Uma família ingleza Scenas da vida do Porto
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UMA FAMILIA INGLEZA
UMA FAMILIA INGLEZA
SCENAS DA VIDA DO PORTO
POR
JULIO DINIZ
Terceira Edição
Porto
Em casa de A. R. da Cruz Coutinho, Editor
18–Rua dos Caldeireiros–20
1875
TYPOGRAPHIA DO JORNAL DO PORTO
Rua Ferreira Borges, 31
UMA FAMILIA INGLEZA
I
ESPECIE DE PROLOGO, EM QUE SE FAZ UMA APRESENTAÇÃO AO LEITOR
Entre os subditos da rainha Victoria, residentes no Porto, ao principiar
a segunda metade do seculo dezenove, nenhum havia mais bemquisto e mais
obsequiado, e poucos se apontavam como mais fleugmaticos e genuinamente
inglezes, do que Mr. Richard Whitestone.
Por tal nome era em toda a cidade conhecido um abastado negociante de
fino tacto commercial e genio emprehendedor, cujo credito nas primeiras
praças da Europa e da America, e com especialidade nos vastos emporios
da Gran-Bretanha, se firmava em bases de uma solidez superabundantemente
provada.
Nos livros de registro do _Bank of England_, bem como nos de alguns
_Joint-Stock banks_ e dos banqueiros particulares da _City_ ou de
_West-End_, podia-se procurar com exito documentos justificativos d'este
credito florescente.
Não era Mr. Richard homem para seguir sómente caminhos batidos, nem para
empallidecer ao abalançar-se em veredas não arroteadas, onde se achava a
sós com os seus esforços e tenacidade.
Por vezes arriscára capitaes a inaugurar companhias, a plantar novos
ramos de commercio, a auxiliar industrias nascentes, aventurando assim
proveitosos exemplos, para serem seguidos depois, já com melhores
garantias de lucro, por seus collegas, caracteres em geral cautelosos e
positivos e sempre desconfiados a respeito de innovações.
Apesar d'isso, as crises, essas derruidoras tempestades tão frequentes
na vida do commercio, tinham passado por cima da casa Whitestone,
respeitando-a. Através das nuvens negras, que tantas vezes assombram o
mundo monetario, vira-se sempre brilhar a firma do honrado Mr. Richard,
com o esplendor tradicional; emquanto que não sorriram fados tão
propicios ás de muitos meticulosos e precatados, não obstante egoistas
abstenções.
Era o caso de mais uma vez repetir o _Audaces fortuna_… de já estafada
memoria.
Esta immunidade, em parte devida á lucida intelligencia, com a qual Mr.
Richard sabia superintender nos variados negocios do seu tracto, em
parte a não sei que benigno espirito, ou acaso feliz, a que muitas vezes
parece andar subordinada a fortuna, valera-lhe uma illimitada confiança
entre todos, com quem o negocio o ligava, confiança da qual, nem em
circumstancias frivolas, se mostrou nunca indigno depositario.
O quotidiano apparecimento do negociante estrangeiro na Praça–nome que
entre nós se dá ainda á rua dos Inglezes, principal centro de
transacções do alto commercio portuense–festejavam-o benevolentes
sorrisos, rasgadas e pressurosas reverencias, phrases de insinuante
amabilidade e affectuosos _shake-hands_, segundo o mais ou menos
adiantado grau de familiaridade, que cada qual mantinha com elle.
Ninguem se dispensava de qualquer d'estas demonstrações de estima, ou as
impozesse o prestigio dos avultados capitaes e da social liberalidade do
commerciante britannico, ou–como de preferencia opinarão os que melhor
conceito formam dos homens–um longo passado sem mancha, uma rectidão e
cavalheirismo, aquilatados todos os dias.
Mr. Whitestone não se deixava porém desvanecer com estas homenagens dos
seus confrades, aliás merecidas.
Decididamente não era a vaidade o seu defeito dominante. Aspirando essa
especie de incenso moral, que tão bem formadas cabeças atordôa, não
sentia, no intimo, turbar-se a limpidez, verdadeiramente crystallina, da
razão, n'elle pouco sujeita a esvaîmentos.
Os gêlos d'aquelle coração, formado e desenvolvido a cincoenta e um
graus de latitude septentrional, não se fundiam com tão pouco.
Lôas, hymnos encomiasticos, capazes, ainda que em prosa, de atemorisar
as modestias menos esquivas, protestos hyperbolicos de veneração a todo
o transe, tudo isso escutava friamente e sem nem sequer experimentar
certa agradavel e voluptuosa titillação da alma–se me admittem a
phrase–que em quasi todos os filhos de Eva,–primeira e mal estreiada
victima da lisonja–produzem sempre os panegyricos do merecimento
proprio, entoados por bôcas alheias.
A mesma indifferença, a mesma, se não absoluta impassibilidade,
estabilidade de razão pelo menos, com que, uns após outros, esvasiava
copos de cerveja e calices do Porto e Madeira, de _rhum_, de _cognac_,
de _kummel_, de _gingerbeer_, e até de absintho, libações, que a
qualquer pessoa menos inglezmente organisada ameaçariam, em pouco tempo,
com as mais pavorosas consequencias de um completo alcoolismo; essa
mesma indifferença e impassibilidade oppunha ao effeito, não menos
inebriante, das lisonjas de que lhe enchiam os ouvidos.
A eloquencia cortezã dos seus muitos enthusiastas mais do que uma vez a
recebia assobiando distrahidamente, mas sem a menor affectação, o
nacional _God save the queen_, ao qual marcava compasso com a cabeça ou
com a bengala.
Não se dava ao trabalho de retribuir um cumprimento com outro
cumprimento. Aquelles que teem por costume semeiar lisonjas, para depois
as colherem, em proveito proprio, encontravam em Mr. Richard Whitestone
terreno ingrato para tal genero de cultura; não vingavam lá.
A chamar-se delicadeza a certos requebros de linguagem, a certas
subtilezas de galanteios, a certos meneios, ares e olhares
convencionaes, muito á moda nas salas e que variam com as épocas,
hesitar-se-hia em conceder a Mr. Richard o nome de delicado.
A delicadeza que elle praticava não era de facto essa. Fazia-a consistir
toda, a sua, nos sentimentos e nas acções inspiradas pelos eternos e
invariaveis dictames da consciencia e da razão, superiores portanto ás
fluctuações caprichosas da moda. Era uma delicadeza natural.
Verdadeiro inglez da velha Inglaterra, sincero, franco, ás vezes rude,
mas nunca mesquinho e vil, podia tomar-se por uma vigorosa
personificação do typico John Bull.
Alheio e pouco propenso á metaphysica, não o namoravam as transcendentes
questões de philosophia, que preoccupam doentiamente as intelligencias
da época; todo votado á contemplação da face positiva da vida, se não se
arroubava, como os exaltados optimistas, a considerar nos destinos
futuros da humanidade, evitava tambem o estorcer-se nas garras do
demonio da hypocondria, como se estorcem tantos, a quem prolongadas
meditações sobre os males que perseguem o homem acabam por envenenar o
pensamento.
Possuia em compensação Mr. Richard, e em alto grau, para luctar contra
as occorrentes resistencias da vida effectiva, aquella qualidade de
espirito, que, segundo Sterne, se diz _obstinação_ nas más applicações e
_perseverança_ nas boas.
Outra apreciavel disposição de animo caracterisava ainda o nosso
commerciante:–era a de não ser sujeito a longas mortificações, ou pelo
menos–e com mais rigor talvez–a de não as manifestar nos gestos ou por
quaesquer signaes exteriores.
Dir-se-hia, a julgal-o pelas apparencias, que espessa camada de
estoicismo lhe encrustára o coração, libertando-o da influencia dos
estimulos, que mais dolorosamente costumam commover essa viscera de tão
numerosas sympathias.
N'este mundo, ao qual os Heraclitos dos seculos christãos grangearam o
titulo lutuoso e elegiaco de _Valle de lagrimas_, não sabia successo
possivel, catastrophe realisavel, com força de alterar por muito tempo a
costumada expressão physionomica de Mr. Richard, de lhe desbotar sequer
o colorido vigoroso, ou,–como julgo se lhe chama em linguagem
technica,–o colorido quente, do qual lhe vinha ao gesto certo ar de
satisfação, despertador das mais justificadas invejas.
Nos typos inglezes, que as ondas do oceano arrojam todos os dias ás
nossas praias, é este phenomeno mais vulgar do que porventura se pensa.
Cada uma d'essas figuras britannicas vale por um protesto mudo, mas
eloquente, contra os velhos preconceitos de poetas e de escriptores
meridionaes.
Teimam de facto estes em que são indispensaveis os vividos raios do
nosso desanuviado sol, ou a face desassombrada da lua no firmamento
peninsular, onde não tem, como a de Londres–_a romper a custo um
plumbeo céo_–para verterem alegrias na alma e mandarem aos semblantes o
reflexo d'ellas; imaginam fatalmente perseguidos de _spleen_,
irremediavelmente lugubres e soturnos, como se a cada momento saíssem
das galerias subterraneas de uma mina de _pit-coul_, os nossos alliados
inglezes.
Como se enganam ou como pretendem enganar-nos!
É esta uma illusão ou má fé, contra a qual ha muito reclama debalde a
indelevel e accentuada expressão de beatitude, que transluz no rosto
illuminado dos homens de além da Mancha, os quaes parece caminharem
entre nós, envolvidos em densa atmosphera de perenne contentamento,
satisfeitos do mundo, satisfeitos dos homens e, muito especialmente,
satisfeitos de si.
Nem é para admirar que o romancista inglez James ousasse abrir o
primeiro capitulo de um romance seu com a seguinte exclamação:
«_Merry England! Oh, merry England!_» Alegre Inglaterra! oh! alegre
Inglaterra!
E por que se não ha de chamar alegre á Inglaterra? Como se generalisou a
infundada crença de que o inglez é por força melancolico?
É uma d'estas abusões, para lhe não dar nome peior, contra as quaes
ninguem se precavê com sufficiente criterio philosophico.
Repare o leitor imparcial para qualquer dos membros da colonia ingleza,
á qual Mr. Richard Whitestone pertencia, e verá que nem só nos tempos em
que a civilisação e a industria não tinham ainda arroteado as densas
florestas britannicas, seria cabido o jovial estribilho da canção que o
supracitado romancista pôz na bôca do legendario Robin Hood, seu
heroe:–«_Ho, merry England, merry England, ho_»; póde ainda cantar,
através dos nevoeiros e do fumo das fabricas, o inglez moderno, fiel
depositario d'aquelle folgado caracter nacional.
Eu tenho ha muito como ponto de fé, que ainda que o _spleen_ seja doença
indigena da Gran-Bretanha, não domina tão fatalmente sob o céo Londrino,
como muitos parece imaginarem.
Dryden affirma que as comedias inglezas possuem sobre as de todo o mundo
incontestavel superioridade.
E querem saber a que attribuem alguns esta superioridade da comedia
ingleza? Ao clima, a esse mesmo clima, que, em contrario, tantos accusam
de fomentador de hypocondrias e suicidios.
O clima inconstante da Inglaterra, explicam aquelles, é proprio para
favorecer o desenvolvimento d'esses caracteres excepcionaes e
extravagantes, precioso e inesgotavel pábulo do espirito comico da
Gran-Bretanha.–A jovialidade dá-se muito bem n'aquelle poderoso
imperio.
Tom Jones e o proprio Falstaff são typos mais inglezes talvez do que uns
sombrios caracteres, que Byron pôz á moda.
Ora Mr. Richard, o corajoso leitor do _Times_, o inimigo declarado da
França, apesar de certa seriedade de convenção, era metal inglez, livre
de toda a liga.
Nos maiores empertigamentos, a que o respeito pela pragmatica ingleza o
constrangia, lá lhe estava o gesto a denunciar, que era artificial tudo
aquillo.
Emquanto ao physico…, emquanto ao physico era Mr. Whitestone
caracterisadamente inglez.
Não supprirão estas palavras mais circumstanciada descripção?
Não ha entre nós quem, ao ver por ahi, nos maiores e mais mesclados
ajuntamentos, certa ordem de typos masculinos, hesite em attribuir-lhes
por patria a velha Albyon, a filha dos nevoeiros, a rainha dos mares, a
terra dos _meetings_, dos _puddings_ e de muitas cousas mais?
Pois bem, todos esses caracteres, todos esses signaes distinctivos dos
mais perfeitos exemplares da classe, achavam-se reunidos na pessoa de
Mr. Richard Whitestone, como certidão de naturalidade, limpa da menor
viciação.
Era aquella conhecida tez, quasi côr de tijolo; aquelles olhos azues, á
flor do rosto, a resplandecerem como saphiras; aquelles cabellos e
suissas ruivas, que, sem grande violencia de imagem, poder-se-hia talvez
comparar ás lavaredas do fogo, que lhe inflammava constantemente as
faces injectadas; os dentes regulares, como enfiaduras de perolas, e
alvos, como os caramélos das montanhas; a postura erecta; os movimentos
promptos, e no rosto o tal continuado ar de satisfação.
Do vestuario podia dizer-se quasi o mesmo.–Não falseava o typo. Era
ainda inglez de lei.
Um pequeno fraque de panno azul, fabricado nas melhores officinas de
Yorkshire ou do West of England; as calças, curtas e estreitas, dentro
das quaes as descarnadas tibias podiam fazer o effeito do embolo em
corpo de pneumatica; as botas esguias e compridas, onde a elegancia era
sacrificada á solidez; gravata e collete alvissimos, como os de um lord
do parlamento, e, de inverno, vestidura completa de _gutta-percha_ que,
n'estas épocas utilitarias e prosaicas, veio substituir as impenetraveis
armaduras da idade média–taes eram as peças principaes do guarda-roupa
do honrado negociante. Coroava finalmente tudo isto o chapéo, aquelle
chapéo de fórma invariavel, castello roqueiro inaccessivel ás ondas
destruidoras da moda; baluarte inabalavel no meio dos ventos encontrados
dos humanos caprichos; o chapéo, cujo molde classico dá a um grupo de
inglezes um aspecto, que é só d'elles; o chapéo, expressão symbolica da
indole industrial e fabril da famosa ilha, pois desperta lembranças das
chaminés, que ouriçam o panorama das suas mais manufactureiras cidades.
Respirando, havia mais de vinte annos, a atmosphera perfumada do nosso
clima meridional, e bebendo, em todo este tempo, da propria fonte o
predilecto das mesas britannicas, o genuino _Portwine_–esse nectar,
cujo aroma, ainda mais que os da nossa atmosphera, é grato ás
pituitarias inglezas, Mr. Richard Whitestone não conseguira, ou melhor,
estas influencias, com todos os outros feiticeiros attractivos da nossa
terra, ainda não haviam conseguido de Mr. Richard Whitestone dois
importantes resultados:–a adopção dos habitos de vida peninsular,
contra os quaes antes reagia sempre com a inteira inflexibilidade de
suas fibras britannicas, e o respeito á grammatica portugueza, que, em
todas as quatro partes, maltratava com uma irreverencia, com um
desplante de bradar aos céos e de desafiar os rigores da férula mais
indulgente.
Não desmentia Mr. Richard a asserção do auctor das _Lendas e
Narrativas_, quando affirma que sempre que um inglez, em casos
desesperados, recorre a algum idioma estranho, nunca o faz, sem o
torcer, estafar, e mutilar com toda a barbaridade de um verdadeiro
Kimbri.
De facto, as cinzas de Lobato e de Madureira deviam agitar-se na
sepultura sempre que Mr. Whitestone fallava, porque as regras mais
triviaes de regencia e de concordancia eram por elle atropelladas com
uma frieza de animo, com uma fleugma, com uma impassibilidade, somente
comparaveis ás de um membro do _Jockey-Club_, ao passar com o cavallo
por cima do corpo de algum transeunte inoffensivo ou competidor
derrubado na arena.
Não era mais feliz a prosodia, a alatinada prosodia d'este recanto
peninsular.
As combinações grammaticaes de Mr. Richard, ao fallar a nossa lingua,
saíam marcadas com um verdadeiro cunho britannico. Venus, a propria
Venus, perderia aquellas illusões, que nos refere o cantor dos
_Lusiadas_, se porventura ouvisse o portuguez que elle pronunciava.
Transparecia de alguma sorte nas orações do seu discurso o credito
liberal de um verdadeiro cidadão de Londres. O espirito conciliador e
ordeiro, o constitucionalismo arreigado n'aquelle animo inglez, e
adhesão aos principios interventores adoptados no seu paiz, parecia
haverem-se estendido, extravagantemente, ao campo da syntaxe portugueza,
levando Mr. Richard, n'um excesso de tendencia harmonisadora, a tentar
n'ella concordancias de substantivos e adjectivos contra a absoluta e
insuperavel repugnancia de generos e de numeros; e a modificar a
constituição grammatical de um paiz alliado, como a Inglaterra gosta de
modificar a sua constituição politica.
O effeito reunido d'aquella prosodia e syntaxe era ás vezes de uma
resultante comica que não actuava impunemente sobre os ouvidos, aliás
não muito pechosos, dos collegas commerciaes, em cujos labios sorrisos
de malicia mal disfarçada vinham por instantes afugentar a sisudez de
profissão.
Mr. Whitestone percebia-os e bem lhes suspeitava o sentido, mas era
completamente indifferente ao que percebia e suspeitava.
Se o contradissessem na pronuncia de uma palavra ingleza, embora das
mais controvertidas, se descobrisse um sorriso nos circumstantes, na
occasião em que elle estivesse fallando a patria lingua, então sim,
então era possivel que chegasse a exaltar-se a ponto de quasi ameaçar o
imprudente com uma irreprehensivel applicação da nobre sciencia dos
_boxers_, quasi divina arte do sôco, que, desde Jack Brougton, tem sido
cultivada em Londres «com fanatismo e ensinada com talento»–textuaes
palavras de um escriptor _ex-professo_.
Mas os sorrisos, que lhe valiam as atrocidades praticadas por elle nas
grammaticas estrangeiras, esses, soffria-os com impassivel indifferença
e não sei até se com certos vislumbres de orgulho e regosijo.
II
MAIS DUAS APRESENTAÇÕES, E ACABA O PROLOGO
O honrado chefe da casa Whitestone tinha dois filhos: uma gentil _lady_,
mimosa planta do Norte transplantada, aos dois annos, para o nosso
clima, e um rapaz, mais novo do que ella, e nascido já em Portugal.
Eram Jenny e Carlos.
Jenny era uma d'estas jovens inglezas, cuja suavidade e correcção de
contornos, alvura e delicadeza de tez e puro dourado dos cabellos, lhes
dão uma apparencia tão subtil e vaporosa, e, quasi direi, tão celestial,
que se espera a cada passo vel-as desprenderem-se da terra e
dissiparem-se, como instantanea visão luminosa, diante dos olhos, que
por momentos offuscaram.
Delicadas, como o arminho, que chega quasi a subtrahir-se á sensação do
tacto, de delicado que é, estas poeticas organisações septentrionaes
possuem tanto de vago, tanto de immaterial, que, junto d'ellas,
apodera-se de nós, entes profanos e grosseiros, certo invencivel
constrangimento, como se receiassemos com um sôpro desvanecel-as,
crestal-as com o olhar, maltratal-as com o gesto.
Os desejos não vôam até alli; rodeia-as uma atmosphera de virginal
castidade, no seio da qual esses filhos alados da imaginação abatem-se
asphyxiados.
Bellezas, como ella, foram por certo as que inspiraram as imagens de
virgens dos cantos de Ossian ao espirito de quem quer que foi seu
auctor, d'aquellas virgens, que o bardo comparava á neve da planicie e
cujos cabellos imitavam o vapor do Cromla, dourado pelos raios do
occidente.
Se no azul meigo dos olhos de Jenny se não concentrava o fogo das
paixões de um coração ardido, nem se descobria a scintillação
denunciadora de phantasias exaltadas, havia n'elle não sei que
mysteriosa e suave luz, como se de reflexo levado para alli do mais
intimo da alma; os labios, delgados e levemente comprimidos, não se
agitavam sob o imperio de tumultuosos sentimentos, mas fixavam-se em
continuo sorriso, expressivo de affabilidade e de brandura, promettedor
de placidas, mas duradouras felicidades; o seio, sempre modestamente
afogado no vestido liso e singelo, embora não tivesse o arfar
voluptuoso, que arrebata as imaginações, animava-se da ligeira
ondulação, denunciadora do sereno sentir da mulher, a quem Deus confia
os destinos da familia; d'esses sympathicos vultos de mãe, de irmã e de
esposa, por todos encontrados ou sonhados ao menos uma vez na vida,
astros inaccessiveis ás violentas tempestades, que tantas vezes ameaçam
o horizonte domestico, anjos pacificadores entre os seus, que com todos
repartem carinhos e afagos, que com lagrimas e sorrisos a todos consolam
e recompensam; se, vendo Jenny, podia ainda lembrar o amor, era o amor
da mulher sempre casta que, ao estender a fronte candida aos beijos
affectuosos do esposo, baixa ainda os olhos, córando com todo o pejo de
uma primeira entrevista, e fita-os no berço do filho adormecido sob a
vigilancia dos seus cuidados.
A estatura esbelta da joven ingleza, o andar, sem os requebros languidos
das nossas elegantes, a fronte pura e de gracioso modelo, coroada por um
diadema de formosos e desadornados cabellos louros, o olhar entre
affavel e melancolico, a voz meigamente sonora e cadenciada, tudo emfim,
de modo inexplicavel como variadas phrases da mysteriosa linguagem da
belleza, denunciava os encantos, as doçuras d'aquelle caracter feminino,
tão alheio a fraquezas mundanas, que mais se dissera angelico.
Sentia-se, vendo-a, que para ella nunca o amor seria um passatempo, um
capricho apenas, gosado entre risos, terminado sem lagrimas. Talvez
nunca tão violenta paixão a chegasse a dominar até; porém, se nascesse,
seria como essas plantas, que mal se desentranham em galas de folhagem e
de flores, mas que se prendem por tenazes e penetrantes raizes ao solo
d'onde brotaram.
Em Jenny, a paixão de amante, a ter de lhe inquietar o coração,
difficilmente se revelaria, a não ser adivinhada; mas depois, se o
fosse, ou havia de consagrar-se na de esposa, de sublimar-se na de mãe,
ou lentamente a consumiria; ser-lhe-hia fatal, se por não comprehendida,
não chegasse a realisar essa santificada evolução.
Almas assim estão talhadas ou para a felicidade celeste ou para a maxima
tortura; que eu não sei de outra maior, do que a d'aquelles que
concentram em si o soffrimento e suffocam todas as manifestações de dor,
quando ás vezes a revelação lhes poderá dar lenitivo.
Mas o céo de Jenny era ainda limpido, e amena a corrente da vida.
Um rapido e imperceptivel movimento de labios, um desvanecido contrahir
de fronte e–a não ser illusão isto,–um como escurecer do puro azul
d'aquelles olhos amoraveis, eram os unicos vestigios das raras luctas
travadas entre a sua razão poderosa, bem que de mulher, e os impulsos de
diversos affectos, lucta sempre decidida pela victoria da primeira.
Mas eram raras essas nuvens, tão raras como diaphanas, tão diaphanas
como passageiras.
Estava-lhe quasi sempre no seio aquella mesma placidez que se lhe lia no
semblante.
E nem porisso se julgue frio e insensivel o caracter d'ella; animavam-o
tambem os raios vivificadores dos sentimentos, que nos prendem á terra;
mas, com o influxo da vida, não transmittiam esses raios a lavareda que
destroe.
Será menos energico e abençoado o calor do sol, porque não inflamma os
bosques e as cidades, como o incendio que a mão do homem ateia? Mas um
cobre de verdura os prados e de flores os ramos, e alumia o hemispherio
inteiro; o outro calcina as plantas que abraça, e a pouca distancia
estende a sua claridade fatal; qual será mais poderoso e effectivo?
Em Jenny os affectos do coração pareciam-se com as chammas dos
lampadarios sagrados, que, em honra de Deus, illuminam o interior dos
templos. O vel-as luzir eleva o pensamento a meditar cousas do céo.
Ha entes assim, que tudo santificam; paixões, que n'uns acalentam
vicios, são n'elles efficazes impulsos para sublimes virtudes.
O calix, que, em mãos profanas, preside aos banquetes e ás orgias,
consagrado no altar, transforma-se em symbolo mysterioso da mais augusta
religião.
Deus desce tambem a muitas almas, para tornar em holocausto digno de si
as paixões originarias d'ellas.
Carlos era, sob muitos respeitos, differente da irmã.
Inglez pelo sangue, meridional pelo clima, onde vira, a primeira vez, a
luz do dia, onde passára a infancia, onde sentira as primeiras commoções
da adolescencia, o despertar da vida do coração, tinha um caracter que
se ressentia d'esta, de alguma sorte, dupla nacionalidade.
Da peninsula recebera o enthusiasmo, a viveza de imaginação, a
impetuosidade de sentimentos, que raras vezes reprimia; vinham-lhe da
Gran-Bretanha a força de vontade, a pertinacia, o estoicismo, com que,
em certas occasiões, surprendia a quantos julgavam conhecel-o;
vinham-lhe até, da mesma fonte, algumas excentricidades de manifesta
herança paterna–efficaz inoculação de britannismo, que não lhe
consentiria mentir á origem, se alguma vez o tentasse.
Ainda que algum tanto estouvado, não deixava porisso Carlos de possuir
um generoso e compassivo coração, alma sensivel a todos os infortunios,
olhos a que a piedade não permittia serem estranhas as lagrimas.
Se, por acções mal refreadas, por palavras irreflectidas, as fazia
tambem verter, era elle o primeiro a accusar-se, a compadecer-se, a
procurar enxugal-as por toda a qualidade de sacrificios.
Capaz de heroica abnegação em bem dos outros, se frequentemente se
esquecia de beneficios recebidos, como se poderia censural-o, quando,
habituado a realisal-os maiores, não exigia tambem dos favorecidos a
gratidão em recompensa, parecendo até desconhecer os direitos que tinha
a ella?
Corajoso até á imprudencia, liberal até á prodigalidade, sincero até á
rudeza desattenciosa, os seus maiores defeitos não passavam de nobres
qualidades, levadas ao excesso.
O que elle não sabia, ou não podia, era conserval-as no ordeiro meio
termo, tão respeitado pela sociedade.
O sangue dos vinte annos fazia doudejar aquella cabeça; os instinctos
generosos faziam o tormento d'aquelle coração, porque se uma, em
momentos de exaltação, conseguia romper com as generosas repugnancias do
outro, a reacção era infallivel, e este, mais tarde, obrigava-a a
arrepender-se, descobrindo, e exagerando até as nem sempre remediaveis
consequencias dos seus desvarios e caprichos.
Carlos era d'estes homens, que encerram e alimentam no proprio seio o
seu principal inimigo.
Entre Carlos Whitestone e o pae existia um cordial e puro affecto, ainda
que disfarçado, em ambos elles, sob apparencias de frieza e de reserva
da mais genuina indole britannica. Raras vezes se procuravam os dois, e
sempre que, nas occasiões ordinarias, se viam juntos, poucas palavras
trocavam. Quando mais solta se desenvolvia a loquacidade de Mr. Richard
na presença do filho, era ao saborear os ultimos calices, depois do
jantar de familia; mas, ainda então, a conversa quasi se reduzia a uma
especie de extenso e variado monologo, recitado por aquelle e
interrompido por este apenas com algumas phrases de assentimento, em que
predominavam os _Yess_, ao mesmo tempo que os labios se armavam de um
sorriso de complacencia–nem sempre segura fiança de attenção.
Carlos respeitava o pae, amava-o até com extremos capazes de lhe
inspirarem os maiores sacrificios, e comtudo evitava-o, como se, junto
d'elle, se não achasse á vontade.
E não achava, de facto.
Possuia Carlos um d'estes genios, que não supportam constrangimentos; ou
hão de romper com elles ou evital-os.
Calava-se, onde não podia abandonar-se aos caprichos de uma conversa
futil; entristecia, onde lhe fossem estranhadas as expansões de uma
alegria infundada, de um d'esses irresistiveis jubilos de creança, que,
como tal, em puerilidades se revela. Dessem-lhe a liberdade de poder ser
estouvado, vel-o-iam talvez sisudo; mas, forçado a isto, tornava-se
sombrio e de mau humor.
Ora a austeridade de costumes de Mr. Richard Whitestone, a rigidez dos
seus principios de decoro e de respeito ás praxes da etiqueta ingleza,
exerciam sobre Carlos uma influencia, contra a qual não tinha coragem de
revoltar-se; e porisso fugia-lhe.
No pae via quasi sempre um juiz severo e inflexivel, prompto a julgal-o
e a condemnal-o talvez; e Carlos, que habitualmente trazia na
consciencia algum peccado de juventude a remordel-a, e que não confiava
no seu poder de dissimular, furtava-se, quanto podia, ás investigações
do jury paternal, sempre antevistas por elle e bem longe ás vezes do
intento de Mr. Richard Whitestone.
Este, de seu lado, não amava menos extremosamente o filho; para as
verduras da mocidade era indulgente, como, em tempos passados, desejara
e precisara que fossem tambem comsigo; Deus sabe que esforços lhe
custavam até estes sisudos ares de convenção, tão oppostos ao fundo de
desafogada jovialidade do seu caracter, e que não conseguiam dissipar o
sorriso, que tinha como que stereotypado nos labios.
Julgava elle, porém, do dever de pae e natural mentor, que era de
Carlos, conservar sempre certo ar de hombridade e de quasi rudeza para
com o estouvado, que, não raro, lhe estava dando motivos para mais
severas penas.
Á sua precisão britannica repugnavam longos discursos de moral e
prolixas catecheses. Laconico, n'estas cousas, por systema e por
espirito nacional, nunca usava de parabolas para chamar ao aprisco a
ovelha tresmalhada.
Um unico «Ho!» mas pronunciado com aquella expressão, que só a larynge
britannica lhe sabe dar, um _ho_ aspirado, guttural, eloquente, inglez
emfim, combinado a um abanar de cabeça rapido e desapprovador, e a dois
ou tres particulares estalidos de lingua, eram os signaes de impaciencia
e de desagrado que Mr. Richard manifestava, e dos quaes mais se temia
Carlos, do que se temeria de qualquer menos concisa formula, sob que
podesse revelar-se a censura paternal.
Dia, em que aquelle fatal «_oh!_» lhe tivesse soado aos ouvidos, já não
se confiava despreoccupado a inteiro prazer; passava-lhe uma nuvem no
firmamento azul da juventude, limpido como o de poucas.
Promettia então emendar-se; solemnemente a si proprio o promettia, mas
cêdo a promessa era esquecida até que nova e similhante occasião a
renovava.
Outro era o sentir de Carlos para com a irmã.
Jenny era o seu anjo bom, e o anjo bom da familia toda, a meiga, a
benigna fada, cujo olhar serenava as tempestades, e desanuviava o sol.
Com sorrisos decidia, para o bem, os combates de paixões. Debil e
delicada era aquella mão, mas quantas vezes Carlos a encontrára
interposta entre si e o precipicio, para lhe servir de amparo! Delgado e
vacillante imaginar-se-hía aquelle braço, mas firme o sentia ella sempre
ao ter de sustentar o irmão na quéda imminente, ou de eleval-o até si.
Branda e suave lhe saía dos labios a voz, mas só ella se fazia escutar
dos ouvidos, quando o tumulo das paixões os ensurdecia.
Não havia segredo entre os dois. De pequeno se costumára Carlos a vir
contar a Jenny quasi todas as acções da sua vida, boas ou más que ellas
fossem.
Referia-lhe, um por um, e com sincera ingenuidade, os pensamentos
dominantes do dia, e mais do que uma vez conseguira vencer-se, quasi ao
ceder á tentação de actos menos generosos, só para não ter de os
confessar depois a este affectuoso juiz, e merecer-lhe uma amigavel
reprehensão entre sorrisos ou o mal reprimido movimento de desgosto
d'aquelles bonitos labios, o que devéras o magoava.
Nem menos o affligiriam os remorsos, se procurasse subtrahir-se á pena,
não denunciando o delicto. A consciencia costumava censurar-lhe tambem
estas faltas, nas raras vezes que as commettia.
Jenny, igualmente attendida pelo irmão e pelo pae, servia-se d'esta
duplicada influencia para harmonisar toda a familia, nos momentos de
receiada discordia.
Com uma palavra extinguia qualquer irritação, que as extravagancias de
Carlos podessem ter produzido no animo de Mr. Richard; com outra
dissipava no irmão as menores tendencias á insurreição, tão naturaes á
idade e temperamento d'elle contra alguma medida repressiva, posta, de
quando em quando, em pratica pelo pae, como em ultimo recurso.
Frequentes vezes o pequeno erario de Jenny abrira-se a solver dividas,
imprudentemente contrahidas por Carlos, e a remediar todas as más
consequencias das suas leviandades. Estava sempre prompta a advogar-lhe
os pleitos, a minorar-lhe as culpas.
Mas tambem o que ella não conseguisse de Carlos, ninguem mais na terra o
conseguiria.
Deixar adivinhar desejos, era formular pedidos; uma supplica,
timidamente expressa, valia por uma ordem imperiosa. E comtudo Jenny
nunca procurava tornar apparente este predominio; antes se esforçava por
o dissimular.
Conhecendo, mais por muito reflectir do que por experiencia, que não a
tinha, os mil mysterios e caprichos do coração humano, toda a sua
admiravel diplomacia feminina estava em saber fazer-se obedecida,
brincando; em aceitar e agradecer, como concessões espontaneas, o que
lhe dizia a consciencia ser o resultado de suas insinuações e pedidos.
Desenvolvia-se de ordinario uma perfeita tactica, e engenhosamente
tecida da parte de Jenny, em quasi todas estas conferencias intimas
entre os dois irmãos.
Virtuosa e sympathica hypocrisia, com que Jenny, para dominar, se
humilhava!
Quando os anjos nos imitam na dissimulação, ainda então não perdem a sua
candura. São sempre anjos. Roçam com as azas pelo lôdo do mundo, mas
levantam-se immaculados.
Quem ensinára a Jenny, cuja vida se deslisára quasi toda no tracto
intimo de sua pouca numerosa familia, esta sciencia do coração, que
dizem só adquirir-se no muito lidar com os homens e com o mundo? Já o
indicamos:–a sua indole pensativa, os seus habitos de reflexão. Mais se
aprende na leitura meditada de um só livro, do que no folhear
levianamente milhares de volumes. Assim tambem no estudo dos caracteres.
Observadores ha, que, após annos e annos gastos a viver com os homens,
morrem em ingenua ignorancia a respeito d'elles; outros que, na solidão
do gabinete, perscrutam no proprio coração os segredos dos mais,
decifram-os, porque, descobertas ahi as leis principaes e communs a toda
a natureza humana, facil é adivinhar depois as secundarias, d'onde
procedem as differenças. Surprende devéras quando se vê saír d'esses
cantos obscuros um homem a todos desconhecido, e que a todos parece
conhecer. Como e onde aprendeu este homem tudo isto? Pela observação
desapaixonada em si, ou, quando muito, nos seus mais proximos; depois a
intelligencia, vigorada por este ensino, abalançou-se, guiada por
vestigios na apparencia insignificantes, a inducções fertilissimas.
Carlos não sabia resistir muito tempo á irmã. Sem suspeitar que cedia,
recuava passo a passo. Aproximava-se do fim, onde a habil contendora o
queria levar, e, ao attingil-o, ficava surprendido de haver realisado,
com tão pouco custo, suppostos sacrificios, cuja ideia só, momentos
antes, o tinha feito desanimar de emprehendel-os.
Por não differentes processos, cada dia se vergava, por assim dizer, ás
mãos de uma creança o caracter geralmente considerado inflexivel de Mr.
Richard Whitestone.
E com tal habilidade aprendera Jenny a occultar estas pequenas, mas
importantes victorias, que a todo o instante obtinha sobre os seus, que
mal vinha á ideia do bom _gentleman_, quando, muito convencido do que
dizia, se jactava de ser firme nas suas resoluções, e pouco propenso a
revogar projectos formados, que, n'aquelle mesmo momento talvez, lhe
estavam dando seus actos solemne desmentido.
Taes eram os principaes membros da familia Whitestone, com quem
travaremos mais intimo conhecimento nos varios capitulos d'esta
singelissima historia, em cujo decurso, desde já o declaramos, para não
alimentar illusorias esperanças, a acção prosegue desimpedida de
complicadas peripecias.
III
NA AGUIA D'OURO
Era uma das ultimas noites do carnaval de 1855.
Havia menos estrellas no céo, do que mascaras nas ruas. Fevereiro, esse
mez inconstante como uma mulher nervosa, estava nos seus momentos de mau
humor; mas, embora; o folgazão entrudo ria-se de taes severidades e
dançava ao som do vento e da chuva, e sob o docel de nuvens negras que
se levantavam do sul. Graças á cheia do Douro, a cidade baixa podia bem
prestar-se n'aquella época a uma parodia do carnaval veneziano.
Á porta dos theatros apinhava-se a multidão; os altos brados dos
vendedores de senhas e os agudos falsetes dos mascarados atordoavam os
ouvidos. Dos cabides dos guarda-roupas, provisoriamente armados nas
lojas circumvizinhas aos principaes salões de baile, pendiam vestuarios
correspondentes a todas as épocas e a todas as nações, e alguns, aos
quaes não era possivel assignar época, nação, classe ou condição social
conhecida.
Numerosos grupos de espectadores paravam diante das exposições de
mascaras á venda e tornavam o transito n'aquellas ruas quasi
impraticavel. Era uma fascinação analoga á que produz um conto de
Hoffmann em imaginações excitaveis, e exercida n'elles por tantas
mascaras enfileiradas, cuja diversidade comica de expressão e de gesto
lembrava um enxame de cabeças mephistophelicas, surgindo á luz para se
rirem das loucuras da humanidade.
Estes absortos contempladores a cada passo vinham a si,
desagradavelmente acordados pelas pragas energicas dos conductores de
carruagens, prestes a atropellal-os, ou pela interjeição pouco
harmoniosa dos cadeirinhas obrigados por causa d'elles a irregularidades
no andamento da sua grave e benefica tarefa. Só então, e ainda a custo,
se dispersavam, para, alguns passos mais adiante, se agglomerarem de
novo.
Se é licito comparar as grandes ás pequenas cousas, veremos n'estes a
imagem de todos os inoffensivos scismadores d'este mundo, a quem sempre
cruelmente vem despertar o embate dos afadigados em emprezas positivas.
A animação era geral na cidade.
Todos corriam com ancia… a enfastiarem-se, fingindo que se divertiam.
Alguma cousa havia tambem na Aguia d'Ouro, a anciã das nossas casas de
pasto, a velha confidente de quasi todos os segredos politicos,
particulares e artisticos d'esta terra; alguma cousa havia n'essa
modesta casa amarella do largo da Batalha, que desviava para lá os
olhares de quem passava.
Desde as tres horas da tarde que o tinir dos crystaes e das porcellanas,
o estalar das garrafas desarrolhadas, o estrepito das gargalhadas, das
vozerias tumultuosas, e dos _hurrahs_ ensurdecedores rompiam, como uma
torrente, do acanhado portal d'aquelle bem conhecido edificio; e por
muito tempo essa torrente, á maneira do que succede com a das aguas dos
rios caudalosos ao desembocarem no mar, conservava-se distincta ainda,
através do grande rumor, que enchia as ruas.
Os criados subiam e desciam azafamados as escadas, cruzavam-se ou
abalroavam-se nos corredores, hesitavam perplexos entre ordens
contradictorias, vinham apressar os collegas na cozinha ou entretinham
com promessas os impacientes convivas da sala.
No entretanto o modesto e solitario freguez, a quem uma velleidade
estomacal convidára a ir ceiar a humilde costelleta, principal trophéo
culinario da casa, era pouco attendido e, farto de esperar, retirava-se
sorrateiro e cabisbaixo.
Sob apparencias de modestia, a Aguia d'Ouro parecia d'esta vez aureolada
de não sei que magestade, condigna do seu emblema.
A luz escassa de um lampeão da rua, batendo sobre a ave de Jupiter, que
corôa a taboleta do estabelecimento, parecia dar-lhe reflexos, mais
brilhantes do que os do costume.
Que era noite solemne para a casa, aquella casa que tem já dado que
entender a ministerios e a emprezarios lyricos, não podia haver duvida.
Cá em baixo, os serventes do café fallavam a meia voz e mostravam no
olhar certo ar de preoccupação, certa importancia no gesto, como se
effectivamente se estivesse passando cousa de momento no andar de cima.
O café contrastava porém com a animação que se percebia nas salas da
hospedaria.
Estavam desertos os logares d'aquella abafada quadra, em cujas paredes
ainda então existiam, e ameaçavam perpetuar-se, reproducções, em lona,
dos combates que restabeleceram a independencia da Grecia; a luz
amortecida dos candieiros não dissipava as sombras dos recantos.
O marcador do bilhar cabeceava com somno.
Os bailes de mascaras tinham derivado d'alli até os homens politicos.
N'aquella noite as discussões sobre a guerra da Crimeia, então na ordem
do dia, travavam-se ao som das walsas e das mazurkas, nos theatros.
Não é pois n'este logar, agora melancolico e quasi lugubre, que eu
pretendo demorar o leitor.
Subamos, e, por entre os criados que encontrarmos nas escadas e
corredores, penetremos na sala d'onde provém o ruido de festa que já
noticiamos.
O leitor por certo conhece o recintho. As suas particularidades
architectonicas não requerem tambem as fadigas da descripção.
É um jantar de rapazes a festa, a que viemos assistir.
Chegamos, porém, tarde.
O fumo dos charutos ennevoa a sala e empana o fulgor das luzes; o jantar
vae no fim, a desordem portanto no ponto culminante.
Ha já calices partidos, vinhos preciosos extravasados, convivas em todas
as posições, algumas indescriptiveis.
A vozeria é atordoadora. A confusão póde dar uma ideia de Babel.
Tratam-se simultaneamente todos os assumptos; as transições fazem-se com
uma rapidez, que surprende e embaraça os proprios interlocutores;
attenção, que se desvie um segundo, é attenção perdida; não encontra
depois já o dialogo onde o deixou; ás vezes a conversa generalisa-se;
momentos depois, distribue-se em especialidades por diversos grupos;
mais tarde, generalisa-se de novo; em certas occasiões, todas as bôcas
fallam, cada um se escuta a si; n'outras algum orador consegue por
instantes fazer-se escutar de todos, até que um áparte, um incidente, um
gesto, restabelece a independencia primitiva. Dão-se tambem verdadeiros
encruzamentos de conversas; o dos pés da mesa responde ao dito que ouve
ao da cabeceira, emquanto que os intermedios se entreteem de outros
objectos; é um baralhar de palavras, em que a custo se tira a limpo a
expressão do pensamento.
Alli falla-se em litteratura e ouve-se, de quando em quando, pronunciar
o nome de algum romancista ou poeta de vulto ou da moda; perto,
discute-se politica e julgam-se n'um momento, e com a mais desenganada
critica, as primeiras capacidades financeiras, diplomaticas e militares
da época; conversam mais longe de aventuras de amor dois rapazes
fronteiros e, atravessando-se diagonalmente com tão agradavel prática, o
dialogo de outros dois exerce-se sobre modas de casacos; um grupo
exalta-se, tratando assumptos de theatro lyrico e premeditando pateadas
e ovações; juntos d'este, dois enthusiastas de hippicultura fazem a
historia pittoresca de compras, vendas e manhas de cavallos. A propria
philosophia allemã fornece alimento á animação dos discursos; e tudo
isto interrompido de gargalhadas, de cantigas, de juras e exclamações em
todas as linguas.
Seria igualmente difficil determinar o elemento commum dos individuos
reunidos alli.
Ha-os das mais diversas condições; desde o joven padre, que põe a
tractos a sciencia e a paciencia dos cabelleireiros para disfarçar,
quanto for possivel, os vestigios da tonsura, até o official do
exercito, todo possuido das branduras civilisadoras do seculo e para
quem a mesma caça é occupação barbara e afflictiva da sensibilidade;
ha-os das mais diversas idades, desde o collegial de hontem, ainda
imberbe e embriagado com as primeiras commoções da vida de adolescente,
até o velho, que, ingenuamente persuadido de que o tempo se esqueceu de
lhe ir contando os annos, deixa passar a geração, contemporanea sua, e
insiste em viver, entre rapazes, vida de rapaz; ha-os em diversas
circumstancias monetarias, desde o capitalista, que vê correr descuidado
a fonte dos seus rendimentos, com tranquillisadora confiança no
inesgotavel manancial que a alimenta até á classe dos _encostados_,
verdadeiros martyres da moda, cuja vacuidade de bolsa lhes constrange a
imaginação a fabricar systemas quotidianos para os manter, embora á
custa de humiliações n'aquella atmosphera, fóra da qual já não sabem
respirar; ha-os de todos os graus de intelligencia, desde o escriptor
applaudido e que, sem favor ou com elle, conquistou reputação nas
lettras, até o analphabeto, cujas sandices são saudadas com gargalhadas
que ninguem procura reprimir na presença d'elle proprio.
Finalmente, esta reunião de elementos, debaixo de todos os pontos de
vista tão heterogeneos, é uma porção da sociedade, que pretenciosamente
se decora com o titulo de elegante e para pertencer á qual é difficil
fazer resenha dos requisitos necessarios; pois que nem a propria
elegancia–na verdadeira accepção do termo–é dote generico dos seus
membros.
O motivo do jantar… O jantar não tinha motivo e era esta outra
circumstancia que o caracterisava. Um jantar póde muito bem ser motivo
de si mesmo: sendo possivel d'elle dizer-se de alguma sorte, em
linguagem philosophica, que tem em si a «razão sufficiente da sua
existencia».
Na companhia encontraremos alguem já conhecido nosso.
E como, até agora, só tenho apresentado ao leitor tres pessoas, não será
prova de grande perspicacia, da sua parte, adivinhar qual d'essas tres
será.
Effectivamente é Carlos Whitestone um dos convivas e não dos mais
sisudos.
Ficava proximo da cabeceira da mesa. Carlos era quem mais vezes
conseguira encaminhar a um fito unico todas as attenções e modificar a
assembleia a ponto de se lhe poder referir o _conticuere omnes_ da
_Eneida_;–verdade é que não tão completamente o fizera como o heroe
troyano, pois nem tinha destruição de Ilion a descrever, nem a paciencia
dos tyrios a escutal-o.
Carlos Whitestone passava por estar muito em dia com os boatos comicos e
escandalosos, de que sempre e em toda a parte é tão sôfrego o paladar
social.
Por isso o escutavam todos com prazer.
Sinto que não chegassemos a tempo de ouvir o principio da narração, que
elle levava em meio.
–O nosso homem–dizia Carlos, accendendo um charuto no de um
jornalista; seu vizinho–apesar do aviso que recebera, resolveu na
melhor das boas fés…
–Então é a boa fé dos maridos–commentou a meia voz um padre, que,
atrazado nas operações gastronomicas, investia com denodo contra um
tymbale de pombos, ainda miraculosamente intacto, e acrescentou:–Não
sei de outra, que a exceda.
–Regula por essa a dos amantes ingenuos–acudiu Carlos ao commentario.
–Mas é de menos consequencias–respondeu o outro.
–Silencio, padre Manoel!–bradaram algumas vozes–Vamos lá, Carlos; e
depois?
–Depois–proseguiu Carlos–enfeitou-se, perfumou-se, aparamentou-se,
frisou-se…
–E tingiu-se; que não esqueça–acrescentou do fim da mesa uma voz.
–E tingiu-se; sim–disse Carlos–e feitos todos estes aprestos,
caminhou para a entrevista.
–E como se realisava essa entrevista?–perguntou um militar.
–De uma maneira muito singular;–proseguiu Carlos–o conselheiro, todas
as noites, depois de pousar na relva o chapéo, a bengala e as luvas,
trepava como um eschilo, pela faia que fica junto da varanda e…
–Ora! Impossivel!–exclamaram alguns, rindo.
–Palavra!
–Isso é contra todas as leis da mechanica, aquelle bojo…–principiou
a dizer um estudante da Universidade.
–Pelo contrario;–atalhou outro–é exactamente o bojo que o faz subir.
Lembra-te do principio de Archimedes. Os aereostatos…
A quéda do conselheiro seria uma bella experiencia para um curso de
physica…
–Divertida…–annotou uma voz.
–Como exemplificando as leis da quéda dos graves… um tão _grave_
personagem–concluiu o primeiro.
Estes sujeitos guindavam o _calembourg_ ao supremo grau da escala do
espirito.
–Então? deixem fallar Carlos; e depois?–disseram alguns curiosos.
Carlos continuou:
–N'aquella noite, porém, estava reservada ao conselheiro a mais triste
surpreza; ao entrar na espessura da folhagem, deu de cara com o outro.
–Com o Victor?
–Exactamente, com o Victor. Imaginem agora vocês o soberbo dialogo, que
se seguiu ao encontro.
–Devia ser preciosissimo! Que harmonioso certame de rouxinoes!
–O conselheiro principiou talvez por dizer-lhe:
_Tytire, tu patulæ recubans sub tegmine fagi
Formosam resonare doces Amaryllida silvas_
–Protesto contra o _recubans_. A posição de Victor era menos commoda.
–_Mutatis mutandis_, já se sabe.
–Ó padre Manoel, dize-nos como a tua latinidade exprimiria a posição em
que estava o Victor.
–Não interrogues o padre. Não vês que elle está, como os antigos
agoureiros, consultando as entranhas das aves? respeitemos a solemnidade
do acto.
–Mas as consequencias, Carlos, quaes foram as consequencias?
–As consequencias foram as que vocês já sabem, o conselheiro…
N'este ponto, a narração de Carlos foi interrompida por o criado da
hospedaria, que se aproximou d'elle para lhe entregar a carta.
–Com a sua permissão, meus senhores,–disse Carlos, preparando-se para
abril-a.
–Bravo!–exclamou o jornalista–temos carta de algum Ecco impaciente.
–_E un foglio a me lasció_–cantarolou um _dilettante_, voltando as
costas da cadeira para a mesa.
–É a proposta de capitulação de alguma Troya sitiada–disse o militar.
–Cheira-me a fumo de gambiarra e ribalda; temos intriga de camarim.
–Antevejo então uma descarga de bilhetes de beneficio, a que poucos
escaparemos.
Carlos sorria, ao abrir a carta.
–Ó Carlos, olha que são perigosos para as digestões os sobresaltos de
coração–notou o estudante de medicina.
–Socega; é um excitante a que já estou habituado–respondeu Carlos.
De repente tornou-se serio.
–Má nova!–disseram alguns.
–O caso complica-se.
–As exigencias da beneficiada sobem até o acrostico, querem ver?
–Não é isso; aposto que mais outro conselheiro trepa uma segunda faia,
e d'esta vez vinga o collega, na pessoa de Carlos.
Carlos não os escutava já. Ergueu-se, aproximou-se do aparador, e
escreveu no verso do bilhete, que recebeu, algumas palavras á pressa.
Emquanto fazia isto, os companheiros do festim, fingindo dictar-lhe a
resposta, diziam:
–Meu anjo, se no céo…
–Vôo nas azas do amor…
–Qual outro Leandro, eu, naufrago…
–Minha Heloïsa; se o infortunio de Abeillard…
–Julieta, quando o rouxinol…
Carlos voltou para a mesa, depois de fechar a carta e de entregal-a ao
criado.
Esforçava-se por manter nos labios o sorriso; mas o esforço era visivel,
circumstancia que, como sempre, lhe annullava o effeito.
–Que é isso?–disse o militar, que lhe ficava defronte–respiraste a
peste n'essa carta?
–O nosso Manrique terá de correr a salvar a sua Leonora das garras de
um conde de Luna?–disse o _dilettante_.
–Ulysses voltou aos lares domesticos; o que vale por um mandado de
despejo aos…
–Um capellista, menos attencioso, insiste pelo prompto pagamento de uma
avultada conta de enfeites.
–Um dominó leva a sua ingratidão até…
–Já vão numerosas as hypotheses–disse Carlos, enchendo um calix de
vinho e procurando conservar ás suas palavras o tom jovial do principio
da noite; depois acrescentou:–Este bilhete era para me recordar…
–Ai! recordações!…
_Te souviens tu, de même,
De nos transports brulants_…
–Para me recordar que era hoje o dia dos meus annos–concluiu Carlos.
–Devéras!
–É o que eu te digo.
_Quan tu m'as dit: «je t'aime!»
J'avais alors vingt ans_.
–E estavas calado com isso.
–Se o ignorava! Quando o soubesse a tempo, não me teriam aqui.
–Então? Receber-nos-hias em tua casa?
–Tambem não. Costumo consagrar estes dias exclusivamente á vida de
familia.
–Oh! oh! sentimentalismo!
–Britannico! Pés no _fender_, _punch_ na mesa, _Times_ na mão. E de
quando em quando um monossyllabo rosnado, ou uma interjeição, que produz
na garganta o effeito do acido prussico. Delicioso!
–Deve ser um céo aberto!
–Mas céo inglez, um pouco turvo de nevoeiros.
–E de carvão de pedra.
–Não esquecendo uma paraphrase de algum texto biblico.
–E umas variações vocaes sobre motivos do _God save_.
Carlos sorriu, respondendo:
–Creiam-me, de vez em quando, tem seus prazeres tambem um dia passado
assim.
Eu quero acreditar que, dos circumstantes, muitos, se não todos, sentiam
a verdade do que acabára de dizer Carlos, e tambem possuiam faculdades
para apreciar estes intimos gosos de familia; mas envergonhavam-se de
fazer tão claro, e em plena ceia de carnaval, tal confissão. Que querem?
não está em moda trazer o coração á vista. É costume tratar, como
ridiculas, todas as manifestações de sentimento; consideram-se como
pequenas fraquezas que com milhares de outras, só se devem confiar na
discrição das quatro paredes do nosso quarto.
Carlos porém não sabia dissimular; com verdadeira convicção e franca
ingenuidade, dissera aquellas palavras, que lhe valeram allusões
epigrammaticas ao que elles chamavam «respeitabilissima tendencia para
pae de familias».
O bilhete, que motivára esta scena e que parecia haver impressionado
devéras Carlos, era da irmã e dizia apenas:
«Charles.
É hoje o dia 19 de fevereiro. Fazes vinte annos. Julguei que seria
desnecessario pedir-te para nos dares o prazer de te vermos comnosco. O
pae esperava-te. Adeus.
_Jenny_.»
A este pequeno bilhete, Carlos respondeu apenas:
«Jenny.
Confiaste de mais na minha memoria; acredita que me esqueci. Não me
succederia o mesmo de certo, se, em vez do meu, fosse o dia do
anniversario de qualquer de vós. Fazes-me a justiça d'essa supposição,
não é verdade? Agora não posso valer-lhe. Obriguei-me a seguir até o fim
companheiros tão doudos como eu; e, quando os deixasse, não sei se ainda
iria em estado de poder, sem profanação, sentar-me ao teu lado, á santa
e patriarchal mesa de familia. Bem vês que nem vale a pena festejar o
dia, em que veio ao mundo mais uma cabeça leve. Ámanhã te pedirei
perdão… Como me lembrei tambem de fazer annos na segunda-feira de
entrudo?!
Teu mau irmão
_Charles_.»
A final, após algumas explicações mais, um dos convivas levantou-se e
empunhando o calix:
–Meus senhores, proponho que saudemos o anniversario de Carlos–bradou,
em tom de brinde.
–Apoiado–responderam todos, imitando-o.
–Carlos–continuou o primeiro–bebo aos teus vinte annos! Contes pelos
trezentos e sessenta e cinco dias, que se vão seguir ao de hoje, as
paixões que fizeres nascer; e possas tu…
–Não se admittem longos _speeches_; olá! Bebamos!–disse uma voz.
–É sempre mais expressivo o gole que entra, do que a phrase que
sáe–acrescentou outra.
–Até porque, devendo sempre dar-se a primazia ao mais sabio, é o vinho
que a merece; pois é elle, n'este momento, o que mais _sabe_.
–Ora faze-nos o favor de nos poupar, ao menos agora, á difficil
digestão dos teus _calembourgs_.
–Então? Bebamos!–insistiu o côro.
E o brinde foi geral.
Carlos correspondeu constrangido áquella saudação. Parecia-lhe estar
vendo Jenny a olhal-o com uma expressão de amigavel desgosto; Jenny, a
unica a fazer companhia ao velho negociante, que não pouco devia ter
sentido a ausencia do filho. Durante toda a noite já não era para o
pobre rapaz dissipar completamente aquella impressão penosa.
Apoderára-se de Carlos Whitestone um pensamento fixo, um quasi remorso
de se ver alli; e este effeito, se não lhe distrahia completamente a
attenção dos assumptos, que na sala se tratavam, enfraquecia-lhe a
intensidade d'ella a ponto de nem já tomar parte nas discussões, nem o
occuparem, por muito tempo, as ideias aventadas por os outros.
Á placa da camara escura, não preparada na officina photographica, é
comparavel o pensamento, em occasiões assim. Lá se gravam ainda as
imagens das cousas exteriores, mas, não as fixando a attenção,
dissipam-se rapidamente, removidos os objectos que as motivaram.
D'ahi o tom distrahido e indifferente das raras observações feitas por
Carlos no resto da noite, e a impaciencia de algumas respostas, que foi
forçado a dar.
Entre muita cousa, que se disse na sala, eis o que elle ouviu, sem
escutar; a qualquer d'estes assumptos não costumava Carlos, nas
ordinarias disposições de espirito, recusar attenções, nem esquivar a
concorrencia propria.
O jornalista, que ficava ao lado d'elle, interpellou-o pela preoccupação
em que o viu.
Ora uma observação qualquer da parte d'este jornalista tendia fatalmente
a degenerar em longa revista litteraria, que era difficil interromper.
–Que tem você, homem? O tal bilhete produziu um effeito quasi
apopletico. Coragem! É negocio de coração? Alguma loura e nevada _miss_?
hein? Oh! as inglezas! A desassombrada candura do seu suavissimo _to
flirting_!–d'aquelle _flartar_, como, com tanta razão, traduz Garrett,
á falta de melhor vocabulo.
E elle ahi principiava:
–Você já leu Garrett, Carlos? Que me diz d'aquellas _Viagens_, hein?
Oh! é inquestionavelmente o melhor dos seus livros. Prefiro-as ás de
Xavier de Maistre. Que eu não participo da admiração geral por Xavier de
Maistre; é preciso que saiba.
Pausa, durante a qual saboreou um gole de Xerez. Depois de alguma
asserção mais arrojada, a pausa era de rigor.
Carlos, já se sabe, não redarguiu. N'este intervallo, pôde ouvir o
conviva proximo, que dizia:
–Eu agora o que desejava era ter, pelo menos, trezentos contos de réis;
ia d'aqui a Paris; depois…
O jornalista proseguiu:
–Xavier de Maistre inspirou-se de Sterne; é evidente; ficou porém a
grande distancia d'elle. A _Viagem sentimental_, sim. Oh! A _Sentimental
journey_. É um livro delicadamente temperado de uma certa especiaria
philosophica, unica que se combina com vantagem á litteratura amena. O
_humour_ morreu com Sterne.–Pausa.–A demasiada philosophia gela a
inspiração litteraria. Ahi tem Pope. É frio, é árido, é
marmoreo.–Pausa.–Os poetas francezes não teem tanta tendencia para se
deixarem _philosophicar_, permitta-me o neologismo. Victor Hugo, ás
vezes… Qual prefere você, ó Carlos, Lamartine ou Victor Hugo? Victor
Hugo é mais byroniano. E é notavel que fosse Lamartine quem cubiçasse o
_Childe Harold_. Força de contrastes! Aquelle _Childe Harold_! aquelle
_Childe Harold_! Que me diz você áquelle _Childe Harold_? É o unico
poema verdadeiramente romantico, que se tem escripto até
hoje.–Pausa.–Perdôo-lhe o _Poor, paltry slaves_! com que nos mimoseia.
E note que eu não sou admirador cego do Byron.
Nova e maior pausa, durante a qual o orador accendeu um charuto.
Carlos continuava calado.
Percebeu então que n'um grupo vizinho se dizia:
–Quem tem uma bonita parelha é o visconde de Custoias.
–Melhor é a do Manoel Galveias.
E mais adiante:
–Perdão, menino; mas para mim a synthese não é uma mera condensação dos
factos analyticos; a synthese precede a analyse, e dá a esta a força que
vae buscar ao mundo interior, isto é, verte n'ella o immutavel, os
principios evidentes; Kant…
O jornalista continuava:
–Eu não me regulo pela critica convencional. É o meu systema. Não me
resolvo a entoar _amen_ á opinião dos povos.–Pausa.–Por exemplo, tenho
a sinceridade e a coragem de confessar que não me fascina Dante.
Grande pausa.
–Padre Manoel–dizia n'esta occasião, do fundo da mesa, um dos
convivas, apontando para o calix, que levava aos labios–_Ecce Deus qui
lætificat juventutem meam_.
O padre sorriu, mas não disse nada. Comia.
–Porque a final de contas–proseguiu o discursador–você ha de
concordar commigo; Dante é um rapsodista quasi como Homero. Que é a
_Divina Comedia_, senão o compendio das crenças religiosas d'aquelle
tempo?
Pausa.
–O que ha a respeito da revolução carlista em Pamplona?–ouviu Carlos
perguntar.
–Nada mais se sabe por emquanto, apenas que estão implicados alguns
sargentos, cabos e paizanos–respondia outra voz.
E continuava a dissertação litteraria:
–O grande merecimento de Dante é o da fórma. Lá essa qualidade tem
elle. Logo os primeiros versos:
_Nel mezzo del cammin di nostra vite_…
Acho porém dotes superiores em Boccacio.–Então que quer? É um espirito
encarnado em corpo de menor vulto, mas… você já leu o _Decamaron_?
Deve ler. É um livro excepcional. Ha n'elle alguma cousa que vae além do
seculo, em que foi escripto. E esse é o signal supremo do genio. As
imitações de La Fontaine são pallidas. Desengane-se. La Fontaine, a
final, era contemporaneo de Luiz XIV. N'aquella côrte não podia existir
a verdadeira inspiração. Abomino a litteratura d'esse tempo. Detesto
Luiz XIV e o seu seculo.–Pausa.–Molière salva-se, mas porque? Porque o
genero comico tem uma índole especial. Não é a inspiração que o regula;
é a analyse, é a reflexão philosophica.
–Eu aposto–berrava um politico–que se os alliados se metterem a dar o
assalto a Sebastopol, não fica um só vivo.
–Veremos–questionava outro.–Deixa Omer-Pachá occupar a estrada de
Sebastopol a Simphirepol e depois fallaremos. Olha que elle já
desembarcou na Eupatoria com quarenta mil homens.
O jornalista continuou:
–Ha um unico homem que admiro, em qualidades comicas, mais do que
Molière, é Rabelais. Oh! o Rabelais é o meu livro! Ha tres livros que
nunca tiro da minha banca de estudo, nem da minha mala de viagem.
–É a _Biblia_, os _Lusiadas_ e o _Paulo e Virginia_. Já sei. É o
costume–disse emfim Carlos, levantando-se, já impaciente e procurando
subtrahir-se á torrente de perguntas, respostas, apreciações criticas,
cotejos e citações, que saíam, em tom categorico, da palavrosa bôca do
vizinho.
–Não ha tal–respondeu este, porém, tomando-lhe o braço e levantando-se
igualmente.–Esses são a formula dos tres grandes sentimentos da alma–o
da religião, da patria e do amor;–bem o sei; mas confesso-lhe, o que,
por temperamento, mais me seduz é a pintura social e a analyse das
paixões, e só tres homens as fizeram bem: Lesage, Richardson e Rabelais.
A creação de Pantagruel e Gargantua é famosa!
–Quem dizes tu que tem uma garganta famosa?–exclamou, voltando-se, um
_dilettante_, por traz de cuja cadeira os dois passavam n'aquelle
momento..–Fallas de Ponti? Oh! que mulher! Que vocalisação! Que
sentimento!
–Ahi tornas tu com a Ponti–disse um velho rapaz, pronunciado
adversario da prima-donna e um da numerosa seita, que passa metade do
anno a suspirar pelo theatro lyrico e outra a dizer systematicamente mal
das companhias escripturadas.–És capaz de sustentar que vae bem na
_Norma_. Se ouvissem a Rossi-Cassi…
–A Rossi-Cassi! Oh! por quem és, desalmado! Não sacudas reputações
cobertas pelo pó do tempo! Pff! Que poeira! Vive da actualidade.
–Fallar na Rossi com esse enthusiasmo de conhecedor equivale a um
assento de baptismo feito pelo menos em 1800.
–Nego–bradou embespinhado o velho rapaz.
–_Parce sepultis_–disse o padre.
–_Lascia la donna in pace_–trauteou outro _dilettante_.
Carlos e o jornalista tinham passado adiante. O jornalista ia já a
fallar em librettos de operas, em Felice Romani, em Manzoni, no _Ei fu_!
do _Cinque maggio_… etc., etc., etc…
Carlos foi retido agora pela mão de um rapaz, junto do qual tinham
chegado.
–Aqui está quem nos póde informar–dizia o que o segurava.–Ó Carlos,
dize-nos uma cousa: conheces a Laura Viegas?
–Não–respondeu Carlos, distrahido.
–Conheces por força. A filha do Viegas, d'aquelle brazileiro, que
comprou a quinta do Pedroso.
–E então?
–Mas conheces? Bem. Que dote achas tu que terá aquella rapariga?
Carlos encolheu os hombros, significando a sua ignorancia e preparava-se
já para seguir para diante, quando outro, a quem igualmente preoccupava
esta sciencia dos dotes, o segurou por sua vez.
–Não tem que ver; o Viegas não lhe póde dar mais de nove contos.
–Triplique, e não lhe faz favor nenhum–disse, do alto da mesa, o
padre, conseguindo passar esta nota por meio de uma briga travada entre
os mais disparatados assumptos.
–Ora ahi tens!–disseram os disputantes, aceitando o auxilio, como de
valia provada.
O padre limpava tranquillamente os beiços e enchia um calix de malvasia.
–Então diz o padre Manoel que o Viegas…
–O Viegas tem pelo menos…–dizia de lá o padre, elevando o calix
entre os olhos e a luz, e revendo-se na limpidez do licor; e antes de
completar a phrase, levou-o á bôca e despejou-o de um trago.
Depois continuou:
–Tem pelo menos … pelo menos…
Aqui, enxugou os labios e emfim concluiu:
–Sessenta e sete contos de réis.
–Ora!
Carlos passára para o outro lado da mesa, seguido ainda do jornalista,
que lhe ía dizendo:
–É a questão do dia–O dinheiro–A litteratura resente-se…
E d'aqui passou a fallar de Alexandre Dumas, filho, de Emile Augier, de
Ponsard … etc., etc…
–Deixa-te d'isso;–dizia no ponto da sala a que os dois chegavam, um
rapaz imberbe e ainda em estudos de preparatorios–a Emilia Victorina é
outra qualidade de mulher. Ainda hontem, em casa do barão de Tavares, me
encontrei com ella. Trajava de Maria Stuart. Era uma perfeita rainha,
uma mulher distincta, esplendida.
–Foi, foi; já não é. Descobriam-se-lhe os primeiros estragos, quando em
ti appareciam os primeiros dentes.
–A idade…–dizia outro.
–Ora a idade! a idade! A mulher tem sempre a idade que parece ter.
–Concordo; mas, depois dos quarenta e tantos annos, a mulher parece ter
a idade que tem.
–Barbaro! Ó Carlos, que dizes tu?
–Digo que sim–respondeu Carlos, que nem attendera á discussão.
–Está esta creança do Duarte a affirmar que prefere a Emilia Victorina
á Marianna Prazeres.
–E prefiro, repito.
–Não sejas impio. Quem não acha admiravel aquella bonita cabeça da
Marianna?
–E a mão? Aquella mão comprida e delgada, onde as veias se desenham em
azul; a verdadeira mão artistica, aristocratica.
–No assumpto «mãos», peço licença para citar a primeira…–das
provincias do Norte pelo menos, a da Clementina Rialva–lembrou um
individuo, a quem a conversa arrancou a uma quasi modorra.
–Apoiado!–entoaram muitas vozes.
–A proposito da Clementina Rialva–exclamou uma chronica viva de boatos
do dia–sabem que o Chico da Lousã, sempre a tira por justiça?
–Devéras?!
–Asseverou-m'o hontem o Brito, que, como sabem, é todo d'elle.
–Terrivel catastrophe!
–Deixa lá. O Chico o mais que quer é empregar-se. Ora o Rialva, pae,
tem influencia e, feitas as pazes do estylo…
–Sim, as pazes sentimentaes dos quintos actos dos dramas.
–Que influencia tem o Rialva?–perguntou, encolhendo os hombros, um
mallogrado aspirante á eleição popular.
–Não. Está feito! O cunhado é empregado na secretaria do reino…
–E o ministerio deve-lhe serviços.
–Estás enganado. Foi moda fallar-se ahi muito nos serviços eleitoraes
do Rialva; pois eu digo-vos que elle nem quatro votos arranjou ao
Roboredo.
–Como não arranjou? Ó menino! Pois quem levou lá o Roboredo?
–Quem levou lá o Roboredo, foi…
–Eu te digo, Pires; elle teve em tempo alguma influencia no ministerio,
mas depois de um certo emprego na alfandega que pediu para o sobrinho, e
que não obteve, abandonou a regeneração…
–Que sobrinho? O que nós em Coimbra chamavamos o gigante Polyphemo? Oh
que alarve!
–Sempre foi um homem, que teve a habilidade de concluir o curso, e que
nunca se pôde conformar com a existencia dos antipodas. Dizia elle que
até lhe fazia mal pensar na posição incommoda, em que haviam de viver
esses pobres diabos, se existissem…
–E um dia em que elle…
Unisona e estrepitosa gargalhada, partindo de um grupo, que estava já em
pé no outro extremo da sala, interrompeu a historia.
Todas as attenções e todos os olhares convergiram para alli.
Eram quatro os rapazes que riam e riam até lhes caírem as lagrimas dos
olhos. Junto d'estes, o quinto mostrava, em certo ar constrangido,
poucas disposições para expansão igual.
–É impagavel este homem!–dizia um dos que riam.
–Que foi? que foi?–perguntavam os que não faziam parte do grupo, rindo
já com anticipação tambem.
O dos ares constrangidos respondeu:
–Não façam caso; são doudos.
–Que foi? digam–insistiam todos na sala.
–É aqui o Claudio Pires, que fez uma das suas descobertas.
–Eu disse…–tentou este interromper.
–Silencio!–bradaram muitos a um tempo.
–O Claudio!–continuou um dos que mais ria–ouvindo aqui o Lourenço
fallar com elogio em um systema de comportas que viu no estrangeiro,
observou-nos que havia de se dar bem por lá, porisso que nada se lhe
accommoda melhor com o estomago, depois de jantar, do que as comportas.
–Comportas de marmellos, ou assim uma cousa, é o que eu disse.
A justificação foi suffocada por um côro geral de gargalhadas.
–O barbaro era capaz de roer os diques dos Paizes Baixos e sacrificar a
Hollanda a uma geral inundação.
–Que terrivel capricho estomacal!
–Vejam do que está dependente a sorte dos imperios! Esta escapou a
Volney!
E os ditos succediam-se, e cruzavam-se os epigrammas, e a confusão subia
de ponto com isto.
Até que emfim uma voz dominou o tumulto.
–Reparem que são onze horas e que é tempo de fazermos a nossa entrada
solemne nos bailes de mascaras.
Era o velho rapaz que fallava, e erguendo-se da mesa, exclamou, enchendo
o calix:
–Ás nossas conquistas d'esta noite!
–Apoiado!–disseram todos, imitando-o.–Ás nossas conquistas.
E seguiu-se tal arrastar de cadeiras, que parecia uma tempestade.
Passados alguns minutos, desembocavam do portal da Aguia os joviaes
companheiros, depois de um jantar, que durara oito horas.
Os passos de muitos resentiam-se do emprego d'esta terça parte do dia.
Um dos convivas, que estivera até alli quasi sempre silencioso, tomou
então o braço de Carlos e, apoiado n'elle, caminhou, com movimentos mal
seguros, por o largo da Batalha, dizendo em tom confidencial e quasi
commovido, estas palavras, que ia entremeiando com prolongadas
aspirações no tubo do volumoso cachimbo.
–Carlos, tu és meu amigo; talvez o único amigo que eu tenho… Por isso
vou confiar de ti a ultima das impressões que eu revelei em verso… Eu
gósto de fallar d'isto só com quem me entenda. Os poetas precisam de um
coração para ecco. Almas de sensitiva…
Apesar da intimidade, em que ia feita a confidencia, muitos dos que a
ouviram acercaram-se d'elle, porque tinha certa nomeada o engenho
poetico e improvisador do que fallava assim.
Alguns porém já tinham travado conhecimento com varias mascaras
desgarradas, que encontravam caminho do theatro. Dois seguiam cantando a
plenos pulmões o duetto da Lucia:
_O' sole più rapido a sorger t'apresta_
O poeta confidencial principiou a recitar com certo enthusiasmo quasi
selvagem, o seguinte hymno ao tabaco, o qual, devemos confessar, não era
muito para produzir ecco nos corações:
No centro dos circulos
De nuvens de fumo,
Um deus me presumo,
Um deus sobre o altar!
Nem d'outros thuribulos
Me apraz tanto o incenso,
Como o d'este immenso
Cachimbo exemplar!
Em divans esplendidos,
Cruzadas as pernas,
Fuma, horas eternas,
O ardente Sultão.
Subindo-lhe ao cerebro
O magico aroma,
Esquece Mafoma,
Houris e Alcorão.
Longe, oh! longe o opio,
Que os sonhos deleita
Da misera seita
Dos Theriakis!
Horror ao narcotico
Que vem das papoulas!
E ao que arde em caçoulas,
No altar do Caciz!
Que a raça gentilica
Das zonas ardentes
Consuma as sementes
Do arabio café.
Despejem-se as chavenas
Da atroz beberagem
Da côr do selvagem
Da adusta Guiné.
E a tal folha exotica,
Delicias da China,
Por nossa má sina
Trazida de lá,
Servida em familia,
N'um morno hydro-ínfuso?…
Anathema ao uso
Das folhas do chá!
Nem tu, ó alcoolico
Humor dos lagares,
Terás meus cantares,
Meus hymnos terás.
Embora das amphoras
Vasado nas taças,
Aos outros tu faças
A lingua loquaz.
Cerveja britannica,
De furor espuma!
De cousa nenhuma
Me podes servir.
Quando ouço do lupulo
Gabarem proezas,
Ás bôcas inglezas,
Desato-me a rir.
Nem venha da camphora
Prégar maravilhas
O das cigarrilhas
Famoso inventor.
Raspail é scismatico
E eu sou orthodoxo,
O seu paradoxo
Não me ha de elle impôr.
Meu canto é da America,
Paiz do tabaco,
Perante o qual Baccho
Seu sceptro partiu.
A Europa, Asia, e Africa
E a terra hoje toda
Este heroe da moda
De fumo cobriu.
Até na Laponia,
Da gente pequena,
Se fuma; e no Sena,
No Tibre e no Pó,
No Volga e no Vistula,
No Tejo e no Douro;
Que immenso thesouro
Se deve a Nicot!
Meus áridos labios
Mais fumo inda aspirem
Que os parvos suspirem
Por beijos, aos mil.
Não quero outros osculos,
Não quero outra amante.
Qual mais doudejante
Que o fumo subtil?
Tornadas Vesuvios,
As bôcas fumegam.
De nuvens que cegam
Vomitam montões.
Fumar! Oh delicias!
Prazer de Nababo!
E leve o diabo
Do mundo as paixões!
–Bravo!–disseram quantos o escutavam, devéras enthusiasmados com a
musa do recitador.
O proprio Carlos sorriu, menos preoccupado já. Principiava a
dissipar-se-lhe a nuvem.
–Quem compra uma senha?!
–S. João! quem quer?
–Doze vintens, meus amos, doze vintens.
Com estes analogos pregões caiu um bando de negociantes de senhas sobre
os recem-chegados da Aguia, que trataram de obter bilhetes da melhor
maneira possivel. Cêdo entravam no salão do theatro, onde já centenares
de pessoas morriam de calor, de asphyxia e de tédio; e eram trilhadas,
apertadas, esmagadas quasi, aos encontrões dos mascaras, arrebatados
n'um galope vertiginoso.
O leitor, que todos os annos costuma saturar-se de fastio alli tambem,
com boa vontade me dispensará de o constranger a repetir mais outra vez
a operação, recordando essas horas de insipidez, a que se sujeita, sob
pretexto de gosar o carnaval no Porto, e para fazer o que todos
fazem;–uma das mais poderosas razões dos nossos actos na vida.
Pedindo venia por tanto tempo o haver demorado, em diversão fóra dos
seus habitos, provavelmente mais pacificos–o que fiz só por a
necessidade que tinha de mostrar em acção o caracter do nosso heroe e
exemplificar o seu systema de vida e sua companhia habitual–concordo em
que nos retiremos e vamos a scenas menos agitadas do que estas, que nem
consolam, nem divertem.
IV
UM ANJO FAMILIAR
Vae adiantada a manhã do dia seguinte áquelle, em que se passaram as
scenas descriptas já. São mais de onze horas, Carlos dorme ainda.
Recolhera-se á hora critica, em que principiam a desmaiar as estrellas
no firmamento, a agitarem-se nos ninhos as aves e a soarem na rua os
sócos de alguns operarios mais matutinos. Que admira pois que durma, a
sonhar talvez a continuacão, favoravel aos seus desejos, de qualquer
aventura incompleta do baile da vespera?
A situação da casa de Mr. Richard Whitestone facilitava esta infracção
dos direitos do dia, que se fez para vigilias e trabalho, e não para
sonhos e repouso.
O leitor, que é do Porto, quasi me dispensa de dizer-lhe que era o
bairro de Cedofeita aquelle, onde a familia Whitestone vivia.
Esta nossa cidade–seja dito para aquellas pessoas, que porventura a
conhecem menos–divide-se naturalmente em tres regiões, distinctas por
physionomias particulares.
A região oriental, a central e a occidental.
O bairro central é o portuense propriamente dito; o oriental, o
brazileiro; o occidental, o inglez.
No primeiro predominam a loja, o balcão, o escriptorio, a casa de muitas
janellas e de extensas varandas, as crueldades architectonicas, a que se
sujeitam velhos casarões com o intento de os modernisar; o saguão, a
viella independente das posturas municipaes e á absoluta disposição dos
moradores das vizinhanças; a rua estreita, muito vigiada de policias; as
ruas, em cujas esquinas estacionam gallegos armados de pau e corda e os
cadeirinhas com o capote classico; as ruas ameaçadas de procissões, e as
mais propensas a lama; aquellas onde mais se compra e vende; onde mais
se trabalha de dia, onde mais se dorme de noite. Ha ainda n'este bairro
muitos ares do velho burgo do Bispo, não obstante as apparencias
modernas que revestiu.
O bairro oriental é principalmente brazileiro, por mais procurado pelos
capitalistas, que recolhem da America. Predominam n'este umas enormes
moles graniticas, a que chamam palacetes; o portal largo, as paredes de
azulejo–azul, verde ou amarello, lizo ou de relêvo; o telhado de beiral
azul; as varandas azues e douradas; os jardins, cuja planta se descreve
com termos geometricos e se mede a compasso e escala, adornados de
estatuetas de louça, representando as quatro estações; portões de ferro,
com o nome do proprietario e a era da edificação em lettras tambem
douradas; abunda a casa com janellas gothicas e portas rectangulares, e
a de janellas rectangulares e portas gothicas, alguma com ameias, e o
mirante chinez. As ruas são mais sujeitas á poeira. Pelas janellas quasi
sempre algum capitalista ocioso.
O bairro occidental é o inglez, por ser especialmente ahi o _habitat_
d'estes nossos hospedes. Predomina a casa pintada de verde-escuro, de
rôxo-terra, de côr de café, de cinzento, de preto… até de
preto!–Architectura despretenciosa, mas elegante; janellas
rectangulares; o peitoril mais usado do que a sacada.–Já uma
manifestação de um viver mais recolhido, mais intimo, porque o peitoril
tem muito menos de indiscreto do que a varanda. Algumas casas ao fundo
dos jardins; jardins assombrados de acacias, tilias e magnolias e
cortados de avenidas tortuosas; as portas da rua sempre fechadas.
Chaminés fumegando quasi constantemente. Persianas e transparentes de
fazerem desesperar curiosidades. Ninguem pelas janellas. Nas ruas
encontra-se com frequencia uma ingleza de cachos e um bando de creanças
de cabellos louros e de babeiros brancos.
Taes são nos seus principaes caracteres as tres regiões do Porto; sendo
desnecessario acrescentar que n'esta, como em qualquer outra
classificação, nada ha de absoluto. Desenhando o typo especifico, nem
estabelecemos demarcações bem definidas, nem recusamos admittir algumas,
e até numerosas excepções, hoje mais numerosas ainda do que então, em
1855.
É claro pois que era n'este ultimo bairro que residia o illustre Mr.
Richard, e sua familia.
O nome da rua sou obrigado porém a occultal-o, para evitar indiscrições
mal sofridas em terras, onde todos se conhecem.
A casa, essa posso descrevel-a, ainda que o farei com o devido
artificio, para a não trahir para com algum leitor mais desoccupado.
Era uma das taes casas escuras, com vidraças de caixilhos brancos,
retirada ao fundo de um jardim, nas grades do qual se entrelaçavam tão
intimamente as folhas sempre verdes das Australias e os ramos floridos
de japoneiras gigantes, que resguardavam de vistas curiosas as avenidas
irregularmente traçadas por entre relva digna de uma paizagem ingleza.
A casa tinha um andar apenas, além do mirante. Uma especie de pavilhão,
ou corpo lateral, seguia um dos lados do jardim, e vinha abrir tres
amplas janellas para a rua, que era das menos frequentadas da cidade.
Era n'este pavilhão o quarto de Carlos.
Toda aquella residencia respirava certo ar de commodidade, certo
_confortable_, esse sympathico adjectivo do vocabulario inglez.
Andavam-lhe por longe as vozes discordantes da industria e do commercio,
tão funestas ás encantadas visões dos somnos matinaes.
Tudo parecia fomentar aquelle dormir reparador de Carlos, que ia
absorvendo a manhã inteira, pelo menos segundo a maneira de contar o
tempo dos poucos, que ainda hoje começam a dar as boas tardes logo
depois do meio dia.
Jenny nunca podia adormecer emquanto não ouvisse entrar o irmão,
circumstancia que, não obstante, lhe occultava para o não constranger
nos seus prazeres, ou de que apenas o fazia conhecedor, quando n'esse
constrangimento prevía utilidade.
Tendo por isso notado a hora avançada a que, d'aquella vez, Carlos
voltára a casa, deixava-o agora dormir para que restaurasse as forças
perdidas pela vigilia da vespera e porventura necessarias para vigilias
novas.
Como uma joven mãe, solicita pelo somno do seu primeiro filho, desde
manhã cêdo a viam os criados apparecer nas proximidades dos aposentos do
irmão, a prevenir e afastar o menor ruido, que podesse despertal-o.
No extenso corredor, que medeiava entre o quarto de Carlos e o resto da
casa, passeiava, desde o alvorecer, e com passos levissimos, essa doce
figura de mulher, como se fora o anjo da guarda d'aquelle estouvado, que
nem suspeitava sob que azas protectoras adormecera.
Ás vezes parava junto da porta de Carlos, e applicando ahi o ouvido
attento, parecia espiar o menor rumor que de dentro saísse, a
denunciar-lhe o acordar.
Depois afastava-se e dirigia-se lentamente para a sala opposta, onde ía
inspeccionar e dirigir os preparativos do _lunch_ de Mr. Richard, cujas
horas se aproximavam já.
N'uma d'estas occasiões, em que voltava de dentro do quarto do irmão,
encontrou-se com um criado, rapaz ainda, o qual, encostado á ombreira da
porta do jardim, parecia tão dominado por pensamentos penosos, que nem
lhe deixaram perceber a aproximação de Jenny.
A joven ingleza olhou-o com bondade, e parando junto d'elle
perguntou-lhe:
–Como está sua mãe, José?
O rapaz voltou a si e tomando logo uma attitude de respeito, respondeu:
–Hoje ainda não sei, minha senhora; hontem porém deixei-a bem mal.
–Hoje não sabe?!–exclamou Jenny, desviando o olhar para o relogio do
corredor, que marcava onze horas e meia–Não sabe, e é perto de meio
dia!
–Então, minha senhora? Como o snr. Carlinhos se levanta mais tarde…
–Vá vel-a, José, vá. N'aquelle estado, coitada!… Sabe lá a falta que
lhe estará fazendo?
–Mas, se…
–Vá; Carlos não lhe importa. Eu lhe direi. Ande, vá.
–Então muito agradecido, minha senhora,–disse o rapaz, sensibilisado
com a bondade da sua joven ama.
Jenny continuou passeiando.
Ao passar junto das escadas do mirante, parou, affirmando-se em alguma
cousa, que via n'ellas. Subiu dois ou tres degraus e curvou-se para
observar melhor; era uma penna de ave, que o vento transportára do pateo
para alli. Jenny não pôde reprimir um pequeno movimento de desagrado.
O escrupuloso amor do asseio, radicado no caracter e nos habitos
inglezes, não lhe permittia ver com indifferença aquillo.
–Varreram-se hoje estas escadas, Pedro?–perguntou ella a um criado,
com longo avental branco, que n'aquelle momento passava no corredor.
–Varreram, sim, minha senhora–respondeu este.
–Repare–acrescentou Jenny.–A fallar verdade são bem pouco cuidadosos.
Veja esse corrimão cheio de pó.
–É que se tornou a sujar. O vento…
–Seria; mas não tira que se limpe outra vez.
–De certo; eu vou já.
–E olhe–continuou Jenny, indicando as vidraças, que davam para o
jardim–passe tambem com um panno humedecido por esses vidros tão baços
e dê lustro aos metaes dos fechos.
–Sim, minha senhora; e digo tambem ao hortelão que ensaibre o jardim;
depois da chuva que tem caído bem precisa d'isso–lembrou o criado, como
todos os d'esta classe, mais zeloso em superintender nas tarefas dos
outros do que em cumprir as suas.
Jenny fez um gesto de assentimento e passou para diante. Entrou na sala
de jantar.
Lançou o olhar para a mesa, onde, sobre toalha de alvissima bretanha,
brilhavam os mais puros crystaes e mais preciosa louça ingleza.
Esteve algum tempo a examinar com attenção as particularidades do
serviço, accusando por vezes no gesto algum defeito que percebia.
–Pedro–chamou ella por fim, apoiando a mão no espaldar da cadeira,
destinada a Mr. Richard.
O criado, que andava no corredor, acudiu ao chamamento.
–Então onde pôz a mostarda?
–Ai! é verdade.
O criado correu ao aparador a buscar esse indispensavel artigo da
cozinha britannica.
–Veja como dobrou esse guardanapo.
O criado apressou-se a corrigir a imperfeição notada.
–Aquelle pão não é o que o pae quer para os _lunchs_. Bem sabe.
–Tem razão, minha senhora.
O pão foi substituido com celeridade, verdadeiramente ingleza.
–Desvie mais para o centro aquellas flores. Tão perto do fiambre não;
chegue o prato mais para cá. Assim. Veja esse trinchador como ficou.
Ficou peior agora. Assim. Ponha o _Times_ ahi ao lado. Está bom. Póde
ir.
Ficando só, por suas proprias mãos deu ainda um geito particular a tudo,
attendendo a pequenas circumstancias muito do agrado de Mr. Richard e de
que só ella tinha conhecimento; necessidades pueris, mas necessidades a
final, e de que ninguem é isento. Correu as cortinas das janellas, para
dar á sala aquellas meias sombras discretas, tanto do gosto inglez, e
voltou de novo ao corredor.
Alguns passos dados, veio a ella uma criada, ainda nova, com os olhos
baixos e maneiras enleiadas.
–Que tem, Luiza?–perguntou-lhe Jenny.
–Venho dizer adeus a _miss_ Jenny, porque me vou hoje embora.
–Como vae embora! Quem a mandou?
–Ninguem, mas…
–Não está bem?
–Se estou, mas…
–Então?
–A _miss_ Jenny sabe que a minha irmã estava a servir ahi para fóra da
cidade. O trabalho era muito, coitada, e ella era tão fraca! Lidou
quanto pôde, até que emfim caíu doente. Vae para casa de minha mãe. Mas
como ha de tratal-a a pobre de Christo? ella, quasi entrevada e cega?
Meus irmãos andam todo o santo dia por fóra, e para pagar á
enfermeira?… Quem pensa n'isso? Assim vou eu… e, quando ella se
achar melhor, se a _miss_ Jenny me quizer outra vez…
–A Luiza não póde de modo nenhum deixar-nos agora.
–Mas…
–Escute; se quizer tratar de sua irmã, traga-a para ahi.
–Ó minha senhora…
–Prepare-lhe aquelle outro quarto do mirante.
–Seja por amor de Deus…
–Olhe, Luiza–apressou-se a interrompel-a Jenny–vá ver se me aprompta
aquelles punhos que eu lhe disse, vá.
–Vou já fazel-o, minha querida senhora–disse a rapariga, a quem
palpitava o coração alvoroçado de contentamento.
N'isto ouviram-se gritos agudos, desentoados, pungentes, que fizeram
parar Jenny e assombraram-lhe a fronte serena de uma nuvem de tristeza.
Vinham do andar superior aquelles gritos.
O criado, vendo-a parada a escutal-os, disse meio compungido, meio a
sorrir:
–É a snr.ª Catharina; tem estado desde hontem tão impaciente!
–Pobre Kate!–murmurou Jenny, suspirando–e subiu com ligeireza as
escadas, que conduziam ao mirante.
Catharina ou Kate, segundo a familiar abreviatura ingleza, era uma
criada octogenaria, que tinha sido ama de Mr. Richard e jazia agora,
paraplegica e demente, n'um dos quartos da casa, vigiada com carinho
pela familia Whitestone e com impaciencia, a custo reprimida, por os
criados e criadas. Em certos dias os accessos da velha eram furiosos e
as suas imprecações, em lingua mestiça de portuguez e de inglez, e os
seus gritos horripilantes punham em alvoroço toda a casa. Em momentos
assim era difficil apazigual-a; tão violentas gesticulações fazia, que
poucos eram os braços para impedir-lhe que se maltratasse.
–Cães!–bradava ella agora, n'aquelle estranho _imbroglio_ linguistico,
impossivel de reproduzir aqui e que fazia rir as criadas que a
seguravam–Cães! Teem-me aqui presa! Querem matar-me á fome! á fome! Mas
deixem estar que em vindo Dick… Elle ha de vir, ha de vir! Larguem-me!
Dick! Dick!–Era o nome familiar que ella dava ainda a Mr.
Richard.–Dick! pois assim queres matar-me? assim queres ver-me morrer?
Não tens pena de mim? Dick! Fui eu que te trouxe ao peito, eu… Olha
que sou a pobre Kate Simpleton. Dick! Dick! Livra-me d'estes demonios,
que me querem afogar. Que mal te faço eu, para me deixares morrer?
Larguem-me!
E por um esforço inesperado d'aquelles braços emaciados e fracos, soltou
os punhos das mãos, que os seguravam, e levando-os ás faces, feria-se no
rosto encarquilhado e contrahido.
N'isto entrou Jenny no quarto.
A velha apoderára-se de uma faca, que por descuido lhe tinham deixado ao
alcance da mão.
Jenny fez signal ás criadas para que se afastassem do leito e
aproximou-se d'elle.
–Cuidado, _miss_ Jenny!–disse a despenseira, gorda, ruiva e sardenta
matrona ingleza, que suava ainda com o esforço que sustentára.
–Cautela, menina!–repetiu a outra criada, musculosa portugueza dos
arredores da Maia–Olhe que ella é perigosa n'estas occasiões.
Jenny não as attendeu.
Chegou-se ao leito da velha demente e passou-lhe nos pulsos as mãos,
delicadas e debeis.
A velha estremeceu e fitou n'ella o olhar espantado e ameaçador.
–Bons dias, Kate–disse-lhe affavelmente Jenny, sem que no rosto,
risonho e sereno, se desenhasse a menor sombra de receio.
Kate ficou a olhal-a por algum tempo d'aquella maneira.
–Então que ruindade é esta hoje, Kate? Nem me conheces?
A velha principiou a socegar; conservava-se porém ainda muda, e não
desviava de Jenny os olhos espantados.
–Não me conheces, ama?–continuou esta, em tom mais affectuoso–Kate,
então? Já nem queres conhecer a Jenny?
O rosto da octogenaria illuminou-se com um sorriso estranho, selvagem
quasi; a cabeça principiou a agitar-se-lhe em movimento affirmativo,
que, pouco a pouco, augmentou de velocidade, até á rapidez de certos
desordenados gestos proprios d'aquelles estados de espirito; a mão
soltou a faca que ainda segurava.
–Eu logo vi que me conhecias–dizia Jenny, afastando-lhe
compassivamente os cabellos da fronte enrugada.–E has de estar quieta,
não has de?
–Sim, sim–dizia a velha, a rir como creança, e lançava os braços em
volta do collo de Jenny, aproximava-a do seio e beijava-a, murmurando
com voz chorosa as mais ternas expressões de affecto da lingua ingleza.
–Sim, sim, _poor thing_; sim–repetia muitas vezes, cingindo-a a cada
momento mais a si.
–Ai, _miss_ Jenny, _miss_ Jenny!–dizia a despenseira aterrada.
Jenny fez-lhe signal com o dedo, a impôr-lhe silencio, ou a mandal-a
saír.
A demente, tomando a cabeça de Jenny, principiou a balançar-se como a
adormecer creanças, e cantava ao mesmo tempo uma melancolica toada, com
a qual, havia cincoenta annos, adormecera já o pequeno Dick, actualmente
Mr. Richard Whitestone.
Eis o sentido da canção que, em dialecto escossez, ella cantava:
Dorme, filho, que eu vigio,
E emquanto dormes, sorri;
Que a tua porção de lagrimas
Eu as chorarei por ti.
Jenny não lhe offerecia resistencia. A velha chorava, cantando; a voz
ia-se-lhe a enfraquecer gradualmente; por fim tomou-a um d'aquelles
profundos somnos, que parece, n'esses estados, participarem já do
caracter do somno final, que não vem longe.
Adormeceu entoando em voz já mal percebida:
A tua porção de lagrimas…
Eu as chorarei… por ti…
Jenny desprendeu-se-lhe então dos braços, conchegou-lhe a roupa, fechou
a janella, e, recommendando silencio aos criados, desceu.
No fim dos degraus encontrou sentado o jardineiro da casa, com o rosto
entre as mãos e soluçando.
–Que é isso, Manoel?
O velho ergueu-se com sobresalto.
–Ai, menina Jenny, é que… veja.
E apontou para o degrau da porta do jardim, onde jazia partido um vaso
de porcelana com uma preciosa begonia.
–Como foi isto?–perguntou Jenny.
–O pae mandou-me trazer do quarto d'elle para a estufa este vaso e
tanto cuidado me recommendou! e vae eu… veja a minha desgraça, logo ao
descer a escada escorrego… Valha-me Deus, valha!
–Socegue. Meu pae não lhe ha de ralhar muito…
–Pois sim; mas se elle tanto me recommendou! E era um vaso de tanta
estimação! Ai, como me principia hoje o dia, Senhor.
Jenny viu, commovida, a afflicção do velho, que nem tinha coragem para
apresentar-se diante de Mr. Richard.
A bondosa rapariga baixou-se, e tomando os dois fragmentos do vaso, onde
se continha ainda a terra com a begonia, uniu-os cuidadosamente, e
descendo ao quintal, caminhou, segurando-os, em direcção da estufa.
–Onde vae, menina?–dizia o jardineiro admirado.
Jenny não lhe respondeu.
O velho seguiu-a.
Ao aproximar-se da estufa, onde Mr. Richard labutava em cuidados de
jardinagem, Jenny disse-lhe, levantando a voz:
–Não quiz confiar a ninguem este vaso, porque… Ai!
Era o vaso, que lhe caía das mãos, e vinha fazer-se pedaços no chão, á
entrada da estufa.
–Oh!–disse Mr. Richard, correndo em soccorro da begonia.
–Vêem, vêem!–dizia Jenny, fingindo-se consternada–como Deus me
castiga a presumpção!
–É verdade–disse Mr. Richard agachado–um vaso tão bonito! Creança!
Olhem para esta pobre begonia! Como ficou!
–Está vingado, Manoel–continuou Jenny.–Eu a desconfiar de si, e
vae…
O velho hortelão não podia fallar; emquanto Mr. Richard examinava os
estragos da begonia, elle cobria de beijos a mão de Jenny, que não pôde
retiral-a a tempo.
Era meio dia.
–Vamos,–disse Jenny a Mr. Whitestone–perdôe-me a culpa e venha ao seu
_lunch_.
Mr. Richard olhou affectuosamente para a filha, a quem afagou nas faces
e, separando-se com um suspiro da begonia, seguiu para casa, murmurando,
a sorrir:
–Estouvada! buliçosa!
No degrau da escada não escapou á vista aguda de genuino inglez a terra,
que ficára alli, como vestigio do delicto de Manoel. Jenny, que o
percebeu, apressou-se a dar uma causa ao facto.
–Fui eu que estive a mudar aquellas raizes, que vieram de Inglaterra…
–Já! Não sei se seria bom. Vamos ver como ficaram.
–Agora não, que são horas do seu _lunch_.
Mr. Richard não insistiu e dentro de alguns segundos procedia já aos
preparativos d'esta refeição matinal.
V
UMA MANHÃ DE MR. RICHARD
Mr. Richard era de uma rigorosa pontualidade nos seus actos de vida
domestica. Logo pela manhã, depois de uma leitura de _Biblia_ e de uma
revista á preciosa collecção de aves e de insectos de Inglaterra, que
possuia, consultando a proposito os livros de Yarrell, Shuckard, Rennie,
e de outros especialistas da localidade, passava a gosar no jardim das
bellezas matutinas e a exercer a sua paixão florista, cavando, mondando,
semeiando os seus bem guarnecidos canteiros. Esta occupação matinal de
Mr. Richard, forçoso é confessal-o, não era demasiadamente favoravel ao
horto, para com o qual elle tinha aliás as melhores intenções d'este
mundo.
Apesar de no seu gabinete se encontrarem constantemente abertos livros
de botanica e de horticultura desde a _Flora Londinensis_ de Curtis e as
obras completas de Lindley, até ás publicações periodicas das varias
sociedades horticolas de Londres, Mr. Richard Whitestone costumava fazer
sciencia por sua conta e risco. Despresando os preceitos dos escriptores
theoricos, juntamente com a experiencia provada do velho Manoel,
ensaiava ás vezes processos, não referidos nos manuaes de jardinagem,
com grave detrimento das mimosas e raras plantas, cuja acquisição, por
todo o preço, obtinha nos melhores mercados da Europa e principalmente
no _Covent-Garden market_ e no _Pantheon de Oxford Street_.
A natureza tinha sempre muito que fazer ao remediar os resultados da
arte do velho commerciante.
Felizmente para o aspecto geral do jardim, Mr. Richard Whitestone era
exclusivo nas affeições floristas. A uma unica planta dedicava, em cada
época do anno, os seus cuidados horticultores. Por aquelle tempo, eram
as begonias as suas predilectas. Ia um destroço n'ellas, occasionado por
tanto amor e cuidados, que consternava o velho Manoel, devéras
affeiçoado ás plantas.
Mr. Whitestone ensaiára nas pobres uma especie de rega, á qual grande
numero succumbiu. Era um liquido artificial de uma composição indigesta,
e em que elle procurára reunir todos os elementos, que julgára mais
proprios para lhes desenvolver a vegetação.
–Isso queima-lhe as folhinhas!–aventurára-se a dizer Manoel, vendo Mr.
Richard a temperar aquella caldeirada.
–Cala a bôca, tolo. Verás como ficarão viçosas.
Á vista do resultado, Mr. Richard teve porém de abandonar o processo,
mas sem se dar por vencido.
–É que estes vasos são pouco porosos… Hei de mandar vir de Londres
uns.
Era uma maneira muito de Mr. Richard, esta de sair das situações
apertadas. Appellava sempre para Londres, como fiel inglez que era.
N'estes entretenimentos levava pois o tempo até á hora do _lunch_.
Voltava então a casa. Era uma verdadeira hecatombe de ostras qualquer
refeição d'estas. O mercado do Porto a custo póde satisfazer as
exigencias dos numerosos malacozoofagos da colonia ingleza, entre os
quaes Mr. Whitestone occupava logar eminente. O _roast-beef_ á ingleza,
ou o fiambre, a mostarda, as batatas, a bolacha, a cerveja, o queijo de
consistencia pastosa forneciam tambem estes _lunchs_, accommodados á
robustez d'aquelle estomago saxonio, descendente dos que ainda no quinto
seculo da era christã eram antropophagos–segundo affirma o auctor da
_Viagem de Jersey a Gran-ville_.
Carlos fazia de ordinario companhia ao pae n'este repasto matinal. Mr.
Richard gostava de ver o filho junto de si, em tão solemnes momentos,
comquanto não trocasse com elle meia duzia de palavras; passados os
cumprimentos iniciaes, era costume seu abrir o _Times_ e acompanhar o
acto manducatorio da leitura d'este interminavel jornal, interrompendo-a
apenas por alguma certa phrase a recommendar ou criticar um ou outro
prato.
Porisso a ausencia de Carlos n'esta manhã cavou-lhe uma ruga de
descontentamento na fronte, que os ares do jardim haviam expandido, e
suspendeu-lhe a aria festiva, mas por elle um tanto estragada, que entre
dentes vinha trauteando ao entrar na sala.
Esta musica era a de uma das melodias de Russell, popularissimo
compositor e vocalista inglez, a cujas salas, por aquelle tempo, corria
em Londres a multidão ávida e enthusiasta, com o fim de o ouvir cantar
as proprias composições, que elle mesmo acompanhava ao piano. Nas salas,
nos theatros, nas ruas e nos campos, tanto na Inglaterra, como na
America do Norte, lê-se em noticias d'essa época, repetiam-se as
composições d'este musico notavel, cujo caracter nacional se
aperfeiçoara na convivencia da escola italiana, sem perder com isso,
diz-se, o cunho da originalidade.
De entre a collecção de melodias, ou cantos populares, publicadas
n'aquelle anno em Londres, e procuradas com alvoroço pelos amadores
nacionaes espalhados por todo o mundo, havia uma que Mr. Richard sobre
todas amava. Era essa a que vinha trauteando ao entrar na sala.
Tanto na indole d'este musico, como na da lettra, que assigna o nome do
dr. Mackay, encontrava-se de facto muito do caracteristico genio inglez,
para justificar de sobra esta preferencia.
É um canto de animação aos numerosos bandos de emigrados, que de todos
os pontos da Gran-Bretanha partem a cruzar os mares, á procura da
riqueza, e, sem lagrimas, se despedem do berço natal, que todavia amam
com fervor. Se é licito admittir que, n'estas luctas travadas no seio da
sociedade actual para conquistar a riqueza, póde ainda incidir um raio
d'aquelle esplendor épico, de que se illuminam os trabalhos analogos do
mythologico Jason, de certo os inglezes são os heroes d'essas epopeias
modernas. Aquelle desprendimento com que se separam do que amam quasi
com fanatismo–a patria e a familia–, aquella coragem estoica, que os
alenta nos revézes, e a firmeza de animo, que nas victorias lhes evita
os somnos perigosos, dão a esses argonautas do commercio um prestigio
respeitavel, que certas ridiculas exterioridades não podem suffocar.
Como complemento ao estudo do caracter de Mr. Richard Whitestone daremos
aqui a traducção dos versos do dr. Mackay, por ser o conceito d'elles
afinado pelo sentir do honrado negociante.
Era esta mesma canção a que os soldados inglezes entoavam na Crimeia,
durante a campanha d'aquelle tempo; e ao partirem da patria, emquanto os
instrumentos marciaes soltavam aos ventos as notas d'este canto popular,
milhares de espectadores cantavam unisonos:
_Cheer, boys!, cheer…_
que são as primeiras palavras do hymno, que traduziremos assim:
«Eia! rapazes, eia! Longe de nós a ociosa tristeza. Almas varonis, a
coragem nos alentará no caminho! A esperança impelle-nos para diante, e
mostra-nos um esplendido ámanhã; esqueçamos portanto a escuridade de
hoje.
Adeus, pois, ó Inglaterra! Ficam-te ainda muitos filhos, que como nós te
amem.
Nós enxugaremos as lagrimas, que ao principio derramamos. Porque havemos
de chorar, ao soltarmos as velas em busca da fortuna? Adeus, pois,
adeus, Inglaterra! adeus para sempre.
Eia! rapazes, eia! pelo paiz! pelo paiz natal!–Eia, rapazes! a vontade
forte imprime vigor ao braço. Eia! a riqueza recompensa o trabalho
honrado; eia! eia, rapazes! pela nova terra, pela terra feliz!
Eia! uma favoravel briza sopra para nos impellir livremente sobre o
dorso do oceano; o mundo seguir-nos-ha pela esteira que deixarmos; no
Occidente brilha a estrella do imperio. Aqui temos fadigas e pouco a
recompensal-as; além a abundancia sorrirá ás nossas penas; e nossas
serão as planicies e as florestas, e o grão dourado amadurecerá para nós
em campos sem limites.»
Foi pois a musica correspondente a esta canção que Mr. Richard
interrompeu quando, ao entrar na sala, viu que com um unico talher
estava preparada a mesa.
–Carlos está ainda na cama?–disse, voltando-se para Jenny e n'um tom,
em que se revelavam ligeiros indicios de mau humor.
Cumpre-me avisar aqui os leitores de que, para dupla commodidade, minha
e sua, farei fallar portuguez a Mr. Richard e até segundo as regras de
uma grammatica, cuja auctoridade elle nunca reconheceu.
Jenny sentiu a necessidade de advogar a causa do irmão junto de Mr.
Richard, que, já bastante indisposto com a ausencia de Carlos no dia do
seu anniversario, encarava agora com maus olhos taes excessos de
indolencia filial.
Profundo admirador das bellezas d'este mundo sublunar, Mr. Richard
olhava o somno como um invejoso, que nos furta algumas horas de prazer
n'esta vida, e ao qual, obrigado a fazer ligeiras concessões, tratava
sempre como inimigo.
Á interrogação paterna, Jenny respondeu:
–Ainda.
–Ho!–acudiu Mr. Richard, com a sua monosyllabica e guttural
interjeição de desgosto, acompanhando-a dos accessorios do costume.
Jenny acrescentou:
–Charles teve de se recolher hontem mais tarde…
–Escolheu bem o dia.
–Não se lembrava…
–Exquisito!
–Creia que se não esqueceria assim, se se tratasse do dia 3 de julho,
do anniversario do pae.
Mr. Richard sentou-se e pôz-se a ler o _Times_.
Jenny sentou-se defronte d'elle, mas arredada da mesa.
–E, como se deitou tarde–proseguiu ella, passado tempo–e eu receei
que a falta de descanso lhe podesse fazer mal, ordenei que o não
chamassem.
–Então veio muito tarde?
–Julgo que … ás duas horas…–balbuciou Jenny.
O criado, que começára a servir Mr. Richard, pensou fazer um obsequio
corrigindo:
–Perdão, miss Jenny, passava já das quatro.
–Ho!–repetiu Mr. Richard.
Jenny olhou para o criado de maneira, que lhe deu a conhecer a
inconveniencia da correcção.
–Foi uma promessa, que Charles fez a uns amigos…–disse ella–e só
soube o dia que era, quando já não ia a tempo de recusar.
Mr. Richard não precisava de ouvir mais nada, para suspender as suas
censuras. Tinha já perdido o habito de discordar da filha. Porisso só
respondeu, lendo o _Times_:
–Sim, sim. Está bom. O mal d'essas extravagancias é d'elle e porisso…
N'isto entrou, aos saltos, na sala um d'esses pequenos cães felpudos,
pretos e pardos, verdadeiros Atilas dos ratos e rivaes dos velhos
exterminadores d'esta raça perseguida.
–_O' Butterfly, good morning! How do you do, sir?_–exclamou Mr.
Richard, saudando o seu cão predilecto, que lhe estendeu a pata como
para um _shake-hand_. Havia n'isto um requerimento a uma fatia de
fiambre, o que o inglez não indeferiu.
O pequeno quadrupede sentou-se então com familiaridade na cadeira
devoluta ao lado do seu dono, fazendo a devida justiça ás sobras do
_lunch_, que lhe cabiam em partilha.
Jenny erguia-se a cada momento para servir o pae, attendendo a
particularidades, futeis de mais para merecerem a observação do criado
ou de outrem, que não fosse uma filha.
N'uma d'estas occasiões, Mr. Richard, como se não tivesse perdido ainda
o fio da conversa anterior, disse a meia voz:
–É que ha oito dias, que nem apparece no escriptorio e … é feio isso.
Jenny não respondeu.
Era claro que durante todo o tempo, em que tinham guardado silencio, o
mesmo pensamento occupára o espirito de ambos.
Receio que os redactores do _Times_ não tivessem d'esta vez conseguido
captivar a attenção do seu leitor.
Levantou-se por fim o inglez.
Lavando as mãos e estendendo a vista pelos floridos taboleiros do
jardim, murmurava ainda:
–Parece mal. É mau costume.
E saíu da sala para o gabinete.
Jenny acompanhou-o.
–E demais nem tanto custa–dizia elle ainda, pelo caminho.
Enfiando o sobrecasaco e aceitando das mãos de Jenny o chapéo e a
bengala, continuou no mesmo tom:
–Dá logar a que se diga … a que se repare…
Calçando as luvas de pellica côr de canna, por uma exquisitice
patriotica mandadas vir de Inglaterra directamente, resmoneou ainda:
–Não sei que custe muito estar alguns minutos no escriptorio.
E, passado um momento:
–É feio, é feio.
Parecia emfim disposto a saír, mas Jenny, costumada a observal-o,
descobria-lhe certa hesitação, como se se travasse n'elle uma lucta
entre duas resoluções encontradas.
–Até logo, Jenny–dizia Mr. Richard, mas sem acabar de partir.
–Não sei o que me esquece!–murmurou depois com manifesta perplexidade.
Jenny correu os olhos pelo quarto.
–O lenço?–perguntou, offerecendo-lhe um que vira sobre o toucador.
–Ah! o lenço, sim … o lenço…
Era evidente que não estava satisfeito ainda.
–Agora … não me falta nada; adeus.
Jenny julgou que d'esta vez sempre saíria.
–Ah! sim–continuava elle, parando novamente.
Jenny fitou-o com olhar interrogativo.
–Não sei o que… Ah!… Então… então Carlos… não se levanta esta
manhã?
–Se quer que o chame?
–Não, não… É que…
E depois, interrompendo-se:
–Não é nada.
–Deseja que lhe dê algumas ordens?
–Não… mas… Emfim, o que é tem tempo.
–Mas diga; Charles não deve tardar a erguer-se…
–É que…
E Mr. Richard, com certo modo embaraçado, aproximou-se da secretária,
abriu-a e tirou de lá um magnifico relogio e corrente, de construcção
ingleza, objecto que expressamente havia encommendado de Londres para
presentear o filho no dia dos annos d'elle.
A ausencia de Carlos na vespera impedira-lhe realisar o affectuoso
intento.
Agora como que sentia vergonha de ter a sua affeição resistido inteira
ao delicto filial, e de não lhe restar já no coração força bastante para
reprimir as expansões d'ella.
–Ahi está–dizia Mr. Richard a Jenny, procurando com um tom sacudido
tirar ás palavras a menor sombra de affecto.–Se quizeres, pódes dar
isso a teu irmão. Para elle é que eu o destinava, se hontem…
Jenny tomou o relogio das mãos do pae, a quem agradeceu com um sorriso
de ternura.
Mr. Richard proseguiu:
–Que eu não sei se Carlos o quererá; ainda que é objecto de preço…
–O maior preço é ser uma lembrança sua, senhor.
Mr. Richard resmoneou um monosyllabo inglez e ensaiou um gesto de
inveterado scepticismo, que não lhe saíu muito expressivo.
Jenny acrescentou:
–E de mais preço ainda, se das suas proprias mãos o recebesse.
–Queres talvez que vá acordar Carlos, para que me faça o favor de me
aceitar as minhas prendas?–perguntou o pae com certo azedume.
–Mas se… logo ao jantar…
–Talvez não nos dê a honra de nos fazer companhia.
–Oh! se Carlos soubesse…
–Nada, nada. Entrega-lh'o tu, se quizeres.
E, dizendo isto, saíu da sala, atravessou o jardim e dentro em pouco
tempo transpunha o portão da rua.
O criado, que o encontrou no corredor, ouviu-o murmurar ainda:
–Parece muito mal.
Mas, chegando á rua, já ia apparentemente satisfeito. Caminhava com a
rapidez, peculiar ao povo para o qual o tempo é dinheiro, dirigia ao
favorito _Butterfly_ phrases de cordial affecto e trauteava por entre
dentes o popular–_Cheer, boys, cheer!,…_
JIM – Assistente
Jim IA: pode errar. Não digite dados pessoais. Suas mensagens são processadas por um serviço externo.
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