Noções elementares de archeologia

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Noções elementares de archeologia

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NOÇÕES ELEMENTARES

DE

ARCHEOLOGIA

OBRA ILLUSTRADA COM 324 GRAVURAS

E

UMA INTRODUCÇÃO

Do Sr.

I. DE VILHENA BARBOSA

Socio Effectivo da Academia Real das Sciencias

DEDICADA Á MEMORIA DO ILLUSTRE ARCHEOLOGO

MR. A. DE CAUMONT

por

JOAQUIM POSSIDONIO NARCISO DA SILVA

Architecto da Casa Real, Socio correspondente do Instituto de França,
Honorario do Instituto Real dos Architectos Britannicos, da Sociedade
Franceza de Archeologia, da Sociedade Central dos Architectos de Paris,
correspondente da Academia Real de S. Fernando, fundador do Museu de
Archeologia em Lisboa, etc. etc. etc.

MEDALHA DO CONGRESSO ARCHEOLOGICO DE LOCHES
CONFERIDA NA SUA SESSÃO DE JUNHO DE 1869

LISBOA

LALLEMANT FRÈRES

6, Rua do Thesouro Velho, 6

1878

A SUA ALTEZA REAL

O SERENISSIMO PRINCIPE

*D. Carlos Fernando Pedro d'Alcantara*

DUQUE DE BRAGANÇA

*Com a mais respeitosa homenagem*

O. D. C.

*O humilde auctor d'este compendio*

JOAQUIM POSSIDONIO NARCISO DA SILVA.

INTRODUCÇÃO

I

Não conheceram os povos da antiguidade a archeologia, pelo menos como
uma sciencia. Foi ignorada dos proprios gregos e romanos, não obstante a
sua brilhante civilisacão, e apezar dos primeiros lhe terem creado o
nome, composto de dois vocabulos seus: _archaios_, que quer dizer
antigo, e _logos_ discurso. E tanto a desconheciam, confundindo-a com a
historia, que alguns escriptores gregos e israelitas do principio da era
christã, deram o nome de archeologia a obras que tratavam simplesmente
da historia de povos, embora desde tempos remotos, ou que se occupavam
de antiguidades, mas limitando-se a descreverem os monumentos, sem
entrarem nas apreciações e conjecturas, que levam o archeologo ao
conhecimento do viver dos povos da antiguidade.

Os generaes romanos, quando voltavam d'essas emprezas guerreiras que
accrescentavam ao imperio novas provincias, traziam mil objectos
preciosos, variadissimas manifestações da arte e da industria dos
vencidos, curiosos utensilios e ricos ornamentos em marmore, bronze,
prata e oiro, obra de diversos povos, e differentes seculos. Pois os
romanos applaudiam e apreciavam essas preciosidades, que vinham
enriquecer a sua capital, constituindo-a um verdadeiro museu
archeologico, apreciavam-n'as, repito, sómente como despojos arrebatados
aos vencidos pelas suas aguias triumphantes, como tropheus de victorias,
que glorificavam o seu nome, e estendiam o seu poderio.

Nem os vasos sagrados do templo de Jerusalem, preciosos pela materia e
ricos de tradições antiquissimas; nem os obeliscos do Egypto, padrões de
tão remotas eras; nem as famosas estatuas da Grecia, sublimes creacões
do genio humano em uma das quadras mais notaveis da historia geral da
civilisacão; nem estes, nem outros objectos archeologicos e primores
d'arte, que eram transportados a Roma a todo o momento, nos tempos da
sua grandeza, faziam meditar os romanos sobre as extinctas civilisações,
que muitos d'esses objectos recordavam, com o intuito de devassarem os
mysterios da vida d'essas nações, sumidas nos abysmos do passado.

Pausanias, geographo e historiador grego que, nas suas longas viagens,
visitou a maior parte do mundo então conhecido, vindo depois estabelecer
a sua residencia em Roma, no anno 170 do nascimento de Christo, escreveu
a _Descripção da Grecia_, na qual trata com minuciosidade de todos os
seus monumentos. Porém limita-se a descrevel-os como historiographo, sem
os estudar e apreciar como archeologo.

Baqueou o imperio romano ao duro embate dos barbaros do norte; e o mesmo
tufão, que o varreu da face da terra, apagou aquelle facho
resplandecente, que irradiava a luz da civilisacão para todas as regiões
do orbe antigo, onde chegavam as armas da soberba Roma.

Succederam-se, portanto, a tamanho explendor as mais crassas trevas da
ignorancia e da barbaridade, em que a Europa esteve mergulhada durante
seculos, até que emfim raiou a aurora da regeneração social, renascendo
as letras e as artes. Foi então que surgiram os primeiros ensaios da
archeologia. Dante e Petrarca, os illustres iniciadores da litteratura
moderna, foram tambem os creadores da sciencia archeologica, precedendo
a todos os sabios na investigação dos manuscriptos antigos, no
descobrimento e decifração de velhas inscripções, e no estudo das
moedas, em que o segundo se occupou.

Não tardaram a ter imitadores que procurassem desvendar, sob o pó dos
seculos, os mysterios da historia. A descoberta de algumas pinturas
antigas, em excavações casuaes, quando os espiritos já começavam a
raciocinar sobre a theoria da arte, e quando já se principiava a
apreciar os monumentos da antiguidade como annaes do viver das gerações
passadas, foi um novo incentivo para os estudiosos, e um raio de luz nos
escurissimos caminhos da nova sciencia.

Uma coincidencia feliz veio dar maior impulso e mais auctoridade aos
estudos archeologicos.

Miguel Angelo Buounarotti e Raphael Sanzio d'Urbino assombravam Roma e a
Europa culta com os explendores do seu talento na pintura, na esculptura
e na architectura, quando Felix de Fredi descobriu n'aquella cidade, em
1506, entre as ruinas das Thermas de Tito, o famoso grupo de Laocoonte e
seus dois filhos envolvidos pelas serpentes. Enlevados n'este grande
primor da esculptura antiga, aquelles dois eximios artistas procuraram
com desvelada applicacão descobrir o nome do auctor d'esta maravilha da
arte, e a era em que foi executada. Caminhando de investigação em
investigação visitaram e estudaram attentamente as grandes ruinas da
architectura grega e romana, os restos preciosos da sua admiravel
esculptura e as inscripções lapidares.

Estes estudos foram tão applaudidos, e tão reconhecidas as suas
vantagens, que não tardou a fundar-se em Florença, sob o governo dos
Médicis, a primeira escola publica d'antiguidades.

Tal foi o começo da archeologia.

II

O exemplo de Miguel Angelo e de Raphael, teve imitadores pouco depois em
França, Allemanha, e outras nações, onde alguns homens estudiosos, não
cultores das artes, mas apreciadores das suas obras, se occuparam de
investigações archeologicas, posto que em geral restrictas á numismatica
e á epigraphia.

Este segundo periodo da nova sciencia, que é denominado dos
_antiquarios_, abrange os fins do seculo XVI, todo o XVII e a primeira
metade do XVIII.

Portugal não foi indifferente a este progresso. Poderia dizer que n'este
passo, como em muitos outros, se antecipou ás mais nações, pois que no
principio da segunda metade do século XV, D. Affonso, marquez de
Valença, filho primogenito de D. Affonso I, duque de Bragança, indo
acompanhar a Italia e Allemanha a imperatriz D. Leonor, filha d'el-rei
D. Duarte, e esposa do imperador d'Allemanha Frederico III, comprou e
reuniu durante a sua longa viagem muitos objectos d'antiguidade e de
historia natural, com os quaes, na sua volta á patria, organisou um
museu, que seu pae augmentou com varios cippos, lapidas e fragmentos
d'archeologia romana, descobertos no Alemtejo. Foi este o primeiro
museu, que se creou n'este reino, e creio que precedeu a todos os que se
crearam na Europa.

Todavia, apezar d'este estimulo, o estudo d'antiguidades só teve
principio entre nós passado um seculo; e foi de fóra que então nos veio
o incentivo.

Graças ás intimas relações do nosso paiz com as principaes potencias
maritimas da Europa, desde a entrada do seculo XVI, estabelecidas pelos
descobrimentos e conquistas dos portuguezes, que fizeram de Lisboa o
emporio das mercadorias do Oriente, o movimento scientifico, que lavrava
n'aquellas nações, não se demorava muito em se fazer sentir entre nós.
Porém no caso de que trato abreviou esse periodo, sem duvida, a viagem
de um nosso compatriota, que alcançou nas letras nome illustre. André de
Rezende, depois de ter cursado a universidade de Salamanca, e de ter
tomado capello em theologia, levado do desejo de se instruir, percorreu
a França e os Paizes Baixos, demorando-se em Paris e em Bruxellas. O
trato que teve n'estas cidades com alguns sabios, suscitou-lhe o amor
dos estudos archeologicos. Regressando á patria entregou-se com ardor e
perseverança a esses estudos, colligindo alguns cippos e outras lapidas
com inscripções romanas, que collocou no jardim da casa em que habitava
na cidade d'Evora, investigando e decifrando um grande numero de
monumentos epigraphicos do nosso paiz, e compondo por fim varias obras,
em que dava conta d'essas locubrações predilectas. Duas viram a luz da
imprensa, com o titulo de: _Historia das antiguidades d'Evora_,
publicada em 1553; e _Libri quatuor de antiquitatibus Lusitàniæ_,
impressa em 1593, vinte annos depois da sua morte. D'entre as que deixou
manuscriptas sobre o mesmo genero d'assumptos, citarei: _Monumenta,
romanorum in Lusitanis urbibus_.

Assim começaram estes estudos em Portugal; e do mesmo modo continuaram
n'esse seculo e no seguinte, restrictos todavia á época do dominio
romano.

As nações que percorriam as vias do progresso com passo firme e resoluto
mostraram-se empenhadas no desenvolvimento dos estudos archeologicos,
desde o meiado do seculo XVII, fundando academias ou escolas, onde se
ensinava ou discursava sobre antiguidades.

Então os adeptos da nova sciencia, sequiosos de emoções e buscando
alargar a área dos seus estudos, visitam a Grecia, exploram o solo,
desenterram soberbos monumentos, escrevem e publicam em muitos livros os
resultados das suas investigações.

Illustraram-se n'esta cruzada scientifica, principalmente, Jacob Span, e
Bernardo de Montfaucon, francezes, e Wheler, João Augusto Ernesti, João
Jorge Groevinus, Gronovius, allemães. Todavia nos seus vastos
repositorios de memorias e dissertações, posto que tratem mais
particularmente das antiguidades gregas e romanas, já se occupam de
todas as partes da archeologia.

III

Este impulso fez-se sentir em o nosso paiz nos fins do primeiro quartel
do seculo XVIII. Fundando-se em Lisboa no anno de 1720, a academia real
de Historia Portugueza, foi-lhe commettido, juntamente com a tarefa de
escrever a historia de Portugal, o encargo de velar pela conservação dos
monumentos nacionaes, obstando a que se destruissem, ou fossem levados
para fóra do reino, os objectos d'antiguidade, já descobertos, ou que
viessem a descobrir-se. Fundaram-se em Lisboa alguns museus de
antiguidades, sendo um no proprio edificio da academia (o palacio dos
duques de Bragança, na rua do Thesouro Velho), e os outros particulares.
Entre as muitas obras volumosas, escriptas pelos academicos, e impressas
por ordem da academia, contam-se algumas consagradas exclusivamente a
antiguidades nacionaes.

Em geral os espiritos, que se dedicavam a este genero de litteratura,
continuavam a concentrar todas as suas attenções nos monumentos romanos,
de que havia então bastante copia no reino, e que estavam por
conseguinte muito ligados com a nossa historia. Entretanto houve
academicos que, saindo fóra d'esse apertado circulo, encetaram estudos
inteiramente novos no paiz. Martinho de Mendonça e Pina, em 1733, leu em
uma sessão d'aquella academia uma memoria sobre os _rudes altares_ a que
chamam _antas_ em Portugal. Este estudo publicado nas _Memorias da
Academia_, foi o primeiro trabalho litterario, que se fez entre nós
relativamente a monumentos prehistoricos.

IV

Na segunda metade d'esse mesmo seculo teve começo o terceiro periodo da
archeologia, no qual obteve os fóros de verdadeira sciencia. Abriu esse
periodo um dos mais talentosos e perseverantes filhos da Allemanha. João
Joaquim Winckelmann, nascido em 1717, e fallecido em 1768, que se elevou
pelo seu saber, de uma posição social muito humilde, a vice-reitor da
universidade de Halle, e a bibliothecario do Vaticano, foi o fundador da
esthetica moderna, e o creador do estudo philosophico e consciencioso da
arte antiga. Entre muitas obras, que lhe grangearam subida honra,
sobresae a _Historia da Arte_, que immortalisou o seu nome. N'esta obra
magistral, que dividiu em 6 livros, estabeleceu e sellou de um modo
incontroverso a alliança das artes com a archeologia, marcando a esta,
como norma e alvo a que deve mirar, seguir escrupulomente sob todos os
aspectos, pela apreciação do trabalho humano nas artes e na industria, o
desenvolvimento da civilisação nos seculos passados; e estabelecendo ao
mesmo tempo o methodo racional e claro para alcançar esse fim.

Teve grande importancia esta obra, não só por dilatar os horisontes da
nova sciencia, e abrir amplas vias aos seus cultores; mas tambem por
diffundir o gosto dos estudos archeologicos, graças á elegancia do seu
estylo, á lucidez dos seus argumentos, e sobretudo ao enthusiasmo com
que falla dos grandes primores da arte antiga, e dos evplendores da
civilisação grega e romana. D'essa benefica influencia originaram-se
alguns dos mais ricos museus de antiguidades, que hoje existem, e muitas
collecções partiticulares valiosas, que promoveram e facilitaram o
estudo.

Seguindo ousadamente os passos do erudito auctor da _Historia da Arte_,
assignalaram-se após elle outros archeologos por distinctos serviços
prestados á sciencia. O conde de Caylus classifica por ordem
chronologica os monumentos das differentes edades, e penetra o segredo
que produziu a maior parte das artes. O archeologo italiano Morcelli
cria um systema regular para a classificação das inscripções, conforme o
assumpto de que tratam, e para o estudo d'ellas, segundo o seu estylo. O
celebre numismata padre Eckhel, jesuita allemão, coordena methodicamente
a sciencia das medalhas; á qual o douto dinamarquez Rask accrescentou a
ordem alphabetica. O sabio philologo e antiquario padre Passeri,
italiano, que organisou o rico museu do grã-duque de Toscana, explica a
um numeroso auditorio sob o portico de Lanzi, em Florença, com mais
proficiencia do que o fizera Demspter, no seculo antecedente, os idiomas
e os monumentos da Italia, anteriores á fundação de Roma.

O descobrimento das ruinas de Herculanum deixára ajuizar de alguns usos
e costumes dos romanos ainda mal conhecidos. Porém quando em 1755 se
começou a levantar a espessa mortalha, que envolveu Pompeia em seu leito
de morte durante 17 seculos, fazendo surgir do sepulchro uma cidade
romana com as suas praças, ruas e casas guarnecidas e adereçadas
interiormente, como na hora fatal em que as cinzas do Vesuvio a
sepultaram no anno 79 da era christã, revelou-se aos olhos absortos dos
antiquarios a vida publica e privada do povo romano com todos os seus
usos e costumes, pois que só então foi bem conhecida uma infinidade de
coisas e circumstancias, que eram inteiramente ignoradas.

Accentuando-se cada vez mais os progressos da archeologia, o abbade
Barthelemy, francez, reedifica a Grecia de Pericles, e Jorge Zoega,
antiquario dinamarquez, começa a erguer o veu que occultava á sciencia o
antigo Egypto. Napoleão Bonaparte emprehende a conquista d'este paiz, e
as aguias francezas triumphantes abrem ignotos caminhos á archeologia, e
patenteiam-lhe um immenso thesouro de preciosas reliquias da mais remota
antiguidade. Vivant-Denon reproduz com o seu lapis habil e delicado, os
soberbos monumentos do imperio dos Pharaós, e copía com escrupulosa
exactidão, dos muros ennegrecidos pelo embate de tantos seculos, esses
mysteriosos caracteres, que encerram, sob mil fórmas emblematicas, senão
os annaes, a vida intellectual do antigo povo egypcio.

D'entre um grande numero de sabios, que illustram a archeologia com os
seus escriptos, Champolion descobre o alphabeto dos hieroglyphicos, e
assim preenche uma lacuna de seculos, que a historia tinha deixado no
esquecimento. Millin funda em 1792 o jornal _Magasin Encyclopedique_,
por meio do qual derrama e popularisa os estudos archeologicos; publíca
varias obras importantes sobre esta sciencia, e um _Diccionario de
Bellas Artes_. Raoul-Rochette enriquece a litteratura franceza com o seu
excellente _Curso d'Archeologia_, e entre outras publicações não menos
interessantes, que fazem conhecidos e devidamente apreciados alguns
sabios inglezes, italianos e allemães, Mr. A. du Caumont facilita e
popularisa o estudo d'esta sciencia com seu precioso _Abecedario ou
rudimentos da archeologia_.

Os livros d'estes homens, de espirito elevado, dão um grande incitamento
ás investigações archeologicas; e as descobertas dos testemunhos
authenticos da existencia do homem na remotissima época quaternaria,
trouxeram ao campo das discussões scientificas a origem da especie
humana, e o seu viver nos tempos prehistoricos. Colleccionaram-se e
patentearam-se ao publico os utensilios e instrumentos de que usaram os
homens na sua idade primitiva, e que se iam descobrindo em excavacões
casuaes ou feitas expressamente com esse intuito. E não tardou a
reconhecer-se a conveniencia de se reunirem em congresso os homens que
nos differentes paizes se dedicavam a estes estudos, para que da
exposição das suas investigações, e das discussões de uma assembléa tão
competente e auctorisada, se projectasse luz nas trevas d'esse remoto
passado.

Coube a mr. Desor, distincto naturalista, a honra de ser o primeiro a
apresentar a idéa de um congresso internacional de archeologia
prehistorica. Este pensamento enunciado em Paris, foi abraçado com
enthusiasmo; porém antes que podésse ser realisado na terra, onde tivera
origem, antecipou-se a Italia a encetar estas controversias.

No outono de 1865 a sociedade das sciencias naturaes, reunida em
Spezzia, occupou-se dos tempos prehistoricos. No anno seguinte reunem-se
os archeologos de differentes paizes em Neufchatel, na Suissa, celebram
o primeiro congresso internacional de archeologia prehistorica; tratam
largamente do assumpto; ajustam e lançam as bases para a convocação do
segundo congresso, que dá principio ás suas sessões em Paris, no anno de
1867, ao mesmo tempo que se abre n'essa cidade a grande exposição
universal, com uma secção intitulada _Historia do trabalho humano_, onde
figuram productos variadissimos da industria humana de todos os paizes
do globo, e de todas as épocas até ás primitivas da humanidade.

Desde então entrou a archeologia em um periodo de verdadeira actividade
scientifica, protegida pelos governos das nações mais cultas,
reconhecida a sua importancia e justamente apreciada por todas as
pessoas illustradas, qualquer que seja o rumo dos seus conhecimentos.

V

Portugal não tem tomado a parte activa, que lhe cumpria tomar, como paiz
civilisado, e a quem tanto deve a moderna civilisação, n'aquelle
movimento scientifico. Todavia, não se póde dizer que lhe tenha ficado
estranho.

Varias memorias, publicadas pela academia real das sciencias de Lisboa,
provam que esta corporação se occupou, desde a sua instituição, de
assumptos archeologicos, relativos á historia do paiz. Além disso
n'estes últimos annos tem havido entre nós não poucos escriptores que se
tem dedicado aos estudos archeologicos, e d'entre estes, alguns zelosos
investigadores do que diz respeito aos tempos prehistoricos.

Temos sido muito descuidados na formação de museus archeologicos, e é
uma vergonha que não tenhamos um unico estabelecimento d'este genero,
digno de ser exposto aos olhos dos estrangeiros illustrados que visitam
o nosso paiz. E maior vergonha é que não exista, podendo e devendo
existir, independentemente do recurso ás excavacões muito dispendiosas.
Era bastante para constituir um museu de objectos archeologicos e
artisticos, muito rico e variado, os milhares de objectos, producto do
trabalho humano, em diffrentes edades, de remotas eras, em oiro, prata,
bronze, vidro, barro e pedra, descobertos nas provincias do reino,
sobretudo na Estremadura, Alemtejo e Algarve, desde o seculo XV, em
excavacões casuaes, e muitos objectos preciosos e alfaias dos extinctos
conventos.

Por iniciativa, e póde dizer-se por unico esforço do sr. J. Possidonio
Narciso da Silva, fundador e presidente da real associação dos
architectos e archeologos portuguezes, deu começo esta associação no
edificio da egreja gothica e arruinada do extincto convento do Carmo,
onde se acha estabelecida, a um museu archeologico. Carece, porém, de
muitas condições para preencher os fins a que são destinadas similhantes
collecções, sendo uma das principaes, a organisação scientifica e
chronologica, e conveniente collocação dos objectos alli reunidos. Devo
accrescentar, porém, que achando-se alli todos os objectos accumulados e
apertados por falta absoluta d'espaço; aquella organisação e conveniente
collocação estão dependentes de uma obra importante e despendiosa; a
cobertura das naves da egreja.

Guardam-se em differentes estabelecimentos publicos de Lisboa, Porto e
Evora, diversidade de objectos archeologicos e artisticos, que se
estivessem reunidos formariam uma collecção mui curiosa, e de certa
importancia. Tambem são dignas de menção as collecções de fosseis,
instrumentos e utensilios prehistoricos da secção geologica, no edificio
do extincto convento de Jesus.

* * * * *

Pois que fui mais prolixo do que desejava no quadro historico, que fica
traçado, procurarei ser conciso nas noções geraes da sciencia
archeologica, noções que mr. Du Caumont julgou desnecessario explicar
n'este livro.

A archeologia é a sciencia que tendo por fim, como o indica o seu nome,
o estudo da antiguidade, nos ensina a conhecer o viver dos povos antigos
por meio do exame e apreciação dos monumentos, que nos deixaram, e de
todos os objectos, que d'elles nos restam como manifestação do seu
engenho e do seu trabalho.

A historia narra os successos, indica-lhes as causas, e aponta-lhes as
consequencias. Julga do caracter e indole dos povos, e dos individuos
que mais se assignalaram; e trata dos monumentos, como provas que
mostram o seu desenvolvimento intellectual e industrial, e tambem como
testemunha d'aquelles successos.

A archeologia examina attentamente todos os productos materiaes, que os
antigos povos nos legaram, e d'esse estudo minucioso, comparativo e
philosophico, faz resaltar o conhecimento das idéas, da religião, dos
usos e costumes, do desenvolvimento industrial e artistico, emfim do
viver dos povos, aos quaes esses productos pertenciam.

Portanto a archeologia faz importantes serviços á historia, não só
esclarecendo-a, com a luz que derrama onde tudo é trevas, mas tambem
completando-a com uma infinidade de noções e de objectos reaes, que nos
apresentam um quadro verdadeiro da vida intima dos povos da antiguidade,
que sem os esforços dos archeologos seriam ignorados ou apenas
conhecidos superficialmente.

A archeologia divide-se em tres partes, que a seu turno se subdividem:
1.^a _litteraria_–2.^a _artistica_–3.^a _usual_. Comprehende a
primeira toda a sorte de monumentos em que ha inscripções, quaesquer que
sejam os seus caracteres e a materia que os contenha. Subdivide-se em
_paleographia_, _diplomatica_ e _epigraphia_. A _paleographia_ ensina a
decifrar as antigas escripturas em pergaminho ou em outra substancia com
caracteres alphabeticos, ou ediographicos, ou signaes emblematicos, como
os hyeroglyphicos dos egypcios, ou outros convencionaes. A _diplomatica_
indica o modo de conhecer, pelos caracteres internos e externos, a
authenticidade dos documentos. A _epigraphia_ trata da interpretação das
inscripções gravadas em pedra, em metal, ou em qualquer outra materia.

A _archeologia artistica_ trata de todos os monumentos da antiguidade,
taes como edificios religiosos, civis e militares, e todos os generos de
obras d'arte.

Subdivide-se em _archeologia monumental_, que diz respeito ás obras
d'architectura, d'esculptura e de pintura; em _iconographia_, que é o
estudo dos bustos e dos retratos dos personagens historicos; em
_numismatica_, ramo consagrado ao exame das moedas e medalhas; em
_glyptographia_, que trata das pedras gravadas, representando quaesquer
figuras; e, finalmente, em _archeologia usual_, que abrange toda a
qualidade de alfaias, utensilios e instrumentos sagrados, domesticos,
militares, funerarios, etc.

São estas as divisões scientificas da archeologia. Porém, considerada
relativamente ás grandes épocas da vida da humanidade, póde dividir-se
em _archeologia prehistorica_, dedicada ao estudo das edades primitivas
do homem, das quaes não restam memorias escriptas, nem gravadas, nem
tradicionaes, existindo por unicos vestigios da sua passagem na terra
alguns rudes monumentos, e utensilios e instrumentos não menos toscos e
grosseiros, encontrados em escavações: em _archeologia dos antigos
imperios orientaes_; em _archeologia classica_, ou _greco-romana_; e em
_archeologia christã_, que comprehende o periodo desde o nascimento de
Christo até á renascença das artes e letras.

Emfim a archeologia é uma sciencia tão lata e complexa, que ainda
precisa, para satisfazer cabalmente a sua importante missão,
soccorrer-se a outras sciencias accessorias como são a _linguistica_, a
_paleontologia_, a _geologia_, a _anthropologia_, e a _ethnologia_.

J. DE VILHENA BARBOSA.

PROLOGO

N'este seculo, em que a civilisação tem caminhado progressivamente nas
principaes nações, não podia esquecer por mais tempo um estudo que
consiste em investigar o modo como começára a existencia da raça humana
desde o berço até o seu simultaneo desenvolvimento, não só dos objectos
necessarios para a defeza exterior, como em relação aos usos domesticos
e habitações: conseguindo-se por este curioso estudo formar juizo seguro
ácerca da existencia interior do viver e dos costumes dos primitivos
habitantes da terra.

Depois do cataclismo que passou o planeta em que existiram, e das lutas
encarniçadas e continuas das differentes raças, as quaes se disputavam
tenazmente a posse do territorio mais fertil e mais ameno, tendo muitas
d'essas raças já desapparecido do mundo por inteiramente destruidas, e
em outros se tenham confundido os elementos das suas respectivas
nacionalidades, pois que nenhum d'elles nos deixou a historia escripta
d'esses tempos remotos; a sua existencia rude e aventurosa não lhes
proporcionavam o poderem cultivar a intelligencia, nem suavisar os
costumes, para se dedicarem ao aperfeiçoamento intellectual: portanto,
só pelos vestigios da sua imperfeita industria, os quaes se acham
encerrados entre as camadas successivas da terra, só por diversos
fragmentos, elles nos poderam revelar a sua vida social, e nos mostraram
o grau de sua nascente civilisação. Assim formulâmos a historia, ainda
que incompleta nos primitivos tempos da terra habitada, e descobrindo os
segredos d'essa existencia, saberemos quaes foram os esforços da
intelligencia humana desde o seu alvorecer.

Quando os romanos se impozeram aos outros povos, e em repetidas
conquistas ampliaram o seu dominio no antigo mundo, invadiram o
territorio d'essas raças indigenas, e depois de renhidas batalhas o
povo-rei subjugou-as, hasteando entre ellas a aguia romana; porém
n'essas épocas já havia historiadores que nos deixaram as narrações de
taes feitos: assim o estudo d'esses acontecimentos, não é tão difficil,
porque não precisâmos de ir inteiramente á crusta terraquea pedir-lhe os
seus segredos.

A invasão dos barbaros do Norte veiu depois desapossar os romanos de
suas conquistas, e a destruição que ella causou foi total, e de tal
modo, que aos actos do elemento da parte mais feroz d'essas hordas se
ficou chamando _vandalismo_. Se um cataclismo terrestre havia, pois,
feito desapparecer antes os vestigios dos povos mais antigos do mundo,
os barbaros do Norte não foram menos prejudiciaes por aniquilarem a
civilisacão que os romanos haviam plantado na Europa.

Todos conhecem a decadencia do Baixo-Imperio: as guerras continuas; o
desprezo e o esquecimento da instrucção; até que appareceu um homem de
animo forte e de intelligencia superior, que, apoderando-se do poder,
formou um novo imperio, e pela sua sabedoria e por suas victorias
alcançou a gloria de haver feito reviver o explendor da civilisação na
Europa.

A idade media foi fecunda em acontecimentos, que prepararam os povos
para aguardarem uma era, em que os seus direitos e a sua civilisação
triumphassem das arbitrariedades e dos vexames que soffriam; depois
surgiu o renascimento das lettras e das artes, que foi o prenuncio da
nova civilisação.

Fica, portanto, reconhecida a necessidade de um estudo especial dos
fragmentos e das ruinas dos antigos para formarmos, como já dissemos,
justa idéa dos usos, costumes e crenças dos primeiros habitantes do
mundo, e principalmente dos que existiram na Europa, muito mais
interessante para nós, por vivermos no territorio occupado por elles.
Poderemos d'este modo dirigir os nossos especiaes estudos para a
Lusitania, e entrar nas mais minuciosas investigações com respeito aos
tumulos, ás fortificações, aos templos, aos ornatos, ás habitações, a
tudo emfim que determina e constitue a sciencia da archeologia, com a
qual supprimos a falta da historia escripta.

Foram os allemães, os inglezes e os francezes os primeiros que trataram
d'essas curiosas investigações; e os sabios que se dedicaram a taes e
tão uteis estudos, principalmente Mr. de Caumont, e outros, que
publicaram obras de grande merito, são dignos da nossa admiração e do
nosso reconhecimento, porque, procurando as origens da industria humana,
nos revelaram interessantes conhecimentos, que não só serviram para
coordenar a historia das épocas mais remotas, mas tambem para estimular
o desejo de conservar as antiguidades que estavam dispersas e
desprezadas, attestando ignorancia e incuria.

Em Portugal nunca se pensara n'este ramo de instrucção, posto que em
alvará de 14 de agosto de 1721 se ordenasse que se fossem colligindo as
informações indispensaveis e se adquirissem objectos antigos, que
facilitassem o estudo da archeologia, porém ficou em letra morta; e
tanto assim que só em 1864 se organisou o primeiro museu archeologico,
por iniciativa da pessoa que escreve estas linhas, fazendo o governo
para esse fim a concessão das ruinas da monumental egreja gothica do
Carmo, de Lisboa, onde tambem depois estabelecemos em annos successivos
um curso ácerca da historia geral da architectura.

Como quer que seja, a sciencia da archeologia não fôra cultivada entre
nós methodicamente, e por isso não deve estranhar-se que não apparecesse
até hoje, em Portugal, alguma obra elementar que auxiliasse o seu
estudo. Para supprir tal falta, ousamos nós mandar imprimir um resumido
trabalho, que comprehende a descripção dos objectos antigos, desde a
edade de pedra até ao seculo XVII, tomando para norma a notavel obra do
sr. de Caumont, o qual, além de distinguir-nos com a sua apreciavel
amisade, nos auctorisou a servirmo-nos dos seus admiraveis trabalhos; e
já que nos é licito honrar-lhe aqui a memoria gloriosa, sejam estas
paginas consagradas ao illustre fundador da sciencia archeologica em
França, como levantado a um dos testemunhos da nossa veneração.

No volume, que vamos publicar, e cujos fundamentos lançámos haverá sete
annos, estão illustrados corn gravuras numerosas, mais de 300 no texto,
as passagens em que se tornava indispensavel esse meio de observação;
seguindo, quanto possivel, a obra do sr. de Caumont, como já indicámos,
procuramos ao mesmo tempo amplial-a com as explicações das antiguidades
encontradas em Portugal, interessando assim ainda mais os nossos
compatriotas.

Suppomos que este livro poderá ser tambem de proveito nas nossas
escolas, onde é tão geralmente reconhecida a necessidade de livros
especiaes, que fallem aos alumnos de assumptos que são hoje do dominio
de uma educação liberal; assim se tornarão adeptos do estudo e da
sciencia archeologica, que lhe fornece as primeiras bases, para que
sejam outros tantos propagandistas da conservação da nossa arte e das
nossas preciosidades archeologicas.

Apezar de ser trabalho complexo e difficil, não só para a nossa limitada
intelligencia, mas tambem pelos escassos recursos de que podemos dispor
para uma publicação d'esta ordem, o nosso vivo desejo de divulgar o
gosto pela archeologia, de satisfazer ao constante empenho em estimular
o estudo d'esta sciencia indispensavel para bem avaliar a historia da
arte em Portugal, sirva comtudo de attenuante ás faltas que houvessemos
de commetter. E tambem, digamol-o, ficam aqui os cimentos de obra mais
perfeita e de maior tomo para os que possam lançar-lhe hombros mais
robustos e intelligencia mais apurada. Os que prezam o trabalho e amem o
estudo relevem a nossa ousadia, e deitem-a á conta da boa vontade e da
sinceridade com que sempre tentámos bem servir a patria.

17 de Maio de 1877.

NOÇÕES ELEMENTARES DE ARCHEOLOGIA

* * * * *

CAPITULO I

*Tempos prehistoricos*

Chamaram _prehistoricos_ aos tempos antigos de que não existe historia
escripta.

Desde os tempos mais remotos, apparece um longo periodo sem historia
escripta, nem elementos positivos, durante o qual tentamos encontrar o
progresso e o desenvolvimento da humanidade, unicamente por vestigios
mais ou menos incompletos.

O archeologo tem que tomar a penna do historiador e procurar deduzir
algumas _probabilidades historicas_, com observação escrupulosa dos
factos averiguados. Os antiquarios modernos têem-se dedicado com
entranhado amor a este genero de investigações.

Estabeleceram na historia pertencente á existencia do homem, _anterior
ás épocas conhecidas_, tres grandes phases, ou estancias, a saber:

Idade de Pedra
Idade de Bronze
Idade de Ferro

A fundição, ou reducção dos metaes, é uma operação difficil, que foi de
certo por muito tempo desconhecida: os povos atrazados na civilisação
deviam fabricar os objectos de que tivessem necessidade para a propria
defensa e para a caça, assim como para os usos communs da vida,
empregando pedras rijas, como é o silex (pedreneira), os ossos dos
animaes, ou a madeira.

O extraordinario numero de descobrimentos feitos nos diversos paizes,
principalmente em França, na Suissa, na Inglaterra, e na Dinamarca,
confirmou esta supposição.

As collecções dos museus contém quantidade consideravel de pontas de
frechas, facas, machados, feitas com pedreneira e em rocha rija: grande
numero de instrumentos de osso, ou de pedra, se tem achado em
differentes partes, e esses instrumentos conservam-se quasi intactos
dentro do solo, onde estavam occultos. O periodo secular em que os
metaes não estavam ainda em uso recebeu, pois, a denominação de _idade
de pedra_.

As melhores qualidades de rochas para fabricar os instrumentos
cortantes, eram o silex (pedreneira), _felds-pathicas_, o _petrosilex_
verde, e algumas variedades de _porphyro_; porém o silex tem sido, como
parece, a pedra mais constantemente empregada, e talvez a mais facil de
preparar a forma requerida.

Seguramente, se dermos com certa precaução uma martellada sobre um
fragmento de silex, de forma alongada, esse silex estalará, e a pedra
que se desligue tomará logo a forma conoidal; ficará chata de um dos
lados, mostrando do outro uma aresta viva. Podiam-se fazer por este
modo facas de pederneira, de que em diversas localidades se tem
encontrado centenares de modelos.

[Figura 1]

Fazendo-se estalar esta qualidade de pedra repetidas vezes com certa
habilidade, podem-se fabricar machados, pontas para flechas e outros
instrumentos do genero d'aquelles de que apresentamos os desenhos n'esta
pagina.

Os objectos pertencentes á _idade de pedra_ e á _idade de bronze_ tem
sido encontrados, principalmente nos _tumulos_, nas cidades _lacustres_,
em algumas _cavernas_, antigamente habitadas.

Examinemos os depósitos que indicamos, porque nos offerecerão, segundo
recentes explorações, matéria variada e curiosa para o nosso estudo.

*Tumulos*

Os tumulos ou sepulchros, compõem-se d'um recinto central formado de
pedras de rocha de grande dimensão, no qual se entra geralmente por um
corredor de egual construcção, estando tudo encerrado em immenso montão
de pedras e terra.

Quer fosse porque estivesse com imperfeição o recinto central encerrado
no meio do outeirinho factício; quer, o que parece mais natural, porque
se servissem _da terra_ ou _das pedras dos tumulos_ em época posterior,
muitas vezes foram encontrados os pedregulhos que formam a parte central
sem a terra que os cobria e quasi completamente separados; então n'este
caso chamavam-se Antas (dolmen).[1]

[Figura 2: Vista exterior de um tumulo]

Os defuntos eram depositados com os seus corpos inteiros e em geral
apresentavam-os _sentados_ e encostados nas paredes do recinto central,
tendo junto de si os machados e outras armas de pederneira; algumas
vezes vasos de barro toscamente fabricados, e outros objectos de uso
commum.

Veja-se o desenho n.^o 2, de um tumulo completo; o n.^o 3, um tumulo
aberto com dolmen; o n.^o 4, um dolmen completamente desguarnecido; e o
n.^o 5, a perfeita Anta de Guitamães, em Vianna do Castello.

[Figura 3: Vista interior de um tumulo]

[Figura 4: Dolmen central de um tumulo]

Varios antiquarios tinham tomado os dolmens desguarnecidos de tumulos
por _altares druidicos_, porém ao presente esta ideia está quasi
desprezada, por falta de provas positivas.

O cobre com liga que lhe dá maior rijeza, foi empregado depois da
pederneira, ou conjunctamente com ella, quando os nossos antepassados
aperfeiçoaram esta industria e conheceram o modo de derreter os metaes.

[Figura 5: Anta de Guitamães (Minho)]

Os principaes objectos de bronze, foram os _machados_, as _pontas das
lanças_, as _espadas_, os _punhaes_, as _facas_, os _anzoes_, as
_fouces_, os _alfinetes_, os _anneis_, os _braceletes;_ estes objectos
fundidos, muitas vezes com formas elegantes, apresentavam em todos os
paizes o mesmo feitio, tanto na Dinamarca como em França, e na
Inglaterra; e isso nos convence de que os typos tradicionaes, talvez
imitados do mundo antigo pelas nações civilisadas, e trazidos para a
Europa occidental em época que não se pode fixar, foram reproduzidos sem
alteração, em moldes apropriados.

[Figura 6: Fachada do Dolmen de Bournan]

[Figura 7: Plano do Dolmen de Bournan]

Esta época importante da historia dos progressos da humanidade rasgou
bom horisonte no prolongado periodo prehistorico: d'ahi proveio a
denominação de _idade de bronze_. O difficil era saber-se, por inducção,
quando e como o bronze apparecera nos paizes septentrionaes.

Ha annos, o sr. Worsaæ e os antiquarios dinamarquezes publicaram que
os tumulos da idade de pedra continham compartimentos centraes, conforme
descrevemos; nos quaes se depositavam os cadaveres sentados, com os
joelhos juntos á barba e os braços cruzados no peito; em quanto os
tumulos da idade de bronze não apresentavam esse compartimento
reservado, sendo construidos com grandes pedras e os outeirinhos,
compostos de terra e de pequenas pedras, não encerravam cadaveres, mas
tamsomente as cinzas dos finados, depositadas em vasos de barro; muitas
vezes appareciam acompanhados de objectos de bronze e ás vezes de ouro.
Inferia-se d'estas differenças, que os instrumentos de bronze haviam
sido trazidos por uma raça que invadira, absorvera e talvez aniquillara
a indigena; raça que teria costumes diversos, armas superiores e
civilisação mais adiantada que a subjugada.

Acceitando-se este facto, a idade de bronze seria inaugurada na Europa
occidental por um povo conquistador em época desconhecida.

Os objectos de barro não nos guiam suficientemente n'esta exploração. Os
que foram achados com os instrumentos de bronze são de fabrico
grosseiro, mal cosidos, e por seu feitio, ornatos e as substancias que
os compõem, simelham-se muito com os vasos de barro achados nos
sepulchros que encerravam unicamente objectos de pedra. N'esses diversos
tumulos raramente se viam vasos com azas; á forma dos gargalos parecia
não ser conhecida, nem o seu uso; consistindo apenas a ornamentação em
linhas em direcções diversas; ou ponteado concavo, ou emmoldurado em
xadrez.

Além d'isso, a pederneira era ainda de uso geral na idade de bronze, e
muitas vezes se tem encontrado objectos de pedra e instrumentos de
bronze nos mesmos tumulos; facto que poderia explicar-se admittindo-se
que servira successivamente para sepultura em differentes povos.

Acharem-se cinzas no logar dos cadaveres sentados, pareceu sufficiente
caracteristico da idade de bronze, pois que nos tumulos, que encerravam
objectos de metal, havia poucos exemplos de se fazer enterramento na
posição _sentado_, e essa pratica caracterisa a idade de pedra.

Tem-se, comtudo, encontrado na mesma sepultura esqueletos sentados na
proporção de 20 por cento, talvez como demonstração, segundo o sr.
Lubbock, dos ultimos representantes das gerações passadas que tivessem
apego aos antigos usos.

*Habitações lacustres*

Precisamos de expôr, em primeiro logar, o que se entende por cidades
_lacustres_.

Ha annos notava-se em muitos lagos da Suissa, abaixo do nivel natural
das aguas, estacarias em grupos consideraveis; o dr. Keller, de Zurich,
socio da sociedade de archeologia franceza, estudou com attenção esses
vestigios, que por grandissima diminuição das aguas ficaram visiveis; e
declarou depois, que os primeiros habitantes da Suissa estabeleciam por
vezes as suas casas em cima da agua, como praticavam algumas tribus da
antiguidade, e até como fazem ainda alguns povos modernos. Tal
descobrimento causou sensação entre os antiquarios; muitos observadores
se dedicaram depois com grande solicitude a explorar o fundo dos lagos,
nos logares das cidades lacustres indicadas pela presença da estacaria.
Estas investigações foram proficuas. Poderam-se tirar, servindo-se de
dragas, grande numero de fragmentos de objectos de barro, e outros
utensilios, os quaes, comparados com os que foram encontrados nos
tumulos, reconheceu-se pertencerem tambem a identica civilisação.

Varias outras estancias lacustres foram depois descobertas na Suissa;
contaram-se até 32 no lago de Constance; 46 no de Neufchâtel; além das
que se viram nos de Genebra, de Inkwill, de Pffikon, de Luissel etc.,
etc. Ainda que nem todas pertençam á idade de bronze ou de pedra, e que
muitas pareçam ser do tempo da idade de _ferro_, e do periodo romano,
todavia o maior numero é das idades de pedra e de bronze.

Os museus de Lausanna, de Genebra, de Neufchâtel e outros, tem
collecções completas dos objectos chamados _lacustraes_, por causa de
terem sido conservados por séculos debaixo das aguas.

Os habitantes das cidades lacustraes achavam sem duvida recursos
alimentícios na pesca, mas estabeleceram as suas habitações sobre a agua
para se collocarem ao abrigo dos ataques das feras, ou dos roubos das
tribus visinhas. Era facil separar inteiramente essas povoações fluviaes
levantando para isso as pontes, que lhes serviam para communicarem com
as margens.

Segundo o estudo das ossadas dos animaes recolhidos pela draga, e de
diversos fragmentos, conheceu-se que então já havia seis especies de
animaes domesticados que deviam servir para o alimento dos habitantes; e
entre essas, encontraram-se restos de veados, bois, de duas formas,
porcos, cães, cabras e cavallos, notando-se porém que havia poucos
vestigios do cavallo e da cabra.

*Cavernas*

As excavações dirigidas por varios geologos em diversas localidades,
deram em resultado encontrar-se nas cavernas consideravel numero de
objectos devidos á industria das raças primitivas, incluindo as da época
do diluvio, assim como os machados de pederneira, toscamente fabricados,
e outros instrumentos de silex e osso, e em parte envolvidos com ossadas
de animaes giganteos, que já hoje não se encontram.

Os objectos de silex e osso, pela maior parte, parece pertencerem á
idade de pedra, e provirem das epocas mais remotas da humanidade. Mas
deve notar-se que sempre apparecem misturados com esses utensilios do
homem, restos de animaes, que se não encontram hoje, e que pertencem á
formação do terreno _quaternario_, considerado até então como anterior
ao apparecimento do homem.

O descobrimento de uma queixada humana no saibro do Moulin-Quignon,
proximo de Abbeville, na França, veio estratigraphicamente confirmar
taes conjecturas e indicações. Embora isto seja do dominio da geologia e
da paleontologia, os factos novamente averiguados são de summo
interesse, pois que comprehendem a idéa de indeterminada e espantosa
antiguidade em que o homem vivia no estado quasi selvagem: não é
difficil acreditar que assim acontecesse, quando pensarmos na situação
actual dos povos de Africa central, dos naturaes da America, quando foi
descoberta, e dos habitantes das ilhas da Oceania. O homem que vive
isolado, sem communicação com os povos mais adiantados que elle, poderá
ficar muito tempo no mesmo grau de civilisação; como aconteceu em o
nosso continente antigo, em quanto os romanos levavam o luxo até o
extremo, havia então em o Norte, onde já chegam hoje os caminhos de
ferro, povos semi-selvagens que não tinham participado em cousa alguma
dos progressos do povo rei; e comtudo deviam depois repartir entre si os
seus despojos e gosar da sua civilisação.

Podemos, portanto, admittir que houve por longos annos na Europa, nas
margens dos rios, uma raça de caçadores e pescadores, e que nos bosques
existiam o _mammouth_, _o rhinoceronte_, animaes que podiam resistir á
baixa temperatura que n'essa época era propria em nossa região.
Julga-se, com fundamento, que tal raça de homens vivia como succede hoje
entre alguns esquimaus, e como os laponios viveram seculos antes.
Acrescentaremos que a flora fossil parece mostrar que as modificações
occorridas na forma por effeito das mudanças climatericas, tiveram os
seus equivalentes no mundo vegetal antigo.

Os principaes monumentos dos tempos prehistoricos são, conjuntamente com
os tumulos, dos quaes já tratamos:

Os _peulvans_ ou pedras cravadas na terra;

Os monumentos compostos com pedras similhantes, taes como os
_alinhamentos_;

Os circulos formados de pedras, e os recintos simplesmente de terra.

As pedras oscillantes são pedras de extraordinario peso sobrepostas a
outras e collocadas em equilibrio, mas que ao menor impulso se fazem
mover: existem algumas em França, porém na Inglaterra o maior numero. No
Alemtejo, proximo de Alter do Chão, ha uma d'esta qualidade.

*Pedras erguidas*

[Figura 8: Pedras Erguidas]

As pedras erguidas[2] que se designam egualmente com os nomes de
_Menhirs_, _Peulvans_, _Pedras cravadas_, etc., são pedras toscas de
forma esguia ou conica implantadas verticalmente na terra, como se
collocam os marcos. A sua altura varia desde 2 a 6 metros, ou mais; ás
vezes estão cravadas de maneira que a extremidade menos grossa fica para
baixo, e a mais volumosa para cima, como se estivessem sustentadas n'um
pião. Outras estão simplesmente postas no solo, em logar de serem
cravadas na terra, porém, é preciso não confundir estas pedras com
vários pedregulhos _erraticos_, ou que se encontram em posição vertical
e podem estar assim naturalmente collocados.

[Figura 9: Alinhamentos de pedra era Ardeven]

_Alinhamentos_.–Os alinhamentos são formados de pedras esguias. As
pedras, alinhadas com mais ou menos regularidade, mais ou menos
intervallos entre si, formam algumas vezes uma única fileira. Umas
tambem se encontram postas em duas, tres, quatro ou maior numero,
conservando-se em linhas parallelas. Estas especies de avenidas
pedregosas são delineadas commummente na direcção de Leste a Oeste, ou
do Norte a Sul.

Outras vezes as pedras são substituidas por trincheiras ou fossos de
terra. Tem-se encontrado em algumas partes, posto que raramente,
terrados parallelos na direcção de Leste a Oeste, e do Norte a Sul, que
apresentam, em quanto á disposição, muita analogia com os alinhamentos
de pedras e parece terem tido o mesmo destino.

Os alinhamentos de pedras mais notaveis e mais vastos que se conhecem em
França, são os de _Karnac_, de _Ardeven_, e de _Penmarch_. Compõem-se de
mais de 1:200 pedras toscas em 11 filas parallelas com 763 toezas de
comprimento, e 47 de largura. As mais elevadas tem 18 a 20 pés, e as
mais pequenas 4 a 5. Ha entre ellas algumas de volume tão extraordinario
que lhes avaliam o pezo em 70 a 80 milheiros.

Os alinhamentos de _Ardeven_ estão dispostos regularmente em filas
parallelas, tambem na direcção do Norte para o Sul, e no espaço de 3
kilometros de extensão.

*Circulos*

Outra combinação de pedras erguidas toma a forma de circulos, que têem
sido designados pelo nome de _cromlecks_.[3]

[Figura 10: Circulo de pedras]

Os maiores d'estes circulos existem em Inglaterra; um d'elles, o vasto
circulo de Avebury, em Wiltshire, está totalmente destruido; porém ainda
houve quem o visse quasi completo por 1713; compunha-se de 660 pedras, e
achava-se situado no meio de uma planicie, ficando-lhe o terreno em
declive de todos os lados, como pode vêr-se na gravura junta.

[Figura 11: Restauração do monumento d'Avebury.]

O circulo exterior era formado de 100 pedras de 15 a 16 pés de altura,
collocadas a 27 pés umas das outras; tinha perto de 1:300 pés de
diametro, e via-se cercado de profundo fôsso, contornado exteriormente
por larga trincheira de terra.

Este grande circulo continha dois circulos mais pequenos, compostos cada
um de dois renques concentricos de _peulvans_, do qual um tinha 30
pedras, apresentando um diametro de 466 pés; e o outro 12 pedras, com o
diâmetro de 186 pés.

O monumento de Stone-Henge[4] está situado a 6 milhas de Salisbury, em
uma eminencia, na proximidade da qual se encontram muitos _tumulos_; é
composto de 4 circulos concentricos, dos quaes os dois maiores são
circulares, em quanto os outros dois mostram a forma um tanto elliptica.

[Figura 12: Vista de Stone-Henge, proximo de Salisbury]

O circulo exterior tinha quasi 97 pés de diâmetro; e compunha-se
primitivamente de 30 pedras erguidas com altura de 10 a 12 pés,
collocadas a 1 metro de distancia umas das outras; estas 30 pedras
sustentavam egual numero de impostas ou pedras collocadas
horizontalmente que se ligavam nas extremidades e formavam d'este modo
uma especie de balustrada tosca.

O segundo circulo ficava a 9 pés do precedente, era formado de 29 pedras
esguias sem impostas, e por metade da grandeza das do circulo exterior:
apenas 19 estavam erguidas haverá 38 annos.

O terceiro circulo, a 13 pés do precedente, apresentava uma illipse
tendo o pequeno eixo 52 pés, e o maior quasi 55; formado por
_trilithos_[5] de grande dimensão, o mais elevado, dos quaes tinha 22
pés de altura.

Finalmente, o circulo central tambem um pouco elliptico, compunha-se de
20 _peulvans_ com a altura de quasi 6 pés.

[Figura 13: Disposição dos renques de pedras em Stone-Henge]

Na extremidade oriental do oval, dentro do ultimo circulo, havia uma
pedra medindo 16 pés de comprimento e 4 de largura, posta em plano na
terra, e que se suppõe serviria de altar.

As pedras esguias que compunham estes quatro circulos eram quasi todas
mais largas na base que no vertice; tinham sido cravadas em cavidades
abertas em rocha de natureza graphite, e havia o cuidado de as
consolidarem calcando-as com fragmentos de pederneira em volta das
cavidades.

Um largo fôsso de 30 pés, collocado entre duas trincheiras, formava o
quinto recinto circular á roda das pedras do circulo exterior.

A Dinamarca, a Noruega e a Suecia, conteem certo numero de _cromlecks_,
quasi todos circulares ou ellipticos, apresentando geralmente uma pedra
no centro, que se suppõe ter servido de altar.[6]

Acredita-se que estes monumentos nem sempre foram usados nas ceremonias
religiosas.[7] Na infancia dos povos, os logares consagrados ao culto
deviam servir tambem para tribunal de justiça, assim como para ponto de
reunião dos conselhos patriarchaes ou de notaveis, que tratavam dos
interesses da nação, das eleições, das inaugurações, etc.

Em o Norte, os nobres reuniam-se antigamente dentro de recintos
circulares formados de pedras, para elegerem os seus principes, até a
promulgação da Bulla de Ouro pelo imperador Carlos IV, em 1356. O
circulo de pedras, no qual Eric foi proclamado rei da Suecia, existe
ainda proximo de Upsal; uma grande pedra toma o centro, como em outros
recintos d'aquelle paiz. Outrotanto se praticava na Irlanda e na
Escossia.

Taes são os principaes monumentos de pedra dos tempos prehistoricos.
Accrescentemos que o vulgo lhes attribue origens fabulosas, como obra de
um ente colossal chamado _Gargantua_; que a tradicção os tem indicado
como encerrando preciosos thesouros; abrigos de fadas, de almas do outro
mundo, e dos espiritos que as acompanham!

*Recintos formados com terra*

Estes recintos consistem em um _vallum_ de terra, ás vezes misturada de
seixos, circumdando extensões mais ou menos consideraveis e cujas formas
são mui variadas. Poder-se-hia attribuir essa especie de claustros á
outra época do que a que corresponde aos tempos prehistoricos, se não
houvesse tumulos encerrados no _vallum_, ou levantados proximo d'elles,
o que faz suppôr que serão contemporaneos.

*Architectura dos tempos prehistoricos*

Pouco sabemos acerca de qual seria a architectura anterior ao dominio
dos romanos. Presume-se porém que nas primitivas construcções
empregariam a madeira e o barro.

As habitações eram circulares, construidas com madeiras e vimes
enlaçados.

No interior faziam as divisões com terra; o telhado formavam-n'o de
ripas de carvalho ligadas com massa de argila e palha cortada, conforme
os vestigios encontrados na Gallia, na Bretanha, na Germania, em
Hespanha e Portugal.

De investigações feitas em França e na Inglaterra, conheceu-se que
muitas habitações dos celtas tinham antes a forma oval do que redonda, e
algumas vezes rectangular; mostravam alicerces de pedra secca, e muitas
eram construidas em nivel inferior ao solo que as circumdavam, quer
fosse para se resguardarem dos rigores do clima, ou quer para não darem
ás paredes altura consideravel.

Estas casas estavam em relação com a simplicidade dos costumes; deviam
ter um só andar, e apresentavam uma só abertura, que servia de porta e
janella.

Em todas a forma era egual, mas as dimensões divergiam. O numero e a
grandeza das casas deviam corresponder á cathegoria e opulencia dos
possuidores.

Os gaulezes abastados tinham sempre junto de si séquito para o qual
necessitavam de grandes habitações. Escolhiam portanto o terreno para
ellas nos bosques e perto dos rios, ou em eminencias, afim de servirem
egualmente de fortalezas para a propria defensa.

*Utensilios e instrumentos diversos*

Em época, que não podemos determinar, os nossos antepassados souberam,
que o estanho combinado com o cobre produzia uma liga mais rija e mais
pesada que estes dois metaes separados; as analyses que o celebre
mineralogista Clarke repetidas vezes fez em Inglaterra, e aquellas que
se fizeram em França, demonstraram que sobre 100 partes quasi todos os
bronzes antigos contem 12 de estanho e 88 de cobre; porém que esta
proporção não é constante, e que a quantidade de estanho ou de chumbo
combinada com o cobre, varia ás vezes desde 4 até 15 por 100.

Mr. Clarke verificou que os antigos bronzes descobertos na Grecia, no
Egypto e em algumas partes da Asia,[8] continham a mesma quantidade de
estanho (88 e 12): sendo esta a proporção necessaria para se obter o
_maximum_ de densidade resultante d'estes dois metaes.

Os machados de bronze, que tem sido encontrados em grandissimo numero em
toda a parte e que se vêem em quasi todas as collecções,[9] apresentam
entre si differenças notaveis; os typos que damos são os mais
conhecidos. Estes machados teem um olhal nos lados, e existem de
diversos tamanhos; as faces lateraes são de feitio de uma folha
lanceolada sobre o comprido, na qual se vê o vestigio da juncção das
duas peças do molde em que o instrumento foi vasado.

Em Portugal descobriu-se um muito singular, não só por suas grandes
dimensões, mas por ter _dois olhaes_, o que o torna raro no seu genero.

[Figura 14a]

[Figura 14b]

[Figura 14c]

[Figura 14d]

Estes machados deviam encavar-se de duas maneiras: n'uns, o cabo entrava
de espiga n'uma cavidade central _a_, _b_; n'outros, dar-se-lhe-hia a
forma de palmeta para entrar nos dois lados do instrumento no logar
preparado _c_; algumas vezes as bordas delgadas e salientes que formavam
a parte ôcca ficavam reviradas sobre si, por modo a formar uma especie
de calha _d_, apropriada para conservar a parte encavada.

*Moldes para machados*

Os machados de bronze foram sem duvida fundidos em moldes compostos de
duas peças symetricas, pouco mais ou menos como os que ainda hoje são
empregados na fundição das colheres de estanho.

[Figura 15: Molde aberto]

[Figura 16: Molde fechado]

É provavel que alguns d'estes moldes fossem de terra ou de pedra; porém
o maior numero dos que se conservam nos museus são de bronze, fundidos
egualmente como os machados.

O primeiro molde para machados celticos que chamou a attenção dos sabios
foi descoberto na Inglaterra em 1779. Encontraram-se depois em muitas
partes da França, principalmente na Normandia.

Estes moldes compôem-se de duas peças ôccas, que se podem juntar e unir
sem se desconcertar, por meio de uma parte saliente chamada _macho_ que
está na virola do molde de uma das peças, e se encaixa na fenda
praticada na virola da outra peça.

_Espadas de bronze_.–As espadas de bronze compõem-se de lamina e cabo
(punho). São de folhas direitas, chatas, mas reforçadas no centro da
lamina, e ás vezes ainda com bojo no espaço comprehendido nos dois
terços da folha. Cortam dos dois lados e tem ponta aguda.

A largura de lamina quasi sempre é de pollegada e meia ou duas
pollegadas na parte mais larga, sendo a sua maior grossura de um quarto
de pollegada.

No punho ainda algumas tem os pregos de bronze que haviam servido para
segurar a guarnição.

As espadas eram tambem fundidas, e o metal identico ao empregado nos
machados.

[Figura 17]

_Punhaes de bronze_.–Estas armas parecem-se com as espadas, exceptuando
a lamina que é mais curta. O comprimento de alguns é de 10 a 14
pollegadas, e a largura da folha de 2 a 21/2 pollegadas na base.

_Pontas de lança_.–Juntamente com as armas que descrevemos,
encontram-se de vez em quando pontas de lanças e objectos que foram
considerados como especies de virolas ou ferragens para guarnecer a
parte inferior da hastea.

_Rodeias ou collares (torques)_.–Affirmam alguns historiadores que os
gaulezes traziam collares ou _torques_, como tambem braceletes e argolas
nos braços.

[Figura 18]

O collar era egualmente usado pelos gregos e romanos, e outros povos;
talvez não haja outro ornamento de uso mais antigo, nem mais geral.

Deve-se distinguir entre os _torques_; em primeiro logar, os que são
formados de muitas peças encadeadas e enfiadas em especie de rosarios de
perolas grossas de ambar, de azeviche, de vidro colorido, etc., como se
encontraram dentro de alguns _tumulos_; e depois as cadeias, cujos elos
são de ouro ou bronze. Em segundo logar, os _torques_, compostos de uma
unica peça de metal (ouro, bronze, etc.) arqueada de maneira a formar
circulo do diametro mais ou menos consideravel, e muitas vezes com
lavores. Em muitos _torques_ as duas extremidades da peça metalica não
estão soldadas, porém o metal offerece bastante flexibilidade para
facilitar mettel-as nos punhos, podendo-se unir ou abrir,
independentemente do fecho; outros _torques_ não apresentam nenhuma
d'estas formas.

[Figura 19]

Appareceram tambem chapas de ouro bastante delgadas com feitio de
meias-luas, porém cujas pontas estavam arqueadas de modo a formarem
circulo quasi perfeito. Vêem-se, aos lados e nas extremidades de algumas
d'estas peças, festões e molduras.

[Figura 20]

O pequeno intervallo que separa as duas pontas do crescente não nos faz
suppôr que este enfeite servisse para se trazer em volta do collo;
provavelmente ficava suspenso por uma corrente.

Alguns instrumentos achados por varias vezes nos sepulchros, ou junto
dos dolmens, em França e mais frequentemente na Irlanda, consistiam em
hastea de ouro arqueada tendo nas duas extremidades um disco, em alguns
chato, em outros levemente concavo.

[Figura 21]

Ignora-se absolutamente para que uso seriam destinados.

Finalmente, o objecto seguinte, uma especie de _gargantilha_ formada de
uma folha de ouro mui delgada, foi achado em França em diversas
localidades.

[Figura 22: Collar de ouro descoberto em França]

As _moedas_ chamadas _celticas_ são provavelmente em parte
contemporaneas dos ornamentos ou enfeites que descrevemos acima.

*Objectos de barro*

São tanto mais difficeis de se distinguirem os _objectos de barro
celticos_, com excepção dos que se tem encontrado nos _tumulos_, quanto
em algumas partes estão muitas vezes misturados com outros similhantes
aos do tempo dos romanos; visto que os mesmos sitios foram habitados
antes e depois da conquista de Cezar na Peninsula.

[Figura 23]

Os objectos de barro descobertos nos _tumulos_, são formados de terra
preta, mal preparada e com pequenos seixos, o que produziu massa pouco
solida. Os seus fragmentos são frageis, e não foram cozidos
sufficientemente; a parte quebrada não mostra arestas vivas, mas sempre
cheias de cavidades. As superficies d'essas peças, tanto na parte
interna, como na externa, tem côr quasi egual á do ferro ferrugento;
porém na parte interna é de negro carregado. Expostas á acção do lume
tomam exteriormente a côr avermelhada do tijolo; em quanto no interior
ficam negras, e mais frageis depois d'esta operação.

[Figura 24: Vasos achados nos tumulos de Inglaterra, Hollanda e outros
paizes]

Esses vasos não parece terem sido feitos com auxilio do torno, e não
apresentam nenhum moldado ou borda; foram unicamente alisados na parte
exterior com um objecto qualquer, que lhes deu lustro irregularmente, de
maneira que mostram na superficie altos e baixos, mais ou menos lisos,
conforme vai indicado na gravura junta.

Os que foram encontrados nas cidades _lacustras_, mostram inteira
similhança e caracter no fabrico. A massa não está solidamente ligada,
por ter algumas partes de pederneira; a côr é preta ou cinzento escuro.
Esta massa tem pouca consistencia; quando está secca quebra-se
facilmente, e pode-se desfazer entre os dedos; se a molharmos,
dar-nos-ha a apparencia de bocados de cortiça velha que estivesse por
muito tempo exposta á chuva. As suas formas indicam a infancia da arte,
excepto os fragmentos onde se descobre o uso do torno; os demais
pertenceram a objectos que parece foram vasados em moldes e polidos á
mão, ou lavrados com algum instrumento. Reconhece-se na superficie
exterior de alguns fragmentos o trabalho de uma especie de plaina. Os
ornamentos compôem-se de filetes imperfeitos, e em pequenos riscos junto
á borda do orificio.

[Figura 25: Outros vasos achados nos tumulos]

Entre os objectos de arte que enumeramos, só vemos os instrumentos cuja
materia unicamente podia resistir á acção do tempo; os moveis de madeira
que teriam as habitações gaulezas não conseguiram chegar até os nossos
dias. Os lagos de certo conservaram-nos muitos objectos, e até pedaços
de tecidos que recentemente nos esclareceram alguns pontos relativos á
industria d'esses povos, antes da occupação do territorio da Gallia
pelos romanos, porém são ainda dados incompletos para se formar cabal
idéa do estado da industria.

Terminamos este rapido esboço, apresentando o quadro synoptico das
antiguidades que servem de assumpto ao primeiro capitulo.

*MAPPA SYNOPTICO DAS ANTIGUIDADES PREHISTORICAS*

+———————————–+—————————————+
| | |
| *Nomes especificos* | *Caracteres* |
| | |
| | |
| {conicos |Outeirinhos artificiaes de forma, e |
|_Tumulos_ { |de dimensões differentes, compostos de |
| {ovaes |pedra e de terra, com _dolmens_ no |
| |centro. |
| | |
| {erguidas |De forma esguia. Firmadas verticalmente|
| { |na terra como se fossem marcos. |
|_Pedras_ { | |
| {assentes |De forma indeterminada. Simplesmente |
| { |collocadas sobre o solo sem estarem |
| |cravadas no chão. |
| | |
|_Trilithos_ |Duas pedras verticaes sustendo outra |
| |horisontalmente. |
| { | |
| {simples |Uma mesa de pedra collocada sobre |
| { |pedras postas de cutello, em numero |
| { |de 3, 4 ou 6. |
|_Dolmens_ { | |
| {compostos |Grande mesa de pedra composta de |
| { |muitos pedaços, sendo, pelo menos, 6 o |
| { |numero dos pontos de apoio. |
| | |
| |_Nota_. Os mais collossaes d'estes |
| |dolmens formam galeria ficando abertos |
| |n'uma das extremidades; costumam ser |
| |designados de _avenidas cobertas_. |
| | |
| {simples |Um ou dois renques de pedras em linha |
| { |recta. |
|_Alinhamentos_ { | |
| {compostos |Quatro, cinco e algumas vezes até onze |
| { |ou doze renques de pedras formando |
| { |avenidas parallelas. |
| | |
|_Pedras postas em grupo_ |Accumulação de pedras, sem ordem, |
| |mais ou menos consideravel. |
| | |
| {simples |Composto d'um só renque de pedras |
|_Circulos formados { |cravadas ou assentes. |
|com pedras_ {compostos | |
| { |Formados de muitos renques de pedras. |
| | |
|_Recintos cercados de terra, ou de |De diversas formas. |
|pedras_. | |
| | |
| H { | |
| A { Vestigios de casas |Logar de cabanas redondas, ovaes, |
|L B { |algumas vezes rectangulares, indicadas |
|O I { |por alicerces de pedra tosca sem |
|G D T { |argamassa ou tão sómente pelo |
|A E A { |abaixamento do solo. |
|R Ç { | |
|E Õ { Subterraneas |Galerias e casas cortadas na rocha. |
|S E { |Excavações diversas. |
| S { | |
| | |
| { { Punhaes e facas |Um pedaço de silex cortado de maneira |
| { { |a apresentar uma folha aguda, com dois |
| { { |gumes, e armado d'um cabo. |
| { { |Folha de silex sem cabo. |
| { { | |
| { { { para frechas|Pequenos dardos, dos quaes o |
| { { { |comprimento varia desde meia pollegada |
| { E { _Pontas_ { |até duas |
| { { { | |
| I { M { {para rojões |Dardos quasi similhantes aos |
| N { { { |precedentes, porem mais sobre o |
| S { { { |comprido. |
| T { { | |
| R { P { Martellos |Peça quer redonda dos dois lados, quer |
| U { E { |d'um lado sómente. |
| M { D { | |
| E { R { Pedras para fundas |Redondas ou ovoides, de 2 a 3 polegadas|
| N { A { |de diametro. |
| T { { | |
| O { { Machados |Convexos para o centro, cortados em |
| S { { |aresta viva nos bordos, acabando de um |
| { { |lado em ponta romba, e de outro em |
| { { |gume, o qual descreve uma porção de |
| { { |ellipse. |
| D { | |
| I { { Machados |De formas diversas similhando-se mais |
| V { { |ou menos a uma cunha. |
| E { { | |
| R { E { Fôrmas para machados |São duas peças symetricas, que depois |
| S { M { |de reunidas a parte ôcca mostra o |
| O { { |feitio do machado. |
| S { { | |
| { B { Espadas |Folhas direitas, chatas, de dois gumes,|
| { R { |acabando em ponta. |
| { O { | |
| { N { Punhaes |Quasi similhante ás espadas na forma, |
| { Z { |porém com menor comprimento. |
| { E { | |
| { { Cabeças de rojões |De forma lanceolada tendo um |
| { { |engrossamento no meio. |
| | |
| { compostas de peças |Correntes metallicas.–Perolas de pedra|
| { |de côr-alambre, formando rosario. |
|_Torques_{ | |
| { de uma só peça |Argolas metallicas mais ou menos |
| { |grossas muitas vezes com |
| { |lavrados.–Chapas do feitio de meia |
| { |lua. |
| | |
|Ornamentos diversos |Em bronze e em ouro, com lavrados. |
| | |
|Louça de barro |Muito fragil, mal cozida, composta de |
| |terra preta mal preparada e cheia de |
| |pequeninos seixos. |
| | |
|Moedas |Em ouro, em prata e em bronze. |
+———————————–+—————————————+

CAPITULO II

*Era gallo-romana*

Entreapparece-nos um dos mais amplos horisontes da historia dos povos
occidentaes na conquista do imperador romano Cesar. Nos _Commentarios_
d'este grande general temos perfeita idéa do estado da Gallia na época
da conquista; conhecem-se tanto os grandes factos que consumou, quanto
se inferem as consequencias que d'elles advieram á civilisação.

Cesar encontrou a Gallia dividida em tres nações principaes: os Belgas,
os Celtas e os Aquitanios.

O imperador Augusto, que pretendeu organisar o governo regular nos
paizes conquistados, formou tres novas provincias d'essas tres regiões.

Segundo esta divisão, foram desannexados e encorporados na Aquitania 14
povos da Celtica; além de dois que passaram do Norte para a Belgica.
Assim ficou modificado o territorio dos primitivos povos d'esta parte da
Europa.

*Vias de communicação*

Começaremos a nossa revista dos monumentos da grande época romana,
descrevendo as vias publicas ou as grandes estradas; tanto mais que
foram as primeiras obras que o povo rei executou e de que nos deixou
vestigios.

As cidades e as estancias eram accessiveis por meio de estradas solidas,
ou calçadas. Nos intervallos que separavam estes estabelecimentos uns
dos outros, é que principalmente se encontravam vestigios das vias
romanas. Seguiam em geral linhas rectas, excepto quando obstaculos
naturaes, como as montanhas, os barrancos profundos, as lagôas, se
oppunham a isso, e prolongavam-se tanto quanto possivel nas planicies,
afim de evitar os terrenos pantanosos.

Além das estradas principaes, que communicavam uma cidade com outra,
havia os caminhos vicinaes, _viae vicinales_, que conduziam ás aldeias,
e estabeleciam relações entre estas e as cidades. Não eram alinhados
como as primeiras, nem feitos com egual esmero.

Nas estradas mais bem executadas, a primeira camada, ou a mais funda,
compunha-se de pedras collocadas em raso, ás vezes assentes com
argamassa, mas em geral postas simplesmente umas sobre as outras: era o
que chamavam _statumen_. Em algumas vias, as pedras do _statumen_ eram
postas de cutello e com inclinação, como explicaremos quando fallarmos
das paredes construidas em espinha de peixe.

A largura ordinaria das vias romanas era de 15 a 20 pés. As bordas das
partes alteadas não se conservam em muitas localidades; arruinaram-se
por modo que não apresentam hoje sufficiente largura para um carro poder
passar; e em certos pontos aproximam-se mais de um fôsso, que de uma
estrada.

Os caminhos romanos atravessavam os rios sobre pontes, e vaus calçados.
Em grande numero de localidades, encontram-se os alicerces das pontes,
ou dos vaus, debaixo da agua, seguindo a directriz das antigas vias. Em
certos casos o trilho era estabelecido sobre travessas de madeira.

_Columnas itinerarias_.–Os caminhos romanos eram divididos por marcos
situados em espaços regulares, e com inscripções que indicavam o numero
de leguas ou de milhas, comprehendido entre as diversas povoações.

As capitaes serviam de ponto central para marcar as distancias em todo o
territorio.

_Os marcos milliares_ tinham 5 a 6 pés de altura; eram de fórma
cylindrica; chamavam-se milliares, _milliaria_, ou simplesmente
_lapidas_.

D'aqui provem as phrases tão frequentes nos auctores antigos, _ad
primum_, _secundum_, _tertium lapidem_, a primeira, a segunda e a
terceira pedra, ou só _ad primum_, _secundum_, _tertium_, etc. ficando
subentendido _lapidem_ ou _milliarium_.

A segunda camada, chamada _ruderatio_, era formada de pedras britadas de
dimensão menor que as anteriores.

A terceira camada, _nucleus_, compunha-se, ora de cal misturada com
fragmentos de telha pisados, ora de areia misturada com argila.

[Figura 26: Columna milliar que existe em França]

Seixos inteiros, apertados uns contra os outros, ou postos simplesmente
em leito de areia grossa, _glarea_, formavam a quarta e ultima camada,
chamada _summa crusta_.

Era excepcionalmente nas cidades, aldeias ou nos paizes pantanosos, que
formavam a _summa crusta_ com calçada de pedras cubicas ou polygonaes
irregulares.

Em geral, serviam-se para estes trabalhos dos materiaes que encontravam
na localidade, ou a pequena distancia; sómente os mandavam buscar mais
longe quando eram de má qualidade no terreno das obras.

Em muitas partes, as vias antigas foram alteadas do solo, e um _agger_
servia de base á calçada. Estes _caminhos alteados_ conservam ainda o
seu nivel superior em espaços muito extensos, e são faceis de
reconhecer.

As estradas antigas eram tambem cavadas, como se as preparassem para o
leito de um rio. As excavações em algumas partes podiam ser consequencia
do uso prolongado de viandantes e vechiculos; porém, em outras, foi
visivelmente praticado com o fim de tornar mais suaves as subidas muito
ingremes.

[Figura 27: Torre de Pirelonge]

O uso das columnas milliares data do anno 183 antes da era christã. Foi
determinado em lei proposta por C.S. Graccho, e depois ampliada ás
provincias do imperio.

As inscripções collocadas n'estas columnas foram primitivamente
laconicas; indicavam apenas o numero de milhas comprehendidas de uma a
outra localidade. Augusto foi o primeiro que mandou gravar os seus nomes
e qualificações nos marcos levantados por sua ordem, e os successores
seguiram-lhe o exemplo.

_Pyramides_.–As vias romanas não eram sómente guarnecidas pelas
columnas itinerarias; aos seus lados viam-se tambem torres massiças, ou
pyramides, ora circulares, ora quadradas.[10]

Consideravam-se essas pyramides como tumulos; mas a maior parte parecia
terem sido levantadas para ornar os caminhos, ou antes dedicadas a
Mercurio, como deus protector das estradas, das artes, e do commercio.
Em algumas d'ellas abriam especies de nichos que deviam receber a
estatua de Deus.

Formavam-se taes construcções de bases quadradas de alvenaria, que
sustentavam uma serie de grandes pedras de cantaria; o remate
apresentava a configuração conica, tendo a superficie coberta de
entalhos sobrepostos, representando folhas de arvores em camadas. A
torre de Pirelonge, em França, de 74 pés de altura, é um especimen
d'este genero.

_Mansão_.–Encontravam-se nas estradas mansões, ou pousadas, mais
especialmente destinadas para o serviço dos correios, e para os que
viajavam com auctorisação do imperador. Eram administradas por uns
funccionarios chamados _mancipes_, cathegoria pouco mais ou menos egual
á dos nossos directores do correio. Os logares das mudas de menor
importancia e situadas com pequenos intervallos, chamavam-se _mutações_.
Denominavam-se emfim _diversoria_ as casas construidas ao longo das
estradas, quer pertencessem a proprietarios que hospedavam ahi os seus
amigos, quer recebessem viajantes como os nossos hospedeiros.

As principaes estradas romanas tinham a classificação de _publicas_ ou
_militares_, _consulares_ ou _pretorianas_, e os caminhos menos
frequentados designavam-se com os nomes de _particulares_, _agrarios_ ou
_vicinaes_.

*Architectura*

Os romanos imitavam na sua architectura os Etruscos e os Gregos, porém
foram menos cuidadosos na pureza das formas, do que no aspecto
grandioso; e preferiram á formosura monumental o effeito da apparencia e
da utilidade; portanto, procuravam sempre adpotar um systema que lhes
desse logar a utilisar nas obras publicas o trabalho dos soldados, e
dos escravos, dirigidos sómente por limitado numero de architectos ou
engenheiros. Comprehendiam que era poderoso meio de dominação dotar o
paiz vencido com os monumentos que não possuissem, introduzir em toda a
parte a civilisação, transmittindo aos subordinados as vantagens, as
instituições e os estabelecimentos uteis, dos quaes estavam até então
privados.

[Figura 28: Pequeno aparelho, e de espinha como está construido o
monumento romano de Theséo]

Em logar, pois, de empregar, como os Gregos, materiaes de extraordinaria
dimensão, e por consequencia difficies de se ajustarem, preferiam, salvo
em casos excepcionaes, pôr em obra materiaes de pequena dimensão,
alvenaria, tijolos reunidos entre si por abundante argamassa.

Um grande facto architectonico, como foi a adopção da abobada cylindrica
composta de peças em forma de cunhas, fez com que pudessem afastar-se do
systema da edificação grega, no qual dominavam as architraves e os
apoios verticaes. Com a abobada e as arcadas de volta perfeita, de que
os romanos tiravam tão vantajoso resultado, effectuaram-se notaveis
construcções, que não se deveram nunca ao genio dos gregos.

_Pequeno apparelho_.–As paredes de pequeno apparelho, o modo de
construir mais habitualmente empregado, tem as faces formadas de pedras
symetricas, quasi quadradas, e cuja face não tem mais de 3 a 4
pollegadas e raras vezes de 5 a 6. O centro da parede mostra um massiço
de alvenaria irregular feito com pedra miuda imbebido de cimento.

Notam-se em varias construcções, de pequeno apparelho, zonas horisontaes
e continuas de grandes tijolos, destinados a sustentar o nivel das
pedras pequenas do refôrço da alvenaria. Estas zonas compôem-se
geralmente de dois ou tres, e tambem de cinco, seis ou sete fileiras de
tijolos separados por camadas de cimento, cuja espessura é quasi egual á
dos tijolos.

Os romanos dispozeram tambem as pedras com o feitio de folhas de fetos,
ou em espinhas, como se vê na gravura da pagina anterior.

A argamassa era sempre applicada com grande espessura entre as pedras e
nenhuma das quaes estava em contacto immediato, mas de certo modo
imbebidas no cimento.

As dimensões dos tijolos variavam muito para poder indicar-se
absolutamente a mais usual; comtudo era entre 14 a 15 pollegadas de
comprimento por 8 a 10 de largura; mas havia maiores, e até alguns mui
pequenos.

_Apparelho reticular_.–Os architectos romanos empregavam egualmente a
_obra articulada_, ou alvenaria em forma de malhas, differente do
pequeno apparelho ordinario, por que as pedras do revestimento eram
cortadas com esmero, de tamanhos eguaes, e collocadas de modo que as
juntas apresentavam linhas diagonaes, simelhando uma rede. Este genero
de reforço de alvenaria empregavam-no geralmente como ornamento, pois
não se encontra applicado exclusivamente, mas quasi sempre combinado e
intercalado com o pequeno apparelho.

[Figura 29]

As paredes do grande apparelho encontram-se nos mais importantes e
grandiosos edificios, como os templos, os arcos de triumpho, os
theatros, etc.

_Argamassa e cimento_.–As argamassas dos romanos compunham-se de cal
viva e de areia, e frequentemente de tijolo pizado, em proporções
variaveis, e que seria difficil determinar. A presença do tijolo pisado
distingue-se de quasi todas as que depois foram empregadas. Todavia
encontram-se tambem argamassas romanas que não contem nenhuma parcella
de tijolo, assim como não apresenta nenhum caracter particular.

_Ordens_.–chama-se _Ordem_ a combinação de diversas partes salientes
dispostas, com proporções fixas, para compôr um conjuncto regular e
harmonico de ornamentação das fachadas dos edificios importantes.

Divide-se uma ordem de architectura em tres partes, ou membros, que são
pedestal–columna–e um entablamento. Cada membro divide-se em tres
partes d'este modo:

{ Base.
Primeiro membro ou pedestal { Soco.
{ Cornija.

{ Base.
Segundo membro ou columna { Fuste.
{ Capitel.

{ Architrave.
Terceiro membro ou entablamento { Friso.
{ Cornija.

Os romanos empregavam cinco ordens:

A Toscana.
A Dorica.
A Jonica.
A Corinthia.
A Composita.

A Dorica, a Jonica e a Corinthia, eram de origem grega.

A Toscana e a Composita nasceram na Italia.

É por isso que se designam algumas vezes as tres primeiras sob a
denominação _ordens gregas_, e as duas outras sob a de _ordem latina_.

Nas ordens Toscana, Dorica, Jonica e Corinthia, a columna tem proporções
differentes; as da Corinthia e Composita são eguaes.

Eis o quadro d'estas proporções conforme o architecto Vignola, que é o
auctor mais seguido pela simplicidade das subdivisões:

A altura da { Toscana, de 7 vezes. } Do diametro
columna vem a { Dorica, de 8 idem. } inferior, isto é
ser para a { Jonica, de 9 idem. } a grossura tomada
ordem: { Corinthia, de 10 idem. } no fuste junto da
{ Composita, de 10 idem. } base.

Portanto, as quatro primeiras ordens differem nas proporções; a da
quinta ordem são eguaes ás da quarta. Os pedestaes e os entablamentos
differem tambem nas quatro primeiras ordens.

Em geral, o pedestal tem o _terço_ da altura da columna, e o
entablamento a _quarta_ parte, conforme o auctor citado.

O modulo é medida convencional que serve de escala para desenhar as
ordens; é sempre a metade do diametro inferior do fuste da columna, o
qual se divide em 12 partes para as tres primeiras ordens, e em 18
partes para as duas ultimas.

{ A menos elevada e a mais simples das cinco
Toscana { ordens.
{ Cornija sem modilhões, nem denticulos.

{ Modilhões, denticulos ou mutulos na cornija,
{ triglyphos no friso, gottas na architrave.
Dorica { Capitel da mesma forma que o da Toscana, porém
{ um pouco mais ornado, caneluras ou estrias
{ no fuste.

{ Capitel com volutas, cornija ornada de
Jonica { denticulos.
{ Architrave dividida em três platebandas ou faixas.

[Figura 30: Fachada d'um templo Dorico]

[Figura 31: Dorico]

[Figura 32: Jonico]

[Figura 33: Corinthio]

{ Capitel ornado de dois renques de folhas de
{ acantho e dezeseis volutas.–Dois renques de
Corinthia { denticulos e um de modilhões na cornija.–Architrave
{ dividida em tres platebandas ou faixas
{ por baguetas ornadas de molduras.

{ Capitel imitando o das Ordens Corinthia e
Composita { Jonica.–Cornija com denticulos.–Duas platebandas
{ ou faixas na architrave.

[Figura 34: Portico da Ordem Toscana]

As columnas não são sempre applicadas para decoração dos edificios;
substituem-se ás vezes por pilastras, que, sem ter o aspecto gracioso
das columnas, produzem não obstante um effeito agradavel á vista. As
_pilastras_ tem em geral pouca saliencia, não excedendo a mais da metade
da largura; e não se lhes diminue o diametro da parte superior do fuste,
como acontece ás columnas.

Eis a disposição de um _portico_ da ordem Toscana: quando se collocam
muitas ordens de columnas ou pilastras em um edificio, é preciso que as
Ordens mais delicadas fiquem sobrepostas ás mais solidas: portanto, não
se collocam nunca as columnas Toscanas sobre as columnas Jonicas, e se o
architecto empregar a Jonica, ou a Corinthia, seguirá a regra de
sobrepôr a segunda á primeira.

Não julguemos que a architectura antiga está representada pelas _cinco
ordens_ classificadas e regularisadas pelos insignes architectos
italianos do _Renascimento das artes_. Ficaremos muito surprehendidos
quando, examinando os restos da architectura romana existentes nas
antigas cidades, particularmente na Italia, e n'este paiz em especial
Roma, virmos que não differem, quasi em parte alguma, na _rigorosa
similhança_, as cinco celebres Ordens desenhadas e medidas por Vignola,
Palladio, Serlio, Scamozzi e outros architectos illustres. Pelo
contrario, os typos principaes da architectura antiga apresentam
infinita variedade, que augmenta nos edificios cuja data se aproxima dos
ultimos tempos do imperio, a tal ponto que vem a ser realmente mui
difficil determinar a Ordem a que pertencem taes ou taes entablamentos,
capiteis, bases, columnas, etc.

Os capiteis, principalmente, apresentam diversidade de formas e
ornamentações, que será baldada a classificação rigorosa; mostram
todavia na composição riqueza e delicadeza de cinzel, sobejamente
notaveis; observando-se pelo conhecimento dos effeitos pittorescos,
produzidos no claro-escuro, o esmero do trabalho. As partes em relevo
são conservadas com acerto e habilmente executadas.

Os architectos modernos, creando typos unicos sob a denominação de cada
uma das Ordens; desejando subordinar tudo a esses typos, privaram-se de
produzir combinações graciosas, em quanto os artistas do estylo romano,
engenhosos e fecundos, tiravam partido da liberdade de composição,
enriquecendo a architectura em que reproduziam as formas, não punham
peias á imaginação, e evitavam executar obras monotonas, pobres e sem
attractivos, como succede em muitas presentemente levantadas.

Os edificios publicos e muitas casas particulares eram durante a
dominação romana, revestidas de marmore, ou de cimento e cal; e algumas
tinham mosaicos, e aqueciam-n'as por meio dos hypocaustos.

Os _mosaicos_[11] antigos, dos quaes se tem encontrado repetidamente
fragmentos em localidades hoje inhabitaveis, compõem-se de pequeninas
peças cubicas imbebidas em especie de massa e assentes em cimento
misturado com tijolo moido.

[Figura 35]

Estas pequenas peças de diversas cores eram combinadas de maneira que
formavam differentes desenhos. Alguns mosaicos representavam combates de
animaes e outras scenas.

A mais importante descoberta feita em Portugal foi a que fizemos perto
de Leiria, em 1874, de um mosaico de cinco côres e com difficeis
combinações de linhas geometricas, pertencente a uma _villa rustica
romana_.

_Hypocaustos_.–Os hypocaustos, estabelecidos no pavimento terreo das
habitações romanas, eram empregados como os caloriferos modernos.

Para formarmos idéa exacta do hypocausto, é preciso figurarmos um
sobrado levantado quasi a 2 pés acima do solo, e sustentado sobre
pequenos pilares A de egual altura, distantes uns dos outros 1 pé, por
meio dos quaes o calor circulava e aquecia por egual o piso que cobria
esta especie de subterraneo. Os pilares dos hypocaustos eram geralmente
quadrados, compostos de tijolos de 7, e 8 ou 10 pollegadas de
comprimento, uns sobre os outros, com o intervallo de uma camada de
argamassa.

[Figura 36]

Os pilares do hypocausto recebiam grandes tijolos de 18 a 20 pollegadas
em quadrado B, formando a base do pavimento das habitações.

Em muitas localidades, os tijolos eram sobrepostos de modo que
apresentavam o cimo menos largo que a base.

O calorico não ficava concentrado no subterraneo onde estava o
hypocausto: circulava nos pontos mais elevados, e entrava egualmente em
todas as partes da atmosphera das salas, passando dor tubos quadrados de
barro cozido 4 e 5, introduzidos na grossura da parede, 3 e 3, gravura
de pag. 46 [fig. 37], um dos quaes, em posição vertical, penetrava no
hypocausto, emquanto outros, collocados horisontalmente, circumdavam os
aposentos.

O lume que aquecia o hypocausto era acêso n'um forno posto em pequenos
pateos ou vestibulos proximos do hypocausto.

_Embutidos e ornamentos_.–O marmore foi frequentemente empregado para a
decoração das paredes.

Em geral, os architectos romanos souberam tirar grande partido dos
materiaes que fornecia o paiz em que se faziam as obras.

Não era raro vêr entrar em combinação os materiaes indigenas com os
exoticos mais preciosos, taes como o porphyro, os marmores cipolino, os
ophitos, etc., etc.

O uso de pintar as paredes era tão geral que as simples construcções em
taipa e os tectos revestidos de barro tambem recebiam essa ornamentação.
A pintura era applicada sobre delgado guarnecimento de cal.

Os methodos usados pelos romanos para a pintura das paredes são-nos
imperfeitamente conhecidos. Comtudo, um d'elles consistia em applicar
com a broxa cera colorida e derretida, estendendo-se ainda quente nas
paredes.

[Figura 37: Tubos verticaes (4 e 5) para circular o calor, mettidos nas
paredes]

A cêra não era empregada só, mas misturavam-n'a com azeite para a tornar
mais liquida: todavia, a maior parte d'essas pinturas parece ter sido
assente a frio, e a sua adherencia seria produzida, talvez, por uma
especie de colla que lhe ajuntavam.

As paredes e os tectos eram tambem em algumas habitações revestidos de
mosaicos de vidro preto, azul, branco, verde escuro, etc., decorações
que se encontravam em muitas salas de banhos.

Plinio diz-nos que empregavam o vidro nos mosaicos das abobadas e das
paredes, advertindo que este uso era recente, comparativamente com o dos
mosaicos de pedra ou barro cozido. Achâmos na _villa rustica romana_,
descoberta por nós em Leiria, duas casas com mosaicos d'este ultimo
modo, e outra de argila cozida.

_Telhas e telhados_.–Os telhados das casas romanas eram formados de
telhas chatas de grande dimensão, mais compridas que largas com um
resalto sobre os dois lados: assim como havia telhas curvas similhantes
ás dos telhados modernos.[12] As primeiras adaptavam-se umas ás outras
pelas extremidades que não tinham resalto; as segundas ligavam-se entre
si no sentido da inclinação do telhado, ficando em fiadas parallelas as
telhas chatas e para cobrir as juntas e evitar a infiltração das aguas
da chuva.

Os fragmentos das telhas com resalto tem resistido quatorze seculos á
acção destruidora dos elementos, e das pancadas do arado; encontram-se
espalhados e enterrados em grande quantidade em quasi todos os logares
onde existiram construcções romanas.

Em fim, estes restos são o melhor indicio para o reconhecimento das
regiões antigamente occupadas pelos romanos.

*Pontes*

As pontes, obra de tamanha utilidade, tornam-se mui notaveis pelas suas
ousadas dimensões. Existem presentemente poucos vestigios d'ellas: o
maior numero ficou destruido, pela força das correntes, ou reconstruido
em diversas épocas e alterado na primitiva construcção. Podemos apenas
citar poucas das compostas na época romana.

Nas pontes, como em outros monumentos gallo-romanos e luso-romanos,
empregou-se o grande apparelho, e muitas vezes de alvenaria com
argamassa (_empleton_) revestido de pequenas pedras symetricas (_opus
incertum_).

[Figura 38: A ponte de S. Chamas, e as suas duas portas monumentaes]

Quando usavam os materiaes de grande dimensão, as pedras ficavam prezas
umas ás outras com os cancros de ferro ou de bronze, e algumas vezes com
malhetes de madeira de oliveira, previamente secca no forno.

Nas pontes construidas com pequeno apparelho a boa qualidade da
argamassa dava-lhes tal solidez, que os pegões que sustentavam os arcos
não soffreram depois nenhuma alteração.

Os pegões apresentavam algumas vezes, do lado da corrente, uma parte
saliente triangular, para cortar assim a força da agua; e se o rio tinha
demasiada extensão, acontecia então dividil-o em muitos braços, afim de
construir a ponte em secções. D'este modo corrigia-se a rapidez dos rios
pela divisão das aguas, e tornava-se menos difficil a construcção das
pontes. Na idade media foram imitadas.

As pontes construidas com mais esmero e regularidade eram ás vezes
verdadeiros monumentos, que serviam tambem para aformoseamento. Algumas
tinham portas monumentaes ou arcos de triumpho.

_Pontes de madeira_.–Tratámos das pontes de pedra, porque só estas
poderiam subsistir até os nossos dias; mas, durante o dominio dos
romanos, tinham elles egualmente grande numero de pontes construidas de
madeira.

Passava-se tambem os rios servindo-se de barcos de passagem, com
jangadas sustentadas em odres ou tonneis vazios, como é usado ainda hoje
em casos urgentes. Havia tambem pontes firmadas em barcos, como se vê
figurado na columna de Trajano em Roma.

_Muralhas e caes_.–Os caes ou as grandes muralhas de supporte,
construidas nas margens dos rios, vinham ligar-se ás pontes, quando
estas existiam nas cidades.

*Aqueductos*

Os aqueductos, pela sua consideravel extensão e a importancia das ruinas
que se conhecem em differentes pontos, offerecem interesse especial.

Os romanos, como todas as nações civilisadas, gastavam grande
quantidade de agua para os usos domesticos; sendo muito escrupulosos na
boa qualidade da agua, embora a fossem buscar a grandes distancias para
os centros da povoação, empregando para esse fim canaes ou aqueductos.

[Figura 39: Restauração de um aqueduto em siphão]

Os aqueductos antigos que ainda existem, como os que possue a Italia, e
os vêmos em outras partes, apresentam os canos de alvenaria feitos com
mais ou menos solidez, e mais ou menos cuidadosamente betumados.
Serviam-se geralmente das pedras de pequenas dimensões, embebidas na
argamassa. Os canos, sendo proporcionados ao volume de agua que deviam
levar, eram formados com abobada em volta perfeita, se ás vezes cobertos
com grandes lageas assentes e sobrepostas sem cimento.

Para se obter o nivel das encostas que se encontravam na juncção dos
encanamentos, faziam-n'os passar então sobre arcos mais ou menos
elevados, que reuniam os dois lados do valle; outras vezes
sobrepunham-se dois ou tres renques de arcos, com receio de que a
demasiada altura dos pilares lhes diminuisse a solidez.

Quando o valle era muito profundo, para por este meio poder firmar-se o
encanamento do aqueducto em nivel conveniente, conduziam a agua em tubos
de chumbo que subiam até o cume da collina opposta, onde a agua pudesse
seguir a sua corrente natural, conforme Vitruvio descreve mui claramente
no seu 8.^o livro de architectura.

[Figura 40: Canal subterraneo do aqueducto]

[Figura 41: Canal de aqueducto sustentado sobre arcadas]

[Figura 42: Vista geral da ponte do Gard]

Para evitar trabalhos sempre difficies e dispendiosos, faziam seguir aos
encanamentos subterrâneos, rodeios, ou sinuosidades, e por esta maneira
as aguas podiam transpôr grandes espaços sem encontrarem encostas, e sem
ficarem impedidas pelos obstáculos das montanhas.

Os aqueductos eram todavia mais communs soterrados, e só apparentes nos
valles, onde necessariamente os canos passavam sobre paredões ou
arcarias.

Os encanamentos que distribuiam as aguas nas fontes para os banhos e
para outros estabelecimentos publicos e particulares das cidades
gallo-romanas, eram feitos de chumbo ou barro. Saiam de um reservatório
commum, ou castello de agua, _castellum_, como se vê um em Évora, do
tempo de Sertorio.

A primeira gravura da pag. 51 [fig. 40], mostra o encanamento do
aqueducto de Fréjo, um dos mais extensos que subsistem, tal qual se
apresenta á vista quando se mantém subterraneo, ou collocado nas
encostas das collinas, fig. 41. Este exemplo explica todo o systema
empregado pelos engenheiros romanos.

Os aqueductos seguem a construcção egual das obras de arte executadas
nos caminhos de ferro, transpôem como ellas os valles sobre viaductos, e
atravessam as montanhas por meio de vallas ou tUneis.

Pontes e aqueductos serviam para transpôr os valles, e alguns tinham 90
arcos. A ponte do Gard, em França, era formada de três renques de
arcadas sobrepostas, servia para o transito e o ultimo conduzia a agua á
cidade, correndo na extensão de 41:000 metros. Indica a gravura da
pagina anterior a sua construcção.

O numero dos aqueductos era extraordinario; não só se encontravam nas
proximidades das grandes povoações, mas tambem das pequenas, e até junto
das casas de campo de limitada apparencia.

*Cloacas*

As _cloacas_ constituiam outra especie de aqueductos subterraneos para
receber as aguas inuteis, ou para as aguas da chuva e immundicies.

Em Roma, estendiam-n'as por toda a cidade, e subdividiam-n'as em muitos
ramaes que vinham desaguar no Tibre. O principal cano de despejo, com o
qual os outros communicavam era chamado _cloaca maxima_. Tinha abobadas
elevadas construidas com grande solidez, por debaixo das quaes se
passava em barcos[13].

*Praças publicas*

_O forum_ era geralmente uma praça onde se reuniam as assembléas do
povo, onde se administrava a justiça e onde se tratavam os negocios
publicos. Estava em certas partes rodeado de _porticos_, edificios e
lojas.

Nas cidades de importancia secundaria, onde os porticos não eram
repetidos como em Roma, achavam-se principalmente perto dos monumentos
publicos, taes como os theatros, as thermas, os palacios, os templos,
etc. etc.; collocavam muitas vezes os porticos do _forum_, por detraz da
scena dos theatros, afim de que, conforme diz Vitruvio, quando
inopinadamente chovesse durante o espectaculo, o povo pudesse abrigar-se
ali.

A forma das praças, ou _fora_, era a do quadrilongo. Vitruvio affirma
que devia ter um terço em comprimento, a mais de um lado que de outro.

*Basilicas*

A palavra _basilica_, significa _casa real_: designava em Roma um
edificio sumptuoso dentro do qual os magistrados faziam justiça, por
isso a distinguiam do _forum_, onde as sessões eram celebradas ao ar
livre. As basilicas tinham tambem a fórma de um quadrilongo.

Parte dos porticos, interiormente decorados, ficava occupada pelos
commerciantes: portanto, estes edificios eram ao mesmo tempo destinados
aos negocios forenses, e uma especie de praça de commercio.

Em quanto á disposição das basilicas as primitivas egrejas christãs
transmittiram-nos a imitação, e conservaram o nome. As basilicas
consistiam pois em vasto recinto, tres vezes mais comprido que largo,
dividido em renques de columnas formando muitas naves. Não ha a certeza
de que as basilicas fossem rodeadas de paredes por todos os lados;
julga-se que algumas eram abertas, pelo menos de um lado, para dar mais
facil accesso ao povo, e para que as galerias communicassem melhor com a
praça publica.

Não se pode duvidar de que não tivessem existido basilicas nas cidades
gallo-romanas; porém seria difficil indicar o sitio que occupariam,
porque desappareceram completamente os vestigios.

*Arcos de triumpho e portas monumentaes*

Os _arcos de triumpho_, porticos levantados á entrada das cidades, no
logar da passagem publica, perto dos _forums_, diante dos templos, e na
cabeça das pontes, etc. etc.; afim de indicar a memoria de uma victoria,
de um grande serviço prestado ao imperio, e algumas vezes sem outro
intuito mais que o de aformosear as cidades onde se erigiam.

[Figura 43: Arco de triumpho]

Dá-se tambem esta denominação ás portas das cidades antigas, que
apresentavam uma disposição quasi similhante á dos arcos de triumpho.
Estes, porém, eram monumentos isolados, formando um só corpo, e não se
ligavam ás construções das trincheiras ou muralhas.

Era o contrario do que succedia nas _portas da cidade_, as quaes não
obstante patentearem por vezes nas fachadas grande magnificencia,
todavia as extremidades lateraes ficavam encravadas nas muralhas dos
recintos fortificados, formando-lhes assim o accessorio ou a
ornamentação.

[Figura 44: Portas de Santo André em Autun]

Entre as portas, a disposição mais seguida era a que a gravura
apresenta, copiada da de Santo André de _Autun_, em França.

*Templos*

Duas formas eram consagradas para estes edificios religiosos, a
quadrilonga e a circular. Seguiam mais geralmente a primeira. Os
_templos_ receberam differentes denominações, conforme a disposição das
columnas que os decoravam; distinguindo-se pela seguinte maneira:

Os templos com pilastras–Os _prostylos_, fig. 45.–Os _amphiprostylos_,
fig. 46.–Os_ peripteros_, fig. 47.–O _monoptero_, fig. 48.–Os
_pseudo-peripterios_, fig. 49.–Os _hypetheros_, fig. 50.–Os
_monopteros_.

[Figura 47: Periptero quadrado]

[Figura 48: Periptero redondo]

[Figura 45: Prostylos]

[Figura 49: Pseudo-Periptero]

[Figura 50: Hypethreos]

[Figura 46: Amphiprostylos]

Os primeiros não tinham senão pilastras nos cunhaes da frente, e só uma
columna de cada lado da porta.

Os templos _prostylos_ apresentavam quatro columnas na face exterior, e
não tinham nenhuma aos lados, nem na parte posterior.

Nos templos _peripteros_, as columnas rodeavam completamente o edificio;
sendo em o numero de seis nas fachadas anterior e posterior.

Nos templos _pseudo-peripteros_ differençavam-se dos antecedentes em que
as columnas estavam embebidas nas paredes lateraes e na parede do fundo,
em logar de ficarem separadas.

Duplo renque de columnas rodeava os templos dipteros, oito das quaes
ornavam a fachada.

Finalmente, o templo _monoptero_ apresentava simplesmente a cupula
sustentada sobre columnas dispostas em circumferencia; e o santuario não
era fechado.

Resulta pois, do que fica exposto, que em todos os templos, excepto nos
monopteros, havia uma parte fechada que era o santuario; em muitos
templos, corriam em roda d'esse santuario galerias abertas, como especie
de porticos para a ornamentação externa do edificio. A parte encerrada
era designada sob o nome de _cella_ ou _nau_. Ahi collocavam a estatua
da divindade, em honra da qual o templo fôra erigido.

Na frente da _cella_, e por detraz das columnas da fachada, estava o
_pronaus_ ou vestibulo, no qual abriam a porta da entrada; á extremidade
opposta do templo dava-se-lhe o nome de _posticum_. Algumas vezes
reservavam, na parte posterior da _cella_, um quarto A destinado a
guardar o thesouro do templo, e que se designava sob o nome de
_opisthodomos_.

As columnas eram sempre em numero par nas fachadas dos templos; e
conforme que se contava quatro, seis, oito ou dez, os templos tomavam a
denominação de _tetrastylos_ (4 columnas), _hexastylos_ (6 columnas),
_octostylos_ (8 columnas), ou _decastylos_ (10 columnas).

Finalmente, certos templos eram rodeados de uma cerca _peribobos_ ou
antecedidos de pateo fechado, e ornados com portico, á roda do qual
estavam os aposentos dos sacerdotes.

A estatua da divindade, feita de bronze, marmore, ou pedra, collocava-se
no fundo da _cella_, em pedestal um pouco mais elevado que o altar, e
fazia face á porta da entrada. Em geral, os templos ficavam voltados
para o oriente.

[Figura 51: Fachada da Casa Quadrada de Nimes]

Não se deve julgar que os templos fossem muito vastos; alguns d'elles
tinham até pequenissimas dimensões, e isso explica-se facilmente pelo
conhecimento dos usos religiosos antigos, porque o exercicio do culto
era individual; cada um tinha dias proprios para o sacrificio, em
quanto, no christianismo, o exercicio do culto é collectivo.

O templo _pseudo-periptero_ hexastylo ha em Nimes (França), da ordem
corinthia, o qual serve actualmente para museu de archeologia. A gravura
mostra as suas bellas proporções e belleza.

As dimensões e a disposição do _templo de Diana_, em Evora,
apresenta-nos outro exemplo d'esta ordem de edificios do antigo
paganismo, que felizmente se conserva em Portugal nas suas magestosas
ruinas, como se vê na presente gravura.

[Figura 52: Templo de Diana, em Evora]

Os templos rectangulares ficavam dispostos como indica a gravura da pag.
60 [fig. 53], rodeados de porticos; no meio d'elles havia o logar da
cella e dentro o pedestal para a divindade.

Os templos circulares dividiam-se em duas classes: a primeira chamada
_monoptero_, compunha-se sómente de recinto formado por columnas
collocadas em pedestal commum, _stylobato_; o segundo _periptero_,
apresentava uma _cella_ á roda da qual havia columnas, pousada
egualmente sobre um _stylobato_, com degraus para ganhar a altura do
pedestal, e dar entrada para o templo.

Fragmentos achados dos templos antigos, fizeram vêr que as suas
esculpturas tinham sido pintadas de branco e amarello com traços
encarnados, para dar mais relevo aos contornos.

Não só havia templos nas cidades, mas tambem nos campos. Alguns d'estes
eram de grande veneração, pois que serviam de deposito aos mais ricos
thesouros, principalmente os dedicados a Mercurio.

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