Noções elementares de archeologia

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Noções elementares de archeologia

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[Figura 53: Plano do templo rectangular de Izernore (França)]

_Altares_.–Já dissemos em que parte do templo se collocavam as estatuas
das divindades; agora nos occuparemos da forma dos _altares_.

Havia entre elles differença de forma e de materia, proporções e usos.

A maior parte dos que se conservaram até hoje mostra a construcção de
marmore ou cantaria simples; havia-os tambem de madeira; mas em menor
numero. Os altares de metal apresentavam o feitio de tripode; os altares
de marmore ou madeira eram quadrados, redondos, e ás vezes triangulares.

Os ornatos mais usados nos altares antigos eram os que representavam as
cabeças das victimas, taças, e outros vasos e instrumentos para os
sacrifícios, entrelaçados de grinaldas de flores e folhas[14]. Liam-se
em alguns altares inscripções indicando a data da consagração, o nome do
fundador, e as razões da devoção. Os mais bellos e custosos tinham
ornamentações em baixo-relevo representando a divindade que se queria
venerar e os seus attributos.

[Figura 54]

Costumavam fazer em cima dos altares e no meio d'elles, uma cavidade
para receber as _libações_ ou o sangue das victimas.

Alguns altares eram fundados nas encruzilhadas, junto das estradas mais
frequentadas, onde depois se ergueram cruzeiros, nos tempos modernos,
para memoria.

*Edificios destinados aos jogos publicos*

Tinham os povos antigos tres especies de edificios destinados aos jogos
publicos: o _circo_, o _theatro_, e o _amphitheatro_. Muitas vezes teem
confundido os três sob a mesma denominação, de _circos_; porém a forma,
as dimensões, e o destino estabelecem entre elles diferenças notaveis.

Os _circos_ eram mais bem considerados que os amphitheatros e os
theatros; a forma d'aquelles edificios era de um parallelogrammo
prolongado, circular em um dos topos, e quadrado ou levemente convexo do
lado opposto. Os dois lados maiores apresentavam exteriormente duas
ordens de architectura sobrepostas, limitadas por uma attica e cobertas
com terraço. _Lojas_ e _passagens cobertas_ conduziam ao interior do
circo, e occupavam o primeiro renque das arcadas. _Seis torres
quadradas_, quatro d'estas nos pontos de juncção dos grandes e pequenos
lados do circo, e duas nas extremidades, sobresaiam aos terraços; as
quaes torres eram ornadas de quadrigos, ou grupos de andarilhos.

[Figura 55: Circo Maximo de Roma]

A entrada para os carros destinados ás corridas era pela extremidade
convexa do circo; doze arcadas, não comprehendida a que se achava
debaixo da torre, fechadas por grades de ferro, serviam de cocheiras,
_carceres_, onde os cavallos eram guardados antes do começo das
corridas.

É fácil comprehender a disposição dos assentos postos no interior de um
circo: sobre os dois grandes lados e no hemiscyclo opposto aos
_carceres_, levantavam-se os palanques, tendo acima a galeria ornada de
columnas correspondentes ás paredes que separavam as arcadas exteriores
da _segunda ordem_, e por meio das quaes podiam circular os
espectadores.

Havia tambem, por cima dos carceres, outros palanques, e era ahi,
superior á entrada principal na torre collocada ao centro das cocheiras,
que estava a tribuna reservada para o imperador ou para o magistrado que
presidia aos jogos.

[Figura 56: Tribuna de um circo]

Entre os assentos dos espectadores e o espaço destinado para os jogos
(_area_), havia, em alguns circos, um canal, de largura de 10 pés, cheio
de agua (_euripus_), resguardado por engradamento do lado da _area_.
Porém os circos não eram rodeados de tal fosso: ainda não se encontrou
nenhum vestigio no de Caracalla em Roma, embora fosse um dos principaes,
assim como em outros explorados depois.

O _euripus_ não se abria nunca do lado dos _carceres_, para não
interromper a entrada para o circo.

No centro da _area_ dos circos levantavam uma parede de 4 pés de altura
e 12 de largura, prolongando-se em quasi todo o comprimento do recinto.
A esta construcção, que dividia o circo longitudinalmente, davam o nome
de _spina_. O imperador Augusto foi o primeiro que fez levantar sobre a
_spina_ um obelisco dedicado ao Sol.

Havia também sobre a _spina_ dos circos pequenos templos, altares,
estatuas e sete bolas, _ova_, sustentadas em eixos, que serviam para
indicar o numero de voltas executadas pelos carros, _ova ad metas
curriculis numerandis_, e sete delphins postos em pedestaes, ou em
architrave sustentada por columnas. Os delphins tinham sido escolhidos
em veneração de Neptuno, porque se suppunha serem estes os animaes mais
ageis do mar. Nas duas extremidades, e na parte exterior da _spina_,
havia sempre tres pyramides firmadas na mesma base, e servindo de ponto
de limite. Era junto d'estes marcos (_metoe_) que os carros deviam
voltar para as extremidades do circo, evitando tocar no marco. O ponto
de partida era collocado de modo que os concorrentes tinham sempre á
esquerda a _spina_ e os marcos.

Os conductores de carros (_aurigæ_) traziam um vestuario como especie
de librés de côres differentes e formavam partidos ou facções.
Primeiramente houve quatro librés: a branca, _alba_; a encarnada,
_russea_; a azul, _veneta_, e a verde, _prasina_. O imperador Domiciano
juntou a estas mais duas: a purpura, _purpurala_; e dourada, _aurata_.

Quando os espectadores se enthusiasmavam faziam apostas para que
alcançasse triumpho outra facção, ou côr. Tempos depois, as côres usadas
nos circos deram logar a formarem-se verdadeiras facções politicas, a
que pertenciam milhares de cidadãos.[15]

_Naumachia_.–Suppõem-se que os _circos_ serviam ás vezes de
_naumachia_. A _naumachia_ era para a simulação de combates navaes, que
se davam em grandes caldeiras cheias de agua, rodeadas de construcções
análogas ás dos circos; todavia, concebe-se difficilmente como um circo
podia estar apropriado para este genero de divertimentos sem grandes
inconvenientes e sem obras preparatorias. A transformação da _area_ dos
circos em lagos devia acontecer raras vezes, porque em algumas cidades
mandavam abrir lagos apropriados para os combates navaes.

*Theatros*

Quasi todas as cidades importantes da Gallia possuiam theatros
edificados no reinado de Adriano e Antonio, o _Piedoso;_ esses
monumentos eram encostados ás collinas sobre o declive das quaes se
dispunham os assentos de cantaria em semi-circulo. Na parte inferior
d'estas bancadas estava a orchestra, que correspondia ao que chamâmos
platéa nos actuaes theatros, e que ficava sobre um terreno plano, assim
como a scena.

[Figura 57: Plano de um theatro antigo]

Esta ultima disposição do theatro dividia-se em tres partes, a saber: o
_proscenium_, ou _pulpitum_, o palco em que representavam os dramas; a
_scena_, grande fachada muitas vezes ornada com as diversas ordens de
architectura, e o _post cenium_, onde os actores se preparavam para
entrar em scena.

_A scena_ apresentava tres portas no fundo: a do centro, mais alta e
ornada que as outras, chamava-se _porta real_; entrava por ali o
personagem principal da peça, que representasse o dono do palacio; as
figuras secundarias entravam pelas outras portas que se designavam
_hospitalia_, porque de certo representavam os hospedes ou familiares do
dono do palacio.

A parede do fundo da scena formava dois lados ou alas (_versuræ_,)
onde havia outras duas portas, uma á direita e outra á esquerda, as
quaes faziam suppôr darem saida para o campo e para a praça publica. A
configuração de um theatro apresentava pois de um lado a forma
semi-circular, do outro a de quadrado. Para chegar ao logar dos
espectadores havia muitas escadas partindo do circuito e dirigindo-se da
circumferencia para o centro, afim de estabelecer muitas divisões que,
pela rasão de sua forma de cunha, eram designadas com o nome de _cunei_.

Havia, além d'isso, na elevação do amphitheatro (_cavea_) que cercava a
orchestra, duas ou tres divisões principaes, indicadas por separações
chamadas _præcinctions_ e ficavam parallelas ás filas dos
assentos.[16] Estas divisões tinham o nome de _cavea prima_, _cavea
media_, _cavea maxima_ ou ultima, conforme estivessem mais ou menos
proximas da orchestra.[17]

Havia tambem, em muitos theatros, aberturas quadradas, correspondentes a
corredores abobadados dispostos sob os degraus do theatro, e por onde
cada qual podia passar para occupar o seu logar, sem ser obrigado a
subir da orchestra ou a descer da summa, _summa cavea_. Estas aberturas
chamavam-se vomitorios (_vomitoria_,) porque parecia que lançavam fóra
os espectadores, quando estes entravam em multidão para os seus logares.

Tinham os antigos tres especies de scenas, a scena tragica, a scena
comica e a scena satyrica.

As vistas do theatro eram diversas, conforme o genero das peças que se
representavam.

As mudanças da decoração praticavam-se por varios systemas. Chamava-se
aos bastidores _ductiles_, quando giravam em corrediças; _versatiles_,
quando se viravam sobre pião.

Muitas machinas fraccionavam na scena e coadjuvavam os papeis dos
actores.

Como os theatros não eram cobertos, estendia-se acima das paredes um
grande toldo para dar sombra aos espectadores. Este _velarium_[18]
estava fixo ou suspenso em mastros cravados no alto das paredes.
Vitruvio recommenda que não exponham os theatros do lado do sul, para
evitar que os raios do sol aqueçam demasiadamente o ar.

[Figura 58: Plano do theatro de Champlieu]

O theatro de Orange, em França, é uma ruina digna de ser contemplada, e
poucas ainda ha que se lhe possam comparar. As suas columnas tinham 18
pés de altura e 2 pés e 4 pollegadas de diametro; a altura das paredes
era de 108 pés com tres ordens de columnas. A fachada exterior era
decorada por duas fileiras de arcadas sobre as quaes havia um attico. O
theatro fôra construido com cantaria de extraordinarias dimensões;
notando-se n'estas pedras vestigios de incendio violento.

[Figura 59: Exterior da scena do theatro de Orange]

*Amphitheatros*

De todos os monumentos romanos existentes são os _amphitheatros_ os que
offerecem ainda as ruinas mais collossaes e magestosas. Eram, como
indica a etymologia da palavra _amphitheatro_, dous theatros collocados
em frente um do outro, e separados por um espaço livre de forma oval
destinado para os combates dos gladiadores e animaes ferozes.

A este espaço davam o nome de arena _arena_, por causa da areia que
espalhavam pelo chão, afim de fazer desapparecer o sangue dos homens e
dos animaes derramado durante a luta.

[Figura 60: Plano de um amphitheatro]

Os palanques eram dispostos á roda da _arena_, de maneira que de todos
os lados os espectadores podessem gosar o espectaculo. Nos
amphitheatros, como nos theatros, esses logares eram divididos
horisontalmente por cintas curvas ou _baltei_; e verticalmente pelas
escadas em subdivisões cuneiformes, como explicamos acima. Os degraus
apoiavam-se nas abobadas, que iam estreitando para o lado da _arena_,
alargando-se e elevando-se á medida que se aproximavam do portico ou
galeria, contornando o edificio. Estas abobadas, inclinadas para o
centro e alargando para o exterior, eram sobrepostas umas ás outras, e
formavam muitas ordens, onde havia muitas cintas curvas.

[Figura 61]

A vista do corte de um grande amphitheatro mostra claramente esta
disposição, com as cintas e o effeito produzido no meio dos palanques
pelos _vomitorios da cavea_. Outro corte apresenta parte do amphitheatro
de Aries, mostrando como as grandes escadas, partindo das galerias,
conduziam ao interior da _cavea_.

[Figura 62: Corte do amphitheatro de Aries]

Na _arena_ havia combates de gladiadores,[19] de homens e animaes, e só
de animaes.

Nos dias de combate eram os gladiadores conduzidos processionalmente em
volta da _arena_; depois punham-n'os aos pares, juntando os de força
egual. O signal do combate era dado por uma banda de trombetas.

[Figura 63: Fachada exterior do amphitheatro de Arles (França)]

Havia diversas classes de gladiadores, conforme as armas que empregavam
no ataque e na defeza.

O amphitheatro de Arles, ruina das mais pittorescas que existem n'este
genero em França, tinha de comprimento do grande eixo 420 pés de Norte
ao Sul; e do pequeno eixo 309 de Leste a Oeste. A arena tinha no grande
diametro 209 pés, e no pequeno diametro 119: gravura da pag. 71 [fig.
63].

[Figura 64: Uma das principaes entradas do amphitheatro de Bordeos]

Uma cousa particular, que não existe nos outros amphitheatros, é que as
galerias subterraneas giravam por baixo e á roda do _podium_.

O _podium_ estava a 14 pés acima do solo da arena. A parede do sucalco
que o levantava a esta altura, era furada na parte inferior, com oito
passagens, conduzindo das galerias subterraneas para a arena, passagens
que saiam da galeria exterior.

[Figura 65: Plano do amphitheatro de Chenevières (Loiret)]

O amphitheatro era construido com boa cantaria de grande apparelho,
posta sem cimento algum, e era tal a grandeza das pedras que, apesar de
tantos seculos decorridos, ainda se conservam solidas nos seus leitos.

O plano da gravura da pag. 73 [fig. 64] mostra a disposição de outro
amphitheatro, que pelo seu genero custava muito menos a construir, que
outros compostos de dois lados, porque sendo marcada a inclinação para a
encosta, bastava edificar o _podium_ do lado aberto. Podia-se também
facilmente transformar os amphitheatros em theatros com outras
disposições para o scenario e então constituíam monumentos mixtos, que
foram numerosos durante a dominação romana.

*Banhos publicos*

Os romanos tinham muitas especies d'estes estabelecimentos, que se
conheciam com os nomes de _thermæ_, _lavacra_ e _balnea_.

As _thermas_[20] eram vastos edificios que continham não só os banhos,
mas tambem porticos e passeios arborisados, salas onde os philosophos e
os rhetoricos davam lições publicas e liam as suas obras; onde se
exercitavam na luta: chamavam-lhes _gymnasios_.

Citavam, entre as mais sumptuosas de Roma, as de Agrippa, Nero, Tito,
Caracalla,[21] Antonino e Diocleciano, das quaes existiam ainda
consideraveis vestigios.

Não se deve suppôr comtudo que haveria similhantes estabelecimentos em
todas as cidades onde os romanos dominaram. O mais geral era construir
_lavacra_ ou _balnea_, de limitada dimensão, á qual estavam ás vezes
reunidas algumas dependencias dos _gymnasios_.

Taes edificios eram mais ou menos espaçosos conforme deviam ser francos
ao publico de uma cidade bastante povoada, ou simplesmente destinados
ao uso de pequena localidade, ou de uma unica familia.

O _apodyterium_ era a sala de vestir, ou em que ficavam depositados os
fatos antes do banho.

O _aquarium_ continha os reservatorios, nos quaes a agua era recebida e
podia clarificar-se antes de distribuida no edificio.

O _vasarium_, tirava este nome de tres grandes vasos, ou depositos
cheios de agua quente, de agua tepida e de agua fria.

O _laconicum_, estufa aquecida por um _hypocausto_, tinha ás vezes uma
das extremidades em semicirculo, onde havia um _disco de bronze_, pelo
movimento do qual, abaixando-se ou levantando-se, podia augmentar-se a
intensidade do calor, ou diminuir a temperatura.

O _tepidarium_ era, segundo Vitruvio, a estufa menos quente que a
antecedente, e em contacto com ella.

Havia outra casa destinada para o banho de agua quente, que se tomava
n'uma especie de tina, _labra_.

O pequeno pateo ou vestibulo que precedia o forno do hypocausto
chamava-se o _propnigeum_ ou o _proefurnium_.

A parte destinada ao banho frio era o _frigidarium_, ou sala não
aquecida, onde os banhistas descançavam alguns instantes antes de sairem
para a rua, afim de evitarem o perigo da mudança rapida da temperatura.

A _piscina natatilis_ ou _frigida lavatio_, reservatorio de agua fria em
que as pessoas robustas podiam banhar-se depois do banho quente, e de
que se fazia uso principalmente no verão.

O _eleothesium_, onde os banhistas podiam esfregar o corpo com oleo ou
perfumes[22].

Uma curiosa pintura a fresco, copiada das thermas de Tito, em Roma, e
que representava o interior de uma casa de banhos, faz comprehender
muito bem a disposição geral de taes estabelecimentos, como se vê na
gravura da pag. 76 [fig. 66].

Distinguem-se, no primeiro plano, duas salas sob as quaes arde o fogo do
hypocausto.

[Figura 66: Vista de uma pintura a fresco tirada dos banhos de Tito.]

Uma d'estas salas devia ser a _concamerata sudatio_, ou a estufa
abobadada para fazer transpiração.

Ha n'esta sala um pequeno forno, cuja abobada fecha em escudo de bronze
que se movia por meio de corrente, afim de deixar sair mais ou menos o
vapor da agua quente.

Junto do _laconicum_ está a sala do banho, separada por um corredor.
Vêem-se muitas pessoas n'uma grande tina _labrum_, em volta da qual
estão assentos encostados á parede.

Mais afastado apparece representado o _vasarium_, com os tres grandes
vasos collocados em diversos niveis: o primeiro menos elevado contem
agua a ferver; o segundo agua tepida, e o terceiro agua fria.

No segundo plano, e por detraz da estufa para suar, vê-se a sala chamada
_tepidarium_.

Passado o _tepidarium_, distingue-se a sala fria, _frigidarium_, que em
alguns banhos servia tambem ao _apoditerium_. Em ultimo plano está o
_eleothesium_, ou sala dos perfumes.

Para se formar idéa exacta d'estes monumentos, convem examinar e
comparar entre elles que se têem descoberto em differentes partes; para
o que apresentamos as gravuras dos banhos de Verdes e de Landunum.

*Explicações crestas casas de banhos*

Entrava-se por dois pateos sobre o comprido ou corredores G, K, nos
banhos de Verdes, para os salões P, S, os quaes tem ainda no chão
mosaicos. D'estes dois salões passava-se para o vestibulo B, e d'ahi
para a sala D, cujo piso estava sobre hypocausto.

A sala imediata C, devia ser de temperatura mais elevada á antecedente;
pois o forno collocado em F, no pequeno pateo proximo, recebia d'elle o
calor que circulava primeiro debaixo do piso da referida sala C.

Havia outras casas que não eram aquecidas pelo hypocausto, especie de
saletas pelas quaes se entrava e saía P, A, B, S.

[Figura 67: Banhos de Verdes (França), vistos de alto.]

[Figura 68: Plano dos banhos de Landunum (França).]

Duas bandeiras muito notáveis que serviriam para banhos frios ML,
tinham communicação por uma passagem com a sala D; cada uma d'ellas
tinha em S e em R um reservatorio para agua.

Os pateos H e I serviam de deposito para o combustivel.

Em cada uma das salas O e P havia um nicho para uma estatua.

Nos banhos de Laudunum (pag. 79 [fig. 68]), no vestibulo D, o chão tinha
mosaicos. D'aqui passava-se á bella sala (n.^o 8), tambem com mosaico.
Seguiam-se outras casas com o solo suspenso e aquecido pelo hypocausto;
em uma (n.^o 7) de um lado tem um nicho circular, e do outro, quadrado
_d c_, que serviam para as banheiras.

A sala n.^o 6 seria a reservada para conservar maior gráo de calor,
porque o forno do hypocausto tinha a boca d'elle no centro d'esta casa.

O forno tinha serventia pelo pequeno pateo n.^o 4. Antes de atravessar a
sala n.^o 6 aquecia tres reservatorios revestidos de cimento _f. f._

As salas E, e os n.^{os} 9, 10, 11 eram casas para depositos do
estabelecimento.

*Palacios*

Quasi todas as cidades de pequena importancia tinham palacio destinado
para os aposentos dos imperadores, quando as visitavam; porem antes
serviam para os seus representantes, os intendentes ou funccionarios
encarregados da administração do paiz.

Os palacios que deviam offerecer as disposições analogas ás das casas
nobres dos particulares, differençavam-se principalmente pela extensão,
pelos peristylos, pateos e diversas dependencias. Os de maiores
dimensões, como o de Trajano, eram ligados ao _forum_, junto do qual
havia basilica, onde se julgavam os criminosos, e tambem _thermas_.

Tal era a grandesa do palacio de Diocleciano, em Spalatro (na Dalmacia),
cujas columnas e paredes estão ainda de pé, comprehendendo grandes
divisões: templo, basilica, pretorio, independentemente dos aposentos
imperiaes.

*Casas particulares*

Daremos algumas explicações a respeito das construcções particulares.

Chamavam _prothyrum_, nas casas das cidades, á passagem por onde se
entrava no interior d'ellas.

Era n'esta passagem o quarto do porteiro _cella ostiarii_, e ás vezes a
parte que servia de vestibulo, com habitação de mediana extensão.

O _atrium_ era a galeria quadrada (3)[23] tendo ao centro um pateo
descoberto (_impluvium_), no meio do qual havia um tanque á superficie
do chão (_compluvium_) para receber as aguas da chuva (D).

O _atrium_ era ornado com os retratos da familia; o dono da casa recebia
n'elle os seus clientes. Havia muitas especies de _atrium_.

O _atrium_ toscano, que se encontrou em Pompeia em grande numero de
casas e usado unicamente nos primitivos tempos, tinha o telhado
sustentado por madeiros cruzados em angulos rectos: o telhado tinha
escoantes para todos os lados e para o centro do pateo.

Existia a mesma disposição no _atrium tetrastylo_; apenas quatro pilares
ou columnas, collocadas nos angulos do _impluvium_, sustentavam as vigas
do tecto nos pontos de juncção.

No _atrium_ corinthio, as columnas para ponto de apoio eram mais
numerosas, e o _impluvium_ era também mais espaçôso. Construiram o
_atrium_ só para as grandes habitações.

O _atrium displuviatum_ tinha os telhados inclinados em sentido inverso
dos precedentes, de modo que lançavam as aguas da chuva para fora da
casa, em logar de as conduzir para o _impluvium_.

Finalmente, no _atrium testudinatum_, o pateo central era coberto de
telhado um tanto mais elevado, que os das galerias.

[Figura 69: Plano de uma casa nobre na cidade romana.]

Nos predios importantes, como é representado no plano junto, havia em
roda da galeria do _atrium_ aposentos destinados a diversos usos, com
saidas para a galeria, e alguns dos quaes serviam de _tribuna_ ou sala
de festim (C, C, C).

Na extremidade do _atrium_, e em frente do _prothyrum_, estavam o
_tablinum_ (4) e duas casas mais pequenas, chamadas _azas_, communicando
com elle (5-6).

O _tablinum_ e as azas encerravam a imagem dos parentes fallecidos, os
livros, archivos e papeis pertencentes aos negocios do proprietario,
assim como os documentos relativos ao emprego que exercia.

O _peristylo_ apresentava, além do _tablinum_, uma galeria ornada de
columnas, como a do _atrium_ corinthio (17-17), cuja extensão porém era
mais consideravel.

Os aposentos eram distribuidos á roda d'estas galerias (18-19); um
espaço quadrado, inteiramente descoberto e plantado de flôres e arbustos
no centro, devia parecer a imitação da parte central de alguns
claustros.

Os _oeci_ correspondiam aos nossos salões.

A _exedra_ era outra grande sala para conversação, tendo n'um dos lados
a parede curvilinea, como se fosse construida para nicho.

Encontravam-se tambem, ás vezes, nas habitações das pessoas abastadas,
jogos de péla, _sphæristerium_, e salas destinadas para outros jogos.

O _banho_ era composto em geral de _apodyterium_, _frigidarium_,
_tepidarium_, _sudatorium_ e _eleothesium_:

A _basilica_;

A _pinacothéca_ ou galeria para quadros;

As _cosinhas_ e as officinas dependentes para o fabrico do pão;

As cavalhariças, cocheiras e armazens;

Finalmente, havia um numero mais ou menos consideravel de quartos para
dormir e para acommodar os creados.[24]

Eis agora o plano de outra casa de muito menor importancia que a
anterior, na qual não encontrâmos nem as commodidades nem a regularidade
das grandes habitações particulares; mas veremos que as residencias se
modificam conforme a necessidade da familia e as suas posses
pecuniarias. Examinemos a disposição de uma das casas descobertas nas
minas de Pompeia.

A entrada ou _prothyrum_ n.^o l, conduz ao _atrium_ n.^o 2, chamado
_displuviatum_, isto é que servia para o despejo das aguas da chuva para
fora da habitação. Tinha na grossura da parede o _impluvium_ n.^{os} 3 e
4, e os alegretes para as flôres.

[Figura 70]

Uma escada de madeira n.^o 5, conduzia ao aposento que occupava o dono
da casa e a sua familia. Posto que a escada estivesse inteiramente
destruida, era facil observar o feitio do corrimão, porque o artista a
riscara na parede que lhe servia de caixa.

Os quartos 6 e 7 eram destinados para receber os estrangeiros e os
amigos. O escravo que guardava a porta da rua devia dormir no quarto
n.^o 8, onde se conservava tambem de dia. Era pequena a cosinha n.^o 9
collocada ao lado do corredor.

*Casa de campo (villæ)*

Suppõe-se que as mais bellas casas de campo romanas tinham só um andar;
tambem não se differençavam essencialmente das da cidade, e continham
pouco mais ou menos as mesmas divisões, mais arbitrarias, conforme
exigia o terreno, a belleza do sitio, a importancia da exploração rural
e outras circumstancias da edificação.

_Columella_,[25] distingue tres partes em uma casa de campo occupando-se
de trabalhos ruraes, e o maior numero das _villæ_ gallo-romanas e
luso-romanas estavam n'este caso. As tres partes eram:

A _villa urbana_, ou habitação do proprietario;

A _agraria_, ou habitação dos lavradores, e dos animaes necessarios para
a lavoura;

A _villa fructuaria_, onde se recolhiam as colheitas e os outros fructos
das terras.

As casas anuesas ao segundo pateo, chamadas _agrariæ_, ou
_fructuariæ_, apresentavam menos interesse com relação á arte, que a
_villa urbana_. Eram pertenças do casal ou dos trabalhos ruraes, _villa
agraria_.

No centro do pateo da villa via-se, como se pratica ainda hoje, um
tanque ou lagôa _compluvium_, para se banhar o gado. Á roda do pateo
estavam dispostos, a cosinha, o abrigo para os escravos, a abegoaria
(_bubilia_), o curral das ovelhas (_ovilia_), as cavallariças
(_equilia_). Achava-se tambem ali o gallinheiro (_gallinaria_) e o
chiqueiro para os porcos (_haræ_).

Pode-se citar como pertenças da _villa fructuaria_, que estava ora
separada ora junta da _agraria_, a adega (_cellæ_) o palheiro
(_horrea_), a casa da fructa (_apothecæ_), etc.

Tem-se encontrado numerosos vestigios das _villæ_ ou casas de campo
fabricadas durante a dominação romana. Em 1874 descobrimos em Portugal
uma proximo de Leiria, no logar de Martim Gil, na profundidade de 1^m,
59; havia ali differentes casas com mosaicos, e na principal achámol-o
de cinco côres. Fizemol-o transportar para o museu da archeologia, que
fundáramos em Lisboa em 1866. Não tem acontecido outrotanto com essas
casas antigas edificadas nas cidades, pois foi arrasado o solo que ellas
occupavam, e isso deu logar a aproveitarem-se os alicerces que ficaram
enterrados.

Para darmos idéa mais completa, descreveremos a _villa_ de Bignor em
Sussex (Inglaterra), por ser a mais bem conservada que existe.[26]

Compõe-se de dois pateos: um (A) mais vasto que o outro, rodeado de
muros bastante grossos, não formava angulo recto com os do segundo
pateo. O muro de leste tinha 277 pés de comprimento, o do norte 385 pés,
e o do sul 322.

Este pateo, que representava a _villa rustica_, comprehendia muitas e
amplas construcções, mas nenhuma tinha vestigios de pintura nem de
pavimentos de mosaicos.

O outro pateo (B), que formava propriamente a _villa urbana_, estava
cercado de casas ricamente ornadas e quasi todas tinham mosaicos.

Um corredor ou _crypto-portico_ (1, 2, 3, 4), que era construido á roda
do quadrado do pateo servia para communicar com os aposentos; o
comprimento do corredor era de 160 pés, de leste a oeste.

[Figura 71: Villa de Bignor em Sussex.]

Uma grande parte d'estes corredores tinha mosaicos.

Ao longo do _crypto-portico_ septentrional estavam dispostos os
aposentos (n.^{os} 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13).

No n.^o 14 via-se um mosaico de 8 pés de quadrado dividido em formas de
rhomboides e triangulos.

O n.^o 15, era uma das melhores casas da _villa_, tinha 19 pés por 30,
com uma grande camara de 12 pés, o que lhe dava 32 pés por todo o
comprimento do norte ao sul; o pavimento era formado de mosaico muito
notavel, porque um dos desenhos representava o rapto de Ganymedes.

No meio do aposento, e ao centro da maior composição circular de
mosaico, via-se uma cisterna de pedra branca e de 4 pés de diametro, no
fundo da qual existia um orificio com tubo de chumbo.

Esla sala e o aposento immediato eram aquecidos por um hypocausto, cujo
forno se abria pela parte exterior da casa na base da parede.

O n.^o 19 era um _atriolum_, ou pequeno pateo ornado de columnas. Os
aposentos do pateo do norte e do sul (21, 22, 23, 24, 25), eram em geral
ornados de pinturas, e com o chão de mosaicos.

No n.^o 22 encontrou-se um fogão de 31 pollegadas de boca, e 17
pollegadas de fundo; tijolos ligados com ferro ao fogão formavam-lhe as
paredes lateraes. Outro fogão similhante foi achado no quarto n.^o 23.

Os aposentos menos importantes occupavam o lado sul até o n.^o 35.
Aquelles que se lhe seguiam haviam feito parte de um banho.

Depois da sala das estufas, vinha a que era destinada para o banho frio
(n.^o 40), que tinha 35 pés por 30. O chão estava menos mal conservado e
compunha-se de pedras brancas e pretas de 6 pollegadas em todos os
sentidos, dispostas em xadrez.

O sitio do banho achava-se pouco mais ou menos no meio do aposento. Era
um reservatorio com aproximadamente 18 pés de leste ao oeste, de 3 pés e
2 pollegadas de profundidade. Descia-se por tres degraus do lado de
leste, do oeste e do norte.

A bella sala (n.^o 41), situada a leste da precedente, apresentava um
quadrado de 35 pés, porém era um tanto irregular por causa da direcção
diagonal da parede de leste. Admirava-se um mosaico mais bem conservado
que os restantes.

A maior parte destas _villæ_ teria sido construida nos tres primeiros
seculos da era christã, julgando-se assim pelas medalhas encontradas nas
suas ruinas, e que algumas datam do seculo IV.

*Monumentos funereos*

Depois de descrevermos os edificios, onde os antigos passavam a vida de
confortos da civilisação romana, a ordem natural nos conduz aos
monumentos que encerravam os despojos mortaes.

Ainda que algumas familias mandassem enterrar os corpos, todavia o uso
de queimal-os foi quasi geral em Roma antes da conquista da Gallia, e
n'este ultimo paiz, nos dois primeiros seculos da era christã.[27]

A fogueira funebre (_rogus_ ou _pyra_) era formada de lenha de facil
combustão e faziam-n'a mais ou menos alta conforme a cathegoria das
pessoas finadas. O corpo era posto sobre uma especie de leito de ferro
ou maca, e os parentes do defuncto, depois de lhe terem dirigido o
ultimo adeus, voltavam o rosto e acendiam a fogueira com uma acha.

Quando a fogueira estava extincta, lançavam vinho nas cinzas do
defuncto, e então estas eram cuidadosamente encerradas em uma urna que
mettiam em seguida na terra com certo numero de vasos de differentes
formas e tamanhos, que se collocavam em roda, os quaes estavam cheios de
liquidos ou algum manjar offerecido aos _deuses manes_.

As urnas de barro descobertas em grande numero de cemiterios são em
geral do feitio simples, e muitas apresentam côr cinzenta; comtudo,
notam-se por suas formas perfeitas e graciosas. As mais ornadas tem
filetes, entre os quaes se traçaram riscos parallelos. Algumas tem
estrias ao alto, outras molduras entrelaçadas, em zig-zags, etc. etc.
As formas mais geraes são as das gravuras seguintes _a_, _b_, que se
encontram nos antigos cemiterios.

[Figura 72: Urnas de vidro, do museu de Tours.]

As urnas de vidro, muito mais raras que as de barro, eram reservadas
para os finados de familias abastadas. Tem um tanto o feitio das urnas
de barro, porém o mais é apresentarem a configuração de um grande frasco
com gargallo redondo com uma ou duas azas, sendo o corpo ora cylindrico,
ora quadrado.

As urnas mais notaveis são de cobre batido e lavrado, e tambem estas
difficilmente se encontram.

Em Alcacer do Sal fez-se em 1874 o descobrimento de um necropole romano,
no qual se acharam quatro urnas cinerarias com pinturas, imitando o
genero etrusco, obra executada por artista grego. Eram de differentes
tamanhos, tendo a maior 0,59 de altura, 0,34 de largura; esta rara
descoberta feita em Portugal causou bastante admiração entre os
archeologos estrangeiros.

[Figura 73]

O orificio das urnas era tapado, ou com um prato voltado, ou com um
pedaço de tijolo, ou ardozia, e até com um bocado de lagea.

Encontram-se geralmente junto d'estas urnas, taças de differentes
generos e pequenos vidros com gargallo estreito e sobre o comprido,
especie de galheta com feitios variados; mas o maior numero é de barro
encarnado, e suppõe-se terem servido para conservar o vinho, o leite,
ou algum licor offertado aos _manes_ do finado.

[Figura 74]

A maior parte das urnas, foram mettidas dentro da terra sem caixas de
resguardo; porém muitas tiveram esses cofres para a conservação. Se a
madeira que serviu para isso apodreceu a primitiva existencia parece
provada pelos pregos que ligavam as taboas, que se encontram ás vezes em
roda das urnas. É possivel que as urnas de vidro ou crystal, que
pertenciam a defunctos de cathegoria, fossem mettidas nos cofres de
madeira ou de pedra. Alguns d'estes ultimos, encontrados em varios
cemiterios, eram compostos de duas peças e bastante espaçosas para
conterem a urna _cineraria_, e os vasos accessorios de que já fallámos.
Finalmente, construiam ás vezes, no proprio local, e no momento do
enterro, o cofre ou resguardo que devia conservar a urna _cineraria_.

Em quanto ás cinzas do finado de humilde condição e pobre eram mettidas
em vasos de formas simples, e accumuladas nos cemiterios sem cousa
alguma que as indicasse; as que pertenciam á classe media da sociedade
tinham por cima da urna um _cippo_, e os mais opulentos apresentavam um
monumento ainda mais importante.[28]

Em geral, os monumentos mais sumptuosos estavam postos em fileira nas
_vias_ que davam entrada nas cidades.

As pedras sepulchraes, ou _estélas_,[29] tomavam differentes feitios e
algumas apresentavam inscripções e a effigie do finado. [fig. 75]

[Figura 75: Estéla.]

Não se deve cessar de recommendar as explorações dos cemiterios romanos.
Quando se procede a obras publicas, ou particulares, descobre-se a sua
existencia no meio dos campos, principalmente nos terrenos incultos,
onde as urnas tem sido conservadas por faltas de convenientes
excavações.

Algumas sepulturas, destinados á classe inferior, são tambem monumentos
importantes como se vê na presente gravura.

[Figura 76: Monumento de S. Ramiro.]

O monumento pyramidal de S. Ramiro, é um edificio composto de tres
ordens de andares sobrepostos, com aproximadamente 50 pés de altura. O
primeiro andar é quadrado, e serve de pedestal, com baixos relevos nas
quatro faces; pilastras sem pedestaes ornam-lhe os angulos.

O segundo andar é egualmente quadrado com quatro arcos de archivolta que
assentam em pilastras; nos angulos tem quatro columnas corinthias com
estrias; o friso é ornado de arabescos em que se distinguem cavallos
marinhos alados, sereias, etc.

O terceiro de fórma circular, mostra uma cobertura conica sustentada por
columnas corinthias, semelhando d'este modo o lanternim do pequeno
templo circular _monoptero_: debaixo d'esta especie de cupula estão
collocadas duas estatuas em pé, uma de homem, outra de mulher.

Não pode haver duvida de que esta pyramide seja monumento sepulchral;
pois sobre o friso do segundo andar, ficando orientado ao Nordeste,
vê-se a seguinte inscripcão:

SEX L M IVLIEI C F PARENTIBVS SVEIS

que se tem lido d'este modo:

_Sextus Lucius Marcus Julii curaverunt fieri parentibus suis_. As duas
estatuas representariam pois o pae e a mãe de _Julius_, os quaes
erigiram a pyramide.

[Figura 77: Sarcophago do museu de Ruão.]

_Enterramentos_.–Os corpos que não eram queimados, enterravam-n'os em
sarcophago de pedra ou em caixões de chumbo, resguardados em outro cofre
de madeira, ou de pedra, como se vê na gravura da pag. 93 [fig. 77].

[Figura 78: Sarcophago com inscripção e a ascia, (_está collocada por
cima do M_).]

Em numerosos sarcophagos dos pagãos está representada a _ascia_,[30] e o
nivel, em esculptura. Alguns tem uma inscripção na tampa, porém esta
vê-se mais geralmente no meio do cofre, como indicamos na gravura da
pag. 94 [fig. 79].

As inscripções eram mui interessantes por quanto expressavam o maior
sentimento das familias. Os antigos nada tinham que invejar aos povos
modernos a este respeito: e é facil comproval-o. Eis um epitaphio que
patenteia o profundo affecto de uma infeliz mãe chorando a perda da
filha querida:

_Ó dôr! quão amargas tem sido as lagrimas derramadas n'esta
sepultura em que jaz Lucinia… Lucinia, suave alegria de tua mãe.
Sim! aqui está sob este gelido marmore. Prouvesse aos Deuses que o
espirito de novo se animasse porque ella conheceria quão dolorosa é
a minha afflicão. Viveu 27 annos, 10 mezes e 25 dias. Parthenoca,
mãe infeliz, lhe mandou erigir este monumento_.

Os Aliscamps deixaram-nos outros que se distinguem por sua philosophia,
e a cujo sentido se dá muitas vezes a interpretação da philosophia
christã. Taes são as duas inscripções seguintes:

*D. M. FVI, NON SVM; ESTIS, NON ERITIS; NEMO IMMORTALIS*

_Fui, não sou; sois, não sereis; ninguem é immortal_.

Por outra vemos que entre os romanos, _como entre nós_, os herdeiros
eram mais solicitos em apoderarem-se dos bens dos paes, que dispostos a
levantarem-lhes jazigos; de modo que os homens avisados mandavam
construir os tumulos em vida, para terem a certeza de que não se lhes
perdia a memoria.

*D. M. LVCIVS GRATIVS EVTICHES DOMVM AETERNAM VIVVS SIBI CVRAVIT NE
HAEREDEM ROGARET TAVTA*

_Lucio Grado Eutichis erigiu, ainda vivo, esta morada eterna, para
não pedir ao seu herdeiro que lhe prestasse este serviço_.

Ao findar a dominação romana, quando o christianismo estava solidamente
estabelecido na Gallia, _a incineração dos mortos já não se
praticava_.[31]

Os sarcophagos christãos em marmores são faceis de distinguir dos
sarcophagos pagãos por causa das esculpturas symbolicas, ou das scenas
biblicas que os ornam.

*Objectos de barro*

Os objectos de barro são, na maior parte, fragmentos que se encontram
nas localidades habitadas no tempo da dominação romana.

As peças mais notaveis pela fórma delicada e pela conservação, são de
barro vermelho envernisadas com bastante brilho, e ornadas com figuras
em relevo. Encontram-se em grande quantidade nos logares que tiveram
importancia sob o dominio romano. É raro, sem duvida, acharem-se vasos
inteiros; mas pode julgar-se pelos fragmentos encontrados quaes seriam a
forma e as dimensões dos objectos a que pertenciam.

Os vasos de barro encarnado apresentavam quasi o mesmo feitio, vasos
bojudos, tijelas ou gamellas de differentes tamanhos [fig. 79], taças
com pé, compoteiras, pequenas taças, travessas redondas de diferentes
tamanhos com borda saliente [fig. 80], pratos, pires, etc, etc.

Pode suppôr-se que a boa louça encarnada servia principalmente para o
serviço da mesa, e para o de toucador.

[Figura 79]

[Figura 80]

A forma dos vasos era geralmente perfeita: os que tinham figuras eram
fabricados com moldes, e isto explica a apparencia gasta de alguns; o
interior era liso, notando-se apenas alguns circulos concentricos
formados pelo torno. Por baixo do fundo do vaso achava-se, quasi sempre,
o nome do operario ou do fabricante, gravado com uma especie de
estampilha ou sinete.

Estes nomes estão umas vezes no genitivo, outras antecididos ou seguidos
das lettras _o_ ou _of_, para designar _officina_, assim: _of Severi_;
_Bassi_; _of o_, _Croci_, _Crassi o_; o que quer dizer que os vasos
sairam da officina ou da fabrica de Severo, de Basso, de Croco, de
Crasso, etc, etc.

[Figura 81]

A palavra _manu_, escripta com todas as lettras ou em abreviatura, como
nas inscripções de: _Priscilli manu_, _Silvani m_, significa da mão de
Priscillio, de Silvanos, etc.

Alguns d'estes vasos eram inteiriços, não podendo sair do molde senão
depois do barro ter seccado para que o relevo se tirasse sem damno do
concavo do molde.

A maior parte porém era tirada de duas ou mais peças, porque seria
impossivel formar um molde de uma só peça para os vasos bojudos.

Se os fabricantes de louça de barro imprimiam os seus nomes no fundo
d'esses vasos, os artistas que fariam as formas e compunham os assumptos
que deviam apparecer nos relevos exteriores, inscreviam tambem os seus
nomes nos moldes, entre as figuras.

_Barro preto_.–As peças de barro preto são mais raras que as
encarnadas, embora se encontrem misturadas com estas.

Tem-se encontrado cobertas com bom verniz côr de ébano, e mostrando
argila, menos compacta que a dos vasos encarnados; ora cinzenta, ora
esbranquiçada, ou avermelhada.

_Objectos de barro bronzeado_.–Apparecem tambem em muitas localidades
pequenos vasos muito leves, de barro encarnado ou amarellento, misturado
de quartzo cobertos de verniz de furta-côres, suavemente applicado.

[Figura 82]

_Barros avermelhados, cinzentos escuros, ou esbranquiçados_, etc.–São
mais ou menos apurados; a massa ou argila de differentes côres foi
empregada para fabricar travessas, pratos, vasos de diversos feitios
destinados para varios usos, botijas, etc.

[Figura 83]

Nos vasos destinados para os liquidos, como são as nossas garrafas,
encontram-se, quer de barro vermelhado, quer cinzento ou esbranquiçado,
formas mui elegantes, das quaes se conservaram algumas até o presente.

Os vasos, como os que se vêem em seguida, ora de barro encarnado, ora
cinzento, apreciam-se um tanto com as saladeiras, ou tijelas grandes, de
que ainda se faz uso.

[Figura 84]

Encontram-se, egualmente, em terrenos cultivados, onde se acham também
telhas e vestigios de habitações romanas.

*Figurinhas de barro*

As estatuetas de barro cozido de côr alvacenta acompanham, muitas vezes,
os fragmentos que assignalam o logar occupado pelas construcções
gallo-romanas, e ainda constituem objectos pertencentes á arte de
oleiro.

Encontra-se sobre tudo, frequentemente entre ellas, a figura de _Venus_
Anadyomena,[32] e taes estatuetas são tão similhantes, que parece terem
saido do mesmo molde; estão completamente nuas, com a cabeça coberta de
abundantes cabellos, a mão direita apanhando-os, e a esquerda tomando a
roupagem.

As outras figurinhas que se encontram mais vezes junto das Venus,
representam uma mulher amamentando uma ou duas creanças, sentada n'uma
cadeira de braços feita de vime encanastrado. Alguns archeologos
suppôem ser esta a imagem de Latona,[33] outros a de Lucina:[34] porém,
julga-se que estas figuras serviam para _ex-voto_, tanto das mulheres
que desejavam obter feliz parto, como d'aquellas que mostravam a sua
gratidão pelo terem alcançado, ou em fim das mães que creavam os filhos,
e que o offereciam á deusa invocada por ellas n'esta circumstancia.

[Figura 85]

A imagem de Mercurio encontra-se em grande numero entre as estatuetas de
barro cozido.

Mas nem todas as figurinhas antigas que se encontram eram destinadas
para reproduzir a imagem das divindades. Eram vazadas nas formas como se
faz presentemente um grande numero de objectos profanos, caricaturas,
brinquedos para creanças, etc.

[Figura 86]

Entre estes ultimos, podem citar-se as figuras de aves, animaes
diversos, carneiro, javali, etc., e também chocalhos como os achados em
tantas localidades diversas, e que se compôem d'um pequeno globo de
barro cozido tendo dentro seixosinhos que produzem o effeito de um
cascavel.

*Objectos em metal, joias e utensilios*

Havia egualmente reproduzido em cobre grande parte dos vasos que se
faziam de barro, principalmente as travessas, bacias, garrafas e baldes
para sacrificios.

Fizeram-se até magnificos de prata, com figuras em relevo batido: a
prova d'isto são os utensilios de todas as formas, em bronze, que
existem em tantas collecções publicas e particulares: broches, fivelas,
e joias tão variadas como as que ahi se vêem, mostram a que ponto os
romanos tinham alcançado a perfeição no trabalho dos metaes, nas pedras
preciosas, no marfim, etc., etc. A descripção de todas estas riquezas
artisticas, não pode figurar n'este resumido compendio.

Os objectos de metal, e os restos mais preciosos pertencentes á
antiguidade, foram descriptos por Caylus, Winckelmann, Chabonillet,
etc., sabios antiquarios que deram a mais completa explicação a este
respeito.

Pela mesma razão, não nos devemos occupar das medalhas romanas, não
obstante o estudo ser util e importante, porém necessitaria augmentar
demasiadamente este livro, e o nosso intuito foi unicamente apresentar
resumida apreciação da architectura pertencente á época gallo-romana, e
descrever os vestigios dessiminados no solo habitado pelo povo-rei.

*Muralhas de defeza ou forticações*

Sem discutir aqui sobre qual seria a época a que pertencem as muralhas
que defendiam as cidades gallo-romanas, devemos comtudo fazer menção
d'ellas, porque constituem ainda provas muito importantes d'essa grande
época.

Quasi sempre estas muralhas foram construidas com pedra miuda, mostrando
na face exterior o pequeno apparelho, separado por cadeias de tijolos, e
cuja base formada por pedras de grande apparelho deviam já ter servido
nos monumentos da architectura, que provavelmente foi preciso sacrificar
para lhe aproveitar o material afim de se fortificarem em momento de
apuro.

O sabio Mr. de Caumont já tinha ha muitos annos insistido sobre um
grande facto, que nenhum historiador indicára, e que ainda ignoram quasi
todos, e é a existencia em differentes localidades d'um _castrum_, cujas
muralhas estão em grande parte formadas de cantaria mostrando obra de
esculptura dos seculos II e III, taes como os fustes de columnas,
frisos, capiteis, tumulos, pedras com inscripções; e por isso o illustre
archeologo julgou poder determinal-o como obra dos fins do seculo IV,
sendo a execução d'essas fortificações em todos os logares apropriados
para tal fim.

Seja como fôr, tendo-se as cidades concentrado cada vez mais, era
preciso restringir o perimetro do recinto á parte mais facil para ser
defendido, e na possivel extensão com os materiaes disponiveis, cercado
de muralhas. Podiamos citar diversos recintos fortificados com 3 a 10
hectares sómente, em quanto essas cidades onde os havia, occupavam antes
100 e até 200, durante o tempo que disfructavam a paz.

No fim de tres seculos de espantosa prosperidade, a Gallia viu, no
seculo IV, a desorganisação e o enfraquecimento gradual das instituições
romanas. Custa a comprehender a que grande aviltamento chegaram no
seculo V.

Um esboço rapido sobre os acontecimentos politicos da Gallia, no quarto
quartel do seculo III explicará claramente a marcha progressiva da
decadencia das artes do seculo IV. Depois das invasões, a miseria
publica augmentou, os abusos mutiplicaram-se, a energia moral diminuiu,
as grandes obras da architectura cessaram, e o gosto foi-se alterando
cada vez mais.

As artes, para prosperarem, tem necessidade de paz e liberdade: estas
condições essenciaes faltaram-lhe no seculo IV; vê-se portanto declinar
tanto mais rapidamente quanto os lapsos da paz eram mais curtos e raros.

Todavia, assim como as instituições romanas não desappareceram com a
quéda do governo romano, assim tambem as artes trazidas para a Gallia
pelo grande povo sobreviveram ao imperio.

«Tal era a robustez da organisação romana, diz Michelet, que, quando a
existencia parecia desemparal-a, quando até os barbaros estavam prestes
a distruil-a, sujeitaram-se a ella sem o quererem. Foram obrigados, de
boa ou má vontade, a habitar sob as abobadas invenciveis que não podiam
abalar; a curvar a cabeça e receber ainda por cima, embora vencedores, a
lei de Roma vencida.»

O que expressa Michelet com relação ás instituições romanas, poderemos
applical-o ás artes, com que o povo-rei dotou a Gallia. Os monumentos em
ruinas serviram em breve de modelos aos barbaros que apparecem armados
com o facho de incendio. Os barbaros começaram a trabalhar tambem, a
edificarem templos, palacios, mosteiros, etc, etc; foram procurar nas
tradicções dos antepassados os conhecimentos para repararem as proprias
devastações. A architectura gallo-romana, mais ou menos alterada nos
seculos V e VI, seguiram seu caminho, até que uma grande revolução, no
fim do XII seculo, substituiu por principios inteiramente novos as
antigas tradições. É o que nós propomos demonstrar nos capitulos que vão
seguir-se.

[Figura 87]

* * * * *

*ADDITAMENTO*

*Inscripções Latinas*

Como o estylo lapidar tem certas formulas, abreviaturas especiaes e
signaes particulares, sem adquirir algumas explicações a este respeito,
a interpretação ficaria baldada para quem não as possuisse; embora seja
tambem preciso não ignorar os acontecimentos historicos, todavia
julgamos conveniente ajuntar a este compendio alguns esclarecimentos
epigraphicos afim de facilitar aos principiantes a leitura das lapidas:
portanto, acrescentamos a esta publicação um quadro succinto das
principaes abreviaturas que se encontram nas inscripções luso-romana,
por serem estas as de mais difficil interpretação.

Ainda que a mesma lettra inicial corresponda a diversas palavras, o
sentido geral da inscripção indicará a que fôr mais apropriada á sua
significação. É pois facil distinguir, com alguma sagacidade, os nomes
proprios dos nomes substantivos.

A palavra _tribu_, á qual as familias romanas pertenciam, fica sempre
subentendida, e só se menciona o nome.

As datas, em geral, sabem-se pela indicação do anno do reinado do
imperador, ao tempo do qual o monumento foi erigido. Finalmente, deu-se
o epitheto de _Divus_, a cada um dos imperadores, depois da sua morte.

A.–ager; augustales: augustatis.–A. A.–apud agrum.

AB. AC. SEN.–ab actis senatus.

[AE]. CVR.–ædilis curulis. A. FRVM.–a frumento.

A. H. D. M.–amico hoc dedit monumentum.

A. K.–ante kalendas.–A. O. F. C.–amico optimo faciendum curavit.

A. P.–ædilitia potestate; amico posuit.

A. S. L.–animo solvit libens; a signis legionis.

A. T. V.–aram testamento vovit.

A. XX. H. EST.–annorum viginti hic est.

B. A.–bixit (pro vixit) annis.

B. DE. SE. M.–bene de se meritæ, _vel_ merito.

B. M. D. S.–bene merenti, _vel_ bene merito de se.

B. P. D.–bono publico datum.

B. Q.–bene quiescat.–B. V.–bene vale.

BX. ANOS. VII. ME. V. DI. XVII.–vixit annos septem, menses, sex,
dies decem septem.

7.–centuria; centurio.–C.–centurio.

C. B. M.–conjugi bene merenti; et F.–conjugi bene merenti fecit.

CENS. PERP. P. P., _vel_ CENS. PERP. p. r., _vel_ CENS. P. P.
P.–censor perpetuus; pater patriæ

COH. I. AFR. C. R.–cohors prima africanorum civium romanorum.–FL.
BF.—flavia beneficiariorium.

C. I. O. N. B. M. F.–civium illius omnium nomine bene merenti
fecit.

C. K. L. C. S. L. F. C.–conjugi carissimo loco concesso sibi
libenter fieri curavit.

C. P. T.–curavit poni titulum.

C. R.–civis romanus; civium romanorum; curaverunt refici.

C. S. H. S. T. T. L.–communi sumptu hæredum, sit tibi terra
levis.

D.–Decimus; decuria; decurio; dedicavit; dedit; devotus; dies;
diis; divus; dominus; domo; domus; quinquaginta.

D. C. D. P.–decuriones coloniæ dederunt publice.

D. D.–dedit, dedicavit.

D. D. D. S.–decreto decurionum datum sibi; dono dedit de suo.

D. K. OCT.–dedicatum kalendis octobris.

D. M. ET. M.–diis manibus et memoriæ.

D. N. M. E.–devotus numini majestati ejus.

D. O. S.–deo optimo sacrum; diis omnibus sacrum.

D. P. P. D. D.–de propria pecunia dedicaverunt; de pecunia publica
dono dedit.

D. S. F. C. H. S. E.–de suo faciundum curavit, hic situs est.

D. T. S. P.–dedit tumulum sumptu proprio.

E. CVR.–erigi curavit.–EDV. P. D.–edulium populo dedit.

E. E.–ex edicto; ejus ætas.

E. H. T. N. N. S.–exterum hæredem titulus nostre non sequitur.

E. I. M. C. V.–ex jure manium consertum voco.

E. S. ET. LIB. M. E.–et sibi et libertis monumentum erexit.

E. T. F. I. S.–ex testamento fieri jussit sibi.

E. V. L. S.–ei votum libens solvit.

FAC. C.–faciendum curavit.

F. C.–facere curavit; faciendum curavit; fevit conditorium; felix
constans; fidei commissum: fieri curavit.

F. H. F.–fieri hæres fecit: fieri hæredes fecerunt.

F. I. D. P. S.–fieri jussit de pecunia sua.

F. M. D. D. D.–fecit monumentum datum decreto decurionum.

F. P. D. D. L. M.–fecit publice decreto decurionum locum monumenti.

F. Q.–flamen quirinalis.

F. T. C.–fieri testamento curavit.

F. V. F.–fieri vivens fecit.

G. L.–genio loci.–G. M.–genio maio.

G. P. R.–genio _seu_ gloria, populi romani.

G. R. D.–gratis datus, _vel_ dedit.

G. S.–genio sacrum; genio senatus.

G. V. S.–genio urbis sacrum; gratis votum solvit.

H.–habet; hac hastatus; hæres; hic; homo; honesta; honor; hora;
horis; hostis.

H. B. M. F.–hæres bene merenti fecit.–F. C.–faciendum curavit.

H. C. CV.–hic condi curavit; hoc cinerarium constituit.

H. D. D.–hæredes dono dedere; honori domns divinæ.

HE. M. F. S. P.–hæres monumentum fecit sua pecunia.

HIC. LOC. HER. N. S.–_vel_ HIC. LOC. HER. NON. SEQ.–hic locus
hæredum non sequitur.

H. L. H. N. T.–hunc locum hæres non teneat.

H. M. AD. H. N. T.–_vel_ H. M. AD. H. N. TRAN.–hoc monumentum ad
hæredes non transit.

H. N. S. N. L. S.–hæres non sequitur nostrum locum sepulturæ,
_vel_ hæredem … locus, etc.

HOC. M. H. N. F. P.–hoc monumentum hæredes nostri fecerunt
ponere.

H. P. C.–hæres ponendum curavit; hic ponendum curavit;–L. D. D.
D.–hæres ponendum curavit loco, dato decreto decurionum.

H. S. C. P. S.–hic curavit poni sepulcrum; hoc sepulcrum condidit
pecunia sua; hoc sibi condidit proprio sumptu.

H. T. V. P.–hæres titulum vivus posuit, hunc titulum vivus
posuit.

I. AG.–in agro.—I. C.—judex cognitionum.

I. D. M.–inferis diis maledictis: Jovi deo magno.

I. F. P. LAT.–in fronte pedes latum.

II. V. DD.–duumviris dedicantibus.

II. VIR. AVG.–duumvir Augustalis.

II. VIR. COL.–duumvir coloniæ.

II. VIR. L. D.–duumvir juri dicundo.

II. VIR. QQ. Q. R. P. O. PEC. ALMENT.–duumviro quinquennali
qætori reipublicæ operum pecuniæ alimentariæ.

III. VIR. AED. CER.–triumvir ædilis cerealis.

IIII. V.–quatuorviratus.

IIII. V. A. P. F.–quatuorviri argento publico feriundo, _vel_ auro.

IIII. VIREI. IOVR. DEIC.–quatuorviri juri dicundo.

IIIIII. VIR. QQ. L. D.–sexvir quinquennalis juri dicundo.

IN. AG. P. XV. IN. F. P. XXV.–in agro pedes quindecim in fronte
pedes viginti quinque.

I. O. M. D. D. SAC.–Jov. optimo maximo, diis deabus sacrum.

I. P.–indulgentissimo patrono; innocentissimo puero; in pace;
jussit poni.

I. S. V. P.–impensa sua vivus posuit, _vel_ vivi posuere.

K. B. M.–carissimæ bene merenti, _vel_ carissimo.

K. CON. D.–carissimæ conjugi defunctæ.

K. D.–kalendis decembris; capite diminutus.

L.–liberta; lucia.–L. B. M. D.–libens bene merito dicavit; locuno
bene merenti dedit, _vel_ libertæ, _seu_ liberto.

L. F. C.–libens fieri curavit; libertis faciendum curavit; libertis
fieri curavit, _vel_ locum _aut_ lugens.

LIB. ANIM. VOT.–libero animo votum.

L. L. FA. Q. L.–liberlis libertabus familiisque libertorum.

L. M. T. J.–locum monumenti testamento fieri jussit.

LOC. D. EX. D. D.–locus datus ex decreto decurionum.

L. P. C. D. D.–locus publice concessus, datus decreto decurionum.

L. Q. ET. LIB.–libertisque et libertabus.

L. XX. N. P.–sestertiis vigenti nummum pendit.

MAN. IRAT. H.–manes iratos habeat.

M. B.–memoriæ bonæ; merenti bene; mulier bona.

M. D. M. SACR.–magnæ deum matri sacrum.

MIL. K. PR.–milites cohortis prætoriæ.

M. P. V.–millia passuum quinque; monumentum posuit vivens, _vel_
memoriam.

NAT. ALEX.–natione Alexandrinus.

NB. G.–nobili genere.–N. D. F. E.–ne de familia exeat.

N. H. V. N. AVG–nuncupavit hoc votum numini augusto.

N. N. AVGG. IMPP.–nostri Augusti imperatores.

NON. TRAS. H. L.–non transilias hunc locum.

N. T. M.–numini tutelari mumicipii.

N. V. N. D. N. P. O.–neque vendetur, neque donabitur, neque pignori
obligabitur.

OB. HON. AVGVR.–ob honorem auguratus; … H. VIR.–duumviratus

O. C.–ordo clarissimus.

O. E. B. Q. C.–ossa ejus bene quiescant condita.

O. H. IN. R. S. F.–omnibus honoribus in republica sua functus.

O. LIB. LIB.–omnibus libertis libertabus.

O. O.–ordo optimus.–OP. DOL.–opus doliare, _seu_ doliatum

P. B. M.–patri bene merenti, _vel_ patrono, _seu_ posuit.

P. C. ET. S. AS. D.–ponendum curavit et sub ascia dedicavit.

PED. Q. BIN.–pedes quadrati bini.

P. GAL.–præfectus Galliarum, _vel_ præses.

PIA. M. H. S. E. S. T. T. L.–pia mater hic sita est: sit tibi terra
levis.

P. M.–passus mille; patronus mnnicipii; pedes mille: plus minus;
pontifex maximus; post mortem; posuit merenti; posuit mærens;
posuit monumentum.

P. P.–pater patriæ; pater patratus; pater patrum; patrono
posuit; pecunia publica; perpetuus populus: posuit præfectus;
prætorio præpositus; propria pecunia; pro portione;
proprætor; provincia Pannoniæ; publice posuit; publice
propositum; publii _duo_.

P. Q. E, _vel_ P. Q. EOR.–posterisque corum.

P. S. D. N.–pro salute domini nostri.

P. V. S. T. L. M.–posuit, voto suscepto, titulum libens merito.

Q. K.–quæstor candidatus.

Q. PR. _vel_ Q. PROV.–quæstor provinciæ.

Q. R. _vel_ Q. RP.–quæstor reipublicæ.

Q. V. A. I.–qui vixit annum unum, _vel_ quæ. A. III. M.
II.–annos tres, menses duos.

A. L. M. IIII. D. V.–onnos quinquagnita, menses quatuor, dies
quinque. A. P. M.–qui vixit… annos plus minus.

R. C.–romana civitas; romani cives.

R. N. L. ONG. P. X.–retro non longe pedes decem.

ROM. ET. AVG. COM. ASI.–Romæ et Augusto communitates Asiæ.

R. P. C.–reipublicæ causa; reipublicæ conservator;
reipublicæ constituendæ, retro pedes centum.

R. R. PROX. CIPP. P. CLXXIIII.–rejectis ruderbusi proxime cippum
pedes centum septuaginta quatuor.

R. S. P.–requictorium sibi posuit.

S.–sacellum; sacrum; scriptus; semis; senatus; sepulcrum; sequitur;
serva; sibi: singuli; situs: solvit; stipendium.

S.–uncia.–S.–centuria.

S.–semuncia.–SB.–sibi; sub.

S. D. D.–simul dederunt, _vel_ dedicaverunt.

S. ET. L. L. P. E.–sibi et libertis libertabus posteris ejus.

S. F. S.–sine fraude sua.–SGN. signum.

S. M. P. I.–sibi monumentum poni jussit.

SOLO. PVB. S. P. D. D. D.–solo publico posuit, dato decreto
decurionum

S. P. C.–sua pecunia constitut; sumptu proprio caravit.

S. T. T. L.–sit tibi terra levis.

S. V. L. D.–sibi vivens locum dedit.

TABVL. P. H. C.–tabularius provinciae Hispaniae citerioris.

T. C.–testamento constituit, _vel_ curavit.

T. T. F. V.–titulum testamentum fieri voluit.

V. C. P. V.–vir clclarissimus praefectus urbi.

V. D. P. S.–vivens dedit proprio sumptu; vivens de pecunia sua.

V. E. D. N. M. Q. E.–vir egregius devotus numini majestatique ejus.

VI. ID. SEP.–sexto idus septembris.

VII. VIR. EPVL.–septemvir epulonum.

V. L. A. S.–votum libens animo solvit.

VO. DE.–vota decennalia.

V. S. A. L. P.–voto suscepto animo libens posuit.

V. S. L. M.–votum solvit libens merito.

V. V. C. C.–viri clarissimi.

VX. B. M. F. H. S. E. S. T. L.–uxor bene merenti fecit, hic situs
est. sit bibi terra levis.

X.–mille.–X. ANNALIB.–decennalibus.

X. IIII. K. F.–decimo quarto kalendas februarii.

X. VIR. AGR. DAND. ADTR. IUD.–decemvir agris dandis attribuendis
judicandis.

XV. VIR. SAC. FAC.–quindecemvir sacris faciendis.

XXX. P. IN. F.–triginta pedes in fronte.

XXX. S. S.–trigesimo stipendio sepultus.

[Figura 88]

CAPITULO III

*IDADE MEDIA*

ERA ROMANICA

Chama-se idade-media o periodo comprehendido desde a quéda do imperio
romano (V seculo), até o principio do seculo XVI.

A architectura dos primeiros seculos da idade-meia apresenta os
caracteres da architectura romana degenerada, e a designam com o nome de
_architectura Roman_: o typo roman persistiu até ao seculo XII.
Examinaremos este longo periodo da historia da arte, subdividindo em
duas epocas; o _roman primitivo_, que comprehende do V seculo ao XI; e o
_roman secundario_, que pertence aos seculos XI e XII.

PERIODO ROMAN PRIMITIVO

Depois das invasões dos barbaros, as artes e as lettras acharam amparo
nas cidades, e depois nos mosteiros. Os architectos apropriaram ás
necessidades da epoca parte dos edificios gallo-romanos; e exploraram a
outra parte como se o fizessem em uma pedreira; acharam nas columnas,
nos entablamentos, nas esculpturas diversas, e nos outros materiaes que
cobriam o solo, mina que por muito tempo lhes forneceu pedras já
lavradas: não tendo outro trabalho, o maior numero de vezes, senão
ajustal-os ao logar para que os destinavam: portanto a duração do _roman
primitivo_, pois, propriamente fallando, é a continuação do periodo
artistico antecedente, apenas com a alteração nas formas, pela
inhabilidade progressiva dos operarios e architectos.

Os elementos de decoração ficaram como estavam; as esculpturas, os
mosaicos, as pinturas, foram empregadas como no seculo IV; as
composições foram copiadas ou reproduzidas com insignificantes
variantes.

Infelizmente, possuimos bem poucos d'esses restos authenticos dos
edificios do _primeiro periodo roman_; é preciso recorrer aos ultimos
tempos do imperio, reunir mentalmente os mosaicos, as molduras das
decorações, as pinturas decorativas, então usadas, para completar a
escala da ornamentação durante os seculos V, VI, VII e VIII.

[Figura 89: Tumulo de marmore dos primeiros seculos christãos]

Ao passo que se aproveitaram os fragmentos preexistentes nos edificios,
que resistiram ás devastações dos barbaros, fazia-se um trabalho de
assimilação que devemos ter em conta: além de construir bastantes
edificios novos que lhes deviam ser indispensaveis, precisavam tambem de
supprir as faltas de outros, reparar as paredes e as esculpturas,
construir e ornar as igrejas novas. O elemento christão, com o seu
symbolismo novo, seus especiaes assumptos, fez nascer _uma nova escola_
de esculptura e de pintura, posto que se inspirassem dos modelos
romanos. Basta citar para prova d'isto os tumulos dos primeiros seculos
da idade media com as suas scenas biblicas, e as figuras cujos typos
existiam nas pinturas das catacumbas.

As primeiras igrejas christãs foram copiadas das basilicas romanas. As
basilicas eram como edificios para os tribunaes, centros commerciaes
(bolsas) ou bazares. Dois renques parallelos de columnas dividiam o
edificio em tres partes, no sentido da largura. A grande nave central
era mais larga e mais elevada que as outras duas. Na extremidade das
tres galerias, e na central havia um espaço pouco profundo, e de fórma
circular, onde se assentava o presidente ou o primeiro juiz, tendo aos
lados todos os juizes accessores; o bispo ahi collocava a sua cadeira, e
as ceremonias religiosas eram apropriadas á disposição do local.

[Figura 90]

Ha em Abrantes uma igreja que é perfeito especimen d'esta disposição; é
a unica que suppômos haver em Portugal com este typo.

As abbadias, ou communidades religiosas, foram egualmente imitadas das
grandes habitações romanas, tanto da cidade como do campo, de que
apresentâmos um specimen na pagina 82 [fig. 69]; o antigo _atrium_, o
perystilo, tem sido representado na disposição dos claustros.

O _tablium_, ou grande sala, foi representada na casa do capitulo.

No mais foi tudo imitado das outras partes das habitações romanas com as
modificações que necessitava a vida commum dos religiosos. A igreja veio
sómente trazer novo elemento á composição da parte central dos
conventos; porém o pateo externo, com os seus celeiros, curraes,
lagares, etc., apresentava a similhança de uma _villa rustica_ dos
romanos reunida á habitação do proprietario.

[Figura 91: Fragmento de um tabernaculo, ornado de pedras peciosas, de
pombas, palmeiras carregadas de fructas, symbolisando as graças
espirituaes. Esculptura mérovingia do museu d'Arles]

Os palacios tiveram disposição identica á das grandes casas romanas; os
seus pateos ornados de columnas ou de arcadas como os claustros, eram,
como estes, a reproducção exacta do _atrium_ e do _perystilo_. (Veja-se
a pag. 82. [fig. 69])

[Figura 92: O interior da crypta de Saint-Avit, em Orleans (IX seculo)]

[Figura 93: Columnas e pilastras da crypta com os capiteis]

As habitações ruraes dos proprietarios abastados reproduziam tambem as
disposições principaes das _villæ_ gallo-romanas.

[Figura 94: A igreja de Vieux-Pont-en-Auge (Calvados), construida com
pequeno apparelho]

Passemos rapidamente sobre esta primeira parte do periodo roman, do qual
existe mui pouco para citar, e vamos já occupar-nos do segundo periodo,
que nos apresenta grande numero de monumentos notaveis, dando porém
alguns fragmentos de architectura e esculptura pertencentes ao periodo
roman primitivo, n'esta pagina e nas seguintes para se formar melhor
idéa, posto que succinta, do estado da arte nos seculos IX e X.

[Figura 95: Capitel da igreja de Jouarre (VII seculo)]

[Figura 96: Frontão do baptisterio de Poitiers]

[Figura 97: Pavões e animaes symbolicos]

PERIODO ROMAN SECUNDARIO

O seculo IX, de tão crueis provações, vira desapparecer grande numero de
edificios pertencentes aos seculos anteriores. Estes edificios não
teriam grande solidez, porque os normandos facilmente os destruiram e
incendiaram, na occasião dos seus saques e vandalismos, e os que não
ficaram expostos a esta barbaria apresentam já o aspecto vetusto.

Quando quizeram reparar similhantes damnos, reconstruiram o que já
estava destruido, e não encontraram, como succedera no V e nos seguintes
seculos, senão fustes de columnas, capiteis, esculpturas provenientes
dos monumentos em ruinas dos gallo-romanos: foi preciso, no seculo X,
cortar nova cantaria, extrahir outros materiaes, executar esculpturas,
ainda que grosseiramente, para os ornamentos com que desejavam dar
realce ás igrejas, aos palacios, e outros edificios publicos, ou
particulares: portanto, nova ordem de cousas devia resultar das novas
exigencias e necessidades. Viu-se, pois, no ultimo quartel do seculo X,
e principalmente no XI, a architectura em via de transformação, depois
caminhar gradualmente para o estado de esplendor a que attingiu no
seculo XII.

As esculpturas provenientes dos monumentos romanos, ou muito bem
imitados, deram certo brilho ao interior das grandes construcções dos
seculos intermediarios: os mosaicos, as pinturas e estuques, occultavam
a pobreza dos materiaes empregados.

No seculo XI dispensaram os ornamentos no interior das habitações, porém
exigiram mais solidez e mais segurança contra os incendios; construiram
mais frequentemente com pedra, pensaram em substituir com abobadas os
tectos de madeira, que haviam sido até então quasi exclusivamente
empregados.

Os frades architectos, e os demais artistas, em plena liberdade para
innovar, construiram as igrejas e os edificios, onde havia necessidade
de taes obras, combinando novos planos e disposições inteiramente
desconhecidas.

As proporções antigas exigidas na architeclura não continuaram a ser
observadas quanto ao _modulo_ das columnas, e suas subdivisões. O
_colorete_ fez então sempre parte do capitel, de certo contrario ás
regras da architectura romana, porque o colorete andava ligado com o
corpo da columna.

As esculpturas mais rudimentares apresentavam series de figuras
repetidas, que se agrupavam, seguindo, conforme as escolas, systemas
differentes.

Estes factos, que o seculo XI apresenta ao observador prespicaz, fazem
de certo modo, d'esta época, que vamos tratar, o ponto de partida dos
desenvolvimentos da architectura tal como se nos apresenta hoje á vista,
examinado o extraordinario numero dos edificios antigos que existem na
Europa.

Passamos portanto a apresentar, seculo por seculo, comparativamente, os
typos dos edificios religiosos, civis, e as fortificações, e indicaremos
successivamente os seus caracteres principaes, por modo que possa
demonstrar-se claramente a marcha e o desenvolvimento da architectura e
das artes accessorias durante o periodo indicado.

*ARCHITECTURA RELIGIOSA*

Descrevendo os caracteres principaes da architectura religiosa do
periodo _roman secundario_, comprehenderemos ao mesmo tempo os seculos
XI e XII.

Os ornatos do seculo XI teem mui pouco relevo, e estão executados com
bastante rudeza; mas os do seculo XII já apresentam os contornos mais
correctos, com ornamentação mais variada, e de acabamento infinitamente
mais superior; pode affirmar-se que a architectura roman chegára á
maxima perfeição.

*Forma das igrejas*

Como já dissemos, as igrejas foram imitadas primitivamente das basilicas
romanas, porém algumas, logo desde os primeiros tempos, tiveram no risco
a fórma da cruz, pelo augmento da parte a que chamamos cruzeiro.

A fórma geral das igrejas um pouco vastas no seculo XI, e nos seguintes,
era a da cruz, cujos braços se estendiam de Norte ao Sul, e cuja cabeça
estava figurada pelo côro voltado para Leste. A entrada principal era do
lado occidental; ás vezes nas paredes lateraes da nave havia frestas. O
comprimento da nave comparado com o do côro e capella mór, o maior ou
menor desenvolvimento dos cruzeiros, estabeleceu nas fórmas geraes das
igrejas mudanças importantissimas. O côro, menos compridó que a nave,
apresentava quasi sempre a terça ou quarta parte do comprimento total do
edificio.

[Figura 98]

Umas vezes as naves lateraes terminavam onde principiava a curva da
abside, como se vê na figura 101, pag. 124; outras vezes prolongavam-se
em volta do côro como na figura 100. Havia tambem igrejas rectangulares,
ou com o fundo do côro recto.

[Figura 99]

Nos paizes do Norte, as igrejas acabavam a Leste e a Oeste, por absides
semicirculares, figura B, como egualmente existem em algumas igrejas
antigas, principalmente em S. Lourenço de Grenoble, como indica a planta
junta; assim como outras muito mais antigas eram compostas sempre d'uma
nave terminando em fórma circular, fig. 98; ou com os lados polygonaes,
cercada por naves lateraes ou galerias; havendo a Leste, um altar
collocado n'um appendice encostado sobre as paredes circulares. Esta
fórma foi imitada pelo imperador Carlos Magno, na celebre igreja de
Aix-la-Chapelle, a qual tambem depois imitaram na igreja d'Ottmarsheim,
na Allemanha.

[Figura 100: Naves lateraes contornando a abside]

[Figura 101: Igreja com duas absides]

[Figura 102: Córte da igreja de Ottmarsheim (Alto Rheno)]

Dava-se em algumas igrejas a fórma redonda ou octogona, para imitar a do
Santo Sepulchro de Jerusalem.

Por baixo do côro de muitas igrejas existiam cryptas ou capellas
subterraneas; quando tinham maiores dimensões, as suas abobadas eram
sustentadas por dois renques de columnas.

[Figura 103: Plano da igreja de Ottmarsheim]

Algumas cryptas prolongam-se por baixo do cruzeiro; desce-se para as
cryptas por escadas que saem das naves, ou da nave principal junto da
entrada[35] para o côro, ou dos cruzeiros.

*Apparelhos das construcções*

Encontram-se nos seculos XI e XII os principaes apparelhos em uso na
architectura _roman primitiva_. O pequeno apparelho e o medio vê-se
frequentemente applicado.

Quando se serviram de cantaria liza para cobrirem as faces das paredes,
assentavam-n'a de lado, com inclinação alternada para a direita e
esquerda (_opus spiscatum_). Os romanos usavam tambem pôr as pedras
d'este modo.

[Figura 104]

No seculo XI, os apparelhos tinham larga facha de cimento nos
intersticios, ao passo que no seculo seguinte, as juntas mostravam menos
espessura.

Em alguns apparelhos medios vêem-se diversas figuras profundamente
gravadas, parecendo signaes dos canteiros, que teriam por este meio
reconhecido as pedras que tivessem preparado para se lhes pagar os
salarios.[36]

[Figura 105]

*Contrafortes*

Os contrafortes tiveram no seculo XI muito pouca saliencia,
comparativamente com a que depois se lhes deu. No seculo XII, apparecem
muitas vezes os pilares ornados de columnas mettidas nos angulos com os
esbarros revestidos de curvas com imbricados [fig. 106].

[Figura 106]

[Figura 107]

[Figura 108]

Na Italia, na Allemanha e em outras nações, os contrafortes são mui
pouco salientes, e só permittem os de ressaltos separados por distancias
eguaes uns dos outros [fig. 107 e 108].

*Ornamentações*

Para abreviarmos as explicações sobre este ponto, daremos os desenhos de
algumas molduras ornamentadas, que eram mais vulgares nas construcções
religiosas dos seculos XI e XII.

[Figura 109: Zigue-zagues oppostos]

[Figura 110: Filêtes desencontrados]

[Figura 111: Zigue-zagues alternados]

Mr. de Caumont emprehendeu repetidas viagens por differentes paizes, com
o louvavel intuito de indagar quaes seriam as modificações que o genio
dos architectos introduzira em tal ou tal provincia; assim como para
examinar se haveria synchronismo entre os edificios, apresentando a
grandes distancias uns dos outros identidade de typos architectonicos.

[Figura 112: Escamas]

[Figura 113: Carrâncas]

[Figura 114: Pontas de diamante]

[Figura 115: Estrellas]

[Figura 116: Torçal]

[Figura 117: Zigue-zagues dentados]

[Figura 118: Folhagem com serpes]

[Figura 119: Entrelaçados]

[Figura 120: Ornamento dentado]

[Figura 121: Molduras entrançadas e carrancas/Molduras com rhombos]

[Figura 122: Florões ornados de perolas]

[Figura 123: Faixas e molduras com perolas]

[Figura 124: Entrançados com perolas]

[Figura 125: Discos e molduras com lavor]

[Figura 126: Palmas e quadrupedes]

Este trabalho scientifico de summo interesse para a historia da arte,
era mais um importante serviço prestado aos estudos archeologicos por
pessoa já afeita por seu saber e dedicação.

*Arcadas fingidas*

[Figura 127: Do seculo XII]

As grandes superficies foram muitas vezes guarnecidas arcadas fingidas,
assentes em pilastras ou em columnas embebidas na parede, e dava-se-lhes
o nome de _arcaturas_: faz-se idéa do effeito que produziriam vendo o
_especimen_ que apresentamos.

[Figura 128: Archivoltas dos seculos XI e XII.]

*Portas*

De todas as partes dos edificios, são sem duvida as portas que tem sido
mais ornadas de molduras no seculo XII, e até em alguns edificios com
aspecto simples. Porém no seculo XI conservam ainda, no maior numero,
grande simplicidade nas fórmas. Foi no seculo XII que mais se
multiplicaram as archivoltas, e o que obrigou depois a proporcionar o
numero das columnas que serviam de apoio á queda d'essas curvas, e dar
maior grossura aos pés direitos interiores: algumas portas não
apresentam nem columnas nem pilastras, apenas tem ornatos desde o cimo á
base, com aformoseamentos de mais ou menos profusão.

[Figura 129: Porta da igreja de Mortain]

Os tympanos (é assim que se chama o espaço semicircular comprehendido
entre a abertura e as archivoltas bem como o espaço triangular entre as
mulduras do frontão e as do entablamento do perystilo), são compostos de
peças symetricas com molduras ou sem ellas; ha outros que estão cheios
de baixos-relevos; como se vê n'este tympano da igreja de S. Miguel,
proximo d'Angoulème (França), no qual o archanjo representa vencer o
inimigo do genero humano, prostrado aos pés sob a fórma de gigante
dragão. É nos tympanos das portas que se encontra principalmente a
representação de Christo entre os symbolos dos quatro evangelistas, o
boi,[37] a aguia, o leão e o anjo.

[Figura 130]

Muitas portas tiveram primitivamente alpendre coberto com telhas; d'este
modo poderam ornal-as com baixos-relevos e molduras, posto que fossem de
cantaria, pois sem o que ficariam expostas á intemperie das estações, e
perder-se-hia o trabalho. Nas igrejas e nas cathedraes existem
egualmente grandes alpendres, que figuram vestibulos diante das portas,
como em Santarem, na igreja de S. Francisco.

[Figura 131: Jesus Christo n'uma aureola, no meio dos symbolos dos
quatro evangelistas]

[Figura 132: Portico-vestibulo em Moissac]

*Fachadas*

[Figura 133]

A disposição das fachadas varia conforme a grandeza das igrejas. Na
representada pela gravura junta de uma igreja rural, a porta tem duas
archivoltas guarnecida de rhômbos e de zigue-zágues, tendo no cimo um
renque de arcadas fingidas; uma unica abertura occupa o centro do
frontão com uma janella de volta perfeita. A outra figura representa uma
igreja, mostrando os lados indicados conforme a posição das naves
lateraes, tendo já maior fachada que a precedente. Por cima da porta
veêm-se tres archivoltas sustentadas por columnas e ornadas de diversas
molduras; mais acima a janella de volta com archivolta e columnasinhas;
e a sua parte superior cornija com modilhões e frontão triangular. Esta
combinação é frequente nas igrejas do seculo XII.

[Figura 134: Fachada da igreja de Jort (Calvados).]

*Janellas*

As janellas de maiores dimensões são estreitas e sem columnas. No seculo
XII, principalmente, são maiores e ornadas de archivoltas sustentadas
por columnasinhas, e por vezes acompanhadas de arcadas fingidas.

[Figura 135]

[Figura 136: Janella guarnecida de duas _arcaturas_]

As aberturas são circulares, e usam chamar-lhes _espelhos_ ou _oculos_;
principiaram a ser empregadas no seculo XII, divididas em raios do
centro para a circumferencia. Apresentavam tal ou qual similhança com as
rodas das carruagens. O logar dos espelhos era escolhido nas
extremidades da nave principal, ficando por cima da porta occidental, e
ás vezes tambem no centro da abside ou do côro.

[Figura 137]

Temos ainda felizmente, em Portugal, um edificio religioso que conserva
o typo completo da architectura do seculo XII, e é o que pertence á
profanada igreja de S. João de Alporão, em Santarem. Todas as formas e
detalhes, que caracterisam a architectura roman, se conservam ainda na
dita construcção. Os seus dois portaes com o feitio de volta
semicircular; as columnas sem lavor, sustentando archivoltas; o tympano
liso por cima da verga do portal; os butareos singelos; a cimalha
composta de carrancas; o espelho aberto na extremidade da nave e
radiado; a fachada principal voltada para o lado do poente, conforme a
orientação adoptada no culto christão; apparelho pequeno applicado á
construcção, conservando muita largura nas juntas da cantaria; tudo
emfim nos offerece o completo modelo das primitivas igrejas d'aquella
época, que o fundador da monarchia portugueza mandou construir no reino.
E além de apresentar a mais evidente prova do estylo da architectura do
seculo XII, tambem nos confirma ter pertencido esta fabrica ao reinado
de D. Affonso Henriques, mostrarem igualmente as pedras da edificação
_as siglas com que na idade media os canteiros marcavam o trabalho
executado_,[38] signaes necessarios para reconhecer a qual dos operarios
pertencia, e saber-se tambem quanto se deveria pagar a cada um: pois que
esses signaes são similhantes aos demais gravados na cantaria dos
monumentos coevos do paiz, notando-se esta particularidade não só nas
ruinas dos castellos, mas tambem nos edificios religiosos. A nossa
satisfação aqui sobe de ponto por sermos o primeiro que apresentâmos tal
gravura e tão precioso e completo especimen da archeologia patria da
referida epoca.

[Figura 138: Igreja de S. João d'Alporão (Santarem)]

*Arcadas*

As arcadas, dispostas para communicar a nave principal com os lados da
igreja, eram construidas pela mesma forma como as portas; suas
archivoltas poucas vezes tinham molduras, e por isso ficavam quasi
sempre ligadas.

*Entablamentos*

[Figura 139]

O entablamento que corôa as paredes dos edificios é geralmente posto
sobre modilhões figurando cabeças grotescas, carrancas, ou outras
figuras de feitios variados; como se nota nas fachadas posteriores da sé
velha de Coimbra, do convento de Santa Clara de Santarem, da igreja de
Cedofeita, e capella-mór de Odivellas.

[Figura 140]

Á proporção que nos aproximâmos do fim do seculo XII, as cornijas
mostram-se-nos mais leves, e no seculo XIII apresentam-nos guarnição
imitando dentes de serra.

*Columnas*

Os pontos de apoio que tinham sido muitas vezes _monocylindricos_ no
principio do seculo XII, até quando eram compostos de pilastras, foram
depois, quasi meado este seculo, formados por um conjuncto de columnas
enfeixadas, innovação que devia depois produzir as columnas inteiriças
desde o solo até ao nascimento da abobada, concorrendo assim para a
creação do estylo ogival.

[Figura 141]

*Capiteis e diversas bases das columnas nos seculos XI e XII*

Chama-se capitel historiado ao que é formado por composições relativas a
assumptos religiosos ou historicos, executados em baixo-relevo.[39]

*Abobadas*

Durante o seculo XI, as abobadas de cantaria eram raras, e
principalmente applicadas ás grandes naves; em geral não se viam as
abobadas senão nas naves lateraes e nas absides, ficando visiveis os
madeiramentos, ou então cobertos com taboado.

Foi no seculo XII que os mais ousados architectos lançaram as primeiras
abobadas de cantaria sobre as grandes naves; mas para esta construcção
foi preciso modificar a antiga disposição afim de receber os pontos de
apoio dos arcos encruzados em diagonal, que contribuem tanto para
consolidar essas abobadas.

Nas igrejas do estylo roman, notam-se facilmente estas estructuras, e as
mudanças que isso motivou nas suas construcções.

[Figura 142: Vista interior da igreja de Souillac]

Existe certo numero de igrejas com a abobada construida em cupula.
Representa uma cupula a metade de uma esphera. Para se poderem firmar as
cupulas nas paredes, cujas divisões apresentavam a fórma quadrada, era
necessario collocar entre os seus arcos _abobadas pendentes_
(pendantifs), de maneira a formar com elles (na parte superior) o
circulo horisontal, sobre o qual caia o peso da cupula: este modo de
construir a cupula tirava a sua origem da architectura Bysantina.

Ha tambem outras abobadas ogivaes _cupuliformes_, que se firmam não nas
paredes lateraes, mas egualmenle na archivolta dos arcos de cada vão, na
direcção longitudinal. De sorte que, se suppozermos uma cupula ou
espheroide, que se transforme com as suas abobadas pendentes,
formar-se-ha a idéa primitiva que produziu o systema que expozemos, e ao
qual o distinctissimo architecto Mr. Viollet-le-Duc deu a seguinte
significação: _É uma cupula hemispherica furada com quatro arcos em
ponto subido traçados por tres pontos_. Fortificavam-se estas abobadas
esphericas achatadas com as nervuras ou arcos cruzados, descançando-as
nos angulos do quadrado, e com outros que se cruzavam no intervallo dos
primeiros, e rematavam no cimo de cada arco maior.

As abobadas esphericas com duplo cruzamento de nervura foram muito
applicadas nos seculos XII e XIII.

Porém, para voltarmos á descripção das abobadas dos seculos XI e XII em
geral, basta dizer que ha muitas que foram construidas da fórma de
semi-cylindros continuos, descançando nas paredes ou pilares, e que se
reforçaram com arcos duplos de cantaria parallelos á dita abobada como
apresentâmos na gravura da pagina seguinte; porém, o peso d'estas
abobadas era muito grande, e causava ruinas frequentes. Então, para
remediar este inconveniente, cruzavam-se os arcos duplos, afim de
dividir a pressão e dirigil-a nos pilares regularmente separados. As
paredes lateraes ficaram por este modo consideravelmente alliviadas do
grande peso que d'antes tinham sobre si, o que se verá perfeitamente na
gravura seguinte. Este systema originou o enfeixarem-se as columnas
conforme as combinações que serão facilmente comprehendidas, e que
tinham por fim sustentar os arcos duplos.

[Figura 143: Abobadas do seculo XII, com arcos duplos cruzados]

*Torres isoladas*

Presume-se que as torres para sinos não foram construidas antes do
seculo VIII, e por muito tempo seriam apenas um simples campanario,
ficando superior ao telhado da igreja e proximo do sanctuario, para
facilitar os toques durante a missa, sem que o acolyto se afastasse do
altar. Depois apparece a torre da igreja entre o côro e a nave
principal. Nas grandes igrejas collocaram uma torre sobre o centro do
cruzeiro, e passado tempo levantaram outras nas extremidades occidentaes
das naves. Esta nova disposição das torres era já usada no seculo XII e
antes dos fins do XI, mas applicada sómente para as igrejas dos
conventos.

[Figura 144: Torre do seculo XII]

As torres romans eram, além da fórma quadrada, limitadas por uma
pyramide de grandes faces, quer fosse construida de pedra, quer de
madeira: esta pyramide terminava muitas vezes com a extremidade de fórma
romba; tal assim foi construida a torre quadrada e isolada da igreja de
N. Senhora das Dôres, em Dornes, na provincia da Extremadura.

O grande numero de pyramides que ornam as torres antigas romans foi obra
executada depois nos seculos XIII e XIV. Ha tambem algumas torres de
fórma octogona e terminando por um telhado que obedece á mesma fórma.

*Iconographia[40] christã*

Ainda que este assumpto nos conduziria muito longe, todavia para não
ficar incompleto, em parte, tão importante estudo da arte n'este
periodo, tambem resumidamente daremos succintas explicações.

*Pinturas decorativas*

As pinturas decorativas foram muito usadas no seculo XII. As ocres
encarnadas e amarellas, o azul, o verde e o branco, formam a escala mais
commum das côres. As figuras eram imitadas das que se executavam na
esculptura da mesma época.

[Figura 145: Pinturas do seculo XII]

*Pavimentos*

Os sanctuarios mais elegantes tinham o piso executado em mosaico, ou
marchetados de côres. Principiaram no século XII a usar nos pavimentos
das igrejas os tijolos;[41]porém os revestidos com cimento, ou lageados,
eram usuaes em as naves.

*Altares*

Os altares e pias baptismaes pertencentes ao seculo XII são raros hoje;
eram de estylo inteiramente analogo ao das igrejas d'esse tempo,
conforme se vê nos especimens que damos.

[Figura 146: Altar roman, em Saint-Germer]

*Tumulos*

Posto que a interessante obra que nos serve de poderoso guia não traga
explicações sobre os tumulos do periodo, de que tratâmos, pareceu-nos
conveniente dizer alguma cousa, para não omittirmos as essenciaes noções
ácerca dos diversos trabalhos.

[Figura 147: Pias de baptismo roman de Chéreng (França)]

Foi no seculo IX, que consentiram em que os cadaveres tivessem
sepulturas no interior das igrejas, mas d'esta prerogativa só podiam
gosar os reis, os bispos e os abbades, que por suas virtudes estiressem
no caso de receber canonisação; por quanto os cemiterios christãos, nos
primitivos tempos, eram situados fora das cidades; e no concilio
celebrado em 660 se permittiram os enterros unicamente nos adros das
igrejas.

Os christãos costumavam amortalhar os defuntos com os fatos usuaes e as
insignias do cargo ou profissão; os parentes mais proximos transportavam
os despojos mortaes, que eram depois encerrados em caixão de pedra,
marmore, ou de madeira e chumbo, ficando o cadaver com o rosto voltado
para o céo e os pés para o Oriente. Manteve-se este uso até o seculo
XIII.

Os sarcophagos eram collocados sobre o solo em renques parallelos, na
direcção do norte para o sul. Tinham a fórma de parallelipedo, sendo
mais estreitos aos pés que do lado da cabeça; e alguns tomavam na
cabeceira a fórma curvilinea.

Fazendo investigações archeologicas ainda este anno (1876), em
Alvaizerere, no antigo cemiterio e sitio chamado da _Igreja-Velha_, da
qual já não existem nenhuns vestigios, descobrimos sepulturas d'esse
feitio pertencentes ao seculo XI; o que nos fez conhecer a época da
fundação da remota igreja, de que só se conservou o nome.

N'essa época tambem costumavam collocar dentro do caixão dois vasos de
barro, um com agua benta, e outro com brazas e incenso.

Havia em muitos cemiterios, no seculo XII, além de uma cruz de pedra,
uma columna ôca, ou pilar quadrado, no qual punham de noite uma lanterna
em signal de veneração para o logar sagrado, e como indicação para que
os transeuntes pudessem rezar pelo eterno descanço dos finados.

Os tumulos em vulto ficavam collocados nas cryptas, ou nos porticos ou
em capellas das igrejas, separados das paredes ou mettidos dentro de
arcadas no grosso da construcção; e estas arcadas eram ornadas com
diversas molduras proprias do estylo ao qual pertencia a época do
tumulo:[42] porém, no seculo XIV, acompanhadas dos dois lados por
contrafortes e pinaculos. Emquanto ao feitio do cofre sepulchral,
imitaram a fórma quadrangular da decadencia romana. Os que eram
construidos em marmore estavam decorados por arcadas ou baixos-relevos.
A campa era composta de uma grande lagea horisontal, ou duas inclinadas,
formando um angulo agudo, e ornada de arabescos. No final do seculo XII,
começaram de empregar a fórma das campas com lados inclinados.

Nos tres seculos seguintes, apresentavam a estatua do defunto deitada de
costas sobre a tampa do sarcophago. Viam-se ás vezes o marido e a mulher
ao lado um do outro, no mesmo tumulo.

No museu de archeologia do Carmo, em Lisboa, ha um singular exemplo da
estatua de uma pessoa real _deitada de ilharga_, que podemos considerar
raro, porque ha só outro exemplo no jazigo real de S. Diniz, em França.

Os reis e os fidalgos eram representados com os seus uniformes, os
bispos e os abbades com as suas vestimentas sacerdotaes, com as mãos
juntas, ou os braços cruzados no peito.[43]

Os tumulos mais modestos da idade media, são os rasos, collocados nas
igrejas e nos claustros. Os mais antigos datam do seculo XII. N'essas
campas acham-se gravados em traços concavos, a effigie e o corpo inteiro
do finado, com inscripção em latim; o mais notavel exemplo d'este genero
existe em um claustro de Alcobaça, tendo a campa assente entre a porta
da casa do capitulo e a galeria do claustro.[44]

As pedras tumulares eram tambem ornadas de incrustações de cobre, e
d'este género apparecera no anno de 1875 em Portugal metade de uma campa
pertencente a um tumulo, o qual estava entaipado na parede da igreja de
S. Domingos em Santarem: representava apenas as pernas de duas figuras
de homem e outra de mulher, e uma pequena parte da inscripção já com
falta de algumas letras.[45]

Nas igrejas da Belgica ha grande numero de campas d'este genero com
embutidos de metal.

É de grande auxilio para a historia o estudo de taes tumulos,
principalmente para se conhecer certos brazões e usos do vestuario na
idade-media.

*ARCHITECTURA CIVIL*

As construcções destinadas aos conventos, aos hospitaes, palacios,
mercados, pontes, ás casas particulares, constituem emfim a architectura
civil. As construcções civis dos seculos XI e XII mostram no apparelho,
na fórma das aberturas, molduras e ornamentações, que eram identicas das
construcções religiosas.

[Figura 148: Janellas de diversas construcções civis]

As vergas das janellas de volta perfeita, e ás vezes de fórma recta,
eram subdivididas em duas aberturas, como as usadas nas igrejas.

Aos respiradouros das chaminés davam-lhes a fórma cylindrica na parte
superior, ficando mais ou menos elevados.

[Figura 149]

A frente dos fogões no interior dos aposentos era sustentada com
columnas e pilastras, ou arcos abatidos.

*Edificios monasticos*

As construcções civis mais importantes pertenciam ás casas religiosas. A
sua architectura era simples e severa no seculo XI; porém no XII, o sem
numero de legados destinados aos mosteiros facilitaram o emprego de
quantias avultadas para a construcção de claustros e de casas de
habitação. Existem ainda em Portugal, não obstante a destruição e
abandono que se dá ha cincoenta annos n'esses edificios religiosos, como
em Alcobaça, Santarem e Coimbra, bellos especimens da architectura
monastica do seculo XII. Já dissemos [na pag. 116] que as abbadias
haviam copiado as principaes distribuições das casas de campo, e das
cidades usadas pelos romanos.

[Figura 150: Plano d'uma abbadia do seculo XII (parte central)

1, igreja. 3, sala capitular. 2, 4, 5, salas abobadadas, com os
dormitorios em volta. 9, refeitorio. 11, salas de recepção. 12, pateo
rodeado pela galeria do claustro.]

O claustro representava o peristylo que os romanos tinham nas casas das
cidades, sendo esta a parte reservada para a vida privada; tambem
imitavam as officinas que cercavam a _villa urbana_, ou pateo principal
d'essas _villas:_ o plano que apresentamos mostra as principaes
disposições das casas que guarneciam o claustro.

_Dormitorios_.–O dormitorio ficava quasi sempre contiguo ao claustro e
em frente da igreja: esta sala não acontecia ficar parallela á galeria
do claustro, mas estendia-se do norte ao sul ou do sul ao norte,
conforme a posição do pateo do convento, relativamente ao logar occupado
pela igreja.

_Cosinhas_.–No seculo XII as cosinhas apresentavam em muitas abbadias a
fórma redonda, octogona ou quadrada, formando uma casa em separado,
posto que ficando sempre na proximidade do refeitorio. Estas cosinhas,
de que ha bom exemplo em Alcobaça,[46] tinham em roda muitas fornalhas
com chaminés, e cada uma d'ellas com uma columna ôca de pedra, que saía
do telhado conico do edificio, no cimo do qual havia respiradouros em
fórma de laternins, para darem saída ao fumo e estabelecer a ventilação.

[Figura 151: Cosinha de Saint-Père (Chartres)]

Será comprehendida esta construcção pela gravura acima, que representa
as antigas cosinhas de Saint-Père de Chartres (França), de que já não ha
vestigios.

_Albergarias_.–As casas para hospedes, pois quasi todas as congregações
religiosas exerciam franca hospitalidade, recebendo os viajantes de
diversas procedencias, occupam em muitos mosteiros a parte occidental
das casas claustraes. Na parte de fóra do claustro, encontrava-se a
_area interior_, ou pateo interno, reservado para os leigos ou criados;
a _area communis_, grande pateo onde as carretas circulavam para
descarregarem os productos dos dizimos. Á roda d'este grande pateo
estavam os celeiros, armazens e curraes. A _area communis_ comprehendia
ainda a grande porta da entrada, _porta maior_, o pretorio onde se
julgavam os delictos, a prisão, finalmente o pombal, o forno para cozer
o pão, e n'alguns tambem o moinho.

_Celleiros_.–Os celleiros, annexos á _area communis_, eram verdadeiros
edificios monumentaes. Os carros entravam carregados com os cereaes por
uma extremidade e saíam descarregados pela extremidade opposta.

Os armazens e adegas eram tambem edificios bem construidos e vastos.

*Mercados*

Os mercados assimilhavam-se no seculo XI aos celleiros que eram formados
de galerias em roda do recinto murado.

*Hospicios*

Os hospicios tinham bastante importancia em certas cidades. A principal
parte do edificio continha o salão destinado aos viajantes, e as
enfermarias para os doentes eram geralmente divididas em tres naves,
ficando a nave central devolúta e as lateraes para as camas. Havia
tambem hospicios com claustros, pouco mais ou menos como os dos
conventos, emquanto ás disposições geraes.

*Casas particulares*

As casas particulares do seculo XII apresentavam, na frente principal,
empenas, isto é, para o lado da rua mostravam a forma do telhado com
duas aguas; as vergas das janellas eram geralmente de volta perfeita nas
casas construidas de cantaria, e quadradas nas casas construidas de
madeira, que eram mais usadas.

[Figura 152: Plano do celleiro de Perrières]

[Figura 153: Perfil longitudinal do celleiro de Perrières]

*ARCHITECTURA MILITAR*

As cidades que tinham sido antigamente fortificadas haviam conservado,
pela maior parte, as muralhas e torres do recinto; porém a creação do
novo systema da defensa feudal, deu origem a se construirem em muito
maior numero os novos castellos, que fizeram mudar o aspecto guerreiro
dos paizes desde o fim do seculo X até o XI.

[Figura 154: Casa do seculo XII, em Chartres]

No seculo XI os castellos compunham-se de duas partes: d'um pateo
inferior e d'um segundo recinto, dentro do qual havia a torre ou o
torreão, como fôra edificado o castello de Leiria.

A extensão do pateo inferior, ou primeiro recinto, ficava proporcionado
á importancia da praça fortificada.

Muitos castellos do seculo XI não tinham senão trincheiras, defendidas
por estacadas e fosso mais ou menos profundo.

N'uma das extremidades do pateo, ás vezes até o centro, faziam uma
construcção muito elevada e circular, ora artificial, ora aproveitando a
altura natural, e sobre a qual estava firmado o torreão.

[Figura 155]

A gravura fará comprehender melhor a disposiçao d'um d'estes castellos,
em mouchão, com estacaria. A torre quadrada, ou torreão firmava-se n'um
mouchão B: o fosso _c c_ formava um circulo na base da eminencia e a
separava do pateo C, ao centro do qual estava collocada. N'este pateo
encontravam-se as construcções E E, que serviam de deposito de guerra, e
cavallariças, ou habitações para o pessoal ao serviço do nobre
proprietario do castello. As estacarias enterradas e muito unidas F F,
formavam um cerrado solido defendido pelo fosso exterior G.

Pode comparar-se este torreão, e na eminencia que lhe servia de base, á
imitação mais ou menos alterada do _pretorio_ dos romanos.

Os castellos, cuja construcção interior era de pedra, offerecem mais
interesse que os antecedentes, quando conservam ainda alguns lanços de
muralha no meio dos recintos. Os torreões de cantaria tinham quasi todos
typos uniformes. O mais commum apresentava torre quadrada separada das
outras edificações da praça, na qual ninguem entraria senão pela porta
alta da muralha, correspondendo ao nivel do primeiro andar, e para esse
fim era mister servir-se da ponte-levadiça, ou escada movel.

[Figura 156: Plano do castello de Grimbosq]

Algumas vezes o torreão ligava-se ás fortificações que cercavam o
recinto fazendo de certo modo corpo com elle: então servia de torre de
observação, e era mais alta que as outras construcções; não ficava por
isso sem communicação, como podiamos demonstrar na construcção dos
torreões de Leiria, Beja e Thomar.

Todavia, no seculo XII, pelas modificações que se operaram tanto na
architectura militar, como na religiosa, adoptaram para o torreão a
fórma cylindrica ou polygonal, de preferencia á fórma quadrada; d'esta
maneira é o torreão de Gisors. Em Portugal não existe nenhum com esta
configuração.

[Figura 157: Torreões do seculo XII]

Esta parte antiga do castello de Gisors, ainda ao presente muito bem
conservada, avulta no cimo de uma eminencia artificial, a sua muralha
com contrafortes cinge a plata-forma disposta n'essa elevação. Ha uma
torre polygonal mui alta que está em contacto com a muralha do recinto,
fazendo frente para a parte da entrada do pequeno pateo, que talvez
podesse ficar rodeado de aposentos, e no qual se notam ainda as ruinas
de uma capella.

[Figura 158: Muralha e torreão de Gisors, vistos de dois lados]

[Figura 159: Torreão de Houdan]

O torreão de Houdan apresenta quatro torres cylindricas ligadas ao corpo
principal.

[Figura 160: Plano do torreão d'Étampes]

O torreão d'Étampes mostra-nos um typo _quadrilobular_ na maxima
perfeição, isto é, quatro _lobulos_ eguaes com divisões symetricas.

Estas diversas experiencias vieram a dar afinal na construcção da torre
cylindrica que no fim dos seculos XII e XIII preferiram nos paizes do
norte. Continuando comtudo a servirem-se, nos do sul, da fórma quadrada
durante o seculo XIII, e no seguinte, como foi construido o castello de
Leiria em Portugal.

[Figura 161: Ruinas do torreão cylindrico de Néaufle (França)]

Damos em primeiro logar o desenho do torreão cylindrico do estylo roman,
pertencente ao castello de Laval, porque conserva ainda o remate do
parapeito de madeira, como era então uso, ficando saliente na muralha, o
que dava logar á guarnição poder percorrel-a sem perigo, e lançar os
projectis sobre os sitiadores pelos intervallos do vigamento. Mui
raramente poderá encontrar-se hoje uma torre d'este feitio, e talvez
seja o unico exemplo que exista de época tão remota.

[Figura 162: Torreão de Laval, rematado por uma cupula do madeira
fazendo saliencia sobre a torre (As duas janellas são de construcção do
seculo XVI)]

CAPITULO IV

*ERA OGIVAL*

Grande revolução artistica se effectuou no fim do XII seculo, tanto pela
applicação do arco descripto de tres centros, e o abandono da volta
perfeita; como pelo novo systema de construcção e decoração, isto é,
pela introducção do estylo ogival.

Todavia, o estylo ogival não substituiu repentinamente o estylo roman; o
emprego da ogiva só veio a ser commum no decurso do seculo XII, e depois
de ter sido applicado conjunctamente á volta perfeita, que lhe era
preferido. Esta época de transformação chama-se tambem de _transição_;
teve por limite o seculo XIII: então o arco com tres centros foi
geralmente empregado, e o estylo ogival completamente formado.

[Figura 163: Duas ogivas encaixilhadas em um arco]

Ainda edificaram igrejas no estylo roman em certas localidades, quando a
architectura ogival dominava em outras. Comtudo, em algumas provincias
do meio-dia, conservaram o estylo de transição durante o seculo XIII. As
causas que determinaram a creação do estylo ogival são complexas. O arco
de tres centros teve a sua origem em a necessidade de tornar mais
solidas as novas fórmas de construcção.

Já vimos como as abobadas se aperfeiçoaram pelo uso do encruzamento dos
arcos. Encontraram logo em seguida ao emprego do arco descripto por dois
centros, novo meio de diminuir o esforço das abobadas, e fazer convergir
todo o peso d'ellas sobre os pontos em que havia os contrafortes. D'esta
innovação derivou um sem numero de outras innovações, que produziram o
estylo ogival tal como se observa nas construcções do XIII seculo.

*ARCHITECTURA RELIGIOSA*

*Forma das igrejas*

Fizeram-se algumas modificações no plano das igrejas edificadas no XIII
seculo; taes como o _côro_, _mais comprido_ que fôra antes; as naves
lateraes, que se prolongavam em roda do santuario (capella-mór), ficaram
depois aformoseadas com outras capellas, excepto quando as igrejas
terminavam na curva da abside; e n'esse caso as naves limitavam-se aos
dois lados do santuario.

Em algumas das cathedraes de maior grandeza, as naves lateraes corriam
em fórma de galeria, em logar de uma em roda do côro, como teve a Sé de
Lisboa. Muitas vezes davam á capella central atrás do côro, maior
extensão que ás outras que circundavam a nave, e a qual era consagrada a
Nossa Senhora; todavia foi no seculo XIV que mais se generalisou esta
disposição.

Não se collocavam ainda no seculo XIII capellas nas naves lateraes, e se
algumas cathedraes d'essa época apparecem com esta disposição, foram
construidas nos seculos seguintes (XIV e XV).

[Figura 164: Plano do côro da cathedral de Reims]

As pequenas igrejas do seculo XIII apresentavam sempre um côro de fórma
recta no fundo da nave.

[Figura 165]

Em algumas igrejas adoptaram na edificação, raras vezes, a fórma
circular.

Quando faziam radiar as capellas em roda da abside, não as collocavam
então em as naves lateraes; pois as que existem d'este modo nas igrejas
do seculo XIII, provieram d'uma addicção mui facil de se reconhecer.

Em muitas partes do sul da França, nas igrejas de transição e do seculo
XIII, e até nas maiores não apresentam naves lateraes, mostrando,
emquanto ao plano, uma traça particular, da qual trataremos mais
adiante. Este plano com uma só nave provém do estylo bysantino; pois a
maior parte d'essas igrejas _com cupula_ não tinham naves lateraes e
sómente a principal.

[Figura 166: Arcos da cathedral de Bayeux]

*Apparelhos*

Desapparecendo as construcções com as pedras dispostas em escamas, e com
o pequeno apparelho assim chamado, as pedras foram escolhidas com
maiores dimensões e fórmas mais regulares.

*Contrafortes*

Os _contrafortes_ apparecem com maior sacada. Um rasgo ousado do novo
estylo foi collocar _arcos-bolantes_, fig. 166 (A), sobre os
contrafortes. Estes coroavam-se de _agulhas_ (C), e como os arcos iam
neutralisar a esforço das abobadas no cimo das paredes; tambem se
serviam d'elles para aqueductos dando o escoante ás aguas das chuvas,
provenientes do telhado principal da igreja. As aguas eram encaminhadas
por um canal cavado no extradoz do arco-bolante, depois lançadas fóra
por canos salientes (B), que se chamam _gargulhas_.

*Ornamentos*

Já se não faziam folhas de fórma carnuda, adornadas de perolas e galões,
nem ornamentos com feitios geometricos; como eram os arcos dentados nas
ameias, os zig-zags, os rhombos. Principiaram então a imitar, no seculo
XIII, os vegetaes indigenas, como mostram os seguintes especimens.

[Figura 167: Florões]

[Figura 168: Ornamentação vegetal do portal da igreja de Nossa Senhora
de Trier]

[Figura 169: Grinalda de rosas]

[Figura 170: Ramos de rosas sobre um capitel]

[Figura 171: Folhas de hera]

*Columnas*

As columnas mui delgadas e _enfeixadas_ formam um dos caracteres mais
distinctos da architectura do seculo XIII. Esses fustes, esculpidos
inteiriços na mesma pedra, apresentavam, não obstante, muitas vezes,
faixas ou engrossamentos que os dividiam por partes eguaes. Em muitas
igrejas, a primeira ordem era composta de grossas columnas cylindricas.
As columnas enfeixadas occupavam os corpos superiores.

[Figura 172: Grupo de columnas do seculo XIII]

*Janellas*

As janellas eram _estreitas_ e _esguias_: o seu extremo similhava ponta
de lança; os inglezes deram-lhes o nome de _lancetas_;[47] viam-se
muitas com bastante altura, e outras de acanhadas porporções, nos
monumentos da mesma época.

No meado seculo XIII já as janellas se alargaram e se subdividiram em
muitas aberturas; o cimo da ogiva da empena pôde então ser ornado com um
espelho ou _rosaceo_, R.

As janellas circulares tambem com espelho, no seculo XIII, tiveram
maiores dimensões, que no seculo precedente, e foram muito mais
frequentemente empregadas, até nas igrejas ruraes.

[Figura 173: Janellas com feitio de lancetas]

[Figura 174: Janellas compostas de duas aberturas, tendo no cimo um
espelho]

No interior dos edificios que apresentam tres andares sobrepostos, a
parte média é constantemente occupada pelas tribunas, formando um andar
com a mesma largura que a arcaria inferior das naves lateraes, ou
formando simples galeria. Estas galerias compunham-se unicamente de uma
continuação de arcadas sustentadas por columnasinhas; os antiquarios
inglezes chamam-lhes _triforium_; e designam, pelo contrario, com a
denominação de _clerestory_, a correnteza das janellas que está superior
ao _triforium_, e que effectivamente dão luz á nave principal; gravura
da pag. 175 [fig. 176].

[Figura 175]

*Portas*

As portas das egrejas, com as suas aberturas curvas, são ornadas de
molduras com o feitio de tóros, e ás vezes tem representados diversos
personagens em esculptura; nos lados ordinariamente vêem-se
columnasinhas e estatuetas.

[Figura 176]

No tympano representavam o dia de Juizo; ou Christo, sem que o rodeassem
os symbolos dos Evangelistas, segundo o costume do seculo XII; está o
Christo com as mãos levantadas, tendo aos lados anjos, além de Nossa
Senhora e S. João ajoelhados, como se lhe implorassem clemencia. Os
anjos seguram a cruz, a corôa de espinhos, os cravos e a lança,
instrumentos da Paixão.

[Figura 177: Representação do Juizo Final sobre um tympano do seculo
XIII]

A resurreição dos mortos e a separação dos bons e dos maus, apparece
representada por baixo do Tribunal Celeste.

Nas igrejas dedicadas a Nossa Senhora, a imagem do Christo é reconhecida
pela aureola sobre a cruz, e algumas vezes a corôa na cabeça da Mãe de
Deus, como na igreja de Nossa Senhora de Trèves.

Em alguns portaes estão passos da vida de Jesus Christo, de Nossa
Senhora, sua morte, e enterro pelos Apostolos, e a sua Assumpção;
differentes assumptos do Antigo Testamento, etc. Algumas vezes nos
tympanos representavam Jesus Christo e sua Santissima Mãe, sentados em
duas cadeiras quasi iguaes, o que nunca se vê quando o Salvador preside
ao dia de Juizo.

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