Categoria: Portugues

  • A Queda d’um Anjo Romance

    A Queda d’um Anjo Romance

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    A QUEDA D'UM ANJO

    ROMANCE

    POR

    CAMILLO CASTELLO BRANCO

    LISBOA

    LIVRARIA DE CAMPOS JUNIOR–EDITOR

    77–Rua Augusta–81

    1866

    Imprensa de J. G. de Sousa Neves–Rua do Caldeira, 17

    *DEDICATORIA*

    ILL.^{MO} E EX.^{MO} SR. ANTONIO RODRIGUES SAMPAIO

    Meu amigo.

    Volto a offerecer-lhe uma das minhas bagatelas. Chamo assim, para me
    fingir modesto, bagatelas a umas coisas que eu reputo no maximo valor.
    Se não fossem ellas, naturalmente eu não chegaria a grangear a estima de
    V. Ex.^a, que m'as tem lido, e alguma vez louvado. Já V. Ex.^a, antes de
    me conhecer, quiz encravar a roda do meu infortunio, roda com que eu
    estou sempre brincando como as creanças com os seus arcos. Que tinha eu
    feito para commover a bemquerença do meu prestante amigo? Tinha feito
    uns livros futilissimos, á imitação d'este que lhe offereço.

    Não é esta boa opportunidade de eu vir com a minha oblação de pobre a V.
    Ex.^a Lembra-me a sentença do nosso Diogo de Teive:

    _Donat cum egenus diviti
    Retia videtur tendere_.

    Os praguentos hão de querer ver aquellas _rêdes_, por que não sabem que
    V. Ex.^a já me constituiu, ha muito, no dever de eterna e profunda
    gratidão.

    Lessa da Palmeira 27 de setembro de 1865.

    CAMILLO CASTELLO BRANCO.

    I

    *O heroe do conto*

    Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de
    Freimas, tem hoje quarenta e nove annos, por ter nascido em 1815, na
    aldeia de Caçarelhos, termo de Miranda.

    Seu pae, tambem Calisto, era cavalleiro fidalgo com filhamento, e decimo
    sexto varão dos Barbudas da Agra. Sua mãe, D. Basilissa Escolastica,
    procedia dos Silos, altas dignidades da egreja, commendatarios, sangue
    limpo, já bom sangue no tempo do senhor rei D. Affonso I, fundador de
    Miranda.

    Fez seus estudos de latinidade no seminario bracharense o filho unico do
    morgado da Agra de Freimas, destinando-se a doutoramento _in utroque
    jure_. Porém, como quer que o pae lhe fallecesse, e a mãe contrariasse a
    projectada formatura, em razão de ficar sosinha no solar de Caçarelhos,
    Calisto, como bom filho, renunciou á carreira das lettras, deu-se ao
    governo da casa algum tanto, e muito á leitura da copiosa livraria,
    parte de seus avós paternos, e a maior dos doutores em canones, conegos,
    desembargadores do ecclesiastico, cathedraticos, chantres, arcediagos e
    bispos, parentella illustrissima de sua mãe.

    Casou o morgado, ao tocar pelos vinte annos, com sua segunda prima D.
    Theodora Barbuda de Figueirôa, morgada de Travanca, senhora de raro
    aviso, e muito apontada em amanho de casa, e ignorante mais que o
    necessario para ter juizo.

    Unidos os dois morgadios, ficou sendo a casa de Calisto a maior da
    comarca; e, com o rodar de dez annos, prosperou a olho, tendo grande
    parte n'este incremento a parcimonia a que o morgado circumscreveu seus
    prazeres, e, por sobre isto, o genio cainho e apertado de D. Theodora.

    _Remenda teu panno, chegar-te-ha ao anno_, dizia a morgada de Travanca;
    e, afferrada ao seu adagio predilecto, remendava sempre, e sergia com
    perfeição justamente admirada entre a familia, e fallada como exemplo na
    área de quatro leguas, ou mais.

    Em quanto ella recortava o fundilho ou apanhava a malha rôta da pinga, o
    marido lia até noite velha, e adormecia sobre os in-folios, e acordava a
    pedir contas á memoria das riquezas confiadas.

    Os livros de Calisto Eloy eram chronicões, historias ecclesiasticas,
    biographias de varões preclaros, corographias, legislação antiga,
    foraes, memorias da academia real da historia portugueza, cathalogos de
    reis, numismatica, genealogias, annaes, poemas de cunho velho, etc.

    Respeito a idiomas estranhos, dos vivos conhecia o francez muito pela
    rama; porém, o latim fallava-o como lingua propria, e interpretava
    correntemente o grego.

    Memoria prompta, e cultivada com aturado e indigesto estudo, não podia
    sair-se com menos de um erudito em historia antiga, e repositorio de
    noticias miudas sobre factos e pessoas de Portugal.

    Consultavm-n'o os sabios transmontanos como juiz indeclinavel em
    decifrar cipos e inscripções, em restabelecer épocas e successos
    controvertidos por authores contradictorios.

    Sobre castas e linhagens, coisa que elle tirasse a limpo, não dava péga
    a duvida nenhuma. Ia elle desenterrar geração já sepultada ha setecentos
    annos, e provar que, na era de 1201, D. Fuas Mendo casára com a filha de
    um mesteiral, e D. Dorzia se havia sujado casando mofinamente com um
    pagem da lança de seu irmão D. Payo Ramires.

    Farpeados pela viperina lingua d'elle, os fidalgos provincianos
    retaliavam quanto podiam a prosapia dos Benevides, propalando que
    n'aquella familia se gerára um clerigo grande femieiro, beberrão e
    lambaz, a quem o santo arcebispo D. Frei Bartholomeu dos Martyres, uma
    vez, perguntára que nome havia; e, como quer que o padre respondesse
    _Onofre de Benevides_, o arcebispo accudira dizendo: Melhor vos acertará
    com o nome, segundo a vida que fazeis, quem vos chamará de _Bene bibis_
    e _male vivis_.»[1] O remoque, talvez por ser de santo, era medianamente
    engraçado e pouco para affligir; assim mesmo Calisto Eloy, á conta
    d'esta injuria dos fidalgos comarcãos, tanto lhes esgravatou nas
    gerações, que descobriu radicalmente serem quasi todas de má casta.

    É superfluo dizer-se a qual doutrinação politica pendia o animo do
    morgado da Agra de Freimas. Estava com a decisão das côrtes de Lamego.
    Fizera-se n'ellas, e cuidava ter assistido, em 1145, áquelle congresso
    mythologico, e ter conclamado com Gonçalo Mendes da Maya, o Lidador, e
    com Lourenço Viegas, o Espadeiro: _Nos liberi summus, rex noster liber
    est_.[2] Todavia, se assim fossem todos os doutrinarios politicos, a
    gente apodrecia na mais refestelada paz, e supina ignorancia do
    andamento da humanidade.

    Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda queria que se venerasse o
    passado, a moral antiga como o monumento antigo, as leis de João das
    Regras e Martim d'Ocem, como o mosteiro da Batalha, as ordenações
    manuelinas como o convento dos Jeronymos.

    O mal que d'aqui surdia ao genero humano, a fallar verdade, era nenhum.
    Este bom fidalgo, se lhe tirassem o sestro de esmiuçar desdouros nas
    gerações das familias patriciatas, era inoffensiva creatura. D'este
    senão, a causa foi um chamado _Livro-negro_, que herdára de seu tio avô
    Marcos de Barbuda Tenazes de Lacerda Falcão, genealogico pavoroso, o
    qual gastára sessenta dos oitenta annos vividos, a colligir borrões,
    travessias, mancebias, adulterios, coitos damnados, e incestos de muitas
    familias n'aquellas satanicas costaneiras, denominadas _Livro-negro das
    linhagens de Portugal_.

    Em summa, Calisto era legitimista quieto, calado, e incapaz de impecer a
    roda do progresso, com tanto que elle não lhe entrasse em casa, nem o
    quizesse levar comsigo.

    Prova cabal de sua tolerancia foi elle acceitar em 1840 a presidencia
    municipal de Miranda. Na primeira sessão camararia fallou de feitio e
    geito, que os ouvintes cuidavam estar escutando um alcaide do seculo xv
    levantado do seu jazigo da cathedral. Queria elle que se restaurassem as
    leis do foral dado a Miranda pelo monarcha fundador. Este requerimento
    gelou de espanto os vereadores; d'estes, os que poderam degelar-se,
    riram na cara do seu presidente, e emendaram a galhofa dizendo que a
    humanidade havia já caminhado sete seculos depois que Miranda tivera
    foral.

    –Pois se caminhou, replicou o presidente, não caminhou direita. Os
    homens são sempre os mesmos e quejandos; as leis devem ser sempre as
    mesmas.

    –Mas… retorquiu a opposição illustrada, o regimen municipal expirou
    em 1211, sr. presidente! V. ex.^a não ignora que ha hoje um codigo de
    leis communs de todo o territorio portuguez, e que desde Affonso II se
    estatuiram leis geraes. V. ex.^a de certo leu isto…

    –Li, atalhou Calisto de Barbuda, mas reprovo!

    –Pois seria util e racional que v. ex.^a approvasse.

    –Util a quem? perguntou o presidente.

    –Ao municipio, responderam.

    –Approvem os srs. vereadores, e façam obra por essas leis, que eu
    despeço-me d'isto. Tenho o governo de minha casa, onde sou rei e
    govérno, segundo os foraes da antiga honra portugueza.

    Disse; saiu; e nunca mais voltou á camara.

    II

    *Dois candidatos*

    Desde o qual incidente, o morgado, convicto da podridão dos vereadores
    em particular, e da humanidade em geral, prometteu a onze retratos, que
    tinha de onze avós, pintados indignamente, nunca mais tocar o cancro
    social com suas mãos impollutas.

    N'este proposito, nem ao menos consentiu que o vigario lhe mandasse o
    _Periodico dos Pobres_ do Porto de que era assignante emparceirado com
    mais quatro reitores limitrophes, e o mestre escola e o boticario.

    Um dia, porém, quando elle saia da festividade de S. Sebastião, cujo
    mordomo era, deteve-se no adro, onde o rodearam os mais graudos
    lavradores da sua freguezia e das visinhas. N'outro grupo, fallava-se do
    sermão, e da constancia do santo capitão das guardas do barbaro
    Diocleciano, e da desmoralisação do imperio.

    Estas puchadas reflexões era o boticario que as expendia, coadjuvado
    pelo mestre de primeiras lettras, sujeito que sabia mais historia romana
    do que é permittido a um professor da preciosa e capitalissima sciencia
    de ler, contar e escrever, pelo que o sabio vinha a grangear para a
    humanidade a sciencia, e para elle nove vintens e meio por dia. E comia
    o sabio estes nove vintens e meio quotidianos, e ensinava os rapazes, e
    sobejava-lhe tempo para ler historia! Podéra!… Os governos davam-lhe
    férias grandes ao estomago, em proveito do espirito. Se elle andasse bem
    nutrido e succado de tripa, não aprendia nem ensinava coisa de monta.
    Que a pobresa é o estimulo das maiores façanhas da intelligencia.
    _Paupertas impulit audax_[3]. Isto que o Horacio faminto dizia de si,
    accomodam-no os regedores da coisa publica aos professores de primeiras
    lettras; porém, outros muitos versos do Horacio farto, esses tomam-os
    elles para seu uso.

    Estava, pois, o mestre-escola, de parceria com o boticario, a castigar a
    perversidade dos imperadores romanos, por amor do martyr S. Sebastião,
    que, segunda vez, acabava de ser fréchado no panegyrico. N'este comenos,
    abeirou-se d'elles Calisto Eloy, e para logo se callaram as duas
    capacidades, em referencia ao Salomão da terra.

    –Que dizem vocemecês?–perguntou Calisto benignamente. Continuem…
    Parece que fallavam do santo.

    –É verdade, sr. morgado–accudiu o boticario, ajustando os collarinhos
    percucientes ao lóbulo das orelhas, escarlates do atrito da
    gomma.–Fallavamos na malvadez dos imperadores pagãos.

    –Sim!–disse Calisto, com proeminencia declamatoria,–sim! Horrorosos
    tempos aquelles foram! Mas os tempos actuaes não se differençam tanto
    dos antigos, que possamos, em consciencia e sciencia, encarecer o
    presente e praguejar o passado. Diocleciano era pagão, cego á luz da
    graça: os crimes d'elle hão de ser contrapesados, e descontados, na
    balança divina, com a ignorancia do delinquente. Ai, porém, dos que
    prevaricaram fechando olhos á luz da notoria verdade, afim de se
    fingirem cegos! Ai dos impios, cujas entranhas estão afistuladas de
    herpes! No grande dia, funestissima ha de ser a sentença d'elles, novos
    Caligulas, novos Tiberios, e Dioclecianos novos!

    Relanceou o pharmaceutico uma olhadella esguelhada ao professor, o qual,
    abanando tres vezes e de compasso a cabeça, dava assim a perceber que
    abundava na admiração do seu amigo e consocio erudito em historia
    romana.

    Obrigado ás orelhas do auditorio attento, Calisto, em toada de Ezequiel,
    continuou:

    –Portugal está alagado pela onda da corrupção, que subverteu a Roma
    imperial! Os costumes de nossos maiores são mettidos a riso! As leis
    antigas, que eram o baluarte das antigas virtudes, dizem os sycophantas
    modernos, que já não servem á humanidade, a qual, em consequencia de ter
    mais sete seculos, se emancipou da tutela das leis. (Allusão bervada aos
    vereadores de Miranda, que discreparam do intento restaurador do foral
    dado por D. Affonso. Vinham a ser sycophantas os collegas
    municipalenses.) _Credite, posteri_!–exclamou Calisto Eloy com enfase,
    nobilitando a postura.

    O latim não lh'o entenderam, salvo o mestre-escola, que antes de ser
    sargento de milicias, havia sido donato no convento dominicano de
    Villa-Real.

    E repetiu: _Credite, posteri_!

    N'esta occasião, saiu da egreja a sr.^a D. Theodora Figueirôa, e disse
    ao esposo:

    –Vem d'ahi, Calisto. Vamos jantar, que é uma hora, e já lá vae o padre
    prégador para casa.

    Enguliu o morgado tres phrases de polpa, que lhe inflavam os bocios, e
    foi ao jantar, sacrificando-se á regularidade das suas horas
    inalteraveis de repasto.

    Ficaram o boticario e o professor de primeiras lettras, e mais os
    lavradores, ruminando as palavras do fidalgo, e glosando-as de notas
    illustrativas, ao alcance das capacidades.

    Um dos mais graves e anciãos lavradores, regedor, ensaiador e ponto nos
    entremezes do entrudo exclamou:

    –Aquillo é que dava um deputado ás direitas! Um homem assim, se fosse a
    Lisboa fallar ao rei, as contribuições haviam de acabar!

    –Isso não, perdoará vocemecê, tio José do Cruzeiro,–observou o
    mestre-escola–os impostos é necessario pagal-os. Sem impostos, não
    haveria rei nem professores de instrucção primaria (observem a modestia
    da gradação!) nem tropa, nem anatomia nacional.

    O mestre-escola havia lido, repetidas vezes no _Periodico dos Pobres_,
    as palavras _autonomia nacional_. Falhou-lhe d'esta feita a memoria,
    lapso que não destoou em nenhumas orelhas, exceptuadas as do boticario,
    que resmungou:

    –Anatomia nacional!

    –Que é?!–perguntou ao pharmaceutico um estudante de clerigo.

    –Parece-me que é asneira!–respondeu o outro com certa indecisão.

    Proseguiu, concluindo, o mestre-escola:

    –E, portanto os tributos, tio José do Cruzeiro, são necessarios ao
    estado como a agua aos milhos. Ora, agora, que ha muito quem bebe o suor
    do povo, isso ha; e aquelles, que deviam ser bem pagos, são os que menos
    comem da fazenda nacional. Aqui estou eu, que sou um funccionario
    indispensavel á patria, e receberia cento e noventa réis por dia, se não
    trouxesse rebatidos seis recibos a trinta e seis por cento, de modo que
    venho a receber seis e cinco! Que paiz!… O senhor morgado disse bem:
    estamos chegados aos tempos dos Dioclecianos e Caligulas!

    O auditorio já vacillava em decidir qual dos dois era mais talhado para
    ir fallar ao rei a Lisboa, se Calisto, se o mestre escola.

    III

    *O demonio parlamentar descobre o anjo*

    Fermentou na mente dos principaes lavradores e parochos das freguezias
    do circulo eleitoral a idéa de levar ao parlamento o morgado da Agra de
    Freimas.

    Os deputados eleitos até áquelle anno no circulo de Calisto Eloy, eram
    coisas que os constituintes realmente não tinham enviado ao congresso
    legislativo. Pela maior parte, os representantes dos mirandenses tinham
    sido uns rapazes bem fallantes, areopagitas do café Marrare, gente
    conhecida pela figura desde o botequim até S. Carlos, e affeita a beber
    na Castalia, quando, para encher a veia, não preferia antes beber da
    garrafeira do Matta, ou outro que tal ecónomo dos apollineos dons.

    Em geral, aquella mocidade esperançosa, eleita por Miranda e outros
    sertões lusitanos, não sabia topographicamente em que parte demoravam os
    povos seus comittentes, nem entendia que os aborigenes das serranias
    tivessem mais necessidades que fazerem-se representar, obrigados pelo
    regimen da constituição. Se algum influente eleitoral, prelibando as
    delicias do habito de Christo, obrigára a urna e o senso commum a gemer
    nos apertos do doloroso parto do paralta lisboeta, o tal influente
    considerava-se idóneo para escrever ao deputado incumbindo-lhe trabalhar
    na nomeação d'um vigario chamôrro, ou outra coisa, que foi denominação
    de bando politico, em tempo que a politica não sabia sequer dar-se nomes
    decentes. Pois o deputado não respondia á carta do influente, nem o
    requerente sabia onde procural-o, fóra do Marrare.

    Por muitos factos d'esta natureza conspiraram os influentes do circulo
    de Miranda contra os delegados do governo; e a idéa de eleger o morgado
    foi recebida entusiasticamente por todos aquelles que o ouviram fallar
    no adro da egreja, e por quantos houveram noticias da sua parlenda.

    O partido, que o mestre-escola ganhára de eloquente assalto, cedeu ao
    imperio das rasoaveis conveniencias, e conglobou-se na maioria. A
    verbosidade, porém, do professor não ficou despremiada, sendo nomeado
    secretario da junta de parochia.

    Resistiu Calisto de Barbuda tenazmente ás solicitações dos lavradores,
    que o procuraram com o mestre-escola á frente, facto que muito honra
    este desinteresseiro e reportado funccionario. N'este encontro, o
    professor excedeu o juizo avantajado que elle propriamente fazia de sua
    vocação oratoria. Mostrou as fauces do abysmo escancaradas para tragarem
    Portugal, se os sabios e virtuosos não acudissem a salvar a patria
    moribunda. Calisto Eloy, enternecido até ás lagrimas pela sorte da terra
    de D. João I, voltou-se para a esposa, e disse, como o agricultor
    Cincinnatus:

    –Aceito o jugo! Assás receio, mulher, que os nossos campos sejam mal
    cultivados este anno…

    Estavam proximas as eleições.

    A authoridade, assim que soube da resolução do morgado da Agra, preveniu
    o governo da inutilidade da lucta. Não obstante, o ministro do reino
    redobrou instancias e promessas, no intuito de vingar a candidatura de
    um poeta de Lisboa, mancebo de muitas promessas ao futuro, que tinha
    escripto revistas de espectaculos, e recitava versos d'elle ao piano,
    cuja falta ou demasia de syllabas a bulha dos sonoros martellos
    disfarçava. Redarguiu o administrador do concelho ao governador civil,
    que pedia sua demissão para não soffrer a inevitavel e desairosa
    derrota.

    Quiz assim mesmo o governo alliciar no circulo algum proprietario, que
    contraminasse a influencia do candidato legitimista, fazendo-se eleger.
    Alguns lavradores, menos afferrados á candidatura de Calisto, lembraram
    á authoridade o professor de instrucção primaria, estropeando phrases
    dos discursos d'elle, proferidos na botica. O administrador riu-se, e
    mandou-os bugiar, como parvoinhos que eram.

    Por derradeiro, o governador civil fez saber ao ministerio que os povos
    de Vimioso, Alcanissas e Miranda se haviam levantado com selvagem
    independencia e tintam fugido com a urna para os desfiladeiros das suas
    serras. Pelo conseguinte, não pôde ser proposto o poeta, que beliscado
    na sua vaidade assanhou-se contra o governo, escrevendo umas feras
    objurgatorias, as quaes, se tivessem grammatica á proporção do fel, o
    governo havia de pôr as mãos na cabeça e demittir-se.

    Á excepção de uma lista, o morgado da Agra de Freimas teve-as todas. A
    que não tinha o nome sympathico aos eleitores, votava em Braz Lobato,
    professor de instrucção primaria, secretario da junta de parochia, e
    ex-sargento das milicias de Mirandella. Parece que votára em si o
    mestre-escola. A final, maculou a alvura do nobilissimo desprendimento
    com que perorara em pró da eleição de Calisto! Fragilidade humana!

    Principiou, desde logo, o morgado eleito a refrescar a memoria com as
    suas leituras de historia grega e romana; era isto entroixar sciencia e
    enfreixar flores para o parlamento. Depois, releu a legislação dos bons
    tempos de Portugal, afim de restaurar os costumes desbaratados, fazendo
    remoçar as leis, que haviam sido o tabernaculo da moral humana guardado
    pelo temor de Deus. Tosquenejou muitas noites sobre os bacamartes
    pulvéreos; e, desde que a manhã raiava até horas de almoço, ia á margem
    do Douro, que lhe lambia a ourela da quinta, declamar, como Demosthenes
    nas ribas maritimas, ao stridor de uma açude e das rodas de duas
    azenhas. Os moleiros, que o viam bracejar, e lhe ouviam o vozeamento,
    benziam-se, pensando que o sabio treslêra, ou coisa má lhe entrara no
    corpo. A sr.^a D. Theodora Figueirôa, vendo o marido assim tresnoitado,
    seguia-o ás vezes, de madrugada, espreitava-o de um cabeço sobranceiro
    ao rio, e benzia-se tambem, dizendo: «Dão-me com o homem doido!»

    Chegou o tempo de partir para a capital.

    O deputado mandou adiante por almocreve duas cargas de livros, nenhum
    dos quaes tinha menos de cento e cincoenta annos.

    Seguia-se, na conducta dos machos portadores, uma carga de persunto e
    orelheira, substancia quotidiana da alimentação de Calisto Eloy.

    Depois, outra carga de ancoretas de vinho velho, e na entrecarga uma
    garrafeira com duas duzias de garrafas de vinho, que competia
    antiguidade com a fundação da companhia.

    A guarda-roupa do procurador dos povos era modesta, salvo o chapéo
    armado, calção de tafetá e espadim, com que elle, na qualidade de
    fidalgo cavalleiro, costumava contribuir para a magestade das procissões
    de Miranda, pegando ao pallio.

    A pessoa de Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda foi em liteira,
    e chegou a Lisboa ao decimo quinto dia de jornada, trabalhada de
    perigos, superiores á descripção de que somos capaz.

    De proposito, saltamos por cima dos pormenores da partida, para não
    descrever o quadro lastimoso do apartamento de Calisto e Theodora.

    O apartamento de Theodora e Calisto era titulo para dois capitulos de
    lagrimas.

    IV

    *Asneiras da erudição*

    Por fins de janeiro, chegou Benevides de Barbuda a Lisboa, e alugou casa
    no bairro de Alfama, por lhe terem dito que, n'aquella porção da Lisboa
    antiga, a cada esquina havia um monumento á espera de archeologo
    competente.

    Ao cabo de tres dias, Calisto mudou-se para rua mais limpa, suppondo que
    os lamaçaes de Alfama haviam tragado os monumentos, lamaçaes em que elle
    desastradamente escorregára, e d'onde saíra mal-limpo, e assoviado por
    marujos e collarejas, seus visinhos mais chegados. Mau agouro! A
    primeira chimera de Calisto, seu tanto ou quanto scientifica,
    atascara-se na lama d'aquella parte de Lisboa, que devia de ser a
    _inclita Ulissea_ de Luiz de Camões!

    O deputado, sem embargo de ir habitar o quarto andar de uma casa lavada
    de ares e muito desafogada na rua da Procissão, quiz-lhe parecer que a
    atmosphera da capital não cheirava bem.

    Abriu um dos seus livros velhos, intitulado _Do sitio de Lisboa_ etc.
    por Luiz Mendes de Vasconcellos, e leu:

    «…E assim, de todo o territorio de Lisboa, parece que da terra, fontes
    e rios, respiram suavissimos vapores, amigos da natureza humana; porque
    é coisa certissima que a benignidade dos ares d'este sitio, não só é por
    natureza deleitosa, pelo seu temperamento, mas de grandissimo proveito
    para algumas doenças, etc…»

    Calisto Eloy fechou o livro, e disse de si para comsigo, tomando uma vez
    de rapé:

    –O meu classico não podia mentir. Este mau cheiro é desconcerto da
    minha membrana pituitaria.

    E alcatroou segunda vez, as ventas com uma pitada desinfectante.

    Pareceu-lhe tambem pesada e salôbra a agua.

    Recorreu ao seu classico Luiz Mendes, no artigo _agua_, e leu que o
    chafariz de El-Rei dava uma lympha gostosa e de suave quentura, a qual
    limpava a garganta de toda a roquidão, e afinava as vozes, _e assim_,
    dizia o classico, _não errará quem disser que ella é causa das boas
    vozes que em Lisboa docemente ouvimos cantar; e tambem dos bons carões
    que conservam as mulheres_.

    Em quanto aos bons carões das mulheres, Calisto, que, de um relancear
    honesto de olhos, observára os rostos pallidos e esgrouviados de algumas
    senhoras de Lisboa, não podendo arguir de fallacia o dizer de Luiz
    Mendes, attribuiu á degeneração dos costumes e raças o descarnado e
    amarellido das caras; no tocante á suavidade das vozes, ficou indeciso,
    não querendo desmentir o seiscentista, nem formar conceito por uns
    grunhidos de cantaróla barbara com que os vendilhões pregoavam os
    comestiveis.

    Todavia, como a agua do chafariz de El-Rei aclarava o orgão vocal, e
    Calisto, á força de berrar ao pé da açuda e azenhas, estava um tanto
    rouco, mandou buscar um barril d'aquella salutifera agua, que o Mendes
    de Vasconcellos compára á das fontes camenas. Bebeu á tripa fôrra o
    deputado, e teve uma dôr de barriga precursora de febres quartãs.
    Valeu-se ainda do seu classico, e por conta d'elle mandou buscar á
    Pimenteira outro barril de agua, a qual, diz o citado author, _se busca
    para os doentes de febres_.

    O velho criado e enfermeiro, quando viu o seu amo encharcado e cada vez
    peior, foi de moto proprio em cata do cirurgião, o qual deu o morgado
    rijo e fero em quinze dias com algumas beberagens quinadas.

    Desde então, Calisto Eloy não bebeu senão vinho, e melhorou da garganta
    e do espirito, um tanto quebrantado, recitando, a cada garrafa que
    abria, o proverbio da sagrada escriptura:–_Vinum bonum laetifical cor
    hominis_.[4]

    Não obstante, o descredito do seu classico deveras lhe doeu, mormente
    pelo tom de mofa com que o cirurgião enxovalhou as cãs do honrado e
    lusitanissimo escriptor Luiz Mendes.

    Apenas convalescido, Calisto abria outro livro da mesma edade, escripto
    por identico motivo, para averiguar se o author do _Sitio de Lisboa_
    claudicára como patranheiro em materia de chafarizes.

    O bacamarte consultado era a _Fundação, antiguidades e grandezas da
    muito insigne cidade de Lisboa_, etc., escripto pelo capitão Luiz
    Marinho de Azevedo.

    –Cá está!–exclamou Barbuda em soliloquio–cá está explicada a minha
    dôr de barriga! era destemperança do figado.

    O deputado acabava de ler o seguinte periodo de Luiz Marinho:

    «Encareceu Plinio muito a agua, que vinha a Roma da fonte Marcia, e
    Vitruvio a das fontes Camenas, porque nasciam quentes e eram saborosas
    no gosto, sendo por esta causa muito sadias e proveitosas para conservar
    saude. E posto que (_sic_) Luiz Mendes de Vasconcellos queira que por
    estas propriedades tenha a agua do charariz d'El-Rei as mesmas
    qualidades; a experiencia mostra que, sendo suave no gosto, o não é nos
    effeitos, porque lhe attribuem os medicos a destemperança do figado, que
    muitas pessoas padecem, e de que procedem varias enfermidades.»

    –Fie-se lá a gente!–monologou o deputado.–É preciso cuidado com os
    classicos a respeito da agua de Lisboa.

    E, proseguindo na leitura, encontrou confirmada a maravilha de se
    afinarem as vozes com o uso da agua do chafariz d'El-Rei, por estes
    termos:

    «É causa das boas vozes dos musicos naturaes de Lisboa, ou que n'ella
    moraram, que tanto lustram em sua real capella, e na da corte de
    Madrid[5], conventos e egrejas cathedraes d'este reino e do de Castella:
    excellencia que tambem se acha nas mulheres, cuja feminina voz enleva os
    sentidos, como se experimenta ouvindo cantar as religiosas dos mosteiros
    d'esta cidade, em que mais parece se ouvem córos de anjos que vozes
    humanas.»

    Á primeira vez que saiu, andou Calisto em demanda dos conventos de
    freiras, e das festividades de cada um. Disseram-lhe, em face de um
    repertorio, que a mais proxima festa era, no domingo immediato, em Santa
    Joanna. Foi Calisto á festa para ouvir cantar as freiras. Não lhe
    pareceu cantoria o que ouviu: eram tres narizes roufinhando destoantes.
    Calisto saiu do templo, foi ao palratorio, chamou a madre-porteira, e
    disse-lhe, com a sua candura de bom homem, que recommendasse ás senhoras
    cantoras a agua do chafariz d'El-Rei. A madre ficou passada do
    disparate, e voltou-lhe as costas.

    Como quer que o morgado da Agra de Freimas não fosse homem que estudasse
    as materias perfunctoriamente, quiz esquadrinhar a respeito de aguas
    toda a substancia d'este importante elemento.

    Decepções sobre decepções!

    Quando morára na Alfama, observára elle que, n'aquelle bairro, as
    mulheres eram sardentas, rôxo-terra, e crespas de pelle. Pois o classico
    Marinho saía-lhe com este desmentido aos seus proprios olhos:

    «Tem mais outra propriedade occulta a agua do chafariz (d'El-Rei) que é
    conservar os rostos das mulheres, que com ella se lavam, em uma alvura
    engraçada, e côr natural tão encarnada, que não necessita de unturas,
    nem confecções, com que ellas se envelhecem antes de tempo: _o que se vê
    claramente na vantagem que as de Alfama levam ás dos outros bairros no
    carão, rosto mimoso, e côr que logo se conhece por natural_; e, se
    bastára isto, por desengano ás que as usam postiças, não fôra pequeno o
    fructo, que se tirára de ler este paragrapho, havendo quem lh'o
    recitasse.»

    Calisto Eloy certamente não iria recitar o paragrapho a nenhuma senhora
    pallida e magra, depois da incivil resposta, que lhe deu a porteira de
    Santa Joanna, e mais ainda com a desconfiança em que o puzeram os bons
    authores da sua predilecção.

    Parece, porém, que elle andava aporfiado em afogar o seu recto juizo nas
    aguas de Lisboa. Lêra o deputado que tambem o _chafariz dos cavallos da
    rua Nova_ tinha prodigiosas virtudes em cura de molestias d'olhos.
    Procurou a rua Nova, que o terramoto de 1755 sotterrára; procurou o
    chafariz, que segundo elle, devia de estar na rua dos Capellistas ou
    Algibebes successoras d'aquella rua. Ninguem lhe dava conta do _chafariz
    dos cavallos_; e alguns logistas interrogados suppuzeram que o
    provinciano não podia beber em fonte que não tivesse aquella
    applicação.[6]

    O erudito respondia aos chacoteadores.

    –Pois saibam que se perdeu um mirifico chafariz! Resam os meus livros
    que as saluberrimas aguas d'esta fonte perdida tinham a propriedade
    occulta de engordar as cavalgaduras que bebiam d'ella; e acrescenta
    Marinho d'Azevedo, textualissimas palavras: _e quando ella faz tão
    conhecidos effeitos nos animaes, os fizera nos corpos humanos, se a
    beberam em sua fonte_.

    Um bacharel, que ouvira as lastimas de Calisto, disse a um visinho a
    meia-voz:

    –Este homem parece que tem uma cavalgadura magra no corpo!

    Com estas zombarias é que em Portugal os sabios são premiados… Se
    Calisto fosse um parvo, o governo dava-lhe um subsidio até elle achar o
    chafariz dos cavallos.

    V

    *Estreia parlamentar de Calisto*

    Antes de apresentar-se na sala das sessões, Calisto Eloy de Barbuda leu
    o _Regimento interno da camara dos deputados_, juntamente com um collega
    transmontano, o abbade de Estevães, sujeito de annos, e doutrina
    monarchico-absolutos.

    O morgado de Agra embicou logo na fórma do juramento, e disse que não
    jurava sem aspar as palavras que o obrigavam a ser inviolavelmente fiel
    á carta constitucional. O abbade quiz amaciar-lhe a rigidez de
    espiritos, absolvendo-o do perjurio, que não era serio, porque já de si
    o juramento era irrisorio e mera brincadeira de nenhum peso na balança
    da justiça divina.

    E allegava o clerigo esclarecido que os representantes da nação, com
    quanto jurassem fidelidade á religião-catholica-apostolica-romana, eram
    aliás atheus; jurando fidelidade ao rei, injuriavam-n'o nas gazetas;
    jurando fidelidade á nação, avexavam-n'a de tributos, e alguns a queriam
    fundir na Hespanha. Comedia e comedoria! exclamava o abbade. Se os
    deixarmos a elles jurar e mentir á sua vontade, a monarchia portugueza
    d'aqui a pouco não terá mais realidade no mappamundi que a ilha
    Berataria do Miguel Cervantes, ou as ilhas beatas do poeta Alceu!

    A respeito das ilhas beatas do poeta Alceu, saiu-se Calisto de Barbuda
    com uma despropositada torrente de citações, em que a paciencia do padre
    esteve a pique. Era perigoso dar-lhe azo ás ejecções da sciencia velha,
    que não havia abafar-lhe as valvulas ejaculatorias.

    O sabio, lá na sua terra, nunca tivera auditorio digno; escutava-se a si
    proprio; admirava-se e applaudia-se com perdoavel, senão legitima
    vaidade; faltava-lhe, porém, alguma coisa, a qual coisa era o abbade de
    Estevães.

    Este clerigo, bem que tivesse exercido as funcções desembargatorias na
    relação ecclesiastica de Braga, era menos lettrado que o antiquario de
    Caçarelhos, mas um tanto mais illustrado em critica da historia. Por
    delicadesa, fingia engulir as araras que o morgado lhe ministrava
    guizadas pelo monge de Alcobaça Bernardo de Brito, por Fernão Mendes e
    Miguel Leitão d'Andrade, e centenares de outros escrevedores de polpa,
    que mentiram «mais do que permitte a força humana.»

    Convencido da irresponsabilidade seria do juramento parlamentar, foi
    Calisto Eloy de Silos empossar-se da sua cadeira na representação
    nacional. Porém, proferido o juramento, e antes de sentar-se, não teve
    mão de si, e disse:

    –Sr. presidente!

    O abbade de Estevães ainda ciciou um _cio_, como quem lembrava ao
    collega que o _Regimento_ lhe tolhia o dom da palavra assim abrupta
    n'aquelle acto; mas o presidente, como esperasse alguma extraordinaria
    reflexão, deixou violar o artigo 30.^o do titulo e ouviu-o.

    Continuou Calisto:

    –Sr. presidente! Nos primordios da humanidade, a boa fé dispensava os
    juramentos: hoje em dia, para tudo se faz mister jurar, porque a boa fé
    desappareceu _velut umbra_ da face da terra. Se bem me recordo, os casos
    de juramentos mais antigos lêem-se nas sagradas escripturas. Abrahão
    jurou ao rei de Sodoma e ao rei Abimelech; Elieser a Abrahão; e Jacob a
    Labão…

    O presidente, como o riso andasse já contagioso na sala e galerias,
    observou:

    –O sr. deputado está fóra das prescripções do regimento. Peço licença
    para o convidar a sentar-se do lado que lhe convier.

    –Eu concluo em duas palavras, tornou Calisto, conformando-me com o
    regimento, e mais ainda com o jurisconsulto Struvius, o qual no seu
    _jurisprudencia civilis syntagma_, diz que não deve exigir-se o
    juramento quando póde temer-se o perjurio. Preceito de mui remontada
    moralidade; sr. presidente! Preceito, cujo despreso, é a causa
    efficiente das apostasias que deshonram, dos sacrilegios que condemnam a
    alma, e estampam na testa dos precitos lemma de opprobrio indelevel.
    Disse.

    E foi sentar-se, flauteando cromathicamente uma pitada, á beira do seu
    amigo abbade de Estevães.

    A maior parte dos legisladores estava como indecisa entre rir-se ou
    espantar-se do aprumo com que o transmontano, atando facilmente as
    phrases, atirava á cara dos legisladores um murro indirecto. Tres brados
    lhe haviam victoriado o cabeçalho do discurso: eram expansões de
    deputados legitimistas, que entre si se ficaram victoriando de terem um
    homem bastante audaz, se necessario fosse, para fallar ao imperante como
    João Mendes Cicioso fallara a El-Rei D. Manuel.

    –Fallou á portugueza, sr. morgado; mas extemporaneamente–murmurou-lhe
    o abbade de Estevães.

    –A verdade é de todas as horas, abbade–redarguiu Calisto–mal de nós
    se havemos de esperar que ella caia a talho de fouce!… Deixem-me ir
    assim, que os meus constituintes assim me querem, Catão e Cicero,
    Hortensio e Demosthenes não fallavam pelo regimento. O conselheiro que
    disse a Affonso IV «senão procuremos outro rei» não pediu licença a
    presidente algum, nem viu no regimento se era hora de lh'o dizer. Eu li
    de tento e vagar o regimento, amigo abbade; e a mim me quiz parecer que
    tudo aquillo é um modo, o mais cerimonioso, de fazer callar aquelles
    cujos dizeres desagradam á presidencia, por via de regra, mancommunada
    com o governo.

    –_Prudentia in omnibus_, diz o sabio–retorquiu o abbade.[7]

    O morgado accudiu logo:

    –_Estote prudentes, sicut serpentes et simplices sicut columbae_, disse
    Jesus, o sabio dos sabios.[8]

    VI

    *Virtuosas parvoiçadas*

    A estreia parlamentar de Calisto de Barbuda fez hyperbolico estrondo nos
    salões da aristocracia, legitimista, que abriu suas portas ao
    esperançoso Berryer de Portugal.

    Algum tempo se andou furtando o morgado ás solicitadas apresentações.
    Impediam-n'o o natural acanhamento de provinciano, e o affecto
    entranhado aos seus classicos, que lhe eram o deleite das horas feriadas
    do dia, e dos serões do inverno.

    Como á força, fôra elle uma noite, ao theatro lyrico, em companhia do
    abbade de Estevães, que amava a musica pelo muito amor que tinha á
    guitarra, delicias da sua mocidade, e consoladora da velhice, já saudosa
    do tempo em que o coração lhe gemia nos bordões do instrumento
    apaixonado.

    Calisto inteirou-se do enredo da opera, e assistiu em convulsões ao
    espectaculo, que era a _Lucrecia Borgia_. Saiu da platéa frio de horror
    e protestou, em presença de Deus e do abbade, nunca mais contribuir com
    oito tostões para a exposição das chagas asquerosas da humanidade.
    Rompeu-lhe então do imo peito esta exclamação sentida: _Amici_, noctem
    _perdidi_! Melhor me fôra estar lendo o meu Euripides e Seneca, o
    tragico! Medéa não mata os filhos cantando, como a scelerada Lucrecia!
    As devassidões postas em musica, dão bem a entender que geração esta é!
    Brinca-se com o crime, abafando-se os gemidos da humanidade com o
    stridor das trompas e dos zabumbas. É um tripudio isto, amigo abbade!
    Quem sae do seio da natureza rude, e de repente se acha à lavareda
    d'estes focos das grandes cidades, é que atina com a providencial
    phylosophia d'estas tramoias de theatros!

    Assanhou o abbade de Estevães o azedume do fidalgo, dizendo-lhe que o
    estado subsidiava o theatro de S. Carlos com vinte contos de réis
    annuaes. Calisto fez pé atraz, e exclamou:

    –_Obstupui_!… O abbade zomba!… _O estado_!… o meu collega disse o
    estado!

    –Sim o thesouro… confirmou o clerigo.

    –A res publica? o dinheiro da nação?

    –Certamente: pois de quem hade ser o dinheiro, senão da nação?

    –Pois eu e os meus constituintes estamos pagando para estas cantilenas
    do theatro de Lisboa!

    –Vinte contos de réis.

    Calisto Eloy correu a mão pela fronte humedecida de suor civico, e
    sentou-se nas escadas da egreja de S. Roque, por que ao espanto, colera
    e dôr d'alma seguiram-se-lhes caimbras nas pernas. Minutos depois,
    ergueu-se taciturno, despediu-se do abbade, e foi para casa.

    Os alvores da primeira manhã acharam-no passeando e declamando na
    estreita saleta do seu aposento. Via-se-lhe no rosto a pallidez dos
    Fabricios.

    Ás onze horas entrou na camara. Dir-se-hia que entrava Cicero a delatar
    a conjuração de Catilina. Deu nos olhos dos seus tres correligionarios
    que entre si disseram:

    –Calisto vae fazer alguma interpellação de grande alcance!

    Acabava de sentar-se quando um deputado do Porto se ergueu, e disse:

    –Sr. presidente. Muito a meu pezar, e talvez da camara, volto de novo a
    expender as razões já tres vezes inutilmente expendidas sobre o dever, e
    justiça com que o Porto reclama um subsidio para o seu theatro lyrico.
    Sr. presidente…

    –Peço a palavra! bradou Calisto Eloy, erguendo-se inteiriço e
    fulminante–Peço a palavra!

    O representante do Porto expendeu a quarta edição peorada das suas
    idéas, sobre o dever e justiça, com que o theatro de S. João reclamava
    subsidio, e sentou-se.

    –Tem a palavra o sr. Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda,
    disse o presidente.

    O morgado da Agra escorvou-se de rapé, trombeteou a pitada, e orou
    d'este theor:

    –Sr. presidente. Em Grecia e Roma as festas annuaes eram solemnisadas
    com espectaculos. Os cidadãos timbravam em se dispenderem aporfiadamente
    para o maior realce das representações theatraes. Na Grecia, o archonte
    eponymo, a cargo de quem o estado delegava as despezas das
    representações, esmava o dispendio de cada uma em dois talentos,
    3:250$000 réis, pouco mais ou menos da nossa moeda. Este dispendio
    faziam-no espontaneamente os ricos; e se era o thesouro nacional, que
    adiantava as despezas, a concorrencia convidava pelo preço diminutissimo
    do _theorikon_ ou entrada, que correspondia ao vintem da nossa moeda. E
    de Pericles em diante, sr. presidente, tomou o estado á sua conta o
    pagamento das entradas dos pobres. Entre os romanos, eram os poderosos,
    como Lepido e Pompeu, e, ao diante, os imperadores, que sustentavam do
    seu bolsinho as representações theatraes. Os imperios opulentos, sr.
    presidente, os imperios, que digeriam a substancia do universo, os
    imperios que edificavam theatros para trinta mil espectadores, não
    impunham aos povos a obrigação de se privarem do necessario para
    abrilhantarem Athenas ou Roma, com luxuosas superfluidades. Os serranos
    das provindas do Lacio não eram constrangidos a pagarem as delicias dos
    patricios romanos. Estes, sr. presidente, quando queriam divertir-se em
    espectaculos theatraes, pagavam-os, e regalavam a gente pobre em vez de
    a obrigarem a entrar no erario com o estipendio dos actores. (_Sussurro
    e alguns «apoiados» provocados pelo sussurro_.)

    Sr. presidente–continuou o orador, tomando rapé com a soffreguidão de
    quem teme que o raio inspirativo se arrefente–sr. presidente! Eu tenho
    o desgosto de ter nascido n'um paiz, em que o mestre-escola ganha cento
    e noventa réis por dia, e as cantarinas, segundo me dizem, ganham trinta
    e quarenta moedas por noite. Eu sou de um paiz, sr. presidente, em que
    se pede ao povo o subsidio litterario para pagar com elle as tramoias da
    Lucrecia Borgia. Eu sou de um paiz, pobrissimo, em que a veia da nação
    exangue soffre cada anno a sangria de algumas duzias de contos para
    sustentar comediantes, farcistas, funambulos e dansarinas impudicas! Sr.
    presidente, v. ex.^a sorriu-se, vejo que a camara está sorrindo, e eu
    ouso dizer a v. ex.^a e aos meus collegas, como o poeta mantuano: _sunt
    lacrimae rerum_. Aqui é o ponto de se carpirem por seus filhos aquelles,
    que se cuidam muito avantajados em civilisação a seus avós. Aqui é o
    ponto de nos alembrarmos dos israelitas livres, que sorriam em
    Jerusalem, e choravam depois escravos ás margens do rio estranho. Depois
    será o declamarmos com o epico:

    Em Babylonia, sobre os rios, quando
    De ti, Sião sagrada, nos lembramos,
    Alli com gran saudade nos sentamos
    O bem perdido, miseros, chorando.

    Os instrumentos musicos deixando

    Peço á camara que repare nos tres versos, que completam a quadra e a
    prophecia:

    Os instrumentos musicos deixando
    Nos estranhos salgueiros penduramos,

    _Hic_, sr. presidente:

    Quando aos cantares que já em ti cantamos
    Nos estavam imigos incitando.

    Nos _cantares_, sr. presidente, é que bate o ponto do meu discurso:
    (_Hilaridade: susurro nas galerias: o presidente tange a campainha_).

    O _orador_:–Sr. presidente! que me não queiram persuadir de que estou
    em casa de orates! Que é isto? Que bailar d'ebrios é este em volta de
    Portugal moribundo? Como podem rir-se os enviados do povo, quando um
    enviado do povo exclama: Não tireis á nação o que ella vos não póde dar,
    governos! Não espremais o ubre da vacca faminta, que ordenhareis sangue!
    Não queiraes converter os clamores do povo em cantorias de theatro! Não
    vades pedir ao lavrador quebrado de trabalho os ratinhados cobres das
    suas economias, para regalos da capital, em quanto elle se priva do
    aprezigo de uma sardinha, por que não tem uma pogeia com que compral-a.

    E vinte contos e trinta contos de subsidios que moralidade fomentam, que
    lampadas accendem nos altares da civilisação? Eu peço á camara que leia
    attentamente o discurso theologico do padre Ignacio de Camargo, lente no
    real collegio de Salamanca, ácerca dos theatros. Não menos
    fervorosamente peço a v. ex.^a e ás camaras que leiam as mirificas
    paginas do nosso oratoriano Manuel Bernardes, sobre representações
    theatraes. O que são comedias? Responda por mim o eminente moralista, e
    mais que todos vernaculissimo escriptor: «Os assumptos das comedias pela
    maior parte são impuros cheios de lascivos amores, de galanteios
    profanos, de papeis amorosos, de rondas, passeios, musicas, dadivas,
    visitas, solicitações torpes, finezas loucas, empenhos desatinados,
    chimeras, emprezas impossiveis, que as solicita ordinariamente um
    criado, uma mulher terceira, uma chave, um jardim, uma porta falsa, um
    descuido do pae, ou do irmão, ou do marido da dama, e tudo isto costuma
    parar em uma communicação deshonesta, em um incesto, ou em um adulterio,
    em que ha muitos lances torpes, louvores lisongeiros da formosura,
    expressões affectadas de amor, promessas de constancia, competencias de
    affectos, temores, ciumes, suspeitas, sustos, desesperações, e em summa,
    uma gentilica idolatria, ajustada pontualmente ás infames leis de Venus
    e Cupido, e aos torpes documentos de Ovidio no livro de _Arte amandi_.»

    _Vozes da galeria_: _Muito bem_! _Bravo_! (Espirram as risadas de varios
    sujeitos. Gargalhada compacta).

    _O orador_: Sr. presidente! Eu irei contar aos povos, que me aqui
    mandaram, as gargalhadas com que fui recebido no seio da representação
    nacional, por que ousei dizer que um paiz carregado de dividas não
    instaura divertimentos attentatorios dos bons costumes com o dinheiro da
    nação. Irei dizer aos meus constituintes que se desfaçam das arrecadas e
    cordões de suas mulheres e filhas, para enfeitarem as gargantas
    despeitoradas das Lucrecias Borgias que custam quarenta libras por
    noite!

    Sr. presidente, nossos avós, os coevos d'el-rei D. Manuel e D. João III,
    tiveram theatros. Era no tempo em que as frotas da India rompiam Téjo
    acima carregadas de oiro. O Plauto portuguez deliciava os paços dos
    reis, e os pateos e tablados do povo. Quando se abriu o erario para
    locupletar o alto engenho de Gil Vicente? Quando foi necessario ir mundo
    fóra em cata de gritadores que vendem tão caro o ar dos pulmões vibrado
    no mechanismo da garganta?

    _Uma voz_: Fez-se a civilisação depois.

    O _orador_: E a pobreza tambem. A civilisação que canta e dança, em
    quanto tres partes do paiz choram. A civilisação dos civilisados que
    dizem: _Coronemus nos rosis antequam marcessant_[9]. A civilisação do
    perdulario irrisorio, que traja de luzente lemiste no exterior, e
    aconchêga da pelle uma camisa surrada e fetida. Magnifica civilisação!
    Não sei de selvagens que nol-a possam invejar, e queiram cambiar
    comnosco a sua selvatiqueza!

    Sr. presidente gosem nas boas horas os sátrapas da capital os deleites
    da sua civilisação theatral. Dispendam-se, arruinem-se, doudejem com
    essas ficções e visualidades, que relembram factos de alto escandalo que
    não deviam ser vistos á luz da civilisação, que o meu illustre collega
    preconisa. Se gostam, não serei eu, homem de outros tempos e gostos,
    quem lhes impugne a racionalidade de seus passatempos. O que eu
    requeiro, em nome da justiça e da pobreza do paiz, é que se não sizem os
    povos provinciaes para manutenção dos divertimentos de Lisboa. O que eu
    contesto é o direito de me fazerem pagar a mim e aos meus visinhos as
    notas garganteadas dos ganha-pães, que não tem na sua terra officio
    honesto em que vivam com seriedade e utilidade commum. O que eu
    sobretudo lamento, sr. presidente, é o silencio desapprovador dos meus
    collegas. Sou eu só: serei eu só o vencido. Não importa! _Victis
    honos_![10] As pequenas coisas tratam-n'as os pequenos: _Parvum parva
    decent_. Eu abro mão das glorias promettidas ao nobre collega, que,
    pouco ha, pediu subsidio para o theatro do Porto. Dêem-lh'o. Desenrolem
    a onda aurifera do Pactolo do nosso thesouro até Braga. Quem pede
    subsidio para o theatro bracharense? A equidade reclama-o. O meu circulo
    tambem quer um theatro. Theatro e subsidio para todo o logarejo onde
    morar um contribuinte. Estamos em vida ficticia como paiz independente.
    Somos como o sapateiro, que se veste de principe no entrudo. Pois bem!
    Comedia geral! Seja Portugal um theatro desde Monção ao cabo da Roca!
    Peço uma companhia italiana para a minha terra. Os meus constituintes
    querem provar o sabor das delicias que tem estipendiadas em Lisboa. Se
    eu não posso, sr. presidente, levar-lhes a boa nova de que vão ter
    estradas que os liguem á sua nação, seja-me permittida a gloria de lhes
    levar a Lucrecia Borgia, a incestuosa e envenenadora Lucrecia, que os ha
    de edificar e converter á civilisação. Disse.

    _Algumas vozes por entre frouxos de riso_: Muito bem! Bravissimo!

    Eram as ironias dos sublimes engenhos, que, ás vezes, não sabem como hão
    de havel-as com espiritos selvaticos do desplante montezinho de Calisto
    de Barbuda.

    VII

    *Figura, vestido, e outras coisas do homem*

    Assim que os personagens dos romances começam a ganhar a estima ou
    aversão de quem lê, vem logo ao leitor a vontade de compor a physionomia
    do personagem plasticamente. Se o narrador lhe dá o bosquejo, a
    imaginativa do leitor aperfeiçoa o que sae muito em sombra e confuso no
    informe debuxo do romancista. Porém, se o descuido ou proposito deixa ao
    alvedrio de quem lê imaginar as qualidades corporaes de um sujeito
    importante como Calisto Eloy, bem póde ser que a intuição engenhosa do
    leitor adivinhe mais depressa e ao certo a figura do homem, que se lh'a
    descrevessem com abundancia de relevos e rara habilidade no estampal-os
    na phantasia estranha.

    Não devo ater-me á imaginação do leitor n'este grave caso. Calisto Eloy
    não é a figura que pensam. Estou a adivinhar que o inquadraram já em
    molde grotesco, e lhe deram a edade que costuma authorisar, mórmente no
    congresso dos legisladores, os desconcertos do espirito, exemplificados
    pelo deputado por Miranda. Dei eu azo á falsa apreciação, por não
    antecipar o esboço do personagem. Acudo pelos creditos do personagem.

    Calisto Eloy, n'aquelle tempo, orçava por quarenta e quatro annos. Não
    era desageitado de sua pessoa. Tinha poucas carnes, e compleição, como
    dizem, afidalgada. A sensivel e dessimetrica saliencia do abdomen
    devia-se ao uso destemperado da carne de porco e outros alimentos
    intumecentes. Pés e mãos justificavam a raça que as gerações vieram
    adelgaçando de carnes. Tinha o nariz algum tanto estragado das invasões
    do rapé e torceduras do lenço de algodão vermelho. A dilatação das
    ventas e o escarlate das cartilagens não eram assim mesmo coisa de
    repulsão. Estes narizes, se não se prestam á poesia lyrica, inculcam a
    seriedade de seus donos, o que é melhor. Eram assim os narizes de José
    Liberato Freire de Carvalho e de Silvestre Pinheiro. Quasi todos os
    estadistas de 1820 se condecoravam com a rubidez nazal. Não sei que ha
    n'isto indicativo de estudo, gravidade e meditação; mas ha o quer que
    seja.

    As restantes feições de Calisto Eloy de Silos eram regulares, a não
    querermos encarecer a alta e brunida fronte, que poderia servir de
    rotulo a um talento abalisado, se o inimigo da Lucrecia Borgia não
    fosse, a meu ver, capacidade eminente, viciada pela educação e tradições
    de familia. Excedia a estatura meã, e era direito de pernas. No tronco
    havia tal qual inclinação, que denunciava o arqueamento da espinha por
    effeito da incansavel leitura, e minguado exercicio.

    O que certamente o desairava era o traje. Calisto Eloy vestia de briche
    da Gollegã, e dos alfaiates de Miranda. A gola e portinholas da casaca
    eram serias de mais para estes tempos em que um homem se veste hoje á
    moda, e d'aqui a um mez corre o perigo de sair ridiculamente entrajado.
    Não se sabe a razão por que o morgado da Agra se affeiçoara ás calças
    rematando em polainas abotoadas de madreperola. Vestira assim umas
    pantalonas em 1833, quando se matrimoniou com D. Theodora. Ou por que a
    esposa gostasse do feitio das calças, ou porque a moda se mantivesse,
    mantida pelo fidalgo, na comarca de Miranda, o certo é que desde aquella
    época todas as pantalonas de Calisto foram talhadas pelas primeiras, e a
    abotoadura sempre aproveitada.

    Ora, isto em Lisboa fez uma rasoavel impressão, especialmente no
    espirito observador dos gaiatos. Um d'estes desbragados ousou chamar
    gebo ao legislador; e outro levou a gandaíce ao extremo de planear-lhe
    um assalto ao chapéo.

    Fartas vezes o advertira o abbade de Estevães da necessidade de reformar
    o vestido, e entrajar-se conforme o costume. Calisto respondia que não
    tinha que intender em costumes, que não fossem, em lusitanissima phrase,
    ruins costumes. Em quanto a vestiduras, dizia que o estofo das suas era
    portuguez como elle, e o feitio d'ellas era o que mais se aproximava das
    usanças dos seus maiores, os quaes andavam mais apontados no trajar do
    espirito que nas galanices do corpo. Salvo o abbade, ninguem se atrevia
    a contrarial-o, desde que a um joven deputado, que lhe observou o
    archaismo do trajo perguntou se elle era o alfaiate da camara, ou se as
    modas tinham fiscal subsidiado no parlamento.

    Aconteceu ainda que outro deputado lhe analysasse galhofeiramente as
    botas aguçadas no bico. Sabia Calisto Eloy que este deputado era filho
    de um sujeito de Espozende que começara sua vida fazendo botas. Assim,
    pois, que o chocarreiro subiu da analyse das botas para a das polainas
    da calça, teve mão d'elle, dizendo-lhe: «agora, alto ahi! Em quanto o
    senhor escarneceu o feitio das minhas botas, estava no seu officio e no
    seu direito. Das botas acima, não. É o caso de eu lhe dizer como Apelles
    ao sapateiro, que lhe censurava a pintura: _ne sutor ultra crepidam_; o
    que em linguagem quer dizer: «não analyse o sapateiro acima da chinela.»
    Os circumstantes e a victima fizeram-se da côr do nariz de Calisto.

    Estas passagens, significativas do salgado espirito do provinciano,
    sobre-doiravam a reputação que o trazia nas boas graças da fidalguia
    realista.

    Sabia Calisto, como profundo genealogico, que existia illustrissima
    parentela sua em Lisboa; porém, pesavam graves motivos para que elle não
    quizesse recordar parentesco remoto com tal gente. Era o grão caso que,
    nos tempos do mestre d'Aviz estava na côrte um Martim Annes de Barbuda,
    da casa de Agra de Freimas, o qual conjurára com o Mestre na façanha do
    assassino do conde Andeiro. Até aqui havia muito para que o honrado
    portuguez se desvanecesse de tal parente. Martim Annes, todavia temeroso
    ou arrependido depois do feito, passou-se a Leonor Telles, e com ella e
    sua familia se foi a Hespanha, onde morreu, desprezado e amaldiçoado dos
    portuguezes. Na época de D. Duarte, os descendentes de Martim voltaram
    ao reino, e conseguiram perdão e posse dos seus haveres confiscados para
    a corôa. Eis aqui a razão do odio de Calisto á raça do máo portuguez.

    Estava elle, um dia, folheando a reformação das leis de 1760 por Diogo
    de Pina, no intento de cravejar de erudição um projecto de lei
    sumptuaria, quando lhe annunciaram a visita do conde do Reguengo.
    Calisto estremeceu, e disse de si comsigo: «Vens ver o que eram e o que
    são os legitimos Barbudas de Agra de Freimas… Sê bem vindo!»

    Entrou o conde, e disse com alegre alvoroço:

    –Venho apertar nos braços um parente, que me honra tanto com a
    intelligencia, quanto seus avós me honraram com a lança.

    Calisto permaneceu immovel na cadeira, e, tirando os oculos de prata,
    disse:

    –Falta saber se meus avós se honraram dos avós de v. ex.^a

    –Eu sou o conde do Reguengo—disse o outro, attonito.

    –Já sei. O conde do Reguengo é o decimo sexto varão de Martim Annes de
    Barbuda?

    –Sou eu mesmo.

    Calisto ergueu-se, montou os oculos, foi mui depausa e a passo mesurado
    á estante dos seus livros, e tirou um in-folio. Voltou a sentar-se,
    mandou sentar o conde, abriu o livro e disse:

    –Esta é a chronica dos reis, escripta por Duarte Nunes de Leão, e
    mandada publicar por D. Rodrigo da Cunha, arcebispo de Lisboa. Abro a
    pagina vinte e tres, e peço ao excellentissimo conde do Reguengo que
    leia.

    O conde recebeu entre mãos a chronica, e leu o seguinte desde o
    paragrapho indigitado por Calisto: «As razões que ao Mestre moviam a
    apressar sua ida para fóra de Portugal, era conhecer a condição da
    Rainha, que, além do natural das mulheres, que é serem vingativas, ella
    o era mais que todas; mas, como mulher de grandes espiritos, e astuta
    que era, onde maior odio tinha, alli mostrava mais benevolencia, pelo
    que o Mestre tinha por mui suspeita a mostra de amizade que lhe fazia, e
    se temia mais d'ella, e tanto cria que lhe tinha maior odio, quanto mais
    affeiçoada era ella ao conde João Fernandes, de quem elle a apartou.
    Ajuntava-se a isto ter ella mandado chamar a El-Rei de Castella. Pelo
    que, sendo ella Rainha, e tendo o favor d'El-Rei presente, não confiava
    o Mestre que sua vida estava segura, pois em vida d'El-Rei D. Fernando,
    não sendo aggravada d'elle, o fez prender e o faria matar. Além d'isto,
    (as seguintes palavras estavam sublinhadas na chronica e emendadas com
    um _proh dolor_! da letra de Calisto) muitos dos que se a elle chegaram
    o deixavam e se passavam á Rainha, como fez Vasco Porcalho, e Martim
    Annes de Barbuda, commendadores de sua ordem, e Garcia Peres Craveiro de
    Alcantara, que para elle se viera.»

    O conde entregou a chronica, e disse n'um tom de abborrido e confuso:

    –E então?

    –É v. ex.^a da progenie d'esse Barbuda infamado na pagina eterna de
    Duarte Nunes?

    –Sou–respondeu ufanamente.

    –Pois vá em paz, que eu não procedo d'esses Barbudas. Eu sou o decimo
    sexto varão de Gonçalo Pero de Barbuda, que morreu em Aljubarrota, na
    ala dos namorados. Gonçalo era irmão de Martim: mas, ao entrar na
    batalha, pediu a D. João I que lhe legitimasse um filho natural, para
    que, no caso d'elle perecer, os filhos do irmão trêdo lhe não manchassem
    o solar. Gonçalo, morreu e D. João I cumpriu a vontade do portuguez de
    lei.

    –O que d'ahi infiro–disse sarcasticamente o conde–é que v. ex.^a
    procede de um filho natural.

    –A mãe do filho natural era abbadessa de Vairão, da familia dos
    Alvins–redarguiu triumphantemente Calisto.

    –Coito damnado!–retorquiu o conde.

    –Discutamos esses pontos graves–voltou serenamente o morgado da Agra,
    tomando rapé.–A decima segunda avó de v. ex.^a Jeronyma Talha, era
    judia de Cezimbra, e esteve como covilheira dos sobrinhos de um Heitor
    de Barbuda com quem casou. Sua tresavó enviuvou sem filhos e casou com
    um filho do capellão. D'este matrimonio nasceu seu avô Luiz de Almeida
    de Barbuda, que foi o primeiro conde do Reguengo. Reconciliemo-nos, sr.
    conde, em quanto ao sangue de coito damnado, se v. ex.^a quer emparelhar
    o filho do padre com a abbadessa de Vairão, tia da mulher de Nuno
    Alvares Pereira por Alvins.

    O conde ergueu-se accendido em raiva, e disse:

    –No que não podemos emparelhar, sr. Calisto, é na tolice. Vou-me
    embora, com a vergonha de ter aqui vindo.

    –Não vá, acudiu Calisto Eloy, que eu é que me hei de forrar á vergonha
    de dizer que v. ex.^a veiu cá.

    E, passando a penna de ferro na pagina da chronica, rasgou a linha que
    dizia _Martim Annes de Barbuda_.

    VIII

    *Faz rir o parlamento*

    Andava o animo de Calisto Eloy martellado pelo desejo de pôr cobro ao
    luxo da gente de Lisboa, sendo grande parte n'este intento o haverem-lhe
    os dois pisa-verdes do parlamento mettido a riso a sua casaca de briche.
    Impugnavam-lhe a idéa o abbade de Estevães, e outros correligionarios
    cordatos, mais entrados do espirito do seculo, e convencidos da
    inutilidade de atravessar represas á torrente caudal da indole de cada
    época. O deputado de Miranda respondia que viera de sua terra a
    cauterisar as chagas do corpo social, e não a cobril-as de pachos e
    lenimentos palliativos em respeito á sensibilidade dos doentes. Rebelde
    ás admoestações sisudas de amigos, que lhe receavam alguma queda mortal
    no conceito da camara, Calisto, provocado por um debate sobre importação
    e direitos de objectos de luxo, pediu a palavra, e o mesmo foi alvorotar
    alegremente a camara, desejosa de ouvil-o.

    Concedida a palavra, e feito o silencio da curiosidade na sala,
    ergueu-se o morgado da Agra, e orou d'este feitio:

    –Sr. presidente! Os conselheiros dos antigos reis de Portugal, homens
    de claro juizo e sciencia bastante, cortavam os abusos do luxo com
    pragmaticas, quando os vassallos se desmandavam em trajos, regalos e
    ostentações ruinosas do individuo, e, portanto, da cidade. O senhor rei
    D. Sebastião, que santa memoria haja, promulgou justas e rigorosas leis
    sobre o uso das sedas. E, n'aquelle tempo, sr. presidente, Portugal
    ainda se banqueteava com a baixella d'oiro do Pegu: ainda as paredes das
    salas nobres estavam colgadas de gualdamecins e razes da Persia. Era o
    Portugal, já não robusto nem enthusiasta; mas ainda sopitado das
    embriagadoras delicias dos reinados de D. Manuel e D. João III.

    Nas Ordenações Filippinas, liv. 5.^o t. 82, § 4.^o, e seguintes, foram
    incluidas as principaes leis da reformação da justiça de 27 de julho de
    1582.

    Lá se vê quão salutar era a vara ferrea da lei no castigo dos contumazes
    em proveito da communidade. (_Um deputado boceja contagiosamente: outros
    bocejam; e o presidente de ministros adormece_). Vejamos a pena dos
    infractores: o peão perdia o vestido defezo, e pagava da cadeia quinze
    cruzados; e o nobre pagava da cadeia mais quinze cruzados que o plebeu.
    Note a camara que as reformas liberaes não complanaram tanto a egualdade
    entre poderoso e fraco. Bradam por ahi os ignaros contra os privilegios
    e exempções da fidalguia dos tempos ominosos. Estes democratas, se
    acontece de cairem nas presas da justiça, gritam pelo codigo das
    egualdades, e então experimentam o que vae da bonita redacção da lei á
    execução d'ella. Recolho-me ao assumpto, sr. presidente….

    _Um deputado_: Faz bem.

    _O orador_: Não me lisongea o beneplacito do collega. Recolho-me ao
    assumpto, sr. presidente. Lastimo este luxo que vejo em Lisboa! Por toda
    a parte, oiro, pedrarias, sedas, veludos, pompas, vaidades! Parece que
    toda esta gente voltou hontem da India nas naus que trouxeram as parias
    do Oriente! Essas ruas estrondeiam de carroagens, calechas e berlindas,
    como se cada dia se estivesse commemorando a passagem do cabo
    tormentorio ou o descobrimento da terra de Santa Cruz, atirando ás
    rebalinhas os thesouros que de lá nos vem. Por entre estas soberbas
    carroças…

    _Um deputado_: Carroças são de lixo.

    _O orador_: E bem póde ser que seja lixo o que vae n'ellas… Por entre
    estas soberbas carroças, sr. presidente, vejo eu passar mal arrimados ás
    paredes, e temerosos de serem esmagados, uns homens de aspecto
    melancholico, e mal entrajados. N'estes cuido eu vêr D. João de Castro,
    que empenhou as barbas, e tem duas arvores em Cintra; Duarte Pacheco,
    que vae entrar no hospital; e Luiz de Camões que vem de comer as sopas
    dos frades de S. Domingos. Cada época tem centenares d'estas illustres
    victimas.

    _Um deputado_: Vê coisas magnificas!

    _O orador_: E tambem vejo o dedo do propheta escrevendo na parede o
    lemma d'aquelle devasso festim… (_Pausa. O orador conserva o braço em
    postura sculptural, apontando á parede. O presidente accorda
    estremunhado, com a risada do ministro da fazenda_). O que eu vejo? quer
    o illustre deputado saber o que eu vejo? É a industria agricola de
    Portugal devorada pelas fabricas do estrangeiro; é o braço do artifice
    nacional alugado á escravidão do Brazil, porque a patria não lhe dá
    fabricas; é o funccionario publico prevaricado, corrupto e ladrão,
    porque os ordenados lhe não abastam ao luxo em que se desbarata; é o
    julgador dos vicios e crimes sociaes transigindo com os criminosos
    ricos, para poder correr parelhas com elles em regalias; é a mulher de
    baixa condição prostituida, para poder realçar pelos ornatos sua
    belleza; é a alluvião de homens, inhabeis, que rompe contra os
    reposteiros das secretarias pedindo empregos, e conjurando nas
    revoluções se lh'os não dão. O que eu vejo, sr. presidente, são sete
    abysmos, e á bocca de cada um o rotulo dos sete peccados capitaes que
    assolaram Babylonia, Cartago, Thebas, Roma, Tyro, etc. É o luxo, sr.
    presidente!

    _Um deputado do Porto_:–Peço a palavra.

    _O orador continuando_:

    –De que desconhecida lua choveu ouro sobre estes paraltas enluvados e
    encalamistrados que pejam os theatros, praças, e botequins de Lisboa?
    Foi para estes tempos que um sabio e claro varão d'outro seculo
    escreveu: «Desde o bico do pé até á cabeça anda um d'estes cavalheiros
    bizarros (ou qualquer d'estes bizarros ainda que não sejam cavalheiros)
    armado de vaidade e de estudos de sua compostura, que são captiveiros de
    espirito, corrupções dos costumes, da republica, e despezas da sua
    fazenda, ou talvez da fazenda que não é sua.»

    Aqui é que bate o ponto: _da fazenda que não é sua_. Á custa de quem se
    vestem estes Narcisos e Adonis? Que incognitos veios de ouro exploram?
    Qual é sua arte, se não devo antes perguntar quaes sejam suas manhas ou
    ronhas? Que sabe a policia d'elles?

    E eu já vi, sr. presidente, andarem as senhorias e excellencias, as
    pobres esfarrapadinhas, por meio d'estes peralvilhos, que saem de casa
    do alfayate com o fôro grande e o desaforo maior. Que desbarato e
    corruptela é esta dos tratamentos em Lisboa? Abandalha-se tudo para
    passar a rasoira por sobre um lamaçal plano? Isso é congruente; mas
    então tapem lá o rôto cofre das graças, que a toda hora nos está
    despejando corôas e veneras, cruzes e mais cruzes, cruzes onde a honra
    de Portugal geme cravejada! Fechem lá esses decretos de permanente
    carnaval, que nos trazem sempre acotovellados com mascaras, que eram
    hontem os nossos fornecedores de bacalhau, e hoje nos não conhecem a
    nós, receiosos de que os conheçamos a elles!

    Sr. presidente! v. ex.^a conhece a pragmatica do Sr. D. João V, ácerca
    de tratamentos. Eu tenho de a ler ámanhã a um tendeiro, que me vendeu
    figos de comadre, por que o homem se offendeu de receber um _vossemecê_,
    que eu longanimamente lhe dei. O alvará resa assim: «Que aos viscondes e
    barões, aos officiaes da minha casa, e aos das casas das rainhas, e
    princezas d'estes reinos; aos gentis-homens das camaras dos infantes;
    aos filhos e filhas legitimos dos grandes, dos viscondes e barões…
    como tambem aos moços fidalgos… se dê o tratamento de senhoria.»

    Senhoria aos ministros no estrangeiro; senhoria aos governadores das
    praças; reitor da universidade; senhorias ás dignidades prelaciaes e
    civis; sr. presidente, falta uma senhoria legal para o homem, que me
    vendeu os figos. Creêmos esta senhoria, para alliviarmos de escrupulos
    os que lh'a derem a medo. Legislemos a podridão dos tratamentos
    nobilitarios. Atiremos ao esterquilinio com esta moeda refece. Isto já
    não vale nada, não prova nada, não estrema coisa nenhuma. Latissima
    licença de condecorar-se a gentalha! Se algum mesteiral, uma vez,
    praticar feito nobre, que lhe conquiste justo galardão, havemos de
    honral-o chamando-lhe homem do povo, d'aquella raça de povo, que D.
    Diniz e D. João I amaram cordialmente.

    Desviei-me algum tanto, sr. presidente. Vou chegar-me á questão, e
    concluir, porque a hora me não permitte delongas, nem a camara terá a
    benevolencia de m'as tolerar.

    Invoco a attenção dos representantes do paiz para a mortal peçonha, que
    vae cancerando o machismo vital da nossa independencia. Rédeas ao luxo!
    Tranquem-se as alfandegas ás drogas estrangeiras. Carreguem-se de
    direitos as mercadorias, que incitam o appetite e prevertem as condições
    melhormente morigeradas. Vistamo-nos do que podemos colher de nossas
    possessões, e do estofo, que nossas fabricas podem dar. Sigam-se as leis
    velhas do ultimo rei da dynastia de Aviz. Coimem-se e castiguem-se os
    que venderem tecidos estrangeiros e os que os puzerem em obra.

    _Um deputado_: Como redigirá o illustre deputado similhante absurdo de
    lei?

    _O orador_: Como redigirei? Facilmente. Como D. João II legislou a
    respeito das mulas dos frades. Ora aconteceu que os frades teimaram em
    cavalgar mulas. Que fez então o estomagado rei? Deu sentença de morte
    aos ferradores, que ferrassem as mulas dos frades. E o caso foi que os
    desmontou.

    Conclui, sr. presidente.

    _O presidente_: Fica reservada para amanhã a palavra ao sr. dr. Liborio
    de Meirelles, e está fechada a sessão.

    O dr. Liborio de Meirelles era o deputado portuense, que pedira a
    palavra, durante o discurso de Calisto Eloy.

    –Que sairá d'aquelle arganaz?–perguntou o morgado de Agra ao abbade de
    Estevães.

    –Dizem que é moço de muita sabedoria, e que já escreveu livros.

    Calisto sorriu-se e disse:

    –Estou bem aviado, se elle escreveu livros!

    IX

    *O doutor do Porto*

    O dr. Liborio de Meirelles, sujeito de trinta e dois annos, cara
    honesta, e posturas contemplativas, reunia os predicados que nos outros
    paizes ou passam despercebidos, ou são solemnisados pela irrisão
    publica; mas, em Portugal, taes predicados alçam o homem ao cume da
    escala politica, e dão-lhe escolta de absurdos propicios até onde o
    parvo laureado quer guindar-se.

    Esta pessoa madrugou aos dezoito annos escrevendo poemas satyricos
    contra os titulares portuenses, não porque elle se pejasse de vel-os em
    sua plana, mas porque lhe fugiram d'ella. O progenitor de Liborio era um
    tendeiro, que entrara na estrada franca da fortuna prospera, creando de
    sua cabeça, para uso de gallegos e carretões madrugadores, um mixto
    saboroso e alcalino de licores, que ainda hoje sustentam o credito e
    primasia. Afóra isto, inventara o pae do dr. a aguardente de nabos.

    Liborio foi menos feliz que o pae, no genero a que se dedicou. Os seus
    poemas viveram alguns dias afagados pela calumnia, como a belleza das
    collarejas lisongeada pelo rosto derrancado dos libertinos. Depois, o
    filho do tendeiro, graças á baixesa de sua posição social, antes de
    grangear o odio dos insultados, já tinha caido no desprezo d'elles.

    Impellido pelo couce do pégaso, Liborio já não podia retroceder. Foi
    para Coimbra: fez-se examinar em latim, e foi reprovado. Desde este
    funesto dia de sua vida, Liborio começou a dizer que era sabio, e, por
    vingança dos examinadores, traduziu um poema latino com tanta claresa e
    fidelidade, que o poema original ficou sendo muito mais intelligivel aos
    ignorantes de latim, do que a versão; com que a memoria de Lucrecio fôra
    ultrajada.

    Formou-se e doutorou-se Liborio, sem impedimento de uns _rr_ que, alguma
    vez, lhe acalcanharam o orgulho. Em seguida foi visitar a Europa; e, de
    volta aos lares, achou-se no regaço da estupida fortuna que o beijou, na
    fronte, e lhe disse: «este anhelito de meus beiços côa-te fogo ao
    cerebro! Amo-te, porque careço de ti. Eu sou a Circe dos gregos:
    bestifico tudo que toco, e em ti delego o condão de radiares tua
    bestidade ao cerebro de quem embarrar por ti. Proponho-me transfigurar,
    não já em cochinos, mas em mais nobres alimarias, os regedores da coisa
    publica de Portugal. Tu, dilecto, vae caminho da gloria. Hoje és
    deputado; d'aqui a pouco serás ministro.»

    De feito, Liborio estava deputado, á mesma hora em que o fidalgo da Agra
    de Freimas era fadado a ser um dia verberado no parlamento pelo filho do
    inventor da aguardente de nabos.

    Calisto entrou á sala, e, digamol-o com espanto de sua fleuma, ia
    tranquillo e até contente, sem embargo de lhe haverem dito alguns
    collegas quão funesto era o contendor que a sua má sorte e imprudencia
    lhe deparara.

    O dr. Liborio, dada a palavra, ergueu-se com ademanes não vulgares,
    alisou os bigodes, encravou na orbita esquerda um vidro sem grau, e
    disse:

    –Sr. presidente, discorri cêrca d'anno por estranhas plagas. Fui-me
    mundo fóra com o meu bordão e concha de romeiro do progredimento social.
    Bebi a tragos nas enchentes de mel hybleú que desborda dos mananciaes da
    civilisação. Vi muito, vi tudo, que me abraseavam sedes de aprender,
    fomes de Ugolino que rompe seus ferros, e se defronta com lautos
    estendaes de loirejantes iguarias. Que deliquios de exultação me tomavam
    alma! como eu me sentia a tragar luz e humanidade por aquelles climas
    onde o supremo architecto chove inventos a frouxo e a flux! Vi muito, e
    vi tudo, sr. presidente. Encheu-se-me o peito de anhelos pela sorte da
    patria, e d'amores muito seus d'ella, como de filho que do imo das
    entranhas lhe quer. Volvi-me no rumo do ninho meu; e mal se enrubesceram
    os horisontes d'esta minha e tão nossa terra de fragrancias e idyllios,
    assim me coou as fibras do seio um como filtro de melancholia, que me
    subia aos olhos exsudando lagrimas.

    (_Calisto Eloy, em perigo de rebentar, ri-se. Parte da camara ciciou-lhe
    um sio prolongado. Calisto accommoda-se e desconfia que a maior parte da
    camara é tola_).

    _O orador_: É que eu, sr. presidente, muito a dentro d'alma sentia uns
    rebates de presagio. Locustas de excruciantissimos toxicos, que me
    estavam empeçonhando esperanças, enleios, arrobos e dulcissimas chimeras
    de ainda ver florejarem os agros da patria, estrellarem-se estes céos
    plumbeos e rasgarem-se os horisontes á onda fecundante d'este uberrimo
    torrão. Doeu-me alma, choraram-me olhos, e comprehendi a angustia
    virgiliana do hemestichio: _pulcia linquimus arva_. (_Muitos apoiados_.)

    Pois que, sr. presidente? Cançariam maguas a quem se lhe antolhasse ter
    de ainda ouvir n'esta casa voz de homem, de homem nado do ventre d'este
    seculo, de homem que aqui entrou a verter no gasolifacio do templo do
    eterno Christo da eterna liberdade, a drachma ou o talento, a mialha ou
    o thesouro de sua dedicação, repito, sr. presidente, quem deixára de
    estillar bagas de pranto, ao aportar em chão portuguez com o presagio de
    que, alguma hora, havia de ouvir n'este _sancta-sanctorum_ das luzes,
    blasphemias contra o luxo, que é a arteria, a órta do corpo industrial?
    Quem quizera, por tal preço, dizer ás nações cultas: «eu sou d'aquelle
    céo, nasci n'aquelle jardim de magas, onde Camões poetou glorias para
    invejas do mundo? Sou da terra dos laranjaes onde suspirou Bernardim?
    Sou da raça dos bravos que perpetuavam Aljubarrota, Badajoz, Valverde?
    (_Apoiados prolongados_.) Na minha terra… (quem quererá já dizer!)
    nasceram Gamas, nasceram Cabraes, e Castros, e Abuquerques, Nunes e
    Regras? Quem sr. presidente?

    (_Calisto pede a palavra_.)

    _O orador_: Que é o luxo? Perguntae ao selvatico das florestas invias o
    que é o seu _hamac_, e ao europeu o que é o seu almadraque de plumas,
    tão crato e flacido ás evoluções corporeas. Perguntae ás bellas europeas
    que lhes faz a grinalda de brilhantes, e ás bellas da Florida que prazer
    lhes insinuam os vitreos adornos de variegadas côres. Oh! o luxo! o
    luxo, senhores, é marco miliario de civilisação, a pomba que se volita
    da arca, e se vae espanejando de azas por céos e terras além, recobrada
    dos pavores primeiros, e saltitando de frança em frança. Oh! que
    rejubilos de coração para quem fadado lhe foi de cima o entender e amar,
    que o comprehender é amar, na phrase incisiva e galharda de Victor Hugo!

    Sr. presidente! O coração da França, o encephalo, o grande nervo da
    França é o luxo. E eu estive na França, sr. presidente, fui lá para me
    reverberarem nos cristaes d'alma os lumes d'aquella perla d'Offir! Ai! a
    França! Quando nos entreluzem os zimborios da moderna Babylonia, «_a
    esperança remonta-se-nos em rasgado vôo para tudo mais vasto, mais
    copioso, mais opulento, a espirar vida e bem para o alto, para o largo e
    de muita benção, a branquear-nos a casinha da serra, a florir-nos o
    pomar da veiga, a dar-nos canções e alegrias no artifice_.» [11]

    O luxo, sr. presidente, é o espantalho dos animos sandios e cainhos.

    _O deputado Calisto_: Seja pelo amor de Deus!

    _O orador_: Pois seja, e muito que lhe preste ao collega, que mister se
    lhe faz perdão de Deus pelas blasphemias economicas que ejaculou, sem
    dar de olhos na civilisaçao, matrona prestimosa, que toda se desentranha
    em blandicias e florinhas de viço e olor para opulentos e desremediados.

    _O deputado Calisto_: Isso que diz em vernaculo?

    _O orador_: Que me não falle á mão, se lhe sobranceio o intellecto.
    Affigura-se-me, sr. presidente, que tenho pela frente sombra, e sombra
    de que não ha temermo-n'os. Não sei, á bofé, com quem me esgrimo.
    Propugnar por artes, pôr peito a defender industrias, ruir os cancêlos
    das fabricas, bafejar incentivos á imaginativa do artifice, emfim e
    derradeiramente, encarecer a utilidade do luxo, isto me está assetteando
    o animo temeroso de desfechar injuria ao progresso, á idéa, ao _fiat_, á
    humanidade! Para que me estou aqui afadigando e derramando, sr.
    presidente se só mumias podem sair-me com esgares, de encontro ao
    civilisador principio? (_Muitos apoiados_.)

    Corre-me obrigação de silencio. Já de contricto me recolho, e da
    offensa, á luz me penitencío; que eu me estive a espancar trevas que, em
    que pese a pávidos agoireiros, já não hão de espessar-se em derredor do
    sol esplendorosissimo.

    _E, pois, antevejo que não ha mais dizer, sem entibiar-me a nota de
    repetições, aqui ponho fecho_.[12]

    _O orador foi comprimentado_.

    O _presidente_: Tem a palavra o nobre deputado Calisto Eloy de Silos de
    Benevides de Barbuda.

    –Sr. presidente!–disse Calisto–Eu entendi quasi nada, porque o sr.
    deputado dr. Liborio não fallou portuguez de gente (_riso nas
    galerias_.) As laranjas, espremidas de mais, dão sumo azedo, que corta a
    lingua. O sr. deputado fez do seu idioma laranja azeda. Se a linguagem
    portugueza fosse aquillo que eu acabo de ouvir, devia de estar no
    vocabulario da lingua bunda. Parece me que os obreiros da torre de
    Babel, quando Deus os puniu do atrevimento impio, fallaram d'aquelle
    feitio! (_Ordem_! _ordem_!)

    O _orador_: Ordem, srs. deputados, peço eu para a lingua portugueza!
    Peço-a em nome dos illustres finados Luiz de Sousa, Barros, Couto, e
    quantos, no dia do juizo, se hão de filar á perna do sr. dr. Liborio.

    O _presidente_: Peço ao illustre deputado que se abstenha de usar
    phrases não parlamentares.

    O _orador_: Tomo a liberdade de perguntar a v. ex.^a se as locuções
    repolhudas do illustre collega são parlamentares; e, se o são, peço
    ainda a mercê de se me dizer onde se estudam aquellas farfalhices.
    (Vozes: _Ordem_! _ordem_!)

    O _orador_: Quando aquelle senhor me chamou _sandio_, não foi violada a
    ordem? (_Apoiados_). Ora pois: eu não quero desordens. Vou pacificamente
    responder ao sr. deputado, como souber e podér. Estou a desconfiar que a
    minha linguagem secca e desornada raspará nos ouvidos da camara, que
    ainda agora se deleitou com a rethorica florida do sr. deputado do
    Porto. Sou homem das serras. Creei-me por lá no tracto facil e chão dos
    velhos escriptores: aprendi coisa de nada, ou pouquissimo. A mim,
    todavia, me quer parecer que o fallar gente palavras do uso commum é
    coisa util para nos entendermos todos aqui, e para que o paiz nos
    entenda. Do menospreço d'esta utilidade resulta não poder eu
    aperceber-me de razões para cabalmente responder aos argumentos do
    discreteador mancebo. Percebi, a longes, pouquinhas idéas; porém,
    querendo Deus, hei de, se me ajudar a paciencia com que estudei o idioma
    de Thucydides, decifrar os dizeres de s. ex.^a no «_Diario das
    Camaras_.» (_Riso_).

    O illustre deputado quer que o luxo indique a riqueza das nações. Isto é
    o que eu entendi do seu arrasoamento. Em França viu s. ex.^a mosquitos
    por cordas. Pois, sr. presidente, eu li que, em França, onde o luxo é
    maior, ahi é menor, em proporção, o numero dos individuos ricos (Vozes:
    _apoiado_!) Este caso, se é verdadeiro, corta pela haste as flores todas
    dos jardins oratorios do sr. dr. Liborio. Que mais disse s. ex.^a?
    Faça-me a graça de m'o achanar na linguagem caseira com que o diria á
    sua familia em _pratica como do lar_, consoante phrase a D. Francisco
    Manuel de Mello na _Carta de Guia_.

    O _dr. Liborio de Meirelles_: Não velei as armas do raciocinio para me
    ir á liça da absurdeza. Melhores fadas me fadaram; e não me estou aqui
    sabbatinando como em pleitos de bancos escolares. (Vozes: _Muito bem_.)

    O _orador_: Muito bem o que?… Vae-me parecendo historia isto, sr.
    presidente!… Eu queria-me entender com o sr. deputado, afim de
    tirarmos algum proveito d'este debate; mas s. ex.^a, pelos modos por me
    vêr assim minguado de affeites poeticos, acoima-me de absurdidade, e
    despreza-me!… Valha-me Deus! Se o sr. dr. Liborio me não lançasse da
    sua presença com tamanho desamor, havia de perguntar-lhe por que foram
    Athenas e Roma bem morigeradas quando pobres, e corrompidas quando ricas
    e luxuosas? Havia de perguntar-lhe que artes e sciencias progrediram
    entre os sybaritas e lydios, povos que a mais elevado gráo de luxo
    subiram? Havia da perguntar-lhe por que foi que os persas acaudilhados
    por Ciro cortados de vida aspera e privada do necessario, subjugaram as
    nações opulentas? Havia de perguntar-lhe porque foram os persas, logo
    que se deram ás delicias do luxo, vencidos pelos lacedemonios?

    A suprema verdade, sr. presidente, a verdade que os arrebiques da
    rhetorica não seduzem, é que á medida que os imperios antigos se
    locupletavam, o luxo ia de foz em fóra, e os costumes a destragarem-se
    gradualmente, e o pulso da independencia a quebrantar-se, e os cimentos
    das nações a estremecerem. Depois, era o cair do Egypto, da Persia, da
    Grecia e Roma.

    Até aqui a historia, sr. presidente; d'aqui em diante o sr. dr. Liborio
    de Meirelles, o moço poeta, que foi a França, e achou desmentidos
    Xenophonte e Thucidydes, Livio e Tacito, Plutarcho e Flavio.

    O sr. dr., a meu juizo, é sujeito de grande imaginativa. Bonita coisa é
    idear fabulações em academia de poetas; porém, n'esta casa, onde a nação
    nos manda depurar a verdade dos fallaciosos ornatos com que a mentira se
    arrea, mister é que sejamos sinceros. Já o insigne author dos _Apologos
    dialogaes_ disse que a _imaginação era curral do conselho, onde, por não
    ter portas, todo o animal tinha entrada_. Bom é tambem que os moços
    muito imaginativos senão pavoneem até ao philaucioso sobrecenho de
    passarem alvará de sandeus á gente que raciocina mais porque imagina
    menos. É permittido aos versistas poetarem em prosa; mas as liberdades
    poeticas não ajustam bem nos debates circumspectos da res publica.

    Vou concluir, sr. presidente, votando contra a proposta do illustre
    collega, que propoz a reducção dos direitos aduaneiros das sedas, e
    pedindo ao sr. dr. Liborio, que, se outra vez me der a honra de imbicar
    com este pobre homem lá das montanhas da raia, haja por bem de se
    expressar em linguagem correntia. Não sou homem de salvas e rodeios:
    digo as coisas á moda velha. Quero-me portuguez com os do sujeito, verbo
    e caso no seu competente logar. E, se assim não fôr, ir-me-hei com
    aquellas palavras que ouviu Arsenio: _Fuje, quíesce, et tace_; «foge,
    socega, e não falles.»

    Sentou-se Calisto Eloy. Alguns deputados anciãos do partido liberal
    foram cumprimental-o; e outros, que se pejaram de imitar os velhos,
    encararam no rustico provinciano com cortezia e tal qual veneração.
    Calisto Eloy ganhára consideração na camara e no paiz.

    Os deputados governamentaes acercaram-se d'elle, convidando-o em termos
    delicados a aceitar, no banquete do progresso, o logar que a sua
    intelligencia reclamava. Os deputados opposicionistas conjuravam-no a
    não levantar mão de sobre os projectos depredadores com que a facção
    governamental andava cavando novas voragens ao paiz.

    O morgado da Agra respondia que estava descontente de gregos e troyanos,
    e acrescentava:

    –Não sei, por ora, de qual dos lados da camara se falla peor a lingua
    patria. Tenho ouvido os quinhentistas á la moda, e os galliparlas. Todos
    ressabem á hervilhaca; uns estão gafados de francezias, outros tresandam
    nos seus dizeres o bafio que os bons seiscentistas regeitaram. Carecem
    de cunho nacional estes homens. O máo portuguez principia a sel-o, desde
    que mareia a pureza de sua lingua. Dêem-me portuguezes de lingua, e eu
    me bandearei com elles, como com portuguezes de coração. Com aquelle dr.
    Liborio do Porto nem para o céo. Tenho medo que Deus o não entenda, e
    nos ponha ambos fóra de cambulhada.

    X

    *O coração do homem*

    Entremos no coração de Calisto Eloy.

    Cuidava o leitor que não tinhamos que entender com aquella entranha do
    homem? Estou que a julgaram inviolavel ás suspeitas da historia em acto
    de tanto alcance na biographia d'este personagem!

    Já se disse que orçava pelos quarenta e quatro o morgado. N'aquella
    edade, se ha fibras virginaes no coração, eram as d'elle.

    Casára com sua prima Theodora, menina estimabilissima por virtudes, mas
    mais feia do que pede a razão que seja uma senhora honesta. A noiva
    deixou-se ir pela mão do pae á casa do esposo. Não ia alegre nem triste.
    Tanto se lhe dava casar com o primo Calisto como com o primo Leonardo.
    Logo que o pae lhe consentiu que levasse para Caçarelhos umas tres
    duzias de gallinhas e parrecos, que ella creara, não lhe ficou na casa
    natal coisa para sérias saudades.

    Encontrou marido ao pintar. Coraram ambos ao mesmo tempo, quando o
    bulicio das festas nupciaes se aquietou e a mãe do noivo lhes disse:
    «Meninos, cada môcho a seu soito» phrase amenissima que em pouco e
    depressa exprime a muita poesia de toda aquella família.

    Calisto, ao outro dia da primeira noite de esposo, por volta das sete
    horas da manhã, já estava a ler a _Viagem á terra santa_, por frei
    Pantaleão de Aveiro; e, á mesma hora a noiva andava de pé sobre um catre
    de pau preto rendilhado, com uma bassoira de giesta, a limpar teias de
    aranha do tecto.

    Almoçaram, e foram visitar o pae e o sogro, em cuja casa jantaram.
    Durante a visita, a sr.^a D. Theodora esteve a ensinar uma criada a
    engommar as camisas do pae; e Calisto, como descobrisse n'um armario um
    tratado de alveitaria de 1610, levou-o de um folego, e tirou
    apontamentos, visto que o sogro se tratava por aquelle tratado,
    diminuindo as doses das drogas. Não sei quem lhe dissera a elle que o
    sr. D. João IV, nas doenças graves, se medicava com um veterinario.

    Ora, d'este começo de amores infiram v. ex.^as o restante d'aquella doce
    vida!

    Theodora tomou a cargo os cuidados domesticos de sua sogra, e muitos do
    tracto com caseiros, vendo que o marido, tirante as horas de comer, não
    saia da livraria, onde a mulher, como amavel sombra, o ia visitar, e
    olhando com desdem sobre os infolios, dizia-lhe:

    –Ó homem, ainda não acabaste de ler estes missaes?

    –Isto não são missaes, rapariga. Não estejas a profanar os meus
    classicos.

    A esposa não entendia isto, e pedia-lhe que lhe lêsse pela vigesima vez
    as _Sete partidas de D. Pedro_. E o bom marido lia-lhe pela vigesima vez
    as _Sete partidas_, porque estavam escriptas em portuguez de lei. Vida
    para invejar! paraiso em que Deus se esqueceu de mandar o anjo do
    montante de fogo vedar a entrada!

    Discorreram annos, sem que o morgado tivesse de perguntar á sua
    consciencia a explicação do minimo alvoroto de sangue na presença de
    mulher estranha. Andava por feiras, quando a mulher o mandava comprar
    utensilios agricolas; pernoitava por diversas casas da provincia,
    famosas pela belleza das donas, e contava-lhes casos mirificos de suas
    leituras, se acontecia não achar livro velho, que lhe deliciasse o
    serão.

    Da maior, e talvez unica dôr litteraria da sua vida, fui eu causa.
    Calisto, pernoitando em não sei que solar de damas dadas á leitura
    amena, pediu algum livro, e deram-lhe um romance meu. Consta-me que
    deixou o volume com as margens annotadas de gallicismos e nodoas de toda
    a casta. Imaginem quantas punhaladas eu dei n'aquelle lusitanissimo
    coração!

    Afóra este incidente, as boninas da vida campestre floriam
    immarcessiveis para o homem de bem, raro exemplo de compostura; salvo
    quando lhe beliscavam a estirpe que, então, como já disse, retaliava
    descaridosamente, e revelava a quebra contingente de todo homem
    imperfeito de sua natureza. Isto creou-lhe inimigos; mas detrahidores de
    sua fidelidade marital nenhum tentou infamar-lhe o bom nome. Das
    virtudes conjugaes de Theodora até me treme a penna sómente de escrever
    isto para encarecel-as! Duvide-se da pureza das onze mil virgens, antes
    de maliciar suspeitas d'aquella matrona, em tudo romana, do puro estofo
    das Cornelias, Poncias e Arrias.

    Com esta pureza de vida entrara em Lisboa o morgado da Agra.

    Ahi está um como Daniel á beira da fornalha. Ahi está o homem-anjo!
    Quarenta e quatro annos immaculados! Um coração que, se algumas imagens
    tem gravadas, são as dos frontispicios apparatosos de alguma edição
    princeps, d'algum Elsevir annotado por Grenobio.

    XI

    *Santas ousadias!*

    Natural coisa é que este sujeito, intangivel ás caricias do amor, seja
    severo e intolerante com as fragilidades do coração.

    Aconteceu-lhe frequentar, uma noite por outra, a sala d'um antigo
    desembargador do paço, que era pae de duas galantes senhoras, uma casada
    e outra solteira.

    Soou aos ouvidos de Calisto Eloy, que uma das illustres damas innodoava
    sua gentileza e prosapia, violando os deveres de esposa. Fez-lhe sangrar
    o coração honrado tão funesta nova, e communicou elle o seu espanto e
    dôr ao collega abbade. O abbade desfechou-lhe na cara uma estrallada de
    riso civilisado, e disse-lhe:

    –Ora o morgado tem coisas! V. ex.^a parece que caiu, ha pouco, de algum
    planeta! Olhe que Lisboa não é Miranda, meu amigo. Se o morgado tem de
    espantar-se por cada caso d'estes que chegar ao seu conhecimento, a sua
    vida na capital tem de ser um permanente ponto de admiração!… Deixe
    correr o mundo…

    –Que remedio!–atalhou o morgado–mas o que eu farei é sacudir o pó dos
    meus botins á porta das casas, cuja desordem de costumes me escandalisa.
    Não voltarei a casa do desembargador Sarmento.

    –Faça v. ex.^a o que quizer; porém, consinta que eu reprove similhante
    procedimento, por duas razões; seja a primeira, que o desembargador e a
    familia receberam o sr. morgado com cordeal affecto; segunda razão, é
    que v. ex.^a já não está em edade de perder a sua virtude seduzida por
    máos exemplos. Faça como eu: lamente as miserias dos homens, e viva com
    elles, sem participar-lhes dos defeitos; porque, meu nobre amigo, se a
    gente vae a regeitar as relações das familias, justa ou injustamente
    abocanhadas pela maledicencia, a poucos passos não temos quem nos
    receba.

    –Eu tenho os meus livros, accudiu Calisto.

    –E os seus livros, as suas chronicas, os seus classicos gregos e
    latinos não lhe contam enormes desmoralisações? V. ex.^a, que leu a vida
    romana em Tacito, e Apuleio, e no Festim de Trimalicão de Petronio…

    –De qual Petronio?–interrompeu o morgado. Foram doze os Petronios em
    Roma, e todos escreveram com mais ou menos despejo.

    –Pois melhor. Se v. ex.^a leu doze, eu li um, que era o ecónomo, ou
    arbitro dos prazeres de Nero, e este me bastou para edificação do meu
    espirito. Pois se o meu amigo póde ler sem horror as infamias das
    saturnaes, e os mysterios da deusa Bona, e quejandas protervias dos
    antigos tempos, como póde espantar-se do que ouve dizer da filha do
    desembargador Sarmento, que a final de contas, póde estar innocente do
    crime que lhe assacam?! Não a vê v. ex.^a filha cuidadosa, mãe
    estremecida, e esposa honesta na apparencia? Já a ouviu defender theses
    da moral do adulterio? Que lhe importa a v. ex.^a o que se passa lá na
    vida privada da mulher?

    Calisto deteve-se breves instantes com a resposta, e disse:

    –Acho-lhe razão, sr. abbade, não tanto pelo que disse, como pelo que
    não disse. As pessoas de vida impolluta devem acercar-se d'aquellas que
    prevaricam. Lá vem uma hora em que o conselho é taboa salvadora… Quem
    sabe se eu terei predestinação de desviar aquella senhora do caminho
    máo!?…

    –É verdade–assentiu o abbade;–mas é justo e urbano que v. ex.^a não
    vá interrogal-a sobre coisas do fôro intimo.

    –Não me ensine as leis da cortezia, abbade–replicou algum tanto
    affrontado o fidalgo da Agra.–Eu não me fiz em alcatifas de salas; mas
    aprendi a policia e trato humano nas lições de galãs afamados como D.
    Francisco Manuel. E, demais d'isso, meu caro sr. abbade, não me peça
    Deus conta de minha soberba, se lhe eu digo que o bom sangue como que já
    tem congeniaes e infusas em si as regras da urbanidade cortezã. Não se
    fazem mister directorios de civilidade a sujeitos, que herdam com a
    fidalguia a indole de avoengos palacianos, feitos nas côrtes, e affeitos
    a sentarem-se na ourella dos thronos.

    –Não ponho duvida n'isso;–obtemperou o abbade, e accrescentou com
    malicia e bem rebuçada ironia–alguns fidalgos muito mal-creados que
    tenho topado, em quanto a mim, não lhes faltou a herança de polidez;
    foram elles que propriamente derrancaram sua indole, até se fazerem
    plebe grosseira e ignobil.

    –Acertadamente–disse o morgado.

    –Eu ensinar cortezia a v. ex.^a!–insistiu o deputado bracharense.–A
    minha observação tendia a moderar os impulsos descomedidos da sua justa
    censura aos máos costumes da sr.^a D. Catharina Sarmento. _Noli esse
    multum justum_, diz o Ecclesiastico.[13] Bem fidalgos e policiados eram
    S. Domingos de Gusmão, S. Francisco de Borgia, e Santo Ignacio de
    Loyola, todavia, bem sabe v. ex.^a com que exempção e santa descortezia
    elles invectivavam as corruptelas da mais elevada sociedade, em rosto
    dos proprios delinquentes.

    –Mas eu não sou apostolo–acudiu Calisto.–Conheço que já não vim a
    tempo, nem a missão me condecora.

    Assim mesmo, sem desaire das pessoas, hei de pôr a pontaria aos vicios,
    e, se poder, influirei pensamentos de emenda ao animo dos viciosos.

    N'uma das seguintes noites, foi Calisto ao chá do desembargador
    Sarmento. Achou mais abatido e melancholico o antigo magistrado.
    Estiveram conversando á puridade sobre o desgosto que revia á face do
    hospedeiro ancião. Crê-se que Sarmento lhe dissera que sua filha
    Catharina, depois de haver casado por paixão, com cedo se desaviera da
    vontade do marido, e este da estima d'ella; de modo que raro dia
    deixavam de altercar e renhir por motivos insignificantes. D'isto
    resultava a tristeza constante do velho, acrescentada agora com ter-lhe
    dito alguem que sua filha andava infamada pela voz publica.

    –Ferro penetrante–exclamou o desembargador–que me traspassou este
    corpo já fraco, e pendido á campa.

    Calisto apertou-o nos braços e clamou:

    –Amigo e senhor meu! A desgraça não derrete o aço dos peitos fortes.
    Tenha-se v. ex.^a arrimado ao bordão de sua honra, que não hão de
    adversidades derribal-o. Aqui me ponho de seu lado, com a fortaleza da
    amizade, para, como filho de v. ex.^a e irmão da sr.^a D. Catharina,
    minha senhora, tirar a limpo da sugidade da calumnia, se o é, a virtude
    d'ella, e o contentamento de v. ex.^a. Aqui vem de molde o repetir as
    palavras affectivas do meu dilecto Heitor Pinto, no tractado da
    _Tribulação_: «O que eu queria é que a boceta de vossas angustias
    estivesse depositada em minhas entranhas, e que os meus bens fossem
    vossos, e os vossos males fossem meus.»

    Ouvido isto, o desembargador commoveu-se até ás lagrimas, e disse com
    mui entranhado affecto:

    Quem me dera assim um marido para a minha Adelaide, que n'esta casa
    reinaria o socego da virtude! Agora vejo que lá nos escondrijos dos
    mattos da provincia se refugiaram as reliquias da honra portugueza!
    Ditosa senhora a que avassallou tão honesta alma!

    D'ahi a pouco, o morgado da Agra, buscando azo de estar apartado com
    Catharina a um canto da sala, e praticando sobre livros perigosos,
    rompeu elle n'esta pergunta:

    –A sr.^a D. Catharina já leu Homero?

    –É romance? disse ella.

    –Romance ou fabulado de alta moral lhe havemos de chamar; não já
    romances d'uns que, de oitiva o sei, por ahi impestam a sociedade. Na
    Iliada de Homero achei dois pares de casados; um é Paris, que se
    matrimoniou com Helena; o outro é Ulysses, que se casou com Peneloppe.
    Os primeiros, cubiçosos e voluptuarios, cobriram a Grecia de
    calamidades; os segundos, prudentes e discretos, foram o modelo do
    thalamo ditoso.

    Fez Calisto uma longa pausa, e proseguiu, interpollando os dizeres com
    algumas pitadas, que solemnisavam a gravidade das fallas.

    –Ninguem devera casar sem muito lêr e sem applaudir aquelles preceitos
    do casamento, escriptos pelo eminentissimo Plutarcho.

    –Não conheço, disse a dama… Li _Le mariage_, de Balzac.

    –Não sei quem é: deve ser francez.

    –Pois não leu?

    –Eu não leio francez. Não me chega o meu tempo para tirar aguas sujas
    de poços infectos. Plutarcho é oraculo n'esta materia. Um pensamento lhe
    li que me chegou á medula, e que ainda agora em Lisboa me saiu
    explicado. Diz elle algures. «Não podem as mulheres convencer-se de que
    Pasiphae, bem que esposa d'um rei, se enamorasse apaixonadamente de um
    touro; ao passo que estão vendo, sem espanto, mulheres que menospresam
    maridos benemeritos e honrados, e se dedicam a homens bestificados pela
    libertinagem.» Asseveram-me os pilotos peritos n'estes mares verdes e
    aparcellados da capital, que ha d'isto muito por aqui.

    –É possivel… balbuciou D. Catharina.

    –E porque não ha de ser, se algumas senhoras conheço eu casadas, tornou
    Calisto, que andam com os braços nus fóra das alcovas do seu leito
    nupcial!…

    –E isso que tem?–atalhou a dama–é a moda…

    –A moda, que franqueia as portas aos ruins desejos, ás cogitações
    viciosas, aos afrontamentos, ao pudor. Aquella filha de Pytagoras, a
    quem encareceram o feitio do braço, respondeu: «Bello é; mas não para
    ser visto». Na Andromacha de Euripedes, Hermion exclama:
    «Infelicitei-me, consentindo que de mim se achegassem mulheres
    preversas.» Quantas damas de hoje em dia poderão dizer, e na consciencia
    o estarão dizendo: Consenti, para minha desgraça, que preversos homens
    convisinhassem de mim!…

    –Mas onde quer v. ex.^a chegar com o seu discurso? interrompeu a filha
    do desembargador.

    –Á razão da sr.^a D. Catharina, minha senhora.

    –Como assim?! quem o auctorisa…

    –As lagrimas de seu ex.^{mo} pae.

    –Veja lá, sr. Barbuda, que se não equivocasse com as lagrimas de meu
    pae… A minha reputação e costumes repellem similhantes allusões, se o
    são.

    –Peores do que estas, sr.^a D. Catharina, minha senhora, peores
    referencias do que estas lhe faz a voz do mundo.

    –A mim?

    –Á fé! que sim! Dou-lhe em penhor da verdade a minha honra.

    –Mas–interrogou irada e rubra de despeito a dama–que ousadia a de v.
    ex.^a fallar assim a uma senhora, que apenas conhece!… Olhe que essas
    liberdades de provincia não se usam cá em Lisboa.

    –Não se moleste assim, minha senhora–tornou Calisto.–Respeito tanto
    v. ex.^a quanto estimo seu venerando pae. O atrevimento é grande, maior
    será a magnanimidade de v. ex.^a em perdoar-m'o. Lagrimas de velho e de
    pae dão estranho ousio. Desgraças sobranceiras incutem alentos
    destemidos nas mais fracas almas. No proposito de conjurar a tormenta,
    que se encapella e ameaça de sossobrar a felicidade de uma familia
    illustre, é que eu, sr.^a D. Catharina, me affoitei a ser o advogado
    espontaneo do bem de todos.

    –Agradeço o zelo; mas agradecera-lhe mais a discrição–disse D.
    Catharina; e, retirando-se, fez uma ceremoniosa mesura a Calisto.

    Não voltou mais á sala a dama. O desembargador não desfitava olhos de
    Calisto Eloy, que se assentou meditativo no mais assombrado do recinto.

    Erguera-se do voltarete o abbade de Estevães, e abeirou-se d'elle,
    dizendo:

    –Desconfiei que v. ex.^a estava missionando a dama… Amolleceu-a?

    Calisto ergueu a fronte, enclavinhou os dedos das mãos sobre o peito
    consternado, e murmurou:

    –Agora acabo de entender o meu padre Manuel Bernardes.

    E repetiu em tom cavo:

    «…Converto minha attenção, e temor a ti ó Lisboa, Lisboa, considerando
    o que em ti passa. Medo me fazem tuas corrupções tão graves e tão
    devassas, que já o lançar-t'as em rosto, não seja nos zelosos falta de
    prudencia, senão obra de magua.»

    Depois, suspirou, e cheirou rapé.

    XII

    *O anjo custodio*

    Santa audacia! Bizarra indole de antigo cavalleiro, que abriga no peito
    a generosidade com que os heroes dos Lobeiras, Barros, e Moraes se
    lançavam ás aventurosas lides, no intento de corrigir vicios e
    indireitar as tortuosidades da humana maldade!

    Não desanimou Calisto Eloy, tão desabridamente rebatido por D. Catharina
    Sarmento.

    Averiguou quem fosse o galan d'aquella cega dama, e facilmente lh'o
    nomearam. Era um gentil moço, ouzeiro e vezeiro de similhantes baldas,
    enfatuado d'ellas, e respondendo por si com sabre ou florete, quando
    gente intromettida em vidas alheias lhe fallava á mão.

    O informador do morgado esplanou diffusamente as qualidades do sujeito,
    relatando as victimas, e os acutilados na defeza d'ellas.

    Occorreu á memoria de Calisto aquella apostolica e heroica intrepidez de
    fr. Bartholomeu dos Martyres, quando foi a defrontar-se com um criminoso
    e façanhudo balio, que promettia engulir o arcebispo de Braga, e o
    collegio dos cardeaes com o proprio papa, se necessario fosse! Grande
    coisa é ter lido os bons classicos, se desejamos saber a lingua
    portugueza, e crear alentos para atacar velhacos!

    Ahi vae o esforçado Calisto Eloy de Silos em demanda de D. Bruno de
    Mascarenhas. Um escudeiro annuncia ao fidalgo um ratazana.

    –Quem é um ratazana?–pergunta D. Bruno.

    É um sujeitorio, diz o criado, vestido ratonamente, e não diz o nome,
    porque v. ex.^a o não conhece.

    –Que quer elle?

    –Fallar com v. ex.^a

    Vae perguntar-lhe quem é, d'onde vem, e que quer.

    Interrogou o criado com máo semblante o morgado.

    Calisto escreveu n'uma pagina rasgada da carteira, e perguntou ao criado
    se sabia lêr. Disse que não o interrogado.

    –Pois entrega esse papel a s. ex.^a

    D. Bruno leu, meditou algum espaço, e perguntou:

    –Sabes se em casa do desembargador Sarmento ha algum criado chamado
    Custodio?

    –Não, senhor, não havia até hontem; só se entrou hoje.

    –Esse homem que ahi está dá ares de criado?

    –Não, senhor: é assim um jarreta vestido á antiga, com uma gravata que
    parece um colete.

    –Manda-o entrar para aqui.

    D. Bruno releu a linha escripta a lapis, e disse entre si:

    –Que Custodio é este!?

    N'isto, assomou Calisto Eloy.

    Bruno de Mascarenhas adiantou-se a recebel-o, e disse-lhe maravilhado.

    –Eu já tive a honra de comprimentar v. ex.^a no escriptorio da _Nação_.
    V. ex.^a é o sr. Calisto Eloy de Barbuda.

    –Sou, e agora me recordo que já tive o prazer de o encontrar…

    –Mas v. ex.^a n'este bilhete diz que é Custodio!–tornou Bruno.

    –Custodio, que é sinonymo de anjo-da-guarda, ou anjo-custodio da
    ex.^{ma} sr.^a D. Catharina Sarmento.

    Abriu o moço a bôcca, e disse:

    –Ah… agora é que eu entendi… Mas… queira v. ex.^a sentar-se… Eu
    não sei que allusão possa ser esta… que… a respeito de…

    Calisto sentou-se, estendeu o braço direito com a mão aberta, e atalhou
    o enleio de Bruno, dizendo solemnemente:

    –Vou fallar.

    E, apoz curta pausa, relanceou discretamente os olhos á porta, como quem
    receia ser ouvido.

    –Póde v. ex.^a fallar, que eu fecho a porta, disse o confuso
    Mascarenhas.

    –O sr. Bruno de Mascarenhas–proseguiu o morgado–é solteiro. Cedo ou
    tarde ha de ser casado, por que é varão de preclarissima linhagem, e
    duas forças invenciveis hão de compellil-o a propagar-se: o sentimento
    congenito da especie, e a gloria, que vangloria não é, da prosecução da
    raça.

    (Este exordio abrupto invencilhou os espiritos de D. Bruno, os quaes
    eram pouco entendidos em estylo garrafal.)

    Façamos de conta–proseguiu Calisto–que v. ex.^a é hoje, como será,
    volvidos mezes ou annos, casado com uma dama egual em sangue, de honrada
    fama, acatada do conceito geral, dama emfim, na qual v. ex.^a empregou
    suas complacencias todas. Á boa dita de esposo succede-lhe a
    prosperidade de pae. Vê v. ex.^a em redor de si umas alegres
    creancinhas, que o beijam e o furtam com graciosas blandicias ás graves
    cogitações dos negocios, e aos aborrimentos que salteam as existencias
    mais descuidadas e desprendidas. A mãe dos filhinhos de v. ex.^a é o
    cofre de oiro: as creanças são as joias inestimaveis que v. ex.^a lá
    encontrou e lá encerra.

    A mãe é a flôr, os filhos são o fructo. V. ex.^a arde de amores d'elles
    e d'ella. Por que a sua familia é não sómente a sua alegria domestica,
    senão que lhe é fóra de casa um pregão da honestidade e honra que vae
    n'ella.

    De repente, quando v. ex.^a está meditando nos jubilos da velhice, com
    seus filhos já homens, com sua esposa laureada pelas cans sem macula, de
    repente, digo, ha um amigo em lagrimas, ou um inimigo secretamente
    satisfeito, que, lhe diz: «Tua mulher deshonra-te; essas creanças, que
    tu affagas, e para quem estás multiplicando os teus haveres, podem não
    ser teus filhos, por que tua mulher prevaricou.» Pergunto eu ao ex.^{mo}
    Bruno de Mascarenhas: a sua agonia, n'essa hora de atroz revelação, como
    hão de expressal-a os que a não sentiram ainda?

    –Não sei…–respondeu Bruno–Só, no caso de se darem as circumstancias
    que v. ex.^a diz, é que se póde responder.

    –Todavia, o seu entendimento e coração, já antes da experiencia, podem
    antever qual deva ser a agonia do marido deshonrado pela ignominia de
    sua mulher…

    –Sim…

    –Até aqui a hypothese em v. ex.^a: agora o exemplo em Duarte de
    Malafaya, marido de D. Catharina Sarmento. Duarte era rico, e dos mais
    fidalgos; por excesso de amor casou com D. Catharina, filha de um
    nobilissimo cavalheiro, porém magistrado empobrecido pelos desconcertos
    da politica. Duarte entrou n'aquella casa, restaurou a decencia antiga,
    e encostou ao seio as cans do magistrado octogenario, assegurando-lhe o
    socego e contentamentos dos annos ultimos da vida.

    Decorridos cinco annos, Duarte tem cinco filhos. São anjos que descem a
    povoar o paraiso d'aquella ditosa familia. Brincam á volta de sua mãe, e
    como que lhe estão dando os alegres emboras da felicidade que elle está
    gosando, e lhe augura a elles.

    É n'este ensejo que o inferno se abre aos pés d'esta familia honrada e
    ditosa. Surge das tenebrosas agonias um homem que despedaça ás mãos os
    laços humanos e divinos da santa união do velho, da filha, do genro, e
    dos netos. Ora, o homem que os assaltou no seu eden, foi o sr. D. Bruno
    de Mascarenhas.

    –Eu!…–exclamou o moço com artificial espanto.

    –V. ex.^a. Vejo-o admirado, não sei se da minha affoitesa, se da
    responsabilidade que lhe pesa, sr. D. Bruno!

    –Mas que houve em casa do Sarmento?–perguntou alvoroçado o fidalgo.

    –O que eu antes de hontem vi foi a face do ancião lavada de lagrimas. O
    que eu vi hontem á noite foi Duarte de Malafaya fitar os olhos nas
    creancinhas, e escondel-os para que o não vissem chorar. O que hoje
    verei em casa do desembargador Sarmento, se v. ex.^a o não presagia…
    Não temos tempo para conjecturas: a chaga deve ser cauterisada já, para
    não ser gangrena ámanhã. Quer v. ex.^a ajudar-me a conjurar a nuvem
    negra que vae rasgar-se em torrentes de desgraças?

    D. Bruno reflectiu dois segundos, como se houvesse pejo de responder, no
    primeiro instante:

    –Da melhor vontade. Eu desisto d'estas relações, para evitar desgostos
    serios á sr.^a D. Catharina.

    –Falla-me um honrado portuguez, que tem o appellido dos Mascarenhas?
    perguntou com solemnidade o Barbuda.

    –Juro pela honra de meus avós.

    –Que vae fazer v. ex.^a?–tornou Calisto.

    –Antecipo um passeio que mais tarde tencionava fazer á Europa. Parto no
    paquete de ámanhã para França.

    –Sem dizer, nem fazer saber á sr.^a D. Catharina que esteve aqui um
    amigo do desembargador Sarmento…

    –Nada direi sr. Barbuda.

    –Aperto-lhe e beijo esta mão. Agradeço-lh'o em nome dos cinco filhos de
    Duarte de Malafaya, ou dos cinco anjos que lhe chamam pae.

    –E saíu com os olhos marejados.

    * * * * *

    D. Bruno cumpriu a promessa com tanta pontualidade como o faria um
    sujeito de menos fidalgos brios, se lhe dissessem: «Afasta-te, se não
    queres o encargo de amparar uma familia, cujo esteio estás quebrando.»

    É coisa que pouquissimo custa, em condições analogas, o ser pontual. Ás
    vezes, até se vinga fama de prudente e ajuizado.

    Como quer que fosse Calisto Eloy foi d'alli em direitura á poltrona do
    magistrado, e disse-lhe:

    –Cobre animo, amigo e senhor meu. O inimigo levantou o cerco. A
    maledicencia descaridosa, se não mudar de juizo, esquece-se.

    Seguiu-se a narrativa do acontecido, e as alegrias do ancião
    interpolladas de agradecidas lagrimas.

    XIII

    *Regeneração*

    Ó coração sensivel! ó peccadora Catharina, que vaes agora expiar o teu
    crime nas agonias da saudade! Aquelle Calisto, cuidando que te salvava,
    matou-te!

    Não foi tanto quanto diz a apostrophe; mas, de feito, Catharina, quando
    recebeu de Bruno de Mascarenhas uma carta saturada de sãs doutrinas e
    reflexões, como as faria S. Francisco de Salles a mad. du Chantal,
    entendeu de si para comsigo que devia morrer de despeito e raiva. O
    fugitivo escrevia-lhe pouco antes de embarcar-se. Não referia o dialogo
    com Calisto; dava porém como certa uma tempestade a prumo das cabeças
    d'elles delinquentes. «Irei, dizia elle, morrer longe da mulher que amo,
    para lhe não sacrificar os creditos e os filhos. Se souberes que eu
    morri, recompensa-me esta virtude rara, dizendo em tua consciencia que
    eu te amei, como já ninguem ama sobre a face da terra.»

    Depois, seguiam-se na carta os conselhos ajustados á felicidade da vida.
    Expunha as consequencias funestas das paixões. E terminava dizendo que
    as lagrimas o não deixavam continuar.

    Que dama resistiria, depois d'isto, á morte?

    Encerrou-se a filha do desembargador, no intento de providenciar em
    artigo de morte, e entrouxar para a eternidade.

    N'estas cogitações a surprehendeu a mana Adelaide, mostrando-lhe uma
    carta de um certo Vasco da Cunha, que escrevia desde muito, e
    honestamente a menina solteira, no proposito de casamento. Este Vasco,
    de boa linhagem, conhecia Bruno, e via com desprazer os amores da dama,
    que havia de ser sua cunhada. Eventualmente soubera elle do embarque do
    Mascarenhas. Pessoas que o viram a bordo, referiram-lhe que o sujeito,
    perguntado ácerca dos amores de Catharina Malafaya, respondera
    fatuamente que se ia escapando a um aguaceiro de escandalos, com que
    elle não queria brincar, por que a mulher, enthusiasta e apaixonada mais
    que o necessario, seria capaz de o fazer assumir as funcções de marido
    não canonico.

    Pouco mais ou menos, era d'aquella amavel contextura o periodo que D.
    Adelaide leu a sua irmã lagrimosa.

    D. Catharina levantou-se com fidalgos brios, chamou pelos filhos,
    abraçou-se n'elles, e disse á irmã:

    –Estou bem! Deus me perdoará, rogado por estes innocentes. Meu amado
    marido, como eu te quero hoje! como eu sinto o teu coração a consolar-me
    n'estes remorsos!…

    Ora, eu não tenho a caridade de crêr nos remorsos de D. Catharina; mas
    piamente acredito que a mulher se estava sentindo mais amiga do marido,
    fineza que elle devia agradecer-lhe com as suas mais melifluas caricias.

    E veiu logo a succeder que o esposo, surprehendido pela extremosa
    ternura da senhora, estranhou o caso, e requereu brandamente a
    explicação da improvisa mudança. Catharina, imaginosa como todas as
    pessoas que amam muito, explicou, entre alegre e lagrimante, que a final
    se convencera de que o seu Duarte a não trahia: suspeita de tanta força
    para ella, que podéra empeçonhar, com as serpes do ciume, a felicidade
    de duas almas, ligadas por paixão.

    Duarte ficou lisongeado e satisfeito. Seguiu-se confessar elle tambem as
    suas vagas desconfianças emquanto á lealdade da esposa. Aqui é que foi a
    scena, digna de mais conspicuo narrador. A offendida senhora pregou os
    olhos no firmamento de madeira, espreitou por elle o azul do empyreo,
    com a dupla vista que dá a angustia, e murmurou:

    –Céos! que injustiça!

    Era dôr que lhe encolhia os folipos das lagrimas. Não arranjou a chorar.
    Caíu de golpe na poltrona de mais capacidade e flacidez para quedas
    d'aquella natureza! e, tapando a face com as mãos alvissimas, balbuciou,
    desentallando-se dos suspiros:

    –Oh! que infeliz! que infeliz!

    Duarte inclinou-se com os labios ao colo de Catharina, e disse
    affectuosamente:

    –Perdoemos um ao outro. Estes ciumes reciprocos dizem que nos amavamos
    por egual.

    Não queria a magoada senhora perdoar; porém, como lhe faltasse fôlego de
    despejo para sustentar a scena, envergonhou-se de si mesma, e teve dó do
    marido, a quem ella, e pae, e irmã, deviam a decencia, estado,
    representação e sociabilidade com as primeiras familias de Lisboa.

    Instantes foram estes de consciencia rehabilitada, que poderam muito com
    ella no decurso da vida, e promettem ser-lhe amparo até ao fim.

    É-me pequeno o peito para o prazer que sinto, relatando este caso, que é
    unico dos meus apontamentos, em egualdade de circumstancias. Ainda ha
    gente boa e de muitissima virtude: isto é que é verdade.

    O fautor d'este successo, com que a gente se consola, foi, sem debate,
    Calisto Eloy, aquelle anjo!

    Com que delicias d'alma contemplava elle a restaurada ventura d'aquelles
    casados, e o jubilo do desembargador! E os agradecimentos do ancião, que
    bem lhe faziam ao peito honrado! E os affectos de Catharina, que de todo
    ignorava ter sido elle o agente do seu socego; porém muito lhe queria
    pelo tom grosseiro, mas paternal com que lhe admoestára a culpa!

    Afóra o desembargador, uma pessoa unica sabia que o morgado tinha sido o
    conciliador engenhoso da paz da familia: era Adelaide. Esta menina
    vivera receosa de que o seu Vasco, rapaz timbroso, a não quizesse
    esposar, fazendo-a cumplice dos desvios da irmã. Agora, já mais
    esperançada na realisação do casamento, via com olhos agradecidos o bom
    provinciano, e attendia-o com os disvelos de extremosa amiga. A isto a
    incitava o pae, que frequentes vezes lhe dizia:

    –Se este honrado fidalgo fosse solteiro, e podesses amal-o, filha, que
    prazer o nosso se…

    —Oh! papá…–atalhava quasi sempre a menina–pois eu havia de casar
    com elle?…

    –Por que não? Honra, riqueza, sciencia e nobreza… que mais querias
    tu, filha?–perguntava o pae.

    Adelaide sorria-se, e murmurava de si comsigo.

    –Ainda bem que elle é casado, senão eu tinha que vêr com a jarrêta da
    creatura!…

    No entanto, a reconhecida senhora, no auge da sua gratidão, jogava a
    sueca emparceirada com Calisto de Barbuda, e ensinou-lhe a jogar as
    damas, prenda em que o morgado revelou uma inhabilidade que excede todo
    o encarecimento.

    XIV

    *Tentação! Amor! Poesia!*

    Eis que, a subitas, do coração de Calisto resalta a primeira faisca de
    amor!

    Conheço que este desastre não se devia contar sem grandes prologos. Sei
    que o leitor ficou passado com esta noticia. Grita que a
    inverosimilhança é flagrante. Não póde de boamente consentir que se lhe
    desfigure a sisuda physionomia moral do marido de D. Theodora Figueirôa.
    Quer que se limpe da fronte d'este homem o stigma de um pensamento
    adultero. Honrados desejos!

    Mas eu não posso! Queria e não posso! Tenho aqui á minha beira o demonio
    da verdade, inseparavel do historiador sincero, o demonio da verdade que
    não censentiu ao sr. Alexandre Herculano dizer que Affonso Henriques viu
    coisas extraordinarias no céo do campo de Ourique, e a mim me não deixa
    dizer que Calisto Eloy não adulterou em pensamento! Estes são os ossos
    malditos do officio; esta é a condemnação dos infelizes artifices que
    edificam para a posteridade, e exploram nas cavernas do coração humano
    os cimentos da sua obra.

    Ai! Se Calisto Eloy foi de repente assalteado do dragão do amor, como
    hei de eu inventar preludios e antecedencias que a natureza não usou com
    elle!? Se o homem, espantado, a si mesmo se interrogava, e dizia: «isto
    que é?!» como hei de eu dizer ao leitor o que foi aquillo?!

    O que elle sabia e eu sei é que, estando Calisto de Barbuda a jogar a
    sueca de parceiro com Adelaide, a razão de cruzado novo a partida, a
    menina passou a sua bolsinha de filagrana para a mão do parceiro, e
    disse-lhe:

    –Administre-me o meu thesouro, sr. morgado. Tenho ahi o meu dote.

    –Pois sejam todos muito boas testemunhas da quantia que recebo da
    ex.^{ma} sr.^a D. Adelaide, minha senhora;–disse Calisto, esvasiando a
    bolsinha.

    Com as moedas de prata e oiro, que a bolsa continha, saíu um pequeno
    coração de oiro esmaltado com iniciaes.

    Ah!–acudiu Adelaide pressurosa–isto não!…–E retirou sofregamente o
    coraçãosinho.

    Algum dos circumstantes disse:

    –Então o sr. morgado não serve para administrar corações?!

    –Serve para os dominar com a sua bondade, e enchel-os de affectuosa
    estima–respondeu com adoravel graça a menina.

    Foi n'este instante que o morgado da Agra de Freimas sentiu no lado
    esquerdo do peito, entre a quarta e quinta costella, um calor de
    ventosa, acompanhado de vibrações electricas, e vaporações calidas, que
    lhe passaram á espinha dorsal, e d'aqui ao cerebêlo, e pouco depois, a
    toda a cabeça, purpureando-lhe as maçãs de ambas as faces com o rubor
    mais virginal.

    D'isto não deu tento Adelaide nem a outra gente.

    Duas enfermidades ha ahi, cujos symptomas não descobrem as pessoas
    inexpertas; uma é o amor, a outra é a tenia. Os symptomas do amor, em
    muitos individuos enfermos, confundem-se com os symptomas do idiotismo.
    É mister muito acume de vista e longa pratica para descriminal-os. Passa
    o mesmo com a tenia, lombriga por excellencia. O aspecto morbido das
    victimas d'aquelle parasita, que é para os intestinos baixos o que o
    amor é para os intestinos altos, confunde-se com os symptomas de graves
    achaques, desde o hidrotorax até á espinhela caída.

    E aqui está que Calisto Eloy–ia me esquecendo dizel-o–tambem sentiu a
    queda da espinhela, sensação esquisita de vacuo e despêgo, que a gente
    experimenta, uma pollegada e tres linhas acima do estomago, quando o
    amor ou o susto nos leva de assalto repentinamente.

    Sem embargo da concumitancia de tantas enfermidades, Calisto de Barbuda
    embaralhou as cartas, passou-as á esquerda, e jogou a primeira partida
    com tamanha incuria e desacerto, que Adelaide, no acto do pagamento da
    aposta observou ao parceiro que era preciso administrar com mais zelo o
    dote da sua amiga.

    E ajuntou:

    –V. ex.^a esteve a compor algum bello discurso para a camara…

    O morgado cacarejou um sorriso, e mais nada.

    Proseguiu o jogo. Calisto deu provas de supina bestidade em quatro
    partidas de sueca. Adelaide, dissimulando a má sombra do fastio com que
    estava jogando, aturou até ao fim a partida, com grande desfalque do seu
    peculio.

    Tinha-se feito uma atmosphera nova em redor dos pulmões de Calisto. A
    loquacidade, embrechada de sentenças e latinismos, com que elle
    costumava aligeirar as palestras dos eruditos amigos do desembargador,
    desamparou-o n'aquella noite. Isto causou extranhesa e cuidados ao
    amoravel Sarmento, que presava Calisto como a filho.

    A partida acabou taciturna e triste.

    Fechado em seu gabinete de estudo, o morgado da Agra, sentou-se á banca,
    apanhou entre dois dedos o beiço superior, e esteve assim meditabundo
    largo espaço. Depois, ergueu-se para dar largas ao coração que pulava, e
    andou passeando com desusada agilidade e aprumo de corpo. Parou diante
    da livraria, tirou d'entre os poetas classicos o dilecto Antonio
    Ferreira, sentou-se, abriu á sorte, e leu, declamando os dois quartetos
    do soneto V;

    Dos mais fermosos olhos, mais fermoso
    Rosto, qu'entre nós ha, do mais divino
    Lume, mais branca neve, oiro mais fino,
    Mais doce fala, riso mais gracioso:

    D'um Angelico ar, de um amoroso
    Meneo, de um spirito peregrino
    S'acendeu em mim o fogo, de qu'indino
    Me sinto, e tanto mais assi ditoso.

    Repetiu, fez pausa, suspirou, e declamou ainda o primeiro verso do
    terceto:

    Não cabe em mim tal bem-aventurança!

    N'isto, a imagem de sua prima e esposa D. Theodora Figueirôa, trazida
    alli por decreto do alto, antepoz-se-lhe aos olhos enleados na imagem de
    Adelaide. Calisto estremeceu de puro pejo de sua fraqueza, e lançou mão
    da ultima carta que recebêra de sua saudosa mulher. Resava assim,
    escripta por mão de uma filha do boticario de Caçarelhos, com
    orthographia mais imaginosa que a minha:

    «Meu amado Calisto. Cá soube pelo mestre-escóla que tens botado algumas
    fallas nas côrtes, e que tens muita sabedoria. O sr. abbade já cá veiu
    ler-me um pedaço do teu dito, e oxalá que seja para bem da religião.
    Olha se botas abaixo as decimas, que é o mais necessario. Aqui veiu um
    padre de Miranda para tu o despachares para abbade; e o regedor tambem
    quer que tu lhe arranjes um habito de Christo para elle, e uma pensão
    para a tia Josepha, que é viuva de um sargento de milicias de
    Mirandella. Assim que arranjares isso, manda para cá.

    Saberás que mandei trocar os bois barrosãos á feira dos onze, e comprei
    vaccas de cria. Os sevados não saíram de boa casta, e acho que será bom
    trocal-os na feira dos dezenove. A porca russa teve dez leitões hontem
    de madrugada. E, com isto, olha se isso lá acaba depressa, que eu ando
    por cá triste e acabrunhada de saudades. Na semana que passou andei mal
    das reins, e muito despegada do peito. Hoje vou vêr medir seis carros de
    centeio, que vão para a feira, por isso não te enfado mais. D'esta tua
    mulher muito amiga, _Theodora_.»

    Por mais que recolhesse o espirito vagabundo, Calisto não dava tento
    d'estes dizeres de Theodora, encantadores de simplicidade e boa
    governança de casa. Arrumou a carta, re-abriu o seu Antonio Ferreira, e
    leu no soneto XXXIII:

    Eu vi em vossos olhos novo lume,
    Qu'apartando dos meus a nevoa escura.
    Viram outra escondida fermosura,
    Fóra da sorte e do geral costume…

    Deitou-se por deshoras, e dormitou sobresaltado. Ante-manhã espertou com
    as alvoradas de uns pintassilgos e calhandras, que lhe cantavam
    amorosamente na alma. Eram as alegrias do primeiro amor, aquelles
    momentos de céo, visita dos anjos, que todo coração hospedou na
    infancia, na virilidade, ou já na decadencia na vida. Saíu alegre do
    leito, e leu algumas lyricas de Camões e Filintho Elysio.

    Nunca em sua vida poetára Calisto Eloy de Silos. O amor não lhe havia
    dado o beliscão suavissimo, que por vezes, abre torrentes de metro da
    veia ignorada. Eis que o corisco da inspiração lhe vulcanisa o peito.
    Levanta machinalmente a mão á fronte, como a palpar a excrescencia
    febril que todo o poeta apalpa no conflicto sublimado do estro.
    Senta-se: pega da penna, e o coração distilla por ella este fragmento de
    madrigal, que, a meu vêr, foi o ultimo que o sincero amor suggeriu em
    peito portuguez:

    Senhora de grão primor,
    Meu amor,
    Formosissima deidade,
    Arde meu peito em saudade,
    Quem fui hontem, não sou hoje;
    Minha alegria me foge,
    Se vos olho.
    Já captivo em vós me acôlho,
    Havei de mim piedade;
    Sêde minha divindade;
    Não leveis a mal que eu chore
    Com tanto que vos adore
    Gentil e nobre menina
    Como Camões a Cath'rina
    E como Ovidio a Corinna.

    Posto isto, o morgado da Agra relanceou os olhos com desdem para o
    taboleiro do almoço, e com muita repugnancia, consentiu ao appetite que
    se desejuasse com uma linguiça assada, almoço que elle alternava com um
    salpicão frito.

    Depois quando se estava vestindo, olhou para a casaca de briche e para
    as pantalonas apolainadas, e teve engulho d'esta fatiota. Vestiu-se,
    saíu apressado, entrou no estabelecimento do sr. Nunes na rua dos
    Algibebes. Aqui o vestiram o mais desgraciosamente que puderam, com um
    farto paletó de panno côr de rato, e umas calças, de xadrez cinzento, e
    colete azul, de rebuço, com botões de coralinas falsas. No Chiado
    abjurou um chapéo de molas de merino, e comprou outro de castor, á
    ingleza. Cumpria-lhe vestir as primeiras luvas de sua vida. No vestil-as
    arrostou com difficuldades, que venceu, rompendo a primeira luva de meio
    a meio. Disse-lhe a luveira que não introduzisse os cinco dedos ao mesmo
    tempo, e ajudou o na ardua empreza.

    Dois mancebos galhofeiros, que estavam na loja, riram indelicadamente da
    inexperiencia do sujeito desconhecido. Um d'elles, confiado na inepcia
    tolerante do provinciano, ou supposto brazileiro, disse, a meia voz, ao
    outro:

    –Quatro pés nunca vestiram luvas.

    Calisto encarou n'elles com sorriso minacissimo, e disse á luveira:

    –As luvas são boa coisa para a gente não dar bofetadas com as mãos.

    Os joviaes sujeitos olharam-se com ar consultivo, sobre o despique digno
    da affronta, e tacitamente concordaram em se irem embora.

    Ao meio dia, entrou o morgado na camara, e fez sensação. As calças de
    xadrez eram uma das grandes desgraças, que a providencia, por intermedio
    do sr. Nunes aljubêta mandára a este mundo. Como se a substancia não
    fosse já um crime de leso gosto e lesa seriedade; ainda por cima as
    pernas caíam sobre as botas em feitio de boca de sino.

    A camara afogou o riso, salvo o dr. Liborio do Porto, que tirou de
    dentro esta facecia puchada á fieira do costumado estylo:

    –Guapamente intrajado vem mestre Calisto! Faz-se mister saber que rolos
    de pragmaticas lhe impendem entre as botinas e as pantalonas. Certo, que
    o urso se pule e lustra. Bom seria que o cerebro se lhe vestisse de
    roupagens novas e hodiernos afeites!…

    Foram festejados estes apódos pelos tolos mais convisinhos do dr.
    Liborio.

    Calisto houve noticia da zombaria do doutor: a intriga politica não
    perdeu lanço de acirrar o morgado contra Liborio, que era governamental.

    N'esta sessão fôra dada ao deputado portuense a palavra, na discussão de
    uma proposta de lei sobre cadeias. O morgado, assim que lh'o disseram,
    aguardou opportunidade de desforrar-se da chacota.

    Ai da patria, quando os talentos parlamentares se incanzinam n'estas
    pugnas inglorias!

    XV

    *Ecce iterum Crispinus…*

    Corrido um quarto de hora, fez-se na camara o silencio da subterranea
    Pompea. É que o dr. Liborio ia fallar.

    –Sr. presidente, e senhores deputados da nação portugueza!–disse
    elle–_Vem-nos agora sob a mão assumpto, até aqui pretermittido_.[14]
    Pelo que toca e friza com cadeias patrias, direi os cinco stygmas que um
    estylista de folego esculpiu nos frontaes d'esses antros:

    INJUSTIÇA!

    IMMORALIDADE!

    IMMUNDICIE!

    INSULTO!

    INFERNO!

    Inferno, sr. presidente, inferno dantesco, inferno theologico em que ha
    o ranger de dentes, _stridor dentium_!

    Que é da civilisação d'esta miserrima e tão coitada terra? Quem nos
    lampeja verdade n'esta escureza em que nos estorcemos? Ai! _A verdade
    ainda não matiza de rosicler a alvorada do novo dia_. As idéas entre nós
    estão como _flores palpitantes no gomo nascente_. Eu me esquivo, sr.
    presidente, _o lavor de historiar as successivas phases que tem
    percorrido os methodos do aprisoamento_. Urge primeiro pregoar a brados
    que se faz mister funda cauterisação na lei. O direito não se estudou
    ainda em Portugal. Pois que é o direito? _No seu todo synthetico e como
    corpo doutrinal, o direito é a sciencia da condicionalidade ao fim do
    homem_. Consoante vige e viça o nosso direito de punir, sr. presidente,
    _o juiz é o delegado de Deus, o carrasco o substituto do anjo S.
    Miguel_.[15]

    Calisto Eloy pediu a palavra. O orador proseguiu:

    –Sr. presidente, n'este paiz não se attende ás bossas. Os legisladores
    não estudam o crime com o compasso sobre um craneo esbrugado. _Se fordes
    a Windsor Castle e vos metterdes de gôrra com os guardas que mostram o
    castello, ouvireis que um dos filhos da rainha tem uma irresistivel
    tendencia para a rapina: é uma pêga humana_. Uma pêga humana,
    rapacissima, a mais não! Sr. presidente, _do nosso rei D. Miguel se
    conta, que já mancebo saodo da puericia, se entretinha a maltratar
    animaes, chegando um dia a ser encontrado arrancando as tripas a uma
    gallinha viva com um sacarolhas_.[16]

    –_Vozes_: Á ordem! Á ordem!

    –_O orador_: Pois em que me transviei da ordem?

    –_Uma voz_: Não se diz no seio da representação nacional: _o nosso rei
    D. Miguel_.

    –_O orador_: Eu referi o caso com as expressões em que o acho narrado
    n'um livro mirifico e sobre-excellente do sr. dr. Ayres de Gouveia.

    –_Uma voz_: Pois não faça obra por inepcias do dr. Ayres de Gouveia.

    –_O orador_: Retiro a dessoante phrase, que impensada destilei do
    labio, e ao ponto me revêrto. Sem a sciencia de Porta e de Blumenbache
    toda a penalidade saírá vêsga, bestial, e infernalissima. É natural, sr.
    presidente, que o sentimento se corrompa, assim como o _calculo se
    empedra, e arraiga o cancro nas entranhas, e o coração se ossifica, e o
    hydrocephalo se gera, ainda nos mais solicitos em hygiene_:

    Posto isto, sr. presidente, cumpre dividir os sexos, pelo que diz
    respeito ao calibre do castigo. Eu citarei com quanta emphase me cabe
    n'alma, algumas linhas do jovem explendido de verbo, que auspicia e
    promette o primeiro criminalista d'esta terra. Fallo de Ayres de
    Gouveia, e n'elle me estribo. O douto viajeiro diz: «O individuo, para
    quem a lei legisla, e a quem tem em vista, é o homem (_vir_), não a
    mulher (_mulier_), desde os vinte e um annos, ou época do predominio
    racional, até aos sessenta, ou principio do periodo debilitante, no
    estado generico, ou que constitue a generalidade de ser homem, não
    descendo sequer ás gradações principaes, que tornam o _homo_ homem, o
    genero especie.»[17]

    É certo, sr. presidente, que _a femina toca o requinte da depravação, e
    chega a effeituar horrores cuja narração é de si para gelar ardencias de
    sangue, para infundir pavor em peitos equanimes_, porem, o mobil dos
    crimes seus d'ellas é outro: _as faculdades da mulher agitam-se
    perturbadas; é um periodo de evolução_, e não ha ahi _arcar com
    evidencia_.

    Que farte me hei despendido em razões que superabundam no caso em que me
    empenho, de parçaria com Victor Hugo, e com quejandas lumieiras que
    esplendem na vanguarda d'esta caravana da humanidade, que se vae
    demandando a Meca da perfectibilidade. Faça-se a lei, restaure-se a
    justiça, e depois crie-se a penitencia, regimente-se o criminoso
    _aprisoado_! Aos que já metteram rêlha e adubo no torrão do novo
    plantio, d'aqui me desentranho _em louvores e muitos e francos e
    perennes_.

    Sr. presidente! Em quanto a cadeias, estamos no mesmo _pé de idéas da
    inquisição_! Que esterquilinios! que protervia! Eu quero, com o dr.
    Ayres, que _todo o preso seja de todo barbeado semanalmente, lave rosto
    e mãos duas vezes por dia, e tenha o cabello da cabeça cortado á
    escovinha_. Eu quero, com o doutor supracitado, que elle não fume, nem
    beba bebida fermentada. _Água em abundancia_, e mais nada potavel. Não
    quero que os presos se conversem, porque, no dizer do insigue patricio
    meu, e abalisado humanista, _das cadeias saem delineamentos de assaltos,
    e assassinatos de homens que sabem ricos_.

    _Lastimado isto_, sr. presidente, um preso descomedido entre os de mais,
    _é qual febricitante despedido do leito que como setta voada do arco,
    exaspera em barulho os males de toda a enfermaria_.

    Eu quero que o preso funcionne intellectivamente, e de lavores corporaes
    se não desquite. O homem sem instrucção _obra instinctivamente, obra
    egoistamente, obra septicamente_, se lhe escaceia religião. Ao preso
    _lide-lhe a mão na tarefa, sim; mas lide-lhe tambem a cabeça na idéa_.
    _Inclinando rasoamento_ para isto, em todas as cadeias europeas lustram
    sciencias, pulem saber, e se amenisam instinctos. Veja-se o que diz o
    nunca de sobra invocado Ayres, honra e joia da cidade de Sá de Menezes,
    d'Andrade Caminha, de Garrett, cidade onde me eu rejubilo de haver
    vagido nas faixas infantis. É mister que se entranhe o sacerdote no
    cancro das masmorras; mas o sacerdote _atilado de engenho e todo
    impeccavel de costumes_; e não padres cuja _uncção sacrosanta se lhes
    convertesse no corpo em lascivos amavíos_. Quem sabe ahi _joeirar o
    optimo para capellães de prisões_?

    Depois quer-se _um director, olho e norma_. _E tão boas partes se lhes
    requerem, que ainda scismando talhal-o um composto de virtudes, o não
    viriamos delinear senão escorço_.

    Deu a hora, sr. presidente. A materia é tal e tão rica, e para tamanho
    cavar n'ella, que se me confrange alma de lhe não dar largas. Aqui me
    fico, e do imo peito espido brado de louvor, que louvaminha não é, ao
    illustre membro d'esta camara que mandou para a mesa a proposta da
    reformação das cadeias. Bençãos lhe chovam, que assim, com valida mão,
    emborca a froixo urnas de balsamos sobre a esqualidez da mais ascosa
    ulcera da humanidade. (Prolongados applausos. _O orador foi
    comprimentado por pessoas graves, que tinham estado a rir-se_.)

    Calisto Eloy contemplou-o com a fixidez de medico, que estuda os
    symptomas da demencia nos olhos do enfermo. Depois, voltando-se contra o
    abbade de Estevães, disse:

    –Eu queria ver como este dr. Liborio tem a cabeça por dentro.

    E rythmando o compasso com os dedos na tampa da caixa declamou:

    Quantos folgam fallar a prisca lingua
    Qual Egas, qual fallou, Fuas Roupinho,
    Qual esse conde antigo, que levára
    A villa de Condeixa por compadre!
    Mas como a fallam? Põem sua méestria
    Em palavras sediças, termos velhos
    Termos de saibo e mofo, que arrepiam
    Os cabellos da gente…
    Que dizes d'isto?
    Como chamas a estes?…..
    Que eu não acerto a dar-lhe um nome proprio.
    Que bem quadre a tão rancidos guedelhas?
    Quando estas coisas desvairadas vejo
    Dão-me engulhos de riso, ou já bocejos,
    Como arrepiques certos de gran fome![18]

    XVI

    *Quantum mutatus!…*

    Á noite, no salão do desembargador Sarmento, soube-se que o morgado da
    Agra havia de orar no dia seguinte. Entre as pessoas alvoraçadas com a
    noticia, a mais empenhada em ouvil-o era D. Adelaide. Ao encontro de
    Calisto Eloy saiu ella pedindo-lhe com requebrada doçura, tres entradas
    na galeria das senhoras, para ella, irmã e pae.

    –Já sou considerado senhora, amigo Barbuda!–ajuntou o velho–São as
    tristes honras da ancianidade!… E lá vou, lá vamos ouvil-o. Ha seis
    mezes que não saí de casa, nem saíria para ouvir o proprio Berryer ou
    Montalembert.

    –Beijo-lhe as mãos pela cortezia, meu benigno amigo–disse Calisto;
    porém olhe que ha de chorar o tempo malbaratado. Eu não vou discorrer,
    nem cogitei ainda no que direi. Pedi a palavra, quando uma brava sandice
    me esfusiou nos tympanos, e estorcegou os nervos. Soou-me lá que o
    carrasco estava substituindo o anjo S. Miguel!… Ó meu caro
    desembargador, eu entro a desconfiar que a besta do apocalipse já tem
    tres pés bem ferrados no parlamento! Quando lá metter o quarto pé, a
    gente escorreita é posta fóra da sala a couces. Peço a vv. ex.^{as}
    perdão do pleismo do termo–disse Calisto voltando-se para as damas, que
    estavam examinando com espanto as transfiguradas vestes do morgado.–A
    boa policia, continuou elle, perde-se com a paciencia. Hei grão medo de
    volver-me ás minhas serras mais rudo do que vim.

    –Está-se desmentindo v. ex.^a–acudiu D. Catharina graciosamente–com
    os trages cidadãos que apresenta hoje! Cuidavamos que havia jurado nunca
    reformar a sua _toilette_ de 1820!

    Calisto sorriu contrafeito, e sentiu-se algum tanto molestado no seu
    pundonor e seriedade. Como a causa da mudança do vestido era pouco menos
    de irrisoria, o homem foi logo castigado pela propria consciencia. A si
    lhe quiz parecer que era já ante si proprio, outro sujeito, e que os
    estranhos lhe liam no rosto o desaire inquietador. Então lhe foi
    desabafo o coração. Soccorreu-se d'elle para contradizer as reprimendas
    do juizo; e o coração, coadjuvado pelas maneiras e ditos affectuosos de
    Adelaide despontara as ferroadas do juizo.

    Os visitantes habituaes do desembargador e as senhoras da casa notaram
    certa mudança nos modos e linguagem de Calisto. Dir-se-ia que o paletó e
    as pantalonas lhe tolhiam a liberdade dos movimentos, e aquella assim
    rude, que sympathica espontaneidade da expressão.

    Authorisados philosophos e christãos disseram que o vestido actua
    imperiosamente sobre o moral do individuo. Nas paginas immorredouras de
    fr. Luiz de Sousa está confirmado isto. «É nossa natureza muito amiga de
    si (diz o historiador do santo arcebispo) e experiencia nos ensina que
    não ha nenhuma tão mortificada, que deixe de mostrar algum alvoroço para
    uma peça de vestido novo. Alegra e estima-se ou seja pela novidade ou
    pela honra, e gasalhado que recebe o corpo. Até os pensamentos e as
    esperanças renova um vestido novo.»[19]

    O adoravel dominicano, pelo que diz da alegria que influe no animo um
    vestido em folha, enganou-se a respeito de Calisto Eloy. O homem dava ar
    de quebranto e melancholia, salvo se o jubilo se lhe introvertera ao
    coração. Creio que era isto. Era o amor abscondito a magoal-o docemente.
    E a não ser o amor, o que poderia ser senão as calças de xadrez? De
    feito, o amor quando é serio, põe ás canhas o mais pespontado espirito,
    e o mais mazorral tambem. O amoroso de grande loquella, volve-se
    parvoinho em presença da sua amada; o sandeu tem inspirações e raptos,
    que seriam influxo do céo, se não soubessemos, que o demonio tentador
    costuma incubar-se e parvoejar eloquentemente no corpo d'estes palermas.

    Calisto Eloy pagou o tributo dos espiritos esclarecidos. Umas eloquentes
    simplezas, com que elle costumava alegrar o auditorio; as maximas
    joviaes de Supico e outras com que elle intermeava a conversação; as
    gargalhadas provincianas, as liberdades desmaliciosas, o ar de familia
    com que elle se fazia bem-querer e desculpar de alguma demasia menos
    urbana do que permitte a convenção das salas: tudo isto, que lhe ia tão
    bem ao morgado, se demudou em recolhimento cogitativo, sombra triste e
    acanhada parvolez.

    N'esta noite, concorreu á partida do desembargador aquelle Vasco da
    Cunha, galanteador de Adelaide, mancebo bem composto de sua pessoa,
    sisudo, e muito catholico. Este fidalgo, representante dos melhores
    Cunhas, mencionados na «Historia Genealogica da Casa Real» e no
    «Villas-boas» além do brilho herdado, estava-se gosando de lustre
    propriamente seu, figurando sempre nos annuncios pios em que os fieis
    eram convidados a assistir a tal festividade religiosa, ou convocando
    assembléas de irmandades, para o fim de consultas attinentes á maior
    pompa do culto divino. Dito isto, dispensa o leitor que se annumerem
    outras virtudes a facto só por si tão significativo. As outras virtudes
    hão de vir apparecendo naturalmente.

    Alguem disse a Calisto Eloy que o circumspecto Vasco da Cunha não era
    estranho ao coração de Adelaide. Esta nova sobresaltou o peito do
    morgado, sem comtudo, lhe innevoar os olhos do discreto juizo, a ponto
    de se dar em espectaculo de risivel ciume. Reparou no porte de ambos; e
    tão graves e cerimoniosos os viu durante a partida, que não achou razão
    para os crer enamorados bem que, n'esta noite, Adelaide jogasse o
    voltarete com Vasco da Cunha, e seu cunhado Duarte Malafaya.

    Ás onze horas, Calisto Eloy retirou-se taciturno e contristado.

    A só com a sua consciencia, e debaixo do olhar severo dos seus livros, o
    marido de D. Theodora Figueirôa reflectiu conturbado na transformação do
    seu modo de viver e sentir. Gritou-lhe a razão que fizesse pé atraz no
    caminho que o levava á ladeira de algum abysmo, ou ás fauces
    voracissimas do amor que tão illustres victimas tinha ingulido. A
    memoria, alliada da razão, abriu-lhe os fastos desgraçados do coração
    humano, desde o perdimento de Troia até á extincção do imperio godo nas
    Hespanhas. Viu desfilarem, uma por uma, todas as mulheres fataes, desde
    Dalila até Florinda, a forçada do conde Julião; e, no couce de todas, a
    phantasia febril da insomnia afigurou-lhe Adelaide.

    Aos quarenta e quatro annos a razão póde muito, se o coração já está
    enervado e enfraquecido de luctas e quedas; todavia, a razão dos
    quarenta e quatro annos é ainda frouxa e transigente, se o coração
    começa a amar tão a deshoras. Não se calculam as miserias e parvoiçadas
    d'esta serodia mocidade!

    Não obstante, Calisto, pouco antes de adormecer por volta das quatro da
    manhã, protestára esquecer Adelaide, perguntando a si proprio se seria
    crime amal-a como os paladinos dos tempos heroicos amaram incognitamente
    grandes damas, sem mais logro de seus amores que adorarem-n'as? Com isto
    queria elle responder á imagem plangente de Theodora, que o estava
    arguindo.

    Pobre senhora! àquella hora já ella andaria a pé, a moirejar pela
    cosinha, a fim de mandar almoçados para a lavoura os servos, e cuidar
    dos leitões.

    Ai! maridos, maridos! Quando a Providencia vos enviar mulheres d'este
    raro cunho, encostae a face ao regaço d'ellas, e não queiraes saber como
    é que o inimigo de Deus enfeita as suas cumplices na perdição da
    humanidade!

    XVII

    *In Liborium*

    Estavam cheias as galerias da camara.

    Entre as mais formosas, extremava-se a filha do desembargador Sarmento.
    A pedido de Calisto Eloy, fôra o abbade de Estevães levar as entradas ao
    magistrado, e offerecer-se a conduzir as senhoras á galeria.

    O vistoso coreto das damas exornavam-n'o, talvez mais que a formosura,
    algumas senhoras doutas enfrascadas em politica, amoraveis Cormenins,
    que aquilatavam o merito dos oradores com incontrastavel rectidão de
    juizo e apurado gosto. Lisboa tem dezenas d'estas senhoras Cormenins.

    Não dírei que o renome de Calisto attrahisse as damas illustradas: era
    grande parte n'este concurso femeal a esperança de rirem. A nomeada do
    provinciano, bem que favorecida quanto a dotes intellectuaes, cobrára
    fama de coisa extravagante e impropria d'esta geração.

    Entrou Calisto na sala um pouco mais tarde que o costume, porque fôra
    vestir-se de calça mais cordata em côr e feitio. Não me acoimem de
    archivista de insignificancias. Este pormenor das calças prende mui
    intimamente com o cataclismo que passa no coração de Barbuda. Aquella
    alma vae-se transformando á proporção da roupa. Assim como o leitor, á
    medida que o amor lhe fosse avassalando o peito, escreveria paginas
    intimas, ou ainda peor, cartas corruptoras á mulher querida, Calisto, em
    vez d'isso, muda de calças.

    As damas, que o esperavam vestido conforme a fama lh'o pintára,
    desgostaram-se de vêl-o trajado no vulgar desgracioso, do commum dos
    representantes do paiz.

    Apenas Calisto Eloy se assentou, entrou-se na ordem do dia, e logo o
    presidente lhe deu a palavra.

    Cessou o reboliço e fallario d'aquella feira veneranda, assim que o
    deputado por Miranda, começou d'este theor:

    –Sr. presidente! Muito ha que se foi d'este mundo o unico sujeito, de
    que me eu lembro, capaz de entender o sr. dr. Liborio, e capaz de fallar
    portuguez digno de s. ex.^a. Era o chorado defuncto um personagem que
    foi uma vez consultar o dr. Manuel Mendes Enchundia, ácerca d'aquella
    famigerada casa que elle tinha na ilha do Pico, com um passadiço para o
    Baltico. V. ex.^a e a camara, podem refrescar a memoria, lendo aquelle
    pedaço de estylo, que presagiou estas farfalharias de hoje.

    Sr. presidente, a mim faz-me tristeza contemplar a ribaldaria, com que
    os belfurinheiros de missangas e lantejoulas adornam a lingua de Camões,
    despojando-a dos seus adereços diamantinos. A pobresinha, trajada por
    mãos de gente ignara, anda por aqui a negacear-nos o riso como moura do
    auto, ou anjo de procissão de aldeia. Se acerta de lhe pagarem os
    farrapinhos broslados de folha de Flandres em algum silvedo, a mesquinha
    fica núa, e nós a córarmos de vergonha por amor d'ella.

    É forçoso, sr. presidente, que a linguagem castiça vá com a patria a
    pique?

    Á hora final da terra de D. Manuel, não haverá quem lavre um protesto em
    portuguez de João Pinto Ribeiro, contra os Iskariotas, Juliões,
    Vasconcellos e Mouras, que nos vendem?

    _Vozes_: Á ordem!

    _O orador_: É contra o regimento d'esta casa, repetir o que está dito na
    historia, sr. presidente?

    _O presidente_: Sem offensa de particulares.

    _O orador_: Authorisa-me portanto, v. ex.^a a crer que n'esta casa está
    Iskariotas, e o bispo Julião, e Miguel de Vasconcelos, e…

    _Vozes_: Á ordem!

    _O orador_: Pois então eu calo-me, se offendo estes personagens a quem
    me não apresentaram, ainda bem! As minhas intenções são inoffensivas, no
    entanto, desconsola-me a camaradagem. Se eu soubesse que estava aqui
    similhante gente, não vinha cá, palavra de homem de bem!

    _O dr. Liborio_: Mais prestimoso fôra ao cosmos, se o sr. Calisto
    estanceasse no agro do seu covil a lidar com a fereza dos javalis.

    _O orador_: Não percebi o dito bordalengo: faça favor de explicar-se.

    _O dr. Liborio_: Já disse que não desço.

    _O orador_: Se não desce, cairá de mais alto. Refiro a v. ex.^a a fabula
    da aguia e do kágado, na linguagem lidima e chan de D. Francisco Manuel
    de Mello. É o _Relogio da Aldeia_, que falla no dialogo dos _Relogios
    fallantes_: «…Lembra-me agora o que vi succeder a um kágado com uma
    aguia, lá em certa lagoa da minha aldeia: veiu a aguia, e de repente o
    levantou nas unhas, não com pequena inveja das rãs, e de outros kágados,
    que o viam ir subindo, vendo-se elles ficar tão inferiores a seu
    parceiro. Julgavam por gran fortuna que um animal tão para pouco, fosse
    assim sublimado á vista de seus eguaes. Quando n'isto, eis que vemos
    que, retirada a aguia com sua presa a uma serra, não fazia mais que
    levantar o triste animal, e deixal-o cair nas pedras vivas, até que
    quebrando-lhe as conchas com que se defendia…» não me lembra bem se D.
    Francisco Manuel diz que a aguia lhe comeu o miolo.

    Se o sybillino collega figura na moralidade d'este conto, offerece-se-me
    cuidar que não é a aguia.

    (_Pausa do orador: riso das galerias_.)

    Sabido, pois, sr. presidente, que as citações historicas fazem
    repugnancias ao regimento e á ordem, abjuro e exorciso os demonios
    incubos e succubos da historia, pelo que rogo a v. ex.^a muito rogado
    que me descoime de desordeiro.

    Direi de Quintiliano, se este nome não desconcerta a ordem. Trata-se de
    oradores, e de estylos viciosos. Diz este mestre dos rethoricos que «ha
    um natural prazer em escutar qualquer que falla, ainda que seja um
    pedante, e d'aqui aquelles circulos que a cada hora vemos nas praças á
    roda dos charlatães» N'esta nossa edade, Quintiliano redivivo diria:
    «nas praças e nos parlamentos.»

    _Vozes_: Á ordem?

    _O orador_: Pois tambem Quintiliano?!

    Bem me quer parecer que rarissimas vezes o admittem aqui a elle!…

    _O presidente_: Lembro ao nobre deputado, que a camara não é aula de
    rethorica.

    _O orador_: Assim devo presumil-o, vendo que todos a professam com
    dignidade, exceptuado eu, que me não desdoiro, em confessar que sou o
    discipulo unico e máo de tantos mestres. Eu direi a v. ex.^a qual
    eloquencia considero necessaria n'esta casa da nação: é a eloquencia que
    a nação entenda. A arte de bem fallar, _ars béne dicendi_, é o estudo da
    clareza no exprimir a idéa. Os affectos, as galas da linguagem, que lhe
    tolhem o mostrar-se e dar-se a conhecer dos rudos, não é arte, é
    tramoya, não é luz, é escuridade. Os meus constituintes mandaram-me aqui
    fallar das necessidades d'elles em termos taes que por elles v. ex.^a e
    a camara lh'as conheçam, ponderem, e remedeiem.

    Sou da velha clientela de Quintiliano, sr. presidente. Com elle entendo
    que por de mais se enganam aquelles que alcunham de popular o estylo
    vicioso e corrupto, qual é o saltitante, o agudo, o inchado, e o pueril,
    que o mestre denomina _proedulce dicendi genus_, todo affectação
    menineira de florinhas, broslados de pechisbeque, recamos de fitas como
    em bandeirolas de arraial.

    Eis-me já de força inclinado á substancia do discurso do sr. dr.
    Liborio. Primeiro me cumpre declarar que não sei pelo claro a quem me
    dirijo. Ha dias me regalei de ler o succoso livro de um doutor grande
    lettrado que escreveu da _Reforma das Cadeias_. Achei-o lusitanissimo na
    palavra; mas hebraico na locução. Tem elle de bom e singular que tanto
    se percebe lendo-o da esquerda para a direita como da direita para a
    esquerda. Soou-me que o sr. dr. Liborio, amador do que é bom, se
    identificára com o livro, e aformosentára o seu discurso com muitas
    louçainhas d'aquelle thesouro.

    Não sei, pois, se me debato com o sr. dr. Ayres, se com o sr. dr.
    Liborio. _Se me debato_, desavisadamente disse! O discurso não dá péga a
    debates que não sejam philologicos. Estes não vem aqui de molde.
    Rethorica, grammatica e logica, se alguem quizer tratal-a n'este predio,
    entretenha-se lá em baixo no pateo com o porteiro, ou com as viuvas e
    orphãos, que pedem pão com a logica da desgraça, e com a rethorica das
    lagrimas: grammatica não sei eu se a fome a respeita: parece-me que não,
    por que na representação nacional ha famintos que a não exercitam
    primorosamente. (_Murmurio e agitação na direita. Applausos na galeria.
    Um «bravo» estridulo do desembargador Sarmento. Um cautelleiro dá palmas
    na galeria popular. A tolice é contagiosa. O presidente sacode a
    campainha. Restabelece-se o silencio. Calisto Eloy tabaqueia da caixa do
    radioso abbade de Estevães_.)

    _O presidente_: Relembro, já com magoa, ao sr. deputado que se abstenha
    de divagações alheias do debate.

    _O orador_: De maneira, sr. presidente, que v. ex.^a quer á fina força,
    subjugar as minhas pobres idéas em _aprisoamento_, como disse
    gentilmente o illustre collega!

    Pois assim sou esbulhado de um sacratissimo direito? É então certo, como
    disse o sr. dr. Liborio, que não ha direito em Portugal? V. ex.^a sem o
    querer, está sendo, na phrase ingrata do illustre deputado, o
    _substituto do anjo S. Miguel_! (_Riso_) Oh! V. ex.^a não será algoz do
    pensamento, já de si tão intanguido que não é mister matal-o: basta
    deixal-o morrer… Callar-me-hei, se estou magoando v. ex.^a.

    _Vozes_: Falle! falle!

    _O orador_: O illustre collega referiu o que vem contado no livro do sr.
    dr. Ayres de Gouveia: _que o nosso rei D. Miguel já mancebo, saido da
    puericia se entretinha a maltratar animaes, chegando um dia a ser
    encontrado, arrancando as tripas a uma gallinha com um sacarolhas_. É
    pasmoso, sr. presidente, que os dois doutores, protestando pela
    legitimidade do seu rei, um no livro, outro no discurso, refiram a
    sanguinaria historia do sacarolhas nos intestinos da deploravel
    gallinha! Eu suei quando ouvi este canibalismo, suei de afflicção, sr.
    presidente, figurando-me o desgosto da ave!

    Protesto, sr. presidente, protesto contra a suja aleivosia cuspida na
    sombra de um principe ausente, indefeso e respeitavel como todos os
    desgraçados. Que historia villã é esta? Quem contou ao sr. dr. Ayres o
    caso infando do sacarolhas nas tripas da gallinha?! Em que soalheiro de
    antigos lacaios de Queluz ou Alfeite ouviram os refundidores da justiça
    estas anedoctas hediondas, e mais torpes no squalôr de recontal-as?

    E, depois, sr. presidente, que me diz v. ex.^a e a camara áquelle filho
    da rainha da Grã-Bretanha, que é um rapinante: _uma pêga humana_! Que
    musa de tamancos! _uma pêga humana_! Que imagem! que allegoria tão
    ignobil, e extractado do vocabulario da ralé!…

    Em desconto d'estas repugnantes noticias, fez-nos o sr. doutor o bom
    serviço de nos dizer que homem em latim é _vir_, e mulher é _mulier_, e
    que, em alguns casos, _homo_ tambem é homem. Ficamos inteirados e
    agradecidos. Uma lição de linguagens latinas para nos advertir que a lei
    não legisla para a mulher!… Teremos ainda de assistir á repetição do
    concilio em que havemos de averiguar se a mulher é da especie humana? Se
    os srs. drs. Ayres ou Liborio, alguma vez, dirigirem os negocios
    judiciarios e ecclesiasticos em Portugal, receio que os legisladores
    excluam a mulher das penas codificadas, e que os bispos lusitanos as
    excluam da especie humana!… E peior será se algum d'estes ministros,
    no intento de punil-as, as classificam nas aves, e nomeadamente nas
    gallinhas! O horror dos sacarolhas, sr. presidente, não me desaperta o
    animo!

    Porque não ha de ser castigada a mulher por egual com o homem? Resposta
    séria á pergunta que tresanda a paradoxo: «Porque, no delicto, as
    faculdades da mulher agitam-se perturbadas; é um periodo de evolução.» A
    mulher, que mata, por ciume é que mata; a mulher, que propina venenos,
    por ciume é que despedaça as entranhas da victima. Isto é crime, ao que
    parece; crime, porém, de _faculdades que se agitam perturbadas, e
    periodo de evolução_. Se o termo fosse parlamentar, eu diria
    _farelório_!

    Quem ha de enristar armas de argumentação contra estes odres de vento?

    O que eu melhor entendi, graças á linguagem correntia e pedestre da
    arenga, foi que o illustre collega, avençado com o sr. dr. Ayres, querem
    _que todo o preso seja de todo barbeado semanalmente, lave o rosto e
    mãos duas vezes por dia, e tenha o cabello cortado á escovinha, e beba
    agua com abundancia, e não beba bebidas fermentadas, nem fume_.

    N'este projecto de lei a pequice corre parelhas com a crueldade. Que o
    preso lave a cara duas vezes por dia, isso bom é que elle o faça, se
    tiver a cara suja, mas obrigal-o a lavatorios superfluos, é risivel
    puerilidade, juizo pouco aceiado que precisa tambem de barrela.

    Privar do uso do tabaco o preso que tem o habito de fumar inveterado, é
    requisito de deshumanidade que sobreleva á pena de prisão perpetua ou
    degredo por toda a vida. Tirem o cigarro ao preso; mas pendurem logo o
    padecente, que elle ha de agradecer-lhe o beneficio.

    Estes reformadores de cadeias, sr. presidente, parece que tem d'olho
    apertar mais as cordas que amarram o condemnado á sentença; picar-lhe as
    veias, e desangral-o gota a gota, na intenção de o regenerar e
    rehabilitar! Optima rehabilitação! humanissimos legisladores! Querem que
    o preso se regenere hydropaticamente. Mandam-n'o lavar a cara duas vezes
    por dia. _Agua em abundancia_, conclamam os dois doutores. Fazem elles o
    favor de dar ao preso agua em abundancia; mas descontam n'esta
    magnanimidade prohibindo-os de fallarem aos companheiros de infortunio,
    com o formidavel argumento de que _sáem das cadeias delineamentos de
    assaltos, e assassinatos de homens que sabem ricos_!…

    «Delineamentos de assassinatos»! Que é isto? _Assassinato_ é coisa que
    me não cheira a idioma de Bernardes e Barros. Seja o que fôr, é coisa
    horrivel que sáe das cadeias com seus delineamentos, contra homens que
    os _presos sabem ricos_. Aqui, sr. presidente, n'este _sabem ricos_,
    quem soffre o _assassinato_ é a grammatica. O alticismo d'esta phrase é
    grego de mais para ouvidos lusitanos.

    O que é um preso descomedido, sr. presidente? Dil-o-hei? _Vox faucibus
    haesit_!…

    _É febricitante despedido do leito, que, como setta voada do arco,
    exaspera em barulho os males de toda a enfermaria_. Que se ha de fazer a
    um patife que é setta voada do arco? Faz-se-lhe lavar a cara terceira
    vez!

    Que desperdicio de poesia para descrever um preso bulhento!

    _Setta voada do arco_! Que infladas necedades assopram estes estylistas
    de má morte!

    _Inclinando rasoamento_ (peço venia para me tambem enriquecer com esta
    locução do sr. dr. Ayres) inclinando rasoamento a pôr fecho n'este
    palanfrorio com que dilapido o precioso tempo da camara, sou a dizer,
    sr. presidente, que a melhor reforma das cadeias será aquella que
    legislar melhor cama, melhor alimento, e mais christã caridade para o
    preso. Impugno os systemas de reforma que disparam em accrescentamento
    de flagelação sobre o encarcerado. Visto que Jesus Christo, ou seus
    discipulos, nos ensinam como obra de misericordia visitar os presos,
    conversal-os humanamente, amaciar-lhes pela convivencia a ferocia dos
    costumes, não venham cá estes civilisadores aventar a soledade aos
    ferrolhos, o insulamento do preso, aquelle terrivel _voe soli_! que
    exacerba o rancor, e os instinctos enfurecidos do delinquente.

    Tenho dito, sr. presidente. Não redarguo ao mais do discurso, porque não
    percebi. Sou um lavrador lá de cima, e não adivinhador de enygmas.
    _Davus sum, non OEdipus_.

    _O orador foi comprimentado por alguns provincianos velhos_.

    XVIII

    *Vae cair o anjo!*

    A respeito do ultimo discurso de Calisto Eloy, as gazetas governamentaes
    estamparam que a sala da representação nacional nunca tinha sido
    testimunha de insolencias de tamanha rudesa e tão audaciosa ignorancia.
    Os jornaes da opposição liberal disseram que o representante de Miranda,
    á parte as demasias escolares do seu discurso, déra uma util, bem que
    severissima lição, aos meninos que jogueteam com o paiz, indo ao
    sanctuario das leis bailar em acro-batismos de linguagem, que seriam
    irrisorios em palestra de estudantes de selecta segunda.

    Em casa do desembargador é que o morgado deslumbrou o renome dos
    fulminadores de catilinarias e filippicas. A numerosa roda do fidalgo
    legitimista encarava com venerabundo assombro em Calisto Eloy. As raças
    godas, que o não conheciam, concorreram a dar-lhe os emboras a casa de
    Sarmento. Sangue dos Affonsos e Joões não se dedignava de inventar em
    Calisto um primo. Todos queriam ter nas arterias sangue de Barbudas. E
    elle, o genealogico por excellencia, modestamente contradictava o
    empenho de alguns parentes honorarios; bem que, de si para si, e para
    alguns amigos, se ufanava de não carecer de tal parentella para
    egualar-se barba por barba com os mais antigos titulares em limpeza de
    sangue. As expressões laudatorias que mais calaram no animo de Calisto
    Eloy disse-as Adelaide. A menina, confessando sua surpresa no
    parlamento, foi sincera. Não o julgava tão denodado e destemido em face
    de gente nova, que parecia acovardar-se diante da coragem de um
    provinciano algum tanto achamboado. Disse ella á mana Catharina que a
    fronte de Calisto parecia allumiada, e no todo das feições e ademanes se
    revelava certa nobreza e garbo, que o faziam parecer mais novo.

    E era assim. Os quarenta e quatro annos do morgado, vividos na aldeia, e
    no resguardo da bibliotheca, viçavam ainda frescura de mocidade. A
    reforma do trajar fôra grande parte n'isto. A casaca antiga, e o
    restante da roupa trazida de Miranda, tolhiam-lhe a elegancia das
    posturas e movimentos, nos primeiros discursos.

    Cicero e Demosthenes, se entrassem de frak, no forum ou na ágora,
    desdouravam os mais luzentes relevos de suas esculpturaes orações. A
    estatuaria do orador pende grandemente do alfaiate. Vistam Casal Ribeiro
    ou Latino Coelho, Thomaz Ribeiro ou Rebello da Silva, Vieira de Castro
    ou Fontes, de casaca de brixe e gravata sepulchral da mandibula
    inferior: hão de vêr que as perolas desabotoadas d'aquellas bocas de
    oiro se transformam em graniso glacial no coração dos ouvintes.

    –Eu estava encantada de ouvil-o, sr. Barbuda–disse Adelaide–Tem uma
    voz muito sã e argentina. Gostei de vêr a presença de espirito de v.
    ex.^a, quando se levantou aquella algazarra contra as suas ironias.
    Lembrou-me então que prazer sentiria sua senhora, se o escutasse!

    –Minha prima Theodora de certo me não attendia–observou o morgado.–Em
    quanto eu fallasse, estaria ella pensando no governo da casa, e na
    calacice dos criados. Eu já disse a v. ex.^a que minha prima Theodora
    entendeu no summo rigor da expressão a palavra «casamento». _Casamento_
    deriva de _casa_. Senhora de casa e para casa é que ella é. E eu assim a
    acceitei e assim a préso.

    –Mas o coração…–atalhou Adelaide.

    –O coração, minha senhora, ninguem lá nos disse que era necessario á
    felicidade domestica. Tanto sabia eu o que era coração, como aquella
    creancinha, que sua ex.^{ma} mana tem nos braços, sabe o que é sensação
    do fogo. Ora veja como ella está estendendo as mãosinhas inexperientes
    para a chamma das velas… Se as tocar, que dôr não sentirá ella?

    –Então, volveu a filha do magistrado, hei de crêr que v. ex.^a ainda
    ignora o que seja coração… o que seja amor?

    –Se ignoro o que seja…–balbuciou Calisto.–Sabe v. ex.^a–proseguiu
    elle, reanimado, apoz longa pausa–sabe v. ex.^a que no paraizo existiu
    uma celestial ignorancia, até ao momento em que na arvore da sciencia
    tocou Eva?

    –Sim… E Adão lambem tocou…

    –Depois, minha senhora. Mas não discutamos a primasia: tocaram ambos, e
    eu comprehendo que deviam ambos peccar. Maior crime sería a resistencia
    a Eva que a Deus. Perdoe-me o céo a blasphemia!… A que hei de eu
    comparar nos nossos tempos, e n'este instante, a arvore da sciencia, da
    sciencia do coração?!… Comparo-a a v. ex.^a.

    –A mim?! que idéa!

    –A v. ex.^a. Eu contemplei-a, e… aprendi!… Hoje sei o que é
    coração: agora começo a estudar a maneira de o matar ao passo que elle
    vae nascendo.

    Calisto levantou-se, agradecendo á Providencia a chegada de um ancião
    respeitavel que se aproximava d'elle a cortejal-o.

    Adelaide quedou pensativa. Reflectiu, e considerou-se molestada e
    mescabada no respeito que devia ás suas virtudes um homem casado.

    Receiosa de ajuizar mal, por equivoca intelligencia do que ouvira,
    buscou azo de provocar explicações de Calisto Eloy. Como o ensejo lhe
    não saisse de molde, consultou a irmã, referindo-lhe o supposto
    galanteio do morgado. D. Catharina dissuadiu-a de pedir esclarecimentos,
    aconselhando-a a simular que o não entendêra.

    Pouco antes de terminada a partida, um moço legitimista recitou um
    poemeto dedicado ao nascimento do terceiro filho do sr. D. Miguel de
    Bragança. Perguntou alguem a Calisto se conversava alguma hora com as
    musas, ou se, á maneira de Cicero, escrevia o desgracioso:

    _Ó fortunatam natam, me consule, Romam_.

    Disse o morgado relanceando os olhos a Adelaide, que o seu primeiro
    parto metrico apenas tinha de vida quarenta e oito horas, e tão aleijado
    saíra, que elle se envergonhava de o offerecer ao apadrinhamento de
    pessoas authorisadas.

    Instaram damas e cavalheiros pela amostra da obra prima, que certamente
    o era, attenta a modestia do poeta.

    –São versos, disse elle, que se poderiam mostrar aos quinze annos, e
    que seriam derisão e lastima aos quarenta e quatro.

    Objectaram as damas argumentando que o homem de quarenta e quatro annos
    devia receber as inspirações dos vinte, porque no vigor da edade é que o
    coração fulgura em toda a sua luz.

    Tregeitou Calisto uns esgaros de satisfação ridicula. Eram os
    percursores de alguma enorme necedade.

    Embora resistisse á exposição da sua estreada musa, não se conteve que,
    despedindo-se de cada uma das senhoras da casa, disse, á puridade, a D.
    Adelaide:

    –V. ex.^a verá as trovas que só Deus viu, e ninguem mais verá no mundo.

    D. Adelaide ficou embaçada. Seria aggravar as meninas de dezoito annos,
    e educadas como a filha do desembargador, e amantes como ellas de um
    compromettido esposo, estar eu aqui a definir a entranhada zanga que lhe
    fez no espirito d'ella o desproposito de Calisto. A estima affectuosa
    que lhe ella ganhára, por amor d'aquella cavalheirosa acção, por onde a
    paz domestica se restaurára, não teve força de rebater o tedio e o odio
    do tom mysterioso do provinciano.

    Em quanto ella confiava da irmã o despeito e aversão com que a deixaram
    as ultimas palavras de Calisto Eloy, estava elle no seu gabinete
    retocando e peorando aquellas linhas rimadas, a cuja rebentação assistiu
    o leitor com piedosa tristeza.

    XIX

    *Ó mulheres!…*

    Seguiram-se horas de insomnia. O juizo dava-lhe tratos amarissimos ao
    coração. O homem sentava-se na cama, e remechia-se inquieto como se o
    escarneo o estivesse picando d'entre a palha do enxergão.

    Os intervalos lucidos eram-lhe intervalos do inferno. Os axiomas
    classicos sobre o amor caiam-lhe na memoria como chuva de dardos. Quem
    mais o suppliciou foi o seu mestre e amigo D. Amador Arraiz. Este santo
    bispo apresentou-se-lhe em visão, com D. Theodora Figueirôa ao lado, e
    disse-lhe as palavras do capitulo XLV dos _Dialogos_: «Em a lei de
    Christo a fidelidade que deve a mulher ao marido, essa mesma deve o
    marido á mulher; e, se as leis civis dão mais poder aos maridos que ás
    mulheres, não é para as offender e maltratar, nem para um ter mór
    jurisdição sobre si que o outro.»

    Seguiram-se outras visões de não somenos pavor. Ahi pela madrugada,
    Calisto Eloy amodorrou-se em roncado dormir; mas a fada que lhe abrira
    os thesouros virgineos do coração, a esbelta Adelaide bateu-lhe com as
    azas brancas nas palpebras, e o homem acordou estremunhado a desgrudar
    os olhos, que se haviam fechado com duas lagrimas, as primeiras que o
    amor lhe esponjára do seio, e cristalisára nos cilios, como diria o dr.
    Liborio. Então foi o trabalharem-n'o umas cogitações tão sandias, que
    seriam imperdoaveis, se não estivessem na tresloucada natureza de todo
    homem que ama.

    Entrou a inventariar as alterações que devia fazer no substancial e
    accidental da sua personalidade.

    O uso do meio grosso pareceu-lhe incompativel com um galan. Aquelles
    sibilos da pitada, bem que denotassem espiritos cogitantes e gravidade
    de juizo, deviam de toar ingratamente nos ouvidos de Adelaide. De mais
    d'isso, a saraivada de bagos de rapé que elle sacudia dos sorvedouros
    nasaes, algumas vezes obrigava as damas a formarem sobre os olhos com os
    dedos um antemural sanitario contra as insuflações immundas do sabio.
    Deliberou, portanto, immolar as delicias pituitarias.

    Viu-se no espelho de barbear, modesto utensilio do estojo de bezerro, e
    conveio no deslavado prosaismo da sua cara clerical. Resolveu deixar
    pera e meia barba, como transição para o bigode, que devia ir-lhe bem na
    tez um tanto moreno-pallida.

    Como o estudo lhe havia extenuado os olhos, e por amor d'isso usava
    oculos de prata quando lia, adoptou a luneta de oiro com molas pensis.

    N'este proposito, saiu a delinear as reformas capillares; fez alinhar as
    bases de uma cabelleira, que trouxera escadeada da provincia; e
    consentiu que lhe encalamistrassem dois topes rebeldes ao ferro.

    Depois, quando a ancia de uma pitada começava a importunal-o, fez
    provisão de charutos, e fumou o primeiro com afflictivas caretas, e
    engulhos de estomago.

    Colheu informações dos alfaiates de melhor fama, e foi ao Keil
    encommendar duas andainas de fato. O artista offereceu-lhe os figurinos;
    e, como lhe fallasse francez, Calisto suppoz que o attencioso alfaiate
    lhe dava a conhecer os retratos de alguns sujeitos illustres da França.
    Corrido do engano, depois de lêr as indicações das _toilettes_, saiu
    d'alli a procurar mestre de linguas, e a comprar diccionarios e guias de
    conversação.

    Se o leitor, mais perseguido da fortuna esquerda, nunca passou por
    lances analogos, não se tenha em conta de desgraçado.

    Quem tivesse conhecido, um mez antes, Calisto Eloy de Silos e Benevides
    de Barbuda, devia choral-o, quando o viu entrar n'um café a pedir agua
    para combater os vomitos provocados pelo charuto!

    Irá perder-se aquella alma tão portugueza, aquelle exemplar marido,
    aquelle sacerdote e glorificador dos classicos lusitanos?

    O amor abrirá no pavimento da camara um alçapão, onde se afunda aquelle
    grande brilhante, desluzido, mas promettedor de refulgente lume?

    _Di meliora piis_!

    Ó Lisboa!…

    Ó mulheres!…

    XX

    *Proh dolor!…*

    Adelaide, temerosa de algum imprevisto accidente, que a desmerecesse no
    conceito de Vasco, por causa do morgado da Agra, relatou ao pae o
    dialogo da antevespera, e a promessa da poesia para a noite seguinte.

    O desembargador duvidou do entendimento da filha, antes de acreditar na
    insania do seu melhor amigo. Como havia de crer elle no intento
    deshonesto de um homem que lhe emergira a outra filha da voragem? E,
    crendo, como se comportaria em lanço de tanto melindre?

    Meditou, e discretamente resolveu que suas filhas e genro fossem passar
    alguma temporada da primavera na sua quinta de Campolide; e se
    pretextasse a doença de uma neta, para que a saida se fizesse n'aquelle
    mesmo dia. Pôde mais com o velho a gratidão que a offensa.

    Calisto Eloy chegou á hora costumada. Já não entrava á presença do
    magistrado com a facilidade e lhanesa de outros dias. A sisudeza do
    semblante arguia o incommodo da consciencia. Mais lh'a inquietava a
    estudada jovialidade, com que Sarmento o recebeu. Antes de perguntar
    pelas senhoras, lhe disse o velho o motivo da inopinada saida para ares.
    Calisto passou o restante da noite com os amigos da casa; porém,
    insolitamente abstraido, concorreu a augmentar a lethargia d'aquelles
    velhos soporosos, que pareciam ajuntar-se para se narcotisarem, e
    entrarem emparceirados nas silenciosas regiões da morte.

    Fez sensação na assembléa tirar Calisto de uma charuteira de prata um
    charuto, e baforar columnas de fumo, com uns modos aperalvilhados, e
    improprios de sua gravidade. Sarmento, com delicada liberdade, observou
    a preponderancia que os costumes de Lisboa iam actuando sobre o animo do
    seu bom amigo. Sentiu que os ruins exemplos vingassem quebrantar aquella
    admiravel singeleza de trajo e maneiras que o morgado trouxera da sua
    provincia. Lamentou que, em menos de tres mezes, o modelo do portuguez
    dos bons tempos, se baralhasse com os usos modernos e viciosos.

    Calisto Eloy defendeu-se froixamente, allegando que as mudanças
    exteriores não faziam implicancia ás faculdades pensantes; e ajuntou
    que, sciente de que tinha sido incentivo da mofa entre os seus collegas,
    á conta da simpleza um tanto anachronica dos seus costumes, entendera
    que a prudencia o mandava viver em Lisboa consoante os costumes de
    Lisboa, e na provincia, segundo o seu genio e habitos aldeãos. Concluiu,
    dizendo que: _Cum fueris Roma, Romam vivito mora_,[20] e que o fazer-se
    singular importava fazer-se ridiculoso; e que os seus annos não eram
    ainda bastantes para authorisarem a distinguir-se no mero accidente dos
    trajos.

    Perguntado por que deixára de tomar rapé, costume indicativo de homem
    pensador e estudioso, respondeu que alguns escriptores modernos
    attribuiam á ammoniaca componente do rapé, o deperecimento das
    faculdades retentivas, pela acção deleteria que o poderoso alcali
    exercitava sobre a massa encephalica. Além de que a fumarada do charuto,
    sobre ser purificante e anti-putrida, dava aos alvéolos solidez, e
    consistencia aos dentes.

    Estas explicações não evitaram que o desembargador, com os seus velhos
    amigos, prognosticassem o derrancamento do morgado da Agra, depois que
    elle se retirou, algum tanto azedado das reflexões d'aquella gente
    encanecida.

    Sarmento não o convidára a ir visitar as filhas a Campolide, nem de
    leve; no correr da noite, fallou d'ellas. Calisto Eloy tambem não
    suscitou conversação relativa ás senhoras, porque já a doblez do
    espirito lhe tolhia a usual franqueza e familiaridade.

    Entrou a dementar-se aquella desconcertada cabeça. A saudade, em vez de
    lhe tirar lagrimas do intimo amadurou-lhe temporamente a apostêma de
    sandices, que em todo homem se cria paredes-meias com o coração. Ahi
    começa elle a imaginar que o desembargador Sarmento, adivinhando os
    amores mal recatados de Adelaide, a obrigara a sair de Lisboa.
    Corroborava a suspeita não o convidar elle a visitar as damas. Isto
    sobre excitou-lhe o sentimento; por que, a seu vêr, Adelaide estava
    penando, havia uma victima, um coração sopesado, uma alma em abafos de
    paixão.

    Esta conjectura atirou com Calisto para os tempos cavalleirosos.

    O olhar em si, e ver-se maneatado pelos vinculos sacramentaes, não o
    reduzia á compostura e honestidade de seu estado e annos. Ainda assim,
    sejamos justiceiros e ao mesmo tempo misericordiosos com esta alma
    enferma: na cabeça allucinada de Calisto de Barbuda não havia idéa
    ignobil e impudica.

    O amor, resaltando da cratera abafada quarenta e quatro annos, dizia-lhe
    que era fidalguia de alma não transigir, por conveniencias e respeitos
    sociaes, com a oppressão, e alvedrio paterno. Se Adelaide o amava como e
    quanto Calisto já não podia duvidar, sua honra d'elle era pôr peito á
    defesa da oppressa, beber metade do absyntho do seu calix, luctar, sem
    desdouro da probidade de um Barbuda, até perecer, exemplo de amadores de
    antiga tempera.

    Amou quem isto lê, e tresvariou aos vinte annos? Passou por uns hórridos
    eclipses de entendimento, que apoz si deixam lagrimas tardias e
    vergonhas insanaveis?

    Amisere-se, pois, d'aquelles lucidissimos espiritos de Calisto, que por
    um se vão apagando ao ventar rijo da paixão, quaes se apagam em céo de
    bronze as estrellas do mar alto, já quando o naufrago desesperançado
    finca os dedos recurvos na espuma das vagas.

    Ó mal-sorteado Calisto! que aureola de patriarcha te resplendia em volta
    do teu chapéo de merino e aço, quando entraste em Lisboa! Que anjo eras,
    entrajado na tua casaca de saragoça sem nodoas! Aquella scientifica boa
    fé com que procuravas monumentos em Alfama, e agua depurante do muco
    catharroso no chafariz d'El-Rei, e querias que os aljubêtas da rua de S.
    Julião te dessem conta do chafariz dos cavallos!…

    Que te valeram as maximas de boa vida colhidas a centenares nos teus
    classicos, e enceleiradas n'essa alma, refractaria á ternura de tanta
    moça escarlate e succada, que, lá em Caçarelhos, se enfeitava para achar
    graça em teus olhos?

    Cairias tu nas piozes d'esta princeza dos mares, d'esta Lisboa que
    filtra aos nervos dos seus habitantes o fogo que lhe estua nas
    entranhas?

    Cairias tu, anjo?

    XXI

    *O mordomo das tres virtudes cardeaes*

    Era por uma noite escura e fria de abril.

    O vento esfusiava nas ramalheiras de Campolide.

    A lua, a longas intermittencias, parecia, wagon dos céos, correr
    velocissima entre nuvens pardas, para ir ingolfar-se n'outras. Então era
    o carregar-se a escuridão da terra, e mais para pavores o rangido das
    arvores sacudidas pelos bulcões do septentrião.

    Soaram doze horas por egrejas d'aquelles valles. Era um como crebro
    soluçar da natureza por pulmões de bronze. Era o grão clamor da terra em
    angustias parturientes de alguma enorme calamidade.

    Áquella hora, e por aquella noite capeadora de assassinos e
    bestas-feras, Calisto Eloy, embrulhado n'um capote de tres cabeções e
    mangas, que trouxera de Caçarelhos, passava rente com o muramento da
    quinta de Adelaide.

    Depois, como saisse da vereda escura a um recio que defrontava com a
    frontaria da casa, aqui parou, e cruzando os braços, se esteve largo
    espaço quedo, e fito nas janellas.

    Nem lua nem scintilla de estrella no céo! As confidentes d'aquelle
    amador torvo como o cerrado da noite, negro como o coração que lhe arfa
    a lapela esquerda do collete, são as trevas. Quiz accender um charuto.
    Nem os phosphoros vingavam lampejar na escuridão.

    E o vento assoviava no vigamento da casa, e nas orelhas de Calisto, o
    qual, levado do instincto da conservação, levantou a gola do capote á
    altura das bossas parietaes, e disse, como Carlos VI:

    –Tenho frio!

    E passou-lhe então pelo espirito um painel da sua situação tirado pelo
    natural. Viu-se no espelho, que a razão lhe offereceu, e cobrou horror
    da sua figura.

    Bem que tal acto não implicasse delicto, nem affrontasse os bons
    costumes, Calisto, apertado no transito difficil das indoles que se
    passam do comportamento austero e captivo ás liberdades e solturas do
    vicio, olhava com saudade o seu passado, as suas alegrias puras; e, mais
    que tudo, áquella hora, como o frio cortava as orelhas, lembrou-se da
    quentura e aconchego do leito nupcial.

    E como esta visão honesta, para mais o pungir, havia de ser encarecida
    com uma imagem de mulher leal e immaculada, Calisto viu D. Theodora de
    touca, n'aquelle dormir placido de quem adormeceu com a alma quieta e
    intemerata. Não bastava a touca, tão hygienica quanto pudica, a
    penitencial-o com remordentes saudades: viu-lhe tambem o lenço de tres
    pontas de algodão azul com que ella costumava resguardar os hombros,
    antes de subir as quatro escadinhas que conduziam ao alteroso leito de
    páo santo.

    Se visões analogas, alguma vez, puzeram guerra ao demonio tentador dos
    maridos infieis e o venceram, d'esta feita não se logra a sã virtude do
    triumpho.

    É que as toucas e lencinhos pudibundos, sobre não serem enfeites mui
    seductores, algumas vezes tornam a virtude rançosa e tamsómente boa para
    adubar palestras de avós com as netas casadoiras. Este mal deve-se ás
    artes da estatuaria, artes em que a imaginativa não põe nada seu, porque
    tudo é copiado da natureza nua, ou quasi nua. Nem se quer as Niobes, as
    Lucrecias e Penelopes o buril respeita. Nos casos mais lacrimaveis e
    tragicos, querem fados máos que os olhos achem sempre pasto á cobiça,
    quando a impressão devera ser toda para levantamentos de espirito, e
    «visões altas» como diz o bom Sá de Miranda.

    Quando a arte deshonesta não despe as figuras, veste-as de feitio que
    pelo ondeado das roupas transparentes esteja o peccado a fazer negaças a
    conjecturas taes que, certo estou, Calisto Eloy, antes de se empestar em
    Lisboa, se taes impudicias visse, romperia no parlamento os vesuvios da
    sua eloquente indignação. E a posteridade, ajuizando da moral d'esta
    nossa edade de limos e alforrecas, viria a este lameiral esgaravatar a
    perola da edade aurea, caida dos labios do marido de D. Theodora, a
    qual, segundo fica dito, dormia de touca e lencinho de algodão azul de
    tres pontas.

    Esta peregrina imagem não bastou a desandar Calisto pelo caminho de
    Lisboa, e do seu gabinete, onde os pergaminhos dos seus livros pareciam
    rever lagrimas de amigos descaroavelmente desprezados. O infeliz não
    desfitava olhos de certa janella, desde que vira perpassar uma luz pelos
    resquicios das portadas. Podia a trahida Theodora antepôr-se aos olhos
    extasiados do esposo, com a pudenda touca, ou com as madeixas
    estrelladas de brilhantes, que elle não a via nem queria ver.

    Ahi por volta de meia noite estava Calisto recordando o que dissera, em
    circumstancias analogas, Palmeirim aquelle grão cavalleiro de Francisco
    de Moraes, diante do castello de Almourol que fechava em seus arcanos a
    formosa Miraguarda. N'isto scismava, comprehendendo então as phrases
    mélicas dos famosos amadores, quando as portadas da janella se abriram
    subtilmente, e logo a vidraça foi subindo mui de leve.

    O recanto, em que o morgado da Agra se abrigára do vento, estava fóra do
    caminho, e sumido aos olhos da pessoa que abrira a janella. Ao mesmo
    tempo, ouvia elle passos na estrada, e logo viu acercar-se um vulto
    rebuçado da casa de Adelaide, e parar debaixo da janella que se abrira.

    Conjecturou Calisto de Barbuda, que D. Catharina Sarmento, a esposa
    infida, reincidira nas presas do velho peccado, e sentiu algum tanto
    molestada sua vaidade de regenerador de corações estragados. Tambem
    suspeitou que Bruno de Vasconcellos, quebrando a palavra jurada, voltára
    do estrangeiro a reatar a criminosa alliança. Não lhe deram tempo a mais
    conjecturas. O encapotado espectorou um cacarejo de tosse secca; da
    janella, como contra-senha, respondeu outro cacarejo de mais sympathico
    som, e logo as duas almas se abriram n'este dialogo:

    –Ainda bem que recebeste a minha carta, Vasco!…–disse
    Adelaide–Estavas em casa da tia condessa? Eu mandei lá por me lembrar
    que se fazia lá hoje a novena das Chagas…

    –Fiquei espantado–disse Vasco da Cunha–Que rapida deliberação foi
    esta?! Vir para uma quinta com tão máo tempo! Foi caso de maior!…

    –Fui eu a causa–tornou ella–São melindres do meu coração, que, por
    amor de ti, não soffre que outra voz de homem lhe falle a linguagem que
    eu só quero e acceito de tua bocca. Antes me quero aqui escondida com a
    tua imagem, que ver-me obrigada a tolerar os atrevimentos do Calisto de
    Barbuda…

    –Que!–atalhou Vasco–pois aquelle homem tão serio!… tão temente a
    Deus!…

    –É um hypocrita com a brutalidade de um provinciano!… Offereceu-me
    uns versos em segredo! Que ultraje! que falta de respeito á minha
    posição…

    –E que desmoralisada e irreligiosa creatura! Casado, já d'aquelles
    annos, legitimista, e catholico, segundo diz, e ousar… Estou
    espantado! E a tia condessa que me tinha encarregado de o convidar para
    assistir, no domingo á festa das Chagas! Fiem-se lá!… E tu não faltes,
    á festa, Adelaide. Esto anno fazemol-a com toda a pompa. O prégador já
    me leu o discurso, e trata eruditamente a materia. A prima Lacerda vae
    cantar um _Benedicite_, e a prima viscondessa de Lagos canta um _Tantum
    ergo_. Havemos de fazer melhor festa que a do conde de Melres. Eu começo
    ámanhã a colher flores e a pedil-as para enfeitar o altar dos tres reis
    magos e das tres virtudes cardeaes, de que me fizeram mordomo, não sei
    se sabias?

    –Não sabia, meu amor–disse Adelaide, congratulando-se com os
    enthusiasmos pios do excellente moço.

    A palestra proseguiu n'este tom por espaço de uma hora. A lua espreitava
    estas duas pessoas por entre as nuvens, que a pouco e pouco se foram
    descondensando. O céo azulejou-se e estrellou-se para galardoar a
    virtude do mordomo das tres virtudes cardeaes e da bella menina
    destinada a maridar-se com o mais energico influente da festa das
    Chagas, com que o devoto conde de Melres se havia de dar a perros.

    No entanto, Calisto Eloy, consultando a sua consciencia a respeito de
    Vasco da Cunha, decidiu que o homem, se não era um santo, propendia
    grandemente para a semsaboria de idiotismo. Esta critica é a prova de um
    animo já iscado da peçonha da meia impiedade que degenera em impiedade
    inteira. Já como castigo de escarnecer um moço virtuoso, sentia elle
    encher-se-lhe de amargura o coração. Não bastava ouvir-se qualificado de
    hypocrita brutal por Adelaide; quiz de mais d'isto a providencia dos
    amantes lerdos, providencia que eu não posso escrever se não com _p_
    pequeno, quiz, digo, que Vasco da Cunha, mancebo em flor d'annos e
    gentileza, se estivesse alli rejubilando em novenas e mordomias das tres
    virtudes cardeaes, em quanto elle Calisto, a mais de meio caminho da
    morte, ardia em fogo impuro e cobiça peccaminosa, com os olhos cerrados
    á visão duas vezes pura de uma esposa de touca e lencinho azul de tres
    pontas sobre as espaduas não despeciendas, segundo me consta.

    Merecem escriptura as ultimas phrases de Adelaide e Vasco.

    A menina, interrompendo os enlevos do devoto moço, que se deleitava em
    conjecturar a zanga do conde de Melres, perguntou-lhe, com doce
    requebro, quando viria o dia suspirado de sua união.

    Vasco deteve a resposta alguns segundos, e disse:

    –Deixemos vêr se morre minha tia Quiteria, que me quer deixar os
    vinculos do Algarve.

    –Pois nós–volveu Adelaide magoada–não poderemos ser felizes sem os
    vinculos de tua tia Quiteria, meu Vasco?

    –Ninguém é feliz desobedecendo aos seus maiores, replicou Vasco. A tia
    Quiteria quer que eu espere a volta d'el-rei para depois tomar ordens
    sacras, e trazer mais uma mytra episcopal á nossa linhagem onde estavam
    como em vinculo as principaes prelazias do reino.

    Adelaide, não obstante o coração, quando aquillo ouviu, sentiu-se mal do
    estomago.

    XXII

    *Outro abysmo*

    Esta pungente lancetada não esvermou a postema do peito de Calisto de
    Barbuda. Desde que qualquer sujeito perde o siso do coração, escusado é
    esperar que a razão lh'o restaure: em tão boa hora que elle o recupera
    depois das amargas provas. O homem, porém, que amanhece tolo aos
    quarenta e quatro annos, a mim me quer parecer que ao entardecer-lhe a
    vida a tolice refinará.

    Tenho dois grandes exemplos d'isto: um é Calisto de Caçarelhos; o outro
    é Henrique VIII de Inglaterra. Este, ahi pelas alturas dos quarenta
    annos, tão bom homem era, que até escrevia contra o impio Luthero, e
    vivia santamente com sua esposa, Catharina de Aragão. Insandeceu de
    amor, vinte annos depois de marido exemplar, e d'ahi por diante sabe o
    leitor que golpes elle deu no peito invulneravel do papa e no fragil
    pescoço das pobres mulheres.

    Calisto Eloy não será capaz de repudiar nem degolar Theodora, porque
    n'este paiz ha leis que reprimem os patetas sanguinarios; todavia, eu
    não assevero que elle seja incapaz, alguma hora, de lhe chamar parva e
    hedionda, e de lhe atirar com a touca e com o lenço azul de tres pontas
    á cara vermelha de pudor. Veremos.

    Calisto, digamol-o sem refolhos, caiu. Atascou-se. Foi de cabeça ao
    fundo do pégo em que deram a ossada o ultimo rei dos godos, e Marco
    Antonio, e o rei enfeitiçado pela comborça Leonor Telles, e Simplicio da
    Paixão, e varias pessoas minhas conhecidas, que experimentaram todos os
    systemas de desfazer a vida, desde o muro de S. Pedro d'Alcantara até ás
    cabeças dos palitos phosphoricos.

    Este enguiçado Barbuda, na volta de Campolide, não teve uma lagrima que
    chorasse sobre a sua dignidade esfarrapada. Circumvagou a vista pelos
    seus livros, figurou-se-lhe vêr na lombada de cada in-folio o olho de um
    demonio zombeteiro, bem que aquelles pergaminhos encadernassem almas, no
    céo bem-aventuradas, e na terra immorredoiras, almas que n'este mundo se
    chamaram fr. João de Jesus Christo, fr. Pantaleão d'Aveiro, fr. Antonio
    das Chagas, e dezenas d'estes talismans, que tem salvado o leitor e a
    mim de soçobrarmos nos parceis que esbravejam á volta de Calisto.

    Eram duas horas da manhã, quando o morgado experimentou uma sensação,
    que viria a definir-lhe o espirito, se alguem carecesse de vêr este
    homem a luz extraordinaria.

    Nas aguas-furtadas do andar, em que elle morava, residia uma viuva de um
    tenente, senhora d'annos insuspeitos, de muitas lerias, minguada de
    recursos, e, por amor d'isso, se offerecêra a cuidar da casa e da
    cosinha do deputado. Ás duas horas, pois, bateu Calisto á porta da
    visinha, e, como ella lhe fallasse, exprimiu elle a sensação imperativa,
    que o levou alli, por estes termos:

    –Sr.^a D. Thomazia, ha por ahi alguma coisa que se coma?

    –Não ha nada feito; mas eu vou fazer chá, sr. Barbuda, e o que v. ex.^a
    quizer.

    –Olhe se me póde frigir uns ovos com presunto–volveu elle.

    –Pois lá vão ter d'aqui a pouco.

    –Veja lá que se não constipe, sr.^a D. Thomazia–recommendou elle.

    –Não tem duvida. Olhe que eu tenho muito que lhe dizer. Achou um
    bilhete de visita na escrevaninha? perguntou D. Thomazia pelo buraco da
    fechadura.

    –Não achei.

    –Pois lá está. Faz favor de ir, que eu vou vestir-me.

    –Então a sr.^a D. Thomazia está-se constipando? Ora esta! Isso é que eu
    não queria!… Cá desço, e até logo.

    O bilhete, que o deputado encontrou, dizia: Iphigenia de Teive Ponce de
    Leão, e logo a lapis: _viuva do tenente general Gonçalo Telles Teive
    Ponce de Leão_.

    Desfilaram por diante do espirito de Calisto Eloy regimentos de
    illustres familias oriundas dos Telles e dos Teives e dos Ponce de Leão.
    Na linhagem dos Barbudas tambem alguma vez tinham entrado os Teives, e
    uma decima nona avó de Calisto viera de Hespanha, e era Ponce, dos
    Ponces genuinos dos duques de Banhos.

    Estava o morgado combinando estes parentescos contrahidos ahi pelo
    ultimo quartel do seculo XII, quando D. Thomazia entrou com o presunto e
    ovos. Calisto assentou o prato sobre dois volumes da Historia
    Geneologica, que lhe tomavam a banca: e quanto a deglutição lh'o
    permittia, n'alguns intervalos, foi perguntando:

    –Então quem é esta senhora, que me procurou?

    –Eu só sei dizer, respondeu D. Thomazia, que é uma creatura linda,
    linda quanto se póde ser!

    –Como assim?! atalhou Calisto, retendo uma lasca de presunto entre os
    dentes molares, pois ella não é a viuva de um tenente general, que
    naturalmente havia de morrer velho?

    –Póde ser que elle morresse velho; mas a viuva o mais que póde ter é
    trinta annos.

    –E com que então galante?

    –É uma imagem de cera. V. ex.^a ha de vêl-a. E então elegante! A
    cintura cabe aqui, proseguiu D. Thomazia, formando um annel com dois
    dedos. Eu, quando ouvi parar uma carruagem, cuidei que era v. ex.^a e
    vim abrir as portas do escriptorio. A senhora veiu subindo, e puchou á
    campainha. Eu espreitei lá de cima, e, a fallar verdade, lembrei-me se
    seria a sua esposa, que lhe quisesse fazer uma agradavel surpreza.
    Perguntou-me ella pelo sr. Barbuda de Benevides, e foi entrando comigo
    para a sala. Levantou o véo, e disse: «Não está em casa?» Que voz, sr.
    morgado, que voz de creatura aquella!

    –E isso a que horas foi? atalhou Calisto. Era por noite alta?

    –Não, meu senhor. Eram seis horas da tarde. V. ex.^a tornou ás oito,
    mas saiu logo; e, quando eu voltei de fazer uma visita, já o não achei
    para lhe dar esta noticia.

    –E depois a senhora que mais disse?

    –Mostrou-se pesarosa de o não encontrar, e prometteu de voltar hoje ás
    tres horas.

    –E a sr.^a D. Thomazia saberá o que me quer essa dama?

    –Não sei; o que ella sómente disse foi que v. ex.^a era um genio.

    –Pois ella disse-lhe isso sem mais nem menos?

    –Foi a respeito de vêr aqui estes livros muito grandes, acho eu. Esteve
    a reparar n'elles com uma luneta… E a graça com que ella punha a
    luneta!… Mulher assim!… Os homens ás vezes por mais asneiras que
    façam, teem desculpa!…

    –As paixões, minha sr.^a D. Thomazia…–obtemperou o morgado, e lambeu
    os beiços molhados da libação de um vinho nervoso d'aquella garrafeira
    já mencionada. E proseguiu.–As paixões do amor… Nem os grandes sabios
    nem os grandes santos se exemptaram d'ellas. Somos todos de quebradiço
    barro; somos uns pucarinhos de Extremoz nas mãos infantis das mulheres.
    O tributo é fatal: quem o não pagou aos vinte annos, ha de pagal-o aos
    quarenta, e mais tarde, quando Deus quer… Deus ou o demonio, que eu
    não sei ao justo quem fiscalisa estes malaventurados successos de amor,
    que a historia conta e a humanidade experimenta cada dia…

    –É um gosto ouvil-o!–interrompeu D. Thomazia–Bem no disse aquella
    senhora: v. ex.^a é um genio, e falla de modo que se mette no coração da
    gente. Quer que lhe diga a verdade, sr. Barbuda? Foi bom que v. ex.^a me
    encontrasse n'esta edade. Se eu fosse moça e bonita, como dizem que fui,
    um homem como v. ex.^a havia de me dar cuidados.

    –Ora, minha sr.^a D. Thomazia, isso é lisonja e favor. Eu já não estou
    tambem na edade de tocar corações, nem os meus habitos vão muito para
    ahi!

    –Edade!–accudiu a viuva do tenente–v. ex.^a póde dizer que tem trinta
    e cinco annos, que ninguem lh'o duvida. É mania agora dos rapazes
    quererem á fina força passar por velhos. Pergunte quem quizer á visinha
    do primeiro andar se o acha velho. Está-me sempre a perguntar se v.
    ex.^a me diz d'ella alguma coisa… Conhece-a?

    –Bem sei: uma mocetona cheia, com umas fitas escarlates na cabeça…
    Não é má…

    –E sabe v. ex.^a que mais? Eu vou apostar que esta senhora, que veiu
    cá, traz coisa no coração, que a obrigou. Assim uma senhora nova,
    sosinha, tão encantadora!… Aquillo, em quanto a mim, é que já o ouviu
    no parlamento, e apaixonou-se. Ha muitos casos assim cá em Lisboa de
    senhoras apaixonadas pelos homens de talento. O talento é uma coisa
    muito bonita! Meu marido casou comigo quando era sargento do treze de
    infanteria, e andava nos estudos. Era feio, e ao principio tinha-lhe
    medo; mas assim que elle me mandou um acrostico… V. ex.^a sabe fazer
    acrosticos?

    –Ainda não me puz a isso.

    –Pois como eu me chamo Thomazia Leonor e tenho quatorze letras fez-me
    elle um soneto que me deu volta á cabeça, e tamanho incendio me tomou o
    peito, que o amei até á morte, e ainda agora, ficando eu viuva aos
    trinta e nove annos, fui, sou e serei fiel á sua memoria.

    N'este ponto, D. Thomazia, ferida n'alma pelo acrostico memorando,
    chorou.

    Calisto represou-lhe os prantos com algumas maximas consoladoras sobre a
    morte, e bocejou, já por que eram tres horas e meia da manhã, já por que
    o dialogo descaira nos aborrimentos de uma palestra em dia de fieis
    defuntos. D. Thomazia começou a espirrar, por que se não agasalhára
    bastantemente, e assim se apartaram estas duas pessoas, que uma hora de
    expansão aproximara.

    Calisto, conforme ao antigo uso, levou um livro para a cabeceira do
    leito. Escolheu poeta, e saiu-lhe o seu já tão querido outr'ora Sá de
    Miranda. Abriu ao acaso, e saiu-lhe n'uma pagina _d'Os Estrangeiros_
    esta maxima: _Duas sortes de homens ha no mundo que se possam servir: ou
    muito parvos ou muito namorados, e ainda os namorados tem grande
    vantagem_.

    A meu vêr, o espirito d'aquelle honrado doutor, que tão santo marido
    fôra de Briolanja de Azevedo, até de saudades d'ella se deixar morrer,
    alli lhe viera, áquella hora, relembrar occasionalmente e a ponto uma de
    suas maximas, como em paga do affectuoso respeito com que Barbuda o lia
    e inculcava á mocidade depravada.

    Calisto Eloy pôde ainda admirar o lidimo portuguez da maxima, e
    adormeceu.

    XXIII

    *Tenta o seu anjo da guarda salval-o mediante uma carta da esposa*

    Calisto dormiu mal.

    As alvoradas de um dia feliz são mais temporãs que as da estrella
    d'alva. O coração acorda primeiro que os passaros. O amor diz o seu
    _fiat lux_ primeiro que Deus. Estas tres sentenças, a meu vêr, são mais
    intelligiveis que o contentamento do morgado da Agra, ao levantar-se da
    cama em que dormitára algumas escassas horas alvoroçadas.

    O desastre de Campolide quebrantaria um homem qualquer que viesse a
    cumprir n'este mundo os vulgares destinos da maxima parte dos mortaes.
    Individuos notaveis já sairam scepticos e bravos cynicos de aperturas
    menos dilacerantes. Os annaes ensanguentados da humanidade estão cheios
    de facinoras, empuxados ao crime pela ingratidão injuriosa de mulheres
    muito amadas e perversissimas. Superabundam casos de embaçadellas
    analogas á de Calisto: d'estes lances obscuros tem saido aparvalhada
    muita gente que era escorreita, e que se volve daninha á republica. São
    uns homens que vos namoram as criadas, se vos não podem requestar a
    familia; uns vampiros de sangue femeal, que trazem o demonio da vingança
    no corpo, demonio meridiano e nocturno, que bebe lagrimas de mulher, em
    quanto os possessos d'elle bebem cognac e absyntho. Um homem d'estes,
    encostado a frade de esquina, é o leão que espreita da sua caverna
    lybica a antilopa descuidosa. Officiala de modista, que se espaneja nas
    verduras do jardim da Estrella, como alvéola nas praias borrifadas de
    espuma, se o anjo da guarda a desampara um quarto de hora, tem os seus
    dias contados. O scelerado, com o simples auxilio de um gallego, em que
    por vezes se ingere e chafurda o confidente de Fausto, arranca da fronte
    da alegre palmilhadeira de botinhas a grinalda de laranjeira em botão,
    que esperava a sua primavera, o seu abrir-se e rescender, no primeiro
    dia nupcial. Que tristeza! E ninguem falla d'isto senão eu, porque me
    cumpre fazer o elogio de Calisto Eloy, que não fez cousa nenhuma
    d'aquellas.

    Assim que se ergueu cuidou em aformosear a saleta, cuja decoração era
    menos de modesta. Saiu açodado ao armazem dos mais elegantes estofos, e
    comprou alfaias magnificas. O homem pasmava dos nomes d'aquelles
    objectos, nenhum dos quaes soava portuguezmente.

    –Porque chamam a isto _chaise-longue_?–perguntava Calisto Eloy ao
    engenhoso Margoteau.

    –Porque chamam?!

    –Sim: eu creio que se não offende a França no caso de chamarmos a este
    movel uma cadeira longa, ou uma preguiceira, que sôa melhor. E _étagère_
    e _console_ e _téte-à-tête_, e _onaise_? E é carissimo tudo isto! A
    gente, pelos modos, de fóra parte os objectos, tambem paga a lição de
    francez de samblador, que vem aqui aprender?

    Sem embargo d'estes reparos, o oiro saiu-lhe generosamente da algibeira
    bem apercebida.

    A pobre saleta do morgado, dentro em pouco, transformou-se em recinto
    digno de uma Ponce de Leão. Calisto, refestelado nos coxins elasticos da
    ottomana, contemplava os restantes adornos do aposento, quando lhe
    chegou do correio carta da sua esposa.

    Dizia assim:

    «Já com esta são tres que te escrevo, e ó por hora nem uma nem duas da
    tua parte. Marido! que fazes tu, que não respondes? Ando a futurar que
    não tens o miolo no seu logar. Longe da vista, longe do coração, diz lá
    o ditado. Ora, queira Deus que não seja por minga de saude; e, se é,
    dil-o para cá, que eu estou aqui estou lá.

    «O primo Affonso de Gamboa esteve cá ha dias, e a modo de caçoada foi-me
    dizendo que lá na capital as mulheres inguiçam os homens, e fazem
    d'elles gato sapato. Eu fiquei sem pinga de sangue, meu Calisto! Mal fiz
    eu em te deixar ir ás côrtes. Bem tolo é quem está bem na sua casa, e se
    mette n'estas coisas dos governos, que só servem para quem não tem que
    perder, como diz o primo Affonso.

    O peor é se tu pegas a doidejar com as mulheres, e saes do teu sério.
    Eras um marido perfeito como a santa religião o quer, e tenho cá uns
    agouros no peito que me não deixam fechar olho ha tres noites. Deus te
    defenda, homem, e te traga aos braços da tua mulher são e escorreito da
    alma e do corpo.

    Saberás que o mestre-escola anda de candeias ás avessas por que tu lhe
    não respondes á carta em que elle te pediu uma venera. Olha se lhe
    arranjas isso ainda que te custe pedir ao rei ou lá a quem é a tal
    coisa. O homem tem-me feito favores, quando eu preciso que elle me leia
    a relação dos foreiros. A vacca preta comeu o bicho, e morreu hontem á
    noite. Lá se vão cinco moedas e um quartinho com a breca. O centeio da
    tulha do meio deu-lhe o gorgulho, e tratei de o vender, a trezentos e
    quinze, foi bem bom arranjo; eram mil e duzentos alqueires.

    Olha cá, meu Calisto, disse-me a Joanna Pedra, que ouvira dizer ao
    Manuel da Loja, que ouviu dizer ao compadre Francisco Lampreia, que veiu
    de Bragança que lá lhe disseram que tu mandaras ir de casa de um
    negociante mais de cem moedas de ouro!!! Fiquei estarrecida. Pois tu lá
    não recebes do rei dinheiro que te sobre? Em que affundes tu tantas
    moedas, homem? Vê lá no que andas mettido, Calisto! E, se te fôr muito
    necessario algum dinheiro, cá estou eu para t'o mandar. Aquelle caixote
    de peças de duas caras fui ha dias escondêl-o na lareira da cosinha
    velha, porque tenho medo á ladroeira desde que tu andas por lá.

    Não te enfado mais. Responde sem demora, que estou muito consternada.

    Tua mulher que muito te quer
    _Theodora_.»

    Calisto Eloy dobrou a carta vagarosamente, e disse de si para comsigo:

    –Pobre mulher! já me sinto enfadado com as tuas cartas… Já as tuas
    sinceras babozeiras me incommodam e enjoam!… Agora vejo que tu eras
    quasi nada na minha vida. Não sei em que logar do meu coração estiveste,
    porque não dou pela falta, nem sequer a saudade me chama para ti!… Os
    contentamentos da minha vida passada deu-m'os o estudo. O coração dormia
    como os ventos da tempestade no bojo da nuvem negra, que serenamente se
    vae acastellando no horisonte. Eil-a começa a desfechar agora relampagos
    e coriscos. Mas o viver é isto! eu quero e preciso amar. Levam-me os
    impetos de uma vontade juvenil, e «a vontade é vida» como diz o Jorge
    Ferreira na Eufrozina. Amor! amor! que me caldeaste e retemperaste o
    peito nas tuas forjas! emborca-me os teus nectareos phyltros,
    embriaga-me este coração, que já não póde respirar de afogado nos seus
    ardores!…

    Disse, e tirou de uma charuteira de canudos de prata um havano, cujas
    ondulações de fumo lhe perfumaram o quarto e subtilisaram a phantasia.

    Depois, com forçado tregeito, estendeu o braço sobre uma banqueta de
    charão, em que assentava um tinteiro de crystal, e escreveu á esposa,
    n'este theor:

    «Prima Theodora e estimada esposa.

    Passo bem de saude; mas saudoso de ti. Não te tenho escripto, porque os
    negocios do estado me levam todo o tempo. Mandei vir dinheiro de
    Bragança, para emprezas de grande vantagem. Não te dê cuidado os meus
    gastos, que somos muito ricos, e não temos filhos. Até aqui vivemos
    miseravelmente, quando eu voltar a casa, quero que mudes de vida, prima.
    Hei de reformar o nosso palacete de Miranda, e viveremos como nossos
    avós, com representação e commodidades proprias d'este tempo. É preciso
    gosarmos a vida, que é curta. Não andes por lá a medir grão nem a tratar
    das aves. Entrega isso ás criadas, e faz-te a senhora e fidalga que és.

    Em quanto ao mestre-escola, e á sua exigencia do habito de Christo, devo
    dizer-te que o mestre-escola é um asno. Não respondo a taes cartas.
    Manda-o á tabua, e não admittas similhante palerma á tua conversação.
    Lembra-te que és uma Figueirôa, casada com um Barbuda.

    Se receberes ordem minha, em mão de algum negociante de Bragança, paga o
    dinheiro que disser a ordem.

    Não te lembres de infidelidades do teu Calisto. O primo Gamboa é um
    patarata sem juizo, que te diz essas coisas para te disfructar.

    Quando vier o recoveiro de Miranda, manda-me presunto, salpicões, e
    algumas ancoretas do vinho da Ribeira.

    Teu muito affecto e extremoso
    _Calisto_.»

    XXIV

    *A mulher fatal*

    Ás tres horas em ponto, parou uma sege de praça, á porta de Calisto Eloy
    de Silos. O bolieiro subiu ao terceiro andar, perguntando se s. ex.^a
    estava em casa. O morgado arregaçou com o pente as mechas do cabello,
    que lhe escondiam porção das escampadas fontes, apertou os cordões do
    rob-de-chambre na volta mais airosa da cintura, e desceu ao pateo a
    receber a visita.

    Saltou da sege, amparando-se levemente na mão de Calisto, uma mulher
    d'aquellas que Lucifer fazia, quando assaltava no deserto a pudicicia
    dos Antonios, dos Paulos, dos Pacomios e Hilarioens.

    Era alta e pallida: rutilavam-lhe os olhos como lustrosos azeviches á
    flor de um busto de marfim, algum tanto emaciado. Calisto machinalmente
    levou a mão ao coração: traspassara-lh'o uma azagaia electrica.

    –É muita delicadeza da parte de v. ex.^a, disse Iphigenia.

    –Oh, minha senhora!… tartamudeou o morgado da Agra, offerecendo-lhe o
    braço.

    –Parece, tornou ella quando iam subindo, que o meu palpite não me
    enganou…

    –O palpite de v. ex.^a?

    –Sim… eu contava com um cavalheiro no rigor da palavra… Delicadeza
    egual ao talento, qualidades que raras vezes se conformam.

    Entraram á sala. O morgado conduziu Iphigenia ao sophá, e disse com voz
    tremida:

    –A que devo eu a honra d'esta visita, minha senhora?

    –Abreviarei a minha historia e a minha pretenção. As suas horas deve-as
    v. ex.^a ao bem da patria, e indiscreta fui eu obrigando-o a estar fóra
    do parlamento a esta hora…

    –Minha senhora… que vale a patria, em comparação da honra que v.
    ex.^a me dá?! atalhou Calisto Eloy, com o coração nos labios a sorrir.

    –Sou brazileira. Pela falla me terá já conhecido…

    –Sim: eu estava notando no fallar de v. ex.^a, uma graça indisivel…

    –Meu pae era portuguez, capitão de mar e guerra. Foi de Portugal com D.
    João VI, e casou no Rio de Janeiro, com minha mãe, senhora de boa
    linhagem, mas de pouquissimos recursos. Nasci em 1830, e casei em 1846
    com um official general, do exercito do imperador do Brazil. Meu marido
    tinha sessenta e seis annos. Emigrára em 1834, com a patente de
    brigadeiro dada por D. Miguel, tendo sido coronel ainda no reinado de D.
    João. Gonçalo Telles offereceu a sua espada e intelligencia a Pedro II,
    serviu bravamente o imperio, e subiu em postos. Eu vivia orphã de pae e
    mãe, na companhia de parentes maternos, que pensavam constantemente em
    me dar posição. Casaram-me, e, se me não fizeram feliz, deram-me pae,
    amigo e mestre na pessoa de Gonçalo Telles.

    Ha dois annos que meu marido morreu. Deixou-me pouco, porque ninguem
    póde grangear muito com honra, principalmente na vida militar. Pouco
    antes de cair enfermo, me disse que, se algum dia me faltassem recursos
    e beneficios do governo brazileiro, viesse a Portugal e procurasse o
    amparo de alguns grandes fidalgos, seus parentes que elle me nomeou um
    por um; e ajuntou que, se os parentes me não amparassem, pedisse ao
    estado uma tença em attenção aos muitos serviços que elle fizera á
    patria em trinta annos, até ao dia em que foi promovido a coronel de
    cavallaria.

    Ha tres mezes que cheguei a Lisboa. Procurei os parentes do meu marido.
    Apeei á porta de grandes palacios, e esperei largas horas em grandes
    salas de espera, como viuva que anda requerendo esmola. Enganaram-se.

    Alguns, por mais tractos que deram á memoria, já não conseguiram
    lembrar-se de Gonçalo Telles de Teive Ponce de Leão; outros, os mais
    velhos, recordavam-se do sujeito, e lastimavam que elle deixasse o
    serviço da patria. Quando eu não tinha mais que lhes dizer nem elles a
    mim, eu levantava-me, elles levantavam-se, e despediamo-nos
    cerimoniosamente. A altivez com que eu os despreso, sr. Barbuda,
    authorisa-me a dizer-lhe que os miseraveis são elles: eu tenho comigo a
    riqueza do meu orgulho; e, se conservo os appellidos de meu marido, é
    porque elle foi talvez o unico de sua raça que os não desdourou…

    –Diz v. ex.^a muito bem–atalhou Calisto.–Que nobre alma as suas
    palavras me manifestam!

    –Ha dias, por não ter de portas a dentro coisa que me distraisse de
    pensares melancholicos, fui ao parlamento. Segui umas senhoras que iam
    subindo para as galerias. Um homem pediu-me o meu bilhete de admissão:
    eu não tinha bilhete, e ia descer algum tanto envergonhada, quando um
    deputado cortezmente me disse: «aqui tem uma entrada, minha senhora.»
    Agradeci, posto que a minha vontade seria regeitar. Entrei, quando v.
    ex.^a começava a fallar. Impressionou-me a sua eloquencia chã, os seus
    ares graves, a compostura, um não sei quê mais sério que os seus annos,
    permitta-me assim fallar. E, ao mesmo tempo, lembrou-me a recommendação
    de meu marido, respectivamente aos direitos que elle tinha de ser
    remunerado na pessoa de sua viuva. Eu nada sei de leis nem consultei
    quem as soubesse; ignoro se tenho direito a reclamar o que meu marido
    nunca reclamou. V. ex.^a póde de prompto responder-me?

    –Não, minha senhora. O que eu de prompto posso asseverar a v. ex.^a é
    que, em honra da memoria e cinzas do honrado brigadeiro do sr. D.
    Miguel, não erguerei minha voz humilde no parlamento, pedindo aos
    inimigos de D. Miguel favores para a viuva de Gonçalo Telles.

    –Em tal caso…–balbuciou D. Iphigenia–baldou-se a minha pretenção.

    –Queira v. ex.^a ouvir-me…–Molesta-se com o fumo do
    charuto?–perguntou elle erguendo-se.

    –Não, senhor.

    Calisto accendeu o charuto com ademanes theatraes, e voltou a sentar-se,
    proseguindo:

    –Se o marido de v. ex.^a houvesse profundamente estudado a sua arvore
    genealogica, ajuntaria alguns nomes, mais obscuros mas não menos
    antigos, á lista dos parentes em Portugal. Mais obscuros, digo eu;
    porém, a illustração dos mais claros não é de invejar, minha nobilissima
    senhora. Entre aquelles que se honram do parentesco dos Telles, dos
    Teives e ainda dos leonezes chamados Ponces de Leão, ha um que dispensou
    estes appellidos por se não demasiar em composturas nobiliarias. E esse,
    minha senhora e prima, sou eu.

    –V. ex.^a?!–acudiu Iphigenia.

    –Eu, que não costumo fallar de meus antepassados, sem invocar o
    testemunho dos tratadistas nobliarchicos, dos chronistas, dos
    genealogicos impressos e não impressos. Devo poupal-a a discursos, aliás
    curiosos, de agradaveis e historicas noticias: mais tarde v. ex.^a
    ouvirá com interesse as allianças travadas entre os meus maiores e os de
    meu parente Gonçalo Telles de Teive. Achou, pois, v. ex.^a um parente em
    Portugal. Boa estrella nos fez confluir a Lisboa; em boa hora me deixei
    vencer das instancias dos meus constituintes.

    –Eu estou maravilhada!…–exclamou Iphigenia–Ha presentimentos
    prodigiosos!… Que força estranha era esta que me impellia para v.
    ex.^a!? Subi as escadas de sua casa com desusada affoiteza. Comecei a
    fallar-lhe com segurança e tranquilidade extraordinarias! Não me lembrei
    que estava diante de um cavalheiro, que podia intender-me falsa e
    desairosamente… Em fim, eu fallava a v. ex.^a como se deve fallar… a
    um primo.

    –E mais que tudo a um amigo. E, como amigo, ouso perguntar a v. ex.^a
    qual é actualmente a sua situação.

    –Francamente responderei. Entrei em Lisboa com dinheiro, que poderia
    bastar á minha economica subsistencia de dois annos; porém, como ao fim
    de tres mezes, não se me antolhava amparo de ninguem, nem esperanças de
    alcançar a paga dos serviços de meu marido, pensei em trabalhar para não
    exhaurir o peculio que tinha. Li um annuncio, convidando mestra de
    linguas ingleza e franceza para collegio. Confiei bastante em mim, e
    apresentei-me aos directores. Fallei francez, e cuidaram que eu nascêra
    em França; em quanto a inglez, deram-me como bastante conhecedora da
    lingua. Pareceu-me que a minha posição melhorava; mas enganei-me. Eu
    levava comigo o fatal condão de algumas mulheres; dizem que ainda não
    estou velha nem feia…

    –Que favor lhe fazem, minha senhora!–atalhou Calisto mui risonho.

    –Pois este accidente, de que tanto se desvanecem algumas mulheres,
    tornou-se para mim supplicio. Não querem crêr que eu envolvi meu coração
    na mortalha de meu marido, no tumulo d'elle o fechei; e, se podesse,
    este resto de formosura atirara áquella campa, que me roubou um pae.

    –Então é certo que minha prima abjurou todas as alegrias do
    coração?–perguntou Calisto, já ferido n'alma por este desengano á
    paixão que o ia queimando com um crescer e desenvolvimento para pavores!

    –Todas as que não condigam com a minha situação de viuva.

    –Pois se a Providencia lhe deparasse um marido digno…

    –Maridos dignos são unicamente aquelles que affagam como a filhas as
    mulheres; são aquelles que as mulheres estremecem como paes; são os que
    concentram todo o seu viver no pequenino ambito da familia, na placidez
    e silencios de almas que se contemplam mudas, quando as vozes do coração
    já não tem que dizer. Eu experimentei estes contentamentos ao lado de um
    pae, que me deu todo o seu saber quando já não tinha forças para manejar
    a espada. Não se podem repetir as situações do meu passado; lembro-as
    com saudade; mas não cogito nem levemente em revivêl-as. Aqui tem v.
    ex.^a a sincera exposição do que sou. Veiu isto a dizer-lhe que a vida
    de mestra, que adoptei, me é golpeada de desgostos e repugnancias que me
    fazem desgraçada.

    –E como seria v. ex.^a feliz?–interrompeu Calisto.

    –N'uma casinha entre duas arvores, com os meus livros e com as minhas
    saudades. Ambiciono muito, porque ha pessoas abastadas que nunca puderam
    conseguir esta felicidade, tão moderada apparentemente.

    Ergueu-se Calisto Eloy de golpe, avisinhou-se da brazileira, tomou-lhe a
    mão com solemnidade, e abriu do peito estas graves e doces vozes:

    –Prima Iphigenia, eu não permittirei que a sua mocidade vá
    emmurchecer-se n'uma casinha entre duas arvores. Para as arvores e
    flôres se fizeram as aves; e, todavia, na estação desabrida, umas aves
    desferem remontado vôo a outros climas, e outras pipilam enfezadas de
    frio e fome. Na estação das manhãs regorgeadas e das tardes inspirativas
    terá v. ex.^a a sua casa bem assombrada de arvores e rodeada de relvas e
    fontes que retemperem as calmas do estio. Porém, no inverno, gosará o
    aconchêgo e regalos que as grandes populações offerecem. Não lhe admitto
    replicas, prima. Achou um parente de edade authorisada, que requer
    obediencia. Agora, fallar-lhe-hei de mim. Sou rico, não tenho filhos,
    com quanto seja casado…

    N'este ponto do discurso, Calisto de Barbuda fez ama visagem funebre, e
    correu os dedos vertiginosamente por sobre o bigode, ainda escasso.
    Depois, desentranhou um suspiro cavo, e continuou:

    –Minha prima e mulher, se alguma vez se encontrar com v. ex.^a
    abrir-lhe-ha os braços de parenta. É uma creatura feita no campo, dotada
    apenas das luzes naturaes, que a levam pelo melhor caminho da felicidade
    n'este mundo. Casei, por que era necessario que o vinculo dos Figueirôas
    voltasse á casa d'onde saíra. Acho-me ha vinte e alguns annos ligado á
    mulher, que não devia ser minha. E, se ella é feliz, isso prova a muita
    probidade e resignação com que me tenho conformado ao meu destino…

    Fez uma breve pausa, e proseguiu:

    –V. ex.^a deu largas á sua alma: consinta que eu seja avaro do prazer
    de uma expansão.

    –Porque não ha de sêl-o?–accudiu D. Iphigenia, interessada na
    commovente historia.

    –Não sei o que é felicidade. Tenho quarenta e quatro annos, e ainda não
    vi uma aurora benigna. Muitos annos procurei aturdir-me no estudo.
    Roía-me o abutre de um desejo vago; mas eu, que me segregára do mundo
    para o escondrijo da minha bibliotheca, se ás vezes passava de relance
    entre mulheres, que poderiam espertar-me paixões, fitava n'ellas como
    idiota que perdeu a memoria da terra natal, e se quêda espantado das
    coisas que ligeiramente lhe espertam a lembrança. Se alguma vez me
    surpresou algum sentimento estranho de affecto, podia tanto comigo a
    consciencia da sujeição ao dever, que o mesmo era cerrar os ouvidos da
    alma ao quer que era, entidade dupla, que me segredava delicias de uma
    vida incognita. Estas breves e poucas pelejas, com o discorrer dos
    annos, cessaram. Eu tinha consummado a paralysia do coração, e chamado
    sobre mim todos os habitos da velhice. A minha vinda para Lisboa foi o
    resurgimento da vida, sepultada antes de haver consciencia de si.
    Achei-me entre homens, aquecidos á luz d'este seculo. Na athmosphera
    d'esta cidade ha perfumes que vaporam do coração das esposas amadas, das
    amantes queridas, das pombas ideaes, que volteam á volta dos espiritos
    anhelantes de cada homem. Pulou-me como arfar de vulcões a vida no
    peito. Vi-me no passado, e tive pesar, e saudade, e pejo da minha
    mocidade… Onde vão estas candidas revelações do meu pobre coração? Não
    na enfadam porventura minha senhora?

    –Interessam-me e commovem-me–disse com affectuosa sympathia a
    brazileira–Vae dizer-me que se apaixonou?

    –Tive um delirio–respondeu o morgado, compassando as palavras em tom
    muito do intimo–Um delirio, sonho de infeliz, que se desperta a
    arrancar do seio uma frecha. Foi o estremecer do terremoto, que alarma
    terrores, e se aquieta. Medi a profundeza da minha alma, e pude vêr que
    eu seria capaz de um crime… E, todavia, se algum seio de mulher
    podesse comprehender quanta pureza sanctificava os meus affectos!… Se
    alguem visse a aguia que por tão alto avoeja, sem descer ás searas a
    roubar um grão!… Fallo a um espirito elevado, que tem obrigação de me
    comprehender… Agora, senhora, perdão! Eu disse tudo: confessei-me
    diante de um anjo de Deus. Mostrei-lhe o desamparo d'este meu viver. E,
    se estas lagrimas alguma coisa significam, é uma supplica de amizade. Eu
    vejo ahi uma formosura que dobra a alma, e ouso procurar o
    compadecimento de uma amiga, porque sei agora que ha mulheres, diante
    das quaes um homem precisa chorar.

    Calou-se o morgado. Iphigenia encarava n'elle com certo assombro e
    estranheza de pessoa que não póde, nem quer conhecer dos sentimentos que
    a alvoroçam. O inesperado remate d'este dialogo figurou-se-lhe a ella a
    passagem de um romance, que se não presa de muito verosimil. Porém, como
    quer que a viuva do general Ponce de Leão fosse grandemente lida em
    novellas francezas, o caso não lhe pareceu tão extraordinario como ao
    leitor e a mim, quando m'o referiram.

    Passados momentos, Iphigenia, contemplando, sem as vêr, umas figuras
    chinezas do seu leque, disse:

    –De maneira que esta apparição imprevista de uma mulher desafortunada,
    se deu logar á expansão, tambem foi causa a uma dôr de v. ex.^a!…

    Calisto entrelaçou os dedos em postura supplicante, e exclamou:

    –Chovam-lhe os archanjos do Senhor quantas felicidades a
    bem-aventurança encerra! Nunca uma nuvem escura lhe ennegreça os seus
    sonhos de felicidade! Multipliquem-se em alegrias eternas para v. ex.^a,
    estes instantes de ventura que me deu, minha misericordiosa amiga!

    Nenhuma paixão subita estalou ainda com estrondos d'este tamanho. A
    gente comprehende como estas coisas acontecem; casos se podem ter dado
    comnosco da mesma natureza, mas o que nós não fizemos nunca, se o amor
    nos assaltou de improviso, foi fallar assim, romper tão depressa em
    vehemencias de enthusiasmo. Nós, homens creados mais ou menos por salas,
    affeitos a subordinar o sentimento ás praticas da civilidade,
    desafogâmos em extasis e suspiros, contemplamos embellezados a mulher
    que nos endoudece, respondemos com frioleiras gagas a uma pergunta, que
    nos ella faz com toda a presença do seu espirito. Toda a lastima é pouca
    para os ridiculissimos tregeitos que fazemos então.

    Ora, isto é bom que assim continue a ser. Esse quarto de hora de suprema
    realeza das mulheres é tudo que ellas tem, e pouco mais. Esse espaço de
    fascinação, que nos embrutece, é a divinisação d'ellas. Ás pobresinhas,
    quando o tempo as apêa dos altares, e os maridos convertem a prata dos
    thuribulos em caixas de rapé, fica-lhes sempre a memoria consolativa
    d'aquelle quarto de hora.

    Tornando ao ponto, queria eu dizer, que o morgado da Agra de Freimas não
    fallaria d'aquelle modo, nem tão do intimo da alma apaixonada, se
    tivesse experiencia dos usos da boa sociedade. Os bons usos ordenam que
    o homem se declare á mulher que ama, depois que as impressões repetidas
    de vêl-a e ouvil-a bajam desfalcado o vigor do sentimento. A praxe
    requer primeiro o extasis, depois as semsaborias tratamudas, ultimamente
    a declaração, com intervalo de tres mezes ao extasis.

    XXV

    *Perdido!*

    Fecharam-se as camaras.

    Calisto Eloy desamparára a sua cadeira do parlamento, quinze dias antes
    de encerrada a legislatura. Era opinião geral que o deputado de Miranda,
    desgostoso do governo e da opposição, se retirara, convicto da fraqueza
    de seus hombros contra o colosso, que tombava sobre o desangrado
    Portugal.

    As gazetas realistas indigitavam Calisto como exemplo de peito illustre
    e invulneravel no marnel de febres podres em que ardiam e patinhavam
    miseraveis ambiciosos. Deram-lhe, á conta d'isso, varios nomes gregos e
    romanos, que lhe ajustavam tão a primor, como a verdade historica á
    legenda das fabulosas virtudes de Grecia e Roma. A opposição liberal
    lamentava que as medidas obnoxias e hybridas do governo afugentassem da
    camara um deputado como Benevides de Barbuda, a cuja alta intelligencia
    e virtude repugnavam os desatinos da camarilha. Calisto Eloy lia estas
    coisas nas gazetas, e dizia entre si:

    –Como hei de eu crer no que vejo escripto a respeito dos outros!…

    Ao tempo que estes juizos dos publicistas eram impressos e mandados á
    posteridade, estava o morgado da Agra no hotel de Cíntra, cuidando em
    alugar e trastejar com elegancia britannica uma casa, entre moitas de
    arbustos, a qual parecia feita para a rainha das flores ou para
    repousar-se em fresca sesta a aurora.

    Decoradas as paredes interiores, cobertos de oleado os pavimentos, e
    afestoadas as paredes exteriormente com lilazes e jasmineiros, baunilhas
    e eras de verdejante urdidura, entrou n'aquella casa D. Iphigenia,
    conduzida pelo braço de Calisto, e seguida de uma senhora de porte
    honesto e recommendavel, que vinha a ser aquella D. Thomazia Leonor, em
    honra de quem as musas do defuncto tenente suspiraram acrosticos. Mais
    atraz, iam duas criadas, e um servo fardado de casimira côr de pombo,
    com gola e canhões escarlates, golpeados de listas amarellas,
    distinctivos da libré dos Ponces de Leão de Hespanha.

    Iphigenia foi surprehendida pelo seu gabinete de estudo, decorado de
    graciosas estantes e _étagères_, cheias de livros luxuosamente
    encadernados, acondicionados com tão elegante symetria que induziam
    muito mais á contemplação que á leitura. O restante d'aquella vivenda de
    fadas era por egual magnifico, em gosto e riqueza.

    Calisto deu posse da casa a sua prima, e retirou-se ao hotel, para que
    ella sestiasse e se recobrasse da fadiga e calma da jornada.

    Ao descair da tarde, o morgado foi bater á porta d'aquelle eden.
    Iphigenia saiu-lhe ao encontro com um ramilhete de flores, e disse-lhe:

    –Aqui tem as primicias do seu jardim, primo.

    Calisto aspirou o aroma das flores, osculou a mão que lh'as offerecera,
    e murmurou:

    –Fechem-se os meus olhos, quando eu as poder vêr sem lagrimas de
    gratidão.

    –Lagrimas… para que?–Volveu ella com meiguice.–As lagrimas
    deixemol-as aos infelizes. O primo não comparte do meu contentamento?
    Não vê que me realisou o meu sonho com tamanho excesso de delicias, que
    eu não me atrevera, sequer, a imaginar? Sinto-me ditosa!… Ainda não
    quiz pensar um instante se estas alegrias podem descair em magoas…
    Estou sonhando, e não quero que me acordem. Seria crueldade dizerem-me
    que ha viboras debaixo d'estas alcatifas de flores. Isto deve ser
    paraizo sem culpa, ignorancia santa do porvir sem pomo de arvore da
    sciencia que m'o descubra. Não é assim?…

    –Que fallar o seu prima!–disse com vehemente, mas suffocado amor, o
    morgado–Que melodias!… Eu não sei responder-lhe… Apenas sei
    escutal-a. N'uma composição dramatica de Sá de Miranda, chamada
    _Vilhalpandos_, ha um epitheto dado a uma mulher, o qual eu não podia
    perceber, sem que o baptismo das doces lagrimas me chamassem o coração á
    vida.

    –Sempre lagrimas!…–atalhou Iphigenia–Então que é que diz o Sá de
    Miranda?

    –Na bocca de um amante, que encontra a sua amada, põe estas palavras:
    «mulher santissima». Quem disse mais n'este mundo? os seus poetas
    francezes disseram coisa mais peregrina?… E n'esta mesma scena, poucas
    linhas abaixo, diz o amante a Fausta: «Sabes que sonho?». Que immenso
    amor devia de ser o de Antonioto, que assim perguntava á vida de sua
    alma: «Sabes que sonho?»

    –_Fausta_!… é um nome lindo, disse a mimosa viuva.

    –Se não existisse Iphigenia…–accudiu Calisto. Já este nome me soava
    docemente quando, na minha mocidade relia as angustias da filha da
    Agamemnão, cujo sacrificio o oraculo de Aulida demandava.

    –Ah! tambem eu conheço essas angustias da tragedia de Racine. Quantas
    vezes eu, nas minhas horas tristes, repetia com a Iphigenia do grande
    poeta francez, e com o espirito na alma de minha mãe, assim como ella o
    tinha no afflicto rosto da sua:

    _Ah!
    Sous quel astre-cruel avez-vous mis au jour
    Le malheureux objet d'un si tendre amour?_

    O primo, continuou ella, conhece perfeitamente Racine e Corneille?

    –Perfunctoriamente. Conheço melhor Euripedes e Seneca. Pendi sempre á
    lição de classicos gregos, latinos e portuguezes. Crê-se nas provincias
    que o saber humano está n'isto. Os francezes começo a presal-os agora,
    porque… não ha linguagem que não sôe divinamente fallada por minha
    prima.

    –Essas lisonjas–volveu ella sorrindo–aprendeu-as nos seus livros
    velhos, primo Calisto?

    –A lisonja deixará alguma hora de ser mentira?… Eu não podia
    mentir-lhe, prima Iphigenia. Não!… Os meus classicos só me ensinaram
    duas palavras, que eu possa dizer-lhe: Mulher Santissima!

    Iphigenia deixou-se amorosamente beijar nos dedos.

    A natureza de Cintra, incluindo os rouxinoes d'aquellas ramarias,
    poderia espantar-se: eu, não.

    XXVI

    *E ella amava-o!*

    Era já pleno estio. Os galans mais hardidos de Lisboa estanceavam por
    Sitiaes, por Pisões, e por aquellas varzeas de Collares, a engarrafar
    lyrismo para gastarem por salas nas noites de inverno.

    O primeiro d'elles que descortinou por entre arvores a formosa
    brazileira foi alviçarando aos outros a ondina incognita, que saira das
    vagas a buscar camilha de folhagem e boninas entre as fragas da serra da
    lua.

    Entram os agitados monteiros da estranha caça a circumvagarem nas
    encostas e oiteirinhos que rodeavam a vivenda de Iphigenia. Uns a viam
    ao sol posto, outros ao arraiar da manhã, e outros, quando ella
    perpassava por entre aleas de cylindras para uma gruta fechada como
    concha de perola.

    A presença de Calisto Eloy, confundido com os arbustos floridos da
    casinha mysteriosa, augmentou a curiosidade dos indagadores. Uns
    consideraram esposa do deputado a bella esquiva; outros aventaram
    hypotheses mais romanticas, mas menos honestas. Á primeira conjectura
    oppunha-se uma forte razão negativa: se era marido, porque vivia no
    hotel do Victor? Á segunda conjectura, contradictava outra razão
    ponderavel: se era amante, que descuidado amante era elle, que se
    encerrava no seu quarto do hotel, durante as noites,–facto averiguado
    minudenciosamente pelos interessados? O mysterio, pelo conseguinte, a
    nublar-se, e as esporas de uma curiosidade impaciente a picar os moços
    ociosos, e os ricassos velhos, que espreitavam por entre a rede das
    sebes verdejantes, esta Susana, mais cuidadosa do que a outra, que
    accendia fogos nos lubricos juizes de Israel.

    Entre os mancebos, estremava-se um, que passava grandes espaços de tempo
    em quietismo esculptural debaixo de um olmo, que sobranceava a casa de
    Iphigenia. Sempre que ella, á hora da maior calma, se aproximava da
    janella do seu gabinete a respirar o frescor do jardim, via o
    contemplativo sujeito de braços cruzados, e olhos fitos. Mas, assim que,
    ao intardecer, os arredores da casa começavam a ser frequentados, o
    moço, como quem se resguarda, desapparecia.

    Era este sujeito aquelle Vasco da Cunha, que esperava a herança de uma
    tia para casar com Adelaide Sarmento. Os olhos indifferentes de
    Iphigenia assetearam-lhe a pia alma, n'um d'aquelles dias em que elle
    viera de Lisboa a Cintra para assistir á novena de Santo Antonio de
    Padua, celebrada solemnemente na capella de uma tia marqueza. Ou porque
    o ascetico fidalgo andasse com o coração amollecido pelas praticas
    piedosas, ou porque Iphigenia se lhe figurasse algum d'aquelles
    seraphins que visitavam os anachoretas da Thebaida, o certo é que não
    houve mais despegar-se-lhe a phantasia d'aquella imagem, que se
    interpunha entre elle e o santo filho de Martim de Bulhões.

    Iphigenia attentou na pertinacia do homem, e contou ao primo Calisto,
    gracejando, a tempestade amorosa que lhe andava imminente na pessoa
    d'aquelle sujeito. Assomaram differentes côres ao rosto do morgado.
    Quizera elle dissimular o sobresalto com o sorriso: mas a rubidez
    sanguinea dos olhos, se o dramaturgo inglez a visse, arranjaria
    d'aquelle aspeito feroz assumpto para mais scelerado preto.

    Iphigenia lisongeou-se d'aquella explosão de lavas que archejavam na
    testa do homem.

    _Lisongeou-se_!… Pois amava-o ella?!

    Não sei com que direito me fazem esta pergunta assim com uns visos de
    espanto! Amava-o como quem não tinha amado nunca. E para lisongear-se de
    incutir ciume não lhe fôra mister amal-o, digamol-o de passagem, e em
    nome da consciencia incorruptivel das senhoras, cuja attenção e reparo é
    felicidade que eu anteponha a todas.

    Amava-o, sem pensar os beneficios extremamente delicados com que elle
    lhe dulcificava a existencia. Amava-o captiva do quer que é que primeiro
    prende a vontade da mulher, sem dependencia dos dons da alma. Calisto
    Eloy de Silos estava uma esbelta figura de homem. A cara compuzera-se
    arabicamente. O bigode cerrado e negro caía-lhe sobre as claviculas. O
    descostume da leitura restituira-lhe o aprumo da espinha dorsal. O
    ventre baixou ás proporções rasoaveis. No trajar; refinava em elegancia
    e gosto, subordinando-se ao alvitre do alfaiate. Todo aquelle ar de
    meneios, posturas e geitos accusava os fidalgos espiritos, resgatados da
    brutesa da antiga vida. Póde ser que alguma affectação lhe maculasse os
    modos e garbo das attitudes: sem embargo, o senhor da Agra de Freimas
    era homem para merecer, sem favor, a consideração de qualquer dama
    superciliosa na escolha.

    Se isto não bastasse a ponderar no animo de Iphigenia, mal poderia
    resistir-lhe o coração aos respeitos, porventura demasiados, com que
    elle interpunha largo stadio entre as expansões da palavra e o minimo
    vislumbre de qualquer intento menos decoroso. Casos houve era que ella o
    surprehendeu com os olhos marejados de lagrimas e um sorriso nos labios,
    sorriso supplicante, de perdão para as lagrimas. Casos houve em que ella
    sentiu ferver-lhe o desejo de lhe pedir que, em vez de lagrimas, lhe
    desse um beijo na face, um d'aquelles beijos, que não tiram nada á
    formosura do corpo nem da alma, porque no rosto augmentam o rubor–o que
    é bello–; e na alma convencem a consciencia da adoração–o que é
    sublime. Difficil coisa será achar a virtude que se furta a estes
    conflictos! Virtude, que se esconde e encolhe para não ser alcançada
    pela flecha de um beijo, ás vezes acontece que, por muito esquivar-se,
    apouca-se, vapora-se, safa-se e ninguem sabe como ella se foi, nem como
    é possivel que um vaso fechado de essencias aromaticas appareça vasio
    sem ter sido quebrado. Este caso, naturalmente, anda explicado na
    esthetica. Eu hei de vêr o que é isto quando tiver vagar.

    Vamos já rodeando por longe dos ciumes de Calisto Eloy. Revertamos ao
    assumpto.

    Iphigenia tomou-lhe amorosamente da mão e disse-lhe:

    –Meu primo, eu não quero lêr em sua alma uma pagina que se não
    assimelha ás outras.

    –Pois que é, prima?… perguntou elle enleado e tremente.

    –Eu não quero ter de justificar-me, tornou ella balbuciante.

    –Justificar-se….

    –Sim. Duas palavras que bastem a definir-me. Se eu perder a sua
    amizade, quero morrer. Veja quanto eu farei para lh'a merecer.

    Calisto dobrou o joelho, e beijou a mão, que lhe estreitava
    calorosamente, a d'elle.

    Seguiu-se silencio de alguns minutos.

    Se houvesse elos na cadeia da felicidade humana, o ultimo, a maxima
    perfeição, devia prender com os gosos celestiaes. Esse ultimo elo não o
    ha: se existisse, o morgado, n'aquelle instante, perderia a consciencia
    d'esta vida, e entraria na exaltação beatifica dos anjos.

    A fortuna dos corações que desbordam da felicidade no amor, deve ser
    aquella _Fortuna parva_, á qual Servio Tullio erigiu templos. Tito
    Livio, a meu vêr, toma o _parva_ no sentido de _baixa_ ou _pequena_: eu
    traduzo latamente «fortuna lorpa»; porque não conheço, quem, n'uns
    lances analogos ao de Calisto, mantivesse a inteireza de sua razão e
    espiritos. É que o morgado não disse coisa que mereça escriptura, elle
    que tão donosamente, em supremos apertos, face a face do dr. Liborio,
    tirou da veia copiosa repuchos de eloquencia!

    No dia seguinte, quando as aves abraseadas do sol das onze horas, se
    embrenhavam nos tufos das ramagens, lá estava Vasco da Cunha debaixo da
    arvore.

    Á mesma hora, Calisto Eloy circuitava a parede da matta em que se
    emboscava o religioso mancebo, saltava de manso, e quasi a subitas
    passava rente d'elle hombro a hombro.

    Vasco não conheceu o homem que o fitava com sobranceria. Tres mezes
    antes se havia encontrado em casa do desembargador Sarmento com um
    Calisto, que não tinha que vêr com aquelle homem.

    Sorriu-se o morgado, e disse-lhe:

    –Costuma v. ex.^a intermear as suas novenas com a oração mental nas
    brenhas e florestas, á imitação dos antigos padres? Ou está pedindo aos
    deuses infernaes que lhe levem a alma da tia, e lhe deixem o vinculo da
    mesma para poder maridar-se com a sr.^a D. Adelaide Sarmento?

    Alumiou-se Vasco de uns longes de suspeita, e cuidou estar ouvindo a voz
    mesurada e sonora de Calisto.

    –O senhor… disse elle.

    –Eu, que?–atalhou o morgado á suspensão do moço.

    –Com que direito vem aqui incommodar-me?–tornou o mordomo das tres
    virtudes cardeaes.

    –Não o incommodo, nem me incommodo. Dir-lhe-hei muito de relance que
    mora alli n'aquella casa uma prima de um Barbuda, e accrescentarei que
    tal dama não faz novenas a santo nenhum das particulares devoções de v.
    ex.^a. Se o sr. Vasco da Cunha aqui voltar ámanhã, continuaremos a
    palestra.

    Vasco não voltou.

    XXVII

    *A saudade e a sciencia em dialogo*

    Dois mezes depois de fechado o parlamento, D. Theodora Figueirôa, farta
    de escrever cartas, e de esperar respostas que lhe iam a razão de uma
    por dez, mandou chamar aquelle Braz Lobato, professor de instrucção
    primaria, e, com os olhos vermelhos de chorar, abriu do peito oppresso
    estas palavras:

    –Que me diz vocemecê sr. Braz, á demora do meu homem?

    –Eu estou passado, fidalga!–disse o mestre-escola empunhando e
    sacudindo o queixo inferior.–Seu marido, a minha opinião é que ficou
    por lá embeiçado n'alguma mulher. Lisboa é uma Babylonia, fidalga. Quem
    para lá vae com um bocado de temor de Deus, perde-o; e quem não tiver
    muito lume no olho, e alguns annos de tarimba e experiencia do mundo,
    como eu, póde contar que em lá chegando fica reduzido á expressão mais
    simples.

    –E que é ficar reduzido á… que? como disse vocemecê? perguntou D.
    Theodora.

    –Quero dizer que dá com as canastras n'agua. Foi o que succedeu ao
    fidalgo, futura-se-me isto! Sabio era elle, mas faltava-lhe a pratica do
    mundo. Foi uma asneira mandal-o a côrtes; eu bem não queria… mas
    emfim… tanto me azoinaram os abbades e os lavradores, que eu deixei-me
    ir com os outros… (O impostor que tinha votado em si!) E que diz elle
    nas cartas a v. ex.^a?

    –Lá por milagre recebo alguma… Aqui tem vocemecê a que veiu aqui ha
    dias atraz. Ora leia lá isso.

    Braz montou os oculos de cobre, e leu:

    «Prima Theodora. Cessa de ter cuidado com a minha saude: eu passo
    soffrivelmente. Não me pude ainda desembaraçar dos negocios do estado,
    que me não deixam tomar fôlego. Á vista te contarei o que tenho feito a
    favor da nação. Tem tu saude, e descança da vida trabalhosa que tens. Ha
    de ir ahi um sujeito de Bragança para lhe entregares oito centos mil
    réis. Vende o grão todo que houver, e diz aos lavradores que por lá tem
    dinheiro a juro que eu preciso recolher essas quantias para negocio de
    mais interesse. Teu primo e affectuoso marido _Calisto_.»

    Ahi tem vocemecê!–continuou a esposa atribulada, com os braços em cruz
    e as mãos nos sovacos.–O dinheiro, que ha sete mezes tem saido d'esta
    casa, é um louvar a Deus! Ainda o dinheiro vá que o leve a breca! mas
    andar-me por lá o marido, o meu homem, que d'antes, se ficava uma noite
    fóra de casa, era lá uma vez de anno a anno, e dizia elle que não estava
    bem senão á beira de sua mulher!… Que me diz a isto sr. Braz? Então
    vocemecê é de parecer que elle está por lá embeiçado? Pois o meu Calisto
    seria capaz d'isso?!

    –Olhe fidalga–respondeu o professor de instrucção primaria fazendo com
    os beiços um bico e logo um arco, tregeitos meditabundos com que elle
    usava solemnisar os dizeres graves.–Um homem cá nas aldeias é uma
    coisa, e nas cidades é outra. Eu corri mundo, e sei o que fui. As
    mulheres das cidades tem umas artes e manhas, que, se um homem se não
    precata, ás duas por tres, não sabe de que freguezia é. Ainda que a
    gente não queira aquelles demonios taes esparrelas armam, que não ha
    remedio senão cair em fragilidades proprias da fragil natureza humana,
    como o outro que diz. O sr. morgado já não é rapaz; mas tambem não é
    velho. Aquillo, em quanto a mim, e oxalá que eu me engane, deu por lá
    com alguma menina que o embruxou…

    –Sabe vocemecê que mais–interrompeu com abrupta resolução D.
    Theodora–pégo em mim, metto-me n'uma liteira, e vou por ahi abaixo até
    á capital. É o que eu faço!

    –Essa idéa precisa de ser pensada com prudencia–observou o
    mestre-escola, erguendo-se, e dando alguns passeios na eira, onde
    estavam dialogando–Se a fidalga fôr, esta casa fica sem dono, entregue
    á criadagem, e o sr. morgado póde zangar-se. De mais a mais, ora
    supponhamos nós que o senhor seu esposo está, como elle diz na sua,
    occupado em negocios do estado; a ida de v. ex.^a vae atrapalhal-o, por
    que elle não a ha de deixar sosinha na estalagem. Depois a fidalga vae,
    palavra puxa palavra, um diz uma coisa, outro diz outra, e afinal
    desavem-se, e começam a viver de esguêlha. A minha opinião é que v.
    ex.^a se deixe estar em sua casa, e espere a vêr para onde correm os
    ventos. Se elle por lá anda com a cabeça a juros, deixal-o pagar o
    tributo, que elle cairá em si. Antes isso que quebrar uma perna. Lá o
    dinheiro isso é o menos. A casa dá para tudo, graças a Deus. A fidalga
    não sabe o que tem de seu. Lá em quanto ao marido, uma extravagancia não
    lhe dá nem tira. Salomão foi o mais sabio dos homens e teve trezentas
    mulheres e setecentas concubinas, e mais acho que foi santo. David,
    tambem era santo, e caiu tambem na fraqueza de amar a mulher de um
    capitão, general, ou uma coisa assim. As sagradas escripturas contam
    muitos casos d'estes… Pois emfim, a fidalga não esteja ahi a chorar.
    Seu marido ha de voltar são e salvo. O mais que eu posso fazer-lhe é ir
    por ahi abaixo ter com elle, e desenganar-me por meus proprios olhos.

    –Isso é que era bom, sr. Braz!–exclamou Theodora, limpando as lagrimas
    ao avental de chita.

    –Eu estou ainda com a idéa ferrada do habito de Christo. É cá uma birra
    com o boticario, que disse ao cirurgião que eu havia de ser cavalleiro
    do habito quando elle fosse papa. O sr. morgado não me responde ás
    cartas: é um ingrato d'aquella casta; mas, emfim, os favores que lhe fiz
    na eleição não me arrependo de lh'os fazer… Emfim, fidalga, se v.
    ex.^a quer, eu vou ter-me com o sr. morgado, e póde ser que venha com
    elle para cima e com o habito.

    –Está dito!–clamou Theodora–Vocemecê vae, e eu faço-lhe as despezas.

    –Isso lá como v. ex.^a quizer… Eu, a fallar verdade, não estou muito
    indinheirado, e alguns vintens que tenho todos me hão de ser precisos
    para pagar os direitos da mercê.

    * * * * *

    Ahi vem Braz Lobato, caminho de Lisboa.

    XXVIII

    *Ingratidão de um deputado*

    Braz Lobato, antigo sargento de milicias, e antigo borra de frades
    franciscanos, era legitimo homem para farejar Calisto em Lisboa. Cuidou
    elle que encontraria o marido de D. Theodora de Figueirôa nos logares
    mais celebrados e admirados da capital, segundo é fama nas provincias.
    Como o não encontrasse na Memoria do Terreiro do Paço, foi procural-o ao
    Aqueducto das Aguas-Livres. Depois de baldadas estas pesquisas, outro
    qualquer sujeito desanimaria; Braz Lobato, porém, resolveu ir ao Paço
    das Necessidades em busca do seu patricio, porque, no seu modo de julgar
    as correlações dos altos poderes do estado, Calisto Eloy devia
    frequentar regularmente a casa real.

    Perguntou o mestre-escola affoitamente á sentinella do paço se o
    representante nacional, morgado da Agra estava em palacio. A sentinella
    mandou-o entrar, e que perguntasse ao commandante da guarda. O
    commandante mandou-o a um fidalgo que vinha descendo, e o fidalgo
    interrogado mandou-o á fava.

    Com o quê, Braz Lobato saiu á rua, e perguntou a um aguadeiro se alli
    não morava o rei. E, como soubesse que a familia real estava em Cintra,
    conjecturou que os deputados, e particularmente Calisto, deviam estar em
    Cintra para de lá governarem a monarchia.

    Chegou o mestre-escola a Cintra, e descavalgou do jumento portador, á
    porta do palacio. Fez as suas perguntas á sentinella com aquelle ar
    marcial que lhe ficou das milicias. Esperou a vinda de um camarista,
    velho fidalgo attencioso, que sorriu da supposição do provinciano, e lhe
    disse que o deputado Calisto Eloy residia no hotel do Victor.

    Chegado ao hotel, á hora mais de passeio, por fim da tarde, não
    encontrou Calisto, e foi demandal-o nos logares mais frequentados.
    Abeirou-se de um grupo de sujeitos, que inculcavam gente grave, e
    perguntou por Calisto Eloy de Silos Benevides de Barbuda.

    Esta pergunta coincidiu com o caso de estarem aquelles individuos
    aventando hypotheses sobre a formosa solitaria, cujo ninho de folhas e
    flores apenas Calisto de Barbuda frequentava.

    O ar provinciano de Braz fez crêr aos curiosos que o homem, sendo
    patricio de Calisto, poderia esclarecel-os ácerca da creatura
    mysteriosa.

    –D'onde conhece vocemecê o sr. Barbuda?–perguntou um.

    –Conheço-o desde menino, que é da minha terra, e eu sou o professor de
    instrucção primaria lá do concelho do sr. morgado da Agra de Freimas.

    –Então, volveu outro, ha de saber se a senhora que está com elle em
    Cintra é parenta d'elle, ou mulher ou amante.

    –A mulher do sr. morgado ficou em casa; parenta não me consta que elle
    tenha cá nenhuma. Isso ha de ser negocio de contrabando, em quanto a
    mim. Fazem favor vv. s.^as de me ensinarem o caminho da casa onde elle
    está?

    Conduzido á espessa cancella de ferro, que estremava o jardim do caminho
    publico, Braz Lobato puchou a campainha. Fallou lhe um criado de libré,
    o qual, perguntado se o sr. morgado estava em casa, respondeu que
    n'aquella casa morava a viuva do general Ponce de Leão.

    Dada a resposta, o criado rodou solemnemente nos calcanhares, e deixou o
    mestre-escola com o nariz n'um orificio da grade, e os olhos n'outros
    orificios, espreitando os massiços de murtas, que escondiam a fachada da
    casa.

    D'ahi a pouco lobrigou elle entre os arbustos um galhardo homem com uma
    senhora pelo braço, atravessando vagarosamente para um bosque de
    aveleiras.

    Fitou-se n'elle; mas não viu coisa que lhe désse lembranças do fidalgo
    da Agra. Cuidou que o tinham enganado os lisboetas, e desandou para a
    hospedaria.

    Novamente informado, resolveu esperar que o morgado entrasse ás dez
    horas, consoante o costume.

    Sentou-se á porta do pateo.

    Viu entrar um empavesado sujeito retorcendo as guias do bigode, com os
    olhos postos na lua atravez de uma luneta. Levou urbanamente a mão ao
    chapéo. Calisto, divertido pela acção civil do sujeito, ia corresponder,
    quando reconheceu o mestre-escola.

    –Você aqui, Braz! disse elle.

    O professor arregaçou as palpebras, e exclamou:

    –Que vejo! a voz é a do fidalgo!

    –Sou eu, não tenha duvida nenhuma.

    Braz levou a mão á testa, e da testa ao peito, e de um hombro ao outro,
    murmurando:

    –Em nome do Padre, e do Filho, e do Espirito Santo! Coisa assim nunca
    os meus olhos esperaram vêr!… V. ex.^a é outro homem!… Eu estarei a
    dormir! E esfregava os olhos, desconfiando seriamente que estava
    dormindo.

    –Entre cá dentro, disse o morgado.

    Entrados á sala, perguntou o fidalgo com um ar secco:

    –Que novidade o traz aqui?

    –Vim por ahi abaixo, afim de vêr v. ex.^a, e ao mesmo tempo…

    –Bem sei no que quer fallar. O habito de Christo, sim?

    –Não sendo coisa muito de costa acima…

    –Ha de arranjar-se. E que mais?

    —E que mais?…

    Braz Lobato sentia-se como esmagado pelo tom rispido e sobranceria do
    fidalgo. A concisão e rapidez das perguntas enleavam-no a ponto de o
    engasgarem nas respostas.

    –Como ficou minha prima? disse Calisto.

    –Está muito contristada, senhor.

    –Porque?

    –São saudades. Ainda na vespera da minha vinda esteve a chorar na
    eira… O melhor seria que v. ex^a viesse comigo para casa… Mas como o
    fidalgo está mudado!… Então v. ex.^a, pelos modos, era o mesmo que eu
    vi, ao fim da tarde, n'aquella casa que tem porta de ferro! Bem me
    diziam que v. ex.^a estava lá com uma madama, e eu não o conheci.

    –Aonde?–atalhou desabrido o morgado.

    –N'aquella casa que tem muitas flores.

    –Quem o mandou lá?

    –Uns fidalgos a quem eu perguntei por v. ex.^a

    –E quem o manda perguntar por mim?! Quem lhe disse que eu estava em
    Cintra?

    –Foi no palacio do rei que…

    –Então foi-me procurar ao palacio do rei! O sr. Braz é parvo!… Bem.
    Eu preciso recolher-me. Quer mais alguma coisa?

    –Não, sr. fidalgo… E v. ex.^a não quer nada lá para a terra?–volveu
    logo o antigo sargento com o nariz rubro de colera.

    –Não quero nada.

    –Pois eu para cá vou. Passe muito bem por cá, e até lá.

    Não pôde ter mão de si o professor: voltou ao limiar da porta, que se
    fechava, e disse:

    –Sr. morgado…

    –Que é?

    –Eu, para a outra vez, elegerei deputado que me arrange o habito de
    Christo. Faça favor de se não incommodar.

    –É asno!–murmurou Calisto batendo a porta com impeto.

    XXIX

    *O demonio em Caçarelhos*

    Estava D. Theodora presidindo á limpeza do lagar em que se havia de
    fabricar o azeite, quando Braz Lobato, ainda empoado da jornada, assumou
    á porta, e chamou de parte a fidalga.

    –O meu homem veiu!–exclamou ella.

    –Faz favor de me ouvir aqui fóra, disse elle á puridade.–E, retirados
    ao escuro de um bosque de castanheiro, continuou:

    –Seu marido está perdido, sr.^a morgada.

    –Que me diz? bradou a pallida consorte.

    –Estragou-se; d'alli ao inferno não tem mais que morrer.

    –Credo! Então que é?

    –Seu marido está tolhido! A mulher que o roubou á patria, e á esposa, e
    aos amigos, está lá n'uma serra, cercada de arvores, e de grades de
    ferro![21] Dizem que é a viuva de um general, e bonita como os serafins.
    Eu ainda a enxerguei pelo braço do fidalgo; ia vestida de branco, e
    parecia uma estrella.

    –Ai! que eu estalo! clamou Theodora, apertando a cabeça entre as mãos.

    –Seu marido, se a senhora o vir agora não o conhece. Está mais apanhado
    do corpo; aquella barriga, que elle tinha, sumiu-se-lhe. Tem um bigode
    muito grande, e aqui no queixo uma moita de pellos, como os bodes. Traz
    os cabellos puchados para cima e retorcidos. Usa oculos á moderna, de
    oiro, pendurados ao pescoço. O panno de roupa luzia como vidro, e andava
    apertado n'ella e puchado á substancia que parecia espremido no peso do
    lagar. Repito: a sr.^a morgada, se o vir, não o conhece.

    –E então elle está lá com essa mulher? insistiu soluçando a quebrantada
    senhora.

    –É verdade, lá a tem como uma princeza. Agora já sabe a fidalga no que
    elle estraga o dinheiro.

    –E vocemecê não lhe disse que viesse para sua casa?

    –Ora se disse! chamou-me parvo e asno. Asno a mim fidalga! E eu
    acommodei-me, porque não quero testilhas com doidos. Afinal, eu estava a
    vêr quando me empurrava pela porta fóra! Aqui tem o que ha a tal
    respeito. Sirva-lhe de governo, sr.^a morgada. Agora, faça por ter mão
    na manta. A casa é grande; mas tem-se visto acabarem casas maiores. O
    que a fidalga deve fazer é não deixar ir pela agua abaixo o seu
    patrimonio.

    –Não, que eu vou a Lisboa!–exclamou ella batendo o pé, e vibrando
    murros contra o ar.–Vou a Lisboa, e faço lá o diabo!… Então a tal
    mulher está n'uma serra? Vocemecê disse que ella estava n'uma serra?…

    –É serra; mas a terra é bonita. Ha por lá arvores do começo do mundo, e
    cada pedaço de jardim que dava trezentos alqueires de centeio. Chama-se
    Cintra, e está lá o rei e a fidalguia.

    –Pois vou lá, que o meu homem é meu–vociferou ella voz em grita.–Se
    elle não quizer vir para casa, vou fallar ao rei e aos governos.

    –Fidalga, pense bem no que faz, e ouça o que lhe diz o senhor seu primo
    Lopo de Gamboa, que sabe mais do que eu. D'aqui me vou a vêr a minha
    gente, e até amanhã, fidalga.

    Doida de afflicção, a traida esposa mandou logo um criado á casa da
    Verdoeira chamar o primo Lopo de Gamboa.

    Este Lopo, bacharel em direito, homem de trinta e tantos annos, e sagaz
    até á protervia, vivia na companhia do irmão morgado, comendo o
    rendimento da sua escassa legitima de filho segundo. Tinha máo nome em
    materia de mulheres. A bruteza dos espiritos não lhe implicava o
    exercicio de tramoias e bom palavriado com que mareara a reputação de
    muitas moças, que, á conta d'elle, ficaram solteiras; e tambem de
    algumas casadas, que não conservam as costellas todas.

    Calisto desadorava este primo de sua mulher, em razão das suas ruins
    manhas; não obstante, admittia-o ao seu trato familiar, e consentia que
    Theodora, uma vez por outra, lhe désse alguns pintos para charutos, já
    que o morgado lh'os não dava, sem lançar o emprestimo a desconto da
    legitima.

    Theodora, com quanto o excedesse em edade uns quatro annos, tinha sido
    creada com elle, e por suas mãos lhe fizera o enxoval, que o primo Lopo
    levou para Coimbra. Esta poesia de infancia converteu-se n'ella em
    sentimentos benignos de generosidade para com as privações monetarias do
    sujeito, algumas das quaes lhe remediou liberalmente a occultas do
    marido. Mais se afervorou a estima da prima Theodora, quando viu que
    Lopo, na ausencia de Calisto, amiudava as visitas, e lhe fazia companhia
    ao serão nas noites de inverno.

    Mandou, pois, a esposa angustiada chamar o primo Lopo de Gamboa. Já
    raivosa, já em mavioso soluçar, contou Theodora o que ouvira ao
    mestre-escola.

    –Bem t'o agourava eu, prima!–disse Lopo, concluidos os queixumes de
    Theodora.–Eu sei o que são homens. Quando meu irmão morgado e outros
    santarrões me apontavam como exemplo as virtudes de teu marido,
    dizia-lhes eu: «Tirem-n'o da aldeia para Lisboa ou Porto, deixem-n'o lá
    estar dois mezes, e fallem-me depois á mão.» O Calisto vivia bem com
    todo o mundo e comtigo, Theodora, porque se apaixonou pela livralhada, e
    encheu a cabeça d'aquellas velhas arólas dos seus classicos, e não
    queria saber de mais nada. E, além d'isso, diz-me tu prima, que grande
    amor era o d'elle por ti? Passavam-se dias e noites que o não vias,
    senão enterrado na livraria. Nunca lhe vi fazer-te uma meiguice!

    –Pois fazia; estás enganado, Lopo–atalhou D. Theodora, molestada no
    instincto da sua vaidade de esposa.

    –Parecia-te isso, prima, porque tu não viste ainda como os bons maridos
    acariciam as suas mulheres. Nunca te levou aos banhos do mar, precisando
    tu de tonicos; nunca te levou a festa nenhuma de Miranda nem de
    Bragança; sendo tu a mais rica herdeira d'estes arredores, deixou-te
    viver para ahi sujamente; a cuidar em sevados e gallinhas. As senhoras,
    que não te chegam em fidalguia aos calcanhares, vivem á lei da nobreza,
    visitam-se, tem os seus bailes, vão ás romarias ricamente vestidas; e
    tu?… chorava-me o coração, quando vim de me formar, e te visitei, e
    vim dar comtigo a cortar couves para fazer a comida dos patos.

    –Isso é porque eu gosto.

    –Muito embora gostasses; teu marido não devia consentir que o fizesses.
    Trabalhar é bom e necessario; mas cada qual trabalhe segundo a pessoa
    que é. As senhoras cozem, bordam, marcam, e dão-se a outros muitos
    cuidados domesticos e limpos. Os serviços, que tu fazias, pertencem ás
    criadas da cosinha. De maneira que a tua riqueza não te dava o descanço
    e bem estar que desfrutam as pessoas da lavoira. Esta casa parecia-me
    sordida; e, apezar das grandes sabenças de teu marido, ainda não vi
    casados que tão estupidamente vivessem! Ahi está agora teu marido a
    despejar sacas de dinheiro no regaço de uma amasia, e tu aqui de vestido
    de chita e chinellas! Tu!… de chinellas!… Foi bom que levasses vida
    de negra vinte annos para elle agora levar em Lisboa vida de principe!

    –Não ha de levar, que eu vou lá!–bradou Theodora assanhada pelas
    reflexões do primo.

    –Não vaes, prima, que os teus parentes não consentem que tu vás ser em
    Lisboa motivo de gargalhadas d'aquella gente, e maltratada por Calisto.
    A morgada de Travanca, a filha de Francisco de Figueirôa, não vae, como
    as mulherinhas da ralé, procurar o marido fóra de sua casa. Se elle
    vier, veiu; se elle ficar, fique embora. Gaste o que quizer, mas que não
    gaste a casa de sua mulher. N'este paiz ha leis que separam do máo
    marido a esposa affrontada, e prohibem que os bens dos Figueirôas sejam
    desbaratados em devassidões de um extravagante.

    –Eu não quero separar-me do meu homem!–balbuciou ella afogada de
    soluços.

    –Tambem te não aconselho a que o faças por em quanto, prima. Ainda é
    cedo. Póde ser que teu marido caia em si, e se arrependa. Isto da
    separação é um remedio extremo, que se ha de applicar no caso de
    continuarem os saques de dinheiro como até aqui, e os embustes infames
    com que o Calisto te tem enganado. Ai! prima, prima, grande desgraça foi
    para ti e para mim, que te esquecesses do nosso amor de creanças, e tão
    depressa aceitasses o casamento com este homem! Eu estava a concluir a
    minha formatura, resolvido a pedir-te, e casar comtigo, quer teu pae
    quizesse, quer não. Nunca t'o disse; digo-t'o agora, porque a minha dôr
    me obriga. Não serias tu mais feliz, se casasses com teu primo Lopo?

    –Eu sei cá?…–disse ella, alimpando as lagrimas.

    –Pois duvidas, Theodora?

    –Tu tens sido um estroina com mulheres…

    –E não sabes por que?

    –Não…

    –Desesperado por te encontrar casada, quando cheguei de Coimbra, não
    tratei mais de me ligar seriamente ao coração de mulher nenhuma. Queria
    distrahir-me, e fazia desatinos que me tornavam ainda mais desgraçado. A
    minha consolação unica era estar alguns momentos ao pé de ti; mas
    quantas vezes, eu saía do teu lado com o coração cheio de fel!… Nunca
    te disse uma palavra por onde tu desconfiasses o meu estado, pois não?

    –Tu o que me dizias ás vezes é que estavas afflicto por causa de
    dividas, e eu dava-te o dinheiro que podia arranjar…

    –É verdade: foste sempre o meu bom anjo, prima; mas olha que essas
    mesmas dividas as fazia eu para poder sair d'estes sitios; ia para as
    feiras, para as caldas, por toda a parte á busca de distracções, e não
    achava coisa que me distraisse de ti o pensamento. Toda a gente da nossa
    parentella me aborrecia, menos tu. Ora imagina, prima, que tormentosa
    vida a minha desde os dezenove annos! Amar-te, amar-te sempre, e vêr-te
    mulher de outro homem; e, de mais a mais, de outro homem indigno de ti!
    Céos! que martyrio! que martyrio!

    Lopo cobriu a cara deslavada com as mãos enormes.

    Theodora estava como idiota a olhar para aquillo, sem poder atinar com
    as sensações atrapalhadas que aquellas palavras lhe causavam.

    Ergueu-se o velhaco de golpe, e disse:

    –Adeus, prima: eu estou profundamente magoado com a tua desgraça;
    doem-me mais os teus pezares que os meus. Disse-te o que me pareceu
    rasoavel a respeito de teu marido, d'esse cruel que me roubou a mulher
    do meu coração, da minha alma, da minha vida, e da minha morte. Adeus,
    prima!

    –Tu vaes afflicto, Lopo!–exclamou ella, resahindo do spasmo tolo em
    que estivera–Vem cá; se te aconteceu alguma desgraça, remedeia-se como
    poder ser.

    –Ha doenças sem remedio, prima. A minha é mortal.

    –Então que tens, primo? que te dóe?

    –Doe-me a certeza de que estou morrendo desde o primeiro dia da tua
    união com este homem!… a certeza de que o has de amar sempre, ainda
    que elle te despreze como já te desprezou.

    –Pois se elle é o meu homem recebido á face do altar!…

    –Por isso, por isso, é que eu perdi o teu amor, Theodora!…

    –Pois eu sou casada, bem no sabes, senão teria casado comtigo.

    –Não fallemos mais n'isto–atalhou com muita serenidade Lopo–Já
    chorei, e fiquei melhor!–continuou elle esborrachando os olhos até
    elles reverem agua–Estas lagrimas estavam aqui no peito ha vinte annos.
    Foi bom que tu as visses para que saibas que o homem que chora por ti,
    bem mais te merecia que o outro que te despreza… Queres mais alguma
    coisa de mim, prima? Queres que eu escreva a teu marido, e lhe diga que
    seja honrado e digno da melhor das esposas? Queres que eu mesmo o vá
    procurar a Cintra?

    –Se tu lá fosses, Lopo, não seria máo!–disse ella.

    Lopo de Gamboa, como grande farçola que era, sentiu impulso de desfechar
    uma risada na cara da prima. O homem viu-se ridiculo até onde a
    consciencia de um bargante se póde vêr a si mesma.

    Reteve-o, porém, a coherencia do seu plano. Resolutamente disse que iria
    a Cintra, bem que nenhum sacrificio lhe podesse ser mais cruelmente
    imposto ao coração.

    –Irei, disse elle, irei buscar o marido da mulher que adoro. Venha mais
    esta punhalada da tua mão, prima.

    —Valha-me Deus!–exclamou ella afflictivamente.–Tu dizes-me coisas
    que me fazem endoudecer! Pois tu não vês que eu já não posso dar o meu
    coração a outro em quanto fôr casada com um?

    –Vejo que me não amaste nunca, Theodora. Diz a verdade… Nunca me
    tiveste amor?

    –Eu sei cá, primo!… Se me casasse comtigo, tinha-te amor… Assim
    como casei com o meu marido, que hei de eu fazer agora?

    –Matar-me!–disse com vehemencia Lopo, deixando cair os braços, e
    descendo ao chão os olhos amortiçados.

    –Ai! que peccados os meus! exclamou Theodora–Eu não sei o que te hei
    de fazer, Lopo!

    –Diz-me quando queres que eu parta para Lisboa–tornou elle gravemente.

    –Então sempre queres ir, primo?

    –Ámanhã, hoje, quando quizeres.

    –E não te custa?

    –E a ti não te custa que eu vá?

    –Eu queria que fosses, a vêr se trazias para casa aquelle perdido.

    –Irei, já t'o disse.

    –Então eu vou buscar-te dinheiro, primo, quanto queres tu levar?

    –Nada, prima. Se alguma vez aceitei as tuas franquezas, foi por que tu
    ignoravas quanto eu te amava, e eras minha proxima parenta, filha de uma
    prima de minha mãe. Hoje que sabes que te amo, não posso, não me
    consente a minha honra que receba de ti o mais pequeno favor de
    dinheiro.

    –Então não quero que vás–accudiu ella–que tu não podes ir á tua
    custa…

    N'este comenos, Theodora escuta muito attenta um rumor de campainhas, e
    brada:

    –É uma liteira! Será o meu homem?

    Corre a uma janella; o primo vae depoz ella: affirmam-se na liteira que
    desce uma congosta, e reconhece Calisto Eloy, não pela figura; mas por
    que uns rapazes vinham adiante gritando que era o fidalgo. Theodora
    espede tres ais, que pareciam de ave nocturna, e perde os sentidos. Lopo
    amparou-a nos braços, foi sental-a n'uma cadeira incourada de espaldar
    alto, e desceu ao pateo a receber nos braços o primo Calisto de Barbuda.

    XXX

    *Como ella o amava!*

    O morgado previu o seguimento funesto da desabrida recepção e despedida
    que deu ao mestre-escola.

    A sua felicidade era d'aquellas que o possuidor receia, a cada hora,
    perder; e o desaccordo com sua mulher podia redundar-lhe em dissabores
    grandissimos. De todos, o de que elle mais se temia,–o dissabor por
    excellencia monstruoso–era a vinda de Theodora a Cintra, a isso
    aguilhoada por o professor de primeiras lettras, azedado pelo desprezo.
    Envergonhava-se elle, além de muitas outras vergonhas, que a morgada de
    Travanca lhe apparecesse em Cintra com a cintura do vestido sobre o
    estomago, com as ancas desprovidas de balão, com a cara incavernada n'um
    chapéo de 1832, que lá chamavam barretina, de immensas orelhas de palha
    amarellada pelo rodar dos annos. Era-lhe aviltante o caso aos olhos de
    toda a gente, e especialmente aos de Iphigenia.

    Para prevenir esta e outras calamidades, saiu Calisto, caminho de
    Caçarelhos, quatro dias depois de Braz Lobato, e afim de encurtar tempo,
    embarcou em o vapor, e do Porto para cima accelerou as jornadas,
    repousando poucas horas. Contava elle anticipar-se ao mestre-escola.
    Chegou tarde; mas o coração da esposa estava ainda aberto.

    –Tua senhora desmaiou de alegria, primo–disse-lhe Lopo de
    Gamboa–estava chorando comigo quando ouvimos a guizalhada da liteira.
    Muito te quer a nossa santa prima? Boas as fizeste por lá… Olha que o
    patife do mestre-escola veiu contar tudo!

    –Já chegou?!

    –Hoje ás cinco da tarde.

    –Que disse?

    –Contou que tens lá em Cintra uma mulher teúda e manteúda…

    –Que infame embusteiro!–clamou o fidalgo–Chama-me um lacaio, que lhe
    vou mandar cortar as carnes, com um tagante!

    Merecia-o! Mas quem deu cá o lacaio? É coisa que ainda cá não vi!

    Assim dialogando, entraram á sala em que D. Theodora estava ainda
    muitissimo intalada de soluços.

    –Então que é isto, Theodora?!–perguntou brandamente Calisto, pondo-lhe
    as pontas dos dedos na face.

    Ergueu-se ella arrebatada, e pendurou-se-lhe ao pescoço exclamando:

    –Meu Calisto, meu Calisto, cuidei que te não tornava a enxergar!

    –És tola, és tola, prima!–disse elle, assás incommodado com o apertão
    do abraço–Pois eu não havia de tornar?! Quem te metteu essa na cabeça?

    Theodora entrou a encarar no homem muito de fito, e rompeu n'um choro
    desfeito.

    –Que tens tu?–perguntou elle.

    –Como tu estás mudado! não me pareces o meu homem!… Corta essas
    barbas; por alma de tua mãe, corta-me essas barbas, que pareces o diabo,
    Deus me perdôe!…

    Calisto sorriu-se, com um profundo tédio de sua mulher. N'aquelle
    instante alanceou-o mortalmente a saudade de Iphigenia. Aquella casa de
    Caçarelhos e a mulher pareceram-lhe um retalho do inferno, d'aquelle
    inferno alagado e frio de que falla o padre A. Vieira.

    Começou a passeiar na sala, e a despedir baforadas de anciada respiração
    do peito. A mulher não lhe despregava os olhos das barbas, e de vez em
    quando arrancava um ai das entranhas.

    –A fallar verdade–observou Lopo de Gamboa–estás um homem
    completamente differente! E o caso é que pareces muito mais novo! Já nem
    andas corcovado, nem tens aquella proeminencia da barriga. Olha os ares
    de Lisboa o que fazem, primo Barbuda!

    Calisto exprimia o seu nojo de tudo aquillo, sorrindo-se. Tirou da
    algibeira um charuto, e accendeu um phosphoro. Eis que a mulher rompeu
    em mais desentoada choradeira, dizendo:

    –O meu homem a fumar!… Que feitiçaria te fizeram, Calisto!…

    –De maneira, disse o morgado vencido pela impaciencia, de maneira que
    me recebes com choradeiras, e observações estupidas, Theodora! Ora
    acabemos com esta feia comedia, e manda-me preparar jantar, que preciso
    comer e dormir.

    Saiu Theodora cabisbaixa da saleta, e Lopo de Gamboa despediu-se,
    pedindo-lhe que tolerasse com generosidade as tolices de sua prima, que
    tudo aquillo n'ella era rudeza e bondade do coração.

    –Bem sei, bem sei…–disse Calisto Eloy, e recolheu-se á sua
    bibliotheca, a principiar uma carta, que dizia:

    «Minha querida Iphigenia.

    Não te asseguro tres horas da minha vida, se me disserem que hei de aqui
    viver tres dias. Não é enôjo, é peior, é horror o que me faz tudo isto!
    Deixa-me pedir coragem ao teu retrato. Ó imagem da filha do meu coração,
    salva-me, resgata-me, arranca-me d'este tumulo! Ó consoladora d'esta
    agonia sem nome, vale-me, tem mão n'esta vida, que me foge…»

    Entrou Theodora esbofada de dar ordens, de cortar o presunto, de ir á
    cesta dos ovos, de andar á pilha da mais gorda gallinha.

    Correu a abraçar-se outra vez n'elle com mais possante enthusiasmo,
    emquanto o marido com um braço a cingia ao peito, e com o outro escondia
    o retrato.

    –Meu Calistinho–suspirava a esposa palpitante–meu amado marido, não
    tornes mais para Lisboa, eu não te deixo sair mais de tua casa!…

    –Que remedio senão ir, Theodora!…–disse elle–Sou obrigado por esta
    desgraçada posição de deputado a assistir mais algum tempo na capital.

    –Não é isso, não é isso!–clamou ella, saindo-lhe dos braços, que a
    largaram facilmente–Bem sei o que é…

    –Sabes o que?–interrompeu com violentada placidez o marido–Sabes as
    calumnias que te veiu contar o Braz, o villão que se vingou como canalha
    por lhe eu não alcançar o habito de Christo! É o que faltava! pendurar a
    imagem da cruz n'um peito cheio de tanta porcaria!… Então que te disse
    elle?…

    –Que tinhas lá outra… e que te viu a passeiar com ella.

    –Viu-me a passear com uma nossa parenta, viuva de um general. Quem
    disse ao javardo que esta senhora era minha amante? Hei de
    perguntar-lh'o diante de ti. Manda-o chamar á minha presença.

    –Agora mando! que o leve a breca!–disse Theodora com alegre
    aspecto–Como tu vieste, foi o que eu quiz; agora, pilhei-te cá, e não
    te deixo ir embora. Mas tu has de cortar estas barbas, sim? e não
    estejas a fumar por isso, que me fazes embrulhar a estomago, não?

    O tom e gesto caricioso, com que ella dizia isto, não moveu medianamente
    o esposo. Impava de zangado e aborrecido dos languidos amorinhos com que
    a meiga senhora se lhe quebrava langorosamente nos braços.

    –Eu preciso escrever umas cartas que ainda hoje hão de ir para Miranda,
    disse elle, afastando brandamente a esposa. Vae-te embora, e logo
    conversaremos.

    Theodora estava n'um d'aquelles elevados gráos de amoroso sentimento, em
    que a mulher menos esperta conhece, que é desamada. Repellida d'aquelle
    modo, ainda as lagrimas lhe vidraram os olhos; mas o despeito seccou-as.

    –Não me podes vêr á tua beira! disse ella com altiveza. Vê-se mesmo na
    tua cara que me aborreces! Ainda agora chegaste, e já estás a fallar na
    ida para Lisboa. Escusavas então de cá vir. Mal haja a hora em que
    saiste d'esta casa. Já não tenho marido!…

    N'este ponto, não pôde represar as lagrimas. Acocorou-se no chão a
    chorar, com a cara mettida entre os joelhos.

    Calisto saltou da cadeira n'um empuchão de raiva, e passou á sala
    immediata, gesticulando com phreneticos sacões de braços.

    Que diabo vim eu aqui fazer? dizia entre si o desesperado.

    O demonio da expiação já andava ás cavalleiras do homem. A saudade de
    Iphigenia era uma serpente de fogo que lhe abafava os respiradouros das
    goelas.

    XXXI

    *Vence o demonio! choram os anjos!*

    Para distrahir-se do supplicio de alguns dias, Calisto Eloy, sem
    consultar a esposa, entretinha-se a ajuntar os cabedaes, espalhados por
    mão de lavradores, e a remir alguns foros, que sommaram consideravel
    quantia.

    Theodora presenciava com suffocada ira as diligencias do marido, e
    acautellava o sacco das peças de duas caras, que trouxera de casa de seu
    pae, thesouro antigo na familia de Travanca, trazido por seu bisavô,
    governador do Brazil. Era um dos soberanos gosos de Theodora addicionar
    mais uma peça de D. Maria e D. Pedro III ás mil e duzentas que seu
    bisavô reunira. Bem que o marido respeitasse sempre aquelle peculio,
    Theodora receiava muito que os respeitos d'outro tempo não podessem nada
    agora com elle, e dispoz-se a resistir a todo trance ao sacrilegio.

    Não carecia o morgado de lançar mão de alguma verba do patrimonio de sua
    mulher: tinha muito que explorar no propriamente seu, antes de alienar
    alguma das quintas; no entanto, quando a consorte abespinhada lhe disse
    que as peças eram d'ella, e não cuidasse elle que as havia de levar,
    Calisto encarou na mulher com tal enchente de odio, e logo desprezo, que
    lhe voltou as costas para lhe não redarguir.

    D'ahi em diante, nas quarenta e oito horas que o morgado se deteve em
    Caçarelhos, baldaram-se as tentativas conciliatorias de Theodora.
    Fechado no seu quarto, que elle desde a chegada fizera propriedade sua
    exclusiva, ou encerrado na bibliotheca, onde escrevia monologos
    saturados de lagrimas, em vão a esposa o espreitava pelos orificios das
    fechaduras, e lhe assoprava suspiros dignos de mais humano marido.

    No dia da partida, a despedaçada senhora experimentou um ataque de
    eloquencia. Entrou com o almoço no gabinete do marido, e bradou:

    –Então que é isto? Entendamo-nos.

    –Isto quê?

    –Sempre vaes para a vida perdida?

    –Vou hoje para Lisboa–respondeu serenamente Calisto Eloy, dobrando em
    massos os titulos de sua casa.

    –E então da tua mulher não queres saber mais nada?

    –Minha mulher fica em sua casa, e eu vou cumprir os meus deveres como
    deputado.

    –Mas eu não quero saber d'isso.

    –Então que queres tu saber, prima Theodora?

    –Quero saber a lei em que hei de viver.

    –Vive na lei de Deus.

    –E tu na do diabo, ein?

    –Berra pouco.

    –Hei de berrar o que eu quizer.

    –Pois berra, que eu não te hei de ouvir muito tempo.

    –Se isto é assim, quero separar-me.

    –Separa-te.

    –Vou para o meu morgadio de Travanca.

    –Pois vae.

    –Cada qual fique com o que é seu.

    –Pois sim. Leva d'aqui o que fôr teu.

    A desesperação de Theodora augmentava á medida que a fleugma do marido
    lhe cravava o dardo do desengano no coração ainda fiel. Começou a pobre
    mulher a saltar no pavimento, sem proferir sons articulados. Expedia uns
    grunhidos roucos, que fizeram pavor a Calisto. Este feiíssimo tregeitar
    desfechou n'um insulto nervoso, com symptomas epilepticos.

    A commiseração feriu as estragadas entranhas do morgado. Foi apanhar a
    mulher do chão, reteve-lhe os braços que escabujavam, e levou-a d'alli
    para um leito, onde a deixou entregue ás criadas e ao primo Lopo de
    Gamboa, que vinha entrando.

    Passada a crise, Theodora ardia em febre, e dava pouco tino das pessoas
    que a rodeavam. Pareceu-lhe, porém, sentir um beijo nas costas da mão
    esquerda; e, olhando apressada na supposição de que era o marido, viu o
    rosto lastimoso do primo Lopo, que lhe disse a meia voz:

    –Esquece o ingrato, prima!… Guarda a tua vida para quem te ama!…

    Calou-se, porque entrava uma criada com um chá de sidreira e macella.
    Tomou elle das mãos da criada a chavena, e ministrou o charope a
    Theodora, que o foi bebendo com muitos vágados da cabeça desfallecida
    para sobre a espadua de Lopo, que se ageitára para amparal-a.

    Á hora final Calisto entrou ao quarto, e não se commoveu. Disse algumas
    breves e seccas palavras de despedida, acrescentando que fechado o
    segundo anno da sua legislatura, viria para casa.

    Theodora ainda balbuciou:

    –E deixas-me assim doente, homem?

    –Esse incommodo é passageiro, prima. Logo que tu reflexiones um pouco,
    levantas-te curada. Mal da patria, se os deputados casados obedecessem
    aos caprichos das mulheres, que lhes impedem irem onde o dever os chama.
    Pensas assim, porque foste educada rusticamente. Era minha tenção
    tirar-te d'aqui, levar-te para terra de gente, dar-te alguma educação,
    para depois te poder levar comigo para qualquer terra culta; vejo,
    porém, que desatinas e te fazes creança n'uma edade impropria de ciumes.

    –Olha que não és mais novo que eu!–bradou ella.–Tens quarenta e
    quatro e eu quarenta.

    –Está bom, está bom–obviou elle–não discutamos edades. O que se segue
    é que ambos envelhecemos: razão de mais para justificar a toleima dos
    teus zelos e desconfianças… Não posso demorar-me, que já ahi está a
    liteira, e a jornada de hoje é muito grande. Adeus. Primo Lopo, olha tu
    se dás juizo a tua prima, e manda-me no que quizeres em Lisboa.

    –Parece-me que me não pões mais os olhos, Calisto!–clamou ella com
    profunda angustia.

    –Adeus, adeus, minha tola; não penses em tal.

    E saiu alegre como o encarcerado da prisão de longos annos. As azas
    candidas de Iphigenia sacudiam-lhe do espirito saudades e remorsos.

    XXXII

    *A virtude de Theodora em paroxismos*

    Em outubro d'aquelle anno, a friza dezeseis do theatro de S. Carlos
    expoz uma cara desconhecida de todos, excepto de alguns raros rapazes da
    nata social que a tinham visto de relance, entre as aves e flores de
    Cintra.

    Era Iphigenia, a formosa do novo-mundo, que uns chamavam a feição
    genuina da Circassia, outros a romana herdeira do perfil correcto das
    Faustinas e Fulvias; e os mais circumscreviam a sua admiração á mulher
    dispensando-se de lhe esquadrinhar o typo.

    De feito, Iphigenia era belleza das que sómente se assimelham
    propriamente a si.

    Ao lado d'esta mulher estava um homem, cuja nobre e fidalga presença
    abonava e encarecia a qualidade da dama: era o morgado da Agra de
    Freimas, Benevides de Barbuda.

    A opinião publica da platéa e camarotes estava ou duvidosa ou indecisa.
    Aqui dizia-se que Iphigenia era parenta do cavalheiro, além
    desdouravam-lhe a posição, sem comtudo os rostos se voltarem corridos do
    escandalo.

    Iphigenia, á saída do theatro, entrava n'uma luxuosa caleche tirada por
    hanoverianos soberbos. Calisto Eloy apertava a mão da dama, e entrava
    n'outra sege. A caleche parava na rua de S. João dos Bem Casados, no
    pateo de um palacete; o morgado apeava da sege em frente do hotel
    inglez, a Buenos-Ayres.

    As pesquizas sincavam n'esta diversidade de paragens. Sabia-se que o
    deputado frequentava o palacete a horas em que se visitam senhoras
    cerimoniosamente. Sabia-se que morava alli a viuva do general Ponce de
    Leão, o qual morrera no serviço do Brazil. A pouco e pouco, a
    maledicencia ajuntou á admiração o respeito.

    Uns parentes do general, porventura filhos d'aquelles que se
    entre-lembravam de terem sido procurados por uma viuva, levaram os seus
    cumprimentos ao palacete de S. João dos Bem Casados. Iphigenia fez-lhes
    saber pelo seu escudeiro que lhes agradecia a delicadeza e a honra do
    parentesco. E mais nada.

    Ora, Calisto Eloy, sem embargo da seriedade e gentil compostura de sua
    pessoa, não podia de todo poupar-se ao riso de certas pessoas da platéa.
    Estava alli gente que o ouvira fulminar no parlamento o theatro lyrico,
    e nomeadamente a Lucrecia Borgia. Estava quem se lembrasse d'aquellas
    calças de polainas assertoadas de madre-perola, e do farfalhoso colete,
    e das pantalonas axadrezadas do aljubeta Nunes & filho. O doutor
    Liborio, do Porto, principalmente, ainda estomagado da reprimenda,
    saboreava a vingança, indigitando-o á hilaridade dos camaradas parelhos
    em nascimento, asnidade e estylo.

    N'uma noite, Iphigenia reparou na attenção e nos sorrisos de um grupo.
    Ao voltar a vista para seu primo, encontrou os olhos d'elle, com uma
    tempestade sobranceira, que era o avincado profundo da testa. Andava por
    alli n'aquella fronte sangue de Traz-os-Montes, sangue de Barbudas.

    Calisto estremara o doutor Liborio de Meirelles, entre a roda dos
    peraltas, que bebiam da garrafeira do paternal tendeiro, prodigalisada
    ao filho das esperanças suas e da patria.

    N'um intervallo, saiu Calisto Eloy do camarote, e como não encontrasse
    no portico nem nos corredores o risonho deputado portuense, entrou á
    platéa.

    Avisinhou-se de Liborio, que o encarou com semblante de côr incerta.

    –O collega por aqui?–disse o doutor–Reminiscencias me não acodem de
    havel-o visto na platéa!

    Calisto, sem o fitar no rosto, respondeu:

    –Venho vêr as dimensões das suas orelhas.

    –Como assim!…–balbuciou Liborio.

    –Tenciono puchar-lh'as até á bocca, no proposito de tapar com ellas um
    riso alvar que vossa mercê tem, e que me incommoda grandemente. Veja lá
    se a operação lhe convém aqui ou lá fora.

    –Não comprehendo a razão do insulto!–disse Liborio.

    –Será lá fora–concluiu Calisto e saiu.

    A gente, que rodeava o doutor portuense, comportou-se bem: cada qual,
    dizia de si para comsigo, que, se o caso fosse com elle, o provinciano
    enguliria a injuria com uma balla; assim, como não era com elles o caso,
    Calisto mereceu a Deus a felicidade de não ser varado de ballas.

    O que passa como certo é que Liborio nunca mais desfranziu um riso
    voltado para a friza de Iphigenia.

    N'uma d'essas noites, estava na friza fronteira á de Calisto a familia
    Sarmento. Adelaide não despregava o occulo de Iphigenia, salvo quando
    Catharina lh'o tirava da mão, para lh'o assestar.

    Calisto exultava em delicias incomparaveis. Era a vingança, a
    carapinhada dos deuses n'um meio dia de julho, a vingança de amador
    menoscabado. Este cuidar que se vingam, mulheres e homens, é inepcia de
    marca maior, a que não houve esquivar-se aquelle sujeito de condição
    muito ajuizada se o confrontamos com outros, a quem o amor aleijou de
    todo em todo.

    Reparou Calisto que no camarote de Duarte Malafaia, marido de D.
    Catharina Sarmento, entrara um sujeito que lhe não era desconhecido.
    Examinou-o com o binoculo, e reconhecera aquelle D. Bruno de
    Mascarenhas, a quem elle se apresentara na qualidade de anjo Custodio de
    D. Catharina. Sorriu-se o morgado para dentro por que lhe já não ficava
    bem indignar-se por dentro nem por fóra. A esposa de Duarte, segundo
    parecia, raro relance de olhos desfechava sobre o perturbador da sua
    consciencia de outro tempo. O morgado entendeu que a esposa regenerada
    reincidira na velha culpa. Enganara-se.

    Permanecia ainda o salutar effeito da façanha moralisadora de Calisto
    Eloy. Bruno era odioso a Catharina: o anjo advogado dos maridos a estava
    sempre lustrando com as lagrimas do arrependimento. Não sei se o morgado
    da Agra levará ao desconto do juizo final duas acções que pesem tanto
    como esta na balança.

    Passaram dois mezes sem que D. Theodora escrevesse ao marido. Embargada
    no leito pela enfermidade, que a poz em começos de phtisica, a pobre
    senhora, esteiada no amparo da piedade, fazia penosas promessas a santos
    da sua particular devoção, pedindo-lhes a amizade e restituição do
    marido. D'esta feita, pelo que a gente está vendo, os santos não levaram
    a melhor da legião de demonios que resaltam dos olbos de uma brazileira
    galante. Não obstante, a protecção dos privados do céo valeu-lhe o
    levantar-se da cama, e convalecer-se com leite de jumenta e oleo de
    figados de bacalhau. Mas o coração estava ainda, e cada vez mais
    encancerado; a saudade crescia consoante a ausencia e desprezo do marido
    se augmentava.

    Por ventura, aquelles santos tão rogados estavam em volta d'ella a
    defendel-a das tentações do primo Lopo. Já Theodora o repulsava
    desabridamente, quando se via no risco de ser abalada em sua fidelidade.
    A pervicacia, porém, do astuto negociador de seus vilissimos interesses,
    servidos por infames lagrimas e exclamações compungentes, alguma vez a
    surprehendeu quasi desprotegida do escudo celestial.

    Mas–honra á virtude que cae mais tarde que o costume!–honra á virtude
    de Theodora, que lhe punha sempre diante dos olhos, nas conjuncturas
    perigosas, a imagem do marido, e de sua mãe e avós todas esposas
    immaculadas!

    Passemos a esponja por sobre Penelopes e Lucrecias.

    Começou Calisto a receber cartas de sua mulher. Algumas, que abriu, não
    pôde digeril-as. Como a dôr sincera não costuma ser eloquente, nem a
    orthographia da filha do boticario exprimia com certeza as singelas
    lastimas de Theodora, o cru marido queimava as cartas para desmemoria
    eterna.

    XXXIII

    *Escandalos*

    Abriram-se as camaras.

    A opposição espantou-se de vêr o deputado por Miranda conversando muito
    mão por mão com os ministros. O abbade de Estevães ousou perguntar ao
    seu collega, amigo e correligionario, de que rumo estava. Calisto
    respondeu que estava de rumo em que o pharol da civilisação alumiava com
    mais clara luz. O antigo desembargador do ecclesiastico redarguiu com
    admoestações benevolas. O morgado sorriu-lhe na cara veneranda, e
    disse-lhe:

    –Meu amigo, abra os olhos, que não ha martyrologio para as toupeiras.
    As idéas não se formam na cabeça do homem; voejam na athmosphera,
    respiram-se no ar, bebem-se na agua, coam-se no sangue, entram nas
    moleculas, e refundem, reformam e renovam a compleição do homem.

    –Segue-se que está liberal?–perguntou o pavido abbade.

    –Estou portuguez do seculo XIX.

    –Apostatou!–disse com pesar mui entranhado o padre–Apostatou!…

    –Da religião dos nescios.

    –Mercês!–accudiu o abbade.

    –Sem direitos–retorquiu o sardonico Barbuda.

    Não tornaram a fallar-se, até um dia do anno seguinte em que o padre,
    despachado conego da sé patriarchal de Lisboa, aceitou o parabem e o
    sorriso pungitivo de Calisto Eloy.

    Na primeira votação importante para o ministerio, Calisto Eloy defendeu
    o projecto que era vital para o governo, e fez-se desde logo necessario
    á situação. Orou por vezes, com seriedade tal de principios, que não
    servem para romance os seus discursos. Explicou a profissão da sua nova
    fé, respeitando as crenças politicas dos seus antigos correligionarios.
    Disse que escolhia o seu humilde posto nas fileiras dos governamentaes,
    por que era figadal inimigo da desordem, e convencido estava de que a
    ordem só podia mantel-a o poder executivo, e não só mantel-a, senão
    defendel-a para consolidar as posições, obtidas contra os cubiçosos de
    posições. Reflexionou sisudamente, e fez escola. Seguiram-se-lhe
    discipulos convictissimos, que ainda agora pugnam por todos os governos,
    e por amor da ordem que está como poder executivo.

    Preparava Calisto um projecto de lei para a abolição dos vinculos,
    quando recebeu a seguinte carta de Lopo de Gamboa:

    «Primo e amigo.

    Recommendaste-me que désse juizo a tua senhora e minha prima. Contra
    paixões não ha conselhos. Tu lá o sabes por theoria e experiencia, como
    eu que não tenho dado máo burro ao dizimo, um coisas de coração.

    Préguei-lhe prudencia, conformidade e paciencia. O abbade tambem lhe
    citou exemplos admiraveis de esposas sanctificadas pela ingratidão dos
    maridos. Não conseguimos nada. Cada vez te ama com mais furor. Diz que
    te ha de ir buscar ás entranhas da terra e aos abysmos do bárathro. Isto
    vae de galhofa; mas eu tenho sincera pena da nossa pobre prima.
    Desculpo-te, porque és homem, porque amas outra mulher, e porque esta
    realmente, deve pouco á formosura e graças. Não sou de ambages: digo o
    que sinto.

    Contou-me o primo Gastão de Villarandêlho que te vira em S. Carlos, e
    comtigo no camarote uma deidade arrebatadora. Se é essa a rival da
    Theodora, quem ousará chamar-te ao caminho da probidade conjugal?! Já
    agora, só milagre. Nas nossas edades, meu amigo e primo, amores que
    entram, não ha juizo purgativo que os ponha fóra do corpo.

    Vamos agora ao que importa.

    Está tua senhora resolvida a ir procurar-te a Lisboa. Tenho tido mão
    d'ella; mas já não posso. Como lhe não respondeste á carta,
    desesperou-se, declarou-te guerra de morte, e tens que vêr com uma
    mulher furiosa. Fiz-lhe vêr que póde ser mal recebida e desprezada.
    Responde que quer esganar quem lhe roubou seu marido. Está doida; mas
    quem ha de contel-a?! Alguns parentes nossos dão-lhe razão: é o diabo
    isto; espicassam-n'a, e ella volta-se contra mim, dizendo que sou um
    patife como tu. Isto é bonito!

    Em divorcio não quer que lhe fallem. Diz que quer o seu homem e não ha
    tiral-a d'aqui.

    Prevejo os crueis desgostos que te vae ahi dar, além das vergonhas.
    Disse-lhe que não fosse, sem se vestir ao estylo das senhoras de Lisboa.
    Não quer. Apparece-te ahi gothicamente vestida, com o fatal vestido do
    casamento, e o fatal chapéo, que é um monstro de palha. Ha dois annos te
    dizia eu que vestisses tua mulher senhorilmente. Respondias-me que os
    melhores enfeites de uma virtuosa são as virtudes. Agora, atura-a. Se
    ella ahi fôr vestida de virtudes, diz lá a essa gente que se não ria
    d'ella.

    E se tu tens de a vêr a testilhas com essa _diva_, que em quanto a mim
    não é _casta_? Então é que ellas são, primo Barbuda! Sobre arranhaduras,
    escandalo! A tua posição seria feita ludibrio da canalha. Os jornaes a
    fustigarem-te, e tu com a cabeça perdida! Eu imagino-me na tua situação,
    e tenho horror.

    Que has de tu fazer n'estes apertos? Tens uma boa cabeça; mas eu estou
    mais a sangue frio para te aconselhar. O meu parecer é que sáias de
    Lisboa com essa dama, e vás para onde Theodora não te veja o rasto. Olha
    que vae com ella o tio Paulo Figueirôa de Travanca, besta finoria que ha
    de dar comtigo, se te não esconderes a bom recado.

    A lealdade impoz-me o dever de te dar esta má noticia. Mais má seria, se
    t'a levasse tua senhora. Sei que outra pessoa te faria reflexões
    inuteis; mas eu tenho obrigação de conhecer os homens. No entanto, faz o
    que teu bom juizo te suggerir.

    Teu primo muito dedicado
    _Lopo_.»

    No dia seguinte, Calisto Eloy pediu licença á camara para retirar-se por
    algum tempo de Lisboa, a cuidar de sua saude.

    Ao outro dia embarcou para França.

    Perguntava-lhe Iphigenia, contente da repentina deliberação:

    –Porque é isto, primo? Nunca me fallaste em visitarmos Paris!

    –Quiz dar-te o prazer da surpreza. As melhores coisas, muito pensadas
    antes de possuidas, desmerecem quando se possuem.

    Partiram.

    No palacete da rua de S. João dos Bem Casados, ficou governando os
    criados, aquella sr.^a D. Thomazia Leonor, que fôra já desde Cintra,
    recebida como dispenseira e aia de Iphigenia.

    XXXIV

    *Perdida!…*

    Para leitores entendidos na perversidade humana, a carta de Lopo de
    Gamboa é uma refinada e suja barganteria, estudada e escripta com um
    despejo não vulgar em bachareis d'aquelles sitios. Aquelle homem, se
    tivesse nascido em terras onde ha a centralisação dos biltres, morria
    com um nome para lembrança duradoura. Assim, nascido n'aquellas serras,
    onde não apégou ainda romancista de medrança, se o eu não transplantar
    para a corja dos birbantes das minhas novellas, o homem escorrega lá da
    serra no inferno, sem que a execração publica o cubra de maldições.

    Repulso do coração da prima, que incessantemente se estava entregando á
    protecção dos santos, mudou o plano das insidias, incitando-a a procurar
    o marido em Lisboa, como ultimo desengano e final affronta. Convinha-lhe
    que a pobre mulher afogasse em lagrimas as ultimas e mais entranhadas
    raizes da sua pureza.

    Em companhia de um velho inexperiente e credulo, o honrado Paulo de
    Figueirôa, que nunca saira das ruinas solarengas de Travanca, metteu-se
    D. Theodora a caminho de Lisboa. Deu um geito ás abas do chapéo que se
    entortara na canastra esquecida, lavou as fitas e a palha com chá da
    India, arejou o bafio do vestido de veludo que embolecera no inverno
    passado, e d'este geito entrajada se encaixotou na liteira, defronte do
    tio, que tinha a sinceridade de achar sua sobrinha muito bonita, vestida
    assim á moderna.

    Nas differentes villas que atravessou até ao Porto, D. Theodora prendeu
    o espanto publico. Muita gente, aliás urbana, ria-se a cair. Onde
    parasse a liteira, o gentio fazia-lhe roda, e queria saber d'onde vinha
    aquella creatura incomparavel. Theodora, á entrada de Penafiel, a pedido
    respeitoso do liteireiro, tirou o chapéo e cobriu a cabeça com um
    lencinho de tres pontas. Ainda assim, o vestido de veludo côr de ginja
    dava nos olhos. Os padres de Penafiel, quando avistaram a liteira,
    cuidaram um momento que vinha alli alguma preeminencia ecclesiastica,
    como cardeal, ou coisa assim. A desharmonia do lencinho com o vestido
    offendia o bello ideal, e a symetria esthetica das damas da terra, as
    quaes ao verem-na saltar da liteira para o pateo da estalagem com o
    chapéo na mão, similhante a um cabaz de cavacas das Caldas, soltaram
    grande estrallada de riso. As meninas da estalagem, condoidas do aspecto
    doentio e honesto da viandante, informaram-se da qualidade da pessoa, e
    romperam no louvavel excesso de se insinuarem na fidalga, para lhe
    pedirem que se vestisse de outra maneira.

    Accedeu sem repugnancia Theodora. As risadas francas do povo haviam-na
    amolecido. O velho tambem votou pela reforma dos trajos. E, como alli
    pernoitasse e deliberasse esperar o dia seguinte, deu tempo a que a
    provessem de chapéo rasoavel, e vestido com o competente paletó de seda,
    nas quaes coisas collaboraram todas as modistas da terra. Regenerada
    pelo vestido, parecia outra. As meninas pentearam-lhe os opulentos e
    negros cabellos a Stuart, segundo ellas disseram. Descobriram-lhe a
    fronte bem talhada. Deram-lhe umas lições de pisar e arregaçar-se, para
    a desacostumarem de ir com os pés sobre a orla do vestido, ou mostrar os
    calcanhares na andadura. O mirinaque foi um golpe certeiro no desaire da
    fidalga de Travanca. Ella mesma, olhando em si, dizia no secreto da sua
    consciencia illustrada em Penafiel:

    –Eu assim estou melhor, a fallar verdade!

    O tio Paulo torcia um pouco o nariz ao mirinaque, dizendo:

    –Pareces-me uma boneca de roda de fogo! Tens aleijados os quadris,
    salvo tal logar! Mas, se é moda, deixa-te ir assim, menina até Lisboa;
    porém, quando entrares em casa, manda espetar esses arcos n'um pau, para
    espantar os pardaes da sementeira.

    Como o velho fidalgo desejasse vêr o mar, resolveram ir para Lisboa no
    vapor. Theodora, quando principiou a enjoar, pediu os sacramentos;
    animada, porém com as risadas de outras senhoras, convenceu-se de que
    não era mortal a sua afflicção.

    Hospedaram-se no cáes do Sodré. D. Theodora, não obstante a anciedade em
    que ia de avistar-se com o marido cuidou em reparar as forças com um
    dormir d'aquelles que a Providencia concede ás consciencias puras e ás
    pessoas que desembarcam enjoadas.

    Paulo de Figueirôa saiu para a rua, no intento de informar-se da
    residencia de Calisto. Porém, como encontrasse na rua do Alecrim um
    macaco encavalgado n'um cão, que trotava a compasso de realejo,
    deixou-se ficar pasmado no espectaculo; depois, foi subindo até ao largo
    das Duas Egrejas, e quedou-se a ouvir um cego de oculos verdes que
    pregoava e referia o successo negro de um homem que matára seu avô.
    Terminava o cego, offerecendo a noticia impressa, onde tudo estava
    declarado. Comprou o fidalgo da Travanca a pavorosa noticia, e esteve
    largo tempo a soletral-a, sentado á porta da egreja do Loreto.

    Terminada a leitura, o velho disse entre si:

    –Isto é má terra! Tomara-me eu d'aqui para fóra!… Os netos matam os
    avôs!…

    Chamou um gallego, que o guiou ao palacio das côrtes. Perguntou ao
    porteiro se estava lá dentro o deputado Calisto Eloy, morgado da Agra de
    Freimas.

    –Não sei–disse mal encarado o funccionario.

    –Eu sou tio d'elle; faça favor de lhe ir dizer que está aqui o tio
    Paulo de Figueirôa.

    –Não posso lá ir–volveu o porteiro, mais brando.–Peça áquelle sr.
    deputado, que ahi vem que lh'o diga.

    Paulo dirigiu-se a um sujeito de exterior sacerdotal. Era o abbade de
    Estevães.

    –Essa pessoa está fóra de Lisboa, creio eu–disse o deputado–pelo
    menos pediu licença ás camaras para retirar-se.

    –Iria para casa?–perguntou o velho.

    –Creio que não. Então o senhor é tio d'elle!

    –Sou tio d'elle em terceiro gráo, e sou irmão do pae da esposa d'elle.

    –Pobre senhora! Murmurou compassivamente o padre.–Ella perdeu um
    excellente marido e o partido legitimista um strenuo defensor.

    –Então meu sobrinho–atalhou Paulo–já não é legitimista?!

    –Qual! fez-se um malhado acerrimo. Está com esta gente, e demais a mais
    fez-se governamental!…

    –Oh! que maroto!…

    –E tudo isto, meu caro senhor, deve-se á desmoralisação de uma mulher,
    que lhe tirou o juizo e a dignidade, e lhe ha de dar cabo da casa.
    Apresenta-se com ella nos theatros, e tem-na em palacete com carruagem
    montada, e lacaios e estado de princeza. E a pobre senhora lá na
    provincia a economisar as rendas, que elle está por cá delapidando!…

    –Minha sobrinha veiu comigo–observou o velho.

    –Veiu? Coitada da infeliz senhora! Quanto desejava eu poder ir
    comprimental-a; mas como estou indisposto com o sr. Barbuda, não quero
    que elle me julgue capaz de irritar sua consorte com os meus despeitos.
    Pois senhor, se sua sobrinha quizer vêr a pompa e luxo com que está
    vivendo a manceba de seu marido, que vá á rua de S. João dos Bem
    Casados, e veja o palacio, que está ao cimo da rua, onde lá os visinhos
    dizem que mora a chamada «fidalga brazileira».

    –Faz favor de tornar a dizer?–pediu Paulo desenrolando o nastro de uma
    enorme carteira escarlate, para fazer nota da residencia da brazileira.

    –Se eu lhe prestar de alguma coisa, aqui estou como principal amigo que
    fui do desgraçado sr. Calisto Eloy–ajuntou o abbade de Estevães.

    Ao fim da tarde d'este dia, D. Theodora, que fremia de raiva desde que o
    tio lhe revelou as informações do padre, entrou com o velho n'uma sege
    de praça, por lhe dizerem que era muito longe a rua de S. João dos Bem
    Casados.

    Apeou á porta do palacete, que um logista lhe indicou. Perguntou ao
    criado, que lhe fallou por um postigo da cavallariça, se estava em casa
    o sr. Calisto.

    –Não mora aqui–disse o lacaio.

    –Mora aqui!–teimou D. Theodora.

    –Já lhe disse que não mora aqui–recalcitrou o criado.

    –Então aqui não está uma mulher viuva?

    –Mulher viuva?

    –Sim.

    –Está lá em cima uma mulher viuva, que é a governante da casa.

    –Essa mesma é que eu quero vêr, disse D. Theodora.

    –Quem lhe hei de eu dizer que a procura?

    –Diga-lha que é uma pessoa.

    –A este tempo estava já na janella a sr.^a D. Thomazia Leonor, cuja
    attenção fôra chamada pelo desabrimento do dialogo.

    –Quem é a senhora?–perguntou a viuva do tenente.

    D. Theodora impertigou o pescoço, e como visse uma mulher de touca
    parda, e já avelhentada, conjecturou que fallava com uma criada.

    –Quero fallar á senhora viuva.

    –Abra a porta, José–disse D. Thomazia ao criado.

    –Subiu a fidalga com o tio, entraram na sala de espera, que já estava
    aberta, e d'ahi a pouco entravam n'outra sala, que era a das visitas.

    D. Theodora olhava em de redor de si por sobre aquelles riquissimos
    setins e marmores, e dizia intallada:

    –Olha o meu dinheiro por onde anda!…

    Paulo benzia-se e murmurava:

    –Parece o palacio do rei!

    D. Thomazia demorara-se a mudar de touca, de cazebeque e botinhas.
    Entrou na sala com o garbo de lisboeta, e disse a D. Theodora:

    –Eu desejo saber com quem tenho a honra de fallar.

    –Então a senhora é que é a viuva?

    –Eu é que sou a viuva do tenente de infanteria 13, João da Silva
    Gonçalves. Dar-se-ha caso que v. ex.^a seja uma prima que meu marido
    tinha na provincia do Minho?

    –Não sou quem a senhora pensa.

    –Então tem a bondade de dizer…

    –Pois a senhora é que é a tal pessoa?…–tornou Theodora, já menos
    raivosa, que espantada do depravado gosto do marido.

    –Que pessoa? não sei de quem v. ex.^a falla.

    –A amasia de meu marido…

    –Amasia de seu marido!… Cruzes!… a senhora veiu enganada… Eu sou
    uma viuva honrada; chamo-me Thomazia Leonor. Quem é o marido da
    senhora?! Isto tem graça!…

    –Meu marido é o deputado Calisto Eloy.

    –Ah!–exclamou Thomazia–Então v. ex.^a é esposa do sr. morgado…

    –Já me conhece?!…–disse sorrindo ferozmente Theodora.

    –Agora tenho a honra de a conhecer; mas eu não sou a pessoa que v.
    ex.^a procura. Bem vê que sou uma mulher de edade, e por desgraça estou
    aqui n'esta casa da prima do sr. morgado como dispenseira, e aia da
    fidalga.

    –E que é da tal fidalga?

    –Anda a viajar pela Europa.

    –Onde é a Europa?–perguntou D. Theodora colerica.

    –A Europa é este mundo por onde anda a gente, minha senhora–respondeu
    promptamente a viuva.

    –Mas é longe onde está a tal prima de meu marido?

    –Muito longe: elles já embarcaram ha seis dias… Deus sabe onde elles
    estão agora.

    –Pois foram os dois?–bradou Theodora, sacudindo murros fechados.

    –Foram sim, minha senhora.

    –E quando voltam?

    –Quem sabe!… Os fidalgos não disseram nada: póde ser que passem
    alguns mezes lá por fóra.

    –Raios os partam!–vociferou Theodora.

    –Deus os defenda!–emendou Thomazia–Pois v. ex.^a deseja tanto mal a
    seu marido, que é um anjo, e a sua prima, que é um serafim!…

    –A minha prima?!–ululou a morgada.

    –Sim, minha senhora; pois tão prima é ella do marido de v. ex.^a como
    sua.

    –Ella o que é, sabe que mais? é uma desavergonhada, e tudo que aqui
    está é meu, foi comprado com o meu dinheiro.

    –Seria–disse Thomazia algum tanto enfadada–seria, mas eu não tenho
    nada com isso, minha senhora. A sr.^a D. Iphigenia Ponce de Leão
    entregou-me a sua casa, quando foi viajar: hei de entregar-lh'a como a
    recebi; e v. ex.^a lá se avenha com seu marido, quando elle voltar. D.
    Theodora Figueirôa, empuchada por impulsos dos nervos, corria de angulo
    para angulo o salão. De uma vez, olhou por entre duas portadas mal
    fechadas para o interior de outra sala, e exclamou:

    –Olhe, meu tio! olhe que riqueza aqui vae!

    Deu um pontapé nas portadas, e entrou, bradando:

    –O meu dinheiro! o meu dinheiro!…

    Era ali o sumptuoso gabinete de leitura e musica de D. Iphigenia.
    Ornavam as paredes dois retratos a corpo inteiro: Calisto Eloy com a
    farda de fidalgo cavalleiro; e Iphigenia trajada de amazona.

    –Olha o meu marido!–clamou Theodora–aquella é a tal mulher? perguntou
    á espantada Thomazia.

    –Aquella é a sr.^a D. Iphigenia.

    –Vou rasgar aquelle diabo!–berrou a morgada, puchando uma cadeira para
    trepar.

    –Isso alto lá, minha senhora!–acudiu irada a dispenseira–V. ex.^a não
    estraga coisa nenhuma. E, se continua n'esse disparate, eu mando chamar
    o cabo da rua para a pôr lá fóra.

    –Pôr-me a mim lá fóra?! bradou Theodora!

    –Sim, minha senhora, que isto não são termos. Nem me parece senhora! cá
    em Lisboa acções d'estas só as praticam as peixeiras.

    Paulo foi ao pé da sobrinha, e disse-lhe:

    –Theodora, vamos. A mulher tem razão, porque é criada da casa e tem de
    dar contas.

    –Não sou criada; sou aia da fidalga–corregiu a viuva, offendida nas
    dragonas do seu defunto tenente.

    –Aia, ou o diabo que é–tornou Paulo–Vem d'ahi, sobrinha–e tirou-a
    pelo braço, em quanto ella assestava os punhos fechados ao retrato de
    Iphigenia.

    Á saida d'aquella casa, D. Theodora, a consorte fiel, a mulher que fez
    eclypse nas virtudes conjugaes do Indostão, sentiu quebrar-se o ultimo
    cabello que a prendia á historia das esposas exemplares.

    N'aquella hora funesta, lembrou-se com saudades do primo Lopo de Gamboa.

    O patife vencêra!

    XXXV

    *A felicidade infernal do crime*

    Recebeu Calisto Eloy em Paris a minudenciosa narrativa dos factos
    acontecidos, e escondeu de Iphigenia a carta de D. Thomazia.

    Foi tamanha sua vergonha e odio, que d'alli escreveu a Lopo de Gamboa,
    reagradecendo-lhe o aviso que lhe dera do infame projecto de Theodora;
    e, lhe asseverava que, depois de tão incrivel e original desaforo, se
    considerava viuvo, e nunca mais diante de seus olhos consentiria
    similhante furia. Ajuntava que, na volta para Portugal, ia requerer
    divorcio, e separação dos casaes, se a esse tempo Theodora se não
    houvesse recolhido á sua casa de Travanca, sem tocar no minimo dos
    valores pertencentes ao casal da Agra de Freimas.

    Tirante o que, n'esta carta, dizia respeito ao aviso enviado para
    Lisboa, Lopo leu declamatoriamenle as ameaças de Calisto, e os epithetos
    injuriosos com que elle castigava a petulancia da mulher. Ao tempo
    d'esta leitura, superflua já era tão rija catapulta para derrubar a
    virtude de Theodora.

    Quasi impassivelmente recebeu ella os insultos. Cuidou logo em
    transferir-se para o seu solar, e repartiu entre o velho Paulo e seu
    primo Lopo, o cuidado da administração dos seus abastosos vinculos. Ora,
    o primo Lopo, afim de esmerar-se na tarefa que lhe era confiada, mudou a
    sua residencia para casa da prima, e cuidou de restituir áquelle solar a
    antiga magestade dos defuntos Figueirôas. Para isto, lhe transmittiu sua
    prima aquelle caixote das peças, que para alli estavam amuadas, desde
    que o governador da India voltára com ellas d'além-mar, provavelmente
    adquiridas com tanta honestidade como agora iam ser esbanjadas.

    Graças ás modistas de Penafiel, e, mais ainda, ás meninas da estalagem,
    D. Theodora Figueirôa affeiçoou-se ao merinaque, e ao feitio e estofo do
    vestido e paletó. O primo Lopo dizia-lhe, algumas vezes, que ella, em
    companhia de Calisto, era um diamante bruto; e se n'isto havia
    encarecimento, até certo ponto o bacharel maravilhava-se do influxo que
    o trajar exercitava nas fórmas de sua prima. A cintura adelgaçou-se;
    apequenou-se-lhe o pé; alargaram-se-lhe os encontros; amaciou-se-lhe a
    cutis; branquearam-se-lhe os braços; escampou-se-lhe a fronte com o
    riçado dos cabellos; toda ella adquiriu no andar certo requebro e
    donaire que lhe ia tão ao natural como se tivesse sido educada por salas
    e adextrada em flexuras da dança! A mulher, com effeito, é um mysterio!
    Estas methamorphoses aos quarenta annos só podem fazer-se e estudar-se a
    espelho, cujo aço tem composição dos laboratorios d'aquelle imaginoso
    chefe dos rebeldes, que Deus despenhou do empyreo, sem todavia o
    esbulhar dos dons da intelligencia!

    E, por sobre tudo isto, para que ninguem duvide da intervenção diabolica
    n'este caso, Theodora vivia contente, esquecida, feliz!

    XXXVI

    *Saldo de contas conjugal*

    Chegou a Paris a boa nova, desacompanhada de pormenores deshonrosos.
    Dizia apenas o feitor do morgado que a fidalga se retirara para
    Travanca, deixando tudo que encontrára, e levando tudo que trouxera.
    Lopo de Gamboa industriára o feitor na direcção que havia de dar á
    carta. Faltou-lhe apurar o desvergonhamento ao extremo de continuar
    correspondencia com o marido de sua prima.

    Calisto desandou para Lisboa, prevenindo Thomazia que occultasse de
    Iphigenia a indecorosa scena que sua mulher fizera.

    Na volta de Paris, o morgado aposentou-se no palacete da brazileira. O
    passeio á Europa limpou-lhe do espirito as teias: é bom desempoeirar os
    olhos com a viração salutar dos ares de França e Italia. Lisboa pareceu
    a Calisto Eloy terra pequena de mais para sacrificios tamanhos.
    Emancipou o coração, e obedeceu-lhe.

    Assistiu ainda o deputado a algumas sessões parlamentares. Floreou os
    seus discursos com as recordações do progresso industrial no
    estrangeiro. Enlevou-se nas delicias de França, e não andou por muito
    longe da phrase arrobada do dr. Liborio de Meirelles na apologia dos
    esplendores estranhos, e lamentações das miserias da patria.

    Providenciou sobre negocios de sua casa, para que os recursos lhe não
    minguassem nas pompas do seu viver em Lisboa, e começou um doce viver,
    não mareado de minimo dissabor. Renasceu-lhe no espirito, já livre dos
    sobresaltos do coração, o amor á leitura de livros modernos, em que se
    lhe deparavam luzes e idéas, que elle, a furto, conseguia entrever nas
    litteraturas antigas. Avermelhava-se-lhe o rosto, quando lia o seu
    discurso ácerca do luxo, e o outro mais tôlo sobre Lucrecia Borgia do
    theatro lyrico. A sciencia moderna flagellava-o. Tinha elle escripto nos
    dois primeiros mezes alguns quadernos de papel, no proposito de dar á
    estampa um livro contra o luxo. Releu com pejo a sua obra, e ordenou a
    um criado que queimasse o manuscripto. O criado não o queimou.
    Escondeu-o sem máo intento; e alguma vez saberá o mundo litterario como
    aquelles papeis vieram á minha mão, e ainda me são deleite e licção de
    sã linguagem e sãs doutrinas.

    Decorreram alguns mezes sem successo que dê capitulo d'algum interesse.
    Fechado o triennio da legislatura, Calisto Eloy foi agraciado com o
    titulo de barão da Agra de Freimas, e carta do conselho. Sondou o animo
    de alguns influentes eleitoraes de Miranda para reeleger-se pelo seu
    circulo. Disseram-lhe que o mestre-escola lhe hostilisava a candidatura,
    emparceirado com o boticario. Comprou o barão dois habitos de Christo
    que fez entregar, com os respectivos diplomas, aos dois influentes. Na
    volta do correio foi-lhe assegurada a eleição, que, de mais a mais, o
    governo apoiava.

    Por esta occasião, Braz Lobato, religada a amizade antiga, escreveu ao
    fidalgo uma carta em que, pouco menos de brutalmente, reproduzia os
    boatos correntes ácerca do procedimento da sr.^a D. Theodora com o seu
    primo Lopo de Gamboa.

    O barão experimentou um mal-estar de especie nova, que se desvaneceu a
    pouco e pouco, e só mui levemente se repetiu no dia seguinte. Eu creio
    que o homem aprendêra em Paris dois consolativos versos de Molière:

    _Quel mal cela fait-il? la jambe en devient elle
    Plus tortue, après tout, et la taille moins belle_?

    Averiguei quanto em mim coube o viver interno de Iphigenia e do primo.
    Convinha-me descobrir amarguras lá dentro, para tirar d'ellas o symptoma
    da expiação. Não descobri coisa alguma, que não fosse invejavel. O mais
    que se me deixou vêr de novidade foram duas creanças loiras, lindas,
    alvas de neve, e amimadas entre Iphigenia e Calisto como dois penhores
    de felicidade infinita.

    Como ali cairam dos pombaes do céo aquellas duas avesinhas, que
    saltitavam dos braços de um para o colo do outro, não sei. Eu digo ao
    leitor o que as mães de recem-nascidos dizem aos filhos mais velhos:
    «vieram de França n'uma condecinha.»

    Ouvi rosnar que no sollar de Travanca tambem appareceu um ropolhudo
    menino, que pelos modos, tambem veiu n'um cêsto de alguma parte. Se não
    fossem estas remessas prodigiosas de creanças, acabavam duas
    illustrissimas familias sem posteridade. A natureza é muito engenhosa.

    O barão esperava que a mulher morresse, para legitimar os seus meninos,
    um dos quaes se chamava Mem de Barbuda como seu decimo setimo avô, e o
    outro Egas de Barbuda como seu decimo oitavo avô.

    A baroneza, que, digamol-o depressa, não regeitou o titulo do marido,
    esperava que o marido se anniquillasse na perdição dos seus costumes,
    para tambem legitimar o seu Bernabé. Chamava-se Bernabé aquelle gordo
    menino, gordo que não parecia fructo outoniço de arvore já tão
    esgravinhada e resêca! O amor é tão engenhoso como a natureza.

    *Conclusão*

    Deixal-o ser feliz: deixal-o. Calisto Eloy, aquelle santo homem lá das
    serras o anjo do fragmento paradisico do Portugal velho, caíu.

    Caiu o anjo, e ficou simplesmente o homem, homem como quasi todos os
    outros, e com mais algumas vantagens que o commum dos homens.

    Dinheiro a rôdo!

    Uma prima que o presa muito!

    Dois meninos que se lhe cavalgam no costado!

    Saude de ferro!

    E barão!

    Conjectura muita gente que elle é desgraçado, apezar da prima, do
    baronato, dos meninos, do dinheiro e da saude.

    Eu, como já disse, não sei realmente se lá no recesso dos arcanos
    domesticos ha borrascas.

    Na qualidade de anjo, Calisto, sem duvida, seria mais feliz; mas, na
    qualidade de homem a que o reduziram as paixões, lá se vae concertando
    menos mal com a sua vida.

    Eu, como romancista, lamento que elle não viva muitissimo apoquentado,
    para poder tirar a limpo a sã moralidade d'este conto.

    Fica sendo, portanto, esta coisa uma novella que não ha de levar ao céo
    numero d'almas mais vantajoso que o do anno passado.

    FIM

    *INDICE*

    Dedicatoria
    I–O heroe do conto
    II–Dois candidatos
    III–O demonio parlamentar descobre o anjo
    IV–Asneiras da erudição
    V–Estreia parlamentar de Calisto
    VI–Virtuosas parvoiçadas
    VII–Figura, vestido, e outras coisas do homem
    VIII–Faz rir o parlamento
    IX–O doutor do Porto
    X–O coração do homem
    XI–Santas ousadias!
    XII–O anjo custodio
    XIII–Regeneração
    XIV–Tentação! Amor! Poesia!
    XV–Ecce iterum Crispinus
    XVI–Quantum mutatus!
    XVII–In Liborium
    XVIII–Vae cair o anjo!
    XIX–Ó mulheres!
    XX–Proh dolor!
    XXI–O mordomo das tres virtudes cardeaes
    XXII–Outro abysmo
    XXIII–Tenta o seu anjo da guarda salval-o mediante uma carta da esposa
    XXIV–A mulher fatal
    XXV–Perdido!
    XXVI–E ella amava-o!
    XXVII–A saudade e a sciencia em dialogo
    XXVIII–Ingratidão de um deputado
    XXIX–O demonio em Caçarelhos
    XXX–Como ella o amava!
    XXXI–Vence o demonio! choram os anjos!
    XXXII–A virtude de Theodora em paroxismos
    XXXIII–Escandalos
    XXXIV–Perdida!
    XXXV–A felicidade infernal do crime
    XXXVI–Saldo de contas conjugal
    Conclusão

    *NOTAS*

    [1] _Bebes bem_ e _vives mal_. Fr. Luiz de Sousa confirma este caso,
    algures, na _Vida do arcebispo de Braga_.

    [2] _Nós e nosso rei somos livres, etc_.

    [3] L. II, Epist. II, v. 51.

    [4] O bom vinho alegra o coração do homem.

    [5] Marinho escreveu no periodo da usurpação dos Filippes.

    [6] Duarte Nunes de Leão ainda via os cavalleiros de bronze cujos
    cavallos deram o nome ao chafariz. Historiando o reinado de D. Fernando,
    e a invasão de castelhanos em Lisboa, escreve a pag. 205 e seguintes, da
    primeira parte da chronica dos reis:

    «…E ardeu toda a rua nova, e a freguezia da Madanella e de S. Gião e
    toda a judaria com a melhor parte da cidade. E para memoria daquelle
    grande incendio, tomarão h[~u]as fermosas portas da alfandega da cidade
    para levarem a Castella quando se fossem. E assi quiserão levar h[~u]s
    cavalleiros de bronze, mui bem feitos, [~q] stavã no chafariz, a que
    ficou o nome dos cavallos por cuja bocca sahia aquella grossa agua. Mas
    os cidadãos prevenirão nisso, e os guardarão [~q] lh'os não tomassem,
    por ser cousa publica, e [~q] sendo levado o terião por affronta. Estes
    cavallos que… por aquella differença [~q] os antigos tiverão sobre
    elles os houveram de conservar os governadores da cidade, nestes dias
    proximos, como poucos curiosos de antiguidades, mandaram sem proposito
    tirar, donde tantos tempos estiveram.»

    [7] Prudencia em tudo.

    [8] Sede prudentes como as serpentes, e simplices como as pombas. _S.
    Matt._ c. x. v. 16.

    [9] Coroemo-nos de rosas em quanto ellas não fenecem.

    [10] Gloria aos vencidos.

    [11] O orador forrageou os elegantes dizeres, que vão sublinhados, na
    feracissima seara de um livro do sr. dr. A. Ayres do Gouveia Osorio,
    intitulado: «_A reforma das prisões_.»

    [12] Esta chave de oiro do peregrino discurso foi tambem roubada dos
    thesouros do sr. dr. Ayres de Gouveia, ministro da justiça. Pag. 150,
    2.^o vol. da _Reforma das prisões_.

    [13] Não sejas por demasia justo.

    [14] Palavras e phrases sublinhadas são plagiatos. O dr. Liborio tinha
    vasta leitura da _Reforma das Cadeias_ do insigne escriptor, A. Ayres de
    Gouveia, ministro da justiça, ao fazer d'esta nota (20 de março de 1865,
    meia-noite).

    [15] Já se disse que os primores sublinhados são despejadamente
    forrageados no livro do sr. dr. Ayres de Gouveia.

    [16] _A Reforma das Cadeias_, part. I, pag. 26.

    [17] _Ibid._, pag. 17.

    [18] Antonio Ribeiro dos Santos, 1.^o vol., p. 186.–_A. Alexis_

    [19] É egual o sentir do padre Manuel Bernardes. Diz assim: «Adverte que
    as varias disposições e accidentes que tocam ao nosso corpo, pegam o seu
    modo tambem ao espirito… Diversa feição e actualidade tem o espirito
    de quem vae montado em um formoso cavallo, e o do que vae em um
    despresivel jumento. Se o teu vestido fôr pobre e roto, repara que o
    espirito recebe d'aqui alguma disposição differente da que tem quando o
    vestido é novo e asseado: e assim nas mais cousas. (Luz e Calor. _Silva
    de varios dictames espirituaes_.)

    [20] Se fores a Roma, vive á moda de Roma.

    [21] Creio que os grandes effeitos d'esta narrativa foram detidamente
    estudados e calculados pelo caminho.

    End of Project Gutenberg's A Queda d'um Anjo, by Camilo Castelo Branco

  • A paranoia

    A paranoia

    Aproximadamente 44.906 palavras.

    A PARANOIA

    Julio de Mattos

    ENSAIO PATHOGENICO SOBRE OS DELIRIOS SYSTEMATISADOS

    _…Ci iroviamo proprio faccia a faccia col nudo
    querito della pura pazzia._

    EUGENIO TANZI

    Lisboa
    Livraria Editora
    Tavares Cardoso & Irmão
    5, Largo de Camões, 6

    1898

    A MEMORIA AMIGA DO PROFESSOR SOUSA MARTINS

    PREFACIO

    Ao passo que na sua maioria as doenças hoje estudadas pelos alienistas
    pertencem no fundo á pathologia interna, e só pelo predominio, mais
    apparente ás vezes do que real, dos seus symptomas psychicos se
    apropriaram a designação de _mentaes_, os delirios systematisados,
    esses, pela ausencia de caracteristicas lesões, pela falta de privativas
    causas determinantes e pela carencia de symptomas funccionaes
    objectivamente apreciaveis, constituem a verdadeira loucura, a psychose
    por excellencia, n'uma palavra, o proprio e irreductivel dominio da
    psychiatria.

    Isto é dizer que a observação clinica não póde, ella só, determinar a
    génese d'estes delirios, pois que o confronto dos dados psychicos com os
    somaticos e etiologicos é, no caso sujeito, impraticavel.

    Foi, todavia, pelo exclusivo exame do hypocondriaco, do perseguido, do
    ambicioso, que os alienistas buscaram até ha pouco surprehender a
    pathogenia dos delirios essenciaes. D'aqui o natural insuccesso dos seus
    trabalhos, melhor do que nunca evidenciado nos ultimos debates das
    sociedades psychiatricas de Paris e de Berlim, em que se não fez, por
    confissão dos proprios oradores, mais do que obscurecer e confundir o
    problema posto.

    Por outro caminho,–introduzindo no controvertido thema a criterio da
    evolução, seguiram, felizmente, na Italia contemporanea eminentes
    pshychiatras.

    Inquiridos clinicamente os delirios essenciaes nos seus symptomas e na
    sua marcha, uma coisa resta ainda fazer para os interpretar: o estudo do
    delirante, considerado, não em si mesmo, como individuo, ou nos seus
    ascendentes immediatos, como membro de uma certa familia, mas
    anthropologicamente na sua vasta ancestralidade, como representante de
    uma especie em plena evolução.

    Na sua marcha normal não segue o Espirito ao acaso, mas
    _progressivamente_ por linhas de ideação desde muito entrevistas, senão
    inteiramente definidas; quem nos affirma que na sua marcha anormal elle
    não segue _regressivamente_ pelas mesmas prefixas e inflexiveis linhas
    ideativas?

    Se a dissolução da memoria se apagam primeiro os factos recentes e só
    depois os remotos, primeiro os nomes e só por ultimo os adjectivos e os
    verbos; se na dissociação da motricidade se perdem em primeiro logar os
    actos conscientes e só por fim os habituaes e instinctivos; se na
    desaggregação affectiva são os primeiros a fazer naufragio os
    sentimentos altruistas e só em derradeiro logar se extinguem os
    egoistas, é possivel e provavel mesmo que na esphera propriamente
    conceptiva a marcha pathologica se realise, ao menos em certos casos,
    n'um sentido tambem regressivo. Ora, segundo a escóla italiana, isto se
    dá, com effeito, nos delirios systematisados essenciaes, manifestação.

    PRIMEIRA PARTE

    Historia dos delirios systematisados

    I–PHASE INICIAL

    De Areteu a Esquirol–Confusão dos delirios systematisados com a
    melancolia–A monomania intellectual e as suas fórmas depressiva e
    expansiva.

    Se conheceram os delirios systematisados, não deixaram d'isso documento
    os escriptores que precederam a nossa era. É sómente a datar do primeiro
    seculo, em Areteu e Celio Aureliano, que encontramos incontestaveis e
    inequivocas referencias aos perseguidos.

    Occupando-se dos melancolicos, escrevia, com effeito, o primeiro d'estes
    medicos: «Muitos receiam que lhes propinem venenos; os seus sentidos
    adquirem um redobramento de finura e de penetração que os torna
    suspeitosos e de uma habilidade extrema em verem por toda a parte
    disposições hostis»[1]. Pelo seu lado, Celio Aureliano, fallando dos
    mesmos doentes, affirmava que muitos «experimentam uma desconfiança
    continua, um permanente receio de imaginarias armadilhas»[2].

    [1] Areteu,_De Melancholia_, apud Trelat, _Recherches historiques sur la
    folie,_ pag. 10

    [2] Vid. Trelat, _Obr. cit._, pag. 38.

    A confusão que n'estas passagens se nota entre perseguidos e
    melancolicos, subsistirá, como veremos, até muito perto de nós e merece
    explicar-se desde já.

    Definindo a melancolia «animi angor in una cogitatione defixus», Areteu
    caracterisava esta doença por duas ordens diversas de factos a que dava
    igual valor: de um lado, o phenomeno emotivo, consistindo n'um estado de
    angustia _animi angor_, do outro, o facto intellectual de uma concepção,
    delirante absorvendo e fixando o espirito (_in una cogitatione
    defixus_). Pouco a pouco, porém, a consideração de um delirio limitado
    foi, talvez por mais apparente, predominando sobre a de um estado mental
    depressivo na caracterisação da melancolia, como se vê nos auctores que
    succederam a Areteu. Procurando, com effeito, differenciar a melancolia
    da mania, elles não o faziam pondo em contraste os estados emotivos que
    acompanham estas vesanias, mas proclamando que na primeira o delirio é
    limitado, unico e absorvente, ao passo que na segunda elle é multiplo,
    geral e dispersivo.

    Repetindo-se atravez dos tempos, esta doutrina que faz prevalecer o
    elemento intellectual sobre o emotivo, conquista de tal modo as opiniões
    que no seculo XVII melancolia e delirio parcial tornam-se termos
    equivalentes. Assim Sennert a definia: «Uma concentração da alma sobre a
    mesma idéa ou um delirio que se exerce sobre um pensamento, falso quasi
    exclusivo».[1]

    [1] Vid. Morel,_Traité des maladies mentales_, pag. 54.

    Nenhuma idéa de emoção depressiva e dolorosa se encontra n'esta e
    analogas definições, em que, pelo contrario, a unidade do delirio figura
    como elemento exclusivo. O _angor animi_ de Areteu desapparecera,
    restando apenas da antiga definição o conceito de um espirito absorvido
    _in una cogitatione_. Logicamente, pois, incluiram os medicos do seculo
    XVII o delirio de grandezas no quadro clinico da melancolia. Sob o seu
    ponto de vista, com effeito, tanto valem os perseguidos como os
    megalomanos, porque uns e outros são, no dizer de Sennert, doentes «cuja
    razão se acha pouco alterada ou apenas alterada em relação a um
    objecto», isto é, por definição, melancolicos. Entre estes collocava o
    auctor que acabamos de citar, um doente julgando-se monarcha do Universo
    e cuja razão, _só parcialmente lesada_, lhe permittia «dissertar
    perfeitamente sobre as mais graves questões». Plater, ao lado dos
    melancolicos sitiophobos «receiando envenenamentos e accusando de
    hostilidade e perfidia os seus mais intimos amigos», collocava doentes
    «possuidos das idéas de opulencia e de realeza».

    A unidade do delirio e não a natureza d'elle ou das emoções que o
    acompanham, constituia no seculo XVII, como se vê, a caracteristica dos
    estados melancolicos. De resto, Sennert explicitamente affirmava que «na
    melancolia o delirio é muitas vezes alegre».

    Os medicos do seculo XVIII acceitaram unanimemente a doutrina que no
    quadro clinico da melancolia fazia entrar a titulo de variedades os
    delirios de perseguições e de grandezas. Para Sauvages, por exemplo, o
    delirio exclusivo caracterisava a melancolia; mais explicito, Lorry
    descreveu como fórma d'esta vesania «um delirio parcial exaltado com
    paixão excitante».

    A primeira metade do nosso seculo não trouxe modificação sensivel a
    estas idéas. Rusch descrevia em 1812 duas variedades melancolicas, uma
    triste, _tristimania_, outra alegre, _aménomania_. Pinel admittia
    igualmente duas fórmas de melancolia: uma depressiva e outra ambiciosa,
    caracterisadas por um delirio parcial. «Nada mais inexplicavel, diz
    elle, e, todavia, nada mais verificado que a existencia de duas fórmas
    oppostas da melancolia. É algumas vezes uma explosão de orgulho e a
    idéa chimerica de possuir immensas riquezas e um poder sem limites,
    outras vezes o abatimento mais pusilanime, uma consternação profunda e
    mesmo o desespero»[1].

    [1] Pinel, _Traité médico-philosóphique sur l'aliénation mentale_, pag.
    165.

    Sob diversa nomenclatura, Esquirol propagou, sem as alterar no fundo, as
    idéas dos seus antecessores. Designando pelo termo infeliz de
    _monomania_ o grupo dos delirios parciaes, acceita duas variedades ou
    especies: uma, depressiva, a _lypemania_, outra, expansiva, a _monomania
    propriamente dita_. A _lypemania_, que não é senão a _tristimania_ de
    Rusch ou a melancolia de fórma depressiva de Pinel, comprehende entre
    outras variedades o delirio de perseguições, ainda então innominado; _a
    monomania propriamente dita_, que equivale á _aménomania_ de Rusch e á
    melancolia de fórma expansiva de Pinel, é por elle definida «um delirio
    parcial ou monomania alegre», e comprehende os delirios de grandezas,
    não só o idiopatico, mas, como se vê nos casos que aponta, o
    symptomatico da paralysia geral, ao tempo ainda não descripta.

    Recebendo a influencia tradicional dos seus predecessores, Esquirol
    transmittiu-a, reforçada pela sua grande auctoridade, aos alienistas que
    lhe succederam na primeira metade d'este seculo. É documento d'isso o
    extraordinario successo da doutrina das monomanias, aliás
    psychologicamente erronea, clinicamente infecunda e juridicamente
    perigosa.

    No seu _Tratado das Doenças Mentaes_ affirma Esquirol que o termo
    _monomania_ adquiriu direitos de cidade pela, introducção no diccionario
    da Academia Franceza, e felicita-se por isso. E, todavia, esse termo é
    confuso, porque no proprio livro do mestre nos apparece com
    significações diversas, ora designando, como vimos, delirios parciaes,
    ora obsessões e impulsos, isto é, um conjuncto de factos heterogeneos e
    de significação clinica diferente. Primitivamente creada para designar o
    mesmo que a melancolia dos antigos–uma affecção parcial do
    entendimento, acompanhada quer de tristeza, quer de expansão, a palavra
    _monomania_ foi insensivelmente generalisada pelo proprio Esquirol no
    sentido de exprimir uma doença, ou desvio parcial de qualquer faculdade:
    ao lado de uma _monomania intellectual_, tem logar uma _monomania
    affectiva_ e uma _monomania impulsiva_. Delirios systematisados, emoções
    procedentes de idéas obsediantes, impulsos cegos e irresistiveis, tudo
    entra no quadro da monomania–o mais amplo, diz Esquirol, de toda a
    classificação.

    De sorte que, se os antigos, desviando a palavra _melancolia_ do
    significado que Areteu lhe dera, chamaram a um só grupo delirios do
    caracter diverso e lançaram assim na sciencia uma grande confusão,
    Esquirol não fez senão augmental-a pela creação das monomanias.

    Como quer que seja, o immenso e, por innumeros titulos, justificado
    prestigio d'este observador fez correr a palavra e a doutrina. Sem
    duvida, objecções foram bem cedo erguidas contra ambas por Falret,
    Delasiauve e outros, que negaram a existencia de delirios circumscriptos
    a uma só idéa, affirmados na palavra, ou pozeram em relevo a
    solidariedade das funcções mentaes, contradictada pela doutrina. «Todas
    as faculdades, escrevia Falret em 1819, participam em maior ou menor
    grau das desordens intellectuaes; de resto, sempre que uma idéa falsa
    invade a intelligencia, o seu poder contagioso exerce-se sobre as
    outras, de sorte que sob um delirio preponderante véem-se estabelecer
    delirios secundarios e derivados que não tardam a invadir todo o
    intendimento»[1]. Pelo seu lado, Delasiauve escrevia em 1829: «Póde
    acaso limitar-se o circulo d'acção em que uma idéa dominante deve
    exercer ou realmente exerce a sua influencia?» E mais tarde ainda: «O
    delirio dos monomanos não é nunca tão circumscripto como se pretendeu; a
    verdadeira monomania é rarissima!»[2] Todavia, a criticas d'esta ordem
    redarguiam Esquirol e os seus discipulos que nem a palavra _monomania_
    significava unidade de delirio, nem a doutrina necessariamente implicava
    que a lesão de uma faculdade não podesse fazer-se sentir sobre as
    outras; para elles, a monomania designava uma lesão parcial e
    preponderante, mas não unica e independente, das faculdades.

    [1] Falret, _Des maladies mentales_

    [2] Delasiauve, _Les Pseudomonomanies_

    «Tem-se negado, escrevia Esquirol, a existencia dos monomaniacos,
    dizendo-se que os alienados não deliram nunca sobre um só objecto, mas
    que sempre n'elles há perturbações da sensibilidade e da vontade. Mas,
    se assim não fosse, os monomaniacos não seriam loucos.»[1] Pelo seu
    lado, Marcé escrevia: «Nunca os que crêem na existencia das monomanias
    pensaram em negar a solidariedade das faculdades intellectuaes no
    monomaniaco. Reconhecendo que o delirio é raras vezes limitado a um só
    ponto, crêem, no emtanto, dever conservar as monomanias a titulo de
    grupo distincto.»[2]

    [1] Esquirol,_Des maladies mentales,_ tom. II, pag. 4.

    [2] Marcé, _Traité pratique des maladies mentales,_pag. 351.

    Voltemos, porém, ao nosso restricto assumpto.

    A _monomania intellectual_ de Esquirol, caracterisada por um delirio
    limitado de natureza alegre ou triste, não é senão a _melancolia_ dos
    antigos medicos. Para aquelle, como para estes, era a extensão dos
    conceitos falsos o criterio para classificar as loucuras em que ha
    compromisso da intelligencia: de um lado, a mania, manifestando-se por
    um delirio geral e dispersivo, do outro, a monomania, symptomatisada por
    um delirio parcial e fixo.

    Se a estas duas especies accrescentarmos a _idiotia_ e a _demencia,_
    entrevistas por Pinel, mas só definidas por Esquirol, a _estupidez_
    descripta por Georget, e a _paralysia geral,_ estudada por Calmeil,
    encontramo-nos em face da classificação das psychoses que até ao meiado
    do nosso seculo a França inteira adoptou. Ora, dentro d'esta
    classificação, não teem logar distincto e proprio, como se vê, os
    delirios systematisados: o de perseguições é descripto como uma
    variedade lypemaniaca, e o de grandezas é confundido com as
    manifestações symptomaticas de outras doenças mentaes.

    II–PHASE ANALYTICA

    De Lasègue a J Falret e de Griesinger a Snell e Sander–O delirio de
    perseguições; a megalomania; o delirio dos perseguidores; a Verrücktheit
    secundaria; a Verrücktheit originaria–Começo de interpretação
    pathogenica.

    Foi Lasègue em 1852 quem primeiro destacou do cahos da melancolia o
    delirio de perseguições para eleval-o á dignidade de «especie
    pathologica entre as alienações mentaes».

    No seu memoravel trabalho sobre este assumpto, o eminente alienista
    começa por notar que as idéas de perseguição apparecem como episodio
    symptomatico e a titulo de phenomeno incidente no _alcoolismo_, nas
    _loucuras provocadas por certas substancias narcoticas_ e em muitos
    _delirios parciaes_; na doença, porém, que elle descreve pela primeira
    vez essas idéas não são um syndroma fortuito, mas um facto constante e
    essencial, um phenomeno preponderante e fixo. A nova psychose tem, de
    resto, como titulos á autonomia nosographica, symptomas especiaes e uma
    evolução caracteristica.

    Estudando a marcha do delirio de perseguições, Lasègue reconhece-lhe
    dois periodos: um, _de incubação,_ consistindo n'um mal-estar indefinido
    e vago, mas absorvente e inquietante, em que o doente se suspeita
    victima de hostilidades cuja origem não sabe ainda determinar; outro,
    _de estado_, em que o delirio definitivamente se installa e systematisa.
    Ao principio o doente não exprime a idéa de uma perseguição senão com
    uma _certa reserva_, hesitantemente, tentando ainda provar a si mesmo
    que ella é _absurda_; mais tarde, porém, a duvida esbate-se e o systema
    delirante apparece definitivamente formado. A duração do primeiro
    d'estes periodos é essencialmente variavel: tão rapida em alguns doentes
    _que a custo se lhe surprehende o primeiro grau_, prolonga-se e
    arrasta-se em outros, que só _muito gradualmente_ e por uma _progressão
    bem sensivel_ e bem apreciavel attingem a construcção do seu romance
    delirante.

    Do mal-estar caracteristico do primeiro periodo diz Lasègue que elle _se
    não parece em nada com a inquietação ainda a mais viva do homem normal_;
    é indefinivel, accrescenta, como _os symptomas que annunciam e fazem
    presentir a invasão das doenças graves_. O periodo de estado, esse, é
    como a _floração_ da psychose: o _romance systematico_ desenvolve-se
    pelo reconhecimento dos perseguidores–a policia, o jesuitismo, os
    magnetisadores, a maçonaria, os physicos, etc.

    Passando ao estudo dos symptomas, Lasègue põe em relevo o papel que
    desempenham na doença as falsas sensações auditivas. «O orgão do
    ouvido, escreve o eminente professor, fornece as primeiras sensações
    sobre que se exerce a intelligencia pervertida. O doente ouve retalhos
    de conversas que interpreta e se applica; os mesmos ruidos que
    naturalmente se produzem,–a passagem de um trem, os passos de uma
    pessoa que sobe ou desce uma escada, uma porta que se abre ou fecha, são
    objecto dos seus commentarios».[1] Fallando, em seguida, das
    allucinações auditivas, declara-as _as unicas compativeis com o delirio
    de perseguições;_ e accrescenta: «Basta que um doente accuse visões para
    que eu não hesite em affirmar que elle pertence a outra cathegoria de
    delirantes»[2]. Na mesma ordem de idéas escreve ainda: «Qualquer que
    seja a epocha em que ellas se declarem, as allucinações pertencem sempre
    ao quadro das auditivas; não é demais a minha insistencia sobre este
    caracter, que considero pathognomonico»[3]. Todavia as allucinações do
    ouvido, tão importantes e de tão vasto papel, não são para Lasègue um
    phenomeno constante na psychose que descreve: «A allucinação do ouvido,
    diz elle, não é nem a consequencia obrigada, nem o antecedente
    necessario do delirio de perseguições»[4]. Os perseguidos podem, segundo
    elle, não experimentar nunca allucinações; limitando-se a _fundar
    inducções delirantes sobre sensações anditivas reaes_, alguns ha que
    percorrem _todos os periodos da doença_.

    [1] Lasègue, _Le délire des persécutions_ in _Ètudes médicales_, tom.
    1., pag. 554.

    [2] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 555.

    [3] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 555.

    [4] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 555.

    Lasègue não refere allucinações além das auditivas: «As outras sensações
    de que os perseguidos se queixam, diz elle, reduzem-se a impressões
    nervosas»[3]. De resto, estas mesmas impressões devem antes lançar-se á
    conta do hysterismo que á do delirio de perseguições: «As mulheres, diz
    elle, offerecem os exemplos mais frequentes–sopros internos, subitos
    calores, entorpecimentos, dores atrozes e passageiras e os outros
    accidentes tão moveis da hysteria»[4].

    [3] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 556.

    [4] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 557.

    Como a symptomatologia e a marcha da doença, a pathogenia d'ella mereceu
    tambem as attenções de Lasègue. Segundo elle, o delirio procederia
    sempre da necessidade que o alienado sente de explicar as sensações
    anormaes do periodo inicial, e resultaria, portanto, de uma consciente
    elaboração logica. «A crença n'uma perseguição, diz elle, não é senão
    secundaria; provoca-a a necessidade de dar uma explicação a impressões
    morbidas provavelmente communs a todos os doentes e que todos referem á
    mesma causa»[1]. Por um raciocinio, pois, passaria o perseguido do vago
    mal-estar do periodo prodromico ao delirio systematisado e quasi
    invariavel que caracterisa a doença em plena floração. O facto inicial
    seria um phenomeno confuso da sensibilidade, uma perturbação emotiva, o
    phenomeno intellectual, o delirio, seria ulterior e nascido do primeiro.
    «É, diz Lasègue, depois de um certo tempo de preoccupação e de
    resistencia que o alienado procura remontar á causa dos seus
    soffrimentos, e passa assim do primeiro ao segundo periodo. A transição
    faz-se então por este invariavel raciocinio: os males que soffro são
    extraordinarios; tenho experimentado bem mais duros golpes, mas
    concebia-os, descobria-lhes mais ou menos o motivo; agora encontro-me em
    condições extranhas que não dependem nem da minha saude, nem da minha
    posição, nem do meio em que vivo: é preciso que alguma coisa de
    exterior, de independente de mim intervenha; ora eu soffro e sou
    desgraçado: só inimigos podem ter interesse em me magoar; devo, pois,
    crêr que intenções hostis são a causa das impressões que
    experimento»[2].

    [1] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 552.

    [2] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 552.

    Decorrido o periodo prodromico e attingida a systematisação delirante,
    a doença deixaria, segundo Lasègue, de acompanhar-se de _grandes
    perturbações de sentimentos_. Ha perseguidos que, _mudando
    constantemente de casa, fatigando incessantemente magistrados e
    auctoridades com interminaveis queixas, conservam_, todavia, _uma certa
    egualdade de humor_ «Nunca vi nenhum, diz o auctor, cahir em melancolia
    continua, reagir por odios violentos ou meditar vinganças»[3].

    [3] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 551.

    Occupando-se da etiologia, Lasègue nota que o maximo de frequencia do
    delirio de perseguições se realisa entre os 35 e os 50 annos e que esta
    psychose ataca de preferencia as mulheres: segundo a sua estatistica,
    25% das alienadas, comprehendidas as idiotas e imbecis, seriam
    perseguidas. As causas proximas seriam, em regra, _de uma completa
    insignificancia:_ uma insomnia, uma phrase inoffensiva, uma refeição de
    sabôr desagradavel, etc. Emfim, estudando o delirio em relação ao
    caracter anterior do doente, Lasègue nota que «os espiritos mais timidos
    não são os mais predispostos»; no delirio de perseguições vê o eminente
    clinico, não o exaggero de uma prévia tendencia natural, mas um
    _elemento pathologico novo introduzido no organismo moral e sem
    equivalente no estado de saude._

    Procurando apenas «estabelecer um typo clinico e determinar os
    caracteres que devem entrar na sua definição», o notavel alienista
    declara abster-se de estudar «a marcha decrescente da doença e as suas
    indicações therapeuticas».

    Tal é nos seus traços capitaes e na sua mesma essencia a extraordinaria
    memoria de Lasègue.

    Sem nada accrescentar a este quadro clinico, Morel fez, todavia, desde
    1853 umas importantes observações sobre a historia dos perseguidos,
    affirmando que muitos d'elles principiam por ser hypocondriacos e acabam
    por delirar n'um sentido ambicioso.

    Exposta pela primeira vez d'uma maneira dogmatica e n'um certo grau de
    generalidade nos seus _Estudos Clinicos,_ a observação de Morel tinha,
    contudo, precedentes na sciencia. Pinel, com effeito, illustrando o que
    elle chamava a transição da _melancolia depressiva_ á _melancolia
    ambiciosa_, expozera em 1809 alguns casos de doentes que, tendo-se
    julgado por mais ou menos tempo victimas de hostilidades e de manejos
    criminosos, acabaram por crêr-se grandes personagens; pelo seu lado,
    Esquirol notára tambem desde 1838 que da hypocondria póde passar-se á
    _lypemania_ e d'esta á _monomania da vaidade_, apresentando como
    exemplos alguns interessantes vesanicos primeiro hypocondriacos, depois
    perseguidos e por ultimo ambiciosos. Entre os casos de Pinel ha o de um
    alienado que durante oito annos delirou como perseguido, crendo-se em
    constante imminencia de morte por envenenamento, não ingerindo senão
    alimentos que furtava na cosinha do asylo, e que acabou por crêr-se
    igual ao Creador e soberano do mundo; entre as observações de Esquirol
    figura a de um doente que, excessivamente inquieto sobre o seu estado de
    saude durante mais de dois annos, entra em seguida no caminho das
    perseguições, imaginando-se objecto de tentativas de envenenamento por
    parte da familia, e termina, decorrido um anno, por crêr-se filho de
    Luiz XVI. Mas, por valiosas e instructivas que sejam em si mesmas, estas
    observações não desempenham nos livros de Pinel e de Esquirol mais que
    um papel episodico e sem alcance. Morel foi indiscutivelmente o primeiro
    a vêr n'uma tal successão de delirios, não apenas um curioso accidente,
    mas uma verdadeira lei de evolução vesanica, segundo a qual a passagem
    regular da hypocondria ao delirio de perseguições e d'este ao delirio
    ambicioso seria um facto constante nos alienados hereditarios. D'aqui a
    affirmar a existencia de uma psychose degenerativa de que os delirios
    hypocondriaco, persecutorio e ambicioso, succedendo-se, não
    constituiriam senão _étapes_ ou phases evolutivas, vae uma pequena
    distancia que Morel percorreu, como veremos, desde a publicação dos
    _Estudos Clinicos_ em 1853 até á do _Tratado das Doenças Mentaes_ em
    1860.

    Outros auctores franceses, entre os quaes Renaudin, Broc e Dagonet,
    notaram a successão de delirios diversos, nomeadamente de perseguições e
    de grandezas, n'um mesmo alienado; todavia, por desconhecimento ou
    incomprehensão do alcance dos trabalhos de Morel, nenhum d'elles se
    preoccupou com a interpretação do phenomeno. Só em 1869 Foville,
    retomando a questão na sua excellente memoria sobre a _Loucura com
    predominio ao delirio de grandezas_, procurou interpretar, sobretudo, a
    passagem–tão frequentemente observada agora que a attenção dos clinicos
    incidia sobre ella–do delirio de perseguições ao de grandezas.

    Marcando na historia dos delirios systematisados um periodo importante,
    o trabalho de Foville merece deter-nos um momento.

    Depois de ter mostrado que o delirio de grandezas póde apparecer a
    titulo episodico na maioria das doenças mentaes e com mais ou menos
    relevo constituir um syndroma de algum dos seus periodos evolutivos,
    Foville estabelece que elle se torna preponderante e reveste
    inconfundiveis caracteres semeioticos em dois casos: na loucura parcial
    e na demencia paralytica. Pondo de parte, por alheio ao nosso estudo,
    este ultimo caso, vejamos o que Foville pensava do primeiro.

    A loucura parcial, que importa não confundir com a monomania de
    Esquirol, representaria, segundo Foville, as alienações caracterisadas
    pelo conjuncto d'estes caracteres: presença de um delirio systematisado,
    ausencia de um estado habitual depressivo ou expansivo, existencia de
    perturbações sensoriaes, e chronicidade.

    O delirio de perseguições descripto por Lasègue é um dos representantes
    d'este grupo; um outro seria, segundo Foville, a _megalomania_, que elle
    define como um delirio de grandezas logicamente coordenado,
    associando-se a allucinações chronicas e, no seu periodo de estado, a
    idéas de perseguição.

    Em rigor, nem o termo é novo, porque antes o tinham empregado, entre
    outros, Broc e Dogonet, nem a definição da doença absolutamente
    original, porque desde Esquirol se havia reconhecido a existencia de um
    delirio ambicioso idiopatico. O que de original e novo existe no
    trabalho de Foville é a maneira de estudar a génese do delirio de
    grandezas e as relações d'elle com a doença de Lasègue.

    Segundo Foville, na loucura parcial, de que são escólas o delirio de
    perseguições e a megalomania, toda a symptomatologia essencial se reduz
    a concepções delirantes e erros sensoriaes, podendo estas duas ordens de
    factos manter entre si relações diversas, que importa muito considerar
    para a comprehensão da pathogenia. Ou as concepções delirantes se
    apresentam primeiro, apparecendo as illusões e allucinações como um
    facto secundario da doença, ou, pelo contrario, a esphera sensorial é
    primitivamente affectada e só depois irrompem as concepções chimericas.

    Ora, segundo Foville, não é de modo nenhum indifferente para a natureza
    mesma da doença que a successão das duas ordens de symptomas se realise
    n'um sentido ou n'outro, porque o allucinado-delirante é, em regra, um
    perseguido que póde tornar-se megalomano, ao passo que o
    delirante-allucinado é mais vezes um megalomano que póde vir a ter idéas
    de perseguição. A razão d'isto, no dizer de Foville, vem de que na
    loucura parcial as allucinações primitivas são, como estabelecera
    Lasègue, preponderantemente, senão exclusivamente as do ouvido, de um
    caracter, em regra, penoso ao principio e de molde, portanto, a gerarem
    um delirio depressivo. Ora, sendo a hypothese do allucinado-delirante
    mais frequente que a do delirante-allucinado, é tambem mais vulgar o
    perseguido-megalomano que o megalomano-perseguido.

    Posto isto, que serve para mostrar que não é meramente accidental a
    passagem de um delirio a outro, Foville, estreitando mais o assumpto,
    deriva á explicação do modo intimo por que ella se realisa.

    A transição (mais frequente, como foi dito) do delirio de perseguição ao
    de grandezas opera-se, ao vêr de Foville, por um processo logico.
    «Depois, diz elle, de terem por mais ou menos tempo attribuido as
    proprias allucinações a inimigos desconhecidos, contentando-se com
    explical-as por uma palavra mais ou menos obscura e mysteriosa, certos
    lypemaniacos allucinados dizem a si mesmos: Factos d'esta ordem não
    podem passar-se, no estado social em que vivemos, sem a intervenção de
    pessoas influentes e altamente collocadas; essas só, portanto, são as
    instigadoras dos nossos tormentos. Outros, ao contrario, reconhecendo
    que não succumbem nunca de um modo completo aos perigos de que se sentem
    cercados; suppõem ter amigos occultos, mas de um grande poder, que os
    protegem. Esta ordem de idéas imprime desde então o seu cunho ao
    conjunto das concepções e allucinações: os doentes fallam de grandes
    personagens que vêem por toda a parte, desconhecem a identidade real dos
    individuos, que os cercam e crêem que imperadores, imperatrizes e
    principes os visitam ou lhes enviam mensagens. No meio do delirio
    melancolico as idéas de grandeza adquirem realmente uma importancia
    preponderante. Mas as coisas podem ir mais longe ainda. Impressionados
    pela desproporção entre a sua posição burgueza e o poder de que devem
    dispôr os seus inimigos para os attingirem, a despeito de tudo; entre o
    apagado papel que desempenham no mundo e os moveis imperiosos que podem
    explicar o encarniçamento com que são perseguidos, alguns d'estes
    doentes acabam por a si proprios perguntarem se realmente são tão pouco
    importantes como parecem. Uma nova perspectiva se abre diante do seu
    atormentado espirito: não é já a dos outros, mas a propria personalidade
    que aos seus olhos se transforma. Para que os persigam d'este modo,
    dizem elles, é preciso que um alto interesse se dê, e isso só se
    comprehende porque elles façam sombra a gente rica e poderosa, porque
    tenham, elles proprios, direito a uma fortuna e a uma posição de que
    fraudulentamente os despojaram, porque pertençam a uma classe elevada de
    que foram afastados por circumstancias mais ou menos mysteriosas, porque
    não sejam seus verdadeiros paes os que como taes consideram, porque
    pertençam, emfim, a uma alta estirpe, as mais das vezes real»[1].

    [1] Foville, _La folie avec prédominence du délire des grandeurs_, pag.
    345.

    E accrescenta: «Estas idéas terão, sobretudo, tendencia a produzir-se
    nos casos em que, já antes de doente, o individuo teve de soffrer no seu
    orgulho ou nos seus interesses pelo facto da irregularidade ou do
    mysterio do proprio nascimento. Assim, temos notado que esta fé n'uma
    origem illustre, que esta crença n'uma imaginaria fortuna é
    relativamente frequente nos _filhos naturaes_ que véem a cahir na
    loucura. São elles principalmente os preparados para ás idéas de
    perseguição juntarem um novo romance em que dominam as concepções de
    grandeza, as substituições ao nascer, as confusões de pessoas»[1].

    [1] Foville, _Loc. cit._, pag. 346.

    Como se vê, Foville não faz senão seguir a orientação psychologica de
    Lasègue, que explicava pela intervenção de um raciocinio a passagem, no
    delirio de perseguições, do periodo prodromico ao de estado. Um processo
    logico, essencialmente deductivo e syllogistico preside tambem, segundo
    Foville, á génese das idéas ambiciosas que derivam de um delirio
    persecutorio.

    Mas não é este, reconhece-o Foville, o unico modo por que o delirio de
    grandezas póde produzir-se; algumas vezes succede que as concepções
    ambiciosas se installam primitivamente, dando-se então o caso de
    surgirem depois idéas de perseguição, por _uma sorte de propagação
    regressiva que, ao fim de um certo tempo, acaba por nivelar as
    situações._ Qual é agora o mecanismo de transição? «É difficil, escreve
    Foville, crêr-se um doente na posse de direitos á fortuna e ao mando,
    figurar-se descendente de uma familia illustre, e não se sentir vexado
    pela modestia da posição que occupa ou pela exiguidade dos recursos de
    que dispõe. N'isto vê elle um signal de injustiça, que attribue á acção
    de inimigos poderosos; crê-se, pois, victima de manobras hostis e
    fabrica assim um systematico delirio de perseguições, secundario agora e
    consequencia das idéas de grandezas»[1].

    [1] Foville, _Loc. cit._, pag. 347.

    É ainda, como se vê, um processo logico o destinado; segundo Foville, a
    explicar a passagem do delirio ambicioso ao de perseguições; toda a
    vesania parcial, portanto, qualquer que tenha sido o seu ponto de
    partida e qualquer que haja de ser o seu termo, se desenrola sob a
    dependencia do raciocinio e dentro da esphera consciente da ideação.

    Os casos em que o delirio de grandezas succede immediatamente a
    allucinações de caracter agradavel e lisongeiro, são extremamente raros;
    a interpretação dos erros sensoriaes, isto é, um processo consciente e
    reflectido, é ainda d'esta vez origem da doença.

    Referindo-se á doutrina de Morel, Foville declara não a acceitar, porque
    o delirio hypocondriaco, ponto de partida necessario, segundo aquelle
    auctor, dos delirios de perseguições e de grandezas, só excepcionalmente
    o encontrou.

    De quanto vem de ser exposto a conclusão a tirar é esta:

    Existe um delirio systematisado de grandezas que, no seu periodo de
    estado, se combina sempre com idéas de perseguição, que é
    invariavelmente acompanhado de allucinações auditivas e que tanto póde
    originar-se, por via deductiva, de um preexistente delirio
    persecutorio, como nascer _d'emblèe_. Não sendo um episodio morbido, nem
    mesmo a phase evolutiva de uma vesania anterior, porque póde ser e é
    muitas vezes primitivo, esse delirio constitue uma doença com foros de
    autonomia e direitos a uma designação privativa: a _megalomania_.

    Tal é, em resumo, a memoria de Foville na parte consagrada ao delirio
    parcial de grandezas.

    Depois dos importantes trabalhos de Lasègue e Foville, a psychiatria
    franceza não nos offerece, dentro d'este periodo de analyse, estudo que
    tenha feito progredir pela interferencia de pontos de vista novos o
    conhecimento dos delirios systematisados. O livro publicado por Legrand
    du Saulle, sob o titulo de _Delirio de perseguições_, em 1871, valioso,
    certamente, pela copia de observações e pelos detalhes de analyse
    clinica, nada tem, no fundo, de original, embora tentem proclamar o
    contrario estas ambiciosas palavras do prefacio: «A despeito da sua
    extrema frequencia e dos seus tão claros caracteres distinctivos, o
    delirio de perseguições achou-se confundido com a melancolia de Pinel,
    com a lypemania de Esquirol, com a monomania depressiva de Baillarger; é
    ahi que eu vou buscal-o para o estudar nas suas diferentes phases, para
    o constituir _de toutes pièces_ e fazer d'elle uma _especie_ á
    parte»[1]. Dezenove annos antes fizera Lasègue, como vimos, o que n'esta
    passagem se annuncia. O trabalho de Legrand du Saulle, excepção feita
    dos capitulos consagrados ao tratamento, á medicina legal e ao contagio
    do delirio, que nada teem que vêr com a constituição scientifica da
    doença, não é senão um desenvolvimento da memoria de Lasègue, cuja ordem
    de exposição adopta e cujas expressões mesmo não raro se apropria.

    [1] Legrand du Saulle, _Le Délire des persécutions,_ pag. 11.

    Como Lasègue, Legrand du Saulle descreveu dois periodos no delirio de
    perseguições: um, de começo, exteriorisado por uma _inquietação
    indefinivel e de nenhum modo comparavel á do homem normal que tem um
    grande interesse compromettido;_ outro, de estado, caracterisado pela
    definitiva systematisação das idéas delirantes formando um _romance_
    invariavel para cada doente.

    Como Lasègue, Legrand du Saulle caracterisa a inquietação do primeiro
    periodo comparando-a á _cephalalgia_ e ao _arrepio_ que são muitas vezes
    os precursores de graves doenças communs, mas que em si mesmos nada teem
    de preciso.

    Como Lasègue, Legrand du Saulle explica a transição do primeiro ao
    segundo periodo por um acto de reflexão do perseguido, por um verdadeiro
    raciocinio. «O doente, escreve Legrand du Saulle, diz a si proprio e aos
    outros que não são naturaes as inquietações e angustias que experimenta,
    que lhes não encontra causa no meio em que vive, no estado da propria
    saude, no da propria fortuna. No seu passado experimento grandes
    infortunios, mas sabia o motivo d'elles e não eram os mesmos os seus
    soffrimentos, não tinham o caracter vago e indefinido dos actuaes. Este
    mal-estar tão grande, estas impressões tão penosas e tão injustificadas
    devem ter uma causa secreta. E é assim que o doente se sente
    naturalmente levado a pensar que inimigos occultos, interessados em
    perdel-o, se reunem e procuram fazel-o soffrer»[1].

    [1] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 17.

    Como Lasègue, Legrand du Saulle dá na symptomatologia da doença um logar
    preponderante ás allucinações auditivas, precedidas frequentemente de
    illusões do mesmo sentido. «O doente, escreve o auctor, começa por dar
    uma falsa significação aos ruidos reaes que escuta: uma porta que se
    abre, pessoas que fallam na rua, uma palavra pronunciada ao pé d'elle,
    os passos de alguem, tudo é materia do delirio. As verdadeiras
    allucinações só começam, em geral, mais tarde e n'uma epocha
    variavel»[2].

    [2] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 43.

    Como Lasègue, Legrand du Saulle admitte um periodo de declinação na
    doença, que, sendo, em regra, incuravel, póde terminar pela cura n'uma
    quinta parte dos casos. Na etiologia, Legrand du Saulle constata, como
    Lasègue, que a doença é mais frequente nas mulheres e se realisa
    preferentemente na epocha por excellencia das grandes luctas da vida.
    Algumas considerações que faz sobre a _hereditariedade_, o _onanismo_ e
    as _perseguições infantis_ são de um caracter vago. Como se vê, em tudo
    quanto póde servir para caracterisar como _especie_ o delirio de
    perseguições–na symptomatologia, na marcha, na etiologia, Legrand du
    Saulle não faz senão seguir a memoria de Lasègue.

    Vamos vêr que n'um ponto de maxima importancia, não tratado pelo
    eminente professor da faculdade de Paris no seu trabalho de 1852,
    Legrand du Saulle acompanha a memoria de Foville. Refiro-me á passagem
    do delirio de perseguições ao de grandezas, explicada, como vimos, por
    Legrand du Saulle acceita esta mesma pathogenia. «Depois, diz elle, de
    ter soffrido tantas hostilidades da parte de implacaveis inimigos,
    depois de ter sido victima de tantas intervenções devidas á magia ou ao
    electro-magnetismo, o perseguido recolhe-se por vezes e pensa: Como
    podem em pleno seculo XIX produzir-se factos d'esta natureza? É preciso
    admittir no fundo de tudo isto uma energica vontade superior, a de um
    alto personagem, a de um principe ou, talvez, de um rei! Deve ter sido
    necessaria, com effeito, para explicar o meu caso uma auctoridade
    verdadeira, que só póde existir nas mãos de millionarios, de ministros e
    de imperadores: quem ordenou tudo é, pois, um grande senhor ou um
    notavel personagem. Um outro perseguido pensará: Armam-me redes, mas eu
    evito-as; expõem-me a coalisões formidaveis, mas eu saio-me bem d'ellas;
    attentam contra a minha vida, mas eu resisto; alguem, pois, de um alto
    poder vela por mim e me protege; esse alguem é o chefe do estado. Eis, a
    partir d'aqui, toda uma ordem nova de idéas imprimindo uma outra
    direcção ás concepções delirantes e ás allucinações. O perseguido não
    cessa desde então de fallar em ministros, em familias reinantes, na
    côrte pontifical, desconhecendo o caracter real das pesssoas que o
    cercam e affirmando que Napoleão lhe envia mensagens, que Trochu o
    chamou, que Thiers vae recebel-o, que tal ou tal princesa vem visital-o.
    N'uma palavra, encontramo-nos em presença de idéas de grandeza
    pathologicamente juxtapostas, porque as perseguições não cessaram, os
    inimigos existem ainda»[1].

    [1] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 84.

    «Acabamos de constatar, continua Legrand du Saulle, erros grosseiros
    sobre a personalidade dos outros; pois vamos vêr que uma nova
    transformação se opera agora e que erros mais grosseiros ainda vão
    dar-se d'esta vez sobre a personalidade de perseguido. Sigamos um pouco
    o raciocinio do doente: As operações dos meus inimigos, pensa elle, são
    tão desleaes como persistentes e perigosas; os meus inimigos são
    infatigaveis e poderosos; mas que interesse podem elles ter em me
    mortificarem d'este modo, a mim, homem ignorado, obscuro ou collocado
    n'uma situação modesta? O contraste entre os perseguidores e a victima é
    dos mais notaveis. Quem sou eu com effeito? Talvez um ser menos apagado
    do que se pensa, mais importante do que se imagina, mais temivel do que
    se suppõe. E nem póde deixar de ser assim. Enchem-me de humilhações
    odiosas, dirigem contra mim os mais tenebrosos attentados; ha, pois, um
    interesse em fazel-o. Esse interesse parte de millionarios, duques,
    principes ou imperadores, e é, portanto, dos mais consideraveis. Mas
    então faço eu sombra a alguem e esse alguem roubou-me necessariamente o
    meu nome, o meu titulo, a minha fortuna, o meu logar social, a minha
    corôa. Eu não sou, portanto, o homem humilde sob cuja mascara vivi até
    hoje: fui mysteriosamente posto de lado, iniquamente esbulhado; o nome
    de que uso não é o meu, os que teem feito de meus paes não são da minha
    familia; eu sou o neto de Luiz XVI ou o filho de Napoleão, sou o duque
    de Orleans ou chamo-me D. Carlos»[2].

    [2] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 85.

    Para não deixar de seguir passo a passo Foville, que, como vimos, notara
    a relativa frequencia do delirio ambicioso nos perseguidos _filhos
    naturaes_, Legrand du Saulle accrescenta: «Se o perseguido não tem um
    acto de nascimento regular, se alguma vez soffreu pelo facto de uma
    situação indecisa, de uma paternidade não confessada ou de uma educação
    mysteriosa, se o seu orgulho foi torturado ou lesada a sua fortuna, com
    que perniciosos elementos não crescerá o seu delirio, com que
    apparencias de verosimilhanças não fallará elle a todos da sua
    imaginaria fortuna, do seu nascimento illustre?!»[1]

    [1] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 86.

    Como Foville e Morel, Legrand du Saulle refere casos em que no delirio
    de perseguições se observam concepções hypocondriacas; estas, porém,
    como as de grandeza, não constituem para elle uma phase evolutiva, mas
    apenas um _acompanhamento_ ou _complicação_ da doença de Lasègue.

    Uma parte nova e valiosa do trabalho de Legrand du Saulle é a que se
    refere ao diagnostico differencial entre o delirio de perseguições
    idiopathico e o que, como syndroma, apparece na demencia senil, na
    paralysia geral, no alcoolismo subagudo e nas intoxicações pelo chumbo e
    pelo sulfureto de carbone.

    Não terminaremos esta rapida analyse do livro de Legrand du Saulle sem
    notar que elle soube pôr em relevo dois factos interessantes,
    ulteriormente notados por quantos se teem occupado d'este assumpto: a
    existencia em muitos perseguidos de allucinações auditivas bilateraes de
    caracter differente–vozes benevolas d'um lado, vozes hostis do outro, e
    a tendencia d'estes doentes á formação de _neologismos_ e de um
    incomprehensivel vocabulario privativo de cada um.

    * * * * *

    Até aqui os trabalhos francezes. Vejamos agora, retrocedendo um pouco na
    ordem dos tempos, de que maneira os psychiatras allemães comprehenderam
    os delirios systematisados.

    Foi Griesinger o primeiro entre elles a occupar-se d'este assumpto no
    seu _Tratado de Doenças Mentaes_ cuja apparição remonta a 1845, mas que
    só vinte annos depois veio a ser conhecido em França pela traducção
    Doumic. N'esse livro, por muitos titulos notavel, descreve o eminente
    professor de Zurich, sob a denominação de _Verrücktheit_, os delirios
    parciaes que alguns annos mais tarde Lasègue e Foville haviam de elevar,
    dando-lhes nomes privativos, á cathegoria de especies em nosographia
    mental. Se bem que abreviada e n'um ou outro ponto confusa, a descripção
    de Griesinger abrange todos os pontos essenciaes da symptomatologia dos
    perseguidos e megalomanos, como facilmente se ajuizará pelas
    transcripções que seguem.

    Referindo se ás concepções que são o nucleo mesmo do delirio e o seu
    mais apparente symptoma, Griesinger escreve: «São umas vezes idéas
    activas, exaltadas, maniacas; o doente occupa uma posição elevadissima e
    tem um grande poder: é Deus, as tres pessoas da Santissima Trindade,
    reformador do Estado, rei, um grande sabio, um propheta, um enviado de
    Deus ou descobriu o movimento perpetuo, é o dominador de toda a natureza
    e conhece os elementos de todas as coisas, etc. Outras vezes são idéas
    passivas: os doentes crêem-se lesados, dominados, submettidos ao poder
    d'outrem; julgam-se perseguidos, victimas de tramas hostis; mysteriosos
    inimigos atormentam-nos pela electricidade, os maçonicos fazem lhes mal,
    são possessos do diabo, estão condemnados a supplicios eternos, e
    roubados nos seus bens mais caros, etc.»[1]

    [1] Griesinger, _Traité des maladies mentales,_ trad. franceza, pag.
    386.

    Occupando-se dos erros psycho-sensoriaes, escreve: «As illusões e
    allucinações em nenhuma outra fórma de loucura são tão frequentes como
    na _Verrücktheit;_ em grande numero de casos são ellas principalmente
    que alimentam e entreteem o delirio. Muitas vezes os doentes conversam
    com as vozes que escutam, ou discutem com ellas, entregando-se então a
    accessos de colera»[1]

    [1] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388.

    Sobre o caracter absorvente d'estes delirios e sobre as transformações
    de personalidade, diz Griesinger; «Involuntariamente o alienado refere
    tudo ao seu delirio, e é d'este ponto de vista que julga todas as
    coisas … As concepções falsas relativas ao proprio Eu chegam a attingir
    um elevadissimo grau, a partir do qual o doente não considera as coisas
    do mundo externo senão de um modo inteiramente pervertido … Alguns
    d'estes doentes parecem crêr que a sua verdadeira personalidade anterior
    deixou de existir»[2]

    [2] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 387.

    Sobre a necessidade do _neologismo_ nos delirios systematisados de uma
    longa duração, escreve o eminente alienista: «Por vezes a linguagem
    ordinaria não basta ao doente para exprimir o proprio pensamento, pelo
    que construe, ao menos para traduzir as suas concepções delirantes, um
    vocabulario especial, que elle crê ser a linguagem primitiva, a
    linguagem dos ceus»[3]. Ainda a proposito da exteriorisação do delirio,
    Griesinger nota que «por vezes o doente occulta cuidadosamente o seu
    systema geral de absurdos»[4].

    [3] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388.

    [4] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388.

    Sobre o estado affectivo d'estes delirantes exprime-se assim o professor
    allemão: «Nunca estes doentes tomam parte, como outr'ora, nas coisas do
    mundo externo, ou são capazes de amar e odiar como antes; podem
    morrer-lhes os paes e os amigos, póde ser-lhes subtrahido o que mais
    estimavam, póde o mais terrivel acontecimento incidir-lhes sobre a
    familia sem que elles sintam mais que uma ligeira emoção, se alguma
    sentem. Um só ponto ha em que podem ser ainda emocionados, que póde
    abalar-lhes promptamente os sentimentos e provocar uma forte reacção da
    vontade: procurem-se combater pelo raciocinio as suas idéas fixas e logo
    elles se irritarão e entrarão em colera; acariciem-se, pelo contrario,
    as suas concepções e elles mostrar-se-hão contentes»[1].

    [1] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388.

    Crêmos que as citações precedentes bastam para demonstrar que Griesinger
    conheceu intimamente os perseguidos e ambiciosos. A descripção que
    d'elles faz, como quadro symptomatico _d'après nature_, é nas suas
    linhas capitaes e até em alguns detalhes a mesma que alguns annos mais
    tarde haviam de exhibir-nos os alienistas francezes que, não conhecendo
    os trabalhos do professor allemão, tinham, comtudo, diante de si
    analogos modelos.

    Mas se a descripção symptomatica é a mesma, a _interpretação
    nosographica e pathogenica_ é profundamente diversa, porque, ao passo
    que os francezes consideraram sempre os delirios parciaes como fórmas
    primarias da loucura, Griesinger julga-os, como vamos vêr, fórmas
    secundarias ou estados procedentes da mania e da melancolia.

    O que é, com effeito, a _Verrücktheit_ do psychiatra allemão? «Sob este
    nome, diz elle, designamos os estados secundarios de loucura, nos quaes,
    embora tenha diminuido consideravelmente ou mesmo desapparecido por
    completo a situação afectiva que caracterizava a fórma mental no seu
    começo, o doente não cura, e em que a alienação consiste n'um pequeno
    numero de concepções delirantes fixas que elle acaricia de um modo
    particular e constantemente repete»[2]. E accrescenta: «A _Verrücktheit_
    é _sempre_, pois, uma doença _secundaria_, consecutiva á melancolia ou á
    mania»[3]. _Residuos de estados de exaltação ou depressão,_ diz ainda em
    outro logar, constituem a _Verrücktheit_ que, por isso mesmo, elle
    colloca no grupo dos _estados de enfraquecimento psychico_, ao lado da
    demencia.

    [2] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 382.

    [3] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 382.

    Na direcção de Griesinger e pelo caminho que elle abriu seguiram longo
    tempo os alienistas allemães. «O delirio parcial, escrevia Albers em
    sobretudo uma fórma de terminação da loucura com excitação ou depressão
    geraes; quando se encontra esta fórma, uma das duas existiu
    anteriormente e acabou por _uma cura incompleta_»[1]. Fallando da
    metamorphose do Eu que acompanha os delirios systematisados n'uma phase
    de adiantada chronicidade, Spielmann escrevia no mesmo anno «que ella
    suppõe a existencia anterior da melancolia ou da mania, sem uma das
    quaes não póde _nunca_ produzir-se»[2]. Em 1859 Neuman considerava a
    _Verrücktheit_ «uma cura com perda de substancia da intelligencia», isto
    é, uma cura incompleta da mania ou da melancolia, um estado secundario
    ou consecutivo, acompanhado de uma decadencia das faculdades.

    [1] Albers, _Memoranda der Psychiatrie_.

    [2] Spielmann, _Diagnostik der Geisteskrankheiten_.

    Crêmos inutil proseguir em citações. As precedentes bastam a dar-nos uma
    clara idéa da doutrina pathogenica dos delirios, systematisados segundo
    a psychiatria allemã d'esta epocha. Suspensas na sua evolução para a
    demencia, a mania e a melancolia atardar-se-hiam nas fórmas expansivas
    ou depressivas da _Verrücktheit,_ delirio de grandezas ou delirio de
    perseguições.

    Em contraste, porém, com estas idéas, que durante vinte annos dominaram
    absolutamente a psychiatria allemã, descreveu Snell em 1865, baseando-se
    em dez casos de observação pessoal, uma nova fórma de loucura
    essencialmente caracterisada pela apparição primitiva de estados
    allucinatorios e conceitos delirantes de contheudo mixto, expansivo e
    depressivo.

    Esta fórma, que Snell denomina _monomania_ ou _Wahnsinn_, é inteiramente
    distincta da mania e da melancolia. N'ella podem as idéas de perseguição
    e de grandeza ser contemporaneas ou successivas; quando as ideias
    ambiciosas succedem ás de perseguição realisa-se uma metamorphose da
    personalidade vesanica. A evolução d'esta fórma é essencialmente
    chronica e o seu prognostico infausto. A adopção do termo francez
    _monomania_ parece indicar a parcialidade do delirio que, segundo Snell,
    não conduz nunca á demencia, como a do termo allemão (derivado de
    _Vahn_: delirio, e _Sinn_: sentidos) põe em relevo a importancia das
    allucinações.

    Acceitando este modo de vêr, Griesinger penitenceia-se em 1867 da
    excessiva e precipitada generalisação das suas idéas pathogenicas e
    acaba por admittir, ao lado da _Secundäre Verrücktheit,_ uma _Primäre
    Verrücktheit_, analoga ao _Wahnsinn_ de Snell. Na lição de abertura do
    seu curso n'esse anno exprimia-se assim o grande chefe da psychiatria
    allemã: «Áctualmente não considero já como fórmas secundarias as
    alterações peculiares, muito chronicas e mixtas do delirio persecutorio
    e ambicioso; ao contrario, convenci-me da origem _protogenica_ d'estes
    estados que denomino _Primäre Verrücktheit»._

    Perfilhando as idéas de Griesinger sobre a _Primäre Verrücktheit,_
    descreveu Sander em 1868, baseado em quatro casos clinicos, uma
    variedade congenita d'esta fórma sob a designação de _Originäre
    Verrücktheit_. Os delirantes perseguidos ou ambiciosos d'este sub-grupo
    são desde a infancia taciturnos, mysantropos, romanticos, excessivamente
    phantasistas, faltos de energia, onanistas, n'uma palavra,
    originariamente enfermos. É na puberdade que os delirios, de longa data
    preparados, fazem explosão. Sander nota as tendencias remittentes da
    _Originäre Verrücktheit_ e observa que a demencia está muito longe de
    ser um dos seus modos de terminação.

    Como se vê, a primitividade ou protogénese dos delirios systematisados,
    admittida desde todo o principio pelos alienistas francezes, é agora
    acceite pela psychiatria allemã, cujo dogmatismo desde 1845 a 1865
    mandava admittir _quand méme_ uma preexistente psychose maniaca ou
    melancolica em todos os delirios de perseguição e de grandeza.

    Não morreu, como veremos ainda, a _Secundäre Verrücktheit,_ a despeito
    de Koch e de Pelman que lhe negaram a existencia; mas a sua esphera
    clinica foi estreitecendo á medida que alargava a da _Primäre
    Verrücktheit_.

    * * * * *

    Voltemos aos trabalhos francezes.

    Tendo tido a felicidade de sobreviver trinta e um annos á publicação da
    sua memoria sobre o delirio de perseguições, Lasègue foi conduzido pela
    ulterior observação clinica dos factos a modificar uma das affirmações
    que n'esse trabalho fizera. Assim, tendo escripto em 1852 que os
    perseguidos supportam resignadamente todos os seus martyrios–a ponto,
    dizia então, de não ter visto um só reagir por um acto de vingança,
    Lasègue constatou mais tarde a existencia de muitos que se apresentam
    armados para a lucta, represaliando energicamente, como Sandon, como
    Verger, como Teulot, as suppostas perseguições. Perito em mais de uma
    ruidosa questão medico-legal determinada pelas violencias d'esta ordem
    de doentes, o eminente professor foi ainda, elle proprio, victima das
    aggressões brutaes de um d'elles, que o appellidava _chefe dos
    alienistas alienisantes_. Modificando as suas primitivas idéas, o
    celebre psychiatra achou que o delirio de perseguições comporta duas
    variedades, correspondendo aos modos de reacção dos doentes: uma
    _passiva_, a mais commum, representada pelos perseguidos que apenas se
    defendem, fugindo ao convivio, mudando de logares, tomando nomes
    suppostos, cosinhando os proprios alimentos, queixando-se ás
    auctoridades, barricando-se dentro dos seus aposentos, suicidando-se
    mesmo; outra _activa_, representada pelos que acceitam a lucta e
    respondem ao mal com o mal, calumniando, ferindo, matando até. Aos
    doentes d'esta ultima cathegoria deu Lasègue o nome, depois consagrado,
    de perseguidos-perseguidores, consignando que a explicação do seu modo
    especial de reagir deve ser pedida, não a condições privativas do
    delirio, mas ao caracter moral preexistente á vesania.

    Pondo no estudo da variedade _activa_ do delirio de perseguições o mesmo
    espirito de analyse que desenvolvera na creação da fórma _passiva_ ou
    commum, Lasègue fez a proposito as seguintes indicações de uma justeza
    clinica indiscutivel: que os perseguidos-perseguidores chegam á
    personificação do seu delirio em virtude de circumstancias accidentaes
    ou de factos sem importancia, mas exactos, que determinaram a sua
    antipathia por um dado individuo; que taes circumstancias ou factos
    reaes não são, em geral, recentes, mas antigos e evocados pela memoria,
    incessantemente occupada na revivescencia do passado; emfim, que os
    doentes, uma vez achado o seu perseguidor, não o esquecem mais, não o
    abandonam, nem o substituem, quando mesmo factos ulteriores e de maior
    valia justifiquem sentimentos de odio e de vingança contra outros
    individuos. Na escolha do perseguidor evidenceiam os perseguidos activos
    a mesma critica futil que os passivos demonstram na determinação dos
    factos que apontam como provas de perseguição: uma pedra achada á porta,
    um lençol esquecido na varanda de um visinho, a tosse de um sujeito que
    passa. De resto, Lasègue observou que, excepção feita do modo de reacção
    delirante, perseguidos activos e passivos se comportam identicamente,
    offerecendo o mesmo quadro de symptomas e a mesma evolução pathogenica.

    Creando a variedade _activa_ do delirio de perseguições, o notavel
    professor melhorou, pois, completando-a, a sua primitiva descripção
    clinica d'esta psychose, sem, todavia, a alterar na essencia; de facto,
    a unidade da doença persistiu, não tendo alcance nosologico, mas apenas
    medico-legal, o reconhecimento das duas variedades.

    Ulteriores trabalhos, porém, vieram quebrar, dentro da propria França,
    essa unidade do delirio de perseguições.

    Notou, com effeito, J. Falret em 1878 que ha entre os perseguidos
    activos ou perseguidos-perseguidores duas cathegorias de doentes que
    profundamente divergem; symptomas, evolução, etiologia–tudo n'elles é
    differente. Uns, em verdade (e são esses os que Lasègue notou), apenas
    no modo de reacção delirante se separam do typo classico dos perseguidos
    passivos, sendo-lhes em tudo o mais similhantes: nos symptomas, porque,
    como estes, offerecem idéas systematicas de perseguição alimentadas por
    erros sensoriaes constantes, sobretudo por allucinações auditivas; na
    marcha, porque, como os perseguidos communs, podem soffrer a alteração
    de personalidade caracterisada clinicamente pela passagem do delirio de
    perseguições, ao de grandezas; na etiologia, emfim, porque teem uma
    historia ancestral e pregressa identica á dos perseguidos vulgares. Com
    razão, portanto, fez Lasègue d'estes perseguidos activos os
    representantes apenas de uma variedade clinica do delirio de
    perseguições. Outros, porém, não offerecem do quadro d'esta psychose
    senão as idéas systematisadas de perseguição, divergindo em tudo o mais:
    na symptomatologia, porque as suas concepções morbidas não se apoiam em
    erros sensoriaes; na marcha, porque nunca o seu delirio se transforma,
    n'um sentido ambicioso; na etiologia, emfim, porque a sua historia
    ancestral e anamnestica não é a dos outros perseguir, dos, activos ou
    passivos, mas a dos degenerados hereditarios.

    A doença de Lasègue não comporta esta cathegoria de
    perseguidos-perseguidores; forçoso é, pois, no dizer de Falret,
    acceital-os como representantes de uma outra _especie_ nosographica.

    Pottier desenvolve no seu _Estudo sobre os alienados perseguidores_ as
    idéas do eminente clinico de Salpêtrière, seu mestre, insistindo no
    diagnostico differencial entre estes vesanicos e os outros perseguidos.
    A proposito da etiologia escreve: «Estes doentes, em vez de apresentarem
    desde a juventude um caracter desconfiado ou de passarem pela phase de
    hypocondria que muitas vezes precede o delirio de perseguições
    ordinario, teem quasi sempre manifestado na infancia, na adolescencia ou
    na idade adulta alguns dos symptomas physicos e moraes attribuidos hoje
    aos alienados hereditarios: alterações de caracter, desigual
    desenvolvimento das funcções intellectuaes, faculdades eminentes ao lado
    de enormes lacunas, accidentes nervosos ou perturbações mentaes
    passageiras, na puberdade, existencia movimentada, irregular, vagabunda,
    perversões genitaes e outras. O passado d'estes doentes é, n'uma
    palavra, não o dos perseguidos classicos, mas o dos alienados
    hereditarios»[1].

    [1] Pottier, _Ètude sur les aliénés persécuteurs_, pag. 3

    A proposito da ausencia de allucinações n'estes doentes, diz Pottier:
    «Imaginou-se que as allucinações auditivas, escapando a uma observação
    superficial, seriam encontradas n'estes doentes por um exame
    escrupuloso. Não é assim, porém. Nós crêmos, ao contrario, que, na
    direcção actual das idéas, se teem admittido allucinações não
    demonstradas ou se teem tomado como allucinações simples phenomenos de
    interpretação delirante, illusões ou mesmo impressões procedentes do
    mundo exterior e realmente percebidas pelos doentes, cuja acuidade
    sensorial se encontra muitas vezes exaggerada»[2].

    [2] Pottier, _Obr. cit._, pag. 38.

    Sobre a evolução do delirio n'estes doentes, diz ainda Pottier: «Ha
    periodos de remissão prolongada e de intensa exacerbação, mas nenhuma
    evolução progressiva … Estes alienados são, em regra, muito orgulhosos,
    mas não chegam, como os outros perseguidos, á megalomania, ao delirio de
    grandezas, emfim, a uma verdadeira transformação da personalidade»[1].

    [1] Pottier, _Obr. cit._, pag. 39.

    A estas notas differenciaes junta Pottier uma outra: a existencia, nos
    doentes de que nos occupamos, de accidentes cerebraes, congestivos ou
    convulsivos, produzindo-se a largos intervallos. «Observem-se
    attentamente, diz, o auctor, estes doentes durante o curso da sua vida,
    estudem-se as observações já publicadas, e chegar-se-ha a verificar que,
    nos perseguidores lucidos, accidentes cerebracs graves se dão de tempos
    a tempos e que, as mais das vezes, elles morrem cerebralmente, quer por
    um ataque, quer por influencia de lesões consecutivas»[2].

    [2] Pottier, _Obr. cit._, pag. 41.

    Ainda no capitulo do diagnostico, o mais completo do trabalho que vimos
    citando, observa Pottier a extrema facilidade com que os perseguidores
    conseguem fazer perfilhar as suas idéas por um grande numero de pessoas,
    chegando mesmo a interessar em sua defeza a propria imprensa. A
    explicação d'este _contagio delirante_ procede sobretudo, segundo
    Pottier, da convergencia d'estes dois factos: de um lado, a
    intelligencia de ordinario muito viva d'estes doentes e a sua incansavel
    actividade; de outro lado, o colorido verosimil do seu delirio, que não
    é em si mesmo absurdo, que se não apoia em estados allucinatorios, mas
    que tem por base factos reaes, embora morbidamente interpretados, e
    circumstancias possiveis, cuja veracidade não é facil contestar ou mesmo
    pôr em duvida.

    Os _litigantes_ ou _processomanos_ constituem a mais importante
    cathegori d'estes doentes; uma outra é formada pelos _perseguidores
    hypocondriacos_ que, attribuindo os seus imaginarios males ao tratamento
    seguido, hostilisam o medico assistente.

    As idéas de J. Falret fizeram carreira em França, onde os
    perseguidos-perseguidores são geralmente considerados como exemplares de
    loucura lucida _(folie raisonnante)_, sub-grupo das degenerescencias
    psychicas hereditarias. Nas suas _Lições clinicas sobre as doenças
    mentaes_, Magnan presta um largo apoio á doutrina de Falret, fazendo
    apenas reservas sobre dois pontos: as allucinações, que elle admitte a
    titulo de excepção, e os accidentes cerebraes, que julga, em face da sua
    experiencia pessoal, muito menos frequentes do que se tem pensado.

    De passagem faremos notar que na Allemanha o _delirio processivo_ tem
    soffrido as mesmas vicissitudes theoricas que experimentou em França o
    delirio dos perseguidos-perseguidores. Ao passo que a maioria dos
    auctores, á maneira de Lasègue, consideram aquelle delirio uma simples
    variedade da _Verrücktheit_, descrevendo-o, como faz Krafft-Ebing, ao
    lado do delirio de perseguições, outros, como Arndt, Kraepelin e Schüle,
    fazem d'elle um sub-grupo da _loucura moral._

    III–PHASE SYNTHETICA

    De Morel a Magnan; de Westphal a Cramer; de Buccola a Tanzi e Riva–A
    loucura hypocondriaca; o delirio chronico; a loucura parcial; a
    Verrücktheit aguda e chronica; a Paranoia; a delusional
    insanity–Determinação pathogenica.

    Vimos precedentemente que Morel, quando ainda a psychiatria franceza se
    esforçava por elevar á cathegoria de fórmas nosographicas autonomas os
    delirios de perseguições e de grandezas, esboçara a doutrina segundo a
    qual taes delirios não seriam senão manifestações de uma doença ou, mais
    precisamente, transformações progressivas da loucura hypocondriaca.

    Da idéa inicial de um compromisso da saude, caracteristica da
    hypocondria, passaria o doente, generalisando, á idéa de um compromisso
    da vida, da honra, dos interesses intellectuaes e moraes, caracteristica
    do delirio de perseguições. Este seria uma simples manifestação da
    hypocondria anomala ou, como elle proprio escreve, sublinhando, _uma
    hipocondria de uma natureza mais intellectual_. Em 1860 exprimia-se
    assim no seu _Tratado_ o illustre psychiatra: «Fallando da hysteria,
    disse eu que esta nevrose póde percorrer as suas phases mais
    extraordinarias sem que a alteração das faculdades intellectuaes e
    afectivas se torne uma consequencia forçada. A hysteria larvada, se
    assim posso exprimir-me, offerece perigos muito maiores para o livre
    exercicio das faculdades, como provei com numerosos exemplos. A mesma
    reflexão póde applicar-se á hypocondria. Para d'isto nos convencermos,
    basta examinar até que ponto o temperamento dos individuos com delirio
    predominante de perseguições está sob a influencia d'este estado
    nevropathico»[1]. E mais adiante: «Quando elles (os hypocondriacos)
    chegam á supposição de que os seus alimentos teem venenos ou, pelo
    menos, substancias que lhes produzem as sensações de que se queixam;
    quando elles se imaginam expostos aos maleficios do que chamam potencias
    occultas, como a electricidade e o magnetismo, e pensam que a propria
    policia procura perdel-os, podemos estar certos de que vão entrar _na
    phase d'este delirio especial_ que a designação de _delirio de
    perseguições_ melhor do que todas exprime»[2].

    [1] Morel, _Traité des maladies mentales_, pag. 706.

    [2] Morel, _Obr. cit._, pag. 707.

    Quanto ao _delirio ambicioso_ elle seria, segundo Morel, uma terminação
    frequente do delirio de perseguições. Fallando dos megalomanos,
    escrevia: «E quando mesmo os doentes chegaram a este estado de
    contentamento e de vaidosa satisfação que é proprio das idéas
    systematicas de grandeza, elles não lograram collocar-se de um modo fixo
    e irremediavel sobre o pedestal da sua loucura senão com a condição de
    passarem por todas as peripecias do delirio de perseguições, e de terem,
    as mais das vezes, experimentado todos os soffrimentos dos
    hypocondriacos»[3].

    [3] Morel, _Obr. cit._, pag. 716.

    Para explicar a passagem do delirio de perseguições ao de grandezas,
    Morel não invocava, á maneira de Foville, o _raciocinio_ e a _logica,_
    mas a _physiologia morbida:_ era, com effeito, ao echo psychico de uma
    alteração no funccionalismo visceral dos hypocondriacos que elle ia
    procurar a chave d'este phenomeno _tão frequente quanto assombroso para
    os homens alheios á medicina e desconhecedores das leis dos organismos
    doentes._

    Esta doutrina, integrando os delirios de perseguições e de grandezas na
    hypocondria, representava uma tentativa de synthese clinica,
    naturalmente destinada a não encontrar seguidores entre os
    contemporaneos de Morel, porque o tempo era de analyse, e a tendencia
    geral a da multiplicação das fórmas nosographicas. O estudo minucioso
    dos symptomas absorvia as attenções, relegando a um plano subalterno o
    das causas e da evolução das doenças. Embora combatidas quasi desde a
    sua introducção na sciencia, as _monomanias_ de Esquirol triumphavam
    ainda então: o delirio de perseguições era uma monomania, o delirio de
    grandezas, outra. O _Tratado_ de Marcé, o mais cotado dos livros
    classicos da psychiatria franceza, consagrava esta doutrina em 1862; e a
    memoria de Foville, que atraz citámos, tem a data de 1869, como tem a de
    1871 a monographia de Legrand du Saulle, de que tambem démos idéa no
    capitulo anterior.

    Isto é dizer que não foi comprehendida a maneira de vêr de Morel sobre
    os delirios systematisados, como o não foram outros pontos de vista
    d'este homem de genio, que Morselli justamente denomina o _Darwin da
    psychiatria_. Fallava para o futuro o auctor das _Degenerescencias
    Humanas_, cuja alta originalidade rompe na historia da medicina mental
    franceza o parallelismo entre a ordem chronologica e a ordem logica das
    idéas.

    É só em 1883, mais de vinte annos depois de publicado o _Tratado_ de
    Morel, que as idéas d'este psychiatra a proposito dos delirios
    systematisados são retornadas e postas em relevo n'um trabalho de
    Gérente.

    Escripto sob a evidente inspiração de Magnan, esse trabalho destina-se a
    provar com o apoio dos factos, que não existe _um_ delirio
    hypocondriaco, _um_ delirio de perseguições e _um_ delirio de grandezas,
    mas uma vesania, o _Delirio Chronico,_ de que aquelles não são senão
    phases evolutivas. «Vamos, diz o auctor, estudar clinicamente todos os
    delirios da vesania; seguiremos n'uma observação attenta a génese e a
    evolução d'estes delirios; e, por conclusão d'este trabalho, esperamos
    que em vez d'essas _monomanias_, tão artificiaes e tão confusas, de
    certos auctores, appareça claramente, emfim, _uma só e mesma especie
    morbida_ que chamaremos o _Delirio Chronico_»[1].

    [1] Gérente, _Le délire chronique_, pag. 10.

    O que é, verdadeiramente, este _Delirio Chronico_? Segundo Gérente, uma
    doença que, germinando sempre n'um terreno hypocondriaco, se denuncía
    nos seus casos typicos e eschematicos pela successão regular de tres
    periodos: um de concentração dolorosa do espirito; um de expansão; e um
    mixto ou de transição entre os dois. Se a doença se prolonga
    sufficientemente, a demencia é o seu termo natural.

    O terreno hypocondriaco em que, segundo Gérente, o _Delirio Chronico_
    mergulha as suas raizes para constituir-se e crescer, é caracterisado
    essencialmente por uma impressionabilidade anormal, de origem quasi
    sempre hereditaria, por uma perversão dolorosa da sensibilidade mental,
    n'uma palavra, por uma _hyperalgesia psychica_; uma autoobservação
    permanente, uma sorte de habitual _ruminação_ interior de estados
    physicos ou de estados moraes define a mentalidade prediposta, da qual,
    sob a mais ligeira causa determinante, ha de surgir a vesania. É, pois,
    um hypocondriaco o candidato ao _Delirio Chronico_; mas não é um
    alienado, emquanto sobre si mesmo poder exercer uma acção de _contrôle_.
    Sel-o-ha no dia em que esse exercicio se torne impossivel, no dia em que
    a preoccupação dos seus estados physicos e moraes venha a ser absorvente
    e o desligue das relações normaes com a sociedade. A hypocondria simples
    torna-se então loucura hypocondriaca. E é d'ela que vae sahir o periodo
    inicial ou depressivo do _Delirio Chronico_.

    Este periodo é caracterisado por uma concentração dolorosa do Eu, de que
    procedem idéas delirantes de natureza depressiva e de um contheudo que
    varía com a intelligencia, a educação e o meio do doente. As falsas
    concepções hypocondriacas subsistem ainda; mas, ao lado d'ellas, outras
    germinam: a crença n'uma hostilidade dos homens (delirio de
    perseguições) ou de maleficos poderes sobrenaturaes (demonomania).
    Perturbações da sensibilidade geral e especial, sobretudo allucinações
    auditivas, dominam esta phase do _Delirio Chronico_, de uma duração que
    póde ser muito longa.

    Mas, pouco a pouco, a dôr moral esbate-se; e na personalidade vesanica,
    enfraquecida pelo delirio depressivo, uma sorte de reacção se dá em
    sentido contrario. Então, no espirito enfermo, trabalhado por infinitas
    angustias, uma pouca de felicidade rompe, como n'um ceu enevoado uma
    restea de sol: entre as idéas depressivas surgem idéas de grandeza,
    ainda vagas, mas a que o futuro reserva uma preponderancia definitiva.
    Esta confusão de elementos apparentemente contradictorios, de idéas e
    sentimentos depressivos com estados expansivos, caracterisa o segundo
    periodo, chamado, por isso, mixto ou de transição.

    Como a dôr moral e as idéas depressivas definem o primeiro periodo, a
    plena beatitude de espirito e as idéas ambiciosas definem o terceiro.
    Lentamente, as emoções e as concepções expansivas do periodo mixto vão
    tomando crescente logar no espirito vesanico á custa de uma reducção na
    intensidade e numero das emoções e idéas depressivas, que acabam por
    desapparecer. Então, um delirio de grandezas de colorido mystico ou
    humano, versando sobre a graça, sobre dotes pessoaes, sobre riquezas,
    sobre posição social, se estabelece definitivamente, caracterisando na
    sua exclusividade o terceiro periodo do _Delirio Chronico_.

    Esta lenta evolução da vesania–tão lenta que póde cobrir dezenas de
    annos, não se faz sem que a mentalidade soffra nas suas forças vivas e
    productoras. E assim, o seu termo natural é a demencia, quer simples e
    apathica, se o delirio cessou absolutamente, quer agitada, se restam
    perturbações da sensibilidade e falsas concepções desconnexas e
    dissociadas.

    Tal é, summariamente, a marcha typica do _Delirio Chronico,_ segundo
    Gérente,

    Nem sempre, porém, faz observar o auctor, as coisas se passam d'este
    modo regular e eschematico; não raro apparecem casos em que a evolução
    descripta não tem logar: póde, por exemplo, o periodo depressivo,
    representado por um delirio de perseguições, extender-se por toda a vida
    do doente que não chega a fazer um delirio de grandezas, caracteristico
    do terceiro periodo; póde do periodo mixto passar um outro doente á
    demencia, sem que o periodo expansivo se tenha realisado em toda a sua
    pureza; póde acontecer que a doença suspenda a sua evolução n'um delirio
    hypocondriaco inicial, que se perpetua, systematisando-se e
    estereotypando-se; emfim, póde mesmo dar-se uma regressão, voltando o
    doente do delirio ambicioso ao de perseguições. Como todas as doenças,
    comporta o _Delirio Chronico_ anomalias evolutivas, que compete á
    clinica registrar; esses casos, porém, não invalidam o _typo_ descripto
    sobre exemplares completos.

    Como se vê, n'esta synthese clinica retoma Gérente as idéas fundamentaes
    de Morel sobre os delirios systematisados, reduzindo-os a expressões
    symptomaticas e momentos evolutivos de uma vesania caracterisada pela
    successão de duas phases apparentemente oppostas: uma, inicial,
    angustiosa e depressiva; outra, final, expansiva e de beatitude, Toda a
    differença, entre os dois psychiatras, está em que Morel chamava
    _Loucura hypocondriaca_ ao que Gérente denomina _Delirio Chronico_,

    Vejamos agora a pathogenia da doença, tal como a comprehende este
    psychiatra.

    De um lado, importa considerar o fundamento hereditario, commum a todas
    as psychoses funccionaes: «Não é vesanico, diz elle, quem quer: é
    precisa uma longa incubação; são precisas, pelo menos, duas gerações que
    preparem o terreno»[1]. Não, é claro, duas gerações de delirantes
    chronicos, mas de nevro e psychopatas. «São umas vezes, explica,
    nevroses, outras vezes intoxicações chronicas, outras ainda anomalias da
    intelligencia, do sentimento ou da vontade a que se não prestaria,
    talvez, attenção, mas que nem por isso deixaram de imprimir o seu cunho
    sobre o individuo e os seus descendentes»[2]. A tara hereditaria cria a
    predisposição; para determinar a doença qualquer abalo moral é bastante.

    [1] Gérente,_Obr. cit._, pag. 8.

    [2] Gérente,_Obr. cit._, pag. 9.

    Mas, por outro lado, importa em relação ao _Delirio Chronico_ attender á
    natureza especial do terreno predisposto. O que atraz dissemos,
    dispensa-nos de insistir sobre este ponto: é sabido que para Gérente,
    como para Morel, essa feição peculiar consiste na hypocondria.

    Emfim, conhecidas as causas e o terreno morbido, importa conhecer a
    _lesão,_ no sentido psychologico do termo.

    Ora, segundo Gérente, nenhuma duvida póde existir a este proposito. «É
    sempre, diz elle, uma alteração do senso emotivo, é a alteração do
    sentimento, agora penosa, logo expansiva, que imprime tal ou tal
    direcção ás perturbações da sensibilidade e ás idéas delirantes; esta
    alteração é, pois, a _lesão essencial e caracteristica ao delirio
    chronico_»[3].

    [3] Gérente,_Obr. cit._, pag. 24.

    Cremos ter dado uma idéa sufficiente da doutrina exposta por Gérente.
    Uma psychose, de origem hereditaria, de evolução de ordinario regular e
    tendo por lesão primitiva uma perturbação do sentimento, integraria como
    syndromas os delirios systematisados, hypocondriaco, de perseguições e
    ambicioso, descriptos na antiga psychiatria como doenças autonomas, sob
    a designação de monomanias; _Delirio Chronico_ é o nome d'essa psychose.

    Dissemos que Gérente se inspirou nas idéas de Magnan; e talvez
    podessemos mesmo affirmar que aquelle não fez senão expôr no seu
    trabalho, que é uma these de doutoramento, os pontos de vista do mestre.
    De facto, não só a designação de _Delirio Chronico_ tomada por Gérente
    para titulo do seu livro, foi creada por Magnan, que a vulgarisara nas
    suas lições oraes, mas foram colhidas no serviço e sob a direcção
    d'este, no asylo de Sant'Anna, as observações clinicas da these.
    Entretanto, nos debates que em 1887 se abriram sobre o assumpto na
    Sociedade Medico-Psychologica de Paris, Magnan apparece-nos, como mais
    tarde nas suas _Lições Clinicas_, publicadas em 1893, expondo uma
    doutrina do _Delirio Chronico_ notavelmente diversa da proclamada por
    Gérente. Admittiremos que o insigne clinico de Sant'Anna concedesse ao
    seu discipulo uma absoluta liberdade de opinião? É isso possivel; mas
    não é provavel que Gérente abusasse de tal liberdade até ao ponto de
    cobrir com a designação consagrada pelo mestre uma doutrina propria e em
    mais de um ponto contraria á d'este. O que nos parece mais acceitavel é
    que o conceito de _Delirio Chronico_ tenha soffrido no espirito de
    Magnan uma evolução durante o periodo que vem da these de Gérente á
    discussão da Sociedade Medico-Psychologica.

    Como quer que seja, as duas doutrinas, a de 1883 e a de 1887, differem
    muito. É o que vamos vêr.

    Ao passo que Gérente, como foi dito, fazia derivar o _Delirio Chronico_
    de uma predisposição quasi sempre hereditaria e preparada atravez de
    gerações, Magnan affirma que um tal facto é excepcional e que, de
    ordinario, a psychose affecta individuos isentos de qualquer tara
    nervosa e absolutamente correctos no ponto de vista mental. «O _Delirio
    Chronico_, diz Magnan, fere em geral na idade adulta individuos sãos de
    espirito, não tendo até então apresentado perturbação alguma
    intellectual, moral ou affectiva. Insisto sobre este importante ponto,
    porque tal particularidade basta para separar immediatamente os
    delirantes chronicos dos degenerados hereditarios que offerecem desde a
    infancia perturbações que os fazem reconhecer»[1].

    [1] Magnan, _Leçons cliniques sur les maladies mentales_, pag. 236.

    Ao passo que Gérente, seguindo a tradição de Morel, admittiu como
    constante uma phase inicial hypocondriaca na constituição do _Delirio
    Chronico_, Magnan não a acceita senão a titulo excepcional. «Para Morel,
    escreve o medico de Sant'Anna, é preciso que elles (os perseguidos que
    se tornam ambiciosos) tenham sido hypocondriacos primeiro; ora, sendo a
    hypocondria, como se sabe, as mais das vezes uma manifestação
    dos hereditarios degenerados, não parece provavel que o
    _hypocondriaco-perseguido-ambicioso_ possa apresentar caracteres
    bastante fixos para entrar no quadro do _Delirio Chronico_»[2].

    [2] Magnan, _Obr. cit._, pag 221.

    Emfim, emquanto Gérente concedia irregularidades de marcha ao _Delirio
    Chronico_, admittindo a existencia de casos frustres em que a evolução
    se suspendia ou mesmo por algum tempo retrogradava, Magnan exclue do
    _Delirio Chronico_ todos os casos d'esta natureza. Depois, com effeito,
    de ter admittido na evolução do _Delirio Chronico_ quatro periodos
    nitidamente desenhados–o _de incubação_, o _de perseguições_, o
    _ambicioso_ e o _demente_, Magnan escreve: «Estes periodos succedem-se
    irrevogavelmente da mesma maneira, de sorte que podemos sem receio pôr
    fóra do _Delirio Chronico_ todo o doente que _d'emblèe_ se torna
    perseguido ou ambicioso, ou que, primeiro ambicioso, se torna depois
    perseguido»[3].

    [3] Magnan, _Obr. cit._, pag 237.

    São estes tres os pontos em que as syntheses clinicas do _Delirio
    Chronico_, a de 1883 e a actual, differem. Quanto ao nome, julgou
    Magnan, depois dos reparos de alguns criticos, dever amplial-o para o
    tornar mais explicativo: _Delirio Chronico de evolução systematica_ é a
    designação adoptada por este psychiatra nas suas _Lições Clinicas_.

    Naturalmente occorre perguntar para que nova cathegoria são relegados os
    casos, tão numerosos, de delirios systematisados de evolução irregular
    que Gérente considerava como exemplares frustres de _Delirio Chronico_ e
    que Magnan resolutamente aparta do quadro clinico d'esta psychose. A
    resposta vae o leitor encontral-a no resumo que em seguida fazemos dos
    debates a que deu logar na Sociedade Medico-Psychologica de Paris a
    doutrina do _Delirio Chronico_.

    Digamol-o desde já: vigorosamente sustentada por Garnier e Briand, a
    synthese clinica de Magnan foi tambem rudemente combatida.

    Ninguem contestou a existencia de alienados que, primeiro inquietos,
    suspeitosos, interpretando illusoriamente e n'um sentido pejorativo
    todos os actos e palavras d'outrem (_periodo de incubação_), se tornam
    depois allucinados, sobretudo do ouvido, e se lançam n'um delirio
    systematisado de hostilidades (_periodo de perseguições_), fabricam mais
    tarde ainda idéas de grandeza (_periodo ambicioso_), e, por fim, cahem
    n'um estado de enfraquecimento cerebral em que as concepções falsas se
    esbatem e dissociam (_periodo de demencia_). Ninguem contestou,
    repetimos, a existencia d'estes casos; contestou-se, porém, desde todo o
    principio, que elles fossem _regra_. A fatalidade do terceiro periodo do
    _Delirio Chronico_ foi, por exemplo, negada. Assim, J. Falret sustentou
    que _o delirio de grandezas só n'um terço dos casos succede ao delirio
    de perseguições_. Facilmente se comprehende o alcance d'esta affirmação
    que varios alienistas–Christian entre outros–apoiaram: ao passo que
    para Magnan o delirio ambicioso é um periodo inevitavel do _Delirio
    Chronico_, para Falret elle não constitue senão um episodio fallivel da
    evolução vesanica, um delirio que apenas accidentalmente vem
    juxta-por-se ao de perseguições. Se todo o alienado que entrou, não
    _d'emblèe_, mas após uma phase mais ou menos longa de incubação, no
    delirio de perseguições, houvesse fatalmente de tornar-se ambicioso,
    Magnan teria, talvez, razão, affirmando a existencia de uma _Psychose_
    na qual o delirio de grandezas representaria, segundo a sua phrase, um
    papel evolutivamente similhante ao da _suppuração n'nuna erupção
    variolica;_ mas se, como pretende Falret, esse alienado póde
    perpetuar-se no delirio de perseguições sem jámais esboçar uma idéa
    ambiciosa, tal _Psychose_ não existe: a synthese clinica legitima não é
    o _Delirio Chronico de evolução systematica,_ mas o _Delirio de
    Perseguições,_ que póde ou não, _sem mudar de natureza_, complicar-se de
    um delirio ambicioso. Baseada em factos e apoiada na auctoridade de
    alienistas illustres, a objecção de Falret parece decisiva contra a
    doutrina actualmente professada por Magnan.

    Notemos de passagem que o argumento de Falret não attingiria a doutrina
    de Gérente, segundo a qual o _Delirio Chronico,_ á maneira d'outras
    doenças, comportaria casos de evolução irregular, anomala, entre os
    quaes estariam esses a que se reporta o sabio medico da Salpêtrière.

    J. Falret contestou ainda a Magnan que a demencia constitua o termo
    irrevogavel de uma vesania que passou pelas phases dos delirios de
    perseguições e de grandezas: muitos perseguidos e ambiciosos ha, segundo
    elle, que, ao fim de trinta, de quarenta e mais annos de delirio, morrem
    sem ter attingido a demencia. É mister dizer-se, para avaliar este
    argumento, que Magnan não toma a palavra _demencia_ no restricto sentido
    de abolição das faculdades, mas na accepção mais larga de
    enfraquecimento e falta de iniciativa mental. Desde que o delirio se
    _estereotypa_ (o que é de regra na phase ambiciosa e muitas vezes se dá
    mesmo na phase persecutoria da vesania), o enfraquecimento cerebral é
    já, segundo Magnan, um facto, que a diuturnidade da doença não faz senão
    aggravar; chamar-lhe, pois, _demencia_, quando elle attinge um grau em
    que os conceitos delirantes, desde ha muito invariaveis, se dissociam,
    não deverá parecer senão legitimo. Em todo o caso, é n'este sentido que
    o medico de Sant'Anna toma a _demencia_ quando faz d'ella a phase
    terminal da sua Psychose.

    Manifestando uma grande incomprehensão das idéas do medico de Sant'Anna,
    alguns membros da Sociedade tentaram atacar a doutrina do _Delirio
    Chronico_, affirmando que muitos vesanicos são ambiciosos antes de serem
    perseguidos; que outros surgem com um delirio de perseguições sem terem
    passado por uma phase de incubação; que alguns, emfim, só
    intermittentememe deliram n'um sentido persecutorio ou ambicioso. Todos
    estes casos são conhecidos e de observação diaria; mas, desde que Magnan
    os colloca, pela irregularidade mesma da sua marcha, fóra do quadro do
    _Delirio Chronico_, é evidentemente absurdo invocal-os contra a
    legitimidade d'esta psychose.

    Para Magnan, ao lado do _Delirio Chronico de evolução systematica_, ha
    os delirios que elle chama _polymorphos_ ou _d'emblèe_. E as distincções
    entre aquelle e estes são, segundo o eminente alienista, tão profundas
    quanto possivel, porque derivam da marcha, da etiologia e do
    prognostico. Ao passo que o _Delirio Chronico_ se caracterisa
    evolutivamente pela successão regular e irrevogavel de certos periodos,
    sendo o primeiro de incubação, os delirios polymorphos teem uma evolução
    irregular, imprevista, e rompem subitamente, sem preparação. Emquanto,
    sob o ponto de vista da etiologia, o _Delirio Chronico_ prescinde para
    constituir-se de uma pesada tara ancestral, podendo installar-se em
    individuos psychicamente correctos, os delirios polymorphos são
    eminentemente hereditarios e só podem realisar-se em degenerados, quer
    dizer em individuos tendo antes offerecido signaes de um desequilibrio
    mental. Emfim, emquanto o _Delirio_, _Chronico_, na sua qualidade de
    psychose progressiva e cyclica, é absolutamente incuravel, os delirios
    polymorphos, de marcha remittente ou intermittente, curam muitas vezes.

    É evidente, em face d'esta doutrina, exposta sem reticencias no seio da
    Sociedade Medico-Psychologica de Paris, que os casos, invocados por
    Dagonet e outros, de doentes que entram em delirio de grandezas para
    ulteriormente se tornarem perseguidos, de doentes que abruptamente, de
    um dia para o outro, apparecem allucinados do ouvido e se crêem victimas
    de injustificadas hostilidades, de doentes que após semanas de um
    delirio qualquer ambicioso ou de perseguições, surgem curados para
    recidivarem mais tarde, ou cahem rapidamente em demencia,–é evidente,
    diziamos que esses casos nada provam, em si mesmos, contra a existencia
    do _Delirio Chronico_, por isso que, segundo Magnan, elles pertencem a
    uma cathegoria diversa e não são senão episodios mais ou menos longos e
    interessantes da vida dos degenerados hereditarios.

    A doutrina do medico de Sant'Anna não póde ser combatida senão pela
    demonstração de que as differenciações por elle feitas entre os
    delirantes chronicos e os delirantes degenerados, são infundadas. Mas
    como, sob o ponto de vista da marcha, a differenciação é, _ao menos
    n'um certo numero de casos_, indiscutivelmente exacta; como por consenso
    de todos os alienistas e por testemunho irrecusavel da experiencia, ao
    lado de doentes que incubam um delirio de perseguições e d'este passam
    para o ambicioso, cahindo por fim n'um estado de fraqueza mental
    (_Delirio Chronico_ de Magnan), ha doentes que fazem bruscos,
    irregulares e mais ou menos ephemeros delirios multiplos, de que por
    vezes curam, embora para recidivarem mais tarde (_delirios
    degenerativos_ de Magnan), o ataque á synthese clinica do medico de
    Sant'Anna só póde ser feito de um ponto de vista mais alto,
    demonstrando-se que as duas ordens de delirios, a despeito das suas
    _allure_ diversas, procedem de uma causa commum e assentam sobre um
    mesmo fundo.

    Séglas viu isto–e só elle parece tel-o visto–quando na Sociedade
    Medico-Psychologica affirmou que alguns delirantes chronicos de Magnan
    apresentam os estygmas physicos e mentaes dos degenerados hereditarios.

    Demonstrar esta proposição seria evidentemente destruir á doutrina de
    Magnan o seu mais solido fundamento: o etiologico. Se os degenerados
    hereditarios podem delirar tanto de um modo remittente e anomalo como de
    um modo regular e progressivo, caminhando tanto para a cura como para a
    demencia, toda a differença entre o _Delirio Chronico_ e os _delirios
    polymorphos_ se reduz a accidentes de marcha e a possiveis variações de
    prognose, o que não é bastante para estabelecer _especies_ morbidas
    distinctas.

    Nos longos debates da Sociedade Medico-Psychologica sobre os delirios
    systematisados, tomaram parte os mais eminentes psychiatras francezes;
    cremos, porém, que só Falret e Séglas produziram contra a legitimidade
    clinica do _Delirio Chronico_ argumentos de valor.

    Mas não insistiremos sobre elles; por agora fazemos apenas historia.

    Para completarmos o que na psychiatria franceza tem direito a menção
    especial em materia de delirios systematisados, resta-nos expôr a
    maneira de vêr de Régis.

    Retomando uma doutrina exposta por Baillarger em 1853, o auctor do
    _Manual pratico de Medicina Mental_ sustenta que uma natural distincção
    existe entre as _loucuras generalisadas_ e a _Loucura parcial_: ao passo
    que as primeiras se caracterisam pela presença constante e essencial de
    um elemento affectivo, _excitação_ na mania e _depressão_ na melancolia,
    a segunda manifesta-se por simples perturbações intellectuaes e moraes
    sem participação, a não ser accidental e episodica, da emotividade. A
    excitação e a depressão, affirma Régis, são tanto a fundamental
    caracteristica das loucuras generalisadas que muitas vezes só ellas
    existem n'estas doenças: tal é o caso das manias e melancolias sem
    delirio, nas quaes, como se sabe, ha exaltação ou diminuição do _tonus
    emotivo_, sem compromisso grave da intelligencia e do senso moral. O
    contrario d'isto se dá na _Loucura parcial_: um delirio mais ou menos
    extenso caracterisa n'este caso a alienação, que só por momentos póde
    acompanhar-se de crises ephemeras de excitação ou depressão, analogas ás
    dos espiritos normaes em conflicto com causas externas. A mania e a
    melancolia, accrescenta Régis, sendo muitas vezes idiopathicas, são, não
    raro, meros symptomas d'outras doenças mentaes, como a hysteria, a
    epilepsia, a demencia paralytica; ao contrario, a _Loucura parcial_ é
    sempre idiopathica, essencial.

    Ora, é n'esta _verdadeira loucura_ que os delirios systematisados se
    integram, segundo Régis, a titulo de manifestações e de estadios
    evolutivos.

    No seu curso regular e typico, a _Loucura parcial_ offereceria tres
    periodos: um, de _analyse subjectiva_, caracterisado pelo _delirio
    hypocondriaco_; outro de _interpretação_, revellado pelo _delirio de
    perseguições_ ou pelo _delirio mystico_, segundo o doente attribue a
    pessoas ou a divindades os seus males; um terceiro, emfim, de
    _transformação pessoal_, exteriorisado pelo _delirio ambicioso_. As
    allucinações, sobretudo auditivas, são o symptoma dominante da _Loucura
    parcial_.

    Quanto á etiologia, sustenta Régis que a doença é constitucional, faz
    parte do individuo e surge n'um dado momento sob a influencia de
    quaesquer circumstancias; isto é dizer que _Loucura parcial_ é
    eminentemente hereditaria. Segundo este auctor, «ella attinge de
    preferencia os individuos sombrios, desconfiados, com tendencias á
    mysantropia e ao orgulho»[1]

    [1] E. Régis, _Manuel pratique de médecine mentale_, 2º ed., pag. 228.

    Como se vê, a _Loucura parcial_ de Régis mantem relações profundas de
    similhança com a _Loucura Hypocondriaca_ de Morel e o _Delirio Chronico_
    de Gérente. Um mesmo pensamento etiologico-evolutivo preside ás tres
    syntheses clinicas.

    * * * * *

    Expostos os trabalhos francezes sobre os delirios systematisados na sua
    phase de synthese clinica e de interpretação pathogenica, vejamos,
    retrocedendo na ordem dos tempos, o que se passou na Allemanha desde
    que, com Snell, Griesinger e Sander, a psychiatria d'este paiz assentou
    na existencia de delirios _primitivos_ de perseguições e de grandezas.

    Antes, porém, seja-nos licito dar uma explicação sobre a marcha a
    seguir.

    Delimitar um assumpto é a primeira das condições a preencher para
    tratal-o scientificamente; a segunda, é possuir uma nomenclatura
    definida e precisa. Ora, não satisfazendo a uma só d'estas duas
    condições os trabalhos allemães sobre os delirios systematisados, a
    impressão que recebe quem d'elles procura tomar conhecimento, é, sem
    exaggero, a de ter penetrado n'um labyrintho. Não o dizemos nós: por
    esta ou analogas expressões disseram-no em 1887 Séglas e recentemente
    Kéraval, os alienistas francezes que com maior auctoridade se occuparam
    do assumpto; disse-o tambem, mais insuspeitamente, Pelman ao formular ha
    vinte annos esta queixa: «Acabaremos por nem mesmo entre nós,
    psychiatras, nos entendermos»; repetirara-n'o, emfim, em 1894 quasi
    todos os alienistas allemães que tomaram parte na discussão aberta sobre
    a Paranoia na Sociedade Psychiatrica de Berlim.

    De facto, a extensão do assumpto varia de auctor para auctor; restricta
    para uns que, como Krafft-Ebing, lhe estabelecem os mesmos limites que
    os alienistas francezes, ella é tão vasta para outros, para Cramer, por
    exemplo, que parece estar contida lá dentro a psychiatria inteira. Por
    outro lado ainda, a nomenclatura é vaga e é confusa: vaga, pela
    multiplicidade de termos com que um dado auctor exprime um mesmo facto;
    confusa, pela variedade de significações de cada termo para cada auctor.
    _Wahnsinn, Verrücktheit_ e _Paranoia_ são as palavras com que na
    litteratura allemã apparecem designados os delirios systematicos
    descriptos pelos franceses; estes termos, porém, ora figuram como
    synonimos, ora como vocabulos de significados distinctos, succedendo
    ainda que o ultimo é pelo mesmo auctor tomado umas vezes n'um sentido
    restricto, outras vezes n'um sentido geral, infinitamente mais amplo.

    N'estas deploraveis condições de maxima obscuridade, fazer n'uma ordem
    rigorosamente chronologica e sob a respectiva terminologia a exposição
    das doutrinas allemãs ácerca dos delirios systematisados, seria,
    evidentemente, deixar o leitor em conflicto com obstaculos e
    difficuldades que indeclinavelmente nos cumpre remover-lhe. E eis
    porque, abandonando este invio caminho, procuraremos, antes de fazer
    historia, fixar os limites do assumpto e o valor dos termos.

    A expressão _delirio systematisado_, empregada por opposição á de
    _delirio dissociado_ ou _incoherente,_ significa apenas que certas idéas
    morbidas habitualmente adherem e se conjugam em grupos associativos;
    assim comprehendida, esta expressão não allude, nem mesmo remotamente,
    quer á _origem_ d'essas idéas, quer á _natureza_ e _grau_ da affinidade
    que as liga, quer, emfim, á sua _evolução_. N'este sentido, tão
    systematisados são os delirios protogenicos como aquelles que succedem a
    estados affectivos, tanto os que constituem doenças como os que apenas
    representam syndromas, tanto aquelles em que as associações morbidas são
    activas e fortes como aquelles em que ellas são examines, passivas e
    frouxas, tanto os que marcham para a extincção pela demencia como
    aquelles que se perpetuam, tanto os continuos como os que procedem por
    accessos.

    N'este sentido geral ha, pois, delirios systematisados _primitivos_ e
    _secundarios_, _idiopaticos_ e _symptomaticos_, _continuos_ e
    _intermittentes, agudos_ e _chronicos_. E assim, a não ser nos casos
    extremos de mania, de demencia, de confusão mental e de idiotia, todos
    os delirios serão mais ou menos systematisados, até os que se geram na
    imbecilidade, até os que, uma ou outra vez, se desenvolvem nos periodos
    iniciaes da paralysia geral, o que não fará espanto, se nos lembrarmos
    de que a systematisação associativa é o fundamento mesmo de toda a
    actividade mental. _Verrücktheit_ é o termo empregado pela maioria dos
    auctores allemães para, exprimirem este sentido geral dos delirios
    systematisados; e se estes, como é de regra, se associam a illusões e
    allucinações, o termo _Wahnsinn_ é synonimamente empregado, se bem que
    com menor frequencia.

    Mas ao lado d'este sentido geral e vago, ha um outro limitado e
    restricto,–precisamente o que nas paginas precedentes vimos
    implicitamente adoptado pelos psychtatras francezes. Este novo sentido
    exclue os delirios _secundarios,_ os _symptomaticos_ e os _agudos_ para
    comprehender apenas os _primitivos_, os _idiopaticos_ e os _chronicos_.
    Na accepção restricta do termo, só são systematisados os delirios que
    não teem uma base affectiva em estados expansivos ou depressivos (mania
    ou melancolia), e que na sua evolução progressiva ou remittente, mas
    sempre continua e chronica, não offerecem tendencias para a demencia.
    Tal o delirio de perseguições, typo-Lasègue; tal o delirio ambicioso,
    typo-Foville; tal o delirio dos perseguidos-perseguidores, typo-Falret.

    Este sentido restricto parece ser tambem o proprio, se attendermos
    a que o termo _systema_, pedido á technologia das sciencias
    physico-mathematicas, implica a idéa de uma força _activa_ e
    _persistente_ de attracção ou de affinidade (_systemas planetarios,
    systemas de crystalisação_); por analogia, na esphera psychologica o
    _systema delirante_ deveria resultar de uma força _viva_ e _permanente_
    de associação das idéas, tal como se dá sómente nos delirios primitivos,
    idiopaticos e chronicos,–delirios movimentados, activos, tenazes.
    _Paranoia_ é o termo com que de preferencia exprimem os auctores
    allemães contemporaneos este sentido restricto dos delirios
    systematisados, quer isolados, quer succedendo-se, quer coexistindo no
    mesmo doente; e assim corresponde inteiramente á _loucura systematizada_
    dos francezes, na qual estão comprehendidas as syntheses de Morel, de
    Gérente e de Régis.

    Entretanto, mesmo os auctores para quem o termo _Paranoia_ tem esta
    accepção restricta e determinada, o desviam d'ella não raras vezes (o
    que é uma causa de confusão) para tomal-o no sentido geral e como
    synonimo de _Verrücktheit_ ou _Wahnsinn_; é o que faz, por exemplo,
    Krafft-Ebing que, não admittindo na sua theoria da Paranoia (_psychose
    degenerativa_) senão a fórma primaria, idiopatica e chronica, não duvida
    empregar as expressões de _Paranoia epileptica_, de _paranoia
    masturbatoria_ (_delirios syntptomaticos_), como não deixa de occupar-se
    em detalhe de uma _Paranoia Secundaria (estado terminal das
    psychoneuroses_). Note-se, porém,–e isto fará cessar toda a
    confusão–que o termo Paranoia, quando empregado n'um sentido geral
    pelos auctores a que me refiro, vem sempre seguido de um adjectivo que o
    determina; quando tomado no seu sentido restricto, ou vem só ou, quando
    muito, acompanhado de um termo que faz allusão a accidentes evolutivos
    de chronicidade ou ao contheudo das idéas delirantes, como nas
    expressões _Paranoia originaria, Paranoia adquirida_, ou ainda _Paranoia
    persecutoria, Paranoia ambiciosa_. No primeiro caso, sendo a _Paranoia_
    uma _Verrücktheit_, um _Wahnsinn_, um delirio systematisado, importa
    determinar-lhe a _especie_; no segundo, sendo uma _Primäre
    Verrücktheit_, um _Cronicher Wahnsinn_, um delirio systematisado
    primitivo e chronico, a sua especie está definida, o seu logar marcado
    na classificação, importando apenas, quando importe, designar-lhe a
    _variedade_.

    Posto isto, diremos que é sobre a _Paranoia_ como synthese clinica e
    doutrina equivalente em extensão á _loucura systematisada_ dos francezes
    que primeiro vae recahir a nossa attenção. Claro está que este modo de
    limitar o assumpto e de fixar-lhe a terminologia, de modo nenhum nos
    inhibe de dar na historia das doutrinas um logar áquellas em que o
    assumpto se toma n'uma extensão maior; esse logar, porém, deve ser o
    ultimo, não só porque assim o exige a clareza da exposição, mas porque
    só depois de passados em revista os delirios systematisados primitivos e
    chronicos, ácerca dos quaes ha na Allemanha uma doutrina mais ou menos
    definida, poderemos com vantagem occupar-nos dos secundarios e agudos,
    cuja controvertida existencia é um thema de infinitas e obscuras
    divagações.

    Quanto á terminologia por nós adoptada n'esta exposição, diremos que,
    podendo empregar indifferentemente as palavras Paranoia, Primäre
    chroniche Verrücktheit ou Chronicher Wahnsinn, faremos uso exclusivo da
    primeira, não só por um motivo de simplicidade, senão pelas razões que
    os italianos invocam para dar-lhe tambem preferencia: a sua origem
    grega, que a assemelha aos outros nomes da psychiatria; a sua
    expansibilidade internacional, que lhe vem d'essa mesma procedencia;
    emfim, a facilidade com que d'ella se fazem necessarias palavras
    derivadas, adjectivos e adverbios.

    Depois dos trabalhos de Snell[1], de Griesinger[2] e de Sander[3], a
    doutrina da Paranoia foi retomada em 1878 por Westphal[4], que a
    desenvolveu e aprofundou.

    [1] _Über Monomanie_, 1863.

    [2] _Arch. f. Psych._, 1867.

    [3] _Über eine specielle Form der primäre Verrücktheit_, 1868-69.

    [4] _Zeitschr. f. Psych._, 1878.

    Como os seus antecessores, elle insistiu na origem protogenica da
    Paranoia: a perturbação ideativa é o facto inicial, independente de
    estados affectivos preexistentes; os sentimentos depressivos ou
    expansivos que no curso d'esta psychose se observam, não são senão
    secundarios e determinados pelo contheudo das idéas hypocondriacas, de
    perseguição ou de grandezas. Ainda como os seus predecessores, Westphal
    insistiu na falta de tendencias da Paranoia para a demencia; a
    debilidade mental que por vezes se nota nos paranoicos, é prévia e não
    consecutiva, e não póde, por isso, servir para caracterisar a psychose,
    mas o terreno em que ella germina. Reconhecendo a frequencia das
    allucinações na Paranoia, Westphal notou, todavia, que ellas podem
    algumas vezes faltar; para elle a caracteristica fundamental da Paranoia
    reside na perturbação ideativa, na anomalia conceptual que, por si só e
    independentemente dos erros sensoriaes, gera as idéas delirantes
    destinadas a dominarem de um modo completo e absoluto o Eu vesanico. As
    idéas de perseguição e de grandeza podem, segundo Westphal, succeder,
    como notara Morel, á hypocondria, mas podem tambem nascer e organisar-se
    _d'emblèe_. De resto, segundo Westphal, o desvio paranoico está no modo
    de formar as idéas, não de as associar, o que explica a persistencia do
    raciocinio e a coherencia entre os actos e os pensamentos do doente.

    Alargando a area extensiva da Paranoia, Westphal integrou no quadro
    clinico d'esta psychose as _obsessões_, que, não offerecendo a marcha e
    evolução das idéas delirantes dos paranoicos, teem, comtudo, como ellas,
    uma origem primitiva e espontanea; d'aqui a creação de uma variedade,
    _Paranoia abortiva_ ou rudimentar ou frustre, para designar a loucura
    obsessiva ou das idéas fixas.

    Até aqui, como se vê, a doutrina de Westphal não differe essencialmente
    das estudadas syntheses clinicas dos psychiatras francezes. Todavia na
    sua classificação da Paranoia produziu o eminente professor de Vienna
    uma idéa que o separa dos seus predecessores francezes e allemães: de
    facto, ao lado da fórma _hypocondriaca_, já conhecida desde Morel, da
    fórma _originaria_ ou congenita, descripta antes por Sander, e da fórma
    _chronica_, de marcha progressiva ou remittente, em que _d'emblèe_ se
    produzem idéas de perseguição e de grandeza, admittiu Westphal uma
    fórmia _aguda_, caracterisada pela subita eclosão de allucinações
    principalmente auditivas e muitas vezes aterradoras, acompanhando-se de
    idéas de perseguição e levando o doente ora á incoherencia e confusão
    mental (_Verwirrtheit_) com impulsões, ora ao stupor, á prostração e aos
    estados catatonicos de Kahlbaum.

    A creação d'esta fórma _aguda_, que está fóra dos limites por nós
    traçados ha pouco á Paranoia, foi o ponto de partida, entre os allemães,
    das mais numerosas e mais graves dissidencias doutrinarias sobre este
    capitulo da psychiatria. Comquanto não tenhamos de occupar-nos agora
    d'este ponto, entendemos dever fazer-lhe desde já uma referencia, não só
    para não deixarmos incompleta a exposição das idéas de Westphal, mas
    para marcarmos a origem historica de uma corrente de idéas que teremos
    de estudar e precisar mais tarde.

    Notaremos, por fim, que Westphal só á fórma _originaria_ reconhece um
    fundo degenerativo.

    Fritsch[1] em 1878 insistiu nas relações entre as idéas delirantes e os
    estados affectivos, comparando o que se passa na Paranoia com o que tem
    logar na mania e na melancolia.

    [1] _Psychiatr. Centralblatt_, 1878.

    Ao passo que n'estas psychoses o delirio surge secundariamente, e as
    idéas falsas podem, com Griesinger, considerar-se _tentativas de
    interpretação_ das emoções iniciaes depressivas ou expansivas, na
    Paranoia, ao inverso, as idéas delirantes são primitivas e os estados
    emocionaes secundarios,–meras reacções do sentimento sob o contheudo
    das idéas. Adiante voltaremos a citar este auctor, que não acceita a
    fórma _aguda_ da Paranoia.

    Em 1879, Schaefer[1] continuou as idéas de Westphal, pondo, comtudo,
    n'um relevo maior o papel das allucinações e illusões.

    [1] _Alig. Zeitschr. f. Psych._, 1879.

    Se a Paranoia essencialmente consiste no facto de que as idéas
    delirantes são acceites pelo doente como realidades e n'este sentido
    constituem o alimento habitual e ordinario de toda a sua actividade
    psychica, não deve esquecer-se que os erros sensoriaes, mais frequentes
    n'esta psychose do que em todas as outras, activam o delirio, dão-lhe
    uma base, um ponto de apoio constante, e pela sua diuturnidade criam
    para o doente um mundo phantastico, falseam-lhe o juizo e acabam por
    n'elle abolir o _senso critico_.

    Digamos de passagem que Schaefer acceita todas as fórmas da Paranoia
    descriptas por Westphal, incluindo a _aguda_, que teria por ponto de
    partida as allucinações.

    No mesmo anno, Merklin[2] descreveu pela primeira vez o delirio
    processivo (_Quaerulantenwahnn_) como variedade ou sub-grupo da
    Paranoia, encontrando-se assim no terreno da theoria com Lasègue, para
    quem, como foi dito, o delirio dos perseguidores seria uma variedade
    (_fórma activa_) do delirio de perseguições.

    [2] _Studien über primäre Verrücktheit_, 1879.

    No seu _Tratado_, cuja primeira edição remonta a 1879, fez Krafft-Ebing
    da Paranoia um estudo completo, de uma rara e attrahente lucidez.
    Paranoia e loucura systematisada são termos e noções equivalentes;
    assim, separando-se de Westphal, regeita a fórma aguda da Paranoia e
    desintegra d'esta psychose a loucura obsessiva, no que procede á maneira
    dos auctores francezes. Mas o ponto original da sua doutrina está em dar
    á Paranoia um logar entre as degenerescencias psychicas. Duas ordens de
    considerações conduzem Krafft-Ebing a este modo de vêr; a génese e a
    evolução da doença, por um lado, os antecedentes psychopaticos dos
    doentes, por outro. Nem o modo de apparição, nem a marcha permittem
    considerar a Paranoia uma doença accidental, como o são as
    psychonevroses; pelo contrario, tudo a inculca uma psychose
    constitucional, uma doença de um cerebro tocado quer pela
    hereditariedade, quer por graves affecções capazes de irreparavelmente o
    enfraquecerem. De facto, sem obnubilação de consciencia, sem alteração
    fundamental de affectos, no goso habitual de um humor nem deprimido, nem
    exaltado, e a despeito da integridade das fórmas do raciocinio, o
    paranoico vê o mundo erradamente e é incapaz de corrigir quer as suas
    idéas, quer as suas falsas percepções. As idéas delirantes, não
    procedendo do exterior, nem resultando de emoções preexistentes pelo
    mecanismo psychologico da reflexão, vêem do inconsciente e impõem-se ao
    paranoico, do mesmo modo que se lhe impõem os erros sensoriaes: um
    excesso de subjectivismo e uma radical ausencia de senso critico, são,
    pois, as caracteristicas fundamentaes da Paranoia, cuja evolução, sem
    tendencias para a demencia ou para a cura, é essencialmente chronica. De
    resto, a banalidade das causas determinantes (que muitas vezes não são
    senão as phases physiologicas da vida: a puberdade, a menopause, etc.)
    implica uma forte predisposição congenita ou adquirida. Por outro lado,
    a historia de todos os paranoicos (e não só, como pretendia Westphal, a
    dos originarios de Sander) é a dos desequilibrados, dos candidatos á
    loucura, dos degenerados, n'uma palavra; de sorte que a doença
    representa apenas o exaggero ou _hyperthrophia_ de um caracter
    preexistente, não podendo entre ella e o estado normal traçar-se, como
    nas psychonevroses, uma nitida linha divisoria.

    Krafft-Ebing classificou a Paranoia pelo contheudo das idéas delirantes,
    descrevendo uma fórma _persecutoria_ com o seu sub-grupo _processivo_, e
    uma fórma _ambiciosa_ com as suas variedades _religiosa_ e _erotica_; e
    notou o sabio professor de Graz que estas fórmas podem observar-se
    isoladas e podem ora coexistir, ora succeder-se no mesmo doente. Na
    descripção da Paranoia persecutoria insistiu na passagem gradual e
    progressiva das idéas hypocondriacas ás de perseguição e d'estas ás de
    grandeza. Segundo a pratica do grande alienista, esta ultima evolução
    dar-se-hia n'um terço dos casos da doença. É de notar que Krafft-Ebing,
    ao inverso da maioria dos auctores francezes, não concedeu ao raciocinio
    o minimo papel na transformação pessoal, que se realisa pela passagem do
    delirio de perseguições ao de grandezas; o inconsciente domina, segundo
    o eminente professor, toda a evolução da doença.

    Póde seguramente affirmar-se que, com Krafft-Ebing, a doutrina da
    Paranoia, tomada como equivalente de loucura systematisada, recebeu na
    Allemanha os seus derradeiros desenvolvimentos. De facto, n'esta ordem
    de idéas, os psychiatras allemães que lhe succedem, nada accrescentam a
    esta construcção synthetica, ao mesmo tempo simples, elegante e
    profunda.

    Ulteriormente veremos que logar assignala o eminente professor aos casos
    que Westphal, Schaefer e outros incluiam na fórma aguda da Paranoia.

    Em 1880, Scholz[1] insistiu lucidamente nas idéas de Krafft-Ebing sobre
    o papel do inconsciente na génese dos delirios paranoicos. Os factos
    morbidos obedecem, no fundo, ás leis reguladoras dos factos normaes;
    ora, no estado physiologico, é da esphera inconsciente que procedem os
    factos psychicos destinados a tornarem-se conscientes; nos delirios
    primitivos é tambem d'essa esphera que naturalmente emergem as idéas e
    conceitos falsos. As idéas delirantes, como as idéas justas, não são,
    definitivamente, senão resultados finaes, complexos e conscientes de
    actividades elementares e inconscientes do cerebro; toda a differença
    está em que nas idéas delirantes a actividade molecular das cellulas
    corticaes se encontra pervertida. D'aqui resulta que, a não existirem,
    como não existem na Paranoia, modificações anatomicas profundas, os
    processos logicos do pensamento podem subsistir, e o doente não fará
    senão raciocinar _justo_ sobre premissas _falsas_; a apparente lucidez
    dos paranoicos não é senão isto. Mas não são susceptiveis d'esta
    explicação os casos em que o delirio tem por base as allucinações e
    illusões; o inconsciente não representa aqui um papel. Para dar conta
    d'estes casos, é necessario admittir no cerebro um estado de
    enfraquecimento, que o predispõe á falsa interpretação das percepções ou
    das excitações sensoriaes; n'esta ordem de idéas, Scholz dá aos delirios
    de base allucinatoria um caracter eminentemente asthenico, notando que
    elles se desenvolvem frequentes vezes na convalescença das doenças
    febris.

    [1] _Über primäre Verrücktheit_, 1880.

    Em 1882, Jung[1] reeditou as idéas de Westphal e de Fritsch sobre a
    diversidade genetica dos delirios na Paranoia e nas psychoses depressiva
    ou expansiva. Notando a frequencia crescente da Paranoia, Jung attribuiu
    o facto á extensão que todos os dias toma a degenerescencia physica e
    mental da nossa especie. Isto denuncía um accordo entre este auctor e
    Krafft-Ebing sobre a pathogenia intima da doença.

    [1] _Zeitsch. f. Psych_, 1882.

    Kraepelin[1] em 1883, retomando no seu _Compendio de Psychiatria_ as
    idéas de Krafft-Ebing sobre a Paranoia, definiu-a «uma profunda e
    duradoura transformação do Eu, essencialmente evidenciada por uma
    anomala comprehensão e elaboração das impressões internas e externas».
    Sem obnubilação da consciencia e sem vivas emoções que lhe perturbem o
    curso dos processos intellectuaes, o paranoico acceita as idéas
    delirantes, que se lhe impõem e que elle é incapaz de corrigir; esta
    _invalidade psyquica_–umas vezes congenita, adquirida outras–é, pois,
    a base e o terreno de evolução da Paranoia, que, porisso mesmo, não
    representa um mero accidente na vida de um homem são, mas uma doença
    _constituicional_, atacando nos seus mesmos fundamentos a personalidade
    psychica. Todas as relações do Eu com o exterior se encontram
    radicalmente pervertidas no paranoico; e isto não tanto pela
    interferencia das allucinações, que são apenas symptomas, como pela
    caracteristica tendencia do doente á _comprehensão egocentrica do
    mundo_. E não só as relações do Eu com o meio ambiente, mas as que elle
    mantem com o corpo, se encontram alteradas. Pelo que, ás fórmas
    _persecutoria_ e _ambiciosa_ de Krafft-Ebing, Kraepelin accrescenta,
    descrevendo-a minuciosamente, a fórma _hypocondriaca_,

    [1] _Comp. der Psych._, 1883

    Devemos notar que Kraepelin separa da Paranoia o _delirio processivo_,
    que considera uma fórma de _loucura moral_. Baseia-se para essa
    separação em dois factos: de um lado, a ausencia de allucinações nos
    alienados litigantes; do outro, a radical incapacidade destes enfermos
    para se elevarem á noção de direito, como facto objectivo, o que
    denuncía uma suspensão de desenvolvimento psychico nos dominios ethicos,
    tal como se dá nos criminosos.

    Em 1883, Tuczek[2], fazendo o estudo da hypocondria, apeia-a do pedestal
    de fórma nosographica e considera-a um syndroma, ora da melancolia, ora
    da Paranoia, ora loucura obsessiva. A presença ou ausencia habitual de
    uma depressão primitiva indicará se a hypocondria symptomatisa um estado
    melancolico ou representa, pelo contrario, simples e primitivo desvio
    ideogenico. Este modo de vêr projecta uma luz intensa no assumpto,
    fazendo ás idéas hypocondriacas na Paranoia a parte que de todos os
    tempos vinha sendo feita ás idéas de perseguição e de grandeza, que não
    são, aliás, privativas da loucura systematisada. Um delirio de
    perseguições póde episodicamente symptomatisar um accesso de melancolia
    ou secundariamente estabelecer-se após elle, como um delirio de
    grandezas póde ser a expressão de um accesso maniaco; mas, ao lado
    d'estes delirios, ha uma Paranoia persecutoria e uma Paranoia ambiciosa.
    O que distingue estes casos é a lesão primitiva: da sensibilidade nos
    primeiros, da ideação nos segundos, com o delirio hypocondriaco, ora
    expressão de uma hyperesthesia dolorosa, essencial e primitiva, ora
    manifestação de um desvio ideogenico permittindo ao vesanico a habitual
    serenidade e igualdade de humor que caracterisa o paranoico. N'este
    ultimo caso a hypocondria, como justamente observara Kraepelin, não
    seria senão uma perturbação das relações do Eu com o corpo ou com as
    impressões internas, analoga á perturbação das relações d'elle com o
    mundo externo ou com as impressões sensoriaes. E assim se comprehende
    como, ao lado das fórmas _persecutoria_ e _ambiciosa_, deva dar-se no
    quadro da Paranoia um logar á fórma _hypocondriaca_, a despeito de uma
    errada tradicção que espirito faz surgir como inseparaveis as idéas de
    hypocondria e de melancolia.

    [2] _Alig. Zeitschr. f. Psych._, 1883

    Meynert expôz, em 1890, nas suas _Lições Clinicas_ uma interessante
    doutrina da Paranoia, diversa das perfilhadas pelos seus predecessores
    allemães. Para o sabio professor de Vienna esta psychose não
    representaria um especial desvio ideogenico de um cerebro invalido, mas
    a perturbação de um cerebro normal sob a influencia de impulsos morbidos
    que, como nos maniacos e melancolicos, dirigem as idéas. «Os affectos
    originarios, escreve, são os de defeza e de conquista. Os primeiros
    estão em relação com o sentimento de uma influencia externa; os segundos
    com o sentimento de uma força que actua sobre o exterior. São processos
    physiologicos ou, antes, indispensaveis funcções biologicas do
    organismo. Um ser animal incapaz de experimentar affectos conducentes a
    movimentos de defeza, apossar-se-hia da natureza para as suas
    necessidades, mas succumbiria sem resistencia ás nocivas acções d'essa
    mesma natureza; um ser sem movimentos de conquista, como resultados de
    affectos relativos, poderia subtrahir-se aos males da natureza, mas, por
    defeito de apropriação, morreria á falta de satisfação das proprias
    necessidades. Na illimitação das idéas de defeza da creança inexperiente
    e timida encontra-se esboçado physiologicamente o delirio de
    perseguições, como o de grandezas se encontra na mesma creança, quando
    tenta soprar á lua para apagal-a como se fôra uma vela. O delirio de
    perseguição inclue em si a angustia; na Paranoia, como na mania e na
    melancolia, isto póde representar uma relação restabelecida entre este
    sentimento e as circumstancias exteriores. Do sentimento de angustia
    conclue-se para a perseguição. Eu vou, porém, mais longe: o que
    immediatamente se associa ao sentimento de angustia, é o perigo. Perigo,
    antes de tudo, de uma doença illusoria, na hypocondria simples; perigos,
    nas idéas de violencia, em connexão com a chamada angustia
    neurasthenica; perigos, nas coisas da natureza morta–infecções,
    venenos; perigos, creados por nós proprios, como quando receiamos, por
    impulso d'outrem, cahir de uma altura. Este é o delirio de perigo. O
    delirio de perseguição refere-se, porém, a uma influencia procedente
    d'outrem, sendo certo que na Paranoia a angustia causada pelos homens
    excede a que determinam as coisas. O sentimento de defeza é n'este caso
    _anthropomorphisado_: como as suas aggressões procedem de um impulso
    humano, as que o doente receia, teem para elle analoga origem nos
    sentimentos dos homens, na vontade d'elles. Este modo de pensar não é
    especial de um estado de doença; o delirio que se lhe refere é popular,
    diffuso, quanto póde sel-o, por exemplo, a crença na religião natural.
    Todos os phenomenos favoraveis ou perniciosos, o ceu, o sol, as nuvens,
    o oceano, o fogo são assim comprehendidos n'um termo de analogia; e,
    como o homem explica as suas aggressões ou conquistas sobre o natureza
    como resultados de disposições que o estimulam, pensa elle que tambem as
    vantajosas ou maleficas influencias naturaes procedem de affectos de
    seres mais perfeitos. Com razão disse um dos mais profundos pensadores
    da época da encyclopedia que o _homem creou os deuses à sua imagem_»[1].

    [1] Meynert, _Lezioni cliniche di Psychiatria_, trad. it., pag. 128.

    Como do sentimento de defeza fez surgir o delirio de perseguição,
    Meynert faz derivar o delirio de grandezas do sentimento de conquista; e
    como as duas ordens de sentimentos physiologicos, longe de se
    hostilisarem, coexistem no mesmo individuo e mais ou menos se implicam
    n'um fim geral de conservação, as duas ordens de delirios, persecutorio
    e ambicioso, se agregam e formam corpo no mesmo doente.

    D'onde vem ao paranoico o exaggero d'esses fundamentaes sentimentos de
    defeza e de conquista? Meynert não hesita em responder que elle procede
    de uma sorte da hypertrophia do sentimento pessoal, determinada por
    _sensações hypocondriacas_ ou _estimulos subcorticaes bulbares_. O
    doente sentiria mais fortemente o seu Eu; e esta emoção intensa,
    associando-se a todas as percepções, crearia um estado particular de
    consciencia no qual tudo seria interpretado egocentricamente. Uma
    _hyperesthesia psychica_ seria, pois, para Meynert, como vimos que o era
    para Gérente, o fundamento da Paranoia.

    Ao contrario de Krafft-Ebing, Meynert não liga uma grande importancia á
    hereditariedade como causa da Paranoia; e junto d'elle a noção
    psychiatrica da degenerescencia não tem senão um frio e reservado
    acolhimento. Para Meynert a etiologia não fornece, nem fornecerá nunca a
    base de uma classificação natural das psychoses; essa base tem de ser
    procurada na anatomia pathologica, na lesão do cerebro. Na Paranoia essa
    lesão seria um processo atrophico do manto cerebral.

    O conceito da degenerescencia psychica não encontra em Mendel[1] melhor
    acolhimento do que em Meynert. Occupando-se em 1883 da Paranoia, n'um
    extenso trabalho a que teremos de alludir ainda, Mendel apenas concedeu
    fóros de degenerativa á fórma originaria de Sander.

    [1] _Die Paranoia_, 1883.

    Pelo seu lado, Schüle[2], em 1886, só considerou francamente
    degenerativas as fórmas _originaria_ e _processiva_, por elle descriptas
    no seu _Tratado Clinico_ dentro do grupo das psychoses hereditarias,
    entre a loucura obsessiva e a loucura moral.

    [2] _Klinische Psychiatrie_, 1886.

    Mendel, distinguindo a obsessão da idéa delirante, separa da Paranoia a
    fórma _abortiva_ de Westphal. Ao contrario, Salgo[3] vê na loucura
    obsessiva uma fórma frustre ou incompleta da Paranoia, porque para elle
    a obsessão e a idéa paranoica teem a mesma génese: uma e outra surgem
    primitiva e espontaneamente n'um cerebro fraco. Para este auctor, com
    effeito, a _debilidade de espirito_, no sentido do que outros chamam
    _invalidade psychica_ e _ausencia de senso critico_, representa na
    Paranoia um papel fundamental. Poderiamos inscrever, ao lado dos nomes
    até aqui citados, os de Koch, Arndt, Weiss, Pelman, Samt, outros ainda,
    tão vasta é na Allemanha a bibliographia do assumpto que nos occupa; não
    accrescentariamos, porém, com isso o quadro doutrinario da Paranoia como
    conceito equivalente ao de Loucura Systematisada dos auctores francezes.
    Passemos, pois, á exposição dos trabalhos em que um tal conceito se
    altera pela integração de uma fórma _aguda_, sem precedentes quer em
    França, quer na Allemanha, antes de 1878.

    [3] _Compend. der Psychiatrie_, 1887.

    Foi Westphal, como dissemos, quem primeiro admittiu a existencia de uma
    variedade da Paranoia procedendo de estados allucinatorios primitivos e
    apresentando na sua marcha ora a confusão mental da mania, ora a
    depressão stuporosa da melancolia. Tal era a Paranoia aguda do professor
    de Vienna, desde logo perfilhada por Schaefer e tambem desde logo
    rudemente combatida por Fritsch e outros.

    Sem extemporaneos intuitos de critica, mas n'um unico fim de ordenar
    idéas, accentuemos, antes de tudo, as differenças que separam as fórmas
    aguda e chronica da Paranoia.

    Segundo as doutrinas recebidas de Snell, de Griesinger, de Sander, do
    proprio Westphal, dois factos caracterisam principalmente a fórma
    chronica: de um lado, a primitividade das idéas delirantes, que ao
    espirito se impõem á maneira de obsessões; do outro, a integridade da
    associação logica dos pensamentos, explicando a resistencia dos doentes
    á demencia.

    Na fórma aguda, o contrario teria logar: as allucinações seriam o facto
    primordial, e a associação das idéas achar-se-hia fundamentalmente
    compromettida quer por um exaggero até á fuga, quer por um affrouxamento
    até á suspensão. Na fórma chronica, as allucinações, constituindo um
    symptoma secundario e mesmo fallivel, são tributarias das idéas
    delirantes a cujo contheudo se subordinam (depressivas e hostis no
    delirio persecutorio, expansivas e benevolas no ambicioso); na fórma
    aguda, pelo contrario, sendo um facto primitivo e essencial, as
    allucinações teriam sob a sua dependencia os conceitos delirantes (de
    perseguição sob vozes hostis, de grandeza sob audições lisongeiras).
    Quanto á associação das idéas, não ha na fórma chronica mais do que um
    desvio inicial de orientação, sem compromisso da consciencia e sem perda
    de lucidez; pelo contrario, na fórma aguda a precipitação das idéas
    poderia levar o doente á incoherencia e á dissociação da mania, como o
    affrouxamento do seu curso o poderia conduzir á fixidez melancolica ou
    mesmo, sob a acção inhibitoria de allucinações terrorisantes, a estados
    de catatonia. Estas differenças de marcha implicam naturalmente a de
    prognostico: a fórma chronica não cura e não conduz por si mesma á
    demencia; pelo contrario, a fórma aguda terminaria umas vezes pela cura,
    outras pela abolição das faculdades.

    Assim, tanto a subordinação dos symptomas como a terminação separam as
    duas fórmas. O que as une então? O contheudo das idéas delirantes, que
    são sempre, n'uma e n'outra, reductiveis ás tres conhecidas cathegorias:
    hyponcondriacas, persecutorias e ambiciosas, sobretudo ás duas ultimas.

    É este, com effeito, para todos os que admittem uma Paranoia aguda, o
    traço clinico de ligação entre esta fórma e a outra. Que exista uma
    perturbação de consciencia ou até mesmo uma inconsciencia mais ou menos
    duradoura; que o delirio se acompanhe de allucinações em massa de todos
    os sentidos; que haja manifesta incoherencia, pouco importa, desde que,
    como diz Mendel, se possam reconhecer os dois typos de ideação:
    persecutorio e ambicioso. Muitas vezes, como o mesmo Mendel o confessa,
    o diagnostico differencial entre a Paranoia aguda e a mania com
    predominio de allucinações seria difficil de estabelecer. D'esta sorte,
    no quadro da Paranoia entram não só os delirios systematisados, mas até
    os dissociados e incoherentes, uma vez que as idéas de perseguição ou de
    grandeza n'elles predominem ou mesmo _tendam_ a predominar, como alguns
    escrevem.

    É necessario, entretanto, reconhecer que Schüle, achando, talvez,
    demasiadamente frouxo, como unico laço de união entre fórmas por muitos
    symptomas diversas e até antinomicas, o contheudo das idéas delirantes,
    tenta a approximação das duas Paranoias sobre um terreno de evolução,
    notando que dos casos agudos aos chronicos e d'estes áquelles a
    transição se póde fazer sem violencia, antes insensivelmente. Depois,
    com effeito, de ter accentuado (como acabamos de fazel-o) todos os
    symptomas que separam as fórmas chronica e aguda, Schüle escreve: «Estas
    differenças, porém, caracterisam apenas os casos extremos do delirio
    systematisado chronico e agudo; ha casos intermedios em que
    manifestamente se revella o parentesco d'estas duas fórmas. De modo que
    o importante grupo da fórma aguda não é senão a repetição da fórma
    chronica: é um delirio de perseguição, uma interpretação delirante com
    erros sensoriaes e raciocinio falso que abre a scena, sendo ainda
    possiveis ao principio as percepções exactas. Ao mesmo tempo que a
    consciencia se torna mais obscura, produz-se um delirio expansivo de
    fórma mystica ou erotica; o Eu conserva-se, sem poder distinguir as
    percepções exactas das allucinações que se unem e entre si se prendem
    systematicamente. Este estado representa o delirio systematisado agudo
    por excellencia. Por vezes este aspecto clinico mantem-se, mas póde
    tambem mudar, como acontece nos casos de affeções agudas e febris: as
    allucinações tornam-se predominantes, variaveis, e trata-se então de um
    d'esses casos extremos de que fallamos. Por outro lado, a fórma chronica
    apresenta muitas vezes exacerbações que não são, pela fórma e pelo
    fundo, senão o delirio systematisado com allucinações; o começo,
    sobretudo, da doença offerece este aspecto. O delirio systematisado
    agudo, quando não cura, torna-se uma fórma chronica com allucinações e
    systematisação parcial. Todas estas transições demonstram que as
    differenças notadas não são essenciaes e que estas fórmas, apesar de
    variadas, são visinhas»[1].

    [1] Schüle, _Traité clinique des maladies mentales_, trad. fr., pag.
    122.

    A citação que acabamos de fazer, synthetisando as idéas de quantos
    acceitam hoje na Allemanha a Paranoia aguda, dispensa-nos de toda uma
    erudita, mas inutil _étalage_ de nomes proprios; por ella se fica
    sabendo o que pensam do parentesco das duas fórmas os que, desde
    Westphal, as admittem ambas. Entretanto, não será ocioso fixar idéas
    sobre este ponto por uma nova e caracteristica citação de Schüle: «Uma
    analyse minuciosa, escreve este psychiatra, revella differenças entre
    todos os casos que entram n'este grupo tão consideravel de psychoses,
    direi mesmo, d'este grupo que é de todos o maior. Assim, devem
    distinguir-se casos intermediarios n'este vastissimo grupo dos delirios
    systematisados. Os casos chronicos approximam-se tanto, no ponto de
    vista dos symptomas, do delirio systematisado dos degenerados, de que
    muitas vezes offerecem a physionomia clinica, quanto os casos agudos se
    approximam das psychonevroses (melancolia e certas fórmas de stupor com
    allucinações). Estas relações devem ser cuidadosamente notadas. Assim,
    distingue-se, em regra, nitidamente o delirio systematisado agudo, da
    melancolia, pela mediocre importancia da perturbação primitiva do humor,
    que é n'esta, pelo contrario, um elemento psychico duravel, que produz e
    domina toda a doença; entretanto, o delirio systematisado agudo contém
    tambem um grupo demonomaniaco, o qual não só apresenta um sentimento
    depressivo intenso (panophobia), mas succede a um estado de verdadeira
    depressão, de caracteristica diminuição do sentimento da personalidade,
    de illusões e de allucinações de caracter triste. O mesmo acontece com o
    stupor. Em regra, o stupor typico (_atonito_) póde nitidamente
    distinguir-se do delirio systematisado agudo, que não apresenta as
    caracteristicas ausencia de percepção e falta absoluta de vontade; mas o
    stupor com allucinações (_pseudo-stupor_) está evidentemente ligado á
    variedade do delirio systematisado agudo em que a intelligencia
    obscurecida tem phases passageiras de semi-lucidez. Poderiamos chamar a
    este estado a fórma estupida do delirio systematisado agudo tanto como o
    stupor com allucinações; a génese e a marcha da doença permittiriam uma
    e outra coisa. Assim, póde definir-se e conceber-se todo este grupo do
    delirio systematisado agudo como sendo, em summa, a repetição de certas
    psychonevroses melancolicas, maniacas e estupidas em que a consciencia
    se acharia _completamente perturbada pelo delirio_ (estado do
    sonho)»[1].

    [1] Schüle, _Obr. cit._, pag. 123.

    Estas palavras de Schüle, pondo em relevo a immensuravel extensão da
    Paranoia no conceito de alguns psychiatras allemães, permittem-nos
    interpretar expressões, aliás frequentes, que parecem meros jogos de
    termos, que um accidente de composição typographica juntou: tal, por
    exemplo, a da _Paranoia dissociativa_, de Ziehen. Só quem tiver em
    vista que a fórma aguda integra situações mentaes que vão desde a
    obnubilação até á fuga das idéas, desde a somniação até á catatonia,
    póde comprehender que um termo creado para exprimir a idéa de
    _systematisação_ se adjective por uma palavra synonima de
    _incoherencia_.

    Como já dissemos, a idéa de uma Paranoia aguda, primeiro enunciada por
    Westphal e logo acceite por um grande numero de alienistas allemães, foi
    vivamente combatida desde todo o principio por muitos outros. Defensores
    e adversarios d'essa idéa constituem hoje duas escólas nitidamente
    separadas, como temos tentado mostrar nas paginas precedentes. O nosso
    estudo d'este assumpto seria, comtudo, incompleto, se não dissessemos de
    que maneira os adversarios da Paranoia aguda interpretam os casos
    clinicos expostos como pertencendo a esta fórma. Que pathogenia teem e
    que logar occupam na classificação das psychoses, uma vez eliminada a
    Paranoia aguda, os delirios, tão numerosos, em que idéas de perseguição
    e de grandeza surgem sem systematisação completa, sem coherencia até,
    acompanhadas de vivos estados allucinatorios, seguindo uma evolução
    irregular e marchando tantas vezes para a cura?

    A resposta a esta questão, já formulada, talvez, no espirito do leitor,
    vae permittir-nos completar a differenciação das duas escólas, pondo em
    mais alto relevo o caracteristico espirito das doutrinas de cada uma.

    Dizer que esses delirios persecutorio e ambicioso de marcha aguda estão
    fóra da Paranoia, porque são diversos d'ella pelo começo, pela
    terminação, pela hierarchia mesmo dos symptomas, não basta, porque
    precisamente se discute se a Paranoia deve ter a limitada extensão que
    uma tal doutrina lhe assignala ou, pelo contrario, alargar-se para
    abranger novos grupos de factos clinicos. Schüle, Mendel e Cramer (para
    não citarmos senão os principaes e mais modernos defensores da Paranoia
    aguda), acceitando como perfeitamente distinctos e até apparentemente
    contrarios os casos _extremos_ das duas fórmas, sustentam, comtudo, que
    a fusão d'ellas se estabelece pelo exame dos casos _de transição_, em
    que os motivos differenciaes se esbatem.

    Ora, sabendo-se que em sciencias naturaes, desde que n'ellas penetrou o
    criterio evolutivo, deixaram de existir grupos definitivos e fechados,
    importa considerar este argumento. E é por isso que não podemos
    prescindir de saber como interpretam os pretendidos casos de Paranoia
    aguda aquelles que apenas admittem uma Paranoia chronica.

    Fritsch, um dos primeiros a combater a noção da Paranoia aguda, designou
    esses casos sob o nome _Verwirrtheit_ ou confusão mental, fazendo-os
    depender de uma fraqueza irritavel ou esgotamento nervoso dos
    hemispherios cerebraes, que póde observar-se como syndroma ou como
    complicação da maior parte das psychoses e, portanto, da Paranoia.
    Decerto, a _Verwirrtheit_ offerece, como a Paranoia, idéas delirantes e
    allucinações; estes symptomas communs, porém, não são da natureza,
    segundo Fritsch, a permittir a confusão entre uma _doença_, de marcha
    gradual, em que se dá uma transformação da personalidade, e um simples
    _estado_ transitorio, um mero _syndroma_ de innumeras psychoses
    funccionaes e organicas.

    Pelo seu lado, Krafft-Ebing, que á Paranoia dá um logar entre as
    degenerescencias psychicas ou psychoses constitucionaes, relega os
    pretendidos casos de Paranoia aguda para o delirio sensorial,
    _Hallucinatorischer Wahnsinn_, que elle colloca entre as psychonevroses
    ou psychoses accidentaes, ao lado da mania e da melancolia.

    Como Fritsch, Krafft-Ebing faz esses casos tributarios de uma asthenia
    cerebral. De facto, segundo elle, o _Hallucinatorischer Wahnsinn_
    reconhece por causas as doenças febris, infecciosas, neurasthenisantes;
    a sua caracteristica é um enfraquecimento cerebral _d'emblèe_, ou
    passageiro e curavel ou rapidamente demencial, impedindo todo o trabalho
    de systematisação delirante. A passagem do _Hallucinatorischer Wahnsinn_
    á Paranoia é, pois, impossivel.

    Para Kraepelin os pretendidos casos de Paranoia aguda entrariam quer na
    _Hallucinatorische Verwirrtheit_, quer no _Hallucinatorischer Wahnsinn_.
    A primeira d'estas psychoses é uma confusão mental devida a um
    esgotamento agudo do cerebro; a segunda é um delirio pouco coherente, da
    marcha rapida e terminação favoravel, em que as allucinações representam
    o principal papel, subordinando a si o estado emotivo e as idéas falsas.
    A distincção entre estas duas doenças não parece muito nitida; como quer
    que seja, ambas se distinguem profundamente, segundo Kraepelin, da
    Paranoia, que consiste n'uma lenta e intima transformação da
    personalidade, sem obnubilação da consciencia e sem perturbações
    fundamentaes do humor.

    Mayser[1] considera os mesmos casos de Paranoia aguda como exemplares de
    _Delirio asthenico_, analogos aos produzidos pelas intoxicações
    medicamentosas ou outras; a obnubilação da consciencia e a confusão
    mental, devidas a um esgotamento do cerebro, seriam as caracteristicas
    d'este delirio.

    [1] _Zur sogennanter hallucinatorischer Wahnsinn_.

    Meynert[2] pertence ao numero dos que contestam a existencia de uma
    Paranoia aguda. Os casos expostos como taes, são por elle estudados sob
    o nome da _Amencia_, especie de confusão mental, ora idiopathica, ora
    symptomatica, tributaria de uma fraqueza irritavel, de um exhaurimento
    do cerebro e podendo manifestar-se tanto por symptomas de stupor, como
    por excitação acompanhada de vivos e multiplos estados allucinatorios. O
    predominio de phenomenos neurasthenicos sobre os irritativos explicaria
    os casos que difficilmente se distinguem da melancolia, como,
    inversamente, o predominio de phenomenos irritativos sobre os
    depressivos explicaria os casos que a custo se distinguem dos delirios
    maniacos, agudos e sobreagudos.

    [2] _Obr. cit._, pag. 27 e seg.

    As causas da _Amencia_ seriam todos os accidentes capazes de produzir
    mais ou menos rapidamente o esgotamento cerebral: choques moraes
    intensos n'um individuo debilitado, onanismo abusivo, doenças febris,
    puerperio, intoxicações, traumatismos, molestias infecciosas, outros
    ainda. A hereditariedade não exerceria senão um papel subalterno. A
    marcha da _Amencia_ seria sempre aguda e a terminação far-se-hia pela
    morte, pela demencia ou pela cura ao fim de um tempo variavel entre
    algumas semanas e alguns mezes. As recidivas seriam para receiar. De
    resto, a Amencia póde complicar grande numero de psychoses, não sendo
    raro que surja como um episodio na marcha da Paranoia. Meynert insiste,
    porém, sobre o diagnostico differencial entre a Amencia e a Paranoia
    que, mesmo coincidindo temporariamente, conservam a sua physionomia
    propria. Da Amencia não póde passar-se a outra psychose que não seja à
    demencia, termo natural das psychopatias que não curam.

    Tal é, pela voz dos seus mais illustres representantes, a theoria que
    rejeita a existencia de uma Paranoia aguda. Esta designação
    representaria um mal-intendido, pois que os casos clinicos por ella
    cobertos não seriam senão expressões de uma asthenia cerebral, quer
    idiopatica e primitiva, quer symptomatica e secundaria, profundamente
    diversa, não só pelos _symptomas_ e pela _marcha_, mas ainda pelas
    _causas_, da Paranoia. Que essa, asthenia com todo o seu cortejo de
    phenomenos ora stuporosos, ora maniacos, venha intercalar-se na marcha
    da Paranoia em algum dos periodos d'esta, é incontestavel; que devamos
    confundir as duas entidades morbidas é, porém, insustentavel, porque,
    desde os symptomas até ás causas, desde a marcha até á terminação, tudo
    se conspira para as separar.

    Os casos de delirio agudo em que retalhos de conceitos persecutorios e
    ambiciosos apparecem de mistura com erros sensoriaes, não seriam, pois,
    exemplares da Paranoia; seriam casos de _Verwirrtheit_, de
    _Hallucinatorischer Wahnsinn_, de _Hallucinatorische Verwirrtheit_, de
    _Amencia_, n'uma palavra, de _confusão mental_ asthenica. E a mistura
    possivel dos symptomas agudos d'essa confusão com os symptomas chronicos
    da Paranoia, não significam, como pretende Schüle, a passagem ou
    _transição_ entre duas fórmas de uma mesma doença, mas a _coexistencia_
    de duas psychoses distinctas n'um unico doente.

    Duas palavras ainda sobre a Paranoia secundaria antes de fecharmos a
    historia dos trabalhos germanicos.

    Vimos quanto esta noção dominante nos inicios da psychiatria allemã, foi
    perdendo terreno á medida que se elevava a de Paranoia primitiva. O nome
    não chegou nunca a desapparecer, graças á tradição; mas o conceito de
    Paranoia secundaria foi posto em contraste como o de Paranoia primitiva.
    Esta seria uma doença; aquella, um _estado terminal_, apenas, da
    melancolia ou da mania, uma _étape_ d'estas psychoses na sua marcha para
    a extincção definitiva. Tal em Krafft-Ebing, por exemplo, nos apparece a
    Paranoia secundaria: um prefacio da demencia vesanica, uma situação
    mental pouco definida e transitoria, correspondendo ao que os
    psychiatras francezes denominaram em todos os tempos a _demencia
    incompleta_.

    E assim devia ser. Entre o formidavel processo da Paranoia primitiva,
    tão movimentado, tão independente, tão cheio de cambiantes evolutivas, e
    o estado predemencial, tão pallido que os seus symptomas não são já
    senão residuos de psychoses moribundas–pedras de um edificio em ruinas,
    taboas de um navio em naufragio–nenhuma approximação pathogenica ou
    nosologica era, com effeito, possivel.

    Mas comprehende o leitor que esta situação tenha variado a partir do
    momento em que o conceito da Paranoia primitiva foi remanuseado e os
    seus severos moldes partidos pelos iconoclastas, introductores da fórma
    aguda. Desde que não repugna admittir que da confusão mental se passe á
    Paranoia, menos repugnará crêr que a ella se trasite da mania e da
    melancolia. E, de facto, os auctores que admittem a fórma aguda da
    Paranoia, acceitam igualmente a secundaria.

    * * * * *

    Datam apenas de 1882 os trabalhos da psychiatria italiana sobre os
    delirios systematisados; são elles, porém, de um tão grande valor
    intrinseco e de uma tão alta originalidade, algumas vezes, que o seu
    logar na historia contemporanea está definitivamente marcado.

    A primeira memoria a citar sobre o assumpto é a de Buccola: _Sui delirii
    sistematisati_. Não tanto pela novidade das proprias idéas como pela
    clareza com que expõe e commenta as doutrinas germanicas, ainda então
    quasi desconhecidas fóra do paiz originario, é notavel este trabalho do
    mallogrado escriptor italiano.

    Na debatida questão da génese do delirio, Buccola hesita em affirmar com
    Krafft-Ebing a constante prioridade das idéas sobre as allucinações, do
    desvio conceptual sobre os erros sensoriaes. «A génese do delirio,
    escreve, não é em todos os casos nitidamente delimitada e não sabemos
    definitivamente se as allucinações precedem ou succedem sempre o
    desenvolvimento das idéas delirantes e se estes devem considerar-se
    tentativas de interpretação ou antes, á maneira de Samt, productos da
    vida psychica inconsciente»[1]. Quanto ao especial terreno sobre que
    assentam os delirios systematisados, é Buccola decisivo, affirmando com
    Weiss que elles traduzem uma invalidade mental; e este modo de vêr,
    apoia-o Buccola sobre o criterio etiologico, vista a preponderancia da
    hereditariedade na loucura systematisada, e ainda no prognostico, porque
    a doença é, maioria dos casos, estereotypada e insusceptivel de cura,
    comquanto capaz de remissões.

    [1] Buccola, _Sui delirii sistematisati_, in _Rivista di Freniatria_,
    vol. VII.

    O estudo de Buccola, que fizera na Allemanha o seu noviciado
    psychiatrico, foi para a sciencia italiana, adormecida sobre os
    conceitos francezes, a denuncía de um mundo novo a explorar. E desde
    logo, com effeito, um fecundo movimento de inquerito aos delirios
    systematisados surgiu e se affirmou por estudos de uma profundidade e
    originalidade imprevistas.

    Pondo de parte todos os trabalhos (e são numerosos) que se limitam, como
    o de Buccola, a expôr ou a commentar as idéas germanicas, faltaremos
    sómente dos que, pela novidade dos seus pontos de vista, implicam
    modificações evolutivas no conceito da Paranoia. N'esta ordem de idéas
    são a mencionar, sobretudo, as memorias de Tanzi e Riva e de Tonnini.

    O trabalho dos dois primeiros escriptores é dos mais importantes e, como
    vae vêr-se, dos mais originaes.

    Para estes auctores Paranoia e delirio systematisado são conceitos
    diferentes, noções que importa não confundir: o delirio systematisado é
    um syndroma clinico, um _grupo symptomatico_ apenas, ao passo que a
    Paranoia representa uma _constituição morbida_, que o atavismo explica.
    Exteriorisando-se as mais das vezes por um delirio systematisado, a
    Paranoia póde, todavia, existir sem elle; d'aqui a variedade que os
    auctores denominam _Paranoia indifferente_, isto é, desacompanhada de
    delirio.

    O que é então a Paranoia, segundo Tanzi e Riva? De dois modos a definem
    e fazem comprehender estes auctores: descriptivamente, pela menção dos
    seus symptomas, da sua etiologia e da sua marcha; pathogenicamente, pelo
    exame das suas origens.

    Descriptivamente definida, a Paranoia é para Tanzi e Riva «uma psychose
    funccional de fundo degenerativo, caracterisada por um particular desvio
    das mais elementares operações intellectuaes, não implicando nem uma
    gravissima decadencia nem uma desordem geral; que se acompanha quasi
    sempre de allucinações e idéas delirantes permanentes mais ou menos
    coordenadas em systema, mas independentes de qualquer causa occasional
    constatavel ou de qualquer condição morbida emotiva; que tem uma
    evolução nem sempre uniforme ou continua, mas essencialmente chronica; e
    que, em geral, não tende por si mesma para a demencia»[1].

    [1] Tanzi e Riva, _La Paranoia,_ in _Rivista di Freniatria_, vol. x,
    pag. 293.

    A analyse d'esta definição, que a pathogenia tem de completar, permitte
    reconhecer, antes de tudo, a posição dos auctores em face das diversas
    doutrinas allemãs. Declarando a Paranoia uma psychose _degenerativa_, de
    marcha essencialmente _chronica e sem precedentes de emotividade
    morbida_, Tanzi e Riva excluem resolutamente do quadro da doença os
    delirios systematisados _secundarios_, que succedem á mania e á
    melancolia, e bem assim os _agudos_, admittidos pela escóla de Westphal.
    Constatando, além disso, a ausencia, na génese da psychose, quer de
    causas occasionaes apreciaveis, quer de perturbações morbidas de
    sentimento, os auctores affirmam a origem _inconsciente_ do desvio
    intellectual, que não póde tomar-se, porque é primitivo, á conta de
    interpretação de estados emotivos. Emfim, declarando que a Paranoia não
    implica uma desordem geral, mas ideativa, não tendendo por si mesmo para
    a demencia, Tanzi e Riva accentuam que ella consiste n'uma
    _degenerescencia intellectual_.

    Como se vê, é ao lado de Krafft-Ebing e em opposição a Schüle e a Mendel
    que os escriptores italianos se collocam. Mas no que elles se desviam de
    todos os psychiatras, assim franceses como allemães, é na affirmação da
    não essencialidade das idéas systematisadas na Paranoia; esta é a parte
    original e absolutamente imprevista da definição. Contrariamente ás
    idéas recebidas, o desvio ideativo que caracterisa a Paranoia não é
    sempre, segundo Tanzi e Riva, embora o seja na maioria dos casos, um
    delirio systematisado. É uma coisa diversa, em que pensaram Lombroso,
    creando a designação de _mattoide_, Maudsley, fallando de um
    _temperamento vesanico_, Moreau, traçando a zona indisdincta das
    _fronteiras da loucura_. O que é, pois? Um excesso de subjectivismo
    alterando fundamentalmente as relações do individuo com o mundo
    exterior, comprehendido o social, e tomando, n'este assumpto,
    radicalmente impossivel toda a justeza da critica. Lucido bastante para
    interpretar as coisas e os homens nas suas relações objectivas, o
    paranoico, uma vez em jogo a sua personalidade, vê tudo erradamente,
    como por interposta lente deformante. O Eu, medida de todas as coisas, é
    no paranoico um instrumento infiel e falso, porque vicia aquellas que o
    interessam, as que com elle directamente se relacionam; a
    _egocentricidade_ é, pois, o essencial _desvio_ e o incorrigivel _erro_
    do Eu paranoico. Accentuando-se de ordinario n'um delirio systematisado
    persecutorio, ambicioso ou erotico, elle póde ficar áquem, no dominio
    das idéas falsas, mas não absurdas, chimericas, mas não ainda
    inverosimeis ou repugnantes; d'aqui a Paranoia indifferente, que os
    auctores illustram de uma maneira magistral.

    D'onde procede esse desvio que nenhuma causa occasional explica? Se
    pensarmos que a evolução intellectual da humanidade se faz no sentido de
    um subjectivismo decrescente, isto é, de uma subordinação cada vez maior
    do Eu ao mundo exterior, de que somos apenas uma parcella, o excesso de
    subjectivismo apparecer-nos-ha como um retrocesso, uma regressão, e o
    paranoico, portanto, como um documento de atavismo.

    Tal é, na sua essencia, a doutrina de Tanzi e Riva a que cremos dever
    applicar a designação de _anthropologica_, porisso que, segundo ella, o
    paranoico é muito menos um _doente_, no sentido commum d'este termo, do
    que a revivescencia intellectual de velhos typos ancestraes da especie.

    «Não é em si mesma, escrevem Tanzi e Riva, mas em relação ao tempo em
    que se produz, que uma idéa póde considerar-se morbida; a pathologia do
    conceito delirante reside sobretudo no _anachronismo_» [1]. E, de facto,
    idéas e opiniões que hoje são delirantes, foram modos de vêr correntes
    em épocas mais ou menos afastadas. Mas não se conclua d'aqui que é
    paranoico todo o homem que n'um dado assumpto pensa como o fizeram
    remotos antepassados.

    [1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, pag. 305.

    Que um negro, uma creança ou um inculto camponez tenham do Universo uma
    grosseira concepção anthropomorphica, nada mais natural; que a tenha,
    porém, um branco de maior idade e scientificamente educado, eis o que
    denuncía um desvio paranoico da ideação. Que um rude marinheiro
    analphabeto responsabilise o seu santo de um naufragio ou lhe agradeça
    com offerendas uma viagem feliz, não é caso para espanto; que faça o
    mesmo um almirante, eis o que revellaria uma ideação paranoica. As
    raças, as idades e as classes (que são raças sociaes) teem cada uma a
    sua psychologia; e é dentro d'ella e pelos principios d'ella que os
    conceitos teem de ser afferidos. Um homem tendo as crenças dos da sua
    raça, do seu paiz, da sua idade, da sua classe e do seu nivel cultural,
    não é um paranoico, por falsas que essas crenças sejam; para que possa
    fallar-se da Paranoia é preciso que uma _regressão_ ideativa se realise.

    Na parte critica do nosso trabalho insistiremos sobre este e outros
    pontos. Por agora resta-nos sómente resumir a documentação do atavismo
    paranoico, tal como a apresentam os dois illustres psychiatras.

    Tanzi e Riva fazem notar em primeira linha a crença profunda e
    inabalavel dos paranoicos nas suas concepções delirantes, mau grado
    todos os raciocinios que as demonstram falsas, mau grado a evidencia
    dos factos, que as contradicta, e a realidade das coisas, que as choca;
    essa crença, inaccessivel a argumentos, superior a controversias,
    resistente ás suggestões do mundo objectivo, é verdadeiramente uma
    _fé_–tão integral e tão pura como a das velhas almas religiosas em face
    dos dogmas e das doutrinas revelladas. De uma intensidade inversamente
    proporcional ao seu fundamento logico, a fé paranoica não encontra hoje
    equivalente a não ser nos povos barbaros ou nos simples de espirito.

    Um novo documento da natureza degenerativa e atavica da Paranoia
    encontra-se no proprio contheudo do delirio, sobretudo nas idéas de
    perseguição, que representam uma phase de _lucta_ incompativel com os
    tempos actuaes e apenas possivel e necessaria em épocas anteriores á
    constituição do direito e ao reconhecimento das garantias individuaes.

    Como importante caracter degenerativo e prova de que o paranoico
    representa um producto inferior, referem os auctores o conjuncto de
    anomalias _psycho-sexuaes_ que só nos imbecis se encontram com a mesma
    frequencia e fórma. Indo do onanismo ao _horror feminae_ por innumeras
    cambiantes, essas anomalias, se não produzem o effeito da impotencia
    material, tornam o paranoico inadequado ao amor e ao matrimonio. «A
    extracção forçada de esperma por machinas electricas, a copula
    imaginaria com pessoas reaes, os mysticos commercios carnaes com entes
    nebulosos e imaginarios representam outros tantos aspectos, escrevem os
    auctores, das condições de inferioridade sob o ponto de vista da
    existencia da especie, em que se despenha o paranoico muitas mais vezes
    do que qualquer outro alienado»[1].

    [1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, pag. 307.

    Emfim, ha na symptomatologia da Paranoia um grupo particular de factos
    de procedencia atavica evidente: taes são os que se designam pelas
    expressões syntheticas de _symbolismo_ e _allegorismo_. «Os complicados
    arabescos, as figuras allegoricas, os gestos e altitudes cabalisticas,
    as interpretações phantasticas de factos naturaes, os jogos de palavras,
    os neologismos, e o _argot_ individual que na Paranoia pullulam, dão ao
    delirio uma côr tão viva e tão grotesca, dizem os escriptores italianos,
    que o fazem reviver nas mais remotas phases da evolução historica da
    cultura. Lembram a escripta cuneifórme e hyerogliphica exprimindo
    material e figuradamente os conceitos abstractos, a conservação dos
    amuletos symbolisando as almas dos santos, a vivificação dos phenomenos
    naturaes, as evocações d'alemtumulo, os themas da alchimia medieval e da
    magia arabe, as cerimonias hyeraticas de velhos tempos, importadas do
    mysticismo oriental. Cada uma d'estas duas séries de factos,
    encontrando-se, de um lado, nos paranoicos, do outro, nos povos
    primitivos, exprime uma condição psychica commum»[1].

    [1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, pag. 307.

    Tem a data de 1884 o trabalho eminentemente original que acabamos de
    resumir.

    A idéa de uma constituição paranoica, essencialmente degenerativa,
    recebe n'elle a consagração pathogenica. A Verrücktheit de Krafft-Ebing
    e da sua escóla é ainda um delirio systematisado, cuja primitividade,
    estabelecida pela clinica, não encontra uma clara interpretação; a
    Paranoia de Tanzi e Riva é pura e simplesmente uma degenerescencia
    intellectual, que a doutrina da evolução permitte comprehender. A
    Verrücktheit era com os allemães um conceito _medico_; a Paranoia, que
    d'elle deriva por natural desdobramento historico, tornou-se com os
    italianos, uma doutrina _anthropologica_.

    Mas não se esgotou com a memoria de Tanzi e Riva, a cujas idéas, seja
    dito de passagem, deram a sua adhesão Amadei, Tamburini, Morselli e
    outros, a fecundidade original da psychiatria italiana n'estes dominios.
    Tres annos depois, em 1887, surge o estudo de Tonnini sobre a _Paranoia
    secundaria_–um velho thema visto a uma nova luz. De facto, não é a
    primitiva concepção de Griesinger que Tonnini reedita: a Paranoia
    secundaria do auctor italiano não é Secundäre Verrücktheit do allemão,
    uma psychonevrose prefaciando uma demencia, um delirio systematisado
    feito dos residuos ideativos da mania e da melancolia; é antes uma fórma
    hybrida, participando ao mesmo tempo dos caracteres da psychonevrose e
    da degenerescencia.

    Demos, porém, a palavra ao escriptor italiano: «A Paranoia secundaria
    diz elle, é uma psychopatia que se affirna por delirio e caracter
    paranoico mais ou menos accentuados sobre um fundo de debilidade mental
    invasora, como terminação de uma psychonevrose que, desarranjando o
    equilibrio de um cerebro já de si invalido, reforça processo
    degenerativo, abreviando-lhe a evolução e concentrando n'um mesmo
    individuo os caracteres de um série pathologica»[1].

    [1] Tonnini, _La Paranoia Secundaria_ in _Rivista di Freniatria_, vol.
    XIII, pag. 61.

    Como d'esta definição se vê, a Paranoia secundaria implica uma inicial
    degenerescencia, uma invalidade mental primitiva, que a psychonevrose;
    mania ou melancolia, não faz senão aggravar e tornar manifestas. Sem a
    intervenção accidental da psychonevrose, a degenerescencia, menos
    avançada que na Paranoia primaria, não se accentuaria n'um delirio
    systematisado; dado, porém, o abalo maniaco ou melancolico, pronuncia-se
    o estado degenerativo por um complexo symptomatico especial em que ha
    concepções delirantes e tendencias para a demencia.

    «Estabelecido, diz Tonnini, que uma psychonevrose por recessivas
    evoluções morbidas produz a degenerescencia (Paranoia primaria) n'um ou
    mais individuos da especie, póde admittir-se que a Paranoia secundaria
    representa n'um só individuo o que faz a psychonevrose na especie. A
    Paranoia secundaria seria o resultado tardio (Paranoia tardia) de uma
    disposição precedente, apressado por uma doença mental qualquer, as mais
    das vezes de base affectiva. Segundo este conceito, a Paranoia
    secundaria não seria, como se pretende, uma psychonevrose que,
    caminhando para a demencia, deixa observar systematisadas as idéas
    falsas da mania ou da melancolia cessantes; ao contrario, a Paranoia
    secundaria offereceria um terreno degenerativo, naturalmente ligeiro em
    si mesmo, não chegado ainda ao de dar por maturidade propria o producto
    da Paranoia genuina; sobre este terreno, em si mesmo degenerado, a
    apparição de uma psychonevrose traria um profundo desequilibrio a um
    espirito já invalido, occasionando a manifestação de um processo com
    apparencias degenerativas, que por si só talvez se não accentuasse.
    Aconteceria, n'uma palavra, como nas fórmas de Paranoia illustradas por
    Leidesdorf, que se originam em graves doenças da infancia, em
    traumatismos, etc., e nas quaes, todavia, é necessario admittir uma
    predisposição, porque, na grande maioria dos casos, nem os traumatismos,
    nem as doenças infantis ou outras determinam ulteriormente a apparição
    da Paranoia. Por maioria de razão, uma doença mental como a mania ou a
    melancolia poderá determinar o apparecimento de uma doença affim,
    baixando os poderes de critica, introduzindo o elemento allucinatorio e
    guiando á demencia, que terá sempre o caracter paranoico. O exhaurimento
    cerebral psychonevrotico (demencia) n'um terreno mais ou menos
    degenerado produz o fructo hybrido da Paranoia secundaria, que não é a
    verdadeira demencia, mas tem alguma coisa da demencia e da Paranoia»[1].

    [1] Tonnini, _Loc. cit._, pag. 60.

    Tal é a doutrina da Paranoia secundaria, segundo Tonnini,–profundamente
    diversa, repetimol-o, da theorisação de Griesinger.

    Vejamos agora como o alienista italiano documenta a sua tão original
    concepção.

    Fazendo da Paranoia secundaria uma fórma hybrida, Tonnini procura
    demonstrar que ella não é uma psychonevrose genuina e que não é tambem
    uma degenerescencia pura e simples, mas participa dos caracteres de uma
    e de outra.

    Que não é uma psychonevrose genuina, demonstram-no segundo o escriptor
    italiano, tres ordens de razões: a primeira, não faltar nunca ao delirio
    o ar extranho da Paranoia e os neologismos, que são seus habituaes
    companheiros; a segunda, ser ás vezes o delirio muito menos a
    continuação do que se gerou durante a mania ou a melancolia precedentes,
    do que um delirio novo procedente de disposições paranoicas, como se vê
    n'um caso, que o auctor publica, de delirio exaltado succedendo á
    melancolia; terceira, emfim, a impossibilidade muhas vezes constatada de
    fazer-se um diagnostico differencial entre a Paranoia secundaria e a
    Paranoia primaria, a não ser pela consulta dos anamnesticos.

    Que a Paranoia secundaria não é uma degenerescencia pura e simples,
    resulta das seguintes considerações: a primeira é a presença do elemento
    affectivo, de expansão ou depressão, que falta na Paranoia primaria,
    evidentemente degenerativa; a segunda é a marcha e terminação, que são
    diversas das observadas na Paranoia primaria; a terceira, emfim,
    refere-se á hereditariedade que é sempre menos pesada na Paranoia
    secundaria que na primaria.

    Â conclusão geral do trabalho de Tonnini é esta: «Não sendo uma
    psychonevrose genuina, nem uma pura degenerescencia, a Paranoia
    secundaria compendia e resume n'um mesmo individuo os elementos d'estes
    dois processos, Constitue um traço de união entre elles e demonstra que
    os estados morbidos, como todos os factos naturaes, se não sujeitam a
    uma rígida classificação, mas teem entre si relações variaveis, que
    podem verificar-se associadas n'um mesmo typo pathologico»[1].

    [1] Tonnini, _Loc. cit._, pag. 67.

    * * * * *

    Poderiamos, sem grave inconveniente, suspender n'este ponto a parte
    historica do nosso estudo, por isso que só a França, a Allemanha e a
    Italia teem no assumpto que nos occupa litteraturas psychiatricas
    originaes; completal-a-hemos, todavia, por uma ligeira noticia dos
    trabalhos inglezes, norte-americanos e russos.

    A psychiatria ingleza, orientada n'um sentido eminentemente analytico e,
    sobretudo, caracterisada pela investigação minuciosa dos symptomas e das
    causas, tem-se conservado quasi sempre alheia aos problemas de
    pathogenia que tão apaixonadamente sollicitam os paizes continentaes.

    A noção de _monomania_, com a significação que lhe davam Esquirol e os
    seus discipulos, foi propagada na Inglaterra por Prichard, que a definia
    nos seguintes termos: «A monomania ou loucura parcial é caracterisada
    por uma illusão particular ou erronea convicção do intendimento,
    determinando uma aberração do juizo; o monomaniaco é incapaz de pensar
    correctamente sobre objectos relacionados com a sua illusão especial,
    embora sobre outros assumptos não manifeste apreciaveis desordens do
    espirito»[1].

    [1] Prichard, _Treatise on Insanity_, 1833.

    Mercê dos escriptos classicos de Hack Tuke e Bucknill, o termo
    _monomania_, começou em 1858 a ser substituido pela expressão
    _delusional insanity_, hoje correntemente empregada para indicar os
    delirios systematisados. Mas a designação nova não implica uma
    pathogenia definida, porque o termo _delusion_ significa apenas
    _concepção falsa_ ou _idéa delirante_, sem referencia a origem. Segundo
    Tuke e Bucknill, a _delusional insanity_ poderia ser secundaria, como
    algum tempo pretendeu Griesinger. É o que manifestamente exprimem estas
    palavras: «A concepção falsa (_delusion_) é muitas vezes o ultimo
    symptoma na morbida successão dos phenomenos mentaes; ella póde ser, com
    effeito, o reflexo de uma emoção, e, embora estrictamente signifique
    desordem intellectual, póde ser o resultado e o mero symptoma de uma
    desordem de sentimentos. Na verdade, a loucura affectiva (_emocional
    insanity_) não raro termina por uma perturbação conceptual (_delusional
    disorder_)»[1]. Explanando esta passagem, que tem a data de 1879, os
    auctores apresentam como exemplos de _delusional insanity_ casos que
    poderiam entrar no grupo germanico da Paranoia secundaria.

    [1] H. Tuke and Bucknill, _A Manual of Psychological medicine_, 4.º ed.,
    pag. 204.

    Sob o ponto de vista pathogenico, Maudsley conservou-se fiel á tradicção
    dos seus predecessores inglezes, como o demonstram estas palavras da
    _Pathologia do Espirito_: «Comquanto a monomania intellectual succeda
    muitas vezes á mania aguda, nem sempre isto acontece; por vezes este
    desarranjo do espirito desenvolve-se primitivamente e de um modo
    progressivo, como exaggero de um defeito fundamental do caracter»[2].

    [2] Maudsley, _Pathologie de l'Ésprit_, trad. fr., pag. 441 (1883).

    O que em Maudsley se encontra de verdadeiramente notavel com relação ao
    assumpto que aqui versamos, é a descripção que elle faz, sob o nome de
    _nevrose vesanica_, da Paranoia sem delirio de Tanzi e Riva. Os
    portadores d'esta nevrose ou _temperamento louco_, de origem sempre
    hereditaria, são seres _originaes_ e _excentricos_, de um grande
    _egoismo_, de uma excessiva _vaidade_, seres _desequilibrados_, que,
    não delirando, constituem, todavia, alguma coisa de extranho no meio
    social a que se não subordinam, antes constantemente chocam.

    Em Clouston, cujas interessantes _Lições_ remontam a 1883 e tiveram nova
    edição em 1887, a _delusional insanity_ apparece como synonimo de
    _monomania_ ou _monopsychose_. Buscando as origens da doença, Clouston
    encontra-lhe quatro: a predisposição individual, a mania aguda, as
    intoxicações e traumatismos, e, por ultimo, as sensações falsas. Como se
    vê, a _delusional insanity_ é tanto um delirio systematisado primitivo
    como secundario, tanto essencial, como apenas symptomatico.

    O que em Clouston merece attenção é a sua maneira de definir a
    _delusion_ ou conceito delirante á maneira dos italianos, isto é,
    fazendo intervir o criterio evolutivo. «A educação, a idade, a classe e
    mesmo a raça, até um certo ponto, determinam se uma crença errada é ou
    não um conceito delirante»[1]. Assim, a noção morbida, a idéa
    pathologicamente falsa (_insane delusion_) deve definir-se «uma crença
    n'aquillo que seria inacreditavel para gente da mesma classe, educação e
    raça da pessoa que a expressa»[2].

    [1] Clouston, _Clinical lectures on mental diseases_, 2º ed., pag. 243.

    [2] Clouston, _Obr. cit._, pag. 244.

    Na America do Norte, Spitzka[3], servindo-se do termo _monomania_, expõe
    em 1883 a doutrina da Paranoia, tal como a comprehendem alguns
    alienistas allemães, assignalando-lhe uma origem primitiva e fazendo-a
    assentar sobre um fundo de fraqueza mental. Na classificação dos
    delirios, que divide em expansivos e depressivos, reconhece as
    variedades descriptas por Krafft-Ebing, excepto a processo-maniaca.

    [3] Spitzka, _A Manual of Insanity_, 1883.

    No mesmo anno, Hammond[4] occupa-se dos delirios systematisados, sem,
    todavia, se pronunciar sobre a sua pathogenia.

    [4] Hammond, _A Treatise on Insanity_, 1883.

    Não conhecemos, senão por ligeiras noticias de Tanzi e de Séglas, a
    litteratura russa da Paranoia. A julgar por essas noticias, não é ella
    nem mais abundante, nem mais original que a ingleza e a norte-americana.

    Parece que os mais importantes trabalhos são os de Rosenbach, em 1884, e
    de Greidenberg, em 1885.

    O primeiro d'estes auctores sustenta, como a maioria dos allemães, a
    génese expontanea dos delirios paranoicos, que teem por base a
    debilidade mental. As illusões e allucinações seriam secundarias e não
    primitivas na evolução d'estes delirios. As idéas de grandeza não
    derivariam, por um processo logico, das idéas de perseguição, mas seriam
    contemporaneas destas; de resto, o exaggero da personalidade, que as
    idéas ambiciosas põem em relevo, está já indicado nas idéas de
    perseguição.

    O segundo dos auctores citados reconhece uma Paranoia allucinatoria
    aguda, em que distingue duas variedades: uma hereditaria, e outra
    adquirida, asthenica. Esta seria a mais frequente, e terminar-se-hia
    quer pela cura, quer pela demencia, quer por um certo grau de
    enfraquecimento cerebral.

    SEGUNDA PARTE

    EXAME CRITICO DO CONCEITO DE PARANOIA

    METHODO A SEGUIR

    Dados resultantes do estudo historico dos delirios systematisados–Exame
    critico dos conceitos clinicos de Delirio Chronico e de Verrücktheit
    aguda e secundaria–Determinação final do conceito anthropologico de
    Paranoia.

    Todo o extenso caminho ascensional até agora andado nos apparece, da
    altura attingida, como uma linha de ideação que, partindo do exame dos
    delirios systematisados, se dirige para o conhecimento da constituição
    intellectual dos delirantes.

    Nas phases iniciaes da sciencia e quando ainda um exclusivo criterio
    symptomatico a orienta, é cada delirio uma doença–que se chama
    melancolia, monomania intellectual, lypemania, delirio de perseguições
    ou megalomania, segundo as modalidades clinicas de _fixidez_, de
    _extensão_, de _contheudo_ ou de _marcha_ das idéas delirantes. Mais
    tarde, a preponderancia do criterio etiologico, imposto á psychiatria
    pelo genio incomparavel de Morel, modifica e alarga a visão do assumpto,
    fazendo pensar no terreno especial de que as concepções falsas emergem;
    não ha então tantas doenças distinctas quantos os delirios, mas, formada
    pela convergencia da noção symptomatica de delirio e do conceito causal
    de predisposição, uma só doença de variaveis aspectos clinicos,
    successivamente denominada loucura hypocondriaca, delirio chronico,
    loucura parcial, delusional insanity e Verrücktheit. Emfim, a tentativa
    de explicar pela doutrina geral da evolução psychica a natureza da
    predisposição delirante origina o conceito de Paranoia como expressão de
    um desvio regressivo, de uma constituição atavica da intelligencia.

    Analyse, synthese e interpretação pathogenica–taes foram, pois, na
    marcha historica do assumpto que nos occupa, as _étapes_ seguidas pelo
    espirito scientifico.

    Mas esta linha evolutiva, que abstractamente nos apparece rectilinea,
    foi na realidade irregular e ondulante. Conhecidos, á maneira de dois
    pontos, o primeiro e o ultimo termo das séries de doutrinas, traçamos
    entre elles a mais curta distancia, como se a filiação das idéas se
    houvesse dado n'um mesmo cerebro; na verdade, porém, as theorias
    nasceram, como vimos, em litteraturas diversas, independentes por vezes
    e accusando cada qual o genio particular e as tendencias especiaes da
    respectiva nacionalidade. Assim, por exemplo, quando ainda o pratico
    espirito francez se occupava em fazer pelas pennas de Lasègue e de
    Foville a minuciosa descripção clinica dos delirios systematisados de
    perseguição e de grandezas, já o cerebro allemão, que os tinha
    entrevisto, prematuramente lhes assignalava pela voz de Griesinger urna
    hypothetica pathogenia. Por outro lado, dentro do mesmo pais, potentes
    organisações intellectuaes quebraram por bruscos saltos de genio o
    parallelismo entre as evoluções logica e chronologica das idéas,
    misturando assim n'um dado momento, como vimos succeder em França com
    Morel, o espirito de analyse e a tendencia synthetisadora. Emfim, o
    inevitavel desejo de explicar, coevo da humanidade, indisciplinada e
    temerariamente semeou de fragmentarias notas pathogenicas o proprio
    periodo analytico do nosso thema, como se viu em Lasègue e em Foville,
    tentando filiar n'uma autoobservação consciente as idéas delirantes.

    É, pois, por um artificio do espirito que figuramos como perfeitamente
    definidas e succedendo-se rectilineamente as phases evolutivas da
    questão que nos occupa. Mas esse mesmo artificio, aliás necessario e
    legitimo, está indicando que a historia, não sendo aqui, como as
    sciencias exactas, uma simples exposição chronologica dos erros e
    illusões que precedem a conquista definitiva da verdade, mas uma
    complicada e suggestiva revista de opiniões, carece de ser completada
    pela critica. Já no que apenas parece uma núa e secca exhibição de
    doutrinas, o espirito critico intervem, procurando no labyrintho de
    contradictorias affirmações a filiação das idéas; é preciso, comtudo,
    que elle se affirme ainda mais larga e mais activamente, julgando as
    theorias e os pontos de vista individuaes ou de escóla em face dos
    factos clinicos e dos principios de psychologia normal e pathologica.

    Eis o que explica a necessidade d'esta segunda parte do nosso trabalho.

    Acceitando nos seus traços fundamentaes a doutrina anthropologica da
    Paranoia–inevitavel corollario da theoria geral da evolução
    psychica–tentaremos demonstrar, aqui, que ella explica todos os factos
    e synthetisa todas as verdades incompletas das doutrinas que a
    precederam; n'este sentido reforçaremos e ampliaremos com novos dados e
    novos pontos de vista a argumentação dos psychiatras italianos.

    Antes, porém, uma tarefa se nos impõe: a de examinar as questões do
    Delirio Chronico e das variedades aguda e secundaria da Verrücktheit,
    sobre as quaes são ainda hoje em França e na Allemanha tão vivos e
    accesos os debates como antes dos trabalhos italianos que, uma vez
    comprehendidos, deveriam tel-os, a meu vêr, definitivamente encerrado.

    I–O DELIRIO CHRONICO

    A etiologia; a marcha; o prognostico–Confronto com os delirios
    polymorphos–A passagem do periodo persecutorio ao ambicioso não e
    vulgar; a passagem á demencia é excepcional–O delirante chronico é um
    degenerado; importante observação pessoal–A prognose dos delirios
    polymorphos é muitas vezes a do Delirio Chronico–Dois conceitos de
    Delirio Chronico no espirito de Magnan; génese do segundo.

    O delirio chronico de evolução systematica, tal como nas paginas,
    anteriores o descrevemos, não é no espirito de Magnan uma formula
    eschematica ou uma abstracta construcção destinada a fazer comprehender
    um certo grupo de factos, mas uma doutrina concreta que a observação não
    faria senão confirmar.

    Recordemos que duas circumstancias–uma d'ordem etiologica, outra de
    natureza symptomatico-evolutiva, caracterisam a psychose: a primeira
    consiste em que ella ataca na idade média da vida individuos até então
    perfeitamente normaes, embora predispostos; a segunda, era que ella
    segue na sua marcha quatro periodos distinctos, succedendo-se n'uma
    ordem invariavel–o de incubação, o de perseguições, o megalomano e o
    demencial.

    Pelo que respeita á primeira d'estas caracteristicas, diz Magnan: «O
    delirio chronico fere em geral na idade adulta individuos sãos de
    espirito, não tendo até então apresentado nenhuma perturbação
    intellectual, moral ou affectiva. Insisto sobre este facto que tem sua
    importancia, por isso que por esta particularidade os delirantes
    chronicos se separam immediatamente dos hereditarios degenerados, que
    desde a infancia apresentam perturbações que os fazem reconhecer»[1]. Em
    relação á marcha dos symptomas não é menos explicito o medico de
    Sant'Anna: «Estes periodos (incubação, delirio de perseguições,
    megalomania e demencia) succedem-se, diz elle, irrevogavelmente do mesmo
    modo, de sorte que póde excluir-se do delirio chronico todo o doente que
    _d'emblèe_ se torna perseguido ou megalomano, ou que, primeiro
    ambicioso, vem a ser depois perseguido»[2].

    [1] Magnan, _Obr. cit._, pag. 236.

    [2] Magnan, _Obr. cit._, pag. 237.

    Os delirios systematisados que pela etiologia ou pela marcha se desviam
    dos severos moldes traçados, ou são meros symptomas de uma affecção
    mental definida ou, se essenciaes, traduzem e denunciam a
    degenerescencia psychica, merecendo n'este ultimo caso os nomes de
    _polymorphos_ ou _multiplos_, em attenção ao seu contheudo, de _delirios
    d'emblèe_, em vista da sua brusca apparição, ou ainda de _delirios
    degenerativos_, olhando á etiologia. Derivada d'estas, mas de uma alta
    importancia pratica, existe ainda, segundo Magnan, uma nova
    caracteristica differencial entre os delirios polymorphos e o Delirio
    Chronico: emquanto este é absolutamente incuravel, comportariam
    aquelles, na maioria dos casos, um prognostico discretamente favoravel,
    pois que, expressões de um desequilibrio mental, podem desapparecer,
    embora possam tambem recidivar.

    Estamos, como se vê, em face de uma doutrina clara, precisa, de
    contornos bem definidos e de uma estructura mathematicamente regular.
    Isto nos facilita a critica.

    É indiscutivel a existencia de doentes que, durante algum tempo
    inquietos, preoccupados e irritaveis, cahem a seguir no delirio de
    perseguições, de que passam, decorridos annos, para o de grandezas,
    acabando pela demencia. Até ao segundo d'estes quatro periodos da
    evolução morbida, não differem taes doentes dos perseguidos de Lasègue e
    de J. Falret, que tambem passam, antes de constituido e systematisado o
    delirio, por uma phase preparatoria de concentração e de inquietude
    mental; o que os separa d'estes é a ulterior passagem ao delirio
    ambicioso, já observada por Foville, e, por fim, á demencia. Ora, se
    esta passagem é, como pretende Magnan, fatal e necessaria, só o Delirio
    Chronico é nosographicamente legitimo: se, ao contrario, ella é fortuita
    e precaria, a legitimidade nosographica pertence ao Delirio de
    perseguições.

    O que diz a observação clinica? Vamos vêr que o seu depoimento está
    longe de ser favoravel a Magnan.

    Pelo que respeita á passagem do delirio de perseguições ao de grandezas,
    affirmou J. Falret que ella não só hão é constante, mas está longe de
    ser vulgar, pois apenas se realisa n'um terço dos casos; pelo seu lado,
    Krafft-Ebing assegura tambem que uma tal transição se observa sómente
    n'um terço dos casos de Verrücktheit, isto é, do conjuncto dos delirios
    systematisados de evolução chronica; e Christian pretende mesmo que
    nunca attingem a megalomania os perseguidos cujo delirio se alimenta
    exclusivamente de perturbações da sensibilidade genital. A longa
    experiencia d'estes alienistas garante a realidade das suas affirmações;
    de resto, são conhecidos em todos os velhos manicomios alguns casos de
    delirio de perseguição durando vinte, trinta e mais annos e terminando
    pela morte do doente, sem que em tão largo periodo tenham surgido idéas
    ambiciosas.

    Mas, se nos perseguidos a passagem ao delirio de grandezas está longe de
    ser constante, nos perseguidos-megalomanos a queda na demencia é um
    facto excepcional. Feriu, com effeito, em todos os tempos a attenção dos
    alienistas francezes a extrema resistencia dos delirantes systematicos á
    dissolução mental que é o termo vulgar das outras vesanias; e os
    observadores allemães e italianos consideram mesmo tão caracteristico
    este facto do não abaixamento de nivel intellectual na Verrücktheit e na
    Paranoia que, como vimos, o fazem intervir na propria definição da
    psychose. Por nossa parte, alguns casos conhecemos de paranoicos,
    perseguidos e perseguidos-megalomanos, tendo mais de vinte annos de
    delirio e mais de cincoenta de idade, em que nenhuma decadencia mental
    se observa. Um d'esses casos é um official reformado do exercito que
    conhecemos em delirio ha, pelo menos, vinte e dois annos, e que ha
    quatorze se encontra no manicomio do Conde de Ferreira; são tão
    inexcediveis as subtilezas da sua dialectica quanto cheias de finura e
    de ironia as suas criticas sobre os acontecimentos politicos, que elle
    segue e interpreta sob um criterio de perseguido-ambicioso. Muitos annos
    de delirio systematisado são impotentes, no dizer de grande numero de
    observadores, para provocar a demencia; e, se esta excepcionalmente
    apparece, é antes aos progressos da idade ou a uma psychonevrose
    intercorrente que deve attribuir-se.

    Resumindo: não é fatal, nem mesmo vulgar a passagem ao delirio ambicioso
    nos perseguidos que, aliás, incubaram o seu delirio; é excepcional a
    terminação pela demencia, quer dos perseguidos, quer dos megalomanos,
    quer, emfim, dos systematisados que passaram n'uma longa evolução
    vesanica pelas successivas phases persecutoria e ambiciosa.

    O perseguido-megalomano-demente é, pois, menos commum que o perseguido,
    tal como vem sendo descripto desde Lasègue e J. Falret; pelo que, fazer
    do Delirio Chronico um typo destinado a conter o Delirio de perseguição,
    seria inverter abusivamente as noções recebidas em nosologia, tornando
    _especie_ o que é apenas _variedade_.

    Examinada a questão do lado da marcha dos symptomas, encaremol-a do
    ponto de vista da etiologia.

    Como foi dito, o delirante chronico não é, no dizer de Magnan, um
    degenerado: póde ser um predisposto, mas não é um candidato á loucura;
    póde ter antecedentes hereditarios, pois que a hereditariedade radia
    sobre todas as doenças mentaes, mas não apresenta até á invasão do
    delirio o desequilibrio caracteristico dos degenerados. O delirio
    d'estes é sempre polymorpho, _d'emblèe_, frouxamente systematisado, não
    tendo a longa duração do delirio chronico, nem o seu córte regular em
    periodos de irrevogavel successão.

    Esta maneira de vêr, em radical opposição com as affirmações dos
    psychiatras allemães e italianos sobre a Verrücktheit e a Paranoia (em
    que o delirio chronico de Magnan, como todos os delirios systematisados,
    se acha contido) merece ser examinada.

    É evidente que uma critica profunda d'este novo aspecto da questão só
    póde fazer-se discutindo a noção da degenerescencia, que não é identica
    para todos os psychiatras, que não tem o mesmo alcance em todos os
    livros e que representa para o medico de Sant'Anna um grupo de factos
    muito diverso do que representa para Krafft-Ebing ou para Tanzi e Riva,
    por exemplo. Ulteriormente examinaremos este assumpto. Notemos, porém,
    desde já que J. Séglas combateu vivamente, em nome da observação
    clinica, a etiologia de Magnan, referindo casos de Delirio Chronico em
    doentes portadores de estygmas physicos da degenerescencia; que Legrain,
    discipulo de Magnan, admitte a possibilidade da evolução caracteristica
    do delirio chronico nos degenerados hereditarios; que Respaut, outro
    discipulo de Magnan, descreve um caso de delirio chronico n'um
    epileptico impulsivo; que Dericq considera aptos a realisarem o delirio
    chronico os proprios fracos de espirito (_degenerados inferiores_, na
    technologia da escóla de Sant'Anna); emfim, que Marandon de Montyel,
    acceitando a doutrina de Magnan emquanto á evolução do Delirio Chronico,
    se afasta resolutamente do mestre emquanto á etiologia, affirmando que
    grande numero de delirantes chronicos se fazem notar desde a infancia ou
    desde a juventude por anomalias de caracter, que Magnan reputa indicios
    seguros da degenerescencia e que não desdizem da pesada herança que
    muitas vezes incide sobre estes doentes.

    Por nossa parte, cremos dever apontar um caso clinico de observação
    pessoal que póde juntar-se aos de Séglas.

    Trata-se de um antigo empregado commercial, celibatario, tendo
    actualmente 45 annos de idade, e a quem já em outra publicação nos
    referimos. O periodo de incubação delirante, a que accidentalmeme
    assistimos, mercê das relações que então mantinhamos com um irmão,
    remonta a 1878; no anno immediato o delirio de perseguições achava-se
    installado, fazendo-se acompanhar de allucinações auditivas e provocando
    da parte do doente reacções violentas: chamavam-lhe, na rua e nos cafés,
    _pederasta, onanista, devasso_, ao que elle respondia aggredindo os
    suppostos insultadores. Refugiando-se successivamente em casas de
    amigos, em pequenos hoteis e em hospitaes particulares, o doente veiu,
    por fim, a dar entrada no manicomio do Conde de Ferreira, em abril de
    1883, apresentando então, de mistura com o delirio de perseguições,
    idéas ambiciosas que apenas exhibia em cartas e só um anno depois
    começou a exteriorisar oralmente: tinha descoberto um novo systema do
    mundo, pretendia reformar toda a sciencia astronomica e todo o systema
    social; as perseguições soffridas e a sequestração, _o mais infame de
    todos os crimes até hoje praticados_, vinham-lhe do Papa, que assim
    defendia os dogmas christãos, e do Rei, que defendia a ordem social
    existente. Lentamente, as idéas ambiciosas foram dominando o delirio de
    perseguições, que hoje se alimenta exclusivamente no prolongamento da
    sequestração; livre, este doente seria o typo perfeito do megalomano.

    Eis aqui um caso a que nada parece faltar do que Magnan exige para o
    diagnostico do Delirio Chronico: iniciada aos 30 annos n'um individuo
    apparentemente são, que era um bom guarda-livros, que sustentava a mãe,
    que mantinha regulares relações sociaes, que se governava
    financeiramente bem, a psychose atravessou, na successão assignalada por
    Magnan, os periodos de incubação, de perseguições e de megalomania, sem
    a presença episodica de idéas hypocondriacas, eroticas ou outras que
    podessem fazer pensar n'um delirio polymorpho. Pois bem; este doente é
    um degenerado incontestavel, ainda para os que acceitam a mais estreita
    noção da degenerescencia. A hereditariedade é n'elle convergente e das
    mais pesadas: o _pae_, prematuramente morto, foi um louco moral; a
    _mãe_, de uma fealdade pathologica, morreu em estado de demencia senil
    aos 70 annos; um _tio materno_ é disforme; um outro _tio_ materno, mal
    dotado de sentimentos de probidade, passa por ter feito uma fallencia
    fraudulenta; um _irmão_, prematuramente morto de tuberculose, foi um
    louco moral, dipsomano, bulimico e de uma vaidade exaggerada; emfim, uma
    _irmã_, louca moral e impulsiva, prostituiu-se. Na historia pregressa do
    nosso doente figura uma febre typhoide grave na puberdade.
    Apparentemente ponderado, elle foi sempre, no dizer dos seus intimos, de
    uma susceptibilidade excessiva, de um grande orgulho; entregava-se a
    leituras para que não tinha preparação e evitava o commercio das
    mulheres. Como estygmas physicos, apresenta o nosso doente _hypospadias_
    e uma notavel _asymetria facial_.

    Este caso, que em nossa propria experiencia é o mais nitido, senão é
    mesmo o unico de um delirio paranoico offerecendo a evolução precisa e
    irrevogavel da entidade de Magnan, longe de confirmar as idéas d'este
    psychiatra em materia de pathogenia, infirma-as eloquentemente.

    Encaremos agora a duração e prognose comparadas do Delirio Chronico e
    dos delirios polymorphos.

    Como foi dito, na doutrina de Magnan a demencia faz parte do Delirio
    Chronico a titulo de phase terminal da sua evolução; é dizer que a
    psychose se installa definitivamente e o seu prognostico é sempre
    infausto. Ao contrario, os delirios polymorphos teriam por habituaes
    sahidas a _cura_ e, menos vezes, a _demencia precoce_, seriam de uma
    duração limitada e comportariam, portanto, um prognostico discretamente
    benigno. Será isto absolutamente exacto? Responde negativamente a
    clinica. De facto, se muitas vezes se obtem a cura dos delirios
    multiformes e se, algumas outras, uma demencia vem precocemente fechar a
    sua evolução, não é menos verdade que ha, ao lado dos que assim
    terminam, um formidavel numero de casos de uma duração perpetua,
    tendendo, se tendem, para a demencia tão lentamente como o Delirio
    Chronico. Os proprios discipulos de Magnan o reconhecem; e Legrain não
    hesita em descrever delirios polymorphos ou degenerativos _de marcha
    essencialmente chronica_. É, de resto, o que a experiencia nos ensina:
    ou se fixem n'um pequeno numero de idéas ou percorram toda a gamma dos
    conceitos morbidos, ha degenerados que deliram perpetuamente. Como
    distinguil-os prognosticamente dos delirantes chronicos? O invariavel e
    tranquillisador _ça guérira_ de Magnan e dos seus discipulos em face dos
    delirios _d'emblèe_, reserva-nos por vezes decepções crueis; muitos
    casos conheço, por minha parte, em que _ça n'a jámais guéri_. De resto,
    as pretendidas curas dos delirios systematisados não são, as mais das
    vezes, senão apparentes, quer porque o doente esconde as suas concepções
    para obter a liberdade, o que não é excessivamente raro nos manicomios,
    quer porque, desapparecendo realmente as idéas morbidas, subsiste a
    disposição a creal-as de novo, isto é, subsiste a mentalidade
    paranoica–a verdadeira doença, no fundo.

    Que Magnan tenha podido descriminar nos delirios systematisados
    evoluções diversas e justificativas de sub-grupos clinicos do que em
    França se chama a Loucura Parcial e na Allemanha a Verrücktheit, é
    perfeitamente incontestavel; que elle tenha proseguido com rara
    sagacidade analytica estudos anteriores sobre a successão dos delirios
    n'um mesmo alienado, é tambem indiscutivel; mas que o Delirio Chronico,
    tal como nos ultimos annos o descreve, seja uma especie morbida e um
    grupo nosologico bastantemente differenciado–pela evolução, pela
    pathogenia e pelo prognostico–dos delirios systematicos dos
    degenerados, eis o que não póde acceitar-se.

    Fechariamos aqui a nossa analyse da pretendida psychose de Magnan, se
    não crêssemos dever insistir n'um ponto, só ao de leve tocado na parte
    historica d'esta monographia: que anteriormente á concepção actual do
    Delirio Chronico existiu no espirito de Magnan uma outra, a exposta por
    Gérente, mais conforme com a realidade clinica e mais proxima da
    Verrücktheit de Krafft-Ebing.

    É certo que, quando na Sociedade Medico-Psychologica Séglas punha em
    evidencia as contradições entre as duas doutrinas, citando trabalhos dos
    discipulos de Magnan, este se defendeu declinando a responsabilidade de
    taes trabalhos e cathegoricamente affirmando que aos respectivos
    auctores concedera sempre a mais inteira independencia. Ora, sem de modo
    algum pretendermos que o medico de Sant'Anna imponha os proprios pontos
    de vista aos seus discipulos, é licito acreditar que estes os acceitam
    e propagam nos seus escriptos. Não é só Gérente que n'uma these de 1883,
    escripta no serviço da admissão e feita de casos clinicos ahi colhidos,
    expõe, sob a designação de _Delirio Chronico_, uma doutrina que em
    pontos capitaes se oppõe á que Magnan apresentou em 1887 á Sociedade
    Medico-Psychologica e reeditou em 1893 no seu livro de _Lições
    Clinicas_. N'um trabalho publicado em 1884, Boucher procede como
    Gérente, chamando aos delirantes chronicos _predispostos mal
    equilibrados_, declarando que _toda a etiologia do Delirio Chronico
    reside na hereditariedade_, e constatando n'um caso de Delirio Chronico,
    diagnosticado pelo proprio mestre, anomalias de caracter degenerativo na
    evolução da infancia; e, n'um artigo publicado já em 1889, o meu collega
    Magalhães Lemos, que aliás viveu perto de dois annos na intimidade
    scientifica de Magnan, descreve como exemplar clinico _frustre_ de
    Delirio Chronico um caso que se iniciou por idéas ambiciosas de colorido
    erotico. E nenhum dos escriptores que acabamos de citar se declara em
    opposição com o mestre, antes crê cada um interpretal-o; nem descobrindo
    signaes de degenerescencia nos portadores do Delirio Chronico, nem
    achando possivel a inversão evolutiva das phases habituaes d'esta
    psychose, pensa qualquer d'elles afastar-se da mais pura orthodoxia
    d'escóla. Tendo seguido o ensino de Sant'Anna e conhecendo as idéas de
    Magnan, Bajenoff escrevia tambem em 1885 que o Delirio Chronico é o
    equivalente da Verrücktheit e da Paranoia.

    A inevitavel conclusão a tirar d'estes factos é que realmente no
    espirito de Magnan o conceito de Delirio Chronico se modificou a ponto
    de apparecer-nos duplo á distancia de alguns annos. Infelizmente, o
    actual não vale o antigo.

    Mas, porque passou Magnan da larga concepção de 1883 para a de hoje, tão
    estreita, tão geometrica e tão rígida que os factos se lhe não
    acommodam? Tornando a degenerescencia como synonimo de desequilibrio, o
    medico de Sant'Anna estabeleceu como dogma fundamental que o degenerado
    só póde delirar de um modo conforme a esse desequilibrio: o seu delirio
    tem de ser, quanto á génese, improvisado; quanto á marcha, irregular e
    descontinuo, ora remittente, ora intermittente; quanto ao contheudo,
    caleidoscopico e multiforme; quanto á duração, ephemero ou pelo menos
    curto, porque a mesma persistencia seria um equilibrio; emfim, quanto á
    associação das idéas, de uma frouxa systematisação, porque esta, quando
    completa, representa uma demorada concentração d'espirito, incompativel
    com a ideação salturaria do degenerado. Pertencem, pois, á
    degenerescencia os delirios _d'emblèe_, os _polymorphos_, os _agudos_ e
    _sub-agudos_ e, por fim, os que não revellam senão uma _fraca tendencia
    á systematisação_. Os não-degenerados só podem delirar de um modo
    diametralmente opposto: o seu delirio tem de ser preparado, incubado; de
    marchar por _étapes_ de irrevogavel successão; de durar a vida do
    doente; de circumscrever-se a um numero limitado de idéas; de ser,
    emfim, contínuo e francamente systematisado. O _Delirio Chronico_ é a
    antithese completa e integral do delirio dos degenerados e só n'estas
    condições póde subsistir em face da doutrina; o conceito de 1883
    dissociou-se, pois, não em vista dos factos, mas da theoria, passando o
    que n'elle havia de eschematico a beneficio do _Delirio Chronico_
    actual, e os casos _frustres,_–a grande, a formidavel massa dos casos
    clinicos, ao lote dos delirios dos degenerados.

    Mas, por outro lado, não sendo o desequilibrio mental senão a
    consequencia de uma grave tara ancestral ou, como diz Magnan, de uma
    _impregnação hereditaria_, o _Delirio Chronico_ só deve realisar-se em
    individuos normaes e válidos para que, ainda no ponto de vista da
    etiologia, elle realise o typo contrario ao dos delirios degenerativos.
    «Delirio chronico e degenerescencia, diz Magnan, oppõem-se totalmente».

    Tal é, a meu vêr, a génese da actual noção de _Delirio Chronico_.
    Tentando impôr-se em nome dos factos, como inducção clinica, ella
    procede realmente, por via deductiva, de uma doutrina presupposta da
    degenerescencia, que está longe, como adiante veremos, de poder
    acceitar-se sem restricções.

    II–A VERRÜCKTHEIT AGUDA

    Dois grupos de psychoses sob a mesma designação: a confusão mental e os
    delirios polymorphos–A Verrücktheit e os delirios incoherentes; critica
    das opiniões de Schüle–A Verrücktheit e os delirios systematisados de
    marcha aguda; critica das opiniões de Krafft-Ebing–Observação
    pessoal–Dissociação dos conceitos de Paranoia e Verrücktheit.

    Duas ordens de factos, a meu vêr inteiramente distinctos, se encontram
    englobados na Verrücktheit aguda: de um lado, delirios systematisados
    que sómente pela rapidez da sua marcha, pela curabilidade e, ás vezes,
    pelo excessivo predominio de allucinações differem da Verrücktheit
    chronica; do outro, delirios incoordenados, asystematicos e
    eminentemente sensoriaes que, no dizer mesmo de Mendel, de Schüle e de
    Cramer, não se descriminam bem, quer da mania, quer da melancolia
    estuporosa. É isto o que resulta da leitura attenta dos auctores que
    defendem a Verrücktheit aguda.

    Os primeiros d'estes delirios, não implicando nem uma obnubilação da
    consciencia, nem permanentes estados emocionaes de expansão ou
    depressão, separam-se nitidamente das psychonevroses; e, se bem que o
    predominio do elemento sensorial lhes imprime um caracter caleidoscopico
    e uma evolução irregular, é certo que elles manteem sempre aquella
    activa coordenação logica das idéas que constitue o _systema delirante_.
    Os segundos, pelo contrario, implicando a perda de lucidez e
    acompanhando-se de alterações affectivas, impõem-se pela anormal
    associação das idéas, que ora se precipitam e dissociam, como na mania,
    ora convergem na determinação de estados catatonicos, segundo a
    imprevista direcção das allucinações, sempre renovadas.

    Confundir estas duas cathegorias de delirios, sob pretexto de que é
    identico o seu contheudo e de que em ambas se realisa uma intervenção
    preponderante do elemento allucinatorio, é, ao que penso, cahir n'um
    erro grosseiro, porque os invocados elementos de analogia são
    infinitamente menos valiosos que os caracteres differenciaes. A
    identidade das idéas morbidas não é razão para que confundamos, por
    exemplo, os delirios de perseguição da melancolia e da Paranoia ou os
    delirios ambiciosos da paralysia geral e da mania; tambem o predominio
    de allucinações, ainda quando identicas, como as zoopsicas, não é razão
    para que não distingamos, por exemplo, os delirios alcoolico e
    hysterico. As idéas delirantes e as allucinações da Verrücktheit são as
    de todas as psychoses; fazer, pois, d'esses elementos um criterio
    diagnostico e nosographico seria regressar ao cahos de que a pathologia
    mental só conseguiu sahir por successivos esforços de analyse. Não são
    os symptomas, mas as suas origens pathogenicas, a sua coordenação e a
    sua marcha que no actual momento orientam a diagnose psychiatrica.

    Assim, o rigor scientifico exige que estudemos em separado os dois
    grupos de delirios, que alguns auctores allemães reunem sob a designação
    de Verrücktheit aguda.

    Comecemos pelos delirios systematicos.

    A psychiatria allemã, creando os termos de Verrücktheit e Wahnsinn para
    designar os delirios, teve sempre em vista accentuar differenças entre
    os que se impõem pela coordenação dos conceitos morbidos e os que se
    denunciam por um grau maior ou menor de incoherencia. Decerto, mudou cem
    vezes o valor d'estes termos, que teem uma historia tão complicada e tão
    longa como a da propria sciencia mental; decerto, a Verrücktheit d'hoje
    não é o delirio estereotypado dos cerebros enfraquecidos, descripto por
    Griesinger, como o Wahnsinn não é o delirio exaltado e optimista de que
    o mesmo auctor traçou um quadro clinico inteiramente analogo ao da
    monomania intellectual de Esquirol;–mas sempre, desde Griesinger até
    Westphal, os dois termos conservaram, através de todas as vicissitudes,
    um vestigio inapagavel dos primitivos significados. A confusão
    principiou sómente quando o professor de Vienna, creando a variedade
    aguda da Verrücktheit, integrou no quadro d'esta psychose delirios
    systematicos e até dissociados em que as allucinações desempenham um
    papel dominante. Será licito manter uma tal confusão?

    Já na parte historica d'este _Ensaio_ expozemos em detalhe não só os
    argumentos com que os adversarios de Westphal rejeitam da Verrücktheit o
    hallucinatorischer Wahnsinn, mas os motivos por que fazem d'este um
    grupo das psychonevroses. Não reeditaremos essa vigorosa critica;
    examinaremos, porém, os argumentos com que Schüle pretende justificar a
    opinião contraria.

    Não contesta este eminente psychiatra que entre os casos typicos ou,
    para me servir da sua propria linguagem, entre os casos extremos da
    Verrücktheit e do Wahnsinn existam realmente as profundas notas
    differenciaes apontadas por Fritsch e Krafft-Ebing, entre outros;
    sustenta, porém, que ha casos de transição em que ellas se esbatem,
    ficando então a descoberto a fundamental identidade dos dois processos.

    A confissão, por parte de Schüle, de que são justas as differenciações
    notadas pelos adversarios da escóla de Vienna entre a Verrücktheit e o
    Wahnsinn que n'ella se pretende incorporar a titulo de variedade aguda,
    é um facto importante e que deve registar-se, porque essas
    differenciações referem-se, como vimos, à coordenação dos symptomas, à
    etiologia, à marcha, à pathogenia, n'uma palavra, a quanto serve para
    definir uma entidade nosologica. A coordenação symptomatica, porque,
    enquanto na Verrücktheit as idéas delirantes formam systema e as
    allucinações occupam um logar secundario ou até nullo, no Wahnsinn o
    delirio é incoherente e os erros sensoriaes teem o primeiro plano; á
    etiologia, porque, emquanto a Verrücktheit se installa sem causa
    exterior apparente, o Wahnsinn reconhece como determinantes todas as
    causas capazes de provocarem uma asthenia profunda dos centros nervosos;
    á marcha, porque, tendo a Verrücktheit uma evolução essencialmente
    chronica, o Wahnsinn termina agudamente pela cura, pela demencia ou pela
    morte; á pathogenia, porque, emquanto a Verrücktheit se interpreta como
    um processo constitucional ou degenerativo, o Wahnsinn é uma doença
    accidental ou psychonevrotica. A estes multiplos elementos differenciaes
    outros se juntam ainda: ao passo que na Verrücktheit as allucinações,
    predominantemente auditivas, são determinadas pelo curso do delirio,
    dependendo o erethismo sensorial da absorvente fixidez das idéas, que
    provocam a apparição das imagens, no Wahnsinn succede que é o
    automatismo dos centros sensoriaes que determina as idéas delirantes,
    por esse facto variaveis, movediças, dissociadas; tambem, ao passo que
    na Verrücktheit o elemento affectivo não só é secundario, mas tende a
    apagar-se com os progressos mesmos da doença, no Wahnsinn, embora
    igualmente secundario pela génese, pois é determinado pelo contheudo das
    idéas, esse elemento representa um papel importante, mercê das vivas
    allucinações emergentes de todos os sentidos.

    Para diminuir o valor d'este quadro de differenciações nosologicas, ao
    mesmo tempo numerosas e profundas, argumenta o medico de Bade affirmando
    não só que na chronica evolução da Verrücktheit se observam phases
    agudas de Wahnsinn, mas que d'este se póde passar áquella, o que, a seu
    vêr, demonstra a identidade nosologica dos dois processos morbidos.

    Examinemos o valor d'estes argumentos.

    Quanto ao primeiro, sem de modo algum contestarmos a realidade clinica
    dos factos invocados por Schüle, pois mais de uma vez temos observado
    episodicos delirios asystematicos no curso da Paranoia, seja-nos
    permittido notar, na excellente companhia de Krafft-Ebing, de Fritsch,
    de Kraepelin e de Meynert, que esses factos comportam uma interpretação
    muito diversa da que lhes dá o celebre medico de Bade.

    Qualquer que seja a physionomia que apresentem, depressiva, expansiva ou
    mixta, esses delirios asystematicos podem conceber-se como não fazendo
    parte integrante da evolução da Verrücktheit, mas coexistindo com ella a
    titulo de complicações ou de intercorrencias psychonevroticas, tendo uma
    etiologia e uma marcha autonomas. Porque não? «Nenhuma razão há, dizem
    Tanzi e Riva, para crêr que o cerebro de um paranoico possa oppôr ás
    causas das doenças intercorrentes uma immunidade de que muitas vezes o
    individuo normal é incapaz, antes tudo conspira para nos fazer admittir
    que elle apresenta a essas causas uma resistencia menor»[1]. Assim
    pensamos tambem, recordando os casos de observação pessoal.

    [1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, vol. XII, pag. 417.

    Um d'estes, notavel entre todos, é o de um paranoico-originario, que já
    aos 17 annos se cria victima de tentativas de envenenamento e em quem
    sempre uma exaggerada autophilia se notou. Mas, nem as idéas de
    perseguição, nem a hyperbolica opinião dos seus meritos lhe embargaram o
    passo no curso de direito, que concluiu. Ridiculo e profundamente
    desequilibrado, de grande memoria e de pequena reflexão, desconfiado,
    phantasista e discursador, foi fazendo o seu caminho até delegado de
    procurador regio na India Portuguesa. Ahi, excessos de toda a ordem,
    juntos a uma febre biliosa, aggravaram-lhe o mal; regressando, muito
    fraco, á metropole, systematisava o seu delirio até ao ponto de viver só
    e de passar habitualmente a ovos e a agua, que elle proprio ia colher de
    noite ás fontes. Um dia, tendo chamado a casa um operario para lhe
    encadernar uns livros, foi por este traiçoeiramente aggredido, recebendo
    na cabeça um extenso e profundo traumatismo. A partir d'esse dia,
    allucinações auditivas, que até então parecia não terem existido,
    irromperam com extranha violencia; ao mesmo tempo apossou-se do doente
    um sentimento intenso de terror e de anciedade que o levou, poucos dias
    depois do traumatismo, a projectar-se de uma janella abaixo, fazendo uma
    luxação. Simultaneamente, illusões visuaes, confusão constante de
    pessoas, rejeição de alimentos e absoluta insomnia. Trazido ao hospital,
    persistiu algum tempo n'esta situação; rapidamente, porém, idéas de
    grandeza, se juntaram. O encadernador, tentando matal-o, foi apenas um
    instrumento de quem, por inveja do seu alto genio incomparavel, buscava
    desfazer-se d'elle. Tornou-se aggressivo então, fabricando uma nova
    religião, crendo-se superior a Christo, e começou a manifestar idéas
    eroticas e allucunações visuaes: masturbava-se, dizia obscenidades,
    proclamava as excellencias da pederastia, dos amores lesbicos, e via
    mulheres núas em attitudes lascivas. Mas, subitamente, derivou a idéas
    hypocondriacas e d'estas a um delirio de humildade, rojando-se no chão,
    beijando os pés dos companheiros, chorando, pedindo perdão a todos,
    rejeitando os alimentos n'um intuito de penitencia. Pouco a pouco
    resvallou no mutismo, a physionomia tornou-se-lhe parada, inexpressiva,
    contrahiu habitos immundos, apresentou, n'uma palavra, o quadro da
    demencia com accentuada desnutrição. Por mezes persistiu n'este estado,
    indifferente a sollicitações naturaes, deitado sobre bancos ou no chão
    da enfermaria, movendo-se como um automato, não respondendo a ninguem.
    Julguei-o então perdido e cheguei a consignar com segurança esta
    impressão clinica. Mas um dia, abruptamente, o doente dirige-se a mim,
    cumprimenta-me polidamente e diz-me que se sente, emfim, restabelecido,
    que deseja sahir, que quer escrever uma carta a um irmão para que venha
    buscado. Do pseudo-demente nada restava; a datar d'esse dia ficou o
    primitivo delirante, o perseguido-ambicioso quasi sem allucinações, que
    podia viver fóra do hospital e que eu, com effeito, deixei sahir algum
    tempo depois. Isto passou-se em 1884; de então até hoje fez o doente
    duas novas entradas no hospital, reproduzindo quasi sem variantes o
    quadro que vimos de esboçar. Conta-me um irmão que o aggravamento da
    doença se manifesta sempre por uma subita explosão de allucinações,
    succedendo a excessos venereos e alcoolicos.

    Como interpretar este caso? É evidente que os defensores da Verrücktheit
    aguda veriam n'elle um excellente exemplar d'esta fórma clinica; os que
    a combatem, porém, pensariam no hallucinatorischer Wahnsinn de
    Krafft-Ebing, na Amencia de Meynert, na Verwirrtheit de Fritsch, no
    Asteniche Delirium de Mayser, na confusão mental, emfim.

    Os primeiros invocariam, com Werner, o caracter egocentrico das
    concepções delirantes do nosso paranoico; os segundos poriam em
    evidencia o contraste entre um delirio de humildade e os delirios de
    perseguições e de grandezas, notariam a phase de estupidez ou demencia
    aguda que não pertence ao quadro da Verrücktheit, fariam valer o estado
    de anciedade, salientariam o phenomeno somatico da desnutrição,
    appellariam, emfim, para a etiologia asthenica do caso.

    Ora, emquanto no quadro clinico descripto tudo se reduz a uma acuidade
    maior dos delirios persecutorio e ambicioso, que a insistencia das
    allucinações explica de sobra, não seria difficil acceitar o diagnostico
    de Verrücktheit, pois que nem a systematisação dos conceitos se perdeu,
    nem o seu caracter egocentrico e autophilico deixou de fazer-se notar; e
    a mesma anciedade poderia acceitar-se como secundario symptoma de
    reacção em face dos erros sensoriaes.

    Mas é já muito difficil explicar n'esta ordem de idéas a phase de
    espirito que conduz o nosso doente a rojar-se no chão, a abater-se
    diante dos companheiros, a recusar os alimentos para se penitenciar e a
    pedir perdão de imaginarias culpas. Por outro lado, pensando na
    etiologia d'este caso, em que concorrem formidaveis elementos de
    esgotamento e de asthenia, é mais facil explicar por ella do que pela
    acuidade do delirio a demencia funccional que por mezes observei.
    Segundo a minha pratica pessoal, o onanismo abusivo seria frequentemente
    o responsavel de subitas invasões allucinatorias, acompanhadas de
    reacções emotivas de uma viva feição depressiva e anciosa em paranoicos
    averiguados. Assim, na interpretação do caso que citei, como de todos os
    de igual physionomia, julgo mais consentaneo com os dados da sciencia
    invocar uma complicação psychonevrotica (seja qual fôr o nome preferido
    para exprimil-a) do que alargar o quadro da Verrücktheit pela creação de
    uma obscura variedade aguda.

    Entretanto, comprehende-se que esta questão seja de certo modo
    secundaria para nós que, como Tanzi e Riva, dissociamos os conceitos de
    Paranoia e de Verrücktheit, vendo n'esta apenas uma habitual, mas não
    necessaria expressão symptomatica d'aquella.

    Que os delirios do paranoico sejam agudos ou chronicos; que se
    acompanhem ou não de allucinações; que conservem sempre ou percam por
    algum tempo a sua costumada systematisação–eis o que nos não preoccupa
    excessivamente, por isso que concebemos a Paranoia como uma constituição
    mental anterior a todos os delirios, sobrevivendo-lhes e podendo até
    existir independente d'elles.

    É tempo, porém, de examinarmos o segundo dos argumentos de Schüle em
    defeza da Verrücktheit aguda.

    Notando, como Westphal, que ha casos em que de um hallucinatorischer
    Wahnsinn se passa immediatamente e sem descontinuidade a um delirio
    systematisado, conclue o insigne psychiatra que a Verrücktheit offerece
    algumas vezes uma phase inicial aguda.

    Contesta Krafft-Ebing, como vimos em outro logar, os casos invocados por
    Schüle, proclamando que a transição do hallucinatorischer Wahnsinn á
    verdadeira Verrücktheit jámais se realisa. Por nossa parte nunca a
    observamos tambem; mas de modo nenhum nos sentimos dispostos, por isso
    só, a contestal-a. Em materia de facto, póde uma unica observação
    positiva ter mais alta significação que toda uma longa experiencia
    negativa; e é certo que não só muitos dos modernos alienistas affirmam
    ter observado casos analogos aos de Schüle, mas já em Delasiauve
    encontramos a affirmação clara de que a _confusão mental_ offerece na
    sua symptomatologia idéas morbidas que podem tornar-se o nucleo de um
    verdadeiro _delirio parcial_.

    Mas se nos não repugna acceitar a realidade dos casos em que Schüle
    baseia o controvertido thema da Verrücktheit aguda, cremos que elles
    podem interpretar-se de um outro modo. Porque não admittir, por exemplo,
    na comprehensão d'esses casos que os delirios asystematico sensorial e
    systematisado se succedem como factos morbidos distinctos, tendo cada
    qual uma etiologia privativa e uma evolução especial–nascendo o
    primeiro de causas asthenisantes e o segundo da maturidade degenerativa,
    marchando o primeiro para a extincção, e o segundo para a chronicidade?
    No cerebro eminentemente vulneravel do paranoico as causas depressivas e
    esgotantes provocariam a apparição de um confuso delirio sensorial, como
    outras determinariam a mania ou a melancolia; sómente, a psychonevrose,
    abalando esse cerebro maximamente predisposto, em vez de liquidar pela
    cura, apressaria a maturidade paranoica, isto é, o momento psychologico
    da eclosão de um delirio systematisado.

    Mas, ainda uma vez: desde que Paranoia e Verrücktheit não são conceitos
    equivalentes, a admissão de uma variedade aguda da segunda de modo
    nenhum infirma a manifesta chronicidade da primeira.

    Posto isto, consideremos o grupo dos delirios que, embora tendo uma
    evolução por vezes muito rapida, apparecendo sem preparação,
    acompanhando-se de multiplas allucinações e terminando pela cura,
    manteem constantemente um apreciavel grau de activa systematisação.

    Pertencem estes delirios ao quadro da Verrücktheit? Parece-nos que a
    resposta affirmativa se impõe. Com effeito, se a sua marcha contrasta
    frisantemente com a dos casos em que as concepções morbidas se
    perpetuam, cobrindo dezenas de annos, é certo que lhes não falta um
    unico dos caracteres essenciaes da Verrücktheit: nem a egocentricidade
    das idéas delirantes, hypocondriacas, eroticas, persecutorias ou
    ambiciosas, nem a coordenação d'ellas em systema, nem o predominio das
    allucinações auditivas, nem a origem essencialmente hereditaria. É,
    pois, a estes delirios, conhecidos em França pelos nomes de
    _polymorphos_ ou _d'emblèe_ que exclusivamente conviria, a meu vêr, a
    designação de Verrücktheit aguda.

    Os que, como Krafft-Ebing, não admittem esta fórma, são constrangidos,
    todavia, a fallar na rara _curabilidade_ da Verrücktheit e na sua marcha
    por vezes subaguda, o que, no fundo, é conceder aquillo que
    ostensivamente se nega. Reconhecer a legitimidade clinica da
    Verrücktheit aguda, no sentido em que acabamos de a definir, parece-nos,
    portanto, inevitavel.

    Por nossa parte hesitamos tanto menos em fazel-o quanto é certo que na
    Verrücktheit vemos apenas uma possivel manifestação da Paranoia.

    Quando entre os delirios systematisados (Verrücktheit) e a constituição
    mental (Paranoia), que elles revellam nos dominios intellectuaes, se
    estabelece uma perfeita equivalencia, o reconhecimento de uma variedade
    aguda e curavel dos primeiros implica uma perigosa negação da doutrina
    que faz da segunda uma doença de evolução essencialmente chronica e
    incuravel, uma degenerescencia, em summa. Mas, precisamente se
    encarregam os factos de pôr em relevo o lado fraco d'esta doutrina e a
    exactidão da que sustentamos com Tanzi e Riva. Os delirios
    systematisados podem revestir a fórma aguda e curar; o que é chronico,
    porém, e não cura jámais é a anomala organisação psychica de que elles
    não fazem senão traduzir a maxima intensidade ideativa. Póde ser aguda e
    curar a Verrücktheit; o que é chronico e não cura é a Paranoia.

    III–A VERRÜCKTHEIT SECUNDARIA

    Os delirios systematisados que succedem ás psychonevroses; sua
    interpretação pathogenica–A opinião de Tonnini; modificação
    introduzida–Dissociação dos conceitos de Paranoia e Verrücktheit.

    A extensão com que na parte historica d'este _Ensaio_ tratamos o velho
    thema da Verrücktheit secundaria, tão caro aos allemães, permitte-nos
    agora limitar muito as considerações de ordem critica a fazer sobre
    elle.

    Disse alguem que, a partir dos trabalhos de Sander e Snell, a pergunta:
    _Existirá uma Verrücktheit primaria?_ começou a ser substituida por esta
    outra: _Existirá uma Verrücktheit secundaria?_ E nós vimos, com effeito,
    que a extensão d'esta diminuiu sempre na medida em que augmentava a
    d'aquella. Entendamo-nos, porém: se os delirios systematisados que
    succedem á mania e á melancolia de longa duração, não merecem realmente
    um logar no quadro clinico da Verrücktheit, que é uma doença
    constitucional, mas no grupo das psychonevroses, de que são apenas
    estados terminaes prefaciando a loucura e revellando já, pela sua mesma
    inactiva e apagada coordenação, um enfraquecimento cerebral, é
    indiscutivel que a observação clinica nos permitte uma ou outra vez
    surprehender delirios persecutorios e ambiciosos vivamente
    systematisados, activos e tenazes, succedendo, todavia, a psychoses de
    manifestações maniacas, melancolicas e até mesmo apparentemente
    demenciaes. Raros, estes ultimos delirios systematisados não o são
    tanto, comtudo, que os não tenham observado psychiatras de todos os
    paizes. Como interpretal-os? Onde achar-lhes logar dentro das modernas
    classificações?

    A resposta parece-nos poder derivar-se da doutrina formulada por
    Tonnini: Estes delirios são paranoicos; e a psychonevrose que os
    precedeu, impotente em si mesma para os crear, provocou-os todavia,
    estimulando a peculiar actividade ideativa de um cerebro degenerescente.
    É possivel que, a não se realisar a incidencia perturbadora do elemento
    emocional implicado na psychonevrose, esse cerebro tivesse feito a sua
    evolução sem manifestações delirantes, comquanto houvessem de
    caracterisal-o sempre um exaggerado subjectivismo e uma apreciavel
    egocentricidade. Vulneravel, porém, elle não póde resistir ás causas que
    nos espiritos sãos determinam as psychoses; uma d'estas installou-se,
    portanto. O que deverá succeder a partir d'esse momento? Naturalmente,
    alguma coisa diversa do que costuma passar-se nos cerebros normaes: em
    vez de marchar para a cura ou para a demencia franca, a psychonevrose
    apressará aquella _maturidade degenerativa_ de que fallam Tanzi e Riva
    e que tem por expressão intellectual um delirio systematisado. Já em
    manifesto desequilibrio e já cançado pela passagem tormentosa da
    psychonevrose, o cerebro não poderá dar a este delirio secundario a
    forte seiva de que se alimentam os primitivos; entretanto, dar-lhe-ha
    ainda a força psychica precisa a uma evolução que póde ser longa e de
    certo modo movimentada. É n'este especial sentido que, a meu vêr, a
    Verrücktheit secundaria deve ser admittida.

    Note-se, porém, que dizemos Verrücktheit e não Paranoia, no que
    divergimos de Tonnini. E esta divergencia não é só de fórma, mas de
    fundo, não apenas de nomenclatura, mas até certo ponto de interpretação.
    Com effeito, se bem comprehendemos todo o pensamento do escriptor
    italiano, a psychonevrose sommar-se-hia com uma simples predisposição
    vesanica para determinar a Paranoia, que os delirios systematisados
    secundarios symptomatisam; ao contrario, eu penso que a Paranoia
    preexiste á psychonevrose, embora tendo uma fórma mitigada e revestindo
    até ao advento d'esta uma feição mal definida, um verdadeiro typo
    indifferente. A psychonevrose que, na interpretação de Tonnini,
    contribuiria essencialmente para a constituição da Paranoia, não faz, a
    meu vêr, mais do que accentual-a, provocando a Verrücktheit, isto é,
    imprimindo-lhe um definido typo delirante. Todas as degenerescencias
    teem graus intensivos ou de gravidade: na ordem das paranoicas a mais
    grave seria a que mais rapidamente chega á maturidade, a mais precoce, a
    que desde a puberdade se revella por delirios systematisados, isto é,
    pela _Verrücktheit originaria_; a menos grave seria a que só attinge a
    maturidade por virtude de um abalo emocional, a mais tardia, a que se
    manifesta pela _Verrücktheit secundaria_. Mas em qualquer dos dois
    casos, como cm todos, a anomala constituição cerebral que na essencia
    caracterisa a Paranoia, é congenita. E eis porque eu não hesito em
    acceitar uma _Verrücktheit secundaria_, como não hesitei em admittir uma
    _Verrücktheit aguda_, comquanto sustente a _primitividade_ e a
    _chronicidade_ essenciaes da Paranoia.

    IV–O RACIOCINIO E OS DELIRIOS PARANOICOS

    Erros doutrinarios de Lasègue e Foville sobre a interpretação
    pathogenica dos delirios systematisados; como se perpetuaram na
    psychiatria franceza–A autoobservação e o raciocinio não representam um
    papel na génese dos delirios paranoicos–Depoimento dos factos–A
    primitividade dos delirios paranoicos, sua origem ideativa.

    Entre os erros concebidos a proposito da origem, sempre anciosamente
    procurada, dos delirios de perseguições e de grandezas, um ha que,
    embora contradictado pela experiencia, se divulgou, sobretudo em França,
    com manifesto prejuizo de uma sã pathogenia: refiro-me ao que faz
    intervir na génese d'estes delirios a autoobservação e o raciocinio do
    doente. Lasègue, affirmando que o perseguido, normal até ao momento da
    invasão da doença, annunciada por um vago, mas profundo mal-estar, se
    perscruta, se dobra sobre si mesmo, e acaba, não sem hesitações, por
    encontrar na hostilidade dos homens a interpretação dos seus
    soffrimentos, foi o creador d'esse erro funesto, que Foville generalisou
    mais tarde, fazendo proceder a megalomania da necessidade que o
    perseguido sente de explicar-se os motivos das acintosas miserias
    soffridas.

    Repetida como uma sorte de _cliché_ por successivas gerações de
    alienistas franceses, esta gratuita vista do espirito, que só Morel
    repudiou, insinua-se ainda nos livros contemporaneos; e assim é que,
    embora sem um só caso em apoio, Magnan, á maneira de Foville, enumera o
    _raciocinio_ entre os fundamentos possiveis da transição, no Delirio
    Chronico, da phase persecutoria á phase ambiciosa.

    Comecemos por examinar esta singular pathogenia em relação ao delirio de
    perseguições a que primeiro se applicou.

    Segundo ella, o perseguido, como um homem são, abruptamente assediado de
    obscuras emoções dolorosas, buscaria comprehendel-as, determinar-lhes as
    causas, fazendo conjecturas e construindo hypotheses, entre as quaes
    está a que, por successivas e mais ou menos demoradas exclusões, elle
    acceita como a melhor e mais explicativa: a de uma perseguição.

    A apparente nitidez d'esta pathogenia seduziu os espiritos; e, comtudo,
    ella é radicalmente falsa.

    Em primeiro logar, a observação clinica protesta contra, a normalidade
    do perseguido anteriormente á invasão do delirio, proclamando-o não só
    um predisposto, as mais das vezes hereditario, mas um verdadeiro
    candidato á loucura,

    Antes de imaginar o seu Delirio Chronico anti-degenerativo,
    releve-se-me a expressão, Magnan reclamava para os delirantes
    systematisados uma ancestralidade vesanica de duas gerações, pelo menos;
    e esta idéa, já antes emittida por Morel, é a que sempre dominou as
    psychiatrias allemã e italiana, accordes em acceitar como
    hereditariamente invalido o cerebro paranoico. Por outro lado, jámais se
    estudou de perto a vida predelirante de um perseguido sem que n'ella se
    encontrassem seguras manifestações de exaggerado subjectivismo, de
    autophilia, de egocentricidade, tornando difficil, melindroso e ás vezes
    chocante o commercio social d'este paranoico. E, como se tudo isto não
    fosse bastante para condemnar a ingenua supposição da normalidade de um
    espirito, que ámanhã fabricará, sem causas determinantes, um absurdo e
    tenacissimo delirio, surge não raro no perseguido a estygmatisação
    physica da degenerescencia.

    Em segundo logar, é absolutamente inexacto que o inicial symptoma da
    doença seja no perseguido, como a theoria inculca, um phenomeno obscuro
    de ordem sensivel, uma vaga e confusa emoção de que se encontre
    excluido, como nos prodromos de outras affecções, um elemento ideativo.
    A experiencia diz precisamente o contrario.

    Quando o perseguido começa, no periodo chamado de incubação do delirio,
    a isolar-se da familia e dos amigos, a evitar o convivio, a alterar os
    seus habitos de existencia, a irritar-se, se o censuram ou simplesmente
    o interrogam, fal-o já por desconfiança do meio, que reputa hostil. É
    certo que, a titulo de vaga, mas persistente emoção egocentrica, essa
    desconfiança, mitigada e ainda compativel com a vida social, o
    caracterisou sempre; agora, porém, ella tornou-se definido _sentimento_
    pela clara apparição no espirito de uma _idéa_ de hostilidade e de
    perigo. A inquirição perscrutadora do doente a tudo quanto o cerca, a
    procura minuciosa e subtil de provas palpaveis e evidentes da
    mal-querença dos outros, a eclosão, emfim, das illusões sensoriaes,
    tudo prova, irrecusavelmente, que a morbida sensibilidade do perseguido
    se exerce sob o dominio de um pensamento definido, de uma _idéa_ que a
    orienta, que lhe imprime uma direcção, que a conduz. A illusão auditiva,
    phenomeno prodromico dos mais precoces e do qual a allucinação ha de
    surgir, suppõe já um erethismo sensorial a que preside, consciente e
    nitida, embora ainda susceptivel de ulteriores desdobramentos, a _idéa_
    de uma hostilidade exterior. E é mesmo, é justamente porque essa
    idéa está presente no espirito e se lhe impõe que o perseguido
    paralogisticamente exhibe, como provas de uma mal-querença,
    interpretações aggressivas das palavras mais indifferentes, dos sons
    mais insignificativos, dos gestos e dos successos mais incaracteristicos;
    cahindo sinceramente n'uma petição de principio, o perseguido prova que
    no seu cerebro existe uma idéa que o tyrannisa, que o empolga, e que,
    tornada um centro de associações psychicas, lhe vicia o raciocinio.
    Que essa idéa, como todas, proceda de preexistentes emoções, eis o que
    não contestamos, porque tudo na ordem do pensamento directa ou
    indirectamente reponta do humus da sensibilidade; mas só depois que
    ella espontaneamente appareceu na consciencia é que o delirio se
    iniciou. Não é, pois, emotiva, mas ideativa a origem directa e
    immediata d'este.

    O que-se passa na melancolia esclarece, pelo contraste, a situação
    paranoica. Ali, com effeito, o phenomeno inicial é d'ordem emotiva, pois
    que se reduz a uma depressão consciente, que estados de cenesthesia
    morbida provocam: a tonalidade psychica baixa, o doente sente-se diverso
    do que fóra, a dôr moral invade-o, e é ao fim d'algum tempo d'esta
    situação anormal que o delirio surge, quer como tentativa de
    interpretação do novo modo de ser, quer como adequada expressão ideativa
    de um sentimento geral de impotencia. As idéas de crime, de peccado, de
    doença incuravel, de miseria, de incapacidade, de possessão, n'uma
    palavra, todas as idéas que formam o contheudo do delirio melancolico,
    são ulteriores á depressão dolorosa, que é o facto morbido primitivo.
    Essas idéas não procedem do inconsciente, não irrompem de obscuras
    emoções por ignorados e mysteriosos processos, mas succedem a um
    consciente sentimento de dôr, que tem as suas raizes em phenomenos
    somaticos apreciaveis. O melancolico sente-se mudado, o que é exacto, e
    torna-se porisso autoobservador, primeiro, e delirante depois; o
    perseguido, esse, sente mudado em relação a si o mundo exterior, o que é
    falso, o que presuppõe uma ideação anormal e, portanto, um começo de
    delirio, que a observação objectiva apenas ajudará a systematisar.
    Emquanto o melancolico, abatido e humilhado por um sentimento real de
    dôr, que é a expressão consciente de perturbações cenesthesicas, se
    concentra e se interroga, fazendo um delirio _secundario_, o perseguido,
    egocentrico e autophilico, partindo de uma idéa chimerica de
    hostilidade, abre os sentidos e observa o mundo externo, delirando
    _primitivamente_.

    A autoobservação e o raciocinio na génese do delirio de perseguições não
    passam de miragens do espirito. No perseguido a attenção é dirigida em
    sentido objectivo; e o raciocinio, longe de intervir na formação do
    delirio, é por elle radicalmente falseado sempre que se trata das
    relações entre o mundo exterior e o Eu. A verdade clinica é, pois,
    precisamente o contrario do que affirma a doutrina de Lasègue; a verdade
    é que o delirio surge á sua hora, como o fructo amadurece e o grão
    germina: espontaneamente, fatalmente.

    Vejamos agora o que se dá com o delirio ambicioso que succede ao de
    perseguições.

    Haverá n'este caso, como pretendia Foville e como á saciedade se tem
    repetido, uma transformação consciente e raciocinada?

    O que acabamos de dizer sobre a direcção exclusivamente objectiva da
    attenção do perseguido, faz desde já suppôr o contrario. A attitude
    reflexiva, que seria necessaria para indagar as causas de uma
    hostilidade do meio, não está nos habitos do perseguido; por outro lado
    ainda, não é de modo nenhum natural que se procurem as origens de um
    facto acreditado, como os dogmas, com a inabalavel fé, que dispensa
    interpretações e as rejeita mesmo.

    Mas as provas directas da falsidade clinica da doutrina de Foville
    abundam. Assim, a observação permitte affirmar que não só o perseguido
    nunca formúla a pergunta: _Porque me perseguem?_ mas que, interrogado
    n'este sentido, invariavelmente responde: _Não sei_. O absurdo de uma
    perseguição sem causas, de uma hostilidade immotivada não choca esta
    ordem de doentes; e é debalde que se tenta dirigir-lhes a attenção para
    o exame de um assumpto que parece não os interessar. Absorvidos pelas
    allucinações ou empenhados em conjurar os effeitos de uma aggressão
    implacavel, os perseguidos não sentem a necessidade de inquirir as
    razões d'ella; e todo o insistente convite n'este sentido serve apenas
    para os impacientar, quando os não leva a entrevêr no solicito
    observador um cumplice de imaginarios inimigos.

    Mas ha mais. Se o delirio ambicioso podesse installar-se a titulo de
    explicação de precedentes perseguições, nada seria mais facil do que
    provocal-o: bastaria suggerir ao perseguido os themas habituaes da
    megalomania, deixando-lhe a escolha. Por outros termos: se o raciocinio
    bastasse, como candidamente pretendia Foville, a operar a transformação
    de uma personalidade,–para fazer-se de um perseguido um megalomano
    seria necessario apenas dizer-lhe precocemente o que, segundo o auctor
    francez, elle se dirá um dia, isto é, que, não podendo haver
    perseguições sem causa, o encarniçamento dos seus inimigos deve
    naturalmente explicar-se quer pela inveja dos altos meritos pessoaes do
    doente, quer pelo interesse de supprimir um individuo destinado, como
    elle o é, talvez, a reinar, a dirigir um partido, a instituir uma
    religião, a reformar uma sociedade, a mudar a face de uma sciencia. Ora,
    a verdade é que suggestões d'esta ordem não só não abalam os perseguidos
    que, aliás, se tornarão mais tarde megalomanos, mas determinam n'elles
    ora uma franca hilaridade, ora indignados protestos. Repeti muitas
    vezes, no começo da minha carreira, experiencias d'esta natureza,
    conseguindo apenas provocar dos doentes contestações como estas: que não
    estão doidos para desconhecerem a sua situação; que não admittem
    zombarias; que as historias phantasticas são boas para entreter creanças
    e idiotas; que não é digno escarnecer de quem soffre.

    É, pois, radicalmente falso e absolutamente contrario aos dados da
    observação que o delirio de grandezas appareça como tentativa feita para
    explicar perseguições soffridas. A idéa ambiciosa, como a de
    hostilidade, surge no espirito de um modo espontaneo e inconsciente; do
    delirio de grandezas póde, pois, repetir-se o que foi dito do delirio de
    perseguições: que elle irrompe á sua hora, como o fructo amadurece e o
    grão germina.

    É só depois de installado por um processo a que são extranhos o
    raciocinio e a vontade, que o delirio de grandezas servirá para explicar
    o de perseguições, como este, por sua vez, servira ao doente para
    interpretar os factos da sua vida anterior. É só a partir do momento em
    que se crê excepcionalmente grande pelo genio, pelo nascimento ou pela
    fortuna que o paranoico principia a explicar-se as miserias supportadas.

    Note-se, porém, este facto curioso e imprevisto em face da theoria que
    criticamos: o delirio de grandezas, dando um solido ponto de apoio ás
    idéas de perseguição, que esclarece e interpreta,–bem longe de as
    radicar, tornando-as definitivamente preponderantes no espirito do
    paranoico, tende, pelo contrario, a diminuil-as e a subalternisal-as em
    proveito proprio.

    Tal é o irrecusavel depoimento da clinica, absolutamente incompativel,
    como se vê, com a theoria que faz dos delirios paranoicos resultados de
    um esforço da intelligencia para comprehender e interpretar vagos e
    obscuros estados emotivos. Se essa theoria prevalecesse, a autonomia
    nosographica do delirio systematisado de perseguições seria inteiramente
    chimerica; e todo o esforço de Lasègue para o destacar da melancolia
    delirante resultaria inane, pois que a pathogenia, a despeito de todas
    as possiveis differenciações symptomaticas, identificaria
    definitivamente as duas doenças.

    Tendo de voltar ainda a este assumpto, procuraremos então interpretar as
    hesitações dos perseguidos e megalomanos na exhibição dos respectivos
    delirios.

    Por mal comprehendido, esse facto contribuiu não pouco para acreditar a
    phantastica doutrina da génese consciente e reflexiva dos delirios
    systematisados. A hesitação, parecendo implicar a duvida, iria bem com a
    opinião que faz d'esses delirios _conjecturas_ de um Eu que se observa,
    _hypotheses_ de um espirito que se perscruta, buscando dar-se conta de
    accidentaes perturbações emotivas.

    Veremos opportunamente que a interpretação do facto é muito outra; que
    essas hesitações não são senão o resultado da lucta que se exerce entre
    idéas nascidas do inconsciente e o systema de conceitos formados pela
    educação e até um certo tempo impostos pelo meio social.

    De modo analogo explicaremos o facto, erroneamente interpretado pelos
    psychiatras francezes, da inquietação dos perseguidos no periodo inicial
    da doença.

    V–AS ALLUCINAÇÕES E OS DELIRIOS PARANOICOS

    Erro de Foville sobre as relações dos delirios systematisados com as
    allucinações; como se perpetuou na psychiatria franceza–Uma antiga idéa
    de Magnan, exposta por Legrain, sobre este assumpto; falsidade d'essa
    idéa–Primitividade da concepção sobre a allucinação nos delirios
    paranoicos–Uma rectificação de Magnan.

    Dada a extrema frequencia dos erros sensoriaes, sobretudo das
    allucinações auditivas, na loucura systematisada, tem-se perguntado se
    as perturbações da sensibilidade especial precedem as idéas delirantes,
    servindo-lhes de base e fornecendo-lhes o contheudo, ou se, pelo
    contrario, apenas lhes succedem como uma sorte de confirmação.

    Lasègue, sustentando que as allucinações auditivas, unicas, segundo
    elle, compativeis com o delirio de perseguições, não são nem o
    antecedente necessario, nem o consequente inevitavel d'esta vesania,
    estabeleceu claramente a independencia essencial dos erros conceptuaes e
    perceptivos na mais commum das fórmas delirantes da Paranoia.

    Retomando, porém, annos depois a questão, Foville admittiu para ella
    duas ordens de soluções, desigualmente frequentes: uma, relativamente
    rara, em que o delirio é primitivo e as allucinações secundarias; outra,
    muito commum e, no delirio de perseguições, constante, em que a relação
    inversa se realisa.

    «O delirio, dizia elle, póde ou principiar _d'emblèe_ pelos conceitos ou
    affectar primeiro as sensações e extender-se depois ás idéas de um modo
    secundario»[1]. E, analysando cada um d'estes casos, commentava: «N'este
    ultimo (primitividade das allucinações) as funcções puramente
    intellectuaes não são, desde o começo, intrinsecamente lesadas, antes
    continuam a executar-se segundo a logica. Como faz notar Delasiauve, a
    faculdade syllogistica persiste intacta: emquanto se exerce sobre dados
    exactos, o producto das suas operações é normal e sensato; quando, pelo
    contrario, se exerce sobre dados falsos, isto é, sobre sensações
    imaginarias ou mal interpretadas, sobre allucinações e illusões, o
    producto encontra-se forçosamente em contradicção com a realidade. O
    delirio das sensações tem por effeito engendrar o delirio dos conceitos,
    sem que a intelligencia seja em si mesmo lesada e sem que ella deixe de
    funccionar sãmente, quando não é induzida em erro. Tal é um dos modos de
    producção e, não hesitamos em crêl-o, o _mais vulgarmente observado_ da
    loucura parcial … Mas esta ordem na successão dos phenomenos morbidos,
    embora a _mais frequente_, não é constante. Acontece tambem _algumas
    vezes_ gue a perturbação começa por concepções erroneas, que succedem a
    uma idéa fixa na ausencia de qualquer allucinação. N'este caso ainda,
    faz-se ordinariamente uma propagação analoga á que indicamos ha pouco,
    mas em sentido inverso. Ao fim de certo tempo, as concepções delirantes
    transformam-se em sensações falsas, o delirio extende-se ás percepções;
    o doente torna-se allucinado, porque era já delirante, em vez de
    tornar-se, como ha pouco, delirante, porque era allucinado»[2].

    [1] Foville, _Obr. cit._, pag. 341.

    [2] Foville, _Obr. cit._, pag. 341.

    Ora, ao passo que o megalomano-perseguido seria as mais das vezes,
    segundo Foville, um delirante-allucinado, o perseguido-megalomano, pelo
    contrario, seria sempre um allucinado-delirante.

    Por muito singular que se nos affigure, este modo de vêr de Foville
    sobre a primitividade das allucinações na Paranoia persecutoria teve um
    exito só comparavel ao da sua theoria das origens reflexivas e
    raciocinadas do delirio ambicioso. Repetido em milhares de tiragens
    pelos alienistas francezes, este novo _cliché_ pathogenico perpetuou-se
    como o primeiro. Magnan, por exemplo, acceitava-o ainda em 1886 e
    dava-lhe curso nos trabalhos dos seus discipulos. Como Foville, o medico
    de Sant'Anna admittia que nos delirios systematisados a allucinação póde
    tanto ser um symptoma derivado da persistencia de conceitos falsos, como
    um phenomeno primitivo sobre que assenta e de que procede a ideação
    pathologica. O primeiro d'estes casos dar-se-hia nos _delirios
    d'emblèe_; o segundo no _Delirio Chronico_. Os degenerados, unicos
    capazes de fabricarem um delirio sem preparação, e de serem, portanto,
    megalomanos-perseguidos, entrariam no grupo dos delirantes-allucinados;
    os normaes, unicos a quem se consigna o Delirio Chronico e, portanto,
    perseguidos-megalomanos, seriam allucinados-delirantes.

    Eis como, interpretando o pensamento do mestre sobre as relações da
    allucinação com as idéas morbidas nos _delirios d'emblèe_ e no _Delirio
    Chronico_, se exprimia Legrain: «O mecanismo segundo o qual se produzem
    as allucinações, varia nos dois casos. No Delirio Chronico ellas são
    essencialmente primitivas; todo o delirio é construido sobre ellas, e se
    ellas não existissem, o delirio, que lhes é consecutivo, não existiria.
    Nos degenerados delirantes, quando existem, as allucinações formam-se de
    um outro modo. São symptomas contingentes da doença, não a sua base
    immutavel, pois que numerosos delirios degenerativos evolucionam sem
    allucinações. Quando estas complicam a scena morbida, é o proprio
    delirio que as _provoca_, as mais das vezes, em virtude do seguinte
    mecanismo: Todos os centros cerebraes se encontram em estado completo de
    erethismo; o cerebro anterior elabora as idéas delirantes e evoca as
    imagens nos centros posteriores; as imagens assim evocadas véem
    representar-se nos centros anteriores com uma vivacidade tal que são
    interpretadas como outras tantas realidades. Assim, a allucinação
    encontra a sua causa directa n'uma série de idéas delirantes que a fazem
    nascer, e produz-se como um verdadeiro reflexo. O caminho centripeto
    parte dos centros anteriores, em que é elaborada a idéa delirante, ganha
    as regiões posteriores do cortex, em que a imagem é evocada, depois
    volta aos centros anteriores, trazendo a imagem, que vem misturar-se ao
    delirio e se impõe como realidade … Muito outra é a allucinação no
    Delirio Chronico: nasce primitivamente, _sur place_, nas regiões
    posteriores do cortex, sem ser provocada. Uma lesão local, lentamente
    progressiva, a produz; ella é a expressão funccional de uma lesão
    anatomica. Partindo d'esse ponto, ganha as regiões anteriores, que
    surprehende realmente. O cerebro anterior, em plena posse do seu
    equilibrio, da sua ponderação, interpreta-a como um facto real e deduz
    d'ella conclusões logicas, que são as primeiras idéas delirantes. Vê-se
    então evolucionar um delirio absolutamente sistematisado, lançando uma
    perturbação na intelligencia intacta e ponderada, que reage com todas as
    suas energias. No degenerado, a adhesão no delirio é plena e inteira
    desde o começo; no delirante chronico ella não é senão lenta e
    progressiva, fazendo-se a systematisação pouco a pouco, mercê de
    persistentes allucinações»[1].

    [1] Legrain, _Du délire chez les dégénérés_, pag. 141.

    Se n'esta passagem de Legrain substituirmos as expressões de _cerebro
    anterior_ e _posterior_ pelas suas equivalentes antigas de
    _intelligencia_ e _sensibilidade especial_, reapparece-nos a citação
    precedente de Foville. Uma velha doutrina, pois, resurge sob roupagens
    novas.

    Será necessario affirmar n'esta altura do nosso trabalho que a
    primitividade das allucinações nos delirios paranoicos é ainda uma
    ficção, que o exame despreoccupado dos factos annulla e apaga?

    É incontestavel que, encarando de um modo geral as relações possiveis
    dos erros sensoriaes com os conceitos morbidos, são legitimos e a cada
    passo se realisam os casos enumerados por Foville: se ha delirios que
    provocam as allucinações, outros ha, que, ao contrario, as teem por base
    e ponto de partida. Isto é de tal modo reconhecido que os ultimos
    d'estes delirios teem na psychiatria contemporanea o nome consagrado de
    _allucinatorios_ ou _sensoriaes_ (Wahnsinn), que allude a um fundamento
    perceptivo, como os primeiros teem o de _systematisados_ (Verrücktheit),
    que inculca uma coordenação ideativa. Sómente, a experiencia clinica
    ensina que os deliros sensoriaes ou são absolutamente dissociados e
    dispersivos ou apenas attingem uma frouxa coordenação, ao passo que os
    delirios francamente systematisados podem, como o persecutorio na sua
    variedade litigante, evolucionar sem a intervenção de estados
    allucinatorios.

    De resto, o depoimento da clinica não seria difficil de prevêr.
    Allucinações nascidas _sur place_, sem uma idéa que as provoque e lhes
    forneça o contheudo, só podem ser, como aliás nota Legrain, autonomicos
    effeitos de um erethismo dos centros sensoriaes, anatomica ou
    funccionalmente compromettidos; mas, sendo assim, ou o cerebro anterior
    as corrige e nenhum delirio é então possivel, ou, perdido o _contrôle_
    normal, elle as acceita e delira, não n'um sentido determinado, mas em
    tantas direcções differentes quantas as allucinações, cujo contheudo
    nenhuma razão ha para não suppôr variavel e proteiforme como nos
    delirios sensoriaes das anemias, das febres, das intoxicações e das
    nevroses. Sem a direcção superior de um conceito ou, para fallarmos a
    linguagem de Magnan e Legrain, sem a intervenção provocadora do cerebro
    anterior, os centros sensoriaes, autonomisados e procedendo por conta
    propria e exclusiva, exportam, como nos sonhos, para as regiões
    superiores do cortex, os mais caleidoscopicos elementos de ideação; se,
    com materiaes d'esta natureza, um delirio tem de formar-se, elle não
    poderá ser senão, como o _hallucinatorischer Wahnsinn_ de Krafft-Ebing,
    alguma coisa de tormentoso e incoherente.

    Assim, nem _à posteriori_, isto é, tomando para base a clinica, nem _à
    priori_, isto é, partindo da doutrina da percepção, é licito acceitar a
    primitividade das allucinações nos deirios systematisados.

    Discutamos, entretanto, no terreno especial da Paranoia persecutoria a
    affirmação de Foville, retomada pela escóla de Sant'Anna.

    Fallar, como Legrain, de uma lesão anatomica dos centros sensoriaes no
    delirio de perseguições, é, evidentemente, fazer um abuso de linguagem,
    pois que jámais uma autopsia denunciou em paranoicos qualquer coisa de
    parecido com um desarranjo palpavel e visivel d'essas limitadas regiões
    do cortex. Perturbações d'ordem dynamica, alterações funccionaes,
    desequilibrios de movimento cellular, eis quanto o estado actual da
    physiologia permitte admittir. N'este sentido, o termo de _erethismo_,
    empregado por Legrain, parece-nos feliz. Mas provocado por que causa,
    esse erethismo?

    Não o diz o escriptor citado, e é lamentavel.

    Excluidas, naturalmente, as intoxicações e as asthenias cerebraes, que
    são as causas mais frequentes de estados allucinatorios, não vejo que
    nos fiquem para explicar a sobreexcitação funccional dos centros
    sensoriaes senão as idéas, delirantes; postas estas de parte, nada
    resta, a invocar na interpretação do phenomeno,–tão importante, aliás, e
    tão essencial, no dizer da escóla franceza, que n'elle repousa a doença
    inteira.

    Passemos, porém, ao de leve, sobre esta deficiencia de analyse e
    admittamos por um instante que uma causa, ainda não definida, vem
    provocar e determinar nos centros corticaes da sensibilidade especial um
    erethismo de que o cerebro anterior não partilha. O que nos diz a
    theoria da percepção que deveria succeder n'esta hypothese?
    Surprehendidas pelas extranhas sensações exportadas d'esses centros
    hyperfunccionantes, as regiões superiores da intelligencia entrariam com
    ellas em conflicto; e o resultado d'este, dada a integridade e
    normalidade d'essas regiões, a que incumbe a funcção suprema do
    _contrôle_ psychico, seria, indiscutivelmente, a correcção, a
    rectificação definitiva dos erros sensoriaes. É isto, como se sabe, o
    que acontece nos casos de illusões e allucinações em espiritos normaes.
    Fallar da integridade de uma razão, que constroe um delirio sobre
    percepções falsas, é um perfeito não-senso; admittir a normalidade de
    uma região de _contrôle_, que centros subordinados perturbam e vencem, é
    cahir n'uma grosseira contradicção. Por si sós, dil-o a experiencia
    clinica e ensina-o a theoria da percepção, os erros sensoriaes não
    falseiam os juizos, porque, para corrigir as illusões e allucinações,
    dispõe o cerebro de recursos, que vão desde a elementar contraprova da
    acção de um sentido pela dos outros até ao testemunho alheio e ao
    confronto dos dados perceptivos com o preexistente systema de conceitos
    e sentimentos, que é o fundo mesmo da personalidade sã.

    Se os erros sensoriaes não são corrigidos, mas acceites e elaborados
    como realidades objectivas, é que uma d'estas duas hypotheses se dá: ou
    o allucinado não empregou os recursos de rectificação e _contrôle_ da
    percepção exterior, porque, delirante já, viu nas allucinações uma
    confirmação dos seus conceitos; ou os empregou sem exito, porque o
    insistente depoimento dos centros sensoriaes em erethismo, acabou por
    vencer os argumentos da razão.

    Qual d'estas duas hypotheses se realisa no delirio de perseguições?
    Segundo o antigo ensino da escóla de Sant'Anna, de que Legrain é um
    interprete eminente, a primeira teria logar nos perseguidos _d'emblèe_,
    que são degenerados, e a segunda nos delirantes chronicos, que são
    normaes até á invasão da doença.

    É inutil repetir que não acceitamos esta distincção, e que a primeira
    das hypotheses formuladas é para nós a que tem logar em todos os casos
    não só de delerio de perseguições, mas dos outros delirios
    systematisados.

    Analysemos, comtudo, as affirmações de Legrain em relação ao Delirio
    Chronico.

    Estabelecendo com Magnan (como o fizera Lasègue para o perseguido) que o
    delirante chronico é um ser normal até á invasão da doença, Legrain
    compraz-se em vêr na incubação d'esta uma lucta da razão com os morbidos
    elementos invasores. Ao passo que o degenerado supportaria, por assim
    dizer, o seu delirio,–espontanea manifestação de um desequilibrio
    preexistente, o normal _fabrical-o-hia_ lentamente, hesitantemente e
    raciocinando sempre. É a velha doutrina. Mas como de um raciocinio só
    podem surgir conclusões falsas quando as premissas o são tambem,
    Legrain, á maneira de Delasiauve e de Foville, faz das illusões e
    allucinações, nascidas _sur place_ nos centros sensoriaes, o elemento
    morbido aggressivo e a premissa erronea de que o cerebro anterior
    deduzirá, emfim, o delirio.

    Acabamos de vêr, e toda a insistencia n'este ponto seria impertinente,
    que a incapacidade de corrigir percepções erradas implica deficiencia de
    senso critico e, portanto, insanidade mental, anormalidade psychica. Nem
    mesmo admittindo com Legrain que o cerebro reage contra a allucinação
    invasora com todas as suas energias, poderia evitar-se a conclusão, pois
    que a derrota denuncía a fraqueza e inferioridade d'essas energias.

    Mas será verdade, ao menos, que o perseguido reaja contra as illusões e
    allucinações incessantemente originadas nos centros sensoriaes
    sobreexcitados? De modo nenhum. Bem ao contrario do que Legrain
    pretende, as illusões e allucinações são para os perseguidos, como para
    todos os paranoicos, pontos de apoio e não de partida do delirio,
    confirmações e não elementos formativos d'elle, eccos dos erros
    conceptuaes e não o seu fundamento, n'uma palavra, precarios symptomas
    derivados e não phenomenos essenciaes e primitivos.

    A demonstração d'esta verdade clinica não será difficil, nem longa.

    Uma só passagem de Magnan a fará. Fallando do que se passa no chamado
    periodo de incubação do delirio persecutorio, escreve n'um dos seus
    ultimos trabalhos o eminente observador: «Os doentes experimentam um
    mal-estar, um descontentamento que não sabem explicar-se; tornam-se
    apprehensivos, inquietos, _desconfiados, crendo notar certas mudanças_
    na maneira de ser da familia e mesmo dos extranhos. Dormem mal, teem
    menos appetite, menos aptidão para o trabalho e para os negocios. N'esta
    época poderiam ser tomados por hypocondriacos. Pouco a pouco
    _parece-lhes que os observam_, que _os olham de travez_, que os
    _desprezam_; duvidam, hesitam, permanecem fluctuantes entre idéas
    variadas, acceites primeiro, repudiadas em seguida, admittidas pouco a
    pouco e dando logar, emfim, a interpretações delirantes … O doente
    persiste assim perturbado, inquieto, por vezes excitado, todo entregue
    ás _concepções penosas que principiam a assaltal-o_ e _indifferente a
    tudo o que não parece prender-se com o seu delirio_. Os grandes
    acontecimentos não o commovem, as perturbações politicas deixam-no
    indifferente, as perdas de dinheiro e as luctas de familia não o
    emocionam. Pelo contrario, factos insignificantes, mas que se relacionam
    com as suas preoccupações penosas, que as justificam, adquirem uma
    importancia extrema e provocam-lhe a colera. Se uma pessoa se esquece de
    o saudar, vê n'isto uma injuria voluntaria; se alguem tosse ou escarra
    ao pé d'elle, se diante d'elle uma janella ou uma porta se abrem, se-uma
    cadeira se desloca, reconhece outros tantos testemunhos de despreso. As
    provas de benevolencia e de afeição tornam-se zombarias, e o proprio
    silencio é uma offensa. O vago apaga-se pouco a pouco; á hesitação
    succede a certeza, e, fortificadas por todas estas provas, as suas
    convicções tornam-se inabalaveis. N'estas condições, o doente, sempre em
    guarda, espia, escuta, surprehende n'uma conversação uma phrase que se
    attribue–eis a interpretação delirante; ou se crê aggravado por uma
    palavra insignificante, mas cujo som apresenta alguma analogia com uma
    injuria grosseira e que elle confunde com esta–eis a illusão. Depois, a
    _idéa constante de uma perseguição_, a tensão incessante da
    intelligencia acabam por _despertar o signal representativo da idéa_, a
    imagem tonal; n'uma palavra, a allucinação auditiva produz-se»[1].

    [1] Magnan, _Obr. cit._, pag. 237.

    Não é possivel estabelecer de um modo mais preciso e mais eloquente a
    primitividade do delirio e a secundariedade da allucinação. Todo o
    commentario seria pallido, todo o retoque prejudicial a este quadro
    _d'après nature_.

    A questão de saber corno Magnan exprime em 1893 uma opinião
    diametralmente opposta á de Legrain, que em 1886 se dava como interprete
    da escóla de Sant'Anna, é secundaria para nós e sem interesse para a
    sciencia.

    Cremos que n'este caso, como no de Gérente, Magnan se contradicta a si
    proprio, fazendo do seu Delirio Chronico edições successivas e todas
    differentes.

    Felizmente, e é isto o que nos importa notar, a correcção introduzida
    ultimamente no capitulo das relações entre os erros perceptivos e
    conceptuaes, é conforme á verdade clinica.

    VI–AS OBSESSÕES E OS DELIRIOS PARANOICOS.

    A inquietação dos perseguidos e as hesitações de certos paranoicos na
    exhibição do delirio; como se explicam estes factos–A doutrina classica
    das obsessões; sua inexactidão–Idéas do auctor; inesperada confirmação
    d'ellas por J. Séglas–A obsessão é um delirio systematico abortado;
    este é uma obsessão progressiva–Demonstração; analyse dos factos–Como
    se fórma o Eu; estratificações systematisadas–A personalidade e as
    subpersonalidades; o atavismo.

    Se as idéas que formam o contheudo dos delirios paranoicos, não traduzem
    um esforço de reflexão exercendo-se sobre estados emotivos, nem
    reconhecem por causa os erros sensoriaes, como cremos ter provado, a
    conclusão se impõe de que ellas surgem na consciencia á maneira de
    obsessões.

    Comquanto sustentada por uma parte dos psychiatras allemães e italianos,
    esta affirmação está de tal modo em desaccordo com as radicadas
    tradicções da escóla franceza que não será sem vantagem discutil-a.
    Antes, porém, seja-me licito notar que, acceite a origem obsessiva dos
    delirios systematisados, dois factos, que os alienistas francezes não
    lograram explicar senão phantasiosamente e em contradicção com os dados
    mais positivos da observação clinica, recebem uma interpretação
    simplicissima: refiro-me á inquietação dos perseguidos quando o seu
    delirio aponta, e ás hesitações de grande numero de paranoicos na
    exhibição dos seus conceitos falsos.

    O primeiro d'estes factos, abusivamente comparado pelos psychiatras
    francezes ao vago mal-estar precursor das doenças graves, não é, em
    realidade, mais do que a natural reacção emotiva do Eu, subitamente
    empolgado por uma idéa penosa, que irrompe do inconsciente; longe de
    constituir, como a anciedade melancolica, uma situação primitiva de que
    surgirão os erros conceptuaes, é um estado secundario, um effeito mesmo
    da presença inesperada de uma idéa depressiva no campo da consciencia.

    Em que consiste, de facto, essa inquietação? Definitivamente e no
    fundo–em sentimentos e actos defensivos; ora, a organisação de uma
    defeza suppõe a idéa de um ataque, de uma hostilidade, de um perigo. Sem
    duvida, essa idéa só se terá transformado n'um conceito e recebido a sua
    inteira systematisação, quando se houver feito o reconhecimento do
    inimigo e das causas da aggressão; a partir, porém, do momento em que
    obsessivamente ella irrompe e se impõe ao espirito, a inquietação
    apparece como o grito de alarme da esphera emotiva do perseguido.

    Quanto ás hesitações, tantas vezes observadas, do paranoico na
    exteriorisação do seu delirio, qualquer que elle seja, nada mais facil
    que interpretal-as. Trata-se ainda, n'este caso, de um phenomeno
    secundario, inseparavel do primeiro. Surprehendendo a consciencia pelo
    contraste que faz com o systema de conceitos positivos recebidos da
    educação, a idéa delirante é para o Eu alguma coisa de extranho e de
    interposto que, tendo-lhe provocado uma forte reacção emotiva, irá ainda
    remodelar toda a sua precedente orientação pensante, não sem
    difficuldades e combates; a hesitação em affirmar o delirio é, pois, o
    resultado da novidade e extranhesa das idéas que o formam. Longe de ser,
    como se pretendeu, a duvida de um espirito que elabora conjecturas e
    procura cotejal-as com os actos, essa hesitação traduz o esforço penoso
    e vacillante de adaptação do Eu a uma nova ordem de idéas, que elle vê
    surgir e cuja origem desconhece. O paranoico não duvida, porque não
    critica. Como a victima de uma suggestão hypnotica activa não procura
    evitar o acto ordenado e imposto, ainda quando elle choca, ás suas
    habituaes inclinações, mas busca dar-lhe apparencias de espontaneo e
    querido, o paranoico, longe de tentar a correcção da sua idéa falsa,
    cuida em reforçal-a pela interpretação delirante dos factos.

    Mas ás vezes succede tambem que já o delirio se encontra systematisado e
    ainda o paranoico o occulta ou apenas o confia do papel, n'uma sorte de
    soliloquio. A razão d'este facto está em que o doente, reconhecendo,
    pelo que, em si proprio se passou no periodo presystematico, a
    extranheza do seu delirio e a formidavel antithese que elle faz com as
    idéas correntes, procura evitar as inuteis e irritantes discussões que
    provocaria, exhibindo-o. É o conhecido caso de alguns crentes que, em
    vez de propagarem a sua fé, penosamente conquistada em repetidas luctas
    interiores, se recolhem n'ella, evitando a controversia, sentindo uma
    sorte de pudor em desdobrar diante de profanos irreverentes o inabalavel
    systema das suas convicções religiosas.

    Mas eu prevejo uma objecção a esta doutrina. Como acceitar, dir-se-ha, a
    origem obsessiva dos delirios systematisados, se um dos caracteres das
    obsessões é justamente o de não serem integradas na consciencia, de
    subsistirem no Eu em lucta aberta com as disposições preexistentes,
    n'uma palavra, de não formarem systema?

    A resposta implica um exame de doutrinas a que vamos proceder.

    Westphal, definindo a obsessão _uma idéa que, sem precedencia de um
    estado emotivo ou passional, se impõe á consciencia do doente contra a
    sua vontade, impedindo o jogo normal do pensamento, em que se insinua, e
    sendo sempre reconhecida como anomala e extranha ao Eu_, foi um dos
    primeiros a proclamar a irreductivel systematisação da idéa obsessiva.

    Pelo seu lado, os auctores, que ulteriormente mais se occuparam das
    obsessões, insistiram sempre no facto de que ellas constituem na
    economia psychica uma sorte de _corpo extranho_, releve-se-me a
    expressão, para eliminar o qual, inutil, mas consciente e penosamente se
    esforça o Eu. Assim, Magnan, definindo a obsessão pathologica _um modo
    de actividade cerebral em que uma palavra, uma idéa, uma imagem se
    impõem ao espirito sem intervenção da vontade e com uma angustia
    dolorosa que a torna irresistivel_, conta, como Westphal, entre os
    caracteres pathognominicos d phenomeno (que para elle é sempre um
    syndroma da degenerescenda psychica), a _consciencia completa_ de um
    estado morbido. E.J. Falret, interpretando no Congresso Psychiatrico
    Internacional de 1892 as mesmas idéas, affirmou não só que as obsessões
    são _conscientes_ e _anciosas_, mas que se _não acompanham de
    allucinações_ e se _não transformam nunca em outras doenças mentaes_,
    embora algumas vezes e n'uma adiantada phase de evolução se possam
    _complicar_ de um delirio melancolico ou persecutorio. O assentimento do
    Congresso as conclusões do Relatorio de Falret foi como a consagração
    official da doutrina que faz da idéa obsessiva um facto insusceptivel da
    assimilação, um producto que o Eu considera sempre extranho, que a
    consciencia jámais incorpora, que a vontade combate e contra o qual a
    emotividade perpetuamente lança o seu grito de alarme.

    Será, porém, rigorosamente assim?

    Reconhecendo que a nossa experiencia é curta e a nossa auctoridade
    nulla, atrevemo-nos, comtudo, desde 1892; tendo por base uma solida
    convicção, a discutir alguns dos pontos essenciaes da doutrina classica.

    Assim, em conferencias publicas d'esse anno, a proposito de um caso
    medico-legal de impulsividade criminosa, sustentamos que a idéa
    obsessiva não póde ser, nem é na vida mental um elemento inerte, e que a
    sua actividade, como a de todo o phenomeno psychico, se mede pelo maior
    ou menor numero de factos da mesma ordem que ella evoca na consciencia,
    o que equivale a dizer–pelas mais ou menos extensas _systematisações_
    que provoca. Como cada atomo de um aggregado material, diziamos então,
    entra n'elle com uma certa affinidade, cada phenomeno psychico figura no
    Eu com uma dóse propria de força systematisante. E a idéa obsessiva,
    extranha á consciencia pelas suas origens confusas, não é essencialmente
    diversa dos outros factos psychicos, nascidos tambem em grande parte da
    cerebração inconsciente; surgindo, ella evoca, pois, pela sua mesma
    affinidade com esses factos, pela sua mesma força systematisante (de que
    as leis de associação não fazem senão constatar a existencia e denunciar
    parcialmente as orientações), idéas, emoções, desejos, impulsos, novas
    imagens mentaes, em summa.

    Longe de acompanhar-se, diziamos, de uma perfeita e _completa
    consciencia,_ a obsessão, representando um começo de _dissociação
    pessoal_, uma scisão do Eu por dois grupos antinomicos de
    systematisações psychicas, a normal e a obsessiva, implica uma
    _obnubilação da consciencia_ individual, pois que esta não póde
    comprehender-se senão como synthese de estados psychicos harmonicos e
    expressão da unidade do Eu.

    Este modo de vêr, seja dito de passagem, encontramol-o sustentado com
    profusão de argumentos psychologicos e clinicos nas excellentes _Lições
    sobre as doenças mentaes e nervosas_ de Séglas, publicadas em 1896. Este
    imprevisto encontro do nosso espirito com o do eminente psychiatra, sob
    ser-nos lisongeiro, depõe grandemente em favor da justeza das idéas que
    defendemos.

    A _angustia_ que acompanha os estados psychicos, diziamos nas mesmas
    conferencias, traduzindo a extranheza da consciencia em face da idéa
    imposta, está longe de ser um thenomeno invariavel, pois que, no fundo,
    elle depende da extensão maior ou menor que tomam as systematisações
    pathologicas em face das normaes. Ha estados em que toda a reacção
    emotiva se limita a uma passageira e leve inquietação de espirito;
    outros, em que surgem phenomenos criticos de anciedade, pronunciados,
    duradouros e graves. Procurando interpretar estes factos, Westphal
    collocou-os principalmente sob a dependencia do contheudo das obsessões,
    affirmando que, em igualdade de circumstancias, a idéa fixa de matar
    repugnará muito mais que a de pronunciar uma palavra inconveniente.
    Talvez seja assim; mas essa _igualdade de circumstancias_, reduzindo-se,
    no fundo, a uma identidade absoluta de disposições affectivas e moraes,
    não póde nunca affirmar-se com segurança em dois individuos ou n'um só
    em periodos diversos. Dizer que uma idéa obsessiva repugna, pelo seu
    contheudo, mais ou menos que uma outra, é dizer que as systematisações
    provocadas por cada uma valem diferentemente para o Eu. Mas porque? Em
    ultima analyse, porque as systematisações normaes com que ellas entram
    em conflicto na consciencia são diversas ou desigualmente organisadas. Á
    medida que a idéa obsessiva, quer por força propria, quer por frouxidão
    das suas antagonistas, alarga a esphera da sua systematisação, a
    dissociação do Eu progride, a extranheza da consciencia diminue e a
    _angustia_ reduz-se proporcionalmente. E o limite d'esta reducção, que
    theoricamente é zero, terá sido attingido, quando no campo da
    consciencia não existam systematisações que directa ou indirectamente
    não sejam provocadas pela idéa obsessiva.

    Mas, n'esta hypothese dois casos podem dar-se: ou as systematisações
    normaes readquirem, decorrido um certo tempo, a sua supremacia, ou, mais
    fracas, ellas se deixam vencer definitivamente pelas systematisações
    pathologicas. No primeiro caso, a consciencia individual restabelece-se,
    e da phase de derrota fica apenas a memoria confusa de uma sorte de
    estado secundario e de sonho,–o que tem permittido comparar as
    obsessões impulsivas a crises de epilepsia psychica; no segundo, um novo
    Eu se fórma, tendo por substracto associações pathologicas, isto é, um
    delirio systematisado.

    Tal foi, nos seus contornos, a doutrina que esboçamos em 1892 e
    exposemos ainda em conferencias sobre a Paranoia no começo de 96,
    contradictando os que pretendem achar contrastes irreductiveis entre
    obsessão e delirio. Insubsistentes no terreno da psychologia abstracta,
    esses contrastes não o são menos no campo da clinica, onde Tamburini,
    Stephani, Séglas, Catzras e outros demonstraram, contrariamente á
    cathegorica affirmação de J. Palret, que existem allucinações sensoriaes
    e psychomotoras exclusivamente determinadas pela persistencia de idéas
    obsessivas. Longe de serem antinomicos, a obsessão e o delirio
    approximam-se pela communidade de origem: a obsessão seria, na ordem de
    idéas que sustentamos, um começo de delirio systematisado, como este
    seria uma obsessão progressiva, desenvolvendo-se á custa de successivas
    associações. N'este sentido se interpreta sem esforço a expressão de
    _paranoia rudimentar_ por que Arnadt, Morselli e outros designam a
    obsessão.

    Mas, porque reputamos fundamentaes estas idéas, procuraremos dar-lhes
    aqui todo o desenvolvimento que ellas comportam.

    O phenomeno pathologico da obsessão tem, como nota Dallemagne, um
    representante physiologico no facto banal de uma idéa indifferente que,
    sem sabermos como, nos surge na consciencia, interrompendo
    disparatadamente o curso das nossas preoccupações e desapparecendo um
    instante depois. Não ha aqui, em verdade, nem angustia, nem
    irresistibilidade; ha, porém, o phenomeno da emergencia inexplicavel e
    extranha de uma imagem, que o jogo consciente das idéas não provocou. A
    systematisação não existe tambem: um momento presente na consciencia, a
    idéa desappareceu sem deixar n'ella um vestigio. Imaginemos, porém, que
    a idéa extranha pertence á cathegoria das impulsivas, e concedamos que o
    acto n'ella representado seja de natureza cruel: atirar, por exemplo, á
    linha férrea um companheiro de viagem. É evidente que o novo caso
    differe muito do anterior. Em primeiro logar, a idéa tem desde logo um
    começo de systematisação, por isso que mentalmente nos representamos uma
    scena complicada e os seus possiveis effeitos: imagens motoras, imagens
    sensoriaes, sentimentos, emoções, idéas de leis e principios moraes,
    idéas de sanção penal, tudo entra em jogo, tudo se grupa, em torno da
    idéa primitiva. A vontade lucta, como geralmente se diz, ou, como melhor
    deveria dizer-se, as systematisações normaes, mais ou menos organisadas
    e resistentes, repellem a systematisação anomala e intrusa. Esta,
    todavia, não desapparece sem vestigios; impossibilitada de tomar as
    reclamadas vias motoras externas, gastou-se na esphera emotiva,
    dando-nos um instante de inquietação, um sobresalto, um começo de
    angustia, traduzida, talvez, physicamente n'um subito pallor de face,
    n'uma agitação momentanea do pulso. Mas figuremos que a idéa se reproduz
    ainda, uma vez, duas, muitas vezes. A systematisação, que ella provocou
    no inicial momento, repete-se, avigora-se, organisa-se; a lucta das
    systematisações normaes antagonistas renova-se, e d'essa renovação
    deriva o prolongar-se na consciencia a presença de uma systematisação
    anomala, cada vez mais nitida e mais forte. As imagens motoras farão
    nascer o impulso; e este, se as systematisações normaes o não conseguem
    desviar n'um sentido diverso (a convulsão, o espasmo, o toque d'uma
    campainha de alarme, o grito de aviso) acabará por ser satisfeito,
    provocando uma _détente_, um allivio.

    Os caracteres da obsessão pathologica–origem invluntaria, angustia,
    irrisistibilidade, satisfação consecutiva, estão realisados, O que
    provocou a apparição d'estes caracteres? Em primeiro logar, as
    systematisações determinadas pela idéa obsessiva, em segundo, a lucta
    d'ellas com as systematisações normaes. Se a idéa obsessiva fosse
    incapaz de provocar systematisações, se fosse indifferente, ter-se-hia
    dissipado sem vestigios conscientes, como no caso que primeiro
    figuramos; se, por outro lado, uma forte lucta se não tivesse realisado
    entre antinomicos grupos ou systemas de factos psychicos, não existiria
    angustia concomitante, nem satisfação consecutiva. A obsessão deu-se,
    pois, á custa, de uma dissociação parcial e transitoria do Eu. Alarmada
    e impotente, a consciencia assistiu ao desdobramento de um acto reflexo;
    clara ao principio, ella obscureceu-se um instante–aquelle precisamente
    em que todo o vasto e harmonico systema de idéas, de affectos e
    impulsos, que constituem o Eu, se deixou vencer pelo systema antagonista
    creado pela idéa imposta.

    Que esta seja impulsiva, emotiva ou meramente abstracta, pouco importa,
    de resto; o quadro dos symptomas da obsessão é em todos os casos o
    mesmo, desde que se estabelece lucta entre systematisações pathologicas
    e normaes. É n'esta lucta que reside o caracter essencial da obsessão;
    tudo o mais é secundario e derivado.

    Imaginemos, por exemplo, que a idéa de matar surge no espirito de um
    criminoso-nato. Não encontrando em face d'ella, a offerecer-lhe
    resistencia, a longa série de systematisações que se comprehendem na
    designação synthetica de _senso moral_, essa-idéa exteriorisar-se-ha de
    um modo puramente reflexo e automatico; fallaremos, então, de impulso
    morbido, mas não será licito pronunciar o nome de obsessão.

    Figuremos ainda que uma idéa, embora não derivada do jogo normal e
    logico do pensamento, é de natureza a lisongear os nossos gostos, as
    nossas aspirações, os nossos desejos. Insubsistentes e chimericas, as
    systematisações, ás vezes complicadas e extensas, que ella gera ao
    irromper no nosso espirito, não provocam, todavia, uma lucta, é o estado
    de espirito assim creado não póde chamar-se obsessão. Tal é o caso da
    _réverie_, dos castellos no ar, de toda essa phantasiosa ideação em que,
    a despeito do testemunho contradictorio da realidade, nos deixamos
    apanhar involuntariamente. Quem, apenas remediado ou pobre, se não
    sentiu uma vez tomado, sem saber como ou porque, da idéa de opulencia, e
    não partiu d'ahi para o sonho dos palacios, das equipagens, da arte, da
    phylantropia? Comquanto anomalo e inutil, este estado de espirito não é
    obsessivo, porque não provoca urna _lucta_ de systematisações.

    Esta é, pois, repetimol-o, o signal, o seguro indicador da
    obsessão:–aquillo em que ella essencialmente consiste. Mas não poderá
    essa lucta, que de ordinario se renova, dando ás obsessões um caracter
    _intermittente_, cessar pela victoria definitiva das systematisações
    pathologicas, o que equivale a dizer–pela constituição de um delirio?
    Cremos que sim; e para comprehendel-o basta admittir que a idéa
    obsessiva é, na esphera inconsciente de que procede, um forte centro de
    systematisações organisadas, capazes não só de vencerem a resistencia
    das systematisações normaes, mas de as desviarem em proveito proprio.

    Já a victoria intermittente da obsessão sobre as systematisações
    normaes denuncía a existencia de ignoradas estratificações psychicas,
    tão extensas e importantes, comtudo, que podem por força propria ou por
    fraqueza das suas antagonistas, provocar uma dissociação do Eu e n'um
    dado instante occupar todo o campo da consciencia. Que se supponha maior
    a sua força e menor ao mesmo tempo a das systematisações normaes
    inhibitorias, e o triumpho será definitivo, porque toda a esphera
    consciente não conterá mais do que associações pathologicas. Teremos o
    delirio systematisado; e então, bem evidentemente, a dissociação do Eu,
    que na obsessão é passageira, tornar-se-ha definitiva, substituindo-se á
    personalidade normal vencida uma outra vencedora.

    Mas d'onde vem esta e como se formou? Eis o que a doutrina da evolução
    permitte explicar. Na sua lenta e progressiva constituição, a
    personalidade humana encontra-se successivamente representada por
    systematisações psychicas de uma complexidade crescente, isto é, por
    associações e inhibições cada vez mais extensas, traduzindo a acção do
    mundo sobre o Eu e a reacção d'este sobre o mundo. Cada nova
    systematisação formada, integrando elementos psychicos, é uma satisfação
    dada ás naturaes affinidades d'estes; cada nova inhibição realisada,
    dissociando elementos psychicos, provoca a formação de outras
    systematisações em que ellas vão achar novamente logar e novamente
    satisfazer uma affinidade propria. Assim se formam lentamente, mercê da
    hereditariedade, que capitalisa as conquistas do espirito, successivas
    estratificações systematicas de idéas, de emoções, de impulsos, n'uma
    palavra, successivas _tendencias_, que representam em momentos dados um
    espirito, um Eu, uma personalidade, emfim.

    As estratificações mais recentes são tambem as menos organisadas e as
    mais instaveis; os systemas de que ellas se compõem, contrariando em
    grande parte antigas e habituaes affinidades dos elementos psychicos,
    subsistem n'um equilibrio que só o tempo tornará estavel. Mas o tempo,
    quando se trata de evolução, não é a vida de um individuo, é a de
    gerações seguidas; é, pois, necessario para que a estabilidade psychica
    de uma personalidade se realise que a herança se faça sempre n'um mesmo
    sentido, que a orientação ou finalidade do espirito não seja perturbada.
    Se este facto se não dá, a estratificação mais antiga sobreleva a mais
    recente e atravez d'ella rompe total ou parcialmente. Cada personalidade
    é, pois, n'um dado momento a juxtaposição de subpersonalidades relegadas
    para o inconsciente, mas tenazes, persistentes, susceptiveis de uma
    integral ou parcial revivescencia. Por traz do _individuo_, que
    representa as ultimas acquisições de uma civilisação, está a _especie_,
    que representa todas as systematisações procedentes da acção lenta do
    meio, capitalisada pela herança.

    N'esta ordem de idéas, as obsessões e os delirios systematisados
    apparecem-nos _como resurreições parciaes e mais ou menos extensas de um
    Eu ancestral_. É da lucta que se estabelece entre este e o Eu de
    recente formação que derivam, de um lado, a _angustia_ que acompanha as
    obsessões e o allivio que lhes succede quando a _détente_ se realisa, do
    outro, a _inquietação_ dolorosa que faz cortejo aos delirios
    systematisados na sua phase inicial e a tranquillidade relativa que
    depois surge quando o paranoico definitivamente adquire uma convicção,
    uma crença, quando, na phrase justa dos alienistas francezes, elle sabe,
    emfim, _à quoi s'en tenir_.

    Mas como, repetimol-o, a lucta é tanto menos intensa quanto mais forte é
    o Eu ancestral e mais instavel o de recente formação, a _angustia
    obsessiva_ e a _inquietação paranoica_ podem reduzir-se a
    insignificantes proporções: tal é o caso dos impulsos nos criminosos
    habituaes e dos delirios _d'emblèe_ nos paranoicos originarios.

    VII–A PARANOIA E A DEGENERESCENCIA

    Extensão do conceito de degenerescencia; desaccordo dos auctores–Causas
    de degenerescencia; opiniões diversas–A degenerescencia e a observação
    clinica; modo de vêr de Magnan; opinião de Krafft-Ebing–Necessidade de
    um ponto de vista geral; seu caracter anthropologico–A definição de
    Morel; o seu defeito essencial–A noção do atavismo em psychiatria; as
    idéas de Magnan e a sua falta de fundamento–Ponto de vista de Tanzi e
    Riva; documentos justificativos–A Paranoia é uma degenerescencia.

    Tem ainda hoje nos livros da especialidade um caracter eminentemente
    obscuro e vago a noção da _degenerescencia_. Nada o prova melhor que o
    conjuncto de contradictorias opiniões sobre a sua mesma extensão e sobre
    as suas origens.

    Que psychopatas abrange a degenerescencia?

    Emquanto certos auctores, á maneira de Mendel, só consideram degenerados
    aquelles que, pela presença de estygmas physicos de uma extrema
    decadencia, profundamente se afastam do typo humano commum, outros ha
    que seguindo a tradição de Morel, descobrem a degenerescencia onde quer
    que surjam indicios de uma constitucional desharmonia de funcções
    psychicas, de um originario desequilibrio mental, ainda quando
    inteiramente compativel com a vida collectiva e mesmo com parciaes
    superioridades de intendimento.

    O terreno que pizam os primeiros tem tanto de seguro e incontroverso
    quanto de infecundo: reduzida a cobrir, o grupo dos idiotas, alguns
    loucos moraes, physicamente disformes, e um ou outro delirante precoce,
    somaticamente estygmatisado, a degenerescencia é um conceito inerte, sem
    valor em clinica e sem applicações em nosologia psychiatrica.
    Suggestivo, o ponto de vista dos segundos é, todavia, impreciso, como o
    revella a comparação dos auctores, pois que, os mesmos loucos são,
    segundo uns e deixam de ser, segundo outros, comprehendidos no grupo dos
    degenerados. Assim, emquanto para Magnan não são degenerados uns certos
    paranoicos, os delirantes chronicos, para Krafft-Ebing são-no todos,
    como vimos; assim, os intermittentes, que a grande maioria dos auctores
    allemães e italianos consideram como exemplares degenerativos, formam
    para Magnan um grupo de transição entre os degenerados e os
    psychonevroticos; assim, ainda, os obsessivos, que para o psychiatra
    francez são sempre degenerados, não passam aigumas vezes para Morselli
    de neurasthenicos vulgares.

    Este grave desaccordo sobre a extensão do conceito, repete-se desde que a
    questão etiologica se aborda.

    Que origens reconhece a degenerescencia?

    Ao passo que uns, como J. Falret, exclusivamente incriminam a
    hereditariedade na producção dos degenerados, outros responsabilisam,
    como Cotard, as doenças infantis, como Boucherau, as doenças do feto, ou
    ainda, como Christian, o estado mental dos paes no acto da procreação.
    Pelo seu lado, Magnan reconhece todas estas causas, considerando,
    todavia, preponderante e typica a hereditariedade,

    Ora, para se poder fallar da hereditariedade, como agente de psychoses
    degenerativas, quando se sabe que ella é a causa por excellencia de
    todas as doenças mentaes, seria necessario possuir-se um meio de
    determinar _à priori_ o momento em que ella deixa de ser uma simples
    _predisposição_ generica para tornar-se um factor especial de anomalias
    psychicas; por outros termos, seria necessario precisar onde começa o
    que Magnan denomina a _impregnação hereditaria_.

    Se isto fosse possivel, teriamos na etiologia um excellente criterio
    para separar as loucuras degenerativas das que o não são: todas as
    fórmas nosologicas exhibidas por loucos impregnados de herança
    pertenceriam ao primeiro grupo, como pertenceriam ao segundo as
    exteriorisadas por simples predispostos. A analyse clinica,
    denunciando-nos depois a symptomatologia e a marcha das psychoses dos
    dois grupos, dar-nos-hia meios de reconhecer as equivalencias
    hereditarias, se ellas existem, como pretendem Boucherau, Cotard e
    Christian. Nada mais simples: dado que uma psychose offerecesse os
    caracteres peculiares das hereditarias, seria um degenerado o seu
    portador; e, quando a herança morbida não podesse ser incriminada,
    outras causas teriam de invocar-se de _igual valor pathogenico_.

    Mas, precisamente succede que ninguem ainda determinou, nem _à priori_
    parece determinavel a tara hereditaria em que a _predisposição_ acaba e
    a _impregnação_ começa.

    Nem o _numero_ de psychoses ancestraes, nem a sua _convergencia_ nas
    duas linhas de progenitores constituem motivo sufficiente para affirmar
    a impregnação hereditaria e a degenerescencia de um louco, pois que a
    pratica nos depara ás vezes alienados que, tendo, aliás, uma pesada
    herança psychopatica n'uma das linhas directas ou mesmo uma herança
    convergente, exhibem fórmas nosologicas insusceptiveis de se
    distinguirem,–quer pelos symptomas, quer pela marcha, quer, emfim, pela
    terminação, das psychonevroses puras, isto é, das loucuras accidentaes,
    das loucuras dos simples predispostos.

    Em contraste com estes casos, outros apparecem de um caracter
    univocamente admittido como degenerativo, em que, todavia, a analyse
    clinica, até onde ella póde ser feita, não surprehende mais do que uma
    psychose em qualquer das linhas directas ou collateraes; isto succede,
    não raro, nos debeis e imbecis, procedentes de pae ou mãe alcoolicos.

    Dir-se-ha, talvez, que n'estas considerações abusivamente restringimos o
    papel e alcance da hereditariedade, fallando apenas de psychoses
    ancestraes, quando deveriamos com os auctores contemporaneos fallar
    tambem, pelo menos, das nevropatias.

    Mas quem não vê que n'este novo terreno o problema se complica sem se
    resolver? Que para a tara hereditaria de um louco contribuam sómente as
    psychoses ancestraes ou tambem as nevropatias, ou ainda, generalisando,
    as diatheses, é seguro que jámais se determinará _á priori_, onde a
    _predisposição_ termina e a _impregnação_ principia.

    Tacita ou explicitamente é isto reconhecido pelos proprios auctores que,
    á maneira de Magnan e de Krafft-Ebing, assignalam á degenerescencia uma
    pluralidade de causas. Buscando na observação clinica dos symptomas e na
    marcha das affecções mentaes os indicios da degenerescencia, é evidente
    que elles abandonam o exclusivo criterio etiologico.

    Mas se, d'este modo, uma fonte de divergencias cessa, outra, como vamos
    vêr, immediatamente surge.

    Que anomalias symptomaticas e evolutivas da mentalidade psychiatrica
    deverão ser consideradas como indicios ou estygmas de degenerescencia?

    A este proposito um evidente desaccordo recomeça. Não sendo as doenças
    mentaes em si mesmas senão anomalias do espirito, o problema posto é o
    de procurar a anormalidade no anormal. Com que criterio?

    Magnan não hesita em adoptar _o estado mental_ do louco antes da invasão
    da psychose. Ouçamos as suas proprias palavras: «O grande grupo dos
    predispostos simples, faz-se notar por um caracter essencial,
    invariavel, pathognomonico: até ao dia em que cahem na loucura, os
    doentes que o formam são julgados _normaes_; comparados aos individuos
    que nunca se tornam alienados, nenhuma differença apparente revellam. É
    que n'elles a predisposição não adquiriu ainda um grau sufficiente para
    se traduzir em caracteres especificos. Esta predisposição é latente e
    não produziu senão um resultado: fazer do cerebro um logar de menor
    resistencia e um terreno favoravel, crear uma situação em virtude da
    qual as causas de desorganisação do equilibrio intellectual terão uma
    influencia mais marcada do que em outros e uma acção mais duradoura e
    mais energica. O factor _predisposição_ é evidentemente muito variavel
    como importancia; o seu valor não póde apreciar-se, á falta de criterio
    proprio, a não ser entre dois casos extremos. Como quer que seja, a
    resistencia cerebral dos predispostos deve variar em razão inversa da
    importancia do factor _predisposição_ … N'uma outra grande divisão dos
    predispostos, collocamos os doentes cuja personalidade intellectual e
    moral é completamente transformada desde a base desde o nascimento pelo
    facto da aggravação progressiva do factor _predisposição_. Este grupo
    comprehende os predispostos com _degenerescencia_»[1].

    [1] Magnan et Legrain, _Les dégénérés_, pag. 58.

    Nada, como se vê, apparentemente mais claro: emquanto o simples
    predisposto é um ser _normal_ até á invasão da doença psychica, o
    degenerado é _ab ovo_ um ser anormal. Resta sómente determinar em que
    essa anormalidade consiste. Eis como Magnan se explica a este proposito:
    «Nos degenerados, a predisposição, qualquer que seja a sua natureza
    (hereditaria ou adquirida), produziu uma perturbação profunda das
    funcções psychicas. Desde a origem, desde o nascimento, fazem-se elles
    notar por anomalias quer do sentimento quer da intelligencia, dos
    instinctos e das inclinações, quer de todas estas espheras ao mesmo
    tempo. Adquiriram estygmas que os fazem reconhecer immediatamente e
    agrupar á parte. Além d'isso a tara degenerativa, de que são portadores,
    traduz-se muitas vezes por anomalias physicas, cuja significação vem
    junctar-se á das anomalias psychicas concomitantes. Todos estes estygmas
    são permanentes, nascem com o individuo e só com elle se extinguem. Em
    caso algum, estes doentes pensam, sentem ou actuam como os individuos de
    cerebro normal ou como os predispostos simples. Degenerados por
    accumulação de taras hereditarias, na quasi totalidade dos casos, podem
    sel-o, comtudo, algumas vezes pela intervenção de momentos etiologicos
    potentes, cuja acção desorganisadora se exerce sobretudo nas épocas da
    evolução cerebral, isto é, na primeira infancia: doenças agudas graves,
    taes como a variola, a escarlatina e a febre typhoide, acompanham-se de
    lesões cerebraes irreparaveis. Póde-se admittir ainda a acção
    degenerativa das doenças fetaes, dos traumatismos, n'uma palavra, de
    todas as causas sufficientemente fortes para lesar materialmente os
    centros nervosos ou para impedir o seu desenvolvimento. Mas, qualquer
    que seja a causa degenerativa, hereditaria ou adquirida, os productos
    são identicos, e entre si comparaveis; são portadores de caracteres
    clinicos proprios a fazel-os reconhecer em todos os casos, e
    significativos da tara hereditaria. Comparados aos seus ascendentes
    directos, differem d'elles totalmente no ponto de vista das aptidões
    cerebraes: encontram-se visivelmente n'uma situação mental inferior; são
    seres novos, anormaes, de mecanismo cerebral falseado. A sua situação
    mental define-se n'uma palavra: o equilibrio entre todas as funcções
    cerebraes acha-se destruido e não póde recuperar-se. Fóra mesmo dos
    casos de verdadeira alienação, esta falta de equilibrio é flagrante.
    Quando deliram, as suas concepções revestem caracteres pathognomonicos:
    surgem ás menores causas occasionaes, indicio de extrema instabilidade
    do equilibrio mental. Fóra das causas moraes, cuja influencia é aqui
    preponderante em razão da extrema emotividade particular d'estes
    individuos, os proprios momentos physiologicos–a puberdade, a
    menopause, os menstruos, a prenhez, são causas de perturbação cerebral.
    N'elles, as doenças geraes acompanham-se frequentemente de delirio; o
    cerebro tornou-se o _locus minimae resistentiae_. Os accessos delirantes
    não teem uma evolução propria: affectam todas as fórmas possiveis e
    substituem-se com a maior facilidade. A systematisação e a cohesão das
    concepções delirantes é muito fraca. Não existe nenhuma tendencia á
    systematisação progressiva. Emfim, os degenerados de maior tara são
    candidatos a uma demencia precoce, quer primitiva, quer
    post-delirante»[1].

    [1] Magnan et Legrain, _Obr. cit._, pag. 60 a 62.

    Como se infere d'estas passagens, que citamos _in extenso_, porque
    resumem toda a doutrina da Escóla de Sant'Anna sobre o assumpto, não ha
    verdadeiramente, como poderia parecer, um só criterio, _à posteriori_, o
    estado mental predelirante, para determinar a presença da
    degenerescencia, mas muitos. Ao lado, com effeito, de uma estygmatisação
    psychica, essencialmente consistindo n'um original e irreparavel
    desequilibrio de funcções cerebraes, apparece-nos a estygmatisação
    somatica, a feição polymorpha e a marcha irregular do delirio, e, ainda,
    a desproporção entre a causa occasional, que incide sobre o prediposto,
    e o effeito que ella produz.

    Ora, não é inteiramente facil conjugar entre si todos estes criterios.

    Se o degenerado é, como Magnan proclama, um _predisposto maximo_, e se o
    grau de predisposição é inversamente proporcional ao das causas
    occasionaes, porque não é degenerado o delirante chronico, no qual uma
    vesania irreparavel e perpetua surge as mais das vezes sem causa?
    Responderá Magnan que o delirante chronico é normal até á invasão da
    vesania. Mas quem não vê que, se o eminente alienista se não engana,
    affirmando tal, os seus dois criterios brigam? Por outro lado, como já
    vimos tambem, a estygmatisação physica apparece algumas vezes nos
    delirantes chronicos. Como conciliar, n'estes casos, o criterio das
    anomalias somaticas, indicando degenerescencia, com o da systematisação
    progressiva do delirio, que a exclue?

    Por outro lado, ainda, se o desequilibrio psychico é a principal
    caracteristica das degenerescencias, porque não considerar degenerados
    os hystericos e os epilepticos, tão profundamente desharmonicos sempre
    não manifestações da vida cerebral?

    O criterio clinico de Krafft-Ebing é mais extenso que o de Magnan. A
    presença de um estado de desequilibrio mental antes da invasão da
    doença, sendo para o psychiatra allemão de uma altissima importancia,
    não constitue; comtudo, como para o francez, um caracter essencial e
    imprescindivel do diagnostico da degenerescencia. Fazendo, com enfeito,
    a distincção entre os predispostos simples e os degenerados,
    Krafft-Ebing escreve: «Póde ser objecto de discussão saber se um
    individuo normal até ao apparecimento da psychose, mas procedente de
    geração psychopatica, deve collocar-se n'um ou n'outro grupo»[1]. O
    valor maior ou menor da causa occasional póde servir para dissipar as
    duvidas a este proposito, pois que um dos caracteres distinctivos das
    psychoses dos degenerados reside precisamente no facto da sua eclosão
    espontanea ou sob a influencia de minimos agentes provocadores. Este
    criterio, sobrelevando, na doutrina de Krafft-Ebing, o da presença de um
    desequilibrio mental anterior á psychose, alarga o ambito da
    degenerescencia, introduzindo ahi doenças, que Magnan excluiria sob
    pretexto da normalidade do individuo até á invasão d'ellas. Estão n'este
    caso, por exemplo, alguns delirios systematisados post-menopausicos.

    [1] Krafft-Ebing, _Trattato clinico pratico delle malattie mentali_,
    trad. It., vol. II, pag. 3.

    Krafft-Ebing separa-se ainda de Magnan, fazendo da periodicidade um dos
    signaes das psychoses degenerativas, no que é seguido por consideravel
    numero de psychiatras.

    Os confrontos e citações feitos bastam para mostrar como são numerosas
    as dissidencias dos auctores sobre a constituição nosologica do grupo
    dos degenerados.

    Concluiremos com Pierret que a _degenerescencia não é uma doutrina
    medica_ e que _deve reputar-se um crime ensinal-a?_. A nosso vêr, tem
    tanto de radical e temeraria, como de estreita, uma similhante opinião;
    proclamal-a, equivale a desconhecer que a maior parte dos progressos
    theoricos da psychiatria se devem precisamente á introducção d'esse
    conceito, que, ainda vago e controvertido, póde, comtudo, precisar-se.
    Porque, devemos notal-o, se as divergencias á hora actual são muitas,
    não são poucos, nem de insignificante valor no terreno da nosologia, os
    pontos sobre que se estabeleceu um definitivo accordo. O que a nós se
    nos affigura é que todas as difficuldades e todos os debates n'este
    assumpto procedem exclusivamente da falta de um ponto de vista geral e
    superior.

    Quer considerem a degenerescencia nas suas causas, quer nas suas
    manifestações clinicas, teem os alienistas contemporaneos tratado esta
    noção como se ella houvesse nascido no terreno da psychiatria e d'elle
    fosse tributaria, quando a verdade é que, referivel a todos os seres
    vivos, ella pertence á biologia, onde tem um significado que não é
    licito esquecer, e que, nos seus traços essenciaes, deverá subsistir,
    quaesquer que sejam as suas applicações.

    Isto viu lucidamente Morel, quando, ao trazer para a pathologia mental
    essa noção, subordinou o seu sentido psychiatrico ao anthropologico, e
    este ao da biologia. Infelizmente, o preconceito religioso não permittiu
    a este homem de genio fazer de um modo correcto essa subordinação, em si
    mesma necessaria e eminentemente philosophica.

    O que é, na sua inicial accepção biologica, a degenerescencia? O desvio
    pejorativo de um typo natural, a perda, no individuo, das qualidades
    caracteristicas da especie. Anthropologicamente considerada, a
    degenerescencia não póde, pois, significar senão a inferioridade do
    individuo em relação ao typo natural humano. Mas qual é esse typo? Foi a
    este proposito que na doutrina de Morel se insinuou o prejuizo
    theologico: esse typo, conservado nas tradições sagradas, teria sido o
    homem primitivo, paradisiaco depositario de todas as perfeições
    especificas, mas condemnado, _pelo grande facto da queda original_, a
    condições degradantes de lucta com a natureza.

    A conclusão a tirar d'este modo de vêr, seria que todos os homens são
    degenerados; e se, com gravissima offensa da logica, Morel a evitou, não
    foi senão introduzindo abusivamente a noção de _doença_ no conceito de
    degenerescencia, que define como _desvio morbido de um typo primitivo_.
    A que vem aqui o extranho qualificativo? Se existiu um typo humano
    especificamente perfeito, que as condições, para elle novas, de
    conflicto com o mundo começaram a degradar, é evidente que essas
    condições, pezando sobre os seus descendentes e imprimindo-lhes
    caracteres, que a hereditariedade transmitte, são causas para todos
    elles de mais ou menos extensos desvios. E estes, ou são sempre morbidos
    ou não o são nunca.

    Para escapar a esta conclusão, distinguiu Morel entre si essas causas
    degradativas, affirmando que umas se limitam a provocar variedades ou
    _raças_, emquanto outras conduzem a verdadeiras _monstruosidades_, de
    existencia felizmente limitada por uma maravilhosa e providencial
    esterilidade. D'estas duas ordens de desvios, só os ultimos
    constituiriam degenerescencias, segundo Morel.

    Faz dó vêr um homem de genio a debater-se contra phantasmas; e mais
    entristece reconhecer que os seus erros se transmittiram até nós,
    reapparecendo em trabalhos contemporaneos, como os de Magnan.

    Quem não vê que os iniciaes desvios de typo normal, qualquer que elle
    seja, podem, por condições imprevistas de cruzamento, progredir ou
    attenuar-se? E, sendo assim, quem não vê tambem que uma anomalia de
    ordem psychica ou moral póde tanto desvanecer-se nos descendentes como
    transmittir-se e accentuar-se até á monstruosidade? O proprio Morel,
    reconhecendo a tendencia da natureza á reconstituição do typo especifico
    normal, admittiu a _regeneração_ ao lado da _degenerescencia_. A
    monstruosidade não é, pois, a degenerescencia mesma, mas o seu termo, o
    seu limite, aquillo para que no processo degradativo se caminha, dadas
    infelizes condições geradoras.

    Mas, se o criterio de Morel foi falseado pela intervenção de um extranho
    elemento religioso, é certo que a sua maneira de atacar o problema é a
    unica legitima.

    É, com effeito, como um desvio do typo humano que a degenerescencia tem
    de ser definida em anthropologia. Sómente, esse typo tem de ser
    procurado, não nos dominios da tradição e para traz de nós, mas no
    terreno da previsão scientifica e para diante. Não sendo o homem
    primitivo da lenda, que a anthropologia reduziu ás humildes proporções
    de um animal apenas differenciado dos mamiferos superiores, esse typo é
    um ideal para que podemos suppôr que a humanidade caminha e de que, na
    sua evolução, procura incessantemente approximar-se.

    Mas como determinar-lhe os attributos sem cair nas incertezas da
    phantasia? Surprehendendo as linhas de evolução physica e psychica da
    nossa especie a partir d'esse remoto representante selvagem até hoje.
    Assim, para só fallarmos da evolução psychica, nota-se que,
    intellectualmente, o homem partiu da ideação theologica para attingir a
    scientifica, que, nos dominios do sentimento, derivou de um egoismo
    feroz para chegar a affectos altruistas, emfim, que, no campo da acção,
    procedeu de um automatismo impulsivo para conquistar a vontade.
    Conhecida esta orientação, está achado o meio de approximadamente
    constituir o typo, cujos regressivos desvios, sejam quaes forem as
    causas que os provoquem, constituem degenerescencias no sentido
    anthropologico do termo.

    Este sentido, porém, não é precisamente o da psychiatria.

    Anthropologicameme considerada, a loucura é sempre uma degenerescencia,
    porque em todas as suas multiplas fórmas implica um desvio regressivo,
    total ou parcial, extenso ou limitado, provisorio ou definitivo do typo
    que definimos.

    Psychiatricamente, porém, não é assim. Se o desvio é reparavel dentro da
    vida individual, se elle constitue um accidente ephemero, dependendo
    muito menos de uma falta inicial e congenita de resistencia do que da
    gravidade e continuidade das causas productoras, a loucura não se
    considera degenerativa; é-o, pelo contrario, se constitue um estado
    irreparavel, subsistente, espontaneo ou derivado de insignificantes
    causas e accusando, portanto, uma inferioridade constitucional.

    Mas já nas loucuras não degenerativas, nas psychonevroses, o germe da
    degenerescencia existe; cruzamentos infelizes o desenvolverão na
    descendencia, mercê da hereditariedade; e eis porque, podendo ter as
    mais variadas causas, as loucuras degenerativas teem sido chamadas
    _hereditarias_. Por outro lado, nas fórmas degenerativas menos graves, a
    regeneração é ainda possivel, mercê de cruzamentos felizes, pois que a
    hereditariedade tanto capitalisa as boas como as mas tendencias. Isto é
    dizer que a distincção psychiatrica das psychonevroses e das
    degenerescencias não tem nada de absoluta, desde que, em vez de
    considerarmos os casos extremos das duas escalas, fixamos os mais
    proximos.

    Dizer com Magnan que o _atavismo_ não implica degenerescencia, porque um
    typo regressivo seria _normal_, emquanto que um degenerado é um
    _doente_, que o primeiro, entregue a si, caminharia para diante, como
    fizeram os o contemporaneos da época por elle representada, ao passo que
    o segundo marcharia para a extincção pela infecundidade, é commetter um
    duplo erro: não comprehender que o atavismo humano é sempre parcial e
    incompleto, consistindo na revivescencia _d'algumas_ qualidades
    ancestraes, e não reconhecer que a regeneração aos degenerados
    superiores se torna, em certas condições, possivel. Pois é acaso fatal
    que a descendencia de um phobico ou de um impulsivo, que são para Magnan
    incontestaveis degenerados, venha a liquidar pela idiotia esteril?

    E esse phobico e esse impulsivo não são, pelo facto mesmo do seu
    _terror_ e do seu _automatismo_ indisciplinado, exemplares de atavismo
    parcial?

    Comprehende-se que, a não fazermos um livro do que deve ser apenas um
    final capitulo d'este _Ensaio_, nos cumpre suspender considerações, que
    o assumpto comporta, mas que se não prendem immediatamente com o nosso
    thema. O que acabamos de dizer sobre as degenerescencia em geral,
    conjugando-se com o que foi dito sobre o atavismo intellectual dos
    delirantes systematisados, justifica largamente a conclusão de que a
    Paranoia é uma degenerescencia.

    BIBLIOGRAPHIA

    TRABALHOS FRANCEZES:

    FOVILLE–_La folie avec prédominence du délire des grandeurs_;

    GARNIER–_Des idées de grandeur dans le délire de persécutions_;

    GÉRENTE–_Du délire chronique_;

    KÉRAVAL–_Des délires plus on moins coherents designés sons le nom de
    Paranoia_ (Archives de Neurologie, vol. XXIX);

    LEGRAIN–_Du délire chez les dégénérés_;

    LASÈGUE–_Le délire de persécutions_;

    MAGNAN–_Le délire chronique à evolution systematique_;

    MAGNAN–_Leçons cliniques sur les maladies mentales_;

    MAGNAN ET LEGRAIN–_Les dégénérés_;

    RÉGIS–_Manuel pratique de médecine mentale_;

    SÉGLAS–_La Paranoia_ (Archives de Neurologie, vol. XIII).

    TRABALHOS ALLEMÃES:

    CRAMER–_Abgrenzung und Differencial Diagnose der Paranoia_ (Allg.
    Zeitschr. f. Psychiatrie, vol. II);

    FRITSCH–_Die Verwirrtheit_ (Jahbücher f. Psych., vol. II);

    KRAFFT-EBING–_Lehrbuch der Psychiatrie_;

    KRAEPELIN–_Compendium der Psychiatrie_;

    MEYNERT–_Klinische Vorlesüngen über die Psychiatrie_;

    MENDEL–_Paranoia_ (Real Encyclopedie);

    MERKLIN–_Studien über die primäre Verrücktheit_;

    SCHÜLE–_Klinische Psychiatrie_;

    SALGO–_Compendium der Psychiatrie_

    WERNER–_Die Paranoia_.

    TRABALHOS ITALIANOS:

    AMADEI E TONNINI–_La Paranoia e la sue forme_ (Archivio italiano per le
    malattie nervose, 83-84);

    BUCCOLA–_Sui delirii sistematisati_ (Rivista di Freniatria, vol. VIII);

    TANZI–_La Paranoia_ (Rivista di Freniatria, vol. x);

    TANZI E RIVA–_La Paranoia_ (Rivista di Freniatria, vol. X, XI e XII);

    TONNINI–_La Paranoia secundaria_ (Rivista di Freniatria, vol. XIII).

    TRABALHOS INGLEZES E NORTE-AMERICANOS:

    CLOUSTON–_Clinical lectures on mental diseases_;

    HAMMOND–_A Treatise on insanity_;

    HAC TUKE AND BUCKNILL–_A Manual of Psychological medicine_;

    MAUDSLEY–_Pathlogy of Mind_;

    SPITZKA–_A Manual of Insanity_.

    INDICE

    PREFACIO

    PRIMEIRA PARTE

    HISTORIA DOS DELIRIOS SYSTEMATISADOS

    I–PHASE INICIAL

    De Areteo a Esquirol–Confusão dos delirios systematisados com a
    melancolia–A monomania intellectual e as suas fórmas depressiva e
    expansiva.

    II–PHASE ANALYTICA

    De Lasègue a J. Falret e de Griesinger a Snell e Sander–O delirio de
    perseguições; a megalomania; o delirio dos perseguidores; a Verrücktheit
    secundaria; a Verrücktheit originaria–Começo de interpretação
    pathogenica.

    III–PHASE SYNTHETICA

    De Morel a Magnan; de Westphal a Cramer; de Buccola a Tanzi e Riva–A
    loucura hypocondriaca; o delirio chronico; a loucura parcial; a
    Verrücktheit aguda e chronica; a Paranoia; a delusional
    insanity–Determinação pathogenica.

    SEGUNDA PARTE

    EXAME CRITICO DO CONCEITO DE PARANOIA

    I–O DELIRIO CHRONICO

    A etiologia; a marcha; o prognostico–Confronto com os delirios
    polymorphos–A passagem do periodo persecutorio ao ambicioso não é
    vulgar; a passagem á demencia é excepcional–O delirante chronico é um
    degenerado; importante observação pessoal–A prognose dos delirios
    polymorphos é muitas vezes a do Delirio Chronico–Dois conceitos de
    Delirio Chronico no espirito de Magnan; génese do segundo.

    II–A VERRÜCKTHEIT AGUDA

    Dois grupos de psychoses sob a mesma designação; a confusão mental e os
    delirios polymorphos–A Verrücktheit e os delirios incoherentes, critica
    das opiniões de Schüle–A Verrücktheit e os delirios systematisados de
    marcha aguda; a critica das opiniões de Krafft-Ebing–Observação
    pessoal–Dissociação dos conceitos de Paranoia e Verrücktheit.

    III–A VERRÜCKTHEIT SECUNDARIA

    Os delirios systematisados que succedem ás psychonevroses; sua
    interpretação pathogenica–A opinião de Tonnini; modificação introduzida
    –Dissociação dos conceitos de Paranoia e Verrücktheit.

    IV–O RACIOCINIO E OS DELIRIOS PARANOICOS

    Erros doutrinarios de Lasègue e Foville sobre a interpretação
    pathogenica dos delirios systematisados; como se perpetuaram na
    psychiatria francesa–A autoobservação e o raciocinio não representam um
    papel na génese dos delirios paranoicos–Depoimento dos factos–A
    primitividade dos delirios paranoicos; sua origem ideativa.

    V–AS ALLUCINAÇÕES E OS DELIRIOS PARANOICOS

    VI–AS OBSESSÕES E OS DELIRIOS PARANOICOS.

    VII–A PARANOIA E A DEGENERESCENCIA

    Extensão do conceito de degenerescencia; desaccordo dos auctores–Causas
    de degenerescencia; opiniões diversas–A degenerescencia e a observação
    clinica; modo de vêr de Magnan; opinião de Krafft-Ebing–Necessidade de
    um ponto de vista geral; seu caracter anthropologico–A definição de
    Morel; o seu defeito essencial–A noção do atavismo em psychiatria; as
    idéas de Magnan e a sua falta de fundamento–Ponto de vista de Tanzi e
    Riva; documentos justificativos–A Paranoia é uma degenerescencia.

    BIBLIOGRAPHIA

  • A Cidade e as Serras

    A Cidade e as Serras

    Aproximadamente 69.974 palavras.

    EÇA DE QUEIROZ

    A CIDADE E AS SERRAS

    PORTO

    LIVRARIA CHARDRON

    De Lello & Irmão, editores

    1901

    Todos os direitos reservados

    EÇA DE QUEIROZ

    A CIDADE E AS SERRAS

    PORTO

    LIVRARIA CHARDRON

    De Lello & Irmão, editores

    1901

    Todos os direitos reservados

    Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao cidadão
    Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que, para a garantia
    que lhe offerece a lei n.^o 496 de 1 d'Agosto de 1898, fez o competente
    deposito na Bibliotheca nacional, segundo a determinação do art. 13.^o
    da mesma Lei.

    _Porto–Imprensa Moderna_

    [Figura de Eça de Queirós]

    A CIDADE E AS SERRAS

    Obras do mesmo auctor:

    *Revista de Portugal.* 4 grossos volumes 12$000

    *As minas de Salomão.* 1 volume $600

    *Os Maias.* 2 grossos volumes 2$000

    *O crime do padre Amaro.* Terceira edição inteiramente refundida,
    recomposta, e differente na fórma e na acção da edição primitiva. 1 grosso
    volume 1$200

    *O primo Bazilio.* Quarta edição. 1 grosso volume 1$000

    *A Reliquia.* 1 grosso volume 1$000

    *O Mandarim.* Quarta edição. 1 volume $500

    *Correspondencia de Fradique Mendes.* 1 volume $600

    *A illustre casa de Ramires.* 1 volume 1$000

    A CIDADE E AS SERRAS

    I

    O meu amigo Jacintho nasceu n'um palacio, com cento e nove contos de
    renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e d'olival.

    No Alemtejo, pela Extremadura, atravez das duas Beiras, densas sebes
    ondulando por collina e valle, muros altos de boa pedra, ribeiras,
    estradas, delimitavam os campos d'esta velha familia agricola que já
    entulhava grão e plantava cepa em tempos d'el-rei D. Diniz. A sua quinta
    e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o
    Tua e o Tinhela, por cinco fartas legoas, todo o torrão lhe pagava fôro.
    E cerrados pinheiraes seus negrejavam desde Arga até ao mar d'Ancora.
    Mas o palacio onde Jacintho nascêra, e onde sempre habitára, era em
    Paris, nos Campos Elyseos, n.^o 202.

    Seu avô, aquelle gordissimo e riquissimo Jacintho a quem chamavam em
    Lisboa o _D. Galião_, descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta,
    rente d'um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou n'uma
    casca de laranja e desabou no lagedo. Da portinha da horta sahia n'esse
    momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baetão verde e
    botas altas de picador, que, galhofando e com uma força facil, levantou
    o enorme Jacintho–até lhe apanhou a bengala de castão d'ouro que rolára
    para o lixo. Depois, demorando n'elle os olhos pestanudos e pretos:

    –Oh Jacintho Galião, que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas
    pedras?

    E Jacintho, aturdido e deslumbrado, reconheceu o snr. Infante D. Miguel!

    Desde essa tarde amou aquelle bom Infante como nunca amára, apesar de
    tão guloso, o seu ventre, e apesar de tão devoto o seu Deus! Na sala
    nobre da sua casa (á Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do
    «seu Salvador», enfeitado de palmitos como um retabulo, e por baixo a
    bengala que as magnanimas mãos reaes tinham erguido do lixo. Emquanto o
    adoravel, desejado Infante penou no desterro de Vienna, o barrigudo
    senhor corria, sacudido na sua sege amarella, do botequim do Zé-Maria em
    Belem á botica do Placido nos Algibebes, a gemer as saudades do
    _anginho_, a tramar o regresso do _anginho_. No dia, entre todos
    bemdito, em que a _Perola_ appareceu á barra com o Messias, engrinaldou
    a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelão e lona onde D.
    Miguel, tornado S. Miguel, branco, d'aureola e azas de Archanjo, furava
    de cima do seu corcel d'Alter o Dragão do Liberalismo, que se estorcia
    vomitando a Carta. Durante a guerra com o «outro, com o pedreiro livre»
    mandava recoveiros a Santo Thyrso, a S. Gens, levar ao Rei fiambres,
    caixas de dôce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e bolsas de retroz
    atochadas de peças que elle ensaboava para lhes avivar o ouro. E quando
    soube que o snr. D. Miguel, com dois velhos bahus amarrados sobre um
    macho, tomára o caminho de Sines e do final desterro–Jacintho _Galião_
    correu pela casa, fechou todas as janellas como n'um luto, berrando
    furiosamente:

    –Tambem cá não fico! tambem cá não fico!

    Não, não queria ficar na terra perversa d'onde partia, esbulhado e
    escorraçado, aquelle Rei de Portugal que levantava na rua os Jacinthos!
    Embarcou para França com a mulher, a snr.^a D. Angelina Fafes (da tão
    fallada casa dos Fafes da Avellan); com o filho, o 'Cinthinho, menino
    amarellinho, mollesinho, coberto de caróços e leicenços; com a aia e com
    o moleque. Nas costas da Cantabria o paquete encontrou tão rijos mares
    que a snr.^a D. Angelina, esguedelhada, de joelhos na enxerga do
    beliche, prometteu ao Senhor dos Passos d'Alcantara uma corôa
    d'espinhos, de ouro, com as gottas de sangue em rubis do Pegu. Em
    Bayonna, onde arribaram, 'Cinthinho teve ithericia. Na estrada
    d'Orleans, n'uma noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam
    partiu, e o nedio senhor, a delicada senhora da casa da Avellan, o
    menino, marcharam tres horas na chuva e na lama do exilio até uma
    aldeia, onde, depois de baterem como mendigos a portas mudas, dormiram
    nos bancos d'uma taberna. No «Hotel dos Santos Padres», em Paris,
    soffreram os terrores d'um fogo que rebentára na cavalhariça, sob o
    quarto de _D. Galião_, e o digno fidalgo, rebolando pelas escadas em
    camisa, até ao pateo, enterrou o pé nú numa lasca de vidro. Então ergueu
    amargamente ao céo o punho cabelludo, e rugiu:

    –Irra! É de mais!

    Logo n'essa semana, sem escolher, Jacintho _Galião_ comprou a um
    Principe polaco, que depois da tomada de Varsovia se mettera frade
    cartuxo, aquelle palacete dos Campos Elyseos, n.^o 202. E sob o pesado
    ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sedas se enconchou,
    descançando de tantas agitações, n'uma vida de pachorra e de boa mesa,
    com alguns companheiros d'emigração (o desembargador Nuno Velho, o conde
    de Rabacena, outros menores), até que morreu de indigestão, d'uma
    lampreia d'escabeche que lhe mandára o seu procurador em Monte-mór. Os
    amigos pensavam que a snr.^a D. Angelina Fafes voltaria ao reino. Mas a
    boa senhora temia a jornada, os mares, as caleças que racham. E não se
    queria separar do seu Confessor, nem do seu Medico, que tão bem lhe
    comprehendiam os escrupulos e a asthma.

    –Eu, por mim, aqui fico no 202 (declarára ella), ainda que me faz falta
    a boa agua d'Alcolena… O 'Cinthinho, esse, em crescendo, que decida.

    O 'Cinthinho crescèra. Era um moço mais esguio e livido que um cirio, de
    longos cabellos corredios, narigudo, silencioso, encafuado em roupas
    pretas, muito largas e bambas; de noite, sem dormir, por causa da tosse
    e de suffocações, errava em camisa com uma lamparina atravez do 202; e
    os creados na copa sempre lhe chamavam a _Sombra_. N'essa sua mudez e
    indecisão de sombra surdira, ao fim do luto do papá, o gosto muito vivo
    de tornear madeiras ao torno: depois, mais tarde, com a melada flôr dos
    seus vinte annos, brotou n'elle outro sentimento, de desejo e de pasmo,
    pela filha do desembargador Velho, uma menina redondinha como uma rôla,
    educada n'um convento de Paris, e tão habilidosa que esmaltava, dourava,
    concertava relogios e fabricava chapéos de feltro. No outomno de 1851,
    quando já se desfolhavam os castanheiros dos Campos Elyseos, o
    'Cinthinho cuspilhou sangue. O medico, acarinhando o queixo e com uma
    ruga seria na testa immensa, aconselhou que o menino abalasse para o
    golfo Juan ou para as tepidas areias d'Arcachon.

    'Cinthinho porém, no seu afèrro de sombra, não se quiz arredar da
    Therezinha Velho, de quem se tornára, atravez de Paris, a muda, tardônha
    sombra. Como uma sombra, casou; deu mais algumas voltas ao torno; cuspiu
    um resto de sangue; e passou, como uma sombra.

    Tres mezes e tres dias depois do seu enterro o meu Jacintho nasceu.

    * * * * *

    Desde o berço, onde a avó espalhava funcho e ambar para afugentar a
    _Sorte-Ruim_, Jacintho medrou com a segurança, a rijeza, a seiva rica
    d'um pinheiro das dunas.

    Não teve sarampo e não teve lombrigas. As Letras, a Taboada, o Latim
    entraram por elle tão facilmente como o sol por uma vidraça. Entre os
    camaradas, nos pateos dos collegios, erguendo a sua espada de lata e
    lançando um brado de commando, foi logo o vencedor, o Rei que se adula,
    e a quem se cede a fructa das merendas. Na edade em que se lê Balzac e
    Musset nunca atravessou os tormentos da sensibilidade;–nem crepusculos
    quentes o retiveram na solidão d'uma janella, padecendo d'um desejo sem
    fórma e sem nome. Todos os seus amigos (eramos tres, contando o seu
    velho escudeiro preto, o Grillo) lhe conservaram sempre amizades puras e
    certas–sem que jámais a participação do seu luxo as avivasse ou fossem
    desanimadas pelas evidencias do seu egoismo. Sem coração bastante forte
    para conceber um amor forte, e contente com esta incapacidade que o
    libertava, do amor só experimentou o mel–esse mel que o amor reserva
    aos que o recolhem, á maneira das abelhas, com ligeireza, mobilidade e
    cantando. Rijo, rico, indifferente ao Estado e ao Governo dos Homens,
    nunca lhe conhecemos outra ambição além de comprehender bem as Ideias
    Geraes; e a sua intelligencia, nos annos alegres de escólas e
    controversias, círculava dentro das Philosophias mais densas como enguia
    lustrosa na agua limpa d'um tanque. O seu valor, genuino, de fino
    quilate, nunca foi desconhecido, nem desapreciado; e toda a opinião, ou
    mera facecia que lançasse, logo encontrava uma aragem de sympathia e
    concordancia que a erguia, a mantinha emballada e rebrilhando nas
    alturas. Era servido pelas cousas com docilidade e carinho;–e não
    recordo que jamais lhe estalasse um botão da camisa, ou que um papel
    maliciosamente se escondesse dos seus olhos, ou que ante a sua
    vivacidade e pressa uma gaveta perfida emperrasse. Quando um dia, rindo
    com descrido riso da Fortuna e da sua Roda, comprou a um sachristão
    hespanhol um Decimo de Loteria, logo a Fortuna, ligeira e ridente sobre
    a sua Roda, correu n'um fulgor, para lhe trazer quatro centas mil
    pesetas. E no ceu as Nuvens, pejadas e lentas, se avistavam Jacintho sem
    guarda chuva, retinham com reverencia as suas aguas até que elle
    passasse… Ah! o ambar e o funcho da snr.^a D. Angelina tinham
    escorraçado do seu destino, bem triumphalmente e para sempre, a
    _Sorte-Ruim_! A amoravel avó (que eu conheci obesa, com barba) costumava
    citar um soneto natalicio do desembargador Nunes Velho contendo um verso
    de boa lição:

    Sabei, senhora, que esta Vida é um rio…

    Pois um rio de verão, manso, translucido, harmoniosamente estendido
    sobre uma areia macia e alva, por entre arvoredos fragrantes e ditosas
    aldeias, não offereceria áquelle que o descesse n'um barco de cedro, bem
    toldado e bem almofadado, com fructas e Champagne a refrescar em gelo,
    um Anjo governando ao leme, outros Anjos puxando á sirga, mais segurança
    e doçura do que a Vida offerecia ao meu amigo Jacintho.

    Por isso nós lhe chamavamos «o Principe da Gran-Ventura»!

    * * * * *

    Jacintho e eu, José Fernandes, ambos nos encontramos e acamaradamos em
    Paris, nas Escólas do Bairro Latino–para onde me mandára meu bom tio
    Affonso Fernandes Lorena de Noronha e Sande, quando aquelles malvados me
    riscaram da Universidade por eu ter esborrachado, n'uma tarde de
    procissão, na Sophia, a cara sordida do dr. Paes Pitta.

    Ora n'esse tempo Jacintho concebêra uma Ideia… Este Principe concebêra
    a Ideia de que «o homem só é superiormente feliz quando é superiormente
    civilisado». E por homem civilisado o meu camarada entendia aquelle que,
    robustecendo a sua força pensante com todas as noções adquiridas desde
    Aristoteles, e multiplicando a potencia corporal dos seus orgãos com
    todos os mechanismos inventados desde Theramenes, creador da roda, se
    torna um magnifico Adão, quasí omnipotente, quasí omnisciente, e apto
    portanto a recolher dentro d'uma sociedade e nos limites do Progresso
    (tal como elle se comportava em 1875) todos os gozos e todos os
    proveitos que resultam de Saber e de Poder… Pelo menos assim Jacintho
    formulava copiosamente a sua Ideia, quando conversavamos de fins e
    destinos humanos, sorvendo bocks poeirentos, sob o toldo das cervejarias
    philosophicas, no Boulevard Saint-Michel.

    Este conceito de Jacintho impressionára os nossos camaradas de cenaculo,
    que tendo surgido para a vida intellectual, de 1866 a 1875, entre a
    batalha de Sadowa e a batalha de Sedan, e ouvindo constantemente, desde
    então, aos technicos e aos philosophos, que fôra a Espingarda-de-agulha
    que vencêra em Sadowa e fôra o Mestre-de-escóla quem vencêra em Sedan,
    estavam largamente preparados a acreditar que a felicidade dos
    individuos, como a das nações, se realisa pelo illimitado
    desenvolvimento da Mechanica e da Erudição. Um d'esses moços mesmo, o
    nosso inventivo Jorge Carlande, reduzíra a theoria de Jacintho, para lhe
    facilitar a circulação e lhe condensar o brilho, a uma fórma algebrica:

    Summa sciencia}
    X }= Summa felicidade
    Summa potencia}

    E durante dias, do Odeon á Sorbonna, foi louvada pela mocidade positiva
    a _Equação Metaphysica de Jacintho_.

    Para Jacintho, porém, o seu conceito não era meramente metaphysico e
    lançado pelo gozo elegante de exercer a razão especulativa:–mas
    constituia uma regra, toda de realidade e de utilidade, determinando a
    conducta, modalisando a vida. E já a esse tempo, em concordancia com o
    seu preceito–elle se surtira da _Pequena Encyclopedia dos Conhecimentos
    Universaes_ em setenta e cinco volumes e installára, sobre os telhados
    do 202, n'um mirante envidraçado, um telescopio. Justamente com esse
    telescopio me tornou elle palpavel a sua ideia, n'uma noite de agosto,
    de molle e dormente calor. Nos céos remotos lampejavam relampagos
    languidos. Pela Avenida dos Campos Elyseos, os fiacres rolavam para as
    frescuras do Bosque, lentos, abertos, cançados, transbordando de
    vestidos claros.

    –Aqui tens tu, Zé Fernandes, (começou Jacintho, encostado á janella do
    mirante) a theoria que me governa, bem comprovada. Com estes olhos que
    recebemos da Madre natureza, lestos e sãos, nós podemos apenas
    distinguir além, atravez da Avenida, n'aquella loja, uma vidraça
    alumiada. Mais nada! Se eu porém aos meus olhos juntar os dois vidros
    simples d'um binoculo de corridas, percebo, por traz da vidraça,
    presuntos, queijos, boiões de gelêa e caixas de ameixa sêcca. Concluo
    portanto que é uma mercearia. Obtive uma noção; tenho sobre ti, que com
    os olhos desarmados vês só o luzir da vidraça, uma vantagem positiva. Se
    agora, em vez d'estes vidros simples, eu usasse os do meu telescopio, de
    composição mais scientifica, poderia avistar além, no planeta Marte, os
    mares, as neves, os canaes, o recorte dos golphos, toda a geographia
    d'um astro que circula a milhares de leguas dos Campos Elyseos. É outra
    noção, e tremenda! Tens aqui pois o olho primitivo, o da Natureza,
    elevado pela Civilisação á sua maxima potencia de visão. E desde já,
    pelo lado do olho portanto, eu, civilisado, sou mais feliz que o
    incivilisado, porque descubro realidades do Universo que elle não
    suspeita e de que está privado. Applica esta prova a todos os orgãos e
    comprehendes o meu principio. Emquanto á intelligencia, e á felicidade
    que d'ella se tira pela incançavel accumulação das noções, só te peco
    que compares Renan e o Grillo… Claro é portanto que nos devemos cercar
    de Civilisação nas maximas proporções para gosar nas maximas proporções
    a vantagem de viver. Agora concordas, Zé Fernandes?

    Não me parecia irrecusavelmente certo que Renan fosse mais feliz que o
    Grillo; nem eu percebia que vantagem espiritual ou temporal se côlha em
    distinguir atravez do espaço manchas n'um astro, ou atravez da Avenida
    dos Campos Elyseos presuntos n'uma vidraça. Mas concordei, porque sou
    bom, e nunca desalojarei um espirito do conceito onde elle encontra
    segurança, disciplina e motivo de energia. Desabotoei o collete, e
    lançando um gesto para o lado dos cafés e das luzes:

    –Vamos então beber, nas maximas proporções, _brandy and soda_, com
    gelo!

    Por uma conclusão bem natural, a ideia de Civilisação, para Jacintho,
    não se separava da imagem de Cidade, d'uma enorme Cidade, com todos os
    seus vastos orgãos funccionando poderosamente. Nem este meu
    super-civilisado amigo comprehendia que longe de Armazens servidos por
    tres mil caixeiros; e de Mercados onde se despejam os vergeis e lezirias
    de trinta provincias; e de Bancos em que retine o ouro universal; e de
    Fabricas fumegando com ancia, inventando com ancia; e de Bibliothecas
    abarrotadas, a estalar, com a papelada dos seculos; e de fundas milhas
    de ruas, cortadas, por baixo e por cima, de fios de telegraphos, de fios
    de telephones, de canos de gazes, de canos de fezes; e da fila atroante
    dos omnibus, tramways, carroças, velocipedes, calhambeques, parelhas de
    luxo; e de dois milhões d'uma vaga humanidade, fervilhando, a offegar,
    atravez da Policia, na busca dura do pão ou sob a illusão do gozo–o
    homem do seculo XIX podesse saborear, plenamente, a delicia de viver!

    Quando Jacintho, no seu quarto do 202, com as varandas abertas sobre os
    lilazes, me desenrolava estas imagens, todo elle crescia, illuminado.
    Que creação augusta, a da Cidade! Só por ella, Zé-Fernandes, só por
    ella, póde o homem soberbamente affirmar a sua alma!…

    –Oh Jacintho, e a religião? Pois a religião não prova a alma?

    Elle encolhia os hombros. A religião! A religião é o desenvolvimento
    sumptuoso de um instincto rudimentar, commum a todos os brutos, o
    terror. Um cão lambendo a mão do dono, de quem lhe vem o osso ou o
    chicote, já constitue toscamente um devoto, o consciente devoto,
    prostrado em rezas ante o Deus que distribue o céo ou o inferno!… Mas
    o telephone! o phonographo!

    –Ahi tens tu, o phonographo!… Só o phonographo, Zé Fernandes, me faz
    verdadeiramente sentir a minha superioridade de sêr pensante e me separa
    do bicho. Acredita, não ha senão a Cidade, Zé Fernandes, não ha senão a
    Cidade!

    E depois (accrescentava) só a Cidade lhe dava a sensação, tão necessaria
    á vida como o calor, da solidariedade humana. E no 202, quando
    considerava em redor, nas densas massas do casario de Paris, dois
    milhões de sêres arquejando na obra da Civilisação (para manter na
    natureza o dominio dos Jacinthos!) sentia um socego, um conchego, só
    comparaveis ao do peregrino, que, ao atravessar o deserto, se ergue no
    seu dromedario, e avista a longa fila da caravana marchando, cheia de
    lumes e de armas…

    Eu murmurava, impressionado:

    –Caramba!

    Ao contrario no campo, entre a inconsciencia e a impassibilidade da
    Natureza, elle tremia com o terror da sua fragilidade e da sua solidão.
    Estava ahi como perdido n'um mundo que lhe não fosse fraternal; nenhum
    silvado encolheria os espinhos para que elle passasse; se gemesse com
    fome nenhuma arvore, por mais carregada, lhe estenderia o seu fructo na
    ponta compassiva d'um ramo. Depois, em meio da Natureza, elle assistia á
    subita e humilhante inutilisação de todas as suas faculdades superiores.
    De que servia, entre plantas e bichos–ser um Genio ou ser um Santo? As
    searas não comprehendem as _Georgicas_; e fôra necessario o socorro
    ancioso de Deus, e a inversão de todas as leis naturaes, e um violento
    milagre para que o lobo de Agubio não devorasse S. Francisco d'Assis,
    que lhe sorria e lhe estendia os braços e lhe chamava «meu irmão lobo»!
    Toda a intellectualidade, nos campos, se esterilisa, e só resta a
    bestialidade. N'esses reinos crassos do Vegetal e do Animal duas unicas
    funcções se mantêm vivas, a nutritiva e a procreadora. Isolada, sem
    occupação, entre focinhos e raizes que não cessam de sugar e de pastar,
    suffocando no calido bafo da universal fecundação, a sua pobre alma toda
    se engelhava, se reduzia a uma migalha d'alma, uma fagulhasinha
    espiritual a tremeluzir, como morta, sobre um naco de materia; e n'essa
    materia dois instinctos surdiam, imperiosos e pungentes, o de devorar e
    o de gerar. Ao cabo de uma semana rural, de todo o seu sêr tão
    nobremente composto só restava um estomago e por baixo um phallus! A
    alma? Sumida sob a besta. E necessitava correr, reentrar na Cidade,
    mergulhar nas ondas lustraes da Civilisação, para largar n'ellas a
    crosta vegetativa, e resurgir re-humanisado, de novo espiritual e
    Jacinthico!

    E estas requintadas metaphoras do meu amigo exprimiam sentimentos
    reaes–que eu testemunhei, que muito me divertiram, no unico passeio que
    fizemos ao campo, á bem amavel e bem sociavel floresta de Montmorency.
    Oh delicias d'entremez, Jacintho entre a Natureza! Logo que se afastava
    dos pavimentos de madeira, do macadam, qualquer chão que os seus pés
    calcassem o enchia de desconfiança e terror. Toda a relva, por mais
    crestada, lhe parecia reçumar uma humidade mortal. De sob cada torrão,
    da sombra de cada pedra, receava o assalto de lacraus, de viboras, de
    fórmas rastejantes e viscosas. No silencio do bosque sentia um lugubre
    despovoamento do Universo. Não tolerava a familiaridade dos galhos que
    lhe roçassem a manga ou a face. Saltar uma sebe era para elle um acto
    degradante que o retrogradava ao macaco inicial. Todas as flôres que não
    tivesse já encontrado em jardins, domesticadas por longos seculos de
    servidão ornamental, o inquietavam como venenosas. E considerava d'uma
    melancolia funambulesca certos modos e fórmas do Sêr inanimado, a pressa
    esperta e vã dos regatinhos, a careca dos rochedos, todas as contorsões
    do arvoredo e o seu resmungar solemne e tonto.

    Depois d'uma hora, n'aquelle honesto bosque de Montmorency, o meu pobre
    amigo abafava, apavorado, experimentando já esse lento mingoar e sumir
    d'alma que o tornava como um bicho entre bichos. Só desannuviou quando
    penetramos no lagêdo e no gaz de Paris–e a nossa vittoria quasi se
    despedaçou contra um omnibus retumbante, atulhado de cidadãos. Mandou
    descer pelos Boulevards, para dissipar, na sua grossa sociabilidade,
    aquella materialisação em que sentia a cabeça pesada e vaga como a d'um
    boi. E reclamou que eu o acompanhasse ao theatro das Variedades para
    sacudir, com os estribilhos da _Femme à Papa_, o rumor importuno que lhe
    ficára dos melros cantando nos choupos altos.

    Este delicioso Jacintho fizera então vinte e tres annos, e era um
    soberbo moço em quem reapparecêra a força dos velhos Jacinthos ruraes.
    Só pelo nariz, afilado, com narinas quasi transparentes, d'uma
    mobilidade inquieta, como se andasse fariscando perfumes, pertencia ás
    delicadezas do seculo XIX. O cabello ainda se conservava, ao modo das
    éras rudes, crespo e quasi lanigero: e o bigode, como o d'um Celta,
    cahia em fios sedosos, que elle necessitava aparar e frizar. Todo o seu
    fato, as espessas gravatas de setim escuro que uma perola prendia, as
    luvas de anta branca, o verniz das botas, vinham de Londres em caixotes
    de cedro; e usava sempre ao peito uma flôr, não natural, mas composta
    destramente pela sua ramalheteira com petalas de flôres dessemelhantes,
    cravo, azalea, orchidea ou tulipa, fundidas na mesma haste entre uma
    leve folhagem de funcho.

    * * * * *

    Em 1880, em Fevereiro, n'uma cinzenta e arripiada manhã de chuva, recebi
    uma carta de meu bom tio Affonso Fernandes, em que, depois de
    lamentações sobre os seus setenta annos, os seus males hemorroidaes, e a
    pesada gerencia dos seus bens «que pedia homem mais novo, com pernas
    mais rijas»–me ordenava que recolhesse á nossa casa de Guiães, no
    Douro! Encostado ao marmore partido do fogão, onde na véspera a minha
    Nini deixára um espartilho embrulhado no _Jornal dos Debates_, censurei
    severamente meu tio que assim cortava em botão, antes de desabrochar, a
    flôr do meu Saber Juridico. Depois n'um Post-Scriptum elle
    accrescentava–«O tempo aqui está lindo, o que se póde chamar de rosas,
    e tua santa tia muito se recommenda, que anda lá pela cozinha, porque
    vai hoje em trinta e seis annos que casámos, temos cá o abbade e o
    Quintaes a jantar, e ella quiz fazer uma sopa dourada».

    Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa dourada da
    tia Vicencia. Ha quantos annos não a provava, nem o leitão assado, nem o
    arroz de fôrno da nossa casa! Com o tempo assim tão lindo, já as mimosas
    do nosso pateo vergariam sob os seus grandes cachos amarellos. Um pedaço
    de céo azul, do azul de Guiães, que outro não ha tão lustroso e macio,
    entrou pelo quarto, alumiou, sobre a poida tristeza do tapete, relvas,
    ribeirinhos, malmequeres e flôres de trevo de que meus olhos andavam
    agoados. E, por entre as bambinellas de sarja, passou um ar fino e forte
    e cheiroso de serra e de pinheiral.

    Assobiando um _fado_ meigo tirei debaixo da cama a minha velha mala, e
    metti solicitamente entre calças e piugas um Tratado de Direito Civil,
    para aprender emfim, nos vagares da aldeia, estendido sob a faia, as
    leis que regem os homens. Depois, n'essa tarde, annunciei a Jacintho que
    partia para Guiães. O meu camarada recuou com um surdo gemido de espanto
    e piedade:

    –Para Guiães!… Oh Zé Fernandes, que horror!

    E toda essa semana me lembrou solicitamente confortos de que eu me
    deveria prover para que pudesse conservar, nos ermos silvestres, tão
    longe da Cidade, uma pouca d'alma dentro d'um pouco de corpo. «Leva uma
    poltrona! Leva a _Encyclopedia Geral_! Leva caixas de aspargos!…»

    Mas para o meu Jacintho, desde que assim me arrancavam da Cidade, eu era
    arbusto desarraigado que não reviverá. A magoa com que me acompanhou ao
    comboio conviria excellentemente ao meu funeral. E quando fechou sobre
    mim a portinhola, gravemente, supremamente, como se cerra uma grade de
    sepultura, eu quasi solucei–com saudades minhas.

    Cheguei a Guiães. Ainda restavam flôres nas mimosas do nosso pateo; comi
    com delicias a sopa dourada da tia Vicencia; de tamancos nos pés assisti
    á ceifa dos milhos. E assim de colheitas a lavras, crestando ao sol das
    eiras, caçando a perdiz nos matos geados, rachando a melancia fresca na
    poeira dos arraiaes, arranchando a magustos, serandando á candeia,
    atiçando fogueiras de S. João, enfeitando presepios de Natal, por alli
    me passaram docemente sete annos, tão atarefados que nunca logrei abrir
    o Tratado de Direito Civil, e tão singelos que apenas me recordo quando,
    em vésperas de S. Nicolau, o abbade cahiu da egua á porta do Braz das
    Córtes. De Jacintho só recebia raramente algumas linhas, escrevinhadas á
    pressa por entre o tumulto da Civilisação. Depois, n'um Setembro muito
    quente, ao lidar da vindima, meu bom tio Affonso Fernandes morreu, tão
    quietamente, Deus seja louvado por esta graça, como se cala um
    passarinho ao fim do seu bem cantado e bem voado dia. Acabei pela aldeia
    a roupa do luto. A minha afilhada Joanninha casou na matança do porco.
    Andaram obras no nosso telhado. Voltei a Paris.

    II

    Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arripiado e cinzento, quando eu
    desci os Campos Elyseos em demanda do 202. Adiante de mim caminhava,
    levemente curvado, um homem que, desde as botas rebrilhantes até ás abas
    recurvas do chapéo d'onde fugiam anneis d'um cabello crespo, reçumava
    elegancia e a familiaridade das coisas finas. Nas mãos, cruzadas atraz
    das costas, calçadas d'anta branca, sustentava uma bengala grossa com
    castão de crystal. E só quando elle parou ao portão do 202 reconheci o
    nariz afilado, os fios do bigode corredios e sedosos.

    –Oh Jacintho!

    –Oh Zé Fernandes!

    O abraço que nos enlaçou foi tão alvoroçado que o meu chapéo rolou na
    lama. E ambos murmuravamos, commovidos, entrando a grade:

    –Ha sete annos!…

    –Ha sete annos!…

    E, todavia, nada mudára durante esses sete annos no jardim do 202! Ainda
    entre as duas aleas bem areadas se arredondava uma relva, mais lisa e
    varrida que a lã d'um tapete. No meio o vaso corinthico esperava Abril
    para resplandecer com tulipas e depois Junho para transbordar de
    margaridas. E ao lado das escadas limiares, que uma vidraçaria toldava,
    as duas magras Deusas de pedra, do tempo de D. Galião, sustentavam as
    antigas lampadas de globos foscos, onde já silvava o gaz.

    Mas dentro, no peristillo, logo me surprehendeu um elevador installado
    por Jacintho–apesar do 202 ter sómente dois andares, e ligados por uma
    escadaria tão doce que nunca offendêra a asthma da snr.^a D. Angelina!
    Espaçoso, tapetado, elle offerecia, para aquella jornada de sete
    segundos, confortos numerosos, um divan, uma pelle d'urso, um roteiro
    das ruas de Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros. Na
    antecamara, onde desembarcamos, encontrei a temperatura macia e tepida
    d'uma tarde de Maio, em Guiães. Um creado, mais attento ao thermometro
    que um piloto á agulha, regulava destramente a bocca dourada do
    calorifero. E perfumadores entre palmeiras, como n'um terrasso santo de
    Benares, esparziam um vapor, aromatisando e salutarmente humedecendo
    aquelle ar delicado e superfino.

    Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado sêr:

    –Eis a civilisação!

    Jacintho empurrou uma porta, penetramos n'uma nave cheia de magestade e
    sombra, onde reconheci a Bibliotheca por tropeçar n'uma pilha monstruosa
    de livros novos. O meu amigo roçou de leve o dedo na parede: e uma corôa
    de lumes electricos, refulgindo entre os lavores do tecto, alumiou as
    estantes monumentaes, todas d'ebano. N'ellas repousavam mais de trinta
    mil volumes, encadernados em branco, em escarlate, em negro, com
    retoques d'ouro, hirtos na sua pompa e na sua auctoridade como doutores
    n'um concilio.

    Não contive a minha admiração:

    –Oh Jacintho! Que deposito!

    Elle murmurou, n'um sorriso descorado:

    –Ha que lêr, ha que lêr…

    Reparei então que o meu amigo emmagrecera: e que o nariz se lhe afilára
    mais entre duas rugas muito fundas, como as d'um comediante cançado. Os
    anneis do seu cabello lanigero rareavam sobre a testa, que perdera a
    antiga serenidade de marmore bem polido. Não frisava agora o bigode
    murcho, cahido em fios pensativos. Tambem notei que corcovava.

    Elle erguêra uma tapeçaria–entramos no seu gabinete de trabalho, que me
    inquietou. Sobre a espessura dos tapetes sombrios os nossos passos
    perderam logo o som, e como a realidade. O damasco das paredes, os
    divans, as madeiras, eram verdes, d'um verde profundo de folha de louro.
    Sêdas verdes envolviam as luzes electricas, dispersas em lampadas tão
    baixas que lembravam estrellas cahidas por cima das mesas, acabando de
    arrefecer e morrer: só uma rebrilhava, núa e clara, no alto d'uma
    estante quadrada, esguia, solitaria como uma torre n'uma planicie, e de
    que o lume parecia ser o pharol melancolico. Um biombo de laca verde,
    fresco verde de relva, resguardava a chaminé de marmore verde, verde de
    mar sombrio, onde esmoreciam as brazas d'uma lenha aromatica. E entre
    aquelles verdes reluzia, por sobre peanhas e pedestaes, toda uma
    Mechanica sumptuosa, apparelhos, laminas, rodas, tubos, engrenagens,
    hastes, friezas, rigidezas de metaes…

    Mas Jacintho batia nas almofadas do divan, onde se enterrára com um modo
    cançado que eu não lhe conhecia:

    –Para aqui, Zé Fernandes, para aqui! É necessario reatarmos estas
    nossas vidas, tão apartadas ha sete annos!… Em Guiães, sete annos! Que
    fizeste tu?

    –E tu, que tens feito, Jacintho?

    O meu amigo encolheu mollemente os hombros. Vivêra–cumprira com
    serenidade todas as funcções, as que pertencem á materia e as que
    pertencem ao espirito…

    –E accumulaste civilisação, Jacintho! Santo Deus… Está tremendo, o
    202!

    Elle espalhou em torno um olhar onde já não faiscava a antiga
    vivacidade:

    –Sim, ha confortos… Mas falta muito! A humanidade ainda está mal
    apetrechada, Zé Fernandes… E a vida conserva resistencias.

    Subitamente, a um canto, repicou a campainha do telephone. E emquanto o
    meu amigo, curvado sobre a placa, murmurava impaciente «_Está lá?–Está
    lá?_», examinei curiosamente, sobre a sua immensa mesa de trabalho, uma
    estranha e miuda legião de instrumentosinhos de nickel, d'aço, de cobre,
    de ferro, com gumes, com argolas, com tenazes, com ganchos, com dentes,
    expressivos todos, de utilidades misteriosas. Tomei um que tentei
    manejar–e logo uma ponta malevola me picou um dedo. N'esse instante
    rompeu d'outro canto um «tic-tic-tic» açodado, quasi ancioso. Jacintho
    acudiu, com a face no telephone:

    –Vê ahi o telegrapho!… Ao pé do divan. Uma tira de papel que deve
    estar a correr.

    E, com effeito, d'uma redôma de vidro posta n'uma columna, e contendo um
    apparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como uma tenia, a
    longa tira de papel com caracteres impressos, que eu, homem das serras,
    apanhei, maravilhado. A linha, traçada em azul, annunciava ao meu amigo
    Jacintho que a fragata russa _Azoff_ entrára em Marselha com avaria!

    Já elle abandonára o telephone. Desejei saber, inquieto, se o
    prejudicava directamente aquella avaria da _Azoff_.

    –Da _Azoff_?… A avaria? A mim?… Não! É uma noticia.

    Depois, consultando um relogio monumental que, ao fundo da Bibliotheca,
    marcava a hora de todas as Capitaes e o curso de todos os Planetas:

    –Eu preciso escrever uma carta, seis linhas… Tu esperas, não, Zé
    Fernandes? Tens ahi os jornaes de Paris, da noite; e os de Londres,
    d'esta manhã. As Illustrações além, n'aquella pasta de couro com
    ferragens.

    Mas eu preferi inventariar o gabinete, que dava á minha profanidade
    serrana todos os gostos d'uma iniciação. Aos lados da cadeira de
    Jacintho pendiam gordos tubos acusticos, por onde elle decerto soprava
    as suas ordens através do 202. Dos pés da mesa cordões tumidos e molles,
    colleando sobre o tapete, corriam para os recantos de sombra á maneira
    de cobras assustadas. Sobre uma banquinha, e reflectida no seu verniz
    como na agua d'um poço, pousava uma Machina-de-escrever: e adiante era
    uma immensa Machina-de-calcular, com fileiras de buracos d'onde
    espreitavam, esperando, numeros rigidos e de ferro. Depois parei em
    frente da estante que me preoccupava, assim solitaria, á maneira d'uma
    torre n'uma planicie, com o seu alto pharol. Toda uma das suas faces
    estava repleta de Diccionarios; a outra de Manuaes; a outra de Atlas; a
    ultima de Guias, e entre elles, abrindo um folio, encontrei o Guia das
    ruas de Samarkande. Que macissa torre de informação! Sobre prateleiras
    admirei apparelhos que não comprehendia:–um composto de laminas de
    gelatina, onde desmaiavam, meio-chupadas, as linhas d'uma carta, talvez
    amorosa; outro, que erguia sobre um pobre livro brochado, como para o
    decepar, um cutello funesto; outro avançando a bocca d'uma tuba, toda
    aberta para as vozes do invisivel. Cingidos aos umbraes, liados ás
    cimalhas, luziam arames, que fugiam através do tecto, para o espaço.
    Todos mergulhavam em forças universaes, todos transmittiam forças
    universaes. A Natureza convergia disciplinada ao serviço do meu amigo e
    entrára na sua domesticidade!…

    Jacintho atirou uma exclamação impaciente:

    –Oh, estas pennas electricas!… Que secca!

    Amarrotára com colera a carta começada–eu escapei, respirando, para a
    Bibliotheca. Que magestoso armazem dos productos do Raciocinio e da
    Imaginação! Alli jaziam mais de trinta mil volumes, e todos decerto
    essenciaes a uma cultura humana. Logo á entrada notei, em ouro n'uma
    lombada verde, o nome de Adam Smith. Era pois a região dos Economistas.
    Avancei–e percorri, espantado, oito metros de Economia Politica. Depois
    avistei os Philosophos e os seus commentadores, que revestiam toda uma
    parede, desde as escólas Pre-socraticas até ás escólas Neo-pessimistas.
    N'aquellas pranchas se acastellavam mais de dois mil systemas–e que
    todos se contradiziam. Pelas encadernações logo se deduziam as
    doutrinas: Hobbes, em baixo, era pesado, de couro negro; Platão, em
    cima, resplandecia, n'uma pellica pura e alva. Para diante começavam as
    Historias Universaes. Mas ahi uma immensa pilha de livros brochados,
    cheirando a tinta nova e a documentos novos, subia contra a estante,
    como fresca terra d'alluvião tapando uma riba secular. Contornei essa
    collina, mergulhei na secção das Sciencias Naturaes, peregrinando, n'um
    assombro crescente, da Orographia para a Paleontologia, e da Morphologia
    para a Crystallographia. Essa estante rematava junto d'uma janella
    rasgada sobre os Campos Elyseos. Apartei as cortinas de velludo–e por
    traz descobri outra portentosa rima de volumes, todos de Historia
    Religiosa, de Exegese Religiosa, que trepavam montanhosamente até aos
    ultimos vidros, vedando, nas manhãs mais candidas, o ar e a luz do
    Senhor.

    Mas depois rebrilhava, em marroquins claros, a estante amavel dos
    Poetas. Como um repouso para o espirito esfalfado de todo aquelle saber
    positivo, Jacintho aconchegára ahi um recanto, com um divan e uma mesa
    de limoeiro, mais lustrosa que um fino esmalte, coberta de charutos, de
    cigarros d'Oriente, de tabaqueiras do seculo XVIII. Sobre um cofre de
    madeira lisa pousava ainda, esquecido, um prato de damascos seccos do
    Japão. Cedi á seducção das almofadas; trinquei um damasco, abri um
    volume; e senti estranhamente, ao lado, um zumbido, como de um insecto
    de azas harmoniosas. Sorri á idéa que fossem abelhas, compondo o seu mel
    n'aquelle massiço de versos em flôr. Depois percebi que o susurro remoto
    e dormente vinha do cofre de mogne, de parecer tão discreto. Arredei uma
    _Gazeta de França_; e descornitei um cordão que emergia de um orificio,
    escavado no cofre, e rematava n'um funil de marfim. Com curiosidade,
    encostei o funil a esta minha confiada orelha, afeita á singeleza dos
    rumores da serra. E logo uma Voz, muito mansa, mas muito dicidida,
    aproveitando a minha curiosidade para me invadir e se apoderar do meu
    entendimento, susurrou capciosamente:

    –…«E assim, pela disposição dos cubos diabolicos, eu chego a
    verificar os espaços hypermagicos!…»

    Pulei, com um berro.

    –Oh Jacintho, aqui ha um homem! Está aqui um homem a fallar dentro
    d'uma caixa!

    O meu camarada, habituado aos prodigios, não se alvoroçou:

    –É o Conferençophone… Exactamente como o Theatrophone; sómente
    applicado ás escólas e ás conferencias. Muito commodo!… Que diz o
    homem, Zé Fernandes?

    Eu considerava o cofre, ainda esgazeado:

    –Eu sei! Cubos diabolicos, espaços magicos, toda a sorte de horrores…

    Senti dentro o sorriso superior de Jacintho:

    –Ah, é o coronel Dorchas… Lições de Metaphysica Positiva sobre a
    Quarta Dimensão… Conjecturas, uma massada! Ouve lá, tu hoje jantas
    commigo e com uns amigos, Zé Fernandes?

    –Não, Jacintho… Estou ainda enfardelado pelo alfaiate da serra!

    E voltei ao gabinete mostrar ao meu camarada o jaquetão de flanella
    grossa, a gravata de pintinhas escarlates, com que ao domingo, em
    Guiães, visitava o Senhor. Mas Jacintho affirmou que esta simplicidade
    montesina interessaria os seus convidados, que eram dois artistas…
    Quem? O auctor do _Coração Triplo_, um Psychologo Feminista, d'agudeza
    transcendente, Mestre muito experimentado e muito consultado em
    Sciencias Sentimentaes; e Vorcan, um pintor mythico, que interpretára
    ethereamente, havia um anno, a symbolia rapsodica do cerco de Troia,
    n'uma vasta composição, _Helena Devastadora_…

    Eu coçava a barba:

    –Não, Jacintho, não… Eu venho de Guiães, das serras; preciso entrar
    em toda esta civilisacão, lentamente, com cautella, senão rebento. Logo
    na mesma tarde a electricidade, e o conferençophone, e os espaços
    hypermagicos e o feminista, e o ethereo, e a symbolia devastadora, é
    excessivo! Volto ámanhã.

    Jacintho dobrava vagarosamente a sua carta, onde mettera sem rebuço
    (como convinha á nossa fraternidade) duas violetas brancas tiradas do
    ramo que lhe floria o peito.

    –Ámanhã, Zé Fernandes, tu vens antes d'almoço, com as tuas malas dentro
    d'um fiacre, para te installares no 202, no teu quarto. No Hotel são
    embaraços, privações. Aqui tens o telephone, o teatrophone, livros…

    Acceitei logo, com simplicidade. E Jacintho, embocando um tubo acustico,
    murmurou:

    –Grillo!

    Da parede, recoberta de damasco, que subitamente e sem rumor se fendeu,
    surdio o seu velho escudeiro (aquelle moleque que viera com _D.
    Gallião_), que eu me alegrei de encontrar tão rijo, mais negro,
    reluzente e veneravel na sua tesa gravata, no seu collete branco de
    botões de ouro. Elle tambem estimou vêr de novo «o siô Fernandes». E,
    quando soube que eu occuparia o quarto do avô Jacintho, teve um claro
    sorriso de preto, em que envolveu o seu senhor, no contentamento de o
    sentir emfim reprovido d'uma familia.

    –Grillo, dizia Jacintho, esta carta a Madame de Oriol… Escuta!
    Telephona para casa dos Trèves que os espiritistas só estão livres no
    domingo… Escuta! Eu tomo uma douche antes de jantar, tepida, a 17.
    Fricção com malva-rosa.

    E cahindo pesadamente para cima do divan, com um bocejo arrastado e
    vago:

    –Pois é verdade, meu Zé Fernandes, aqui estamos, como ha sete annos,
    n'este velho Paris…

    Mas eu não me arredava da mesa, no desejo de completar a minha
    iniciação:

    –Oh Jacintho, para que servem todos estes instrumentosinhos? Houve já
    ahi um desavergonhado que me picou. Parecem perversos… São uteis?

    Jacintho esboçou, com languidez, um gesto que os
    sublimava.–Providenciaes, meu filho, absolutamente providenciaes, pela
    simplificação que dão ao trabalho! Assim… E apontou. Este arrancava as
    pennas velhas; o outro numerava rapidamente as paginas d'um manuscripto;
    aquell'outro, além, raspava emendas… E ainda os havia para collar
    estampilhas, imprimir datas, derreter lacres, cintar documentos…

    –Mas com effeito, accrescentou, é uma sécca. Com as molas, com os
    bicos, ás vezes magoam, ferem… Já me succedeu inutilisar cartas por as
    ter sujado com dedadas de sangue. É uma massada!

    Então, como o meu amigo espreitára novamente o relogio monumental, não
    lhe quiz retardar a consolação da douche e da malva-rosa.

    –Bem, Jacintho, já te revi, já me contentei… Agora até ámanhã, com as
    malas.

    –Que diabo, Zé Fernandes, espera um momento… Vamos pela sala de
    jantar. Talvez te tentes!

    E, através da Bibliotheca, penetramos na sala de jantar,–que me
    encantou pelo seu luxo sereno e fresco. Uma madeira branca, laccada,
    mais lustrosa e macia que setim, revestia as paredes, encaixilhando
    medalhões de damasco côr de morango, de morango muito maduro e esmagado:
    os aparadores, discretamente lavrados em florões e rocalhas,
    resplandeciam com a mesma lacca nevada: e damascos amorangados estofavam
    tambem as cadeiras, brancas, muito amplas, feitas para a lentidão de
    gulas delicadas, de gulas intellectuaes.

    –Viva o meu Principe! Sim senhor… Eis aqui um comedoiro muito
    comprehensivel e muito repousante, Jacintho!

    –Então janta, homem!

    Mas já eu me começava a inquietar, reparando que a cada talher
    correspondiam seis garfos, e todos de feitios astuciosos. E mais me
    impressionei quando Jacintho me desvendou que um era para as ostras,
    outro para o peixe, outro para as carnes, outro para os legumes, outro
    para as fructas, outro para o queijo! Simultaneamente, com uma
    sobriedade que louvaria Salomão, só dois copos, para dois vinhos:–um
    Bordeus rosado em infusas de crystal, e Champagne gelando dentro de
    baldes de prata. Todo um aparador porém vergava, sob o luxo redundante,
    quasi assustador d'aguas–aguas oxigenadas, aguas carbonatadas, aguas
    phosphatadas, aguas esterilisadas, aguas de saes, outras ainda, em
    garrafas bojudas, com tratados therapeuticos impressos em rotulos.

    –Santissimo nome de Deus, Jacintho! Então és ainda o mesmo tremendo
    bebedor d'agua, hein?… _Un aquatico_! como dizia o nosso poeta
    chileno, que andava a traduzir Klopstock.

    Elle derramou, por sobre toda aquella garrafaria encarapuçada em metal,
    um olhar desconsolado:

    –Não… É por causa das aguas da Cidade, contaminadas, atulhadas de
    microbios… Mas ainda não encontrei uma bôa agua que me convenha, que
    me satisfaça… Até soffro sêde.

    Desejei então conhecer o jantar do Psychologo e do Symbolista–traçado,
    ao lado dos talheres, em tinta vermelha, sobre laminas de marfim.
    Começava honradamente por ostras classicas, de Marennes. Depois
    apparecia uma sopa d'alcachofras e ovas de carpa…

    –É bom?

    Jacintho encolheu desinteressadamente os hombros:

    –Sim… Eu não tenho nunca appetite, já ha tempos… Já ha annos.

    Do outro prato só comprehendi que continha frangos e tubaras. Depois
    saboreariam aquelles senhores um filete de veado, macerado em Xerez, com
    gelêa de noz. E por sobremeza simplesmente laranjas geladas em ether.

    –Em ether, Jacintho?

    O meu amigo hesitou, esboçou com os dedos a ondulação d'um aroma que
    s'evola.

    –É novo… Parece que o ether desenvolve, faz afflorar a alma das
    fructas…

    Curvei a cabeça ignara, murmurei nas minhas profundidades:

    –Eis a Civilisação!

    E, descendo os Campos Elyseos, encolhido no paletot, a cogitar n'este
    prato symbolico, considerava a rudeza e atolado atrazo da minha Guiães,
    onde desde seculos a alma das laranjas permanece ignorada e
    desaproveitada dentro dos gomos sumarentos, por todos aquelles pomares
    que ensombram e perfumam o valle, da Roqueirinha a Sandofim! Agora
    porém, bemdito Deus, na convivencia de um tão grande iniciado como
    Jacintho, eu comprehenderia todas as finuras e todos os poderes da
    Civilisação.

    E, (melhor ainda para a minha ternura!) contemplaria a raridade d'um
    homem que, concebendo uma idéa da Vida, a realisa–e através d'ella e
    por ella recolhe a felicidade perfeita.

    Bem se affirmára este Jacintho, na verdade, como Principe da
    Gran-Ventura!

    III

    No 202, todas as manhãs, ás nove horas, depois do meu chocolate e ainda
    em chinelas, penetrava no quarto de Jacintho. Encontrava o meu amigo
    banhado, barbeado, friccionado, envolto n'um roupão branco de pello de
    cabra do Thibet, diante da sua mesa de toilette, toda de crystal, (por
    causa dos microbios) e atulhada com esses utensilios de tartaruga,
    marfim, prata, aço e madreperola que o homem do seculo XIX necessita
    para não desfeiar o conjuncto sumptuario da Civilisação e manter n'ella
    o seu Typo. As escovas sobretudo renovavam, cada dia, o meu regalo e o
    meu espanto–porque as havia largas como a roda massiça d'um carro
    sabino; estreitas e mais recurvas que o alfange d'um mouro; concavas, em
    fórma de telha aldeã; ponteagudas em feitio de folha de hera; rijas que
    nem cerdas de javali; macias que nem pennugem de rôla! De todas,
    fielmente, como amo que não desdenha nenhum servo, se utilisava o meu
    Jacintho. E assim, em face ao espelho emmoldurado de folhedos de prata,
    permanecia este Principe passando pellos sobre o seu pello durante
    quatorze minutos.

    No emtanto o Grillo e outro escudeiro, por traz dos biombos de Kioto, de
    sedas lavradas, manobravam, com pericia e vigor, os apparelhos do
    lavatorio–que era apenas um resumo das machinas monumentaes da Sala de
    Banho, a mais estremada maravilha do 202. N'estes marmores simplificados
    existiam unicamente dois jactos graduados desde _zero_ até _cem_; as
    duas duchas, fina e grossa, para a cabeça; a fonte esterilisada para os
    dentes; o repuxo borbulhante para a barba; e ainda botões discretos,
    que, roçados, desencadeavam esguichos, cascatas cantantes, ou um leve
    orvalho estival. D'esse recanto temeroso, onde delgados tubos mantinham
    em disciplina e servidão tantas aguas ferventes, tantas aguas violentas,
    sahia emfim o meu Jacintho enxugando as mãos a uma toalha de felpo, a
    uma toalha de linho, a outra de corda entrançada para restabelecer a
    circulação, a outra de sêda frouxa para repolir a pelle. Depois d'este
    rito derradeiro que lhe arrancava ora um suspiro, ora um bocejo,
    Jacintho, estendido n'um divan, folheava uma Agenda, onde se arrolavam,
    inscriptas pelo Grillo ou por elle, as occupações do seu dia, tão
    numerosas por vezes que cobriam duas laudas.

    Todas ellas se prendiam á sua sociabilidade, á sua civilisação muito
    complexa, ou a interesses que o meu Principe, n'esses sete annos, creára
    para viver em mais consciente communhão com todas as funcções da Cidade.
    (Jacintho com effeito era presidente do Club da _Espada e Alvo_;
    commanditario do Jornal o _Boulevard_; director da _Companhia dos
    Telephones de Constantinopla_; socio dos _Bazares unidos da Arte
    Espiritualista_; membro do _Comité de Iniciação das Religiões
    Esotericas_, etc.) Nenhuma d'estas occupações parecia porém aprazivel ao
    meu amigo–porque, apesar da mansidão e harmonia dos seus modos,
    frequentemente arremessava para o tapete, n'uma rebellião de homem
    livre, aquella Agenda que o escravisava. E n'uma d'essas manhãs (de
    vento e neve), apanhando eu o livro oppressivo, encadernado em pellica,
    de um carinhoso tom de rosa murcha–descobri que o meu Jacintho devia
    depois do almoço fazer uma visita na rua da Universidade, outra no
    Parque Monceau, outra entre os arvoredos remotos da Muette; assistir por
    fidelidade a uma votação no Club; acompanhar Madame d'Oriol a uma
    exposição de leques; escolher um presente de noivado para a sobrinha dos
    Trèves; comparecer no funeral do velho conde de Malville; presidir um
    tribunal de honra n'uma questão de roubalheira, entre cavalheiros, ao
    ecarté… E ainda se acavallavam outras indicações, escrivinhadas por
    Jacintho a lapis:–«Carroceiro–Five-oclock dos Ephrains–A pequena das
    _Variedades_–Levar a nota ao jornal…» Considerei o meu Principe.
    Estirado no divan, d'olhos miserrimamente cerrados, bocejava, n'um
    bocejo immenso e mudo.

    Mas os affazeres de Jacintho começavam logo no 202, cedo, depois do
    banho. Desde as oito horas a campainha do telephone repicava por elle,
    com impaciencia, quasi com colera, como por um escravo tardio. E mal
    enxugado, dentro do seu roupão de pello de cabra do Thibet ou de grossas
    pyjamas de pelucia côr d'ouro-velho, constantemente sahia ao corredor a
    cochichar com sujeitos tão apressados, que conservavam na mão o
    guarda-chuva pingando sobre o tapete. Um d'esses, sempre presente (e que
    pertencia decerto aos _Telephones de Constantinopla_), era
    temeroso–todo elle chupado, tisnado, com maus dentes, sobraçando uma
    enorme pasta sebenta, e dardejando, d'entre a alta gola d'uma pelissa
    poida, como da abertura d'um covil, dous olhinhos tôrvos e de rapina.
    Sem cessar, inexoravelmente, um escudeiro apparecia, com bilhetes n'uma
    salva… Depois eram fornecedores d'Industria e d'Arte; negociantes de
    cavallos, rubicundos e de paletot branco; inventores com grossos rolos
    de papel; alfarrabistas trazendo na algibeira uma edição «unica», quasi
    inverosimil, de Ulrich Zell ou do _Lapidanus_. Jacintho circulava
    estonteado pelo 202, rabiscando a carteira, repicando o telephone,
    desatando nervosamente pacotes, sacudindo ao passar algum embuscado que
    surdia das sombras da antecamara, estendia como um trabuco o seu
    memorial ou o seu catalogo!

    Ao meio dia, um tam-tam argentino e melancholico ressoava, chamando ao
    almoço. Com o _Figaro_ ou as _Novidades_ abertas sobre o prato, eu
    esperava sempre meia hora pelo meu Principe, que entrava n'uma rajada,
    consultando o relogio, exhalando com a face moída o seu queixume eterno:

    –Que massada! E depois uma noite abominavel, enrodilhada em sonhos…
    Tomei sulforal, chamei o Grillo para me esfregar com therebentina… Uma
    sécca!

    Espalhava pela mesa um olhar já farto. Nenhum prato, por mais engenhoso,
    o seduzia;–e, como através do seu tumulto matinal fumava incontaveis
    cigarretes que o resequiam, começava por se encharcar com um immenso
    copo d'agua oxygenada, ou carbonatada, ou gazoza, misturada d'um cognac
    raro, muito caro, horrendamente adocicado, de moscatel de Syracusa.
    Depois, á pressa, sem gosto, com a ponta incerta do garfo, picava aqui e
    além uma lasca de fiambre, uma febra de lagosta;–e reclamava
    impacientemente o café, um café de Moka, mandado cada mez por um feitor
    do Dedjah, fervido á turca, muito espesso, que elle remexia com um pau
    de canella!

    –E tu, Zé Fernandes, que vaes tu fazer?

    –Eu?

    Recostado na cadeira, com delicias, os dedos mettidos nas cavas do
    collete:

    –Vou vadiar, regaladamente, como um cão natural!

    O meu sollicito amigo, remexendo o café com o pau de canella, rebuscava
    através da numerosa Civilisação da Cidade uma occupação que me
    encantasse. Mas apenas suggeria uma Exposição, ou uma Conferencia, ou
    monumentos, ou passeios, logo encolhia os hombros desconsolados:

    –Por fim nem vale a pena, é uma sécca!

    Accendia outra das cigarretes russas, onde rebrilhava o seu nome,
    impresso a ouro na mortalha. Torcendo, n'uma pressa nervosa, os fios do
    bigode, ainda escutava, á porta da Bibliotheca, o seu procurador, o
    nedio e magestoso Laporte. E emfim, seguido d'um criado, que sobraçava
    um maço tremendo de jornaes para lhe abastecer o coupé, o Principe da
    Gran-Ventura mergulhava na Cidade.

    * * * * *

    Quando o dia social de Jacintho se apresentava mais desafogado, e o céo
    de Março nos concedia caridosamente um pouco de azul agoado, sahiamos
    depois d'almoço, a pé, através de Paris. Estes lentos e errantes
    passeios eram outr'ora, na nossa edade de Estudantes, um gozo muito
    querido de Jacintho–porque n'elles mais intensamente e mais
    minuciosamente saboreava a Cidade. Agora porém, apesar da minha
    companhia, só lhe davam uma impaciencia e uma fadiga que desoladoramente
    destoava do antigo, illuminado extasi. Com espanto (mesmo com dôr,
    porque sou bom, e sempre me entristece o desmoronar d'uma crença)
    descobri eu, na primeira tarde em que descemos aos Boulevards, que o
    denso formigueiro humano sobre o asphalto, e a torrente sombria dos
    trens sobre o macadam, affligiam o meu amigo pela brutalidade da sua
    pressa, do seu egoismo, e do seu estridor. Encostado e como refugiado no
    meu braço, este Jacintho novo começou a lamentar que as ruas, na nossa
    Civilisação, não fossem calçadas de gutta-percha! E a gutta-percha
    claramente representava, para o meu amigo, a substancia discreta que
    amortece o choque e a rudeza das cousas. Oh maravilha! Jacintho querendo
    borracha, a borracha isoladora, entre a sua sensibilidade e as funcções
    da Cidade! Depois, nem me permittiu pasmar diante d'aquellas dourejadas
    e espelhadas lojas que elle outr'ora considerava como os «preciosos
    museus do seculo XIX»…

    –Não vale a pena, Zé Fernandes. Ha uma immensa pobreza e seccura
    d'invenção! Sempre os mesmos florões Luiz XV, sempre as mesmas
    pelucias… Não vale a pena!

    Eu arregalava os olhos para este transformado Jacintho. E sobretudo me
    impressionava o seu horror pela Multidão–por certos effeitos da
    Multidão, só para elle sensiveis, e a que chamava os «sulcos».

    –Tu não os sentes, Zé Fernandes. Vens das serras… Pois constituem o
    rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos! É um perfume muito agudo e
    petulante que uma mulher larga ao passar, e se installa no olfacto, e
    estraga para todo o dia o ar respiravel. É um dito que se surprehende
    n'um grupo, que revela um mundo de velhacaria, ou de pedantismo, ou de
    estupidez, e que nos fica collado á alma, como um salpico, lembrando a
    immensidade da lama a atravessar. Ou então, meu filho, é uma figura
    intoleravel pela pretenção, ou pelo mau-gosto, ou pela impertinencia, ou
    pela rellice, ou pela dureza, e de que se não póde sacudir mais a visão
    repulsiva… Um pavor, estes sulcos, Zé Fernandes! De resto, que diabo,
    são as pequeninas miserias d'uma Civilisação deliciosa!

    Tudo isto era especioso, talvez pueril–mas para mim revelava, n'aquelle
    chamejante devoto da Cidade, o arrefecimento da devoção. N'essa mesma
    tarde, se bem recordo, sob uma luz macia e fina, penetramos nos centros
    de Paris, nas ruas longas, nas milhas de casario, todo de caliça parda,
    erriçado de chaminés de lata negra, com as janellas sempre fechadas, as
    cortininhas sempre corridas, abafando, escondendo a vida. Só tijolo, só
    ferro, só argamassa, só estuque: linhas hirtas, angulos asperos: tudo
    secco, tudo rigido. E dos chãos aos telhados, por toda a fachada,
    tapando as varandas, comendo os muros, Taboletas, Taboletas…

    –Oh, este Paris, Jacintho, este teu Paris! Que enorme, que grosseiro
    bazar!

    E, mais para sondar o meu Principe do que por persuasão, insisti na
    fealdade e tristeza d'estes predios, duros armazens, cujos andares são
    prateleiras onde se apilha humanidade! E uma humanidade impiedosamente
    catalogada e arrumada! A mais vistosa e de luxo nas prateleiras baixas,
    bem envernisadas. A relles e de trabalho nos altos, nos desvãos, sobre
    pranchas de pinho nú, entre o pó e a traça…

    Jacintho murmurou, com a face arripiada:

    –É feio, é muito feio!

    E accudiu logo, sacudindo no ar a luva de anta:

    –Mas que maravilhoso organismo, Zé Fernandes! Que solidez! Que
    producção!

    Onde Jacintho me parecia mais renegado era na sua antiga e quasi
    religiosa affeição pelo Bosque de Bolonha. Quando moço, elle construira
    sobre o Bosque theorias complicadas e consideraveis. E sustentava, com
    olhos rutilantes de fanatico, que no Bosque a Cidade cada tarde ia
    retemperar salutarmente a sua força, recebendo, pela presença das suas
    Duquezas, das suas Cortezãs, dos seus Politicos, dos seus Financeiros,
    dos seus Generaes, dos seus Academicos, dos seus Artistas, dos seus
    Clubistas, dos seus Judeus, a certeza consoladora de que todo o seu
    pessoal se mantinha em numero, em vitalidade, em funcção, e que nenhum
    elemento da sua grandeza desapparecera ou deperecera! «Ir ao Bois»
    constituia então para o meu Principe um acto de consciencia. E voltava
    sempre confirmando com orgulho que a Cidade possuia todos os seus
    astros, garantindo a eternidade da sua luz!

    Agora, porém, era sem fervor, arrastadamente, que elle me levava ao
    Bosque, onde eu, aproveitando a clemencia d'Abril, tentava enganar a
    minha saudade d'arvoredos. Emquanto subiamos, ao trote nobre das suas
    egoas lustrosas, a Avenida dos Campos-Elyseos e a do Bosque,
    rejuvenescidas pelas relvas tenras e fresco verdejar dos rebentos,
    Jacintho, soprando o fumo da cigarrete pelas vidraças abertas do coupé,
    permanecia o bom camarada, de veia amavel, com quem era doce philosophar
    através de Paris. Mas logo que passavamos as grades douradas do Bosque,
    e penetravamos na Avenida das Acacias, e enfiavamos na lenta fila dos
    trens de luxo e de praça, sob o silencio decoroso, apenas cortado pelo
    tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia,–o meu
    Principe emmudecia, mollemente engilhado no fundo das almofadas, d'onde
    só despegava a face para escancarar bocejos de fartura. Pelo antigo
    habito de verificar a presença confortadora do «pessoal, dos astros»,
    ainda, por vezes, apontava para algum coupé ou vittoria rodando com
    rodar rangente n'outra arrastada fila–e murmurava um nome. E assim fui
    conhecendo a encaracolada barba hebraica do banqueiro Ephraim; e o longo
    nariz patricio de Madame de Trèves abrigando um sorriso perenne; e as
    bochechas flacidas do poeta neo-platonico Dornan, sempre espapado no
    fundo de fiacres; e os longos bandòs pre-raphaelitas e negros de Madame
    Verghane; e o monoculo defumado do director do _Boulevard_; e o
    bigodinho vencedor do Duque de Marizac, reinando de cima do seu phaeton
    de guerra; e ainda outros sorrisos immoveis, e barbichas á Renascença, e
    palpebras amortecidas, e olhos farejantes, e pelles empoadas d'arroz,
    que eram todas illustres e da intimidade do meu Principe. Mas, do topo
    da Avenida das Acacias, recomeçavamos a descer, em passo sopeado,
    esmagando lentamente a areia; na fila vagarosa que subia, calhambeque
    atraz de landau, vittoria atraz de fiacre, fatalmente reviamos o
    binoculo sombrio do homem do _Boulevard_, e os bandòs furiosamente
    negros de Madame Verghane, e o ventre espapado do neo-platonico, e a
    barba talmudica, e todas aquellas figuras, d'uma immobilidade de cera,
    super-conhecidas do meu camarada, recruzadas cada tarde através de
    revividos annos, sempre com os mesmos sorrisos, sob o mesmo pó d'arroz,
    na mesma immobilidade de cera; então Jacintho não se continha, gritava
    ao cocheiro:

    –Para casa, depressa!

    E era pela Avenida do Bosque, pelos Campos-Elyseos, uma fuga ardente das
    egoas a quem a lentidão sopeada, n'um roer de freios, entre outras egoas
    tambem d'ellas super-conhecidas, lançavam n'uma exasperação comparavel á
    de Jacintho.

    Para o sondar eu denegria o Bosque:

    –Já não é tão divertido, perdeu o brilho!…

    Elle acudia, timidamente:

    –Não, é agradavel, não ha nada mais agradavel; mas…

    E accusava a friagem das tardes ou o despotismo dos seus affazeres.
    Recolhiamos então ao 202, onde, com effeito, em breve embrulhado no seu
    roupão branco, diante da mesa de crystal, entre a legião das escovas,
    com toda a electricidade refulgindo, o meu Principe se começava a
    adornar para o serviço social da noite.

    E foi justamente numa d'essas noites (um sabado) que nós passamos,
    n'aquelle quarto tão civilisado e protegido, por um d'esses brutos e
    revoltos terrores como só os produz a ferocidade dos Elementos. Já
    tarde, á pressa (jantavamos com Marizac no Club para o acompanhar depois
    ao _Lohengrin_ na Opera) Jacintho arrocheava o nó da gravata
    branca–quando no lavatorio, ou porque se rompesse o tubo, ou se
    dessoldasse a torneira, o jacto d'agua a ferver rebentou furiosamente,
    fumegando e silvando. Uma nevoa densa de vapor quente abafou as
    luzes–e, perdidos n'ella, sentiamos, por entre os gritos do escudeiro e
    do Grillo, o jorro devastador batendo os muros, esparrinhando uma chuva
    que escaldava. Sob os pés o tapete ensopado era uma lama ardente. E como
    se todas as forças da natureza, submettidas ao serviço de Jacintho, se
    agitassem, animadas por aquella rebellião da agua–ouvimos roncos surdos
    no interior das paredes, e pelos fios dos lumes electricos sulcaram
    faiscas ameaçadoras! Eu fugira para o corredor, onde se alargava a nevoa
    grossa. Por todo o 202 ia um tumulto de desastre. Diante do portão,
    attrahidas pela fumarada que se escapava das janellas, estacionava
    policia, uma multidão. E na escada esbarrei com um reporter, de chapéo
    para a nuca, a carteira aberta, gritando sofregamente «se havia mortos?»

    Domada a agua, clareada a bruma, vim encontrar Jacintho no meio do
    quarto, em ceroulas, livido:

    –Oh Zé Fernandes, esta nossa industria!… Que impotencia, que
    impotencia! Pela segunda vez, este desastre! E agora, apparelhos
    perfeitos, um processo novo…

    –E eu encharcado por esse processo novo! E sem outra casaca!

    Em redor, as nobres sêdas bordadas, os brocateis Luiz XIII, cobertos de
    manchas negras, fumegavam. O meu Principe, enfiado, enchugava uma
    photographia de Madame d'Oriol, d'hombros decotados, que o jorro bruto
    maculára d'empolas. E eu, com rancor, pensava que na minha Guiães a agua
    aquecia em seguras panellas–e subia ao meu lavatorio, pela mão forte da
    Catharina, em seguras infusas! Não jantamos com o duque de Marizac, no
    Club. E, na Opera, nem saboreei Lohengrin e a sua branca alma e o seu
    branco cysne e as suas brancas armas–entallado, aperreado, cortado nos
    sovacos pela casaca que Jacintho me emprestára e que rescendia
    estonteadoramente a flores de Nessari.

    * * * * *

    No domingo, muito cedo, o Grillo, que na véspera escaldára as mãos e as
    trazia embrulhadas em sêda, penetrou no meu quarto, descerrou as
    cortinas, e á beira do leito, com o seu radiante sorriso de preto:

    –Vem no _Figaro_!

    Desdobrou triumphalmente o jornal. Eram, nos _Echos_, doze linhas, onde
    as nossas aguas rugiam e espadavam, com tanta magnificencia e tanta
    publicidade, que tambem sorrí, deleitado.

    –E toda a manhã, o telephone, siô Fernandes! exclamava o Grillo,
    rebrilhando em ebano. A quererem saber, a quererem saber… «Está lá?
    Está escaldado?» Paris afflicto, siô Fernandes!

    O telephone, com effeito, repicava, insaciavel. E quando desci para o
    almoço, a toalha desapparecia sob uma camada de telegrammas, que o meu
    Principe fendia com a faca, enrugado, rosnando contra a «massada». Só
    desannuviou, ao ler um d'esses papeis azues, que atirou para cima do meu
    prato, com o mesmo sorriso agradado com que de manhã sorriramos, o
    Grillo e eu:

    –É do Gran-Duque Casimiro… Ratão amavel! Coitado!

    Saboreei, através dos ovos, o telegramma de S. Alteza. «O que! o meu
    Jacintho inundado! Muito chic, nos Campos-Elyseos! Não volto ao 202 sem
    boia de salvação! Compassivo abraço! Casimiro…» Murmurei tambem com
    deferencia:–«Amavel! Coitado!» Depois, revolvendo lentamente o montão
    de telegrammas que se alastrava até ao meu copo:

    –Oh Jacintho! Quem é esta Diana que incessantemente te escreve, te
    telephona, te telegrapha, te…?

    –Diana?… Diana de Lorge. É uma cocotte. É uma grande cocotte!

    –Tua?

    –Minha, minha… Não! tenho um bocado.

    E como eu lamentava que o meu Principe, senhor tão rico e de tão fino
    orgulho, por economia d'uma gamella propria chafurdasse com outros n'uma
    gamella publica–Jacintho levantou os hombros, com um camarão espetado
    no garfo:

    –Tu vens das serras… Uma cidade como Paris, Zé Fernandes, precisa ter
    cortezãs de grande pompa e grande fausto. Ora para montar em Paris,
    n'esta tremenda carestia de Paris, uma cocotte com os seus vestidos, os
    seus diamantes, os seus cavallos, os seus lacaios, os seus camarotes, as
    suas festas, o seu palacete, a sua publicidade, a sua insolencia, é
    necessario que se aggremiem umas poucas de fortunas, se forme um
    syndicato! Somos uns sete, no Club. Eu pago um bocado… Mas meramente
    por Civismo, para dotar a cidade com uma cocotte monumental. De resto
    não chafurdo. Pobre Diana!… Dos hombros para baixo nem sei se tem a
    pelle côr de neve ou côr de limão.

    Arregalei um olho divertido:

    –Dos hombros para baixo?… E para cima?

    –Oh para cima tem pó d'arroz!… Mas é uma sécca! Sempre bilhetes,
    sempre telephones, sempre telegrammas. E tres mil francos por mez, além
    das flores… Uma massada!

    E as duas rugas do meu Principe, aos lados do seu afilado nariz, curvado
    sobre a salada, eram como dous valles muito tristes, ao entardecer.

    Acabavamos o almoço, quando um escudeiro, muito discretamente, n'um
    murmurio, annunciou Madame d'Oriol. Jacintho pousou com tranquillidade o
    charuto; eu quasi me engasguei, n'um sorvo alvoroçado de café. Entre os
    reposteiros de damasco côr de morango ella appareceu, toda de negro,
    d'um negro liso e austero de Semana Santa, lançando com o regalo um
    lindo gesto para nos socegar. E immediatamente, n'uma volubilidade
    docemente chalrada:

    –É um momento, nem se levantem! Passei, ia para a Magdalena, não me
    contive, quiz vêr os estragos… Uma inundação em Paris, nos
    Campos-Elyseos! Não ha senão este Jacintho. E vem no _Figaro!_ O que eu
    estava assustada, quando telephonei! Imaginem! Agua a ferver, como no
    Vesuvio… Mas é d'uma novidade! E os estofos perdidos, naturalmente, os
    tapetes… Estou morrendo por admirar as ruinas!

    Jacintho, que não me pareceu commovido, nem agradecido com aquelle
    interesse, retomára risonhamente o charuto:

    –Está tudo secco, minha querida senhora, tudo secco! A belleza foi
    hontem, quando a agua fumegava e rugia! Ora que pena não ter ao menos
    cahido uma parede!

    Mas ella insistia. Nem todos os dias se gozavam em Paris os destroços
    d'uma inundação. O _Figaro_ contára… E era uma aventura deliciosa, uma
    casa escaldada nos Campos-Elyseos!

    Toda a sua pessoa, desde as plumasinhas que frisavam no chapéo até á
    ponta reluzente das botinas de verniz, se agitava, vibrava, como um ramo
    tenro sob o boliço do passaro a chalrar. Só o sorriso, por traz do véo
    espesso, conservava um brilho immovel. E já no ar se espalhára um aroma,
    uma doçura, emanadas de toda a sua mobilidade e de toda a sua graça.

    Jacintho no emtanto cedera, alegremente: e pelo corredor Madame d'Oriol
    ainda louvava o _Figaro_ amavel, e confessava quanto tremera… Eu
    voltei ao meu café, felicitando mentalmente o Principe da Gran-Ventura
    por aquella perfeita flôr de Civilisação que lhe perfumava a vida.
    Pensei então na apurada harmonia em que se movia essa flôr. E corri
    vivamente á ante-camara, verificar diante do espelho o meu penteado e o
    nó da minha gravata. Depois recolhi á sala de jantar, e junto da
    janella, folheando languidamente a _Revista do Seculo XIX_, tomei uma
    attitude de elegancia e d'alta cultura. Quasi immediatamente elles
    reappareceram: e Madame d'Oriol, que, sempre sorrindo, se proclamava
    espoliada, nada encontrára que recordasse as agoas furiosas, roçou pela
    mesa, onde Jacintho procurava, para lhe offerecer, tangerinas de Malta,
    ou castanhas geladas, ou um biscouto molhado em vinho de Tokai.

    Ella recusava com as mãos guardadas no regalo. Não era alta, nem
    forte–mas cada prega do vestido, ou curva da capa, cahia e ondulava
    harmoniosamente, como perfeições recobrindo perfeições. Sob o véo
    cerrado, apenas percebi a brancura da face empoada, e a escuridão dos
    olhos largos. E com aquellas sêdas e velludos negros, e um pouco do
    cabello louro, d'um louro quente, torcido fortemente sobre as pelles
    negras que lhe orlavam o pescoço, toda ella derramava uma sensação de
    macio e de fino. Eu teimosamente a considerava como uma flôr de
    Civilisação:–e pensava no secular trabalho e na cultura superior que
    necessitára o terreno onde ella tão delicadamente brotára, já
    desabrochada, em pleno perfume, mais graciosa por ser flôr d'esforço e
    d'estufa, e trazendo nas suas pétalas um não sei quê de desbotado e de
    ante-murcho.

    No emtanto, com a sua volubilidade de passaro, chalrando para mim,
    chalrando para Jacintho, ella mostrava o seu lindo espanto por aquelle
    montão de telegrammas sobre a toalha.

    –Tudo esta manhã, por causa da inundação?… Ah, Jacintho é hoje o
    homem, o unico homem de Paris! Muitas mulheres n'esses telegrammas?

    Languidamente, com o charuto a fumegar, o meu Principe empurrou para a
    sua amiga o telegramma do Gran-duque. Então Madame d'Oriol teve um _ah!_
    muito grave e muito sentido. Releu profundamente o papel de S. A. que os
    seus dedos acariciavam com uma reverencia gulosa. E sempre grave, sempre
    séria:

    –É brilhante!

    Oh, certamente! n'aquelle desastre tudo se passára com muito brilho,
    n'um tom muito Parisiense. E a deliciosa creatura não se podia demorar,
    porque fizera marcar um logar na egreja da Magdalena para o sermão!

    Jacintho exclamou com innocencia:

    –Sermão?… É já a estação dos sermões?

    Madame d'Oriol teve um movimento de carinhoso escandalo e dôr. O quê!
    pois nem na austera casa dos Trèves dera pela entrada da quaresma? De
    resto não se admirava–Jacintho era um turco! E, immediatamente celebrou
    o prégador, um frade dominicano, o Père Granon! Oh d'uma eloquencia!
    d'uma violencia! No derradeiro sermão prégara sobre o amor, a
    fragilidade dos amores mundanos! E tivera coisas d'uma inspiração, d'uma
    brutalidade! Depois que gesto, um gesto terrivel que esmagava, em que se
    lhe arregaçava toda a manga, mostrando o braço nú, um braço soberbo,
    muito branco, muito forte!

    O seu sorriso permanecia claro sob o olhar que negrejára dentro do véo
    negro. E Jacintho, rindo:

    –Um bom braço de director espiritual, hein? Para vergar, espancar
    almas…

    Ella acudiu:

    –Não! infelizmente o Père Granon não confessa!

    E de repente reconsiderou–aceitava um biscouto, um cálice de Tokai. Era
    necessario um cordial para affrontar as emoções do Père Granon! Ambos
    nos precipitáramos, um arrebatando a garrafa, outro offerecendo o prato
    de bonbons. Franzio o véo para os olhos, chupou á pressa um bolo que
    ensopára no Tokai. E como Jacintho, reparando casualmente no chapéo que
    ella trazia, se curvára com curiosidade, impressionado, Madame d'Oriol
    apagou o sorriso, toda seria, ante uma cousa seria:

    –Elegante, não é verdade?… É uma creação inteiramente nova de Madame
    Vial. Muito respeitoso, e muito suggestivo, agora na Quaresma.

    O seu olhar, que me envolvera, tambem me convidava a admirar. Approximei
    o meu focinho de homem das serras para contemplar essa creação suprema
    do luxo de Quaresma. E era maravilhoso! Sobre o velludo, na sombra das
    plumas frizadas, aninhada entre rendas, fixada por um prégo, pousava
    delicadamente, feita de azeviche, uma Corôa de Espinhos!

    Ambos nos extasiamos. E Madame d'Oriol, n'um movimento e n'um sorriso
    que derramou mais aroma e mais claridade, abalou para a Magdalena.

    O meu Principe arrastou pelo tapete alguns passos pensativos e molles. E
    bruscamente, levantando os hombros com uma determinação immensa, como se
    deslocasse um mundo:

    –Oh Zé Fernandes, vamos passar este Domingo n'alguma cousa simples e
    natural…

    –Em quê?

    Jacintho circumgirou os olhares muito abertos, como se, atravez da Vida
    Universal, procurasse anciosamente uma cousa natural e simples. Depois,
    descançando sobre mim os mesmos largos olhos que voltavam de muito
    longe, cançados e com pouca esperança:

    –Vamos ao Jardim das Plantas, vêr a girafa!

    IV

    N'essa fecunda semana, uma noite, recolhiamos ambos da Opera, quando
    Jacintho, bocejando, me annunciou uma festa no 202.

    –Uma festa?…

    –Por causa do Gran-Duque, coitado, que me vai mandar um peixe delicioso
    e muito raro que se pesca na Dalmacia. Eu queria um almoço curto. O
    Gran-Duque reclamou uma ceia. É um barbaro, besuntado com litteratura do
    seculo XVIII, que ainda acredita em ceias, em Paris! Reuno no domingo
    tres ou quatro mulheres, e uns dez homens bem typicos, para o divertir.
    Tambem aproveitas. Folheias Paris n'um resumo… Mas é uma massada
    amarga!

    Sem interesse pela sua festa, Jacintho não se affadigou em a compôr com
    relevo ou brilho. Encommendou apenas uma orchestra de Tziganes (os
    Tziganes, as suas jalecas escarlates, a melancolia aspera das Czardas
    ainda n'esses tempos remotos emocionavam Paris): e mandou, na
    Bibliotheca, ligar o Theatrophone com a Opera, com a Comedia-Franceza,
    com o Alcazar e com os Buffos, prevendo todos os gostos desde o tragico
    até ao picaro. Depois no domingo, ao entardecer, ambos visitamos a mesa
    da ceia, que resplandecia com as velhas baixellas de D. Galião. E a
    faustosa profusão de orchideas, em longas sylvas por sobre a toalha
    bordada a sêda, enroladas aos fructeiros de Saxe, trasbordando de
    crystaes lavrados e filagranados d'ouro, espalhava uma tão fina sensação
    de luxo e gosto, que eu murmurei:–«Caramba, bemdito, seja o dinheiro!»
    Pela primeira vez, tambem, admirei a copa e a sua installação abundante
    e minuciosa–sobretudo os dois ascensores que rolavam das profundidades
    da cozinha, um para os peixes e carnes aquecido por tubos d'agua
    fervente, o outro para as saladas e gelados revestido de placas
    frigorificas. Oh, este 202!

    Ás nove horas, porém, descendo eu ao gabinete de Jacintho para escrever
    a minha boa tia Vicencia, em quanto elle ficára no toucador com o
    manícuro que lhe polia as unhas, passamos n'esse delicioso palacio,
    florido e em gala, por bem corriqueiro susto! Todos os lumes electricos,
    subitamente, em todo o 202, se apagaram! Na minha immensa desconfiança
    d'aquellas forças universaes, pulei logo para a porta, tropeçando nas
    trevas, ganindo um _Aqui d'Elrei_! que tresandava a Guiães. Jacintho em
    cima berrava, com o manícuro agarrado ás pyjamas. E de novo, como serva
    ralassa que recolhe arrastando as chinellas, a luz resurgiu com
    lentidão. Mas o meu Principe, que descera, enfiado, mandou buscar um
    engenheiro á Companhia Central da Electricidade Domestica. Por precaução
    outro creado correu á mercearia comprar pacotes de velas. E o Grillo
    desenterrava já dos armarios os candelabros abandonados, os pesados
    castiçaes archaicos dos tempos inscientificos de D. Galião: era uma
    reserva de veteranos fortes, para o caso pavoroso em que mais tarde, á
    ceia, falhassem perfidamente as forças bisonhas da Civilisação. O
    Electricista, que acudira esbaforido, afiançou porém que a Electricidade
    se conservaria fiel, sem outro amuo. Eu, cautelosamente, soneguei na
    algibeira dous côtos de estearina.

    A Electricidade permaneceu fiel, sem amuos. E quando desci do meu
    quarto, tarde (porque perdera o collete de baile e só depois d'uma busca
    furiosa e praguejada o encontrei cahido por traz da cama!), todo o 202
    refulgia, e os Tziganes, na antecamara, sacudindo as guedelhas, atiravam
    as arcadas d'uma valsa tão arrastadora que, pelas paredes, os immensos
    Personagens das tapeçarias, Priamo, Nestor, o engenhoso Ulysses,
    arfavam, boliam com os pés venerandos!

    Timidamente, sem rumor, puxando os punhos, penetrei no gabinete de
    Jacintho. E fui logo acolhido pelo sorriso da condessa de Treves, que,
    acompanhada pelo illustre historiador Danjon (da Academia Franceza),
    percorria maravilhada os Apparelhos, os Instrumentos, toda a sumptuosa
    Mechanica do meu super-civilisado Principe. Nunca ella me parecera mais
    magestosa do que n'aquellas sêdas côr de açafrão, com rendas cruzadas no
    peito á Maria-Antonietta, o cabello crespo e ruivo levantado em rolo
    sobre a testa dominadora, e o curvo nariz patricio, abrigando o sorriso
    sempre luzidio, sempre corrente, como um arco abriga o correr e o luzir
    d'um regato. Direita como n'um solio, a longa luneta de tartaruga
    acercada dos olhos miudos e turvamente azulados, ella escutava deante do
    Graphophono, depois deante do Microphono, como melodias superiores, os
    commentarios que o meu Jacintho ia atabalhoando com uma amabilidade
    penosa. E ante cada roda, cada mola, eram pasmos, louvores finamente
    torneados, em que attribuia a Jacintho, com astuta candura, todas
    aquellas invenções do Saber! Os utensilios misteriosos que atulhavam a
    mesa d'ebano foram para ella uma iniciação que a enlevou. Oh, o
    «numerador de paginas»! oh, o «collador d'estampilhas»! A caricia
    demorada dos seus dedos seccos aquecia os metaes. E supplicava os
    endereços dos fabricantes para se prover de todas aquellas utilidades
    adoraveis! Como a vida, assim apetrechada, se tornava escorregadia e
    facil! Mas era necessario o talento, o gosto de Jacintho, para escolher,
    para «crear!» E não só ao meu amigo (que o recebia com resignação) ella
    offertava o fino mel. Affagando com o cabo da luneta o Telegrapho, achou
    a possibilidade de recordar a eloquencia do Historiador. Mesmo para mim
    (de quem ignorava o nome) arranjou junto do Phonographo, e ácerca de
    «vozes d'amigos que é doce colleccionar», uma lisonjasinha redondinha e
    lustrosa, que eu chupei como um rebuçado celeste. Boa casaleira que vae
    atirando o grão aos frangos famintos, a cada passo, maternalmente, ella
    nutria uma vaidade. Sofrego d'outro rebuçado, acompanhei a sua cauda
    sussurrante e côr d'açafrão. Ella parára deante da Machina-de-contar, de
    que Jacintho já lhe fornecera pacientemente uma explicação sapiente. E
    de novo roçou os buracos d'onde espreitam os numeros negros, e com o seu
    enlevado sorriso murmurou:–«Prodigiosa, esta prensa electrica!…»

    Jacintho accudiu:

    –Não! Não! Esta é…

    Mas ella sorria, seguia… Madame de Treves não comprehendera nenhum
    apparelho do meu Principe! Madame de Treves não attendera a nenhuma
    dissertação do meu Principe! N'aquelle gabinete de sumptuosa Mechanica
    ella sómente se occupára em exercer, com proveito e com perfeição, a
    Arte de Agradar. Toda ella era uma sublime falsidade. Não escondi a
    Danjon a admiração que me penetrava.

    O facundo Academico revirou os olhos bogalhudos:

    –Oh! e um gôsto, uma intelligencia, uma seducção!… E depois como se
    janta bem em casa d'ella! Que café!… Mulher superior, meu caro senhor,
    verdadeiramente superior!

    Deslisei para a bibliotheca. Logo á entrada da erudita nave, junto da
    estante dos Padres da Egreja onde alguns cavalheiros conversavam, parei
    a saudar o director do _Boulevard_ e o Psychologo-feminista, o auctor do
    _Coração Triple_, com quem na véspera me familiarisára ao almoço, no
    202. O seu acolhimento foi paternal: e, como se necessitasse a minha
    presença, reteve na sua mão illustre, rutilante de anneis, com força e
    com gula, a minha grossa palma serrana. Todos aquelles senhores, com
    effeito, celebravam o seu Romance, a _Couraça_, lançado n'essa semana
    entre gritinhos de gôzo e um quente rumor de saias alvoroçadas. Um
    sobretudo, com uma vasta cabeça arranjada á Van Dick e que parecia
    postiça, proclamava, alçado na ponta das botas, que nunca penetrára tão
    fundamente, na velha alma humana, a ponta da Psychologia Experimental!
    Todos concordavam, se apertavam contra o Psychologo, o tratavam por
    «mestre». Eu mesmo, que nem sequer entrevira a capa amarella da
    _Couraça_, mas para quem elle voltava os olhos pedinchões e famintos de
    mais mel, murmurei com um leve assobio:–«uma delicia!»

    E o Psychologo, reluzindo, com o labio humido, entalado n'um alto
    collarinho onde se enroscava uma gravata á 1830, confessava modestamente
    que dissecára todas aquellas almas da _Couraça_ com «algum cuidado»,
    sobre documentos, sobre pedaços de vida ainda quentes, ainda a
    sangrar… E foi então que Marizac, o duque de Marizac, notou, com um
    sorriso mais afiado que um lampejo de navalha, e sem tirar as mãos dos
    bolsos:

    –No emtanto, meu caro, n'esse livro tão profundamente estudado ha um
    erro bem estranho, bem curioso!…

    O Psychologo, vivamente, atirára a cabeça para traz:

    –Um erro?

    Oh, sim, um erro! E bem inesperado n'um mestre tão experiente!… Era
    attribuir á esplendida amorosa da _Couraça_, uma duqueza, e do gosto
    mais puro,–_um collete de setim preto_! Esse collete, assim preto, de
    setim, apparecia na bella pagina de analyse e paixão em que ella se
    despia no quarto de Ruy d'Alize. E Marizac, sempre com as mãos nos
    bolsos, mais grave, appellava para aquelles senhores. Pois era
    verosimil, n'uma mulher como a duqueza, esthetica, pre-raphaelitica, que
    se vestia no Doucet, no Paquin, nos costureiros intellectuaes, um
    collete de setim preto?

    O Psychologo emmudecera, colhido, trespassado! Marizac era uma tão
    suprema auctoridade sobre a roupa intima das duquezas, que á tarde, em
    quartos de rapazes, por impulsos idealistas e anceios d'alma
    dolorida–se põem em collete e saia branca!… De resto o director do
    _Boulevard_ condemnára logo sem piedade, com uma experiencia firme,
    aquelle collete, só possivel n'alguma mercieira atrazada que ainda
    procurasse effeitos de carne nedia sobre setim negro. E eu, para que me
    não julgassem alheio ás coisas dos adulterios ducaes e do luxo, acudi,
    mettendo os dedos pelo cabello:

    –Realmente, preto, só se estivesse de lucto pesado, pelo pae!

    O pobre mestre da _Couraça_ succumbira. Era a sua gloria de Doutor em
    Elegancias-Femininas desmantelada–e Paris suppondo que elle nunca vira
    uma duqueza desatacar o collete na sua alcova de Psychologo! Então,
    passando o lenço sobre os labios que a angustia ressequira, confessou o
    erro, e contrictamente o attribuiu a uma improvisação tumultuosa:

    –Foi um tom falso, um tom perfeitamente falso que me escapou!… Com
    effeito! é absurdo, um collete preto!… Mesmo por harmonia com o estado
    da alma da duqueza devia ser lilaz, talvez côr de reseda muito
    desmaiada, com um frouxo de rendas antigas de Malines… É prodigioso
    como me escapou! Pois tenho o meu caderno de entrevistas bem annotadas,
    bem documentadas!…

    Na sua amargura, terminou por supplicar a Marizac que espalhasse por
    toda a parte, no Club, nas salas, a sua confissão. Fôra um engano de
    artista, que trabalha na febre, vasculhando as almas, perdido nas
    profundidades negras das almas! Não reparára no collete, confundira os
    tons… E gritou, com os braços estendidos para o director do
    _Boulevard_:

    –Estou prompto a fazer uma rectificação, n'uma _interview_, meu caro
    mestre! Mande um dos seus redactores… Ámanhã, ás dez horas! Fazemos
    uma _interview_, fixamos a côr. Evidentemente é lilaz… Mande um dos
    seus homens, meu caro mestre! É tambem uma occasião para eu confessar,
    bem alto, os serviços que o _Boulevard_ tem feito ás sciencias
    psychologicas e feministas!

    Assim elle supplicava, encostado á estante, ás lombadas dos Santos
    Padres. E eu abalei, vendo ao fundo da Bibliotheca Jacintho que se
    debatia e se recusava entre dous homens.

    Eram os dois homens de Madame de Treves–o marido, conde de Treves,
    descendente dos reis de Candia, e o amante, o terrivel banqueiro judeu,
    David Ephraim. E tão enfronhadamente assaltavam o meu Principe que nem
    me reconheceram, ambos n'um aperto de mão molle e vago me trataram por
    «caro conde»! N'um relance, rebuscando charutos sobre a mesa de
    limoeiro, comprehendi que se tramava a _Companhia das Esmeraldas da
    Birmania_, medonha empreza em que scintillavam milhões, e para que os
    dous confederados de bolsa e d'alcôva, desde o começo do anno, pediam o
    nome, a influencia, o dinheiro de Jacintho. Elle resistira, n'um enfado
    dos negocios, desconfiado d'aquellas esmeraldas soterradas n'um valle da
    Asia. E agora o conde de Treves, um homem esgrouviado, de face
    rechupada, erriçada de barba rala, sob uma fronte rotunda e amarella
    como um melão, assegurava ao meu pobre Principe que no Prospecto já
    preparado, demonstrando a grandeza do negocio, perpassava um fulgôr das
    _Mil e Uma noites_. Mas sobretudo aquella excavação de esmeraldas
    convidava todo o espirito culto pela sua acção civilisadora. Era uma
    corrente de idéas occidentaes, invadindo, educando a Birmania. Elle
    acceitára a direcção por patriotismo…

    –De resto é um negocio de joias, de arte, de progresso, que deve ser
    feito, n'um mundo superior, entre amigos…

    E do outro lado o terrivel Ephraim, passando a mão curta e gorda sobre a
    sua bella barba, mais frisada e negra que a d'um Rei Assyrio, affiançava
    o triumpho da empreza pelas grossas forças que n'ella entravam, os
    Nagayers, os Bolsans, os Saccart…

    Jacintho franzia o nariz, enervado:

    –Mas, ao menos, estão feitos os estudos? Já se provou que ha
    esmeraldas?

    Tanta ingenuidade exasperou Ephraim:

    –Esmeraldas! Está claro que ha esmeraldas!… Ha sempre esmeraldas
    desde que haja accionistas!

    E eu admirava a grandeza d'aquella maxima–quando appareceu, esbaforido,
    desdobrando o lenço muito perfumado, um dos familiares do 202, Todelle
    (Antonio de Todelle), moço já calvo, d'infinitas prendas, que conduzia
    Cotillons, imitava cantores de Café Concerto, temperava saladas raras,
    conhecia todos os enredos de Paris.

    –Já veio?… Já cá está o Gran-Duque?

    Não, S. Alteza ainda não chegára. E Madame de Todelle?

    –Não poude… No sophá… Esfolou uma perna.

    –Oh!

    –Quasi nada… Cahiu do velocipede!

    Jacintho, logo interessado:

    –Ah! Madame de Todelle anda já de velocipede?

    –Aprende. Nem tem velocipede!… Agora, na quaresma, é que se applicou
    mais, no velocipede do padre Ernesto, do cura de S. José! Mas hontem, no
    Bosque, zás, terra!… Perna esfolada. Aqui.

    E na sua propria côxa, com a unha, vivamente, desenhou o esfolão.
    Ephraim, brutal e serio, murmurou:–«Diabo! é no melhor sitio!» Mas
    Todelle nem o escutára, correndo para o director do _Boulevard_, que se
    avançava, lento e barrigudo, com o seu monoculo negro semelhante a um
    pacho. Ambos se collaram contra uma estante, n'um cochichar profundo.

    Jacintho e eu entramos então no bilhar, forrado de velhos couros de
    Cordova, onde se fumava. Ao canto d'um divan, o grande Dornan, o poeta
    neo-platonico e mystico, o Mestre subtil de todos os rithmos, espapado
    nas almofadas, com um dos pés sob a côxa gorda, como um Deus indio, dois
    botões do collete desabotoados, a papeira cahida sobre o largo decote do
    collarinho, mamava magestosamente um immenso charuto. Ao pé d'elle,
    também sentado, um velho que eu nunca encontrára no 202, esbelto, de
    cabellos brancos em anneis passados por traz das orelhas, a face coberta
    de pó de arroz, um bigodinho muito negro e arrebitado, findára
    certamente alguma historia de bom e grosso sal–porque deante do divan,
    de pé, Joban, o suprèmo Critico de Theatro, ria com a calva escarlate de
    gôso, e um moço muito ruivo (descendente de Colygny), de perfil de
    periquito, sacudia os braços curtos como azas, e gania: «delicioso!
    divino!» Só o poeta idealista permanecera impassivel, na sua magestade
    obesa. Mas, quando nos acercamos, esse Mestre do rythmo perfeito, depois
    de soprar uma farta fumarada e me saudar com um pesado mover das
    palpebras, começou n'uma voz de rico e sonoro metal:

    –Ha melhor, ha infinitamente melhor… Todos aqui conhecem Madame
    Noredal. Madame Noredal tem umas immensas nadegas…

    Desgraçadamente para o meu regalo Todelle invadiu o bilhar, reclamando
    Jacintho com alarido. Eram as senhoras que desejavam ouvir no
    Phonographo uma aria da Patti! O meu amigo sacudiu logo os hombros,
    n'uma surda irritação:

    –Aria da Patti… Eu sei lá! Todos esses rolos estão em confusão. Além
    d'isso o Phonographo trabalha mal. Nem trabalha! Tenho tres. Nenhum
    trabalha!

    –Bem! exclamou alegremente Todelle. Canto eu a _Pauvre fille_… É mais
    de ceia! _Oh, la pauv', pauv', pauv'_…

    Travou do meu braço, e arrastou a minha timidez serrana para o salão côr
    de rosa murcha, onde, como Deusas n'um circulo escolhido do Olympo,
    resplandeciam Madame d'Oriol, Madame Verghane, a princeza de Carman, o
    uma outra loura, com grandes brilhantes nas grandes farripas, e
    d'hombros tão nús, e braços tão nús, e peitos tão nús, que o seu vestido
    branco com bordados d'ouro pallido parecia uma camisa, a escorregar.
    Impressionado, ainda retive Todelle, rugi baixinho:–«Quem é?» Mas já o
    festivo homem correra para Madame d'Oriol, com quem riam, n'uma
    familiaridade superior e facil, Marizac (o duque de Marizac) e um moço
    de barba côr de milho e mais leve que uma penugem, que se balouçava
    gracilmente sobre os pés, como uma espiga ao vento. E eu, encalhado
    contra o piano, esfregava lentamente as mãos, amassando o meu embaraço,
    quando Madame Verghane se ergueu do sophá onde conversava com um velho
    (que tinha a Gran-Cruz de Santo André), e avançou, deslizou no tapete,
    pequena e nedia, na sua copiosa cauda de velludo verde-negro. Tão fina
    era a cinta, entre os encontros fecundos e a vastidão do peito, todo nú
    e côr de nacar, que eu receava que ella partisse pelo meio, no seu lento
    ondular. Os seus famosos bandós negros, d'um negro furioso, inteiramente
    lhe tapavam as orelhas; e, no grande aro d'ouro que os circumdava,
    reluzia uma estrella de brilhantes, como na fronte dos anjos de
    Boticelli. Conhecendo sem dúvida a minha auctoridade no 202, ella
    despediu sobre mim ao passar, como raio benefico, um sorriso que lhe
    liquescia mais os olhos liquidos, e murmurou:

    –O Gran-Duque vem, com certeza?

    –Oh com certeza, minha senhora, para o peixe!

    –P'ra o peixe?…

    Mas justamente, na antecamara, rompeu, em rufos e arcadas triumphaes, a
    marcha de Rakoczy. Era elle! Na Bibliotheca, o nosso retumbante mordomo
    annunciava:

    –S. Alteza o Gran-Duque Casimiro!

    Madame de Verghane, com um curto suspiro d'emoção, alteou o peito, como
    para lhe expôr melhor a magnificencia eburnea. E o homem do _Boulevard_,
    o velho da Gran-Cruz, Ephraim, quasi me empurraram, investindo para a
    porta, na immensa sofreguidão de Pessoa Real.

    Precedido por Jacintho, o Gran-Duque surgiu. Era um possante homem, de
    barba em bico, já grisalha, um pouco calvo. Durante um momento hesitou,
    com um balanço lento sobre os pés pequeninos, calçados de sapatos rasos,
    quasi sumidos sob as pantalonas muito largas. Depois, pesado e risonho,
    veio apertar a mão ás senhoras que mergulhavam nos velludos e sêdas, em
    mesuras de Côrte. E immediatamente, batendo com carinhosa jovialidade no
    hombro de Jacintho:

    –E o peixe?… Preparado pela receita que mandei, hein?

    Um murmurio de Jacintho tranquillisou S. Alteza.

    –Ainda bem, ainda bem! exclamou elle, no seu vozeirão de commando. Que
    eu não jantei, absolutamente não jantei! É que se está jantando
    deploravelmente em casa do Joseph. Mas porque se vai jantar ainda ao
    Joseph? Sempre que chego a Paris, pergunto: «Onde é que se janta agora?»
    Em casa do Joseph!… Qual! não se janta! Hoje, por exemplo,
    gallinholas… Uma peste! Não tem, não tem a noção da gallinhola!

    Os seus olhos azulados, d'um azul sujo, rebrilhavam, alargados pela
    indignação:

    –Paris está perdendo todas as suas superioridades. Já se não janta, em
    Paris!

    Então, em redor, aquelles senhores concordaram, desolados. O conde de
    Treves defendeu o Bignon, onde se conservavam nobres tradições. E o
    director do _Boulevard_, que se empurrava todo para S. Alteza, attribuia
    a decadencia da cozinha, em França, á Republica, ao gosto democratico e
    torpe pelo barato.

    –No Paillard, todavia…–começou o Ephraim.

    –No Paillard! gritou logo o Gran-Duque. Mas os Borgonhas são tão maus!
    os Borgonhas são tão maus!…

    Deixára pender os braços, os hombros, descorçoado. Depois, com o seu
    lento andar balançado como o d'um velho piloto, atirando um pouco para
    traz as lapellas da casaca, foi saudar Madame d'Oriol, que toda ella
    faiscou, no sorriso, nos olhos, nas joias, em cada préga das suas sêdas
    côr de salmão. Mas apenas a clara e macia creatura, batendo o leque como
    uma aza alegre, começára a chalrar, S. Alteza reparou no apparelho do
    Theatrophone, pousado sobre uma mesa entre flôres, e chamou Jacintho:

    –Em communicação com o Alcazar?… O Theatrophone?

    –Certamente, meu senhor.

    Excellente! Muito chic! Elle ficára com pena de não ouvir a Gilberte
    n'uma cançoneta nova, as _Casquettes_. Onze e meia! Era justamente a
    essa hora que ella cantava, no ultimo acto da _Revista
    Electrica_…–Collou ás orelhas os dous «receptores» do Theatrophone, e
    quedou embebido, com uma ruga séria na testa dura. De repente, n'um
    commando forte:

    –É ella! Chut! Venham ouvir!… É ella! Venham todos! Princeza de
    Carman, para aqui! Todos! É ella! Chut…

    Então, como Jacintho installára prodigamente dois Theatrophones, cada um
    provido de doze fios, as senhoras, todos aquelles cavalheiros, se
    apressaram a acercar submissamente um receptor do ouvido, e a permanecer
    immoveis para saborear _Les Casquettes_. E no salão côr de rosa murcha,
    na nave da Bibliotheca, onde se espalhára um silencio augusto, só eu
    fiquei desligado do Theatrophone, com as mãos nas algibeiras e ocioso.

    No relogio monumental, que marcava a hora de todas as Capitaes e o
    movimento de todos os Planetas, o ponteiro rendilhado adormeceu. Sobre a
    mudez e a immobilidade pensativa d'aquelles dorsos, d'aquelles decotes,
    a Electricidade refulgia com uma tristeza de sol regelado. E de cada
    orelha attenta, que a mão tapava, pendia um fio negro, como uma tripa.
    Dornan, esbroado sobre a mesa, cerrára as palpebras, n'uma meditação de
    monge obeso. O historiador dos Duques d'Anjou, com o «receptor» na ponta
    delicada dos dedos, erguendo o nariz agudo e triste, gravemente cumpria
    um dever palaciano. Madame d'Oriol sorria, toda languida, como se o fio
    lhe murmurasse doçuras. Para desentorpecer arrisquei um passo timido.
    Mas cahiu logo sobre mim um _chut_ severo do Gran-Duque! Recuei para
    entre as cortinas da janella, a abrigar a minha ociosidade. O Philologo
    da _Couraça_, distante da mesa, com o seu comprido fio esticado, mordia
    o beiço, n'um esforço de penetração. A beatitude de S. Alteza, enterrado
    n'uma vasta poltrona, era perfeita. Ao lado o collo de Madame Verghane
    arfava como uma onda de leite. E o meu pobre Jacintho, n'uma applicação
    conscienciosa, pendia sobre o Theatrophone tão tristemente como sobre
    uma sepultura.

    Então, ante aquelles seres de superior civilisação, sorvendo n'um
    silencio devoto as obscenidades que a Gilberte lhes gania, por debaixo
    do solo de Paris, atravez de fios mergulhados nos esgotos, cingidos aos
    canos das fezes,–pensei na minha aldeia adormecida. O crescente de lua,
    que, seguido d'uma estrellinha, corria entre nuvens sobre os telhados e
    as chaminés negras dos Campos-Elyseos, tambem andava lá fugindo, mais
    lustrosa e mais dôce, por cima dos pinheiraes. As rãs coaxavam ao longe
    no Pego da Dona. A ermidinha de S. Joaquim branquejava no cabeço,
    nuasinha e candida…

    Uma das senhoras murmurou:

    –Mas, não é a Gilberte!…

    E um dos homens:

    –Parece um cornetim…

    –Agora são palmas…

    –Não, é o Paulin!

    O Gran-Duque lançou um _chut_ feroz… No pateo da nossa casa ladravam
    os cães. D'além do ribeiro respondiam os cães do João Saranda. Como me
    encontrei descendo por uma quelha, sob as ramadas, com o meu varapau ao
    hombro? E sentia, entre a sêda das cortinas, n'um fino ar macio, o
    cheiro das pinhas estalando nas lareiras, o calor dos curraes atravez
    das sebes altas, e o susurro dormente das levadas…

    Despertei a um brado que não sahia nem dos eidos, nem das sombras. Era o
    Gran-Duque que se erguera, encolhia furiosamente os hombros:

    –Não se ouve nada!… Só guinchos! E um zumbido! Que massada!… Pois é
    uma belleza, a cançoneta:

    Oh les casquettes,
    Oh les casque-e-e-tes!…

    Todos largaram os fios–proclamavam a Gilberte deliciosa. E o mordomo
    bemdito, abrindo largamente os dous batentes, annunciou:

    –_Monseigneur est servi_!

    Na mesa, que pelo esplendor das orchideas mereceu os louvores ruidosos
    de S. Alteza, fiquei entre o ethereo poeta Dornan e aquelle moço de
    pennugem loura que balouçava como uma espiga ao vento. Depois de
    desdobrar o guardanapo, de o accomodar regaladamente sobre os joelhos,
    Dornan desenvencilhou da corrente do relogio uma enorme luneta para
    percorrer o _menu_–que approvou. E inclinando para mim a sua face de
    Apostolo obeso:

    –Este Porto de 1834, aqui era casa do Jacintho, deve ser authentico…
    Hein?

    Assegurei ao Mestre dos Rythmos que o «Porto» envelhecêra nas adegas
    classicas do avô Galião. Elle afastou, n'uma preparação methodica, os
    longos, densos fios do bigode que lhe cobriam a bocca grossa. Os
    escudeiros serviram um consommé frio com trufas. E o moço côr de milho,
    que espalhára pela mesa o seu olhar azul e dôce, murmurou, com uma
    desconsolação risonha:

    –Que pena!… Só falta aqui um general e um bispo!

    Com effeito! Todas as Classes Dominantes comiam n'esse momento as trufas
    do meu Jacintho… Mas defronte Madame d'Oriol lançára um riso mais
    cantado que um gorgeio. O Gran-Duque, n'uma silva de orchideas que
    orlava o seu talher, notára uma, sombriamente horrenda, semelhante a um
    lacrau esverdinhado, de azas lustrosas, gordo e tumido de veneno: e
    muito delicadamente offertára a flôr monstruosa a Madame d'Oriol, que,
    com trinado riso, solemnemente, a collocou no seio. Collado áquella
    carne macia, d'uma brancura de nata fina, o lacrau inchára, mais verde,
    com as azas frementes. Todos os olhos se accendiam, se cravavam no lindo
    peito, a que a flôr disforme, de côr venenosa, apimentava o sabor. Ella
    reluzia, triumphava. Para ageitar melhor a orchidea os seus dedos
    alargaram o decote, aclararam bellezas, guiando aquellas curiosidades
    flammejantes que a despiam. A face vincada de Jacintho pendia para o
    prato vasio. E o alto lyrico do _Crepusculo Mystico_, passando a mão
    pelas barbas, rosnou com desdem:

    –Bella mulher… Mas ancas seccas, e aposto que não tem nadegas!

    No emtanto o moço de loura pennugem voltára á sua estranha mágoa. Não
    possuirmos um general com a sua espada, e um bispo com seu baculo!…

    –Para que, meu caro senhor?

    Elle atirou um gesto suave em que todos os seus anneis faiscaram:

    –Para uma bomba de dynamite… Temos aqui um explendido ramalhete de
    flôres de Civilisacão, com um Gran-Duque no meio. Imagine uma bomba de
    dynamite, atirada da porta!… Que bello fim de ceia, n'um fim de
    seculo!

    E como eu o considerava assombrado, elle, bebendo golos de
    Chateau-Yquem, declarou que hoje a unica emoção, verdadeiramente fina,
    seria aniquillar a Civilisação. Nem a sciencia, nem as artes, nem o
    dinheiro, nem o amor, podiam já dar um gosto intenso e real ás nossas
    almas saciadas. Todo o prazer que se extrahíra de _crear_ estava
    esgotado. Só restava, agora, o divino prazer de _destruir_!

    Desenrolou ainda outras enormidades, com um riso claro nos olhos claros.
    Mas eu não attendia o gentil pedante, colhido por outro
    cuidado–reparando que em torno, subitamente, todo o serviço estacára
    como no conto do Palacio Petrificado. E o prato agora devido era o peixe
    famoso da Dalmacia, o peixe de S. Alteza, o peixe inspirador da festa!
    Jacintho, nervoso, esmagava entre os dedos uma flôr. E todos os
    escudeiros sumidos!

    Felizmente o Gran-Duque contava a historia d'uma caçada, nas coutadas de
    Sarvan, em que uma senhora, mulher de um banqueiro, saltára bruscamente
    do cavallo, n'um descampado, sem arvores. Elle e todos os caçadores
    param–e a galante senhora, livida, com a amazona arregaçada, corre para
    traz d'uma pedra… Mas nunca soubemos em que se occupava a banqueira,
    n'esse descampado, agachada atraz da pedra–porque justamente o mordomo
    appareceu, relusente de suor, e balbuciou uma confidencia a Jacintho,
    que mordeu o beiço, trespassado. O Gran-Duque emmudecera. Todos se
    entre-olhavam, n'uma anciedade alegre. Então o meu Principe, com
    paciencia, com heroicidade, forçando pallidamente o sorriso:

    –Meus amigos, ha uma desgraça…

    Dornan pulou na cadeira:

    –Fogo?

    Não, não era fogo. Fôra o elevador dos pratos, que inesperadamente, ao
    subir o peixe de S. Alteza, se desarranjára, e não se movia, encalhado!

    O Gran-Duque arremessou o guardanapo. Toda a sua polidez estalava como
    um esmalte mal posto:

    –Essa é forte!… Pois um peixe que me deu tanto trabalho! Para que
    estamos nós aqui então a cear? Que estupidez! E porque o não trouxeram á
    mão, simplesmente? Encalhado… Quero vêr! Onde é a copa?

    E, furiosamente, investiu para a copa, conduzido pelo mordomo que
    tropeçava, vergava os hombros, ante esta esmagadora colera de Principe.
    Jacintho seguiu, como uma sombra, levado na rajada de S. Alteza. E eu
    não me contive, tambem me atirei para a copa, a contemplar o desastre,
    emquanto Dornan, batendo na côxa, clamava que se ceasse sem peixe!

    O Gran-Duque lá estava, debruçado sobre o poço escuro do elevador, onde
    mergulhára uma vela que lhe avermelhava mais a face esbraseada.
    Espreitei, por sobre o seu hombro real. Em baixo, na treva, sobre uma
    larga prancha, o peixe precioso alvejava, deitado na travessa, ainda
    fumegando, entre rodellas de limão. Jacintho, branco como a gravata,
    torturava desesperadamente a mola complicada do ascensor. Depois foi o
    Gran-Duque que, com os pulsos cabelludos, atirou um empuxão tremendo aos
    cabos em que elle rolava. Debalde! O apparelho enrijára n'uma inercia de
    bronze eterno.

    Sêdas roçagaram á entrada da copa. Era Madame d'Oriol, e atraz Madame
    Verghane, com os olhos a faiscar, na curiosidade d'aquelle lance em que
    o Principe soltára tanta paixão. Marizac, nosso intimo, surgiu tambem,
    risonho, propondo uma descida ao poço com escadas. Depois foi o
    Psychologo, que se abeirou, psychologou, attribuindo intenções sagazes
    ao peixe que assim se recusava. E a cada um o Gran-Duque, escarlate,
    mostrava com dedo tragico, no fundo da cova, o seu peixe! Todos
    afundavam a face, murmuravam: «lá está!» Todelle, na sua precipitação,
    quasi se despenhou. O periquito descendente de Colygny batia as azas,
    ganindo:–«Que cheiro elle deita, que delicia!» Na copa atulhada os
    decotes das senhoras roçavam a farda dos lacaios. O velho caiado de pó
    d'arroz metteu o pé n'um balde de gelo, com um berro ferino. E o
    Historiador dos Duques d'Anjou movia por cima de todos o seu nariz
    bicudo e triste.

    De repente, Todelle teve uma idéa!

    –É muito simples… É pescar o peixe!

    O Gran-Duque bateu na côxa uma palmada triumphal. Está claro! Pescar o
    peixe! E no gozo d'aquella facecia, tão rara e tão nova, toda a sua
    colera se sumíra, de novo se tornára o Principe amavel, de magnifica
    polidez, desejando que as senhoras se sentassem para assistir á pesca
    miraculosa! Elle mesmo seria o pescador! Nem se necessitava, para a
    divertida façanha, mais que uma bengala, uma guita e um gancho.
    Immediatamente Madame d'Oriol, excitada, offereceu um dos seus ganchos.
    Apinhados em volta d'ella, sentindo o seu perfume, o calor da sua pelle,
    todos exaltamos a amoravel dedicação. E o Psychologo proclamou que nunca
    se pescára com tão divino anzol!

    Quando dois escudeiros estonteados voltaram, trazendo uma bengala e um
    cordel, já o Gran-Duque, radiante, vergára o gancho em anzol. Jacintho,
    com uma paciencia livida, erguia uma lampada sobre a escuridão do poço
    fundo. E os senhores mais graves, o Historiador, o director do
    _Boulevard_, o Conde de Treves, o homem de cabeça á Van-Dick, sorriam,
    amontoados á porta, n'um interesse reverente pela phantasia de S.
    Alteza. Madame de Treves, essa, examinava serenamente, com a sua nobre
    luneta, a installação da copa. Só Dornan não se erguera da mesa, com os
    punhos cerrados sobre a toalha, o gordo pescoço encovado, no tedio
    sombrio de fera a quem arrancaram a posta.

    No emtanto S. Alteza pescava com fervor! Mas debalde! O gancho, pouco
    agudo, sem presa, bamboleando na extremidade da guita frouxa, não
    fisgava.

    –Oh Jacintho, erga essa luz! gritava elle, inchado e suado. Mais!…
    Agora! Agora! É na guelra! Só na guelra é que o gancho o póde prender.
    Agora… Qual! Que diabo! Não vae!

    Tirou a face do poço, resfolgando e affrontado. Não era possivel! Só
    carpinteiros, com alavancas!… E todos, anciosamente, bradamos que se
    abandonasse o peixe!

    O Principe, risonho, sacudindo as mãos, concordava que por fim «fôra
    mais divertido pescal-o do que comêl-o!» E o elegante bando refluiu
    sofregamente para a mesa, ao som d'uma valsa de Strauss, que os Tziganes
    arremeçaram em arcadas de languido ardôr. Só Madame de Treves se demorou
    ainda, retendo o meu pobre Jacintho, para lhe assegurar quanto admirava
    o arranjo da sua copa… Oh perfeita! Que comprehensão da vida, que fina
    intelligencia do conforto!

    S. Alteza, encalmado pelo esforço, esvasiou poderosamente dous copos de
    Chateau-Lagrange. Todos o acclamavam como um pescador genial. E os
    escudeiros serviram o _Barão de Pauillac_, cordeiro das lezirias
    marinhas, que, preparado com ritos quasi sagrados, toma este grande nome
    sonoro e entra no Nobiliario de França.

    Eu comi com o appetite d'um heroe de Homero. Sobre o meu copo e o de
    Dornan o Champagne scintillou e jorrou ininterrompidamente como uma
    fonte de inverno. Quando se serviram ortolans gelados, que se derretiam
    na bocca, o divino poeta murmurou, para meu regalo, o seu soneto sublime
    a «Santa Clara». E como, do outro lado, o moço de pennugem loura
    insistia pela destruição do velho mundo, tambem concordei, e, sorvendo o
    Champagne coalhado em sorvete, maldissemos o Seculo, a Civilisação,
    todos os orgulhos da Sciencia! Através das flôres e das luzes, no
    emtanto, eu seguia as ondas arfantes do vasto peito de Madame Verghane,
    que ria como uma bacchante. E nem me apiedava de Jacintho que, com a
    doçura de S. Jacintho sobre o cêpo, esperava o fim do seu martyrio e da
    sua festa.

    Ella findou. Ainda recordo, ás tres horas da noite, o Gran-Duque na
    antecamara, muito vermelho, mal firme nos pés pequeninos, sem acertar
    com as mangas da pelissa que Jacintho e eu lhe ajudamos a
    enfiar–convidando o meu amigo, n'uma effusão carinhosa, a ir caçar ás
    suas terras da Dalmacia…

    –Devo ao meu Jacintho uma bella pesca, quero que elle me deva uma bella
    caçada!

    E emquanto o acompanhavamos, entre as alas dos escudeiros, pela vasta
    escada onde o mordomo o precedia erguendo um candelabro de tres lumes,
    S. Alteza repisava, pegajoso:

    –Uma bella caçada… E tambem vae Fernandes! Bom Fernandes, Zé
    Fernandes! Ceia superior, meu Jacintho! O _Barão de Pauillac_,
    divino!… Creio que o devemos nomear Duque… O Senhor Duque de
    Pauillac! Mais um bocado da perna do Senhor Duque de Pauillac. Ah!
    Ah!… Não venham fóra! Não se constipem!

    E do fundo do coupé, ao rodar, ainda bradou:

    –O peixe, Jacintho, desencalha o peixe! Excellente, ao almoço, frio,
    com môlho verde!

  • A Alma Nova

    A Alma Nova

    Aproximadamente 13.930 palavras.

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    Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
    produced from images generously made available by National
    Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)

    GUILHERME D'AZEVEDO

    A ALMA NOVA

    LISBOA

    TYPOGRAPHIA SOUSA & FILHO

    Rua do Norte, 145

    1874

    A ANTHERO DE QUENTAL

    A ANTHERO DE QUENTAL

    _Meu amigo.

    Este livro parece-me um pouco do nosso tempo. Sorrindo ou combatendo,
    fala da Humanidade e da Justiça, inspirando-se no mundo que nos rodeia.

    E porque julgo que elle segue na direcção nova dos espiritos, offereço-o
    a um obreiro honesto do pensamento: a uma alma lucida, moderna e
    generosa_.

    Dezembro de 1873.

    Guilherme d'Azevedo.

    I

    Eu poucas vezes canto os casos melancolicos,
    Os lethargos gentis, os extasis bucolicos
    E as desditas crueis do proprio coração;
    Mas não celebro o vicio e odeio o desalinho
    Da muza sem pudor que mostra no caminho
    A liga á multidão.

    A sagrada poesia, a peregrina eterna,
    Ouvi dizer que soffre uma affecção moderna,
    Uns fastios sem nome, uns tedios ideaes;
    Que ensaia, presumida, o gesto romanesco
    E, vaidosa de si, no collo eburneo e fresco,
    Põe crémes triviaes!

    Oh, pensam mal de ti, da tua castidade!
    Deslumbra-os o fulgor dos astros da cidade,
    Os falsos ouropeis das cortezãs gentis,
    E julgam já tocar-te as roçagantes vestes
    Ó deusa virginal das coleras celestes,
    Das graças juvenis!

    Retine a cançoneta alegre das bachantes,
    Saudadas nos wagons, nos caes, nos restaurantes,
    Visões d'olhar travesso e provocantes pés,
    E julgam já escutar a voz do paraiso,
    Amando o que ha de falso e torpe no sorriso
    Das musas dos cafés!

    Oh, tu não és, de certo, a virgem quebradiça
    Estiolada e gentil, que vem depois da missa
    Mostrar pela cidade o seu fino desdem,
    Nem a fada que sente um vaporoso tedio
    Emquanto vae sonhando um noivo rico e nédio
    Que a possa pagar bem!

    Nem posso mesmo crêr, archanjo, que tu sejas
    A menina gentil que ás portas das egrejas
    Emquanto a multidão galante adora a cruz,
    A bem do pobre enfermo á turba pede esmola
    Nas pompas ideaes da moda, que a consola
    Das magoas do Jesus!

    E nas horas de luta emquanto os povos choram
    E a guerra tudo mata e os reis tudo devoram,
    Não posso dizer bem se acaso tu serás
    A senhora que espalha os languidos fastios
    Nos pomposos salões, sorrindo a fazer fios
    Á viva luz do gaz!

    Tu és a apparição gentil, meia selvagem,
    D'olhar profundo e bom, de candida roupagem,
    De fronte immaculada e seios virginaes,
    Que desenha no espaço o limpido contorno
    E cinge na cabeça o virginal adorno
    De folhas naturaes.

    Tens a linha ideal das candidas figuras;
    As curvas divinaes; as tintas sãs e puras
    Da austera virgindade; as bellas correcções;
    E segues magestosa em teu longo caminho
    Deixando fluctuar a tunica de linho
    Ás frescas virações!

    Quando trava batalha a tua irmã Justiça
    Acodes ao combate e apontas sobre a liça
    Uma espada de luz ao Mal dominador:
    E pensas na belleza harmonica das cousas
    Sentindo que se move um mundo sob as louzas
    No germen d'uma flôr!

    N'um sorriso cruel, pungente d'ironia,
    Tambem sabes vibrar, serena, altiva e fria,
    O latego febril das grandes punições;
    E vendo-te sorrir, a geração doente,
    Sentir cuida, talvez, a nota decadente,
    Das morbidas canções!

    Oh, vôa sem cessar traçando nos teus hombros
    O manto constellado, ó deusa dos assombros,
    Até chegar um dia ás regiões de luz,
    Aonde, na poeira aurifera dos astros,
    Contricto, Satanaz enxugará de rastos,
    As chagas de Jesus!

    Logar á minha fada ó languidas senhoras!
    E vós que amaes do circo as noites tentadoras,
    Os fluctuantes véos, os gestos divinaes,
    Podeis vel-a passar n'um turbilhão fantastico,
    Voando no corcel febril, nervoso, elastico,
    Dos novos ideaes!

    II

    Eu vi passar, além, vogando sobre os mares
    O cadaver d'Ophelia: a espuma da voragem
    E as algas naturaes, serviam de roupagem
    Á triste apparição das noites seculares!

    Seguia tristemente ás regiões polares
    Nos limos das marés; e a rija cartilagem
    Sustinha-lhe tremendo aos halitos da aragem,
    No peito carcomido, uns grandes nenuphares!

    Oh! lembro-me que tu, minha alma, em certos dias
    Sorriste já, tambem, nas vagas harmonias
    Das cousas ideaes! mas hoje á luz mortiça

    Dos astros, caminhando; apenas as ruinas
    Das tuas creações fantasticas, divinas,
    De pasto vão servindo aos lyrios da justiça!

    III

    VELHA FARÇA

    Rufa ao longe um tambor. Dir-se-ia ser o arranco
    D'um mundo que desaba; ahi vae tudo em tropel!
    Vão ver passar na rua um velho saltimbanco
    E uma féra que dansa atada a um cordel.

    Ó funambulos vis, comediantes rotos,
    O vosso riso alvar agrada á multidão!
    E quando vós passaes o archanjo dos esgotos
    Atira-vos a flôr que mais encontra á mão!

    Lá vae tudo a correr: são as grotescas dansas
    D'uns velhos animaes que já foram crueis
    E agora vão soffrendo os risos das creanças
    E os apupos da turba a troco de dez réis.

    Conta um velho histrião, descabellado e pallido,
    Da féra sanguinaria o instincto vil e mau,
    E vae chicoteando um urso meio invalido
    Que lambe as mãos ao povo e faz jogo de páu.

    Depois inclina a face e obriga a que lh'a beije
    A fera legendaria olhada com pavor:
    E uma deosa gentil, vestida de bareje,
    Annuncia o prodigio a rufo de tambor!

    E as mães erguem ao collo uns filhos enfezados
    Que nunca tinham visto a luz dos ouropeis:
    E accresce á multidão a turba dos soldados,
    –Ao ilota da cidade o escravo dos quarteis.

    E o funambulo grita; impõe qual evangelho
    Á turba extasiada a grande narração.
    E sobre um cão enfermo um ourangotango velho
    Passeia nobremente os gestos de truão.

    Correi de toda a parte, aligeirae o passo,
    Deixae a grande lida e vinde á rua vêr
    As prendas d'uma fera, as galas d'um palhaço,
    E um archanjo que sua e pede de beber!

    A tua imagem tens ó povo legendario
    No comico festim que mal podes pagar,
    Pois tu ainda és no mundo o velho dromedario
    Que a vara do histrião nas praças faz dansar.

    IV

    GRAÇA POSTHUMA

    Depois da tua morte eu heide ver se arranco,
    N'uma noite serena, ao teu berço final,
    Um producto mimoso;–um grande lyrio branco
    Da alvura do teu collo eburneo e divinal!

    Aquella flôr suave, ó minha visão estherica,
    Debruçada gentil, na taça em que a puzer,
    Fazer-me-ha lembrar a graça cadaverica
    Do teu corpo franzino e ethereo de mulher!

    E mesmo conterá, de certo, alguma cousa
    Do que me traz submisso e prezo ao teu olhar:
    –Teu corpo a pouco e pouco irá fugindo á louza
    Depois tornado em lyrio á terra hade voltar!–

    E em longas noites, n'elle, eu beberei sosinho,
    Sonhando as convulsões d'uns lindos braços nús,
    A fragrancia que exhala a candidez do linho
    Em que hoje ondeias leve e onde os meus labios puz,

    –Saudando a boa mãe que faz com que eu te gose
    Depois do verme vil teu seio polluir,
    Mais pura no frescor de tal metamorphose
    Do que eras a scismar, do que eras a sorrir!

    Ó minha doce Ophelia! Os rapidos momentos
    Da vida, são crueis mas passam como um som!
    Um dia quando em fim dos velhos sedimentos
    Teu corpo renascer n'um lyrio immenso e bom,

    Talvez que eu durma já tambem sob os matizes
    Das flôres, ao sorrir das mil germinações,
    Dando um pasto fecundo ás tuas sãas raizes
    Depois de te sagrar as ultimas canções!

    V

    HISTORIA SIMPLES

    Havia um rapaz são, robusto, bom, valente,
    De espadua larga e rija; um ceifador gentil.
    Cavava todo o dia, andou sempre contente
    E a feria dava á mãe sem falta d'um ceitil.

    Elle amava a campina e os ceus largos, serenos.
    Aos domingos a mãe deixava-lhe uns dez reis.
    Deitava-se ao luar, dormindo sobre os fênos,
    Na fragrancia do trêvo, ao pé dos cães fieis.

    A mãe tinha de seu duas vaquitas mansas:
    N'um cerro agreste e vil alguns palmos de chão.
    E tinha ainda mais não sei quantas creanças
    Que andavam nuas sempre e sempre a pedir pão.

    O pae mal se sustinha ás vezes sobre as pernas:
    Era bebado e mau, batia na mulher;
    E á noite, ao scintillar dos vinhos nas tavernas,
    Cantava canções vis de a gente ensurdecer.

    Um dia uma senhora honesta da cidade,
    Esplendida, gentil, sabendo-se sorrir,
    Reparou no rapaz; achou-lhe propria a idade
    E fez-lhe um certo gesto:–o moço não quiz ir.

    Teve um assomo de raiva, então, sua excellencia.
    Ordenou-lhe que fosse: o moço disse,–irei!
    Despediu-se dos seus: devia obediencia
    Á senhora gentil que se chamava… a Lei!

    Pegou no velho alforge e no bordão nodozo
    E metteu-se a caminho. Os pobres dos irmãos
    Choravam á partida:–um quadro doloroso!
    A mãe louca de dôr torcia as magras mãos!

    Chegando no outro dia ao ponto onde o chamaram
    Primeiro foi medido e todos a final,
    Depois de bem revisto, á uma, concordaram
    Que ao serviço do rei convinha este animal!

    Aquell'outra senhora, astuta, grave, terna,
    –A ordem–jubilava em doces pulsações!
    Contava mais um servo, um filho, na cazerna,
    Gastando pouco mais:–uns cobres e uns feijões!…

    Agora quando passa o batalhão luzente
    Na rua, podeis ver o pobre cavador
    Com modos imbecis, marchar pesadamente
    –Heroe por conta alheia–ao rufo do tambor!

    Não sabe onde caminha entre as guerreiras hostes!
    Perguntem-lhe o que é patria e liberdade e lei!
    Caminha simplesmente ás ordens dos prebostes
    Que trazem no chicote a salvação do rei.

    E na pobre cabana ainda se conserva
    O mesmo quadro triste:–a lacrimosa mãe;
    Alguns pequenos nús rolando sobre a herva,
    E um ebrio que pragueja e não pensa em ninguem!–

    Mulher não chores mais: a quadra é pura e bella:
    Emquanto na campina alouram os trigaes,
    Teu filho guarda o mundo e a Deus faz sentinella:
    Receiam que Deus faça andar o mundo mais.

    Em breve elle virá de jubilo e d'assombro
    Encher tua alma, em fim, quando ámanhã voltar
    Com seu velho canudo, a trouxa posta ao hombro,
    Trazendo novamente a luz ao pobre lar.

    E tu perguntarás: o que é meu filho, é ouro!!
    A quantas guerras foste? ó ceus, como tu vens!
    –Mãe tome essa lata! esconda o meu thesouro
    E deixe-me ir dormir no fêno ao pé dos cães!

    VI

    Á meza do festim, cercada de formosas,
    O canto dos cristaes e o scintillar dos vinhos
    Saudavam juntamente os bellos desalinhos
    Das galantes vizões das ceias luminozas!

    Molhavam-se em champagne as pétalas das rozas!
    E em baixo, a nossos pés, em leves murmurinhos
    A gaze sobreposta á candidez dos linhos
    Erguia-se n'um mar de vagas caprichosas!

    Ali tudo era paz! Nem odios vis nem zelos!
    Os labios pois limpando ás rendas e aos cabellos
    Da menos trivial das fadas tentadoras,

    Eu brindo aos mortos!–disse: á legião sagrada
    Que foi á solidão, á eternidade, ao nada!
    –Ás almas e ao pudor d'estas gentis senhoras.

    VII

    OS SONHOS MORTOS

    Embora triste a noite, a vagabunda lua
    Mais branca do que nunca erguia-se nos ceus,
    Igual a uma donzella ingenua e toda nua
    No leito ajoelhada erguendo a fronte a Deus!

    O mar tinha talvez scintillações funestas.
    A praia estava fria, as vagas davam ais;
    Semelhavam, ao longe, as extensas florestas
    Fantasmas ao galope em monstros colossaes.

    E eu vi n'um campo immenso, agreste e desolado,
    Immerso no fulgor diaphano da luz,
    Juncando tristemente o solo ensanguentado
    Sinistra multidão de corpos semi-nus!

    Tinha a morte cruel, em sua orgia louca,
    Deposto em cada fronte um osculo brutal;
    E um ironico rizo ainda em muita boca
    Se abria, como a flôr fantastica do mal!

    E eu vi corpos gentis de virgens delicadas
    Beijando a fria terra, as mãos hirtas no ar,
    Em sagrada nudez!… Cabeças decepadas!…
    Em muito peito ainda o sangue a borbulhar!…

    E sobre a corrupção das brancas epidermes
    Luzentes de luar e d'esplendor dos ceus,
    Orgulhosos passando os triumphantes vermes,
    Da santa formosura os ultimos Romeus!

    Se tu minha alma livre ainda hoje conservas
    Memoria das vizões que amaste com fervor
    Ahi as tens agora alimentando as ervas
    De novo dando á terra o que ella deu á flôr!

    São ellas! as vizões dos meus dias felizes,
    Meus sonhos virginaes, as minhas illusões,
    Que a seiva dão agora aos vermes e ás raizes,
    Que em pasto dão seu corpo a novos corações!

    São as sombras que amei, divinas, castas, bellas;
    As chymeras gentis, os vagos ideaes,
    Que de rozas cingi, que illuminei d'estrellas,
    E que não podem já da terra erguer-se mais!

    VIII

    FALA A ORDEM

    Pequeno, d'onde vens cantando a Marselhesa;
    Da barricada infame, ou d'outra vil torpeza?

    Que esplendido porvir! Do nada apenas sahes
    Começas a morder as purpuras reaes
    Ó filho trivial da livida canalha!…
    E, vamos, deixa ver, guardaste uma navalha,?!
    Não tremas que eu bem vi! que trazes tu na mão?
    Intentas já limar as grades da prizão,

    Fazendo scintillar um ferro contra o solio
    Archanjo que adejaes nos fumos do petroleo?!…
    Mas, vamos abre a mão: não queiras que eu te dê.

    Bandido eu bem dizia!–a carta do A B C!…

    IX

    Ó lirios da cidade, ó corações doentes
    Das vagas affecções modernas e galantes;
    Eu sei que vós morreis aos sons agonisantes
    Das orchestras febris,–nos sonhos dissolventes!

    Sois os fructos gentis que balançaes pendentes
    Nas arvores da vida; e os pobres viajantes
    Famintos d'ideal, sorriem triumphantes
    Julgando-vos colher nas seivas innocentes!

    E tragam com fervor o pomo apetecido
    Que deve ter um mel oculto no tecido,
    –Um raio bom do sol que nos sorri tão alto;

    Mas vós que sois da moda um luminozo aborto,
    Como os fructos crueis das margens do mar morto
    Apenas conteis dentro uma porção d'asphalto!

    X

    MISERIA SANTA

    Entrando esta manhã n'um templo da cidade
    Aberto á multidão mas triste e quasi só,
    O ver ao desamparo a velha magestade
    N'um throno a desabar, meteu-me certo dó.

    Restavam tão somente alguns dourados velhos
    Do passado esplendor, e foi-me facil ver
    Que uma nuvem de pó cobria os evangelhos
    Como cousa esquecida e impropria de se ler!

    A virgem, sobretudo; a mãe predestinada
    Que o Golgotha lavou nas lagrimas de fel
    Que sempre hade chorar toda a mulher amada,
    Ou seja a mãe de Christo, ou seja a de Rossel;

    Achei-a desolada e triste lá n'um canto,
    Sem pompas e sem luz, coberta d'ouropeis
    Tão velhos como o roto e desbotado manto
    Que ha muito, já, deveu á crença dos fieis!

    Dizer-me póde alguem d'affectos bons e puros
    Que eu posso ainda encontrar as bellas cathedraes
    Aonde o simples Christo e os martyres obscuros
    Campeiam no fulgor de pompas theatraes.

    Bem sei; mas como disse, o acaso ou o quer que fosse
    Levou-me a um templo pobre e foi n'elle que vi
    Que ha mendigos do céo, d'olhar sereno e doce,
    Proletarios do altar a quem ninguem sorri!

    E ao ver esta humildade,–eu tenho d'isto ás vezes,–
    Pensei, não sei porque, nas morbidas vizões
    Que não passam de ser as filhas dos burguezes
    Mas de rendas de França enfeitam seus roupões!

    XI

    ASTRO DA RUA

    Fazia hontem já tarde um nevoeiro espesso.
    –Que insonia em mim produz este humido vapor!–
    Eu vinha enfastiado, ou turvo, emfim confesso,
    Dos fumos do café, da luz e do rumor.

    Um fantastico véo cobria as longas praças;
    E o gaz ria atravez da grande cerração
    Que em lagrimas descia ao longo das vidraças
    E em flocos d'alva neve humedecia o chão.

    Eu mesmo achava em tudo um tom maravilhoso.
    Dispuz-me a crer no ceu a amar este ideal:
    Do subito eis que passa um astro radioso
    Luzindo-me atravez do magico cendal!

    Que vaga exhalaçao ó cousas vis que adoro!
    Que bello olhar de Deus, deixae-me assim dizer!
    Pelo sulco de luz julguei um meteóro,
    Pelo aroma subtil sonhei uma mulher!

    Passou porém, fugiu: no fim eis em resumo
    A sua breve historia! o sonho é sempre assim!
    Ha cousas que ao passar ainda deixam fumo:
    Aquella só deixava um vacuo dentro em mim.

    Archanjos caminhae, que eu espero o grande dia
    Da nossa atroz vingança, ó despotas do ceu!
    Nossa alma anda algemada á vossa tirannia
    Mas hade erguer-se a escrava…–Assim dizia eu

    E a mesma aparição de novo a deslumbrar-me!
    De novo a mesma aurora o espaço a illuminar!
    Agora pude vêl-a e posso recordar-me
    Dos abysmos de luz que havia em seu olhar.

    O astro vinha envolto em nuvens d'escumilha:
    De resto era uma fada, eu mais não sei dizer.
    Deixava atraz de si um aroma de baunilha
    D'um louco se abysmar d'um pobre enlouquecer!

    Quem quer que sejas tu, que sejam sempre bellos
    Teus ceus sem vendaval, teus dias sem revez!
    Feliz de quem poder beijar os teus cabellos
    E aos labios aquentar os teus pequenos pés!

    –Dizendo caminheí. Porém novo prodigio!
    Ainda a perseguir-me a mesma aparição
    E eu ainda sentia o lucido vestigio
    Que ha pouco em mim deixára a outra exhalação!

    Mas agora reparo, attento em sua chama!
    Que olhar tão insolente, o ceu não luz assim!
    Na gaze que ella arrasta ha um debrum de lama,
    Na face macerada uns traços de carmim!

    Oh! astro! emfim conheço a orbita que traça
    O teu curso veloz! bem sei onde tu vaes!
    Prosegue no teu giro em volta d'essa praça
    E Deus te dê mais luz e menos lamaçaes.

    XII

    Quando Martha morrer, depois do extremo arranco,
    Não tratem d'orações;
    Desprendam-lhe o cabello o vistam-a de branco
    Á moda das visões.

    Desejo vel-a então passar d'esta maneira
    Depois de tal revêz,
    Por entre a chama azul e tenue da poncheira
    No fumo dos cafés.

    Áquelle bom paiz das pallidas chymeras,
    Monotonia azul;
    Não temam que ella vá no fogo das espheras
    Queimar o véu de tulle.

    Assusta-a muito o frio, a chuva, o sol dos tropicos
    A nuvem triste e vã,
    E pódem-lhe prender os pés tão microscopicos
    As nevoas da manhãa!

    De noite ella virá com seus trajes singellos,
    Archanjo d'outros ceus,
    Nos suspiros febris dos meigos violoncellos
    Dizer-nos mal de Deus.

    Contar-nos por que foge á doce transparencia
    Que o ceu formoso tem,
    Meiga filha gentil da mesma decadencia
    Que é nossa boa mãe.

    Se as lagrimas de luz que chora o firmamento
    Em noites de luar,
    Ao seu pescoço nú podessem, n'um momento,
    Cingir-se n'um collar;

    De certo ella daria ao pallido comêta
    E á estrella trivial,
    A mesma adoração que dava á cançoneta
    Que amou até final!

    E á saida do circo, ao astro romanesco,
    Á noite iria, então,
    Contar, ainda a sorrir, o ardor funambulesco
    Do livido truão!

    Assim, não quer ouvir aos córos invisiveis
    Um hymno d'enfadar,
    Cantado por milhões d'archanjos insensiveis
    Sem um que a possa amar!

    E não lhe esquecem nunca os rapidos instantes
    Do que ella amava mais:
    –A vida illuminada á luz dos restaurantes
    N'um sonho de cristaes!

    XIII

    AS VICTIMAS

    Eu vejo muita vez e raro já me assombro
    –Minha alma tanto afiz ás tristes commoções!–
    Na rua, junto a mim, passar hombro com hombro
    No transito penozo as longas procissões,

    De victimas da sorte e victimas do mundo!
    Umas boas, gentis, outras feias, crueis,
    Envoltas n'um sudario ou n'um burel immundo;
    Nas pompas theatraes, nas galas dos bordeis,

    Não são filhas do sonho ou creaçoes chymericas
    Da mente allucinada, ou vagos ideaes;
    São magros peitos nús, são faces cadavericas,
    São as tristes, as vís desolações carnaes.

    São pequenos sem pão que vão pedindo esmola
    Nas lamas encharcando os regelados pés:
    Que dormem nos portaes, que nunca vão á escóla
    –Flôres que enfeitarão a noite das galés!

    São aquellas gentis e pobres costureiras
    De peito comprimido; anemica expressão;
    Que passam a tossir, cansadas, com olheiras,
    Ganhando em todo o dia apenas um tostão,

    Curvadas a cozer o languido velludo,
    O irritante setim dos grandes enxovaes,
    Das princezas do Banco, herdeiras d'isto tudo;
    Depois indo morrer nos tristes hospitaes!

    São os pobres heroes que os seus irmãos combatem;
    Que morrem sob o pezo enorme dos canhões,
    E o cortejo de mães pedindo aos reis que as matem
    E os reis fazendo rir das suas maldições!

    São da lugubre noite umas flôres sem nome
    Batidas muito já dos grandes vendavaes,
    Que, por que sentem frio ou por que sentem fome,
    Derramam pelo seio aromas triviaes

    E fingem depois ser apparições divinas,
    Erguendo um pouco a saia, a fimbria sensual,
    Abrindo um vil leilão de beijos, nas esquinas,
    Aos apetites vís da multidão brutal!

    São mineiros sem luz; são velhos britadores,
    Que o contacto da pedra um dia endureceu,
    Queimados pelo sol, gelados nos horrores
    Do tumulo cruel que em vida os recebeu!

    São aquelles heroes, em fim, dos grandes sonhos,
    Que sentiram na terra as vastas corrupções
    E ás turbas apontando uns mundos mais risonhos
    Tentaram espedaçar os ultimos grilhões

    E que passam tambem um tanto contristados,
    Talvez cheios de tedio, ao verem que hoje, nós,
    Os deixamos seguir ainda apedrejados
    Não raro desprezando a sua augusta voz!

    E a grande multidão de martyres sublimes,
    De tristes semi-nús, constante a caminhar,
    Aos ceus erguendo as mãos, queixando-se dos crimes
    Dos despotas que aos pés não cessam de os calcar!

    A fila tenebroza, a procissão de victimas,
    Augmenta mais e mais; não deixa de crescer!
    E do estygma cruel das penas mais legitimas
    Em muita fronte bella um traço podeis ver!

    Caminhe muito embora: a sorte é sempre varia
    E a turba soffredora, ó grandes bem sabeis,
    Podia dividir a tunica cezarea
    Lançando aos que estão nús a purpura dos reis!

    XIV

    EVOCAÇÃO

    Levanta-te Romeu do tumulo em que dormes
    E vem sorrir de novo á boa, á eterna luz!
    De noite, ouço dizer que ha sombras desconformes
    E as noites do passado, oh, devem ser enormes
    Na atonia fatal das larvas e da cruz!

    Conchega gentilmente ao peito carcomido
    Os restos do teu manto:–assim, que bem que estás!

    Na terra hão de julgar-te um grande Aborrecido
    Que busca desdenhoso o centro do ruido
    Nas horas vis do tedio e das insonias más.

    O mundo transformou-se; aquelle fundo abysmo
    Do antigo amor fatal, fechou-se d'uma vez,
    E tu filho gentil do velho romantismo,
    Tu vens achar dormindo o rude prozaismo
    No berço onde sonhava a doce candidez!

    No entanto pódes crer; faz muito menos frio
    Á luz do novo sol; do gaz provocador;
    E o seculo apezar de gasto e doentio,
    Não pode já escutar o cantico sombrio
    Que fala de edeaes e cousas sem valor!

    Em paz deixa dormir a terna Julieta
    Que aos ceos ainda por ti levanta as brancas mãos;
    E em quanto por mim corre a tetrica ampulheta,
    Da muza alegre e vil da torpe cançoneta
    Saudemos a nudez a par dos bons pagãos!

    Nas praças, tu bem vês; a turba prazenteira
    Innunda-se na luz de mil constellacões!
    E os archanjos da rua assomam na poeira
    Que exhala o macadam, trazendo em cada olheira
    O astro creador das grandes sensações!

    E quando a cotovia á estrella matutina
    Mandar a saudação, lá fora, em pleno céo,
    Romeu tu beijarás, que é tua eterna sina,
    A trança da belleza anemica e franzina
    Que entre os fumos da festa, a amar, adormeceu!

    XV

    Boas noites coveiro: a tua enxada
    Não cessa ha tanto tempo de cavar?!
    Cavalleiro da morte, ó fronte desolada
    Não sentes a mão tremula e cançada
    De tanto trabalhar!

    Tu esperas hoje as legiões sombrias
    De mortos, que eu supponho ao longe ver?
    Os felizes caídos nas orgias
    E os tristes que além todos os dias
    O gelo vem colher?!

    Que immensa valla aberta! são medonhos
    Os risos d'essa boca infame, alvar!…
    Descansa dos teus dias enfadonhos!
    –Eu cavo a sepultura dos teus sonhos
    Não posso descançar!

    XVI

    FLOR DA MODA

    Alice, o turbilhão das salas elegantes,
    Começa a entristecer; ninguem sabe por quê!
    Aquella flôr doente amava muito d'antes
    As festas, o ruido, as cousas deslumbrantes,
    Agora é desolada e penso que descrê.

    Que tedio se abrigou na vaga transparencia
    D'um todo tão subtil, aerio, divinal.
    –Moderna creação da santa decadencia,
    Que alia gentilmente ás pompas da regencia
    Os indecisos tons d'um ar sentimental?!

    Archanjo por quem és! desvenda esse mysterio
    Das vagas oppressões da tua insomnia má,
    E diz-me o teu sonhar visão do baixo imperio,
    Vestal que amas o gaz e tens o fogo ethereo
    Na conta d'uma cousa um tanto usada já!

    No idylio pastoril das noites venturosas
    Não sonhas tu de certo, e raro o hão de sonhar
    N'um mundo todo nosso, as bellas desditosas
    Que em trinta annos de fogo as suas velhas rozas
    Nos grandes vendavaes sentiram desbotar!

    E quando a augusta voz do mar ou das florestas
    Abala o coração dos justos e dos bons,
    Bem sei que tu não vaes, fugindo ás grandes festas,

    No amor das castelãs scismar entre as giestas
    Com medo que te acorde a bulha dos wagons!

    Eu sei talvez teu mal! A febre que hoje sentes
    Abraza a geração de lyrios ideaes
    Que passam, como tu, galantes e doentes,
    D'um amor desordenado ás cousas dissolventes,
    Ás vozes da guitarra e aos cantos sensuaes!…

    E tem de os consumir a grande nostalgia
    D'um mundo mais á moda e menos trivial,
    Onde haja um grande caso, ao menos, cada dia
    E se possa esquecer a vil monotonia
    De tudo que nos cerca:–Alice eis o teu mal mal!

    No entanto eu sei que és boa: apenas das insomnias
    A febre, mãe cruel d'estranhas sensações,
    Na fria placidez do gaz e das bigonias
    Construe na tua mente as grandes babylonias
    D'um mundo extraordinario e monstro de visões!

    Tocou-te um mal galante: és tenue e caprichosa:
    És boa e fazes gala em que te julguem má.
    E sentes sobre tudo uns tedios côr de rosa
    E os extasis crueis d'uma mulher nervosa:
    –Se existe a mulher-flôr, tu és a flôr de chá!

    E chame-te o bom Deus ao foco aonde brilha
    Aquella eterna luz, amor dos immortaes,
    Que tu amortalhada em rendas e escumilha
    Achar deves, talvez, da moda, ó terna filha,
    O céo modesto um pouco e os anjos triviaes!

    XII

    Ó machinas febris! eu sinto a cada passo,
    Nos silvos que soltaes, aquelle canto immenso,
    Que a nova geração nos labios traz suspenso
    Como a estancia viril d'uma epopea d'aço!

    Emquanto o velho mundo arfando de cansaço
    Prostrado cae na luta; em fumo negro e denso
    Levanta-se a espiral d'esse moderno incenso
    Que offusca os deuses vãos, anuviando o espaço!

    Vós sois as creações fulgentes, fabulosas,
    Que, vibrantes, crueis, de lavas sequiosas,
    Mordeis o pedestal da velha Magestade!

    E as grandes combustões que sempre vos consomem
    Começam, n'um cadinho, a refundir o homem
    Fazendo resurgir mais larga a Humanidade!

    XVIII

    A CHRISTO

    Precisamos Jesus, se não te sentes velho,
    Que cinjas novamente o resplendor de luz
    E venhas explicar a letra do evangelho
    A muitos que hoje vês prostrados ante a cruz!

    Ainda não cessou, de todo, essa contenda
    Que um dia, ha muito já, tentaste debellar:
    E aquelles que são bons e adoram tua lenda
    Desejavam tambem ouvir-te hoje falar.

    Apenas resoasse o teu verbo indignado,
    O latego febril das grandes corrupções,
    Iria atraz de ti um mundo revoltado
    Que sente na consciencia a luz das redempções.

    E embora não houvesse, aqui, outra alma gemea
    Da tua, e tão ungida em balsamos dos céos,
    Havias d'encontrar essa alma de bohemia
    Que sonha uma justiça e sente em si um Deus!

    Mas não, não voltes cá: teu corpo combalido
    Não póde supportar os gelos da manhã.
    Precisavas de pão, d'abrigo e de vestido
    E a vida aqui é cara e longo o macadam!

    Terias d'encontrar, de certo, mil estorvos
    No mundo revolvido, e escuta-me Jesus:
    Se não fosses, em fim, comido pelos corvos
    Talvez te fuzilasse um cura Santa-Cruz!

    Serias apontado a dêdo, muitas vezes,
    Como um simples bandido, um agitador feroz,
    E haviam de esconder seus ouros os burguezes
    Apenas resoasse, ao longe, a tua voz!

    Depois vinhas achar a par do proletario,
    Ao pé do que se innunda em bagas de suor,
    Aquelle velho Pedro, agora millionario,
    E triste por pensar que já esteve melhor!

    E perto do ocio vil á sombra do qual medra
    O egoismo feroz que extingue o coração,
    Lutando todo o dia o britador de pedra
    A quem á noite espera, em casa, um negro pão;

    E uns pequenos sem côr; talvez cheios de fome,
    Com pouca luz no olhar; atrophiados, nús;
    Abrindo os olhos muito á codea que elle come
    E indo-se deitar sem roupas e sem luz!

    Assim deixa-te estar. O teu cadaver triste
    Recende uma fragrancia etherea e divinal,
    Emquanto o mundo segue e vae de lança em riste
    Sem treguas combatendo as legiões do Mal!

    Tu foste o paladino, o trovador sagrado,
    Que falaste do amor, da paz e do perdão,
    E o ferro que varou teu corpo lado a lado
    Comtudo inda reluz altivo em muita mão!

    Nós, hoje, quando em luta erguemos sobre a liça
    O gladio vingador das oppressões crueis,
    Soltamos, n'um sorriso, o nome da Justiça,
    E ha quem saiba morrer sem bençãos nem laureis!

    Descansa pois Jesus! Bem basta que tu sintas,
    N'esse velho sepulchro, o immenso vozear
    Dos mineiros sem luz, das legiões famintas,
    Que nunca, um dia só, deixaram de lutar,

    Mas que hão de em fim vencer, porque a suprema essencia
    A jorros cae do céo nas mãos dos Prometheus,
    E tanto vae subindo a vaga da consciencia
    Que um dia ha de abismar-se em nós o proprio Deus

    XIX

    Eu tive um sonho estranho: ouvi que vou dizel-o.
    Era em praia dezerta, em frente a um longo mar:
    Nos céos havia a nevoa, a mãe do Pezadêlo,
    E o vago, o incerto, o informe em tudo a oscillar!

    De subito surgiu, na praia, uma criança
    D'olhar profundo e bom, d'angelica expressão,
    E o mar contemplou com tanta confiança
    Que nem que visse n'elle o berço d'um irmão!

    Mas a vaga subindo, em cada extremo arranco
    Levando ia comsigo aquella flôr dos céos!
    E em breve só boiava um tenue vulto branco
    No mar onde fluctua o espirito de Deus!

    Mais tarde á beira-mar chegava a pura imagem
    Da mais casta mulher que em vida pude ver.
    Detinha-se distante:–a espuma da voragem
    Só meia extenuada aos pés lhe ia morrer!–

    O immenso mar, porém, crescia a cada instante
    Mais turvo e mais veloz! depois… Não quiz vêr mais.
    Ergui-me e caminhei de val em val errante
    Pensando tristemente em coisas ideaes!–

    Ao longe, muito além, na serra desviada
    De subito encontrei–ó estranha apparição–!
    Uma pobre velhita enferma e desolada
    Trazendo já no olhar a grande cerração!

    Que idéa me assaltou não sei dizel-o agora.
    Aonde iria o espectro, aquella sombra vãa?
    Iria aonde vae o que hontem foi aurora
    E aonde irão tambem as rosas d'ámanhãa?…

    Dos meus instantes bons, ó lucida chimera,
    Bem vês que os sonhos maus são faceis d'esquecer!
    Que importa a grande noite em plena primavera,
    Que importa o que tu foste, o que és, e o que has de ser!!

    XX

    O GRANDE TEMPLO

    Eu não trajo o burel do magro cenobita
    Nem me posso infligir crueis macerações;
    Mas não rio d'alguem que busca a paz bemdita
    No seio casto e bom das grandes solidões.

    Bem sei que ha na montanha aromas penetrantes
    E certas vibrações que podem fazer mal;
    Mas se é preciso Deus, direi que é melhor antes
    Amal-o com fervor no templo universal!

    Em quanto sobre o altar das serras azuladas
    Mil lampadas do céo derramam toda a luz,
    Nas velhas cathedraes, já meio arruinadas,
    O Tempo,–o grande verme!–até devora a cruz!

    Depois é facil vêr, por entre os arabescos
    Que a arte sensual traçou com tanto amor,
    Ás vezes, o sorrir dos Satyros grotescos
    Pungindo cruelmente a face do Senhor.

    Ou mais; podemos nós voar todos captivos
    Do sereno ideal, d'aquelle summo bem,
    Ao vermos tanta vez os Faunos mais lascivos
    Olhando de revez a virgem nossa mãe?!

    E ainda mil traições: as musicas, as flôres
    Os lindos seraphins voando todos nús;
    Da sêda que se arrasta os languidos rumores
    Do incenso as espiraes; os turbilhões de luz!

    Oh! visto haver de tudo; aromas e decotes,
    O vinho scintillante, a viva luz do gaz;
    Que a vossa rouca voz, pomposos sacerdotes,
    Não cante apenas Deus; que solte alguns _hurrahs_!

    O fumo d'essa festa, a mim, pouco me assusta.
    Se eu quero alguma vez fugir do pó, voar,
    Eu tenho o val profundo ou a floresta augusta,
    As montanhas, os céos, e o bello, o vasto mar!

    Da casta natureza ó templo gigantesco,
    Tu és mais amplo, sim; mais livre, muito mais!
    O meigo e doce olhar do Christo romanesco
    A multidão gentil não chama aos teus umbraes.

    XXI

    A UM CERTO HOMEM

    Agora és todo nosso: a rude voz da historia
    Já póde hoje falar
    E dar-te um balancete ás nodoas e á gloria
    Rei-sol de _boulevard_.

    Que dias d'esplendor! Porém como começa
    A noite e a podridão!
    Foi Deus que te mandou tambem para a Lambessa
    Da eterna punição!

    Enfarda a tua gloria e leva-a que é vergonha
    Que vejam ámanhã,
    Que até lhe depennou as aguias de Bolonha
    O abutre de Sedan!

    E visto que em redor nenhuma estrella brilha
    E a noite é longa e má,
    No caminho do opprobrio acende a cigarrilha
    E, cezar, ouve lá:

    Que altiva e bella a França! aquella Gallia ardente
    Que de Valmy levou,
    Descalça, quasi núa; a Marselheza em frente;
    Nossa alma até Moscow!

    Seus filhos teem a fouce: envergam rudes clamydes
    Depois, caminham sós;
    E em quanto ceifam reis acordam nas Pyramides
    A alma dos Pharaós!

    E vão cheios de fé, bandeira solta ao vento,
    Na gleba das nações,
    Convictos semeando o novo pensamento
    No sulco dos canhões!

    Mas tu chegas um dia: afogas-lhe a grandeza
    E quando a tens aos pés,
    Celebras a victoria aos hymnos de Thereza,
    A musa dos cafés!

    Banquetes dás ao crime; e os teus heroes d'esquína
    Ainda a afrontam mais,
    Tornando a _Marselheza_ em torpe Messalina
    D'um circo de chacaes!

    E sobre alguns montões de mortos ainda quentes,
    Emfim campeias, tu,
    Que déste á sagração das cousas dissolventes
    Um Petroneo-Sardou!

    Porém, quando ao colher ainda um beijo á Fama
    Um dia avanças mais,
    Teu carro triumphal trambolha-te na lama
    E então como tu saes!…

    Revolves-te no horror das vis, infectas ondas
    De lodo e podridão,
    E vaes de manto roto e vestes hediondas
    Buscar a escuridão!

    Em vez de reclinar a fronte ao sol ardente
    Da luta que sorri,
    Do fumo dos canhões fugiste, e de repente…
    Matou-te um bistori!…

    Que entrada a tua, então, na funebre morada,
    Pizando, incerto, o pó,
    Á luz d'uma _lanterna_, ao vir da encruzilhada,
    Sinistro, sujo e só!

    Das cinzas levantou-se um brado entre os jazigos
    Dos bons e dos leaes,
    Apenas descobriste a marca dos _castigos_
    Nas faces triviaes!

    E quando te assustava o olhar altivo d'Hoche
    E o gesto de Danton,
    Sorria-te na sombra o amor da Rigolboche
    Meu cezar-Benoiton!

    73–Janeiro.

    XXII

    Á HORA DO SILENCIO

    Eu quiz hontem sonhar, sentir como um romantico
    A doce embriaguez do pallido luar,
    Ouvindo em pleno azul passar o immenso cantico
    Dos astros no seu giro e em sua luta o mar!

    A cidade dormia o somno dos devassos;
    Aquelle somno turvo, infecto e sensual:
    E a lua, antiga fada, erguia nos espaços
    Tranquilla e sempre ingenua a fronte de vestal!

    E sobre a quietação das coisas vis e exoticas
    Sentiam-se as febrís, crueis respirações,
    Dos tristes hospitaes e das virgens clorothicas,
    Dos amantes fataes da febre e das paixões!

    A noite era em silencio, a athmosphera doce
    E ria a natureza aos beijos d'um bom Deus.
    De subito escutei, ao longe, o quer que fosse
    D'um canto que suppuz então baixar dos céos!

    Attento ao vago som, porém, a pouco e pouco
    Senti que era uma voz disforme e sensual,
    Soltando uma canção n'aquelle accento rouco
    Da triste inspiração alcoolica e brutal!…

    Ó terna vagabunda, enamorada lua!
    Emquanto ias assim, diaphana e sem véo,
    Uma triste mulher passava, então, na rua
    Cuspindo uma porção d'infamias para o céo!

    XXIII

    Eu quizera depois das lutas acabadas,
    Na paz dos vegetaes adormecer um dia
    E nunca mais volver da santa lethargia,
    Meu corpo dando em pasto ás plantas delicadas!

    Seria bello ouvir nas moutas perfumadas,
    Emquanto a mesma seiva em mim tambem corria,
    As sãas vegetações, em intima harmonia,
    Aos troncos enlaçando as lividas ossadas!

    Ó belleza fatal que ha tanto tempo gabo:
    Se eu volvesse depois feito em jasmins do Cabo,
    –Gentil metamorphose em que n'esta hora penso;–

    Tu, felina mulher com garras de veludo
    Havias de trazer meu espirito, comtudo,
    Envolto muita vez nas dobras do teu lenço!

    XXIV

    O VELHO CÃO

    Soltava hontem já tarde um velho cão felpudo
    Uns doloridos ais,
    Em frente d'um palacio altivo, bello e mudo,
    Cerrado aos vendavaes.

    Fazia pena ouvil-o, o misero mollosso
    Em seu triste chorar!
    Era quasi uma sombra: apenas pelle e osso
    E um vago, um doce olhar!…

    Eis a sorte cruel do pobre que não come,
    Dos miseros sem pão!
    Em paga ainda em cima os vae tragando a Fome,
    A negra apparição!

    Latia o cão faminto. O frio era mordente,
    Feroz, quasi voraz!
    E o pobre não sabia, em fim, que ha muita gente
    Que adora a santa paz.

    Ora perto vivia uma galante rosa,
    Etherea, virginal,
    Que tinha um lindo collo, amava, era nervosa
    E a quem fazia mal,

    Aquelle uivar sinistro; a ponto de em desmaios
    Pender a fronte ao chão!
    Saíram pois á rua impavidos lacaios
    E foram dar no cão.

    –Ha no mundo um rafeiro, um velho cão esfaimado,
    –O povo soffredor,
    Que ás vezes vae ganir, com fome, o seu bocado
    Ás portas d'um senhor.

    O resto é velha historia: ocioso é já dizer-vos
    O fim que ella ha de ter.
    A Ordem, só d'ouvil-o, alteram-se-lhe os nervos
    E manda-lhe bater!

    XXV

    AS VELHITAS

    Eu não professo muito o culto das ruinas.
    Prefiro uma officina ás velhas barbacãs;
    Das velhinhas, porém, mirradas, pequeninas,
    No entanto nunca insulto as prateadas cãns.

    Deixal-as caminhar, curvadas, vagarosas,
    Com seu bento rozario, os seus fofos beitões,
    A rirem-se de nós, crueis, maliciosas,
    Sagazes comentando as nossas illusões!

    Ah, velhitas sem côr! cabeças regeladas,
    Vulcões de que só resta a cinza e nada mais:
    Já fostes as visões; talvez as brancas fadas;
    Prendestes vossos pés nos humidos rosaes;

    Tivestes já no olhar os bons reflexos magicos
    Dos lagos ideaes cubertos de luar;
    As curvas sensuaes, os bellos dedos tragicos;
    As rosas más do inferno, os lyrios bons do altar!

    Pendestes já scismando as frontes melancolicas
    Nas varandas á noite, amantes dos Titães
    Do bello amor antigo! ó Marcias das bucolicas!
    E agora apenas sois as mães de nossas mães!

    Segui vosso caminho: as graciosas fadas,
    As bellas da cidade, anémicas, gentis,
    Sorriem-se, talvez, das fitas desbotadas,
    Dos provectos chapéos, das gallas que vestis!

    Oh! mostrando os trophéos das vossas velhas rosas,
    Dizei-lhes, a sorrir das futeis illusões,
    Que fostes já, tambem, galantes e nervosas
    Mas destes isso tudo a varios corações!

    Agora tendes pouco: apenas uns lamentos
    Sentidos contra nós; queixumes sem valor
    E ao mundo importam muito os vossos testamentos
    E importa muito pouco a vossa immensa dôr!

    Batei á grande porta: os bellos dias vossos
    Velhitas, bem sabeis, não podem voltar mais!
    Á terra ide levar, em fim, n'uns tristes ossos
    O residuo fatal das cousas virginaes!

    XXVI

    ÁS VISÕES

    Pois que visões! não cessa a rapida corrida
    E seja noite ou dia,
    Volteadoras crueis! vós sempre a toda a brida
    Na minha phantasia!

    Parti chymeras vãs! archanjos ou _madonnas_,
    Parti, que o mando eu,
    Como um bando fatal de velhas amasonas
    Que o circo aborreceu!

    Levae tudo comvosco: as settas mais a aljava;
    O angelico sorriso;
    E as azas d'escumilha em que eu voava
    Á noite, ao paraiso!

    Eu quero, em fim, dormir; passar as noites gratas
    Sentindo-me feliz,
    No somno machinal dos velhos acrobatas
    Depois das farças vis!

    Mais tarde hei de sorrir, ou escarnecer-me quasi,
    Lembrando-me–ó verdade!–
    Que onde eu suppunha aurora havia apenas gaze
    E uns traços d'alvaiade.

    Perdão se vos insulto! oh, não, vós sois do empyreo,
    D'aquelle meigo azul,
    Que a todos tem sorrido: a Christo no martyrio,
    Na dôr, ao rei de Thule;

    E quando vos apraz, nas azas transparentes,
    Mais alto ides por certo,
    Do que as deusas gentis, aerias, insolentes,
    Que vemos voar tão perto!

    No entanto podeis crer ó lucidos fantasmas
    Que o seculo, afinal,
    Occulta no esplendor não sei que vis miasmas
    Que fazem muito mal!

    E quando vós passaes, nas horas do mysterio
    D'estrellas revestidas,
    Bebemos nós, talvez, o aroma deleterio
    Das rosas corrompidas!

    Oh sim! parti depressa; erguei-vos d'este abysmo
    Archanjos ideaes,
    Deixando-nos colher a flôr do realismo
    Nas coisas triviaes!

    XXVII

    Melancolias do outono! Eu quando além descubro,
    Nas tristezas do campo, as filas mugidoras
    Dos vagarosos bois que voltam das lavouras,
    Compungem-me as crueis desolações d'outubro!

    Das orlas do poente, afogueado, rubro,
    Ó moribundo sol! com que poesia douras,
    As formas triviaes das cabecitas louras,
    Que, ás portas dos casaes, de bençãos tambem cubro!…

    Solta o canto final a orchestra da folhagem:
    São horas de partir; apresta-se a viagem,
    E as noites dos saraus hão de voltar mais bellas!

    Mas as vistas lançando ás regiões saudosas,
    Nos esforços crueis das tosses dolorosas,
    Em bandos vão partindo as tisicas donzellas!

    XXVIII

    O VELHO MUNDO

    Eu vejo em toda a terra um vasto cemiterio,
    A necrópole immensa, a campa dos colossos,
    Aonde em paz descansa o velho megatherio,
    Por entre a fauna morta, os carcomidos ossos!

    E os grandes leviathaãs dos primitivos mares;
    Os tremendos reptis, crueis, descommunaes,
    Celebram no silencio as nupcias singulares
    Dos seus residuos vis, com ricos mineraes!

    E os esqueletos nús dos lividos gigantes
    Abraçam-se melhor; conchegam-se na cova,
    Deixando um logar vago aos velhos elephantes
    Que vão fugindo á luz da natureza nova!

    Tambem no mundo interno as almas vão seguindo.
    Na corrente da vida, em mil circulações;
    E da consciencia humana o largo abysmo infindo
    Occulta, ha muito já, disformes creações!

    Ellas dormem na sombra immensa do passado
    Aonde em breve hão de ir nos trances doloridos,
    A velha Realeza e o trémulo Papado
    Sem forças descançar os corpos corrompidos.

    Depois virão mais tarde as gerações futuras
    E os dois espectros vãos da sombra hão de evocar,
    Bem como a nossa voz, as grandes creaturas
    Do mundo primitivo, obriga a despertar.

    E as crianças terão seus nomes de memoria,
    Como exemplo, na vida, a todos os momentos;
    E vel-os-eis de pé, nas paginas da historia,
    Grotescos, machinaes, pezados, somnolentos;

    Fazendo-nos pensar; d'espanto enchendo tudo;
    Soffrendo o riso alvar do ingenuo e do plebeu,
    Eguaes ao masthodonte armado para estudo
    E exposto ás irrisões nas salas d'um museu!

    XXIX

    Eis a velha cidade! a cortesã devassa,
    A velha imperatriz da inercia e da cubiça,
    Que da torpeza acorda e á pressa corre á missa!
    Baixando o olhar incerto em frente de quem passa!

    Ella estreita no seio a velha populaça,
    Nas vis dissoluções da lama e da preguiça,
    E nunca o santo impulso, o grito da Justiça,
    Lhe fez estremecer a fibra inerte e lassa!

    E póde receber o beijo e a bofetada
    Sem que sinta o rubor da colera sagrada
    Acender-lhe na face as duas rosas bellas!

    Sómente d'um sorriso alvar e deshonesto,
    Ás vezes, acompanha o provocante gesto
    Quando sôa a guitarra, á noite, nas viellas!

    XXX

    Á NOITE

    Eu gosto de velar a percorrer os mundos
    Ó noite dos bons canticos,
    Aos lividos clarões dos astros vagabundos
    Nos extasis romanticos,

    Emquanto a vil cidade, a cortesã devassa
    Dos falsos ouropeis,
    Com seus famintos cães, a sua lua baça
    E os seus negros bordeis,

    Resona torpemente aos beijos deleterios
    D'alguns velhos amantes;
    –Os longos hospitaes e os tristes cemiterios
    Que a afagam delirantes!

    Comtudo eu tambem sei que existe muito instante
    De gelos, em que tu,
    Feroz, cravas o dente agudo e penetrante
    No pobre seio nú!

    Que ha horas em que vens, nas humidas cidades,
    Nas choças, nos esgotos,
    Cuspir cynicamente as frias tempestades
    No seio vil dos rotos,

    Sem ter pena, sequer, da pobre mãe que passa
    Um dia sem ter pão,
    Nem d'essa esfarrapada e velha populaça
    Que rosna como um cão!…

    Mas em breve deixando as tenebrosas vestes,
    O manto dos horrores,
    E o gladio vingador das coleras celestes
    Ó noite dos amores,

    Retomas o tom puro e santo do mysterio
    Da pallida mulher
    Que vae colher, scismando, um lyrio ao cemiterio
    E ao campo um malmequer!

    Em horas de tormenta és a mulher colerica!
    Até cospes na cruz!
    E formam-te espiraes na coma athmospherica
    As viboras de luz!

    Porém no teu regaço, altivo, casto, enorme,
    Em doce e plena paz,
    É que a virtude sonha e que a desgraça dorme
    Depois das horas más,

    E em lucidos cristaes, ha scintillantes vinhos;
    Os casos mais galantes;
    As languidas canções; os bellos desalinhos
    E os gestos provocantes!…

    Ó filha do silencio! Aos puros alabastros
    Dos hombros ideaes,
    Se Deus arremessasse a quantidade d'astros
    Que em ti brilham a mais,

    As pallidas visões que passam doloridas,
    E um tanto contristadas,
    Haviam de surgir d'estrellas revestidas
    Em trajos d'alvoradas!

    Em ti cuida escutar uns sons inexprimiveis
    De languidas canções,
    O pobre sonhador de coisas impossiveis
    Que adora as solidões!

    E quando o resplendor de mundos luminosos
    Na tua fronte cinges,
    Os gatos sensuaes, electricos, nervosos
    Repouzam como esphinges;

    Emquanto as combustões dos lividos comêtas,
    Errantes e fataes,
    Comsomem lentamente as grandes borboletas
    Dos nossos ideaes!

    XXXI

    A VALLA

    Trazei mortos á valla; a hydra está com fome
    E deve ser-lhe longa a hora em que não come!
    Olhae como ella mostra aquelles que a vão ver,
    Inerte, sem pudor, de fauce escancarada,
    A amargura cruel da bocca desdentada
    Que pede de comer!

    Lançae ao monstro informe algum repasto novo!
    Trazei-lhe carne humana; arremeçae-lhe o povo.
    Tranzido pelo frio ou morto pelo sol!
    E visto haver na fera abysmos insondaveis
    Mandae-lhe as legiões dos grandes miseraveis
    Que morrem sem lençol!

    Eu quero vel-a farta, a lugubre panthera,
    Que, na sombra agachada, olhando em roda, espera
    A preza que lhe inveja a gula dos chacaes.
    Começa a ouvir-se ao longe a marcha vagarosa
    Da triste procissão cruel e dolorosa
    Que vem dos hospitaes.

    Um velho esquife chega: em duas taboas toscas
    Um pobre semi-nú coberto já de moscas,
    N'um riso deixa ver não sei que tons crueis!
    Emquanto nos sorria a luz das noites bellas,
    Talvez que elle varresse a lama das viellas
    E o lixo dos bordeis!…

    E poude, em fim, dormir no seio bom da morte!
    Apoz, como se fôra a livida consorte
    D'aquelle vil despojo, ás mesmas horas vem,
    Trazendo por sudario os seus vestidos rotos,
    Uma triste mulher caída nos esgotos
    Sem bençãos de ninguem!

    Devora-os ambos fera! Engole-os juntamente:
    Reune-os em consorcio e dá-os de presente
    Á larva que partilha as ancias do teu ser!
    Aguça o teu desejo!–A garra infecta lança
    Ao corpo tenro e nú d'uma gentil criança
    Que a mãe te vem trazer!

    Redobra d'appetite! Alonga-se a teu lado
    A fila tenebrosa! O espectro do soldado
    A par do que vergou cançado de cavar:
    E o mineiro sem luz, o martyr legendario;
    E amparando-se a custo ao velho proletario
    A flôr do lupanar!

    Mastiga a turba vil e alonga essa guela!
    Bem vês que vem chegando um corpo de donzella
    Que pela candidez recorda uma vestal!
    Voou-lhe, n'um sorriso, o derradeiro arranco
    E traz viçoso ainda um grande lyrio branco
    No seio virginal!

    Ó monstro sensual na sombra tripudia!
    Celebra no silencio a tenebrosa orgia,
    Que as Deusas vem chegando ao lubrico festim!
    N'um beijo os labios colla á frigida epiderme
    E o D. Juan da morte, o cavalheiro Verme,
    Que viva e gose emfim!

    Eu quero ver-te farta, em halitos profundos,
    Dormindo o somno vil dos animaes imundos,
    De ventre para o ar; serpente infecta e má!
    E ámanhã, na estação dos candidos amores,
    Veremos rebentar n'um tapete de flôres
    O lixo que em ti ha!

    E a santa mocidade; as languidas mulheres;
    Virão depois colher os gratos malmequeres,
    Pizando-te sem medo e cheias de desdem,
    Em danças sensuaes; o fato em desalinho;
    Compondo-te canções; regando-te de vinho;
    Sem pena de ninguem!

    E tu que és monstruosa, infame, vil, medonha;
    Que não mostras pudor; que não sentes vergonha;
    Que és a campa-monturo e não pódes ser mais;
    Cingida em fim, tambem, de rosas orvalhadas,
    Terás dado um perfume ás almas namoradas,
    E pasto aos animaes!

    XXXII

    Ó vultos ideaes, fantasticos e bellos,
    Que ás vezes revoaes nas salas deslumbrantes,
    N'um grande mar de tulle, ethereas, fluctuantes.
    Aos suspiros fataes dos meigos violoncellos;

    Que bom que era sonhar nos pallidos castellos,
    Á noite, á beira mar, nas solidões distantes,
    Nos tempos em que a flôr dos timidos amantes
    Á lua confiava os intimos anhelos!…

    Agora sois gentis, despepticas, vistosas;
    Pagaes por alto preço as exquisitas rosas;
    Nos rapidos wagons correis o mundo em roda;

    Mas prostradas do baile, amarrotando a luva,
    Emquanto cae na rua a somnolenta chuva,
    Scismaes no Deus-Milhão,–no Creador da moda!

    XXXIII

    Eu vejo em tua bocca as pétalas vermelhas
    D'uma rosa de fogo aonde vão libar,
    O mel das illusões, quaes timidas abelhas,
    Uns velhos ideaes que em vão tento expulsar.

    Dizer-me pódes tu de que ovulo espontaneo,
    Tocado pelo sol, em mim poude nascer
    Este bando cruel que dentro do meu craneo
    Não faz ha muito já senão roer, roer?!

    Ás vezes vôa ao largo; ás serras, ás campinas;
    Remonta aos astros bons; torna a descer dos céos;
    E volta a demolir as trémulas ruinas
    Do templo onde crepita a luz dos dias meus!

    Ó grande flôr suave! e n'isto se resume
    A constante batalha, o sempiterno afan!
    Aspira a minha essencia ao teu grato perfume;
    Sossobra o dia d'hoje ao dia d'ámanhã!

    Oh, volvamos á terra; aos placidos logares,
    Aonde os hymeneus fecundos e reaes,
    Produzem, dia a dia, os fetos singulares
    E as sãs vegetações dos candidos rozaes!

    E o que ha d'ethereo em nós, que siga as breves phases
    D'um fluido transitorio, erguendo-se nos céos,
    Nas grandes expansões dos fugitivos gazes
    Onde em linguas de fogo ás vezes fala Deus.

    Forçoso é separar os dois rivaes antigos,
    Na batalha cruel que em nós se reproduz.
    Sorria o que é da terra aos vegetaes amigos;
    Rebrilhe o que é do céo nas refracções da luz!

    XXXIV

    NOS CAMPOS

    A fragrancia do trevo o das flôres selvagens
    Da noite embalsamava as tepidas bafagens:
    Ao longe os astros bons olhavam-nos dos céos.
    O mundo era um altar; as serras grandes aras;
    E os canticos da paz corriam nas searas
    Em honra do bom Deus.

    No solemne silencio immersa ia minha alma
    Em tranquilla mudez; n'aquella doce calma
    Que sente germinar os frescos vegetaes.
    De subito uma voz deixou-me um pouco extatico:
    Detive-me um momento; olhei:–era o viatico!
    De noite a horas taes,

    Que andava Deus fazendo, assim, pela campina,
    Trazido pela mão d'um padre sem batina
    Roubado ás sensações d'um longo resonar?
    Fui seguindo o cortejo até que n'uma choça
    O Rei dos reis entrava: o padre, com voz grossa,
    Movia-se a rezar.

    Nos restos d'uma enxerga, ali, no vil cazebre,
    Um pobre cavador, mordido pela febre,
    Torcia as grossas mãos nas ancias do estertor;
    E os filhos semi-nus sentindo a pena ignota
    Tentavam-se esconder na velha saia rota
    Da mãe louca de dôr!

    A voz do sacerdote a custo resoava.
    A palavra d'amor que ali se precisava,
    Não posso dizer bem se acaso elle a soltou.
    Falava o Deus severo e forte dos castigos,
    Ou esse bom Jesus que aos pés d'alguns mendigos
    Um dia ajoelhou?

    Do padre tinham medo os tremulos pequenos.
    Os magros cães fieis erguendo-se dos fênos
    Latiam tristemente em volta do cazal:
    E o levita lançava áquella noite escura
    A benção derradeira, erguendo a mão segura,
    N'um gesto machinal!

    Depois transpondo, á pressa, a porta da cabana,
    Sahia sem deixar da sãa verdade humana
    O balsamo suave, o dom consolador!
    Oh, de certo o Jesus de que nos fallam tanto
    Não era o que deixava ali, n'aquelle canto
    Sósinha a mesma dôr!

    Sorria Deus, no entanto, em toda a natureza!
    Nas florestas, no val, nas serras, na deveza,
    Nas moitas dos rozaes, no movediço mar!
    O constellado azul dir-se-ía um sanctuario!
    Havia aquelle albergue apenas solitario,
    E frio o pobre lar!

    E o rude agonisante, o triste moribundo
    Que em breve ía partir; abandonar o mundo;
    Os seus deixando sós, na terra, sem ninguem,
    Talvez ao presentir o fim da insana lida
    Soltasse maldicções, ainda, contra a vida
    E contra nós tambem!

    E eu lembrei-me então d'aquelles bons valentes
    Que lutam todo o dia e vão morrer contentes
    Á noite, ao pé dos seus, depondo os vãos laureis;
    E d'aquelles, tambem, de frontes requeimadas
    Que pela causa santa, em pé, nas barricadas,
    Se batem contra os reis!

    Lembraram-me os heroes, serenos, bons, austeros,
    Que sagram toda a vida aos ideaes severos
    Da justiça e do bem; caíndo com valor,
    Sem que a dextra cruel dos despotas os dome
    Nas batalhas da idéa; oppressos pela fome,
    Varados pela dor!

    Ó pobres multidões! as grandes noites frias
    Não cessam de morder, famintas e sombrias,
    N'um banquete nefando os vossos corpos nus!
    E o lyrio da justiça; a grande flôr sagrada,
    Nem sempre mostra, em vós, aberta e desdobrada,
    As petalas de luz!

    Eu quando porem lanço as vistas ao futuro
    E vejo dia a dia a despontar mais puro
    O grande sol da idéa, em rubidos clarões,
    Recordo-me que sois a productiva leiva
    Aonde já circula uma opulenta seiva,
    De grandes creações!

    XXXV

    O ULTIMO D. JUAN

    D'aquelle de quem falo, as socegadas lousas
    Podiam-vos contar as violações brutaes!
    A gula com que morde as mais sagradas cousas
    D'horror faz recuar os trémulos chacaes.

    Não descanta á viola, á noite, os seus enleios:
    Elle vive na sombra e eu sei também que vós,
    Gentis bellezas d'hoje, ó astros dos Passeios,
    Lhe não lançaes, a furto, a escada de retroz.

    Mas sede muito embora as virgens sem desejos,
    As monjas virginaes, uns pudicos dragões;
    Fechae o niveo collo aos vendavaes dos beijos,
    E ás noites de luar os vossos corações;

    Um dia hade chegar em que elle, informe, tosco,
    Sem garbo, sem pudor, grotesco, infame, vil;
    Nas grandes solidões irá dormir comvosco,
    Mordendo em cada seio o lyrio mais gentil!

    E o que elle adora muito ó virgens romanescas
    Não é o que abrigaes d'ethereo e virginal:
    Adora os corpos nus; as bellas carnes frescas;
    Deixando o resto a vós damnados do ideal!

    Não vive como nós de candidas mentiras:
    Não communga do amor esse illuzorio pão:
    Devora com fervor as pallidas Elviras
    E em muitos seios bons dá pasto ao coração!

    Tem palacios na sombra e fazem-lhe um thesouro
    Maior do que o dos reis; adora as solidões:
    Não uza d'espadim; não traz esporas d'ouro;
    Mas vive como os reis das grandes corrupções!

    Flôres sentimentaes! tremei do paladino,
    Do velho D. Juan, feroz conquistador,
    A quem da vossa bocca um halito divino,
    Em vida, faz fugir talvez cheio d'horror;

    Mas que um dia virá, na candida epiderme,
    Na sagrada nudez dos collos virginaes,
    Em hymnos de triumpho–o grande Cezar-Verme!–
    Colher o que ficou de tantos ideaes!

    XXXVI

    Formosuras do inverno! Ao sol das duas horas
    A aérea multidão de fadas quebradiças,
    Gentis apparições dos bailes e das missas,
    Desliza no fulgor das pompas seductoras.

    No arfar da cazimira ha frases tentadoras
    E maciezas taes nas languidas pelliças,
    Que as tristes commoções, decrepitas, mortiças,
    Resurgem do lethargo ó pallidas senhoras!

    E muitos hão de ter uns extasis divinos
    Ouvindo soluçar, á noite, aos violinos,
    A vaga introducção d'uma balada aerea;

    Em quanto, do futuro, ao toque da alvorada,
    Se escuta, a martellar na sua barricada,
    Sinistra rota e fria, a livida Miseria.

    XXXVII

    ANTIGO THEMA

    Passae larvas gentis na rua da cidade
    Aonde se atropella a turba folgazã;
    A noite é um tanto agreste e cheia d'humidade
    Mas o tedio mortal precisa a claridade
    Que em vosso olhar trazeis, vizões do macadam!

    Estatuas sem calor! vós sois das grandes vazas
    D'um corrompido mar as Deusas menos vis!
    Se á noite abandonaes, voando, as pobres casas,
    E vindes pela rua enlamear as azas,
    Quem sabe a fome occulta, as sedes que sentis!

    A pallida Miseria em seu triste cortejo
    Precisa as contracções de muitos hombros nús:
    E vós ides sorrindo ao lubrico desejo,
    Do carro da desgraça arremessando um beijo
    Que apenas é de lama em vez de ser de luz!

    Embora! caminhae deixando um grande rasto
    D'estranhas emoções, d'aromas sensuaes:
    E ao pobre que mendiga a pallidez d'um astro;
    Ao que sonha vizões e archanjos d'alabastro
    Fazei por despenhar nos longos tremedaes!

    Do velho idyllio, a muza, ha muito já que dorme,
    E o arroio em vão suspira e chora a nossos pés!
    A grande multidão,–a vaga, a onda enorme,
    Que oscilla sem cessar, e gira multiforme
    Ás corridas, ao circo, ao templo e aos cafés,

    Talvez ao presentir que tudo, emfim, declina,
    Adore a immensa luz, em vós, constellações,
    Que não baixaes do céo; que vindes d'uma esquina,
    Vagando no rumor da aérea musselina,
    Em plena bacchanal fingindo de vizões?

    Oh, sois do nosso tempo! A languida existencia
    De tedios se consome e sente febres más!
    Aspira ao que é bizarro: a uma exquisita essencia
    Que exhala aquella flôr que vem na decadencia
    E quando a toda a luz succede a luz do gaz!

    Do seculo a voz rude apenas diz–trabalha!–
    Ao poste vil amarra o lubrico ideal
    Que expira, emfim, talhando a funebre mortalha
    Na vossa trança gasta, ó muzas da canalha
    Que apenas revoaes do olimpo ao hospital!

    XXXVIII

    A MÃE

    Eu canto-vos, mulher, por que vos tenho visto
    Na palpebra vermelha a lagrima d'amôr,
    Que vem d'Eva a Maria–a doce mãe de Christo–
    Formando a stalactite immensa d'uma dôr!

    Oh, quantas vezes já n'aldeia miseravel
    Nas tristezas do campo, ás portas dos casaes,
    Vos tenho surprehendido, em extasi adoravel,
    Em quanto os filhos nús ao peito conchegaes!

    A fria noite chega. Os maus, de bocca cheia,
    Rebolam-se na terra: ainda pedem pão!
    Com elles repartis a vossa parca ceia;
    E vendo-os a dormir podeis sorrir então.

    D'inverno quasi sempre as noites são mordentes.
    Uivam lobos na serra: o vento uiva tambem:
    Mas elles vão dormindo os longos somnos quentes,
    Em quanto a vil insomnia opprime a pobre mãe!

    Tendes sustos crueis. Temendo que lhes caia
    A roupa que os abafa, aos pobres acudis;
    E aninhando-os melhor nas vossas velhas saias
    Podeis então dormir um tanto mais feliz.

    Mulher quanto é suave e longo esse poema
    Quanto é preciso ó mãe, no transito cruel,
    Que vossa alma estremeça e o vosso peito gema
    A fim de que em vós brilhe o mais alto laurel!

    Quem é que nunca viu, na rua, a cada passo,
    A pallida mulher que rompe a multidão,
    Trazendo agasalhado, um filho no regaço,
    E aos tombos, muita vez, um outro pela mão?!

    Nos frios do lagedo, ás vezes, pede esmola
    Ás portas dos cafés: ninguem a quer ouvir:
    E a ella qualquer codea a farta e a consola
    Comtanto que sem fome os filhos vão dormir!

    E em quanto á luz do gaz a turba prazenteira
    No fumo dos festins revoa em turbilhão,
    Quantos dramas crueis nas humidas trapeiras;
    Nos campos quantas mães sem roupas e sem pão?!

    E sempre a mesma lenda, a mesma historia antiga:
    Do palacio á cabana o vosso doce olhar,
    Nas insomnias crueis, na fome ou na fadiga,
    D'um raio creador o berço a illuminar!

    No entanto á doce mãe, se aquelle amor sem termo,
    Da moda traja agora os novos ouropeis,
    E o vosso coração já gasto e um pouco enfermo,
    Soffrendo se dilue nos ideaes crueis;

    Nas vagas pulsações d'umas recentes ancias,
    Se aquella santa flôr das grandes commoções,
    Apenas tem logar nas vossas elegancias.
    Como um enfeite de mimo amado nos salões;

    Na corrente fatal que ao longe arrasta os povos,
    Se o vosso grande affecto intenta erguer-se mais,
    Sonhando a sagração dos heroismos novos,
    Resplendente de luz; vistosa de metaes:

    Aos reflexos do gaz, ó mãe, abri passagem
    Por entre a saudação das alas cortezãs,
    Levando as seducções da vossa doce imagem
    Aos delirios da noite, ás ceias das manhãs!

    Surgi do canto obscuro aonde o casto seio
    Palpita ingenuo e bom na paz da solidão,
    E o vosso amor levae á opera e ao passeio
    A fim de que elle arranque um bravo á multidão!

    E eu heide rir ao ver que o peito onde um thesouro
    Maior do que nenhum podemos encontrar,
    Intenta seduzir pela medalha d'ouro
    Que aos pequenos heroes os reis costumam dar!

    XXXIX

    Archanjo vae-te embora: é tarde: em nossas casas
    Talvez alguem se afflija; é tão deserta a rua!…
    Tu deves sentir frio! Embuça-te nas asas;
    Dá saudades á lua.

    Um beijo em cada estrella!… Espera que eu sou louco!
    Sonhei devo pagar: perdão anjo dos céos!
    Agora tem cuidado; o céo escorrega um pouco:
    Boas noites adeus!

    XL

    SANTA SIMPLICIDADE

    Na serena missão de paz que tu cumpriste
    Ó suave Jesus, ó doce galileu,
    Que santa singeleza e que perfume triste
    Do teu casto perfil no mundo rescendeu!

    Havia no teu verbo aquella unção divina
    Que a velha harpa de Job soltou nas solidões,
    E o bello, o puro sol da antiga Palestina
    Suave contornou, de luz, tuas feições!

    Compunham-te o cortejo uns pobres pescadores
    Almas rectas e sãs; marchavas por teu pé,
    E sorrias falando aos rudes e aos pastores,
    Sentado nos portaes da pobre Nazareth.

    Da tua Galiléa os valles percorrias
    Levando um bom quinhão d'affecto a cada lar,
    E o grande olhar suave e terno das judias
    Turbaste muita vez, de certo, sem pensar!

    E mais simples na morte, apenas a tua alma
    Transpunha as regiões purissimas do sol,
    Tu que havias colhido a immorredoura palma
    Não tinhas para o corpo as gallas d'um lençol!

    Consola-te ó Jesus! Tu deves já ter visto
    Que sobre a terra, agora, ao teu nome fieis,
    Os que se dizem ser apostolos de Christo
    Não precisam trajar os infimos bureis.

    Não maceram seus pés! não vão pobres e rotos
    Envoltos na estamenha, apedrejados, sós,
    Nos desertos viver de mel e gafanhotos,
    Convertendo o gentio ao som da sua voz.

    Ante elles, ao contrario, alargam-se os batentes
    Dos palacios reaes, nas grandes recepções,
    E formam-lhes cortejo os coches reluzentes
    Atraz dos quaes se bate um trote d'esquadrões!

    Cobrindo-lhes, depois, d'insignias as roupetas,
    Afim d'honrar melhor a primitiva fé,
    Redobram-se ainda mais as velhas etiquetas;
    Polvilham-se melhor os homens da libré!

    E dão-se-lhes festins onde ha grandes baixellas,
    Fataes scintillações de vinhos e rubins,
    Gargantas ideaes, grandes espaduas bellas,
    Lampejos de cristaes, insidias de setins!

    Oh! temo bem Jesus que tantas pedrarias
    Façam peso de mais na barca do Senhor,
    Quando é certo que as mãos de Pedro um pouco frias
    Mal podem segurar o leme salvador!

    Por isso quando avisto o espaço que negreja
    E o mar que se encapella, eu temo que ámanhã
    Do fendido baixel da tua velha Egreja
    Apenas reste, á prôa, uma ficção pagã!

    XLI

    O velho Olimpo dorme o bom somno comprido
    Que prostra o lutador no fim d'uma batalha,
    E os Deuses d'outro tempo, em livida mortalha,
    Descançam no torpor d'um mundo corrompido.

    No puro céo christão, de estrellas revestido,
    No entanto ha muito já que chora e que trabalha,
    Por nós, o Christo bom sem que seu Pae lhe valha,
    A fim de ver, de todo, o mundo redimido!

    Justiça, traça o manto alvissimo e estrellado
    E senta-te, mulher, no throno abandonado
    Pelos vultos gentis de tantos Deuses velhos!

    Depois inda maior, mais pura e mais serena,
    No sangue de Jesus molhando a tua penna
    Explica a nova lei no fim dos evangelhos!

    XLII

    OS PALHAÇOS

    Heroes da gargalhada, ó nobres saltimbancos,
    Eu gosto do vossês,
    Por que amo as expansões dos grandes rizos francos
    E os gestos d'entremez,

    E prezo, sobretudo, as grandes ironias
    Das farças joviaes,
    Que em visagens crueis, imperturbaveis, frias,
    Á turba arremeçaes!

    Alegres histriões dos circos e das praças,
    Oh, sim, gosto de os ver
    Nas grandes contorsões, a rir, a dizer graças
    Do povo enlouquecer,

    Ungidos para a luta heroica, descambada,
    De giz e de carmim,
    Nas mimicas sem par, heroes da bofetada,
    Titães do trampolim!

    Correi, subi, voae n'um turbilhão fantastico
    Por entre as saudações
    Da turba que festeja o semi-deos elastico
    Nas grandes ascenções,

    E no curso veloz, vertiginoso, aerio,
    Fazei por disparar
    Na face trivial do mundo egoista e serio
    A gargalhada alvar!

    Depois mais perto ainda, a voltear no espaço,
    Pregae-lhe, se podeis,
    Um pontapé furtivo, ó lividos palhaços
    Lusentes como reis!

    Eu rio sempre ao ver aquella magestade,
    Os tragicos desdens,
    Com que nos divertis, cobertos d'alvaiade,
    A troco d'uns vintens!

    Mas rio ainda mais dos histriões burguezes
    Cobertos d'ouropeis
    Que tomam, n'este mundo, em longos entremezes,
    A serio os seus papeis.

    São elles, almas vãs, consciencias rebocadas,
    Que, em fim, merecem mais
    O comentario atroz das rijas gargalhadas
    Que ás vezes disparaes!

    Portanto é rir, é rir, hirsutos, grandes, lestos,
    Nas comicas funcções,
    Até fazer morrer, em desmanchados gestos,
    De riso as multidões!

    E eu que amo as expansões dos grandes risos francos
    E os gestos d'entremez,
    Deixae-me dizer isto ó nobres saltimbancos,
    Eu gosto de vossês!

    XLIII

    A HYDRA

    Ha muito que desceu das orientaes montanhas
    A hydra singular que espalha nas ardencias
    D'uma luta febril scintillações estranhas!

    Ella galga, rugindo, ás grandes eminencias,
    E emquanto vae soltando o silvo pelo espaço
    Engrossa á luz do sol na seiva das consciencias.

    Tem rijezas sem par, como de roscas d'aço
    E corre descrevendo em giros caprichosos
    Na leiva popular um indefinido traço.

    Prefere aos antros vis os focos luminosos
    E em mil voltas crueis aperta dia a dia,
    N'uma longa espiral, os thronos carunchosos.

    Passou pelo paiz da candida Utopia:
    Nos mythicos rosaes viveu d'um vago aroma
    Ao pallido fulgor da aurora que rompia.

    Mas hoje com valor em toda a parte assoma,
    E sem temer sequer a lugubre vizeira
    Ha muito que transpoz os porticos de Roma.

    E os Papas mais os Reis sentindo-a na carreira
    Do seu longo triumpho, um tanto apavorados,
    Trataram d'acender a livida fogueira.

    E ao galope lançando os esquadrões cerrados
    Começaram depois, na terra, a perseguil-a,
    A cumplice fatal dos lividos Pecados!

    Mas ella sem temor, nos cerberos tranquilla,
    Derrama cada vez mais bellos e fecundos
    Os intensos clarões da lucida pupilla,

    E emquanto a imprecação de tantos moribundos,
    Os despotas crueis, acolhem com desdem,
    A hydra immensa–a Idéa–a farejar nos mundos
    Ainda a garra adunca afia contra alguem!

    XLIV

    OS NOVOS LEVIATHÃS

    Dos antigos Titães, o mar,–fera indomavel,
    Agora verga o dorso ao peso colossal
    Dos novos leviathãs que em bando formidavel,
    Nas grandes explosões da colera insondavel,
    Já levam de vencida o abysmo e o vendaval!

    Elles seguem no mar, altivos no seu rumo,
    Em halitos de fogo, á nossa voz fieis,
    E como o combatente erguendo a lança a prumo,
    Era turbilhões rompendo, as flamulas de fumo
    Ostentam sem cessar correndo entre os parceis!

    Que sopro creador, que força omnipotente
    Os fez surgir do nada, os monstros colossaes?
    Ó novos leviathãs provindes tão somente
    Do fecundo hymeneu, d'este connubio ardente
    Do Genio e do Trabalho, amantes immortaes!

    Correis de mar em mar, altivos, triumphantes,
    Levando a toda a parte a vida, a nova luz,
    E as sereias gentis não fazem como d'antes,
    Ao som da sua voz, perder os navegantes;
    O dorso dos delfins, no mar, já não reluz!

    Ó alma antiga dorme inerte no regaço
    Dos velhos Deuses vãos, que o homem creador
    Agora ri de ti, prostrada de cansaço,
    Emquanto vae soprando em mil gigantes d'aço
    Outra alma inda mais larga,–o novo Deus-Vapor!

    XLV

    Sua alteza real o pequenino infante
    Matou, d'um tiro só, dois gamos na carreira:
    Um hymno mais ao céo, pois era a vez primeira
    Que sua alteza vinha á diversão galante!

    Ó vergontea gentil! quando um tropel distante
    De subito acordar os echos da clareira
    E uma preza cansada, em rolos de poeira,
    Varada, a vossos pés, caír agonisante,

    Acercai-vos então da pobre fera exangue
    Que estrebuxa de dôr n'um mar de lama e sangue
    Sem que um grito de dó nos corações acorde!

    No entanto não fiqueis na doce gloria absorto:
    O velho javali parece ás vezes morto
    Mas surge da agonia e os seus algozes morde!

    XLVI

    VERSOS A *

    Eu sou, mulher suave, aquelle antigo louco,
    O triste sonhador que o teu olhar cantou,
    E que hoje vae sentindo, o sonho, a pouco e pouco,
    Fugir como o luar d'um astro que expirou!

    Que morra, porque, emfim, bem longo elle tem sido
    E tempo é já, talvez, da Morte desposar
    O sonho que em minha alma entrou como um bandido
    E só da vida sae depois de me roubar!

    Eu devera amarral-o á braga do forçado,
    Como a Justiça faz aos despreziveis réos,
    E lançal-o depois á valla do passado
    Aonde o fulminasse a colera dos céos.

    Mas não; quero embalar-lhe os ultimos momentos
    Ao som d'uma canção das quadras juvenis,
    E amortalhar depois–em doces pensamentos–
    No manto da saudade, os seus restos gentis.

    E quando elle seguir ás regiões saudosas,
    Aonde todos nós iremos repousar,
    Ao esquife hei de atirar-lhe as derradeiras rosas
    Que dentro de minha alma houver por desfolhar!

    Ninguem profanará seus restos adorados,
    Que em paz irão dormir n'um fundo mausoleo;
    E quando alguma vez já hirtos, regelados,
    Acordem, por ventura, á luz que vem do céo;

    Em vão tu baterás, ó sonho, á fria porta
    Que em breve has de sentir fechada sobre ti,
    Porque a tua Memoria, emfim, já estará morta,
    E não te escutarei… porque também morri!

    XLVII

    Ó pobres versos meus, lançae-vos pela estrada
    Agreste e pedregosa, aonde os companheiros
    Da luta, encontrareis, meus infimos guerreiros,
    Formando os batalhões da bellica avançada!

    E o trajo em desalinho, a face illuminada,
    Transponde, sem demora, os fossos derradeiros
    Que separam de nós os braços justiceiros
    Da serena Verdade, a Deusa idolatrada.

    Vencidos no combate, ou pouco ou nada importa.
    Ao chão vergae sem pena a faço semi-morta,
    Mordendo, inda a lutar, o pó da enorme liça:

    E tudo, emfim, esquecendo; os odios e os desprezos;
    Que d'entre vós alguns, ao menos, fiquem prezos
    Como fios de luz, ao manto da Justiça!

    FIM.

    APPENDICE

    Nas paginas que em seguida se leem acha-se tão bem determinada, com
    tanta eloquencia e tão profunda observação, a missão da poesia
    contemporanea, que não podemos resistir ao desejo de as trazer das
    folhas passageiras do jornal, aonde pela primeira vez viram a luz, para
    as paginas d'este livro, por ventura um pouco menos ephemeras.

    O autor das _Radiações da Noite_, intenta sobretudo mostrar que o seu
    espirito, correspondendo ás indicações da critica, procura inspirar-se,
    tanto quanto lhe é possivel, no mundo que o cerca, nos factos e nas
    acções do nosso tempo. Das _Radiações da Noite_ á _Alma Nova_
    poder-se-ha talvez notar um certo caminho andado na direcção em que vae
    seguindo a arte contemporanea.

    Do escripto como primitivamente foi publicado, entendemos, como o leitor
    tambem de certo comprehenderá, suprimir, hoje, a parte final em que o
    talentoso critico se referia, d'um modo demasiadamente lisongeiro, á
    individualidade litteraria do autor das _Radiações_.

    Guilherme d'Azevedo

    TENDENCIAS NOVAS DA POESIA CONTEMPORANEA

    a preposito das

    RADIAÇÕES DA NOITE

    do sr.

    Guilherme d'Azevedo

    O seculo XIX, cujos primeiros annos enflorou uma corôa poetica de
    esplendor incomparavel, tem mentido cruelmente ás esperanças da sua
    aurora. Envelhecendo, perdeu o dom do canto, ou, pelo menos, o
    sentimento que faz os cantores verdadeiros. Os Goethe, os Byron, os
    Lamartine, os Miczkawicz, os Hugo, os OEhlenschlaeger, não deixaram
    descendencia digna d'aquella poderosa geração. O romantismo foi um
    meteoro. O grande canto do seculo esvaeceu-se gradualmente n'um
    murmurio. A poesia contemporanea não tem unidade, e não tem sobre tudo o
    largo folego de inspiração, que caracterisa as verdadeiras épocas
    poeticas. O interesse do tempo dirige-se evidentemente para outro lado.
    No meio das preoccupações da actualidade, a poesia é como a canção de um
    conviva distraído que se affasta da sala do festim, e cuja voz se perde
    pouco a pouco no silencio da distancia e da noute.

    Depois do apparecimento do romantismo, a sua queda é o maior facto
    litterario, do seculo. Porém essa queda, que como facto todos
    reconhecem, mas cuja phenomenalidade poucos tentam explicar, será uma
    justa sentença lavrada pela razão publica, ou será uma condemnaçao
    arbitraria que deshonra o tribunal que a firma? Indicará para o espirito
    do nosso tempo um progresso ou uma decadencia? uma gloria ou um
    deslustre aos olhos da historia?

    Não hesito em responder. O romantismo foi justamente condemnado. O
    seculo, com um sentimento lucido da sua verdadeira missão, affastou-se
    d'aquelles que lhe fallavam uma linguagem, cujo brilho, cuja eloquencia,
    cuja sinceridade, por maiores que fossem, não podiam encobrir o falso do
    principio, que a inspirava. Essa missão é essencialmente positiva,
    social e racional, e o romantismo era essencialmente apaixonado,
    individual e subjectivo. Por mais que se virasse para o futuro, a sua
    alma pertencia ao passado; emquanto que o seculo, ainda nos momentos em
    que parece invocar o passado, é sempre para o futuro que caminha. No
    fundo, uma sociedade saída da revolução, e uma poesia que se inspirava
    das tradições da edade-media, contradiziam-se, negavam-se radicalmente.
    Um equivoco historico pôde por um momento estabelecer aquelle infundado
    accordo: no dia, porém, em que se conheceram, separaram-se.

    Ainda ha muita gente que _sente_, _chora_, _crê_, e _aspira_, á maneira
    dos grandes, melancolicos e apaixonados de 1820. Mas já nos não commovem
    como então, já não influem poderosamente no mundo que os rodeia. São
    vozes sem ecco. É quanto basta para que nada signifiquem,
    historicamente: tanto mais que aquellas vozes frouxas não teem já o
    timbre ardente de indomavel paixão, que nas outras nos commovia. A
    paixão d'estas é mais estudada na escola, do que saída do coração. Não é
    já como então, um convencimento violento dos direitos da propria
    loucura, que os inspira: são apenas os livros dos mestres: ora, não é
    nos bancos apertados da escola, mas no seio da livre natureza, que se
    criam os verdadeiros poetas.

    Os poetas da geração actual vêem-se pois, rasgado aquelle veo
    phantastico da _sentimentalidade_ d'outr'ora, em face d'uma sociedade,
    que elles não comprehendem, porque ella mesma a si se não comprehende
    bem, mas que os não quer escutar senão com a condição de lhe falarem
    d'aquillo que a interessa e a preoccupa, de se inspirarem da sua vida
    real e das suas verdadeiras aspirações. É d'esta situação anormal que
    resulta a incerteza, a anarchia, a fraqueza da poesia contemporanea. A
    idéa poetica acha-se confusa, embaraçada no meio de factos sociaes, que
    se não definem claramente: as fontes da inspiração correm escassas ou
    turvas. A antiga nascente, tão querida e conhecida, está quasi secca: a
    nova, já por ser nova, e depois por que só deixa rebentar, em cachões,
    uma agua turbida, cheia de elementos estranhos, assusta os que a ella se
    chegam pela primeira vez; os mais ousados inclinam-se um momento, tomam
    a medo um golle da bebida suspeita, e retiram-se furtivamente como se
    acabassem de fazer uma acção má.

    E todavia, é alli que é necessario beber, porque é alli, n'aquellas
    aguas rumorosas e confusas, que se conteem os elementos da inspiração
    real, os principios vitaes de que se nutre a sociedade, e de que tem por
    conseguinte de se alimentar tambem a poesia, sob pena de se tornar uma
    abstracção, um phantasma, uma puerilidade. O problema da evolução
    poetica na actualidade encerra-se todo n'isto.

    Mas aqui apresenta-se uma questão, que nos detem. Terá a sociedade
    contemporanea (essa sociedade, ao que dizem, positiva até ao mais
    desolador utilitarismo) na sua atmosphera suffocadora de industria, de
    lutas sociaes e de sciencia friamente analytica, condições de vida e
    desenvolvimento normal para a constituição delicada das castas musas,
    das musas melindrosas e scismativas? Não será uma sociedade
    essencialmente anti-poetica, esta nossa, um mundo rebelde a toda a
    idealidade? Por outras palavras; poderá haver poesia racional, positiva
    e social? Será um ser _poetico_ o homem do nosso tempo?

    Intendo que póde haver tal poesia; que a alma moderna, na sua titanica
    aspiração de verdade e justiça, é poetica, poetica essencialmente,
    d'aquella poesia forte e audaciosa dos mythos de Prometeu e Ajax; que ha
    uma fonte abundante de inspiração n'esta luta historica de nações, de
    classes e de idéas, que é a epopea e a tragedia viva do nosso seculo;
    que, finalmente, á maneira que os factos confusos da nossa epoca se
    forem desembrulhando, mais lucida e evidente se irá mostrando a
    idealidade sublime que n'esse chaos apparente se contém.

    E a idéa d'essa poesia nova não só existe, mas deve ser superior á idéa
    poetica das eras anteriores, porque corresponde a um periodo mais
    adiantado da consciencia humana, penetra com maior intensidade a
    natureza e o espirito, extrae o bello da propria realidade universal,
    não das visões de um subjectivismo inexperiente, e dá por base ao
    sentimento, em vez de sonhos e intuições quasi instinctivas, os factos
    luminosos da rasão.

    Os caracteres essenciaes d'essa poesia já hoje se podem indicar, e todos
    elles se consubstanciam n'uma palavra, que resume tambem as tendencias
    da nossa civilisação: o Humanismo. A inspiração social e naturalista vem
    substituir a sentimentalidade toda subjectiva e pessoal, ou o
    transcendentalismo contemplativo de outras idades poeticas. A poesia
    deixa de duvidar e scismar, para affirmar e combater; mostra-nos o
    interesse profundo e o valor ideal dos factos de cada dia; dá ás acções,
    que parecem triviaes, da vida ordinaria, um caracter, e significação
    universaes; e surrindo maternalmente para as creanças, as mulheres, os
    simples, caminha todavia armada no meio das lutas dos homens.

    Uma tal missão ninguem dirá que é mesquinha ou vulgar: ha n'isto com que
    tentar os mais altos engenhos, captivar os corações mais generosos. E,
    sobretudo, deve seduzir os espiritos verdadeiramente poeticos acharem-se
    em communicação directa e constante com o seu tempo, com as aspirações,
    os interesses, as crenças da sociedade que os rodêa, e de cuja vida
    vivem, como meio historico a que fatalmente pertencem.

    Certamente que essa evolução nova da poesia tem de ser lenta, como lenta
    é a evolução do edeal social, que a deve inspirar. Ha um certo receio, e
    uma certa incerteza. O novo assusta: o indistincto faz hesitar, mas
    insensivelmente, e fatalmente tambem, caminha-se n'aquella direcção. Os
    symptomas d'este movimento tornam-se cada dia mais accentuados. Em
    França e Allemanha, sobre tudo, paizes aonde as idéas e tendencias novas
    se pronunciam n'uma agitação crescente, podem já indicar-se exemplos bem
    significativos; em Allemanha ainda mais do que em França. Alli a poesia
    inspira-se resolutamente das lutas sociaes e religiosas do tempo, e
    abalança-se já, ainda que com incerta fortuna, ás grandes composições
    epicas, aonde se desenha uma sociedade, consubstanciada nos seus typos e
    paixões mais caracteristicas. Entre nós, ha apenas indicios tenues e
    raros, mas que, porisso mesmo, devemos recolher tanto mais
    cuidadosamente, quanto parecem provar que nem tudo está inteiramente
    morto no espirito portuguez, e nos animam a esperar com alguma confiança
    n'um melhor futuro.

    Anthero de Quental.

    NOTA

    Na revisão d'este livro escapou uma ou outra incorrecção que não
    mencionamos, e de que o leitor benevolo nos absolverá. A paginas 63,
    devemos porém notar, em especial, o 3.^o verso, que insidiosamente
    apparece mascarado em alexandrino puro, feição que de certo lhe não
    compete. Aos entendidos concedemos plena autorisacão para demolir o
    verso referido, reconstruindo-o depois como julgarem mais proprio.

    INDICE

    INDICE

    I–Eu poucas vezes canto os casos melancolicos
    II–Eu vi passar além vogando sobre os mares
    III–Velha farça
    IV–Graça posthuma
    V–Historia simples
    VI–A meza do festim cercada de formosas
    VII–Os sonhos mortos
    VIII–Falta a ordem
    IX–Ó lyrios da cidade, ó corações doentes
    X–Miseria santa
    XI–Astro da rua
    XII–Quando Martha morrer, depois do extremo arranco
    XIII–As victimas
    XIV–Evocacas
    XV–Boas noites, coveiro, a tua enxada
    XVI–Flor da moda
    XVII–Ó machinas febris, eu sinto a cada passo
    XVIII–A Christo
    XIX–Eu tive um sonho estranho: ouvi que vou dizel-o
    XX–O grande templo
    XXI–A um certo homem
    XXII–Á hora do silencio
    XXIII–Eu quizera depois das lutas acabadas
    XXIV–O velho cão
    XXV–As velhitas
    XXVI–As vizões
    XXVII–Melancolias d'outono! eu quando além descubro
    XXVIII–O velho mundo
    XXIX–Eis a velha cidade, a cortezã devassa
    XXX–Á noite
    XXXI–A valla
    XXXII–Ó vultos ideaes, fantasticos e bellos
    XXXIII–Eu vejo em tua boca as petalas vermelhas
    XXXIV–Nos campos
    XXXV–O ultimo D. Juan
    XXXVI–Formosuras do inverno! Ao sol das duas horas
    XXXVII–Antigo thema
    XXXVIII–A mãe
    XXXIX–Arcanjo vae-te embora, é tarde em nossas casas
    XL–Santa simplicidade
    XLI–O velho Olimpo dorme o bom somno profundo
    XLII–Os palhaços
    XLIII–A hydra
    XLIV–Os novos leviathãs
    XLV–Sua alteza real o pequenino infante
    XLVI–Versos a *
    XLVII–O pobres versos meus, lançae-vos pela estrada
    Appendice

  • DevOps na prática – entrega de software confiável e automatizada

    DevOps na prática – entrega de software confiável e automatizada

    Aproximadamente 55.225 palavras.

    Página 39

    Casa do Código Capítulo 2. Tudo começa em produç ão verificar que o banco de dados foi criado com sucesso, você pode executar o seguinte comando que lista todos os banco de dados existentes:

    vagrant@db$ mysql -u root -p -e"SHOW DATABASES"

    Enter password:

    +——————–+ | Database | +——————–+ | information_schema | | loja_schema | | mysql | | performance_schema | | test | +——————–+ Assim como não é recomendável executar comandos no sistema opera- cional como usuárioroot, não é recomendável executar queries no MySQL como usuárioroot. Uma boa prática é criar usuários específicos para cada aplicaç ão, liberando apenas o acesso necessário para a aplicaç ão rodar. Além disso, a instalaç ão padrão do servidor MySQL inclui uma conta anônima para acesso ao banco de dados. Antes de criar a conta para a loja virtual, precisa- mos remover a conta anônima:

    vagrant@db$ mysql -uroot -p -e "DELETE FROM mysql.user WHERE user=’’; > FLUSH PRIVILEGES"

    Enter password:

    Uma vez que a conta anônima foi removida, criaremos um usuário cha- madoloja, com uma senha “lojasecret”, com acesso exclusivo aoschema loja_schema:

    vagrant@db$ mysql -uroot -p -e "GRANT ALL PRIVILEGES ON loja_schema.* > TO’loja’@ ’%’IDENTIFIED BY’lojasecret’;"

    Enter password:

    Para testar que o novo usuário foi criado corretamente, podemos executar umaquerysimples para verificar que tudo está OK (a senha deve ser “lojase-

    Página 40

    2.3. Configurando dependências nos servidores de produç ão Casa do Código cret” pois estamos executando o comando como usuáriolojaao invés de root):

    vagrant@db$ mysql -u loja -p loja_schema -e "select database(), user()"

    Enter password:

    +————–+—————-+ | database() | user() | +————–+—————-+ | loja_schema | loja@localhost | +————–+—————-+ Neste ponto, o servidor de banco de dados já está configurado e rodando corretamente. Para deslogar da máquina virtualdb, você pode digitar o co- mandologoutou pressionarCtrl+D. O banco de dados ainda está vazio – nenhuma tabela ou dados foram criados – porém iremos cuidar disto na seção 2.4. Antes disso, precisamos terminar de configurar o resto da infraestrutura:

    o servidor web.

    Servidor web Iremos instalar o Tomcat e configurar uma fonte de dados para usar o banco de dados criado anteriormente. Para isto, precisamos logar no servidor rodando o comandovagrant ssh web, que abre uma sessão SSH com o servidorweb. Uma vez logado, a instalaç ão do Tomcat é feita através do pacotetomcat7. Também precisamos instalar o cliente para conectar com o banco de dados MySQL, disponível no pacotemysql-client:

    vagrant@web$ sudo apt-get update Ign http://us.archive.ubuntu.com precise InRelease Ign http://us.archive.ubuntu.com precise-updates InRelease …

    Reading package lists… Done vagrant@web$ sudo apt-get install tomcat7 mysql-client Reading package lists… Done Building dependency tree …

    ldconfig deferred processing now taking place

    Página 41

    Casa do Código Capítulo 2. Tudo começa em produç ão Isto irá instalar o Tomcat 7, o cliente MySQL e todas as suas dependências, incluindo o Java 6. Para verificar que o Tomcat está rodando corretamente, você pode abrir seu navegador e digitar a URLhttp://192.168.33.12:8080/do servidor web –192.168.33.12foi o endereço IP configurado no Vagrant e8080é a porta onde o Tomcat roda por padrão. Se tudo estiver ok, você deve ver uma página com uma mensagem"It works!”.

    A loja virtual precisa de uma conexão segura com o servidor para transfe- rir dados pessoais – como senhas ou números de cartão de crédito – de forma criptografada. Para isso, precisamos configurar um conector SSL para que o Tomcat consiga rodar tanto em HTTP quanto HTTPS. Conexões SSL usam um certificado assinado por uma autoridade confiável para identificar o ser- vidor e para criptografar os dados que trafegam entre o seu navegador e o ser- vidor. Usaremos a ferramentakeytool, que é parte da distribuiç ão padrão do Java, para gerar um certificado para o nosso servidor web. Durante este processo, você precisará fornecer diversas informações sobre o servidor além de uma senha para proteger okeystore, que no nosso caso será novamente “secret” para simplificar. O comando completo, juntamente com exemplos dos dados que precisam ser fornecidos, fica:

    vagrant@web$cd/var/lib/tomcat7/conf vagrant@web$ sudo keytool -genkey -alias tomcat -keyalg RSA > -keystore .keystore Enter keystore password:

    Re-enter new password:

    What is your first and last name?

    [Unknown]: Loja Virtual What is the name of your organizational unit?

    [Unknown]: Devops na Prática What is the name of your organization?

    [Unknown]: Casa do Código What is the name of your City or Locality?

    [Unknown]: São Paulo What is the name of your State or Province?

    [Unknown]: SP What is the two-letter country code for this unit?

    [Unknown]: BR Is CN=Loja Virtual, OU=Devops na Prática, …, C=BR correct?

    Página 42

    2.3. Configurando dependências nos servidores de produç ão Casa do Código [no]: yes Enter key password for <tomcat> (RETURN if same as keystore password):

    Explicando o comando passo a passo: a opção-genkeygera uma nova chave; a opção-alias tomcatdefine um apelido para o certificado; a op- ção-keyalg RSAespecifica o algoritmo usado para gerar a chave, nesse caso RSA; por fim, a opção-keystore .keystore define o arquivo que armazenará okeystore. Este formato de arquivo permite armazenar di- versas chaves/certificados no mesmokeystore, por isso é bom escolher um apelido para o certificado gerado para o Tomcat. Além disso, tanto o keystorequanto o certificado do Tomcat são protegidos por senha. Nesse caso, usamos “secret” para ambos.

    Uma vez que o certificado foi criado e armazenado, precisamos configurar o servidor do Tomcat para habilitar o conector SSL. Isso é feito editando o arquivo/var/lib/tomcat7/conf/server.xml:

    vagrant@web$ sudo nano /var/lib/tomcat7/conf/server.xml Dentro deste arquivo, a definiç ão do conector SSL para a porta 8443 já está predefinida, porém comentada. Você precisa descomentar a definiç ão deste conector e adicionar mais dois atributos que representam o arquivo do keystoree a senha de proteção. A parte relevante do arquivo XML que precisamos alterar é:

    <?xml version=’1.0’ encoding=’utf-8’?> <Server"8005" shutdown="SHUTDOWN"> …

    <Servicename="Catalina"> …

    <!– Define a SSL HTTP/1.1 Connector on port 8443 This connector uses the JSSE configuration, when using APR, the connector should be using the OpenSSL style configuration described in the APR documentation –> <Connectorport="8443"protocol="HTTP/1.1"

    SSLEnabled="true"

    Página 43

    Casa do Código Capítulo 2. Tudo começa em produç ão maxThreads="150""https""true"

    keystoreFile="conf/.keystore"

    keystorePass="secret"

    clientAuth="false""SSLv3"

    …

    </Service> </Server> A configuraç ão do servidor web está quase pronta aqui. A última al- teração que precisamos fazer é aumentar a quantidade de memória que o Tomcat pode usar. A loja virtual exige mais memória do que a instalaç ão padrão do Tomcat define, por isso precisamos alterar uma linha no arquivo /etc/default/tomcat7:

    vagrant@web$ sudo nano /etc/default/tomcat7 A linha que define a opçãoJAVA_OPTSprecisa ser alterada para per- mitir que a máquina virtual do Java use até 512Mb de memória, ao invés da configuraç ão padrão de 128Mb. Após a alteraç ão, a opçãoJAVA_OPTSdeve ficar:

    JAVA_OPTS="-Djava.awt.headless=true -Xmx512M -XX:+UseConcMarkSweepGC"

    Por fim, para que todas as configurações sejam aplicadas, precisamos rei- niciar o servidor Tomcat:

    vagrant@web$ sudo service tomcat7 restart Para verificar que tudo está funcionando, você pode voltar no navega- dor e tentar acessar a página padrão através do conector SSL, acessando a URLhttps://192.168.33.12:8443/. Dependendo de qual navegador você está uti- lizando, um aviso irá surgir para alertar que o certificado do servidor foi au- toassinado. Em um cenário real, você geralmente compra um certificado SSL assinado por uma autoridade confiável, mas nesse caso iremos prosseguir e aceitar o alerta pois sabemos que o certificado foi autoassinado intencional- mente. Se tudo der certo, você verá novamente a página"It works!”, dessa vez usando uma conexão segura em HTTPS.

    Neste momento, ambos os servidores estão configurados e prontos para a última etapa: fazer obuildedeploypara colocar a loja virtual em produç ão!

    Página 44

    2.4. Build e deploy da aplicaç ão Casa do Código 2.4 Build e deploy da aplicação Até agora, a configuraç ão dos servidores de banco de dados e web foram re- lativamente genéricas. Instalamos os pacotes de software básicos para rodar o MySQL e o Tomcat, configuramos conectores para HTTP/HTTPS, criamos um usuário e um banco de dados vazio, que por enquanto não estão direta- mente associados à loja virtual a não ser pelo nome doschemae do usuário que escolhemos.

    Chegou o momento de baixar e compilar o código, rodar os testes, empa- cotar a aplicaç ão e colocar a loja virtual no ar! Esse processo de compilaç ão, teste e empacotamento é conhecido comobuild. As etapas do processo de buildtambém podem incluir gerenciamento de dependências, rodar ferra- mentas de análise estática do código, cobertura de código, geraç ão de docu- mentaç ão, dentre outros. A principal função do processo debuildé gerar um ou mais artefatos, com versões específicas, que se tornam potenciais candida- tos, ourelease candidates, para o deployem produç ão.

    Geralmente recomenda-se rodar o processo debuildem um ambiente pa- recido com o ambiente de produç ão para evitar incompatibilidades de sistema operacional ou versões de bibliotecas. Poderíamos até configurar o Vagrant para criar uma nova máquina virtual para utilizarmos como servidor debuild.

    Porém, para facilitar a discussão neste capítulo, faremos obuildno servidor web, que é onde odeployvai acontecer. Isso economizará diversos passos agora, porém vamos revisitar este processo no capítulo6.

    Para realizar obuild, é preciso instalar mais algumas ferramentas: o Git(http://git-scm.com/) para controle de versão, o Maven(http://maven.

    apache.org/) para executar o buildem si e oJDK(Java Development Kit) para conseguirmos compilar o código Java:

    vagrant@web$ sudo apt-get install git maven2 openjdk-6-jdk Reading package lists… Done Building dependency tree …

    ldconfig deferred processing now taking place Uma vez que essas ferramentas foram instaladas, precisamos baixar o có- digo que está hospedado no Github através do comandogit clone, e exe- cutar obuildrodando o comandomvn install:

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    Casa do Código Capítulo 2. Tudo começa em produç ão vagrant@web$ vagrant@web$ git clone https://github.com/dtsato/ loja-virtual-devops.git Cloning into ’loja-virtual-devops’…

    remote: Counting objects: 11358, done.

    remote: Compressing objects: 100% (3543/3543), done.

    remote: Total 11358 (delta 6053), reused 11358 (delta 6053) Receiving objects: 100% (11358/11358), 55.47 MiB | 1.14 MiB/s, done.

    Resolving deltas: 100% (6053/6053), done.

    vagrant@web$ vagrant@web$ MAVEN_OPTS=-Xmx256m vagrant@web$ mvn install [INFO] Scanning for projects…

    [INFO] Reactor build order:

    [INFO] loja-virtual-devops [INFO] core [INFO] admin [INFO] site [INFO] combined [INFO] —————————————————- [INFO] Building loja-virtual-devops [INFO] task-segment: [install] [INFO] —————————————————- …

    A primeira execuç ão do Maven vai demorar de 20 a 25 minutos pois di- versas coisas acontecem:

    •Sub-projetos: o projeto está organizado em 4 módulos: corepossui as configurações principais, extensões e customizações da loja virtual; siteé a aplicaç ão web da loja virtual;adminé uma aplicaç ão web restrita para administraç ão e gerenciamento da loja virtual; por fim, combinedé um módulo que agrega as duas aplicações web e o core em um único artefato. Cada módulo atua como um subprojeto que o Maven precisa realizar obuildseparadamente.

    •Resolução de dependências: o Maven irá resolver todas as dependên- cias do projeto e baixar as bibliotecas e frameworks necessários para

    Página 46

    2.4. Build e deploy da aplicaç ão Casa do Código compilar e rodar cada módulo da loja virtual.

    •Compilaç ão: o código Java e GWT precisa ser compilado para execu- ção. Isso toma um bom tempo na primeira vez. O compilador Java é inteligente o suficiente para recompilar apenas o necessário embuilds subsequentes.

    •Testes automatizados: em módulos que definem testes automatizados, o Maven irá executá-los e gerar relatórios de quais testes passaram e quais falharam.

    •Empacotamento de artefatos: por fim, o módulo coreserá empaco- tado como um arquivo.jarenquanto os módulos web (site, admin ecombined) serão empacotados como um arquivo .war. Ambos os arquivosjarewarsão equivalentes a arquivoszipque você baixa regularmente da internet, no entanto a estrutura interna dos pacotes é bem definida e padronizada pelo Java: ojarcontém classes compi- ladas e serve como biblioteca enquanto owarcontém classes, biblio- tecas, arquivos estáticos e de configuraç ão necessários para rodar uma aplicaç ão web em umcontainerJava como o Tomcat.

    Ao final da execuç ão do processo debuild, se tudo correr bem, você deve ver um relatório do Maven parecido com:

    …

    [INFO] —————————————————- [INFO] Reactor Summary:

    [INFO] —————————————————- [INFO] loja-virtual-devops …………… SUCCESS [1:35.191s] [INFO] core ………………………… SUCCESS [6:51.591s] [INFO] admin ……………………….. SUCCESS [6:54.377s] [INFO] site ………………………… SUCCESS [4:44.313s] [INFO] combined …………………….. SUCCESS [25.425s] [INFO] —————————————————- [INFO] —————————————————- [INFO] BUILD SUCCESSFUL [INFO] —————————————————- [INFO] Total time: 20 minutes 31 seconds

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    Casa do Código Capítulo 2. Tudo começa em produç ão [INFO] Finished at: Sat Mar 15 02:34:24 UTC 2014 [INFO] Final Memory: 179M/452M [INFO] —————————————————- Isso significa que obuildrodou com sucesso e o artefato que nos interessa paradeployé o arquivodevopsnapratica.war do módulocombined, que se encontra no diretóriocombined/target.

    Antes de fazer odeploydo arquivowar, a última configuraç ão necessária no Tomcat é a definiç ão das fontes de dado, ouDataSource, que a aplicaç ão irá acessar para conectar com o banco de dados. Se tais definições estivessem dentro do artefato em si, nós precisaríamos realizar um novobuildtoda vez que os parâmetros de conexão com o banco de dados mudassem ou caso qui- séssemos rodar a mesma aplicaç ão em ambientes diferentes. Em vez disso, a aplicaç ão depende de recursos abstratos através da especificaç ão JNDI (Java Naming and Directory Interface). Estes recursos precisam ser configurados e expostos pelocontainer, possibilitando a alteraç ão sem necessidade de um novobuild.

    A loja virtual precisa de três fontes de dados no JNDI chamadas jdbc/web, jdbc/secureejdbc/storage. No nosso caso, usare- mos o mesmo banco de dados para os três recursos, definidos no arquivo context.xml:

    vagrant@web$ sudo nano /var/lib/tomcat7/conf/context.xml As configurações relevantes são os três elementos <Resource>e a dife- rença entre eles é apenas o atributoname:

    <?xml version=’1.0’ encoding=’utf-8’?> <Context> <WatchedResource>WEB-INF/web.xml</WatchedResource> <Resource"jdbc/web" auth="Container"

    type="javax.sql.DataSource" maxActive="100" maxIdle="30"

    maxWait="10000" username="loja" password="lojasecret"

    driverClassName="com.mysql.jdbc.Driver"

    url="jdbc:mysql://192.168.33.10:3306/loja_schema"/>

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    2.4. Build e deploy da aplicaç ão Casa do Código <Resource auth="Container"

    type="javax.sql.DataSource" maxActive="100" maxIdle="30"

    maxWait="10000" username="loja" password="lojasecret"

    driverClassName="com.mysql.jdbc.Driver"

    url="jdbc:mysql://192.168.33.10:3306/loja_schema"/> <Resourcename="jdbc/storage"auth="Container"

    type="javax.sql.DataSource" maxActive="100" maxIdle="30"

    maxWait="10000" username="loja" password="lojasecret"

    driverClassName="com.mysql.jdbc.Driver"

    url="jdbc:mysql://192.168.33.10:3306/loja_schema"/> </Context> Para fazer odeployda loja virtual em si, simplesmente precisamos copiar o artefatowarpara o lugar certo e o Tomcat fará o necessário para colocar a loja virtual no ar:

    vagrant@web$cd~/loja-virtual-devops vagrant@web$ sudo cp combined/target/devopsnapratica.war > /var/lib/tomcat7/webapps Assim como obuilddemorou um pouco, o processo dedeploytambém vai levar alguns minutos na primeira vez, pois a aplicaç ão irá criar as tabelas e popular os dados usando o Hibernate. Você pode acompanhar o processo dedeployolhando para os logs do Tomcat. O comandotail -fé útil nesse caso pois ele mostra em tempo real tudo que está acontecendo no log:

    vagrant@web$ tail -f /var/lib/tomcat7/logs/catalina.out Mar 15, 2014 2:08:51 AM org.apache.coyote.AbstractProtocol start INFO: Starting ProtocolHandler ["http-bio-8080"] Mar 15, 2014 2:08:51 AM org.apache.coyote.AbstractProtocol start INFO: Starting ProtocolHandler ["http-bio-8443"] Mar 15, 2014 2:08:51 AM org.apache.catalina.startup.Catalina start INFO: Server startup in 408 ms …

    Odeploytermina assim que você perceber que as atividades no log para- ram. Para terminar o comandotailvocê pode usarCtrl+C. Agora é só

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    Casa do Código Capítulo 2. Tudo começa em produç ão testar que tudo está funcionando: abra uma nova janela no navegador e digite a URLhttp://192.168.33.12:8080/devopsnapratica/. Parabéns, a loja virtual está em produç ão!

    Figura 2.3: Página de administraç ão da loja virtual Você também pode acessar a página de administraç ão que se encontra na URLhttp://192.168.33.12:8080/devopsnapratica/admin/(a barra no final da URL é importante). Entrando com o usuário “admin” e senha “admin” você podenavegar pelas páginas de administraç ão e gerenciar o catálogo de produtos, categorias, o conteúdo das páginas da loja virtual, gerenciar pedidos, assimcomo usuários e permissões.

    Agora que estamos em produç ão e conquistamos a última milha, pode- mos focar nos princípios e práticas de DevOps necessários para operar nossaaplicaç ão em produç ão, ao mesmo tempo permitindo que novas mudanças sejam introduzidas de forma confiável.

    Imagem 1 da página 49 (sem descrição)

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    Capítulo3 Monitoramento Agora que a loja virtual está em produç ão, conquistamos a parte mais im- portante do ciclo de vida de qualquersoftware. No entanto, este foi apenas o primeiro passo! Daqui para frente, precisamos vestir o chapéu do time de operações e nos responsabilizar pela estabilidade do sistema em produç ão:

    precisamos garantir que a loja virtual continue funcionando sem problemas.

    Como saber se o sistema está funcionando normalmente ou se está fora do ar? Você pode acessar a loja virtual manualmente e verificar se está tudo ok, porém isso leva tempo e depende de você lembrar de fazê-lo. Você tam- bém pode esperar por reclamações de seus usuários, mas essa também não é uma boa opção. Sistemas de monitoramento existem para resolver esse pro- blema. Você define quais verificações são necessárias para saber se o sistema está funcionando e o sistema de monitoramento envia notificações assim que alguma verificaç ão falhar.

    Um bom sistema de monitoramento irá alertá-lo quando algo estiver er-

    Página 52

    3.1. Instalando o servidor de monitoramento Casa do Código rado, permitindo que você investigue e arrume o que estiver causando proble- mas o mais rápido possível. Desta forma, você não precisa depender de seus usuários avisarem quando algo está fora do ar, possibilitando uma abordagem mais proativa para resoluç ão de problemas.

    Neste capítulo iremos instalar um sistema de monitoramento e configurá- lo com várias verificações para garantir que a loja virtual esteja funcionando em produç ão. Utilizaremos uma das ferramentas de monitoraç ão mais utili- zadas por equipes de operações: o Nagios(http://www.nagios.org/) . Apesar de ser uma ferramenta antiga e possuir uma interface gráfica não muito ami- gável, ele ainda é uma das opções mais populares por ter uma implementaç ão robusta e um ecossistema enorme de plugins escritos e mantidos pela comu- nidade. Ao final do capítulo, nosso ambiente de produç ão incluirá um novo servidor, conforme mostra a figura3.1.

    Figura 3.1: Ambiente de produç ão da loja virtual 3.1 Instalando o servidor de monitoramento Em um sistema de monitoramento, os servidores geralmente atuam em doispapéis principais:supervisorousupervisionado. O supervisoré responsável por coletar informações sobre o resto da infraestrutura, avaliar se ela está sau- dável e enviar alertas caso encontre algum problema. Ossupervisionadossão os servidores que fazem o trabalho real que você está interessado em moni- torar. Na nossa loja virtual, o servidor web e o servidor de banco de dados

    Imagem 1 da página 52 (sem descrição)

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    Casa do Código Capítulo 3. Monitoramento serão supervisionados por um novo servidor que iremos instalar e configurar para atuar como supervisor.

    Rodar o supervisor externamente aos servidores supervisionados é uma boa prática. Se o supervisor estiver rodando na mesma máquina e algum problema acontecer, ambos ficarão indisponíveis e você não conseguirá ser alertado do problema. Por esse motivo, iremos declarar uma nova máquina virtual no arquivoVagrantfile, com o apelido monitore endereço IP 192.168.33.14:

    Vagrant.configure("2") do|config| config.vm.box ="precise32"

    config.vm.define :dbdo|db_config| db_config.vm.network :private_network, :ip=>"192.168.33.10"

    end config.vm.define :webdo|web_config| web_config.vm.network :private_network, :ip=>"192.168.33.12"

    end config.vm.define :monitordo|monitor_config| monitor_config.vm.network :private_network, :ip=>"192.168.33.14"

    end end Após salvar o arquivo, basta executarvagrant upno mesmo diretó- rio para subir o novo servidor. Se tudo der certo, a saída do comando será parecida com:

    $ vagrant up Bringing machine ’db’ up with ’virtualbox’ provider…

    Bringing machine ’web’ up with ’virtualbox’ provider…

    Bringing machine ’monitor’ up with ’virtualbox’ provider…

    ==> db: Checking if box ’hashicorp/precise32’ is up to date…

    ==> db: VirtualBox VM is already running.

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    3.1. Instalando o servidor de monitoramento Casa do Código ==> web: Checking if box ’hashicorp/precise32’ is up to date…

    ==> web: VirtualBox VM is already running.

    ==> monitor: Importing base box ’hashicorp/precise32’…

    ==> monitor: Matching MAC address for NAT networking…

    ==> monitor: Checking if box ’hashicorp/precise32’ is up to date…

    ==> monitor: Setting the name of the VM:

    blank_monitor_1394851889588_2267 ==> monitor: Fixed port collision for 22 => 2222.

    Now on port 2201.

    ==> monitor: Clearing any previously set network interfaces…

    ==> monitor: Preparing network interfaces based on configuration…

    monitor: Adapter 1: nat monitor: Adapter 2: hostonly ==> monitor: Forwarding ports…

    monitor: 22 => 2201 (adapter 1) ==> monitor: Running ’pre-boot’ VM customizations…

    ==> monitor: Booting VM…

    ==> monitor: Waiting for machine to boot. This may take a few minutes…

    monitor: SSH address: 127.0.0.1:2201 monitor: SSH username: vagrant monitor: SSH auth method: private key monitor: Error: Connection timout. Retrying…

    ==> monitor: Machine booted and ready!

    ==> monitor: Configuring and enabling network interfaces…

    ==> monitor: Mounting shared folders…

    monitor: /vagrant => /private/tmp/blank Para completar a instalaç ão básica, precisamos logar no servidor usando o comandovagrant ssh monitor. Uma vez logado, a instalaç ão do Na- gios é feita através do pacotenagios3. Porém, antes de instalar o Nagios, precisamos configurar o sistema para usar a última versão. Para isto, precisa- mos executar os seguintes comandos:

    vagrant@monitor$ > >

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    Casa do Código Capítulo 3. Monitoramento Package: nagios* Pin: release n=raring Pin-Priority: 990 vagrant@monitor$ > | sudo tee /etc/apt/sources.list.d/raring.list deb http://archive.ubuntu.com/ubuntu raring main vagrant@monitor$ sudo apt-get update Ign http://archive.ubuntu.com raring InRelease Ign http://security.ubuntu.com precise-security InRelease …

    Isso adiciona uma nova entrada na lista de pacotes com oreleasemais novo do Ubuntu – chamado “raring” – e configura as preferências do insta- lador de pacotes para dar prioridade ao novoreleasenos pacotes do Nagios.

    O comandoapt-get updatefaz com que o instalador de pacotes atua- lize seucachepara saber das novas versões disponíveis. Uma vez feito isso, podemos instalar o nagios através do comando:

    vagrant@monitor$ sudo apt-get install nagios3 Reading package lists… Done Building dependency tree …

    O Nagios possui uma dependência com o Postfix, um programa UNIX responsável por envio de e-mails. Por esse motivo, durante a instalaç ão irá aparecer uma tela rosa pedindo configurações para o Postfix. Esco- lhaInternet Sitepara seguir o processo de instalaç ão e na próxima tela, onde ele pede o nome do sistema para envio de e-mails, digite “moni- tor.lojavirtualdevops.com.br”.

    A próxima tela de configuraç ão é do Nagios, e você precisa escolher uma senha para o usuário administrador “nagiosadmin” conseguir acessar a in- terface web. Usaremos a senha “secret”. Após estas configurações, o pro- cesso de instalaç ão deve terminar e você pode testar se a instalaç ão funcio- nou abrindo o seu navegador web e visitando o endereçohttp://nagiosadmin:

    secret@192.168.33.14/nagios3. Caso você tenha escolhido outro usuário ou se- nha, modifique a URL com os dados de acesso corretos. Se tudo der certo, você verá a interface web de administraç ão do Nagios. Clicando no linkSer- vices, você verá uma tela parecida com a figura3.2.

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    3.1. Instalando o servidor de monitoramento Casa do Código Figura 3.2: Interface de administraç ão do Nagios Como você pode perceber, algumas verificações padrão – ou serviços, na terminologia do Nagios – já estão pré-configuradas. Por enquanto, o servi- dor está apenas se automonitorando, atuando tanto como supervisor quanto supervisionado. Nesta tela, cada servidor monitorado – ouhost– possui um conjunto de serviços. O servidor do Nagios está representado pelo nome lo- calhoste cada linha na tabela representa uma verificaç ão independente. O status verde “OK” significa que a verificaç ão passou, enquanto o status “PEN- DING” significa que a verificaç ão ainda não rodou. As verificações padrão são:

    •Carga atual: a carga de um sistema UNIX mede o quão ocupada a CPU está. Para ser mais exato, a carga é uma média móvel do tamanho da fila de processos esperando para executar. Quando a CPU começa a se sobrecarregar, os processos precisam esperar mais tempo para ro- dar, aumentando a fila e fazendo o sistema rodar mais devagar. Esta verificaç ão envia um alerta quando a carga atual ultrapassa um certo limite.

    •Usuários atuais: verifica quantos usuários estão logados no sistema.

    Imagem 1 da página 56 (sem descrição)

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    Casa do Código Capítulo 3. Monitoramento Essa é uma maneira simplificada de detectar intrusão no servidor e en- viar alertas quando o número de usuários logados vai além do esperado.

    •Espaço de disco: quando um servidor fica sem espaço em disco, di- versos problemas começam a aparecer. Um dos motivos mais comuns para isso é a geraç ão de logs em sistemas de produç ão. Para evitar este problema é importante monitorar quanto espaço livre ainda resta. Esta verificaç ão envia alertas quando o espaço livre atinge um certo limite.

    •HTTP: verifica que o servidor está aceitando conexões HTTP. Neste caso, o Nagios instalou um servidor web para que possamos acessar a interface de administraç ão da figura3.2. Por padrão, esta verificaç ão enviará alertas caso não consiga abrir uma conexão HTTP na porta 80.

    •SSH: verifica que o servidor está aceitando conexões SSH na porta 22 e envia alertas quando encontra algum problema.

    •Número total de processos: outra forma de avaliar se o servidor está sobrecarregado é através do número total de processos. Se muitos pro- cessos estiverem executando ao mesmo tempo, o sistema operacional vai gastar mais tempo gerenciando qual pode rodar na CPU, não so- brando tempo suficiente para que nenhum deles rode efetivamente.

    Esta verificaç ão envia alertas quando o número total de processos ul- trapassa um certo limite.

    A primeira vista, pode parecer que são muitas verificações para monito- rar um único servidor. No entanto, seguindo o mesmo princípio de escre- ver poucas asserções por teste quando desenvolvemos código usando TDD, verificações mais granulares ajudam a identificar o ponto de falha mais ra- pidamente quando algum problema acontece. Em vez de receber um alerta genérico dizendo que o servidor está com problemas, você vai ter informa- ções específicas para identificar a causa do problema mais rapidamente.

    Nas próximas seções discutiremos um pouco mais sobre os conceitos e as configurações do Nagios e aprenderemos como supervisionar outros servi- dores, como adicionar mais verificações e como receber alertas quando algo dá errado.

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    3.2. Monitorando outros servidores Casa do Código 3.2 Monitorando outros servidores Com o Nagios instalado e efetuando verificações, precisamos configurá-lo para monitorar nossos outros servidores de produç ão. Para isto precisamos declarar onde estão os outros servidores e quais verificações executar. Cria- remos um novo arquivo para definir todas as configurações pertinentes à loja virtual:

    vagrant@monitor$ sudo nano /etc/nagios3/conf.d/loja_virtual.cfg Neste arquivo iremos declarar os servidores da loja virtual, definindo no- voshostscom os respectivos endereços IP:

    define host { use generic-host host_name 192.168.33.10 hostgroups ssh-servers, debian-servers } define host { use generic-host host_name 192.168.33.12 hostgroups ssh-servers, debian-servers } Sempre que alteramos um arquivo de configuraç ão, precisamos recarregá-los para que o Nagios detecte as mudanças. Para isto, usamos o comandoreload:

    vagrant@monitor$ sudo service nagios3 reload No Nagios, umhostrepresenta um dispositivo a ser monitorado, como por exemplo um servidor, um roteador ou uma impressora. Podemos tam- bém agruparhostssemelhantes emhost groupse definir configurações para diversos servidores de uma vez, evitando duplicaç ão. O mesmohostpode ser membro de mais de umhost group.

    No arquivo de configuraç ão/etc/nagios3/conf.d/loja_virtual.cfg, definimos que os nossos servidores são membros de dois grupos:

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    Casa do Código Capítulo 3. Monitoramento ssh-serversedebian-servers. O grupo ssh-serverscria uma verificaç ão para o serviço SSH. O grupo debian-serversnão define nenhuma verificaç ão extra, mas adiciona informações como o logotipo da Debian que aparece no ícone do servidor na interface web do Nagios.

    Para verificar que as configurações foram aplicadas com sucesso, você pode recarregar a página de administraç ão e esperar até que as novas veri- ficações SSH estejam OK, conforme mostra a figura3.3.

    Figura 3.3: Monitorando serviço SSH em mais servidores Para facilitar a configuraç ão, iremos adicionar nossos servidores a dois novoshost groups: um grupo chamado web-serverspara os servidores web e um grupo chamadodb-serverspara os servidores de banco de dados.

    Faremos isso editando o mesmo arquivo de configuraç ão:

    vagrant@monitor$ sudo nano /etc/nagios3/conf.d/loja_virtual.cfg Será preciso adicionar os novoshost groupse modificar a configuraç ão doshostsexistentes para adicioná-los aos grupos corretos:

    define hostgroup { hostgroup_name db-servers alias Database Servers

    Imagem 1 da página 59 (sem descrição)

    Página 60

    3.3. Explorando os comandos de verificaç ão do Nagios Casa do Código } define hostgroup { hostgroup_name web-servers alias Web Servers } define host { use generic-host host_name 192.168.33.10 hostgroups ssh-servers, debian-servers, db-servers } define host { use generic-host host_name 192.168.33.12 hostgroups ssh-servers, debian-servers, web-servers } Após recarregar o arquivo de configuraç ão – usando o mesmo comando sudo service nagios3 reload – você pode verificar que os novos gru- pos existem clicando no linkHost Groupsna tela de administraç ão do Nagios.

    Executar diversas verificações e enviar alertas quando algo está errado são as funcionalidades mais importantes de um sistema de monitoramento como o Nagios. Na próxima seção, vamos conhecer os diversos tipos de checagens que estão disponíveis para verificar que a loja virtual está funcionando corre- tamente.

    3.3 Explorando os comandos de verificação do Nagios Cada serviço do Nagios está associado a um comando que é executado em cada verificaç ão. O comando nada mais é do que um script que pode ser exe- cutado diretamente da linha de comando. Diversos comandos já vêm instala- dos com o Nagios por padrão, porém você pode criar seus próprios scripts ou instalar plugins da comunidade para estender sua biblioteca de verificações.

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    Casa do Código Capítulo 3. Monitoramento Vamos explorar alguns dos comandos pré-instalados, que estão disponí- veis no diretório/usr/lib/nagios/plugins. Por exemplo, o comando check_ssh, que é executado na verificaç ão do serviço SSH:

    vagrant@monitor$ vagrant@monitor$ ./check_ssh 192.168.33.12 SSH OK – OpenSSH_5.9p1 Debian-5ubuntu1 (protocol 2.0) vagrant@monitor$ 0 vagrant@monitor$ ./check_ssh 192.168.33.11 No route to host vagrant@monitor$ 2 Perceba que ao rodar o comandocheck_sshpassando o endereço IP do servidor web, ele imprime uma mensagem com um resumo de uma linha do que aconteceu. Essa mensagem geralmente é da forma<VERIFICAÇÃO> <STATUS> – <MENSAGEM COM DETALHES>, porém o que define o re- sultado da verificaç ão não é o formato da mensagem, mas sim, o código de saída do processo – ouexit code, representado pela variável$?no bash:

    •0 – OK: indica que a verificaç ão passou com sucesso. Representado pelo status verde na interface web.

    •1 – WARNING: indica que a verificaç ão passou o primeiro limite de alerta. Representado pelo status amarelo na interface web.

    •2 – CRITICAL: indica que a verificaç ão falhou e algo está errado. Re- presentado pelo status vermelho na interface web.

    •3 – UNKNOWN: indica que a verificaç ão não conseguiu decidir se o serviço está bem ou não. Representado pelo status laranja na interface web.

    Outra verificaç ão que podemos fazer é que conseguimos acessar o servi- dor web por HTTP:

    vagrant@monitor$ ./check_http -H 192.168.33.12 Connection refused

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    3.3. Explorando os comandos de verificaç ão do Nagios Casa do Código HTTP CRITICAL – Unable to open TCP socket vagrant@monitor$ 2 vagrant@monitor$ ./check_http -H 192.168.33.12 -p 8080 HTTP OK: HTTP/1.1 200 OK – 2134 bytes in 0.007 second response time …

    vagrant@monitor$ 0 Perceba que precisamos passar a opção-Hpara indicar qualhostdeve ser verificado. Além disso, como não especificamos a porta a ser verificada, o comandocheck_httpusa a porta 80 por padrão. Ao passarmos a opção -pcom o valor 8080 – a porta onde o servidor Tomcat está escutando – a verificaç ão passa com sucesso.

    Um último comando para explorarmos é a verificaç ão de quanto espaço em disco ainda está disponível:

    vagrant@monitor$ ./check_disk -H 192.168.33.12 -w 10% -c 5% /usr/lib/nagios/plugins/check_disk: invalid option — ’H’ Unknown argument Usage:

    check_disk -w limit -c limit [-W limit] [-K limit] …

    vagrant@monitor$ ./check_disk -w 10% -c 5% DISK OK – free space: / 74473 MB (97% inode=99%); …

    Perceba que, ao contrário do comandocheck_http, o comando check_disknão aceita a opção-He consegue apenas verificar quanto es- paço em disco está disponível no servidor local. Isso acontece pois o serviço HTTP é um serviço de rede acessível remotamente. Por outro lado, o co- mandocheck_diskprecisa de informações locais do servidor para deci- dir quanto espaço de disco está disponível e não pode ser executado remota- mente.

    O Nagios possui três opções quando você precisa realizar uma verificaç ão remota de um serviço que não está disponível na rede:

    •Checagem por SSH: através do comando check_by_ssh, o Nagios consegue abrir uma conexão SSH com o servidor remoto e executar o

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    Casa do Código Capítulo 3. Monitoramento comando lá. Esta é uma opção simples pois não exige a instalaç ão de nenhum agente no servidor supervisionado. No entanto, conforme o número de verificações remotas aumenta, isso pode aumentar a carga no servidor supervisor, pois ele precisará criar e destruir diversas co- nexões SSH.

    •Checagem ativa com NRPE: o Nagios Remote Plugin Executor, ou NRPE, é um plugin que permite a execuç ão de verificações que de- pendem de recursos locais no servidor supervisionado. Um processo agente do NRPE roda no servidor supervisionado e fica esperando pe- didos de verificaç ão do supervisor. Quando o Nagios precisa executar uma verificaç ão, ele pede para o agente NRPE rodá-la e coleta os resul- tados quando a verificaç ão termina. Este tipo de verificaç ão é ativa pois quem inicia o pedido de execuç ão do comando é o servidor supervisor.

    •Checagem passiva com NSCA: o Nagios Service Check Acceptor, ou NSCA, é um plugin que permite a execuç ão de verificações remotas de forma passiva no servidor supervisionado. Um processo cliente do NSCA roda no servidor supervisionado e executa as verificações peri- odicamente, enviando os resultados para um servidor NSCA que roda no supervisor. Este tipo de verificaç ão é passiva pois quem inicia a exe- cução do comando é o próprio servidor supervisionado.

    A figura3.4mostra as diferentes formas de realizar verificações com o Nagios. Verificações de serviços de rede, como check_httprodam direto do servidor supervisor. Verificações que precisam rodar no servidor super- visionado, podem ser chamadas ativamente comcheck_by_sshou através do plugin NRPE. Por fim, verificações passivas podem rodar de forma inde- pendente no servidor supervisionado e os resultados enviados para o Nagios através do plugin NSCA.

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    3.4. Adicionando verificações mais específicas Casa do Código Figura 3.4: Verificações remotas com Nagios Agora que já conhecemos os diferentes tipos de verificações do Nagios e sabemos como executar seus diferentes comandos, vamos tornar o monito- ramento da infraestrutura da loja virtual mais robusto.

    3.4 Adicionando verificações mais específicas Além das verificações padrão, você pode declarar seus próprios serviços e associá-los a um únicohostou a um grupo dehosts. Na infraestrutura da loja virtual, o servidor de banco de dados está rodando o MySQL como um serviço de rede. Podemos verificar que o serviço está disponível adicionando uma verificaç ão associada ao grupodb-serversno final do arquivo de con- figuraç ão/etc/nagios3/conf.d/loja_virtual.cfg:

    define hostgroup …

    define host …

    define service { service_description MySQL use generic-service hostgroup_name db-servers check_command check_tcp!3306 } Após recarregar o Nagios e esperar pela próxima execuç ão da verificaç ão, um novo serviço “MySQL” aparecerá com o status OK. Esta verificaç ão usa o comandocheck_tcpque tenta abrir uma conexão TCP na porta especifi- cada – nesse caso a porta onde o MySQL roda é 3306. A sintaxe do Nagios para passar argumentos para um comando é separá-los com um ponto de exclamaç ão (!).

    Imagem 1 da página 64 (sem descrição)

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    Casa do Código Capítulo 3. Monitoramento Esta verificaç ão garante que existe algum processo aceitando conexões TCP na porta 3306, porém não garante que tal processo seja o MySQL.

    Para verificar que o banco de dados realmente está lá, é preciso usar um outro comandocheck_mysql, já instalado no diretório de plugins /usr/lib/nagios/plugins. Executando diretamente da linha de co- mando, podemos ver quais argumentos ele aceita:

    vagrant@monitor$ /usr/lib/nagios/plugins/check_mysql –help …

    Usage:

    check_mysql [-d database] [-H host] [-P port] [-s socket] [-u user] [-p password] [-S] …

    Vamos então adicionar uma nova verificaç ão no arquivo de configuraç ão da loja virtual:

    define hostgroup …

    define host …

    define service …

    define service { service_description MySQL-lojavirtual use generic-service hostgroup_name db-servers check_command check_mysql_database!loja!lojasecret !loja_schema } Você deve ter percebido que o comando executado na linha de co- mando se chamacheck_mysql, porém o comando que usamos para de- clarar o serviço se chama check_mysql_database. Isso acontece pois os comandos precisam ser declarados dentro do Nagios antes de serem usados por um serviço. Nesse caso, o plugin já definiu os comandos do Nagios e podemos ver suas declarações olhando o conteúdo do arquivo /etc/nagios-plugins/config/mysql.cfg:

    vagrant@monitor$ cat /etc/nagios-plugins/config/mysql.cfg define command{

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    3.4. Adicionando verificações mais específicas Casa do Código command_name check_mysql command_line /usr/lib/nagios/plugins/check_mysql -H ’$HOSTADDRESS$’ } …

    define command{ command_name check_mysql_database command_line /usr/lib/nagios/plugins/check_mysql -d ’$ARG3$’ -H …

    } …

    O último comando permite passar argumentos para o nome de usuário, senha e qual banco de dados queremos verificar. Podemos ver também a or- dem em que os argumentos devem ser passados quando declaramos nosso serviço: o Nagios substitui os tokens$ARG1$, $ARG2$, $ARG3$pelos va- lores separados pelo ponto de exclamaç ão na respectiva ordem.

    Agora que temos nosso banco de dados monitorado, é hora de adicio- nar algumas verificações para os servidores web. Seguindo o mesmo raciocí- nio de antes, os serviços de rede expostos pelo servidor web são as conexões HTTP e HTTPS do Tomcat. O comando que podemos usar para realizar tais verificações é o check_http, também instalado no diretório de plu- gins/usr/lib/nagios/plugins. Executando diretamente da linha de comando, podemos ver quais argumentos ele aceita:

    vagrant@monitor$ /usr/lib/nagios/plugins/check_http –help …

    Usage:

    check_http -H <vhost> | -I <IP-address> [-u <uri>] [-p <port>] [-w <warn time>] [-c <critical time>] [-t <timeout>] [-L] [-a auth] [-b proxy_auth] [-f <ok|warning|critcal|follow|sticky|stickyport>] [-e <expect>] [-s string] [-l] [-r <regex> | -R <ignorecase regex>] [-P string] [-m <min_pg_size>:<max_pg_size>] [-4|-6] [-N]

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    Casa do Código Capítulo 3. Monitoramento [-M <age>] [-A string] [-k string] [-S <version>] [–sni] [-C <warn_age>[,<crit_age>]] [-T <content-type>] [-j method] NOTE: One or both of -H and -I must be specified …

    Nesse caso, apesar do plugin já declarar alguns comandos do Nagios no arquivo/etc/nagios-plugins/config/http.cfg, nenhum deles aceita o argumento-ppara passar a porta. Como o tomcat não está ro- dando na porta HTTP padrão (80), antes de associarmos um novo serviço ao grupo de servidoresweb-serversprecisamos declarar nossos próprios co- mandos. Faremos isso no arquivo de configuraç ão da loja virtual (lembrando que a barra invertida indica apenas que o comando deve ser definido todo na mesma linha):

    define hostgroup …

    define host …

    define service …

    define service …

    define command { command_name check_tomcat_http command_line /usr/lib/nagios/plugins/check_http -H ’$HOSTADDRESS$’ -p ’$ARG1$’ -u ’$ARG2$’ -e ’HTTP/1.1 200 OK’ } define service { service_description Tomcat use generic-service hostgroup_name web-servers check_command check_tomcat_http!8080!’/devopsnapratica/’ } O argumento-Hrepresenta o endereço dohostmonitorado, o primeiro argumento representa a porta da verificaç ão HTTP e o segundo argumento é a URI. Nosso comando também passa a opção-epara garantir que a resposta do servidor é um status de sucesso:HTTP/1.1 200 OK.

    Por fim, vamos adicionar uma última verificaç ão para garantir que a co- nexão SSL também funciona na porta 8443 do Tomcat:

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    3.4. Adicionando verificações mais específicas Casa do Código define hostgroup …

    define host …

    define service …

    define service …

    define command …

    define service …

    define command { command_name check_tomcat_https command_line /usr/lib/nagios/plugins/check_http -H ’$HOSTADDRESS$’ –ssl=3 -p ’$ARG1$’ -u ’$ARG2$’ -e ’HTTP/1.1 200 OK’ } define service { service_description Tomcat SSL use generic-service hostgroup_name web-servers check_command check_tomcat_https!8443!’/devopsnapratica/ admin/’ } Após recarregar a configuraç ão do Nagios e esperar pela execuç ão das novas verificações, a tela de serviços na interface de administraç ão deve estar parecida com a figura3.5.

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    Casa do Código Capítulo 3. Monitoramento Figura 3.5: Todas as verificações da loja virtual O arquivo de configuraç ão/etc/nagios3/conf.d/loja_virtual.cfg completo, ao final desta seção ficará assim:

    define hostgroup { hostgroup_name db-servers alias Database Servers } define hostgroup { hostgroup_name web-servers alias Web Servers } define host { use generic-host host_name 192.168.33.10 hostgroups ssh-servers, debian-servers, db-servers } define host { use generic-host host_name 192.168.33.12

    Imagem 1 da página 69 (sem descrição)

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    3.4. Adicionando verificações mais específicas Casa do Código hostgroups ssh-servers, debian-servers, web-servers } define service { service_description MySQL use generic-service hostgroup_name db-servers check_command check_tcp!3306 } define service { service_description MySQL-lojavirtual use generic-service hostgroup_name db-servers check_command check_mysql_database!loja!lojasecret !loja_schema } define command { command_name check_tomcat_http command_line /usr/lib/nagios/plugins/check_http -H ’$HOSTADDRESS$’ -p ’$ARG1$’ -u ’$ARG2$’ -e ’HTTP/1.1 200 OK’ } define service { service_description Tomcat use generic-service hostgroup_name web-servers check_command check_tomcat_http!8080!’/devopsnapratica/’ } define command { command_name check_tomcat_https command_line /usr/lib/nagios/plugins/check_http -H ’$HOSTADDRESS$’ –ssl=3 -p ’$ARG1$’ -u ’$ARG2$’ -e ’HTTP/1.1 200 OK’ } define service {

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    Casa do Código Capítulo 3. Monitoramento service_description Tomcat SSL use generic-service hostgroup_name web-servers check_command check_tomcat_https!8443!’/devopsnapratica/ admin/’ } Agora que temos verificações mais detalhadas sobre o funcionamento da loja virtual, a última coisa que precisamos configurar para ter um sistema de monitoramento robusto é o recebimento de alertas.

    3.5 Recebendo alertas Ter verificações detalhadas do seu sistema é apenas o primeiro passo para construir um sistema de monitoramento robusto. Não adianta nada seu sis- tema de monitoramento detectar um problema se você não puder ser avisado.

    Por isso, é importante configurarmos alertas para receber informações sobre problemas o quanto antes possível.

    Existem vários plugins do Nagios para enviar alertas de diversas manei- ras: e-mail, pager, mensagem SMS, sistemas de chat como MSN, ICQ, Yahoo, ou qualquer coisa que você puder fazer da linha de comando. Você pode inclusive definir seu próprio comando para escolher como o Nagios enviará alertas. Por padrão, o Nagios já vem configurado com dois comandos para enviar alertas por e-mail: um deles notifica que ohostestá com problemas e o outro notifica que algum serviço está com problemas. Podemos ver a defi- nição desses comandos no arquivo/etc/nagios3/commands.cfg:

    vagrant@monitor$ cat /etc/nagios3/commands.cfg …

    define command { command_name notify-host-by-email command_line /usr/bin/printf "%b" … | /usr/bin/mail -s …

    } define command { command_name notify-service-by-email command_line /usr/bin/printf "%b" … | /usr/bin/mail -s …

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    3.5. Recebendo alertas Casa do Código } …

    Além desses comandos, existem mais dois objetos do Nagios que po- dem ser configurados para decidir quem recebe os alertas e quando:con- tatoseperíodos de tempo– outime periods. Períodos de tempo de- finem quando alertas podem ser enviados e estão definidos no arquivo /etc/nagios3/conf.d/timeperiods_nagios2.cfg. Olhando o con- teúdo do arquivo podemos ver as diferentes opções, inclusive o famoso pe- ríodo de suporte 24×7 – 24 horas por dia, 7 dias por semana:

    vagrant@monitor$ cat /etc/nagios3/conf.d/timeperiods_nagios2.cfg …

    define timeperiod { timeperiod_name 24×7 alias 24 Hours A Day, 7 Days A Week sunday 00:00-24:00 monday 00:00-24:00 tuesday 00:00-24:00 wednesday 00:00-24:00 thursday 00:00-24:00 friday 00:00-24:00 saturday 00:00-24:00 } …

    Contatos são as pessoas que recebem alertas. No nosso caso, usare- mos o único contato definido no Nagios para o usuárioroot, no arquivo /etc/nagios3/conf.d/contacts_nagios2.cfg:

    vagrant@monitor$ cat /etc/nagios3/conf.d/contacts_nagios2.cfg …

    define contact { contact_name root alias Root service_notification_period 24×7 host_notification_period 24×7 service_notification_options w,u,c,r host_notification_options d,r

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    Casa do Código Capítulo 3. Monitoramento service_notification_commands notify-service-by-email host_notification_commands notify-host-by-email email root@localhost } …

    Na definiç ão do contato você escolhe o período em que o contato estará em alerta, seu endereço de e-mail, os comandos executados para enviar aler- tas e as opções de notificaç ão. Neste caso, seremos notificados quando ohost estiver indisponível (dparadown) ou recuperado (rpararecovery) e quando serviços entrarem em status de alerta (wparawarning), desconhecido (u paraunkown), crítico (cparacritical) ou recuperado (rpararecovery). O Nagios também suporta configurações para grupos de contatos quando você quer alertar um time inteiro ao invés de uma única pessoa. No entanto, não precisaremos usar esta funcionalidade neste capítulo.

    Para garantir que nossa infraestrutura consiga enviar alertas de verdade, precisamos escolher qual serviço de mensagens será usado pelo Nagios. Ape- sar de ninguém gostar de ser acordado de madrugada, times de operações precisam dar suporte 24×7 para seus sistemas e portanto preferem ser notifi- cados por pager ou SMS. No entanto, é difícil encontrar algum serviço grátis para envio de SMS, especialmente para operadoras brasileiras. Algumas op- ções de serviços online pagos com cobertura SMS internacional são oTwilio (http://www.twilio.com/) e o Nexmo(http://www.nexmo.com/) .

    Outro serviço online pago bastante usado é o PagerDuty(http://www.

    pagerduty.com/) por permitir gerenciar grupos, contatos, agenda de quem estáon-calle formas de envio de alertas num único lugar, independente do Nagios. O PagerDuty suporta envio de SMS, e-mail, ou até notificações para iPhone ou Android. Antes de começar a pagar pelo plano mensal, é possível criar uma conta de teste válida por 30 dias e o PagerDuty possui uma página bem detalhada explicando como integrá-lo com o Nagios.

    No nosso caso, para evitar uma dependência em um sistema externo pago, vamos usar a configuraç ão padrão do Nagios de envio de alertas por e-mail.

    A única configuraç ão necessária é criar um contato no Nagios para receber os alertas da loja virtual. Faremos isso editando o arquivo de configuraç ão de contatos/etc/nagios3/conf.d/contacts_nagios2.cfg, trocando o

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    3.5. Recebendo alertas Casa do Código endereço de e-mailroot@localhostpelo seu endereço de e-mail de ver- dade:

    …

    define contact { contact_name root …

    email <seu_email>@gmail.com } …

    Para que esta configuraç ão tenha efeito, precisamos recarregar o serviço do Nagios pela última vez:

    vagrant@monitor$ sudo service nagios3 reload * Reloading nagios3 monitoring daemon configuration files nagios3 …done.

    A partir de agora, qualquer alerta será enviado diretamente para o seu e- mail. Para testar que o envio de alertas está funcionando corretamente, você pode parar o serviço SSH e esperar a execuç ão das próximas verificações do Nagios:

    vagrant@monitor$ sudo service ssh stop ssh stop/waiting O Nagios irá tentar executar a verificaç ão quatro vezes antes de declarar o serviço indisponível. Assim que o serviço aparecer com status vermelho na tela de administraç ão do Nagios e o número de tentativas alcançar “4/4”, você deverá receber um alerta por e-mail. Para que tudo volte ao normal, reinicie o serviço SSH:

    vagrant@monitor$ sudo service ssh start ssh start/running, process 3424 Assim que o Nagios detectar que o serviço voltou ao normal, você rece- berá um e-mail avisando que o serviço está recuperado.

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    Casa do Código Capítulo 3. Monitoramento 3.6 Um problema atinge produção,e agora?

    Agora que temos um sistema de monitoramento configurado para executar verificações e enviar alertas sobre eventuais problemas na infraestrutura da loja virtual, podemos simular um cenário de falha de um dos servidores. Essa também é uma boa maneira de testar se o sistema de monitoramento está funcionando corretamente.

    Vamos imaginar que nosso servidor de banco de dados tenha sofrido um problema de hardware e parou de funcionar. Para isto, basta sair da máquina virtual de monitoramento executando o comandologoutou simplesmente digitandoCTRL-De pedir para o Vagrant destruir a máquina virtual do banco de dados:

    vagrant@monitor$ Connection to 127.0.0.1 closed.

    $ vagrant destroy db db: Are you sure you want to destroy the ’db’ VM? [y/N] y ==> db: Forcing shutdown of VM…

    ==> db: Destroying VM and associated drives…

    Dentro de alguns minutos, o sistema de monitoramento irá detectar que o servidor está indisponível e enviará um alerta. A partir deste momento, usuá- rios não conseguem mais acessar a loja virtual para efetuar compras. Sendo o engenheiro responsável pela operaç ão em produç ão, você recebe a notificaç ão e responde prontamente para confirmar a falha e agora você precisa restituir o serviço.

    Olhando o console do Nagios, você verá algo parecido com a figura3.6.

    Ohostdo banco de dados e todos os seus serviços estão vermelhos, porém a verificaç ão do serviço HTTP no servidor web também falha, indicando que o problema do banco de dados está afetando a loja virtual.

  • eXtreme Programming – Práticas para o dia a dia no desenvolvimento ágil de software

    eXtreme Programming – Práticas para o dia a dia no desenvolvimento ágil de software

    Aproximadamente 31.043 palavras.

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    Casa do Código Prefácio Prefácio por Klaus Wuestefeld Poucos são os momentos na vida em que ficamos sabendo de uma ideia e dizemos, na hora: “Esta ideia vai revolucionar o mundo.”

    Aconteceu comigo quando vi pela primeira vez o Orkut (que descanse em paz). Caiu um raio na minha cabeça e eu disse: “Este negócio (rede social) vai revolucionar o mundo.”

    Antes disso, em 1999, quando eu ainda chafurdava na burocracia do CMM e do Unified Process, um estagiário da minha empresa me mandou os primeiros links sobre eXtreme Programming (XP).

    A princípio me pareceu bobagem, como “Go Horse”. Logo vi, porém, que Kent Beck, o autor de XP, e as pessoas discutindo a metodologia no primeiro wiki do mundo eram sérias e sabiam do que estavam falando. Eram, na ver- dade, os estudiosos de software mais sérios, embasados e apaixonados que eu já tinha visto.

    Para entender o que foi, para mim, ver as páginas de XP no primeiro wiki do mundo, imagine dois raios simultâneos caindo na sua cabeça: senti que tanto o wiki quanto os métodos ágeis iriam revolucionar o conhecimento e o desenvolvimento de software.

    Comecei a evangelizar XP pelo Brasil e palestrei em um evento de Java em Porto Alegre, em 2004. Estavam lá o Daniel e o Guilherme, coautores deste livro. Caiu um raio na cabeça deles e eles criaram o grupo XP-RS, que promoveu muitos encontros de discussão sobre o assunto.

    Agora, onze anos depois, escrevem este livro, mais necessário que nunca.

    Cansei de ver times tentando fazer Scrum e entregando zero software em produç ão, durante meses, sprint após sprint. Cansei de ver times com quadros de Kanban lindos na parede mas com tempo de entrega (lead-time) na ordem i

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    Casa do Código de meses.

    É fácil, hoje, fazer um cursinho de final de semana qualquer, certificar-se em charlatanismo ágil de software e sair ditando regrinhas de cerimônias que a equipe de desenvolvimento deve seguir.

    Modelos de gestão como Scrum ou Kanban (prefiro) são úteis para ajudar a escolher as histórias certas a desenvolver mas, no fim das contas, o que faz essas histórias sair do outro lado como software rodando sem bugs em produ- ção é a capacidade e dedicaç ão da equipe, usando boas práticas de artesania de software, como as deste livro.

    Sugiro às equipes que ganhem fluência, que dominem XP “by the book”, antes de inventar moda. O time mais ágil, que produziu o software de maior valor, no prazo mais apertado, nas condições mais politicamente adversas, do qual já participei, foi um time onde aplicávamos XP à risca. Pense muito bem antes de decidir que não precisa de determinada prática.

    Quando testar recursos caros ou complicados, utilize constantes que simu- lem o comportamento desses recursos (com estratégias de dummy, stub, spy, fake e mock).

    Não confunda a brevidade de alguns de seus itens, como essa frase, com falta de importância. Este livro é rico e conciso. Cada parágrafo, se explorado, daria outro livro. Já vi uma equipe de dezenas de programadores atrasar em meses seu projeto, por insistir em depender de ambientes de homologaç ão complexos em vez de seguir a dica acima.

    Outro exemplo: já vi uma equipe de uma empresa de software para o mercado financeiro desistir de programaç ão em pares sem saber por que. Está num breve parágrafo deste livro o motivo:

    Cuide do espaço físico, a mobília pode dificultar ficar lado a lado progra- mando (por exemplo em mesas de canto ou em formato de ‘L’). Os programado- res terão dores no corpo depois de um dia de programação em pares com pouca ergonomia. Uma dica é adaptar o espaço físico…

    Por onde começar? É preciso adotar todas as práticas de uma vez?

    Se tiver que escolher alguma prática pra começar, escolha o teste auto- matizado. Testar software manualmente, no século 21, é antiético, como um cirurgião operar sem lavar as mãos. Aprenda os conceitos, a essência da au- tomação de teste. Não perca tempo tentando controlar telas pra fazer testes.

    ii

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    Casa do Código Separe da tela todo código de negócios e teste-o diretamente.

    Programaç ão em pares junto com revezamento são práticas que encon- tram resistência tanto dos gestores retranqueiros quanto de alguns membros da equipe mais tímidos (respeitar) ou acomodados (incentivar) mas não de- pendem de mais nada para ser implementadas. Já vi pareamento e reveza- mento transformar uma equipe desmotivada, à beira de agressões físicas, em uma equipe de referência dentro de sua organizaç ão.

    Por fim, é vital que a equipe e seu gestor, se houver, reservem um tempo em torno de um dia (projeto novo) a dois dias (projeto com legado macarrô- nico) por semana com autonomia para a equipe investir em melhorar conti- nuamente sua própria produtividade, aprendendo técnicas como TDD e re- fatorando código. Se não houver esse tempo alocado e a equipe ficar só cor- rendo atrás de incêndios de curto prazo, é melhor largar o livro agora porque ele só vai trazer frustraç ão.

    Se, por outro lado, houver tempo para melhoria, leve este livro como guia, torça para cair um raio na sua cabeça também e boa sorte no caminho.

    Aprenda as práticas de XP, domine-as, entregue software do caralho e, aí sim, adapte-as e transcenda.

    — Klaus Wuestefeld, pioneiro em eXtreme Programming no Brasil e Key- note Speaker do Agile Brazil (2010) Prefácio por Alexandre Freire Se eu tivesse este livro que você tem em mãos na virada do milênio, e conhecesse a Programaç ão eXtrema na época, provavelmente hoje seria mi- lionário, porque teria lançado com sucesso a primeira rede social do mundo.

    Estava trabalhando em umasoftware housemultinacional, baseada em Treviso, na Itália, construindo uma rede social de times de futebol de várzea para a Diadora. Mas fazíamos isso tudo usando o “melhor”, e mais difundido, processo de desenvolvimento de software, o RUP.

    Isso significa que durante os 3 anos em que gastei meu suor e sangue, cons- truindo o incrível software desta rede social, nunca tivemos nenhum usuário, além da sócia que fazia demonstrações trimestrais para os diretores da Di- adora. E quando toda a diretoria mudou, e a empresa resolveu cancelar o projeto, foi fácil fazê-lo, pois não tinha sido lançado.

    iii

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    Casa do Código Para mim foi uma experiência muito frustrante, afinal com minha equipe tinha construído um software maravilhoso, uma rede social onde times de futebol de bairro poderiam criar uma página, postar fotos, conseguir “likes”

    de seus fãs e até organizar campeonatos. E o software funcionava que era uma beleza, ou pelo menos funcionava na minha máquina.

    Era o maior projeto da empresa, que acabou indo à falência quando per- deu esse cliente.

    Deparei-me com a pergunta:Será que não existe um jeito melhor de fazer software? De entregar mais valor, mais rápido, para os nossos clientes?. Come- cei as estudar o que na época eram as metodologias “leves” e resolvi voltar para o Brasil e para a faculdade. No ano seguinte, participei da primeira turma do Laboratório de Programaç ão eXtrema do IME/USP.

    E aí que minha vida de desenvolvedor de software mudou. Aprender e praticar Programaç ão eXtrema foi um marco muito importante na minha car- reira, e espero que com este livro, seja um marco na sua também.

    Durante muitos anos após esse primeiro encontro, pratiquei a Programa- ção eXtrema como definida nos livros do Kent Beck. Com os erros e acertos, comecei a entender como a metodologia era completa, e como cada parte era preciosa. Também aprendi a fazer algumas coisas bem difíceis muito bem, como estimar em pontos, só para descobrir no final que não precisava real- mente fazer isso!

    Mas na sua jornada, recomendo que não pule essa prática no começo, a sinergia entre as práticas de XP e o fato de que seus valores e princípios suportam todo o conjunto são umas das razões pelas quais me apaixonei por essa metodologia.

    Hoje em dia, a comunidade ágil é forte, tem presença marcante no Brasil, e somos ainda mais extremos. Pegamos algumas práticas e nos desafiamos levá- las ainda mais ao limite! Com ashistórias de usuárioe ojogo do planejamento evoluímos pra criar também omapa de histórias. Com integração contínua partimos para fazerdeploy contínuo. Com programaç ão em par radicalizamos para fazerprogramação em multirão.

    Mas algumas coisas permanecem para sempre valiosas, como as Retros- pectivas. A melhor técnica que conheço para uma equipe se aprimorar con- tinuamente. É tão universal que até já usei em outros contextos que não o iv

    Página 6

    Casa do Código desenvolvimento de software.

    Se você for aprender só uma das metodologias ágeis, recomendo forte- mente que seja a Programaç ão eXtrema. Mas experimente-a completa, per- cebendo como os princípios e valores apoiam as práticas, e que estas muitas vezes só funcionam porque dependem das outras. É uma metodologia holís- tica, onde a sinergia conta muito, e com certeza vai melhorar a maneira como você desenvolve software.

    Você tem em mãos um guia definitivo para começar sua jornada, apro- veite a leitura.

    — Alexandre Freire, Diretor de Produtos da Industrial Logic e Keynote do Agile Brazil 2014.

    Prefácio por Paulo Caroli Desde 2000, tenho utilizado (e abusado) de metodologias ágeis. A minha primeira sessão em uma conferência internacional foi na OOPSLA 2000, em que apresentei o resultado da minha tese de mestrado, algo sobre Orienta- ção e Objetos e Design Patterns. Após minha apresentaç ão, fui fazer tietagem com Kent Beck por admirá-lo nos assuntos de smalltalk e design patterns, e acabei comprando seu novo livro com o títuloeXtreme Programming Explai- ned. Deu-se início um caminho sem volta – estava exposto e infectado pela primeira de muitas metodologias ágeis.

    Naquela época eu morava no Vale do Silício e estava trabalhando em uma start-up bem legal. Voltei empolgado da conferencia e logo mostrei o livro para o meu gerente da época. Ele riu e disse “Extreme programming… please do not get extreme on our codebase. Be aware of our clients and deadlines”. O livro ficou no meu cubículo (naquela época até start-ups tinham cubículos), e de tempos em tempos eu o mostrava para algum colega de trabalho.

    Testes unitários e solitários (somente eu os lia e usava). Integraç ão con- tínua com meu próprio código (os outros desenvolvedores estavam em suas branches). E assim eram meus dias de trabalho em 2000 e 2001.

    Mas eu não estava sozinho. Além de Kent Beck, outros conhe- cidos estavam falando e escrevendo sobre suas experiências com XP. Ward Cunningham populava a C2wiki (http://c2.com/cgi/wiki?

    ExtremeProgrammingRoadmap) , enquanto Martin Fowler compartilhava v

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    Casa do Código no seu site (http://martinfowler.com/articles/xp2000.html) . Mais desen- volvedores eram infectados, e compartilhavam suas experiências. E isso se alastrou até os dias de hoje, época em que XP é ensinado em faculdades, e muitas de suas práticas são visíveis em todos departamentos de TI.

    Em 2006, entrei naThoughtWorks e trabalhei com pessoas que participa- ram do início deste movimento ágil. Por exemplo, ouvi as histórias do Martin sobre o primeiro projeto XP, o C3 (Chrysler Comprehensive Compensation).

    Vivi e ouvi relatos de experiência sobre a implantações de XP ao redor do mundo. Em 2008 e 2009 constatei que até projetos de outsourcing na Índia estavam usando XP. Bah, mas eu seguia referenciando aquele livro de 2000!

    Em 2010, eu ajudei a trazer aThoughtWorks para o Brasil, abrindo seu pri- meiro escritório em Porto Alegre. A escolha da cidade não foi somente pelo famoso churrasco, mas sim por admiraç ão ao movimento de XP, e a excelente comunidade já existente. Conheci e aprendi com cada um dos autores deste livro. Daniel, Dionatan, Rafael e Guilherme estão sempre compartilhando conhecimento. Nesta obra, compartilham os valores, práticas e princípios de XP.

    Com muito orgulho, informo que este livro é um resumo do que há de melhor no mundo atual de desenvolvimento de software.

    Boa leitura, — Paulo Caroli, cofundador e agile coach daThoughtworks Brasil.

    vi

    Página 8

    Casa do Código Agradecimentos Antes de tudo, gostaríamos de agradecer a toda a comunidade ágil brasileira, que é uma das maiores e mais participativas no mundo. Temos grandes even- tos em nossa área de métodos ágeis com agilistas muito experientes e somos gratos por isso. Obrigado por todas as trocas de experiências durante esses anos de agilidade no Brasil!

    À comunidade do antigo XP-RS, o atual GUMA-RS Grupo de Usuários de Métodos Ágeis do Rio Grande do Sul (saiba mais emhttp://www.guma-rs.

    org) , o nosso muito obrigado por ser um grande grupo fomentador da agili- dade e do eXtreme Programming!

    Obrigado, e muito, aos nossosbeta readersJamile Alves, Maurício Aniche e Rodrigo Pinho! As opiniões e sugestões de vocês foram essenciais para a melhoria do livro.

    Obrigado também a todas as pessoas da Casa do Código. Vocês nos de- ram um excelente suporte e sempre estiveram dispostos a contribuir com esta obra!

    Aos agilistas Klaus Wuestefeld, Alexandre Freire e Paulo Caroli, a nossa gratidão pelos admiráveis prefácios!

    A nossos alunos e clientes, que nos permitem praticar e aprender em con- junto, e a você leitor, o nosso muito obrigado por interessar-se neste trabalho!

    Esperamos que a leitura deste livro seja útil e agradável! 🙂 Dedico este livro aos desenvolvedores profissionais do Brasil, que se preocu- pam em entregar software de qualidade e buscam excelência técnica!— Daniel Wildt Agradeço a todos que veem nos métodos ágeis um caminho para um mundo melhor! Dedico este livro aos meus pais e irmãos!— Dionatan Moura vii

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    Casa do Código Dedico à minha família: em especial, para meus pais (Paulo e Liberta) e para minha esposa e filha (Juliana e Isabella)!— Guilherme Lacerda Agradeço à Casa do Código pela oportunidade, ao Klaus Wuestefeld, Ale- xandre Freire e Paulo Caroli pelos prefácios inspiradores, à Vivian pela dedica- ção e paciência durante a revisão deste livro, aos meus amigos e parceiros de jornada, Daniel, Dionatan e Guilherme! Além é claro da minha esposa Aline e meu filho Rafael Helm Junior, com eles ao meu lado tudo faz sentido.— Rafael Helm viii

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    Casa do Código Sobreosautores Daniel Wildt Fundador em 2004 do XP-RS Grupo de Usuários de eXtreme Programming do RS , que depois se transformou no GUMA-RS Grupo de Usuários de Méto- dos Ágeis do Rio Grande do Sul. Desde 2003, um praticante interessado pelo desenvolvimento de comunidades, organizações, equipes e pessoas em torno da agilidade. Trabalha em processos de melhoria das técnicas de engenharia de software e processos, sempre em busca de simplicidade e do aprendizado.

    Ajuda pessoas a tornarem-se melhores profissionais, equipes a crescerem por meio de melhoria contínua e produtos/serviços a serem formados. Além da formaç ão técnica, possui formaç ão de Master Trainer em Programaç ão Neu- rolinguística. É CTO na uMov.me (http://umov.me) , coach/instrutor pela Wildtech (http://www.wildtech.com.br) e facilitador no Estaleiro Liberdade (http://www.estaleiroliberdade.com.br) .

    Dionatan Moura Coach ágil na Companhia de Processamento Dados do Estado Rio Grande Sul (PROCERGS), auxiliando na entrega de maior valor ao cidadão por meio da agilidade e inovaç ão. Professor visitante na pós-graduaç ão da UniRitter Laureate International Universities. Mestre e bacharel em Ciên- cia da Computaç ão na UFRGS. Coordenador do Grupo de Usuário de Méto- dos Ageis do RS (GUMA-RS) e do Grupo de Usuários Java do RS (RSJUG).

    Foi desenvolvedor Java por sete anos, e coordenador das trilhas Java do TDC POA 2013 e 2014. Palestrante em eventos ágeis, como: Agile Brazil, TDC e XPConf; e possui as certificações: CSP, SAFe SA, PMP, CSM, PSM I, CSD, CSPO, OCPJP, CTFL, ITIL e MPS-BR. Pode ser encontrado no Twitter como @dionatanmoura e possui um blog:http://dionatanmoura.com.

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    Casa do Código Guilherme Lacerda Pioneiro em Metodologias Ágeis no Brasil, no qual atua desde 2001, com especial ênfase em Lean, SCRUM e eXtreme Programming. Trabalha como Coach, ajudando na adoção de métodos ágeis no Tribunal de Justiç a do RS.

    Professor universitário de graduaç ão (UniRitter) e de pós-graduaç ão (UniRit- ter, Unisinos, UFRGS). Mestre em Ciência da Computaç ão (UFRGS, 2005), área de Engenharia de Software e atualmente doutorando pela mesma ins- tituição, com estudos na área de Refatoraç ão e Smells. Consultor associ- ado da Wildtech, palestrante em dezenas de eventos nacionais e internaci- onais sobre o tema, e fundador e vice-coordenador do XP-RS/GUMA. Possui as certificações CSM e CSP, pela Scrum Alliance. Membro do IASA, Scru- mAlliance, ACM e SBC. Possui os blogs:http://www.guilhermelacerda.nete http://www.codingbyexample.org.

    Rafael Helm Sócio da Wildtech (www.wildtech.com.br), na qual atua como agile co- ach, instrutor e consultor. Experiência de agile coach adquirida em projetos de larga escala em organizações como Receita Federal, Procuradoria Geral da Fazenda Nacional, Ministério de Relações Exteriores, entre outras. Ins- trutor na Wildtech, tendo a oportunidade de treinar empresas e equipes de diferentes localidades do Brasil, incluindo o Ministério da Justiç a, DNIT, PROCERGS, Serpro, Totvs, entre outras. Palestrante em eventos importan- tes como Agile Brazil,The Developers Conference, FISL, XP Conf BR. Au- tor do e-bookHistórias de Usuário – Por que e como escrever requisitos de forma ágil?, que atingiu a marca de 4.000 downloads em menos de um ano (www.wildtech.com.br/historias-de-usuario). Idealizador e cofundador da XP Conf. BR, a conferência nacional sobre eXtreme Programming, e cofun- dador das conferências UX Conf. BR, DevOps Conf. BR e Empreende Conf.

    https://about.me/rafaelhelm Você pode participar da lista de discussão deste livro! Basta escrever para: livro-xp@googlegroups.com.

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    Casa do Código

    Sumário

    • Sumário 1 Por que projetos falham? 1 1.1 Cliente distante página 2
    • 1.2 A cereja do bolo página 4
    • 1.3 Testes no final página 5
    • 1.4 Trabalho empurrado página 6
    • 1.5 Dívidas técnicas página 7
    • 1.6 Conclusão página 9
    • 2 Introdução a métodos ágeis 11 2.1 O Manifesto Ágil página 12
    • 2.2 Lean Software Development página 13
    • 2.3 Scrum página 14
    • 2.4 eXtreme Programming (XP) página 16
    • 3 Valores do eXtreme Programming 19 3.1 Comunicaç ão página 19
    • 3.2 Feedback página 20
    • 3.3 Simplicidade página 20
    • 3.4 Coragem página 21
    • 3.5 Respeito página 22
    • 4 Papéis do eXtreme Programming 23 4.1 Desenvolvedor página 24
    • 4.2 Cliente página 24

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    Sumário

    • Casa do Código 4.3 Coach página 25
    • 4.4 Testador página 25
    • 4.5 Cleaner página 25
    • 4.6 Tracker página 26
    • 4.7 Gerente página 26
    • 4.8 Outros papéis página 27
    • 5 Time coeso 29 5.1 Time multidisciplinar página 30
    • 5.2 Time auto-organizável página 30
    • 5.3 Sentando lado a lado página 31
    • 5.4 As reuniões de retrospectiva e a melhoria contínua página 31
    • 6 Cliente presente 33 6.1 O que fazer quando o cliente não pode estar presente? página 35
    • 7 Histórias de usuário 37 7.1 Modelo 3C página 39
    • 7.2 Ciclo de vida página 39
    • 7.3 Utilizando um modelo de escrita página 40
    • 7.4 Refinando com INVEST página 42
    • 7.5 Implementando com tarefas SMART página 43
    • 7.6 Personas página 43
    • 7.7 Story points página 44
    • 7.8 Escrevendo boas histórias página 44
    • 7.9 Catálogo de story smells página 46
    • 8 Testes de aceitaç ão 49 8.1 Automatizaç ão página 50
    • 8.2 Validando com critérios de aceitaç ão página 50
    • 9 Liberaç ão frequente de pequenas entregas 53 9.1 Foco na qualidade é o ponto-chave página 54
    • 9.2 Releases tudo ou nada página 55

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    Casa do Código

    Sumário

    • 10 O jogo do planejamento 10.1 Definindo o jogo e suas regras página 58
    • 10.2 Entendendo regras e comprometimentos página 59
    • 10.3 Mantendo o foco página 63
    • 10.4 Todo momento é um momento de aprendizado página 64
    • 11 Spikes de planejamento 65 11.1 Jogue fora o código gerado no spike página 66
    • 12 Projeto simples do início ao fim 67 12.1 MVP: produto mínimo viável página 68
    • 13 Metáfora de sistema 71 13.1 Descobrindo uma boa metáfora página 72
    • 14 Reunião diária em pé 75 14.1 Time alinhado página 76
    • 14.2 Troca de conhecimento página 76
    • 14.3 Como começar? página 77
    • 14.4 Erros mais comuns de uma reunião em pé página 77
    • 15 Posse coletiva 81 15.1 My precious! página 82
    • 16 Padrão de codificaç ão 85 16.1 Pequenos projetos também se beneficiam? página 86
    • 16.2 Como definir? página 87
    • 17 Programaç ão em par 89 17.1 Diversos benefícios página 90
    • 17.2 Um desenvolvedor pelo preço de dois? página 91
    • 17.3 A pressão do par página 91
    • 17.4 Nivelando o conhecimento página 92
    • 17.5 Como começar? página 92

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    Sumário

    • Casa do Código 17.6 Dicas para aprimorar a programaç ão em par página 93
    • 17.7 O ambiente de trabalho página 94
    • 17.8 Especificar, projetar, trabalhar, tudo em par página 94
    • 18 Refatoraç ão de código para alta qualidade 95 18.1 Refatore impiedosamente página 96
    • 18.2 Bad smells de código página 97
    • 19 TDD: Desenvolvimento Guiado por Testes 99 19.1 Padrões de TDD página 101
    • 19.2 Show me the code página 105
    • 20 Integraç ão contínua 113 20.1 Como potencializar os benefícios? página 114
    • 20.2 Ferramentas página 116
    • 21 Ritmo sustentável 121 21.1 Velocidade do time página 122
    • 21.2 40 horas semanais página 123
    • 22 Indo além do eXtreme programming 125 22.1 Jogos e dinâmicas página 126
    • 22.2 Behaviour-Driven Development (BDD) página 127
    • 22.3 Domain-Driven Design (DDD) página 127
    • 22.4 Kanban página 128
    • 22.5 Estimando com planning poker página 128
    • 22.6 Resolvendo dívidas técnicas página 129
    • 22.7 Refatorando também o banco de dados página 130
    • 22.8 Código limpo página 130
    • 22.9 Entrega contínua e DevOps página 130
    • 22.10 Leituras sobre desenvolvimento de software página 131
    • 22.11 Artesanato de Software página 132

    Índice Remissivo 138 xiv

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    Casa do Código Sumário Bibliografia 144 xv

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    Capítulo1 Porqueprojetosfalham?

    Culpa do cliente, do gerente de projetos, dos testadores, dos analistas de ne- gócios, do time de desenvolvimento, ou simplesmente falta de sorte? Afinal de contas, por que projetos falham, atrasam e/ou fracassam?

    Os desenvolvedores acham que faltou análise; os analistas jogam a culpa no departamento comercial que vendeu o que o software não tem e, ainda por cima, com um prazo impossível de ser cumprido; a equipe de vendas aponta para o cliente dizendo que ele não sabe o que quer; e ele, por sua vez, chama seus advogados para cancelar o contrato.

    É bem provável que você já tenha passado por isso, ou, pelo menos, quase passou.

    Infelizmente, nós, os autores deste livro, já vimos isso acontecer algumas vezes, e normalmente os motivos são os mesmos: falta de proximidade com o cliente; trabalho empurrado goela abaixo do time; codificaç ão a toque de

    Página 19

    1.1. Cliente distante Casa do Código caixa produzindo código sujo; tempo desperdiç ado desenvolvendo o que o cliente não pediu (a famosa cereja do bolo); e o retrógado hábito de testar o software apenas na véspera da sua data de entrega.

    Sendo assim, achamos importante começarmos este livro reforçando por que você não deve cometer estes erros clássicos em seus projetos, para, so- mente depois, entrar no conteúdo doeXtreme Programmingpropriamente dito. Leia com atenção e lembre-se: antes de prescrever o remédio, é necessá- rio identificar a doença.

    1.1 Cliente distante Cena corriqueira em times de desenvolvimento de software: o desenvolve- dor recebe uma especificaç ão para trabalhar, e, enquanto está codificando, percebe que algum detalhe passou despercebido pelo processo de análise do requisito. Isto gerou uma dúvida que o impede de prosseguir seu trabalho com segurança; ou seja, o desenvolvedor não tem certeza do que exatamente deve ser feito.

    Nesses casos de incerteza, normalmente ele procura o analista ou a pessoa responsável por aquela especificaç ão (ou pelo menos deveria fazer isso), e questiona sobre a dúvida que o impede de avançar no código com a certeza de que está fazendo o que foi pedido.

    Quando isso ocorre, é esperado que o analista saiba responder os questi- onamentos do desenvolvedor e o conduza de volta ao caminho correto a ser seguido. O problema é que as pessoas não sabem tudo, incluindo eu, você, e todos os que nós conhecemos. É normal que, em alguns casos, o analista não consiga responder a dúvida do desenvolvedor, pelo menos, não de imediato.

    Quando as dúvidas surgem e ninguém do time sabe o que fazer, a melhor decisão é falar com o cliente, seja por meio de uma reunião, telefone, skype, e-mail ou qualquer outra forma de comunicaç ão. O necessário é falar com ele!

    Entrar no ciclotentativa/ erro/ tentativa/ erro/ …jamais deve ser uma op- ção. As pessoas até podem acertar de vez em quando, mas, na média, essa atitude vai gerar retrabalho lá na frente, além de frustrar o cliente e, posteri- ormente, o time.

    Página 20

    Casa do Código Capítulo 1. Por que projetos falham?

    Sabemos que nem sempre ele estará disponível. Mesmo que esteja fisica- mente próximo de você e de seu time, ele pode simplesmente não estar livre ou interessado em ajudar; quer dizer, não quer se envolver. Até porque já pa- gou uma boa grana para uma empresa fazer seu software e espera que o time de desenvolvimento saiba como fazê-lo.

    Pois bem, este cenário é o que chamamos decliente distante. Acredite, projetos com clientes distantes têm uma grande tendência a serem entregues com atraso, estourarem o orçamento, os frustrarem ao entregar funcionali- dades que não atendam suas expectativas, ou todas as alternativas anteriores juntas (fracasso tremendo).

    E qual é a solução?

    Precisamos aproximar o cliente desde o início do projeto, deixando bem claro que, a qualquer momento, ele poderá ser acionado para tirar dúvidas, e que a cada funcionalidade, ele poderá ser chamado para realizar uma valida- ção. Ou seja, dar seu consentimento sobre se aquele recurso ficou de acordo com o que esperava, ou indicar o que precisa ser ajustado para atendê-lo, caso o resultado não satisfaç a suas expectativas.

    Porém, é necessário tomar cuidado. Pedir o aceite do cliente não signi- fica pedir para ele testar. O teste do software é responsabilidade do time de desenvolvimento e, acredite em nós, eles não gostam de testar software. E, principalmente, não ficam nada felizes quando encontrambugsnele.

    Quando pedimos para ele validar ou aceitar uma funcionalidade, na ver- dade estamos buscando umfeedback. Queremos confirmar se aquela função que acabou de sair do forno está de acordo com a sua expectativa. Estamos buscando segurança para continuar o desenvolvimento do projeto, tendo cer- teza de que os passos dados até agora foram realizados na direção correta.

    E se o cliente odiar a funcionalidade desenvolvida, dizendo que está to- talmente fora do que ele esperava? Ótimo! Nós conseguimos falhar rápido e teremos tempo para corrigir, adaptar ou até mesmo refazer o recurso, conse- guindo finalmente entregar algo de valor a ele. Imagine como seria desagra- dável se, somente no final do projeto, nós descobríssemos que algumas (ou várias) funcionalidades não ficaram de acordo com sua expectativa? Seria terrível! E provavelmente nosso tempo já estaria esgotado.

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    1.2. A cereja do bolo Casa do Código Então, aproxime-se de seu cliente e mantenham-se próximos!

    1.2 Acereja do bolo Você tem seus clientes e eles têm expectativas. Se algumas empresas que pro- duzem software criassem uma confeitaria especializada em bolos, muitos cli- entes receberiam apenas uma receita, ensinando como fazer omalditobolo.

    Digamos que isso não gera nem tanto valor, nem satisfaç ão. Ele estava com fome, queriasócomer um bolo.

    Outros clientes com um pouco mais de sorte receberiam uma massa, nem tão bem batida, mas que faria um belo bolo “abatumado”. Depois de perder vários prazos com o mesmo cliente (o qual, por alguma magia, ainda segue comprando bolo daquele local), acontece que, eventualmente, a empresa con- segue terminar o bolo, exatamente como ele pediu. Só que, lembra das suas experiências anteriores, nas quais ele não o recebeu? Então, a empresa não pode entregar só um simples bolo. É preciso entregar algo maior, algo a mais.

    Surpreender!

    Não precisamos da cereja do bolo! Ou se você gosta de usar o PMBOK® (Project Management Body of KnowledgeCorpo de Conhecimento em Ge- rência de Projetos) como exemplo; estamos falando doGold Plating.

    Se o seu cliente solicita um relatório com as colunas A, B e C; o time deve desenvolver, com qualidade e dentro do prazo, o relatório com as colunas A, B e C. Simples assim!

    Entregar um relatório com as colunas A, B, C, X e Y não faz sentido ne- nhum! Se ele quisesse que as colunas X e Y aparecessem no relatório, teria solicitado. Neste caso, X e Y são a tal cereja do bolo da qual estamos falando.

    Vamos lembrar de algo bem importante. Nosso cliente tem uma grande expectativa: receber aquilo que ele pediu! E ele possui outras também! Quer receber o mais rápido possível, com a mais alta qualidade e o menor custo. E com o menor desperdício possível, é claro. Colocar uma cereja no bolo não vai ajudá-lo a esquecer as falhas anteriores. Nem nas próximas entregas.

    E qual é a solução?

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    Casa do Código Capítulo 1. Por que projetos falham?

    Simplicidade: maximizar o trabalho que não deve ser feito. A meta do time deve ser trabalhar com o cliente para enxugar as funcionalidades neces- sárias. Deve-se questionar muito sua visão de valor.

    Muitos recursos sugeridos por ele não possuem um método fácil de me- dir o valor ou, até mesmo, o Retorno Sobre Investimento (ROIReturn On Investment). Uma simples classificaç ão para entender o valor e o risco de fa- zermos uma determinada funcionalidade pode ser uma boa racionalizaç ão para ajudar na seleção do que precisa ser feito.

    Indo nessa linha, vamos começar trabalhando naquilo que possui alto risco e valor, e descobrir rapidamente se temos algum problema. Lembra da estratégia de falhar rápido? Esse é o jogo. O mundo perfeito é trabalhar na- quilo que possui alto valor e um baixo risco!

    Não queremos trabalhar naquilo que possui baixo valor. O único motivo para isso está relacionado às leis, nas quais temos que seguir para a conformi- dade e evitar alguma multa. De resto, fuja daquilo que não tem valor claro.

    Foque na entrega de valor para seu cliente.

    1.3 Testes no final Afinal, por que testamos? Aliás, é necessário realmente testar?. Ou pior: se sobrar tempo, testamos!

    Essas expressões são comumente ditas por profissionais de software. In- felizmente.

    Deixe-nos explicar melhor: desenvolver software é um processo produ- tivo, no qual executamos tarefas de investigaç ão, design, programaç ão, testes, entre outros. A forma como a indústria começou a desenvolver seus modelos (e independente do modelo a ser adotado) engloba essas etapas.

    A questão a ser observada no processo é que a preocupaç ão com os tes- tes só existe no final. Além de acontecer isoladamente, não se enxerga seu verdadeiro valor, nem sua relaç ão com a qualidade do produto.

    Por esses motivos, os testes não são levados a sério. Por isso, pagamos o preço do retrabalho ao entregar funcionalidades erradas e com falhas. Isso gera desconfiança e estressa uma relaç ão que precisa ser totalmente diferente para atingirmos o objetivo.

    Página 23

    1.4. Trabalho empurrado Casa do Código E qual é a solução?

    Precisamos trabalhar nos recursos até eles estarem prontos de verdade; ou seja, não podemos permitir que exista dentro do time de desenvolvimento o conceito de queestá pronto, só falta testar.

    O teste não deve ser encarado como uma etapa à parte, como algo extra.

    Os processos de desenvolvimento e testes devem ser vistos como uma única etapa. Esqueça odesenvolver primeiro, testar mais tarde, e busque o desenvol- ver + testar. Entende a diferen ça? As funcionalidades não são testadas mais tarde; elas são testadas agora.

    1.4 Trabalho empurrado Imagine a cena: o gerente de projetos avisa o time de desenvolvimento de que a empresa fechou um novo contrato e que o software deve ser entregue em uma determinada data, deixando já bem claro a todos que não existe possibi- lidade de não a cumprir.

    O time de desenvolvimento começa a analisar os requisitos e gerar as ta- refas, e logo percebe que, para cumprir a data já firmada com o cliente, que inclusive consta no contrato, será necessário produzir em uma velocidade muito acima do habitual. Ao notar isso, o nível de estresse do time é elevado, o ambiente fica tenso e os desenvolvedores programam a toque de caixa, co- meçando a gerar um código sujo, mal estruturado e em cima de requisitos especificados de forma superficial. Como o tempo era curto, ninguém quis perdermuito tempo com especificaç ão, assim todos já foram logo metendo a mão na massa.

    Esse é um claro cenário de trabalho empurrado, que gera muito caos e pouco resultado!

    E qual é a solução?

    Se trabalho empurrado é um problema, trabalho puxado é a soluç ão. O ideal é que esteja à disposiç ão do time o que for necessário para o desen- volvimento de software e que as tarefas estejam corretamente priorizadas e, se possível, dispostas em um mural contendo todas as que serão trabalhadas

    Página 24

    Casa do Código Capítulo 1. Por que projetos falham?

    nos próximos dias. Desse modo, uma ou mais pessoas puxam as tarefas e tra- balham nelas até o fim, nunca esquecendo dedesenvolver + testar, em vez de desenvolver primeiro, testar mais tarde.

    Após terminar a tarefa, o desenvolvedor vai até o mural, dá uma olhada nas próximas da fila e puxa aquela em que ele sente que consegue trabalhar.

    Claro que é necessário que ele faç a isso com responsabilidade; ou seja, é im- portante que, dentro do possível, ele siga a priorizaç ão. A exceção a essa regra pode ocorrer quando a próxima tarefa da fila refere-se, por exemplo, a um módulo que ele não conhece ou a uma tecnologia com qual ele não se sente seguro. Porém, esses casos são ótimas oportunidades para trabalhar em par com outra pessoa do time e aprender algo novo, tanto em termos de negócio, quanto de tecnologia.

    Nós acreditamos fortemente no trabalho puxado e sempre orientamos nossos times a trabalharem desta forma, de preferência baseados em um mu- ral que permita gestão visual das tarefas e do progresso de trabalho, seja no meio físico ou virtual (no caso de equipes distribuídas).

    Sabemos que quebrar a cultura do trabalho empurrado não é fácil, pois existe (principalmente na cabeça da maioria dos gestores) uma barreira muito forte em relaç ão a isso. Entretanto, garantimos que vale a pena tentar. Durante o livro, vamos mostrar ferramentas e táticas que nos ajudarão nessa missão, como: time coeso, posse coletiva, liberaç ão frequente de pequenas entregas, trabalho em pares, jogo do planejamento, e outros tópicos que ajudam a im- plantar a cultura de trabalho puxado.

    1.5 Dívidas técnicas O projeto começa e o time de desenvolvimento está trabalhando com alta produtividade. Várias partes do software vão sendo construídas e todos estão felizes.

    Passadas algumas semanas, a produtividade caiu um pouco e a euforia do time passou; mas o projeto ainda transcorre dentro da normalidade e eles ainda estão relativamente contentes.

    Passadas mais algumas semanas, a produtividade cai drasticamente e muitos bugs começam a ser encontrados. Nesse momento, o time já está com

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    1.5. Dívidas técnicas Casa do Código a moral baixa, o cliente notou que o projeto não anda bem, o custo de mu- dança de qualquer funcionalidade é muito alto, e você não entende o motivo dessa queda; afinal de contas, o time é bom, a especificaç ão foi bem feita, o cliente está próximo, a comunicaç ão flui e as pessoas são comprometidas. O que está acontecendo?

    É bem provável que o projeto possua uma dívida técnica grande.

    O termodívida técnicaé utilizado para indicar trechos de código que fo- ram mal escritos, ou escritos de qualquer forma, sem refatorar, sem testes automatizados e sem respeitar padrões. São as chamadasgambiarrasouba- cas. Com o passar do tempo, esses trechos atrapalharão os desenvolvedores e mudanças que, teoricamente, seriam simples, passam a levar muito tempo para serem realizadas.

    É provável que você já tenha deparado-se com uma funcionalidade pra- ticamente impossível de ser evoluída, tamanha era a falta de qualidade do código. Em alguns casos, quando isso ocorre, somos obrigados a refazê-la toda, pois o código tornou-se ilegível e isso gera um grande desperdício de tempo e dinheiro.

    Muitos desenvolvedores ainda consideram que qualidade do código é algo extra e que o foco é entregar software com qualidade, não necessariamente produzindocódigode qualidade. Essa é uma escolha perigosa, porque, a me- nos que o projeto seja bem pequeno, o desenvolvedor precisará pagar a conta da dívida técnica produzida, ou simplesmente o projeto vai parar.

    E qual é a solução?

    São excelentes formas de evitar a dívida técnica: especificar requisitos com o formato de histórias de usuários, projeto simples, padrão de codifi- cação, desenvolvimento guiado por testes (TDD), programaç ão em pares, re- fatoraç ão, integraç ão contínua, boas práticas de programaç ão e ritmo susten- tável.

    Mas, se você não sabe como implantar essas práticas no seu time de de- senvolvimento, fique tranquilo! Estamos apenas no começo do livro e abor- daremos esses assuntos mais à frente.

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    Casa do Código Capítulo 1. Por que projetos falham?

    1.6 Conclusão Quando um projeto falhar, não tente encontrar um culpado, olhe para o pas- sado e procure identificar se algum dos problemas ocorreu em seu projeto.

    Precisamos sempre buscar sua causa raiz. Não busque culpados, busque en- tender o que ocorreu e converse com seu time para tentar encontrar uma so- lução, um melhor caminho a ser seguido.

    Reuniões de retrospectiva de projeto são ótimas oportunidades de levan- tar problemas e discutir soluções com seu time. Mais à frente, falaremos sobre elas.

    Lembre-se: em métodos ágeis, incluindo o eXtreme Programming, deve- mos sempre trabalhar com a mente aberta para realizar adaptações em nosso processo de trabalho, a fim de buscar melhoria contínua. É uma busca infinita pelofazer melhor.

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    Capítulo2 Introduç ãoamétodoságeis Em fevereiro de 2001, em Utah, 17 profissionais experientes (consultores, de- senvolvedores e líderes) da comunidade de software reuniram-se para discutir alternativas aos processos e às práticas burocráticas utilizadas nas abordagens tradicionais de Engenharia de Software e Gerência de Projetos. Assim nasceu oManifesto Ágil[17], destacando as diferenças em relaç ão às abordagens tra- dicionais.

    A principal diferença das metodologias ágeis em relaç ão às tradicionais é o enfoque na adaptaç ão, visando ter o mínimo realmente necessário para a realizaç ão do trabalho. Com essa estratégia, busca-se aceitar e trabalhar a mudança, reduzindo custos de implementaç ão.

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    2.1. O Manifesto Ágil Casa do Código 2.1 O ManifestoÁgil O Manifesto Ágil é uma declaraç ão dos valores e dos princípios que funda- mentam o desenvolvimento ágil de software. Ele foi assinado em 2001 por dezessete profissionais de software que já vinham experimentando metodo- logias e práticas mais leves e enxutas. Isso foi tão bem recebido pela comu- nidade que alguns desses desenvolvedores ganharam o mundo palestrando sobre o assunto. O Manifesto Ágil possui 4 valores e 12 princípios, que vamos apresentar em seguida.

    Os 4 valores do Manifesto Ágil são:

    • Indivíduos e interações mais queprocessos e ferramentas; • Software em funcionamentomais quedocumentaç ão abrangente; • Colaboraç ão com o clientemais quenegociaç ão de contratos; • Responder a mudançasmais queseguir um plano.

    E os 12 princípios do Manifesto Ágil são:

    1) Nossa maior prioridade é satisfazer o cliente por meio da entrega contínua e adiantada de software com valor agregado; 2) Mudanças nos requisitos são bem-vindas no desenvolvimento, mesmo tardiamente. Processos ágeis tiram vantagem das mudanças, visando van- tagem competitiva para o cliente; 3) Entregar frequentemente software funcionando, de poucas semanas a poucos meses, com preferência à menor escala de tempo; 4) Pessoas de negócio e desenvolvedores devem trabalhar diariamente em conjunto por todo o projeto; 5) Construa projetos em torno de indivíduos motivados. Dê a eles o ambiente e o suporte necessários e confie neles para fazer o trabalho; 6) O método mais eficiente e eficaz de transmitir informações para (e entre) uma equipe de desenvolvimento é por meio de conversa face a face;

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    Casa do Código Capítulo 2. Introduç ão a métodos ágeis 7) Software funcionando é a medida primária de progresso; 8) Os processos ágeis promovem desenvolvimento sustentável. Os patrocina- dores, desenvolvedores e usuários devem ser capazes de manter um ritmo constante indefinidamente; 9) Contínua atenção à excelência técnica e bom design aumentam a agili- dade; 10) Simplicidade a arte de maximizar a quantidade de trabalho não realizado é essencial; 11) As melhores arquiteturas, requisitos e designs emergem de equipes auto- organizáveis; 12) Em intervalos regulares, a equipe reflete sobre como tornar-se mais eficaz e, então, refina e ajusta seu comportamento de acordo.

    Esses princípios, se bem compreendidos pelo cliente e pelo time, promo- vem uma mudança de atitude. O cliente consegue enxergar valor mais rapida- mente nas entregas frequentes do software e, à medida que visualiza a soluç ão, consegue refletir sobre alternativas e prioridades. O time trabalha mais mo- tivado, porque consegue enxergar valor no seu trabalho que, por meio de fe- edback constante, aprimora continuamente. O bom relacionamento melhora para ambos, visto que a confiança se faz cada vez mais presente.

    Com base nesses valores e princípios, aparecem três abordagens mais es- pecíficas que vêm proporcionado ótimos resultados, seguindo a essência do Manifesto Ágil. A seguir, elas são apresentadas rapidamente.

    2.2 LeanSoftwareDevelopment O Lean, ou Sistema Toyota de Produç ão (STP), revolucionou a indústria da manufatura, tanto pela geraç ão de valor para o cliente, quanto para a satisfa- ção de trabalho para o time. Essas suas características serviram de base para o casal Mary e Tom Poppendieck identificar semelhanças com o desenvolvi- mento ágil de software, criando oLean Software Development(LSD) [50].

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    2.3. Scrum Casa do Código Com base nos seus pensamentos, foram identificados 7 princípios para o desenvolvimento de software:

    1) Eliminar desperdícios; 2) Incluir qualidade no processo; 3) Criar conhecimento; 4) Adiar comprometimentos; 5) Entregar rápido; 6) Respeitar as pessoas; 7) Otimizar o todo.

    O modo Lean de pensar é muito útil para criar uma cultura de melhoria contínua nas equipes. Seus princípios são perfeitamente alinhados aos valores e às práticas do Manifesto Ágil.

    2.3 Scrum O Scrum surgiu na década de 90, criado por Ken Schwaber, Jeff Shuterland e Mike Beedle. Seu principal objetivo é prover um framework de gestão ágil para desenvolver e manter produtos complexos [51].

    Nele, a partir de umBacklog de Produtoinicial, o trabalho que será rea- lizado é priorizado na iteraç ão, denominadaSprint. O desenvolvimento do Backlog da Sprintgera um incremento entregável do produto ao final de cada Sprint, na reunião deRevisão da Sprint. Esse trabalho é desenvolvido com a sincronizaç ão diária doTime de Desenvolvimento, na Reunião Diária. Ao final daSprint, é realizada a reunião deRetrospectiva da Sprint, com o objetivo de reduzir riscos e promover a melhoria contínua. ODono do Produtoé o papel responsável pelo gerenciamento do produto e oScrumMasteré pelo processo, ajudando oTime de Desenvolvimentoa resolver seus impedimentos.

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    Casa do Código Capítulo 2. Introduç ão a métodos ágeis Scrum precisa das práticas técnicas do XP Scrum é um framework bastante popular atualmente e muito utilizado para o gerenciamento de projetos, produtos e times. Por dar mais ênfase no gerenciamento de atividades e tarefas, ele pode (e deve) ser utilizado em con- junto com outros métodos e processos que focam em engenharia ágil de soft- ware, como o eXtreme Programming.

    Jeff Sutherland, cocriador do Scrum, diz que o Manifesto Ágil é sobre Scrum com práticas de engenharia do eXtreme Programming, e essa combi- nação é o framework preferencial [55].

    Veja também o que Ron Jeffries, Martin Fowler e James Shore falam da necessidade das práticas do XP na utilizaç ão do Scrum:

    “Você não vê times Scrum de alto desempenho sem práticas de engenharia do XP. É difícil escalar times XP sem Scrum, e Scrum soluciona os assuntos de interface com a gestão. Seja cuidadoso ao fazer partes de qualquer coisa e chamar isso de ágil.”

    –Ron Jeffries e Jeff Sutherland [56] “Se você estiver procurando introduzir Scrum, certifique-se de prestar uma boa atenção às práticas técnicas. Nós tendemos a aplicar muitas dessas a partir do Extreme Programming e elas se encaixam muito bem.”

    –Martin Fowler [25] “XP e Scrum são as melhores maneiras que nós sabemos para trabalhar bem em conjunto. Eles não são necessários pode haver outras maneiras e eles certamente não são suficientes há um milhão de coisas que devemos fazer para ser bem-sucedido, e elas não estão todas escritas nos livros.”

    –Ron Jeffries [32] “Sem práticas de engenharia ágil do XP, a qualidade do código e a produtividade diminui assintoticamente ao longo do tempo. Com elas, a produtividade começa inferior, mas em seguida aumenta assintoticamente.”

    –James Shore [52]

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    2.4. eXtreme Programming (XP) Casa do Código 2.4eXtremeProgramming(XP) O eXtreme Programming é uma metodologia ágil de desenvolvimento de software voltada para times de pequeno a médio porte, no qual os requisi- tos são vagos e mudam frequentemente. Desenvolvido por Kent Beck, Ward Cunningham e Ron Jeffries [6], o XP tem como principal tarefa a codifica- ção com ênfase menor nos processos formais de desenvolvimento e com uma maior disciplina de engenharia ágil de software para codificaç ão e testes. Tem como valores a comunicaç ão, a simplicidade, o feedback, a coragem e o res- peito.

    O XP valoriza a automatizaç ão de testes, sendo estes criados antes, du- rante e depois da codificaç ão. É flexível para a mudanças de requisitos, valo- rizando o feedback com o usuário e a qualidade do código-fonte final.

    A ideia principal do XP é a criaç ão de software de alta qualidade, abando- nando todo tipo deoverheadde processo que não suporte diretamente a en- trega de valor. Ele é orientado explicitamente às pessoas e vai contra o senso comum do gerenciamento de que elas são peças intercambiáveis dentro do processo de desenvolvimento.

    Sinergia entre as práticas Nos próximos capítulos, detalharemos os valores, os papéis e as diversas práticas do XP, trazendo a teoria e a prática com muitas dicas. Uma prática do XP, um valor ou um papel serve como suporte para outras práticas, outros valores e outros papéis do próprio XP, criando uma sinergia. Por exemplo, as histórias de usuário são base para os testes de aceitaç ão, no qual rodarão na integraç ão contínua e permitirão pequenas entregas, auxiliando no ritmo sus- tentável e na comunicaç ão do time de desenvolvimento com o cliente. Quanto mais afinados eles estiverem, mais benefícios o XP trará ao desenvolvimento de software.

    Esperamos que você navegue de forma prazerosa pelas páginas a seguir.

    Para auxiliá-lo nisso, disponibilizamos abig picturedo XP com seus valores e práticas de gestão, planejamento, projeto e codificaç ão (vide imagem a se- guir). Você pode baixar e imprimi-la em [2].

    Esperamos também que este livro mude sua forma de pensar e agir (se

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    Casa do Código Capítulo 2. Introduç ão a métodos ágeis ainda não mudou), e ajude você, seus clientes e seu time a atingirem satisfa- toriamente seus objetivos, de preferência dentro do prazo, custo e orçamento previstos. 🙂 Fig. 2.1: Big picture do XP. Imagens de Freepik (http://www.flaticon.com/authors/freepikhttp://www.flaticon.com) com a licen ça Cre- ative Commons BY 3.0 (CC BY 3.0) (http://creativecommons.org/licenses/by/3.0/)

    Imagem 1 da página 34 (sem descrição)

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    Capítulo3 ValoresdoeXtreme Programming O eXtreme Programming define cinco valores para que seus papéis e práticas funcionem em sinergia de acordo com sua essência ágil: a comunicaç ão, o feedback, a simplicidade, a coragem e o respeito; que serão descritos a seguir neste capítulo.

    3.1 Comunicação Ter foco na comunicaç ão é essencial em projetos de software, pois é a prin- cipal forma de transmitir e trocar informações e conhecimentos. Por essa razão, é importante incentivar meios eficazes de comunicaç ão, cujo valor está presente no Manifesto Ágil e na maioria das práticas de XP.

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    3.2. Feedback Casa do Código Ela pode ocorrer de várias formas, como, por exemplo: e-mail, telefone, skype (ou outras ferramentas de chat instantâneo), teleconferência, conversa face a face etc. Porém, é preciso entender que nem todas possuem a mesma efetividade.

    A forma mais eficiente é a conversa face a face, usando um quadro branco como apoio para rabiscar ideias e/ou rascunhos sobre arquitetura de software.

    Distribuir quadros brancos no ambiente de desenvolvimento pode funcionar muito bem para estimular discussões de arquitetura, fluxos, algoritmos e, as- sim, aumentar a possibilidade de implementar certo logo na primeira tenta- tiva.

    A comunicação incentiva diretamente outro valor essencial no XP: o fe- edback.

    3.2 Feedback Na adoção das práticas, o feedback é realizado a todo momento, seja em re- lação aos requisitos do cliente, ao resultado da execuç ão de testes unitários, ou na compilaç ão do código na integraç ão contínua. A compreensão das ne- cessidades dos usuários e do negócio propriamente dito é um aprendizado constante. A razão de adotarmos estratégias iterativas e incrementais é que isso permite que os inevitáveis erros das pessoas sejam descobertos o mais cedo possível e reparados de forma metódica.

    3.3 Simplicidade A simplicidade é outro valor presente nas práticas XP, e a chave e a diretriz de um projeto ágil. Ela visa manter o trabalho o mais simples e focado possível, entregando somente o que realmente agrega valor. Acrescentar suporte para futuras funcionalidades de forma desnecessária complica odesigne eleva o esforço para desenvolver incrementos subsequentes.

    Infelizmente, projetar um design simples não é algo fácil, pois muitos ti- mes já estão acostumados com a prática de futurologia, sofrendo da Síndrome de Nostradamus; ou seja, mesmo sabendo o que o cliente quer hoje, eles in- sistem em tentar desenvolver uma soluç ão que também resolva problemas

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    Casa do Código Capítulo 3. Valores do eXtreme Programming futuros. O ponto é: não temos certeza sobre o que vai acontecer no futuro, então precisamos nos focarapenasnos problemas e necessidades atuais do nosso cliente.

    Lembre-se: busque sempre desenvolver o suficiente de forma simples e com qualidade.

    3.4 Coragem A coragem também é incentivada por meio do uso das práticas do XP. Por exemplo, o desenvolvedor apenas se sentirá confiante para refatorar o código criado por outro colega caso o time tenha um padrão de codificaç ão e posse coletiva do código. Além dessa prática, o uso de controle de versão e testes unitários também encorajam isso. Além desses medos naturais de alteraç ão de código, tem-se uma série de preocupações que exercem influência nos pro- cessos de desenvolvimento.

    O cliente teme:

    • Não obter o que foi solicitado/contratado; • Pedir a coisa errada; • Pagar demais e receber pouco; • Jamais ver um plano relevante; • Não saber o que está acontecendo (falta de feedback); • Ater-se às primeiras decisões de projeto e não ser capaz de reagir à mu- dança do negócio.

    Já o desenvolvedor teme:

    • Ser solicitado a fazer mais do que sabe fazer; • Ser ordenado a fazer coisas que não faç am sentido; • Ficar defasado tecnicamente;

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    3.5. Respeito Casa do Código • Receber responsabilidades, mas sem autoridade; • Não receber definições claras sobre o que precisa ser feito; • Sacrificar a qualidade em função do prazo; • Resolver problemas complexos sem ajuda; • Não ter tempo suficiente para fazer um bom trabalho.

    Um verdadeiro time XP é composto de indivíduos corajosos que confiam em suas práticas, bem como nos seus colegas de time. A coragem faz-se ainda mais necessária nos momentos de crise.

    3.5 Respeito O respeito pelos colegas de time e pelo cliente é muito importante. Pessoas que são respeitadas sentem-se valorizadas. Os membros do time precisam respeitar o cliente; o cliente precisa respeitar os membros do time; e, além disso, o cliente deve fazer parte das decisões.

    Os desenvolvedores nunca devem realizar mudanças que quebrem a com- pilação e que fazem os testes de unidade falharem ou realizarem outras ações que possam atrasar o trabalho ou o progresso do time.

    Todos no time devem respeitar a posse coletiva do código, sempre pri- mando pela qualidade e buscando um design simples por meio da refatora- ção.

    A adoção dos demais quatro valores do XP conduzirá a este quinto valor:

    o respeito. Isso vai garantir um alto nível de motivaç ão, além de incentivar a lealdade entre todas as pessoas envolvidas no projeto, criando um verdadeiro senso de trabalho em equipe.

    O ponto é: como se adquirem confiança e respeito? Obviamente, entre- gando softwares que funcionam. E mais que isso, o respeito é fundamental para uma relaç ão transparente e duradoura. É isso que realmente forma a parceria e a colaboraç ão de todos envolvidos, algo essencial para a entrega contínua de valor.

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    Capítulo4 PapéisdoeXtremeProgramming O time XP é formado por papéis com objetivos diferentes, porém comple- mentares, tais como: o papel de desenvolvedor (programador), do cliente, do gerente, docoach, do testador, dotrackere docleaner[6].

    Uma pessoa pode assumir mais de um papel; por exemplo, ser desenvol- vedor e coach, ou, então, desenvolvedor e tracker.

    Porém, é aconselhável que alguns papéis, como coach e gerente, não se- jam assumidos por uma mesma pessoa, porque seus interesses são conflitan- tes. Ou seja, o gerente em determinados momentos pode sofrer uma pressão muito grande para entregar mais softwares e de forma mais rápida, e isso pode fazer com que, inconscientemente, ele repasse essa pressão para o time e acabe deixando de lado as práticas ágeis do XP; enquanto o coach deve justamente manter o time atuando de forma ágil e disciplinada, mantendo a agilidade mesmo em momentos de crise.

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    4.1. Desenvolvedor Casa do Código Nas próximas seções, falaremos mais sobre cada um dos papéis que com- põem um time XP.

    4.1 Desenvolvedor O desenvolvedor, também denominado programador, é o coraç ão do XP. O desenvolvedor multidisciplinado é um profissional capaz de trabalhar em to- das as etapas do desenvolvimento de software, desde a escrita de histórias de usuário até odeployem produç ão. No time XP, ele é um programador que es- tima as histórias de usuários e tarefas, quebra as histórias em tarefas, escreve testes, escreve código, automatiza processos de desenvolvimento e, gradual- mente, aprimora o design do sistema.

    Especificaç ão, prototipaç ão, design, desenvolvimento, testes e atividades ligadas ao DevOps são tarefas que o desenvolvedor poderá exercer em seu dia a dia. Desenvolvedores multidisciplinados elevam o nível de agilidade de um time, uma vez que todos podem vir a atuar em atividades que, eventualmente, tornam-se gargalos do projeto. Visto que eles escrevem código de produç ão em pares, precisam ter boas habilidades sociais e de relacionamento.

    4.2 Cliente Também conhecido comoo dono do ouro, o cliente define e prioriza as his- tórias de usuário, validando o produto desenvolvido por meio de testes de aceitaç ão. É importante que ele esteja o mais próximo possível do time, com disponibilidade suficiente para conversar e tirar as dúvidas habituais.

    O nosso cliente nem sempre será o usuário; ou seja, ele pode conhecer o negócio, definir e priorizar os requisitos, mas não utilizará o software efe- tivamente. Quando esse cenário ocorrer, é necessário aproximar do time al- guns desses usuários, pois, dessa forma, conseguimos priorizar os requisitos e validá-los com eles. São as pessoas que realmente utilizarão o software no dia a dia, afinal.

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    Casa do Código Capítulo 4. Papéis do eXtreme Programming 4.3 Coach É o técnico do time XP. Ele orienta a todos, mantendo a disciplina na aplicaç ão das práticas ágeis, e lembra a equipe da importância das cerimônias (como a reunião em pé, o jogo do planejamento e a reunião de retrospectiva, tudo que veremos mais à frente), da construç ão e manutenção de artefatos e do uso de ferramentas.

    O coach pode facilitar reuniões e orientar o time em relaç ão a que cami- nho seguir quando surgirem dúvidas ou impasses ligados à forma de trabalho.

    É saudável que ele não seja a mesma pessoa que atua como gerente, por- que os interesses desses papéis são diferentes. Enquanto o coach preocupa-se em manter o time engajado e disciplinado, o outro importa-se em priorizar e entregar o software para o cliente. Se uma mesma pessoa acumular os dois papéis, em momentos de crise, o gerente poderá falar mais alto e atropelar as práticas ágeis.

    4.4 Testador O testador no time XP auxilia o cliente a escolher e escrever testes de aceita- ção, para, então, automatizá-los. Ele serve também como um programador coach em técnicas de testes. Para o time de desenvolvimento, o testador não é responsável por pegar erros triviais, isto é papel dos próprios desenvolve- dores. Ele faz parte do time XP, não devendo ser uma pessoa isolada e traba- lhando em outro local. Ele pensa no teste e na qualidade do produto como um todo, considerando também os que rodarão na integraç ão contínua, au- xiliando em par os programadores a resolver problemas do sistema.

    4.5 Cleaner O cleaner é um membro do time que assume o papel de limpar o código; en- corajar os membros a praticar pequenas refatorações; reduzir a complexidade e acoplamento do código; e a aumentar a coesão dos métodos, realizando sua extração e tornando o código cada vez mais enxuto [63]. Ele também se man- tém o tempo todo atento aos impedimentos do time e às dívidas técnicas, ajudando, assim, a garantir a qualidade do código.

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    4.6. Tracker Casa do Código São pré-requisitos para um bom cleaner: a excelência técnica, o conheci- mento do negócio e da arquitetura, bem como uma boa didática para explicar aos desenvolvedores o motivo de cada refatoraç ão para elevar o nível técnico de todos os membros do time.

    O cleaner incentiva o grupo a cuidar da saúde e do bem-estar do código.

    Um bom candidato pode ser o líder técnico ou o arquiteto do produto. Ele também pode conduzirCoding Dojosou outras dinâmicas para elevar o co- nhecimento técnico da equipe.

    4.6 Tracker Responsável por coletar as métricas de projeto, o tracker é capaz de contar uma história da iteraç ão do início ao fim, por meio dos apontamentos que realizou e das informações que foram coletadas. Como um tracker, você é a consciência do time e deverá coletar informações sem perturbar o processo de desenvolvimento mais do que o necessário.

    Ao final de cada iteraç ão, ele pode gerar métricas que mostram o desem- penho do time. O coach pode trabalhá-las com o grupo, buscando manter aquilo que estiver satisfatório e modificar o que não estiver indo bem.

    4.7 Gerente O gerente facilita a comunicaç ão dentro de um time XP e coordena a comu- nicação com clientes, fornecedores e com o resto da organizaç ão. Ele gerencia e acompanha o planejamento do projeto, pois o planejamento no XP é uma atividade, e não uma fase; e auxilia na priorizaç ão das histórias de usuário, as- sim como no agendamento de reuniões e de demonstrações com o cliente e os usuários. Também gera relatórios e gráficos de acompanhamento do projeto e administra a infraestrutura necessária ao time (máquinas, licenças, espaços físicos etc.).

    O gerente não é o chefe do time de desenvolvimento, mas pode (e deve) ser um líder servo, o que significa que ele reconhece e auxilia nas suas neces- sidades reais.

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    Casa do Código Capítulo 4. Papéis do eXtreme Programming 4.8 Outros papéis O XP considera que outros papéis relacionados ao negócio podem fazer parte do time, podendo incluir: usuários, consultores, chefes e executivos [7]. Po- rém, por tratarem-se de papéis complementares do XP, eles não serão abor- dados por nós.

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    Capítulo5 Timecoeso “A aprendizagem não é obrigatória… Nem a sobrevivência.”

    –William Edwards Deming Você se lembra do primeiro valor do Manifesto Ágil?Indivíduos e intera- ções mais que processos e ferramenta. Você já parou para pensar por que esse é o primeiro valor?

    Comumente nas organizações, diversos processos e ferramentas são de- senvolvidos para tentar resolver problemas que, na realidade, são causados por lacunas na comunicaç ão, na confiança das pessoas e na falta de motiva- ção dos indivíduos, criando formalismos que engessam o trabalho e geram novos problemas. Esse primeiro valor enfatiza a importância das pessoas e do trabalho em time para um melhor desenvolvimento de software.

    Eis um dos pontos-chaves no XP: em um projeto, todos fazem parte do time, integrando-se os clientes à equipe de desenvolvimento. Dessa forma, o

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    5.1. Time multidisciplinar Casa do Código grupo coeso possuirá todas as competências de negócio e técnicas para de- senvolver o software.

    Um time efetivamente coeso maximiza os valores do XP: possui maior co- municaç ão por estar integrado, busca continuamente a simplicidade e cons- trói confiança para ter-se coragem e gerar feedback por meio do respeito mú- tuo. A multidisciplinaridade, a auto-organizaç ão, a proximidade física e a melhoria contínua são características essenciais para um time efetivamente coeso.

    5.1 Time multidisciplinar O trabalho multidisciplinar tem raízes nas células de produç ão do Sistema Toyota de Produç ão [41]. O conceito de células de produç ão defende o traba- lho em equipe para a produç ão de itens com características similares, sendo uma grande inovaç ão dos japoneses na década de 70. Isso revolucionou a ideia taylorista-fordista de ter-se apenas um homem por estaç ão de trabalho executando apenas um tipo de tarefa especializada.

    O trabalho em célula de produç ão cria sinergia entre os indivíduos e otimiza o desempenho do processo, eliminando diversos desperdícios, tais como: espera; superproduç ão; estoque; defeitos de qualidade; movimentos; transportes; processos desnecessários; e, principalmente, o não uso da cria- tividade dos funcionários. É importante salientar que o membro de time XP pode assumir mais de um papel, o que foi abordado com mais detalhes no capítulo4.

    5.2 Time auto-organizável Os times coesos são auto-organizáveis; ou seja, são responsáveis pelo seu pró- prio sucesso. Não há a necessidade de controle das atividades de cada indiví- duo do time por um gerente de projetos ou um coordenador. A gestão é tão importante que não fica nas mãos de apenas uma pessoa. O gerente empodera o time nas suas decisões e trabalha no macrogerenciamento. O microgerenci- amento está dentro do próprio time; não há ninguém melhor do que a própria equipe para tomar suas decisões de trabalho. O coach cuidará do método e

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    Casa do Código Capítulo 5. Time coeso da liderança do grupo, porém a liderança situacional pode emergir de seus membros, dependendo da questão a ser resolvida.

    5.3 Sentando lado a lado O espaço físico influencia diretamente a comunicaç ão e o trabalho do time coeso. É essencial que o time sente-se junto no mesmo ambiente físico. No início do dia, os membros realizam as reuniões diárias face a face e, durante ele, a programaç ão em pares é feita constantemente. O ambiente de traba- lho no XP contém quadros para a comunicaç ão e feedback de informações importantes do projeto a todos envolvidos nele.

    5.4 As reuniões de retrospectiva e a melhoria contínua Em desenvolvimento de software, existe apenas o aperfeiçoar, e não a perfei- ção. Não há processo perfeito, nem projeto e nem histórias de usuário. Con- tudo, a melhoria contínua é buscada no dia a dia, sendo possívelaperfeiçoar seu processo, seu projeto e suas histórias.

    Um dos pontos-chaves de um time de alto desempenho está nas suas reu- niões de retrospectiva, pois são identificados progressos a serem realizados no seu trabalho para aprimorar suas práticas. Essa reunião exige uma pro- funda reflexão do próprio trabalho para que se possam encontrar melhorias.

    No Lean, essa autorreflexão é chamada deHanseie o ato de realizá-las é cha- mado deKaizen[41].

    Qual é a abordagem do XP para a melhoria contínua? É simples: conserte o XP quando ele falhar. O eXtreme Programming assume que não trará todas as respostas para o desenvolvimento de software, pois sabemos que não há bala de prata [28]. As regras devem ser seguidas até o time precisar mudá-las.

    Os projetos são encorajados a iniciarem seguindo as regras do XP e, en- tão, a adaptarem qualquer aspecto que não esteja funcionando, tudo isso em um ambiente de experimentaç ão e avaliaç ão. As reuniões frequentes de re- trospectiva farão com que a melhoria contínua seja uma parte natural do de- senvolvimento de software. O livroAgile retrospectivestraz toda a base, além

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    5.4. As reuniões de retrospectiva e a melhoria contínua Casa do Código de muitas dicas para conduzir retrospectivas [40].

    O clima descontraído e divertido nas retrospectivas ajuda bastante os membros do time a expor problemas e tornar a melhoria contínua mais leve.

    As dinâmicas lúdicas com o uso de metáforas também ajudam muito na ex- posição de problemas e na coragem para dar passos em direção ao aperfeiço- amento, pois estimulam a criatividade. Paulo Caroli e Tainã Caetano trazem diversas dessas retrospectivas divertidas no livroFun retrospectives[11].

    O segredo das práticas do XP está na sinergia: uma prática sustenta e potencializa a outra. Por exemplo, as histórias de usuário permitem a comu- nicação para a criaç ão de testes de aceitaç ão e pequenas iterações, agilizando as entregas para obter-se feedback do cliente sobre o software sendo desen- volvido. Uma dica é utilizar a melhoria contínua também para a união das práticas.

    Dica dos autores: qual o tamanho ideal de um time?

    Reconhecemos que, mais importante do que o tamanho do time, é a sua formaç ão: manter o foco por meio da atenção constante e buscar o comprometimento de todos. Porém, é quase unanimidade que gruposde sete pessoas variando mais ou menos duas normalmente funcio-nam bem, principalmente organizando e colocando as práticas em an-damento. Isso facilita a realizaç ão das cerimônias e a dar os primeiros passos. Conhecemos times pequenos (4 a 6 pessoas) que não funciona-vam muito bem, e também já trabalhamos com times maiores (13 ou 14pessoas), nos quais o trabalho funcionava muito bem e de uma formaágil e disciplinada. Na dúvida, experimente!

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    Capítulo6 Clientepresente “Clientes não esperam que você seja perfeito. Eles esperam que você resolva coisas que eles fizeram errado.”

    –Donald Porter, vice-presidente da British Airways Uma das necessidades básicas do XP é ter o cliente presente, pois isso faz com que ele se sinta parte do time, o que agiliza o trabalho dos programado- res. Desse modo, esse envolvimento éextremocom a comunicaç ão e com o feedback.

    Todas as fases do XP precisam da comunicaç ão com o cliente, de prefe- rência face a face. Por isso, é interessante que ele esteja no próprio local do desenvolvimento do software. Escrever especificações leva um tempo muito longo e elas não comunicam efetivamente bem, tanto que poucas pessoas re- almente as leem por completo. É muito mais efetivo conversar sobre o que será necessário no software para seu desenvolvimento já se iniciar.

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    Casa do Código O cliente tem uma participaç ão essencial nojogo do planejamento, es- crevendo e priorizando histórias e discutindo detalhes dos requisitos direta- mente com o time para criarem as tarefas de implementaç ão (vide capítulo 10). Se houver itens importantes a serem documentados, registre-os como critérios de aceitaç ão; assim, eles poderão ser úteis por serem passíveis de au- tomatizaç ão. Ele também precisa estar disponível também para discutir os testes de aceitaç ão para que o time valide as histórias.

    Uma objeção comum sobre ter-se o cliente presente é que ele requisitará apenas o que é de seu interesse e não pensará no negócio como um todo. Isso é de responsabilidade do trabalho dele e de outras pessoas ligadas ao negócio, e poderá acontecer de qualquer forma, com ou sem sua presença.

    Ter somente um representante do negócio (ou até não possuir cliente) pode ser um problema, pois faz com que funcionalidades sem utilidade sejam desenvolvidas e que critérios de aceitaç ão não realistas sejam criados. O time de desenvolvimento trabalhará por itens sem valor real que não fazem parte da soluç ão real.

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    Casa do Código Capítulo 6. Cliente presente Tudo é questão de prioridade É importante entendermos que desenvolver software é, acima de tudo, aprendizado de todos. Para isso, é necessária muita colaboraç ão. Nin- guém desenvolve sozinho. Há alguns anos, estávamos começando um projeto com um novo cliente. Como de praxe, explicamos como funci- onava o nosso trabalho e como a participaç ão dele era importante neste processo. Era uma forma de sensibilizar e mostrar o quão importante estar ativo no desenvolvimento.

    Quando começamos o trabalho, tudo aquilo que havíamos definido foi perdendo força e ele distanciou-se. Chegamos a um ponto em que tivemos que questioná-lo sobre sua participaç ão (ou de alguém que pu- desse ajudar). Ele simplesmente nos disse que não tinha tempo e que es- tava resolvendo outros problemas na empresa. Ficou claro que aquele era o momento de parar. E foi o que fizemos. Simplesmente, parou-se o de- senvolvimento. Dissemos-lhe que, se ele não tinha tempo para envolver- se (ou envolver alguém que pudesse representá-lo), este projeto não era tão importante assim para ele e, portanto, ele não deveria gastar tempo e, principalmente, nem dinheiro com isso. Simples assim.

    6.1 Oquefazerquandooclientenãopodeestar presente?

    Pessoas de negócio podem ser bem requisitadas em seu trabalho e não te-rão tempo disponível para estarem presentes no local do desenvolvimento.Espere, desde o início, lacunas no entendimento de ambas as partes, tantosobre o negócio quanto sobre o desenvolvimento. Nesses casos, é necessáriomaximizar a comunicaç ão buscando outras alternativas de tecnologia e de processo de desenvolvimento.

    Utilize ao máximo a comunicaç ão por telefone e reuniões virtuais. O tra- balho por reuniões remotas é uma boa alternativa. Ajudará também ter umrepresentante que entenda do negócio e tenha tempo e acesso ao cliente. Tente ao menos que ele compareça nas reuniões de planejamento. E mais, se for

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    6.1. O que fazer quando o cliente não pode estar presente? Casa do Código possível, aproveite ao máximo seu tempo e faç a um planejamento presencial intensivo de um dia inteiro ou de uma semana inteira.

    Dica Faça frequentemente pequenas entregas. Essa é uma boa estratégia para alinhar o software com o negócio. Se o cliente não pode ver o time, que ao menos veja o sistema. 😉

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    Capítulo7 Históriasdeusuário “Histórias não são requisitos; elas são discussões sobre resolver problemas para nossa organização, nossos clientes e nossos usuários que levam a acordos sobre o que construir.”

    –Jeff Patton Histórias de usuário (user stories) descrevem seus requisitos em uma forma ágil. Para discutir seus detalhes, é necessária a comunicaç ão face a face entre o time e o cliente, encorajando o trabalho em conjunto. Cada histó- ria segue um ciclo de vida, normalmente nascendo como um épico (histórias grandes), sendo detalhada de acordo com sua prioridade. Elas são textuais, não necessitam de ferramenta específica, são compreensíveis por todos do de- senvolvimento ou do negócio, e são descritas em cartões, também chamadas de cartões de história (story card ). Outras formas de documentaç ão comple- mentares podem ser utilizadas juntamente, o XP não impede isso desde que

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    Casa do Código sejam úteis e necessárias, tais como protótipos ou diagramas.

    Veja alguns exemplos de histórias de usuário:

    • Como um contador, eu quero registrar uma movimentaç ão de patrimô- nio; • Como uma leitora, quero pesquisar livros por categoria; • Como repositor de estoque, quero localizar quais as prateleiras do su- permercado que contêm menos de 50% de sua capacidade de produtos.

    • Como cliente, quero encontrar as pizzarias na minha cidade que este- jam abertas na segunda-feira à noite.

    A essência da utilizaç ão de histórias de usuários como requisitos está de acordo com os valores do Manifesto Ágil.

    •Indivíduos e interaç ões mais que processos e ferramentas:elas enfa- tizam a conversaç ão, não dependendo de processo ou de ferramenta; •Software em funcionamento mais que documentaç ão abrangente:

    elas vão direto ao ponto com uma forma flexível de documentaç ão para o que há de maior valor para o negócio; •Colaboraç ão com o cliente mais que negociaç ão de contratos:por serem sucintas e necessitarem da conversaç ão do cliente com os desen- volvedores, permitem a negociaç ão e colaboraç ão com o negócio; •Responder a mudanç as mais que seguir um plano:elas respondem às mudanças por serem flexíveis em seu ciclo de vida, dando base para as alterações quando necessárias.

    Nas seções a seguir, detalharemos sobre o modelo 3C e o ciclo de vida de histórias. Também mostraremos como escrever usando um modelo de escrita, refinando com INVEST, quebrando as histórias em tarefas SMART e utilizando personas; diversas dicas de escrita de boas histórias; e um catálogo debad smellsde histórias.

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    Casa do Código Capítulo 7. Histórias de usuário 7.1 Modelo3C O tamanho de um cartão é suficiente para detalhar um requisito de usuário?

    Sim, pelo fato de as histórias serem utilizadas como lembretes para a con- versação do time e para a confirmaç ão do cliente. Os cartões de histórias de usuário são como slides: da mesma forma que um instrutor ensina por meio deles, um cliente mostra os requisitos do sistema por meio de histórias de usuário.

    Para deixar claro o propósito das histórias de usuário, Ron Jefries criou o modelo 3C [31]. Cada uma das três letras Crepresenta um aspecto crítico delas:

    •Cartão:as histórias de usuário são escritas em cartões (ou no tamanho de um cartão). Ele não conterá toda a informaç ão de um requisito, mas serve para lembrar a todos do que este se trata. As prioridades e os custos também podem ser anotados neles.

    •Conversação:o requisito é comunicado do cliente ao time por conver- sação (face a face), podendo ser suplementado por documentos.

    •Confirmação:a confirmaç ão da história dá-se por exemplos para criar testes de aceitaç ão; ou seja, pelos critérios de aceitaç ão. O cliente dirá ao time como aceitará cada história por meio de critérios de aceitaç ão.

    Essa é uma ótima forma de suplementar a documentaç ão. A preferên- cia é de que esses critérios sejam automatizados pelo time. A história de usuário estará pronta quando todos eles estiverem passando nos testes de aceitaç ão.

    7.2 Ciclo de vida Cada história segue um ciclo de vida, sendo refinada progressivamente. Elas normalmente nascem em épicos e são agrupadas em temas. Um épico pode ser visto como uma história muito grande [49] que pode levar diversas itera- ções para serem desenvolvidas e que ajudam a esboçar a funcionalidade do produto sem se comprometer com detalhes. Assim que priorizado, ele é que- brado em diversas histórias.

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    7.3. Utilizando um modelo de escrita Casa do Código Um tema representa uma capacidade do produto ou um objetivo, aju- dando a mostrar sua completude e também a encontrar as histórias certas.

    Uma estratégia é priorizar os temas para, então, priorizar as histórias relacio- nadas. Aquelas de maior prioridade terão seus critérios de aceitaç ão comple- tos e, depois, serão refinadas com INVEST (explicado a seguir neste capítulo) e quebradas em tarefas de implementaç ão.

    Um exemplo de épico pode ser:como um repositor de estoque, eu quero gerenciar a reposição do supermercado, fazendo parte do tema “Gestão de esto- que”. Uma história que pode nascer a partir dele é:como repositor de estoque, quero localizar quais as prateleiras do supermercado que contêm menos de 50% de sua capacidade de produtos.

    7.3 Utilizando um modelo de escrita Ter um modelo é útil para a escrita de histórias. Existem alguns tipos de mo- delos e variações; um dos mais utilizados é o da Connextra (vide imagem7.1), que traz as informações principais no cartão:

    •Como um (As a… ): para quem será útil a história, para qual usuário protagonista do sistema; pode também ser uma persona (veremos em 7.6); •Eu quero (I want… ): o que a história está especificando de requisito, a necessidade do usuário propriamente dita; •Para que (So that… ): razão de negócio, o motivo pelo qual a história existe; mostra o valor de negócio da história.

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    Casa do Código Capítulo 7. Histórias de usuário Fig. 7.1: Modelo original de cartão de história de usuário da Connextra. Fonte da imagem:http://agilecoach.typepad.com Basicamente, Connextra gera um modelo de escrita, ilustrado a seguir.

    Fig. 7.2: Modelo de escrita de história de usuário Como exemplo, utilizando-se esse modelo, a históriaComo repositor de estoqueficará dessa forma:

    Imagem 1 da página 58 (sem descrição)
    Imagem 2 da página 58 (sem descrição)

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    7.4. Refinando com INVEST Casa do Código Fig. 7.3: Exemplo de uma história de usuário 7.4 Refinando comINVEST Muitas vezes, as histórias de usuário precisam ser lapidadas, pois podem estar complicadas de entender, grandes demais para serem desenvolvidas, depen- dentes demais para serem entregues, ou podem não ser verificadas. Para esse refinamento, utiliza-se o acrônimo INVEST, o qual traz 7 características. Apli- car todas elas não é tão fácil; até dizem que INVEST é o nirvana das histórias de usuários, mas deve-se tentar ao máximo obtê-las.

    Refinando com INVEST, uma história de usuário deve ser:

    •Independente de outras histórias para facilitar a negociaç ão, a priori- zação e a implementaç ão; •Negociável com o cliente, para que o time possa manter um ritmo sus- tentável para a entrega contínua de valor; •Valorosa, assim cada entrega agregará grande valor ao negócio do cli- ente; •Estimável, desse modo o time poderá estabelecer quais histórias serão implementadas de acordo com sua velocidade; •Small(pequena) o suficiente para ser implementada dentro de uma ite- ração, sem correr grandes riscos de não a completar;

    Imagem 1 da página 59 (sem descrição)

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    Casa do Código Capítulo 7. Histórias de usuário •Testável, apenas assim poderá ter qualidade na entrega e certeza de que o cliente aceitará a história como pronta.

    7.5 Implementando com tarefasSMART Cada história de usuário possuirá tarefas a serem desenvolvidas, como: im- plementaç ão, teste, integraç ão e deploy. Quebrá-las em tarefas gera mais cer- teza do trabalho que o time precisará entregar. Cada uma delas deverá possuir as 5 características do acrônimo SMART:

    • eSpecífica o suficiente para ser entendida, para que se implemente exa- tamente o que é necessário, evitando a sobreposiç ão de outras tarefas; •Mensurável, possuindo um tamanho para garantir que a tarefa seja concluída (contabilizando testes e refatoraç ão); •Alcançável para que todos possam ter acesso às informações necessá- rias para sua conclusão; •Relevante, contribuindo para a implementaç ão da história; •Time-boxed, limitada a uma duraç ão específica (não sendo uma es- timativa formal, mas uma expectativa de desenvolvimento, inclusive para pedir ajuda). Tarefas com grande duraç ão devem ser evitadas, po- dendo serem divididas em tarefas menores ou sendo revisadas.

    7.6 Personas Uma forma recomendada para pensar mais no usuário do sistema é utilizar o conceito de personas, que é a caracterizaç ão de um papel de usuário do sis- tema. Uma persona descreve as qualidades, os valores, o comportamento e os objetivos de usuários alvos no sistema. Uma dica é dar nomes às personas que lembrem seus papéis; por exemplo, o nomeAdemarpara a persona rela- tiva ao papel de administrador. Na escrita da história, escreve-se o nome da persona, em vez do papel de usuário.

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    7.7. Story points Casa do Código 7.7 Story points Story pointsé o nome comum para o tamanho de histórias de usuário. A velocidade do time é dada contabilizando a média de todos osstory pointsre- alizados nas iterações. Dentre as diversas variações de pontuar uma história, a forma mais efetiva é dimensioná-las relacionando com as outras, utilizando a experiência no passado para determinar o quanto pode ser feito em uma ite- ração [27]. O time pode utilizar uma sequência não linear de valores, como a de múltiplos de dois (1, 2, 4, 8, 16, …) ou a de Fibonacci (1, 2, 3, 5, 8, 13, …).

    O que realmente interessa é que se possa prever quantas histórias pode- rão ser entregues nas iterações, diminuindo o risco de termos problemas no desenvolvimento. Há os que acham melhor não estimar, mas apenas contabi- lizar, em média, quantas serão realizadas a cada iteraç ão [36]. Existem times que até utilizam tamanhos de camiseta (P, M, G, GG), e outros que usam dias ideais ou horas de desenvolvimento [13].

    Por estar confuso comstory points, um cliente de Joshua Kerievsky criou o termo NUTs (Nebulous Units of Time Unidades Nebulosas de Tempo) [36].

    Independente da forma de encontrar o tamanho da história, é o grupo que decide suas estimativas e sua velocidade.

    7.8 Escrevendo boas histórias A prática com boas orientações é importante para escrever uma história útil para o time e para o negócio. Mike Cohn, em seu livroUser stories applied, traz orientações para escrever boas histórias de usuário [13]. Complementamos com mais algumas dicas:

    •Comece com as histórias objetivas:os usuários do sistema possuem objetivos diretos no sistema; comece escrevendo as histórias que resol- vam os problemas desses objetivos.

    •Fatie o bolo:escreva histórias que possuam uma camada de cada fase de implementaç ão de uma funcionalidade, desse modo entregará valor.

    Imagine uma história como uma fatia de bolo, em que cada camada é a parte de projeto, codificaç ão, teste, integraç ão e deploy.

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    Casa do Código Capítulo 7. Histórias de usuário •Escreva histórias fechadas:faça com que a história entregue valor real ao negócio, algo que conclua o processo do usuário.

    •Coloque as restrições nos cartões:as restrições são os requisitos não funcionais, como de desempenho, de carga, de segurança e de usabi- lidade. Elas podem ser descritas nos cartões na forma de critérios de aceitaç ão.

    •Escreva suas histórias no horizonte:utilize o ciclo de vida das his- tórias de usuário. Faç a com que elas surjam de épicos. Conforme a prioridade, os épicos são quebrados em histórias e, então, é iniciada a especificaç ão dos critérios de aceitaç ão relacionados.

    •Evite a interface de usuário o maior tempo possível:a essência dos detalhes da interface de usuário é de projeto, e não de requisito de usuá- rio, na maioria das vezes. Detalhá-la torna-se necessário conforme a prioridade aumenta.

    •Algumas coisas não são histórias:histórias são para escrever requisi- tos de usuário, e não para documentar a ajuda do sistema, por exemplo.

    •Inclua os papéis de usuários:a utilizaç ão de um modelo ajuda nisso, pois ele lembra de escrever para quem a história servirá.

    •Escreva para a persona protagonista:muitas vezes, uma história de usuário servirá para mais de uma persona ou mais de um papel de usuá- rio. Por essa razão, escreva a história para a persona ou papel de usuário que mais agregará valor, de maior propósito.

    •Escreva em voz ativa:escrever em voz passiva pode tornar a história confusa.

    •O cliente escreve:apenas dessa forma não haverá lacunas na escrita.

    Quando isso não for possível, faç a com que ele leia, valide e discuta todas as histórias.

    •Dê títulos às histórias:um título ajudará na sua identificaç ão. Não enumere apenas os cartões de história, pois é muito estranho conversar

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    7.9. Catálogo de story smells Casa do Código sobre a “história 32” (como se fazia antigamente com nomes de tabelas de banco de dados).

    •Não esqueça do propósito:lembre-se sempre do propósito de uma his- tória de usuário, que é servir como um lembrete a todos (time e cliente) para a comunicaç ão do requisito.

    •Descreva os defeitos (bugs) como critérios de aceitaç ão:quando hou- ver umbug, provavelmente é porque faltou ter escrito (ou automati- zado) um critério de aceitaç ão. Escreva um critério de aceitaç ão que falhe diretamente no problema.

    7.9 Catálogo de story smells Para escrever boas histórias, também é necessário identificar e evitarbad smells(maus cheiros). O livroUser stories applieddo Mike Cohn possui um catálogo dessessmells[13], que ocorrem normalmente quando:

    •A história depende de várias outras histórias:a interdependência im- possibilita a negociaç ão e a priorizaç ão das histórias; •A história está muito curta:histórias são sucintas, mas não é para serem muito curtas; •A história possui muitos detalhes:repetindo que histórias são sucin- tas. Os detalhes normalmente serão discutidos entre o time e o cliente, lembre-se do modelo 3C; •Há funcionalidades não necessárias:lembre-se do valor do XP: sim- plicidade. Quando houver funcionalidades desnecessárias em histó- rias, é um grande indicador de que não se está pensando em simplici- dade; •O cliente não escreve, não confirma e não prioriza as histórias:esse é um dos mais comuns e piores maus cheiros; •Não está explícito o valor do negócio:escrever a razão de negócio ajuda a demonstrar seu valor. Um modelo ajuda nisso. Histórias com

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    Casa do Código Capítulo 7. Histórias de usuário pouco valor não podem ser priorizadas. Provavelmente, o problema está em uma lacuna na realizaç ão do jogo do planejamento; •É pensado muito à frente nas histórias:isso atrapalha a agilidade, pois mudanças poderão vir logo, então não se deve detalhar muito à frente.

    Deve-se fazer somente o necessário para as histórias priorizadas; •É detalhada a interface de usuário muito antecipadamente:deve-se pensar na interface de usuário quando a história for priorizada. Utilize o tempo presente para trabalhar com as histórias já priorizadas; •Existir detalhes específicos de tecnologia, projeto de banco de da- dos e algoritmos:detalhes de projeto e de implementaç ão não fazem parte de requisitos. Esses detalhes deveriam ser discutidos entre o time, ou então em outros formatos de especificaç ão, tais como diagramas e protótipos.

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    Capítulo8 Testesdeaceitaç ão “Testes de aceitação são mapas da estrada para a iteração, dizendo ao time aonde é preciso ir e quais pontos de referência olhar.”

    –Lisa Crispin O propósito dos testes de aceitaç ão é a comunicaç ão, a transparência e a precisão [43]. Quando os desenvolvedores, os testadores e o cliente concorda- rem com eles, todos entenderão qual é o plano para o comportamento do sis- tema. Chegar a esse ponto é responsabilidade de todas as partes. Eles validam como o cliente aceitará as funcionalidades prontas, pois são testes funcionais que guiam o time no desenvolvimento para, então, colocar em produç ão o que foi decidido que o sistema deve conter.

    Esses testes são criados a partir das histórias de usuários selecionadas pe- las pessoas de negócio no planejamento de iterações (veremos no capítulo 10). A história de usuário apenas estará completa quando todos seus critérios

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    8.1. Automatizaç ão Casa do Código de aceitaç ão estiverem passando. Auxiliado pelo testador do time, o cliente é quem especifica os exemplos dos critérios de aceitaç ão na forma de cenários, que podem conter dados e variações que criticam a história [14]. Os exemplos de cenários esclarecem as histórias ao time.

    8.1 Automatização Testes de aceitaç ão sempre têm de ser automatizados por uma razão sim- ples: custo [43]. Caso você ache custoso ter testes de aceitaç ão automatizados, aguarde para ver o custo da confusão e dodebugde código ao longo prazo.

    Para fazer pequenas entregas frequentes, é necessário que os testes de acei- tação estejam automatizados e que rodem nobuildgerado pelo servidor de integraç ão contínua. O cliente poderá decidir se uma história desenvolvida poderá ir para produç ão mesmo quando alguns testes de aceitaç ão não esti- verem passando. Apenas ele tem esse poder.

    8.2 Validando com critérios de aceitação Cada história de usuário possui um ou mais critério de aceitaç ão, criado tam- bém pelo cliente. O testador ajuda-o a pensar em cenários bons de teste, sendo escritos já prevendo a automatizaç ão. Esses critérios descrevem como a his- tória será aceita pelo cliente e servem de guia para o desenvolvimento.

    Como exemplo, considerando a históriaComo um repositor de estoque, quero localizar quais as prateleiras do supermercado que contêm menos de 50% de sua capacidade de produtos, podemos escrever os critérios de aceitaç ão:

    • Deve exibir uma lista de prateleiras com o setor e a seção de cada uma, e o tipo e o nome do produto contido; • Deve exibir as prateleiras com menos de 50% da capacidade de itens; • Não deve exibir as prateleiras com 50% ou mais da capacidade de itens.

    Os critérios de aceitaç ão também podem seguir um modelo. Comu- mente, o utilizado é o de cenários de BDD (Behaviour-Driven Development Desenvolvimento Guiado por Comportamento) [47]. Esse modelo possui três informações:

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    Casa do Código Capítulo 8. Testes de aceitaç ão •Dado que:precondiç ão, são os passos para preparar para aç ão a ser validada; •Quando:ação que vai disparar o resultado a ser validado; •Então:resultado a ser validado.

    Você encontrará bons exemplos de histórias com critérios de aceitaç ão no livroHistórias de usuário[61]. Como um exemplo, o critério de aceitaç ão Deve exibir o setor e a seção da prateleira com o tipo e o nome do produtousando o modelo, ficará desta forma:

    •Dado queo usuário logado é um repositor de estoque; •Quandoo item de menu “Consultar prateleiras para reposiç ão” for cli- cado; •Entãoa lista de todas as prateleiras para reposiç ão é exibida.

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    Capítulo9 Liberaç ãofrequentedepequenas entregas “Software funcionando é a medida primária de progresso.”

    –7º princípio do Manifesto Ágil Por que deixar o cliente esperando um longo tempo para entregar um re- quisito importante? No XP, cadareleasedeve ser tão pequena quanto possível e com o maior valor de negócio. As pequenas entregas contêm as histórias de usuário identificadas e priorizadas no jogo do planejamento, que veremos a seguir. As histórias de usuários devem ser suficientemente granulares para caberem em uma entrega pequena. Manter a qualidade no desenvolvimento é essencial para poder entregar frequentemente. Em alguns casos, fica difícil liberar releases pequenas, precisando ser uma entrega do tipotudo ou nada.

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    9.1. Foco na qualidade é o ponto-chave Casa do Código Diversos benefícios surgem quando se liberam frequentemente pequenas entregas com alto valor:

    • Entrega de valor adiantado e contínuo; • O processo é aprimorado rapidamente por falhar mais cedo (conceito fail fast); • Feedback do cliente mais cedo para confirmaç ão ou adaptaç ão dos re- quisitos; • Satisfaç ão dos usuários por ter respostas rápidas às suas necessidades; • Maior qualidade, confiança e estabilidade; • Reduz a taxa de defeitos por precisar realizar testes completos em ciclos menores; • Realiza um design simplificado e suficiente apenas para a entrega em questão; • O código é atualizado e integrado com maior frequência; • O software não fica ultrapassado; • Maior engajamento do time por ver seu trabalho sendo útil e empode- rado; • Facilita enxergar os diversos desperdícios ocultados nas grandes entre- gas; • Evita a procrastinaç ão de prazos.

    9.1 Foco na qualidade é o ponto-chave A qualidade é o ponto-chave para entregar com frequência. Os testes auto- matizados e a integraç ão contínua são essenciais para agilizar os builds das entregas com alta qualidade no software. Pequenas entregas maximizam os

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    Casa do Código Capítulo 9. Liberaç ão frequente de pequenas entregas benefícios da abordagem iterativa e incremental, evoluindo o software em pe- quenos pedaços. Times extremos conseguem desenvolver uma entrega a cada iteração ou a cada dia, tal como no conceito de entrega contínua [20].

    Quando isso não for possível, as iterações auxiliarão no acompanhamento do andamento do desenvolvimento da release. De qualquer modo, se não houver um ótimo nível de qualidade em cada build do software, mais e mais defeitos voltarão e menos se poderá entregar nas próximas releases. O foco na qualidade é essencial para entregas pequenas e frequentes.

    9.2 Releases tudo ou nada Ok, sabemos que alguns sistemas sãotudo ou nada; ou seja, para colocar em uso efetivo é necessário que se faç a uma grande entrega. Entretanto, até para esses sistemas é valioso pensar se há algum modo de quebrá-los em entregas menores. As solicitações de mudan ça virão naturalmente quando o usuário utilizar o software, então é melhor ter um processo já orientando a mudanças.

    Entregas grandes não combinam com um planejamento ágil orientado a mu- danças. Lembre-se do quarto valor do Manifesto Ágil:responder a mudanças mais que seguir um plano.

    Quanto mais tempo aguardamos para liberar uma funcionalidade aos usuários, menos tempo você terá e mais complexo será para adaptá-la ou corrigi-la. Na visão enxuta [41], a liberaç ão frequente de pequenas entregas diminui consideravelmente os desperdícios de estoque, defeitos e tempo de espera (do cliente). Isso gera fluidez e reduz o tempo de ciclo das entregas (tempo entre o fim ou o início de produç ão de dois itens). Continuamente, persista na tentativa de diminuir o tamanho de suas entregas.

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    Capítulo10 Ojogodoplanejamento “Planos não são nada. Planejamento é tudo.”

    –Dwight David “Ike” Eisenhower Você já trabalhou em um projetomarcha da morte[65] que é destinado a falhar e que você não podia nem sequer dar opiniões técnicas? Um projeto com tantos problemas que parecia uma bola de neve despencando montanha abaixo? No XP, isso não acontece.

    O jogo do planejamento envolve os clientes e os desenvolvedores para pla- nejarem as entregas de uma forma colaborativa. Também chamado derelease planning, o nome jogomostra a essência da dinâmica: tratar o planejamento como um jogo que contém um objetivo, jogadores, peças e regras. Seu re- sultado é maximizado por meio da colaboraç ão de todos os jogadores. Ele agrega todo o processo necessário para a entrega de software como a escrita de histórias de usuário, a priorizaç ão pelo cliente e a criaç ão das estimativas.

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    10.1. Definindo o jogo e suas regras Casa do Código Visto que o trabalho de planejamento é encarado como um jogo, então quem seria o adversário? Talvez você pense que é o cliente. Errado! Ele é o maior interessado no sucesso do projeto. Afinal, já investiu tempo e dinheiro.

    O adversário está justamente no desafio em se conseguir entregar o melhor produto, dados as variáveis de projeto (prazos, custos,time-to-marketetc.).

    As pessoas de negócio definem o escopo, a prioridade, a composiç ão e as datas das entregas. As decisões de negócio têm suporte das pessoas de desenvolvimento. Estas tomam decisões técnicas por meio de estimativas e de análises de consequências técnicas no negócio, e decidem seu processo de trabalho. Tanto o Negócio quanto o Desenvolvimento têm voz nas decisões das entregas. Não há bola de neve no XP. 🙂 O desenvolvimento iterativo e incremental é utilizado no jogo do planeja- mento. Os incrementos são definidos no planejamento de releases; e as itera- ções, no planejamento de iterações. Cada incremento representa uma entrega de valor em produç ão ao cliente, sendo desenvolvido em uma ou mais itera- ções. A divisão em iterações auxilia o time a quebrar as entregas em pedaços menores para planejamento e feedback de um modo simples e ágil.

    Nas próximas seções, definiremos o jogo como um todo, com suas re- gras e comprometimentos. Falaremos também sobre como manter o foco e a aprendizagem no planejamento.

    10.1 Definindo o jogo e suas regras Os jogos e as regras do jogo do planejamento são:

    •Objetivo:maximizar o valor do software produzido pelo time; ou seja, colocar em produç ão a maior quantidade de histórias de usuário com maior valor ao longo do projeto.

    •Estratégia:o time deve investir o menor esforço para colocar a funci- onalidade de maior valor em produç ão tão rápido quanto possível, em conjunto com estratégias de projeto e programaç ão para reduzir o risco.

    Dividir para conquistar é a estratégia utilizada ao dividir o software em entregas frequentes, e cada entrega em iterações pequenas.

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    Casa do Código Capítulo 10. O jogo do planejamento •As peças:as peças básicas do jogo são histórias de usuário e as tarefas de implementaç ão. As histórias são as peças no planejamento das releases; já as tarefas, no planejamento das iterações.

    •Os jogadores:as pessoas do Desenvolvimento e as pessoas de Negócio.

    •Os movimentos:as regras dos movimentos existem para lembrar a to- dos de como eles gostariam de agir em um melhor ambiente com con- fiança mútua e dar uma referência para quando as coisas não estiverem indo bem.

    10.2 Entendendo regras e comprometimentos Os movimentos do jogo são dados por suas regras e são divididos em duas partes: a primeira trata dos movimentos para as entregas (planejamento de releases); a outra dos movimentos para as iterações (planejamento de itera- ções), conforme apresentado na figura a seguir.

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    10.2. Entendendo regras e comprometimentos Casa do Código Fig. 10.1: Movimentos do jogo do planejamento divididos entre o planeja- mento de releases e de iterações Planejamento de releases Para uma release, o jogo do planejamento define as regras para o cliente direcionar o desenvolvimento na frequência de uma a três semanas. Seus mo- vimentos para uma release são dados em três fases:Exploraç ão,Comprome- timentoeDirecionamento.

    Exploraç ão:ambos os jogadores descobrem novos itens que o sistema pode fazer, dividindo-se em três movimentos:

    •Escrever uma história de usuário:o Negócio escreve algo que o sistema deverá fazer; •Estimar uma história de usuário:o Desenvolvimento estima o tempo ideal de programaç ão para implementar a história;

    Imagem 1 da página 77 (sem descrição)

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    Casa do Código Capítulo 10. O jogo do planejamento •Quebrar uma história de usuário:caso o Desenvolvimento não con- siga estimar a história ou sua estimativa for muito grande, o Negócio identifica sua parte mais importante para que o Desenvolvimento possa estimá-la e desenvolvê-la. Spikes podem ser utilizados para melhorar a estimativa da história (vide capítulo11).

    Comprometimento:o Negócio decide o escopo e o tempo para a pró- xima entrega de acordo com as estimativas, e o Desenvolvimento se compro- mete com a entrega, dividindo-se em quatro movimentos:

    •Ordenar por valor:o Negócio separa as histórias em três categorias:

    as essenciais; as menos essenciais, mas de alto valor; e as que seriam agradáveis de se ter; •Ordenar por risco:o Desenvolvimento separa as histórias em três ca- tegorias: aquelas que podem ser estimadas com precisão, aquelas que podem ser estimadas razoavelmente bem, e aquelas que não podem ser estimadas de qualquer modo; •Ordenar por velocidade:o Desenvolvimento mostra ao Negócio quanto de tempo ideal de programaç ão o time poderá trabalhar em um mês do calendário; •Selecionar escopo:o Negócio escolhe as histórias para a entrega (traba- lhando por tempo) ou uma data para as histórias a serem desenvolvidas (trabalhando por escopo), utilizando as estimativas realizadas pelo De- senvolvimento.

    Direcionamento:o plano é atualizado no que foi aprendido pelo Negócio e pelo Desenvolvimento, dividindo-se em quatro movimentos:

    •Iteração:a cada iteraç ão (uma a três semanas), o Negócio seleciona uma com as histórias de maior valor a serem implementadas; •Recuperação:caso o Desenvolvimento descubra que sua velocidade foi superestimada, ele pode pedir ao Negócio para encaixar apenas as his- tórias de maior valor de acordo com a nova velocidade;

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    10.2. Entendendo regras e comprometimentos Casa do Código •Nova história:caso o Negócio descubra uma nova história a ser adi- cionada à entrega que já está sendo desenvolvida, ele pode escrevê-la, o Desenvolvimento estimá-la, e, então, trocá-la por outra selecionada pelo Negócio; •Reestimar:caso o Desenvolvimento descubra que o plano não é exato, ele pode reestimar todas as histórias restantes.

    Planejamento de iteraç ões As peças são as tarefas de implementaç ão e os jogadores são os programa- dores. As decisões sobre as iterações são mais flexíveis em questão de escopo e de prazos, pois dependem mais do Desenvolvimento; enquanto as sobre entregas dependem mais do Negócio. Suas fases são semelhantes às de uma entrega:Exploraç ão,ComprometimentoeDirecionamento.

    Exploraç ão:o Desenvolvimento cria suas tarefas e identifica o tempo de trabalho, dividindo-se em três movimentos:

    •Escrever uma tarefa:transformar as histórias da iteraç ão atual em tare- fas; •Quebrar ou unir tarefas:caso a tarefa esteja grande demais, quebre- a em tarefas menores. Caso ela esteja pequena demais, una-a a outra relacionada; •Estabeleça um fator de carga:cada programador escolherá seu fator de carga para a iteraç ão, o qual é a porcentagem de tempo que ele real- mente estará desenvolvendo; ou seja, é removido o tempo em que se realiza outras, tais como reuniões do time.

    Comprometimento:o Desenvolvimento compromete-se com suas tare- fas, dividindo-se em três movimentos:

    •Aceitar uma tarefa:o programador puxa a tarefa para si e aceita a res- ponsabilidade por ela; •Estimar a tarefa:o programador responsável pela tarefa a estima em Dias Ideais de programaç ão;

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    Casa do Código Capítulo 10. O jogo do planejamento •Balanceamento:cada programador soma suas tarefas e multiplica pelo fator de carga, balanceando sua carga de trabalho, caso esteja maior ou menor do que a estabelecida.

    Direcionamento:o Desenvolvimento desenvolve as tarefas para verificar a história, dividindo-se em quatro movimentos:

    •Implementar uma tarefa:o programador pega o cartão da tarefa, encon- tra um par para programar, desenvolve a tarefa com TDD (Desenvol- vimento Guiado por Testes) e ao final integra o código fazendo passar a suíte de teste relacionada; •Registrar progresso:a cada dois ou três dias, um membro do time atua- liza o andamento das tarefas de cada membro, com o tempo gasto e o tempo que falta para cada tarefa; •Recuperação:programadores que ficaram sobrecarregados pedem ajuda reduzindo o escopo das tarefas, reduzindo o escopo das histórias, removendo aquelas não essenciais ou pedindo ao cliente para postergar a história para outra iteraç ão; •Verificar a história:caso estiverem prontos, rodar os testes funcionais para as tarefas que já foram concluídas, complementando a suíte de testes funcionais com os novos casos de testes; As histórias de usuários são estimadas antes de serem desenvolvidas. Já na iteraç ão, o programador pega a tarefa para si e depois a estima. Nem todas estarão ligadas diretamente com o Negócio, mas sim com as necessidades do Desenvolvimento; por exemplo, para configurar um servidor de integraç ão.

    10.3 Mantendo o foco Você lembra-se do objetivo do jogo do planejamento? Maximizar o valor do software construído pelo time para o cliente é o foco do jogo. É impor- tante que todos participem (Desenvolvimento e Negócio) com colaboraç ão.

    A simplicidade (a arte de maximizar a quantidade de trabalho não realizado)

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    10.4. Todo momento é um momento de aprendizado Casa do Código é essencial para o feedback contínuo, sendo importante também para o time sentir-se valorizado por fazer entregas frequentes de valor. O Desenvolvi- mento e o Negócio devem manter um ritmo sustentável e constante de traba- lho para manter o foco.

    10.4 Todo momento é um momento de aprendi- zado No jogo do planejamento, até quando se erra, aprende-se. O erro não é visto como algo ruim, desde que se aprenda com ele. Quando o time reconhecer que superestimou sua velocidade, ele deve comunicar ao Negócio para rear- ranjar as histórias dentro de sua nova velocidade. Quando houver problemas com as estimativas, devem-se reavaliar essas estimativas das histórias. É pre- ciso ter coragem para buscar um processo que seja transparente. A comuni- cação e o feedback são importantes para que os dois jogadores aprendam a melhor forma de maximizar o jogo.

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    Capítulo11 Spikesdeplanejamento “Algumas vezes, a melhor maneira de resolver um problema é ir para casa, jantar, assistir TV, ir para a cama, e, então, acordar na manhã seguinte e tomar um banho.”

    –Robert C. Martin Os spikes de planejamento fazem parte de uma prática que ajuda o time a gerar o conhecimento necessário para estimar as histórias de usuários cor- retamente, diminuindo, assim, o risco no planejamento [39]. O objetivo é aumentar a confiança para um bom jogo do planejamento. Um spike é um programa muito simples para explorar soluções potenciais [59].

    Faça spikes arquiteturais para descobrir respostas em dificuldades técni- cas e em problemas de design, ou para conhecer novas tecnologias (APIs, frameworks, ferramentas, linguagens de programaç ão etc.). Quando uma di- ficuldade técnica importante surgir, deixe um par de desenvolvedores fazer

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    11.1. Jogue fora o código gerado no spike Casa do Código uma por alguns dias até ter certeza suficiente sobre sua soluç ão.

    Por ser uma tarefa a ser realizada, os spikes podem ser estimados. Por- tanto, trata-se de um momento planejado, garantindo-se que será feito du- rante uma iteraç ão. Preferencialmente, faç a-o em uma iteraç ão e somente desenvolva a história de usuário relativa na próxima. Lembre-se que ele serve para diminuir o risco da estimativa que servirá no próximo planejamento, e também não se esqueça denão aproveitarseu código.

    11.1 Jogue fora o código gerado no spike Trate o spike como um experimento e assuma que seu código será jogado fora. Vá direto ao ponto para resolver a incerteza. Ele serve para saber como resolver um problema, e não para produzir um código (de produç ão) que o resolva [54]. Não tente criar programas úteis ou reutilizáveis em produç ão.

    O spike serve para aprendizado, uma vez que se trata de uma prática para descoberta. Por isso, ignore todas as preocupações no entorno da questão.

    Vale fazer um paralelo neste ponto. A prototipaç ão é uma técnica de en- genharia de software para a descoberta de requisitos com a avaliaç ão do cli- ente. Normalmente, o protótipo é jogado fora, porque é lento, o código não é funcional e serve apenas para a descoberta, a validaç ão e o refinamento dos requisitos.

    Semelhante a essa técnica, o spike é um método para a descoberta de so- luções com a avaliaç ão técnica, que, inclusive, também tem seu código jogado fora.

    Dica:spike é exceção,não regra Essa prática é para ser utilizada apenas quando necessária, sendo uma exceção, não uma regra. Toda estimativa de história de usuário possuirá incertezas e riscos; isso é intrínseco da complexidade de desenvolver soft- ware.

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    Capítulo12 Projetosimplesdoinícioaofim “Simplicidade é mais complicada do que você pensa. Mas ela é bem valiosa.”

    –Ron Jeffries Obter um projeto simples não é uma tarefa fácil; porém, manter a simpli- cidade agiliza no desenvolvimento de novas funcionalidades e na resposta a mudanças. O projeto simples está presente em todas as fases do XP. A simpli- cidade é abordada de um modoextremo. Ele come ça assim e mantém-se por meio de testes automatizados e refatoraç ão.

    Tentar prever o futuro éantiXP. Nenhuma funcionalidadeadicionalé im- plementada, pois desvia do caminho da soluç ão e aumenta a complexidade do software. Apenas tenha cuidado com as dívidas técnicas que poderão ser ge- radas, ou com funcionalidades inacabadas. A programaç ão em pares evita o design extra, porque um membro da dupla não vai querer esperar que o outro desenvolva coisas sem relevância.

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    12.1. MVP: produto mínimo viável Casa do Código Para termos um código limpo, a refatoraç ão é necessária, assim evitando oscode smells(maus cheiros) nele. Um código é simples [30] quando:

    • Roda todos os testes; • Expressa todas as ideias necessárias; • Não contém código duplicado; • Possui a menor quantidade de classes, métodos e variáveis; • É conciso e legível.

    Em todos os níveis de granularidade de software deve-se pensar na sim- plicidade; ou seja, do código ao produto. Quando o projeto simples atinge o produto, temos o conceito do produto mínimo viável, detalhado a seguir.

    12.1 MVP:produto mínimo viável “Simplicidade a arte de maximizar a quantidade de trabalho não realizado é essencial.”

    –Décimo princípio do Manifesto Ágil Ter o projeto simples é essencial para criar um MVP. O MVP (do inglês, Minimum Product ViableProduto Mínimo Viável) possui a maior quantidade de funcionalidades de valor na menor entrega possível, sendo suficiente para o cliente utilizar e dar feedback ao desenvolvimento.

    A expressãoYAGNI(do inglês,You’re Not Gonna Need ItVocê não pre- cisará disso) lembra todos a desenvolver somente o necessário nas histórias atuais, até no caso de que se saiba que será necessário no futuro.

    Menos é mais.A simplicidade tem foco no desenvolvimento da essência do software. Pequenas entregas de valor representam muito do que o cliente necessita. Alguns programadores (não XP) adoram entregar algo a mais ao cliente; já osextremosnão fazem isso. Programadores XP mantêm o projeto simples do início ao fim.

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    Casa do Código Capítulo 12. Projeto simples do início ao fim Dica: MVPé estratégia de entrega Para trabalhar com MVP é preciso ter uma estratégia na evoluç ão das entregas. Um ótimo exemplo real é o de uma equipe que, na primeira iteração, desenvolveu somente o algoritmo necessário e entregou apenas uma planilha com os resultados que o cliente precisava em seu negócio.

    Na duas próximas, a equipe complementou as regras nesse algoritmo e desenvolveu a interface com o usuário. O MVP entregue na primeira iteração resolveu a maior parte do problema do cliente! A estratégia para entregar o que restava nas duas próximas iterações completou o trabalho, deixando-o muito satisfeito.

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    Capítulo13 Metáforadesistema “98% de nosso pensamento está realmente acontecendo em um nível inconsciente, grande parte através de metáforas.”

    –Esther Derby Metáforas em geral estão no nosso cotidiano. No dia a dia, frequente- mente as usamos para expressarmos ideias de um modo mais simples, fácil e rápido; tentamos encontrar algo semelhante que a pessoa já conheça para ela conseguir entender o que queremos explicar.

    No mundo da computaç ão, fazemos uso de ainda mais metáforas. Você trabalha com documentos, arquivos, pastas e ferramentas em suaárea de tra- balhodo computador. Você já deve ter comprado na internet por meio de umcarrinho de compras. Talvez você já tenha implementado um algoritmo percorrendo uma árvore em largura ou em profundidade; ou já tenha resol- vido umadívida técnicaem seu software. Quem sabe você já enviou um build

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    13.1. Descobrindo uma boa metáfora Casa do Código para opipelineda integraç ão contínua, ou então participou de um debate em forma defishbowl.

    No XP, a metáfora de sistema traz uma visão comum que auxilia o time e o cliente a entender os elementos do sistema. Ela funciona como umpat- ternde alto nível e explica seu design sem uma documentaç ão pesada. Ela é semelhante à linguagem ubíqua, porém, enquanto esta se concentra em uma linguagem comum entre o negócio e os desenvolvedores, aquela foca na lin- guagem da arquitetura da soluç ão.

    O nascimento dessa prática deu-se no sistema de folha de pagamento da Chrysler [9]. A metáfora era de uma fábrica paraproduziro salário, onde as caixas desciam em uma linha de montagem para serem montadas. As caixas são as partes do salário a serem montadas em um item apenas: o salário do funcionário. Um outro exemplo é o de James Shore em seu primeiro projeto XP, que era dedata warehouse(armazém de dados) [53], cujos nomes das clas- ses do sistema utilizavam a metáfora de uma empilhadeira em um armazém.

    Muitas pessoas ignoram o uso dessa prática por não conhecerem sua uti- lidade. Uma metáfora de sistema ajuda a padronizar os nomes dos objetos para entendê-lo e também auxilia a reutilizar códigos. Desse modo, o desen- volvedor pode descobrir se algum objeto já existe no software e decidir onde é o melhor local para colocá-lo. Por trazer um vocabulário compartilhado, é uma excelente fonte de comunicaç ão entre a equipe e pode facilitar também na discussão das estimativas. Apenas uma boa metáfora pode ser realmente efetiva.

    13.1 Descobrindo uma boa metáfora Não é fácil encontrar uma metáfora útil para todo sistema [35]. Ela é repre- sentada por um domínio bem entendido por todos (domínio fonte), para des- crever os objetos e o funcionamento do domínio do sistema (domínio alvo).

    Descobrir uma metáfora é uma tarefa criativa; o segredo está em achar um domínio fonte que facilite o entendimento do domínio alvo. Pelo fato de todas serem inexatas, reexamine continuamente a metáfora atual, já que ela pode possuir uma extensão maior ou ser inadequada; esteja pronto para

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    Casa do Código Capítulo 13. Metáfora de sistema deixá-la caso isso ocorrer [19].

    Joshua Kerievsky define os três Is da metáfora: Iluminaç ão, Inspiraç ão e Integridade [35]. Uma boa metáfora auxilia a iluminar odesign, inspirar novas ideias e ajudar a sentir que o projeto do sistema está coerente, encaixando-se bem em conjunto. Deve-se buscar uma que contenha esses três itens.

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    Capítulo14 Reuniãodiáriaempé “Ter as melhores ideias, o código mais afinado, ou o pensamento mais pragmático é, em última instância, estéril, a menos que você possa se comunicar com outras pessoas.”

    –Andy Hunt & DaveThomas Você já participou de reuniões longas e improdutivas? A resposta é tão óbvia que até parece uma pergunta boba. Reuniões estão no topo da lista de coisas entediantes que desperdiç am o tempo da maioria dos desenvolvedores.

    Para o time no XP, as reuniões diárias em pé do inglêsDaily Stand Up Meetingsão focadas e rápidas, ocorrem no começo do dia e duram até quinze minutos. Seu formato físico é simples: todos de pé formam um círculo e cada pessoa tem a sua vez de falar no sentido horário (ou anti-horário). Ela faz com que o time mantenha-se alinhado, trocando conhecimento constantemente.

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    14.1. Time alinhado Casa do Código Ao começar a fazê-las, diversos erros comuns podem ocorrer. Neste capítulo, traremos um catálogo deles.

    14.1 Time alinhado Cada membro do time responde sucintamente três questões básicas:

    • O que eu fiz ontem?

    • O que eu farei hoje?

    • O que há de problemas no meu caminho?

    Dica:vinte segundos por questão e por participante Uma dica é que cada uma das três questões não deva necessitar mais do que vinte segundos para ser respondida [43]. Desse modo, cada par- ticipante não precisa mais que um minuto para falar e um time de dez pessoas levará dez minutos ou menos de reunião.

    O propósito da reunião é a comunicaç ão do time inteiro. Em todo começo de dia, ele comunica seus problemas, suas soluções e promove a colaboraç ão.

    Reuniões curtas com todo o time são mais efetivas do que diversas reuniõescom pedaços dele. O planejamento diário sincroniza seu trabalho e suas ex- pectativas, discutindo-se as tarefas realizadas e as tarefas a realizar.

    14.2 Troca de conhecimento Na reunião diária, cada indivíduo sabe o que o outro está trabalhando e se possui problemas relacionados a isso. Qualquer membro do grupo pode pe- dir e oferecer ajuda ao outro, tanto em dúvidas de negócio, quanto de técnicas.

    Mesmo que cada programador puxe as tarefas das quais tem conhecimento suficiente para desenvolver, algumas virão somente durante seu desenvolvi- mento. Muitas vezes, algo que foi dito na reunião servirá como referência no futuro. Uma boa forma para pedir ajuda é parear (programar em pares) com

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    Casa do Código Capítulo 14. Reunião diária em pé a pessoa referente ao assunto em questão. Assim, o aprendizado e a troca de conhecimento tornam-se constantes e colaborativos.

    14.3 Como começar?

    O ideal é começar as diárias desde o primeiro dia da primeira iteraç ão cri- ada no jogo do planejamento. A cultura de experimentaç ão é essencial para começar, visto que, raramente, uma diária sai certa pela primeira vez em um time recém-formado. Por mais que ele seja excelente, deve-se entender que o grupo está em formaç ão e algumas coisas terão de ser adaptadas e melho- radas. Temporariamente, um alarme pode ser usado para ajudar a lembrá-lo do horário do começo e do fim da reunião. Fique atento aos erros comuns listados a seguir e melhore continuamente as reuniões diárias em pé.

    14.4 Erros mais comuns de uma reunião em pé “Ao longo dos anos, eu tenho desenvolvido uma simples regra: quando a reunião fica entediante, saia.”

    –[ref the-clean-coder A reunião diária em pé não existe para desperdiç ar tempo, mas o con- trário; ela substitui outras reuniões para ganhar-se tempo. Porém, é neces- sário conhecer os erros mais comuns para identificá-los quando ocorrerem.

    O coach deve ter conhecimento suficiente para ajudar o time a detectá-los e resolvê-los.

    Os erros mais comuns em reuniões diárias em pé são:

    •Reunião de status:a diária não é uma reunião destatus reportingpara uma pessoa, tal como um coordenador ou gerente. Caso seja neces- sário, a dica é realizá-la após alguém fazer ostatus reporting, possivel- mente oTracker.

    •Discutir soluções:um dos propósitos dessa reunião é identificar pro- blemas, não resolvê-los. A dica é continuar com a reunião diária, dei- xando a conversa sobre as soluç ão para depois dela.

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    14.4. Erros mais comuns de uma reunião em pé Casa do Código •O time não vê valor:isso pode ocorrer quando um time ágil está se formando. A dica é levantar esse problema na próxima reunião de re- trospectiva do time. Não postergue.

    •Não ter um horário fixo:todos do time precisam saber o horário fixo diário da reunião para segui-lo estritamente. O horário da diária deve ser sagrado. Uma dica é ter o papel do “chato da diária”; uma pessoa eleita para lembrar do horário e dar um toque caso a reunião demore ou perca o foco. Outra dica: um despertador ajuda a lembrar o time.

    •Sem local dedicado:é importante manter um único lugar para que o time faç a a diária, de preferência ao próprio local de trabalho. A dica é fazer a reunião próximo ao quadro de histórias e tarefas para a gestão visual.

    •Não saber ouvir:para uma boa comunicaç ão, é necessário saber falar e também ouvir atentamente. Uma dica é ter umtokenpara chamar a atenção de todos. Ele pode ser qualquer objeto que chame a aten- ção. Se for um objeto engraç ado, fica mais fácil de pedir a atenção de todos. Já vimos equipes utilizando canetas de quadro, apagadores, guarda-chuvas e até garrafa de óleo diesel (em uma empresa de refina- ria).O token é como uma bengala: é para ser temporário até que o time caminhe bem nas diárias.

    •Não fazer a reunião, porque um indivíduo está ausente:é melhor ter uma reunião sem um membro do time do que não tê-la. A dica é simples: apenas faç a a reunião.

    •Não ficar de pé:uma dica de produtividade é fazer com que todos os participantes fiquem de pé na reunião para que ela seja rápida e tenha foco. Isso faz com que as pessoas prestem mais atenção nas outras. Reu- niões improdutivas com elas sentadas fazem com que seja confortável a participaç ão. Caso ela perca o foco, as pessoas ficarão cansadas e logo vão querer dar um jeito de realinhar e finalizá-la.

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    Casa do Código Capítulo 14. Reunião diária em pé Lembrete!

    A comunicação é o maior propósito do time XP na reunião em pé diária.

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    Capítulo15 Possecoletiva “Myyy PRECIOUSSS.”

    –Gollum, no filme O Senhor do Anéis Posse coletiva é uma prática indispensável no XP, pois envolve colabora- ção, comunicaç ão e feedback. Com a posse coletiva, qualquer membro ou par do time pode implementar uma funcionalidade, arrumar um bug ou refato- rar em qualquer parte do código, a qualquer momento. No XP, todos têm a responsabilidade pelo sistema. Isso encoraja cada membro do time a sentir- se responsável pela qualidade do todo. É claro que nem todos saberão sobre todas as partes igualmente, mas todos saberão, ao menos, um pouco de cada parte do sistema.

    O termo original no livro do eXtreme Programming [6] é collective ow- nershipe não apenascode ownership, porque todos os artefatos no desenvol- vimento são de posse coletiva do time, não só o código. Além dele, a suíte de

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    15.1. My precious! Casa do Código testes é também de propriedade coletiva, assim como o ambiente de integra- ção contínua e os executáveis do build.

    Quando um par do time encontra uma oportunidade de melhorar o có- digo, ele pode tranquilamente refatorar e melhorar seudesign. A posse cole- tiva gera bastante sinergia com as outras práticas do XP, e o versionamento com a integraç ão contínua avisará a todos o que está sendo alterado.

    O trabalho em time com a posse coletiva encoraja a difusão de ideias e de conhecimento. A programaç ão em par ajuda a distribuir esse conhecimento por meio do aprendizado entre os membros do grupo, deixando a posse cole- tiva mais refinada. Porém, para tudo isso funcionar, é necessário que nenhum integrante ache que é o dono de partes do sistema. É preciso colaboraç ão.

    15.1 My precious!

    Você assistiu ao filmeO Senhor dos Anéis? O personagem Gollum (ou Sméa- gol) chamava o anel demy precious(em português, “meu precioso”). Não faç a isso com oseucódigo. Deixe seu time colaborar! O objetivo é evitar as ilhas de conhecimento, reduzindo o risco de depender apenas de uma pessoa. A posse coletiva é um benefício para todos os membros (cada um poderá sair de férias ou tirar uma folga com mais tranquilidade por não dependerem tanto dele, por exemplo).

    Quando a posse não é coletiva, somente uma pessoa é dona do código e os programadores devem submetê-lo para revisão e aprovaç ão. Isso é, basi- camente, o oitavo desperdício no Lean [41], que é relativo ao capital humano e à criatividade dos funcionários. Consequentemente, isso gerará diversos outros desperdícios: espera (o time aguardará a revisão do dono do código); transporte (enviar o código ao dono); defeito (nem toda a decisão do dono será a melhor); superprocessamento (a revisão para controle pelo dono do código); e estoque (a fila de itens a revisar pelo dono).

    Uma pessoa é notavelmente um gargalo no time ou no processo quando não consegue atender todas suas demandas e cria estoque de tarefas, nas quais ninguém pode ajudar. E atenção: qualquer membro poderá sair da empresa a qualquer momento, o que pode impactar no negócio do cliente.

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    Casa do Código Capítulo 15. Posse coletiva Reflexão!

    Faça uma reflexão: quantas pessoas são necessárias faltar ao trabalho para que o sistema não possa mais ser desenvolvido? Quanto menor o número, pior será a situaç ão. A posse coletiva aumenta esse número ao máximo, ou seja, ao tamanho da equipe.

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    Capítulo16 Padrãodecodificaç ão “A quantia de tempo gasto lendo código versus escrevendo é bem mais de 10 para 1. Então, fazer o código mais fácil de ler, o torna mais fácil de escrever.”

    –Robert C. Martin Pelo fato de todos no time XP estarem trabalhando juntos em cada parte do sistema, refatorando código e trocando de pares frequentemente, não se pode haver diferentes formas de codificaç ão. Um padrão torna-se necessário, pois deve facilitar a comunicaç ão entre o time, encorajando a posse coletiva, e evitando problemas na programaç ão em pares e na refatoraç ão.

    O padrão deve ser estabelecido e concordado pelo time, pois faz com que todos o utilizem efetivamente. Caso contrário, a equipe ficará insatisfeita e evitará ao máximo seu uso. Sua existência vale muito mais do que a sua forma, porque ele pode ser revisto e evoluído de acordo com seu uso.

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    16.1. Pequenos projetos também se beneficiam? Casa do Código Algumas linguagens de programaç ão já propõem padrões de codificaç ão, e também é comum uma organizaç ão ou um produto estabelecê-los. Na lin- guagem Java, a Sun estabeleceu em 1997 oJava Code Conventions(Conven- ções de Código Java) [46], válido até os dias atuais. A Google define seus pró- prios guias de estilos para diversas linguagens, como: C++, Java, Objective-C, Python, Shell, HTML/CSS, JavaScript, e Lisp [29]. O kernel do Linux também define seu estilo de codificaç ão [58].

    Imagine centenas ou milhares de programadores produzindo código para um único software sem padronizaç ão? Seria o caos! O kernel do Linux prova- velmente teria tantosbugsque se tornaria inutilizado. O Free Software Foun- dation também define padrões de codificaç ão para seus programas GNU [21], descrevendo o melhor uso da linguagem C, padrões para interfaces, para li- nha de comando, para documentaç ão e para asreleases.

    Ok, esses são projetos grandes. Mas e os projetos pequenos? É o que discutiremos logo a seguir.

    16.1 Pequenos projetos também se beneficiam?

    Certamente, pequenos projetos com times pequenos se beneficiarão com pa- drões de codificaç ão. Ok, alguém ainda pode não ter se convencido e pensar que isso é necessário apenas para grandes projetos. Veja a seguir como um pequeno código pode causar problemas.

    Falta de padronizaç ão de código Sem uma padronizaç ão, um programador pode fazer tranquilamente qualquer um dos quatro códigos mostrados na sequência para calcular o mó- dulo de um número na variávela(o péssimo nome é proposital não te- mos um padrão nesse momento). Esses quatro exemplos vêm da combinaç ão de duas variações: ter uma condiç ãoifcom o bloco interno de código na mesma linha ou não, e ter chaves ou não.

    Condição com bloco interno na mesma linha:

    •Com chaves:

    if(a<= 0) {a= -1 *a; }

    Página 104

    Casa do Código Capítulo 16. Padrão de codificaç ão •Sem chaves:

    ifa a= -1 *a; Condição com bloco interno na próxima linha:

    •Com chaves:

    if(a<= 0) { a= -1 *a; } •Sem chaves:

    if(a<= 0) a= -1 *a; Ok, sem muitos problemas até então, pois fizemos apenas duas variações nesse pequeno trecho de código. Porém, e se variarmos em mais formas? Se as chaves serão indentadas ou não, se teráelse, se usaremos nomes de va- riáveis sem significado (letraa) ou não. Com isso, teremos mais 3 tipos de variações, totalizando 5 tipos em 32 formas de codificaç ão. Além disso, cer- tamente existem outras mais. Programadores têm suas preferências de estilos ao programar, e essa variabilidade tenderá ao infinito. Então, sem uma pa- dronizaç ão de código, haverá retrabalho, discussão e estresse, mesmo em um pequeno projeto.

    16.2 Como definir?

    Antes de tudo, tente começar com algo que já exista. Pesquise se há um padrão de codificaç ão na sua empresa ou se há algum definido pela linguagem ou tecnologia utilizada. Caso positivo, comece por isso, permitindo que o time revise e aprimore-o. Caso não exista, reúna o grupo inteiro para defini-lo.

    Ninguém melhor que ele próprio para padronizar seu próprio código.

    Para descrever um padrão de código, diversos itens podem ser conside- rados:

    Página 105

    16.2. Como definir? Casa do Código • Nomenclatura de variáveis; • Nomenclatura de métodos; • Nomenclatura de classes; • Nomenclatura de pacotes; • Indentaç ão da tabulaç ão; • Indentaç ão de chaves; • Indentaç ão das estruturas condicionais; • Uso de parênteses em expressões; • Uso de letras maiúsculas e minúsculas; • Uso deelsenoif; • Uso dedefaultnoswitch; • Uso de tratamento de exceções; • Uso de estruturas de dados específicas; • Importaç ão de classes e bibliotecas; • Diretrizes de Orientaç ão a Objetos; • Uso de padrões de projeto; • Boas práticas de programaç ão; • Comentários de código; • Comentários noscommits; •Logging; • Detalhes específicos da linguagem de programaç ão; • Detalhes específicos do ambiente de desenvolvimento.

    Página 106

    Capítulo17 Programaç ãoempar “Dados olhos suficientes, todos os erros são óbvios.”

    –Lei de Linus, Eric Steven Raymond Sabe-se que revisão por pares (peer review ) é uma boa prática de desen- volvimento que aumenta a qualidade do software e a colaboraç ão no time.

    Visto que é produtivo, que tal programar e revisar em pares o tempo inteiro?

    No XP, todo o código de produç ão é criado por programaç ão em par (pair programming). Isso significa ter duas pessoas piloto e copiloto trabalhando juntas em apenas um computador, com foco em uma única tarefa e ao mesmo tempo. O que o XP indica é programar em par quando o código de produç ão for escrito. Não necessariamente se deve programar em par 100% do tempo, pois atividades, como pesquisas e leituras, não têm essa necessidade.

    Os nomes dos papéis de um par vêm da metáfora da aviaç ão: piloto e copiloto (ou navegador). O piloto programa, enquanto o copiloto acompa-

    Página 107

    17.1. Diversos benefícios Casa do Código nha e cuida de tudo o que está sendo realizado, pensando em casos de testes, desde o padrão de codificaç ão até questões de arquitetura. A troca de papéis é essencial para colaboraç ão e partilha de conhecimento.

    Trabalhar dia a dia ao lado de um colega exige habilidades sociais que levam tempo em aprender, porém aumenta a cooperaç ão no time, indepen- dente do status da função de cada integrante. Programaç ão em par não é mentoria, uma vez que é um trabalho colaborativo entre ambas as partes, in- dependente de terem muita diferença nas experiências. Não é aceitável dizer O design que você fez possui um erro, mas sim O design que nós fizemos possui um erro.

    Nas seções deste capítulo, falaremos sobre os diversos benefícios desse tipo de programaç ão, assim como discutiremos o que gestores podem pensar sobre seu custo. Veremos também sobre a pressão do par durante o desenvol- vimento, o nivelamento do conhecimento entre a dupla e como começar (com dicas sobre pareamento e o ambiente de trabalho). Além disso, pergunto: por que não trabalhar em par em todos os tipos de tarefas? 🙂 17.1 Diversos benefícios Diversos benefícios são conhecidos nopareamento[62]:

    •Revisão de código contínua:muitos erros são pegos quando eles es- tão sendo codificados, em vez de serem descobertos por um testador, tornando a quantidade de erros consideravelmente menor; •Discussão contínua da solução:o design é aprimorado e o código fica mais sucinto; •Afinamento do par:o time resolve problemas mais rapidamente por estar coeso também em pares; •Aprendizagem:as pessoas aprendem significativamente sobre o sis- tema e sobre engenharia de software; •Gestão do conhecimento:o projeto acaba com várias pessoas enten- dendo cada pedaço do sistema;

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    Casa do Código Capítulo 17. Programaç ão em par •Trabalho colaborativo:os indivíduos aprendem a trabalhar em time e a conversar mais frequentemente, dando mais fluxo à informaç ão e à dinâmica do grupo; •Motivaç ão:as pessoas apreciam mais o seu trabalho e o trabalho de todos.

    17.2 Um desenvolvedor pelo preço de dois?

    O quê? Dois programadores fazendo o trabalho de um? De modo algum!Isso é o que é dito geralmente por quem não conhece a produtividade e os bene- fícios da programaç ão em par, ou por pessoas que ainda pensam no processo fordista de ter-se apenas um funcionário por estaç ão de trabalho. Produzir softwares é uma atividade complexa e não se deve aplicar processos fabris.

    O coach XP deve ficar atento à organizaç ão do ambiente, tratar da mudança com a visão gerencial e harmonizar os relacionamentos humanos.

    1 + 1 > 2. Duas pessoas trabalhando em um único computador produzirá mais que duas pessoas trabalhando separadas, já que isso aumenta o foco, e também gera qualidade e troca de conhecimento. Com um breve tempo, as vantagens já surgirão, basta acreditar no potencial da equipe. Quem pratica sente seus benefícios.

    17.3 Apressão do par Você já ouviu falar em pressão do time? Isso acontece quando se trabalha com somente uma meta. As pessoas dependem de você, e você delas. Caso alguém não colabore na meta, o próprio time vai naturalmente pressioná-la; ou a própria pessoa se cobrará de alguma forma.

    No trabalho em par, isso não é diferente. Cada membro tem o compro- misso de fazer um bom trabalho. Isso gera maior concentraç ão, incentiva o bom trabalho e aumenta a responsabilidade. Revezar frequentemente faz com que cada um respeite o outro, tratando a pressão como algo bom e não como um problema.Jogue limpo com o seu par, você dependerá dele.

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    17.4. Nivelando o conhecimento Casa do Código 17.4 Nivelando o conhecimento O aprendizado pela troca de conhecimento está na essência da programaç ão em pares. O programador que souber menos logo aprenderá com o mais ex- periente, podendo aprender uma tecnologia, um framework, um algoritmo, um padrão de projeto, uma história de usuário, ou qualquer componente do desenvolvimento de software. O nivelamento de conhecimento é um resul- tado intrínseco dopareamento.

    17.5 Como começar?

    O segredo para começar é ter um clima de experimentaç ão, entendendo que algumas coisas não funcionarão de início e precisarão de melhoria. No jogo do planejamento, histórias e tarefas podem ser elencadas para serem desen- volvidas em pares. Na retrospectiva, o time reflete sobre os benefícios trazidos e o que deve ser melhorado nopareamento.

    Uma boa dica para fazer acontecer esse trabalho em par é limitar o desen- volvimento a um número de tarefas menor que o de programadores. Assim, sempre haverá, ao menos, um programador impedido de pegar uma tarefa, então ele precisará parear com um outro. Utilizando um quadro de Kanban, basta aplicar o limite noWIP(do inglês,Work in ProgressTrabalho em Pro- gresso).

    Dica:revise em pares quando não parear Mesmo que algumas atividades não sejam realizadas em pares o tempo inteiro, utilize sempre a revisão em dupla. O modo mais efici- ente é o de rever o código dessa formaantesde enviá-lo para obranch padrão. Isso resulta um código totalmente revisado que será integrado no seu servidor. Reexaminar depois pode perder a prioridade e gerar re- trabalho. Aproveite também para usar a revisão não apenas no código, mas também em tudo o que é útil para o desenvolvimento.

    Página 110

    Casa do Código Capítulo 17. Programaç ão em par 17.6 Dicas para aprimorar a programação em par Que tal experimentar essas abordagens?

    •Vamos tentar sua ideia primeiro:alguém da dupla sugere começar pela ideia de soluç ão do outro integrante. Essa abordagem cria um clima de respeito por entender que as soluções de cada um serão ex- perimentadas e melhoradas.

    •Pensar alto:em vez de o piloto ficar olhando para o código e pensando sozinho, ele fala o que está pensando. Isso ajuda o copiloto a entender o que está sendo feito.

    •Regra dos dez segundos:muitas vezes o piloto está em um raciocínio aprimorado e não linear. Por essa razão, o copiloto deve respeitar esse momento e aguardar cerca de dez segundos para intervir. Essa dica é muito boa para não quebrar o raciocínio.

    •Revezar por ciclo de tempo:revezar o papel de piloto e copiloto é es- sencial. Para forçar a troca, o par pode colocar um alarme para desper- tar no final do ciclo de tempo. Esse ciclo não pode ser nem muito curto, nem muito grande. O par saberá o tempo certo, que normalmente varia de dez minutos a uma hora. A Técnica Pomodoro é uma forma efici- ente de revezar o par, controlar o tempo e ter foco. O par desenvolve o software a cada vinte e cinco minutos, e faz um intervalo curto de três a cinco minutos. A cadapomodoro, o copiloto assume o lugar do piloto e vice-versa. A cada quatropomodoros, o intervalo é mais longo, de vinte a trinta minutos.

    •Revezar por ciclo de TDD:revezar por tempo pode quebrar o raciocí- nio do piloto por parar no meio da escrita. Revezar por ciclo de TDD (vide capítulo19) torna interessante a linha de raciocínio seguida. Uma bela variaç ão é que o copiloto assuma na fase de codificaç ão [12], e não na de escrita de testes, fazendo com que um escreva o teste para o outro programar e refatorar.

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    17.7. O ambiente de trabalho Casa do Código 17.7 Oambiente de trabalho Trabalhar fisicamente em pares não exige muita infraestrutura, sendo sufi- ciente apenas um computador configurado normalmente. Para que os pares trabalhem juntos a distância ou sem um espaço físico adequado, existem di- versas ferramentas de trabalho remoto com compartilhamento de tela e de acesso remoto de áudio e vídeo.

    Cuide do espaço físico. A mobília pode dificultar ficar lado a lado pro- gramando (por exemplo, em mesas de canto ou em formato de ‘L’). Os pro- gramadores terão dores no corpo depois de um dia de programaç ão em pares com pouca ergonomia. Uma dica é adaptar o espaço; melhor ainda se houver estações de programaç ão em par, adicionando um teclado, um mouse e um monitor o copiloto, o que é mais favorável para a ergonomia do trabalho.

    17.8 Especificar, projetar, trabalhar, tudo em par Mesmo que essa prática do XP chame-seprogramação em pares, o trabalho como um todo pode ser realizado em dupla. Um programador pode parear com o cliente para tirar dúvidas; o cliente pode parear com um testador para escrever bons testes de aceitaç ão; e um programador pode parear com um testador para discutir alguns testes unitários.

    Dica:pareamento em tudo!

    Somos tão adeptos do trabalho em par que pareamos em atividades além do desenvolvimento de software. Lecionados cursos em par, pales- tramos em eventos em par etc. Sabemos que, assim, um curso ou uma palestra tem muito mais qualidade, motivaç ão e troca de conhecimento.

    Então, que tal começar a parear também?

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    Capítulo18 Refatoraç ãodecódigoparaalta qualidade “Qualquer tolo pode escrever código que o computador possa entender. Bons programadores escrevem código que humanos possam entender.”

    –Martin Fowler Você se lembra das aulas de matemática sobre fatoraç ão? O objetivo era aprender como fatorar uma fraç ão ou equaç ão matemática. Por exemplo, sim- plificar a expressão2*x+2*ypara sua expressão fatorada2*(x+y).

    Pois bem, a refatoraç ão tem o mesmo propósito na codificaç ão. Com ori- gem na Orientaç ão a Objetos, é também chamada derefinamento incremental e mantém a semântica da funcionalidade, alterando apenas odesign.

    Uma refatoraç ão é uma mudança feita na estrutura interna do software que o faz ficar mais fácil de entender e mais barato de modificá-lo, sem mu-

    Página 113

    18.1. Refatore impiedosamente Casa do Código dar seu comportamento observável [23]. Obter essa simplicidade não é algo fácil, por isso a fazemos por meio de uma série de pequenas alterações, uma a uma sem alterar esse comportamento. Atenção: refatoraç ão não é um ato de reescrever código.

    Deve-se pedir permissão para refatorar? Acreditamos que não. A quali- dade é importante no software, e você é o profissional que decide sobre o uso da refatoraç ão. Por essa razão, ela está embutida na estimativa do desenvolvi- mento. Refatorar é um investimento na qualidade do código e não pode ser visto como retrabalho.

    Quais são seus benefícios?

    • Economiza tempo e aumenta a qualidade; • Melhora o design do software; • O código torna-se mais legível e reutilizável; • Fica mais fácil encontrar defeitos; • Ajuda você a programar mais rápido.

    A abordagem do XP é refatorar impiedosamente; ou seja, não se opta por isso. Falaremos disso a seguir, bem como sobrebad smellsde código.

    Dica:papel do cleaner Tenha alguém no time XP com o papel docleaner. Isso auxilia o time a criar a cultura de refatoraç ão.

    18.1 Refatore impiedosamente Refatorar não é uma tarefa opcional. Escrever código já na primeira vez com um excelente design é difícil. Quando você pensar em refatoraç ão, criará es- tratégias para a codificaç ão e melhorias no software. Pensando no time, a posse coletiva de código (capítulo15) é importante para que qualquer indiví- duo sinta-se confortável para refatorar.

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    Casa do Código Capítulo 18. Refatoraç ão de código para alta qualidade Não deixe para refatorar apenas quando se utiliza TDD, pois existem ou- tros momentos em que você pode fazê-lo, como:

    • Ao adicionar uma função; • Ao consertar um defeito; • Para facilitar o entendimento; • Em revisões de código; • Regra de três: na primeira vez que você fizer algo, apenas faç a. Na se- gunda vez, a duplicaç ão surgirá, mas mantenha assim. Na terceira vez, refatore.

    Dica:pense no próximo!

    Escreva o código para pessoas, não apenas para o compilador. Seu time agradecerá e alguém no futuro certamente ficará feliz em ver um bom código estruturado.

    18.2 Bad smells de código Sabemos que alguns tipos de código são difíceis para alterar, como: código com lógica duplicada ou complexa, código ilegível ou código com compor- tamento adicional e desnecessário. Estes comumente possuem muitosbad smells(maus cheiros), também chamadoscode smells(cheiros de código). Po- demos dizer que se podem descobrir rapidamente osbad smellscom uma breve revisão do código.

    Os maus cheiros podem estar nos níveis de classe, de método ou de atri- buto. A refatoraç ão é a remoção da duplicaç ão e decode smells. Duplicaç ão é sinal de código sujo, de que há mais código do que o necessário em relaç ão a classes, métodos e variáveis. Obter o código limpo (clean code) é o objetivo da refatoraç ão, pois ele fica legível, com alta coesão, baixo acoplamento e sem maus cheiros.

    Alguns exemplos decode smellsa serem refatorados são:

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    18.2. Bad smells de código Casa do Código • Uma classe ou método muito longo; • Uma classe que utiliza muitos métodos de outra classe; • Uma classe que faz muito pouco; • Subclasses muito semelhantes; • Nome de variável não comunicativo; • O não tratamento de uma exceção; • Código duplicado; • Código inútil.

    Uncle Bob (Robert C. Martin) lista em seu livro,Código limpo[42], diver- sosodores; pérolas; heurísticas sobre problemas de comentários e de ambiente de build; e testes gerais de nomenclatura e de testes. Vale a pena a leitura; é muito recomendado para quem deseja fazer um código realmente bom.

    Dica:catálogos de refatorações Martin Fowler mantém na internet um catálogo de refatorações bas- tante completo e detalhado. Nele, você encontrará refatorações, como:adicionar um parâmetro, extrair uma superclasse, mover um método,trocar um array por um objeto e muito mais. Confira-o em [26].

    Além disso, Joshua Kerievsky disponibiliza em seu livro,Refatoração para padrões, uma lista bastante detalhada de como refatorar para pa- drões [34].

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    Capítulo19 TDD:DesenvolvimentoGuiado porTestes “Eu não sou um excelente programador; eu sou apenas um bom programador com excelentes hábitos.”

    –Kent Beck O TDD (do inglêsTest-driven DevelopmentDesenvolvimento Guiado por Testes) é uma técnica para construç ão de software que guia seu desenvolvi- mento por meio da escrita de testes. Sua essência está em seumantra: testar, codificar e refatorar (veja na imagem a seguir). Essa técnica surgiu a partir da refatoraç ão, dando base para guiar a codificaç ão. TDD gera aprendizado, porque ajuda a aprender boas práticas de programaç ão e a criar testes auto- matizados.

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    Casa do Código Fig. 19.1: Mantra do TDD: testar, codificar e refatorar Mas espere um pouco! Escrever testes antes de codificar? Sim, exata- mente! No TDD, primeiramente é escrito o código de teste e depois (somente depois) o de produç ão. Dessa forma, a codificaç ão será guiada por testes e o código de produç ão estará coberto por eles. Os testes guiarão o desenvolvi- mento. É uma mudança de paradigma que vale a pena conhecer.

    Joshua Kerievsky traz a visão desse mantra como um diálogo [34]:

    •Pergunta:você pergunta ao sistema por meio de um teste.

    •Resposta:você responde escrevendo código que passa no teste.

    •Refinamento:você refina a pergunta consolidando ideias, removendo itens desnecessários e clarificando ambiguidades.

    •Repetição:você mantém o diálogo fazendo novas perguntas.

    Na agilidade, trabalhamos com ciclos de trabalho em todos os níveis do projeto. No nível do negócio, utilizamos ciclos de entregas e de iterações para o desenvolvimento de software; no nível do trabalho em equipe, trabalhamos com ciclos em reuniões diárias; e no da codificaç ão, o TDD traz ciclos de trabalho para desenvolver as funcionalidades incrementalmente. Cada um

    Imagem 1 da página 117 (sem descrição)

    Página 118

    Casa do Código Capítulo 19. TDD: Desenvolvimento Guiado por Testes dura alguns minutos: adiciona-se um teste, fazendo-o funcionar com código de produç ão e refatorando-o.

    Sobre os benefícios do TDD, Maurício Aniche fez um compilado de re- sultados em pesquisas sobre isso [4]. Eles são bastante convincentes no uso de TDD:

    • Programadores produziram código que passaram em aproximada- mente 50% mais testes caixa-preta do que os que não utilizavam; • Reduç ão de 40-50% na quantidade de defeitos e um impacto mínimo na produtividade; • 87,5% dos programadores acreditam que facilitou entender os requisi- tos; • 95,8% acreditam que TDD reduziu o tempo gasto comdebug; • 78% acreditam que aumentou a produtividade da equipe; • 92% acreditam que ajuda a manter um código de maior qualidade; • 79% acreditam que promove um design mais simples.

    19.1 Padrões deTDD Para detalhar o TDD, Kent Beck [8] define quatro classes de padrões: padrões gerais de TDD, padrões de teste para TDD, padrões de barra vermelha, e pa- drões de barra verde. Vamos apresentá-las ao longo deste capítulo.

    Padrões gerais de TDD:

    • Teste seu software com testes automatizados; • Um teste não deve afetar a execuç ão do outro; • Mantenha uma lista de testes; • Escreva um teste antes de escrever código de produç ão; • Comece a escrita do teste pelo métodoassert(…);;

    Página 119

    19.1. Padrões de TDD Casa do Código • Os dados de testes devem ter significados evidentes.

    Padrões de teste para TDD:

    • Quando escrever casos de teste grandes, comece com sua menor parte que faç a quebrar; • Quando testar recursos caros ou complicados, utilize constantes que si- mulem o comportamento desses recursos (com estratégias dedummy, stub,spy,fakeemock); • Quando estiver programando sozinho, deixe o último teste quebrado.

    Quando você voltar a programar, ele dirá onde você parou.; • Quando estiver programando em time, deixe todos os testes rodando.

    Seu grupo precisará ter todos os testes rodando.

    Os três passos domantra do TDDsão descritos a seguir.

    Passo 1: escrever um teste que falhe Feedback ao programador é um ponto-chave no XP e é guiado por bons testes automatizados. Aí está a importância de automatizá-los: ter um feed- back, uma resposta rápida para guiar o desenvolvimento do software. Sua automatizaç ão é um investimento a curto e longo prazo, pois guia a codifica- ção e aumenta a qualidade do software a longo prazo.

    Uma dúvida bastante comum é se o TDD faz uso apenas de testes de uni- dade. A resposta é negativa, porque ele é ortogonal em relaç ão a ele. Estes verificam unidades de comportamento. O TDD utiliza, principalmente, tes- tes de unidade, mas também pode usar testes funcionais e de aceitaç ão para guiar o desenvolvimento das funcionalidades.

    Para facilitar sua escrita são utilizados frameworks xUnit: JUnit (Java), NUnit (.NET), CPPUnit (C++), PHPUnit (PHP), e mais uma grande diversi- dade dessas ferramentas. As expressões “barra vermelha” (Red bar ) e “barra verde” (Green bar) surgiram desses frameworks, pois são avisos visuais em uma barra colorida integrada no ambiente de desenvolvimento. A vermelha

    Página 120

    Casa do Código Capítulo 19. TDD: Desenvolvimento Guiado por Testes é o resultado de execuç ão de um ou mais testes falhando; já a verde é o resul- tado da execuç ão de todos os testes passando.

    Para escrever um teste que falhe (barra vermelha), Kent Beck define os padrões:

    • Escreva um teste que gere aprendizado e que se esteja confiante para implementar; • Inicie com um teste para uma operaç ão que não faz nada; • Peça explicações e esclarecimentos por meio dos testes; • Escreva testes para aprender o que um software externo faz; • Anote os outros testes que surgirem para não perder o foco do atual; • Quando houver um defeito encontrado, escreva um teste para apontar obug.

    Passo 2: escrever código funcional para rodar o teste Agora, com um teste já falhando, é hora de escrever o código de produç ão para fazê-lo passar (barra verde). Dessa forma, o código de produç ão ficará praticamente todo coberto por testes. Neste segundo passo, o objetivo é fazer o código passar, sem se preocupar tanto com o seu design, porque isso será feito na próxima etapa: a refatoraç ão.

    Ao usarmosbaby steps(passos de bebê), o código é produzido até dar barra verde. Rode os testes constantemente. Osbaby stepsajudarão a verificar cada passo, você terá feedback contínuo deles. Entregue frequentemente no repositório de código (algumas vezes ao dia). Todos eles devem estar rodando para enviar o código ao repositório; a integraç ão contínua garantirá isso.

    Padrões de barra verde para TDD, para fazer rodar o teste quebrado:

    • Retorne uma constante para simular o resultado e, então, transforme-a gradualmente em uma expressão com variáveis; • Transforme os retornos constantes em expressões, após possuir dois ou três exemplos;

    Página 121

    19.1. Padrões de TDD Casa do Código • Implemente diretamente as operações simples; • Quando a implementaç ão usar coleções de objetos, inicie sem coleções e, somente depois, utilize-as.

    Dica:utilize seus baby steps conscientemente Em seu livro sobre TDD, Maurício Aniche traz a dica de que osbaby stepsdevem ser realizados de maneira consciente: o desenvolvedor deve buscar pela soluç ão mais simples (e não necessariamente pela modifica- ção mais simples) [4]. Assim como um bebê, o desenvolvedor deve dar um passo seguro, de acordo com a complexidade do problema que está sendo resolvido.

    Passo 3: refatorar o código “O objetivo do TDD é escrever código limpo que funciona.”

    –Ron Jeffries O propósito do TDD está no design do código; o teste é apenas um efeito colateral (ótimo, por sinal). Agora com o código coberto pelo teste, é hora de melhorar seu design, refatorando-o. Um dos erros mais comuns no uso de TDD está em não refatorar constantemente. Tenha muita atenção nessa parte; se você não a fizer, terá um código mais complexo e não fará TDD.

    Segundo Martin Fowler, um dos gurus da refatoraç ão, esta é uma mu- dança feita na estrutura interna do software para deixá-lo mais fácil de enten- der e barato de modificar, sem mudar seu comportamento observável [23].

    Uma das mágicas do TDD está aqui: o comportamento observável é guiado pelo feedback dos testes! Eles apontarão se a refatoraç ão do código o alterou ou não.

    Cada refatoraç ão deve ser realizada embaby steps; ou seja, não se deve fazer grandes refatorações. O feedback contínuo é essencial para evitar que o comportamento observável não seja alterado. Caso seja, os testes automatiza- dos apontarão o problema. Umbaby stepdeve ser simples, mas não simplório.

    Página 122

    Casa do Código Capítulo 19. TDD: Desenvolvimento Guiado por Testes Assim como em um passo de bebê, você deve dar o maior passo para ir em frente com total segurança.

    Lembre-se de refatorar também seus testes. Eles fazem parte do software, e se não forem refatorados, se tornarão complexos e dificultarão a manuten- ção futura.

    19.2 Show me the code “Talk is cheap. Show me the code.”

    –Linus Torvalds Falar é fácil, mostre-me o código. Ok, vamos começar com um exemplo clássico praticado emCoding Dojos: a conversão de números decimais para romanos. Para isso, escolhemos a linguagem Java e o JUnit para escrever os testes de unidade. Como primeiro ciclo de TDD, vamos converter o número decimal1para romano. Segue o código do teste:

    import.junit.Assert.*; import public class @Test public void assertEquals("I",.converter(1)); } } Esse teste falhará a própria compilaç ão do código, pois inexiste a classe RomanNumberConverter, e muito menos seu método converter. Uma dica é utilizar a IDEIntegrated Development Environment(Eclipse, por exem- plo) para criar as classes e métodos automaticamente, a partir dos erros de compilaç ão. Precisamos fazer esse teste compilar com o código a seguir:

    public classRomanNumberConverter { public staticObjectconverter(int i) { return null; } }

    Página 123

    19.2. Show me the code Casa do Código Veja que o código está com uma má aparência, mas já compila e o teste já pode ser executado. Porém, ele falha, pois retornanulle deveria retornar I. Visto isso, faremos o primeiro teste funcionar:

    public class public static converter(int i) { return"I"; } } Nosso primeiro teste passou! Você pode estar achando estranho retornar uma constante, mas calma! Lembre-se dosbaby steps, além da simplicidade no XP. Como regra, deve-se retornar uma constante para fazer funcionar os primeiros testes, apenas depois abstrair em variáveis em uma fórmula.

    Agora, possuímos teste passando, portanto podemos refatorar. Faremos as seguintes refatorações, também com baby steps:

    • Tornar mais sugestivo o nome do método de testetestIpara deveRetornarI; • Mudar o retorno do métodoconverterdeObjectparaString; • Tornar o métodoconverterde classe para um método de objeto (removendo ostatic).

    Eis o código com essas refatorações aplicadas:

    public classRomanNumberConverterTest { @Test public voiddeveRetornarI() { assertEquals("I", newRomanNumberConverter().converter(1)); } } public classRomanNumberConverter { publicStringconverter(int i) { return"I"; } }

    Página 124

    Casa do Código Capítulo 19. TDD: Desenvolvimento Guiado por Testes Lembre-se de rodá-lo a cada pequena refatoraç ão. Desse modo, teremos garantido que não o quebramos.

    Fechamos o nosso primeiro ciclo do mantra do TDD: criamos um teste, fazemo-lo funcionar e o refatoramos embaby steps. Estamos aprendendo o problema. Agora, é o momento de irmos para o nosso segundo ciclo de TDD.

    Hey, atenção! Não saia escrevendo o código funcional! Você precisa de um teste falhando antes de tudo. Ok, então vamos escrever o próximo:

    public class @Test public void assertEquals("I", new().converter(1)); } @Test public void assertEquals("II", new().converter(2)); } } Ah, agora sim temos um teste falhando, então podemos escrever código funcional:

    public class publicint i) { if(i== 1) { return"I"; } else return"II"; } } Esse código está ruim, porém os testes estão rodando. Esses são osbaby steps. O XP foca no necessário e somente o necessário. Agora é hora de refato- rar, melhorando seudesign. Vamos fazer uma pequena refaforaç ão, tornando o nome da variável do métodoconverterdeiparadecimal. Resultando no código:

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    19.2. Show me the code Casa do Código public class publicint decimal) { if(decimal== 1) { return"I"; } else return"II"; } } Acabamos nosso segundo ciclo de TDD. Vamos para o terceiro. Agora você já sabe: primeiro escreva um teste que falhe. Vamos escrever um teste para verificar a conversão do decimal três:

    public classRomanNumberConverterTest { @Test public voiddeveRetornarI() { assertEquals("I", newRomanNumberConverter().converter(1)); } @Test public voiddeveRetornarII() { assertEquals("II", newRomanNumberConverter().converter(2)); } @Test public voiddeveRetornarIII() { assertEquals("III", newRomanNumberConverter().converter(3)); } } Ok, temos o teste falhando para o valor três. Vamos agora criar código funcional. Só que dessa vez, realizaremos obaby stepum pouco maior, come- çando o algoritmo efetivo da soluç ão. Faremos uso da recursividade:

    public classRomanNumberConverter { publicStringconverter(int decimal) { if(decimal== 0) { return"";

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    Casa do Código Capítulo 19. TDD: Desenvolvimento Guiado por Testes } return(decimal – 1) +"I"; } } Os três testes estão passando, excelente. Vamos refatorar? Que tal colo- carmos umelsecom chaves nessa condiç ãoif?

    public classRomanNumberConverter { publicStringconverter(int decimal) { if(decimal== 0) { return""; }else{ returnconverter(decimal – 1) +"I"; } } } Ótimo! Testes passando e código refatorado. Temos o terceiro ciclo de TDD completo.

    Para não ficar exaustivo esse exemplo, vamos adiantar alguns ciclos de TDD. Fizemos mais um ciclo de TDD para cada um dos números decimais:

    5, 6, 7, 8, 9, 10, 28 e 34. O código de testes resultante desses ciclos ficou dessa forma:

    public classRomanNumberConverterTest { @Test public voiddeveRetornarI() { assertEquals("I", newRomanNumberConverter().converter(1)); } @Test public voiddeveRetornarII() { assertEquals("II", newRomanNumberConverter().converter(2)); } @Test public voiddeveRetornarIII() { assertEquals("III",

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    19.2. Show me the code Casa do Código new().converter(3)); } @Test public void assertEquals("IV", new().converter(4)); } @Test public void assertEquals("V", new().converter(5)); } @Test public void assertEquals("VI", new().converter(6)); } @Test public void assertEquals("VII", new().converter(7)); } @Test public void assertEquals("VIII", new().converter(8)); } @Test public void assertEquals("IX", new().converter(9)); } @Test public void assertEquals("X", new().converter(10)); } @Test public void

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    Casa do Código Capítulo 19. TDD: Desenvolvimento Guiado por Testes assertEquals("XXVIII", new().converter(28)); } @Test public void assertEquals("XXXIV", new().converter(34)); } } O código funcional resultante ficou assim:

    public class publicint decimal) { if(decimal== 0) { return""; }else if(decimal<= 3) { return this.converter(decimal – 1) +"I"; }else if(decimal== 4) { return"IV"; }else if(decimal<= 8) { return"V"+this.converter(decimal – 5); }else if(decimal== 9) { return"IX"; }else if(decimal<= 39) { return"X"+this.converter(decimal – 10); } return null; } } Você deve perceber que a funcionalidade ainda não está pronta e o código não está totalmente limpo. Podemos ainda fazer algumas boas refatorações, como: mudar o retorno denullpara umaStringvazia ou criar uma enu- meração para os números romanos.

    Ainda precisamos fazer mais testes. Precisamos verificar casos de erro (quando o decimal for menor que zero), além de verificar as conversões de números maiores com as letras de cinquenta (L), cem (C), quinhentos (D) e

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    19.2. Show me the code Casa do Código mil (M). Sugerimos que você pratique TDD com esse exercício e, de prefe- rência, que complete todos os casos de teste.

    Dica:pratique em umCodingDojo!

    Fazer uma sessão deCoding Dojopropicia um excelente espaço aberto e momento de aprendizado para treinar a programaç ão em pares, TDD, projeto simples e outras práticas do XP. Daniel Wildt tem um post queexplica mais sobre isso em [60].

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    Capítulo20 Integraç ãocontínua “Integração contínua não livra os bugs, mas os tornam dramaticamente mais fáceis de encontrar e de remover.”

    –Martin Fowler Integraç ão contínua (IC) é uma prática, na qual o código que está sendo desenvolvido pelo time é integrado, versionado, construído e verificado di- versas vezes ao dia em um ambiente dedicado. Os programadores XP devem integrar e fazercommitem somente uma versão no repositório de código.

    Cada integraç ão é verificada por umbuildcom testes automatizados, detec- tando erros o mais cedo possível [24].

    Essa prática gera sinergia com as outras do XP. Osbuildsdas pequenas entregas são construídos por meio da IC. Ela auxilia na refatoraç ão, pois ve- rificará obuildautomaticamente a cadacommitrealizado no repositório. Em cada um, o padrão de codificaç ão pode ser verificado automaticamente.

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    20.1. Como potencializar os benefícios? Casa do Código A integraç ão contínua é um processo simples que traz muitos benefícios:

    • Aumenta o feedback, a comunicaç ão na equipe e a moral do time; • Todos veem o que está acontecendo; • Previne e descobre os problemas de integraç ão mais cedo; • Reduz riscos e evita a baixa qualidade; • Não é necessário um integrador dedicado para a equipe; • Todos têm acesso à versão mais atualizada; • Auxilia na reutilizaç ão de código: os desenvolvedores terão sempre o código mais atualizado; • Evita problemas demerge, fazendo pequenas integrações ao longo do tempo.

    Para ter tais benefícios de um modo eficiente, é preciso seguir algumas regras que potencializam a integraç ão contínua. Além disso, é necessário a utilizaç ão de ferramentas para as tarefas automatizadas relativas. Para deta- lhar melhor, falaremos dessas regras e de ferramentas nas próximas seções deste capítulo.

    20.1 Como potencializar os benefícios?

    “Quanto maior for a razão aparente para criar um branch, mais você não deveria criar um branch.”

    –Jez Humble Um ambiente de integraç ão contínua precisa estar bem afinado para que gere excelentes benefícios. Para isso, trazemos um compilado de dicas:

    • Tenha um servidor de integraç ão dedicado; • Tenha apenas uma única fonte de repositório de código;

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    Casa do Código Capítulo 20. Integraç ão contínua • O time faz oscommitsnobranchpadrão (head, trunk, master); • Não quebre obuild, toda mudança deve manter o código rodando; • Antes de fazer commit, todos os testes de unidade devem rodar e passar no build em seu ambiente de desenvolvimento local; • Arrume imediatamente osbuildsquebrados; • Automatize obuilde mantenha-o rápido; • Os testes automatizados devem ser rodados com sucesso nobuild, es- pecialmente os testes de aceitaç ão automatizados; • Torne fácil o acesso do últimobuilda todos do time; • Crie penalidades leves e descontraídas para quem quebrar osbuilds; • Automatize o deploy; • Teste em um ambiente clone do ambiente de produç ão; • Não desative a integraç ão contínua quando estiver sob pressão, nessa hora ela terá ainda mais valor.

    Você acha complicado para um time sempre usar integraç ão contínua?

    Pois saiba que o Google e o Facebook mantêm todo o seu desenvolvimento apenas notrunk! É uma questão de disciplina e atitude. Otrunké o prin- cipalbranch, gerando o nome Trunk Based Development(Desenvolvimento Baseado em Trunk) a essa abordagem.

    No Google, em 2010, já havia mais de 5 mil desenvolvedores trabalhando no mesmo repositório diariamente, em mais de 40 escritórios, com mais de 20 alterações por minuto, com 50% da base de código sendo alterada mensal- mente, e mais de 50 milhões de casos de testes executados diariamente [38].

    No caso do Facebook, ele possui trêstrunks: um para o www(web), outro para Android (mobile) e outro para iOS (mobile). Portanto, é bem acessível que um time apenas consiga utilizar integraç ão contínua, certo?

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    20.2. Ferramentas Casa do Código “Vai ter que pagar bala!”

    Quando alguém da equipe for o responsável por ter quebrado obuild, ele deve comprar um pacote de doces para preencher o pote de balas do time. Essa é uma maneira leve e descontraída de evitar que ele seja quebrado por descuidos. O maior problema pode ocorrer quando o pote está cheio e o time não aguenta mais comê-las. 😉 20.2 Ferramentas Antes de falarmos de ferramentas, é preciso estar claro que integraç ão con- tínua é muito mais uma atitude do que apenas o uso de ferramentas. Ferra- mentas servem para dar suporte a um processo; ou seja, uma por si só não faz nada. Algumas das mais utilizadas para essa integraç ão atualmente são:

    o Jenkins (fork do Hudson), o Bamboo e o CruiseControl. Essas ferramentas trabalham em conjunto com as de versionamento, debuild, de qualidade de código e de testes automatizados. Há uma gama delas para cada tecnologia.

    As ferramentas de versionamento controlam o código-fonte, gerenciando as versões do software. Existem dois modelos principais:

    •Modelo cliente-servidor:todas as versões do código ficam centrali- zadas no servidor. Os clientes possuirão apenas a versão de trabalho e executarão comandos sobre o repositório central. Exemplos dessas ferramentas são o Subversion (SVN) e o Concurrent Version System (CVS); •Modelo distribuído:uma cópia integral de todo o repositório de có- digo fica em cada cliente, ou seja, cada um também é um servidor, não sendo necessário ter um central. Exemplos famosos desse modelo de ferramentas são o Git e o Mercurial.

    As ferramentas debuildempacotam os executáveis do software de acordo com as configurações e uma série de tarefas, também gerenciando dependên- cias de bibliotecas. Normalmente, as ferramentas de desenvolvimento (IDEs)

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    Casa do Código Capítulo 20. Integraç ão contínua já têm integraç ão a essas debuild, sendo um processo transparente para o desenvolvedor. Exemplos desse tipo são o Ant, o Maven e o MSBuild.

    As ferramentas de qualidade de código preocupam-se com o seu design.

    Muitos problemas podem ser automaticamente detectados por elas. São os principais tipos:

    • Analisadores de código (por exemplo, o FindBugs e o PMD); • Verificadores de cobertura de código (por exemplo, o JaCoCo e o Code Coverage); • Verificador de padrão de codificaç ão (CheckStyle); • Frameworks de testes de código (JUnit e PHPUnit); • Gerenciador de qualidade de código (Sonar).

    Sobre ferramentas de teste, existem diversas para cada tipo. Para testes funcionais na web, existe o Selenium; para os de desempenho e de carga em Java, o JMeter; de integraç ão em Java, o Arquillian; e de cenários e critérios de aceitaç ão, o Cucumber, o JBehave (Java) e o SpecFlow (.NET).

    Quando obuildfalhar, a ferramenta de IC notificará todos sobre o ocor- rido. O Jenkins possui umpluginbem-humorado em que o Chuck Norris aparece em uma imagem com umacara de quem não gostounem um pouco dobuildcom falha, oufeliz da vidaquando ele foi realizado com sucesso. Veja nas imagens a seguir:

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    20.2. Ferramentas Casa do Código Fig. 20.1: Chuck Norris não gostando nem um pouco que o build falhou.

    Fonte da imagem:https://wiki.jenkins-ci.org Fig. 20.2: Chuck Norris contente que o build foi construído com sucesso.Fonte da imagem:https://wiki.jenkins-ci.org

    Imagem 1 da página 135 (sem descrição)
    Imagem 2 da página 135 (sem descrição)

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    Casa do Código Capítulo 20. Integraç ão contínua Essepluginpode ser encontrado emhttps://wiki.jenkins-ci.org/display/ JENKINS/ChuckNorris+Plugin.

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    Capítulo21 Ritmosustentável “Desenvolvimento de software é uma maratona, não uma sprint.”

    –Robert C. Martin Imagine uma pessoa correndo em uma maratona. O caminho é longo, então a melhor estratégia é correr em um ritmo constante até a chegada. To- dos os corredores profissionais sabem disso. Caso alguém queira correr mais rápido que seu ritmo, em poucos minutos ele estará ofegante e terá que parar para descansar, também perdendo sua concentraç ão na respiraç ão. O mesmo ocorre ao desenvolver software.

    Ter ritmo sustentável é uma regra criada pelo XP para balancear o de- senvolvimento com as demandas do negócio. Todos têm seus ritmos equi- librados: o time XP, o cliente e pessoas envolvidas com o projeto. Utilizar a simplicidade traz soluções mais efetivas ao cliente, mais ainda quando há mais demandas do negócio do que a capacidade do time. A qualidade do software

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    21.1. Velocidade do time Casa do Código é essencial para manter esse fluxo de trabalho normalizado, porque defeitos gerariam retrabalho para as próximas iterações.

    Produtividade em longo prazo é o ponto-chave aqui. Durante uma se- mana ou pouco mais, o time consegue produzir mais trabalhando com horas extras. Porém, a longo prazo é inviável, porque o rendimento vai decaindo semana a semana.

    Dica:culturaLean A dica é buscar a cultura Lean em seu desenvolvimento de software.

    No Lean, a sobrecarga é chamada deMuri, que é gerada pelo desbalan- ceamento de carga (chamado deMura), que, por sua vez, gera diversos tipos de desperdícios (chamados deMuda) [48]. A sobrecarga gera can- saço, que gera desatenção, que gera defeitos, que gera retrabalho: um ciclo que só vai diminuindo a produtividade e fazendo com que o timepossa abandonar outras práticas do XP.

    Planejar o trabalho, de acordo com a velocidade do grupo e em um ritmo de trabalho sem horas extras, auxilia no ritmo sustentável. Vamos falar dissonas seções deste capítulo.

    21.1 Velocidade do time “Os processos ágeis promovem desenvolvimento sustentável. Ospatrocinadores, desenvolvedores e usuários devem ser capazes de manter umritmo constante indefinidamente.”

    –Oitavo princípio do Manifesto Ágil Um bom jogo do planejamento ajuda no ritmo sustentável, uma vez que será o time que dará as estimativas e negociará as entregas com o cliente. Sua velocidade é importante para determinar um planejamento realista, sem des- balanceamento. Para o grupo encontrar sua velocidade, são necessárias algu- mas iterações. No XP, ela é dada emstory points. Existe uma variaç ão grande sobre estimativas, mas o que realmente interessa é que o time a conheça para estabelecer um ritmo sustentável.

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    Casa do Código Capítulo 21. Ritmo sustentável É papel do time proteger-se de trabalho extra. Algo curioso pode acon- tecer com grupos que estão em um excelente ritmo sustentável com entregas de qualidade: a gestão pode ver que ele está indo muito bem e tentarempur- rarmais tarefas, o que pode comprometer o restante do trabalho e começar a produzir entregas atrasadas de baixa qualidade.

    Horas extras é um sintoma gerado por sérios problemas em um projeto [6]. Muitas vezes, a soluç ão mais rápida para um gestor é fazer com que seus funcionários trabalhem mais, em vez de arrumar o problema raiz. Isso vai contra a melhoria contínua, acoberta o problema real e gera novos.

    Dica:planeje e estime todas as tarefas necessárias Faça um planejamento de todas as atividades necessárias com suas es- timativas. Planeje todas as tarefas necessárias para implementar as histó-rias de usuário, com o objetivo de finalizar uma iteraç ão ou uma entrega com todo o trabalho pronto. Além das tarefas de codificaç ão, planeje e estime as de integraç ão, de teste (incluindo automatizados) e de deploy, como também outras importantes. Caso sobrem atividades para a pró-xima iteraç ão, negocie e replaneje o trabalho.

    21.2 40horas semanais “Eu quero estar revigorado e cheio de energia toda manhã, e cansado e satisfeito toda noite.”

    –Kent Beck O conceito de ritmo sustentável iniciou-se com a prática de 40 horas se- manais (40-hour week) no livro de origem do eXtreme Programming[6]. Ron Jeffries abstraiu esse conceito e o renomeou pararitmo sustentável[5]. Curio- samente, há várias décadas, em 1926, Ford já havia estabelecido a jornada de trabalho de 40 horas semanais, pois sabia que o problema seria resolvido com uma boa organizaç ão, e não com mais horas trabalhadas [37]. A imagem a se- guir ilustra a relaç ão da produtividade por semana de trabalho em um ritmo sustentável (40 horas semanais) e insustentável (60 horas semanais, fazendo horas extras).

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    21.2. 40 horas semanais Casa do Código Fig. 21.1: Gráfico de produtividade por semana para o trabalho de 40 horas semanais e para o com horas-extras de 60 horas Pessoas não são máquinas, e desenvolver software não é uma atividade simples. É necessário raciocínio aprimorado para produzir cada funciona- lidade que é diferente da anterior já feita. Programadores não sãomão de obra, mas sim trabalhadores do conhecimento (chamados decérebro de obra).

    Sabe-se que, nos humanos, o cérebro é o órgão que consome mais energia, to- talizando até 20% do total da energia do corpo [57]. Comumente, um dia de trabalho rende pelo trabalho normal de uma semana, assim como o inverso; uma semana inteira não rende nem por um dia normal de trabalho.

    Algumas pessoas têm capacidade de trabalhar em todo seu potencial cri- ativo, atento e confiante em 45 horas por semana, outras em 35 horas, mas raramente alguém conseguirá isso em 60 horas, em longo prazo. Um time cansado trabalhará menos, não importa quanto tempo trabalhem a mais.

    Imagem 1 da página 141 (sem descrição)

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    Capítulo22 IndoalémdoeXtreme programming “É o que você aprende, depois de você saber tudo, o que importa.”

    –John Wooden No capítulo2, já falamos sobreLean Software DevelopmenteScrum, que são complementares ao XP. A ideia deste capítulo é trazer brevemente algu- mas das principais abordagens e práticas para ir além do eXtreme Program- ming. Certamente, há muitas outras, mas já é um bom começo para aprender ou reforçar. Reflita com seu time sobre como esses assuntos poderão auxiliar no desenvolvimento.

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    22.1. Jogos e dinâmicas Casa do Código 22.1 Jogos e dinâmicas Que tal discutir e aprender as práticas do XP de um modo divertido? Com jogos e dinâmicas, seu time pode trocar muito conhecimento sobre esse mé- todo. Na Industrial Logic, em 2001, Joshua Kerievsky desenvolveu cartas de baralho para aprender XP, além de uma lista de jogos com elas [33]. O ba- ralho possui cartasVque representam os valores do XP;Pque retratam os problemas no desenvolvimento de software; eSque são as soluções trazidas pelas práticas do XP (vide imagem a seguir).

    Fig. 22.1: Extreme Programming playing cards Em 2014, com a permissão da Industrial Logic, Jamile Alves e Dionatan Moura traduziram para português e as adaptaram para serem disponibiliza-das em um formato livre para impressão [3]. Assim, você poderá usá-las comseu time. Experimente os jogos de acordo com seu contexto e lembre-se de se divertir! 🙂

    Imagem 1 da página 143 (sem descrição)

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    Casa do Código Capítulo 22. Indo além do eXtreme programming 22.2 Behaviour-D rivenDevelopment(BDD) OBehaviour-Driven Development(BDD Desenvolvimento Guiado por Com- portamento) possui o mesmo propósito do XP: unir as pessoas de desenvol- vimento com as de negócio. O BDD baseou-se no TDD [47], e serve também para análise ágil e teste de aceitaç ão automatizado. Ele utiliza a especificaç ão por exemplos [1], uma abordagem colaborativa para definir requisitos a par- tir de exemplos realistas, em vez de enunciados abstratos. Cada exemplo é entendido por meio de um cenário com dados reais. Uma história de usuário pode possuir diversos exemplos reais de utilizaç ão. Um de cenário poderia ser:

    •Cenário:pesquisandoextreme programmingno Google.

    •Dado queestou na pesquisa do Google •Edigitoextreme programmingno campo de busca •Quandopressiono a tecla Enter •Entãoé exibida a primeira página de uma lista dos websites com con- teúdo relevante sobre o assunto.

    Quando o software possuir essas especificações executáveis, ele terá a do- cumentaç ão viva; ou seja, ela estará conectada diretamente ao código por meio dos testes de aceitaç ão. Ferramentas de frameworks auxiliam a escrita e a execuç ão dos cenários JBehave (Java), Cucumber (Ruby), RSpec (Ruby), SpecFlow (.Net), e Jasmine (JavaScript).

    22.3 Domain-D rivenDesign(DDD) Domain-Driven Design(DDD Projeto Orientado ao Domínio) é uma abor- dagem criada por Eric Evans que conecta a implementaç ão do software a um modelo, em um contexto específico, por meio de uma linguagem ubíqua [19].

    Ela coloca o foco primário do projeto no domínio, além de permitir a co- laboraç ão entre as pessoas técnicas e as especialistas nele, tudo isso em um

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    22.4. Kanban Casa do Código refinamento iterativo. No XP, o DDD é complementar às metáforas de sis- tema e auxilia a comunicaç ão do time para entender melhor sobre o negócio do cliente.

    22.4 Kanban Kanbansignifica “cartão visual” em japonês. Na linha de produç ão de uma fábrica, um kanban acompanha peças ou partes específicas para sinalizar vi- sualmente a entrega de uma determinada quantidade de itens, agilizando o processo.

    No desenvolvimento de software, o sistema kanban auxilia na visualizaç ão do trabalho em andamento e de cada passo na cadeia de valor (da demanda do cliente até estar em produç ão). Ele também permite limitar o trabalho em progresso (WIPWork in Progress), removendo gargalos na produç ão e dando vazão ao trabalho. Ele embasa as decisões no processo, visualiza sua consequência e identifica oportunidade de melhorias no fluxo da produç ão.

    Tudo isso dando base para a produç ão puxada (trabalhar com a demanda atual existente, e não com base em previsões).

    No XP, as histórias de usuário e tarefas vão para o quadro (escritas em cartões ou post-its) e são gerenciadas visualmente. Em termos do Lean, o uso desse sistema catalisa o pensamento Lean na entrega de sistemas de software.

    Para aprender mais sobre ele, sugerimos o livroKanban em 10 Passos, de Jesper Boeg [10].

    22.5 Estimando com planning poker Para estimar as histórias de usuário e conversar sobre elas durante o jogo do planejamento, você e seu time poderão utilizar oplanning poker. É uma téc- nica de dimensionamento e planejamento das histórias por meio de um con- senso do time. Para isso, cada integrante usará um baralho específico e pontu- ará a história; todos farão isso ao mesmo tempo, como em um poker. O grupo deve fazer rodadas de pontuaç ão até chegar em um consenso. O ponto-chave está na comunicaç ão.

    O baralho é baseado na sequência de Fibonacci; possui as cartas de0, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 20, 40 e100(vide imagem a seguir). A razão

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    Casa do Código Capítulo 22. Indo além do eXtreme programming do uso dessa sequência exponencial é relacionada à incerteza porque, quanto maior for a pontuaç ão, maior será a incerteza da estimativa. A unidade de es- timativa é a que o time definiu (story points, dias ideais, tamanhos de camiseta etc.). Para estimar cada história, o grupo deve conversar sobre seus detalhes e o que será necessário para desenvolvê-la. Lembre-se que estimativas são literalmente estimativas: uma aproximaç ão, e não um prazo formal.

    Fig. 22.2: Cartas do baralho de planning poker 22.6 Resolvendo dívidas técnicas Suponha que você precise implementar uma funcionalidade em seu sistemae você possui duas opções: a primeira é a de entregar um código bem feito e refatorado, com um bomdesign, mas que tomará um pouco a mais de tempo; e a segunda é a de entregar rapidamente um código confuso no qual você esperanunca mais tocar, porque as mudanças ali serão cada vez mais complicadas.

    A primeira opção poderá gerar algumas (raras) dívidas técnicas, porém a segunda certamente causará muitas. O XP defende a primeira opção, mas é possível que se comece a usá-lo em um sistema já existente. Por isso, ressal-tamos as dívidas técnicas.

    Dívida é dívida, e de algum modo você terá que pagar. Pensando por um lado ruim, você pagará apenas os juros (cada vez mais altos), que resultamem váriosbugs, assim como atrasos e custos maiores, entrega a entrega. E a dívida não para por aí: seu código ficará cada vez pior, seu time com maisestresse físico e mental, seu cliente insatisfeito, algumas pessoas se demitirão,ou até o sistema parará de vez.

    Imagem 1 da página 146 (sem descrição)

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    22.7. Refatorando também o banco de dados Casa do Código Por um lado pior ainda, elas ficarão tão grandes que o trabalho será ape- nas resolverbugs. Já pensando por um lado positivo, você utilizará a refatora- ção para ir arrumando continuamente as maiores dívidas técnicas, automati- zando testes e resgatando o ritmo sustentável do time, assim como a satisfaç ão do cliente.

    22.7 Refatorando também o banco de dados Refatoraç ão no XP é uma disciplina que se aplica a todo o sistema, inclusive ao banco de dados. Você já pensou no impacto que uma base de dados com um péssimodesigntem? Esse tipo de refatoraç ão pode ser definida como uma mudança disciplinada na estrutura de uma base de dados que não altera sua semântica, porém melhora seu projeto e minimiza a introduç ão de dados inconsistentes [44].

    O princípio decode smellstambém é aplicado a banco de dados, chamado dedatabase smell(mau cheiro de banco de dados). Fabrízio Mello possui um material sobredatabase smellsem [45]. Essa área de refatoraç ão em banco é recente e possui poucos materiais, mas que já são bastante úteis para começar a refatorar o seu.

    22.8 Código limpo Ok, já falamos de código limpo (clean code) nos capítulos 12,19e18, mas a importância é tão grande no XP que vale a pena reforçar essa prática. O livro Código limpo[42] do Uncle Bob (Robert C. Martin) apresenta a disciplina de escrever código limpo, trazendo diversas dicas, como: nomes significativos, funções, comentários, formataç ão, objetos, estruturas de dados, tratamento de exceções, testes de unidade, classes, concorrência e odores de código. E lembre-se sempre: código limpo não é o que mais se refatora, mas o que me- nos se suja.

    22.9 Entrega contínua eDevOps Entrega contínua é um conjunto de princípios e práticas com o objetivo de compilar, testar e liberar software ao cliente de forma mais rápida e frequente.

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    Casa do Código Capítulo 22. Indo além do eXtreme programming Essa abordagem encaixa-se muito bem com as práticas do XP de liberaç ão constante de pequenas versões e de integraç ão contínua. Podemos dizer que entrega contínua também é uma práticaextrema, pois está bastante alinhada com o primeiro princípio do Manifesto Ágil:nossa maior prioridade é satis- fazer o cliente por meio da entrega contínua e adiantada de software com valor agregado.

    Jez Humble e David Farley descrevem os princípios da entrega de software no livroEntrega contínua[20]:

    • Criar um processo de confiabilidade e repetitividade de entrega de ver- são; • Automatize quase tudo; • Mantenha tudo sob o controle de versão; • Se é difícil, faç a com mais frequência e amenize o sofrimento; • A qualidade deve estar presente desde o início; • “Pronto” quer dizer “entregue"; • Todos são responsáveis pelo processo de entrega; • Melhoria contínua.

    Seguindo tais princípios, você terá um processo aprimorado de entrega contínua.

    22.10 Leituras sobre desenvolvimento de soft- ware Ao longo dos capítulos, referenciamos diversos livros relacionados a cada as- sunto do XP. Vá além, lendo e pesquisando esses e outros livros. Procure também séries de livros e editoras especializadas em software. Lê-los é uma grandiosa fonte de aprendizado. Leia bastante e desperte em si a curiosidade em aprender mais e mais.

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    22.11. Artesanato de Software Casa do Código No Brasil, temos a satisfaç ão de possuir uma editora com foco em livros de desenvolvimento de software nas área de Agile, Java, desenvolvimento Web, Mobile, Games e Front-End. Essa editora é a Casa do Código [15]. Seus livros são escritos por autores com renome na comunidade e são revisados por uma curadoria com experiência na área. Com certeza eles o ajudarão a ir muito além do XP.

    Lá existem livros na área de metodologia e tecnologia. Na de metodologia, existem livros sobre agile, startup, Scrum, TDD (com Java, .NET, Ruby), De- vOps, testes de Software; e na de tecnologia, livros sobre UX, jQuery, HTML5 e CSS3, web design responsivo, games em HTML, JavaScript, Android e IOs, Java 8, JSF, JPA, CDI, REST, Node.js, MongoDB, SQL, PHP, MySQL e muito mais. Show! Não é? 🙂 Um outro livro que é um excelente compilado da agilidade escrito por diversos agilistas brasileiros, referências no país e no mundo, é oMetodos ágeis para desenvolvimento de software[18]. Ele traz os assuntos sobre o Ma- nifesto Ágil, a história dos métodos ágeis no Brasil, Scrum, XP, OpenUP, FDD (Feature-Driven Development), Lean, Kanban, modelagem ágil, DDD (Domain-Driven Design), TDD, estimativas, gestão visual, coaching e facili- tação de times ágeis.

    22.11 Artesanato deSoftware Comumente, aprendemos que desenvolver software é uma atividade baseada na engenharia, na qual os desenvolvedores o constroem com métodos, téc- nicas e ferramentas fundamentadas na engenharia de software e no gerenci- amento de projetos. Existe uma lacuna nisso, pois desenvolvê-los não é uma tarefa simples que possa ser resolvida com métodos tradicionais de engenha- ria. Desenvolvê-los é uma tarefa do conhecimento e complexa.

    O movimento do Artesanato de Software (do inglês,Software Crafts- manship) reconhece que a produç ão de software é uma atividade artesanal, e não fabril. Dentro dessa área, o aprendiz deve estudar técnicas, tecnolo- gias e ferramentas para construir bem o código, aplicando bons princípios de programaç ão. E não para por aí: ele deve também criar hábitos de trabalho e investir em suas habilidades sociais (soft skills). Participar de uma comu-

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    Casa do Código Capítulo 22. Indo além do eXtreme programming nidade também aprimora seu aprendizado. Desse modo, ele se tornará um artesão de software.

    Há um grande elo entre um programador XP e um artesão de software.

    Precisamos de melhores programadores, e não mais simplórios.Pense em quantas dívidas técnicas um programador simplório pode deixar no sistema ao longo de um ano! É um grande impacto! Provavelmente serão necessários dois ou mais para arrumar toda a bagunça.

    Da mesma forma que métodos ágeis, o Artesanato de Software possui um manifesto [64]. O Edson Yanaga, artesão de software, fez sua traduç ão [16]:

    Manifesto pelo Artesanato de Software:como aspirantes a artesãos de software, elevamos o nível do desenvolvimento de software profissional ao praticar e auxiliar outros a aprender o ofício. Por meio desse trabalho, passa- mos a valorizar:

    • Não somente software funcionando, mas também software bem feito; • Não somente responder a mudanças, mas também continuamente adi- cionar valor; • Não somente indivíduos e interações, mas também uma comunidade de profissionais; • Não somente colaboraç ão com o cliente, mas também parcerias produ- tivas.

    Ou seja, na busca pelos itens à esquerda descobrimos que os itens à direita são indispensáveis.

    Relacionado à arte do Artesanato de Software, temos a parte comporta- mental, de atitude, que representa a coragem e o respeito como dois dos cinco valores do XP. Adicionalmente a tais valores, Chad Fowler escreveu o livroO programador apaixonado[22]; e Uncle Bob (Robert C. Martin), o livroCo- dificador limpo(Clean coder) [43]. O primeiro traz diversas dicas para cons- truir uma carreira notável em desenvolvimento de software; já o segundo traz um código de conduta para profissionais de software, sendo pragmático com conflitos, prazos apertados, gerentes pouco razoáveis, dizer não e lidar com a pressão.

    Página 151

    Índice Remissivo Casa do Código ÍndiceRemissivo Épicos,, 39 40 horas semanais,123 Ambiente físico,31,94 Aprendizado,20,64,76,82,90,92, 132 Artesanato de Software,132 Atitude,13,133 Auto-organizaç ão,30 Baby steps,103 Balanceamento de carga do time,62 Banco de dados,130 Barra verde,102 Barra vermelha,102 Bugs de software,44 Código limpo,8,67,97,130 Casos de teste,102 Catálogo de refatorações, 98 Cenários de teste,50 Cleaner,25 Cliente presente,3,24,33 Coach XP,25,30,77,91 Cobertura de código,117 Code smells,67,97 Coding Dojo,112 Colaboraç ão,81 Comprometimento,32 Comunicaç ão,16,19,26,29,39,49, 72,76,81,85,113,115 Comunicaç ão face a face,12,20,33,37 Cooperaç ão no time,90 Coragem,16,21 Critérios de aceitaç ão,33,44,49 Cultura de experimentaç ão,77,92 Dívidas técnicas,7,25,67,129 Database smells,130 Debug,50 Desenvolvedor,24 Desenvolvimento Guiado por Com- portamento (BDD),50,127 Desenvolvimento Guiado por Testes (TDD),96,99 Desenvolvimento iterativo e incre- mental,20,54,58 Design de código,82,104,117 Design simples,20,22,53,101 Desperdícios,55 DevOps,24,130 Dimensionamento de histórias de usuário,44 Dinâmicas,32,126 Disciplina,32,115

    Página 152

    Casa do Código Índice Remissivo Engajamento,25,53 Entrega contínua,54,130 Entrega de valor,22 Entregas grandes,55 Entregas pequenas e frequentes,12, 16,44,50,53,58,130 Escopo,61 Especificaç ão por exemplos,127 Estimar histórias,44,60 Estimar tarefas,62 Estimativa por tamanhos de cami- seta,44,128 Estimativas,66,72,122,128 Experimentaç ão,66 Fail fast,3,53,64 Falta de padronizaç ão de código,86 Fator de carga do time,62 Feedback,3,13,16,20,31,63,81,102, 104,113 Ferramentas de integraç ão contínua, 116 Foco,32,63,75,89,91 Gerente,26 Gestão,30 Gestão do conhecimento,90 Habilidades sociais,24,90,132 Hansei,31 Histórias de usuário,8,16,24,26,32, 33,37,49,50,58,65,92,127, 128 Ilhas de conhecimento,82 Integraç ão contínua,8,16,20,25,54, 81,103,113,130 Interface de usuário,44 INVEST,42 Iterações, 14,44,58,61,66,68 Jogo do planejamento,25,33,57,65, 77,92,122,128 Jogos,126 Kaizen,31 Kanban,128 Lean,13,31,55,82,122 Lean Software Development,13,125 Legibilidade de código,96 Liderança situacional,30 Linguagem ubíqua,72,127 Métricas de projeto,26 Macrogerenciamento,30 Manifesto Ágil,11,19,29,38,55,130 Manifesto pelo Artesanato de Soft- ware,133 Melhoria contínua,9,12,14,31,123, 131 Metáfora de sistema,71,127 Microgerenciamento,30 Mocking,102 Modelo 3C,39 Modelo de história de usuário,40 Motivaç ão,7,12,22,29,90 Multidisciplinaridade,24,30 Orientaç ão a Objetos,95 Os três Is da metáfora,73

    Página 153

    Índice Remissivo Casa do Código Padrão de codificaç ão,8,85,113,117 Padrões de TDD,101 Papéis do XP,23,49,121 Peer review,89,92 Personas,43,44 Pessoas de negócio,12,24,58,59 Planejamento de iterações, 49,58 Planejamento de releases,58 Planning poker,128 Posse coletiva,21,81,85,96 Pressão do par,91 Pressão do time,91,92 Prioridade,34,46 Produtividade,7,75,101,122,123 Produto mínimo viável (MVP),68 Programaç ão em par,8,24,82,85,89 Programador,24 Projeto Orientado ao Domínio (DDD),127 Projeto simples,8,67 Projetos marcha da morte,57 Prototipaç ão,66 Puxar tarefa,62 Quadro de kanban,92 Qualidade,4,7,16,22,25,53,54,89, 96,101,113,121,122 Qualidade de código,117 Quebrar histórias,60 Quebrar tarefas,62 Reúso de código,72,96,113 Refatoraç ão,8,22,25,67,81,85,95, 99,104,113,129,130 Refinamento de histórias de usuário, 42 Release planning,57 Requisitos de usuário,2,16,24,37 Requisitos não funcionais,44 Respeito,16,22 Reunião diária em pé,25,75 Reuniões de retrospectiva,9,25,31 Reuniões remotas,35 Revisão de código,90 Revisão por pares,89,92 Risco,5,58,61,65,113 Ritmo sustentável,8,12,16,63,121 Satisfaç ão do usuário,53 Scrum,14,125 Sequência de Fibonacci,44,128 Sequência de múltiplos de dois,44, 128 Simplicidade,4,12,16,20,63,67,75, 121 Sincronizaç ão do time,76 Sinergia entre as práticas,16,19,32, 82,113 Sistema Toyota de Produç ão,13 SMART,43 Software Craftsmanship,132 Spikes de planejamento,65 Story points,44,122,128 Story smells,46 Tarefas de implementaç ão,24,33,43, 58,128 Testador,25

    Página 154

    Casa do Código Índice Remissivo Testes automatizados,6,16,24,50,54, 67,81,99,101,102,113 Testes de aceitaç ão,16,24,25,32,33, 39,49,102,127 Testes de unidade,20–22, 102 Testes funcionais,102 Time coeso,12,29 Time de desenvolvimento,59 Trabalho em par,94 Trabalho em time,29 Trabalho puxado,6 Tracker,26 Transparência,49 Trunk Based Development,115 Valor de negócio,5,38,53,58,61,63, 130 Valores do XP,19,29 Velocidade do time,6,44,61,64,122 xUnit,102 YAGNI (You’re Not Gonna Need It), 68

    Página 155

    Página 156

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    [65] Edward Yourdon.Death march. Prentice Hall, 2003.

  • Uma família ingleza Scenas da vida do Porto

    Uma família ingleza Scenas da vida do Porto

    Aproximadamente 124.879 palavras.

    As portuguezas não formam typo especifico, dir-me-hão talvez; são uma
    variedade apenas de especie mais vasta. Sempre desejava que conhecessem
    Cecilia, para que depois me dissessem a qual dos typos femininos,
    consentidos e sanccionados, pertencia a amiga de Jenny.

    Se houvesse uma fórmula unica para a belleza feminina, chamar bella a
    qualquer d'estas duas mulheres, agora reunidas diante do leitor, seria
    condemnar a outra; tão diversas, tão oppostas até, eram aquellas duas
    physionomias em tudo! Mas não succede assim; tem tantas maneiras de se
    realisar a belleza, tantos meios de excitar em nós, no mais intimo do
    nosso peito, essas mysteriosas vibrações que nos arrebatam, que seria
    loucura disputar primazias em casos assim. E isto é como no mais.

    Pois por serem bellos os vergeis do Minho, perdem a belleza as leziras
    do Vouga, ou até as paizagens alpestres de Traz-os-Montes?

    Cecilia não era loura nem trigueira, nem d'aquella côr pallida, que
    sonham os poetas e de que os medicos desconfiam; tingia-lhe o rosto,
    graciosamente oval, um colorido que, em linguagem artistica, julgo que
    nem tem ainda palavra creada.

    Se porém, á falta de termos, sempre lhe quizessem chamar pallida, deviam
    acrescentar, que era de uma pallidez, através da qual se presentia o
    sangue cheio de vida, que ás vezes a transformava na diffusa côr de rosa
    de um rosto de creança; os cabellos que, por um ondado natural, se
    erguiam levemente no alto da fronte, vacillavam entre o negro e o
    castanho escuro; os olhos, sim, esses eram negros devéras, e,–qualidade
    bem rara em olhos!–de uma discrição impenetravel. Olhos discretos,
    quando de ordinario são elles os que primeiro atraiçôam e inutilisam a
    reserva dos labios! Olhos, que ousam fitar-vos sem deixar fugir um
    segredo, nem desviar-se, por desconfiarem de si proprios! Discretos, mas
    expressivos de sympathia e de familiar bondade! Não se imaginam os
    encantos de uns olhos assim! E não julguem que são por isso incapazes de
    eloquencia; anime-os um dia a confiança e o amor, e verão os raios
    offuscadores que despedem! Mas o que elles não fazem,–e bem hajam por
    isso–é andarem por ahi a desperdiçar eloquencia, como esses implacaveis
    falladores, que em toda a parte se occupam a declamar discursos. Na
    conformação habitual dos labios, no sorrir, no mover da cabeça, em todos
    os movimentos e gestos emfim, havia, em Cecilia, uma tão completa
    ausencia de arte, tanta naturalidade e franqueza, que a vista deixava-se
    ficar, com prazer suave e sem timidez, a contemplal-a.

    Ha um meio de reconhecer o genero de belleza, a que pertencia
    Cecilia–genero que eu sustento ser o nacional:–quando, junto de uma
    mulher formosa, vos sentirdes á vontade, sem que a razão se vos
    perturbe, sem que por galanteria vos julgueis obrigados a lisonjas, sem
    que fermente em vós o tanto ou quanto de poesia, que encerram todos os
    corações; quando suavemente dominados pela branda influencia de um olhar
    sem requebros, podérdes sustentar com essa mulher uma conversa
    affectuosa, sincera, leal, como a sustentarieis com um amigo ou com uma
    irmã; quando, ao separar-vos d'ella, lhe apertardes cordialmente a mão,
    sem que nem a vossa nem a sua estremeçam ao encontrarem-se, e finalmente
    trouxerdes d'essa entrevista uma impressão agradavel, que mais vos
    acalente do que vos agite os sonhos, ficae certos de que encontrastes um
    dos typos de que fallo.

    Aviso-vos porém que os não julgueis pouco perigosos, apreciando-os pela
    placidez d'estes primeiros effeitos; se levaes em conta de ventura a
    liberdade do coração, fugi-lhes emquanto é tempo; pois, continuando
    n'essa convivencia intima, natural, insinuante, correis o risco de
    insensivelmente vos deixardes prender, se um dia, ao tentar terminal-a,
    surprendeis-vos devéras apaixonados; pela dor que experimentaes,
    conheceis então que fundas raizes lançára já o affecto.

    Eu por mim julgo mais irresistiveis as paixões que se geram assim; as
    que nascem rapidas, teem evolução rapida tambem, e muitas vezes
    apagam-se em pouco tempo.

    Vendo n'isto de paixões uma especie de doenças da alma, como alguns
    querem, era possivel talvez estabelecer n'ellas divisão analoga á que,
    nas do corpo, admittem os medicos. Haveria assim paixões agudas e
    paixões chronicas; umas, como as doenças do mesmo nome, geradas por
    impressões subitas, rapidas na sua marcha, promptas na sua terminação;
    outras adquiridas insidiosamente, por influencias de todos os dias, e de
    que nem se suspeita mal, lavrando a occultas e revelando-se apenas,
    quando o terreno já é seu e a victoria certa.

    Quaes d'ellas zombam mais da arte, devem sabel-o medicos e doentes.

    Mas, voltando a Cecilia, o seu conversar, ao qual dava realce o timbre
    de voz, vibrante e sonoro, tinha uma vivacidade e animação, direi até
    uma eloquencia natural, que entretinha a ouvir-se; no decurso de
    qualquer conversação, era notavel a frequencia com que lhe passavam a
    voz e as feições por contínuas e successivas alternativas de tristeza e
    alegria; como alternam nas campinas a sombra e a claridade, quando
    atravessam rapidas o ar, as nuvens impellidas pelo norte.

    Era assim que, referindo acontecimentos tristes, uma ou outra
    circumstancia d'elles desafiava-lhe um sorriso ou uma observação jocosa,
    e que, no meio da historia mais jovial, não lhe passava despercebido
    qualquer ligeiro vestigio de sentimento que ella tivesse, e de repente
    lhe desapparecia o riso dos labios e os olhos reflectiam uma generosa
    melancolia.

    Um dia, por exemplo, contava ella a Jenny, e contava-o quasi a chorar, o
    infortunio de um pobre centenario, a quem seu pae soccorrera. O
    desgraçado velho vivia n'uma casa miseravel, e, abandonado de todos, ia
    succumbindo á fome, quando Manoel Quentino o disputou compassivo a morte
    tão tormentosa.

    –Se visse o pobre homem!–dizia então Cecilia, com tremor de compaixão
    na voz–se o visse! Como elle nos recebia, chorando e rindo, como me
    pegava nas mãos para as beijar! Como erguia ao céo aquelles olhos, quasi
    cegos pela velhice e pela desgraça! Fazia pena! Tão trémulo, tão
    curvado!…–E, de repente, vindo-lhe aos labios um sorriso, que ella
    não reprimiu, acrescentou:–E então n'aquella idade e n'aquella miseria
    toda, o cuidado que o pobresinho tinha ainda com o rabicho, que usava na
    cabelleira! Coitado!

    De outra vez contava, rindo, o episodio caricato de certo operario, seu
    vizinho, que voltára, uma noite, a casa em completo estado de
    embriaguez, e atordoára a rua inteira com expansões de extemporanea
    alacridade, altercando, cantando e tocando até altas horas. Tudo quanto
    até alli referira lhe merecera sorrisos, mas, n'um instante,
    cobriu-se-lhe o rosto de profunda tristeza, e suspirando, proseguiu,
    cingindo a mão de Jenny:

    –Mas não quer saber? Quando este homem estava mais contente, vieram
    trazer-lhe um cão, que elle estimava muito e que n'aquella mesma noite
    haviam envenenado nas ruas. Parece-me que estou ainda a ver como elle
    ficou; esteve por muito tempo calado a olhar para o pobre animal e
    depois desatou a chorar e a abraçal-o, chamando-lhe seu amigo, seu
    companheiro, até…–acrescentou, sorrindo–até seu irmão. Mettia
    realmente dó. E aquella gente a rir cada vez mais! Era aquillo para rir?
    diga.

    Justeza de observação, talento para apreciar todas as faces dos
    sentimentos e das acções humanas, poucas vezes os dá o estudo no grau,
    em que ella naturalmente os possuia.

    Não se podia pois, repetimos, dizer Cecilia apaixonada como uma
    italiana, pensativa como uma allemã, séria como uma ingleza, languida
    como uma hespanhola, _coquette_ como uma franceza, porque de nenhum
    d'esses typos se aproximava; era verdadeiramente portugueza, e, para
    caracterisar estes, só conheço uma phrase, de que talvez o leitor se vá
    rir, mas pela qual eu tenho inexplicavel predilecção. Associa-lhe o meu
    pensamento tal conjuncto de qualidades physicas e moraes, que sempre que
    a ouço applicar, ella só suppre para mim uma longa descripção, e se for
    a analysal-a não lhe encontro de certo a comprehensão, que
    instinctivamente lhe attribuo. Se ao leitor succeder o mesmo, conceberá
    o typo de Cecilia depois de eu a pronunciar.

    Cecilia era o que naturalmente a todos occorre chamar–uma pobre
    rapariga.–N'esta expressão nada ha que faça suppôr a belleza da pessoa
    a quem se applica, bem sei; nem em rigor se refere a qualidade alguma
    moral.

    É certo; porisso não analyso. Succede porém que, quando de qualquer
    mulher, que não conheço, ouço dizer que é–uma pobre rapariga–, não sei
    por que a imagino bella, bella de belleza nacional e com um coração…
    como o coração de Cecilia.

    Aqui temos a ingleza Jenny, que não poderia receiar confrontos com a sua
    amiga, nem em gentileza nem em bondade; mas, não sei porquê, lembrou-me
    chamar a Jenny anjo e fada, e hesitaria em definil-a, como defino
    Cecilia.

    Accusar-me-hão de dar á filha de Manoel Quentino uma feição
    demasiadamente burgueza, com a phrase burgueza, pela qual a caracteriso.
    Folgarei de que seja merecida a critica, porque…–vá aqui mais outra
    confissão, em que revelarei a minha coragem–, eu sympathiso mais com os
    typos burguezes do que com os typos aristocraticos,–e em mulheres
    sobretudo. Rodeia-se de mais poesia aos meus olhos a rapariga burgueza,
    e sem aspirações a deixar de sel-o, quando a trabalhar á luz do
    candieiro, do que a elegante dos salões, gastando a imaginação em
    problemas de toucador; a costura, a simples, a modesta costura, util e
    abençoada applicação da agulha feminina, agrada-me bem mais do que as
    bonitas futilidades do, reputado mais nobre, trabalho de bastidor; a
    mulher que a si propria se penteia, acho-a mais merecedora da
    contemplação do artista, do que a indolente que, reclinada n'uma
    poltrona e folheando o jornal de modas, entrega a cabeça ás mãos de uma
    criada ou do cabelleireiro. Esta, a ser copiada, basta-lhe por téla …
    um leque ou uma tampa de cartonagem.

    Sim, Cecilia não tinha nada do typo aristocratico; n'isso era ella ainda
    genuinamente do Porto, cidade cujo principal titulo de gloria é o ter,
    em épocas em que a nobreza era tudo, previsto que podia e devia
    prescindir d'ella, para se engrandecer.

    XII

    OUTRO DEPOIMENTO

    –Esteve doente, Cecilia?–perguntou Jenny, accommodando o chapéo da
    amiga.

    –Não; porque m'o pergunta?

    –Nem eu sei. Pareceu-me ler-lhe no rosto… e depois… veio tão tarde.

    –Ai, menina,–replicou Cecilia, sorrindo e ageitando o cabello, que o
    chapéo desordenára–é que se soubesse… Hoje fiz de fidalga.
    Levantei-me depois das oito horas.

    –Sim, preguiçosa? E querem então ver que se esqueceu de trazer aquelles
    cabeções, de que me fallou.

    –Ágora. Olhe; trago esses e até mais alguma cousa…

    –Bem, bem; vamos ver isso tudo–atalhou Jenny, com curiosidade.

    E as duas raparigas foram sentar-se, uma ao lado da outra, no sofá
    proximo da janella.

    –Veio só?–perguntou Jenny, momentos depois.

    –Vim.

    –Sem mêdo?… no dia de entrudo!…

    –Mêdo nenhum. De minha casa aqui são caminhos, que podem dizer-se todos
    de aldeia. Quasi sempre por entre quintas e campos… Encontrei umas
    creancitas, que vinham da mestra, e conversei com ellas todo o tempo.

    E continuando a revistar o interior de um sacco de marroquim verde com
    fechos de aço, Cecilia proseguiu, mudando de tom:

    –Não julgue que lhe vou mostrar nenhuma preciosidade; foi uma
    distracção de meia hora no serão de sabbado. Esta semana tive tanto que
    fazer, que não pude occupar-me com estas bagatelas. Bem sabe que não me
    cresce muito tempo para brincar. Olhe.

    E mostrava a Jenny um delicadissimo primor da arte feminina; um cabeção
    apenas, mas do qual, se me auxiliassem conhecimentos technicos, poderia
    fazer uma descripção, pelo menos do tamanho da que Homero consagrou ao
    escudo de Achilles.

    Mas a sciencia das leitoras e a ignorancia provavel dos leitores n'este
    assumpto não lhes deixarão sentir a lacuna.

    –Pois eu ia quasi dizer-lhe que inda acho este mais bonito, do que o
    outro que me mostrou ha dias–disse Jenny, demorando-se a examinar o
    cabeção.

    –O desenho d'esse é mais delicado, mas… Ai!–acrescentou passando, a
    sorrir, a mão pelos olhos, e suspirando–parece-me que nem vejo, de
    somno que tenho!

    –Somno! E levantou-se tão tarde! Que quer dizer isso hoje, Cecilia?

    –É que me deitei hontem muito tarde tambem.

    –A trabalhar?

    Houve um intervallo de silencio, antes que Cecilia se resolvesse a
    responder. Jenny insistiu, elevando ao mesmo tempo os olhos para ella.
    Viu-a córando e como entretida a segurar um alfinete.

    Os alfinetes são os principaes cumplices de todos os disfarces
    femininos. Sempre que uma mulher precisa de occultar um sorriso, uma
    turbação, um rubor, tem a certeza de encontrar estes amigos officiosos a
    servirem-lhe de pretexto. Ha sempre um alfinete a pregar, a despregar, e
    a repregar de novo.

    A final porém, com visivel esforço sobre si mesma, Cecilia respondeu de
    uma maneira, que em vão procurou tornar natural:

    –Não, Jenny, não foi a trabalhar.

    Jenny presentiu um segredo n'aquelle enleio e hesitação, mas não tentou
    descobril-o; disfarçando as suas suspeitas, disse-lhe:

    –Pôz agora de lado um trabalho de _crochet_, que me pareceu bonito.

    Cecilia mostrou-lh'o, sem dizer nada.

    E o silencio manteve-se algum tempo entre as duas, silencio de as
    constranger a ambas; até que emfim Cecilia, n'uma d'essas subitas
    resoluções tão frequentes n'ella, e pelas quaes parecia querer
    apressar-se a realisar um bom pensamento, antes que ulteriores reflexões
    viessem suffocal-o, pôz de lado, com certa impaciencia, toda a obra que
    tinha estendida no regaço, e tomando as mãos de Jenny, fitou os olhos,
    negros e cheios de vida, nos olhos azues e suavemente melancolicos, com
    que esta a seguia admirada:

    Cecilia conservou-se ainda alguns momentos silenciosa e indecisa; mas
    por fim, córando mais e possuida de sobresalto, que não conseguiu
    disfarçar sob sorrisos:

    –Jenny–disse com a voz trémula de commoção–eu sei que a menina é
    minha amiga, e julgo que o melhor é contar-lhe tudo…

    –Seja o que for que tem para me dizer, se o que a faz hesitar é a
    duvida da minha amizade, posso assegurar-lhe, Cecilia, que…

    –Não, não é, não podia ser–acudiu Cecilia, e por um movimento rapido,
    impensado, irresistivel, levou aos labios as mãos delgadas de Jenny, que
    não lhe pôde fugir a tempo.

    –Que está a fazer?!–disse Jenny, rindo.

    –Deixe-me; sabe como eu lhe quero, sabe a confiança que tenho em si,
    Jenny, pois não sabe? Mas é que … ha certas cousas que sempre custam a
    dizer.

    Jenny sorriu com expressão particular; previa uma confidencia amorosa no
    embaraço de Cecilia.

    Cecilia comprehendeu a significação d'aquelle sorriso, porque se
    apressou a dizer:

    –Não, não é o que julga, Jenny. Não teria a menor hesitação em lh'o
    dizer, se fosse isso. Póde crêl-o.

    Apesar da segurança, com que Cecilia o affirmava, duvido de que, tão sem
    custo, se resolvesse a fazer uma confidencia, que, sendo a primeira
    d'esse genero, faz titubear os mais arrojados. Mas acreditemol-a sob
    palavra, que não temos outro remedio.

    –Seja o que for,–respondeu Jenny, procurando inspirar-lhe
    confiança–não deve ter escrupulos em m'o revelar. Escrupulos porquê?
    Não somos raparigas ambas? da mesma idade quasi?

    –Mas a Jenny é tão differente de todas nós! Tem tanto juizo, que não
    póde deixar de estranhar certas cousas, que nós, as que temos a cabeça
    leve, fazemos sem pensar, e de que mais tarde nos arrependemos.

    –Está a ser injusta ao mesmo tempo commigo e comsigo, Cecilia. Nem essa
    cabeça é leve, nem eu da sisudez que me faz.

    –Pois bem,–continuou a filha de Manoel Quentino–estou resolvida a
    contar-lhe tudo, mas ha de prometter-me dizer no fim, com a maior
    franqueza, o que pensa do que eu lhe contar, sim? Olhe que ficamos de
    mal se me não disser a verdade, inda que me seja desfavoravel.

    –Não ha de ser.

    –Adivinho que será.

    –Oh meu Deus! Cecilia, está a assustar-me–disse Jenny,
    jovialmente.–Ha no seu rosto e nas suas palavras tal expressão de
    terror, que me mette mêdo! Praticaria de facto algum crime?…

    Estas palavras de Jenny, e inda mais o tom em que foram ditas, fizeram
    rir Cecilia, e attenuaram muito a timidez com que luctára até alli.

    –O que eu quero então–disse ella–é que me deixe continuar, emquanto
    fallo, a cercadura d'este cabeção, que ficou em meio. Não sei de que é,
    mas acho-me mais á vontade tendo os olhos entretidos.

    –Como quizer; mas n'esse caso, deixe-me occupar tambem os meus,
    examinando o fundo da sacca.

    –Não trago mais nada, a não ser…

    –Está bom, está bom: eu verei o que é. Principie.

    Applicadas assim cada uma á occupação que escolheram, Cecilia
    principiou:

    –Não sei se já lhe tenho fallado nas filhas do major Mattos, minhas
    vizinhas ha bastantes annos e antigas companheiras de mestra.

    –Muitas vezes. Bem sei.

    –Estas meninas são muito boas, muito minhas amigas, mas…

    Jenny ergueu os olhos para Cecilia, sentindo-a hesitar.

    Cecilia proseguiu:

    –Mas sobretudo o que são…–digo-lhe isto a si, Jenny–são ainda mais
    amigas de se divertir. O genio do pae, tão alegre como o de qualquer
    rapaz de vinte annos, não desmereceu nas filhas, que todos os dias
    inventam novos divertimentos.

    –É uma felicidade ter um genio assim, pois não é?–disse Jenny,
    examinando um pequeno bordado.

    –Isso não vale nada,–acudiu Cecilia, reparando tambem–nem sei como o
    trouxe ahi.

    Jenny arredou-a com a mão e fez-lhe signal que continuasse.

    –Mas emquanto ás minhas amigas,–proseguiu Cecilia–trabalhadeiras são
    ellas; isso lá são, coitadas; mas, não faz ideia, n'uma hora de
    descanso… ás trindades, por exemplo, já não pensam senão em como hão
    de passar o domingo seguinte, e ahi vão lembrar ao pae um passeio pelo
    rio acima, um jantar na Pedra Salgada ou em Fonte da Vinha, um almoço a
    Leça ou á Foz, uma noite ao theatro, e é raro que o pae, que é perdido
    por ellas, não as satisfaça em alguns d'estes projectos, que de mais a
    mais lhe agradam a elle tambem, é preciso que se diga. Muitas vezes
    convidam-me e, devo-o confessar, teem-me valido muitas horas de
    verdadeira distracção, isso tem. É uma familia muito boa, e meu pae não
    põe a menor duvida em deixar-me ir com ella para toda a parte.

    –Estava á espera de uma confidencia que me fizesse estremecer,
    espantar, e saem-me cousas tão naturaes e tão boas, que confesso-lhe,
    menina, chego a estar desgostosa–disse Jenny, fechando o sacco de
    marroquim, onde acabára de guardar todos os bordados e dando ás feições
    um fingido ar de mortificação.

    Cecilia sorriu a esta reflexão, mas acrescentou:

    –Ainda é cêdo. Não se apresse a julgar, que póde ter de contradizer-se
    depois. Havia muito tempo já… ora eu sei?… desde o anno passado, que
    estas meninas tinham entre si combinado um projecto, mais difficil porém
    de executar do que nenhum dos outros. Queriam por força que eu tomasse
    parte n'elle. Ao principio disse-lhes que não; mas tanto me pediram,
    tanto me convenceram de que não havia nada a receiar, que eu acabei por
    prometter que sim. Repare, Jenny, repare. Olhe que principia aqui o mau
    da minha historia. O projecto era…

    –Espere; deixe ver se sei. Incendiar a cidade?

    –Ora!

    –Fazer uma revolução no paiz?

    –Está a brincar?

    –Partirem todas para a Crimeia?

    –Jenny!

    –Ás cautelas e hesitações, com que está…

    –O projecto era irmos todas mascaradas ao theatro.

    –Ah!–disse Jenny, não podendo reprimir um gesto e um movimento de
    estranheza.

    Cecilia, que elevára os olhos para ella, percebeu-lh'os.

    –Eu não disse? Veja como principia já a…

    –Não é por isso, mas… Continue–replicou Jenny, com mais curiosidade,
    e não desviando já os olhos de Cecilia.

    –Este projecto–proseguiu a filha de Manoel Quentino–tinha, como lhe
    disse, grandes difficuldades. O major, tão amigo de fazer a vontade ás
    filhas, não quiz ouvir fallar em tal. Ellas porém é que já não podiam
    tirar aquillo da ideia.

    –E foram?–perguntou Jenny.

    –Havia muito que andavam á espera de occasião. E o carnaval a
    fugir-lhes! Ha de haver porém tres dias que o major foi, por negocios
    militares, obrigado a saír da cidade.

    –E então?…

    –As filhas ficaram sós em casa com uma tia d'ellas, muito boa senhora,
    mas que não sabe recusar-lhes nada. Que mais queriam?

    –Foram?

    –Foram; hontem mesmo. Se parece que tudo se lhes preparou como ellas
    desejavam!

    –E a menina?–interrogou Jenny, cada vez mais preoccupada com o que
    ouvia.

    –Tinham-me convidado para ir de tarde a casa d'ellas. Depois de lá
    estar, mandaram, sem que eu o soubesse, recado a meu pae de que eu
    voltaria tarde, pois tinha de ir com ellas a uma reunião em casa de umas
    senhoras suas amigas.

    –Visto isso…

    –Era noite, quando me apresentaram um dominó e me communicaram o seu
    projecto. Eu ainda lhes puz algumas duvidas, mas…

    –Foi?

    –Fui. Ah! como está já tão séria! Não o dizia eu?

    Effectivamente Jenny não teve poder de disfarçar a impressão, que lhe
    estava fazendo a confidencia de Cecilia, já pela natureza d'ella, já
    pela similhança, com a que do irmão ouvira poucas horas antes.

    –Prometti dizer-lhe a verdade, Cecilia–principiou Jenny, tomando com
    affecto as mãos da sua amiga, que interrompera o trabalho já–e seria
    faltar á minha promessa occultar-lhe que me parece ter sido algum tanto
    aventurada essa resolução. Umas poucas de senhoras, sós, n'um logar como
    aquelle, onde dizem que concorre tanta e tão diversa qualidade de
    gente!… Emfim eu não sei bem, e pelos resultados e que melhor se póde
    julgar d'estes meus receios, que talvez sejam exagerados… e são de
    certo.

    –Não são, não, Jenny. Olhe; eu, ao principio, para lhe fallar verdade,
    ia com certa curiosidade. Só me custava que tivesse sido necessario
    enganar meu pae, mas, como não fazia a menor ideia do que fosse um baile
    de mascaras, estava com desejos de ver; e, demais a mais, a irmã do
    major ia comnosco…

    –E depois?

    –Entramos no theatro, seriam dez horas, íamos todas mascaradas. Por
    signal que me ri muito com a mascara que levava a irmã do major. É
    notavel! foi a primeira que appareceu, e tinha alguma similhança com a
    cara d'ella. Assim como estas caricaturas, que logo á primeira vista se
    conhece de quem são.

    E Cecilia quasi se distrahia com a incidente reflexão ácerca da mascara;
    Jenny chamou-a porém ao assumpto.

    –Mas vamos ao que lhe succedeu.

    –Ah! é verdade. Andamos primeiro por alguns camarotes, em que estavam
    senhoras do conhecimento das minhas companheiras e a quem ellas
    fallaram, sem serem conhecidas. Diverti-me com isto. Que graça achei a
    uma senhora idosa, a quem se metteu na cabeça que nós eramos umas suas
    parentes de Braga, terminando em chamar-me a sua Joanninha! Coitada!
    ficou tão desconsolada, quando, espreitando-me os cabellos, conheceu que
    se havia enganado, que deveras fazia pena!–«E não é! veem, que tristeza
    a minha?!»–dizia ella tanto do coração, que eu não tive mão em mim, que
    a não abraçasse e beijasse; arrisquei-me assim a ser vista e a dar a
    conhecer as outras, que depois muito me ralharam por causa d'isto. Mas
    se eu não pude!

    –Vamos–disse Jenny, sorrindo á sensibilidade da amiga.–E o resto da
    noite?

    –Ai, Jenny, o resto da noite…–respondeu Cecilia, suspirando, como se
    lhe fosse custosa a confissão, e continuou:–Entramos na sala. Nunca foi
    a um baile d'esses? Pouco perdeu. Que calor! que confusão! Um quarto de
    hora depois de alli entrar, já suspirava por saír; mas ellas nem
    pensavam n'isso. Era meia noite talvez, vim sentar-me, cansada,
    enfastiada de todo aquelle tumulto.

    N'este ponto Cecilia parou, como se o que tinha para dizer lhe causasse
    maior perturbação.

    Jenny não pôde deixar de sorrir pela similhança que esta parte da
    confidencia tinha com a do irmão.

    –Pouco tempo depois–proseguiu Cecilia–veio sentar-se junto de mim…
    uma pessoa…

    Um alfinete fez sentir, não sei como, a necessidade de que as attenções
    se applicassem todas para elle, e Cecilia não recusava attender, em taes
    casos, ás reclamações dos seus alfinetes.

    Occupada portanto a pregal-o, ou não sei se a despregal-o, continuou:

    –Uma pessoa que eu conhecia; olhou para mim e… comquanto não
    suppozesse quem eu era, fallou-me; respondi-lhe, e por muito tempo
    ficamos a conversar.

    –Em quê?–perguntou Jenny, com modo natural.

    A esta pergunta, Cecilia hesitou.

    Passados porém alguns instantes, respondeu:

    –Eu sei? Em muitas cousas; e é certo que bem agradavelmente; mas cêdo
    depois vieram outros, menos delicados do que este…

    –Do que este?! Ai, visto isto era um homem? não tinha entendido
    bem–notou Jenny, com ligeiro ar de malicia.

    –Era; pois que tinha eu dito? Ah! sim… uma pessoa. Era um homem, era.
    Os que vieram fizeram-me ver mais claro a imprudencia do passo que
    tinhamos dado.

    Jenny não perdia agora uma só palavra, uma só inflexão, uma só cambiante
    de côr, que observava em Cecilia. Esta não o percebia, porque os
    alfinetes estavam de uma impertinencia, que nem lhe deixavam attender a
    mais nada.

    No entretanto dizia:

    –O mesmo succedeu ás minhas amigas; preparamo-nos logo para deixar o
    baile. Vendo porém que nos seguiam, soccorri-me ao cavalheirismo do que
    primeiro me fallou, e isso nos valeu.

    –Ah!

    –Serviu-nos de guia e protector através das ruas ainda cheias de
    mascaras; mas insistia depois em nos conduzir a casa. Tremi ainda mais
    com esta insistencia, do que com a dos outros. Este conhecia meu pae e
    se soubesse… Oh meu Deus!… Por mais que lhe rogassemos, não queria
    deixar-nos; eu, perdida de susto, pedi a Deus uma inspiração. A
    inspiração veio, e foi poderosa. Elle deixou-nos a final, e nós entramos
    em casa… mas eram quatro horas da manhã.

    O que faltára á confidencia podia Jenny bem suppril-o de per si;
    desviando porém os olhos disfarçadamente, ponderou como se pretendesse
    desenganar-se:

    –Falta-lhe agora dizer, Cecilia, para ser completa a confidencia, quem
    era esse homem e qual foi a inspiração que Deus mandou á menina.

    D'esta vez tambem os alfinetes de Jenny parecia exigirem certos
    cuidados, que ella lhe concedeu.

    Cecilia balbuciava com manifesto enleio:

    –Ah! quem era?… não sei; isto é… quero dizer… era…

    Jenny pegou-lhe na mão.

    –Seja franca até o fim–disse-lhe em tom de insinuante amizade.–Esse
    homem era meu irmão.

    Cecilia estremeceu e olhou espantada para Jenny.

    –Como o sabe?

    –Sei tudo–replicou Jenny, apertando-lhe a mão com affecto.–E sei
    tambem a inspiração que teve, e agradeço-lh'a.

    –Sabe? Mas então…

    –Carlos tem o costume de me contar tudo, e ainda esta manhã… ha
    pouco… me tinha dito…

    –Tudo?–perguntou Cecilia de uma maneira particular e córando.

    –Tudo–respondeu Jenny, dando a esta palavra uma inflexão e animando-a
    de um sorriso, que augmentaram a intensidade d'este rubor.

    Como o leitor viu, tinha havido importante omissão na confidencia de
    Cecilia, omissão que aquelle «tudo» de Jenny lhe mostrava agora ter sido
    inutil.

    –E que opinião fazia elle… que opinião fazia o snr. Carlos de
    mim?–perguntou Cecilia com verdadeira inquietação.

    Jenny revestiu-se de seriedade e reflectiu algum tempo, antes de
    responder.

    Não se imagina como se faziam extraordinariamente bellas as feições de
    Jenny sob a influencia d'este ar de reflexão, que tão frequente lhe
    fixava o olhar e lhe desenhava uma ligeira ruga na fronte.

    Cecilia consultava com apparente sobresalto aquella physionomia
    expressiva.

    –Olhe, Cecilia,–disse Jenny por fim–como a menina ainda agora o
    reconheceu, não foi por certo prudente o passo que deram. A necessidade
    de o occultar de seu pae era bastante prova d'isso, quando nada tivesse
    acontecido que melhor o provasse ainda. Carlos procedeu bem e mal; bem,
    em as proteger; mal, depois. Elle devia ter sempre na ideia, como eu lhe
    disse, que alguma pessoa bem educada, e que de facto tinha desejos de
    occultar-se, podia ser essa mascara que elle, depois de proteger,
    perseguia. Disse-lh'o ha pouco ainda, mas… sabe o que elle me
    respondeu?

    –Que foi?

    –Se eu lh'o digo, Cecilia, é para que a menina faça sempre o que lhe
    aconselharem os presentimentos do seu bom coração, e creia que são
    excellentes as inspirações que lhe vierem d'ahi. Quando eu dizia a
    Carlos que imaginasse que era eu mesma a que estava debaixo d'aquelle
    dóminó, e a que me via perseguida, respondeu-me que não havia
    probabilidade d'isso, porque… pessoas que…

    –Oh! não diga mais, Jenny, não diga mais–atalhou Cecilia, quasi
    fechando-lhe os labios com a mão; e os olhos inundaram-se-lhe de
    lagrimas que, umas após outras, lhe rolaram pelas faces.

    Era uma das irresistiveis expansões d'aquella impetuosa natureza.

    –Bem vê, Cecilia–proseguiu Jenny com affecto–bem vê que não tinha
    razão Carlos, no que suppunha. A culpa toda era d'elle. E agora não se
    afflija, menina. Affligir, porquê? Foi uma brincadeira de raparigas e
    sem consequencias além d'aquellas–acrescentou, sorrindo–de que nem a
    inspiração, que Deus lhe mandou, a pôde livrar. E se isto a faz chorar
    assim, o que ha de deixar para os infortunios reaes?

    –Jenny, prometta-me nunca dizer a… a ninguem que era eu…

    –Socegue. Dentro em pouco nem eu mesma o sei já.

    –Oh! meu Deus só o suppôr!…

    Jenny conseguiu serenar a rapida tempestade, que turvára o espirito de
    Cecilia, e distrahir-lhe a attenção para outros objectos.

    Antes de saír de casa de Mr. Richard, já ella tinha rido, e quando
    entrou na sua, trazia o espirito tranquillo, e respirava com o desafôgo
    dos dezoito annos, e d'aquella indole sem preoccupações.

    Feliz idade e feliz coração!

    XIII

    VIDA PORTUENSE

    Manoel Quentino habitava em uma rua proxima do extremo occidental da
    cidade, afastada assim do maior bulicio d'ella–bulicio que, desde as
    tres horas da tarde até ás seis da manhã, era para o guarda-livros
    insupportavel.

    Os gostos de Manoel Quentino tinham de facto variações diurnas tão
    regulares, como as de um instrumento meteorologico.

    Nas horas de vida commercial impacientava-o o socego do bairro em que
    vivia; ao romper do sol por detraz dos outeiros, que elle avistava ao
    longe das janellas do seu quarto, tomava-o a febre do trabalho; o cantar
    matutino das aves por entre os arbustos do quintal, a não ser aos
    domingos e dias santos, não o tentava a ficar a ouvil-as; parecia que
    mais bellezas de harmonia achava nos gritos dos vendilhões, que enchem
    as ruas da cidade baixa. Pelo contrario, ao declinar da tarde,
    entrava-lhe no coração a nostalgia domestica; começava a odiar o
    escriptorio, a rua dos Inglezes, o borborinho das praças, e a suspirar,
    como o expatriado, pela alegria do regresso; extasiava-se em ver de casa
    descer o astro do dia, e sumir-se no oceano; espectaculo magnifico, ao
    qual da varanda da sala do jantar assistia com o prazer do espectador
    que de um camarote de frente presenceia fascinado a vista final de
    gloria de um drama sacro.

    O arranjo interior da pequena casa de Manoel Quentino exprimia certo
    bem-estar, certo conforto, que principiava a querer transpôr os limites
    que o separavam do luxo.

    Permittiam-o os ordenados que Manoel Quentino, como primeiro
    guarda-livros, recebia das mãos de Mr. Richard, mãos nunca tão
    apertadas, que não deixassem saír algumas mealhas mais do que o
    ajustado.

    Preciso é porém confessar que o espirito economico e a intelligente
    administração de Cecilia concorriam em grande parte para este resultado.
    Pelas suas mãos, de bem pequenas afeitas ao tracto domestico, tão
    escrupulosamente regulados andavam os capitaes, que não só satisfaziam
    ao necessario, mas derivavam-se ainda para o que se póde já dizer
    superfluo.

    Escusado é quasi acrescentar que Cecilia era o idolo de Manoel Quentino.
    N'ella se concentravam todas as affeições do velho. Tinha apenas seis
    annos a filha, quando lh'a deixára confiada a esposa, que elle chorava
    ainda; emquanto cercava a innocente de constante vigilancia e de
    cuidados assiduos que, por inspirações do coração, soubera amenisar de
    carinhos e de meiguices verdadeiramente maternaes, robusteceu-se-lhe
    aquelle amor a ponto de referir d'ahi por diante a elle todos os outros
    sentimentos, que o moviam.

    Nunca lhe pareceu demasiada qualquer despeza feita com Cecilia.

    Empenhou-se em dar-lhe uma educação esmerada, e conseguiu-o.

    Exultava de prazer, vendo crescer em vida, em intelligencia, em bondade,
    aquella bonita creança, junto de cujo berço velára noites e noites,
    scismando no futuro d'ella.

    Pouco a pouco deixára-se possuir de um respeito, de uma veneração pela
    filha, que tinham seus vislumbres de idolatria.

    A primeira madeixa loura cortada aos cabellos de Cecilia, ainda menina,
    trazia-a o velho sempre comsigo, como talisman milagroso; o menor
    bilhete, dos que ella lhe escrevia para o escriptorio, a respeito de
    qualquer negocio domestico, archivava-o, como reliquia, que seria
    profanação deixar perder.

    Tinha puerilidades Manoel Quentino!… puerilidades que só farão rir aos
    poucos, que não as tenham tido iguaes. Movia-o, quasi até ás lagrimas,
    qualquer phrase affectuosa d'aquellas insignificantes correspondencias.

    Como elle era feliz lendo, no alto do bilhete, por exemplo: «Meu bom
    pae» ou «meu querido pae», e no fim d'elle–«sua extremosa filha» ou
    «sua filha obediente».

    Por irresistivel impulso aproximava dos labios aquellas palavras e
    beijava-as com fervor.

    Quando, no meio do trabalho quotidiano, que elle, como vimos, executava
    com uma fleugma e regularidade, que deviam fazer suppôl-o homem pouco
    sujeito a expansões, a ideia de Cecilia lhe passava pelo espirito, tinha
    movimentos de creança.

    Pousava a penna, interrompia a conta, correspondencia, ou o que quer que
    fosse em que estivesse occupado, para esfregar as mãos de contente, como
    o rapaz de escola ao acudir-lhe de subito a lembrança de um feriado
    proximo.

    Ás vezes não resistia a dar dois passeios no escriptorio, trauteando, e
    a vir á janella, com a penna na orelha, a espreitar, por entre os
    vidros, a altura do sol.

    Ao voltar a casa, Manoel Quentino não se distrahia pelas ruas; procurava
    as travessas e atalhos mais solitarios, para evitar importunos;
    tardava-lhe a conversa da filha.

    Quando na presença d'elle se fallava em alguma epidemia, que
    principiasse a ameaçar a cidade, já o bom homem não podia dominar um
    terror intenso; revelava-se-lhe no semblante em caracteres bem evidentes
    e havia-lhe conquistado a reputação de pusilanime, entre os seus
    collegas mais novos; já até se divertiam, mal suspeitavam com que
    crueldade, a despertar frequentes vezes estes receios pânicos.

    A ideia do risco pessoal não era porém a que o fazia empallidecer; um só
    receio, uma só lembrança o torturava então, era a do perigo que podia
    correr a vida de Cecilia.

    Não se concebe em que especie de loucura o lançou uma doença da filha. O
    serviço do escriptorio foi pela primeira vez perturbado na sua marcha
    regular, e a correspondencia, em cuja nitidez caprichava Manoel
    Quentino, não raro lhe saía das mãos toda manchada de lagrimas. No dia
    em que o medico lhe deu, sorrindo, a certeza de que Cecilia estava
    salva, Manoel Quentino não teve mão em si, que se não atirasse, a rir e
    a chorar, aos braços d'elle, chamando-lhe seu bemfeitor e beijando-o com
    paixão.

    Esta crise exacerbou aquelle já extremoso amor de pae.

    Não havia sabbado em que Manoel Quentino, parco em excesso talvez
    comsigo, e que por isso grangeára entre os amigos a immerecida reputação
    de avarento, entrasse em casa com as mãos vazias, sem um mimo, uma
    lembrança para Cecilia, arrostando com as meigas exprobrações d'esta e
    com seus mal simulados arrufos.

    Quantas vezes elle fazia, como costuma dizer-se, vista grossa para o
    azulado ameaçador dos cotovêlos e das costuras do casaco, para as
    quebras lastimosas do seu chapéo de seda, só com o fim de poupar algumas
    libras e comprar um chaile, uma marqueza, um vestido novo a Cecilia!

    Só depois de repetidas insinuações, pedidos, e até affectuosas ameaças
    da parte da filha, só depois d'ella haver esgotado os mil recursos da
    sua eloquencia, é que Manoel Quentino se decidia emfim a olhar por si e
    a attender ás necessidades proprias.

    O meio mais poderoso a que, para isso, Cecilia recorria era pedir-lhe
    que a acompanhasse a um logar publico qualquer. Então o guarda-livros,
    que não aprendera a recusar-lhe nada, promettia, scismava, coçava a
    orelha, examinava o fato, torcia o nariz, resmungava e, no dia ajustado,
    elle ahi se apresentava de uniforme novo para servir de cavalheiro á
    filha.

    A ideia de a fazer passar por uma vexação realisára o milagre e vencera
    a sua modesta repugnancia.

    Cecilia sabia-se objecto d'este culto, e retribuia-lh'o com attenções e
    carinhos, que deixavam comprehender ao pae o que devia ser a felicidade
    suprema.

    O leitor, costumado a passar a noite no theatro, nos bailes ou nas
    assembleias, mal póde fazer ideia do prazer intimo com que Manoel
    Quentino via escurecer a tarde e scintillarem, ainda pallidas, as
    primeiras estrellas no céo.

    Preparava-se-lhe um d'esses gôsos placidos, que são mal concebidos por
    quem d'elles anda arredado em habitos de vida mais turbulenta; mas aos
    quaes não ha talvez caracter ou temperamento humano, que não corra o
    perigo de habituar-se, se por algum tempo lhes experimentar as doçuras.

    É mais facil, e mais vezes se realisa, a transição da vida errante,
    tumultuosa e agitada para estes monótonos prazeres do viver domestico,
    do que a inversa; como se o pendor natural da indole do homem o chamasse
    mais para alli.

    Os serões de Manoel Quentino, aquelles seus tão apreciados serões,
    passavam-se todos com uniformidade tal, que, por um, se ficava, com
    raras excepções, a conhecel-os todos.

    O fim da tarde e a noite d'aquelle dia, em que se passou a parte das
    scenas, que havemos descripto até aqui, podem offerecer-nos uma perfeita
    amostra d'elles.

    Manoel Quentino, depois de jantar, viera assistir, da varanda do
    occidente, ao espectaculo do crepusculo e regalar a vista por sobre as
    quintas, jardins, casas e alamedas do vasto panorama que o mar cingia de
    zona prateada.

    A tarde estava de chuva, mas o vento de sudoeste conseguira romper o
    extenso manto, que cobria o firmamento, e mostrando um pouco do azul da
    abobada celeste, deixava que o sol no occaso dourasse as ultimas nuvens,
    que d'aquelle lado limitavam o horizonte.

    As occupações domesticas de Cecilia só de quando em quando lhe
    permittiam assomar tambem á varanda, e recostando então o braço ao
    espaldar da cadeira do pae, fazia notar a este as particularidades de
    belleza d'aquelle vasto quadro, que o espirito pouco analytico do velho
    sómente apreciava em globo.

    –Repare n'aquella nuvem côr de rosa. Não parece mesmo uma ave com as
    azas abertas?–perguntava Cecilia, designando uma das taes nuvens, que o
    sol tingia os reflexos afogueados.

    –Uma ave!–dizia Manoel Quentino, fitando o objecto designado–Então
    como te parece uma ave aquillo, menina?

    –Pois não acha? Olhe; vê alli a cabeça, depois uma aza, depois a outra?
    Olhe, agora inda parece mais; até a cauda se conhece bem…

    –Eu… se queres que te falle verdade…–continuava Manoel Quentino,
    sem perceber ainda a similhança.

    –Olhem que pae este! Pois devéras não vê? Para onde é que está a olhar?

    E Cecilia vinha collocar a sua bonita cabeça na posição da de Manoel
    Quentino, e tão perto, que o pae não perdia o ensejo de lh'a beijar na
    fronte.

    –Ora diga, pois não lhe parece uma ave aquillo?–insistia Cecilia.

    –Eu… Ah! agora sim!–exclamou o velho, tendo a final percebido a
    similhança–Agora, sim, senhora! Lá está, e que grande bico que ella
    tem! Eh! eh! eh!… Ora o diacho!

    –A menina faz favor de chegar aqui.

    Era a criada Antonia, que reclamava o conselho de Cecilia em alguma
    difficuldade de administração domestica.

    Antonia era um tão genuino typo de criada de servir, que dispensa a
    descripção.

    Cecilia retirou-se da varanda. Manoel Quentino permaneceu com os olhos
    fitos no sitio, para onde lh'os dirigira a filha, até que a nuvem côr de
    rosa de todo se descoloriu e desformou.

    Então baixou-os para a terra e scismava… na sua felicidade.

    Passados instantes, Cecilia aproximou-se pé ante pé, e, sem ser
    presentida, veio por detraz d'elle e tapou-lhe os olhos com as mãos,
    perguntando:

    –Adivinha quem eu sou?

    –Ora tem muito que adivinhar!–respondeu Manoel Quentino,
    gracejando–pelas mãos se conhece logo. É a aguadeira.

    –Ora vamos!–exclamou Cecilia, rindo–Mas para onde é que estava a
    olhar assim entretido, que nem me viu?

    –Estava a ver umas obras, que além se andam a fazer. Aquillo, se me não
    engano, é na casa do conselheiro Arantes.

    –Ora se ha de olhar para acolá, para aquellas arvores, põe-se a reparar
    n'essas casarias! Não lhe appetecia estar alli, debaixo d'aquelles
    carvalhos?

    –Não é nenhum impossivel; se quizeres…

    –Então promette levar-me lá?

    –Prometto tudo o que tu quizeres.

    –Veja o que diz! Depois, se lhe pedir alguma cousa difficil!

    –Eu já estou costumado ás tuas exigencias.

    –Sim? pois eu tenho uma cousa a pedir-lhe.

    –Ha de ser grande.

    –E é, promette fazel-a?

    –Dize lá.

    –Mas promette?

    –Mas dize primeiro.

    –Não, senhor, prometta antes.

    –Bem sabes que te não digo que não.

    –Mas então que dúvida tem em prometter?

    –Está bom, prometto.

    –Dá-me a sua palavra?

    –Dou a minha palavra–disse Manoel Quentino, rindo.

    –Pois o que eu queria pedir-lhe–disse Cecilia, passando os dedos por
    entre os cabellos brancos do pae–era que comprasse outro guarda-chuva,
    que, a fallar verdade, aquelle sempre está!…

    –Ora! cuidei que era outra cousa!

    –Não importa; mas prometteu.

    –Pois sim; mas escuta…

    –Ágora escuto, que tenho mais que fazer.

    E retirava-se apressada para não ouvir, dizendo:

    –Não quero saber, prometteu!

    D'ahi a pouco era o pae que a chamava.

    –Cecilia, ó Cecilia! anda depressa ver um vapor no mar.

    Cecilia correu á varanda.

    –Vês?

    –Agora estou como o pae ha pouco com a nuvem.

    –Pois não vês?! Olha; aqui mesmo ao direito d'aquella chaminé; entre
    aquella entre-aberta de pinheiros.

    –Bem vejo. Entra ou sáe?

    –Quer entrar; mas com o rio assim! Aquillo é vapor inglez. Ora traze-me
    o oculo.

    –Agora é quasi noite e não póde distinguir nada. E demais está frio,
    não será mau fechar a janella e vir cá para baixo. Eu tenho tambem de
    trabalhar e preciso de accender luz mais cêdo.

    –Pois então vamos.

    Principiava então ainda mais agradavel passa-tempo para o honesto
    guarda-livros.

    Desciam para a sala contigua ao quarto de Manoel Quentino; sala
    modestamente mobilada, mas em cada particularidade da qual se revelava o
    bom gosto de Cecilia. Se alli dentro se não encontrava nenhum movel de
    alto preço, nenhum objecto de elegancia luxuosa, não havia tambem as
    ridiculas demonstrações de um gosto grosseiro, amontoadas sem ordem,
    adquiridas sem escolha.

    Descobria-se em todo aquelle recinto um asseio e conchego, que fazia bem
    contemplar.

    Manoel Quentino sentava-se junto da mesa do trabalho, em uma cadeira de
    braços, verdadeiramente patriarchal; Cecilia trazia luz, fechava as
    janellas, pousava a cesta da costura e vinha sentar-se ao lado do pae.

    Manoel Quentino contava alguma cousa do occorrido no escriptorio;
    Cecilia correspondia-lhe, referindo o que, na ausencia de Manoel
    Quentino, succedera em casa.

    N'aquella noite o pae fallou muito de Carlos, das suas travessuras, do
    seu estouvamento, dos enganos que n'aquella manhã lhe fizera ter na
    escripta, do episodio da agua-ardente, dos sentimentos de Mr. Richard
    para com o filho, e sobre tudo do bom coração do rapaz.

    Cecilia escutava-o com attenção, sem nunca o interromper com perguntas,
    mas tambem sem nunca levantar os olhos da costura, para os fitar no pae.

    N'isto retiniu a campainha do portal.

    –Ahi está o homem–disse Manoel Quentino.

    –Antonia, vá alumiar–bradou Cecilia.

    Ouviu-se Antonia descer pesadamente as escadas, depois algumas palavras
    trocadas no portal, os passos de duas pessoas subindo, e o _homem_, que
    Manoel Quentino parecia esperar, entrava para a sala, tirando o chapéo e
    cumprimentando os circumstantes com a invariavel fórmula:

    –Muito boas noites, snr. Manoel Quentino; muito boas noites, menina.

    Este _homem_ era um vizinho e amigo de Manoel Quentino, que, havia muito
    tempo, ganhára o habito de vir todas as noites alli ouvir ler os
    jornaes, tomar chá e sustentar com o guarda-livros o mais soporifero e
    descosido dialogo que se póde conceber, retirando-se emfim, ao bater das
    nove horas, depois de agasalhar o pescoço com uma manta de lã, a qual
    levava sempre de prevenção para toda a parte. Chamava-se José Fortunato;
    fora em tempo negociante de cereaes; n'esta época era proprietario de
    predios velhos, possuidor de papeis de credito, homem de habitos
    pacificos e ideias conservadoras, modesto no vestir, discreto no fallar,
    fazendo ao jantar o seu forte no cozido, e, entre as maiores
    extravagancias da sua vida actual, contando a de comprar, de quando em
    quando, uma lagosta para comer de salada.

    Era d'estes sujeitos, fieis observadores das leis commerciaes, e
    rigorosos nas suas contas, a ponto de poderem parodiar uma das petições
    do Padre-nosso, dizendo:–Fazei que nos paguem, Senhor, as nossas
    dividas, assim como nós pagamos aos nossos credores.

    Esta quotidiana visita a Manoel Quentino tornára-se já para o snr.
    Fortunato uma necessidade, e de igual fórma a presença e o conversar do
    ex-negociante de cereaes, com quanto pouco ferteis em distracções, não
    eram menos precisas ao pae de Cecilia, que estava n'aquella idade, em
    que os habitos imperam com mais força, e menos se amoldam os genios ás
    exigencias de habitos novos.

    Passados os cumprimentos de tarifa, José Fortunato tomava assento ao
    lado de Manoel Quentino, e principiava entre elles um dialogo, que, com
    as variantes que o leitor prevê, era d'este teor a fórma:

    –Muito frio, snr. Fortunato–dizia um.

    –E muita chuva–respondia o outro, ageitando-se.–Esteve hoje lá em
    baixo?

    Pergunta ociosa.

    –Estive.

    –Então que se diz de novo?

    –Nada.

    –O rio vae muito cheio?

    –Parece que começa a abaixar um pouco.

    –Sempre está um tempo, santo nome de Deus!

    –E que desgraças tem já causado!

    –Que eu dou-me melhor com o frio–acrescentava d'ahi a instantes Manoel
    Quentino.

    –Eu lhe digo, eu tambem, para que digamos, não passo mal no inverno;
    tenho mais appetite; mas esta catarrhal…

    Tossia, para exemplo.

    Todos os dias diziam isto um ao outro.

    –Para as terras é que isto vae mal.

    –Já tudo está por a manta de Judas.

    Phrase da linguagem popular, que quer dizer, não sei por quê, que tudo
    está caro.

    –Pois a carne?!

    –Se deixam ir todo o gado para o estrangeiro! Devia fazer-se uma lei,
    que prohibisse esse desafôro.

    Alvitre economico, que ainda não perdeu de moda.

    –Isto está o diacho!

    Este apophthegma fechava quasi sempre e com chave de ouro o dialogo.
    Calaram-se os dois.

    Cecilia, que esperava por este silencio e já por habito sabia o que
    significava, ia então buscar as folhas do dia e preparava-se para ler;
    os dois velhos dispunham-se a escutar.

    Qualquer d'elles experimentava um prazer indefinivel em ouvir ler
    Cecilia.

    Lia com tanta intelligencia e graça, que o snr. José Fortunato
    confessava, que muitas vezes, ouvindo-a, entendia cousas, em que debalde
    tentára penetrar, a grandes esforços de leitura propria.

    Era uma scena curiosa aquella.

    A compaixão paternal só perdoava a Cecilia a secção dos annuncios; o
    mais tudo lhes lia a condescendente rapariga; o artigo de fundo, com
    resignação; com intrepidez, as noticias estrangeiras; com curiosidade,
    as locaes; o folhetim, com mais vontade; e tudo sem o menor
    constrangimento, que podesse aguar aquelle prazer dos seus ouvintes.

    O genio de Cecilia nem sempre lhe permittia proceder, sem commentarios,
    áquella leitura toda. A apologia exaltada do governo interrompia-a ella
    ás vezes com um áparte, capaz de produzir crise ministerial, se fosse
    escutado nas camaras; uma catilinaria, acerbamente opposicionista,
    desafiava-lhe reflexões, que neutralisavam o contagio anti-governamental
    que principiava a fazer das suas nas profundas convicções de ordem do
    snr. José Fortunato.

    O leitor deve estar certo de que, por aquelle tempo, monopolisavam a
    curiosidade publica as variadas peripecias da guerra da Crimeia.

    Cecilia era obrigada a ler aquellas descripções de carnificina, que
    todos os dias enchiam as columnas dos periodicos; isto o fazia ella
    sempre com a fronte contrahida de desgosto.

    Manoel Quentino era pelos alliados, José Fortunato esposava a causa dos
    russos–um e outro sem saberem bem porquê. Cecilia era só pelos mortos e
    feridos.

    Um dia parou no meio da descripção de um dos mais sanguinolentos
    encontros dos dois exercitos, para interpellar o pae sobre a causa
    d'esta guerra implacavel.

    A pergunta embaraçou consideravelmente Manoel Quentino, que olhou para o
    snr. José Fortunato, como a ver se lhe vinha auxilio d'alli; o snr.
    Fortunato o mais que pôde dizer foi:–«Que a guerra era lá por causa de
    umas cousas».

    Cecilia tambem não exigiu saber mais.

    –«Os russos…–leu ella n'aquelle serão–fazem fogo durante a noite
    sobre o campo dos alliados; estes absteem-se de responder.»

    –Teem mêdo–commentou logo o snr. José Fortunato com um sorriso.

    –Isso é plano!–acudia Manoel Quentino, com ares de quem entrava no
    mysterio.

    –«Os atiradores alliados respondem porém de dia com
    proveito»–continuava a ler Cecilia.

    –Então? era ou não era plano? Eu logo vi–exclamou Manoel Quentino,
    exultando.

    –Balas perdidas–replicava o outro, encolhendo os hombros com desdem.

    –«Os soldados–proseguia Cecilia–pedem com enthusiasmo ao general em
    chefe, que dê a batalha»–e, acabando de ler isto, fez um gesto de
    aversão.

    –Pois vão para lá!–respondia o snr. José Fortunato, como homem que
    conhecia a preceito os recursos de defeza da praça.

    –«Em Sebastopol ha duas mil bôcas de fogo»–lia ainda Cecilia.

    José Fortunato olhou para o seu amigo, com gesto provocador e
    triumphante; parecia que o convidava a atacar, propondo-se elle a
    defender com aquelles auxiliares.

    Em seguida Cecilia leu que Vassif-Pachá acabava de tomar o commando do
    exercito da Asia.

    Foi a vez de Manoel Quentino pagar o gesto do outro, como se depositasse
    grande confiança no Vassif e nas operações campaes do exercito da Asia.
    Mas o gosto de triumpho foi maior ainda quando ouviu que, a 30 de
    janeiro, partira para a Crimeia, Ulrich, que elle não sabia quem era,
    com a guarda imperial franceza; José Fortunato só teve, a compensar-lhe
    o receio d'esta acommettida, a noticia de que estavam seis mil russos em
    Pruth.

    As noticias locaes eram o terreno neutro, onde caminhavam a par, e sem
    conflicto, as curiosidades do auditorio.

    Uma cousa não podia Cecilia perdoar aos localistas, era que tratassem
    levianamente certos assumptos tristes: a prisão de um pobre, uma
    desordem domestica, uma tentativa de suicidio, por exemplo.
    Impacientava-se com isto, e formulava um voto de censura, que Manoel
    Quentino e José Fortunato apoiavam.

    O noticiario vinha então abundante de descripções de desastres, causados
    pela cheia do Douro.

    Era com consternação que Cecilia lia a narração de tantas miserias.
    Commoveu-a sobre tudo um facto verdadeiramente tragico, do qual ainda
    haverá talvez no Porto quem conserve memoria. O irmão de um piloto de um
    dos navios que a corrente arrebatára, depois de tentar em vão salvar o
    irmão em perigo, perdeu a razão, vendo-o succumbir; e esta dupla
    catastrophe feriu de morte o velho pae de ambos. Manoel Quentino, que
    tinha razões para saber o que era o amor de pae, limpou uma lagrima a
    occultas. José Fortunato, com ser boa creatura, tinha, em circumstancias
    assim, certas observações sêccas, de fazerem perder a paciencia a um
    santo.

    Ouvindo ler aquillo, disse:

    –Ora! Isso é historia! Os gazetilheiros ás vezes…

    –Historia! Ó snr. Fortunato, por quem é!–exclamou Cecilia
    impaciente–Lembre-se de que é um irmão a querer salvar um irmão, e a
    vel-o morrer; de que é um pae que perde dois filhos; não acha ainda
    razão de mais para a morte ou para a loucura?

    –Pois então o outro que não fosse metter-se ao perigo; devia
    lembrar-se…

    –Ora devia lembrar-se!… quem se lembra de nada n'aquelles momentos? O
    snr. Fortunato tem cousas!

    Fortunato já estava arrependido do que dissera.

    –Com menos motivos–acudiu Manoel Quentino–se arriscou ha tempos na
    Foz o Carlitos, lá o filho do meu patrão. Virou-se no meio do rio um
    pequeno barco valboeiro, que ía governado por duas creanças, uma das
    quaes nem sabia nadar; e elle, que andava ás gaivotas com outros
    inglezes–que é o seu gosto–não esperou mais nada e zás… mergulhou
    como um peixe e salvou a creança. Depois continuou a caçar, com a roupa
    molhada no corpo, inda por muito tempo, em termos de ganhar qualquer
    doença.

    Cecilia estava tão entretida a examinar não sei o quê, que vinha no
    periodico, tão perto tinha os olhos das lettras, que julgo nem dava
    attenção ao episodio, narrado por Manoel Quentino.

    É verdade que, assim que o snr. José Fortunato, depois de ouvil-o,
    disse, com os seus modos sêccos:–«Estroinices», Cecilia levantou a
    cabeça com impeto e fitou-o córando e com uma expressão, pouco
    lisongeira para o velho.

    Eu não sei bem explicar este movimento em uma pessoa distrahida, como
    ella estava, movimento, que aliás não teve consequencias, pois, voltando
    á posição anterior, passou a ler o folhetim.

    Esta parte ouvia-a Manoel Quentino dormitando. Não lhe levem isto a mal
    os folhetinistas. José Fortunato, pelo contrario, ouvia-a com ardor; a
    maneira de ler de Cecilia inoculára-lhe o gosto dos romances. Tomava
    agora pelas peripecias um calor exagerado. Para elle era ponto de fé que
    tudo aquillo acontecera, e que tinham vivido, ou viviam ainda, os
    personagens, entre quem se travava a acção. Censurava por isso com a
    mesma violencia, e louvava com a mesma satisfação esses heroes
    phantasiados, como se fossem membros reaes da sociedade.

    Lido o folhetim, Cecilia passava o jornal ao snr. Fortunato, e ia tratar
    do chá. Fortunato lia para si os annuncios.

    Manoel Quentino passava então pelo somno.

    Depois travava-se entre os dois um dialogo, todo cortado de bocejos
    contagiosos;–os assumptos eram para estes effeitos. Eis o programma
    d'esta noite:

    Primeira parte:–Fortunato principia por dizer–«Pois é
    verdade.»–Replica-lhe Manoel Quentino–que a vida estava para
    elle.–«Queixe-se, que tem de quê»–diz o outro–«E não tenho
    pouco»–responde Manoel Quentino. Dois bocejos de ambos os lados, e
    pausa.

    Segunda parte:–Manoel Quentino queixa-se de umas dores de
    cabeça.–Fortunato attribue-as ao tempo e esfrega os olhos. Manoel
    Quentino inclina-se a que seja antes do estomago. O outro aconselha-lhe
    que não use de café ao almoço. Bocejos reciprocos.

    Terceira parte:–O snr. Fortunato, olhando para o tecto, nota que a sala
    tem diminuto pé direito. Manoel Quentino responde que, para a largura, é
    o bastante. O outro diz algumas palavras sobre as vantagens dos
    estuques. Manoel Quentino concorda e procura uma transição para fallar
    contra os senhorios; Fortunato responde-lhe com uma diatribe contra os
    caseiros. Reproduz-se um bocejo em Manoel Quentino, que se transmitte ao
    outro.

    Quarta parte:–Fortunato diz que está a expirar o carnaval. Manoel
    Quentino replica que lhe não deixa saudades. Fortunato faz igual
    declaração. Manoel Quentino vê com maus olhos a chegada da quaresma, por
    causa das confissões. Discute-se quaes os confessores mais passa-culpas.
    Manoel Quentino lembra-se de perguntar quem inventaria isto de
    confissões. Fortunato fal-as remontar ao tempo dos romanos, supremo grau
    de vetustez, e d'elle conhecido.

    D'esta vez os bocejos ficaram em meio, graças á entrada de Cecilia e de
    Antonia com o taboleiro do chá.

    Era notavel a transformação, operada em Fortunato. Alegrava-o o aspecto
    das tostas e do leite. Então que querem? Não era que o homem precisasse
    d'aquillo; mas emfim todo aquelle apparato bulia-lhe com a sensibilidade
    gustativa e, por os mysteriosos laços do physico e do moral, lá se lhe
    ia entender com a alma por fim.

    Esta satisfação interior desentranhava-se em amabilidades para com a
    Hebe domestica d'aquella ambrozia–a snr.ª Antonia.

    –Ai, snr.ª Antonia–dizia elle–assim é que é; cada vez mais nova.

    –Não me diga isso, snr. Fortunato; logo eu, que estou acabada.

    –Acabada! Ainda mal principiou…

    Eu não sei se era intenção do snr. Fortunato terminar aqui a oração,
    cujo sentido fica um tanto obscuro. E não o sei, porque n'este ponto
    Cecilia interrompeu-o, dizendo-lhe:

    –Faz favor de ver se está bom do assucar, snr. Fortunato.

    –Excellente, menina; mas faz-me favor de mais uma colherinha. Assim,
    muito bem; mais uma agora e mais nada… assim… agora mais não. Está
    muito bem.

    Depois de cada um tomar a sua posição respectiva, o snr. Fortunato
    principiou a fallar, misturando na bôca as palavras com chá, com leite,
    e com tostas e bolos.

    –Pois, menina, eu estou morto agora por ver se o tal meliante escapa da
    prisão.

    –Pois quem foi preso?–perguntou Manoel Quentino, que, tendo estado a
    dormir, não sabia que o seu amigo se referia ao romance, que vinha na
    folha.

    –Então não ouviu?–disse o snr. Fortunato, engulindo um bolo–Ella foi
    bem pilhada, isso lá foi. Porque o homem, pelos modos, não sabia que o
    desconhecido era o pae da rapariga, e tanto que elle ficou espantado
    quando o outro lhe appareceu, vestido de preto, e lhe disse…–Aqui o
    snr. Fortunato engrossou a voz.–«Eu sou a ultima das tuas victimas!»–E
    o filho então é que veio a saber d'isto: sim, porque até alli não sabia
    nada. Veio então a saber que a irmã do amigo do commendador é que tinha
    dado o dinheiro, que elles entregaram á tal viuva do cunhado do
    escrivão.

    Manoel Quentino mexia machinalmente o chá, olhando boquiaberto para o
    amigo, sem que percebesse uma só palavra, apesar do snr. Fortunato
    gesticular, voltado para elle.

    –Que diacho de embrulhada é essa? Eu se o entendo!

    –Então não leu?–teimava o outro–Elles tinham combinado que, logo que
    partisse o navio, o rapaz fosse accusado do roubo feito ao commendador;
    e para isso mandaram dizer aos tios do defunto que as joias foram
    encontradas na caixa do escudeiro do desconhecido, mas…

    –Mas quem demonio é essa gente toda? Que mexerofada de
    cousas!–exclamou Manoel Quentino, devéras impaciente.

    –Então não ouviu?–insistiu o snr. Fortunato, cuja natural difficuldade
    de expressão se exacerbava ao expôr as enredadas aventuras de um romance
    francez.

    Cecilia, que ao principio não attentára no dialogo comico, que se estava
    trocando entre os velhos, não pôde deixar de rir com vontade, ao dar por
    elle.

    –Mas onde aconteceu isso tudo, homem?–perguntava Manoel Quentino.

    –Em Paris. Pois não…

    –O pae não vê que o snr. Fortunato está a fallar do romance?

    –Ah! isso sim.

    –Pois que cuidava?

    –Eu sei lá o que cuidava. Eu cá de romances não entendo. E agora por
    isso lembra-me que aquelle endiabrado rapaz, o Carlitos, teimava que me
    havia de emprestar lá uns romances… Eh! eh! Tem diabo o rapaz.

    –Tambem está um estroina!–disse o snr. Fortunato, que era dos que
    tinham Carlos na conta de homem perigoso.

    –Mas deixe lá, que é uma boa alma!–respondeu Manoel Quentino–Ninguem
    lhe póde querer mal. É capaz de tirar a camisa do corpo para soccorrer
    um pobre. Ahi está que uma vez viram-o, era ainda dia claro, entrar na
    cidade, trazendo o cavallo á arreata e na sella vinha uma pobre velha,
    que elle encontrou na estrada com um pé desmanchado; outro que fosse…
    Ó Cecilia, então? onde tens tu o sentido, que nem reparas que alli o
    snr. Fortunato tem ha tanto tempo a chicara vazia?

    –Ai, perdão–disse Cecilia, córando pela distracção em que caíra.

    Não sei bem por que isto a fez córar assim; mas o facto deu-se.

    O snr. Fortunato, que havia muito tossia e suspirava com o fim de chamar
    para si, e para a chicara, as attenções, disse por delicadeza:

    –Não tinha pressa.

    Manoel Quentino continuou tecendo louvores a Carlos.

    –Mas emquanto á tal historia da mulher–dizia Fortunato, recebendo de
    Cecilia a outra chavena–isso tambem foi parlapatice no rapaz, pois…

    –Então; faz favor de ver se quer mais assucar–disse Cecilia, com um
    certo modo desabrido, que eu tambem não sei explicar, e que contrastava
    com a doçura que lhe era habitual.

    O snr. Fortunato notou-o.

    –Está muito bem, menina–disse elle.–Faz-me o favor de mais uma
    colherinha. Está muito bem.

    –Menos isso, snr. Fortunato–continuou Manoel Quentino.–Bem se vê que
    não conhece o Carlitos. De imposturas é que elle nunca foi. Já em
    creança…

    –Meu pae, sirva-se antes d'estes bolos–disse Cecilia de modo tão
    affectuoso, que alvoroçou a sensibilidade do velho.

    –Deixa estar, filha, que eu cá me vou servindo.

    –Pois sim–insistia o snr. Fortunato–mas que elle não é lá de muitos
    bons costumes, isso é que é verdade.

    –Antonia, sirva aqui o snr. Fortunato–disse Cecilia sêccamente, ordem
    que, por excepcional, surprendeu a todos.

    Tambem não sei bem explicar a razão d'esta ordem.

    –Tudo isso não passa de rapaziada–proseguiu Manoel Quentino.–Mas o
    que se chama fundo, boa alma, isso tem.

    –Olhe, snr. Manoel Quentino, homem que não toma rumo de vida…

    –Tambem ha muitas más almas á testa de grandes estabelecimentos, snr.
    Fortunato. Se um modo de vida fosse garantia e probidade!–disse Cecilia
    com ironia.

    –Pois bem sei que não, menina, mas…

    –Mas, mas, meu caro–disse Manoel Quentino–o que ninguem póde negar é
    que está alli um homem de bem… é verdade isso… Muitos fazem peior
    com menos a desculpal-os.

    O dialogo proseguiu, discutindo-se muito Carlos. Cecilia porém
    absteve-se de tomar parte n'elle.

    Terminou o chá. O ardor da conversa baixou. Manoel Quentino presentia o
    somno. José Fortunato sentia-se a digerir. Cecilia trabalhava e ás vezes
    ficava parada com os olhos fitos na luz, como se ella lhe offerecesse
    qualidades novas a examinar. Davam emfim nove horas.

    –Ora vamos até casa–disse José Fortunato erguendo-se.

    –Olhe se se agasalha–recommendou-lhe Manoel Quentino.

    –Antonia, venha alumiar–disse Cecilia.

    E o snr. Fortunato, feitos os seus cumprimentos, descia as escadas,
    conversando com Antonia até á porta da rua a respeito de frieiras, e
    mettia-se em casa, onde a imaginação teimava em recordar-lhe a doce
    figura de Cecilia, e tudo quanto lhe dissera.

    –Estranhei hoje os modos da rapariga–dizia elle ao deitar-se.

    Uma perfida paixão começára, havia muito, a minar o coração do pobre
    homem.

    Manoel Quentino, como tinha de se levantar cedo, ia-se deitar pouco
    tempo depois de Fortunato sair.

    O dialogo entre o pae e a filha d'esta vez consistiu n'isto:

    –Este snr. Fortunato ás vezes!…

    –É caturra, é…

    –E tem umas ideias! Boa noite, meu pae.

    –Muito boa noite, minha filha. Deus te abençoe.

    Cecilia retirou-se.

    Apesar de na vespera se ter deitado tarde, como o leitor sabe, Cecilia
    não sentia somno. Parecia-lhe estar ainda experimentando o atordoamento
    do baile. Lembrava-lhe tudo quanto Carlos lhe dissera, e o mais que de
    Jenny tinha sabido, e affligia-se então. Depois vinham as reflexões de
    Fortunato, depois as palavras do pae e os episodios que de Carlos
    Whitestone referira. A final cedeu ao somno. Pouco lucrou na transição.
    Ha certo dormir que fatiga mais que a vigilia. Trava-se uma lucta de
    sonhos, que nos deixa extenuados.

    Cecilia imaginou que ia n'um barco, levado pela corrente impetuosa do
    rio, em direcção da barra. O perigo era certo, e comtudo o barco ia
    cheio de mascaras que dançavam. Cecilia gritava, mas ella propria não
    escutava a sua voz. O barqueiro era o snr. Fortunato, e, cousa singular,
    ao mesmo tempo que remava, ia tomando chá. Depois vinha Carlos, com um
    cavallo pela rédea; mas o que mais a surprendia era que vinha pelo mar.
    Carlos queria salval-a, tirando-a do barco, mas as outras mascaras e o
    snr. Fortunato não deixavam. Porém o snr. Fortunato já não era o snr.
    Fortunato, mas sim um dos personagens do romance, que tanto o
    impressionára; e o mar tambem já não era bem mar, porque tinha camarotes
    em volta. E comtudo o perigo persistia, sem saber bem como ou em quê, e
    agora era ella a que fugia de Carlos.

    Finalmente, o sonho era de um enredo complicado, tendo por elementos os
    diversos acontecimentos e assumptos, que mais tinham preoccupado Cecilia
    n'aquelle dia, mas tudo em desordem completa.

    Em consequencia d'este sonho, acordou de manhã, pallida e abatida–o que
    não pouco inquietou Manoel Quentino.

    XIV

    IMMINENCIAS DE CRISE

    Emquanto Cecilia passava assim pacificamente o serão d'aquella noite,
    andava Carlos procurando com anciedade, por todos os salões de mascaras,
    a sua desconhecida da vespera.

    Jenny notára a impaciencia, com que o irmão tinha aguardado a noite e,
    ao vel-o sair, disse-lhe com modo particular:

    –Adeus, Charles; quer-me parecer que te não recolherás d'esta vez pelas
    quatro horas da manhã.

    –Quem sabe, Jenny?

    –Adivinho-o.

    Effectivamente não eram ainda duas horas, quando Carlos Whitestone,
    cansado de procurar em vão, em cada dóminó e sob cada mascara de seda, a
    incognita do ultimo baile, voltou a casa em pouco agradavel disposição
    do espirito.

    Jenny, que o sentiu chegar, sorriu de novo e disse comsigo mesma:

    –Inda bem, que terminou o carnaval. Charles, dentro em dois dias, já
    pensará em outra cousa.

    Acabára de facto o carnaval. Expirára essa época votada á folia e á
    loucura sem rebuços e abria-se agora a da penitencia e dos sermões.

    Em qual das duas ha mais verdades, mascaradas sob falsas apparencias,
    deixo aos moralistas decidir. Ia principiar o reinado dos véos, durante
    o qual a piedade e a moda levam ás sextas-feiras a multidão para a
    igreja de S. João Novo, e ao domingo despejam meia cidade nos arrabaldes
    proximos, para assistir á procissão dos Passos e ao respectivo sermão do
    encontro.

    Quasi toda a manhã de quarta-feira de Cinza passou-a Carlos em casa.

    Contra o que era de esperar do caracter d'elle, dominava-o ainda a
    lembrança da mysteriosa mascara; o despeito de a ter deixado escapar,
    sem que lhe ficassem vestigios, pelos quaes podesse um dia vir a saber
    quem ella fosse, concorria para o não deixar tranquillo agora. Estava
    dando tratos á imaginação, para se lembrar de qualquer meio conducente á
    solução d'aquelle problema de carnaval. Mas nenhum alvitre lhe offerecia
    a imaginação atormentada.

    Saíu emfim, sem saber para quê, nem para onde; em vez de procurar os
    centros de reunião mais concorridos, e onde, de ordinario, se fazia ver
    e ouvir, mudou de rumo, deixou-se ir ao acaso e, passado tempo,
    caminhava por entre os pinhaes, que orlam a parte ainda não edificada da
    rua da Boa Vista.

    Nos seus habitos de vida, essencialmente urbana, eram tão raras as
    occasiões de se ver assim entre arvores e fóra do povoado,
    principalmente áquellas horas do dia, que o facto estava-lhe causando
    uma impressão singular.

    Parecia-lhe um mundo novo; e alli, a dois passos de casa!

    Internou-se por pinhaes e campos, até perder de vista a estrada. Parou
    emfim. N'um estado moral, como o de Carlos n'aquella manhã, não são
    necessarios os grandes espectaculos da natureza para incitarem o
    pensamento a uma d'essas divagações, a que anda tão sujeito o dos
    poetas.

    A vastidão do mar, o horizonte amplissimo, que se descobre do alto das
    montanhas, o fragor da cataracta, que se despenha no valle, subjugam e
    obrigam a meditar até os menos propensos a contemplações abstractas.

    Haja porém um fermento de poesia no espirito de qualquer homem, ou
    tenha-se apoderado d'elle a melancolia, que é uma poesia tambem, e
    menores causas bastarão para se produzirem effeitos ainda maiores.

    O caminhar do insecto ou o rastejar do verme por entre as folhas sêccas
    do chão, a lande, desprendida do ramo e arrebatada na corrente, o raio
    do sol, que vae colorir a maravilhosa teia que a aranha teceu nas
    tojeiras, nas praias o movimento de expansão das actinias, ou rosas do
    mar, esses verdadeiros forcados das fragas, e outros iguaes phenomenos,
    sem importancia para quem os vê com animo distrahido, são já alimento
    bastante para phantasias mais apuradas.

    Carlos tinha a imaginação predisposta para estas impressões subtis, e,
    como raras vezes se sujeitava a ellas, recebia-as agora com duplicada
    intensidade.

    Era pelas tres horas da tarde de um dos mais formosos dias, que nos póde
    conceder fevereiro. Havia no campo aquella frescura, aquelle renascer de
    vida que, após longos dias de chuva, traz um dia de sol claro. O céo não
    tinha uma nuvem, nem lhe empanava o azul o véo transparente de nebrinas.
    Os pinhaes estavam silenciosos, como se, julgando-se já na primavera, se
    tivessem calado para escutar as aves; o vento, de debil que era, mal
    podia agitar as folhas movediças das arvores que o inverno respeita. Era
    tal a serenidade da tarde, que o fumo das casas rusticas subia ao ar
    lentamente, em columnas direitas, sem que uma viração as quebrasse, e só
    muito alto se dissipava na atmosphera.

    Do logar onde parára, Carlos ouvia distinctamente a voz das raparigas do
    campo, chamando o gado, rindo ou cantando.

    Era de longe que partiam aquellas vozes, mas a amenidade da hora e o
    silencio deixavam-as chegar até alli sonoras e perceptiveis.

    Carlos sentiu-se enlevado por tudo aquillo.

    –É uma singular loucura–pensou elle–julgar que se aproveitam os dias
    da juventude da maneira por que eu vou passando os meus. Do homem, que
    teve a minha vida, emquanto novo, costuma dizer-se que soube gosar
    d'ella em tempo. E como é que eu d'ella gosei? Na atmosphera asphyxiante
    de um café; na plateia de um theatro, onde se falla e pensa em tudo
    menos na belleza da arte; nas assembleias semsabores; nas esquinas das
    praças, ou em lojas á moda. Na verdade, que delicioso viver! E o
    espirito, que parece sentir-se palpitar, agitar-se em nós, quando assoma
    a mocidade, acaba por embotar-se, por adormecer; torna-se incapaz de nos
    proporcionar certa ordem de gosos, para os quaes temos faculdades
    creadas. E diz-se então que soube gosar da vida o que voluntariamente se
    privou das mais gratas impressões, que podem sentir-se n'ella!

    Isto dizia, ou antes, pensava Carlos, ao entranhar-se cada vez mais no
    pinheiral, e respirando a pleno peito a atmosphera balsamica do logar.

    –Nem eu sei–proseguia elle–como ainda experimento prazer, ao achar-me
    aqui só. Nos habitos de vida, que fiz meus, perde-se até a faculdade de
    saber sentir assim, a sós; quando é talvez d'esta maneira que a
    imaginação mais subtil se mostra…

    Vejam os leitores até onde iam já arrastando Carlos os attractivos
    d'aquella solidão suburbana!

    Operou-se porém uma transformação nas suas ideias, que parecia vogarem,
    e á vela cheia, seduzidas pelas doçuras da vida de anachoreta. Um
    pensamento, menos misanthropo, mais social, fel-as mudar de rumo.

    –Mas não–reconsiderou elle–não basta sentir; é necessario transmittir
    as expressões dos nossos sentimentos, e os troncos das arvores, a final
    de contas, não são os confidentes mais proprios. Tudo precisa de
    reflectir-se, para não perder na immensidade; a luz, n'um espaço vasto,
    dissipa-se; o som esmorece; o sentimento parece tambem enfraquecer, se
    outra oração, reflectindo-o, o não reforça. É porisso que a presença de
    um amigo… Mas que amigos tenho eu?

    Tremo devéras pelos chamados amigos de Carlos, ao vel-o disposto a
    responder a esta pergunta, que fez a si proprio.

    –F…,–continuou elle–cuja amizade não resistirá á primeira falta de
    senso que lhe notar n'um folhetim; C…, que romperá commigo, se eu
    tiver a franqueza de lhe apontar o menor defeito de equitação; L…, que
    abandonaria o amigo, logo que o visse seguir um terreno, onde elle
    corresse o perigo de enlamear as botas de polimento…, e todos os mais
    da mesma força. Vão lá escolher um d'esses homens para companheiro
    n'estas _viagens sentimentaes_.

    Aqui interrompeu-se para observar um pequeno e agil lacerto, que fugiu
    espavorido ao sentil-o aproximar, e do buraco, onde se occultára,
    continuava espiando-lhe os movimentos com os olhos vivos e como
    scintillantes. Carlos achava curiosissimo este espectaculo vulgar.
    Depois seguiu caminho, distrahido ainda, e pensava:

    –Ahi está; se eu dissesse a qualquer que me entreteve esse pequeno
    reptil, correndo por entre os fetos e por sobre as pedras musgosas
    d'aquelle muro, zombaria da minha candura; chamar-lhe-hia pieguice… Ha
    certas vibrações de sensibilidade, que não se póde communicar… a não
    ser… a não ser a um coração de mulher… Ellas sim, teem certas
    puerilidades sublimes, que… Ora adeus! Temos outra como a dos amigos.
    Se me recordar de algumas mulheres que tenho amado, que vejo eu? A S…,
    mulher nervosa, que teria um deliquio só ao ver aquella
    sardonisca–sensibilidade de toucador; a C…, essa então, mulher forte,
    que só um terremoto como o de Lisboa seria capaz de commover; a E…,
    belleza de salão, que se levanta ao meio dia, admira a natureza… nos
    jardins, e lamenta que a solidão não tenha gente que veja como ella a
    sabe apreciar…; e as outras regulam por isto. Verdade é que eu tambem
    com isto me satisfazia; quem sabe se procurando de outra maneira…

    N'este ponto tomaram as suas meditações outro caracter. Alguns passos
    mais adiante, já elle meditava:

    –Á força de me rir, em sociedade do amor sincero, desinteressado, dos
    casamentos de paixão, da vida de familia, quasi me deixei persuadir de
    que me ria convencido. E comtudo, se me sondar devéras… se aproveitar
    estes momentos raros, em que sou franco e expansivo commigo mesmo…

    O leitor sabe de certo até onde podem chegar as excursões do pensamento,
    quando no terreno que o de Carlos ia seguindo agora; muito mais se, como
    elle, se está em pleno bosque e longe do rumor da cidade; se o sabe, não
    estranhará que, momentos depois, já assim estivesse pensando Carlos:

    –Um amor bem verdadeiro, uma vida bem intima com uma mulher, a quem se
    queira como amante, que se estime como irmã, que se venere como mãe, que
    se proteja como filha…, é evidentemente o destino mais natural ao
    homem; o complemento da sua missão na terra…

    Quando Carlos Whitestone chegára a formular, no pensamento, esta
    profissão de fé, que, uma ou outra vez, concebeu toda a cabeça de vinte
    annos, ainda das mais azadas para desvairamentos, attingia a borda do
    pinheiral opposta áquella, por onde havia entrado.

    D'alli por diante o terreno, mais desimpedido de arvores, era occupado
    por campos em cultura, vinhedos, quintas, e por as casas respectivas;
    umas juntas, outras dispersas, e mais ou menos graciosas todas.

    Carlos sentou-se no pequeno muro de demarcação do pinhal. O horizonte
    que tinha diante de si, era vasto, e o olhar foi, quasi ao extremo
    d'elle, fixar-se em uma das mais distantes d'aquellas casas, ainda que o
    espirito não tomasse a menor parte n'aquella apparente contemplação.

    Tinha esta casa dois andares; era a face posterior a que se avistava
    d'alli. A varanda do primeiro andar estava toda entretecida de
    trepadeiras, que subiam do quintal. No intervallo das duas janellas
    florescia, em uma especie de alegrete, um arbusto, ao que parecia, de
    camelias. Na varanda do andar de cima via-se, pendurada de uma corda,
    que se estendia em todo o comprimento d'ella, alguma roupa branca, sobre
    a qual o sol batia em cheio, fazendo-lhe realçar a alvura.

    Como disse, demoraram-se n'aquelle ponto da perspectiva os olhos de
    Carlos, sem que os seguisse, desde logo, o pensamento, absorto como
    estava ainda na sequencia de meditações sobre os destinos do homem
    n'esta vida.

    Mas, instantes depois, alguma cousa se passou, que foi como que o laço
    de união entre o objecto das contemplações dos olhos e o das do
    espirito, que, desde então, se associou áquelles, no exame da modesta
    vivenda, em cujas vidraças o sol simulava a apparencia de um vasto
    incendio.

    O phenomeno nada tinha de extraordinario comtudo. Na varanda de cima
    apparecera uma mulher; nada mais. Mas esta mulher, ainda que a distancia
    mal permittisse distinguil-a, mostrava, pela elegancia de estatura e
    pela vivacidade de movimentos, ser ainda joven. Não era para estranhar
    que a imaginação de um rapaz de vinte annos a suppozesse tambem formosa.

    Viera examinar a roupa, que estava a córar ao sol; tirava uma e
    substituia-a por a que trazia de dentro; mais adiante, mudava a face
    exposta de outra; de quando em quando interrompia o trabalho e olhava
    para fóra, pondo a mão por cima dos olhos, como a abrigal-os da
    intensidade da luz; outras vezes, voltava-se para a sala e parecia
    fallar a alguém de dentro. Depois desapparecia; voltava de novo, e
    sempre, com manifesta solicitude, applicada ao trabalho.

    Carlos seguia com prazer o ir e voltar d'aquella mulher, que a custo
    distinguia, mas que nem por momentos imaginou que podesse ser uma
    criada.

    Elle, que estivera sonhando com os encantos do viver intimo, aprazia-se
    de imaginar agora, n'aquella casa, um d'esses mundosinhos modestos, que
    lhe estavam a appetecer.

    –Uma esposa, nova por certo, canceirosa com os negocios
    domesticos…–pensava elle–Deve ser um prazer indefinivel sentir-se a
    gente viver sob os cuidados de um d'estes entes, votados assim
    inteiramente á nossa felicidade…

    Era natural, desde que pensou isto, que se lembrasse de Jenny.
    Lembrou-se, é verdade; mas a imaginação sorriu affectuosamente áquella
    doce imagem, e deixou-a. Ao estado do seu coração não satisfazia só o
    sorriso fraternal e meigo que animava de bondade as feições da irmã. A
    seu pezar, surprendia-se a aspirar a mais.

    A tarde adiantava-se, e Carlos não se desviava d'alli; prendia-lhe as
    attenções aquella casa e a sympathica visão da varanda.

    A final fecharam-se as janellas. Pouco faltava para o sol se esconder de
    todo no mar. Carlos reparou então que era tempo de voltar a casa.

    Olhou mais outra vez ainda, e com saudade quasi, para a varanda. Os seus
    poucos e imperfeitos conhecimentos da topographia d'aquella parte da
    cidade não lhe permittiram conjecturar sequer qual fosse a rua a que
    pertencia a habitação.

    A nossa costumada discrição impede-nos de compensar este defeito.

    Seguindo outra vez o caminho, por onde viera, Carlos voltou a casa, mas
    a passos mais apressados.

    Já proximo da porta, sentiu uma mão, que se lhe pousava no hombro.
    Voltou-se; reconheceu um de seus amigos.

    –Que fazes tu, homem?

    –Recolho-me.

    –D'onde vens?

    –Do campo.

    –Ah! cultivas a bucolica? a poesia pastoril?

    –Ás vezes.

    –Dou-te os pezames. Gessner envelheceu; Florian dorme o somno dos
    inoffensivos. A proposito, já te mostrei o meu folhetim de critica, a
    respeito do volume do Serrão?

    –Ainda não.

    –Apparece então no Guichard esta noite. O livro é um pretexto; o que eu
    procuro é caracterisar a litteratura moderna, estremando os campos, hoje
    um pouco confusos, de romanticos e de classicos. Sabes que é o meu
    systema investigar nas pequenas apparencias as grandes revelações? É o
    que faço d'esta vez ainda. Assim, n'este estudo, serviram-me de ponto de
    partida duas palavras apenas; uma colhida de Racine, na _Berenice_;
    outra de Victor Hugo, no _Ruy Blas_. São as palavras finaes de uma e de
    outra tragedia. Antiochus vê partir Berenice e exclama: _Helas_! Ruy
    Blas morre nos braços da rainha e murmura: _Merci!_ Basta-me
    isto.–_Helas_!–é o grito de dor, é o desespêro, é a falta de coragem
    no infortunio; é a ultima palavra de uma litteratura, que não tem
    confiança no futuro, de uma litteratura, que vive só do passado.
    _Merci_!–é, pelo contrario, a resignação, a esperança, o apuramento do
    padecer até á essencia inebriante do soffrimento proprio, que chega a
    confundir-se com o prazer… é pois a phrase digna de uma litteratura
    viva, inspirada do futuro…

    A prelecção continuou; e Carlos reconheceu, pela impaciencia com que a
    estava escutando, a nenhuma disposição que tinha para apreciar n'aquella
    noite a sociedade de seus amigos. Separou-se d'este o mais depressa que
    pôde.

    –Não serei eu que vá ao Guichard esta noite. D'esta vez farei a vontade
    a Jenny. Ficarei em casa–disse elle, logo que conseguiu despedir-se.

    E entrou justamente quando já a campainha chamava para o jantar.

    Jenny, vendo-o chegar, e notando o ar grave que trazia, murmurou
    comsigo:

    –Ainda é cêdo para o restabelecimento. Esperemos.

    XV

    VIDA INGLEZA

    O jantar correu, ao principio, silencioso, como de costume.

    Mr. Richarde, apesar de tudo quanto promettia aquelle seu ar de
    satisfação, fazia as honras da mesa, usando de monosyllabos, e não se
    dava ao trabalho de formular uma oração inteira, sempre que com qualquer
    palavra solta lhe era possivel exprimir o pensamento.

    –_Roast beef_?… Salame?… Fiambre?… Ostras?–Era a maneira, pela
    qual elle perguntava a Carlos ou a Jenny quaes os pratos, de que
    preferiam servir-se.

    –Mostarda… Queijo… Aquillo… Isto… Traz… Tira… Leva…–Eram
    as ordens, que recebiam os criados, os quaes manobravam com uma
    promptidão, seriedade e silencio, essencialmente britannicos.

    Carlos não se mostrava mais expansivo. Além da pouca disposição para
    fallar, que em regra sentia diante do pae, estava n'aquella tarde muito
    fóra das habituaes condições de espirito, e em outra qualquer companhia
    de certo lhe estranhariam igualmente a taciturnidade.

    Jenny dava algumas ordens, em voz baixa, aos criados, que se inclinavam
    diligentes para escutal-a; fazia, no mesmo tom, uma ou outra observação
    a Carlos, e aventurava até algumas perguntas ao pae, sem que lhe fosse
    possivel comtudo generalisar conversa.

    Tudo isto, a regularidade e perfeito methodo de serviço, a gravidade e
    asseio dos criados, e a meia claridade da sala, dava não sei que aspecto
    solemne ao acto, como se fosse uma ceremonia funebre.

    Á medida, porém, que se repetiam as libações e que o effeito dos
    variados vinhos se combinava na cabeça de Mr. Richard, o velho inglez
    principiou a despir-se d'esta soturna gravidade e a lingua a
    desencadeiar-se-lhe, rompendo aquella especie de mutismo, que lhe
    impunham as regras da etiqueta britannica.

    Verificava-se n'isto uma opinião de Fielding, escriptor que disputava a
    Sterne as predilecções litterarias de Mr. Richard; diz effectivamente o
    auctor do _Tom Jones_ que o vinho tem a propriedade de trazer á luz o
    verdadeiro caracter dos homens, caracter que, nos periodos de
    sobriedade, o artificio consegue dissimular muitas vezes. Ora, como
    dissemos, Mr. Richard Whitestone era sorumbatico, por convenção; mas no
    fundo permanecia a jovialidade, que vinha á superficie, á medida que se
    adiantava o jantar.

    Ainda na presença de Jenny, já elle começára a ensaiar alguns gracejos,
    a contar passagens da sua vida de Londres, travessuras da meninice, e
    algumas extravagancias do tempo de rapaz.

    Carlos procurava então maliciosamente o olhar da irmã, a qual, pelo
    contrario, evitava com discrição o d'elle; porque estas historias ambos
    as sabiam já de cór, tão infalliveis ellas occorriam em determinadas
    circumstancias.

    Sempre que, em taes alturas do jantar, Carlos via servir um perú
    recheado, esperava já a narração de como, na sua infancia, Mr. Richard,
    então chamado ainda o pequeno Dick, com mais outros companheiros do
    collegio, tinham conseguido roubar uma d'estas aves do pateo do
    reverendo Jackson, seu mestre, e do detestavel assado que depois, ás
    occultas, fizeram com ella.

    O lombo de vacca inevitavelmente lembrava a anecdota apocripha d'aquelle
    rei de Inglaterra, que em um accesso de bom humor armou cavalleiro este
    saboroso artigo comestivel, ao qual, desde então, se concederam as
    honras de _baronet_, como parece indicar o nome de _Sirloin_ ou _Sir
    loin_, com que os inglezes o designam.

    Um prato de avelãs trazia quasi sempre comsigo a historia de uma celebre
    aveleira, que havia em certo parque das proximidades de Londres, pelo
    tronco da qual tantas vezes Mr. Richard, ainda creança, trepára com
    feliz exito, até um dia em que, escorregando, ficou suspenso de um galho
    por espaço de alguns minutos.

    O _pudding_ era pretexto para fallar no monstruoso _pudding_ que se
    cozinhava na Inglaterra, em não sei que solemnidade popular, e d'ahi a
    enumeração de muitos outros usos, e costumes nacionaes e de varias
    festas notaveis. Entre essas, a mais detidamente descripta era a do Lord
    Mayor; n'esse dia, guardado por toda a City, como dia santo, o
    personagem eleito para aquelle alto cargo é processionalmente levado á
    presença do Lord Chanceller, com o fim de ser por elle confirmada a sua
    eleição. Mr. Richard sabia e descrevia todas as particularidades do
    ceremonial, bem como todas as attribuições dos multiplicados cargos de
    que se compõe a excepcional corporação de Londres, desde o alto Lord
    Mayor até o mais modesto bedel de parochia.

    Como na procissão fluvial pelo Tamisa, celebrada n'aquelle dia, Mr.
    Richard estivera de uma vez em riscos de se afogar, a referencia
    minuciosa d'este caso pedia a de um outro analogo que lhe succedera por
    occasião dos tumultos populares occorridos durante o processo de
    divorcio de Jorge IV, e varias particularidades, pouco edificantes, a
    respeito da rainha Carolina e do seu favorito Bergamy.

    Carlos ouvia tudo isto calado, com ar de resignação e deferencia filial;
    Jenny com uma physionomia mais attenta, ainda que nem sempre a attenção
    do rosto lhe estivesse no espirito tambem.

    Jenny era a primeira a retirar-se da mesa, segundo o discreto costume,
    hoje mais seguido, mas originariamente britannico.

    Então tomavam maior incremento ainda as libações de Mr. Richard
    Whitestone.

    Accendia um charuto e dava-se uns ares de familiaridade, que em nenhuma
    outra occasião se repetiam.

    Carlos, de ordinario, perdia tambem então um pouco do habitual
    retrahimento para com o pae, e, fumando defronte d'elle, entrava com
    mais desafogo n'este dialogo.

    N'aquella tarde, porém, conservou-se ainda pouco expansivo, e quasi
    distrahido, perante a crescente communicabilidade.

    N'este dialogo _inter pocula_ eram infalliveis as referencias do
    negociante ao seu livro favorito–O _Tristram Shandy_, de Sterne.

    Mr. Richard apreciava tudo n'aquelle livro extravagante. Sabia-o quasi
    de cór e, apesar d'isso, lia-o ainda e de todas as vezes ria com a mesma
    vontade, não obstante não encontrar no decurso da leitura já alguma
    cousa imprevista.

    Carlos, ainda quando não tivesse lido a obra, tinha já razão para a
    conhecer a fundo, graças ás quotidianas citações do pae; era porém
    obrigado a escutal-o, como se tudo fosse novo para elle.

    As dissertações philosophicas do pae de Tristram, as ingenuidades e
    venetas guerreiras do tio Tobias, as argucias e façanhas do Corporal
    Trim, as interminaveis e extravagantes divagações de Tristram, o
    supposto auto-biographo, tudo Mr. Richard citava com enthusiasmo e com
    vivacidade.

    Nem lhe passavam por alto os episodios e as dissertações, que respiram
    certas liberdades, verdadeiramente rabelesianas, capazes de alvoroçar os
    ouvidos menos pechosos. O episodio dos amores do tio Tobias e os do seu
    fiel camarada, de indole menos quixotesca, eram até das passagens
    favoritas e das que com mais cordiaes risadas commentava.

    Vinham luzes e proseguia o dialogo, nem sempre demasiado ingenuo.

    Ao levantar da mesa, tomavam-se posições ao fogão; a conversa
    continuava, mas o ponto culminante da loquacidade e da viveza de Mr.
    Richard Whitestone tinha passado já.

    N'este primeiro periodo de declinação sobrevinham as citações do _Tom
    Jones_.

    Mr. Richard não se cansava tambem de exaltar aquelles soberbos perfis da
    penna de Fielding e as judiciosas reflexões que o auctor mistura á
    narrativa.

    Depois, a proximidade do calor do fogão, as exhalações do carvão inglez,
    a preponderancia dos vapores do tabaco, e mais tarde o _punch_,
    deprimiam ainda mais os espiritos do commerciante.

    Passava a fallar de politica, citava o _Times_; n'esta noite disse a
    Carlos que Lord Palmerston estava resolvido a dissolver o parlamento, no
    caso de não encontrar apoio na camara dos communs.

    Isto já foi dito em tom soturno. Carlos era de todo indifferente aos
    destinos do parlamento inglez.

    Depois fallou nos principaes movimentos e feitos de armas do exercito
    alliado na Crimeia e no provavel exito da campanha; e d'aqui entrou em
    considerações sobre o estado do commercio em Londres. Carlos luctava
    heroicamente para reprimir bocejos de fastio.

    Era noite cerrada; a voz de Mr. Richard tinha já umas entonações surdas,
    que, combinadas ás pancadas do relogio da sala, produziam em Carlos um
    effeito soporifero irresistivel.

    Jenny, quando pelo silencio que reinava, sentia que tinham chegado as
    cousas a este periodo critico, voltava outra vez á sala. Era então que o
    irmão aproveitava a occasião para saír.

    N'esta noite ficou.

    Jenny olhou-o admirada.

    Carlos respondeu-lhe, encolhendo os hombros, como a exprimir a resolução
    de ser condescendente aquella vez, ficando.

    A irmã agradeceu-lhe com um gesto; mas pensava comsigo:

    –Bem sei. Ainda não te passou o desgosto pelo mau resultado da tua
    aventura. Paciencia!

    Carlos voltára a casa, como dissemos, reconciliado com a vida domestica
    e convencido de que estava bem disposto para saborear os prazeres de um
    serão inglez.

    Resolveu por isso ficar. Mas a suspeita de Jenny era tambem fundada.

    Desalentado pela falta de indicações em relação ao mysterio da mascara,
    na qual a seu pezar pensava ainda, mingoava-lhe animo para saír, sem
    esperanças de o elucidar.

    Mas a vida domestica, tal como se passava ao fogão, junto do qual Mr.
    Richard quasi dormitava, não era a que o podia satisfazer.

    O viver intimo, cujos encantos Carlos julgára ter concebido aquella
    tarde, era apenas o accessorio de alguma cousa mais essencial ao
    coração, de alguma cousa, cuja necessidade começava a sentir emfim.
    Sorria-lhe o conchego domestico, mas aquecido, mas illuminado por outras
    chammas, que não eram as que lambiam o _fender_ do fogão; animado por
    mais ardentes sentimentos do que os de um affecto fraterno, ainda que
    dos mais estreitos, e do que os do respeito filial, ainda que dos mais
    arreigados e extremosos.

    Estava por isso experimentando agora o desengano, e a comparar a
    monotonia d'aquella noite ingleza, com o prazer que imaginára poder
    saboreiar-se, sem abandonar os lares domesticos.

    Isto fazia-o ainda mais silencioso e sombrio, do que estivera em outras
    noites que passára como aquella em casa.

    Depois que veio Jenny succedeu o que quasi sempre succedia tambem. Mr.
    Richard manifestou desejos de a ouvir tocar.

    Em virtude d'isto, passaram a uma das salas proximas. Mr. Richard
    sentou-se ao lado do fogão, tambem accêso alli; Carlos, proximo d'elle;
    Jenny ao piano.

    Jenny, conhecendo por experiencia as predilecções paternas, abriu a
    collecção dos _Cantos populares_ de Russell e procurou uma poesia de
    Morris; a qual tanto o pae como o irmão ouviam sempre com piedoso
    recolhimento.

    O motivo d'esta attenção estava sobre tudo na lettra, que parecia feita
    de proposito para avivar, em toda esta familia, saudades da vida
    passada. Foi a meia voz, mas com verdadeiro sentimento, que Jenny cantou
    essa poesia, intitulada a _Biblia de minha mãe_, cuja traducção é a
    seguinte:

    «Este livro é tudo quanto me resta d'ella! Ao vel-o, sinto rebentarem-me
    irreprimiveis as lagrimas dos olhos; com os labios tremulos, com a
    fronte turvada, aperto-o ao coração. É esta a arvore de familia, á
    sombra da qual já muitas gerações se teem abrigado.–As mãos de minha
    mãe folhearam esta Biblia; foi ella mesma quem m'a legou ao expirar.

    Ai, como me estão lembrando aquelles, cujos nomes me veem de envolta com
    estas memorias! Tantos que, em torno do lar, costumavam reunir-se após a
    oração da tarde, a conversar no que dizia este livro, em um tom que me
    calava no intimo do seio; ha muito que elles estão com os mortos
    silenciosos; mas sinto-os viver ainda aqui.

    Meu pae lia este livro sagrado aos filhos, ás filhas, á familia toda!
    Como era sereno o olhar de minha mãe, ao curvar a cabeça para escutar a
    palavra de Deus! Aquella figura angelica! Ainda a estou a ver!–Que
    memorias me occorrem em tropel n'este momento!–De novo parece reviver,
    dentro das paredes d'este quarto, aquelle pequeno grupo.

    Tu, ó Biblia! és o mais seguro amigo do homem! Eu tenho já experimentado
    a tua constancia! Quando todos me trahiam, achei-te fiel; vi em ti um
    conselheiro, um guia! As minas da terra não possuem o thesouro, que me
    compre este livro. Ensinando-me a maneira de viver, elle tambem me
    ensina como se deve morrer.»

    O assumpto da canção ingleza, depois que Jenny a terminou, fez caír
    naturalmente a conversa sobre diversas passagens da Biblia; Mr. Richard
    citou um versiculo, outro e outro, até que uma duvida lhe impediu de
    proseguir: d'ahi o pedido feito por elle á filha, para verificar a
    exacta redacção do texto.

    Jenny abriu pois o livro, que em todas as salas se encontrava sempre á
    mão, e leu.

    Carlos gostava de ouvir ler a irmã aquellas singelas e sublimes paginas
    da Biblia.

    Diz-se muito mal da lingua ingleza, e, de facto, ouvindo fallar certos
    filhos da Grã-Bretanha, lembra logo os conhecidos versos:

    O mundo a porfiar que os bretões grunhem
    E os bretões, etc., etc., etc.

    porém uma voz, como a de Jenny, meiga, melodiosa, e modulada com
    intelligencia e graça, parece transformar essa lingua ingrata em não sei
    que cantar de aves, que tem attractivos, até para os que não a
    comprehendem.

    O recolhimento religioso, com que Jenny lia os mais bellos episodios do
    Velho ou do Novo Testamento, augmentava o effeito agradavel da sua voz.

    Infelizmente, porém, a leitura descarnada e despida de commentos
    d'aquellas paginas não bastava ao fervoroso anglicanismo de Mr. Richard
    Whitestone, porisso, a cada passo, a interrompia para citar as
    interpretações de alguns dos reverendos doutores da sua episcopal
    igreja, ou os recentes desenvolvimentos, que ouvira ao ecclesiastico
    inglez na missa protestante, do Campo Pequeno.

    Jenny olhava para o irmão e fazia-lhe signal para que se reprimisse, e
    pelo menos simulasse attenção ás divagações do pae. Serviu-se ás dez
    horas chá preto, e Mr. Richard readquiriu um pouco de animação para, a
    proposito do chá, fallar na importancia da companhia das Indias
    Orientaes, nos serviços feitos por ella ao commercio, na sua historia,
    nas difficuldades com que luctou, e nos meios de que dispunha. Em
    seguida expôz um projecto de lavra propria sobre o engrandecimento das
    colonias inglezas, formulou acerbas censuras ao systema colonial
    portuguez, e em seguida uma expressa condemnação da politica franceza em
    geral.

    Mr. Richard odiava cordialmente a França. Ou elle não fosse inglez.

    Emfim, ás onze horas cessou Mr. Richard de fallar; as palpebras
    começaram a pesar-lhe; a chamma do fogão a amortecer, sem que as tenazes
    fizessem o seu officio, avivando-a.

    Meia hora depois, separava-se a familia, não tendo Carlos, em toda a
    noite, dito uma duzia de palavras.

    Jenny acompanhou ainda algum tempo o irmão através dos corredores, que
    conduziam ao quarto de cada um.

    –Então que tens tu a dizer da minha conversão? d'esta commovente e
    miraculosa regeneração do filho prodigo?–perguntou Carlos a Jenny,
    quando chegavam á porta da sala da livraria, onde deviam separar-se.

    –Que não sei se será muito duradoura–respondeu a irmã.

    –E como queres que o seja, Jenny? Não viste que narcoticas delicias as
    d'este conversar ao fogão? Dormir é um prazer; mas na minha idade!

    –Então, Charles!–disse Jenny, olhando para elle, com ar de
    reprehensão.

    –Olha, minha boa Jenny, acredita o que te digo; eu fui hoje sincero
    devéras nas minhas tentativas de reconciliação com a fada do lar
    domestico, com aquelle genio bom, que protegia a «gata borralhenta» na
    historia que nos contavam em creança. Vim para casa, sonhando umas
    delicias de viver intimo, as quaes, infelizmente, tive o desgosto de
    achar que eram illusorias. Tanto azul e dourado que via transformou-se
    em uma côr… pardacenta…

    –Talvez tu sejas muito exigente.

    –Ai, não o era, não. Mas que queres? Posso ter coragem para ouvir
    ámanhã e depois e sempre a historia do perú do reverendo Jackson? a das
    festas do Lord Mayor? a das assuadas á rainha Carolina? ou deve-se-me
    estranhar que deserte diante das subtilezas theologicas dos doutores da
    nossa igreja, ou…?

    –Tens razão; é preciso principiar por educar o coração, antes de tentar
    regenerar-te.

    –O coração?! Que queres dizer?

    –Tu vens para casa, como vaes para o theatro; procuras distrahir-te.
    Ora é claro que este viver de familia não entretem uma imaginação como a
    tua, se é só para satisfazeres a imaginação que ficas; e concebo que
    tudo isto te deve ser insupportavel, se o coração se fechou já de todo
    aos unicos gôsos, que nós podemos prometter-te.

    –Não me faças tão endurecido, que não saiba já apreciar os tocantes
    prazeres d'essa convivencia intima, Jenny. Julgas que não sei o que vale
    a tua affeição e até a do pae? Mas ouve, filha, e não sejas muito severa
    commigo. Emquanto o pae ha pouco fallava, muito á sua vontade, na
    portentosa companhia das Indias Orientaes, eu estava a pensar…

    –Em quê?

    –Estava a pensar em que eram inteiramente falsas certas ideias, muito
    bonitas, que, esta tarde, durante um passeio, que dei pelo campo…

    –Pelo campo!… Tu?!

    –É verdade, pelo campo, eu… mas… certas ideias, dizia, que me
    haviam occorrido por lá. Agora vejo melhor; e penso que se não deve até
    viver tão ligado, como era costume na antiga vida patriarchal. É justa,
    ou desculpavel pelo menos, esta tendencia moderna para afrouxar um pouco
    mais os laços de familia, sem amortecer de todo os sentimentos que a
    animam e unem, mas tornando mais independentes os habitos de viver de
    cada um. E é assim. Que se lucra em reunir em um feixe apertado dois ou
    tres homens de indoles e de gostos diversos, só porque são parentes, a
    ponto de impedir-lhes os movimentos, e a liberdade de acção? O mais que
    succede, é nenhum d'elles poder dispôr de toda a energia das suas
    faculdades; incommodam-se reciprocamente, de apertados que estão, e…
    odio não direi… mas… ás vezes… certa má vontade… pequenas
    dissensões, e… quando menos se espera, mais azedas discordias ainda,
    são as inevitaveis consequencias d'isso.

    Jenny abanava a cabeça, fitando o irmão, emquanto elle fallava.

    –Que doutrinas!–disse ella por fim–que triste philosophia a tua… de
    hoje. Cada vez te comprehendo menos, Charles.

    Carlos pôz-se a rir.

    –Então porquê, Jenny? Que achas tu em mim de tão incomprehensivel?

    –Ha dias… na manhã que se seguiu a uma das muitas noites, que passas
    fóra de casa, e quando era mais natural que estivesses n'estas ideias de
    agora, fallaste-me com eloquencia e convencimento nas doçuras da vida de
    familia; persuadirias d'aquella vez o mais extraviado. Foi, ainda me
    lembro, a proposito de uns versos, escriptos por um amigo no teu album.
    Hoje então…

    –Tudo se explica; é pela razão, que eu disse. Tentei apertar-me nos
    taes ambicionados laços, seduzido pelas promessas dos romancistas
    moralisadores; a final vi que me magoavam como laços que eram… Mas que
    versos foram esses, que me despertaram tão salutares ideias? Não me
    recordo.

    –Se queres que t'os leia?…–perguntou Jenny, pousando a mão na chave
    da porta da bibliotheca, como preparando-se para abril-a.

    –Se quero? peço-t'o.

    Os dois irmãos entraram na sala quadrada, onde, até a meia altura da
    parede, corria uma estante de palissandro, abastecida de magnificas
    brochuras e encardernações inglezas. Havia no meio da sala uma solida
    mesa rectangular, em estylo antigo, com embutidos de metal nos fechos,
    lavores de primorosa talha nas faces, e apoiada em grossos pés, torcidos
    em espiral,–um perfeito modelo d'essa bella mobilia ultimamente
    resuscitada, graças sobre tudo ás predilecções dos inglezes, que a teem
    tornado já rara, de muito que a procuram. Cobriam esta mesa varias
    publicações recentes, periodicos estrangeiros e do paiz, e gravuras; e
    em volta d'ella, commodas poltronas, e escabellos com assentos estofados
    parecia convidarem á leitura.

    Jenny pousou a luz, e, pegando em um album, que estava entre os outros
    livros e periodicos, principiou folheando-o, emquanto o irmão se sentava
    ao lado d'ella.

    –Se me não engana a memoria–dizia Jenny–é a traducção de uma lenda
    popular da Bretanha que se intitula…–Tendo encontrado justamente a
    pagina que procurava, concluiu:–_Amel e Pennor_.

    –Não tenho já a menor ideia do que seja.

    –Ora ouve então.

    E Jenny principiou a ler, com suavidade e graça inexprimivel, a seguinte
    lenda, verdadeira ou falsamente attribuida por um moderno escriptor
    francez á musa popular da Bretanha.[1]

    –Longe, longe d'aqui, nas costas da Bretanha,
    Poetico paiz, que um mar sinistro banha,
    Vivia, ha muito tempo, um pobre pescador,
    Que se chamava Amel, com a mulher Pennor.
    Tinham elles um filho, uma creança loura,
    Um anjo, que o porvir dos paes inflora e doura;
    Ao voltarem a casa, alegres, todos tres,
    Na praia os surprende a noite de uma vez.
    Crescia o mar veloz, medonho, ingente, forte!
    N'esse tempo as marés eram vivas. A morte
    Sobre as ondas boiava, indomita, cruel!
    Olhando para a esposa, assim lhe diz Amel:
    –«Pennor, vamos morrer! A vaga se aproxima!
    Viverás mais do que eu! Animo! Sobe acima
    Dos hombros meus, mulher. Pousa-te bem. Assim.
    E, ao veres-me sumir… ai, lembra-te de mim!»
    Pennor obedeceu. Firmando-se na areia,
    Desapparece Amel na vaga, que o rodeia.
    –«Amel! bradava a esposa; ai, pobre amigo meu!
    Qual de nós soffre mais?–tu, que morres, ou eu,
    Que te vejo morrer?»–E as aguas, que subiam,
    O corpo da infeliz no vortice envolviam.
    Olhando para o filho, assim lhe diz a mãe:
    –«Filho, vamos morrer! Olha a maré que vem!
    Viverás mais do que eu! Vá! filho, vá! coragem!
    «Sobe aos meus hombros, sobe! e ao tragar-me a voragem,
    Ai, lembra-te de mim e de teu pobre pae!»
    E o mar a submergiu. Chora a creança e vae
    Pouco a pouco afundir-se. Á flor da agua revolta,
    Apenas já fluctua a trança loura e solta…
    …Uma fada passou sobre o affrontado mar;
    Viu o cabello louro, em baixo, a fluctuar;
    Estende a mão piedosa e, segurando a trança,
    Com ella attrahe a si a pallida creança.
    E, sorrindo, dizia:–«Ai, que pesada que és!»
    Mas viu cêdo a razão; inda segura aos pés
    Do filho estremecido, a pobre mãe começa
    A erguer tambem da onda a humida cabeça.
    Sorriu a boa fada, ao ver assim os dois,
    E repetiu ainda:–«Ai, que pesados sois!»
    É que, após a mulher, seguia-se o marido
    Estreitamente aos pés da terna esposa unido.
    Ao vel-o, inda outra vez a meiga fada riu,
    E, leve, para a praia o vôo dirigiu
    Com este cacho vivo, esta humana cadeia,
    Cujos élos o amor piedosamente enleia.

    Pousando o livro, Jenny continuou:

    –Seguem-se mais quatro versos, consagrados á moralidade do conto, os
    quaes talvez me julgues dispensada de ler, por inuteis.

    –De certo. A allegoria é transparente, até sem commentarios. Mas,
    dize-me tu uma cousa, Jenny: que faria ou que diria a boa fada se,
    pairando sobre a praia, um dia, em que as marés não fossem vivas, nem o
    mar ameaçasse devorar a piedosa familia… que faria ou diria ella, se
    encontrasse os tres formando o cacho vivo da imagem, tão ridiculo n'esse
    caso, como tocante nas condições, em que o considera a lenda? A fada por
    certo que sorria tambem, mas acrescentando d'essa vez: «Ai, que varridos
    sois!» Dize-me agora se queres que eu ajunte alguma cousa tambem,
    correspondente aos taes quatro versos de moralidade, que
    supprimiste?–terminou Carlos, tocando levemente as faces de Jenny, e
    com um sorriso triumphante, ao qual ella correspondeu com outro, mas
    replicando:

    –Não, não é preciso. Mas repara, Charles, que as tempestades no mar
    formam-se ás vezes em um momento. E ninguem póde prever a época, em que
    é para receiar o perigo. Não viste como os pescadores voltavam a casa,
    «alegres todos tres», portanto confiados no mar? Se, tendo esta
    confiança, se houvessem separado e não caminhassem com as mãos unidas?
    Ao vir a maré, nem Amel procuraria que a esposa lhe sobrevivesse, nem
    Pennor tentaria salvar o filho, nem o cabello louro da creança, vindo á
    tona da agua, attrahiria as vistas da fada bemfazeja, dando-lhe occasião
    de salvar aquelle … cacho vivo… Entendes?

    –E tão longe ando eu já, que vos não possa offerecer os hombros, se a
    maré vier um dia ameaçar-nos?

    –Não, Charles; nem é a ti, tal como és, que eu ralho e quero mal; mas a
    um Charles, que ás vezes gostas de fingir. É singular! ha certas almas
    generosas que teem o vicio opposto ao da hypocrisia: esforçam-se por
    parecerem más! Para que has de estar a fazer mentir a tua bôca, dizendo
    o que não sentes?

    –Não nego que houvesse algum mau humor nas minhas palavras de ha pouco,
    mas…

    Jenny collocou-lhe a mão diante dos labios.

    –Que esse «mas» fique para ámanhã. Por emquanto inda não confio muito
    n'elle.

    –Então negas-me a justificação?

    –Não vês que, melhor do que tu, te está a justificar a minha confiança?
    É por isso que não quero ouvir-te. É tarde. Boa noite, Charles.

    –Boa noite, Jenny.

    E os dois irmãos separaram-se, apertando cordialmente as mãos.

    Carlos ía mais reconciliado outra vez com as doçuras da vida domestica.
    Ficára-lhe muito agradavel impressão d'este dialogo com Jenny, para que
    podesse deixar de ser essa a sua opinião final.

    XVI

    NO THEATRO

    Dias depois, affixavam-se cartazes nas esquinas, annunciando a _Lucia de
    Lammermoor_.

    Mr. Richard Whitestone não era assiduo frequentador do theatro lyrico.

    Havia porém uma circumstancia, que, infallivelmente, o levava lá, uma
    vez pelo menos.

    Tendo já desesperado de ouvir no theatro do Porto musica de compositores
    inglezes, como Haendel, Gray, Arnold, Bishop e outros, cujos nomes a
    cada momento citava com enthusiasmo, resignára-se a afagar sómente o seu
    acrisolado patriotismo com ir ao theatro, quando se cantavam aquellas
    operas, cujos librettos eram extrahidos de algumas das obras primas da
    litteratura ingleza.

    O _Othello_, o _Macbeth_, os _Capulletos_, as _Prisões de Edimburgo_, os
    _Foscaris_, o _Marino Faliero_ e outras n'este mesmo caso, luctavam
    vantajosamente com o seu muito amor pelo fogão e traziam ao publico
    aquella physionomia, radiante de contentamento e expressiva de saude,
    que o leitor já conhece.

    Preparava-se de antemão, n'essa tarde, relendo a obra, que servira de
    assumpto á opera, e ia depois com vontade para o theatro.

    Não era porém Rossini, Verdi, Bellini, Ricci e Donizetti os que o
    attrahiam e enlevavam; era Shakespeare, era Byron, era Walter Scott,
    cujos grandiosos vultos lhe parecia estar vendo no palco evocados, por
    sua vez, pelos mesmos personagens, que o genio d'elles tinha evocado
    outr'ora.–A musica era o accessorio. Os applausos do publico roubava-os
    Mr. Richard, por patriotismo, aos maestros, para conferir áquelles seus
    famosos conterraneos.

    No numero das taes operas contava-se _Lucia de Lammermoor_. Assumpto
    escossez, tratado por penna escosseza, e das mais admiraveis em desenhar
    typos sympathicos e immortaes, não era para Mr. Richard resistir-lhe.
    Havia de ir por força.

  • Os Simples

    Os Simples

    Aproximadamente 8.264 palavras.

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    Portugal).)

    GUERRA JUNQUEIRO

    *Os Simples*

    PORTO

    TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL

    MDCCCXCII

    OS SIMPLES

    IMPRIMIRAM-SE D'ESTE LIVRO:

    1 exemplar em papel pergaminho
    16 exemplares em papel Wathman

    Todos estes exemplares são assignados e numerados pelo auctor.

    GUERRA JUNQUEIRO

    *Os Simples*

    PORTO

    TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL

    MDCCCXCII

    A F.

    _Querida:

    É este por emquanto o meu melhor livro.
    Pertence-te.

    teu J._

    *PRELUDIO*

    I

    A CAMINHO

    (_Abril, ao raiar d'alva. Por uma encosta de sementeiras, pastos,
    olivedos e amendoaes em flor vae um loiro peregrino adolescente, d'olhos
    ingenuos e extasiados no alvor da estrella da manhã_.)

    Um Lavrador

    (_de noventa anos, em mangas de camísa a lavrar uma terra_)

    Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de esp'rança,
    Ides de caminho para algum logar?

    O Peregrino

    Vou dar volta ao mundo…

    O Lavrador

    Sem arnez ou lança?!
    Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de esp'rança,
    Penas e miserias é o que ireis achar!…

    Uma Velhinha

    (_mais adiante_)

    Ó Senhor tão novo, d'olhos inocentes,
    Ides com cuidados para um tal andar!…

    O Peregrino

    Vou a prender monstros, combater serpentes…

    A Velhinha

    Ó Senhor tão novo, d'olhos inocentes,
    Os dragões ferozes vam-no espostejar!…

    Uma Joven Camponeza

    (_mais adiante_)

    Ó Senhor tão novo, d'olhos encantados,
    Ides pela fresca para algum pomar?

    O Peregrino

    Vou-me a ler Destinos, descobrir os Fados…

    A Camponeza

    Ó Senhor tão novo, d'olhos encantados,
    Feiticeiros negros vam-no enfeitiçar!…

    Uma Pastorinha

    (_mais adiante_)

    Ó Senhor tão novo, d'olhos tão brilhantes,
    Vossos olhos disem que ides p'ra casar…

    O Peregrino

    Vou fazer tesoiros, fabricar diamantes…

    A Pastorinha

    Ó Senhor tão novo, d'olhos tão brilhantes,
    Ha ladrões nos bosques, vam-no assassinar!…

    Um Mendigo

    (_mais adiante_)

    Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de chama,
    Vossos olhos ardem como a luz solar!…

    O Peregrino

    Vou descobrir mundos, quero gloria e fama!…

    O Mendigo

    Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de chama,
    Sobe o pó mais alto que os trovões do mar!…

    A Estrella D'Alva

    Ó creança, d'olhos côr da flor dos linhos,
    Por infernos deixas tua paz, teu lar!…

    O Peregrino

    (_desaparecendo ao longe_)

    Florirei as pedras pelos maus caminhos!
    Levo a luz dos astros e as canções dos ninhos
    A sorrir nos beijos e a tremer no olhar!…

    II

    DE VOLTA

    (_Crepusculo, Novembro. Pela encosta fria e desnudada vae andando,
    esfarrapado e exangue, um pobresinho triste, arrimado ao bordão_.)

    Um Lavrador

    (_de cem anos, ainda robusto, à porta do casebre_)

    Mendigo d'olhos sem esp'rança,
    Vaes-te perder na escuridão…
    Entra em meu lar; dorme, descança…

    O Pobresinho

    (_andando sempre_)

    Quem dera a paz divina e mansa,
    Velho, que tens no coração!…

    Uma Velhinha

    (_a resar à porta do moinho_)

    Mendigo d'olhos sem ventura,
    Dentro da azenha ha um enxergão;
    Terás lençoes, terás fartura…

    O Pobresinho

    (_andando sempre_)

    Eu só quizera essa candura,
    Irmã da Graça e da Ilusão!…

    Uma Camponeza

    (_que vem da vindima_)

    Mendigo d'olhos d'engeitado,
    Na nossa casa ha vinho e pão;
    E ha leite fresco; e ha mel doirado…

    O Pobresinho

    (_andando sempre_)

    Tua alegria sem cuidado,
    Eis o que eu busco… em vão! em vão!…

    Uma Pastorinha

    Mendigo d'olhos de coveiro,
    Trago a merenda no surrão;
    O queijo é bom, mas é grosseiro…

    O Pobresinho

    (_andando sempre_)

    Dá-me o teu riso feiticeiro,
    Lirio do monte inda em botão!

    Um Pedinte

    Mendigo d'olhos na agonia,
    Dou-te o meu manto e o meu bordão;
    Nada mais levo… a noite é fria…

    O Pobrezinho

    (_andando sempre_)

    Apenas ai! desejaria
    Tua cristã resignação!…

    A Estrella Vesper

    Ó sonhador louco d'outrora,
    Teus sonhos lindos onde estão?!
    Ebrio da luz, rico d'aurora,
    Vi-te partir… e vejo agora
    Um morto erguido d'um caixão!

    Teus olhos fulvos namorei-os
    De dia e noite, da amplidão:
    Vi-os sorrir entre gorgeios,
    Vi-os cantar e vi-os cheios
    De pranto e febre e indignação!
    Regressa emfim, é teu destino,
    Á paz obscura, á submissão…
    E outra vez meigo e pequenino
    Deixa dormir, como um menino,
    Teu velho e exhausto coração!…

    O Pobresinho

    (_chorando_)

    Só tu, estrella, me conheces
    Em minha dor, minha aflição!…
    Só tu não dormes, não esqueces…
    Só tu ouviste as minhas preces…
    Bemdito, estrella, o teu clarão!

    Setembro–91.

    I

    *A MOLEIRINHA*

    A MOLEIRINHA

    Pela estrada plana, toc, toc, toc,
    Guia o jumentinho uma velhinha errante.
    Como vão ligeiros, ambos a reboque,
    Antes que anoiteça, toc, toc, toc,
    A velhinha atraz, o jumentito adiante!…

    Toc, toc, a velha vae para o moinho,
    Tem oitenta anos, bem bonito rol!…
    E comtudo alegre como um passarinho,
    Toc, toc, e fresca como o branco linho,
    De manhã nas relvas a córar ao sol.

    Vae sem cabeçada, em liberdade franca,
    O gerico russo d'uma linda côr;
    Nunca foi ferrado, nunca usou retranca,
    Tange-o, toc, toc, a moleirinha branca
    Com o galho verde d'uma giesta em flor.

    Vendo esta velhita, encarquilhada e benta,
    Toc, toc, toc, que recordação!
    Minha avó ceguinha se me representa…
    Tinha eu seis anos, tinha ella oitenta,
    Quem me fez o berço fez-lhe o seu caixão!…

    Toc, toc, toc, lindo burriquito,
    Para as minhas filhas quem m'o dera a mim!
    Nada mais gracioso, nada mais bonito!
    Quando a Virgem pura foi para o Egipto,
    Com certeza ia n'um burrico assim.

    Toc, toc, é tarde, moleirinha santa!
    Nascem as estrellas, vivas, em cardume…
    Toc, toc, toc, e quando o galo canta,
    Logo a moleirinha, toc, se levanta,
    P'ra vestir os netos, p'ra acender o lume…

    Toc, toc, toc, como se espaneja,
    Lindo o jumentinho pela estrada chan!
    Tão ingenuo e humilde, dá-me, salvo seja,
    Dá-me até vontade de o levar á egreja,
    Baptisar-lhe a alma p'ra a fazer cristan!

    Toc, toc, toc, e a moleirinha antiga,
    Toda, toda branca, vae n'uma frescata…
    Foi enfarinhada, sorridente amiga,
    Pela mó da azenha com farinha triga,
    Pelos anjos loiros com luar de prata!…

    Toc, toc, como o burriquito avança!
    Que prazer d'outrora para os olhos meus!
    Minha avó contou-me quando fui creança,
    Que era assim tal qual a jumentinha mansa
    Que adorou nas palhas o menino Deos…

    Toc, toc, é noite… ouvem-se ao longe os sinos,
    Moleirinha branca, branca de luar!…
    Toc, toc, e os astros abrem diamantinos,
    Como estremunhados cherubins divinos,
    Os olhitos meigos para a ver passar…

    Toc, toc, e vendo sideral tesoiro,
    Entre os milhões d'astros o luar sem veo,
    O burrico pensa: Quanto milho loiro!
    Quem será que moe estas farinhas d'oiro
    Com a mó de jaspe que anda alem no ceo!…

    Novembro de 1888.

    II

    *CADAVER*

    I

    PRESTITO FUNEBRE

    Que alegrias virgens, campezinas, fremem
    N'este imaculado, limpido arrebol!
    Como os galos cantam!… como as noras gemem!…
    Nos olmeiros brancos, cujas folhas tremem,
    Refulgente e novo passarinha o sol!…

    Pela estrada, que entre cerejaes ondea,
    Uma pequerrucha,–tro-la-ró-la-rá!–
    Vae cantando e guiando o carro para a aldeia…
    São os bois enormes, e a carrada cheia
    Com um castanheiro apodrecido já.

    Oh, que donairosa, linda boieirinha!
    Grandes olhos garços, sorrisinho arisco…
    D'aguilhada em punho lepida caminha,
    Com a graça aerea d'ave ribeirinha,
    Verdilhão, arveola, toutinegra ou pisco.

    Loira, mas do loiro fulvo das abelhas;
    Fresca como os cravos pelo amanhecer;
    Brincos de cerejas presos nas orelhas,
    Na boquita rosea tres canções vermelhas,
    Na aguilhada, ao alto, uma estrelinha a arder!

    Descalcinha e pobre, mas sem ar mendigo,
    Nada mais esvelto, mais encantador!
    Veste-a d'oiro a gloria do bom sol amigo…
    O chapeu é palha que inda ha um mez deu trigo,
    A saíta é linho inda ha bem pouco em flor!…

    E os dois bois enormes, colossaes, fleugmaticos,
    Na aleluia imensa, triunfal, da aurora,
    Vão como bondosos monstros enigmaticos,
    Almas por ventura d'ermitões extaticos
    Ruminando biblias pelos campos fora!…

    Ao arado e ao carro presos noite e dia,
    Como dois grilhetas, quer de inverno ou v'rão!
    E, submissos, uma pequerrucha os guia!
    E nos sulcos que abrem canta a cotovia,
    As boninas riem-se e amadura o pão!…

    Levam as serenas frontes magestosas
    Enramalhetadas como dois altares:
    Madresilvas, loiros, pampanos, mimosas,
    Abelhões ardentes desflorando rosas,
    Borboletas claras em noivado, aos pares…

    E eis no carro morto o castanheiro, emquanto
    Melros assobiam nos trigaes alem…
    Heras amortalham-no em seu verde manto…
    Deu-lhe a terra o leite, dá-lhe a aurora o pranto…
    Que feliz cadaver, que até cheira bem!…

    Musgos, lichens, fetos,–chimica incessante!–
    Fazem montões d'almas d'essa podridão…
    Já n'esse esqueleto seco de gigante,
    Sob a luz vermelha, n'um festim radiante,
    Mil milhões de vidas polulando estão!…

    Sempre á fortaleza casa-se a doçura:
    Como o leão da Biblia morto n'um vergel,
    Do seu tronco ainda na caverna escura
    Um enxame d'oiro rutilo murmura,
    Construindo um favo candido de mel!…

    Oh, os bois enormes, mansos como arminhos,
    Meditando estranhas, incubas visões!…
    Pousam-lhes nas hastes, vede, os passarinhos,
    E por sobre os longos, torridos caminhos
    Dos seus olhos caem bençãos e perdões…

    Chorarão o velho castanheiro ingente,
    Sob o qual dormiram sestas estivaes?
    Almas do arvoredo, o seu olhar plangente
    Saberá acaso misteriosamente
    Traduzir as lingoas em que vós fallaes?!…

    Castanheiro morto! que é da vida estranha
    Que no ovario exiguo d'uma flor nasceu,
    E criou raizes, e se fez tamanha,
    Que tresentos anos sobre uma montanha
    Seus tresentos braços de colosso ergueu?!…

    Onde a alma, origem d'essas formas bellas?
    Em tão varias formas que sonhou dizer?
    Qual a ideia, ó alma, convertida n'ellas?
    E desfeito o encanto, que nos não revelas,
    Que aparencias novas tomará teu ser?…

    Noite escura!… enigmas!… Ai, do que eu preciso,
    Boieirinha linda, linda d'encantar,
    É d'essa inocencia, d'esse paraiso,
    Da alegria d'oiro que ha no teu sorriso,
    Da candura d'alva que ha no teu olhar!…

    Grandes bois que adoro, p'ra fortuna minha,
    Quem me dera a vossa mansidão christã!
    Arrotear os campos, fecundar a vinha,
    E nos olhos garços d'uma boieirinha,
    Ter duas estrellas virgens da manhã!…

    E tambem quizera, mortos castanheiros,
    Como vós erguer-me para o sol a flux,
    Dar tresentos anos sombra aos pegureiros,
    E n'um lar de choça, em festivaes braseiros,
    A aquecer velhinhos, desfazer-me em luz!…

    1889.

    II

    IN PULVIS…

    Oh, que noite negra, que invernia brava!
    Nem uma estrellinha pelo ceo reluz!
    Chora o vento ao longe com a voz tão cava,
    Como quando dizem que de dor chorava
    Toda a santa noite em que expirou Jesus!…

    Vem sanguinolentos gritos muribundos
    Das soturnidades torvas do horisonte!…
    Já nos ermos andam lobos vagabundos…
    Já os rios cheios, com bramidos fundos,
    N'um diluvio d'agoa vão de mar a monte!…

    Em casal de serras arde o castanheiro,
    Lampada de pobres a fazer serão;
    De redor do grande, festival braseiro,
    A velhinha, o velho, o lavrador trigueiro,
    A mulher, os filhos, o bichano e o cão.

    Queima-se o gigante, rude centenario,
    Que jamais os astros hão-de ver florir…
    E do seu cadaver o esplendor mortuario
    Faz d'essa choupana quasi que um sacrario
    Com uma alma d'oiro dentro d'ella a rir!…

    Tem o velho ao colo o seu netinho doente;
    –Morte negra, foge do telhado, ó, ó…–
    E no lar as brasas simultaneamente
    Dizem para o anjo:–tudo é oiro ardente…
    Dizem para o velho:–tudo é cinza e pó!…

    Quantas vezes, quantas! por manhãs radiantes
    Em pequeno, alegre como um colibri,
    Não trepara aos braços todos verdejantes
    D'esse castanheiro, que n'alguns instantes
    Ha-de ver em cinzas já desfeito ali!…

    Quantas vezes, quantas! lhe bailara em torno!
    Quantas noites, quantas! elle ali dormia
    Pelo mez das ceifas, quando o luar é morno,
    E das restolhadas, quentes como um forno,
    Se evolavam cheiros d'arreçã bravia!…

    Como não sentir um entranhado afecto,
    Como não amal-o com veneração,
    Se lhe dera a trave que sustenta o tecto,
    Se lhe dera o berço onde repoisa o neto,
    Se lhe dera a tulha onde arrecada o pão!

    Fez com elle o jugo e fez com elle o arado;
    Fez com elle as portas contra os vendavaes;
    E com elle é feito o velho leito amado,
    Onde se deitara para o seu noivado,
    E onde já morreram seus avós, seus paes!

    E o bom velho embala o seu netinho doente…
    –Morte negra, foge… dorme, dorme… ó, ó…–
    E, fitando as chamas simultaneamente,
    Ri-se a creancinha, vendo o oiro ardente,
    Lagrimeja o velho, vendo cinza e pó!…

    A velhinha resa, resa afervorada…
    Tão velhinha e branca, branca de jasmins,
    Que a idealiso e creio d'esplendor banhada,
    Entre palmas verdes até Deos levada
    N'um andor de rosas pelos serafins…

    Resa pelos mortos… resa á virgem pura…
    Desde a sua infancia tão ditosa e bella,
    Já d'essa choupana (como a noite é escura!)
    Quantos tem partido para a sepultura,
    Quantos tem ficado dentro d'alma d'ella!…

    Dentro d'alma d'ella, triste campo santo,
    Muitas almas vivem mortas a sonhar!…
    Vivem mortas, mudas, n'um dorido encanto…
    Nos seus olhos vitreos cristalisa o pranto,
    Nos seus labios roxos fosforece o luar…

    E essas almas fluidas que ella traz comsigo,
    –Talisman da crença, magico poder!–
    Frias como a neve vem do seu jasigo,
    Vem sentar-se todas no logar antigo,
    A chorar á roda do braseiro a arder!…

    Ai dos pobres mortos que não tem fogueiras,
    Nem velhinhas santas que lhe deem luz!
    Sob leivas, onde ninguem põe roseiras,
    Umas sobre as outras juntam-se as caveiras,
    Dando sangue aos vermes, podridões á Cruz…

    D'esses desgraçados, mortos no abandono,
    Onde estão as almas? P'ra que Deos as fez?
    Quando o vento uivando lhes perturba o somno
    Pela treva errantes, como cães sem dono,
    Andarão perdidas a ulular talvez!…

    Pois até por essas que ninguem conforta
    A velhinha chama… e todas ellas vem…
    –Vinde pobresinhas, (como o vento as corta!)
    Vinde aqui sentar-vos, que eu vos abro a porta,
    A aquecer-vos, filhas, ao meu lar tambem!–

    E a dos olhos garços pastorinha bella
    Fia no seu fuso linho por corar;
    É trigueiro o linho, trigueirinha é ella…
    Rodopia o fuso… quando for donzella,
    Já terá camisas para se ir casar!…

    E esse fuso alegre onde se enrosca o linho
    Já foi ramo verde n'esse tronco em brasas:
    Deu já cachos brancos como o branco arminho,
    Já sobre elle a ave construiu seu ninho,
    Já sobre elle amando palpitaram azas!…

    Fuso como giras em dedinhos breves
    Prasenteiramente, com tão louco ardor!
    Que estarás fiando?… que enxovaes?… que neves?
    Se serão camisas, ou mortalhas leves,
    Cama para bodas, ou lençoes de dor!…

    No vetusto escano o lavrador sombrio
    Pensa na courela… Santo Deos, Jesus!
    Se a tormenta engrossa, se lha leva o rio,
    Como é que hade o gado pelo ardor do estio
    Sustentar-se a piornos de fraguedos nus!…

    Choram ventanias!… panica tristeza!…
    Sentem-se na loja bois a ruminar…
    Queixas insondaveis vem da naturesa!…
    Quanto monstro mudo, quanta lingoa presa,
    Contemplando a Noite sem poder fallar!…

    Ronronando ao lume, dorme o cão e o gato.
    Almas misteriosas, em que sonharão?…
    Como que n'um dubio lusco-fusco abstracto,
    De ter sido tigre lembra-se inda o gato?…
    De ter sido hiena lembra-se inda o cão?…

    Eis as brasas mortas… Eil-o já converso
    O castanheiro em cinza, em fumo vão, em luz…
    Luz e fumo e cinza tudo irá disperso
    Reviver na vida eterna do universo,
    Circulo de enigmas, que ninguem traduz…

    Sempre, sempre, sempre, cinza, fumo e chama
    Viverão, morrendo a toda a hora… sempre!…
    Nuvem que troveja, calix que enbalsama,
    Planta, pedra, insecto, humanidade, lama,
    Serão tudo, tudo!… inconcebivel!… Sempre!

    Mas a alma, as almas quem as ha criado?
    Qual a origem d'onde a sua essencia emana?…
    Ah, em vão levanto o triste olhar magoado
    Para os olhos d'ouro que do azul sagrado
    Lançam as estrellas á miseria humana!…

    Oh em vão!… que os astros, onde em sonho habito,
    São tambem fogueiras sobrenaturaes,
    Que na pavorosa noite do Infinito
    Crepitando espalham seu clarão bemdito,
    Suas alvoradas roseas, virginaes,

    Para em torno d'ellas se aquecerem mundos
    A tremer com frio, a soluçar com dor,
    Miseraveis monstros cegos, vagabundos,
    Atravez d'eternos turbilhões profundos,
    N'um virtiginoso, angustioso horror!…

    E ardam astros d'oiro, ou ardam castanheiros,
    No Infinito imenso ou n'um tugurio assim,
    Fica a mesma cinza d'esses dois braseiros,
    Atomos errantes, sonhos vãos, argueiros
    Na inconsciencia calma da amplidão sem fim!…

    E o mundo e os mundos a girar na altura
    Como vós, ó velhos, morrerão tambem…
    Blocos de materia fria, sem verdura,
    Errarão na vaga imensidade escura,
    Cemiterio d'astros que nem cruzes tem!…

    Dormirão? oh, nunca!… vão eternamente
    Circular na eterna vida universal:
    Nebulosa fluida, lavareda ardente,
    Lodo, o mesmo lodo, como antigamente,
    Com os mesmos dramas entre o Bem e o Mal!…

    Formas da materia, que eu em vão desnudo,
    Que invisiveis forças, e almas encobris?
    Quem o sabe? A Morte, que conhece tudo…
    Mas o enigma impresso no seu labio mudo
    Só na treva aos mortos é que a morte o diz!…

    Só a Morte o sabe… mais a Fé que abrasa,
    Que penetra as coisas com o seu olhar!
    Não ha fé na alma, não ha luz na casa…
    A rasão é um verme, mas a crença é aza…
    Verme! aos infinitos poderás chegar!…

    Ó velhinha santa, minha boa amiga,
    Resa o teu rosario, move os labios teus!…
    A oração é ingenua? Vem de crença antiga?
    Não importa! resa, minha boa amiga,
    Que orações são lingoas de falar com Deos!…

    Ha pedintes cegos de inspiradas frontes,
    Com estrellas n'alma, com visões mentaes,
    Que atravessam rios, que vão dar com fontes,
    Que andam por agrestes, solitarios montes,
    Sem errar a estrada, sem cahir jamais!…

    Pelos bosques ermos, onde venta e neva,
    Com os seus farrapos mais o seu bordão,
    Marcham por milagre na continua treva…
    Oh, dizei, dizei-me quem os guia e leva?
    Que prodigio oculto? que invisivel mão?

    Pois, velhinha branca, tua crença pura,
    Tua resa antiga, que me faz chorar,
    É egual aos cegos, que na noite escura
    Não precisam d'astros para ver a altura,
    Não precisam d'olhos para ter olhar!

    No Infinito mudo tua ingenua crença,
    Tremula ceguinha de risonho alvor,
    Eil-a andando, andando, como que suspensa,
    Pelos descampados d'uma noite imensa,
    Vastidões d'assombros, amplidões d'horror!…

    E onde a aguia, o genio de pupila ovante,
    Tem vertigens, auras, desfalece e cae,
    A ceguinha debil, vagabunda, errante,
    D'olhos ás escuras. Infinito adiante,
    N'um enlevo aereo perpassando vae!…

    Branca e pequenina, ligeirinha e leve,
    Corta por abismos, plagas sem faroes,
    Stepes infindaveis que ninguem descreve,
    Lugubres desertos de mudez e neve,
    Bategas de brasas, turbilhões de soes!…

    Vae andando, andando, té que emfim cercada
    D'uma aleluia mystica de luz,
    Com o bordãosinho que a amparou na estrada
    Bate ás portas d'oiro da feliz morada,
    Presbiterio d'Almas, onde está Jesus!…

    Vem um anjo abril-as; a ceguinha mansa
    Põe-se de joelhos, em adoração…
    Diz-lhe o anjo:–Toma, guarda esta lembrança:
    Uma palma d'astros, a luzir Esp'rança,
    Que á velhinha humilde levarás na mão!

    E, ave pressurosa recolhendo ao ninho,
    Já com alimento para os filhos seus,
    Eil-a que regressa por egual caminho,
    E vem dar-te, ó santa, côr de jaspe e arminho,
    Tão amada ofrenda que te envia Deos!…

    Resa esse rosario, santa lagrimosa!
    Sobre os teus joelhos deixa-me deitar!
    Triste da minh'alma!… vê, que desditosa!…
    Unge-m'a de bençãos, mão religiosa!…
    Cobre-m'a de graças, cristalino olhar!…

    Resa-lhe baixinho, minha boa amiga!
    Resa-lhe rosarios de orações ideaes!
    Morta de miseria, morta de fadiga,
    Deixa que ella durma na pureza antiga…
    Que ella durma… sonhe… e não acorde mais!…

    89.

    III

    *EIRAS AO LUAR*

    EIRAS AO LUAR

    Alvor da lua nas eiras,
    Nem linhos de fiandeiras,
    Nem veos de noivas ou freiras,
    Nem rendas d'ondas do mar!…
    Sobre espigas d'ouro bailam as ceifeiras,
    Na aleluia argentea do clarão do luar!…

    Bailae sob as lagrimosas
    Estrellinhas misteriosas,
    Scintilações, nebulosas,
    Fremitos vagos d'empyreos!…
    Deos golpeia a aurora p'ra dar sangue ás rosas,
    Deos ordenha a lua p'ra dar leite aos lirios!…

    Ai, medas de prata e oiro,
    De lua branca e pão loiro,
    Malhadas no malhadoiro,
    A enfeitiçar e a fulgir!…
    Oh, bailae á volta d'esse bom tesoiro,
    Que é a codea negra que ceaes a rir!…

    Quem nas ladeiras e prados,
    Com as lanças dos arados,
    Abriu sulcos e valados
    Na terra gelida e nua?
    Oh, bailae á volta desses bois deitados,
    Que estão d'olhos tristes adorando a lua!…

    Que bandos de passarinhos,
    Vem lá de campos maninhos,
    De fraguedos, de caminhos,
    Jantar aqui, merendar!…
    Oh, bailae em volta de milhões de ninhos!
    Oh, bailae cantando para os acordar!…

    Entre as palhas do centeio,
    Quantas esmolas no meio,
    Que deixam lirios no seio
    E as mãos escorrendo luz!…
    Oh, bailae em volta do celeiro cheio!
    Oh, bailae á volta dos mendigos nus!…

    Quanta hostia consagrada,
    –Pão da ultima jornada!–
    Dorme na meda encantada
    Ao luar tão leve e tão lindo!…
    Oh, bailae em volta d'essa mó doirada,
    Que bailaes á volta de Jesus dormindo!…

    Alvor da lua nas eiras,
    Nem linhos de fiandeiras,
    Nem veos de noivas ou freiras,
    Nem rendas d'ondas do mar!…
    Oh, bailae ceifeiras, lindas feiticeiras,
    Na aleluia argentea do clarão do luar!…

    Setembro–91.

    IV

    *AS ERMIDAS*

    AS ERMIDAS

    Alvas ermidinhas sob azues maguados,
    Vejo-vos de longe n'uma adoração,
    Como ninhos brancos de Ideal pousados
    Lá n'esses fragosos montes escalvados,
    Onde não ha agoa, nem germina o pão.

    Serranias ermas, solidões contritas…
    Azinheiras como velhos Briarcus….
    Pedras calcinadas… gados parasitas…
    Tristes montes ermos! ermos cenobitas,
    Que em burel d'estevas amortalha Deos!…

    Pelas torvas, fundas noites de invernada,
    Quando os lobos uivam, quando a neve cae,
    Que infinitos sustos n'uma tal morada,
    Para debil virgem tão desamparada
    Com um inocente nos seus braços… ai!

    Como é que não treme pelo seu menino?
    Como é que não chora seu piedoso olhar?
    Como é que o seu labio, fresco e matutino,
    Se abre n'um sorriso, precursor divino
    Da estrellinha d'alva quando vae raiar?!

    Não receia feras quem de rosto ledo
    Sofre sete espadas sobre o coração!…
    E ao filhinho a noite não lhe causa medo,
    Deu-lhe Deos o mundo para seu brinquedo,
    Como um fructo d'oiro tem-no ali na mão!…

    Lá nos altos montes sem trigaes, nem vinhas,
    Sem o bafo impuro que dos homens vem,
    É que a mãe de Christo com as andorinhas,
    E as estrellas d'oiro mesmo ali visinhas,
    N'um casebre terreo se acomoda bem.

    Bispos não precisa; servem-na pastores,
    Capelães d'ovelhas, mais o seu zagal…
    Lampada ás Trindades, chão varrido, flores,
    Nada falta á Virgem, mãe dos pecadores,
    N'uma egrejasinha que é como um pombal.

    E nas brutas, rudes solidões tão calmas
    Ai, muito se engana quem a julga só!
    Entre o luar dos hinos e o verdor das palmas,
    Para lá caminham romarias d'almas…
    Todos nós lá fomos com a nossa avó!…

    Oh, as invisiveis procissões piedosas,
    Romarias fluidas, sobrenaturaes!
    Por onde ellas marcham, brancas, vaporosas,
    Fica nos espaços um alvor de rosas
    E uma angelisante tremulina d'ais!…

    Almas de velhinhas, do palor silente
    D'uma estrella, quando desmaiando está…
    Vão buscar alivios p'ro netinho doente,
    Vão pedir noticias d'algum filho ausente,
    Vão rogar a Gloria para os mortos já…

    Almas de meninos, loiras como abelhas,
    A sorrir ao colo d'almas a cantar…
    Almas em noivados, roseas e vermelhas…
    E almas de pastores ofertando ovelhas,
    Chocalhinhos d'astros, velos de luar…

    Almas d'assassinos dos montados ermos,
    Com o seu remorso como um javali…
    Almas de mendigos, d'aleijões, d'enfermos…
    Almas vagabundas, de perdidos termos,
    Que atravessam agoas p'ra chegar ali!…

    Almas das corolas matinaes, dos ninhos,
    Das aradas verdes, da campina em flor…
    Almas de borregos, touros, passarinhos…
    E almas, sim! das urzes e hervas dos caminhos,
    Porque até nas fragas dorme o Sonho e a Dor!…

    E essas almas todas ella apasigua
    Com o dos seus olhos balsamo eficaz:
    Verte sobre as penas sugestões de lua,
    Mantos dá d'estrellas á miseria nua,
    Lagrimas aos crimes e ao remorso paz…

    Esconjura demos, bruxas, feiticeiras,
    E dos sonhos loucos o torpor febril…
    Dá verdura aos gados, chuva ás sementeiras,
    Faz bailar as moças ao luar nas eiras,
    Faz fugir os lobos vendo o seu candil.

    Mas tambem ha almas, pobresinhas d'ellas!
    Que á romagem d'oiro não acodem já!
    Almas moribundas… Noites de procellas…
    Olha nos casebres tremeluzem velas!…
    É signal que a Morte anda a rondar por lá!…

    Mas a sempre linda Virgem da Amargura
    Baixa do altarzinho toda afadigada,
    E atravez de serras, pela noite escura,
    De menino ao colo,–santa creatura!–
    Lá vae ella andando, não tem medo a nada!…

    Lá vae ella andando… no caminho estreito
    Deixa um rasto d'oiro pela escuridão…
    Deixa um rasto d'oiro de divino efeito,
    Porque as sete espadas, a fulgir no peito,
    Põem-lhe um setestrello sobre o coração…

    E de povo em povo, que é de serra em serra,
    Almas na agonia visitando vae;
    Quando chega, a Morte já as não aterra,
    Ella lhes dá azas p'ra voar da terra,
    Seu menino beijos p'ra levar ao Pae…

    Virgem das Angustias, Virgem da Bonança,
    Quantas noites, quantas! tremula de dor,
    Não vae ser parteira da ovelhinha mansa
    A parir, balando como uma creança,
    Entre fragaredos de meter horror!

    A deshoras mortas eil-a vigilante,
    Prompta a dar socorros ao menor queixume:
    Acender estrellas para o navegante,
    Ir levar ás mães o cordeirinho errante,
    Defender das cobras a ninhada implume…

    Pois como não ha-de consolar as dores
    Dos humildes, simples, engeitados, nus,
    Se inda se recorda de só ver pastores,
    Com cordeiros brancos, cantilenas, flores,
    Na sagrada noite em que pariu Jesus!…

    Sim! adora a rude gente da lavoira,
    Sementeiras, gados, matagaes, lebreus,
    Porque não se esquece da vaquinha loira,
    Que se poz de joelhos ante a mangedoira,
    Quando nas palhinhas dormitava Deos…

    E por isso arreda pestes, ventanias,
    Fomes e procellas, bruxas e trovão,
    Lá para malditas, negras penedias,
    Onde silvam cobras doudas e bravias,
    E onde não existe nem christão, nem pão!…

    E por isso ex-votos, que relembram dores,
    Cobrem de ternura todo o seu altar:
    Bustos de meninos, mãos de cavadores,
    Tranças de donzellas, soluçando amores…
    Corações e peitos, de fazer chorar!…

    Alvas capelinhas, sempre milagrosas,
    Sois n'essas alturas para os olhos meus,
    Como ninhos virgens d'orações piedosas,
    Miradoiros brancos de luar e rosas,
    D'onde as almas simples entreveem Deos!…

    90-91.

    V

    *CANÇÃO PERDIDA*

    CANÇÃO PERDIDA

    Halitos de lilaz, de violeta e d'opala,
    Roxas macerações de dor e d'agonia,
    O campo, anoitecendo e adormecendo, exhala…

    Triste, canta uma voz na sincope do dia:

    Alguem de mim se não lembra
    Nas terras d'alem do mar…
    Ó Morte, dava-te a vida,
    Se tu lha fosses levar!…

    Ó Morte, dava-te a vida,
    Se tu lha fosses levar!…

    Com o beijo do sol na face cadaverica,
    Beijo que a morte esvae em palidez algente,
    Eis a lua a boiar sonambula e chimerica…

    Doce, canta uma voz melancolicamente:

    O meu amor escondi-o
    N'uma cova ao pé do mar…
    Morre o amor, vive a saudade…
    Morre o sol, olha o luar!…

    Morre o amor, vive a saudade…
    Morre o sol, olha o luar!…

    Latescente a neblina opalica flutua,
    Diluindo, evaporando os montes de granito
    Em colossos de sonho, extasiados de lua…

    Flebil, chora uma voz no letargo infinito:

    Quem dá ais ó rouxinol,
    Lá para as bandas do mar?…
    É o meu amor que na cova
    Leva as noites a chorar!…

    É o meu amor que na cova
    Leva as noites a chorar!…

    A lua enorme, a lua argentea, a lua calma,
    Imponderalisou a natureza inteira,
    Descondensou-a em fluido e embebeceu-a em alma…

    Triste expira uma voz na canção derradeira:

    Ó meu amor, dorme, dorme
    Na areia fina do mar,
    Que em antes da estrella d'alva
    Comtigo me irei deitar!…

    Que em antes da estrella d'alva
    Comtigo me irei deitar!…

    Maio–91.

    VI

    *O PASTOR*

    O PASTOR

    Sinos a defuntos! ai, quem morreria!
    Olha, foi o pobre do Ti Zé-Senhor!…
    Velho tão velhinho nenhum outro havia…
    P'ra cumprir cem anos lhe faltava um dia,
    Ha noventa e quatro que era já pastor.

    Zagalzinho alegre, desde tenra infancia
    Já de surrãosito cheio a tiracol,
    A escalar montanhas com ardor, com ancia,
    Por pastagens bravas d'auroral fragancia,
    Branqueadinho a neve e doiradinho a sol!…

    A deserta, imensa, rustica paisagem,
    Cordilheiras, campos, astros d'oiro, luar,
    Tudo se invertera, por continua imagem,
    Em heroica, em livre candidez selvagem
    Na extasiada flor do seu ingenuo olhar.

    Ordenhado o leite, cantarinho cheio,
    Ala para a aldeia, por manhãs sonoras,
    Mordiscando a codea do seu pão centeio,
    Arrancando á frauta um pastoril gorgeio,
    Rapinando ás sebes chupa-meis e amoras.

    Fez-se moço e grande pelas serras brutas,
    Onde as aguias pairam, onde o roble medra,
    E onde os fragaredos barbaros, com grutas,
    Se encastelam crespos, infernaes, em lutas,
    Tal como tormentas de trovões de pedra!

    Cada serrania alcantilada e brava,
    Sob o azul d'Agosto, côr de fogo e pó,
    Recozida a febre e atordoada em lava,
    Lagrimeja apenas d'uma rocha cava
    Pranto, que o bebera uma ovelhinha só!

    E por essas fulvas, ingremes ladeiras
    Pastoreava o gado, quasi morto já:
    Só rochedos tristes, nus como caveiras,
    E zambulhos, zimbros, tojos, cornalheiras,
    Acres como pragas d'uma boca má!

    E depois as torvas, negras invernadas,
    Noites formidandas, lobos a ulular,
    Desmoronamentos, temporaes, nevadas,
    Carcavões abertos pelas enxurradas,
    Troncos de sobreiros de raiz ao ar!…

    Oh, as noites tristes, alapado e quedo,
    N'um covil de feras, ou algar deserto!…
    E dormia ao lume sem temor, sem medo,
    Pois Nossa Senhora, Virgem do Degredo,
    Na ermidinha branca lhe ficava perto…

    Mas no mez de Março pincaros maninhos,
    Montes cenobitas, d'ossos e burel,
    Vestem-se de trevos e de rosmaninhos,
    Com sorrisos d'oiro que alvoroçam ninhos,
    E distilam favos de inocencia e mel!…

    Era então alegre como o sol nascente,
    Mais feliz nos campos do que Deos no altar!
    Anhos e cabritos, leite rescendente,
    Pastos tão mimosos, que quizera a gente
    Transformar-se em ave para os não calcar!

    Tanto Abril florido, tanta calma adusta,
    Tantas inverneiras, sem pesar ou dor,
    Tinham-lhe gravado na expressão robusta
    Como que uma sombra de grandeza augusta,
    Junta a uma inocencia matinal de flor.

    Que importavam gelos, ventanias, feras?
    Peito nu, aberto; construção de touro!
    Quasi me admirava que nas primaveras
    D'esse peito rude não brotassem heras,
    Margaridas, lirios com abelhas d'ouro!

    Ao relento a cama no orvalhado pasto,
    Cerca dos carneiros e dos bons lebreus;
    Que divino leito primitivo e casto,
    Todo embalsamado de serpol, mentrasto,
    Sob a paz imensa do perdão de Deos!…

    E esse gigantesco latagão corado
    Era, como os santos ermitões, frugal:
    Duas azeitonas, queijo do seu gado,
    E de rala escura meio pão migado
    N'um caldeiro d'agoa com azeite e sal.

    Não jantava morte, assassinato, dores,
    Hecatombes tristes que jantamos nós;
    E por isso ria como riem flores,
    Atrahindo em bandos aves de mil cores,
    Feiticeiro simples, com o olhar e a voz!…

    Sua rude frauta de pastor ouvindo
    Na misteriosa luz crepuscular,
    Iam-se as estrellas uma a uma abrindo,
    E desabrochava pelo azul infindo
    Soluçante a lua como um nenufar!…

    Que trinados vivos, d'argentino encanto
    Ai, missa do galo, lhe inspiravas tu,
    N'essa frauta, quando de cajado e manto
    Ia deitar loas ao menino santo
    No altar-mór da egreja sorridente e nu!

    Fôra lá creança, magica ventura!
    Centenario quasi a derradeira vez…
    E gorgeava a frauta com egual candura,
    Pois a alma virgem, luminosa e pura,
    Conservara-a sempre como Deos a fez.

    N'ella penetrava, n'ella se embebia
    Tudo que é inocencia, riso, amor, clarão:
    Fremito de pomba, voz de cotovia,
    Canticos dos montes ao nascer do dia,
    Lagrimas dos astros pela escuridão!…

    Longe dos Pecados de raivosas presas,
    Belzebuths famintos d'olhos de metal,
    Longe das horriveis tentações acezas
    No torpor dos leitos, na embriaguez das mezas,
    Pululantes larvas, vibriões do Mal,

    O pastor ditoso envelheceu ridente
    Por despenhadeiros, alcantis, calvarios,
    E na fronte augusta de ermitão, de crente,
    Lhe geavam anos luminosamente,
    Como as pombas brancas sobre os campanarios!

    Das ovelhas meigas,–intimas heranças!–
    Recolhera toda a abnegação christã:
    Oh, sejaes bemditas, ovelhinhas mansas,
    Que com vosso leite sustentaes creanças,
    E vestis os pobres com a vossa lã!

    Aos noventa anos, festival, risonho,
    Alamo gigante d'agoa viva ao pé;
    Sim! inda na boca risos de medronho,
    E nos olhos lentos, a tremer em sonho,
    Dois miosotis virgens de candura e fé!

    Com seu manto branco de burel grosseiro,
    Cans de puro arminho, baculo na mão,
    Alembrava um santo feito pegureiro,
    Que eu desejaria sobre o altar cruzeiro
    D'uma ogiva d'astros, em adoração!

    Centenario quasi, recordava aspectos
    De lendario tronco n'um feliz vergel,
    Moribundo em meio de seus verdes netos,
    Com a Providencia a agasalhal-o em fetos,
    Com abelhas d'ouro inda a nutril-o a mel,

    E que surdo á voz dos ledos passarinhos,
    E que cego ao ether de esplendor ideal,
    Com o ai extremo lança dois raminhos,
    A chamar ainda por canções de ninhos
    E a dizer aos astros um adeos final!

    Tal o pastor santo, já de vez cahido,
    Já corcovadinho, flebil, quasi morto,
    Arrimado ao velho baculo torcido,
    Nada ouvindo, nada, com o duro ouvido,
    Vagamente olhando com o olhar absorto,

    Ia pelos montes na tristeza infinda
    D'um coração ermo, com a morte aceite,
    A pedir aos anjos para ouvir ainda
    Badalar ovelhas n'uma noite linda,
    Quando a lua os campos alagasse em leite!…

    Seu bisavô fora guardador de gado,
    Guardador de gado seu avô, seu pae;
    Creou filho e netos como foi creado,
    E morreu ditoso porque o seu cajado
    Seu rebanho ainda pastoreando vae!

    Candido, na paz das solidões dormentes,
    Ignorando o mundo rancoroso e vil
    Aos cem anos inda, com a fé dos crentes,
    Punha olhos claros, simples, inocentes,
    Na estrellinha d'alva das manhãs d'Abril!

    Levará no esquife para os ceos a palma
    Da grandeza mansa, da virtude austera.
    Realisou no mundo a perfeição da Alma:
    Porque foi bondoso como a lua é calma,
    Porque foi um santo sem saber que o era!…

    Vós, ó semideuses do entremez da Gloria,
    Cesares, tiranos, capitães, heroes,
    Epicas figuras de imortal memoria,
    Que de serro em serro iluminaes a historia
    Como crepitantes, tragicos faroes,

    Na região do Imenso, no Infinito puro,
    Onde me deslumbra, como um sol, Jesus,
    Não sois mais que larvas a tremer no escuro,
    Que ninguem conhece, que eu em vão procuro
    Com meus olhos calmos n'esse mar de luz!

    E o pastor d'ovelhas, que comeu centeio,
    Que viveu nos montes, que dormiu nas grutas,
    Tão asselvajado, cabeludo e feio,
    Que dissereis quasi que esse monstro veio
    Da matriz da terra, como as pedras brutas,

    Já liberto agora da Ilusão do mundo
    Fez-se em anjo branco, inda outra vez pastor:
    Milhões d'astros seguem seu olhar jocundo,
    São rebanhos d'almas pelo azul profundo
    As ovelhas novas do Ti Zé-Senhor!…

    90-91.

    VII

    *O CAVADOR*

    O CAVADOR

    Dezembro, noite, canta o galo…
    Rouco na treva canta o galo…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Aldeão não durmas!… Vae chamal-o,
    Miseria negra, vae chamal-o!…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Bate-lhe á porta, é teu vassalo,
    Que traga a enxada, é teu vassalo,
    Miseria negra, o cavador!

    O vento ulula… Tremem ninhos…
    Na noite aziaga tremem ninhos…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    A neve cae, fria d'arminhos…
    Na escuridão, fria d'arminhos…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Passa maldito nos caminhos,
    D'enxada ao hombro nos caminhos,
    Fantasma negro, o cavador!

    Vem roxa a estrella d'alvorada…
    Vem morta a estrella d'alvorada…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Montanhas nuas sob a geada!…
    Hirtas, de bronze, sob a geada…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Torvo, inclinado sobre a enxada,
    Rasga as montanhas com a enxada.
    Fantasma negro, o cavador!

    Cavou, cavou desde que é dia…
    Cavou, cavou… Bateu meio dia…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    De pé na encosta erma e bravia,
    Triste na encosta erma e bravia,
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Largando a enxada, «Ave Maria!…»
    Resa em silencio… «Ave Maria!…»
    Fantasma negro, o cavador!

    Cavou, cavou na serra agreste,
    D'alva á noitinha em serra agreste…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    E um caldo em premio tu lhe deste,
    Meu Deos!… seis filhos tu lhe deste…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Batem trindades… «Pae celeste!…
    Bemdito sejas, Pae celeste!…»
    Resa, fantasma, o cavador!

    Cavou cem montes… que é do trigo?!
    Gerou seis bocas… que é do trigo?!
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Bateu a Fome ao seu postigo…
    Bateu a Morte ao seu postigo…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    «Que a paz de Deos seja comigo!
    Que a paz de Deos seja comigo!…»
    Disse, expirando, o cavador!

    Junho–91.

    VIII

    *OS POBRESINHOS*

    OS POBRESINHOS

    Pobres de pobres são pobresinhos,
    Almas sem lares, aves sem ninhos…

    Passam em bandos, em alcateias,
    Pelas herdades, pelas aldeias.

    É em Novembro, rugem procellas…
    Deos nos acuda, nos livre d'ellas!

    Vem por desertos, por estevaes,
    Mantas aos hombros, grandes bornaes.

    Como farrapos, coisas sombrias,
    Trapos levados nas ventanias…

    Filhos de Christo, filhos d'Adão,
    Buscam no mundo codeas de pão!

    Ha-os ceguinhos, em treva densa,
    D'olhos fechados desde nascença.

    Ha-os com f'ridas esburacadas,
    Roxas de lirios, já gangrenadas.

    Uns de voz rouca, grandes bordões,
    Quem sabe lá se serão ladrões!…

    Outros humildes, riso magoado,
    Lembram Jesus que ande disfarçado…

    Engeitadinhos, rotos, sem pão,
    Tremem maleitas d'olhos no chão…

    Campos e vinhas!… hortas com flores!…
    Ai, que ditosos os lavradores!

    Olha, fumegam tectos e lares…
    Fumo tão lindo!… branco, nos ares!…

    Batem ás portas, erguem-se as mães,
    Choram meninos, ladram os cães…

    Resam e cantam, levam a esmola,
    Vinho no bucho, pão na sacola.

    Fructa da horta, caldo ou toucinho,
    Dão sempre os pobres a um pobresinho.

    Um que tem chagas, velho, coitado,
    Quer ligaduras ou mel-rosado.

    Outro, promessa feita a Maria,
    Deitam-lhe azeite na almotolia.

    Pelos alpendres, pelos curraes,
    Dormem deitados como animaes.

    Em caravanas, em alcateias,
    Vão por herdades, vão por aldeias…

    Sabem cantigas, oraçõesinhas,
    Contos d'estrellas, reis e rainhas…

    Choram cantando, penam resando,
    Ai, só a morte sabe até quando!

    Mas no outro mundo Deos lhes prepara
    Leito o mais alvo, ceia a mais rara…

    Os pés doridos lh'os lavarão
    Santos e santas com devoção.

    Para laval-os, perfumaria
    Em gomil d'ouro, d'ouro a bacia.

    E embalsamados, transfigurados,
    Tunicas brancas, como em noivados,

    Viverão sempre na eterna luz,
    Pobres bemditos, amen, Jesus!…

    Outubro–91

    IX

    *CAMPO SANTO*

    CAMPO SANTO

    Ai ao relento, ai ao relento, sonham cavadores!…
    Somno d'arminho… colxão de terra… lençol de flores!…

    Cahi dormentes,
    Cahi exanimes, trementes,
    Palidos silencios do luar dorido!
    Litanias fluidas do luar dorido!
    Misereres brancos do luar dorido!
    Balsamos, piedades, orações dolentes
    Do luar dorido!…

    Ai ao relento, ai ao relento sonham pegureiros!…
    Cama tão fresca!… cobertor branco, de jasmineiros…

    Cahi maviosas,
    Cahi somnambulas, piedosas,
    Concavas tristezas do luar magoado!
    Resonancias d'orgão do luar magoado!
    Extrema-unções profundas do luar magoado!
    Sincopes, oblivios, quietações chorosas
    Do luar magoado!…

    Ai ao relento, ai ao relento sonha a boeirinha!…
    Cama de violetas!… que lhe fez a Virgem, sua madrinha…

    Cahi radiantes,
    Angelisantes,
    Esfolhados lirios do luar divino!
    Musselina argentea do luar divino!
    Halitos de leite do luar divino!
    Perolas, opalas, beijos e diamantes
    Do luar divino!…

    Ai ao relento, ai ao relento as bisavós dormindo!…
    Cama de rosas, sobre-ceo d'astros!… que sonho lindo!…

    Cahi cantando,
    Cahi mas brando, muito brando,
    Misticas nevadas do luar de prata!
    Linho da candura do luar de prata!
    Angelus da ermida do luar de prata!
    Extasis boiando, sagrações ondeando
    No luar de prata!…

    Dormi, dormi!… que bellas camas!… ai, que bons lençoes!…
    Na travesseira, que bem que cheira! cantam roussinoes!…

    Dorme de costas, cavador, ao luar, ao luar de neve!…
    Ai, como a terra era pesada, e se fez leve, leve!…

    Dorme, pastor, ao luar de Junho, dorme sem cuidado!…
    Que anda a Senhora dos Montes-Ermos a guardar-te o gado…

    Durmam velhinhas! durmam creanças! durmam donzellas!
    Quando acordarem já tem os anjos á espera d'ellas…

    Ha-de acordar tudo lá nos ceos doirados…
    Ha-de haver banquetes, ha-de haver noivados…

    Põe a mesa a Virgem para os pobresinhos…
    Ai, que lindos fructos!… ai, que ricos vinhos!…

    Vinhos d'um vinhedo, fructos d'um pomar,
    Que no ceo os anjos regam com luar…

    Ordenhando ovelhas andam serafins,
    Cantarinhos d'oiro, leite de jasmins.

    Outros nas arribas crestam as colmeias,
    Grandes favos brancos como luas cheias.

    Ai, que bom almoço, feito n'um vergel,
    Pomos cor de aurora, leite, vinho e mel!…

    Para as avósinhas tem lá Deos bastantes
    Fusos d'esmeraldas, rocas de diamantes…

    Como vós, ó moças, lá no ceo casaes,
    Ellas darão teias para os enxovaes…

    Já no setestrello dançam nos terreiros,
    Tamboris e violas, frautas e pandeiros…

    Já lá vejo os noivos, com S. João á espera,
    N'uma ermida branca revestida d'hera…

    Ai, dormi, donzellas, ai dormi ao luar,
    Que no ceo com anjos vos ireis casar…

    Ai, dormi, creanças! que no azul divino
    Brincareis alegres com o Deos-menino…

    Partirá comvosco, porque é vosso irmão,
    A laranja,–o mundo, que lá tem na mão…

    Dormi, dormi, sem dor, sem penas…
    Dormi, dormi!…
    E em vossos leitos florescentes,
    De rosas brancas e assucenas,
    Caiam dormentes,
    Caiam exanimes, trementes,
    Graças do baptismo do luar alvissimo!
    Beijos do noivado do luar purissimo!
    Lagrimas da morte do luar tristissimo!
    Canticos d'exequias, orações dolentes
    Do luar santissimo!…

    Abril–91.

    *EPILOGO*

    REGRESSO AO LAR

    Ai, ha quantos anos que eu parti chorando
    D'este meu saudoso, carinhoso lar!…
    Foi ha vinte?… ha trinta?… Nem eu sei já quando!…
    Minha velha ama, que me estás fitando,
    Canta-me cantigas para me eu lembrar!…

    Dei a volta ao mundo, dei a volta á Vida…
    Só achei enganos, decepções, pesar…
    Oh! a ingenua alma tão desiludida!…
    Minha velha ama, com a voz dorida,
    Canta-me cantigas de me adormentar!…

    Trago d'amargura o coração desfeito…
    Vê que fundas maguas no embaciado olhar!
    Nunca eu sahira do meu ninho estreito!…
    Minha velha ama, que me déste o peito,
    Canta-me cantigas para me embalar!…

    Poz-me Deos outrora no frouxel do ninho
    Pedrarias d'astros, gemas de luar…
    Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!…
    Minha velha ama, sou um pobresinho…
    Canta-me cantigas de fazer chorar!…

    Como antigamente, no regaço amado,
    (Venho morto, morto!…) deixa-me deitar!
    Ai, o teu menino como está mudado!
    Minha velha ama, como está mudado!
    Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!…

    Canta-me cantigas, manso, muito manso…
    Tristes, muito tristes, como á noite o mar…
    Canta-me cantigas para ver se alcanço
    Que a minh'alma durma, tenha paz, descanço,
    Quando a Morte, em breve, m'a vier buscar!…

    90.

    *NOTA*

    NOTA

    É este o primeiro dos tres volumesinhos, que hão-de encerrar as minhas
    liricas ineditas. Os outros dois–_Flores de Ideal_–e _Infinito_
    (_Livro d'orações_) virão a lume successivamente, com intervalos de
    mezes.

    Duas palavras sobre os _Simples_.

    Precocemente chegado, pelo sofrimento, ao ocaso da vida, atravessei ha
    anos um periodo agudo, bem doloroso e triste, mas ao mesmo tempo
    salutar. Ante a morte proxima, n'uma anciedade inenarravel, senti-me
    electrisado, como por encanto, de energias subitas. O problema do _alem_
    (como agora se diz) impunha-se, dilacerante e devorador, á minha
    natureza inquieta de religioso e de metafisico. Mas o problema da
    _morte_ é, no fundo, o problema da vida. Estudei, pensei, meditei. Li
    com sofreguidão milhares de paginas. Dias, noites, semanas, mezes,
    revolvi no cerebro escandecido todos os enigmas torturantes. Pedi á
    historia natural (unica historia verdadeira) o segredo intimo das
    coisas. Questionei a razão, ouvi a consciencia. Dei balanço a mim
    proprio. E consegui, ao cabo, o que desejava: ter da vida, ter do
    universo uma ideia metodica e definitiva. Qual? Não é este o momento de
    dizel-o, nem isso interessa seguramente.

    A minha metafisica é para uso proprio. Não construi um sistema de
    filosofia humana. Tratei de responder apenas ás duvidas e curiosidades
    do meu espiríto. Não cheguei sequer a pontos de vista fundamentaes,
    muitissimo diversos dos que já tinha anteriormente. Mas o que era
    intuição tornou-se certeza, e o que era hipotese, mais ou menos
    sentimental e imaginaria, transformou-se n'um corpo de doutrina
    raciocinado e logico. Continuei pela mesma estrada; mas d'antes ia ás
    cegas e tateando, e agora d'olhos bem abertos e a passo firme e
    resoluto.

    D'uma visão mais intima e profunda do universo germinaram em mim novas
    emoções, e portanto uma nova arte. O poeta renasceu e cresceu. Fecundo
    renascimento psicologico, e não apenas uma evoluçãosinha toda literaria,
    meramente verbal e de superficie.

    No prefacio d'outro livro explanarei com vagar as conclusões ultimas do
    meu exame de consciencia, não pelo seu merito intrínseco, repito, mas
    como util comentario da minha obra poetica, de que ellas são
    verdadeiramente a alma essencial e geradora.

    Apasiguada um pouco a dupla crise de angustia intelectual e padecimento
    fisico, esbocei e dei começo a este pequenino poema lirico d'_Os
    Simples_.

    Quiz mentalmente viver a vida singela e primitiva de boas e santas
    creaturas, que atravessam um mundo de miserias e de injustiças, de
    vicios e de crimes, de fomes e de tormentos, sem um olhar de maldição
    para a natureza, sem uma palavra de queixume para o destino. E então
    encarnei, por assim dizer, no pastor grandioso e asceta, na moleirinha
    octogenaria e sorridente, no cavador tragico, nos mendigos bíblicos, na
    mansidão dos bois arroteando os campos e nas lavarêdas d'oiro do
    castanheiro, aquecendo a velhice, alegrando a infancia, iluminando a
    choupana. E, depois d'uma existencia de sacrificio e de puresa,
    d'abnegação e de bondade, deitei esses ingenuos e pobres aldeões na
    terra misericordiosa e florida do campo-santo, pondo-lhes por cima das
    sepulturas rasas o ceo maravilhoso e candido, que em vida sonharam e
    desejaram.

    É claro que essas figuras não são inteiramente reaes, da realidade
    estricta, efemera e tangivel. Criei-as, ou antes completei-as com a
    minha alma, com o meu proprio ideal.

    Quem vir n'este livrinho somente o lado externo e literario, a forma, a
    paisagem, a pintura rustica, não o entendeu, nem o soube ler.

    É muito mais uma auto-biographia psicologica que uma serie de quadros
    campestres e bucolicos.

    A feição, por assim dizer, regional, do livro é, embora importante,
    subordinada e secundaria. A _Moleirinha_ é mínhota. O _Prestito funebre_
    minhoto é. Mas coisa curiosa, o segundo canto–_In Pulvis_ é já de todo
    transmontano. Inconscientemente, sem dar por tal, levei o castanheiro
    para a minha terra, e queimei-o no lar saudoso da minha meninice. Tambem
    eu me queria aquecer a elle, sentar-me ao pé da sua chama…

    Engana-se quem entre _Os Simples_ e a _Velhice do Padre Eterno_
    descobrir porventura contradições. Este lirismo é o reverso d'aquella
    satira. Aquella indignação é o comentario d'esta elegia. O christianismo
    dos _Simples_ é o innocente e meigo christianismo popular, feito com a
    ignorancia absoluta do dogma e com a intuição humana dos Evangelhos. A
    exegese do povo, na sua rudeza nativa e embrionaria, é por vezes d'uma
    penetração sublime e reveladora.

    As minhas antigas opiniões religiosas, em vez de se modificarem,
    acentuam-se cada vez mais. Redobra em mim, com um desenvolvimento
    progressivo de misticismo naturalista, a aversão e a hostilidade á
    egreja catolica, grosseira formula materialisada do transcendente e
    divino espirito de Jesus.

    Em quanto á tecnica do poema, muitissimo havia que dizer, se esta nota
    não fosse escripta rapidamente, á ultima hora, com o impressor á espera.

    A forma poetica encaminha-se á evolução final. Horisonte imenso. O pouco
    que fiz de novo, em tal sentido, não deve nada a ninguem. É meu,
    pertence-me.

    E, de passagem, uma ligeira observação. Este livro, só hoje dado a
    publico, é d'ha muito conhecido entre homens de letras e poetas. E valha
    a verdade exerceu, aqui e alem, ainda inedito, uma certa influencia,
    que, embora leve, é inegavel e manifesta. Podia apontar, citar. Inutil.
    Desejo apenas estabelecer o facto, mais nada.

    Concluindo: tentei uma obra d'arte, que fosse ao mesmo tempo
    absolutamente individual, ingenitamente portugueza e vasta e
    fundamentalmente humana. Alcancei-o? O tempo o dirá.

    14 de Maio de 1892.

    _G. J._

    *INDICE*

    PRELUDIO
    I–A Caminho
    II–De Volta

    I–A MOLEIRINHA

    II–CADAVER
    I–Prestito funebre
    II–In Pulvis

    III–EIRAS AO LUAR

    IV–AS ERMIDAS

    V–CANÇÃO PERDIDA

    VI–O PASTOR

    VII–O CAVADOR

    VIII–OS POBRESINHOS

    IX–CAMPO SANTO

    EPILOGO
    Regresso ao lar

    NOTA

    ERRATA

    Passaram desapercebidos varios erros, principalmente ortograficos,
    de facil emenda para o leitor.

    PREÇOS DA TIRAGEM ESPECIAL

    Exemplar unico em pergaminho 45$000
    Exemplares em papel Wathman 4$000

    _A 1.^a edição d'este livro, destinada a Portugal, pertence ao snr.
    Baptista Domingues, Vianna do Castello, a quem devem dirigir-se todas as
    requisições_.

  • Só

    Só

    Aproximadamente 21.019 palavras.

    Produced by Ricardo Diogo and Tiago Tejo. Edited by Rita
    Farinha (Biblioteca Nacional Digital–http://bnd.bn.pt).
    (This file was produced from images generously made
    available by National Library of Portugal (Biblioteca
    Nacional de Portugal).)

    Je déclare que M. Francisco de França Amado, libraire-éditeur, 141,
    rua da Calçada, Coimbra: est mon unique représentant et dépositaire
    de o «Só», pour le Portugal.

    L.V.

    SÓ

    ANTONIO NOBRE

    SÓ

    PARIS

    LÉON VANIER, ÉDITEUR

    19, QUAI SAINT-MICHEL, 19

    1892

    Tous Droits Réservés

    MEMORIA Á MINHA MÃE AO MEU PAE

    Aquelle que partiu no brigue _Boa Nova_,
    E na barca _Oliveira_, annos depois, voltou;
    Aquelle santo (que velhinho e jà corcova)
    Uma vez, uma vez, linda menina amou:
    Tempos depois, por uma certa lua-nova,
    Nasci eu… O velhinho ainda cà ficou,
    Mas ella disse:–«Vou, alli adiante, à _Cova_,
    Antonio, e volto jà…» E ainda não voltou!
    Antonio é vosso. Tomae là a vossa obra!
    «Só» é o poeta-nato, _o lua_, o santo, a cobra!
    Trouxe-o d'um ventre: não fiz mais do que escrever…
    Lede-o e vereis surgir do poente as idas magoas,
    Como quem ve o sol sumir-se, pelas agoas,
    E sobe aos alcantis para o tornar a ver!

    *Antonio*

    Que noite de inverno! Que frio, que frio!
    Gelou meu carvão:
    Mas boto-o á lareira, tal qual pelo estio,
    Faz sol de verão!

    Nasci, n'um Reino d'Oiro e flores
    Á beira-mar.

    Ó velha Carlota, tivesse-te ao lado,
    Contavas-me historias:
    Assim… desenterro, do val do passado,
    As minhas Memorias.

    Sou neto de Navegadores,
    Heroes, Lobos d'agoa, Senhores
    Da India, d'Aquém e d'Além-mar!

    Moreno coveiro, tocando viola,
    A rir e a cantar!
    Empresta, bom homem, a tua sachola,
    Eu quero cavar:

    E o vento mia! e o vento mia!
    Que irà no mar!

    Erguei-vos, defuntas! da tumba que alveja
    Qual Lua, a distancia!
    Vizões enterradas no adro da Igreja,
    Branquinha, da Infancia…

    Que noite! ó minha Irmã Maria,
    Accende um cyrio à Virgem Pia,
    Pelos que andam no alto mar…

    Lá vem a Carlota que embala uma aurora
    Nos braços, e diz:
    «Meu lindo menino, que Nossa Senhora
    O faça feliz!»

    Ao mundo vim, em terça-feira,
    Um sino ouvia-se dobrar!

    E Antonio crescendo, sãosinho e perfeito,
    Feliz que vivia!
    (E a Dor, que morava com elle no peito,
    Com elle crescia…)

    Vim a subir pela ladeira
    E, n'uma certa terça-feira,
    Estive jà p'ra me matar…

    Mas foi a uma festa, vestido de anjinho,
    Que fado cruel!
    E a Antonio calhou-lhe levar, coitadinho!
    A _Esponja do Fel_…

    Ides gelar, agoas dos montes!
    Ides gelar!

    A Tia Delphina, velhinha tão pura,
    Dormia a meu lado
    E sempre rezava por minha ventura…
    E sou desgraçado!

    Agoas do rio! agoas das fontes!
    Cantigas d'agoa pelos monles,
    Que sois como amas a cantar…

    E eu ia ás novenas, em tardes de Maio,
    Pedir ao Senhor:
    E, ouvindo esses cantos, tremia em desmaio,
    Mudava de cor!

    Passam na rua os estudantes
    A vadrulhar…

    E a Mãe-Madrinha, do tempo da guerra
    A mail-os francezes,
    Quando ia ao confesso, á ermida da serra,
    Levava-me, ás vezes.

    Assim como elles era eu d'antes!
    Meus camaradas! estudantes!
    Deixae o Poeta trabalhar…

    Santinho como ia, santinho voltava:
    Peccados? Nem um!
    E a instancias do padre dizia (e chorava):
    «Não tenho nenhum…»

    Ó Job, coberto de gangrenas,
    Meu avatar!

    As noites, rezava (e rezo ainda agora)
    Ao pé da lareira.
    (A chuva gemente caia lá fóra,
    Fervia a chaleira…)

    Conservo as mesmas tuas penas,
    Mais tuas chagas e gangrenas,
    Que não me farto de coçar!

    –Que Deus se amercie das almas do Inferno!
    –Amen! Oxalá…
    E o moço rosnava, tranzido de inverno:
    –Que bom lá está!

    E a neve cae, como farinha,
    Là d'esse moinho a moer, no Ar:

    O sino da Igreja tocava, á tardinha:
    Que tristes seus dobres!
    Era a hora em que eu ia provar, á cozinha,
    O caldo dos pobres…

    Ó bom Moleiro, cautellinha!
    Não desperdices a farinha
    Que tanto custa a germinar…

    Ó velhas criadas! na roca fiando,
    Nos lentos serões…
    Corujas piando, _Farrusca_ ladrando
    Com medo aos ladrões!

    Andaes, à neve, sem sapatos,
    Vos que nâo tendes que calçar!

    O Zé do Telhado morara, alli perto:
    A triste viuva
    A nossa caza ia pedir, era certo,
    Em noites de chuva…

    Corpos au léu, vesti meus fatos!
    Pés nus! levae esses sapatos…
    Basta-me um par.

    Ó feira das uvas! em tardes de calma…
    (O tempo voou!)
    Pediam-me os pobres «esmola pela alma
    Que Deus lhe levou!»

    Quando eu morrer, hirto da magoa.
    Deitem-me ao mar!

    E havias-os com gotta, e havia-os herpeticos,
    Mostrando a gangrena!
    E mais, e ceguinhos, mas era dos ethicos
    Que eu tinha mais pena…

    Irei indo de fragua, em fragua,
    Até que, emfim, desfeito em agoa,
    Hei-de fazer parte do mar!

    Chegou uma carta tarjada: a estampilha
    Bastou-me enxergar…
    Coitados d'aquelles que perdem a filha,
    Tão longe do lar!

    No Panthéon, tragico, o sino
    Dà meia-noite, devagar:

    Ó tardes de outomno, com fontes carpindo
    Entre herva sedenta…
    Os cravos a abrirem, a lua aspergindo
    Luar, agoa-benta…

    É o Victor, outra vez menino,
    A compor um alexandrino,
    Pelos seus dedos a contar!

    Ao dar meia-noite no _cuco_ da sala,
    Batiam: «Truz! truz!»
    E o Avô que dormia, quietinho na valla,
    Entrava, Jezus!

    Que olhos tristes tem meu vizinho!
    Ve-me comer e poe-se a ougar:

    Nas sachas de Junho, ninguem se batia
    Com nosso cazeiro:
    Que espanto, pudéra! se da freguezia
    Elle era o coveiro…

    Sobe ao meu quarto, bom velhinho!
    Que eu dou-te um copo d'este vinho
    E metade do meu jantar.

    Morria o mais velho dos nossos criados,
    Que pena! que dó!
    Pedi-lhe, tremendo, fizesse recados
    Á alminha da Avó…

    Bairro-Latino! dorme um pouco!
    Faze, meu Deus, por socegar…

    Ó banzas dos rios, gemendo descantes
    E fados do mundo!
    Ó agoas fallantes! ó rios andantes,
    Com eiras no fundo!…

    Calla-te, Georges! estàs jà rouco!
    Deixa-me era paz! Calla-te, louco,
    Ó boulevard!

    Trepava ás figueiras cheiinhas de figos
    Como astros no céu:
    E em baixo, aparando-os, erguiam mendigos
    O roto chapéu…

    Boas almas, vinde ao meu seio!
    Espiritos errantes no Ar!

    Ó lua encantada no fundo do poço,
    Moirinha da magoa!
    O balde descia, chymeras de moço!
    Trazia só agoa…

    Sou médio: evoco-os, noite em meio,
    Vos não acreditaes, eu sei-o…
    Deixal-o não acreditar.

    Meus versos primeiros estão no Adro, ainda,
    Escriptos na cal:
    Cantavam Aquella que é a roza mais linda
    Que tem Portugal!

    Se eu vos podesse dar a vista,
    Ceguinhos que ides a tactear…

    A lua é ceifeira que, ás noites, ensaia
    Bailados na terra…
    Luar é caleiro que, pallido, caia
    Ermidas da serra…

    Quanto essa sorte me contrista!
    Mas ah! mais vale não ter vista,
    Que um mundo d'estes ter d'olhar.

    O conde de Furnas sabia o Horacio,
    Tin-tin, por tin-tin!
    E dava-me, á noite, passeiando em palacio,
    Licção de latim.

    A Morte, agora, é a minha ama…
    Que bem que sabe acalentar!

    E entrei para a escola, meu Deus! quem me dera
    N'essa hora da vida!
    Uzava uma bluza, que linda que era!
    E trança comprida…

    Á noite, quando estou na cama:
    «Nana, nana! Que a tua ama
    Vem jà, não tarda! foi cavar…»

    Os outros rapazes furtavam os ninhos
    Com ovos a abrir;
    Mas eu mercava-lhes os bons passarinhos,
    Deixava-os fugir…

    Camões! ó lua do mar-bravo!
    Vem-me ajudar…

    Os prezos, ás grades da triste cadeia,
    Olhavam-me em face!
    E eu ia á pouzada do guarda da aldeia
    Pedir que os soltasse…

    Tenho o nome do teu escravo;
    Em nome d'elle e do mar-bravo,
    Vem-me ajudar!

    E quando um malvado moia a chibata
    Um filho, ou assim,
    Corria a seus braços, gritando: «Não bata!
    Bata antes em mim…»

    E o vento geme! e o vento geme!
    Que irà no mar!

    E quando dobrava na terra algum sino
    Por velho, ou donzella,
    A meu Pae rogavam «deixasse o menino
    Pegar a uma vela…»

    Lobos d'agoa, que ides ao leme,
    Tende cuidado! a lancha treme…
    Orçar! orçar!

    Enterros de anjinhos! Oh dores que trazem
    Aos tristes cazaes!
    Ha doces, ha vinho, senhores que fazem
    Saudes aos paes…

    Meu velho cão, meu grande amigo,
    Porque me estàs assim a olhar?

    A Prima doidinha por montes andava,
    Á lua, em vigilia!
    Olhae-me, doutores! ha doidos, ha lava,
    Na minha Familia…

    Quando ou choro, choras commigo
    Meu velho cão! és meu amigo…
    Tu nunca me has-de abandonar.

    E os annos correram, e os annos cresceram,
    Com elles cresci:
    Os sonhos que tinha, meus sonhos… morreram,
    Só eu não morri…

    Frades do Monte de Crestello!
    Abri-me as portas! quero entrar…

    Fui vendo que as almas não eram no mundo
    Singellas e francas:
    A minha que o era ficou, n'um segundo,
    Cheiinha de brancas!

    Cortae-me as barbas e o cabello,
    Vesti-me esse habito singello…
    Deixae-me entrar!

    Fiquei pobrezinho, fiquei sem chymeras,
    Tal qual Pedro-Sem,
    Que teve fragatas, que teve galeras,
    Que teve e não tem…

    Moço Luziada! criança!
    Porque estàs trisle, a meditar?

    Vieram as rugas, caiu-me o cabello
    Qual musgo da rocha…
    Fiquei para sempre sequinho, amarello,
    Que nem uma tocha!

    Ves teu paiz sem esperança,
    Que todo allue, à semelhança
    Dos castellos que ergueste no Ar?

    E a velha Carlota, revendo-me agora
    Tão pallido, diz:
    «Meu pobre menino! que Nossa Senhora
    Fez tão infeliz…»

    Pariz, 1891.

    *Menino e Moço*

    Tombou da haste a flor da minha infancia alada,
    Murchou na jarra de oiro o pudico jasmim:
    Voou aos altos céus S.^{ta} Aguia, linda fada,
    Que d'antes estendia as azas sobre mim.

    Julguei que fosse eterna a luz d'essa alvorada,
    E que era sempre dia, e nunca tinha fim
    Essa vizão de luar que vivia encantada,
    N'um castello de prata embutido a marfim!

    Mas, hoje, as aguias de oiro, aguias da minha infancia,
    Que me enchiam de lua o coração, outrora,
    Partiram e no céu evolam-se, a distancia!

    Debalde clamo e choro, erguendo aos céus meus ais:
    Voltam na aza do vento os ais que a alma chora;
    Ellas, porém, Senhor! ellas não voltam mais…

    Leça, 1885.

    *Os Cavalleiros*

    –Onde vaes tu, cavalleiro,
    Pela noite sem luar?
    Diz o vento viajeiro,
    Ao lado d'elle a ventar…
    Não responde o cavalleiro,
    Que vae absorto a scismar.
    –Onde vaes tu, torna o vento,
    N'esse doido galopar?
    Vaes bater a algum convento?
    Eu ensino-te a rezar.
    E a lua surge, um momento,
    A lua, convento do Ar.
    –Vaes levar uma mensagem?
    Dá-m'a que eu vou-t'a entregar:
    Irás em meia viagem
    E eu já de volta hei-de estar.
    E o cavalleiro, á passagem,
    Faz as arvores vergar.
    –Vaes escalar um mosteiro?
    Eu ajudo-t'o a escalar:
    Não ha no mundo pedreiro
    Que a mim se possa egualar!
    Não responde o cavalleiro
    E o vento torna a fallar:
    –Dize, dize! vaes p'ra guerra?
    Monta em mim, vou-te levar:
    Não ha cavallo na Terra
    Que tenha tão bom andar…
    E os trovões rolam na serra
    Como vagas a arrolar!
    –E as guerras has-de ganhal-as,
    Que por ti hei-de velar:
    Ponho-me á frente das balas
    Para a força lhes tirar!
    E as arvores formam alas
    Para os guerreiros passar.
    –Vaes guiar as caravellas
    Por sobre as agoas do mar?
    Guiarei as tuas velas
    Á feição hei-de assoprar.
    E os astros vêm ás janellas
    E a lua vem espreitar…
    –Onde vaes na galopada,
    Á tua infancia, ao teu lar?
    Conheço a tua pousada:
    Já lá tenho ido ficar.
    E vae longe a trovoada,
    Vae de todo a alliviar.
    –Vaes ver tua velha tia,
    Na roca de oiro a fiar?
    Loiro linho que ella fia,
    Ajudei-lh'o eu a seccar!
    E o luar é a Virgem Maria…
    Que lindo vae o luar!
    –Vaes ver a tua mãesinha?
    Coitada! vi-a expirar:
    Tinha a alma tão levezinha,
    Que voou sem eu lhe tocar!…
    E o cavalleiro caminha,
    Caminha sem se importar!
    –Vaes ver tua irmã? Ao peito
    Traz um menino a criar:
    Ai com que bom, lindo geito
    Ella o sabe acalentar!
    E o vento embala no peito
    Uma nuvem, p'ra imitar!
    –Onde vaes tu? Aonde, aonde?
    Phantasma! vaes-te cazar?
    Eu sei da filha d'um conde
    Que por ti vive a penar…
    E o phantasma não responde,
    Sempre, sempre, sempre a andar!
    –Vaes á cata da Ventura
    Que anda os homens a tentar?
    (Ai d'aquelle que a procura
    Que eu nunca a pude encontrar…)
    N'isto, pára a criatura,
    Faz seu cavallo estacar:
    –Vento, sim! Espera, espera!
    Que estrada devo tomar?
    (É um menino, é uma chymera
    E todo lhe ri o olhar…)
    E o vento, com voz austera,
    Dor, querendo disfarçar:
    –Toma todas as estradas
    Todas, áquem e além-mar:
    Serão inuteis jornadas,
    Nunca lá has-de chegar…
    Palavras foram facadas
    Que é vel-o, todo a sangrar…
    E seus cabellos trigueiros
    Começam de branquiar,
    E olham-se os dois cavalleiros…
    Quedam-se ambos a scismar.
    Brilha o Oriente entre os pinheiros,
    Ouvem-se os gallos cantar…
    –Adeus, adeus! Nasce a aurora,
    Adeus! vamos trabalhar!
    Adeus, adeus! vou-me embora:
    Chamaram-me as velas, no mar…
    E o vento vae por hi fóra,
    No seu cavallo, a ventar…

    Pariz, 1891.

    *Purinha*

    O Espirito, a Nuvem, a Sombra, a Chymera,
    Que (aonde ainda não sei) neste mundo me espera
    Aquella que, um dia, mais leve que a bruma,
    Toda cheia de véus, como uma Espuma,
    O Sr. Padre me dará p'ra mim
    E a seus pés me dirá, toda corada: _Sim_!
    Ha-de ser alta como a _Torre de David_,
    Magrinha como um choupo onde se enlaça a vide
    E seu cabello em cachos, cachos d'uvas,
    E negro como a capa das viuvas…
    (Á maneira o trará das virgens de Belem
    Que a Nossa Senhora ficava tão bem!)
    E será uma espada a sua mão,
    E branca como a neve do Marão,
    E seus dedos serão como punhaes,
    Fuzos de prata onde fiarei meus ais!
    E os seus seios serão como dois ninhos,
    E seus sonhos serão os passarinhos,
    E será sua bocca uma romã,
    Seus olhos duas Estrellinhas da Manhã!
    Seu corpo ligeiro, tão leve, tão leve,
    Como um sonho, como a neve,
    Que hei-de suppor estar a ver, ao vel-a,
    Cabrinhas montezas da Serra da Estrella…
    E ha-de ser natural como as hervas dos montes
    E as rolas das serras e as agoas das fontes…
    E ha-de ser boa, excepcional, quazi divina.
    Mais pura, mais simples, que moça e menina.
    Deus, pela voz dos rouxinoes ha-de gabal-a
    E os rios ao passar hão-de cantal-a.
    Seu virgem coração ha-de ser tão branquinho,
    Que não ha neste, mundo a que egualal-o: o linho
    Que, em roca de crystal, fiava a minha Avó
    Parecerá de crepe, e a neve… far-me-á dó,
    Mais a farinha do moleiro e a violeta,
    E a lua para mim será como uma preta!

    Mas em que sitio, aonde? aonde? é que me espera
    Esta Torre, esta Lua, esta Chymera?
    Fui ter com minha fada e disse-lhe: «Madrinha!
    Onde haverá na Terra assim uma Rainha?»
    E a minha fada, com sua vara de encantar,
    Um reino me apontou, lá baixo, ao pé do mar…

    Meninas, lindas meninas!
    Qual de vós é o meu ideal?
    Meninas, lindas meninas
    Do Reino de Portugal!

    E no dia do meu recebimento!
    Manhã cedo, com luar ainda no firmamento,
    Quando ainda no céu não bole uma aza,
    A minha Noiva sairá de caza
    Mail-a sua mãe, mail-os seus irmãos.
    E ha-de sorrir, e hão-de tremer-lhe as mãos…
    E a sua ama ha-de seguil-a até á porta,
    E ficará, coitada! como morta!
    E ha-de ser triste vel-a, ao longe, ainda… olhando,
    Com o avental seus olhos enxugando…
    E hão-de cercal-a sete madrinhas,
    Que hão-de ser sete virgens pobrezinhas,
    Todas contentes por estreiar vestido novo!
    E, ao vel-as, suas mães sorrirão d'entre o povo…
    E o povo da freguezia
    Esperará mais eu, no adro de _Santa Iria_.
    E hão-de mirar-me com seu ar curiozo,
    E hão-de cercar-me, n'um silencio respeitozo.
    E eu hei-de lhes fallar das colheitas, da chuva,
    E dir-me-ão que «já vae pintando a uva…»
    E animados então (o povo é uma criança!)
    Porque o Sr. Morgado deu-lhes confiança,
    «Que Deus o ajude» dirá um, e o regedor:
    «Que seja mui feliz, Sr. Doutor…»
    E eu hei-de agradecer, sorrir, gostar.
    Mas o Anjo, no entanto, não deve tardar…
    E d'entre o grupo exclamará um velho, então:
    «Já nasce o dia!» eu olharei… mas não:
    É a minha Noiva que parece dia,
    Branquinha como a cal de _Santa Iria_!
    E ao vel-a tão branca, de branco vestida,
    Ao longe, ao longe, hei-de cuidar ver uma Ermida!
    E dirá o pastor, com espanto tamanho,
    Que é uma Ovelha que fugiu do seu rebanho!
    E o João Maluco dirá que é o Luar de Janeiro!
    E o pescador explicará ao bom moleiro
    Que é tal qualzinha a sua Lancha pelo mar!
    E o moleiro dirá que é o seu Moinho a andar!
    Que assim já foram as velhinhas scismarão,
    E as netas, coitadas! que, um dia, o serão…
    Mas o Anjo assomará, á porta da capella,
    E eu branco e tremulo hei-de ir ter com ella.
    E a estrella deitar-me-á a benção dos seus olhos
    E uma aldeã deitar-lhe-á violetas, aos molhos!
    E a Bem-Amada entrar na igreja ha-de…
    E ha-de cazar-nos o Sr. Abbade.
    E, em seguida, será a nossa boda,
    E festas haverá, na aldeia toda.
    E as mais raparigas do sitio, solteiras,
    Hao-de bailar bailados sobre as eiras,
    Com _trinta moedas_ de oiro sobre o peito!
    E cantigas dirão a seu respeito.
    E a Noiva em gloria, prepassando nas janellas,
    Sorrirá com simplicidade para ellas.
    E a noite, pouco e pouco, descerá…
    E tudo acabará.
    E depois e depois, o Anjo ha-de se ir deitar,
    E a sua mãe ha-de aabraçar… E hão-de chorar!
    E a sua alcova deitará sobre o quintal,
    Onde uma fonte correrá, entre o ervilhal:
    E, ao ouvil-a cantar, deitadinha na cama,
    O Anjo adormecerá, cuidando que é a sua ama…

    Mas qual a villa, qual a aldeia, qual a serra
    Que este Palacio de Ventura encerra?
    Fui ter com minha fada e disse-lhe: «Madrinha!
    Accaso nunca te mentiu tua varinha?»
    E a minha fada com sua vara de condão
    Nos ares escreveu com tres estrellas: «Não!»

    Meninas, lindas meninas!
    Qual de vós é o meu ideal?
    Meninas! lindas meninas
    Do Reino de Portugal!

    O nosso lar!
    Minha Madrinha! ajuda-me a sonhar!
    Que a nossa caza se erga d'entre uma eminencia,
    Que seja tal qual uma rezidencia,
    Alegre, branca, rustica, por fóra.
    Que digam: «É o Sr. Abbade que alli mora…»
    Mas no interior ella ha-de ser sombria,
    Como eu com esta melancholia…
    E salas escuras, chorando saudades…
    E velhos os moveis, de antigas idades…
    (E, assim, me illuda e, assim, cuide viver
    N'outro seculo em que eu deveria nascer.)
    E nas paredes telas de parentes…
    E janellas abertas sobre os poentes…
    (E a Chymera lerá o seu livro de rezas…)
    E cravos vermelhos por cima das mezas…
    E o relogio dará as horas devagar,
    Como as palpitações de quem se vae finar…
    E, dia inteiro, n'esta solidão,
    Deixar-me-ei esquecer, ao canto do fogão.
    E a scismar e a scismar em que? em quem?
    Na Dor, na Vida, em Deus, no Infinito, no _Além_?
    E eu o Luziada sombrio, o Afflicto, o Médio,
    Rogarei aos Espiritos remedio
    E um bom Espirito virá tratar do doente
    E ha-de tremer de susto a outra gente.
    E a noite descerá, pouco e pouco, no entanto,
    E a noite embrulhará o Afflicto no seu manto!
    Mas a Purinha, então, vindo da rua,
    Toda de branco surgirá, como uma Lua!
    E, então, acordarei d'essa desesperança
    E pela mão me levará, como uma criança.
    E eu pallido! e eu tremendo! e o Anjo pelo caminho,
    «Não te afflijas…» dirá, baixinho…
    E, assim, será piedoza para os mais:
    E ha-de entrar na mizeria dos cazaes,
    Nos montes mais altos, nos sitios mais ermos,
    E será a Saude dos Enfermos!
    E quando pela estrada encontrar um velhinho
    Todo suado, carregadinho,
    (Louvado seja Nosso Senhor!)
    Ha-de tirar seu lenço e ir enxugar-lhe o suor!
    E ás aves, em prisão, abrirá as gaiolas.
    E, aos sabbados, o dia das esmolas,
    A Santa descerá ao patamar da escada,
    Envolta, sem saber, n'uma capa estrellada,
    Esmolas, distribuindo a este e áquelle: e aos ceguinhos
    E mais aos alleijadinhos,
    Mais aos que botam sangue pela bocca,
    Mais aos que vêm cantar, numa rabeca rouca,
    Amores, naufragios e _A Nau Cathrineta_,
    Mais aos Afflictos deste vil Planeta,
    Mais ás viuvas dos degredados…
    E tudo seja pelos meus peccados!
    E ha-de cozer (serão os remendos de flores)
    As velas rôtas dos pescadores
    E a luz do seu olhar benzerá essas velas
    E nunca mais hão-de rasgar-lh'as as procellas!
    E accenderá os cyrios ao Senhor,
    (Que sejam como ella no talhe e na cor!)
    Quando houver temporal… e eu virei p'ra saccada
    Ver os relampagos, ouvir a trovoada!…
    E n'isto só rezumir-se-á a sua vida:
    Vestir os nus, aos pobres dar guarida,
    Fallar á alma que na angustia se consome,
    Dar de comer a quem tem fome,
    Dar de beber a quem tem sede…
    E, lá, do céu, Jezus dirá aos homens: «Vede…»
    E eu hei-de em minhas obras imital-a
    E amal-a como á Virgem e adoral-a.
    E a Virgem ha-de encher com a mesma paixão
    As marés-vazas d'este doido coração
    E as suas ondas ha-de, olympica, aplacar,
    Que para mim, linda Joanninha d'Arc,
    Que para mim será a lua-nova!
    E ha-de ir commigo para a mesma cova,
    Pois que no dia em que eu morrer
    Veneno tomará, n'uma colher…

    Mas em que patria, em que nação é que se esconde
    Esta Bandeira, esta India, este Castello, aonde? aonde?
    Fui ter com minha fada, e disse-lhe: «Madrinha!
    Mas pode haver, assim, na Terra uma Purinha?»
    E a minha fada com sua vara de marfim
    Tocou meu peito… e _alguem_ sorriu lá dentro: _Sim_…

    Meninas, lindas meninas!
    Qual de vós é o meu ideal?
    Meninas, lindas meninas
    Do Reino de Portugal!

    Pariz, 1891.

    *Elegia*

    Vae em seis mezes que deixei a minha terra
    E tu ficaste lá, mettida n'uma serra,
    Boa velhinha! que eras mais uma criança…
    Mas, tão longe de ti, n'este Payz de França,
    Onde mal viste, então, que eu viesse parar,
    Vejo-te, quanta vez! por esta sala a andar…
    Bates. Entreabres de mansinho a minha porta.
    Virás tratar de mim, ainda depois de morta?
    Vens de tão longe! E fazes, só, essa jornada!
    Ajuda-te o bordão que te empresta uma fada.
    Altas horas, emquanto o bom coveiro dorme,
    Escapas-teãda cova e vens, Bondade enorme!
    Atravez do Marão que a lua-cheia banha,
    Atravessas, sorrindo, a mysteriosa Hespanha,
    Perguntas ao pastor que anda guardando o gado,
    (E as fontes cantam e o céu é todo estrellado…)
    Para que banda fica a França, e elle, a apontar,
    Diz: «Vá seguindo sempre a minha estrella, no Ar!»
    E ha-de ficar scismando, ao ver-te assim, velhinha,
    Que és tu a Virgem disfarçada em probrezinha…
    Mas tu, sorrindo sempre, olhando sempre os céus,
    Deixando atraz de ti, os negros Pyrineus,
    Sob os quaes rola a humanidade, nos Expressos,
    Em certo dia ao fim de tantos (conto-os, meço-os!)
    Vindo de villa em villa, e mais de serra em serra,
    Chegas!
    E cae e cae no soalho alguma terra:
    Tua cova que vem pegada aos teus vestidos!

    Ó lua do ceguinho! Amparo dos vencidos!
    Alpendre do perdão! ó Piedade! ó Clemencia!
    Singular fado o nosso, estranha coincidencia:
    Deixamos nossa Patria ao mesmo tempo: tu,
    Adentro d'um caixão, que era tambem bahu,
    Onde levavas as desgraças d'esta vida;
    Eu, n'um paquete sobre a vaga enraivecida
    (Sob a qual, entretanto, havia a paz das loizas)
    E n'elle o esquife do meu lar, as minhas coizas,
    E mais tu sabes, Santa! um sacco de mizerias!
    Mas a existencia, é um dia, esta vida são férias
    E, mal acabem, te verei de novo… em breve!
    E tu de novo me verás…
    Ah! como deve
    Ser frio esse teu lar de debaixo da terra
    Que teu cadaver de oiro ainda intacto encerra:
    Ainda intacto e sempre: disse-me o coveiro
    Que a tua cova era a unica sem cheiro…
    E assim te deixo, Santa! Santa! ao abandono,
    Só, aos cuidados das corujas e do Outomno!
    Com este frio, horror! Senhora da Piedade!
    Sem uma mão amiga e cheia de bondade
    Que te agazalhe e faça a dobra do lençol,
    Que abra a janella para tu veres o sol,
    Que, logo de manhã, venha trazer-te o leite
    E, á noite, a lamparina-esmalte com azeite!
    Sem uma voz que vá ao pé da tua loiza,
    Ancioza, perguntar se queres alguma coiza,
    Cobrir-te, dar-te as boas-noites… Sem ninguem!
    Ai de ti! ai de ti! minha segunda Mãe!

    Dobra era meu coração o sino da saudade…

    Aqui, no meio d'esta fria soledade,
    Evoco a Coimbra triste, em seu aspecto moiro:
    Entro, chapéu na mão, em tua Caza d'Oiro,
    Em frente a um cannavial, cheio de rouxinoes,
    Que era nervozo de mysterio, ao por-dos-soes…
    Vejo o teu lar e a ti, tão pura, tão singella,
    E vejo-te a sorrir, e vejo-te, á janella,
    Quando eu seguia para as aulas, manhã cedo,
    Ancioza, olhando d'entre as folhas do arvoredo,
    Olhando sempre até eu me sumir, a olhar,
    Que ás vezes não me fosse um carro atropelar.
    Vejo o meu quarto de dormir, todo caiado,
    D'onde ouvia arrulhar as pombas, no telhado;
    Oiço o relogio a dar as horas vagamente,
    Devagar, devagar, como os ais d'um doente…
    Vejo-te, á noite, pelas noites de Janeiro,
    Na sala a trabalhar, á luz do candieiro,
    Mais vejo o Emilio, indo a tactear, quasi sem vista,
    Mas que lembrava com seus olhos de ametysta,
    Meio cerrados, como ao sol uma janella,
    Que lindos olhos! uma pomba de _Ramella_!
    E andava á solta pela caza, não fugia,
    Que aos libres ares o cazulo preferia…
    Mais vejo Aquella, cujo olhar são pyrilampos,
    Que tem o nome da mais linda flor dos campos,
    Que tem o nome que tiveste… Vejo-a, ainda,
    Como se hontem fosse, a Margareth, tão linda:
    Vejo-a passar, sorrindo, e faz-me assim lembrar
    No seu vestido rubro, uma papoila a andar…
    Mais te vejo ainda ungir d'affagos minhas penas,
    Mais te vejo voltar, á tarde, das novenas…
    Mais oiço os sinos a dobrar, em _Santa Clara_,
    E tu encommendando a alminha que voara…
    Mais vejo os meus contemporaneos, pela _Estrada_,
    As capas destraçando, ao verem-te á saccada;
    Mais vejo o Ruy, na sua farda de artilheiro,
    E tu mirando-o (o que são mães!) o dia inteiro!
    Mais vejo o sol, aurea cabeça do Senhor,
    Mais vejo os cravos, notas de clarim em flor!
    Mais vejo no quintal as papoilas vermelhas,
    Mais vejo o lar das andorinhas, sob as telhas,
    Mais oiço o tanque a soluçar soluços d'agoa,
    Mais oiço as rãs, coaxando á noite a sua magoa,
    Mais vejo o figueiral todo cheio de figos,
    Mais vejo a tua mão a dal-os aos mendigos…
    Mais oiço os guizos, ao passar da mala-posta,
    Mais vejo a sala de jantar, a meza-posta,
    E tu, Senhora! prezidindo, á cabeceira.
    E (o que a distancia faz!) vejo-te na cadeira,
    Com uma touca preta a cobrir-te os cabellos,
    Que eram de neve, aos caracoes, estou a vel-os!
    (Hei-de ir cortar-t'os, alta noite, ao cemiterio…)
    Mais vejo o Vasco sempre triste, sempre serio,
    D'um lado e eu de outro…

    Que abençoado refeitorio!

    Mas tudo passa n'este mundo tranzitorio!
    E tudo passa e tudo fica! A Vida é assim
    E sel-o-á sempre pelos seculos sem fim!
    Ainda vejo a tua caza, e oiço os teus gritos
    (Mas nas janellas e na porta vejo escriptos!)
    O Vasco é ainda sempre triste, sempre serio
    (Mas sua caza, agora, é ao pé d'um cemiterio…)
    Meu quarto de dormir vejo-o no mesmo estado
    (Mas não sei que é, não me parece tão caiado.)
    A janella ainda tem o mesmo parapeito
    (Mas já não sou «o estudantinho de Direito».)
    Na sala de jantar ainda se estende a meza
    (Mas já não tem a meza-posta, a sobremeza.)
    Vejo o relogio na parede como outrora
    (Mas o ponteiro marca ainda a mesma hora…)
    O candieiro ainda tem o petroleo e a torcida
    (Mas apagou-se a luz a quando a tua vida.)
    A diligencia passa, á tardinha, a tinir,
    (Mas já não tem os olhos teus para a seguir…)
    Passam ainda pela _Estrada_ os estudantes
    (Mas não destraçam suas capas, como d'antes…)
    Vêm da novena ainda as moças e as donzellas
    (Mas procuro-te, em vão, já não te vejo entre ellas…)
    As andorinhas ainda têm o mesmo fito
    (Mas já fizeram trez jornadas ao Egypto…)
    Ainda dobra por defuntos e defuntas
    (Mas não te vejo a ti a rezar de mãos juntas.)
    Ainda lá está o figueiral com figos,
    (Mas não a tua mão a dal-os aos mendigos…)
    O Ruy ainda traz a farda de soldado
    (Mas, agora, já poe mais divizas, ao lado.)
    As rãs coaxam ainda á noite, á beira d'agoa
    (Mas, já não têm quem peça a Deus por essa magoa.)
    O Emilio tem ainda esse olhar que maravilha,
    (Mas, com seus olhos d'hoje, é uma pombinha da _Ilha_)
    Ainda lá estão os cravos, no jardim,
    (Mas já não são as mesmas notas de clarim…)
    Ainda oiço o tanque a soluçar a sua magoa
    (Mas já não acho tão branquinha a sua agoa…)
    A Margareth ainda é a papoila de outrora
    (Mas a papoila… já está uma senhora!)
    Ainda lá estão as papoilas em flor
    (Mas a velhinha já não vae de regador…)
    Meu coração é ainda o Valle de Gangrenas
    (Mas já não tenho quem lhe plante as açucenas…)
    Vive ainda o Sol, vivo eu ainda… (Mas tu morreste!)
    Tudo ficou, tudo passou…

    Que mundo este!

    Pariz, 1891.

    *Os Sinos*

    1

    Os sinos tocam a noivado,
    No Ar lavado!
    Os sinos tocam, no Ar lavado,
    A noivado!

    Que linda criança que assoma na rua!
    Que linda, a andar!
    Em extasi, o povo commenta que é a Lua,
    Que vem a andar…

    Tambem, algum dia, o povo na rua,
    Quando eu cazar,
    Ao ver minha noiva, dirá que é a Lua
    Que vae cazar…

    2

    E o sino toca a baptizado
    Que lindo fado?
    E o sino toca um lindo fado,
    A baptizado!

    E banham o anjinho na agoa de neve,
    Para o lavar,
    E banham o anjinho na agoa de neve,
    Para o sujar.

    Ó boa madrinha, que o enxugas de leve,
    Tem dó d'esses gritos! Comprehende esses ais:
    Antes o enxugue a _Velha_! antes Deus t'o leve!
    Não soffre mais…

    3

    Os sinos dobram por anjinho,
    Coitadinho!
    Os sinos dobram, coitadinho…
    Pelo anjinho!

    Que aceiada que vae p'ra cova!
    Olhae! olhae!
    Sapatinhos de sola nova,
    Olhae! olhae!

    Ó lindos sapatos de solinha nova,
    Bailae! bailae!
    Nas eiras que rodam debaixo da cova…
    Bailae! bailae!

    4

    O sino toca p'ra novena,
    _Gratiae plena_,
    E o sino toca, _gratiae plena_,
    P'ra novena.

    Ide, meninas, á ladainha,
    Ide rezar!
    Pensae nas almas como a minha…
    Ide rezar!

    Se, um dia, me deres alguma filhinha,
    Ó Mãe dos Afflictos! ella ha-de ir, tambem:
    Ha-de ir ás novenas, assim, á tardinha,
    Com sua mãe…

    5

    E o sino chama ao Senhor-fóra,
    A esta hora!
    Os sinos clamam, a esta hora,
    Ao Senhor-fóra!

    Accendei, vizinhos, as velas,
    Allumiae!
    Velas de cera nas janellas!
    Allumiae!

    E luas e estrellas tambem poem velas,
    A allumiar!
    E a _alminha_, a esta hora, já está entre ellas,
    A allumiar…

    6

    E os sinos dobram a defuntos,
    Todos juntos!
    E os sinos dobram, todos juntos,
    A defuntos!

    Que triste ver amortalhados!
    Senhor! Senhor!
    Que triste ver olhos fechados!
    Senhor! Senhor!

    Que pena me fazem os amortalhados,
    Vestidos de preto, deitados de costas…
    E de olhos fechados! e de olhos fechados!
    E de mãos postas!

    E os sinos dobram a defuntos,
    Dlin! dlang! dling! dlong!
    E os sinos dobram, todos juntos,
    Dlong! dlin! dling! dlong

    Pariz, 1891.

    *Terças-Feiras*

    Ao Alberto

    1

    Ó condezinho de Tolstoï (Alberto)
    Santo de minha extrema devoção,
    Alma tamanha, que adorei de perto,
    Lá na _Thebaida_ do Sr. João.

    Meu Calix do Senhor! Meu Pallio aberto!
    Luar branco na minha escuridão!
    Ó minha Joanna d'Arc! Amigo certo
    Na hora incerta! Aguia! Meu Irmão!

    A ti as _Terças-feiras_, n'este Inferno,
    D'aquelle que nasceu, em terça-feira
    E em terça-feira morrerá, talvez…

    Quando eu for morto já, noites de inverno,
    Aos teus filhinhos, conta-as á lareira
    Para eu ouvir de _lá_:

    «Era uma vez…

    Pariz, 1891.

    2

    Legenda do Santo

    «Era uma vez um velho, mui velhinho,
    Vinde, meus filhos! vinde ouvir contar!
    Seguia, ao por-do-sol, por um caminho,
    Dois saccos de Amargura a carregar.

    O pobre velho, todo derreadinho,
    Já não podia mais, queria arreiar;
    Mas passa um cavalleiro: «Olá, santinho!
    Eu deito-lhe uma mão para o ajudar…»

    E o fidalgo desceu do seu cavallo:
    Tomou-lhe os saccos que iam a matal-o
    E aos hombros carregou com o maior!

    E, hoje, o velhinho anda a construir, coitado!
    Que linda ermida, n'esse chão sagrado,
    Onde lhe appareceu _Nosso Senhor_!»

    Pariz, 1891.

    3

    Prologo

    Em hora de afflicçãô, molhei a penna
    Na chaga aberta d'esse corpo amado,
    Mas n'uma chaga a suppurar gangrena,
    Cheia de puz, de sangue já coalhado!

    E depois, com a mão firme e serena,
    Compuz este missal d'um torturado:
    Talvez choreis, talvez vos faça pena…
    Chorae! que immenso tenho eu já chorado.

    Abri-o! Orae com devoção sincera!
    E, à leitura final d'uma oração,
    Vereis cair no solo uma chymera…

    Moços do meu paiz! vereis então
    O que é esta Vida, o que é que vos espera…
    Toda uma Sexta-feira de Paixão!

    Coimbra, 1889.

    4

    Natal d'um Poeta

    Em certo reino, á esquina do planeta,
    Onde nasceram meus Avós, meus Paes,
    Ha quatro lustres, viu a luz um poeta
    Que melhor fôra não a ver jamais.

    Mal despontava para a vida inquieta,
    Logo ao nascer, mataram-lhe os ideaes,
    A falsa-fé, n'uma traição abjecta,
    Como os bandidos nas estradas reaes!

    E, embora eu seja descendente, um ramo
    D'essa arvore de Heroes que, entre perigos
    E guerras, se esforçaram pelo ideal:

    Nada me importas, Paiz! seja meu amo
    O Carlos ou o Zé da Th'reza… Amigos,
    Que desgraça nascer em Portugal!

    Coimbra, 1889.

    5

    Ai de Mim!

    Venho, torna-me velho esta lembrança!
    D'um enterro d'anjinho, nobre e puro:
    Infancia, era este o nome da criança
    Que, hoje, dorme entre os bichos, lá no escuro…

    Trez anjos, a Chymera, o Amor, a Esperança
    Acompanharam-n'o ao jazigo obscuro,
    E recebeu, segundo a velha usança,
    A chave do caixão o meu Futuro.

    Hoje, ambulante e abandonada Ermida,
    Leva-me o fado, á bruta, aos empurrões,
    Vá para a frente! Marcha! Á Vida! Á Vida!

    Que hei-de fazer, Senhor! o qu'é que espera
    Um bacharel formado em illuzões
    Pela Universidade da Chymera?

    Boa Nova, 1887.

    6

    Conde

    Na praia lá da Boa Nova, um dia,
    Edifiquei (foi esse um grande mal)
    Torreão de gloria, o que é a phantasia,
    Todo de lapis-lazzuli e coral!

    N'aquellas redondezas, não havia
    Quem se gabasse d'um dominio egual:
    Oh o Torreão de gloria! parecia
    O territorio d'um Senhor-feudal!

    Um dia, não sei quando, nem sei d'onde;
    Um vento secco de tortura e spleen
    Deitou por terra, ao pó que tudo esconde,

    O meu condado, o meu condado, sim!
    Porque eu já foi um poderoso Conde,
    N'aquella idade em que se é conde assim…

    Porto, 1887.

    7

    Ó Virgens!

    Ó virgens que passaes, ao sol-poente,
    Pelas estradas ermas, a cantar!
    Eu quero ouvir uma canção ardente
    Que me transporte ao meu perdido lar…

    Cantae-me, n'essa voz omnipotente,
    O sol que tomba, aureolando o mar,
    A fartura da seara reluzente,
    O vinho, a graça, a formozura, o luar!

    Cantae! cantae as limpidas cantigas!
    Das ruinas do meu lar desatterrae
    Todas aquellas illuzões antigas

    Que eu vi morrer n'um sonho, como um ai…
    Ó suaves e frescas raparigas;
    Adormecei-me n'essa voz… Cantae!

    Porto, 1886.

    8

    Á Luz de Lua!

    Iamos sós pela floresta amiga,
    Onde em perfumes o luar se evola,
    Olhando os céus, modesta rapariga!
    Como as crianças ao sair da escola.

    Em teus olhos dormentes de fadiga,
    Meio cerrados como o olhar da rola,
    Eu ia lendo essa ballada antiga
    D'uns noivos mortos ao cingir da estola…

    A Lua-a-Branca, que é tua avozinha,
    Cobria com os seus os teus cabellos
    E dava-te um aspeto de velhinha!

    Que linda eras, o luar que o diga!
    E eu compondo estes versos, tu a lel-os,
    E ambos scismando na floresta amiga…

    Porto, 1884.

    9

    Desobriga

    Os meus peccados, Anjo! os meus peccados!
    Contar-t'os? Para que, se não têm fim…
    Sou santo ao pé dos outros desgraçados,
    Mas tu és mais que santa ao pé de mim!

    A ti accendo cyrios perfumados,
    Faço novenas, queimo-te alecrim,
    Quando soffro, me vejo com cuidados…
    Nas tuas rezas, lembra-te de mim!

    Que eu seja puro d'alma e pensamento!
    E que, em dia do grande julgamento,
    Minhas culpas não sejam de maior:

    Pois tenho, que o céu tudo aponta e marca,
    Um processo a correr n'essa comarca,
    Cujo delegado é Nosso Senhor…

    Hamburgo, 1891.

    10

    Que Aborrecido!

    Meus dias de rapaz, de adolescente,
    Abrem a bocca a bocejar sombrios:
    Deslizam vagarozos, como os rios,
    Succedem-se uns aos outros, egualmente.

    Nunca desperto de manhã, contente.
    Pallido sempre com os labios frios,
    Oro, desfiando os meus rozarios pios…
    Fôra melhor dormir, eternamente!

    Mas não ter eu aspirações vivazes,
    E não ter, como têm os mais rapazes,
    Olhos boiando em sol, labio vermelho!

    Quero viver, eu sinto-o, mas não posso:
    E não sei, sendo assim, emquanto moço,
    O que serei, então, depois de velho…

    Bellos-Ares, 1889.

    11

    Poveiro

    Poveirinhos! meus velhos pescadores!
    Na Agoa quizera com vocês morar:
    Trazer o lindo gorro de trez cores,
    Mestre da lancha _Deixem-nos passar_!

    Far-me-ia outro, que os vossos interiores
    De ha tantos tempos, devem já estar
    Calafetados pelo breu das dores,
    Como esses pongos em que andaes no mar!

    Ó meu Pae, não ser eu dos poveirinhos!
    Não seres tu, para eu o ser, poveiro,
    Mail-Irmão do «Senhor de Mattozinhos»!

    No alto mar, ás trovoadas, entre gritos,
    Promettermos, _si o barco fôri intieiro_,
    _Nossa bela á Sinhora dos Afflictos_!

    Leça, 1889.

    12

    O Sr. Abbade

    Quando vem Junho e deixo esta cidade,
    Batina, _Caes_, tuberculozos céus,
    Vou para o Seixo, para a minha herdade:
    Adeus, cavaco e luar! choupos, adeus!

    Tomo o regimen do Sr. Abbade,
    E faço as pazes, elle o quer, com Deus.
    No seu direito olhar vejo a bondade,
    E ás capellinhas vou ver os judeus.

    Que homem sem par! Ignora o que são dores!
    Para elle uma ramada é o pallio verde,
    Os cachos d'uvas são as suas flores!

    Ao seu passal chama elle o mundo todo…
    Sr. Abbade! olhe que nada perde:
    Viva na paz, ahi, longe do lodo.

    Coimbra, 1850.

    13

    Maes, Vinde Ouvir!

    Longe de ti, na cella do meu quarto,
    Meu copo cheio de agoirentas fezes,
    Sinto que rezas do Outro-mundo, harto,
    Pelo teu filho. Minha Mãe, não rezes!

    Para fallar, assim, ve tu! já farto,
    Para me ouvires blasphemar, ás vezes,
    Soffres por mim as dores crueis do parto
    E trazes-me no ventre nove mezes!

    Nunca me houvesses dado á luz, Senhora!
    Nunca eu mamasse o leite aureolado
    Que me fez homem, magica bebida!

    Fôra melhor não ter nascido, fôra,
    Do que andar, como eu ando, degredado
    Por esta Costa d'Africa da Vida…

    Coimbra, 1889.

    14

    Sê Altivo!

    Altos pinheiros septuagenarios
    E ainda empertigados sobre a serra!
    Sois os Enviados-extraordinarios,
    Embaixadores d'El-Rey Pan, na Terra.

    A noite, sob aquelles lampadarios,
    Conferenciaes com elle… Ha paz? Ha guerra?
    E tomam notas vossos secretarios,
    Que o _Livro Verde_ secular encerra.

    Hirtos e altos, Tayllerands dos montes!
    Tendes a linha, não vergaes as frontes
    Na exigencia da côrte, ou beija-mão!

    Voltaes aos homens com desdem a face…
    Ai oxalá! que Pan me despachasse
    Addido á vossa extranha legação!

    Coimbra, 1888.

    15

    Sê de Pedra!

    Não reparaste nunca? Pela aldeia,
    Nos fios telegraphicos da estrada,
    Cantam as aves, desde que o sol nada,
    E, á noite, se faz sol a lua cheia…

    No entanto, pelo arame que as tenteia,
    Quanta tortura vae, n'uma ancia alada!
    O Ministro que joga uma cartada,
    Alma que, ás vezes, d'além-mar anceia:

    –Revolução!–Inutil.–Cem feridos,
    Setenta mortos.–Beijo-te!–Perdidos!
    –Emfim, feliz!–?–!–Desesperado.–Vem!

    E as lindas aves, bem se importam ellas!
    Continuam cantando, tagarellas:
    Assim, Antonio! deves ser tambem.

    Colonia, 1891.

    16

    Vae para um Convento!

    Falhei na Vida. Zut! Ideaes caidos!
    Torres por terra! As arvores sem ramos!
    Ó meus amigos! todos nós falhamos…
    Nada nos resta. Somos uns perdidos.

    Choremos, abracemo-nos, unidos!
    Que fazer? Porque não nos suicidamos?
    Jezus! Jezus! Resignação… Formamos
    No mundo, o Claustro-pleno dos Vencidos.

    Troquemos o burel por esta capa!
    Ao longe, os sinos mysticos da Trappa
    Clamam por nós, convidam-nos a entrar…

    Vamos semear o pão, podar as uvas,
    Pegae na enxada, descalçae as luvas,
    Tendes bom corpo, Irmãos! Vamos cavar…

    Coimbra, 1889.

    17

    A França!

    Vou sobre o Oceano (o luar de lindo enleva!)
    Por este mar de Gloria, em plena paz.
    Terras da Patria somem-se na treva,
    Agoas de Portugal ficam, atraz…

    Onde vou eu? Meu fado onde me leva?
    Antonio, onde vaes tu, doido rapaz?
    Não sei. Mas o vapor, quando se eleva,
    Lembra o meu coração, na ancia em que jaz…

    Ó Luzitania que te vaes á vela!
    Adeus! que eu parto (rezarei por ella…)
    Na minha _Nau Catharineta_, adeus!

    Paquete, meu paquete, anda ligeiro!
    Sobe depressa á gavea, marinheiro,
    E grita, França! pelo amor de Deus!…

    Oceano Atlantico, 1890.

    18

    Tempestade!

    O meu beliche é tal qual o bercinho,
    Onde dormi horas que não vêm mais.
    Dos seus embalos já estou cheiinho:
    Minha velha ama são os vendavaes!

    Uivam os ventos! Fumo, bebo vinho.
    O vapor treme! Abraço a _Biblia_, aos ais…
    Covarde! Que dirá teu Avôzinho,
    Que foi moreante? Que dirão teus Paes?

    Coragem! Considera o que has soffrido,
    O que soffres e o que ainda soffrerás,
    E ve, depois, se accaso é permittido

    Tal medo á Morte, tanto apego ao mundo:
    Ah! fôra bem melhor, vás onde vás,
    Antonio, que o paquete fosse ao fundo!

    Golpho de Biscaya, 1891.

    19

    Continua a Tempestade

    Aqui, sobre estas aguas cor de azeite,
    Scismo em meu lar, na paz que lá havia:
    Carlota, á noite, ia ver se eu dormia
    E vinha, de manhã, trazer-me o leite…

    Aqui, não tenho um unico deleite!
    Talvez… baixando, em breve, á Agoa fria,
    Sem um beijo, sem uma _Ave-Maria_,
    Sem uma flor, sem o menor enfeite…

    Ah! podesse eu voltar á minha infancia!
    Lar adorado, em fumos, a distancia,
    Ao pé de minha Irmã, vendo-a bordar…

    Minha velha aia! conta-me essa historia
    Que principiava, tenho-a na memoria,
    «Era uma vez…»
    Ah deixem-me chorar!

    Canal da Mancha, 1891.

    20

    Vaidade, Tudo Vaidade!

    Vaidade, meu amor, tudo vaidade!
    Ouve: quando eu, um dia, for alguem,
    Tuas amigas ter-te-ão amizade,
    (Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm.

    Vaidade é o luxo, a gloria, a caridade,
    Tudo vaidade! E, se pensares bem,
    Verás, perdoa-me esta crueldade,
    Que é uma vaidade o amor de tua mãe…

    Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna
    E eu vi-me só no mar com minha escuna,
    E ninguem me valeu na tempestade!

    Hoje, já voltam com seu ar composto,
    Mas eu, ve lá! eu volto-lhes o rosto…
    E isto em mim não será uma vaidade?

    Mar do Norte, 1891.

    21

    Paz!

    E a Vida foi, e é assim, e não melhora.
    Esforço inutil, crê! Tudo é illuzão…
    Quantos não scismam n'isso mesmo a esta hora
    Com uma taça, ou um punhal na mão!

    Mas a Arte, o Lar, um filho, Antonio? Embora!
    Chymeras, sonhos, bolas de sabão.
    E a tortura do _além_ e quem lá mora!
    Isso é, talvez, minha unica afflicção…

    Toda a dor pode suspportar-se, toda!
    Mesmo a da noiva morta em plena boda,
    Que por mortalha leva… essa que traz…

    Mas uma não: é a dor do pensamento!
    Ai quem me dera entrar n'esse convento
    Que ha além da Morte e que se chama _A Paz_!

    Pariz, 1891.

    22

    Epilogo

    Meu coração, não batas, pára!
    Meu coração, vae-te deitar!
    A nossa dor, bem sei, é amara,
    A nossa dor, bem sei, é amara…
    Meu coração, vamos sonhar…
    Ao mundo vim, mas enganado.
    Sinto-me farto de viver:
    Vi o que elle era, estou massado,
    Vi o que elle era, estou massado…
    Não batas mais! vamos morrer…
    Bati á porta da Ventura
    Ninguem m'à abriu, bati em vão:
    Vamos a ver se a sepultura,
    Vamos a ver se a sepultura
    Nos faz o mesmo, coração!
    Adeus, Planeta! adeus, ó Lama!
    Que a ambos nós vaes digerir…
    Meu coração, a _Velha_ chama,
    Meu coração, a _Velha_ chama…
    Basta, por Deus! vamos dormir…

    Coimbra, 1888.

    *Carta a Manoel*

    Manoel, tens razão. Venho tarde. Desculpa.
    Mas não foi Anto, não fui eu quem teve a culpa,
    Foi Coimbra. Foi esta paysagem triste, triste,
    A cuja influencia a minha alma não reziste,
    Queres noticias? Queres que os meus nervos fallem?
    Vá! dize aos choupos do Mondego que se callem…
    E pede ao vento que não uive e gema tanto:
    Que, emfim, se soffre abafe as torturas em pranto,
    Mas que me deixe em paz! Ah tu não imaginas
    Quanto isto me faz mal! Peor que as sabbatinas
    Dos _ursos_ na aula, peor que beatas correrias
    De velhas magras, galopando _Ave-Marias_,
    Peor que um diamante a riscar na vidraça!
    Peor eu sei lá, Manoel, peor que uma desgraça!
    Hysterisa-me o vento, absorve-me a alma toda,
    Tal a menina pelas vesperas da boda,
    Atarefada mail-a ama, a arrumar…
    O vento afoga o meu espirito n'um mar
    Verde, azul, branco, negro, cujos vagalhões
    São todos feitos de luar, recordações.
    Á noite, quando estou, aqui, na minha toca,
    O grande evocador do vento evoca, evoca
    Nosso verão magnifico, este anno passado,
    (E a um canto bate, alli, cardiaco, apressado,
    O _tic-tac_ do relogio do fogão)…
    Bons tempos, Manoel, esses que já lá vão!
    Isto, tu sabes? faz vontade de chorar.
    E, pela noite em claro, eu fico-me a scismar,
    Triste, ao clarão da lamparina que desmaia,
    Na existencia que tive este verão na praia,
    Quando, mal na amplidão, vinha arraiando a aurora,
    Ia por esse mar de Jezus-Christo fóra,
    No barco á vela do moreno Gabriel!
    Vejo passar de negro, envoltas n'um burel,
    Quantos sonhos, meu Deus! quantas recordações!
    Phantasmas do passado! encantadas vizões!
    Que, embora estejam lá, no seu paiz distante,
    Oiço-as fallar na minha alcova de estudante.

    Minhas vizões! entrae, entrae, não tenhaes medo!

    Ó _Rio Doce_! tunnel d'agoa e de arvoredo!
    Por onde Anto vogava em o wagon d'um bote…
    E, ao sol do meio dia, os banhos em pelote,
    Quando iamos nadar, á _Ponte de Tavares_!
    Tudo se foi! Espuma em flocos pelos ares!
    Tudo se foi…

    Hoje, mais nada tenho que esta
    Vida claustral, bacharelatica, funesta,
    N'uma cidade assim, cheirando, essa indecente!
    Por toda a parte, desde a Alta á Baixa, a lente!
    Bem me dizias tu, como que adivinhando
    O que isto para mim seria, Amigo, quando
    O anno passado, vim contra tua vontade
    Matricular-me, ahi, n'essa Universidade:
    «Anto não vás…» dizias tu. Eu, fraco, vim.
    Mas certamente, é natural, não chego ao fim.
    Ah quanto fôra bem melhor a formatura,
    Na Escola-Livre da Natureza, Mãe pura!
    Que optimas prelecções as prelecções modernas,
    Cheias de observação e verdades eternas,
    Que faz diariamente o Proff. Oceano!
    Já tinha dado todo o _Coraçao Humano_,
    Manoel! faltava um anno só para acabar
    Meu curso de Psychologia com o Mar.
    Porque troquei pela Coimbra inutil, vã,
    Essa Escola sem par, cujo reitor é Pan?
    Talvez… preguiça, eu sei… A _cabra_ é a cotovia:
    As aulas, lá, começam mal aponta o dia!

    Que tedio o meu, Manoel! Antes de vir, gostava.
    Era a distancia, o _além_, que me impressionava:
    Tinha a poezia do sol-por, d'uma esperança.
    Mas, mal cheguei (que espanto! eu era uma criança…)
    Tudo rolou no solo! A _Tasca das Camellas_
    Para mim, era um sonho, o céu cheio de estrellas:
    Nossa Senhora a dar de ceiar aos estudantes
    Por _6 e 5_! Mas ah! foi-se a Virgem d'antes,
    Tia Camella… só ficou a camelice.

    Comtudo, em meio d'esta futil coimbrice,
    Que lindas coisas a lendaria Coimbra encerra!
    Que paysagera lunar que é a mais doce da Terra!
    Que extraordinarias e medievas raparigas!
    E o rio e as fontes? e as fogueiras? e as cantigas?
    As cantigas! Que encanto! Uma diz-te respeito,
    Manoel; é um sonho, é um beijo, é um amor-perfeito
    Onde o luar gelou: «Manoel! tão lindas moças!
    Manoel! tão lindas são…»

    Que pena que não ouças!

    Quero mostrar-te Coimbra. Has-de gostar. Partamos.
    Dá-me o teu braço e vem d'ahi commigo, vamos!

    Olha… São os _Geraes_, no intervallo das aulas.
    Bateu o quarto. Ve! Vem sahindo das jaulas
    Os estudantes, sob o olhar pardo dos lentes:
    Ao vel-os, quem dirá que são os descendentes
    Dos navegantes do seculo XVI?
    Curvam a espinha, como os aulicos aos reis!
    E magros! tristes! de cabeça derreiada!
    Ah! Como hão-de, amanhã, pegarem uma espada!
    –E os doutores?–Ahi, os tens graves, á porta.
    Porque te ris? Olhal-os tanto… Que te importa?
    Ha duas excepções: o mais, são todos um,
    Quaresma d'alma, sexta-feira de jejum…
    Não quero entanto, meu Manoel, que vás embora
    Sem ver aquelle amor que esta alma adora, adora:
    Olha, acolá. Gigante, altivo como um cedro,
    Olhando para mim com ternura: é o meu Pedro
    Penedo!
    Ó Pedro da minh'alma! meu amigo!
    Que feliz sou, bom velho, em estudar comtigo!
    Mal diria eu em pequenito, quando a ama
    Para eu me callar, vinha fazer-me susto á cama
    Por ti chamava: Pedro! e eu socegava logo,
    Que eras tu o _Papão_! A ama, de olhos em fogo,
    Imitava-te o andar, que não era bem de homem…
    Eu tinha birras?–Ahi vem o lobishomem!
    Dizia ella.–Bate á porta! Truz! truz! truz!
    E tu entravas, Pedro, eu via! Horror! Jezus!

    Meu velho Pedro! meu phantasma de criança!
    Quero-te bem, tanto que tenho na lembrança,
    Quando morreres, Pedro! (o Pedro nunca morre)
    Hei-de pegar em ti, encher de alcool a Torre
    Com todo o meu esmero e, zás! metter-te dentro!
    Pedro! assim ficas enfrascado, ao alto e ao centro,
    E eternamente, para espanto de vindoiros:
    No rotulo porei: _Alli-Bed, Rei dos Moiros_.

    Mas… toca a recolher. Dou uma falta: embora!
    Saiamos…
    Manoel, vamos por ahi fóra
    Lavar a alma, furtar beijos, colher flores,
    Por esses lindos, deliciozos arredores,
    Que vistos uma vez, ah! não se esquecem mais:
    Torres, Condeixa, Santo Antonio de Olivaes,
    Lorvão, Sernache, Nazareth, Tentugal, Cellas!
    Sitios sem par! Onde ha paysagens como aquellas?
    Santos Logares, onde jaz meu coração!
    Cada um é para mim uma recordação…

    _Condeixa_?

    Vamos ao arraial que, alli, ha.
    –Sol, poeira, tanta gente!–É o mesmo, vamos lá!

    Olha! Estudantes, dando o braço ás raparigas,
    Caras de leite, olhos de luar, tranças d'estrigas;
    Arrancam-lhes do seio arfando as violetas,
    Aos hombros d'ellas poem suas capas pretas:
    Que deliciosos estudantes que ellas ficam!
    Velhos aldeões que tudo vêm, mas não implicam,
    Porque, em summa, que mal pode fazer um beijo,
    Vem até nós, sorrindo, aproveitando o ensejo,
    Com o chapéu na mão, simples e bons e honrados:
    Vêm consultar-nos, porque «somos advogados
    E sabemos das leis…» O que devem fazer
    Ahi, n'uma questão, n'uma questão qualquer
    D'agoas com um vizinho: é tal a cheia d'ellas
    Que estraga as plantações!–Que hão-de fazer? Bebel-as!
    E vão-se, assim, jurando aviar nossos conselhos…
    Ai de vós! Ai das vossas agoas, pobres velhos!

    _Tentugal_?

    Que manhã! E não quereres vir…
    Pega nas luvas, no chapéu. Vamos partir.
    É logo alli: quinze kilometros, é perto.
    Espera-nos o Toy, extasia-se o Alberto,
    Pela janella d'esse mundo amplo e rasgado!
    Que lindo dia! ó sol, obrigado, obrigado!
    Paysagem outomnal, alegra-te tambem!
    Hoje, não quero ver ninguem triste, ninguem!
    Outomno, vá! melancholia, faze tregoas!
    Peço paz, rendo-me! Haja paz, n'estas trez legoas!
    Choupos, então? Que é isso? erguei a fronte, vamos!
    Ó verdilhões, ide cantar-lhes sobre os ramos!
    Aves por folhas! Animae-os! animae-os!
    Applica-lhes, ó sol! uma ducha de raios!
    Almas tristes e sós (não é mais triste a minha!)
    Aqui estaes, meu Deus! desde a aurora á tardinha.
    O vento leva-vos a folha, a pelle; o vento
    Leva-vos o orvalho, a agoa, o prezigo, o sustento!
    E dobra-vos ao chão, faz-vos tossir, coitados!
    Estaes aqui, estaes promptos, amortalhados…
    Fazeis lembrar-me, assim, postos n'estes logares,
    Uma colonia de phtysicos, a ares!…
    Não vos verei, talvez, quando voltar; comtudo
    Ver-vos-ei, _la_, um dia, onde se encontra tudo:
    A alma dos choupos, como a do homem, sobe aos céus…
    Ó choupos, até lá… Adeus! adeus! adeus!

    Foi-se a paysagem triste: agora, são collinas;
    Ve-se curraes, eiras, crianças pequeninas,
    Bois a pastar ao longe, aves dizendo missa
    Á natureza e o sol a semear Justiça!
    Vão pela estrada aleijadinhos de moletas;
    Atiro-lhes vintens: vêm pegar-lhes as netas.
    Mas o trem voa á desfilada…–Olá! arreda!
    (Ia-o apanhando: foi por um fio de seda…)
    E assim n'este galope, a charrette rodando,
    Já de Tentugal se vae quazi approximando:
    S. João do Campo já nos fica muito atraz…
    Assim, _Malhado_! puxa! Bravo, meu rapaz!
    Que estamos quasi lá! mexe-me essas ancas!
    Emfim!

    Tentugal toda a rir de cazas brancas!

    A linda aldeia! Venho cá todos os mezes
    E contrariado vou de todas essas vezes.
    Venho ao convento vizitar a linda freira,
    Nunca lhe fallo: talvez, hoje, a vez primeira…
    Vou lá comprar um pastellinho, que eu bem sei
    Que elle trará dentro um bilhete, isto sonhei:
    Assim o pastellinho, ó ventura sonhada!
    Tem de recheio o coração da minha amada.
    Abro o enveloppe ideal. Vamos a ver…–Traz?–Não!

    Regresso a Coimbra só com o meu coração.

    Coimbra, 1888-1889-1890.

    *Para As Raparigas de Coimbra*

    1

    Ó choupo magro e velhinho,
    Corcundinha, todo aos nós:
    És tal qual meu avôzinho,
    Falta-te apenas a voz.

    2

    Minha capa vos acoite
    Que é p'ra vos agazalhar:
    Se por fóra é cor da noite,
    Por dentro é cor do luar…

    3

    Ó sinos de _Santa Clara_,
    Por quem dobraes, quem morreu?
    Ah, foi-se a mais linda cara
    Que houve debaixo do céu!

    4

    A sereia é muito arisca,
    Pescador, que estás ao sol:
    Não cae, tolinho, a essa isca…
    Só pondo uma flor no anzol!

    5

    A lua é a hostia branquinha,
    Onde está Nosso Senhor:
    É d'uma certa farinha
    Que não apanha bolor!

    6

    Vou a encher a bilha e trago-a
    Vazia como a levei!
    Mondego, qu'é da tua agoa?
    Qu'é dos prantos que eu chorei?

    7

    A _cabra_ da velha Torre,
    Meu amor, chama por mim:
    Quando um estudante morre,
    Os sinos chamam, assim.

    8

    –E só porque o mundo zomba
    Que poes luto? Importa lá!
    Antes te vistas de pomba…
    –Pombas pretas tambem ha!

    9

    Therezinhas! Ursulinas!
    Tardes de novena, adeus!
    Os corações ás batinas
    Que diriam? sabe-o Deus…

    10

    Teu coração é uma igreja:
    N'uma eça dorme, alli,
    Manoel, bemdito seja,
    Que morreu d'amor por ti.

    11

    Manoel no _Pio_ repoiza:
    Todos os dias, lá vou
    Ver se quer alguma coiza,
    Perguntar como passou.

    12

    Agora, são tudo amores
    A roda de mim, no _Caes_,
    E, mal se apanham doutores,
    Partem e não voltam mais…

    13

    Aos olhos da minha fronte
    Vinde os cantaros encher:
    Não ha, assim, segunda fonte
    Com duas bicas a correr!

    14

    Nossa Senhora faz meia
    Com linha feita de luz:
    O novello é a lua-cheia,
    As meias são p'ra Jezus.

    15

    Meu violão é um cortiço,
    Tem por abelhas os sons
    Que fabricam, valha-me isso,
    Fadinhos de mel, tão bons…

    16

    Ó fogueiras, ó cantigas,
    Saudades! recordações!
    Bailae, bailae, raparigas!
    Batei, batei, corações!

    Coimbra, 1890.

    *Luzitania no Bairro-Latino*

    Só!
    Ai do Luziada, coitado,
    Que não tem mãe, nem tem avó,
    Que não ama, nem é amado…
    Nuzinho Outomno, no mez d'Abril!
    Que triste foi o seu fado!
    Antes fosse p'ra soldado,
    Antes fosse p'ro Brazil…

    Menino e moço, tive uma Torre de leite,
    Torre sem par!
    Oliveiras que davam azeite,
    Searas que davam linho de fiar,
    Moinhos de velas, como latinas,
    Que S. Silvestre fazia andar…
    Formozas cabras, muito pequeninas,
    Loiras vaquinhas de maternas ancas
    Que me davam o leite de manhã,
    Lindo rebanho de ovelhinhas brancas;
    Meus bibes eram da sua lã…

    Antonio era o pastor d'esse rebanho:
    Com ellas ia para os montes, a pastar.
    E tinha pouco mais ou menos seu tamanho,
    E o pasto d'ellas era o meu jantar…
    E a serra a toalha, o covilhete e a sala.
    Passava a noite, passava o dia
    Com essas boas irmãzinhas
    A quem só mingoava a falla
    Para serem perfeitas criaturinhas…
    E quando na Igreja das _Alvas Saudades_
    Que era da minha Torre a freguezia,
    Batiam as _Trindades_,
    Com os seus olhos christianissimos olhavam-me,
    Eu persignava-me, rezava _Ave-Maria_…
    E as doces ovelhinhas imitavam-me.

    Menino e moço, tive uma Torre de leite,
    Torre sem par!
    Oliveiras que davam azeite…
    Um dia, os castellos cairam do Ar!

    As oliveiras seccaram,
    Morreram as vaccas, perdi as ovelhas,
    Sairam-me os ladrões, só me deixaram
    As velas do moinho… mas rôtas e velhas!

    Que triste fado!
    Antes fosse aleijadinho,
    Antes doido, antes cego…

    Ai do Luziada, coitado!

    Veio da terra, mail-o seu moinho:
    Lá, faziam-no andar as agoas do Mondego,
    Hoje, fazem-no andar agoas do Sena…
    É negra a sua farinha!
    Orae por elle! tende pena!
    Pobre Moleiro da Saudade…
    Ó minha
    Terra encantada, cheia de sol,
    Ó campanarios, ó luas cheias,
    Lavadeira que lavas o lençol,
    Ermidas, sinos das aldeias,
    Ó ceifeira que cegas cantando,
    Ó moleiro das estradas,
    Carros de bois, chiando…
    Flores dos campos, beiços de fadas,
    Poentes de Julho, poentes mineraes,
    Ó choupos, ó luar, ó regas de verão!

    Que é feito de vocês? Onde estaes, onde estaes?

    Ó padeirinhas a amassar o pão,
    Velhinhas na roca a fiar,
    Cabello todo em caracoes!
    Pescadores a pescar
    Com a linha cheia de anzoes!
    Zumbidos das vespas, ferrões das abelhas,
    Ó bandeiras! ó sol! foguetes! ó toirada!
    Ó boi negro entre as capas vermelhas!
    Ó pregões d'agoa fresca e limonada!
    Ó romaria do _Senhor do Viandante_!
    Procissões com muzica e anjinhos!
    Srs. Abbades d'Amarante,
    Com trez ninhadas de sobrinhos!

    Onde estaes? onde estaes?

    Ó minha capa de estudante, ás ventanias!
    Cidade triste agazalhada entre choupaes!
    Ó dobres dos poentes, ás _Ave-Marias_!
    Ó _Cabo do Mundo_! _Moreira da Maia_!
    Estrada de S. Thiago! Sete-Estrello!
    Cazas dos pobres que o luar, á noite, caia…
    Fortalezas de Lipp! ó fosso do _Castello_,
    Amortalhado em perrexil e trepadeiras,
    Onde se enroscam como espozos as lagartas!
    Sr. Governador a podar as rozeiras!
    Ó Bruxa do Padre, que botas as cartas!
    Joaquim da Thereza! Francisco da Hora!

    Que é feito de vós?
    Fallaveis aos barcos que andavam, _la fora_,
    Pelo porta-voz…
    Arrabalde, maritimo da França,
    Conta-me a historia da _Princeza Magalona_,
    E do _Senhor de Calais_,
    Mais o naufragio do vapor _Perseverança_,
    Cujos cadaveres ainda vejo á tona…
    Ó pharolim da _Barra_, lindo, de bandeiras,
    Para os vapores a fazer signaes!
    Verdes, vermelhas, azues, brancas, extrangeiras,
    Diccionario magnifico de cores!
    Alvas espumas, espumando a fragua,
    Ou rebentando, á noite, como flores!
    Ondas do mar! Serras da Estrella d'agoa,
    Cheias de brigues como pinhaes…
    Morenos mareantes, trigueiros pastores!

    Onde estaes, onde estaes?

    Convento d'agoas do mar, ó verde convento,
    Cuja Abbadessa secular é a Lua
    E cujo Padre-capellão é o Vento…
    Agoa salgada d'esses verdes poços,
    Que nenhum balde, por maior, escua!
    Ó mar jazigo de paquetes, de ossos,
    Que o Sul, ás vezes, arrola á praia:
    Olhos em pedra, que ainda chispam brilhos!

    Corpo de virgem, que ainda veste a saia…
    Braços de mães, ainda a apertar braços de filhos!
    Noiva cadaver ainda com véu…
    Ossadas ainda com os mesmos fatos!
    Cabeça roxa ainda de chapéu!
    Pés de defunto que ainda traz sapatos!
    Boquinha linda que já não canta…
    Boccas abertas que ainda soltam ais!
    Noivos em nupcias, ainda, aos beijos, abraçados!
    Corpo intacto, a boiar (talvez alguma santa…)
    Ó defuntos do mar! ó roxos arrolados!

    Onde estaes, onde estaes?

    Ó _Boa Nova_, ermida á beira-mar,
    Unica flor, n'essa viv'alma de areaes!
    Na cal, meu nome ainda lá deve estar,
    Á chuva, ao vento, aos vagalhões, aos raios!
    Ó altar da _Senhora_, coberto de luzes!
    Ó poentes da _Barra_, que fazem desmaios…
    Ó _Sant'Anna_, ao luar, cheia de cruzes!
    Ó logar de _Roldao_! villa de _Perafita_!
    Aldeia de _Gonsalves_! Mesticoza!
    Engenheiros, medindo a estrada com a fita…
    Agoa fresquinha d'_Amoroza_!
    Rebolos pela areia! Ó praia da _Memoria_!
    Onde o Sr. D. Pedro, _Rei-soldado_,
    Atracou, diz a Historia,
    No dia… não estou lembrado;

    Ó capellinha do _Senhor d'Areia_,
    Onde o Senhor appareceu a uma velhinha…
    Algas! farrapos do vestido da sereia!
    Lanchas da Povoa que ides á sardinha,
    Poveiros, que ides para as _vinte braças_,
    Sol-por, entre pinhaes…
    Capellas onde o sol faz mortes, nas vidraças!

    Onde estaes?

    2

    Georges! anda ver meu paiz de marinheiros,
    Traze o teu livro, toma as tuas notas:

    Oh as lanchas dos poveiros
    A sairem a barra, entre ondas e gaivotas!
    Que extranho é!
    Fincam o remo n'agoa, até que o remo torça,
    Á espera da maré,
    Que não tarda hi, avista-se lá fóra!
    E quando a onda vem, fincando-o a toda a força,
    Clamam todos á uma. «_Agôra_! _agôra_! _agôra_!»
    E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo
    (Ás vezes, sabe Deus, para não mais entrar…)
    Que vista admiravel! Que lindo! que lindo!
    Içam a vela, quando já têm mar,
    Dá-lhes o vento e todas, á porfia,
    Lá vão soberbas, sob um céu sem manchas,
    Rozario de velas, que o vento desfia,
    A rezar, a rezar a _Ladainha das Lanchas_:

    _S^{nra} Nagonia_!

    Olha, acolá!
    Que linda vae com seu erro de ortographia…
    Quem me dera ir lá!

    _Senhora Da guarda_!

    (Ao leme vàe o Mestre Zé da Leonor)
    Parece uma gaivota: aponta-lhe a espingarda
    O caçador!

    _Senhora d'ajuda_!
    _Ora pro nobis_!
    _Calluda_!
    _Sêmos probes_!
    _S^{enr} dos ramos_!
    _Istrella do mar_!
    _Ca bamos_!

    Parecem Nossa Senhora, a andar.

    _S^{ra} da luz_!

    Parece o pharol…

    _Maim de Jesus_!

    É tal qual ella, se lhe dá o sol!

    _S^r dos Passos_!
    _Sinhora da Ora_!

    Aguias a voar, pelo mar dentro dos espàços!
    Parecem ermidas caiadas por fóra…

    _S^{nr} dos Navegantes_!
    _Senhor de Matuzinhos_!

    Os mestres ainda são os mesmos d'antes:
    Lá vae o Bernardo da Silva do Mar,
    A mail-os quatro filhinhos,
    Vascos da Gama, que andam a ensaiar…

    _Senhora aos aflitos_!
    _Martyr Sao Sebastiao_!
    _Ouvi os nossos gritos_!
    _Deus nos leve pla mao_!
    _Bamos em paz_!

    Ó lanchas, Deus vos leve pela mão!
    Ide em paz!

    Ainda lá vejo o Zé da Clara, os Remelgados,
    O Jéques, o Pardal, na _Nam te perdes_,
    E das vagas, aos rythmos cadenciados,
    As lanchas vão traçando, á flor das agoas verdes:
    «As armas e os barões assignalados…»

    Lá sae a derradeira!
    Ainda agarra as que vão na dianteira…
    Como ella corre! com que força o vento a impelle:

    _Bamos com Deus_!

    Lanchas, ide com Deus! ide e voltae com elle
    Por esse mar de Christo…

    Adeus! adeus! adeus!

    3

    Georges! anda ver meu pàiz de romarias
    E procissões!

    Olha essas moças, olha estas Marias!
    Caramba! dá-lhes beliscões!
    Os corpos d'ellas, ve! são ourivezarias,
    Gula e luxuria dos Maneis!
    Têm nas orelhas grossas arrecadas,
    Nas mãos (com luvas) _trinta moedas_, em anneis,
    Ao pescoço serpentes de cordões,
    E sobre os seios entre cruzes, como espadas,
    Além dos seus, mais trinta _coraçoes_!
    Vá! Georges, faze-te Manel! viola ao peito,
    Toca a bailar!
    Dá-lhes beijos, aperta-as contra o peito,
    Que hão de gostar!

    Tira o chapéu, silencio!

    Passa a procissão.

    Estralejam foguetes e morteiros.
    Lá vem o Pallio e pegam ao cordão
    Honestos e morenos cavalheiros.
    Altos, tão altos e enfeitados, os andores,
    Parecem _Torres de David_, na amplidão!
    Que linda e aceiada vem a Senhora das Dores!
    Olha o mordomo, á frente, o Sr. Conde.
    Contempla! Que tristes os Nossos Senhores,
    Olhos leaes fitos no vago… não sei onde!

    Os anjinhos!
    Vêm a suar:
    Infantes de trez annos, coitadinhos!
    Mãos inviziveis levam-nos de rastros,
    Que elles mal sabem andar…

    Esta que passa é a _Noite_ cheia de astros!
    (Assim estava, em _certo dia_, na Judeia)
    Aquelle é o _Sol_! (Que bom o sol de olhos pintados!)
    E aquella outra é a _Lua-Cheia_!
    Seus doces olhos fazem luar…
    Essa, acolá, leva na mão os _Dados_,
    Mas perde tudo se vae jogar.
    E esta que passa, toda de arminhos,
    (Ve! d'entre o povo em extazi, olha-a a Mãe)…
    Leva, sorrindo a _Coroa dos Espinhos_,
    Flor de criança que os não tem.
    E que bonita vae a _Esponja de Fel_!
    Mal ella sabe, a innocentinha…
    Nas suas mãos a _Esponja_ deita mel:
    Abelhas d'oiro tomam-lhe a dianteira!
    Lá vem a _Lança_! A bainha
    Traz ainda o sangue da _Sexta-feira_…
    Jezus!
    Que maravilha de criança!
    O Leão morrera ainda outra vez, na cruz,
    Entre ladrões, a suar, lá no Calvario,
    Se fosse este anjo espicaçal-o com a lança…

    Passa o ultimo, o _Sudario_!
    O corpo de Jezus, Nosso Senhor…

    Parece o sol-por!
    E a procissão passa. Maré-cheia de povo!
    É o Oceano Atlantico!
    O bom povinho de fato novo,
    Nas violas de arame soluça, romantico,

    Fadinhos chorozos da su'alma beata.

    Trazem imagens da Funcção nos seus chapéus.

    Poeira opaca. Abafa-se. E, no céu ferro-e-oiro,
    O sol em gloria brilha olympico, e de prata,
    Como a velha cabeça aureolada de Deus!

    Trombetas clamam. Vae correr-se o toiro.
    Passam as chocas, boas mães! passam capinhas.

    Pregões. _Laranjas_! _Ricas cavaquinhas_!
    _Pão de ló de Margaride_!
    _Agoinha fresca da Moirama_!
    _Vinho verde a escorrer da vide_!

    Á porta d'um cazal, um tysico na cama,
    Olha tudo isto com seus olhos de Outro-mundo.
    E uma netinha com um ramo de loireiro
    Enxota as moscas, do moribundo…

    Dança de roda mail-as moças o coveiro.

    Clama um ceguinho:
    «Não ha maior desgraça n'esta vida,
    Que ser ceguinho!»
    Outro, moreno, mostra uma perna partida!
    Mas fede tanto, coitadinho…
    Este, sem braços, diz «que os deixou na pedreira…»
    E esse, acolá, todo o corpinho n'uma chaga,
    Labareda de cancros em fogueira,
    Que o sol atiça e que a gangrena apaga,
    Ó Georges, ve! que excepcional cravina…

    Que lindos cravos para por na botoeira!

    Tysicos! Doidos! Nus! Velhos a ler a sina!
    Etnas de carne! Jobs! Flores! Lazaros! Christos!
    Martyres! Cães! Dhalias de puz! Olhos fechados!
    Rheumaticos! Anões! Deliriuns-tremens! Kistos!
    Monstros, phenomenos, afflictos, aleijados,
    Talvez lá dentro com perfeitos corações:
    Todos, á uma, mugem roucas ladainhas,
    Tragicos, uivam «uma esmola p’las alminhas
    Das suas obrigações!»
    Pelo nariz corre-lhes puz, gangrena, ranho!
    E, coitadinhos! fedem tanto: é de arrazar…

    Qu'é dos pintores do meu paiz extranho?
    Onde estão elles que não vêm pintar!

    Pariz, 1890-1891.

    *Os Figos Pretos*

    –Verdes figueiras soluçantes nos caminhos!
    Vós sois odiadas desde os seculos avós:
    Em vossos galhos nunca as aves fazem ninhos,
    Os noivos fogem de se amar ao pé de vós!

    –Ó verdes figueiras! ó verdes figueiras
    Deixae-o fallar!
    Á vossa sombrinha, nas tardes fagueiras,
    Que bom que é amar!

    –O mundo odeia-vos. Ninguem nos quer, vos ama:
    Os paes transmittem pelo sangue esse odio aos moços.
    No sitio onde medraes, ha quazi sempre lama
    E debruçaes-vos sobre abysmos, sobre poços.

    –Quando eu for defunta para os esqueletos,
    Ponde uma ao meu lado:
    Tristinha, chorando, darà figos pretos…
    De luto pezado!

    –Os aldeões para evitar vosso perfume
    Sua respiração suspendem, ao passar…
    Com vossa lenha não se accende, á noite, o lume,
    Os carpinteiros não vos querem aplainar.

    –Oh cheiro de figos, melhor que o do incenso
    Que incensa o Senhor!
    Podesse eu, quem dera! deital-o no lenço
    Para o meu amor…

    –As outras arvores não são vossas amigas…
    Mãos espalmadas, estendidas, supplicantes,
    Com essas folhas, sois como velhas mendigas
    N'uma estrada, pedindo esmola aos caminhantes!

    –Mendigas de estrada! mendigas de estrada!
    E cheias de figos!
    Os ricos là passam e não vos dao nada,
    Vos daes aos mendigos…

    –Ai de ti! ai de ti! ó figueiral gemente!
    O goivo é mais feliz, todo amarello, lá.
    Ninguem te quer: tua madeira é unicamente
    Utilizada para as forcas, onde as ha…

    –Que màs creaturas! que injustas sois todas
    Que injustas que sois!
    Serà de figueira meu leito da bodas…
    E os berços, depois

    –Tragicas, nuas, esqueleticas, sem pelle,
    Por traz de vós, a lua é bem uma caveira!…
    Ó figos pretos, sois as lagrymas d'aquelle
    Que, em certo dia, se enforcou n'uma figueira!

    –Tambem era negro, de negro cegava
    O pranto, o rosario,
    Que, em certa tardinha, desfiava, desfiava,
    Alguem, no Calvario…

    –E, assim, ao ver no outomno uma figueira nua,
    Se os figos caem de maduros, pelo chão:
    Cuido que é a ossada do Traidor, á luz da lua,
    A chorar, a chorar sua alta traição!

    –Ó minhas figueiras! ó minhas figueiras
    Deixae-o fallar!
    Oh! vinde de hi ver-nos, a arder nas fogueiras
    Cantar e bailar…

    Coimbra, 1889.

    *Febre Vermelha*

    Rozas de vinho! Abri o calice avinhado!
    Para que em vosso seio o labio meu se atole:
    Beber até cair, bebedo, para o lado!
    Quero beber, beber até o ultimo gole!

    Rozas de sangue! Abri o vosso peito, abri-o!
    Montanhas alagae! deixae-as trasbordar!
    As ondas como o oceano, ou antes como um rio
    Levando na corrente Ophelias de luar…

    Camelias! Entreabri os labios de Eleonora!
    Desabrochae, á lua, a ancia dos vossos calis!
    Dá-me o teu genio, dá! ó tulipa de aurora!
    E dá-me o teu veneno, ó rubra digitalis…

    Papoilas! Descerrae essas boccas vermelhas!
    Apagae-me esta sede estonteadora e cruel:
    Ó favos rubros! os meus labios são abelhas,
    E eu ando a construir meu cortiço de mel…

    Rainunculos! Corae minhas faces-de-terra!
    Que seja sangue o leite e rubins as opalas!
    Tal se vêm pelo campo, em seguida a uma guerra,
    Tintos da mesma cor os corações e as balas!…

    Chagas de Christo! Abri as petalas chagadas!
    N'uma raiva de cor, n'uma erupção de luz!
    Escancarae a bocca, ás vermelhas rizadas,
    Cancros de Lazaro! Feridas de Jezus…

    Flores em braza! Orgaos da cor! Tirava
    Operas d'oiro, podesse eu, das vossas teclas.
    Volcões de Maio! ungi minha pelle de lava!
    Dae-me energia, audacia, ó pequeninos Heclas!

    Dae-me do vosso sangue, ó flores! entornae-o
    Nas veias do meu corpo estragado e sem cor:
    Que vida negra! Foi escripto, á luz do raio,
    O triste fado que me deu Nosso Senhor…

    Scismo já farto de velar minha alma doente,
    Não dura um mez siquer, minhas amigas, vede!
    Mas, mal vos vejo, então, pulo alegre e contente
    A uivar, como os leões quando os ataca a sede!

    Corto o estrellado céu, voo atravez do espaço,
    Cruzo o infinito e vou rolar aos pés de Deus,
    Como se accaso fosse, em catapultas de aço,
    Por um Titan de bronze atirado a esses céus!

    Amo o vermelho. Amo-te, ó hostia do sol-posto!
    Fascina-me o escarlate. Os meus tedios estanca:
    E apezar d'isso, ó cruel hysteria do Gosto,
    Certa flor da minh'alma é branca, branca, branca…

    Leça, 1886.

    *Poentes de França*

    –Ó sol! ó sol! ó sol! poente de vinho velho!
    Enche meu copo de S. Graal (deu-m'o a ballada…)
    Ó sol de Normandia! Occidente vermelho,
    Tal o circo andaluz depois d'uma toirada!

    –Vos sois extrangeiros, vos sois extrangeiros,
    Ó poentes de França! não vos amo, não!

    –Ó sol, cautella! já a noite se avizinha
    O Padre-Oceano vae, em breve, commungar:
    Ó hostia vesperal de vermelha farinha,
    Que o bom Moleiro móe, no seu moinho do Ar!

    Ó sol, às _Trindades_, atraz dos pinheiros,
    Á hora em que passam branquinhos moleiros,
    Levando farinha p'ra cozer o pão!

    –Ó forca do sol-por! ó Inferno de Dante!
    Açougue d'astros! ó sabbat de feiticeiras!
    Ó sol ensanguentado! ó cabeça fallante,
    Que o funambulo Poente anda a mostrar nas feiras!

    –Que paz pelo mundo, n'essa hora ditoza!
    Ó poentes de França! não vos amo, não!

    –_Arco da Velha_, a rir rizos de sete cores!
    Ó lua na ascenção! ó sol! ó sol! ó sol!
    Cabeça de Iskariote, entre aguias e condores!
    Ó cabeça de Christo, impressa no lençol!

    Que paz pelo mundo, n'essa hora saudoza
    Quando fecha a lojinha a Sra. Roza,
    Quando vem das sachas o Sr. Joao…

    –Ó sol! ó sol! Titan d'este bloco da Terra!
    Ó sol em sangue que ainda pula e arde e scintilla:
    Ó bala de canhão, tu vens d'alguma guerra:
    Varaste os corações d'um exercito em fila!

    –Ó hora em que as agoas rebentam das minas…
    Ó poentes de França! não vos amo, não!

    –Ó poente verde-mar! ó por-de-sol de azeite!
    Ó longes de trovoada! ó céu dos ventos sues!
    Vacca do Ar, a mugir crepusculos de leite
    E roxos e cardeaes e amarellos e azues!

    –Ó hora em que passam moças e meninas
    Que, em tardes de Maio, vão às _Ursulinas_,
    Com rozas nos seios e um livro na mão…

    –Ó sol! ó sol! Tragico, afflicto, doido, venho
    A tua saude erguer a minha taça ardente!
    Meus grandes olhos são dois bebedos, e tenho
    Dlirium-tremens já, Sir Falstaff do Poente!

    –Eu amo os poentes, mas sem agonias,
    Ó poentes de França! não vos amo, não!

    –Adeus, ó sol! chegou a Noite na fragata,
    A tua porta os marinheiros vão bater:
    Lá vejo os astros por seus calices de prata,
    Na _Taverna do Occaso_, a beber, a beber…

    Ó céus phtysicos, cuspindo em bacias!
    Ó céus como escarros, às _Ave-Marias_!
    Ó poentes de França! não vos amo, não!

    Pariz, 1891.

    *Pobre Tysica*!

    Quando ella passa á minha porta,
    Magra, livida, quazi morta,
    E vae até á beira-mar,
    Labios brancos, olhos pizados:
    Meu coração dobra a finados,
    Meu coração poe-se a chorar…

    Perpassa leve como a folha,
    E suspirando, ás vezes, olha
    Para as gaivotas, para o Ar:
    E, assim, as suas pupillas negras
    Parecem duas toutinegras,
    Tentando as azas para voar!

    Veste um habito cor de leite,
    Saiinha liza, sem enfeite,
    Boina maruja, toda luar:
    Por isso, mal na praia alveja,
    As mais suspiram com inveja:
    «Noiva feliz, que vaes cazar…»

    Triste, acompanha-a um _Terra-Nova_
    Que, dentro em pouco, á fria cova
    A irá de vez acompanhar…
    O chão desnuda com cautella,
    Que _Boy_ conhece o estado d'ella:
    Quando ella tosse, poe-se a uivar!

    E, assim, sósinha com a aia,
    Ao sol, se assenta sobre a praia,
    Entre os bébés, que é o seu logar…
    E o Oceano, tremulo avôzinho,
    Cofiando as barbas cor de linho,
    Vem ter com ella a conversar…

    Fallam de sonhos, de anjos, e elle
    Falla d'amor, falla d'aquelle
    Que tanto e tanto a faz penar…
    E o coração parte-se todo,
    Quando a sorrir, com tão bom modo,
    O Mar lhe diz: «Ha-de sarar…»

    Sarar? Mizerrima esperança!
    Padres! ungi essa criança,
    Podeis sua alma encommendar:
    Corpinho d'anjo, casto e inerme,
    Vae ser amada pelo Verme:
    O bichos vão-na desfructar…

    Sarar? Da cor dos alvos linhos,
    Parecem fuzos seus dedinhos,
    Seu corpo é roca de fiar…
    E, ao ouvir-lhe a tosse secca e fina,
    Eu julgo ouvir n'uma officina
    Taboas do seu caixão pregar!

    Sarar? Magrita como o junco,
    O seu nariz (que é grego e adunco)
    Começa aos poucos de afilar,
    Seus olhos lançam igneas chammas…
    Ó pobre mãe, que tanto a amas,
    Cautella! O outomno está a chegar…

    Leça, 1889.

    *A Poezia do Outomno*

    Noitinha. O sol, qual brigue em chammas, morre
    Nos longes d'agoa… Ó tardes de novena!
    Tardes de sonho em que a poezia escorre
    E os bardos, a sonhar, molham a penna!

    Ao longe, os rios de agoas prateadas
    Por entre os verdes cannaviaes, esguios,
    São como estradas liquidas, e as estradas
    Ao luar, parecem verdadeiros rios!

    Os choupos nus, tremendo, arripiadinhos,
    O chale pedem a quem vae passando…
    E nos seus leitos nupciaes, os ninhos,
    As lavandiscas noivam piando, piando!

    O orvalho cae do céu, como um unguento.
    Abrem as boccas, aparando-o, os goivos…
    E a larangeira, aos repellões do vento,
    Deixa cair por terra a flor dos noivos.

    E o orvalho cae… E, á falta d'agoa, rega
    O val sem fruto, a terra arida e nua!
    E o Padre-Oceano, lá de longe, prega
    O seu Sermão de Lagrymas, á Lua!

    Tardes de outomno! ó tardes de novena!
    Outubro! Mez de Maio, na lareira!
    Tardes…
    Lá vem a Lua, _gratiae plena_,
    Do convento dos céus, a eterna freira!

    Porto, 1886.

    S.^{ta} Iria

    N'um rio virginal d'agoas claras e mansas,
    Pequenino baixel, a santa vae boiando…
    Pouco e pouco, dilue-se o oiro das suas tranças
    E, diluido, ve-se as agoas aloirando.

    Circumda-a um resplendor, a luzir esperanças,
    Unge-lhe a fronte o luar, avelludado e brando,
    E, com a graça etherea e meiga das crianças,
    Formosa Iria vae boiando, vae boiando…

    Á lua, cantam as aldeãs de _Riba-Joia_,
    E, ao verem-na passar, phantastica barquinha,
    Exclamam todas: «Olha um marmore que aboia!»

    Ella entra, emfim, no Oceano… E escuta-se, ao luar,
    A mãe do pescador, rezando a ladainha
    Pelos que andam, Senhor! sobre as agoas do mar…

    Leça, 1885.

    *Enterro de Ophelia*

    Morreu, Vae a dormir, vae a sonhar… Deixal-a!
    (Fallae baixinho: agora mesmo se ficou…)
    Como padres orando, os choupos formam ala,
    Nas margens do ribeiro onde ella se afogou…

    Toda de branco vae, n'esse habito de opala,
    Para um convento: não o que o Hamlet lhe indicou,
    Mas para um outro, horror! que tem por nome _Valla_,
    D'onde jamais saiu quem, lá, uma vez entrou!…

    O lindo Por-do-Sol, que era doido por ella,
    Que a perseguia sempre, em palacio e na rua,
    Vede-o, coitado! mal pode suster a vela…

    Como damas de honor, nymphas seguem-lhe os rastros,
    E, assomando no céu, sua Madrinha, a Lua,
    Por ella vae desfiando as suas contas, Astros!

    Leça, 1888.

    *Ballada do Caixão*

    O meu vizinho é carpinteiro,
    Algibebe de Dona Morte:
    Ponteia e coze, o dia inteiro,
    Fatos de pau de toda a sorte:
    Mogno, debruados de velludo
    Flandres gentil, pinho do Norte…
    Ora eu que trago um sobretudo
    Que já me vae a aborrecer,
    Fui-me lá, hontem: (era Entrudo,
    Havia immenso que fazer!…)
    –Olá, bom homem! quero um fato,
    Tem que me sirva?–Vamos ver…
    Olhou, mexeu na caza toda…
    –Eis aqui um e bem barato.

    –Está na moda?–Está na moda.
    (Gostei e nem quiz apreçal-o:
    Muito justinho, pouca roda…)
    –Quando posso mandar buscal-o?
    –Ao por-do-sol. Vou dal-o a ferro:
    (Poz-se o bom homem a aplainal-o…)

    Ó meus amigos! salvo-erro,
    Juro-o pela alma, pelo céu!
    Nenhum de vós, ao meu enterro,
    Irá mais dandy, olhae! do que eu!

    Pariz, 1891.

    *Á Toa*

    O Primeiro Homem

    Que lindo mundo! E eu só! Que tortura tamanha!
    Ninguem! Meu pae é o céu. Minha mãe é a montanha.

    A Montanha

    Os meus cabellos são os pinheiraes sombrios
    E veias do meu corpo os azulados rios.

    Os Rios

    Nós somos o suor que o Estio asperge e sua,
    Nós somos, em Janeiro, a agoa-benta da Lua!

    A Lua

    Eu sou a bala, no Ar detida, d'essa guerra
    Que teve contra Deus, em seu principio, a Terra…

    A Terra

    E eu uma das maçãs, entre outras a primeira,
    Que certo Virgem viu cair d'uma macieira!

    A Macieira

    Tantas ainda por cair! Vinde colhel-as!
    Abanae a macieira e cairão estrellas!

    A Estrellas

    No mar, á noite, reflectimo-nos, a olhar,
    E formamos, assim, as _Estrellas-do-mar_…

    O Mar

    Sou padre. São d'agoa meus Santos-Evangelhos:
    Accendei meu altar, relampagos vermelhos!

    Os Relampagos

    Nós somos (o contrario, embora, seja escripto)
    Os fogos-tátuos d'esta cova do Infinito…

    O Infinito

    Sou o mar sem borrasca, onde emfim se descança.
    Aqui, vem desagoar o rio da Esperança…

    A Esperança

    Morri, irmãos! mas lá ficaram minhas vestes,
    No vosso mundo: dei-as dadas aos cyprestes.

    Os Cyprestes

    Para apontar os céus, como dedos funereos,
    Plantaram-nos no pó dos mudos cemiterios…

    Os Cemiterios

    Porão, beliches, tudo cheio!… Os céus absortos!
    Não cabe em Josaphat esta leva de mortos!

    Os Mortos

    Seculos tombam uns sobre outros, como blocos,
    E nós dormindo sempre, eternos dorminhocos!

    Porto, 1885.

    *A Vida*

    Ó grandes olhos outomnaes! mysticas luzes!
    Mais tristes do que o amor, solemnes como as cruzes!
    Ó olhos pretos! olhos pretos! olhos cor
    Da capa d'Hamlet, das gangrenas do Senhor!
    Ó olhos negros como noites, como poços!
    Ó fontes de luar, n'um corpo todo ossos!
    Ó puros como o céu! ó tristes como levas
    De degredados!

    Ó Quarta-feira de Trevas!

    Vossa luz é maior, que a de trez luas-cheias:
    Sois vós que allumiaes os prezos, nas cadeias,
    Ó velas do perdão! candeias da desgraça!
    Ó grandes olhos outomnaes, cheios de Graça!
    Olhos accezos como altares de novena!
    Olhos de genio, aonde o Bardo molha a penna!
    Ó carvões que accendeis o lume das velhinhas,
    Lume dos que no mar andam botando as linhas…
    Ó pharolim da barra a guiar os navegantes!
    Ó pyrilampos a allumiar os caminhantes,
    Mais os que vão na diligencia pela serra!
    Ó Extrema-Uncção final dos que se vão da Terra!
    Ó janellas de treva, abertas no teu rosto!
    Thuribulos de luar! Luas-cheias d'Agosto!
    Luas d'Estio! Luas negras de velludo!
    Ó luas negras, cujo luar é tudo, tudo
    Quanto ha de branco: véus de noivas, cal
    Da ermida, velas do hiate, sol de Portugal,
    Linho de fiar, leite de nossas mães, mãos juntas
    Que têm erguidas entre cyrios, as defuntas!
    Consoladores dos Afílictos! Ó olhos, Portas
    Do Céu! Ó olhos sem bulir como agoas-mortas!
    Olhos ophelicos! Dois soes, que dão sombrinha…
    Que são em preto os _Olhos Verdes_ de Joanninha…
    Olhos tranquillos e serenos como pias!
    Olhos Christãos a orar, a orar _Ave Marias
    Cheias de Luz_! Olhos sem par e sem irmãos,
    Aos quaes estendo, toda a hora, as frias mâos!
    Estrellas do pastor! Olhos silenciozos,
    E milagrozos, e misericordiozos,
    Com os teus olhos nunca ha noites sem luar,
    Mesmo no inverno, com chuva e a relampejar!
    Olhos negros! vós sois duas noites fechadas,
    Ó olhos negros! como o céu das trovoadas…

    Mas dize, meu amor! ó Dona de olhos taes!
    De que te serve ter uns astros sem eguaes?
    Olha em redor, poiza os teus olhos! O que ves?
    O mar a uivar! A espuma verde das marés!
    Escarros! A traição, o odio, a agonia, a inveja!
    Toda uma cathedral de lutas, uma igreja
    A arder entre clarões de coleras! O orgulho
    Insupportavel tal o meu, e o sol de Julho!
    Jezus! Jezus! quantos doentinhos sem botica!
    Quantos lares sem lume e quanta gente rica!
    Quantos reis em palacio e quanta alma sem ferias!
    Quantas torturas! Quantas Londres de mizerias!
    Quanta injustiça! quanta dor! quantas desgraças!
    Quantos suores sem proveito! quantas taças
    A trasbordar veneno em espumantes boccas!
    Quantos martyrios, ai! quantas cabeças loucas,
    N'este macomio do Planeta! E as orfandades!
    E os vapores no mar, doidos, ás tempestades!
    E os defuntos, meu Deus! que o vento traz á praia!
    E aquella que não sae por ter uzada a saia!
    E os que sossobram entre a vaidade e o dever!
    E os que têm, amanhã, uma lettra a vencer!
    Olha essa procissão que passa: um torturado
    De Infinito! Um rapaz que ama sem ser amado,
    E para ser feliz fez todos os esforços…
    Olha as insomnias d'uma noite de remorsos,
    Como dez annos de prizão maior-cellular!
    Olha esse tysico a tossir, á beira-mar…
    Olha o bébé que teve Torre de coral
    De lindas illuzões, mas que uma aguia, afinal,
    Devorou, pois, ao vel-a ao longe, avermelhada,
    Cuidou, ingenua! que era carne ensanguentada!
    Quantos são, hoje? Horror! A lembrança das datas…
    Olha essas rugas que têm certos diplomatas!
    Olha esse olhar que têm os homens da politica!
    Olha um artista a ler, soluçando, uma critica…
    Olha esse que não tem talento e o julga ter
    E aquelle outro que o tem… mas não sabe escrever!
    Olha, acolá, a Estupidez! Olha a Vaidade!
    Olha os Afflictos! A Mentira na Verdade!
    Olha um filho a espancar o pae que tem cem annos!
    Olha um moço a chorar seus crueis desenganos!
    Olha o nome de Deus, cuspido n'um jornal!
    Olha aquelle que habita uma Torre de sal,
    Muros e andaimes feitos, não de ondas coalhadas,
    Mas de outras que chorou, de lagrymas salgadas!
    Olha um velhinho a carregar com a farinha
    E o filho no arraial, jogando a vermelhinha!
    Olha a sair a barra a galera _Gentil_
    E a Anna a chorar p'lo João que parte p'ro Brazil!
    Olha, acolá, no caes uma outra como chora:
    É o marido, um ladrão, que vae «p'la barra fóra!»
    Olha esta noiva amortalhada, n'um caixão…

    Jezus! Jezus! Jezus! o que hi vae de afflicção!

    Ó meu amor! é para ver tantos abrolhos,
    Ó flor sem elles! que tu tens tão lindos olhos!
    Ah! foi para isto que te deu leite a tua ama,
    Foi para ver, coitada! essa bola de lama
    Que pelo espaço vae, leve como a andorinha,
    A Terra!

    Ó meu amor! antes fosses ceguinha…

    Pariz, 1891.

    *O Somno de João*

    O João dorme… (Ó Maria,
    Dize áquella cotovia
    Que falle mais devagar:
    Não vá o João, acordar…)

    Tem só um palmo de altura
    E nem meio de largura:
    Para o amigo orangotango
    O João seria… um morango!
    Podia engulil-o um leão
    Quando nasce! As pombas são
    Um poucochinho maiores…
    Mas os astros são menores!

    O João dorme… Que regalo!
    Deixal-o dormir, deixal-o!
    Callae-vos, agoas do moinho!
    Ó mar! falla mais baixinho…
    E tu, Mãe! e tu, Maria!
    Pede áquella cotovia
    Que falle mais devagar:
    Não vá o João, acordar…

    O João dorme… Innocente!
    Dorme, dorme eternamente,
    Teu calmo somno profundo!
    Não acordes para o mundo,
    Póde affogar-te a maré:
    Tu mal sabes o que isto é…

    Ó Mae! canta-lhe a canção,
    Os versos do teu irmão:
    «Na Vida que a Dor povoa,
    Ha só uma coisa boa,
    Que é dormir, dormir, dormir…
    Tudo vae sem se sentir.»

    Deixa-o dormir, até ser
    Um velhinho… até morrer!

    E tu vel-o-ás crescendo
    A teu lado (estou-o vendo
    João! Que rapaz tão lindo!)
    Mas sempre, sempre dormindo…

    Depois, um dia virá
    Que (dormindo) passará
    Do berço, onde agora dorme,
    Para outro, grande, enorme:
    E as pombas que eram maiores
    Que João… ficarão menores!

    Mas para isso, ó Maria!
    Dize áquella cotovia
    Que falle mais devagar:
    Não vá o João, acordar…

    E os annos irão passando.

    Depois, já velhinho, quando
    (Serás velhinha tambem)
    Perder a cor que, hoje, tem,
    Perder as cores vermelhas
    E for cheiinho de engelhas:
    Morrerá sem o sentir,
    Isto é deixa de dormir…
    Acorda e regressa ao seio
    De Deus, que é d'onde elle veio…

    Mas para isso, ó Maria!
    Pede áquella cotovia
    Que falle mais davagar:

    Não vá o João, acordar…

    Pariz, 1891.

    *Ao Canto do Lume*

    Novembro. Só! Meu Deus, que insupportavel mundo!
    Ninguem, viv'alma… O que farão os mais?
    Senhor! a Vida não é um rapido segundo:
    Que longas horas estas horas! Que profundo
    Spleen o d'estas noites immortaes!

    Faz tanto frio. (Só de a ver me gela, a cama…)
    Que frio! Olá, Joseph! bota mais carvão!
    E quando todo se extinguir na aurea chamma,
    Eu botarei (para que serve? já não ama…)
    As cinzas brancas, meu vermelho coração!

    Lá fóra o vento como um gato bufa e mia…
    Ó pescadores, vae tão bravo o mar!
    Cautella… Orçae! Largae a escota! _Ave Maria!
    Cheia de Graça_… Horror! Mortos! E a agoa tão fria!…
    Que triste ver defuntos a boiar!

    Spleen! Que hei-de eu fazer? Dormir, não tenho somno,
    Leva-me a carne a Dor, desgasta-me o perfil.
    Nada ha peior que este somnambulo abandono!
    Ó meus Castellos-em-Hespanha! Ó meu outomno
    D'alma! Ó meu cair-das-folhas, em Abril!

    A Vida! Horror! Ó vós que estaes no ultimo alento!
    Que felizes, sois prestes a partir!
    Ó Morte, quero entrar no teu Recolhimento!…
    Oiço bater. Quem é? Ninguem: um rato… o vento…
    Coitado! é o Georges, tysico, a tossir…

    Mez de Novembro! Mez dos tysicos! Suando
    Quantos, a esta hora, não se estorcem a morrer!
    Ve-se os padres as mãos, contentes, esfregando…
    Mez em que a cera dá mais e a botica, e quando
    Os carpinteiros têm mais obra p'ra fazer…

    Oiço um apito. O trem que se vae… Engatar-te
    Quem me dera o wagon dos sonhos meus!
    Lá passa, ao longe. Adeus! Quizera accompanhar-te…
    –Boa viagem! Feliz de quem vae, de quem parte!
    Coitado de quem fica… Adeus! adeus!

    Viajar? Illuzão. Todo o planeta é zero.
    Por toda a parte é vil o homem e bom o céu.
    –Americas! Japão! Indias! Calvario!… Quero
    Mas é ir, á Ilha, orar sobre a cova do Anthero
    E a Agueda beber agoa do Botareu…

    Vi a Ilha loira, o Mar! Pizei terras de Hespanha,
    Paizes raros, Neves, Areiaes;
    Cantando, ao luar, errei nas ruas da Allemanha,
    Armei na França minha tenda de campanha…
    E tedio, tedio, tedio e nada mais!

    Que hei-de eu fazer? Callae essas canções immundas,
    Cervejarias do Quartier! Rezae, rezae!
    Paysagem, onde estás? Ó luar, agoas profundas!
    Ó choupos, á tardinha, altivos, mas corcundas,
    Tal como aspirações irrealizaveis, ai!

    Não me tortura mais a Dor. Sou feliz. Creio
    Em Deus, n'uma outra vida, além do Ar.
    Meus livros dei-os, meu Philosopho queimei-o:
    Agora, trago uma medalha sobre o seio
    Com a qual fallo, ás noites, ao deitar.

    Espiritos! em vão, debalde por vós clamo:
    Porque me abandonaes? Ó almas, vinde a mim!
    As vezes, vindes consolar-me e não vos chamo,
    E, hoje, não… Porque? Traço o parallelogrammo,
    Extingo o lume, apago a luz: nem mesmo assim!

    Ó almas do Outro-mundo! a minha alma anceia
    Pelo luar da lua de Canaan:
    Quero passar o _além_ que para além se alteia,
    A nação de que a Terra é uma pequena aldeia
    E um logarejo a Estrella da Manhã!

    (E a chuva cae…) Meu Deus! Que insupportavel mundo!
    Viv'alma! (O vento geme…) O que farão os mais?
    Senhor! A Vida não é um rapido segundo:
    Que longas horas estas horas! Que profundo
    Spleen mortal o d'estas noites immortaes!

    Pariz, 1890-1891.

    *A Sombra*

    Não tarda a sombra, ahi. Vae alto o Sete-Estrello
    São horas d'ella vir. Minha alma, attende!
    Que já a lua, a sentinella, rende
    Na esplanada do céu, ás portas do Castello…

    Oiço um rumor: talvez… Eil-a, é ella: ao longe, avisto
    Seu vulto em flor: postas as mãos no seio,
    Com o cabello separado ao meio,
    Todo caido para traz, como o de Christo!

    Sorri. Que linda vem, Jezus! Que bem vestida!
    Quantas lembranças d'este peito arranco!
    Foi assim, que primeiro a vi, de branco,
    Foi n'esse traje que ella sempre andou, em vida!

    Que luz projecta! Que explendor! Parece dia!
    Os gallos cantam, annunciando a aurora!…
    Ide deitar-vos que ainda não é a hora,
    Dorme o teu somno, socegada, ó cotovia!

    Mas vós, ó pedras, affastae-vos, que ella passa!
    Silencio, rouxinoes, eu quero ouvil-a…
    Terá ainda a mesma voz tranquilla?
    Ah! ainda é o mesmo o seu andar, cheio de Graça…

    Mas ao passar por mim, como d'algum perigo,
    Foge. (Talvez, já seja tarde…) Ó Clara!
    Nuvem! Phantasma! Ouve-me! Pára!…
    E oiço a voz d'ella n'um murmurio:
    «Anda commigo…»

    Coimbra, 1888.

    *O Meu Cachimbo*

    Ó meu cachimbo! Amo-te immenso!
    Tu, meu thuribudo sagrado!
    Com que, bom Abbade, incenso
    A Abbadia do meu passado.

    Fumo? E occorre-me á lembrança
    Todo esse tempo que lá vae,
    Quando fumava, ainda criança,
    Ás escondidas do meu Pae.

    Vejo passar a minha vida,
    Como n'um grande cosmorama:
    Homem feito, pallida Ermida,
    Infante, pela mão da ama…

    Por alta noite, ás horas mortas,
    Quando não se ouve pio, ou voz,
    Fecho os meus livros, fecho as portas
    Para fallar comtigo a sós.

    E a noite perde-se em cavaco,
    Na Torre d'Anto, aonde eu moro!
    Alli, mettido no buraco,
    Fumo e, a fumar, ás vezes… choro.

    Chorando (penso e não o digo)
    Os olhos fitos neste chão,
    Que tu és leal, és meu amigo…
    Os meus amigos onde estão?

    Não sei. Tral-os-á o «nevoeiro»…
    Os trez, os intimos, _Aquelles_,
    Estão na Morte, no extrangeiro…
    Dos mais não sei, perdi-me d'elles.

    Morreram-me uns. Por elles peço
    A Deus, quando está de maré:
    E, ás noites, quando eu adormeço,
    Phantasmas, vêm, pé ante pé…

    Tristes, nostalgicos da cova,
    Entram. Sorrio-lhes e fallo…
    Deixam-se estar na minha alcova,
    Até se ouvir cantar o gallo…

    Outros, por esses cinco oceanos,
    Por esse mundo erram, talvez…
    Não me escreveis, ha tantos annos!
    Que será feito de vocês?

    Hoje, delicias do abandono!
    Vivo na paz, vivo no limbo:
    Os meus amigos são o Outomno,
    O Mar e tu, ó meu Cachimbo!

    Ah! quando for do meu enterro,
    Quando eu partir gelado, emfim,
    No meu caixão de mogno e ferro,
    Quero que vás ao pé de mim.

    Santa mulher que me tratares,
    Quando em teus braços desfalleça,
    Caso meus olhos não cerrares,
    Embora! Que isto não te esqueça:

    Colloca, sob a travesseira,
    O meu cachimbo singular
    E enche-o, sollicita enfermeira,
    Com _Gold-Fly_, para eu fumar…

    Como passar a noite, amigo!
    No _Hotel da Cova_ sem conforto?
    Assim, levando-te commigo,
    Esquecer-me-ei de que estou morto…

    Coimbra, 1889.

    *Ca (ro) Da (ta) Ver (mibus)*

    Memoria
    A J. d'Oliveira Macedo,
    Eduardo Coimbra, Antonio Fogaça.

    Ás horas do crepusculo, ao _Bemdito_,
    Quando a formoza Lua, a leiteirinha,
    Vae dar o leite ás cazas do Infinito…

    Ás horas das _Trindades_, á noitinha,
    Quando ha milagres e sublimes couzas
    E caza o rouxinol com a andorinha…

    Quando a alma das virgens religiozas,
    Triste se envolve n'um burel de magoa
    E os anjos noivam mail-as suas Rozas…

    Quando o luar azula a espuma, a fragua,
    E o céu sem fim, a abbobada estrellada,
    Como que tem os olhos razos de agoa…

    N'essa hora indeciza, augustiada,
    Em que o universo está, meio ás escuras,
    Que não se sabe se é antes a alvorada:

    Eu pude ver, erguendo-se ás alturas,
    Essa radioza lagryma de pranto
    Que despedem, morrendo, as criaturas.

    E ao vir da noite, livido de espanto,
    Vi uma estrella a mais no azul do céu:
    É que um poeta, um justo, um bom, um santo,

    Ás horas do crepusculo… morreu!
    O simples coração de Julieta
    Dentro da alma clara de Romeu!

    Uma criação de Deus, mas incompleta:
    Aguia, encerrando um coração de pomba,
    Cedro que dava folhas de violeta!

    Ah, quando vejo alguma flor que tomba
    Meu coração estorce-se de dor,
    De Deus minha alma inconsolavel zomba!

    Um lyrio branco, o seu primeiro amor,
    Aos ventos, aos relampagos, ficou
    N'este Valle de Lagrymas, Senhor!

    Quem lhe dera a mortalha que levou
    Toda coberta do cabello loiro
    Da mystica menina que elle amou!

    Vede-a, acolá, chorando o seu thesoiro,
    Na janella que deita para o mar,
    Soltas ao vento as suas tranças de oiro!

    Ó Via-Lactea, ó Sete-Estrello, ó Luar,
    Ó Lua, noiva da esverdeada fera,
    Deixae do céu a vossa luz tombar!

    Ó aves, que trazeis a primavera,
    Para cobrir o solitario ninho,
    Ide buscar á sua campa a hera!

    Ó pombas de luar, pombas de linho,
    Que ides tão alto, divagando errantes,
    Quazi mortas, perdidas no caminho:

    Do vento sobre as azas triumphantes
    Prendei a aza e, assim, acompanhae
    O scismador que vos cantava d'antes!

    Elle precorre victoriozo, olhae!
    Entre espumas de brancas andorinhas
    O Novo-Mundo, e que ligeiro vae!

    Dizem-lhe adeus da terra as criancinhas,
    Co'as tranças a acenar, mandam-lhe abraços
    E beijos com as pallidas mãozinhas…

    Mas elle vae boiando nos espaços,
    Sendo o seu corpo uma subtil galera
    Com leves remos de marfim, seus braços…

    Onde vae elle? a que ditoza esphera
    Velhinha Morte a sua alma guia?…
    Que vida immensa, lá no céu, o espera!

    Para ganhar o pão de cada dia
    Cuidará da lavoira, mais das flores,
    Lavrando as terras da Virgem Maria!

    Longe dos vis, dos maus, dos peccadores,
    N'uma herdade do céu, entre charruas,
    A cavar entre simples lavradores,

    Semeando estrellas e plantando luas…
    E ainda o choram, que feliz desgosto!
    O vento passa a uivar por essas ruas…

    E um oleo algente, excepcional composto,
    Tomba do Ar: é a Extrema-Uncção da Morte
    Que lhe alvorece as mãos e lhe unge o rosto.

    E choraes! Quem vos dera a sua sorte!
    Porque é que vós carpis, agoas da fonte?
    Não chores mais estrella azul do Norte!

    Dobram-se ao vento os cannaviaes do monte,
    E, como a juba d'um leao hirsuto,
    O cedro curva, em tempestade, a fronte;

    Os pallidos jasmins vestem de luto…
    Comtudo o Morto fixa, inconsciente,
    O vivo olhar sem lagrymas, enxuto.

    Formozo, branco, meigo, sorridente,
    Com esses olhos que parecem soes,
    Vaes repoizar na cova, eternamente.

    O teu genio legaste-o aos rouxinoes.
    E allumia-te a bocca de criança,
    O sorrizo dos virgens, dos heroes!

    E o corpo teu na cova, essa esperança
    Eterna como os seculos e as flores,
    Entre verduras, afinal, descança…

    Ah, nem tigres, nem aguias, nem condores,
    Abrem as campas, lugubres cavernas:
    O coveiro é o melhor dos constructores!
    Covas que elle abra são cazas eternas.

    Leça, 1885.

    *Quando Chegar a Hora*

    Quando eu, feliz! morrer, oiça, Sr. Abbade,
    Oiça isto que lhe peço:
    Mande-me abrir, alli, uma cova á vontade,
    Olhe: eu mesmo lh'a meço…

    O coveiro é podão, fal-as sempre tão baixas…
    O cão pode lá ir:
    Diga ao moço, que tem a pratica das sachas,
    Que m'a venha elle abrir.

    E o sineiro que, em vez de dobrar a finados,
    Que toque a Alléluia!
    Não me diga orações, que eu não tenho peccados:
    A minha alma é dia!

    Será meu confessor o vento, e a luz do raio
    A minha Extrema-Uncção!
    E as carvalhas (chorae o poeta, encommendae-o!)
    De padres farão.

    Mas as aguias, um dia, em bando como astros,
    Virão devagarinho,
    E hão-de exhumar-me o corpo e leval-o-ão de rastros,
    Em tiras, para o ninho!

    E ha-de ser um deboche, um pagode, o demonio,
    N'aquelle dia, ai!
    Aguias! sugae o sangue a vosso filho Antonio,
    Sugae! sugae! sugae!

    Raro têm de comer. A pobreza consome
    As aguias, coitadinhas!
    Ao menos, n'esse dia, eu matarei a fome
    A essas desgraçadinhas…

    De que serve, Sr. Abbade! o nosso pacto:
    Não me lembrei, não vi
    Que tinha feito com as aguias um contrato,
    No dia em que nasci.

    Seixo, 1886.

    *Certa Velhinha*

    1

    Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    Que triste velhinha que vae a passar!
    Não leva candeia; hoje, o céu não tem luzes…
    Cautella, velhinha, não vás tropeçar!

    Os ventos entoam cantigas funestas,
    Relampagos tingem de vermelho o Azul!
    Aonde irá ella, n'uma noite d'estas,
    Com vento da _Barra_ puxado do sul?

    Aonde irá ella, pastores! boieiras!
    Aonde irá ella, n'uma noite assim?
    Se for un phantasma, fazei-lhe fogueiras,
    Se for uma bruxa, queimae-lhe alecrim!

    Contava-me aquella que a tumba já cerra,
    Que Nossa Senhora, quando a chama alguem,
    Escolhe estas noites p'ra descer á Terra,
    Porque em noites d'estas não anda ninguem…

    Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    Que linda velhinha que vem a passar!
    E que olhos aquelles que parecem luzes!
    Quaes velas accezas que a vêm a guiar…

    Que pobre capinha que leva de rastros,
    Tão velha, tão rôta! Que triste viuvez!
    Mas se lhe dá vento, meu Deus! tantos astros!
    É o céu estrellado vestido do envez…

    Seu alvo cabello, molhado das chuvas,
    Parece uma vinha de luar em flor…
    Oh cabello em cachos, como cachos de uvas!
    So no céu ha uvas com aquella cor…

    A luz dos seus olhos é uma luz tamanha
    Que ao redor espalha divino clarão!
    Parece que chove luar na montanha…
    Que noite de inverno que parece verão!

    Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    Velhinha tão alta que vem a chegar!
    Parece uma Torre côada de luzes!
    Ou antes a _Torre de Marfim_, a andar!

    Não! Não é uma Torre côada de luzes,
    Nem antes a _Torre de Marfim_, a andar,
    Que pela tapada das _Quatorze Cruzes_,
    N'uma noite destas, eu vejo passar…

    Tambem não é, ouve, minha velha ama!
    Como tu contavas, a Virgem de Luz:
    Digo-te ao ouvido como ella se chama,
    Mas guarda segredo, que é…
    –Jezus! Jezus!

    2

    Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    Já não é a velhinha que vae a passar:
    Um grande cortejo cheiinho de luzes,
    Anninhas da Eira que vae a enterrar.

    Falla d'um pastor:

    «Anninhas da Eira! Anninhas da Eira!
    Cantae, raparigas, cantae e chorae!
    Morreu, coitadinha! sorrindo, trigueira,
    Como um passarinho, sem soltar um ai.

    Quando era pequeno, levava-me á escola,
    E quando, mais tarde, cresci e medrei,
    Oh danças nas eiras, ao som da viola!
    Nas danças de roda, que beijos lhe dei!

    Os annos vieram, os annos passaram,
    Meu fado arrastou-me, da aldeia sai:
    Nunca mais meus olhos seus olhos tocaram,
    Perdi-a de todo, nunca mais a vi…

    E além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    N'uma noite d'estas com vento a ventar,
    Ó meu Deus! é ella que vae entre luzes!
    Ó meu Deus! é a Anninhas que vae a enterrar!

    Olá! bons senhores, vestidos de preto,
    Deixae a defunta, que a levarei eu!
    O suor alagava-vos, eu levo o carreto…
    O caixão de Anninhas é tambem o meu!

    Tenho os relampagos, deixae-me sem velas
    A rezar por ella, sob o temporal!
    Cai-me no peito, cravae-m'as, procellas!
    Cruzes da tapada, em forma de punhal!»

    Mas os bons senhores, de preto vestidos,
    Cigarros accezos, e velas na mão,
    Lá passam ao vento, com sete sentidos,
    Com medo que, ás vezes, não seja um ladrão…

    «Mãos das ventanias! mãos das ventanias!
    Tirae-lhes a Anninhas e levae-a a Deus!
    Com suas mãosinhas, agora tão frias,
    Irá na viagem a dizer-me adeus…

    Ó vento que passas! corcel de rajada!
    Assenta-nos ambos no mesmo selim:
    Quero ir mais ella na longa jornada…
    Quero ir com Anninhas pelo céu sem fim!

    Ó Leste, que trazes as rolas, ás costas,
    Quaes rolas, leva-nos aos pés do Senhor!
    Quero ir como ella, assim de mãos postas…
    Quero ir com Anninhas para onde ella for!

    Ó Norte dos Marços! ó Sul das procellas,
    Levae-nos quaes brigues, como azas, levae!
    Levae-nos como aguias, levae-nos quaes velas…
    Quero ir com Anninhas para onde ella vae!»

    3

    Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    Que triste velhinha que vae a passar!
    E que olhos aquelles que parecem luzes…
    Aonde irá ella? Quem irá buscar?

    Pariz, 1891.

    *Males de Anto*

    A Ares n'uma aldeia

    Quando cheguei, aqui, Santo Deus! como eu vinha!
    Nem mesmo sei dizer que doença era a minha,
    Porque eram todas, eu sei lá! desde o odio ao tedio.
    Molestias d'alma para as quaes não ha remedio.
    Nada compunha! Nada, nada. Que tormento!
    Dir-se-ia accaso que perdera o meu talento:
    No entanto, ás vezes, os meus nervos gastos, velhos,
    Convulsionavam-nos relampagos vermelhos,
    Que eram, bem o sentia, instantes de Camões!
    Sei de cór e salteado as minhas afflicções:
    Quiz partir, professar n'um convento de Italia,
    Ir pelo Mundo, com os pés n'uma sandalia…
    Comia terra, embebedava-me com luz!
    Extasis, spasmos da Thereza de Jezus!
    Contei n'aquelle dia um cento de desgraças.
    Andava, á noite, só, bebia a noite ás taças.
    O meu cavaco era o dos mortos, o das loizas.
    Odiava os homens ainda mais, odiava as Coizas.
    Nojo de tudo, horror! Trazia sempre luvas
    (Na aldeia, sim!) para pegar n'um cacho d'uvas,
    Ou n'uma flor. Por cauza d'essas mãos… Perdoae-me,
    Aldeões! eu sei que vós sois puros. Desculpae-me.

    Mas, atravez da minha dor, da tempestade,
    Sentia renascer minha antiga bondade
    N'esta alma que a perdera. Achava-me melhor.
    Aos pobrezinhos enxugava-lhes o suor.
    A minha bolsa pequenina, de estudante,
    Era p'ros pobres (E é e sel-o-á d'oravante.)
    E ao vir das tardes, ao passar por um atalho,
    Eu ia olhando o chão, embora com trabalho,
    Pois os meus olhos não podiam de fadigas,
    P'ra não pizar os carreirinhos das formigas
    Que andam, coitadas! noite e dia, a carregar…
    E com vergonha, p'ra ninguem me ver chorar,
    Livido, magro, como um espeto, uma tocha,
    Costumava esconder-me em uma certa rocha,
    Que, por signal, tinha o feitio d'um gabão,
    E punha-me a chorar, a chorar como um leão!
    Tinha os berros do mar, pregando em seu convento
    E a gesticulação dos pinheiraes ao vento!

    Ó Dor! ó Dor! ó Dor! Job não tens dores mais,
    Que as tem maiores este filho de seus Paes!
    Ó Christo! calla os ais na tua ignea garganta,
    Ó Christo! que outra dor mais alta se alevanta!

    Meu pobre coração toda a noite gemia
    Como n'um hospital…

    Entrae na enfermaria!

    Vede! Kistos da Dor! Furo-os com uma lança:
    Que nojo, olhae! são as gangrenas da Esperança!
    Lanceto mais: que lindas cores! um Oceano!
    Ó mornos vagalhões do coração humano,
    Amarellos, azues, negros, cor de sol-posto!
    Ó preamar de puz! maré-viva d'Agosto!…
    Oceano! ó vagalhões! qual é a vossa lua?
    A que horas é a baixamar, quem vos escua?
    Lanceto mais ainda: as Illuzões sombrias!
    Cancros do Tedio a suppurar melancholias!
    Gangrenas verdes, outomnaes, cor de folhagem!
    O puz do Odio a escorrer n'esta alma sem lavagem!
    Tristezas cor de chumbo! Spleen! Perdidos somnos!
    Prantos, soluços, ais (o Mar pelos outomnos!…)
    A febre do Oiro! O Amor calcado aos pés! Genio! Ancia!
    Medievalite! O Sonho! As saudades da Infancia!

    Quantos males, Senhor! Que hospital! Quantas doenças!
    Philosophias vãs! Perda das minhas crenças!
    Nevrastenia! O Susto! Incoherencias! Desmaios!
    Sede de immensa luz como a dos pára-raios!
    Enthusiasmos! Lezão-cardiaca da Raiva!
    Magoas sem fim, prantos sem fim! Chuva, saraiva
    De insultos! Afflicções, desesperos! Gotta
    De coleras! Horror…

    Deixei fugir a escota,
    Perdi-me no alto mar, quando ia na galera
    Á India da Illuzão, ao Brazil da Chymera!…
    Ó Bancuos do remorso! Ó rainhas Machebetts
    Da ambição! ó Reis Lears da loucura! ó Hamlets
    Da minha vingança! ó Ophelias do perdão…
    (Socega! Faze por dormir, meu coração!
    Vae alta a noite…) E o sangue arde-me n'estas veias!
    Febre a cem graus! Delirio: o céu de luas-cheias
    Desde o oriente ao sol-por, de norte a sul coberto:
    O mundo jovial de guarda-sol aberto!
    Mar de esmeralda fluida, praias de oiro em pó!
    Ó esquadras das quaes era almirante eu só!
    Ó clarins a soar entre balas, na guerra!
    E vencer pela patria! E ser Conde da Terra
    E do Mar! El-Rey! Ser Senhor-feudal do Mundo!
    Encher a trasbordar a Vida, mar sem fundo,
    Com palacios, amor, glorias, luxo, batalhas,
    E reis e generaes envoltos nas mortalhas!…
    P'ra contar tanta coiza a encher tantos abysmos,
    Homens! criae outro systema de algarismos!

    Meu Deus! Que pezadello! Ah, tanta febre assusta…
    Struggle-for-life! Ó velho Darwin tanto custa!
    Antes não ter nascido. Ó Morte vem buscar-me…
    Um lenço branco _Adeus_! nos longes, a acenar-me:
    Adeus, meu lar! adeus, minha taça de leite!
    E foi o dia 13… E os corcundas e o azeite
    Que eu entornei, pretas que eu vi, uivos de cães!..
    Choras? Porque, por quem, Anto? Pelos _Alguens_…
    Lagrymas: suor da alma! Cançado? Vaes morrer,
    Vaes dormir… Ainda não! mais febre, suores frios
    Tremuras, convulsões, nevroses, arrepios!
    Unhas de leão, raspando cal n'uma parede!
    Corpos divinos, nus, ao léu! Luxurias, sede
    De amor mystico! Amar freiras de habito branco
    Morrer com ellas despenhado n'um barranco,
    Sob relampagos!…

    Jezus! Jezus! Jezus!

    Ah quanto foi bem peior que a tua a minha cruz!
    Quanto soffri, meu Deus! Ah! quanto eu soffro ainda!
    E isto n'um mez de paz, n'esta epoca tão linda,
    Solsticio de verão, quando nos sabe a vida,
    Quando apparece o cravo, a minha flor querida,
    Quando os soes-postos são uma delicia, quando
    Os aldeões andam a podar, cantarolando,
    E, alli, ao pé dos milheiraes, as lindas netas
    Ceifam curvadas, como na haste as violetas!

    Medico? Para que… A doença era d'alma.
    Saia, apenas, á tardinha, pela calma,
    Sorvendo aos haustos a rezina dos pinheiros.
    Tomava quazi sempre a estrada dos _Malheiros_.
    A nossa caza é ao virar mesmo da estrada,
    Onde perpassam os aldeões na caminhada
    E a mala-posta a rir, cheia de campainhas!
    Ora havia, lá (e ha ainda) umas _Alminhas_
    Com um painel antigo sob um oratorio,
    Que são as almas a penar no Purgatorio.
    E têm esta legenda: «Ó vos que ides passando
    Não esqueçais a nós n'este lume penando!»
    Deitava-lhes 10 reis, mas ficava a scismar
    Que mais penava eu… se ellas quizessem trocar…

    E mais adiante (ainda me lembro: n'um atalho,
    Ao pé da fonte) havia um monte de cascalho
    Com uma cruz de pau, braços ao sul e ao norte,
    Para mostrar que, alli, se fizera uma morte:
    Ora (é um costume) quando alguem vae de longada,
    Ao ver aquella cruz, que parece uma espada,
    Deita uma pedra: cada pedra é uma oração…
    Oh raras orações, que nunca findam, não!
    Perpetuamente, lá ficam os _Padre-Nossos_,
    Rezas de pedra, a orar, a orar por esses ossos!…
    Eu como os mais deitava uma pedra, tambem,
    Dizendo para mim: «se me matasse alguem…»
    Mas eu seguia o meu passeio, estrada fóra,
    E ninguem me matava…

    Ah! vinham a essa hora
    As moças da lavoira a cantar, a cantar,
    (Faziam-me, Senhor! vontade de chorar…)
    Mas quando, perto já, eu me ia approximando,
    Paravam de cantar e ficavam-me olhando…
    E que eu não fosse ouvir murmuravam, baixinho,
    Com dó, a olhar: «Como elle vae acabadinho!»

    Mais adiante, encontrava a mulher do moleiro,
    Que ia o cantaro encher á _Fonte do Salgueiro_,
    Lindos cabellos empoeirados de farinha:
    Era uma flor, mas parecia uma velhinha…
    –Vae melhorzinho?–Assim… vou indo, vou melhor…
    –Pois seja pelas cinco chagas do Senhor…

    E um pouco mais além, no logar do _Cazal_,
    N'uma caza de colmo, assentado ao portal,
    Estava um cego, e a fiar ao lado estava a mãe,
    E mal sentia, ao longe as passadas de alguem,
    Clamava em sua voz vibrante de céguinho:
    «Meu nobre senhor! olhe este desgraçadinho!»
    Ai de mim! ai de mim! como não ve quem passa,
    É que chama a attenção para a sua desgraça!

    E, para bem coroar o meu tragico fado,
    Dizia-me, ao passar, o Dr. Delegado:
    «Vá para caza, fuja aos orvalhos da noute.»
    E, grave, para si:
    «A Sciencia abandonou-te!»

    Horror! horror! horror! Que mizeravel sorte!
    Em tudo via a _Velha_, em tudo via a Morte:
    Um berço que dormia era um caixão p'ra cova!
    Vi-a a Foice no céu, quando era lua-nova…
    Se ia á tapada ver ceifar as raparigas,
    Vi-a entre ellas a cortar tambem espigas!
    E ao ver as terras estrumadas, como lume,
    Quedava-me a scismar no meu destino… estrume!
    A pomba que passava era a minha alma a voar…
    E era a minha agonia um pinheiro a ullular!
    E, ao ver meadas de linho a corarem, ao sol,
    Pensava… se estaria, alli, o meu lençol…
    E o que eu scismava ao ver passar os carpinteiros,
    Cantando alegres e fumando, prazenteiros,
    A tiracollo a cerra, o martello e o formão…
    Vinham, quem sabe! de acabar o meu caixão!
    Deitava-me no chão de ventre para o Ar,
    Scismava: se morrer, é assim que hei-de ficar…

    Como me tinha em pé, não sei. Siquer um musculo!

    A hora christã, entre as nevrozes do crepusculo,
    Entre os susurros da tardinha, ao sol-poente,
    Quando cantam na sombra as fontes, vagamente,
    Quando na estrada vão as mulinhas, a trote,
    Que o alvo moleiro faz marchar sem o chicote
    Ó Natureza! tão amigos são os dois!…
    E se ouvem expirar os chocalhos dos bois,
    Ao longe, ao longe, entre as carvalhas do caminho…
    Quando na ermida dão _Trindades_, de mansinho,
    E os cravos dão á luz o fruto do seu ventre…
    Quando se ve os céus mysticos, doidos, entre
    Soluços e ais a desmaiar, como n'um flato:
    Alli, na encosta aonde bebem n'um regato
    Os animaes, tambem bebia. Ora, uma vez
    (Sim, faz agora pelo S. Martinho um mez)
    Quando para beber me debrucei na pia,
    No fundo d'agoa, vi uma photographia…
    Jezus! Um velho! O seu cabello, assim ao lado,
    O mesmo era que o meu, todo encaracolado!
    O rosto eburneo! o olhar era tal qual o meu!
    E o labio… Horror! Fugi! esse velhinho era eu!

    Fugi!

    E, desde então, não mais sai de caza.
    Ha muito, que não vejo uma flor, uma aza,
    Ha muito já, que não sorvi o mel d'um beijo.
    Do meu cortiço voou a abelha do desejo.
    As duas filhas do cazeiro, ao vir da escola,
    D'antes vinham-me ver, eu dava-lhes esmola.
    Cantavam, riam e saltavam, um demonio!
    E tão lindas, Jezus! tão amigas do Antonio…
    E, agora, mal me vêm, tremem todas, coitadas!
    Eu chamo-as da janella e fogem, assustadas!
    E, ao vel-as, na fugida eu quasi que desmaio…
    Jezus, tao lindas! são duas tardes de Maio!

    Um doente faz medo. Por isso fogem d'elle.
    Estou, aqui, estou ido. Só tenho pelle.
    Nada me salva, nada! É impossivel salvar-me.
    E o que eu tenho a fazer é, apenas, rezignar-me
    E já me resignei… Mas Carlota, esse amor,
    Quiz por força chamar o bom Sr. Doutor.
    E eu consenti, emfim. E lá mandou o creado
    Buscar o cirurgião. Elle é o mais afamado
    N'estas trez legoas, o Dr. da _Preza Velha_.
    Eil-o que chega…
    –Olá!… Ve-me a lingua vermelha,
    Toma-me o pulso…–Está bem, isso não é nada,
    Beba-lhe bem, vá aos domingos á toirada,
    E, sobretudo, veja lá… nada de versos…
    Mas o doutor mais eu, nós somos tão diversos!
    Certo, elle é sábio, mas não tem pratica alguma
    D'estas molestias e o que eu tenho é, apenas, uma
    Tysica d'Alma. Emfim…

    Ó Carlota! ó Carlota!
    Boa velhinha, como ella é meiga e devota!
    Já estaria bom, se me valessem rezas.
    E, no Oratorio, tem duas velas accezas
    Noite e dia, a clamar á Senhora das Dores!
    E queima-lhe alecrim, põe-lhe jarras com flores
    E sei, até, que prometteu uma novena,
    Se eu escapar… Como tudo isso me faz pena!
    E trata-me tão bem, tão bem! como se eu fosse
    Seu filho. Dá-me, olhae, pratinhos de arroz doce
    Com as iniciaes do meu nome em canella,
    E traz-me o caldo, como exijo, na tigella
    Por onde come o seu. E dá-me o vinho fino,
    Onde me molha o pão de ló «p'ro seu menino»
    Que é assim que eu gosto, pelo Calix do Senhor,
    Que pertenceu, outrora, ao meu Tio Reitor.
    Carlota é um beijo. Faz-me todas as vontades.
    Quando me sinto pior, ao bater das _Trindades_,
    E me appetece comer terra, algumas vezes
    (Assim, são nossas mães, perto dos nove mezes)
    Sae a buscar uma mão cheia. Vem molhada:
    Foi ella que chorou… mas diz que «é da orvalhada…»
    E quando, emfim, sombrio, agoniado, farto,
    Me vou deitar, a santa acompanha-me ao quarto:
    Ajuda-me a despir e mette-me na cama.
    E com um mimo que só sabe ter uma ama
    Cobre-me bem, «durma, não scisme,» dá-me um beijo,
    E sae. Finge que sae, cuida ella que eu não vejo,
    Mas fica á porta, á escuta, a ouvir-me fallar só,
    E não se vae deitar…

    Onde ha, assim, uma avó?

    A todo o instante, se ouve á porta: «Tlim, tlim, tlim!»
    Trez legoas em redor manda saber de mim.
    (Aqui, lhes deixo minha eterna gratidão.)
    Toca o sino e lá vae a Carlota ao portão,
    Muito baixinha, atarefada; espreita á grade,
    –Quem é?… E, então, olhae!

    «É o Sr. Abbade
    Que manda esta perdiz, mortinha de manhã»;
    Mais o Sr. D. Sebastião de Villa-Meã
    «Que manda um gigo», mais as senhoras do _Rôfo_
    Que mandam ovos molles, pecegos, pão fofo,
    Uvas de Cheiro, peras D. Joaquina,
    Barrisinhos d'Ovar, copos de gelatina;
    Mais o Sr. Barão das Areias do Mar
    «Que manda este salmão do Tamega, a saltar»;
    Mais o Sr. Doutor de _Linhares_ «que manda
    Os cravos mais lindos que tinha na varanda»;
    Mais «o da _Igreja_ que offerece a codorniz
    Que matou, hoje, na _Tapada de D. Luiz_»;
    Mais o Sr. Miguel das _Alminhas de Pulpa_
    «Que manda este peru e que pede desculpa»;
    E, até, o Astronomo, coitado! e o Zé dos Lodos
    Mandam coisas: sei lá… o que podem. E todos
    Mandam tambem saber «como vae o menino…»
    E, então, Carlota, bom Deus! é tal qual o sino
    Na noite a badalar as suas badaladas!
    Poe-se a contar, carpindo, a minha doença ás criadas.
    Tudo o que eu digo, quanto faço, quanto quero:

    –Olhe, S.^{ra} Julia, ás vezes, desespero…
    Mas, eu quero-lhe tanto! ajudei-o, a criar…
    Em pequenino era tão bom de aturar…
    E depois era tão alegre, tão esperto!
    E então que lindo! era mesmo um cravo aberto!
    Mas, hoje, é aquillo: tem os olhinhos sumidos,
    Tão faltinho de cor, os cabellos compridos,
    E tosse tanta vez! já arqueia das costas…
    Só falta vel-o deitadinho, de mãos postas!
    E elle é tão bom, tem tão bons modos…
    –Coitadinho!
    –Olhe, S.^{ra} Julia, nunca viu o linho
    Que a gente deita ao sol, quando é para seccar,
    E que se poe assim a esticar, a esticar?
    Assim é o meu menino…
    –Ó S.^{ra} Carlota,
    E se eu fallasse á Anna Coruja, essa que bota
    As cartas? Foi talvez malzinho que lhe deu…
    –Nunca foi assim: foi depois que se metteu
    A fumar, a beber e lá com as po'sias.
    Aquillo para mim foram as companhias.
    Vinha p'ra caza, á meia-noite, noite morta,
    E eu fazia serão para lhe abrir a porta.
    E nunca ia á licção, ficava sempre mal
    Nos seus exames, escrevia no jornal;
    E o Pae, que é um santo, como ha poucos, que não via
    Nem ve mais nada, então nunca o reprehendia
    Com medo de o affligir… mas depois, quando estava
    Mettido á noite, só, no seu quarto… scismava.
    –O povo diz por hi que foi paixão que trouxe
    Lá dos estudos, de Coimbra…
    –Antes fosse
    Porque o remedio estava, alli, na Igreja… Adei…
    –Mas se a menina não quizesse… eu sei, eu sei…
    –S.^{ra} Julia! Não havia de querer!
    Não que elle é mesmo alguem hi para se perder,
    Para deitar á rua: um senhor tão prendado!
    Depois, está aqui, está quazi formado…

    Ai valha-me, Jesus! eu perco a ideia, faço
    A minha perdição… Ás vezes, ergue o braço
    E vae por hi fóra, por todas essas salas,
    A prégar, a prégar, e tem mesmo umas fallas
    Que não enxergo bem, mas que fazem tremer:
    Hontem, á noite, quando se ia a recolher,
    (Quando faz lindo luar, quer deitar-se sem vela)
    Entrou na alcova, eu tinha ainda aberta a janella,
    E diz-me, assim, tão mau: «p'ra que veio entornar
    Agoa no quarto?» e vae-se a ver… era o luar!
    E quando foi para chamar o cirurgião?
    Jezus, quanto custou! Que não, que não, que não!
    Não tinha fé nenhuma «em um doutor humano»
    Que só a tinha no Sr. Dr. Oceano…

    Mas uma coiza que lhe faz ainda peior,
    Que o faz saltar e lhe enche a testa de suor,
    É um grande livro que elle traz sempre comsigo,
    E nunca o larga: diz que é o seu melhor amigo,
    E le, le, chama-me: «Carlota, anda ouvir!»
    Mas… nada oiço. Diz que é o Sr. Shakespeare.

    E, ás vezes, bota versos, diz coizas tão más!
    Nada lhe digo, mas aquillo não se faz.
    Ainda, esta manhã: eu estava a por flores
    E as velas accendia á Senhora das Dores,
    (Que tem dó d'elle, coitadinha! chora tanto…)
    Vae o menino a olhar, a olhar, sae-me d'um canto
    E uiva-lhe, assim:
    «Antes as tuas sete espadas!»

    E o que á S.^{ra} Julia diz, diz ás mais criadas.

    Coimbra, 1890.

    Pariz, 1891.

    *Ah Deixem-me Dormir!*

    O Poeta

    Olá, bom velho! é aqui o _Hotel da Cova_,
    Tens algum quarto ainda para alugar?
    Simples que seja, basta-me uma alcova…
    (Como eu estou molhado! é de chorar…)

    O povo

    O luar averte as orvalhadas sobre a rua!
    Jezus! que lindo…

    Vamos! depressa! Vem, faze-me a cama,
    Que eu tenho somno, quero-me deitar!
    Ó velha Morte, minha outra ama!
    Para eu dormir, vem dar-me de mamar…

    A S.^{ra} Julia

    São as Janeiras da Lua!

    O Coveiro

    Os quartos, meu senhor, estão tomados
    Mas se quizer na valla (que é de graça…)
    Dormem, alli, somente os desgraçados:
    Têm bom dormir… bom sitio… ninguem passa…

    O Zé dos Lodos

    A lua é a nossa vacca, ó Maria!
    Mugindo…

    Ainda lá, hontem, hospedei um moço
    E não se queixa… E ha-de poupal-o a traça,
    Porque esses hospedes só trazem osso,
    E a carne em si, valha a verdade, é escassa.

    O Dr. Delegado

    A noite parece dia!

    O Poeta

    Escassa, sim! mas tenho ossada ainda,
    Emquanto que a alma, ai de mim! nada tem…
    Guia-me ao quarto… (a lua vae tão linda!)
    Dize-me: quantos annos me dás? Cem?

    O Sr. Abbade

    E esta? Em vez de trazer a opa que é de logar
    Trouxe a d'anjinho!

    A Mulher do Moleiro

    É o luar, Sr. Abbade, é o luar…

    Oh cem! E os que eu não mostro e o peito guarda…
    Os teus mortinhos, sim! dormem tão bem:
    «Dormi, dormi! que vossa mãe não tarda,
    Foi lavar á _Fontinha de Belem_…»

    O Astronomo

    Isto lunar assim! Isto é o verao
    De S. Martinho!

    O Coveiro

    Aqui. Fica melhor do que em 1^a:
    Colxão assim não acha em parte alguma!
    Os outros são de chumbo, de madeira,
    Mas este, veja bem, é sumauma…

    O Cego do Cazal

    Faz solzinho, que horas são?

    _Cantando_:

    «Colxão de raizes e de folhas, lizo,
    Lençoes de terra brandos como espuma,
    Dal-os-ei ao rol, no Dia de Juizo…»
    Prompto. Quer mais alguma coiza? Fuma?

    Carlota

    Ó luar, anda mais devagarinho!
    Deixa dormir o meu menino…
    Coitadinho!

    O Poeta

    Mais nada. Boas-noites. Fecha a porta.
    (Que linda noite! Os cravos vão a abrir…
    Faz tanto frio)! Apaga a luz! (Que importa?
    A roupa chega para me cobrir…)

    A Mãe do Poeta

    Aqui, espero-te, ha que tempo enorme!
    Tens o logar quentinho…

    Toma lá para ti, guarda. E ouve: na hora
    Final, quando a Trombeta além se ouvir,
    Tu não me venhas acordar, embora
    Chamem… Ah! deixa-me dormir, dormir!

    Deus

    Dorme, dorme.

    Pariz, 1891.

    FIM

    TABOA

    Antonio
    Menino e Moço
    Os Cavalleiros
    Purinha
    Elegia
    Os Sinos
    Terças-Feiras
    Carta A Manoel
    Para As Raparigas De Coimbra
    Luzitania No Bairro-Latino
    Os Figos Pretos
    Febre Vermelha
    Poentes De França
    Pobre Tysica!
    A Poezia Do Outonno
    Sta. Iria
    Enterro De Ophelia
    Ballada Do Caixão
    Á Toa
    A Vida
    O Somno De Joao
    Ao Canto Do Lume
    A Sombra
    O Meu Cachimbo
    Ca (ro) Da (ta) Ver (mibus)
    Quando Chegar A Hora
    Certa Velhinha
    Males De Anto
    Ah Deixem-me Dormir!

    Imprimerie Henri Jouve, 15, rue Racine, Paris.

    Achevé d'imprimer le deux avril mil huit cent quatre-vingt-douze

    Pour

    LÉON VANIER

    éditeur

    Par

    HENRI JOUVE

    15, Rue Racine, 15

    A Paris

  • Os meus amores contos e balladas

    Os meus amores contos e balladas

    Aproximadamente 60.805 palavras.

    O Rodrigues teve um risinho feroz, fitando o Escrivão da Câmara. Não lhe
    respondeu. Subiu os três degraus do _pelourinho_, pausadamente, com
    pompa, e chamou a atenção dos amigos. Ia ler. Abriu o _Almanaque de
    Lembranças_, onde trazia um papel, e rompeu:–«Indignidade».

    –Em letras bem graúdas, queiram inspeccionar.

    E colou ao peito o _Almanaque_, voltando para fora na página onde o seu
    dedo reboludo apontava a terrível palavra, escrita ao alto em
    epígrafe.

    Houve um sussurro, alguns pediram silêncio. O Rodrigues que lesse.

    «Os versos intitulados _Flor do Campo_, que viram a luz no _Almanaque de
    Lembranças_ do ano extinto, foram-nos remetidos pelo Sr. José Maria
    Teles, escrivão.»

    –Copiados por mim, uma letra floreada–esclareceu o Fernandinho.–Ele
    depois assinou–e fez no ar, com o dedo, o traço complicado da firma
    complicada do Teles.

    Pediram silêncio outra vez. O Rodrigues continuou:

    «Publicámo-los na convicção de que eram da lavra daquele senhor, pois
    que ele os assinava.»

    –E então?–perguntaram uns poucos, sem compreender ainda.

    –«Pura ilusão!»–continuou solenemente o Rodrigues.–«Escreve-nos o
    mimoso e assaz conhecido poeta Sr. Alfredo Mendonça, dizendo que os
    versos lhe pertencem, e que o Sr. Teles os roubara (sic) do seu volume
    _Lira Matutina_.»

    Foi uma estupefacção! O Rodrigues prosseguiu mais alto, fugindo aos
    comentários:

    «Averiguámos, e disso alfim nos convencemos. Os leitores avaliarão a
    probidade do Sr. Teles, a quem mais de uma vez tínhamos fechado a nossa
    porta por incapaz. Hoje damos-lhe com ela na cara–por indigno.»

    E o Rodrigues fechou o livro com estrondo, como os outros fechariam a
    porta na cara do Teles escrivão; tomou praça fora, o livro debaixo do
    braço, e foi-se para o estanco do Ernestinho, altivo, solene,–vingado!

    Os da roda seguiram-no silenciosos, corridos de vergonha, desnorteados,
    porque além de sempre terem julgado o Teles muito superior ao
    Rodrigues–e o Rodrigues bem o sabia, olha ele!…–tinham dado uma
    sorte de mil demónios, agora é que eles viam! distribuindo no teatro,
    por ocasião da festa de Santa Barbara, a _Flor do Campo_ que eles
    tinham mandado imprimir avulso–para lisonjear o Teles que tivera o
    trabalho de os ensaiar no _Santo António_. Hein? quem diabo havia de
    dizer que aqueles papelinhos de cor, uns verdes, outros amarelos,
    chovendo sobre a plateia entre o segundo e o terceiro acto, e quase
    disputados a murro, num alvoroço de seiscentos diabos, encerravam uma
    insídia,–um logro à boa-fé, à credulidade ingénua de toda a comarca!

    E relembravam episódios, particularidades quase extintas: o Fernandinho
    vestido da menino do coro, batina vermelha e roquete de rendas,
    cobrindo-se de teias de aranha lá pelo forro do teatro, de gatinhas e
    com um «toco» de vela na mão, aos tropeções, só para ter o gosto de ser
    ele a despejar do _óculo_ aquela papelada; o Melo da administração,
    vestido de Frei António, sandálias e grande chinó de calva redonda,
    feita de uma bexiga de porco, com o Teles em triunfo por entre os
    bastidores, seguido pela turbamulta dos companheiros, em hábitos de
    frade e fardetas de galuchos, dando vivas ao _poeta_! ao grande Teles,
    ensaiador da rapaziada!

    Que desastre! Afinal tinha-lhes saído um intrujão! E quase se regalavam
    da sorte que tinham dado, pelo prazer que sentiam de o ver agora
    humilhado, corrido, esbofeteado pelo ridículo. Bem feito!

    O Antunes da Câmara, sobretudo, estava furioso. Fora ele o da lembrança
    de se mandar imprimir a versalhada. Escrevera para Coimbra ao Manuel
    Caetano, ao Manuel Caetano da Silva, Praça Velha n.^o 11, que mandava os
    impressos para a Câmara, e pedira-lhe aquilo como especial favor. O
    homem–pronto. Duzentos exemplares, quinze tostões. Quinze tostões que
    se tinha combinado dividir por todos, contas do Porto, mas que
    desembolsara ele só, afinal. Bem feito! ninguém o mandava ser burro.
    Arre! cavalgadura!

    E dava patadas no chão, cada vez mais furioso, apopléctico.

    –Mas a bem dizer, tudo isso é nada!–continuou comovido o Antunes.–Ó
    senhores! e a figura que eu fiz… sim, a figura que eu fiz naquele
    intervalo do drama para a farsa?…

    Todos desataram a rir, tinha sido fresca… Ele sempre acontece cada
    uma! E relembravam:–levantara-se o pano quando os ouvintes menos o
    esperavam. Os que tinham sabido lá fora, às doceiras, voltaram
    apressadamente com os cartuchos na mão, ensacando os rebuçados. Ia um
    reboliço pela plateia. Na «galeria dos camarotes» para onde só iam
    senhoras, gente fina, começavam a aparecer caras barbadas de sujeitos
    que iam saber «que tal», perguntar se ia uma pinguinha de licor, um
    docinho. Em cima, na galeria alta, criadas e raparigas do povo,
    debruçadas no parapeito, apontavam para o palco, de olhar atónito.

    –Ele que dianho é?–perguntavam.

    De baixo, da plateia, todos faziam _chut_! voltados lá para cima:

    –Caluda, sua gentalha!

    No palco estavam todos perfilados, trajando como na peça. O Freitas da
    recebedoria com o seu fato de Marco Aurélio; o Paula de cardeal, báculo
    em punho e a cara metida numa estriga; o Fernandinho de menino de
    coro, todo lépido; a Ana Pisca muito acanhada no seu fatinho de Olívia;
    a Margarida que tinha feito de anjo no quadro final da _Glória_, em que
    ela subira num cesto vindimo à «região sidérea dos astros»; o pai de
    Santo António, em ceroulas e de saia branca pelo pescoço, lívido como
    saíra do túmulo; aquela canalha da tropa–todos enfim!

    Nisto, entra pelo fundo o Teles todo de preto, no meio do Melo
    vestido de Santo António e do Proença telegrafista que fazia de Frei
    Inácio. Avançaram. Em baixo, o Felisberto mandou tocar o Hino da Carta
    à meia dúzia de músicos que não entravam na peça. O hino rompeu com
    grande estampido de pratos, numa cadência fúnebre. No palco, tudo
    imóvel. Ninguém sabia o que era aquilo, não estava no cartaz.
    Esquecimento do Fernandinho, talvez… pensavam.

    Mas ao acabar o hino, o Antunes da Câmara, com farda de centurião,
    durindana e botas de água, irrompe furioso do buraco do ponto e prega um
    discurso na bochecha extática do Teles:

    «Não era ele o mais competente, de certo, o mais… etc. Mas tinham-no
    encarregado, obedecia… e tal. Só sentia não ter frases, oratória,
    porque enfim estava falando a um poeta…–colaborador do _Almanaque de
    Lembranças_ para Portugal e Brasil–acrescentou voltado para o público,
    esclarecendo. Enfim, finalmente… vinha para aquilo: dar-lhe um abraço
    em nome de todos…–e abraçou-o comovido, enquanto os espectadores
    berravam _apoiados_, dando palmas–«… e para isto»–acrescentou
    fazendo com a mão que se calassem, que se calassem depressa.

    Houve um sussurro de aplauso, dos camarotes crianças gritavam–«ó
    Emilinha!» Era com efeito a Emilinha, a filha do Alves dos Pesos e
    Medidas, que saía também do buraco do ponto, vestida de anjo, tules
    verdes e muita lantejoula a brilhar.

    Ficou-se a olhar a plateia, imóvel, muito fria, ensaiada, enquanto o
    Felisberto preludiava na flauta. Em certa altura, num requebro doce da
    «melodia», ele fez-lhe com a cabeça «que entrasse», e a Emilinha rompeu
    nuns guinchos, cantando a _Flor do Campo_, com música da _Muchagateira_
    original do Peres do correio.

    O Teles sorria, entre glorioso e modesto, falando a Santo António e a
    Frei Inácio:–Era de mais, era de mais, ele não merecia…–Ora essa!
    pareciam dizer-lhe os outros–seríamos ingratos se…

    A «cantoria» acabou, o teatro parecia desabar com palmas, tudo berrava,
    um ou outro cão latia. Se não quando, os do palco desataram a rir,
    cosendo-se uns aos outros, fingindo um grande medo de que as bambolinas
    do tecto desabassem.

    Todos olhavam, curiosos. E naquela expectação viram de repente descer
    do alto, sobre o palco, agarrado a uma corda, o Freixedas da Mercearia
    vestido de Lusbel, rubro e com chavelhos. Cuidaram de estoirar a rir. Da
    boca muito inchada saíam-lhe faúlhas, do algodão a arder que lá trazia
    dentro. Fazia caretas horrendas, arremedando Satanás nos ímpetos da
    cólera. O pano começou a descer, oblíquo, esfarrapado de uma banda. O
    Freixedas, suspenso, atirou fora o algodão e gritou, furibundo:

    –Alto! suas bestas! Inda não!…

    Voltou-se de costas para o público, e um letreiro que trazia de ombro a
    ombro dizia em caracteres amarelos–_C'est fini_! O pano desceu
    então, estabalhoadamente. Os espectadores olharam uns para os outros,
    não tinham percebido… Foi nesse momento que o Sr. Antoninho, que
    tinha estudado em Braga, traduziu de um camarote, em voz alta:

    –_É findo_!

    V[AE] VICTORIBUS!

    _A Maria Lucila_.

    Em Dezembro, às seis é noite cerrada. Mais bocado, menos bocado, a
    essa hora recolhia do monte o José Gaio, sozinho, sachola ao ombro, um
    pouco atarantado com a trovoada que rugia ao longe, em surdina. Por cima
    dele, o céu ia-se fazendo cada vez mais negro, dessa negrura espessa
    de tempestade que infunde pavor à gente, e da qual os próprios pássaros
    têm medo. Cessara de chover. Mas o vento do sul principiava agora,
    agitando os grandes ramos despidos dos castanheiros, fazendo-os murmurar
    não sei que estranha elegia… A um relâmpago mais vivo, o José Gaio
    apressou o passo, e, benzendo-se, rezou a _Magnificat_. O trovão chegou,
    depois, lúgubre, cavernoso, alastrando-se em roldões na larga amplitude
    do céu. Debaixo dos pés, o José Gaio sentia o caminho lamacento,
    encharcado das enxurradas valentes de todo o dia. Mas a ponte já não
    ficava longe. Depois, a ladeira, e no meio da ladeira a casa.

    –Vamo' lá com Deus! fazia ele animando-se.

    Um clarão súbito de relâmpago deslumbrou-o. Diante dele surgiu de
    repente a paisagem, e de repente desapareceu, feericamente iluminada.
    Deitou então a correr, aterrado; mas tão forte veio em seguida o trovão,
    que ele instintivamente parou e levou ao céu as mãos aflitas, num
    gesto de quem implora misericórdia. Naquela iminência de perigo as
    próprias árvores lhe pareciam imobilizadas pelo terror, à beira do
    caminho. E através dos castanhais, o surdo rumor do vento era como a voz
    implorativa da natureza, unindo-se à voz dele num longo coro de
    suplicas…

    O José Gaio ia transido. Mas pior ficou quando de repente, sem saber
    donde, alguém chamou por ele, lugubremente:

    –Ó José Gaio!

    O homem parou. E como perto dele apenas enxergasse os braços da cruz
    negra, que era o sinal de ali terem matado o José Tendeiro, há anos,
    apertou o passo e tomou por um atalho, direito à ponte. Mas então a
    mesma voz tornou-lhe mais de perto:

    –Ó José Gaio!

    Quis fugir, mas o medo parece que lhe tolhia as pernas. Nisto veio um
    relâmpago que iluminou a mil cores a paisagem. Ele cerrou os olhos com
    força, nervosamente, ferido por aquele deslumbramento que por milagre o
    não prostrou. E quando o trovão bramiu, rudemente, uma imobilidade de
    estátua prendia o camponês à terra. Foi então que veio de novo aquela
    voz, como um prolongamento do trovão:

    –Ó José Gaio!

    Ia avançar para ganhar a ponte. Parecia-lhe que, uma vez transposta,
    galgaria a ladeira num instante. Mas involuntariamente, cedendo a uma
    força violentíssima, entrou de retroceder, cambaleando. Aquele rugir da
    água que logo abaixo da ponte fazia cachão, rugir violento mas monótono,
    infundiu-lhe um grande pavor. Teve medo e deixou-se retroceder… Senão
    quando, estacou ouvindo a mesma voz:

    –Ó José Gaio!

    E logo atrás da voz, com um rastro, um intensíssimo relâmpago cor de
    sangue. Viu tudo vermelho, afogueado, tudo menos aquela cruz preta de
    longos braços, sempre abertos e sempre firmes, que pareciam desafiar a
    tempestade…

    Aquela serenidade da cruz estonteou-o. Dir-se-ia que esse nobre
    exemplo de altivez vinha agora humilhar mais a sua fraqueza. Desviou os
    olhos e cerrou violentamente as pálpebras. Mas em vão! que fora tão vivo
    o deslumbramento, e tanto lhe ferira o cérebro, que num fundo cor de
    sangue, como num transparente de mágica, ele via nitidamente
    desenhada, sempre firme e sempre altiva, a cruz que o estonteara. Então
    deram-lhe ímpetos de fugir; uma onda de coragem parecia dilatar-lhe o
    peito impelindo-o. Precisamente nesse momento, a voz tornou a chamar:

    –Ó José Gaio!

    Sentiu-se alquebrado, transido até ao mais íntimo do seu ser. Um longo
    desfalecimento invadiu-o todo, quebrando-lhe a última fibra de energia,
    como se quebra um vime seco. Aquela paralisia atacou-lhe também o
    cérebro: não formava um só raciocínio nem elaborava sequer uma ideia, a
    mais simples. E foi preciso um grande trovão para todo ele tremer,
    abalado como a própria terra. Depois, outro relâmpago fez reviver nele
    a vida do espírito; sentiu um grande pavor àquele aspecto súbito do
    campo que diante dele se perdia de vista, afogueado como se estivesse
    todo em chamas. Aqui, um pinhal, uma ermida além, para toda a banda
    Casais, surgiam de repente, nítidos nos seus contornos, definidos
    maravilhosamente nas suas atitudes. As grandes árvores despidas,
    sobretudo, tinham um ar fantástico, nessa pureza nítida de recorte que
    traçava na luz as sinuosidades mais delicadas dos troncos e ramarias. No
    meio deste cenário de mágica, a um tempo majestoso e tétrico, o triste
    camponês sentia-se apavorado, jactitante e quase inerte, ali chumbado à
    terra, hirto como a cruz que tinha diante. E nem um só gesto
    implorativo, e nem uma só palavra de súplica lhe saía dos lábios
    crispados. Porque uma vez que tentara uma palavra, o mais formidável
    trovão cortara-lha na primeira sílaba. Depois, aquela voz não o
    largava, imperturbável e monótona:

    –Ó José Gaio!

    E ele, não respondendo nem falando, pensava esconjurá-la, exorcismá-la
    como se fosse a voz de um duende. E para esta evocação do sobrenatural
    muito concorria, como os senhores compreendem, esse aspecto sereno da
    cruz negra, inabalável sob a asa agitada da procela.

    Nisto veio a chuva, em grossas gotas a princípio, em cordas de água
    depois. Ela varejava-o inclemente, impelida agora por um vento sul
    furioso. Não deu um passo para procurar um abrigo, não se mexeu sequer.
    Como todo ele ardia em febre, aquele dilúvio era quase um celeste
    benefício para a sua cabeça num vulcão. Mas quando os relâmpagos
    vieram, aquela reverberação da luz nas cordas de água fez-lhe um
    deslumbramento mais forte. E caiu inerte sobre o caminho lamacento por
    onde a água escorria impetuosa, ao mesmo tempo que a voz do costume,
    sobrelevando o trovão, repetia do lado da cruz:

    –Ó José Gaio!

    Cobarde, sujo como um sapo, encharcado até aos ossos, como caiu assim
    ficou–de borco. Depois, quando abriu os olhos, na larga poça onde quase
    tinha a cara, via reflectir-se a cruz, a cada relâmpago. Ela lá estava
    no seu posto, altiva, serena, intemerata, recta como um exemplo… E
    pois que parara o dilúvio, dos seus braços abertos as gotas da chuva
    caíam, vermelhas à luz, como grossas lágrimas de sangue…

    Cobarde! Nenhuma comparação pode dar ideia do estado de prostração desse
    miserável, reduzido pelo terror a uma quase inacção de besta morta.
    Dir-se-ia um imundo trapo ali caído, abandonado ali na lama ignóbil
    de um caminho, à espera da enxurrada que o levasse… Era abjecto!… E
    enquanto esse animal assim jazia, atordoado, como boi que uma malhoada
    prostrou, ao fundo do horizonte, para sul, o encastelamento fantástico
    das grandes nuvens plúmbeas, listradas de negro e roxo, metralhando com
    fúria o largo espaço, aos quatro ventos, era tudo quanto o nosso
    espírito pode conceber de mais grandioso e de mais sublime, épico e
    trágico a um tempo, soberbo, majestoso, imponente.

    Mas a voz sempre a ouvia, por cima do vento e por cima dos trovões,
    aquela voz:

    –Ó José Gaio!

    Assim largo tempo, horas talvez. O torpor do frio agravava-lhe o outro,
    o do medo. Parecia colado à lama, preso ao caminho como se fosse uma
    rocha. No entanto, a espaços, tinha a compreensão clara da sua posição
    e do seu estado. E então uma raiva súbita galvanizava-o: queria
    erguer-se, fugir, desaparecer–erguer-se como aquela cruz, fugir como
    aquele vento, desaparecer como esses relâmpagos, que nem deixam rastro
    na treva…

    Tais rebates de coragem eram, porém, efémeros, impotentes para lhe
    provocarem um movimento. Aquele diabo tinha de morrer ali,
    miseravelmente, ignobilmente, como um cão a que houvessem amputado as
    quatro pernas. E esta ideia, que o instinto de viver lhe sugeriu,
    apavorou-o ainda mais que a própria tempestade. Morrer ali! Mas que
    dúvida, se ninguém lhe vinha acudir, se não passava por ali vivalma, a
    tais desoras! Era horrível! No meio de um caminho, numa noite medonha
    de tempestade, ao pé daquela cruz negra de longos braços
    hirtos–morrer ali!… Eram então já por ele as lágrimas que essa cruz
    parecia chorar?…

    Estava nisto, quando num silêncio de acaso ouviu passos à distância.
    Vinha gente. Quem quer que era tinha de passar por ali, de tropeçar
    nele, talvez. Subitamente, sentiu-se reviver. Estava salvo. Em breve
    estaria de pé,–de pé como essa cruz que um relâmpago muito vivo acabava
    de lhe mostrar… No entanto, a voz é que se não importava:

    –Ó José Gaio!

    Mas os passos vinham-se chegando; e então, como se receasse que o
    calcassem, reuniu num supremo esforço as máximas energias, e rebolou-se
    para um lado, até ficar detrás dumas urzes. Coisa notável foi,
    senhores, que esse miserável em vez de gritar calou-se, e todo se
    recolheu numa absoluta quietação, com medo que o surpreendessem… E
    quem quer que era passou, cabeça nua, diante da cruz gotejante… Aos
    ouvidos do miserável chegou um como murmúrio de prece… Não ia só a
    rezar; ia também chorando, aquele homem…

    …Quem seria?

    Um clarão branco de relâmpago fez irromper da treva, lívido como um
    espectro, o filho do José Tendeiro…

    O desgraçado ia a chorar pelo pai, ali assassinado havia anos, por uma
    noite como aquela…

    Passou, ladeira abaixo, na direcção da velha ponte. Só aquele cobarde
    não se mexeu, prostrado sobre as urzes, quase arrumado à cruz.

    E assim esteve horas e horas, até que, noite velha, cessou a tempestade,
    perdida num murmúrio longínquo, lá na extrema fímbria do horizonte…
    Quando a lua rompeu, lívida num céu de anil, nem a grande sombra da
    cruz, incidindo sobre aquele corpo, como um beijo ou uma bênção, logrou
    reanimá-lo. Tinha morrido, o estafermo!

    Ao outro dia, está claro, foram lá os da justiça. O velho abade foi
    depois, buscar o corpo. Os médicos nem lhe tinham mexido.

    –Sangue pelos olhos, sangue pela boca, sangue pelo nariz, uma
    congestão muito linda–dissera um a rir.

    –E muito mal empregada–fizera o outro do lado, indiferente.

    Mas quando os da maca disseram a um tempo–_Upa_!–esse bom velho do
    abade caiu de joelhos diante da cruz, numa convulsão agudíssima de
    choro. E elevando ao céu as mãos mirradas–ao céu que um divino azul
    fazia diáfano–ele exclamou, soluçando:

    –Senhor! Senhor! a vossa justiça é tremenda, como é infinita a vossa
    misericórdia!

    …Segredo de confissão…–mas o abade bem sabia quem tinha ali
    matado o José Tendeiro…

    BALADAS

    _A Luís Osório_

    I

    MARICAS

    Vocês lembram-se da Maricas, aquela magrita de cabelos muito
    castanhos, quase louros, que morava defronte da redacção, lembram-se? A
    boa da rapariga era nossa amiga, pois não era? Sempre benévola e
    complacente para as nossas balbúrdias e algazarras de todo o dia e de
    toda a noite. E vocês bem sabem que tais elas eram, as nossas
    balbúrdias e algazarras…

    Eu, na Maricas, admirava uma virtude rara, toda original e
    encantadora–a de não mostrar jamais na sua amizade preferência por
    algum de nós. Dir-se-ia que era nossa irmã, ou mesmo nossa mãe, pois
    que nos queria a todos por igual, a pobre Maricas de olhar azul e
    brando…

    Não sei se já vos disse: adivinho o interesse com que ela vos
    perguntaria por mim, nos meus dias de cábula, pela solicitude e
    interesse com que me perguntava por vocês, quando faziam gazeta ao
    escritório.

    –Então esses cábulas? então esses marotinhos? Doente, algum?

    –Na estúrdia, Maricas. Andam todos por lá…

    –Ora vejam!–fazia ela quase escandalizada.

    Ah, como eu me lembro neste momento da vivacidade franca dos sorrisos
    que nos mandava, quando todos em pinha, furando pelos ombros uns dos
    outros, palreiros conversávamos com ela de janela para janela, num
    _tête-à-tête_ que durava horas, muito familiares, muito dados, quase que
    chamando-lhe por tu e ela a nós!

    Como eu me lembro!

    Ela tinha sempre uma resposta e um sorriso para cada uma das mil
    perguntas que lhe fazíamos, e então uma grande paciência inexaurível.
    Nós, os estroinas, quase que chegávamos a adorar aquela ingenuidade
    singela do seu coração de vinte anos. A boa da Maricas era adorável,
    toda ela bondade e paciência para os nossos distúrbios e para as nossas
    algazarras de toda a hora e de todo o instante.

    Mas como se familiarizou ela connosco e nós com ela, é que me não
    lembra, e porventura a nenhum de vocês, acho eu. O que é certo, rapazes,
    é que nós como que a considerávamos uma companheira de redacção, espécie
    de directora com casa à parte e viver independente pois que se entrávamos
    no escritório (parece mesmo que estou a ver aquela barafunda
    de escritório!) e, assomando à janela, a não víamos na sua, dizíamos
    quase sem querer, mas invariavelmente:

    –Mau! falta hoje a Maricas! Diacho! mas onde iria a Maricas?

    E passados instantes debandávamos todos, um agora, outro logo, à
    formiga, mal nos convencíamos de que ela passava a tarde fora, em casa
    da _freira_ de Quebra-Costas–dessa lembram-se vocês… No entanto,
    deveis recordar-vos que ela, no dia seguinte…–coitada!–…a
    primeira coisa que fazia era justificar a sua falta, «estive aqui,
    estive ali, fui a umas compras com a mamã», um pouco ruborizada e
    confusa, como se na realidade a sua obrigação fosse estar ali a
    aturar-nos. Por pouco ela nos não pedia de mãos postas que lhe
    perdoássemos, a boa da rapariga.

    E nós então galhofeiros, brincalhões:

    –Sem mais _aquelas_, D. Maricas! A congregação risca-lhe a falta, ora
    essa!…

    E ela mais confusa, fazendo girar no dedo o seu anelzito de cobra:

    –Pois sim, mas é que às vezes…

    –Às vezes quê?…

    «Não! ora adeus! Ninguém desconfiava que ela estivesse zangada
    connosco. Saíra, porque tinha de sair, essa é boa…»

    –Pois não era verdade–perguntávamos-lhe–que ela adorava aquela
    _trupe_ de boémios?

    –São todos muito bons rapazes–dizia já a sorrir.–Todos me tratam
    muito bem…

    E quando dizia isto, o seu rosto miudinho e muito pálido todo se
    iluminava de prazer e sorria de íntima gratidão. Mas porque
    simpatizava ela connosco, a pobre Maricas?

    Quando nos via em palestras intermináveis, nas libações do _congnac_ e
    do café, ouvia-se lá da janela um _pschiu_! muito sibilado.

    –Que manda a D. Maricas? É servida?

    E ela, levantando os olhos da costura, com ares de formalizada:

    –Mando que escrevam, que trabalhem! Já fizeram o jornal?

    O cuidado que lhe dava o jornal!

    –Ora faz favor de não falar em coisas tristes? Olhem agora que
    lembrança, o jornal!

    Ela então, por única resposta, dizia-nos às vezes que na semana passada
    o tipógrafo viera queixar-se de que havia falta de originais, quantas
    vezes o garoto da imprensa viera pedir as provas emendadas.

    E por falar em provas:–a Maricas sabia todos os sinais das emendas,
    todos.

    –Olhe lá, Maricas, está aqui uma letra a mais nesta palavra.

    –Risco por cima, risco à margem, e um _d_ cortado; é fácil.

    –Um _m_ de pernas para o ar, e esta?

    –Risca-se, e um três cortado, à margem. Está farto de o saber…

    Quando via algum sentado à mesa, a rabiscar, pedia sempre que lhe fosse
    mostrando as tiras, à medida que as escrevesse, talvez porque adivinhava
    que isso era um estímulo. A gente fazia-lhe então a vontade, e mal
    escrevia a derradeira letra pegava da tira e dizia-lhe para a janela,
    acenando-lhe com o papel:

    –Maricas, cá está uma, vá contando. Veja: escrita de alto a baixo.

    À terceira que se lhe mostrava, ela saía-se de lá com um _bravo_! e
    recomendava, solícita, cinco minutos de folga, enquanto se fumava um
    cigarro.

    A Maricas era quem nos cortava as cintas para o jornal e quem nos fazia
    a goma nos dias de expedição. Que ricas cintas e que bela goma! Em
    paga, quando o jornal chegava da imprensa, quase sempre nos sábados à
    noite, o primeiro exemplar era para ela. Como a rua era estreita
    atirava-se-lhe da janela.

    –Maricas, aí vai ainda fresquinho!

    –'stá bem, obrigada. Vou ler, até amanhã.

    Corríamos todos à janela, a dar as boas-noites à nossa amiga.

    –Durma bem, ouviu?

    E no dia seguinte, a Maricas repetia a cada autor frases e frases do
    artigo publicado, jurava que nos conheceria no estilo ainda que
    mudássemos de pseudónimo. De resto, sempre benévola: achava tudo muito
    bom, «escrito com muita graça e muito bem», como ela dizia.

    Nos serões que fazíamos e que por via de regra não passavam de um
    interminável cavaco, dizia-se mal das mulheres, discutiam-se escândalos,
    desvendavam-se segredos, tal e qual como em todas as redacções… Mas da
    Maricas ninguém tinha que dizer senão bem; era a privilegiada naquelas
    sessões de má língua. Quase sempre a conversa degenerava em
    algazarra–um que se lembrava de cantar, outro que ia pela guitarra e
    gemia fados com acompanhamento de violão. E era de ver o Santos Melo,
    de olhos cerrados e cabeça à banda, como cantava a sua quadra predilecta:

    Sei cantigas misteriosas,
    Cantigas de endoidecer,
    Que os lírios dizem às rosas,
    Que as rosas me vêm dizer.

    Mas no meio desta inferneira havia sempre um que recomendava silêncio.

    «Com mil demónios! não viam que a Maricas não podia pregar olho…»

    Todavia…–ó suprema bondade!–…ela nunca se queixava quando no dia
    seguinte nos vinha dizer até que horas durara a estroinice, o que se
    tinha tocado, o que se cantara, quem tinha rido mais, e, até, as vezes
    que as cadeiras tinham caído.

    «Ora viam?! Não a tínhamos deixado dormir! A Maricas que desculpasse;
    palavra de honra! doravante…»

    Ela então acudia logo, como a remediar uma grande desgraça:

    –Não, não, eu até gosto. Entretém-me vê-los alegres, faz-me bem, ora
    essa…

    * * * * *

    Pois, meus amigos, a boa da Maricas–morreu! vocês não sabiam! E morreu
    tísica, a desgraçada Maricas! Só depois que o soube, é que eu comecei a
    pensar naquela tossezinha muito seca em que às vezes a
    surpreendíamos, naquele branco pálido das suas faces, no bistre das
    suas olheiras, naquela magreza transparente das suas mãozitas de
    marfim…

    Pobre Maricas!

    Haverá três meses que ela me desapareceu da sua janela, onde
    continuei a vê-la depois que o jornal acabou. Eu sabia lá para onde ela
    tinha ido?!…

    Mal diria eu que estavas no cemitério, tão longe e tão só! porventura na
    vala comum, sem umas folhas de rosa sobre a tua sepultura
    humilde,–onde neste instante cai chuva e chuva! Ainda se as noites
    fossem todas de luar… Minha triste amiga! como eu agora relembro cheio
    de mágoa a tua frase de infinita bondade e de infinita resignação:

    –…«Entretém-me vê-los alegres, até me faz bem»…

    Compreendo agora tudo: vivias da nossa alegria, já que a tua alma era
    triste… Mas porque foi que nos não disseste, pobrezinha! que nessa
    frase singela ia a revelação do pressentimento que tinhas da tua morte
    prematura?! Triste criança que nós não mais veremos!

    * * * * *

    Olha, Maricas, escrevi quatro tiras. Já me não dizes–_bravo_!–ora
    não?…

    * * * * *

    …Bom Deus! bom Deus! para que a terra produza diamantes, e dela
    rebentem flores, são talvez precisos estes corpos a avigorar-lhe as
    seivas…

    II

    PARA A ESCOLA

    No velho casarão do convento é que era a aula. Aula de primeiras
    letras. A porta lá estava, amarela com fortes pinceladas vermelhas, ao
    cima da grande escadaria de pedra, tão suave que era um regalo subi-la.
    Obra de frades, os senhores calculam… Já tinha principiado a aula
    quando a Helena entrou comigo pela mão. Fez-se um silêncio nas
    bancadas, onde os rapazes mastigavam as suas lições e a sua tabuada,
    num ritmo cadenciado e monótono, cantarolando. E ouviu-se então a voz
    da Helena dizer para o senhor professor, um de óculos e cara rapada,
    falripas brancas por baixo do lenço vermelho, atado em nó sobre a testa:

    –Muito bons-dias. Lá de casa mandam dizer que aqui está a
    encomendinha.

    Oh! oh! a encomendinha era eu, que ia pela primeira vez à escola. Ali
    estava a encomendinha!

    –Está bem, que fica entregue. E lá em casa como vão?

    E enquanto o velho professor me tomava sobre os joelhos, a Helena
    enfiava-me no braço o cordão da saquinha vermelha, com borlas, onde ia
    metido nem eu sabia o quê. Meu pai é que lá sabia… E ali estava eu
    entre os joelhos do senhor professor, com o _bonnet_ numa das mãos e a
    saquinha vermelha na outra, muito comprometido. A Helena, que sorria
    contrafeita, baixou-se para me dar um beijo, e disse-me adeus.

    –Adeus, Josezinho, logo venho cá pelo menino.

    Choraminguei, quis sair na companhia dela.

    –Não, agora o menino fica–disse-me a Helena.–Isto aqui é a escola, é
    onde se aprende a ler.–E agachando-se, diante de mim:–Olhe tanto
    menino, vê?

    –Mas fica tu também–disse-lhe eu então.

    Nas bancadas houve hilaridade geral. O mestre teve de intervir,
    iracundo:

    –Caluda, sua canalha! Não vêem que está gente de fora? Caluda, que vai
    tudo raso com bolaria!

    Foi então que reparei em toda aquela rapaziada. Ah, eles eram todos
    meus conhecidos! Vivam lá vocês! E estavam todos alegres, p'los modos.
    Reanimei-me. Então já eu podia ficar, estavam ali os meus amigalhotes,
    cheguei mesmo a rir das caretas que me faziam alguns, o Estêvão
    principalmente.

    –Isto é preciso muita paciência, senhora Helena, muita soma de
    paciência. Um mestre precisa de ser um santo.–(Pausa. Olho duro sobre
    as bancadas.)–Mas está bem, diga lá que a encomendinha cá fica. Em boa
    hora entrasse…

    –Entrou, ele há-de estudar. Ora há-de, Josezinho?

    Das bancadas alguns acenavam-me que não, arregalando muito os olhos.

    –É verdade,–insistiu por sua vez o professor–o menino há-de estudar
    as suas lições, não é assim?

    –Diga, sim senhor–ensinou-me então a Helena.–Hei-de estudar muito e
    ser sossegadinho na aula, diga.–E a meia voz para o professor:–isto em
    casa é o vivo mafarrico; faz lá ideia?

    Ele riu, já sabia; as crianças são todas assim, enquanto estão no mimo
    das mães. Mas uma vez metidas na escola, as coisas mudavam um pouco. E
    piscando o olho, designou a palmatória. A Helena ficou transida.

    –Faz milagres, Sr.^a Helena. Digam lá o que disserem, olhe que faz
    milagres.

    Eu tinha percebido. Começava de novo a _embezerrar_, com vontade de sair
    quando a Helena saísse. Aquilo sabia eu para que servia, a
    palmatória…

    –Mas para o nosso Zezito não há-de ser precisa, ora não?

    –Diga assim: não senhor, porque eu hei-de cumprir com as minhas
    obrigações, diga.

    –Ora aí é que está–atalhou o professor.–Vê, Sr.^a Helena? Aqui já os
    pequenos têm a sua obrigaçãozinha, os seus deveres a cumprir, as suas
    coisas…

    –Sim senhor, sim, enquanto que em casa…

    –Em casa é o que nós sabemos. Tudo são mimos, meu menino isto, meu
    menino aquilo. Vão assim criados à lei da natureza, sabe vossemecê? É
    mau isso, péssimo! Porque é que os rapazes são todos teimosos?–E bateu
    num «Monteverde» pousado sobre a mesa, dizendo:–Olhe, aqui está neste
    livro: «_de pequenino_…

    –…_é que se torce o pepino_»–concluiu rápida a Helena, orgulhosa de
    saber o que estava no livro, coitada!

    –Nem mais. A modos que isto faz rir. Um pepino é uma coisa que se cria
    na horta…

    Risota dos rapazes!

    –Ora vê isto, Sr.^a Helena? vê estes brutinhos?–E com entono, de
    palmatória alta, fazendo-se carrancudo:

    –Caluda, seus fedelhos! Caluda, porque se peço licença à Sr.^a Helena,
    começo numa ponta e levo tudo a eito, corro tudo a bolos, tudo, mas o
    que se chama tudo!

    E fitou-os altivo, sereno, minaz. Sob aquela ameaça, os rapazes ficaram
    transidos, cabisbaixos, olhos pregados nos livros. É verdade que ele
    podia pedir licença à Sr.^a Helena, e mesmo diante dela _cascar_ de
    rijo… Uma sombra de terror passou por toda a sala, sossegaram; até o
    Estêvão deixou de me fazer caretas.

    –É o que vê, Sr.^a Helena–disse então vitorioso, a sorrir-se, o bom
    do professor.–É o que vê! Um mestre sem palmatória é um artista sem
    ferramenta, não faz nada. _Santa Luzia_ milagrosa! Aqui onde a vê tem
    feito muitos doutores.

    –Essa?–perguntou ingenuamente a Helena, disposta a venerar aquele
    pedaço de pau de buxo, se na verdade ele tivesse feito muitos doutores.

    –Não, mulher, se não foi esta, outras como esta, essa é boa! Isso não
    faz ao caso.

    Pela resposta bem se vê que foi indiscreta a pergunta da pobre Helena.
    Também ele, velho naquele ofício, muitas vezes investigara com mágoa
    o motivo por que a sua palmatória não fazia um único doutor… Morreria
    sem ter essa «glória,» decerto! Forte martírio que a Helena veio
    recordar-lhe!…

    Houve uma interrupção, um rapaz que se levantou e de braço no ar pedia
    para ir lá fora.

    –_Licéte_!–foi como ele disse, arremedando o latim _licet_. Outros
    havia que diziam, por troça, _Aniceto_!

    –Ora já a mim me admirava,–tornou-lhe o professor.–Se tu não havias
    de pedir para ir lá fora, tu…–E ficou-se a fitá-lo, meneando
    pausadamente a cabeça.–Ora vá você lá fora.

    O rapaz saiu apressado, com grande estrupido de pés.

    –Olá?–chamou zangado o Sr. professor.

    O outro assomou à porta, contrafeito.

    –Para a outra vez faz-se menos barulho com esses pés, ouviu? Não sei se
    percebes… Ora já que tem tanta pressa, eu não tenho nenhuma; faça
    favor de esperar um pouco.

    Pôs-se então a correr a vista pelas bancadas, resmungando:

    –Tu não… tu não… tu não… Tu, olá, venha cá!

    Levantaram-se uns poucos, foi um barulho.

    –Canalha!–gritou-lhes então, batendo o pé.–Corja de atrevidos!
    Sentados, já!

    Grande silêncio nas bancadas. Um perguntou de lá, humilde, se era ele,
    apontando para o peito.

    –Sim, és tu, p'ra que queres os olhos? Avance e perfile-se.

    Mediu-o de alto a baixo. Depois:

    –Isso mesmo. Essa mão no bolso é que não é do _regulamento_, fora com
    ela. Agora, sim senhor. Ora vês além aquele sujeito? o tal das
    pressas?…

    –Vejo, sim senhor.

    –Bem sei que vês, se o não vissem é porque eras cego; que tal está o
    palerma? Ora acompanhe-o, já sabe p'ra quê. E sempre quero ver se tenho
    de vos ir lá buscar pelas orelhas.

    Saíram. Mal tinham salvado a porta, gritou-lhes o Sr. professor:

    –Olá?

    Eles assomaram, outra vez, atrapalhados.

    –Então, seus cabeças de avelã, torres de vento, então não falta nada?

    Os dois puseram-se a coçar a cabeça, muito comprometidos. Faltava com
    efeito alguma coisa…

    –Então é aí?

    Eles avançaram até ao meio da sala, tropeçando um no outro.

    –Ora passa por esta vez, em atenção a estar aqui a Sr.^a Helena.–E
    enrugando o sobrolho, comandou em tom marcial:–Ordinário! marche!

    Faltava aquilo. Em obediência aos seus velhos hábitos de militar, dava
    o Sr. professor aquela voz, sempre que mandava algum aluno cumprir
    ordens suas:

    –Ordinário! marche!

    Sentou-me então no joelho e perguntou:

    –Olha lá, Josezinho, tu queres ser militar, queres? Assim como o Sr.
    capitão do destacamento, que lá está aboletado em casa, queres?

    –Corneta, mais queria ser corneta. Ou então como o Sr. prior, dizer
    missas.

    Riram-se. Quem sabia lá o que dali sairia? Mas o Sr. professor fez
    notar que era bom que os pequenos tivessem já assim uma tendência
    qualquer. E pôs-se a puxar-me o nariz, a dar-me palmadinhas nas
    bochechas.

    –Corneta ou prior, hein? Pois isso é que é preciso escolher.–E para a
    Helena:–Pois olhe que os tenho conhecido, Sr.^a Helena, que respondem a
    pés juntos que não querem ser nada. Mau sinal, péssimo, Sr.^a Helena!
    Quando eles assim dizem, de ordinário assim fazem, depois. Nunca são
    gente.–E virando-se para mim:–Mas então, Josezinho, em que ficamos?
    Corneta ou prior?

    Preferia ser prior. Sempre me parecia melhor, mais bonito, especialmente
    em dias de festa, com aquela capa toda doirada…

    –Muito bem, escolheste bem. «_Telha de igreja_…

    –…_sempre goteja_»–concluiu a Helena que ainda hoje é forte em
    adágios.

    O bom do professor tinha finalmente chegado onde queria.

    –Prior, então! Está muito bem, seu reverendo. Pois olha, Josezinho,
    para ser prior é preciso estudar, saber ler no missal, ora é?

    –É.

    –Ah!… Não é assim que se diz. É, sim senhor–emendou a Helena.

    O Sr. professor teve um gesto de indulgência.

    –Mas tu não sabes ainda, ora não?

    –Não senhor.

    Ele então, fingindo uma grande surpresa, perguntou se o que eu trazia
    na saca era um livro.

    –Querem ver que é um livro?…

    –Diga–ensinou a Helena–é o meu livro para aprender a ler. Mostre-o lá
    ao Sr. professor, tome.

    Houve na sala um murmúrio, ao verem a capinha verde, toda lustrosa, do
    meu livro.

    –Muito bem! muito bem!–aplaudiu o Sr. professor.–Mas este livro é
    mesmo para aprender a prior… O menino já tinha dito lá em casa que
    queria ser prior, ora já?

    Fiz que sim com a cabeça. Era verdade aquilo; mas como é que ele o
    sabia?

    –Bem se vê por este livro. É livro para prior. Queres então principiar,
    não queres?

    –Quero, sim senhor,–ensinou ainda a Helena e eu repeti.–O que eu
    quero é dizer missa quanto mais cedo melhor, diga.

    –Primeiro do que aqueles?–perguntou voltando-me para as bancadas.

    Então fui eu mesmo que respondi:–«Sim senhor!»–contente com a
    lembrança de vir a dizer missa, e de a vir a dizer primeiro do que todos
    aqueles. Até podia acontecer que o Estêvão das caretas me ajudasse a
    alguma…

    –Ora então está muito bem, estamos entendidos.–E com intenção, ferindo
    muito as palavras, para mas gravar no espírito:–A primeira coisa que é
    precisa para prior é saber bem isto, vês?–E punha-me diante dos olhos o
    livro aberto na primeira página.–Isto aqui é já missa, chama-se o _a b
    c_, e é aquilo que os priores dizem quando vão para o altar.

    –_Ito_?–inquiri curioso, furando a página com o dedo.

    –Sim, isto. E amanha já me hás-de trazer sabido daqui até ali. Hein?
    valeu?

    –Diga que sim, menino, diga. Valeu, sim senhor.

    Eram as seis primeiras letras, ainda me lembro bem. A minha primeira
    lição!

    _A B C D E F_!

    A minha primeira lição!

    –Ora sabe vossemecê o que isto é, Sr.^a Helena? isto que eu tenho
    estado a fazer?

    –Sim senhor, sei… é assim… como quem diz… é…

    –Não sabe, não admira,–disse complacente o Sr. professor.–Puxar o
    gosto, Sr.^a Helena, puxar o gosto é que isto é. Nem todos os mestres o
    fazem, todos o deviam fazer. O pequeno, assim, até já vai estudar com
    mais gosto, digo-lho eu; olé se vai!

    «Mas ele não a queria demorar mais, tinha lá em casa as suas
    obrigações, as suas voltas, e deviam ser horas.»

    –Pois isso é verdade, Sr. professor; mas não sei que é, custa-me a
    separar do menino…–disse a boa da Helena, quase a chorar.

    –Foi ama, deu-lhe o seu leite, aí é que está a coisa. Pois tenha
    paciência. Aprender é tão preciso como mamar–concluiu numa prosa que é
    mesmo poesia.

    –Pois é preciso, é!…

    E a pobre Helena beijou-me, para se ir embora. Quando me beijou, senti
    na minha cara as lágrimas daquela boa amiga. Retirava-se, deixando-me
    ainda sobre o joelho do meu velho professor, quando este a chamou:

    –Sr.^a Helena!

    –Meu senhor!–respondeu, levando aos olhos o avental.

    –Já agora, espere mais um instante.

    Percorreu com a vista, minuciosamente, as bancadas todas da aula.
    Depois, intimou:

    –Tu, Francisco, olá, chega acima. E tu do lado, como te chamas, abaixo
    um pouco.–E virando-se para a pobre mulher lacrimosa:–Ora é ali,
    Sr.^a Helena, ali é que é o lugar do pequeno. Leve-o lá, ande, que lhe
    não deve pesar.

    E dos braços do meu professor passei para os braços da ama. Novo beijo,
    lágrimas mais quentes, e saiu a boa da Helena, deixando-me no meu
    lugar…–o meu primeiro posto na arriscada milícia das letras…

    Depois, só vi isto: o mestre a sorrir-se para a porta e a conversar por
    acenos com a pessoa que estava de fora. Pequeno como era, percebi, no
    entanto. O mestre vinha a dizer na sua mímica:

    –Bolos?… Não?!… Perdoe a Sr.^a Helena, mas isso, quando forem
    precisos… Pois sim… lá isso sim… pequeninos… Han? mesmo com a
    mão?… Está bem… Descanse… Mesmo com a mão…

    E ela devia sorrir por entre lágrimas, porque foi também por entre
    lágrimas que o bom velho se sorriu, dizendo adeus…

    * * * * *

    …Helena, minha boa amiga! Acabo de chegar ao fim da viagem que
    principiei nesse dia. Não volto mais à escola! Venho hoje restituir-te,
    querida amiga, aquele beijo–dulcíssimo beijo aquele!–que tu então me
    deste. E afinal não fui prior, ora vê!… Mas ainda bem. Se o fosse,
    acho que parecia mal beijar-te, minha boa e santa amiga! Pois ainda bem
    que não fui prior, ainda bem… Não é verdade, Helena?

    Em Coimbra, no dia do meu acto de formatura.

    TRAGÉDIA RÚSTICA

    I

    _Madrugada de segunda-feira de Entrudo, tapada dos Nobres, Alentejo, à
    porta do José Grilo_

    Truz! truz! truz!

    Os de casa acordaram, sobressaltados.

    –Schiu! nem pio!–fez o José Grilo para a mulher.–Moita!

    –Truz! truz! truz!

    Do seu cubículo, a Ana, filha do José Grilo, pôs-se a chamar pelo
    pai.–Bem ouvia, que deixasse bater. Algum bruto que se queria
    divertir…

    Mas logo outra vez na porta:

    –Truz! truz!

    –Arre que é bruto! vá bater ao inferno, quem é! gritou de dentro o José
    Grilo, zangado. E pois que se pôs à coca, de orelha fita, olhos
    cravados na telha-vã do casebre, sentiu distintamente os passos de
    alguém que fugia.

    –Eu não te disse? aquilo foi bruto que se quis divertir–explicou ele
    para a mulher.

    Mas palavras não eram ditas, pareceu-lhe ouvir o vagir de um
    cachorrinho, mesmo rente à porta. Veio-lhe logo à ideia que lhe tinham
    vindo pôr zorro…

    –Ó mulher, queres tu ver que há novidade?

    De um pulo saltou da cama, embrulhou-se na manta e abriu a porta do
    casebre.

    –Ele que demónio de embrulho…?

    Pegou-lhe com muito jeito. Era efectivamente uma criança, envolta em
    dois trapinhos muito velhos.

    –Coitadinho! fez o ganhão achegando ao peito a criancinha.

    –Grandes cadelas!–E pôs-se logo a fazer uma algazarra, alarmando a
    gente da casa.

    –Andem! a pé! levantem-se! está aqui este inocentinho que vem dar os
    Bons-dias à gente!

    Correu a filha, veio a mulher. Mas ao tempo, já o bom do José Grilo
    metera a criança na cama, visto que a pobrezinha estava gelada…

    –Ele quem diabo há por aí que tenha leite? A filha do António das
    Varedas, é verdade, a Brites que lhe morreu o cachopo.

    Despediu imediatamente a filha, a Ana, à procura da Brites que
    chegasse o peito ao inocentinho. E da porta, gritando para a rapariga
    que ia correndo:

    –Que se não demore, ouves? que se lhe paga aquilo que for.

    Mas a mulher do José Grilo, a senhora Joana, de pé no meio da casa, a
    saia amarela deitada pela cabeça, de braços cruzados, muito
    embezerrada, permanecia sem dizer palavra.

    –Ó mulher, nada de aflições, é tal e qual como se fosse nosso, faz de
    conta…–observou-lhe logo o José Grilo que percebia o ar taciturno da
    fêmea.

    Ela só redarguiu que _nosso_ era um modo de falar. Seria dele, mais
    de qualquer desavergonhada…

    O José Grilo, que estava a enfiar as calças, parou no serviço e
    pregou-lhe uma gargalhada.

    –Ajeita-me o pequeno, ouves? Vê lá que talvez esteja molhado. E
    deixa-te de cantigas, que hoje é dia de Entrudo.

    A mulher ia reguingar; mas ele, pegando-lhe de um braço, levou-a ao pé
    da criança, afirmando-lhe às risadas que sim, que o pequeno era filho
    dele.

    –O pequeno?… mas é que pode ser cachopa–disse o José Grilo para a
    mulher.–E certificando-se:–Nada! é rapaz.

    Seguiu-se uma altercação. A senhora Joana, a chorar, ia jurando pela
    sua salvação que «o crianço» era filho do seu homem.

    –Ai Jesus que estou perdida! chamava ela muito cómica, braços no ar, o
    balandrau da saia amarela enfiado pelo pescoço num jeito de
    sobrepeliz.–Má hora em que me eu casei! ai Jesus que vai ser de mim!

    –Olha que é rapaz, ouves? anda cá ver que é rapaz–disse-lhe de lá o
    José Grilo, muito fleumático, debruçado sobre a criança.

    Mas como visse que a mulher continuava num estardalhaço, muito
    aflita, desaustinada pelos cantos da casa, o José Grilo virou-se para
    ela e disse-lhe muito solene:

    –Pois assim me Deus salve como não é meu o rapaz.

    Ao ouvir assim falar o seu José, a senhora Joana voltou-se logo para
    ele, olhos esbugalhados, muito suspensa.

    –Juras pelas cinco chagas, ó homem?

    –Juro pelas cinco chagas.

    –Assim te Deus dê saúde, ó José?

    –Assim me Deus dê saúde.

    –Preto sejas tu como o teu chapéu?

    –Preto seja eu como o meu chapéu.

    A senhora Joana botou-se logo a correr para um canto da casa, e abrindo
    a arca de pinho, do bragal, entrou aos beijos a uma Nossa Senhora da
    Conceição, pegada na face interna da tampa, com bocadinhos de hóstia.

    Depois desabafou, muito aliviada:

    –Ai!

    O José Grilo pôs-se a rir.–«O demónio da Joana, com ciúmes!»

    –Mas ciúmes de quê, ó mulher? não farás favor de me dizer de que diabo
    tens tu ciúmes?–perguntava muito casto o amigo José Grilo, sereníssimo
    diante da mulher desconfiada.

    A outra, muito delambida, redarguiu com ironia–«que o seu homem era um
    santinho…»–O José Grilo ia defender-se. Mas ela, atalhando logo,
    reguingou de alto:

    –Sabes tu que mais? estafermos é o que mais há. Olha a cadela que
    enjeitou este…

    Aqui, fez uma suspensão; depois perguntou, muito lampeira:

    –Mas quem seria a grande cadela?

    Pôs-se então a mirar muito o pequeno, a ver se lhe dava ares de alguém,
    murmurando frases de ódio, moralistas:

    –Precisava ser enforcada, a tua mãe; quem quer que é tem mesmo
    entranhas de lobo.

    O pequenino entrou a vagir, muito friorento, embrulhado numa camisa do
    José Grilo.

    –É fome, coitadinho! o infeliz inda não sabe que coisa é mamar–disse
    contristado o lavrador.

    Foi-se logo à porta, a ver se a Brites chegava. Mas quem vinha com a
    Ana era a outra, a Doroteia do António das Veredas.

    –Tua irmã, tua irmã é que se cá precisava. Que demónio vens tu cá
    fazer? Ouves? não me dirás que diabo vens tu cá fazer?–E deu um bofetão
    na filha, «para que soubesse dar o recado».

    A Doroteia pôs-se a explicar que a rapariga não tinha culpa. A irmã é
    que a mandara para levar a criança, porque ela, adoentada, fazia-lhe
    mal sair de casa assim cedo…

    –Só se lhe queres tu dar de mamar–insistiu ainda o José Grilo, virado
    para a Doroteia, irreverente pelos seus dezanove anos inda virgens.

    A senhora Joana fez-lhe de dentro que se calasse:

    –Credo, homem! essas coisas não se dizem, nem por graça.

    –Eu sei lá se não se dizem?–observou o lavrador, muito zangado.–Dá cá
    daí o pequeno.

    Veio a senhora Joana com o embrulhinho, que entregou ao José Grilo. O
    lavrador depô-lo nos braços da Doroteia, com mil cuidados, e depois
    ele mesmo ajudou as mulheres a ajeitar o pequenino, em termos que fosse
    bem quente.

    –Roda forte, ouves? E diz lá a tua mãe que eu de tarde por lá apareço,
    p'ra ver isto do ajuste.

    A rapariga saiu. E como o lavrador desse fé que tinham ali ficado os
    farrapos, gritou para a rapariga:

    –Ó D'roteia! espera que inda cá ficou isto.

    Então pôs-lhe os farrapos ao ombro–uns pedaços miseráveis de velha
    chita–e a Doroteia partiu onde à irmã.

    II

    _Quarta-feira anterior a Domingo Gordo. Monte do Rosário. Em casa de
    António Palma, casado com Rufina Maria_

    O António Palma tinha acabado de jantar, rodeado da pequenada. A mulher,
    a Rufina, principiava a lavar a loiça, quando à grade do quinchoso uma
    voz chamou:

    –Ó Sr.^a Rufina!

    Vieram os pequenos, veio o António Palma, a mulher com as mãos
    fumegantes. Foi preciso fazer calar o _Farrusco_ para se poder ouvir o
    que dizia aquela mulher que lhes estava falando do caminho.

    –Queria-lhe uma palavrinha, a si mais ao seu homem.

    O Palma foi abrir o cancelório. E foi com grande desgosto que deu de
    cara com a Francisca Fortunata, de grande ventre alçado, uma
    desavergonhada que tinha fugido ao marido, o José Tomás negociante de
    gado. Entrou, fizeram-lhe uma recepção fria. Os próprios pequenos
    olhavam desconfiados e silenciosos aquela grande mulher gorda que eles
    não conheciam. Ela sentou-se logo num saco, muito esfalfada, enquanto
    o Palma e a mulher afectavam procurar ambos um banco, acotovelando-se,
    com trejeitos de quem se sentia arreliado com a visita. O _Farrusco_
    investiu com a mulher, achando-a estranha; mas uma vez enxotado com o
    pontapé do Palma, fez-se na casa um grande silêncio, e a mulher começou
    assim:

    –Venho pedir por caridade e esmola que me deixem aqui estar uns dias.
    Já vêem como eu ando, isto deve estar por pouco. Logo que tenha o meu
    filho, em arribando da quebreira do parto, deixo-os e vou-me embora. Lá
    em casa de minha mãe aquilo é uma grande miséria, passam-se dias que
    não comemos. Não há uma cama, a gente dorme sobre umas palhas, sem
    jeitos de roupa com que se cubra. Mas eu ando neste estado, bem vêem
    como eu ando…

    Aqui desatou a chorar, levando aos olhos o avental miserável. O Palma e
    a mulher diziam não sei que monossílabos, o _Farrusco_ rosnava. A outra
    prosseguiu:

    –Não é por mim, sabem? não é por mim. É este inocentinho que tem de
    nascer no chão, como os cães… Bem sabem que isto custa. Pouco se me
    dava de morrer, afinal, mas queria que o meu filho vivesse…
    Coitadinho!

    Ergueu-se num ímpeto, depois caiu de joelhos, mãos erguidas para o
    Palma e para a mulher.

    –Pelas cinco chagas de Nosso Senhor! exclamou.

    O Palma fez para a mulher um gesto resignado e de lástima. Cada um de
    seu lado, ajudaram-na a levantar-se, dizendo-lhe submissamente que tudo
    se havia de arranjar, que sossegasse.

    –Que a falar os pontos de verdade, Sr.^a Fortunata, vossemecê é que
    tem a culpa desses trabalhos, disse-lhe logo o Palma.

    Ela escondeu a cara no avental, fazendo-lhe com a mão que se calasse.

    –Má sorte daquele pobre José Tomás, acabou-se! Quando ele casou com
    vossemecê antes tivesse quebrado uma perna.

    Ela chorava cada vez mais, parecendo muito aflita.

    –Agora aí o tem, anda por esses caminhos que parece doido. Nem gado,
    nem o diabo. Des'que vossemecê alvorou que o rapaz não vai a uma feira.
    Pois olhe que era homem para juntar, videiro como poucos.

    Pôs-se a fazer um cigarro, olhando os pequenos atónitos. Depois
    continuou:

    –Esteve aqui um destes dias, por sinal que sentado nesse mesmo
    saco…

    A Fortunata levantou-se num ímpeto, como se o saco a repelisse. O
    Palma prosseguiu:

    –Sente-se vossemecê, mulher, o saco não faz ao caso. Pois foi aí
    mesmo que ele esteve, até parecia um pobre de pedir. Nem botões na
    camisa, coitado! Mas pela conversa bem se vê que inda lhe não quer mal.
    Que a bem dizer ele quase não conversa, anda a modos que amalucado,
    sempre a levar a mão à cabeça, como se lá dentro aquilo andasse azoado.
    E mais é que bem pode o rapaz dar em doido…

    A senhora Rufina foi de parecer que doido já ele andava. Passavam-se
    dias que não aparecia em casa do tio José Garção, que o levara logo
    para ele, mal a Sr.^a Fortunata o deixara. Por onde andava? que fazia?
    Contava-se que uma noite dormira numa coutada, no mesmo telheiro que os
    porcos. Que doutra vez fora ter com o vigário para que lhe baptizasse o
    filho, dizendo que já tinha nascido.

    –No filho inda ele aqui se pôs a falar, lembrou o Palma.–Anda com
    ela ferrada que o filho já nasceu.

    Aqui, a Fortunata, de pé junto à porta, rompeu numa choradeira, ouvindo
    falar no filho. O Palma interveio, condoído, dizendo que se não
    afligisse, que o filho sempre teria uma caminha onde nascesse.

    Ela ia ajoelhar, o Palma não deixou.

    –Não é por vossemecê, mulher, assim me Deus salve como não é por
    vossemecê. Mas é que o inocentinho que aí traz esse é que não tem
    culpa. Faço de conta que é o pai que me pede, o pobre José Tomás.
    Vossemecê bem sabe que eu era amigo do José Tomás. Diabo! a gente já
    diz _era_, já fala nele como se o pobre tivesse morrido…

    Nisto vieram chamar o Palma, que no lameiro ali em baixo andavam uns
    bois que não eram dele. Foi-se a buscar um marmeleiro, e depois,
    quando já ia para sair, disse em resumo:

    –Fique vossemecê então, Sr.^a Fortunata. Ouves, Rufina? Talvez que ela
    inda não jantasse. Faz-lhe a cama lá dentro, e o resto arranjem-se.

    Caso é que a Maria Fortunata, amanhecendo para Domingo Gordo, desentupiu
    e teve um filho. Mas nem sequer o tinha ainda beijado, nem lhe tinha
    feito uma carícia, quando por volta do meio-dia a avó do pequeno ali
    chegou, vinda de longe. O Palma que estava no quinchoso, a dar a bolota
    aos cevados, ficou espantado:

    –Pois senhores! havia de jurar que você adivinha, Sr.^a Ana!

    Ela, sem mais rodeios, perguntou se a criança já tinha nascido.

    –Já nasceu, sim senhora, vá lá dentro se a quer ver. Venha daí.

    Mas iam ainda à porta, quando a velha, filando o braço do Palma, lhe
    perguntou num sobressalto:

    –Vivo ou morto, Sr. António?

    O Palma percebeu. O estafermo da velha queria que a criança nascesse
    morta. Aquilo fez-lhe nojo, deram-lhe ganas de correr a mulher a
    pontapés. Conteve-se. Mas todo ele vibrou de cólera, quando em presença
    do pequenino a velha, sem o beijar, perguntou o que se lhe havia de
    fazer.

    O Palma, furioso, repeliu a mulher com desprezo. E como ela insistisse
    com a pergunta: «que se há-de agora fazer a isto?» ele redarguiu,
    irado;

    –Dar-lhe de mamar, está bem visto. Inda você pergunta o que se há-de
    fazer à criança. Talvez você queira que o pequeno vá já cavar…

    A velha ia falar.

    –Nem pio, seu estafermo! Que tal é o amor que você lhe tem, que inda
    nem sequer a beijou. Nem a mãe o beijou ainda, coitadinho! Você já viu
    uma cadela quando tem os filhos, já viu? Com mil diabos, qualquer
    cadela vale mais que vocês duas.

    O Palma ia-se pondo amarelo, a Sr.^a Rufina interveio, aconselhando-o a
    que saísse.

    –Saio, e vou-me embora, ouviste? Ouviste? Aparelho a égua e vou-me de
    véspera até à feira.

    Pôs-se a procurar pelos cantos, aqui os estribos, além o freio da égua.

    –Tanto faz ir amanhã cedo, como ir já agora. É já de cara. Mete-me
    qualquer coisa nos alforges, que vou já aparelhar a égua.

    Daí a meia hora, o Palma montava à porta, no meio do rancho dos
    cevados, e chamando a mulher dizia-lhe com má cara:

    –Em estando capaz, rua!

    –Daqui a três dias, talvez…

    –Então até daqui a quatro. Ouves? E olha se defumas a casa, quando
    esses estafermos saírem.

    Ora o António Palma a virar costas, e a velha a sair porta fora–com o
    embrulhinho do neto ao colo…

    Como ela corre, a maldita! Parece que o leva roubado…

    Onde passou ela o dia? Onde passou ela a noite? Não sei. Caso é que na
    madrugada seguinte, a desavergonhada abandonava o pequenino à porta do
    José Grilo.

    Madrugada de Fevereiro, nevava…

    III

    Quando a Doroteia saiu com o pequeno, para o levar à irmã, tinha
    amanhecido havia pouco. A neve cessara; mas um nordeste frigidíssimo
    retalhava a cara da rapariga, encolhida sob aquela atmosfera de gelo.
    Nunca o souto que ia atravessando lhe parecera tão comprido e tão
    triste. Os grandes castanheiros despidos, cheios de neve até ao alto,
    faziam-lhe mais viva e mais cortante aquela impressão de frio. O chão
    estava coberto de neve; e lá em cima, muito alto, o céu muito azul
    anunciava um dia de sol.

    A rapariga ia triste. Dir-se-ia que a tristeza lhe nascia toda
    daquele lado em contacto com o pequenino…

    Por isso quando passou pela azenha, e que a mulher do Paulo lhe
    perguntou o que levava ali, erguendo a voz sobre o ruído forte da
    levada, a rapariga entrou de chorar e respondeu que era um enjeitadinho.

    –Um quê, mulher? que dizes tu? insistiu a outra.

    Mas o moleiro, que vinha chegando, especou diante da mulher, e repetiu
    como um eco:

    –…Um enjeitadinho.

    Entreolharam-se os três, numa incerteza vaga.

    –Sim, um enjeitadinho, deve ser isso…–continuou o moleiro.–E
    daí… pode ser que não seja…

    A rapariga, muito impaciente, perguntou se sabiam alguma coisa.

    –Nada! pode ser que a história seja outra–elucidou o moleiro.–Onde
    foi que isso foi posto?

    –Esta madrugada, à porta do José Grilo.

    –Olá! isso então pode ser coisa dele–observou a rir o moleiro.–Esse
    diabo não é seguro.

    Puseram-se a rir da lembrança. Já dentro do moinho, o homem pôs-se a
    explicar à rapariga:

    –É que ontem à noite veio aqui um homem pedir pousada, um homem a
    modos que adoidado. Boa figura de homem, por sinal. Assim às primeiras,
    tanto eu como a Luísa tivemos o nosso medo…

    –Ó Doroteia! interrompeu a mulher do moleiro, dá cá o menino e
    senta-te. Vou-lhe dar de mamar, que o pobrezinho há-de ter fome.

    A Doroteia passou a criança para os braços da moleira. Foi uma alegria
    ao verem-no sugar no peito, minúsculo, com os olhitos inda fechados.

    –Meu rico anjinho, meu amor! A fome que o desgraçadinho tem! Quem seria
    a desavergonhada?…

    –Mas depois? inquiriu a Doroteia, voltando-se para o moleiro.

    –Depois, dormiu cá, aí lhe demos da ceia e aí ficou. Mas dá-se o caso
    que o homem não pregou olho em toda a noite, sempre a malucar, num
    falatório pegado. «Que o filho era dele, que se a cabra da mãe
    teimasse em o enjeitar, ele ia dar parte à justiça.» Um arrazoado
    assim, muito comprido.

    Espantada, a Doroteia ia falar.

    –Mas espera, que o melhor da festa é que o homem tão depressa dizia
    isto, como dizia que o filho já tinha nascido, que era muito lindo, que
    onde ele o tinha escondido ninguém lho ia roubar.

    Ficaram-se um instante a mirar consolados a criança.

    A pobrezinha vagia, mamando com sofreguidão.

    –Mas então sempre ele sabe do filho, reatou com interesse a
    Doroteia.–Ora! assim este enjeitadinho soubesse quem era o pai,
    coitadinho!

    A Sr.^a Luísa, que não gostara que se recolhesse o homem, resumiu com ar
    compungido:

    –Um doido, o pobre de Cristo! Deixá-lo ir!

    Fez-se um silêncio, mirando todos a criança. A taramela do moinho
    batia, num ritmo vivo. Maquiando uns sacos, o moleiro explicou ainda
    que o homem alvorara muito cedo, debaixo de neve, sem ao menos dizer
    obrigado. Mas que perguntando-lhe onde ia aquelas horas, o outro lhe
    respondera:–«Para a feira. Vender um gado.»

    –Ora vá lá o diabo entender isto!–rematou por fim o moleiro. Um doido
    a vender gado.

    Conversaram sobre o caso, algum tempo. Até que a Doroteia, com pressa
    por causa da irmã, pegou outra vez na criança e abalou pela porta fora,
    direita à casa do pai.

    –Olha os trapos, ó Doroteia! olha que deixas cá isto.–E o Paulo
    correu a levar à rapariga os trapos segunda vez esquecidos, e que eram
    todo o enxoval do triste pequenino…

    Ia mais contente, a Doroteia. Ao menos levava a certeza de que a
    criança não ia com fome. E para que também não fosse com frio, a boa da
    rapariga achegava ao peito o enjeitadinho, numa solicitude toda
    materna.

    –Louvado seja Deus! ia dizendo a rapariga. Como haverá gente que seja
    capaz destas crueldades! A nevar, e deixa-se assim um inocentinho,
    embrulhado em dois farrapos, na soleira de uma porta! Vamos que o José
    Grilo não dava fé! Ali se morria de frio o anjinho, capaz de virem
    depois os cães e comê-lo.

    E espreitando pela fenda estreita do xaile:

    –Meu anjinho! que ruim cadela que foi a tua mãe, ora foi?

    –Foi! rugiu uma voz detrás dela, como um eco.

    A Doroteia deitou a fugir, espavorida. Mas aquele homem que já de
    longe a acompanhava, sem ela dar fé, corria também atrás dela, e não
    tardou que a filasse, como um lobo. A rapariga soltou um grito, ia cair
    com o susto; mas valeu-lhe que nesse mesmo instante uma voz que ela
    conhecia gritou ali de perto:

    –Larga a rapariga, ó José Tomás! Larga a cachopa!

    E de um pulo, o pastor caiu entre os dois, separando-os.

    –É o José Tomás que está doido,–explicou o pastor.–Desde que a
    mulher lhe fugiu, que o pobre anda assim, coitado!

    Mas palavras não eram ditas, eis que o José Tomás de novo se arremessa
    à rapariga.

    –Tu que levas aí? Tu levas aí o meu filho!–rugiu ele com voz
    furiosa.

    E como se sentisse agarrado, e visse que acudia mais gente, o pobre
    lançou-se por terra, de joelhos sobre a neve, as mãos erguidas,
    impetrando a chorar que lhe dessem o seu filho…

    A Doroteia cobrou ânimo, ao ver-se rodeada de gente.

    E fez-se luz no seu espírito, quando reparou que os trapos do
    enjeitadinho eram reconhecidos pelo doido que os estava mirando, a
    rir-se…

    –Conheces? perguntou-lhe a rapariga.

    No êxtase em que caíra, mirando e remirando os farrapos, o doido não
    respondeu.

    –Se conheces isso? perguntaram-lhe uns poucos.

    Nem palavra. Nada a não ser um riso nervoso que o sacudia todo. Como
    estava de joelhos, quiseram levantá-lo; mas ele então opôs-se, caindo
    sobre os calcanhares.

    E ria… ria… enquanto dos olhos amortecidos, cravados no miserável
    farrapo, as lágrimas corriam, copiosas…

    Mas daí a pouco, pelas palavras soltas do doido, todos ficaram
    percebendo. Os farrapos que embrulhavam a criança eram da saia da mãe. A
    mãe era a mulher do José Tomás, e o pequenino era filho dele… A
    grande cadela tinha abandonado o pequeno, depois de ter fugido ao
    homem!

    –Um raio venha que a parta! rogou do lado o pastor.–Ora vês aí um
    estafermo que precisava que a matassem!

    O José Tomás pôs-se a rir muito, fitando aquela gente. Uma forte
    impressão de piedade estampava-se em todos os rostos.

    –Ó Doroteia! chamou então um dos do grupo. Traz aqui o menino. Um pai
    deve sempre beijar o seu filho. Traz cá o pequeno, ó rapariga.

    Mas não foi preciso; que o José Tomás, sempre de joelhos sobre a neve,
    foi para ela de mãos postas humilde como um rafeiro… E como aos
    lábios do pai a rapariga achegasse o pequenino, no silêncio que se fez
    ouvia-se o rir convulso do louco, beijando de joelhos o filho.

    Como se fora uma chuva de pétalas, do céu de madrepérola a neve caía
    mais densa…–ao mesmo tempo que nos ramos altos dos castanheiros, como
    no seio imenso de um órgão, o vento sul–gemia…

    ABYSSUS ABYSSUM…

    Nesse dia, os dois pequenitos tinham jurado que haviam de ir ao rio.
    Assim eles tivessem uma coisa boa!… Mas que tentação para ambos, o
    rio! Ainda lhes soavam aos ouvidos, com todo o seu entono vibrante de
    ameaça, aquelas terríveis palavras com que a mãe os intimidara, um dia
    que lhe apareceram em casa tarde e às más horas.

    –Ouvistes?–ralhara-lhes a mãe.–Olhai se ouvistes: se voltais ao rio,
    mato-vos com pancada. Andai lá…

    Ih! como ela dissera aquilo, Mãe Santíssima! Colérica, ameaçadora, com
    a mão em gume sobre as suas cabecitas loiras… Lembravam-se de haver
    tremido, cheios de susto, muito chegados um ao outro, humildes sob
    aquela ameaça terminante. E então, nesse dia, eles não tinham ido ao
    rio. Aos pássaros sim…–lá estavam as calças rotas do Manuel a
    dizê-lo–…aos pássaros é que eles tinham ido. Ao rio era bom! a mãe
    que o soubesse…

    Ah, mas então não os deixassem dormir naquele quarto. Logo de manhã,
    mal abriam as janelas, a primeira coisa que viam era o rio, uma
    corrente muito lisa e esverdeada, serpeando entre os renques baixos dos
    salgueiros. Lá estava a ponte velha, donde os rapazes se atiravam
    despidos, de cabeça para baixo, e então o barquinho branco do
    fidalgo,–lindo barquinho!–sempre à espera que o fidalgo o desamarrasse
    para passar à grande quinta que tinha na margem de lá.

    De modo que o primeiro desejo que logo pela manhã assaltava os dois
    rapazes era o de irem por ali abaixo, muito madrugadores, tão
    madrugadores como os melros, meterem-se dentro do barco, desprendê-lo
    da praia, e deixá-lo ir então por onde ele quisesse, contanto que fosse
    sempre para diante… Quando fechavam as janelas para se deitar, a sua
    vista seguia, mesmo através da escuridão da noite, a linha que ia dar ao
    barco. Era o seu–«adeus até amanhã!»–àquele pequeno objecto que valia
    tesouros, que para os dois valia mais que tudo, tudo…

    Ah! tivessem eles assim um barquinho, que não queriam mais nada…

    –Mais nada?

    –Isso não… mais alguma coisa. E a mãe que não ralhasse, está visto.

    Mas nessa manhã, bela manhã, na verdade! a mãe viera acordá-los mais
    cedo. Ia já pela aldeia um claro rumor de vida–gente que passava para
    os campos, os solavancos dos carros no empedrado péssimo da rua, os
    patos da vizinhança que saíam em rancho para a digressão pelos prados,
    grasnando ruidosamente, levantando-se em voos curtos, espantados da
    agressão acintosa dos rapazes. Havia mais de uma hora que ali perto
    se ouvia o retimtim agudo do martelo do ferrador atarracando cravos na
    bigorna. Já o reitor passara para a missa, em batina, muito hirto e
    vagaroso, as chaves da igreja na mão esquerda e na direita a cabacita do
    vinho. E àquela hora, onde iria já a missa! A última beata, encapuçada
    e lenta, recolhera, trazendo consigo a esteira em que ajoelhara na
    igreja. Havia mais de meia hora que o João carpinteiro, no meio da rua,
    dava com valentia num carro cujo eixo _ardera_ na véspera, e que era
    urgente compor, p'los modos. Até o Ernestinho do estanco abrira já a
    loja, e subira à varanda a regar os manjericos. Começos da labuta
    diária, enfim; os senhores sabem.

    Pois como lhes disse, a mãe viera nessa manhã acordar mais cedo os dois
    pequenos.

    –Fora, mandriões, vamos! É preciso afazerem-se a madrugar, que tal
    está! Ai, ai, dia claro há que tempos, vem aí o sol, e os morgadinhos
    na cama.–E enquanto falava, ia-lhes abrindo as janelas.–Persignar e
    vestir, vamos! Calças… colete… os jaquetões… tomem.

    E pôs-lhes tudo sobre a cama.

    –Mãe, a bênção!–balbuciaram os dois, tontos do sono ainda.

    –Deus os abençoe. Que Deus não abençoa mandriões, ouviram? Ora eu já
    volto. Queira Deus que não vos encontre cá fora, tendes que ver.

    Os dois sentaram-se na cama para se vestir, contrafeitos, fechando os
    olhos àquela hostilidade viva da luz que invadira o quarto num jacto
    repentino e brutal. Pela abertura larga da camisa assomava-lhes o peito
    que eles afagavam numa última carícia, suavemente, docemente. Seria
    tão bom tornar a adormecer, assim mesmo sentados! O mais novito ainda
    tentou deitar-se outra vez, pesaroso de ter de abandonar já o aconchego
    morno da cama, onde se estava tão bem! onde os sonhos eram tão lindos!

    Mas a mãe não tardava ali. Era preciso vestirem-se, que remédio! Foi
    então que o Manuel, mais esperto do sono, olhando para o campo o achou
    encantador, todo resplandecente de verduras.

    –Bonita manhã, não vês? As árvores parecem mais lindas, repara. Porque
    será?

    O outro encolheu os ombros, não sabia: só se fosse por não haver
    nuvens…

    Pela janela aberta, avistava-se um trecho de paisagem que a luz viva da
    manhã fazia muito nítida. As vinhas tinham um verde encantador, muito
    suave, trepando encosta acima, fazendo contraste com a rama escura das
    laranjeiras que cerravam alas nos pomares húmidos das baixas. Revestidos
    de folhagem, ascendiam ares fora os olmos gigantescos. Pedaços de horta
    estavam em toda a pompa do seu viço e da sua frescura. Viam-se as rodas
    das noras, latadas compridas a cuja sombra regalam as merendas.

    Um renque de choupos esguios marcava a borda do rio que nessa manhã
    deslizava muito sereno, esverdeado de águas, espelhante sob aquele céu
    imaculado.

    –Ah! ah!…–riu-se o Manuel, contemplando-o.–O rio! Que te parece?
    Olha que é lindo, o rio; ora é, ó António?

    –É, lá isso… Mas _tamém_ de que vale?–tornou-lhe com desalento o
    irmão.–A gente não pode lá ir… Olha se a mãe o soubesse, han?–E
    mirando por sua vez a paisagem perguntou:–Já reparaste no barco, ó
    Manuel?

    –Tão bonito!

    Os dois riram.

    –Parece pintado de novo… E nem se mexe, repara.

    –Pudera!…–explicou o Manuel–…amarrado com uma corda…–E depois
    radiante, gesticulando para o irmão:–Mas eu era capaz de o
    desamarrar…

    –Ai eras!–disse duvidoso o António, para o incitar.

    Calaram-se. Era bom podê-lo desamarrar, lá isso era. Ambos dentro
    dele, sozinhos, isso é que seria bom! E eles então que estavam mortos
    por ir às azenhas, e pelo rio era um instante enquanto lá chegavam. O
    barco! Era tão bom andar no barco! E aquele então era lindo, como não
    tinham ainda visto outro. Nunca lhes haviam esquecido–olhem lá não
    esquecessem!–aquelas tardes em que o fidalgo os levara dentro do
    barquinho, ensinando-lhes como se remava.

    O Manuel foi o primeiro que se vestiu, e foi logo direito à janela.
    Passava naquele instante um bando de andorinhas, chilreando.

    –Está um dia lindo, avia-te.

    –Olha avia-te! p'ra quê?–perguntou o António torcendo e retorcendo o
    pé para enfiar o sapato, apoiado com as mãos ambas na borda da cama.

    O Manuel sorriu-se, triste.–Era verdade… Aviarem-se p'ra quê? A mãe
    não os deixava ir ao rio… E se não que fossem! «Mato-vos com pancada
    se desceis a ladeira.» Já se vê que depois disto…–E os dois
    suspiravam, desgostosos. Que pena serem pequenos!

    Nisto o António chegou-se também para a janela. Que lindo, o campo!
    Mas os olhos dos dois não se desfitavam do barco, fascinados. Demónio de
    tentação! E para mais, tinham-no pintado de novo: sobre o branco, a todo
    o comprimento, uma faixa azul-clara destacava nitidamente, parece que
    apenas meio palmo acima do nível da água.

    –Tate, ó Manuel! E se fugíssemos?

    –Ora! se fugíssemos!… E depois? A gente tínhamos de voltar…

    Ora aí esta! isso é que era o pior! A mãe, depois, era capaz de fazer o
    que tinha prometido. E arregalando muito os olhos, imitando a cólera da
    mãe:–«Se voltais ao rio…» Ai, ai, a triste sorte!

    Recaíram em silêncio. Ficaram-se por instantes a ver o sol que rompia
    ao nascente, numa explosão violenta de luz, acendendo coloridos na
    largura muito ampla da paisagem.

    –Mas palavra que o barco parece pintado de novo… relembrou com
    alegria o Manuel.

    –Mas é que está, palavra que está. Agora é que há-de ser bom andar
    dentro dele…

    Os dois riram-se muito àquela ideia encantadora de andarem no
    barquinho, assim pintado de novo. Diacho! e porque não? Por isso,
    cobrando ânimo, o António disse resoluto:

    –Olha agora o medo! Seguro que nos mata.–E puxando-o pela
    jaqueta:–Vamos lá, ó Manuel?

    O Manuel fez que não com a cabeça, e espreitou se vinha a mãe. Como não
    vinha, disse baixo ao irmão:

    –À tardinha, hein? dois pulos e estamos lá. Não é tão fácil dar pela
    nossa falta, ali à tardinha. A gente finge que vai para o adro.
    Levam-se os peões…

    –Há-de ser mesmo assim! à tardinha!–concordou o António.–Eh! eh! eu
    cá desatraco.

    –E eu remo,–disse logo o Manuel com gesto de quem remava.

    –Ao leme vou eu: o leme é aquilo que regula–explicou.

    –Pois sim, mas à vinda pertence-me a mim, remas tu. Se quiseres
    assim…

    –Pois está bem, quero! Assim mesmo é que há-de ser!

    E recapitulando, para melhor ficarem combinados:

    –Ao p'ra baixo remo eu, ora remo?

    –Remas.

    –E tu regulas, ora regulas?

    –Regulo.

    –Ao p'ra cima é às avessas, ora é?

    –É.

    Muito bem, basta palavra! E ambos ao mesmo tempo, um ao outro se
    impuseram segredo…

    –Schiu!…

    –Schiu!

    * * * * *

    A tarde descaía límpida. Na vasta cúpula do céu, penachos de nuvens
    alvejavam, imóveis.

    Acesas naquela explosão rubra do ocaso, as arestas dos montes
    franjavam-se de púrpura e oiro, na decoração mágica dos poentes.
    Começava de cair sobre os campos a larga paz tranquila dos crepúsculos,
    e uma quietação dulcíssima e vagamente melancólica entrava de adormecer
    a natureza para o grande sono reparador de toda a noite.

    …E a tarde ia descaindo, cada vez mais límpida.

    Naquela luz indecisa de crepúsculo que mansamente se ia acentuando,
    os montes do sul tomavam um torvo aspecto de sombras gigantescas,
    imobilizados num fundo em que se iam apagando ao de leve todos os
    cambiantes de luz. Os pormenores da paisagem perdiam-se naquela
    indecisão vaga de noite que vinha descendo, e uma espécie de silêncio
    confrangedor dominava a natureza toda, recolhida num como espasmo
    amedrontador e sinistro que dentro de nós evoca a essa hora não sei que
    vagos receios ou medos inconscientes que fazem com que na imaginação as
    coisas criem vulto, e no mundo exterior obrigam a retina a exagerar as
    formas às coisas…

    Muda de gorjeios, atravessando o espaço em voos muito rápidos, a
    passarada demandava os ninhos onde se acoitasse do frio que acordava.
    Caíam já pesadas sobre os vales as sombras das montanhas, e um
    fumozito subtilmente azulado nadava à flor das coisas, velando-as para o
    tranquilo sono em que iam adormecer.

    E a tal hora e no meio de tal silêncio, o barquinho branco deslizava
    mansamente sobre a água tranquila do rio, onde as primeiras estrelas
    começavam de lampejar. Dentro dele, os dois irmãozitos silenciosos
    iam-se deixando enlevar naquele ruído suave dos remos abrindo fendo
    nas águas… Não! era bem certo que eles não tinham jamais sentido uma
    tão poderosa e viva alegria–alegria doida que lhes transvazava do peito,
    fundindo-se em energia nos músculos e cristalizando-se nos lábios em
    sorrisos.

    Dentro daquele adorado barco, assim no meio do rio, eram senhores
    absolutos da sua vontade, poderiam ir para onde lhes parecesse, livres
    de admoestações alheias, sozinhos, independentes. E esta feliz convicção
    de liberdade alcançada, fazia-os agora orgulhosos, além de os encher de
    alegria. Por certo eles nunca tinham sido tão felizes, e quem sabe se o
    seriam jamais?… No entanto a noite acentuava-se. Espertava nas
    margens o marulho da água nas raízes fundas dos salgueiros. No céu alto
    e sereno cintilavam as estrelas em cardumes.

    –Remas, António?–perguntou o do leme.–Olha se a vês…–E apontava
    para Vésper, a estrela que mais brilhava.

    Tinham os dois concebido o estranho desejo de alcançar a estrela cujo
    brilho diamantino os fascinava. Tão linda!

    –Anda-me tu com o leme!–tornou-lhe com intimativa o Manuel.–Ai a
    estrelinha! Deixa que ela faz-se fina, mas havemos de passar-lhe
    adiante, só por isso…

    –Olha o milagre! Ela está queda!–fez o outro, convencido da
    facilidade da empresa.

    –Está queda, está queda, mas sempre na frente de nós; vai lá
    entendê-la. Olha como brilha, ó António.

    –Mas rema que eu cá vou, falta pouco. Ao direito daquela fraga é que
    ela está.

    Não era difícil passar-lhe adiante, qual era? Era menos de meia hora
    era certo alcançá-la.

    E engastada no azul escuro do céu, a estrela parecia brilhar mais,
    quanto mais a olhavam.

    –De que são feitas as estrelas?–perguntou o mais novito.

    –De prata, pois está visto.

    Então o outro, lançando um amplo olhar à vastidão infinita do céu,
    exclamou:

    –Eh! tanta prata!

    –O sol, esse é de oiro–disse ainda o Manuel.

    –Bem de ver!–volveu-lhe convencido o irmão.–Que eu, se me dessem à
    escolha, antes queria as estrelas. Olha que rebanho!

    –Pois eu antes queria o sol. Com licença do teu querer, sempre é mais
    grande.

    E enquanto falavam, os dois não desfitavam olhos da estrela feiticeira
    que perseguiam. Os remos, no entanto, iam abrindo fenda na água, com
    certo ruído muito doce… E lá no alto céu, dir-se-ia que de instante
    para instante a feiticeira estrela mais brilhava, incitando-os.

    –Vê-la a fazer assim?–e pôs-se a pestanejar, imitando a palpitação
    crebra e irregular da luz sideral.

    –É que tem sono–respondeu o outro.

    –Olha que não. Aquilo é a fazer-nos negaças, _tamém_ to digo.

    –Ai é?! Pois que faça as negaças e que se descuide: se malha cá baixo,
    bem se afoga…–E apontando-lhe um punho cerrado, gritou a rir:–Eh,
    _boieira_!

    Neste momento, uma estrela cadente abriu esteira de prata no azul,
    sumindo-se rapidamente. Os pequenos ficaram com medo e ambos murmuraram
    em tom de reza as palavras rituais:

    Deus te guie bem guiada,
    Que no céu foste criada.

    –Vês? disse o Manuel que era dos dois o mais supersticioso.–Torna a
    apontar para elas… Eu cá não aponto, que nascem «cravos» nas mãos.

    –A ti talharam-te o ar, ó Manuel.

    –Diz a mãe. À meia-noite levaram-me à fonte e esparrinharam-me água
    para o corpo. E a água havia de estar fria… observou, encolhendo os
    ombros. Depois, viraram-me para as estrelas e disse então a mãe:

    Ar vejo,
    Lua vejo,
    Estrelas vejo:
    O mal do meu corpo
    Pr'a trás das costas o despejo.

    Riram muito. O Manuel, despidinho, couracho ao colo da mãe, havia de ser
    engraçado. E então todos de volta, a ver quando o ar se talhava.

    –Mas talhou-se. Agora, em paga, uma vez por ano, ao menos uma vez por
    ano, tenho de olhar pelos ralos do lenço p'r'as _cinco chagas_, umas
    estrelas que além estão, e rezar uma ave-maria.

    –Sempre, sempre?

    –Até que morra. Depois de morrer vou morar três dias com três noites
    dentro de uma.

    –Ora! tornou-lhe incrédulo o irmão.–Tu não cabes lá…

    –Não sei: assim é que anda nos livros.

    …Mas os braços doíam já dos remos, doíam muito…

    Devia ser tarde, e eles sem darem fé, enlevados como iam no desejo
    louco de alcançar a estrela.

    A noite estava calma, não bulia nas ramagens ramo verde de salgueiro, um
    silêncio contínuo dominava tudo em volta. E amolentadora e múrmura, a
    água da corrente ia espumando na quilha, com certo ruído de uma brandura
    suavíssima e doce.

    …Mas os braços cada vez doíam mais!…

    Agora, no céu, havia muitas estrelas brilhantes, muitas, mas nenhuma
    como aquela, ainda assim. Entretanto os dois pequenos entraram de olhar
    menos para ela, pois que irresistivelmente a cabeça lhes pendia para o
    peito, e as pálpebras se lhes cerravam, a despeito de todo o esforço.

    …E os braços sempre a doerem!…

    Por algum tempo, os remos foram com a pá mergulhada na corrente,
    cortando-a com levíssimo ruído. Imobilizara-se também o cabo do leme,
    sem que nenhum dos dois irmãos desse fé do súbito desleixo do outro.

    …E os braços já não doíam, nem ao de leve sequer…

    O pequeno barco vogava agora à mercê da corrente, sem impulso algum
    estranho. Dentro dele… a música levíssima das respirações dos dois
    pequenos adormecidos…

    Algum tempo assim. Senão quando, um ruído surdo, e logo um movimento
    brusco de balanço, fez acordar o do leme.

    Na grande alucinação do perigo, desvairado pelo medo, gritou
    imediatamente:

    –Manuel! Ó Manuel!

    O remador acordou, sobressaltado.

    –A estrela? Ainda lá está, olha!–disse incoerente, estonteado pelo
    sono.

    –Uma fraga de cada lado! Ouves o rio? É já muito tarde!–continuou
    aflito o António.

    –Então não lhe passamos adiante?–perguntou ingenuamente o Manuel,
    referindo-se ainda à estrela.

    Mas o irmão, sacudindo-o convulsamente, procurando chamá-lo à realidade,
    de novo lhe gritou, com lágrimas na voz:

    –Manuel, acorda! Olha que estamos perdidos, Manuel!

    E mal conheceram o grande perigo em que estavam, ambos romperam num
    choro muito convulso, agarrados um ao outro, feridos de um terrível
    susto que a hora e o lugar aumentavam cruelmente. Parecia-lhes medonho
    aquele marulhar contínuo da corrente, afligia-os como se fosse o
    psalmodiar monótono e rouco de uma legião de espíritos maus,
    preludiando-lhes as agonias lentas da morte. Aos dois pequenos os
    rochedos informes das margens afiguravam-se-lhes negros gigantes, que
    num requinte de malvada indiferença houvessem jurado assistir
    impassíveis e mudos à escura tragédia da sua desgraça.

    E o barco sempre encalhado, não havia forças que o arrancassem dali.
    Tinham perdido os remos. Teriam de esperar que amanhecesse e alguém
    viesse acudir-lhes, alguém que ouvisse de longe os seus aflitivos
    gritos.

    Crudelíssimo transe!…

    E então os braços continuavam a doer, doía-lhes agora o corpo todo, ao
    mesmo tempo que uma tristeza mais e mais pesada lhes oprimia o
    espírito, parece que embrutecendo-os.

    –Mas a estrela sempre além…–notou ainda o Manuel, balbuciante de
    medo, como se quisesse increpar a própria estrela da sua indiferença
    criminosa, no meio daquele enorme infortúnio em que por causa dela
    se haviam precipitado.–Se ela pudesse acudir-nos…

    Até que por fim, prostrados da fadiga e das lágrimas de novo se deixaram
    adormecer, era já alta noite.

    Mas na sua fúria constante, a corrente que ali era muito forte não
    cessava de bater contra as pedras o pobre barco indefeso. Até que após
    tamanho lidar, o rio safou-o de repente para um lado onde as águas se
    contorciam em remoinho, e entrou de girar com ele, violentamente.
    Quando a água se precipitou para dentro, os dois pequenos assim de
    súbito acordados romperam em gritos lancinantes:

    –Ai quem acode! Ai Jesus, quem nos vale!

    Tinha surgido a manhã, serena, tranquila, cheia de gorjeios e de azul.
    Mas como ninguém acudisse e a luta no rio fosse desigual, num repelão
    mais violento o pobre barco esfacelado investiu de proa com o abismo e
    lá se sumiu para sempre! Feridos de morte, no último paroxismo da sua
    enorme dor desesperada, os dois irmãozitos abraçados sumiram-se também
    com ele!…

    * * * * *

    …Nesse mesmo instante…–e mais longe do que nunca–…a estrela
    feiticeira acabava de cerrar também a pálpebra luminosa!…

    MÃE!

    _Ao Dr. J.C. da Moita Prego_

    Bela cabra, a Ruça!–posso dizê-lo aos senhores. A melhor da manada,
    luzida, de pêlo macio, sem saliências de ossos como as outras, altiva
    de porte quando à frente do rebanho parecia comandá-lo, badalando
    cadencialmente o seu chocalho enorme–tlão! tlão! Era no rebanho a que
    mais dava que fazer ao pastor, requerendo vigilâncias particulares no
    seu atrevimento, pois que se a deixassem livre não havia árvore a que
    não trepasse, oliveira especialmente, nem rebento novo que não
    triturasse esfomeada no seu dente acerado de roedora.

    E depois, ali onde a viam, estava cara só pelas coimas, que muitas
    vezes iludira ela a atenção do pastor, e se ficara por hortas e
    quintalórios, causando estragos que os louvados depois avaliavam caro.
    Por isso Alípio José, pastor, a quem doíam as denúncias, ao pescoço da
    Ruça prendera o chocalhão, para dar do atrevido animal mais fácil
    rumor, pois era de timbre muito distinto dos demais, e muito mais
    grave.

    Em pastagens pelos montados, a Ruça era de uma audácia extrema. Fazia
    gosto vê-la trepar às últimas cumeadas, subir destemidamente às arestas
    superiores dos rochedos, muito serena, erecta nas suas pernas delgadas,
    pescoço alto, ajoelhando destemida a retoiçar as ervas dos declives
    alcantilados e escorregadios, não medindo perigos nem se importando com
    abismos, enquanto as companheiras se ficavam pelas encostas e córregos,
    saboreando as giestas, sem se atreverem a segui-la nas suas excursões
    arriscadas de _touriste_.

    Se a miravam de baixo, sentia-se orgulhosa de superiores audácias, e
    então cabriolava em saltos funambulescos, de rochedo em rochedo ou de
    garganta em garganta, pouco se lhe dando de perigos. Cobra que
    encontrasse por essas paragens era para ela um desespero–tamanha a
    fúria com que a perseguia, e a insistência com que se ficava às marradas
    na lura onde se lhe acoitava. O chocalho então badalava com força, e o
    Alípio que dormia à sombra das azinheiras, de chapéu sobre a cara,
    levantava-se sobre um cotovelo e intimava para o alto, com o seu
    vozeirão que fazia eco:

    –Toma tento, Ruça!

    E depois, de ventre para baixo, estirado sobre a manta, cotovelos
    fincados no chão, os queixos entre as mãos espalmadas, Alípio José
    ficava-se a olhar a cabra, invejoso daquela facilidade em subir aos
    últimos pináculos, admirado dos saltos que ela fazia para salvar
    gargantas pedregosas e perpendiculares, onde, se caísse, a morte seria
    infalível. E por lá andava dias inteiros a Ruça, naquela
    vagabundagem por sítios inacessíveis ao resto do rebanho,
    resguardando-se da chuva em recôncavos de rocha, onde as águias faziam
    ninho.

    * * * * *

    Foi num desses sítios que a Ruça teve o primeiro filho, e por lá se
    deixou ficar, acho que dormindo ou toda a noite velando. Ao outro dia
    quis ela descer, e vir para o rebanho que a aguardava. Mais de cem
    vezes, fitando o topo da ladeira, Alípio José gritara cá debaixo, cada
    vez mais desesperado:

    –Volta ao rebanho, Ruça!

    E, cuidando que mais lhe feria assim a atenção, punha-se a agitar com
    fúria o molho dos chocalhos, gritando sem cessar:

    –Ruça! torna ao rebanho, Ruça!

    Mas impossível! que a não deixava a quebreira em que toda ela ficara do
    parto, nem o pequeno poderia–pobrezinho!–descer por tais ladeiras, de
    pedregosas e ásperas que eram.

    Mas de noite o frio era intenso naquelas alturas, e o pequeno
    congelava unindo-se à mãe que o bafejava para o aquecer, e a si o
    aconchegava mais e mais para lhe transmitir o natural calor do seu
    corpo enfraquecido e doente.

    Por altas horas da noite, na solidão lúgubre daquele sítio,
    alcantilado e íngreme, entre penedias escarpadas onde o vento sibilava
    lugubremente, num como choro dolente e prolongado, o balido da mãe,
    traduzindo angústias e desesperos íntimos, respondia ao vagido fraco do
    filhito, cuja vida parecia ir-se apagando de hora a hora e instante a
    instante, inteiriçando-se-lhe com o frio os membros delicados e tenros.

    Eram assim as noitadas dos desgraçados. Por tais frios e doenças,
    impossível dormir. Toda a noite velavam e gemiam, achegando-se mais e
    mais num como abraço de eterna despedida–amigos que se iam apartar
    para uma longa viagem de trevas, com o coração alanceado pela saudade,
    soluçando e gemendo, num adeus! que era infinito, como o infinito amor
    que os unia…

    E a cada momento, como um dobre de finados, o chocalho badalava
    lugubremente, assustando o animalzinho, como se aquele fora o sinal
    para o transe derradeiro…

    Para maior desgraça, as noites eram sem lua. Encravadas na abóbada, as
    estrelas bocejavam dormentes, numa criminosa indiferença por aquela
    dor suprema de que eram as únicas testemunhas.

    E balando muito, e balando sempre, a pobre cabra imprecava ao céu a vida
    do filho, ao menos,–ora súplice em balidos de resignação que uma
    profundíssima dor ungia, ora desvairada e louca, em gritos que
    significavam blasfémias, blasfémias de desespero contra o céu que a
    não ouvia, e contra a morte que bem sentia aproximar-se para lhe
    estrangular o filhinho que ela amava tanto.

    E a fazer-lhe mais incruenta a sua enorme dor–a ironia acerba da
    chocalhada longínqua das companheiras, que se iam pelos montes da outra
    banda, deixando-a a ela sozinha com o filho, à espera da morte que era
    inevitável.

    Então ergueu-se por instantes! Agitou convulsamente o pescoço, e pelo ar
    fora o som triste do chocalho espraiou-se lentamente, num adeus! adeus!
    de despedida às companheiras felizes que lá iam, num ruído longínquo de
    chocalhos…

    * * * * *

    Naquela solidão os dias eram melhores. Com os primeiros raios do sol
    entravam de reanimar-se os dois; pouco a pouco os membros desentorpeciam
    e o sangue circulava.

    E o cabritinho sem poder ainda descer!…

    De pé, ao lado do filho, a pobre cabra lançava olhos compungidos para as
    escarpas da ladeira, ia para um lado e outro, desvairada e trémula, como
    que a escolher o melhor caminho por onde levasse o filho. Mas eram todas
    horríveis! Silvedos e rocha viva era o que mais se via. E depois o rio,
    lá baixo, rugia nas cachoeiras, aumentando-lhe o receio.

    Impossível! impossível!

    E sentia-se enfraquecer à míngua de sustento, pois a erva, por ali,
    estava comida e recomida pela pastagem miserável de três dias.

    Num momento de desespero, quando os gemidos do filho eram mais dolentes
    e crebros, refez-se de coragem a cabra, e segurando entre os dentes o
    chibo tentou o primeiro passo, arrastando-o pela ladeira, do lado em que
    o declive era menor. Mas em breve desanimou a pobre, que o filhito,
    assim arrastado, mais e mais gemia, convulsionado e trémulo…

    Impossível! impossível!

    Nada que signifique a dor daquela mãe, e traduzir possa em linguagem
    toda a gama de sentimentos e emoções no seu balar expressos. Atirou-se
    de joelhos sobre o corpinho do filho que hirto chorava e tremia,
    estendido para ali, na prostração pesada do último desalento; animava-o
    com carícias, aproximava-lhe da boca os úberes já flácidos e
    amolentados, convidando-o a mamar, como se aquele leite pudesse levar
    ao filho a coragem que a ela própria faltava em tamanho transe
    aflitivo…

    Mas pouco a pouco a noite ia caindo. Tinha-se já apagado a última
    cambiante do poente, e sobre as gargantas dos montes passavam
    subtilmente as primeiras névoas, alvadias e ténues. À medida que a treva
    se condensava, decresciam os ruídos em todo o horizonte, acentuando-se
    cada vez mais a melopeia sonolenta do rio nos açudes. Perpassavam pelo
    ar as aves para os ninhos. Bandos de pombas, como flocos voláteis de
    arminho, cortavam em voos mansos a profundidade calma do céu, demandando
    os pombais e os povoados, onde se acolhessem da noite que vinha caindo.
    Revoadas de perdizes e de tordos passavam por ali alegremente, num
    chilrear sonoro, caindo de chofre sobre o monte, a esconderem-se nos
    estevais e nas urzes. Pelas ervagens secas rastejavam apressados os
    répteis, e sob os tojais bravios a lebre buscava a cama…

    …E tudo tinha ninho–pombas que voavam e perdizada sonora, quem
    passava no ar e quem rastejava no monte, lagartos, sardões, cobras, toda
    a colónia vagabunda de répteis e de aves, que passou alegremente o seu
    dia, e se ia recolher agora para recomeçar dia amanhã…

    Só a desgraçada cabra, ali, junto do filho tenro, não mais fizera
    passo. Com as brumas da noite, as brumas da tristeza para o seu coração
    alanceado de mãe. Aí vinha o frio inclemente flagelar-lhe o filho…–o
    filho que já tremia a ela aconchegado–o triste pobrezinho!

    Rompia de toda a banda o gri-gri sonoro dos grilos, vivo e cantante
    naquele silêncio que se definia. Cerrou de todo a noite. O céu era
    baixo e torvo de nuvens. Estrelejava a espaços a abóbada, irradiando
    uma luz mortiça e alvadia, que levava a pensar em últimos transes de
    crianças, em que a vida gradualmente se extinguisse, num latejar
    vagaroso de pálpebras sonolentas…

    Mais álgida fazia a noite, e mais pesada de melancolias, essa torva
    aparência da atmosfera e do céu. Noite pior do que as outras, porém
    com menos balidos, pois que mãe e filho estavam extenuados de forças e
    nem gemer podiam. E a morte que não vinha arrancá-los do abraço em que
    se uniram, mal cerrara a noite!

    A pequena distância, o monte era cortado de profundíssima garganta em
    rocha viva. Do lado oposto, e quase defronte dos moribundos,
    acenderam-se na treva dois pontos fosforescentes, de uma claridade
    esverdeada rútila. E, imóveis, esses dois olhos estoirados de lobo, a
    que parecia terem arrancado as pálpebras, projectavam a sua luz sinistra
    na direcção do grupo que velava. A natureza inteira retraía-se num
    como pavor medonho, concentrado de íntimos terrores e silêncios lôbregos
    de horas altas. Cerrava-se mais no céu a falange muda das nuvens,
    densificando-se em tintas negras, impenetráveis e caliginosas, sem
    cintilas de estrelas, por fugidias e ténues que fossem…

    E sempre, e constantemente imóveis na escuridão pesada, aqueles dois
    olhos flamejavam, de instante a instante mais vivazes, perscrutando a
    treva da direcção mais exacta do grupo. Transida de susto, arquejando
    convulsamente no último paroxismo da sua enorme dor, a pobre mãe não
    ousava arriscar um único movimento e mais e mais cerrava contra si o
    corpo inanimado do filhito que parecia adormecido.

    Assim durante horas que aquele atrocíssimo suplício fez enormes, quase
    eternas, tumultuosas de acerbos sofrimentos e de indizíveis angústias,
    vazias de esperança na vida do seu pequenino filho.

    De repente, aqueles dois pontos brilhantes apagaram-se na treva, e de
    novo os viu brilhar a cabra, mas já a maior distância. Estremeceu a
    pobre de súbita alegria,–e no abalo que sofreu o seu corpo, até então
    retraído, o chocalho badalou. Voltou a correr o lobo, e então a
    desgraçada viu errarem na treva, como dois grandes coleópteros de asas
    fosforescentes, os olhos até então imóveis do inimigo. E por ali
    levou a noite toda, farejando e uivando, até que cansado de perscrutar o
    insondável, se foi ladeira abaixo, aos primeiros assomos da madrugada
    que vinha, docemente, alumiando píncaros e arestas.

    * * * * *

    Ao romper da alva o céu era azul. Apenas de longe em longe penachos de
    nuvens brancas ondulavam as suas cristas alvadias, que se esfarpavam
    lentamente ao menor sopro da aragem. Pouco a pouco o azul ia desmaiando,
    diluindo-se na luz esbranquiçada que vinha do alto em gradações
    imperceptíveis e suaves.

    Começavam de animar-se os longes da paisagem, e a retina acusava já as
    diferenças mais salientes dos campos e herdades, pedaços esbranquiçados
    de restolhos, tons pardos de olivais, terras plantadas de vinhedo, e
    pinheirais cerrados galgando desfiladeiros e investindo com o céu no
    alto dos montados.

    Pelas ladeiras dalém, caminhos e atalhos corriam em torcicolos até ao
    areal da margem. Em turbilhões de espuma alvíssima precipitava-se a água
    nos açudes, marulhando nos altos penedos marginais, denegridos e
    informes, de uma mudez contemplativa e perpétua. Do tecto do moinho, lá
    em baixo, uma coluna azulada de fumo elevava-se tranquilamente no ar
    sereno e doce, até se desfazer no espaço amplo e benigno, como uma
    ambição ou como um sonho…

    * * * * *

    Foi então que Alípio José, à frente do rebanho, de novo abordou àquelas
    paragens, no intuito de procurar a cabra tresmalhada.

    –Ruça! torna ao rebanho, Ruça!

    Mas precisamente a essa hora, a Ruça exalava o último alento, pendida
    sobre o cadáver do pobre filhinho morto!…

    E ao pino do meio-dia, quando o sol faiscava causticando nos
    rochedos–passava na direcção da montanha, crocitando lugubremente, a
    esfaimada legião dos amaldiçoados corvos…

    ARRULHOS

    _A M. da Silva Gaio_.

    Ao fundo do jardim ficava o pombal–uma casinhola redonda, com orifícios
    triangulares no alto, em toda a volta, alegre na alvura impecável do
    muro que falava ao longe, muito ao longe, a léguas de distância.

    –Pombal da Morgada! diziam.–Lá se vê além…–E um gesto muito longo
    levava a vista horizontes fora, à cata do Pombal da Morgada, que
    alvejava longe, muito distante, na meia sombra dos montes sobranceiros,
    como um pequenino ermitério cheio de lendas, onde santos de carne e osso
    provocassem romarias, promessas avultadas de pessoas ricas, e onde
    seriam encantadoras as tardes quentes de estio, à sombra de árvores
    seculares em cuja ramagem trinassem pássaros em barda, pardalada sonora,
    gralhadora, rindo da nossa merenda e da nossa sem-cerimónia–frangãos
    assados e boa vinhaça da terra.

    Pombal da Morgada porquê? História singular que vou contar-lhes. A
    Morgada era uma senhora rica, muito rica, tinha vinte e cinco anos e
    outras tantas quintas, viúva antes de casar, pesarosa da morte
    desastrada do noivo–um trambolhão de um cavalo que o matara logo ali,
    sem mais pio, num ai.

    A recordar esse amor–um casal de pequeninos pombos que ele lhe dera na
    véspera, simbolizando, dizia ele, a pureza da sua alma dela, e a
    castidade das suas intenções dele…

    Muito bem. Fez-se então o pombal, o casal procriou, vieram pombos
    novos–todos brancos uns, raiados outros, de um _gris_ delicadíssimo
    alguns, todos encantadores, veludíneos, muito mansos.

    Belos pombos, na verdade!

    Todas as tardes, quando as tintas do crepúsculo começavam de esbater-se
    numa uniformidade vagarosa de tons, e a percepção clara das coisas
    entrava de se desfazer em imperceptíveis _nuances_ subtis, num
    _smorzando_ melancólico onde palpitavam vagos terrores de noite que vem
    caindo, quando os vales se cobriam de uma sombra azulada e a vida
    cessava no campo e começava no céu em cintilações argênteas de
    estrelas–todas as tardes, digo, quem quer poderia ver aberta a
    estreita porta do pombal, e uma mulher nova, vestida de preto,
    espalhando no pavimento térreo, com solicitudes de _menagère_, as
    provisões de um pequeno cabaz que lhe pendia do braço–milho em
    abundância e fartura de alpista.

    Assim todas as tardes, ia já em quatro anos, que não havia forças que
    levassem a Morgada para fora do seu pequeno solar, onde vivia só,
    retirada de tudo, a tudo indiferente, impassível a pedidos de amigas
    que saíam para as praias, no Inverno para Lisboa, e que a queriam levar
    para que se distraísse, para que se alegrasse–«era nova ainda, podia
    arranjar noivo, nada mais fácil…»

    –E as pombas? objectava.–Mas era pecado deixá-las, dizia consigo.
    Quando voltasse estaria deserto o pombal, umas que fugissem, outras que
    matassem, haviam de até roubá-las, entrar de noite no pombal, levá-las
    todas.

    –Que não e que não! insistia renitente;–que tivessem paciência, que se
    divertissem muito, ela ficava.

    –Platonismos! gargalhavam depois as amigas.–Saudades do outro que
    rebentou do trambolhão. Bem tola!

    E partiam sós, rindo da Morgada e do seu amor pelas pombas, achando-a
    ridícula com aquele seu luto perpétuo, escarnecendo da simplicidade
    habitual da sua _toilette_–vestido preto todo liso, muito afogado, um
    pequeno _ruche_ no pescoço e mangas, nem uma prega, nem sequer um laço.

    Muito respeitadas, as pombas da Morgada. Caçador que as visse não
    desfechava sobre elas. Assim, a manada crescia de hoje para amanhã,
    desenvolvia a propagação o bom tracto, a habitação confortável, muito
    abrigada de ventos, onde a chuva não entrava e os ninhos eram
    flácidos–folhas de milho mudadas cada dois dias.

    Que bom, ser pombo da Morgada!

    A música dos arrulhos, uma volata muito lânguida, começava com o
    aclarar, muito cedo, depois do descanso do sono na placidez do ninho,
    quando as forças eram sãs e as asas pediam vos.

    Hora dos amores!

    Pombos atrevidos, sanguíneos, de íris rutilante e índole impaciente,
    lançavam-se sobre as pombas, forçavam-nas, perseguiam-nas se voejavam,
    ameaçando-as de bicadas primeiro, picando-as nas cabecitas se resistiam,
    possuindo-as à força, a tremer, asas em concha, penugem eriçada,
    arrulhando muito, arrulhando sempre, caindo desfalecidos depois,
    hirtos, pálpebras cerradas, trementes, frementes, em espasmos de luxúria
    e paroxismos do gozo; enquanto elas, as pombas, se emplumavam agora de
    contentes, sacudindo as asas, pescoço levantado, orgulhosas talvez,
    muito felizes.

    Outros então, mais meigos ou mais pachorrentos, mais velhos por certo,
    quedavam-se horas seguidas, horas longas, defronte da sua eleita, numa
    doçura plangente de musicais arrulhos, frementes de desejos, mas pedindo
    às boas, não querendo violências, detestando-as, bem se via,
    suplicando, rogando, comovendo. E se logravam intentos, redobravam os
    carinhos, havia meiguices de jeitos e friccionamentos leves de
    penugens, arrulhos mais doces e toques delicadíssimos de bicos–beijos
    com certeza.

    Isto todos os dias, nas manhãs enevoadas especialmente. Imagine-se a
    vida do pombal àquelas horas:–pombas que voejavam assustadas, esquivas
    mesmo, e pombos que as perseguiam; pombas que condescendiam e pombas que
    queriam arrulhos: quem não voasse arrulhava, quem não arrulhasse voava;
    e tudo gozava–quem era feliz e quem estava para o ser, quem era
    sanguíneo e quem era pachorrento.

    Ar dos campos, depois; alegres, muito amigos, pousando todos quando um
    pousava, retomando voo se um voava, sempre juntos, sempre na mesma
    direcção, a beber no mesmo ribeiro, em linha, todos a um tempo, num
    ruído muito doce de bicos que sorviam.

    Ainda com sol, iam pousar de revoada no telhado da casa onde habitava a
    Morgada, participar-lhe por certo que iam recolher, cumprimentá-la ao
    balcão da sua janela, alegre de trepadeiras em flor, pousar-lhe nos
    ombros, na cabeça as mais ousadas ou as mais amigas, segredando-lhe não
    sei que arrulhos que ora a faziam sorrir, ora lhe traziam lágrimas, mas
    que sempre provocavam novos afagos, afagos intermináveis:

    –Minha pombinha… minha amiguinha… minha querida…

    Dali para o pombal, continuar aquela vida de boémios felizões, vida
    de concubinagem, numa promiscuidade sem limites e numa libertinagem de
    harém.

    Poligamia desenfreada!

    Excepção a ela, apenas um casal–a melhor pomba da manada, pomba
    branca, de uma alvura impecável de neve, e então um pombo raiado, preto
    e cinzento, de _nuances_ azuis-escuras, ares aguerridos de lutador
    vaidoso, um D. Juan emplumado, tentador.

    Era o pombo mais atrevido do pombal, o de génio mais insofrido e
    espasmos menos longos, muita vida, numa mobilidade contínua de pescoço,
    nervoso, libertino. Pomba que desejasse possuía-a, sem arrulhos prévios,
    sem pedidos, brutalmente se resistia, pacificamente porque muitas se lhe
    entregavam, preferiam-no, vinham deitar-se-lhe no ninho, disputando
    primazias à força de bicadas.

    E umas atrás de outras, e dias após dias, sempre assim!

    Mas todas fugiam em seguida, não sei se de esfalfadas, se para dar lugar
    a outras; uma só, a pomba branca, se quedava ao lado dele, paciente,
    resignada, num arrulhar cada vez mais doce, cheio de ternuras, muito
    meigo, idealmente brando, que agradava ao raiado, que o ufanava,
    incitando-o, convidando-o, provocando-o. Por isso entrou de aborrecer as
    outras, achando-as menos pombas, umas desavergonhadas que se iam
    entregar a outros, e de se afeiçoar à branca, a ela só, acarinhando-a
    muito, arrulhando com ela, alternadamente, ora um ora outro, gemendo
    amores.

    Não imaginam os senhores nem há nada que possa dar ideia da desordem, da
    perturbação que isso levou ao rancho tão dado a instintos cómodos de
    poligamia, tão avesso a duetos daquela natureza, onde os pombos eram
    de todos e as pombas eram comuns.

    E tal desordem subiu de ponto com o proceder do casal que levava dias
    inteiros dentro do pombal, sem sair, numa concubinagem que revoltava de
    egoísta. E quando saíam não se juntavam com os outros–uma desfeita! uma
    ofensa!–tomavam rumo diferente: para a direita se os outros iam para
    a esquerda, para a esquerda se os outros iam para a direita, sempre ao
    contrário.

    Recolhiam mais cedo, com sol ainda, e quando os outros vinham, já os
    encontravam no pombal, em ninhos contíguos a princípio, no mesmo ninho
    depois!

    Um escândalo! Um desaforo!

    E planeavam-se ataques, desfeitas ao casal, muitas desfeitas.

    Se os dois eram felizes arrulhando manso, entravam os outros a arrulhar
    forte, troça talvez, desespero decerto, todos juntos, combinados. E se
    isto não bastava, começavam todos a voar, batendo muito as asas,
    levantando a palha dos ninhos, precipitando-se sobre o casal, fingindo
    quedas, dando bicadas os mais raivosos, ou então os mais despeitados…

    Prestes o raiado saltava do ninho, opunha defesas de asas sobre a pomba
    branca e tímida que o susto transia, inquieto, colérico; reagia depois,
    lutava por fim, levando-os não raro de vencida, obrigando-os a fugir do
    pombal em vergonhoso tropel, muito assustados, vencidos. E noite além,
    entravam um a um, vagarosos, muito mansos, sem ruído de asas, receando
    acordar o casal que dormia aconchegado, muito quente, pescoço escondido
    sob a asa veludínea.

    Dois meses assim–dois meses!–numa fidelidade conjugal ininterrupta,
    digna de servir de exemplo a outros bípedes que eu conheço, que os
    senhores conhecem, não?… Vida boa, na verdade, perfumada de arrulhos e
    esplêndida de alegrias, passada em belas digressões campos fora,
    pousando no mesmo ramo, bebendo na mesma poça, dormindo no mesmo palmo
    de ninho, sonhando os mesmos sonhos, talvez…

    Mas no fim desse tempo o raiado entrou de ter desconfianças, suspeitas
    de inconstâncias e receios de infidelidades, de noite, enquanto dormia.
    Havia certa frieza nos jeitos da pomba, menos ternura nos arrulhos,
    modos de enfadada às vezes, certas perrices, resistências mal
    disfarçadas. Ficava-se em casa se o raiado saía, impassível a
    súplicas, muito mona, com elanguescimentos de pálpebras e quebramentos
    de asas, uma desleixada; e espreitando-lhe o voo, tomava para norte se o
    raiado ia para sul, vinha tarde e ia aninhar-se só, para lhe fugir.

    Estava farta, vê-se. E como os outros a não queriam–rameira do
    raiado!–um dia levantou voo e fez-se ao largo.

    * * * * *

    Abade de aldeia, conhecem, desses mui dados aos latins e ao
    _vinagrinho_ de Xabregas, muito nacional e muito fino, bons velhos de
    _quinzena_ e calça de alçapão, feros, muito rijos, à prova de
    reumatismo e à prova de vintém, felizes na sua pobreza, amigos das
    crianças, bem humorados sempre, flores de uma árvore que ora vai dando
    cardos. Perto do solar da Morgada, a três quilómetros só, havia um assim,
    o abade das Donas, bom pregador noutras eras, com famas de teólogo
    ainda ao tempo.

    –Disse-o o das Donas, colega! disse-o o das Donas!–era assim que
    muitas vezes acabavam disputas acaloradas, salpicadas de vários latins,
    sobre textos da Bíblia e passagens dos apóstolos.

    –Teologia velha, diziam, a genuína!

    A casa da residência era uma casa muito antiga, portas em arco, paredes
    a desabar,–uma invernada forte e ia abaixo. O pátio da entrada era
    térreo, rimas de lenha seca de um lado e doutro, seguia-se a cozinha,
    um pequeno corredor, e ao fim uma velha varanda em ruínas que dava para
    um quintalório, e cujas pedras se deslocavam, de mal assentes que
    estavam.

    Preferia-a o bom do abade para a reza das suas devoções, e nessa tarde
    quem quer o poderia ver passeando-a a todo o comprimento, óculos na
    ponta do nariz, breviário na mão direita, a dois palmos, a esquerda a
    segurar a aba da _quinzena_, e um pequeno solidéu com borla
    resguardando-lhe a calvície.

    A interromper a leitura, de quando em quando, umas pequenas exclamações
    de desgosto, arremessos de breviário, e por fim levantando a voz:

    –Fome as pombas, Sr.^a Luísa: não fazem senão saltar…

    –Bem fartas!–retorquiu de dentro, da labuta da cozinha,–mas têm lá
    visita, pomba que arribou.

    E depois informando:

    –Pomba guapa, toda branca. São agora três ao todo, e então o pombo…

    –Huum!… resmungou o abade em voz de reticências.–Percebo… percebo
    perfeitamente…–E foi meter-se no quarto, continuar a
    leitura.U+2014.Deixá-las! concluiu evangélico.

    Era a pomba do raiado, adivinharam, que ali viera parar à reles
    pelintragem daquele metro de gaiola feita de um caixão velho, com
    grades só na frente, muito suja sempre, arrumada p'r'ali ao fundo da
    varanda, húmida de águas entornadas, exalando maus cheiros, um nojo.

    Quando a mostrava à criada, o abade dizia-lhe sempre:

    –A sua vergonha, Sr.^a Luísa; a vergonha da sua cara. Como se os
    animais não fossem também criaturas de Deus…

    As pombas eram magras e o pombo era esquelético.

    Fez-se de amores com ele, tomou-lhe os hábitos canalhas, manchando a
    alvura imaculada das penas na imundície fétida da gaiola em que ambos
    se aninhavam, arrulhavam, se espojavam. E como ela era gorda e bem
    tratada, flácida de penugens e de carnação consistente, apetitosa, o
    pombo não a largava–génio de libertino em corpo de tísico.

    Em breve período entrou a pobre de emagrecer, sem forças para voar se
    queria voar, quedando-se dias inteiros ao canto da gaiola, encolhida,
    tristonha, arrependida talvez de ter deixado o pombal,–saudosa do
    raiado, o seu primeiro amor, quem sabe!

    E depois, o pombo sujo já não se importava com ela, desprezava-a,
    tentara mesmo expulsá-la de parceiro com as outras, dando-lhe maus
    tratos,–à intrusa. Dor incomparável!

    Mas um dia o ataque foi mais violento e ela teve de fugir, de voar,
    descansando amiudadas vezes, porque lhe faltavam as forças, arquejando
    sempre, arrastando-se em voos baixos, sentindo vertigens se subia mais
    alto. Para passar um ribeiro descansou uma hora, e quando cobrou alento
    e começou o voo, viu-se na água e estremeceu, molhou ainda as asas, viu
    um corvo na sua própria imagem, um corvo negro que a perseguia
    silencioso, traiçoeiramente, que a ia talvez devorar… O que ela tinha
    sido e o que era!…