretina, de immensas orelhas de palha
    amarellada pelo rodar dos annos. Era-lhe aviltante o caso aos olhos de
    toda a gente, e especialmente aos de Iphigenia.

    Para prevenir esta e outras calamidades, saiu Calisto, caminho de
    Caçarelhos, quatro dias depois de Braz Lobato, e afim de encurtar tempo,
    embarcou em o vapor, e do Porto para cima accelerou as jornadas,
    repousando poucas horas. Contava elle anticipar-se ao mestre-escola.
    Chegou tarde; mas o coração da esposa estava ainda aberto.

    –Tua senhora desmaiou de alegria, primo–disse-lhe Lopo de
    Gamboa–estava chorando comigo quando ouvimos a guizalhada da liteira.
    Muito te quer a nossa santa prima? Boas as fizeste por lá… Olha que o
    patife do mestre-escola veiu contar tudo!

    –Já chegou?!

    –Hoje ás cinco da tarde.

    –Que disse?

    –Contou que tens lá em Cintra uma mulher teúda e manteúda…

    –Que infame embusteiro!–clamou o fidalgo–Chama-me um lacaio, que lhe
    vou mandar cortar as carnes, com um tagante!

    Merecia-o! Mas quem deu cá o lacaio? É coisa que ainda cá não vi!

    Assim dialogando, entraram á sala em que D. Theodora estava ainda
    muitissimo intalada de soluços.

    –Então que é isto, Theodora?!–perguntou brandamente Calisto, pondo-lhe
    as pontas dos dedos na face.

    Ergueu-se ella arrebatada, e pendurou-se-lhe ao pescoço exclamando:

    –Meu Calisto, meu Calisto, cuidei que te não tornava a enxergar!

    –És tola, és tola, prima!–disse elle, assás incommodado com o apertão
    do abraço–Pois eu não havia de tornar?! Quem te metteu essa na cabeça?

    Theodora entrou a encarar no homem muito de fito, e rompeu n'um choro
    desfeito.

    –Que tens tu?–perguntou elle.

    –Como tu estás mudado! não me pareces o meu homem!… Corta essas
    barbas; por alma de tua mãe, corta-me essas barbas, que pareces o diabo,
    Deus me perdôe!…

    Calisto sorriu-se, com um profundo tédio de sua mulher. N'aquelle
    instante alanceou-o mortalmente a saudade de Iphigenia. Aquella casa de
    Caçarelhos e a mulher pareceram-lhe um retalho do inferno, d'aquelle
    inferno alagado e frio de que falla o padre A. Vieira.

    Começou a passeiar na sala, e a despedir baforadas de anciada respiração
    do peito. A mulher não lhe despregava os olhos das barbas, e de vez em
    quando arrancava um ai das entranhas.

    –A fallar verdade–observou Lopo de Gamboa–estás um homem
    completamente differente! E o caso é que pareces muito mais novo! Já nem
    andas corcovado, nem tens aquella proeminencia da barriga. Olha os ares
    de Lisboa o que fazem, primo Barbuda!

    Calisto exprimia o seu nojo de tudo aquillo, sorrindo-se. Tirou da
    algibeira um charuto, e accendeu um phosphoro. Eis que a mulher rompeu
    em mais desentoada choradeira, dizendo:

    –O meu homem a fumar!… Que feitiçaria te fizeram, Calisto!…

    –De maneira, disse o morgado vencido pela impaciencia, de maneira que
    me recebes com choradeiras, e observações estupidas, Theodora! Ora
    acabemos com esta feia comedia, e manda-me preparar jantar, que preciso
    comer e dormir.

    Saiu Theodora cabisbaixa da saleta, e Lopo de Gamboa despediu-se,
    pedindo-lhe que tolerasse com generosidade as tolices de sua prima, que
    tudo aquillo n'ella era rudeza e bondade do coração.

    –Bem sei, bem sei…–disse Calisto Eloy, e recolheu-se á sua
    bibliotheca, a principiar uma carta, que dizia:

    «Minha querida Iphigenia.

    Não te asseguro tres horas da minha vida, se me disserem que hei de aqui
    viver tres dias. Não é enôjo, é peior, é horror o que me faz tudo isto!
    Deixa-me pedir coragem ao teu retrato. Ó imagem da filha do meu coração,
    salva-me, resgata-me, arranca-me d'este tumulo! Ó consoladora d'esta
    agonia sem nome, vale-me, tem mão n'esta vida, que me foge…»

    Entrou Theodora esbofada de dar ordens, de cortar o presunto, de ir á
    cesta dos ovos, de andar á pilha da mais gorda gallinha.

    Correu a abraçar-se outra vez n'elle com mais possante enthusiasmo,
    emquanto o marido com um braço a cingia ao peito, e com o outro escondia
    o retrato.

    –Meu Calistinho–suspirava a esposa palpitante–meu amado marido, não
    tornes mais para Lisboa, eu não te deixo sair mais de tua casa!…

    –Que remedio senão ir, Theodora!…–disse elle–Sou obrigado por esta
    desgraçada posição de deputado a assistir mais algum tempo na capital.

    –Não é isso, não é isso!–clamou ella, saindo-lhe dos braços, que a
    largaram facilmente–Bem sei o que é…

    –Sabes o que?–interrompeu com violentada placidez o marido–Sabes as
    calumnias que te veiu contar o Braz, o villão que se vingou como canalha
    por lhe eu não alcançar o habito de Christo! É o que faltava! pendurar a
    imagem da cruz n'um peito cheio de tanta porcaria!… Então que te disse
    elle?…

    –Que tinhas lá outra… e que te viu a passeiar com ella.

    –Viu-me a passear com uma nossa parenta, viuva de um general. Quem
    disse ao javardo que esta senhora era minha amante? Hei de
    perguntar-lh'o diante de ti. Manda-o chamar á minha presença.

    –Agora mando! que o leve a breca!–disse Theodora com alegre
    aspecto–Como tu vieste, foi o que eu quiz; agora, pilhei-te cá, e não
    te deixo ir embora. Mas tu has de cortar estas barbas, sim? e não
    estejas a fumar por isso, que me fazes embrulhar a estomago, não?

    O tom e gesto caricioso, com que ella dizia isto, não moveu medianamente
    o esposo. Impava de zangado e aborrecido dos languidos amorinhos com que
    a meiga senhora se lhe quebrava langorosamente nos braços.

    –Eu preciso escrever umas cartas que ainda hoje hão de ir para Miranda,
    disse elle, afastando brandamente a esposa. Vae-te embora, e logo
    conversaremos.

    Theodora estava n'um d'aquelles elevados gráos de amoroso sentimento, em
    que a mulher menos esperta conhece, que é desamada. Repellida d'aquelle
    modo, ainda as lagrimas lhe vidraram os olhos; mas o despeito seccou-as.

    –Não me podes vêr á tua beira! disse ella com altiveza. Vê-se mesmo na
    tua cara que me aborreces! Ainda agora chegaste, e já estás a fallar na
    ida para Lisboa. Escusavas então de cá vir. Mal haja a hora em que
    saiste d'esta casa. Já não tenho marido!…

    N'este ponto, não pôde represar as lagrimas. Acocorou-se no chão a
    chorar, com a cara mettida entre os joelhos.

    Calisto saltou da cadeira n'um empuchão de raiva, e passou á sala
    immediata, gesticulando com phreneticos sacões de braços.

    Que diabo vim eu aqui fazer? dizia entre si o desesperado.

    O demonio da expiação já andava ás cavalleiras do homem. A saudade de
    Iphigenia era uma serpente de fogo que lhe abafava os respiradouros das
    goelas.

    XXXI

    *Vence o demonio! choram os anjos!*

    Para distrahir-se do supplicio de alguns dias, Calisto Eloy, sem
    consultar a esposa, entretinha-se a ajuntar os cabedaes, espalhados por
    mão de lavradores, e a remir alguns foros, que sommaram consideravel
    quantia.

    Theodora presenciava com suffocada ira as diligencias do marido, e
    acautellava o sacco das peças de duas caras, que trouxera de casa de seu
    pae, thesouro antigo na familia de Travanca, trazido por seu bisavô,
    governador do Brazil. Era um dos soberanos gosos de Theodora addicionar
    mais uma peça de D. Maria e D. Pedro III ás mil e duzentas que seu
    bisavô reunira. Bem que o marido respeitasse sempre aquelle peculio,
    Theodora receiava muito que os respeitos d'outro tempo não podessem nada
    agora com elle, e dispoz-se a resistir a todo trance ao sacrilegio.

    Não carecia o morgado de lançar mão de alguma verba do patrimonio de sua
    mulher: tinha muito que explorar no propriamente seu, antes de alienar
    alguma das quintas; no entanto, quando a consorte abespinhada lhe disse
    que as peças eram d'ella, e não cuidasse elle que as havia de levar,
    Calisto encarou na mulher com tal enchente de odio, e logo desprezo, que
    lhe voltou as costas para lhe não redarguir.

    D'ahi em diante, nas quarenta e oito horas que o morgado se deteve em
    Caçarelhos, baldaram-se as tentativas conciliatorias de Theodora.
    Fechado no seu quarto, que elle desde a chegada fizera propriedade sua
    exclusiva, ou encerrado na bibliotheca, onde escrevia monologos
    saturados de lagrimas, em vão a esposa o espreitava pelos orificios das
    fechaduras, e lhe assoprava suspiros dignos de mais humano marido.

    No dia da partida, a despedaçada senhora experimentou um ataque de
    eloquencia. Entrou com o almoço no gabinete do marido, e bradou:

    –Então que é isto? Entendamo-nos.

    –Isto quê?

    –Sempre vaes para a vida perdida?

    –Vou hoje para Lisboa–respondeu serenamente Calisto Eloy, dobrando em
    massos os titulos de sua casa.

    –E então da tua mulher não queres saber mais nada?

    –Minha mulher fica em sua casa, e eu vou cumprir os meus deveres como
    deputado.

    –Mas eu não quero saber d'isso.

    –Então que queres tu saber, prima Theodora?

    –Quero saber a lei em que hei de viver.

    –Vive na lei de Deus.

    –E tu na do diabo, ein?

    –Berra pouco.

    –Hei de berrar o que eu quizer.

    –Pois berra, que eu não te hei de ouvir muito tempo.

    –Se isto é assim, quero separar-me.

    –Separa-te.

    –Vou para o meu morgadio de Travanca.

    –Pois vae.

    –Cada qual fique com o que é seu.

    –Pois sim. Leva d'aqui o que fôr teu.

    A desesperação de Theodora augmentava á medida que a fleugma do marido
    lhe cravava o dardo do desengano no coração ainda fiel. Começou a pobre
    mulher a saltar no pavimento, sem proferir sons articulados. Expedia uns
    grunhidos roucos, que fizeram pavor a Calisto. Este feiíssimo tregeitar
    desfechou n'um insulto nervoso, com symptomas epilepticos.

    A commiseração feriu as estragadas entranhas do morgado. Foi apanhar a
    mulher do chão, reteve-lhe os braços que escabujavam, e levou-a d'alli
    para um leito, onde a deixou entregue ás criadas e ao primo Lopo de
    Gamboa, que vinha entrando.

    Passada a crise, Theodora ardia em febre, e dava pouco tino das pessoas
    que a rodeavam. Pareceu-lhe, porém, sentir um beijo nas costas da mão
    esquerda; e, olhando apressada na supposição de que era o marido, viu o
    rosto lastimoso do primo Lopo, que lhe disse a meia voz:

    –Esquece o ingrato, prima!… Guarda a tua vida para quem te ama!…

    Calou-se, porque entrava uma criada com um chá de sidreira e macella.
    Tomou elle das mãos da criada a chavena, e ministrou o charope a
    Theodora, que o foi bebendo com muitos vágados da cabeça desfallecida
    para sobre a espadua de Lopo, que se ageitára para amparal-a.

    Á hora final Calisto entrou ao quarto, e não se commoveu. Disse algumas
    breves e seccas palavras de despedida, acrescentando que fechado o
    segundo anno da sua legislatura, viria para casa.

    Theodora ainda balbuciou:

    –E deixas-me assim doente, homem?

    –Esse incommodo é passageiro, prima. Logo que tu reflexiones um pouco,
    levantas-te curada. Mal da patria, se os deputados casados obedecessem
    aos caprichos das mulheres, que lhes impedem irem onde o dever os chama.
    Pensas assim, porque foste educada rusticamente. Era minha tenção
    tirar-te d'aqui, levar-te para terra de gente, dar-te alguma educação,
    para depois te poder levar comigo para qualquer terra culta; vejo,
    porém, que desatinas e te fazes creança n'uma edade impropria de ciumes.

    –Olha que não és mais novo que eu!–bradou ella.–Tens quarenta e
    quatro e eu quarenta.

    –Está bom, está bom–obviou elle–não discutamos edades. O que se segue
    é que ambos envelhecemos: razão de mais para justificar a toleima dos
    teus zelos e desconfianças… Não posso demorar-me, que já ahi está a
    liteira, e a jornada de hoje é muito grande. Adeus. Primo Lopo, olha tu
    se dás juizo a tua prima, e manda-me no que quizeres em Lisboa.

    –Parece-me que me não pões mais os olhos, Calisto!–clamou ella com
    profunda angustia.

    –Adeus, adeus, minha tola; não penses em tal.

    E saiu alegre como o encarcerado da prisão de longos annos. As azas
    candidas de Iphigenia sacudiam-lhe do espirito saudades e remorsos.

    XXXII

    *A virtude de Theodora em paroxismos*

    Em outubro d'aquelle anno, a friza dezeseis do theatro de S. Carlos
    expoz uma cara desconhecida de todos, excepto de alguns raros rapazes da
    nata social que a tinham visto de relance, entre as aves e flores de
    Cintra.

    Era Iphigenia, a formosa do novo-mundo, que uns chamavam a feição
    genuina da Circassia, outros a romana herdeira do perfil correcto das
    Faustinas e Fulvias; e os mais circumscreviam a sua admiração á mulher
    dispensando-se de lhe esquadrinhar o typo.

    De feito, Iphigenia era belleza das que sómente se assimelham
    propriamente a si.

    Ao lado d'esta mulher estava um homem, cuja nobre e fidalga presença
    abonava e encarecia a qualidade da dama: era o morgado da Agra de
    Freimas, Benevides de Barbuda.

    A opinião publica da platéa e camarotes estava ou duvidosa ou indecisa.
    Aqui dizia-se que Iphigenia era parenta do cavalheiro, além
    desdouravam-lhe a posição, sem comtudo os rostos se voltarem corridos do
    escandalo.

    Iphigenia, á saída do theatro, entrava n'uma luxuosa caleche tirada por
    hanoverianos soberbos. Calisto Eloy apertava a mão da dama, e entrava
    n'outra sege. A caleche parava na rua de S. João dos Bem Casados, no
    pateo de um palacete; o morgado apeava da sege em frente do hotel
    inglez, a Buenos-Ayres.

    As pesquizas sincavam n'esta diversidade de paragens. Sabia-se que o
    deputado frequentava o palacete a horas em que se visitam senhoras
    cerimoniosamente. Sabia-se que morava alli a viuva do general Ponce de
    Leão, o qual morrera no serviço do Brazil. A pouco e pouco, a
    maledicencia ajuntou á admiração o respeito.

    Uns parentes do general, porventura filhos d'aquelles que se
    entre-lembravam de terem sido procurados por uma viuva, levaram os seus
    cumprimentos ao palacete de S. João dos Bem Casados. Iphigenia fez-lhes
    saber pelo seu escudeiro que lhes agradecia a delicadeza e a honra do
    parentesco. E mais nada.

    Ora, Calisto Eloy, sem embargo da seriedade e gentil compostura de sua
    pessoa, não podia de todo poupar-se ao riso de certas pessoas da platéa.
    Estava alli gente que o ouvira fulminar no parlamento o theatro lyrico,
    e nomeadamente a Lucrecia Borgia. Estava quem se lembrasse d'aquellas
    calças de polainas assertoadas de madre-perola, e do farfalhoso colete,
    e das pantalonas axadrezadas do aljubeta Nunes & filho. O doutor
    Liborio, do Porto, principalmente, ainda estomagado da reprimenda,
    saboreava a vingança, indigitando-o á hilaridade dos camaradas parelhos
    em nascimento, asnidade e estylo.

    N'uma noite, Iphigenia reparou na attenção e nos sorrisos de um grupo.
    Ao voltar a vista para seu primo, encontrou os olhos d'elle, com uma
    tempestade sobranceira, que era o avincado profundo da testa. Andava por
    alli n'aquella fronte sangue de Traz-os-Montes, sangue de Barbudas.

    Calisto estremara o doutor Liborio de Meirelles, entre a roda dos
    peraltas, que bebiam da garrafeira do paternal tendeiro, prodigalisada
    ao filho das esperanças suas e da patria.

    N'um intervallo, saiu Calisto Eloy do camarote, e como não encontrasse
    no portico nem nos corredores o risonho deputado portuense, entrou á
    platéa.

    Avisinhou-se de Liborio, que o encarou com semblante de côr incerta.

    –O collega por aqui?–disse o doutor–Reminiscencias me não acodem de
    havel-o visto na platéa!

    Calisto, sem o fitar no rosto, respondeu:

    –Venho vêr as dimensões das suas orelhas.

    –Como assim!…–balbuciou Liborio.

    –Tenciono puchar-lh'as até á bocca, no proposito de tapar com ellas um
    riso alvar que vossa mercê tem, e que me incommoda grandemente. Veja lá
    se a operação lhe convém aqui ou lá fora.

    –Não comprehendo a razão do insulto!–disse Liborio.

    –Será lá fora–concluiu Calisto e saiu.

    A gente, que rodeava o doutor portuense, comportou-se bem: cada qual,
    dizia de si para comsigo, que, se o caso fosse com elle, o provinciano
    enguliria a injuria com uma balla; assim, como não era com elles o caso,
    Calisto mereceu a Deus a felicidade de não ser varado de ballas.

    O que passa como certo é que Liborio nunca mais desfranziu um riso
    voltado para a friza de Iphigenia.

    N'uma d'essas noites, estava na friza fronteira á de Calisto a familia
    Sarmento. Adelaide não despregava o occulo de Iphigenia, salvo quando
    Catharina lh'o tirava da mão, para lh'o assestar.

    Calisto exultava em delicias incomparaveis. Era a vingança, a
    carapinhada dos deuses n'um meio dia de julho, a vingança de amador
    menoscabado. Este cuidar que se vingam, mulheres e homens, é inepcia de
    marca maior, a que não houve esquivar-se aquelle sujeito de condição
    muito ajuizada se o confrontamos com outros, a quem o amor aleijou de
    todo em todo.

    Reparou Calisto que no camarote de Duarte Malafaia, marido de D.
    Catharina Sarmento, entrara um sujeito que lhe não era desconhecido.
    Examinou-o com o binoculo, e reconhecera aquelle D. Bruno de
    Mascarenhas, a quem elle se apresentara na qualidade de anjo Custodio de
    D. Catharina. Sorriu-se o morgado para dentro por que lhe já não ficava
    bem indignar-se por dentro nem por fóra. A esposa de Duarte, segundo
    parecia, raro relance de olhos desfechava sobre o perturbador da sua
    consciencia de outro tempo. O morgado entendeu que a esposa regenerada
    reincidira na velha culpa. Enganara-se.

    Permanecia ainda o salutar effeito da façanha moralisadora de Calisto
    Eloy. Bruno era odioso a Catharina: o anjo advogado dos maridos a estava
    sempre lustrando com as lagrimas do arrependimento. Não sei se o morgado
    da Agra levará ao desconto do juizo final duas acções que pesem tanto
    como esta na balança.

    Passaram dois mezes sem que D. Theodora escrevesse ao marido. Embargada
    no leito pela enfermidade, que a poz em começos de phtisica, a pobre
    senhora, esteiada no amparo da piedade, fazia penosas promessas a santos
    da sua particular devoção, pedindo-lhes a amizade e restituição do
    marido. D'esta feita, pelo que a gente está vendo, os santos não levaram
    a melhor da legião de demonios que resaltam dos olbos de uma brazileira
    galante. Não obstante, a protecção dos privados do céo valeu-lhe o
    levantar-se da cama, e convalecer-se com leite de jumenta e oleo de
    figados de bacalhau. Mas o coração estava ainda, e cada vez mais
    encancerado; a saudade crescia consoante a ausencia e desprezo do marido
    se augmentava.

    Por ventura, aquelles santos tão rogados estavam em volta d'ella a
    defendel-a das tentações do primo Lopo. Já Theodora o repulsava
    desabridamente, quando se via no risco de ser abalada em sua fidelidade.
    A pervicacia, porém, do astuto negociador de seus vilissimos interesses,
    servidos por infames lagrimas e exclamações compungentes, alguma vez a
    surprehendeu quasi desprotegida do escudo celestial.

    Mas–honra á virtude que cae mais tarde que o costume!–honra á virtude
    de Theodora, que lhe punha sempre diante dos olhos, nas conjuncturas
    perigosas, a imagem do marido, e de sua mãe e avós todas esposas
    immaculadas!

    Passemos a esponja por sobre Penelopes e Lucrecias.

    Começou Calisto a receber cartas de sua mulher. Algumas, que abriu, não
    pôde digeril-as. Como a dôr sincera não costuma ser eloquente, nem a
    orthographia da filha do boticario exprimia com certeza as singelas
    lastimas de Theodora, o cru marido queimava as cartas para desmemoria
    eterna.

    XXXIII

    *Escandalos*

    Abriram-se as camaras.

    A opposição espantou-se de vêr o deputado por Miranda conversando muito
    mão por mão com os ministros. O abbade de Estevães ousou perguntar ao
    seu collega, amigo e correligionario, de que rumo estava. Calisto
    respondeu que estava de rumo em que o pharol da civilisação alumiava com
    mais clara luz. O antigo desembargador do ecclesiastico redarguiu com
    admoestações benevolas. O morgado sorriu-lhe na cara veneranda, e
    disse-lhe:

    –Meu amigo, abra os olhos, que não ha martyrologio para as toupeiras.
    As idéas não se formam na cabeça do homem; voejam na athmosphera,
    respiram-se no ar, bebem-se na agua, coam-se no sangue, entram nas
    moleculas, e refundem, reformam e renovam a compleição do homem.

    –Segue-se que está liberal?–perguntou o pavido abbade.

    –Estou portuguez do seculo XIX.

    –Apostatou!–disse com pesar mui entranhado o padre–Apostatou!…

    –Da religião dos nescios.

    –Mercês!–accudiu o abbade.

    –Sem direitos–retorquiu o sardonico Barbuda.

    Não tornaram a fallar-se, até um dia do anno seguinte em que o padre,
    despachado conego da sé patriarchal de Lisboa, aceitou o parabem e o
    sorriso pungitivo de Calisto Eloy.

    Na primeira votação importante para o ministerio, Calisto Eloy defendeu
    o projecto que era vital para o governo, e fez-se desde logo necessario
    á situação. Orou por vezes, com seriedade tal de principios, que não
    servem para romance os seus discursos. Explicou a profissão da sua nova
    fé, respeitando as crenças politicas dos seus antigos correligionarios.
    Disse que escolhia o seu humilde posto nas fileiras dos governamentaes,
    por que era figadal inimigo da desordem, e convencido estava de que a
    ordem só podia mantel-a o poder executivo, e não só mantel-a, senão
    defendel-a para consolidar as posições, obtidas contra os cubiçosos de
    posições. Reflexionou sisudamente, e fez escola. Seguiram-se-lhe
    discipulos convictissimos, que ainda agora pugnam por todos os governos,
    e por amor da ordem que está como poder executivo.

    Preparava Calisto um projecto de lei para a abolição dos vinculos,
    quando recebeu a seguinte carta de Lopo de Gamboa:

    «Primo e amigo.

    Recommendaste-me que désse juizo a tua senhora e minha prima. Contra
    paixões não ha conselhos. Tu lá o sabes por theoria e experiencia, como
    eu que não tenho dado máo burro ao dizimo, um coisas de coração.

    Préguei-lhe prudencia, conformidade e paciencia. O abbade tambem lhe
    citou exemplos admiraveis de esposas sanctificadas pela ingratidão dos
    maridos. Não conseguimos nada. Cada vez te ama com mais furor. Diz que
    te ha de ir buscar ás entranhas da terra e aos abysmos do bárathro. Isto
    vae de galhofa; mas eu tenho sincera pena da nossa pobre prima.
    Desculpo-te, porque és homem, porque amas outra mulher, e porque esta
    realmente, deve pouco á formosura e graças. Não sou de ambages: digo o
    que sinto.

    Contou-me o primo Gastão de Villarandêlho que te vira em S. Carlos, e
    comtigo no camarote uma deidade arrebatadora. Se é essa a rival da
    Theodora, quem ousará chamar-te ao caminho da probidade conjugal?! Já
    agora, só milagre. Nas nossas edades, meu amigo e primo, amores que
    entram, não ha juizo purgativo que os ponha fóra do corpo.

    Vamos agora ao que importa.

    Está tua senhora resolvida a ir procurar-te a Lisboa. Tenho tido mão
    d'ella; mas já não posso. Como lhe não respondeste á carta,
    desesperou-se, declarou-te guerra de morte, e tens que vêr com uma
    mulher furiosa. Fiz-lhe vêr que póde ser mal recebida e desprezada.
    Responde que quer esganar quem lhe roubou seu marido. Está doida; mas
    quem ha de contel-a?! Alguns parentes nossos dão-lhe razão: é o diabo
    isto; espicassam-n'a, e ella volta-se contra mim, dizendo que sou um
    patife como tu. Isto é bonito!

    Em divorcio não quer que lhe fallem. Diz que quer o seu homem e não ha
    tiral-a d'aqui.

    Prevejo os crueis desgostos que te vae ahi dar, além das vergonhas.
    Disse-lhe que não fosse, sem se vestir ao estylo das senhoras de Lisboa.
    Não quer. Apparece-te ahi gothicamente vestida, com o fatal vestido do
    casamento, e o fatal chapéo, que é um monstro de palha. Ha dois annos te
    dizia eu que vestisses tua mulher senhorilmente. Respondias-me que os
    melhores enfeites de uma virtuosa são as virtudes. Agora, atura-a. Se
    ella ahi fôr vestida de virtudes, diz lá a essa gente que se não ria
    d'ella.

    E se tu tens de a vêr a testilhas com essa _diva_, que em quanto a mim
    não é _casta_? Então é que ellas são, primo Barbuda! Sobre arranhaduras,
    escandalo! A tua posição seria feita ludibrio da canalha. Os jornaes a
    fustigarem-te, e tu com a cabeça perdida! Eu imagino-me na tua situação,
    e tenho horror.

    Que has de tu fazer n'estes apertos? Tens uma boa cabeça; mas eu estou
    mais a sangue frio para te aconselhar. O meu parecer é que sáias de
    Lisboa com essa dama, e vás para onde Theodora não te veja o rasto. Olha
    que vae com ella o tio Paulo Figueirôa de Travanca, besta finoria que ha
    de dar comtigo, se te não esconderes a bom recado.

    A lealdade impoz-me o dever de te dar esta má noticia. Mais má seria, se
    t'a levasse tua senhora. Sei que outra pessoa te faria reflexões
    inuteis; mas eu tenho obrigação de conhecer os homens. No entanto, faz o
    que teu bom juizo te suggerir.

    Teu primo muito dedicado
    _Lopo_.»

    No dia seguinte, Calisto Eloy pediu licença á camara para retirar-se por
    algum tempo de Lisboa, a cuidar de sua saude.

    Ao outro dia embarcou para França.

    Perguntava-lhe Iphigenia, contente da repentina deliberação:

    –Porque é isto, primo? Nunca me fallaste em visitarmos Paris!

    –Quiz dar-te o prazer da surpreza. As melhores coisas, muito pensadas
    antes de possuidas, desmerecem quando se possuem.

    Partiram.

    No palacete da rua de S. João dos Bem Casados, ficou governando os
    criados, aquella sr.^a D. Thomazia Leonor, que fôra já desde Cintra,
    recebida como dispenseira e aia de Iphigenia.

    XXXIV

    *Perdida!…*

    Para leitores entendidos na perversidade humana, a carta de Lopo de
    Gamboa é uma refinada e suja barganteria, estudada e escripta com um
    despejo não vulgar em bachareis d'aquelles sitios. Aquelle homem, se
    tivesse nascido em terras onde ha a centralisação dos biltres, morria
    com um nome para lembrança duradoura. Assim, nascido n'aquellas serras,
    onde não apégou ainda romancista de medrança, se o eu não transplantar
    para a corja dos birbantes das minhas novellas, o homem escorrega lá da
    serra no inferno, sem que a execração publica o cubra de maldições.

    Repulso do coração da prima, que incessantemente se estava entregando á
    protecção dos santos, mudou o plano das insidias, incitando-a a procurar
    o marido em Lisboa, como ultimo desengano e final affronta. Convinha-lhe
    que a pobre mulher afogasse em lagrimas as ultimas e mais entranhadas
    raizes da sua pureza.

    Em companhia de um velho inexperiente e credulo, o honrado Paulo de
    Figueirôa, que nunca saira das ruinas solarengas de Travanca, metteu-se
    D. Theodora a caminho de Lisboa. Deu um geito ás abas do chapéo que se
    entortara na canastra esquecida, lavou as fitas e a palha com chá da
    India, arejou o bafio do vestido de veludo que embolecera no inverno
    passado, e d'este geito entrajada se encaixotou na liteira, defronte do
    tio, que tinha a sinceridade de achar sua sobrinha muito bonita, vestida
    assim á moderna.

    Nas differentes villas que atravessou até ao Porto, D. Theodora prendeu
    o espanto publico. Muita gente, aliás urbana, ria-se a cair. Onde
    parasse a liteira, o gentio fazia-lhe roda, e queria saber d'onde vinha
    aquella creatura incomparavel. Theodora, á entrada de Penafiel, a pedido
    respeitoso do liteireiro, tirou o chapéo e cobriu a cabeça com um
    lencinho de tres pontas. Ainda assim, o vestido de veludo côr de ginja
    dava nos olhos. Os padres de Penafiel, quando avistaram a liteira,
    cuidaram um momento que vinha alli alguma preeminencia ecclesiastica,
    como cardeal, ou coisa assim. A desharmonia do lencinho com o vestido
    offendia o bello ideal, e a symetria esthetica das damas da terra, as
    quaes ao verem-na saltar da liteira para o pateo da estalagem com o
    chapéo na mão, similhante a um cabaz de cavacas das Caldas, soltaram
    grande estrallada de riso. As meninas da estalagem, condoidas do aspecto
    doentio e honesto da viandante, informaram-se da qualidade da pessoa, e
    romperam no louvavel excesso de se insinuarem na fidalga, para lhe
    pedirem que se vestisse de outra maneira.

    Accedeu sem repugnancia Theodora. As risadas francas do povo haviam-na
    amolecido. O velho tambem votou pela reforma dos trajos. E, como alli
    pernoitasse e deliberasse esperar o dia seguinte, deu tempo a que a
    provessem de chapéo rasoavel, e vestido com o competente paletó de seda,
    nas quaes coisas collaboraram todas as modistas da terra. Regenerada
    pelo vestido, parecia outra. As meninas pentearam-lhe os opulentos e
    negros cabellos a Stuart, segundo ellas disseram. Descobriram-lhe a
    fronte bem talhada. Deram-lhe umas lições de pisar e arregaçar-se, para
    a desacostumarem de ir com os pés sobre a orla do vestido, ou mostrar os
    calcanhares na andadura. O mirinaque foi um golpe certeiro no desaire da
    fidalga de Travanca. Ella mesma, olhando em si, dizia no secreto da sua
    consciencia illustrada em Penafiel:

    –Eu assim estou melhor, a fallar verdade!

    O tio Paulo torcia um pouco o nariz ao mirinaque, dizendo:

    –Pareces-me uma boneca de roda de fogo! Tens aleijados os quadris,
    salvo tal logar! Mas, se é moda, deixa-te ir assim, menina até Lisboa;
    porém, quando entrares em casa, manda espetar esses arcos n'um pau, para
    espantar os pardaes da sementeira.

    Como o velho fidalgo desejasse vêr o mar, resolveram ir para Lisboa no
    vapor. Theodora, quando principiou a enjoar, pediu os sacramentos;
    animada, porém com as risadas de outras senhoras, convenceu-se de que
    não era mortal a sua afflicção.

    Hospedaram-se no cáes do Sodré. D. Theodora, não obstante a anciedade em
    que ia de avistar-se com o marido cuidou em reparar as forças com um
    dormir d'aquelles que a Providencia concede ás consciencias puras e ás
    pessoas que desembarcam enjoadas.

    Paulo de Figueirôa saiu para a rua, no intento de informar-se da
    residencia de Calisto. Porém, como encontrasse na rua do Alecrim um
    macaco encavalgado n'um cão, que trotava a compasso de realejo,
    deixou-se ficar pasmado no espectaculo; depois, foi subindo até ao largo
    das Duas Egrejas, e quedou-se a ouvir um cego de oculos verdes que
    pregoava e referia o successo negro de um homem que matára seu avô.
    Terminava o cego, offerecendo a noticia impressa, onde tudo estava
    declarado. Comprou o fidalgo da Travanca a pavorosa noticia, e esteve
    largo tempo a soletral-a, sentado á porta da egreja do Loreto.

    Terminada a leitura, o velho disse entre si:

    –Isto é má terra! Tomara-me eu d'aqui para fóra!… Os netos matam os
    avôs!…

    Chamou um gallego, que o guiou ao palacio das côrtes. Perguntou ao
    porteiro se estava lá dentro o deputado Calisto Eloy, morgado da Agra de
    Freimas.

    –Não sei–disse mal encarado o funccionario.

    –Eu sou tio d'elle; faça favor de lhe ir dizer que está aqui o tio
    Paulo de Figueirôa.

    –Não posso lá ir–volveu o porteiro, mais brando.–Peça áquelle sr.
    deputado, que ahi vem que lh'o diga.

    Paulo dirigiu-se a um sujeito de exterior sacerdotal. Era o abbade de
    Estevães.

    –Essa pessoa está fóra de Lisboa, creio eu–disse o deputado–pelo
    menos pediu licença ás camaras para retirar-se.

    –Iria para casa?–perguntou o velho.

    –Creio que não. Então o senhor é tio d'elle!

    –Sou tio d'elle em terceiro gráo, e sou irmão do pae da esposa d'elle.

    –Pobre senhora! Murmurou compassivamente o padre.–Ella perdeu um
    excellente marido e o partido legitimista um strenuo defensor.

    –Então meu sobrinho–atalhou Paulo–já não é legitimista?!

    –Qual! fez-se um malhado acerrimo. Está com esta gente, e demais a mais
    fez-se governamental!…

    –Oh! que maroto!…

    –E tudo isto, meu caro senhor, deve-se á desmoralisação de uma mulher,
    que lhe tirou o juizo e a dignidade, e lhe ha de dar cabo da casa.
    Apresenta-se com ella nos theatros, e tem-na em palacete com carruagem
    montada, e lacaios e estado de princeza. E a pobre senhora lá na
    provincia a economisar as rendas, que elle está por cá delapidando!…

    –Minha sobrinha veiu comigo–observou o velho.

    –Veiu? Coitada da infeliz senhora! Quanto desejava eu poder ir
    comprimental-a; mas como estou indisposto com o sr. Barbuda, não quero
    que elle me julgue capaz de irritar sua consorte com os meus despeitos.
    Pois senhor, se sua sobrinha quizer vêr a pompa e luxo com que está
    vivendo a manceba de seu marido, que vá á rua de S. João dos Bem
    Casados, e veja o palacio, que está ao cimo da rua, onde lá os visinhos
    dizem que mora a chamada «fidalga brazileira».

    –Faz favor de tornar a dizer?–pediu Paulo desenrolando o nastro de uma
    enorme carteira escarlate, para fazer nota da residencia da brazileira.

    –Se eu lhe prestar de alguma coisa, aqui estou como principal amigo que
    fui do desgraçado sr. Calisto Eloy–ajuntou o abbade de Estevães.

    Ao fim da tarde d'este dia, D. Theodora, que fremia de raiva desde que o
    tio lhe revelou as informações do padre, entrou com o velho n'uma sege
    de praça, por lhe dizerem que era muito longe a rua de S. João dos Bem
    Casados.

    Apeou á porta do palacete, que um logista lhe indicou. Perguntou ao
    criado, que lhe fallou por um postigo da cavallariça, se estava em casa
    o sr. Calisto.

    –Não mora aqui–disse o lacaio.

    –Mora aqui!–teimou D. Theodora.

    –Já lhe disse que não mora aqui–recalcitrou o criado.

    –Então aqui não está uma mulher viuva?

    –Mulher viuva?

    –Sim.

    –Está lá em cima uma mulher viuva, que é a governante da casa.

    –Essa mesma é que eu quero vêr, disse D. Theodora.

    –Quem lhe hei de eu dizer que a procura?

    –Diga-lha que é uma pessoa.

    –A este tempo estava já na janella a sr.^a D. Thomazia Leonor, cuja
    attenção fôra chamada pelo desabrimento do dialogo.

    –Quem é a senhora?–perguntou a viuva do tenente.

    D. Theodora impertigou o pescoço, e como visse uma mulher de touca
    parda, e já avelhentada, conjecturou que fallava com uma criada.

    –Quero fallar á senhora viuva.

    –Abra a porta, José–disse D. Thomazia ao criado.

    –Subiu a fidalga com o tio, entraram na sala de espera, que já estava
    aberta, e d'ahi a pouco entravam n'outra sala, que era a das visitas.

    D. Theodora olhava em de redor de si por sobre aquelles riquissimos
    setins e marmores, e dizia intallada:

    –Olha o meu dinheiro por onde anda!…

    Paulo benzia-se e murmurava:

    –Parece o palacio do rei!

    D. Thomazia demorara-se a mudar de touca, de cazebeque e botinhas.
    Entrou na sala com o garbo de lisboeta, e disse a D. Theodora:

    –Eu desejo saber com quem tenho a honra de fallar.

    –Então a senhora é que é a viuva?

    –Eu é que sou a viuva do tenente de infanteria 13, João da Silva
    Gonçalves. Dar-se-ha caso que v. ex.^a seja uma prima que meu marido
    tinha na provincia do Minho?

    –Não sou quem a senhora pensa.

    –Então tem a bondade de dizer…

    –Pois a senhora é que é a tal pessoa?…–tornou Theodora, já menos
    raivosa, que espantada do depravado gosto do marido.

    –Que pessoa? não sei de quem v. ex.^a falla.

    –A amasia de meu marido…

    –Amasia de seu marido!… Cruzes!… a senhora veiu enganada… Eu sou
    uma viuva honrada; chamo-me Thomazia Leonor. Quem é o marido da
    senhora?! Isto tem graça!…

    –Meu marido é o deputado Calisto Eloy.

    –Ah!–exclamou Thomazia–Então v. ex.^a é esposa do sr. morgado…

    –Já me conhece?!…–disse sorrindo ferozmente Theodora.

    –Agora tenho a honra de a conhecer; mas eu não sou a pessoa que v.
    ex.^a procura. Bem vê que sou uma mulher de edade, e por desgraça estou
    aqui n'esta casa da prima do sr. morgado como dispenseira, e aia da
    fidalga.

    –E que é da tal fidalga?

    –Anda a viajar pela Europa.

    –Onde é a Europa?–perguntou D. Theodora colerica.

    –A Europa é este mundo por onde anda a gente, minha senhora–respondeu
    promptamente a viuva.

    –Mas é longe onde está a tal prima de meu marido?

    –Muito longe: elles já embarcaram ha seis dias… Deus sabe onde elles
    estão agora.

    –Pois foram os dois?–bradou Theodora, sacudindo murros fechados.

    –Foram sim, minha senhora.

    –E quando voltam?

    –Quem sabe!… Os fidalgos não disseram nada: póde ser que passem
    alguns mezes lá por fóra.

    –Raios os partam!–vociferou Theodora.

    –Deus os defenda!–emendou Thomazia–Pois v. ex.^a deseja tanto mal a
    seu marido, que é um anjo, e a sua prima, que é um serafim!…

    –A minha prima?!–ululou a morgada.

    –Sim, minha senhora; pois tão prima é ella do marido de v. ex.^a como
    sua.

    –Ella o que é, sabe que mais? é uma desavergonhada, e tudo que aqui
    está é meu, foi comprado com o meu dinheiro.

    –Seria–disse Thomazia algum tanto enfadada–seria, mas eu não tenho
    nada com isso, minha senhora. A sr.^a D. Iphigenia Ponce de Leão
    entregou-me a sua casa, quando foi viajar: hei de entregar-lh'a como a
    recebi; e v. ex.^a lá se avenha com seu marido, quando elle voltar. D.
    Theodora Figueirôa, empuchada por impulsos dos nervos, corria de angulo
    para angulo o salão. De uma vez, olhou por entre duas portadas mal
    fechadas para o interior de outra sala, e exclamou:

    –Olhe, meu tio! olhe que riqueza aqui vae!

    Deu um pontapé nas portadas, e entrou, bradando:

    –O meu dinheiro! o meu dinheiro!…

    Era ali o sumptuoso gabinete de leitura e musica de D. Iphigenia.
    Ornavam as paredes dois retratos a corpo inteiro: Calisto Eloy com a
    farda de fidalgo cavalleiro; e Iphigenia trajada de amazona.

    –Olha o meu marido!–clamou Theodora–aquella é a tal mulher? perguntou
    á espantada Thomazia.

    –Aquella é a sr.^a D. Iphigenia.

    –Vou rasgar aquelle diabo!–berrou a morgada, puchando uma cadeira para
    trepar.

    –Isso alto lá, minha senhora!–acudiu irada a dispenseira–V. ex.^a não
    estraga coisa nenhuma. E, se continua n'esse disparate, eu mando chamar
    o cabo da rua para a pôr lá fóra.

    –Pôr-me a mim lá fóra?! bradou Theodora!

    –Sim, minha senhora, que isto não são termos. Nem me parece senhora! cá
    em Lisboa acções d'estas só as praticam as peixeiras.

    Paulo foi ao pé da sobrinha, e disse-lhe:

    –Theodora, vamos. A mulher tem razão, porque é criada da casa e tem de
    dar contas.

    –Não sou criada; sou aia da fidalga–corregiu a viuva, offendida nas
    dragonas do seu defunto tenente.

    –Aia, ou o diabo que é–tornou Paulo–Vem d'ahi, sobrinha–e tirou-a
    pelo braço, em quanto ella assestava os punhos fechados ao retrato de
    Iphigenia.

    Á saida d'aquella casa, D. Theodora, a consorte fiel, a mulher que fez
    eclypse nas virtudes conjugaes do Indostão, sentiu quebrar-se o ultimo
    cabello que a prendia á historia das esposas exemplares.

    N'aquella hora funesta, lembrou-se com saudades do primo Lopo de Gamboa.

    O patife vencêra!

    XXXV

    *A felicidade infernal do crime*

    Recebeu Calisto Eloy em Paris a minudenciosa narrativa dos factos
    acontecidos, e escondeu de Iphigenia a carta de D. Thomazia.

    Foi tamanha sua vergonha e odio, que d'alli escreveu a Lopo de Gamboa,
    reagradecendo-lhe o aviso que lhe dera do infame projecto de Theodora;
    e, lhe asseverava que, depois de tão incrivel e original desaforo, se
    considerava viuvo, e nunca mais diante de seus olhos consentiria
    similhante furia. Ajuntava que, na volta para Portugal, ia requerer
    divorcio, e separação dos casaes, se a esse tempo Theodora se não
    houvesse recolhido á sua casa de Travanca, sem tocar no minimo dos
    valores pertencentes ao casal da Agra de Freimas.

    Tirante o que, n'esta carta, dizia respeito ao aviso enviado para
    Lisboa, Lopo leu declamatoriamenle as ameaças de Calisto, e os epithetos
    injuriosos com que elle castigava a petulancia da mulher. Ao tempo
    d'esta leitura, superflua já era tão rija catapulta para derrubar a
    virtude de Theodora.

    Quasi impassivelmente recebeu ella os insultos. Cuidou logo em
    transferir-se para o seu solar, e repartiu entre o velho Paulo e seu
    primo Lopo, o cuidado da administração dos seus abastosos vinculos. Ora,
    o primo Lopo, afim de esmerar-se na tarefa que lhe era confiada, mudou a
    sua residencia para casa da prima, e cuidou de restituir áquelle solar a
    antiga magestade dos defuntos Figueirôas. Para isto, lhe transmittiu sua
    prima aquelle caixote das peças, que para alli estavam amuadas, desde
    que o governador da India voltára com ellas d'além-mar, provavelmente
    adquiridas com tanta honestidade como agora iam ser esbanjadas.

    Graças ás modistas de Penafiel, e, mais ainda, ás meninas da estalagem,
    D. Theodora Figueirôa affeiçoou-se ao merinaque, e ao feitio e estofo do
    vestido e paletó. O primo Lopo dizia-lhe, algumas vezes, que ella, em
    companhia de Calisto, era um diamante bruto; e se n'isto havia
    encarecimento, até certo ponto o bacharel maravilhava-se do influxo que
    o trajar exercitava nas fórmas de sua prima. A cintura adelgaçou-se;
    apequenou-se-lhe o pé; alargaram-se-lhe os encontros; amaciou-se-lhe a
    cutis; branquearam-se-lhe os braços; escampou-se-lhe a fronte com o
    riçado dos cabellos; toda ella adquiriu no andar certo requebro e
    donaire que lhe ia tão ao natural como se tivesse sido educada por salas
    e adextrada em flexuras da dança! A mulher, com effeito, é um mysterio!
    Estas methamorphoses aos quarenta annos só podem fazer-se e estudar-se a
    espelho, cujo aço tem composição dos laboratorios d'aquelle imaginoso
    chefe dos rebeldes, que Deus despenhou do empyreo, sem todavia o
    esbulhar dos dons da intelligencia!

    E, por sobre tudo isto, para que ninguem duvide da intervenção diabolica
    n'este caso, Theodora vivia contente, esquecida, feliz!

    XXXVI

    *Saldo de contas conjugal*

    Chegou a Paris a boa nova, desacompanhada de pormenores deshonrosos.
    Dizia apenas o feitor do morgado que a fidalga se retirara para
    Travanca, deixando tudo que encontrára, e levando tudo que trouxera.
    Lopo de Gamboa industriára o feitor na direcção que havia de dar á
    carta. Faltou-lhe apurar o desvergonhamento ao extremo de continuar
    correspondencia com o marido de sua prima.

    Calisto desandou para Lisboa, prevenindo Thomazia que occultasse de
    Iphigenia a indecorosa scena que sua mulher fizera.

    Na volta de Paris, o morgado aposentou-se no palacete da brazileira. O
    passeio á Europa limpou-lhe do espirito as teias: é bom desempoeirar os
    olhos com a viração salutar dos ares de França e Italia. Lisboa pareceu
    a Calisto Eloy terra pequena de mais para sacrificios tamanhos.
    Emancipou o coração, e obedeceu-lhe.

    Assistiu ainda o deputado a algumas sessões parlamentares. Floreou os
    seus discursos com as recordações do progresso industrial no
    estrangeiro. Enlevou-se nas delicias de França, e não andou por muito
    longe da phrase arrobada do dr. Liborio de Meirelles na apologia dos
    esplendores estranhos, e lamentações das miserias da patria.

    Providenciou sobre negocios de sua casa, para que os recursos lhe não
    minguassem nas pompas do seu viver em Lisboa, e começou um doce viver,
    não mareado de minimo dissabor. Renasceu-lhe no espirito, já livre dos
    sobresaltos do coração, o amor á leitura de livros modernos, em que se
    lhe deparavam luzes e idéas, que elle, a furto, conseguia entrever nas
    litteraturas antigas. Avermelhava-se-lhe o rosto, quando lia o seu
    discurso ácerca do luxo, e o outro mais tôlo sobre Lucrecia Borgia do
    theatro lyrico. A sciencia moderna flagellava-o. Tinha elle escripto nos
    dois primeiros mezes alguns quadernos de papel, no proposito de dar á
    estampa um livro contra o luxo. Releu com pejo a sua obra, e ordenou a
    um criado que queimasse o manuscripto. O criado não o queimou.
    Escondeu-o sem máo intento; e alguma vez saberá o mundo litterario como
    aquelles papeis vieram á minha mão, e ainda me são deleite e licção de
    sã linguagem e sãs doutrinas.

    Decorreram alguns mezes sem successo que dê capitulo d'algum interesse.
    Fechado o triennio da legislatura, Calisto Eloy foi agraciado com o
    titulo de barão da Agra de Freimas, e carta do conselho. Sondou o animo
    de alguns influentes eleitoraes de Miranda para reeleger-se pelo seu
    circulo. Disseram-lhe que o mestre-escola lhe hostilisava a candidatura,
    emparceirado com o boticario. Comprou o barão dois habitos de Christo
    que fez entregar, com os respectivos diplomas, aos dois influentes. Na
    volta do correio foi-lhe assegurada a eleição, que, de mais a mais, o
    governo apoiava.

    Por esta occasião, Braz Lobato, religada a amizade antiga, escreveu ao
    fidalgo uma carta em que, pouco menos de brutalmente, reproduzia os
    boatos correntes ácerca do procedimento da sr.^a D. Theodora com o seu
    primo Lopo de Gamboa.

    O barão experimentou um mal-estar de especie nova, que se desvaneceu a
    pouco e pouco, e só mui levemente se repetiu no dia seguinte. Eu creio
    que o homem aprendêra em Paris dois consolativos versos de Molière:

    _Quel mal cela fait-il? la jambe en devient elle
    Plus tortue, après tout, et la taille moins belle_?

    Averiguei quanto em mim coube o viver interno de Iphigenia e do primo.
    Convinha-me descobrir amarguras lá dentro, para tirar d'ellas o symptoma
    da expiação. Não descobri coisa alguma, que não fosse invejavel. O mais
    que se me deixou vêr de novidade foram duas creanças loiras, lindas,
    alvas de neve, e amimadas entre Iphigenia e Calisto como dois penhores
    de felicidade infinita.

    Como ali cairam dos pombaes do céo aquellas duas avesinhas, que
    saltitavam dos braços de um para o colo do outro, não sei. Eu digo ao
    leitor o que as mães de recem-nascidos dizem aos filhos mais velhos:
    «vieram de França n'uma condecinha.»

    Ouvi rosnar que no sollar de Travanca tambem appareceu um ropolhudo
    menino, que pelos modos, tambem veiu n'um cêsto de alguma parte. Se não
    fossem estas remessas prodigiosas de creanças, acabavam duas
    illustrissimas familias sem posteridade. A natureza é muito engenhosa.

    O barão esperava que a mulher morresse, para legitimar os seus meninos,
    um dos quaes se chamava Mem de Barbuda como seu decimo setimo avô, e o
    outro Egas de Barbuda como seu decimo oitavo avô.

    A baroneza, que, digamol-o depressa, não regeitou o titulo do marido,
    esperava que o marido se anniquillasse na perdição dos seus costumes,
    para tambem legitimar o seu Bernabé. Chamava-se Bernabé aquelle gordo
    menino, gordo que não parecia fructo outoniço de arvore já tão
    esgravinhada e resêca! O amor é tão engenhoso como a natureza.

    *Conclusão*

    Deixal-o ser feliz: deixal-o. Calisto Eloy, aquelle santo homem lá das
    serras o anjo do fragmento paradisico do Portugal velho, caíu.

    Caiu o anjo, e ficou simplesmente o homem, homem como quasi todos os
    outros, e com mais algumas vantagens que o commum dos homens.

    Dinheiro a rôdo!

    Uma prima que o presa muito!

    Dois meninos que se lhe cavalgam no costado!

    Saude de ferro!

    E barão!

    Conjectura muita gente que elle é desgraçado, apezar da prima, do
    baronato, dos meninos, do dinheiro e da saude.

    Eu, como já disse, não sei realmente se lá no recesso dos arcanos
    domesticos ha borrascas.

    Na qualidade de anjo, Calisto, sem duvida, seria mais feliz; mas, na
    qualidade de homem a que o reduziram as paixões, lá se vae concertando
    menos mal com a sua vida.

    Eu, como romancista, lamento que elle não viva muitissimo apoquentado,
    para poder tirar a limpo a sã moralidade d'este conto.

    Fica sendo, portanto, esta coisa uma novella que não ha de levar ao céo
    numero d'almas mais vantajoso que o do anno passado.

    FIM

    *INDICE*

    Dedicatoria
    I–O heroe do conto
    II–Dois candidatos
    III–O demonio parlamentar descobre o anjo
    IV–Asneiras da erudição
    V–Estreia parlamentar de Calisto
    VI–Virtuosas parvoiçadas
    VII–Figura, vestido, e outras coisas do homem
    VIII–Faz rir o parlamento
    IX–O doutor do Porto
    X–O coração do homem
    XI–Santas ousadias!
    XII–O anjo custodio
    XIII–Regeneração
    XIV–Tentação! Amor! Poesia!
    XV–Ecce iterum Crispinus
    XVI–Quantum mutatus!
    XVII–In Liborium
    XVIII–Vae cair o anjo!
    XIX–Ó mulheres!
    XX–Proh dolor!
    XXI–O mordomo das tres virtudes cardeaes
    XXII–Outro abysmo
    XXIII–Tenta o seu anjo da guarda salval-o mediante uma carta da esposa
    XXIV–A mulher fatal
    XXV–Perdido!
    XXVI–E ella amava-o!
    XXVII–A saudade e a sciencia em dialogo
    XXVIII–Ingratidão de um deputado
    XXIX–O demonio em Caçarelhos
    XXX–Como ella o amava!
    XXXI–Vence o demonio! choram os anjos!
    XXXII–A virtude de Theodora em paroxismos
    XXXIII–Escandalos
    XXXIV–Perdida!
    XXXV–A felicidade infernal do crime
    XXXVI–Saldo de contas conjugal
    Conclusão

    *NOTAS*

    [1] _Bebes bem_ e _vives mal_. Fr. Luiz de Sousa confirma este caso,
    algures, na _Vida do arcebispo de Braga_.

    [2] _Nós e nosso rei somos livres, etc_.

    [3] L. II, Epist. II, v. 51.

    [4] O bom vinho alegra o coração do homem.

    [5] Marinho escreveu no periodo da usurpação dos Filippes.

    [6] Duarte Nunes de Leão ainda via os cavalleiros de bronze cujos
    cavallos deram o nome ao chafariz. Historiando o reinado de D. Fernando,
    e a invasão de castelhanos em Lisboa, escreve a pag. 205 e seguintes, da
    primeira parte da chronica dos reis:

    «…E ardeu toda a rua nova, e a freguezia da Madanella e de S. Gião e
    toda a judaria com a melhor parte da cidade. E para memoria daquelle
    grande incendio, tomarão h[~u]as fermosas portas da alfandega da cidade
    para levarem a Castella quando se fossem. E assi quiserão levar h[~u]s
    cavalleiros de bronze, mui bem feitos, [~q] stavã no chafariz, a que
    ficou o nome dos cavallos por cuja bocca sahia aquella grossa agua. Mas
    os cidadãos prevenirão nisso, e os guardarão [~q] lh'os não tomassem,
    por ser cousa publica, e [~q] sendo levado o terião por affronta. Estes
    cavallos que… por aquella differença [~q] os antigos tiverão sobre
    elles os houveram de conservar os governadores da cidade, nestes dias
    proximos, como poucos curiosos de antiguidades, mandaram sem proposito
    tirar, donde tantos tempos estiveram.»

    [7] Prudencia em tudo.

    [8] Sede prudentes como as serpentes, e simplices como as pombas. _S.
    Matt._ c. x. v. 16.

    [9] Coroemo-nos de rosas em quanto ellas não fenecem.

    [10] Gloria aos vencidos.

    [11] O orador forrageou os elegantes dizeres, que vão sublinhados, na
    feracissima seara de um livro do sr. dr. A. Ayres do Gouveia Osorio,
    intitulado: «_A reforma das prisões_.»

    [12] Esta chave de oiro do peregrino discurso foi tambem roubada dos
    thesouros do sr. dr. Ayres de Gouveia, ministro da justiça. Pag. 150,
    2.^o vol. da _Reforma das prisões_.

    [13] Não sejas por demasia justo.

    [14] Palavras e phrases sublinhadas são plagiatos. O dr. Liborio tinha
    vasta leitura da _Reforma das Cadeias_ do insigne escriptor, A. Ayres de
    Gouveia, ministro da justiça, ao fazer d'esta nota (20 de março de 1865,
    meia-noite).

    [15] Já se disse que os primores sublinhados são despejadamente
    forrageados no livro do sr. dr. Ayres de Gouveia.

    [16] _A Reforma das Cadeias_, part. I, pag. 26.

    [17] _Ibid._, pag. 17.

    [18] Antonio Ribeiro dos Santos, 1.^o vol., p. 186.–_A. Alexis_

    [19] É egual o sentir do padre Manuel Bernardes. Diz assim: «Adverte que
    as varias disposições e accidentes que tocam ao nosso corpo, pegam o seu
    modo tambem ao espirito… Diversa feição e actualidade tem o espirito
    de quem vae montado em um formoso cavallo, e o do que vae em um
    despresivel jumento. Se o teu vestido fôr pobre e roto, repara que o
    espirito recebe d'aqui alguma disposição differente da que tem quando o
    vestido é novo e asseado: e assim nas mais cousas. (Luz e Calor. _Silva
    de varios dictames espirituaes_.)

    [20] Se fores a Roma, vive á moda de Roma.

    [21] Creio que os grandes effeitos d'esta narrativa foram detidamente
    estudados e calculados pelo caminho.

    End of Project Gutenberg's A Queda d'um Anjo, by Camilo Castelo Branco

  • A paranoia

    A paranoia

    Aproximadamente 44.906 palavras.

    A PARANOIA

    Julio de Mattos

    ENSAIO PATHOGENICO SOBRE OS DELIRIOS SYSTEMATISADOS

    _…Ci iroviamo proprio faccia a faccia col nudo
    querito della pura pazzia._

    EUGENIO TANZI

    Lisboa
    Livraria Editora
    Tavares Cardoso & Irmão
    5, Largo de Camões, 6

    1898

    A MEMORIA AMIGA DO PROFESSOR SOUSA MARTINS

    PREFACIO

    Ao passo que na sua maioria as doenças hoje estudadas pelos alienistas
    pertencem no fundo á pathologia interna, e só pelo predominio, mais
    apparente ás vezes do que real, dos seus symptomas psychicos se
    apropriaram a designação de _mentaes_, os delirios systematisados,
    esses, pela ausencia de caracteristicas lesões, pela falta de privativas
    causas determinantes e pela carencia de symptomas funccionaes
    objectivamente apreciaveis, constituem a verdadeira loucura, a psychose
    por excellencia, n'uma palavra, o proprio e irreductivel dominio da
    psychiatria.

    Isto é dizer que a observação clinica não póde, ella só, determinar a
    génese d'estes delirios, pois que o confronto dos dados psychicos com os
    somaticos e etiologicos é, no caso sujeito, impraticavel.

    Foi, todavia, pelo exclusivo exame do hypocondriaco, do perseguido, do
    ambicioso, que os alienistas buscaram até ha pouco surprehender a
    pathogenia dos delirios essenciaes. D'aqui o natural insuccesso dos seus
    trabalhos, melhor do que nunca evidenciado nos ultimos debates das
    sociedades psychiatricas de Paris e de Berlim, em que se não fez, por
    confissão dos proprios oradores, mais do que obscurecer e confundir o
    problema posto.

    Por outro caminho,–introduzindo no controvertido thema a criterio da
    evolução, seguiram, felizmente, na Italia contemporanea eminentes
    pshychiatras.

    Inquiridos clinicamente os delirios essenciaes nos seus symptomas e na
    sua marcha, uma coisa resta ainda fazer para os interpretar: o estudo do
    delirante, considerado, não em si mesmo, como individuo, ou nos seus
    ascendentes immediatos, como membro de uma certa familia, mas
    anthropologicamente na sua vasta ancestralidade, como representante de
    uma especie em plena evolução.

    Na sua marcha normal não segue o Espirito ao acaso, mas
    _progressivamente_ por linhas de ideação desde muito entrevistas, senão
    inteiramente definidas; quem nos affirma que na sua marcha anormal elle
    não segue _regressivamente_ pelas mesmas prefixas e inflexiveis linhas
    ideativas?

    Se a dissolução da memoria se apagam primeiro os factos recentes e só
    depois os remotos, primeiro os nomes e só por ultimo os adjectivos e os
    verbos; se na dissociação da motricidade se perdem em primeiro logar os
    actos conscientes e só por fim os habituaes e instinctivos; se na
    desaggregação affectiva são os primeiros a fazer naufragio os
    sentimentos altruistas e só em derradeiro logar se extinguem os
    egoistas, é possivel e provavel mesmo que na esphera propriamente
    conceptiva a marcha pathologica se realise, ao menos em certos casos,
    n'um sentido tambem regressivo. Ora, segundo a escóla italiana, isto se
    dá, com effeito, nos delirios systematisados essenciaes, manifestação.

    PRIMEIRA PARTE

    Historia dos delirios systematisados

    I–PHASE INICIAL

    De Areteu a Esquirol–Confusão dos delirios systematisados com a
    melancolia–A monomania intellectual e as suas fórmas depressiva e
    expansiva.

    Se conheceram os delirios systematisados, não deixaram d'isso documento
    os escriptores que precederam a nossa era. É sómente a datar do primeiro
    seculo, em Areteu e Celio Aureliano, que encontramos incontestaveis e
    inequivocas referencias aos perseguidos.

    Occupando-se dos melancolicos, escrevia, com effeito, o primeiro d'estes
    medicos: «Muitos receiam que lhes propinem venenos; os seus sentidos
    adquirem um redobramento de finura e de penetração que os torna
    suspeitosos e de uma habilidade extrema em verem por toda a parte
    disposições hostis»[1]. Pelo seu lado, Celio Aureliano, fallando dos
    mesmos doentes, affirmava que muitos «experimentam uma desconfiança
    continua, um permanente receio de imaginarias armadilhas»[2].

    [1] Areteu,_De Melancholia_, apud Trelat, _Recherches historiques sur la
    folie,_ pag. 10

    [2] Vid. Trelat, _Obr. cit._, pag. 38.

    A confusão que n'estas passagens se nota entre perseguidos e
    melancolicos, subsistirá, como veremos, até muito perto de nós e merece
    explicar-se desde já.

    Definindo a melancolia «animi angor in una cogitatione defixus», Areteu
    caracterisava esta doença por duas ordens diversas de factos a que dava
    igual valor: de um lado, o phenomeno emotivo, consistindo n'um estado de
    angustia _animi angor_, do outro, o facto intellectual de uma concepção,
    delirante absorvendo e fixando o espirito (_in una cogitatione
    defixus_). Pouco a pouco, porém, a consideração de um delirio limitado
    foi, talvez por mais apparente, predominando sobre a de um estado mental
    depressivo na caracterisação da melancolia, como se vê nos auctores que
    succederam a Areteu. Procurando, com effeito, differenciar a melancolia
    da mania, elles não o faziam pondo em contraste os estados emotivos que
    acompanham estas vesanias, mas proclamando que na primeira o delirio é
    limitado, unico e absorvente, ao passo que na segunda elle é multiplo,
    geral e dispersivo.

    Repetindo-se atravez dos tempos, esta doutrina que faz prevalecer o
    elemento intellectual sobre o emotivo, conquista de tal modo as opiniões
    que no seculo XVII melancolia e delirio parcial tornam-se termos
    equivalentes. Assim Sennert a definia: «Uma concentração da alma sobre a
    mesma idéa ou um delirio que se exerce sobre um pensamento, falso quasi
    exclusivo».[1]

    [1] Vid. Morel,_Traité des maladies mentales_, pag. 54.

    Nenhuma idéa de emoção depressiva e dolorosa se encontra n'esta e
    analogas definições, em que, pelo contrario, a unidade do delirio figura
    como elemento exclusivo. O _angor animi_ de Areteu desapparecera,
    restando apenas da antiga definição o conceito de um espirito absorvido
    _in una cogitatione_. Logicamente, pois, incluiram os medicos do seculo
    XVII o delirio de grandezas no quadro clinico da melancolia. Sob o seu
    ponto de vista, com effeito, tanto valem os perseguidos como os
    megalomanos, porque uns e outros são, no dizer de Sennert, doentes «cuja
    razão se acha pouco alterada ou apenas alterada em relação a um
    objecto», isto é, por definição, melancolicos. Entre estes collocava o
    auctor que acabamos de citar, um doente julgando-se monarcha do Universo
    e cuja razão, _só parcialmente lesada_, lhe permittia «dissertar
    perfeitamente sobre as mais graves questões». Plater, ao lado dos
    melancolicos sitiophobos «receiando envenenamentos e accusando de
    hostilidade e perfidia os seus mais intimos amigos», collocava doentes
    «possuidos das idéas de opulencia e de realeza».

    A unidade do delirio e não a natureza d'elle ou das emoções que o
    acompanham, constituia no seculo XVII, como se vê, a caracteristica dos
    estados melancolicos. De resto, Sennert explicitamente affirmava que «na
    melancolia o delirio é muitas vezes alegre».

    Os medicos do seculo XVIII acceitaram unanimemente a doutrina que no
    quadro clinico da melancolia fazia entrar a titulo de variedades os
    delirios de perseguições e de grandezas. Para Sauvages, por exemplo, o
    delirio exclusivo caracterisava a melancolia; mais explicito, Lorry
    descreveu como fórma d'esta vesania «um delirio parcial exaltado com
    paixão excitante».

    A primeira metade do nosso seculo não trouxe modificação sensivel a
    estas idéas. Rusch descrevia em 1812 duas variedades melancolicas, uma
    triste, _tristimania_, outra alegre, _aménomania_. Pinel admittia
    igualmente duas fórmas de melancolia: uma depressiva e outra ambiciosa,
    caracterisadas por um delirio parcial. «Nada mais inexplicavel, diz
    elle, e, todavia, nada mais verificado que a existencia de duas fórmas
    oppostas da melancolia. É algumas vezes uma explosão de orgulho e a
    idéa chimerica de possuir immensas riquezas e um poder sem limites,
    outras vezes o abatimento mais pusilanime, uma consternação profunda e
    mesmo o desespero»[1].

    [1] Pinel, _Traité médico-philosóphique sur l'aliénation mentale_, pag.
    165.

    Sob diversa nomenclatura, Esquirol propagou, sem as alterar no fundo, as
    idéas dos seus antecessores. Designando pelo termo infeliz de
    _monomania_ o grupo dos delirios parciaes, acceita duas variedades ou
    especies: uma, depressiva, a _lypemania_, outra, expansiva, a _monomania
    propriamente dita_. A _lypemania_, que não é senão a _tristimania_ de
    Rusch ou a melancolia de fórma depressiva de Pinel, comprehende entre
    outras variedades o delirio de perseguições, ainda então innominado; _a
    monomania propriamente dita_, que equivale á _aménomania_ de Rusch e á
    melancolia de fórma expansiva de Pinel, é por elle definida «um delirio
    parcial ou monomania alegre», e comprehende os delirios de grandezas,
    não só o idiopatico, mas, como se vê nos casos que aponta, o
    symptomatico da paralysia geral, ao tempo ainda não descripta.

    Recebendo a influencia tradicional dos seus predecessores, Esquirol
    transmittiu-a, reforçada pela sua grande auctoridade, aos alienistas que
    lhe succederam na primeira metade d'este seculo. É documento d'isso o
    extraordinario successo da doutrina das monomanias, aliás
    psychologicamente erronea, clinicamente infecunda e juridicamente
    perigosa.

    No seu _Tratado das Doenças Mentaes_ affirma Esquirol que o termo
    _monomania_ adquiriu direitos de cidade pela, introducção no diccionario
    da Academia Franceza, e felicita-se por isso. E, todavia, esse termo é
    confuso, porque no proprio livro do mestre nos apparece com
    significações diversas, ora designando, como vimos, delirios parciaes,
    ora obsessões e impulsos, isto é, um conjuncto de factos heterogeneos e
    de significação clinica diferente. Primitivamente creada para designar o
    mesmo que a melancolia dos antigos–uma affecção parcial do
    entendimento, acompanhada quer de tristeza, quer de expansão, a palavra
    _monomania_ foi insensivelmente generalisada pelo proprio Esquirol no
    sentido de exprimir uma doença, ou desvio parcial de qualquer faculdade:
    ao lado de uma _monomania intellectual_, tem logar uma _monomania
    affectiva_ e uma _monomania impulsiva_. Delirios systematisados, emoções
    procedentes de idéas obsediantes, impulsos cegos e irresistiveis, tudo
    entra no quadro da monomania–o mais amplo, diz Esquirol, de toda a
    classificação.

    De sorte que, se os antigos, desviando a palavra _melancolia_ do
    significado que Areteu lhe dera, chamaram a um só grupo delirios do
    caracter diverso e lançaram assim na sciencia uma grande confusão,
    Esquirol não fez senão augmental-a pela creação das monomanias.

    Como quer que seja, o immenso e, por innumeros titulos, justificado
    prestigio d'este observador fez correr a palavra e a doutrina. Sem
    duvida, objecções foram bem cedo erguidas contra ambas por Falret,
    Delasiauve e outros, que negaram a existencia de delirios circumscriptos
    a uma só idéa, affirmados na palavra, ou pozeram em relevo a
    solidariedade das funcções mentaes, contradictada pela doutrina. «Todas
    as faculdades, escrevia Falret em 1819, participam em maior ou menor
    grau das desordens intellectuaes; de resto, sempre que uma idéa falsa
    invade a intelligencia, o seu poder contagioso exerce-se sobre as
    outras, de sorte que sob um delirio preponderante véem-se estabelecer
    delirios secundarios e derivados que não tardam a invadir todo o
    intendimento»[1]. Pelo seu lado, Delasiauve escrevia em 1829: «Póde
    acaso limitar-se o circulo d'acção em que uma idéa dominante deve
    exercer ou realmente exerce a sua influencia?» E mais tarde ainda: «O
    delirio dos monomanos não é nunca tão circumscripto como se pretendeu; a
    verdadeira monomania é rarissima!»[2] Todavia, a criticas d'esta ordem
    redarguiam Esquirol e os seus discipulos que nem a palavra _monomania_
    significava unidade de delirio, nem a doutrina necessariamente implicava
    que a lesão de uma faculdade não podesse fazer-se sentir sobre as
    outras; para elles, a monomania designava uma lesão parcial e
    preponderante, mas não unica e independente, das faculdades.

    [1] Falret, _Des maladies mentales_

    [2] Delasiauve, _Les Pseudomonomanies_

    «Tem-se negado, escrevia Esquirol, a existencia dos monomaniacos,
    dizendo-se que os alienados não deliram nunca sobre um só objecto, mas
    que sempre n'elles há perturbações da sensibilidade e da vontade. Mas,
    se assim não fosse, os monomaniacos não seriam loucos.»[1] Pelo seu
    lado, Marcé escrevia: «Nunca os que crêem na existencia das monomanias
    pensaram em negar a solidariedade das faculdades intellectuaes no
    monomaniaco. Reconhecendo que o delirio é raras vezes limitado a um só
    ponto, crêem, no emtanto, dever conservar as monomanias a titulo de
    grupo distincto.»[2]

    [1] Esquirol,_Des maladies mentales,_ tom. II, pag. 4.

    [2] Marcé, _Traité pratique des maladies mentales,_pag. 351.

    Voltemos, porém, ao nosso restricto assumpto.

    A _monomania intellectual_ de Esquirol, caracterisada por um delirio
    limitado de natureza alegre ou triste, não é senão a _melancolia_ dos
    antigos medicos. Para aquelle, como para estes, era a extensão dos
    conceitos falsos o criterio para classificar as loucuras em que ha
    compromisso da intelligencia: de um lado, a mania, manifestando-se por
    um delirio geral e dispersivo, do outro, a monomania, symptomatisada por
    um delirio parcial e fixo.

    Se a estas duas especies accrescentarmos a _idiotia_ e a _demencia,_
    entrevistas por Pinel, mas só definidas por Esquirol, a _estupidez_
    descripta por Georget, e a _paralysia geral,_ estudada por Calmeil,
    encontramo-nos em face da classificação das psychoses que até ao meiado
    do nosso seculo a França inteira adoptou. Ora, dentro d'esta
    classificação, não teem logar distincto e proprio, como se vê, os
    delirios systematisados: o de perseguições é descripto como uma
    variedade lypemaniaca, e o de grandezas é confundido com as
    manifestações symptomaticas de outras doenças mentaes.

    II–PHASE ANALYTICA

    De Lasègue a J Falret e de Griesinger a Snell e Sander–O delirio de
    perseguições; a megalomania; o delirio dos perseguidores; a Verrücktheit
    secundaria; a Verrücktheit originaria–Começo de interpretação
    pathogenica.

    Foi Lasègue em 1852 quem primeiro destacou do cahos da melancolia o
    delirio de perseguições para eleval-o á dignidade de «especie
    pathologica entre as alienações mentaes».

    No seu memoravel trabalho sobre este assumpto, o eminente alienista
    começa por notar que as idéas de perseguição apparecem como episodio
    symptomatico e a titulo de phenomeno incidente no _alcoolismo_, nas
    _loucuras provocadas por certas substancias narcoticas_ e em muitos
    _delirios parciaes_; na doença, porém, que elle descreve pela primeira
    vez essas idéas não são um syndroma fortuito, mas um facto constante e
    essencial, um phenomeno preponderante e fixo. A nova psychose tem, de
    resto, como titulos á autonomia nosographica, symptomas especiaes e uma
    evolução caracteristica.

    Estudando a marcha do delirio de perseguições, Lasègue reconhece-lhe
    dois periodos: um, _de incubação,_ consistindo n'um mal-estar indefinido
    e vago, mas absorvente e inquietante, em que o doente se suspeita
    victima de hostilidades cuja origem não sabe ainda determinar; outro,
    _de estado_, em que o delirio definitivamente se installa e systematisa.
    Ao principio o doente não exprime a idéa de uma perseguição senão com
    uma _certa reserva_, hesitantemente, tentando ainda provar a si mesmo
    que ella é _absurda_; mais tarde, porém, a duvida esbate-se e o systema
    delirante apparece definitivamente formado. A duração do primeiro
    d'estes periodos é essencialmente variavel: tão rapida em alguns doentes
    _que a custo se lhe surprehende o primeiro grau_, prolonga-se e
    arrasta-se em outros, que só _muito gradualmente_ e por uma _progressão
    bem sensivel_ e bem apreciavel attingem a construcção do seu romance
    delirante.

    Do mal-estar caracteristico do primeiro periodo diz Lasègue que elle _se
    não parece em nada com a inquietação ainda a mais viva do homem normal_;
    é indefinivel, accrescenta, como _os symptomas que annunciam e fazem
    presentir a invasão das doenças graves_. O periodo de estado, esse, é
    como a _floração_ da psychose: o _romance systematico_ desenvolve-se
    pelo reconhecimento dos perseguidores–a policia, o jesuitismo, os
    magnetisadores, a maçonaria, os physicos, etc.

    Passando ao estudo dos symptomas, Lasègue põe em relevo o papel que
    desempenham na doença as falsas sensações auditivas. «O orgão do
    ouvido, escreve o eminente professor, fornece as primeiras sensações
    sobre que se exerce a intelligencia pervertida. O doente ouve retalhos
    de conversas que interpreta e se applica; os mesmos ruidos que
    naturalmente se produzem,–a passagem de um trem, os passos de uma
    pessoa que sobe ou desce uma escada, uma porta que se abre ou fecha, são
    objecto dos seus commentarios».[1] Fallando, em seguida, das
    allucinações auditivas, declara-as _as unicas compativeis com o delirio
    de perseguições;_ e accrescenta: «Basta que um doente accuse visões para
    que eu não hesite em affirmar que elle pertence a outra cathegoria de
    delirantes»[2]. Na mesma ordem de idéas escreve ainda: «Qualquer que
    seja a epocha em que ellas se declarem, as allucinações pertencem sempre
    ao quadro das auditivas; não é demais a minha insistencia sobre este
    caracter, que considero pathognomonico»[3]. Todavia as allucinações do
    ouvido, tão importantes e de tão vasto papel, não são para Lasègue um
    phenomeno constante na psychose que descreve: «A allucinação do ouvido,
    diz elle, não é nem a consequencia obrigada, nem o antecedente
    necessario do delirio de perseguições»[4]. Os perseguidos podem, segundo
    elle, não experimentar nunca allucinações; limitando-se a _fundar
    inducções delirantes sobre sensações anditivas reaes_, alguns ha que
    percorrem _todos os periodos da doença_.

    [1] Lasègue, _Le délire des persécutions_ in _Ètudes médicales_, tom.
    1., pag. 554.

    [2] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 555.

    [3] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 555.

    [4] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 555.

    Lasègue não refere allucinações além das auditivas: «As outras sensações
    de que os perseguidos se queixam, diz elle, reduzem-se a impressões
    nervosas»[3]. De resto, estas mesmas impressões devem antes lançar-se á
    conta do hysterismo que á do delirio de perseguições: «As mulheres, diz
    elle, offerecem os exemplos mais frequentes–sopros internos, subitos
    calores, entorpecimentos, dores atrozes e passageiras e os outros
    accidentes tão moveis da hysteria»[4].

    [3] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 556.

    [4] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 557.

    Como a symptomatologia e a marcha da doença, a pathogenia d'ella mereceu
    tambem as attenções de Lasègue. Segundo elle, o delirio procederia
    sempre da necessidade que o alienado sente de explicar as sensações
    anormaes do periodo inicial, e resultaria, portanto, de uma consciente
    elaboração logica. «A crença n'uma perseguição, diz elle, não é senão
    secundaria; provoca-a a necessidade de dar uma explicação a impressões
    morbidas provavelmente communs a todos os doentes e que todos referem á
    mesma causa»[1]. Por um raciocinio, pois, passaria o perseguido do vago
    mal-estar do periodo prodromico ao delirio systematisado e quasi
    invariavel que caracterisa a doença em plena floração. O facto inicial
    seria um phenomeno confuso da sensibilidade, uma perturbação emotiva, o
    phenomeno intellectual, o delirio, seria ulterior e nascido do primeiro.
    «É, diz Lasègue, depois de um certo tempo de preoccupação e de
    resistencia que o alienado procura remontar á causa dos seus
    soffrimentos, e passa assim do primeiro ao segundo periodo. A transição
    faz-se então por este invariavel raciocinio: os males que soffro são
    extraordinarios; tenho experimentado bem mais duros golpes, mas
    concebia-os, descobria-lhes mais ou menos o motivo; agora encontro-me em
    condições extranhas que não dependem nem da minha saude, nem da minha
    posição, nem do meio em que vivo: é preciso que alguma coisa de
    exterior, de independente de mim intervenha; ora eu soffro e sou
    desgraçado: só inimigos podem ter interesse em me magoar; devo, pois,
    crêr que intenções hostis são a causa das impressões que
    experimento»[2].

    [1] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 552.

    [2] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 552.

    Decorrido o periodo prodromico e attingida a systematisação delirante,
    a doença deixaria, segundo Lasègue, de acompanhar-se de _grandes
    perturbações de sentimentos_. Ha perseguidos que, _mudando
    constantemente de casa, fatigando incessantemente magistrados e
    auctoridades com interminaveis queixas, conservam_, todavia, _uma certa
    egualdade de humor_ «Nunca vi nenhum, diz o auctor, cahir em melancolia
    continua, reagir por odios violentos ou meditar vinganças»[3].

    [3] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 551.

    Occupando-se da etiologia, Lasègue nota que o maximo de frequencia do
    delirio de perseguições se realisa entre os 35 e os 50 annos e que esta
    psychose ataca de preferencia as mulheres: segundo a sua estatistica,
    25% das alienadas, comprehendidas as idiotas e imbecis, seriam
    perseguidas. As causas proximas seriam, em regra, _de uma completa
    insignificancia:_ uma insomnia, uma phrase inoffensiva, uma refeição de
    sabôr desagradavel, etc. Emfim, estudando o delirio em relação ao
    caracter anterior do doente, Lasègue nota que «os espiritos mais timidos
    não são os mais predispostos»; no delirio de perseguições vê o eminente
    clinico, não o exaggero de uma prévia tendencia natural, mas um
    _elemento pathologico novo introduzido no organismo moral e sem
    equivalente no estado de saude._

    Procurando apenas «estabelecer um typo clinico e determinar os
    caracteres que devem entrar na sua definição», o notavel alienista
    declara abster-se de estudar «a marcha decrescente da doença e as suas
    indicações therapeuticas».

    Tal é nos seus traços capitaes e na sua mesma essencia a extraordinaria
    memoria de Lasègue.

    Sem nada accrescentar a este quadro clinico, Morel fez, todavia, desde
    1853 umas importantes observações sobre a historia dos perseguidos,
    affirmando que muitos d'elles principiam por ser hypocondriacos e acabam
    por delirar n'um sentido ambicioso.

    Exposta pela primeira vez d'uma maneira dogmatica e n'um certo grau de
    generalidade nos seus _Estudos Clinicos,_ a observação de Morel tinha,
    contudo, precedentes na sciencia. Pinel, com effeito, illustrando o que
    elle chamava a transição da _melancolia depressiva_ á _melancolia
    ambiciosa_, expozera em 1809 alguns casos de doentes que, tendo-se
    julgado por mais ou menos tempo victimas de hostilidades e de manejos
    criminosos, acabaram por crêr-se grandes personagens; pelo seu lado,
    Esquirol notára tambem desde 1838 que da hypocondria póde passar-se á
    _lypemania_ e d'esta á _monomania da vaidade_, apresentando como
    exemplos alguns interessantes vesanicos primeiro hypocondriacos, depois
    perseguidos e por ultimo ambiciosos. Entre os casos de Pinel ha o de um
    alienado que durante oito annos delirou como perseguido, crendo-se em
    constante imminencia de morte por envenenamento, não ingerindo senão
    alimentos que furtava na cosinha do asylo, e que acabou por crêr-se
    igual ao Creador e soberano do mundo; entre as observações de Esquirol
    figura a de um doente que, excessivamente inquieto sobre o seu estado de
    saude durante mais de dois annos, entra em seguida no caminho das
    perseguições, imaginando-se objecto de tentativas de envenenamento por
    parte da familia, e termina, decorrido um anno, por crêr-se filho de
    Luiz XVI. Mas, por valiosas e instructivas que sejam em si mesmas, estas
    observações não desempenham nos livros de Pinel e de Esquirol mais que
    um papel episodico e sem alcance. Morel foi indiscutivelmente o primeiro
    a vêr n'uma tal successão de delirios, não apenas um curioso accidente,
    mas uma verdadeira lei de evolução vesanica, segundo a qual a passagem
    regular da hypocondria ao delirio de perseguições e d'este ao delirio
    ambicioso seria um facto constante nos alienados hereditarios. D'aqui a
    affirmar a existencia de uma psychose degenerativa de que os delirios
    hypocondriaco, persecutorio e ambicioso, succedendo-se, não
    constituiriam senão _étapes_ ou phases evolutivas, vae uma pequena
    distancia que Morel percorreu, como veremos, desde a publicação dos
    _Estudos Clinicos_ em 1853 até á do _Tratado das Doenças Mentaes_ em
    1860.

    Outros auctores franceses, entre os quaes Renaudin, Broc e Dagonet,
    notaram a successão de delirios diversos, nomeadamente de perseguições e
    de grandezas, n'um mesmo alienado; todavia, por desconhecimento ou
    incomprehensão do alcance dos trabalhos de Morel, nenhum d'elles se
    preoccupou com a interpretação do phenomeno. Só em 1869 Foville,
    retomando a questão na sua excellente memoria sobre a _Loucura com
    predominio ao delirio de grandezas_, procurou interpretar, sobretudo, a
    passagem–tão frequentemente observada agora que a attenção dos clinicos
    incidia sobre ella–do delirio de perseguições ao de grandezas.

    Marcando na historia dos delirios systematisados um periodo importante,
    o trabalho de Foville merece deter-nos um momento.

    Depois de ter mostrado que o delirio de grandezas póde apparecer a
    titulo episodico na maioria das doenças mentaes e com mais ou menos
    relevo constituir um syndroma de algum dos seus periodos evolutivos,
    Foville estabelece que elle se torna preponderante e reveste
    inconfundiveis caracteres semeioticos em dois casos: na loucura parcial
    e na demencia paralytica. Pondo de parte, por alheio ao nosso estudo,
    este ultimo caso, vejamos o que Foville pensava do primeiro.

    A loucura parcial, que importa não confundir com a monomania de
    Esquirol, representaria, segundo Foville, as alienações caracterisadas
    pelo conjuncto d'estes caracteres: presença de um delirio systematisado,
    ausencia de um estado habitual depressivo ou expansivo, existencia de
    perturbações sensoriaes, e chronicidade.

    O delirio de perseguições descripto por Lasègue é um dos representantes
    d'este grupo; um outro seria, segundo Foville, a _megalomania_, que elle
    define como um delirio de grandezas logicamente coordenado,
    associando-se a allucinações chronicas e, no seu periodo de estado, a
    idéas de perseguição.

    Em rigor, nem o termo é novo, porque antes o tinham empregado, entre
    outros, Broc e Dogonet, nem a definição da doença absolutamente
    original, porque desde Esquirol se havia reconhecido a existencia de um
    delirio ambicioso idiopatico. O que de original e novo existe no
    trabalho de Foville é a maneira de estudar a génese do delirio de
    grandezas e as relações d'elle com a doença de Lasègue.

    Segundo Foville, na loucura parcial, de que são escólas o delirio de
    perseguições e a megalomania, toda a symptomatologia essencial se reduz
    a concepções delirantes e erros sensoriaes, podendo estas duas ordens de
    factos manter entre si relações diversas, que importa muito considerar
    para a comprehensão da pathogenia. Ou as concepções delirantes se
    apresentam primeiro, apparecendo as illusões e allucinações como um
    facto secundario da doença, ou, pelo contrario, a esphera sensorial é
    primitivamente affectada e só depois irrompem as concepções chimericas.

    Ora, segundo Foville, não é de modo nenhum indifferente para a natureza
    mesma da doença que a successão das duas ordens de symptomas se realise
    n'um sentido ou n'outro, porque o allucinado-delirante é, em regra, um
    perseguido que póde tornar-se megalomano, ao passo que o
    delirante-allucinado é mais vezes um megalomano que póde vir a ter idéas
    de perseguição. A razão d'isto, no dizer de Foville, vem de que na
    loucura parcial as allucinações primitivas são, como estabelecera
    Lasègue, preponderantemente, senão exclusivamente as do ouvido, de um
    caracter, em regra, penoso ao principio e de molde, portanto, a gerarem
    um delirio depressivo. Ora, sendo a hypothese do allucinado-delirante
    mais frequente que a do delirante-allucinado, é tambem mais vulgar o
    perseguido-megalomano que o megalomano-perseguido.

    Posto isto, que serve para mostrar que não é meramente accidental a
    passagem de um delirio a outro, Foville, estreitando mais o assumpto,
    deriva á explicação do modo intimo por que ella se realisa.

    A transição (mais frequente, como foi dito) do delirio de perseguição ao
    de grandezas opera-se, ao vêr de Foville, por um processo logico.
    «Depois, diz elle, de terem por mais ou menos tempo attribuido as
    proprias allucinações a inimigos desconhecidos, contentando-se com
    explical-as por uma palavra mais ou menos obscura e mysteriosa, certos
    lypemaniacos allucinados dizem a si mesmos: Factos d'esta ordem não
    podem passar-se, no estado social em que vivemos, sem a intervenção de
    pessoas influentes e altamente collocadas; essas só, portanto, são as
    instigadoras dos nossos tormentos. Outros, ao contrario, reconhecendo
    que não succumbem nunca de um modo completo aos perigos de que se sentem
    cercados; suppõem ter amigos occultos, mas de um grande poder, que os
    protegem. Esta ordem de idéas imprime desde então o seu cunho ao
    conjunto das concepções e allucinações: os doentes fallam de grandes
    personagens que vêem por toda a parte, desconhecem a identidade real dos
    individuos, que os cercam e crêem que imperadores, imperatrizes e
    principes os visitam ou lhes enviam mensagens. No meio do delirio
    melancolico as idéas de grandeza adquirem realmente uma importancia
    preponderante. Mas as coisas podem ir mais longe ainda. Impressionados
    pela desproporção entre a sua posição burgueza e o poder de que devem
    dispôr os seus inimigos para os attingirem, a despeito de tudo; entre o
    apagado papel que desempenham no mundo e os moveis imperiosos que podem
    explicar o encarniçamento com que são perseguidos, alguns d'estes
    doentes acabam por a si proprios perguntarem se realmente são tão pouco
    importantes como parecem. Uma nova perspectiva se abre diante do seu
    atormentado espirito: não é já a dos outros, mas a propria personalidade
    que aos seus olhos se transforma. Para que os persigam d'este modo,
    dizem elles, é preciso que um alto interesse se dê, e isso só se
    comprehende porque elles façam sombra a gente rica e poderosa, porque
    tenham, elles proprios, direito a uma fortuna e a uma posição de que
    fraudulentamente os despojaram, porque pertençam a uma classe elevada de
    que foram afastados por circumstancias mais ou menos mysteriosas, porque
    não sejam seus verdadeiros paes os que como taes consideram, porque
    pertençam, emfim, a uma alta estirpe, as mais das vezes real»[1].

    [1] Foville, _La folie avec prédominence du délire des grandeurs_, pag.
    345.

    E accrescenta: «Estas idéas terão, sobretudo, tendencia a produzir-se
    nos casos em que, já antes de doente, o individuo teve de soffrer no seu
    orgulho ou nos seus interesses pelo facto da irregularidade ou do
    mysterio do proprio nascimento. Assim, temos notado que esta fé n'uma
    origem illustre, que esta crença n'uma imaginaria fortuna é
    relativamente frequente nos _filhos naturaes_ que véem a cahir na
    loucura. São elles principalmente os preparados para ás idéas de
    perseguição juntarem um novo romance em que dominam as concepções de
    grandeza, as substituições ao nascer, as confusões de pessoas»[1].

    [1] Foville, _Loc. cit._, pag. 346.

    Como se vê, Foville não faz senão seguir a orientação psychologica de
    Lasègue, que explicava pela intervenção de um raciocinio a passagem, no
    delirio de perseguições, do periodo prodromico ao de estado. Um processo
    logico, essencialmente deductivo e syllogistico preside tambem, segundo
    Foville, á génese das idéas ambiciosas que derivam de um delirio
    persecutorio.

    Mas não é este, reconhece-o Foville, o unico modo por que o delirio de
    grandezas póde produzir-se; algumas vezes succede que as concepções
    ambiciosas se installam primitivamente, dando-se então o caso de
    surgirem depois idéas de perseguição, por _uma sorte de propagação
    regressiva que, ao fim de um certo tempo, acaba por nivelar as
    situações._ Qual é agora o mecanismo de transição? «É difficil, escreve
    Foville, crêr-se um doente na posse de direitos á fortuna e ao mando,
    figurar-se descendente de uma familia illustre, e não se sentir vexado
    pela modestia da posição que occupa ou pela exiguidade dos recursos de
    que dispõe. N'isto vê elle um signal de injustiça, que attribue á acção
    de inimigos poderosos; crê-se, pois, victima de manobras hostis e
    fabrica assim um systematico delirio de perseguições, secundario agora e
    consequencia das idéas de grandezas»[1].

    [1] Foville, _Loc. cit._, pag. 347.

    É ainda, como se vê, um processo logico o destinado; segundo Foville, a
    explicar a passagem do delirio ambicioso ao de perseguições; toda a
    vesania parcial, portanto, qualquer que tenha sido o seu ponto de
    partida e qualquer que haja de ser o seu termo, se desenrola sob a
    dependencia do raciocinio e dentro da esphera consciente da ideação.

    Os casos em que o delirio de grandezas succede immediatamente a
    allucinações de caracter agradavel e lisongeiro, são extremamente raros;
    a interpretação dos erros sensoriaes, isto é, um processo consciente e
    reflectido, é ainda d'esta vez origem da doença.

    Referindo-se á doutrina de Morel, Foville declara não a acceitar, porque
    o delirio hypocondriaco, ponto de partida necessario, segundo aquelle
    auctor, dos delirios de perseguições e de grandezas, só excepcionalmente
    o encontrou.

    De quanto vem de ser exposto a conclusão a tirar é esta:

    Existe um delirio systematisado de grandezas que, no seu periodo de
    estado, se combina sempre com idéas de perseguição, que é
    invariavelmente acompanhado de allucinações auditivas e que tanto póde
    originar-se, por via deductiva, de um preexistente delirio
    persecutorio, como nascer _d'emblèe_. Não sendo um episodio morbido, nem
    mesmo a phase evolutiva de uma vesania anterior, porque póde ser e é
    muitas vezes primitivo, esse delirio constitue uma doença com foros de
    autonomia e direitos a uma designação privativa: a _megalomania_.

    Tal é, em resumo, a memoria de Foville na parte consagrada ao delirio
    parcial de grandezas.

    Depois dos importantes trabalhos de Lasègue e Foville, a psychiatria
    franceza não nos offerece, dentro d'este periodo de analyse, estudo que
    tenha feito progredir pela interferencia de pontos de vista novos o
    conhecimento dos delirios systematisados. O livro publicado por Legrand
    du Saulle, sob o titulo de _Delirio de perseguições_, em 1871, valioso,
    certamente, pela copia de observações e pelos detalhes de analyse
    clinica, nada tem, no fundo, de original, embora tentem proclamar o
    contrario estas ambiciosas palavras do prefacio: «A despeito da sua
    extrema frequencia e dos seus tão claros caracteres distinctivos, o
    delirio de perseguições achou-se confundido com a melancolia de Pinel,
    com a lypemania de Esquirol, com a monomania depressiva de Baillarger; é
    ahi que eu vou buscal-o para o estudar nas suas diferentes phases, para
    o constituir _de toutes pièces_ e fazer d'elle uma _especie_ á
    parte»[1]. Dezenove annos antes fizera Lasègue, como vimos, o que n'esta
    passagem se annuncia. O trabalho de Legrand du Saulle, excepção feita
    dos capitulos consagrados ao tratamento, á medicina legal e ao contagio
    do delirio, que nada teem que vêr com a constituição scientifica da
    doença, não é senão um desenvolvimento da memoria de Lasègue, cuja ordem
    de exposição adopta e cujas expressões mesmo não raro se apropria.

    [1] Legrand du Saulle, _Le Délire des persécutions,_ pag. 11.

    Como Lasègue, Legrand du Saulle descreveu dois periodos no delirio de
    perseguições: um, de começo, exteriorisado por uma _inquietação
    indefinivel e de nenhum modo comparavel á do homem normal que tem um
    grande interesse compromettido;_ outro, de estado, caracterisado pela
    definitiva systematisação das idéas delirantes formando um _romance_
    invariavel para cada doente.

    Como Lasègue, Legrand du Saulle caracterisa a inquietação do primeiro
    periodo comparando-a á _cephalalgia_ e ao _arrepio_ que são muitas vezes
    os precursores de graves doenças communs, mas que em si mesmos nada teem
    de preciso.

    Como Lasègue, Legrand du Saulle explica a transição do primeiro ao
    segundo periodo por um acto de reflexão do perseguido, por um verdadeiro
    raciocinio. «O doente, escreve Legrand du Saulle, diz a si proprio e aos
    outros que não são naturaes as inquietações e angustias que experimenta,
    que lhes não encontra causa no meio em que vive, no estado da propria
    saude, no da propria fortuna. No seu passado experimento grandes
    infortunios, mas sabia o motivo d'elles e não eram os mesmos os seus
    soffrimentos, não tinham o caracter vago e indefinido dos actuaes. Este
    mal-estar tão grande, estas impressões tão penosas e tão injustificadas
    devem ter uma causa secreta. E é assim que o doente se sente
    naturalmente levado a pensar que inimigos occultos, interessados em
    perdel-o, se reunem e procuram fazel-o soffrer»[1].

    [1] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 17.

    Como Lasègue, Legrand du Saulle dá na symptomatologia da doença um logar
    preponderante ás allucinações auditivas, precedidas frequentemente de
    illusões do mesmo sentido. «O doente, escreve o auctor, começa por dar
    uma falsa significação aos ruidos reaes que escuta: uma porta que se
    abre, pessoas que fallam na rua, uma palavra pronunciada ao pé d'elle,
    os passos de alguem, tudo é materia do delirio. As verdadeiras
    allucinações só começam, em geral, mais tarde e n'uma epocha
    variavel»[2].

    [2] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 43.

    Como Lasègue, Legrand du Saulle admitte um periodo de declinação na
    doença, que, sendo, em regra, incuravel, póde terminar pela cura n'uma
    quinta parte dos casos. Na etiologia, Legrand du Saulle constata, como
    Lasègue, que a doença é mais frequente nas mulheres e se realisa
    preferentemente na epocha por excellencia das grandes luctas da vida.
    Algumas considerações que faz sobre a _hereditariedade_, o _onanismo_ e
    as _perseguições infantis_ são de um caracter vago. Como se vê, em tudo
    quanto póde servir para caracterisar como _especie_ o delirio de
    perseguições–na symptomatologia, na marcha, na etiologia, Legrand du
    Saulle não faz senão seguir a memoria de Lasègue.

    Vamos vêr que n'um ponto de maxima importancia, não tratado pelo
    eminente professor da faculdade de Paris no seu trabalho de 1852,
    Legrand du Saulle acompanha a memoria de Foville. Refiro-me á passagem
    do delirio de perseguições ao de grandezas, explicada, como vimos, por
    Legrand du Saulle acceita esta mesma pathogenia. «Depois, diz elle, de
    ter soffrido tantas hostilidades da parte de implacaveis inimigos,
    depois de ter sido victima de tantas intervenções devidas á magia ou ao
    electro-magnetismo, o perseguido recolhe-se por vezes e pensa: Como
    podem em pleno seculo XIX produzir-se factos d'esta natureza? É preciso
    admittir no fundo de tudo isto uma energica vontade superior, a de um
    alto personagem, a de um principe ou, talvez, de um rei! Deve ter sido
    necessaria, com effeito, para explicar o meu caso uma auctoridade
    verdadeira, que só póde existir nas mãos de millionarios, de ministros e
    de imperadores: quem ordenou tudo é, pois, um grande senhor ou um
    notavel personagem. Um outro perseguido pensará: Armam-me redes, mas eu
    evito-as; expõem-me a coalisões formidaveis, mas eu saio-me bem d'ellas;
    attentam contra a minha vida, mas eu resisto; alguem, pois, de um alto
    poder vela por mim e me protege; esse alguem é o chefe do estado. Eis, a
    partir d'aqui, toda uma ordem nova de idéas imprimindo uma outra
    direcção ás concepções delirantes e ás allucinações. O perseguido não
    cessa desde então de fallar em ministros, em familias reinantes, na
    côrte pontifical, desconhecendo o caracter real das pesssoas que o
    cercam e affirmando que Napoleão lhe envia mensagens, que Trochu o
    chamou, que Thiers vae recebel-o, que tal ou tal princesa vem visital-o.
    N'uma palavra, encontramo-nos em presença de idéas de grandeza
    pathologicamente juxtapostas, porque as perseguições não cessaram, os
    inimigos existem ainda»[1].

    [1] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 84.

    «Acabamos de constatar, continua Legrand du Saulle, erros grosseiros
    sobre a personalidade dos outros; pois vamos vêr que uma nova
    transformação se opera agora e que erros mais grosseiros ainda vão
    dar-se d'esta vez sobre a personalidade de perseguido. Sigamos um pouco
    o raciocinio do doente: As operações dos meus inimigos, pensa elle, são
    tão desleaes como persistentes e perigosas; os meus inimigos são
    infatigaveis e poderosos; mas que interesse podem elles ter em me
    mortificarem d'este modo, a mim, homem ignorado, obscuro ou collocado
    n'uma situação modesta? O contraste entre os perseguidores e a victima é
    dos mais notaveis. Quem sou eu com effeito? Talvez um ser menos apagado
    do que se pensa, mais importante do que se imagina, mais temivel do que
    se suppõe. E nem póde deixar de ser assim. Enchem-me de humilhações
    odiosas, dirigem contra mim os mais tenebrosos attentados; ha, pois, um
    interesse em fazel-o. Esse interesse parte de millionarios, duques,
    principes ou imperadores, e é, portanto, dos mais consideraveis. Mas
    então faço eu sombra a alguem e esse alguem roubou-me necessariamente o
    meu nome, o meu titulo, a minha fortuna, o meu logar social, a minha
    corôa. Eu não sou, portanto, o homem humilde sob cuja mascara vivi até
    hoje: fui mysteriosamente posto de lado, iniquamente esbulhado; o nome
    de que uso não é o meu, os que teem feito de meus paes não são da minha
    familia; eu sou o neto de Luiz XVI ou o filho de Napoleão, sou o duque
    de Orleans ou chamo-me D. Carlos»[2].

    [2] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 85.

    Para não deixar de seguir passo a passo Foville, que, como vimos, notara
    a relativa frequencia do delirio ambicioso nos perseguidos _filhos
    naturaes_, Legrand du Saulle accrescenta: «Se o perseguido não tem um
    acto de nascimento regular, se alguma vez soffreu pelo facto de uma
    situação indecisa, de uma paternidade não confessada ou de uma educação
    mysteriosa, se o seu orgulho foi torturado ou lesada a sua fortuna, com
    que perniciosos elementos não crescerá o seu delirio, com que
    apparencias de verosimilhanças não fallará elle a todos da sua
    imaginaria fortuna, do seu nascimento illustre?!»[1]

    [1] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 86.

    Como Foville e Morel, Legrand du Saulle refere casos em que no delirio
    de perseguições se observam concepções hypocondriacas; estas, porém,
    como as de grandeza, não constituem para elle uma phase evolutiva, mas
    apenas um _acompanhamento_ ou _complicação_ da doença de Lasègue.

    Uma parte nova e valiosa do trabalho de Legrand du Saulle é a que se
    refere ao diagnostico differencial entre o delirio de perseguições
    idiopathico e o que, como syndroma, apparece na demencia senil, na
    paralysia geral, no alcoolismo subagudo e nas intoxicações pelo chumbo e
    pelo sulfureto de carbone.

    Não terminaremos esta rapida analyse do livro de Legrand du Saulle sem
    notar que elle soube pôr em relevo dois factos interessantes,
    ulteriormente notados por quantos se teem occupado d'este assumpto: a
    existencia em muitos perseguidos de allucinações auditivas bilateraes de
    caracter differente–vozes benevolas d'um lado, vozes hostis do outro, e
    a tendencia d'estes doentes á formação de _neologismos_ e de um
    incomprehensivel vocabulario privativo de cada um.

    * * * * *

    Até aqui os trabalhos francezes. Vejamos agora, retrocedendo um pouco na
    ordem dos tempos, de que maneira os psychiatras allemães comprehenderam
    os delirios systematisados.

    Foi Griesinger o primeiro entre elles a occupar-se d'este assumpto no
    seu _Tratado de Doenças Mentaes_ cuja apparição remonta a 1845, mas que
    só vinte annos depois veio a ser conhecido em França pela traducção
    Doumic. N'esse livro, por muitos titulos notavel, descreve o eminente
    professor de Zurich, sob a denominação de _Verrücktheit_, os delirios
    parciaes que alguns annos mais tarde Lasègue e Foville haviam de elevar,
    dando-lhes nomes privativos, á cathegoria de especies em nosographia
    mental. Se bem que abreviada e n'um ou outro ponto confusa, a descripção
    de Griesinger abrange todos os pontos essenciaes da symptomatologia dos
    perseguidos e megalomanos, como facilmente se ajuizará pelas
    transcripções que seguem.

    Referindo se ás concepções que são o nucleo mesmo do delirio e o seu
    mais apparente symptoma, Griesinger escreve: «São umas vezes idéas
    activas, exaltadas, maniacas; o doente occupa uma posição elevadissima e
    tem um grande poder: é Deus, as tres pessoas da Santissima Trindade,
    reformador do Estado, rei, um grande sabio, um propheta, um enviado de
    Deus ou descobriu o movimento perpetuo, é o dominador de toda a natureza
    e conhece os elementos de todas as coisas, etc. Outras vezes são idéas
    passivas: os doentes crêem-se lesados, dominados, submettidos ao poder
    d'outrem; julgam-se perseguidos, victimas de tramas hostis; mysteriosos
    inimigos atormentam-nos pela electricidade, os maçonicos fazem lhes mal,
    são possessos do diabo, estão condemnados a supplicios eternos, e
    roubados nos seus bens mais caros, etc.»[1]

    [1] Griesinger, _Traité des maladies mentales,_ trad. franceza, pag.
    386.

    Occupando-se dos erros psycho-sensoriaes, escreve: «As illusões e
    allucinações em nenhuma outra fórma de loucura são tão frequentes como
    na _Verrücktheit;_ em grande numero de casos são ellas principalmente
    que alimentam e entreteem o delirio. Muitas vezes os doentes conversam
    com as vozes que escutam, ou discutem com ellas, entregando-se então a
    accessos de colera»[1]

    [1] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388.

    Sobre o caracter absorvente d'estes delirios e sobre as transformações
    de personalidade, diz Griesinger; «Involuntariamente o alienado refere
    tudo ao seu delirio, e é d'este ponto de vista que julga todas as
    coisas … As concepções falsas relativas ao proprio Eu chegam a attingir
    um elevadissimo grau, a partir do qual o doente não considera as coisas
    do mundo externo senão de um modo inteiramente pervertido … Alguns
    d'estes doentes parecem crêr que a sua verdadeira personalidade anterior
    deixou de existir»[2]

    [2] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 387.

    Sobre a necessidade do _neologismo_ nos delirios systematisados de uma
    longa duração, escreve o eminente alienista: «Por vezes a linguagem
    ordinaria não basta ao doente para exprimir o proprio pensamento, pelo
    que construe, ao menos para traduzir as suas concepções delirantes, um
    vocabulario especial, que elle crê ser a linguagem primitiva, a
    linguagem dos ceus»[3]. Ainda a proposito da exteriorisação do delirio,
    Griesinger nota que «por vezes o doente occulta cuidadosamente o seu
    systema geral de absurdos»[4].

    [3] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388.

    [4] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388.

    Sobre o estado affectivo d'estes delirantes exprime-se assim o professor
    allemão: «Nunca estes doentes tomam parte, como outr'ora, nas coisas do
    mundo externo, ou são capazes de amar e odiar como antes; podem
    morrer-lhes os paes e os amigos, póde ser-lhes subtrahido o que mais
    estimavam, póde o mais terrivel acontecimento incidir-lhes sobre a
    familia sem que elles sintam mais que uma ligeira emoção, se alguma
    sentem. Um só ponto ha em que podem ser ainda emocionados, que póde
    abalar-lhes promptamente os sentimentos e provocar uma forte reacção da
    vontade: procurem-se combater pelo raciocinio as suas idéas fixas e logo
    elles se irritarão e entrarão em colera; acariciem-se, pelo contrario,
    as suas concepções e elles mostrar-se-hão contentes»[1].

    [1] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388.

    Crêmos que as citações precedentes bastam para demonstrar que Griesinger
    conheceu intimamente os perseguidos e ambiciosos. A descripção que
    d'elles faz, como quadro symptomatico _d'après nature_, é nas suas
    linhas capitaes e até em alguns detalhes a mesma que alguns annos mais
    tarde haviam de exhibir-nos os alienistas francezes que, não conhecendo
    os trabalhos do professor allemão, tinham, comtudo, diante de si
    analogos modelos.

    Mas se a descripção symptomatica é a mesma, a _interpretação
    nosographica e pathogenica_ é profundamente diversa, porque, ao passo
    que os francezes consideraram sempre os delirios parciaes como fórmas
    primarias da loucura, Griesinger julga-os, como vamos vêr, fórmas
    secundarias ou estados procedentes da mania e da melancolia.

    O que é, com effeito, a _Verrücktheit_ do psychiatra allemão? «Sob este
    nome, diz elle, designamos os estados secundarios de loucura, nos quaes,
    embora tenha diminuido consideravelmente ou mesmo desapparecido por
    completo a situação afectiva que caracterizava a fórma mental no seu
    começo, o doente não cura, e em que a alienação consiste n'um pequeno
    numero de concepções delirantes fixas que elle acaricia de um modo
    particular e constantemente repete»[2]. E accrescenta: «A _Verrücktheit_
    é _sempre_, pois, uma doença _secundaria_, consecutiva á melancolia ou á
    mania»[3]. _Residuos de estados de exaltação ou depressão,_ diz ainda em
    outro logar, constituem a _Verrücktheit_ que, por isso mesmo, elle
    colloca no grupo dos _estados de enfraquecimento psychico_, ao lado da
    demencia.

    [2] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 382.

    [3] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 382.

    Na direcção de Griesinger e pelo caminho que elle abriu seguiram longo
    tempo os alienistas allemães. «O delirio parcial, escrevia Albers em
    sobretudo uma fórma de terminação da loucura com excitação ou depressão
    geraes; quando se encontra esta fórma, uma das duas existiu
    anteriormente e acabou por _uma cura incompleta_»[1]. Fallando da
    metamorphose do Eu que acompanha os delirios systematisados n'uma phase
    de adiantada chronicidade, Spielmann escrevia no mesmo anno «que ella
    suppõe a existencia anterior da melancolia ou da mania, sem uma das
    quaes não póde _nunca_ produzir-se»[2]. Em 1859 Neuman considerava a
    _Verrücktheit_ «uma cura com perda de substancia da intelligencia», isto
    é, uma cura incompleta da mania ou da melancolia, um estado secundario
    ou consecutivo, acompanhado de uma decadencia das faculdades.

    [1] Albers, _Memoranda der Psychiatrie_.

    [2] Spielmann, _Diagnostik der Geisteskrankheiten_.

    Crêmos inutil proseguir em citações. As precedentes bastam a dar-nos uma
    clara idéa da doutrina pathogenica dos delirios, systematisados segundo
    a psychiatria allemã d'esta epocha. Suspensas na sua evolução para a
    demencia, a mania e a melancolia atardar-se-hiam nas fórmas expansivas
    ou depressivas da _Verrücktheit,_ delirio de grandezas ou delirio de
    perseguições.

    Em contraste, porém, com estas idéas, que durante vinte annos dominaram
    absolutamente a psychiatria allemã, descreveu Snell em 1865, baseando-se
    em dez casos de observação pessoal, uma nova fórma de loucura
    essencialmente caracterisada pela apparição primitiva de estados
    allucinatorios e conceitos delirantes de contheudo mixto, expansivo e
    depressivo.

    Esta fórma, que Snell denomina _monomania_ ou _Wahnsinn_, é inteiramente
    distincta da mania e da melancolia. N'ella podem as idéas de perseguição
    e de grandeza ser contemporaneas ou successivas; quando as ideias
    ambiciosas succedem ás de perseguição realisa-se uma metamorphose da
    personalidade vesanica. A evolução d'esta fórma é essencialmente
    chronica e o seu prognostico infausto. A adopção do termo francez
    _monomania_ parece indicar a parcialidade do delirio que, segundo Snell,
    não conduz nunca á demencia, como a do termo allemão (derivado de
    _Vahn_: delirio, e _Sinn_: sentidos) põe em relevo a importancia das
    allucinações.

    Acceitando este modo de vêr, Griesinger penitenceia-se em 1867 da
    excessiva e precipitada generalisação das suas idéas pathogenicas e
    acaba por admittir, ao lado da _Secundäre Verrücktheit,_ uma _Primäre
    Verrücktheit_, analoga ao _Wahnsinn_ de Snell. Na lição de abertura do
    seu curso n'esse anno exprimia-se assim o grande chefe da psychiatria
    allemã: «Áctualmente não considero já como fórmas secundarias as
    alterações peculiares, muito chronicas e mixtas do delirio persecutorio
    e ambicioso; ao contrario, convenci-me da origem _protogenica_ d'estes
    estados que denomino _Primäre Verrücktheit»._

    Perfilhando as idéas de Griesinger sobre a _Primäre Verrücktheit,_
    descreveu Sander em 1868, baseado em quatro casos clinicos, uma
    variedade congenita d'esta fórma sob a designação de _Originäre
    Verrücktheit_. Os delirantes perseguidos ou ambiciosos d'este sub-grupo
    são desde a infancia taciturnos, mysantropos, romanticos, excessivamente
    phantasistas, faltos de energia, onanistas, n'uma palavra,
    originariamente enfermos. É na puberdade que os delirios, de longa data
    preparados, fazem explosão. Sander nota as tendencias remittentes da
    _Originäre Verrücktheit_ e observa que a demencia está muito longe de
    ser um dos seus modos de terminação.

    Como se vê, a primitividade ou protogénese dos delirios systematisados,
    admittida desde todo o principio pelos alienistas francezes, é agora
    acceite pela psychiatria allemã, cujo dogmatismo desde 1845 a 1865
    mandava admittir _quand méme_ uma preexistente psychose maniaca ou
    melancolica em todos os delirios de perseguição e de grandeza.

    Não morreu, como veremos ainda, a _Secundäre Verrücktheit,_ a despeito
    de Koch e de Pelman que lhe negaram a existencia; mas a sua esphera
    clinica foi estreitecendo á medida que alargava a da _Primäre
    Verrücktheit_.

    * * * * *

    Voltemos aos trabalhos francezes.

    Tendo tido a felicidade de sobreviver trinta e um annos á publicação da
    sua memoria sobre o delirio de perseguições, Lasègue foi conduzido pela
    ulterior observação clinica dos factos a modificar uma das affirmações
    que n'esse trabalho fizera. Assim, tendo escripto em 1852 que os
    perseguidos supportam resignadamente todos os seus martyrios–a ponto,
    dizia então, de não ter visto um só reagir por um acto de vingança,
    Lasègue constatou mais tarde a existencia de muitos que se apresentam
    armados para a lucta, represaliando energicamente, como Sandon, como
    Verger, como Teulot, as suppostas perseguições. Perito em mais de uma
    ruidosa questão medico-legal determinada pelas violencias d'esta ordem
    de doentes, o eminente professor foi ainda, elle proprio, victima das
    aggressões brutaes de um d'elles, que o appellidava _chefe dos
    alienistas alienisantes_. Modificando as suas primitivas idéas, o
    celebre psychiatra achou que o delirio de perseguições comporta duas
    variedades, correspondendo aos modos de reacção dos doentes: uma
    _passiva_, a mais commum, representada pelos perseguidos que apenas se
    defendem, fugindo ao convivio, mudando de logares, tomando nomes
    suppostos, cosinhando os proprios alimentos, queixando-se ás
    auctoridades, barricando-se dentro dos seus aposentos, suicidando-se
    mesmo; outra _activa_, representada pelos que acceitam a lucta e
    respondem ao mal com o mal, calumniando, ferindo, matando até. Aos
    doentes d'esta ultima cathegoria deu Lasègue o nome, depois consagrado,
    de perseguidos-perseguidores, consignando que a explicação do seu modo
    especial de reagir deve ser pedida, não a condições privativas do
    delirio, mas ao caracter moral preexistente á vesania.

    Pondo no estudo da variedade _activa_ do delirio de perseguições o mesmo
    espirito de analyse que desenvolvera na creação da fórma _passiva_ ou
    commum, Lasègue fez a proposito as seguintes indicações de uma justeza
    clinica indiscutivel: que os perseguidos-perseguidores chegam á
    personificação do seu delirio em virtude de circumstancias accidentaes
    ou de factos sem importancia, mas exactos, que determinaram a sua
    antipathia por um dado individuo; que taes circumstancias ou factos
    reaes não são, em geral, recentes, mas antigos e evocados pela memoria,
    incessantemente occupada na revivescencia do passado; emfim, que os
    doentes, uma vez achado o seu perseguidor, não o esquecem mais, não o
    abandonam, nem o substituem, quando mesmo factos ulteriores e de maior
    valia justifiquem sentimentos de odio e de vingança contra outros
    individuos. Na escolha do perseguidor evidenceiam os perseguidos activos
    a mesma critica futil que os passivos demonstram na determinação dos
    factos que apontam como provas de perseguição: uma pedra achada á porta,
    um lençol esquecido na varanda de um visinho, a tosse de um sujeito que
    passa. De resto, Lasègue observou que, excepção feita do modo de reacção
    delirante, perseguidos activos e passivos se comportam identicamente,
    offerecendo o mesmo quadro de symptomas e a mesma evolução pathogenica.

    Creando a variedade _activa_ do delirio de perseguições, o notavel
    professor melhorou, pois, completando-a, a sua primitiva descripção
    clinica d'esta psychose, sem, todavia, a alterar na essencia; de facto,
    a unidade da doença persistiu, não tendo alcance nosologico, mas apenas
    medico-legal, o reconhecimento das duas variedades.

    Ulteriores trabalhos, porém, vieram quebrar, dentro da propria França,
    essa unidade do delirio de perseguições.

    Notou, com effeito, J. Falret em 1878 que ha entre os perseguidos
    activos ou perseguidos-perseguidores duas cathegorias de doentes que
    profundamente divergem; symptomas, evolução, etiologia–tudo n'elles é
    differente. Uns, em verdade (e são esses os que Lasègue notou), apenas
    no modo de reacção delirante se separam do typo classico dos perseguidos
    passivos, sendo-lhes em tudo o mais similhantes: nos symptomas, porque,
    como estes, offerecem idéas systematicas de perseguição alimentadas por
    erros sensoriaes constantes, sobretudo por allucinações auditivas; na
    marcha, porque, como os perseguidos communs, podem soffrer a alteração
    de personalidade caracterisada clinicamente pela passagem do delirio de
    perseguições, ao de grandezas; na etiologia, emfim, porque teem uma
    historia ancestral e pregressa identica á dos perseguidos vulgares. Com
    razão, portanto, fez Lasègue d'estes perseguidos activos os
    representantes apenas de uma variedade clinica do delirio de
    perseguições. Outros, porém, não offerecem do quadro d'esta psychose
    senão as idéas systematisadas de perseguição, divergindo em tudo o mais:
    na symptomatologia, porque as suas concepções morbidas não se apoiam em
    erros sensoriaes; na marcha, porque nunca o seu delirio se transforma,
    n'um sentido ambicioso; na etiologia, emfim, porque a sua historia
    ancestral e anamnestica não é a dos outros perseguir, dos, activos ou
    passivos, mas a dos degenerados hereditarios.

    A doença de Lasègue não comporta esta cathegoria de
    perseguidos-perseguidores; forçoso é, pois, no dizer de Falret,
    acceital-os como representantes de uma outra _especie_ nosographica.

    Pottier desenvolve no seu _Estudo sobre os alienados perseguidores_ as
    idéas do eminente clinico de Salpêtrière, seu mestre, insistindo no
    diagnostico differencial entre estes vesanicos e os outros perseguidos.
    A proposito da etiologia escreve: «Estes doentes, em vez de apresentarem
    desde a juventude um caracter desconfiado ou de passarem pela phase de
    hypocondria que muitas vezes precede o delirio de perseguições
    ordinario, teem quasi sempre manifestado na infancia, na adolescencia ou
    na idade adulta alguns dos symptomas physicos e moraes attribuidos hoje
    aos alienados hereditarios: alterações de caracter, desigual
    desenvolvimento das funcções intellectuaes, faculdades eminentes ao lado
    de enormes lacunas, accidentes nervosos ou perturbações mentaes
    passageiras, na puberdade, existencia movimentada, irregular, vagabunda,
    perversões genitaes e outras. O passado d'estes doentes é, n'uma
    palavra, não o dos perseguidos classicos, mas o dos alienados
    hereditarios»[1].

    [1] Pottier, _Ètude sur les aliénés persécuteurs_, pag. 3

    A proposito da ausencia de allucinações n'estes doentes, diz Pottier:
    «Imaginou-se que as allucinações auditivas, escapando a uma observação
    superficial, seriam encontradas n'estes doentes por um exame
    escrupuloso. Não é assim, porém. Nós crêmos, ao contrario, que, na
    direcção actual das idéas, se teem admittido allucinações não
    demonstradas ou se teem tomado como allucinações simples phenomenos de
    interpretação delirante, illusões ou mesmo impressões procedentes do
    mundo exterior e realmente percebidas pelos doentes, cuja acuidade
    sensorial se encontra muitas vezes exaggerada»[2].

    [2] Pottier, _Obr. cit._, pag. 38.

    Sobre a evolução do delirio n'estes doentes, diz ainda Pottier: «Ha
    periodos de remissão prolongada e de intensa exacerbação, mas nenhuma
    evolução progressiva … Estes alienados são, em regra, muito orgulhosos,
    mas não chegam, como os outros perseguidos, á megalomania, ao delirio de
    grandezas, emfim, a uma verdadeira transformação da personalidade»[1].

    [1] Pottier, _Obr. cit._, pag. 39.

    A estas notas differenciaes junta Pottier uma outra: a existencia, nos
    doentes de que nos occupamos, de accidentes cerebraes, congestivos ou
    convulsivos, produzindo-se a largos intervallos. «Observem-se
    attentamente, diz, o auctor, estes doentes durante o curso da sua vida,
    estudem-se as observações já publicadas, e chegar-se-ha a verificar que,
    nos perseguidores lucidos, accidentes cerebracs graves se dão de tempos
    a tempos e que, as mais das vezes, elles morrem cerebralmente, quer por
    um ataque, quer por influencia de lesões consecutivas»[2].

    [2] Pottier, _Obr. cit._, pag. 41.

    Ainda no capitulo do diagnostico, o mais completo do trabalho que vimos
    citando, observa Pottier a extrema facilidade com que os perseguidores
    conseguem fazer perfilhar as suas idéas por um grande numero de pessoas,
    chegando mesmo a interessar em sua defeza a propria imprensa. A
    explicação d'este _contagio delirante_ procede sobretudo, segundo
    Pottier, da convergencia d'estes dois factos: de um lado, a
    intelligencia de ordinario muito viva d'estes doentes e a sua incansavel
    actividade; de outro lado, o colorido verosimil do seu delirio, que não
    é em si mesmo absurdo, que se não apoia em estados allucinatorios, mas
    que tem por base factos reaes, embora morbidamente interpretados, e
    circumstancias possiveis, cuja veracidade não é facil contestar ou mesmo
    pôr em duvida.

    Os _litigantes_ ou _processomanos_ constituem a mais importante
    cathegori d'estes doentes; uma outra é formada pelos _perseguidores
    hypocondriacos_ que, attribuindo os seus imaginarios males ao tratamento
    seguido, hostilisam o medico assistente.

    As idéas de J. Falret fizeram carreira em França, onde os
    perseguidos-perseguidores são geralmente considerados como exemplares de
    loucura lucida _(folie raisonnante)_, sub-grupo das degenerescencias
    psychicas hereditarias. Nas suas _Lições clinicas sobre as doenças
    mentaes_, Magnan presta um largo apoio á doutrina de Falret, fazendo
    apenas reservas sobre dois pontos: as allucinações, que elle admitte a
    titulo de excepção, e os accidentes cerebraes, que julga, em face da sua
    experiencia pessoal, muito menos frequentes do que se tem pensado.

    De passagem faremos notar que na Allemanha o _delirio processivo_ tem
    soffrido as mesmas vicissitudes theoricas que experimentou em França o
    delirio dos perseguidos-perseguidores. Ao passo que a maioria dos
    auctores, á maneira de Lasègue, consideram aquelle delirio uma simples
    variedade da _Verrücktheit_, descrevendo-o, como faz Krafft-Ebing, ao
    lado do delirio de perseguições, outros, como Arndt, Kraepelin e Schüle,
    fazem d'elle um sub-grupo da _loucura moral._

    III–PHASE SYNTHETICA

    De Morel a Magnan; de Westphal a Cramer; de Buccola a Tanzi e Riva–A
    loucura hypocondriaca; o delirio chronico; a loucura parcial; a
    Verrücktheit aguda e chronica; a Paranoia; a delusional
    insanity–Determinação pathogenica.

    Vimos precedentemente que Morel, quando ainda a psychiatria franceza se
    esforçava por elevar á cathegoria de fórmas nosographicas autonomas os
    delirios de perseguições e de grandezas, esboçara a doutrina segundo a
    qual taes delirios não seriam senão manifestações de uma doença ou, mais
    precisamente, transformações progressivas da loucura hypocondriaca.

    Da idéa inicial de um compromisso da saude, caracteristica da
    hypocondria, passaria o doente, generalisando, á idéa de um compromisso
    da vida, da honra, dos interesses intellectuaes e moraes, caracteristica
    do delirio de perseguições. Este seria uma simples manifestação da
    hypocondria anomala ou, como elle proprio escreve, sublinhando, _uma
    hipocondria de uma natureza mais intellectual_. Em 1860 exprimia-se
    assim no seu _Tratado_ o illustre psychiatra: «Fallando da hysteria,
    disse eu que esta nevrose póde percorrer as suas phases mais
    extraordinarias sem que a alteração das faculdades intellectuaes e
    afectivas se torne uma consequencia forçada. A hysteria larvada, se
    assim posso exprimir-me, offerece perigos muito maiores para o livre
    exercicio das faculdades, como provei com numerosos exemplos. A mesma
    reflexão póde applicar-se á hypocondria. Para d'isto nos convencermos,
    basta examinar até que ponto o temperamento dos individuos com delirio
    predominante de perseguições está sob a influencia d'este estado
    nevropathico»[1]. E mais adiante: «Quando elles (os hypocondriacos)
    chegam á supposição de que os seus alimentos teem venenos ou, pelo
    menos, substancias que lhes produzem as sensações de que se queixam;
    quando elles se imaginam expostos aos maleficios do que chamam potencias
    occultas, como a electricidade e o magnetismo, e pensam que a propria
    policia procura perdel-os, podemos estar certos de que vão entrar _na
    phase d'este delirio especial_ que a designação de _delirio de
    perseguições_ melhor do que todas exprime»[2].

    [1] Morel, _Traité des maladies mentales_, pag. 706.

    [2] Morel, _Obr. cit._, pag. 707.

    Quanto ao _delirio ambicioso_ elle seria, segundo Morel, uma terminação
    frequente do delirio de perseguições. Fallando dos megalomanos,
    escrevia: «E quando mesmo os doentes chegaram a este estado de
    contentamento e de vaidosa satisfação que é proprio das idéas
    systematicas de grandeza, elles não lograram collocar-se de um modo fixo
    e irremediavel sobre o pedestal da sua loucura senão com a condição de
    passarem por todas as peripecias do delirio de perseguições, e de terem,
    as mais das vezes, experimentado todos os soffrimentos dos
    hypocondriacos»[3].

    [3] Morel, _Obr. cit._, pag. 716.

    Para explicar a passagem do delirio de perseguições ao de grandezas,
    Morel não invocava, á maneira de Foville, o _raciocinio_ e a _logica,_
    mas a _physiologia morbida:_ era, com effeito, ao echo psychico de uma
    alteração no funccionalismo visceral dos hypocondriacos que elle ia
    procurar a chave d'este phenomeno _tão frequente quanto assombroso para
    os homens alheios á medicina e desconhecedores das leis dos organismos
    doentes._

    Esta doutrina, integrando os delirios de perseguições e de grandezas na
    hypocondria, representava uma tentativa de synthese clinica,
    naturalmente destinada a não encontrar seguidores entre os
    contemporaneos de Morel, porque o tempo era de analyse, e a tendencia
    geral a da multiplicação das fórmas nosographicas. O estudo minucioso
    dos symptomas absorvia as attenções, relegando a um plano subalterno o
    das causas e da evolução das doenças. Embora combatidas quasi desde a
    sua introducção na sciencia, as _monomanias_ de Esquirol triumphavam
    ainda então: o delirio de perseguições era uma monomania, o delirio de
    grandezas, outra. O _Tratado_ de Marcé, o mais cotado dos livros
    classicos da psychiatria franceza, consagrava esta doutrina em 1862; e a
    memoria de Foville, que atraz citámos, tem a data de 1869, como tem a de
    1871 a monographia de Legrand du Saulle, de que tambem démos idéa no
    capitulo anterior.

    Isto é dizer que não foi comprehendida a maneira de vêr de Morel sobre
    os delirios systematisados, como o não foram outros pontos de vista
    d'este homem de genio, que Morselli justamente denomina o _Darwin da
    psychiatria_. Fallava para o futuro o auctor das _Degenerescencias
    Humanas_, cuja alta originalidade rompe na historia da medicina mental
    franceza o parallelismo entre a ordem chronologica e a ordem logica das
    idéas.

    É só em 1883, mais de vinte annos depois de publicado o _Tratado_ de
    Morel, que as idéas d'este psychiatra a proposito dos delirios
    systematisados são retornadas e postas em relevo n'um trabalho de
    Gérente.

    Escripto sob a evidente inspiração de Magnan, esse trabalho destina-se a
    provar com o apoio dos factos, que não existe _um_ delirio
    hypocondriaco, _um_ delirio de perseguições e _um_ delirio de grandezas,
    mas uma vesania, o _Delirio Chronico,_ de que aquelles não são senão
    phases evolutivas. «Vamos, diz o auctor, estudar clinicamente todos os
    delirios da vesania; seguiremos n'uma observação attenta a génese e a
    evolução d'estes delirios; e, por conclusão d'este trabalho, esperamos
    que em vez d'essas _monomanias_, tão artificiaes e tão confusas, de
    certos auctores, appareça claramente, emfim, _uma só e mesma especie
    morbida_ que chamaremos o _Delirio Chronico_»[1].

    [1] Gérente, _Le délire chronique_, pag. 10.

    O que é, verdadeiramente, este _Delirio Chronico_? Segundo Gérente, uma
    doença que, germinando sempre n'um terreno hypocondriaco, se denuncía
    nos seus casos typicos e eschematicos pela successão regular de tres
    periodos: um de concentração dolorosa do espirito; um de expansão; e um
    mixto ou de transição entre os dois. Se a doença se prolonga
    sufficientemente, a demencia é o seu termo natural.

    O terreno hypocondriaco em que, segundo Gérente, o _Delirio Chronico_
    mergulha as suas raizes para constituir-se e crescer, é caracterisado
    essencialmente por uma impressionabilidade anormal, de origem quasi
    sempre hereditaria, por uma perversão dolorosa da sensibilidade mental,
    n'uma palavra, por uma _hyperalgesia psychica_; uma autoobservação
    permanente, uma sorte de habitual _ruminação_ interior de estados
    physicos ou de estados moraes define a mentalidade prediposta, da qual,
    sob a mais ligeira causa determinante, ha de surgir a vesania. É, pois,
    um hypocondriaco o candidato ao _Delirio Chronico_; mas não é um
    alienado, emquanto sobre si mesmo poder exercer uma acção de _contrôle_.
    Sel-o-ha no dia em que esse exercicio se torne impossivel, no dia em que
    a preoccupação dos seus estados physicos e moraes venha a ser absorvente
    e o desligue das relações normaes com a sociedade. A hypocondria simples
    torna-se então loucura hypocondriaca. E é d'ela que vae sahir o periodo
    inicial ou depressivo do _Delirio Chronico_.

    Este periodo é caracterisado por uma concentração dolorosa do Eu, de que
    procedem idéas delirantes de natureza depressiva e de um contheudo que
    varía com a intelligencia, a educação e o meio do doente. As falsas
    concepções hypocondriacas subsistem ainda; mas, ao lado d'ellas, outras
    germinam: a crença n'uma hostilidade dos homens (delirio de
    perseguições) ou de maleficos poderes sobrenaturaes (demonomania).
    Perturbações da sensibilidade geral e especial, sobretudo allucinações
    auditivas, dominam esta phase do _Delirio Chronico_, de uma duração que
    póde ser muito longa.

    Mas, pouco a pouco, a dôr moral esbate-se; e na personalidade vesanica,
    enfraquecida pelo delirio depressivo, uma sorte de reacção se dá em
    sentido contrario. Então, no espirito enfermo, trabalhado por infinitas
    angustias, uma pouca de felicidade rompe, como n'um ceu enevoado uma
    restea de sol: entre as idéas depressivas surgem idéas de grandeza,
    ainda vagas, mas a que o futuro reserva uma preponderancia definitiva.
    Esta confusão de elementos apparentemente contradictorios, de idéas e
    sentimentos depressivos com estados expansivos, caracterisa o segundo
    periodo, chamado, por isso, mixto ou de transição.

    Como a dôr moral e as idéas depressivas definem o primeiro periodo, a
    plena beatitude de espirito e as idéas ambiciosas definem o terceiro.
    Lentamente, as emoções e as concepções expansivas do periodo mixto vão
    tomando crescente logar no espirito vesanico á custa de uma reducção na
    intensidade e numero das emoções e idéas depressivas, que acabam por
    desapparecer. Então, um delirio de grandezas de colorido mystico ou
    humano, versando sobre a graça, sobre dotes pessoaes, sobre riquezas,
    sobre posição social, se estabelece definitivamente, caracterisando na
    sua exclusividade o terceiro periodo do _Delirio Chronico_.

    Esta lenta evolução da vesania–tão lenta que póde cobrir dezenas de
    annos, não se faz sem que a mentalidade soffra nas suas forças vivas e
    productoras. E assim, o seu termo natural é a demencia, quer simples e
    apathica, se o delirio cessou absolutamente, quer agitada, se restam
    perturbações da sensibilidade e falsas concepções desconnexas e
    dissociadas.

    Tal é, summariamente, a marcha typica do _Delirio Chronico,_ segundo
    Gérente,

    Nem sempre, porém, faz observar o auctor, as coisas se passam d'este
    modo regular e eschematico; não raro apparecem casos em que a evolução
    descripta não tem logar: póde, por exemplo, o periodo depressivo,
    representado por um delirio de perseguições, extender-se por toda a vida
    do doente que não chega a fazer um delirio de grandezas, caracteristico
    do terceiro periodo; póde do periodo mixto passar um outro doente á
    demencia, sem que o periodo expansivo se tenha realisado em toda a sua
    pureza; póde acontecer que a doença suspenda a sua evolução n'um delirio
    hypocondriaco inicial, que se perpetua, systematisando-se e
    estereotypando-se; emfim, póde mesmo dar-se uma regressão, voltando o
    doente do delirio ambicioso ao de perseguições. Como todas as doenças,
    comporta o _Delirio Chronico_ anomalias evolutivas, que compete á
    clinica registrar; esses casos, porém, não invalidam o _typo_ descripto
    sobre exemplares completos.

    Como se vê, n'esta synthese clinica retoma Gérente as idéas fundamentaes
    de Morel sobre os delirios systematisados, reduzindo-os a expressões
    symptomaticas e momentos evolutivos de uma vesania caracterisada pela
    successão de duas phases apparentemente oppostas: uma, inicial,
    angustiosa e depressiva; outra, final, expansiva e de beatitude, Toda a
    differença, entre os dois psychiatras, está em que Morel chamava
    _Loucura hypocondriaca_ ao que Gérente denomina _Delirio Chronico_,

    Vejamos agora a pathogenia da doença, tal como a comprehende este
    psychiatra.

    De um lado, importa considerar o fundamento hereditario, commum a todas
    as psychoses funccionaes: «Não é vesanico, diz elle, quem quer: é
    precisa uma longa incubação; são precisas, pelo menos, duas gerações que
    preparem o terreno»[1]. Não, é claro, duas gerações de delirantes
    chronicos, mas de nevro e psychopatas. «São umas vezes, explica,
    nevroses, outras vezes intoxicações chronicas, outras ainda anomalias da
    intelligencia, do sentimento ou da vontade a que se não prestaria,
    talvez, attenção, mas que nem por isso deixaram de imprimir o seu cunho
    sobre o individuo e os seus descendentes»[2]. A tara hereditaria cria a
    predisposição; para determinar a doença qualquer abalo moral é bastante.

    [1] Gérente,_Obr. cit._, pag. 8.

    [2] Gérente,_Obr. cit._, pag. 9.

    Mas, por outro lado, importa em relação ao _Delirio Chronico_ attender á
    natureza especial do terreno predisposto. O que atraz dissemos,
    dispensa-nos de insistir sobre este ponto: é sabido que para Gérente,
    como para Morel, essa feição peculiar consiste na hypocondria.

    Emfim, conhecidas as causas e o terreno morbido, importa conhecer a
    _lesão,_ no sentido psychologico do termo.

    Ora, segundo Gérente, nenhuma duvida póde existir a este proposito. «É
    sempre, diz elle, uma alteração do senso emotivo, é a alteração do
    sentimento, agora penosa, logo expansiva, que imprime tal ou tal
    direcção ás perturbações da sensibilidade e ás idéas delirantes; esta
    alteração é, pois, a _lesão essencial e caracteristica ao delirio
    chronico_»[3].

    [3] Gérente,_Obr. cit._, pag. 24.

    Cremos ter dado uma idéa sufficiente da doutrina exposta por Gérente.
    Uma psychose, de origem hereditaria, de evolução de ordinario regular e
    tendo por lesão primitiva uma perturbação do sentimento, integraria como
    syndromas os delirios systematisados, hypocondriaco, de perseguições e
    ambicioso, descriptos na antiga psychiatria como doenças autonomas, sob
    a designação de monomanias; _Delirio Chronico_ é o nome d'essa psychose.

    Dissemos que Gérente se inspirou nas idéas de Magnan; e talvez
    podessemos mesmo affirmar que aquelle não fez senão expôr no seu
    trabalho, que é uma these de doutoramento, os pontos de vista do mestre.
    De facto, não só a designação de _Delirio Chronico_ tomada por Gérente
    para titulo do seu livro, foi creada por Magnan, que a vulgarisara nas
    suas lições oraes, mas foram colhidas no serviço e sob a direcção
    d'este, no asylo de Sant'Anna, as observações clinicas da these.
    Entretanto, nos debates que em 1887 se abriram sobre o assumpto na
    Sociedade Medico-Psychologica de Paris, Magnan apparece-nos, como mais
    tarde nas suas _Lições Clinicas_, publicadas em 1893, expondo uma
    doutrina do _Delirio Chronico_ notavelmente diversa da proclamada por
    Gérente. Admittiremos que o insigne clinico de Sant'Anna concedesse ao
    seu discipulo uma absoluta liberdade de opinião? É isso possivel; mas
    não é provavel que Gérente abusasse de tal liberdade até ao ponto de
    cobrir com a designação consagrada pelo mestre uma doutrina propria e em
    mais de um ponto contraria á d'este. O que nos parece mais acceitavel é
    que o conceito de _Delirio Chronico_ tenha soffrido no espirito de
    Magnan uma evolução durante o periodo que vem da these de Gérente á
    discussão da Sociedade Medico-Psychologica.

    Como quer que seja, as duas doutrinas, a de 1883 e a de 1887, differem
    muito. É o que vamos vêr.

    Ao passo que Gérente, como foi dito, fazia derivar o _Delirio Chronico_
    de uma predisposição quasi sempre hereditaria e preparada atravez de
    gerações, Magnan affirma que um tal facto é excepcional e que, de
    ordinario, a psychose affecta individuos isentos de qualquer tara
    nervosa e absolutamente correctos no ponto de vista mental. «O _Delirio
    Chronico_, diz Magnan, fere em geral na idade adulta individuos sãos de
    espirito, não tendo até então apresentado perturbação alguma
    intellectual, moral ou affectiva. Insisto sobre este importante ponto,
    porque tal particularidade basta para separar immediatamente os
    delirantes chronicos dos degenerados hereditarios que offerecem desde a
    infancia perturbações que os fazem reconhecer»[1].

    [1] Magnan, _Leçons cliniques sur les maladies mentales_, pag. 236.

    Ao passo que Gérente, seguindo a tradição de Morel, admittiu como
    constante uma phase inicial hypocondriaca na constituição do _Delirio
    Chronico_, Magnan não a acceita senão a titulo excepcional. «Para Morel,
    escreve o medico de Sant'Anna, é preciso que elles (os perseguidos que
    se tornam ambiciosos) tenham sido hypocondriacos primeiro; ora, sendo a
    hypocondria, como se sabe, as mais das vezes uma manifestação
    dos hereditarios degenerados, não parece provavel que o
    _hypocondriaco-perseguido-ambicioso_ possa apresentar caracteres
    bastante fixos para entrar no quadro do _Delirio Chronico_»[2].

    [2] Magnan, _Obr. cit._, pag 221.

    Emfim, emquanto Gérente concedia irregularidades de marcha ao _Delirio
    Chronico_, admittindo a existencia de casos frustres em que a evolução
    se suspendia ou mesmo por algum tempo retrogradava, Magnan exclue do
    _Delirio Chronico_ todos os casos d'esta natureza. Depois, com effeito,
    de ter admittido na evolução do _Delirio Chronico_ quatro periodos
    nitidamente desenhados–o _de incubação_, o _de perseguições_, o
    _ambicioso_ e o _demente_, Magnan escreve: «Estes periodos succedem-se
    irrevogavelmente da mesma maneira, de sorte que podemos sem receio pôr
    fóra do _Delirio Chronico_ todo o doente que _d'emblèe_ se torna
    perseguido ou ambicioso, ou que, primeiro ambicioso, se torna depois
    perseguido»[3].

    [3] Magnan, _Obr. cit._, pag 237.

    São estes tres os pontos em que as syntheses clinicas do _Delirio
    Chronico_, a de 1883 e a actual, differem. Quanto ao nome, julgou
    Magnan, depois dos reparos de alguns criticos, dever amplial-o para o
    tornar mais explicativo: _Delirio Chronico de evolução systematica_ é a
    designação adoptada por este psychiatra nas suas _Lições Clinicas_.

    Naturalmente occorre perguntar para que nova cathegoria são relegados os
    casos, tão numerosos, de delirios systematisados de evolução irregular
    que Gérente considerava como exemplares frustres de _Delirio Chronico_ e
    que Magnan resolutamente aparta do quadro clinico d'esta psychose. A
    resposta vae o leitor encontral-a no resumo que em seguida fazemos dos
    debates a que deu logar na Sociedade Medico-Psychologica de Paris a
    doutrina do _Delirio Chronico_.

    Digamol-o desde já: vigorosamente sustentada por Garnier e Briand, a
    synthese clinica de Magnan foi tambem rudemente combatida.

    Ninguem contestou a existencia de alienados que, primeiro inquietos,
    suspeitosos, interpretando illusoriamente e n'um sentido pejorativo
    todos os actos e palavras d'outrem (_periodo de incubação_), se tornam
    depois allucinados, sobretudo do ouvido, e se lançam n'um delirio
    systematisado de hostilidades (_periodo de perseguições_), fabricam mais
    tarde ainda idéas de grandeza (_periodo ambicioso_), e, por fim, cahem
    n'um estado de enfraquecimento cerebral em que as concepções falsas se
    esbatem e dissociam (_periodo de demencia_). Ninguem contestou,
    repetimos, a existencia d'estes casos; contestou-se, porém, desde todo o
    principio, que elles fossem _regra_. A fatalidade do terceiro periodo do
    _Delirio Chronico_ foi, por exemplo, negada. Assim, J. Falret sustentou
    que _o delirio de grandezas só n'um terço dos casos succede ao delirio
    de perseguições_. Facilmente se comprehende o alcance d'esta affirmação
    que varios alienistas–Christian entre outros–apoiaram: ao passo que
    para Magnan o delirio ambicioso é um periodo inevitavel do _Delirio
    Chronico_, para Falret elle não constitue senão um episodio fallivel da
    evolução vesanica, um delirio que apenas accidentalmente vem
    juxta-por-se ao de perseguições. Se todo o alienado que entrou, não
    _d'emblèe_, mas após uma phase mais ou menos longa de incubação, no
    delirio de perseguições, houvesse fatalmente de tornar-se ambicioso,
    Magnan teria, talvez, razão, affirmando a existencia de uma _Psychose_
    na qual o delirio de grandezas representaria, segundo a sua phrase, um
    papel evolutivamente similhante ao da _suppuração n'nuna erupção
    variolica;_ mas se, como pretende Falret, esse alienado póde
    perpetuar-se no delirio de perseguições sem jámais esboçar uma idéa
    ambiciosa, tal _Psychose_ não existe: a synthese clinica legitima não é
    o _Delirio Chronico de evolução systematica,_ mas o _Delirio de
    Perseguições,_ que póde ou não, _sem mudar de natureza_, complicar-se de
    um delirio ambicioso. Baseada em factos e apoiada na auctoridade de
    alienistas illustres, a objecção de Falret parece decisiva contra a
    doutrina actualmente professada por Magnan.

    Notemos de passagem que o argumento de Falret não attingiria a doutrina
    de Gérente, segundo a qual o _Delirio Chronico,_ á maneira d'outras
    doenças, comportaria casos de evolução irregular, anomala, entre os
    quaes estariam esses a que se reporta o sabio medico da Salpêtrière.

    J. Falret contestou ainda a Magnan que a demencia constitua o termo
    irrevogavel de uma vesania que passou pelas phases dos delirios de
    perseguições e de grandezas: muitos perseguidos e ambiciosos ha, segundo
    elle, que, ao fim de trinta, de quarenta e mais annos de delirio, morrem
    sem ter attingido a demencia. É mister dizer-se, para avaliar este
    argumento, que Magnan não toma a palavra _demencia_ no restricto sentido
    de abolição das faculdades, mas na accepção mais larga de
    enfraquecimento e falta de iniciativa mental. Desde que o delirio se
    _estereotypa_ (o que é de regra na phase ambiciosa e muitas vezes se dá
    mesmo na phase persecutoria da vesania), o enfraquecimento cerebral é
    já, segundo Magnan, um facto, que a diuturnidade da doença não faz senão
    aggravar; chamar-lhe, pois, _demencia_, quando elle attinge um grau em
    que os conceitos delirantes, desde ha muito invariaveis, se dissociam,
    não deverá parecer senão legitimo. Em todo o caso, é n'este sentido que
    o medico de Sant'Anna toma a _demencia_ quando faz d'ella a phase
    terminal da sua Psychose.

    Manifestando uma grande incomprehensão das idéas do medico de Sant'Anna,
    alguns membros da Sociedade tentaram atacar a doutrina do _Delirio
    Chronico_, affirmando que muitos vesanicos são ambiciosos antes de serem
    perseguidos; que outros surgem com um delirio de perseguições sem terem
    passado por uma phase de incubação; que alguns, emfim, só
    intermittentememe deliram n'um sentido persecutorio ou ambicioso. Todos
    estes casos são conhecidos e de observação diaria; mas, desde que Magnan
    os colloca, pela irregularidade mesma da sua marcha, fóra do quadro do
    _Delirio Chronico_, é evidentemente absurdo invocal-os contra a
    legitimidade d'esta psychose.

    Para Magnan, ao lado do _Delirio Chronico de evolução systematica_, ha
    os delirios que elle chama _polymorphos_ ou _d'emblèe_. E as distincções
    entre aquelle e estes são, segundo o eminente alienista, tão profundas
    quanto possivel, porque derivam da marcha, da etiologia e do
    prognostico. Ao passo que o _Delirio Chronico_ se caracterisa
    evolutivamente pela successão regular e irrevogavel de certos periodos,
    sendo o primeiro de incubação, os delirios polymorphos teem uma evolução
    irregular, imprevista, e rompem subitamente, sem preparação. Emquanto,
    sob o ponto de vista da etiologia, o _Delirio Chronico_ prescinde para
    constituir-se de uma pesada tara ancestral, podendo installar-se em
    individuos psychicamente correctos, os delirios polymorphos são
    eminentemente hereditarios e só podem realisar-se em degenerados, quer
    dizer em individuos tendo antes offerecido signaes de um desequilibrio
    mental. Emfim, emquanto o _Delirio_, _Chronico_, na sua qualidade de
    psychose progressiva e cyclica, é absolutamente incuravel, os delirios
    polymorphos, de marcha remittente ou intermittente, curam muitas vezes.

    É evidente, em face d'esta doutrina, exposta sem reticencias no seio da
    Sociedade Medico-Psychologica de Paris, que os casos, invocados por
    Dagonet e outros, de doentes que entram em delirio de grandezas para
    ulteriormente se tornarem perseguidos, de doentes que abruptamente, de
    um dia para o outro, apparecem allucinados do ouvido e se crêem victimas
    de injustificadas hostilidades, de doentes que após semanas de um
    delirio qualquer ambicioso ou de perseguições, surgem curados para
    recidivarem mais tarde, ou cahem rapidamente em demencia,–é evidente,
    diziamos que esses casos nada provam, em si mesmos, contra a existencia
    do _Delirio Chronico_, por isso que, segundo Magnan, elles pertencem a
    uma cathegoria diversa e não são senão episodios mais ou menos longos e
    interessantes da vida dos degenerados hereditarios.

    A doutrina do medico de Sant'Anna não póde ser combatida senão pela
    demonstração de que as differenciações por elle feitas entre os
    delirantes chronicos e os delirantes degenerados, são infundadas. Mas
    como, sob o ponto de vista da marcha, a differenciação é, _ao menos
    n'um certo numero de casos_, indiscutivelmente exacta; como por consenso
    de todos os alienistas e por testemunho irrecusavel da experiencia, ao
    lado de doentes que incubam um delirio de perseguições e d'este passam
    para o ambicioso, cahindo por fim n'um estado de fraqueza mental
    (_Delirio Chronico_ de Magnan), ha doentes que fazem bruscos,
    irregulares e mais ou menos ephemeros delirios multiplos, de que por
    vezes curam, embora para recidivarem mais tarde (_delirios
    degenerativos_ de Magnan), o ataque á synthese clinica do medico de
    Sant'Anna só póde ser feito de um ponto de vista mais alto,
    demonstrando-se que as duas ordens de delirios, a despeito das suas
    _allure_ diversas, procedem de uma causa commum e assentam sobre um
    mesmo fundo.

    Séglas viu isto–e só elle parece tel-o visto–quando na Sociedade
    Medico-Psychologica affirmou que alguns delirantes chronicos de Magnan
    apresentam os estygmas physicos e mentaes dos degenerados hereditarios.

    Demonstrar esta proposição seria evidentemente destruir á doutrina de
    Magnan o seu mais solido fundamento: o etiologico. Se os degenerados
    hereditarios podem delirar tanto de um modo remittente e anomalo como de
    um modo regular e progressivo, caminhando tanto para a cura como para a
    demencia, toda a differença entre o _Delirio Chronico_ e os _delirios
    polymorphos_ se reduz a accidentes de marcha e a possiveis variações de
    prognose, o que não é bastante para estabelecer _especies_ morbidas
    distinctas.

    Nos longos debates da Sociedade Medico-Psychologica sobre os delirios
    systematisados, tomaram parte os mais eminentes psychiatras francezes;
    cremos, porém, que só Falret e Séglas produziram contra a legitimidade
    clinica do _Delirio Chronico_ argumentos de valor.

    Mas não insistiremos sobre elles; por agora fazemos apenas historia.

    Para completarmos o que na psychiatria franceza tem direito a menção
    especial em materia de delirios systematisados, resta-nos expôr a
    maneira de vêr de Régis.

    Retomando uma doutrina exposta por Baillarger em 1853, o auctor do
    _Manual pratico de Medicina Mental_ sustenta que uma natural distincção
    existe entre as _loucuras generalisadas_ e a _Loucura parcial_: ao passo
    que as primeiras se caracterisam pela presença constante e essencial de
    um elemento affectivo, _excitação_ na mania e _depressão_ na melancolia,
    a segunda manifesta-se por simples perturbações intellectuaes e moraes
    sem participação, a não ser accidental e episodica, da emotividade. A
    excitação e a depressão, affirma Régis, são tanto a fundamental
    caracteristica das loucuras generalisadas que muitas vezes só ellas
    existem n'estas doenças: tal é o caso das manias e melancolias sem
    delirio, nas quaes, como se sabe, ha exaltação ou diminuição do _tonus
    emotivo_, sem compromisso grave da intelligencia e do senso moral. O
    contrario d'isto se dá na _Loucura parcial_: um delirio mais ou menos
    extenso caracterisa n'este caso a alienação, que só por momentos póde
    acompanhar-se de crises ephemeras de excitação ou depressão, analogas ás
    dos espiritos normaes em conflicto com causas externas. A mania e a
    melancolia, accrescenta Régis, sendo muitas vezes idiopathicas, são, não
    raro, meros symptomas d'outras doenças mentaes, como a hysteria, a
    epilepsia, a demencia paralytica; ao contrario, a _Loucura parcial_ é
    sempre idiopathica, essencial.

    Ora, é n'esta _verdadeira loucura_ que os delirios systematisados se
    integram, segundo Régis, a titulo de manifestações e de estadios
    evolutivos.

    No seu curso regular e typico, a _Loucura parcial_ offereceria tres
    periodos: um, de _analyse subjectiva_, caracterisado pelo _delirio
    hypocondriaco_; outro de _interpretação_, revellado pelo _delirio de
    perseguições_ ou pelo _delirio mystico_, segundo o doente attribue a
    pessoas ou a divindades os seus males; um terceiro, emfim, de
    _transformação pessoal_, exteriorisado pelo _delirio ambicioso_. As
    allucinações, sobretudo auditivas, são o symptoma dominante da _Loucura
    parcial_.

    Quanto á etiologia, sustenta Régis que a doença é constitucional, faz
    parte do individuo e surge n'um dado momento sob a influencia de
    quaesquer circumstancias; isto é dizer que _Loucura parcial_ é
    eminentemente hereditaria. Segundo este auctor, «ella attinge de
    preferencia os individuos sombrios, desconfiados, com tendencias á
    mysantropia e ao orgulho»[1]

    [1] E. Régis, _Manuel pratique de médecine mentale_, 2º ed., pag. 228.

    Como se vê, a _Loucura parcial_ de Régis mantem relações profundas de
    similhança com a _Loucura Hypocondriaca_ de Morel e o _Delirio Chronico_
    de Gérente. Um mesmo pensamento etiologico-evolutivo preside ás tres
    syntheses clinicas.

    * * * * *

    Expostos os trabalhos francezes sobre os delirios systematisados na sua
    phase de synthese clinica e de interpretação pathogenica, vejamos,
    retrocedendo na ordem dos tempos, o que se passou na Allemanha desde
    que, com Snell, Griesinger e Sander, a psychiatria d'este paiz assentou
    na existencia de delirios _primitivos_ de perseguições e de grandezas.

    Antes, porém, seja-nos licito dar uma explicação sobre a marcha a
    seguir.

    Delimitar um assumpto é a primeira das condições a preencher para
    tratal-o scientificamente; a segunda, é possuir uma nomenclatura
    definida e precisa. Ora, não satisfazendo a uma só d'estas duas
    condições os trabalhos allemães sobre os delirios systematisados, a
    impressão que recebe quem d'elles procura tomar conhecimento, é, sem
    exaggero, a de ter penetrado n'um labyrintho. Não o dizemos nós: por
    esta ou analogas expressões disseram-no em 1887 Séglas e recentemente
    Kéraval, os alienistas francezes que com maior auctoridade se occuparam
    do assumpto; disse-o tambem, mais insuspeitamente, Pelman ao formular ha
    vinte annos esta queixa: «Acabaremos por nem mesmo entre nós,
    psychiatras, nos entendermos»; repetirara-n'o, emfim, em 1894 quasi
    todos os alienistas allemães que tomaram parte na discussão aberta sobre
    a Paranoia na Sociedade Psychiatrica de Berlim.

    De facto, a extensão do assumpto varia de auctor para auctor; restricta
    para uns que, como Krafft-Ebing, lhe estabelecem os mesmos limites que
    os alienistas francezes, ella é tão vasta para outros, para Cramer, por
    exemplo, que parece estar contida lá dentro a psychiatria inteira. Por
    outro lado ainda, a nomenclatura é vaga e é confusa: vaga, pela
    multiplicidade de termos com que um dado auctor exprime um mesmo facto;
    confusa, pela variedade de significações de cada termo para cada auctor.
    _Wahnsinn, Verrücktheit_ e _Paranoia_ são as palavras com que na
    litteratura allemã apparecem designados os delirios systematicos
    descriptos pelos franceses; estes termos, porém, ora figuram como
    synonimos, ora como vocabulos de significados distinctos, succedendo
    ainda que o ultimo é pelo mesmo auctor tomado umas vezes n'um sentido
    restricto, outras vezes n'um sentido geral, infinitamente mais amplo.

    N'estas deploraveis condições de maxima obscuridade, fazer n'uma ordem
    rigorosamente chronologica e sob a respectiva terminologia a exposição
    das doutrinas allemãs ácerca dos delirios systematisados, seria,
    evidentemente, deixar o leitor em conflicto com obstaculos e
    difficuldades que indeclinavelmente nos cumpre remover-lhe. E eis
    porque, abandonando este invio caminho, procuraremos, antes de fazer
    historia, fixar os limites do assumpto e o valor dos termos.

    A expressão _delirio systematisado_, empregada por opposição á de
    _delirio dissociado_ ou _incoherente,_ significa apenas que certas idéas
    morbidas habitualmente adherem e se conjugam em grupos associativos;
    assim comprehendida, esta expressão não allude, nem mesmo remotamente,
    quer á _origem_ d'essas idéas, quer á _natureza_ e _grau_ da affinidade
    que as liga, quer, emfim, á sua _evolução_. N'este sentido, tão
    systematisados são os delirios protogenicos como aquelles que succedem a
    estados affectivos, tanto os que constituem doenças como os que apenas
    representam syndromas, tanto aquelles em que as associações morbidas são
    activas e fortes como aquelles em que ellas são examines, passivas e
    frouxas, tanto os que marcham para a extincção pela demencia como
    aquelles que se perpetuam, tanto os continuos como os que procedem por
    accessos.

    N'este sentido geral ha, pois, delirios systematisados _primitivos_ e
    _secundarios_, _idiopaticos_ e _symptomaticos_, _continuos_ e
    _intermittentes, agudos_ e _chronicos_. E assim, a não ser nos casos
    extremos de mania, de demencia, de confusão mental e de idiotia, todos
    os delirios serão mais ou menos systematisados, até os que se geram na
    imbecilidade, até os que, uma ou outra vez, se desenvolvem nos periodos
    iniciaes da paralysia geral, o que não fará espanto, se nos lembrarmos
    de que a systematisação associativa é o fundamento mesmo de toda a
    actividade mental. _Verrücktheit_ é o termo empregado pela maioria dos
    auctores allemães para, exprimirem este sentido geral dos delirios
    systematisados; e se estes, como é de regra, se associam a illusões e
    allucinações, o termo _Wahnsinn_ é synonimamente empregado, se bem que
    com menor frequencia.

    Mas ao lado d'este sentido geral e vago, ha um outro limitado e
    restricto,–precisamente o que nas paginas precedentes vimos
    implicitamente adoptado pelos psychtatras francezes. Este novo sentido
    exclue os delirios _secundarios,_ os _symptomaticos_ e os _agudos_ para
    comprehender apenas os _primitivos_, os _idiopaticos_ e os _chronicos_.
    Na accepção restricta do termo, só são systematisados os delirios que
    não teem uma base affectiva em estados expansivos ou depressivos (mania
    ou melancolia), e que na sua evolução progressiva ou remittente, mas
    sempre continua e chronica, não offerecem tendencias para a demencia.
    Tal o delirio de perseguições, typo-Lasègue; tal o delirio ambicioso,
    typo-Foville; tal o delirio dos perseguidos-perseguidores, typo-Falret.

    Este sentido restricto parece ser tambem o proprio, se attendermos
    a que o termo _systema_, pedido á technologia das sciencias
    physico-mathematicas, implica a idéa de uma força _activa_ e
    _persistente_ de attracção ou de affinidade (_systemas planetarios,
    systemas de crystalisação_); por analogia, na esphera psychologica o
    _systema delirante_ deveria resultar de uma força _viva_ e _permanente_
    de associação das idéas, tal como se dá sómente nos delirios primitivos,
    idiopaticos e chronicos,–delirios movimentados, activos, tenazes.
    _Paranoia_ é o termo com que de preferencia exprimem os auctores
    allemães contemporaneos este sentido restricto dos delirios
    systematisados, quer isolados, quer succedendo-se, quer coexistindo no
    mesmo doente; e assim corresponde inteiramente á _loucura systematizada_
    dos francezes, na qual estão comprehendidas as syntheses de Morel, de
    Gérente e de Régis.

    Entretanto, mesmo os auctores para quem o termo _Paranoia_ tem esta
    accepção restricta e determinada, o desviam d'ella não raras vezes (o
    que é uma causa de confusão) para tomal-o no sentido geral e como
    synonimo de _Verrücktheit_ ou _Wahnsinn_; é o que faz, por exemplo,
    Krafft-Ebing que, não admittindo na sua theoria da Paranoia (_psychose
    degenerativa_) senão a fórma primaria, idiopatica e chronica, não duvida
    empregar as expressões de _Paranoia epileptica_, de _paranoia
    masturbatoria_ (_delirios syntptomaticos_), como não deixa de occupar-se
    em detalhe de uma _Paranoia Secundaria (estado terminal das
    psychoneuroses_). Note-se, porém,–e isto fará cessar toda a
    confusão–que o termo Paranoia, quando empregado n'um sentido geral
    pelos auctores a que me refiro, vem sempre seguido de um adjectivo que o
    determina; quando tomado no seu sentido restricto, ou vem só ou, quando
    muito, acompanhado de um termo que faz allusão a accidentes evolutivos
    de chronicidade ou ao contheudo das idéas delirantes, como nas
    expressões _Paranoia originaria, Paranoia adquirida_, ou ainda _Paranoia
    persecutoria, Paranoia ambiciosa_. No primeiro caso, sendo a _Paranoia_
    uma _Verrücktheit_, um _Wahnsinn_, um delirio systematisado, importa
    determinar-lhe a _especie_; no segundo, sendo uma _Primäre
    Verrücktheit_, um _Cronicher Wahnsinn_, um delirio systematisado
    primitivo e chronico, a sua especie está definida, o seu logar marcado
    na classificação, importando apenas, quando importe, designar-lhe a
    _variedade_.

    Posto isto, diremos que é sobre a _Paranoia_ como synthese clinica e
    doutrina equivalente em extensão á _loucura systematisada_ dos francezes
    que primeiro vae recahir a nossa attenção. Claro está que este modo de
    limitar o assumpto e de fixar-lhe a terminologia, de modo nenhum nos
    inhibe de dar na historia das doutrinas um logar áquellas em que o
    assumpto se toma n'uma extensão maior; esse logar, porém, deve ser o
    ultimo, não só porque assim o exige a clareza da exposição, mas porque
    só depois de passados em revista os delirios systematisados primitivos e
    chronicos, ácerca dos quaes ha na Allemanha uma doutrina mais ou menos
    definida, poderemos com vantagem occupar-nos dos secundarios e agudos,
    cuja controvertida existencia é um thema de infinitas e obscuras
    divagações.

    Quanto á terminologia por nós adoptada n'esta exposição, diremos que,
    podendo empregar indifferentemente as palavras Paranoia, Primäre
    chroniche Verrücktheit ou Chronicher Wahnsinn, faremos uso exclusivo da
    primeira, não só por um motivo de simplicidade, senão pelas razões que
    os italianos invocam para dar-lhe tambem preferencia: a sua origem
    grega, que a assemelha aos outros nomes da psychiatria; a sua
    expansibilidade internacional, que lhe vem d'essa mesma procedencia;
    emfim, a facilidade com que d'ella se fazem necessarias palavras
    derivadas, adjectivos e adverbios.

    Depois dos trabalhos de Snell[1], de Griesinger[2] e de Sander[3], a
    doutrina da Paranoia foi retomada em 1878 por Westphal[4], que a
    desenvolveu e aprofundou.

    [1] _Über Monomanie_, 1863.

    [2] _Arch. f. Psych._, 1867.

    [3] _Über eine specielle Form der primäre Verrücktheit_, 1868-69.

    [4] _Zeitschr. f. Psych._, 1878.

    Como os seus antecessores, elle insistiu na origem protogenica da
    Paranoia: a perturbação ideativa é o facto inicial, independente de
    estados affectivos preexistentes; os sentimentos depressivos ou
    expansivos que no curso d'esta psychose se observam, não são senão
    secundarios e determinados pelo contheudo das idéas hypocondriacas, de
    perseguição ou de grandezas. Ainda como os seus predecessores, Westphal
    insistiu na falta de tendencias da Paranoia para a demencia; a
    debilidade mental que por vezes se nota nos paranoicos, é prévia e não
    consecutiva, e não póde, por isso, servir para caracterisar a psychose,
    mas o terreno em que ella germina. Reconhecendo a frequencia das
    allucinações na Paranoia, Westphal notou, todavia, que ellas podem
    algumas vezes faltar; para elle a caracteristica fundamental da Paranoia
    reside na perturbação ideativa, na anomalia conceptual que, por si só e
    independentemente dos erros sensoriaes, gera as idéas delirantes
    destinadas a dominarem de um modo completo e absoluto o Eu vesanico. As
    idéas de perseguição e de grandeza podem, segundo Westphal, succeder,
    como notara Morel, á hypocondria, mas podem tambem nascer e organisar-se
    _d'emblèe_. De resto, segundo Westphal, o desvio paranoico está no modo
    de formar as idéas, não de as associar, o que explica a persistencia do
    raciocinio e a coherencia entre os actos e os pensamentos do doente.

    Alargando a area extensiva da Paranoia, Westphal integrou no quadro
    clinico d'esta psychose as _obsessões_, que, não offerecendo a marcha e
    evolução das idéas delirantes dos paranoicos, teem, comtudo, como ellas,
    uma origem primitiva e espontanea; d'aqui a creação de uma variedade,
    _Paranoia abortiva_ ou rudimentar ou frustre, para designar a loucura
    obsessiva ou das idéas fixas.

    Até aqui, como se vê, a doutrina de Westphal não differe essencialmente
    das estudadas syntheses clinicas dos psychiatras francezes. Todavia na
    sua classificação da Paranoia produziu o eminente professor de Vienna
    uma idéa que o separa dos seus predecessores francezes e allemães: de
    facto, ao lado da fórma _hypocondriaca_, já conhecida desde Morel, da
    fórma _originaria_ ou congenita, descripta antes por Sander, e da fórma
    _chronica_, de marcha progressiva ou remittente, em que _d'emblèe_ se
    produzem idéas de perseguição e de grandeza, admittiu Westphal uma
    fórmia _aguda_, caracterisada pela subita eclosão de allucinações
    principalmente auditivas e muitas vezes aterradoras, acompanhando-se de
    idéas de perseguição e levando o doente ora á incoherencia e confusão
    mental (_Verwirrtheit_) com impulsões, ora ao stupor, á prostração e aos
    estados catatonicos de Kahlbaum.

    A creação d'esta fórma _aguda_, que está fóra dos limites por nós
    traçados ha pouco á Paranoia, foi o ponto de partida, entre os allemães,
    das mais numerosas e mais graves dissidencias doutrinarias sobre este
    capitulo da psychiatria. Comquanto não tenhamos de occupar-nos agora
    d'este ponto, entendemos dever fazer-lhe desde já uma referencia, não só
    para não deixarmos incompleta a exposição das idéas de Westphal, mas
    para marcarmos a origem historica de uma corrente de idéas que teremos
    de estudar e precisar mais tarde.

    Notaremos, por fim, que Westphal só á fórma _originaria_ reconhece um
    fundo degenerativo.

    Fritsch[1] em 1878 insistiu nas relações entre as idéas delirantes e os
    estados affectivos, comparando o que se passa na Paranoia com o que tem
    logar na mania e na melancolia.

    [1] _Psychiatr. Centralblatt_, 1878.

    Ao passo que n'estas psychoses o delirio surge secundariamente, e as
    idéas falsas podem, com Griesinger, considerar-se _tentativas de
    interpretação_ das emoções iniciaes depressivas ou expansivas, na
    Paranoia, ao inverso, as idéas delirantes são primitivas e os estados
    emocionaes secundarios,–meras reacções do sentimento sob o contheudo
    das idéas. Adiante voltaremos a citar este auctor, que não acceita a
    fórma _aguda_ da Paranoia.

    Em 1879, Schaefer[1] continuou as idéas de Westphal, pondo, comtudo,
    n'um relevo maior o papel das allucinações e illusões.

    [1] _Alig. Zeitschr. f. Psych._, 1879.

    Se a Paranoia essencialmente consiste no facto de que as idéas
    delirantes são acceites pelo doente como realidades e n'este sentido
    constituem o alimento habitual e ordinario de toda a sua actividade
    psychica, não deve esquecer-se que os erros sensoriaes, mais frequentes
    n'esta psychose do que em todas as outras, activam o delirio, dão-lhe
    uma base, um ponto de apoio constante, e pela sua diuturnidade criam
    para o doente um mundo phantastico, falseam-lhe o juizo e acabam por
    n'elle abolir o _senso critico_.

    Digamos de passagem que Schaefer acceita todas as fórmas da Paranoia
    descriptas por Westphal, incluindo a _aguda_, que teria por ponto de
    partida as allucinações.

    No mesmo anno, Merklin[2] descreveu pela primeira vez o delirio
    processivo (_Quaerulantenwahnn_) como variedade ou sub-grupo da
    Paranoia, encontrando-se assim no terreno da theoria com Lasègue, para
    quem, como foi dito, o delirio dos perseguidores seria uma variedade
    (_fórma activa_) do delirio de perseguições.

    [2] _Studien über primäre Verrücktheit_, 1879.

    No seu _Tratado_, cuja primeira edição remonta a 1879, fez Krafft-Ebing
    da Paranoia um estudo completo, de uma rara e attrahente lucidez.
    Paranoia e loucura systematisada são termos e noções equivalentes;
    assim, separando-se de Westphal, regeita a fórma aguda da Paranoia e
    desintegra d'esta psychose a loucura obsessiva, no que procede á maneira
    dos auctores francezes. Mas o ponto original da sua doutrina está em dar
    á Paranoia um logar entre as degenerescencias psychicas. Duas ordens de
    considerações conduzem Krafft-Ebing a este modo de vêr; a génese e a
    evolução da doença, por um lado, os antecedentes psychopaticos dos
    doentes, por outro. Nem o modo de apparição, nem a marcha permittem
    considerar a Paranoia uma doença accidental, como o são as
    psychonevroses; pelo contrario, tudo a inculca uma psychose
    constitucional, uma doença de um cerebro tocado quer pela
    hereditariedade, quer por graves affecções capazes de irreparavelmente o
    enfraquecerem. De facto, sem obnubilação de consciencia, sem alteração
    fundamental de affectos, no goso habitual de um humor nem deprimido, nem
    exaltado, e a despeito da integridade das fórmas do raciocinio, o
    paranoico vê o mundo erradamente e é incapaz de corrigir quer as suas
    idéas, quer as suas falsas percepções. As idéas delirantes, não
    procedendo do exterior, nem resultando de emoções preexistentes pelo
    mecanismo psychologico da reflexão, vêem do inconsciente e impõem-se ao
    paranoico, do mesmo modo que se lhe impõem os erros sensoriaes: um
    excesso de subjectivismo e uma radical ausencia de senso critico, são,
    pois, as caracteristicas fundamentaes da Paranoia, cuja evolução, sem
    tendencias para a demencia ou para a cura, é essencialmente chronica. De
    resto, a banalidade das causas determinantes (que muitas vezes não são
    senão as phases physiologicas da vida: a puberdade, a menopause, etc.)
    implica uma forte predisposição congenita ou adquirida. Por outro lado,
    a historia de todos os paranoicos (e não só, como pretendia Westphal, a
    dos originarios de Sander) é a dos desequilibrados, dos candidatos á
    loucura, dos degenerados, n'uma palavra; de sorte que a doença
    representa apenas o exaggero ou _hyperthrophia_ de um caracter
    preexistente, não podendo entre ella e o estado normal traçar-se, como
    nas psychonevroses, uma nitida linha divisoria.

    Krafft-Ebing classificou a Paranoia pelo contheudo das idéas delirantes,
    descrevendo uma fórma _persecutoria_ com o seu sub-grupo _processivo_, e
    uma fórma _ambiciosa_ com as suas variedades _religiosa_ e _erotica_; e
    notou o sabio professor de Graz que estas fórmas podem observar-se
    isoladas e podem ora coexistir, ora succeder-se no mesmo doente. Na
    descripção da Paranoia persecutoria insistiu na passagem gradual e
    progressiva das idéas hypocondriacas ás de perseguição e d'estas ás de
    grandeza. Segundo a pratica do grande alienista, esta ultima evolução
    dar-se-hia n'um terço dos casos da doença. É de notar que Krafft-Ebing,
    ao inverso da maioria dos auctores francezes, não concedeu ao raciocinio
    o minimo papel na transformação pessoal, que se realisa pela passagem do
    delirio de perseguições ao de grandezas; o inconsciente domina, segundo
    o eminente professor, toda a evolução da doença.

    Póde seguramente affirmar-se que, com Krafft-Ebing, a doutrina da
    Paranoia, tomada como equivalente de loucura systematisada, recebeu na
    Allemanha os seus derradeiros desenvolvimentos. De facto, n'esta ordem
    de idéas, os psychiatras allemães que lhe succedem, nada accrescentam a
    esta construcção synthetica, ao mesmo tempo simples, elegante e
    profunda.

    Ulteriormente veremos que logar assignala o eminente professor aos casos
    que Westphal, Schaefer e outros incluiam na fórma aguda da Paranoia.

    Em 1880, Scholz[1] insistiu lucidamente nas idéas de Krafft-Ebing sobre
    o papel do inconsciente na génese dos delirios paranoicos. Os factos
    morbidos obedecem, no fundo, ás leis reguladoras dos factos normaes;
    ora, no estado physiologico, é da esphera inconsciente que procedem os
    factos psychicos destinados a tornarem-se conscientes; nos delirios
    primitivos é tambem d'essa esphera que naturalmente emergem as idéas e
    conceitos falsos. As idéas delirantes, como as idéas justas, não são,
    definitivamente, senão resultados finaes, complexos e conscientes de
    actividades elementares e inconscientes do cerebro; toda a differença
    está em que nas idéas delirantes a actividade molecular das cellulas
    corticaes se encontra pervertida. D'aqui resulta que, a não existirem,
    como não existem na Paranoia, modificações anatomicas profundas, os
    processos logicos do pensamento podem subsistir, e o doente não fará
    senão raciocinar _justo_ sobre premissas _falsas_; a apparente lucidez
    dos paranoicos não é senão isto. Mas não são susceptiveis d'esta
    explicação os casos em que o delirio tem por base as allucinações e
    illusões; o inconsciente não representa aqui um papel. Para dar conta
    d'estes casos, é necessario admittir no cerebro um estado de
    enfraquecimento, que o predispõe á falsa interpretação das percepções ou
    das excitações sensoriaes; n'esta ordem de idéas, Scholz dá aos delirios
    de base allucinatoria um caracter eminentemente asthenico, notando que
    elles se desenvolvem frequentes vezes na convalescença das doenças
    febris.

    [1] _Über primäre Verrücktheit_, 1880.

    Em 1882, Jung[1] reeditou as idéas de Westphal e de Fritsch sobre a
    diversidade genetica dos delirios na Paranoia e nas psychoses depressiva
    ou expansiva. Notando a frequencia crescente da Paranoia, Jung attribuiu
    o facto á extensão que todos os dias toma a degenerescencia physica e
    mental da nossa especie. Isto denuncía um accordo entre este auctor e
    Krafft-Ebing sobre a pathogenia intima da doença.

    [1] _Zeitsch. f. Psych_, 1882.

    Kraepelin[1] em 1883, retomando no seu _Compendio de Psychiatria_ as
    idéas de Krafft-Ebing sobre a Paranoia, definiu-a «uma profunda e
    duradoura transformação do Eu, essencialmente evidenciada por uma
    anomala comprehensão e elaboração das impressões internas e externas».
    Sem obnubilação da consciencia e sem vivas emoções que lhe perturbem o
    curso dos processos intellectuaes, o paranoico acceita as idéas
    delirantes, que se lhe impõem e que elle é incapaz de corrigir; esta
    _invalidade psyquica_–umas vezes congenita, adquirida outras–é, pois,
    a base e o terreno de evolução da Paranoia, que, porisso mesmo, não
    representa um mero accidente na vida de um homem são, mas uma doença
    _constituicional_, atacando nos seus mesmos fundamentos a personalidade
    psychica. Todas as relações do Eu com o exterior se encontram
    radicalmente pervertidas no paranoico; e isto não tanto pela
    interferencia das allucinações, que são apenas symptomas, como pela
    caracteristica tendencia do doente á _comprehensão egocentrica do
    mundo_. E não só as relações do Eu com o meio ambiente, mas as que elle
    mantem com o corpo, se encontram alteradas. Pelo que, ás fórmas
    _persecutoria_ e _ambiciosa_ de Krafft-Ebing, Kraepelin accrescenta,
    descrevendo-a minuciosamente, a fórma _hypocondriaca_,

    [1] _Comp. der Psych._, 1883

    Devemos notar que Kraepelin separa da Paranoia o _delirio processivo_,
    que considera uma fórma de _loucura moral_. Baseia-se para essa
    separação em dois factos: de um lado, a ausencia de allucinações nos
    alienados litigantes; do outro, a radical incapacidade destes enfermos
    para se elevarem á noção de direito, como facto objectivo, o que
    denuncía uma suspensão de desenvolvimento psychico nos dominios ethicos,
    tal como se dá nos criminosos.

    Em 1883, Tuczek[2], fazendo o estudo da hypocondria, apeia-a do pedestal
    de fórma nosographica e considera-a um syndroma, ora da melancolia, ora
    da Paranoia, ora loucura obsessiva. A presença ou ausencia habitual de
    uma depressão primitiva indicará se a hypocondria symptomatisa um estado
    melancolico ou representa, pelo contrario, simples e primitivo desvio
    ideogenico. Este modo de vêr projecta uma luz intensa no assumpto,
    fazendo ás idéas hypocondriacas na Paranoia a parte que de todos os
    tempos vinha sendo feita ás idéas de perseguição e de grandeza, que não
    são, aliás, privativas da loucura systematisada. Um delirio de
    perseguições póde episodicamente symptomatisar um accesso de melancolia
    ou secundariamente estabelecer-se após elle, como um delirio de
    grandezas póde ser a expressão de um accesso maniaco; mas, ao lado
    d'estes delirios, ha uma Paranoia persecutoria e uma Paranoia ambiciosa.
    O que distingue estes casos é a lesão primitiva: da sensibilidade nos
    primeiros, da ideação nos segundos, com o delirio hypocondriaco, ora
    expressão de uma hyperesthesia dolorosa, essencial e primitiva, ora
    manifestação de um desvio ideogenico permittindo ao vesanico a habitual
    serenidade e igualdade de humor que caracterisa o paranoico. N'este
    ultimo caso a hypocondria, como justamente observara Kraepelin, não
    seria senão uma perturbação das relações do Eu com o corpo ou com as
    impressões internas, analoga á perturbação das relações d'elle com o
    mundo externo ou com as impressões sensoriaes. E assim se comprehende
    como, ao lado das fórmas _persecutoria_ e _ambiciosa_, deva dar-se no
    quadro da Paranoia um logar á fórma _hypocondriaca_, a despeito de uma
    errada tradicção que espirito faz surgir como inseparaveis as idéas de
    hypocondria e de melancolia.

    [2] _Alig. Zeitschr. f. Psych._, 1883

    Meynert expôz, em 1890, nas suas _Lições Clinicas_ uma interessante
    doutrina da Paranoia, diversa das perfilhadas pelos seus predecessores
    allemães. Para o sabio professor de Vienna esta psychose não
    representaria um especial desvio ideogenico de um cerebro invalido, mas
    a perturbação de um cerebro normal sob a influencia de impulsos morbidos
    que, como nos maniacos e melancolicos, dirigem as idéas. «Os affectos
    originarios, escreve, são os de defeza e de conquista. Os primeiros
    estão em relação com o sentimento de uma influencia externa; os segundos
    com o sentimento de uma força que actua sobre o exterior. São processos
    physiologicos ou, antes, indispensaveis funcções biologicas do
    organismo. Um ser animal incapaz de experimentar affectos conducentes a
    movimentos de defeza, apossar-se-hia da natureza para as suas
    necessidades, mas succumbiria sem resistencia ás nocivas acções d'essa
    mesma natureza; um ser sem movimentos de conquista, como resultados de
    affectos relativos, poderia subtrahir-se aos males da natureza, mas, por
    defeito de apropriação, morreria á falta de satisfação das proprias
    necessidades. Na illimitação das idéas de defeza da creança inexperiente
    e timida encontra-se esboçado physiologicamente o delirio de
    perseguições, como o de grandezas se encontra na mesma creança, quando
    tenta soprar á lua para apagal-a como se fôra uma vela. O delirio de
    perseguição inclue em si a angustia; na Paranoia, como na mania e na
    melancolia, isto póde representar uma relação restabelecida entre este
    sentimento e as circumstancias exteriores. Do sentimento de angustia
    conclue-se para a perseguição. Eu vou, porém, mais longe: o que
    immediatamente se associa ao sentimento de angustia, é o perigo. Perigo,
    antes de tudo, de uma doença illusoria, na hypocondria simples; perigos,
    nas idéas de violencia, em connexão com a chamada angustia
    neurasthenica; perigos, nas coisas da natureza morta–infecções,
    venenos; perigos, creados por nós proprios, como quando receiamos, por
    impulso d'outrem, cahir de uma altura. Este é o delirio de perigo. O
    delirio de perseguição refere-se, porém, a uma influencia procedente
    d'outrem, sendo certo que na Paranoia a angustia causada pelos homens
    excede a que determinam as coisas. O sentimento de defeza é n'este caso
    _anthropomorphisado_: como as suas aggressões procedem de um impulso
    humano, as que o doente receia, teem para elle analoga origem nos
    sentimentos dos homens, na vontade d'elles. Este modo de pensar não é
    especial de um estado de doença; o delirio que se lhe refere é popular,
    diffuso, quanto póde sel-o, por exemplo, a crença na religião natural.
    Todos os phenomenos favoraveis ou perniciosos, o ceu, o sol, as nuvens,
    o oceano, o fogo são assim comprehendidos n'um termo de analogia; e,
    como o homem explica as suas aggressões ou conquistas sobre o natureza
    como resultados de disposições que o estimulam, pensa elle que tambem as
    vantajosas ou maleficas influencias naturaes procedem de affectos de
    seres mais perfeitos. Com razão disse um dos mais profundos pensadores
    da época da encyclopedia que o _homem creou os deuses à sua imagem_»[1].

    [1] Meynert, _Lezioni cliniche di Psychiatria_, trad. it., pag. 128.

    Como do sentimento de defeza fez surgir o delirio de perseguição,
    Meynert faz derivar o delirio de grandezas do sentimento de conquista; e
    como as duas ordens de sentimentos physiologicos, longe de se
    hostilisarem, coexistem no mesmo individuo e mais ou menos se implicam
    n'um fim geral de conservação, as duas ordens de delirios, persecutorio
    e ambicioso, se agregam e formam corpo no mesmo doente.

    D'onde vem ao paranoico o exaggero d'esses fundamentaes sentimentos de
    defeza e de conquista? Meynert não hesita em responder que elle procede
    de uma sorte da hypertrophia do sentimento pessoal, determinada por
    _sensações hypocondriacas_ ou _estimulos subcorticaes bulbares_. O
    doente sentiria mais fortemente o seu Eu; e esta emoção intensa,
    associando-se a todas as percepções, crearia um estado particular de
    consciencia no qual tudo seria interpretado egocentricamente. Uma
    _hyperesthesia psychica_ seria, pois, para Meynert, como vimos que o era
    para Gérente, o fundamento da Paranoia.

    Ao contrario de Krafft-Ebing, Meynert não liga uma grande importancia á
    hereditariedade como causa da Paranoia; e junto d'elle a noção
    psychiatrica da degenerescencia não tem senão um frio e reservado
    acolhimento. Para Meynert a etiologia não fornece, nem fornecerá nunca a
    base de uma classificação natural das psychoses; essa base tem de ser
    procurada na anatomia pathologica, na lesão do cerebro. Na Paranoia essa
    lesão seria um processo atrophico do manto cerebral.

    O conceito da degenerescencia psychica não encontra em Mendel[1] melhor
    acolhimento do que em Meynert. Occupando-se em 1883 da Paranoia, n'um
    extenso trabalho a que teremos de alludir ainda, Mendel apenas concedeu
    fóros de degenerativa á fórma originaria de Sander.

    [1] _Die Paranoia_, 1883.

    Pelo seu lado, Schüle[2], em 1886, só considerou francamente
    degenerativas as fórmas _originaria_ e _processiva_, por elle descriptas
    no seu _Tratado Clinico_ dentro do grupo das psychoses hereditarias,
    entre a loucura obsessiva e a loucura moral.

    [2] _Klinische Psychiatrie_, 1886.

    Mendel, distinguindo a obsessão da idéa delirante, separa da Paranoia a
    fórma _abortiva_ de Westphal. Ao contrario, Salgo[3] vê na loucura
    obsessiva uma fórma frustre ou incompleta da Paranoia, porque para elle
    a obsessão e a idéa paranoica teem a mesma génese: uma e outra surgem
    primitiva e espontaneamente n'um cerebro fraco. Para este auctor, com
    effeito, a _debilidade de espirito_, no sentido do que outros chamam
    _invalidade psychica_ e _ausencia de senso critico_, representa na
    Paranoia um papel fundamental. Poderiamos inscrever, ao lado dos nomes
    até aqui citados, os de Koch, Arndt, Weiss, Pelman, Samt, outros ainda,
    tão vasta é na Allemanha a bibliographia do assumpto que nos occupa; não
    accrescentariamos, porém, com isso o quadro doutrinario da Paranoia como
    conceito equivalente ao de Loucura Systematisada dos auctores francezes.
    Passemos, pois, á exposição dos trabalhos em que um tal conceito se
    altera pela integração de uma fórma _aguda_, sem precedentes quer em
    França, quer na Allemanha, antes de 1878.

    [3] _Compend. der Psychiatrie_, 1887.

    Foi Westphal, como dissemos, quem primeiro admittiu a existencia de uma
    variedade da Paranoia procedendo de estados allucinatorios primitivos e
    apresentando na sua marcha ora a confusão mental da mania, ora a
    depressão stuporosa da melancolia. Tal era a Paranoia aguda do professor
    de Vienna, desde logo perfilhada por Schaefer e tambem desde logo
    rudemente combatida por Fritsch e outros.

    Sem extemporaneos intuitos de critica, mas n'um unico fim de ordenar
    idéas, accentuemos, antes de tudo, as differenças que separam as fórmas
    aguda e chronica da Paranoia.

    Segundo as doutrinas recebidas de Snell, de Griesinger, de Sander, do
    proprio Westphal, dois factos caracterisam principalmente a fórma
    chronica: de um lado, a primitividade das idéas delirantes, que ao
    espirito se impõem á maneira de obsessões; do outro, a integridade da
    associação logica dos pensamentos, explicando a resistencia dos doentes
    á demencia.

    Na fórma aguda, o contrario teria logar: as allucinações seriam o facto
    primordial, e a associação das idéas achar-se-hia fundamentalmente
    compromettida quer por um exaggero até á fuga, quer por um affrouxamento
    até á suspensão. Na fórma chronica, as allucinações, constituindo um
    symptoma secundario e mesmo fallivel, são tributarias das idéas
    delirantes a cujo contheudo se subordinam (depressivas e hostis no
    delirio persecutorio, expansivas e benevolas no ambicioso); na fórma
    aguda, pelo contrario, sendo um facto primitivo e essencial, as
    allucinações teriam sob a sua dependencia os conceitos delirantes (de
    perseguição sob vozes hostis, de grandeza sob audições lisongeiras).
    Quanto á associação das idéas, não ha na fórma chronica mais do que um
    desvio inicial de orientação, sem compromisso da consciencia e sem perda
    de lucidez; pelo contrario, na fórma aguda a precipitação das idéas
    poderia levar o doente á incoherencia e á dissociação da mania, como o
    affrouxamento do seu curso o poderia conduzir á fixidez melancolica ou
    mesmo, sob a acção inhibitoria de allucinações terrorisantes, a estados
    de catatonia. Estas differenças de marcha implicam naturalmente a de
    prognostico: a fórma chronica não cura e não conduz por si mesma á
    demencia; pelo contrario, a fórma aguda terminaria umas vezes pela cura,
    outras pela abolição das faculdades.

    Assim, tanto a subordinação dos symptomas como a terminação separam as
    duas fórmas. O que as une então? O contheudo das idéas delirantes, que
    são sempre, n'uma e n'outra, reductiveis ás tres conhecidas cathegorias:
    hyponcondriacas, persecutorias e ambiciosas, sobretudo ás duas ultimas.

    É este, com effeito, para todos os que admittem uma Paranoia aguda, o
    traço clinico de ligação entre esta fórma e a outra. Que exista uma
    perturbação de consciencia ou até mesmo uma inconsciencia mais ou menos
    duradoura; que o delirio se acompanhe de allucinações em massa de todos
    os sentidos; que haja manifesta incoherencia, pouco importa, desde que,
    como diz Mendel, se possam reconhecer os dois typos de ideação:
    persecutorio e ambicioso. Muitas vezes, como o mesmo Mendel o confessa,
    o diagnostico differencial entre a Paranoia aguda e a mania com
    predominio de allucinações seria difficil de estabelecer. D'esta sorte,
    no quadro da Paranoia entram não só os delirios systematisados, mas até
    os dissociados e incoherentes, uma vez que as idéas de perseguição ou de
    grandeza n'elles predominem ou mesmo _tendam_ a predominar, como alguns
    escrevem.

    É necessario, entretanto, reconhecer que Schüle, achando, talvez,
    demasiadamente frouxo, como unico laço de união entre fórmas por muitos
    symptomas diversas e até antinomicas, o contheudo das idéas delirantes,
    tenta a approximação das duas Paranoias sobre um terreno de evolução,
    notando que dos casos agudos aos chronicos e d'estes áquelles a
    transição se póde fazer sem violencia, antes insensivelmente. Depois,
    com effeito, de ter accentuado (como acabamos de fazel-o) todos os
    symptomas que separam as fórmas chronica e aguda, Schüle escreve: «Estas
    differenças, porém, caracterisam apenas os casos extremos do delirio
    systematisado chronico e agudo; ha casos intermedios em que
    manifestamente se revella o parentesco d'estas duas fórmas. De modo que
    o importante grupo da fórma aguda não é senão a repetição da fórma
    chronica: é um delirio de perseguição, uma interpretação delirante com
    erros sensoriaes e raciocinio falso que abre a scena, sendo ainda
    possiveis ao principio as percepções exactas. Ao mesmo tempo que a
    consciencia se torna mais obscura, produz-se um delirio expansivo de
    fórma mystica ou erotica; o Eu conserva-se, sem poder distinguir as
    percepções exactas das allucinações que se unem e entre si se prendem
    systematicamente. Este estado representa o delirio systematisado agudo
    por excellencia. Por vezes este aspecto clinico mantem-se, mas póde
    tambem mudar, como acontece nos casos de affeções agudas e febris: as
    allucinações tornam-se predominantes, variaveis, e trata-se então de um
    d'esses casos extremos de que fallamos. Por outro lado, a fórma chronica
    apresenta muitas vezes exacerbações que não são, pela fórma e pelo
    fundo, senão o delirio systematisado com allucinações; o começo,
    sobretudo, da doença offerece este aspecto. O delirio systematisado
    agudo, quando não cura, torna-se uma fórma chronica com allucinações e
    systematisação parcial. Todas estas transições demonstram que as
    differenças notadas não são essenciaes e que estas fórmas, apesar de
    variadas, são visinhas»[1].

    [1] Schüle, _Traité clinique des maladies mentales_, trad. fr., pag.
    122.

    A citação que acabamos de fazer, synthetisando as idéas de quantos
    acceitam hoje na Allemanha a Paranoia aguda, dispensa-nos de toda uma
    erudita, mas inutil _étalage_ de nomes proprios; por ella se fica
    sabendo o que pensam do parentesco das duas fórmas os que, desde
    Westphal, as admittem ambas. Entretanto, não será ocioso fixar idéas
    sobre este ponto por uma nova e caracteristica citação de Schüle: «Uma
    analyse minuciosa, escreve este psychiatra, revella differenças entre
    todos os casos que entram n'este grupo tão consideravel de psychoses,
    direi mesmo, d'este grupo que é de todos o maior. Assim, devem
    distinguir-se casos intermediarios n'este vastissimo grupo dos delirios
    systematisados. Os casos chronicos approximam-se tanto, no ponto de
    vista dos symptomas, do delirio systematisado dos degenerados, de que
    muitas vezes offerecem a physionomia clinica, quanto os casos agudos se
    approximam das psychonevroses (melancolia e certas fórmas de stupor com
    allucinações). Estas relações devem ser cuidadosamente notadas. Assim,
    distingue-se, em regra, nitidamente o delirio systematisado agudo, da
    melancolia, pela mediocre importancia da perturbação primitiva do humor,
    que é n'esta, pelo contrario, um elemento psychico duravel, que produz e
    domina toda a doença; entretanto, o delirio systematisado agudo contém
    tambem um grupo demonomaniaco, o qual não só apresenta um sentimento
    depressivo intenso (panophobia), mas succede a um estado de verdadeira
    depressão, de caracteristica diminuição do sentimento da personalidade,
    de illusões e de allucinações de caracter triste. O mesmo acontece com o
    stupor. Em regra, o stupor typico (_atonito_) póde nitidamente
    distinguir-se do delirio systematisado agudo, que não apresenta as
    caracteristicas ausencia de percepção e falta absoluta de vontade; mas o
    stupor com allucinações (_pseudo-stupor_) está evidentemente ligado á
    variedade do delirio systematisado agudo em que a intelligencia
    obscurecida tem phases passageiras de semi-lucidez. Poderiamos chamar a
    este estado a fórma estupida do delirio systematisado agudo tanto como o
    stupor com allucinações; a génese e a marcha da doença permittiriam uma
    e outra coisa. Assim, póde definir-se e conceber-se todo este grupo do
    delirio systematisado agudo como sendo, em summa, a repetição de certas
    psychonevroses melancolicas, maniacas e estupidas em que a consciencia
    se acharia _completamente perturbada pelo delirio_ (estado do
    sonho)»[1].

    [1] Schüle, _Obr. cit._, pag. 123.

    Estas palavras de Schüle, pondo em relevo a immensuravel extensão da
    Paranoia no conceito de alguns psychiatras allemães, permittem-nos
    interpretar expressões, aliás frequentes, que parecem meros jogos de
    termos, que um accidente de composição typographica juntou: tal, por
    exemplo, a da _Paranoia dissociativa_, de Ziehen. Só quem tiver em
    vista que a fórma aguda integra situações mentaes que vão desde a
    obnubilação até á fuga das idéas, desde a somniação até á catatonia,
    póde comprehender que um termo creado para exprimir a idéa de
    _systematisação_ se adjective por uma palavra synonima de
    _incoherencia_.

    Como já dissemos, a idéa de uma Paranoia aguda, primeiro enunciada por
    Westphal e logo acceite por um grande numero de alienistas allemães, foi
    vivamente combatida desde todo o principio por muitos outros. Defensores
    e adversarios d'essa idéa constituem hoje duas escólas nitidamente
    separadas, como temos tentado mostrar nas paginas precedentes. O nosso
    estudo d'este assumpto seria, comtudo, incompleto, se não dissessemos de
    que maneira os adversarios da Paranoia aguda interpretam os casos
    clinicos expostos como pertencendo a esta fórma. Que pathogenia teem e
    que logar occupam na classificação das psychoses, uma vez eliminada a
    Paranoia aguda, os delirios, tão numerosos, em que idéas de perseguição
    e de grandeza surgem sem systematisação completa, sem coherencia até,
    acompanhadas de vivos estados allucinatorios, seguindo uma evolução
    irregular e marchando tantas vezes para a cura?

    A resposta a esta questão, já formulada, talvez, no espirito do leitor,
    vae permittir-nos completar a differenciação das duas escólas, pondo em
    mais alto relevo o caracteristico espirito das doutrinas de cada uma.

    Dizer que esses delirios persecutorio e ambicioso de marcha aguda estão
    fóra da Paranoia, porque são diversos d'ella pelo começo, pela
    terminação, pela hierarchia mesmo dos symptomas, não basta, porque
    precisamente se discute se a Paranoia deve ter a limitada extensão que
    uma tal doutrina lhe assignala ou, pelo contrario, alargar-se para
    abranger novos grupos de factos clinicos. Schüle, Mendel e Cramer (para
    não citarmos senão os principaes e mais modernos defensores da Paranoia
    aguda), acceitando como perfeitamente distinctos e até apparentemente
    contrarios os casos _extremos_ das duas fórmas, sustentam, comtudo, que
    a fusão d'ellas se estabelece pelo exame dos casos _de transição_, em
    que os motivos differenciaes se esbatem.

    Ora, sabendo-se que em sciencias naturaes, desde que n'ellas penetrou o
    criterio evolutivo, deixaram de existir grupos definitivos e fechados,
    importa considerar este argumento. E é por isso que não podemos
    prescindir de saber como interpretam os pretendidos casos de Paranoia
    aguda aquelles que apenas admittem uma Paranoia chronica.

    Fritsch, um dos primeiros a combater a noção da Paranoia aguda, designou
    esses casos sob o nome _Verwirrtheit_ ou confusão mental, fazendo-os
    depender de uma fraqueza irritavel ou esgotamento nervoso dos
    hemispherios cerebraes, que póde observar-se como syndroma ou como
    complicação da maior parte das psychoses e, portanto, da Paranoia.
    Decerto, a _Verwirrtheit_ offerece, como a Paranoia, idéas delirantes e
    allucinações; estes symptomas communs, porém, não são da natureza,
    segundo Fritsch, a permittir a confusão entre uma _doença_, de marcha
    gradual, em que se dá uma transformação da personalidade, e um simples
    _estado_ transitorio, um mero _syndroma_ de innumeras psychoses
    funccionaes e organicas.

    Pelo seu lado, Krafft-Ebing, que á Paranoia dá um logar entre as
    degenerescencias psychicas ou psychoses constitucionaes, relega os
    pretendidos casos de Paranoia aguda para o delirio sensorial,
    _Hallucinatorischer Wahnsinn_, que elle colloca entre as psychonevroses
    ou psychoses accidentaes, ao lado da mania e da melancolia.

    Como Fritsch, Krafft-Ebing faz esses casos tributarios de uma asthenia
    cerebral. De facto, segundo elle, o _Hallucinatorischer Wahnsinn_
    reconhece por causas as doenças febris, infecciosas, neurasthenisantes;
    a sua caracteristica é um enfraquecimento cerebral _d'emblèe_, ou
    passageiro e curavel ou rapidamente demencial, impedindo todo o trabalho
    de systematisação delirante. A passagem do _Hallucinatorischer Wahnsinn_
    á Paranoia é, pois, impossivel.

    Para Kraepelin os pretendidos casos de Paranoia aguda entrariam quer na
    _Hallucinatorische Verwirrtheit_, quer no _Hallucinatorischer Wahnsinn_.
    A primeira d'estas psychoses é uma confusão mental devida a um
    esgotamento agudo do cerebro; a segunda é um delirio pouco coherente, da
    marcha rapida e terminação favoravel, em que as allucinações representam
    o principal papel, subordinando a si o estado emotivo e as idéas falsas.
    A distincção entre estas duas doenças não parece muito nitida; como quer
    que seja, ambas se distinguem profundamente, segundo Kraepelin, da
    Paranoia, que consiste n'uma lenta e intima transformação da
    personalidade, sem obnubilação da consciencia e sem perturbações
    fundamentaes do humor.

    Mayser[1] considera os mesmos casos de Paranoia aguda como exemplares de
    _Delirio asthenico_, analogos aos produzidos pelas intoxicações
    medicamentosas ou outras; a obnubilação da consciencia e a confusão
    mental, devidas a um esgotamento do cerebro, seriam as caracteristicas
    d'este delirio.

    [1] _Zur sogennanter hallucinatorischer Wahnsinn_.

    Meynert[2] pertence ao numero dos que contestam a existencia de uma
    Paranoia aguda. Os casos expostos como taes, são por elle estudados sob
    o nome da _Amencia_, especie de confusão mental, ora idiopathica, ora
    symptomatica, tributaria de uma fraqueza irritavel, de um exhaurimento
    do cerebro e podendo manifestar-se tanto por symptomas de stupor, como
    por excitação acompanhada de vivos e multiplos estados allucinatorios. O
    predominio de phenomenos neurasthenicos sobre os irritativos explicaria
    os casos que difficilmente se distinguem da melancolia, como,
    inversamente, o predominio de phenomenos irritativos sobre os
    depressivos explicaria os casos que a custo se distinguem dos delirios
    maniacos, agudos e sobreagudos.

    [2] _Obr. cit._, pag. 27 e seg.

    As causas da _Amencia_ seriam todos os accidentes capazes de produzir
    mais ou menos rapidamente o esgotamento cerebral: choques moraes
    intensos n'um individuo debilitado, onanismo abusivo, doenças febris,
    puerperio, intoxicações, traumatismos, molestias infecciosas, outros
    ainda. A hereditariedade não exerceria senão um papel subalterno. A
    marcha da _Amencia_ seria sempre aguda e a terminação far-se-hia pela
    morte, pela demencia ou pela cura ao fim de um tempo variavel entre
    algumas semanas e alguns mezes. As recidivas seriam para receiar. De
    resto, a Amencia póde complicar grande numero de psychoses, não sendo
    raro que surja como um episodio na marcha da Paranoia. Meynert insiste,
    porém, sobre o diagnostico differencial entre a Amencia e a Paranoia
    que, mesmo coincidindo temporariamente, conservam a sua physionomia
    propria. Da Amencia não póde passar-se a outra psychose que não seja à
    demencia, termo natural das psychopatias que não curam.

    Tal é, pela voz dos seus mais illustres representantes, a theoria que
    rejeita a existencia de uma Paranoia aguda. Esta designação
    representaria um mal-intendido, pois que os casos clinicos por ella
    cobertos não seriam senão expressões de uma asthenia cerebral, quer
    idiopatica e primitiva, quer symptomatica e secundaria, profundamente
    diversa, não só pelos _symptomas_ e pela _marcha_, mas ainda pelas
    _causas_, da Paranoia. Que essa, asthenia com todo o seu cortejo de
    phenomenos ora stuporosos, ora maniacos, venha intercalar-se na marcha
    da Paranoia em algum dos periodos d'esta, é incontestavel; que devamos
    confundir as duas entidades morbidas é, porém, insustentavel, porque,
    desde os symptomas até ás causas, desde a marcha até á terminação, tudo
    se conspira para as separar.

    Os casos de delirio agudo em que retalhos de conceitos persecutorios e
    ambiciosos apparecem de mistura com erros sensoriaes, não seriam, pois,
    exemplares da Paranoia; seriam casos de _Verwirrtheit_, de
    _Hallucinatorischer Wahnsinn_, de _Hallucinatorische Verwirrtheit_, de
    _Amencia_, n'uma palavra, de _confusão mental_ asthenica. E a mistura
    possivel dos symptomas agudos d'essa confusão com os symptomas chronicos
    da Paranoia, não significam, como pretende Schüle, a passagem ou
    _transição_ entre duas fórmas de uma mesma doença, mas a _coexistencia_
    de duas psychoses distinctas n'um unico doente.

    Duas palavras ainda sobre a Paranoia secundaria antes de fecharmos a
    historia dos trabalhos germanicos.

    Vimos quanto esta noção dominante nos inicios da psychiatria allemã, foi
    perdendo terreno á medida que se elevava a de Paranoia primitiva. O nome
    não chegou nunca a desapparecer, graças á tradição; mas o conceito de
    Paranoia secundaria foi posto em contraste como o de Paranoia primitiva.
    Esta seria uma doença; aquella, um _estado terminal_, apenas, da
    melancolia ou da mania, uma _étape_ d'estas psychoses na sua marcha para
    a extincção definitiva. Tal em Krafft-Ebing, por exemplo, nos apparece a
    Paranoia secundaria: um prefacio da demencia vesanica, uma situação
    mental pouco definida e transitoria, correspondendo ao que os
    psychiatras francezes denominaram em todos os tempos a _demencia
    incompleta_.

    E assim devia ser. Entre o formidavel processo da Paranoia primitiva,
    tão movimentado, tão independente, tão cheio de cambiantes evolutivas, e
    o estado predemencial, tão pallido que os seus symptomas não são já
    senão residuos de psychoses moribundas–pedras de um edificio em ruinas,
    taboas de um navio em naufragio–nenhuma approximação pathogenica ou
    nosologica era, com effeito, possivel.

    Mas comprehende o leitor que esta situação tenha variado a partir do
    momento em que o conceito da Paranoia primitiva foi remanuseado e os
    seus severos moldes partidos pelos iconoclastas, introductores da fórma
    aguda. Desde que não repugna admittir que da confusão mental se passe á
    Paranoia, menos repugnará crêr que a ella se trasite da mania e da
    melancolia. E, de facto, os auctores que admittem a fórma aguda da
    Paranoia, acceitam igualmente a secundaria.

    * * * * *

    Datam apenas de 1882 os trabalhos da psychiatria italiana sobre os
    delirios systematisados; são elles, porém, de um tão grande valor
    intrinseco e de uma tão alta originalidade, algumas vezes, que o seu
    logar na historia contemporanea está definitivamente marcado.

    A primeira memoria a citar sobre o assumpto é a de Buccola: _Sui delirii
    sistematisati_. Não tanto pela novidade das proprias idéas como pela
    clareza com que expõe e commenta as doutrinas germanicas, ainda então
    quasi desconhecidas fóra do paiz originario, é notavel este trabalho do
    mallogrado escriptor italiano.

    Na debatida questão da génese do delirio, Buccola hesita em affirmar com
    Krafft-Ebing a constante prioridade das idéas sobre as allucinações, do
    desvio conceptual sobre os erros sensoriaes. «A génese do delirio,
    escreve, não é em todos os casos nitidamente delimitada e não sabemos
    definitivamente se as allucinações precedem ou succedem sempre o
    desenvolvimento das idéas delirantes e se estes devem considerar-se
    tentativas de interpretação ou antes, á maneira de Samt, productos da
    vida psychica inconsciente»[1]. Quanto ao especial terreno sobre que
    assentam os delirios systematisados, é Buccola decisivo, affirmando com
    Weiss que elles traduzem uma invalidade mental; e este modo de vêr,
    apoia-o Buccola sobre o criterio etiologico, vista a preponderancia da
    hereditariedade na loucura systematisada, e ainda no prognostico, porque
    a doença é, maioria dos casos, estereotypada e insusceptivel de cura,
    comquanto capaz de remissões.

    [1] Buccola, _Sui delirii sistematisati_, in _Rivista di Freniatria_,
    vol. VII.

    O estudo de Buccola, que fizera na Allemanha o seu noviciado
    psychiatrico, foi para a sciencia italiana, adormecida sobre os
    conceitos francezes, a denuncía de um mundo novo a explorar. E desde
    logo, com effeito, um fecundo movimento de inquerito aos delirios
    systematisados surgiu e se affirmou por estudos de uma profundidade e
    originalidade imprevistas.

    Pondo de parte todos os trabalhos (e são numerosos) que se limitam, como
    o de Buccola, a expôr ou a commentar as idéas germanicas, faltaremos
    sómente dos que, pela novidade dos seus pontos de vista, implicam
    modificações evolutivas no conceito da Paranoia. N'esta ordem de idéas
    são a mencionar, sobretudo, as memorias de Tanzi e Riva e de Tonnini.

    O trabalho dos dois primeiros escriptores é dos mais importantes e, como
    vae vêr-se, dos mais originaes.

    Para estes auctores Paranoia e delirio systematisado são conceitos
    diferentes, noções que importa não confundir: o delirio systematisado é
    um syndroma clinico, um _grupo symptomatico_ apenas, ao passo que a
    Paranoia representa uma _constituição morbida_, que o atavismo explica.
    Exteriorisando-se as mais das vezes por um delirio systematisado, a
    Paranoia póde, todavia, existir sem elle; d'aqui a variedade que os
    auctores denominam _Paranoia indifferente_, isto é, desacompanhada de
    delirio.

    O que é então a Paranoia, segundo Tanzi e Riva? De dois modos a definem
    e fazem comprehender estes auctores: descriptivamente, pela menção dos
    seus symptomas, da sua etiologia e da sua marcha; pathogenicamente, pelo
    exame das suas origens.

    Descriptivamente definida, a Paranoia é para Tanzi e Riva «uma psychose
    funccional de fundo degenerativo, caracterisada por um particular desvio
    das mais elementares operações intellectuaes, não implicando nem uma
    gravissima decadencia nem uma desordem geral; que se acompanha quasi
    sempre de allucinações e idéas delirantes permanentes mais ou menos
    coordenadas em systema, mas independentes de qualquer causa occasional
    constatavel ou de qualquer condição morbida emotiva; que tem uma
    evolução nem sempre uniforme ou continua, mas essencialmente chronica; e
    que, em geral, não tende por si mesma para a demencia»[1].

    [1] Tanzi e Riva, _La Paranoia,_ in _Rivista di Freniatria_, vol. x,
    pag. 293.

    A analyse d'esta definição, que a pathogenia tem de completar, permitte
    reconhecer, antes de tudo, a posição dos auctores em face das diversas
    doutrinas allemãs. Declarando a Paranoia uma psychose _degenerativa_, de
    marcha essencialmente _chronica e sem precedentes de emotividade
    morbida_, Tanzi e Riva excluem resolutamente do quadro da doença os
    delirios systematisados _secundarios_, que succedem á mania e á
    melancolia, e bem assim os _agudos_, admittidos pela escóla de Westphal.
    Constatando, além disso, a ausencia, na génese da psychose, quer de
    causas occasionaes apreciaveis, quer de perturbações morbidas de
    sentimento, os auctores affirmam a origem _inconsciente_ do desvio
    intellectual, que não póde tomar-se, porque é primitivo, á conta de
    interpretação de estados emotivos. Emfim, declarando que a Paranoia não
    implica uma desordem geral, mas ideativa, não tendendo por si mesmo para
    a demencia, Tanzi e Riva accentuam que ella consiste n'uma
    _degenerescencia intellectual_.

    Como se vê, é ao lado de Krafft-Ebing e em opposição a Schüle e a Mendel
    que os escriptores italianos se collocam. Mas no que elles se desviam de
    todos os psychiatras, assim franceses como allemães, é na affirmação da
    não essencialidade das idéas systematisadas na Paranoia; esta é a parte
    original e absolutamente imprevista da definição. Contrariamente ás
    idéas recebidas, o desvio ideativo que caracterisa a Paranoia não é
    sempre, segundo Tanzi e Riva, embora o seja na maioria dos casos, um
    delirio systematisado. É uma coisa diversa, em que pensaram Lombroso,
    creando a designação de _mattoide_, Maudsley, fallando de um
    _temperamento vesanico_, Moreau, traçando a zona indisdincta das
    _fronteiras da loucura_. O que é, pois? Um excesso de subjectivismo
    alterando fundamentalmente as relações do individuo com o mundo
    exterior, comprehendido o social, e tomando, n'este assumpto,
    radicalmente impossivel toda a justeza da critica. Lucido bastante para
    interpretar as coisas e os homens nas suas relações objectivas, o
    paranoico, uma vez em jogo a sua personalidade, vê tudo erradamente,
    como por interposta lente deformante. O Eu, medida de todas as coisas, é
    no paranoico um instrumento infiel e falso, porque vicia aquellas que o
    interessam, as que com elle directamente se relacionam; a
    _egocentricidade_ é, pois, o essencial _desvio_ e o incorrigivel _erro_
    do Eu paranoico. Accentuando-se de ordinario n'um delirio systematisado
    persecutorio, ambicioso ou erotico, elle póde ficar áquem, no dominio
    das idéas falsas, mas não absurdas, chimericas, mas não ainda
    inverosimeis ou repugnantes; d'aqui a Paranoia indifferente, que os
    auctores illustram de uma maneira magistral.

    D'onde procede esse desvio que nenhuma causa occasional explica? Se
    pensarmos que a evolução intellectual da humanidade se faz no sentido de
    um subjectivismo decrescente, isto é, de uma subordinação cada vez maior
    do Eu ao mundo exterior, de que somos apenas uma parcella, o excesso de
    subjectivismo apparecer-nos-ha como um retrocesso, uma regressão, e o
    paranoico, portanto, como um documento de atavismo.

    Tal é, na sua essencia, a doutrina de Tanzi e Riva a que cremos dever
    applicar a designação de _anthropologica_, porisso que, segundo ella, o
    paranoico é muito menos um _doente_, no sentido commum d'este termo, do
    que a revivescencia intellectual de velhos typos ancestraes da especie.

    «Não é em si mesma, escrevem Tanzi e Riva, mas em relação ao tempo em
    que se produz, que uma idéa póde considerar-se morbida; a pathologia do
    conceito delirante reside sobretudo no _anachronismo_» [1]. E, de facto,
    idéas e opiniões que hoje são delirantes, foram modos de vêr correntes
    em épocas mais ou menos afastadas. Mas não se conclua d'aqui que é
    paranoico todo o homem que n'um dado assumpto pensa como o fizeram
    remotos antepassados.

    [1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, pag. 305.

    Que um negro, uma creança ou um inculto camponez tenham do Universo uma
    grosseira concepção anthropomorphica, nada mais natural; que a tenha,
    porém, um branco de maior idade e scientificamente educado, eis o que
    denuncía um desvio paranoico da ideação. Que um rude marinheiro
    analphabeto responsabilise o seu santo de um naufragio ou lhe agradeça
    com offerendas uma viagem feliz, não é caso para espanto; que faça o
    mesmo um almirante, eis o que revellaria uma ideação paranoica. As
    raças, as idades e as classes (que são raças sociaes) teem cada uma a
    sua psychologia; e é dentro d'ella e pelos principios d'ella que os
    conceitos teem de ser afferidos. Um homem tendo as crenças dos da sua
    raça, do seu paiz, da sua idade, da sua classe e do seu nivel cultural,
    não é um paranoico, por falsas que essas crenças sejam; para que possa
    fallar-se da Paranoia é preciso que uma _regressão_ ideativa se realise.

    Na parte critica do nosso trabalho insistiremos sobre este e outros
    pontos. Por agora resta-nos sómente resumir a documentação do atavismo
    paranoico, tal como a apresentam os dois illustres psychiatras.

    Tanzi e Riva fazem notar em primeira linha a crença profunda e
    inabalavel dos paranoicos nas suas concepções delirantes, mau grado
    todos os raciocinios que as demonstram falsas, mau grado a evidencia
    dos factos, que as contradicta, e a realidade das coisas, que as choca;
    essa crença, inaccessivel a argumentos, superior a controversias,
    resistente ás suggestões do mundo objectivo, é verdadeiramente uma
    _fé_–tão integral e tão pura como a das velhas almas religiosas em face
    dos dogmas e das doutrinas revelladas. De uma intensidade inversamente
    proporcional ao seu fundamento logico, a fé paranoica não encontra hoje
    equivalente a não ser nos povos barbaros ou nos simples de espirito.

    Um novo documento da natureza degenerativa e atavica da Paranoia
    encontra-se no proprio contheudo do delirio, sobretudo nas idéas de
    perseguição, que representam uma phase de _lucta_ incompativel com os
    tempos actuaes e apenas possivel e necessaria em épocas anteriores á
    constituição do direito e ao reconhecimento das garantias individuaes.

    Como importante caracter degenerativo e prova de que o paranoico
    representa um producto inferior, referem os auctores o conjuncto de
    anomalias _psycho-sexuaes_ que só nos imbecis se encontram com a mesma
    frequencia e fórma. Indo do onanismo ao _horror feminae_ por innumeras
    cambiantes, essas anomalias, se não produzem o effeito da impotencia
    material, tornam o paranoico inadequado ao amor e ao matrimonio. «A
    extracção forçada de esperma por machinas electricas, a copula
    imaginaria com pessoas reaes, os mysticos commercios carnaes com entes
    nebulosos e imaginarios representam outros tantos aspectos, escrevem os
    auctores, das condições de inferioridade sob o ponto de vista da
    existencia da especie, em que se despenha o paranoico muitas mais vezes
    do que qualquer outro alienado»[1].

    [1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, pag. 307.

    Emfim, ha na symptomatologia da Paranoia um grupo particular de factos
    de procedencia atavica evidente: taes são os que se designam pelas
    expressões syntheticas de _symbolismo_ e _allegorismo_. «Os complicados
    arabescos, as figuras allegoricas, os gestos e altitudes cabalisticas,
    as interpretações phantasticas de factos naturaes, os jogos de palavras,
    os neologismos, e o _argot_ individual que na Paranoia pullulam, dão ao
    delirio uma côr tão viva e tão grotesca, dizem os escriptores italianos,
    que o fazem reviver nas mais remotas phases da evolução historica da
    cultura. Lembram a escripta cuneifórme e hyerogliphica exprimindo
    material e figuradamente os conceitos abstractos, a conservação dos
    amuletos symbolisando as almas dos santos, a vivificação dos phenomenos
    naturaes, as evocações d'alemtumulo, os themas da alchimia medieval e da
    magia arabe, as cerimonias hyeraticas de velhos tempos, importadas do
    mysticismo oriental. Cada uma d'estas duas séries de factos,
    encontrando-se, de um lado, nos paranoicos, do outro, nos povos
    primitivos, exprime uma condição psychica commum»[1].

    [1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, pag. 307.

    Tem a data de 1884 o trabalho eminentemente original que acabamos de
    resumir.

    A idéa de uma constituição paranoica, essencialmente degenerativa,
    recebe n'elle a consagração pathogenica. A Verrücktheit de Krafft-Ebing
    e da sua escóla é ainda um delirio systematisado, cuja primitividade,
    estabelecida pela clinica, não encontra uma clara interpretação; a
    Paranoia de Tanzi e Riva é pura e simplesmente uma degenerescencia
    intellectual, que a doutrina da evolução permitte comprehender. A
    Verrücktheit era com os allemães um conceito _medico_; a Paranoia, que
    d'elle deriva por natural desdobramento historico, tornou-se com os
    italianos, uma doutrina _anthropologica_.

    Mas não se esgotou com a memoria de Tanzi e Riva, a cujas idéas, seja
    dito de passagem, deram a sua adhesão Amadei, Tamburini, Morselli e
    outros, a fecundidade original da psychiatria italiana n'estes dominios.
    Tres annos depois, em 1887, surge o estudo de Tonnini sobre a _Paranoia
    secundaria_–um velho thema visto a uma nova luz. De facto, não é a
    primitiva concepção de Griesinger que Tonnini reedita: a Paranoia
    secundaria do auctor italiano não é Secundäre Verrücktheit do allemão,
    uma psychonevrose prefaciando uma demencia, um delirio systematisado
    feito dos residuos ideativos da mania e da melancolia; é antes uma fórma
    hybrida, participando ao mesmo tempo dos caracteres da psychonevrose e
    da degenerescencia.

    Demos, porém, a palavra ao escriptor italiano: «A Paranoia secundaria
    diz elle, é uma psychopatia que se affirna por delirio e caracter
    paranoico mais ou menos accentuados sobre um fundo de debilidade mental
    invasora, como terminação de uma psychonevrose que, desarranjando o
    equilibrio de um cerebro já de si invalido, reforça processo
    degenerativo, abreviando-lhe a evolução e concentrando n'um mesmo
    individuo os caracteres de um série pathologica»[1].

    [1] Tonnini, _La Paranoia Secundaria_ in _Rivista di Freniatria_, vol.
    XIII, pag. 61.

    Como d'esta definição se vê, a Paranoia secundaria implica uma inicial
    degenerescencia, uma invalidade mental primitiva, que a psychonevrose;
    mania ou melancolia, não faz senão aggravar e tornar manifestas. Sem a
    intervenção accidental da psychonevrose, a degenerescencia, menos
    avançada que na Paranoia primaria, não se accentuaria n'um delirio
    systematisado; dado, porém, o abalo maniaco ou melancolico, pronuncia-se
    o estado degenerativo por um complexo symptomatico especial em que ha
    concepções delirantes e tendencias para a demencia.

    «Estabelecido, diz Tonnini, que uma psychonevrose por recessivas
    evoluções morbidas produz a degenerescencia (Paranoia primaria) n'um ou
    mais individuos da especie, póde admittir-se que a Paranoia secundaria
    representa n'um só individuo o que faz a psychonevrose na especie. A
    Paranoia secundaria seria o resultado tardio (Paranoia tardia) de uma
    disposição precedente, apressado por uma doença mental qualquer, as mais
    das vezes de base affectiva. Segundo este conceito, a Paranoia
    secundaria não seria, como se pretende, uma psychonevrose que,
    caminhando para a demencia, deixa observar systematisadas as idéas
    falsas da mania ou da melancolia cessantes; ao contrario, a Paranoia
    secundaria offereceria um terreno degenerativo, naturalmente ligeiro em
    si mesmo, não chegado ainda ao de dar por maturidade propria o producto
    da Paranoia genuina; sobre este terreno, em si mesmo degenerado, a
    apparição de uma psychonevrose traria um profundo desequilibrio a um
    espirito já invalido, occasionando a manifestação de um processo com
    apparencias degenerativas, que por si só talvez se não accentuasse.
    Aconteceria, n'uma palavra, como nas fórmas de Paranoia illustradas por
    Leidesdorf, que se originam em graves doenças da infancia, em
    traumatismos, etc., e nas quaes, todavia, é necessario admittir uma
    predisposição, porque, na grande maioria dos casos, nem os traumatismos,
    nem as doenças infantis ou outras determinam ulteriormente a apparição
    da Paranoia. Por maioria de razão, uma doença mental como a mania ou a
    melancolia poderá determinar o apparecimento de uma doença affim,
    baixando os poderes de critica, introduzindo o elemento allucinatorio e
    guiando á demencia, que terá sempre o caracter paranoico. O exhaurimento
    cerebral psychonevrotico (demencia) n'um terreno mais ou menos
    degenerado produz o fructo hybrido da Paranoia secundaria, que não é a
    verdadeira demencia, mas tem alguma coisa da demencia e da Paranoia»[1].

    [1] Tonnini, _Loc. cit._, pag. 60.

    Tal é a doutrina da Paranoia secundaria, segundo Tonnini,–profundamente
    diversa, repetimol-o, da theorisação de Griesinger.

    Vejamos agora como o alienista italiano documenta a sua tão original
    concepção.

    Fazendo da Paranoia secundaria uma fórma hybrida, Tonnini procura
    demonstrar que ella não é uma psychonevrose genuina e que não é tambem
    uma degenerescencia pura e simples, mas participa dos caracteres de uma
    e de outra.

    Que não é uma psychonevrose genuina, demonstram-no segundo o escriptor
    italiano, tres ordens de razões: a primeira, não faltar nunca ao delirio
    o ar extranho da Paranoia e os neologismos, que são seus habituaes
    companheiros; a segunda, ser ás vezes o delirio muito menos a
    continuação do que se gerou durante a mania ou a melancolia precedentes,
    do que um delirio novo procedente de disposições paranoicas, como se vê
    n'um caso, que o auctor publica, de delirio exaltado succedendo á
    melancolia; terceira, emfim, a impossibilidade muhas vezes constatada de
    fazer-se um diagnostico differencial entre a Paranoia secundaria e a
    Paranoia primaria, a não ser pela consulta dos anamnesticos.

    Que a Paranoia secundaria não é uma degenerescencia pura e simples,
    resulta das seguintes considerações: a primeira é a presença do elemento
    affectivo, de expansão ou depressão, que falta na Paranoia primaria,
    evidentemente degenerativa; a segunda é a marcha e terminação, que são
    diversas das observadas na Paranoia primaria; a terceira, emfim,
    refere-se á hereditariedade que é sempre menos pesada na Paranoia
    secundaria que na primaria.

    Â conclusão geral do trabalho de Tonnini é esta: «Não sendo uma
    psychonevrose genuina, nem uma pura degenerescencia, a Paranoia
    secundaria compendia e resume n'um mesmo individuo os elementos d'estes
    dois processos, Constitue um traço de união entre elles e demonstra que
    os estados morbidos, como todos os factos naturaes, se não sujeitam a
    uma rígida classificação, mas teem entre si relações variaveis, que
    podem verificar-se associadas n'um mesmo typo pathologico»[1].

    [1] Tonnini, _Loc. cit._, pag. 67.

    * * * * *

    Poderiamos, sem grave inconveniente, suspender n'este ponto a parte
    historica do nosso estudo, por isso que só a França, a Allemanha e a
    Italia teem no assumpto que nos occupa litteraturas psychiatricas
    originaes; completal-a-hemos, todavia, por uma ligeira noticia dos
    trabalhos inglezes, norte-americanos e russos.

    A psychiatria ingleza, orientada n'um sentido eminentemente analytico e,
    sobretudo, caracterisada pela investigação minuciosa dos symptomas e das
    causas, tem-se conservado quasi sempre alheia aos problemas de
    pathogenia que tão apaixonadamente sollicitam os paizes continentaes.

    A noção de _monomania_, com a significação que lhe davam Esquirol e os
    seus discipulos, foi propagada na Inglaterra por Prichard, que a definia
    nos seguintes termos: «A monomania ou loucura parcial é caracterisada
    por uma illusão particular ou erronea convicção do intendimento,
    determinando uma aberração do juizo; o monomaniaco é incapaz de pensar
    correctamente sobre objectos relacionados com a sua illusão especial,
    embora sobre outros assumptos não manifeste apreciaveis desordens do
    espirito»[1].

    [1] Prichard, _Treatise on Insanity_, 1833.

    Mercê dos escriptos classicos de Hack Tuke e Bucknill, o termo
    _monomania_, começou em 1858 a ser substituido pela expressão
    _delusional insanity_, hoje correntemente empregada para indicar os
    delirios systematisados. Mas a designação nova não implica uma
    pathogenia definida, porque o termo _delusion_ significa apenas
    _concepção falsa_ ou _idéa delirante_, sem referencia a origem. Segundo
    Tuke e Bucknill, a _delusional insanity_ poderia ser secundaria, como
    algum tempo pretendeu Griesinger. É o que manifestamente exprimem estas
    palavras: «A concepção falsa (_delusion_) é muitas vezes o ultimo
    symptoma na morbida successão dos phenomenos mentaes; ella póde ser, com
    effeito, o reflexo de uma emoção, e, embora estrictamente signifique
    desordem intellectual, póde ser o resultado e o mero symptoma de uma
    desordem de sentimentos. Na verdade, a loucura affectiva (_emocional
    insanity_) não raro termina por uma perturbação conceptual (_delusional
    disorder_)»[1]. Explanando esta passagem, que tem a data de 1879, os
    auctores apresentam como exemplos de _delusional insanity_ casos que
    poderiam entrar no grupo germanico da Paranoia secundaria.

    [1] H. Tuke and Bucknill, _A Manual of Psychological medicine_, 4.º ed.,
    pag. 204.

    Sob o ponto de vista pathogenico, Maudsley conservou-se fiel á tradicção
    dos seus predecessores inglezes, como o demonstram estas palavras da
    _Pathologia do Espirito_: «Comquanto a monomania intellectual succeda
    muitas vezes á mania aguda, nem sempre isto acontece; por vezes este
    desarranjo do espirito desenvolve-se primitivamente e de um modo
    progressivo, como exaggero de um defeito fundamental do caracter»[2].

    [2] Maudsley, _Pathologie de l'Ésprit_, trad. fr., pag. 441 (1883).

    O que em Maudsley se encontra de verdadeiramente notavel com relação ao
    assumpto que aqui versamos, é a descripção que elle faz, sob o nome de
    _nevrose vesanica_, da Paranoia sem delirio de Tanzi e Riva. Os
    portadores d'esta nevrose ou _temperamento louco_, de origem sempre
    hereditaria, são seres _originaes_ e _excentricos_, de um grande
    _egoismo_, de uma excessiva _vaidade_, seres _desequilibrados_, que,
    não delirando, constituem, todavia, alguma coisa de extranho no meio
    social a que se não subordinam, antes constantemente chocam.

    Em Clouston, cujas interessantes _Lições_ remontam a 1883 e tiveram nova
    edição em 1887, a _delusional insanity_ apparece como synonimo de
    _monomania_ ou _monopsychose_. Buscando as origens da doença, Clouston
    encontra-lhe quatro: a predisposição individual, a mania aguda, as
    intoxicações e traumatismos, e, por ultimo, as sensações falsas. Como se
    vê, a _delusional insanity_ é tanto um delirio systematisado primitivo
    como secundario, tanto essencial, como apenas symptomatico.

    O que em Clouston merece attenção é a sua maneira de definir a
    _delusion_ ou conceito delirante á maneira dos italianos, isto é,
    fazendo intervir o criterio evolutivo. «A educação, a idade, a classe e
    mesmo a raça, até um certo ponto, determinam se uma crença errada é ou
    não um conceito delirante»[1]. Assim, a noção morbida, a idéa
    pathologicamente falsa (_insane delusion_) deve definir-se «uma crença
    n'aquillo que seria inacreditavel para gente da mesma classe, educação e
    raça da pessoa que a expressa»[2].

    [1] Clouston, _Clinical lectures on mental diseases_, 2º ed., pag. 243.

    [2] Clouston, _Obr. cit._, pag. 244.

    Na America do Norte, Spitzka[3], servindo-se do termo _monomania_, expõe
    em 1883 a doutrina da Paranoia, tal como a comprehendem alguns
    alienistas allemães, assignalando-lhe uma origem primitiva e fazendo-a
    assentar sobre um fundo de fraqueza mental. Na classificação dos
    delirios, que divide em expansivos e depressivos, reconhece as
    variedades descriptas por Krafft-Ebing, excepto a processo-maniaca.

    [3] Spitzka, _A Manual of Insanity_, 1883.

    No mesmo anno, Hammond[4] occupa-se dos delirios systematisados, sem,
    todavia, se pronunciar sobre a sua pathogenia.

    [4] Hammond, _A Treatise on Insanity_, 1883.

    Não conhecemos, senão por ligeiras noticias de Tanzi e de Séglas, a
    litteratura russa da Paranoia. A julgar por essas noticias, não é ella
    nem mais abundante, nem mais original que a ingleza e a norte-americana.

    Parece que os mais importantes trabalhos são os de Rosenbach, em 1884, e
    de Greidenberg, em 1885.

    O primeiro d'estes auctores sustenta, como a maioria dos allemães, a
    génese expontanea dos delirios paranoicos, que teem por base a
    debilidade mental. As illusões e allucinações seriam secundarias e não
    primitivas na evolução d'estes delirios. As idéas de grandeza não
    derivariam, por um processo logico, das idéas de perseguição, mas seriam
    contemporaneas destas; de resto, o exaggero da personalidade, que as
    idéas ambiciosas põem em relevo, está já indicado nas idéas de
    perseguição.

    O segundo dos auctores citados reconhece uma Paranoia allucinatoria
    aguda, em que distingue duas variedades: uma hereditaria, e outra
    adquirida, asthenica. Esta seria a mais frequente, e terminar-se-hia
    quer pela cura, quer pela demencia, quer por um certo grau de
    enfraquecimento cerebral.

    SEGUNDA PARTE

    EXAME CRITICO DO CONCEITO DE PARANOIA

    METHODO A SEGUIR

    Dados resultantes do estudo historico dos delirios systematisados–Exame
    critico dos conceitos clinicos de Delirio Chronico e de Verrücktheit
    aguda e secundaria–Determinação final do conceito anthropologico de
    Paranoia.

    Todo o extenso caminho ascensional até agora andado nos apparece, da
    altura attingida, como uma linha de ideação que, partindo do exame dos
    delirios systematisados, se dirige para o conhecimento da constituição
    intellectual dos delirantes.

    Nas phases iniciaes da sciencia e quando ainda um exclusivo criterio
    symptomatico a orienta, é cada delirio uma doença–que se chama
    melancolia, monomania intellectual, lypemania, delirio de perseguições
    ou megalomania, segundo as modalidades clinicas de _fixidez_, de
    _extensão_, de _contheudo_ ou de _marcha_ das idéas delirantes. Mais
    tarde, a preponderancia do criterio etiologico, imposto á psychiatria
    pelo genio incomparavel de Morel, modifica e alarga a visão do assumpto,
    fazendo pensar no terreno especial de que as concepções falsas emergem;
    não ha então tantas doenças distinctas quantos os delirios, mas, formada
    pela convergencia da noção symptomatica de delirio e do conceito causal
    de predisposição, uma só doença de variaveis aspectos clinicos,
    successivamente denominada loucura hypocondriaca, delirio chronico,
    loucura parcial, delusional insanity e Verrücktheit. Emfim, a tentativa
    de explicar pela doutrina geral da evolução psychica a natureza da
    predisposição delirante origina o conceito de Paranoia como expressão de
    um desvio regressivo, de uma constituição atavica da intelligencia.

    Analyse, synthese e interpretação pathogenica–taes foram, pois, na
    marcha historica do assumpto que nos occupa, as _étapes_ seguidas pelo
    espirito scientifico.

    Mas esta linha evolutiva, que abstractamente nos apparece rectilinea,
    foi na realidade irregular e ondulante. Conhecidos, á maneira de dois
    pontos, o primeiro e o ultimo termo das séries de doutrinas, traçamos
    entre elles a mais curta distancia, como se a filiação das idéas se
    houvesse dado n'um mesmo cerebro; na verdade, porém, as theorias
    nasceram, como vimos, em litteraturas diversas, independentes por vezes
    e accusando cada qual o genio particular e as tendencias especiaes da
    respectiva nacionalidade. Assim, por exemplo, quando ainda o pratico
    espirito francez se occupava em fazer pelas pennas de Lasègue e de
    Foville a minuciosa descripção clinica dos delirios systematisados de
    perseguição e de grandezas, já o cerebro allemão, que os tinha
    entrevisto, prematuramente lhes assignalava pela voz de Griesinger urna
    hypothetica pathogenia. Por outro lado, dentro do mesmo pais, potentes
    organisações intellectuaes quebraram por bruscos saltos de genio o
    parallelismo entre as evoluções logica e chronologica das idéas,
    misturando assim n'um dado momento, como vimos succeder em França com
    Morel, o espirito de analyse e a tendencia synthetisadora. Emfim, o
    inevitavel desejo de explicar, coevo da humanidade, indisciplinada e
    temerariamente semeou de fragmentarias notas pathogenicas o proprio
    periodo analytico do nosso thema, como se viu em Lasègue e em Foville,
    tentando filiar n'uma autoobservação consciente as idéas delirantes.

    É, pois, por um artificio do espirito que figuramos como perfeitamente
    definidas e succedendo-se rectilineamente as phases evolutivas da
    questão que nos occupa. Mas esse mesmo artificio, aliás necessario e
    legitimo, está indicando que a historia, não sendo aqui, como as
    sciencias exactas, uma simples exposição chronologica dos erros e
    illusões que precedem a conquista definitiva da verdade, mas uma
    complicada e suggestiva revista de opiniões, carece de ser completada
    pela critica. Já no que apenas parece uma núa e secca exhibição de
    doutrinas, o espirito critico intervem, procurando no labyrintho de
    contradictorias affirmações a filiação das idéas; é preciso, comtudo,
    que elle se affirme ainda mais larga e mais activamente, julgando as
    theorias e os pontos de vista individuaes ou de escóla em face dos
    factos clinicos e dos principios de psychologia normal e pathologica.

    Eis o que explica a necessidade d'esta segunda parte do nosso trabalho.

    Acceitando nos seus traços fundamentaes a doutrina anthropologica da
    Paranoia–inevitavel corollario da theoria geral da evolução
    psychica–tentaremos demonstrar, aqui, que ella explica todos os factos
    e synthetisa todas as verdades incompletas das doutrinas que a
    precederam; n'este sentido reforçaremos e ampliaremos com novos dados e
    novos pontos de vista a argumentação dos psychiatras italianos.

    Antes, porém, uma tarefa se nos impõe: a de examinar as questões do
    Delirio Chronico e das variedades aguda e secundaria da Verrücktheit,
    sobre as quaes são ainda hoje em França e na Allemanha tão vivos e
    accesos os debates como antes dos trabalhos italianos que, uma vez
    comprehendidos, deveriam tel-os, a meu vêr, definitivamente encerrado.

    I–O DELIRIO CHRONICO

    A etiologia; a marcha; o prognostico–Confronto com os delirios
    polymorphos–A passagem do periodo persecutorio ao ambicioso não e
    vulgar; a passagem á demencia é excepcional–O delirante chronico é um
    degenerado; importante observação pessoal–A prognose dos delirios
    polymorphos é muitas vezes a do Delirio Chronico–Dois conceitos de
    Delirio Chronico no espirito de Magnan; génese do segundo.

    O delirio chronico de evolução systematica, tal como nas paginas,
    anteriores o descrevemos, não é no espirito de Magnan uma formula
    eschematica ou uma abstracta construcção destinada a fazer comprehender
    um certo grupo de factos, mas uma doutrina concreta que a observação não
    faria senão confirmar.

    Recordemos que duas circumstancias–uma d'ordem etiologica, outra de
    natureza symptomatico-evolutiva, caracterisam a psychose: a primeira
    consiste em que ella ataca na idade média da vida individuos até então
    perfeitamente normaes, embora predispostos; a segunda, era que ella
    segue na sua marcha quatro periodos distinctos, succedendo-se n'uma
    ordem invariavel–o de incubação, o de perseguições, o megalomano e o
    demencial.

    Pelo que respeita á primeira d'estas caracteristicas, diz Magnan: «O
    delirio chronico fere em geral na idade adulta individuos sãos de
    espirito, não tendo até então apresentado nenhuma perturbação
    intellectual, moral ou affectiva. Insisto sobre este facto que tem sua
    importancia, por isso que por esta particularidade os delirantes
    chronicos se separam immediatamente dos hereditarios degenerados, que
    desde a infancia apresentam perturbações que os fazem reconhecer»[1]. Em
    relação á marcha dos symptomas não é menos explicito o medico de
    Sant'Anna: «Estes periodos (incubação, delirio de perseguições,
    megalomania e demencia) succedem-se, diz elle, irrevogavelmente do mesmo
    modo, de sorte que póde excluir-se do delirio chronico todo o doente que
    _d'emblèe_ se torna perseguido ou megalomano, ou que, primeiro
    ambicioso, vem a ser depois perseguido»[2].

    [1] Magnan, _Obr. cit._, pag. 236.

    [2] Magnan, _Obr. cit._, pag. 237.

    Os delirios systematisados que pela etiologia ou pela marcha se desviam
    dos severos moldes traçados, ou são meros symptomas de uma affecção
    mental definida ou, se essenciaes, traduzem e denunciam a
    degenerescencia psychica, merecendo n'este ultimo caso os nomes de
    _polymorphos_ ou _multiplos_, em attenção ao seu contheudo, de _delirios
    d'emblèe_, em vista da sua brusca apparição, ou ainda de _delirios
    degenerativos_, olhando á etiologia. Derivada d'estas, mas de uma alta
    importancia pratica, existe ainda, segundo Magnan, uma nova
    caracteristica differencial entre os delirios polymorphos e o Delirio
    Chronico: emquanto este é absolutamente incuravel, comportariam
    aquelles, na maioria dos casos, um prognostico discretamente favoravel,
    pois que, expressões de um desequilibrio mental, podem desapparecer,
    embora possam tambem recidivar.

    Estamos, como se vê, em face de uma doutrina clara, precisa, de
    contornos bem definidos e de uma estructura mathematicamente regular.
    Isto nos facilita a critica.

    É indiscutivel a existencia de doentes que, durante algum tempo
    inquietos, preoccupados e irritaveis, cahem a seguir no delirio de
    perseguições, de que passam, decorridos annos, para o de grandezas,
    acabando pela demencia. Até ao segundo d'estes quatro periodos da
    evolução morbida, não differem taes doentes dos perseguidos de Lasègue e
    de J. Falret, que tambem passam, antes de constituido e systematisado o
    delirio, por uma phase preparatoria de concentração e de inquietude
    mental; o que os separa d'estes é a ulterior passagem ao delirio
    ambicioso, já observada por Foville, e, por fim, á demencia. Ora, se
    esta passagem é, como pretende Magnan, fatal e necessaria, só o Delirio
    Chronico é nosographicamente legitimo: se, ao contrario, ella é fortuita
    e precaria, a legitimidade nosographica pertence ao Delirio de
    perseguições.

    O que diz a observação clinica? Vamos vêr que o seu depoimento está
    longe de ser favoravel a Magnan.

    Pelo que respeita á passagem do delirio de perseguições ao de grandezas,
    affirmou J. Falret que ella não só hão é constante, mas está longe de
    ser vulgar, pois apenas se realisa n'um terço dos casos; pelo seu lado,
    Krafft-Ebing assegura tambem que uma tal transição se observa sómente
    n'um terço dos casos de Verrücktheit, isto é, do conjuncto dos delirios
    systematisados de evolução chronica; e Christian pretende mesmo que
    nunca attingem a megalomania os perseguidos cujo delirio se alimenta
    exclusivamente de perturbações da sensibilidade genital. A longa
    experiencia d'estes alienistas garante a realidade das suas affirmações;
    de resto, são conhecidos em todos os velhos manicomios alguns casos de
    delirio de perseguição durando vinte, trinta e mais annos e terminando
    pela morte do doente, sem que em tão largo periodo tenham surgido idéas
    ambiciosas.

    Mas, se nos perseguidos a passagem ao delirio de grandezas está longe de
    ser constante, nos perseguidos-megalomanos a queda na demencia é um
    facto excepcional. Feriu, com effeito, em todos os tempos a attenção dos
    alienistas francezes a extrema resistencia dos delirantes systematicos á
    dissolução mental que é o termo vulgar das outras vesanias; e os
    observadores allemães e italianos consideram mesmo tão caracteristico
    este facto do não abaixamento de nivel intellectual na Verrücktheit e na
    Paranoia que, como vimos, o fazem intervir na propria definição da
    psychose. Por nossa parte, alguns casos conhecemos de paranoicos,
    perseguidos e perseguidos-megalomanos, tendo mais de vinte annos de
    delirio e mais de cincoenta de idade, em que nenhuma decadencia mental
    se observa. Um d'esses casos é um official reformado do exercito que
    conhecemos em delirio ha, pelo menos, vinte e dois annos, e que ha
    quatorze se encontra no manicomio do Conde de Ferreira; são tão
    inexcediveis as subtilezas da sua dialectica quanto cheias de finura e
    de ironia as suas criticas sobre os acontecimentos politicos, que elle
    segue e interpreta sob um criterio de perseguido-ambicioso. Muitos annos
    de delirio systematisado são impotentes, no dizer de grande numero de
    observadores, para provocar a demencia; e, se esta excepcionalmente
    apparece, é antes aos progressos da idade ou a uma psychonevrose
    intercorrente que deve attribuir-se.

    Resumindo: não é fatal, nem mesmo vulgar a passagem ao delirio ambicioso
    nos perseguidos que, aliás, incubaram o seu delirio; é excepcional a
    terminação pela demencia, quer dos perseguidos, quer dos megalomanos,
    quer, emfim, dos systematisados que passaram n'uma longa evolução
    vesanica pelas successivas phases persecutoria e ambiciosa.

    O perseguido-megalomano-demente é, pois, menos commum que o perseguido,
    tal como vem sendo descripto desde Lasègue e J. Falret; pelo que, fazer
    do Delirio Chronico um typo destinado a conter o Delirio de perseguição,
    seria inverter abusivamente as noções recebidas em nosologia, tornando
    _especie_ o que é apenas _variedade_.

    Examinada a questão do lado da marcha dos symptomas, encaremol-a do
    ponto de vista da etiologia.

    Como foi dito, o delirante chronico não é, no dizer de Magnan, um
    degenerado: póde ser um predisposto, mas não é um candidato á loucura;
    póde ter antecedentes hereditarios, pois que a hereditariedade radia
    sobre todas as doenças mentaes, mas não apresenta até á invasão do
    delirio o desequilibrio caracteristico dos degenerados. O delirio
    d'estes é sempre polymorpho, _d'emblèe_, frouxamente systematisado, não
    tendo a longa duração do delirio chronico, nem o seu córte regular em
    periodos de irrevogavel successão.

    Esta maneira de vêr, em radical opposição com as affirmações dos
    psychiatras allemães e italianos sobre a Verrücktheit e a Paranoia (em
    que o delirio chronico de Magnan, como todos os delirios systematisados,
    se acha contido) merece ser examinada.

    É evidente que uma critica profunda d'este novo aspecto da questão só
    póde fazer-se discutindo a noção da degenerescencia, que não é identica
    para todos os psychiatras, que não tem o mesmo alcance em todos os
    livros e que representa para o medico de Sant'Anna um grupo de factos
    muito diverso do que representa para Krafft-Ebing ou para Tanzi e Riva,
    por exemplo. Ulteriormente examinaremos este assumpto. Notemos, porém,
    desde já que J. Séglas combateu vivamente, em nome da observação
    clinica, a etiologia de Magnan, referindo casos de Delirio Chronico em
    doentes portadores de estygmas physicos da degenerescencia; que Legrain,
    discipulo de Magnan, admitte a possibilidade da evolução caracteristica
    do delirio chronico nos degenerados hereditarios; que Respaut, outro
    discipulo de Magnan, descreve um caso de delirio chronico n'um
    epileptico impulsivo; que Dericq considera aptos a realisarem o delirio
    chronico os proprios fracos de espirito (_degenerados inferiores_, na
    technologia da escóla de Sant'Anna); emfim, que Marandon de Montyel,
    acceitando a doutrina de Magnan emquanto á evolução do Delirio Chronico,
    se afasta resolutamente do mestre emquanto á etiologia, affirmando que
    grande numero de delirantes chronicos se fazem notar desde a infancia ou
    desde a juventude por anomalias de caracter, que Magnan reputa indicios
    seguros da degenerescencia e que não desdizem da pesada herança que
    muitas vezes incide sobre estes doentes.

    Por nossa parte, cremos dever apontar um caso clinico de observação
    pessoal que póde juntar-se aos de Séglas.

    Trata-se de um antigo empregado commercial, celibatario, tendo
    actualmente 45 annos de idade, e a quem já em outra publicação nos
    referimos. O periodo de incubação delirante, a que accidentalmeme
    assistimos, mercê das relações que então mantinhamos com um irmão,
    remonta a 1878; no anno immediato o delirio de perseguições achava-se
    installado, fazendo-se acompanhar de allucinações auditivas e provocando
    da parte do doente reacções violentas: chamavam-lhe, na rua e nos cafés,
    _pederasta, onanista, devasso_, ao que elle respondia aggredindo os
    suppostos insultadores. Refugiando-se successivamente em casas de
    amigos, em pequenos hoteis e em hospitaes particulares, o doente veiu,
    por fim, a dar entrada no manicomio do Conde de Ferreira, em abril de
    1883, apresentando então, de mistura com o delirio de perseguições,
    idéas ambiciosas que apenas exhibia em cartas e só um anno depois
    começou a exteriorisar oralmente: tinha descoberto um novo systema do
    mundo, pretendia reformar toda a sciencia astronomica e todo o systema
    social; as perseguições soffridas e a sequestração, _o mais infame de
    todos os crimes até hoje praticados_, vinham-lhe do Papa, que assim
    defendia os dogmas christãos, e do Rei, que defendia a ordem social
    existente. Lentamente, as idéas ambiciosas foram dominando o delirio de
    perseguições, que hoje se alimenta exclusivamente no prolongamento da
    sequestração; livre, este doente seria o typo perfeito do megalomano.

    Eis aqui um caso a que nada parece faltar do que Magnan exige para o
    diagnostico do Delirio Chronico: iniciada aos 30 annos n'um individuo
    apparentemente são, que era um bom guarda-livros, que sustentava a mãe,
    que mantinha regulares relações sociaes, que se governava
    financeiramente bem, a psychose atravessou, na successão assignalada por
    Magnan, os periodos de incubação, de perseguições e de megalomania, sem
    a presença episodica de idéas hypocondriacas, eroticas ou outras que
    podessem fazer pensar n'um delirio polymorpho. Pois bem; este doente é
    um degenerado incontestavel, ainda para os que acceitam a mais estreita
    noção da degenerescencia. A hereditariedade é n'elle convergente e das
    mais pesadas: o _pae_, prematuramente morto, foi um louco moral; a
    _mãe_, de uma fealdade pathologica, morreu em estado de demencia senil
    aos 70 annos; um _tio materno_ é disforme; um outro _tio_ materno, mal
    dotado de sentimentos de probidade, passa por ter feito uma fallencia
    fraudulenta; um _irmão_, prematuramente morto de tuberculose, foi um
    louco moral, dipsomano, bulimico e de uma vaidade exaggerada; emfim, uma
    _irmã_, louca moral e impulsiva, prostituiu-se. Na historia pregressa do
    nosso doente figura uma febre typhoide grave na puberdade.
    Apparentemente ponderado, elle foi sempre, no dizer dos seus intimos, de
    uma susceptibilidade excessiva, de um grande orgulho; entregava-se a
    leituras para que não tinha preparação e evitava o commercio das
    mulheres. Como estygmas physicos, apresenta o nosso doente _hypospadias_
    e uma notavel _asymetria facial_.

    Este caso, que em nossa propria experiencia é o mais nitido, senão é
    mesmo o unico de um delirio paranoico offerecendo a evolução precisa e
    irrevogavel da entidade de Magnan, longe de confirmar as idéas d'este
    psychiatra em materia de pathogenia, infirma-as eloquentemente.

    Encaremos agora a duração e prognose comparadas do Delirio Chronico e
    dos delirios polymorphos.

    Como foi dito, na doutrina de Magnan a demencia faz parte do Delirio
    Chronico a titulo de phase terminal da sua evolução; é dizer que a
    psychose se installa definitivamente e o seu prognostico é sempre
    infausto. Ao contrario, os delirios polymorphos teriam por habituaes
    sahidas a _cura_ e, menos vezes, a _demencia precoce_, seriam de uma
    duração limitada e comportariam, portanto, um prognostico discretamente
    benigno. Será isto absolutamente exacto? Responde negativamente a
    clinica. De facto, se muitas vezes se obtem a cura dos delirios
    multiformes e se, algumas outras, uma demencia vem precocemente fechar a
    sua evolução, não é menos verdade que ha, ao lado dos que assim
    terminam, um formidavel numero de casos de uma duração perpetua,
    tendendo, se tendem, para a demencia tão lentamente como o Delirio
    Chronico. Os proprios discipulos de Magnan o reconhecem; e Legrain não
    hesita em descrever delirios polymorphos ou degenerativos _de marcha
    essencialmente chronica_. É, de resto, o que a experiencia nos ensina:
    ou se fixem n'um pequeno numero de idéas ou percorram toda a gamma dos
    conceitos morbidos, ha degenerados que deliram perpetuamente. Como
    distinguil-os prognosticamente dos delirantes chronicos? O invariavel e
    tranquillisador _ça guérira_ de Magnan e dos seus discipulos em face dos
    delirios _d'emblèe_, reserva-nos por vezes decepções crueis; muitos
    casos conheço, por minha parte, em que _ça n'a jámais guéri_. De resto,
    as pretendidas curas dos delirios systematisados não são, as mais das
    vezes, senão apparentes, quer porque o doente esconde as suas concepções
    para obter a liberdade, o que não é excessivamente raro nos manicomios,
    quer porque, desapparecendo realmente as idéas morbidas, subsiste a
    disposição a creal-as de novo, isto é, subsiste a mentalidade
    paranoica–a verdadeira doença, no fundo.

    Que Magnan tenha podido descriminar nos delirios systematisados
    evoluções diversas e justificativas de sub-grupos clinicos do que em
    França se chama a Loucura Parcial e na Allemanha a Verrücktheit, é
    perfeitamente incontestavel; que elle tenha proseguido com rara
    sagacidade analytica estudos anteriores sobre a successão dos delirios
    n'um mesmo alienado, é tambem indiscutivel; mas que o Delirio Chronico,
    tal como nos ultimos annos o descreve, seja uma especie morbida e um
    grupo nosologico bastantemente differenciado–pela evolução, pela
    pathogenia e pelo prognostico–dos delirios systematicos dos
    degenerados, eis o que não póde acceitar-se.

    Fechariamos aqui a nossa analyse da pretendida psychose de Magnan, se
    não crêssemos dever insistir n'um ponto, só ao de leve tocado na parte
    historica d'esta monographia: que anteriormente á concepção actual do
    Delirio Chronico existiu no espirito de Magnan uma outra, a exposta por
    Gérente, mais conforme com a realidade clinica e mais proxima da
    Verrücktheit de Krafft-Ebing.

    É certo que, quando na Sociedade Medico-Psychologica Séglas punha em
    evidencia as contradições entre as duas doutrinas, citando trabalhos dos
    discipulos de Magnan, este se defendeu declinando a responsabilidade de
    taes trabalhos e cathegoricamente affirmando que aos respectivos
    auctores concedera sempre a mais inteira independencia. Ora, sem de modo
    algum pretendermos que o medico de Sant'Anna imponha os proprios pontos
    de vista aos seus discipulos, é licito acreditar que estes os acceitam
    e propagam nos seus escriptos. Não é só Gérente que n'uma these de 1883,
    escripta no serviço da admissão e feita de casos clinicos ahi colhidos,
    expõe, sob a designação de _Delirio Chronico_, uma doutrina que em
    pontos capitaes se oppõe á que Magnan apresentou em 1887 á Sociedade
    Medico-Psychologica e reeditou em 1893 no seu livro de _Lições
    Clinicas_. N'um trabalho publicado em 1884, Boucher procede como
    Gérente, chamando aos delirantes chronicos _predispostos mal
    equilibrados_, declarando que _toda a etiologia do Delirio Chronico
    reside na hereditariedade_, e constatando n'um caso de Delirio Chronico,
    diagnosticado pelo proprio mestre, anomalias de caracter degenerativo na
    evolução da infancia; e, n'um artigo publicado já em 1889, o meu collega
    Magalhães Lemos, que aliás viveu perto de dois annos na intimidade
    scientifica de Magnan, descreve como exemplar clinico _frustre_ de
    Delirio Chronico um caso que se iniciou por idéas ambiciosas de colorido
    erotico. E nenhum dos escriptores que acabamos de citar se declara em
    opposição com o mestre, antes crê cada um interpretal-o; nem descobrindo
    signaes de degenerescencia nos portadores do Delirio Chronico, nem
    achando possivel a inversão evolutiva das phases habituaes d'esta
    psychose, pensa qualquer d'elles afastar-se da mais pura orthodoxia
    d'escóla. Tendo seguido o ensino de Sant'Anna e conhecendo as idéas de
    Magnan, Bajenoff escrevia tambem em 1885 que o Delirio Chronico é o
    equivalente da Verrücktheit e da Paranoia.

    A inevitavel conclusão a tirar d'estes factos é que realmente no
    espirito de Magnan o conceito de Delirio Chronico se modificou a ponto
    de apparecer-nos duplo á distancia de alguns annos. Infelizmente, o
    actual não vale o antigo.

    Mas, porque passou Magnan da larga concepção de 1883 para a de hoje, tão
    estreita, tão geometrica e tão rígida que os factos se lhe não
    acommodam? Tornando a degenerescencia como synonimo de desequilibrio, o
    medico de Sant'Anna estabeleceu como dogma fundamental que o degenerado
    só póde delirar de um modo conforme a esse desequilibrio: o seu delirio
    tem de ser, quanto á génese, improvisado; quanto á marcha, irregular e
    descontinuo, ora remittente, ora intermittente; quanto ao contheudo,
    caleidoscopico e multiforme; quanto á duração, ephemero ou pelo menos
    curto, porque a mesma persistencia seria um equilibrio; emfim, quanto á
    associação das idéas, de uma frouxa systematisação, porque esta, quando
    completa, representa uma demorada concentração d'espirito, incompativel
    com a ideação salturaria do degenerado. Pertencem, pois, á
    degenerescencia os delirios _d'emblèe_, os _polymorphos_, os _agudos_ e
    _sub-agudos_ e, por fim, os que não revellam senão uma _fraca tendencia
    á systematisação_. Os não-degenerados só podem delirar de um modo
    diametralmente opposto: o seu delirio tem de ser preparado, incubado; de
    marchar por _étapes_ de irrevogavel successão; de durar a vida do
    doente; de circumscrever-se a um numero limitado de idéas; de ser,
    emfim, contínuo e francamente systematisado. O _Delirio Chronico_ é a
    antithese completa e integral do delirio dos degenerados e só n'estas
    condições póde subsistir em face da doutrina; o conceito de 1883
    dissociou-se, pois, não em vista dos factos, mas da theoria, passando o
    que n'elle havia de eschematico a beneficio do _Delirio Chronico_
    actual, e os casos _frustres,_–a grande, a formidavel massa dos casos
    clinicos, ao lote dos delirios dos degenerados.

    Mas, por outro lado, não sendo o desequilibrio mental senão a
    consequencia de uma grave tara ancestral ou, como diz Magnan, de uma
    _impregnação hereditaria_, o _Delirio Chronico_ só deve realisar-se em
    individuos normaes e válidos para que, ainda no ponto de vista da
    etiologia, elle realise o typo contrario ao dos delirios degenerativos.
    «Delirio chronico e degenerescencia, diz Magnan, oppõem-se totalmente».

    Tal é, a meu vêr, a génese da actual noção de _Delirio Chronico_.
    Tentando impôr-se em nome dos factos, como inducção clinica, ella
    procede realmente, por via deductiva, de uma doutrina presupposta da
    degenerescencia, que está longe, como adiante veremos, de poder
    acceitar-se sem restricções.

    II–A VERRÜCKTHEIT AGUDA

    Dois grupos de psychoses sob a mesma designação: a confusão mental e os
    delirios polymorphos–A Verrücktheit e os delirios incoherentes; critica
    das opiniões de Schüle–A Verrücktheit e os delirios systematisados de
    marcha aguda; critica das opiniões de Krafft-Ebing–Observação
    pessoal–Dissociação dos conceitos de Paranoia e Verrücktheit.

    Duas ordens de factos, a meu vêr inteiramente distinctos, se encontram
    englobados na Verrücktheit aguda: de um lado, delirios systematisados
    que sómente pela rapidez da sua marcha, pela curabilidade e, ás vezes,
    pelo excessivo predominio de allucinações differem da Verrücktheit
    chronica; do outro, delirios incoordenados, asystematicos e
    eminentemente sensoriaes que, no dizer mesmo de Mendel, de Schüle e de
    Cramer, não se descriminam bem, quer da mania, quer da melancolia
    estuporosa. É isto o que resulta da leitura attenta dos auctores que
    defendem a Verrücktheit aguda.

    Os primeiros d'estes delirios, não implicando nem uma obnubilação da
    consciencia, nem permanentes estados emocionaes de expansão ou
    depressão, separam-se nitidamente das psychonevroses; e, se bem que o
    predominio do elemento sensorial lhes imprime um caracter caleidoscopico
    e uma evolução irregular, é certo que elles manteem sempre aquella
    activa coordenação logica das idéas que constitue o _systema delirante_.
    Os segundos, pelo contrario, implicando a perda de lucidez e
    acompanhando-se de alterações affectivas, impõem-se pela anormal
    associação das idéas, que ora se precipitam e dissociam, como na mania,
    ora convergem na determinação de estados catatonicos, segundo a
    imprevista direcção das allucinações, sempre renovadas.

    Confundir estas duas cathegorias de delirios, sob pretexto de que é
    identico o seu contheudo e de que em ambas se realisa uma intervenção
    preponderante do elemento allucinatorio, é, ao que penso, cahir n'um
    erro grosseiro, porque os invocados elementos de analogia são
    infinitamente menos valiosos que os caracteres differenciaes. A
    identidade das idéas morbidas não é razão para que confundamos, por
    exemplo, os delirios de perseguição da melancolia e da Paranoia ou os
    delirios ambiciosos da paralysia geral e da mania; tambem o predominio
    de allucinações, ainda quando identicas, como as zoopsicas, não é razão
    para que não distingamos, por exemplo, os delirios alcoolico e
    hysterico. As idéas delirantes e as allucinações da Verrücktheit são as
    de todas as psychoses; fazer, pois, d'esses elementos um criterio
    diagnostico e nosographico seria regressar ao cahos de que a pathologia
    mental só conseguiu sahir por successivos esforços de analyse. Não são
    os symptomas, mas as suas origens pathogenicas, a sua coordenação e a
    sua marcha que no actual momento orientam a diagnose psychiatrica.

    Assim, o rigor scientifico exige que estudemos em separado os dois
    grupos de delirios, que alguns auctores allemães reunem sob a designação
    de Verrücktheit aguda.

    Comecemos pelos delirios systematicos.

    A psychiatria allemã, creando os termos de Verrücktheit e Wahnsinn para
    designar os delirios, teve sempre em vista accentuar differenças entre
    os que se impõem pela coordenação dos conceitos morbidos e os que se
    denunciam por um grau maior ou menor de incoherencia. Decerto, mudou cem
    vezes o valor d'estes termos, que teem uma historia tão complicada e tão
    longa como a da propria sciencia mental; decerto, a Verrücktheit d'hoje
    não é o delirio estereotypado dos cerebros enfraquecidos, descripto por
    Griesinger, como o Wahnsinn não é o delirio exaltado e optimista de que
    o mesmo auctor traçou um quadro clinico inteiramente analogo ao da
    monomania intellectual de Esquirol;–mas sempre, desde Griesinger até
    Westphal, os dois termos conservaram, através de todas as vicissitudes,
    um vestigio inapagavel dos primitivos significados. A confusão
    principiou sómente quando o professor de Vienna, creando a variedade
    aguda da Verrücktheit, integrou no quadro d'esta psychose delirios
    systematicos e até dissociados em que as allucinações desempenham um
    papel dominante. Será licito manter uma tal confusão?

    Já na parte historica d'este _Ensaio_ expozemos em detalhe não só os
    argumentos com que os adversarios de Westphal rejeitam da Verrücktheit o
    hallucinatorischer Wahnsinn, mas os motivos por que fazem d'este um
    grupo das psychonevroses. Não reeditaremos essa vigorosa critica;
    examinaremos, porém, os argumentos com que Schüle pretende justificar a
    opinião contraria.

    Não contesta este eminente psychiatra que entre os casos typicos ou,
    para me servir da sua propria linguagem, entre os casos extremos da
    Verrücktheit e do Wahnsinn existam realmente as profundas notas
    differenciaes apontadas por Fritsch e Krafft-Ebing, entre outros;
    sustenta, porém, que ha casos de transição em que ellas se esbatem,
    ficando então a descoberto a fundamental identidade dos dois processos.

    A confissão, por parte de Schüle, de que são justas as differenciações
    notadas pelos adversarios da escóla de Vienna entre a Verrücktheit e o
    Wahnsinn que n'ella se pretende incorporar a titulo de variedade aguda,
    é um facto importante e que deve registar-se, porque essas
    differenciações referem-se, como vimos, à coordenação dos symptomas, à
    etiologia, à marcha, à pathogenia, n'uma palavra, a quanto serve para
    definir uma entidade nosologica. A coordenação symptomatica, porque,
    enquanto na Verrücktheit as idéas delirantes formam systema e as
    allucinações occupam um logar secundario ou até nullo, no Wahnsinn o
    delirio é incoherente e os erros sensoriaes teem o primeiro plano; á
    etiologia, porque, emquanto a Verrücktheit se installa sem causa
    exterior apparente, o Wahnsinn reconhece como determinantes todas as
    causas capazes de provocarem uma asthenia profunda dos centros nervosos;
    á marcha, porque, tendo a Verrücktheit uma evolução essencialmente
    chronica, o Wahnsinn termina agudamente pela cura, pela demencia ou pela
    morte; á pathogenia, porque, emquanto a Verrücktheit se interpreta como
    um processo constitucional ou degenerativo, o Wahnsinn é uma doença
    accidental ou psychonevrotica. A estes multiplos elementos differenciaes
    outros se juntam ainda: ao passo que na Verrücktheit as allucinações,
    predominantemente auditivas, são determinadas pelo curso do delirio,
    dependendo o erethismo sensorial da absorvente fixidez das idéas, que
    provocam a apparição das imagens, no Wahnsinn succede que é o
    automatismo dos centros sensoriaes que determina as idéas delirantes,
    por esse facto variaveis, movediças, dissociadas; tambem, ao passo que
    na Verrücktheit o elemento affectivo não só é secundario, mas tende a
    apagar-se com os progressos mesmos da doença, no Wahnsinn, embora
    igualmente secundario pela génese, pois é determinado pelo contheudo das
    idéas, esse elemento representa um papel importante, mercê das vivas
    allucinações emergentes de todos os sentidos.

    Para diminuir o valor d'este quadro de differenciações nosologicas, ao
    mesmo tempo numerosas e profundas, argumenta o medico de Bade affirmando
    não só que na chronica evolução da Verrücktheit se observam phases
    agudas de Wahnsinn, mas que d'este se póde passar áquella, o que, a seu
    vêr, demonstra a identidade nosologica dos dois processos morbidos.

    Examinemos o valor d'estes argumentos.

    Quanto ao primeiro, sem de modo algum contestarmos a realidade clinica
    dos factos invocados por Schüle, pois mais de uma vez temos observado
    episodicos delirios asystematicos no curso da Paranoia, seja-nos
    permittido notar, na excellente companhia de Krafft-Ebing, de Fritsch,
    de Kraepelin e de Meynert, que esses factos comportam uma interpretação
    muito diversa da que lhes dá o celebre medico de Bade.

    Qualquer que seja a physionomia que apresentem, depressiva, expansiva ou
    mixta, esses delirios asystematicos podem conceber-se como não fazendo
    parte integrante da evolução da Verrücktheit, mas coexistindo com ella a
    titulo de complicações ou de intercorrencias psychonevroticas, tendo uma
    etiologia e uma marcha autonomas. Porque não? «Nenhuma razão há, dizem
    Tanzi e Riva, para crêr que o cerebro de um paranoico possa oppôr ás
    causas das doenças intercorrentes uma immunidade de que muitas vezes o
    individuo normal é incapaz, antes tudo conspira para nos fazer admittir
    que elle apresenta a essas causas uma resistencia menor»[1]. Assim
    pensamos tambem, recordando os casos de observação pessoal.

    [1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, vol. XII, pag. 417.

    Um d'estes, notavel entre todos, é o de um paranoico-originario, que já
    aos 17 annos se cria victima de tentativas de envenenamento e em quem
    sempre uma exaggerada autophilia se notou. Mas, nem as idéas de
    perseguição, nem a hyperbolica opinião dos seus meritos lhe embargaram o
    passo no curso de direito, que concluiu. Ridiculo e profundamente
    desequilibrado, de grande memoria e de pequena reflexão, desconfiado,
    phantasista e discursador, foi fazendo o seu caminho até delegado de
    procurador regio na India Portuguesa. Ahi, excessos de toda a ordem,
    juntos a uma febre biliosa, aggravaram-lhe o mal; regressando, muito
    fraco, á metropole, systematisava o seu delirio até ao ponto de viver só
    e de passar habitualmente a ovos e a agua, que elle proprio ia colher de
    noite ás fontes. Um dia, tendo chamado a casa um operario para lhe
    encadernar uns livros, foi por este traiçoeiramente aggredido, recebendo
    na cabeça um extenso e profundo traumatismo. A partir d'esse dia,
    allucinações auditivas, que até então parecia não terem existido,
    irromperam com extranha violencia; ao mesmo tempo apossou-se do doente
    um sentimento intenso de terror e de anciedade que o levou, poucos dias
    depois do traumatismo, a projectar-se de uma janella abaixo, fazendo uma
    luxação. Simultaneamente, illusões visuaes, confusão constante de
    pessoas, rejeição de alimentos e absoluta insomnia. Trazido ao hospital,
    persistiu algum tempo n'esta situação; rapidamente, porém, idéas de
    grandeza, se juntaram. O encadernador, tentando matal-o, foi apenas um
    instrumento de quem, por inveja do seu alto genio incomparavel, buscava
    desfazer-se d'elle. Tornou-se aggressivo então, fabricando uma nova
    religião, crendo-se superior a Christo, e começou a manifestar idéas
    eroticas e allucunações visuaes: masturbava-se, dizia obscenidades,
    proclamava as excellencias da pederastia, dos amores lesbicos, e via
    mulheres núas em attitudes lascivas. Mas, subitamente, derivou a idéas
    hypocondriacas e d'estas a um delirio de humildade, rojando-se no chão,
    beijando os pés dos companheiros, chorando, pedindo perdão a todos,
    rejeitando os alimentos n'um intuito de penitencia. Pouco a pouco
    resvallou no mutismo, a physionomia tornou-se-lhe parada, inexpressiva,
    contrahiu habitos immundos, apresentou, n'uma palavra, o quadro da
    demencia com accentuada desnutrição. Por mezes persistiu n'este estado,
    indifferente a sollicitações naturaes, deitado sobre bancos ou no chão
    da enfermaria, movendo-se como um automato, não respondendo a ninguem.
    Julguei-o então perdido e cheguei a consignar com segurança esta
    impressão clinica. Mas um dia, abruptamente, o doente dirige-se a mim,
    cumprimenta-me polidamente e diz-me que se sente, emfim, restabelecido,
    que deseja sahir, que quer escrever uma carta a um irmão para que venha
    buscado. Do pseudo-demente nada restava; a datar d'esse dia ficou o
    primitivo delirante, o perseguido-ambicioso quasi sem allucinações, que
    podia viver fóra do hospital e que eu, com effeito, deixei sahir algum
    tempo depois. Isto passou-se em 1884; de então até hoje fez o doente
    duas novas entradas no hospital, reproduzindo quasi sem variantes o
    quadro que vimos de esboçar. Conta-me um irmão que o aggravamento da
    doença se manifesta sempre por uma subita explosão de allucinações,
    succedendo a excessos venereos e alcoolicos.

    Como interpretar este caso? É evidente que os defensores da Verrücktheit
    aguda veriam n'elle um excellente exemplar d'esta fórma clinica; os que
    a combatem, porém, pensariam no hallucinatorischer Wahnsinn de
    Krafft-Ebing, na Amencia de Meynert, na Verwirrtheit de Fritsch, no
    Asteniche Delirium de Mayser, na confusão mental, emfim.

    Os primeiros invocariam, com Werner, o caracter egocentrico das
    concepções delirantes do nosso paranoico; os segundos poriam em
    evidencia o contraste entre um delirio de humildade e os delirios de
    perseguições e de grandezas, notariam a phase de estupidez ou demencia
    aguda que não pertence ao quadro da Verrücktheit, fariam valer o estado
    de anciedade, salientariam o phenomeno somatico da desnutrição,
    appellariam, emfim, para a etiologia asthenica do caso.

    Ora, emquanto no quadro clinico descripto tudo se reduz a uma acuidade
    maior dos delirios persecutorio e ambicioso, que a insistencia das
    allucinações explica de sobra, não seria difficil acceitar o diagnostico
    de Verrücktheit, pois que nem a systematisação dos conceitos se perdeu,
    nem o seu caracter egocentrico e autophilico deixou de fazer-se notar; e
    a mesma anciedade poderia acceitar-se como secundario symptoma de
    reacção em face dos erros sensoriaes.

    Mas é já muito difficil explicar n'esta ordem de idéas a phase de
    espirito que conduz o nosso doente a rojar-se no chão, a abater-se
    diante dos companheiros, a recusar os alimentos para se penitenciar e a
    pedir perdão de imaginarias culpas. Por outro lado, pensando na
    etiologia d'este caso, em que concorrem formidaveis elementos de
    esgotamento e de asthenia, é mais facil explicar por ella do que pela
    acuidade do delirio a demencia funccional que por mezes observei.
    Segundo a minha pratica pessoal, o onanismo abusivo seria frequentemente
    o responsavel de subitas invasões allucinatorias, acompanhadas de
    reacções emotivas de uma viva feição depressiva e anciosa em paranoicos
    averiguados. Assim, na interpretação do caso que citei, como de todos os
    de igual physionomia, julgo mais consentaneo com os dados da sciencia
    invocar uma complicação psychonevrotica (seja qual fôr o nome preferido
    para exprimil-a) do que alargar o quadro da Verrücktheit pela creação de
    uma obscura variedade aguda.

    Entretanto, comprehende-se que esta questão seja de certo modo
    secundaria para nós que, como Tanzi e Riva, dissociamos os conceitos de
    Paranoia e de Verrücktheit, vendo n'esta apenas uma habitual, mas não
    necessaria expressão symptomatica d'aquella.

    Que os delirios do paranoico sejam agudos ou chronicos; que se
    acompanhem ou não de allucinações; que conservem sempre ou percam por
    algum tempo a sua costumada systematisação–eis o que nos não preoccupa
    excessivamente, por isso que concebemos a Paranoia como uma constituição
    mental anterior a todos os delirios, sobrevivendo-lhes e podendo até
    existir independente d'elles.

    É tempo, porém, de examinarmos o segundo dos argumentos de Schüle em
    defeza da Verrücktheit aguda.

    Notando, como Westphal, que ha casos em que de um hallucinatorischer
    Wahnsinn se passa immediatamente e sem descontinuidade a um delirio
    systematisado, conclue o insigne psychiatra que a Verrücktheit offerece
    algumas vezes uma phase inicial aguda.

    Contesta Krafft-Ebing, como vimos em outro logar, os casos invocados por
    Schüle, proclamando que a transição do hallucinatorischer Wahnsinn á
    verdadeira Verrücktheit jámais se realisa. Por nossa parte nunca a
    observamos tambem; mas de modo nenhum nos sentimos dispostos, por isso
    só, a contestal-a. Em materia de facto, póde uma unica observação
    positiva ter mais alta significação que toda uma longa experiencia
    negativa; e é certo que não só muitos dos modernos alienistas affirmam
    ter observado casos analogos aos de Schüle, mas já em Delasiauve
    encontramos a affirmação clara de que a _confusão mental_ offerece na
    sua symptomatologia idéas morbidas que podem tornar-se o nucleo de um
    verdadeiro _delirio parcial_.

    Mas se nos não repugna acceitar a realidade dos casos em que Schüle
    baseia o controvertido thema da Verrücktheit aguda, cremos que elles
    podem interpretar-se de um outro modo. Porque não admittir, por exemplo,
    na comprehensão d'esses casos que os delirios asystematico sensorial e
    systematisado se succedem como factos morbidos distinctos, tendo cada
    qual uma etiologia privativa e uma evolução especial–nascendo o
    primeiro de causas asthenisantes e o segundo da maturidade degenerativa,
    marchando o primeiro para a extincção, e o segundo para a chronicidade?
    No cerebro eminentemente vulneravel do paranoico as causas depressivas e
    esgotantes provocariam a apparição de um confuso delirio sensorial, como
    outras determinariam a mania ou a melancolia; sómente, a psychonevrose,
    abalando esse cerebro maximamente predisposto, em vez de liquidar pela
    cura, apressaria a maturidade paranoica, isto é, o momento psychologico
    da eclosão de um delirio systematisado.

    Mas, ainda uma vez: desde que Paranoia e Verrücktheit não são conceitos
    equivalentes, a admissão de uma variedade aguda da segunda de modo
    nenhum infirma a manifesta chronicidade da primeira.

    Posto isto, consideremos o grupo dos delirios que, embora tendo uma
    evolução por vezes muito rapida, apparecendo sem preparação,
    acompanhando-se de multiplas allucinações e terminando pela cura,
    manteem constantemente um apreciavel grau de activa systematisação.

    Pertencem estes delirios ao quadro da Verrücktheit? Parece-nos que a
    resposta affirmativa se impõe. Com effeito, se a sua marcha contrasta
    frisantemente com a dos casos em que as concepções morbidas se
    perpetuam, cobrindo dezenas de annos, é certo que lhes não falta um
    unico dos caracteres essenciaes da Verrücktheit: nem a egocentricidade
    das idéas delirantes, hypocondriacas, eroticas, persecutorias ou
    ambiciosas, nem a coordenação d'ellas em systema, nem o predominio das
    allucinações auditivas, nem a origem essencialmente hereditaria. É,
    pois, a estes delirios, conhecidos em França pelos nomes de
    _polymorphos_ ou _d'emblèe_ que exclusivamente conviria, a meu vêr, a
    designação de Verrücktheit aguda.

    Os que, como Krafft-Ebing, não admittem esta fórma, são constrangidos,
    todavia, a fallar na rara _curabilidade_ da Verrücktheit e na sua marcha
    por vezes subaguda, o que, no fundo, é conceder aquillo que
    ostensivamente se nega. Reconhecer a legitimidade clinica da
    Verrücktheit aguda, no sentido em que acabamos de a definir, parece-nos,
    portanto, inevitavel.

    Por nossa parte hesitamos tanto menos em fazel-o quanto é certo que na
    Verrücktheit vemos apenas uma possivel manifestação da Paranoia.

    Quando entre os delirios systematisados (Verrücktheit) e a constituição
    mental (Paranoia), que elles revellam nos dominios intellectuaes, se
    estabelece uma perfeita equivalencia, o reconhecimento de uma variedade
    aguda e curavel dos primeiros implica uma perigosa negação da doutrina
    que faz da segunda uma doença de evolução essencialmente chronica e
    incuravel, uma degenerescencia, em summa. Mas, precisamente se
    encarregam os factos de pôr em relevo o lado fraco d'esta doutrina e a
    exactidão da que sustentamos com Tanzi e Riva. Os delirios
    systematisados podem revestir a fórma aguda e curar; o que é chronico,
    porém, e não cura jámais é a anomala organisação psychica de que elles
    não fazem senão traduzir a maxima intensidade ideativa. Póde ser aguda e
    curar a Verrücktheit; o que é chronico e não cura é a Paranoia.

    III–A VERRÜCKTHEIT SECUNDARIA

    Os delirios systematisados que succedem ás psychonevroses; sua
    interpretação pathogenica–A opinião de Tonnini; modificação
    introduzida–Dissociação dos conceitos de Paranoia e Verrücktheit.

    A extensão com que na parte historica d'este _Ensaio_ tratamos o velho
    thema da Verrücktheit secundaria, tão caro aos allemães, permitte-nos
    agora limitar muito as considerações de ordem critica a fazer sobre
    elle.

    Disse alguem que, a partir dos trabalhos de Sander e Snell, a pergunta:
    _Existirá uma Verrücktheit primaria?_ começou a ser substituida por esta
    outra: _Existirá uma Verrücktheit secundaria?_ E nós vimos, com effeito,
    que a extensão d'esta diminuiu sempre na medida em que augmentava a
    d'aquella. Entendamo-nos, porém: se os delirios systematisados que
    succedem á mania e á melancolia de longa duração, não merecem realmente
    um logar no quadro clinico da Verrücktheit, que é uma doença
    constitucional, mas no grupo das psychonevroses, de que são apenas
    estados terminaes prefaciando a loucura e revellando já, pela sua mesma
    inactiva e apagada coordenação, um enfraquecimento cerebral, é
    indiscutivel que a observação clinica nos permitte uma ou outra vez
    surprehender delirios persecutorios e ambiciosos vivamente
    systematisados, activos e tenazes, succedendo, todavia, a psychoses de
    manifestações maniacas, melancolicas e até mesmo apparentemente
    demenciaes. Raros, estes ultimos delirios systematisados não o são
    tanto, comtudo, que os não tenham observado psychiatras de todos os
    paizes. Como interpretal-os? Onde achar-lhes logar dentro das modernas
    classificações?

    A resposta parece-nos poder derivar-se da doutrina formulada por
    Tonnini: Estes delirios são paranoicos; e a psychonevrose que os
    precedeu, impotente em si mesma para os crear, provocou-os todavia,
    estimulando a peculiar actividade ideativa de um cerebro degenerescente.
    É possivel que, a não se realisar a incidencia perturbadora do elemento
    emocional implicado na psychonevrose, esse cerebro tivesse feito a sua
    evolução sem manifestações delirantes, comquanto houvessem de
    caracterisal-o sempre um exaggerado subjectivismo e uma apreciavel
    egocentricidade. Vulneravel, porém, elle não póde resistir ás causas que
    nos espiritos sãos determinam as psychoses; uma d'estas installou-se,
    portanto. O que deverá succeder a partir d'esse momento? Naturalmente,
    alguma coisa diversa do que costuma passar-se nos cerebros normaes: em
    vez de marchar para a cura ou para a demencia franca, a psychonevrose
    apressará aquella _maturidade degenerativa_ de que fallam Tanzi e Riva
    e que tem por expressão intellectual um delirio systematisado. Já em
    manifesto desequilibrio e já cançado pela passagem tormentosa da
    psychonevrose, o cerebro não poderá dar a este delirio secundario a
    forte seiva de que se alimentam os primitivos; entretanto, dar-lhe-ha
    ainda a força psychica precisa a uma evolução que póde ser longa e de
    certo modo movimentada. É n'este especial sentido que, a meu vêr, a
    Verrücktheit secundaria deve ser admittida.

    Note-se, porém, que dizemos Verrücktheit e não Paranoia, no que
    divergimos de Tonnini. E esta divergencia não é só de fórma, mas de
    fundo, não apenas de nomenclatura, mas até certo ponto de interpretação.
    Com effeito, se bem comprehendemos todo o pensamento do escriptor
    italiano, a psychonevrose sommar-se-hia com uma simples predisposição
    vesanica para determinar a Paranoia, que os delirios systematisados
    secundarios symptomatisam; ao contrario, eu penso que a Paranoia
    preexiste á psychonevrose, embora tendo uma fórma mitigada e revestindo
    até ao advento d'esta uma feição mal definida, um verdadeiro typo
    indifferente. A psychonevrose que, na interpretação de Tonnini,
    contribuiria essencialmente para a constituição da Paranoia, não faz, a
    meu vêr, mais do que accentual-a, provocando a Verrücktheit, isto é,
    imprimindo-lhe um definido typo delirante. Todas as degenerescencias
    teem graus intensivos ou de gravidade: na ordem das paranoicas a mais
    grave seria a que mais rapidamente chega á maturidade, a mais precoce, a
    que desde a puberdade se revella por delirios systematisados, isto é,
    pela _Verrücktheit originaria_; a menos grave seria a que só attinge a
    maturidade por virtude de um abalo emocional, a mais tardia, a que se
    manifesta pela _Verrücktheit secundaria_. Mas em qualquer dos dois
    casos, como cm todos, a anomala constituição cerebral que na essencia
    caracterisa a Paranoia, é congenita. E eis porque eu não hesito em
    acceitar uma _Verrücktheit secundaria_, como não hesitei em admittir uma
    _Verrücktheit aguda_, comquanto sustente a _primitividade_ e a
    _chronicidade_ essenciaes da Paranoia.

    IV–O RACIOCINIO E OS DELIRIOS PARANOICOS

    Erros doutrinarios de Lasègue e Foville sobre a interpretação
    pathogenica dos delirios systematisados; como se perpetuaram na
    psychiatria franceza–A autoobservação e o raciocinio não representam um
    papel na génese dos delirios paranoicos–Depoimento dos factos–A
    primitividade dos delirios paranoicos, sua origem ideativa.

    Entre os erros concebidos a proposito da origem, sempre anciosamente
    procurada, dos delirios de perseguições e de grandezas, um ha que,
    embora contradictado pela experiencia, se divulgou, sobretudo em França,
    com manifesto prejuizo de uma sã pathogenia: refiro-me ao que faz
    intervir na génese d'estes delirios a autoobservação e o raciocinio do
    doente. Lasègue, affirmando que o perseguido, normal até ao momento da
    invasão da doença, annunciada por um vago, mas profundo mal-estar, se
    perscruta, se dobra sobre si mesmo, e acaba, não sem hesitações, por
    encontrar na hostilidade dos homens a interpretação dos seus
    soffrimentos, foi o creador d'esse erro funesto, que Foville generalisou
    mais tarde, fazendo proceder a megalomania da necessidade que o
    perseguido sente de explicar-se os motivos das acintosas miserias
    soffridas.

    Repetida como uma sorte de _cliché_ por successivas gerações de
    alienistas franceses, esta gratuita vista do espirito, que só Morel
    repudiou, insinua-se ainda nos livros contemporaneos; e assim é que,
    embora sem um só caso em apoio, Magnan, á maneira de Foville, enumera o
    _raciocinio_ entre os fundamentos possiveis da transição, no Delirio
    Chronico, da phase persecutoria á phase ambiciosa.

    Comecemos por examinar esta singular pathogenia em relação ao delirio de
    perseguições a que primeiro se applicou.

    Segundo ella, o perseguido, como um homem são, abruptamente assediado de
    obscuras emoções dolorosas, buscaria comprehendel-as, determinar-lhes as
    causas, fazendo conjecturas e construindo hypotheses, entre as quaes
    está a que, por successivas e mais ou menos demoradas exclusões, elle
    acceita como a melhor e mais explicativa: a de uma perseguição.

    A apparente nitidez d'esta pathogenia seduziu os espiritos; e, comtudo,
    ella é radicalmente falsa.

    Em primeiro logar, a observação clinica protesta contra, a normalidade
    do perseguido anteriormente á invasão do delirio, proclamando-o não só
    um predisposto, as mais das vezes hereditario, mas um verdadeiro
    candidato á loucura,

    Antes de imaginar o seu Delirio Chronico anti-degenerativo,
    releve-se-me a expressão, Magnan reclamava para os delirantes
    systematisados uma ancestralidade vesanica de duas gerações, pelo menos;
    e esta idéa, já antes emittida por Morel, é a que sempre dominou as
    psychiatrias allemã e italiana, accordes em acceitar como
    hereditariamente invalido o cerebro paranoico. Por outro lado, jámais se
    estudou de perto a vida predelirante de um perseguido sem que n'ella se
    encontrassem seguras manifestações de exaggerado subjectivismo, de
    autophilia, de egocentricidade, tornando difficil, melindroso e ás vezes
    chocante o commercio social d'este paranoico. E, como se tudo isto não
    fosse bastante para condemnar a ingenua supposição da normalidade de um
    espirito, que ámanhã fabricará, sem causas determinantes, um absurdo e
    tenacissimo delirio, surge não raro no perseguido a estygmatisação
    physica da degenerescencia.

    Em segundo logar, é absolutamente inexacto que o inicial symptoma da
    doença seja no perseguido, como a theoria inculca, um phenomeno obscuro
    de ordem sensivel, uma vaga e confusa emoção de que se encontre
    excluido, como nos prodromos de outras affecções, um elemento ideativo.
    A experiencia diz precisamente o contrario.

    Quando o perseguido começa, no periodo chamado de incubação do delirio,
    a isolar-se da familia e dos amigos, a evitar o convivio, a alterar os
    seus habitos de existencia, a irritar-se, se o censuram ou simplesmente
    o interrogam, fal-o já por desconfiança do meio, que reputa hostil. É
    certo que, a titulo de vaga, mas persistente emoção egocentrica, essa
    desconfiança, mitigada e ainda compativel com a vida social, o
    caracterisou sempre; agora, porém, ella tornou-se definido _sentimento_
    pela clara apparição no espirito de uma _idéa_ de hostilidade e de
    perigo. A inquirição perscrutadora do doente a tudo quanto o cerca, a
    procura minuciosa e subtil de provas palpaveis e evidentes da
    mal-querença dos outros, a eclosão, emfim, das illusões sensoriaes,
    tudo prova, irrecusavelmente, que a morbida sensibilidade do perseguido
    se exerce sob o dominio de um pensamento definido, de uma _idéa_ que a
    orienta, que lhe imprime uma direcção, que a conduz. A illusão auditiva,
    phenomeno prodromico dos mais precoces e do qual a allucinação ha de
    surgir, suppõe já um erethismo sensorial a que preside, consciente e
    nitida, embora ainda susceptivel de ulteriores desdobramentos, a _idéa_
    de uma hostilidade exterior. E é mesmo, é justamente porque essa
    idéa está presente no espirito e se lhe impõe que o perseguido
    paralogisticamente exhibe, como provas de uma mal-querença,
    interpretações aggressivas das palavras mais indifferentes, dos sons
    mais insignificativos, dos gestos e dos successos mais incaracteristicos;
    cahindo sinceramente n'uma petição de principio, o perseguido prova que
    no seu cerebro existe uma idéa que o tyrannisa, que o empolga, e que,
    tornada um centro de associações psychicas, lhe vicia o raciocinio.
    Que essa idéa, como todas, proceda de preexistentes emoções, eis o que
    não contestamos, porque tudo na ordem do pensamento directa ou
    indirectamente reponta do humus da sensibilidade; mas só depois que
    ella espontaneamente appareceu na consciencia é que o delirio se
    iniciou. Não é, pois, emotiva, mas ideativa a origem directa e
    immediata d'este.

    O que-se passa na melancolia esclarece, pelo contraste, a situação
    paranoica. Ali, com effeito, o phenomeno inicial é d'ordem emotiva, pois
    que se reduz a uma depressão consciente, que estados de cenesthesia
    morbida provocam: a tonalidade psychica baixa, o doente sente-se diverso
    do que fóra, a dôr moral invade-o, e é ao fim d'algum tempo d'esta
    situação anormal que o delirio surge, quer como tentativa de
    interpretação do novo modo de ser, quer como adequada expressão ideativa
    de um sentimento geral de impotencia. As idéas de crime, de peccado, de
    doença incuravel, de miseria, de incapacidade, de possessão, n'uma
    palavra, todas as idéas que formam o contheudo do delirio melancolico,
    são ulteriores á depressão dolorosa, que é o facto morbido primitivo.
    Essas idéas não procedem do inconsciente, não irrompem de obscuras
    emoções por ignorados e mysteriosos processos, mas succedem a um
    consciente sentimento de dôr, que tem as suas raizes em phenomenos
    somaticos apreciaveis. O melancolico sente-se mudado, o que é exacto, e
    torna-se porisso autoobservador, primeiro, e delirante depois; o
    perseguido, esse, sente mudado em relação a si o mundo exterior, o que é
    falso, o que presuppõe uma ideação anormal e, portanto, um começo de
    delirio, que a observação objectiva apenas ajudará a systematisar.
    Emquanto o melancolico, abatido e humilhado por um sentimento real de
    dôr, que é a expressão consciente de perturbações cenesthesicas, se
    concentra e se interroga, fazendo um delirio _secundario_, o perseguido,
    egocentrico e autophilico, partindo de uma idéa chimerica de
    hostilidade, abre os sentidos e observa o mundo externo, delirando
    _primitivamente_.

    A autoobservação e o raciocinio na génese do delirio de perseguições não
    passam de miragens do espirito. No perseguido a attenção é dirigida em
    sentido objectivo; e o raciocinio, longe de intervir na formação do
    delirio, é por elle radicalmente falseado sempre que se trata das
    relações entre o mundo exterior e o Eu. A verdade clinica é, pois,
    precisamente o contrario do que affirma a doutrina de Lasègue; a verdade
    é que o delirio surge á sua hora, como o fructo amadurece e o grão
    germina: espontaneamente, fatalmente.

    Vejamos agora o que se dá com o delirio ambicioso que succede ao de
    perseguições.

    Haverá n'este caso, como pretendia Foville e como á saciedade se tem
    repetido, uma transformação consciente e raciocinada?

    O que acabamos de dizer sobre a direcção exclusivamente objectiva da
    attenção do perseguido, faz desde já suppôr o contrario. A attitude
    reflexiva, que seria necessaria para indagar as causas de uma
    hostilidade do meio, não está nos habitos do perseguido; por outro lado
    ainda, não é de modo nenhum natural que se procurem as origens de um
    facto acreditado, como os dogmas, com a inabalavel fé, que dispensa
    interpretações e as rejeita mesmo.

    Mas as provas directas da falsidade clinica da doutrina de Foville
    abundam. Assim, a observação permitte affirmar que não só o perseguido
    nunca formúla a pergunta: _Porque me perseguem?_ mas que, interrogado
    n'este sentido, invariavelmente responde: _Não sei_. O absurdo de uma
    perseguição sem causas, de uma hostilidade immotivada não choca esta
    ordem de doentes; e é debalde que se tenta dirigir-lhes a attenção para
    o exame de um assumpto que parece não os interessar. Absorvidos pelas
    allucinações ou empenhados em conjurar os effeitos de uma aggressão
    implacavel, os perseguidos não sentem a necessidade de inquirir as
    razões d'ella; e todo o insistente convite n'este sentido serve apenas
    para os impacientar, quando os não leva a entrevêr no solicito
    observador um cumplice de imaginarios inimigos.

    Mas ha mais. Se o delirio ambicioso podesse installar-se a titulo de
    explicação de precedentes perseguições, nada seria mais facil do que
    provocal-o: bastaria suggerir ao perseguido os themas habituaes da
    megalomania, deixando-lhe a escolha. Por outros termos: se o raciocinio
    bastasse, como candidamente pretendia Foville, a operar a transformação
    de uma personalidade,–para fazer-se de um perseguido um megalomano
    seria necessario apenas dizer-lhe precocemente o que, segundo o auctor
    francez, elle se dirá um dia, isto é, que, não podendo haver
    perseguições sem causa, o encarniçamento dos seus inimigos deve
    naturalmente explicar-se quer pela inveja dos altos meritos pessoaes do
    doente, quer pelo interesse de supprimir um individuo destinado, como
    elle o é, talvez, a reinar, a dirigir um partido, a instituir uma
    religião, a reformar uma sociedade, a mudar a face de uma sciencia. Ora,
    a verdade é que suggestões d'esta ordem não só não abalam os perseguidos
    que, aliás, se tornarão mais tarde megalomanos, mas determinam n'elles
    ora uma franca hilaridade, ora indignados protestos. Repeti muitas
    vezes, no começo da minha carreira, experiencias d'esta natureza,
    conseguindo apenas provocar dos doentes contestações como estas: que não
    estão doidos para desconhecerem a sua situação; que não admittem
    zombarias; que as historias phantasticas são boas para entreter creanças
    e idiotas; que não é digno escarnecer de quem soffre.

    É, pois, radicalmente falso e absolutamente contrario aos dados da
    observação que o delirio de grandezas appareça como tentativa feita para
    explicar perseguições soffridas. A idéa ambiciosa, como a de
    hostilidade, surge no espirito de um modo espontaneo e inconsciente; do
    delirio de grandezas póde, pois, repetir-se o que foi dito do delirio de
    perseguições: que elle irrompe á sua hora, como o fructo amadurece e o
    grão germina.

    É só depois de installado por um processo a que são extranhos o
    raciocinio e a vontade, que o delirio de grandezas servirá para explicar
    o de perseguições, como este, por sua vez, servira ao doente para
    interpretar os factos da sua vida anterior. É só a partir do momento em
    que se crê excepcionalmente grande pelo genio, pelo nascimento ou pela
    fortuna que o paranoico principia a explicar-se as miserias supportadas.

    Note-se, porém, este facto curioso e imprevisto em face da theoria que
    criticamos: o delirio de grandezas, dando um solido ponto de apoio ás
    idéas de perseguição, que esclarece e interpreta,–bem longe de as
    radicar, tornando-as definitivamente preponderantes no espirito do
    paranoico, tende, pelo contrario, a diminuil-as e a subalternisal-as em
    proveito proprio.

    Tal é o irrecusavel depoimento da clinica, absolutamente incompativel,
    como se vê, com a theoria que faz dos delirios paranoicos resultados de
    um esforço da intelligencia para comprehender e interpretar vagos e
    obscuros estados emotivos. Se essa theoria prevalecesse, a autonomia
    nosographica do delirio systematisado de perseguições seria inteiramente
    chimerica; e todo o esforço de Lasègue para o destacar da melancolia
    delirante resultaria inane, pois que a pathogenia, a despeito de todas
    as possiveis differenciações symptomaticas, identificaria
    definitivamente as duas doenças.

    Tendo de voltar ainda a este assumpto, procuraremos então interpretar as
    hesitações dos perseguidos e megalomanos na exhibição dos respectivos
    delirios.

    Por mal comprehendido, esse facto contribuiu não pouco para acreditar a
    phantastica doutrina da génese consciente e reflexiva dos delirios
    systematisados. A hesitação, parecendo implicar a duvida, iria bem com a
    opinião que faz d'esses delirios _conjecturas_ de um Eu que se observa,
    _hypotheses_ de um espirito que se perscruta, buscando dar-se conta de
    accidentaes perturbações emotivas.

    Veremos opportunamente que a interpretação do facto é muito outra; que
    essas hesitações não são senão o resultado da lucta que se exerce entre
    idéas nascidas do inconsciente e o systema de conceitos formados pela
    educação e até um certo tempo impostos pelo meio social.

    De modo analogo explicaremos o facto, erroneamente interpretado pelos
    psychiatras francezes, da inquietação dos perseguidos no periodo inicial
    da doença.

    V–AS ALLUCINAÇÕES E OS DELIRIOS PARANOICOS

    Erro de Foville sobre as relações dos delirios systematisados com as
    allucinações; como se perpetuou na psychiatria franceza–Uma antiga idéa
    de Magnan, exposta por Legrain, sobre este assumpto; falsidade d'essa
    idéa–Primitividade da concepção sobre a allucinação nos delirios
    paranoicos–Uma rectificação de Magnan.

    Dada a extrema frequencia dos erros sensoriaes, sobretudo das
    allucinações auditivas, na loucura systematisada, tem-se perguntado se
    as perturbações da sensibilidade especial precedem as idéas delirantes,
    servindo-lhes de base e fornecendo-lhes o contheudo, ou se, pelo
    contrario, apenas lhes succedem como uma sorte de confirmação.

    Lasègue, sustentando que as allucinações auditivas, unicas, segundo
    elle, compativeis com o delirio de perseguições, não são nem o
    antecedente necessario, nem o consequente inevitavel d'esta vesania,
    estabeleceu claramente a independencia essencial dos erros conceptuaes e
    perceptivos na mais commum das fórmas delirantes da Paranoia.

    Retomando, porém, annos depois a questão, Foville admittiu para ella
    duas ordens de soluções, desigualmente frequentes: uma, relativamente
    rara, em que o delirio é primitivo e as allucinações secundarias; outra,
    muito commum e, no delirio de perseguições, constante, em que a relação
    inversa se realisa.

    «O delirio, dizia elle, póde ou principiar _d'emblèe_ pelos conceitos ou
    affectar primeiro as sensações e extender-se depois ás idéas de um modo
    secundario»[1]. E, analysando cada um d'estes casos, commentava: «N'este
    ultimo (primitividade das allucinações) as funcções puramente
    intellectuaes não são, desde o começo, intrinsecamente lesadas, antes
    continuam a executar-se segundo a logica. Como faz notar Delasiauve, a
    faculdade syllogistica persiste intacta: emquanto se exerce sobre dados
    exactos, o producto das suas operações é normal e sensato; quando, pelo
    contrario, se exerce sobre dados falsos, isto é, sobre sensações
    imaginarias ou mal interpretadas, sobre allucinações e illusões, o
    producto encontra-se forçosamente em contradicção com a realidade. O
    delirio das sensações tem por effeito engendrar o delirio dos conceitos,
    sem que a intelligencia seja em si mesmo lesada e sem que ella deixe de
    funccionar sãmente, quando não é induzida em erro. Tal é um dos modos de
    producção e, não hesitamos em crêl-o, o _mais vulgarmente observado_ da
    loucura parcial … Mas esta ordem na successão dos phenomenos morbidos,
    embora a _mais frequente_, não é constante. Acontece tambem _algumas
    vezes_ gue a perturbação começa por concepções erroneas, que succedem a
    uma idéa fixa na ausencia de qualquer allucinação. N'este caso ainda,
    faz-se ordinariamente uma propagação analoga á que indicamos ha pouco,
    mas em sentido inverso. Ao fim de certo tempo, as concepções delirantes
    transformam-se em sensações falsas, o delirio extende-se ás percepções;
    o doente torna-se allucinado, porque era já delirante, em vez de
    tornar-se, como ha pouco, delirante, porque era allucinado»[2].

    [1] Foville, _Obr. cit._, pag. 341.

    [2] Foville, _Obr. cit._, pag. 341.

    Ora, ao passo que o megalomano-perseguido seria as mais das vezes,
    segundo Foville, um delirante-allucinado, o perseguido-megalomano, pelo
    contrario, seria sempre um allucinado-delirante.

    Por muito singular que se nos affigure, este modo de vêr de Foville
    sobre a primitividade das allucinações na Paranoia persecutoria teve um
    exito só comparavel ao da sua theoria das origens reflexivas e
    raciocinadas do delirio ambicioso. Repetido em milhares de tiragens
    pelos alienistas francezes, este novo _cliché_ pathogenico perpetuou-se
    como o primeiro. Magnan, por exemplo, acceitava-o ainda em 1886 e
    dava-lhe curso nos trabalhos dos seus discipulos. Como Foville, o medico
    de Sant'Anna admittia que nos delirios systematisados a allucinação póde
    tanto ser um symptoma derivado da persistencia de conceitos falsos, como
    um phenomeno primitivo sobre que assenta e de que procede a ideação
    pathologica. O primeiro d'estes casos dar-se-hia nos _delirios
    d'emblèe_; o segundo no _Delirio Chronico_. Os degenerados, unicos
    capazes de fabricarem um delirio sem preparação, e de serem, portanto,
    megalomanos-perseguidos, entrariam no grupo dos delirantes-allucinados;
    os normaes, unicos a quem se consigna o Delirio Chronico e, portanto,
    perseguidos-megalomanos, seriam allucinados-delirantes.

    Eis como, interpretando o pensamento do mestre sobre as relações da
    allucinação com as idéas morbidas nos _delirios d'emblèe_ e no _Delirio
    Chronico_, se exprimia Legrain: «O mecanismo segundo o qual se produzem
    as allucinações, varia nos dois casos. No Delirio Chronico ellas são
    essencialmente primitivas; todo o delirio é construido sobre ellas, e se
    ellas não existissem, o delirio, que lhes é consecutivo, não existiria.
    Nos degenerados delirantes, quando existem, as allucinações formam-se de
    um outro modo. São symptomas contingentes da doença, não a sua base
    immutavel, pois que numerosos delirios degenerativos evolucionam sem
    allucinações. Quando estas complicam a scena morbida, é o proprio
    delirio que as _provoca_, as mais das vezes, em virtude do seguinte
    mecanismo: Todos os centros cerebraes se encontram em estado completo de
    erethismo; o cerebro anterior elabora as idéas delirantes e evoca as
    imagens nos centros posteriores; as imagens assim evocadas véem
    representar-se nos centros anteriores com uma vivacidade tal que são
    interpretadas como outras tantas realidades. Assim, a allucinação
    encontra a sua causa directa n'uma série de idéas delirantes que a fazem
    nascer, e produz-se como um verdadeiro reflexo. O caminho centripeto
    parte dos centros anteriores, em que é elaborada a idéa delirante, ganha
    as regiões posteriores do cortex, em que a imagem é evocada, depois
    volta aos centros anteriores, trazendo a imagem, que vem misturar-se ao
    delirio e se impõe como realidade … Muito outra é a allucinação no
    Delirio Chronico: nasce primitivamente, _sur place_, nas regiões
    posteriores do cortex, sem ser provocada. Uma lesão local, lentamente
    progressiva, a produz; ella é a expressão funccional de uma lesão
    anatomica. Partindo d'esse ponto, ganha as regiões anteriores, que
    surprehende realmente. O cerebro anterior, em plena posse do seu
    equilibrio, da sua ponderação, interpreta-a como um facto real e deduz
    d'ella conclusões logicas, que são as primeiras idéas delirantes. Vê-se
    então evolucionar um delirio absolutamente sistematisado, lançando uma
    perturbação na intelligencia intacta e ponderada, que reage com todas as
    suas energias. No degenerado, a adhesão no delirio é plena e inteira
    desde o começo; no delirante chronico ella não é senão lenta e
    progressiva, fazendo-se a systematisação pouco a pouco, mercê de
    persistentes allucinações»[1].

    [1] Legrain, _Du délire chez les dégénérés_, pag. 141.

    Se n'esta passagem de Legrain substituirmos as expressões de _cerebro
    anterior_ e _posterior_ pelas suas equivalentes antigas de
    _intelligencia_ e _sensibilidade especial_, reapparece-nos a citação
    precedente de Foville. Uma velha doutrina, pois, resurge sob roupagens
    novas.

    Será necessario affirmar n'esta altura do nosso trabalho que a
    primitividade das allucinações nos delirios paranoicos é ainda uma
    ficção, que o exame despreoccupado dos factos annulla e apaga?

    É incontestavel que, encarando de um modo geral as relações possiveis
    dos erros sensoriaes com os conceitos morbidos, são legitimos e a cada
    passo se realisam os casos enumerados por Foville: se ha delirios que
    provocam as allucinações, outros ha, que, ao contrario, as teem por base
    e ponto de partida. Isto é de tal modo reconhecido que os ultimos
    d'estes delirios teem na psychiatria contemporanea o nome consagrado de
    _allucinatorios_ ou _sensoriaes_ (Wahnsinn), que allude a um fundamento
    perceptivo, como os primeiros teem o de _systematisados_ (Verrücktheit),
    que inculca uma coordenação ideativa. Sómente, a experiencia clinica
    ensina que os deliros sensoriaes ou são absolutamente dissociados e
    dispersivos ou apenas attingem uma frouxa coordenação, ao passo que os
    delirios francamente systematisados podem, como o persecutorio na sua
    variedade litigante, evolucionar sem a intervenção de estados
    allucinatorios.

    De resto, o depoimento da clinica não seria difficil de prevêr.
    Allucinações nascidas _sur place_, sem uma idéa que as provoque e lhes
    forneça o contheudo, só podem ser, como aliás nota Legrain, autonomicos
    effeitos de um erethismo dos centros sensoriaes, anatomica ou
    funccionalmente compromettidos; mas, sendo assim, ou o cerebro anterior
    as corrige e nenhum delirio é então possivel, ou, perdido o _contrôle_
    normal, elle as acceita e delira, não n'um sentido determinado, mas em
    tantas direcções differentes quantas as allucinações, cujo contheudo
    nenhuma razão ha para não suppôr variavel e proteiforme como nos
    delirios sensoriaes das anemias, das febres, das intoxicações e das
    nevroses. Sem a direcção superior de um conceito ou, para fallarmos a
    linguagem de Magnan e Legrain, sem a intervenção provocadora do cerebro
    anterior, os centros sensoriaes, autonomisados e procedendo por conta
    propria e exclusiva, exportam, como nos sonhos, para as regiões
    superiores do cortex, os mais caleidoscopicos elementos de ideação; se,
    com materiaes d'esta natureza, um delirio tem de formar-se, elle não
    poderá ser senão, como o _hallucinatorischer Wahnsinn_ de Krafft-Ebing,
    alguma coisa de tormentoso e incoherente.

    Assim, nem _à posteriori_, isto é, tomando para base a clinica, nem _à
    priori_, isto é, partindo da doutrina da percepção, é licito acceitar a
    primitividade das allucinações nos deirios systematisados.

    Discutamos, entretanto, no terreno especial da Paranoia persecutoria a
    affirmação de Foville, retomada pela escóla de Sant'Anna.

    Fallar, como Legrain, de uma lesão anatomica dos centros sensoriaes no
    delirio de perseguições, é, evidentemente, fazer um abuso de linguagem,
    pois que jámais uma autopsia denunciou em paranoicos qualquer coisa de
    parecido com um desarranjo palpavel e visivel d'essas limitadas regiões
    do cortex. Perturbações d'ordem dynamica, alterações funccionaes,
    desequilibrios de movimento cellular, eis quanto o estado actual da
    physiologia permitte admittir. N'este sentido, o termo de _erethismo_,
    empregado por Legrain, parece-nos feliz. Mas provocado por que causa,
    esse erethismo?

    Não o diz o escriptor citado, e é lamentavel.

    Excluidas, naturalmente, as intoxicações e as asthenias cerebraes, que
    são as causas mais frequentes de estados allucinatorios, não vejo que
    nos fiquem para explicar a sobreexcitação funccional dos centros
    sensoriaes senão as idéas, delirantes; postas estas de parte, nada
    resta, a invocar na interpretação do phenomeno,–tão importante, aliás, e
    tão essencial, no dizer da escóla franceza, que n'elle repousa a doença
    inteira.

    Passemos, porém, ao de leve, sobre esta deficiencia de analyse e
    admittamos por um instante que uma causa, ainda não definida, vem
    provocar e determinar nos centros corticaes da sensibilidade especial um
    erethismo de que o cerebro anterior não partilha. O que nos diz a
    theoria da percepção que deveria succeder n'esta hypothese?
    Surprehendidas pelas extranhas sensações exportadas d'esses centros
    hyperfunccionantes, as regiões superiores da intelligencia entrariam com
    ellas em conflicto; e o resultado d'este, dada a integridade e
    normalidade d'essas regiões, a que incumbe a funcção suprema do
    _contrôle_ psychico, seria, indiscutivelmente, a correcção, a
    rectificação definitiva dos erros sensoriaes. É isto, como se sabe, o
    que acontece nos casos de illusões e allucinações em espiritos normaes.
    Fallar da integridade de uma razão, que constroe um delirio sobre
    percepções falsas, é um perfeito não-senso; admittir a normalidade de
    uma região de _contrôle_, que centros subordinados perturbam e vencem, é
    cahir n'uma grosseira contradicção. Por si sós, dil-o a experiencia
    clinica e ensina-o a theoria da percepção, os erros sensoriaes não
    falseiam os juizos, porque, para corrigir as illusões e allucinações,
    dispõe o cerebro de recursos, que vão desde a elementar contraprova da
    acção de um sentido pela dos outros até ao testemunho alheio e ao
    confronto dos dados perceptivos com o preexistente systema de conceitos
    e sentimentos, que é o fundo mesmo da personalidade sã.

    Se os erros sensoriaes não são corrigidos, mas acceites e elaborados
    como realidades objectivas, é que uma d'estas duas hypotheses se dá: ou
    o allucinado não empregou os recursos de rectificação e _contrôle_ da
    percepção exterior, porque, delirante já, viu nas allucinações uma
    confirmação dos seus conceitos; ou os empregou sem exito, porque o
    insistente depoimento dos centros sensoriaes em erethismo, acabou por
    vencer os argumentos da razão.

    Qual d'estas duas hypotheses se realisa no delirio de perseguições?
    Segundo o antigo ensino da escóla de Sant'Anna, de que Legrain é um
    interprete eminente, a primeira teria logar nos perseguidos _d'emblèe_,
    que são degenerados, e a segunda nos delirantes chronicos, que são
    normaes até á invasão da doença.

    É inutil repetir que não acceitamos esta distincção, e que a primeira
    das hypotheses formuladas é para nós a que tem logar em todos os casos
    não só de delerio de perseguições, mas dos outros delirios
    systematisados.

    Analysemos, comtudo, as affirmações de Legrain em relação ao Delirio
    Chronico.

    Estabelecendo com Magnan (como o fizera Lasègue para o perseguido) que o
    delirante chronico é um ser normal até á invasão da doença, Legrain
    compraz-se em vêr na incubação d'esta uma lucta da razão com os morbidos
    elementos invasores. Ao passo que o degenerado supportaria, por assim
    dizer, o seu delirio,–espontanea manifestação de um desequilibrio
    preexistente, o normal _fabrical-o-hia_ lentamente, hesitantemente e
    raciocinando sempre. É a velha doutrina. Mas como de um raciocinio só
    podem surgir conclusões falsas quando as premissas o são tambem,
    Legrain, á maneira de Delasiauve e de Foville, faz das illusões e
    allucinações, nascidas _sur place_ nos centros sensoriaes, o elemento
    morbido aggressivo e a premissa erronea de que o cerebro anterior
    deduzirá, emfim, o delirio.

    Acabamos de vêr, e toda a insistencia n'este ponto seria impertinente,
    que a incapacidade de corrigir percepções erradas implica deficiencia de
    senso critico e, portanto, insanidade mental, anormalidade psychica. Nem
    mesmo admittindo com Legrain que o cerebro reage contra a allucinação
    invasora com todas as suas energias, poderia evitar-se a conclusão, pois
    que a derrota denuncía a fraqueza e inferioridade d'essas energias.

    Mas será verdade, ao menos, que o perseguido reaja contra as illusões e
    allucinações incessantemente originadas nos centros sensoriaes
    sobreexcitados? De modo nenhum. Bem ao contrario do que Legrain
    pretende, as illusões e allucinações são para os perseguidos, como para
    todos os paranoicos, pontos de apoio e não de partida do delirio,
    confirmações e não elementos formativos d'elle, eccos dos erros
    conceptuaes e não o seu fundamento, n'uma palavra, precarios symptomas
    derivados e não phenomenos essenciaes e primitivos.

    A demonstração d'esta verdade clinica não será difficil, nem longa.

    Uma só passagem de Magnan a fará. Fallando do que se passa no chamado
    periodo de incubação do delirio persecutorio, escreve n'um dos seus
    ultimos trabalhos o eminente observador: «Os doentes experimentam um
    mal-estar, um descontentamento que não sabem explicar-se; tornam-se
    apprehensivos, inquietos, _desconfiados, crendo notar certas mudanças_
    na maneira de ser da familia e mesmo dos extranhos. Dormem mal, teem
    menos appetite, menos aptidão para o trabalho e para os negocios. N'esta
    época poderiam ser tomados por hypocondriacos. Pouco a pouco
    _parece-lhes que os observam_, que _os olham de travez_, que os
    _desprezam_; duvidam, hesitam, permanecem fluctuantes entre idéas
    variadas, acceites primeiro, repudiadas em seguida, admittidas pouco a
    pouco e dando logar, emfim, a interpretações delirantes … O doente
    persiste assim perturbado, inquieto, por vezes excitado, todo entregue
    ás _concepções penosas que principiam a assaltal-o_ e _indifferente a
    tudo o que não parece prender-se com o seu delirio_. Os grandes
    acontecimentos não o commovem, as perturbações politicas deixam-no
    indifferente, as perdas de dinheiro e as luctas de familia não o
    emocionam. Pelo contrario, factos insignificantes, mas que se relacionam
    com as suas preoccupações penosas, que as justificam, adquirem uma
    importancia extrema e provocam-lhe a colera. Se uma pessoa se esquece de
    o saudar, vê n'isto uma injuria voluntaria; se alguem tosse ou escarra
    ao pé d'elle, se diante d'elle uma janella ou uma porta se abrem, se-uma
    cadeira se desloca, reconhece outros tantos testemunhos de despreso. As
    provas de benevolencia e de afeição tornam-se zombarias, e o proprio
    silencio é uma offensa. O vago apaga-se pouco a pouco; á hesitação
    succede a certeza, e, fortificadas por todas estas provas, as suas
    convicções tornam-se inabalaveis. N'estas condições, o doente, sempre em
    guarda, espia, escuta, surprehende n'uma conversação uma phrase que se
    attribue–eis a interpretação delirante; ou se crê aggravado por uma
    palavra insignificante, mas cujo som apresenta alguma analogia com uma
    injuria grosseira e que elle confunde com esta–eis a illusão. Depois, a
    _idéa constante de uma perseguição_, a tensão incessante da
    intelligencia acabam por _despertar o signal representativo da idéa_, a
    imagem tonal; n'uma palavra, a allucinação auditiva produz-se»[1].

    [1] Magnan, _Obr. cit._, pag. 237.

    Não é possivel estabelecer de um modo mais preciso e mais eloquente a
    primitividade do delirio e a secundariedade da allucinação. Todo o
    commentario seria pallido, todo o retoque prejudicial a este quadro
    _d'après nature_.

    A questão de saber corno Magnan exprime em 1893 uma opinião
    diametralmente opposta á de Legrain, que em 1886 se dava como interprete
    da escóla de Sant'Anna, é secundaria para nós e sem interesse para a
    sciencia.

    Cremos que n'este caso, como no de Gérente, Magnan se contradicta a si
    proprio, fazendo do seu Delirio Chronico edições successivas e todas
    differentes.

    Felizmente, e é isto o que nos importa notar, a correcção introduzida
    ultimamente no capitulo das relações entre os erros perceptivos e
    conceptuaes, é conforme á verdade clinica.

    VI–AS OBSESSÕES E OS DELIRIOS PARANOICOS.

    A inquietação dos perseguidos e as hesitações de certos paranoicos na
    exhibição do delirio; como se explicam estes factos–A doutrina classica
    das obsessões; sua inexactidão–Idéas do auctor; inesperada confirmação
    d'ellas por J. Séglas–A obsessão é um delirio systematico abortado;
    este é uma obsessão progressiva–Demonstração; analyse dos factos–Como
    se fórma o Eu; estratificações systematisadas–A personalidade e as
    subpersonalidades; o atavismo.

    Se as idéas que formam o contheudo dos delirios paranoicos, não traduzem
    um esforço de reflexão exercendo-se sobre estados emotivos, nem
    reconhecem por causa os erros sensoriaes, como cremos ter provado, a
    conclusão se impõe de que ellas surgem na consciencia á maneira de
    obsessões.

    Comquanto sustentada por uma parte dos psychiatras allemães e italianos,
    esta affirmação está de tal modo em desaccordo com as radicadas
    tradicções da escóla franceza que não será sem vantagem discutil-a.
    Antes, porém, seja-me licito notar que, acceite a origem obsessiva dos
    delirios systematisados, dois factos, que os alienistas francezes não
    lograram explicar senão phantasiosamente e em contradicção com os dados
    mais positivos da observação clinica, recebem uma interpretação
    simplicissima: refiro-me á inquietação dos perseguidos quando o seu
    delirio aponta, e ás hesitações de grande numero de paranoicos na
    exhibição dos seus conceitos falsos.

    O primeiro d'estes factos, abusivamente comparado pelos psychiatras
    francezes ao vago mal-estar precursor das doenças graves, não é, em
    realidade, mais do que a natural reacção emotiva do Eu, subitamente
    empolgado por uma idéa penosa, que irrompe do inconsciente; longe de
    constituir, como a anciedade melancolica, uma situação primitiva de que
    surgirão os erros conceptuaes, é um estado secundario, um effeito mesmo
    da presença inesperada de uma idéa depressiva no campo da consciencia.

    Em que consiste, de facto, essa inquietação? Definitivamente e no
    fundo–em sentimentos e actos defensivos; ora, a organisação de uma
    defeza suppõe a idéa de um ataque, de uma hostilidade, de um perigo. Sem
    duvida, essa idéa só se terá transformado n'um conceito e recebido a sua
    inteira systematisação, quando se houver feito o reconhecimento do
    inimigo e das causas da aggressão; a partir, porém, do momento em que
    obsessivamente ella irrompe e se impõe ao espirito, a inquietação
    apparece como o grito de alarme da esphera emotiva do perseguido.

    Quanto ás hesitações, tantas vezes observadas, do paranoico na
    exteriorisação do seu delirio, qualquer que elle seja, nada mais facil
    que interpretal-as. Trata-se ainda, n'este caso, de um phenomeno
    secundario, inseparavel do primeiro. Surprehendendo a consciencia pelo
    contraste que faz com o systema de conceitos positivos recebidos da
    educação, a idéa delirante é para o Eu alguma coisa de extranho e de
    interposto que, tendo-lhe provocado uma forte reacção emotiva, irá ainda
    remodelar toda a sua precedente orientação pensante, não sem
    difficuldades e combates; a hesitação em affirmar o delirio é, pois, o
    resultado da novidade e extranhesa das idéas que o formam. Longe de ser,
    como se pretendeu, a duvida de um espirito que elabora conjecturas e
    procura cotejal-as com os actos, essa hesitação traduz o esforço penoso
    e vacillante de adaptação do Eu a uma nova ordem de idéas, que elle vê
    surgir e cuja origem desconhece. O paranoico não duvida, porque não
    critica. Como a victima de uma suggestão hypnotica activa não procura
    evitar o acto ordenado e imposto, ainda quando elle choca, ás suas
    habituaes inclinações, mas busca dar-lhe apparencias de espontaneo e
    querido, o paranoico, longe de tentar a correcção da sua idéa falsa,
    cuida em reforçal-a pela interpretação delirante dos factos.

    Mas ás vezes succede tambem que já o delirio se encontra systematisado e
    ainda o paranoico o occulta ou apenas o confia do papel, n'uma sorte de
    soliloquio. A razão d'este facto está em que o doente, reconhecendo,
    pelo que, em si proprio se passou no periodo presystematico, a
    extranheza do seu delirio e a formidavel antithese que elle faz com as
    idéas correntes, procura evitar as inuteis e irritantes discussões que
    provocaria, exhibindo-o. É o conhecido caso de alguns crentes que, em
    vez de propagarem a sua fé, penosamente conquistada em repetidas luctas
    interiores, se recolhem n'ella, evitando a controversia, sentindo uma
    sorte de pudor em desdobrar diante de profanos irreverentes o inabalavel
    systema das suas convicções religiosas.

    Mas eu prevejo uma objecção a esta doutrina. Como acceitar, dir-se-ha, a
    origem obsessiva dos delirios systematisados, se um dos caracteres das
    obsessões é justamente o de não serem integradas na consciencia, de
    subsistirem no Eu em lucta aberta com as disposições preexistentes,
    n'uma palavra, de não formarem systema?

    A resposta implica um exame de doutrinas a que vamos proceder.

    Westphal, definindo a obsessão _uma idéa que, sem precedencia de um
    estado emotivo ou passional, se impõe á consciencia do doente contra a
    sua vontade, impedindo o jogo normal do pensamento, em que se insinua, e
    sendo sempre reconhecida como anomala e extranha ao Eu_, foi um dos
    primeiros a proclamar a irreductivel systematisação da idéa obsessiva.

    Pelo seu lado, os auctores, que ulteriormente mais se occuparam das
    obsessões, insistiram sempre no facto de que ellas constituem na
    economia psychica uma sorte de _corpo extranho_, releve-se-me a
    expressão, para eliminar o qual, inutil, mas consciente e penosamente se
    esforça o Eu. Assim, Magnan, definindo a obsessão pathologica _um modo
    de actividade cerebral em que uma palavra, uma idéa, uma imagem se
    impõem ao espirito sem intervenção da vontade e com uma angustia
    dolorosa que a torna irresistivel_, conta, como Westphal, entre os
    caracteres pathognominicos d phenomeno (que para elle é sempre um
    syndroma da degenerescenda psychica), a _consciencia completa_ de um
    estado morbido. E.J. Falret, interpretando no Congresso Psychiatrico
    Internacional de 1892 as mesmas idéas, affirmou não só que as obsessões
    são _conscientes_ e _anciosas_, mas que se _não acompanham de
    allucinações_ e se _não transformam nunca em outras doenças mentaes_,
    embora algumas vezes e n'uma adiantada phase de evolução se possam
    _complicar_ de um delirio melancolico ou persecutorio. O assentimento do
    Congresso as conclusões do Relatorio de Falret foi como a consagração
    official da doutrina que faz da idéa obsessiva um facto insusceptivel da
    assimilação, um producto que o Eu considera sempre extranho, que a
    consciencia jámais incorpora, que a vontade combate e contra o qual a
    emotividade perpetuamente lança o seu grito de alarme.

    Será, porém, rigorosamente assim?

    Reconhecendo que a nossa experiencia é curta e a nossa auctoridade
    nulla, atrevemo-nos, comtudo, desde 1892; tendo por base uma solida
    convicção, a discutir alguns dos pontos essenciaes da doutrina classica.

    Assim, em conferencias publicas d'esse anno, a proposito de um caso
    medico-legal de impulsividade criminosa, sustentamos que a idéa
    obsessiva não póde ser, nem é na vida mental um elemento inerte, e que a
    sua actividade, como a de todo o phenomeno psychico, se mede pelo maior
    ou menor numero de factos da mesma ordem que ella evoca na consciencia,
    o que equivale a dizer–pelas mais ou menos extensas _systematisações_
    que provoca. Como cada atomo de um aggregado material, diziamos então,
    entra n'elle com uma certa affinidade, cada phenomeno psychico figura no
    Eu com uma dóse propria de força systematisante. E a idéa obsessiva,
    extranha á consciencia pelas suas origens confusas, não é essencialmente
    diversa dos outros factos psychicos, nascidos tambem em grande parte da
    cerebração inconsciente; surgindo, ella evoca, pois, pela sua mesma
    affinidade com esses factos, pela sua mesma força systematisante (de que
    as leis de associação não fazem senão constatar a existencia e denunciar
    parcialmente as orientações), idéas, emoções, desejos, impulsos, novas
    imagens mentaes, em summa.

    Longe de acompanhar-se, diziamos, de uma perfeita e _completa
    consciencia,_ a obsessão, representando um começo de _dissociação
    pessoal_, uma scisão do Eu por dois grupos antinomicos de
    systematisações psychicas, a normal e a obsessiva, implica uma
    _obnubilação da consciencia_ individual, pois que esta não póde
    comprehender-se senão como synthese de estados psychicos harmonicos e
    expressão da unidade do Eu.

    Este modo de vêr, seja dito de passagem, encontramol-o sustentado com
    profusão de argumentos psychologicos e clinicos nas excellentes _Lições
    sobre as doenças mentaes e nervosas_ de Séglas, publicadas em 1896. Este
    imprevisto encontro do nosso espirito com o do eminente psychiatra, sob
    ser-nos lisongeiro, depõe grandemente em favor da justeza das idéas que
    defendemos.

    A _angustia_ que acompanha os estados psychicos, diziamos nas mesmas
    conferencias, traduzindo a extranheza da consciencia em face da idéa
    imposta, está longe de ser um thenomeno invariavel, pois que, no fundo,
    elle depende da extensão maior ou menor que tomam as systematisações
    pathologicas em face das normaes. Ha estados em que toda a reacção
    emotiva se limita a uma passageira e leve inquietação de espirito;
    outros, em que surgem phenomenos criticos de anciedade, pronunciados,
    duradouros e graves. Procurando interpretar estes factos, Westphal
    collocou-os principalmente sob a dependencia do contheudo das obsessões,
    affirmando que, em igualdade de circumstancias, a idéa fixa de matar
    repugnará muito mais que a de pronunciar uma palavra inconveniente.
    Talvez seja assim; mas essa _igualdade de circumstancias_, reduzindo-se,
    no fundo, a uma identidade absoluta de disposições affectivas e moraes,
    não póde nunca affirmar-se com segurança em dois individuos ou n'um só
    em periodos diversos. Dizer que uma idéa obsessiva repugna, pelo seu
    contheudo, mais ou menos que uma outra, é dizer que as systematisações
    provocadas por cada uma valem diferentemente para o Eu. Mas porque? Em
    ultima analyse, porque as systematisações normaes com que ellas entram
    em conflicto na consciencia são diversas ou desigualmente organisadas. Á
    medida que a idéa obsessiva, quer por força propria, quer por frouxidão
    das suas antagonistas, alarga a esphera da sua systematisação, a
    dissociação do Eu progride, a extranheza da consciencia diminue e a
    _angustia_ reduz-se proporcionalmente. E o limite d'esta reducção, que
    theoricamente é zero, terá sido attingido, quando no campo da
    consciencia não existam systematisações que directa ou indirectamente
    não sejam provocadas pela idéa obsessiva.

    Mas, n'esta hypothese dois casos podem dar-se: ou as systematisações
    normaes readquirem, decorrido um certo tempo, a sua supremacia, ou, mais
    fracas, ellas se deixam vencer definitivamente pelas systematisações
    pathologicas. No primeiro caso, a consciencia individual restabelece-se,
    e da phase de derrota fica apenas a memoria confusa de uma sorte de
    estado secundario e de sonho,–o que tem permittido comparar as
    obsessões impulsivas a crises de epilepsia psychica; no segundo, um novo
    Eu se fórma, tendo por substracto associações pathologicas, isto é, um
    delirio systematisado.

    Tal foi, nos seus contornos, a doutrina que esboçamos em 1892 e
    exposemos ainda em conferencias sobre a Paranoia no começo de 96,
    contradictando os que pretendem achar contrastes irreductiveis entre
    obsessão e delirio. Insubsistentes no terreno da psychologia abstracta,
    esses contrastes não o são menos no campo da clinica, onde Tamburini,
    Stephani, Séglas, Catzras e outros demonstraram, contrariamente á
    cathegorica affirmação de J. Palret, que existem allucinações sensoriaes
    e psychomotoras exclusivamente determinadas pela persistencia de idéas
    obsessivas. Longe de serem antinomicos, a obsessão e o delirio
    approximam-se pela communidade de origem: a obsessão seria, na ordem de
    idéas que sustentamos, um começo de delirio systematisado, como este
    seria uma obsessão progressiva, desenvolvendo-se á custa de successivas
    associações. N'este sentido se interpreta sem esforço a expressão de
    _paranoia rudimentar_ por que Arnadt, Morselli e outros designam a
    obsessão.

    Mas, porque reputamos fundamentaes estas idéas, procuraremos dar-lhes
    aqui todo o desenvolvimento que ellas comportam.

    O phenomeno pathologico da obsessão tem, como nota Dallemagne, um
    representante physiologico no facto banal de uma idéa indifferente que,
    sem sabermos como, nos surge na consciencia, interrompendo
    disparatadamente o curso das nossas preoccupações e desapparecendo um
    instante depois. Não ha aqui, em verdade, nem angustia, nem
    irresistibilidade; ha, porém, o phenomeno da emergencia inexplicavel e
    extranha de uma imagem, que o jogo consciente das idéas não provocou. A
    systematisação não existe tambem: um momento presente na consciencia, a
    idéa desappareceu sem deixar n'ella um vestigio. Imaginemos, porém, que
    a idéa extranha pertence á cathegoria das impulsivas, e concedamos que o
    acto n'ella representado seja de natureza cruel: atirar, por exemplo, á
    linha férrea um companheiro de viagem. É evidente que o novo caso
    differe muito do anterior. Em primeiro logar, a idéa tem desde logo um
    começo de systematisação, por isso que mentalmente nos representamos uma
    scena complicada e os seus possiveis effeitos: imagens motoras, imagens
    sensoriaes, sentimentos, emoções, idéas de leis e principios moraes,
    idéas de sanção penal, tudo entra em jogo, tudo se grupa, em torno da
    idéa primitiva. A vontade lucta, como geralmente se diz, ou, como melhor
    deveria dizer-se, as systematisações normaes, mais ou menos organisadas
    e resistentes, repellem a systematisação anomala e intrusa. Esta,
    todavia, não desapparece sem vestigios; impossibilitada de tomar as
    reclamadas vias motoras externas, gastou-se na esphera emotiva,
    dando-nos um instante de inquietação, um sobresalto, um começo de
    angustia, traduzida, talvez, physicamente n'um subito pallor de face,
    n'uma agitação momentanea do pulso. Mas figuremos que a idéa se reproduz
    ainda, uma vez, duas, muitas vezes. A systematisação, que ella provocou
    no inicial momento, repete-se, avigora-se, organisa-se; a lucta das
    systematisações normaes antagonistas renova-se, e d'essa renovação
    deriva o prolongar-se na consciencia a presença de uma systematisação
    anomala, cada vez mais nitida e mais forte. As imagens motoras farão
    nascer o impulso; e este, se as systematisações normaes o não conseguem
    desviar n'um sentido diverso (a convulsão, o espasmo, o toque d'uma
    campainha de alarme, o grito de aviso) acabará por ser satisfeito,
    provocando uma _détente_, um allivio.

    Os caracteres da obsessão pathologica–origem invluntaria, angustia,
    irrisistibilidade, satisfação consecutiva, estão realisados, O que
    provocou a apparição d'estes caracteres? Em primeiro logar, as
    systematisações determinadas pela idéa obsessiva, em segundo, a lucta
    d'ellas com as systematisações normaes. Se a idéa obsessiva fosse
    incapaz de provocar systematisações, se fosse indifferente, ter-se-hia
    dissipado sem vestigios conscientes, como no caso que primeiro
    figuramos; se, por outro lado, uma forte lucta se não tivesse realisado
    entre antinomicos grupos ou systemas de factos psychicos, não existiria
    angustia concomitante, nem satisfação consecutiva. A obsessão deu-se,
    pois, á custa, de uma dissociação parcial e transitoria do Eu. Alarmada
    e impotente, a consciencia assistiu ao desdobramento de um acto reflexo;
    clara ao principio, ella obscureceu-se um instante–aquelle precisamente
    em que todo o vasto e harmonico systema de idéas, de affectos e
    impulsos, que constituem o Eu, se deixou vencer pelo systema antagonista
    creado pela idéa imposta.

    Que esta seja impulsiva, emotiva ou meramente abstracta, pouco importa,
    de resto; o quadro dos symptomas da obsessão é em todos os casos o
    mesmo, desde que se estabelece lucta entre systematisações pathologicas
    e normaes. É n'esta lucta que reside o caracter essencial da obsessão;
    tudo o mais é secundario e derivado.

    Imaginemos, por exemplo, que a idéa de matar surge no espirito de um
    criminoso-nato. Não encontrando em face d'ella, a offerecer-lhe
    resistencia, a longa série de systematisações que se comprehendem na
    designação synthetica de _senso moral_, essa-idéa exteriorisar-se-ha de
    um modo puramente reflexo e automatico; fallaremos, então, de impulso
    morbido, mas não será licito pronunciar o nome de obsessão.

    Figuremos ainda que uma idéa, embora não derivada do jogo normal e
    logico do pensamento, é de natureza a lisongear os nossos gostos, as
    nossas aspirações, os nossos desejos. Insubsistentes e chimericas, as
    systematisações, ás vezes complicadas e extensas, que ella gera ao
    irromper no nosso espirito, não provocam, todavia, uma lucta, é o estado
    de espirito assim creado não póde chamar-se obsessão. Tal é o caso da
    _réverie_, dos castellos no ar, de toda essa phantasiosa ideação em que,
    a despeito do testemunho contradictorio da realidade, nos deixamos
    apanhar involuntariamente. Quem, apenas remediado ou pobre, se não
    sentiu uma vez tomado, sem saber como ou porque, da idéa de opulencia, e
    não partiu d'ahi para o sonho dos palacios, das equipagens, da arte, da
    phylantropia? Comquanto anomalo e inutil, este estado de espirito não é
    obsessivo, porque não provoca urna _lucta_ de systematisações.

    Esta é, pois, repetimol-o, o signal, o seguro indicador da
    obsessão:–aquillo em que ella essencialmente consiste. Mas não poderá
    essa lucta, que de ordinario se renova, dando ás obsessões um caracter
    _intermittente_, cessar pela victoria definitiva das systematisações
    pathologicas, o que equivale a dizer–pela constituição de um delirio?
    Cremos que sim; e para comprehendel-o basta admittir que a idéa
    obsessiva é, na esphera inconsciente de que procede, um forte centro de
    systematisações organisadas, capazes não só de vencerem a resistencia
    das systematisações normaes, mas de as desviarem em proveito proprio.

    Já a victoria intermittente da obsessão sobre as systematisações
    normaes denuncía a existencia de ignoradas estratificações psychicas,
    tão extensas e importantes, comtudo, que podem por força propria ou por
    fraqueza das suas antagonistas, provocar uma dissociação do Eu e n'um
    dado instante occupar todo o campo da consciencia. Que se supponha maior
    a sua força e menor ao mesmo tempo a das systematisações normaes
    inhibitorias, e o triumpho será definitivo, porque toda a esphera
    consciente não conterá mais do que associações pathologicas. Teremos o
    delirio systematisado; e então, bem evidentemente, a dissociação do Eu,
    que na obsessão é passageira, tornar-se-ha definitiva, substituindo-se á
    personalidade normal vencida uma outra vencedora.

    Mas d'onde vem esta e como se formou? Eis o que a doutrina da evolução
    permitte explicar. Na sua lenta e progressiva constituição, a
    personalidade humana encontra-se successivamente representada por
    systematisações psychicas de uma complexidade crescente, isto é, por
    associações e inhibições cada vez mais extensas, traduzindo a acção do
    mundo sobre o Eu e a reacção d'este sobre o mundo. Cada nova
    systematisação formada, integrando elementos psychicos, é uma satisfação
    dada ás naturaes affinidades d'estes; cada nova inhibição realisada,
    dissociando elementos psychicos, provoca a formação de outras
    systematisações em que ellas vão achar novamente logar e novamente
    satisfazer uma affinidade propria. Assim se formam lentamente, mercê da
    hereditariedade, que capitalisa as conquistas do espirito, successivas
    estratificações systematicas de idéas, de emoções, de impulsos, n'uma
    palavra, successivas _tendencias_, que representam em momentos dados um
    espirito, um Eu, uma personalidade, emfim.

    As estratificações mais recentes são tambem as menos organisadas e as
    mais instaveis; os systemas de que ellas se compõem, contrariando em
    grande parte antigas e habituaes affinidades dos elementos psychicos,
    subsistem n'um equilibrio que só o tempo tornará estavel. Mas o tempo,
    quando se trata de evolução, não é a vida de um individuo, é a de
    gerações seguidas; é, pois, necessario para que a estabilidade psychica
    de uma personalidade se realise que a herança se faça sempre n'um mesmo
    sentido, que a orientação ou finalidade do espirito não seja perturbada.
    Se este facto se não dá, a estratificação mais antiga sobreleva a mais
    recente e atravez d'ella rompe total ou parcialmente. Cada personalidade
    é, pois, n'um dado momento a juxtaposição de subpersonalidades relegadas
    para o inconsciente, mas tenazes, persistentes, susceptiveis de uma
    integral ou parcial revivescencia. Por traz do _individuo_, que
    representa as ultimas acquisições de uma civilisação, está a _especie_,
    que representa todas as systematisações procedentes da acção lenta do
    meio, capitalisada pela herança.

    N'esta ordem de idéas, as obsessões e os delirios systematisados
    apparecem-nos _como resurreições parciaes e mais ou menos extensas de um
    Eu ancestral_. É da lucta que se estabelece entre este e o Eu de
    recente formação que derivam, de um lado, a _angustia_ que acompanha as
    obsessões e o allivio que lhes succede quando a _détente_ se realisa, do
    outro, a _inquietação_ dolorosa que faz cortejo aos delirios
    systematisados na sua phase inicial e a tranquillidade relativa que
    depois surge quando o paranoico definitivamente adquire uma convicção,
    uma crença, quando, na phrase justa dos alienistas francezes, elle sabe,
    emfim, _à quoi s'en tenir_.

    Mas como, repetimol-o, a lucta é tanto menos intensa quanto mais forte é
    o Eu ancestral e mais instavel o de recente formação, a _angustia
    obsessiva_ e a _inquietação paranoica_ podem reduzir-se a
    insignificantes proporções: tal é o caso dos impulsos nos criminosos
    habituaes e dos delirios _d'emblèe_ nos paranoicos originarios.

    VII–A PARANOIA E A DEGENERESCENCIA

    Extensão do conceito de degenerescencia; desaccordo dos auctores–Causas
    de degenerescencia; opiniões diversas–A degenerescencia e a observação
    clinica; modo de vêr de Magnan; opinião de Krafft-Ebing–Necessidade de
    um ponto de vista geral; seu caracter anthropologico–A definição de
    Morel; o seu defeito essencial–A noção do atavismo em psychiatria; as
    idéas de Magnan e a sua falta de fundamento–Ponto de vista de Tanzi e
    Riva; documentos justificativos–A Paranoia é uma degenerescencia.

    Tem ainda hoje nos livros da especialidade um caracter eminentemente
    obscuro e vago a noção da _degenerescencia_. Nada o prova melhor que o
    conjuncto de contradictorias opiniões sobre a sua mesma extensão e sobre
    as suas origens.

    Que psychopatas abrange a degenerescencia?

    Emquanto certos auctores, á maneira de Mendel, só consideram degenerados
    aquelles que, pela presença de estygmas physicos de uma extrema
    decadencia, profundamente se afastam do typo humano commum, outros ha
    que seguindo a tradição de Morel, descobrem a degenerescencia onde quer
    que surjam indicios de uma constitucional desharmonia de funcções
    psychicas, de um originario desequilibrio mental, ainda quando
    inteiramente compativel com a vida collectiva e mesmo com parciaes
    superioridades de intendimento.

    O terreno que pizam os primeiros tem tanto de seguro e incontroverso
    quanto de infecundo: reduzida a cobrir, o grupo dos idiotas, alguns
    loucos moraes, physicamente disformes, e um ou outro delirante precoce,
    somaticamente estygmatisado, a degenerescencia é um conceito inerte, sem
    valor em clinica e sem applicações em nosologia psychiatrica.
    Suggestivo, o ponto de vista dos segundos é, todavia, impreciso, como o
    revella a comparação dos auctores, pois que, os mesmos loucos são,
    segundo uns e deixam de ser, segundo outros, comprehendidos no grupo dos
    degenerados. Assim, emquanto para Magnan não são degenerados uns certos
    paranoicos, os delirantes chronicos, para Krafft-Ebing são-no todos,
    como vimos; assim, os intermittentes, que a grande maioria dos auctores
    allemães e italianos consideram como exemplares degenerativos, formam
    para Magnan um grupo de transição entre os degenerados e os
    psychonevroticos; assim, ainda, os obsessivos, que para o psychiatra
    francez são sempre degenerados, não passam aigumas vezes para Morselli
    de neurasthenicos vulgares.

    Este grave desaccordo sobre a extensão do conceito, repete-se desde que a
    questão etiologica se aborda.

    Que origens reconhece a degenerescencia?

    Ao passo que uns, como J. Falret, exclusivamente incriminam a
    hereditariedade na producção dos degenerados, outros responsabilisam,
    como Cotard, as doenças infantis, como Boucherau, as doenças do feto, ou
    ainda, como Christian, o estado mental dos paes no acto da procreação.
    Pelo seu lado, Magnan reconhece todas estas causas, considerando,
    todavia, preponderante e typica a hereditariedade,

    Ora, para se poder fallar da hereditariedade, como agente de psychoses
    degenerativas, quando se sabe que ella é a causa por excellencia de
    todas as doenças mentaes, seria necessario possuir-se um meio de
    determinar _à priori_ o momento em que ella deixa de ser uma simples
    _predisposição_ generica para tornar-se um factor especial de anomalias
    psychicas; por outros termos, seria necessario precisar onde começa o
    que Magnan denomina a _impregnação hereditaria_.

    Se isto fosse possivel, teriamos na etiologia um excellente criterio
    para separar as loucuras degenerativas das que o não são: todas as
    fórmas nosologicas exhibidas por loucos impregnados de herança
    pertenceriam ao primeiro grupo, como pertenceriam ao segundo as
    exteriorisadas por simples predispostos. A analyse clinica,
    denunciando-nos depois a symptomatologia e a marcha das psychoses dos
    dois grupos, dar-nos-hia meios de reconhecer as equivalencias
    hereditarias, se ellas existem, como pretendem Boucherau, Cotard e
    Christian. Nada mais simples: dado que uma psychose offerecesse os
    caracteres peculiares das hereditarias, seria um degenerado o seu
    portador; e, quando a herança morbida não podesse ser incriminada,
    outras causas teriam de invocar-se de _igual valor pathogenico_.

    Mas, precisamente succede que ninguem ainda determinou, nem _à priori_
    parece determinavel a tara hereditaria em que a _predisposição_ acaba e
    a _impregnação_ começa.

    Nem o _numero_ de psychoses ancestraes, nem a sua _convergencia_ nas
    duas linhas de progenitores constituem motivo sufficiente para affirmar
    a impregnação hereditaria e a degenerescencia de um louco, pois que a
    pratica nos depara ás vezes alienados que, tendo, aliás, uma pesada
    herança psychopatica n'uma das linhas directas ou mesmo uma herança
    convergente, exhibem fórmas nosologicas insusceptiveis de se
    distinguirem,–quer pelos symptomas, quer pela marcha, quer, emfim, pela
    terminação, das psychonevroses puras, isto é, das loucuras accidentaes,
    das loucuras dos simples predispostos.

    Em contraste com estes casos, outros apparecem de um caracter
    univocamente admittido como degenerativo, em que, todavia, a analyse
    clinica, até onde ella póde ser feita, não surprehende mais do que uma
    psychose em qualquer das linhas directas ou collateraes; isto succede,
    não raro, nos debeis e imbecis, procedentes de pae ou mãe alcoolicos.

    Dir-se-ha, talvez, que n'estas considerações abusivamente restringimos o
    papel e alcance da hereditariedade, fallando apenas de psychoses
    ancestraes, quando deveriamos com os auctores contemporaneos fallar
    tambem, pelo menos, das nevropatias.

    Mas quem não vê que n'este novo terreno o problema se complica sem se
    resolver? Que para a tara hereditaria de um louco contribuam sómente as
    psychoses ancestraes ou tambem as nevropatias, ou ainda, generalisando,
    as diatheses, é seguro que jámais se determinará _á priori_, onde a
    _predisposição_ termina e a _impregnação_ principia.

    Tacita ou explicitamente é isto reconhecido pelos proprios auctores que,
    á maneira de Magnan e de Krafft-Ebing, assignalam á degenerescencia uma
    pluralidade de causas. Buscando na observação clinica dos symptomas e na
    marcha das affecções mentaes os indicios da degenerescencia, é evidente
    que elles abandonam o exclusivo criterio etiologico.

    Mas se, d'este modo, uma fonte de divergencias cessa, outra, como vamos
    vêr, immediatamente surge.

    Que anomalias symptomaticas e evolutivas da mentalidade psychiatrica
    deverão ser consideradas como indicios ou estygmas de degenerescencia?

    A este proposito um evidente desaccordo recomeça. Não sendo as doenças
    mentaes em si mesmas senão anomalias do espirito, o problema posto é o
    de procurar a anormalidade no anormal. Com que criterio?

    Magnan não hesita em adoptar _o estado mental_ do louco antes da invasão
    da psychose. Ouçamos as suas proprias palavras: «O grande grupo dos
    predispostos simples, faz-se notar por um caracter essencial,
    invariavel, pathognomonico: até ao dia em que cahem na loucura, os
    doentes que o formam são julgados _normaes_; comparados aos individuos
    que nunca se tornam alienados, nenhuma differença apparente revellam. É
    que n'elles a predisposição não adquiriu ainda um grau sufficiente para
    se traduzir em caracteres especificos. Esta predisposição é latente e
    não produziu senão um resultado: fazer do cerebro um logar de menor
    resistencia e um terreno favoravel, crear uma situação em virtude da
    qual as causas de desorganisação do equilibrio intellectual terão uma
    influencia mais marcada do que em outros e uma acção mais duradoura e
    mais energica. O factor _predisposição_ é evidentemente muito variavel
    como importancia; o seu valor não póde apreciar-se, á falta de criterio
    proprio, a não ser entre dois casos extremos. Como quer que seja, a
    resistencia cerebral dos predispostos deve variar em razão inversa da
    importancia do factor _predisposição_ … N'uma outra grande divisão dos
    predispostos, collocamos os doentes cuja personalidade intellectual e
    moral é completamente transformada desde a base desde o nascimento pelo
    facto da aggravação progressiva do factor _predisposição_. Este grupo
    comprehende os predispostos com _degenerescencia_»[1].

    [1] Magnan et Legrain, _Les dégénérés_, pag. 58.

    Nada, como se vê, apparentemente mais claro: emquanto o simples
    predisposto é um ser _normal_ até á invasão da doença psychica, o
    degenerado é _ab ovo_ um ser anormal. Resta sómente determinar em que
    essa anormalidade consiste. Eis como Magnan se explica a este proposito:
    «Nos degenerados, a predisposição, qualquer que seja a sua natureza
    (hereditaria ou adquirida), produziu uma perturbação profunda das
    funcções psychicas. Desde a origem, desde o nascimento, fazem-se elles
    notar por anomalias quer do sentimento quer da intelligencia, dos
    instinctos e das inclinações, quer de todas estas espheras ao mesmo
    tempo. Adquiriram estygmas que os fazem reconhecer immediatamente e
    agrupar á parte. Além d'isso a tara degenerativa, de que são portadores,
    traduz-se muitas vezes por anomalias physicas, cuja significação vem
    junctar-se á das anomalias psychicas concomitantes. Todos estes estygmas
    são permanentes, nascem com o individuo e só com elle se extinguem. Em
    caso algum, estes doentes pensam, sentem ou actuam como os individuos de
    cerebro normal ou como os predispostos simples. Degenerados por
    accumulação de taras hereditarias, na quasi totalidade dos casos, podem
    sel-o, comtudo, algumas vezes pela intervenção de momentos etiologicos
    potentes, cuja acção desorganisadora se exerce sobretudo nas épocas da
    evolução cerebral, isto é, na primeira infancia: doenças agudas graves,
    taes como a variola, a escarlatina e a febre typhoide, acompanham-se de
    lesões cerebraes irreparaveis. Póde-se admittir ainda a acção
    degenerativa das doenças fetaes, dos traumatismos, n'uma palavra, de
    todas as causas sufficientemente fortes para lesar materialmente os
    centros nervosos ou para impedir o seu desenvolvimento. Mas, qualquer
    que seja a causa degenerativa, hereditaria ou adquirida, os productos
    são identicos, e entre si comparaveis; são portadores de caracteres
    clinicos proprios a fazel-os reconhecer em todos os casos, e
    significativos da tara hereditaria. Comparados aos seus ascendentes
    directos, differem d'elles totalmente no ponto de vista das aptidões
    cerebraes: encontram-se visivelmente n'uma situação mental inferior; são
    seres novos, anormaes, de mecanismo cerebral falseado. A sua situação
    mental define-se n'uma palavra: o equilibrio entre todas as funcções
    cerebraes acha-se destruido e não póde recuperar-se. Fóra mesmo dos
    casos de verdadeira alienação, esta falta de equilibrio é flagrante.
    Quando deliram, as suas concepções revestem caracteres pathognomonicos:
    surgem ás menores causas occasionaes, indicio de extrema instabilidade
    do equilibrio mental. Fóra das causas moraes, cuja influencia é aqui
    preponderante em razão da extrema emotividade particular d'estes
    individuos, os proprios momentos physiologicos–a puberdade, a
    menopause, os menstruos, a prenhez, são causas de perturbação cerebral.
    N'elles, as doenças geraes acompanham-se frequentemente de delirio; o
    cerebro tornou-se o _locus minimae resistentiae_. Os accessos delirantes
    não teem uma evolução propria: affectam todas as fórmas possiveis e
    substituem-se com a maior facilidade. A systematisação e a cohesão das
    concepções delirantes é muito fraca. Não existe nenhuma tendencia á
    systematisação progressiva. Emfim, os degenerados de maior tara são
    candidatos a uma demencia precoce, quer primitiva, quer
    post-delirante»[1].

    [1] Magnan et Legrain, _Obr. cit._, pag. 60 a 62.

    Como se infere d'estas passagens, que citamos _in extenso_, porque
    resumem toda a doutrina da Escóla de Sant'Anna sobre o assumpto, não ha
    verdadeiramente, como poderia parecer, um só criterio, _à posteriori_, o
    estado mental predelirante, para determinar a presença da
    degenerescencia, mas muitos. Ao lado, com effeito, de uma estygmatisação
    psychica, essencialmente consistindo n'um original e irreparavel
    desequilibrio de funcções cerebraes, apparece-nos a estygmatisação
    somatica, a feição polymorpha e a marcha irregular do delirio, e, ainda,
    a desproporção entre a causa occasional, que incide sobre o prediposto,
    e o effeito que ella produz.

    Ora, não é inteiramente facil conjugar entre si todos estes criterios.

    Se o degenerado é, como Magnan proclama, um _predisposto maximo_, e se o
    grau de predisposição é inversamente proporcional ao das causas
    occasionaes, porque não é degenerado o delirante chronico, no qual uma
    vesania irreparavel e perpetua surge as mais das vezes sem causa?
    Responderá Magnan que o delirante chronico é normal até á invasão da
    vesania. Mas quem não vê que, se o eminente alienista se não engana,
    affirmando tal, os seus dois criterios brigam? Por outro lado, como já
    vimos tambem, a estygmatisação physica apparece algumas vezes nos
    delirantes chronicos. Como conciliar, n'estes casos, o criterio das
    anomalias somaticas, indicando degenerescencia, com o da systematisação
    progressiva do delirio, que a exclue?

    Por outro lado, ainda, se o desequilibrio psychico é a principal
    caracteristica das degenerescencias, porque não considerar degenerados
    os hystericos e os epilepticos, tão profundamente desharmonicos sempre
    não manifestações da vida cerebral?

    O criterio clinico de Krafft-Ebing é mais extenso que o de Magnan. A
    presença de um estado de desequilibrio mental antes da invasão da
    doença, sendo para o psychiatra allemão de uma altissima importancia,
    não constitue; comtudo, como para o francez, um caracter essencial e
    imprescindivel do diagnostico da degenerescencia. Fazendo, com enfeito,
    a distincção entre os predispostos simples e os degenerados,
    Krafft-Ebing escreve: «Póde ser objecto de discussão saber se um
    individuo normal até ao apparecimento da psychose, mas procedente de
    geração psychopatica, deve collocar-se n'um ou n'outro grupo»[1]. O
    valor maior ou menor da causa occasional póde servir para dissipar as
    duvidas a este proposito, pois que um dos caracteres distinctivos das
    psychoses dos degenerados reside precisamente no facto da sua eclosão
    espontanea ou sob a influencia de minimos agentes provocadores. Este
    criterio, sobrelevando, na doutrina de Krafft-Ebing, o da presença de um
    desequilibrio mental anterior á psychose, alarga o ambito da
    degenerescencia, introduzindo ahi doenças, que Magnan excluiria sob
    pretexto da normalidade do individuo até á invasão d'ellas. Estão n'este
    caso, por exemplo, alguns delirios systematisados post-menopausicos.

    [1] Krafft-Ebing, _Trattato clinico pratico delle malattie mentali_,
    trad. It., vol. II, pag. 3.

    Krafft-Ebing separa-se ainda de Magnan, fazendo da periodicidade um dos
    signaes das psychoses degenerativas, no que é seguido por consideravel
    numero de psychiatras.

    Os confrontos e citações feitos bastam para mostrar como são numerosas
    as dissidencias dos auctores sobre a constituição nosologica do grupo
    dos degenerados.

    Concluiremos com Pierret que a _degenerescencia não é uma doutrina
    medica_ e que _deve reputar-se um crime ensinal-a?_. A nosso vêr, tem
    tanto de radical e temeraria, como de estreita, uma similhante opinião;
    proclamal-a, equivale a desconhecer que a maior parte dos progressos
    theoricos da psychiatria se devem precisamente á introducção d'esse
    conceito, que, ainda vago e controvertido, póde, comtudo, precisar-se.
    Porque, devemos notal-o, se as divergencias á hora actual são muitas,
    não são poucos, nem de insignificante valor no terreno da nosologia, os
    pontos sobre que se estabeleceu um definitivo accordo. O que a nós se
    nos affigura é que todas as difficuldades e todos os debates n'este
    assumpto procedem exclusivamente da falta de um ponto de vista geral e
    superior.

    Quer considerem a degenerescencia nas suas causas, quer nas suas
    manifestações clinicas, teem os alienistas contemporaneos tratado esta
    noção como se ella houvesse nascido no terreno da psychiatria e d'elle
    fosse tributaria, quando a verdade é que, referivel a todos os seres
    vivos, ella pertence á biologia, onde tem um significado que não é
    licito esquecer, e que, nos seus traços essenciaes, deverá subsistir,
    quaesquer que sejam as suas applicações.

    Isto viu lucidamente Morel, quando, ao trazer para a pathologia mental
    essa noção, subordinou o seu sentido psychiatrico ao anthropologico, e
    este ao da biologia. Infelizmente, o preconceito religioso não permittiu
    a este homem de genio fazer de um modo correcto essa subordinação, em si
    mesma necessaria e eminentemente philosophica.

    O que é, na sua inicial accepção biologica, a degenerescencia? O desvio
    pejorativo de um typo natural, a perda, no individuo, das qualidades
    caracteristicas da especie. Anthropologicamente considerada, a
    degenerescencia não póde, pois, significar senão a inferioridade do
    individuo em relação ao typo natural humano. Mas qual é esse typo? Foi a
    este proposito que na doutrina de Morel se insinuou o prejuizo
    theologico: esse typo, conservado nas tradições sagradas, teria sido o
    homem primitivo, paradisiaco depositario de todas as perfeições
    especificas, mas condemnado, _pelo grande facto da queda original_, a
    condições degradantes de lucta com a natureza.

    A conclusão a tirar d'este modo de vêr, seria que todos os homens são
    degenerados; e se, com gravissima offensa da logica, Morel a evitou, não
    foi senão introduzindo abusivamente a noção de _doença_ no conceito de
    degenerescencia, que define como _desvio morbido de um typo primitivo_.
    A que vem aqui o extranho qualificativo? Se existiu um typo humano
    especificamente perfeito, que as condições, para elle novas, de
    conflicto com o mundo começaram a degradar, é evidente que essas
    condições, pezando sobre os seus descendentes e imprimindo-lhes
    caracteres, que a hereditariedade transmitte, são causas para todos
    elles de mais ou menos extensos desvios. E estes, ou são sempre morbidos
    ou não o são nunca.

    Para escapar a esta conclusão, distinguiu Morel entre si essas causas
    degradativas, affirmando que umas se limitam a provocar variedades ou
    _raças_, emquanto outras conduzem a verdadeiras _monstruosidades_, de
    existencia felizmente limitada por uma maravilhosa e providencial
    esterilidade. D'estas duas ordens de desvios, só os ultimos
    constituiriam degenerescencias, segundo Morel.

    Faz dó vêr um homem de genio a debater-se contra phantasmas; e mais
    entristece reconhecer que os seus erros se transmittiram até nós,
    reapparecendo em trabalhos contemporaneos, como os de Magnan.

    Quem não vê que os iniciaes desvios de typo normal, qualquer que elle
    seja, podem, por condições imprevistas de cruzamento, progredir ou
    attenuar-se? E, sendo assim, quem não vê tambem que uma anomalia de
    ordem psychica ou moral póde tanto desvanecer-se nos descendentes como
    transmittir-se e accentuar-se até á monstruosidade? O proprio Morel,
    reconhecendo a tendencia da natureza á reconstituição do typo especifico
    normal, admittiu a _regeneração_ ao lado da _degenerescencia_. A
    monstruosidade não é, pois, a degenerescencia mesma, mas o seu termo, o
    seu limite, aquillo para que no processo degradativo se caminha, dadas
    infelizes condições geradoras.

    Mas, se o criterio de Morel foi falseado pela intervenção de um extranho
    elemento religioso, é certo que a sua maneira de atacar o problema é a
    unica legitima.

    É, com effeito, como um desvio do typo humano que a degenerescencia tem
    de ser definida em anthropologia. Sómente, esse typo tem de ser
    procurado, não nos dominios da tradição e para traz de nós, mas no
    terreno da previsão scientifica e para diante. Não sendo o homem
    primitivo da lenda, que a anthropologia reduziu ás humildes proporções
    de um animal apenas differenciado dos mamiferos superiores, esse typo é
    um ideal para que podemos suppôr que a humanidade caminha e de que, na
    sua evolução, procura incessantemente approximar-se.

    Mas como determinar-lhe os attributos sem cair nas incertezas da
    phantasia? Surprehendendo as linhas de evolução physica e psychica da
    nossa especie a partir d'esse remoto representante selvagem até hoje.
    Assim, para só fallarmos da evolução psychica, nota-se que,
    intellectualmente, o homem partiu da ideação theologica para attingir a
    scientifica, que, nos dominios do sentimento, derivou de um egoismo
    feroz para chegar a affectos altruistas, emfim, que, no campo da acção,
    procedeu de um automatismo impulsivo para conquistar a vontade.
    Conhecida esta orientação, está achado o meio de approximadamente
    constituir o typo, cujos regressivos desvios, sejam quaes forem as
    causas que os provoquem, constituem degenerescencias no sentido
    anthropologico do termo.

    Este sentido, porém, não é precisamente o da psychiatria.

    Anthropologicameme considerada, a loucura é sempre uma degenerescencia,
    porque em todas as suas multiplas fórmas implica um desvio regressivo,
    total ou parcial, extenso ou limitado, provisorio ou definitivo do typo
    que definimos.

    Psychiatricamente, porém, não é assim. Se o desvio é reparavel dentro da
    vida individual, se elle constitue um accidente ephemero, dependendo
    muito menos de uma falta inicial e congenita de resistencia do que da
    gravidade e continuidade das causas productoras, a loucura não se
    considera degenerativa; é-o, pelo contrario, se constitue um estado
    irreparavel, subsistente, espontaneo ou derivado de insignificantes
    causas e accusando, portanto, uma inferioridade constitucional.

    Mas já nas loucuras não degenerativas, nas psychonevroses, o germe da
    degenerescencia existe; cruzamentos infelizes o desenvolverão na
    descendencia, mercê da hereditariedade; e eis porque, podendo ter as
    mais variadas causas, as loucuras degenerativas teem sido chamadas
    _hereditarias_. Por outro lado, nas fórmas degenerativas menos graves, a
    regeneração é ainda possivel, mercê de cruzamentos felizes, pois que a
    hereditariedade tanto capitalisa as boas como as mas tendencias. Isto é
    dizer que a distincção psychiatrica das psychonevroses e das
    degenerescencias não tem nada de absoluta, desde que, em vez de
    considerarmos os casos extremos das duas escalas, fixamos os mais
    proximos.

    Dizer com Magnan que o _atavismo_ não implica degenerescencia, porque um
    typo regressivo seria _normal_, emquanto que um degenerado é um
    _doente_, que o primeiro, entregue a si, caminharia para diante, como
    fizeram os o contemporaneos da época por elle representada, ao passo que
    o segundo marcharia para a extincção pela infecundidade, é commetter um
    duplo erro: não comprehender que o atavismo humano é sempre parcial e
    incompleto, consistindo na revivescencia _d'algumas_ qualidades
    ancestraes, e não reconhecer que a regeneração aos degenerados
    superiores se torna, em certas condições, possivel. Pois é acaso fatal
    que a descendencia de um phobico ou de um impulsivo, que são para Magnan
    incontestaveis degenerados, venha a liquidar pela idiotia esteril?

    E esse phobico e esse impulsivo não são, pelo facto mesmo do seu
    _terror_ e do seu _automatismo_ indisciplinado, exemplares de atavismo
    parcial?

    Comprehende-se que, a não fazermos um livro do que deve ser apenas um
    final capitulo d'este _Ensaio_, nos cumpre suspender considerações, que
    o assumpto comporta, mas que se não prendem immediatamente com o nosso
    thema. O que acabamos de dizer sobre as degenerescencia em geral,
    conjugando-se com o que foi dito sobre o atavismo intellectual dos
    delirantes systematisados, justifica largamente a conclusão de que a
    Paranoia é uma degenerescencia.

    BIBLIOGRAPHIA

    TRABALHOS FRANCEZES:

    FOVILLE–_La folie avec prédominence du délire des grandeurs_;

    GARNIER–_Des idées de grandeur dans le délire de persécutions_;

    GÉRENTE–_Du délire chronique_;

    KÉRAVAL–_Des délires plus on moins coherents designés sons le nom de
    Paranoia_ (Archives de Neurologie, vol. XXIX);

    LEGRAIN–_Du délire chez les dégénérés_;

    LASÈGUE–_Le délire de persécutions_;

    MAGNAN–_Le délire chronique à evolution systematique_;

    MAGNAN–_Leçons cliniques sur les maladies mentales_;

    MAGNAN ET LEGRAIN–_Les dégénérés_;

    RÉGIS–_Manuel pratique de médecine mentale_;

    SÉGLAS–_La Paranoia_ (Archives de Neurologie, vol. XIII).

    TRABALHOS ALLEMÃES:

    CRAMER–_Abgrenzung und Differencial Diagnose der Paranoia_ (Allg.
    Zeitschr. f. Psychiatrie, vol. II);

    FRITSCH–_Die Verwirrtheit_ (Jahbücher f. Psych., vol. II);

    KRAFFT-EBING–_Lehrbuch der Psychiatrie_;

    KRAEPELIN–_Compendium der Psychiatrie_;

    MEYNERT–_Klinische Vorlesüngen über die Psychiatrie_;

    MENDEL–_Paranoia_ (Real Encyclopedie);

    MERKLIN–_Studien über die primäre Verrücktheit_;

    SCHÜLE–_Klinische Psychiatrie_;

    SALGO–_Compendium der Psychiatrie_

    WERNER–_Die Paranoia_.

    TRABALHOS ITALIANOS:

    AMADEI E TONNINI–_La Paranoia e la sue forme_ (Archivio italiano per le
    malattie nervose, 83-84);

    BUCCOLA–_Sui delirii sistematisati_ (Rivista di Freniatria, vol. VIII);

    TANZI–_La Paranoia_ (Rivista di Freniatria, vol. x);

    TANZI E RIVA–_La Paranoia_ (Rivista di Freniatria, vol. X, XI e XII);

    TONNINI–_La Paranoia secundaria_ (Rivista di Freniatria, vol. XIII).

    TRABALHOS INGLEZES E NORTE-AMERICANOS:

    CLOUSTON–_Clinical lectures on mental diseases_;

    HAMMOND–_A Treatise on insanity_;

    HAC TUKE AND BUCKNILL–_A Manual of Psychological medicine_;

    MAUDSLEY–_Pathlogy of Mind_;

    SPITZKA–_A Manual of Insanity_.

    INDICE

    PREFACIO

    PRIMEIRA PARTE

    HISTORIA DOS DELIRIOS SYSTEMATISADOS

    I–PHASE INICIAL

    De Areteo a Esquirol–Confusão dos delirios systematisados com a
    melancolia–A monomania intellectual e as suas fórmas depressiva e
    expansiva.

    II–PHASE ANALYTICA

    De Lasègue a J. Falret e de Griesinger a Snell e Sander–O delirio de
    perseguições; a megalomania; o delirio dos perseguidores; a Verrücktheit
    secundaria; a Verrücktheit originaria–Começo de interpretação
    pathogenica.

    III–PHASE SYNTHETICA

    De Morel a Magnan; de Westphal a Cramer; de Buccola a Tanzi e Riva–A
    loucura hypocondriaca; o delirio chronico; a loucura parcial; a
    Verrücktheit aguda e chronica; a Paranoia; a delusional
    insanity–Determinação pathogenica.

    SEGUNDA PARTE

    EXAME CRITICO DO CONCEITO DE PARANOIA

    I–O DELIRIO CHRONICO

    A etiologia; a marcha; o prognostico–Confronto com os delirios
    polymorphos–A passagem do periodo persecutorio ao ambicioso não é
    vulgar; a passagem á demencia é excepcional–O delirante chronico é um
    degenerado; importante observação pessoal–A prognose dos delirios
    polymorphos é muitas vezes a do Delirio Chronico–Dois conceitos de
    Delirio Chronico no espirito de Magnan; génese do segundo.

    II–A VERRÜCKTHEIT AGUDA

    Dois grupos de psychoses sob a mesma designação; a confusão mental e os
    delirios polymorphos–A Verrücktheit e os delirios incoherentes, critica
    das opiniões de Schüle–A Verrücktheit e os delirios systematisados de
    marcha aguda; a critica das opiniões de Krafft-Ebing–Observação
    pessoal–Dissociação dos conceitos de Paranoia e Verrücktheit.

    III–A VERRÜCKTHEIT SECUNDARIA

    Os delirios systematisados que succedem ás psychonevroses; sua
    interpretação pathogenica–A opinião de Tonnini; modificação introduzida
    –Dissociação dos conceitos de Paranoia e Verrücktheit.

    IV–O RACIOCINIO E OS DELIRIOS PARANOICOS

    Erros doutrinarios de Lasègue e Foville sobre a interpretação
    pathogenica dos delirios systematisados; como se perpetuaram na
    psychiatria francesa–A autoobservação e o raciocinio não representam um
    papel na génese dos delirios paranoicos–Depoimento dos factos–A
    primitividade dos delirios paranoicos; sua origem ideativa.

    V–AS ALLUCINAÇÕES E OS DELIRIOS PARANOICOS

    VI–AS OBSESSÕES E OS DELIRIOS PARANOICOS.

    VII–A PARANOIA E A DEGENERESCENCIA

    Extensão do conceito de degenerescencia; desaccordo dos auctores–Causas
    de degenerescencia; opiniões diversas–A degenerescencia e a observação
    clinica; modo de vêr de Magnan; opinião de Krafft-Ebing–Necessidade de
    um ponto de vista geral; seu caracter anthropologico–A definição de
    Morel; o seu defeito essencial–A noção do atavismo em psychiatria; as
    idéas de Magnan e a sua falta de fundamento–Ponto de vista de Tanzi e
    Riva; documentos justificativos–A Paranoia é uma degenerescencia.

    BIBLIOGRAPHIA

  • A Cidade e as Serras

    A Cidade e as Serras

    Aproximadamente 69.974 palavras.

    EÇA DE QUEIROZ

    A CIDADE E AS SERRAS

    PORTO

    LIVRARIA CHARDRON

    De Lello & Irmão, editores

    1901

    Todos os direitos reservados

    EÇA DE QUEIROZ

    A CIDADE E AS SERRAS

    PORTO

    LIVRARIA CHARDRON

    De Lello & Irmão, editores

    1901

    Todos os direitos reservados

    Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao cidadão
    Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que, para a garantia
    que lhe offerece a lei n.^o 496 de 1 d'Agosto de 1898, fez o competente
    deposito na Bibliotheca nacional, segundo a determinação do art. 13.^o
    da mesma Lei.

    _Porto–Imprensa Moderna_

    [Figura de Eça de Queirós]

    A CIDADE E AS SERRAS

    Obras do mesmo auctor:

    *Revista de Portugal.* 4 grossos volumes 12$000

    *As minas de Salomão.* 1 volume $600

    *Os Maias.* 2 grossos volumes 2$000

    *O crime do padre Amaro.* Terceira edição inteiramente refundida,
    recomposta, e differente na fórma e na acção da edição primitiva. 1 grosso
    volume 1$200

    *O primo Bazilio.* Quarta edição. 1 grosso volume 1$000

    *A Reliquia.* 1 grosso volume 1$000

    *O Mandarim.* Quarta edição. 1 volume $500

    *Correspondencia de Fradique Mendes.* 1 volume $600

    *A illustre casa de Ramires.* 1 volume 1$000

    A CIDADE E AS SERRAS

    I

    O meu amigo Jacintho nasceu n'um palacio, com cento e nove contos de
    renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e d'olival.

    No Alemtejo, pela Extremadura, atravez das duas Beiras, densas sebes
    ondulando por collina e valle, muros altos de boa pedra, ribeiras,
    estradas, delimitavam os campos d'esta velha familia agricola que já
    entulhava grão e plantava cepa em tempos d'el-rei D. Diniz. A sua quinta
    e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o
    Tua e o Tinhela, por cinco fartas legoas, todo o torrão lhe pagava fôro.
    E cerrados pinheiraes seus negrejavam desde Arga até ao mar d'Ancora.
    Mas o palacio onde Jacintho nascêra, e onde sempre habitára, era em
    Paris, nos Campos Elyseos, n.^o 202.

    Seu avô, aquelle gordissimo e riquissimo Jacintho a quem chamavam em
    Lisboa o _D. Galião_, descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta,
    rente d'um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou n'uma
    casca de laranja e desabou no lagedo. Da portinha da horta sahia n'esse
    momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baetão verde e
    botas altas de picador, que, galhofando e com uma força facil, levantou
    o enorme Jacintho–até lhe apanhou a bengala de castão d'ouro que rolára
    para o lixo. Depois, demorando n'elle os olhos pestanudos e pretos:

    –Oh Jacintho Galião, que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas
    pedras?

    E Jacintho, aturdido e deslumbrado, reconheceu o snr. Infante D. Miguel!

    Desde essa tarde amou aquelle bom Infante como nunca amára, apesar de
    tão guloso, o seu ventre, e apesar de tão devoto o seu Deus! Na sala
    nobre da sua casa (á Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do
    «seu Salvador», enfeitado de palmitos como um retabulo, e por baixo a
    bengala que as magnanimas mãos reaes tinham erguido do lixo. Emquanto o
    adoravel, desejado Infante penou no desterro de Vienna, o barrigudo
    senhor corria, sacudido na sua sege amarella, do botequim do Zé-Maria em
    Belem á botica do Placido nos Algibebes, a gemer as saudades do
    _anginho_, a tramar o regresso do _anginho_. No dia, entre todos
    bemdito, em que a _Perola_ appareceu á barra com o Messias, engrinaldou
    a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelão e lona onde D.
    Miguel, tornado S. Miguel, branco, d'aureola e azas de Archanjo, furava
    de cima do seu corcel d'Alter o Dragão do Liberalismo, que se estorcia
    vomitando a Carta. Durante a guerra com o «outro, com o pedreiro livre»
    mandava recoveiros a Santo Thyrso, a S. Gens, levar ao Rei fiambres,
    caixas de dôce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e bolsas de retroz
    atochadas de peças que elle ensaboava para lhes avivar o ouro. E quando
    soube que o snr. D. Miguel, com dois velhos bahus amarrados sobre um
    macho, tomára o caminho de Sines e do final desterro–Jacintho _Galião_
    correu pela casa, fechou todas as janellas como n'um luto, berrando
    furiosamente:

    –Tambem cá não fico! tambem cá não fico!

    Não, não queria ficar na terra perversa d'onde partia, esbulhado e
    escorraçado, aquelle Rei de Portugal que levantava na rua os Jacinthos!
    Embarcou para França com a mulher, a snr.^a D. Angelina Fafes (da tão
    fallada casa dos Fafes da Avellan); com o filho, o 'Cinthinho, menino
    amarellinho, mollesinho, coberto de caróços e leicenços; com a aia e com
    o moleque. Nas costas da Cantabria o paquete encontrou tão rijos mares
    que a snr.^a D. Angelina, esguedelhada, de joelhos na enxerga do
    beliche, prometteu ao Senhor dos Passos d'Alcantara uma corôa
    d'espinhos, de ouro, com as gottas de sangue em rubis do Pegu. Em
    Bayonna, onde arribaram, 'Cinthinho teve ithericia. Na estrada
    d'Orleans, n'uma noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam
    partiu, e o nedio senhor, a delicada senhora da casa da Avellan, o
    menino, marcharam tres horas na chuva e na lama do exilio até uma
    aldeia, onde, depois de baterem como mendigos a portas mudas, dormiram
    nos bancos d'uma taberna. No «Hotel dos Santos Padres», em Paris,
    soffreram os terrores d'um fogo que rebentára na cavalhariça, sob o
    quarto de _D. Galião_, e o digno fidalgo, rebolando pelas escadas em
    camisa, até ao pateo, enterrou o pé nú numa lasca de vidro. Então ergueu
    amargamente ao céo o punho cabelludo, e rugiu:

    –Irra! É de mais!

    Logo n'essa semana, sem escolher, Jacintho _Galião_ comprou a um
    Principe polaco, que depois da tomada de Varsovia se mettera frade
    cartuxo, aquelle palacete dos Campos Elyseos, n.^o 202. E sob o pesado
    ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sedas se enconchou,
    descançando de tantas agitações, n'uma vida de pachorra e de boa mesa,
    com alguns companheiros d'emigração (o desembargador Nuno Velho, o conde
    de Rabacena, outros menores), até que morreu de indigestão, d'uma
    lampreia d'escabeche que lhe mandára o seu procurador em Monte-mór. Os
    amigos pensavam que a snr.^a D. Angelina Fafes voltaria ao reino. Mas a
    boa senhora temia a jornada, os mares, as caleças que racham. E não se
    queria separar do seu Confessor, nem do seu Medico, que tão bem lhe
    comprehendiam os escrupulos e a asthma.

    –Eu, por mim, aqui fico no 202 (declarára ella), ainda que me faz falta
    a boa agua d'Alcolena… O 'Cinthinho, esse, em crescendo, que decida.

    O 'Cinthinho crescèra. Era um moço mais esguio e livido que um cirio, de
    longos cabellos corredios, narigudo, silencioso, encafuado em roupas
    pretas, muito largas e bambas; de noite, sem dormir, por causa da tosse
    e de suffocações, errava em camisa com uma lamparina atravez do 202; e
    os creados na copa sempre lhe chamavam a _Sombra_. N'essa sua mudez e
    indecisão de sombra surdira, ao fim do luto do papá, o gosto muito vivo
    de tornear madeiras ao torno: depois, mais tarde, com a melada flôr dos
    seus vinte annos, brotou n'elle outro sentimento, de desejo e de pasmo,
    pela filha do desembargador Velho, uma menina redondinha como uma rôla,
    educada n'um convento de Paris, e tão habilidosa que esmaltava, dourava,
    concertava relogios e fabricava chapéos de feltro. No outomno de 1851,
    quando já se desfolhavam os castanheiros dos Campos Elyseos, o
    'Cinthinho cuspilhou sangue. O medico, acarinhando o queixo e com uma
    ruga seria na testa immensa, aconselhou que o menino abalasse para o
    golfo Juan ou para as tepidas areias d'Arcachon.

    'Cinthinho porém, no seu afèrro de sombra, não se quiz arredar da
    Therezinha Velho, de quem se tornára, atravez de Paris, a muda, tardônha
    sombra. Como uma sombra, casou; deu mais algumas voltas ao torno; cuspiu
    um resto de sangue; e passou, como uma sombra.

    Tres mezes e tres dias depois do seu enterro o meu Jacintho nasceu.

    * * * * *

    Desde o berço, onde a avó espalhava funcho e ambar para afugentar a
    _Sorte-Ruim_, Jacintho medrou com a segurança, a rijeza, a seiva rica
    d'um pinheiro das dunas.

    Não teve sarampo e não teve lombrigas. As Letras, a Taboada, o Latim
    entraram por elle tão facilmente como o sol por uma vidraça. Entre os
    camaradas, nos pateos dos collegios, erguendo a sua espada de lata e
    lançando um brado de commando, foi logo o vencedor, o Rei que se adula,
    e a quem se cede a fructa das merendas. Na edade em que se lê Balzac e
    Musset nunca atravessou os tormentos da sensibilidade;–nem crepusculos
    quentes o retiveram na solidão d'uma janella, padecendo d'um desejo sem
    fórma e sem nome. Todos os seus amigos (eramos tres, contando o seu
    velho escudeiro preto, o Grillo) lhe conservaram sempre amizades puras e
    certas–sem que jámais a participação do seu luxo as avivasse ou fossem
    desanimadas pelas evidencias do seu egoismo. Sem coração bastante forte
    para conceber um amor forte, e contente com esta incapacidade que o
    libertava, do amor só experimentou o mel–esse mel que o amor reserva
    aos que o recolhem, á maneira das abelhas, com ligeireza, mobilidade e
    cantando. Rijo, rico, indifferente ao Estado e ao Governo dos Homens,
    nunca lhe conhecemos outra ambição além de comprehender bem as Ideias
    Geraes; e a sua intelligencia, nos annos alegres de escólas e
    controversias, círculava dentro das Philosophias mais densas como enguia
    lustrosa na agua limpa d'um tanque. O seu valor, genuino, de fino
    quilate, nunca foi desconhecido, nem desapreciado; e toda a opinião, ou
    mera facecia que lançasse, logo encontrava uma aragem de sympathia e
    concordancia que a erguia, a mantinha emballada e rebrilhando nas
    alturas. Era servido pelas cousas com docilidade e carinho;–e não
    recordo que jamais lhe estalasse um botão da camisa, ou que um papel
    maliciosamente se escondesse dos seus olhos, ou que ante a sua
    vivacidade e pressa uma gaveta perfida emperrasse. Quando um dia, rindo
    com descrido riso da Fortuna e da sua Roda, comprou a um sachristão
    hespanhol um Decimo de Loteria, logo a Fortuna, ligeira e ridente sobre
    a sua Roda, correu n'um fulgor, para lhe trazer quatro centas mil
    pesetas. E no ceu as Nuvens, pejadas e lentas, se avistavam Jacintho sem
    guarda chuva, retinham com reverencia as suas aguas até que elle
    passasse… Ah! o ambar e o funcho da snr.^a D. Angelina tinham
    escorraçado do seu destino, bem triumphalmente e para sempre, a
    _Sorte-Ruim_! A amoravel avó (que eu conheci obesa, com barba) costumava
    citar um soneto natalicio do desembargador Nunes Velho contendo um verso
    de boa lição:

    Sabei, senhora, que esta Vida é um rio…

    Pois um rio de verão, manso, translucido, harmoniosamente estendido
    sobre uma areia macia e alva, por entre arvoredos fragrantes e ditosas
    aldeias, não offereceria áquelle que o descesse n'um barco de cedro, bem
    toldado e bem almofadado, com fructas e Champagne a refrescar em gelo,
    um Anjo governando ao leme, outros Anjos puxando á sirga, mais segurança
    e doçura do que a Vida offerecia ao meu amigo Jacintho.

    Por isso nós lhe chamavamos «o Principe da Gran-Ventura»!

    * * * * *

    Jacintho e eu, José Fernandes, ambos nos encontramos e acamaradamos em
    Paris, nas Escólas do Bairro Latino–para onde me mandára meu bom tio
    Affonso Fernandes Lorena de Noronha e Sande, quando aquelles malvados me
    riscaram da Universidade por eu ter esborrachado, n'uma tarde de
    procissão, na Sophia, a cara sordida do dr. Paes Pitta.

    Ora n'esse tempo Jacintho concebêra uma Ideia… Este Principe concebêra
    a Ideia de que «o homem só é superiormente feliz quando é superiormente
    civilisado». E por homem civilisado o meu camarada entendia aquelle que,
    robustecendo a sua força pensante com todas as noções adquiridas desde
    Aristoteles, e multiplicando a potencia corporal dos seus orgãos com
    todos os mechanismos inventados desde Theramenes, creador da roda, se
    torna um magnifico Adão, quasí omnipotente, quasí omnisciente, e apto
    portanto a recolher dentro d'uma sociedade e nos limites do Progresso
    (tal como elle se comportava em 1875) todos os gozos e todos os
    proveitos que resultam de Saber e de Poder… Pelo menos assim Jacintho
    formulava copiosamente a sua Ideia, quando conversavamos de fins e
    destinos humanos, sorvendo bocks poeirentos, sob o toldo das cervejarias
    philosophicas, no Boulevard Saint-Michel.

    Este conceito de Jacintho impressionára os nossos camaradas de cenaculo,
    que tendo surgido para a vida intellectual, de 1866 a 1875, entre a
    batalha de Sadowa e a batalha de Sedan, e ouvindo constantemente, desde
    então, aos technicos e aos philosophos, que fôra a Espingarda-de-agulha
    que vencêra em Sadowa e fôra o Mestre-de-escóla quem vencêra em Sedan,
    estavam largamente preparados a acreditar que a felicidade dos
    individuos, como a das nações, se realisa pelo illimitado
    desenvolvimento da Mechanica e da Erudição. Um d'esses moços mesmo, o
    nosso inventivo Jorge Carlande, reduzíra a theoria de Jacintho, para lhe
    facilitar a circulação e lhe condensar o brilho, a uma fórma algebrica:

    Summa sciencia}
    X }= Summa felicidade
    Summa potencia}

    E durante dias, do Odeon á Sorbonna, foi louvada pela mocidade positiva
    a _Equação Metaphysica de Jacintho_.

    Para Jacintho, porém, o seu conceito não era meramente metaphysico e
    lançado pelo gozo elegante de exercer a razão especulativa:–mas
    constituia uma regra, toda de realidade e de utilidade, determinando a
    conducta, modalisando a vida. E já a esse tempo, em concordancia com o
    seu preceito–elle se surtira da _Pequena Encyclopedia dos Conhecimentos
    Universaes_ em setenta e cinco volumes e installára, sobre os telhados
    do 202, n'um mirante envidraçado, um telescopio. Justamente com esse
    telescopio me tornou elle palpavel a sua ideia, n'uma noite de agosto,
    de molle e dormente calor. Nos céos remotos lampejavam relampagos
    languidos. Pela Avenida dos Campos Elyseos, os fiacres rolavam para as
    frescuras do Bosque, lentos, abertos, cançados, transbordando de
    vestidos claros.

    –Aqui tens tu, Zé Fernandes, (começou Jacintho, encostado á janella do
    mirante) a theoria que me governa, bem comprovada. Com estes olhos que
    recebemos da Madre natureza, lestos e sãos, nós podemos apenas
    distinguir além, atravez da Avenida, n'aquella loja, uma vidraça
    alumiada. Mais nada! Se eu porém aos meus olhos juntar os dois vidros
    simples d'um binoculo de corridas, percebo, por traz da vidraça,
    presuntos, queijos, boiões de gelêa e caixas de ameixa sêcca. Concluo
    portanto que é uma mercearia. Obtive uma noção; tenho sobre ti, que com
    os olhos desarmados vês só o luzir da vidraça, uma vantagem positiva. Se
    agora, em vez d'estes vidros simples, eu usasse os do meu telescopio, de
    composição mais scientifica, poderia avistar além, no planeta Marte, os
    mares, as neves, os canaes, o recorte dos golphos, toda a geographia
    d'um astro que circula a milhares de leguas dos Campos Elyseos. É outra
    noção, e tremenda! Tens aqui pois o olho primitivo, o da Natureza,
    elevado pela Civilisação á sua maxima potencia de visão. E desde já,
    pelo lado do olho portanto, eu, civilisado, sou mais feliz que o
    incivilisado, porque descubro realidades do Universo que elle não
    suspeita e de que está privado. Applica esta prova a todos os orgãos e
    comprehendes o meu principio. Emquanto á intelligencia, e á felicidade
    que d'ella se tira pela incançavel accumulação das noções, só te peco
    que compares Renan e o Grillo… Claro é portanto que nos devemos cercar
    de Civilisação nas maximas proporções para gosar nas maximas proporções
    a vantagem de viver. Agora concordas, Zé Fernandes?

    Não me parecia irrecusavelmente certo que Renan fosse mais feliz que o
    Grillo; nem eu percebia que vantagem espiritual ou temporal se côlha em
    distinguir atravez do espaço manchas n'um astro, ou atravez da Avenida
    dos Campos Elyseos presuntos n'uma vidraça. Mas concordei, porque sou
    bom, e nunca desalojarei um espirito do conceito onde elle encontra
    segurança, disciplina e motivo de energia. Desabotoei o collete, e
    lançando um gesto para o lado dos cafés e das luzes:

    –Vamos então beber, nas maximas proporções, _brandy and soda_, com
    gelo!

    Por uma conclusão bem natural, a ideia de Civilisação, para Jacintho,
    não se separava da imagem de Cidade, d'uma enorme Cidade, com todos os
    seus vastos orgãos funccionando poderosamente. Nem este meu
    super-civilisado amigo comprehendia que longe de Armazens servidos por
    tres mil caixeiros; e de Mercados onde se despejam os vergeis e lezirias
    de trinta provincias; e de Bancos em que retine o ouro universal; e de
    Fabricas fumegando com ancia, inventando com ancia; e de Bibliothecas
    abarrotadas, a estalar, com a papelada dos seculos; e de fundas milhas
    de ruas, cortadas, por baixo e por cima, de fios de telegraphos, de fios
    de telephones, de canos de gazes, de canos de fezes; e da fila atroante
    dos omnibus, tramways, carroças, velocipedes, calhambeques, parelhas de
    luxo; e de dois milhões d'uma vaga humanidade, fervilhando, a offegar,
    atravez da Policia, na busca dura do pão ou sob a illusão do gozo–o
    homem do seculo XIX podesse saborear, plenamente, a delicia de viver!

    Quando Jacintho, no seu quarto do 202, com as varandas abertas sobre os
    lilazes, me desenrolava estas imagens, todo elle crescia, illuminado.
    Que creação augusta, a da Cidade! Só por ella, Zé-Fernandes, só por
    ella, póde o homem soberbamente affirmar a sua alma!…

    –Oh Jacintho, e a religião? Pois a religião não prova a alma?

    Elle encolhia os hombros. A religião! A religião é o desenvolvimento
    sumptuoso de um instincto rudimentar, commum a todos os brutos, o
    terror. Um cão lambendo a mão do dono, de quem lhe vem o osso ou o
    chicote, já constitue toscamente um devoto, o consciente devoto,
    prostrado em rezas ante o Deus que distribue o céo ou o inferno!… Mas
    o telephone! o phonographo!

    –Ahi tens tu, o phonographo!… Só o phonographo, Zé Fernandes, me faz
    verdadeiramente sentir a minha superioridade de sêr pensante e me separa
    do bicho. Acredita, não ha senão a Cidade, Zé Fernandes, não ha senão a
    Cidade!

    E depois (accrescentava) só a Cidade lhe dava a sensação, tão necessaria
    á vida como o calor, da solidariedade humana. E no 202, quando
    considerava em redor, nas densas massas do casario de Paris, dois
    milhões de sêres arquejando na obra da Civilisação (para manter na
    natureza o dominio dos Jacinthos!) sentia um socego, um conchego, só
    comparaveis ao do peregrino, que, ao atravessar o deserto, se ergue no
    seu dromedario, e avista a longa fila da caravana marchando, cheia de
    lumes e de armas…

    Eu murmurava, impressionado:

    –Caramba!

    Ao contrario no campo, entre a inconsciencia e a impassibilidade da
    Natureza, elle tremia com o terror da sua fragilidade e da sua solidão.
    Estava ahi como perdido n'um mundo que lhe não fosse fraternal; nenhum
    silvado encolheria os espinhos para que elle passasse; se gemesse com
    fome nenhuma arvore, por mais carregada, lhe estenderia o seu fructo na
    ponta compassiva d'um ramo. Depois, em meio da Natureza, elle assistia á
    subita e humilhante inutilisação de todas as suas faculdades superiores.
    De que servia, entre plantas e bichos–ser um Genio ou ser um Santo? As
    searas não comprehendem as _Georgicas_; e fôra necessario o socorro
    ancioso de Deus, e a inversão de todas as leis naturaes, e um violento
    milagre para que o lobo de Agubio não devorasse S. Francisco d'Assis,
    que lhe sorria e lhe estendia os braços e lhe chamava «meu irmão lobo»!
    Toda a intellectualidade, nos campos, se esterilisa, e só resta a
    bestialidade. N'esses reinos crassos do Vegetal e do Animal duas unicas
    funcções se mantêm vivas, a nutritiva e a procreadora. Isolada, sem
    occupação, entre focinhos e raizes que não cessam de sugar e de pastar,
    suffocando no calido bafo da universal fecundação, a sua pobre alma toda
    se engelhava, se reduzia a uma migalha d'alma, uma fagulhasinha
    espiritual a tremeluzir, como morta, sobre um naco de materia; e n'essa
    materia dois instinctos surdiam, imperiosos e pungentes, o de devorar e
    o de gerar. Ao cabo de uma semana rural, de todo o seu sêr tão
    nobremente composto só restava um estomago e por baixo um phallus! A
    alma? Sumida sob a besta. E necessitava correr, reentrar na Cidade,
    mergulhar nas ondas lustraes da Civilisação, para largar n'ellas a
    crosta vegetativa, e resurgir re-humanisado, de novo espiritual e
    Jacinthico!

    E estas requintadas metaphoras do meu amigo exprimiam sentimentos
    reaes–que eu testemunhei, que muito me divertiram, no unico passeio que
    fizemos ao campo, á bem amavel e bem sociavel floresta de Montmorency.
    Oh delicias d'entremez, Jacintho entre a Natureza! Logo que se afastava
    dos pavimentos de madeira, do macadam, qualquer chão que os seus pés
    calcassem o enchia de desconfiança e terror. Toda a relva, por mais
    crestada, lhe parecia reçumar uma humidade mortal. De sob cada torrão,
    da sombra de cada pedra, receava o assalto de lacraus, de viboras, de
    fórmas rastejantes e viscosas. No silencio do bosque sentia um lugubre
    despovoamento do Universo. Não tolerava a familiaridade dos galhos que
    lhe roçassem a manga ou a face. Saltar uma sebe era para elle um acto
    degradante que o retrogradava ao macaco inicial. Todas as flôres que não
    tivesse já encontrado em jardins, domesticadas por longos seculos de
    servidão ornamental, o inquietavam como venenosas. E considerava d'uma
    melancolia funambulesca certos modos e fórmas do Sêr inanimado, a pressa
    esperta e vã dos regatinhos, a careca dos rochedos, todas as contorsões
    do arvoredo e o seu resmungar solemne e tonto.

    Depois d'uma hora, n'aquelle honesto bosque de Montmorency, o meu pobre
    amigo abafava, apavorado, experimentando já esse lento mingoar e sumir
    d'alma que o tornava como um bicho entre bichos. Só desannuviou quando
    penetramos no lagêdo e no gaz de Paris–e a nossa vittoria quasi se
    despedaçou contra um omnibus retumbante, atulhado de cidadãos. Mandou
    descer pelos Boulevards, para dissipar, na sua grossa sociabilidade,
    aquella materialisação em que sentia a cabeça pesada e vaga como a d'um
    boi. E reclamou que eu o acompanhasse ao theatro das Variedades para
    sacudir, com os estribilhos da _Femme à Papa_, o rumor importuno que lhe
    ficára dos melros cantando nos choupos altos.

    Este delicioso Jacintho fizera então vinte e tres annos, e era um
    soberbo moço em quem reapparecêra a força dos velhos Jacinthos ruraes.
    Só pelo nariz, afilado, com narinas quasi transparentes, d'uma
    mobilidade inquieta, como se andasse fariscando perfumes, pertencia ás
    delicadezas do seculo XIX. O cabello ainda se conservava, ao modo das
    éras rudes, crespo e quasi lanigero: e o bigode, como o d'um Celta,
    cahia em fios sedosos, que elle necessitava aparar e frizar. Todo o seu
    fato, as espessas gravatas de setim escuro que uma perola prendia, as
    luvas de anta branca, o verniz das botas, vinham de Londres em caixotes
    de cedro; e usava sempre ao peito uma flôr, não natural, mas composta
    destramente pela sua ramalheteira com petalas de flôres dessemelhantes,
    cravo, azalea, orchidea ou tulipa, fundidas na mesma haste entre uma
    leve folhagem de funcho.

    * * * * *

    Em 1880, em Fevereiro, n'uma cinzenta e arripiada manhã de chuva, recebi
    uma carta de meu bom tio Affonso Fernandes, em que, depois de
    lamentações sobre os seus setenta annos, os seus males hemorroidaes, e a
    pesada gerencia dos seus bens «que pedia homem mais novo, com pernas
    mais rijas»–me ordenava que recolhesse á nossa casa de Guiães, no
    Douro! Encostado ao marmore partido do fogão, onde na véspera a minha
    Nini deixára um espartilho embrulhado no _Jornal dos Debates_, censurei
    severamente meu tio que assim cortava em botão, antes de desabrochar, a
    flôr do meu Saber Juridico. Depois n'um Post-Scriptum elle
    accrescentava–«O tempo aqui está lindo, o que se póde chamar de rosas,
    e tua santa tia muito se recommenda, que anda lá pela cozinha, porque
    vai hoje em trinta e seis annos que casámos, temos cá o abbade e o
    Quintaes a jantar, e ella quiz fazer uma sopa dourada».

    Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa dourada da
    tia Vicencia. Ha quantos annos não a provava, nem o leitão assado, nem o
    arroz de fôrno da nossa casa! Com o tempo assim tão lindo, já as mimosas
    do nosso pateo vergariam sob os seus grandes cachos amarellos. Um pedaço
    de céo azul, do azul de Guiães, que outro não ha tão lustroso e macio,
    entrou pelo quarto, alumiou, sobre a poida tristeza do tapete, relvas,
    ribeirinhos, malmequeres e flôres de trevo de que meus olhos andavam
    agoados. E, por entre as bambinellas de sarja, passou um ar fino e forte
    e cheiroso de serra e de pinheiral.

    Assobiando um _fado_ meigo tirei debaixo da cama a minha velha mala, e
    metti solicitamente entre calças e piugas um Tratado de Direito Civil,
    para aprender emfim, nos vagares da aldeia, estendido sob a faia, as
    leis que regem os homens. Depois, n'essa tarde, annunciei a Jacintho que
    partia para Guiães. O meu camarada recuou com um surdo gemido de espanto
    e piedade:

    –Para Guiães!… Oh Zé Fernandes, que horror!

    E toda essa semana me lembrou solicitamente confortos de que eu me
    deveria prover para que pudesse conservar, nos ermos silvestres, tão
    longe da Cidade, uma pouca d'alma dentro d'um pouco de corpo. «Leva uma
    poltrona! Leva a _Encyclopedia Geral_! Leva caixas de aspargos!…»

    Mas para o meu Jacintho, desde que assim me arrancavam da Cidade, eu era
    arbusto desarraigado que não reviverá. A magoa com que me acompanhou ao
    comboio conviria excellentemente ao meu funeral. E quando fechou sobre
    mim a portinhola, gravemente, supremamente, como se cerra uma grade de
    sepultura, eu quasi solucei–com saudades minhas.

    Cheguei a Guiães. Ainda restavam flôres nas mimosas do nosso pateo; comi
    com delicias a sopa dourada da tia Vicencia; de tamancos nos pés assisti
    á ceifa dos milhos. E assim de colheitas a lavras, crestando ao sol das
    eiras, caçando a perdiz nos matos geados, rachando a melancia fresca na
    poeira dos arraiaes, arranchando a magustos, serandando á candeia,
    atiçando fogueiras de S. João, enfeitando presepios de Natal, por alli
    me passaram docemente sete annos, tão atarefados que nunca logrei abrir
    o Tratado de Direito Civil, e tão singelos que apenas me recordo quando,
    em vésperas de S. Nicolau, o abbade cahiu da egua á porta do Braz das
    Córtes. De Jacintho só recebia raramente algumas linhas, escrevinhadas á
    pressa por entre o tumulto da Civilisação. Depois, n'um Setembro muito
    quente, ao lidar da vindima, meu bom tio Affonso Fernandes morreu, tão
    quietamente, Deus seja louvado por esta graça, como se cala um
    passarinho ao fim do seu bem cantado e bem voado dia. Acabei pela aldeia
    a roupa do luto. A minha afilhada Joanninha casou na matança do porco.
    Andaram obras no nosso telhado. Voltei a Paris.

    II

    Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arripiado e cinzento, quando eu
    desci os Campos Elyseos em demanda do 202. Adiante de mim caminhava,
    levemente curvado, um homem que, desde as botas rebrilhantes até ás abas
    recurvas do chapéo d'onde fugiam anneis d'um cabello crespo, reçumava
    elegancia e a familiaridade das coisas finas. Nas mãos, cruzadas atraz
    das costas, calçadas d'anta branca, sustentava uma bengala grossa com
    castão de crystal. E só quando elle parou ao portão do 202 reconheci o
    nariz afilado, os fios do bigode corredios e sedosos.

    –Oh Jacintho!

    –Oh Zé Fernandes!

    O abraço que nos enlaçou foi tão alvoroçado que o meu chapéo rolou na
    lama. E ambos murmuravamos, commovidos, entrando a grade:

    –Ha sete annos!…

    –Ha sete annos!…

    E, todavia, nada mudára durante esses sete annos no jardim do 202! Ainda
    entre as duas aleas bem areadas se arredondava uma relva, mais lisa e
    varrida que a lã d'um tapete. No meio o vaso corinthico esperava Abril
    para resplandecer com tulipas e depois Junho para transbordar de
    margaridas. E ao lado das escadas limiares, que uma vidraçaria toldava,
    as duas magras Deusas de pedra, do tempo de D. Galião, sustentavam as
    antigas lampadas de globos foscos, onde já silvava o gaz.

    Mas dentro, no peristillo, logo me surprehendeu um elevador installado
    por Jacintho–apesar do 202 ter sómente dois andares, e ligados por uma
    escadaria tão doce que nunca offendêra a asthma da snr.^a D. Angelina!
    Espaçoso, tapetado, elle offerecia, para aquella jornada de sete
    segundos, confortos numerosos, um divan, uma pelle d'urso, um roteiro
    das ruas de Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros. Na
    antecamara, onde desembarcamos, encontrei a temperatura macia e tepida
    d'uma tarde de Maio, em Guiães. Um creado, mais attento ao thermometro
    que um piloto á agulha, regulava destramente a bocca dourada do
    calorifero. E perfumadores entre palmeiras, como n'um terrasso santo de
    Benares, esparziam um vapor, aromatisando e salutarmente humedecendo
    aquelle ar delicado e superfino.

    Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado sêr:

    –Eis a civilisação!

    Jacintho empurrou uma porta, penetramos n'uma nave cheia de magestade e
    sombra, onde reconheci a Bibliotheca por tropeçar n'uma pilha monstruosa
    de livros novos. O meu amigo roçou de leve o dedo na parede: e uma corôa
    de lumes electricos, refulgindo entre os lavores do tecto, alumiou as
    estantes monumentaes, todas d'ebano. N'ellas repousavam mais de trinta
    mil volumes, encadernados em branco, em escarlate, em negro, com
    retoques d'ouro, hirtos na sua pompa e na sua auctoridade como doutores
    n'um concilio.

    Não contive a minha admiração:

    –Oh Jacintho! Que deposito!

    Elle murmurou, n'um sorriso descorado:

    –Ha que lêr, ha que lêr…

    Reparei então que o meu amigo emmagrecera: e que o nariz se lhe afilára
    mais entre duas rugas muito fundas, como as d'um comediante cançado. Os
    anneis do seu cabello lanigero rareavam sobre a testa, que perdera a
    antiga serenidade de marmore bem polido. Não frisava agora o bigode
    murcho, cahido em fios pensativos. Tambem notei que corcovava.

    Elle erguêra uma tapeçaria–entramos no seu gabinete de trabalho, que me
    inquietou. Sobre a espessura dos tapetes sombrios os nossos passos
    perderam logo o som, e como a realidade. O damasco das paredes, os
    divans, as madeiras, eram verdes, d'um verde profundo de folha de louro.
    Sêdas verdes envolviam as luzes electricas, dispersas em lampadas tão
    baixas que lembravam estrellas cahidas por cima das mesas, acabando de
    arrefecer e morrer: só uma rebrilhava, núa e clara, no alto d'uma
    estante quadrada, esguia, solitaria como uma torre n'uma planicie, e de
    que o lume parecia ser o pharol melancolico. Um biombo de laca verde,
    fresco verde de relva, resguardava a chaminé de marmore verde, verde de
    mar sombrio, onde esmoreciam as brazas d'uma lenha aromatica. E entre
    aquelles verdes reluzia, por sobre peanhas e pedestaes, toda uma
    Mechanica sumptuosa, apparelhos, laminas, rodas, tubos, engrenagens,
    hastes, friezas, rigidezas de metaes…

    Mas Jacintho batia nas almofadas do divan, onde se enterrára com um modo
    cançado que eu não lhe conhecia:

    –Para aqui, Zé Fernandes, para aqui! É necessario reatarmos estas
    nossas vidas, tão apartadas ha sete annos!… Em Guiães, sete annos! Que
    fizeste tu?

    –E tu, que tens feito, Jacintho?

    O meu amigo encolheu mollemente os hombros. Vivêra–cumprira com
    serenidade todas as funcções, as que pertencem á materia e as que
    pertencem ao espirito…

    –E accumulaste civilisação, Jacintho! Santo Deus… Está tremendo, o
    202!

    Elle espalhou em torno um olhar onde já não faiscava a antiga
    vivacidade:

    –Sim, ha confortos… Mas falta muito! A humanidade ainda está mal
    apetrechada, Zé Fernandes… E a vida conserva resistencias.

    Subitamente, a um canto, repicou a campainha do telephone. E emquanto o
    meu amigo, curvado sobre a placa, murmurava impaciente «_Está lá?–Está
    lá?_», examinei curiosamente, sobre a sua immensa mesa de trabalho, uma
    estranha e miuda legião de instrumentosinhos de nickel, d'aço, de cobre,
    de ferro, com gumes, com argolas, com tenazes, com ganchos, com dentes,
    expressivos todos, de utilidades misteriosas. Tomei um que tentei
    manejar–e logo uma ponta malevola me picou um dedo. N'esse instante
    rompeu d'outro canto um «tic-tic-tic» açodado, quasi ancioso. Jacintho
    acudiu, com a face no telephone:

    –Vê ahi o telegrapho!… Ao pé do divan. Uma tira de papel que deve
    estar a correr.

    E, com effeito, d'uma redôma de vidro posta n'uma columna, e contendo um
    apparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como uma tenia, a
    longa tira de papel com caracteres impressos, que eu, homem das serras,
    apanhei, maravilhado. A linha, traçada em azul, annunciava ao meu amigo
    Jacintho que a fragata russa _Azoff_ entrára em Marselha com avaria!

    Já elle abandonára o telephone. Desejei saber, inquieto, se o
    prejudicava directamente aquella avaria da _Azoff_.

    –Da _Azoff_?… A avaria? A mim?… Não! É uma noticia.

    Depois, consultando um relogio monumental que, ao fundo da Bibliotheca,
    marcava a hora de todas as Capitaes e o curso de todos os Planetas:

    –Eu preciso escrever uma carta, seis linhas… Tu esperas, não, Zé
    Fernandes? Tens ahi os jornaes de Paris, da noite; e os de Londres,
    d'esta manhã. As Illustrações além, n'aquella pasta de couro com
    ferragens.

    Mas eu preferi inventariar o gabinete, que dava á minha profanidade
    serrana todos os gostos d'uma iniciação. Aos lados da cadeira de
    Jacintho pendiam gordos tubos acusticos, por onde elle decerto soprava
    as suas ordens através do 202. Dos pés da mesa cordões tumidos e molles,
    colleando sobre o tapete, corriam para os recantos de sombra á maneira
    de cobras assustadas. Sobre uma banquinha, e reflectida no seu verniz
    como na agua d'um poço, pousava uma Machina-de-escrever: e adiante era
    uma immensa Machina-de-calcular, com fileiras de buracos d'onde
    espreitavam, esperando, numeros rigidos e de ferro. Depois parei em
    frente da estante que me preoccupava, assim solitaria, á maneira d'uma
    torre n'uma planicie, com o seu alto pharol. Toda uma das suas faces
    estava repleta de Diccionarios; a outra de Manuaes; a outra de Atlas; a
    ultima de Guias, e entre elles, abrindo um folio, encontrei o Guia das
    ruas de Samarkande. Que macissa torre de informação! Sobre prateleiras
    admirei apparelhos que não comprehendia:–um composto de laminas de
    gelatina, onde desmaiavam, meio-chupadas, as linhas d'uma carta, talvez
    amorosa; outro, que erguia sobre um pobre livro brochado, como para o
    decepar, um cutello funesto; outro avançando a bocca d'uma tuba, toda
    aberta para as vozes do invisivel. Cingidos aos umbraes, liados ás
    cimalhas, luziam arames, que fugiam através do tecto, para o espaço.
    Todos mergulhavam em forças universaes, todos transmittiam forças
    universaes. A Natureza convergia disciplinada ao serviço do meu amigo e
    entrára na sua domesticidade!…

    Jacintho atirou uma exclamação impaciente:

    –Oh, estas pennas electricas!… Que secca!

    Amarrotára com colera a carta começada–eu escapei, respirando, para a
    Bibliotheca. Que magestoso armazem dos productos do Raciocinio e da
    Imaginação! Alli jaziam mais de trinta mil volumes, e todos decerto
    essenciaes a uma cultura humana. Logo á entrada notei, em ouro n'uma
    lombada verde, o nome de Adam Smith. Era pois a região dos Economistas.
    Avancei–e percorri, espantado, oito metros de Economia Politica. Depois
    avistei os Philosophos e os seus commentadores, que revestiam toda uma
    parede, desde as escólas Pre-socraticas até ás escólas Neo-pessimistas.
    N'aquellas pranchas se acastellavam mais de dois mil systemas–e que
    todos se contradiziam. Pelas encadernações logo se deduziam as
    doutrinas: Hobbes, em baixo, era pesado, de couro negro; Platão, em
    cima, resplandecia, n'uma pellica pura e alva. Para diante começavam as
    Historias Universaes. Mas ahi uma immensa pilha de livros brochados,
    cheirando a tinta nova e a documentos novos, subia contra a estante,
    como fresca terra d'alluvião tapando uma riba secular. Contornei essa
    collina, mergulhei na secção das Sciencias Naturaes, peregrinando, n'um
    assombro crescente, da Orographia para a Paleontologia, e da Morphologia
    para a Crystallographia. Essa estante rematava junto d'uma janella
    rasgada sobre os Campos Elyseos. Apartei as cortinas de velludo–e por
    traz descobri outra portentosa rima de volumes, todos de Historia
    Religiosa, de Exegese Religiosa, que trepavam montanhosamente até aos
    ultimos vidros, vedando, nas manhãs mais candidas, o ar e a luz do
    Senhor.

    Mas depois rebrilhava, em marroquins claros, a estante amavel dos
    Poetas. Como um repouso para o espirito esfalfado de todo aquelle saber
    positivo, Jacintho aconchegára ahi um recanto, com um divan e uma mesa
    de limoeiro, mais lustrosa que um fino esmalte, coberta de charutos, de
    cigarros d'Oriente, de tabaqueiras do seculo XVIII. Sobre um cofre de
    madeira lisa pousava ainda, esquecido, um prato de damascos seccos do
    Japão. Cedi á seducção das almofadas; trinquei um damasco, abri um
    volume; e senti estranhamente, ao lado, um zumbido, como de um insecto
    de azas harmoniosas. Sorri á idéa que fossem abelhas, compondo o seu mel
    n'aquelle massiço de versos em flôr. Depois percebi que o susurro remoto
    e dormente vinha do cofre de mogne, de parecer tão discreto. Arredei uma
    _Gazeta de França_; e descornitei um cordão que emergia de um orificio,
    escavado no cofre, e rematava n'um funil de marfim. Com curiosidade,
    encostei o funil a esta minha confiada orelha, afeita á singeleza dos
    rumores da serra. E logo uma Voz, muito mansa, mas muito dicidida,
    aproveitando a minha curiosidade para me invadir e se apoderar do meu
    entendimento, susurrou capciosamente:

    –…«E assim, pela disposição dos cubos diabolicos, eu chego a
    verificar os espaços hypermagicos!…»

    Pulei, com um berro.

    –Oh Jacintho, aqui ha um homem! Está aqui um homem a fallar dentro
    d'uma caixa!

    O meu camarada, habituado aos prodigios, não se alvoroçou:

    –É o Conferençophone… Exactamente como o Theatrophone; sómente
    applicado ás escólas e ás conferencias. Muito commodo!… Que diz o
    homem, Zé Fernandes?

    Eu considerava o cofre, ainda esgazeado:

    –Eu sei! Cubos diabolicos, espaços magicos, toda a sorte de horrores…

    Senti dentro o sorriso superior de Jacintho:

    –Ah, é o coronel Dorchas… Lições de Metaphysica Positiva sobre a
    Quarta Dimensão… Conjecturas, uma massada! Ouve lá, tu hoje jantas
    commigo e com uns amigos, Zé Fernandes?

    –Não, Jacintho… Estou ainda enfardelado pelo alfaiate da serra!

    E voltei ao gabinete mostrar ao meu camarada o jaquetão de flanella
    grossa, a gravata de pintinhas escarlates, com que ao domingo, em
    Guiães, visitava o Senhor. Mas Jacintho affirmou que esta simplicidade
    montesina interessaria os seus convidados, que eram dois artistas…
    Quem? O auctor do _Coração Triplo_, um Psychologo Feminista, d'agudeza
    transcendente, Mestre muito experimentado e muito consultado em
    Sciencias Sentimentaes; e Vorcan, um pintor mythico, que interpretára
    ethereamente, havia um anno, a symbolia rapsodica do cerco de Troia,
    n'uma vasta composição, _Helena Devastadora_…

    Eu coçava a barba:

    –Não, Jacintho, não… Eu venho de Guiães, das serras; preciso entrar
    em toda esta civilisacão, lentamente, com cautella, senão rebento. Logo
    na mesma tarde a electricidade, e o conferençophone, e os espaços
    hypermagicos e o feminista, e o ethereo, e a symbolia devastadora, é
    excessivo! Volto ámanhã.

    Jacintho dobrava vagarosamente a sua carta, onde mettera sem rebuço
    (como convinha á nossa fraternidade) duas violetas brancas tiradas do
    ramo que lhe floria o peito.

    –Ámanhã, Zé Fernandes, tu vens antes d'almoço, com as tuas malas dentro
    d'um fiacre, para te installares no 202, no teu quarto. No Hotel são
    embaraços, privações. Aqui tens o telephone, o teatrophone, livros…

    Acceitei logo, com simplicidade. E Jacintho, embocando um tubo acustico,
    murmurou:

    –Grillo!

    Da parede, recoberta de damasco, que subitamente e sem rumor se fendeu,
    surdio o seu velho escudeiro (aquelle moleque que viera com _D.
    Gallião_), que eu me alegrei de encontrar tão rijo, mais negro,
    reluzente e veneravel na sua tesa gravata, no seu collete branco de
    botões de ouro. Elle tambem estimou vêr de novo «o siô Fernandes». E,
    quando soube que eu occuparia o quarto do avô Jacintho, teve um claro
    sorriso de preto, em que envolveu o seu senhor, no contentamento de o
    sentir emfim reprovido d'uma familia.

    –Grillo, dizia Jacintho, esta carta a Madame de Oriol… Escuta!
    Telephona para casa dos Trèves que os espiritistas só estão livres no
    domingo… Escuta! Eu tomo uma douche antes de jantar, tepida, a 17.
    Fricção com malva-rosa.

    E cahindo pesadamente para cima do divan, com um bocejo arrastado e
    vago:

    –Pois é verdade, meu Zé Fernandes, aqui estamos, como ha sete annos,
    n'este velho Paris…

    Mas eu não me arredava da mesa, no desejo de completar a minha
    iniciação:

    –Oh Jacintho, para que servem todos estes instrumentosinhos? Houve já
    ahi um desavergonhado que me picou. Parecem perversos… São uteis?

    Jacintho esboçou, com languidez, um gesto que os
    sublimava.–Providenciaes, meu filho, absolutamente providenciaes, pela
    simplificação que dão ao trabalho! Assim… E apontou. Este arrancava as
    pennas velhas; o outro numerava rapidamente as paginas d'um manuscripto;
    aquell'outro, além, raspava emendas… E ainda os havia para collar
    estampilhas, imprimir datas, derreter lacres, cintar documentos…

    –Mas com effeito, accrescentou, é uma sécca. Com as molas, com os
    bicos, ás vezes magoam, ferem… Já me succedeu inutilisar cartas por as
    ter sujado com dedadas de sangue. É uma massada!

    Então, como o meu amigo espreitára novamente o relogio monumental, não
    lhe quiz retardar a consolação da douche e da malva-rosa.

    –Bem, Jacintho, já te revi, já me contentei… Agora até ámanhã, com as
    malas.

    –Que diabo, Zé Fernandes, espera um momento… Vamos pela sala de
    jantar. Talvez te tentes!

    E, através da Bibliotheca, penetramos na sala de jantar,–que me
    encantou pelo seu luxo sereno e fresco. Uma madeira branca, laccada,
    mais lustrosa e macia que setim, revestia as paredes, encaixilhando
    medalhões de damasco côr de morango, de morango muito maduro e esmagado:
    os aparadores, discretamente lavrados em florões e rocalhas,
    resplandeciam com a mesma lacca nevada: e damascos amorangados estofavam
    tambem as cadeiras, brancas, muito amplas, feitas para a lentidão de
    gulas delicadas, de gulas intellectuaes.

    –Viva o meu Principe! Sim senhor… Eis aqui um comedoiro muito
    comprehensivel e muito repousante, Jacintho!

    –Então janta, homem!

    Mas já eu me começava a inquietar, reparando que a cada talher
    correspondiam seis garfos, e todos de feitios astuciosos. E mais me
    impressionei quando Jacintho me desvendou que um era para as ostras,
    outro para o peixe, outro para as carnes, outro para os legumes, outro
    para as fructas, outro para o queijo! Simultaneamente, com uma
    sobriedade que louvaria Salomão, só dois copos, para dois vinhos:–um
    Bordeus rosado em infusas de crystal, e Champagne gelando dentro de
    baldes de prata. Todo um aparador porém vergava, sob o luxo redundante,
    quasi assustador d'aguas–aguas oxigenadas, aguas carbonatadas, aguas
    phosphatadas, aguas esterilisadas, aguas de saes, outras ainda, em
    garrafas bojudas, com tratados therapeuticos impressos em rotulos.

    –Santissimo nome de Deus, Jacintho! Então és ainda o mesmo tremendo
    bebedor d'agua, hein?… _Un aquatico_! como dizia o nosso poeta
    chileno, que andava a traduzir Klopstock.

    Elle derramou, por sobre toda aquella garrafaria encarapuçada em metal,
    um olhar desconsolado:

    –Não… É por causa das aguas da Cidade, contaminadas, atulhadas de
    microbios… Mas ainda não encontrei uma bôa agua que me convenha, que
    me satisfaça… Até soffro sêde.

    Desejei então conhecer o jantar do Psychologo e do Symbolista–traçado,
    ao lado dos talheres, em tinta vermelha, sobre laminas de marfim.
    Começava honradamente por ostras classicas, de Marennes. Depois
    apparecia uma sopa d'alcachofras e ovas de carpa…

    –É bom?

    Jacintho encolheu desinteressadamente os hombros:

    –Sim… Eu não tenho nunca appetite, já ha tempos… Já ha annos.

    Do outro prato só comprehendi que continha frangos e tubaras. Depois
    saboreariam aquelles senhores um filete de veado, macerado em Xerez, com
    gelêa de noz. E por sobremeza simplesmente laranjas geladas em ether.

    –Em ether, Jacintho?

    O meu amigo hesitou, esboçou com os dedos a ondulação d'um aroma que
    s'evola.

    –É novo… Parece que o ether desenvolve, faz afflorar a alma das
    fructas…

    Curvei a cabeça ignara, murmurei nas minhas profundidades:

    –Eis a Civilisação!

    E, descendo os Campos Elyseos, encolhido no paletot, a cogitar n'este
    prato symbolico, considerava a rudeza e atolado atrazo da minha Guiães,
    onde desde seculos a alma das laranjas permanece ignorada e
    desaproveitada dentro dos gomos sumarentos, por todos aquelles pomares
    que ensombram e perfumam o valle, da Roqueirinha a Sandofim! Agora
    porém, bemdito Deus, na convivencia de um tão grande iniciado como
    Jacintho, eu comprehenderia todas as finuras e todos os poderes da
    Civilisação.

    E, (melhor ainda para a minha ternura!) contemplaria a raridade d'um
    homem que, concebendo uma idéa da Vida, a realisa–e através d'ella e
    por ella recolhe a felicidade perfeita.

    Bem se affirmára este Jacintho, na verdade, como Principe da
    Gran-Ventura!

    III

    No 202, todas as manhãs, ás nove horas, depois do meu chocolate e ainda
    em chinelas, penetrava no quarto de Jacintho. Encontrava o meu amigo
    banhado, barbeado, friccionado, envolto n'um roupão branco de pello de
    cabra do Thibet, diante da sua mesa de toilette, toda de crystal, (por
    causa dos microbios) e atulhada com esses utensilios de tartaruga,
    marfim, prata, aço e madreperola que o homem do seculo XIX necessita
    para não desfeiar o conjuncto sumptuario da Civilisação e manter n'ella
    o seu Typo. As escovas sobretudo renovavam, cada dia, o meu regalo e o
    meu espanto–porque as havia largas como a roda massiça d'um carro
    sabino; estreitas e mais recurvas que o alfange d'um mouro; concavas, em
    fórma de telha aldeã; ponteagudas em feitio de folha de hera; rijas que
    nem cerdas de javali; macias que nem pennugem de rôla! De todas,
    fielmente, como amo que não desdenha nenhum servo, se utilisava o meu
    Jacintho. E assim, em face ao espelho emmoldurado de folhedos de prata,
    permanecia este Principe passando pellos sobre o seu pello durante
    quatorze minutos.

    No emtanto o Grillo e outro escudeiro, por traz dos biombos de Kioto, de
    sedas lavradas, manobravam, com pericia e vigor, os apparelhos do
    lavatorio–que era apenas um resumo das machinas monumentaes da Sala de
    Banho, a mais estremada maravilha do 202. N'estes marmores simplificados
    existiam unicamente dois jactos graduados desde _zero_ até _cem_; as
    duas duchas, fina e grossa, para a cabeça; a fonte esterilisada para os
    dentes; o repuxo borbulhante para a barba; e ainda botões discretos,
    que, roçados, desencadeavam esguichos, cascatas cantantes, ou um leve
    orvalho estival. D'esse recanto temeroso, onde delgados tubos mantinham
    em disciplina e servidão tantas aguas ferventes, tantas aguas violentas,
    sahia emfim o meu Jacintho enxugando as mãos a uma toalha de felpo, a
    uma toalha de linho, a outra de corda entrançada para restabelecer a
    circulação, a outra de sêda frouxa para repolir a pelle. Depois d'este
    rito derradeiro que lhe arrancava ora um suspiro, ora um bocejo,
    Jacintho, estendido n'um divan, folheava uma Agenda, onde se arrolavam,
    inscriptas pelo Grillo ou por elle, as occupações do seu dia, tão
    numerosas por vezes que cobriam duas laudas.

    Todas ellas se prendiam á sua sociabilidade, á sua civilisação muito
    complexa, ou a interesses que o meu Principe, n'esses sete annos, creára
    para viver em mais consciente communhão com todas as funcções da Cidade.
    (Jacintho com effeito era presidente do Club da _Espada e Alvo_;
    commanditario do Jornal o _Boulevard_; director da _Companhia dos
    Telephones de Constantinopla_; socio dos _Bazares unidos da Arte
    Espiritualista_; membro do _Comité de Iniciação das Religiões
    Esotericas_, etc.) Nenhuma d'estas occupações parecia porém aprazivel ao
    meu amigo–porque, apesar da mansidão e harmonia dos seus modos,
    frequentemente arremessava para o tapete, n'uma rebellião de homem
    livre, aquella Agenda que o escravisava. E n'uma d'essas manhãs (de
    vento e neve), apanhando eu o livro oppressivo, encadernado em pellica,
    de um carinhoso tom de rosa murcha–descobri que o meu Jacintho devia
    depois do almoço fazer uma visita na rua da Universidade, outra no
    Parque Monceau, outra entre os arvoredos remotos da Muette; assistir por
    fidelidade a uma votação no Club; acompanhar Madame d'Oriol a uma
    exposição de leques; escolher um presente de noivado para a sobrinha dos
    Trèves; comparecer no funeral do velho conde de Malville; presidir um
    tribunal de honra n'uma questão de roubalheira, entre cavalheiros, ao
    ecarté… E ainda se acavallavam outras indicações, escrivinhadas por
    Jacintho a lapis:–«Carroceiro–Five-oclock dos Ephrains–A pequena das
    _Variedades_–Levar a nota ao jornal…» Considerei o meu Principe.
    Estirado no divan, d'olhos miserrimamente cerrados, bocejava, n'um
    bocejo immenso e mudo.

    Mas os affazeres de Jacintho começavam logo no 202, cedo, depois do
    banho. Desde as oito horas a campainha do telephone repicava por elle,
    com impaciencia, quasi com colera, como por um escravo tardio. E mal
    enxugado, dentro do seu roupão de pello de cabra do Thibet ou de grossas
    pyjamas de pelucia côr d'ouro-velho, constantemente sahia ao corredor a
    cochichar com sujeitos tão apressados, que conservavam na mão o
    guarda-chuva pingando sobre o tapete. Um d'esses, sempre presente (e que
    pertencia decerto aos _Telephones de Constantinopla_), era
    temeroso–todo elle chupado, tisnado, com maus dentes, sobraçando uma
    enorme pasta sebenta, e dardejando, d'entre a alta gola d'uma pelissa
    poida, como da abertura d'um covil, dous olhinhos tôrvos e de rapina.
    Sem cessar, inexoravelmente, um escudeiro apparecia, com bilhetes n'uma
    salva… Depois eram fornecedores d'Industria e d'Arte; negociantes de
    cavallos, rubicundos e de paletot branco; inventores com grossos rolos
    de papel; alfarrabistas trazendo na algibeira uma edição «unica», quasi
    inverosimil, de Ulrich Zell ou do _Lapidanus_. Jacintho circulava
    estonteado pelo 202, rabiscando a carteira, repicando o telephone,
    desatando nervosamente pacotes, sacudindo ao passar algum embuscado que
    surdia das sombras da antecamara, estendia como um trabuco o seu
    memorial ou o seu catalogo!

    Ao meio dia, um tam-tam argentino e melancholico ressoava, chamando ao
    almoço. Com o _Figaro_ ou as _Novidades_ abertas sobre o prato, eu
    esperava sempre meia hora pelo meu Principe, que entrava n'uma rajada,
    consultando o relogio, exhalando com a face moída o seu queixume eterno:

    –Que massada! E depois uma noite abominavel, enrodilhada em sonhos…
    Tomei sulforal, chamei o Grillo para me esfregar com therebentina… Uma
    sécca!

    Espalhava pela mesa um olhar já farto. Nenhum prato, por mais engenhoso,
    o seduzia;–e, como através do seu tumulto matinal fumava incontaveis
    cigarretes que o resequiam, começava por se encharcar com um immenso
    copo d'agua oxygenada, ou carbonatada, ou gazoza, misturada d'um cognac
    raro, muito caro, horrendamente adocicado, de moscatel de Syracusa.
    Depois, á pressa, sem gosto, com a ponta incerta do garfo, picava aqui e
    além uma lasca de fiambre, uma febra de lagosta;–e reclamava
    impacientemente o café, um café de Moka, mandado cada mez por um feitor
    do Dedjah, fervido á turca, muito espesso, que elle remexia com um pau
    de canella!

    –E tu, Zé Fernandes, que vaes tu fazer?

    –Eu?

    Recostado na cadeira, com delicias, os dedos mettidos nas cavas do
    collete:

    –Vou vadiar, regaladamente, como um cão natural!

    O meu sollicito amigo, remexendo o café com o pau de canella, rebuscava
    através da numerosa Civilisação da Cidade uma occupação que me
    encantasse. Mas apenas suggeria uma Exposição, ou uma Conferencia, ou
    monumentos, ou passeios, logo encolhia os hombros desconsolados:

    –Por fim nem vale a pena, é uma sécca!

    Accendia outra das cigarretes russas, onde rebrilhava o seu nome,
    impresso a ouro na mortalha. Torcendo, n'uma pressa nervosa, os fios do
    bigode, ainda escutava, á porta da Bibliotheca, o seu procurador, o
    nedio e magestoso Laporte. E emfim, seguido d'um criado, que sobraçava
    um maço tremendo de jornaes para lhe abastecer o coupé, o Principe da
    Gran-Ventura mergulhava na Cidade.

    * * * * *

    Quando o dia social de Jacintho se apresentava mais desafogado, e o céo
    de Março nos concedia caridosamente um pouco de azul agoado, sahiamos
    depois d'almoço, a pé, através de Paris. Estes lentos e errantes
    passeios eram outr'ora, na nossa edade de Estudantes, um gozo muito
    querido de Jacintho–porque n'elles mais intensamente e mais
    minuciosamente saboreava a Cidade. Agora porém, apesar da minha
    companhia, só lhe davam uma impaciencia e uma fadiga que desoladoramente
    destoava do antigo, illuminado extasi. Com espanto (mesmo com dôr,
    porque sou bom, e sempre me entristece o desmoronar d'uma crença)
    descobri eu, na primeira tarde em que descemos aos Boulevards, que o
    denso formigueiro humano sobre o asphalto, e a torrente sombria dos
    trens sobre o macadam, affligiam o meu amigo pela brutalidade da sua
    pressa, do seu egoismo, e do seu estridor. Encostado e como refugiado no
    meu braço, este Jacintho novo começou a lamentar que as ruas, na nossa
    Civilisação, não fossem calçadas de gutta-percha! E a gutta-percha
    claramente representava, para o meu amigo, a substancia discreta que
    amortece o choque e a rudeza das cousas. Oh maravilha! Jacintho querendo
    borracha, a borracha isoladora, entre a sua sensibilidade e as funcções
    da Cidade! Depois, nem me permittiu pasmar diante d'aquellas dourejadas
    e espelhadas lojas que elle outr'ora considerava como os «preciosos
    museus do seculo XIX»…

    –Não vale a pena, Zé Fernandes. Ha uma immensa pobreza e seccura
    d'invenção! Sempre os mesmos florões Luiz XV, sempre as mesmas
    pelucias… Não vale a pena!

    Eu arregalava os olhos para este transformado Jacintho. E sobretudo me
    impressionava o seu horror pela Multidão–por certos effeitos da
    Multidão, só para elle sensiveis, e a que chamava os «sulcos».

    –Tu não os sentes, Zé Fernandes. Vens das serras… Pois constituem o
    rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos! É um perfume muito agudo e
    petulante que uma mulher larga ao passar, e se installa no olfacto, e
    estraga para todo o dia o ar respiravel. É um dito que se surprehende
    n'um grupo, que revela um mundo de velhacaria, ou de pedantismo, ou de
    estupidez, e que nos fica collado á alma, como um salpico, lembrando a
    immensidade da lama a atravessar. Ou então, meu filho, é uma figura
    intoleravel pela pretenção, ou pelo mau-gosto, ou pela impertinencia, ou
    pela rellice, ou pela dureza, e de que se não póde sacudir mais a visão
    repulsiva… Um pavor, estes sulcos, Zé Fernandes! De resto, que diabo,
    são as pequeninas miserias d'uma Civilisação deliciosa!

    Tudo isto era especioso, talvez pueril–mas para mim revelava, n'aquelle
    chamejante devoto da Cidade, o arrefecimento da devoção. N'essa mesma
    tarde, se bem recordo, sob uma luz macia e fina, penetramos nos centros
    de Paris, nas ruas longas, nas milhas de casario, todo de caliça parda,
    erriçado de chaminés de lata negra, com as janellas sempre fechadas, as
    cortininhas sempre corridas, abafando, escondendo a vida. Só tijolo, só
    ferro, só argamassa, só estuque: linhas hirtas, angulos asperos: tudo
    secco, tudo rigido. E dos chãos aos telhados, por toda a fachada,
    tapando as varandas, comendo os muros, Taboletas, Taboletas…

    –Oh, este Paris, Jacintho, este teu Paris! Que enorme, que grosseiro
    bazar!

    E, mais para sondar o meu Principe do que por persuasão, insisti na
    fealdade e tristeza d'estes predios, duros armazens, cujos andares são
    prateleiras onde se apilha humanidade! E uma humanidade impiedosamente
    catalogada e arrumada! A mais vistosa e de luxo nas prateleiras baixas,
    bem envernisadas. A relles e de trabalho nos altos, nos desvãos, sobre
    pranchas de pinho nú, entre o pó e a traça…

    Jacintho murmurou, com a face arripiada:

    –É feio, é muito feio!

    E accudiu logo, sacudindo no ar a luva de anta:

    –Mas que maravilhoso organismo, Zé Fernandes! Que solidez! Que
    producção!

    Onde Jacintho me parecia mais renegado era na sua antiga e quasi
    religiosa affeição pelo Bosque de Bolonha. Quando moço, elle construira
    sobre o Bosque theorias complicadas e consideraveis. E sustentava, com
    olhos rutilantes de fanatico, que no Bosque a Cidade cada tarde ia
    retemperar salutarmente a sua força, recebendo, pela presença das suas
    Duquezas, das suas Cortezãs, dos seus Politicos, dos seus Financeiros,
    dos seus Generaes, dos seus Academicos, dos seus Artistas, dos seus
    Clubistas, dos seus Judeus, a certeza consoladora de que todo o seu
    pessoal se mantinha em numero, em vitalidade, em funcção, e que nenhum
    elemento da sua grandeza desapparecera ou deperecera! «Ir ao Bois»
    constituia então para o meu Principe um acto de consciencia. E voltava
    sempre confirmando com orgulho que a Cidade possuia todos os seus
    astros, garantindo a eternidade da sua luz!

    Agora, porém, era sem fervor, arrastadamente, que elle me levava ao
    Bosque, onde eu, aproveitando a clemencia d'Abril, tentava enganar a
    minha saudade d'arvoredos. Emquanto subiamos, ao trote nobre das suas
    egoas lustrosas, a Avenida dos Campos-Elyseos e a do Bosque,
    rejuvenescidas pelas relvas tenras e fresco verdejar dos rebentos,
    Jacintho, soprando o fumo da cigarrete pelas vidraças abertas do coupé,
    permanecia o bom camarada, de veia amavel, com quem era doce philosophar
    através de Paris. Mas logo que passavamos as grades douradas do Bosque,
    e penetravamos na Avenida das Acacias, e enfiavamos na lenta fila dos
    trens de luxo e de praça, sob o silencio decoroso, apenas cortado pelo
    tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia,–o meu
    Principe emmudecia, mollemente engilhado no fundo das almofadas, d'onde
    só despegava a face para escancarar bocejos de fartura. Pelo antigo
    habito de verificar a presença confortadora do «pessoal, dos astros»,
    ainda, por vezes, apontava para algum coupé ou vittoria rodando com
    rodar rangente n'outra arrastada fila–e murmurava um nome. E assim fui
    conhecendo a encaracolada barba hebraica do banqueiro Ephraim; e o longo
    nariz patricio de Madame de Trèves abrigando um sorriso perenne; e as
    bochechas flacidas do poeta neo-platonico Dornan, sempre espapado no
    fundo de fiacres; e os longos bandòs pre-raphaelitas e negros de Madame
    Verghane; e o monoculo defumado do director do _Boulevard_; e o
    bigodinho vencedor do Duque de Marizac, reinando de cima do seu phaeton
    de guerra; e ainda outros sorrisos immoveis, e barbichas á Renascença, e
    palpebras amortecidas, e olhos farejantes, e pelles empoadas d'arroz,
    que eram todas illustres e da intimidade do meu Principe. Mas, do topo
    da Avenida das Acacias, recomeçavamos a descer, em passo sopeado,
    esmagando lentamente a areia; na fila vagarosa que subia, calhambeque
    atraz de landau, vittoria atraz de fiacre, fatalmente reviamos o
    binoculo sombrio do homem do _Boulevard_, e os bandòs furiosamente
    negros de Madame Verghane, e o ventre espapado do neo-platonico, e a
    barba talmudica, e todas aquellas figuras, d'uma immobilidade de cera,
    super-conhecidas do meu camarada, recruzadas cada tarde através de
    revividos annos, sempre com os mesmos sorrisos, sob o mesmo pó d'arroz,
    na mesma immobilidade de cera; então Jacintho não se continha, gritava
    ao cocheiro:

    –Para casa, depressa!

    E era pela Avenida do Bosque, pelos Campos-Elyseos, uma fuga ardente das
    egoas a quem a lentidão sopeada, n'um roer de freios, entre outras egoas
    tambem d'ellas super-conhecidas, lançavam n'uma exasperação comparavel á
    de Jacintho.

    Para o sondar eu denegria o Bosque:

    –Já não é tão divertido, perdeu o brilho!…

    Elle acudia, timidamente:

    –Não, é agradavel, não ha nada mais agradavel; mas…

    E accusava a friagem das tardes ou o despotismo dos seus affazeres.
    Recolhiamos então ao 202, onde, com effeito, em breve embrulhado no seu
    roupão branco, diante da mesa de crystal, entre a legião das escovas,
    com toda a electricidade refulgindo, o meu Principe se começava a
    adornar para o serviço social da noite.

    E foi justamente numa d'essas noites (um sabado) que nós passamos,
    n'aquelle quarto tão civilisado e protegido, por um d'esses brutos e
    revoltos terrores como só os produz a ferocidade dos Elementos. Já
    tarde, á pressa (jantavamos com Marizac no Club para o acompanhar depois
    ao _Lohengrin_ na Opera) Jacintho arrocheava o nó da gravata
    branca–quando no lavatorio, ou porque se rompesse o tubo, ou se
    dessoldasse a torneira, o jacto d'agua a ferver rebentou furiosamente,
    fumegando e silvando. Uma nevoa densa de vapor quente abafou as
    luzes–e, perdidos n'ella, sentiamos, por entre os gritos do escudeiro e
    do Grillo, o jorro devastador batendo os muros, esparrinhando uma chuva
    que escaldava. Sob os pés o tapete ensopado era uma lama ardente. E como
    se todas as forças da natureza, submettidas ao serviço de Jacintho, se
    agitassem, animadas por aquella rebellião da agua–ouvimos roncos surdos
    no interior das paredes, e pelos fios dos lumes electricos sulcaram
    faiscas ameaçadoras! Eu fugira para o corredor, onde se alargava a nevoa
    grossa. Por todo o 202 ia um tumulto de desastre. Diante do portão,
    attrahidas pela fumarada que se escapava das janellas, estacionava
    policia, uma multidão. E na escada esbarrei com um reporter, de chapéo
    para a nuca, a carteira aberta, gritando sofregamente «se havia mortos?»

    Domada a agua, clareada a bruma, vim encontrar Jacintho no meio do
    quarto, em ceroulas, livido:

    –Oh Zé Fernandes, esta nossa industria!… Que impotencia, que
    impotencia! Pela segunda vez, este desastre! E agora, apparelhos
    perfeitos, um processo novo…

    –E eu encharcado por esse processo novo! E sem outra casaca!

    Em redor, as nobres sêdas bordadas, os brocateis Luiz XIII, cobertos de
    manchas negras, fumegavam. O meu Principe, enfiado, enchugava uma
    photographia de Madame d'Oriol, d'hombros decotados, que o jorro bruto
    maculára d'empolas. E eu, com rancor, pensava que na minha Guiães a agua
    aquecia em seguras panellas–e subia ao meu lavatorio, pela mão forte da
    Catharina, em seguras infusas! Não jantamos com o duque de Marizac, no
    Club. E, na Opera, nem saboreei Lohengrin e a sua branca alma e o seu
    branco cysne e as suas brancas armas–entallado, aperreado, cortado nos
    sovacos pela casaca que Jacintho me emprestára e que rescendia
    estonteadoramente a flores de Nessari.

    * * * * *

    No domingo, muito cedo, o Grillo, que na véspera escaldára as mãos e as
    trazia embrulhadas em sêda, penetrou no meu quarto, descerrou as
    cortinas, e á beira do leito, com o seu radiante sorriso de preto:

    –Vem no _Figaro_!

    Desdobrou triumphalmente o jornal. Eram, nos _Echos_, doze linhas, onde
    as nossas aguas rugiam e espadavam, com tanta magnificencia e tanta
    publicidade, que tambem sorrí, deleitado.

    –E toda a manhã, o telephone, siô Fernandes! exclamava o Grillo,
    rebrilhando em ebano. A quererem saber, a quererem saber… «Está lá?
    Está escaldado?» Paris afflicto, siô Fernandes!

    O telephone, com effeito, repicava, insaciavel. E quando desci para o
    almoço, a toalha desapparecia sob uma camada de telegrammas, que o meu
    Principe fendia com a faca, enrugado, rosnando contra a «massada». Só
    desannuviou, ao ler um d'esses papeis azues, que atirou para cima do meu
    prato, com o mesmo sorriso agradado com que de manhã sorriramos, o
    Grillo e eu:

    –É do Gran-Duque Casimiro… Ratão amavel! Coitado!

    Saboreei, através dos ovos, o telegramma de S. Alteza. «O que! o meu
    Jacintho inundado! Muito chic, nos Campos-Elyseos! Não volto ao 202 sem
    boia de salvação! Compassivo abraço! Casimiro…» Murmurei tambem com
    deferencia:–«Amavel! Coitado!» Depois, revolvendo lentamente o montão
    de telegrammas que se alastrava até ao meu copo:

    –Oh Jacintho! Quem é esta Diana que incessantemente te escreve, te
    telephona, te telegrapha, te…?

    –Diana?… Diana de Lorge. É uma cocotte. É uma grande cocotte!

    –Tua?

    –Minha, minha… Não! tenho um bocado.

    E como eu lamentava que o meu Principe, senhor tão rico e de tão fino
    orgulho, por economia d'uma gamella propria chafurdasse com outros n'uma
    gamella publica–Jacintho levantou os hombros, com um camarão espetado
    no garfo:

    –Tu vens das serras… Uma cidade como Paris, Zé Fernandes, precisa ter
    cortezãs de grande pompa e grande fausto. Ora para montar em Paris,
    n'esta tremenda carestia de Paris, uma cocotte com os seus vestidos, os
    seus diamantes, os seus cavallos, os seus lacaios, os seus camarotes, as
    suas festas, o seu palacete, a sua publicidade, a sua insolencia, é
    necessario que se aggremiem umas poucas de fortunas, se forme um
    syndicato! Somos uns sete, no Club. Eu pago um bocado… Mas meramente
    por Civismo, para dotar a cidade com uma cocotte monumental. De resto
    não chafurdo. Pobre Diana!… Dos hombros para baixo nem sei se tem a
    pelle côr de neve ou côr de limão.

    Arregalei um olho divertido:

    –Dos hombros para baixo?… E para cima?

    –Oh para cima tem pó d'arroz!… Mas é uma sécca! Sempre bilhetes,
    sempre telephones, sempre telegrammas. E tres mil francos por mez, além
    das flores… Uma massada!

    E as duas rugas do meu Principe, aos lados do seu afilado nariz, curvado
    sobre a salada, eram como dous valles muito tristes, ao entardecer.

    Acabavamos o almoço, quando um escudeiro, muito discretamente, n'um
    murmurio, annunciou Madame d'Oriol. Jacintho pousou com tranquillidade o
    charuto; eu quasi me engasguei, n'um sorvo alvoroçado de café. Entre os
    reposteiros de damasco côr de morango ella appareceu, toda de negro,
    d'um negro liso e austero de Semana Santa, lançando com o regalo um
    lindo gesto para nos socegar. E immediatamente, n'uma volubilidade
    docemente chalrada:

    –É um momento, nem se levantem! Passei, ia para a Magdalena, não me
    contive, quiz vêr os estragos… Uma inundação em Paris, nos
    Campos-Elyseos! Não ha senão este Jacintho. E vem no _Figaro!_ O que eu
    estava assustada, quando telephonei! Imaginem! Agua a ferver, como no
    Vesuvio… Mas é d'uma novidade! E os estofos perdidos, naturalmente, os
    tapetes… Estou morrendo por admirar as ruinas!

    Jacintho, que não me pareceu commovido, nem agradecido com aquelle
    interesse, retomára risonhamente o charuto:

    –Está tudo secco, minha querida senhora, tudo secco! A belleza foi
    hontem, quando a agua fumegava e rugia! Ora que pena não ter ao menos
    cahido uma parede!

    Mas ella insistia. Nem todos os dias se gozavam em Paris os destroços
    d'uma inundação. O _Figaro_ contára… E era uma aventura deliciosa, uma
    casa escaldada nos Campos-Elyseos!

    Toda a sua pessoa, desde as plumasinhas que frisavam no chapéo até á
    ponta reluzente das botinas de verniz, se agitava, vibrava, como um ramo
    tenro sob o boliço do passaro a chalrar. Só o sorriso, por traz do véo
    espesso, conservava um brilho immovel. E já no ar se espalhára um aroma,
    uma doçura, emanadas de toda a sua mobilidade e de toda a sua graça.

    Jacintho no emtanto cedera, alegremente: e pelo corredor Madame d'Oriol
    ainda louvava o _Figaro_ amavel, e confessava quanto tremera… Eu
    voltei ao meu café, felicitando mentalmente o Principe da Gran-Ventura
    por aquella perfeita flôr de Civilisação que lhe perfumava a vida.
    Pensei então na apurada harmonia em que se movia essa flôr. E corri
    vivamente á ante-camara, verificar diante do espelho o meu penteado e o
    nó da minha gravata. Depois recolhi á sala de jantar, e junto da
    janella, folheando languidamente a _Revista do Seculo XIX_, tomei uma
    attitude de elegancia e d'alta cultura. Quasi immediatamente elles
    reappareceram: e Madame d'Oriol, que, sempre sorrindo, se proclamava
    espoliada, nada encontrára que recordasse as agoas furiosas, roçou pela
    mesa, onde Jacintho procurava, para lhe offerecer, tangerinas de Malta,
    ou castanhas geladas, ou um biscouto molhado em vinho de Tokai.

    Ella recusava com as mãos guardadas no regalo. Não era alta, nem
    forte–mas cada prega do vestido, ou curva da capa, cahia e ondulava
    harmoniosamente, como perfeições recobrindo perfeições. Sob o véo
    cerrado, apenas percebi a brancura da face empoada, e a escuridão dos
    olhos largos. E com aquellas sêdas e velludos negros, e um pouco do
    cabello louro, d'um louro quente, torcido fortemente sobre as pelles
    negras que lhe orlavam o pescoço, toda ella derramava uma sensação de
    macio e de fino. Eu teimosamente a considerava como uma flôr de
    Civilisação:–e pensava no secular trabalho e na cultura superior que
    necessitára o terreno onde ella tão delicadamente brotára, já
    desabrochada, em pleno perfume, mais graciosa por ser flôr d'esforço e
    d'estufa, e trazendo nas suas pétalas um não sei quê de desbotado e de
    ante-murcho.

    No emtanto, com a sua volubilidade de passaro, chalrando para mim,
    chalrando para Jacintho, ella mostrava o seu lindo espanto por aquelle
    montão de telegrammas sobre a toalha.

    –Tudo esta manhã, por causa da inundação?… Ah, Jacintho é hoje o
    homem, o unico homem de Paris! Muitas mulheres n'esses telegrammas?

    Languidamente, com o charuto a fumegar, o meu Principe empurrou para a
    sua amiga o telegramma do Gran-duque. Então Madame d'Oriol teve um _ah!_
    muito grave e muito sentido. Releu profundamente o papel de S. A. que os
    seus dedos acariciavam com uma reverencia gulosa. E sempre grave, sempre
    séria:

    –É brilhante!

    Oh, certamente! n'aquelle desastre tudo se passára com muito brilho,
    n'um tom muito Parisiense. E a deliciosa creatura não se podia demorar,
    porque fizera marcar um logar na egreja da Magdalena para o sermão!

    Jacintho exclamou com innocencia:

    –Sermão?… É já a estação dos sermões?

    Madame d'Oriol teve um movimento de carinhoso escandalo e dôr. O quê!
    pois nem na austera casa dos Trèves dera pela entrada da quaresma? De
    resto não se admirava–Jacintho era um turco! E, immediatamente celebrou
    o prégador, um frade dominicano, o Père Granon! Oh d'uma eloquencia!
    d'uma violencia! No derradeiro sermão prégara sobre o amor, a
    fragilidade dos amores mundanos! E tivera coisas d'uma inspiração, d'uma
    brutalidade! Depois que gesto, um gesto terrivel que esmagava, em que se
    lhe arregaçava toda a manga, mostrando o braço nú, um braço soberbo,
    muito branco, muito forte!

    O seu sorriso permanecia claro sob o olhar que negrejára dentro do véo
    negro. E Jacintho, rindo:

    –Um bom braço de director espiritual, hein? Para vergar, espancar
    almas…

    Ella acudiu:

    –Não! infelizmente o Père Granon não confessa!

    E de repente reconsiderou–aceitava um biscouto, um cálice de Tokai. Era
    necessario um cordial para affrontar as emoções do Père Granon! Ambos
    nos precipitáramos, um arrebatando a garrafa, outro offerecendo o prato
    de bonbons. Franzio o véo para os olhos, chupou á pressa um bolo que
    ensopára no Tokai. E como Jacintho, reparando casualmente no chapéo que
    ella trazia, se curvára com curiosidade, impressionado, Madame d'Oriol
    apagou o sorriso, toda seria, ante uma cousa seria:

    –Elegante, não é verdade?… É uma creação inteiramente nova de Madame
    Vial. Muito respeitoso, e muito suggestivo, agora na Quaresma.

    O seu olhar, que me envolvera, tambem me convidava a admirar. Approximei
    o meu focinho de homem das serras para contemplar essa creação suprema
    do luxo de Quaresma. E era maravilhoso! Sobre o velludo, na sombra das
    plumas frizadas, aninhada entre rendas, fixada por um prégo, pousava
    delicadamente, feita de azeviche, uma Corôa de Espinhos!

    Ambos nos extasiamos. E Madame d'Oriol, n'um movimento e n'um sorriso
    que derramou mais aroma e mais claridade, abalou para a Magdalena.

    O meu Principe arrastou pelo tapete alguns passos pensativos e molles. E
    bruscamente, levantando os hombros com uma determinação immensa, como se
    deslocasse um mundo:

    –Oh Zé Fernandes, vamos passar este Domingo n'alguma cousa simples e
    natural…

    –Em quê?

    Jacintho circumgirou os olhares muito abertos, como se, atravez da Vida
    Universal, procurasse anciosamente uma cousa natural e simples. Depois,
    descançando sobre mim os mesmos largos olhos que voltavam de muito
    longe, cançados e com pouca esperança:

    –Vamos ao Jardim das Plantas, vêr a girafa!

    IV

    N'essa fecunda semana, uma noite, recolhiamos ambos da Opera, quando
    Jacintho, bocejando, me annunciou uma festa no 202.

    –Uma festa?…

    –Por causa do Gran-Duque, coitado, que me vai mandar um peixe delicioso
    e muito raro que se pesca na Dalmacia. Eu queria um almoço curto. O
    Gran-Duque reclamou uma ceia. É um barbaro, besuntado com litteratura do
    seculo XVIII, que ainda acredita em ceias, em Paris! Reuno no domingo
    tres ou quatro mulheres, e uns dez homens bem typicos, para o divertir.
    Tambem aproveitas. Folheias Paris n'um resumo… Mas é uma massada
    amarga!

    Sem interesse pela sua festa, Jacintho não se affadigou em a compôr com
    relevo ou brilho. Encommendou apenas uma orchestra de Tziganes (os
    Tziganes, as suas jalecas escarlates, a melancolia aspera das Czardas
    ainda n'esses tempos remotos emocionavam Paris): e mandou, na
    Bibliotheca, ligar o Theatrophone com a Opera, com a Comedia-Franceza,
    com o Alcazar e com os Buffos, prevendo todos os gostos desde o tragico
    até ao picaro. Depois no domingo, ao entardecer, ambos visitamos a mesa
    da ceia, que resplandecia com as velhas baixellas de D. Galião. E a
    faustosa profusão de orchideas, em longas sylvas por sobre a toalha
    bordada a sêda, enroladas aos fructeiros de Saxe, trasbordando de
    crystaes lavrados e filagranados d'ouro, espalhava uma tão fina sensação
    de luxo e gosto, que eu murmurei:–«Caramba, bemdito, seja o dinheiro!»
    Pela primeira vez, tambem, admirei a copa e a sua installação abundante
    e minuciosa–sobretudo os dois ascensores que rolavam das profundidades
    da cozinha, um para os peixes e carnes aquecido por tubos d'agua
    fervente, o outro para as saladas e gelados revestido de placas
    frigorificas. Oh, este 202!

    Ás nove horas, porém, descendo eu ao gabinete de Jacintho para escrever
    a minha boa tia Vicencia, em quanto elle ficára no toucador com o
    manícuro que lhe polia as unhas, passamos n'esse delicioso palacio,
    florido e em gala, por bem corriqueiro susto! Todos os lumes electricos,
    subitamente, em todo o 202, se apagaram! Na minha immensa desconfiança
    d'aquellas forças universaes, pulei logo para a porta, tropeçando nas
    trevas, ganindo um _Aqui d'Elrei_! que tresandava a Guiães. Jacintho em
    cima berrava, com o manícuro agarrado ás pyjamas. E de novo, como serva
    ralassa que recolhe arrastando as chinellas, a luz resurgiu com
    lentidão. Mas o meu Principe, que descera, enfiado, mandou buscar um
    engenheiro á Companhia Central da Electricidade Domestica. Por precaução
    outro creado correu á mercearia comprar pacotes de velas. E o Grillo
    desenterrava já dos armarios os candelabros abandonados, os pesados
    castiçaes archaicos dos tempos inscientificos de D. Galião: era uma
    reserva de veteranos fortes, para o caso pavoroso em que mais tarde, á
    ceia, falhassem perfidamente as forças bisonhas da Civilisação. O
    Electricista, que acudira esbaforido, afiançou porém que a Electricidade
    se conservaria fiel, sem outro amuo. Eu, cautelosamente, soneguei na
    algibeira dous côtos de estearina.

    A Electricidade permaneceu fiel, sem amuos. E quando desci do meu
    quarto, tarde (porque perdera o collete de baile e só depois d'uma busca
    furiosa e praguejada o encontrei cahido por traz da cama!), todo o 202
    refulgia, e os Tziganes, na antecamara, sacudindo as guedelhas, atiravam
    as arcadas d'uma valsa tão arrastadora que, pelas paredes, os immensos
    Personagens das tapeçarias, Priamo, Nestor, o engenhoso Ulysses,
    arfavam, boliam com os pés venerandos!

    Timidamente, sem rumor, puxando os punhos, penetrei no gabinete de
    Jacintho. E fui logo acolhido pelo sorriso da condessa de Treves, que,
    acompanhada pelo illustre historiador Danjon (da Academia Franceza),
    percorria maravilhada os Apparelhos, os Instrumentos, toda a sumptuosa
    Mechanica do meu super-civilisado Principe. Nunca ella me parecera mais
    magestosa do que n'aquellas sêdas côr de açafrão, com rendas cruzadas no
    peito á Maria-Antonietta, o cabello crespo e ruivo levantado em rolo
    sobre a testa dominadora, e o curvo nariz patricio, abrigando o sorriso
    sempre luzidio, sempre corrente, como um arco abriga o correr e o luzir
    d'um regato. Direita como n'um solio, a longa luneta de tartaruga
    acercada dos olhos miudos e turvamente azulados, ella escutava deante do
    Graphophono, depois deante do Microphono, como melodias superiores, os
    commentarios que o meu Jacintho ia atabalhoando com uma amabilidade
    penosa. E ante cada roda, cada mola, eram pasmos, louvores finamente
    torneados, em que attribuia a Jacintho, com astuta candura, todas
    aquellas invenções do Saber! Os utensilios misteriosos que atulhavam a
    mesa d'ebano foram para ella uma iniciação que a enlevou. Oh, o
    «numerador de paginas»! oh, o «collador d'estampilhas»! A caricia
    demorada dos seus dedos seccos aquecia os metaes. E supplicava os
    endereços dos fabricantes para se prover de todas aquellas utilidades
    adoraveis! Como a vida, assim apetrechada, se tornava escorregadia e
    facil! Mas era necessario o talento, o gosto de Jacintho, para escolher,
    para «crear!» E não só ao meu amigo (que o recebia com resignação) ella
    offertava o fino mel. Affagando com o cabo da luneta o Telegrapho, achou
    a possibilidade de recordar a eloquencia do Historiador. Mesmo para mim
    (de quem ignorava o nome) arranjou junto do Phonographo, e ácerca de
    «vozes d'amigos que é doce colleccionar», uma lisonjasinha redondinha e
    lustrosa, que eu chupei como um rebuçado celeste. Boa casaleira que vae
    atirando o grão aos frangos famintos, a cada passo, maternalmente, ella
    nutria uma vaidade. Sofrego d'outro rebuçado, acompanhei a sua cauda
    sussurrante e côr d'açafrão. Ella parára deante da Machina-de-contar, de
    que Jacintho já lhe fornecera pacientemente uma explicação sapiente. E
    de novo roçou os buracos d'onde espreitam os numeros negros, e com o seu
    enlevado sorriso murmurou:–«Prodigiosa, esta prensa electrica!…»

    Jacintho accudiu:

    –Não! Não! Esta é…

    Mas ella sorria, seguia… Madame de Treves não comprehendera nenhum
    apparelho do meu Principe! Madame de Treves não attendera a nenhuma
    dissertação do meu Principe! N'aquelle gabinete de sumptuosa Mechanica
    ella sómente se occupára em exercer, com proveito e com perfeição, a
    Arte de Agradar. Toda ella era uma sublime falsidade. Não escondi a
    Danjon a admiração que me penetrava.

    O facundo Academico revirou os olhos bogalhudos:

    –Oh! e um gôsto, uma intelligencia, uma seducção!… E depois como se
    janta bem em casa d'ella! Que café!… Mulher superior, meu caro senhor,
    verdadeiramente superior!

    Deslisei para a bibliotheca. Logo á entrada da erudita nave, junto da
    estante dos Padres da Egreja onde alguns cavalheiros conversavam, parei
    a saudar o director do _Boulevard_ e o Psychologo-feminista, o auctor do
    _Coração Triple_, com quem na véspera me familiarisára ao almoço, no
    202. O seu acolhimento foi paternal: e, como se necessitasse a minha
    presença, reteve na sua mão illustre, rutilante de anneis, com força e
    com gula, a minha grossa palma serrana. Todos aquelles senhores, com
    effeito, celebravam o seu Romance, a _Couraça_, lançado n'essa semana
    entre gritinhos de gôzo e um quente rumor de saias alvoroçadas. Um
    sobretudo, com uma vasta cabeça arranjada á Van Dick e que parecia
    postiça, proclamava, alçado na ponta das botas, que nunca penetrára tão
    fundamente, na velha alma humana, a ponta da Psychologia Experimental!
    Todos concordavam, se apertavam contra o Psychologo, o tratavam por
    «mestre». Eu mesmo, que nem sequer entrevira a capa amarella da
    _Couraça_, mas para quem elle voltava os olhos pedinchões e famintos de
    mais mel, murmurei com um leve assobio:–«uma delicia!»

    E o Psychologo, reluzindo, com o labio humido, entalado n'um alto
    collarinho onde se enroscava uma gravata á 1830, confessava modestamente
    que dissecára todas aquellas almas da _Couraça_ com «algum cuidado»,
    sobre documentos, sobre pedaços de vida ainda quentes, ainda a
    sangrar… E foi então que Marizac, o duque de Marizac, notou, com um
    sorriso mais afiado que um lampejo de navalha, e sem tirar as mãos dos
    bolsos:

    –No emtanto, meu caro, n'esse livro tão profundamente estudado ha um
    erro bem estranho, bem curioso!…

    O Psychologo, vivamente, atirára a cabeça para traz:

    –Um erro?

    Oh, sim, um erro! E bem inesperado n'um mestre tão experiente!… Era
    attribuir á esplendida amorosa da _Couraça_, uma duqueza, e do gosto
    mais puro,–_um collete de setim preto_! Esse collete, assim preto, de
    setim, apparecia na bella pagina de analyse e paixão em que ella se
    despia no quarto de Ruy d'Alize. E Marizac, sempre com as mãos nos
    bolsos, mais grave, appellava para aquelles senhores. Pois era
    verosimil, n'uma mulher como a duqueza, esthetica, pre-raphaelitica, que
    se vestia no Doucet, no Paquin, nos costureiros intellectuaes, um
    collete de setim preto?

    O Psychologo emmudecera, colhido, trespassado! Marizac era uma tão
    suprema auctoridade sobre a roupa intima das duquezas, que á tarde, em
    quartos de rapazes, por impulsos idealistas e anceios d'alma
    dolorida–se põem em collete e saia branca!… De resto o director do
    _Boulevard_ condemnára logo sem piedade, com uma experiencia firme,
    aquelle collete, só possivel n'alguma mercieira atrazada que ainda
    procurasse effeitos de carne nedia sobre setim negro. E eu, para que me
    não julgassem alheio ás coisas dos adulterios ducaes e do luxo, acudi,
    mettendo os dedos pelo cabello:

    –Realmente, preto, só se estivesse de lucto pesado, pelo pae!

    O pobre mestre da _Couraça_ succumbira. Era a sua gloria de Doutor em
    Elegancias-Femininas desmantelada–e Paris suppondo que elle nunca vira
    uma duqueza desatacar o collete na sua alcova de Psychologo! Então,
    passando o lenço sobre os labios que a angustia ressequira, confessou o
    erro, e contrictamente o attribuiu a uma improvisação tumultuosa:

    –Foi um tom falso, um tom perfeitamente falso que me escapou!… Com
    effeito! é absurdo, um collete preto!… Mesmo por harmonia com o estado
    da alma da duqueza devia ser lilaz, talvez côr de reseda muito
    desmaiada, com um frouxo de rendas antigas de Malines… É prodigioso
    como me escapou! Pois tenho o meu caderno de entrevistas bem annotadas,
    bem documentadas!…

    Na sua amargura, terminou por supplicar a Marizac que espalhasse por
    toda a parte, no Club, nas salas, a sua confissão. Fôra um engano de
    artista, que trabalha na febre, vasculhando as almas, perdido nas
    profundidades negras das almas! Não reparára no collete, confundira os
    tons… E gritou, com os braços estendidos para o director do
    _Boulevard_:

    –Estou prompto a fazer uma rectificação, n'uma _interview_, meu caro
    mestre! Mande um dos seus redactores… Ámanhã, ás dez horas! Fazemos
    uma _interview_, fixamos a côr. Evidentemente é lilaz… Mande um dos
    seus homens, meu caro mestre! É tambem uma occasião para eu confessar,
    bem alto, os serviços que o _Boulevard_ tem feito ás sciencias
    psychologicas e feministas!

    Assim elle supplicava, encostado á estante, ás lombadas dos Santos
    Padres. E eu abalei, vendo ao fundo da Bibliotheca Jacintho que se
    debatia e se recusava entre dous homens.

    Eram os dois homens de Madame de Treves–o marido, conde de Treves,
    descendente dos reis de Candia, e o amante, o terrivel banqueiro judeu,
    David Ephraim. E tão enfronhadamente assaltavam o meu Principe que nem
    me reconheceram, ambos n'um aperto de mão molle e vago me trataram por
    «caro conde»! N'um relance, rebuscando charutos sobre a mesa de
    limoeiro, comprehendi que se tramava a _Companhia das Esmeraldas da
    Birmania_, medonha empreza em que scintillavam milhões, e para que os
    dous confederados de bolsa e d'alcôva, desde o começo do anno, pediam o
    nome, a influencia, o dinheiro de Jacintho. Elle resistira, n'um enfado
    dos negocios, desconfiado d'aquellas esmeraldas soterradas n'um valle da
    Asia. E agora o conde de Treves, um homem esgrouviado, de face
    rechupada, erriçada de barba rala, sob uma fronte rotunda e amarella
    como um melão, assegurava ao meu pobre Principe que no Prospecto já
    preparado, demonstrando a grandeza do negocio, perpassava um fulgôr das
    _Mil e Uma noites_. Mas sobretudo aquella excavação de esmeraldas
    convidava todo o espirito culto pela sua acção civilisadora. Era uma
    corrente de idéas occidentaes, invadindo, educando a Birmania. Elle
    acceitára a direcção por patriotismo…

    –De resto é um negocio de joias, de arte, de progresso, que deve ser
    feito, n'um mundo superior, entre amigos…

    E do outro lado o terrivel Ephraim, passando a mão curta e gorda sobre a
    sua bella barba, mais frisada e negra que a d'um Rei Assyrio, affiançava
    o triumpho da empreza pelas grossas forças que n'ella entravam, os
    Nagayers, os Bolsans, os Saccart…

    Jacintho franzia o nariz, enervado:

    –Mas, ao menos, estão feitos os estudos? Já se provou que ha
    esmeraldas?

    Tanta ingenuidade exasperou Ephraim:

    –Esmeraldas! Está claro que ha esmeraldas!… Ha sempre esmeraldas
    desde que haja accionistas!

    E eu admirava a grandeza d'aquella maxima–quando appareceu, esbaforido,
    desdobrando o lenço muito perfumado, um dos familiares do 202, Todelle
    (Antonio de Todelle), moço já calvo, d'infinitas prendas, que conduzia
    Cotillons, imitava cantores de Café Concerto, temperava saladas raras,
    conhecia todos os enredos de Paris.

    –Já veio?… Já cá está o Gran-Duque?

    Não, S. Alteza ainda não chegára. E Madame de Todelle?

    –Não poude… No sophá… Esfolou uma perna.

    –Oh!

    –Quasi nada… Cahiu do velocipede!

    Jacintho, logo interessado:

    –Ah! Madame de Todelle anda já de velocipede?

    –Aprende. Nem tem velocipede!… Agora, na quaresma, é que se applicou
    mais, no velocipede do padre Ernesto, do cura de S. José! Mas hontem, no
    Bosque, zás, terra!… Perna esfolada. Aqui.

    E na sua propria côxa, com a unha, vivamente, desenhou o esfolão.
    Ephraim, brutal e serio, murmurou:–«Diabo! é no melhor sitio!» Mas
    Todelle nem o escutára, correndo para o director do _Boulevard_, que se
    avançava, lento e barrigudo, com o seu monoculo negro semelhante a um
    pacho. Ambos se collaram contra uma estante, n'um cochichar profundo.

    Jacintho e eu entramos então no bilhar, forrado de velhos couros de
    Cordova, onde se fumava. Ao canto d'um divan, o grande Dornan, o poeta
    neo-platonico e mystico, o Mestre subtil de todos os rithmos, espapado
    nas almofadas, com um dos pés sob a côxa gorda, como um Deus indio, dois
    botões do collete desabotoados, a papeira cahida sobre o largo decote do
    collarinho, mamava magestosamente um immenso charuto. Ao pé d'elle,
    também sentado, um velho que eu nunca encontrára no 202, esbelto, de
    cabellos brancos em anneis passados por traz das orelhas, a face coberta
    de pó de arroz, um bigodinho muito negro e arrebitado, findára
    certamente alguma historia de bom e grosso sal–porque deante do divan,
    de pé, Joban, o suprèmo Critico de Theatro, ria com a calva escarlate de
    gôso, e um moço muito ruivo (descendente de Colygny), de perfil de
    periquito, sacudia os braços curtos como azas, e gania: «delicioso!
    divino!» Só o poeta idealista permanecera impassivel, na sua magestade
    obesa. Mas, quando nos acercamos, esse Mestre do rythmo perfeito, depois
    de soprar uma farta fumarada e me saudar com um pesado mover das
    palpebras, começou n'uma voz de rico e sonoro metal:

    –Ha melhor, ha infinitamente melhor… Todos aqui conhecem Madame
    Noredal. Madame Noredal tem umas immensas nadegas…

    Desgraçadamente para o meu regalo Todelle invadiu o bilhar, reclamando
    Jacintho com alarido. Eram as senhoras que desejavam ouvir no
    Phonographo uma aria da Patti! O meu amigo sacudiu logo os hombros,
    n'uma surda irritação:

    –Aria da Patti… Eu sei lá! Todos esses rolos estão em confusão. Além
    d'isso o Phonographo trabalha mal. Nem trabalha! Tenho tres. Nenhum
    trabalha!

    –Bem! exclamou alegremente Todelle. Canto eu a _Pauvre fille_… É mais
    de ceia! _Oh, la pauv', pauv', pauv'_…

    Travou do meu braço, e arrastou a minha timidez serrana para o salão côr
    de rosa murcha, onde, como Deusas n'um circulo escolhido do Olympo,
    resplandeciam Madame d'Oriol, Madame Verghane, a princeza de Carman, o
    uma outra loura, com grandes brilhantes nas grandes farripas, e
    d'hombros tão nús, e braços tão nús, e peitos tão nús, que o seu vestido
    branco com bordados d'ouro pallido parecia uma camisa, a escorregar.
    Impressionado, ainda retive Todelle, rugi baixinho:–«Quem é?» Mas já o
    festivo homem correra para Madame d'Oriol, com quem riam, n'uma
    familiaridade superior e facil, Marizac (o duque de Marizac) e um moço
    de barba côr de milho e mais leve que uma penugem, que se balouçava
    gracilmente sobre os pés, como uma espiga ao vento. E eu, encalhado
    contra o piano, esfregava lentamente as mãos, amassando o meu embaraço,
    quando Madame Verghane se ergueu do sophá onde conversava com um velho
    (que tinha a Gran-Cruz de Santo André), e avançou, deslizou no tapete,
    pequena e nedia, na sua copiosa cauda de velludo verde-negro. Tão fina
    era a cinta, entre os encontros fecundos e a vastidão do peito, todo nú
    e côr de nacar, que eu receava que ella partisse pelo meio, no seu lento
    ondular. Os seus famosos bandós negros, d'um negro furioso, inteiramente
    lhe tapavam as orelhas; e, no grande aro d'ouro que os circumdava,
    reluzia uma estrella de brilhantes, como na fronte dos anjos de
    Boticelli. Conhecendo sem dúvida a minha auctoridade no 202, ella
    despediu sobre mim ao passar, como raio benefico, um sorriso que lhe
    liquescia mais os olhos liquidos, e murmurou:

    –O Gran-Duque vem, com certeza?

    –Oh com certeza, minha senhora, para o peixe!

    –P'ra o peixe?…

    Mas justamente, na antecamara, rompeu, em rufos e arcadas triumphaes, a
    marcha de Rakoczy. Era elle! Na Bibliotheca, o nosso retumbante mordomo
    annunciava:

    –S. Alteza o Gran-Duque Casimiro!

    Madame de Verghane, com um curto suspiro d'emoção, alteou o peito, como
    para lhe expôr melhor a magnificencia eburnea. E o homem do _Boulevard_,
    o velho da Gran-Cruz, Ephraim, quasi me empurraram, investindo para a
    porta, na immensa sofreguidão de Pessoa Real.

    Precedido por Jacintho, o Gran-Duque surgiu. Era um possante homem, de
    barba em bico, já grisalha, um pouco calvo. Durante um momento hesitou,
    com um balanço lento sobre os pés pequeninos, calçados de sapatos rasos,
    quasi sumidos sob as pantalonas muito largas. Depois, pesado e risonho,
    veio apertar a mão ás senhoras que mergulhavam nos velludos e sêdas, em
    mesuras de Côrte. E immediatamente, batendo com carinhosa jovialidade no
    hombro de Jacintho:

    –E o peixe?… Preparado pela receita que mandei, hein?

    Um murmurio de Jacintho tranquillisou S. Alteza.

    –Ainda bem, ainda bem! exclamou elle, no seu vozeirão de commando. Que
    eu não jantei, absolutamente não jantei! É que se está jantando
    deploravelmente em casa do Joseph. Mas porque se vai jantar ainda ao
    Joseph? Sempre que chego a Paris, pergunto: «Onde é que se janta agora?»
    Em casa do Joseph!… Qual! não se janta! Hoje, por exemplo,
    gallinholas… Uma peste! Não tem, não tem a noção da gallinhola!

    Os seus olhos azulados, d'um azul sujo, rebrilhavam, alargados pela
    indignação:

    –Paris está perdendo todas as suas superioridades. Já se não janta, em
    Paris!

    Então, em redor, aquelles senhores concordaram, desolados. O conde de
    Treves defendeu o Bignon, onde se conservavam nobres tradições. E o
    director do _Boulevard_, que se empurrava todo para S. Alteza, attribuia
    a decadencia da cozinha, em França, á Republica, ao gosto democratico e
    torpe pelo barato.

    –No Paillard, todavia…–começou o Ephraim.

    –No Paillard! gritou logo o Gran-Duque. Mas os Borgonhas são tão maus!
    os Borgonhas são tão maus!…

    Deixára pender os braços, os hombros, descorçoado. Depois, com o seu
    lento andar balançado como o d'um velho piloto, atirando um pouco para
    traz as lapellas da casaca, foi saudar Madame d'Oriol, que toda ella
    faiscou, no sorriso, nos olhos, nas joias, em cada préga das suas sêdas
    côr de salmão. Mas apenas a clara e macia creatura, batendo o leque como
    uma aza alegre, começára a chalrar, S. Alteza reparou no apparelho do
    Theatrophone, pousado sobre uma mesa entre flôres, e chamou Jacintho:

    –Em communicação com o Alcazar?… O Theatrophone?

    –Certamente, meu senhor.

    Excellente! Muito chic! Elle ficára com pena de não ouvir a Gilberte
    n'uma cançoneta nova, as _Casquettes_. Onze e meia! Era justamente a
    essa hora que ella cantava, no ultimo acto da _Revista
    Electrica_…–Collou ás orelhas os dous «receptores» do Theatrophone, e
    quedou embebido, com uma ruga séria na testa dura. De repente, n'um
    commando forte:

    –É ella! Chut! Venham ouvir!… É ella! Venham todos! Princeza de
    Carman, para aqui! Todos! É ella! Chut…

    Então, como Jacintho installára prodigamente dois Theatrophones, cada um
    provido de doze fios, as senhoras, todos aquelles cavalheiros, se
    apressaram a acercar submissamente um receptor do ouvido, e a permanecer
    immoveis para saborear _Les Casquettes_. E no salão côr de rosa murcha,
    na nave da Bibliotheca, onde se espalhára um silencio augusto, só eu
    fiquei desligado do Theatrophone, com as mãos nas algibeiras e ocioso.

    No relogio monumental, que marcava a hora de todas as Capitaes e o
    movimento de todos os Planetas, o ponteiro rendilhado adormeceu. Sobre a
    mudez e a immobilidade pensativa d'aquelles dorsos, d'aquelles decotes,
    a Electricidade refulgia com uma tristeza de sol regelado. E de cada
    orelha attenta, que a mão tapava, pendia um fio negro, como uma tripa.
    Dornan, esbroado sobre a mesa, cerrára as palpebras, n'uma meditação de
    monge obeso. O historiador dos Duques d'Anjou, com o «receptor» na ponta
    delicada dos dedos, erguendo o nariz agudo e triste, gravemente cumpria
    um dever palaciano. Madame d'Oriol sorria, toda languida, como se o fio
    lhe murmurasse doçuras. Para desentorpecer arrisquei um passo timido.
    Mas cahiu logo sobre mim um _chut_ severo do Gran-Duque! Recuei para
    entre as cortinas da janella, a abrigar a minha ociosidade. O Philologo
    da _Couraça_, distante da mesa, com o seu comprido fio esticado, mordia
    o beiço, n'um esforço de penetração. A beatitude de S. Alteza, enterrado
    n'uma vasta poltrona, era perfeita. Ao lado o collo de Madame Verghane
    arfava como uma onda de leite. E o meu pobre Jacintho, n'uma applicação
    conscienciosa, pendia sobre o Theatrophone tão tristemente como sobre
    uma sepultura.

    Então, ante aquelles seres de superior civilisação, sorvendo n'um
    silencio devoto as obscenidades que a Gilberte lhes gania, por debaixo
    do solo de Paris, atravez de fios mergulhados nos esgotos, cingidos aos
    canos das fezes,–pensei na minha aldeia adormecida. O crescente de lua,
    que, seguido d'uma estrellinha, corria entre nuvens sobre os telhados e
    as chaminés negras dos Campos-Elyseos, tambem andava lá fugindo, mais
    lustrosa e mais dôce, por cima dos pinheiraes. As rãs coaxavam ao longe
    no Pego da Dona. A ermidinha de S. Joaquim branquejava no cabeço,
    nuasinha e candida…

    Uma das senhoras murmurou:

    –Mas, não é a Gilberte!…

    E um dos homens:

    –Parece um cornetim…

    –Agora são palmas…

    –Não, é o Paulin!

    O Gran-Duque lançou um _chut_ feroz… No pateo da nossa casa ladravam
    os cães. D'além do ribeiro respondiam os cães do João Saranda. Como me
    encontrei descendo por uma quelha, sob as ramadas, com o meu varapau ao
    hombro? E sentia, entre a sêda das cortinas, n'um fino ar macio, o
    cheiro das pinhas estalando nas lareiras, o calor dos curraes atravez
    das sebes altas, e o susurro dormente das levadas…

    Despertei a um brado que não sahia nem dos eidos, nem das sombras. Era o
    Gran-Duque que se erguera, encolhia furiosamente os hombros:

    –Não se ouve nada!… Só guinchos! E um zumbido! Que massada!… Pois é
    uma belleza, a cançoneta:

    Oh les casquettes,
    Oh les casque-e-e-tes!…

    Todos largaram os fios–proclamavam a Gilberte deliciosa. E o mordomo
    bemdito, abrindo largamente os dous batentes, annunciou:

    –_Monseigneur est servi_!

    Na mesa, que pelo esplendor das orchideas mereceu os louvores ruidosos
    de S. Alteza, fiquei entre o ethereo poeta Dornan e aquelle moço de
    pennugem loura que balouçava como uma espiga ao vento. Depois de
    desdobrar o guardanapo, de o accomodar regaladamente sobre os joelhos,
    Dornan desenvencilhou da corrente do relogio uma enorme luneta para
    percorrer o _menu_–que approvou. E inclinando para mim a sua face de
    Apostolo obeso:

    –Este Porto de 1834, aqui era casa do Jacintho, deve ser authentico…
    Hein?

    Assegurei ao Mestre dos Rythmos que o «Porto» envelhecêra nas adegas
    classicas do avô Galião. Elle afastou, n'uma preparação methodica, os
    longos, densos fios do bigode que lhe cobriam a bocca grossa. Os
    escudeiros serviram um consommé frio com trufas. E o moço côr de milho,
    que espalhára pela mesa o seu olhar azul e dôce, murmurou, com uma
    desconsolação risonha:

    –Que pena!… Só falta aqui um general e um bispo!

    Com effeito! Todas as Classes Dominantes comiam n'esse momento as trufas
    do meu Jacintho… Mas defronte Madame d'Oriol lançára um riso mais
    cantado que um gorgeio. O Gran-Duque, n'uma silva de orchideas que
    orlava o seu talher, notára uma, sombriamente horrenda, semelhante a um
    lacrau esverdinhado, de azas lustrosas, gordo e tumido de veneno: e
    muito delicadamente offertára a flôr monstruosa a Madame d'Oriol, que,
    com trinado riso, solemnemente, a collocou no seio. Collado áquella
    carne macia, d'uma brancura de nata fina, o lacrau inchára, mais verde,
    com as azas frementes. Todos os olhos se accendiam, se cravavam no lindo
    peito, a que a flôr disforme, de côr venenosa, apimentava o sabor. Ella
    reluzia, triumphava. Para ageitar melhor a orchidea os seus dedos
    alargaram o decote, aclararam bellezas, guiando aquellas curiosidades
    flammejantes que a despiam. A face vincada de Jacintho pendia para o
    prato vasio. E o alto lyrico do _Crepusculo Mystico_, passando a mão
    pelas barbas, rosnou com desdem:

    –Bella mulher… Mas ancas seccas, e aposto que não tem nadegas!

    No emtanto o moço de loura pennugem voltára á sua estranha mágoa. Não
    possuirmos um general com a sua espada, e um bispo com seu baculo!…

    –Para que, meu caro senhor?

    Elle atirou um gesto suave em que todos os seus anneis faiscaram:

    –Para uma bomba de dynamite… Temos aqui um explendido ramalhete de
    flôres de Civilisacão, com um Gran-Duque no meio. Imagine uma bomba de
    dynamite, atirada da porta!… Que bello fim de ceia, n'um fim de
    seculo!

    E como eu o considerava assombrado, elle, bebendo golos de
    Chateau-Yquem, declarou que hoje a unica emoção, verdadeiramente fina,
    seria aniquillar a Civilisação. Nem a sciencia, nem as artes, nem o
    dinheiro, nem o amor, podiam já dar um gosto intenso e real ás nossas
    almas saciadas. Todo o prazer que se extrahíra de _crear_ estava
    esgotado. Só restava, agora, o divino prazer de _destruir_!

    Desenrolou ainda outras enormidades, com um riso claro nos olhos claros.
    Mas eu não attendia o gentil pedante, colhido por outro
    cuidado–reparando que em torno, subitamente, todo o serviço estacára
    como no conto do Palacio Petrificado. E o prato agora devido era o peixe
    famoso da Dalmacia, o peixe de S. Alteza, o peixe inspirador da festa!
    Jacintho, nervoso, esmagava entre os dedos uma flôr. E todos os
    escudeiros sumidos!

    Felizmente o Gran-Duque contava a historia d'uma caçada, nas coutadas de
    Sarvan, em que uma senhora, mulher de um banqueiro, saltára bruscamente
    do cavallo, n'um descampado, sem arvores. Elle e todos os caçadores
    param–e a galante senhora, livida, com a amazona arregaçada, corre para
    traz d'uma pedra… Mas nunca soubemos em que se occupava a banqueira,
    n'esse descampado, agachada atraz da pedra–porque justamente o mordomo
    appareceu, relusente de suor, e balbuciou uma confidencia a Jacintho,
    que mordeu o beiço, trespassado. O Gran-Duque emmudecera. Todos se
    entre-olhavam, n'uma anciedade alegre. Então o meu Principe, com
    paciencia, com heroicidade, forçando pallidamente o sorriso:

    –Meus amigos, ha uma desgraça…

    Dornan pulou na cadeira:

    –Fogo?

    Não, não era fogo. Fôra o elevador dos pratos, que inesperadamente, ao
    subir o peixe de S. Alteza, se desarranjára, e não se movia, encalhado!

    O Gran-Duque arremessou o guardanapo. Toda a sua polidez estalava como
    um esmalte mal posto:

    –Essa é forte!… Pois um peixe que me deu tanto trabalho! Para que
    estamos nós aqui então a cear? Que estupidez! E porque o não trouxeram á
    mão, simplesmente? Encalhado… Quero vêr! Onde é a copa?

    E, furiosamente, investiu para a copa, conduzido pelo mordomo que
    tropeçava, vergava os hombros, ante esta esmagadora colera de Principe.
    Jacintho seguiu, como uma sombra, levado na rajada de S. Alteza. E eu
    não me contive, tambem me atirei para a copa, a contemplar o desastre,
    emquanto Dornan, batendo na côxa, clamava que se ceasse sem peixe!

    O Gran-Duque lá estava, debruçado sobre o poço escuro do elevador, onde
    mergulhára uma vela que lhe avermelhava mais a face esbraseada.
    Espreitei, por sobre o seu hombro real. Em baixo, na treva, sobre uma
    larga prancha, o peixe precioso alvejava, deitado na travessa, ainda
    fumegando, entre rodellas de limão. Jacintho, branco como a gravata,
    torturava desesperadamente a mola complicada do ascensor. Depois foi o
    Gran-Duque que, com os pulsos cabelludos, atirou um empuxão tremendo aos
    cabos em que elle rolava. Debalde! O apparelho enrijára n'uma inercia de
    bronze eterno.

    Sêdas roçagaram á entrada da copa. Era Madame d'Oriol, e atraz Madame
    Verghane, com os olhos a faiscar, na curiosidade d'aquelle lance em que
    o Principe soltára tanta paixão. Marizac, nosso intimo, surgiu tambem,
    risonho, propondo uma descida ao poço com escadas. Depois foi o
    Psychologo, que se abeirou, psychologou, attribuindo intenções sagazes
    ao peixe que assim se recusava. E a cada um o Gran-Duque, escarlate,
    mostrava com dedo tragico, no fundo da cova, o seu peixe! Todos
    afundavam a face, murmuravam: «lá está!» Todelle, na sua precipitação,
    quasi se despenhou. O periquito descendente de Colygny batia as azas,
    ganindo:–«Que cheiro elle deita, que delicia!» Na copa atulhada os
    decotes das senhoras roçavam a farda dos lacaios. O velho caiado de pó
    d'arroz metteu o pé n'um balde de gelo, com um berro ferino. E o
    Historiador dos Duques d'Anjou movia por cima de todos o seu nariz
    bicudo e triste.

    De repente, Todelle teve uma idéa!

    –É muito simples… É pescar o peixe!

    O Gran-Duque bateu na côxa uma palmada triumphal. Está claro! Pescar o
    peixe! E no gozo d'aquella facecia, tão rara e tão nova, toda a sua
    colera se sumíra, de novo se tornára o Principe amavel, de magnifica
    polidez, desejando que as senhoras se sentassem para assistir á pesca
    miraculosa! Elle mesmo seria o pescador! Nem se necessitava, para a
    divertida façanha, mais que uma bengala, uma guita e um gancho.
    Immediatamente Madame d'Oriol, excitada, offereceu um dos seus ganchos.
    Apinhados em volta d'ella, sentindo o seu perfume, o calor da sua pelle,
    todos exaltamos a amoravel dedicação. E o Psychologo proclamou que nunca
    se pescára com tão divino anzol!

    Quando dois escudeiros estonteados voltaram, trazendo uma bengala e um
    cordel, já o Gran-Duque, radiante, vergára o gancho em anzol. Jacintho,
    com uma paciencia livida, erguia uma lampada sobre a escuridão do poço
    fundo. E os senhores mais graves, o Historiador, o director do
    _Boulevard_, o Conde de Treves, o homem de cabeça á Van-Dick, sorriam,
    amontoados á porta, n'um interesse reverente pela phantasia de S.
    Alteza. Madame de Treves, essa, examinava serenamente, com a sua nobre
    luneta, a installação da copa. Só Dornan não se erguera da mesa, com os
    punhos cerrados sobre a toalha, o gordo pescoço encovado, no tedio
    sombrio de fera a quem arrancaram a posta.

    No emtanto S. Alteza pescava com fervor! Mas debalde! O gancho, pouco
    agudo, sem presa, bamboleando na extremidade da guita frouxa, não
    fisgava.

    –Oh Jacintho, erga essa luz! gritava elle, inchado e suado. Mais!…
    Agora! Agora! É na guelra! Só na guelra é que o gancho o póde prender.
    Agora… Qual! Que diabo! Não vae!

    Tirou a face do poço, resfolgando e affrontado. Não era possivel! Só
    carpinteiros, com alavancas!… E todos, anciosamente, bradamos que se
    abandonasse o peixe!

    O Principe, risonho, sacudindo as mãos, concordava que por fim «fôra
    mais divertido pescal-o do que comêl-o!» E o elegante bando refluiu
    sofregamente para a mesa, ao som d'uma valsa de Strauss, que os Tziganes
    arremeçaram em arcadas de languido ardôr. Só Madame de Treves se demorou
    ainda, retendo o meu pobre Jacintho, para lhe assegurar quanto admirava
    o arranjo da sua copa… Oh perfeita! Que comprehensão da vida, que fina
    intelligencia do conforto!

    S. Alteza, encalmado pelo esforço, esvasiou poderosamente dous copos de
    Chateau-Lagrange. Todos o acclamavam como um pescador genial. E os
    escudeiros serviram o _Barão de Pauillac_, cordeiro das lezirias
    marinhas, que, preparado com ritos quasi sagrados, toma este grande nome
    sonoro e entra no Nobiliario de França.

    Eu comi com o appetite d'um heroe de Homero. Sobre o meu copo e o de
    Dornan o Champagne scintillou e jorrou ininterrompidamente como uma
    fonte de inverno. Quando se serviram ortolans gelados, que se derretiam
    na bocca, o divino poeta murmurou, para meu regalo, o seu soneto sublime
    a «Santa Clara». E como, do outro lado, o moço de pennugem loura
    insistia pela destruição do velho mundo, tambem concordei, e, sorvendo o
    Champagne coalhado em sorvete, maldissemos o Seculo, a Civilisação,
    todos os orgulhos da Sciencia! Através das flôres e das luzes, no
    emtanto, eu seguia as ondas arfantes do vasto peito de Madame Verghane,
    que ria como uma bacchante. E nem me apiedava de Jacintho que, com a
    doçura de S. Jacintho sobre o cêpo, esperava o fim do seu martyrio e da
    sua festa.

    Ella findou. Ainda recordo, ás tres horas da noite, o Gran-Duque na
    antecamara, muito vermelho, mal firme nos pés pequeninos, sem acertar
    com as mangas da pelissa que Jacintho e eu lhe ajudamos a
    enfiar–convidando o meu amigo, n'uma effusão carinhosa, a ir caçar ás
    suas terras da Dalmacia…

    –Devo ao meu Jacintho uma bella pesca, quero que elle me deva uma bella
    caçada!

    E emquanto o acompanhavamos, entre as alas dos escudeiros, pela vasta
    escada onde o mordomo o precedia erguendo um candelabro de tres lumes,
    S. Alteza repisava, pegajoso:

    –Uma bella caçada… E tambem vae Fernandes! Bom Fernandes, Zé
    Fernandes! Ceia superior, meu Jacintho! O _Barão de Pauillac_,
    divino!… Creio que o devemos nomear Duque… O Senhor Duque de
    Pauillac! Mais um bocado da perna do Senhor Duque de Pauillac. Ah!
    Ah!… Não venham fóra! Não se constipem!

    E do fundo do coupé, ao rodar, ainda bradou:

    –O peixe, Jacintho, desencalha o peixe! Excellente, ao almoço, frio,
    com môlho verde!

  • A Alma Nova

    A Alma Nova

    Aproximadamente 13.930 palavras.

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    Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
    produced from images generously made available by National
    Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)

    GUILHERME D'AZEVEDO

    A ALMA NOVA

    LISBOA

    TYPOGRAPHIA SOUSA & FILHO

    Rua do Norte, 145

    1874

    A ANTHERO DE QUENTAL

    A ANTHERO DE QUENTAL

    _Meu amigo.

    Este livro parece-me um pouco do nosso tempo. Sorrindo ou combatendo,
    fala da Humanidade e da Justiça, inspirando-se no mundo que nos rodeia.

    E porque julgo que elle segue na direcção nova dos espiritos, offereço-o
    a um obreiro honesto do pensamento: a uma alma lucida, moderna e
    generosa_.

    Dezembro de 1873.

    Guilherme d'Azevedo.

    I

    Eu poucas vezes canto os casos melancolicos,
    Os lethargos gentis, os extasis bucolicos
    E as desditas crueis do proprio coração;
    Mas não celebro o vicio e odeio o desalinho
    Da muza sem pudor que mostra no caminho
    A liga á multidão.

    A sagrada poesia, a peregrina eterna,
    Ouvi dizer que soffre uma affecção moderna,
    Uns fastios sem nome, uns tedios ideaes;
    Que ensaia, presumida, o gesto romanesco
    E, vaidosa de si, no collo eburneo e fresco,
    Põe crémes triviaes!

    Oh, pensam mal de ti, da tua castidade!
    Deslumbra-os o fulgor dos astros da cidade,
    Os falsos ouropeis das cortezãs gentis,
    E julgam já tocar-te as roçagantes vestes
    Ó deusa virginal das coleras celestes,
    Das graças juvenis!

    Retine a cançoneta alegre das bachantes,
    Saudadas nos wagons, nos caes, nos restaurantes,
    Visões d'olhar travesso e provocantes pés,
    E julgam já escutar a voz do paraiso,
    Amando o que ha de falso e torpe no sorriso
    Das musas dos cafés!

    Oh, tu não és, de certo, a virgem quebradiça
    Estiolada e gentil, que vem depois da missa
    Mostrar pela cidade o seu fino desdem,
    Nem a fada que sente um vaporoso tedio
    Emquanto vae sonhando um noivo rico e nédio
    Que a possa pagar bem!

    Nem posso mesmo crêr, archanjo, que tu sejas
    A menina gentil que ás portas das egrejas
    Emquanto a multidão galante adora a cruz,
    A bem do pobre enfermo á turba pede esmola
    Nas pompas ideaes da moda, que a consola
    Das magoas do Jesus!

    E nas horas de luta emquanto os povos choram
    E a guerra tudo mata e os reis tudo devoram,
    Não posso dizer bem se acaso tu serás
    A senhora que espalha os languidos fastios
    Nos pomposos salões, sorrindo a fazer fios
    Á viva luz do gaz!

    Tu és a apparição gentil, meia selvagem,
    D'olhar profundo e bom, de candida roupagem,
    De fronte immaculada e seios virginaes,
    Que desenha no espaço o limpido contorno
    E cinge na cabeça o virginal adorno
    De folhas naturaes.

    Tens a linha ideal das candidas figuras;
    As curvas divinaes; as tintas sãs e puras
    Da austera virgindade; as bellas correcções;
    E segues magestosa em teu longo caminho
    Deixando fluctuar a tunica de linho
    Ás frescas virações!

    Quando trava batalha a tua irmã Justiça
    Acodes ao combate e apontas sobre a liça
    Uma espada de luz ao Mal dominador:
    E pensas na belleza harmonica das cousas
    Sentindo que se move um mundo sob as louzas
    No germen d'uma flôr!

    N'um sorriso cruel, pungente d'ironia,
    Tambem sabes vibrar, serena, altiva e fria,
    O latego febril das grandes punições;
    E vendo-te sorrir, a geração doente,
    Sentir cuida, talvez, a nota decadente,
    Das morbidas canções!

    Oh, vôa sem cessar traçando nos teus hombros
    O manto constellado, ó deusa dos assombros,
    Até chegar um dia ás regiões de luz,
    Aonde, na poeira aurifera dos astros,
    Contricto, Satanaz enxugará de rastos,
    As chagas de Jesus!

    Logar á minha fada ó languidas senhoras!
    E vós que amaes do circo as noites tentadoras,
    Os fluctuantes véos, os gestos divinaes,
    Podeis vel-a passar n'um turbilhão fantastico,
    Voando no corcel febril, nervoso, elastico,
    Dos novos ideaes!

    II

    Eu vi passar, além, vogando sobre os mares
    O cadaver d'Ophelia: a espuma da voragem
    E as algas naturaes, serviam de roupagem
    Á triste apparição das noites seculares!

    Seguia tristemente ás regiões polares
    Nos limos das marés; e a rija cartilagem
    Sustinha-lhe tremendo aos halitos da aragem,
    No peito carcomido, uns grandes nenuphares!

    Oh! lembro-me que tu, minha alma, em certos dias
    Sorriste já, tambem, nas vagas harmonias
    Das cousas ideaes! mas hoje á luz mortiça

    Dos astros, caminhando; apenas as ruinas
    Das tuas creações fantasticas, divinas,
    De pasto vão servindo aos lyrios da justiça!

    III

    VELHA FARÇA

    Rufa ao longe um tambor. Dir-se-ia ser o arranco
    D'um mundo que desaba; ahi vae tudo em tropel!
    Vão ver passar na rua um velho saltimbanco
    E uma féra que dansa atada a um cordel.

    Ó funambulos vis, comediantes rotos,
    O vosso riso alvar agrada á multidão!
    E quando vós passaes o archanjo dos esgotos
    Atira-vos a flôr que mais encontra á mão!

    Lá vae tudo a correr: são as grotescas dansas
    D'uns velhos animaes que já foram crueis
    E agora vão soffrendo os risos das creanças
    E os apupos da turba a troco de dez réis.

    Conta um velho histrião, descabellado e pallido,
    Da féra sanguinaria o instincto vil e mau,
    E vae chicoteando um urso meio invalido
    Que lambe as mãos ao povo e faz jogo de páu.

    Depois inclina a face e obriga a que lh'a beije
    A fera legendaria olhada com pavor:
    E uma deosa gentil, vestida de bareje,
    Annuncia o prodigio a rufo de tambor!

    E as mães erguem ao collo uns filhos enfezados
    Que nunca tinham visto a luz dos ouropeis:
    E accresce á multidão a turba dos soldados,
    –Ao ilota da cidade o escravo dos quarteis.

    E o funambulo grita; impõe qual evangelho
    Á turba extasiada a grande narração.
    E sobre um cão enfermo um ourangotango velho
    Passeia nobremente os gestos de truão.

    Correi de toda a parte, aligeirae o passo,
    Deixae a grande lida e vinde á rua vêr
    As prendas d'uma fera, as galas d'um palhaço,
    E um archanjo que sua e pede de beber!

    A tua imagem tens ó povo legendario
    No comico festim que mal podes pagar,
    Pois tu ainda és no mundo o velho dromedario
    Que a vara do histrião nas praças faz dansar.

    IV

    GRAÇA POSTHUMA

    Depois da tua morte eu heide ver se arranco,
    N'uma noite serena, ao teu berço final,
    Um producto mimoso;–um grande lyrio branco
    Da alvura do teu collo eburneo e divinal!

    Aquella flôr suave, ó minha visão estherica,
    Debruçada gentil, na taça em que a puzer,
    Fazer-me-ha lembrar a graça cadaverica
    Do teu corpo franzino e ethereo de mulher!

    E mesmo conterá, de certo, alguma cousa
    Do que me traz submisso e prezo ao teu olhar:
    –Teu corpo a pouco e pouco irá fugindo á louza
    Depois tornado em lyrio á terra hade voltar!–

    E em longas noites, n'elle, eu beberei sosinho,
    Sonhando as convulsões d'uns lindos braços nús,
    A fragrancia que exhala a candidez do linho
    Em que hoje ondeias leve e onde os meus labios puz,

    –Saudando a boa mãe que faz com que eu te gose
    Depois do verme vil teu seio polluir,
    Mais pura no frescor de tal metamorphose
    Do que eras a scismar, do que eras a sorrir!

    Ó minha doce Ophelia! Os rapidos momentos
    Da vida, são crueis mas passam como um som!
    Um dia quando em fim dos velhos sedimentos
    Teu corpo renascer n'um lyrio immenso e bom,

    Talvez que eu durma já tambem sob os matizes
    Das flôres, ao sorrir das mil germinações,
    Dando um pasto fecundo ás tuas sãas raizes
    Depois de te sagrar as ultimas canções!

    V

    HISTORIA SIMPLES

    Havia um rapaz são, robusto, bom, valente,
    De espadua larga e rija; um ceifador gentil.
    Cavava todo o dia, andou sempre contente
    E a feria dava á mãe sem falta d'um ceitil.

    Elle amava a campina e os ceus largos, serenos.
    Aos domingos a mãe deixava-lhe uns dez reis.
    Deitava-se ao luar, dormindo sobre os fênos,
    Na fragrancia do trêvo, ao pé dos cães fieis.

    A mãe tinha de seu duas vaquitas mansas:
    N'um cerro agreste e vil alguns palmos de chão.
    E tinha ainda mais não sei quantas creanças
    Que andavam nuas sempre e sempre a pedir pão.

    O pae mal se sustinha ás vezes sobre as pernas:
    Era bebado e mau, batia na mulher;
    E á noite, ao scintillar dos vinhos nas tavernas,
    Cantava canções vis de a gente ensurdecer.

    Um dia uma senhora honesta da cidade,
    Esplendida, gentil, sabendo-se sorrir,
    Reparou no rapaz; achou-lhe propria a idade
    E fez-lhe um certo gesto:–o moço não quiz ir.

    Teve um assomo de raiva, então, sua excellencia.
    Ordenou-lhe que fosse: o moço disse,–irei!
    Despediu-se dos seus: devia obediencia
    Á senhora gentil que se chamava… a Lei!

    Pegou no velho alforge e no bordão nodozo
    E metteu-se a caminho. Os pobres dos irmãos
    Choravam á partida:–um quadro doloroso!
    A mãe louca de dôr torcia as magras mãos!

    Chegando no outro dia ao ponto onde o chamaram
    Primeiro foi medido e todos a final,
    Depois de bem revisto, á uma, concordaram
    Que ao serviço do rei convinha este animal!

    Aquell'outra senhora, astuta, grave, terna,
    –A ordem–jubilava em doces pulsações!
    Contava mais um servo, um filho, na cazerna,
    Gastando pouco mais:–uns cobres e uns feijões!…

    Agora quando passa o batalhão luzente
    Na rua, podeis ver o pobre cavador
    Com modos imbecis, marchar pesadamente
    –Heroe por conta alheia–ao rufo do tambor!

    Não sabe onde caminha entre as guerreiras hostes!
    Perguntem-lhe o que é patria e liberdade e lei!
    Caminha simplesmente ás ordens dos prebostes
    Que trazem no chicote a salvação do rei.

    E na pobre cabana ainda se conserva
    O mesmo quadro triste:–a lacrimosa mãe;
    Alguns pequenos nús rolando sobre a herva,
    E um ebrio que pragueja e não pensa em ninguem!–

    Mulher não chores mais: a quadra é pura e bella:
    Emquanto na campina alouram os trigaes,
    Teu filho guarda o mundo e a Deus faz sentinella:
    Receiam que Deus faça andar o mundo mais.

    Em breve elle virá de jubilo e d'assombro
    Encher tua alma, em fim, quando ámanhã voltar
    Com seu velho canudo, a trouxa posta ao hombro,
    Trazendo novamente a luz ao pobre lar.

    E tu perguntarás: o que é meu filho, é ouro!!
    A quantas guerras foste? ó ceus, como tu vens!
    –Mãe tome essa lata! esconda o meu thesouro
    E deixe-me ir dormir no fêno ao pé dos cães!

    VI

    Á meza do festim, cercada de formosas,
    O canto dos cristaes e o scintillar dos vinhos
    Saudavam juntamente os bellos desalinhos
    Das galantes vizões das ceias luminozas!

    Molhavam-se em champagne as pétalas das rozas!
    E em baixo, a nossos pés, em leves murmurinhos
    A gaze sobreposta á candidez dos linhos
    Erguia-se n'um mar de vagas caprichosas!

    Ali tudo era paz! Nem odios vis nem zelos!
    Os labios pois limpando ás rendas e aos cabellos
    Da menos trivial das fadas tentadoras,

    Eu brindo aos mortos!–disse: á legião sagrada
    Que foi á solidão, á eternidade, ao nada!
    –Ás almas e ao pudor d'estas gentis senhoras.

    VII

    OS SONHOS MORTOS

    Embora triste a noite, a vagabunda lua
    Mais branca do que nunca erguia-se nos ceus,
    Igual a uma donzella ingenua e toda nua
    No leito ajoelhada erguendo a fronte a Deus!

    O mar tinha talvez scintillações funestas.
    A praia estava fria, as vagas davam ais;
    Semelhavam, ao longe, as extensas florestas
    Fantasmas ao galope em monstros colossaes.

    E eu vi n'um campo immenso, agreste e desolado,
    Immerso no fulgor diaphano da luz,
    Juncando tristemente o solo ensanguentado
    Sinistra multidão de corpos semi-nus!

    Tinha a morte cruel, em sua orgia louca,
    Deposto em cada fronte um osculo brutal;
    E um ironico rizo ainda em muita boca
    Se abria, como a flôr fantastica do mal!

    E eu vi corpos gentis de virgens delicadas
    Beijando a fria terra, as mãos hirtas no ar,
    Em sagrada nudez!… Cabeças decepadas!…
    Em muito peito ainda o sangue a borbulhar!…

    E sobre a corrupção das brancas epidermes
    Luzentes de luar e d'esplendor dos ceus,
    Orgulhosos passando os triumphantes vermes,
    Da santa formosura os ultimos Romeus!

    Se tu minha alma livre ainda hoje conservas
    Memoria das vizões que amaste com fervor
    Ahi as tens agora alimentando as ervas
    De novo dando á terra o que ella deu á flôr!

    São ellas! as vizões dos meus dias felizes,
    Meus sonhos virginaes, as minhas illusões,
    Que a seiva dão agora aos vermes e ás raizes,
    Que em pasto dão seu corpo a novos corações!

    São as sombras que amei, divinas, castas, bellas;
    As chymeras gentis, os vagos ideaes,
    Que de rozas cingi, que illuminei d'estrellas,
    E que não podem já da terra erguer-se mais!

    VIII

    FALA A ORDEM

    Pequeno, d'onde vens cantando a Marselhesa;
    Da barricada infame, ou d'outra vil torpeza?

    Que esplendido porvir! Do nada apenas sahes
    Começas a morder as purpuras reaes
    Ó filho trivial da livida canalha!…
    E, vamos, deixa ver, guardaste uma navalha,?!
    Não tremas que eu bem vi! que trazes tu na mão?
    Intentas já limar as grades da prizão,

    Fazendo scintillar um ferro contra o solio
    Archanjo que adejaes nos fumos do petroleo?!…
    Mas, vamos abre a mão: não queiras que eu te dê.

    Bandido eu bem dizia!–a carta do A B C!…

    IX

    Ó lirios da cidade, ó corações doentes
    Das vagas affecções modernas e galantes;
    Eu sei que vós morreis aos sons agonisantes
    Das orchestras febris,–nos sonhos dissolventes!

    Sois os fructos gentis que balançaes pendentes
    Nas arvores da vida; e os pobres viajantes
    Famintos d'ideal, sorriem triumphantes
    Julgando-vos colher nas seivas innocentes!

    E tragam com fervor o pomo apetecido
    Que deve ter um mel oculto no tecido,
    –Um raio bom do sol que nos sorri tão alto;

    Mas vós que sois da moda um luminozo aborto,
    Como os fructos crueis das margens do mar morto
    Apenas conteis dentro uma porção d'asphalto!

    X

    MISERIA SANTA

    Entrando esta manhã n'um templo da cidade
    Aberto á multidão mas triste e quasi só,
    O ver ao desamparo a velha magestade
    N'um throno a desabar, meteu-me certo dó.

    Restavam tão somente alguns dourados velhos
    Do passado esplendor, e foi-me facil ver
    Que uma nuvem de pó cobria os evangelhos
    Como cousa esquecida e impropria de se ler!

    A virgem, sobretudo; a mãe predestinada
    Que o Golgotha lavou nas lagrimas de fel
    Que sempre hade chorar toda a mulher amada,
    Ou seja a mãe de Christo, ou seja a de Rossel;

    Achei-a desolada e triste lá n'um canto,
    Sem pompas e sem luz, coberta d'ouropeis
    Tão velhos como o roto e desbotado manto
    Que ha muito, já, deveu á crença dos fieis!

    Dizer-me póde alguem d'affectos bons e puros
    Que eu posso ainda encontrar as bellas cathedraes
    Aonde o simples Christo e os martyres obscuros
    Campeiam no fulgor de pompas theatraes.

    Bem sei; mas como disse, o acaso ou o quer que fosse
    Levou-me a um templo pobre e foi n'elle que vi
    Que ha mendigos do céo, d'olhar sereno e doce,
    Proletarios do altar a quem ninguem sorri!

    E ao ver esta humildade,–eu tenho d'isto ás vezes,–
    Pensei, não sei porque, nas morbidas vizões
    Que não passam de ser as filhas dos burguezes
    Mas de rendas de França enfeitam seus roupões!

    XI

    ASTRO DA RUA

    Fazia hontem já tarde um nevoeiro espesso.
    –Que insonia em mim produz este humido vapor!–
    Eu vinha enfastiado, ou turvo, emfim confesso,
    Dos fumos do café, da luz e do rumor.

    Um fantastico véo cobria as longas praças;
    E o gaz ria atravez da grande cerração
    Que em lagrimas descia ao longo das vidraças
    E em flocos d'alva neve humedecia o chão.

    Eu mesmo achava em tudo um tom maravilhoso.
    Dispuz-me a crer no ceu a amar este ideal:
    Do subito eis que passa um astro radioso
    Luzindo-me atravez do magico cendal!

    Que vaga exhalaçao ó cousas vis que adoro!
    Que bello olhar de Deus, deixae-me assim dizer!
    Pelo sulco de luz julguei um meteóro,
    Pelo aroma subtil sonhei uma mulher!

    Passou porém, fugiu: no fim eis em resumo
    A sua breve historia! o sonho é sempre assim!
    Ha cousas que ao passar ainda deixam fumo:
    Aquella só deixava um vacuo dentro em mim.

    Archanjos caminhae, que eu espero o grande dia
    Da nossa atroz vingança, ó despotas do ceu!
    Nossa alma anda algemada á vossa tirannia
    Mas hade erguer-se a escrava…–Assim dizia eu

    E a mesma aparição de novo a deslumbrar-me!
    De novo a mesma aurora o espaço a illuminar!
    Agora pude vêl-a e posso recordar-me
    Dos abysmos de luz que havia em seu olhar.

    O astro vinha envolto em nuvens d'escumilha:
    De resto era uma fada, eu mais não sei dizer.
    Deixava atraz de si um aroma de baunilha
    D'um louco se abysmar d'um pobre enlouquecer!

    Quem quer que sejas tu, que sejam sempre bellos
    Teus ceus sem vendaval, teus dias sem revez!
    Feliz de quem poder beijar os teus cabellos
    E aos labios aquentar os teus pequenos pés!

    –Dizendo caminheí. Porém novo prodigio!
    Ainda a perseguir-me a mesma aparição
    E eu ainda sentia o lucido vestigio
    Que ha pouco em mim deixára a outra exhalação!

    Mas agora reparo, attento em sua chama!
    Que olhar tão insolente, o ceu não luz assim!
    Na gaze que ella arrasta ha um debrum de lama,
    Na face macerada uns traços de carmim!

    Oh! astro! emfim conheço a orbita que traça
    O teu curso veloz! bem sei onde tu vaes!
    Prosegue no teu giro em volta d'essa praça
    E Deus te dê mais luz e menos lamaçaes.

    XII

    Quando Martha morrer, depois do extremo arranco,
    Não tratem d'orações;
    Desprendam-lhe o cabello o vistam-a de branco
    Á moda das visões.

    Desejo vel-a então passar d'esta maneira
    Depois de tal revêz,
    Por entre a chama azul e tenue da poncheira
    No fumo dos cafés.

    Áquelle bom paiz das pallidas chymeras,
    Monotonia azul;
    Não temam que ella vá no fogo das espheras
    Queimar o véu de tulle.

    Assusta-a muito o frio, a chuva, o sol dos tropicos
    A nuvem triste e vã,
    E pódem-lhe prender os pés tão microscopicos
    As nevoas da manhãa!

    De noite ella virá com seus trajes singellos,
    Archanjo d'outros ceus,
    Nos suspiros febris dos meigos violoncellos
    Dizer-nos mal de Deus.

    Contar-nos por que foge á doce transparencia
    Que o ceu formoso tem,
    Meiga filha gentil da mesma decadencia
    Que é nossa boa mãe.

    Se as lagrimas de luz que chora o firmamento
    Em noites de luar,
    Ao seu pescoço nú podessem, n'um momento,
    Cingir-se n'um collar;

    De certo ella daria ao pallido comêta
    E á estrella trivial,
    A mesma adoração que dava á cançoneta
    Que amou até final!

    E á saida do circo, ao astro romanesco,
    Á noite iria, então,
    Contar, ainda a sorrir, o ardor funambulesco
    Do livido truão!

    Assim, não quer ouvir aos córos invisiveis
    Um hymno d'enfadar,
    Cantado por milhões d'archanjos insensiveis
    Sem um que a possa amar!

    E não lhe esquecem nunca os rapidos instantes
    Do que ella amava mais:
    –A vida illuminada á luz dos restaurantes
    N'um sonho de cristaes!

    XIII

    AS VICTIMAS

    Eu vejo muita vez e raro já me assombro
    –Minha alma tanto afiz ás tristes commoções!–
    Na rua, junto a mim, passar hombro com hombro
    No transito penozo as longas procissões,

    De victimas da sorte e victimas do mundo!
    Umas boas, gentis, outras feias, crueis,
    Envoltas n'um sudario ou n'um burel immundo;
    Nas pompas theatraes, nas galas dos bordeis,

    Não são filhas do sonho ou creaçoes chymericas
    Da mente allucinada, ou vagos ideaes;
    São magros peitos nús, são faces cadavericas,
    São as tristes, as vís desolações carnaes.

    São pequenos sem pão que vão pedindo esmola
    Nas lamas encharcando os regelados pés:
    Que dormem nos portaes, que nunca vão á escóla
    –Flôres que enfeitarão a noite das galés!

    São aquellas gentis e pobres costureiras
    De peito comprimido; anemica expressão;
    Que passam a tossir, cansadas, com olheiras,
    Ganhando em todo o dia apenas um tostão,

    Curvadas a cozer o languido velludo,
    O irritante setim dos grandes enxovaes,
    Das princezas do Banco, herdeiras d'isto tudo;
    Depois indo morrer nos tristes hospitaes!

    São os pobres heroes que os seus irmãos combatem;
    Que morrem sob o pezo enorme dos canhões,
    E o cortejo de mães pedindo aos reis que as matem
    E os reis fazendo rir das suas maldições!

    São da lugubre noite umas flôres sem nome
    Batidas muito já dos grandes vendavaes,
    Que, por que sentem frio ou por que sentem fome,
    Derramam pelo seio aromas triviaes

    E fingem depois ser apparições divinas,
    Erguendo um pouco a saia, a fimbria sensual,
    Abrindo um vil leilão de beijos, nas esquinas,
    Aos apetites vís da multidão brutal!

    São mineiros sem luz; são velhos britadores,
    Que o contacto da pedra um dia endureceu,
    Queimados pelo sol, gelados nos horrores
    Do tumulo cruel que em vida os recebeu!

    São aquelles heroes, em fim, dos grandes sonhos,
    Que sentiram na terra as vastas corrupções
    E ás turbas apontando uns mundos mais risonhos
    Tentaram espedaçar os ultimos grilhões

    E que passam tambem um tanto contristados,
    Talvez cheios de tedio, ao verem que hoje, nós,
    Os deixamos seguir ainda apedrejados
    Não raro desprezando a sua augusta voz!

    E a grande multidão de martyres sublimes,
    De tristes semi-nús, constante a caminhar,
    Aos ceus erguendo as mãos, queixando-se dos crimes
    Dos despotas que aos pés não cessam de os calcar!

    A fila tenebroza, a procissão de victimas,
    Augmenta mais e mais; não deixa de crescer!
    E do estygma cruel das penas mais legitimas
    Em muita fronte bella um traço podeis ver!

    Caminhe muito embora: a sorte é sempre varia
    E a turba soffredora, ó grandes bem sabeis,
    Podia dividir a tunica cezarea
    Lançando aos que estão nús a purpura dos reis!

    XIV

    EVOCAÇÃO

    Levanta-te Romeu do tumulo em que dormes
    E vem sorrir de novo á boa, á eterna luz!
    De noite, ouço dizer que ha sombras desconformes
    E as noites do passado, oh, devem ser enormes
    Na atonia fatal das larvas e da cruz!

    Conchega gentilmente ao peito carcomido
    Os restos do teu manto:–assim, que bem que estás!

    Na terra hão de julgar-te um grande Aborrecido
    Que busca desdenhoso o centro do ruido
    Nas horas vis do tedio e das insonias más.

    O mundo transformou-se; aquelle fundo abysmo
    Do antigo amor fatal, fechou-se d'uma vez,
    E tu filho gentil do velho romantismo,
    Tu vens achar dormindo o rude prozaismo
    No berço onde sonhava a doce candidez!

    No entanto pódes crer; faz muito menos frio
    Á luz do novo sol; do gaz provocador;
    E o seculo apezar de gasto e doentio,
    Não pode já escutar o cantico sombrio
    Que fala de edeaes e cousas sem valor!

    Em paz deixa dormir a terna Julieta
    Que aos ceos ainda por ti levanta as brancas mãos;
    E em quanto por mim corre a tetrica ampulheta,
    Da muza alegre e vil da torpe cançoneta
    Saudemos a nudez a par dos bons pagãos!

    Nas praças, tu bem vês; a turba prazenteira
    Innunda-se na luz de mil constellacões!
    E os archanjos da rua assomam na poeira
    Que exhala o macadam, trazendo em cada olheira
    O astro creador das grandes sensações!

    E quando a cotovia á estrella matutina
    Mandar a saudação, lá fora, em pleno céo,
    Romeu tu beijarás, que é tua eterna sina,
    A trança da belleza anemica e franzina
    Que entre os fumos da festa, a amar, adormeceu!

    XV

    Boas noites coveiro: a tua enxada
    Não cessa ha tanto tempo de cavar?!
    Cavalleiro da morte, ó fronte desolada
    Não sentes a mão tremula e cançada
    De tanto trabalhar!

    Tu esperas hoje as legiões sombrias
    De mortos, que eu supponho ao longe ver?
    Os felizes caídos nas orgias
    E os tristes que além todos os dias
    O gelo vem colher?!

    Que immensa valla aberta! são medonhos
    Os risos d'essa boca infame, alvar!…
    Descansa dos teus dias enfadonhos!
    –Eu cavo a sepultura dos teus sonhos
    Não posso descançar!

    XVI

    FLOR DA MODA

    Alice, o turbilhão das salas elegantes,
    Começa a entristecer; ninguem sabe por quê!
    Aquella flôr doente amava muito d'antes
    As festas, o ruido, as cousas deslumbrantes,
    Agora é desolada e penso que descrê.

    Que tedio se abrigou na vaga transparencia
    D'um todo tão subtil, aerio, divinal.
    –Moderna creação da santa decadencia,
    Que alia gentilmente ás pompas da regencia
    Os indecisos tons d'um ar sentimental?!

    Archanjo por quem és! desvenda esse mysterio
    Das vagas oppressões da tua insomnia má,
    E diz-me o teu sonhar visão do baixo imperio,
    Vestal que amas o gaz e tens o fogo ethereo
    Na conta d'uma cousa um tanto usada já!

    No idylio pastoril das noites venturosas
    Não sonhas tu de certo, e raro o hão de sonhar
    N'um mundo todo nosso, as bellas desditosas
    Que em trinta annos de fogo as suas velhas rozas
    Nos grandes vendavaes sentiram desbotar!

    E quando a augusta voz do mar ou das florestas
    Abala o coração dos justos e dos bons,
    Bem sei que tu não vaes, fugindo ás grandes festas,

    No amor das castelãs scismar entre as giestas
    Com medo que te acorde a bulha dos wagons!

    Eu sei talvez teu mal! A febre que hoje sentes
    Abraza a geração de lyrios ideaes
    Que passam, como tu, galantes e doentes,
    D'um amor desordenado ás cousas dissolventes,
    Ás vozes da guitarra e aos cantos sensuaes!…

    E tem de os consumir a grande nostalgia
    D'um mundo mais á moda e menos trivial,
    Onde haja um grande caso, ao menos, cada dia
    E se possa esquecer a vil monotonia
    De tudo que nos cerca:–Alice eis o teu mal mal!

    No entanto eu sei que és boa: apenas das insomnias
    A febre, mãe cruel d'estranhas sensações,
    Na fria placidez do gaz e das bigonias
    Construe na tua mente as grandes babylonias
    D'um mundo extraordinario e monstro de visões!

    Tocou-te um mal galante: és tenue e caprichosa:
    És boa e fazes gala em que te julguem má.
    E sentes sobre tudo uns tedios côr de rosa
    E os extasis crueis d'uma mulher nervosa:
    –Se existe a mulher-flôr, tu és a flôr de chá!

    E chame-te o bom Deus ao foco aonde brilha
    Aquella eterna luz, amor dos immortaes,
    Que tu amortalhada em rendas e escumilha
    Achar deves, talvez, da moda, ó terna filha,
    O céo modesto um pouco e os anjos triviaes!

    XII

    Ó machinas febris! eu sinto a cada passo,
    Nos silvos que soltaes, aquelle canto immenso,
    Que a nova geração nos labios traz suspenso
    Como a estancia viril d'uma epopea d'aço!

    Emquanto o velho mundo arfando de cansaço
    Prostrado cae na luta; em fumo negro e denso
    Levanta-se a espiral d'esse moderno incenso
    Que offusca os deuses vãos, anuviando o espaço!

    Vós sois as creações fulgentes, fabulosas,
    Que, vibrantes, crueis, de lavas sequiosas,
    Mordeis o pedestal da velha Magestade!

    E as grandes combustões que sempre vos consomem
    Começam, n'um cadinho, a refundir o homem
    Fazendo resurgir mais larga a Humanidade!

    XVIII

    A CHRISTO

    Precisamos Jesus, se não te sentes velho,
    Que cinjas novamente o resplendor de luz
    E venhas explicar a letra do evangelho
    A muitos que hoje vês prostrados ante a cruz!

    Ainda não cessou, de todo, essa contenda
    Que um dia, ha muito já, tentaste debellar:
    E aquelles que são bons e adoram tua lenda
    Desejavam tambem ouvir-te hoje falar.

    Apenas resoasse o teu verbo indignado,
    O latego febril das grandes corrupções,
    Iria atraz de ti um mundo revoltado
    Que sente na consciencia a luz das redempções.

    E embora não houvesse, aqui, outra alma gemea
    Da tua, e tão ungida em balsamos dos céos,
    Havias d'encontrar essa alma de bohemia
    Que sonha uma justiça e sente em si um Deus!

    Mas não, não voltes cá: teu corpo combalido
    Não póde supportar os gelos da manhã.
    Precisavas de pão, d'abrigo e de vestido
    E a vida aqui é cara e longo o macadam!

    Terias d'encontrar, de certo, mil estorvos
    No mundo revolvido, e escuta-me Jesus:
    Se não fosses, em fim, comido pelos corvos
    Talvez te fuzilasse um cura Santa-Cruz!

    Serias apontado a dêdo, muitas vezes,
    Como um simples bandido, um agitador feroz,
    E haviam de esconder seus ouros os burguezes
    Apenas resoasse, ao longe, a tua voz!

    Depois vinhas achar a par do proletario,
    Ao pé do que se innunda em bagas de suor,
    Aquelle velho Pedro, agora millionario,
    E triste por pensar que já esteve melhor!

    E perto do ocio vil á sombra do qual medra
    O egoismo feroz que extingue o coração,
    Lutando todo o dia o britador de pedra
    A quem á noite espera, em casa, um negro pão;

    E uns pequenos sem côr; talvez cheios de fome,
    Com pouca luz no olhar; atrophiados, nús;
    Abrindo os olhos muito á codea que elle come
    E indo-se deitar sem roupas e sem luz!

    Assim deixa-te estar. O teu cadaver triste
    Recende uma fragrancia etherea e divinal,
    Emquanto o mundo segue e vae de lança em riste
    Sem treguas combatendo as legiões do Mal!

    Tu foste o paladino, o trovador sagrado,
    Que falaste do amor, da paz e do perdão,
    E o ferro que varou teu corpo lado a lado
    Comtudo inda reluz altivo em muita mão!

    Nós, hoje, quando em luta erguemos sobre a liça
    O gladio vingador das oppressões crueis,
    Soltamos, n'um sorriso, o nome da Justiça,
    E ha quem saiba morrer sem bençãos nem laureis!

    Descansa pois Jesus! Bem basta que tu sintas,
    N'esse velho sepulchro, o immenso vozear
    Dos mineiros sem luz, das legiões famintas,
    Que nunca, um dia só, deixaram de lutar,

    Mas que hão de em fim vencer, porque a suprema essencia
    A jorros cae do céo nas mãos dos Prometheus,
    E tanto vae subindo a vaga da consciencia
    Que um dia ha de abismar-se em nós o proprio Deus

    XIX

    Eu tive um sonho estranho: ouvi que vou dizel-o.
    Era em praia dezerta, em frente a um longo mar:
    Nos céos havia a nevoa, a mãe do Pezadêlo,
    E o vago, o incerto, o informe em tudo a oscillar!

    De subito surgiu, na praia, uma criança
    D'olhar profundo e bom, d'angelica expressão,
    E o mar contemplou com tanta confiança
    Que nem que visse n'elle o berço d'um irmão!

    Mas a vaga subindo, em cada extremo arranco
    Levando ia comsigo aquella flôr dos céos!
    E em breve só boiava um tenue vulto branco
    No mar onde fluctua o espirito de Deus!

    Mais tarde á beira-mar chegava a pura imagem
    Da mais casta mulher que em vida pude ver.
    Detinha-se distante:–a espuma da voragem
    Só meia extenuada aos pés lhe ia morrer!–

    O immenso mar, porém, crescia a cada instante
    Mais turvo e mais veloz! depois… Não quiz vêr mais.
    Ergui-me e caminhei de val em val errante
    Pensando tristemente em coisas ideaes!–

    Ao longe, muito além, na serra desviada
    De subito encontrei–ó estranha apparição–!
    Uma pobre velhita enferma e desolada
    Trazendo já no olhar a grande cerração!

    Que idéa me assaltou não sei dizel-o agora.
    Aonde iria o espectro, aquella sombra vãa?
    Iria aonde vae o que hontem foi aurora
    E aonde irão tambem as rosas d'ámanhãa?…

    Dos meus instantes bons, ó lucida chimera,
    Bem vês que os sonhos maus são faceis d'esquecer!
    Que importa a grande noite em plena primavera,
    Que importa o que tu foste, o que és, e o que has de ser!!

    XX

    O GRANDE TEMPLO

    Eu não trajo o burel do magro cenobita
    Nem me posso infligir crueis macerações;
    Mas não rio d'alguem que busca a paz bemdita
    No seio casto e bom das grandes solidões.

    Bem sei que ha na montanha aromas penetrantes
    E certas vibrações que podem fazer mal;
    Mas se é preciso Deus, direi que é melhor antes
    Amal-o com fervor no templo universal!

    Em quanto sobre o altar das serras azuladas
    Mil lampadas do céo derramam toda a luz,
    Nas velhas cathedraes, já meio arruinadas,
    O Tempo,–o grande verme!–até devora a cruz!

    Depois é facil vêr, por entre os arabescos
    Que a arte sensual traçou com tanto amor,
    Ás vezes, o sorrir dos Satyros grotescos
    Pungindo cruelmente a face do Senhor.

    Ou mais; podemos nós voar todos captivos
    Do sereno ideal, d'aquelle summo bem,
    Ao vermos tanta vez os Faunos mais lascivos
    Olhando de revez a virgem nossa mãe?!

    E ainda mil traições: as musicas, as flôres
    Os lindos seraphins voando todos nús;
    Da sêda que se arrasta os languidos rumores
    Do incenso as espiraes; os turbilhões de luz!

    Oh! visto haver de tudo; aromas e decotes,
    O vinho scintillante, a viva luz do gaz;
    Que a vossa rouca voz, pomposos sacerdotes,
    Não cante apenas Deus; que solte alguns _hurrahs_!

    O fumo d'essa festa, a mim, pouco me assusta.
    Se eu quero alguma vez fugir do pó, voar,
    Eu tenho o val profundo ou a floresta augusta,
    As montanhas, os céos, e o bello, o vasto mar!

    Da casta natureza ó templo gigantesco,
    Tu és mais amplo, sim; mais livre, muito mais!
    O meigo e doce olhar do Christo romanesco
    A multidão gentil não chama aos teus umbraes.

    XXI

    A UM CERTO HOMEM

    Agora és todo nosso: a rude voz da historia
    Já póde hoje falar
    E dar-te um balancete ás nodoas e á gloria
    Rei-sol de _boulevard_.

    Que dias d'esplendor! Porém como começa
    A noite e a podridão!
    Foi Deus que te mandou tambem para a Lambessa
    Da eterna punição!

    Enfarda a tua gloria e leva-a que é vergonha
    Que vejam ámanhã,
    Que até lhe depennou as aguias de Bolonha
    O abutre de Sedan!

    E visto que em redor nenhuma estrella brilha
    E a noite é longa e má,
    No caminho do opprobrio acende a cigarrilha
    E, cezar, ouve lá:

    Que altiva e bella a França! aquella Gallia ardente
    Que de Valmy levou,
    Descalça, quasi núa; a Marselheza em frente;
    Nossa alma até Moscow!

    Seus filhos teem a fouce: envergam rudes clamydes
    Depois, caminham sós;
    E em quanto ceifam reis acordam nas Pyramides
    A alma dos Pharaós!

    E vão cheios de fé, bandeira solta ao vento,
    Na gleba das nações,
    Convictos semeando o novo pensamento
    No sulco dos canhões!

    Mas tu chegas um dia: afogas-lhe a grandeza
    E quando a tens aos pés,
    Celebras a victoria aos hymnos de Thereza,
    A musa dos cafés!

    Banquetes dás ao crime; e os teus heroes d'esquína
    Ainda a afrontam mais,
    Tornando a _Marselheza_ em torpe Messalina
    D'um circo de chacaes!

    E sobre alguns montões de mortos ainda quentes,
    Emfim campeias, tu,
    Que déste á sagração das cousas dissolventes
    Um Petroneo-Sardou!

    Porém, quando ao colher ainda um beijo á Fama
    Um dia avanças mais,
    Teu carro triumphal trambolha-te na lama
    E então como tu saes!…

    Revolves-te no horror das vis, infectas ondas
    De lodo e podridão,
    E vaes de manto roto e vestes hediondas
    Buscar a escuridão!

    Em vez de reclinar a fronte ao sol ardente
    Da luta que sorri,
    Do fumo dos canhões fugiste, e de repente…
    Matou-te um bistori!…

    Que entrada a tua, então, na funebre morada,
    Pizando, incerto, o pó,
    Á luz d'uma _lanterna_, ao vir da encruzilhada,
    Sinistro, sujo e só!

    Das cinzas levantou-se um brado entre os jazigos
    Dos bons e dos leaes,
    Apenas descobriste a marca dos _castigos_
    Nas faces triviaes!

    E quando te assustava o olhar altivo d'Hoche
    E o gesto de Danton,
    Sorria-te na sombra o amor da Rigolboche
    Meu cezar-Benoiton!

    73–Janeiro.

    XXII

    Á HORA DO SILENCIO

    Eu quiz hontem sonhar, sentir como um romantico
    A doce embriaguez do pallido luar,
    Ouvindo em pleno azul passar o immenso cantico
    Dos astros no seu giro e em sua luta o mar!

    A cidade dormia o somno dos devassos;
    Aquelle somno turvo, infecto e sensual:
    E a lua, antiga fada, erguia nos espaços
    Tranquilla e sempre ingenua a fronte de vestal!

    E sobre a quietação das coisas vis e exoticas
    Sentiam-se as febrís, crueis respirações,
    Dos tristes hospitaes e das virgens clorothicas,
    Dos amantes fataes da febre e das paixões!

    A noite era em silencio, a athmosphera doce
    E ria a natureza aos beijos d'um bom Deus.
    De subito escutei, ao longe, o quer que fosse
    D'um canto que suppuz então baixar dos céos!

    Attento ao vago som, porém, a pouco e pouco
    Senti que era uma voz disforme e sensual,
    Soltando uma canção n'aquelle accento rouco
    Da triste inspiração alcoolica e brutal!…

    Ó terna vagabunda, enamorada lua!
    Emquanto ias assim, diaphana e sem véo,
    Uma triste mulher passava, então, na rua
    Cuspindo uma porção d'infamias para o céo!

    XXIII

    Eu quizera depois das lutas acabadas,
    Na paz dos vegetaes adormecer um dia
    E nunca mais volver da santa lethargia,
    Meu corpo dando em pasto ás plantas delicadas!

    Seria bello ouvir nas moutas perfumadas,
    Emquanto a mesma seiva em mim tambem corria,
    As sãas vegetações, em intima harmonia,
    Aos troncos enlaçando as lividas ossadas!

    Ó belleza fatal que ha tanto tempo gabo:
    Se eu volvesse depois feito em jasmins do Cabo,
    –Gentil metamorphose em que n'esta hora penso;–

    Tu, felina mulher com garras de veludo
    Havias de trazer meu espirito, comtudo,
    Envolto muita vez nas dobras do teu lenço!

    XXIV

    O VELHO CÃO

    Soltava hontem já tarde um velho cão felpudo
    Uns doloridos ais,
    Em frente d'um palacio altivo, bello e mudo,
    Cerrado aos vendavaes.

    Fazia pena ouvil-o, o misero mollosso
    Em seu triste chorar!
    Era quasi uma sombra: apenas pelle e osso
    E um vago, um doce olhar!…

    Eis a sorte cruel do pobre que não come,
    Dos miseros sem pão!
    Em paga ainda em cima os vae tragando a Fome,
    A negra apparição!

    Latia o cão faminto. O frio era mordente,
    Feroz, quasi voraz!
    E o pobre não sabia, em fim, que ha muita gente
    Que adora a santa paz.

    Ora perto vivia uma galante rosa,
    Etherea, virginal,
    Que tinha um lindo collo, amava, era nervosa
    E a quem fazia mal,

    Aquelle uivar sinistro; a ponto de em desmaios
    Pender a fronte ao chão!
    Saíram pois á rua impavidos lacaios
    E foram dar no cão.

    –Ha no mundo um rafeiro, um velho cão esfaimado,
    –O povo soffredor,
    Que ás vezes vae ganir, com fome, o seu bocado
    Ás portas d'um senhor.

    O resto é velha historia: ocioso é já dizer-vos
    O fim que ella ha de ter.
    A Ordem, só d'ouvil-o, alteram-se-lhe os nervos
    E manda-lhe bater!

    XXV

    AS VELHITAS

    Eu não professo muito o culto das ruinas.
    Prefiro uma officina ás velhas barbacãs;
    Das velhinhas, porém, mirradas, pequeninas,
    No entanto nunca insulto as prateadas cãns.

    Deixal-as caminhar, curvadas, vagarosas,
    Com seu bento rozario, os seus fofos beitões,
    A rirem-se de nós, crueis, maliciosas,
    Sagazes comentando as nossas illusões!

    Ah, velhitas sem côr! cabeças regeladas,
    Vulcões de que só resta a cinza e nada mais:
    Já fostes as visões; talvez as brancas fadas;
    Prendestes vossos pés nos humidos rosaes;

    Tivestes já no olhar os bons reflexos magicos
    Dos lagos ideaes cubertos de luar;
    As curvas sensuaes, os bellos dedos tragicos;
    As rosas más do inferno, os lyrios bons do altar!

    Pendestes já scismando as frontes melancolicas
    Nas varandas á noite, amantes dos Titães
    Do bello amor antigo! ó Marcias das bucolicas!
    E agora apenas sois as mães de nossas mães!

    Segui vosso caminho: as graciosas fadas,
    As bellas da cidade, anémicas, gentis,
    Sorriem-se, talvez, das fitas desbotadas,
    Dos provectos chapéos, das gallas que vestis!

    Oh! mostrando os trophéos das vossas velhas rosas,
    Dizei-lhes, a sorrir das futeis illusões,
    Que fostes já, tambem, galantes e nervosas
    Mas destes isso tudo a varios corações!

    Agora tendes pouco: apenas uns lamentos
    Sentidos contra nós; queixumes sem valor
    E ao mundo importam muito os vossos testamentos
    E importa muito pouco a vossa immensa dôr!

    Batei á grande porta: os bellos dias vossos
    Velhitas, bem sabeis, não podem voltar mais!
    Á terra ide levar, em fim, n'uns tristes ossos
    O residuo fatal das cousas virginaes!

    XXVI

    ÁS VISÕES

    Pois que visões! não cessa a rapida corrida
    E seja noite ou dia,
    Volteadoras crueis! vós sempre a toda a brida
    Na minha phantasia!

    Parti chymeras vãs! archanjos ou _madonnas_,
    Parti, que o mando eu,
    Como um bando fatal de velhas amasonas
    Que o circo aborreceu!

    Levae tudo comvosco: as settas mais a aljava;
    O angelico sorriso;
    E as azas d'escumilha em que eu voava
    Á noite, ao paraiso!

    Eu quero, em fim, dormir; passar as noites gratas
    Sentindo-me feliz,
    No somno machinal dos velhos acrobatas
    Depois das farças vis!

    Mais tarde hei de sorrir, ou escarnecer-me quasi,
    Lembrando-me–ó verdade!–
    Que onde eu suppunha aurora havia apenas gaze
    E uns traços d'alvaiade.

    Perdão se vos insulto! oh, não, vós sois do empyreo,
    D'aquelle meigo azul,
    Que a todos tem sorrido: a Christo no martyrio,
    Na dôr, ao rei de Thule;

    E quando vos apraz, nas azas transparentes,
    Mais alto ides por certo,
    Do que as deusas gentis, aerias, insolentes,
    Que vemos voar tão perto!

    No entanto podeis crer ó lucidos fantasmas
    Que o seculo, afinal,
    Occulta no esplendor não sei que vis miasmas
    Que fazem muito mal!

    E quando vós passaes, nas horas do mysterio
    D'estrellas revestidas,
    Bebemos nós, talvez, o aroma deleterio
    Das rosas corrompidas!

    Oh sim! parti depressa; erguei-vos d'este abysmo
    Archanjos ideaes,
    Deixando-nos colher a flôr do realismo
    Nas coisas triviaes!

    XXVII

    Melancolias do outono! Eu quando além descubro,
    Nas tristezas do campo, as filas mugidoras
    Dos vagarosos bois que voltam das lavouras,
    Compungem-me as crueis desolações d'outubro!

    Das orlas do poente, afogueado, rubro,
    Ó moribundo sol! com que poesia douras,
    As formas triviaes das cabecitas louras,
    Que, ás portas dos casaes, de bençãos tambem cubro!…

    Solta o canto final a orchestra da folhagem:
    São horas de partir; apresta-se a viagem,
    E as noites dos saraus hão de voltar mais bellas!

    Mas as vistas lançando ás regiões saudosas,
    Nos esforços crueis das tosses dolorosas,
    Em bandos vão partindo as tisicas donzellas!

    XXVIII

    O VELHO MUNDO

    Eu vejo em toda a terra um vasto cemiterio,
    A necrópole immensa, a campa dos colossos,
    Aonde em paz descansa o velho megatherio,
    Por entre a fauna morta, os carcomidos ossos!

    E os grandes leviathaãs dos primitivos mares;
    Os tremendos reptis, crueis, descommunaes,
    Celebram no silencio as nupcias singulares
    Dos seus residuos vis, com ricos mineraes!

    E os esqueletos nús dos lividos gigantes
    Abraçam-se melhor; conchegam-se na cova,
    Deixando um logar vago aos velhos elephantes
    Que vão fugindo á luz da natureza nova!

    Tambem no mundo interno as almas vão seguindo.
    Na corrente da vida, em mil circulações;
    E da consciencia humana o largo abysmo infindo
    Occulta, ha muito já, disformes creações!

    Ellas dormem na sombra immensa do passado
    Aonde em breve hão de ir nos trances doloridos,
    A velha Realeza e o trémulo Papado
    Sem forças descançar os corpos corrompidos.

    Depois virão mais tarde as gerações futuras
    E os dois espectros vãos da sombra hão de evocar,
    Bem como a nossa voz, as grandes creaturas
    Do mundo primitivo, obriga a despertar.

    E as crianças terão seus nomes de memoria,
    Como exemplo, na vida, a todos os momentos;
    E vel-os-eis de pé, nas paginas da historia,
    Grotescos, machinaes, pezados, somnolentos;

    Fazendo-nos pensar; d'espanto enchendo tudo;
    Soffrendo o riso alvar do ingenuo e do plebeu,
    Eguaes ao masthodonte armado para estudo
    E exposto ás irrisões nas salas d'um museu!

    XXIX

    Eis a velha cidade! a cortesã devassa,
    A velha imperatriz da inercia e da cubiça,
    Que da torpeza acorda e á pressa corre á missa!
    Baixando o olhar incerto em frente de quem passa!

    Ella estreita no seio a velha populaça,
    Nas vis dissoluções da lama e da preguiça,
    E nunca o santo impulso, o grito da Justiça,
    Lhe fez estremecer a fibra inerte e lassa!

    E póde receber o beijo e a bofetada
    Sem que sinta o rubor da colera sagrada
    Acender-lhe na face as duas rosas bellas!

    Sómente d'um sorriso alvar e deshonesto,
    Ás vezes, acompanha o provocante gesto
    Quando sôa a guitarra, á noite, nas viellas!

    XXX

    Á NOITE

    Eu gosto de velar a percorrer os mundos
    Ó noite dos bons canticos,
    Aos lividos clarões dos astros vagabundos
    Nos extasis romanticos,

    Emquanto a vil cidade, a cortesã devassa
    Dos falsos ouropeis,
    Com seus famintos cães, a sua lua baça
    E os seus negros bordeis,

    Resona torpemente aos beijos deleterios
    D'alguns velhos amantes;
    –Os longos hospitaes e os tristes cemiterios
    Que a afagam delirantes!

    Comtudo eu tambem sei que existe muito instante
    De gelos, em que tu,
    Feroz, cravas o dente agudo e penetrante
    No pobre seio nú!

    Que ha horas em que vens, nas humidas cidades,
    Nas choças, nos esgotos,
    Cuspir cynicamente as frias tempestades
    No seio vil dos rotos,

    Sem ter pena, sequer, da pobre mãe que passa
    Um dia sem ter pão,
    Nem d'essa esfarrapada e velha populaça
    Que rosna como um cão!…

    Mas em breve deixando as tenebrosas vestes,
    O manto dos horrores,
    E o gladio vingador das coleras celestes
    Ó noite dos amores,

    Retomas o tom puro e santo do mysterio
    Da pallida mulher
    Que vae colher, scismando, um lyrio ao cemiterio
    E ao campo um malmequer!

    Em horas de tormenta és a mulher colerica!
    Até cospes na cruz!
    E formam-te espiraes na coma athmospherica
    As viboras de luz!

    Porém no teu regaço, altivo, casto, enorme,
    Em doce e plena paz,
    É que a virtude sonha e que a desgraça dorme
    Depois das horas más,

    E em lucidos cristaes, ha scintillantes vinhos;
    Os casos mais galantes;
    As languidas canções; os bellos desalinhos
    E os gestos provocantes!…

    Ó filha do silencio! Aos puros alabastros
    Dos hombros ideaes,
    Se Deus arremessasse a quantidade d'astros
    Que em ti brilham a mais,

    As pallidas visões que passam doloridas,
    E um tanto contristadas,
    Haviam de surgir d'estrellas revestidas
    Em trajos d'alvoradas!

    Em ti cuida escutar uns sons inexprimiveis
    De languidas canções,
    O pobre sonhador de coisas impossiveis
    Que adora as solidões!

    E quando o resplendor de mundos luminosos
    Na tua fronte cinges,
    Os gatos sensuaes, electricos, nervosos
    Repouzam como esphinges;

    Emquanto as combustões dos lividos comêtas,
    Errantes e fataes,
    Comsomem lentamente as grandes borboletas
    Dos nossos ideaes!

    XXXI

    A VALLA

    Trazei mortos á valla; a hydra está com fome
    E deve ser-lhe longa a hora em que não come!
    Olhae como ella mostra aquelles que a vão ver,
    Inerte, sem pudor, de fauce escancarada,
    A amargura cruel da bocca desdentada
    Que pede de comer!

    Lançae ao monstro informe algum repasto novo!
    Trazei-lhe carne humana; arremeçae-lhe o povo.
    Tranzido pelo frio ou morto pelo sol!
    E visto haver na fera abysmos insondaveis
    Mandae-lhe as legiões dos grandes miseraveis
    Que morrem sem lençol!

    Eu quero vel-a farta, a lugubre panthera,
    Que, na sombra agachada, olhando em roda, espera
    A preza que lhe inveja a gula dos chacaes.
    Começa a ouvir-se ao longe a marcha vagarosa
    Da triste procissão cruel e dolorosa
    Que vem dos hospitaes.

    Um velho esquife chega: em duas taboas toscas
    Um pobre semi-nú coberto já de moscas,
    N'um riso deixa ver não sei que tons crueis!
    Emquanto nos sorria a luz das noites bellas,
    Talvez que elle varresse a lama das viellas
    E o lixo dos bordeis!…

    E poude, em fim, dormir no seio bom da morte!
    Apoz, como se fôra a livida consorte
    D'aquelle vil despojo, ás mesmas horas vem,
    Trazendo por sudario os seus vestidos rotos,
    Uma triste mulher caída nos esgotos
    Sem bençãos de ninguem!

    Devora-os ambos fera! Engole-os juntamente:
    Reune-os em consorcio e dá-os de presente
    Á larva que partilha as ancias do teu ser!
    Aguça o teu desejo!–A garra infecta lança
    Ao corpo tenro e nú d'uma gentil criança
    Que a mãe te vem trazer!

    Redobra d'appetite! Alonga-se a teu lado
    A fila tenebrosa! O espectro do soldado
    A par do que vergou cançado de cavar:
    E o mineiro sem luz, o martyr legendario;
    E amparando-se a custo ao velho proletario
    A flôr do lupanar!

    Mastiga a turba vil e alonga essa guela!
    Bem vês que vem chegando um corpo de donzella
    Que pela candidez recorda uma vestal!
    Voou-lhe, n'um sorriso, o derradeiro arranco
    E traz viçoso ainda um grande lyrio branco
    No seio virginal!

    Ó monstro sensual na sombra tripudia!
    Celebra no silencio a tenebrosa orgia,
    Que as Deusas vem chegando ao lubrico festim!
    N'um beijo os labios colla á frigida epiderme
    E o D. Juan da morte, o cavalheiro Verme,
    Que viva e gose emfim!

    Eu quero ver-te farta, em halitos profundos,
    Dormindo o somno vil dos animaes imundos,
    De ventre para o ar; serpente infecta e má!
    E ámanhã, na estação dos candidos amores,
    Veremos rebentar n'um tapete de flôres
    O lixo que em ti ha!

    E a santa mocidade; as languidas mulheres;
    Virão depois colher os gratos malmequeres,
    Pizando-te sem medo e cheias de desdem,
    Em danças sensuaes; o fato em desalinho;
    Compondo-te canções; regando-te de vinho;
    Sem pena de ninguem!

    E tu que és monstruosa, infame, vil, medonha;
    Que não mostras pudor; que não sentes vergonha;
    Que és a campa-monturo e não pódes ser mais;
    Cingida em fim, tambem, de rosas orvalhadas,
    Terás dado um perfume ás almas namoradas,
    E pasto aos animaes!

    XXXII

    Ó vultos ideaes, fantasticos e bellos,
    Que ás vezes revoaes nas salas deslumbrantes,
    N'um grande mar de tulle, ethereas, fluctuantes.
    Aos suspiros fataes dos meigos violoncellos;

    Que bom que era sonhar nos pallidos castellos,
    Á noite, á beira mar, nas solidões distantes,
    Nos tempos em que a flôr dos timidos amantes
    Á lua confiava os intimos anhelos!…

    Agora sois gentis, despepticas, vistosas;
    Pagaes por alto preço as exquisitas rosas;
    Nos rapidos wagons correis o mundo em roda;

    Mas prostradas do baile, amarrotando a luva,
    Emquanto cae na rua a somnolenta chuva,
    Scismaes no Deus-Milhão,–no Creador da moda!

    XXXIII

    Eu vejo em tua bocca as pétalas vermelhas
    D'uma rosa de fogo aonde vão libar,
    O mel das illusões, quaes timidas abelhas,
    Uns velhos ideaes que em vão tento expulsar.

    Dizer-me pódes tu de que ovulo espontaneo,
    Tocado pelo sol, em mim poude nascer
    Este bando cruel que dentro do meu craneo
    Não faz ha muito já senão roer, roer?!

    Ás vezes vôa ao largo; ás serras, ás campinas;
    Remonta aos astros bons; torna a descer dos céos;
    E volta a demolir as trémulas ruinas
    Do templo onde crepita a luz dos dias meus!

    Ó grande flôr suave! e n'isto se resume
    A constante batalha, o sempiterno afan!
    Aspira a minha essencia ao teu grato perfume;
    Sossobra o dia d'hoje ao dia d'ámanhã!

    Oh, volvamos á terra; aos placidos logares,
    Aonde os hymeneus fecundos e reaes,
    Produzem, dia a dia, os fetos singulares
    E as sãs vegetações dos candidos rozaes!

    E o que ha d'ethereo em nós, que siga as breves phases
    D'um fluido transitorio, erguendo-se nos céos,
    Nas grandes expansões dos fugitivos gazes
    Onde em linguas de fogo ás vezes fala Deus.

    Forçoso é separar os dois rivaes antigos,
    Na batalha cruel que em nós se reproduz.
    Sorria o que é da terra aos vegetaes amigos;
    Rebrilhe o que é do céo nas refracções da luz!

    XXXIV

    NOS CAMPOS

    A fragrancia do trevo o das flôres selvagens
    Da noite embalsamava as tepidas bafagens:
    Ao longe os astros bons olhavam-nos dos céos.
    O mundo era um altar; as serras grandes aras;
    E os canticos da paz corriam nas searas
    Em honra do bom Deus.

    No solemne silencio immersa ia minha alma
    Em tranquilla mudez; n'aquella doce calma
    Que sente germinar os frescos vegetaes.
    De subito uma voz deixou-me um pouco extatico:
    Detive-me um momento; olhei:–era o viatico!
    De noite a horas taes,

    Que andava Deus fazendo, assim, pela campina,
    Trazido pela mão d'um padre sem batina
    Roubado ás sensações d'um longo resonar?
    Fui seguindo o cortejo até que n'uma choça
    O Rei dos reis entrava: o padre, com voz grossa,
    Movia-se a rezar.

    Nos restos d'uma enxerga, ali, no vil cazebre,
    Um pobre cavador, mordido pela febre,
    Torcia as grossas mãos nas ancias do estertor;
    E os filhos semi-nus sentindo a pena ignota
    Tentavam-se esconder na velha saia rota
    Da mãe louca de dôr!

    A voz do sacerdote a custo resoava.
    A palavra d'amor que ali se precisava,
    Não posso dizer bem se acaso elle a soltou.
    Falava o Deus severo e forte dos castigos,
    Ou esse bom Jesus que aos pés d'alguns mendigos
    Um dia ajoelhou?

    Do padre tinham medo os tremulos pequenos.
    Os magros cães fieis erguendo-se dos fênos
    Latiam tristemente em volta do cazal:
    E o levita lançava áquella noite escura
    A benção derradeira, erguendo a mão segura,
    N'um gesto machinal!

    Depois transpondo, á pressa, a porta da cabana,
    Sahia sem deixar da sãa verdade humana
    O balsamo suave, o dom consolador!
    Oh, de certo o Jesus de que nos fallam tanto
    Não era o que deixava ali, n'aquelle canto
    Sósinha a mesma dôr!

    Sorria Deus, no entanto, em toda a natureza!
    Nas florestas, no val, nas serras, na deveza,
    Nas moitas dos rozaes, no movediço mar!
    O constellado azul dir-se-ía um sanctuario!
    Havia aquelle albergue apenas solitario,
    E frio o pobre lar!

    E o rude agonisante, o triste moribundo
    Que em breve ía partir; abandonar o mundo;
    Os seus deixando sós, na terra, sem ninguem,
    Talvez ao presentir o fim da insana lida
    Soltasse maldicções, ainda, contra a vida
    E contra nós tambem!

    E eu lembrei-me então d'aquelles bons valentes
    Que lutam todo o dia e vão morrer contentes
    Á noite, ao pé dos seus, depondo os vãos laureis;
    E d'aquelles, tambem, de frontes requeimadas
    Que pela causa santa, em pé, nas barricadas,
    Se batem contra os reis!

    Lembraram-me os heroes, serenos, bons, austeros,
    Que sagram toda a vida aos ideaes severos
    Da justiça e do bem; caíndo com valor,
    Sem que a dextra cruel dos despotas os dome
    Nas batalhas da idéa; oppressos pela fome,
    Varados pela dor!

    Ó pobres multidões! as grandes noites frias
    Não cessam de morder, famintas e sombrias,
    N'um banquete nefando os vossos corpos nus!
    E o lyrio da justiça; a grande flôr sagrada,
    Nem sempre mostra, em vós, aberta e desdobrada,
    As petalas de luz!

    Eu quando porem lanço as vistas ao futuro
    E vejo dia a dia a despontar mais puro
    O grande sol da idéa, em rubidos clarões,
    Recordo-me que sois a productiva leiva
    Aonde já circula uma opulenta seiva,
    De grandes creações!

    XXXV

    O ULTIMO D. JUAN

    D'aquelle de quem falo, as socegadas lousas
    Podiam-vos contar as violações brutaes!
    A gula com que morde as mais sagradas cousas
    D'horror faz recuar os trémulos chacaes.

    Não descanta á viola, á noite, os seus enleios:
    Elle vive na sombra e eu sei também que vós,
    Gentis bellezas d'hoje, ó astros dos Passeios,
    Lhe não lançaes, a furto, a escada de retroz.

    Mas sede muito embora as virgens sem desejos,
    As monjas virginaes, uns pudicos dragões;
    Fechae o niveo collo aos vendavaes dos beijos,
    E ás noites de luar os vossos corações;

    Um dia hade chegar em que elle, informe, tosco,
    Sem garbo, sem pudor, grotesco, infame, vil;
    Nas grandes solidões irá dormir comvosco,
    Mordendo em cada seio o lyrio mais gentil!

    E o que elle adora muito ó virgens romanescas
    Não é o que abrigaes d'ethereo e virginal:
    Adora os corpos nus; as bellas carnes frescas;
    Deixando o resto a vós damnados do ideal!

    Não vive como nós de candidas mentiras:
    Não communga do amor esse illuzorio pão:
    Devora com fervor as pallidas Elviras
    E em muitos seios bons dá pasto ao coração!

    Tem palacios na sombra e fazem-lhe um thesouro
    Maior do que o dos reis; adora as solidões:
    Não uza d'espadim; não traz esporas d'ouro;
    Mas vive como os reis das grandes corrupções!

    Flôres sentimentaes! tremei do paladino,
    Do velho D. Juan, feroz conquistador,
    A quem da vossa bocca um halito divino,
    Em vida, faz fugir talvez cheio d'horror;

    Mas que um dia virá, na candida epiderme,
    Na sagrada nudez dos collos virginaes,
    Em hymnos de triumpho–o grande Cezar-Verme!–
    Colher o que ficou de tantos ideaes!

    XXXVI

    Formosuras do inverno! Ao sol das duas horas
    A aérea multidão de fadas quebradiças,
    Gentis apparições dos bailes e das missas,
    Desliza no fulgor das pompas seductoras.

    No arfar da cazimira ha frases tentadoras
    E maciezas taes nas languidas pelliças,
    Que as tristes commoções, decrepitas, mortiças,
    Resurgem do lethargo ó pallidas senhoras!

    E muitos hão de ter uns extasis divinos
    Ouvindo soluçar, á noite, aos violinos,
    A vaga introducção d'uma balada aerea;

    Em quanto, do futuro, ao toque da alvorada,
    Se escuta, a martellar na sua barricada,
    Sinistra rota e fria, a livida Miseria.

    XXXVII

    ANTIGO THEMA

    Passae larvas gentis na rua da cidade
    Aonde se atropella a turba folgazã;
    A noite é um tanto agreste e cheia d'humidade
    Mas o tedio mortal precisa a claridade
    Que em vosso olhar trazeis, vizões do macadam!

    Estatuas sem calor! vós sois das grandes vazas
    D'um corrompido mar as Deusas menos vis!
    Se á noite abandonaes, voando, as pobres casas,
    E vindes pela rua enlamear as azas,
    Quem sabe a fome occulta, as sedes que sentis!

    A pallida Miseria em seu triste cortejo
    Precisa as contracções de muitos hombros nús:
    E vós ides sorrindo ao lubrico desejo,
    Do carro da desgraça arremessando um beijo
    Que apenas é de lama em vez de ser de luz!

    Embora! caminhae deixando um grande rasto
    D'estranhas emoções, d'aromas sensuaes:
    E ao pobre que mendiga a pallidez d'um astro;
    Ao que sonha vizões e archanjos d'alabastro
    Fazei por despenhar nos longos tremedaes!

    Do velho idyllio, a muza, ha muito já que dorme,
    E o arroio em vão suspira e chora a nossos pés!
    A grande multidão,–a vaga, a onda enorme,
    Que oscilla sem cessar, e gira multiforme
    Ás corridas, ao circo, ao templo e aos cafés,

    Talvez ao presentir que tudo, emfim, declina,
    Adore a immensa luz, em vós, constellações,
    Que não baixaes do céo; que vindes d'uma esquina,
    Vagando no rumor da aérea musselina,
    Em plena bacchanal fingindo de vizões?

    Oh, sois do nosso tempo! A languida existencia
    De tedios se consome e sente febres más!
    Aspira ao que é bizarro: a uma exquisita essencia
    Que exhala aquella flôr que vem na decadencia
    E quando a toda a luz succede a luz do gaz!

    Do seculo a voz rude apenas diz–trabalha!–
    Ao poste vil amarra o lubrico ideal
    Que expira, emfim, talhando a funebre mortalha
    Na vossa trança gasta, ó muzas da canalha
    Que apenas revoaes do olimpo ao hospital!

    XXXVIII

    A MÃE

    Eu canto-vos, mulher, por que vos tenho visto
    Na palpebra vermelha a lagrima d'amôr,
    Que vem d'Eva a Maria–a doce mãe de Christo–
    Formando a stalactite immensa d'uma dôr!

    Oh, quantas vezes já n'aldeia miseravel
    Nas tristezas do campo, ás portas dos casaes,
    Vos tenho surprehendido, em extasi adoravel,
    Em quanto os filhos nús ao peito conchegaes!

    A fria noite chega. Os maus, de bocca cheia,
    Rebolam-se na terra: ainda pedem pão!
    Com elles repartis a vossa parca ceia;
    E vendo-os a dormir podeis sorrir então.

    D'inverno quasi sempre as noites são mordentes.
    Uivam lobos na serra: o vento uiva tambem:
    Mas elles vão dormindo os longos somnos quentes,
    Em quanto a vil insomnia opprime a pobre mãe!

    Tendes sustos crueis. Temendo que lhes caia
    A roupa que os abafa, aos pobres acudis;
    E aninhando-os melhor nas vossas velhas saias
    Podeis então dormir um tanto mais feliz.

    Mulher quanto é suave e longo esse poema
    Quanto é preciso ó mãe, no transito cruel,
    Que vossa alma estremeça e o vosso peito gema
    A fim de que em vós brilhe o mais alto laurel!

    Quem é que nunca viu, na rua, a cada passo,
    A pallida mulher que rompe a multidão,
    Trazendo agasalhado, um filho no regaço,
    E aos tombos, muita vez, um outro pela mão?!

    Nos frios do lagedo, ás vezes, pede esmola
    Ás portas dos cafés: ninguem a quer ouvir:
    E a ella qualquer codea a farta e a consola
    Comtanto que sem fome os filhos vão dormir!

    E em quanto á luz do gaz a turba prazenteira
    No fumo dos festins revoa em turbilhão,
    Quantos dramas crueis nas humidas trapeiras;
    Nos campos quantas mães sem roupas e sem pão?!

    E sempre a mesma lenda, a mesma historia antiga:
    Do palacio á cabana o vosso doce olhar,
    Nas insomnias crueis, na fome ou na fadiga,
    D'um raio creador o berço a illuminar!

    No entanto á doce mãe, se aquelle amor sem termo,
    Da moda traja agora os novos ouropeis,
    E o vosso coração já gasto e um pouco enfermo,
    Soffrendo se dilue nos ideaes crueis;

    Nas vagas pulsações d'umas recentes ancias,
    Se aquella santa flôr das grandes commoções,
    Apenas tem logar nas vossas elegancias.
    Como um enfeite de mimo amado nos salões;

    Na corrente fatal que ao longe arrasta os povos,
    Se o vosso grande affecto intenta erguer-se mais,
    Sonhando a sagração dos heroismos novos,
    Resplendente de luz; vistosa de metaes:

    Aos reflexos do gaz, ó mãe, abri passagem
    Por entre a saudação das alas cortezãs,
    Levando as seducções da vossa doce imagem
    Aos delirios da noite, ás ceias das manhãs!

    Surgi do canto obscuro aonde o casto seio
    Palpita ingenuo e bom na paz da solidão,
    E o vosso amor levae á opera e ao passeio
    A fim de que elle arranque um bravo á multidão!

    E eu heide rir ao ver que o peito onde um thesouro
    Maior do que nenhum podemos encontrar,
    Intenta seduzir pela medalha d'ouro
    Que aos pequenos heroes os reis costumam dar!

    XXXIX

    Archanjo vae-te embora: é tarde: em nossas casas
    Talvez alguem se afflija; é tão deserta a rua!…
    Tu deves sentir frio! Embuça-te nas asas;
    Dá saudades á lua.

    Um beijo em cada estrella!… Espera que eu sou louco!
    Sonhei devo pagar: perdão anjo dos céos!
    Agora tem cuidado; o céo escorrega um pouco:
    Boas noites adeus!

    XL

    SANTA SIMPLICIDADE

    Na serena missão de paz que tu cumpriste
    Ó suave Jesus, ó doce galileu,
    Que santa singeleza e que perfume triste
    Do teu casto perfil no mundo rescendeu!

    Havia no teu verbo aquella unção divina
    Que a velha harpa de Job soltou nas solidões,
    E o bello, o puro sol da antiga Palestina
    Suave contornou, de luz, tuas feições!

    Compunham-te o cortejo uns pobres pescadores
    Almas rectas e sãs; marchavas por teu pé,
    E sorrias falando aos rudes e aos pastores,
    Sentado nos portaes da pobre Nazareth.

    Da tua Galiléa os valles percorrias
    Levando um bom quinhão d'affecto a cada lar,
    E o grande olhar suave e terno das judias
    Turbaste muita vez, de certo, sem pensar!

    E mais simples na morte, apenas a tua alma
    Transpunha as regiões purissimas do sol,
    Tu que havias colhido a immorredoura palma
    Não tinhas para o corpo as gallas d'um lençol!

    Consola-te ó Jesus! Tu deves já ter visto
    Que sobre a terra, agora, ao teu nome fieis,
    Os que se dizem ser apostolos de Christo
    Não precisam trajar os infimos bureis.

    Não maceram seus pés! não vão pobres e rotos
    Envoltos na estamenha, apedrejados, sós,
    Nos desertos viver de mel e gafanhotos,
    Convertendo o gentio ao som da sua voz.

    Ante elles, ao contrario, alargam-se os batentes
    Dos palacios reaes, nas grandes recepções,
    E formam-lhes cortejo os coches reluzentes
    Atraz dos quaes se bate um trote d'esquadrões!

    Cobrindo-lhes, depois, d'insignias as roupetas,
    Afim d'honrar melhor a primitiva fé,
    Redobram-se ainda mais as velhas etiquetas;
    Polvilham-se melhor os homens da libré!

    E dão-se-lhes festins onde ha grandes baixellas,
    Fataes scintillações de vinhos e rubins,
    Gargantas ideaes, grandes espaduas bellas,
    Lampejos de cristaes, insidias de setins!

    Oh! temo bem Jesus que tantas pedrarias
    Façam peso de mais na barca do Senhor,
    Quando é certo que as mãos de Pedro um pouco frias
    Mal podem segurar o leme salvador!

    Por isso quando avisto o espaço que negreja
    E o mar que se encapella, eu temo que ámanhã
    Do fendido baixel da tua velha Egreja
    Apenas reste, á prôa, uma ficção pagã!

    XLI

    O velho Olimpo dorme o bom somno comprido
    Que prostra o lutador no fim d'uma batalha,
    E os Deuses d'outro tempo, em livida mortalha,
    Descançam no torpor d'um mundo corrompido.

    No puro céo christão, de estrellas revestido,
    No entanto ha muito já que chora e que trabalha,
    Por nós, o Christo bom sem que seu Pae lhe valha,
    A fim de ver, de todo, o mundo redimido!

    Justiça, traça o manto alvissimo e estrellado
    E senta-te, mulher, no throno abandonado
    Pelos vultos gentis de tantos Deuses velhos!

    Depois inda maior, mais pura e mais serena,
    No sangue de Jesus molhando a tua penna
    Explica a nova lei no fim dos evangelhos!

    XLII

    OS PALHAÇOS

    Heroes da gargalhada, ó nobres saltimbancos,
    Eu gosto do vossês,
    Por que amo as expansões dos grandes rizos francos
    E os gestos d'entremez,

    E prezo, sobretudo, as grandes ironias
    Das farças joviaes,
    Que em visagens crueis, imperturbaveis, frias,
    Á turba arremeçaes!

    Alegres histriões dos circos e das praças,
    Oh, sim, gosto de os ver
    Nas grandes contorsões, a rir, a dizer graças
    Do povo enlouquecer,

    Ungidos para a luta heroica, descambada,
    De giz e de carmim,
    Nas mimicas sem par, heroes da bofetada,
    Titães do trampolim!

    Correi, subi, voae n'um turbilhão fantastico
    Por entre as saudações
    Da turba que festeja o semi-deos elastico
    Nas grandes ascenções,

    E no curso veloz, vertiginoso, aerio,
    Fazei por disparar
    Na face trivial do mundo egoista e serio
    A gargalhada alvar!

    Depois mais perto ainda, a voltear no espaço,
    Pregae-lhe, se podeis,
    Um pontapé furtivo, ó lividos palhaços
    Lusentes como reis!

    Eu rio sempre ao ver aquella magestade,
    Os tragicos desdens,
    Com que nos divertis, cobertos d'alvaiade,
    A troco d'uns vintens!

    Mas rio ainda mais dos histriões burguezes
    Cobertos d'ouropeis
    Que tomam, n'este mundo, em longos entremezes,
    A serio os seus papeis.

    São elles, almas vãs, consciencias rebocadas,
    Que, em fim, merecem mais
    O comentario atroz das rijas gargalhadas
    Que ás vezes disparaes!

    Portanto é rir, é rir, hirsutos, grandes, lestos,
    Nas comicas funcções,
    Até fazer morrer, em desmanchados gestos,
    De riso as multidões!

    E eu que amo as expansões dos grandes risos francos
    E os gestos d'entremez,
    Deixae-me dizer isto ó nobres saltimbancos,
    Eu gosto de vossês!

    XLIII

    A HYDRA

    Ha muito que desceu das orientaes montanhas
    A hydra singular que espalha nas ardencias
    D'uma luta febril scintillações estranhas!

    Ella galga, rugindo, ás grandes eminencias,
    E emquanto vae soltando o silvo pelo espaço
    Engrossa á luz do sol na seiva das consciencias.

    Tem rijezas sem par, como de roscas d'aço
    E corre descrevendo em giros caprichosos
    Na leiva popular um indefinido traço.

    Prefere aos antros vis os focos luminosos
    E em mil voltas crueis aperta dia a dia,
    N'uma longa espiral, os thronos carunchosos.

    Passou pelo paiz da candida Utopia:
    Nos mythicos rosaes viveu d'um vago aroma
    Ao pallido fulgor da aurora que rompia.

    Mas hoje com valor em toda a parte assoma,
    E sem temer sequer a lugubre vizeira
    Ha muito que transpoz os porticos de Roma.

    E os Papas mais os Reis sentindo-a na carreira
    Do seu longo triumpho, um tanto apavorados,
    Trataram d'acender a livida fogueira.

    E ao galope lançando os esquadrões cerrados
    Começaram depois, na terra, a perseguil-a,
    A cumplice fatal dos lividos Pecados!

    Mas ella sem temor, nos cerberos tranquilla,
    Derrama cada vez mais bellos e fecundos
    Os intensos clarões da lucida pupilla,

    E emquanto a imprecação de tantos moribundos,
    Os despotas crueis, acolhem com desdem,
    A hydra immensa–a Idéa–a farejar nos mundos
    Ainda a garra adunca afia contra alguem!

    XLIV

    OS NOVOS LEVIATHÃS

    Dos antigos Titães, o mar,–fera indomavel,
    Agora verga o dorso ao peso colossal
    Dos novos leviathãs que em bando formidavel,
    Nas grandes explosões da colera insondavel,
    Já levam de vencida o abysmo e o vendaval!

    Elles seguem no mar, altivos no seu rumo,
    Em halitos de fogo, á nossa voz fieis,
    E como o combatente erguendo a lança a prumo,
    Era turbilhões rompendo, as flamulas de fumo
    Ostentam sem cessar correndo entre os parceis!

    Que sopro creador, que força omnipotente
    Os fez surgir do nada, os monstros colossaes?
    Ó novos leviathãs provindes tão somente
    Do fecundo hymeneu, d'este connubio ardente
    Do Genio e do Trabalho, amantes immortaes!

    Correis de mar em mar, altivos, triumphantes,
    Levando a toda a parte a vida, a nova luz,
    E as sereias gentis não fazem como d'antes,
    Ao som da sua voz, perder os navegantes;
    O dorso dos delfins, no mar, já não reluz!

    Ó alma antiga dorme inerte no regaço
    Dos velhos Deuses vãos, que o homem creador
    Agora ri de ti, prostrada de cansaço,
    Emquanto vae soprando em mil gigantes d'aço
    Outra alma inda mais larga,–o novo Deus-Vapor!

    XLV

    Sua alteza real o pequenino infante
    Matou, d'um tiro só, dois gamos na carreira:
    Um hymno mais ao céo, pois era a vez primeira
    Que sua alteza vinha á diversão galante!

    Ó vergontea gentil! quando um tropel distante
    De subito acordar os echos da clareira
    E uma preza cansada, em rolos de poeira,
    Varada, a vossos pés, caír agonisante,

    Acercai-vos então da pobre fera exangue
    Que estrebuxa de dôr n'um mar de lama e sangue
    Sem que um grito de dó nos corações acorde!

    No entanto não fiqueis na doce gloria absorto:
    O velho javali parece ás vezes morto
    Mas surge da agonia e os seus algozes morde!

    XLVI

    VERSOS A *

    Eu sou, mulher suave, aquelle antigo louco,
    O triste sonhador que o teu olhar cantou,
    E que hoje vae sentindo, o sonho, a pouco e pouco,
    Fugir como o luar d'um astro que expirou!

    Que morra, porque, emfim, bem longo elle tem sido
    E tempo é já, talvez, da Morte desposar
    O sonho que em minha alma entrou como um bandido
    E só da vida sae depois de me roubar!

    Eu devera amarral-o á braga do forçado,
    Como a Justiça faz aos despreziveis réos,
    E lançal-o depois á valla do passado
    Aonde o fulminasse a colera dos céos.

    Mas não; quero embalar-lhe os ultimos momentos
    Ao som d'uma canção das quadras juvenis,
    E amortalhar depois–em doces pensamentos–
    No manto da saudade, os seus restos gentis.

    E quando elle seguir ás regiões saudosas,
    Aonde todos nós iremos repousar,
    Ao esquife hei de atirar-lhe as derradeiras rosas
    Que dentro de minha alma houver por desfolhar!

    Ninguem profanará seus restos adorados,
    Que em paz irão dormir n'um fundo mausoleo;
    E quando alguma vez já hirtos, regelados,
    Acordem, por ventura, á luz que vem do céo;

    Em vão tu baterás, ó sonho, á fria porta
    Que em breve has de sentir fechada sobre ti,
    Porque a tua Memoria, emfim, já estará morta,
    E não te escutarei… porque também morri!

    XLVII

    Ó pobres versos meus, lançae-vos pela estrada
    Agreste e pedregosa, aonde os companheiros
    Da luta, encontrareis, meus infimos guerreiros,
    Formando os batalhões da bellica avançada!

    E o trajo em desalinho, a face illuminada,
    Transponde, sem demora, os fossos derradeiros
    Que separam de nós os braços justiceiros
    Da serena Verdade, a Deusa idolatrada.

    Vencidos no combate, ou pouco ou nada importa.
    Ao chão vergae sem pena a faço semi-morta,
    Mordendo, inda a lutar, o pó da enorme liça:

    E tudo, emfim, esquecendo; os odios e os desprezos;
    Que d'entre vós alguns, ao menos, fiquem prezos
    Como fios de luz, ao manto da Justiça!

    FIM.

    APPENDICE

    Nas paginas que em seguida se leem acha-se tão bem determinada, com
    tanta eloquencia e tão profunda observação, a missão da poesia
    contemporanea, que não podemos resistir ao desejo de as trazer das
    folhas passageiras do jornal, aonde pela primeira vez viram a luz, para
    as paginas d'este livro, por ventura um pouco menos ephemeras.

    O autor das _Radiações da Noite_, intenta sobretudo mostrar que o seu
    espirito, correspondendo ás indicações da critica, procura inspirar-se,
    tanto quanto lhe é possivel, no mundo que o cerca, nos factos e nas
    acções do nosso tempo. Das _Radiações da Noite_ á _Alma Nova_
    poder-se-ha talvez notar um certo caminho andado na direcção em que vae
    seguindo a arte contemporanea.

    Do escripto como primitivamente foi publicado, entendemos, como o leitor
    tambem de certo comprehenderá, suprimir, hoje, a parte final em que o
    talentoso critico se referia, d'um modo demasiadamente lisongeiro, á
    individualidade litteraria do autor das _Radiações_.

    Guilherme d'Azevedo

    TENDENCIAS NOVAS DA POESIA CONTEMPORANEA

    a preposito das

    RADIAÇÕES DA NOITE

    do sr.

    Guilherme d'Azevedo

    O seculo XIX, cujos primeiros annos enflorou uma corôa poetica de
    esplendor incomparavel, tem mentido cruelmente ás esperanças da sua
    aurora. Envelhecendo, perdeu o dom do canto, ou, pelo menos, o
    sentimento que faz os cantores verdadeiros. Os Goethe, os Byron, os
    Lamartine, os Miczkawicz, os Hugo, os OEhlenschlaeger, não deixaram
    descendencia digna d'aquella poderosa geração. O romantismo foi um
    meteoro. O grande canto do seculo esvaeceu-se gradualmente n'um
    murmurio. A poesia contemporanea não tem unidade, e não tem sobre tudo o
    largo folego de inspiração, que caracterisa as verdadeiras épocas
    poeticas. O interesse do tempo dirige-se evidentemente para outro lado.
    No meio das preoccupações da actualidade, a poesia é como a canção de um
    conviva distraído que se affasta da sala do festim, e cuja voz se perde
    pouco a pouco no silencio da distancia e da noute.

    Depois do apparecimento do romantismo, a sua queda é o maior facto
    litterario, do seculo. Porém essa queda, que como facto todos
    reconhecem, mas cuja phenomenalidade poucos tentam explicar, será uma
    justa sentença lavrada pela razão publica, ou será uma condemnaçao
    arbitraria que deshonra o tribunal que a firma? Indicará para o espirito
    do nosso tempo um progresso ou uma decadencia? uma gloria ou um
    deslustre aos olhos da historia?

    Não hesito em responder. O romantismo foi justamente condemnado. O
    seculo, com um sentimento lucido da sua verdadeira missão, affastou-se
    d'aquelles que lhe fallavam uma linguagem, cujo brilho, cuja eloquencia,
    cuja sinceridade, por maiores que fossem, não podiam encobrir o falso do
    principio, que a inspirava. Essa missão é essencialmente positiva,
    social e racional, e o romantismo era essencialmente apaixonado,
    individual e subjectivo. Por mais que se virasse para o futuro, a sua
    alma pertencia ao passado; emquanto que o seculo, ainda nos momentos em
    que parece invocar o passado, é sempre para o futuro que caminha. No
    fundo, uma sociedade saída da revolução, e uma poesia que se inspirava
    das tradições da edade-media, contradiziam-se, negavam-se radicalmente.
    Um equivoco historico pôde por um momento estabelecer aquelle infundado
    accordo: no dia, porém, em que se conheceram, separaram-se.

    Ainda ha muita gente que _sente_, _chora_, _crê_, e _aspira_, á maneira
    dos grandes, melancolicos e apaixonados de 1820. Mas já nos não commovem
    como então, já não influem poderosamente no mundo que os rodeia. São
    vozes sem ecco. É quanto basta para que nada signifiquem,
    historicamente: tanto mais que aquellas vozes frouxas não teem já o
    timbre ardente de indomavel paixão, que nas outras nos commovia. A
    paixão d'estas é mais estudada na escola, do que saída do coração. Não é
    já como então, um convencimento violento dos direitos da propria
    loucura, que os inspira: são apenas os livros dos mestres: ora, não é
    nos bancos apertados da escola, mas no seio da livre natureza, que se
    criam os verdadeiros poetas.

    Os poetas da geração actual vêem-se pois, rasgado aquelle veo
    phantastico da _sentimentalidade_ d'outr'ora, em face d'uma sociedade,
    que elles não comprehendem, porque ella mesma a si se não comprehende
    bem, mas que os não quer escutar senão com a condição de lhe falarem
    d'aquillo que a interessa e a preoccupa, de se inspirarem da sua vida
    real e das suas verdadeiras aspirações. É d'esta situação anormal que
    resulta a incerteza, a anarchia, a fraqueza da poesia contemporanea. A
    idéa poetica acha-se confusa, embaraçada no meio de factos sociaes, que
    se não definem claramente: as fontes da inspiração correm escassas ou
    turvas. A antiga nascente, tão querida e conhecida, está quasi secca: a
    nova, já por ser nova, e depois por que só deixa rebentar, em cachões,
    uma agua turbida, cheia de elementos estranhos, assusta os que a ella se
    chegam pela primeira vez; os mais ousados inclinam-se um momento, tomam
    a medo um golle da bebida suspeita, e retiram-se furtivamente como se
    acabassem de fazer uma acção má.

    E todavia, é alli que é necessario beber, porque é alli, n'aquellas
    aguas rumorosas e confusas, que se conteem os elementos da inspiração
    real, os principios vitaes de que se nutre a sociedade, e de que tem por
    conseguinte de se alimentar tambem a poesia, sob pena de se tornar uma
    abstracção, um phantasma, uma puerilidade. O problema da evolução
    poetica na actualidade encerra-se todo n'isto.

    Mas aqui apresenta-se uma questão, que nos detem. Terá a sociedade
    contemporanea (essa sociedade, ao que dizem, positiva até ao mais
    desolador utilitarismo) na sua atmosphera suffocadora de industria, de
    lutas sociaes e de sciencia friamente analytica, condições de vida e
    desenvolvimento normal para a constituição delicada das castas musas,
    das musas melindrosas e scismativas? Não será uma sociedade
    essencialmente anti-poetica, esta nossa, um mundo rebelde a toda a
    idealidade? Por outras palavras; poderá haver poesia racional, positiva
    e social? Será um ser _poetico_ o homem do nosso tempo?

    Intendo que póde haver tal poesia; que a alma moderna, na sua titanica
    aspiração de verdade e justiça, é poetica, poetica essencialmente,
    d'aquella poesia forte e audaciosa dos mythos de Prometeu e Ajax; que ha
    uma fonte abundante de inspiração n'esta luta historica de nações, de
    classes e de idéas, que é a epopea e a tragedia viva do nosso seculo;
    que, finalmente, á maneira que os factos confusos da nossa epoca se
    forem desembrulhando, mais lucida e evidente se irá mostrando a
    idealidade sublime que n'esse chaos apparente se contém.

    E a idéa d'essa poesia nova não só existe, mas deve ser superior á idéa
    poetica das eras anteriores, porque corresponde a um periodo mais
    adiantado da consciencia humana, penetra com maior intensidade a
    natureza e o espirito, extrae o bello da propria realidade universal,
    não das visões de um subjectivismo inexperiente, e dá por base ao
    sentimento, em vez de sonhos e intuições quasi instinctivas, os factos
    luminosos da rasão.

    Os caracteres essenciaes d'essa poesia já hoje se podem indicar, e todos
    elles se consubstanciam n'uma palavra, que resume tambem as tendencias
    da nossa civilisação: o Humanismo. A inspiração social e naturalista vem
    substituir a sentimentalidade toda subjectiva e pessoal, ou o
    transcendentalismo contemplativo de outras idades poeticas. A poesia
    deixa de duvidar e scismar, para affirmar e combater; mostra-nos o
    interesse profundo e o valor ideal dos factos de cada dia; dá ás acções,
    que parecem triviaes, da vida ordinaria, um caracter, e significação
    universaes; e surrindo maternalmente para as creanças, as mulheres, os
    simples, caminha todavia armada no meio das lutas dos homens.

    Uma tal missão ninguem dirá que é mesquinha ou vulgar: ha n'isto com que
    tentar os mais altos engenhos, captivar os corações mais generosos. E,
    sobretudo, deve seduzir os espiritos verdadeiramente poeticos acharem-se
    em communicação directa e constante com o seu tempo, com as aspirações,
    os interesses, as crenças da sociedade que os rodêa, e de cuja vida
    vivem, como meio historico a que fatalmente pertencem.

    Certamente que essa evolução nova da poesia tem de ser lenta, como lenta
    é a evolução do edeal social, que a deve inspirar. Ha um certo receio, e
    uma certa incerteza. O novo assusta: o indistincto faz hesitar, mas
    insensivelmente, e fatalmente tambem, caminha-se n'aquella direcção. Os
    symptomas d'este movimento tornam-se cada dia mais accentuados. Em
    França e Allemanha, sobre tudo, paizes aonde as idéas e tendencias novas
    se pronunciam n'uma agitação crescente, podem já indicar-se exemplos bem
    significativos; em Allemanha ainda mais do que em França. Alli a poesia
    inspira-se resolutamente das lutas sociaes e religiosas do tempo, e
    abalança-se já, ainda que com incerta fortuna, ás grandes composições
    epicas, aonde se desenha uma sociedade, consubstanciada nos seus typos e
    paixões mais caracteristicas. Entre nós, ha apenas indicios tenues e
    raros, mas que, porisso mesmo, devemos recolher tanto mais
    cuidadosamente, quanto parecem provar que nem tudo está inteiramente
    morto no espirito portuguez, e nos animam a esperar com alguma confiança
    n'um melhor futuro.

    Anthero de Quental.

    NOTA

    Na revisão d'este livro escapou uma ou outra incorrecção que não
    mencionamos, e de que o leitor benevolo nos absolverá. A paginas 63,
    devemos porém notar, em especial, o 3.^o verso, que insidiosamente
    apparece mascarado em alexandrino puro, feição que de certo lhe não
    compete. Aos entendidos concedemos plena autorisacão para demolir o
    verso referido, reconstruindo-o depois como julgarem mais proprio.

    INDICE

    INDICE

    I–Eu poucas vezes canto os casos melancolicos
    II–Eu vi passar além vogando sobre os mares
    III–Velha farça
    IV–Graça posthuma
    V–Historia simples
    VI–A meza do festim cercada de formosas
    VII–Os sonhos mortos
    VIII–Falta a ordem
    IX–Ó lyrios da cidade, ó corações doentes
    X–Miseria santa
    XI–Astro da rua
    XII–Quando Martha morrer, depois do extremo arranco
    XIII–As victimas
    XIV–Evocacas
    XV–Boas noites, coveiro, a tua enxada
    XVI–Flor da moda
    XVII–Ó machinas febris, eu sinto a cada passo
    XVIII–A Christo
    XIX–Eu tive um sonho estranho: ouvi que vou dizel-o
    XX–O grande templo
    XXI–A um certo homem
    XXII–Á hora do silencio
    XXIII–Eu quizera depois das lutas acabadas
    XXIV–O velho cão
    XXV–As velhitas
    XXVI–As vizões
    XXVII–Melancolias d'outono! eu quando além descubro
    XXVIII–O velho mundo
    XXIX–Eis a velha cidade, a cortezã devassa
    XXX–Á noite
    XXXI–A valla
    XXXII–Ó vultos ideaes, fantasticos e bellos
    XXXIII–Eu vejo em tua boca as petalas vermelhas
    XXXIV–Nos campos
    XXXV–O ultimo D. Juan
    XXXVI–Formosuras do inverno! Ao sol das duas horas
    XXXVII–Antigo thema
    XXXVIII–A mãe
    XXXIX–Arcanjo vae-te embora, é tarde em nossas casas
    XL–Santa simplicidade
    XLI–O velho Olimpo dorme o bom somno profundo
    XLII–Os palhaços
    XLIII–A hydra
    XLIV–Os novos leviathãs
    XLV–Sua alteza real o pequenino infante
    XLVI–Versos a *
    XLVII–O pobres versos meus, lançae-vos pela estrada
    Appendice

  • La Espuma

    La Espuma

    Aproximadamente 125.110 palavras.

    LA ESPUMA

    OBRAS COMPLETAS

    DE

    D. ARMANDO PALACIO VALDÉS

    TOMO VII

    LA ESPUMA

    1922

    I

    #Presentación de la farándula.#

    A las tres de la tarde el sol enfilaba todavía sus rayos por la calle de
    Serrano bañándola casi toda de viva y rojiza luz, que hería la vista de
    los que bajaban por la acera de la izquierda más poblada de casas. Mas
    como el frío era intenso, los transeuntes no se apresuraban a pasar a la
    acera contraria en busca de los espacios sombreados: preferían recibir
    de lleno en el rostro los dardos solares, que al fin, si molestaban,
    también calentaban. A paso lento y menudo, con el manguito de rica piel
    de nutria puesto delante de los ojos a guisa de pantalla, bajaba a tal
    hora y por tal calle una señora elegantemente vestida. Tras sí dejaba
    una estela perfumada que los tenderos plantados a la puerta de sus
    comercios aspiraban extasiados, siguiendo con la vista el foco de donde
    partían tan gratos efluvios. Porque la calle de Serrano, con ser la más
    grande y hermosa de Madrid, tiene un carácter marcadamente provincial:
    poco tráfago; tiendas sin lujo y destinadas en su mayoría a la venta de
    los artículos de primera necesidad; los niños jugando delante de las
    casas; las porteras sentadas formando corrillos, departiendo en voz alta
    con los mancebos de las carnicerías, pescaderías y ultramarinos. Así
    que, no era fácil que la gentilísima dama pasara inadvertida como en las
    calles del centro. Las miradas de los que cruzaban como de los que se
    estaban quietos posábanse con complacencia en ella. Se hacían
    comentarios sobre los primores de su traje por las comadres, y se decían
    chistes espantosos por los nauseabundos mancebos, que hacían prorrumpir
    en rugidos de gozo bárbaro a sus compañeros. Uno de los más salvajes y
    pringosos vertió en su oído, al cruzar, una de esas brutalidades que
    enrojecería súbito el cutis terso de una _miss_ inglesa y le haría
    llamar al _policeman_ y hasta quizá pedir una indemnización. Pero
    nuestra valiente española, curada de melindres, no pestañeó siquiera:
    con el mismo paso menudo y vacilante de quien pisa pocas veces el polvo
    de la calle, continuó su carrera triunfal. Porque lo era a no dudarlo.
    Nadie podía mirarla sin sentirse poseído de admiración, más aún que por
    su lujoso arreo, por la belleza severa de su rostro y la gallardía de la
    figura. Llegaría bien a los treinta y cinco años. El tipo de su rostro
    extremadamente original. La tez, morena bronceada; los ojos azules; los
    cabellos de un rubio ceniciento. Pocas veces se ve tan extraña mezcla de
    razas opuestas en un semblante. Si a alguna se inclinaba era a la
    italiana, donde tal que otra, suele aparecer esta clase de figuras que
    semejan _ladies_ inglesas cocidas por el sol de Nápoles. En ciertos
    cuadros de Rafael hay algunas que pueden dar idea de la de nuestra dama.

    La expresión predominante de su rostro en aquel momento era la de un
    orgulloso desdén. A esto contribuía quizá la luz del sol, que le
    obligaba a fruncir su frente tersa y delicada. Hay que confesarlo; en
    aquel rostro no había dulzura. Debajo de sus líneas correctas y firmes
    se adivinaba un espíritu altivo, sin ternura. Aquellos ojos azules no
    eran los serenos y límpidos que sirven de complemento adorable a ciertas
    fisonomías virginales que pueden admirarse alguna vez en nuestro país y
    más a menudo en el norte de Europa. Estaban hechos, sin duda, para
    expresar un tropel de vivas y violentas pasiones. Quizá alguna vez
    tocara su turno al amor ardiente y apasionado, pero nunca al humilde y
    mudo que se resigna a morir ignorado. Llevaba en la cabeza un sombrero
    apuntado, de color rojo, con pequeño y claro velo, rojo también, que le
    llegaba solamente a los labios Los reflejos de este velo contribuían a
    dar al rostro el matiz extraño que impresionaba a los que a su lado
    cruzaban. Vestía rico abrigo de pieles, con traje de seda del color del
    sombrero, cubierta la falda por otra de tul o granadina, que era por
    entonces la última moda.

    Llevaba, como hemos dicho, el manguito levantado a la altura de los
    ojos: éstos posados en el suelo, como quien nada tiene que ver ni partir
    con lo que a su alrededor acaece. Por eso, hasta llegar a la calle de
    Jorge Juan, no advirtió la presencia de un joven que desde la acera
    contraria y caminando a la par con ella la miraba con más admiración aún
    que curiosidad. Al llegar aquí, sin saber por qué, levantó la cabeza y
    sus ojos se encontraron con los de su admirador. Un movimiento bien
    perceptible de disgusto siguió a tal encuentro. La frente de la dama se
    frunció con más severidad y se acentuó la altiva expresión de sus ojos.
    Apretó un poco el paso: y al llegar a la calle del Conde de Aranda se
    detuvo y miró hacia atrás, con objeto sin duda de ver si llegaba un
    tranvía. El mancebo no se atrevió a hacer lo mismo: siguió su camino, no
    sin dirigirla vivas y codiciosas ojeadas, a las que la gentil señora no
    se dignó corresponder. Llegó al fin el coche, montó en él dejando ver,
    al hacerlo, un primoroso pie calzado con botina de tafilete, y fué a
    sentarse en el rincón del fondo. Como si se contemplase segura y libre
    de miradas indiscretas, sus ojos se fueron serenando poco a poco y se
    posaron con indiferencia en las pocas personas que en el carruaje había;
    mas no desapareció del todo la sombra de preocupación esparcida por su
    rostro, ni el gesto de desdén que hacía imponente su hermosura.

    El juvenil admirador no había renunciado a perderla de vista. Siguió,
    cierto, por la calle de Recoletos abajo; mas en cuanto vió cruzar el
    tranvía se agarró bonitamente a él y subió sin ser notado. Y procurando
    que la dama no advirtiese su presencia, ocultándose detrás de otra
    persona que había de pie en la plataforma, se puso con disimulo a
    contemplarla con un entusiasmo que haría sonreír a cualquiera. Porque
    era grande la diferencia de edad que había entre ambos. Nuestro muchacho
    aparentaba unos diez y ocho años. Su rostro imberbe, fresco y sonrosado
    como el de una damisela; el cabello rubio; los ojos azules, suaves y
    tristes. Aunque vestido con americana y hongo, por su traje revelaba ser
    una persona distinguida. Iba de riguroso luto, lo cual realzaba
    notablemente la blancura de su tez. Por esa influencia magnética que los
    ojos poseen y que todos han podido comprobar, nuestra dama no tardo
    mucho tiempo en volver los suyos hacia el sitio donde el joven vibraba
    rayos de admiración apasionada. Tornó a nublarse su rostro; volvió a
    advertirse en sus labios un movimiento de impaciencia, como si el pobre
    chico la injuriase con su adoración. Y ya desde entonces empezó
    claramente a dar señales de hallarse molesta en el coche, moviendo la
    hermosa cabeza ora a un lado, ora a otro, con visibles deseos de
    apearse. Mas no lo hizo hasta llegar a San José, frente a cuya iglesia
    hizo parar y bajó, pasando por delante de su perseguidor con una
    expresión de fiero desdén capaz de anonadarle.

    O muy temerario era o muy poca vergüenza debía de tener éste cuando
    saltó a la calle en pos de ella y comenzó a seguirla por la del
    Caballero de Gracia, caminando por la acera contraria para mejor
    disfrutar de la figura que tanto le apasionaba. La dama seguía
    lentamente su marcha haciendo volver la cabeza a cuantos hombres
    cruzaban a su lado. Era su paso el de una diosa que se digna bajar por
    un momento del trono de nubes para recrear y fascinar a los mortales,
    que al mirarla se embebían y daban fuertes tropezones.

    –¡Madre mía del Amparo, qué mujer!–exclamó en voz alta un cadete
    agarrándose a su compañero como si fuese a desmayarse del susto.

    La hermosa no pudo reprimir una levísima sonrisa, a cuya luz se pudo
    percibir mejor la peregrina belleza de que estaba dotada. En carruaje
    descubierto bajaban dos caballeros que le dirigieron un saludo
    reverente, al cual respondió ella con una imperceptible inclinación de
    cabeza. Al llegar a la esquina, en la misma red de San Luis, se detuvo
    vacilante, miró a todas partes, y percibiendo otra vez al rubio mancebo
    le volvió la espalda con ostensible desprecio y comenzó a descender con
    más prisa por la calle de la Montera, donde su presencia causó entre los
    transeuntes la misma emoción. Tres o cuatro veces se detuvo delante de
    los escaparates aunque se advertía que más que por curiosidad se paraba
    por el estado nervioso en que la persecución tenaz del jovencito la
    había puesto. Cerca de la Puerta del Sol, sin duda para huirla,
    resolvióse a entrar en la joyería de Marabini. Sentóse con negligencia
    en una silla, levantó un poquito el velo del sombrero y se puso a
    examinar con distracción las joyas recién llegadas que el dependiente de
    la tienda fué exhibiendo. Era lo peor que pudo hacer para librarse de
    las miradas de su adolescente adorador. Porque éste, con toda comodidad,
    sobre seguro, se las enfilaba por los cristales del escaparate con una
    insistencia que la encolerizaba cada vez más.

    La verdad es que aquella tiendecita primorosamente adornada, donde
    brillaban por todas partes los metales y las piedras preciosas, era
    digno aposento para la bella; el estuche que mejor convenía a joya tan
    delicada. Así debió de pensarlo el joven rubio, a juzgar por el éxtasis
    apasionado de sus ojos y la inmovilidad marmórea de su figura. Al fin la
    dama, no pudiendo vencer la irritación que esto la producía, alzóse
    bruscamente de la silla y despidiéndose con una frase seca del
    dependiente, que le guardaba extraordinarias consideraciones, salió del
    comercio y llegó hasta la Puerta del Sol a toda prisa. Aquí se detuvo;
    luego dió algunos pasos hacia un coche de punto, como si fuese a entrar
    en él; pero de pronto cambió de rumbo, y con paso firme se dirigió hacía
    la calle Mayor, escoltada siempre y no de lejos por el joven. Al llegar
    a la mitad de ella próximamente, entró en una casa de suntuosa
    apariencia, no sin lanzar antes una rápida y furibunda mirada a su
    perseguidor, que la recibió con entera y rara serenidad.

    El portero, que estaba plantado en el umbral atusándose gravemente sus
    largas patillas, despojóse vivamente de la gorra, le hizo una profunda
    reverencia y corrió a abrir la puerta de cristales que daba acceso a la
    escalera, apretando en seguida el botón de un timbre eléctrico. Subió
    lentamente la escalera alfombrada, y al llegar al principal la puerta
    estaba ya abierta y un criado con librea al pie de ella esperando.

    La casa pertenecía al Excmo. Sr. D. Julián Calderón, jefe de la casa de
    banca _Calderón y Hermanos_, el cual ocupaba todo el principal de ella,
    sirviéndose por escalera distinta de los demás pisos, que tenía
    alquilados. Este Calderón era hijo de otro Calderón muy conocido en el
    comercio de Madrid, negociante al por mayor en pieles curtidas, que con
    ellas había hecho una buena fortuna y que en los últimos años de su vida
    la había acrecentado, dedicándose, a la par que al comercio, al giro y
    descuento de letras. Fallecido él, su hijo Julián continuó su obra sin
    apartarse un punto, manejando con el suyo el haber de sus dos hermanas
    casadas, la una con un médico, la otra con un propietario de la Mancha.
    A su vez estaba casado, bastantes años hacía, con la hija de un
    comerciante de Zaragoza, llamado D. Tomás Osorio, padre también del
    conocido banquero madrileño del mismo nombre, que tenía su hotel con
    honores de palacio en el barrio de Salamanca, calle de Ramón de la Cruz.
    La hermosa dama que acaba de entrar en la casa es la esposa de este
    banquero, y hermana política, por lo tanto, de la señora de Calderón.

    Pasó por delante del criado sin aguardar a que éste la anunciase, avanzó
    resueltamente como quien tiene derecho a ello, atravesó tres o cuatro
    grandes estancias lujosamente decoradas, y alzando ella misma la rica
    cortina de raso con franja bordada, entró en una habitación más reducida
    donde se hallaban congregadas varias personas. En el sillón más próximo
    a la chimenea estaba arrellanada la señora de la casa, mujer de unos
    cuarenta años, gruesa, facciones correctas, ojos negros, grandes y
    hermosos, pero sin luz, la tez blanca, los cabellos de un castaño claro
    excesivamente finos. Al lado de ella, en una butaquita, estaba otra
    señora, que formaba contraste con ella; morena, delgada, menuda, de
    extraordinaria movilidad, lo mismo en sus ojillos penetrantes que en
    toda su figura. Era la marquesa de Alcudia, de la primer nobleza de
    España. Las tres jóvenes que sentadas en sillas seguían la fila, eran
    sus hijas, muy semejantes a ella en el tipo físico, si bien no la
    imitaban en la movilidad: rígidas y silenciosas, los ojos bajos, con
    modestia y compostura tan afectadas, que pronto se echaba de ver el
    régimen severo a que las tenía sometidas su viva y nerviosa mamá. Con
    una de ellas hablaba de vez en cuando en voz baja la hija de los señores
    de Calderón, niña de catorce o quince años, carirredonda, de ojos
    pequeños, nariz arremolachada y algunos costurones en el cuello,
    pregoneros de un temperamento escrofuloso. Esta niña gastaba aún los
    cabellos trenzados, con un lacito en la punta de la trenza, lo mismo que
    la última de las de Alcudia, con quien sostenía tímida e intermitente
    conversación. Esta, y sus hermanas, llevaban en la cabeza sendos y
    caprichosos sombreros, mientras Esperancita (que así nombraban a la hija
    de los amos) andaba con su cabecita redonda al descubierto. El traje una
    _matinée_ azul, demasiadamente corta para sus años. Los señores de
    Calderón solo tenían esta hija y un niño de dos años. Frente a la
    señora, reclinado en una butaca igual, estaba el general Patiño, conde
    de Morillejo. Hállase entre los cincuenta y sesenta, pero conserva en
    sus ojos el fuego de la juventud; sus cabellos grises están
    esmeradamente peinados, los largos bigotes a lo Víctor Manuel, la
    perilla apuntada, la nariz aguileña le dan un aspecto simpático y
    gallardo. Es el tipo perfecto del veterano aristócrata. A su lado, en
    otra butaca, estaba Calderón, hombre de unos cincuenta años, grueso, de
    cara redonda y sonrosada, adornada por cortas patillas grises; los ojos
    redondos, vagos y mortecinos. Cerca de él una señora anciana, que era la
    madre de la esposa de Calderón, aunque mucho se diferenciaba de ella en
    el rostro y la figura: delgada al punto de no tener más que la piel
    sobre los huesos, morena, ojos hundidos y penetrantes, revelando en
    todos los rasgos de su fisonomía inteligencia y decisión. Hablando con
    ella está Pinedo, el inquilino del cuarto tercero. Aunque su bigote no
    tiene canas, se adivina fácilmente que está teñido: su rostro es el de
    un hombre que anda cerca de los sesenta: fisonomía bonachona, ojos
    saltones que se mueven con viveza, como los que poseen un temperamento
    observador. Viste con elegancia y manifiesta extraordinaria pulcritud en
    toda su persona.

    Al ver en la puerta a nuestra bellísima dama, la tertulia se conmovió.
    Todos se alzan del asiento, excepto la señora de Calderón, en cuyo
    rostro parado se dibujó una vaga sonrisa de placer.

    –¡Ah, Clementina! ¡Qué milagro el verte por aquí, mujer!

    La dama se adelantó sonriente, y mientras besaba a las señoras y daba la
    mano a los caballeros, respondía a la cariñosa reprensión de su cuñada.

    –¡Anda! Aplícate la venda, hija, tú que no pareces por mi casa más que
    por semestres.

    –Yo tengo hijos, querida.

    –¡Miren ustedes qué disculpa! Yo también los tengo.

    –En Chamartín.

    –Bueno; el tener hijos no te priva de ir al Real y al paseo.

    Clementina se sentó entre su cuñada y la marquesa de Alcudia. Los demás
    volvieron a ocupar sus asientos.

    –¡Ay, hija!–exclamó aquélla respondiendo a la última frase.–¡Si
    vieras qué catarrazo he pillado la otra noche en el teatro! El tonto de
    Ramoncito Maldonado es el que ha tenido la culpa. Con tanto saludo y
    tanta ceremonia, no acababa de cerrar la puerta del palco. Aquel aire
    colado se me metió en los huesos.

    –Ha tenido fortuna ese aire–manifestó con sonrisa galante el general
    Patiño.

    Todos sonrieron menos la interesada, que le miró con sorpresa abriendo
    mucho los ojos.

    –¿Cómo fortuna?

    Fué necesario que el general le diese la galantería mascada; sólo
    entonces la pagó con una sonrisa.

    –¿No es verdad que ha estado muy bien Gayarre?–dijo Clementina.

    –¡Admirable! como siempre–respondió su cuñada.

    –Yo le encuentro falto de maneras–expresó el general.

    –¡Oh, no, general!… Permítame usted….

    Y se empeñó una discusión sobre si el famoso tenor poseía o no poseía el
    arte escénico, si era o no elegante en su vestir. Las señoras se
    pusieron de su parte. Los caballeros le fueron adversos.

    Del tenor pasaron a la tiple.

    –Es toda una hermosa mujer–dijo el general con la seguridad y el
    acento convencido de un inteligente.

    –¡Oh!–exclamó Calderón.

    –Pues yo encuentro a la Tosti bastante ordinaria, ¿no le parece a
    usted, Clementina?

    Esta corroboró la especie.

    –No diga usted eso, marquesa; el que una mujer sea alta y gruesa no
    indica que sea ordinaria, si tiene arrogancia en el porte y distinción
    en las maneras–se apresuró a decir el general, echando al mismo tiempo
    una miradita a la señora de Calderón.

    –Ni yo sostengo eso, general; no tome usted el rábano por las
    hojas–manifestó la marquesa con extraordinaria viveza, atacando después
    con brío y un poquillo irritada la gracia y buen talle de la tiple.

    Generalizóse la disputa, y sucedió lo contrario que en la anterior. Los
    caballeros se mostraron benévolos con la cantante mientras las señoras
    le fueron hostiles. Pinedo la resumió, diciendo en tono grave y solemne,
    donde se notaba, sin embargo, la socarronería:

    –En la mujer, las buenas formas son más esenciales que en el hombre.

    Clementina y el general cambiaron una sonrisa y una mirada
    significativas. La marquesa miró al pulcro caballero con dureza y
    después se volvió rápidamente hacia sus hijas, que seguían con los ojos
    bajos, en la misma actitud rígida y silenciosa de siempre. Pinedo
    permaneció grave e indiferente, como si hubiese dicho la cosa más
    natural del mundo.

    –Pues yo, amigo Pinedo, creo que los hombres deben tener también buenas
    formas–manifestó la pánfila señora de Calderón.

    Al decir esto se oyó un resuello débil, como de risa reprimida con
    trabajo. Era la última niña de la marquesa de Alcudia, a quien su mamá
    dirigió una mirada pulverizante. La fisonomía de la niña volvió
    instantáneamente a su primitiva expresión tímida y modesta.

    –Es una opinión …–respondió Pinedo, inclinándose respetuosamente.

    Este Pinedo, que ocupaba uno de los cuartos terceros de la misma casa
    propiedad de Calderón, desempeñaba un empleo de bastante importancia en
    la Administración pública. Los vaivenes de la política no lograban
    arrancarle de él. Tenía amigos en todos los partidos, sin que se hubiese
    jamás decidido por ninguno. Hacía la vida del hombre de mundo; entraba
    en las casas más aristocráticas de la corte; trataba familiarmente a la
    mayoría de los personajes de la banca y la política; era socio antiguo
    del _Club de los Salvajes_, donde se placa en bromear todas las noches
    con los jóvenes aristócratas que allí se reunían, quienes le trataban
    con harta confianza que no pocas veces degeneraba en grosería. Era
    hombre afable, inteligente, muy corrido y experto en el trato de los
    hombres; tolerante con toda clase de vanidades por el mismo desprecio
    que sentía hacia ellas. No obstante, con la apariencia de hombre cortés
    e inofensivo, guardaba en el fondo de su alma un fondo satírico que le
    servía para vengarse lindamente, con alguna frase incisiva y oportuna,
    de las demasías de sus amiguitos los sietemesinos del _Club_. Estos le
    profesaban una mezcla de afecto, desprecio y miedo. Nadie conocía su
    procedencia, aunque se daba por seguro que había nacido en humilde cuna.
    Unos le hacían hijo de un carnicero de Sevilla; otros le declaraban
    granuja de la playa de Málaga en su juventud. Lo que se sabía de
    positivo, era que hacía ya muchos años había aparecido en Madrid como
    parásito de un título andaluz, el cual, después de haber disipado su
    fortuna, se saltó los sesos. En la compañía de éste, nuestro Pinedo
    adquirió gran número de relaciones útiles, llegó a conocer y tratar a
    toda la gente que hacía viso, entre la cual era popular. Tenía el buen
    tacto de echarse a un lado cuando tropezaba con un hombre inflado y
    soberbio, dejándole paso. No excitaba los celos de nadie y esto es medio
    seguro de no ser aborrecido. Al mismo tiempo su ingenio, su carácter
    socarrón, que procuraba mantener siempre dentro de ciertos límites,
    despertaba a menudo la alegría en las tertulias; bastaba para darle en
    ellas cierta significación, que de otro modo no hubiera disfrutado.

    No tenía más familia que una hija de diez y ocho años llamada Pilar. Su
    mujer, a quien nadie conoció, había muerto muchos años hacía. Su sueldo
    era de cuarenta mil reales, y con él vivían económicamente padre e hija,
    en el tercero que Calderón les dejaba por veintidós duros al mes. Los
    gastos mayores de Pinedo eran de representación. Como frecuentaba una
    sociedad muy superior a la que, dada su posición, le correspondía, era
    preciso vestir con elegancia y asistir a los teatros. Comprendiendo la
    necesidad absoluta de seguir cultivando sus relaciones, que eran las
    pilastras en que su empleo se sustentaba, imponíase tales dispendios sin
    vacilar, ahorrándolo en otras partidas del presupuesto doméstico. Vivía,
    pues, en situación permanente de equilibrio. El empleo le permitía
    frecuentar la sociedad de los prepotentes, mientras éstos le ayudaban
    inconscientemente a mantenerse en el empleo. Ningún ministro se atrevía
    a dejar cesante a un hombre con quien iba a tropezar en todas las
    tertulias y saraos de la corte. Luego Pinedo tenía el honor de hablar
    alguna vez con las personas reales: ciertas frases suyas corrían por los
    salones y se celebraban más quizá de lo que merecían, por lo mismo que
    en los salones suele haber poco ingenio: tiraba bastante bien con
    carabina y con pistola y era inteligentísimo y poseía una copiosa
    biblioteca tocante al arte culinario. Los más altos personajes se
    sentían lisonjeados cuando oían decir que Pinedo elogiaba a su cocinero.

    –¿Cuándo has estado en el colegio, Pacita?–le preguntó en voz baja
    Esperanza a la menor de la marquesa de Alcudia.

    –Pues el viernes; ¿no sabes que mamá nos lleva todos los viernes a
    confesar? ¿Y tú?

    –Yo hace lo menos tres semanas que no he estado. Mamá y yo nos
    confesamos cada mes.

    –¿Y se conforma con eso el padre Ortega?

    –A mí no me dice nada…. No sé si a mamá….

    –No le dirá, no: ya sabe muy bien dónde pone el pie. ¿Has visto a las
    de Mariani?

    –Sí; hace pocos días, en el Retiro.

    –¿No sabes que María se ha echado un novio?

    –No me ha dicho nada.

    –Sí, de caballería … hijo del brigadier Arcos…. ¡Un tío más
    desgalichado! Feo no es; pero le tiemblan las piernas cuando anda como
    si saliese del hospital…. Ya ves, como la mamá es querida del
    brigadier … todo queda en casa.

    –Y tú, ¿sigues con tu primo?

    –No te lo puedo decir. El lunes se marchó enfadado y no ha vuelto por
    casa. Mi primo no es lo que parece; no es una mosquita muerta, sino un
    pillo muy largo, que si le dan el pie se toma la mano…. ¡Anda! pues si
    no anduviese yo con ojo, no sé adonde hubiera parado con la marcha que
    llevaba…. ¿Sabes que estaba empeñado en que le regalase mis ligas?

    –¡Jesús!–exclamó la niña de Calderón riendo.

    –Lo que oyes, hija…. Por supuesto que yo le puse de sucio y de
    gorrino que no había por dónde cogerle…. Se marchó muy amoscado, pero
    ya volverá.

    –Tu primo monta muy bien. Le he visto ayer a caballo.

    –Lo único que sabe hacer. Las letras le estorban. Se ha examinado ya
    seis veces de Derecho romano y siempre ha salido suspenso.

    –¡Qué importa!–exclamó la niña de Calderón con un desprecio que
    hubiera estremecido a Heinecio en su tumba. Y añadió en seguida:

    –¿Esos sombreros os los ha hecho Mme. Clement?

    –No, los ha encargado mamá a París por la señora de Carvajal, que ha
    llegado el sábado.

    –Son muy bonitos.

    –Más que los que hace Mme. Clement ya son.

    Y se enfrascaron por breves momentos en una plática de moda.

    La niña de Calderón, que era bastante fea, poseía, no obstante, cierto
    atractivo que provenía acaso de sus cortos años, acaso también de una
    boca de labios gruesos y frescos y dientes iguales y blancos, donde la
    sensualidad había dejado su sello. La última de Alcudia era una chicuela
    de temperamento enfermizo, que no tenía más que huesos y ojos.

    –Oye–le dijo Esperanza cuando se hubieron cansado de hablar de
    sombreros–, ¿sabes que el último día que he estado en el colegio les
    llevé el retrato de mi hermanito?… Verás qué paso más gracioso. Lo han
    retratado desnudo, y como tiene aquello descubierto, la hermana María de
    la Saleta no quería enseñarlo a las niñas. Las chicas comenzaron a
    gritar: "¡queremos verlo! ¡queremos verlo!" ¿Sabes lo que hizo entonces?
    Pues lo fué enseñando con la mano puesta encima, dejando sólo ver el
    pecho y la cabeza.

    –¡Chica, qué gracia tiene eso!–exclamó Pacita soltando la carcajada.

    Esperanza la secundó, riendo ambas de tan buena gana que concluyeron por
    llamar la atención de la tertulia, sobre todo de la marquesa, que volvió
    a dirigir a su hija una mirada severísima.

    Entraba en aquel momento una señora que representaba cuarenta años; el
    rostro, hermoso aún, pintado, con señales impresas más que de los años,
    de una vida agitada y galante.

    –Aquí está Pepa Frías–dijo sonriendo Mariana, la esposa de Calderón.

    –Eso es; aquí está Pepa Frías–respondió con afectado mal humor la
    misma–. Una mujer que no tiene pizca de vergüenza al poner los pies en
    esta casa.

    Los tertulios rieron.

    –¿Tú te crees por lo visto que soy de la Inclusa? ¿que no tengo casa?
    Pues sí que la tengo, Salesas, 60, principal…. Es decir, la tiene el
    casero…. Pero le pago, lo que no harán seguramente todos tus
    inquilinos. Perdone usted, Pinedo; no le había visto…. Y también tengo
    mis sábados … y no hay tanto calor como aquí ¡uf! y doy chocolate y
    té, y conversación y todo … lo mismo que aquí.

    Mientras decía esto, iba saludando a los circunstantes con semblante
    furioso. Pero como todos sabían a qué atenerse, reían.

    Era una mujer metida en carnes, los cabellos artificialmente rubios, los
    ojos un poco saltones, pero hermosos, la boca fresca y sensual; una
    mujer agradable, en suma, que había tenido y que seguía teniendo, a
    pesar de sus años, muchos apasionados.

    –Lo que no hay–añadió acercándose a la señora de Calderón y dándole
    dos sonoros besos en las mejillas–es una mujer tan ingrataza y tan
    insignificante como tú…. Por supuesto, que yo no vengo ya a verte a
    ti, sino a mi señor D. Julián, que alguna vez que otra sube a darme las
    buenas tardes y a decirme cómo anda la cotización…. Y a propósito de
    cotización, Clementina, dile a tu marido que suspenda aquello hasta que
    le avise…. Mejor dicho, no le digas nada; yo pasaré esta noche por tu
    casa.

    –¡Pero hija, qué líos traes siempre con el papel y la Bolsa y las
    acciones!–exclamó Mariana.

    –Pues los mismos que tú traerías si no tuvieses un marido tan activo
    que se encarga de calentarse la cabeza para que tú la tengas fresca y
    descansada….

    –Vaya, Pepa, no me eche usted piropos, que voy a ponerme colorado–dijo
    Calderón.

    –No digo más que la verdad. ¡Si creerán que es plato de gusto estar
    pensando en si baja o si sube el papel, escribir cartas y endosos y
    andar camino del Banco!

    –Imagino yo, Pepa–manifestó el general con sonrisa galante–que por
    más que diga, usted tiene afición a los negocios.

    –¿Imagina usted? ¡Qué raro!

    –No tengo tanta imaginación como usted, pero alguna sí–respondió el
    general un poco molestado por la risa que la frase de Pepa había
    producido.

    Esta Pepa era una mujer que gozaba fama de chistosa en sociedad, aunque
    realmente su gracia se confundía a menudo con la desvergüenza. Hablar
    siempre con rostro enojado, llamar a las cosas por su nombre, por crudo
    que fuese, decir una fresca al lucero del alba; tales eran las
    cualidades que habían logrado darle popularidad en los salones. Había
    quedado viuda bastante joven, con dos hijos, un varón que había seguido
    la carrera de marino y que a la sazón estaba navegando, y una hija a
    quien había casado hacía un año. Su marido había sido comerciante, y en
    los últimos años jugaba en la Bolsa con fortuna. En esta temporada, Pepa
    contrajo la misma pasión. Una vez viuda siguió alimentándola. La
    prudencia, o por mejor decir la timidez que caracteriza a las mujeres en
    los negocios, la habían librado de la ruina, que suele ser, tarde o
    temprano, inevitable para los apasionados al juego. Algo se había
    mermado su fortuna, pero aún disfrutaba de un envidiable bienestar.

    –Pepa, el asunto marcha admirablemente–dijo Pinedo–. De Zaragoza han
    pedido un volcán y en la Coruña ha resuelto el Ayuntamiento establecer
    dos, al oriente y al poniente de la ciudad.

    –Me alegro, me alegro muchísimo. ¿De manera que no suelto las acciones?

    –Nunca; el sindicato tiene seguridad de que antes de un mes subirán a
    trescientos.

    Los pocos que estaban en la broma rieron. Los demás fijaron en ellos sus
    ojos con curiosidad.

    –¿Qué es eso de los volcanes, Pinedo?–preguntó la esposa de Calderón.

    –Señora, se ha formado una sociedad para establecer volcanes en las
    poblaciones.

    –¡Ah! ¿Y para que sirven esos volcanes?

    –Para la calefacción, y además como objeto de adorno.

    Todos comprendieron ya la burla menos la linfática señora, que siguió
    preguntando con interés los pormenores del negocio. Los tertulios reían,
    hasta que Calderón, entre risueño y enojado, exclamó:

    –¡Pero mujer, no seas tan cándida! ¿No ves que es una guasa que se
    traen Pepa y Pinedo?

    Estos protestaron afectando gran formalidad, pero la primera dijo al
    oído del segundo:

    –Si será pánfila esta Mariana, que hace ya tres meses que el general
    Cruzalcobas le está haciendo el amor y aún no se ha enterado.

    Así llamaba Pepa al general Patiño, y no sin fundamento. A pesar de su
    apuesta figura un tanto averiada, y de su continente marcial, Patiño era
    un veterano falsificado. Sus grados habían sido ganados sin derramar una
    gota de sangre. Primero como ayo instructor del arte militar de una
    persona real; miembro después de algunas comisiones científicas, y
    empleado últimamente en el ministerio de la Guerra, cultivando la
    amistad de todos los personajes políticos; diputado varias veces;
    senador por fin y ministro del Tribunal Supremo de Guerra y Marina, no
    había estado en el campo de batalla sino persiguiendo a un general
    revolucionario, y eso con firme propósito de no alcanzarle nunca. Como
    había viajado un poco y se jactaba de haber visto todos los adelantos
    del arte de la guerra, pasaba por militar instruído. Estaba suscrito a
    dos o tres revistas científicas; citaba en las tertulias, cuando se
    tocaba a su profesión, algunos nombres alemanes; para discutir empleaba
    un tono enfático y sacaba voz de gola que imponía respeto a los oyentes.
    Pero la verdad es que las revistas se quedaban siempre por abrir sobre
    la mesa de noche, y los nombres alemanes, aunque bien pronunciados, no
    eran más que sonidos en su boca. Preciábase de militar a la moderna por
    esto y por vestir siempre de paisano. Amaba las artes, sobre todo la
    música: abonado constante al teatro Real y a los cuartetos del
    Conservatorio. Amaba también las flores y las mujeres, muy especialmente
    a la mujer del prójimo. Era catador insaciable de la fruta del cercado
    ajeno. Su vida se deslizaba modesta y feliz, regando las gardenias de su
    jardincito de la calle de Ferraz y seduciendo a las esposas de los
    amigos. Hacía esto último por vocación, como se deben hacer las cosas, y
    ponía en ello todo el empeño y concentraba todas las fuerzas de su
    lúcida inteligencia, lo cual es de absoluta necesidad para hacer algo
    grande y provechoso en el mundo. Sus conocimientos estratégicos, que no
    había tenido ocasión de aplicar en el campo de batalla, servíanle
    admirablemente para entrar a saco en el corazón de las bellas damas de
    la corte. Bloqueaba primero la plaza con miradas lánguidas, acudiendo a
    los teatros, al paseo, a las iglesias que ellas frecuentaban. En todas
    partes el sombrero flamante y reluciente de Patiño se agitaba en el aire
    declarando la ardiente y respetuosa pasión de su dueño. Estrechaba
    después el cerco intimando en la casa, trayendo confites a los niños,
    comprándoles juguetes y libros de estampas, llevándoles alguna vez a
    almorzar. Se hacía querer de los criados con regalos oportunos. Venía
    después el asalto; la carta o la declaración verbal. Aquí desplegaba
    nuestro general una osadía y un arrojo singulares que, contrastaban
    notablemente con la prudencia y habilidad del cerco. Esta complejidad de
    aptitudes ha caracterizado siempre a los grandes capitanes, Alejandro,
    César, Hernán Cortés, Napoleón.

    Los años no conseguían ni calmar su pasión por las altas empresas ni
    mermar sus extraordinarias facultades. O por mejor decir lo que perdía
    en vigor ganábalo en arte, con lo que se restablecía el equilibrio en
    aquel privilegiado temperamento. Mas la fortuna, según ha tenido a bien
    comunicar a varios filósofos, se niega a ayudar a los viejos. El insigne
    capitán había experimentado en los últimos tiempos algunos descalabros
    que no podían atribuirse a falta de previsión o valor, sino a la
    versatilidad de la suerte. Dos jóvenes casadas le habían dado calabazas
    consecutivamente. Como sucede a todos los hombres de verdadero genio en
    quien los reveses no producen desmayos femeniles, antes sirven para
    concentrar y vigorizar las fuerzas de su espíritu. Patiño no lloró como
    Augusto sobre sus legiones. Pero meditó, y meditó largamente. Y su
    meditación fué de fecundos resultados. Un nuevo plan estratégico,
    asombroso como todos los suyos, surgió del torbellino de sus
    pensamientos elevados. Dándose cuenta perfecta del estado y cantidad de
    sus fuerzas de ataque y calculando con admirable precisión el grado de
    resistencia que podían ofrecerle sus dulces enemigos, comprendió que no
    debía atacar las plazas nuevas, cuyas fortificaciones son siempre más
    recias, sino aquellas que por su antigüedad empezasen ya a desmoronarse.
    Tal viva penetración del arte y tal destreza en la ejecución como el
    general poseía, anunciaban desde luego la victoria. Y, en efecto, a
    consecuencia del nuevo y acertado plan de ataque, comenzaron a rendirse
    una en pos de otra, a sus armas, no pocas bellezas de las mejor
    sazonadas y maduras de la capital. Y en los brazos de estas Venus de
    plateados cabellos siguió recogiendo el merecido premio a su prudencia y
    bravura.

    Como el cartaginés Aníbal, Patiño sabía variar en cada ocasión de
    táctica, según la condición y temperamento del enemigo. Con ciertas
    plazas convenía el rigor, desplegar aparato de fuerza. En otras era
    necesario entrar solapadamente sin hacer ruido. A una dama le gustaba el
    aspecto marcial y varonil del conquistador; se deleitaba escuchando las
    memorables jornadas de Garravillas y Jarandilla, cuando iba persiguiendo
    a los sublevados. A otra le placa oirle disertar en estilo correcto con
    su hermosa voz de gola, acerca de los problemas políticos y militares. A
    otra en fin, le extasiaba oirle interpretar alguna famosa melodía de
    Mozart o Schuman en el violoncelo. Porque nuestro héroe tocaba el
    violoncelo con rara perfección y fuerza es confesar que este
    delicadísimo instrumento le ayudó poderosamente en las más de sus
    famosas conquistas. Arrastraba las notas de un modo irresistible,
    indicando bien claramente que, a pesar de su arrojado y belicoso
    temperamento, poseía un corazón sensible a las dulzuras del amor. Y por
    si este arrastre oportunísimo de las notas no lo decía con toda
    claridad, corrobóralo un alzar de pupilas y meterlas en el cogote,
    dejando descubierto sólo el blanco de los ojos, cuando llegaba al punto
    álgido o patético de la melodía, que realmente era para impresionar a
    cualquier belleza por áspera que fuese.

    La maliciosa insinuación de Pepa Frías tenía fundamento. El bravo
    general hacía ya algún tiempo "que estaba poniendo los puntos" a la
    señora de Calderón, aunque ésta no daba señales de advertirlo. Jamás en
    sus muchas y brillantes campañas se le había presentado un caso
    semejante. Disparar contra una plaza durante algunos meses cañonazos y
    más cañonazos, meter dentro de ella granadas como cabezas y permanecer
    tan sosegada, durmiendo a pierna suelta como si le echasen bolitas de
    papel. Cuando el general le soltaba algún requiebro a quemarropa,
    Mariana sonreía bondadosamente.

    –Cállese usted, pícaro. ¡Buen pez debió usted de haber sido en sus
    buenos tiempos!

    Patiño se mordía los labios de coraje. ¡Los buenos tiempos! ¡El, que
    pensaba que nunca los había tenido mejores! Pero con su inmenso talento
    diplomático sabía disimular y sonreía también como el conejo.

    –¿Cuándo te han comprado esa pulsera?–preguntó Pacita a Esperanza,
    reparando en una caprichosa y elegante que ésta traía.

    –Me la ha regalado el general hace unos días.

    –¡Ah! ¿El general, por lo visto, te hace muchos regalos?–dijo la de
    Alcudia con leve expresión irónica que su amiga no entendió.

    –Sí; es muy bueno, siempre nos trae regalos. A mi hermanito le ha
    comprado una medalla preciosa.

    –¿Y a tu mamá no le hace regalos?

    –También.

    –¿Y qué dice tu papá?

    –¿Mi papá?–exclamó la niña levantando los ojos con sorpresa–, ¿qué ha
    de decir?

    Pacita, sin contestar, llamó la atención de una de sus hermanas.

    –Mercedes, mira qué pulsera tan bonita le ha regalado el general a
    Esperanza.

    La segunda de Alcudia perdió su rigidez por un momento, y tomando el
    brazo de Esperanza la examinó con curiosidad.

    –Es muy bonita. ¿Te la ha regalado el general?–preguntó cambiando al
    mismo tiempo con su hermana una mirada maliciosa.

    –Aquí está Ramoncito–dijo Esperanza volviendo los ojos a la puerta.

    –¡Ah! Ramoncito Maldonado.

    Un joven delgado, huesudo, pálido, de patillas negras que tocaban en la
    nariz, como las gastaba entonces el rey, y a su imitación muchos jóvenes
    aristócratas, entró sonriente y comenzó a saludar con desembarazo a
    todos, apretándoles la mano con leve sacudida y acercándola al pecho,
    del modo extravagante que se hace algunos años entre los pisaverdes
    madrileños. En cuanto él entró esparcióse por la habitación un perfume
    penetrante.

    –¡Jesús, qué peste!-exclamó por lo bajo Pepa Frías después de darle la
    mano-. ¡Qué afeminado es este Ramoncito!

    –¡Hola, barbián!-dijo el joven tomando de la barba con gran
    familiaridad a Pinedo-. ¿Qué te has hecho ayer? Pepe Castro ha
    preguntado por ti….

    –¿Ha preguntado por mí Pepe Castro? ¡Tanto honor me confunde!

    Causaba cierta sorpresa ver a Maldonado tutear a un hombre ya entrado en
    años y de venerable aspecto. Todos los mozalbetes del _Club de los
    Salvajes_ hacían lo mismo, sin que Pinedo se diese por ofendido.

    –Ahí tienes a Mariana–siguió éste–que acaba de hablar perrerías de
    ti, y con razón.

    –¿Pues?

    –No haga usted caso, Ramoncito–exclamó la señora de Calderón asustada.

    –Y Pepa también.

    –¿Usted, Pepa?-preguntó el mancebo queriendo demostrar desembarazo,
    pero inquieto en realidad, porque la de Frías era con razón temida.

    –Yo, sí. Vamos a cuentas, Ramoncito, ¿qué se propone usted echando
    sobre sí tanto perfume? ¿Es que pretende usted seducirnos a todas por el
    órgano del olfato?

    –Por cualquier órgano me agradaría seducir a usted, Pepa. La tertulia
    celebró la respuesta. Se oyó una espontánea carcajada. Pacita la había
    soltado. Su mamá se mordió los labios de ira y encargó a la hija que
    tenía más cerca que hiciese presente a la otra, para que a su vez lo
    comunicase a la menor, que era una desvergonzada y que en llegando a
    casa se verían las caras.

    –¡Hombre, bien! choque usted–exclamó la de Frías, dando la mano a
    Ramoncito-. Es la única frase regular que le he oído en mi vida.
    Generalmente no dice usted más que tonterías.

    –Muchas gracias.

    –No hay de qué.

    –Ya hemos leído la pregunta que usted hizo en el Ayuntamiento,
    Ramoncito–dijo la señora de Calderón, mostrándose amable para
    desvirtuar la acusación de Pinedo.

    –¡Ps! cuatro palabrejas.

    –Por ahí se empieza, joven–manifestó Calderón con acento Protector.

    –No; no se empieza por ahí–dijo gravemente Pinedo–. Se empieza por
    _rumores_. Luego vienen las _interrupciones…. (¡Es inexacto!
    ¡Pruébemelo su señoría! La culpa es de los amigos de su señoría.)_ En
    seguida llegan los ruegos y las preguntas. Después la explicación de un
    voto particular o la defensa de una proposición incidental. Por último,
    la intervención en los grandes debates económicos…. Pues bien. Ramón
    se encuentra ya en la tercer categoría, en la de los ruegos.

    –Gracias, Pinedito, gracias–respondió el joven algo amoscado–.Pues ya
    que he llegado a esa categoría, _te ruego_ que no seas tan guasón.

    –¡Hombre, tampoco está mal eso!–exclamó Pepa Frías con asombro–.
    Ramoncito, va usted echando ingenio.

    El joven concejal fué a sentarse entre la niña de la casa y la menor de
    Alcudia, que se apartaron de mala gana para dejarle introducir su silla.
    Este Maldonado, muchacho de buena familia, no enteramente desprovisto de
    bienes de fortuna y elegido recientemente concejal por la Inclusa,
    dirigía desde hace algún tiempo sus obsequios a la niña de Calderón. Era
    un matrimonio bastante proporcionado, al decir de los amigos. Esperanza
    sería más rica que Ramoncito, porque la hacienda de D. Julián era sólida
    y considerable; pero aquél, que tampoco estaba en la calle, tenía ya
    comenzada con buenos auspicios su carrera política. Los padres de la
    chica ni se oponían ni alentaban sus pretensiones. Con el aplomo y la
    superioridad que da el dinero, Calderón apenas fijaba la atención en
    quién requería de amores a su hija, abrigando la seguridad de que no le
    faltarían buenos partidos cuando quisiera casarla. Y en efecto, cinco o
    seis pollastres de lo más elegante y perfilado de la sociedad madrileña
    zumbaban en los paseos, en las tertulias y en el teatro Real alrededor
    de la rica heredera, como zánganos en torno de una colmena. Ramoncito
    tenía varios rivales, algunos de consideración. No era lo peor esto,
    sino que la niña, tan apagada de genio, tan tímida y silenciosa
    ordinariamente, sólo con él era atrevida y desenfadada, autorizándose
    bromitas más o menos inocentes, respuestas y gestos bruscos que
    mostraban bien claro que no le tomaba en serio. Por eso le decía a
    menudo Pepe Castro, su amigo y confidente, que se hiciese valer un poco
    más; que no se manifestase tan rendido ni ansioso; que a las mujeres hay
    que tratarlas con un poco de desdén.

    Este Pepe Castro no sólo era el amigo y el confidente de Maldonado, pero
    también su modelo en todos los actos de la vida social y privada. Los
    juicios que pronunciaba acerca de las personas, los caballos, la
    política (de esto hablaba pocas veces), las camisas y los bastones eran
    axiomas incontrovertibles para el joven concejal. Imitábale en el
    vestir, en el andar, en el reir. Si el otro compraba una jaca española
    cruzada, ya estaba Ramoncito vendiendo la suya inglesa para adquirir
    otra parecida; si le daba por saludar militarmente llevándose la mano
    abierta a la sien, a los pocos días Ramoncito saludaba a todo el mundo
    como un recluta; si tomaba una chula por querida, no tardaba mucho
    nuestro joven en pasear por los barrios bajos en busca de otra. Pepe
    Castro se peinaba echando el pelo hacia adelante, para ocultar cierta
    prematura calva. Ramoncito, que tenía un pelo hermoso se peinaba
    también hacia adelante. Hasta la calva hubiera imitado con gusto por
    parecerle más _chic_. Pues bien, a pesar de tan devota imitación no
    había podido obedecerle en lo tocante a sus incipientes amores. Y esto
    porque, aunque parezca raro, Ramoncito había llegado a interesarse de
    verdad por la niña. El amor pocas veces es un sentimiento simple. A
    menudo contribuyen formarle y darle vida otras pasiones, como la
    vanidad, la avaricia, la lujuria, la ambición. Así formado apenas se
    distingue del verdadero amor: inspira el mismo vigilante cuidado y causa
    las mismas zozobras y penas. Ramoncito se creía sinceramente enamorado
    de Esperancita, y acaso tuviera razón para ello, pues la apetecía,
    pensaba en ella a todas horas, buscaba con afán los medios de agradarla
    y aborrecía de muerte a sus rivales. Por mas que se esforzaba en seguir
    los consejos del admirado Pepe Castro, procurando ocultar su inclinación
    o al menos la vehemencia con que la sentía, no lo lograba. Había
    empezado por cálculo a festejarla, con el dominio sobre sí de un hombre
    que tiene libre el corazón: había llegado pronto, gracias a la
    resistencia desdeñosa de la chica, a preocuparse vivamente, a sentirse
    aturdido y fascinado en su presencia. Luego la competencia de otros
    pollos le encendía la sangre y los deseos de hacerse pronto dueño de la
    mano de la niña. En obsequio a la verdad, hay que decir que se había
    olvidado "casi" de los millones de Calderón, que amaba ya a la hija
    "casi" desinteresadamente.

    –¿Conque ha hablado usted en el Ayuntamiento, Ramón?–le preguntó
    Pacita–. ¿Y qué ha dicho usted?

    –Nada, cuatro palabras sobre el servicio de alcantarillas–respondió
    con afectado aire de modestia el joven.

    –¿Pueden ir las señoras al Ayuntamiento?

    –¿Por qué no?

    –Pues yo quisiera mucho oirle hablar un día…. Y Esperancita tiene más
    deseos que yo, de seguro.

    –¡No, no!… Yo no–se apresuró a decir la niña.

    –Vamos, chica, no lo disimules. ¿No has de tener ganas de oir hablar a
    tu novio?

    Esperanza se puso como una amapola y exclamó precipitadamente:

    –Yo no tengo novio, ni quiero tenerlo.

    Ramoncito también se puso colorado.

    –¡Pero qué cosas tan horribles tienes, Paz!–siguió aturdida y
    confusa–. No vuelvas a hablar así porque me marcho de tu lado.

    –Perdona, hija–dijo la maliciosa niña, que se gozaba en el
    aturdimiento de su amiga y del concejal–. Yo creía…. Hay muchos que
    lo dicen…. Entonces, si no es Ramón será Federico…. Maldonado
    frunció el entrecejo.

    –Ni Federico ni nadie…. ¡Déjame en paz!… mira, aquí está el padre
    Ortega; levántate.

    II

    #Más personajes.#

    Un clérigo alto, de rostro pálido y redondo, joven aún, con ojos azules
    y mirada vaga de miope, apareció en la puerta. Todos se levantaron. La
    marquesa de Alcudia avanzó rápidamente y fué a besarle la mano. Detrás
    de ella hicieron lo mismo sus hijas, Mariana y las demás señoras de la
    tertulia.

    –Buenas tardes, padre–. Buenos ojos le vean, padre–. Siéntese aquí,
    padre.–No, ahí no, padre; véngase cerca del fuego.

    El sexo masculino le fué dando la mano con afectuoso respeto. La voz del
    sacerdote, al preguntar o responder en los saludos era suave, casi de
    falsete, como si en la pieza contigua hubiese un enfermo; su sonrisa era
    triste, protectora, insinuante. Parecía que le habían arrancado a su
    celda y a sus libros con gran trabajo, que entraba allí con repugnancia,
    sólo por hacer algún bien con el contacto de su sabia y virtuosísima
    persona a aquellos buenos señores de Calderón, de quienes era director
    espiritual. Sus hábitos y sotana eran finos y elegantes; los zapatos de
    charol con hebilla de plata; las medias de seda.

    Le dieron la enhorabuena calurosamente por una oración que había
    pronunciado el día anterior en el oratorio del Caballero de Gracia. El
    se contentó con sonreír y murmurar dulcemente:

    –Dénsela a ustedes, señoras, si han sacado algún fruto.

    El padre Ortega no era un clérigo vulgar, al menos en la opinión de la
    sociedad elegante de la corte, donde tenía mucho partido. Sin pecar de
    entremetido frecuentaba las casas de las personas distinguidas. No le
    gustaba hacer ruido ni llamar la atención de las tertulias sobre sí. No
    daba ni admitía bromas, ni tenía el temperamento abierto y jaranero que
    suele caracterizar a los sacerdotes que gustan del trato social. Si era
    intrigante, debía de serlo de un modo distinto de lo que suele verse en
    el mundo. Discreto y afable, humilde, grave y silencioso cuando se
    hallaba en sociedad, procurando borrar y confundir su personalidad
    entre las demás, adquiría relieve cuando subía a la cátedra del Espíritu
    Santo, lo que hacía a menudo. Allí se expresaba con desenfado y
    verbosidad sorprendentes. No lograba conmover al auditorio ni lo
    pretendía, pero demostraba un talento claro y una ilustración poco común
    en su clase. Porque era de los poquísimos sacerdotes que estaban al
    tanto de la ciencia moderna, o al menos semejaba estarlo. En vez de las
    pláticas morales que se usan y de las huecas y disparatadas
    declamaciones de sus colegas contra la ciencia y la razón, los sermones
    de nuestro escolapio trascendían fuertemente a lecturas modernísimas: en
    todos ellos procuraba demostrar directa o indirectamente que no existe
    incompatibilidad entre los adelantos de la ciencia y el dogma. Hablaba
    de la evolución, del transformismo, de la lucha por la existencia,
    citaba a Hegel alguna vez, traía a cuento la teoría de Malthus sobre la
    población, el antagonismo del trabajo y el capital. De todo procuraba
    sacar partido en defensa de la doctrina católica. Para rechazar los
    nuevos ataques era necesario emplear nuevas armas. Hasta se confesaba,
    en principio, partidario de las teorías de Darwin, cosa que tenía
    sorprendidos e inquietos a algunos de sus timoratos amigos y penitentes,
    pero esto mismo contribuía a infundirles más respeto y admiración.
    Cuando hablaba para las señoras solamente, prescindía de toda erudición
    que pudiera parecerles enfadosa; adoptaba un lenguaje mundano. Les
    hablaba de sus tertulias, de sus saraos, de sus trajes y caprichos, como
    quien los conoce perfectamente; sacaba comparaciones y argumentos de la
    vida de sociedad, y esto encantaba a las damas y las postraba a sus
    pies. Era el confesor de muchas de las principales familias de la
    capital. En este ministerio demostraba una prudencia y un tacto
    exquisitos. A cada persona la trataba según sus antecedentes, posición y
    temperamento. Cuando tropezaba con una devota escrupulosa, viva y
    ardiente como la marquesa de Alcudia, el buen escolapio apretaba de
    firme las clavijas, se mostraba exigente, tiránico, entraba en los
    últimos pormenores de la vida doméstica y los reglamentaba. En casa de
    Alcudia no se daba un paso sin su anuencia. Y en estos sitios, como si
    se gozase en mostrar su poder, adoptaba un continente grave y severo que
    en otras partes no se le conocía. Cuando daba con alguna familia
    despreocupada, con poca afición a la iglesia, ensanchaba la manga, se
    hacía benigno y tolerante, procurando nada más que guardasen las formas
    y no diesen mal ejemplo a los otros. Hacía cuanto le era posible por
    afianzar esa alianza dichosa establecida de poco tiempo a esta parte
    entre la religión y el "buen tono" en nuestro país. Cada día sacaba una
    moda que a ello contribuyese, traducidas unas del francés, otras nacidas
    en su propio cerebro. En la capilla u oratorio de alguna familia ilustre
    reunía ciertos días del año por la tarde a las damas conocidas. Eran
    unas agradabilísimas _matinées_, donde se oraba, tocaba el órgano
    expresivo la más hábil pianista, decía el padre una plática familiar,
    departía después amigablemente con las señoras acerca de asuntos
    religiosos, se confesaba la que quería, y por último pasaban al comedor,
    donde se tomaba te, cambiando de conversación. Cuando fallecía alguna
    persona de estas familias, el padre Ortega se hacía poner en las
    papeletas de defunción como director espiritual, rogando que la
    encomendasen a Dios. Luego repartía entre todos los amigos unos
    papelitos impresos o memorias con oraciones, donde se pedía al Supremo
    Hacedor con palabras encarecidas y melosas que por tal o cual mérito que
    resplandeció en su sagrada pasión perdonase al conde de T*** o a la
    baronesa de M*** el pecado de soberbia o de avaricia, etc. Generalmente
    no era aquel en que más había sobresalido el difunto, lo cual hacía el
    padre con buen acuerdo para evitar el escándalo y una pena a la familia.
    También se encargaba de gestionar la adquisición del mayor número
    posible de indulgencias, la bendición papal _in articulo mortis_, las
    preces de algún convento de monjas, etc. Siendo su amigo y penitente se
    podía tener la seguridad de no ir al otro mundo desprovisto de buenas
    recomendaciones. Lo que no sabemos es el caso que Dios hacía de ellas,
    si escribía encima de las memorias con lápiz azul, como los ministros,
    "hágase", o si preguntaba al padre Ortega, como la señora del cuento:
    "¿Y a usted quién le presenta?"

    Cuando hubo cambiado algunas palabras corteses con casi todos los
    tertulios, haciendo a cada cual la reverencia que dada su posición le
    correspondía, la marquesa de Alcudia le tomó por su cuenta, y llevándole
    a uno de los ángulos del salón y sentados en dos butaquitas, comenzó a
    hablarle en voz baja como si se estuviese confesando. El clérigo, con el
    codo apoyado en el brazo del sillón, cogiendo con la mano su barba
    rasurada, los ojos bajos en actitud humilde, la escuchaba. De vez en
    cuando profería también alguna palabra en voz de falsete, que la
    marquesa escuchaba con profundo respeto y sumisión, lo cual no impedía
    que al instante volviese a la carga gesticulando con viveza, aunque sin
    alzar la voz.

    Había entrado poco después que el padre un joven gordo, muy gordo,
    rubio, con patillitas que le llegaban poco más abajo de la oreja, mucha
    carne en los ojos y fresco y sonrosado color en las mejillas. La ropa le
    estallaba. Su voz era levemente ronca y la emitía con fatiga. Al entrar
    nublóse la descolorida faz de Ramoncito Maldonado. El recién llegado era
    hijo de los condes de Casa-Ramírez y uno de los pretendientes a la mano
    de la primogénita de Calderón. Jacobo Ramírez o Cobo Ramírez, como se le
    llamaba en sociedad, pasaba por chistoso por el mismo motivo que Pepa
    Frías, aunque con menos razón. Caracterizábale una libertad grosera en
    el hablar, un desprecio cínico hacia las personas, aun las más
    respetables, y una ignorancia que rayaba en lo inverosímil. Sus chistes
    eran de lo más burdo y soez que es posible tolerar entre personas
    decentes. Alguna vez daba en el clavo, esto es, tenía alguna ocurrencia
    feliz; mas, por regla general, sus chuscadas eran pura y lisamente
    desvergüenzas.

    La tertulia, no obstante, se regocijó con su entrada. Una sonrisa feliz
    se esparció por todos los rostros, menos el de Ramoncito.

    –Oiga usted, Calderón–entró diciendo, sin saludar–. ¿Cómo se arregla
    usted para tener siempre criados tan guapos?… A uno de ellos, el de la
    entrada, con la poca luz que había y la voz de mezzo-soprano que me
    gasta, le he confundido con una muchacha.

    –¡Hombre, no!–exclamó riendo el banquero.

    –¡Hombre, sí! A mí no me importa nada que usted traiga todos los Romeos
    que guste…. ¿Viene por aquí su amigo Pinazo?

    Los que entendieron adónde iba a parar, que eran casi todos, soltaron la
    carcajada.

    –¡No viene! ¡no viene!–dijo Calderón casi ahogado por la risa.

    –¿De qué se ríen?–preguntó Pacita por lo bajo a Esperanza.

    –No sé–respondió ésta con acento de sinceridad, encogiéndose de
    hombros.

    –De seguro Cobo ha dicho una barbaridad. Se lo preguntaré después a
    Julia que no dejará de haberla cogido.

    Volvieron ambas la vista hacia la mayor de Alcudia y la vieron inmóvil,
    rígida, con los ojos bajos como siempre. En el ángulo de sus labios, sin
    embargo, vagaba una leve sonrisa maliciosa que mostraba que no sin razón
    la hermanita fiaba en sus profundos conocimientos.

    –Hola, Ramoncillo–dijo acercándose a Maldonado y dándole una palmada
    en la mejilla con familiaridad–. Siempre tan guapote y tan seductor.

    Estas palabras fueron dichas en tono entre afectuoso e irónico, que le
    sentó muy mal al joven.

    –No tanto como tú…, pero en fin, vamos tirando–respondió Ramoncito.

    –No, no, tú eres más guapo…. Y si no que lo digan estas niñas…. Un
    poco flacucho estás, sobre todo desde hace una temporada, pero ya
    doblarás en cuanto se te pase eso.

    –No tiene que pasarme nada…. Ya sé que nunca podré ser de tantas
    libras como tú–replicó más picado.

    –Pues tienes más hierbas.

    –Allá nos vamos, chico; no vengas echándotelas de _fanciullo_, porque
    es muy cursi, sobre todo delante de estas niñas.

    –¡Pero hombre, que siempre han de estar ustedes riñendo!–exclamó Pepa
    Frías–. Acaben ustedes pronto por batirse, ya que los dos no caben en
    el mundo.

    –Donde no caben los dos–le dijo por lo bajo Pinedo–es en casa de
    Calderón.

    –Nada de eso–manifestó Cobo en tono ligero y alegre–. Los amigos más
    reñidos son los mejores amigos. ¿Verdad, barbián?

    Al mismo tiempo tomó la cabeza de Ramoncito con ambas manos y se la
    sacudió cariñosamente. Este le rechazó de mal humor.

    –Quita, quita, no seas sobón.

    Cobo y Maldonado eran íntimos amigos. Se conocían desde la infancia.
    Habían estado juntos en el colegio de San Antón. Luego en la sociedad
    siguieron manteniendo relaciones estrechas, principalmente en el _Club
    de los Salvajes_, adonde ambos acudían asiduamente. Como ambos ejercían
    la misma profesión, la de pasear a pie, en coche y a caballo; como ambos
    frecuentaban las mismas casas y se encontraban todos los días en todas
    partes, la confianza era ilimitada. Siempre había habido entre ellos,
    sin embargo, una graciosa hostilidad, pues Cobo despreciaba a Ramoncito,
    y éste, que lo adivinaba, manteníase constantemente en guardia. Esta
    hostilidad no excluía el afecto. Se decían mil insolencias, disputaban
    horas enteras; pero en seguida salían juntos en coche como si no hubiera
    pasado nada, y se citaban para la hora del teatro. Maldonado tomaba las
    cosas de Cobo en serio. Este se gozaba en llevarle la contraria en
    cuanto decía, hasta que conseguía irritarlo, ponerlo fuera de si. Mas el
    afecto desapareció en cuanto ambos pusieron los ojos en la chica de
    Calderón. No quedó más que la hostilidad. Sus relaciones parecía que
    eran las mismas; reuníanse en el club diariamente, paseaban a menudo
    juntos, iban a cazar al Pardo como antes. En el fondo, sin embargo, se
    aborrecían ya cordialmente. Por detrás decían perrerías el uno del otro;
    Cobo con más gracia, por supuesto, que Ramoncito, porque le tenía,
    fundada o infundadamente, un desprecio verdadero.

    –Vamos, les pasa a ustedes lo que a mi hija y su marido….–dijo la
    de Frías.

    –¡No tanto! ¡no tanto, Pepa!–interrumpió Ramírez afectando susto.

    –¡Pero qué sinvergüenza es usted, hombre!–exclamó aquélla tratando de
    contener la risa, que no cuadraba a su mal humor característico–. Se
    parecen ustedes en que siempre están regañando y haciendo las paces.

    Y se puso a describir con bastante gracia la vida matrimonial de su
    hija. Lo mismo ella que el marido eran un par de chiquillos mimosos,
    insoportables. Sobre si no la había pasado el plato a tiempo o no la
    había echado agua en la copa, sobre los botones de la camisa, o si no
    cepillaron la ropa, o tenía la ensalada demasiado aceite, armaban
    caramillos monstruosos. Los dos eran Igualmente susceptibles y
    quisquillosos. A veces se pasaban seis u ocho días sin hablarse. Para
    entenderse en los menesteres de la vida se escribían cartitas y en ellas
    se trataban de usted–. "Asunción me ha pasado un recado diciéndome que
    vendrá a las ocho para llevarme al teatro. ¿Tiene usted inconveniente en
    que vaya?"–escribía ella dejándole la carta sobre la mesa del
    despacho–. "Puede usted ir adonde guste"–respondía él por el mismo
    procedimiento–. "¿Qué platos quiere usted para mañana? ¿Le gusta a
    usted la lengua en escarlata?"–"Demasiado sabe usted que no como
    lengua. Hágame el favor de decir a la cocinera que traiga algún pescado,
    pero no boquerones como el otro día, y que no fría tanto las tortillas".
    Ninguno de los dos quería humillarse al otro. Así que, esta tirantez se
    prolongaba ridículamente, hasta que ella, Pepa, los agarraba por las
    orejas, les decía cuatro frescas y les obligaba a darse la mano. Luego,
    en las reconciliaciones, eran extremosos.

    –¿Sabe usted, Pepa, que no quisiera estar yo allí en el momento de la
    reconciliación?–dijo Cobo haciendo alarde nuevamente de su malignidad
    brutal.

    –Tampoco yo, hijo–respondió, dando un suspiro de resignación que hizo
    reir–. Pero ¡qué quiere usted! Soy suegra, que es lo último que se
    puede ser en este mundo, y tengo esa penitencia y otras muchas que usted
    no sabe.

    –Me las figuro.

    –No se las puede usted figurar.

    –Pues, querida, a mí me gustaría muchísimo ver a mis hijos
    reconciliados. No hay cosa más fea que un matrimonio reñido–dijo la
    bendita de Mariana con su palabra lenta, arrastrada, de mujer linfática.

    –También a mí … pero después que pasa la reconciliación–respondió
    Pepa, cambiando miradas risueñas con Cobo Ramírez y Pinedo.

    –¡De qué buena gana me reconciliaría yo con usted, Mariana, del mismo
    modo que esos chicos!–dijo en voz muy baja el almibarado general
    Patiño, aprovechando el momento en que la esposa de Calderón se inclinó
    para hurgar el fuego con un hierro niquelado. Al mismo tiempo, como
    tratase de quitárselo para que ella no se molestase, sus dedos se
    rozaron, y aun puede decirse, sin faltar a la verdad, que los del
    general oprimieron suave y rápidamente los de la dama.

    –¡Reconciliarse!–dijo ésta en voz natural–. Para eso es necesario
    antes estar enfadados y, a Dios gracias, nosotros no lo estamos.

    El viejo tenorio no se atrevió a replicar. Rió forzadamente, dirigiendo
    una mirada inquieta a Calderón. Si insistía, aquella pánfila era capaz
    de repetir en voz alta la atrevida frase que acababa de decirle.

    –Por supuesto–siguió Pepa–que yo me meto lo menos posible en sus
    reyertas. Ni voy apenas por su casa. ¡Uf! ¡Me crispa el hacer el papel
    de suegra!

    –Pues yo, Pepa, quisiera que fuese usted mi suegra–dijo Cobo,
    mirándola a los ojos codiciosamente.

    –Bueno, se lo diré a mi hija, para que se lo agradezca.

    –¡No, si no es por su hija!… Es porque … me gustaría que usted se
    metiese en mis cosas.

    –¡Bah, bah! déjese usted de músicas–replicó la de Frías medio enojada.

    Un amago de sonrisa que plegaba sus labios pregonaba, no obstante, que
    la frase la había lisonjeado.

    Ramoncito volvió a sacar la conversación del teatro Real, la liebre que
    sale y se corre en todas las tertulias distinguidas de la corte. La
    ópera, para los abonados, no es un pasatiempo, sino una institución. No
    es el amor de la música, sin embargo, lo que engendra esta constante
    preocupación, sino el no tener otra cosa mejor en qué ocuparse. Para
    Ramoncito Maldonado, para la esposa de Calderón y para otros muchos, los
    seres humanos se dividen en dos grandes especies: los abonados al teatro
    Real y los no abonados. Los primeros son los únicos que expresan
    realmente de un modo perfecto la esencia de la humanidad. Gayarre y la
    Tosti fueron puestos otra vez a discusión. Los que habían llegado
    últimamente dieron su opinión, tanto sobre el mérito como sobre la
    disposición física de los dos cantantes.

    Ramoncito se puso a contar en voz baja a Esperanza y a Paz que la noche
    anterior había sido presentado a la Tosti en su _camerino_. "Una mujer
    muy amable, muy fina. Le había recibido con una gracia y una amabilidad
    sorprendentes. Ya había oído hablar mucho de el, de Ramoncito, y tenía
    deseos vivos de conocerle personalmente. Cuando supo que era concejal,
    quedó asombrada por lo joven que había llegado a ese puesto. ¡Ya ven
    ustedes que tontería! Por lo visto, en otros países se acostumbra a
    elegir sólo a los viejos. De cerca era aún mejor que de lejos. Un cutis
    que parece raso; una dentadura preciosa; luego una arrogante figura; el
    pecho levantado y ¡unos brazos!…"

    La vanidad hacía a Ramoncito no sólo torpe, porque es regla bien sabida
    que cuando se galantea a una mujer no debe alabarse con demasiado calor
    a otra, sino un tantico atrevido dirigiéndose a niñas. Estas se miraban
    sonrientes, brillándoles los ojos con fuego malicioso y burlón que el
    joven concejal no observaba.

    –Y diga usted Ramón, ¿no se ha declarado usted a ella?–le preguntó
    Pacita.

    –Todavía no–respondió haciéndose cargo ya de la intención burlona de
    la pregunta.

    –Pero se declarará.

    –Tampoco. Estoy ya enamorado de otra mujer. Al mismo tiempo dirigió una
    miradita lánguida a Esperanza. Esta se puso repentinamente seria.

    –¿De veras? Cuente usted … cuente usted.

    –Es un secreto

    –Bien, pero nosotras lo guardaremos…. ¿Verdad Esperanza que tú no
    dirás nada?

    Y la escuálida chiquilla miraba maliciosamente a su amiga gozándose en
    su mal humor y en la inquietud de Ramoncito.

    –Yo no tengo gana de saber nada.

    –Ya lo oye usted, Ramón. Esperanza no tiene gana de oir hablar de sus
    novias. Yo bien sé por qué es, pero no lo digo….

    –¡Qué tonta eres, chica!–exclamó aquélla con verdadero enojo.

    El joven concejal quedó lisonjeado por tal advertencia que venía de una
    amiga íntima. Creyó, sin embargo, que debía cambiar la conversación a
    fin de no echar a perder su pretensión, pues veía a Esperanza seria y
    ceñuda.

    –Pues no crean ustedes que es tan difícil declararse a la Tosti y que
    ella responda que sí…. Y si no … ahí tienen ustedes a Pepe Castro,
    que puede dar fe de lo que digo.

    –Es que Pepe Castro no es usted–manifestó la niña de Calderón con
    marcada displicencia.

    Maldonado cayó de la región celeste donde se mecía. Aquella frase
    punzante dicha en tono despreciativo le llegó al alma. Porque cabalmente
    la superioridad de Pepe Castro era una de las pocas verdades que se
    imponían a su espíritu de modo incontrastable. Pudiera ofrecer reparos a
    la de Hornero, pero a la de Pepito, no. La seguridad de no poder llegar
    jamás, por mucho que le imitase, al grado excelso de elegancia,
    despreocupación, valor desdeñoso y hastío de todo lo creado, que
    caracterizaba a su admirado amigo, le humillaba, le hacía desgraciado.
    Esperanza había puesto el dedo en la llaga que minaba su preciosa
    existencia. No pudo contestar; tal fué su emoción.

    Clementina estaba triste, inquieta. Desde que había entrado en casa de
    su cuñada, buscaba pretexto para irse. Pero no lo hallaba. Era forzoso
    resignarse a dejar transcurrir un rato. Los minutos le parecían siglos.
    Había charlado unos momentos con la marquesa de Alcudia, mas ésta la
    había dejado en cuanto entró el padre Ortega. Su cuñada estaba
    secuestrada por el general Patiño, que le explicaba minuciosamente el
    modo de criar a los ruiseñores en jaula. Las dos chicas de Alcudia que
    tenía al lado parecían de cera, rígidas, tiesas, contestando por
    monosílabos a las pocas preguntas que las dirigió. Una sorda irritación
    se iba apoderando poco a poco de ella. Dado su temperamento, no se
    hubieran pasado muchos minutos en echar a rodar todos los miramientos y
    largarse bruscamente. Alas al oir el nombre de Pepe Castro levantó la
    cabeza vivamente y se puso a escuchar con ávida atención. La reticencia
    de Ramoncito la puso súbito pálida. Se repuso no obstante en seguida, y,
    entrando en la conversación con amable sonrisa, dijo:

    –Vaya, vaya, Ramón; no sea usted mala lengua…. ¡Pobres mujeres en
    boca de ustedes!

    –No se habla mal sino de la que lo merece, Clementina–respondió éste
    animado por el cable que impensadamente recibía.

    –De todas hablan ustedes. Me parece que su amiguito Pepe Castro no es
    de los que se muerden la lengua para echar por el suelo una honra.

    –Clementina, hasta ahora no le he cogido tras de ninguna mentira. Todo
    Madrid sabe que es hombre de mucha suerte con las mujeres.

    –¡No sé por qué!–replicó con un mohín de desdén la dama.

    –Yo no soy inteligente en la hermosura de los hombres–manifestó el
    joven riendo su frase–, pero todos dicen que Pepito es guapo.

    –¡Ps!… Será según el gusto de cada cual … y que me dispense Pacita,
    que es su pariente. Yo formo parte de esos _todos_ y no lo digo.

    –La verdad es–apuntó Esperancita tímidamente–que Pepito no pasa por
    feo…. Luego, es muy elegante y distinguido, ¿verdad tú?

    Y se dirigió a Pacita, poniéndose al mismo tiempo levemente colorada.

    Clementina le dirigió una mirada penetrante que concluyó de ruborizarla.

    –¿De qué se habla?–preguntó Cobo Ramírez acercándose al corro.

    Casi nunca se sentaba en las tertulias. Le placa andar de grupo en
    grupo, resollando como un buey, soltando alguna frase atrevida en cada
    uno. La faz de Ramoncito se nubló al aproximarse su rival. Este no dejó
    de notarlo y le dirigió una mirada burlona.

    –Vamos, Ramoncillo, dí; ¿cómo te arreglas para tener tan animadas a las
    damas? Me acaba de decir Pepa que vas echando ingenio.

    –No, hombre; ¿cómo voy a echarlo si lo tienes tú todo?–profirió con
    irritación el concejal.

    –Vaya, chico, si es que te azaras porque yo me acerco, me voy.

    Una sonrisa irónica, amarga y triunfal al mismo tiempo, dilató el rostro
    anguloso de Ramoncito. Había cogido a su enemigo en la trampa. Ha de
    saberse que pocos días antes averiguó casualmente, por medio de un
    académico de la lengua, que no se decía _azararse_, sino _azorarse_.

    –Querido Cobo–dijo echándose hacia atrás con la silla y mirándole con
    fijeza burlona–. Antes de hablar entre personas ilustradas, creo que
    debieras aprender el castellano…. Digo … me parece….

    –¿Pues?–preguntó el otro sorprendido.

    –No se dice azarar, sino _azorar_, queridísimo Cobo. Te lo participo
    para tu satisfacción y efectos consiguientes.

    La actitud de Ramoncito al pronunciar estas palabras era tan arrogante,
    su sonrisa tan impertinente, que Cobo, desconcertado por un momento,
    preguntó con furia:

    –¿Y por qué se dice azorar y no azarar?

    –¡Porque sí!… ¡Porque lo digo yo!… ¡Eso!…–respondió el otro sin
    dejar de sonreír cada vez con mayor ironía y echando una mirada de
    triunfo a Esperanza.

    Se entabló una disputa animada, violenta, entre ambos. Cobo se mantuvo
    en sus trece sosteniendo con brío que no había tal _azorar_, que a nadie
    se lo había oído en su vida y eso que estaba harto de hablar con
    personas ilustradas. El joven y perfumado concejal le respondía
    brevemente sin abandonar la sonrisilla impertinente, seguro de su
    triunfo. Cuanto más furioso se ponía Cobo, más se gozaba en humillarle
    delante de la niña por quien ambos suspiraban.

    Pero la decoración cambió cuando Cobo irritadísimo, viéndose perdido,
    llamó en su auxilio al general Patiño.

    –Vamos a ver, general, usted que es una de las eminencias del ejército,
    ¿cree que está bien dicho azorarse?

    El general, lisonjeado por aquella oportuna dedada de miel, manifestó
    dirigiéndose a Maldonado en tono paternal:

    –No, Ramoncito, no: está usted en un error. Jamás se ha dicho en España
    azorar.

    El concejal dió un brinco en la silla. Abandonando súbito toda ironía,
    echando llamas por los ojos, se puso a gritar que no sabían lo que se
    decían, que parecía mentira que personas ilustradas, etc., etc…. Que
    estaba seguro de hallarse en lo cierto y que inmediatamente se buscase
    un diccionario.

    –El caso es, Ramoncito–dijo D. Julián rascándose la cabeza–, que el
    que había en casa hace ya tiempo que ha desaparecido. No sé quién se lo
    ha llevado…. Pero a mí me parece también, como al general, que se dice
    azarar….

    Aquel nuevo golpe afectó profundamente a Maldonado, que, pálido ya,
    tembloroso, lanzó con voz turbada un último grito de angustia.

    –¡Azorar viene de _azor_, señores!

    –¡Qué azor ni qué coliflor, hombre de Dios!–exclamó Cobo soltando una
    insolente carcajada–. Confiesa que has metido la patita y dí que no lo
    volverás a hacer.

    El despecho, la ira del joven concejal no tuvieron límites. Todavía
    luchó algunos momentos con palabras y ademanes descompuestos. Pero como
    se contestase a sus enérgicas protestas con risitas v sarcasmos,
    concluyó por adoptar una actitud digna v despreciativa, mascullando
    palabras cargadas de hiel, los labios trémulos, la mirada torva. De vez
    en cuando dejaba escapar por la nariz un leve bufido de indignación.
    Cobo estuvo implacable: aprovechó todas las ocasiones que se ofrecieron
    para dirigirle indirectamente una pullita envenenada que causaba el
    regocijo de las niñas y hacía sonreír discretamente a las personas
    graves. Nadie en el mundo padeció más hambre y sed de justicia que
    Ramoncito en aquella ocasión.

    La llegada de un nuevo personaje puso fin o suspendió por lo menos su
    tormento. Anunció el criado al señor duque de Requena. La entrada de
    éste produjo en la tertulia un movimiento que indicaba bien claramente
    su importancia. Calderón salió a recibirle dándole las dos manos con
    efusión. Los hombres se levantaron apresuradamente y se apartaron de los
    asientos para salir a su encuentro sonrientes, expresando en su actitud
    la veneración que les inspiraba. Las damas volvieron también sus rostros
    hacia él con curiosidad y respeto, y Pepa Frías se levantó para
    saludarle. Hasta el padre Ortega abandonó a su marquesa y se adelantó
    inclinado, sumiso, dirigiéndole un saludo almibarado, sonriéndole con
    sus ojos claros al través de los fuertes cristales de miope que gastaba.
    Por algunos instantes apenas se oyó en la estancia mas que "querido
    duque", "señor duque". "¡Oh, duque!"

    El objeto de tanta atención y acatamiento era un hombre bajo, gordo, la
    faz amoratada, los ojos saltones y oblicuos, el cabello blanco, y el
    bigote entrecano, duro y erizado como las púas de un puerco-espín. Los
    labios gruesos y sinuosos y manchados por el zumo del cigarro puro que
    traía apagado y mordía paseándolo de un ángulo a otro de la boca sin
    cesar. Podría tener unos sesenta años, más bien más que menos. Venía
    envuelto en un magnífico gabán de pieles que no había querido quitarse a
    la entrada por hallarse acatarrado. Mas al poner los pies en el
    saloncito de Calderón, sintióse malamente impresionado por el calor que
    allí hacía. Sin contestar apenas a los saludos y sonrisas que a porfía
    le dirigían, murmuró en tono brutal, con la voz gruesa y ronca a la vez
    que caracteriza a los hombres de cuello corto:

    –¡Puf! ¡Esto echa bombas!…

    Y lo acompañó de una interjección valenciana que principia por f. Al
    mismo tiempo hizo ademán de despojarse del abrigo. Veinte manos cayeron
    sobre él para ayudarle y esto retrasó un poco la operación.

    Representóse en la tertulia de Calderón la escena de los israelitas en
    el desierto que más se ha repetido en el mundo, la adoración del becerro
    de oro. El recién llegado era nada menos que D. Antonio Salabert, duque
    de Requena, el célebre Salabert rico entre los ricos de España, uno de
    los colosos de la banca y el más afamado, sin disputa, por el número y
    la importancia de sus negocios. Había nacido en Valencia. Nadie conocía
    a su familia. Decían unos que había sido granuja del mercadal, otros que
    empezó de lacayo de un banquero y luego fué cobrador de letras y
    zurupeto, otros que había sido soldado de Cabrera en la primera guerra
    civil, y que el origen de su fortuna estuvo en una maleta llena de onzas
    de oro que robó a un viajero. Algunos llegaban hasta a filiarle en una
    de las célebres partidas de bandoleros que infestaron a España poco
    después de la guerra. Pero él explicaba del modo más sencillo y gráfico
    la procedencia de su fortuna, que no bajaba de cien mil millones de
    pesetas. Cuando se enfadaba con los empleados de su casa, lo cual
    sucedía a menudo, y notaba que se ofendían con sus palabrotas
    injuriosas, solía decirles gritando como un energúmeno:

    –¿Sabéis, f…., cómo he llegado yo a tener dinero?… Pues recibiendo
    muchas patadas en el trasero. Sólo a fuerza de puntapiés se logra subir
    arriba. ¿Estamos?

    Hay que confesar que este dato adolece de ser un poco vago; pero la
    perfecta autenticidad de que se halla revestido, le da un valor
    inapreciable. Tomándolo como base de la investigación, acaso se pueda
    llegar a definir el carácter y a historiar la vida y las empresas del
    opulento banquero.

    –Hola, chiquita–dijo avanzando hasta Clementina y tomándole la barba
    como se hace con los niños–. ¿Estás aquí? No he visto tu coche abajo.

    –He salido a pie, papá.

    –Es un milagro. Si quieres, puedes llevarte el mío.

    –No; tengo deseos de caminar. Estoy estos días muy pesada.

    El duque de Requena había prescindido de todos los presentes y hablaba a
    su hija con toda la afabilidad de que era susceptible. La veía pocas
    veces. Clementina era su hija natural, habida allá en Valencia, cuando
    joven, de una mujer de la ínfima clase social, como él lo era al
    parecer. Luego se había casado en Madrid, ya en camino de ser rico, con
    una joven de la clase media, de la cual no tuvo familia. Esta señora,
    extremadamente delicada de salud desde su matrimonio, había cedido o,
    por mejor decir, había ella misma propuesto que la hija de su marido
    viniese a habitar la misma casa. Clementina se educó, pues, aquí y fué
    amada de la esposa de su padre como una verdadera hija. Ella la quiso y
    la respetó también como a una madre. Después que se casó solía visitarla
    a menudo; pero como su padre estaba siempre muy ocupado, no entraba en
    sus habitaciones, y desde las de su madre (así la llamaba) se iba a la
    calle. Sólo en los días de banquete o recepción, o cuando casualmente le
    tropezaba en las casas o en la calle departía un rato con él.

    Después de preguntarle por su marido y por sus hijos, el duque se puso a
    hablar, sin sentarse, con Calderón y Pepa Frías. Un hombre rudo y
    campechanote en la apariencia: sonreía pocas veces: cuando lo hacía era
    de modo tan leve que aún podía dudarse de ello. Acostumbraba a llamar
    las cosas por su nombre y a dirigirse a las personas sin fórmulas de
    cortesía, diciéndoles en la cara cosas que pudieran pasar por groserías:
    no lo eran porque sabía darles un tinte entre rudo y afectuoso que les
    quitaba el aguijón. No era muy locuaz. Generalmente se mantenía
    silencioso mordiendo su cigarro y examinando al interlocutor con sus
    ojos oblicuos, impenetrables. Mostraba al hablar una inocencia falsa y
    socarrona que no le hacía antipático. Detrás se veía siempre al antiguo
    granuja del mercadal de Valencia, diestro, burlón, receloso y
    marrullero.

    Pepa Frías le habló de negocios. La viuda era incansable en esta
    conversación. Quería enterarse de todo, temiendo ser engañada ávida
    siempre de ganancias y temblando con terror cómico ante la perspectiva
    de la baja de sus fondos. Se hacía repetir hasta la saciedad los
    pormenores. "¿Soltaría las acciones del Banco y compraría _Cubas_? ¿Qué
    pensaba hacer el Gobierno con el amortizable? Había oído rumores. ¿Se
    haría en alza la próxima liquidación? ¿No sería mejor liquidar en el
    momento con treinta céntimos de ganancia que aguardar a fin de mes?"

    Para ella las palabras de Salabert eran las del oráculo de Delfos. La
    fama inmensa del banquero la tenía fascinada. Por desgracia, el duque,
    como todos los oráculos antiguos y modernos, se expresaba siempre que se
    le consultaba, de un modo ambiguo. Respondía a menudo con gruñidos que
    nadie sabía si eran de afirmación, de negación o de duda. Las frases que
    de vez en cuando se escapaban de su boca entre el cigarro y los labios
    húmedos y sucios eran oscuras, cortadas, ininteligibles en muchos casos.
    Además, todo el mundo sabía que no era posible fiarse de él, que se
    gozaba en despistar a sus amigos y hacerles caer de bruces en un mal
    negocio. Sin embargo, Pepa insistía aspirando a arrancar de aquel
    cerebro luminoso el secreto de la mina: bromeaba tomándole de las
    solapas de la levita, llamándole viejo, cazurro, zorro, haciendo gala de
    una desvergüenza que en ella había llegado a ser coquetería. El banquero
    no daba fuego. Le seguía el humor respondiendo con gruñidos y con tal
    cual frase escabrosa que hacía reir a Calderón, aunque no tenía muchas
    ganas de hacerlo viéndole echar sin miramiento alguno tremendos
    escupitajos en la alfombra. Porque el duque con el picor del tabaco
    salivaba bastante y no acostumbraba a reparar dónde lo hacía, a no ser
    en su casa donde cuidaba de ponerse al lado de la escupidera. Calderón
    estaba inquieto, violento, lo mismo que si se los echase en la cara. A
    la tercera vez, no pudiendo contenerse, fué él mismo a buscar la
    escupidera para ponérsela al lado. Salabert le dirigió una mirada
    burlona y le hizo un guiño a Pepa. Ya tranquilo Calderón se mostró
    locuaz y pretendió sustituirse al duque dando consejos a Pepa sobre los
    fondos. Pero aunque hombre prudente y experto en los negocios, la viuda
    no se los apreciaba ni aun quería oirlos. Al fin y al cabo, entre él y
    Salabert existía enorme distancia: el uno era un negociante vulgar, el
    otro un genio de la banca. Sin embargo, éste asentía con sonidos
    inarticulados a las indicaciones bursátiles del dueño de la casa. Pepa
    no se fiaba.

    Salabert se apartó un poco del grupo y se dejó caer sobre el brazo de un
    sillón adoptando una postura grosera, para lo cual sólo él tenía
    derecho. En vez de ser mal vistos aquellos modales libres y rudos,
    contribuían no poco a su prestigio y al respeto idolátrico que en
    sociedad se le tributaba. Lejos nuevamente de la escupidera volvió a
    salivar sobre la alfombra con cierto goce malicioso, que a pesar de su
    máscara indiferente y bonachona se le traslucía en la cara. Calderón
    tornó igualmente a nublarse y fruncirse hasta que, resolviéndose a
    saltar por encima de ciertos miramientos sociales, le acercó otra vez
    la escupidera sin tanto valor como antes, pues lo hizo con el pie. Pepa
    sentóse en el otro brazo y siguió haciendo carocas al duque. Este
    comenzaba a fijar más la atención en ella. Sus miradas frecuentes la
    envolvían de la cabeza a los pies, notándose que se detenían en el
    pecho, alto y provocador. Pepa era una mujer fresca, apetitosa. Al cabo
    de algunos minutos el banquero se inclinó hacia ella con poca
    delicadeza, y acercando el rostro a su cara, tanto que parecía que se la
    rozaba con los labios, le dijo en voz baja:

    –¿Tiene usted muchas _Osunas_?

    –Algunas, sí, señor.

    –Véndalas usted a escape.

    Pepa le miró a los ojos fijamente, y dándose por advertida calló. Al
    cabo de unos momentos fué ella quien acercando su rostro al del banquero
    le preguntó discretamente:

    –¿Qué compro?

    –Amortizable–respondió el famoso millonario con igual reserva.

    Entraban a la sazón un caballero y una dama, ambos jovencitos, menudos,
    sonrientes, y vivos en sus ademanes.

    –Aquí están mis hijos–dijo Pepa.

    Era un matrimonio grato de ver. Ambos bien parecidos, de fisonomía
    abierta y simpática, y tan jóvenes, que realmente parecían dos niños.
    Fueron saludando uno por uno a los tertulios. En todos los rostros se
    advertía el afecto protector que inspiraban.

    –Aquí tienes a tu suegra, Emilio. ¡Qué encuentro tan desagradable!
    ¿verdad?…–dijo Pepa al joven.

    –Suegra, no; mamá … mamá–respondió éste apretándole la mano
    cariñosamente.

    –¡Dios te lo pague, hijo!–replicó la viuda dando un suspiro de cómico
    agradecimiento.

    Volvió la tertulia a acomodarse. Los jóvenes casados sentáronse juntos
    al lado de Mariana. Clementina había dejado aquel sitio y charlaba con
    Maldonado: el nombre de Pepe Castro sonaba muchas veces en sus labios.
    Mientras tanto Cobo aprovechaba el tiempo, haciendo reir con sus
    desvergüenzas a Pacita; pero aunque intentaba que Esperanza acogiese los
    chistes con igual placer, no lo conseguía. La niña de Calderón, seria,
    distraída, parecía atender con disimulo a lo que Ramoncito y Clementina
    hablaban. Pinedo se había levantado y hacía la corte al duque. Y el
    general, viendo a su ídolo en conversación animada con los jóvenes
    casados, fatigado de que sus laberínticos requiebros no fuesen
    comprendidos, ni tampoco sus restregones poéticos, vino a hacer lo
    mismo. La marquesa y el sacerdote seguían cuchicheando vivamente allá en
    un rincón, ella cada vez más humilde e insinuante, sentada sobre el
    borde de la butaca, inclinando su cuerpo para meterle la voz por el
    oído; él más grave y más rígido por momentos, cerrando a grandes
    intervalos los ojos como si se hallase en el confesionario.

    –¡Qué par de bebés, eh!–exclamó Pepa en voz alta dirigiéndose a
    Mariana–. ¿No es vergüenza que esos mocosos estén casados? ¡Cuánto
    mejor sería que estuviesen jugando al trompo!

    Los chicos sonrieron mirándose con amor.

    –Ya jugarán … en los momentos de ocio–manifestó Cobo Ramírez con
    retintín.

    –¡Hombre, ca!–exclamó Pepa, volviéndose furiosa hacia él–. ¿Le han
    dado a usted cuenta ellos de sus juegos?

    Aquél y Emilio cambiaron una mirada maliciosa. Irenita, la joven casada,
    se ruborizó.

    –Te están haciendo vieja, Pepa. Acuérdate que eres abuela–respondió
    la señora de Calderón.

    –¡Qué abuela tan rica!–exclamó por lo bajo Cobo, aunque con la
    intención de que lo oyese la interesada.

    Esta le echó una mirada entre risueña y enojada, demostrando que había
    oído y lo agradecía en el fondo. Cobo se hizo afectadamente el
    distraído.

    –¿Os ha pasado ya la berrenchina?–siguió la viuda dirigiéndose a sus
    hijos–. ¿Cuánto durarán las paces?… ¡Jesús, qué criaturas tan
    picoteras!… Mirad, yo no voy a vuestra casa porque cuando os encuentro
    con morro me apetece tomar la escoba y romperla en las costillas de los
    dos….

    Los tertulios se volvieron hacia los jóvenes esposos sonriendo. Esta vez
    se pusieron ambos fuertemente colorados. Después, por la seriedad que
    quedó bien señalada en el rostro de Emilio, se pudo comprender que no le
    hacían maldita la gracia aquellas salidas harto desenfadadas de su
    suegra.

    El general Patiño, por orden de la bella señora de la casa, puso el dedo
    en el botón de un timbre eléctrico. Apareció un criado: le hizo el ama
    una seña: no se pasaron cinco minutos sin que se presentase nuevamente y
    en pos de él otros dos con sendas bandejas en las manos colmadas de
    tazas de te, pastas y bizcochos. Momento de agradable expansión en la
    tertulia. Todos se ponen en movimiento y brilla en los ojos el placer
    del animal que va a satisfacer una necesidad orgánica. Esperancita deja
    apresuradamente a su amiga y a Ramírez y se pone a ayudar con solicitud
    a su madre en la tarea de servir el te a los tertulios. Ramoncito
    aprovecha el instante en que la niña le presenta una taza, para decirla
    en voz baja y alterada "que le sorprende mucho que se complazca en
    escuchar las patochadas y frases atrevidas de Cobo Ramírez". Esperanza
    le mira confusa, y al fin dice "que ella no ha oído semejantes
    patochadas, que Cobo es un chico muy amable y gracioso". Ramoncito
    protesta con voz débil y lúgubre entonación contra tal especie y
    persiste en desacreditar a su amigo, hasta que éste, oliendo el
    torrezno, se acerca a ellos bromeando según costumbre. Con lo cual, a
    nuestro distinguido concejal se le encapota aún más el rostro y se va
    retirando poco a poco: no sea que al insolente de Cobo se le ocurra
    cualquier sandez para hacer reir a su costa.

    Llegó el momento de hablar de literatura, como acontece siempre en
    todas las tertulias nocturnas o vespertinas de la capital. El general
    Patiño habló de una obra teatral recién estrenada con felicísimo éxito y
    le puso sus peros, basados principalmente en algunas escenas subidas de
    color. Mariana manifestó que de ningún modo iría a verla entonces. Todos
    convinieron en anatematizar la inmoralidad de que hoy hacen gala los
    autores. Se dijeron pestes del naturalismo. Cobo Ramírez, que había
    tomado te y luego unos emparedados y se había comido una cantidad
    fabulosa de ensaimadas y bizcochos, expuso a la tertulia que
    recientemente había leído una novela titulada _Le journal d'une dame_
    (en francés y todo), preciosa, bonitísima, la más espiritual que él
    hubiera leído nunca. Porque Cobo, en literatura–¡caso raro!–, estaba
    por lo espiritual, lo delicado. No le vinieran a él con esas nove-lotas
    pesadas donde le cuentan a uno las veces que un albañil se despereza al
    levantarse de la cama (o los bizcochos y ensaimadas que se come un chico
    de buena sociedad), ni le hablaran de partos y otras porquerías
    semejantes. En las novelas deben ponerse cosas agradables, puesto que se
    escriben para agradar. Esto decía con notable firmeza, resollando al
    hablar como un caballo de carrera. Los demás asentían.

    La entrada de un caballero ni alto ni bajo, ni delgado ni gordo, alzado
    de hombros y cogido de cintura, la color baja, la barba negra y tan
    espesa y recortada que parecía postiza, cortó rápidamente la plática
    literaria. Nada menos que era el señor ministro de Fomento. Por eso
    llevaba la cabeza tan erguida que casi daba con el cerebelo en las
    espaldas, y sus ojos medio cerrados despedían por entre las negras y
    largas pestañas relámpagos de suficiencia y protección a los presentes.
    Hasta los veintidós años había tenido la cabeza en su postura natural;
    pero desde esta época, en que le nombraron vicepresidente de la sección
    de derecho civil y canónico en la Academia de Jurisprudencia, había
    comenzado a levantarla lenta y majestuosamente como la luna sobre el mar
    en el escenario del teatro Real, esto es, a cortos e imperceptibles
    tironcitos de cordel. Le hicieron diputado provincial; un tironcito.
    Luego diputado a Cortes; otro tironcito. Después gobernador de
    provincia; otro tironcito. Más tarde director general de un
    departamento; otro. Presidente de la Comisión de presupuestos; otro.
    Ministro; otro. La cuerda estaba agotada. Aunque le hicieran príncipe
    heredero, Jiménez Arbós ya no podía levantar un milímetro más su gran
    cabeza.

    Su entrada produjo movimiento, pero no tanto como la del duque de
    Requena. Este, cuyo rostro carnoso, sensual, no podía ocultar el
    desprecio que aquella asamblea le inspiraba, corrió a él sin embargo, y
    le saludó con rendimiento y servilismo sorprendentes, teniendo en cuenta
    la rusticidad y grosería con que generalmente se comportaba en el trato
    social. El ministro comenzó a repartir apretones de manos de un modo tan
    distraído que ofendía. Únicamente cuando saludó a Pepa Frías dió
    señales de animación. Esta le preguntó en voz baja tuteándole:

    –¿Cómo vienes de frac?

    –Voy a comer a la embajada francesa.

    –¿Vas luego a casa?

    –Sí.

    Este diálogo rapidísimo en voz imperceptible fué observado por el duque,
    quien acercándose a Pinedo le preguntó con reserva y haciendo una seña
    expresiva:

    –Diga usted, ¿Arbós y Pepa Frías?…

    –Hace ya lo menos dos meses.

    La mirada que el banquero le echó entonces a la viuda no fué de la
    calidad de las anteriores. Era ahora más atenta, más respetuosa y
    profunda, quedándose después un poco pensativo. Calderón se había
    acercado al ministro y le hablaba con acatamiento. Salabert hizo lo
    mismo. Pero el personaje no tenía ganas de hablar de negocios o por
    ventura le inspiraba miedo el célebre negociante. La prensa hacía
    reticencias malévolas sobre los negocios de éste con el Gobierno. Por
    eso, a los pocos momentos, se fué en pos de Pepa Frías y se pusieron a
    cuchichear en un ángulo de la estancia.

    Clementina estaba cada vez más impaciente, con unos deseos atroces de
    marcharse. Dejaba de hacerlo por el temor de que su padre la acompañase.
    El ministro se fué a los pocos minutos, repartiendo previamente otros
    cuantos apretones de manos con la misma distracción imponente, mirando,
    no a la persona a quien saludaba, sino al techo de la estancia. Entonces
    el duque se apoderó de Pepa Frías, mostrándose con ella tan galante y
    expresivo, como si fuese a hacerle una declaración de amor. El general,
    observándolo, dijo a Pinedo:

    –Mire usted al duque, qué animado se ha puesto. De fijo le está
    haciendo el amor a Pepa.

    –No–respondió gravemente el empleado–. A lo que está haciendo el amor
    ahora es al negocio de las minas de Riosa.

    La viuda anunció al cabo en voz alta que se iba.

    –¿Adonde va usted, Pepa, en este momento?–le preguntó el banquero.

    –A casa de Lhardy a encargar unas mortadelas.

    –La acompaño a usted.

    –Vamos; le convidaré a tomar unos pastelitos.

    Al duque le hizo mucha gracia el convite.

    –¿Vienes, chiquita?–le dijo a su hija.

    Clementina aún pensaba quedarse un rato. Pepa, al tiempo de salir del
    brazo del banquero, dijo en alta voz volviéndose a los Presentes:

    –Conste que no vamos en coche.

    Lo cual les hizo reir.

    –Conste–dijo el duque riendo–que esto lo dice por adularme.

    –Que se explique eso: no hemos comprendido …–gritó Cobo Ramírez.

    Pero ya el duque y Pepa habían desaparecido detrás de la cortina.
    Clementina aguardó sólo cinco minutos. Cuando presumió que ya no podía
    tropezar en la escalera a su padre, se levantó, y pretextando un
    quehacer olvidado, se despidió también.

    III

    #La hija de Salabert.#

    Bajó con ansia la escalera. Al poner el pie en la calle dejó escapar un
    suspiro de consuelo. A paso vivo tomó la del Siete de Julio, entró en la
    plaza Mayor y luego en la de Atocha. Al llegar aquí vino a su
    pensamiento la imagen del joven que la había seguido y volvió la cabeza
    con inquietud. Nada; no había que temer. Ninguno la seguía. En la puerta
    de una de las primeras casas y mejores de la calle, se detuvo, miró
    rápida y disimuladamente a entrambos lados y penetró en el portal. Hizo
    una seña casi imperceptible de interrogación al portero. Este contestó
    con otra de afirmación llevándose la mano a la gorra. Lanzóse por la
    escalera arriba. Subió tan de prisa, sin duda para evitar encuentros
    importunos, que al llegar al piso segundo le ahogaba la fatiga y se
    llevó una mano al corazón. Con la otra dió dos golpecitos en una de las
    puertas. Al instante abrieron silenciosamente: se arrojó dentro con
    ímpetu, cual si la persiguiesen.

    –Más vale tarde que nunca–dijo el joven que había abierto, tornando a
    cerrar con cuidado.

    Era un hombre de veintiocho a treinta años, de estatura más que regular,
    delgado, rostro fino y correcto, sonrosado en los pómulos, bigote
    retorcido, perilla apuntada y los cabellos negros y partidos por el
    medio con una raya cuidadosamente trazada. Guardaba semejanza con esos
    soldaditos de papel con que juegan los niños; esto es, era de un tipo
    militar afeminado. También parecía su rostro al que suelen poner los
    sastres a sus figurines; y era tan antipático y repulsivo como el de
    ellos. Vestía un batín de terciopelo color perla con muchos y primorosos
    adornos; traía en los pies zapatillas del mismo género y color con las
    iniciales bordadas en oro. Advertíase pronto que era uno de esos hombres
    que cuidan con esmero del aliño de su persona; que retocan su figura con
    la misma atención y delicadeza con que el escultor cincela una estatua;
    que al rizarse el bigote y darle cosmético creen estar cumpliendo un
    sagrado e ineludible deber de conciencia; que agradecen, en fin, al
    Supremo Hacedor, el haberles otorgado una presencia gallarda y procuran
    en cuanto les es dado mejorar su obra.

    –¡Qué tarde!–volvió a exclamar el apuesto caballero dirigiéndola una
    mirada fija y triste de reconvención.

    La dama le pagó con una graciosa sonrisa, replicando al mismo tiempo con
    acento burlón:

    –Nunca es tarde si la dicha es buena.

    Y le tomó la mano y se la apretó suavemente, y le condujo luego sin
    soltarle al través de los corredores, hasta un gabinete que debía ser el
    despacho del mismo joven. Era una pieza lujosa y artísticamente
    decorada; las paredes forradas con cortinas de raso azul oscuro,
    prendidas al techo por anillos que corrían por una barra de bronce;
    sillas y butacas de diversas formas y gustos; una mesa-escritorio de
    nogal con adornos de hierro forjado; al lado una taquilla con algunos
    libros, hasta dos docenas aproximadamente. Suspendidos del techo por
    cordones de seda y adosados a la pared veíanse algunos arneses de
    caballo, sillas de varias clases, comunes, bastardas y de jineta con sus
    estribos pendientes, frenos de diferentes épocas y también países,
    látigos, sudaderos de estambre fino bordados, espuelas de oro y plata;
    todo riquísimo y nuevo. Las aficiones hípicas del dueño de aquel
    despacho se delataban igualmente en los pasillos, que desde la puerta de
    la casa conducían allí; por todas partes monturas colgadas y cuadros
    representando caballos en libertad o aparejados. Hasta sobre la mesa de
    escribir, el tintero, los pisapapeles y la plegadera estaban tallados en
    forma de herraduras, estribos o látigos. Al través de un arco con
    columnas, mal cerrado por un portier hecho de rico tapiz en el que
    figuraban un joven con casaca y peluca de rodillas delante de una joven
    con traje Pompadour, veíase un magnífico lecho de caoba con dosel.

    Así que llegaron a esta cámara, la dama se dejó caer con negligencia en
    una butaquita muy linda y volvió a decirle con sonrisa burlona:

    –¡Qué! ¿no te alegras de verme?

    –Mucho; pero me alegraría de haberte visto primero. Hace hora y media
    que te estoy esperando.

    –¿Y qué? ¿Es gran sacrificio esperar hora y media a la mujer que se
    adora? ¿Tú no has leído que Leandro pasaba todas las noches el
    Helesponto a nado para ver a su amada?… No; tú no has leído eso ni
    nada…. Mejor: yo creo que te sentaría mal la ciencia. Los libros
    disiparían esos colorcitos tan lindos que tienes en las mejillas, te
    privarían de la agilidad y la fuerza con que montas a caballo y guías
    los coches…. Además, yo creo que hay hombres que han nacido para ser
    guapos, fuertes y divertidos, y uno de ellos eres tú.

    –Vamos, por lo que estoy viendo me consideras como un bruto que no
    conoce ni la A–respondió triste y amoscado el joven, en pie frente a
    ella.

    –¡No, hombre, no!–exclamó la dama riendo; y apoderándose de una de sus
    manos la besó en un repentino acceso de ternura–.Eso es insultarme. ¿Te
    figuras que yo podría querer a un bruto?… Toma–añadió despojándose
    del sombrero–, pon ese sombrero con cuidado sobre la cama. Ahora ven
    aquí, so canalla; ya que eres tan susceptible, ¿no consideras que has
    principiado diciéndome una grosería?… ¡Hora y media!… ¿Y qué?…
    Acércate, ponte de rodillas; deja que te tire un poco de los pelos.

    El joven, en vez de hacerlo, agarró una silla-fumadora y se montó en
    ella frente a su querida.

    –¿Sabes por qué he tardado tanto?… Pues por el dichoso niño, que me
    ha seguido hoy también.

    Al decir esto, se puso repentinamente seria; una arruga bien pronunciada
    cruzó su linda frente.

    –¡Es insufrible!–añadió–. Ya no sé qué hacer. A todas horas, salga
    por la mañana o por la tarde, traigo aquel fantasma detrás de mí. He
    tenido que refugiarme en casa de Mariana. Luego, una vez allí, no hubo
    más remedio que aguantar un rato. Vino papá, y porque no saliese conmigo
    esperé otro poquito a que se fuese…. ¡Ahí ves!

    –¡Tiene gracia ese chico!–dijo riendo el caballero.

    –¡Mucha! ¡Si es muy divertido que le averigüen a una dónde va y lo sepa
    en seguida todo el mundo, y llegue a oídos de mi marido! ¡Ríete, hombre,
    ríete!

    –¿Por qué no? ¿A quién se le ocurre más que a ti tomarse un disgusto
    por tener un admirador tan platónico? ¿Has recibido alguna carta? ¿Te ha
    dicho alguna palabra al paso?

    –Eso es lo que menos importaba. Lo que me excita los nervios es la
    persecución. Luego es un mocoso capaz por despecho, si averigua mis
    entradas en esta casa, de escribir un anónimo…. Y tú ya sabes la
    situación especial en que me encuentro respecto a mi marido.

    –No es de presumir: los que escriben anónimos no son los enamorados,
    sino las amigas envidiosas…. ¿Quieres que yo me aviste con él y le
    meta un poco de miedo?

    –¡Eso no se pregunta, hombre!–exclamó la dama con voz irritada–.
    Mira, Pepe; tú eres hombre de corazón y tienes inteligencia; pero te
    hace muchísima falta un poco más de refinamiento en el espíritu para que
    comprendas ciertas cosas. Debieras dedicar menos horas al club y a los
    caballos y procurar ilustrarte un poco.

    –¡Ya pareció aquéllo!–dijo el joven con despecho, muy molestado por la
    agria reprensión.

    –Pues si quieres que no te diga ciertas cosas, procura callarte otras.

    Pepe Castro se encogió de hombros con superior desdén y se alzó de la
    silla. Dió algunas vueltas distraídamente por la estancia y paró al fin
    delante de un cuadrito, que descolgó para sacudirle el polvo con el
    pañuelo. Clementina le miraba en tanto con ojos coléricos. Se puso en
    pie vivamente, como si la alzara un resorte: luego, refrenando su ímpetu
    y adquiriendo calma, avanzó lentamente hacia la alcoba, penetró en ella,
    recogió su sombrero de la cama y comenzó a ponérselo frente al espejillo
    de una cornucopia, con ademanes lentos, donde se adivinaba, sin embargo,
    en el levísimo temblor de las manos, la sorda irritación que la
    embargaba.

    –¡Bueno!–exclamó por último en tono distraído e indiferente–. Me voy,
    chico…. ¿Quieres algo para la calle?

    El joven dió la vuelta y preguntó con sorpresa:

    –¿Ya?

    –Ya–repuso la dama con exagerada firmeza.

    El joven avanzó hacia ella, le echó suavemente un brazo al cuello, y
    levantando con la otra mano el velito rojo le dió un beso en la sien.

    –¡Que siempre ha de pasar lo mismo! Yo soy el descalabrado y tú te
    apresuras a ponerte la venda.

    –¿Qué estás diciendo ahí?–replicó ella algo confusa–. Me voy porque
    tengo que hacer una visita antes de comer.

    –Vamos, Clementina, aunque quieras no puedes disimular…. Debes
    comprender que no se pueden escuchar con risa los insultos … y tú me
    estás insultando a cada momento.

    –Te digo que no te comprendo. No sé a qué insultos ni a qué disimulos
    te refieres–replicó la dama con afectación.

    Pepe intentó con mimo y dulzura quitarle de nuevo el sombrero. Ella le
    detuvo con gesto imperioso. Tomóla entonces por la cintura y la condujo
    hacia el diván. Sentóse, y cogiéndole las manos se las besó repetidas
    veces con apasionado cariño. Ella siguió en pie sin dejarse ablandar.
    Tan extremado estuvo, sin embargo, en sus caricias y tan sumiso, que al
    cabo, arrancando con violencia sus manos de las de él, Clementina dijo
    medio riendo, medio enojada aún:

    –Quita, quita, que ya estoy hastiada de tus lametones de perro de
    Terranova…. ¡Eres un bajo!… Primero que yo me humillase de tal modo
    me harían rajas.

    Volvió a quitarse el sombrero, y fué ella misma a colocarlo sobre la
    cama.

    –Cuando se está tan enamorado como yo–replicó el joven un poco
    avergonzado–, no puede llamarse nada humillación.

    –¿Es de veras eso, chico?–dijo acercándose a él sonriente y tomándole
    con sus dedos finos sonrosados la barba–. No lo creo…. Tú no tienes
    temperamento de enamorado…. Y si no, vamos a probarlo…. Si yo te
    mandase hacer una cosa que pudiera costarte la vida, o lo que es aún
    peor, la honra … algunos años de presidio…, ¿lo harías?

    –¡Ya lo creo!

    –¿Sí?… Pues mira, quiero que mates a mi marido.

    –¡Qué barbaridad!–exclamó asustado, abriendo los ojos
    desmesuradamente.

    La dama le miró algunos segundos fijamente, con expresión escrutadora,
    maliciosa. Luego, soltando una sonora carcajada, exclamó:

    –¿Lo ves, infeliz, lo ves?… Tú eres un señorito madrileño, un socio
    del _Club de los Salvajes_…. Ni yo, ni mujer ninguna te harían cambiar
    el frac y el chaleco blanco por el uniforme de presidiario.

    –¡Qué ideas tan extrañas!

    –Sigue, sigue por donde te arrastra tu naturaleza de sietemesino y no
    te metas en honduras. Ya comprenderás que te he hablado en broma. Así y
    todo me has confirmado en lo que ya pensaba.

    –Pues si tienes formada esa idea tan pobre de mi cariño, no sé por qué
    razón me quieres–expresó el joven volviendo a amoscarse.

    –¿Por qué te quiero?… Pues por lo que yo hago casi todas mis cosas
    … por capricho. Un día te he visto en el Retiro revolviendo un caballo
    admirablemente y me gustaste. Luego, a los dos meses, en Biarritz, te vi
    en el asalto del casino tirando con un oficial ruso y concluí de
    encapricharme. Hice que me fueses presentado, procuré agradarte, te
    agradé en efecto…. Y aquí estamos.

    Pepe concluyó por sufrir con paciencia aquel tono entre cínico y burlón
    de su querida. A fuerza de charlar logró hacerlo desaparecer.
    Clementina, cuando estaba tranquila, era afectuosa, alegre, pronta a
    compadecerse y a los rasgos de generosidad; su rostro, tan bello como
    original, no adquiría nunca dulzura, pero sí una expresión bondadosa y
    maternal que lo hacía muy simpático. Mas por poco que sus nervios se
    excitasen o se viese contrariada en sus pensamientos y deseos, el fondo
    de altivez, de obstinación y aun crueldad que su alma guardaba, subía a
    la superficie y agitaba sus ojos azules con relámpagos de feroz sarcasmo
    o de cólera.

    Pepe Castro, que no era hombre ilustrado ni ingenioso, sabía no obstante
    entretenerla agradablemente con cuentecillos de salón, murmuraciones
    casi siempre de las personas por quienes ella sentía marcada antipatía.
    El recurso era burdo, pero surtía admirable efecto. "La condesa de T***,
    señora a quien Clementina odiaba de muerte por un desaire que en cierta
    ocasión le había hecho, andaba necesitada de dinero; se lo pidió al
    viejo banquero Z*** y éste se lo había otorgado mediante un rédito muy
    poco apetitoso para la deudora. Los marqueses de L***, a quienes también
    ella profesaba aversión, cuando no estaban en el poder daban reuniones
    allá en su finca de la Mancha y ofrecían espléndido _buffet_ a sus
    electores: cuando el marqués era ministro daban también reuniones, pero
    suprimían el _buffet_. Julita R***, una jovencita muy linda, que tampoco
    inspiraba simpatías a la altiva dama, había sido arrojada de casa de los
    señores de M*** por haberla hallado encerrada en el cuarto del
    primogénito, un chico de quince años". Estas y otras noticias del mismo
    jaez dejábalas caer el gallardo mancebo de sus labios con cierta
    displicencia cómica que despertaba el buen humor de la bella. Era todo
    el talento de Pepe Castro en el orden moral. Los demás que poseía
    referíanse enteramente al físico.

    Se habían disipado las nubes que cubrían la frente de Clementina.
    Mostróse locuaz y risueña. Fué pródiga de caricias con su amante en la
    hora que con él estuvo. Quedó bien compensado de los alfilerazos que de
    ella había recibido al principio de la entrevista, gozando de toda la
    dicha que una mujer hermosa y enamorada puede proporcionar cuando la
    soledad y la ocasión convidan.

    La noche había cerrado ya, tiempo hacía. El joven encendió las dos
    lámparas de la chimenea sin llamar al criado, que era su único servidor
    y el único ser viviente asimismo que habitaba con él en aquel cuarto.
    Pepe Castro era hijo de una ilustre familia de Aragón. Su hermano mayor
    llevaba un título conocido y tenía una hermana además casada con otro
    título. Se había educado en Madrid. A los veinte años quedó huérfano.
    Vivió con su hermano primogénito una temporada. No tardaron en reñir
    porque éste, que era económico hasta la avaricia, no podía sufrir con
    paciencia su despilfarro. Trasladóse entonces a casa de su hermana; pero
    a los pocos meses, existiendo incompatibilidad de caracteres entre él y
    su cuñado, chocaron de modo tan violento, que se contaba en el club y en
    los salones de la corte que se habían abofeteado y aporreado bravamente.
    No llegó a efectuarse un duelo entre ambos por la intervención de
    algunos respetables miembros de la familia. Después de vivir en fonda un
    poco de tiempo, decidióse a poner casa. Tomó un criado, se hizo traer el
    almuerzo de un restaurante y comía cuándo en Lhardy, cuándo, en casa de
    alguno de sus muchos amigos. Su cuadra la tenía muy cerca, en la calle
    de las Urosas, y no estaba mal provista: dos jacas de silla, inglesa y
    cruzada, un tiro extranjero y otro español, berlina, _charrette, milord,
    break_. Era un chorro por donde se escapaba rápidamente su hacienda,
    aunque no el más copioso. La mayor parte la había dejado sobre el tapete
    de la mesa de juego del club, y una porción, no insignificante por
    cierto, entre las uñas de algunas lindísimas chulas transformadas por él
    de la noche a la mañana en espléndidas y llamativas cortesanas. Esto
    último lo negaba con arrogancia pensando que su gloria de seductor podía
    con ello menoscabarse; pero no importa: es exacto como todo lo que aquí
    se puntualiza.

    Quiere decir esto que Pepe Castro se hallaba arruinado a la hora
    presente. A pesar de lo cual, seguía viviendo con, la misma comodidad y
    aparato que antes. Su trabajo y sus vueltas le costaba. Empréstitos a su
    hermano hipotecándole alguna finca trasconejada en las ventas y
    subastas, pagarés a algunos arrojados usureros sobre la herencia de un
    tío viejo y enfermo reconociendo tres veces la cantidad recibida, joyas
    que su hermana le regalaba no pudiendo regalarle dinero, cuentas
    exorbitantes con el importador de coches y caballos, con el sastre, con
    el perfumista, con Lhardy, con el conserje del club, con todo el mundo.
    Parecía imposible que un hombre pudiera vivir tranquilo en tal estado de
    trampas y enredos. Sin embargo, nuestro gallardo joven vivía con la
    misma admirable serenidad de espíritu e idéntica alegría de corazón, y
    como él otros muchos de sus amigos y consocios según tendremos ocasión
    de ver, tan arruinados aunque no tan gallardos.

  • La Celestina

    La Celestina

    Aproximadamente 108.030 palavras.

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    **This is a COPYRIGHTED Project Gutenberg Etext, Details Below**
    The Project Gutenberg Etext of La Celestina by Fernando de Rojas

    Copyright 1998 R. S. Rudder

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    LA CELESTINA [In Spanish]

    by Fernando de Rojas

    (Edicion y Notas de Robert S. Rudder)
    (Edition and notes by Robert S. Rudder)
    Copyright 1998 R. S. Rudder

    January, 1999 [Etext #1619]

    The Project Gutenberg Etext of La Celestina, by Fernando de Rojas
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    LA CELESTINA [In Spanish]

    by Fernando de Rojas

    (Edicion y Notas de Robert S. Rudder)
    (Edition and notes by Robert S. Rudder)
    Copyright 1998 R. S. Rudder

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    The Project Gutenberg Etext of La Celestina by Fernando de Rojas

    Copyright 1998 R. S. Rudder

    LA CELESTINA

    por

    Fernando de Rojas

    (Edicion y Notas de Robert S. Rudder)

    Copyright 1998 R. S. Rudder

    I. Introduccion

    II. La Celestina

    III Glosario y Notas

    INTRODUCCION

    Si bien es cierto que "La Celestina" nos deja con muchas dudas
    sobre la personalidad de los personajes, esta misma vaguedad hace
    que la obra parezca mas realista, permitiendo incluso una lectura
    moderna. Poco sabemos tambien sobre la autoria de la obra; sabemos
    que Fernando de Rojas, el unico autor conocido, fue un judio
    converso, nacido en Montalban, y que estudio en la Universidad de
    Salamanca. Despues de haber escrito esta obra maestra en su
    juventud, simplemente desaparecio de la escena literaria: fue a
    Talavera para ejercer el oficio de abogado, y alli murio en 1541.

    El lugar de la accion de la obra no tiene semejanza geografica
    especifica con ningun pueblo de Espana. Quedan tambien como meras
    sombras varios grupos de personajes (la muchedumbre que asiste al
    ajusticiamiento de Sempronio y Parmeno; los vecinos congregados
    alrededor de Pleberio cuando este da su discurso final). Y aunque
    las descripciones fisicas de los personajes centrales de la obra
    no son nada mas que bosquejos, hay una gran profundidad en sus
    personalidades. Los dos personajes centrales cuyas vidas y
    destinos se enlazan apasionadamente, Calisto y Melibea, comparten
    una historia que se extiende mas alla de los confines de "La
    Celestina". Desde sus primeras palabras vemos que se han conocido
    antes del comienzo de la obra: "en tan conueniente lugar que mi
    secreto dolor manifestarte pudiesse. sin dubda encomparablemente
    es mayor tal galardon que el seruicio: sacrificio: deuocion e
    obras pias que por este lugar alcanzar tengo yo a dios ofrescido."
    Estas vidas que se mueven tanto dentro como fuera de la obra,
    encontraran su eco mas de cien anos despues en el arte de
    Velazquez donde hay figuras que aparecen dentro y fuera de la
    pintura.

    Para esta edicion electronica se han utilizado las cuatro
    siguientes versiones de "La Celestina":

    1. "Comedia de Calisto y Melibea", Burgos, 1499. 16 actos.
    Facsimile.

    2. "Comedia de Calisto y Melibea", Toledo, 1500. 16 actos,
    Facsimile. Esta edicion tiene una carta del "autor a un su amigo",
    donde dice que encontro el primer acto, y que escribio los demas
    actos en quince dias de vacaciones. Tambien hay versos de "El
    autor escusandose de su yerro en esta obra que escriuio…" los
    cuales son un acrostico que revela lo siguiente: "El bachjller
    fernando de royas acabo la comedia de calysto y melybea y fve
    nascjdo en la puebla de montalvan."

    3. "Comedia de Calisto y Melibea", Sevilla, 1501. Edicion de
    Foulche-Delbosc (1900). Semejante a la edicion de Toledo, 1500,
    con unas variaciones en la "carta" y en los primeros versos.

    4. "Tragicomedia de Calisto y Melibea", Valencia, 1514. 21 actos
    y otras interpolaciones. Facsimile.

    He mantenido la ortografia y puntuacion de los facsimiles para dar
    un sentido autentico a esta version electronica. Los cinco actos
    y otras interpolaciones anadidos en la edicion de Valencia (1514)
    estan marcados entre comillas ("). Las unicas concesiones a la
    puntuacion moderna son el uso, de vez en cuando, de la coma (,),
    el punto y coma (;), y la exclamacion (!); estas tres no existen
    en los facsimiles. Tampoco he podido usar el tilde a causa de los
    limites de este modo de transmision, y el lector tendra que
    ponerlo. En cuanto al acento, esta transmision electronica no
    permite tal cosa, pero tampoco existe en los facsimiles.

    Mi sincero agradecimiento al Profesor Juan de Castro, Magdalena de
    Castro, y Gloria Arjona.

    Robert S. Rudder
    California State University, Los Angeles
    Junio, 1998

    [LA CELESTINA]

    "TRAGI" COMEDIA
    DE CALISTO Y MELIBEA

    "nueuamente reuista
    y emendada con addicion de los
    argumentos de cada vn auto en principio." la
    qual contiene demas de su agradable e
    dulce estilo muchas sentencias filosofales:
    e auisos muy necessarios para
    mancebos: mostrandoles los enganos que estan
    encerrados en siruientes e alcahuetas.

    "EL AUCTOR

    A VN SU AMIGO.

    Suelen los que de sus tierras absentes se hallan considerar: de
    que cosa aquel lugar donde parten mayor inopia, o falta padezca:
    para con la tal seruir a los conterraneos de quien en algun tiempo
    beneficio recebido tienen: e viendo que legitima obligacion a
    inuestigar lo semejante me compelia: para pagar las muchas
    mercedes de vuestra libre liberalidad recebidas: assaz vezes
    retraydo en mi camara acostado sobre mi propia mano: echando mis
    sentidos por ventores: e mi juyzio a bolar: me venia a la memoria:
    no solo la necessidad que nuestra comun patria tiene de la
    presente obra por la muchedumbre de galanes: e enamorados mancebos
    que posee: pero avn en particular vuestra misma persona: cuya
    juuentud de amor ser presa: se me representa auer visto: e del
    cruelmente lastimada: a causa de le faltar defensiuas armas para
    resistir sus fuegos: Las quales halle esculpidas en estos
    papeles: no fabricadas en las grandes herrerias de Milan: mas en
    los claros ingenios de doctos varones castellanos formadas: e
    como mirasse su primor: sotil artificio: su fuerte e claro metal:
    su modo e manera de lauor: su estilo elegante: jamas en nuestra
    castellana lengua visto ni oydo. Leylo tres o quatro vezes: e
    tantas quantas mas lo leya: tanta mas necessidad me ponia de
    releerlo: e tanto mas me agradaua: y en su processo nueuas
    sentencias sentia: vi no solo ser dulce en su principal hystoria:
    o ficion toda junta. pero avn de algunas sus particularidades
    salian deleytables fontezicas de filosofia: de otros agradables
    donayres: de otros auisos e consejos contra lisonjeros e malos
    siruientes: e falsas mugeres hechizeras. vi que no tenia su firma
    del autor: el qual segun algunos dizen fue Juan de Mena: e segun
    otros Rodrigo Cota. pero quien quier que fuesse: es digno de
    recordable memoria por la sotil inuencion: por la gran copia de
    sentencias entrexeridas: que so color de donayres tiene: gran
    filosofo era. e pues el con temor de detractores e nocibles
    lenguas mas aparejadas a reprehender que a saber inuentar: quiso
    celar e encubrir su nombre: no me culpeys si en el fin baxo que lo
    pongo no espressare el mio: mayormente que siendo jurista yo:
    avnque obra discreta: es agena de mi facultad. e quien lo supiesse
    diria: que no por recreacion de mi principal estudio: del qual yo
    mas me precio como es la verdad lo hiziesse: antes distraydo de
    los derechos en esta nueua labor me entremetiesse: pero avnque no
    acierten seria pago de mi osadia. assimesmo pensarian que no
    quinze dias de vnas vacaciones: mientra mis socios en sus tierras
    en acabarlo me detuuiesse como es lo cierto pero avn mas tiempo: e
    menos acepto: para desculpa de lo qual todo no solo a vos: pero a
    quantos lo leyeren: offrezco los siguientes metros. E porque
    conozcays donde comienzan mis maldoladas razones [e acaban las del
    antiguo autor, en la margen hallareys una cruz; y es el fin de la
    primera cena.] acorde que todo lo del antiguo autor: fuesse sin
    diuision en vn aucto: o cena incluso hasta el segundo auto donde
    dize. Hermanos mios &c. Uale."

    EL AUTOR

    ESCUSANDOSE DE SU YERRO EN ESTA OBRA
    QUE ESCRIUIO, CONTRA Sl ARGUYE E COMPARA.

    El silencio escuda y suele encobrir
    las faltas de ingenio & las torpes lenguas:
    blason, que es contrario: publica sus menguas
    al que mucho habla sin mucho sentir.
    como la hormiga que dexa de yr:
    holgando por tierra, con la prouision:
    jactose con alas de su perdicion:
    lleuaronla en alto, no sabe dondyr.

    Prosigue

    El ayre gozando ageno y estrano:
    rapina es ya hecha de aues que buelan:
    fuertes mas que ella, por ceuo la lleuan:
    en las nueuas alas estaua su dano:
    razon es que aplique mi pluma este engano,
    no dissimulando con los que arguyen
    assi, que a mi mesmo mis alas destruyen:
    nublosas & flacas, nascidas de ogano.

    Prosigue

    Donde esta gozar pensaua volando
    oyo aqui escriuiendo cobrar mas honor,
    de lo vno & lo otro nascio disfauor,
    ella es comida y a mi estan cortando.
    reproches, reuistas y tachas callando
    obstara: y a los danos de inuidia & murmuros
    y assi nauegando los puertos seguros
    atras quedan todos ya quanto mas ando.

    Prosigue.

    Si bien discerneys mi limpio motiuo,
    a qual se adereza de aquestos estremos,
    con qual participa, quien rige sus remos
    amor aplazible o desamor esquiuo:
    buscad bien el fin de aquesto que escriuo,
    o del principio leed su argumento;
    leeldo y vereys que avnque dulce cuento,
    amantes que os muestra salir de catiuo.

    Comparacion.

    Como al doliente que pildora amarga
    o huye, o recela. o no puede tragar,
    metenla dentro de dulce manjar,
    enganase el gusto, la salud se alarga:
    desta manera la pluma se embarga,
    imponiendo dichos lasciuos, rientes,
    atrae los oydos de penadas gentes,
    de grado escarmientan y arrojan su carga.

    Buelue a su proposito.

    Este mi desseo cargado de antojos
    compuso tal fin quel principio desata,
    acordo de dorar con oro de lata
    lo mas fino oro, que vio con sus ojos:
    y encima de rosas sembrar mill abrojos,
    suplico pues suplan discretos mi falta,
    teman grosseros; y en obra tan alta,
    o vean y callen, o no den enojos.

    Prosigue dando razon
    porque se mouio a acabar esta obra.

    Yo vi en Salamanca la obra presente;
    mouime a acabarla por estas razones,
    es la primera, que esto en vacaciones;
    la otra que oy su inuentor ser sciente:
    y es la final, ver ya la mas gente
    buelta y mezclada en vicios de amor;
    estos amantes les pornan temor
    a fiar de alcahueta, ni de mal siruiente.

    Y assi que esta obra a mi flaco entender
    fue tanto breue, quanto muy sutil,
    vi que portaua sentencias dos mill
    en forro de gracias, labor de plazer:
    no hizo Dedalo en su officio e saber
    alguna mas prima entretalladura,
    si fin diera en esta su propia escriptura
    corta: vn gran hombre y de mucho valer.

    Jamas yo no vi terenciana,
    despues que me acuerdo, ni nadie la vido,
    obra de estilo tan alto y subido
    en lengua comun vulgar castellana.
    no tiene sentencia de donde no mana
    loable a su autor y eterna memoria.
    al qual Jesu Christo reciba en su gloria
    por su passion sancta que a todos nos sana.

    Amonesta a los que aman que siruan a dios
    y dexen las malas cogitaciones y vicios de amor.

    Uosotros que amays, tomad este enxemplo,
    este fino arnes con que os defendays;
    bolued ya las riendas, porque nos perdays;
    load siempre a dios visitando su templo;
    andad sobre auiso, no seays en dexemplo
    de muertos y biuos y propios culpados;
    estando en el mundo yazeys sepultados;
    muy gran dolor siento quando esto contemplo.

    Fin

    Oluidemos los vicios que assi nos prendieron;
    no confiemos en vana esperanza,
    temamos aquel que espinas y lanza,
    azotes y clauos su sangre vertieron;
    la su santa faz herida escupieron;
    vinagre con hiel fue su potacion;
    a cada costado consintio vn ladron;
    nos lleue le ruego con los quel creyeron. [Toledo 1500, Sevilla
    1501]

    "EL AUTOR ESCUSANDOSE DE SU YERRO EN ESTA
    OBRA QUE ESCRIUIO CONTRA Sl ARGUYE E COMPARA.

    El silencio escuda y suele encubrir
    la falta de ingenio e torpeza de lenguas
    blason que es contrario: publica sus menguas
    a quien mucho habla sin mucho sentir:
    como hormiga que dexa de yr
    holgando por tierra con la prouision
    jactose con alas de su perdicion
    lleuaronla en alto no sabe donde yr.

    Prosigue.

    El ayre gozando ageno y estrano
    rapina es ya hecha de aues que buelan
    fuertes mas que ella por ceuo la lleuan
    en las nueuas alas estaua su dano:
    razon es que aplique a mi pluma este engano
    no despreciando a los que me arguyen
    assi que a mi mismo mis alas destruyen
    nublosas e flacas nascidas de ogano.

    Prosigue.

    Donde esta gozar pensaua bolando
    o yo de screuir cobrar mas honor
    del vno del otro nascio disfauor
    ella es comida e a mi estan cortando:
    reproches reuistas e tachas callando
    obstara: e los danos de inuidia e murmuros
    insisto remando e los puertos seguros
    atras quedan todos ya quanto mas ando.

    Prosigue.

    Si bien quereys ver mi limpio motiuo
    a qual se endereza de aquestos estremos
    con qual participa quien rige sus remos
    Apollo: Diana / o Cupido altiuo:
    buscad bien el fin de aquesto que escriuo
    o del principio leed su argumento
    leeldo vereys: que avnque dulce cuento
    amantes que os muestra salir de catiuo.

    Comparacion.

    Como el doliente que pildora amarga
    o la recela: o no puede tragar
    metela dentro de dulce manjar
    enganase el gusto la salud se alarga:
    desta manera mi pluma se embarga
    imponiendo dichos lasciuos rientes
    atrae los oydos de penadas gentes.
    de grado escarmientan e arrojan su carga.

    Buelue a su proposito.

    Estando cercado de dubdas e antojos
    compuse tal fin quel principio desata
    acorde dorar con oro de lata
    lo mas fino tibar que vi con mis ojos:
    y encima de rosas sembrar mill abrojos
    suplico pues suplan discretos mi falta
    teman grosseros y en obra tan alta
    o vean e callen: o no den enojos.

    Prosigue dando razones
    porque se mouio a acabar esta obra.

    yo vi en Salamanca la obra presente
    mouime acabarla por estas razones
    es la primera que esto en vacaciones
    la otra inuentar [imitar] la persona prudente:
    y es la final ver ya la mas gente
    buelta e mezclada en vicios de amor
    estos amantes les pornan temor
    a fiar de alcahueta ni falso siruiente.

    y assi que esta obra en el proceder
    fue tanto breue quanto muy sotil
    vi que portaua sentencias dos mill
    en forro de gracias lauor de plazer:
    no hizo Dedalo cierto a mi ver
    alguna mas prima entretalladura
    si fin diera en esta su propia escriptura
    Cota o Mena con su gran saber.

    Jamas yo no vide en lengua romana
    despues que me acuerdo: ni nadie la vido
    obra de estilo tan alto e sobido
    en tusca: ni griega: ni en castellana:
    no trae sentencia de donde no mana
    loable a su autor y eterna memoria
    al qual Jesucristo reciba en su gloria
    por su passion santa que a todos nos sana.

    Amonesta a los que aman que siruan a dios
    y dexen las malas cogitacions e vicios de amor.

    Uos los que amays tomad este enxemplo
    este fino arnes con que os defendays
    bolued ya las riendas porque no os perdays
    load siempre a dios visitando su templo
    andad sobre auiso no seays dexemplo
    de muertos e biuos e propios culpados
    estando en el mundo yazeys sepultados
    muy gran dolor siento quando esto contemplo.

    Fin.

    O damas: matronas: mancebos: casados:
    notad bien la vida que aquestos hizieron
    tened por espejo su fin qual huuieron
    a otro que amores dad vuestros cuydados
    limpiad ya los ojos los ciegos errados
    virtudes sembrando con casto biuir
    a todo correr deueys de huyr
    no os lance Cupido sus tiros dorados. [Valencia, 1514]

    Todas las cosas ser criadas a manera de contienda o batalla dize
    aquel gran sabio Eraclito en este modo. Omnia secundum litem
    fiunt. Sentencia a mi ver digna de perpetua y recordable memoria:
    e como sea cierto que toda palabra del hombre sciente este
    prenada: desta se puede dezir: que de muy hinchada y llena quiere
    rebentar: echando de si tan crescidos ramos y hojas: que del menor
    pimpollo se sacaria harto fruto entre personas discretas. Pero
    como mi pobre saber no baste a mas de roer sus secas cortezas de
    los dichos de aquellos que por claror de sus ingenios merescieron
    ser aprouados: con lo poco que de alli alcanzare satisfare al
    proposito deste perbreue prologo. Halle esta sentencia
    corroborada por aquel gran orador e poeta laureado Francisco
    Petrarcha diziendo. Sine lite atque offensione nihil genuit natura
    parens. Sin lid e offension ninguna cosa engendro la natura madre
    de todo. Dize mas adelante. Sic est enim et sic propemodum
    vniversa testantur: rapido stellae obviant firmamento: contraria
    inuicem elementa confligunt. terrae tremunt. maria fluctuant aer
    quatitur. crepant flammae. bellum immortale venti gerunt. tempora
    temporibus concertant. secum singula: nobiscum omnia. Que quiere
    dezir: en verdad assi es e assi todas las cosas desto dan
    testimonio: las estrellas se encuentran en el arrebatado
    firmamento del cielo: los aduersos elementos vnos con otros rompen
    pelea. tremen las tierras: ondean las mares: el ayre se sacude:
    suenan las llamas: los vientos entre si traen perpetua guerra: los
    tiempos con tiempos contienden e litigan entre si: vno a vno: e
    todos contra nosotros. El verano vemos que nos aquexa con calor
    demasiado. El inuierno con frio y aspereza. assi que esto nos
    paresce reuolucion temporal: esto con que nos sostenemos: esto con
    que nos criamos e biuimos: si comienza a ensoberuecerse mas de lo
    acostumbrado: no es sino guerra. E quanto se ha de temer
    manifiestase por los grandes terremotos: e toruellinos: por los
    naufragios: y encendios: assi celestiales como terrenales por la
    fuerza de los aguaduchos: por aquel bramar de truenos: por aquel
    temeroso impetu de rayos: aquellos cursos e recursos de las nuues:
    de cuyos abiertos mouimientos: para saber la secreta causa de que
    proceden: no es menor la dissension de los filosofos en las
    escuelas: que de las ondas en la mar. Pues entre los animales
    ningun genero carece de guerra: pesces: fieras: aues: serpientes:
    de lo qual todo: vna especie a otra persigue. El leon al lobo.
    El lobo la cabra: el perro la liebre: e si no paresciesse conseja
    de tras el fuego yo llegaria mas al cabo esta cuenta. El elefante
    animal tan poderoso e fuerte se espanta e huye de la vista de vn
    suziuelo raton e avn de solo oyrle toma gran temor. entre las
    serpientes el basilisco crio la natura tan ponzonoso e
    conquistador de todas las otras: que con su siluo las asombra: e
    con su venida las ahuyenta e disparze: con su vista las mata. La
    biuora reptilia: o serpiente enconada al tiempo del concebir: por
    la boca de la hembra metida la cabeza del macho: y ella con el
    gran dulzor aprietale tanto que le mata e quedando prenada: el
    primer hijo rompe las yjares de la madre: por do todos salen y
    ella muerta queda: el quasi como vengador de la paterna muerte.
    que mayor lid: que mayor conquista: ni guerra que engendrar en su
    cuerpo quien coma sus entranas? Pues no menos dissensiones
    naturales creemos hauer en los pescados: pues es cosa cierta gozar
    la mar de tantas formas de pesces: quantas la tierra: y el ayre
    cria de aues: e animalias: e muchas mas. Aristotiles e Plinio
    cuentan marauillas de vn pequeno pece llamado echeneis: quanto sea
    apta su propriedad para diuersos generos de lides: especialmente
    tiene vna: que si allega a vna nao: o carraca la detiene que no se
    puede menear avnque vaya muy rezio por las aguas. de lo qual haze
    Lucano mencion diziendo. Non puppim retinens Euro tendente
    rudentes. In mediis echeneis aquis. No falta alli el pece dicho
    echeneis que detiene las fustas quando el viento Euro estiende las
    cuerdas en medio de la mar. O natural contienda digna de
    admiracion poder mas vn pequeno pece que vn gran nauio con toda la
    fuerza de los vientos. Pues si discurrimos por las aues: e por
    sus menudas enemistades bien affirmaremos ser todas las cosas
    criadas a manera de contienda las mas biuen de rapina: como
    halcones / e aguilas / e gauilanes hasta los grosseros milanos
    insultan dentro en nuestras moradas los domesticos pollos: e
    debaxo las alas de sus madres los vienen a cazar. De vna ave
    llamada Rocho que nace en el Indico mar de Oriente se dize ser de
    grandeza jamas oyda e que lleva sobre su pico fasta las nuues no
    solo vn hombre: o diez: pero vn nauio cargado de todas sus xarcias
    e gente. E como los miseros navegantes esten assi suspensos en el
    ayre con el meneo de su buelo caen: e reciben crueles muertes.
    pues que diremos entre los hombres e a quien todo lo sobredicho es
    subjeto: quien explanara sus guerras / sus enemistades / sus
    embidias / sus aceleramientos e mouimientos e descontentamientos:
    aquel mudar de trajes: aquel derribar e renouar edificios: e otros
    muchos affectos diuersos e variedades que desta nuestra flaca
    humanidad nos prouienen: e pues es antigua querella e visitada de
    largos tiempos no quiero marauillarme si esta presente obra ha
    seydo instrumento de lid: o contienda a sus lectores: para
    ponerlos en differencias: dando cada vno sentencia sobre ella a
    sabor de su voluntad. Unos dezian que era prolixa / otros breue /
    otros agradable / otros escura. de manera que cortarla a medida de
    tantas y tan differentes condiciones a solo dios pertenesce.
    Mayormente pues ella con todas las otras cosas que al mundo son
    van debaxo de la vandera desta notable sentencia que avn la mesma
    vida de los hombres si bien lo miramos desde la primera hedad
    hasta que blanquean las canas es batalla: los ninos con los
    juegos: los mozos con las letras: los mancebos con los deleytes:
    los viejos con mill especies de enfermedades pelean: y estos
    papeles con todas las edades. La primera los borra e rompe. La
    segunda no los sabe bien leer. La tercera que es la alegre
    juuentud e mancebia discorda: vnos les roen los huessos que no
    tienen virtud: que es la hystoria toda junta no aprouechandose de
    las particularidades haziendola cuenta de camino. otros pican los
    donayres y refranes comunes: loandolos con toda atencion: dexando
    passar por alto lo que haze mas al caso e vtilidad suya. Pero
    aquellos para cuyo verdadero plazer es todo: desechan el cuento de
    la hystoria para contar: coligen la suma para su prouecho: rien lo
    donoso: las sentencias e dichos de philosophos guardan en su
    memoria para trasponer en lugares conuenibles a sus autos e
    propositos: assi que quando diez personas se juntaren a oyr esta
    Comedia en quien quepa esta differencia de condiciones como suele
    acaescer: quien negara que aya contienda en cosa que de tantas
    maneras se entienda: que avn los impressores han dado sus punturas
    poniendo rubricas: o sumarios al principio de cada auto narrando
    en breue lo que dentro contenia: vna cosa bien escusada segun lo
    que los antiguos scriptores vsaron. Otros han litigado sobre el
    nombre: diziendo que no se auia de llamar Comedia: pues acabaua en
    tristeza: sino que se llamasse Tragedia. El primer autor quiso
    darle denominacion del principio que fue plazer e llamola Comedia.
    yo viendo estas discordias entre estos estremos parti agora por
    medio la porfia: e llamela Tragicomedia. Assi que viendo estas
    conquistas: estos dissonos e varios juyzios: mire a donde la mayor
    parte acostaua e halle que querian que se alargasse en el processo
    de su deleyte destos amantes. sobre lo qual fuy muy importunado de
    manera que acorde avnque contra mi voluntad meter segunda vez la
    pluma en tan estrana lauor e tan agena de mi facultad: hurtando
    algunos ratos a mi principal estudio con otras horas destinadas
    para recreacion: puesto que no han de faltar nueuos detractores a
    la nueua adicion."

    SIGUESE LA COMEDIA "O TRAGICOMEDIA"
    DE CALISTO Y MELIBEA: COMPUESTA EN REPREHENSION DE LOS LOCOS
    ENAMORADOS QUE VENCIDOS EN SU DESORDENADO APETITO A SUS AMIGAS
    LLAMAN E DIZEN SER SU DIOS. ASSI MISMO FECHA EN AUISO DE LOS
    ENGANOS DE LAS ALCAHUETAS E MALOS Y LISONJEROS SIRUIENTES.

    ARGUMENTO.

    Calisto fue de noble linaje: de claro ingenio: de gentil
    disposicion: de linda crianza: dotado de muchas gracias, de estado
    mediano: fue preso en el amor de Melibea, muger moza, muy
    generosa, de alta y serenissima sangre: sublimada en prospero
    estado, vna sola heredera a su padre Pleberio: y de su madre Alisa
    muy amada: por solicitud del pungido Calisto vencido el casto
    proposito della: entreueniendo Celestina mala y astuta muger con
    dos seruientes del vencido Calisto enganados, e por esta tornados
    desleales: presa su fidelidad con anzuelo de cobdicia y de
    deleyte, vinieron los amantes e los que les ministraron en amargo
    e desastrado fin. Para comienzo de lo qual dispuso el aduersa
    fortuna lugar oportuno donde a la presencia de Calisto se presento
    la deseada Melibea.

    ARGUMENTO
    DEL PRIMER AUTO DESTA COMEDIA.

    Entrando Calisto vna huerta empos de un falcon suyo hallo y a
    Melibea de cuyo amor preso comenzole de hablar: de la qual
    rigorosamente despedido: fue para su casa muy sangustiado. hablo
    con vn criado suyo llamado Sempronio. el qual despues de muchas
    razones le enderezo a vna vieja llamada Celestina: en cuya casa
    tenia el mesmo criado vna enamorada llamada Elicia: la qual
    viniendo Sempronio a casa de Celestina con el negocio de su amo
    tenia a otro consigo llamado Crito: al qual escondieron.
    Entretanto que Sempronio esta negociando con Celestina: Calisto
    esta razonando con otro criado suyo por nombre Parmeno: el qual
    razonamiento dura fasta que llega Sempronio e Celestina a casa de
    Calisto. Parmeno fue conoscido de Celestina: la qual mucho le
    dize de los fechos e conoscimiento de su madre induziendole a amor
    e concordia de Sempronio.

    CALISTO. MELIBEA. SEMPRONIO. CELESTINA. ELICIA. CRITO.
    PARMENO.

    CALISTO.–En esto veo, Melibea, la grandeza de dios.
    MELIBEA.–en que, Calisto?
    CAL.–en dar poder a natura que de tan perfeta hermosura te
    dotasse: e fazer a mi inmerito tanta merced que verte alcanzasse:
    e en tan conueniente lugar que mi secreto dolor manifestarte
    pudiesse. sin dubda encomparablemente es mayor tal galardon que el
    seruicio: sacrificio: deuocion e obras pias que por este lugar
    alcanzar tengo yo a dios ofrescido. Ni otro poder mi voluntad
    humana puede conplir. quien vido en esta vida cuerpo glorificado
    de ningun hombre como agora el mio? Por cierto los gloriosos
    sanctos que se deleytan en la vision diuina no gozan mas que yo
    agora en el acatamiento tuyo. Mas, o triste, que en esto
    deferimos: que ellos puramente se glorifican sin temor de caer de
    tal bienauenturanza: e yo misto me alegro con recelo del esquiuo
    tormento que tu absencia me ha de causar.
    MELIB.–por grand premio tienes esto, Calisto?
    CAL.–tengolo por tanto en verdad, que si dios me diesse en el
    cielo la silla sobre sus sanctos, no lo ternia por tanta
    felicidad.
    MELIB.–pues avn mas ygual galardon te dare yo, si perseueras.
    CAL.–o bienauenturadas orejas mias, que indignamente tan gran
    palabra haueys oydo.
    MELIB.–mas desauenturadas de que me acabes de oyr: porque la paga
    sera tan fiera qual la merece tu loco atreuimiento; e el intento
    de tus palabras, Calisto, ha seydo: de ingenio de tal hombre como
    tu, hauer de salir para se perder en la virtud de tal muger como
    yo. Vete, vete de ay, torpe: que no puede mi paciencia tollerar
    que aya subido en corazon humano comigo el ylicito amor comunicar
    su deleyte.
    CAL.–yre como aquel contra quien solamente la aduersa fortuna
    pone su estudio con odio cruel. Sempronio: Sempronio: Sempronio:
    donde esta este maldito?
    SEMPRONIO.–aqui estoy, senor, curando destos cauallos.
    CAL.–pues como sales de la sala?
    SEMP.–abatiose el girifalte, e vinele enderezar en el alcandara.
    CAL.–assi los diablos te ganen: assi por infortunio arrebatado
    perezcas / o perpetuo intollerable tormento consigas: el qual en
    grado incomparable a la penosa e desastrada muerte que espero
    traspassa. Anda, anda, maluado, abre la camara e endereza la
    cama.
    SEMP.–senor, luego. hecho es.
    CAL.–cierra la ventana e dexa la tiniebla acompanar al triste, e
    al desdichado la ceguedad: mis pensamientos tristes no son dignos
    de luz. O bienauenturada muerte aquella que deseada a los
    afligidos viene. O si viniessedes agora, Eras e Crato, medicos,
    sentiriades mi mal. O piedad de silencio, inspira en el Pleberico
    corazon: porque sin esperanza de salud no embie el espiritu
    perdido con el desastrado Piramo e de la desdichada Tisbe.
    SEMP.–que cosa es?
    CAL.–vete de ay, no me fables: sino quiza ante del tiempo de mi
    rabiosa muerte mis manos causaran tu arrebatado fin.
    SEMP.–yre, pues solo quieres padecer tu mal.
    CAL.–ve con el diablo.
    SEMP.–no creo, segun pienso, yr comigo el que contigo queda. O
    desauentura. O subito mal: qual fue tan contrario acontescimiento
    que assi tan presto robo el alegria deste hombre: e lo que peor
    es, junto con ella el seso? dexarle he solo? o entrare alla? Si
    le dexo, matarse ha. si entro alla, matarme ha. Quedese, no me
    curo: mas vale que muera aquel a quien es enojosa la vida: que no
    yo, que huelgo con ella. Avnque por al no deseasse viuir: sino
    por ver a mi Elicia me deuria guardar de peligros. pero si se
    mata sin otro testigo: yo quedo obligado a dar cuenta de su vida.
    Quiero entrar. Mas puesto que entre, no quiere consolacion ni
    consejo. asaz es senal mortal no querer sanar. Con todo,
    quierole dexar vn poco: desbraue. madure. que oydo he dezir que
    es peligro abrir o apremiar las postemas duras: porque mas se
    enconan. este vn poco. dexemos llorar al que dolor tiene: que
    las lagrimas e sospiros mucho desenconan el corazon dolorido. E
    avn si delante me tiene, mas comigo se encendera. que el sol mas
    arde donde puede reuerberar. la vista a quien objecto no se
    antepone, cansa: e quando aquel es cerca, aguzase: por esso
    quierome sofrir vn poco: si entretanto se matare: muera. quiza
    con algo me quedare que otro no lo sabe: con que mude el pelo
    malo. Avnque malo es esperar salud en muerte agena. Y quiza me
    engana el diablo: e si muere matarme han: e yran alla la soga e el
    calderon. Por otra parte dizen los sabios que es grande descanso
    a los afligidos tener con quien puedan sus cuytas llorar. Y que
    la llaga interior mas empece. Pues en estos estremos en que estoy
    perplexo: lo mas sano es entrar e sofrirle e consolarle: porque si
    possible es sanar sin arte ni aparejo: mas ligero es guarescer por
    arte: e por cura.
    CAL.–Sempronio.
    SEMP.–senor.
    CAL.–dame aca el laud.
    SEMP.–senor, vesle aqui.
    CAL.–qual dolor puede ser tal:
    que se yguale con mi mal?
    SEMP.–destemplado esta esse laud.
    CAL.–como templara el destemplado? como sentira el armonia aquel
    que consigo esta tan discorde? aquel a quien la voluntad a la
    razon no obedece? quien tiene dentro del pecho aguijones, paz:
    guerra: tregua: amor: enemistad: injurias, pecados: sospechas,
    todo a vna causa? Pero tane e canta la mas triste cancion que
    sepas.
    SEMP.–mira Nero de Tarpeya
    a Roma como se ardia:
    gritos dan ninos e viejos:
    e el de nada se dolia.
    CAL.–mayor es mi fuego: e menor la piedad de quien yo agora digo.
    SEMP.–no me engano yo, que loco esta este mi amo.
    CAL.–que estas murmurando, Sempronio?
    SEMP.–no digo nada.
    CAL.–di lo que dizes, no temas.
    SEMP.–digo que como puede ser mayor el fuego que atormenta vn
    viuo, que el que quemo tal cibdad e tanta multitud de gente?
    CAL.–como? yo te lo dire: mayor es la llama que dura ochenta
    anos que la que en vn dia passa: e mayor la que mata vna anima que
    la que quema cient mill cuerpos. Como de la aparencia a la
    existencia: como de lo viuo a lo pintado: como de la sombra a lo
    real: tanta diferencia ay del fuego que dizes al que me quema.
    Por cierto si el del purgatorio es tal: mas querria que mi spiritu
    fuesse con los de los brutos animales: que por medio de aquel yr a
    la gloria de los sanctos.
    SEMP.–algo es lo que digo. a mas ha de yr este hecho: no basta
    loco, sino ereje.
    CAL.–no te digo que fables alto quando fablares? Que dizes?
    SEMP.–digo que nunca dios quiera tal: que es especie de heregia
    lo que agora dixiste.
    CAL.–porque?
    SEMP.–porque lo que dizes contradize la cristiana religion.
    CAL.–que a mi?
    SEMP.–tu no eres cristiano?
    CAL.–yo? Melibeo soy. e a Melibea adoro e en Melibea creo: e a
    Melibea amo.
    SEMP.–tu te lo diras. como Melibea es grande: no cabe en el
    corazon de mi amo: que por la boca le sale a borbollones. No es
    mas menester: bien se de que pie coxqueas: yo te sanare.
    CAL.–increyble cosa prometes.
    SEMP.–antes facil. Que el comienzo de la salud es conoscer
    hombre la dolencia del enfermo.
    CAL.–qual consejo puede regir lo que en si no tiene orden ni
    consejo?
    SEMP.–ha ha ha. esto es el fuego de Calisto? Estas son sus
    congoxas? Como si solamente el amor contra el asestara sus tiros.
    O soberano dios, quan altos son tus misterios. Quanta premia
    pusiste en el amor: que es necessaria turbacion en el amante. Su
    limite posiste por marauilla: paresce al amante que atras queda.
    todos passan, todos rompen: pungidos e esgarrochados como ligeros
    toros: sin freno saltan por las barreras. Mandaste al hombre por
    la muger dexar el padre e la madre: agora no solo aquello, mas a
    ti e a tu ley desamparan, como agora Calisto, del qual no me
    marauillo: pues los sabios, los santos, los profetas por el te
    oluidaron.
    CAL.–Sempronio.
    SEMP.–senor.
    CAL.–no me dexes.
    SEMP.–de otro temple esta esta gayta.
    CAL.–que te paresce de mi mal?
    SEMP.–que amas a Melibea.
    CAL.–e no otra cosa?
    SEMP.–harto mal es tener la voluntad en vn solo lugar catiua.
    CAL.–poco sabes de firmeza.
    SEMP.–la perseuerancia en el mal no es constancia mas dureza / o
    pertinacia la llaman en mi tierra. Vosotros los filosofos de
    Cupido llamalda como quisierdes.
    CAL.–torpe cosa es mentir "el" que ensena a otro; pues que tu te
    precias de loar a tu amiga Elicia.
    SEMP.–haz tu lo que bien digo: y no lo que mal hago.
    CAL.–que me reprobas?
    SEMP.–que sometes la dignidad del hombre a la imperfecion de la
    flaca muger.
    CAL.–muger? o grossero: dios, dios!
    SEMP.–e assi lo crees, o burlas?
    CAL.–que burlo? por dios la creo: por dios la confiesso: e no
    creo que ay otro soberano en el cielo, avnque entre nosotros mora.
    SEMP.–ha ha ha. oystes que blasfemia? vistes que ceguedad?
    CAL.–de que te ries?
    SEMP.–riome: que no pensaua que hauia peor inuencion de pecado
    que en Sodoma.
    CAL.–como?
    SEMP.–porque aquellos procuraron abominable vso con los angeles
    no conocidos: e tu con el que confiessas ser dios.
    CAL.–maldito seas, que fecho me has reyr, lo que no pense ogano.
    SEMP.–pues que: toda tu vida auias de llorar?
    CAL.–si.
    SEMP.–porque?
    CAL.–porque amo a aquella, ante quien tan indigno me hallo: que
    no la espero alcanzar.
    SEMP.–o pusilanimo: o fideputa! que Nembrot: que magno
    Alexandre: los quales no solo del senorio del mundo: mas del cielo
    se juzgaron ser dignos.
    CAL.–no te oy bien esso que dixiste; torna, dilo, no procedas.
    SEMP.–dixe que tu, que tienes mas corazon que Nembrot ni
    Alexandre, desesperas de alcanzar vna muger. muchas de las quales
    en grandes estados constituydas se sometieron a los pechos e
    resollos de viles azemileros: e otras a brutos animales: no has
    leydo de Pasife con el toro? de Minerua con el can?
    CAL.–no lo creo, hablillas son.
    SEMP.–lo de tu abuela con el ximio, hablilla fue? testigo es el
    cuchillo de tu abuelo.
    CAL.–maldito sea este necio, e que porradas dize.
    SEMP.–escoziote? lee los ystoriales: estudia los filosofos: mira
    los poetas: llenos estan los libros de sus viles e malos exemplos:
    e de las caydas que leuaron los que en algo, como tu, las
    reputaron. Oye a Salomon: do dize que las mugeres e el vino hazen
    a los hombres renegar. consejate con Seneca e veras en que las
    tiene. escucha al Aristoteles: mira a Bernardo: gentiles: judios:
    cristianos: e moros: todos en esta concordia estan. Pero lo dicho
    e lo que dellas dixere: no te contezca error de tomarlo en comun,
    que muchas houo: y ay sanctas e virtuosas e notables cuya
    resplandesciente corona quita el general vituperio. Pero destas
    otras, quien te contaria sus mentiras: sus trafagos: sus cambios:
    su liuiandad: sus lagrimillas: sus alteraciones: sus osadias? que
    todo lo que piensan, osan sin deliberar: sus dissimulaciones: su
    lengua: su engano: su oluido: su desamor: su ingratitud: su
    inconstancia: su testimoniar: su negar: su reboluer: su
    presuncion: su vanagloria: su abatimiento: su locura: su desden:
    su soberuia: su subjecion: su parleria: su golosina: su luxuria e
    suziedad. su miedo: su atreuimiento: sus hechizerias: sus
    embaymientos: sus escarnios: su deslenguamiento: su desuerguenza:
    su alcahueteria. Considera que sesito esta debaxo de aquellas
    grandes e delgadas tocas: que pensamientos so aquellas gorgueras:
    so aquel fausto: so aquellas largas e autorizantes ropas. Que
    imperficion: que aluanares debaxo de templos pintados. Por ellas
    es dicho: arma del diablo: cabeza de pecado: destruycion de
    parayso. No has rezado en la festiuidad de Sant Juan baptista, do
    dize: las mugeres e el vino hazen los hombres renegar: do dize
    esta es la muger, antigua malicia que a Adam echo de los deleytes
    de parayso? Esta el linaje humano metio en el infierno. A esta
    menosprecio Helias propheta &c.?
    CAL.–di pues, esse Adam. esse Salomon. esse Dauid. esse
    Aristoteles. esse Vergilio. essos que dizes, como se sometieron a
    ellas: soy mas que ellos?
    SEMP.–a los que las vencieron querria que remedasses: que no a
    los que dellas fueron vencidos. Huye de sus enganos. Sabes que
    fazen? cosa que es dificil entenderlas. No tienen modo. no razon.
    no intencion. Por rigor comienzan el ofrescimiento que de si
    quieren hazer. A los que meten por los agujeros: denuestan en la
    calle. Combidan. despiden. llaman. niegan. senalan amor.
    pronuncian enemiga. Ensananse presto. apaciguanse luego. Quieren
    que adeuinen lo que quieren. O que plaga. o que enojo. o que
    fastio es conferir con ellas: mas de aquel breue tiempo que son
    aparejadas "a" deleyte.
    CAL.–ve; mientra mas me dizes e mas inconuenientes me pones: mas
    la quiero: no se que se es.
    SEMP.–no es este juyzio para mozos segun veo: que no se saben a
    razon someter: no se saben administrar: miserable cosa es pensar
    ser maestro el que nunca fue discipulo.
    CAL.–y tu que sabes? quien te mostro esto?
    SEMP.–quien? ellas; que desque se descubren, assi pierden la
    verguenza: que todo esto e avn mas a los hombres manifiestan.
    Ponte pues en la medida de honrra: piensa ser mas digno de lo que
    te reputas. Que cierto peor estremo es dexarse hombre caer de su
    merescimiento: que ponerse en mas alto lugar que deue.
    CAL.–pues quien yo para esso?
    SEMP.–quien? lo primero eres hombre: e de claro ingenio: e mas,
    a quien la natura doto de los mejores bienes que tuuo. Conuiene a
    saber: fermosura. gracia. grandeza de miembros. fuerza. ligereza.
    e allende desto, fortuna medianamente partio contigo lo suyo: en
    tal quantidad: que los bienes que tienes de dentro con los de
    fuera resplandescen: porque sin los bienes de fuera, de los quales
    la fortuna es senora: a ninguno acaece en esta vida ser
    bienauenturado: e mas, a constelacion de todos eres amado.
    CAL.–pero no de Melibea. E en todo lo que me as gloriado,
    Sempronio: sin proporcion ni comparacion se auentaja Melibea.
    Miras la nobleza e antiguedad de su linaje? El grandissimo
    patrimonio? el excelentissimo ingenio? las resplandescientes
    virtudes? la altitud e enefable gracia? la soberana hermosura? de
    la qual te ruego me dexes hablar vn poco: porque aya algun
    refrigerio. Y lo que te dixere sera de lo descubierto: que si de
    lo oculto yo hablarte supiera: no nos fuera necessario altercar
    tan miserablemente estas razones.
    SEMP.–que mentiras e que locuras dira agora este cautiuo de mi
    amo?
    CAL.–como es esso?
    SEMP.–dixe que digas, que muy gran plazer haure de lo oyr. Assi
    te medre dios: como me sera agradable esse sermon.
    CAL.–que?
    SEMP.–que assi me medre dios como me sera gracioso de oyr.
    CAL.–pues porque ayas plazer: yo lo figurare por partes mucho por
    estenso.
    SEMP.–duelos tenemos: esto es tras lo que yo andaua. De passarse
    haura ya esta importunidad.
    CAL.–comienzo por los cabellos. Vees tu las madexas del oro
    delgado que hilan en Arabia? mas lindos son e no resplandescen
    menos: su longura hasta el postrero assiento de sus pies: despues
    crinados e atados con la delgada cuerda como ella se los pone: no
    ha mas menester para conuertir los hombres en piedras.
    SEMP.–mas en asnos.
    CAL.–que dizes?
    SEMP.–dixe que essos tales no serian cerdas de asno.
    CAL.–veed que torpe e que comparacion?
    SEMP.–tu cuerdo?
    CAL.–los ojos verdes rasgados: las pestanas luengas: las cejas
    delgadas e alzadas: la nariz mediana: la boca pequena: los dientes
    menudos e blancos: los labrios colorados e grosezuelos: el torno
    del rostro poco mas luengo que redondo: el pecho alto: la
    redondeza e forma de las pequenas tetas: quien te la podra
    figurar? que se despereza el hombre quando las mira. la tez lisa
    lustrosa. el cuero suyo escurece la nieue: la color mezclada qual
    ella la escogio para si.
    SEMP.–en sus treze esta este necio.
    CAL.–las manos pequenas en mediana manera: de dulce carne
    acompanadas: los dedos luengos, las vnas en ellos largas e
    coloradas que parescen rubies entre perlas. Aquella proporcion
    que veer yo no pude: no sin duda por el bulto de fuera juzgo
    incomparablemente ser mejor que la que Paris juzgo entre las tres
    deesas.
    SEMP.–has dicho?
    CAL.–quan breuemente pude.
    SEMP.–puesto que sea todo esso verdad: por ser tu hombre eres mas
    digno.
    CAL.–en que?
    SEMP.–en que ella es imperfeta: por el qual defeto desea e
    apetece a ti e a otro menor que tu. No as leydo el filosofo do
    dize: assi como la materia apetece a la forma: asi la muger al
    varon?
    CAL.–o triste, e quando vere yo esso entre mi e Melibea.
    SEMP.–possible es: y avnque la aborrezcas quanto agora la amas:
    podra ser alcanzandola: e viendola con otros ojos libres del
    engano en que agora estas.
    CAL.–con que ojos?
    SEMP.–con ojos claros.
    CAL.–e agora, con que la veo?
    SEMP.–con ojos de alinde: con que lo poco parece mucho, e lo
    pequeno grande. E porque no te desesperes: yo quiero tomar esta
    empresa de complir tu desseo.
    CAL.–o dios te de lo que desseas: que glorioso me es oyrte:
    avnque no espero que lo has de hazer.
    SEMP.–antes lo hare cierto.
    CAL.–dios te consuele. El jubon de brocado que ayer vesti,
    Sempronio, vistetele tu.
    SEMP.–prosperete dios por este e por muchos mas que me daras. De
    la burla yo me lleuo lo mejor: con todo, si destos aguijones me
    da, traergela he hasta la cama. Bueno ando! hazelo esto que me
    dio mi amo: que sin merced, impossible es obrarse bien ninguna
    cosa.
    CAL.–no seas agora negligente.
    SEMP.–no lo seas tu: que impossible es fazer sieruo diligente el
    amo perezoso.
    CAL.–como has pensado de fazer esta piedad?
    SEMP.–yo te lo dire. Dias ha grandes que conozco en fin desta
    vezindad vna vieja barbuda que se dize Celestina, hechizera,
    astuta, sagaz en quantas maldades ay. Entiendo que passan de
    cinco mill virgos: los que se han hecho e deshecho por su
    auctoridad en esta cibdad. A las duras penas promouera e
    prouocara a luxuria si quiere.
    CAL.–podriala yo fablar?
    SEMP.–yo te la traere hasta aca. por esso aparejate. seyle
    gracioso: seyle franco. estudia, mientra vo yo, de le dezir tu
    pena: tan bien como ella te dara el remedio.
    CAL.–y tardas?
    SEMP.–ya voy: quede dios contigo.
    CAL.–y contigo vaya. O todopoderoso, perdurable dios! tu que
    guias los perdidos: e los reyes orientales por el estrella
    precedente a Belen truxiste: e en su patria los reduxiste:
    humilmente te ruego que guies a mi Sempronio: en manera que
    conuierta mi pena e tristeza en gozo: e yo indigno merezca venir
    en el deseado fin.
    CELESTINA.–albricias, albricias, Elicia. Sempronio, Sempronio.
    ELICIA.–ce. ce. ce.
    CEL.–porque?
    ELIC.–porque esta aqui Crito.
    CEL.–metelo en la camarilla de las escobas: presto: dile que
    viene tu primo e mi familiar.
    ELIC.–Crito, retraete ay: mi primo viene: perdida soy.
    CRITO.–plazeme, no te congoxes.
    SEMP.–madre bendita! que desseo traygo! gracias a dios que te
    me dexo ver.
    CEL.–fijo mio: rey mio, turbado me has: no te puedo fablar; torna
    e dame otro abrazo: y tres dias podiste estar sin vernos? Elicia,
    Elicia, catale aqui.
    ELIC.–a quien, madre?
    CEL.–Sempronio.
    ELIC.–ay triste! que saltos me da el corazon: y que es del?
    CEL.–vesle aqui: vesle. yo me lo abrazare, que no tu.
    ELIC.–ay! maldito seas, traydor: postema e landre te mate: e a
    manos de tus enemigos mueras: e por crimines dignos de cruel
    muerte: en poder de rigurosa justicia te veas! ay, ay!
    SEMP.–hy. hy. hy. que has, mi Elicia: de que te congoxas?
    ELIC.–tres dias ha no me ves. nunca dios te vea. nunca dios te
    consuele ni visite: guay de la triste que en ti tiene su esperanza
    e el fin de todo su bien.
    SEMP.–calla, senora mia: tu piensas que la distancia del lugar es
    poderosa de apartar el entranable amor: el fuego que esta en mi
    corazon? do yo vo, comigo vas: comigo estas: no te aflijas ni me
    atormentes mas de lo que yo he padecido: mas di, que passos suenan
    arriba?
    ELIC.–quien? vn mi enamorado.
    SEMP.- pues creolo.
    ELIC.–alahe, verdad es: sube alla e verle has.
    SEMP.- voy.
    CEL.–anda aca; dexa essa loca: que ella es liuiana: e turbada de
    tu absencia: sacasla agora de seso: dira mill locuras: ven e
    fablemos; no dexemos passar el tiempo en balde.
    SEMP.–pues quien esta arriba?
    CEL.–quiereslo saber?
    SEMP.-quiero.
    CEL.–vna moza que me encomendo vn frayle.
    SEMP.-que frayle?
    CEL.- no lo procures.
    SEMP.–por mi vida, madre, que frayle?
    CEL.–porfias? el ministro, el gordo.
    SEMP.–o desauenturada, e que carga espera.
    CEL.–todo lo leuamos: pocas mataduras as tu visto en la barriga.
    SEMP.–mataduras no: mas petreras si.
    CEL.–ay burlador.
    SEMP.–dexa si soy burlador: e muestramela.
    ELIC.–ha! don maluado, verla quieres? los ojos se te salten; que
    no basta a ti vna ni otra. anda! veela, e dexa a mi para siempre.
    SEMP.–calla, dios mio: e enojaste? que ni la quiero ver a ella
    ni a muger nascida. A mi madre quiero fablar: e quedate adios.
    ELIC.–anda, anda: vete, desconoscido: e esta otros tres anos que
    no me bueluas a ver.
    SEMP.–madre mia, bien ternas confianza, e creeras que no te
    burlo. Toma el manto, e vamos: que por el camino sabras lo que si
    aqui me tardasse en dezirte: empediria tu prouecho e el mio.
    CEL.–vamos: Elicia, quedate a dios: cierra la puerta: adios
    paredes.
    SEMP.–o madre mia: todas cosas dexadas aparte: solamente se
    atenta: e ymagina en lo que te dixere: e no derrames tu
    pensamiento en muchas partes: que quien junto en diuersos lugares
    le pone, en ninguno le tiene: sino por caso determina lo cierto.
    e quiero que sepas de mi lo que no has oydo. E es: que jamas pude
    despues que mi fe contigo puse: desear bien de que no te cupiesse
    parte.
    CEL.–parta dios, hijo, de lo suyo contigo. que no sin causa lo
    hara: siquiera porque has piedad desta pecadora de vieja. Pero
    di, no te detengas: que la amistad que entre ti e mi se afirma no
    ha menester preambulos: ni correlarios: ni aparejos para ganar
    voluntad. Abreuia e ven al fecho: que vanamente se dize por
    muchas palabras: lo que por pocas se puede entender.
    SEMP.–assi es; Calisto arde en amores de Melibea: de ti e de mi
    tiene necessidad: pues juntos nos ha menester: juntos nos
    aprouechemos. que conoscer el tiempo e vsar el hombre de la
    oportunidad haze los hombres prosperos.
    CEL.–bien has dicho: al cabo estoy: basta para mi mescer el ojo.
    Digo que me alegro destas nueuas: como los cirujanos de los
    descalabrados. E como aquellos danan en los principios las
    llagas: e encarecen el prometimiento de la salud: assi entiendo yo
    fazer a Calisto: alargarle he la certenidad del remedio. Porque,
    como dizen. El esperanza luenga aflige el corazon. y quanto el la
    perdiere, tanto gela promete. bien me entiendes.
    SEMP.–callemos: que a la puerta estamos: e como dizen: las
    paredes han oydos.
    CEL.–llama.
    SEMP.–tha. tha. tha.
    CAL.–Parmeno.
    PARMENO.–senor.
    CAL.–no oyes: maldito sordo?
    PARM.–que es, senor?
    CAL.–a la puerta llaman; corre.
    PARM.–quien es?
    SEMP.–abre a mi e a esta duena.
    PARM.–senor, Sempronio e vna puta vieja alcoholada dauan aquellas
    porradas.
    CAL.–calla, calla, maluado: que es mi tia. corre, corre, abre.
    siempre lo vi, que por huyr hombre de vn peligro: cae en otro
    mayor. Por encubrir yo este fecho de Parmeno: a quien amor / o
    fidelidad / o temor pusieran freno, cay en indignacion desta que
    no tiene menor poderio en mi vida que dios.
    PARM.–porque, senor, te matas? porque, senor, te congoxas? y tu
    piensas que es vituperio en las orejas desta el nombre que la
    llame? no lo creas: que assi se glorifica en le oyr como tu quando
    dizen: diestro cauallero es Calisto. E demas desto es nombrada e
    por tal titulo conocida. Si entre cient mugeres va, e alguno
    dize, puta vieja: sin ningun empacho luego buelue la cabeza: e
    responde con alegre cara. En los conbites: en las fiestas: en las
    bodas: en las confradias, en los mortuorios, en todos los
    ayuntamientos de gentes: con ella passan tiempo: si passa por los
    perros: aquello suena su ladrido. si esta cerca las aues, otra
    cosa no cantan. si cerca los ganados, balando lo pregonan; si
    cerca las bestias, rebuznando dizen puta vieja. las ranas de los
    charcos otra cosa no suelen mentar. si va entre los herreros:
    aquello dizen sus martillos. carpinteros e armeros. herradores:
    caldereros; arcadores. Todo oficio de instrumento forma en el
    ayre su nombre. Cantanla los carpinteros. peynanla los
    peynadores. texedores. labradores. en las huertas. en las
    aradas. en las vinas. en las segadas: con ella passan el afan
    cotidiano. al perder en los tableros. luego suenan sus loores
    todas cosas que son hazen. a do quiera que ella esta el tal
    nombre representa. O que comedor de hueuos asados era su marido.
    Que quieres mas: sino que si vna piedra toca con otra: luego suena
    puta vieja.
    CAL.–y tu como lo sabes y la conosces?
    PARM.–saberlo has. Dias grandes son passados que mi madre, muger
    pobre, moraua en su vezindad: la qual, rogada por esta Celestina,
    me dio a ella por siruiente: avnque ella no me conoce por lo poco
    que la serui: e por la mudanza que la edad ha hecho.
    CAL.–de que la seruias?
    PARM.–senor, yua a la plaza e trayale de comer: e acompanauala:
    suplia en aquellos menesteres que mi tierna fuerza bastaua. pero
    de aquel poco tiempo que la serui: recogia la nueua memoria lo que
    la vejez no ha podido quitar. Tiene esta buena duena al cabo de
    la ciudad, alla cerca de las tenerias: en la cuesta del rio: vna
    casa apartada, medio cayda, poco compuesta e menos abastada. Ella
    tenia seys oficios. conuiene a saber: labrandera, perfumera,
    maestra de fazer afeytes e de fazer virgos, alcahueta e vn poquito
    hechizera. Era el primer oficio cobertura de los otros: so color
    del qual muchas mozas destas siruientes entrauan en su casa: a
    labrarse e a labrar camisas e gorgueras: e otras muchas cosas.
    ninguna venia sin torrezno: trigo: harina: o jarro de vino: e de
    las otras prouisiones que podian a sus amas furtar: e avn otros
    furtillos de mas qualidad alli se encubrian. Asaz era amiga de
    estudiantes: e despenseros: e mozos de abades. E a estos vendia
    ella aquella sangre innocente de las cuytadillas: la qual
    ligeramente auenturauan en esfuerzo de la restitucion que ella les
    prometia. Subio su fecho a mas: que por medio de aquellas:
    comunicaua con las mas encerradas: hasta traer a execucion su
    proposito: e aquestas en tiempo onesto: como estaciones,
    processiones de noche, missas del gallo: missas del alua: e otras
    secretas deuociones, muchas encubiertas vi entrar en su casa: tras
    ellas hombres descalzos, contritos, e rebozados, desatacados: que
    entrauan alli a llorar sus pecados. que trafagos, si piensas,
    traya. faziase fisica de ninos. tomaua estambre de vnas casas:
    daualo a filar en otras por achaque de entrar en todas. las vnas,
    madre aca: las otras, madre aculla. cata la vieja, ya viene el
    ama; de todos muy conocida. Con todos estos afanes, nunca pasaua
    sin missa ni bisperas: ni dexaua monesterios de frayles: ni de
    monjas. esto porque alli fazia ella sus aleluyas e conciertos. y
    en su casa fazia perfumes, falsaua estoraques, menjuy, animes,
    ambar, algalia, poluillos, almizcles, mosquetes. Tenia vna camara
    llena de alambiques, de redomillas, de barrilejos de barro: de
    vidrio: de arambre: de estano: hechos de mill faziones. hazia
    soliman, afeyte cozido, argentadas, bujelladas, cerillas,
    llanillas, vnturillas, lustres, luzentores, clarimientes,
    alualinos. E otras aguas de rostro, de rasuras de gamones, de
    cortezas de spantalobos, de taraguntia, de hieles, de agraz, de
    mosto, destiladas e azucaradas. Adelgazaua los cueros con zumos
    de limones, con turuino, con tuetano de corzo: e de garza: e otras
    confaciones. Sacaua aguas para oler de rosas, de azahar: de
    jasmin, de trebol, de madreselua, e clauellinas, mosquetas e
    almizcladas, poluorizadas con vino. Hazia lexias para enrubiar,
    de sarmientos, de carrasca, de centeno, de marrubios, con salitre,
    con alumbre, e millifolia, e otras diuersas cosas. E los vntos e
    mantecas que tenia es hastio de dezir: de vaca, de osso, de
    cauallos, e de camellos, de culebra, e de conejo, de vallena, de
    garza: e de alcarauan, e de gamo, e de gato montes, e de texon, de
    harda, de herizo, de nutria. Aparejos para banos, esto es vna
    marauilla: de las yeruas e rayzes que tenia en el techo de su casa
    colgadas: manzanilla e romero, maluauiscos, culantrillo,
    coronillas, flor de sauco e de mostaza, espliego. e laurel
    blanco, tortarosa e gramonilla, flor saluaje, e higueruela, pico
    de oro e hoja tinta. Los azeytes que sacaua para el rostro no es
    cosa de creer. de estoraque e de jazmin, de limon, de pepitas, de
    violetas, de menjuy, de alfocigos, de pinones, de granillo, de
    azofeyfas, de neguilla, de altramuzes, de aruejas, e de carillas,
    e de yerua paxarera. E vn poquillo de balsamo tenia ella en vna
    redomilla que guardaua para aquel rascuno que tiene por las
    narizes. Esto de los virgos, vnos fazia de bexiga: e otros curaua
    de punto. Tenia en vn tabladillo: en vna caxuela pintada, agujas
    delgadas de pelligeros: e hilos de seda encerados, e colgadas alli
    rayzes de hojaplasma e fuste sanguino, cebolla albarrana, e
    cepacauallo. Hazia con esto marauillas: que quando vino por aqui
    el embaxador frances: tres vezes vendio por virgen vna criada que
    tenia.
    CAL.–asi pudiera ciento.
    PARM.–si, santo dios. e remediaua por caridad muchas huerfanas e
    erradas que se encomendauan a ella. E en otro apartado tenia para
    remediar amores, e para se querer bien. Tenia huessos de corazon
    de cieruo: lengua de biuora, cabezas de codornizes: sesos de asno,
    tela de cauallo, mantillo de nino, haua morisca, guija marina,
    soga de ahorcado, flor de yedra, espina de erizo, pie de texo,
    granos de helecho, la piedra del nido del aguila, e otras mill
    cosas. Venian a ella muchos hombres e mugeres. e a vnos
    demandaua el pan do mordian. a otros de su ropa. a otros de sus
    cabellos. a otros pintaua en la palma letras con azafran. a
    otros con bermellon. a otros daua vnos corazones de cera llenos
    de agujas quebradas. e otras cosas en barro e en plomo hechas,
    muy espantables al ver. Pintaua figuras. dezia palabras en
    tierra. quien te podra dezir lo que esta vieja fazia? y todo era
    burla e mentira.
    CAL.–bien esta, Parmeno: dexalo para mas oportunidad. asaz soy
    de ti auisado: tengotelo en gracia; no nos detengamos: que la
    necessidad desecha la tardanza. Oye, aquella viene rogada: espera
    mas que deue: vamos, no se indigne. Yo temo: e el temor reduze la
    memoria: e a la prouidencia despierta. Sus; vamos, proueamos.
    Pero ruegote, Parmeno: la embidia de Sempronio, que en esto me
    sirue e complaze: no ponga impedimiento en el remedio de mi vida.
    que si para el houo jubon, para ti no faltara sayo. ni pienses
    que tengo en menos tu consejo e auiso: que su trabajo e obra.
    como lo espiritual sepa yo que precede a lo corporal: e que puesto
    que las bestias corporalmente trabajen mas que los hombres: por
    esso son pensadas e curadas: pero no amigas dellos: en la tal
    diferencia seras comigo en respeto de Sempronio: e so secreto
    sello, pospuesto el dominio: por tal amigo a ti me concedo.
    PARM.–quexome, Calisto, de la dubda de mi fidelidad e seruicio:
    por los prometimientos e amonestaciones tuyas. Quando me viste,
    senor, embidiar? o por ningun interesse ni resabio tu prouecho
    estorcer?
    CAL.–no te escandalizes: que sin dubda tus costumbres e gentil
    crianza en mis ojos: ante todos los que me siruen estan: mas como
    en caso tan arduo, do todo mi bien e vida pende: es necessario
    proueer. proueo a los contescimientos: como quiera que creo que
    tus buenas costumbres sobre buen natural florescen: como el buen
    natural sea principio del artificio. E no mas: sino vamos a ver
    la salud.
    CEL.–pasos oyo: aca descienden: haz, Sempronio, que no lo oyes.
    Escucha, e dexame hablar lo que a ti e a mi conuiene.
    SEMP.–habla.
    CEL.–no me congoxes, ni me importunes: que sobrecargar el cuydado
    es aguijar al animal congoxoso. Assi sientes la pena de tu amo
    Calisto que parece que tu eres el: e el tu: e que los tormentos
    son en vn mismo subjeto. Pues cree que yo no vine aca por dexar
    este pleyto indeciso: o morir en la demanda.
    CAL.–Parmeno? detente: ce, escucha, que hablan estos: veamos en
    que viuimos. O notable muger. o bienes mundanos, indignos de ser
    poseydos de tan alto corazon. O fiel e verdadero Sempronio. Has
    visto, mi Parmeno? oyste? tengo razon? que me dizes? rincon de
    mi secreto, e consejo e alma mia?
    PARM.–protestando mi innocencia en la primera sospecha: e
    cumpliendo con la fidelidad: porque te me concediste, hablare.
    oyeme: e el afecto no te ensorde: ni la esperanza del deleyte te
    ciegue. Tiemplate, e no te apresures: que muchos con cobdicia de
    dar en el fiel, yerran el blanco. Avnque soy mozo, cosas he visto
    asaz: e el seso e la vista de las muchas cosas demuestran la
    experiencia: de verte o de oyrte descender por la escalera, parlan
    lo que estos fingidamente han dicho: en cuyas falsas palabras
    pones el fin de tu deseo.
    SEMP.–Celestina, ruynmente suena lo que Parmeno dize.
    CEL.–calla, que para la mi santiguada: do vino el asno verna el
    albarda. Dexame tu a Parmeno: que yo te le hare vno de nos: e de
    lo que houieremos, demosle parte. que los bienes, si no son
    comunicados, no son bienes. Ganemos todos: partamos todos:
    holguemos todos: yo te le traere manso e benigno a picar el pan en
    el puno. e seremos dos a dos. e como dizen, tres al mohino.
    CAL.–Sempronio.
    SEMP.–senor.
    CAL.–que hazes, llaue de mi vida? abre. O Parmeno, ya la veo.
    Sano soy: viuo so. Miras que reuerenda persona: que acatamiento.
    Por la mayor parte, por la philosomia es conocida la virtud
    interior. O vejez virtuosa! o virtud enuejecida! O gloriosa
    esperanza de mi desseado fin. O fin de mi deleytosa esperanza. O
    salud de mi passion. Reparo de mi tormento. Regeneracion mia.
    Viuificacion de mi vida. Resurrecion de mi muerte. Deseo llegar a
    ti. Cobdicio besar essas manos llenas de remedio. la indignidad
    de mi persona lo embarga. Dende aqui adoro la tierra que huellas:
    e en reuerencia tuya beso.
    CEL.–Sempronio: de aquellas viuo yo? los huessos que yo roy
    piensa este necio de tu amo de darme a comer: pues al le sueno, al
    freyr lo vera: dile que cierre la boca e comience abrir la bolsa:
    que de las obras dudo: quanto mas de las palabras: xo, que te
    estriego: asna coxa, mas hauias de madrugar.
    PARM.–guay de orejas que tal oyen. Perdido es, quien tras
    perdido anda. O Calisto desauenturado, abatido, ciego: e en
    tierra esta adorando a la mas antigua e puta tierra: que fregaron
    sus espaldas en todos los burdeles. deshecho es. vencido es.
    caydo es. no es capaz de ninguna redencion, ni consejo, ni
    esfuerzo.
    CAL.–que dezia la madre? paresceme que pensaua que le ofrescia
    palabras por escusar galardon.
    SEMP.–assi lo senti.
    CAL.–pues ven comigo: trae las llaues, que yo sanare su duda.
    SEMP.–bien faras: e luego vamos: que no se deue dexar crescer la
    yerua entre los panes: ni la sospecha en los corazones de los
    amigos. Sino alimpiarla luego con el escardilla de las buenas
    obras.
    CAL.–astuto hablas: vamos, e no tardemos.
    CEL.–plazeme, Parmeno: que hauemos auido oportunidad para que
    conozcas el amor mio contigo: e la parte que en mi immerito
    tienes: e digo immerito por lo que te he oydo dezir: de que no
    hago caso; porque virtud nos amonesta sufrir las tentaciones: e no
    dar mal por mal. e especial quando somos tentados por mozos: e no
    bien instrutos en lo mundano, en que con necia lealtad pierdan a
    si e a sus amos: como agora tu a Calisto. bien te oy: e no
    pienses que el oyr con los otros exteriores sesos mi vejez aya
    perdido: que no solo lo que veo, oyo e conozco: mas avn lo
    intrinseco con los intellectuales ojos penetro. Has de saber,
    Parmeno, que Calisto anda de amor quexoso: e no lo juzgues por eso
    por flaco: que el amor imperuio todas las cosas vence. e sabe, si
    no sabes, que dos conclusiones son verdaderas. La primera, que es
    forzoso el hombre amar a la muger: e la muger al hombre. La
    segunda, que el que verdaderamente ama, es necessario que se
    turbe: con la dulzura del soberano deleyte: que por el hazedor de
    las cosas fue puesto: porque el linaje de los hombres perpetuase:
    sin lo qual peresceria. E no solo en la humana especie: mas en
    los pesces / en las bestias / en las aues / en las reptilias. E
    en lo vegetatiuo algunas plantas han este respeto: si sin
    interposicion de otra cosa en poca distancia de tierra estan
    puestas: en que ay determinacion de heruolarios e agricultores ser
    machos e hembras. Que diras a esto, Parmeno? neciuelo, loquito,
    angelico / perlica, simplezico, lobitos en tal gestico: llegate
    aca, putico, que no sabes nada del mundo / ni de sus deleytes.
    Mas rauia mala me mate si te llego a mi, avnque vieja: que la voz
    tienes ronca, las barbas te apuntan: mal sosegadilla deues tener
    la punta de la barriga.
    PAR.–como cola de alacran.
    CEL.–y avn peor: que la otra muerde sin hinchar: e la tuya hincha
    por nueue meses.
    PARM.–hy. hy. hy.
    CEL.–rieste: landrezilla, fijo?
    PARM.–calla, madre: no me culpes ni me tengas, avnque mozo, por
    insipiente. Amo a Calisto porque le deuo fidelidad por crianza:
    por beneficios: por ser del honrrado e bien tratado: que es la
    mayor cadena que el amor del seruidor al seruicio del senor
    prende: quanto lo contrario aparta. veole perdido, e no ay cosa
    peor que yr tras desseo sin esperanza de buen fin: e especial,
    pensando remediar su hecho tan arduo e dificil con vanos consejos
    e necias razones de aquel bruto Sempronio: que es pensar sacar
    aradores a pala e azadon: no lo puedo sufrir: digolo, e lloro.
    CEL.–Parmeno: tu no vees que es necedad o simpleza llorar por lo
    que con llorar no se puede remediar?
    PARM.–por esso lloro: que si con llorar fuesse possible traer a
    mi amo el remedio: tan grande seria el plazer de la tal esperanza:
    que de gozo no podria llorar. pero assi perdida ya la esperanza:
    pierdo el alegria e lloro.
    CEL.–lloraras sin prouecho: por lo que llorando estoruar no
    podras: ni sanarlo presumas. A otros no ha contecido esto,
    Parmeno?
    PARM.–si; pero a mi amo no le querria doliente.
    CEL.–no lo es: mas avnque fuesse doliente, podria sanar.
    PARM.–no curo de lo que dizes. porque en los bienes mejor es el
    acto que la potencia: e en los males mejor la potencia que el
    acto. assi que mejor es ser sano, que poderlo ser. e mejor es
    poder ser doliente, que ser enfermo por acto. e por tanto es
    mejor tener la potencia en el mal que el acto.
    CEL.–o maluado: como que no se te entiende! tu no sientes su
    enfermedad? que has dicho hasta agora? de que te quexas? pues
    burla, o di por verdad lo falso, e cree lo que quisieres: que el
    es enfermo por acto: e el poder ser sano es en mano desta flaca
    vieja.
    PARM.–mas desta flaca puta vieja.
    CEL.–putos dias biuas, vellaquillo: e como te atreues?
    PARM.–como te conozco.
    CEL.–quien eres tu?
    PARM.–quien? Parmeno, hijo de Alberto tu compadre: que estuue
    contigo vn mes: que te me dio mi madre quando morauas a la cuesta
    del rio, cerca de las tenerias.
    CEL.–Jesu. Jesu. Jesu. E tu eres Parmeno, hijo de la Claudiana?
    PARM.–alahe, yo.
    CEL.–pues fuego malo te queme: que tan puta vieja era tu madre
    como yo: porque me persigues, Parmenico? El es, el es, por los
    santos de dios. allegate a mi: ven aca, que mill azotes e punadas
    te di en este mundo: e otros tantos besos. Acuerdaste quando
    dormias a mis pies, loquito?
    PARM.–si, en buena fe: e algunas vezes, avnque era nino, me
    subias a la cabecera, e me apretauas contigo: e porque olias a
    vieja me fuya de ti.
    CEL.–mala landre te mate: e como lo dize el desuergonzado.
    Dexadas burlas e pasatiempos: oye agora, mi fijo, e escucha; que,
    avnque a vn fin soy llamada, a otro so venida: e maguera que
    contigo me aya fecho de nueuas, tu eres la causa. Hijo, bien
    sabes como tu madre, que dios aya, te me dio, viuiendo tu padre:
    el qual, como de mi te fueste, con otra ansia no murio, sino con
    la incertedumbre de tu vida e persona: por la qual absencia:
    algunos anos de su vejez sufrio angustiosa e cuydosa vida: e al
    tiempo que della passo, embio por mi: e en su secreto te me
    encargo: e me dixo sin otro testigo, sino aquel que es testigo de
    todas las obras e pensamientos: e los corazones e entranas
    escudrina: al qual puso entre el e mi que te buscasse, e
    allegasse, e abrigasse: e quando de complida edad fueses: tal que
    en tu viuir supieses tener manera e forma: te descubriesse adonde
    dexo encerrada tal copia de oro e plata que basta mas que la renta
    de tu amo Calisto. y porque gelo prometi, e con mi promessa lleuo
    descanso: e la fe es de guardar mas que a los viuos a los muertos,
    que no pueden hazer por si: en pesquisa e seguimiento tuyo yo he
    gastado asaz tiempo e quantias: hasta agora que ha plazido aquel
    que todos los cuydados tiene: e remedia las justas peticiones, e
    las piadosas obras endereza: que te hallase aqui, donde solos ha
    tres dias que se que moras: sin duda dolor he sentido: porque has
    por tantas partes vagado e peregrinado: que ni has hauido
    prouecho, ni ganado debdo ni amistad; que, como Seneca nos dize,
    Los peregrinos tienen muchas posadas e pocas amistades. Porque en
    breue tiempo con ninguno no pueden firmar amistad. E el que esta
    en muchos cabos no esta en ninguno. ni puede aprouechar el manjar
    a los cuerpos, que en comiendo se lanza. ni ay cosa que mas la
    sanidad impida que la diuersidad e mudanza e variacion de los
    manjares. e nunca la llaga viene a cicatrizar: en la qual muchas
    melezinas se tientan. ni conualesce la planta que muchas vezes es
    traspuesta. ni ay cosa tan prouechosa, que en llegando aproueche:
    por tanto, mi hijo, dexa los impetus de la juuentud: e tornate con
    la doctrina de tus mayores a la razon: reposa en alguna parte: e
    donde mejor que en mi voluntad? en mi animo: en mi consejo: a
    quien tus padres te remetieron? e yo assi como verdadera madre
    tuya te digo: so las maldiciones que tus padres te pusieron si me
    fuesses inobediente: que por el presente sufras e siruas a este tu
    amo que procuraste: hasta en ello hauer otro consejo mio: pero no
    con necia lealdad: proponiendo firmeza sobre lo mouible: como son
    estos senores deste tiempo. E tu, gana amigos, que es cosa
    durable: ten con ellos constancia. no viuas en flores. dexa los
    vanos prometimientos de los senores: los quales desechan la
    substancia de sus siruientes con huecos e vanos prometimientos:
    como la sanguijuela saca la sangre: desagradescen, injurian,
    oluidan seruicios, niegan galardon. Guay de quien en palacio
    enuejece: como se escriue de la probatica piscina: que de ciento
    que entrauan, sanaua vno. Estos senores deste tiempo mas aman a
    si, que a los suyos; e no yerran: los suyos ygualmente lo deuen
    hazer. perdidas son las mercedes, las magnificencias, los actos
    nobles. cada vno destos catiuan e mezquinamente procuran su
    interesse con los suyos: pues aquellos no deuen menos hazer: como
    sean en facultades menores, sino viuir a su ley: digolo, fijo
    Parmeno: porque este tu amo, como dizen, me parece rompenecios: de
    todos se quiere seruir sin merced: mira bien, creeme: en su casa
    cobra amigos, que es el mayor precio mundano: que con el no
    pienses tener amistad: como por la diferencia de los estados o
    condiciones pocas vezes contezca. Caso es ofrecido, como sabes,
    en que todos medremos: e tu por el presente te remedies: que lo al
    que te he dicho, guardado te esta a su tiempo: e mucho te
    aprouecharas siendo amigo de Sempronio.
    PARM.–Celestina: todo tremo en oyrte: no se que haga: perplexo
    esto: por vna parte tengote por madre: por otra a Calisto por amo.
    Riqueza desseo. pero quien torpemente sube a lo alto: mas ayna
    cae que subio. No querria bienes malganados.
    CEL.–yo si. A tuerto o a derecho, nuestra casa hasta el techo.
    PARM.–pues yo con ellos no viuiria contento: e tengo por onesta
    cosa la pobreza alegre. E avn mas te digo: que no los que poco
    tienen son pobres: mas los que mucho dessean: e por esto, avnque
    mas digas, no te creo en esta parte: querria passar la vida sin
    embidia: los yermos e aspereza sin temor: el sueno sin sobresalto:
    las injurias con respuesta: las fuerzas sin denuesto: las premias
    con resistencia.
    CEL.–o hijo, bien dizen que la prudencia no puede ser sino en los
    viejos: e tu mucho eres mozo.
    PARM.–mucho segura es la mansa pobreza.
    CEL.–mas di, como mayor: que la fortuna ayuda a los osados. e
    demas desto, quien que tenga bienes en la republica: que escoja
    viuir sin amigos? pues, loado dios, bienes tienes: e no sabes que
    has menester amigos para los conseruar? y no pienses que tu
    priuanza con este senor te haze seguro: que quanto mayor es la
    fortuna, tanto es menos segura: e por tanto, en los infortunios el
    remedio es a los amigos. E a donde puedes ganar mejor este debdo,
    que donde las tres maneras de amistad concurren? Conuiene a
    saber; por bien, e prouecho, e deleyte. Por bien, mira la
    voluntad de Sempronio conforme a la tuya: e la gran similitud que
    tu y el en la virtud teneys. Por prouecho, en la mano esta, si
    soys concordes. Por deleyte, semejable es: como seays en edad
    dispuestos para todo linaje de plazer: en que mas los mozos que
    los viejos se juntan. Assi como para jugar: para vestir: para
    burlar: para comer e beuer: para negociar amores, juntos de
    compania. O si quisiesses, Parmeno, que vida gozariamos.
    Sempronio ama a Elicia, prima de Areusa.
    PARM.–de Areusa?
    CEL.–de Areusa.
    PARM.–de Areusa, hija de Eliso?
    CEL.–de Areusa, hija de Eliso.
    PARM.–cierto?
    CEL.–cierto.
    PARM.–marauillosa cosa es.
    CEL.–pero bien te paresce?
    PARM.–no cosa mejor.
    CEL.–pues tu buena dicha quiere, aqui esta quien te la dara.
    PARM.–mi fe, madre, no creo a nadie.
    CEL.–estremo es creer a todos: e yerro no creer a ninguno.
    PARM.–digo que te creo: pero no me atreuo; dexame.
    CEL.–o mezquino: de enfermo corazon es no poder sufrir el bien.
    Da dios hauas a quien no tiene quixadas. O simple: diras que a
    donde ay mayor entendimiento: ay menor fortuna: e donde mas
    discrecion, alli es menor la fortuna: dichas son.
    PARM.–o Celestina! oydo he a mis mayores que vn exemplo de
    luxuria o auaricia mucho mal haze: e que con aquellos deue hombre
    conuersar, que le fagan mejor: e aquellos dexar, a quien el
    mejores piensa hazer. E Sempronio en su enxemplo no me hara
    mejor: ni yo a el sanare su vicio. E puesto que yo a lo que dizes
    me incline: solo yo querria saberlo: porque a lo menos por el
    exemplo fuese oculto el pecado. E si hombre vencido del deleyte
    de este mundo: va contra la virtud: no se atreua a la honestad.
    CEL.–sin prudencia hablas: que de ninguna cosa es alegre
    possession sin compania. No te retrayas ni amargues, que la
    natura huye lo triste: e apetece lo delectable. El buen deleyte
    es con los amigos en las cosas sensuales: e especial en recontar
    las cosas de amores: e comunicarlas. Esto hize: esto otro me
    dixo: tal donayre passamos: de tal manera la tome: assi la bese:
    assi me mordio: assi la abrace: assi se allego. O que fabla. o
    que gracia. o que juegos. o que besos. Vamos alla. boluamos
    aca. ande la musica. pintemos los motes. canten canciones.
    inuenciones. justemos. que cimera sacaremos: o que letra? ya va
    a la missa. manana saldra. rondemos su calle. mira su carta.
    vamos de noche. tenme el escala. aguarda a la puerta. como te
    fue? cata el cornudo, sola la dexa, dale otra buelta. tornemos
    alla. E para esto, Parmeno, ay deleyte sin compania? alahe:
    alahe: la que las sabe las tane. este es el deleyte: que lo al
    mejor fazen los asnos en el prado.
    PARM.–no querria, madre, me combidasses a consejo con
    amonestacion de deleyte: como hizieron los que, caresciendo de
    razonable fundamento: opinando hizieron sectas embueltas en dulce
    veneno: para captar e tomar las voluntades de los flacos: e con
    poluos de sabroso afeto cegaron los ojos de la razon.
    CEL.–que es razon, loco? que es afeto, asnillo? la discrecion
    que no tienes lo determina. E de la discrecion mayor es la
    prudencia. e la prudencia no puede ser sin esperimiento: e la
    esperiencia no puede ser mas que en los viejos. E los ancianos
    somos llamados padres. E los buenos padres bien aconsejan a sus
    hijos: e especial yo a ti: cuya vida e honrra mas que la mia
    deseo. E quando me pagaras tu esto? nunca: pues a los padres e a
    los maestros no puede ser fecho seruicio ygualmente.
    PARM.–todo me recelo, madre, de recebir dudoso consejo.
    CEL.–no quieres? pues dezirte he lo que dize el sabio al varon
    que con dura ceruiz al que le castiga menosprecia: arrebatado
    quebrantamiento le verna, e sanidad ninguna le consiguira. E
    assi, Parmeno, me despido de ti e deste negocio.
    PARM.–ensanada esta mi madre; duda tengo en su consejo. yerro es
    no creer: e culpa creerlo todo. Mas humano es confiar: mayormente
    en esta que interesse promete: ado prouecho no puede allende de
    amor conseguir. Oydo he que deue hombre a sus mayores creer:
    esta, que me aconseja? paz con Sempronio. La paz no se deue
    negar: que bienauenturados son los pacificos: que fijos de dios
    seran llamados. Amor no se deue rehuyr: caridad a los hermanos:
    interesse pocos le apartan. Pues quierola complazer y oyr.
    Madre: no se deue ensanar el maestro de la ignorancia del
    discipulo: sino raras vezes: por la sciencia que es de su natural
    comunicable: e en pocos lugares se podria infundir. Por eso,
    perdoname: hablame: que no solo quiero oyrte e creerte: mas en
    singular merced rescebir tu consejo. E no me lo agradezcas: pues
    el loor: e las gracias de la acion: mas al dante que no al
    recibiente se deuen dar. Por esso, manda, que a tu mandado mi
    consentimiento se humilla.
    CEL..–de los hombres es errar, e bestial es la porfia. Por ende
    gozome, Parmeno, que ayas limpiado las turbias telas de tus ojos:
    e respondido al reconoscimiento, discrecion e ingenio sotil de tu
    padre: cuya persona, agora representada en mi memoria: enternece
    los ojos piadosos por do tan abundantes lagrimas vees derramar.
    Algunas vezes duros propositos, como tu, defendia: pero luego
    tornaua a lo cierto. En dios e en mi anima, que en veer agora lo
    que has porfiado: e como a la verdad eres reduzido: no paresce
    sino que viuo le tengo delante. O que persona: o que hartura: o
    que cara tan venerable. Pero callemos, que se acerca Calisto, e tu
    nueuo amigo Sempronio: con quien tu conformidad para mas
    oportunidad dexo. Que dos en vn corazon viuiendo son mas
    poderosos de hazer e de entender.
    CALISTO.–dubda traygo, madre, segun mis infortunios, de hallarte
    viua. Pero mas es marauilla, segun el deseo de como llego viuo:
    recibe la dadiua pobre de aquel que con ella la vida te ofrece.
    CEL.–como en el oro muy fino labrado por la mano del sotil
    artifice: la obra sobrepuja a la materia: asi se auentaja a tu
    magnifico dar la gracia e forma de tu dulce liberalidad: e sin
    duda la presta dadiua su efeto ha doblado: porque la que tarda, el
    prometimiento muestra negar: e arrepentirse del don prometido.
    PARMENO.–que le dio, Sempronio?
    SEMP.–cient monedas de oro.
    PARM.–hy. hy. hy.
    SEMP.–hablo contigo la madre?
    PARM.–calla, que si.
    SEMP.–pues como estamos?
    PARM.–como quisieres: avnque estoy espantado.
    SEMP.–pues calla: que yo te hare espantar dos tanto.
    PARM.–o dios! no ay pestilencia mas eficaz: quel enemigo de casa
    para empecer.
    CALISTO.–ve agora, madre, e consuela tu casa: e despues ven,
    consuela la mia: e luego.
    CEL.–quede dios contigo.
    CAL.–y el te me guarde.

    ARGUMENTO
    DEL SEGUNDO AUTO.

    Partida Celestina de Calisto para su casa, queda Calisto hablando
    con Sempronio, criado suyo; al qual, como quien en alguna
    esperanza puesto esta, todo aguijar le parece tardanza; embia de
    si a Sempronio a solicitar a Celestina para el concebido negocio.
    quedan entretanto Calisto e Parmeno juntos razonando.

    CALISTO. SEMPRONIO. PARMENO.

    CAL.–Hermanos mios, cient monedas di a la madre: hize bien?
    SEMP.–hay, si fiziste bien! allende de remediar tu vida, ganaste
    muy gran honrra. Y para que es la fortuna fauorable e prospera?
    sino para seruir a la honrra, que es el mayor de los mundanos
    bienes? que esto es premio e galardon de la virtud: e por esso la
    damos a dios: porque no tenemos mayor cosa que le dar: la mayor
    parte de la qual consiste en la liberalidad e franqueza: a esta
    los duros tesoros comunicables la escurecen e pierden: e la
    magnificencia e liberalidad la ganan e subliman. Que aprouecha
    tener lo que se niega aprouechar? sin dubda te digo, que mejor es
    el vso de las riquezas que la possesion dellas. O que glorioso es
    el dar: o que miserable es el recebir: quanto es mejor el acto que
    la possesion: tanto es mas noble el dante quel recibiente. Entre
    los elementos el fuego, por ser mas actiuo, es mas noble: e en las
    esperas puesto en mas noble lugar. E dizen algunos, que la nobleza
    es vna alabanza que prouiene de los merecimientos e antiguedad de
    los padres: yo digo que la agena luz nunca te hara claro si la
    propia no tienes. E por tanto no te estimes en la claridad de tu
    padre, que tan magnifico fue, sino en la tuya: e assi se gana la
    honrra: que es el mayor bien de los que son fuera de hombre. de
    lo qual no el malo: mas el bueno, como tu, es digno que tenga
    perfeta virtud. E avn mas te digo que la virtud perfeta no pone
    que sea fecha con digno honor. Por ende goza de hauer seydo assi
    magnifico e liberal: e de mi consejo, tornate a la camara, e
    reposa, pues que tu negocio en tales manos esta depositado. de
    donde ten por cierto: pues el comienzo lleuo bueno: el fin sera
    muy mejor: e vamos luego: porque sobre este negocio quiero hablar
    contigo mas largo.
    CAL.–Sempronio, no me parece buen consejo quedar yo acompanado: e
    que vaya sola aquella que busca el remedio de mi mal: mejor sera
    que vayas con ella, e la aquexes: pues sabes que de su diligencia
    pende mi salud: de su tardanza mi pena: de su oluido mi
    desesperanza. sabido eres: fiel te siento. por buen criado te
    tengo. faz de manera que en solo verte ella a ti, juzgue la pena
    que a mi queda: e fuego que me atormenta: cuyo ardor me causo no
    poder mostrarle la tercia parte desta mi secreta enfermedad: segun
    tiene mi lengua e sentido ocupados e consumidos: tu, como hombre
    libre de tal passion: hablarla has a rienda suelta.
    SEMP.–senor, querria yr por complir tu mandado: querria quedar
    por aliuiar tu cuydado: tu temor me aquexa: tu soledad me detiene:
    quiero tomar consejo con la obediencia, que es yr: e dar priessa a
    la vieja: mas como yre: que en viendote solo, dizes desuarios de
    hombre sin seso? sospirando: gimiendo: mal trobando: holgando con
    lo escuro: deseando soledad: buscando nueuos modos de pensatiuo
    tormento: donde si perseueras / o de muerto / o loco no podras
    escapar: si siempre no te acompana quien te allegue plazeres: diga
    donayres: tanga canciones alegres: cante romances: cuente
    ystorias, pinte motes: finja cuentos: juegue a naypes: arme mates.
    finalmente que sepa buscar todo genero de dulce passatiempo: para
    no dexar trasponer tu pensamiento en aquellos crueles desuios que
    rescebiste de aquella senora en el primer trance de tus amores.
    CAL.–como, simple, no sabes que aliuia la pena llorar la causa?
    quanto es dulce a los tristes quexar su passion? quanto descanso
    traen consigo los quebrantados sospiros: quanto relieuan e
    disminuyen los lagrimosos gemidos el dolor: quantos escriuieron
    consuelos, no dizen otra cosa.
    SEMP.–lee mas adelante. buelue la hoja: fallaras que dizen que
    fiar en lo temporal, e buscar materia de tristeza, que es ygual
    genero de locura: e aquel Macias, ydolo de los amantes: del oluido
    porque le oluidaua, se quexaua: en el contemplar esta la pena de
    amor: en el oluidar el descanso: huye de tirar cozes al aguijon:
    finge alegria e consuelo e serlo ha: que muchas vezes la opinion
    trae las cosas donde quiere: no para que mude la verdad: pero para
    moderar nuestro sentido e regir nuestro juyzio.
    CAL.–Sempronio amigo, pues tanto sientes mi soledad: llama a
    Parmeno, quedara comigo: e de aqui adelante sey, como sueles,
    leal: que en el seruicio del criado esta el galardon del senor.
    PARM.–aqui estoy, senor.
    CAL.–yo no: pues no te veya. no te partas della, Sempronio, ni
    me oluides a mi: e ve con dios. tu, Parmeno, que te parece de lo
    que oy ha pasado? mi pena es grande / Melibea alta / Celestina
    sabia / e buena maestra destos negocios: no podemos errar: tu me
    la has aprouado con toda tu enemistad: yo te creo: que tanta es la
    fuerza de la verdad que las lenguas de los enemigos trae a si.
    assi que, pues ella es tal: mas quiero dar a esta cient monedas
    que a otra cinco.
    PARM.–ya las lloras: duelos tenemos: en casa se hauran de ayunar
    estas franquezas.
    CAL.–pues pido tu parecer, seyme agradable, Parmeno: no abaxes la
    cabeza al responder: mas como la embidia es triste: la tristeza
    sin lengua: puede mas contigo su voluntad que mi temor: que
    dixiste, enojoso?
    PARM.–digo, senor, que yrian mejor empleadas tus franquezas: en
    presentes e seruicios a Melibea: que no dar dineros aquella que yo
    me conozco: e lo que peor es, fazerte su catiuo.
    CAL.–como, loco, su catiuo?
    PARM.–porque a quien dizes el secreto, das tu libertad.
    CAL.–algo dize el necio: pero quiero que sepas: que quando ay
    mucha distancia del que ruega al rogado / o por grauedad de
    obediencia / o por senorio de estado / o esquiuidad de genero:
    como entre esta mi senora e mi: es necessario intercessor / o
    medianero que suba de mano en mano mi mensaje hasta los oydos de
    aquella a quien yo segunda vez hablar tengo por impossible; e
    pues que asi es: dime si lo fecho aprueuas?
    PARM.–aprueuelo el diablo.
    CAL.–que dizes?
    PARM.–digo, senor, que nunca yerro vino desacompanado: e que vn
    inconueniente es causa e puerta de muchos.
    CAL.–el dicho yo le aprueuo: el proposito no entiendo.
    PARM.–senor, porque perderse el otro dia el nebli fue causa de tu
    entrada en la huerta de Melibea a le buscar: la entrada causa de
    la ver e hablar: la habla engendro amor: el amor pario tu pena: la
    pena causara perder tu cuerpo / e alma / e hazienda: e lo que mas
    dello siento, es venir a manos de aquella trotaconuentos, despues
    de tres vezes emplumada.
    CAL.–assi, Parmeno, di mas deso, que me agrada. pues mejor me
    parece quanto mas la desalabas: cumpla comigo, e emplumenla la
    quarta: desentido eres / sin pena hablas: no te duele donde a mi,
    Parmeno.
    PARM.–senor, mas quiero que ayrado me reprehendas, porque te do
    enojo, que arrepentido me condenes, porque no te di consejo. pues
    perdiste el nombre de libre quando cautiuaste la voluntad.
    CAL.–palos querra este vellaco. di, mal criado: porque dizes mal
    de lo que yo adoro? y tu que sabes de honrra: dime, que es amor?
    en que consiste buena crianza? que te me vendes por discreto / no
    sabes que el primer escalon de locura es creerse ser sciente? si
    tu sintiesses mi dolor, con otra agua rociarias aquella ardiente
    llaga que la cruel frecha de Cupido me ha causado: quanto remedio
    Sempronio acarrea con sus pies: tanto apartas tu con tu lengua /
    con tus vanas palabras / fingiendote fiel / eres vn terron de
    lisonja. bote de malicias. el mismo meson e aposentamiento de la
    embidia: que por disfamar la vieja a tuerto o a derecho, pones en
    mis amores desconfianza. pues sabe que esta mi pena e flutuoso
    dolor no se rige por razon: no quiere auisos: carece de consejo: e
    si alguno se le diere: tal que no parte ni desgozne: lo que sin
    las entranas no podra despegarse. Sempronio temio su yda e tu
    quedada: yo quiselo todo: e assi me padezco su absencia e tu
    presencia: valiera mas solo que mal acompanado.
    PARM.–senor, flaca es la fidelidad que temor de pena la conuierte
    en lisonja: mayormente con senor a quien dolor o aficion priua e
    tiene ageno de su natural juyzio: quitarse ha el velo de la
    ceguedad: passaran estos momentaneos fuegos: conosceras mis agras
    palabras ser mejores para matar este fuerte cancre: que las
    blandas de Sempronio que lo ceuan / atizan tu fuego / abiuan tu
    amor / encienden tu llama / anaden astillas: que tenga que gastar
    fasta ponerte en la sepultura.
    CAL.–calla, calla, perdido: esto yo penando e tu filosofando. no
    te espero mas: saquen vn cauallo: limpienle mucho: aprieten bien
    la cincha: porque si passare por casa de mi senora e mi dios.
    PARM.–mozos? no ay mozo en casa: yo me lo haure de hazer / que a
    peor vernemos desta vez que ser mozos despuelas / andar / passe /
    mal me quieren mis comadres &c. Rehinchays, don cauallo? No
    basta vn celoso en casa, o barruntas a Melibea?
    CAL.–viene esse cauallo? que hazes, Parmeno?
    PARM.–senor, vesle aqui: que no esta Sosia en casa.
    CAL.–pues ten esse estribo: abre mas essa puerta / e si viniere
    Sempronio con aquella senora: di que esperen / que presto sera mi
    buelta.
    PARM.–mas nunca sea: alla yras con el diablo. a estos locos
    dezildes lo que les cumple / no os podran ver. "Por mi anima que
    si agora le diessen vna lanzada en el calcanar que saliessen mas
    sesos que de la cabeza. pues anda que a mi cargo que Celestina e
    Sempronio te espulguen." O desdichado de mi! por ser leal
    padezco mal. otros se ganan por malos / yo me pierdo por bueno.
    el mundo es tal. quiero yrme al hilo de la gente. pues a los
    traydores llaman discretos / a los fieles nescios. si yo creyera
    a Celestina con sus seys dozenas de anos acuestas: no me
    maltratara Calisto. mas esto me porna escarmiento daqui adelante
    con el: que si dixiere comamos: yo tambien. Si quisiere derrocar
    la casa: aprouarlo. si quemar su hazienda / yr por fuego /
    destruya / rompa / quiebre / dane. de a alcahuetas lo suyo, que
    mi parte me cabra. pues dizen: a rio buelto, ganancia de
    pescadores. nunca mas perro a molino.

    ARGUMENTO
    DEL TERCERO AUTO.

    Sempronio vase a casa de Celestina: a la qual reprende por la
    tardanza: ponense a buscar que manera tomen en el negocio de
    Calisto con Melibea. En fin sobreuiene Elicia. Vase Celestina a
    casa de Pleberio. queda Sempronio y Elicia en casa.

    SEMPRONIO. CELESTINA. ELICIA.

    SEMP.–Que espacio lleua la baruuda: menos sosiego trayan sus pies
    a la venida. A dineros pagados, brazos e piernas quebrados. ce,
    senora Celestina: poco as aguijado.
    CEL.–a que vienes, hijo?
    SEMP.–este nuestro enfermo no sabe que pedir: de sus manos no se
    contenta: no se le cueze el pan: teme tu negligencia: maldize su
    auaricia e cortedad: porque te dio tan poco dinero.
    CEL.–no es cosa mas propia del que ama que la impaciencia: toda
    tardanza les es tormento: ninguna dilacion les agrada. en vn
    momento querrian poner en efeto sus cogitaciones: antes las
    querrian ver concluydas que empezadas: mayormente estos nouicios
    que contra qualquiera senuelo buelan: sin deliberacion: sin pensar
    el dano que el ceuo de su desseo trae mezclado en su exercicio e
    negociacion: para sus personas e siruientes.
    SEMP.–que dizes de siruientes? paresce por tu razon que nos
    puede venir a nosotros dano deste negocio? e quemarnos con las
    centellas que resultan deste fuego de Calisto? avn al diablo
    daria yo sus amores: al primer desconcierto que vea en este
    negocio: no como mas su pan: mas vale perder lo seruido que la
    vida por cobrallo: el tiempo me dira que faga: que primero que
    cayga del todo, dara senal como casa que se acuesta: si te parece,
    madre / guardemos nuestras personas de peligro: fagase lo que se
    hiziere: si la ouiere ogano / si no a otro ano / si no nunca: que
    no ay cosa tan dificile de zofrir en sus principios: que el tiempo
    no la ablande: e faga comportable: ninguna llaga tanto se sintio,
    que por luengo tiempo no afloxase su tormento: ni plazer tan
    alegre fue que no le amengue su antiguedad: el mal e el bien: la
    prosperidad e aduersidad: la gloria e pena: todo pierde con el
    tiempo la fuerza de su acelerado principio. pues los casos de
    admiracion e venidos con gran desseo, tan presto como passados,
    oluidados: cada dia vemos nouedades: e las oymos: e las passamos /
    e dexamos atras: diminuyelas el tiempo: hazelas contingibles. Que
    tanto te marauillarias, si dixesen la tierra temblo / o otra
    semejante cosa que no oluidases luego? assi como elado esta el
    rio: el ciego vee: ya muerto es tu padre: vn rayo cayo: ganada es
    Granada: el rey entra oy: el turco es vencido: eclipse ay manana:
    la puente es lleuada: aquel es ya obispo: a Pedro robaron: Ynes se
    ahorco. que me diras: sino que a tres dias passados o a la
    segunda vista: no ay quien dello se marauille: todo es assi: todo
    passa desta manera: todo se oluida: todo queda atras. pues assi
    sera este amor de mi amo: quanto mas fuere andando: tanto mas
    disminuyendo. "Que la costumbre luenga amansa los dolores: afloxa
    e deshaze los deleytes: desmengua las marauillas." Procuremos
    prouecho mientra pendiere la contienda: e si a pie enxuto le
    pudieremos remediar: lo mejor, mejor es: e sino, poco a poco le
    soldaremos el reproche o menosprecio de Melibea contra el: donde
    no, mas vale que pene el amo, que no que peligre el mozo.
    CEL.–bien as dicho: contigo estoy: agradado me has: no podemos
    errar: pero todavia, hijo, es necessario: que el buen procurador
    ponga de su casa algun trabajo: algunas fingidas razones: algunos
    sofisticos actos: yr e venir a juyzio: avnque reciba malas
    palabras del juez: siquiera por los presentes que lo vieren: no
    digan que se gana holgando el salario: e assi verna cada vno a el
    con su pleyto: e a Celestina con sus amores.
    SEMP.–haz a tu voluntad: que no sera este el primer negocio que
    has tomado a cargo.
    CEL.–el primero, hijo? pocas virgines, a dios gracias, has tu
    visto en esta cibdad, que hayan abierto tienda a vender: de quien
    yo no aya sido corredora de su primer hilado: en nasciendo la
    mochacha, la hago escriuir en mi registro: "e esto" para saber
    quantas se me salen de la red: que pensauas, "Sempronio"? auiame
    de mantener del viento? herede otra herencia? tengo otra casa o
    vina? conocesme otra hazienda mas deste oficio? de que como e
    beuo? de que visto e calzo? en esta cibdad nascida / en ella
    criada: manteniendo honrra como todo el mundo sabe. conoscida,
    pues, no soy? quien no supiere mi nombre e mi casa / tenle por
    estranjero.
    SEMP.–dime madre: que passaste con mi companero Parmeno quando
    subi con Calisto por el dinero?
    CEL.–dixele el sueno e la soltura: e como ganaria mas con nuestra
    compania que con las lisonjas que dize a su amo. como viuiria
    siempre pobre e baldonado: si no mudaua el consejo: que no se
    hiziesse sancto a tal perra vieja como yo: acordele quien era su
    madre: porque no menospreciase mi oficio. porque queriendo de mi
    dezir mal tropezasse primero en ella.
    SEMP.–tantos dias ha que le conosces, madre?
    CEL.–aqui esta Celestina que le vido nascer e le ayudo a criar:
    su madre e yo vna e carne: della aprendi todo lo mejor que se de
    mi oficio. juntas comiamos. juntas dormiamos. juntas hauiamos
    nuestros solazes: nuestros plazeres: nuestros consejos e
    conciertos: en casa e fuera como dos hermanas: nunca blanca gane
    en que no touiesse su meytad. Pero no viuia yo enganada: si mi
    fortuna quisiera que ella me durara. o muerte, muerte: a quantos
    priuas de agradable compania: a quantos desconsuela tu enojosa
    visitacion: por vno que comes con tiempo: cortas mil en agraz:
    que siendo ella viua: no fueran estos mis passos desacompanados:
    buen siglo aya: que leal amiga e buena companera me fue. "Que
    jamas me dexo hazer cosa en mi cabo estando ella presente. Si yo
    traya el pan / ella la carne. Si yo ponia la mesa / ella los
    manteles / no loca / no fantastica / ni presumptuosa / como las de
    agora. En mi anima descubierta se yua hasta el cabo de la ciudad:
    con su jarro en la mano: que en todo el camino no oya peor de
    Senora Claudina: e aosadas que otra conoscia peor el vino e
    qualquier mercaduria. quando pensaua que no era llegada: era de
    buelta. Alla la combidauan segun el amor todos le tenian: que
    jamas boluia sin ocho o diez gostaduras: vn azumbre en el jarro: e
    otro en el cuerpo: ansi le fiauan dos o tres arrobas en vezes:
    como sobre vna taza de plata su palabra era prenda de oro: en
    quantos bodegones auia. si yuamos por la calle donde quiera que
    ouiessemos sed entrauamos en la primera tauerna: luego mandaua
    echar medio azumbre para mojar la boca: mas a mi cargo que no le
    quitaron la toca por ello: sino quanto la rayauan en su taja: e
    andar adelante." Si tal fuesse "agora" su hijo: a mi cargo que tu
    amo quedasse sin pluma: e nosotros sin quexa: pero yo lo hare de
    mi fierro si viuo. yo le contare en el numero de los mios.
    SEMP.–como has pensado hazerlo: que es vn traydor?
    CEL.–a esse tal dos aleuosos. harele auer a Areusa: sera de los
    nuestros: darnos ha lugar a tender las redes sin embarazo por
    aquellas doblas de Calisto.
    SEMP.–pues crees que podras alcanzar algo de Melibea? ay algun
    buen ramo?
    CEL.–no ay zurujano que a la primera cura juzgue la herida. lo
    que yo al presente veo te dire. Melibea es hermosa: Calisto loco
    e franco; ni a el penara gastar, ni a mi andar. bulla moneda: e
    dure el pleyto lo que durare: todo lo puede el dinero: las penas
    quebranta: los rios passa en seco: no ay lugar tan alto que vn
    asno cargado de oro no le suba. Su desatino e ardor basta para
    perder a si e ganar a nosotros: esto he sentido: esto he calado:
    esto se del e della: esto es lo que nos ha de aprouechar. A casa
    voy de Pleberio; quedate a dios: que avnque este braua Melibea: no
    es esta, si a dios ha plazido, la primera a quien yo he hecho
    perder el cacarear: coxquillosicas son todas: mas despues que vna
    vez consienten la silla en el enues del lomo: nunca querrian
    folgar: por ellas queda el campo. muertas si: cansadas no. si de
    noche caminan, nunca querrian que amaneciesse. maldizen los
    gallos porque anuncian el dia: e el relox porque da tan apriessa.
    "Requieren las cabrillas e el norte / haziendose estrelleras: ya
    quando veen salir el luzero del alua quiereseles salir el alma: su
    claridad les escuresce el corazon." Camino es, hijo: que nunca me
    harte de andar: nunca me vi cansada: e avn assi vieja como soy:
    sabe dios mi buen deseo: quanto mas estas que hieruen sin fuego:
    catiuanse del primer abrazo: ruegan a quien rogo: penan por el
    penado: hazense sieruas de quien eran senoras: dexan el mando e
    son mandadas: rompen paredes: abren ventanas: fingen enfermedades:
    a los cherriadores quicios de las puertas hazen con azeytes vsar
    su oficio sin ruydo. no te sabre dezir lo mucho que obra en ellas
    aquel dulzor que les queda de los primeros besos de quien aman.
    Son enemigas todas del medio: contino estan posadas en los
    estremos.
    SEMP.–no te entiendo essos terminos, madre.
    CEL.–digo que la muger / o ama mucho aquel de quien es requerida
    / o le tiene grande odio: assi que si al querer despiden, no
    pueden tener las riendas al desamor. E con esto que se cierto,
    voy mas consolada a casa de Melibea que si en la mano la touiesse:
    porque se que avnque al presente la ruegue: al fin me ha de rogar:
    avnque al principio me amenaze, al cabo me ha de halagar. Aqui
    lleuo vn poco de hilado en esta mi faltriquera: con otros aparejos
    que comigo siempre traygo: para tener causa de entrar donde mucho
    no soy conocida la primera vez; assi como gorgueras / garuines /
    franjas / rodeos / tenazuelas / alcohol / aluayalde / e soliman /
    hasta agujas e alfileres; que tal ay, que tal quiere: porque
    donde me tomare la boz, me halle apercebida para les echar ceuo /
    o requerir de la primera vista.
    SEMP.–madre, mira bien lo que hazes: porque quando el principio
    se yerra, no puede seguirse buen fin: piensa en su padre que es
    noble e esforzado: su madre celosa e braua: tu la misma sospecha.
    Melibea es vnica a ellos: faltandoles ella, faltales todo el bien.
    en pensallo, tiemblo; no vayas por lana e vengas sin pluma.
    CEL.–sin pluma, fijo?
    SEMP.–o emplumada, madre, que es peor.
    CEL.–alahe en malora / a ti he yo menester para companero: avn si
    quisieses auisar a Celestina en su oficio: pues quando tu nasciste
    / ya comia yo pan con corteza: para adalid eres bueno, cargado de
    agueros e recelo.
    SEMP.–no te marauilles, madre, de mi temor: pues es comun
    condicion humana que lo que mucho se dessea / jamas se piensa ver
    concluydo: mayormente que en este caso temo tu pena e mia: desseo
    prouecho: querria que este negocio houiesse buen fin: no porque
    saliesse mi amo de pena / mas por salir yo de lazeria: e assi miro
    mas inconuenientes con mi poca esperiencia / que no tu como
    maestra vieja.
    ELICIA.–santiguarme quiero, Sempronio: quiero hazer vna raya en
    el agua: que nouedad es esta venir oy aca dos vezes?
    CEL.–calla, boua: dexale: que otro pensamiento traemos en que mas
    nos va: dime, esta desocupada la casa? fuesse la moza que esperaua
    al ministro?
    ELIC.–e avn despues vino otra, e se fue.
    CEL.–si que no embalde?
    ELIC.–no en buena fe / ni dios lo quiera / que avnque vino tarde:
    mas vale a quien dios ayuda &c.
    CEL.–pues sube presto al sobrado alto de la solana / e baxa aca
    el bote del azeyte serpentino que hallaras colgado del pedazo de
    la soga que traxe del campo la otra noche, quando llouia e hazia
    escuro: e abre el arca de los lizos: e hazia la mano derecha
    hallaras vn papel escrito con sangre de morciegalo, debaxo de
    aquel ala de drago a que sacamos ayer las vnas: mira no derrames
    el agua de mayo que me traxeron a confecionar.
    ELIC.–madre, no esta donde dizes: jamas te acuerdas a cosa que
    guardas.
    CEL.–no me castigues, por dios, a mi vejez: no me maltrates,
    Elicia. no infinjas porque esta aqui Sempronio: ni te soberuezcas:
    que mas me quiere a mi por consejera que a ti por amiga: avnque tu
    le ames mucho. Entra en la camara de los vnguentos, e en la
    pelleja del gato negro, donde te mande meter los ojos de la loba,
    le fallaras: e baxa la sangre del cabron: e vnas poquitas de las
    baruas que tu le cortaste.
    ELIC.–toma, madre, veslo aqui. yo me subo e Sempronio arriba.
    CEL.–conjurote, triste Pluton, senor de la profundidad infernal:
    emperador de la corte danada: capitan soberuio de los condenados
    angeles: senor de los sulfureos fuegos que los heruientes etnicos
    montes manan: gouernador e veedor de los tormentos e
    atormentadores de las pecadoras animas, "regidor de las tres
    furias / Tesifone / Megera / e Aleto / administrador de todas las
    cosas negras del reyno de Stigie e Dite: con todas sus lagrimas: e
    sombras infernales: e litigioso caos. mantenedor de las bolantes
    harpias / con toda la otra compania de espantables e pauorosas
    ydras." Yo, Celestina, tu mas conocida clientula: te conjuro por
    la virtud e fuerza destas vermejas letras. por la sangre de
    aquella noturna aue con que estan escriptas. por la grauedad de
    aquestos nombres e signos que en este papel se contienen. por la
    aspera ponzona de las biuoras, de que este azeyte fue hecho, con
    el qual vnto este hilado: vengas sin tardanza a obedescer mi
    voluntad. e en ello te embueluas: e con ello estes sin vn momento
    te partir, hasta que Melibea con aparejada oportunidad que aya, lo
    compre. E con ello de tal manera quede enredada: que quanto mas
    lo mirare, tanto mas su corazon se ablande a conceder mi peticion:
    e se le abras e lastimes de crudo e fuerte amor de Calisto: tanto
    que despedida toda honestidad se descubra a mi: e me galardone mis
    passos e mensaje: e esto hecho: pide e demanda de mi a tu
    voluntad: si no lo hazes con presto mouimiento, ternasme por
    capital enemiga: herire con luz tus carceres tristes e escuras:
    acusare cruelmente tus continuas mentiras: apremiare con mis
    asperas palabras tu horrible nombre: e otra e otra vez te conjuro:
    e assi confiando en mi mucho poder, me parto para alla con mi
    hilado: donde creo te lleuo ya embuelto.

  • Expedición de Catalanes y Aragoneses al Oriente

    Expedición de Catalanes y Aragoneses al Oriente

    Aproximadamente 70.581 palavras.

    EXPEDICION

    DE CATALANES Y ARAGONESES

    AL ORIENTE

    por

    D. FRANCISCO DE MONCADA

    BIBLIOTECA MILITAR ECONOMICA

    EXPEDICION

    DE CATALANES Y ARAGONESES

    AL ORIENTE

    BIBLIOTECA MILITAR ECONOMICA

    COLECCIÓN

    DE LOS

    MEJORES AUTORES MILITARES

    ANTIGUOS Y MODERNOS, NACIONALES Y EXTRANJEROS

    Y DE ALGUNOS OTROS DE

    CIENCIA E HISTORIA MILITAR.

    PUBLICADA

    Bajo los auspicios

    DEL EXCMO. SR. TENIENTE GENERAL

    D. Eduardo Fernández de San Roman
    Marqués de San Roman

    Director.

    D. Emilio Valverde Y Alvarez

    Cuarta seccion.

    OBRAS DE HISTORIA MILITAR

    Expedicion de Catalanes y Aragoneses, contra Turcos Y Griegos.

    POR D. FRANCISCO DE MONCADA

    EDICION DE 1777.

    A DON JUAN DE MONCADA.

    ARZOBISPO DE TARRAGONA

    Por obedecer á V.S. Ilustrísima he puesto en órden esta breve Historia,
    que la soledad de una aldea me la puso entre las manos con el deseo
    natural de conservar memorias casi muertas de la patria, que merecen
    eterna duracion. Recogí lo que pude de papeles antiguos de Cataluña, y
    ayudado de sus escritores y de los Griegos he procurado sacar esta
    EXPEDICION que los nuestros hicieron á Levante, libre de dos terribles
    contrarios, descuido de los naturales y propios hijos, y malicia de los
    extranjeros, enemigos de nuestro nombre y gloria, que parece que andaban
    á porfia cual de ellos seria el autor de su muerte. Halléme desocupado;
    y así reconocí por obligacion el salir á su defensa; si esta ha sido
    bastante no lo puedo asegurar, porque las armas, que son las antiguas
    memorias y autores, con que me opuse, andan tan confusos y faltos, que
    apenas me dieron el socorro necesario. Pero ya que no se entera, ni como
    ella fué descrita á la posteridad, quedará por lo menos renovada con mas
    larga relacion de la que los antiguos Catalanes nos dejaron; cuyo
    descuido nació de parecerles que los hechos tan esclarecidos la fama los
    conservara con mayor estimacion que la Historia, y que el tiempo no las
    pudiera oscurecer.

    Guárdeme Dios á V.S. Ilustrísima muy largos años.

    Barcelona 3 de Noviembre de MDCXX.

    EL CONDE DE OSONA

    AL LECTOR

    Si no tuviéramos tan repetidas pruebas del descuido, con que antes de
    ahora se han mirado los mas preciosos monumentos de nuestros mejores
    Escritores, pudiera serla la presente obra, á quien ni la dignidad de su
    Autor, ni la grandeza del asunto, ni la elegancia del estilo pudieron
    eximir de la fatal suerte que otras de no inferior mérito han
    experimentado. Lo cierto es que desde el año de MDCXXIII en que salió á
    luz, no ha vuelto á imprimirse; y así por su rareza solo era conocida de
    algunos curiosos con no poco menoscabo de la gloria inmortal que por su
    esfuerzo invencible supieron adquirirse los Catalanes y Aragoneses en su
    famosa Expedicion contra Turcos y Griegos. Hazañas tan memorables
    merecían una pluma delicada que las escribiese segun correspondia. Tal
    era la de DON FRANCISCO DE MONCADA, no menos célebre por la espada, que
    por la pluma; y digno de ser tan conocido, como merece la grandeza de su
    ingenio y de su alto nacimiento. Y así nos parece muy debido no omitir
    en este lugar las curiosas noticias, que de su vida y escritos nos dejó
    recogidas DON VICENTE JIMENO en los Escritores del Reino de Valencia (t.
    i. p. 326 y 327.) obra trabajada con mucha puntualidad, erudicion y
    juicio. ¡Ojala tuviéramos otras iguales á esta de los demás Reinos de
    España!. Dice pues:

    DON FRANCISCO DE MONCADA, tercero Marqués de Aytona, Conde de Osona,
    Señor de las Baronias de Oz, Aljafarin, Callosa, Tarbena, y otras:
    segundo Julio César en la valentía de la Espada y rasgo de la pluma;
    nació en la ciudad de Valencia, siendo su abuelo Don Francisco, primer
    Marqués de Aytona, Virrey de este Reino; y fué bautizado en la Iglesia
    Parroquial de San Esteban Protomartyr en la pila de San Vicente Ferrer,
    Lunes á 29 de Diciembre del año 1586. Fueron sus padres Don Gaston de
    Moncada, segundo Marqués de Aytona, Virrey de Cerdeña y Aragon,
    Embajador en la Córte de Roma; y Doña Catalina de Moncada, Baronesa de
    Callosa. Desde sus tiernos años se habia dedicado D. FRANCISCO al
    estudio de las letras, y de las lenguas Latina y Griega. Casón con Doña
    Margarita de Castro y Alagón, Baronesa de Laguna, y Vizcondesa de Isla;
    y tuvieron por hijo y sucesor á Don Guillén Ramon de Moncada, á quien D.
    Nicolás Antonio llama, no Oton como dice Rodríguez sino Gaston, (lo
    corrige después en el mismo tomo, llamándole Guillén Ramon) el cual fué
    Virrey de Galicia, Gobernador de la Corona en la menor edad de Cárlos II
    y Escritor como Don Francisco su Padre-.

    Fué D. FRANCISCO Consejero de Estado y Guerra, Embajador Real en la
    Córte de Alemania, cerca del emperador Ferdinando II. Mayordomo Mayor de
    Doña Isabel Clara Eugenia, Infanta de España, Señora propietaria de los
    Estados de Flandes, y despues de la muerte de esta Princesa Gobernador
    de los mismos Estados por el Rey Felipe IV, y Generalísimo de sus Armas,
    mientras no fué á gobernarlas el Cardenal Infante Don Fernando, hermano
    del Rey. Los elogios que se mereció con sus valerosas hazañas y
    acreditado gobierno fueron tantos, que apenas hay historiador que le
    mencione, que no prorrumpa en alabanzas suyas. Murió de enfermedad; pero
    coronado de laureles y en brazos de la fama, en el campo de Goch de la
    Provincia de Cleves en el año 1635, después de haber derrotado dos
    ejércitos enemigos, á los 49 años de edad. Las obras que escribió son
    estas.

    Expedicion de Catalanes y Aragoneses contra Turcos y Griegos. En
    Barcelona por Lorenzo Deu 1623 en 4.º La publicó siendo Conde de Osona,
    que era el Título del Mayorazgo de su Casa.

    Vida de Anicio Manlio Torcuato Severino Boecio. Se imprimió despues de
    la muerte del Autor en Francfort por Gaspar Rotelio 1642 en 16.

    Genealogía de la Casa de los Moncadas. La insertó Pedro de Marca, Autor
    Francés, grave y noticioso en su Historia de Bearne, impresa en París el
    año 1640 como atestigua el Maestro Fray Joseph Gomez de Porres,
    Carmelita. El mismo Conde la envió á Pedro de Marca el cual imprimió
    tambien dos Cartas latinas que el Conde le habia escrito. Esta
    Genealogía, en la cual habla de los Condes de Bearne, son las Notas MSS
    que le atribuye D. Nicolás.

    Antigüedad del Santuario de Monserrate. Acuerdan esta obra Gomez y
    Rodriguez.

    Hasta aquí JIMENO. A cuyas noticias, si no temiéramos alargar demasiado
    esta prefacion, pudiéramos añadir otras y varios elogios de nuestro
    Autor, que pueden verse en la Biblioteca Valentina del citado M. Fray
    Joseph Rodriguez; sin embargo no podemos dejar de admirar, que ni estos
    dos eruditos, ni Nicolás Antonio, que en su Biblioteca Española apenas
    deja de dar á cada obra y Autor el merecido elogio no le hiciesen de las
    del nuestro con la debida puntualidad; acaso porque no lograrian
    leerlas, por ser tan raras. La que ahora vuelve á salir á luz, merece
    con razon el elogio que le dá el Marqués de Mondéjar en la carta á la
    Duquesa de Averio, en que hace juicio de los más principales
    Historiadores de España, impresa por Don Gregorio Mayans al fin de las
    Advertencias de Mondéjar á Mariana, §. XIX. P. 114 llamándola cultísimo
    libro. A la verdad yo no hallo ninguno, que en su género le haga
    ventaja; aunque entre en su número el de la Guerra de Granada de D.
    DIEGO DE MENDOZA; porque si se consideran las prendas que deben adornar
    una historia, en ambas se hallan en sumo grado; si la elegancia y pureza
    de estilo, en que algunos dan el primer lugar á MENDOZA entre los
    Escritores Españoles, no es inferior en esto MONCADA; antes bien me
    parece el de este mas dulce y sin mezcla de afectacion alguna. De suerte
    que el primero parece haberse propuesto imitar á Salustio y Tacito; y
    así unas veces ama la oscuridad, y otras deja dislocadas y sin sentido
    las clausulas; sino es que esto sea mas bien vicio de los Codices que
    del Autor; pero MONCADA imitando á Julio César en la pluma, como lo
    habia hecho con la espada, es tan puro y elegante como él; porque
    nuestra lengua como hija de la Latina es capaz de admitir todos sus
    primores; y no le es inferior en la ciencia militar, y en los consejos
    políticos que á menudo mezcla con oportunidad.

    En el Prólogo al Lector, que preceda á la primera edicion, advierte el
    impresor, que por ausencia del Autor se habian cometido algunos
    defectos, que solo su presencia podia haber remediado; en esta se ha
    procurado enmendarlos en lo posible, sin faltar á la exactitud y
    circunspecion, con que debe procederse en los trabajos ajenos.

    LIBRO PRIMERO.

    PROEMIO.

    Mi intento es escribir la memorable Expedicion y Jornada, que los
    Catalanes y Aragoneses hicieron á las Provincias de Levante, cuando su
    fortuna y valor andaban compitiendo en el aumento de su poder y
    estimacion, llamados por Andronico Paleologo Emperador de Griegos, en
    socorro y defensa de su imperio y casa. Favorecidos y estimados en tanto
    que las armas de los Turcos le tuvieron casi oprimido, y temió su
    perdicion y ruina; pero despues que por el esfuerzo de los nuestros
    quedó libre de ellas, mal tratados y perseguidos con gran crueldad y
    fiereza bárbara; de que nació la obligacion natural de mirar por su
    defensa y conservacion, y la causa de volver sus fuerzas invencibles
    contra los mismos Griegos, y su Príncipe Andronico; las cuales fueron
    tan formidables, que causaron temor y asombro á los mayores Príncipes de
    Asia y Europa, perdicion y total ruina á muchas naciones y Provincias, y
    admiracion á todo el mundo. Obra será esta, aunque pequeña por el
    descuido de los antiguos, largos en hazañas, cortos en escribirlas,
    llena de varios y estraños casos, de guerras continuas en regiones
    remotas y apartadas con varios Pueblos y gentes belicosas, de
    sangrientas batallas y victorias no esperadas, de peligrosas conquistas
    acabadas con dichoso fin por tan pocos y divididos Catalanes y
    Aragoneses, que al principio fueron burla de aquellas Naciones, y
    despues instrumento de los grandes castigos que Dios hizo en ellas.
    Vencidos los Turcos en el primer aumento de su grandeza Othomana,
    desposeidos de grandes y ricas Provincias de la Asia menor, y á viva
    fuerza y rigor de nuestras espadas encerrados en lo mas áspero y
    desierto de los montes de Armenia. Después vueltas las armas contra los
    Griegos, en cuyo favor pasaron, por librarse de una afrentosa muerte, y
    vengar agravios que no se pudieran disimular sin gran mengua de su
    estimacion y afrenta de su nombre. Ganados por fuerza muchos Pueblos y
    Ciudades, desbaratados y rotos poderosos ejércitos, vencidos y muertos
    en campo Reyes y Príncipes, grandes Provincias destruidas y desiertas,
    muertos, cautivos, ó desterrados sus moradores; venganzas merecidas mas
    que licitas. Thracia, Macedonia, Tesalia, y Beocia penetradas y pisada á
    pesar de todos los Príncipes y fuerzas del Oriente, y últimamente muerto
    á sus manos el Duque de Athenas con toda la nobleza de sus vasallos, y
    de los socorros de Franceses y Griegos ocupado su estado, y en él
    fundado un nuevo señorío. En todos estos sucesos no faltaron traiciones,
    crueldades, robos, violencias, y sediciones, pestilencia comun, no solo
    de un ejército colecticio y débil por el corto poder de la suprema
    cabeza, pero de grandes y poderosas Monarquias. Si como vencieron los
    Catalanes á sus enemigos, vencieran su ambicion y codicia, no excediendo
    los límites de lo justo, y se conservarán unidos, dilataran sus armas
    hasta los últimos fines del Oriente, y viera Palestina y Jerusalen,
    segunda vez las banderas cruzadas. Porque su valor y disciplina militar,
    su constancia en las adversidades, sufrimiento en los trabajos,
    seguridad en los peligros, presteza en las ejecuciones, y otras virtudes
    militares las tuvieron en sumo grado, en tanto que la ira no las
    pervirtió. Pero el mismo poder que Dios les entregó para castigar y
    oprimir tantas naciones, quiso que fuese el instrumento de su propio
    castigo. Con la soberbia de los buenos sucesos, desvanecidos con su
    prosperidad, llegaron á dividirse en la competencia del gobierno;
    divididos á matarse, con que se encendió una guerra civil, tan terrible
    y cruel, que causó sin comparacion mayores daños y muertes, que las que
    tuvieron con los extraños.

    CAPITULO I.

    Estado de los Reinos y Reyes de la casa de Aragon por este tiempo.

    Antes de dar principio á nuestra historia, importa para su entera
    noticia decir el estado en que se hallaban las provincias y Reyes de
    Aragon, sus ejércitos y armadas, sus amigos y enemigos; principios
    necesarios para conocer donde se funda la principal causa de esta
    expedicion. El Rey Don Pedro de Aragon, á quien la grandeza de sus
    hechos dió renombre de Grande, hijo de Don Jaime el Conquistador fué
    casado con Gostanza hija de Manfredo Rey de Sicilia, á quien Cárlos de
    Anjou con ayuda del Pontífice Romano, enemigo de la sangre de Federico
    Emperador, quitó el Reino y la vida. Quedo Cárlos con su muerte Príncipe
    y Rey de las dos Sicilias, y más después que el infeliz Coradino, último
    Príncipe de la casa de Suevia, roto y deshecho, vino preso á sus manos,
    y por su órden y sentencia, se le cortó la cabeza en público cadahalso,
    para eterna memoria de una vil venganza, y ejemplo grande de la variedad
    humana. Don Pedro Rey de Aragon no se hallaba entónces con fuerzas para
    poder tomar satisfacion de la muerte de Manfredo y Coradino, ni después
    de ser Rey le dieron lugar las guerras civiles, porque los Moros de
    Valencia andaban levantados, y los Barones y Ricos hombres d Cataluña
    estaban desavenidos y mal contentos; y tambien porque mostrándose
    enemigo declarado de Cárlos, provocaba contra sí las armas de Francia, y
    las de la Iglesia, formidables por lo que tienen de divinas; los Reinos
    de Sicilia y Nápoles lejos de los suyos, sus armas ocupadas en
    defenderse de los enemigos mas vecinos. Todas estas dificultades
    detenian el ofendido ánimo del Rey, pero no de manera, que borrasen la
    memoria del agravio. En unas vistas que tuvo con el Rey de Francia
    Filipe su cuñado, entrevino Cárlos hijo del Rey de Nápoles, y deseando
    el Rey de Francia que fuesen amigos y se hablasen, siempre Don Pedro se
    escusó, y mostró en el semblante el pesar y el disgusto que tenia en el
    corazon, de que todos quedaron mal satisfechos y desabridos, y sin duda
    entónces Cárlos se previniera y armara, si creyera que las fuerzas del
    Rey de Aragon fueran iguales á su ánimo y pensamiento. Pero el cielo se
    las dió bastantes para tomar entera y justa satisfacion de la sangre
    inocente de Coradino por medios tan ocultos, que no se supieron hasta
    que la misma ejecucion los publicó.

    Los míseros Sicilianos incitados de la insolencia Francesa, desenfrenada
    en su afrenta y deshonor, tomaron las armas, y con aquel famoso hecho
    que comunmente llaman Vísperas Sicilianas, sacudieron de la cerviz
    pública el insufrible yugo de los Franceses, y de Cárlos, que
    injustamente los opremia, dejándoles al arbitrio y sujecion de ministros
    injustos; causa que las mas veces produce mudanzas en los estados, y
    casos miserables en sus Príncipes. Acudió luego Cárlos con poderoso
    ejército á castigar el atrevimiento y rebeldía de los súbditos. Ellos
    viendo cerrada la puerta á toda piedad y clemencia, pusieron la
    esperanza de su remedio y amparo en Don Pedro Rey de Aragon, que en esta
    sazon se hallaba en Africa, como verdadero Príncipe Christiano, con
    ejército victoriso y triunfante de muchos Jeques y Reyes de Berbería,
    asistidos de la mayor parte de la nobleza y soldados de sus Reinos.
    Llegaron ante su presencia los Embajadores de Sicilia, llenos de
    lagrimas, luto y sentimiento; bastantes con esta triste demostracion á
    mover no solo el ánimo de un Rey ofendido por particular agravio, pero
    el de cualquier otro que como hombre sintiera. Acordaronle la muerte
    desdichada de Manfredo, y la afrentosa de Coradino, facilitaronle la
    venganza con ayuda de los pueblos de Sicilia, tan aficionados á su
    nombre y enemigos del de Francia. Ultimamente le propusieron el estado
    peligroso de su libertad, vidas y haciendas, si no les amparaba su
    valor; por que ya Cárlos estaba sobre Mecina, y amenazaba el rigor de su
    castigo un lastimoso fin á todo el Reino. Movido de estas razones y de
    las que su venganza le ofrecia, acudió antes que su fama á Trapana con
    todo su poder, y fué con tanta presteza sobre su enemigo, que apenas
    supo Cárlos que venia, cuando vió sus armas, y se halló forzado á
    levantar el sitio y retirarse afrentosamente á Calabria.

    Con este hecho el Pontifice como amigo, y el Rey de Francia como deudo,
    descubiertamente se mostraron favorecedores de Cárlos, y enemigos de Don
    Pedro, y tomaron contra él las armas. El Rey de Castilla que por el
    deudo y amistad debiera ayudarle, se salió á fuera, y se inclinó á
    seguir el mayor poder. Don Jaime Rey de Mallorca, su hermano, tambien le
    desamparó, dando ayuda y paso por sus estados á sus contrarios, aunque
    se escusó con las débiles fuerzas de su Reino, desiguales á la defensa y
    oposicion de tan poderoso enemigo; disculpa con que muchas veces los
    Príncipes pequeños, encubren lo mal hecho, atribuyendo á la necesidad lo
    que es ambicion. Don Pedro con esto se halló sin amigos, solo acompañado
    de su valor, fortuna, y razon de satisfacer el ultraje y afrenta de su
    casa. Al tiempo que le juzgaron todos por perdido, venció á sus enemigos
    varias veces, reforzados de nuevas ligas y socorros, todo los deshizo y
    humilló en mar, en tierra. Mantuvo el nombre de Aragon en gran
    reputacion y fama, y fué el primer Rey de España, que puso sus banderas
    vencedoras en los Reinos de Italia, sobre cuyo fundamento hoy se mira
    levantada su Monarquía. Hechado Cárlos de Sicilia, intentó con mayor
    poder reducirla á su obediencia, y en esta hubo grandes y notables
    acontecimientos; pero siempre la casa de Aragon, se aseguró en el Reino
    con victorias, no solo contra el poder de Cárlos, pero de todos los
    mayores Príncipes de Europa que le ayudaban.

    Murieron ambos Reyes competidores en la mayor furia y rigor de la
    guerra, y por derecho de sucesion heredó á Cárlos Rey de Nápoles, su
    hijo primogénito del mismo nombre, que en este tiempo se hallaba preso
    en Cataluña. A Don Pedro Rey de Aragon sucedieron sus dos hijos, Alfonso
    mayor en los Reinos de España, Jaime en el de Sicilia. Prosiguiose la
    guerra hasta la muerte de Alfonso, que por morir sin hijos fué Don Jaime
    llamado á la sucesion, y hubo de venir á estos Reinos, dejando en
    Sicilia á Don Fadrique su hermano, para que la gobernase y defendiese en
    su nombre. Después de su vuelta á España Don Jaime, recuperadas algunas
    fuerzas de sus Reinos, renunció el de Sicilia á la Iglesia, temiendo que
    las armas Castellanas, Francesas y Eclesiásticas á un mismo tiempo no le
    acometiesen, y persuadido de su madre Gostanza, que como mujer de
    singular santidad, quiso más que su hijo perdiese el Reino, que alargar
    más tiempo el reconciliarse con la Iglesia. Enviaronse á Sicilia para
    poner en efecto la renunciacion Embajadores de parte de Don Jaime y de
    Gostanza, y entregar el Reino á los Legados del Pontífice Romano. Pero
    la gente de guerra y los naturales indignados de la facilidad, con que
    su Rey renunciaba lo que con tanto trabajo y sangre se habia adquirido y
    sustentado, y les entregaba tan sin piedad á sus enemigos, de quien
    forzosamente habian de temer servidumbre y muerte; pareciéndoles á los
    Sicilianos cierto el peligro, y á los Catalanes y Aragoneses mengua de
    reputacion, que lo que no pudieron las armas de sus contrarios alcanzar
    en tantos años, se alcanzase por una resolucion de un Rey mal
    aconsejado, volvieron á tomar las armas, y oponiéndose á los Legados,
    persuadieron á Don Fadrique como verdadero sucesor del padre y del
    hermano, que se llamase Rey, y tomase á su cargo la defensa comun.

    Fué facil de persuadir un Príncipe de ánimo levantado, en lo mas florido
    de su juventud, y que por otro medio no podia dejar ser vasallo y sujeto
    á las leyes del hermano: ocasion bastante, cuando no fuera ayudada de
    tanta razon, á precipitar los pocos años de Don Fadrique. Llamose Rey, y
    como á tal le admitieron y coronaron. Prevínose para la guerra cruel que
    le amenazaba, asistido de buenos soldados, y del Pueblo fiel y pronto á
    su conservacion, teniéndole por segundo libertador de la Patria. Opusose
    luego á Cárlos su mayor y mas vecino enemigo, al Papa que amparaba y
    defendia su causa, y al Rey Don Jaime, que de hermano se le declaró
    enemigo, cuyas fuerzas juntas le acometieron y vencieron en batalla
    naval, con que la guerra se tuvo por acabada, y Don Fadrique por
    perdido. Pero la oculta disposicion de la providencia Divina, que
    algunas veces fuera de las comunes esperanzas muda los sucesos para que
    conozcamos que sola ella gobierna y rige, Don Fadrique se mantuvo en su
    Reino, con universal contento de los buenos, asombro y terror de sus
    enemigos, y gloria de su nombre.

    Deshizose poco después la liga, por apartarse de ella Don Jaime Rey de
    Aragon, con gran sentimiento y quejas de sus aliados, porque sin las
    fuerzas de Aragon parecia cosa fatal y casi imposible vencer un rey de
    su misma casa, y la experiencia lo mostró, pues apartado Don Jaime de la
    liga, siempre los enemigos de Don Fadrique fueron perdiendo, y él
    acreditándose con victorias, hasta forzarles á tratar de paces
    quedándose con el Reino; cosa que de solo pensarla se ofendian.
    Concluyéronse después de algunas contradicciones, y se establecieron con
    mayor firmeza con el casamiento, que luego se hizo de Leonor hija de
    Cárlos con Don Fadrique, con que el Reino quedó libre y sin recelo de
    volver á la servidumbre antigua, y el Rey pacífico señor del estado que
    defendió con tanto valor. El Rey Don Jaime su hermano sustentaba sus
    Reinos de Aragon, Cataluña, y Valencia con suma paz y reputacion, amado
    de los súbditos, temido de los infieles, poderoso en la mar, servido de
    famosos capitanes, aguardando ocasion de engrandecer su corona á
    imitacion d sus pasados. El Rey de Mallorca Príncipe el menor de la casa
    de Aragon gozaba pacíficamente el señorío de Mompeller, Condados de
    Rocellon, Cerdaña, y Conflent, difíciles de conservar, por esta
    divididos, y tener vecinos mas poderosos, entre quien siempre fueron
    fluctuando sus pequeños Reyes; pero por este tiempo vivia con
    reputacion, y con igual fortuna que los otros Reyes de su casa.

    CAPITULO II.

    Eleccion de General.

    Tenian los Reinos de Aragon, Mallorca y Sicilia el estado que habemos
    referido, cuando los soldados viejos, y Capitanes de opinion, que
    sirvieron al gran Rey Don Pedro, á Don Jaime su hijo, y últimamente á
    Don Fadrique en esta guerra de Sicilia, juzgándola ya por acabada,
    hechas las paces mas seguras por el nuevo casamiento de Leonor con
    Fadrique, vínculo de mayor amistad entre los poderosos, en tanto que el
    interés y la ambicion no le disuelven y deshacen, deshecho causa de mas
    viva enemistad y odios implacables, pareciéndoles que no se podia
    esperar por entónces ocasion de rompimiento y guerra, trataron de
    emprender otra nueva contra infieles y enemigos del nombre cristiano en
    Provincias remotas y apartadas. Porque era tanto el esfuerzo y valor de
    aquella milicia, y tanto el deseo de alcanzar nuevas glorias y triunfos,
    que tenian á Sicilia por un estrecho campo para dilatar engrandecer su
    fama; y así, determinaron de buscar ocasiones arduas, trances
    peligrosos, para que esta fuese mayor y mas ilustre.

    Ayudaban á poner en ejecucion tan grandes pensamientos dos motivos,
    fundados en razón de su conservacion. El primero fué la poca seguridad
    que habia de volver á España su patria, y vivir con reputacion ella, por
    haber seguido las partes de Don Fadrique con tanta obstinacion contra
    Don Jaime su Rey y señor natural; que auque Don Jaime no era Príncipe de
    ánimo vengativo, y se tenía por cierto, que pues en la furia de la
    guerra contra su hermano no consintió que se diesen por traidores los
    que le siguieron, menos quisiera castigar á sangre fria lo que pudo, y
    no quiso en el tiempo que actualmente le estaban ofendiendo, siguiendo
    las banderas de su hermano contra las suyas. Pero la Majestad ofendida
    del Príncipe natural, aunque remita el castigo, queda siempre viva en el
    ánimo la memoria de la ofensa; y aunque no fuera bastante para hacerles
    agravios, por lo menos impidiera el no servirse de ellos en los cargos
    supremos: cosa indigna de lo que merecían sus servicios, nobleza y
    cargos administrados en paz y guerra. El segundo motivo, y el que mas le
    obligó á salir de Sicilia, fué ver al Rey imposibilitado de poderles
    sustentar con la largueza que antes, por estar la hacienda Real y Reino
    destruidos por una guerra de veinte años, y ellos acostumbrados á gastar
    con exceso la hacienda ajena como la propia cuando les faltaban despojos
    de pueblos y ciudades vencidas. Como entre ambas cosas cesaron hechas
    las paces, y fenecida la guerra, juzgaron por cosa imposible reducirse á
    vivir con moderacion.

    El Rey Don Fadrique, y su padre y hermano, con su asistencia en la
    guerra, y como testigos de las hazañas, industria y valor de los
    súbditos, pocas veces se engañaron en repartir las mercedes; porque
    dieron más crédito á sus ojos, que á sus oidos, y siempre el premio á
    los servicios, y no al favor. Con esto faltaban en sus Reinos quejosos y
    mal contentos, pero no pudieron dar á todos los que le sirvieron estados
    y haciendas, con que algunos quedaron con menos comodidad que sus
    servicios merecian. Pero como vieron que los Reyes dieron con suma
    liberalidad y grandeza lo que lícitamente pudieron á los mas señalados
    Capitanes, atribuyeron solo á su desdicha, y á la virtud, y valor
    incomparable de los que fueron preferidos, el hallarse inferiores.

    Estas fueron las causas que movían los ánimos en comun para tratar de
    engrandecer en nuevas empresas y conquistas. Los más principales
    Capitanes que animaban y alentaban á los demás, fueron cuatro, debajo de
    cuyas banderas, sirvieron Roger de Flor Vicealmirante de Sicilia,
    Berenguer de Entenza, Ferran Jimenez de Arenós, ambos ricos hombres, y
    Berenguer de Rocafort; todos conocidos y estimados por soldados de
    grande opinion. Comunicaron sus pensamientos entre sus valedores y
    amigos, y hallándoles con buena disposicion y ánimo de seguirles en
    cualquier jornada, se resolvieron de emprender la que pareciese más útil
    y honrosa. Para la conclusion de este trato se juntaron en secreto, y
    antes de discutir sobre su expedicion, quisieron darle cabeza; porque
    sin ella fuera inútil cualquier consejo y determinacion, faltando quien
    puede y debe mandar. Con acuerdo comun de los que para esto se juntaron,
    fué nombrado por General Roger de Flor Vicealmirante, poderoso en la
    mar, valiente y estimado soldado, práctico y bien afortunado marinero,
    persona que en riquezas y dinero excedia á todos los demas Capitanes;
    causa principal de ser preferido.

    CAPITULO III.

    Quien fué Roger de Flor.

    Nació Roger de Flor, á quien los nuestros eligieron pro General y
    suprema cabeza, en Brindiz de padres nobles, su padre fué Alemán,
    llamado Ricardo de Flor, cazador del Emperador Federico su madre
    Italiana, y natural del mismo lugar. Murió Ricardo en la batalla que
    Cárlos de Anjou tuvo con Coradino, cuyas partes seguia, por ser nieto de
    Federico su Príncipe y señor. Cárlos insolente con la victoria, después
    de haber cortado la cabeza á Coradino, confiscó las haciendas de todos
    los que tomaron las armas en su ayuda. Con esta pérdida quedó Roger y su
    madre con suma pobreza, y con la misma se crió hasta la edad de quince
    años, que un caballero Francés, religioso del Temple, llamado Yassaill,
    se le aficionó con ocasion de asistir en Brindiz, con el Alcon nave del
    Temple, cuyo Capitan era. Navegó juntamente con él Roger algunos años, y
    ganó tan buena opinion en el ejercicio que profesaba, que la Religion le
    recibió por suyo, dándole el hábito de fray sargento, en aquel tiempo
    casi igual al de caballero. Con el Roger comenzó á ser conocido y temido
    en todo el mar de Levante, al tiempo que Prolemayde, dicha por otro
    nombre Acre, se rendió á las armas de Melech Taseraf Sultan de Egipto,
    Roger, como refiere Pachimerio, era uno de los asistian en un Convento
    del Temple; y viendo que la ciudad no se podia defender, recogió muchos
    Cristianos en un navío, con la hacienda que pudieron escapar de la
    crueldad y furia de los Bárbaros.

    No le faltaron á Roger enemigos de su misma Religion, que envidiosos de
    sus buenos sucesos, le descompusieron con su Maestre, haciéndole cargo
    que se habia aprovechado por caminos no debidos á su profesion, y
    defraudado los derechos comunes, y alzádose con todos los despojos de
    sacó de Acre; que como ya esta célebre y famosa Religion se hallaba en
    su última vejez, y cerca de su fin, sus partes se habian enflaquecido
    con los vicios de la mucha edad y tiempo. La envidia, la avaricia, y
    ambicion habian ocupado sus ánimos en lugar del antiguo valor, y de la
    mucha conformidad, y piedad Cristian, que los hizo tan estimados y
    venerados en todas las Provincias.

    Quiso el Maestre con esta primera acusacion prenderle, pero Roger tuvo
    alguna noticia de estos intentos, y conociendo la codicia de su cabeza,
    y ruindad de sus hermanos, no le pareció aguardar en Marsella, donde á
    la sazon se hallaba, sino retirarse á lugar más seguro, y dar tiempo á
    que la falsa y siniestra acusacion se desvaneciese. Retiroso á Génova,
    donde ayudado de sus amigos, y particularmente de Ticin de Oria, armó
    una galera, y con ella fué á Nápoles, y ofreciese al servicio de Roberto
    Duque de Calabria, á tiempo que se prevenia y armaba para la guerra
    contra Don Fadrique. Hizo Roberto poco caso de su ofrecimiento, y del
    ánimo con que se le ofrecía, juzgándole por tan corto como el socorro.
    Obligó á Roger este desprecio á que se fuese á servir á Don Fadrique su
    enemigo, de quien fué admitido con muchas muestras de amor y
    agradecimiento: efectos no solo de su ánimo generoso, y condicion
    apacible para con los soldados, pero de la fuerza de la necesidad de la
    guerra; porque no fuere cordura desechar al que voluntariamente ofrece
    su servicio en tiempos tan apretados, como en los que corren riesgo la
    vida y libertad, y cuando se apartan los mayores amigos, y obligados. El
    que llega á ser amigo en los peligros y cuando el Príncipe es acometido
    de armas mas poderosas, sin obligacion de naturaleza y fidelidad de
    súbdito, debe ser admitido y honrado, aunque le traiga su propio
    interés, ó algun desprecio, ó agravio del contrario, que cuanto más
    ofendido, más util y seguro será su servicio.

    Fuese luego encendiendo la guerra entre Roberto y Fadrique, y Roger
    acreditose en ella con importantes servicios, socorriendo diversas veces
    plazas apretadas del enemigo, y con la pequeña armada, que llevaba á su
    cargo, impidiendo la libre navegacion de los mares y costas de Nápoles,
    con que llegó á ser Vicealmirante, y en menos de tres años hizo cosas
    tan señaladas, que fué una de las mas principales causas de conservar á
    su Príncipe en Sicilia, alcanzando juntamente para sí nombre inmortal, y
    riquezas mas que de vasallo. En este estado se hallaba Roger cuando le
    tomaron los Catalanes y Aragoneses por General en la empresa que
    intentaban.

    CAPITULO IV.

    Determinan los capitales su jornada, y suplican al Rey les favorezca.

    Los Capitanes trataron con el nuevo General cual sería la más
    conveniente y provechosa empresa, y resolvieron de comun parecer de
    ofrecerse al Emperador de los Griegos Andronico Paleólogo casi oprimido
    de las armas de los turcos; porque á mas de que Andronico se tenía por
    cierto que buscaba socorros de naciones extranjeras, dudoso de la
    fidelidad de los suyos, era Príncipe que tenía poca correspondencia con
    el Papa, á quien Roger temia por haber maltratado en tiempo de guerra
    las Provincias de la Iglesia, y siempre vivía con recelos de que el Papa
    pidiese á Don Fadrique su persona como de Religioso Templario, para
    vengarse de él entregándole á su Maestre y Religion. Y aunque no se
    podia esperar de la grandeza de Don Fadrique hecho tan feo, pero como
    los Reyes alguna veces no miden sus intereses con lo que deben á su
    estimacion y fama, olvidan con facilidad los servicios por otras mayores
    conveniencias. Y pudiera ser que rehusando Don Fadrique el entregar á
    Roger, fuera ocasion de rompimiento y guerra; y así no quiso Roger poner
    á Don Fadrique en nuevos cuidados, ni su libertad en peligro si se
    quedára en Sicilia. Pachimerio dice que el Papa se le pidió á Don
    Fadrique, y que juzgando no ser justo entregar á quien tambien le habia
    servido, ofreció entonces de escribir y rogar al Emperador Andronico le
    trajese á su servicio; porque de esta manera saldria honrado de sus
    tierras, y el Papa no podria quejarse de que él amparaba los fugitivos
    de las Religiones. Pero en este caso me parece dar más crédito á
    Montaner; porque al principio de este capítulo escribe Pachimerio, que
    si en esta relacion se apartáre de la verdad, no tendrá la culpa el
    escritor, sino la fama de quien él lo supo, y como la que corria entre
    los Griegos de nuestras cosas, era siempre falsa, no se le debe de dar
    crédito en lo que difiere de Montaner, y facilmente en este caso les
    podemos conciliar; porque solo difieren, en que Pachimerio dá por
    constante que el Papa pidió la persona de Roger á Don Fadrique, y
    Montaner dice que se temió el caso, pero no que sucedió; y así no fué
    mucho que la fama de tan lejos añadiese lo demás.

    Después de haber resuelto todos la jornada, y platicado por algunos dias
    los medios más convenientes para su ejecucion, dieron cargo á Roger que
    hablase á Don Fadrique, y le descubriese sus intentos, y le suplicase de
    parte de todos que los favoreciese, porque no fuera justo que se trátara
    públicamente, sin haber precedido su consentimiento y gusto. Roger vino
    á Mesina, donde el Rey estaba, poco después de concluido su casamiento
    con Leonor hija de Cárlos; y acabadas las fiestas y regocijos de las
    bodas, hablando en secreto con el Rey, le dijo, como los Catalanes y
    Aragoneses se querian salir de Sicilia, y pasar á Levante, no tanto por
    el beneficio comun de todos ellos, como por la quietud y provecho que le
    resultaría si le dejaban un Reino tan trabajado por las guerras pasadas
    libre de carga tan molesta y pesada, como eran ellos en tiempos de paz:
    que sus personas las tendria siempre á su devocion, y que cuando
    importase, le vendrían á servir de los últimos fines de la tierra; pero
    que por entónces le suplicaban facilitase su jornada, y les ayudase con
    su autoridad y fuerzas; paga bien merecida á sus servicios.

    Respondió el Rey, que advirtiesen que la resolucion que habian tomado de
    salir de Sicilia aunque le estaba bien para su conservacion, no para su
    fama, porque muchos podrian entender que su salida era trazada por su
    órden, para quedar libre de sus obligaciones; y que eran de tal calidad
    las que él reconocia, que por este medio no se podia librar de ellas sin
    conocida nota de ingrato. Pero si la esperanza de mayores
    acrecentamientos les llamaba á nuevas empresas, y estaban resueltos, que
    él les asistiria y ayudaria con sus fuerzas, con que ellos fuesen
    testigos y publicasen la verdad del hecho, y que primero aventurará el
    Reino y la vida, que faltara á la obligacion de tan señalados servicios;
    pero que la estrecheza del tiempo por los excesivos gastos de la guerra,
    no daba lugar á que el premio igualase á su deseo. Digna respuesta de
    Príncipe tan esclarecido, tanto más de estimar, cuando es más rara en
    los Príncipes la virtud del agradecimiento, y satisfacer grandes
    servicios cuando son tales que no se pueden pagar con ordinarias
    mercedes. Roger estimó en nombre de todos tan señalado favor, y la honra
    que les hacia, y fuese luego á dar razon á los Capitanes de lo que el
    Rey habia respondido, y entendido por ellos, lo celebraron y
    agradecieron con alabanzas.

    Fué Don Fadrique uno de los más señalados Príncipes de aquella edad, por
    la grandeza de su ánimo, y gloria de sus hechos, cuyo valor deshizo y
    quebrantó las fuerzas unidas para su ruina de Italia, Francia, y España,
    y el que á pesar de todos sus competidores quedó con el Reino de Sicilia
    para sí, y su posteridad, en quien hoy felizmente se conserva. No pudo
    suceder á Don Fadrique cosa que más le importarse para la seguridad y
    quietud de su nuevo reinado, que librar á su pueblo de las
    contribuciones y alojamientos de huéspedes tan molestos, como suelen ser
    los soldados mal pagados. Después que las paces y parentesco desterraron
    la guerra, por mantenerla daban los pueblos de Sicilia con mucha
    liberalidad sus haciendas á los soldados, que los defendian y amparaban
    contra Cárlos á quien temian; pero despues que con la paz se les quitó
    este miedo, comenzaron á sentir la mala vecindad de los soldados, y á
    desavenirse con ellos; disgustos que forzosamente habian de causar daños
    gravísimos, si la nueva expedicion no les atajara.

    CAPITULO V.

    Embajada de los nuestros al Emperador Andronico, y su respuesta.

    Roger y las demás cabezas principales del ejército resolvieron, que
    luego se enviasen dos Embajadores al Emperador Andronico á proponerle su
    servicio. Hiciéronse las instrucciones, asistiendo á ellas con otros
    Capitanes Ramon Montaner, uno de los escritores de mayor crédito, que
    intervino siempre en los consejos y ejecuciones más graves de esta
    expedicion. Entregáronse á dos caballeros, cuyos nombres el tiempo y el
    descuido dejaron envueltos en tinieblas, para que luego partiesen á
    Constantinopla, y diesen su embajada de parte de toda la nacion.
    Llegaron en breves dias con una galera reforzada de Roger. Sabida su
    venida, y con alguna noticia de la Embajada que traian, fueron recibidos
    de Andronico con agradecido semblante y muestras de mucho amor. Propuso
    uno de los dos Embajadores, el más antiguo en años, su embajada: que los
    Catalanes y Aragoneses después de hechas las paces entre Cárlos Rey de
    Nápoles, y Don Fadrique Rey de Sicilia, á quien ellos servian,
    determinaron no buscar reposo en su patria, sino acrecentar con nuevos
    hechos la gloria militar y fama adquirida en las pasadas guerras: que
    tenían para esto fuerzas bastantes en número y valor, soldados
    ejercitados por una larga y peligrosa guerra, Capitanes conocidos por
    sus victorias y nobleza de sangre; que en nombre de todos ellos le
    ofrecían su ayuda contra los Turcos con doblado gusto y aficion, por
    ocupar sus armas á favor de la casa de los Paleólogos, amigos únicos de
    la de Aragon, cuando sus partes estaban muy caidas, y dilatar su
    Imperio, destruyendo juntamente el de los enemigos del nombre Cristiano,
    que con tanta audacia y orgullo le querian establecer en las Provincias
    usurpadas al Imperio Griego.

    Quedaron los Emperadores contentísimos con la no esperada embajada y
    ofrecimiento de los Catalanes, á su parecer tan importante á sus
    intereses, porque entendieron que aquellos mismos, que se les venían á
    ofrecer, eran los que con tanto espanto y temor de toda Italia ganaron y
    sustentaron el Reino de Sicilia. Agradeció con palabras magníficas el
    gusto con que toda la nacion le ofrecía servir, y con el mismo les
    recibió. Quiso que luego se platicasen las condiciones con que habian de
    militar; y así los Embajadores pidieron conforme sus instrucciones el
    sueldo para la gente de guerra, y que á Roger se le diese el título de
    Megaduque, y por muger una de sus nietas, porque queria con tales
    prendas asegurarse más en su servicio. Andronico sin alterar ni mudar
    cosa de las que le pidieron, las concedió, sin reparar en la calidad y
    estado de Roger desigual al de su nieta; pero toda esta desigualdad pudo
    igualar la reputacion de la gente, que como General gobernaba, y verse
    el Griego tan oprimido de las armas de los Turcos, y poco seguro de la
    fidelidad de los suyos.

    Vivía ciego y desterrado en una aldea Bitinia Juan Lascar, legitimo
    sucesor del Imperio, y aunque inútil para ocuparle, viviendo él, era la
    posesion de Andronico tiránica, y causa muy justificada para tomar las
    armas los mal contentos del gobierno presente; y así lleno de temores y
    recelos, le fué forzoso valerse de naciones extranjeras para la guerra y
    defensa de su persona. Recibió en su servicio diez mil Massegatas, á
    quien el vulgo llama Alanos, gente bárbara de costumbres, Cristianos en
    la fé mas que en las obras. Tenian su morada de la otra parte del
    Danubio, y reconocían por señores á los Scitas de Europa. Embiaron
    primero al Emperador su embajada ofreciendo servirle. Nicephoro Gregoras
    Autor Griego de aquellos tiempos refiere lo mucho que Andronico la
    estimó con estas mismas palabras: Fuéle tan agradable al Emperador como
    si viniera del cielo. Decia que todos los Griegos le eran sospechosos y
    enemigos, y así continuamente procuraba amistades y ligas con los
    extraños, que ojalá nunca lo hiciera. Tambien recibió en su ejército
    muchas compañias de Turcoples que dejaron á Sultan Azan, y se
    bautizaron. Todas estas ayudas las deseaba Andronico, y las estimaba
    como grandes; y así la que los nuestros le ofrecían no se puede con
    palabras encarecer la estimacion que hizo de ella, por ser de gente tan
    aventajada á las demás que le servian, y tan temida en aquellos tiempos.
    Remitió Andronico los dos Embajadores á Roger concertando el casamiento,
    y le llevaron las insignias de Megaduque, que es lo mismo entre nosotros
    General de la mar: dignidad grande de aquel Imperio, pero no de las
    mayores.

    CAPITULO VI.

    Señala sueldo el Emperador á la gente de guerra, y hace muchas honras y
    mercedes á su Capitanes.

    Señaló Andronico las pagas segun la diferencia de las armas y ocupacion,
    cuatro onzas de plata cada mes á los hombres de armas, á los caballos
    lijeros dos, y lo mismo á los pilotos y gente de mandoneros una onza, y
    que siempre que llegasen á la costa de alguna Provincia del Imperio, se
    les diesen cuatro pagas, y cuando quisiesen volver á sus casas juntos, ó
    divididos, se le librasen dos para el viaje. George Pachimerio Autor
    Griego, cuyos fragmentos ilustran mucho esta relacion, aunque enemigo
    grande de los Catalanes, dice, que las pagas de los Catalanes eran
    doblado mayores que las de los Turcoples, y Massagetas: con que
    claramente se muestra la estimacion que se hizo de la milicia Catalana y
    Aragonesa, pues con tan excesiva diferencia la aventajaron á todos los
    que servian en su Imperio. De las pagas, entretenimientos y ventajas que
    ofreció á la nobleza y Capitanes, no señalan los Historiadores cosa con
    particularidad, solo el oficio y dignidad de Megaduque de Roger, y el de
    Senescal en Corberan de Alet. De donde sospecho que su gusto era el que
    limitaba sus pagas y sueldo; porque segun adelante veremos, los
    Generales pedian á su voluntad el dinero, con solo señalar la cantidad,
    sin que para esto hubiesen de dar cuenta á los contadores, y ministros
    de la hacienda de Andronico.

    Los embajadores volvieron á Sicilia, y hallaron á Roger en Licata donde
    aguardaba su vuelta, y sabido el buen despacho que traian se fué luego á
    ver con el Rey, á darle razon del honroso acogimiento que Andronico hizo
    á sus Embajadores y cuan largo andaba en ofrecerles mercedes. Publicóse
    la jornada, y los Capitanes recogieron su gente en Mecina, donde la
    armada se aprestaba, que en pocos dias estuvo en órden para navegar. Era
    la armada de treinta y seis velas, y entre ellas habia diez y ocho
    galeras, y cuatro naves gruesas, la mayor parte armadas con dinero del
    Rey, y de Roger, que para la ejecucion de esta jornada gastó la hacienda
    que adquirió en las guerras pasadas, y tomó veinte mil ducados de los
    Genoveses en nombre del Emperador Andronico. Fué mucho ménos el número
    de la gente de lo que se creyó; por que los dos Berengueres de Entenza,
    y Rocafort no pudieron juntarse con Roger, ni seguirle, porque
    difirieron su partida para el siguiente año. Berenguer de Entenza
    esperaba nuevas compañias de gentes de Cataluña para acrecentar sus
    fuerzas, y pasar con mayor reputacion. Berenguer de Rocafort se detenia
    en unos Castillos de Calabria, y reusaba el entregarlos al Rey Cárlos de
    Nápoles, hasta quedar enteramente satisfecho de lo que se le debia por
    razon de su sueldo. Roger aunque le falta de estos dos Capitanes le
    pudiera con justa causa detener, por ser una de las mas principales
    partes de su ejercito, determinó partirse, y embarcó su gente el dia que
    tenía aplazado. El Rey, á mas de los navíos y galeras que les dió para
    su viaje, les mando proveer de vituallas y bastimentos, y el dinero que
    pudo, un Príncipe que el reinar solo conoció las fatigas y peligros.

    Este fué el premio que se dió á la milicia mas invencible y victoriosa
    de aquella edad, y que sirvió por largos veinte años á tres Reyes,
    Pedro, Jaime y Fadrique, alcanzando de sus enemigos cinco victorias
    navales, tres en tierra, sin otros encuentros notables, y sin las
    expugnaciones de fuertes y grandes pueblos, y otros defendidos con
    loable obstinacion y valor increíble. Tal era la moderacion de aquellos
    tiempos, bien diferente de lo que hoy tenemos, pues vemos soldados que
    apenas han visto al enemigo, cuando ya juzgan por cortas las mayores
    mercedes.

    CAPITULO VII.

    Parte de Sicilia la armada, y que gente y milicia fué la de los
    Almugavares.

    Embarcose toda la gente en el puerto de Mecina, y antes de salir del
    Faro, se tomó muestra general, y se hallaron según Montaner, efectivos
    1500 hombres de cabo para el servicio de la armada, sin los oficiales, y
    cuatro mil infantes Almugavares. Nicéforo Gregoras, Autor poco fiel en
    algunos de estos sucesos, dice, que Roger pasó solo mil hombres á
    Grecia, pero George Pachimerio ya concuerda con Montaner, y afirma que
    fueron ocho mil los que pasaron. Este, á mi parecer, es el verdadero
    número; porque seis mil y quinientos soldados de paga, es cierto que
    llegaron hasta el número de ocho mil con los criados y familia de los
    Capitanes, y Ricos hombres. Y aunque estos dos Autores no concordarán,
    la fé de Nicéforo fuera siempre dudosa; porque á Roger siendo Capitan de
    solos mil hombres, no me puedo persuadir que Andronico le hiciera
    Megaduque, y le casára con su nieta, sin haber precedido servicios. No
    parecerá ageno del intento, pues toda nuestra infantería fué de
    Almugavares, decir algo de su origen.

    La antigüedad madre del olvido, por quien han perecido claros hechos y
    memorias ilustres, entre otras que nos dejó confusas, ha sido el origen
    de los Almugavares; pero según lo que yo he podido averiguar, fué de
    aquellas naciones bárbaras que destruyeron el Imperio y nombre de los
    Romanos en España, y fundaron el suyo, que largo tiempo conservaron con
    esplendor y gloria de grande majestad, hasta que los Sarracenos en menos
    de dos años le oprimieron, y forzaron á las reliquias de este universal
    incendio, que entre lo más áspero de los montes, buscase su defensa,
    donde las fieras muertas por su mano les dieron comida y vestido. Pero
    luego su antiguo valor y esfuerzo, que el regalo y delicias tenian
    sepultado, con el trabajo y fatiga se restauró, y les hizo dejar las
    selvas y bosques, y convertir sus armas contra Moros, ocupadas antes en
    dar muerte á fieras.

    Con la larga constumbre de ir divagando, nunca edificaron casas, ni
    fundaron posesiones en la campaña, y en las fronteras de enemigos tenian
    su habitacion y el sustento de sus personas y familias: despojos de
    Sarracenos, en cuyo daño perpetuamente sacrificaban las vidas, sin otra
    arte ni oficio mas que servir pagados en la guerra, y cuando faltaban
    las que sus Reyes hacian, con cabezas y caudillos particulares corrian
    las fronteras, de donde vinieron á llamar los antiguos el ir á las
    correrias, ir en almugaveria. Llevaban consigo hijos y mujeres, testigos
    de su gloria, ó afrenta, y como los Alemanes en todos tiempos lo han
    usado, el vestido de pieles de fieras, abarcas, y antiparas de lo mismo.
    Las armas una red de hierro en la cabeza á modo de casco, una espada, y
    un chuzo algo menor de lo que se usa hoy en las compañías de
    arcabuceros, pero la mayor parte llevaban tres ó cuatro dardos
    arrojadizos. Era tanta la presteza y violencia con que los despedian de
    sus manos, que atravesaban hombres y caballos armados, cosa al parecer
    dudosa si Desclot y Montaner no lo refirieran, autores graves de
    nuestras historias, adonde largamente se trata de sus hechos, que pueden
    igualar con los muy celebrados de Romanos y Griegos.

    Cárlos Rey de Nápoles, puesto ante su presencia algunos prisioneros
    Almugavares, admirando de la vileza del traje, y de las armas, al
    parecer inútiles contra los cuerpos de hombres y caballos armados, dijo
    con algun desprecio, que si eran aquellos los soldados con que el Rey de
    Aragon piensa hacer la guerra. Replicóle uno de ellos, libre siempre el
    ánimo para la defensa de su reputacion; Señor, sin tan viles te
    parecemos, y estimas en tan poco nuestro poder, escoje un caballero de
    los mas señalados de tu ejército, con las armas ofensivas y defensivas
    que quisiere, que yo te ofrezco con sola mi espada y dardo de pelear en
    campo con él. Cárlos con deseo de castigar la insolencia del Almugavar,
    aplazó el desafío, y quiso asistir y ver la batalla. Salió un Francés
    con su caballo armado de todas piezas, lanza, espada, y dardo. Apenas
    entraron en la estacada cuando le mató el caballo, y queriendo hacer lo
    mismo de su dueño, la voz del Rey le detuvo, y le dió por vencedor y por
    libre.

    Otro Almugavar en esta misma guerra, á la lengua del agua, acometido de
    veinte hombres de armas, mató cinco antes de perder la vida. Otros
    muchos hechos se pudieran referir, si no fuera ajeno de nuestra
    historia, el tratar de otra largamente. La duda que se ofrece solo es
    del nombre, si fué de nacion, ó de milicia en sus principios. Tengo por
    cosa cierta que fué de nacion, y para asegurarme mas en esta opinion,
    tengo á George Pachimerio autor Griego, cuyos fragmentos dan mucha luz á
    toda esta historia, que llama á los Almugavares descendientes de los
    Avares, compañeros de los Hunos, y Godos, y aunque no se hallará autor
    que opuestamente lo contradiga, por muchas leyes de las partidas se
    colige claramente, que el nombre de Almugavar era nombre de milicia, y
    el ser esto verdad no contradice lo primero, porque entre ambas cosas
    puede haber sido.

    En su principio, como Pachimerio dice, fué de nacion, pero después como
    no ejercitaban los Almugavares otra arte ni oficio, vinieron ellos á dar
    nombre á todos los que servian en aquel modo de milicia, así como muchas
    artes y ciencias tomaron el nombre de sus inventores. Pero dudo mucho
    que hubiese quien se agregase á los Almugavares, milicia de tanta fatiga
    y peligro, sin ser de su nacion, porque la inclinacion natural les hacia
    seguir la profesion de los padres; ni hay hombre que pudiendo escoger
    siguiese milicia, que desde la primera edad se ocupase con tanto riesgo
    de la vida, descomodidad, y continuo trabajo. Nicephoro Gregoras dice,
    que Almugavar es nombre que dan á toda su infantería los Latinos; así
    llaman los Griegos á todas las naciones que tienen á su Poniente, pero
    no hay para que contradecir con razones falsedad tan manifiesta, y más
    contra un autor tan poco advertido en nuestras cosas como Nicephoro.

    Salió la armada de Mecina, y con próspera navegacion llegó á Malvacia
    puerto de la Morea, donde fueron bien recibidos y ayudados con algun
    refresco por órden del Emperador. Antes de salir llegaron cartas suyas
    en que mandaba á Roger que apresurase la navegacion. Partió alegre la
    gente con el refresco, y en pocos dias la armada arribó á
    Constantinopla, por el mes de Enero indicion segunda, segun Pachimerio,
    con universal regocijo de la ciudad viendo las armas que les habian de
    amparar, y defender. Andronico, y Miguel Emperadores, y toda la nobleza
    Griega, con mucho amor y muestras de sumo agradecimiento les recibieron,
    y honraron. Mandó luego Andronico desembarcar toda la gente, y que
    alojase dentro de la Ciudad en el barrio que llamaban de Blanquernas, y
    el siguiente dia se repartieron cuatro pagas como estaba concertado.

    CAPITULO VIII.

    Roger Se casa. Pelean Catalanes y Genoveses dentro de Constantinopla.

    Parecióle al Emperador Andronico que convenia á su seguridad y crédito,
    dar á entender que los ofrecimientos hechos á los nuestros se habian de
    cumplir con mucha puntualidad, y para que esto se mostrase luego con las
    obras, dió principio por lo que parecia mas difícil, que fué el
    casamiento de Roger con su sobrina María, con que todos quedaron
    satisfechos, juzgando por ciertas las demás mercedes como inferiores y
    más fáciles de cumplir. Hiciéronse las bodas con la solemnidad de
    personas Reales; porque el valor de Roger pudo igualar la nobleza de la
    mujer. Era María hija de Azan Príncipe de los Búlgaros, y de Trene
    hermana de Andronico, de quince años de edad, hermosa y por extremo
    entendida. Entre el mayor placer y gusto por la boda, sucedió un
    alboroto y pendencia entre Catalanes y Genoveses, que casi fué batalla
    muy sangrienta, nacida como muchas veces acontece de pequeña causa, y
    aunque Pachimerio dice, que fué sobre la cobranza de los veinte mil
    ducados que prestaron á Roger en Sicilia, y que por sosegarlos ofreció
    el Emperador de pagarlos, pero la más cierta ocasion de la pendencia
    fué, que un Almugavar discurriendo por la ciudad dió ocasion á dos
    Genoveses, viéndole solo, que se burlasen con mucha risa de su traje, y
    figura; pero el ánimo militar del Almugavar mal sufrido en los donaires
    y motes cortesanos, mas osado de manos que de lengua, les acometió con
    la espada, y travó la pendencia. Acudieron de una y otra parte valedores
    y amigos, estando ya los ánimos prevenidos y alterados como sospechosos,
    y con esto las fuerzas de entre ambas naciones se encontraron para su
    total ruina y perdicion. Los Genoveses sacaron su bandera ó guion, y
    acometieron los cuarteles de los Almugavares repartidos en el barrio de
    Blanquernas. Nuestra caballería reconociendo el peligro de sus
    Almugavares, dividida en tropas, cerró con la gente Genovesa mal
    ordenada. Con esto se dió lugar á que los Almugavares saliesen de sus
    alojamientos, y se juntasen para tomar satisfacion de quien tan
    injustamente los maltrataba. Peleose de una y otra parte con
    obstinacion, hasta que los Genoveses, muerto su Capitan Roseo del Final,
    se fueron retirando con notable pérdida y daño.

    Andronico de las ventanas de su Palacio atento y con gusto miraba la
    pendencia cuando los Genoveses levemente fueron mal tratados, y algunos
    muertos, y con palabras mostró su ánimo mal afecto contra ellos; pero
    cuando vió que los Almugavares con su acostumbrado rigor iban degollando
    cuanto se les ponia delante, temió que todos los Genoveses de
    Constantinopla no muriesen aquel dia; cosa peligrosa para su
    conservacion, porque dependia de ellos la paz de su Imperio. Tiénese por
    cierto que Andronico quisiera sacudirse el yugo de Genoveses si pudiera
    con seguridad, pero era difícil por tener ellos el poder dividido para
    que se pudiera oprimir á un tiempo, y si consintiera que los de
    Constantinopla perecieran, fuera irritar las otras fuerzas que quedaban
    enteras; y así con ruegos y promesas pidió á los Capitanes que
    recogiesen y retirasen los suyos, y George Pachimerio refiere, que mandó
    Andronico á Estéban Marzala gran Drungario y Almirante, que fuese á
    quietar el tumulto, y apaciguar las partes, y que fúe muerto y
    despedazado. Finalmente la presencia y autoridad de Roger, y de los
    otros Capitanes pudo tanto, que obedecieron todos, y con mucho peligro
    les retiraron, porque habian sacado sus banderas con ánimo de acometer á
    Pera, y saquearla, juntando á su venganza su codicia.

    Era esta poblacion de Genoveses, dividida por un estrecho cerco del mar
    de la Ciudad de Constantinopla, llamado de los antiguos Cuerno de
    Bisancio, y hoy de los Turcos y Griegos Galata. Retirados y sosegados
    los nuestros, les mandó el Emperador en agradecimiento de su puntual
    obediencia librar una paga. Quedaron muertos de los Genoveses en la
    Ciudad cerca de tres mil, y aunque lo peor llevaron ellos entónces, fué
    causa de mayores daños en lo venidero para los nuestros, porque con esto
    quedó irritada una nacion émula y poderosa, que importaba su amistad
    para conservar nuestras armas en aquel Imperio; porque en estos tiempos
    era grande y temido su poder en todo el Oriente, arbitros de la paz y la
    guerra. Tenian ilustres Colonias y Presidios en Grecia, en Ponto, en
    Palestina, armadas poderosas, poseian muchas riquezas adquiridas con su
    industria y valor, y absolutamente eran dueños del trato universal de
    Europa, con que mantenian fuerzas iguales á las de los mayores Reyes, y
    Repúblicas. Con esto llegaron á ser casi dueños del Imperio Griego. En
    este tiempo cuando los Catalanes llegaron á Constantinopla, y
    reconociendo las fuerzas que traian, les pareció á los Genoveses
    peligrosa la vecindad de sus armas; y así siempre se mantuvo entre estas
    dos naciones aborrecimiento y enemistad implacable que duró muchas
    edades, hasta que el valor de entre ambos se fué perdiendo, juntamente
    con el Imperio del mar, y cesó la emulacion por cuya causa muchas veces
    con varia fortuna se combatió.

    CAPITULO IX.

    Pasa la armada á la Natolia, y hecha la gente en el cabo de Artacio.

    Con el peligro de la pendencia entre Catalanes y Genoveses, advirtió
    Andronico los que pudieran suceder, por tener dentro de la Ciudad
    diferentes y varias naciones armadas, y ofendidas, que con ménos ocasion
    que la vez pasada vinieran sin duda á rompimiento. Llamó á nuestros
    Capitanes, y les explicó brevemente el fusto que tendría de ver sus
    armas en el Asia, amparando su miserables y Cristianos pueblos,
    oprimidos de los Turcos, y quitada la ocasion de nuevas pendencia y
    desórdenes. Roger con sus Capitanes ofreció que embarcaría su gente
    luego. Pero para que su partida fuese con más gusto, y el ejército
    quedase satisfecho, y seguro de tener en la armada ciertos los socorros
    y retiradas, le suplicaron nombrase por General de ella algun Caballero,
    ó Capitan que fuese de su nacion, para que dependiesen de ellos,
    temiendo que Andronico diese este cargo á Griegos ó Genoveses; y fuera
    cosa peligrosa para su seguridad tener el socorro en poder de gente
    extraña, con quien siempre hay emulacion y competencias; ocasion de
    graves pendencias y daños, y más en los socorros de mar, tan sujetos á
    las mudanzas del tiempo, que puede la ruindad y malicia de un General
    retardar el socorro, y hallar razon que disculpe y apruebe lo mal hecho,
    atribuyendo al tiempo y á peligros imaginados su tardanza. Andronico
    cumplidamente satisfizo á la demanda, dando el cargo de General de la
    armada con título de Almirante á Fernando de Aones Caballero de conocida
    sangre, y gallardo por su persona, y juntamente quiso que se casase con
    una parienta suya, para que el nuevo parentesco diese más autoridad á su
    cargo. El título de Almirante en aquel Imperio no era tan supremo como
    lo fué entre nosotros, por que estaba sujeto al Megaduque, y de él
    recibia las órdenes. Mando el Emperador, que un insigne Capitan de
    Romeos que se llamaba Marulli, hombre de sangre y estado, fuese
    siguiendo las banderas de Roger con su gente, y Gregorio con la mayor
    parte de los Alanos hiciese lo mismo. Embarcose el ejército en los
    navíos y galeras de su armada, y atravesando el mar de Propontide, dicho
    hoy de Marmora, tomaron tierra en el cabo de Artacio, poco mas de cien
    millas lejos de Constantinopla, lugar acomodado para la desembarcacion
    de la caballería. A este cabo llama Montaner Artaqui, y los antiguos
    Artacio, no lejos de las ruinas de la famosa ciudad de Cizico.

    Llegó Roger con la armada, y supo que los Turcos aquel mismo dia habian
    querido ganar una muralla, ó defensa de media milla de largo, puesta en
    la parte que el cabo se continua con la tierra firme, y que dejaron el
    combate, mas por la fortaleza del sitio, que por el valor de los que la
    defendían. Estiéndese este cabo, desde esta defensa, ó muralla algunas
    leguas dentro del mar, y en él hay muchas poblaciones, y abundantes
    valles, fértiles colinas. Era en los tiempos antiguos Isla, pero después
    se vino á cerrar con las arenas.

    Con el aviso cierto que Roger tuvo, de que los Turcos habian acometido
    el reparo y defensa del cabo, y que no podian estar muy lejos, dióse
    prisa á desembarcar la gente, y envió luego á reconocer el campo de los
    enemigos, y dentro de pocas horas se supo como estaban alojados seis
    millas lejos entre dos arroyos, con sus mugeres, hijos y haciendas. En
    aquel tiempo los Turcos, no olvidados aún de las costumbres de los
    Scitas, de quíen se precian suceder, vivian la mayor parte, y la más
    belicosa en la campaña, debajo de tiendas y barracas, mudándose según la
    variedad del tiempo, y comodidades de la tierra. Tenian puesta su mayor
    fuerza en la caballería, gobernada por Capitanes y Príncipes de valor,
    no de sangre, á quien obedecían más por gusto que por obligacion. Tenian
    perpetua guerra con los vecinos, sin órden militar, á imitacion de los
    Alarabes, que hoy poseen el Africa. Esta forma de vivir tuvieron, desde
    que dejaron las riveras del rio Volga, y entraron en la Asia menor,
    hasta que la vileza de las naciones de la Asia, y Grecia les dió crédito
    y reputacion. A las Monarquias y naciones, sucede lo mismo que á los
    hombres que nacen, crecen y mueren. Nació Grecia cuando se defendió de
    Jerjes, y cuando su valor deshizo el poder de tan numerosos ejércitos, y
    forzó al bárbaro Monarca, que se retirase vencido, y pasase el estrecho
    de mar del Helesponto en una pequeña barca, que poco antes soberbio y
    desvanecido humilló con puente. Tuvo su aumento, cuando las armas de
    Alejandro pasaron más allá del Ganges, y los límites y fines inmensos de
    la misma naturaleza no lo fueron de su ambicion. Fué su muerte, cuando
    las armas de los Bárbaros, por flojedad de sus Príncipes, y poca
    fidelidad de sus Capitanes, le pusieron en dura servidumbre.

    En este tiempo que Andronico ocupaba el Imperio de Oriente, los Turcos
    se dividieron, y hubo entre ellos algunas guerras civiles, pero por el
    consejo y autoridad de Orthogules se sosegaron, remitiendo á la suerte
    sus pretensiones, que como reviere Gregoras, y Chalchondilas, se
    dividieron por suerte las Provincias entre siete Capitanes, pretensores
    todos al gobierno universal. Dio la suerte á Caramano la parte
    mediterranéa de la Provincia de Frigia hasta Cilicia, y Philadelphia,
    aunque algun autor quiere, que este no fuese de los siete Capitanes, y
    que solo reinó en Caria: á Carcano la parte Frigia, que se estiende
    hasta Esmirna: á Calami y á su hijo Carasi, la Lidia hasta Misia
    Bitinia, y las demás Provincias junto al monte Olimpo, cayeron en la
    suerte de Otomano, que en aquella edad comenzó á ser temido, y á
    levantar poco después su Monarquía, venciendo y sujetando los demás
    Tiranos de las Provincias que vamos nombrando; con que quedó absoluto
    señor y Príncipe de todas ellas. La Patagonia, y las demás tierras que
    caen á la parte del Ponto Euino, las ocuparon los hijos de Amurat. En
    esta forma hallaron los nuestros repartida el Asia, y á los Turcos
    señores de ella: que fué grande ayuda para nuestras victorias el estar
    sus fuerzas divididas.

    CAPITULO X.

    Vencen los Catalanes y Aragoneses á los turcos.

    Por el aviso que Roger tuvo de como los Turcos estaban cerca, temiendo
    perder tan buena ocasion si advertidos de la llegada de los nuestros se
    previnieran, ó retiraran, juntó el campo, y en una breve platica les
    dijo, como el siguiente dia queria da sobre los alojamientos de los
    enemigos, fáciles de romper por estar descuidados. Propusoles la gloria
    que alcanzarian con vencer, y que de los primeros sucesos nacía el
    miedo, ó la confianza, y que la buena ó mala reputacion pendia de ellos.
    Mandó que no se personase la vida sino á los niños, porque esto causase
    más temor en los Bárbaros, y nuestros soldados peleasen sin alguna
    esperanza d que vencidos pudiesen quedar con vida. Dispuesto el órden
    con que se habia de marchar, dió fin á la platica. Oyéronle con mucho
    gusto, y aquella misma noche partieron de sus alojamientos á tiempo que
    al amanecer pudiesen acometer á los Turcos. Guiaba Roger con Marulli la
    vanguardia con la caballería, y llevaba solos dos estandartes, en el uno
    las armas del Emperador Andronico, y en el otro las suyas. Seguia la
    infantería hecho un solo escuadron de toda ella, donde gobernaba
    Corbarán de Alet Senescal del ejército. Llevaba en la frente solas dos
    banderas, contra el uso comun de nuestros tiempos, que suelen ponerse en
    medio del escuadron como lugar más fuerte y defendido. La una bandera
    llevaba las armas del Rey de Aragon Don Jaime, y la otra las del Rey de
    Sicilia Don Fadrique; porque entre las condiciones que por parte de los
    Catalanes se propusieron al Emperador, fué de las primeras, que siempre
    les fuese lícito llevar por guia el nombre y blason de sus Príncipes,
    porque querian que adonde llegasen sus armas, llegase la memoria y
    autoridad de sus Reyes, y porque las armas de Aragon lastenian por
    invencibles. De donde se puede conocer el grande amor y veneracion que
    los Catalanes y Aragoneses tenian á sus reyes, pues aún sirviendo á
    Príncipes extraños, y en Provincias tan apartadas, conservaron su
    memoria, y militaron debajo de ella: fidelidad notable, no solo conocida
    en este caso, pero en todos los tiempos. Porque no se vió de nosotros
    Príncipe desamparado por malo y cruel que fuese, y quisimos más sufrir
    su vigor y aspereza, que entregarnos á nuevo señor. No fué preferido el
    segundo al primogénito. Siempre seguimos el órden que el cielo, y
    naturaleza dispuso, ni se alteró por particular aborrecimiento ó
    aficion, con no haber apenas Reino donde no se hayan visto estos
    trueques y mudanzas.

    Pasaron los nuestros á media noche la muralla, ó reparo que divide el
    cabo de tierra firme, y al amanecer se hallaron sobre los Turcos, que
    como en parte segura, y á su parecer lejos de enemigos, estaban sin
    centinelas, reposando dentro de sus tiendas con descuido y sueño. Cerró
    Roger y Marulli con la caballería, metiéndose por las tiendas y flacos
    reparos que tenian con grande ánimo. Siguiéronle los Almugavares con el
    mismo, dando un sangriento y dichoso principio á la nueva guerra. Los
    Turcos á quien la furia y rigor de nuestras espadas no pudo oprimir en
    el sueño, al ruido de las armas y voces despertaron, y con la turbacion
    y miedo que semejantes asaltos suelen causar en los acometidos, tomaron
    las armas para su defensa, pero fueron pocos, divididos y desarmados,
    con que su resistencia fué inútil y sin provecho contra el esfuerzo y
    gallardia de nuestra gente, que ya lo ocupaba todo. Pelearon los Turcos
    con desesperacion, viendo á sus ojos despedazar y degollar á sus más
    caras prendas, de gente que ni aún por el nombre conocían. Alcanzose
    cumplidísima victoria, dejando en el campo muertos de los Turcos tres
    mil caballo, y diez mil infantes. Los que quedaron vivos fueron los que
    reconociendo con tiempo el desorden y pérdida, y que los Catalanes eran
    impenetrables á los golpes de sus dardos, se pusieron en seguro con la
    huida, y el que querer muchos hacer lo mismo después les causó mas
    presto la muerte, por que ocupados en retirar sus hijos y mujeres,
    dejaban la batalla, y luego perecian. La presa fué grande, y los niños
    cautivos muchos. Refiere Nicéforo, Griego de nacion, y enemigo declarado
    de la nuestra, el espanto y terror que causó en los Turcos este primer
    acometimiento con estas mismas palabras: «Como los Turcos vieron el
    ímpetu feroz de los Latinos, (que así llama á los Catalanes) su valor,
    su disciplina militar, y sus lucidas y fuertes armas, atónitos y
    espantados huyeron, no solo lejos de la ciudad de Constantinopla, pero
    más adentro de los antiguos límites de su Imperio.» Nuestra gente siguió
    el alcance poco rato, por no tener la tierra conocida, y volvieron
    aquella misma noche al cabo, por tener el alojamiento reconocido y
    seguro.

    CAPITULO XI.

    Retirase el ejército par invernar en el cabo de Artacio sus
    alojamientos.

    Dieron aviso al Emperador del buen suceso de su victoria, enviando
    cuatro galeras con riquísimos presentes para entre ambos Príncipes,
    Andronico y Miguel, y en nombre de los soldados se envió á María muger
    del Megaduque Roger lo más precioso y rico de la presa. Causó notable
    admiracion entre los Griegos la brevedad con que se alcanzó tan señalada
    victoria, y el pueblo la celebró con alabanzas, libre del temor de los
    Turcos, que insolentes con las victorias alcanzadas de los Griegos de la
    otra parte del estrecho amenazaban la Ciudad, con los alfanges desnudos;
    pero casi toda la nobleza, que como fuera justo debiera mostrarse más
    agradecida á tan grande beneficio, manifestó el veneno de sus ánimos,
    que la envidia de la agena felicidad no dió lugar á que se pudiese mas
    encubrir. Los privados de Andronico, y las personas de mayor estimacion
    de su nacion, comenzaron á temer nuestras fuerzas, juzgándolas por
    superiores á las que ellos tenian, y que dentro de casa tanto poder en
    manos de extranjeros era cosa peligrosa. Estas platicas y discursos las
    alentaba el Emperador Miguel, incitado de un oculto sentimiento que
    causó en su ánimo la victoria, porque algunos meses antes habia pasado
    el estrecho con un ejército poderosísimo, y por miedo de los Turcos ó
    poca seguridad de los suyos, se retiró con gran pérdida de su
    reputacion, sin travar ni aún una pequeña escaramuza con el enemigo; y
    como los Catalanes siendo tan pocos vencieron á los que él no se atrevió
    acometer con tan excesivo número de gente, de esto nació su corrimiento,
    y de él un grande aborrecimiento y deseo de nuestra perdicion. Los
    Príncipes sienten mucho que haya quien se les iguale en valor, y aún en
    la dicha aborrecen á quien se les aventaja, porque el poder no sufre
    virtud y partes aventajadas en ageno sujeto, y más cuando en su
    competencia sucede el aventajarse. Si una baja y vil emulacion de un
    Príncipe en hacer versos causó la muerte á Lucano, ¿Cuánto mayor fuera
    si de valor y fortuna se compitiera? Y así no se debe tener por Captan
    cuerdo el que intenta una empresa errada por su Príncipe, si ya n quiere
    competir con el del Imperio.

    Con el buen suceso que tuvieron no trataron de pasar adelante, ni seguir
    la victoria: cosa que les hizo perder reputacion, y fué ocasion de hacer
    muchos excesos en aquella comarca, que irritaron gravemente el ánimo de
    los naturales y Griegos. Cuando quisieron entrar la tierra á dentro,
    comenzó el primer dia de Noviembre á entrar con tanto rigor el invierno,
    con vientos frios y agua que les detuvo. Los rios por sus crecientes sin
    poderse vadear, la campaña esteril llena de enemigos, los caminos
    difíciles por donde se habia de marchar para socorrer á Philadelphia,
    eran causas bastantes para diferir cualquier empresa. Roger con el
    parecer y consejo de sus Capitanes se resolvió de invernar en Cizico,
    lugar acomodado por la fortaleza del sitio, y abundancia de las
    vituallas, y porque el año siguiente fuese menos embarazosa la salida
    que si hubieran de partir de Grecia, y embarcar y desembarcar la
    caballería tantas veces, cosa de suyo tan molesta. Dieron luego aviso al
    Emperador de esta resolucion y aprobóla con mucho gusto, porque era lo
    que más le convenia, por tener el ejército alojado en la frente del
    enemigo, y apartado de Constantinopla y de los demás pueblos Griegos,
    donde no faltáran quejas y pesadumbre, aunque cerca de tres meses
    anduvieron alojados por Asia sin efecto, trabajando la tierra con
    insoportables contribuciones. Mandó Andronico que con mucha diligencia
    se llevasen por mar las vituallas que no se hallaban en el cabo, con que
    pasaron los nuestros un invierno muy apacible. El Megaduque Roger envió
    con cuatro galeras por su mujer María. El órden que se tuvo en los
    cuarteles para escusar pendencias entre los soldados y sus huéspedes,
    fué el siguiente. Los soldados nombraron seis de su parte, y los de la
    tierra otros tantos, para que de comun parecer y acuerdo se pusiese
    precio á las vituallas: porque encareciéndose más de lo justo fuera gran
    descomodidad para los soldados, y dándose á un precio muy bajo no
    resultase en notable daño de los huéspedes, á más que faltára el
    comercio y provision ordinaria que acudia de todas partes con
    abundancia. Ordenose á Fernando Aones Almirante, que con la armada fuese
    á invernar á la isla de Jio, puerto seguro y vecino de las Costas
    enemigas. Es el Jio isla de las más señaladas del mar Egeo, por nacer en
    ella sola el Almaste, cosa que negó naturaleza á las demás partes de la
    tierra.

    CAPITULO XII.

    Ferran Jimenez de Arenós se aparta de los suyos.

    Las cosas de mar y tierra, concertadas en la forma dicha, se pasaba el
    invierno con sosiego y mucha conformidad, pero luego nuestras fuerzas se
    fueron enflaqueciendo con algunas divisiones y discordias civiles.
    Ferran Jimenez de Arenós, caballero de gran linage, y buen soldado, se
    desavino con Roger sobre el gobierno de sus gentes, y pareciéndole
    desigual la competencia, se apartó del ejército con los suyos, y
    volviéndose á Sicilia, pasando por Athenas se quedó á servir á su Duque,
    que le recibió agradecido, y honró con cargos militares, en cuyo
    servicio se detuvo hasta que la necesidad de sus amigos en Galípoli le
    llamó y volvió á juntarse con ellos, aventurando como buen caballero la
    libertad y la vida. Pachimerio dice, que la ocasion de apartarse Ferran
    Jimenez de Roger fué, porque muchas veces le advirtió que reprimiese y
    castigase los soldados, y como vió que en esto no andaba como debia, se
    apartó de su compañía con los que le quisieron seguir. ¡Notable fuerza
    de inclinacion, que apenas se apartaba el peligro de las armas
    extranjeras, cuando ya las competencias y guerras civiles se encendian
    entre ellos!.

    En abriendo el tiempo, el Megaduque Roger, y su muger María se fueron á
    Constantinopla con cuatro galeras á tratar con el Emperador de la
    jornada, y á pedirle dinero para hacer pagamento general antes que el
    ejército saliese en campaña. Miguel estaba en Constantinopla, y
    queriendo Roger visitarle y darle razon de lo que pensaba hacer aquel
    año, no le dió lugar, porque se tenía por ofendido del mal tratamiento
    que habia hecho á los de Cizico sus vasallos. Esto dice Pachimerio. Lo
    cierto es, que Roger alcanzó de Andronico el dinero con tanta largueza,
    que pudo dar dobladas pagas; liberalidad grande, si la falta de hacienda
    y dinero con que se hallaba, permitiera que se le pudiera dar este
    nombre. Tiénese por virtud heróica en un Príncipe la liberalidad si en
    ella concurren dos calidades, tener que dar, y que se lo merezca á quien
    se dá, y cualquiera de estas dos que falte no es liberalidad sino
    injusticia; y así aunque Andronico repartió las mercedes en personas de
    grandes merecimientos, como le faltó la primera calidad, que es tener
    que dar, túvose por muy excesivo este donativo, y por hierro muy grave,
    porque estaba el fisco y cámara Imperial tan destruida, que no podia
    acudir á las pagas ordinarias, ni á otros gastos forzosos del Imperio.
    No hay cosa mas perniciosa que el dinero recogido para la defensa comun,
    desperdiciarle en gastos voluntarios, y cuando la necesidad aprieta,
    acudir á nuevas impuestos y pechos, dando por razon y causa justa el
    aprieto la falta que nace de sus excesos y demasías. Las imposiciones
    son justas, cuando es forzosa la necesidad que obliga á ponerlas, pero
    cuando el Príncipe consume la hacienda con dádivas ó gastos impertinente
    y excesivos, ninguna justificacion pueden tener, pues solo proceden de
    sus desórdenes ó descuidos.

    Trataron Roger, y el Emperador de cómo se habia de hacer la guerra aquel
    año, y Andronico solo le encargó el socorro de Philadelphia, lo demás
    dejó al arbitrio de los demas Capitanes y suyo; porque desde lejos y
    antes de las ocasiones mal se puede ordenar lo que conviene, ni tomar
    parecer cierto en cosas tan inciertas y varias como se ofrecen en una
    guerra. Dejó Roger á su mujer María en Constantinopla, y navegó con sus
    cuatro galeras la vuelta del cabo el primer dia de Marzo del año mil
    trescientos tres. Luego que llegó se pasaron las cuentas con los
    huéspedes, tomose muestra general, y se halló que los soldados en poco
    más de cuatro meses, que fué el tiempo que invernaron, habian gastado
    las pagas de ocho, y algunos de un año. Sintió Roger el exceso y
    desorden de los soldados, que como Capitan prudente y práctico, conoció
    el mal, aunque como dependia su autoridad del arbitrio de los soldados,
    no se atrevió á poner el remedio que convenia, porque no se disminuyese
    ó perdiese. Mal puede un Capitan conservar un ejército con puntual y
    estrecha obediencia, si el poder y fuerzas con que los ha de castigar le
    dan ellos mismo; de que nace la insolencia y libertad.

    Roger conociendo el tiempo, satisfizo los huéspedes, pagando todo lo que
    habian gastado en mantener los soldados, y no quiso se les descontase de
    su sueldo; y así les quedó libre el dinero de las cuatro pagas, que
    luego les dió, y tomando Roger sus libros de las raciones y cuentas,
    donde constaba de los gastos excesivos que los soldados habian hecho,
    los quemó en la plaza pública de Cizico, con que quedaron todos
    obligados y agradecidos á su liberalidad. Los autores Griegos dicen que
    Cizico y toda su comarca quedó destruida por las crueldades y robos de
    los Catalanes, y que temiendo el Emperador Andronico que Roger no
    alargase el salir en campaña, por la mala disciplina y poca obediencia
    de los soldados, envió su hermana á los últimos de Marzo á Cizico, para
    que exhortase á Roger su yerno saliese con el ejército, pues el tiempo y
    la ocasion convidaban á la guerra, y los soldados recien pagados
    saliesen con más gusto.

    CAPITULO XIII.

    Parte el ejército á socorrer á Philadelphia y vencen á Caramano Turco
    General de los que la tenian sitiada.

    El deseo que tenía Roger de salir en campaña, ayudado de la persuasion
    de su suegra, hizo que luego se pusiese en ejecucion la salida, y así se
    señalo para los nueve de Abril. Estando apercibiéndose ya todos para el
    viaje, dos Massagetas ó Alanos esperando en un molino que les moliesen
    un trigo, llegaron algunos Almugavares á tratar con descompostura una
    mujer que estaba dentro á tomar la harina, salieron á la defensa los
    Alanos, y entre otras razones que dieron contra Roger su capitan fué
    decir: que si les daban tales ocasiones, harian del Megaduque Roger lo
    que hicieron del gran doméstico. Este fué Alejos Raul, que en una fiesta
    militar le mataron estos á traicion de un flechazo. Refirieron estas
    palabras á Roger, y por su mandado ó consentemiento aquella misma noche
    los Almugavares dieron sobre los Alanos, y si la oscuridad de la noche y
    el cuidado de los vecinos nos les defendiera, los degolláran todos.
    Murieron muchos, y entre ellos un mozo valiente hijo de George, cabeza
    de los Alanos. A la mañana volvieron á troparse, y quedaron los
    Catalanes superiores habiendo muerto más de 300 Alanos; y si no temiera
    á los vecinos de Cizico, á quien por los malos tratamientos tenian
    irritados, que no tomasen las armas, y se pusiesen de parte de los
    Alanos, lo hubieran sin duda degollado á todos. Por este caso se apartó
    la mayor parte de los Alanos del ejército de Roger; solo quedaron con él
    hasta mil, que con promesas y ruegos los detuvieron. Roger quiso con
    dinero aplacar al padre por la muerte del hijo, pero Gregorio
    menospreció el dinero, y al agravio del hijo muerto se añadió la afrenta
    del ofrecimiento: con que el bárbaro quedó irritado, aunque encubrió la
    ofensa para mayor venganza.

    Este suceso alargó la partida hasta los primeros de Mayo, que salieron
    de Cizico seis mil con nombre de Catalanes, mil Alanos, y las compañias
    de Romeos debajo del gobierno de Marulli; pero todos sujetos, y á órden
    de Roger. Iva tambien Nastago gran Primicerio. Llegaron con estas
    fuerzas á Anchirao, y de allí con gran valor y confianza, que sí lo dice
    Pachimerio, fueron á sitiar á Germe; lugar fuerte donde los Turcos
    estaban, y entendida por ellos la resolucion, con sola la fama de su
    venida dejaron el lugar, y se retiraron. Pero no pudo ser esto tan á
    tiempo, que su retaguardia no fuese gravemente ofendida de los
    Catalanes. De allí pasaron á otro lugar que la historia de Pachimerio no
    le nombra, solo dice que estaba dentro para su defensa Sausi Crisanislao
    famoso soldado y Capitan de Búlgaros, á quien mandó ahorcar con doce de
    sus soldados los más principales, sin decir con certeza la ocasion de
    este castigo; solo se presume, que habrian defendido mal algun lugar que
    estaba á su cargo, ó entregado alguna fortaleza, y queriendo Sausi
    disculparse atravesó razones con Roger, que le movieron á meter mano á
    la espada, y herirle, y después fué entregado á los que le habian de
    ahorcar. Los Capitanes Griegos detuvieron la ejecucion, y alcanzaron de
    Roger el perdon; porque le advirtieron el disgusto que tendria el
    Emperador Andronico si castigase un hombre de tanta calidad, y tan buen
    soldado, sin haberle dado razon. Era Crisanislao uno de los capitanes
    Búlgaros que prendió Miguel padre de Andronico en la guerra de la Chana,
    y detenido gran tiempo en prision fué puesto en libertad por Andronico,
    y honrado en cargos militares, y en gobiernos de Provincias, y entónces
    se hallaba en esta parte de Frigia ocupado en servicio del Emperador.
    Luego de allí pasó el ejército á Geliana camino de Philadelphia, donde
    le llego aviso á Roger de algunos lugares fuertes que ocupaban los
    Turcos, significándole la violencia que padecían, y por carta le
    suplicaban les ayudase, pues eran Romeos que se dieron á la fuerza del
    tiempo, y que se querian levantar contra los enemigos.

    Roger les respondió que estuviesen de buen ánimo, que él les socorrería.
    Con esto pasó adelante á meter el socorro en Philadelphia, que era el
    principal intento que llevaban, Caramano Alisurio que la tenía sitiada,
    cuyo gobierno se extendía por esta Provincia, con el aviso que tuvo de
    la venida del ejército de los Catalanes, levantó el sitio con la mayor
    parte de su ejército, y caminó la vuelta de ellos, con deseo de vengar
    la rota del año antes que los Catalanes dieron á sus compañeros. Esto
    pareció que le convenia, y no aguardarlos sobre Philadelphia; ciudad
    grande, y con gente armada, que animada del ejército amigo saldria á
    pelear. Dejó algunos fuertes guarnecidos, con que le pareció que los de
    la ciudad no intentarian el salir, pero dos millas lejos al amanecer se
    reconocieron de una y otra parte, y se pusieron en órden para pelear. El
    ejército de los Turcos llegaba á ocho mil caballos y doce mil infantes
    Caramanos todos, los mas valientes y temidos de toda la nacion,
    superiores en número á los nuestros, pero muy inferiores en el valor, en
    la disciplina, en la ordenanza militar, y en las armas ofensivas y
    defensivas; solo habia igualdad en el ánimo y deseo de pelear. Roger
    dividió en tres tropas su caballería, Alanos, Romeos y Catalanes, y
    Corbaran de Alet, á cuyo cargo estaba la infantería, la dividió en otros
    tantos escuadrones, y hecha señal de acometer se envistieron con
    gallardo ánimo y bizarría. Travóse la batalla muy sangrienta para los
    Turcos, por que los Catalanes más prácticos en herir, y más seguros por
    las armas de ser ofendidos, hacian grande daño en ellos con muy poco
    suyo. Junto á los conductos de la ciudad fué donde más reciamente se
    envistieron. Pero los Turcos valientes y atrevidos no dejaban por todos
    los caminos que podian de ofender á los nuestros, y poner en duda la
    victoria, que hasta al medio dia anduvo varia; pero el valor
    acostumbrado de los Catalanes la hizo declarar por su parte con notable
    daño de los Turcos. Escaparonse huyendo hasta mil caballos, de ocho mil
    que entraron en la batalla, y solos quinientos infantes, y Caramano
    Alisurio se retiró herido. De los nuestros perecieron ochenta caballos,
    y cien infantes. Rehechos sus escuadrones, pasaron la vuelta de
    Philadelphia, siguiendo lentamente al enemigo, y temiendo alguna gran
    emboscada de sus copiosos ejércitos. Los Turcos de los fuertes, sabida
    la rota, los desampararon, y fueron siguiendo su Capitan vencido. Fué la
    presa y lo que se ganó en esta batalla, segun Montaner, de mucha
    consideracion.

    Con esta victoria comenzaron á levantar cabeza las ciudades de Asia,
    viendo que los nuestros habian dado principio á su libertad, que los
    Turcos tenian tan oprimida. Llegó esta opresion á tanto extremo, que les
    quitaban las mujeres y los hijos para instruirles en su secta.
    Profanaban los templos y monasterios tan antiguos, donde habia
    depositados tantos cuerpos de Santos, y grande memoria de nuestra
    primitiva Iglesia que tanto floreció en aquellas Provincias, trocando el
    verdadero culto en falsa y abominable adoracion de su profeta. Pero como
    por los justos juicios de Dios estaba ya determinada la destruicion y
    servidumbre de todo aquel Imperio y nacion, fué de poco provecho para
    alcanzar entera libertad todo lo que los nuestros hicieron, antes parece
    que se confirmó con esto su perdicion; pues cuando los grandes remedios
    no curan la dolencia porque se dan, es casi cierta la muerte. Nuestros
    Capitanes se detuvieron antes de entrar en Philadelphia, reconociendo
    algunos lugares vecinos adonde se pudieron haber retirado y rehecho;
    pero todo lo hallaron libre de los Turcos; á quien el miedo hizo alargar
    muchas leguas.

    CAPITULO XIV.

    Entra en Philadelphia el ejército victorioso. Ganánse algunos fuertes
    que el enemigo tenía cerca de la ciudad, y dan segunda rota á los Turcos
    junto á Tiria.

    Libres los de Philadelphia del sitio, que tan apretados les tuvo por el
    valor de las armas de los Catalanes, salieron á recibir el ejército los
    magistrados y el pueblo, con Teolepto su Obispo, varon de rara santidad,
    y por cuyas oraciones se defendió Philadelphia más que por las armas del
    ejército que la guardaba. Entraron las tropas de nuestra caballería
    primero, con los estandartes vencidos y ganados de los Turcos. Seguían
    después el carruaje lleno de los Despojos enemigos, y gran número de
    mujeres y niños cautivos, y algunos mozos reservados para el triunfo de
    la entrada. Las compañías de infantería eran las últimas, y en medio de
    ellas las banderas y los Capitanes más señalados, con lucidísimas armas
    y caballos, que como cosa nunca vista de los de Asia, les causó grande
    admiracion. No hubo en aquella entrada soldado por particular que fuese,
    que no vistiese seda ó grana, aunque en aquel tiempo los Turcos no
    usaban trajes costosos, pero entre los despojos de los Griegos habian
    alcanzado gran cantidad de ropa y vestidos de mucho precio, que en esta
    victoria se cobraron. Detuviéronse quince dias en la ciudad,
    entretenidos con las fiestas y regocijos que se les hicieron; porque fué
    cosa notable el amor y el respecto con que les trataron los naturales,
    como quien reconocia de ellos la libertad y la vida que tan aventuradas
    las tuvieron. La necesidad siempre es agradecida, pero con el beneficio
    que recibe, seacaba.

    Roger salió de Philadelphia á poner en libertad á algunos pueblos de que
    estaban apoderados los Turcos, y entre otros á Culla algunas leguas mas
    adelante hacia el Levante de la Ciudad; pero sabida la retirada y huida
    de su ejército, se retiraron los turcos. Los naturales los recibieron
    abiertas las puertas, como quien escapaban de tan dura servidumbre,
    pareciéndoles que con esto alcanzarian perdon de haberse entregado antes
    fácilmente á los Turcos. Roger perdonó la multitud del pueblo, pero
    castigó gravemente á muchos. Cortó la cabeza al Gobernador, y al más
    principal viejo del regimiento condenó á la horca. Estuvo un rato
    pendiente de ella sin morir, y atribuyendolo á milagro cortaron la soga
    los que estaban presente, y le libraron.

    Volvió el ejército á Philadelphia, y según Pachimerio dice, Roger
    recogió muchos ducados, y se hizo contribuir más de lo que debiera; por
    sentirse ya en la Ciudad la falta de bastimentos, por ser muy populosa
    de suyo, y tener dentro el ejército, después de haber padecido un largo
    sitio que fué tan apretado que una cabeza de jumento se vendió por un
    precio increíble. Nastago Duque y Primicerio del Imperio, que militaba
    en este ejército con Roger, se apartó de él y se fué á Constantinopla,
    porque no podia ver como Griego maltratar á los naturales, y las
    demasías que Roger hacia con ellos; y así llegado á Constantinopla quiso
    que el Emperador le yese, y como esto se le negó por los deudores y
    amigos de la mujer del Megaduque, á l que yo puedo entender, se fué al
    Patriarca, y por su medio el Emperador dió oidos á las quejas que traia
    contra Roger, de que se encendió en el Palacio una gran discordia entre
    los amigos y émulos del Megaduque.

    Pareció á los Capitanes del ejército que convenia hechar primero al
    enemigo de las Provincias marítimas, porque no quedase poderoso á las
    espaldas, y porque la vecindad de su armada les diese más fuerzas y
    seguridad. Con esta determinacion partieron luego de Philadelphia para
    Niza, Ciudad de Licia, y de allí á Magnesia la que está en la ribera del
    rio Meandro, donde apenas llegó Roger cuando dos ciudadanos de Tiria
    vinieron á pedirle socorro diciendo; que la Ciudad no estaba
    bastantemente fortificada que pudiese defenderse de los terribles
    asaltos del enemigo, y que si el socorro se tardaba, era cierto el
    perderse: que los Turcos con poco cuidado se podian coger á tiempo que
    estuviesen derramados por aquellas vegas, y hacer alguna buena suerte,
    con grande honra del ejército y provecho suyo: que en llegando la noche
    se retiraban á los bosques, y salido el sol volvían á talar y destruir
    la campaña. Roger con la mayor presteza y diligencia que pudo tomó la
    gente más desembarazada y suelta, y fué la vuelta de Tiria para meterse
    dentro de ella antes del dia. Llegó á ser tan buen tiempo, que los
    Turcos ni le pudieron descubrir, ni sentir, habiendo caminado treinta y
    seis millas en diez y siete horas.

    Vino la mañana, y los Turcos comenzaron á bajar á la llanura, y llegarse
    á la ciudad, y ya estaban cerca de las puertas para hacer sus
    acostumbrados acometimientos, cuando Corbaran de Alet Senescal salió á
    rebatirlos con doscientos caballos y mil infantes. Cargó sobre ellos con
    tanta gallardia, que les rompió y degolló la mayor parte, pero la que
    quedaba entrera en reconociendo á los nuestros se fué retirando hacia la
    aspereza de la montaña. Corbaran les siguió con parte de la caballería;
    pero como los caballos de los turcos estaban desembarazados, y los
    nuestros cargados con el peso de las armas, llegaron á la falda del
    monte á tiempo que los Turcos temerosos y cuidadosos solo de sus vidas,
    habian dejado los caballos, y mejorándose de puesto, porque tomaron los
    altos de donde mejor se podian guardar y ofender, impidiendo la subida á
    sus enemigos. El Senescal con mejor ánimo que consejo, mandó que se
    apeasen los suyos, y él hizo lo mismo, y acometió segunda vez á los
    Turcos; pero como ellos estaban en lo alto, y tenian algunos reparos con
    piedras, y flechazos defendían la subida, y tiraban golpes más seguros y
    ciertos á los que más se señalaban, Corbarán, como valiente y esforzado
    caballero, era de los que más les apretaban por su persona, y para subir
    con más ligereza, y andar más suelto, se quitó las armas, después el
    morrion, ocasion de su muerte; porque le dieron un flechazo en la
    cabeza, de que luego murió, con cuya pérdida los demás se retiraron.

    Con la muerte de tal Capitan trocóse la victoria de este dia en tristeza
    y sentimiento; porque perder una buena cabeza suele causar algunas veces
    inconvenientes y daños de mayor consideracion, que no lo es el provecho
    que resulta de la victoria que se adquiere con su muerte. Sintiólo Roger
    mucho, que le tenia concertado de casar con una hija suya, y puesta en
    su persona su mayor esperanza. Perdio la vida Corbarán con más honroso
    fin, que los demás Capitanes, porque cayó con la espada en la mano, y en
    la misma victoria, y no por manos de traidores como otros compañeros
    suyos. Es corto el discurso de los hombres que se tiene por gran
    desdicha lo que se pudiera contar entre los prósperos sucesos de la
    vida. Prévinole á Corbarán una muerte honrada á otra cruel y afrentosa,
    pues corriera, como es de creer, el mismo riesgo que los demás
    Capitanes. Enterrándole en un templo dos leguas de Tiria, á donde dice
    Montaner, que estaba el cuerpo de San Jorge. Hiciéronle compañía diez
    Cristianos, que solos murieron en aquel encuentro. Levantáronle un
    sepulcro de mármol, y honráronle con grandes obsequias, pues solo para
    cumplir con su memoria se detuvieron ocho dias. De Tiria despacharon
    órden á su armada, que estaba en la Isla del Jio, para que lo más presto
    que pudiese pasase á Tierra firme de la Asia, y que se detuviese en Ania
    aguardando segunda órden.

    CAPITULO XV.

    Llega Berenguer de Rocafort con su gente á Constantinopla, y por órden
    del Emperador se junta con Roger en Epheso.

    Berenguer de Rocafort llegó de Sicilia por este tiempo á Constantinopla
    con algunos vajeles y dos galeras, y con dos cientos hombres de á
    caballo, y mil Almugavares, habiendo cobrado ya del Rey Cárlos el dinero
    que le debia, y restituido los castillos de Calabria que estaban en su
    poder. Mandóle luego Andronico, que navegando la vuelta de la Asia,
    procurase juntar sus fuerzas con las de Roger; y así con mucha brevedad
    llegó al Jio, adonde halló á Fernando Aones de partida, y juntos
    llegaron á Ania, de donde avisaron á Roger don dos caballos ligeros de
    la venida de Rocafort con los suyos. Llegó esta nueva antes de salir de
    Tiria, y causó generalmente en todo el campo grandísimo contento, así
    por la gente que Rocafort traía, que era mucha y escogida, como por la
    opinion que tenía de muy valiente y esforzado Capitan. Envió luego Roger
    á visitarle con Ramon Montaner, y con órden de que se partiese luego de
    Ania, y viniese á Epheso, dicha por otro nombre Altobosco. Partió
    Montaner con una tropa hasta de veinte caballos, y con alguna gente
    practica, para que le guiasen por caminos desviados, por no encontrarse
    con los Turcos, que ordinariamente corrian la tierra, y salteaban los
    caminos más pasageros. Valióle á Montaner poco esta diligencia y
    cuidado, porque muchas veces hubo de abrir camino con la espada; llegó
    al fin á la Ciudad de Ania libre de estos peligros. Dio á Rocafort la
    bien venida de parte de los suyos, y le dijo lo que Roger ordenaba
    acerca de su partida. Rocafort obedeció, y dejando para la guarnicion de
    la armada quinientos Almugavares, con lo restante de la gente tomó el
    camino de Epheso, adonde llegó acompañado de Montaner dentro de dos
    dias. Esta ciudad es una de las más señaladas de toda el Asia por su
    famoso templo dedicado á la diosa Diana. Fué no solamente reverenciada
    de los romanos, pero de los Persas y Macedones, que tuvieron antes el
    Imperio, y todos conservaron sus inmunidades y derechos, sin que se
    mudasen jamás mudándose los Imperios: tanto era el respecto con que
    veneraban los antiguos las cosas que se persuadian que tenian algo de
    divinidad y religion. Pero el mayor título que esta Ciudad tiene para
    ser famosa y célebrada, es haber puesto en ella el Apóstol y Evangelista
    San Juan los primeros fundamentos de la fé. De este Santo referiré lo
    que Montaner escribe, que por referirlo en esta misma historia, no
    parece ageno de la nuestra.

    Dicen que en esta Ciudad de Epheso está el sepulcro donde San Juan se
    encerró cuando desapareció de los mortales, y que poco después vieron
    levantar una nube en semejanza de fuego, y que creyeron que en ella fué
    arrebatado su cuerpo, porque después no pareció. La verdad de esto no
    tiene otro fundamento mayor que la tradicion de aquella gente, referida
    por Montaner. El dia antes de San Juan, cuando se dicen las vísperas del
    Santo, sale un maná por nueve agujeros de un mármol que esta sobre el
    sepulcro, y dura hasta poner del sol del otro dia, y es tanta cantidad,
    que sube un palmo sobre la piedra, que tiene doce de largo y cinco de
    ancho. Curaba este maná de muchas y graves dolencias, que con
    particularidad las refieren Montaner.

    Después de cuatro dias que Rocafort y Montaner llegaron á Epheso, entró
    tambien Roger con todo el ejército. Alegráronse todos de ve á Rocafort
    amigo y compañero en todas las guerras de Sicilia, por el socorro que
    les traia, que hallándose lejos y en tierras enemigas fué de grande
    importancia, y aumentó mucho las fuerzas de los Aragoneses. Diósele
    luego el oficio de Senescal que vacó por muerte de Corbarán, y para que
    en todo le sucediese, le dió Roger su hija por mujer, habiendo sido
    primero concertada con Corbarán; porque con este nuevo parentesco
    aseguraba Roger la condicion y aspereza de Rocafort, aparejada para
    intentar cosas nuevas. Dióle cien caballos para la gente que traía, con
    armas de á caballo, y cuatro pagas. En Epheso, dice Pachimerio, que
    Roger y los Catalanes hicieron notables crueldades para sacar dinero,
    cortando miembros, atormentando, degollando los desdichados Griegos, y
    que en Metellin un hombre rico y principal llamado Macrami fué
    degollado, porque prontamente no quiso dar cinco mil escudos que le
    pidieron: licencia militar y atrevimiento ordinario en gente de guerra
    mal disciplinada.

    Roger, todo el dinero, caballos y armas que recogió de las
    contribuciones de las ciudades vecinas envió á Magnesia con una buena
    escolta; porque en esta ciudad como la más fuerte de aquellas
    provincias, determinó poner su asiento para invernar. De Epheso se
    fueron todos juntos á la Ciudad de Ania, adonde estaba Fernando Aones
    con la armada. Hiciéronles un grande recibimiento á Roger y á Rocafort
    los soldados que se hallaban en Ania, saliéndoles á recibir con grande
    alegria y regocijo; porque ya les parecia que juntos eran bastantes á
    recuperar el Asia, hechando de ella á los Turcos. Roger agradeció y
    satisfizo este buen recibimiento, dando una paga á todos los soldados de
    la armada; y porque Tiria quedaba desarmada y sin defensa, determinaron
    que se enviase alguna gente para su seguridad. Fué Diego de Orós hidalgo
    Aragones, buen soldado, con treinta caballos y cien infantes; porque con
    esto les parecia que quedaria en defensa la Ciudad y su comarca, fiando
    más en la reputacion de sus armas, que en el número de la gente: que
    muchas veces alcanza la reputacion lo que no pueden las fuerzas.

    CAPITULO XVI.

    Reprimen los nuestros el atrevimiento de Sarcano Turco. Llegan nuestras
    banderas á los confines de la Natolia y Reino de Armenia.

    Tuvieron nuestros Capitanes consejo del camino que tomarian, y
    concordaron todos en que volviesen otra vez hácia las Provincias
    Orientales y pasados los montes, entrasen en Pámphila, adonde les
    pareció que estarian las mayores fuerzas de los Turcos, y habria ocasion
    de venir con ellos á batalla, que este fué siempre el intento principal
    que se llevaba; porque siendo nuestro ejército tan pequeño, no se podia
    hacer la guerra á lo largo, y ocupar Ciudades y lugares, habiendo de
    dejar en ellas guarnicion, porque era dividir y deshacer sus fuerzas; y
    así pareció siempre acertado caminar la vuelta de los Turcos, y pelear
    con ellos. Pero en tanto que se trataba de poner en ejecucion la salida,
    Sarcano Turco con saber que el ejército de los Catalanes estaba dentro
    de la Ciudad, se atrevió á correr su vega llevando á sangre y fuego
    cuanto se le puso delante. Pagó presto su atrevimiento y locura; porque
    salieron los nuestros sin aguardar órden, ni esperar los Capitanes:
    tanto les ofendia la osadía de este Bárbaro, y dieron con tanta presteza
    sobre él y los suyos, que aunque luego quiso retirarse, no pudo sin
    mucho daño, porque se halló tan empeñado que hubo de pelear para huir.
    Siguieron los nuestros el alcance hasta la noche, y volvieron á la
    Ciudad con nuevos brios, dejando muertos en la campaña de los enemigos
    mil caballos y dos mil infantes: cosa apenas creida de los que quedaron
    dentro de la ciudad, porque la salida fué muy tarde, y con mucho
    desorden.

    Roger y los demas Capitanes considerando cuán dañosa les pudiera ser la
    detencion, si los soldados advirtieran el peligro de la jornada y camino
    que intentaban, con el gusto de la victoria pasada, quisieron que dentro
    de seis dias marchase el campo. Partieron de Ania, y atravesaron la
    Provincia de Caria, y todo aquel inmenso espacio de Provincias que están
    entre la Armenia y el mar Egeo, sin que hubiese enemigo que se les
    opusiese. Marchaba el campo según la comodidad de los lugares muy de
    espacio, consolando los pueblos Cristianos, y animándoles á su defensa,
    y con universal admiracion de todos los fieles eran recibidos los
    nuestros, alegrándose de ver armas Cristianas tan á dentro, las cuales
    los que entonces vivian jamás vieron en sus Provincias, aunque su deseo
    siempre las llamaba y esperaba; pero la flojedad de los Griegos nunca
    les dió lugar á que las viesen, hasta que el valor de los Catalanes y
    Aragoneses se las mostró.

    CAPITULO XVII.

    Pelean con todo el poder de los Turcos los Catalanes y Aragoneses en las
    faldas del monte Tauro, y alcanzan de ellos señaladísma victoria.

    Poco antes que llegasen á las faldas del monte Tauro, que divide la
    Provincia de Cicilia de Armenia la menor, hicieron alto, y trataron de
    que primero se reconociesen las entradas y pasos peligrosos, sospechando
    siempre, como sucedió, que el enemigo no les aguardase. En tanto que
    esto se consultaba, nuestra caballería que reconocia la campaña,
    descubrió el ejército enemigo que aguardaba el nuestro entre los valles
    de las faldas del monte. Tocóse arma en ambos ejércitos, y los Turcos
    viéndose descubiertos, y que su traza habia salido vana y sin fruto, se
    resolvieron luego de salir á lo llano, y acometer á los nuestros que
    venian algo fatigados del camino, antes que pudiesen descansar ni
    mejorar de puesto. Había en el campo de los Turcos veinte mil infantes,
    y diez mil caballos, y la mayor parte de ellos eran de los que habian
    escapado de las rotas pasadas. Tendióse su caballería por el lado
    izquierdo, y la infantería por el derecho la vuelta del campo Cristiano.
    Opusose Roger con su caballería á la del enemigo, que por la frente y
    costado cerró con la nuestra. Rocafort con su infantería, y Marulli hizo
    lo mismo, habiendo primero los Almugavares hecho su señal acostumbrada
    en los encuentros más arduos, que era dar con las puntas de las espadas
    y picas por el suelo, y decir: despierta hierro; y fué cosa notable lo
    que hicieron aquel dia, que antes de vencer, se daban unos á otros la
    enhorabuena, y se animaban con cierta confianza del buen suceso.

    Travóse la batalla en puesto igual para todos, con grandes y várias
    voces, peleándose valerosamente, porque pendia la vida y libertad de
    entre ambas partes de la victoria de aquel dia. Si los nuestros quedáran
    vencidos por ser poco prácticos en la tierra, y tener tan lejos la
    retirada, fuera cierta su muerte, ó lo que se tuviera por peor quedar
    cautivos en poder de aquellos Bárbaros ofendidos. Los Turcos tenian
    tambien igual peligro; porque los naturales de aquellas Provincias
    Cristianas á donde estaban, viéndoles rotos y vencidos, les acabáran sin
    duda, satisfaciendo en ellos una justa venganza. En el primer encuentro,
    por la multitud y número infinito de los Bárbaros, se corrió gran
    riesgo, y estuvo la victoria muy dudosa, pero cobraron nuevo ánimo y
    vigor; porque los Capitanes repitieron segunda vez el nombre de Aragon,
    y desde entonces parece que esta voz infundió en los enemigos temor, y
    en los nuestros un esfuerzo nunca visto. Y como ya de una y otra parte
    se habia llegado á los golpes de alfanjes y espadas, en que los nuestros
    tenian tanta ventaja por las armas defensivas, luego se comenzó á
    inclinar la victoria por nuestra parte. Los Catalanes ejecutaban en los
    vencidos su rigor y furia acostumbrada en las guerras contra los
    infieles, que aquel dia en los Turcos todo fué desesperacion,
    ofreciéndose á la muerte con tanta determinacion y gallardia, que no se
    conoció en alguno de ellos muestras de quererse rendir, ó fuese por
    estar resueltos de morir como gente de valor, ó porque desesperaron de
    hallar en los vencedores piedad. En tanto que sus brazos pudieron herir
    siempre hicieron lo que debian, y cuando desfallecían con el semblante y
    los ojos mostraban que el cuerpo era el vencido, no el ánimo. Los
    nuestros no contentos de haberlos hecho desamparar el campo, les
    siguieron con el mismo rigor que pelearon en la batalla. La noche y el
    cansancio de matar dió fin al alcance. Estuvieron hasta la mañana con
    las armas en la mano. Salido el sol, descubrieron la grandeza de la
    victoria, grande silencia en todas aquellas campañas, teñida la tierra
    en sangre, por todas partes montones de hombre y caballos muertos, que
    afirma Montaner, que llegaron á número de seis mil caballos, y doce mil
    infantes, y que aquel dia se hicieron tantos y tan señalados hechos en
    armas, que apenas se pudieran ver mayores; y con encarecer esto no
    refiere alguno en particular, con grande injuria y agravio de nuestros
    tiempos, pues tales hazañas merecieran perpetua memoria.

    Quedó con tanto brio nuestra gente después de esta victoria, y tan
    perdido el miedo á las mayores dificultades, que pedian á voces que
    pasasen los montes, y entrasen en la Armenia, porque querian llegar
    hasta los últimos fines del Imperio Romano, y recuperar en poco tiempo
    lo que en muchos siglos perdieron sus Emperadores; pero los Capitanes
    templaron esta determinacion tan temeraria, midiendo, como era justo,
    sus fuerzas con la dificultad de la empresa.

    CAPITULO XVIII.

    Con la entrada del invierno vuelven los nuestros á las Provincias
    marítimas. Rebelanse los de Magnesia, poneles sitio Roger, pero llamado
    de Andronico, le levanta, y llega á la boca del estrecho con todo el
    ejercito.

    Detuviéronse ocho dias en el lugar de la victoria, y fueron pocos para
    recoger la presa. Prosiguieron su camino hasta un lugar que Montaner
    llama Puerta del hiero; término, y raya de la Natolia y Armenia.
    Detúvose tres dias Roger dudoso del camino que tomarian, pero al fin
    viendo cerca el Otoño, y hallándose tan á dentro de las Provincias que
    aún no estaban bien aseguradas á su devocion, se resolvió con el parecer
    de sus Capitanes, de volver á la Ciudad de Ania, y pasar en ella el
    invierno, hasta que fuese tiempo de salir en campaña; pues aquel año se
    habia roto cuatro veces al enemigo, y recuperado tantas Provincias.
    Nicephoro dice, que por faltar las espías y gente práctica en la tierra
    dejaron de pasar adelante; porque sin ella fuera cosa muy peligrosa, y
    Roger era tan diestro Capitan, que no se aventurára temerariamente.
    Hacinase las jornadas muy cortas, porque no pareciese que la retirada
    era por algun temor, caminando por los puestos que tenian ya reconocidos
    á la ida. En esta retirada cargan los Historiadores Griegos á los
    nuestros de insolentes y crueles, que hicieron más daño en las Ciudades
    de Asia que los Turcos enemigos del nombre Cristiano; y aunque creo que
    fueron algunos los daños, pero no tantos como ellos lo encarecen. Porque
    el tiempo que los nuestros estuvieron en Asia, fué muy poco, y éste le
    ocuparon siempre en vencer y alcanzar señaladas victorias de sus
    enemigos, de donde les resultaba infinita ganancia de las presas que
    hacian, que eran tantas, que algunas veces las dejaban, ó por no
    poderlas llevar, ó por estimarlas en poco; pero yo doy por verdadero lo
    que dicen los Griegos, más no por eso se les puede quitar la gloria de
    sus victorias. ¿Qué ejército se ha visto que diese ejemplo de moderacion
    y templaza, y más el que alcanza muy á tarde sus pagas? No hay duda que
    un ejército amigo mal disciplinado, es tan dañoso en una Provincia como
    el del enemigo; y así los Griegos la mayor parte de sus historias
    entretienen en las quejas de estos daños, encareciéndolos más de lo que
    debe un Historiador.

    Veniáse el ejército retirando hácia Magnesia, donde Roger tenía la mayor
    parte de sus riquezas y tesoro, cuando les llegó aviso de los de
    Magnesia, como Ataliote su Capitan se habia rebelado; y degollado la
    guarnicion de los Catalanes que Roger habia dejado, y alzádose con sus
    tesoros que habia recogido dentro de la Ciudad. El caso pasó de esta
    manera.

    Magnesia era una Ciudad fuerte y grande, y por entre ambas cosas difícil
    de ganar si los ánimos de los naturales estaban unidos. Sucedió que
    Roger mal advertido les entró á pedir, que para cuando él volviese le
    tuviesen á punto caballos y dinero para socorrer su gente. Ellos
    valiéndose del aborrecimiento que los Alanos, que estaban dentro, tenian
    á los Catalanes, y movidos de la codicia de hacerse dueños de los
    tesoros que Roger habia recogido, se resolvieron de tomar las armas, y
    rebelarse. Comunicado su consejo con Ataliote, y aprobado por él, les
    pareció ponerle en ejecucion; porque como antes vivian á modo de Ciudad
    libre, temian venir en sujecion. Los ciudadanos eran muchos y armados,
    los Alanos tambien, y los graneros con abundancia de trigo, armas,
    dineros y otros pertrechos militares; finalmente recibiendo fé y
    juramento entre sí de valerse unos á otros, pasaron á cuchillo parte de
    los Catalanes que estaban dentro, parte prendieron, y los pusieron en
    cárceles muy seguras. Con esto se confirmaron en su rebelion; porque no
    hay cosa que más la asegure un hecho semejante, cuando la atrocidad
    quita la esperanza del perdon. Este hecho no le parece al Griego
    Pachimerio que lo refiere digno de vituperio, antes lo aprueba y alaba;
    con que claramente se debe tener por apología más que por historia la
    suya.

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    OBRAS COMPLETAS

    DE

    D. JOSÉ M. DE PEREDA

    DE LA REAL ACADEMIA ESPAÑOLA

    TOMO V

    ESCENAS MONTAÑESAS

    MADRID

    1919

    ADVERTENCIA

    _Ha llegado el momento de realizar el propósito anunciado en la que se
    estampa en el tomo I de esta colección de mis_ OBRAS; _y le realizo
    incluyendo en el presente volumen los cuadros_ Un marino, Los bailes
    campestres _y_ El fin de una raza, _desglosados, con este objeto, del
    libro rotulado_ ESBOZOS Y RASGUÑOS, _en el cual aparecerán, en cambio y
    en su día_, Las visitas y ¡Cómo se miente!, _que hasta ahora han formado
    parte de las_ ESCENAS MONTAÑESAS. _Por lo que toca á_ La primera
    declaración _y_ Los pastorcillos, _si algún lector tiene el mal gusto de
    echar de menos estos capítulos en cualquiera de los dos libros, entienda
    que he resuelto darles eterna sepultura en el fondo de mis cartapacios,
    y ¡ojalá pudiera también borrarlos de la memoria de cuantos los han
    conocido en las anteriores ediciones de las_ ESCENAS!

    _Con este trastrueque, merced al cual ganan algo indudablemente ambas
    obras en unidad de pensamiento y en entonación de colorido, se hace
    indispensable la supresión del prólogo de mi insigne padrino literario,
    Trueba, el cual prólogo es un análisis de las_ ESCENAS, _cuadro por
    cuadro, y en el orden mismo en que se publicaron en la primera edición;
    y suprimido este prólogo, claro es que debe suprimirse también el mío,
    que le precede en la edición de Santander y no contiene otro interés
    para los lectores que el engarce de unos párrafos de Menéndez y Pelayo,
    en los cuales se ventila á la ligera una cuestión de arte que el mismo
    ilustre escritor trata con la extensión debida en el estudio que va al
    frente del tomo I de estas_ OBRAS.

    _Y con esto, y con añadir que todos los cuadros de este libro que no
    lleven su fecha al pie, ó alguna advertencia que indique lo contrario,
    son de la edición de 1864, queda advertido cuanto tenía que advertir al
    público en este lugar su muy atento y obligado amigo_,

    J.M. DE PEREDA.

    Septiembre de 1885.

    SANTANDER

    (ANTAÑO Y OGAÑO)

    I

    Las plantas del Norte se marchitan con el sol de los trópicos.

    La esclavizada raza de Mahoma se asfixia bajo el peso de la libertad
    europea.

    El sencillo aldeano de nuestros campos, tan risueño y expansivo entre
    los suyos, enmudece y se apena en medio del bullicio de la ciudad.

    Todo lo cual no nos priva de ensalzar las ventajas que tienen los
    _Cármenes_ de Granada sobre las estepas de Rusia, ni de empeñarnos en
    que usen tirillas y fraque las kabilas de Anghera, y en que dejen sus
    tardas yuntas por las veloces locomotoras nuestros patriarcales
    campesinos….

    Pero sí me autoriza un tanto para reirme de esas largas disertaciones
    encaminadas á demostrar que los nietos de Caín no supieron lo que era
    felicidad hasta que vinieron los fósforos al mundo, ó, mejor dicho, los
    fosforeros, ó como si dijéramos, los hombres de ogaño.

    Y me río muy descuidado de la desdeñosa compasión con que hoy se mira á
    los tiempos de nuestros padres, porque éstos, en los suyos, también se
    reían de los de nuestros abuelos, que, asimismo, se rieron de los de sus
    antepasados; del mismo modo que nuestros hijos se reirán mañana de
    nosotros; porque, como es público y notorio, las generaciones, desde
    Adán, se vienen riendo las unas de las otras.

    Quién hasta hoy se haya reído con más razón, es lo que aún no se ha
    podido averiguar y es probable que no se averigüe hasta que ría el
    último; pero que cada generación cree tener más derechos que ninguna
    otra para reirse de todas las demás, es evidente.

    He dicho que el hombre se ríe de cuanto le ha antecedido en el mundo; y
    he dicho mal: también se ríe de lo que le sigue mientras le quedan
    mandíbulas que batir.

    Resultado: que el hombre no halla bueno y tolerable sino aquello en que
    él toma parte, ó en que la toman los de su lechigada. Mientras es actor
    en los sucesos del siglo en que nace, todo va bien; pero desde el
    momento en que, gastado el eje de su vida, se constituye en mero
    espectador, nada es de su agrado.–Abrid la historia de las pasadas
    sociedades; leed al filósofo crítico más reverendo, y le veréis mientras
    se jacta de haber dado ensanche al patrimonio ruin de la inteligencia
    que heredó de sus mayores, lamentarse de los locos extravíos de la de
    sus hijos.

    Y cuando á los nuestros entreguemos mañana el imperio del mundo,
    palparemos más evidente esta verdad. Una vez apoderados ellos del cetro,
    veréis lo que tarda nuestra generación, entonces caduca é impotente, en
    llamarlos dementes y desatentados; casi tan poco como en que ellos nos
    miren con lástima, y, alumbrados por el sol de la electricidad, se rían
    á nuestras encanecidas barbas de los resoplidos del vapor de nuestras
    locomotoras.

    Y esto ¿qué significa?

    Que la humanidad siempre es la misma bajo los distintos disfraces con
    que se va presentando en cada siglo.

    Y si el lector al llegar aquí, y en uso de su derecho, me pregunta á qué
    conducen las anteriores perogrullescas reflexiones, le diré que ellas
    son lo único que saqué en limpio de mi última sesión con mi buen amigo
    don Pelegrín.

    Don Pelegrín Tarín es un señor fechado aún más allá de la última decena
    del siglo XVIII, uno de esos hombres cuyo conocimiento se hace en el
    café con motivo de una jugada á las damas, ó la duda de una fecha, ó el
    relato de un episodio de la guerra de la Independencia; un señor chapado
    y claveteado á la antigua, y en cuyo ropaje y fachada se puede estudiar
    la historia civil y política de su tiempo, del mismo modo que sobre un
    murallón cubierto de grietas y de musgo se estudia el carácter de la
    época en que se construyó … y no sé cuántas cosas más, según es fama.

    La verdad es, sin que importe el cómo, que don Pelegrín se hizo amigo
    mío, y que raro es el día en que no me echa un párrafo de historia
    antigua, apenas entro en el café, su morada habitual desde las tres de
    la tarde hasta las ocho de la noche, y me siento en mi rincón
    preferido… Y ahora recuerdo que la coincidencia de buscar los dos el
    ángulo más apartado, á la vez que el sofá más mullido del café, dió
    origen á nuestro conocimiento.

    Comenzó el buen señor por aburrirme muchas veces, hablándome de la
    guerra _del francés_, como él dice, y del Duque de Wellington. Hablábame
    también á cada paso de la política del Rey y de los puntales del Tesoro,
    del pingüe resultado de los _gremios_ … y qué sé yo de cuántas cosas
    más; y haciendo sus aplicaciones á las modernas doctrinas y al presente
    sistema administrativo, sacaba las consecuencias que le daba la gana,
    porque yo á todo atendía menos á contradecirle. Pero comenzó un día á
    hablarme del Santander de sus tiempos y de las costumbres de su
    juventud, y sin darme cuenta de lo que me sucedía, halléme con que me
    iba interesando el viejo don Pelegrín. ¿Y cómo no interesarme si es la
    mejor crónica del pueblo, la única tal vez que nos queda? Desde entonces
    estreché más mi trato con él, y di en agobiarle á preguntas. Pero el
    bendito señor, sea efecto de sus años ó de su carácter vehemente, tiene
    la costumbre de comentar todo lo que dice y de meterse á filosofar y á
    hacer digresiones sobre la cosa más trivial; de suerte que nunca pude
    obtener un cuadro exacto y bien detallado del Santander de antaño, tal
    como yo le quería para dársele á mis lectores, seguro de que me le
    agradecerían como una curiosidad. Lo más acabado que salió de su
    descriptivo-crítico ingenio, es lo que ustedes van á leer (si tanta
    honra quieren dispensarme).

    Malo ó bueno, ello es de la propiedad de don Pelegrín, y en él declino
    mi responsabilidad….

    II

    Después de un vago preámbulo, exclamó así el buen señor:

    –Mire usted, amigo mío: yo no estoy literalmente reñido con esa
    batahola infernal, con ese movimiento que forma hoy la base de la
    sociedad en que ustedes viven, no señor: comprendo perfectamente todo lo
    que vale y el caudal inmenso de ilustración que representa; pero esto no
    puede satisfacer las humildes ambiciones de un hombre de mis años.
    Desengáñese usted, yo no puedo menos de recordar con entusiasmo aquellas
    costumbres rancias, tan ridiculizadas por los modernos reformistas:
    ellas me nutrieron, entre ellas crecí y á ellas debo lo poco que valgo y
    el fundamento de esta familia que hoy me rodea, y, aunque montada á la
    moderna, respeta mis _manías_, como ustedes dicen, y me permite vivir
    cincuenta años más atrás que ella. No tengo inconveniente en decirlo:
    mis vigilias, mis anhelos, todos mis afanes materiales han sido y aun
    son para mis hijos; pero lo demás…. ¡Ah!; lo demás, incluso el traje,
    como usted está viendo, todo lo rindo en honor de aquellos felices
    tiempos de mi juventud.

    Dicho lo cual sin resollar y con visible emoción, don Pelegrín, como de
    costumbre, disertó sobre la sencillez de las costumbres de sus tiempos,
    afanándose por convencerme de que eran mucho más recomendables que las
    nuestras, con la cual intención, asegurándome que la historia de los
    hombres de entonces, socialmente considerados, era, _plus minusve_, una
    misma en cada categoría, trazóme de la suya lo que _ad pedem literae_
    voy á copiar:

    –Á los diez y siete años–dijo–había terminado yo la escuela; sabía
    las cuentas hasta la de _cuartos-reales_, y tenía una forma de letra
    que, como decía mi maestro, se escapaba del papel. Á los diez y ocho
    entré con los Padres Escolapios á estudiar latín; á los veintitrés era
    todo un filósofo apto para emprender cualquier carrera literaria.

    Mi señor padre (que Dios haya), fundándose en que ya había en la familia
    un fraile, un guardia y un empleado en las Covachuelas de Madrid, se
    empeñó en que yo fuese jurisconsulto, por lo cual había escrito á
    Salamanca, un año antes de terminar yo la filosofía, en demanda de
    hospedaje y de recua que me condujese, en retorno de una de sus
    expediciones semestrales de garbanzos, juntamente con los otros dos
    estudiantes que, según se murmuraba por el pueblo, debían marchar
    también con igual destino que yo…. ¡Me parece que fué ayer cuando, por
    primera vez en mi vida, salí á correr el mundo!…

    En el mesón del _Monje_, que estaba al principio de la calle de San
    Francisco, monté sobre un macho cargado de azúcar y campeche; después de
    haber recibido la bendición de mi señor padre que me contemplaba con
    sereno rostro, aunque con el alma acongojada por la idea de separarse de
    mí. También estaban allí los padres de mis dos compañeros de expedición,
    los amigos de todos ellos y los curiosos que nos habían visto confesar
    el día antes; medio pueblo, amigo mío, nos rodeaba en el mesón; medio
    pueblo que nos siguió hasta el Cristo de Becedo, que estaba en el lugar
    que después ocupó el Peso público, y últimamente esa gran casa que
    llaman también del Peso. Allí rezamos un _Credo_, postrados todos de
    hinojos; eché algunos cuartos en el cepillo del santuario, volví á
    montar sobre el macho, y con un «buen viaje» de todos y una mirada de mi
    señor padre que hizo brotar las lágrimas de mis ojos, partimos mis dos
    amigos y yo para Salamanca, adonde llegamos sanos y salvos, después de
    mil divertidos episodios, que tal vez le cuente en otra ocasión, á los
    diez y nueve días, ocho horas y catorce minutos.

    –¿Es posible–dije interrumpiendo á don Pelegrín–que sólo tres
    estudiantes salieran de Santander en un año?

    –Y era mucho salir–me contestó en tono enfático.–Repare usted que
    estaba carilla la carrera de letrado. Solamente el arriero costaba al
    pie de quince duros aunque era de su obligación mantenernos á su costa
    durante el viaje; y la estancia anual en Salamanca no nos bajaba á cada
    uno, con ropa limpia y derechos de Universidad, de mil quinientos á dos
    mil reales.

    –¡Cáspita!–exclamé yo muy serio, acordándome de lo que había gastado
    en los tres días del último carnaval de mi vida de estudiante.–¡Ahí era
    un grano de anís!… Pero no sabía yo, don Pelegrín, que fuese usted
    abogado.

    –Y no lo soy, ¡ca!…; porque verá usted lo que pasó. En las primeras
    vacaciones que me dieron, y en recompensa de la buena censura que obtuve
    del sinodal en el examen, me permitió mi señor padre que hiciese un
    viaje de recreo adonde más me acomodase y por todo el tiempo que me
    pareciese prudente. Entonces estaba muy de moda entre los jóvenes
    pudientes de aquí, irse á San Juan de Luz y á Bilbao, con motivo de unos
    célebres partidos de pelota que había á cada paso entre vascongados y
    bayoneses. Yo elegí el último punto por la comodidad con que entonces se
    hacía el viaje; pues había un _paquete_ quincenal entre aquel puerto y
    éste; un quechemarín que se ponía junto á la botica del doctor
    Cuesta…. ¿Se admira usted? Es que entonces ni existía la plaza de la
    Verdura, ni en su existencia se pensaba, porque llegaba la marea muy
    cerca del Arco de la Reina. Pues, señor, tomé pasaje en el quechemarín,
    cuyo capitán era conocido de mi padre; y en la confianza de que
    tardaríamos día y medio en llegar, como era costumbre del barco, según
    decían, y por eso se llamaba el _Rápido_, hicímonos á la mar. Pero dió
    en soplar un vientecillo del Nordeste apenas montamos el cabo Quejo, que
    nos echó sobre Llanes cuando pensábamos alcanzar á Portugalete. Allí se
    armó un zipizape del Noroeste con tal cerrazón y tales celliscas, que al
    cuarto día amanecimos mar adentro y sin ver una pizca de tierra. El
    capitán, según entonces nos confesó, nunca había navegado más que por la
    costa de Vizcaya, ni conocía la altura en que nos hallábamos, ni, lo que
    era peor, el modo de averiguarlo: así fué que, encomendándonos á Dios,
    pusimos la popa al viento, trincamos el timón, y á los siete días de
    tormenta nos colamos de noche en un boquete que al capitán se le antojó
    Santoña; mas al preguntar, cuando amaneció, al patrón de un patache que
    teníamos al costado, en dónde nos hallábamos, supimos que en Castropol.
    Para abreviar, amigo mío: á los diez y siete días de nuestra salida de
    Santander volvimos á fondear en las Atarazanas, después de habernos
    equivocado en todos los puertos de la costa, y sin poder tropezar con el
    que íbamos buscando. Á mi familia, que en todo ese tiempo no tuvo
    noticias mías, figúrese usted que entrañas se le habrían puesto: por lo
    que hace á mi padre, juró que en su vida me volvería á separar de su
    lado, y así sucedió.–Ahora comprenderá usted por qué abandoné la
    carrera.

    Veinticinco años había cumplido cuando entré en una de las pocas casas
    de comercio que había en Santander, con ánimo de instruirme en el ramo
    para poder bandearme después por mi cuenta. ¡Qué vida aquélla, cuan
    diferente de la de ustedes … y qué placentera, sin embargo! Y eso que
    no teníamos bailes de campo en el verano, ni fondas en el Sardinero, ni
    trenes de recreo, como ahora. No hablemos de los días de labor, porque
    en éstos se daba por muy contento el que de nosotros sacaba permiso para
    ayudar una misa en Consolación ó para cantar un responso con los Padres
    de San Francisco; pero llegaba el domingo, ¡válgame Dios!, y ya no nos
    cabía en el pueblo tan pronto como se acababa el Rosario de la Orden
    Tercera, durante el que (Dios me lo perdone) nunca faltaba un ratoncito
    que soltar entre los devotos, ó alguna divisa que poner en la coleta de
    algún currutaco. ¿Ve usted esas casas primeras de la Cuesta del
    Hospital? Pues en su lugar había un prado que cogía parte de la plaza de
    San Francisco. Allí jugábamos al _jito_, y á la _catona_, hasta sudar
    la gota de medio adarme; también jugábamos á las _guerrillas_ y al
    _rodrigón_, juegos muy en uso entonces que los había traído un salmista
    de Cervatos, emigrado por cierto pique que tuvo con un prebendado de
    aquella Colegial. Otras veces nos íbamos á echar cometas al Molino de
    Viento, ó á chichonar grilleras á los prados de Viñas, según las
    estaciones del año, ó á saltar las huertas de San José, que á todo
    hacíamos, como jóvenes que éramos…. Yo, sobre todo, con este genio tan
    francote y acomodado que Dios me dió, gozaba con todo mi corazón. Tenía
    dos amigos en la calle de San Francisco que parecían nacidos para mí. El
    uno tocaba el pífano y el otro el rabel, entrambos de afición; pero ¡qué
    tocar!… Yo también era aficionadillo á la música, y punteaba en la
    guitarra un baile estirio y dos minuetes. Pues, señor, nos poníamos los
    tres al anochecer de los domingos del verano, después de nuestra partida
    de _jito_, á la puerta del balcón, y dale que le das á los instrumentos,
    llegábamos á reunir en la calle una romería. Personas de todas edades y
    condiciones, cuanta gente volvía de pasear ó de la novena, se plantaba
    al pie del balcón hasta que nosotros nos retirábamos…. Y vea usted,
    qué demonio: en cuanto llegó á hacerse de moda en aquella calle la
    reunión del pueblo, nos prohibió tocar el señor Corregidor. Yo no sé
    qué se corría entonces por la ciudad sobre francmasonería. La guerra del
    francés había dejado á las gentes muy recelosas y asombradizas, y la
    nota de _afrancesado_ todavía quitaba el sueño á más de cuatro
    españoles. Lo cierto es que por entonces comenzaron á gastar los
    elegantes el _pequé_ sobre el _sortut_, y las madamitas la _escofieta_
    con sus _airones_ de á media vara; también se introdujeron en la mesa la
    sopa á la _ubada_, el principio de _pulpitón_ y el postre de _compota_,
    que de allí data el que ustedes usan…; en fin, que las señas eran
    fatales; que se temía una logia á cada vuelta de esquina, y que creímos
    muy natural la prohibición del señor Corregidor, que temblaba, como él
    nos dijo, toda reunión que pasara de tres individuos.

    III

    –Pues, señor, volviendo al asunto, y en la imposibilidad de referir
    punto por punto toda la historia de mi juventud, porque no acabaríamos
    hoy, le diré á usted que á los cinco años de mi práctica de comerciante,
    habiendo conocido perfectamente el manejo de los negocios y á una joven
    vecina de mi principal, monté de cuenta propia un establecimiento de
    géneros de refino, y me casé el día mismo en que cumplía treinta y un
    años; cosa que me costó mis trabajillos, porque los once meses de
    Salamanca me habían procurado una reputación de calavera de todos los
    demonios.–Casado ya, mi vida tomó un giro enteramente diverso del de
    hasta entonces. Desde luego fuí nombrado síndico del gremio de
    zapateros, procurador municipal de dos pueblos agregados á este
    ayuntamiento, vocal perpetuo de una junta de parroquia, tesorero de la
    Milicia Cristiana y asesor jurado de una comisión calificadora para los
    delitos de sospecha de traición á la causa del Rey. Con todos estos
    cargos me puse en roce con las personas más importantes de la ciudad y
    me dieron entrada en _palacio_, que era todo mi anhelo ya mucho tiempo
    hacía, porque Su Ilustrísima era hombre de gran eco entre las gentonas
    de Madrid, y lo que por su conducto se averiguaba en Santander, no había
    que preguntar si era el Evangelio. Tenía Su Ilustrísima tertulia diaria
    de ocho á nueve de la noche, y la formábamos un médico muy famoso por
    sus chistes, que hablaba latín _como agua_; el P. Prior de San
    Francisco, hombre sentencioso y de gran consejo; un abogado del Rey,
    caballero de Carlos III; mi humildísima persona, y un Intendente de
    rentas, hombre de bien, si los había, temeroso de Dios como ninguno,
    servicial y placentero que no había más que pedir…. Por cierto que
    murió años después en Cádiz, de una disentería cuando el sitio del
    francés. Éstas eran las personas constantes alrededor de Su Ilustrísima;
    además había otras muchas que alternaban cuando les parecía oportuno.
    –Para que usted se forme una idea del carácter del bendito señor
    Intendente, voy á referirle un suceso digno, por otra parte, de que se
    imprimiese en letras de oro.

    Presentóse una noche en la tertulia algo más tarde de lo acostumbrado y
    con aire de hondo disgusto en su fisonomía. Tratamos de averiguar la
    causa, y después de mil ruegos, hasta del señor Obispo que le quería
    mucho, pudimos arrancarle estas palabras:–«Señores, tenemos comediantes
    en la ciudad»; palabras que hicieron en la tertulia una impresión
    desagradabilísima, porque faltaban diez y siete días para la cuaresma, y
    el pueblo, con la guerra y con las ideas locas que se iban apoderando de
    la gente, más que comedias necesitaba sermones. Pues, señor, tratóse
    seriamente sobre el particular, y se autorizó al fin al Intendente para
    que él lo arreglara á su antojo. Y, efectivamente, al otro día se
    presentó al director de la compañía, que ya había arrendado una bodega
    en la calle de las Naranjas, diciéndole que era preciso que á todo
    trance saliese de Santander.–El pobre hombre se quedó hecho una
    estatua al oir la proposición.–«Señor, le dijo, mire V.S. que vengo
    desde más allá de Becerrilejo; que traigo ocho de familia y cuatro
    caballerías para ellos y para los equipajes; que he pagado adelantado el
    alquiler de la bodega, y he gastado mucho en colocar la tramoya que V.S.
    está viendo. Si me marcho sin dar media docena de funciones, me pierdo
    para toda la vida.–¿Cuánto pueden valerle á usted las seis funciones?,
    le preguntó el Intendente.–Yo cuento, señor, con que no baje de
    quinientos reales después de pagar la bodega, las luces y los dos
    tamborileros que han de tocar durante los intermedios.–Pues ahí van
    mil, contestó el bendito señor, dándole un cartucho de monedas que ya
    llevaba preparado al efecto; pero es preciso que ahora mismo desaloje
    usted el local, y sin perder un solo minuto salga con su gente de
    Santander.» El comediante vió el cielo abierto, hizo lo que deseaba el
    Intendente, y, sin salir éste de la bodega, se desarmó la tramoya, se
    cargaron las caballerías, montaron los comediantes … y nadie volvió á
    acordarse de ellos. ¿Pero usted cree que cuando el Intendente, lleno de
    júbilo, entró por la noche en la tertulia, hallábamos medio de hacerle
    tomar la parte que nos correspondía de los mil reales? ¡Que si quieres!
    Fué preciso que Su Ilustrísima se lo suplicara con mucho empeño.–«He
    hecho una obra buena, decía; ¿qué mejor aplicación he podido dar á esa
    parte del caudal que el Señor me ha confiado?…» Le digo á usted que
    era todo un bendito de Dios el señor Intendente.

    Reíme de veras con el sucedido de los comediantes.

    –¿Es posible–dije á don Pelegrín–que tal idea se tuviese entre
    ustedes del teatro?; ¿que así le tomasen como foco de desmoralización?

    –¿Y qué le diré yo á usted?–me contestó:–entre nosotros no faltaba
    quien dijera, como ustedes hoy, que era, más que escuela de vicios,
    cátedra de moralidad; pero, sin embargo, yo opinaba mejor (y cuidado que
    no soy fanático) con el padre Prior que decía, cuando de ello le
    hablaban: «Podrán los devotos del teatro asistir á él como á una cátedra
    de virtudes; pero lo cierto es que en ninguna parte se predica más moral
    y más clara que en el púlpito, y si se pusiera la entrada á dos cuartos,
    tal vez ni los monaguillos nos escucharan.» De todos modos, el pueblo no
    echaba en falta esos pasatiempos: ¿á qué empeñarnos en dárselos cuando,
    por lo menos, le habían de crear una nueva necesidad?

    –Según ese sistema–repuse,–aún estaríamos como el indio Caupolicán.
    Sepa usted, don Pelegrín, que es un deber para el nombre adoptar todo
    aquello que puede dar ensanche á su inteligencia. Los progresos
    materiales….

    –Ya pareció el peine–me interrumpió con cierto despecho;–¡como si
    hasta que ustedes vinieron al mundo no supiera el hombre lo que era
    dignidad!

    –No se ofenda usted, don Pelegrín, y óigame con calma. En todos tiempos
    y en todas épocas ha habido hombres ilustres: no hago al talento ni á la
    dignidad patrimonio de nuestros días; pero ¿á que en los suyos echaban
    esos mismos hombres muchas cosas de menos?; ¿á que hallaban un vacío en
    la sociedad, como si adivinaran algo de la gran revolución que muy
    pronto iba á operarse en las costumbres? Usted mismo….

    –¡Qué vacío ni qué calabaza!–exclamó mi viejo amigo, verdaderamente
    sulfurado, y con unos ademanes que no me dejaban duda de que había
    cometido una torpeza en tocarle este resorte, precisamente cuando
    necesitaba é iba yo á saber grandes cosas de la tertulia de Su
    Ilustrísima.–Lástima–continuó–me causan ustedes cuando les oigo
    hablar de esa manera. Ustedes, ustedes son, por el contrario, los que
    desean siempre _algo_, y este algo es precisamente lo que nosotros
    teníamos de sobra: la paz del espíritu. Ustedes tienen la sensibilidad
    encallecida, expuesta al roce de todos los sucesos del siglo en su
    atropellada marcha; el alma rendida de vagar por un espacio enmarañado y
    de atmósfera pestilente, y las ideas revolviéndose en una órbita
    insegura y desequilibrada, que no les permite encariñarse con un objeto
    sin que otro nuevo venga á borrar su huella.

    Nosotros, merced á lo que hoy se llama ignorancia, teníamos las
    afecciones más limitadas, y con la sensibilidad casi virgen, nos
    preocupaba el suceso más común en la vida de ustedes; nuestras ilusiones
    eran pequeñas, es cierto, pero fuertes, y, sobre todo, consoladoras.
    Nosotros, por lo mismo que ambicionábamos poco, nos satisfacíamos al
    instante; pero ustedes, cuya ambición no conoce límites, no se
    satisfarán jamás. Yo, únicamente, que he pasado por las dos épocas,
    comprendo cuánta verdad encierra lo que le estoy diciendo: para que
    usted lo comprendiera del mismo modo, sería preciso que tocase y palpase
    aquello cuyo recuerdo le merece tan desdeñosa compasión; es decir, que
    junto á este Santander de cuarenta mil almas, con su ferrocarril, con
    sus monumentales muelles, con su ostentoso caserío, con sus cafés,
    casinos, paseos, salones, periódicos, fondas y bazares de modas,
    surgiese de pronto la vieja colonia de pescadores, con sus diez mil
    habitantes y seis casas de comercio provistas de Castilla por medio de
    recuas, ó de _carros de violín_; la vieja Santander sin muelles, sin
    teatro, sin paseos, sin otro periódico propio ó extraño que la _Gaceta_
    del Gobierno, recibida cada tres días. Era preciso que usted pudiese
    apreciar vivos estos dos cuadros para que no dudase sobre cuál de ellos
    cernía más el tedio sus negras alas, y que generación vivía más
    tranquila y más risueña, si la que se cubre con el oropel de la moderna
    sabiduría, ó la cobijada bajo los harapos de nuestra vieja ignorancia.
    Seguro estoy de que no serían mis contemporáneos los que en esta
    exposición presentasen más arrugas en el alma. Por lo demás, amigo mío,
    pobres teníamos y pobres tienen ustedes; ricos avaros existían junto á
    ellos, y ricos insaciables existen. Es verdad que á nuestros pobres
    envilecían los mismos privilegios que hacían odiosos á los ricos; pero
    ustedes, quemando con la luz que han dado á los primeros las
    prerrogativas de los segundos y dejando las fortunas como estaban, han
    hecho pobres orgullosos, y ricos que á ciencia y conciencia son sordos á
    la voz del infortunio, y ciegos al aspecto de la miseria…. ¡Luces,
    ilustración!…; todo estaría bien si á su claridad hallase pan el
    hambriento y abrigo el que tirita de frío; pero, desgraciadamente, la
    tan decantada luz sólo sirve para hacer más patentes la miseria y la
    opulencia, y más insoportable para el pobre este eterno contraste…. Si
    esto es una preocupación mía, que lo diga la historia política y social
    de Europa de algunos años á esta parte. El mismo tiempo hace que le
    dijeron al hombre desheredado de la fortuna: «no tienes oro, pero tienes
    derechos que conquistar, que al fin te valdrán oro»; y desde entonces se
    está rompiendo el bautismo en las calles, detrás de las barricadas, para
    que se los arrebate el mismo que le provoca á la lucha; para no dejar de
    ver, ni por un solo instante en la sociedad, junto á uno que se muere de
    hambre, otro que revienta de harto. ¿Qué es esto, amigo mío? Pues todo
    ello ya lo teníamos nosotros sin tanta música ni tanto cacareo de
    dignidad y de derechos; y aun teníamos más, porque con la misma
    desigualdad de fortunas, había buena fe en los de arriba y resignación
    en los de abajo. Resultado: que había paz en los pueblos, alegría en los
    hogares, y grandes virtudes en el corazón. Ahora, si estas menudencias
    no valen nada para ustedes, la cuestión cambia de aspecto; y si el
    destino del hombre sobre la tierra es otro que hacer risueño y apacible
    el grupo de una familia cobijada al calor del hogar doméstico, confieso
    sin repugnancia que nuestras patriarcales costumbres fueron un borrón
    que manchó á la humanidad en los tiempos del llamado obscurantismo.

    Aquí don Pelegrín se limpió los labios con su pañuelo, arregló la capa
    sobre las rodillas, sacó la caja de rapé y tomó un polvo con marcial
    desenfado. En vano le llamé al orden y le rogué que continuase
    hablándome de la tertulia de Su Ilustrísima: le había tocado su cuerda
    más sensible, y, como siempre, se engolfó entre sus rancias memorias: no
    hallé medio de dirigirle una pregunta sin obtener por respuesta
    parrafadas como la anterior. En vista de ello, supuse una ocupación
    urgente, despedíme de él y salí del café, haciendo que me reía de sus
    lucubraciones, ó, lo que es lo mismo, comentando la sesión en términos
    iguales ó parecidos á los que han servido de introducción á este
    bosquejo.

    EL RAQUERO

    I

    Antes que la moderna civilización en forma de locomotora asomara las
    narices á la puerta de esta capital; cuando el alípedo genio de la
    plaza, acostumbrado á vivir, como la péndola de un reló, entre dos
    puntos fijos, perdía el tino sacándole de una carreta de bueyes ó de la
    bodega de un buque mercante; cuando su enlace con las artes y la
    industria le parecía una utopía, y un sueño el poder que algunos le
    atribuían de llevar la vida, el movimiento y la riqueza á un páramo
    desierto y miserable; cuando, desconociendo los tesoros que germinaban
    bajo su estéril caduceo, los cotizaba con dinero encima, sin reparar que
    sutiles zahories los atisbaban desde extrañas naciones, y que más tarde
    los habían de explotar con tan pingüe resultado, que con sus residuos
    había de enriquecerse él; cuando miraba con incrédula sonrisa arrojar
    pedruscos al fondo de la bahía; cuando, en fin, la aglomeración de estos
    pedruscos aún no había llegado á la superficie, ni él advertido que se
    trataba de improvisar un pueblo grande, bello y rico, el Muelle de las
    Naos, ó como decía y sigue diciendo el vulgo, el _Muelle Anaos_, era una
    región de la que se hablaba en el centro de Santander como de Fernando
    Póo ó del Cabo de Hornos.

    Confinado á un extremo de la población y sin objeto ya para las faenas
    diarias del comercio, era el basurero, digámoslo así, del Muelle nuevo y
    el cementerio de sus despojos.

    Muchos de mis lectores se acordarán, como yo me acuerdo, de su negro y
    desigual pavimento, de sus edificios que se reducían á cuatro ó cinco
    fraguas mezquinas y algunas desvencijadas barracas que servían de
    depósitos de alquitrán y brea; de sus montones de escombros, anclotes,
    mástiles, maderas de todas especies y jarcia vieja; y, por último, de
    los seres que respiraban constantemente su atmósfera pegajosa y
    denegrida siempre con el humo de las carenas.

    De nada de esto se habrán olvidado, porque el Muelle de las Naos, efecto
    de su libérrimo gobierno, ha sido siempre, para los hijos de Santander,
    el teatro de sus proezas infantiles. Allí _se corría_ la cátedra; allí
    se verificaban nuestros desafíos á _trompada suelta_; allí nos
    familiarizábamos con los peligros de la mar; allí se desgarraban
    nuestros vestidos; allí quedaba nuestra roñosa moneda, después de
    jugarla al _palmo_ ó á la _rayuela_; allí, en una palabra, nos
    entregábamos de lleno á las exigencias de la edad, pues el bastón del
    polizonte nunca pasó de la esquina de la Pescadería; y no sé, en verdad,
    si porque los vigilantes juzgaban el territorio hecho una balsa de
    aceite, ó porque, á fuer de prudentes, huían de él. Esta razón es la más
    probable; y no porque nosotros fuéramos tan bravos que osáramos prender
    á la justicia: es que sobre ésta y sobre nosotros mismos, medio
    aclimatados ya á aquella temperatura, estaba el verdadero señor del
    territorio haciendo siempre de las suyas; el que intervenía en todos
    nuestros juegos como socio _industrial_; el que pagaba, si perdía, con
    el crédito que nadie le prestaba, pero que, por de pronto, ganaba cuanto
    jugábamos; el que con sólo un silbido hacía surgir detrás de cada montón
    de escombros media docena de los suyos, dispuestos á emprenderla con el
    mismo Goliat; el que era tan indispensable al Muelle de las Naos como
    las ranas á los pantanos, como á las ruinas las lagartijas; EL RAQUERO,
    en fin. Éste era el terror de los guindillas, el aluvión de nuestras
    fiestas, la rana de aquellos pantanos, la lagartija de aquellos
    escombros; el original del retrato que con permiso de ustedes, voy á
    intentar con mejor ánimo que colorido.

    La palabra _raquero_ viene del verbo _raquear_; y éste, á su vez, aunque
    con enérgica protesta de mi tipo, del latino _rapio, is_, que significa
    _tomar lo ajeno contra la voluntad de su dueño._

    Yo soy de la opinión del raquero: su destino, como escobón de
    barrendero, es apropiarse cuanto no tenga dueño conocido: si alguna vez
    se extralimita hasta lo dudoso, ó se apropia lo del vecino, razones
    habrá que le disculpen; y sobre todo, una golondrina no hace verano.

    El raquero de pura raza nace, precisamente, en la calle Alta ó en la de
    la Mar. Su vida es tan escasa de interés como la de cualquier otro ser,
    hasta que sabe correr como una ardilla: entonces deja el materno hogar
    por el Muelle de las Naos, y el nombre de pila por el gráfico mote con
    que le confirman sus compañeros; mote que, fundado en algún hecho
    culminante de su vida, tiene que adoptar á puñetazos, si á lógicos
    argumentos se resisten. Lo mismo hicieron sus padres y los vecinos de
    sus padres. En aquellos barrios todos son paganos, á juzgar por los
    santos de sus nombres.

    II

    _Cafetera_, para servir á ustedes, era el de mi personaje.

    _Cafetera_, en el diccionario callealtero, es sinónimo de borrachera,
    una de las cuales tomó aquél, cuando apenas sabía andar, á caballo sobre
    una pipa de aguardiente, de cuyas entrañas extrajo el líquido con una
    paja.

    Cafetera nació en la calle Alta, del legítimo matrimonio del tío
    _Magano_ y de la tía _Carpa_, pescador el uno y sardinera la otra. Ya
    ustedes ven que, para raquero, no podía tener más blasonada ejecutoria.

    Su infancia rodó tranquila por todos los escalones, portales y basureros
    de la vecindad.

    No hay contusión, descalabro ni tizne que su cuerpo no conociera
    prácticamente; pero jamás en él hicieron mella el sarampión, la
    alfombrilla, la grippe, la escarlata ni cuantas plagas afligen á la
    culta infantil humanidad. Solamente la sarna y las viruelas pudieron
    vencer aquel pellejo: con la primera perdió la mitad de los cabellos;
    con las segundas ganó los innúmeros relieves de su cara.

    Pero así y todo, le querían en su casa; tanto, que no había cumplido
    cuatro años cuando la tía Carpa le metió, de medio cuerpo abajo, en una
    pernera de los calzones viejos de su padre, dádiva que, añadida á una
    camisa que, también de desecho, le regaló su padrino el tío _Rebenque_,
    llegó á formar un traje de lo más vistoso, y á ser la envidia de sus
    pequeños camaradas, condenados á arrastrar su desnuda piel por los
    suelos, mientras su industria no les proporcionase más lujosa
    vestimenta.

    Siete años contaría, cuando su madre, conociendo por la chispa de que ya
    se hizo mención y por otras proezas análogas, que era apto para las
    fatigas del mundo, comenzó á darle los tres mendrugos diarios de pan
    envueltos en soplamocos y puntapiés. Cafetera, que no era lerdo,
    comprendió al punto hasta dónde alcanzaba su privanza y lo que podía
    esperar de sus dioses lares; y como, por otra parte, sus libérrimos
    instintos se le habían revelado diferentes veces hablando con sus
    compañeros sobre la vida raqueril, se decidió por el _arte_ en el cual
    hizo su estreno pocos meses después del último mendrugo, que le aplastó
    la nariz para nunca más enderezársele.

    Era un día en que el tío Magano andaba á la mar, y la tía Carpa á vender
    un carpancho de sardinas.

    Cafetera estaba solo en casa, sentado sobre un arcón viejo, único mueble
    de ella, no contando el catre matrimonial, rascándose la cabeza como
    aquel que acaricia una idea de gran transcendencia, y murmurando algunas
    palabras, no todas evangélicas, las más de un colorido asaz rabioso.
    Después de un largo rato así invertido, alzóse de su asiento, corrió la
    tapadera del mismo y sacó media _basallona y_ un arenque, provisiones
    hechas por su madre para toda la semana y que él dividió en dos partes
    iguales. Comióse la primera, y guardó la segunda en el pecho de su
    camisa de bayeta verde. En seguida dió un par de chupadas á una punta
    que halló pegada á la testera del catre, mientras se amarraba con una
    escota los enciclopédicos calzones á la cintura; ocultó sus greñas bajo
    la cúspide de un gorro catalán; y, por último, lanzóse calle abajo en
    busca de aventuras, osado el continente, alegre la mirada, y tan lleno
    de júbilo como pudiera estarlo, en un caso muy parecido, el famoso
    manchego, si bien, á la inversa de éste, no se le daba una higa porque
    la posteridad recordase ó no que ya el rubicundo Apolo extendía sus
    dorados cabellos por la faz de la anchurosa tierra, cuando él, perdiendo
    de vista su casa, comenzó á respirar los corrompidos aires de la
    Dársena.

    Llegado al gran teatro de sus futuras operaciones, su primer cuidado fué
    buscar á la gente de su calaña, á fin de orientarse mejor.

    No tardaron en aparecérsele media docena de raqueros que, por única
    bienvenida, le sacudieron tal descarga de coquetazos y de _piñas_, que
    el pobre quedó tendido en el suelo, aunque sin extrañarse de semejante
    acogida, como no se extraña un novel académico, al ingresar en el seno
    de la corporación, del consabido elocuentísimo discurso que le dedican
    los veteranos.

    Pasada la cachetina y solo Cafetera, limpió con el gorro sus lágrimas de
    coraje, y con la flema de un inglés recién llegado comenzó á reconocer
    el terreno que pisaba.

    Aburrido de pasear el Muelle en todas direcciones sin fruto alguno,
    encendió en un tizón de una carena una colilla que halló al paso, y se
    sentó á mirar cómo trabajaban los calafates.

    Cuando notó que éstos le habían vuelto la espalda y que la estopa y las
    herramientas andaban al alcance de sus manos, virgen de toda noción de
    fueros de pertenencia, creyó lo más natural del mundo trasladar al
    insondable pecho de su camisa algunas libras de cáñamo y un escoplo;
    hecho lo cual, por consejo de su prudencia levantóse con sigilo é hizo
    rumbo al polo opuesto.

    Pensando estaba en lo que haría con el hallazgo, cuando topó con la
    misma gente que poco antes le había zurrado la badana: no hay necesidad
    de decir que el novel raquero, á la vista del enemigo, se preparó á
    virar en redondo; pero no le sirvió la maniobra. El jefe de los otros,
    pillastre de patente, con más asomos de bozo que de vergüenza y que se
    llamaba _Pipa_, sacando por algunos hilos que se escapaban de la camisa
    del primero la madeja que ocultaba, cortóle sus vuelos, y echando la
    zarpa al bulto, dijo, guiñando el ojo á los suyos:

    –Arría en banda, Cafetera.

    Éste, viéndose abordado de tal manera, aunque sin esperanza de
    salvación, trató de defenderse á mordiscos y patadas.

    –¿Por qué tengo de arriar?–gimió, apretando los dientes.

    –¡Arría, te digo!

    –¡Que no me sale, vamos!

    –¡Atízale, Pipa!–le decían los otros.

    Pero Pipa estaba por seguir, antes de la violencia, los trámites
    pacíficos.

    –¿Quién te dió esa estopa?

    –Lo he trincao–contestó Cafetera con acento sublime.

    ¡Mágica palabra! Con ella dió el neófito, sin sospecharlo, una idea de
    su capacidad futura. Aquella cabeza chata, crespa y enmarañada, se había
    engrandecido á los ojos de la patulea con la aureola del genio; el chico
    prometía mucho. Pipa, que no se parecía en nada á las eminencias de
    nuestra esclarecida sociedad, lejos de sofocar aquella naciente
    inteligencia, soltó la presa que tenía agarrada y se dispuso, después de
    mirar á los suyos, á prestarle toda la influencia de su posición.

    –Sígueme–le dijo con ademán solemne.

    –¿Aónde?

    –Á pulir la estopa. ¿Tienes más?

    –¡Tengo un escoplo, de mistó!

    –¡Aprieta!… ¡Viva Cafetera!–exclamó el jefe, echando á correr hacia
    San Felipe.

    –¡Viva!–contestaron los demás, siguiéndole y llevándose en medio al
    protegido.

    Por un callejón que entonces era intransitable por lo pendiente, y hoy
    es inaccesible porque forma ángulo recto con la bóveda celeste, echaron
    nuestros personajes á paso de carga, y no se detuvieron hasta llegar á
    una pequeña barraca, incrustada entre un murallón de San Felipe y otro
    del Cristo de la Catedral, en cuyo estrecho recinto se veían amontonados
    diversidad de objetos, clasificados con la mayor escrupulosidad, y todos
    de la especie de los que ya Pipa había recibido de manos del neófito.

    Allí, desde tiempo inmemorial, afluían los raqueriles productos de todo
    el pueblo, que, aunque singularmente valían cortísimas cantidades,
    llegaron, según es fama, á formar, en cuerpo colectivo, un decente
    capital al humilde mercader que, ocultando su mustia fisonomía bajo una
    gorra de pieles, y detrás de unas gafas como dos ruedas de polea, tenía
    fuerza de voluntad ó codicia bastante para luchar de sol á sol con tan
    notabilísima parroquia.

    Clasificando estaba unas chapas de cobre, cuando asomó Pipa la cabeza
    dentro de la tienda.

    –¿Qué traes tú, pillete?–le interrogó, mirándole por encima de las
    gafas.

    –Esto–contestó lacónicamente Pipa, depositando el género sobre una
    mesa.

    El mercader de estopas y de cobre lo miró un instante como para
    evaluarlo, y sacó del bolsillo, con mano torpe y perezosa, media peseta
    que dió al raquero.

    –¿No echa más usted?–dijo éste contemplando la moneda.

    –Nada más.

    –¡Ay, qué contra!… ¡Pues si el escoplo solo vale medio chulé!

    –¿Sí?–gruñó el comprador;–¡pues descuídate y verás si te llevo al
    Capitán del puerto, tunante!

    Pipa comprendió que más valía callar que comparecer ante tan encopetado
    personaje. Así es que tomó la moneda, enseñó la lengua al de las gafas
    … y, á ser tan buen negociante como raquero, hubiera podido
    comprender, á la sola consideración del contrato que acababa de hacer,
    que, sabiendo comprar, hasta la estopa, bien exprimida, arroja productos
    de oro. Pero ni el nene había soñado jamás con la piedra filosofal, ni
    reparaba en los rendimientos de sus empresas cuando maldito el capital
    arriesgaba en ellas. Por eso salió muy ufano á la calle, reunió á los
    suyos, contólos uno á uno, miró á Cafetera con un poquillo de ternura, y
    con otra seña muy expresiva los arrastró á todos á la taberna de
    enfrente, en la que entró gritando:

    –¡Seis tazas de café y seis copas de anisao!

    Cuando los granujas trasegaron á sus estómagos, en dos sorbos, las
    pócimas infames que les sirvió el tabernero, pagó Pipa el gasto con la
    media peseta, más un cuarto que sacó de un pliegue de su mugriento
    gorro, y salieron todos á la calle. En ella formaron círculo, y el
    capitán, después de escupir contra la cara del más inmediato, echó mano
    á Cafetera y así le habló:

    –Ya sabes, nene, dónde se compra cuanto se apanda. Mucho ojo y mucha
    vela. En un apuro, cuenta con nosotros. Raquear, á barredera, y mejor el
    cobre que el chicote. Si ves que andan las _chapas_, al vuelo … y
    aprieta á correr. Si hay _cané_, orza y arría la mayor…; y avisa
    cuando haya trigo, que ya sabes cómo se gasta.

    Calló Pipa, miró á Cafetera que le escuchaba muy serio, y arrimándole un
    puntapié por la popa,–¡Á vivir!–le dijo.–Y se disolvió el corro,
    marchándose cada quisque por donde quiso.

    III

    Bien enterado Cafetera de los azares y estatutos de su nueva profesión,
    no quiso lanzarse á ella sin prevenirse antes contra las eventualidades.
    Al efecto, logró colocarse en uno de los botes del servicio público.

    Era de su incumbencia achicar el agua; componer estrovos; buscar fletes
    y cuidar de la embarcación cuando el botero no estaba presente; todo lo
    cual le producía un ochavo de café para el desayuno, una propina de
    cuatro ó seis cuartos por cada flete si éste valía la pena, lecho sobre
    el panel y una copa de caña de vez en cuando, amén, de algún chicotazo
    que el patrón le sacudía siempre que lo juzgaba oportuno.

    Fuera del tiempo que esto le llevaba, consagraba el día al ejercicio de
    su industria.

    Ésta, en toda su esfera legal, le hacía legítimo dueño de cuanto cobre,
    estopa, hierro y madera de desperdicio hallara á sus alcances, ya sobre
    la superficie del Muelle, ó revuelto entre el fango de la Dársena. Pero
    como el Muelle y la Dársena no tienen un límite determinado para la
    industria raqueril, solía tomar como prolongación del primero la
    cubierta de algún buque atracado, llevándose á buena cuenta, si el
    vigilante se descuidaba, tal cual _menudencia_, como escotas, poleas,
    etcétera, etc.

    Con la propia sencilla buena fe, desde el centro de la Dársena se
    extendía hasta los contornos; y si se forraba algún casco, nunca le
    faltaba una chapita ó clavo de cobre que ocultar en su remendada
    espuerta.

    Tal era la parte menos legal de su industria, que, en el poco tiempo que
    la ejerció, expuso su individual independencia á mil y un riesgos
    apuradillos.

    Por lo demás, lo pasaba en grande.

    No se pegaba de trompadas con los suyos más de tres veces al día; su
    madre no lograba echarle la vista encima arriba de una por semana, y
    para eso había de cogerle durmiendo; de modo que sus siniestros de
    muelas, orejas y cabellos, por temporal materno, aunque pocos y buenos,
    aún le prometían pellejo sano para muchos años.

    Alguna vez, entre otras, hacía sus correrías hasta el interior del
    pueblo, porque al raquero también le gusta el contacto de la
    civilización, por si algo se le pega; pero como ésta suele andar muy
    precavida, y, por otra parte, sus raqueables materias no son del mayor
    aprecio en la oficina del comprador de hierro viejo, Cafetera
    frecuentaba poco este trato, y casi siempre tenía que huir de él á uña
    de … raquero, acosado por las estantiguas del municipio.

    También se le ocurrió, como hijo que era de matriculado y marisco por
    los cuatro vientos, solicitar, á ejemplo de muchos de sus compañeros, un
    puesto y quiñón correspondiente en una lancha pescadora; pero esto le
    ocuparía demasiado. Tendría que esperarla todas las noches, limpiarla y
    vigilarla todo el año y _desenmallar_ sardina en el verano.

    Precisamente su resistencia á este empleo era lo que más provocaba la
    ira de la tía Carpa, que proyectaba sacar un buen pescador de su hijo, á
    quien, _velis nolis_, había ya matriculado, y, por ende, sujetado á las
    ordenanzas de la Comandancia de Marina.

    Semejante idea preocupaba mucho á Cafetera, quien, como todos los de su
    laya, no concebía que ningún tribunal del reino alcanzase hasta el
    Muelle de las Naos con su vara, al paso que no podía recordar sentado y
    con paciencia la cara del Capitán del puerto.

    La cárcel pública es para ellos un bulto más en la población pero los
    rebenques y los chicotes de á bordo, ¡ira de Dios!, cosas son que les
    hacen temblar y no de frío. Hubiérale á él dejado libre de toda
    persecución el cabo de mar, y á fe que en poco tiempo, burlando la
    vigilancia de lo terrestre, se _embarba_, como él decía, de raqueo; y
    hasta comprado hubiera el almacén de hierro viejo, máximun de las
    fortunas, según se creía en el Muelle de las Naos. Pero como no sucedía
    así, los meses corrían y hasta los años, y Cafetera, lejos de llegar á
    capitalista, perdió los últimos pingajos de su vestido, ganando en
    cambio muchas nociones de baraja y no pocos títulos de borracho sobre el
    que ya tenía bien merecido.

    Entonces comenzó á mirar con desaliento la mezquindad de la Dársena, y
    la penuria de su explotación legal. Sucedíale algo de lo que al jugador
    que, acostumbrado á poner grandes cantidades á una carta, mira con
    aversión el corto salario que en la sociedad le proporciona el ejercicio
    de su profesión.

    En fuerza de meditar sobre su situación concluyó por tirar su cesto á la
    mar; y sin otras armas que su ligereza de manos y de pies, se lanzó á lo
    sublime del arte.

    De todo había en su nueva esfera de acción, especialmente de zozobras é
    inquietudes, dándoselas, y no flojas, la mala _traducción_ que sus
    obras hallaban en el almacén de marras, único punto adonde él se atrevía
    á llevarlas, porque en la población del centro seguro estaba él de que
    no pasaban.

    Todo, sin embargo, iba hallando colocación detrás de los montones de
    estopa del almacén, aunque á muy bajo precio por ser género de _mala
    venta_; pero no pudo haberla para el objeto de la última campaña de
    Cafetera.

    Esto traía volado al raquero, que no sabía cómo deshacerse de él; pues
    ni regalarle quería, ni tirarle al mar, sin indemnizarse de los peligros
    que corrió al trincarle en la cámara de popa de un buque de gran porte.

    El obstáculo que oponía á su compra el comerciante, era, aunque no se lo
    decía al raquero, el nombre del buque y el de su armador, diestramente
    esculpidos en la parte más integrante del aparato; nombres que no podían
    borrarse sin exponer la estructura de éste, ni darse al público sin
    grave riesgo de los haberes y libertad del mercader.

    Largos días pasó Cafetera meditando sobre el asunto; y ya casi olvidado
    de él estaba una mañana en que había _libado_ bastante, sentado sobre un
    guardacantón, fumando una colilla, á caza de fletes para el bote y en
    espera de sus amigos para jugar al cané.

    Mucha gente había pasado sin contestar al «¿quiere un bote?» con que el
    raquero interpelaba á todo el mundo, cuando apareció en escena un señor
    que, según dijo el pillastre, traía _cara de flete_.

    –Usté, ¿quiere un bote pa dir á bordo?–le dijo, como tenía por
    costumbre, así que le tuvo á su lado.

    El señor, contra las presunciones del granuja, pasó de largo, echándole
    á la cara una bocanada de humo de su grueso cigarro.

    Cafetera lo tragó con ansiedad, y retirando de los labios su colilla, se
    fué detrás del puro.

    –¿Me da la punta usté?

    Chocó al interrogado la desvergüenza del raquero. Miróle muy
    detenidamente, y

    –¿Quién eres tú, chicuelo?–le preguntó.

    –Yo soy … Cafetera.

    –¿De dónde eres?

    –De la calle Alta.

    –Y tu padre, ¿cómo se llama?

    –El tío Magano.

    –Pero ¿cuál es tu nombre de pila?

    –¿De qué pila, usté?

    –De la de bautismo, animal.

    –Otra, ¿qué sé yo?… ¿Me da la punta!

    –¿Conque tú fumas, eh?

    –¡Ay, qué contra!…; ¿quiere ver como las _tapo_?

    Y diciendo y haciendo, tragó dos chupadas de su colilla, arrojando
    después el humo por boca y narices con la abundancia y facilidad de una
    chimenea de vapor. El señor desconocido le miraba cada vez con mayor
    curiosidad.

    –Y ¿á qué te dedicas tú?

    –Á cuidar el bote del tío Bandiate.

    –¿Y nada más?

    –También soy raquero.

    –¡Hola, hola! ¿Y qué tal el oficio?

    –¡Quiá, señor; si no sale para café!… ¿Me da dos cuartos?

    –Veremos si los mereces…. Dime antes lo que raqueas.

    –¡Como no raquee! ¡Si andan más listos á bordo!…

    –Pero alguna vez ya se descuidarán.

    –Quiá, no señor. Ayer trinquemos, entre Pipa, Michero y yo, como tres
    libras de cobre; y pa eso, de poco nos guipan.

    –¿En dónde lo trincasteis?–insistió el señor con más interés que
    nunca, dando dos cuartos al raquero.

    –Pos en esa freata que están aforrando en el paredón–contestó Cafetera
    con la mayor sencillez, guardándose los cuartos en el faldón de la
    camisa y escupiendo por el colmillo.

    Para evitar tiempo, papel y paciencia, diremos que en fuerza de acosar
    y prometer el uno, acabó el otro por ir largando trapo, hasta que del
    último remiendo de los calzones sacó un magnífico cronómetro de
    bolsillo, alhaja que, sin conocerla, le había dado tanto que discurrir.

    Á su vista, el buen señor quedóse haciendo cruces y bendiciendo á la
    Providencia en sus adentros.

    Después de prometer á Cafetera la compra como éste decía, del
    _estrumento_, mandóle que le siguiera para entregarle el dinero, lo cual
    hizo al punto lleno de júbilo el incauto raquero, sin sospechar lo que
    le había de suceder, cosa que le hubiera sido muy fácil al ser tan
    diestro conocedor de los atributos de un comisario de policía como de la
    verdasca de un cabo de mar.

    Grande fué la sorpresa del pilluelo cuando, siempre al lado del presunto
    comprador, llegaron á detenerse en la Capitanía del puerto.

    Allí fueron los sobresaltos y congojas; tanto que, á no estar muy listo
    el grave señor de las borlas, se queda sin su presa, que ya andaba en
    trazas de escurrir el bulto.

    Entregado éste y el cronómetro á la autoridad, declaró Cafetera, llamóse
    á Pipa y á Michero, cantaron todos de plano, y fueron al punto
    conducidos á la cárcel, de donde después de algunos meses de reclusión,
    salieron … á tirar del _Bombo_ de la Carraca.

    Allí estuvieron tres años agarrados á la maroma, hasta que, satisfechos
    sus jueces y la vindicta pública, los mandaron de retorno á su país con
    algunos vicios de más y mucha vergüenza de menos.

    Su primer pensamiento al pisar el patrio suelo, fué para el Muelle de
    las Naos; pero no fué poca su sorpresa cuando, en él colocados;
    comenzaron á examinarle en todas direcciones.

    La escollera de Maliaño, la estación del ferrocarril, el nuevo empedrado
    y otras reformas hechas precisamente mientras duró la condena de los
    pilluelos, era lo que ellos no podían comprender; mas lo que extravió
    sus razones hasta el extremo de llegar al espanto, fué la aparición, por
    la Peña del Cuervo, de un monstruo silbando y arrojando nubes y fuego
    por la cabeza. No atreviéndose á pronunciar una sola palabra, miráronse
    los tres sobrecogidos cuando notaron que el monstruo se acercaba á paso
    de gigante. Entonces perdieron la brújula; gritó Pipa «¡aguanta!» y se
    dieron á correr pensando que el mundo se acababa.

    Después acá, aunque con la llegada de los trenes, á medida que la han
    visto repetirse, van familiarizándose bastante los raqueros, no ha sido
    hasta el punto de que éstos permanezcan tranquilos en el Muelle de las
    Naos. Por el contrario, empujados y oprimidos por el potente movimiento
    que la población ha tomado allí en los últimos años, van abandonando el
    territorio: ya tiene el raquero cien Argos que le contemplan, y no puede
    pasearse erguido como antes, señor de aquella ínsula remota.

    Para concluir, y en pro de este tipo tan popular en Santander, haré una
    ligera observación: de vástagos tan carcomidos y tortuosos son muy
    frecuentes aquí robustos y fructíferos troncos. La historia de este
    puerto abunda en páginas brillantes debidas á la honradez, pericia y
    heroísmo de nuestros marineros, muchos de los cuales han recorrido en su
    infancia un sendero tan expuesto y espinoso como el del tipo que acabo
    de bosquejar. Nuestro comercio tiene pruebas repetidas de lo que digo; y
    á fe, á fe, que no pecó de pródigo con los venerables harapos de tan
    valientes marinos, al extender los anchos pliegues de su rico manto.

    LA ROBLA

    De maldita de Dios la cosa sirvieran los contratos de compraventa, si al
    tiempo de consumarlos no llevaran más requisitos que el mutuo convenio
    de los contratantes y el _ante mí_ del tabelión más competente del
    juzgado.

    Y cuidado, señores legistas, con atribuirme la pretensión de poner en
    duda la legalidad de las fórmulas que sobre el particular se vengan
    usando desde la fecha de las Pandectas.

    ¡Líbreme de ello Dios! Voy separándome del centro _civilizado_ donde la
    ley se halla en toda su pomposidad, y estoy refiriéndome á los incultos
    moradores del campo, entre los cuales, sin dejar de acatarse el vigente
    código en todo lo que vale, aún se rinde culto reverente á la tradición,
    la cual constituye para ellos un derecho tan sagrado como el que más se
    funde en cuantas leyes se vengan haciendo desde la fabla de don Alonso
    el Sabio.

    Desengáñese la previsora jurisprudencia: sin un requisito que les sea
    peculiar, estos paisanos no dan por terminado ningún negocio, aunque
    para cumplir con la ley le amortajen en más testimonios y sellos que hay
    en un archivo de hipotecas. Pasar un objeto de las manos de Juan á las
    de Pedro sin cierta solemnidad _sui géneris,_ valdría tanto como para la
    conciencia de un cristiano viejo un buen creyente sin bautizar, símil en
    que, sin duda alguna se fundaron los _académicos_ de mi lugar para
    llamar á dicha ceremonia _mojar el asunto_.

    No vale en el día de mañana, para disfrutar pacíficamente la posesión de
    lo comprado, restregar los hocicos del vendedor con la resellada
    escritura de legítima pertenencia, que si ante la ley le asegura en la
    posesión, no es suficiente, sin embargo, para librar al poseedor de un
    litigio cada semana, en el que, por lo menos, pierda la paciencia, amén
    de algunos dinerillos que suelen irse en pos, por vía de procuración,
    asesoramiento y demás adminículos de que es costumbre proveer á todo
    aquel que tiene la mala humorada de pesar sus derechos en la prudente
    balanza de Astrea. No hay, pues, título de propiedad que valga, si falta
    la fe de _bautismo_, el _fiat_ del tabernero más próximo, LA ROBLA[1],
    para decirlo de una vez.

    El origen de esta ceremonia no consta en las crónicas montañesas, porque
    se pierde en la antigüedad de la afición de los montañeses al acre mosto
    riojano[2].

    Su definición precisa tampoco es fácil sin que se me olvide algún rasgo
    gráfico de ella; por lo cual juzgo de rigor que nos traslademos
    adondequiera que se _eche_ una…, y allá nos vamos.

    Raro es el colono montañés que al poco tiempo de establecido no posea,
    como producto de sus _aparcerías,_ una pareja apta para las labores del
    campo, algún novillo _uncidero_, es decir, capaz de ser uncido, ó
    cualquiera otra res vacuna; pero en absoluta propiedad y sin que el
    arrendador de sus haciendas tenga que intervenir en su venta, cambio ó
    emparejamiento; casos en los cuales el colono, por lo que le va en ello,
    pone los cinco sentidos y emplea la mayor solemnidad posible. Tras ella
    va siempre la robla.

    Luego vamos á una feria.

    El lugar de ella queda á elección del lector, pues, gracias á Dios,
    abundan aquí como los helechos. Abran ustedes un calendario, y donde
    topen con su santo, cátense una feria. En este dichoso país, el día que
    no es de fiesta tiene mercado; de los restantes del año, los unos marcan
    feria, y los otros romería.

    Elegido el punto más cercano, tuvo que ser, por precisión, un pequeño
    bosque de cajigas ó de castaños, verde, fresco, frondosísimo, bello como
    es la naturaleza aquí hasta en su menor detalle.

    Estamos ya bajo el tupido follaje…. Cierra, lector, los ojos por un
    momento. ¿No te crees transportado, en una serena noche de verano, á la
    orilla de una inmensa charca, y jurarías que sus ranas, en número
    infinito, cantan todas á la vez? Es el sello de nuestras ferias y
    romerías: el sonido de las _tarrañuelas_ de cien y cien bailadores _á lo
    alto_, al compás de las panderetas que tañen las mejores mozas del
    lugar.

    Sigamos.–Sin reparar en el corro de bolos en que acababan de gritar
    cincuenta bocas á la vez _¡eseeé!_ al hacer un _emboque_ uno dé los
    jugadores; abriéndonos paso á través de la batería formada por los
    pellejos de vino, barriles y cacharros que sobre un carro, debajo y á
    los lados de él, á la sombra de un castaño, son la delicia de los
    bebedores; echándonos por la derecha para no turbar el sueño pacífico de
    los jamelgos de un cura y un señor de aldea, que están amarrados al
    _cabezón_ del mismo carro, quizá por casualidad, quizá porque los
    jinetes tomaron este norte como de mejor atractivo para cuando vaya
    anocheciendo; guardando el cuerpo del fogoso trotón de ese jándalo, que
    atraviesa la feria llevando á las ancas la parienta más joven é
    inmediata que encontró en su pueblo cuando volvió de Andalucía, y cuyo
    chal de amarillo crespón, no menos que su vestido blanco de empinados
    volantes, forman extraño contraste con su reluciente y pasmada
    fisonomía; sin responder á las voces de las importunas fruteras, de los
    _agualojeros_, rosquilleros y otros análogos industriales que nos
    asedian al paso; sin fijarnos, en fin, en ese maremágnum alegre y
    estimulante que el cuadro presenta á primera vista, salgamos á aquella
    braña donde hay un grupo de ocho personas y una pareja de novillos
    uncidos. Allí va á haber robla.

    El que está apoyado sobre sus engalanadas cabezas, hombre que tiene la
    suya algo más sucia, calzones de _manga corta_, con un tirante sólo,
    chaqueta al hombro y sombrero de copa alta, más que medianamente
    apabullado, es el dueño de la pareja, y conocido y honrado en su pueblo
    por el nombre de Antón Perales.

    El otro, más joven y de mejor traza que éste, que pasea alrededor de los
    novillos examinándolos con gran atención, es el comprador: llámanle
    Ogenio Berezo, y es de las inmediaciones. De los que forman el círculo,
    los cuatro son meros curiosos que, á título de conocidos de los
    primeros, se han aproximado al olor de la robla. La mujer, que come una
    manzana y tras de cada bocado que le tira se rasca la cabeza por debajo
    de la _muselina_, es la costilla de Antón Perales. El otro personaje,
    más viejo que todos los demás, y que observa el cuadro, taciturno y
    reflexivo, es convecino del comprador: llámase tío Juan de la Llosa, y
    asiste, á la sazón, en calidad de perito. Sus títulos al efecto están en
    toda regla. Es público y notorio que en más de cien sangrías que lleva
    hechas en el pueblo á los animales de sus vecinos, á la oreja, _al
    pelo_ y al rabo, que es la más difícil, no se le ha desgraciado una sola
    res. Para poner una bizma, ó sea un emplasto de trementina y polvos de
    suelda, no hay otro que se le iguale. Distingue á la legua un cólico de
    un _empanderamiento_, y en las cojeras no confunde el _zapatazo_ con el
    _babón_; y si no ha curado un solo caso de _solenguaño,_ es porque la
    enfermedad es mortífera, mas no por haber dejado de echar á tiempo, «por
    la boca abajo» del paciente animal, con el auxilio conductor de una
    teja, el agua de jabón, aceite y vino blanco bien caliente. Por algo
    dice él que, si le hubieran _desaminao, albitre_ podía ser; y es la
    verdad. En cuanto á las condiciones externas del ganado, ahora le verán
    ustedes.

    El comprador ha dejado de rondar la pareja, crúzase de brazos y exclama
    de repente:

    –Pues, señor, ¿á qué hemos de decir una cosa por otra? La pareja me
    gusta. ¿Qué le parece á usté, tío Juan?

    Éste guarda en un bolsillo del chaleco la punta que mascaba rato hacía,
    da dos pasos al frente, cárgase á la izquierda sobre el garrote, pone la
    diestra en jarras, cruza las piernas y reflexiona un instante.
    Entretanto el vendedor se sonríe con cierta malicia, su mujer menudea
    los mordiscos á la manzana, y murmura algunas palabras hacia los otros
    personajes que emiten su dictamen á media voz.

    –Apaséalos–dice en tono grave el perito.

    Antón Perales hace caminar sus novillos un corto trecho, al son de las
    alegres campanillas que les adornan el pescuezo.

    –Ahora, hacia abajo …–añade el primero.–¡Oooó, joois!–canturria,
    luego que el vendedor le ha complacido, para indicarle que pare ya.

    –Lo que toca al particular–dice la mujer, á quien no le cabe ya la
    lengua en la boca,–no tienen tacha. Tocante á eso, no es porque sean
    míos; pero, como dijo el otro…. Vamos, que son dos perlas.

    –Como que los he criao yo en casa–repone su marido;–y éste que se
    llama _Galán_, es hijo de la _Leona_, y este otro, _Cachorro_, de la
    _Gallarda_, dos vacas que, mejorando lo presente, son dos soles.

    –Justo, que las vendimos el mes pasao al sobrino del Regioso, con
    perdón de ustedes, que por aquel pique que tuvo por la cuñá del
    Mostrenco, que ya con este mote le han de enterrar, por el lindero del
    prao que le tocó á resultas del _cobicillo_ que encontraron debajo del
    jergón de su tío, que en santa gloria esté…, y ahí está el mi hombre
    que no me dejará mentir, que á la verdá que anduvo como una estorneja de
    acá para allá, ahora que la botica, después que el señor cura, luego que
    la unción, porque el enfermo daba el ¡ay! que partía el alma, sin que
    hubiera en aquella casa un mal nacido á quien volver los ojos…, y no
    se lo tome Dios en cuenta á la que tanto fachendea hoy gracias á los
    cinco carros de tierra que apañó…. Pues resulta de que….

    Á la buena mujer se le va la burra entre tanta maraña, mientras el tío
    Juan no quita los ojos de la pareja. El comprador mira al perito como si
    quisiera leer en su fisonomía la opinión que va formando; el vendedor
    atusa el pelo á los novillos, y los intrusos los ponderan cuanto les es
    permitido, con objeto, evidentemente, de contribuir á que se cierre el
    trato y no se pierda la robla.

    Después que el perito y el comprador han visto que los animales _se
    plantan_ bien al caminar, que no se aprietan, que no _zambean_ del
    cuarto trasero, que son bien encornados y que igualan perfectamente en
    alzada y color, el primero les mira la boca, les palpa bien los
    _brazuelos_ y las nalgas para ver si están _despicados_ de algún remo, y
    les examina escupulosamente las astas por si son estoposas, las pezuñas
    por si _blandean_, y los ojos por si tienen _nube_ ó _glarimeo_.

    Hecho este examen, el tío Juan, sin perder un solo rasgo de su gravedad,
    dice en tono solemne:

    –Caballeros, la pareja…, lo que toca á la pareja, no tiene pero. Son
    dos rollos de cuatro años, sanos como dos corales.

    –Pos á mí–añade el comprador,–lo que toca al particular, también me
    gusta la planta y el aquel de la pareja…. Conque si el señor trae gana
    de vender, diga, si á mano viene, en lo que estima su hacienda, que yo á
    comprar he venío.

    –Al respetive de eso mesmo–replica el vendedor,–no me quedo yo atrás;
    que hoy por ti y mañana por mí…, y, como dijo el otro, mortales nos
    hizo Dios…. Vamos al decir, que si tú traes ganas de comprar, no
    reñiremos.

    –Cabales, que ni al mi hombre ni á mí nos ha perseguido nunca la
    justicia por embusteros; y cuando vemos que se trata con gente de
    formalidá y de requilorios….

    –Esa es la verdá; y vamos, Antón, á estimar la pareja, como el otro que
    dice, con equidá.

    –Pos la pareja, Ogenio, por ser para ti…, la pareja; que, como ha
    dicho el señor, no tiene pero; la pareja, y que no vea la cara de Dios
    si te engaño; la pareja vale treinta doblones[3] como dos cuartos.

    –Tú no quieres vender, Antón–contesta con cierto desdén el atildado
    Ogenio.

    –Ogenio–replica Antón,–tú me ofendes.

    –Que te digo que no quieres vender.

    –¡Que mal rayo me parta si he venío á otra cosa á la feria! Y sábete
    que por ese dinero ya no tendría en casa los novillos hace una semana,
    si los hubiera querido vender…; pero hoy por ser pa ti….

    –Pos yo no doy por ellos más que veinticinco doblones.

    –Tú no quieres comprar, Ogenio.

    –Á eso vine á la feria, Antón…; y si no, que diga tío Juan si me
    pongo en lo justo.

    –Lo que toca á mí–dice el aludido, que durante la escena referida se
    ocupaba en hacer rayitas en el polvo con el palo,–lo que toca á mí, no
    me gusta meterme en la hacienda del vecino, que cada uno puede estimarla
    en aquello que, pongo por caso, le acomoda.

    –De manera es–replica el comprador,–que aunque usté diga uno, ó dos,
    ó medio; ó que la pareja vale tanto ó cuanto, ó que por aquí ó que por
    allá, no ha de ser medida la palabra de usté.

    –Eso es–añade Antón;-que como dijo el otro, ná se pierde con oir á
    éste y al de más allá.

    –Andando–gruñe su mujer, clavando los dientes en la quinta
    manzana,–que todos somos hijos de Dios, y más ven cuatro ojos que dos.

    –Es de razón–exclaman á coro los demás circunstantes.

    –Pues, caballeros–concluye el perito con cierto tonillo de
    autoridad;–creo que se pueden dar veintisiete doblones por la pareja.

    –Ya lo oyes, Antón…; y yo no dejo mal á ningún amigo.

    –Por dicho de eso, yo tampoco, Ogenio; y si das los veintiocho, tuya es
    la pareja.

    Grandes murmullos en el grupo; anímase el tío Juan, y exclama,
    imponiendo silencio á los circunstantes:

    –Ni los veintisiete ni los veintiocho, que han de ser los veintisiete y
    medio, y se pagará la robla además.

    –Corriente–dice Ogenio.

    –Pues buen provecho te hagan–añade Antón, entregando la ahijada al
    primero, como símbolo del dominio que le transmite….

    El pequeño circuló se agita con gran ruido; todos se felicitan
    recíprocamente, todos hablan á la vez, y entre todas las voces se
    destaca la de la exdueña de los novillos que charla más que nadie y
    desbarra como nunca.

    Autorizado competente uno de los testigos del ajuste, marcha á buscar al
    punto más inmediato dos azumbres de vino tinto para _mojar el trato_, es
    decir, para _hechar la robla_; y mientras vuelve, el comprador se sienta
    en el suelo, saca un pesado bulto del bolsillo interior de su chaqueta,
    y comienza á desliarle capa á capa, como si fuera una cebolla. Así van
    saliendo, sucesivamente, un pañuelo de percal aplomado, un viejo pañal
    de una camisa y una bula, dentro de la cual aparecen, como núcleo de
    todo el envoltorio, un montón de napoleones y algunas monedas de oro
    cuidadosamente guardadas entre los amarillentos repliegues de una hoja
    de un catecismo.

    Con grandísimas dificultades cuenta los veintisiete doblones y medio, ó
    sean 1.650 reales, y se los entrega al vendedor, quien, en el acto, y
    con no menores amarguras, los cuenta también; y envueltos en la bula, y
    la bula en la muselina de la mujer de Antón Perales, desaparecen en los
    profundos abismos de la faltriquera que debajo del refajo lleva ésta[4].

    El que fué por el vino vuelve con un enorme jarro lleno de él en una
    mano, y con una taza de barro blanca en la otra. Desátanse, á su vista,
    más y más las lenguas del corrillo; sonríense todas las fisonomías, y el
    rústico Ganimedes, apoyándose en la _yugata_ de la pareja, comienza á
    escanciar el vino con gran pulso y mucha solemnidad.

    El tío Juan, para quien es la primera taza, levantándola en alto,
    brinda:

    –Por la salud de los presentes, que se disfrute muchos años la pareja,
    y que en el cielo nos veamos.

    –Amén–contesta á coro la reunión.

    La taza sigue pasando luego de mano en mano y de boca en boca, hasta que
    se agotan las dos azumbres de rioja.

    Pero Antón Perales no quiere ser menos que su contrinca, y paga otros
    ocho cuartillos que se beben con la misma solemnidad que los anteriores,
    con el mismo ceremonial, pero con mayor locuacidad de parte de los
    bebedores y con peor pulso de la del escanciador.

    Entretanto la tarde va acabándose, y el ganado y la gente que llenaban
    la feria se retiran poco á poco.

    Ya no se oyen las tarrañuelas, ni los panderos, ni un solo grito en el
    corro de bolos. Los taberneros recogen sus baterías, y embridan sus
    jamelgos los curas, los jándalos y los señores de aldea; y perdiéndose,
    por grados, desde el lugar de la feria, por la campiña adelante en todas
    direcciones, se oye el sonido de las campanillas del ganado que se
    aleja. Nuestros conocidos, detrás de los novillos, llevan, como quien
    dice, la llave de la feria, cierran la marcha … y bien lo necesitan.
    Tal andan todos ellos, que no les basta entero el ancho del camino para
    no darse de calabazadas unos con otros. Aquello ya no es hablar: es una
    algarabía incomprensible é insoportable. La mujer de Perales, sobre
    todo, desafina como una cotorra; cuenta lo suyo, lo de los vecinos y
    hasta lo que no sabe. Su marido se empeña en que relampaguea, y está el
    cielo sin una sola nube; antójasele que los troncos de los árboles son
    ladrones y lleva á su costilla agarrada fuertemente por la saya para que
    no la roben el dinero. Tío Juan, el perito, canturria, con voz atiplada
    y temblorosa, aires de sus mocedades, y, recordando galantes aventuras,
    enamora á la disimulada á la mujer de Antón. Ogenio palpa con torpe mano
    las monedas que le quedan en el bolsillo, y contando por los dedos de la
    otra, sostiene y jura que ha dado dinero de más á Perales.–Los cuatro
    intrusos dan la razón á todo el mundo, pero trocando los asuntos. Á
    Perales le aseguran que Ogenio le engañó, dándole dinero de menos; á
    éste, que está, en efecto, relampagueando y que al fin tronará; á la
    pobre mujer, que realmente ha sido muy _atravesá_ y muy revoltosa, y que
    si pellizca al tío Juan, hace muy bien, porque ella se entiende…. Pero
    al oir esto, su marido, aunque no es celoso, ni mucho menos, da
    instintivamente un tirón á la saya que lleva agarrada entre sus dedos;
    y como su dueña no está para grandes pruebas de equilibrio, viene al
    suelo como un fardo. En el mismo instante Ogenio toca en el bolsillo á
    Antón para advertirle que quiere ventilar la duda que le preocupa, y
    éste, siempre soñando con los ladrones, sobrecógese de horror, dase por
    muerto, quiere huir, tropieza con su mujer y cae sobre ella; apresúrase
    el otro á levantarle, pierde el equilibrio y da de hocicos sobre los dos
    caídos; acuden, al estrépito, los demás personajes; creen que aquello es
    una lucha, enmaráñanse para separarlos, empújanse los unos á los otros,
    y al cabo y al fin caen todos amontonados sobre la desdichada mujer que
    grita y se lamenta medio sofocada por tan enorme peso. Estrújanse y
    aráñanse todos buscando un punto de apoyo para salir de aquel enredo; y
    poco á poco, y con grandes fatigas, van levantándose uno á uno; y
    renqueando y vacilando, se vuelven á poner en marcha, y llegan á un
    punto en que se bifurca la carretera. Allí deben separarse el tío Juan,
    Ogenio y dos de los intrusos. Pero da la casualidad (y estas
    casualidades abundan en la Montaña más que las ferias, que los mercados
    y que las romerías), da la casualidad, repito, que en el punto de
    empalme de los dos caminos hay una taberna; y como tío Juan de la Llosa
    es hombre que no queda mal con sus amigos por un par de azumbres más ó
    menos, invita á sus camaradas á beber, para demostrarles que «si
    _aquello_ ha sido guerra, que nunca haya paz».

    Inútil es decir que el convite se acepta y se agradece.

    Pero los bebedores se han metido en la taberna y han atado la pareja á
    un poste del portal, indicios todos de que sólo Dios sabe á que hora
    concluirá aquello y bajo qué techo dormirán nuestros conocidos la robla
    de los novillos.

    Además, la noche ha cerrado ya; me comprometí, lector, á acompañarte á
    una feria para que supieras con un ejemplo práctico lo que es una robla:
    he cumplido mi palabra como me ha sido posible, y creería abusar de tu
    amabilidad obligándote á pasar la noche al raso. Retirémonos, pues…, y
    hasta la vista.

    FOOTNOTES:

    [Footnote 1: De _robra:_ escritura ó papel autorizado para la seguridad
    de las compras y ventas ó de cualquier otra cosa. DIC.
    ACAD.–Refiriéndose á este cuadro, escribía años ha el eminente literato
    don Juan Eugenio Hartzenbusch: «También allí (en la provincia de Cuenca)
    se usaba, aunque más en pequeño, _echar la robra_ en términos parecidos
    á los de la Montaña, pero dicen _robra_, y robra significa una firma,
    una escritura, cualquier documento.»]

    [Footnote 2: Mi erudito amigo y paisano don E. Pedraja Samaniego, dijo
    en _El Averiguador de Cantabria_, respondiendo á una pregunta hecha en
    el mismo acerca de la antigüedad de esta costumbre por mí descrita:
    _«Robla._–La costumbre de convidar el comprador ó el vendedor, después
    de consumado el contrato, á los que han intervenido en él, es tan
    antigua, que ya se halla mencionada con la palabra _Alvoroc_ (hoy
    alboroque) en el título 25 de las _Cortes de León celebradas el año de
    1020_.»–El M.° Berganza, en el tomo I de sus _Antigüedades de España_,
    pág. 311, dice: «En el año 1025, Zite Morielez vendió al Monasterio de
    Cárdena una viña por sesenta sueldos de plata y cinco que se gastaron en
    el _Alvoroc_.» El mismo, en el catálogo de palabras antiguas que trae al
    fin del tomo II, define así la palabra _alvoroc: «robra_ que confirma la
    compra».

    (_Notas del A. en 1876._)]

    [Footnote 3: El doblón, en la Montaña, es una moneda imaginaria,
    equivalente á 60 reales.]

    [Footnote 4: Quizás me objete algún montañés _resabido_ que no es usual,
    ni tal vez tolerado, recibir el vendedor en la misma feria el importe de
    lo vendido. No disputaremos sobre el caso, siempre que él me conceda que
    en los pormenores del pago no he puesto yo uno solo que no sea
    verosímil.]

    «Á LAS INDIAS»

    «Á las Indias van los hombres,
    á las Indias por ganar:
    las Indias aquí las tienen
    si quisieran trabajar.»

    _(Canc. pop. de la Montaña.)_

    I

    Madre, este carraclán está mal hecho.

    –¡Jesús, qué condenao de chiquillo!… ¡Si le está, que ni pintao!

    –¡Tisana, que me aprieta por todas partes, y los faldones se me suben
    al pescuezo cada vez que me voy á quitar el sombrero!

    –Di que eres un mocoso presumido, y no me rompas la cabeza.

    –Diga usté que no sabe coser por lo fino…, ni esta tarascona de mi
    hermana…. ¿Lo ve?… Lo mismo coge la aguja que las _trentes_.
    ¡Tisana, qué camisa me está cosiendo!… ¡Á ver si das más cortas esas
    puntadas!…

    –¡El demonio del renacuajo!… ¿Cuándo soñaste tú en gastar levita?
    ¡Después que me llevo mes y medio sin pegar el ojo por servirle á él!…
    Madre, yo no coso más.

    Y la censurada costurera, que es una mocetona como un castaño, arroja al
    suelo la camisa que estaba cosiendo, y vuelve las espaldas con resuelto
    ademán al escrupuloso elegante, rapaz de trece años, listo como una
    ardilla y tan flaco como el mango de una paleta.

    Su madre, mujer de cuarenta años, aunque las arrugas del rostro y la
    curva de sus espaldas la hacen representar sesenta, después de comerse
    media cuarta de hilo para hacerle punta y que pase por el ojo de la
    aguja que apenas se ve entre sus callosos dedos, pone en orden á la
    susceptible costurera, se acerca al muchacho, le hace girar tres veces
    sobre sí mismo, le estira con fuerza la levita que lleva puesta y
    después de contemplar un instante su obra, vuelve á sentarse, exclamando
    con acento de profunda convicción:

    –Que la pinte mejor un sastre.

    Pero antes de ir más lejos, y para mejor inteligencia de los lectores,
    es justo que, como diría el inédito poeta don Pánfilo, expliquemos la
    situación.

    Que nuestros personajes son montañeses, debe haberse deducido del estilo
    del diálogo anterior; y si éste no lo ha demostrado bastante, conste
    desde ahora que lo son en efecto.–El lugar de la escena puede el lector
    colocarle en el punto de esta provincia que más le conviniere, si bien
    su parte oriental es preferible por ser en ella más frecuentes que en
    las demás, cuadros semejantes al que voy á describir.–El escenario es
    aquí el ancho soportal, ó tejavana de una casa pobre de aldea.–Ésta,
    como todas ó la mayor parte de las de su categoría, tiene en la humilde
    fachada del portal tres huecos: la puerta principal en el centro; la de
    la cuadra á la izquierda, y á la derecha la ventana de la cocina.
    Sentadas en el alto batiente de la primera, cosen las dos mujeres; la
    segunda está entreabierta, porque acaba de entrar por ella á arreglar el
    ganado el bueno de tío Nardo; jefe de la familia, ó esposo y padre
    respectivamente de los personajes de nuestro diálogo. Por lo que hace á
    la ventana, aunque no la necesitamos para nada, diré, á fuer de verídico
    historiador, que está cerrada, pues su destino, más que dar luz á la
    cocina, es dejar que salga el humo de ella cuando hay fuego en el hogar,
    el cual está ahora tan frío como la borona que en él se coció por la
    mañana para todo el día…; y dicho se está con esto que la escena es
    por la tarde: conste también, sin que este dato sea, como parecerá á
    primera vista, una minuciosidad inútil, que corre el mes de septiembre.
    Ahora sólo nos resta consignar que el pequeñuelo interlocutor, al
    dirigir tan graves cargos á su madre y á su hermana, llegaba al portal,
    vestido con levita, pantalón y chaleco de mahón gris; agarrotado su
    cuello entre los revueltos y atropellados pliegues de una enorme corbata
    de percal con grandes cuadros rojos; medio oculta su diminuta é
    inteligente cabeza bajo las anchas alas de un sombrero de paja con cinta
    verde, y calzado, por último, con gruesos zapatos de Novales. El polvo
    que los cubre, el arrebatado color de la cara del muchachuelo y el
    garrote que éste trae en una mano, prueban bien á las claras que acaba
    de hacer una larga caminata. En cuanto á las razones que tiene para
    quejarse de las tijeras de su madre y de la aguja de su hermana, no
    dejan de parecer fundadas, si se mira su vestido con alguna atención,
    pero también es cierto que las pobres mujeres nunca las vieron más
    gordas, y que el intolerante rapaz se mete por primera vez bajo aquellos
    faldones que le estorban. También debe constar que á pesar de lo que
    dijo al presentarse en escena, hay en su fisonomía algo de risueño y
    placentero que denota una satisfacción interior; su viaje debe haber
    tenido un éxito feliz…. Mas para saber lo que hay sobre esto y otras
    cosas que nos proponemos referir, volvamos á tomar el asunto donde le
    dejamos para hacer esta digresión.

    Mientras la madre pronunciaba las palabras que dejamos escritas, hecho
    el examen de la levita de su hijo, éste se sentó en el poyo del portal,
    entre las dos puertas; y limpiándose luego con el pañuelo del bolsillo
    el polvo de sus zapatos, replicó vivamente:

    –Eso lo dice usted aquí porque no hay comparanza; pero si me viera al
    lado de don Damián como yo acabo de verme…. ¡Tisana, qué levita!…;
    ¡aquéllas sí que son costuras!… Ni siquiera se conocen…. ¡Y qué
    corte! Da gloria de Dios el verla. Y no estos costurones … ¡más mal
    asentaos!

    –Pero, condenao, ¿cómo quieres tú comparar aquel paño tan fino con este
    mahón de á tres reales?

    –¡Qué mahón ni que ocho cuartos! En las manos consiste toa la
    cencia…. Si me hubiera hecho la ropa un sastre de Santander, como yo
    quería…. Lo mismo que el chaleco … y los calzones: por un lado me
    sobra media fanega, y por otro no me puedo revolver adentro…. ¡Y estos
    zapatos!… Yo no sé en qué consiste que cuanto más tocino les doy, más
    peor se ponen. ¡Qué zapatos los de don Damián, tisana! Relumbran como el
    sol de mediodía.

    –Pero, hijo mío, ¿no ves que don Damián es un señor muy rico?…

    –También tú te vestirás así el día de mañana, ¿verdá, madre?

    –¡Anda, anda!; ya te estás relambiendo con los vestidos que te he de
    regalar…. ¡Como no pongas otros!…

    –Ni falta que me hacen, para que lo sepas; probe nací, y con saya de
    estameña y tirando de la azada me han de querer….

    –Calla, tonta, que lo dije por oirte: ¡miá tú qué me importará á mí el
    día de mañana vestirte como una señora prencipal!… ¿eh, madre?

    Á la buena mujer, mientras sus dos hijos comenzaban á contender en este
    terreno, se le iban enrojeciendo los ojos, fenómeno que, en idénticas
    circunstancias, había observado de algunos días á aquella parte el tío
    Nardo con no poca sorpresa; y sabiendo por la experiencia que si no
    combatía la emoción á tiempo no podría disimularla, dió al diálogo otro
    giro diverso, preguntando al muchacho:

    –¿Te dió la carta don Damián?

    El interrogado que por otra parte, parecía estar deseando que se le
    hiciera semejante pregunta, llevó la diestra al bolsillo interior de su
    levita; después á uno de los del chaleco; ocultó entre sus dedos una
    moneda, y sonriendo con expresión de triunfo, exclamó, alzando
    progresivamente la voz:

    –Aquí está la carta … y aquí esto…; ¿lo ven bien? Esto … ¿qué
    dirán que es esto?… ¡Tisana!, que no lo aciertan…. Pues esto es …
    ¡media onza!…

    –¡Media onza!…

    –¡Media onza!

    –¡Media onza!–añadió el tío Nardo asomando la cabeza por la puerta de
    la cuadra;–¡media onza!–repitió mientras descubría el tronco;–¡media
    onza!–exclamó, en fin, trasladándose de un brinco junto al grupo que
    formaba su familia admirando la moneda que Andrés (y ya es hora de decir
    como se llamaba el rapaz) mostraba como una reliquia.

    –¡Media onza, sí!–recalcaba este último girando en todas
    direcciones;–¡media onza más maja que el sol!… Aquí está; don Damián
    me la dió para mí solo…. ¡Viva don Damián!

    Después que hubo pasado la moneda de mano en mano por todas las del
    grupo, y que todas las personas que le componían la hubieron mirado y
    remirado y hecho sonar contra las piedras, Andrés se volvió á apoderar
    de ella, y reclamando la atención de toda su familia, desdobló la carta
    que también le dió don Damián, y leyó en ella, con mucha seguridad,
    aunque con bien poco sentido gramatical, lo que sigue:

    «Señor don Frutos Mascabado y Caracolillo.

    »Habana.

    »Mi querido amigo y antiguo compañero: El dador de ésta lo será,
    Dios mediante, el joven Andrés de la Peña, que saldrá de Santander,
    al primer tiempo, en la fragata _Panchita_ con rumbo á esa ciudad,
    en la cual se propone probar fortuna. Al efecto, me tomo la
    libertad de suplicar á usted le auxilie en todo lo que esté de su
    parte, tratando por de pronto de proporcionarle acomodo conveniente
    á sus circunstancias. Dicho Andrés es muchacho listo y de buena
    conducta, tiene excelente pluma y sabe de cuentas hasta la de
    _compañías_ inclusive.

    »Contando con la buena amistad de usted, me atrevo á anticiparle
    las gracias por lo que en obsequio de mi recomendado haga, que
    será, desde luego, uno de los buenos servicios entre los muchos que
    ya le debe su afectísimo amigo y seguro servidor

    Q.S.M.B.

    _Damián de la Fuente_.»

    Después de esta carta, parécenos excusado decir á nuestros lectores lo
    que significan la levita de Andrés y el inusitado movimiento de toda su
    familia alrededor de su equipaje.

    II

    Por regla general, á los niños, apenas dejan los juguetes, les acomete
    el afán, sobre todas sus otras aspiraciones, de hombrear, de tener mucha
    fuerza y de levantar medio palmo sobre la talla. Pero cuando los niños
    son de estas montañas, por un privilegio especial de su naturaleza, su
    único anhelo es la independencia con un _Don_ y mucho dinero. Y, según
    ellos, no hay más camino para conseguirlo que irse «á las Indias»….
    Los abismos del mar, los estragos de un clima ardiente, los azares de
    una fortuna ilusoria, el abandono, la soledad en medio de un país tan
    remoto … nada les intimida; al contrario, todo estos obstáculos parece
    que les excitan más y más el deseo de atropellarlos. ¿No es cierto que
    en América es de plata la moneda más pequeña de cuantas usualmente
    circulan? Pues un montañés no necesita saber más que esto para lanzarse
    á esa tierra feliz; la vida que en la empresa arriesga le parece poco, y
    otras ciento jugara impávido, si otras ciento tuviera.

    ¿Hay quien lo duda? Ofrezca un pasaje gratis desde Santander á la Isla
    de Cuba, ó una garantía de pago al plazo de un año, y verá los
    aspirantes que á él acuden. Y no se apure porque el pasaje no sea en
    primera cámara: un montañés de pura raza atraviesa en el tope el Océano,
    si necesario fuese.

    Díganle «á las Indias vamos», y con tan admirable fe se embarca en una
    cáscara de limón, como en un navío de tres puentes. Este heroísmo suele
    ir más allá aún. Un indiano de semejante barro ve transcurrir los
    mejores años de su juventud de desengaño en desengaño, y no desmaya. No
    hay trabajo que le arredre, ni contrariedad que apague su fe: la fortuna
    está sonriéndole detrás de sus desdichas, y la ve tan clara y tan
    palpable entonces, como la vió de niño, cuando, soñando sus ricos dones,
    se columpiaba en las altas ramas del nogal que asombraba su paterna
    choza.

    De lo cual se deduce que la honradez, la constancia y laboriosidad de un
    montañés, son tan grandes como su ambición.

    Nadie, en buena justicia, podrá quitar á esta noble raza un timbre que
    tanto la honra.

    Nuestro Andresillo, pues, vástago legítimo de ella, no bien supo hablar,
    ya dijo á su madre que él sería indiano. Creció en edad, y la idea de
    irse á América fué el tema de todas sus ilusiones; y tanto y tanto
    insistió en su proyecto, que su familia comenzó á deliberar sobre él muy
    seriamente.

    Un día fueron tío Nardo y su mujer á consultarlo con don Damián,
    indiano muy rico de aquellas inmediaciones, y de quien ya hemos oído
    hablar. Don Damián había hecho, es cierto, un gran caudal: esto es lo
    que veía toda la población de la comarca y lo que excitaba más y más en
    los jóvenes el deseo de emigrar; pero en lo que se fijaban muy pocos, si
    es que alguno pensó en ello, era en que don Damián se hizo rico á costa
    de veinte años de un trabajo constante; que en todo ese tiempo no dejó
    un sólo día, una sola hora, de ser hombre de bien, ni de cumplir, por
    consiguiente, con todos los deberes que se le imponían en las
    dificilísimas circunstancias por que atravesó. Además, don Damián había
    ido á América muy bien recomendado y con una educación bastante más
    esmerada que la que llevan ordinariamente á aquellas envidiadas regiones
    los pobres montañeses. Todas estas circunstancias que obraron como base
    principal de la riqueza de don Damián, le obligaban á exponérselas á
    cuantos iban á pedirle cartas de recomendación para la Habana, y á
    consultarle sobre la conveniencia de salir á probar fortuna. Cuando
    semejantes consideraciones no bastaban á desencantar á los ilusos, daba
    la carta que se le pedía, y á las veces su firma garantizando el pago
    del pasaje desde Santander á la Habana.

    Los padres de Andrés oyeron del generoso indiano las reflexiones más
    prudentes y los más sanos consejos, cuando á pedírselos fueron en vista
    de las reiteradas insinuaciones de aquél. En obsequio á la verdad, la
    mujer del tío Nardo no necesitaba de tantas ni tan buenas razones para
    oponerse á los proyectos de su hijo: era su madre, y con los ojos de su
    amor veía á través de los mares nubes y tempestades que obscurecían las
    risueñas ilusiones del ofuscado niño; pero el tío Nardo, menos aprensivo
    que ella y más confiado en sus buenos deseos, apoyaba ciegamente á
    Andrés; y entre el padre y el hijo, si no convencían, dominaban á la
    pobre mujer, que, por otra parte, respetaba mucho las _corazonadas_, y
    jamás se oponía á lo que pudiera ser _permisión del Señor._ El párroco
    del lugar le había dicho en muchas ocasiones que Dios hablaba, á veces,
    por boca de los niños; y por si á Andrés le había inspirado el cielo su
    proyecto, se decidió á respetarle en cuanto le pareciese deber hacerlo
    así.

    Sobreponiéndose, pues, á las reflexiones del indiano la fuerza de
    voluntad de Andresillo y la buena fe de su padre, el primero prometió su
    protección al segundo; y desde aquel día no se pensó más en la casita
    que conocemos que en arreglar el viaje lo más pronto posible.

    Los preparativos al efecto eran bien sencillos: sacar el pasaporte y
    hacer el equipaje.

    Éste se componía:

    De tres camisas de estopilla;

    Un vestido completo de mahón, de día de fiesta;

    Otro ídem íd. íd., para diario;

    Una colchoneta y una manta, y

    Un arca de pino, pintada de almagre, para guardar, durante el viaje, la
    ropa que Andrés no llevase puesta.

    Del pago del pasaje se encargó don Damián hasta que Andrés supiera
    ganarlo.

    El producto de la única vaca que tenía el tío Nardo, vendida de prisa y
    al desbarate, dió justamente para los gastos de equipo del futuro
    indiano y para el pequeño fondo de reserva que debía llevar consigo,
    fondo que se aumentó con medio duro que el señor cura le regaló el mismo
    día que le confesó; con seis reales del maestro que le dió últimamente
    lecciones especiales de escritura y cuentas, y con la media onza de que
    tiene noticia el lector. Y no se arruinó completamente la pobre familia
    para «echar de casa» á Andrés, gracias al generoso anticipo del indiano;
    de otro modo, hubiera vendido gustosa hasta la cama y el hogar. Los
    ejemplos de esta especie abundan, desgraciadamente, en la Montaña.

    El día en que presentamos la escena á nuestros lectores era el último
    que Andrés debía pasar bajo el techo paterno: le había destinado á
    despedidas, y ya tuvimos el gusto de ver el resultado que le dió la de
    don Damián; día que, dicho sea _inter nos_, había costado muchas
    lágrimas á la pobre madre, á escondidas de su familia, pues no podía
    resignarse con calma á ver aquel pedazo de sus entrañas arrojado tan
    joven á merced de la suerte, y tan lejos de su protección.

    Pero las horas volaban, y era preciso decidirse. Cuando Andrés acabó de
    leer la carta, su único amparo al dejar su patria, y á vueltas de
    algunos halagüeños comentarios que se hicieron sobre aquélla, la pobre
    mujer, á quien ahogaba el llanto, mandó entrar en casa á su hijo para
    que su hermana le limpiara la ropa que llevaba puesta y se la guardara,
    mientras ella daba las últimas puntadas á una camisa.

    Andrés, entonando un aire del país, obedeció, saltando de un brinco
    sobre el umbral de la puerta; pero su madre, al ver aquella expansiva
    jovialidad en momentos tan supremos, fijos en él sus turbios ojos
    mientras atravesaba el angosto pasadizo, abandonó insensiblemente la
    aguja, y dos arroyos de lágrimas corrieron por sus tostadas mejillas.

    –¡Pobre hijo del alma!–murmuró con voz trémula y apagada.

    Tío Nardo, más optimista, por no decir menos cariñoso que su mujer, no
    comprendiendo aquel trance tan angustioso, hacía los mayores esfuerzos
    por atraerla á su terreno.

    –Yo no sé, Nisca–le dijo cuando estuvieron solos,–qué demonches de
    mosca te ha picao de un tiempo acá, que no haces más que gimotear. Pues
    al muchacho no soy yo quien le echa de casa, que allá nos anduvimos al
    efeuto de embarcarle…; y por Dios que no lo afeaste nunca bastante, ni
    te opusiste de veras.

    –Y ¿qué había de hacer yo? Tampoco hoy me opongo, aunque cuanto más se
    acerca la hora de despedirme de él…. ¡Pobre hijo mío!… Dícenme que
    puede hacerse rico…; ¡y nosotros somos tan pobres! ¡Ofrecen tan poco
    para un hombre estos cuatro terrones que el Señor nos ha dado!… ¡Ay,
    si Él quisiera favorecerle!…

    –Pues ¿qué ha de hacer, tocha? ¡No, que no!…; ahí tienes á don
    Damián….

    –¡Siempre habéis de salirme con don Damián!

    –Y con muchísima razón. ¿Qué mejor ejemplo? Un señor que vino al pueblo
    cargado de talegas; que á todos sus parientes ha puesto hechos unos
    señores; que no bien sabe que hay un vecino necesitao, ya está él
    socorriéndole; que alza él solo casi todas las cargas del lugar; que
    corta todos los pleitos para que no se coma la Justicia la razón del
    que la tiene y el haber de la otra parte, y que no quiere por tanto
    beneficio más que la bendición de los hombres de bien. ¿Qué más
    satisfacción para nosotros que ver á nuestro hijo en el día de mañana
    bendecido como don Damián?

    –¡Ay, Nardo!; en primer lugar, don Damián fué siempre muy honrado….

    –No viene Andrés de casta de pícaros.

    –Después, Dios le ayudó para que hiciera suerte.

    –Y ¿por qué no ha de ayudar á Andrés?

    –Don Damián fué un señor desde sus principios, y cuando salió de aquí
    llevaba muchos estudios y sabía tratar con personas decentes…; y había
    heredado la levita, que esto vale mucho para bandearse fuera de los
    bardales del lugar.

    –¡Bah, bah!…; ríete de cuentos, Nisca, que todos los hombres nacimos
    de la tierra y tenemos cinco dedos en cada mano.

    –Valiera más, Nardo, que en lugar de fijarnos en ejemplos como el de
    ese buen señor para echar de casa á nuestros hijos, volviéramos los ojos
    á otros más desgraciados. ¡Cuántas lágrimas se ahorrarían así!… Sin ir
    más lejos, ahí está nuestra vecina que no halla consuelo hace un mes,
    llorando al hijo de su alma que se le murió en un hospital al poco
    tiempo de llegar á la Habana.

    –Sí; pero ese muchacho….

    –Era tan sano y tan robusto como Andrés, y como él era joven y llevaba
    buenas recomendaciones. También las llevó el del tío Pedro, y murió
    pobre y desamparado en lo más lejos de aquellas tierras…. Bien
    colocado estaba el sobrino del señor alcalde, y malas compañías le
    llevaron á perecer en una cárcel; y Dios parece que lo dispuso así,
    porque cuentan que si sale de ella hubiera sido para ir á peor paraje.
    Veinte años bregó con la fortuna su primo Antón, y, por no morirse de
    hambre, anda hoy de triste marinero ganando un pedazo de pan por esos
    mares de Dios. Bien cerca de tu casa tienes al pobre hijo de Pedro Gómez
    esperando á que se le acabe la poca salud que trajo de las Indias al
    cabo de quince años de buscarse en ellas la fortuna, para que Dios le
    lleve á descansar á su lado; pues ya, pobre y enfermo, ni vale para
    apoyo de su familia, ni para el pueblo, ni para sí mismo, que es lo
    peor…; y bien reniega de la hora en que salió de su casa….

    –¡Anda, anda!…; ¡echa por esa boca desventuras y lástimas! ¿Por qué
    no te acuerdas del hijo del Manco y de el del alguacil, que dicen que
    gastan coche en la Habana y que están tan ricos que no saben lo que
    tienen?

    –¡Mal año para ellos, que dejan morir de miseria á sus familias que se
    arruinaron por embarcarlos, y ni siquiera se acuerdan de la tierra en
    que vieron el sol! … mucho quiero á ese pobre hijo que se va á ir por
    ese mundo; pero antes que verle mañana sin religión, olvidado de su
    familia y de su tierra (Dios me perdone si en ello le ofendo), quisiera
    la noticia de que se había muerto.

    –Vaya, Nisca, que hoy te da el naipe para sermones de ánimas….
    Todavía me has de hacer ver el asunto por el lado triste.

    –¡Dichoso de ti, Nardo, que no le has visto ya!

    –No seas tonta, que yo no puedo ver esas cosas como tú las ves….
    Porque este lugar haya sido poco afortunado para los indianos….

    –Calcula tú cómo andarán los demás … cuando en este rincón solo hay
    tanta lástima. ¡Ay, Nardo!; aunque yo no lo tocara con mis manos ni lo
    viera con mis ojos, los consejos de don Damián, con la experiencia que
    tiene, serían de sobra para que yo llorara al echar, sola por el mundo,
    á esa pobre criatura.

    La salida de Andrés interrumpió este diálogo. Traía puesto su traje de
    camino, nuevo también, pero de corte más humilde que el que se había
    quitado para que su hermana se le guardase.

    Tía Nisca se enjugó apresuradamente los ojos al ver á su hijo, y plegó
    con esmero sobre sus rodillas la camisa que había concluído.

    Toda aquella tarde se invirtió en arreglar el equipaje de Andrés, y al
    anochecer se rezó el rosario con más devoción que nunca, pidiendo todos
    á la Virgen, con esa fe profunda y consoladora de un corazón cristiano,
    amparo para el que se iba, y, para los que se quedaban, resignación y
    vida hasta volver á verle.

    III

    Ahora, si el lector lo consiente, que sí lo consentirá, pues no le
    cuesta dinero ni cosa que lo valga, vamos á trasladarnos con la escena á
    otra parte.

    Estamos en el magnífico Muelle de Santander.

    Como de ordinario, multitud de carros, bultos de mercancías, básculas,
    corredores, dependientes, comerciantes, marineros, pescadores, vagos y
    curiosos forasteros, en el más agitado y bullicioso desorden, le hacen
    intransitable desde la Ribera al café Suizo. Fijémonos un momento en
    este último punto, como el más despejado. Frente á la puerta pasan tres
    personas que nos son muy conocidas, y siguen, sin detenerse un segundo
    ante las vidrieras del establecimiento para ver sus espejos y divanes,
    hacia la punta del Muelle. Estos personajes son Andrés, su padre y su
    madre. El primero en medio de los otros dos, metidas las manos en los
    bolsillos de sus anchos pantalones, tiradas hacia la espalda las solapas
    de la levita consabida, y el hongo muy calado sobre el cogote. El tío
    Nardo á la derecha, con su vestido nuevo de paño pardo, y su mujer al
    otro lado, con muselina blanca á la cabeza, la saya morada de los
    domingos colgada al hombro, y terciado en el brazo opuesto un gran
    paraguas envuelto en funda de percal rayado. Los tres caminan sin
    decirse una palabra: tío Nardo con las más visibles muestras de
    indiferencia; su mujer abismada como siempre en su pena, y mirando al
    través de sus lágrimas el barco fatal que espera á su hijo, meciéndose
    sobre las aguas á una milla del Muelle. En cuanto á Andrés, á juzgar por
    su resuelto continente y por su sonrisa desdeñosa, puede asegurarse que
    acaricia la ilusión de construir por su cuenta, á su vuelta de América,
    un barrio tan elegante y monumental como el que va recorriendo.

    Tres días hace que llegaron del pueblo. Despachados los papeles y demás
    diligencias indispensables á todo pasajero, sólo se pensó ya en
    complacer á Andrés y en proporcionarle cuantas distracciones estuvieran
    al alcance de sus recursos. Tuvo éste á su disposición dos días y cerca
    de veinte duros. De modo que á la hora en que le volvemos á encontrar,
    no cuenta un solo deseo que no haya visto satisfecho; es decir, se ha
    bebido, vaso á vaso, más de media cántara de agua de limón «fría como la
    nieve»; ha comido, de seis en seis, más de un ciento de merengues; ha
    convidado á cuantos paisanos y conocidos hallaba al paso; ha comprado
    una _sinfonía_ en una tienda de alemanes, y ha oído una misa mayor en la
    Catedral. Total de gastos, con hospedaje y alimentos de las tres
    personas en el _Cuartelillo_, cinco napoleones. Nada, pues, le quedaba
    ya que ver, como él decía, cuando le avisaron que era preciso
    embarcarse, porque estaba la fragata lista para darse á la vela.

    Esta noticia, que no le sorprendió lo más mínimo, acabó de anonadar á su
    madre y sacó, por un instante, de su habitual atolondramiento á tío
    Nardo.

    Sigámosles ahora por el Muelle. En la última rampa se embarcan en un
    bote que se dirige en seguida á la fragata que aún no ha contemplado
    Andrés más que de lejos, sin que por ello la haya perdido de vista un
    solo día desde su llegada á Santander; por consiguiente, no ha podido
    formarse todavía una idea exacta de lo que ella es.

    Á medida que se aproximaban los tres al buque, éste va desarrollando á
    sus ojos sus gigantescas proporciones; su negra mole parece que surge
    del agua, y tía Nisca, aunque jamás se forja ilusiones ni las toma en
    cuenta para nada, lo cree como el Evangelio. Y cree más: para ella,
    aquel volumen enorme tiene una fisonomía, fisonomía satánica, imponente,
    que la mira siempre y con un gesto terrible que hiela la sangre en sus
    venas. Los gritos de adentro y el sinnúmero de caras que asoman sobre la
    borda mirando á los del bote que llega, le parecen el alma diabólica y
    multiforme de aquel monstruoso cuerpo en cuyos antros va á desaparecer
    quizá para siempre, el hijo de su amor. El atezado rostro de tía Nisca
    se vuelve lívido.

    Andrés, por el contrario, se entusiasma más y más según que se acerca á
    la fragata. La magnitud de su casco, la elevación de sus palos, el
    laberinto de su jarcia, todo le enamora y hasta le enorgullece. ¿Qué
    vale la pobre choza de su aldea junto á aquel flotante palacio que va á
    habitar durante mes y medio?

    En cuanto á tío Nardo, si hemos de ser justos, desde que pudo apreciar
    la magnitud real y efectiva del barco hasta que llegó á su costado, no
    pensó más que en calcular cómo no se iría á pique un cuerpo tan pesado,
    siendo el cuerpo tan _duro_ y tan _blando_ el elemento que le sostenía;
    cuestión que trató con sus vecinos más de una vez, á su vuelta á la
    aldea.

    Otro cuadro más raro tienen que contemplar nuestros tres conocidos al
    llegar sobre cubierta: montones de jarcia, cajas de provisiones, una res
    acabada de desollar, enormes jaulas conteniendo vacas, cerdos y
    carneros, y otras menores con gallinas; grupos de marineros acá izando
    una verga, allá bajando pesados bultos á la bodega; y por último,
    revueltos y deslizándose entre tanto obstáculo, más de un centenar de
    muchachuelos del corte de nuestro aspirante á indiano. Todo esto junto
    produce un ruido infernal. Tío Nardo se marea, su mujer solloza y Andrés
    observa impávido.

    De aquella turba de niños, algunos lloran, otros meditan tristemente
    reclinados contra la borda, otros miran atónitos cuanto les rodea…,
    ¡muy pocos ríen! Todos, como Andrés, van á América buscando la fortuna;
    todos van, como él, poco más que á merced de la casualidad…. Seamos
    exactos: muchos de ellos no llevan ni siquiera una carta como la de don
    Damián.

    De todos los que acompañan á Andrés, acaso no encuentre uno solo lo que
    va buscando; quizá todos ellos contemplen por la última vez de su vida
    la tierra sobre que han nacido.

    Tía Nisca logra ver el sitio que se destina á su hijo en la fragata.

    Sobre la carga que ésta lleva en sus bodegas, se han tendido unas tablas
    de pino; entre estas tablas y la cubierta, espacio mucho más bajo que la
    talla de un hombre, se han colocado en fila tantas colchonetas como son
    los pasajeros: una de ellas es la de Andrés. Este departamento es el que
    se conoce con el nombre de _sollado_. La pobre madre se estremece al ver
    la mezquindad del sitio destinado al reposo de su hijo. Aquello es
    insano, no tiene bastante ventilación…; ¡si Andrés se pusiera
    enfermo!…

    No corre, vuela en busca del capitán…. Quiere gratificarle…, comprar
    un poco de comodidad para aquella inocente criatura. Se palpa los
    bolsillos, rebusca los de su marido; pero sólo puede reunir … ¡medio
    duro! ¡Y el capitán es un señor tan elegante! ¿Con qué cara le ha de
    ofrecer ella diez reales? Pero nota, en su defecto, que tiene la mirada
    muy noble. Se decide á hablarle, y entre lágrimas y sollozos,

    –Señor–le dice,–el hijo mío que va á la Habana es Andrés, aquel
    muchacho tan guapo y tan listo que está mirando hacia acá. Créame usted,
    señor: no va en primera cámara porque ni aun vendiendo la camisa
    hubiéramos podido reunir tanto dinero si habíamos de dejarle algo al
    pobre muchacho por lo que pudiera sucederle fuera de su casa. Le juro á
    usted que es la pura verdad lo que le digo. Pero yo no sabía que el
    sitio donde tenía que ir era tan angosto, que si no, ¡ay, Dios mío! …
    mire usted señor, somos unos pobres; pero si al mi Andrés le atendieran
    algo por el camino…. No es esto decir que yo desconfíe de usted, ¡ave
    María Purísima! Usted es hombre honrado, y no hay más que mirarle para
    … voy al decir, que…. ¡Hijo mió de mi alma!…; yo no sé ya lo que
    digo ni lo que he de hacer porque lo pase más á gusto.

    Las lágrimas ahogan á la pobre mujer, y el dolor perturba su razón.

    El capitán, respetándole en todo lo que vale, promete á la afligida
    madre un sitio en primera cámara para su hijo en cuanto se hagan á la
    mar y trata de consolarla con cariñosas aunque breves palabras.

    Esta misma táctica ha seguido siempre con todas las madres de los
    pasajeros que han ido á su cuidado, porque es de advertir que todas
    ellas han solicitado para sus hijos lo mismo que la tía Nisca para
    Andrés. Convengamos en que, en la imposibilidad de complacerlas, es muy
    recomendable esta manera de engañarlas á todas.

    Tía Nisca vuelve más animada adonde está su hijo, á quien refiere entre
    bendiciones, la buena acogida que le dispensó el capitán. Después,
    abrazándole estrechamente, le recomienda de nuevo mucha devoción al
    escapulario bendito de la Virgen del Carmen que lleva sobre su pecho;
    que sea bueno y sumiso; que huya de las malas compañías; que piense
    siempre en su pobre choza y en su patria…, en fin, cuanto es de
    necesidad que recomiende una madre cariñosa á un hijo querido en el
    instante supremo de una larga ó tal vez eterna separación.

    Pero el sonido metálico y vibrante del molinete se oye: comienzan á
    levar anclas, y es preciso separarse.

    La desdichada madre siente que hasta la voz le falta para decir el
    último «adiós». Andrés comprende por primera vez lo que es perder de
    vista su hogar y su patria, y lanzarse niño y solo á los desiertos del
    mundo, y también por primera vez llora, y acaso se arrepiente de su
    empresa; tío Nardo mira hacia el Muelle y procura no hablar para que no
    se vean las lágrimas que al cabo vierte, ni descubra su voz la pena que
    hay en su pecho; y deseando abreviar aquella escena por afligir menos á
    su hijo, estréchale en silencio entre sus brazos, coge por otro
    bruscamente á su mujer y desciende con ella al bote, imponiéndose la
    dura penitencia de no mirar á la fragata hasta que llegue al Muelle.

    Cuando en él desembarcan, tía Nisca se deja caer en el umbral de la
    primera puerta que hallan al paso. Con los codos sobre sus rodillas, la
    cabeza entre las manos, los ojos fijos en la fragata y la cara inundada
    en llanto, espera inmóvil, como una estatua del dolor, á que el buque
    desaparezca. Tío Nardo de pie á su lado, pero algo más tranquilo,
    respeta la situación de su mujer y no se atreve á separarla de allí.

  • El paraiso de las mujeres

    El paraiso de las mujeres

    Aproximadamente 90.409 palavras.

    EL PARAÍSO DE LAS MUJERES

    VICENTE BLASCO IBAÑEZ

    EL PARAÍSO

    DE LAS

    MUJERES

    (NOVELA)

    Copyright 1922.

    AL LECTOR

    Considero necesario dar una explicación sobre el origen de este libro.

    Una casa editorial cinematográfica de los Estados Unidos me pidió hace
    un año una novela para convertirla en _film_, recomendándome que fuese
    muy «interesante» y se despegase por completo de los convencionalismos y
    rutinas que hasta ahora vienen observándose en las historias presentadas
    por medio del cinematógrafo.

    Yo admiro el arte cinematográfico–llamado con razón el «séptimo
    arte»–, por ser un producto legítimo y noble de nuestra época. Como
    todo progreso, ha encontrado numerosos enemigos, que fingen
    despreciarlo; especialmente entre los escritores faltos de las
    condiciones necesarias para servir á este arte, aunque lo deseasen. La
    llamada República de las Letras es un estado conservador y misógeno, que
    se subleva instintivamente ante toda novedad y la repele con sarcasmos
    que cree aristocráticos.

    Cuando se inventó la imprenta, una gran parte de los literatos de
    entonces también la consideraron como algo populachero y ordinario, que
    nunca podría gustar á los espíritus escogidos. Fué preciso el transcurso
    de algunas decenas de años para que todos se convenciesen de que el
    libro impreso, aunque menos hermoso que el códice escrito á mano y con
    letras capitulares artísticamente iluminadas, servía mejor á la difusión
    de las ideas y al mejoramiento intelectual de la humanidad.

    Dentro de un siglo las gentes se asombrarán tal vez al enterarse de que
    hubo escritores que presenciaron el nacimiento de la cinematografía y no
    hicieron caso de ella, apreciándola como una diversión pueril y frívola,
    buena únicamente para el vulgo ignorante.

    Conozco todas las objeciones contra el cinematógrafo y su creciente
    difusión. Son las mismas que todavía á estas horas formulan algunas
    devotas, en el fondo de las provincias, contra la novela y contra el
    teatro, creyéndolos la perdición de la humanidad y la causa de todas las
    inmoralidades existentes.

    Si la cinematografía no hubiese de dar en el curso de su desarrollo
    otras cosas que el sainete grotesco é inverosímil que hace reir con
    payasadas de _clown_, ó las historias de ladrones y detectives, yo
    abominaría de ella, como lo hacen muchos. Pero el nuevo arte está
    todavía en los primeros vagidos de su infancia; no tiene más allá de
    veinticinco años de existencia–que equivalen á veinticinco minutos en
    la historia de un invento útil–, y nadie sabe hasta dónde pueden llegar
    el desarrollo de su juventud y el esplendor de su madurez.

    También la novela dió en distintos períodos de su vida una floración de
    libros que tuvieron por héroes á bandidos «simpáticos» ó tenebrosos y á
    policías «providenciales», y á nadie se le ocurre decretar por ello la
    supresión de dicho género literario. Al lado de la novela psicológica y
    de observación directa existirá siempre la novela de folletín. Y lo
    mismo puede decirse del teatro. Juntos con el drama y la comedia,
    atraerán siempre á una gran parte del público el melodrama espeluznante
    ó la farsa grotesca.

    La cinematografía no iba á librarse de esta división impuesta por los
    dos gustos diversos y antitéticos que se reparten la gran masa del
    público. Como ocurre en la infancia de todo arte, el primer producto del
    cinematógrafo ha sido el melodrama terrorífico y la farsa que hace reir
    hasta desquijararse, géneros que con más rapidez atraen á las
    multitudes. Pero ahora, después de dos docenas de años de existencia,
    los que nos preocupamos del desarrollo cinematográfico vamos viendo cómo
    se afina el gusto del público en las naciones más instruidas y cómo al
    lado de las historias para reir y las tragedias detectivescas surgen las
    primeras manifestaciones de la verdadera novela cinematográfica, con
    caracteres extraídos de la realidad, observaciones psicológicas y una
    fábula que mantiene despierto al mismo tiempo el interés del espectador.

    Yo creo próximo el nacimiento de muchas novelas cinematográficas que
    serán al mismo tiempo grandes obras literarias. Pero estas novelas
    resultan de más difícil producción que una novela en forma de libro, ya
    que en ellas no es posible lo que en la jerigonza literaria llamamos el
    «relleno».

    * * * * *

    La cinematografía no es el teatro mudo, como creen muchos; es una novela
    expresada por medio de imágenes y frases cortas.

    El teatro tiene convencionalismos de lugar y de tiempo, impuestos por
    los breves límites de un escenario, y de los cuales no puede librarse.
    En cambio, la acción de la novela no reconoce limites; es infinita, como
    la del cinematógrafo, y puede componerse de tres ó cuatro historias
    diversas, que se desarrollan á la vez, y al final vienen á confundirse
    en una sola; puede tener por escenario los lugares más diversos de
    nuestro planeta.

    Una obra teatral llegará, cuando más, hasta siete actos y cambiará sus
    decoraciones quince ó veinte veces: pero le es imposible ir más allá.
    Una novela, lo mismo que una historia cinematográfica, puede disponer de
    tantos escenarios como capítulos, tener por fondo los más diversos
    paisajes y por actores verdaderas muchedumbres.

    Repito que el «séptimo arte» es novela y no teatro, y tal vez por esto
    todas las obras teatrales célebres que fueron trasladadas al
    cinematógrafo pasaron inadvertidas, mientras las novelas famosas, al ser
    filmadas, obtuvieron grandes éxitos, agrandándose el interés de su
    fábula con la plasticidad de los personajes que el lector sólo había
    podido imaginarse vagamente á través de las líneas impresas.

    Hoy empieza á aumentar considerablemente en todas las naciones el número
    de los novelistas que nos preocupamos del arte cinematográfico.

    La multiplicidad de los idiomas con que expresan los hombres su
    pensamiento representa para el artista literario un obstáculo que no
    conocen el pintor, el escultor, ni el músico. Es cierto que los
    traductores se encargan de salvar este obstáculo; pero por grande que
    sea su pericia y la conciencia con que realicen su trabajo, ¡resulta
    siempre tan diversa la novela traducida de la novela original, y se
    pierden tantas cosas en el traslado de una á otra!…

    En cambio, la expresión cinematográfica puedo proporcionar á la novela
    la universalidad de un cuadro, de una estatua ó de una sinfonía. Los
    rótulos del _film_ y la necesidad de traducirlos representan poca cosa
    en esta clase de obras. Lo importante es la imagen vivida, la acción
    interpretada por seres humanos, valiéndose del gesto, que ignora el
    estrecho molde de las sílabas.

    Gracias á este nuevo medio de expresión, el novelista que por su
    nacimiento pertenece á un país determinado puede tener por patria
    intelectual la tierra entera y ponerse en comunicación con los hombres
    de todos los colores y todas las lenguas, hasta con los que viven en los
    límites de un salvajismo recién abandonado. Por medio del «séptimo
    arte», un autor puede en la misma noche contar su historia imaginada á
    los públicos de Nueva York, Londres y París, á las muchedumbres
    cosmopolitas de los grandes puertos del Pacífico á los árabes que llegan
    á caballo al aduar del desierto donde funciona el modesto aparato del
    cinematografista errante, á los marineros que invernan en una isla del
    Océano Glacial y entretienen sus noches interminables con el relato mudo
    de las novelas luminosas.

    Yo puedo decir que una de mis mayores satisfacciones literarias la tuve
    hace dos años, estando en California, al conversar con un japonés que
    había viajado por toda Asia.

    Este hombre me habló de una de mis novelas, contándome su «argumento»
    del principio al desenlace para convencerme de que la conocía bien. No
    la había leído, por no estar traducida aún al idioma de su país, y
    pensaba comprar la versión inglesa.

    Pero la había «visto» en un cinema de Pekín.

    * * * * *

    Además hay que hacer una confesión. La novela está en crisis actualmente
    en todas las naciones.

    El siglo XIX fué el siglo de la música y de la novela. Resulta tan
    enorme la producción novelesca de los últimos cien años y tan diversas
    las actividades de sus novelistas, que autores y público viven ahora
    como desorientados.

    Es casi imposible encontrar un camino virgen de huellas. Cuando el
    novelista cree seguir un sendero completamente inexplorado, se entera á
    los pocos pasos de que otros avanzaron por el mismo sitio antes que él.
    Todos los resortes de la maquinaria novelesca parecen flojos y
    mortecinos de tanto funcionar; todas las situaciones emocionantes, todos
    los caracteres salientes, todos los tipos de humanidad, están casi
    agotados. La originalidad novelesca va siendo cada vez más ilusoria. Por
    eso sin duda, muchos autores violentan la serena sencillez de su idioma,
    obligándole á producir una florescencia atormentada, de invernáculo, y
    hacen de ello su mayor mérito. Buscan ocultar de tal modo, bajo la
    frondosidad forzada del lenguaje, la anémica pobreza de la historia que
    cuentan.

    Los novelistas se agitan infructuosamente en busca de novedad; el
    público exige igualmente novedad; pero la novela actual, cuando pretende
    en Francia y otros países ser verdaderamente nueva, no tiene nada de
    novela, y aburre al lector…. Y en esta crisis, que es universal, nadie
    columbra la solución.

    Yo no afirmo que el cinematógrafo sea un remedio único y decisivo;
    reconozco además como indiscutible que la novela impresa será siempre
    superior á la novela expresada por el gesto, pues esta última no puede
    disponer con la misma amplitud que la otra de la sugestión inmaterial
    del «estilo»; pero creo que si los novelistas empiezan á intervenir
    directamente en el desarrollo del «séptimo arte», monopolizado hasta
    hace poco por personas sin competencia literaria, su esfuerzo servirá
    cuando menos para reanimar la novela, comunicándola una segunda juventud
    y haciendo más extensos sus dominios actuales.

    Sin embargo, no á todos los países les es fácil adaptarse con éxito al
    nuevo medio de expresión literaria.

    La cinematografía depende del desarrollo industrial de un país y de su
    riqueza.

    El libro también necesita sujetarse á la influencia de estos dos
    factores; pero un editor de novelas impresas puede establecerse en
    cualquier parte donde existan imprentas y almacenes de papel, y le
    bastan unos cuantos miles de pesetas para publicar sus primeros
    volúmenes.

    Las casas editoriales de cinematografía necesitan capitales de millones
    y crear por su propia cuenta inmensos talleres. Además, les es
    indispensable tener á sus espaldas la grandeza de una de esas naciones
    que son primeras potencias industriales, para encontrar con facilidad
    energías eléctricas gigantescas, fábricas capaces de producir nuevas
    maquinarias: en una palabra, para disponer de poderosos aliados y
    servidores.

    Por este motivo, el más enorme de los pueblos americanos es y será
    siempre el primer productor cinematográfico de la tierra. Francia, que
    inventó la cinematografía, figura actualmente como una simple
    importadora de _films_ facturados desde Nueva York.

    El cinematógrafo ocupa en los Estados Unidos el quinto lugar entre los
    productos nacionales. Avanza á continuación del acero, el trigo y otros
    artículos indispensables para la vida.

    Hay en aquella República veinticinco mil salas de cinematógrafo, algunas
    de ellas con lugar para más de seis mil espectadores.

    En los miles de ciudades donde viven agrupados sus ciento veinte
    millones de habitantes, los teatros se mantienen en una situación
    estacionaria, mientras los cinemas son cada vez más numerosos.

    De una obra cinematográfica americana que obtiene éxito en el mundo
    entero llegan á venderse por término medio doscientas copias. Es lo que
    se llama, en lenguaje de librería, «una mediana tirada». De estas copias
    Francia compra tres ó cuatro para «pasarlas» en sus diversos cinemas;
    España tres; Italia tres ó dos, etc. La Gran Bretaña, que es la mayor
    compradora de Europa, adquiere once ó quince para la metrópoli y sus
    colonias.

    En total: de las doscientas copias, los Estados Unidos consumen ellos
    solos ciento veinte, y las ochenta restantes son para los demás pueblos
    de la tierra. Así se comprende que los cinematografistas americanos, sin
    salir de su país, puedan cubrir todos sus gastos, que son inauditos, y
    realizar ganancias. El producto del resto del mundo es para ellos á modo
    de una propina.

    Después de saber esto, reconocerá el lector que el cinematógrafo sólo
    puede ser americano, y que la suprema aspiración de todo novelista que
    desee triunfos en el «séptimo arte» consiste en abrirse paso allá … si
    es que puede, pues la empresa no resulta fácil.

    * * * * *

    Pero volvamos á la explicación del origen de este libro.

    Como mi novela _Los cuatro jinetes del Apocalipsis_ ha sido convertida
    en _film_–más extenso y costoso de todos los que se conocen hasta el
    presente, y el cual obtiene en los Estados Unidos un éxito que durará
    años–, recibí de Nueva York, como ya he dicho, el encargo de escribir
    un relato novelesco que pudiera servir para una obra cinematográfica de
    «interés y novedad».

    Así produje EL PARAÍSO DE LAS MUJERES.

    Esta historia fantástica, que se despega por completo de mis novelas
    anteriores, no ha nacido verdaderamente ahora, pues data de los tiempos
    de mi infancia.

    Desde que leí, siendo niño, los _Viajes de Gulliver_, el recuerdo de
    Liliput y sus pequeños habitantes se fijó para siempre en mi memoria.
    Muchas veces me pregunté, en aquellos años ya remotos: «¿Qué habrá
    ocurrido en Liliput después que se marchó el héroe de Swift?…» Y me
    entretenía imaginando á mi modo los diversos episodios de la historia
    contemporánea de los pigmeos.

    Ahora, en la madurez de mi vida, he intentado otra vez rehacer la
    historia moderna de Liliput, pero como puede realizarlo la fantasía de
    un hombre, menos optimista y generosa que la de un niño.

    Esto de imaginarse una humanidad más pequeña que la nuestra, con
    nuestros mismos defectos y preocupaciones, como si fuese contemplada á
    través de un microscopio, es algo que halaga la vanidad de los hombres,
    y por lo mismo resulta tan antiguo como su existencia.

    Swift, el humorístico deán irlandés, fué el creador de Gulliver y del
    reino de Liliput; pero cien años antes, Rabelais, que indudablemente le
    sirvió de modelo, había descrito con no menor humor las costumbres de
    enanos y gigantes.

    Tengo la certeza de que en todas las literaturas antiguas fueron muchos
    los relatos sobre países de pigmeos y países de colosos. ¿Qué pueblo no
    contó historias de gnomos minúsculos, de vida misteriosa, y gigantes que
    para contemplar á uno de nuestra especie necesitan colocarlo sobre la
    palma de una mano?… Voltaire se inspiró en Swift para crear su
    _Micromegas_, y sería muy largo el relato de todos los novelistas y
    cuentistas que imitaron más ó menos directamente este género de
    fantasías.

    Yo escribí la presente novela creyendo que únicamente iba á servir para
    la producción de una cinta cinematográfica, y jamás aparecería en forma
    de libro. En realidad, la casa editorial de Nueva York no me pidió una
    novela, sino lo que llaman en lenguaje cinematográfico un «escenario»,
    un relato escueto y de pura acción, para que sirva de guía al director
    de escena, á los encargados de las tramoyas y á los actores que
    interpretan los personajes.

    Pero excitado por la novedad del trabajo y á impulsos también de mis
    hábitos de novelista, empecé á escribir y á escribir, sin darme cuenta
    de que en vez de un «escenario» producía una novela, y en veintiuna
    tardes terminé EL PARAÍSO DE LAS MUJERES.

    Nunca he trabajado tan aprisa y con tanto fervor. Creo que si me pusiera
    ahora á hacer una copia del presente libro emplearía más tiempo.

    Repito que jamás pensé que mi novela cinematográfica pudiera convertirse
    en volumen impreso; y mi sorpresa fué grande al ver que el «escenario»
    era un libro al que algunos pretendían encontrar cierta intención
    filosófica y política. Hasta en los Estados Unidos–país donde las
    mujeres ejercen una enorme y legítima influencia–creen algunos,
    equivocadamente, que mi novela es á modo de una sátira del feminismo
    norteamericano.

    Como EL PARAÍSO DE LAS MUJERES ha sido traducida ya á varios idiomas, me
    decido á publicarla igualmente en español, aunque no pensase en ello
    cuando la escribí.

    Será una obra más dentro del marco de la novela española, la cual desde
    hace algunos años no peca ciertamente por exceso de variedad. Los más de
    los novelistas marchan en fila india, uno tras otro, y sólo de tarde en
    tarde se les ocurre saltar un poco fuera del sendero. Mientras tanto, en
    los otros países la novela procura renovarse y los autores cambian con
    frecuencia su manera de ver la vida y de expresar sus impresiones, para
    que no los «encasille» el público, adivinando de antemano lo que pueden
    decir. Además, la novela es un género de variedad infinita, y allí donde
    todos los novelistas describen lo mismo, con un lenguaje semejante, la
    novela corre peligro de muerte.

    Tal vez el presente libro sea considerado por muchos como una
    «equivocación» al compararlo con mis anteriores obras; pero yo prefiero
    equivocarme yendo en busca de novedad, á conseguir aciertos fáciles, que
    muchas veces no son mas que simples repeticiones de triunfos anteriores.
    De todos modos, me anima la esperanza de que este relato ligero tal vez
    resulte más entretenido para el lector que muchas novelas de moda
    reciente, en las que se emplean trescientas páginas sólo para preparar
    el encuentro á puerta cerrada de dos personas de distinto sexo, llegando
    así á la escena «culminante» de la obra, que es simplemente una escena
    de «libro verde», escrita con las precauciones necesarias para bordear
    el Código y que el volumen pueda exponerse sin peligro en los
    escaparates de las librerías.

    Del _film_ que dió origen á esta novela diré que aún está por nacer.
    Según parece, fui amontonando en él tales dificultades do ejecución, que
    los ingenieros norteamericanos que inventan nuevas «magias» para esta
    clase de obras todavía están haciendo estudios y no han podido encontrar
    el modo de que aparezcan en el lienzo luminoso, á un mismo tiempo y sin
    trampa visible, la enormidad del Gentleman-Montaña y la bulliciosa
    pequeñez de las muchedumbres que pueblan la Ciudad-Paraíso de las
    Mujeres.

    VICENTE BLASCO IBAÑEZ

    Villa Fontana Rosa Mentón (Alpes Marítimos) Febrero 1922

    EL PARAÍSO DE LAS MUJERES

    * * * * *

    Frente á la Tierra de Van Diemen

    Edwin Gillespie, joven ingeniero de Nueva York, llevaba varias semanas
    de navegación á bordo de uno de los paquebotes ingleses que hacen la
    carrera entre San Francisco y Australia.

    Nunca había conocido un viaje tan triste. Recordaba con dulce nostalgia
    su navegación de tres años antes, desde los Estados Unidos á las costas
    de Francia, cuando era oficial del ejército americano é iba á guerrear
    contra los alemanes. Aquella travesía resultaba peligrosa; reinaba á
    bordo una continua vigilancia por miedo á los submarinos y á las minas
    flotantes; pero Gillespie tenía entonces como inseparables compañeros la
    alegría de una juventud ansiosa de aventuras y el entusiasmo del que va
    á exponer su vida por un ideal generoso.

    Ahora llevaba como invisibles camaradas de viaje la desesperación y el
    aburrimiento, y cuando conseguía huir de uno, caía en los brazos del
    otro. Se había embarcado apresuradamente, creyendo encontrar la fortuna
    lejos de los Estados Unidos; pero se sentía cada vez más triste así como
    iba alejándose de su tierra natal.

    Era el amor el que le había aconsejado esta resolución desesperada.

    A su vuelta de la gran guerra había visto el mundo transfigurado. Todo
    le parecía más hermoso; las cosas adoptaban nuevas formas; el aire
    cantaba junto á sus oídos, agitado por las vibraciones de una sinfonía
    interminable. Y todo esto era porque acababa de conocer á miss Margaret
    Haynes, una persona primaveral, cuyos diez y nueve años, alegres y
    graciosos, se desbordaban en risas, palabras musicales y gestos
    encantadores.

    Gillespie olvidó de golpe todo su pasado al hablar con esta adorable
    criatura. Creyó que su vida anterior había sido un ensueño. Recordaba
    con esfuerzo, como si fuesen pálidas visiones, su ida á Europa; los
    combates junto á Saint-Mihiel, de los que salió herido; la ceremonia
    guerrera durante la cual á él y á otros compañeros les colocaron sobre
    el pecho la roja cinta de la Legión de Honor.

    Para Edwin Gillespie la única realidad era miss Margaret, y los días que
    no la veía, aunque sólo fuese por unos momentos, se imaginaba que el
    cielo era otro y que se desarrollaban en su inmensidad tremendos
    cataclismos de los que no podían enterarse los demás mortales.

    Toda una primavera se encontraron en los tés de los hoteles elegantes de
    Nueva York. Después, durante el verano, siguieron conversando y bailando
    en las playas del Atlántico más de moda.

    Miss Margaret era la hija única del difunto Archibaldo Haynes, que había
    reunido una fortuna considerable trabajando con éxito en diversos
    negocios. La sonriente _miss_ iba á heredar algún día varios millones; y
    esto no representaba para ella ningún impedimento en sus simpatías por
    Gillespie, buen mozo, héroe de la guerra y excelente bailarín, pero que
    aún no contaba con una posición social.

    El ingeniero se tuvo durante medio año por el hombre más dichoso de su
    país. Miss Haynes fué la que se encargó de envalentonar su timidez con
    prometedoras sonrisas y palabras tiernas. En realidad, Edwin no supo con
    certeza si fué él quien se atrevió á declarar su amor, ó fué ella la que
    con suavidad le impulsó á decir lo que llevaba muchos meses en su
    pensamiento, sin encontrar palabras para darle forma.

    Margaret aceptó su amor, fueron novios, y desde este momento, que debía
    haber sido para Gillespie el de mayor felicidad, empezó á tropezar con
    obstáculos. Seguro ya del cariño de la hija, tuvo que pensar en la
    madre, que hasta entonces sólo había merecido su atención como una dama
    de aspecto imponente, muy digna de respeto, pero que siempre se mantenía
    en último término, cual si desease ignorar la existencia del ingeniero.
    Mistress Augusta Haynes era una señora de gran estatura y no menos
    corpulencia, breve y autoritaria en sus palabras, y que contemplaba el
    deslizamiento de la vida á través de sus lentes, apreciando las personas
    y las cosas con la fijeza altiva del miope. Dotada de un meticuloso
    genio administrativo, sabía mantener íntegra la fortuna de su difunto
    esposo y acrecentarla con lentas y oportunas especulaciones.

    Amaba á su hija única, tanto como detestaba á la juventud actual por su
    carácter frívolo y su inmoderada afición al baile. En las reuniones
    buscaba siempre á las personas graves, lamentándose con ellas de la
    ligereza y la corrupción de los tiempos presentes. Se había fijado en la
    asiduidad con que el ingeniero seguía á su hija, en su afición á bailar
    juntos y en sus conversaciones aparte. Además, tenía noticias de varios
    encuentros, demasiado casuales, en los paseos de la ciudad.

    Como si su instinto le avisase la certeza de un amor que hasta entonces
    sólo había sospechado, mistress Augusta Haynes, al llegar el invierno,
    decidió pasarlo lejos de Nueva York, y fué á instalarse con su hija en
    un lujoso hotel de Pasadena. Creyó, sin duda, con egoísta ilusión, que
    un hombre que había ido de América á Europa para hacer la guerra era
    incapaz de trasladarse igualmente de Nueva York á California detrás de
    su amada; pero pronto pudo convencerse de su error.

    Una semana después, al bajar por la mañana al parque del hotel, vió á
    Margaret jugando al _tennis_ con un _gentleman_ de pantalón blanco,
    brazos arremangados y camisa de cuello abierto: el ingeniero Gillespie.

    Miss Haynes, que había hecho el viaje malhumorada y nerviosa, sonreía
    ahora como si viese revolotear escuadrillas de ángeles por encima de los
    naranjos californianos. En cambio, la madre recobró su gesto
    inquisitorial, acogiendo con helada cortesía las grandes demostraciones
    de afecto del ingeniero.

    –Ha sido para mí una agradable sorpresa–dijo el joven–. Yo no sabía
    que estaban ustedes aquí….

    Y por debajo de la naricita sonrosada de miss Margaret revoloteaba una
    sonrisa que parecía burlarse de tales palabras.

    Desde entonces, la majestuosa viuda empezó á pensar en lo urgente que
    era librarse de este aspirante á la dignidad de yerno suyo. La gallardía
    física del buen mozo, su aventura militar, que tanto entusiasmaba á las
    jóvenes, y sus destrezas de danzarín, eran para la señora Haynes otros
    tantos títulos de incapacidad.

    Ella apreciaba en los hombres cualidades más positivas. ¿A cuánto
    ascendía su fortuna? ¿Qué es lo que había hecho hasta entonces de serio
    en su existencia?…

    Era ingeniero; pero esto no representaba mas que un simple diploma
    universitario. Había prestado sus servicios en unas cuantas fábricas,
    ganando lo preciso para vivir, y cuando llegaba el momento de la guerra,
    en vez de quedarse en América para trabajar en un gran centro industrial
    é inventar algo que le hiciese rico, prefería ser soldado, debiendo sólo
    á un capricho de la suerte el no quedar tendido para siempre sobre la
    tierra de Europa.

    Su marido había sido otro hombre, y ella deseaba para Margaret un esposo
    igual, con una concepción práctica de la existencia, y que supiese
    aumentar los millones de la cónyuge aportando nuevos millones producto
    de su trabajo.

    La viuda no ahorró medios para hacer ver al ingeniero su hostilidad.
    Evitaba ostensiblemente el invitarlo á sus fiestas; fingía no conocerle;
    estorbaba con frecuentes astucias que su hija pudiera encontrarse con
    él.

    Miss Margaret se mostraba triste cuando de tarde en tarde conseguía
    hablar con Edwin, lejos de la agresividad de su madre y de la
    animadversión de todas las familias amigas, igualmente hostiles á él.

    Un día, Gillespie, con un esfuerzo supremo de su voluntad y más
    conmovido que cuando avanzaba en Francia contra las trincheras alemanas,
    visitó á la majestuosa viuda para manifestarle que Margaret y él se
    amaban y que solicitaba su mano.

    Aún se estremecía en el buque al recordar el tono glacial y cortante con
    que le había contestado la señora. Su hija era heredera de una
    respetable fortuna, y bien merecía que su esposo aportase, cuando menos,
    otro tanto á la asociación matrimonial.

    –Además–dijo la viuda–, yo deseo un yerno que sea persona seria y
    trabaje con provecho. Nunca me han gustado los hombres que pasan el
    tiempo soñando despiertos, leyendo libros ó escribiendo cosas que nada
    producen.

    Gillespie tuvo que reconocer que la viuda estaba bien enterada de su
    existencia; tal vez por la indiscreción de un amigo infiel, tal vez por
    las informaciones de algún detective particular. En realidad, este
    ingeniero era algo dado al ensueño, gustaba mucho de la lectura, y en
    sus cajones, junto con los planos y los cálculos de su profesión,
    guardaba varios cuadernos de versos.

    Margaret le amaba; pero el amor de una señorita de buena familia y
    excelente educación, acostumbrada á las comodidades que proporciona una
    gran fortuna, debe tener sus límites forzosamente. No iba ella á
    abandonar á su madre y á reñir con todas las familias amigas para
    casarse con un novio pobre, dedicado por completo á su amor é ignorante
    del camino que debía seguir en el presente momento. Estas resoluciones
    desesperadas sólo se ven en las novelas.

    Tenía además cierta confianza en el porvenir y consideraba oportuno
    dejar pasar el tiempo. Su madre tal vez cediese al ver que transcurrían
    los años sin que ella amase á otro hombre. Edwin podía estar seguro de
    su fidelidad. Mientras tanto, la Fortuna tal vez se fijase de pronto en
    Gillespie, como se había fijado en mister Haynes. Acostumbrada á ver en
    los salones de su casa á muchos hombres que habían empezado su carrera
    siendo pobres y ahora eran millonarios, se imaginó que esta era
    inevitablemente la historia de todos los humanos y que á Edwin le
    llegaría su turno.

    Pero la madre velaba, y cortó con una enérgica resolución esta rebeldía
    mansa. La señora y la señorita Haynes desaparecieron de su hotel. El
    ingeniero, después de disimuladas averiguaciones entre las familias
    amigas de ellas residentes en Pasadena y en Los Ángeles, llegó á saber
    que se habían trasladado á San Francisco. Fué allá, y consiguió una
    tarde hablar con Margaret en el Gran Parque, cuando paseaba con su
    maestra de español.

    La entrevista resultó grata para el joven, porque le dió la seguridad de
    que Margaret le amaba siempre; mas no por eso sacó de ella un resultado
    positivo.

    Miss Haynes era una buena hija y no se declararía nunca en rebelión
    contra su madre. Pero como en sus afectos sólo podía mandar ella, juró á
    Edwin que le esperaría un año, dos, tres, todos los que fuesen
    necesarios, hasta que él encontrase una situación verdaderamente
    lucrativa ó un medio indiscutible de hacer fortuna. Con esto era seguro
    que la madre cejaría en su resistencia.

    El ingeniero juró también con el entusiasmo de una juventud enérgica. Él
    conseguiría esta fortuna. Ignoraba completamente, al formular su
    juramento, de qué modo puede obtenerse la riqueza; pero una nueva
    voluntad, más fuerte que la que hasta entonces le había guiado en la
    vida, empezaba á despertar en su interior.

    –¡Adiós, Margaret! Antes de un año seré rico, y nos casaremos….

    Luego, al verse solo, sin la dulce embriaguez que parecía invadirle
    cuando estaba al lado de su novia, volvió á contemplar la realidad tal
    como era, hostil y repelente. ¿Cómo puede un hombre ganar unos cuantos
    millones en un año cuando los necesita para casarse con la mujer que
    ama?… Quiso ver otra vez á Margaret, para que su voluntad adquiriese
    nuevas fuerzas, pero no pudo encontrarla. La viuda de Haynes, que sin
    duda había tenido noticias de esta entrevista por la profesora de
    español, se marchó de San Francisco con su hija, y esta vez Edwin no
    pudo averiguar nada acerca de su paradero.

    Le era preciso, después de esto, tomar una resolución. Su vida en Los
    Ángeles, siguiendo los pasos de una muchacha millonaria, había
    disminuído considerablemente los contados miles de dólares que
    representaban todo su capital. Necesitaba lanzarse cuanto antes á un
    nuevo trabajo para no verse en la indigencia.

    Creyó, como todos, que la fortuna únicamente puede esperarnos en un
    lugar de la tierra muy apartado de aquel en que nacimos, casi en los
    antípodas, y por eso aceptó con verdadera fe los informes de un amigo
    que le aconsejaba ir á Australia, ofreciéndole para allá varias cartas
    de recomendación.

    Gillespie acabó embarcándose con rumbo á Melbourne, pero antes escribió
    á una amiga de Margaret para que ésta conociese su resolución y el lugar
    de la tierra adonde le encaminaba su nueva aventura.

    La larga navegación fué muy triste para él. La soledad voluntaria en que
    se mantuvo entre los pasajeros sirvió para excitar sus recuerdos
    dolorosos. Durante la primera escala en Honolulu tuvo la esperanza, sin
    saber por qué, de recibir un cablegrama de Margaret animándole á
    perseverar en su resolución. Pero no recibió nada.

    Luego vino la interminable travesía hasta Nueva Zelandia, siguiendo la
    curva de más de una mitad del globo terráqueo, á través de los numerosos
    archipiélagos esparcidos en el Pacífico. En Auckland tampoco le salió al
    encuentro ningún cablegrama.

    Varias familias de Nueva Zelandia tomaron pasaje para ir á Sidney ó á
    Melbourne. El joven americano evitaba toda amistad con los compañeros de
    viaje. Prefería la melancolía de sus recuerdos, entregándose á ellos ya
    que no le era posible el placer de la lectura. Durante la larga travesía
    había leído todos los volúmenes que llevaba con él y los de la
    biblioteca del buque, que por cierto no eran nuevos ni abundantes.

    Una tarde, cuando el paquebote debía hallarse cerca de la antigua Tierra
    de Van Diemen, el ingeniero, que dormitaba tendido en un sillón del
    puente de paseo, vió un libro abandonado en el sillón inmediato. Le
    bastó la primera ojeada para darse cuenta da que debía pertenecer á los
    niños de una familia subida al buque en Nueva Zelandia.

    La cubierta del libro era en colores, y el dibujo de ella le hizo
    conocer su título antes de leerlo. Vió un hombre con sombrero de tres
    picos y casaca de largos faldones, que tenía las piernas abiertas como
    el coloso de Rodas y las manos apoyadas en las rótulas. Por entre las
    dos columnas de sus pantorrillas desfilaba, á pie y á caballo, llevando
    tambores al frente y banderas desplegadas, todo un ejército de enanos
    tocados con turbantes y plumeros, á estilo oriental.

    –Las _Aventuras de Gulliver_–murmuró el ingeniero–. El gracioso libro
    de Swift … ¡Cuánto tiempo hace que no he leído esto!… ¡Qué feliz era
    yo en los años que podía interesarme tal lectura!…

    Y Gillespie, tomando el volumen, lo abrió con una curiosidad risueña y
    algo desdeñosa. Primeramente fué mirando las distintas láminas; después
    empezó la lectura de sus páginas, escogidas al azar, dispuesto á
    abandonarla, pero retardando el momento á causa de su curiosidad, cada
    vez más excitada. Al fin acabó por entregarse sin resistencia al interés
    de un libro que resucitaba en su memoria remotas emociones.

    Pero esta lectura, empezada contra su voluntad, fué interrumpida
    violentamente.

    Tembló el piso de la cubierta bajo sus pies. Todo el buque se estremeció
    de proa á popa, como un organismo herido en mitad de su carrera, que se
    detiene y acaba por retroceder á impulsos del golpe recibido.

    El ingeniero vió elevarse sobre la proa un gran abanico de humo negro y
    amarillento atravesado por muchos objetos obscuros que se esparcían en
    semicírculo. Esta cortina densa tomó un color de sangre al cubrir el
    horizonte enrojecido por la puesta del sol.

    Sonó una explosión inmensa, ensordecedora, y después se hizo un profundo
    silencio en la dulce serenidad de la tarde, como si el infinito del mar
    y el horizonte hubiesen absorbido hasta la última vibración del
    atronador desgarramiento. Pero el silencio fué corto. A continuación,
    todo el buque pareció cubrirse de aullidos de dolor, de gritos de
    sorpresa, de carreras de gentes enloquecidas por el pánico, de órdenes
    enérgicas. Por las dos chimeneas del paquebote se escaparon torrentes
    mugidores de humo negro, al mismo tiempo que debajo de la cubierta
    empezaba un jadeo ruidoso, igual al estertor de un gigante moribundo.

    A partir de este momento, el ingeniero creyó haber caído en un mundo
    irreal, en una vida distinta de la ordinaria. Los hechos se sucedieron
    con una rapidez desconcertante.

    Se vió hablando con un oficial que corría á lo largo de la cubierta
    dando gritos á los marineros para que echasen los botes al agua.

    –Hemos tocado con la proa una mina flotante–dijo contestando á las
    preguntas de Gillespie–. Y si no es una mina, será un torpedo
    abandonado por alguno de los corsarios alemanes que navegaron en el
    Pacífico.

    Respondió el ingeniero con un gesto de incredulidad. ¿Cómo podían las
    corrientes oceánicas arrastrar una mina flotante hasta Australia?…
    ¿Por qué raro capricho de la suerte iban ellos á chocar con un torpedo
    abandonado por un corsario en la inmensidad del Pacífico?… Oyó que le
    hablaban; pero esta vez era un pasajero con el que sólo había cambiado
    algunos saludos durante el viaje.

    –No creo en la mina ni en el torpedo–dijo este hombre–. Deben haber
    embarcado dinamita en Nueva Zelandia ó alguna otra materia explosiva. Lo
    cierto es que nos vamos á pique irremediablemente.

    Gillespie se dió cuenta de que este pasajero decía verdad. El buque
    empezaba á hundir su proa y á levantar la popa lentamente. Las olas
    invadían ya la parte delantera del buque, llevándose los objetos rotos
    por la explosión y los cadáveres despedazados.

    Los tripulantes echaban los botes al agua. Los oficiales, ayudados por
    algunos pasajeros, todos con su revólver en la diestra, iban
    reglamentando el embarco de la gente. Las mujeres y los niños ocupaban
    con preferencia las grandes balleneras; luego embarcaban los hombres por
    orden de edad.

    Se abstuvo Gillespie de unirse á los grupos que esperaban sobre la
    cubierta el momento de huir del buque. Sabía que él, por su juventud y
    su vigor, debía ser de los últimos. Un tranquilo fatalismo guiaba ahora
    sus acciones. La muerte se le aparecía como algo dulce y triste que
    podía solucionar todas las contrariedades de su existencia.

    Automáticamente se metió en su camarote, tomando muchos objetos de un
    modo instintivo, sin que su razón pudiese definir por qué hacía esto.

    Al volver á la cubierta, ya no vió á los grupos de pasajeros. Todos
    estaban en los botes. Sólo quedaban algunos tripulantes, y el mismo
    oficial que le había hablado corría ahora de una borda á otra, dando
    órdenes en el vacío.

    –¿Qué hace usted aquí?–le preguntó severamente–. Embárquese en
    seguida. El buque va á hundirse en unos minutos.

    Así era. La proa había desaparecido enteramente; las olas barrían ya la
    mitad de la cubierta; el interior del paquebote callaba ahora con un
    silencio mortal. Las máquinas estaban inundadas. Un humo denso y frío,
    de hoguera apagada, salía por sus chimeneas.

    Gillespie tuvo que subir á gatas por la cubierta en pendiente, lo mismo
    que por una montaña, hasta llegar á un sitio designado por el oficial,
    del que colgaba una cuerda. Se deslizó á lo largo de ella con una
    agilidad de deportista acostumbrado á las suertes gimnásticas, hasta que
    tuvo debajo de sus plantas el movedizo suelo de madera de un bote.

    Unos pies golpearon su cabeza, y tuvo que sentarse para dejar sitio al
    oficial, que descendía detrás de él.

    El bote no era gran cosa como embarcación. Lo habían despreciado, sin
    duda, los demás tripulantes y pasajeros que llenaban varias balleneras
    vagabundas sobre la superficie azul. Todas estas embarcaciones se
    alejaban á vela ó á remo del buque agonizante.

    Por fortuna, este bote, en el que podían tomar asiento hasta ocho
    personas, sólo estaba ocupado por tres: Gillespie, el oficial y un
    marinero.

    El paquebote, acostándose en una última convulsión, desapareció bajo el
    agua, lanzando antes varias explosiones, como ronquidos de agonía. La
    soledad oceánica pareció agrandarse después del hundimiento de esta isla
    creada por los hombres. Las diversas embarcaciones, pequeñas como
    moscas, se fueron perdiendo de vista unas de otras en la penumbra
    vagorosa del crepúsculo. El mar, que visto desde lo alto del buque sólo
    estaba rizado por suaves ondulaciones, era ahora una interminable
    sucesión de montañas enormes de angustioso descenso y de sombríos
    valles, en los que el bote parecía que iba á quedarse inmóvil, sin
    fuerzas para emprender la ascensión de la nueva cumbre que venía á su
    encuentro.

    Los tres hombres remaron varias horas. Luego la fatiga pudo más que su
    voluntad, y acabaron tendiéndose en el fondo de la embarcación.

    La lobreguez de la noche abatió sus energías. ¿Para qué seguir remando á
    través de las sombras, sin saber adonde iban? Era mejor esperar la luz
    de la mañana, economizando sus fuerzas.

    Acabó Gillespie por dormirse con ese sueño pesado y profundo, de una
    densidad animal, que sólo conocen los hombres cuando están en vísperas
    de un peligro de muerte.

    Le pareció que este sueño y la misma noche sólo habían durado unos
    minutos. Una impresión cáustica en la cara y en las manos le hizo
    despertar.

    Era la caricia del sol naciente. El bote se agitaba con movimientos más
    suaves que en la noche anterior. El cielo no tenía sobre sus ojos una
    nube que lo empañase; todo él estaba impregnado de oro solar. Las aguas
    se extendían más allá de las bordas del bote, formando una llanura de
    azul profundo y mate que parecía beber la luz.

    Se incorporó, y al tender su vista de un extremo á otro de la
    embarcación, no pudo retener un grito de sorpresa. Se llevó una mano á
    los ojos, restregándoselos para ver mejor.

    Estaba solo.

    II

    Noche de misterios y despertar asombroso

    No pudo comprender la desaparición de sus compañeros. Es más: presintió
    que este misterio no lo aclararía nunca. Tal vez se habían precipitado
    sin quererlo en el mar, al hacer una maniobra de la que él no se dió
    cuenta durante su sueño. Luego pensó que, al encontrarse en el curso de
    la noche con alguna de las grandes balleneras procedentes del paquebote,
    el oficial y el marinero habían querido pasar á ella por considerarla
    más segura, abandonando á Edwin á su suerte para no cargar á la repleta
    embarcación con un pasajero más.

    El joven olvidó pronto esta felonía. Necesitaba trabajar para salir de
    su angustiosa situación. Durante algunas horas remó y remó, siguiendo el
    rumbo que le aconsejaba su instinto.

    Se había sentido en muchas ocasiones orgulloso de su vigor corporal,
    pero jamás sus fuerzas se mostraron tan poderosas é incansables como en
    la presente aventura. De vez en cuando se ponía de pie, esparciendo su
    vista por todo el círculo del horizonte, sin distinguir la más pequeña
    embarcación. Los fugitivos del naufragio estaban ya muy lejos, ó los
    había tragado el mar durante la noche.

    A mediodía descansó para comer. En el bote había abundantes provisiones,
    así como numerosos y diversos objetos en disparatado amontonamiento. Era
    una suerte que sus compañeros no hubiesen pensado en llevarse tantas
    cosas preciosas.

    Algunas horas después, Edwin presintió la proximidad de la tierra. El
    mar tranquilo, sin más alteración que algunas leves ondulaciones, mugía
    sordamente en el horizonte, formando una línea de espumas. Debía ser una
    barrera de obstáculos submarinos, en torno á los cuales se revolvían las
    aguas, hirviendo en incesantes espumarajos.

    El ingeniero remó directamente hacia estos escollos, adivinando que eran
    las crestas de invisibles murallas formadas por el coral. Más allá
    existirían tal vez tierras firmes. Avanzó con precaución á través de las
    aguas alborotadas, sufriendo violentas sacudidas sobre tres líneas de
    olas, que casi le hicieron zozobrar. Pero una vez pasado tal obstáculo,
    se vió en un inmenso y tranquilo circo de agua.

    En todo lo que abarcaba su vista, el mar ofrecía la tersura de un lago,
    teniendo por orla la línea de rompientes, y por el lado opuesto, una
    sucesión de tierras bajas que debían ser islas.

    Edwin siguió bogando. Varias veces hundió un remo verticalmente en el
    agua con la esperanza de tocar fondo. No pudo conseguirlo; pero adivinó
    que su bote se deslizaba sobre una extensión acuática que sólo tenía
    algunos metros de profundidad.

    Media hora después, al volver á hundir el remo, creyó tocar una roca;
    pero siguió avanzando mucho tiempo, sin que la quilla del bote rozase
    ningún obstáculo. Empezaba á ocultarse el sol cuando llegó cerca de
    tierra, y fué siguiendo su contorno á unos cincuenta metros de
    distancia. Iba en busca de una bahía pequeña ó de la desembocadura de un
    riachuelo para poder desembarcar, conservando su bote.

    Como empezaba á anochecer, aceleró su exploración antes de que se
    extinguiese por completo la incierta luz del crepúsculo. Vió que la
    costa avanzaba formando un pequeño cabo y que, en torno de su punta, las
    aguas se mantenían tranquilas, con una pesadez que denunciaba cierta
    profundidad. Llegó á tocar con la proa esta tierra, relativamente alta
    entre las tierras inmediatas. Apoyando sus manos en el reborde de la
    orilla, dió un salto y quedó de pie sobre el reducido promontorio.

    Lo primero que pensó fué buscar una piedra, un árbol, algo donde atar la
    cuerda del bote, que sostenía con su diestra. Tuvo miedo de que durante
    la noche la resaca se llevase mar adentro esta embarcación, que
    representaba su única esperanza.

    Buscando en la penumbra, dió con un grupo de arbustos vigorosos cuyas
    ramas llegaban á la altura de su cabeza. Fijándose en ellos, pudo ver
    que tenían la forma de árboles altísimos, contrastando su aspecto con su
    relativa pequeñez.

    Pero no creyó oportuno perder el tiempo en la contemplación de este
    fenómeno vegetal, y se limitó á pasar la cuerda en derredor de tres de
    los árboles enanos, dejando sujeto de este modo su bote para que no se
    alejase de la costa. Después siguió adelante por el promontorio,
    metiéndose tierra adentro.

    La noche había cerrado ya completamente, y Gillespie tuvo que desistir á
    la media hora de continuar esta marcha sin rumbo determinado. No se veía
    una luz ni el menor vestigio de habitación humana. Tampoco llegó á
    descubrir la existencia de animales bajo la maleza, en la que se hundía
    á veces hasta la cintura.

    Quiso volver atrás, convencido de la inutilidad de su exploración.
    Prefería pasar la noche en el bote, por ofrecerle mayores comodidades
    para su sueño que esta tierra desconocida. Pero al poco tiempo de
    marchar en varias direcciones se dió cuenta de que estaba completamente
    desorientado. Aquel mar tranquilo como una laguna, sin rompientes y sin
    olas, no podía guiarle con el ruido de sus aguas al chocar contra la
    orilla.

    Un silencio absoluto envolvió á Edwin. La profunda calma de la noche
    solamente se turbaba con el crujido de los arbustos, que tenían forma de
    árboles. Sus ramas, al partirse bajo sus pies, lanzaban chasquidos de
    madera vigorosa.

    Al salir á una llanura abierta en la selva enana, se sentó en el suelo,
    admirando la suavidad del césped. Lo mismo era pasar allí la noche que
    en la embarcación. No hacía frío, y además él estaba abrumado por el
    cansancio y por las tremendas emociones sufridas en el mar. Comió varias
    galletas y un pedazo de chocolate encontrados en sus bolsillos y acabó
    por tenderse, reconociendo que este lecho algo duro no le privaría del
    sueño.

    Iba á dormirse, cuando notó algo extraordinario en torno de él.
    Adivinaba la proximidad invisible de pequeños animales de la noche,
    atraídos sin duda por la novedad de su presencia. Bajo los matorrales
    inmediatos sonaba un murmullo de vida comprimida y susurrante, igual á
    un revoloteo de insectos ó un arrastre de reptiles.

    –Deben ser ratas–pensó el ingeniero.

    Al extender, desperezándose, uno de sus brazos, dió contra los
    matorrales más próximos, é inmediatamente sonó bajo el ramaje un rumor
    medroso de fuga.

    Gillespie sonrió, satisfecho de no estar solo en esta tierra misteriosa.
    No se había equivocado: eran ratas ú otros roedores del bosque de
    arbustos.

    De nuevo empezaba á adormecerse, cuando un zumbido, que parecía sofocado
    voluntariamente, pasó varias veces sobre su rostro. Al mismo tiempo le
    abanicó las mejillas cierta brisa dulce, semejante á la que levantan
    unas alas agitándose con suavidad.

    –Algún murciélago–volvió á decirse.

    Sus ojos creyeron ver en la lobreguez algo más obscuro aún que pasaba,
    flotando en el aire, por encima de su rostro. De este pájaro de la noche
    surgieron repentinamente dos puntos de luz, dos pequeños focos de
    intensa blancura, iguales á unos ojos hechos con diamantes. Un par de
    rayos sutiles pero intensísimos se pasearon á lo largo de su cuerpo,
    iluminándole desde la frente hasta la punta de los pies. El ingeniero,
    asombrado por el supuesto murciélago, levantó un brazo, abofeteando al
    vacío. Instantáneamente, el misterioso volador apagó los rayos de sus
    ojos, alejándose con un chillido de velocidad forzada que le hizo
    perderse á lo lejos en unos cuantos segundos.

    Esta visita quitó el sueño á Edwin, obligándole á sentarse sobre la
    pequeña pradera que le servía de cama. Sus ojos pudieron ver entonces
    por encima de los matorrales varios puntos de luz que se movían con una
    evolución rítmica, cambiando la intensidad y el color de sus
    resplandores.

    –Indudablemente son luciérnagas–murmuró–; luciérnagas de este país,
    distintas á todas las que conozco.

    Las había de una blancura ligeramente azul, como la de los más ricos
    diamantes; otras eran de verde esmeralda, de topacio, de ópalo, de
    zafiro. Parecía que sobre el terciopelo negro de la noche todas las
    piedras preciosas conocidas por los hombres se deslizasen como en una
    contradanza. Volaban formando parejas, y sus rayos, al cruzarse, se
    esparcían en distintas direcciones.

    Gillespie encontraba cada vez más interesante este desfile aéreo; pero
    de pronto, como si obedeciesen á una orden, todos los fulgores se
    extinguieron á un tiempo. En vano aguardó pacientemente. Parecía que los
    insectos luminosos se hubiesen enterado de su presencia al tocar con
    algunos de sus rayos la cabeza que surgía curiosa sobre los matorrales.

    Pasó mucho tiempo sin que la obscuridad volviera á cortarse con la menor
    raya de luz, y Edwin sintió el desencanto de un público cuando se
    convence de que es inútil esperar la continuación de un espectáculo.
    Volvió á tenderse, buscando otra vez el sueño; pero, al descansar la
    cabeza en la hierba, oyó junto á sus orejas unos trotecillos medrosos y
    unos gritos de susto. Hasta sintió en su cogote el roce de varios
    animalejos que parecían haberse librado casualmente por unos milímetros
    de morir aplastados.

    –Voy á pasar la noche en numerosa compañía–se dijo Edwin–. ¡Y yo que
    me imaginaba esta tierra como un desierto!… Mañana, indudablemente,
    presenciaré cosas extraordinarias y podré explicarme los misterios de
    esta noche. ¡Ahora, á dormir!

    Y como si hubiese perdido toda curiosidad, fué sumiéndose en el
    sueño…. Pero antes de dormirse completamente sintió un pinchazo en una
    muñeca, algo semejante á la mordedura de un colmillo único, una incisión
    que pareció llegar hasta el torrente de su sangre.

    Quiso mover el brazo en que había recibido esta herida y no pudo. Una
    torpeza creciente se fué difundiendo por sus músculos y sus nervios,
    paralizando toda acción.

    Pensó que tal vez había serpientes bajo los matorrales y que acababa de
    recibir su mordedura venenosa. Fué á mover el otro brazo, y, en el
    momento que intentaba levantarlo del suelo, recibió una segunda
    picadura, igualmente paralizante.

    –Ya no hay remedio–se dijo–. Me han mordido las víboras.

    Y cayó vencido por el sueño, como si se esparciese por todo su cuerpo el
    sopor de un narcótico.

    Cuando despertó, tuvo inmediatamente la certidumbre de habar dormido
    muchas horas. El sol estaba alto, y al abrir los ojos se vió obligado á
    cerrarlos inmediatamente. Ladeó la cabeza, huyendo de la causticidad de
    su luz, y poco á poco fué entreabriendo el ojo más inmediato á la
    tierra, mientras conservaba cerrado el otro.

    Al extenderse esta visión única casi á ras del suelo, fué tal la
    sorpresa experimentada por él, que volvió por segunda vez á juntar sus
    párpados. Debía estar durmiendo aún. Lo que acababa de ver era una
    prueba de que se hallaba sumido todavía en el mundo incoherente de los
    ensueños. Dejó transcurrir algún tiempo pura resucitar en su interior
    las facultades que son necesarias en la vida real. Después de
    convencerse de que no dormía, de que se hallaba verdaderamente
    despierto, volvió á abrir sus párpados lentamente, y se estremeció con
    la más grande de las sorpresas viendo que persistía el mismo
    espectáculo.

    Todo el lado de la pradera que llegaba á abarcar con su ojo abierto, así
    como la linde de la masa de matorrales y la tierra que quedaba entre sus
    troncos, estaban ocupados por una muchedumbre de seres humanos,
    idénticos en sus formas á los componentes de todas las muchedumbres.
    Pero lo que él creía matorrales eran árboles iguales á todos los árboles
    y formando un bosque que se perdía de vista. Lo verdaderamente
    extraordinario era la falta de proporción, la absurda diferencia entre
    su propia persona y cuanto le rodeaba. Estos hombres, estos árboles, así
    como los caballos en que iban montados algunos de aquellos, hacían
    recordar las personas y los paisajes cuando se examinan con unos gemelos
    puestos al revés, ó sea colocando los ojos en las lentes gruesas, para
    ver la realidad á través de las lentes pequeñas.

    Gillespie abrió y cerró su ojo repetidas veces, y al fin tuvo que
    convencerse de que estaba rodeado de un mundo extraordinariamente
    reducido en sus dimensiones. Los hombres eran de una estatura entre
    cuatro ó cinco pulgadas. Personas, animales y vegetales,
    partiendo reducido tipo minúsculo, guardaban entre ellos las mismas
    proporciones que en el mundo de los hombres ordinarios.

    –¡Igual que le ocurrió á Gulliver!–se dijo el ingeniero–. Debo estar
    soñando, á pesar de que me creo despierto.

    Y para convencerse de que no dormía, quiso mover su brazo derecho. Aún
    perduraba en él la torpeza sufrida en la noche anterior. Se acordó de
    las picaduras y de la parálisis que se había extendido luego por sus
    miembros. Al principio, el brazo se negó á reflejar el impulso de su
    voluntad; pero finalmente consiguió despegarlo del suelo con un gran
    esfuerzo. Iba á continuar este movimiento, cuando notó que una fuerza
    exterior, violenta é irresistible, tiraba de su brazo hasta colocarlo
    horizontalmente, y lo mantenía de este modo en vigorosa tensión. Al
    mismo tiempo sintió en su muñeca un dolor circular, lo mismo que si un
    anillo frío oprimiese y cortase sus carnes.

    Una explosión de regocijo estalló en torno de la cabeza de Gillespie, un
    huracán de gritos, carcajadas y aclamaciones. La muchedumbre enana reía
    al verle con el brazo en alto, inmovilizado por el tirón de esta fuerza
    incomprensible para él.

    Abrió Edwin los dos ojos para mirar su brazo, erguido como una torre,
    fijándose en la muñeca, donde continuaba el agudo anillo de dolor. Vió
    que de esta muñeca salía un hilo sutil y brillante, que hacía recordar
    los filamentos al final de los cuales se balancean las arañas. También
    al extremo de este hilo, que parecía metálico, había una especie de
    araña enorme y susurrante. Pero no pendía del hilo, sino que, al
    contrario, flotaba en el espacio tirando de él.

    Era del tamaño de un palomo, pero desarrollaba una fuerza impropia de su
    volumen, fuerza que mantenía el hilo de plata con la tensión vibrante de
    una cuerda de piano, no permitiendo que el hombre contrajera su brazo.

    Edwin se fijó en que esta ave extraordinaria tenía las formas
    fantásticas de los dragones alados que imaginaron los escultores de la
    Edad Media al labrar los capiteles y gárgolas de las catedrales. Su
    cuerpo estaba revestido de escamas metálicas y tenía en su parte
    delantera una cabeza de monstruo quimérico, con dos globos de faro á
    guisa de ojos. Sus alas eran á modo de cartílagos erizados de púas.
    Sobre el lomo del horripilante aeroplano, cuatro hombrecitos iguales á
    los que se movían en la pradera asomaban sus cabezas cubiertas con un
    casquete dorado, al que servía de remate una pluma larguísima.

    Montados en su máquina, que permanecía inmóvil encima de los ojos de
    Gillespie, á unos tres metros de altura, estos aviadores acogieron con
    un regocijo pueril el gesto de asombro que puso el gigante al sentir el
    tirón que aprisionaba é inmovilizaba su brazo. Pero luego adivinaron en
    el prisionero una expresión de dolor. Sentía el hilo metálico hundido en
    su muñeca como el filo de un cuchillo, y al mismo tiempo un fuerte dolor
    en la articulación del hombro. Para evitar este tormento, los
    hombrecillos del aeroplano soltaron una cantidad de cable sutil, lo que
    permitió á Edwin descender su brazo hasta el suelo.

    Sólo entonces se dió cuenta de que alrededor de la otra muñeca, así como
    en torno de sus tobillos, debía tener amarrados unos filamentos
    semejantes. Tendido de espaldas como estaba y mirando á lo alto, alcanzó
    á ver otros tres aeroplanos en forma de animales fantásticos, que se
    mantenían inmóviles al extremo de otros tantos hilos de plata, á una
    altura de pocos metros. Comprendió que todo movimiento que hiciese para
    levantarse daría por resultado un tirón doloroso semejante al que había
    sufrido. Era un esclavo de los extraños habitantes de esta tierra, y
    debía esperar sus decisiones, sin permitirse ningún acto voluntario.

    Mientras permanecía inmóvil fué examinando lo que le rodeaba. La
    muchedumbre era cada vez más numerosa en torno de su cuerpo y en las
    profundidades del bosque. El zumbido de sus palabras y sus gritos iba en
    aumento. Se presentía la llegada incesante de nuevos grupos. Por entre
    los cuatro aeroplanos inmóviles al extremo de sus cables volaban otros
    completamente libres, que se complacían en pasar y repasar sobre la
    nariz del prisionero. Eran dragones rojos y verdes, serpientes de
    enroscada cola, peces de lomo redondo, todos con alas, con escamas de
    diversos colores y con ojos enormes. Gillespie adivinó que eran las
    luciérnagas que en la noche anterior lanzaban mangas de luz por sus
    faros, ahora extinguidos.

    Una de las naves aéreas detuvo su vuelo para bajar en graciosa espiral,
    hasta inmovilizarse sobre el pecho del coloso. Asomaron entre sus alas
    rígidas los cuatro tripulantes, que reían y saltaban con un regocijo
    semejante al de las colegialas en las horas de asueto…. Al mismo
    tiempo otros monstruos de actividad terrestre se deslizaron por el
    suelo, cerca del cuerpo de Gillespie. Eran á modo de juguetes mecánicos
    como los que había usado él siendo niño: leones, tigres, lagartos y aves
    de aspecto fatídico, con vistosos colores y ojos abultados. En el
    interior de estos automóviles iban sentadas otras personas diminutas,
    iguales á las que navegaban por el aire.

    Parecían venir de muy lejos, y la muchedumbre pedestre abría paso
    respetuosamente á sus vehículos. Estos recién llegados también reían al
    ver al gigante, con un regocijo pueril, mostrando en sus gestos y sus
    carcajadas algo de femenino, que empezó á llamar la atención de
    Gillespie.

    Iba ya transcurrida una hora, y el prisionero empezaba á encontrar
    penosa su inmovilidad, cuando se hizo un profundo silencio. Procurando
    no moverse, torció á un lado y á otro sus ojos para examinar á la
    muchedumbre. Todos miraban en la misma dirección, y Gillespie se creyó
    autorizado para volver la cabeza en idéntico sentido. Entonces vió, como
    á dos metros de su rostro, un gran vehículo que acababa de detenerse.
    Este automóvil tenía la forma de una lechuza, y los faros que le servían
    de ojos, aunque apagados, brillaban con un resplandor de pupilas verdes.

    Dentro del vehículo, un personaje rico en carnes estaba de pie, teniendo
    ante su boca el embudo de un portavoz. Al fin alguien iba á hablarle.
    Por esto sin duda acababa de hacerse un profundo silencio de curiosidad
    y de respeto en la muchedumbre.

    Sonó la voz del abultado personaje, que era dulce y temblona como la de
    una dama sentimental, pero con el agrandamiento caricaturesco de la
    bocina.

    –Gentleman: queda usted autorizado para mover la cabeza, para
    levantarla, si es que puede, y para cambiar de postura con cierta
    suavidad, sin poner en peligro á la muchedumbre justamente curiosa que
    le rodea. En cuanto á mover los brazos ó las piernas, le aconsejo una
    completa abstención hasta nueva orden. Ya habrá visto usted que su
    primer intento dió mal resultado. Le ruego que no insista.

    Da todas las sorpresas experimentadas por Gillespie desde que despertó,
    ésta fué la más estupenda. El exiguo personaje hablaba su mismo idioma,
    pero con un tono afectado, con un esfuerzo por conseguir la corrección,
    detallando las sílabas, lo mismo que hablan ciertos profesores.

    –¿Cómo sabe usted el inglés?–preguntó Edwin–. ¿Dónde ha podido
    aprenderlo?…

    Una risa aflautada del gordo personaje fué la primera respuesta. Luego
    pareció arrepentirse de su falta de corrección al contestar con risas á
    las preguntas, y dijo gravemente:

    –¡Oh, Gentleman-Montaña!… ¡Va usted á encontrar en mi patria tantas
    cosas extraordinarias dignas de su asombro!…

    III

    De cómo Edwin Gillespie fué llevado á la capital de la República

    Hubo un largo silencio. El ingeniero, absorto por el carácter
    inverosímil de su aventura, no supo qué decir. ¡Eran tan numerosos los
    pensamientos que bullían en su cabeza y las preguntas que iba
    amontonando su curiosidad!…

    El personaje subido en la lechuza rodante interpretó este silencio como
    una muestra de timidez.

    –Puede usted hablar sin miedo, Gentleman-Montaña. De todos los miles de
    seres que están aquí presentes, los únicos que conocen el inglés somos
    usted y yo. Los demás sólo hablan el idioma de nuestra raza…. Y para
    aplacar su curiosidad, le diré cuanto antes que el inglés es la lengua
    particular de nuestros sabios; algo semejante á lo que fué el latín,
    según mis noticias, durante algunos siglos, en los países habitados por
    los Hombres-Montañas. Yo soy el profesor de inglés en la Universidad
    Central de nuestra República.

    Edwin quedó silencioso ante esta revelación.

    –Entonces, ¿estoy verdaderamente en Liliput?–dijo al fin–. ¿No es
    esto un sueño?

    La risa del profesor volvió á sonar con la misma vibración femenil,
    considerablemente agrandada por el portavoz.

    –¡Oh, Liliput!–exclamó–. ¿Quién se acuerda de ese nombre? Pertenece á
    la historia antigua; quedó olvidado para siempre. Si usted pudiese
    hablar nuestro idioma, preguntaría por Liliput á los miles de seres que
    nos escuchan en este momento sin entendernos, y ninguno comprendería el
    significado de tal palabra. Nuestra tierra se ha transformado mucho.

    Calló un momento para reflexionar, y luego dijo con orgullo:

    –Antes éramos nosotros los que nos asombrábamos al recibir la visita de
    un Hombre-Montaña. Ahora son los Hombres-Montañas los que deben
    asombrarse al visitar nuestro país. Hemos hecho triunfar revoluciones
    que ellos seguramente no han intentado aún en su tierra.

    Gillespie sintió desviada su curiosidad por estas palabras del profesor.

    –Pero ¿han venido aquí otros hombres después de Gulliver?

    –Algunos–contestó el sabio–. Recuerde usted que la visita de ese
    Gulliver fué hace muchos años, muchísimos, un espacio de tiempo que
    corresponde, según creo, á lo que los Hombres-Montañas llaman dos
    siglos. Imagínese cuántos naufragios pueden haber ocurrido durante un
    período tan largo; cuántos habrán venido á visitarnos forzosamente de
    esos hombres gigantescos que navegan en sus casas de madera más allá de
    la muralla de rocas y espumas que levantaron nuestros dioses para
    librarnos de su grosería monstruosa…. Nuestras crónicas no son claras
    en este punto. Hablan de ciertas visitas de Hombres-Montañas que yo
    considero apócrifas. Pero con certeza puede decirse que llegaron á esta
    tierra unos catorce seres de tal clase en distintas épocas de nuestra
    historia. De esto hablaremos más detenidamente, si el destino nos
    permite conversar en un sitio mejor y con menos prisa. El último gigante
    que llegó lo vi cuando estaba todavía en mi infancia; el único que hemos
    conocido después del triunfo de la Verdadera Revolución. Era un hombre
    de manos callosas y piel con escamas de suciedad. Babia un líquido
    blanco y de hedor insufrible, guardado en una gran botella forrada de
    juncos. Este líquido ardiente parecía volverle loco. Nuestros sabios
    creen que era un simple esclavo de los que trabajan en los buques
    enormes de los mares sin límites. Como el tal líquido despertaba en él
    una demencia destructiva, mató á varios miles de los nuestros, nos causó
    otros daños, y tuvimos que suprimirle, encargándose nuestra Facultad de
    Química de disolver y volatilizar su cadáver para que tanta materia en
    putrefacción no envenenase la atmósfera. Creo necesario hacerle saber
    que desde entonces decidimos suprimir todo Hombre-Montaña que apareciese
    en nuestras costas.

    Gillespie, á pesar de la tranquilidad con que estaba dispuesto á aceptar
    todos los episodios de su aventura, se estremeció al oir las últimas
    palabras.

    –Entonces, ¿debo morir?–preguntó con franca inquietud.

    –No, usted es otra cosa–dijo el profesor–; usted es un gentleman, y
    su buen aspecto, así como lo que llevamos inquirido acerca de su pasado,
    han sido la causa de que le perdonemos la vida … por el momento.

    Las palabras del sabio le fueron revelando todo lo ocurrido en esta
    tierra extraordinaria desde el atardecer del día anterior. Los escasos
    habitantes de la costa le habían visto aproximarse, poco antes de la
    puesta del sol, en su bote, más enorme que los mayores navíos del país.
    La alarma había sido dada al interior, llegando la noticia á los pocos
    minutos hasta la misma capital da la República. Los miembros del Consejo
    Ejecutivo habían acordado rápidamente la manera de recibir al visitante
    inoportuno, haciéndole prisionero para suprimirlo á las pocas horas. Los
    aparatos voladores del ejército salían á su encuentro una vez cerrada la
    noche. El Hombre-Montaña pudo vagar á lo largo de la costa sin
    tropezarse con ningún habitante, porque todos los ribereños se habían
    metido tierra adentro por orden superior.

    Al verle tendido en el suelo, empezó el asedio de su persona. El
    manotazo á la primera máquina volante que le había explorado con sus
    luces, así como la curiosidad de Gillespie, que le permitió descubrir
    por encima del bosque todas las evoluciones de la flotilla luminosa,
    aconsejaron la necesidad de un ataque brusco y rápido.

    Dos sabios de laboratorio y su séquito de ayudantes, llegados de la
    capital en varios automóviles, se encargaron del golpe decisivo,
    pinchándole en las muñecas y en los tobillos con las agudas lanzas de
    unas mangas de riego. Así le inocularon el soporífico paralizante.

    –Es verdaderamente extraordinario–continuó el profesor–que haya
    conocido usted el nuevo sol que ve en estos instantes. Estaba acordado
    el matarle, mientras dormía, con una segunda inyección de veneno, cuyos
    efectos son muy rápidos. Pero los encargados del registro de su persona
    se apiadaron al enterarse de la categoría á que indudablemente pertenece
    usted en su país. Le diré que yo tuve el honor de figurar entre ellos, y
    he contribuído, en la medida de mi influencia, á conseguir que las altas
    personalidades del Consejo Ejecutivo respeten su vida por el momento.
    Como la lengua de todos los Hombres-Montañas que vinieron aquí ha sido
    siempre el inglés, el gobierno consideró necesario que yo abandonase la
    Universidad por unas horas para prestar el servicio de mi ciencia. Ha
    sido una verdadera fortuna para usted el que reconociésemos que es un
    gentleman.

    Gillespie no ocultó su extrañeza ante tan repetida afirmación.

    –¿Y cómo llegaron ustedes á conocer que soy un gentleman?–preguntó,
    sonriendo.

    –Si pudiera usted examinarse en este momento desde los bolsillos de sus
    pantalones al bolsillo superior de su chaqueta, se daría cuenta de que
    lo hemos sometido á un registro completo. Apenas se durmió usted bajo la
    influencia del narcótico, empezó esta operación á la luz de los faros de
    nuestras máquinas volantes y rodantes. Después, el registro lo hemos
    continuado á la luz del sol. Una máquina-grúa ha ido extrayendo de sus
    bolsillos una porción de objetos disparatados, cuyo uso pude yo adivinar
    gracias á mis estudios minuciosos de los antiguos libros, pero que es
    completamente ignorado por la masa general de las gentes. La grúa hasta
    funcionó sobre su corazón para sacar del bolsillo más alto de su
    chaqueta un gran disco sujeto por una cadenilla á un orificio abierto en
    la tela; un disco de metal grosero, con una cara de una materia
    transparente muy inferior á nuestros cristales; máquina ruidosa y
    primitiva que sirve entre los Hombres-Montañas para marcar el paso del
    tiempo, y que haría reir por su rudeza á cualquier niño de nuestras
    escuelas.

    También he registrado hasta hace unos momentos el enorme navío que le
    trajo á nuestras costas. He examinado todo lo que hay en él; he
    traducido los rótulos de las grandes torres de hoja de lata cerradas por
    todos lados, que, según revela su etiqueta, guardan conservas animales y
    vegetales. Los encargados de hacer el inventario han podido adivinar que
    era usted un gentleman porque tiene la piel fina y limpia, aunque para
    nosotros siempre resulta horrible por sus manchas de diversos colores y
    los profundos agujeros de sus poros. Pero este detalle, para un sabio,
    carece de importancia. También han conocido que es usted un gentleman
    porque no tiene las manos callosas y porque su olor á humanidad es menos
    fuerte que el de los otros Hombres-Montañas que nos visitaron, los
    cuales hacían irrespirable el aire por allí donde pasaban. Usted debe
    bañarse todos los días, ¿no es cierto, gentleman?… Además, el pedazo
    de tela blanca, grande como una alfombra de salón, que lleva usted sobre
    el pecho, junto con el reloj, ha impregnado el ambiente de un olor de
    jardín.

    Se detuvo el profesor un instante para agregar con alguna malicia:

    –Y yo pude afirmar además, de un modo concluyente, que es usted un
    verdadero gentleman, porque he ordenado á dos de mis secretarios que
    volviesen las hojas de un libro más grande que mi persona, con tapas de
    cuero negro, que nuestra grúa sacó de uno de sus bolsillos. He podido
    leer rápidamente algunas de dichas hojas. En la primera, nada
    interesante: nombres y fechas solamente; pero en otras he visto muchas
    líneas desiguales que representan un alto pensamiento poético.
    Indudablemente, el Gentleman-Montaña ha pasado por una universidad. En
    nuestro país, sólo un hombre de estudios puede hacer buenos versos. Los
    de usted, gigantesco gentleman, me permitirá que le diga que son
    regulares nada más y por ningún concepto extraordinarios. Se resienten
    de su origen: les falta delicadeza; son, en una palabra, versos de
    hombre, y bien sabido es que el hombre, condenado eternamente á la
    grosería y al egoísmo por su propia naturaleza, puede dar muy poco de sí
    en una materia tan delicada como es la poesía.

    Gillespie se mostró sorprendido por las últimas palabras. Sus ojos, que
    hasta entonces habían vagado sobre la enana muchedumbre, atraídos por la
    diversa novedad del espectáculo, se concentraron en el profesor,
    teniendo que hacer un esfuerzo para distinguir todos los detalles de su
    minúscula persona.

    Llevaba en la cabeza un gorro cuadrangular con dorada borla, igual al de
    los doctores de las universidades inglesas y norteamericanas. El rostro
    carilleno y lampiño estaba encuadrado por unas melenillas negras y
    cortas. Los ojos tenían el resguardo de unos cristales con armazón de
    concha. Cubrían el resto de su abultada persona una blusa negra apretada
    á la cintura por un cordón, que hacía más visible la exagerada curva de
    sus caderas, y unos pantalones que, á pesar de ser anchos, resultaban
    tan ajustados como el mallón de una bailarina.

    –¡Pero usted es una mujer!–exclamó Gillespie, asombrado de su
    repentino descubrimiento.

    –¿Y qué otra cosa podía ser?–contestó ella–. ¿Cómo no perteneciendo á
    mi sexo habría llegado á figurar entre los sabios de la Universidad
    Central, poseyendo los difíciles secretos de un idioma que sólo conocen
    los privilegiados de la ciencia?

    Calló, para añadir poco después con una voz lánguida, dejando á un lado
    la bocina:

    –¿Y en qué ha conocido usted que soy mujer?

    El ingeniero se contuvo cuando iba á contestar. Presintió que tal vez
    corría el peligro de crearse un enemigo implacable, y dijo evasivamente:

    –Lo he conocido en su aspecto.

    La sabia quedó reflexionando para comprender el verdadero sentido de tal
    respuesta.

    –¡Ah, si!–dijo al fin con cierta sequedad–. Lo ha conocido usted, sin
    duda, en mis abundancias corporales. Yo soy una persona seria, una
    persona de estudios, que no dispone de tiempo para hacer ejercicios
    gimnásticos, como las muchachas que pertenecen al ejército. La ciencia
    es una diosa cruel con los que se dedican á su servicio.

    –Lo he conocido también–se apresuró á añadir Edwin–en la dulzura de
    su voz y en la hermosura de sus sentimientos, que tanto han contribuído
    á salvar mi vida.

    La profesora acogió estas palabras con una larga pausa, durante la cual
    sus anteojos de concha lanzaron un brillo amable que parecía acariciar
    al gigante. Pensaba, sin duda, que este hombre grosero y de aspecto
    monstruoso era capaz de decir cosas ingeniosas, como si perteneciese al
    sexo inteligente, ó sea el femenino. Bajó los ojos y añadió con una
    expresión de tierna simpatía:

    –Por algo he encontrado tantas veces en sus versos la palabra Amor con
    una mayúscula más grande que mi cabeza.

    Después pareció sentir la necesidad de cambiar el curso de la
    conversación, recobrando su altivo empaque de personaje universitario.
    Aunque ninguno de los presentes pudiera entenderla, temía haber dicho
    demasiado.

    –Usted se irá dando cuenta, Gentleman-Montaña–continuó–, de que ha
    llegado á un país diferente á todos los que conoce, una nación de
    verdadera justicia, de verdadera libertad, donde cada uno ocupa el lugar
    que le corresponde, y la suprema dirección la posee el sexo que más la
    merece por su inteligencia superior, desconocida y calumniada desde el
    principio del mundo…. Deje de mirarme á mí unos instantes y examine la
    muchedumbre que le rodea. Tiene usted permiso para moverse un poco; así
    hará su estudio con mayor comodidad. Espere á que dé mis órdenes.

    Y recobrando su portavoz, empezó á lanzar rugidos en un idioma del que
    no pudo entender el americano la menor sílaba. La máquina volante que
    descansaba sobre su pecho levantó el vuelo, y los otros cuatro
    aeroplanos aflojaron los hilos metálicos sujetos á sus extremidades. La
    muchedumbre se arremolinó, iniciando á continuación un movimiento de
    retroceso.

    Gillespie vió que unos grupos de jinetes repelían al gentío para que se
    alejase. Otros soldados acababan de descender de varias máquinas
    rodantes que tenían la forma de un león. Estos guerreros jóvenes eran de
    aire gentil y graciosamente desenvueltos.

    Uno de ellos pasó muy cerca de sus ojos, y entonces pudo descubrir que
    era una mujer, aunque más joven y esbelta que la profesora de inglés.
    Los otros soldados tenían idéntico aspecto y también eran mujeres, lo
    mismo que los tripulantes de las máquinas voladoras. Sus cabelleras
    cortas y rizadas, como la de los pajes antiguos, estaban cubiertas con
    un casquete de metal amarillo semejante al oro. No llevaban, como los
    aviadores, una larga pluma en su vértice. El adorno de su capacete
    consistía en dos alas del mismo metal, y hacía recordar el casco
    mitológico de Mercurio.

    Todos estos soldados eran de aventajada estatura y sueltos movimientos.
    Se adivinaba en ellos una fuerza nerviosa, desarrollada por incesantes
    ejercicios. Paro, á pesar de su gimnástica esbeltez de efebos vigorosos,
    la blusa muy ceñida al talle por el cinturón de la espada y los
    pantalones estrechamente ajustados delataban las suaves curvas de su
    sexo. Iban armados con lanzas, arcos y espadas, lo que hizo que
    Gillespie se formase una triste idea de los progresos de este país, que
    tanto parecían enorgullecer á la profesora de inglés.

    El cordón de peones y jinetes empujó á la muchedumbre hasta los linderos
    del bosque, dejando completamente limpia la pradera. Entonces, la
    doctora, desde lo alto de su carro-lechuza, volvió á valerse del
    portavoz.

    –Gentleman Montaña, puede usted incorporarse.

    El ingeniero se fué levantando sobre un codo, y este pequeño movimiento
    derribó varias escalas portátiles que aún estaban apoyadas en su cuerpo
    y habían servido para el registro efectuado horas antes. Tres enanos que
    vagaban sobre su vientre, explorando por última vez los bolsillos de su
    chaleco, cayeron de cabeza sobre la tupida hierba de la pradera y
    trotaron á continuación dando chillidos como ratones. Sin dejar de huir
    se llevaban las manos á diferentes partes de sus cuerpos magullados,
    mientras una carcajada general del público circulaba por los lindes de
    la selva.

    Al fin Gillespie quedó sentado, teniendo como vecinos más inmediatos á
    la profesora y sus secretarios, que ocupaban el automóvil-lechuza, y por
    otro lado á los tripulantes de las cuatro máquinas aéreas, las cuales se
    movían dulcemente al extremo de sus hilos metálicos, flácidos y sin
    tensión.

    En esta nueva postura Gillespie pudo ver mejor á la muchedumbre. Sus
    ojos se habían acostumbrado á distinguir los sexos de esta humanidad de
    dimensiones reducidas, completamente distinta á la del resto de la
    tierra. Los soldados; los personajes universitarios, mudos hasta
    entonces, pero que se habían ocupado en adormecerle y registrarle; los
    empleados, los obreros, todos los que se movían dando órdenes ó
    trabajando en torno de él, llevaban pantalones y eran mujeres.

    Edwin vió que de un automóvil en forma de clavel que acababa de llegar
    descendían unas figuras con largas túnicas blancas y velos en la cabeza.
    Eran las primeras hembras que encontraba semejantes á las de su país.
    Debían pertenecer á alguna familia importante de la capital; tal vez era
    la esposa de un alto personaje acompañada de sus tres hijas. Concentró
    su mirada en el grupo para examinarlas bien, y notó que las tres
    señoritas, todas de apuesta estatura, asomaban bajo los blancos velos
    unas caras de facciones correctas pero enérgicas. Sus mejillas tenían el
    mismo tono azulado que la de los hombres que se rasuran diariamente. La
    madre, algo cuadrada á causa de la obesidad propia de los años,
    prescindía de esta precaución, y por debajo de la corona de flores que
    circundaba sus tocas dejaba asomar una barba abundante y dura.

    Un oficial de los del casquete alado corrió galantemente á proteger á
    las recién llegadas, con el interés que merece el sexo débil, y las tres
    señoritas acogieron con gesto ruboroso las atenciones del militar.

    Gillespie se dió cuenta de que la doctora seguía sus impresiones con
    ojos atentos, sonriendo de su asombro.

    –Ya le dijo, gentleman, que vería usted grandes cosas. No olvide que
    este es el país de la Verdadera Revolución.

    Todavía pudo hacer Edwin nuevas observaciones. Vió con estupefacción
    entre el público, repelido y mantenido á distancia por la fuerza armada,
    mujeres menos lujosas que la familia recién venida de la capital, pero
    igualmente con largas túnicas…. Y sin embargo parecían hombres á causa
    de sus barbas ó de sus rostros azulados por el rasuramiento. En cambio,
    todos los individuos de aspecto civil que llevaban pantalones y
    mostraban ser trabajadores del campo, obreros de la ciudad ó acaudalados
    burgueses, venidos para conocer al gigante, tenían el rostro lampiño y
    las formas abultadas de la mujer.

    Encontró, sin embargo, algunas excepciones, que sirvieron para
    desorientarlo en sus juicios. Vió verdaderos hombres, cuyo aspecto
    vigoroso no se prestaba á equívocos, y que, sin embargo, marchaban sin
    el embarazo de las faldas. Estos hombres iban casi desnudos, al aire su
    fuerte musculatura, y sin más vestimenta que un corto calzoncillo. Todos
    ellos mostraban la pasividad resignada, la fuerza brutal y sin
    iniciativa de las bestias de labor. Algunos acababan de desengancharse
    de pesadas carretas, de las cuales habían venido tirando hasta el
    lindero del bosque, y se limpiaban el sudoroso cuerpo. Otros lavaban y
    secaban los grandes aparatos que habían servido para la narcotización y
    el registro del gigante.

    Vió además Gillespie que la mayor parte de los jinetes que mantenían en
    respeto á la muchedumbre eran hombres igualmente; hombres enormes y
    barbudos, con una expresión de estupidez disciplinada, de brutalidad
    automática, reveladora de su situación inferior. A pesar de que iban
    armados con grandes cimitarras, su traje era una túnica igual á la de
    las mujeres. Todos ellos parecían simples soldados. Varias muchachas de
    bélica elegancia, llevando sobre sus cortas melenas el casquete alado,
    hacían caracolear sus caballos entre las de estos guerreros inferiores,
    dándoles órdenes con un laconismo de jefes.

    La doctora volvió á interrumpir las reflexiones del prisionero.

    –Antes de que emprendamos la marcha á la capital, creo oportuno que
    tome usted un ligero refrigerio. Mi gusto hubiese sido prepararle un
    desayuno al estilo de nuestro país, pero no hemos tenido tiempo para
    ello, pues, como lo dije, su vida estaba en peligro, y nadie piensa en
    dar de almorzar á un muerto. Podía haber hecho traer algunas de las
    latas de conserva que guarda usted en su embarcación, pero ésta se halla
    ya muy lejos.

    La noticia hizo perder su calma al gigante…. ¡Verse privado de un bote
    que representaba la única probabilidad de volver al mundo de sus
    semejantes!…

    –Poco después de la salida del sol–continuó la traductora–se han
    encargado de remolcarlo hasta el puerto de la capital los navíos de
    nuestra escuadra del Sol Naciente.

    Gillespie necesitó mostrar su mal humor con palabras ofensivas.

    –¿Y qué navíos son esos?… ¿Cómo unos barquitos iguales á juguetes,
    con sólo la fuerza de sus velas, van á poder remolcar mi bote, dentro
    del cual cabe amontonada toda esa escuadra del Sol Naciente?…

    –Gentleman–dijo la profesora con sequedad–, nuestros buques no tienen
    velas; eso fué en tiempos remotos. Nuestros navíos navegan á voluntad
    sobre el agua y por debajo del agua. La misma energía que mueve nuestras
    máquinas terrestres y aéreas agita las colas de ellos con igual fuerza
    que las de los peces más veloces…. De su tamaño no creo necesario
    hablar. El tamaño no significa nada. Nosotros hemos llegado á poseer
    navíos más grandes que el que le trajo á usted, y los suprimimos por
    inhábiles para defenderse.

    Hubo un largo silencio después de las palabras poco cordiales cruzadas
    entre los dos. Pero la doctora no parecía tenaz en sus rencores y siguió
    hablando:

    –He tenido que improvisar un ligero desayuno con lo que encontré más á
    mano. Perdone usted su frugalidad y su monotonía. Cuando estemos en la
    capital (si es que los altos señores del Consejo Ejecutivo quieren
    concederle la vida á perpetuidad, ó sea hasta que perezca usted de
    muerte ordinaria), estoy seguro de que comerá mejor.

    Sin separarse el portavoz de la boca, empezó á rugir otra vez una serie
    de palabras desconocidas, que despertaron gran actividad en los linderos
    del bosque.

    Un grupo de aquellos hombres bestiales y semidesnudos, fuerzas ciegas y
    sometidas como los constructores de las Pirámides faraónicas, avanzó por
    la pradera tirando de un enorme cilindro vertical. Era una bomba
    rematada por un largo pistón. Esta bomba la acababan de limpiar los
    vigorosos siervos, pues había servido durante la noche para inyectar al
    gigante su dosis de narcótico. Poco después empezaron á salir de la
    selva rebaños de vacas bien cuidadas, gordas y lustrosas. Parecían
    enormes junto á los hombrecillos que las guiaban, pero no tenían en
    realidad para Gillespie mayor tamaño que una rata vieja. A los pocos
    momentos eran centenares; al final llenaron la mayor parte de la
    pradera, siendo más de mil.

    Numerosos enanos, que por sus trajes parecían hombres de campo y en
    realidad eran mujeres, silbaron y agitaron sus cayados para ordenar y
    agrupar á estos animales.

    –Es todo lo que hemos podido reunir–dijo la profesora–. El _Comité de
    recibimiento del Hombre-Montaña,_ nombrado anoche por el gobierno, no ha
    tenido tiempo para preparar mejor las cosas. Sin embargo, en pocas horas
    nuestras máquinas terrestres y aéreas han llegado á requisar todas las
    vacas existentes en un radio de diez millas, como diría usted. Y ahora,
    gentleman, vuelva á tenderse; adopte su primera postura para tomar un
    poco de leche.

    Pero Gillespie estaba pensativo desde mucho antes. Se dispuso á obedecer
    la orden y luego se detuvo para mirar con una expresión interrogante á
    la universitaria.

    –Una palabra nada más, y en seguida me tiendo.

    La doctora le hizo ver con un gesto que estaba dispuesta á escucharle.
    El americano mostró con un dedo los automóviles que le rodeaban, después
    las máquinas aéreas inmóviles en el espacio, y finalmente las esbeltas
    muchachas del casquete alado, armadas con lanzas, arcos y sables.

    –No comprendo, profesora….

    –Llámeme profesor–interrumpió la dama universitaria–. Profesor
    Flimnap.

    –Está bien–continuó el americano–. Digo, profesor Flimnap, que no
    puedo comprender todas esas armas primitivas al lado de tanta máquina
    terrestre y aérea, que me parecen perfectas, y de esa escuadra del Sol
    Naciente de que me ha hablado antes.

    El doctor hembra sonrió con superioridad.

    –Ya le dije que los Hombres-Montañas deben asombrarse cuando nos
    visitan, así como nosotros nos asombrábamos al verles en otros tiempos.
    Hay cosas que no comprenderá usted nunca si no le damos una explicación
    preliminar. Y esta explicación sólo la recibirá usted si los altos
    señores del Consejo Ejecutivo quieren que viva. En cuanto á la
    desproporción entre nuestras armas y nuestras máquinas, no debe usted
    preocuparse de ella. Vivimos organizados como queremos, como á nosotros
    nos conviene.

    El joven no quiso mostrarse vencido por el aire de superioridad con que
    fueron dichas tales palabras, y añadió:

    –Entre los objetos que han sacado de mis bolsillos habrá visto usted
    seguramente una máquina de hierro formada por un tubo largo y un
    cilindro con otros seis tubos más pequeños, dentro de los cuales hay lo
    que llamamos una cápsula, que se compone de una porción de substancia
    explosiva y un pedazo de acero cónico. Tengan mucho cuidado al mover la
    tal máquina, porque es capaz de hacer volar á uno de los navíos de su
    escuadra del Sol Naciente. Con varias máquinas de la misma clase ustedes
    serían mucho más fuertes que lo son ahora.

    La universitaria abandonó el portavoz para reir con una serie da
    carcajadas que le hicieron llevarse las manos á las dos curvas
    superpuestas de su pecho y de su abdomen.

    –¡Cuántas palabras–dijo al extinguirse su risa–, cuántas palabras
    para describirme un revólver! ¡Pero si yo conozco eso tan bien como
    usted!… Las gentes que hoy han visto el suyo (los cargadores y los
    marineros) seguramente que no saben lo que es; pero para nosotros, las
    personas estudiosas, esa máquina del tubo grande y de los seis tubos con
    sus cápsulas explosivas resulta una verdadera antigualla. Además, la
    consideramos repugnante é indigna de todo recuerdo. No intente,
    gentleman, deslumbrarnos con sus descubrimientos. Aquí sabemos más que
    usted. Prescinda da nuevas observaciones y acuéstese prontito á tomar su
    leche.

    El americano tuvo que obedecer, avergonzado de su derrota. Las vacas, en
    fila incesante, subían y bajaban por una dobla rampa situada junto á la
    bomba. Cuando estaban en lo alto, al lado da la boca del receptáculo,
    los siervos forzudos las ordeñaban rápidamente con un aparato, arrojando
    la leche en el interior del enorme vaso de metal. Varios hombres tomaron
    el doble balancín del pistón para subirlo y bajarlo, impeliendo el
    líquido del interior. Mientras tanto, otros de los siervos desnudos
    desarrollaban los flexibles anillos de una manga de riego ajustada á la
    bomba.

    –Abra usted la boca, Gentleman-Montaña–ordenó el profesor hembra.

    Gillespie obedeció, é inmediatamente le introdujeron entre los labios
    una barra de metal ampliamente perforada, de la que surgía un chorro de
    leche más grueso que el brazo musculoso de cualquiera de aquellos
    atletas. Gillespie bebió durante mucho tiempo este hilillo de líquido
    dulzón, algo más claro que la leche de otros países.

    –¿Quiere usted más?–preguntó la traductora–. No tema ser importuno.
    Nuestros agentes continúan en este momento su requisa de vacas por todos
    los distritos inmediatos.

    Pero el gigante se mostraba ahito del amamantamiento por manga de riego,
    é hizo un gesto negativo.

    Volvió á rugir el portavoz dando órdenes, y huyeron las vacas hacia la
    selva, perseguidas por los gritos, las pedradas y los garrotes en alto
    de sus conductores. Desapareció igualmente la máquina que había servido
    el desayuno, y los siervos atletas empezaron á trabajar en torno del
    cuerpo de Gillespie.

    En un momento le libraron de las ligaduras que sujetaban sus muñecas y
    sus tobillos. Al desliarse el enroscamiento de los hilos metálicos, las
    máquinas voladoras tiraron de estos cables sutiles, haciéndolos
    desaparecer. Pero no por esto se alejaron. Las cuatro permanecieron
    inmóviles en el mismo lugar del espacio, como si esperasen órdenes.

    –Gentleman–volvió á decir Flimnap–, ha llegado el momento más difícil
    para mí. Vamos á partir para la capital, y necesito recordarle que la
    continuación de su existencia no es aún cosa segura. Falta saber qué
    opinión formarán de usted las altas personalidades del Consejo
    Ejecutivo. Pero yo tengo cierta confianza, porque el corazón justo y
    fuerte de las mujeres es siempre piadoso con la debilidad y la
    ignorancia del hombre. Además, cuento con la buena impresión que
    producirá su aspecto.

    »Usted es muy feo, gentleman; usted es simplemente horrible. Su piel,
    vista por nuestros ojos, aparece llena de grietas, de hoyos y de
    sinuosidades. Como usted no ha podido afeitarse en dos ó tres días, unas
    cañas negras, redondas y agujereadas empiezan á asomar por los poros de
    su piel, creciendo con la misma rigidez que el hierro. Pero si le miran
    á usted con una lente de disminución, si le ven empequeñecido hasta el
    punto de que se borren tales detalles, reconozco que tiene usted un
    aspecto simpático y hasta se parece á algunas de las esposas de las
    altas personalidades que nos gobiernan. Yo pienso llegar á la capital
    mucho antes que usted, para rogar al Consejo Ejecutivo que le mire con
    lentes de tal clase. Así, su juicio será verdaderamente justo….

    »Y ahora, perdóneme lo que voy á añadir. Yo no figuro en el gobierno; no
    soy mas que un modesto profesor de Universidad. Si de mí dependiese, le
    llevaría hasta la capital sin precaución alguna, como un amigo. Pero el
    gobierno no le conoce á usted y guarda un mal recuerdo de la grosería de
    los Hombres-Montañas que nos visitaron en otros tiempos. Teme que se le
    ocurra durante el camino derribar alguna casa de un puntapié ó aplastar
    á las muchas personas que acudirán á verle. Puede usted perder la
    paciencia; la curiosidad del público es siempre molesta; hay hombres que
    ríen con la ligereza y la verbosidad propias de su sexo frívolo; hay
    niños que arrojan piedras, á pesar de la buena educación que se les da
    en las escuelas. El sexo masculino es así. Por más que se pretenda
    afinarle, conserva siempre un fondo originario de grosería y de
    inconsciencia. En fin, gentleman, tenemos orden de llevarle atado hasta
    nuestra capital, pero marchando por sus propios pies.

    »Nada de fabricar una enorme carreta y de amarrarle sobre ella, siendo
    arrastrado por centenares de caballos. Esto resultaría interminable y
    haría durar su viaje varios días. Además, es indigno de nuestro
    progreso, á pesar de que usted nos cree bárbaros porque hemos querido
    olvidar la existencia de la pólvora. En tres horas llegaremos á la
    capital. Usted podrá marchar á grandes pasos, sin salirse del camino, y
    le escoltarán á gran velocidad nuestras máquinas terrestres y voladoras.
    Pero como nuestros gobernantes no le conocen y temen una humorada como
    las de aquel Hombre-Montaña que se enloquecía bebiendo un líquido
    cáustico, será usted sometido á las siguientes precauciones:

    »Una máquina voladora irá delante, después de haber enroscado un cable á
    su cuello. Otra volará detrás, con su cable amarrado á las dos manos de
    usted cruzadas sobre la espalda. Puede avanzar sin miedo. Los
    tripulantes de nuestros voladores conservarán siempre flojos estos lazos
    metálicos. Pero por si usted intentase (lo que no espero) alguna
    travesura, le advierto que los guerreros del aire tienen orden de dar un
    tirón inmediatamente con toda la fuerza de sus máquinas, y que los tales
    cables metálicos cortan lo mismo que una navaja de afeitar…. Y ahora,
    gentleman, póngase de pie con cierta precaución, para no causar graves
    daños en torno de su persona. Debemos separarnos por unas horas; yo
    marcho delante. Además, la comunicación va á quedar interrumpida entre
    nosotros desde el momento que usted recobra la posición vertical,
    aislándose en su grandeza inútil.

    El ingeniero quiso protestar, algo ofendido por las precauciones á que
    se le sometía.

    –Ni una palabra más–insistió el doctor–. Le advierto que anoche casi
    demolió usted en la obscuridad una de nuestras máquinas voladoras al dar
    un zarpazo en el aire. Faltó poco para que cayese al suelo desde una
    altura enorme, matándose sus tripulantes. Después de esto, reconocerá
    que nuestro gobierno obra prudentemente al no tratarle con una confianza
    ciega.

    Se apartó el vehículo-lechuza, sin que por esto la traductora, dejase de
    dar órdenes á través de su bocina.

    Gillespie, después de convencerse de que no quedaban cerca de él
    personas ni animales á los que pudiera aplastar, empezó á incorporarse.
    Sus piernas, tras una inmovilidad de tantas horas, estaban entumecidas y
    se resistían á obedecerla. Al fin se puso de pie después de largas
    vacilaciones, y al recobrar su posición vertical, los árboles más altos
    quedaron á la altura de su pecho. Todo su busto sobrepasaba la
    centenaria vegetación, y la muchedumbre de enanos, casi invisible bajo
    el ramaje, saludó con un largo rugido la cabeza del gigante al surgir
    ésta por encima del bosque. Podían apreciar ahora la grandeza del
    Hombre-Montaña mejor que cuando le veían tendido en el suelo.

    Los tripulantes de las máquinas voladoras se unieron á esta ovación
    haciendo evolucionar sus quiméricas bestias en torno del rostro de
    Gillespie. Pasaban tan cerca, que éste tuvo que echar atrás su cabeza
    por dos veces, temiendo que le cortase la nariz una de aquellas alas
    escamosas con sus puntas agudas como cuchillos. Las muchachas del
    casquete dorado y larga pluma saludaban con risas los movimientos
    inquietos del gigante. Pero una orden venida de abajo acabó con estos
    juegos, restableciendo el silencio. Todavía la traductora rugió su
    última orden, antes de partir.

    –Gentleman-Montaña, ¡las manos atrás! Gillespie lo hizo así, y, apenas
    hubo cruzado sus manos sobre la espalda, sintió en torno de las muñecas
    algo que parecía vivo y se enrollaba con una prontitud inteligente. Era
    el cable metálico de la máquina que iba á volar detrás de él. Al mismo
    tiempo, otro monstruo del aire descendió con toda confianza al verle con
    las manos sujetas, y quedó flotando cerca de sus ojos.

    Ahora pudo ver bien á sus tripulantes: cuatro jóvenes rubias, esbeltas y
    de aire amuchachado. Gillespie hasta les encontró cierta semejanza con
    miss Margaret Haynes cuando jugaba al _tennis_. Estas amazonas del
    espacio le saludaron con palabras ininteligibles, enviándole besos. Él
    sonrió, y al oir las carcajadas de ellas pudo adivinar que su sonrisa
    debía parecerles horriblemente grotesca. Estos seres pequeños veían todo
    lo suyo ridiculamente agrandado.

    La consideración de su caricaturesca enormidad le puso triste, pero las
    guerreras aéreas volvieron á enviarle besos, como un consuelo, y hasta
    una de ellas dirigió contra su nariz dos rosas que llevaba en el pecho.
    Querían pedirle, sin duda, perdón por lo que iban á hacer con él
    cumpliendo órdenes superiores.

    Del fondo de la máquina voladora partió, silbando, un hilo plateado,
    que, después de dar varias vueltas en el aire como una serpiente
    delgadísima, se metió por la cabeza de Gillespie, no parando hasta sus
    hombros. El ingeniero se sintió cogido lo mismo que las reses de las
    praderas americanas á las que echan el lazo. Un pequeño alejamiento del
    avión, que tenía la forma y los colores de un lagarto alado, estrechó en
    torno del cuello de Edwin el cable metálico.

    Bajando sus ojos pudo examinarlo de cerca. Parecía hecho de un platino
    flexible y era inútil todo intento de romperlo. Por el contrario, un
    movimiento violento bastaría para que se introdujese en su carne lo
    mismo que una navaja de afeitar, como había dicho el profesor hembra.

    Las tripulantes del lagarto aéreo tiraron ligeramente de este hilo
    metálico, y Gillespie, comprendiendo el aviso, dió el primer paso.
    Ningún obstáculo terrestre se oponía á su marcha. La pradera estaba
    ahora limpia de gente, lo mismo que los linderos del bosque. Todas las
    máquinas rodantes, así como las tropas de á pie y á caballo, habían
    abierto la marcha, empujando á la muchedumbre para que se apartase del
    camino.

    Guiado por la máquina voladora que iba delante y dirigido igualmente por
    la máquina de atrás, que funcionaba á modo de timón, Gillespie sólo
    tenía que fijarse en el suelo para ver dónde colocaba sus pies.

    Empezó á marchar por un camino de gran anchura para aquellos seres
    diminutos, pero que á él le pareció no mayor que un sendero de jardín.
    Durante media hora avanzaron entre bosques; luego salieron á inmensas
    llanuras cultivadas, y pudo ver cómo se iba desarrollando delante de él,
    á una gran distancia, la vanguardia de su cortejo, compuesta de máquinas
    rodantes y pelotones de jinetes. A su espalda levantaban una segunda
    nube de polvo las tropas de retaguardia, encargadas de contener á los
    curiosos.

    Sólo algunos audaces, contraviniendo las órdenes, se atrevían á llegar á
    los bordes del camino. En torno de los pueblos de agricultores hervía el
    vecindario, gritando y agitando sus gorras al pasar el gigante. Su
    estatura permitía que lo viesen á larguísimas distancias.

    Le obligaron á marchar sin descanso, porque el Consejo Ejecutivo deseaba
    conocerle antes de que anocheciese. A las dos horas distinguió por
    encima de una sucesión de gibas del camino, penosamente remontadas por
    la vanguardia del cortejo, una especie de nube blanca que se mantenía á
    ras de tierra.

    Estaba envuelta en el temblor vaporoso de los objetos indeterminados por
    la distancia. Sólo él podía abarcar con su mirada una extensión tan
    enorme. Los tripulantes del lagarto volador examinaban la misma nube,
    pero con el auxilio de aparatos ópticos.

    Una de las amazonas aéreas le gritó algunas palabras en su idioma, al
    mismo tiempo que señalaba con un dedo la remota mancha blanca. El
    gigante le contestó con una sonrisa indicadora de su comprensión.

    A partir de este momento la nube fué tomando para él contornos fijos.
    Salieron poco á poco de la vaporosa vaguedad grandes palacios blancos,
    torres con cúpulas brillantes, toda una metrópoli altísima, en la que
    los edificios parecían de proporciones desmesuradas, sin duda porque sus
    pequeños habitantes, por la ley del contraste, sentían el ansia de lo
    enorme.

    Esta capital de la República de los pigmeos se llamaba Mildendo en otros
    tiempos. ¿Cómo se titularía en el presente, después de haber ocurrido lo
    que el profesor Flimnap llamaba la Verdadera Revolución?…

    IV

    Las riquezas del Hombre-Montaña

    El antiguo palacio imperial, construído por los soberanos de la
    penúltima dinastía, ocupaba el centro de la ciudad y era la residencia
    de los altos señores del Consejo Ejecutivo.

    Incendiado repetidas veces en el curso de los siglos y bombardeado
    durante las guerras, había sufrido numerosas reconstrucciones; pero la
    más grande y vistosa databa de pocos años después de la Verdadera
    Revolución, suceso que había iniciado un nuevo período histórico. Los
    cinco señores del Consejo Ejecutivo vivían en el centro del palacio; en
    una ala estaba la Cámara de diputados, y en la opuesta, el Senado.

    A la mañana siguiente de la entrada de Edwin en la capital, este
    palacio, que era como el corazón de la República, reanudó su vida más
    temprano que en los días anteriores. Fueron llegando los altos empleados
    del gobierno y casi todos los diputados y senadores, á pesar de que las
    sesiones parlamentarias sólo empezaban á celebrarse después de mediodía.

    En sus inmediaciones se aglomeró una muchedumbre de curiosos para ver
    cómo centenares de siervos, con la ayuda de varias grúas, iban
    descargando de una fila de camiones-automóviles enormes y misteriosos
    objetos, cuya aparición era saludada con largos murmullos de asombro.
    Todo el pueblo recordaba el espectáculo extraordinario de la tarde
    anterior, cuando llegó el Hombre-Montaña á los alrededores de la ciudad.
    El Consejo Ejecutivo había determinado darle alojamiento en la antigua
    Galería de la Industria, recuerdo de una Exposición universal celebrada
    diez años antes.

    Esta Galería era la obra más audaz y sólida que habían realizado los
    ingenieros del país. El Hombre-Montaña iba á pasearse por dentro de ella
    sin que su cabeza tocase el techo. Diez gigantes de su misma estatura
    podían acostarse en hilera de un extremo á otro de la grandiosa
    construcción. Su ancho equivalía á cuatro veces la longitud del coloso.

    Situada sobre una altura vecina á la ciudad, el prisionero podía
    contemplar, sin moverse de su alojamiento, toda la grandiosa metrópoli
    extendida á su pies, así como el puerto con sus numerosos navíos al
    ancla y los campos y pueblecillos cercanos, llegando con su vista hasta
    la cordillera que cerraba el horizonte, en la que había cumbres de
    ciento ochenta metros, solamente exploradas por algunos sabios capaces
    de morir como héroes al servicio de la ciencia.

    Una fuerte guardia impedía que los curiosos subiesen hasta la vivienda
    del gigante, donde se estaban realizando grandes trabajos para su cómoda
    instalación. El público, ya que no podía verle, concentraba su
    curiosidad en todo lo que era de su pertenencia, y por esto desde el
    amanecer se aglomeró en torno del palacio del gobierno para contemplar
    la llegada de los objetos extraídos del navío del Hombre-Montaña, que
    los buques de la escuadra del Sol Naciente habían remolcado el día
    anterior.

    Sólo los amigos del gobierno y los personajes oficiales tenían permiso
    para entrar en el palacio y ver de cerca tales maravillas. El enorme
    patio central, donde podían formarse á la vez varios regimientos y en el
    que se desarrollaban las más solemnes ceremonias patrióticas, fué el
    lugar destinado para tal exhibición. Mientras llegaba el momento, los
    invitados entraban á saludar á los altos y poderosos señores del Consejo
    Ejecutivo y á los dos presidentes de la Cámara de diputados y del
    Senado, que vivían igualmente en el inmenso edificio.

    Los guerreros de la Guardia gubernamental, hermosas amazonas de aire
    desenvuelto y gallardo, defendían el acceso á las habitaciones
    reservadas ó se paseaban en grupos por el patio al quedar libres de
    servicio. Estos militares privilegiados, que gozaban la categoría de
    oficiales, pertenecían á las primeras familias de la capital. Iban
    vestidos de la garganta á los pies con un traje muy ceñido y cubierto de
    escamas de plata. Su casquete, del mismo metal, estaba rematado por un
    ave quimérica. Apoyaban la mano izquierda en la empuñadura de su espada,
    mirando á todas partes con una insolencia de vencedores, ó se inclinaban
    galantemente ante las familias de los altos personajes que iban llegando
    para la ceremonia. Algunas mamás, severas y malhumoradas, encontraban
    atrevida la expresión de sus ojos. Otras matronas, cuya barba empezaba á
    poblarse de canas, quedaban pensativas y melancólicas á la vista de
    estos hermosos guerreros, que parecían despertar sus recuerdos. Las
    señoritas que ya estaban en edad de afeitarse fingían rubor ante sus
    miradas audaces; pero las que no se veían objeto de la belicosa
    admiración se mostraban nerviosas, envidiando á sus compañeras.

    Pasó por entre estos guerreros, con toda la austeridad de su carácter
    universitario y sus opiniones antimilitaristas, el profesor Flimnap. La
    inesperada aparición del Gentleman-Montaña había dado una importancia
    extraordinaria á la traductora de inglés. En unas cuantas horas se había
    convertido en el personaje más interesante de la República. El gobierno
    le llamaba para conocer sus opiniones; el rector de la primera de las
    universidades, que hasta entonces le había considerado como un triste
    catedrático de una lengua muerta y de problemática utilidad, se dignaba
    sonreirle, y hasta en la noche anterior, después del recibimiento del
    Hombre-Montaña, lo había invitado á cenar para que en presencia de su
    familia contase todo lo ocurrido.

    Los periodistas de la capital iban detrás de él pidiéndole interviús, y
    hasta lo adulaban, hablando con entusiasmo de varios libros
    profesionales que llevaba publicados y nadie había leído. Personas que
    le miraban siempre con menosprecio hacían detener en la calle su
    automóvil universitario en figura de lechuza.

    –Mi querido profesor Flimnap–gritaban–, siempre he sentido una gran
    admiración por su sabiduría y soy de los que creen que la patria no le
    ha dado hasta ahora todo lo que merece por su gran talento. Cuénteme
    algo del Hombre-Montaña. ¿Es cierto que se alimenta con carne humana,
    como van diciendo por ahí los hombres en sus charlas y chismorreos?…

    Pero el profesor Flimnap tenía demasiado que hacer para detenerse á
    contestar las preguntas de las ciudadanas curiosas. Apenas había dormido
    en la noche anterior. Después de su cena con el jefe supremo de la
    Universidad se trasladó á la Galería de la Industria para convencerse de
    que el Gentleman-Montaña podía dormir provisionalmente sobre trescientas
    cuarenta y dos carretadas de paja que la Administración del ejército
    había facilitado á última hora. Poco después de amanecer ya estaba en
    pie el buen profesor, conferenciando con todos sus compañeros del
    _Comité de recibimiento del Hombre-Montaña._ Estos, divididos en varias
    subcomisiones, iban á dirigir á quinientos carpinteros encargados de
    fabricar, antes de que llegase la noche, una mesa y una silla apropiadas
    á las dimensiones del gigante, y á una tropa igualmente numerosa de
    colchoneros, que en el mismo espacio de tiempo fabricarían una cama
    digna del recién llegado.

    El profesor Flimnap se proponía entrar ahora en las habitaciones
    particulares de uno de los altos señores del Consejo Ejecutivo, que
    momentáneamente era el presidente del supremo organismo. Cada uno de los
    cinco individuos del Consejo lo presidía durante un mes, cediendo su
    sillón al compañero á quien tocaba el turno.

    Estos cinco gobernantes eran mujeres, así como todos los que
    desempeñaban un cargo en la Administración pública, en la Universidad,
    en la industria ó en los cuerpos armados. Pero como durante los luengos
    siglos de tiranía varonil todos los cargos y todas las funciones dignas
    de respeto habían sido designadas masculinamente, la Verdadera
    Revolución creyó necesario después de su victoria conservar las antiguas
    denominaciones gramaticales, cambiando únicamente el sexo á que se
    aplicaban. Así, las cinco damas encargadas del gobierno eran denominadas
    «los altos y poderosos señores del Consejo Ejecutivo», y las otras
    mujeres directoras de la Administración pública se titulaban
    «ministros», «senadores», «diputados», etc. Por eso Flimnap había
    protestado al oir que el gigante le llamaba profesora en vez de
    profesor. En cambio, los hombres, derribados de su antiguo despotismo y
    sometidos á la esclavitud dulce y cariñosa que merece el sexo débil,
    eran dentro de su casa la «esposa» ó la «hija», y en la vida exterior,
    la «señora» ó la «señorita».

    Flimnap había creído necesario, teniendo en cuenta su nueva importancia
    oficial, llevar bajo el brazo una gran cartera de cuero, semejante á la
    que ostentaban los altos funcionarios del Estado cuando iban á despachar
    con los señores del Consejo Ejecutivo. En esta cartera guardaba las
    actas de las tres sesiones que había celebrado el _Comité de
    recibimiento del Hombre-Montaña,_ así como los presupuestos de gastos,
    presentes y futuros, para la manutención de tan costoso huésped. Además
    llevaba una traducción, en idioma del país, que había hecho de los
    versos escritos por el Gentleman-Montaña en su cuaderno de notas.

    El buen profesor Flimnap estaba inquieto por la suerte de su protegido.
    Gillespie le inspiraba un interés que jamás había experimentado por
    ningún hombre de su propia tierra. Dedicado por completo á los trabajos
    lingüísticos é históricos, solamente había tratado con mujeres, y éstas
    eran todas profesores malhumorados y de austeras costumbres. Sentía una
    temblorosa timidez siempre que el rector le invitaba á alguna de sus
    tertulias, donde había hombres jóvenes en edad de casamiento, ansiosos
    de que alguien los sacase á bailar ó que entonaban romanzas
    sentimentales acompañándose con el arpa.

    Además, en su afecto sincero por el recién llegado había algo de
    egoísmo. Gracias al Gentleman-Montaña, acababa de conocer
    instantáneamente todas las dulzuras de la celebridad, siendo el
    personaje más popular de la República en los presentes momentos. Después
    de la fama de Gillespie venía la suya. ¡Qué derrumbamiento tan doloroso
    en la sombra si el gobierno acordaba la muerte de su gigante!…

    La tarde anterior había corrido hacia la capital á toda velocidad del
    automóvil-lechuza, prestado por su jefe el rector. Los altos señores del
    gobierno estaban sobre un estrado junto al camino para ver llegar al
    prisionero, teniendo á sus espaldas todo el vecindario de la capital, un
    gentío tan enorme que se perdía de vista. Estos poderosos personajes lo
    recibieron con grandes muestras de consideración que no correspondían á
    su humilde rango de profesor. El les hizo los mayores elogios de la
    intelectualidad del gentleman gigantesco, declarándole distinto á todos
    los colosos llegados antes al país. Insinuó la conveniencia de guardarlo
    por mucho tiempo, hasta saber, gracias á su cultura, los adelantos
    realizados en el mundo de los hombres monstruosos, y copiar lo que
    resultase aprovechable, si es que realmente había algo digno de
    imitación, lo que le parecía algo problemático.

  • El Diablo Cojuelo

    El Diablo Cojuelo

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    EL DIABLO COJUELO

    Luis Vélez de Guevara

    CLÁSICOS CASTELLANOS

    EL DIABLO COJUELO

    Luis Vélez de Guevara

    PRÓLOGO Y NOTAS DE FRANCISCO RODRÍGUEZ MARÍN

    1922

    A LA GRATA MEMORIA DEL INGENIOSÍSIMO
    ESCRITOR HISPALENSE DON FELIPE PÉREZ Y GONZÁLEZ,
    MI LEAL AMIGO DESDE LOS TAN REGOCIJADOS
    COMO FUGACES AÑOS DE LA MOCEDAD.

    _FRANCISCO RODRÍGUEZ MARÍN_

    PRÓLOGO

    Luis Vélez de Guevara–como dije en otra ocasión[1]–fué tan pobre, que
    bien puede dudarse si en algún tiempo de su vida llegó a tener dos
    trajes en mediano uso; pero, en cambio, a los doscientos y mas años de
    su muerte tiene dos biografías diversas: la que le inventaron algunos
    escritores, que es la mas conocida[2], y la que despacio y a retazuelos,
    como de limosna, pero sólidamente, le vamos escribiendo algunos
    investigadores de nuestra historia literaria[3].

    Según la primera de entrambas biografías, Vélez nació en Ecija por enero
    de 1570, estudió Leyes en la Universidad de Sevilla y vino a ejercer su
    profesión a la Corte, en donde muy luego ganó estimación y fama por su
    sagacidad, gracejo y elocuencia. Defendiendo a cierto criminal captó a
    los jueces con su donaire; pero como el fiscal apelase de la benigna
    sentencia dictada, el reo fué condenado a muerte, y Luis Vélez a pagar
    una multa. Tuvo noticia de ello el Rey, y cuando conversó con el festivo
    abogado prendóse tanto de él, que no sólo le perdonó la multa, y la
    vida al delincuente, sino que, además, ya no pudo pasar sin el trato de
    Vélez de Guevara, a quien protegió sobremanera.

    Esto fué lo que suele llamarse hablar de memoria, porque en todo el
    relato no hay otra cosa verdadera que lo de ser Ecija la patria del
    escritor. Y lo realmente sucedido y cierto es, en este caso como en
    otros muchos, menos bello y agradable que la mentira. Véamoslo.

    Luis Vélez de Guevara nació en Ecija, a fines de julio de 1579, de
    padres hidalgos, pero pobres[4]: sabido es que la hidalguía y la
    pobreza casi siempre anduvieron juntas[5]. Estudió la Gramática en su
    ciudad natal, y por julio de 1596 se graduó de bachiller en Artes en la
    Universidad de Osuna, eximiéndose por pobre de pagar los derechos
    académicos[6]. Seguidamente entró a servir como paje a don Rodrigo de
    Castro, cardenal arzobispo de Sevilla, a quien acompañó en el viaje que
    hizo a Madrid y a Valencia para asistir en las bodas de Felipe III y
    doña Margarita de Austria, de las cuales y de sus esplendorosas fiestas
    trató el poeta adolescente en un poemita que hizo imprimir en Sevilla, a
    su regreso[7].

    Murió el Cardenal en septiembre de 1600; pero a esta sazón no perduraba
    Vélez en su palacio, pues, ya harto talludo para paje, dos meses antes
    había dejado su empleo, a fin de abrazar la profesión de las armas. Él,
    en un memorial dirigido al Rey, dijo haber permanecido seis años en la
    milicia[8]; pero que exageró en cuanto a la duración de su vida
    soldadesca demuéstrase con otras palabras suyas, porque él mismo, muchos
    años antes, había declarado que en el estío de 1603 estaba en
    Valladolid, y en tal declaración, prestada en Sevilla a 26 de mayo de
    1604 e inédita hasta ahora, llamábase nuestro poeta, sin mencionar para
    cosa alguna la cualidad de soldado, «vecino al presente en esta ciudad,
    en la collación de Santa Marina»[9].

    Ya apellidándose Vélez de Guevara, en lugar de Vélez de Santander, como
    se había llamado hasta poco antes[10], escribió y publicó en 1608 un
    nuevo opúsculo poético intitulado _Elogio del Ivramento del sereníssimo
    Príncipe don Felipe Domingo, Quarto deste nombre_, y en la portada de
    esta obrita se decía criado del Conde de Saldaña. Había entrado, en
    efecto, a su servicio como gentilhombre antes o poco después de enviudar
    de su primer matrimonio: del primero de los cuatro con que probó su
    grande afición a este santo sacramento[11].

    Para sus nuevas nupcias con doña Úrsula Ramisi Bravo de Laguna[12], el
    mencionado Conde le hizo donación de cuatrocientos ducados, amén de
    señalarle una pensión anual vitalicia de otros doscientos; pero estas
    larguezas de los grandes de antaño eran comúnmente más nominales que
    efectivas, porque a la hora de cobrar–tan endeudados andaban de
    ordinario–solían desvanecerse como el humo. Y en 1618, fallecida su
    segunda mujer, que le dejó, amén de algún otro hijo, a Juan, sucesor de
    su padre en la profesión y en el ingenio[13], nuestro escritor contrajo
    nuevo matrimonio, que la muerte había de romper antes que pasaran dos
    años, con doña Ana María del Valle[14]; y dejando la casa del conde de
    Saldaña, pasó a la del marqués de Peñafiel, manirroto primogénito del
    gran duque de Osuna, a cuyo servicio estuvo, asimismo como gentilhombre,
    cerca de un bienio[15].

    Los continuos apuros, la perdurable indigencia y la negra fortuna de
    Luis Vélez de Guevara en los años de 1622 y siguientes están pintados de
    mano maestra por él mismo en cinco memoriales en verso que salieron a
    luz pocos años ha[16]. Ora pretende un humilde puesto en la servidumbre
    del cardenal e infante don Fernando; ora, ya frustrado este propósito,
    logra en 1623 la efímera portería de cámara del Príncipe de Gales,
    nuestro huésped; ya, en 1624, obtiene, después de grande esfuerzo, la
    también harto breve mayordomía del archiduque Carlos, muerto aún no
    transcurrido un mes desde su llegada a Madrid, y más adelante solicita
    infructuosamente del Rey, alegando sus méritos y servicios y la nobleza
    de su linaje, una plaza de ayuda de su guardarropa. Al cabo, este hombre
    celebrado y aplaudido de todos por sus excelentes comedias, a la par que
    por su deliciosa y amenísima conversación, aludiendo a la cual había
    escrito Cervantes:

    «Topé a Luis Vélez, _honra y alegría
    y discreción del trato cortesano_,
    y abracéle en la calle a medio día»,

    consiguió en 1625 entrar definitivamente en la servidumbre de Palacio,
    ocupando una plaza de ujier de cámara de Su Majestad. Pero esto, que
    parecía algo, era muy poco, salvo en lo honorífico, pues no tuvo
    señalada ración, y hasta el año de 1635, en que el infortunado poeta
    entró en gajes[17], siguió condenado a vivir de lo poco que entonces
    producían las obras dramáticas[18] y de lo que pedía a sus amigos; tanto
    fué así, que se hicieron proverbiales su extremada pobreza y sus donosas
    esquelas petitorias, casi siempre en verso.[19]

    Como si compartiendo la escasez de recursos se cupiese a menos porción
    de ella, Vélez se casó aún por cuarta vez, en 1626, con una viuda
    llamada doña María López de Palacios,[20] bien que ésta aportó a su
    nuevo enlace algunos bienes; mas pronto fueron vendidos, y juntos y
    procreando y criando algunos hijos, vivieron entrambos cónyuges en
    cristiana estrecheza, hasta el día 9 de noviembre de 1644, en que
    falleció el donairoso autor de tantos primores literarios[21]. Su
    testamento, otorgado cuatro días antes, contiene una larga lista de
    pequeñas deudas. Al comienzo de este documento consignó: «Iten, declaro
    que por el presente estoy muy alcançado y necesitado de hacienda, para
    poder disponer y dejar las misas que yo quisiera por mi alma».[22]

    Vélez de Guevara fué celebradísimo de sus contemporáneos, así por la
    amenidad de su trato, que le ganaba amigos en todas partes, como por su
    facundia poética y su florido e inagotable ingenio. Claramonte llamábale
    en 1613, en el _Inquiridion_ que va al fin de su _Letanía moral_,
    «floridissimo ingenio de Ezija, de quien esperamos grandes escritos y
    trabajos, y a hecho hasta oy muchas famosas comedias». Cervantes no le
    elogió menos en estos dos tercetos del cap. II de su _Viage del Parnaso_
    (1614):

    «Este que es escogido entre millares,
    de Gueuara Luys Vélez es el brauo,
    que se puede llamar quita pesares.

    Es Poeta Gigante, en quien alauo
    el verso numeroso, el peregrino
    ingenio, si vn Gnaton nos pinta, o vn Dauo.»

    Lope de Vega le ensalzó dos veces, en sendas epístolas de _La Filomena,
    con otras diversas Rimas, Prosas y Versos_ (1621):

    «Aquí de Valdivielso el santo empleo,
    De Luis Vélez, florido y elocuente,
    La lira que ya fué del dulce Orfeo.»

    «…Y el famoso Luis Vélez, que tenía
    En éxtasis las Musas, que a sus labios
    Iban por dulce néctar y ambrosía.»

    Y aun volvió a loarle en la silva II de su _Laurel de Apolo_, publicado
    en 1630:

    «Ni en Écija dejara
    el florido Luis Vélez de Guevara
    de ser su nuevo Apolo,
    que pudo darle solo,
    y sólo en sus escritos,
    con flores de conceptos infinitos,
    lo que los tres que faltan:
    así sus versos de oro
    con blando estilo la materia esmaltan.»

    ¿Para qué seguir transcribiendo frases laudatorias? Baste recordar muy
    resumidamente que Tamayo de Vargas (1622) ponderó su donaire; y don
    Fernando de Vera y Mendoza (1627) le llamó «el Rey de Romanos»; y Pérez
    de Montalván (1632) encareció los «pensamientos sutiles, arrojamientos
    poéticos y versos excelentísimos y bizarros» de sus comedias; y Salas
    Barbadillo (1635) afirmó que «en el Parnaso no se conocen otras salinas
    sino las de su felicissimo ingenio»….

    El insigne poeta ecijano, hoy más famoso por su novela intitulada _El
    Diablo Cojuelo_, aún muy leída, que por sus obras teatrales,
    desterradas, como todas las antiguas, de la escena actual,
    principalmente por falta de buenos cómicos y consiguiente carencia de
    buenas compañías, escribió más de cuatrocientas comedias, de las cuales
    ha llegado hasta nosotros un centenar escaso. Por éstas se le puede
    diputar, si no como autor de señaladísima personalidad literaria, a lo
    menos, como uno de los más aventajados discípulos de Lope de Vega, cuyas
    huellas siguió tan constante y acertadamente, que a las veces se hace
    harto difícil diferenciarlos. Tal sucede, verbigracia, con la comedia
    intitulada _Los Novios de Hornachuelos_, que pasa comúnmente por obra de
    Lope; pero hay alguna indicación antigua que la atribuye a Vélez de
    Guevara, y, leída y estudiada, quédase perplejo el entendimiento más
    avisado, sin resolverse a adjudicarla con cabal certeza a ninguno de
    entrambos ingenios. La misma grande semejanza con las de Lope se echa de
    ver en todas las comedias del poeta ecijano: las fuentes, unas; iguales
    los procedimientos; igualmente rica la dicción; análogo el nervio en lo
    dramático; parecidísimas las gracias en lo festivo, e idéntica en ambos
    la propensión a avalorar lo propio entreverándolo con todos los
    elementos del _folklore_ nacional; aquí, con la conseja vulgar y la
    tradición legendaria; allá, con el refrán hábilmente desleído y glosado
    en cuatro o seis versos; acullá, con la vieja cancioncilla histórica,
    que siempre, por lo grata, parece nueva a los oídos españoles; y en otro
    lado, en fin, con el sabroso cuentecillo popular, picante sin demasía.

    De _El Diablo Cojuelo_, única de las obras de Vélez que ha conservado
    para su nombre alguna parte de la amplia popularidad que disfrutó en
    vida, se han hecho en nuestros días, amén de tal cual edición corriente,
    dos eruditas y anotadas. Ambas se deben a la vasta cultura y harto
    probada laboriosidad de don Adolfo Bonilla y San Martín, ventajosamente
    conocido en el campo literario y en el filosófico. Enderezando un
    antiguo entuerto que se había hecho a Vélez de Guevara con interpretarle
    desaforadamente[23], publicó la primera de estas dos ediciones (Vigo,
    1902); pero como mi antiguo camarada y docto amigo don Felipe Pérez y
    González, cuyo felicísimo ingenio estaba emparentado muy de cerca, a
    pesar de los siglos que se habían puesto en medio, con el del donairoso
    ecijano, juntase burla burlando, artículo por artículo, en _La
    Ilustración Española y Americana_, para formar un libro muy interesante
    y ameno, que sacó a luz en 1903 bajo el título de _El Diablo Cojuelo:
    notas y comentarios_, libro en el cual patentizó algunos errores de las
    notas del señor Bonilla, éste, en 1910, año en que tras cruelísima
    enfermedad pasó a mejor vida su festivo, pero amable corrector–que no
    sin fundamento había usado en su mocedad el seudónimo de _Urbano
    Cortés_–, dió a la estampa en Madrid una nueva edición de la obrita de
    Vélez, mejoradas las notas y reconocido con nobleza el valioso auxilio
    que para ello le había prestado el tan culto como donairoso escritor
    hispalense[24].

    Pero, aun así, _El Diablo Cojuelo_ ¿se había hecho del todo accesible a
    la inteligencia de los lectores medianamente ilustrados de nuestros
    días? Aun rectificadas en su segunda edición, ¿bastan las notas del
    señor Bonilla para ahorrar tropiezos, en muchos lugares de la novela,
    hasta a los lectores más avisados e instruidos? A estas preguntas, que
    algunos aficionados a las letras nos hacíamos, respondió, como si
    estuviera en nuestro pensamiento, don Enrique Nercasseau y Morán, en su
    discurso de recepción leído ante la Academia Chilena, correspondiente de
    la Española, el día 21 de noviembre de 1915[25]: «La novela toda de
    Vélez de Guevara–dijo–es una sátira cortés de la sociedad de su
    tiempo, felicísima en la mayor parte de sus cuadros, y no afeada por la
    licencia y crudeza tan comunes en las novelas de la época. _El Diablo
    Cojuelo_ sería una narración clásica de primer orden, y aun leíble hoy
    día, si no la deslustrara el conceptismo, y si no se hallara
    sobreabundante en equívocos y frases convencionales de difícil o
    imposible comprensión en nuestra era. Aun después del trabajo llevado a
    cabo por don Adolfo Bonilla y San Martín en su edición de Madrid de
    1910, la novela de Vélez de Guevara queda aguardando un comentario que
    la explique y la ponga al alcance general.» Ese comentario que el señor
    Nercasseau echaba de menos es el que, con temeridad que no puede buscar
    disculpa en la inexperiencia de los pocos años, he intentado en la
    presente edición. ¿Habré conseguido darle cima? Nuestro señor el público
    lo dirá: a su inapelable fallo me someto gustoso.

    En las aprobaciones insertas en la edición príncipe de _El Diablo
    Cojuelo_ elogiaron esta novela fray Diego Niseno, padre basilio, y fray
    Juan Ponce de León, de la orden de los Mínimos. En sentir del primero,
    la obrita contiene «muchas cosas de mucha moralidad y enseñança,
    escritas con la sazón y variedad que de tal ingenio se podían esperar.
    Merece–añadió–la licencia que pide, porque este linage de escritos es
    difícil de enquadernar con lo honesto y recatado de nuestras christianas
    leyes, y Luis Vélez ha sido en éste gloriosa excepción desta vniuersal
    dolencia.» Más extremado es el parecer del segundo, que encarece el
    sazonado gusto de Vélez, «por auer puesto la naturaleza en su ingenio la
    elegancia del estilo, la suabidad del dezir, la aduertencia en el
    colocar, la atenta circunspección en las palabras, y todo con tal modo,
    que dexa suspensa la razón sobre a qual de estas partes se deba con más
    justificación la primacia: en todo este discurso se corre la cortina a
    los conocidos engaños deste mundo, de modo que, para penetrarlos con
    sutileza, no necesita nuestra Nación de salir de sus estendidos límites,
    pues dentro de sí cría sugetos que, aun en sueños y burlas, la dexan
    superiormente ilustrada». Diametralmente opuesta a estas opiniones fué
    la de Francisco Santos, pues dijo en _El Arca de Noé y Campana de
    Belilla_[26]: «Tocó la Campana y desaparecieron todos los Autores de
    viejo, siguiéndolos vno que avia venido tarde, y también llevava vn
    libro en las manos, que preguntando a Noe quién era, me dixo: el libro
    se intitula el Diablo Cojuelo, Aventuras de Don Cleofas Leandro Perez
    Zambullo, digno de que le consumiera vn Polvorista: está sin enseñança
    buena, ni moralidad, y esto, sobre acabar como la nieve….» «Ni tanto,
    ni tan poco», podría haberse dicho a los tres censores, porque, en
    realidad de verdad, la novelita de Vélez de Guevara, que se muestra en
    ella como un buen discípulo de Quevedo, de cuyas obras cómicas y
    satíricas tiene reminiscencias muy frecuentes, sin ser una maravilla, es
    de agradable lectura, y más lo fuera sin la pesada y adulatoria
    enumeración de todo aquel inacabable señorío que el autor, en el tranco
    VIII, hace pasar por el espejo de Rufina María, dispuesto _ad hoc_ por
    el redomado desenredomado.

    En la visión, que pudiéramos llamar cinematográfica, de los diez trancos
    o capítulos en que está dividido _El Diablo Cojuelo_, cada uno sabe a
    cosa diferente de los demás: son cuadros distintos e independientes
    entre sí, que no tienen de común sino la intervención, o la presencia
    cuando menos, de los dos héroes de la novela. El tranco II, verbigracia,
    en que entrambos, desde el capitel de la torre de San Salvador,
    descubierta «la carne del pastelón de Madrid», otean después de la media
    noche cuanto sucede en la coronada villa, trae a la memoria, por la
    traza y manera, como indiqué en las notas de mi edición crítica del
    _Quijote_[27], aquella inspección que desde la torre de la Giralda de
    Sevilla, y acompañado asimismo de un _cicerone_, el maestro Desengaño,
    había hecho Rodrigo Fernández de Ribera, autor de _Los Antoios de meior
    vista_[28]. El desaforado poeta del tranco IV es pariente propincuo de
    otros dos muy conocidos en nuestra literatura: el del _Coloquio de los
    Perros_, de Cervantes, y el de la _Vida del Buscón,_ de Quevedo. A hacer
    entretenida y agradable la lectura de _El Diablo Cojuelo_ contribuyen
    con lo ingenioso de la invención la interesante variedad de las escenas,
    la soltura y viveza del diálogo, y, especialmente, el chispeante gracejo
    de Vélez de Guevara. En cambio, la elocución suele ser descuidadilla,
    entre otras cosas, por la excesiva abundancia de gerundios.

    Del Diablo Cojuelo, entremetido espíritu infernal que da nombre y ser a
    la novela, trató el señor Bonilla en una breve nota. Mucho más merecía
    el que «trujo al mundo la zarabanda, el déligo y la chacona», y yo he de
    volver hoy por su negra honrilla, recordando la mucha familiaridad que
    nosotros los españoles hemos tenido con él. Háyase de llamar Renfas, o
    Asmodeo, o de otro cualquier modo, es lo cierto que este travieso
    diablillo, con parecer de menor cuantía y ser cojo por añadidura, tomó
    entre nosotros tal importancia, que nada malo se pudo hacer sin él. «_El
    Diablillo Cojo_ sabe más que el otro», enseñó el refrán, y cuando en el
    calor de la ira se dijo a alguno que le llevase el diablo, no faltó
    quien, rectificando festivamente, respondiera: «_El Diablo Cojuelo_, que
    es más ligero». En las fórmulas supersticiosas llevábanle y traíanle
    como un zarandillo nuestras hechiceras de los siglos XVI y XVII, para
    que les llevase y trajese sus galanes y paniaguados, y le daban prisa,
    y le adulaban celebrando su ligereza. Véanse algunos ejemplos. Doña
    Antonia Mexía declaró, entre otras cosas, en un proceso que se le siguió
    por los años de 1633[29]: «Que habrá seis años que la dicha Beatriz dixo
    a ésta que tomase un pedernal y le pusiese la mano encima y dixese:

    Estos cinco dedos pongo en este muro;
    cinco demonios conjuro:
    a Barrabás, a Satanás,
    a Lucifer, a Bercebú,
    _al Diablo Cojuelo,
    que es buen mensajero_,
    que me traigan a fulano luego
    a mi querer y a mi mandar.»

    Y así, en 1668, Agueda Rodríguez, vecina de Madridejos, también
    procesada por hechicería[30]:

    «…_Diablo Cojuelo,
    tráemele luego_;
    diablo del pozo,
    tráemele, que no es casado; que es mozo;
    diablo de la Quintería,
    tráemele en la fería;
    diablo de la plaza,
    tráemele en danza….»

    Teníase al Diablo Cojuelo, como dice el refrán, por el más listo de
    todos: Esperanza Bonfilla, procesada por la Inquisición de Valencia en
    1600, hizo que cierta mujer, para atraer a un hombre, «hiciese vn
    conjuro en la forma siguiente: tomando vna escoba, la puso vna toca como
    muger, y encendida vna bela que no fuese bendita, se arrodilló delante
    de la escoba, y sin haçer cruz, juntas las manos, dixo:

    Marta, Martica,
    no la santa ni la digna,
    ni la digna de rogar,
    ni la que está en el altar,
    sino la que de noche andas por las beredas
    y los días por las encrebelladas,
    yo te conjuro con Satanás y con Barrabás,
    con Bercebú y todos los diablos,
    _y con el diablo coxo,
    que corre mas que todos_,
    que todos vais a fulano
    y le deis tiempo para vestirse
    y le traigais por puntos ante mí y mis ojos,
    sin hacerle mal»[31].

    Corría más, y tenía más poder que sus iguales y superiores, o no supo lo
    que se pescaba Isabel del Pozo al hacer sus conjuros, ni María
    Castellanos cuando lo declaró ante la Inquisición de Toledo en 1631[32],
    pues decía: «… que tomó en las manos dicha Isabel del Poço un poco de
    sal de sardinas y çilantro, lo qual mezcló todo y lo echaba de una mano
    en otra diciendo:

    Conjúrote, sal y çilantro,
    con Barrabás,
    _con el Diablo cojuelo, que puede más._
    No te conjuro por sal y çilantro,
    sino por el corazón de fulano;

    y echando la sal y çilantro en la lumbre, proseguía diciendo:

    Así como te has de quemar,
    se queme el corazón de fulano,
    y aquí me le traygas,
    y conjúrote por la reina Sardineta,
    y con la tataranieta,
    y con los navegantes que navegan por la mar.»

    Pero la cualidad de diablo bullidor y zaragatero, aficionado a bailes y
    holgorios y a meter en danza a los mortales, haciéndoles ganar el
    infierno alegremente, de ningún texto inquisitorial resulta tan clara
    como de la manifestación de otra hechicera de Madridejos, llamada Mari
    Fernández, que, procesada en 1532, al ser interrogada, trajo a colación,
    como vamos a ver, un estragado fragmento de cierto curiosísimo romance,
    desconocido hoy[33]: «Preguntada sy ha dicho esta declarante a alguna
    persona como avia hecho çerco con ynvocacion de diablos, que eran
    berzebú y satanás _y el diablo coxuelo_, diziendo esta declarante que
    sin _el diablo coxuelo_ no se podía hazer aquel çerco, y que en aquel
    çerco que hizo avia esta declarante visto lo quel diablo queria hazer
    contra çierta persona, que diga lo que çerca desto ha dicho e fecho,
    dixo que ella suele cantar vn Romance que dize:

    A caça yba bienhecho
    por Riberas de la mar,
    no por mengua de vjno
    ni menos mengua de pan;
    por miedo del Rey Ramjro
    que lo querja matar.
    Ellos en aquesto estando
    enbjaronle a llamar.
    Vamonos, dixo, amigo,
    vamonos, dixo, a çenar;
    de que ovjeremos çenado
    dios dixo lo que será;
    desque ovjeron çenado
    tomó libros en sus manos
    y començó de Rezar;
    a los pecados mayores
    enpeçolos de llamar:
    ¿Qué es de ti, berzebu,
    qué es de ti, barravas,
    _qué es de ti, diablo coxuelo,
    que eras tú el juglar_?…»

    Tanto don Adolfo Bonilla como don Felipe Pérez indagaron con prolijidad
    cuándo hubo de escribir su obrita Vélez de Guevara, y si la escribió
    seguidamente, o a trozos y aun con largos intervalos entre unos y otros
    capítulos. Convienen ambos investigadores en esta última creencia, pero
    no en lo demás; porque si en opinión de Pérez y González la novela fué
    escrita después de febrero de 1636 y antes de mayo de 1639, a juicio de
    Bonilla, Vélez empezó a escribirla después de febrero de 1637 y la
    terminó hacia julio de 1640[34]. No creo que el poner en claro este
    punto, siendo corto, como lo es, dentro de la ordinaria duración de la
    vida humana, el tiempo comprendido entre unas fechas y otras, merezca el
    ímprobo trabajo que echaron sobre sí estos denodados eruditos[35].

    Unas advertencias, para terminar.

    «Vélez de Guevara, como Quevedo–notó el señor Bonilla–, es un
    escolástico del idioma. No hay que perder una sola de sus palabras, no
    hay que confiar en el valor directo de cualquiera de sus frases, porque
    lo mejor del cuento pasaría quizás inadvertido. Es preciso estar siempre
    ojo avizor para saborear como es debido aquellas atrevidas metáforas,
    aquellas extravagantes relaciones, aquellos estupendos equívocos,
    aquellas arbitrarias licencias en que se complace. Esta indispensable
    atención fatiga en ocasiones; pero hace sacar doble fruto de la lectura
    de un libro cuyo atractivo consiste, más bien que en el interés de los
    lances, en la ingeniosidad de los pensamientos. Sólo el muy
    familiarizado con los secretos del habla podrá darse cabal cuenta de las
    bellezas de una obra semejante.» Exactísimo todo ello, y porque lo es y
    a los más de los lectores falta esa extremada familiaridad a que se
    refiere el señor Bonilla, no podían buenamente pasar sin nota muchas de
    las frases que no la tienen en sus ediciones. Ciento treinta y cinco que
    están en este caso señalé de primera intención cuando, leído el
    sobredicho discurso del señor Nercasseau y Morán, me sentí deseoso de
    preparar, para la simpática colección de «Clásicos Castellanos», esta
    humilde edicioncita de _El Diablo Cojuelo._

    Como el señor Bonilla, «procuro pecar antes por carta de más que por
    carta de menos, por lo cual a veces he explicado palabras y giros que
    podrán parecer a los eruditos de muy llana inteligencia. Téngase en
    cuenta, sin embargo–añado con él–, que me dirijo a la generalidad y
    que mi propósito es facilitar la comprensión del libro de Vélez de
    Guevara a todo género de lectores.» Con mayor motivo había yo de hacer
    lo propio en una edición vulgarizadora, como es la presente. Pero aun
    así, he huído con mucho cuidado de escribir notas por las cuales se me
    pudiese encasillar junto a Lucas de Valdés y Toro, aquel empecatado
    cirujano cordobés que en 1630 dió a la estampa un opúsculo perogrullesco
    intitulado así: _Tratado en que se prueba que la nieve es fría y
    húmeda[36]_.

    No obstantes mi buena voluntad y la diligencia con que procuré evitarlo,
    se me han quedado por entender algunas frases del texto. Hay quien,
    puesto a anotar uno cualquiera, explica lo que buenamente se le alcanza,
    y en cuanto a lo que no, hace, como dicen, la vista gorda y pasa de
    largo sin decir palabra, dando a colegir con su silencio que aquello que
    no explicó no lo ha menester, por ser cosa llanísima. Jamás cometí esa
    reprobable fullería: antes por el contrario, en casos tales confieso
    paladinamente que aquel lugar merece y pide explicación, y que, por
    malos de mis pecados, yo no acerté a dársela[37].

    Por último, aunque en esta edición sigo el texto de la original de Vélez
    de Guevara (Madrid, Imprenta del Reyno, 1641), no la he copiado tan
    fielmente, tan servilmente, que reproduzca su endiablada ortografía,
    digo, la de los bárbaros cajistas que compusieron los moldes. «Para
    regalar a los lectores–escribí trece años ha[38]–con bocados como
    _abaricia_, _hajo, coetes, hizquierda, voca, vobos, obtica,
    valbucientes, abitos, hancas y hacechar_, como lo hizo el señor Bonilla
    reproduciendo la edición príncipe de _El Diablo Cojuelo_, siempre hay
    tiempo, o, dicho mejor, no debe haberlo nunca. Ya no es poco _hacer
    morder el ajo_ a uno; pero hacerle morder el _hajo_ es crueldad doblada,
    porque pica aún más la _hache_ que el _ajo_ mismo.»

    Y con esto, lector amable, quédate a Dios, y perdóname si te causé
    enfado o tedio con la lectura de mi prólogo.

    FRANCISCO RODRÍGUEZ MARÍN.

    _Madrid, 2 de junio de 1918_.

    EL DIABLO COJUELO

    DEDICATORIA DE VÉLEZ DE GUEVARA

    [AL EXCMO. SR. D. RODRIGO DE SANDOVAL,
    DE SILVA, DE MENDOZA Y DE LA CERDA,
    PRÍNCIPE DE MÉLITO, DUQUE DE PASTRANA,
    DE ESTREMERA Y FRANCAVILA, ETC.]

    Excelentísimo señor:

    La generosa condición de V.E., patria general de los ingenios, donde
    todos hallan seguro asilo, ha solicitado mi desconfianza para rescatar
    del olvido de una naveta[39], en que estaba entre otros borradores míos,
    este volumen que llamo _El Diablo Cojuelo_, escrito con particular
    capricho, porque al amparo de tan gran Mecenas salga menos cobarde a dar
    noticia de las ignorancias del dueño. A cuya sombra excelentísima la
    invidia me mirará ociosa, la emulación muda, y desairada la
    competencia; que con estas seguridades no naufragará esta novela y podrá
    andar con su cara descubierta por el mundo. Guarde Dios a V.E., como sus
    criados deseamos y hemos menester.

    Criado de V.E., que sus pies besa,

    LUIS VÉLEZ DE GUEVARA.

    PRÓLOGO A LOS MOSQUETEROS[40] DE LA COMEDIA DE MADRID.

    Gracias a Dios, mosqueteros míos, o vuestros, jueces de los aplausos
    cómicos por la costumbre y mal abuso, que una vez tomaré la pluma sin el
    miedo de vuestros silbos, pues este discurso del Diablo Cojuelo nace a
    luz concebido sin teatro original fuera de vuestra juridición; que aun
    del riesgo de la censura del leello está privilegiado por vuestra
    naturaleza, pues casi ninguno de vosotros sabe deletrear; que nacistes
    para número de los demás, y para pescados de los estanques[41][42], de
    los corrales[43], esperando, las bocas abiertas[44], el golpe del
    concepto por el oído y por la manotada del cómico, y no por el ingenio.
    Allá os lo habed con vosotros mismos, que sois corchetes[45] de la
    Fortuna, dando las más veces premio a lo que aun no merece oídos, y
    abatís lo que merece estar sobre las estrellas; pero no se me da de
    vosotros dos caracoles: hágame Dios bien con mi prosa[46], entretanto
    que otros fluctúan por las maretas[47] de vuestros aplausos, de quien
    nos libre Dios por su infinita misericordia, Amén, Jesús.

    CARTA DE RECOMENDACIÓN AL CÁNDIDO[48] O MORENO LECTOR.

    Lector amigo: yo he escrito este discurso, que no me he atrevido a
    llamarle libro, pasándome de la jineta de los consonantes[49] a la brida
    de la prosa, en las vacantes que me han dado las despensas[50] de mi
    familia y los autores de las comedias por su Majestad[51]; y como es _El
    Diablo Cojuelo_, no lo reparto en capítulos, sino en trancos[52].
    Suplícote que los des en su leyenda[53], porque tendrás menos que
    censurarme, y yo que agradecerte[54]. Y, por no ser para más[55] ceso, y
    no de rogar a Dios que me conserve en tu gracia.

    De Madrid, a los que fueren entonces del mes y del año, y tal y tal y
    tal[56].

    EL AUTOR Y EL TEXTO.

    DE DON JUAN VÉLEZ DE GUEVARA A SU PADRE.

    SONETO[57]

    Luz en quien se encendió la vital mía,
    De cuya llama soy originado,
    Bien que la vida sólo te he imitado,
    Que el alma fuera en mí vana porfía,

    Si eres el sol de nuestra Pöesía,
    Viva más que él tu aplauso eternizado,
    Y pues un vivir solo es limitado,
    No te estreches al término de un día.

    Hoy junta en el deleite la enseñanza
    Tu ingenio, a quien el tiempo no consuma,
    Pues también viene a ser aplauso suyo.

    Y sufra la modestia esta alabanza
    A quien, por parecer más hijo tuyo
    Quisiera ser un rasgo de tu pluma.

    TRANCO PRIMERO

    Daban en Madrid, por los fines de julio, las once de la noche en punto,
    hora menguada para las calles[58], y, por faltar la luna, juridición y
    término redondo de todo requiebro lechuzo y patarata de la muerte. El
    Prado boqueaba coches[59] en la última jornada de su paseo, y en los
    baños de Manzanares los Adanes y las Evas de la Corte, fregados más de
    la arena que limpios del agua[60], decían el _Ite, río[61]_ _es[62]_,
    cuando don Cleofás Leandro Pérez Zambullo, hidalgo a cuatro vientos[63],
    caballero huracán y encrucijada de apellidos[64], galán de noviciado y
    estudiante de profesión, con un broquel y una espada, aprendía a gato
    por el caballete de un tejado, huyendo de la justicia, que le venía a
    los alcances[65] por un estrupo[66] que no lo había comido ni
    bebido[67], que en el pleito de acreedores de una doncella al uso estaba
    graduado en el lugar veintidoseno[68], pretendiendo que el pobre
    licenciado escotase solo lo que tantos habían merendado[69]; y como
    solicitaba escaparse del «para en uno son[70]» (sentencia difinitiva
    del cura de la parroquia y auto que no lo revoca si no es el vicario
    Responso[71], juez de la otra vida), no dificultó arrojarse desde el ala
    del susodicho tejado, como si las tuviera, a la buarda[72] de otro que
    estaba confinante, nordesteado de una luz que por ella escasamente se
    brujuleaba, estrella de la tormenta que corría, en cuyo desván puso los
    pies y la boca[73] a un mismo tiempo, saludándolo como a puerto de tales
    naufragios, y dejando burlados los ministros del agarro[74] y los
    honrados pensamientos de mi señora doña Tomasa de Bitigudiño[75],
    doncella chanflona[76] que se pasaba de noche como cuarto falso, que,
    para que surtiese efecto su bellaquería, había cometido otro estelionato
    más con el capitán de los jinetes a gatas que corrían las costas[77] de
    aquellos tejados en su demanda, y volvían corridos de que se les
    hubiese escapado aquel bajel de capa y espada[78] que llevaba cautiva la
    honra de aquella señora mohatrera de doncellazgos[79], que juraba entre
    sí tomar satisfacción deste desaire en otro inocente, chapetón[80] de
    embustes doncelliles, fiada en una madre que ella llamaba _tía,_ liga
    donde había caído tanto pájaro forastero.

    A estas horas, el Estudiante, no creyendo su buen suceso[81] y
    deshollinando con el vestido y los ojos el zaquizamí, admiraba la región
    donde había arribado, por las estranjeras estravagancias de que estaba
    adornada la tal espelunca, cuyo avariento farol era un candil de
    garabato, que descubría sobre una mesa antigua de cadena[82] papeles
    infinitos, mal compuestos y ordenados, escritos de caracteres
    matemáticos, unas efemérides abiertas[83], dos esferas y algunos
    compases y cuadrantes, ciertas señales de que vivía en el cuarto de más
    abajo algún astrólogo, dueño de aquella confusa oficina y embustera
    ciencia; y llegándose don Cleofás curiosamente, como quien profesaba
    letras y era algo inclinado a aquella profesión, a revolver los trastos
    astrológicos, oyó un suspiro entre ellos mismos, que, pareciéndole
    imaginación o ilusión de la noche, pasó adelante con la atención
    papeleando los memoriales de Euclides y embelecos de Copérnico;
    escuchando segunda vez repetir el suspiro, entonces, pareciéndole que no
    era engaño de la fantasía, sino verdad que se había venido a los oídos,
    dijo con desgarro y ademán de estudiante valiente:

    –¿Quién diablos suspira aquí?, respondiéndole al mismo tiempo una voz
    entre humana y estranjera:

    –Yo soy, señor Licenciado, que estoy en esta redoma, adonde me tiene
    preso ese astrólogo que vive ahí abajo, porque también tiene su punta
    de la mágica negra[84], y es mi alcaide dos años habrá.

    –Luego ¿familiar eres?–dijo el Estudiante[85].

    –Harto me holgara yo–respondieron[86] de la redoma–que entrara uno
    de la Santa Inquisición, para que, metiéndole a él en otra de cal y
    canto, me sacara a mí desta jaula de papagayos de piedra azufre. Pero tú
    has llegado a tiempo que me puedes rescatar, porque este a cuyos
    conjuros estoy asistiendo me tiene ocioso, sin emplearme en nada, siendo
    yo el espíritu más travieso del infierno.

    Don Cleofás, espumando valor, prerrogativa de estudiante de Alcalá, le
    dijo:

    –¿Eres demonio plebeyo, u de los de nombre?

    –Y de gran nombre–le repitió el vidro endemoniado–, y el más
    celebrado en entrambos mundos.

    –¿Eres Lucifer?–le repitió don Cleofás.

    –Ése es demonio de dueñas y escuderos–le respondió la voz.

    –¿Eres Satanás?–prosiguió el Estudiante.

    –Ése es demonio de sastres y carniceros–volvió la voz a repetille.

    –¿Eres Bercebú?–volvió a preguntalle don Cleofás.

    Y la voz a respondelle:

    –Ése es demonio de tahures, amancebados y carreteros.

    –¿Eres Barrabás[87], Belial, Astarot?–finalmente le dijo el
    Estudiante.

    –Esos son demonios de mayores ocupaciones–le respondió la voz–:
    demonio más por menudo soy, aunque me meto en todo: yo soy las pulgas
    del infierno, la chisme[88], el enredo, la usura, la mohatra; yo truje
    al mundo la zarabanda[89], el déligo[90], la chacona[91], el
    bullicuzcuz[92], las cosquillas de la capona[93], el guiriguirigay, el
    zambapalo, la mariona, el avilipinti, el pollo, la carretería, el
    hermano Bartolo, el carcañal, el guineo, el colorín colorado[94]; yo
    inventé las pandorgas[95]; las jácaras[96], las papalatas[97], los
    comos[98], las mortecinas[99], los títeres[100], los volatines[101],
    los saltambancos[102], los maesecorales[103], y, al fin, yo me llamo el
    Diablo Cojuelo.

    –Con decir eso–dijo el Estudiante–hubiéramos ahorrado lo demás: vuesa
    merced me conozca por su servidor; que hay muchos días que le deseaba
    conocer. Pero, ¿no me dirá, señor Diablo Cojuelo, por qué le pusieron
    este nombre, a diferencia de los demás, habiendo todos caído desde tan
    alto, que pudieran quedar todos de la misma suerte y con el mismo
    apellido[104]?

    –Yo, señor don Cleofás Leandro Pérez Zambullo, que ya le sé el suyo, o
    los suyos–dijo el Cojuelo–, porque hemos sido vecinos por esa dama que
    galanteaba y por quien le ha corrido la justicia esta noche, y de quien
    después le contaré maravillas, me llamo desta manera porque fuí el
    primero de los que se levantaron en el rebelión[105] celestial, y de los
    que cayeron y todo[106]; y como los demás dieron sobre mí, me
    estropearon, y ansí, quedé más que todos señalado de la mano de Dios y
    de los pies de todos los diablos, y con este sobrenombre; mas no por eso
    menos ágil para todas las facciones que se ofrecen en los países bajos,
    en cuyas impresas nunca me he quedado atrás, antes me he adelantado a
    todos; que, camino del infierno, tanto anda el cojo como el viento[107];
    aunque nunca he estado más sin reputación que ahora en poder deste
    vinagre, a quien por trato[108] me entregaron mis propios compañeros,
    porque los traía al retortero a todos[109], como dice el refrán de
    Castilla, y cada momento a los más agudos les daba gato por demonio.
    Sácame deste Argel de vidro; que yo te pagaré el rescate en muchos
    gustos, a fe de demonio, porque me precio de amigo de mi amigo, con mis
    tachas buenas y malas[110].

    –¿Cómo quieres–dijo don Cleofás mudando la cortesía[111] con la
    familiaridad de la conversación–que yo haga lo que tú no puedes siendo
    demonio tan mañoso?

    –A mí no me es concedido–dijo el Espíritu–, y a ti sí, por ser hombre
    con el privilegio del baptismo y libre del poder de los conjuros, con
    quien han hecho pacto los príncipes de la Guinea infernal[112]. Toma un
    cuadrante de esos y haz pedazos esta redoma; que luego en derramándome
    me verás visible y palpable.

    No fué escrupuloso ni perezoso don Cleofás, y ejecutando lo que el
    Espíritu le dijo, hizo con el instrumento astronómico jigote[113] del
    vaso, inundando la mesa sobredicha de un licor turbio, escabeche en que
    se conservaba el tal Diablillo; y volviendo los ojos al suelo, vió en
    él un hombrecillo de pequeña estatura, afirmado en dos muletas[114],
    sembrado de chichones mayores de marca[115], calabacino de testa y badea
    de cogote, chato de narices, la boca formidable y apuntalada en dos
    colmillos solos, que no tenían más muela ni diente los desiertos de las
    encías, erizados los bigotes como si hubiera barbado en Hircania[116];
    los pelos de su nacimiento, ralos, uno aquí y otro allí[117], a fuer de
    los espárragos, legumbre[118] tan enemiga de la compañía, que si no es
    para venderlos en manojos, no se juntan. Bien hayan los berros, que
    nacen unos entrepernados con otros, como vecindades de la Corte, perdone
    la malicia la comparación.

    Asco le dió a don Cleofás la figura, aunque necesitaba de su favor para
    salir del desván, ratonera del Astrólogo en que había caído huyendo de
    los gatos que le siguieron (salvo el guante[119] a la metáfora), y
    asiéndole por la mano el Cojuelo y diciéndole: «Vamos, don Cleofás, que
    quiero comenzar a pagarte en algo lo que te debo», salieron los dos por
    la buarda como si los dispararan de un tiro[120] de artillería, no
    parando de volar hasta hacer pie en el capitel de la torre de San
    Salvador[121], mayor atalaya de Madrid, a tiempo que su reloj daba la
    una, hora que tocaba a recoger el mundo poco a poco al descanso del
    sueño; treguas que dan los cuidados a la vida, siendo común el silencio
    a las fieras y a los hombres; medida que a todos hace iguales; habiendo
    una priesa notable a quitarse zapatos y medias, calzones y jubones,
    basquiñas[122], verdugados[123], guardainfantes[124], polleras[125],
    enaguas y guardapiés, para acostarse hombres y mujeres, quedando las
    humanidades menos mesuradas, y volviéndose a los primeros originales,
    que comenzaron el mundo horros de todas estas baratijas; y
    engestándose[126] al camarada, el Cojuelo le dijo:

    –Don Cleofás, desde esta picota[127] de las nubes, que es el lugar más
    eminente de Madrid, malaño[128] para Menipo en los diálogos de Luciano,
    te he de enseñar todo lo más notable que a estas horas pasa en esta
    Babilonia española, que en la confusión fué esotra con ella segunda
    deste nombre.

    Y levantando a los techos de los edificios, por arte diabólica, lo
    hojaldrado[129], se descubrió la carne del pastelón de Madrid como
    entonces estaba, patentemente, que por el mucho calor estivo estaba con
    menos celosías, y tanta variedad de sabandijas racionales en esta arca
    del mundo, que la del diluvio, comparada con ella, fué de capas y
    gorras.

    TRANCO II

    Quedó don Cleofás absorto en aquella pepitoria[130] humana de tanta
    diversidad de manos, pies y cabezas, y haciendo grandes admiraciones,
    dijo:

    –¿Es posible que para tantos hombres, mujeres y niños hay[131] lienzo
    para colchones, sábanas y camisas? Déjame que me asombre que entre las
    grandezas de la Providencia divina no sea ésta la menor.

    Entonces el Cojuelo, previniéndole, le dijo:

    –Advierte que quiero empezar a enseñarte distintamente, en este teatro
    donde tantas figuras representan, las más notables, en cuya variedad
    está su hermosura. Mira allí primeramente cómo están sentados muchos
    caballeros y señores a una mesa opulentísima, acabando una media
    noche[132]; que eso les han quitado a los relojes no más.

    Don Cleofás le dijo:

    –Todas esas caras conozco; pero sus bolsas no, si no es para
    servillas[133].

    –Hanse pasado a los estranjeros, porque las trataban muy mal estos
    príncipes cristianos–dijo el Cojuelo–, y se han quedado, con las
    caponas[134], sin ejercicio.

    –Dejémoslos cenar–dijo don Cleofás–, que yo aseguro que no se
    levanten de la mesa sin haber concertado un juego de cañas para cuando
    Dios fuere servido, y pasemos adelante; que a estos magnates los más de
    los días les beso yo las manos, y estas caravanas las ando yo las más de
    las noches, porque he sido dos meses culto vergonzante de la proa[135]
    de uno de ellos y estoy encurtido de excelencias y señorías, solamente
    buenas para veneradas.

    –Mira allí–prosiguió el Cojuelo–cómo se está quejando de la orina un
    letrado, tan ancho de barba[136] y tan espeso, que parece que saca un
    delfín la cola por las almohadas. Allí está pariendo doña Fáfula[137], y
    don Toribio su indigno consorte, como si fuera suyo lo que paría, muy
    oficioso y lastimado; y está el dueño de la obra a pierna suelta en
    esotro barrio, roncando y descuidado del suceso. Mira aquel preciado de
    lindo, o aquel lindo de los más preciados, cómo duerme con bigotera[138]
    torcidas de papel en las guedejas y el copete[139], sebillo en las
    manos[140], y guantes descabezados[141], y tanta pasa[142] en el rostro,
    que pueden hacer colación[143] en él toda la cuaresma que viene. Allí,
    más adelante, está una vieja, grandísima hechicera, haciendo en un
    almirez una medicina de drogas restringentes para remendar una doncella
    sobre su palabra[144], que se ha de desposar mañana. Y allí, en aquel
    aposentillo estrecho, están dos enfermos en dos camas, y se han
    purgado juntos, y sobre quién ha hecho más cursos[145], como si se
    hubieran de graduar en la facultad, se han levantado a matar a
    almohadazos. Vuelve allí, y mira con atención cómo se está untando una
    hipócrita a lo moderno, para hallarse en una gran junta de brujas que
    hay entre San Sebastián y Fuenterrabía, y a fe que nos habíamos de ver
    en ella si no temiera el riesgo de ser conocido del demonio que
    hace[146] el cabrón, porque le di una bofetada a mano abierta en la
    antecámara de Lucifer, sobre unas palabras mayores que tuvimos; que
    también entre los diablos hay libro del duelo[147], porque el autor que
    le compuso es hijo de vecino del infierno. Pero mucho más nos podemos
    entretener por acá, y más si pones los ojos en aquellos dos ladrones que
    han entrado por un balcón en casa de aquel estranjero rico, con una
    llave maestra, porque las ganzúas son a lo antiguo, y han llegado donde
    está aquel talego de vara y media estofado de patacones[148] de a ocho,
    a la luz de una linterna que llevan, que, por ser tan grande y no poder
    arrancalle de una vez, por el riesgo del ruido, determinan abrille, y
    henchir las faltriqueras y los calzones, y volver otra noche por lo
    demás, y comenzando a desatalle, saca el tal estranjero (que estaba
    dentro dél guardando su dinero, por no fialle de nadie) la cabeza,
    diciendo: «Señores ladrones, acá estamos todos»[149], cayendo
    espantados uno a un lado y otro a otro, como resurreción de aldea[150],
    y se vuelven gateando a salir por donde entraron.

    –Mejor fuera–dijo don Cleofás–que le hubieran llevado sin desatar en
    el capullo de su dinero, porque no le sucediera ese desaire, pues que
    cada estranjero es un talego bautizado[151]; que no sirven de otra cosa
    en nuestra república y en la suya, por nuestra mala maña.

    Pero, ¿quién es aquella abada[152] con camisa de mujer, que no solamente
    la cama le viene estrecha, sino la casa y Madrid, que hace roncando más
    ruido que la Bermuda[153], y, al parecer, [bebe][154] cámaras de tinajas
    y come jigotes de bóvedas?

    –Aquélla ha sido cuba de Sahagún[155], y no profesó–dijo el
    Cojuelo–si no es el mundo de agora, que está para dar un estallido, y
    todo junto puede ser siendo quien es: que es una bodegonera tan rica,
    que tiene, a dar[156] rocín por carnero y gato por conejo a los
    estómagos del vuelo[157], seis casas en Madrid, y en la puerta de
    Guadalajara[158] más de veinte mil ducados, y con una capilla que ha
    hecho para su entierro y dos capellanías que ha fundado, se piensa ir al
    cielo derecha; que aunque pongan una garrucha en la estrella de Venus y
    un alzaprima en las Siete Cabrillas, me parece que será imposible que
    suba allá aquel tonel; y como ha cobrado buena fama[159], se ha echado
    a dormir de aquella suerte.

    –Aténgome–dijo don Cleofás–a aquel caballero tasajo que tiene el
    alma en cecina, que ha echado de ver que es caballero en un hábito[160]
    que le he visto en una ropilla[161] a la cabecera, y no es el mayor
    remiendo que tiene, y duerme enroscado como lamprea empanada, porque la
    cama es media sotanilla, que le llega a las rodillas no más.

    –Aquél–dijo el Cojuelo–es pretendiente, y está demasiado de gordo y
    bien tratado para el oficio que ejercita. Bien haya aquel tabernero de
    Corte, que se quita de esos cuidados y es cura de su vino, que le está
    bautizando en los pellejos y las tinajas, y a estas horas está hecho
    diluvio[162] en pena, con su embudo en la mano, y antes de mil
    años[163] espero verle jugar cañas[164] por el nacimiento de algún
    príncipe.

    –¿Qué mucho–dijo don Cleofás–si es tabernero y puede emborrachar a la
    Fortuna?

    –No hayas miedo–dijo el Cojuelo–que se vea en eso aquel alquimista
    que está en aquel sótano con unos fuelles, inspirando una hornilla llena
    de lumbre, sobre la cual tiene un perol con mil variedades de
    ingredientes, muy presumido de acabar la piedra filosofal y hacer el
    oro; que ha diez años que anda en esta pretensión, por haber leído el
    arte de Reimundo Lulio y los autores químicos que hablan[165] en este
    mismo imposible.

    –La verdad es–dijo don Cleofás–que nadie ha acertado a hacer el oro
    si no es Dios, y el sol, con comisión particular suya.

    –Eso es cierto–dijo el Cojuelo–, pues nosotros no hemos salido con
    ello. Vuelve allí, y acompáñame a reír de aquel marido y mujer, tan
    amigos de coche, que todo lo que habían de gastar en vestir, calzar y
    componer su casa lo han empleado en aquel que está sin caballos agora, y
    comen y cenan y duermen dentro dél, sin que hayan salido de su
    reclusión, ni aun para las necesidades corporales, en cuatro años que ha
    que le compraron[166]; que están encochados, como emparedados, y ha sido
    tanta la costumbre de no salir dél, que les sirve el coche de conchas,
    como a la tortuga y al galápago, que en tarascando cualquiera dellos la
    cabeza fuera dél, la vuelven a meter luego, como quien la tiene fuera de
    su natural, y se resfrían y acatarran en sacando pie, pierna o mano
    desta estrecha religión; y pienso que quieren ahora labrar un desván en
    él para ensancharse y alquilalle a otros dos vecinos tan inclinados a
    coche, que se contentarán con vivir en el caballete dél.

    –Esos–dijo don Cleofás–se han de ir al infierno en coche y en alma.

    –No es penitencia para menos–respondió el Cojuelo–. Diferentemente le
    sucede a esotro pobre y casado, que vive en esotra casa más adelante,
    que después de no haber podido dormir desde que se acostó, con un órgano
    al oído de niños tiples, contraltos, terceruelas[167] y otros mil
    guisados de voces que han inventado para llorar, ahora que se iba a
    trasponer un poco, le ha tocado a rebato un mal de madre de su mujer,
    tan terrible, que no ha dejado ruda en la vecindad[168], lana ni papel
    quemado, escudilla untada con ajo, ligaduras, bebidas, humazos y
    trescientas cosas más[169], y a él le ha dado, de andar en camisa, un
    dolor de ijada, con que imagino que se ha de desquitar del dolor de
    madre de su mujer.

    –No están tan despiertos en aquella casa–dijo don Cleofás–donde está
    echando una escala aquel caballero que, al parecer, da asalto al cuarto
    y a la honra del que vive en él; que no es buena señal, habiendo
    escaleras dentro, querer entrar por las de fuera.

    –Allí–dijo el Cojuelo–vive un caballero viejo y rico que tiene una
    hija muy hermosa y doncella, y rabia por dejallo de ser con un marqués,
    que es el que da la escalada, que dice que se ha de casar con ella, que
    es papel que ha hecho con otras diez u doce, y lo ha representado mal;
    pero esta noche no conseguirá lo que desea, porque viene un alcalde de
    ronda, y es muy antigua costumbre de nosotros ser muy regatones[170] en
    los gustos, y, como dice vuestro refrán, si la podemos dar roma, no la
    damos aguileña[171].

    –¿Qué voces–dijo don Cleofás–son las que dan en esotra casa más
    adelante, que parece que pregonan algún demonio que se ha perdido?

    –No seré yo, que me he rescatado–dijo el Cojuelo–, si no es que me
    llaman a pregones del infierno por el quebrantamiento de la redoma; pero
    aquél es un garitero que ha dado esta noche ciento y cincuenta barajas,
    y se ha endiablado de cólera porque no le han pagado ninguna y se van
    los actores y los reos con las costas en el cuerpo, tras una pendencia
    de barato[172] sobre uno que juzgó mal una suerte, y los mete en paz
    aquella música que dan a cuatro voces en esotra calle unos criados de un
    señor a una mujer de un sastre que ha jurado que los ha de coser a
    puñaladas[173].

    –Si yo fuera el marido–dijo don Cleofás–, más los tuviera por gatos
    que por músicos.

    –Agora te parecerán galgos–dijo el Cojuelo–, porque otro competidor
    de la sastra, con una gavilla de seis o siete, vienen sacando las
    espadas, y los Orfeos de la maesa, reparando la primera invasión con las
    guitarras, hacen una fuga[174] de cuatro o cinco calles. Pero vuelve
    allí los ojos, verás cómo se va desnudando aquel hidalgo que ha rondado
    toda la noche, tan caballero del milagro[175] en las tripas como en las
    demás facciones, pues quitándose una cabellera, queda calvo; y las
    narices de carátula, chato; y unos bigotes postizos, lampiño; y un brazo
    de palo, estropeado; que pudiera irse más camino de la sepoltura que de
    la cama. En esotra casa más arriba está durmiendo un mentiroso con una
    notable pesadilla, porque sueña que dice verdad. Allí un vizconde, entre
    sueños, está muy vano porque ha regateado la excelencia a un grande.
    Allí está muriendo un fullero, y ayudándole a bien morir un testigo
    falso, y por darle la bula de la Cruzada, le da una baraja de naipes,
    porque muera como vivió, y él, boqueando, por decir «Jesús», ha dicho
    «flux». Allí, más arriba, un boticario está mezclando la piedra
    bezar[176] con los polvos de sen. Allí sacan un médico de su casa para
    una apoplejía que le ha dado a un obispo. Allí llevan aquella comadre
    para partear a una preñada de medio ojo[177], que ha tenido dicha en
    darle los dolores a estas horas. Allí doña Tomasa, tu dama, en enaguas,
    está abriendo la puerta a otro; que a estas horas le oye de amor.

    –Déjame–dijo don Cleofás–: bajaré sobre ella a matarla a coces.

    –Para estas ocasiones se hizo el _tate, tate_[178]–dijo el Cojuelo–;
    que no es salto para de burlas. Y te espantas de pocas cosas[179]: que
    sin este enamorado murciégalo[180], hay otros ochenta, para quien[181]
    tiene repartidas las horas del día y de la noche.

    –¡Por vida del mundo–dijo don Cleofás–que la tenía por una santa!

    –Nunca te creas de ligero–le replicó el Diablillo–. Y vuelve los ojos
    a mi Astrólogo, verás con las pulgas y inquietud que duerme: debe de
    haber sentido pasos en su desván y recela algún detrimento de su redoma.
    Consuélese con su vecino, que mientras está roncando a más y mejor, le
    están sacando a su mujer, como muela, sin sentillo, aquellos dos
    soldados.

    –Del mal lo menos–dijo don Cleofás–; que yo sé del marido
    ochodurmiente[182] que dirá[183] cuando despierto lo mismo.

    –Mira allí–prosiguió el Cojuelo–aquel barbero, que soñando se ha
    levantado, y ha echado unas ventosas a su mujer, y la ha quemado con las
    estopas las tablas de los muslos, y ella da gritos, y él, despertando,
    la consuela diciendo que aquella diligencia es bueno que esté hecha para
    cuando fuere menester. Vuelve allí los ojos a aquella cuadrilla de
    sastres que están acabando unas vistas[184] para un tonto que se casa a
    ciegas, que es lo mismo que por relación, con una doncella tarasca, fea,
    pobre y necia, y le han hecho creer al contrario con un retrato que le
    trujo un casamentero, que a estas horas se está levantando con un
    pleitista que vive pared y medio dél[185], el uno a cansar ministros y
    el otro a casar todo el linaje humano; que solamente tú, por estar tan
    alto, estás seguro deste demonio, que en algún modo lo es más que yo.
    Vuelve los ojos y mira aquel cazador mentecato del gallo[186], que está
    ensillando su rocín a estas horas y poniendo la escopeta debajo del
    caparazón, y deja de dormir de aquí a las nueve de la mañana por ir a
    matar un conejo, que le costaría mucho menos aunque le comprara en la
    despensa de Judas[187]. Y al mismo tiempo advierte cómo a la puerta de
    aquel rico avariento echan un niño, que por partes de[188] su padre
    puede pretender la beca del Antecristo[189], y él, en grado de
    apelación, da con él en casa de un señor que vive junto a la suya, que
    tiene talle de comérselo antes que criallo, porque ha días que su
    despensa espera el domingo de casi ración[190]. Pero ya el día no nos
    deja pasar adelante; que el agua ardiente y el letuario[191] son sus
    primeros crepúsculos, y viene el sol haciendo cosquillas a las
    estrellas, que están jugando a salga la parida[192], y dorando la
    píldora[193] del mundo, tocando al arma a tantas bolsas y talegos y
    dando rebato a tantas ollas, sartenes y cazuelas, y no quiero que se
    valga de mi industria para ver los secretos que le negó la noche:
    cuéstele brujeleallo por resquicios, claraboyas y chimeneas.

    Y volviendo a poner la tapa al pastelón, se bajaron a las calles.

    TRANCO III

    Ya comenzaban en el puchero humano de la Corte a hervir hombres y
    mujeres, unos hacia arriba, y otros hacia abajo, y otros de través,
    haciendo un cruzado[194] al son de su misma confusión[195], y el piélago
    racional de Madrid a sembrarse de ballenas[196] con ruedas, que por otro
    nombre llaman coches, trabándose la batalla del día, cada uno con
    disinio y negocio diferente, y pretendiéndose engañar los unos a los
    otros, levantándose una polvareda de embustes y mentiras, que no se
    descubría una brizna de verdad por un ojo de la cara[197], y don Cleofás
    iba siguiendo a su camarada, que le había metido por una calle algo
    angosta, llena de espejos por una parte y por otra, donde estaban muchas
    damas y lindos mirándose y poniéndose de diferentes posturas de bocas,
    guedejas, semblantes, ojos, bigotes, brazos y manos, haciéndose
    cocos[198] a ellos mismos. Preguntóle don Cleofás qué calle era aquélla,
    que le parecía que no la había visto en Madrid, y respondióle el
    Cojuelo:

    –Ésta se llama la calle de los Gestos, que solamente saben a ella estas
    figuras de la baraja de la Corte, que vienen aquí a tomar el gesto con
    que han de andar aquel día, y salen con perlesía de lindeza, unos con la
    boquita de riñón[199], otros con los ojitos dormidos, roncando[200]
    hermosura, y todos con los dos dedos de las manos, índice y meñique,
    levantados, y esotros, de _Gloria Patri_[201]. Pero salgámonos muy
    apriesa de aquí; que con tener estómago de demonio y no haberme mareado
    las maretas[202] del infierno, me le han revuelto estas sabandijas, que
    nacieron para desacreditar la naturaleza y el rentoy[203].

    Con esto, salieron desta calle a una plazuela donde había gran concurso
    de viejas que había sido damas cortesanas[204], y mozas que entraban a
    ser lo que ellas habían sido, en grande contratación unas con otras.
    Preguntó el Estudiante a su camarada qué sitio era aquél, que tampoco le
    había visto, y él le respondió:

    –Éste es el baratillo de los apellidos, que aquellas damas pasas
    truecan con estas mozas albillas[205] por medias traídas, por zapatos
    viejos, valonas, tocas y ligas, como ya no las han menester; que el
    Guzmán, el Mendoza, el Enríquez, el Cerda, el Cueva, el Silva, el
    Castro, el Girón[206], el Toledo, el Pacheco, el Córdova, el Manrique de
    Lara, el Osorio, el Aragón, el Guevara y otros generosos apellidos los
    ceden a quien los ha menester ahora para el oficio que comienza, y ellas
    quedan con sus patronímicos primeros de Hernández, Martínez, López,
    Rodríguez, Pérez, González, etcétera; porque al fin de los años mil,
    vuelven los nombres[207] por donde solían ir.

    –Cada día–dijo el Estudiante–hay cosas nuevas en la Corte.

    Y, a mano izquierda, entraron a otra plazuela al modo de la de los
    Herradores[208], donde se alquilaban tías, hermanos, primos y maridos,
    como lacayos y escuderos, para damas de achaque[209] que quieren pasar
    en la Corte con buen nombre y encarecer su mercadería.

    A la mano derecha deste seminario andante estaba un grande edificio, a
    manera de templo sin altar, y en medio dél, una pila grande de piedra,
    llena de libros de caballerías y novelas[210], y alrededor, muchos
    muchachos de diez a diez y siete años y algunas doncelluelas de la misma
    edad, y cada uno y cada una con su padrino al lado, y don Cleofás le
    preguntó[211] a su compañero que le dijese qué era esto, que todo le
    parecía que lo iba soñando. El Cojuelo le dijo:

    –Algo tiene de eso este fantástico aparato; pero ésta es, don Cleofás,
    en efeto, la pila de los dones, y aquí se bautizan los que vienen a la
    Corte sin él. Todos aquellos muchachos son pajes para señores, y
    aquellas muchachas, doncellas para señoras de media talla[212], que han
    menester el don para la autoridad de las casas que entran a servir[213],
    y agora les acaban de bautizar con el don. Por allí entra agora una
    fregona con un vestido alquilado, que la trae su ama a sacar de don,
    como de pila, para darla el tusón[214] de las damas, porque le pague en
    esta moneda lo que le ha costado el crialla, y aun ella parece que se
    quiere volver al paño[215], según viene bruñida de esmeril.

    –Un moño y unos dientes postizos y un guardainfante pueden hacer esos
    milagros–dijo don Cleofás–. Pero ¿qué acompañamiento–prosiguió
    diciendo–es este que entra agora, de tanta gente lucida, por la puerta
    deste templo consagrado al uso del siglo?

    –Traen a bautizar–dijo el Cojuelo–un regidor muy rico, de un lugar
    aquí cercano, de edad de setenta años, que se viene al don por su pie,
    porque sin él le han aconsejado sus parientes que no cae tan bien el
    regimiento. Llámase Pascual, y vienen altercando si sobre _Pascual_ le
    vendrá bien el _don_, que parece don estravagante[216] de la iglesia de
    los dones.

    –Ya tienen ejemplar–dijo don Cleofás–en don Pascual, ese que llamaron
    todos loco, y yo, Diógenes de la ropa vieja, que andaba cubierta la
    cabeza con la capa, sin sombrero, en traje de profeta, por esas calles.

    –Mudáranle el nombre, a mi parecer–prosiguió el Cojuelo–, por no
    tener en su lugar regidor Pascual, como cirio de los regidores.

    –Dios les inspire–dijo don Cleofás–lo que más convenga a su
    regimiento, como la cristiandad de los regidores ha menester.

    –En acabando de tomar el señor regidor–dijo el Cojuelo–el agua del
    don, espera allí un italiano hacer lo mismo con un elefante que ha
    traído a enseñar a la puerta del Sol.

    –Los más suelen llamarse–dijo el Estudiante–don Pedros, don Juanes y
    don Alonsos. No sé cómo ha tenido tanto descuido su ayo o naire, como lo
    llaman los de la India Oriental; plebeyo debía de ser este animal, pues
    ha llegado tan tarde al don. Vive Dios que me le he de quitar yo, porque
    me desbautizan y desdonan los que veo.

    –Sígueme–dijo el Cojuelo–, y no te amohines; que bien sabe el _don_
    dónde está; que se te ha caído en el _Cleofás_ como la sopa en la miel.

    Con esto, salieron del soñado (al parecer) edificio, y enfrente dél
    descubrieron otro, cuya portada estaba pintada de sonajas, guitarras,
    gaitas zamoranas, cencerros, cascabeles, ginebras[217], caracoles,
    castrapuercos[218], pandorga prodigiosa de la vida, y preguntó don
    Cleofás a su amigo qué casa era aquella que mostraba en la portada tanta
    variedad de instrumentos vulgares[219],–que tampoco la he visto en la
    Corte, y me parece que hay dentro mucho regocijo y entretinimiento.

    –Esta es la casa de los locos–respondió el Cojuelo–que ha poco que se
    instituyó en la Corte, entre unas obras pías que dejó un hombre muy rico
    y muy cuerdo, donde se castigan y curan locuras que hasta agora no lo
    habían parecido.

    –Entremos dentro–dijo don Cleofás–por aquel postiguillo que está
    abierto, y veamos esta novedad de locos.

    Y, diciendo y haciendo, se entraron los dos, uno tras otro; pasando un
    zaguán, donde estaban algunos de los convalecientes pidiendo limosna
    para los que estaban furiosos, llegaron a un patio cuadrado, cercado de
    celdas pequeñas por arriba y por abajo, que cada una dellas ocupaba un
    personaje de los susodichos. A la puerta de una dellas estaba un hombre,
    muy bien tratado de vestido, escribiendo sobre la rodilla y sentado
    sobre una banqueta, sin levantar los ojos del papel, y se había sacado
    uno con la pluma sin sentillo. El Cojuelo le dijo:

    –Aquél es un loco arbitrista[220] que ha dado en decir que ha de hacer
    la reducción de los cuartos, y ha escrito sobre ello más hojas de papel
    que tuvo el pleito de don Alvaro de Luna.

    –Bien haya quien le trujo a esta casa–dijo don Cleofás–; que son los
    locos más perjudiciales de la república.

    –Esotro que está en esotro aposentillo–prosiguió el Cojuelo–es un
    ciego enamorado, que está con aquel retrato en la mano[221], de su
    dama, y aquellos papeles que le ha escrito, como si pudiera ver lo uno
    ni leer lo otro, y da en decir que ve con los oídos. En esotro
    aposentillo lleno de papeles y libros está un gramaticón[222] que perdió
    el juicio buscándole a un verbo griego el gerundio. Aquel que está a la
    puerta de esotro aposentillo con unas alforjas al hombro y en calzón
    blanco, le han traído porque, siendo cochero, que andaba siempre a
    caballo, tomó oficio de correo de a pie. Esotro que está en esotro de
    más arriba con un halcón en la mano, es un caballero que, habiendo
    heredado mucho de sus padres, lo gastó todo en la cetrería y no le ha
    quedado más que aquel halcón en la mano, que se las come de hambre. Allí
    está un criado de un señor que, teniendo qué comer, se puso a servir.
    Allí está un bailarín que se ha quedado sin son, bailando en seco. Más
    adelante está un historiador que se volvió loco de sentimiento de
    haberse perdido tres décadas de Tito Livio. Más adelante está un
    colegial cercado de mitras, probándose la que le viene mejor, porque dió
    en decir que había de ser obispo. Luego, en esotro aposentillo, está un
    letrado que se desvaneció en pretender plaza de ropa[223], y de letrado
    dió en sastre, y está siempre cortando y cosiendo garnachas. En esotra
    celda, sobre un cofre lleno de doblones, cerrado con tres llaves, está
    sentado un rico avariento, que sin tener hijo ni pariente que le herede,
    se da muy mala vida, siendo esclavos de su dinero y no comiendo más que
    un pastel[224] de a cuatro, ni cenando más que una ensalada de pepinos,
    y le sirve de cepo su misma riqueza. Aquel que canta en esotra jaula es
    un músico sinsonte, que remeda los demás pájaros, y vuelve de cada
    pasaje como de un parasismo. Está preso en esta cárcel de los delictos
    del juicio, porque siempre cantaba, y cuando le rogaban que cantase,
    dejaba de cantar.

    –Impertinencia es ésa casi de todos los desta profesión.

    –En el brocal de aquel pozo que está en medio del patio se está mirando
    siempre una dama muy hermosa, como lo verás si ella alza la cabeza, hija
    de pobres y humildes padres, que queriéndose casar con ella muchos
    hombres ricos y caballeros, ninguno la contentó, y en todos halló una y
    muchas faltas, y está atada allí en una cadena porque, como Narciso,
    enamorada de su hermosura, no se anegue en el agua que le sirve de
    espejo, no teniendo en lo que pisa[225] al sol ni a todas las estrellas.
    En aquel pobre aposentillo enfrente, pintado por defuera de llamas, está
    un demonio casado, que se volvió loco con la condición de su mujer.

    Entonces don Cleofás le dijo al compañero que le enseñaba todo este
    retablo de duelos:

    –Vámonos de aquí, no nos embarguen[226] por alguna locura que nosotros
    ignoramos; porque en el mundo todos somos locos, los unos de los
    otros[227].

    El Cojuelo dijo:

    –Quiero tomar tu consejo, porque, pues los demonios enloquecen, no hay
    que fiar de sí nadie.

    –Desde vuestra primera soberbia–dijo don Cleofás–todos lo estáis; que
    el infierno es casa de todos los locos más furiosos del mundo.

    –Aprovechado estás–dijo el Cojuelo–, pues hablas en lenguaje
    ajustado.

    Con esta conversación salieron de la casa susodicha, y a mano derecha
    dieron en una calle algo dilatada, que por una parte y por otra estaba
    colgada de ataúdes, y unos sacristanes con sus sobrepellices[228]
    paseándose junto a ellos, y muchos sepultureros abriendo varios
    sepulcros, y don Cleofás le dijo a su camarada:

    –¿Qué calle es ésta, que me ha admirado más que cuantas he visto, y me
    pudiera obligar a hablar más espiritualmente que con lo primero de que
    tú te admiraste?

    –Ésta es más temporal y del siglo que ninguna–le respondió el
    Cojuelo–, y la más necesaria, porque es la ropería de los agüelos,
    donde[229] cualquiera, para todos los actos positivos[230] que se le
    ofrece y se quiere vestir de un agüelo, porque el suyo no le viene bien,
    o está traído, se viene aquí, y por su dinero escoge el que le está más
    a propósito. Mira allí aquel caballero torzuelo[231] cómo se está
    probando una agüela que ha menester, y esotro, hijo de quien él
    quisiere, se está vistiendo otro agüelo, y le viene largo de talle.
    Esotro más abajo da por otro agüelo el suyo, y dineros encima, y no se
    acaba de concertar, porque le tiene más de costa al sacristán, que es el
    ropero. Otro, a esotra parte, llega a volver un agüelo suyo de dentro
    afuera y de atrás adelante, y a tremendallo con la agüela de otro. Otro
    viene allí con la justicia a hacer que le vuelvan un agüelo que le
    habían hurtado, y le ha hallado colgado en la ropería. Si hubieres
    menester algún agüelo o agüela para algún crédito de tu calidad, a
    tiempo estamos, don Cleofás Leandro; que yo tengo aquí un ropero amigo
    que desnuda los difuntos la primera noche que los entierran, y nos le
    fiará por el tiempo que quisieres.

    –Dineros he menester yo; que agüelos no–respondió el Estudiante–: con
    los míos me haga Dios bien[232]; que me han dicho mis padres que
    deciendo de Leandro el animoso, el que pasaba el mar de Abido

    «en amoroso fuego todo ardiendo»[233],

    y tengo mi ejecutoria en las obras sueltas de Boscán y Garcilaso[234].

    –Contra hidalguía en verso–dijo el Diablillo–no hay olvido ni
    chancillería que baste, ni hay más que desear en el mundo que ser
    hidalgo en consonantes.

    –Si a mí me hicieran merced[235]–prosiguió don Cleofás–, entre
    Salicio y Nemoroso[236] se habían de hacer mis diligencias, que no me
    habían de costar cien reales; que allí tengo mi Montaña, mi Galicia, mi
    Vizcaya y mis Asturias[237].

    –Dejemos vanidades agora–dijo el Cojuelo–: que ya sé que eres muy
    bien nacido en verso y en prosa, y vamos en busca de un figón, a
    almorzar y descansar, que bien lo habrás menester por lo trasnochado y
    madrugado, y después proseguiremos nuestras aventuras.

    TRANCO IV

    Dejemos a estos caballeros en su figón almorzando y descansando, que sin
    dineros pedían las pajaritas que andaban volando por el aire[238] y al
    fénix empanado[239], y volvamos a nuestro astrólogo regoldano[240] y
    nigromante enjerto, que se había vestido con algún cuidado de haber
    sentido pasos en el desván la noche antes, y, subiendo a él, halló las
    ruinas que había dejado su familiar en los pedazos de la redoma, y
    mojados sus papeles, y el tal Espíritu ausente; y viendo el estrago y la
    falta de su Demoñuelo, comenzó a mesarse las barbas y los cabellos, y a
    romper sus vestiduras[241], como rey a lo antiguo. Y estando haciendo
    semejantes estremos y lamentaciones, entró un diablejo zurdo, mozo de
    retrete de Satanás, diciendo que Satanás su señor le besaba las
    manos[242]; que había sentido la bellaquería que había usado el Cojuelo;
    que él trataría de que se castigase, y que entre tanto se quedase él
    sirviéndole en su lugar. Agradeció mucho el cuidado el Astrólogo y
    encerró el tal espíritu en una sortija de un topacio grande, que traía
    en un dedo, que antes había sido de un médico, con que a todos cuantos
    había tomado el pulso había muerto. Y en el infierno se juntaron entre
    tanto, en sala plena, los más graves jueces de aquel distrito, y
    haciendo notorio a todos el delito del tal Cojuelo, mandaron despachar
    requisitoria para que le prendiesen en cualquier parte que le hallasen,
    y se le dió esta comisión[243] a Cienllamas, demonio comisionario que
    había dado muy buena cuenta de otras que le habían encargado, y
    llevándose consigo por corchetes a Chispa y a Redina, demonios a la
    veinte[244], y subiéndose en la mula de Liñán[245], salió del infierno
    con vara alta[246] de justicia en busca del dicho delincuente.

    En este tiempo, sobre la paga de lo que habían almorzado habían tenido
    una pesadumbre el revoltoso Diablillo y don Cleofás con el Figón[247],
    en que intervinieron asadores y torteras, porque lo que es del diablo,
    el diablo se lo ha de llevar, y acudiendo la justicia al alboroto, se
    salieron por una ventana, y cuando el alguacil de Corte con la gente que
    llevaba pensaba cogellos, estaban ya de esotra parte de Getafe, en
    demanda de Toledo, y dentro de un minuto, en las ventillas de Torrejón,
    y en un cerrar de ojos, a vista de la puerta de Visagra, dejando la real
    fábrica del hospital de afuera a la derecha mano; y volviéndose el
    Estudiante al camarada, le dijo:

    –Lindos atajos sabes: malhaya quien no caminara contigo todo el mundo,
    mejor que con el Infante don Pedro de Portugal, el que anduvo las
    siete[248] partidas dél.

    –Somos gente de buena maña–respondió el Cojuelo.

    Y cuando estaban hablando en esto, llegaban al barrio que llaman de la
    Sangre de Cristo y al mesón de la Sevillana[249], que es el mejor de
    aquella ciudad. El Diablo Cojuelo le dijo al Estudiante:

    –Ésta es muy buena posada para pasar esta noche y para descansar de la
    pasada; éntrate dentro y pide un aposento y que te aderecen de cenar;
    que a mí me importa llegarme esta noche a Constantinopla a alborotar el
    serrallo del Gran Turco y hacer degollar doce o trece hermanos que
    tiene, por miedo de que no conspiren[250] a la Corona, y volverme de
    camino por los Cantones de los esguízaros[251] y por Ginebra a otras
    diligencias deste modo, por sobornar con algunos servicios a mi amo,
    que debe de estar muy indignado contra mí por la travesura pasada; que
    yo estaré contigo antes que den las siete de la mañana.

    Y, diciendo y haciendo, se metió por esos aires como por una viña
    vendimiada, meando la pajuela[252] a todo pajarote y ciudadano de la
    región etérea, a fuer de los de la jerigonza crítica[253], y don
    Cleofás se entró a tomar posada, que, aunque estaba llena de muchos
    pasajeros que habían venido con los galeones y pasaban a la Corte, con
    todo, al güésped nuevo hicieron cortesía, porque la persona de don
    Cleofás traía consigo cartas de recomendación[254], como dicen los
    cortesanos antiguos.

    Convidáronle a cenar unos caballeros soldados aquella noche,
    preguntándole nuevas de Madrid, y después de haber cumplido con la
    celebridad de los brindis por el Rey (Dios le guarde), por sus damas y
    sus amigos[255], y haber dado las aceitunas[256] con los palillos carta
    de pago de la cena, se fué cada uno a recoger a su aposento, porque
    habían de tomar la madrugada para llegar con tiempo a Madrid, y don
    Cleofás hizo lo mismo en el que le señaló el Güésped, sintiendo la
    soledad[257] del compañero en algún modo, porque le traía tan
    entretenido; y haciendo varios discursos sobre el almohada, se quedó
    como un pajarito[258], jurando al silencio de las sombras, como lo demás
    del mundo, el mesón de la Sevillana el natural vasallaje con el sueño,
    que solas [las][259] grullas, los murciélagos y lechuzas estaban de
    posta a su cuerpo de guardia, cuando a las dos de la noche unas
    temerosas voces repetían: «¡Fuego, fuego!» despertaron a los dormidos
    pasajeros, con el sobresalto y asombro que suele causar cualquier
    alboroto a los que están durmiendo, y más oyendo apellidar «¡fuego!»,
    voz que con más terror atemoriza los ánimos más constantes, rodando unos
    las escaleras por bajar más apriesa, otros, saltando por las ventanas
    que caían al patio de la posada, otros que, por las pulgas u temor de
    las chinches, dormían en cueros, como vinagre, hechos Adanes del
    baratillo[260], poniendo las manos donde habían de estar las hojas de
    higuera, siguiendo a los demás, y acompañándolos don Cleofás, con los
    calzones revueltos al brazo y una alfajía que, por no encontrar la
    espada, halló acaso en su aposento, como si en los incendios y fantasmas
    importase andar a palos ni a cuchilladas, natural socorro del miedo en
    las repentinas invasiones.

    Salió, en esto, el Güésped en camisa, los pies en unas empanadas de
    Frenegal[261], cinchado con una faja de grana de polvo[262] el estómago,
    y un candil de garabato en la mano, diciendo que se sosegasen; que aquel
    ruido no era de cuidado; que se volviesen a sus camas, que él pondría
    remedio en ello. Apretóle don Cleofás, como más amigo de saber, le
    dijese la causa de aquel alboroto; que no se había de volver a acostar
    sin descifrar aquel misterio. El Güésped le dijo muy severo[263] que era
    un estudiante de Madrid, que había dos u tres meses que entró a posar en
    su casa, y que era poeta de los que hacen comedias, y que había escrito
    dos, que se las habían chillado en Toledo y apedreado como viñas[264], y
    que estaba acabando de escribir la comedia de _Troya abrasada_, y que
    sin duda debía de haber llegado al paso del incendio, y se convertía
    tanto en lo que escribía, que habría dado aquellas voces; que por otras
    experiencias pasadas sacaba él que aquello era verdad infalible como él
    decía; que para confirmallo subiesen con él a su aposento y hallarían
    verdadero este discurso.

    Siguieron al Güésped todos de la suerte que estaban, y entrando en el
    aposento del tal Poeta, le hallaron tendido en el suelo, despedazada la
    media sotanilla, revolcado en papeles y echando espumarajos por la boca,
    y pronunciando con mucho desmayo: «¡Fuego, fuego!», que casi no podía
    echar la habla, porque se le había metido monja. Llegaron a él muertos
    de risa y llenos de piedad todos, diciéndole:

    –Señor Licenciado, vuelva en sí y mire si quiere beber o comer algo
    para este desmayo.

    Entonces el Poeta, levantando como pudo la cabeza, dijo:

    –Si es Eneas y Anquises, con los Penates y el amado Ascanio, ¿qué
    aguardáis aquí, que está ya el Ilión hecho cenizas, y Príamo, Paris y
    Policena, Hécuba y Andrómaca han dado el fatal tributo a la muerte, y a
    Elena, causa de tanto daño, llevan su presa Menalao[265] y Agamenón? Y
    lo peor es que los mirmidones se han apoderado del tesoro troyano.

    –Vuelva a su juicio–dijo el Gúesped–; que aquí no hay almidones ni
    toda esa tropelía de disparates que ha referido, y mucho mejor fuera
    llevalle a casa del Nuncio[266], donde pudiera ser con bien justa causa
    mayoral de los locos, y metelle en cura; que se le han subido los
    consonantes a la cabeza, como tabardillo.

    –¡Qué bien entiende de afectos el señor Güésped!–respondió el Poeta,
    encorporándose un poco más.

    –De afectos ni de afeites–dijo el Güésped–no quiero entender, sino de
    mi negocio: lo que importa es que mañana hagamos cuenta de lo que me
    debe de posada, y se vaya con Dios; que no quiero tener en ella quien me
    la alborote cada día con estas locuras: basten las pasadas, pues
    comenzando a escribir, recién llegado aquí, la comedia de _El Marqués de
    Mantua_, que zozobró y fué una de las silbadas, fueron tantas las
    prevenciones de la caza y las voces que dió, llamando a los perros
    Melampo, Oliveros, Saltamontes, Tragavientos, etcétera, y el «¡Ataja,
    ataja!» y el «¡Guarda el oso cerdoso, y el jabalí colmilludo!», que
    malparió una señora preñada que pasaba del Andalucía a Madrid, del
    sobresalto; y en esotra de _El Saco de Roma_, que entrambas parecieron
    cual tenga la salud[267], fué el[268] estruendo de las cajas y
    trompetas, haciendo pedazos las puertas y ventanas deste aposento a tan
    desusadas horas como éstas, y el «¡Cierra, España!»[269], «¡Santiago, y
    a ellos!», y el jugar la artillería con la boca[270], como si hubiera
    ido a la escuela con un petardo, o criádose con el basilisco de
    Malta[271], que engañó el rebato a una compañía de infantería que
    alojaron[272] aquella noche en mi casa, de suerte, que, tocando al arma,
    se hubieron de hacer a escuras unos soldados pedazos con otros,
    acudiendo al ruido medio Toledo con la justicia, echándome las puertas
    abajo, y amenazó a hacer una de todos los diablos; que es poeta grulla,
    que siempre está en vela, y halla consonantes a cualquiera hora de la
    noche y de la madrugada.

    El Poeta dijo entonces:

    –Mucho mayor alboroto fuera si yo acabara aquella comedia de que tiene
    vuesa merced en prendas dos jornadas por lo que le debo, que la llamo
    _Las Tinieblas de Palestina_, donde es fuerza que se rompa el velo de el
    Templo en la tercera jornada, y se escurezca el sol y la luna, y se den
    unas piedras con otras, y se venga abajo toda la fábrica celestial con
    truenos y relámpagos, cometas y exhalaciones, en sentimiento de su
    Hacedor; que por faltarme los nombres que he de poner a los sayones no
    la he acabado. ¡Ahí me dirá vuesa merced, señor Güésped, qué fuera ello!

    –Váyase–dijo el Mesonerazo–a acaballa al Calvario, aunque no faltará
    en cualquiera parte que la escriba o la representen quien le crucifique
    a silbos, legumbre y edificio[273].

    –Antes resucitan con mis comedias los autores–dijo el Poeta–; y para
    que conozcan todos vuesas mercedes esta verdad y admiren el estilo que
    llevan todas las que yo escribo, ya que se han levantado a tan buen
    tiempo, quiero leelles ésta.

    Y, diciendo y haciendo, tomó en la mano una rima de vueltas de cartas
    viejas, cuyo bulto se encaminaba más a pleito de tenuta[274] que a
    comedia, y arqueando las cejas y deshollinándose los bigotes, dijo,
    leyendo el título, de esta suerte:

    –_Tragedia Troyana, Astucias de Sinón, Caballo griego, Amantes
    adúlteros y Reyes endemoniados_. Sale lo primero por el patio, sin haber
    cantado, el Paladión[275], con cuatro mil griegos por lo menos, armados
    de punta en blanco[276], dentro dél.

    –¿Cómo–le replicó un caballero soldado de aquellos que estaban en
    cueros, que parece que se habían de echar a nadar en la comedia–puede
    toda esa máquina entrar por ningún patio ni coliseo de cuantos hay en
    España, ni por el del Buen Retiro, afrenta de los romanos anfiteatros,
    ni por una plaza de toros?

    –¡Buen remedio!–respondió el Poeta–. Derribaráse el corral y dos
    calles junto a él para que quepa esta tramoya, que es la más portentosa
    y nueva que los teatros han visto; que no siempre sucede hacerse una
    comedia como ésta, y será tanta la ganancia, que podrá muy bien a sus
    ancas sufrir todo este gasto. Pero escuchen, que ya comienza la obra, y
    atención, por mi amor. Salen por el tablado, con mucho ruido de
    chirimías y atabalillos, Príamo, rey de Troya, y el príncipe Paris, y
    Elena, muy bizarra en un palafrén, en medio, y el Rey a la mano derecha
    (que siempre desta manera guardo el decoro a las personas reales), y
    luego, tras ellos, en palafrenes negros, de la misma suerte, once mil
    dueñas a caballo.

    –Más dificultosa apariencia es ésa que esotra–dijo uno de los
    oyentes–, porque es imposible que tantas dueñas juntas se hallen.

    –Algunas se harán de pasta[277]–dijo el Poeta–, y las demás se
    juntarán de aquí para allí; fuera de que si se hace en la Corte, ¿qué
    señora habrá que no envíe sus dueñas prestadas para una cosa tan grande,
    por estar los días que se representare la comedia, que será, por lo
    menos, siete u ocho meses, libres de tan cansadas sabandijas?[278]

    Hubiéronse de caer de risa los oyones[279], y de una carcajada se
    llevaron media hora de reloj, al son de los disparates del tal Poeta, y
    él prosiguió diciendo:

    –No hay que reírse; que si Dios me tiene de sus consonantes, he de
    rellenar el mundo de comedias mías, y ha de ser Lope de Vega (prodigioso
    monstruo español y nuevo Tostado en verso) niño de teta conmigo, y
    después me he de retirar a escribir un poema heroico para mi
    posteridad, que mis hijos o mis sucesores hereden, en que tengan toda su
    vida que roer sílabas. Y agora oigan vuesas mercedes…:–amagando a
    comenzar (el brazo derecho levantado) los versos de la comedia, cuando
    todos a una voz le dijeron que lo dejase para más espacio, y el Güésped,
    indignado, que sabía poco de filis[280], le volvió a advertir que no
    había de estar un día más en la posada.

    La encamisada[281], pues, de los caballeros y soldados se puso a mediar
    con el Güésped el caso[282], y don Cleofás, sobre un _Arte poética_ de
    Rengifo[283], que estaba también corriendo borrasca entre esotros
    legajos por el suelo, tomó pleito homenaje[284] al tal poeta, puestas
    las manos sobre los consonantes, jurando que no escribiría más comedias
    de ruido, sino de capa y espada, con que quedó el Güésped satisfecho; y
    con esto se volvieron a sus camas, y el Poeta, calzado y vestido, con su
    comedia en la mano, se quedó tan aturdido sobre la suya, que apostó a
    roncar con los Sietes Durmientes[285], a peligro de no valer la moneda
    cuando despertase.

    TRANCO V

    Dentro de muy pocas horas lo fué de volverse a levantar los güéspedes al
    quitar[286], haciendo la cuenta con ellos de la noche pasada el güésped
    de por vida, esperezándose y bostezando de lo trasnochado con el Poeta,
    y trataron de caminar, ensillando los mozos de mulas y poniendo los
    frenos al son de seguidillas y jácaras, y brindándose con vino y pullas
    los unos a los otros, ribeteándolas con tabaco en polvo y en humo,
    cuando don Cleofás también despertó, tratando de vestirse, con algunas
    _saudades_[287] de su dama: que las malas correspondencias de las
    mujeres a veces despiertan más la voluntad; y antes que diesen las ocho,
    como había dicho, entró por el aposento el camarada, en traje turquesco,
    con almalafa y turbante, señales ciertas de venir de aquel país,
    diciendo:

    –¿Heme tardado mucho en el viaje, señor Licenciado?

    El le respondió sonriéndose:

    –Menos se tardó vuesa merced desde el cielo al infierno, con haber más
    leguas, cuando rodó con todos esos príncipes que no han podido gatear
    otra vez a la maroma de donde cayeron.

    –¿Al amigo, señor don Cleofás–respondió el Cojuelo–, chinche en el
    ojo[288], como dice el refrán de Castilla? ¡Bueno, bueno!

    –Pocos hay–respondió el Estudiante–que en ofreciéndose el chiste,
    miren esos respetos; pero esto lo digo yo en galantería[289], y la
    amistad[290] que hay ya entre nosotros. Mas dejando esto aparte, ¿cómo
    nos ha ido[291] por esos mundos?

    –Hice todo a lo que fuí, y mucho más–respondió el genízaro recién
    venido–, y si quisiera, me jurara por Gran Turco aquella buena gente;
    que a fe que alguna guarda mejor su palabra, y saben decir verdad y
    hacer amistades, que vosotros los cristianos.

    –¡Qué presto te pagaste!–dijo don Cleofás–. Algún cuarto debes de
    tener de demonio villano.

    –Es imposible–respondió el Cojuelo–, porque decendemos todos de la
    más noble y más alta Montaña de la tierra y del cielo, y aunque seamos
    zapatero de viejo, en siendo montañeses, todos somos hidalgos[292]; que
    muchos dellos nacen, como los escarabajos y los ratones, de la
    putrefacción.

    –Bien sé que sabes Filosofía–le dijo don Cleofás–mejor que si la
    hubieras estudiado en Alcalá, y que eres maestro en primeras licencias.
    Dejemos estas digresiones y acaba de darme cuenta de tu jornada.

    –Con el traje del país, como ves–respondió el Diablillo–, por
    ensuciallos todos, como cierto amigo que, por desaseado en estremo,
    ensució el de soldado, el de peregrino y estudiante, volví por los
    Cantones, por la Bertolina[293] y Ginebra, y no tuve que hacer nada en
    estos países, porque sus paisanos son demonios de sí mismos, y éste es
    el juro de heredad que más seguro tenemos en el infierno, después de las
    Indias[294]. Fuí a Venecia, por ver una población tan prodigiosa, que
    está fundada en el mar, y de su natural condición tan bajel de argamasa
    y sillería, que, como la tiene en peso el piélago Mediterráneo, se
    vuelve a cualquier viento que le sopla. Estuve en la plaza de San
    Marcos, platicando con unos criados de unos clarísimos[295], esta
    mañana, y hablando en[296] las gacetas de la guerra, les dije que en
    Constantinopla se había sabido, por espías que estaban en España, que
    hay grandes prevenciones della, y tan prodigiosas, que hasta los
    difuntos se levantan, al son de las cajas, de los sepulcros para este
    efeto, y hay quien diga que entre ellos había resucitado el gran Duque
    de Osuna[297]; y apenas lo acabé de pronunciar, cuando me escurrí, por
    no perder tiempo en mis diligencias, y, dejando el seno adriático me
    sorbí la Marca de Ancona, y por la Romanía, a la mano izquierda, dejé a
    Roma, porque aun los demonios, por cabeza de la Iglesia militante,
    veneramos su población. Pasé por Florencia a Milán, que no se le da con
    su castillo dos blancas de la Europa. Vi a Génova[298] la bella, talego
    del mundo, llena de novedades, y, golfo lanzado[299], toqué a
    Vinaroz[300] y a los Alfaques, pasando el de León y Narbona. Llegué a
    Valencia, que juega cañas dulces con la primavera, metíme en la Mancha,
    que no hay greda que la pueda sacar, entré en Madrid, y supe que unos
    parientes de tu dama te andaban a buscar para matarte, porque dicen que
    la has dejado sin reputación; y lo peor es lo que me chismeó
    Zancadilla, demonio espía del infierno y sobrestante de las tentaciones:
    que me andaba a buscar Cienllamas con una requisitoria; y soy de
    parecer, para oviar[301] estos dos riesgos, que pongamos tierra en
    medio. Vámonos al Andulucía[302], que es la más ancha del mundo; y pues
    yo te hago la costa, no tienes que temer nada; que, con el romance que
    dice:

    «Tendré el invierno en Sevilla
    y el veranito en Granada»[303],

    no hemos de dejar lugar en ella que no trajinemos.

    Y volviéndose a la ventana que salía a la calle, le dijo:

    –Hágote puerta de mesón. Vamos, y sígueme por ella, don Cleofás; que
    hemos de ir a comer a la venta de Darazután[304], que es en
    Sierra-morena, veinte y dos o veinte y tres leguas[305] de aquí.

    –No importa–dijo don Cleofás–, si eres demonio de portante[306],
    aunque cojo.

    Y diciendo esto, salieron los dos por la ventana, flechados de sí
    mismos[307], y el Güésped, desde la puerta, dándole voces al Estudiante
    cuando le vió por el aire, diciendo que le pagase la cama y la posada, y
    don Cleofás respondiendo que en volviendo del Andalucía cumpliría con
    sus obligaciones; y el Güésped, que parecía que lo soñaba, se volvió
    santiguando y diciendo:

    –Pluguiera a Dios, como se me va éste, se me fuera el Poeta, aunque se
    me llevara la cama y todo asida a la cola.

    Ya, en esto, el Cojuelo y don Cleofás descubrían la dicha venta, y,
    apeándose del aire, entraron en ella, pidiendo al Ventero de comer, y él
    les dijo que no había quedado en la venta más que un conejo y un
    perdigón, que estaban en aquel asador entreteniéndose a la lumbre.

    –Pues trasládenlos a un plato–dijo don Cleofás–, señor Ventero, y
    venga el salmorejo[308], poniéndonos la mesa, pan, vino y salero.

    El Ventero respondió que fuese en buen hora; pero que esperasen que
    acabasen de comer unos estranjeros que estaban en eso, porque en la
    venta no había otra mesa más que la que ellos ocupaban. Don Cleofás
    dijo:

    –Por no esperar, si estos señores nos dan licencia, podremos comer
    juntos, y ya que ellos van en la silla, nosotros iremos en las ancas.

    Y sentándose los dos al paso que lo decían, fué todo uno, trayéndoles el
    Ventero la porción susodicha, con todas sus adherencias y
    incidencias[309], y comenzaron a comer en compañía de los estranjeros,
    que el uno era francés, el otro inglés, el otro italiano y el otro
    tudesco, que había ya pespuntado la comida más aprisa a brindis de vino
    blanco y clarete, y tenía a orza la testa[310], con señales de vómito y
    tiempo borrascoso, tan zorra[311] de cuatro costados[312], que pudiera
    temelle el corral de gallinas del Ventero. El Italiano preguntó a don
    Cleofás que de adonde venía, y él le respondió que de Madrid. Repitió el
    Italiano:

    –¿Qué nuevas hay de la guerra, señor Español?

    Don Cleofás le dijo:

    –Agora todo es guerra.

    –Y ¿contra quién dicen?–replicó el Francés.

    –Contra todo el mundo–le respondió don Cleofás–, para ponerlo todo él
    a los pies del Rey de España.

    –Pues a fe–replió el Francés–que primero que el Rey de España….

    Y antes que acabase la razón el Gabacho, dijo don Cleofás:

    –El Rey de España….

    Y el Cojuelo le fué a la mano, diciendo:

    –Déjame, don Cleofás, responder a mí, que soy español por la vida, y
    con quien vengo, vengo[313]; que les quiero con alabanzas del Rey de
    España dar un tapaboca a estos borrachos, que si leen las historias
    della, hallarán que por Rey de Castilla tiene virtud de sacar demonios,
    que es más generosa cirujía que curar lamparones[314].

    Los estranjeros, habiendo visto callar al Español, estaban muy
    falsos[315], cuando el Cojuelo, sentándose mejor y tomando la mano[316],
    y en traje castellano, que ya había dejado a la guardarropa del viento
    el turquesco, les dijo:

    –Señores míos, mi camarada iba a responder, y a mí, por tener más edad,
    me toca el hacello; escúchenme atentamente, por caridad. El Rey de
    España es un generosísimo lebrel, que pasa acaso solo por una calle, y
    no hay gozque en ella que a ladralle no salga, sin hacer caso de
    ninguno, hasta que se juntan tantos, que se atreve uno, al desembocar
    della a otra, pensando que es sufrimiento y no desprecio, a besalle con
    la boca la cola; entonces vuelve, y dando una manotada a unos y otra a
    otros, huyen todos de manera, que no saben dónde meterse, y queda la
    calle tan barrida de gozques y con tanto silencio, que aun a ladrar no
    se atreven, sino a morder las piedras, de rabia. Esto mismo le sucede
    siempre con los reyes contrarios, con las señorías y potentados, que son
    todos gozques con su Majestad[317] Católica; pero guárdese el que se
    atreviere a besarle la cola; que ha de llevar manotada que escarmiente
    de suerte a los demás, que no hallen dónde meterse, huyendo dél[318].

    Los estranjeros se comenzaron a escarapelar, y el Francés le dijo:

    –¡Ah, bugre, coquín español!

    Y el Italiano:

    –¡Forfante, marrano español!

    Y el Inglés:

    –¡Nitesgut español[319]!

    Y el Tudesco estaba de suerte, que lo dió por recibido, dando permisión
    que hablasen los demás por él en aquellas cortes.

    Don Cleofás, que los vió palotear y echar espadañas de vino y herejías
    contra lo que había dicho su camarada, acostumbrado a sufrir poco y al
    refrán de «quien da luego, da dos veces», levantando el banco en que
    estaban sentados los dos, dió tras ellos, adelantándose el compañero
    con las muletas en la mano, manejándolas tan bien, que dió con el
    Francés en el tejado de otra venta que estaba tres leguas de allí, y en
    una necesaria de Ciudad Real con el Italiano[320], porque muriese hacia
    donde pecan, y con el Inglés, de cabeza en una caldera de agua hirviendo
    que tenían para pelar un puerco en casa de un labrador de Adamuz; y al
    Tudesco, que se había anticipado a caer de bruces a los pies de Cleofás,
    le volvió al puerto de Santa María, de donde había salido quince días
    antes, a dormir la zorra[321]. El Ventero se quiso poner en medio, y dió
    con él en Peralvillo[322], entre aquellas cecinas de Gestas, como en su
    centro.

    Volviéronse, con esto, a sentar a comer de los despojos que había dejado
    el enemigo, muy de espacio, y estando en los postreros lances de la
    comida, entraron algunos mozos de mulas en la venta, llamando al Güésped
    y pidiendo vino, y tras ellos, en el mismo carruaje, una compañía de
    representantes que pasaban de Córdoba a la Corte, con ganas de tomar un
    refresco en la venta. Venían las damas en jamugas, con bohemios[323],
    sombreros con plumas y mascarillas en los rostros, los chapines[324],
    con plata, colgando de los respaldares de los sillones; y ellos, unos
    con portamanteos sin cojines, y otros sin cojines ni portamanteos, las
    capas dobladas debajo, las valonas[325] en los sombreros, con alforjas
    detrás; y los músicos, con la guitarras en cajas delante de los arzones,
    y algunos dellos ciclanes de estribos[326], y otros, eunucos, con los
    mozos que le sirven[327] a las ancas, unos con espuelas sobre los
    zapatos y las medias, y otros con botas de rodillera, sin ninguna; otros
    con varas para hacer andar sus cabalgaduras y las de las mujeres. Los
    apellidos de los más eran valencianos, y los nombres de las
    representantas[328] se resolvían en Marianas y Anas Marías, hablando
    todo recalcado[329], con el tono de la representación. La conversación
    con que entraron en la venta era decir que habían robado a Lisboa,
    asombrado a Córdoba y escandalizado a Sevilla, y que habían de despoblar
    a Madrid[330], porque con sola la loa que llevaban para la entrada, de
    un tundidor de Ecija[331], habían de derribar cuantos autores entrasen
    en la Corte. Con esto, se fueron arrojando de las cabalgaduras, y los
    maridos, muy severos[332], apeando en los brazos a sus mujeres, llamando
    todos al Güésped,

    «y él de nada se dolía»[333].

    La Autora se asentó en una alhombrilla que la echaron en el suelo; las
    demás princesas, alrededor, y el Autor andaba solicitando el regalo de
    todos, como pastor de aquel ganado. Y dijo el Cojuelo:

    –Con el señor Autor estoy en pecado mortal de parte de mis camaradas.

    –¿Por qué?–dijo don Cleofás.

    Respondió el Diablillo:

    –Porque es el peor representante del mundo, y hace siempre los demonios
    en los autos del Corpus, y está perdigado[334] para demonio de veras, y
    para que haga en el infierno los autores si se representaren comedias;
    que algunas hacen estas farándulas, que aun para el infierno son malas.

    –Uno he visto aquí–dijo don Cleofás–, entre los demás compañeros, que
    le he deseado cruzar la cara, porque me galanteó en Alcalá una doncella,
    moza mía, que se enamoró dél viéndole hacer un rey de Dinamarca.

    –Doncella–dijo el Cojuelo–debía de ser de allá[335]; pero si
    quieres–prosiguió–que tomemos los dos venganza del Autor y del
    Representante, espera y verás cómo lo trazo; porque agora quieren
    repartir una comedia con que han de secundar en Madrid, y sobre los
    papeles has de ver lo que pasa.

    Al mismo tiempo que decía esto el Cojuelo, el apuntador de la Compañía
    sacó de un alforja los de una comedia de Claramonte[336], que había
    acabado de copiar en Adamuz el tiempo que estuvieron allí, diciendo al
    Autor:

    –Aquí será razón que se repartan estos papeles, entretanto que se
    adereza la comida y parece el Güésped.

    El Autor vino en ello, porque se dejaba gobernar del tal Apuntador, como
    de hombre que tenía grandísima curia en la comedia, y había sido
    estudiante en Salamanca, y le llamaban el Filósofo por mal nombre; y
    llegando con el papel de la segunda dama a Ana María, mujer del que
    cantaba los bajetes y bailaba los días de Corpus, habiéndole dado la
    primera dama a Mariana, la mujer del que cobraba y que hacía su parte
    también en las comedias de tramoya, arrojándole, dijo que ella había
    entrado para partir entre[337] las dos los primeros papeles, y que
    siempre le daban los segundos, y que ella podía enseñar a representar a
    cuantas andaban en la comedia, porque había representado al lado de las
    mayores representantas del mundo y en la legua[338] la llamaban
    Amarilis[339], segunda deste nombre. Esotra le dijo que no sabría mirar
    lo que ella con su zapato representaba[340], respondiéndole esotra que
    de cuándo acá tenía tanta soberbia, sabiendo que en Sevilla le prestó
    hasta las enaguas para hacer el papel de Dido[341] en la gran comedia de
    don Guillén de Castro, echando a perder la comedia y haciendo que
    silbasen la compañía.

    –Tú eres la silbada–dijo esotra–, y tu ánima[342].

    Llegando a las manos y diciéndose palabras mayores, y tan grandes, que
    alcanzaron a los maridos; y sacando unos con otros las espadas, comenzó
    una batalla de comedia, metiéndolos en paz los mozos de mulas con los
    frenos que acababan de quitar; y dejándolos empelotados, se salieron don
    Cleofás y el Cojuelo de la venta al camino de Andalucía, quedándose
    abrasando a cuchilladas la compañía que fuera un Roncesvalles del
    molino del papel[343] si el Ventero no llegara con la Hermandad[344] en
    busca de los dos que se fueron, para prendello, con escopetas, chuzos y
    ballestas; y hallando esta nueva matanza en su venta, y jarros, tinajas
    y platos hechos tantos[345] en la refriega, los apaciguaron, y
    prendieron a los dichos representantes para llevarlos a Ciudad Real,
    habiendo de tener otra pelaza más pesada con el alguacil que los traía a
    Madrid por orden de los arrendadores, con comisión del Consejo[346].

    TRANCO VI

    En este tiempo, nuestros caminantes, tragando leguas de aire, como si
    fueran camaleones[347] de alquiler, habían pasado a Adamuz, del gran
    Marqués del Carpio, Haro y nobilísimo decendiente de los señores
    antiguos de Vizcaya, y padre ilustrísimo del mayor Mecenas[348] que los
    antiguos ingenios y modernos han tenido, y caballero que igualó con sus
    generosas partes su modestia. Y habiéndose sorbido de los siete vados y
    las ventas de Alcolea, se pusieron a vista de Córdoba por su fertilísima
    campiña y por sus celebradas dehesas gamonosas[349], donde nacen y
    pacen tantos brutos, hijos del Céfiro más que los que fingió la
    antigüedad en el Tajo portugués[350]; y entrando por el Campo de la
    Verdad[351] (pocas veces pisado de gente desta calaña) a la Colonia[352]
    y populosa patria de dos Sénecas y un Lucano, y del padre de la Poesía
    española, el celebrado Góngora, a tiempo que se celebraban fiestas de
    toros aquel día, y juego de cañas, acto positivo[353] que más
    excelentemente ejecutan los caballeros de aquella ciudad, y tomando
    posada en el mesón de las Rejas[354], que estaba lleno de forasteros que
    habían concurrido a esta celebridad, se apercibieron para ir a vellas,
    limpiándose el polvo de las nubes; y llegando a la Corredera[355], que
    es la plaza donde siempre se hacen estas festividades, se pusieron a ver
    un juego de esgrima que estaba en medio del concurso de la gente, que en
    estas ocasiones suele siempre en aquella provincia preceder a las
    fiestas, a cuya esfera no había llegado la línea recta, ni el ángulo
    obtuso ni oblicuo[356]; que todavía se platicaba el uñas arriba y el
    uñas abajo de la destreza primitiva que nuestros primeros padres
    usaron; y acordándose don Cleofás de lo que dice el ingeniosísimo
    Quevedo en su _Buscón_[357], pensó[358] perecer de risa, bien que se
    debe al insigne don Luis Pacheco de Narváez haber sacado de la obscura
    tiniebla de la vulgaridad a luz la verdad deste arte, y del caos de
    tantas opiniones las demonstraciones matemáticas desta verdad.

    Había dejado en esta ocasión la espada negra[359] un mozo de Montilla,
    bravo aporreador, quedando en el puesto otro de los Pedroches, no menos
    bizarro campeón, y arrojándose, entre otros que la fueron a tomar muy
    apriesa, don Cleofás la levantó primero que todos, admirando la
    resolución de el forastero, que en el ademán les pareció castellano, y
    dando a su camarada la capa y la espada, como es costumbre, puso
    bizarramente las plantas en la palestra. En esto, el Maestro, con el
    montante[360], barriendo los pies a los mirones, abrió la rueda, dando
    aplauso[361] a la pendencia vellorí[362], pues se hacía con espadas
    mulatas; y partiendo el andaluz y el estudiante castellano uno para el
    otro airosamente, corrieron una ida y venida sin tocarse al pelo de la
    ropa, y a la segunda, don Cleofás, que tenía algunas revelaciones de
    Carranza, por el cuarto círculo[363] le dió al andaluz con la zapatilla
    un golpe de pechos, y él, metiendo el brazal, un tajo a don Cleofás en
    la cabeza, sobre la guarnición de la espada; y convirtiendo don Cleofás
    el reparo en revés, con un movimiento accidental[364], dió tan grande
    tamborilada al contrario, que sonó como si la hubiera dado en la
    tumba[365] de los Castillas. Alborotáronse algunos amigos y conocidos,
    que había en el corro, y sobre el montante del señor Maestro le entraron
    tirando algunas estocadillas veniales al tal don Cleofás, que con la
    zapatilla, como con agua bendita, se las quitó, y apelando a su espada y
    capa, y el Cojuelo a sus muletas, hicieron tanta riza[366] en el montón
    agavillado, que fué menester echalles un toro para ponellos en paz: tan
    valiente montante de Sierramorena, que a dos o tres mandobles puso la
    plaza más despejada que pudieran la guarda tudesca y española, a costa
    de algunas bragas que hicieron por detrás cíclopes a sus dueños[367],
    encaramándose a un tablado don Cleofás y su camarada, muy falsos[368],
    a ver la fiesta, haciéndose aire con los sombreros, como si tal no
    hubiera pasado por ellos; y acechándolos unos alguaciles, porque en
    estas ocasiones siempre quiebra la soga por lo más forastero[369],
    habiendo dejarretado el toro, llegaron desde la plaza a caballo,
    diciéndoles:

    –Señor Licenciado y señor Cojo, bajen acá, que los llama el señor
    Corregidor.

    Y haciendo don Cleofás y su compañero orejas de mercader, comenzaron los
    ministros o vaqueros de la justicia a quererlo intentar con las varas, y
    agarrándose cada uno de la suya, a vara por barba[370], dijeron a los
    tales ministros, quitándoselas de las manos de cuajo:

    –Sígan[n]os vuesas mercedes si se atreven a alcanzarnos.

    Y levantándose por el aire, parecieron cohetes voladores, y los dichos
    alguaciles, capados de varas, pedían a los gorriones «¡Favor a la
    justicia!»[371], quedándose suspensos y atribuyendo la agilidad de los
    nuevos volatines a sueño, haciendo tan alta punta[372] los dos halcones,
    salvando a Guadalcázar, del ilustre Marqués de este título, del claro
    apellido de los Córdovas, que dieron sobre el rollo de Écija, diciéndole
    el Cojuelo a don Cleofás:

    –Mira qué gentil árbol berroqueño, que suele llevar hombres, como otros
    fruta.

    –¿Qué coluna tan grande es ésta?–le preguntó don Cleofás.

    –El celebrado rollo[373] del mundo–le respondió el Cojuelo.

    –Luego ¿esta ciudad es Écija?–le repitió don Cleofás.

    –Ésta _es_ Écija, la más fértil población de Andalucía–dijo el
    Diablillo–, que tiene aquel sol[374] por armas a la entrada de esa
    hermosa puente, cuyos ojos rasgados lloran a Genil, caudaloso río que
    tiene su solar en Sierra Nevada, y después, haciendo con el Darro
    maridaje de cristal, viene a calzar de plata estos hermosos edificios y
    tanto pueblo de abril y mayo[375]. De aquí fué Garci Sánchez de
    Badajoz[376], aquel insigne poeta castellano; y en esta ciudad solamente
    se coge el algodón[377], semilla que en toda España no nace, además de
    otros veinte y cuatro frutos, sin sembrallos, de que se vale para vender
    la gente necesitada; su comarca también es fertilísima[378]. Montilla
    cae aquí a mano izquierda, habitación de los heroicos marqueses de
    Priego, Córdovas y Aguilares, de cuya gran casa salió, para honra de
    España, el que mereció llamarse Gran Capitán por antonomasia, y hoy a su
    Marqués ilustrísimo se le ha acrecentado la casa de Feria, por morir sin
    hijos aquel gran portento de Italia, que malogró la Fortuna, de envidia;
    cuyo gran sucesor, siendo mudo, ocupa a grandezas en silencio elocuente
    las lenguas de la Fama. Más abajo está Lucena, del Alcaide de los
    Donceles, Duque de Cardona, en cuyo océano de blasones se anegó la gran
    casa de Lerma. Luego, Cabra, celebrada por su sima[379], tan profunda
    como la antigüedad de sus dueños, pregona con las lenguas de sus
    almenas, que es del ínclito Duque de Sesa y Soma, y que la vive hoy su
    entendido y bizarro heredero. Luego Osuna se ofrece a la demarcación
    destos ilustres edificios, blasonando con tantos maestres Girones la
    altivez de sus duques; y veinte y dos leguas de aquí cae la hermosísima
    Granada, paraíso de Mahoma, que no en vano la defendieron tanto sus
    valientes africanos españoles, de cuya Alhambra y Alcazaba es alcaide el
    nobilísimo Marqués de Mondéjar, padre del generoso conde de Tendilla,
    Mendozas del Ave María y credo de los caballeros. No nos olvidemos, de
    camino, de Guadix, ciudad antigua y celebrada por sus melones[380], y
    mucho más por el divino ingenio del doctor Mira de Mescua[381], hijo
    suyo y arcediano.

    Cuando iba el Cojuelo refiriendo esto, llegaron a la Plaza Mayor de
    Ecija, que es la más insigne del Andalucía, y junto a una fuente que
    tiene en medio del jaspe, con cuatro ninfas gigantas de alabastro
    derramando lanzas de cristal[382], estaban unos ciegos sobre un banco,
    de pies, y mucha gente de capa parda de auditorio, cantando la relación
    muy verdadera que trataba de cómo una maldita dueña se había hecho
    preñada del diablo, y que por permisión de Dios había parido una manada
    de lechones, con un romance de don Alvaro de Luna y una letrilla contra
    los demonios, que decía:

    «Lucifer tiene muermo,
    Satanás, sarna,
    y el Diablo Cojuelo
    tiene almorranas.
    Almorranas y muermo,
    sarna y ladillas,
    su mujer se las quita
    con tenacillas.»[383]

    El Cojuelo le dijo a don Cleofás:

    –¿Qué te parece los testimonios que nos levantan estos ciegos y las
    sátiras que nos hacen? Ninguna raza de gente se nos atreve a nosotros si
    no son éstos, que tienen más ánimo que los mayores ingenios; pero esta
    vez me lo han de pagar, castigándose ellos mismos por sus propias manos,
    y daré, de camino, venganza a las dueñas, porque no hay en el mundo
    quien no las quiera mal, y nosotros las tenemos grandes obligaciones,
    porque nos ayudan a nuestros embustes; que son demonias hembras[384].

    Y sobre la entonación de las coplas metió el Cojuelo tanta cizaña entre
    los ciegos, que, arrempujándose primero, y cayendo dellos en el pilón de
    la fuente, y esotros en el suelo, volviéndose a juntar, se mataron a
    palos, dando barato[385], de camino, a los oyentes, que les respondieron
    con algunos puñetes y coces. Y como llegaron a Écija con las varas de
    los alguaciles de Córdoba, pensando que traían alguna gran comisión de
    la Corte, llegó la justicia de la ciudad a hacelles fiesta y a
    lisonjeallos con ofrecerles sus posadas, y ellos, valiéndose de la
    ocasión, admitieron las ofertas, con que fueron regalados como cuerpos
    de rey; y preguntándoles qué era el negocio que traían para Écija, el
    Cojuelo les respondió que era contra los médicos y boticarios, y visita
    general de beatas; y que a los médicos se les venía a vedar que después
    de matar un enfermo, no les valiese[386] la mula por sagrado; y que,
    cuando no se saliese con esto, por lo menos, a los boticarios que
    errasen las purgas, que no pudiesen ser castigados si se retrujesen[387]
    en los cimenterios de las mulas de los médicos, que son las ancas[388];
    y que a las beatas se les venía a quitar el tomar tabaco, beber
    chocolate y comer jigote.