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  • Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 05

    Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 05

    Aproximadamente 58.014 palavras.

    Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt),
    Nuno Lopes (Projecto Enclave) and edited by Rita Farinha

    OPUSCULOS V

    *OPUSCULOS*

    POR

    A. HERCULANO

    SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA

    SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA

    SOCIO CORRESPONDENTE DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID DO INSTITUTO
    DE FRANÇA (ACADEMIA DAS INSCRIPÇÕES) DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE
    TURIM DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA YORK, ETC.

    *TOMO V*

    CONTROVERSIAS E ESTUDOS HISTORICOS

    TOMO II

    LISBOA

    VIUVA BERTRAND & C.^a SUCCESSORES CARVALHO & C.^a

    73, Chiado, 75

    M DCCC LXXX VI

    COIMBRA–IMPRENSA DA UNIVERSIDADE

    AO

    ILL-^{MO} E EX.^{MO} SENHOR CONSELHEIRO

    ANTONIO DE SERPA PIMENTEL

    DEDICAM

    OS EDITORES

    Compõe-se este volume de tres escriptos já impressos em outras épochas,
    mas provavemente desconhecidos da maior parte dos leitores actuaes, e
    bem assim de um notavel estudo inedito ácerca do Feudalismo, que o
    auctor não chegou a concluir, e em que trabalhava quando a morte o
    surprehendeu.

    Pouco diremos a respeito d'aquellas primeiras composições.

    As noticias da vida e obras de alguns historiadores portuguezes são
    extrahidas do _Panorama_. Destinadas, apenas, a satisfazer a curiosidade
    dos leitores habituaes d'este genero de publicações, nas quaes a
    variedade e a concisão são requisitos essenciaes, essas noticias não
    teem todo o desenvolvimento que o auctor hoje lhes daria, se houvesse de
    aproveital-as para algum d'estes volumes; mas, apezar d'isso, cremos que
    o leitor folgará de as encontrar aqui reunidas, não só pelo seu
    indisputavel merecimento, mas tambem por serem invocadas em todos os
    artigos do _Diccionario bibliographico_, onde coube ao laborioso
    Innocencio da Silva tractar dos escriptores a que ellas dizem respeito.

    As _Cartas sobre a historia de Portugal_ sairam á luz nos tomos 1.^o e
    2.^o da _Revista universal lisbonense_, precedidas das seguintes
    palavras do illustre redactor d'este semanario: «Temos em nosso poder a
    preciosa serie de cartas, cuja primeira publicamos hoje. N'ellas
    descobre o nosso infatigavel e eloquentissimo antiquario, o sr.
    Alexandre Herculano, um grande numero de importantes verdades ácerca dos
    principios de Portugal–da constituição, natureza e relações mutuas das
    classes, n'esses tempos tão obscuros e tão pouco averiguados. N'estes
    escriptos, que não são mais do que o preludio de uma obra, que sem falta
    sairá cabal, sobre a materia, faz o sr. Herculano á sua pátria, e
    geralmente á sciencia, um presente de altissima valia, de que a _Revista
    universal_ devidamente aprecia a honra de ser mensageira.» Com effeito,
    estas cartas, publicadas em dezeseis numeros d'este semanario, desde 7
    de abril de 1842 até 3 de novembro do mesmo anno, foram então
    interrompidas, porque o auctor, conscio já das proprias forças, dedicou
    d'ahi em deante todos os cuidados ao immenso valor da obra monumental,
    que lhe havia de conquistar o primeiro logar entre os historiadores do
    seu paiz.

    O terceiro dos opusculos agora reunidos, isto é, a carta em defeza de
    algumas asserções do primeiro volume da _Historia de Portugal_,
    appareceu, tambem, na _Revista universal_. O auctor mantem e defende as
    suas idéas, combatendo um artigo de critica publicado em 2 de abril de
    1846, e firmado com as iniciaes D. S. M. de Vilhena Saldanha, que
    suppômos serem a assignatura do respeitavel ancião D. Sancho Manuel,
    fallecido em 30 de maio de 1880. Como esta carta não trazia titulo, e
    nós tinhamos de lhe dar algum, pareceu-nos conveniente alludir á pessoa
    que escreveu o artigo a que ella responde: tanto mais que a cortezia de
    ambas as composições tornava desnecessario qualquer resguardo.

    Até aqui falámos de trabalhos que já tinham visto a luz publica, e a
    respeito dos quaes é sufficiente o que fica dicto. Agora, porém,
    chegados á parte inedita e mais valiosa do presente volume, procuraremos
    satisfazer a justa curiosidade do leitor, descrevendo minuciosamente o
    manuscripto, e declarando o systema que seguimos ao dal-o à estampa.

    O luminoso estudo ácerca da existencia ou não existencia do feudalismo
    em Portugal compõe-se (no estado em que chegou ás nossas mãos) de oito
    capitulos completos e um apenas começado, além de algumas folhas
    avulsas, de que adeante nos occuparemos.

    Os primeiros seis, que neste livros abrangem as paginas 193 a 242, foram
    escriptos em 1875, isto é, dois annos depois da publicação do _Ensaio
    sobre la historia de la propriedad territorial en España_, como o auctor
    declara, e chegaram a estar no escriptorio da _Revista occidental_, onde
    todavia não poderam sair impressos, por ter acabado esta _Revista_ em
    julho do mesmo anno. Acham-se lançados em meias folhas de papel almaço,
    escriptas de um só lado, e promptos para a imprensa, não offerecendo,
    por isso, difficuldade alguma de leitura. O grande escriptor calculava
    n'esse tempo ser esta a terça parte do que lhe seria necessario dizer em
    relação a tão interessante e debatido ponto historico.

    Ou por essa occasião ou pouco tempo depois, accrescentou os capitulos
    VII e VIII, não já em meias folhas, mas em oitavos do mesmo papel,
    formato que lhe permittia, não só intercalar quaesquer novas provas ou
    argumentos, que lhe fossem occorrendo, mas ainda dar diversa collocação
    aos paragraphos, se de futuro a deducção das idéas e a harmonia da
    composição o exigissem.

    Incommodos de saude mais ou menos graves, trabalhos litterarios de outra
    indole, e varios negocios domesticos, impediram então o auctor de
    proseguir n'este importante assumpto, e foram causa de não possuirmos
    hoje completo mais um livro serio, coisa de extrema raridade nos tempos
    que vão correndo.

    Quando, d'ahi a muitos mezes, recuperada a saude e dispondo do tempo
    necessario, pôde dedicar-se de novo ao exame da obra do sr. Cárdenas,
    tudo nos persuade de que trazia profundamente alterado o plano primitivo
    do seu trabalho. Achou-se, sem duvida, apertado e tolhido nos estreitos
    limites em que a principio o circumscrevera, e resolveu abrir mais largo
    campo, onde podesse desenvolver a grande copia de noticias que
    enthezourara, e que directa ou indirectamente se prendian com o assumpto
    em discussão.

    Foi este, a nosso, ver, o motivo por que, voltando atraz, tomou nota de
    numerosas proposições do _Ensayo_, transcrevendo as passsagens
    respectivas em meias folhas de papel de pequeno formato, e pondo no alto
    da primeira a cota: «_IV_ (_Continuação_)». O leitor encontrará este
    additamento desde paginas 242 até o fim do capitulo.

    Resolvido, pois, a dar maior amplidão ao seu trabalho, tractou o auctor
    de reconstruir os capitulos VII e VIII, que hoje apresentam em mais de
    um logar graves difficuldades de leitura, por causa das transposições,
    emendas, entrelinhas e accrescentamentos, de que estão cheios os
    respectivos borrões.

    Apezar d'isso, o capitulo VII–o magistral estudo do _Codigo
    wisigothico_–póde considerar-se completamente organisado, tanto na
    doutrina como na forma, embora deixe vêr, aqui ou alli, «as arestas
    vivas do cunho», porque o auctor não chegou a pôr-lhe a ultima lima.

    Não acontece, porém, outro tanto com o VIII, destinado ao estudo do
    _Direito consuetudinario_. Este capitulo compõe-se de 32 oitavos de
    papel, que a principio tinham tido outra ordem, e cuja disposição
    definitiva não ficou claramente marcada senão até o 17, isto é, até
    paginas 283 d'este livro. D'ahi em deante os embaraços crescem, porque
    alguns d'esses oitavos não teem numeração antiga nem moderna, e,
    formando sentido completo, sem dependencia de outros anteriores ou
    posteriores, tornam sobremodo difficil acertar com o seu verdadeiro
    logar: quer-nos parecer, porém, que não contrariámos demasiado a
    intenção do auctor, dando-lhes a ordem em que vão impressos.

    Além dos já referidos, encontrámos uma serie de oitavos numerados de 1
    até 10, mas sem designação do capitulo a que eram destinados. O ultimo
    d'elles está acabar, o que indica que foi ahi que se interrompeu o
    trabalho do insigne escriptor. Por esta circumstancia, e tambem por ser
    a materia de que ia tractar (a divisão da propriedade territorial) a que
    justamente se devia esperar, na ordem dos apontamentos que tomara do
    livro do sr. Cárdenas, não tivemos duvida em os considerar como
    principio do capitulo IX, marcando, comtudo, entre paretheses este
    numero de ordem.

    Restavam ainda duas folhas da primeira composição, que não tinham sido
    aproveitadas, nem podiamos introduzir no texto, embora se conheça que
    deviam fazer do capitulo que ficou por acabar. São, porém, tão
    importantes, e formam por si sós um corpo de doutrina tão perfeito, que
    julgamos prestar um serviço, formando com ellas o Esclarecemento A, no
    fim do volume.

    No mesmo caso está uma nota relativa á intelligencia que se deve dar á
    palavra _Feudo_, nas raras vezes que apparece nos documentos d'aquella
    edade. Esta nota estava lançada tambem em folhas inteiras, e tanto pode
    servir de elucidação ao que se diz na Carta 3.^a sobre a Historia de
    Portugal (pag. 79), como de prova da affirmativa do auctor a pag. 199,
    onde fizemos a competente chamada. Constitue o Esclarecimento B.

    Resumindo: os primeiros seis capitulos estavam promptos para serem
    impressos, segundo o plano primitivo; a continuação do VI, o VII e o
    VIII, conservavam-se no primeiro borrão, e portanto dependentes de
    ulteriores modificações, tanto na sua disposição geral, como no estylo,
    que não tinha recebido ainda as ultimas correcções; o que reputamos IX
    ficou apenas principiado; e as folhas avulsas, que aproveitámos para
    Esclarecimento, esperavam o seu futuro destino.

    Se attendermos, agora, ás doutrinas contidas nos extractos do livro do
    sr. Cárdenas, com que o auctor ampliou o capitulo VI do seu trabalho,
    reconheceremos que elle se propunha estudar detidamente a divisão da
    propriedade territorial, as relações das diversas classes entre si, o
    serviço militar, a administração da justiça, o poder central e seus
    representantes locaes; a organisação social, em summa, do nosso paíz
    n'aquellas épochas remotas. Já não era, pois, um simples opusculo que
    tinhamos a esperar da sua penna auctorisada: era um livro precioso, que
    viria supprir, em grande parte, o V volume da _Historia de Portugal_, se
    não no desenvolvimento e discussão erudita de todos os pontos
    controvertidos ou ignorados, com certeza nos resultados finaes a que
    chegara o seu longo estudo e admiravel lucidez de espirito.

    Entre Fernão Lopes e fr. Antonio Brandão mediaram dois seculos. Entre o
    douto cisterciense e o auctor d'este livro outros dois, e bem medidos.
    Oxalá que, d'esta vez, seja mais curto o prazo, em que tenha de
    apparecer o continuador idoneo dos trabalhos, que Alexandre Herculano
    deixou interrompidos.

    (1881).

    _Os editores_.

    HISTORIADORES PORTUGUEZES

    1839–1840

    I

    *Fernão Lopes*

    Tão raros ou tão pouco lido andam os antigos escriptores portuguezes,
    que muitas pessoas ha, não de todo hospedes nas letras, que apenas de
    nome os conhecem, e frequentes vezes nem de nome. Grave mal, por certo,
    e mui de lamentar é tal e tão ingrato desamor áquelles que assim lidaram
    em suas doutas vigilias ou para nos transmittirem as heroicas façanhas
    de nossos antepassados, ou para nos doutrinarem com virtuosos conselhos,
    ou para nos consolarem com um brado de poesia de mais singelas eras, ou,
    finalmente, para nos herdarem sua sciencia; que muita e boa a tiveram.
    Assustam os livros pesados e volumosos do tempo passado as almas debeis
    da geração presente: a aspereza e severidade do estylo e linguagem de
    nossos velhos escriptores offende o paladar mimoso dos affeitos ao
    polido e suave dos livros francezes. Sabemos assim quaes são os
    documentos em que estribam glorias alheias: ignoramos quaes sejam os da
    propria, ou, se os conhecemos, é porque estranhos nol-os apontam,
    viciando-os quasi sempre. Symptoma terrivel da decadencia de uma nação é
    este; porque o é da decadencia da nacionalidade, a peior de todas;
    porque tal symptoma só apparece no corpo social quando este está a ponto
    de dissolver-se, ou quando um despotismo ferrenho poz os homens ao livel
    dos brutos. Desenterra a Allemanha do pó dos cartorios e bibliothecas
    seus velhos chronicons, seus poemas dos Nibelungos e Minnesingers; os
    escriptores encarnam na poesia, no drama e na novella actual as
    tradições populares, as antigas glorias germanicas, e os costumes e
    opiniões que foram: o mesmo fazem a Inglaterra de hoje á velha
    Inglaterra, e a França de hoje á velha França: os povos do Norte saúdam
    o Edda e os Sagas da Irlanda, e interrogam com religioso respeito as
    pedras runicas, cobertas de musgos e sumidas no amago das selvas: todas
    as nações, emfim, querem alimentar-se e viver da propria substancia. E
    nós? Reimprimimos os nossos chronistas? Publicamos os nossos numerosos
    ineditos? Revolvemos os archivos? Estudamos os monumentos, as leis, os
    usos, as crenças, os livros, herdados de avoengos?

    Não.–Vamos todos os dias ás lojas dos livreiros saber se chegou alguma
    nova semsaboria de Paul de Kock; alguma exaggeração novelleira do
    pseudonymo Michel Massan; algum libello antisocial de Lamennais. Depois,
    corremos a derrubar monumentos, a converter em latrinas[1] ou tabernas
    os logares consagrados pela historia ou pela religião…

    E, depois, se vos perguntarem: de que nação sois? respondereis:
    Portuguezes!

    Callae-vos; que mentis desfaçadamente.

    Mas nós faremos lembrada, ao menos aqui, a nossa gloria litteraria.

    Como o pae da historia nacional, como o velho Fernão Lopes, começámos a
    escrever as memorias que d'elle restam moralisando primeiro, do mesmo
    modo que elle moralisava antes de entrar na materia. Não se nos leve a
    mal um defeito, se o é, em que já caiu o nosso principal chronista,
    quando é d'elle que devemos fallar.

    Escassas são as noticias que chegaram até nós ácerca de Fernão Lopes. A
    epocha do seu nascimento ignora-se; mas parece que devia ser na da
    gloriosa revolução de 1380, ou alguns annos antes. O abbade Barbosa e
    outros dizem que fôra secretario d'el-rei D. Duarte, quando infante, e
    de seu irmão D. Fernando, e cavalleiro da casa do infante D. Henrique.
    Em 1418 foi encarregado por D. João I da guarda do real archivo, cargo
    que até então andava unido a um emprego da fazenda publica.

    Por trinta e seis annos serviu Fernão Lopes de guarda dos archivos, e de
    todo este tempo existem varias certidões, passadas por elle, _das
    escripturas da torre do castello da cidade de Lisboa_. Depois de tão
    largo periodo foi substituido por Gomes Eannes de Azurara, que D.
    Affonso V nomeou em logar de Fernão Lopes, _por este ser já tam velho e
    flaco, que per sy non podia bem servir o dicto officio_, dando-o a
    outrem _por seu prazimento e por fazer a elle mercê, como é rezom de se
    dar aos boõs servidores_, segundo diz a carta de nomeação de Azurara. A
    epocha da morte do chronista ignora-se absolutamente; mas sabe-se que
    ainda vivia em 1459, cinco annos depois de ter sido exonerado do cargo
    de guarda do archivo.

    Quando D. Duarte subiu ao throno (1434) deu _carrego a Fernão Lopes, seu
    escripvam, de poer em caronyca as estorias dos Reys, que antygamente em
    Portugal forom; e esso mesmo os grandes feytos e altos do muy vertuoso e
    de grandes vertudes El-Rey seu senhor e padre_ (D. João I), dando-lhe
    por isto quatorze mil libras cada anno, mercê que foi confirmada em nome
    do moço principe, por influencia do infante D. Pedro, tão sabio quanto
    infeliz, pae e protector das letras.

    Foi, com effeito, Fernão Lopes o primeiro que poz em _caronyca_, isto é,
    em ordem, as _estorias_ da primeira dynastia dos reis portuguezes, e fez
    a bella Chronica de D. João I. Até ahi havia apenas algumas memorias
    espalhadas, alguns breves compendios dos successos publicos. N'este
    numero deve entrar um manuscripto que existia em Sancta Cruz de Coimbra,
    feito, segundo parece, nos fins do seculo XIV, em que mui de leve se
    mencionam os acontecimentos mais notaveis dos tres primeiros reinados, e
    d'elle talvez se houvessem de contar as antigas chronicas, que Duarte
    Nunes reformou, ou estragou, e que muito desconfiamos sejam as mesmas
    que _colligiu_ Acenheiro no principio do seculo XVI, e que serviram de
    fundamento a Ruy de Pina e Galvão: sobre tudo o que pesam ainda muitas
    sombras, ao menos para nós, parecendo-nos, todavia, indubitavel que
    alguma cousa havia escripta antes de Fernão Lopes; porque a alguma cousa
    eram essas _estorias_ dos antigos reis, mencionadas na carta de nomeação
    de Fernão Lopes, e que n'esse documento se distinguem claramente dos
    _feitos_ de D. João I.

    De quanto Fernão Lopes escreveu, o que hoje existe conhecido e impresso
    é a Chronica de D. Pedro I, a de D. Fernando e a D. João I. Comtudo, por
    averiguado se tem que elle escrevera as dos outros reis anteriores, e
    até Damião de Goes lhe attribue uma de D. Duarte. Seja o que for, é
    certo que para a gloria de Fernão Lopes são monumentos sobejos as tres
    chronicas que d'elle existem.

    O nosso celebre critico Francisco Dias, o homem, talvez, de mais apurado
    engenho que Portugal tem tido para avaliar os meritos de escriptores,
    diz que Fernão Lopes fôra o primeiro, na moderna Europa, que dignamente
    escrevera a historia: com razão o diz, e poderia accrescentar que poucos
    homens teem _nascido_ historiadores como Fernão Lopes. Se em tempos mais
    modernos e mais civilisados houvera vivido e escripto, não teriamos por
    certo que invejar ás outras nações nenhum dos seus historiadores. Além
    do primor com que trabalhou sempre por apurar os successos politicos,
    Lopes adivinhou os principios da moderna historia: a _vida_ dos tempos
    de que escreveu transmittiu-a á posteridade, e não, como outros fizeram,
    sómente um esqueleto de successos politicos e de nomes celebres. Nas
    chronicas de Fernão Lopes não ha só historia: ha poesia e drama: ha a
    edade media com sua fé, seu enthusiasmo, seu amor de gloria. N'isto se
    parece com o quasi contemporaneo chronista francez Froissart; mas em
    todos esses dotes lhe leva conhecida vantagem. Com isto, e com chamar a
    Fernão Lopes o Homero da grande epopea das glorias portuguezas, teremos
    feito a tão illustre varão o mais cabal elogio.

    II

    *Gomes Eannes de Azurara*

    A Fernão Lopes succedeu no cargo de guarda dos archivos Gomes Eannes de
    Azurara, como dissemos no primeiro artigo, com o consentimento d'elle,
    que por velho e doente de boa vontade resignou o emprego, que tão
    dignamente servira. Foi Gomes Eannes filho de João Eannes de Zurara ou
    de Azurara, conego de Evora e de Coimbra. Entrou, sendo mancebo, na
    ordem de cavalleria de Christo, onde chegou a ter o grau de commendador
    de Alcains, a qual commenda possuia em 1454, e que depois trocou pelas
    do Pinheiro-grande e da Granja de Ulmeiro, que achamos serem suas pelos
    annos de 1459.

    Parece que durante a sua mocidade Gomes Eannes, segundo o costume dos
    cavalheiros d'aquelles tempos, se occupou inteiramente no exercicio das
    armas, sem curar de instruir-se nas boas letras. Verdade é que o abbade
    Barbosa o faz erudito na historia desde mancebo; mas o mestre Matheus de
    Pisano, seu contemporaneo, preceptor de D. Affonso V e auctor de uma
    chronica da conquista de Ceuta, escripta em latim, diz que, sendo já de
    idade madura, se applicàra ao estudo, mas que até então fôra
    inteiramente hospede em litteratura.

    Foi depois d'esta epocha que Gomes Eannes entrou no serviço d'el-rei D.
    Affonso V, como guarda da Torre do Tombo, segundo se colhe da carta de
    sua nomeação, passada a 6 de Junho de 1454; como bibliothecario da
    livraria real fundada por aquelle monarcha, do que nos informa mestre
    Matheus na obra citada; e como encarregado de escrever varias chronicas
    das cousas portuguezas, conforme o diz o proprio Azurara no capitulo II
    da Chronica do conde D. Pedro de Menezes.

    Documentos d'aquelle tempo provam D. Affonso V fizera grande estimação
    de Gomes Eannes. Morava este em umas casas d'el-rei á porta do paço de
    Lisboa; tinha uma tença de doze mil reaes brancos; e fez-se-lhe mercê,
    em 1467, de uma capella que vagara para a corôa, graça esta que, como
    observa o abbade Corrêa da Serra, era n'aquelles tempos assaz
    extraordinaria. Doou-lhe, tambem, el-rei umas casas em Lisboa, do que se
    acha memoria no livro 3.^o dos Misticos. Antes d'isto, porém, Gomes
    Eannes era homem abastado, segundo se colhe de outros documentos coevos.

    Ácerca d'este chronista se conserva ainda uma lembrança curiosa no
    Archivo da Torre do Tombo. Em 1461 uma pelliteira viuva e rica, chamada
    Joanna Eannes, o adoptou por filho, constituindo-o seu herdeiro. O já
    citado abbade Corrêa nota, com razão, que tal adopção de um homem
    nobilitado por seus cargos e pela qualidade de cavalleiro, feita por uma
    plebea, era inteiramente opposta ás idêas do seculo XV, devendo-se por
    isso suspeitar que Azurara foi d'aquellas pessoas, para quem o respeito
    ao dinheiro é o principal de todos os respeitos.

    São incertissimas todas as datas relativas á vida de Gomes Eannes:
    apenas se póde dizer que vivera pelo meado do seculo XV. A maior parte
    das memorias que d'elle fallam não mencionam nem a epocha do seu
    nascimento, nem a da sua morte. Algumas ha que dizem fôra nomeado
    chronista em 1459: ignoramos se existe ainda a carta de tal nomeação;
    mas d'isso duvidamos. O que se póde affirmar é que Azurara acabou uma
    das suas chronicas (a do conde D. Pedro) em 1463, porque elle proprio o
    diz. Antes d'esta compozera a da tomada de Ceuta, que serve de terceira
    parte á de D. João I escripta pelo immortal Fernão Lopes; e depois
    d'ella a de D. Duarte de Menezes. Estas são as tres obras, que com
    certeza se podem attribuir a Azurara. Quer, todavia, Damião de Goes que
    na Chronica d'el-rei D. Duarte, attribuida vulgarmente a Ruy de Pina, e
    cuja melhor parte elle julga de Fernão Lopes, houvesse tambem alguma
    cousa de Gomes Eannes.

    Apesar da estimação e respeito que merecera Fernão Lopes aos seus
    contemporaneos, parece que o seu immediato successor lhe levou n'isso
    conhecida vantagem, posto que muito inferior lhe fosse em merito.
    Azurara, tendo de escrever sobre cousas de Africa, passou áquellas
    partes, e lá fez larga demora para conhecer miudamente os logares e
    circumstancias das façanhas que tinha de narrar. Estando alli, recebeu a
    celebre carta de D. Affonso V, que anda impressa no principio da
    Chronica de D. Duarte de Menezes. Este documento prova quão bella era a
    alma d'aquelle monarcha, a quem podemos sem receio chamar o ultimo rei
    cavalheiro, e cuja honrada memoria teem pretendido escurecer aquelles
    que só em seu filho encontram um grande homem. Vê-se nesta carta que D.
    Affonso entendia que uma penna vale bem um sceptro, e o engenho um
    throno. De irmão para irmão não houvera mais affavel e affectuosa
    linguagem, e mais generosas animações e mercês. Bem nos pêsa que não
    seja possivel, pela extensão d'esse documento, o lançal-o n'este logar;
    não para exemplo de reis, mas de quem mais do que elles carece de tão
    formosa lição, neste seculo que se diz allumiado, e em que ha homens que
    em nome da patria votam miseria e fome para àquelles que mais bem
    merécem.

    Do merecimento litterario de Gomes Eannes de Azurara diremos em breves
    palavras o que entendemos. Pode-se de algum modo comparar ao italiano
    Alfieri, posto que pareça pouco exacta qualquer comparação entre um
    auctor de chronicas e um poeta dramatico. E todavia muito ha em um que
    do outro se possa dizer: ambos chegaram á idade viril sem possuirem os
    rudimentos sequer das boas letras: nos escriptos de ambos apparece o
    resultado d'esta falta de educação litteraria: ha em um e outro certa
    inflexibilidade feroz e ausencia inteira d'aquellas graças de estylo que
    nascem do coração amaciado desde a infancia pela cultivação do espirito:
    as concepções nascem-lhes do entendimento, como Minerva da cabeça de
    Jupiter, cubertas, por assim dizer, de um arnez de ferro. Louva-se em
    Azurara, e de louvar talvez é, a sinceridade bravia, com que lança em
    rosto aos heroes, cujas façanhas escreve, os defeitos que tiveram, os
    erros e culpas em que cairam: n'isto se parece tambem, de certo modo,
    com Alfieri. Mas nós preferimos o systema de Froissant e Fernão Lopes:
    para cada um dos seus heroes havia n'estas almas generosas um typo ideal
    a que procuravam assemelhal-os, engrandecendo-os: e por ventura que mais
    proficua é assim a historia ao genero humano. Para acabarmos um
    parallelo, que poderiamos levar mais longe, notaremos a tendencia dos
    dois escriptores, que collocámos em frente um do outro, para
    _philosophar trivialidades_, e ostentar elegancias rhetoricas e
    erudições suadas para elles, impertinentes para os leitores. Move a riso
    ver o pobre Azurara a lidar em pôr claro como a luz do dia, com a
    auctoridade de S. Jeronymo, Sallustio, Fulgencio, e _casy todolos outros
    auctores_, que são temiveis as más linguas, como causa somno o observar
    os tractos que o illustre dramaturgo italiano dá ao juizo para nos fazer
    odiar a tyrannia, ácerca da qual escreveu um volume, cousa muito
    escusada na moderna litteratura. Todavia, em ambos elles a sinceridade
    das intenções suppre de algum modo a aridez e o vazio da obra.

    Posto, porém, que Azurara esteja em grau inferior a Fernão Lopes, não
    deixou de fazer com seus escriptos bom serviço à litteratura patria.
    João de Barros o tinha em subida conta, e até no estylo d'elle se
    comprazia. Não assim Damião de Goes, que foi o primeiro em notar-lhe as
    affectações rhetoricas. Infelizmente para Azurara, Goes era melhor juiz;
    e a posteridade, confirmando a sentença do perspicaz chronista de D.
    Manuel, rejeitou o parecer do historiador da India.

    III

    *Vasco Fernandes de Lucena–Ruy de Pina*

    O nome de Lucena parece vir pouco a ponto em uma noticia dos
    historiadores portuguezes, porque d'elle não resta uma só pagina
    _original_ sobre historia; mas julgamos dever fazer menção de Vasco
    Fernandes, não só por ter sido um dos homens mais celebres do seu tempo,
    como tambem, e principalmente, por ser d'entre elles o primeiro que,
    depois de Azurara, teve o cargo de chronista-mór. Encarregado de varias
    missões politicas nos reinados de D. Duarte, D. Affonso V e D. João II,
    e vivendo, por tal motivo, a maior parte da vida em paizes extranhos,
    occupado, além d'isso, quando residíu no reino, em grandes negocios
    d'estado, não pôde provavelmente occupar-se dos estudos historicos
    necessarios para poder desempenhar as obrigações do seu cargo, do qual
    fez desistencia em Ruy de Pina no anno de 1497.

    Escreveu, todavia, Vasco de Lucena varias obras que, ou se perderam, ou
    jazem manuscriptas em parte que se não sabe. Da _Instrucção para
    Principes_, de Paulo Vergerio, traduzida por elle de ordem do infante D.
    Pedro e que Barbosa diz existir na bibliotheca real, não achámos o menor
    vestigio, apesar de consultarmos um catalogo anterior, segundo nos
    parece, a 1807. Das outras obras suas, de que faz menção Barbosa, tambem
    nenhum rasto encontramos, ao passo que existe uma, que não duvidamos de
    lhe attribuir, e que o nosso illustre bibliographo não conheceu. É esta
    uma traducção franceza de Quinto Curcio, feita no anno de 1468, a qual
    pertenceu a Philippe de Cluys, commendador da ordem de S. João de
    Jerusalem, e que actualmente se guarda entre os manuscriptos do Museu
    britannico.[2]

    * * * * *

    Ruy de Pina succedeu, como dissemos, a Vasco Fernandes, em 1497, no
    cargo de chronista-mór, postoque muito antes exercitasse o officio de
    historiador. Dos primeiros annos de Ruy de Pina apenas se sabe que foi
    natural da Guarda, mas ignora-se o anno do seu nascimento, ainda que
    haja algumas suspeitas de fosse pelos annos de 1440. Em 1482 diz elle
    que fôra por secretario da embaixada mandada por D. João II a Castella,
    e o mesmo cargo serviu d'ahi a dous annos na embaixada de Roma. Parece
    que, voltando de desempenhar esta commissão, o encarregou el-rei de
    escrever as chronicas do reino, apesar de então ser chronista-mór
    Lucena, o que se deprehende de uma provisão de D. João II, em que lhe
    manda dar uma tença de nove mil e seiscentos réis «esguardando ao
    trabalho e á occupação grande que Ruy de Pina escripvão da nossa camara
    tem com o carrego que lhe demos de escrepver e assentar os feitos
    famosos _asy nossos_ como de nossos regnos que _em nossos dias são
    passados_, e ao diante se fizerem[3].» Em outra provisão lhe concede
    tambem seis mil réis de mantimento.

    Depois d'esta epocha ainda Ruy de Pina serviu em outra embaixada a
    Castella e andou envolvido nos difficeis negocios publicos d'aquelle
    tempo, até que, succedendo na corôa D. Manuel, não só lhe confirmou as
    mercês do seu antecessor, mas fez-lhe outras novas, dando-lhe finalmente
    o cargo de chronista-mór, e guarda-mór da Torre do Tombo e da livraria
    real.

    Em 1504 tinha Ruy de Pina concluido os seus trabalhos historicos, porque
    n'esse anno recebeu de D. Manuel uma nova tença de trinta mil réis pelas
    chronicas de D. Affonso V e de D. João II, accrescentando a esta somma
    cinco moios de trigo em Ceuta e um cazal d'el-rei no termo da Guarda.

    «Cheio de honras e de recompensas, diz o abbade Corrêa, que para aquelle
    tempo eram grandes, viveu Ruy de Pina todo o reinado de el-rei D.
    Manuel, alcançando ainda alguns annos do d'el-rei D. João III, que lhe
    encommendou a chronica de seu pae, que deixou adiantada até a tomada de
    Azamor, e de que Damião de Goes confessa ter-se servido para a
    composição da sua.»

    É Ruy de Pina de todos os nossos antigos chronistas o de que nos restam
    maior numero de chronicas. Escreveu elle a de D. Sancho I, D. Affonso
    II, D. Sancho II, D. Affonso III, D. Diniz, D. Affonso IV, D. Duarte, D.
    Affonso V e D. João II. As duas ultimas são sem duvida escriptas
    originalmente por elle. Na de D. Duarte, segundo parece a Damião de
    Goes, o substancial da historia é de Fernão Lopes; o que é relativo á
    expedição de Tangere, de Gomes Eannes de Azurara; e de Ruy de Pina
    apenas a coordenação d'esses diversos trabalhos. Quanto ás da primeira
    dynastia, quer o mesmo Goes (e esta opinião prevalece hoje) que não
    sejam mais que uma recopilação ou resumo do primeiro volume das
    chronicas de Fernão Lopes, que existia em poder de um tal Fernão de
    Novaes, e que D. João II mandou fosse entregue a Ruy de Pina. Impossivel
    parece hoje averiguar até a certeza esta opinião; porque esse volume de
    Lopes ou se perdeu, ou foi aniquilado por Pina, que, ambicioso de pouco
    suada gloria, quiz, pobre corvo de D. João II, adornar-se com as
    brilhantes pennas de pavão do Homero de D. João I.

    Segundo o testemunho de João de Barros, Ruy de Pina foi uma potencia
    litteraria no seu tempo. O historiador da India refere que o grande
    Affonso de Albuquerque tivera a fraqueza de enviar joias a Ruy de Pina,
    para que se não esquecesse d'elle na sua historia. Aquella cujo nome
    devia encher o mundo não teve a consciencia de que era o maior capitão
    do seculo, é creu que a sua immortalidade dependia de um chronista
    obscuro! Triste documento de que os genios mais portentosos estão como
    os homens ordinarios sujeitos às mais ridiculas fraquezas.

    O abbade Corrêa da Serra põe Ruy de Pina acima dos chronistas que o
    precederam. É talvez o juizo litterario mais injusto que se tem
    pronunciado na republica das letras. Que elle exceda Azurara não o
    contestaremos nós; mas que seja anteposto a Fernão Lopes é no que não
    podemos consentir: as narrações de Ruy de Pina, postoque superiores ás
    de Gomes Eannes, estão mui longe da vida e _côr local_ que se encontra
    nos escriptos do patriarcha dos chronistas portuguezes.

    Parece que os fados de Ruy de Pina eram ganhar nome e celebridade á
    custa do trabalho alheio: ajudou elle o seu destino em quanto vivo;
    ajudaram-lh'o outros depois de morto. Em 1608 publicou-se em Lisboa um
    volume em 8.^o com o titulo de _Compendio das grandezas e cousas
    notaveis d'entre Douro e Minho_, obra que no frontispicio é attribuida a
    Ruy de Pina. Este livro, porém, nada mais é do que o que compoz mestre
    Antonio, _fisiquo e solorgiam_, natural de Guimarães, e que em antigos
    codices anda juncto ás chronicas de Ruy de Pina, bastando ler uma pagina
    d'elle para nos convencermos de que é escripto em um periodo da lingua
    anterior á epocha d'este chronista, e que elle talvez não fez mais que
    copial-o, com intento de lhe chamar seu, podendo-se-lhe applicar aquelle
    distico francez:

    Pour tout esprit que le bon homme avait, Il compilait, compilait,
    compilait.

    IV

    *Garcia de Rezende*

    Com os começos do reinado de D. Manuel os horizontes da nossa
    litteratura estenderam-se consideravelmente. Era a epocha do esplendor
    nacional e, ao passo que as nossas conquistas e poderio se dilatavam,
    dilatavam-se tambem os progressos litterarios dos portuguezes. A
    imprensa tinha produzido o magnifico livro da _Vita-Christi_, e com isso
    dava mostra de que Portugal possuia, esse motor maravilhoso que devia
    conduzir a Europa com passos agigantados pela estrada da civilisação e
    do progresso. N'este reinado de gloria e de predominio–mas de uma
    gloria differente da antiga e de um predominio que assentava sobre base
    tão incerta como eram os milhões de ondas do oceano em que elle se
    estribava–proseguiu em maior escala o triste systema de D. João II de
    substituir a agricultura pelo commercio, como fonte principal da riqueza
    publica. Era então que a monarchia, aniquilando os derradeiros restos da
    sociedade feudal nas Ordenações Manuelinas, e assentando-se na larga e
    firme base do direito romano, realisava e completava, por um lado o
    pensamento politico, por outro o pensamento economico do manhoso filho
    do nosso ultimo rei cavalleiro. As palavras _e da conquista, navegação e
    commercio da Ethiopia_, etc., que D. Manuel accrescentava ao dictado de
    _senhor de Guiné_, que D. João para si tomara, eram a expressão mais
    simples e mais exacta da idêa commercial e monarchica, isto é, de que o
    commercio obtido por meio das conquistas e navegações pertencia ao
    _senhorio real_, e a historia dos ciumes de D. João II e do seu
    successor sobre os novos descobrimentos confirma a nossa opinião. Assim
    o estado se confundia ou, antes, se incorporava na corôa, e se
    constituiam essas formas politicas dos reinados seguintes que resumbram
    em toda a legislação posterior, e a que, talvez, possamos chamar meio
    termo entre o absolutismo e o despotismo, como a organisação social
    portugueza antes das côrtes de 1481 se póde também considerar como um
    meio termo entre o absolutismo e a monarchia representativa.

    Substituida, portanto, a agricultura, que era do povo, pelo commercio
    exclusivo, que era da corôa, e extinctas as tradições feudaes na nova
    compilação Manuelina, a idade media morrera, com o seu systema de luctas
    e resistencias, e começara esse seculo XVI, cujo caracter essencial em
    politica foi a unidade monarchica. Este phenomeno explica o novo aspecto
    que tomou a historia e o apparecimento de uma litteratura cortezan e
    paceira, que visivelmente se distingue nos poetas mais modernos do
    cancioneiro, nas obras latinas que por esse tempo appareceram,
    principalmente nas de Cataldo Siculo, e nos autos do Aristophanes
    portuguez Gil-Vicente, compostos para alegrar as horas de tedio nos
    paços de D. Manuel. A chronica tomou logo o sabor do elogio historico, e
    Garcia de Rezende, velho cortezão, escreveu a vida de D. João II debaixo
    dos tectos dos sumptuosos paços da Ribeira. A este pobre homem não cabe,
    todavia, a gloria da invenção d'aquelle genero historico: Ruy de Pina
    foi o seu inventor. A Chronica de D. João II escripta por este foi o
    modelo ou, antes, o original da de Garcia de Rezende, que apenas lhe
    accrescentou alguns dictos e feitos do seu heroe, algumas anecdotas
    desenxabidas e triviaes de antecamara, em que não esqueceram as
    acontecidas com o proprio auctor. Garcia de Rezende não fez senão
    aperfeiçoar a chronica individual e tornal-a, ainda mais que Ruy de
    Pina, uma biographia real. E que outra fórma podia ter a historia n'uma
    epocha em que a organisação social tinha sumido o povo, a nobreza, e
    ainda o clero, debaixo do throno do monarcha?

    Seria uma das comparações mais curiosas a do caracter historico da
    Chronica de D. João I por Fernão Lopes com o da Chronica de D. João II
    por Garcia de Rezende, se ao mesmo tempo se comparasse o estado da
    sociedade portugueza no meado do seculo XV com o em que se achava no
    principio do XVI. Esta comparação nos parece serviria para explicar as
    formulas historicas pelas politicas, e vice-versa estas por aquellas.

    Que distancia espantosa não ha, com effeito, entre o grande poema de
    Lopes e a mesquinha collecção de historietas de Garcia de Rezende, onde
    apenas avultam algumas paginas com o supplicio de um nobre, o assassinio
    de outro, e o mysterio de um rei que morre, ao que parece; envenenado?
    Que distancia espantosa de um cadafalso, de um punhal, e de uma taça de
    veneno, ao cerco de Lisboa, à batalha d'Aljubarrota, ao baquear de
    Ceuta? No livro de Garcia de Rezende vê-se o aspecto triste, e a vida de
    agonia, e o sorrir forçado de um rei sem familia, rodeado de cortezãos,
    cujos nomes pela maior parte se resolvem em fumo com o morrer de seu
    senhor, a quem seguem os ginetes de Fernão Martins, os bésteiros e
    espingardeiros da guarda, não para pelejarem com estranhos, mas para o
    defenderem contra os odios de seus naturaes. Ahi o vulto real abrange
    quasi os horizontes do quadro, e só lá no fundo, mal desenhadas e
    indistinctas, se enxergam as personagens historicas d'aquella epocha, e
    as multidões agitadas ou tranquillas a um volver d'olhos do monarcha,
    mas nullas tanto em um como em outro caso. Na chronica de Fernão Lopes
    ha, pelo contrario, a historia de uma geração: é um quadro immenso de
    muitas figuras no primeiro plano. Nos degráus do throno de D. João I
    estão assentados guerreiros e _sabedores_, e monges e clerigos, e povo
    que tumultua e brada com vóz de gigante–_patria_! Ao pé da imagem
    homerica de Nunalvrez vê-se a fronte serena e sancta do arcebispo de
    Braga, e a face meditabunda e enrugada de João das Regras, e os vultos
    terriveis do Ajax portuguez Mem Rodrigues, e do esforçadissimo Martim
    Vasques, e de tantos outros cavalleiros a quem difficilmente sobrepuja o
    rei popular, o Mestre de Aviz. O chronista faz-vos acompanhar as
    multidões quando rugem amotinadas pelas ruas e praças; guia-vos aos
    campos de batalha onde se dão e recebem golpes temerosos; abre-vos as
    portas dos paços ao celebrar das côrtes, ao discutir dos conselhos;
    arrasta-vos aos templos onde trôa a voz do monge eloquente; lança-vos,
    emfim, no existir dos tempos antigos, e embriagando-vos com o perfume da
    idade media, e deslumbrando-vos com o brilho da epocha mais gloriosa da
    historia d'esta nossa boa terra portugueza, evoca inteiro o passado, e
    rasgando-lhe o sudario em que jaz, com o sopro do genio dá alma, e vida,
    e linguagem ao que era pó, e morte, e silencio.

    Em Ruy de Pina raro se encontra a historia da nação: em Garcia de
    Rezende talvez nunca. Fernão Lopes e Azarara tinham escripto no tempo de
    Affonso V: estes escreviam no de D. Manuel. D'ahi provém a differença.

    Em poucas palavras o pouco que se sabe da biographia de Rezende.

    Ignora-se a epocha do seu nascimento; mas sabe-se que era natural de
    Evora é irmão do celebre André de Rezende, o traductor de Cícero. Foi
    pagem da escrevaninha de D. João II e seu predilecto. Grato por isto,
    lhe escreveu a vida, a qual se imprimiu Evora em 1554.[4] Compoz tambem
    uma relação da ida infanta D. Beatriz para Saboia, e outra da viagem
    d'el-rei D. Manuel a Castella, e finalmente umas trovas satyricas que
    intitulou _Miscellanea_. Colligiu em um volume as poesias avulsas que no
    seu tempo tinham mais celebridade, tanto dos poetas d'quella epocha,
    como de outros mais antigos. Este volume, que foi dado á luz por elle em
    Lisboa em 1516 com o titulo de _Cancioneiro Geral_, é hoje um dos mais
    raros monumentos da nossa litteratura, e o verdadeiro titulo de gloria
    de Garcia de Rezende.

    Em 1514 foi a Roma como secretario de embaixador Tristão da Cunha,
    mandado ao papa por el-rei D. Manuel. Voltando á patria morreu em Evora,
    não sabemos em que anno, e jaz no convento do Espinheiro.

    CARTAS SOBRE A HISTORIA DE PORTUGAL

    1842

    *CARTA I*

    1 d'abril de 1842.

    Srs. Redactores da _Revista universal lisbonense_.–A reforma ha pouco
    feita no seu estimado jornal; o agasalhado que n'elle se concede a tudo
    quanto se chama fructo de sciencia humana; a maior extensão de
    escriptura que nas suas paginas se póde hoje encerrar; e sobretudo a
    ambição, que desperta nos entendimentos ainda humildes, de se acharem á
    meza da sciencia em tão honrada companhia litteraria como a dos
    collaboradores da _Revista_; tudo isso me excitou a dirigir-lhes esta
    carta, que folgarei mereça a honra da publicação, e que se o merecer
    será seguida por outras sobre o mesmo objecto, porque traçando e
    alevantando a _Revista_ um formoso edificio de civilisação n'esta pobre
    terra de Portugal, posto que eu saiba serem as pedras que posso cortar e
    carrear para o monumento toscas e mal desbastadas, sei tambem que até
    estas teem sua cabida e serventia, quando para mais não sejam ao menos
    para sumir lá nos alicerces e na grossura dos muros, em quanto os
    artifices de primor vão aperfeiçoando as portadas, columnas, cimalhas,
    remates, e mais exterioridades de desenho, em que os architectos da obra
    põem as suas complacencias d'artistas.

    Entendi eu, que o entreter alguns momentos os leitores da _Revista_ com
    diversos estudos sobre a nossa antiga antiga historia, não seria
    fazer-lhes mau serviço. Ha n'este fallar das recordações de avós o que
    quer que é saudoso e sancto, porque a historia patria é como uma d'estas
    conversações d'ao pé do lar em que a familia, quando se acha só, recorda
    as memorias do pae e mãe que já não são, de antepassados e parentes que
    mal conheceu. Mais saboroso pasto d'espirito que esse não ha talvez,
    porque em taes lembranças alarga-se o ambito dos nossos affectos: com
    ellas povoamos a casa de mais entes para amarmos; explicamos pelos
    caracteres e inclinações dos mortos os caracteres e inclinações dos que
    vivem; os habitos actuaes pelos habitos e costumes dos nossos velhos.
    Se, abastados e engrandecidos, viemos de humildes e pobres, pretendemos
    muitas vezes fazer esquecer ao mundo o nosso berço; mas no abrigo
    familiar, deixada tão viciosa vergonha, abrimos o larario domestico e
    tiramos d'elle os deuses da meninice, grosseiros simulacros da imagens
    paternas, e folgamos de os contemplar, e de recontar ou de ouvir a sua
    historia, que temos recontado e ouvido mil vezes, que todos os da casa
    bem sabem, mas que sempre narramos ou escutamos com attenção e deleite,
    e talvez com enthusiasmo. As recordações da terra da patria não são,
    porém, mais que as memorias de uma numerosa familia.

    Ha muito que para ellas voltei as minhas predilecções. E não sei, até,
    quem possa deixar de o fazer em tempos como os que ora correm. Se o rico
    e poderoso que nasceu dos minguados e chãos vai pedir ao passado frescor
    e regalo para o espirito, como deixará o que se vê abatido e em
    amarguras de lembrar-se de opulentos e nobres avós? Qual será a nação
    que amarrada ao poste do padecer, ludibriada e appupada por tudo,
    despida, cuberta de lodo, cheia de pisaduras e de feridas, se não volte
    para os tempos que passaram quando esses tempos foram feracissimos de
    muitos generos de grandezas e de glorias, e como o Salvador no Calvario
    lhes não diga: _Tenho sêde_? Quem, vendo diante de si desfolharem-se-lhe
    uma a uma todas as esperanças, se não retrahe do presente, e não vai
    pelo campo sancto dos seculos buscar e colher saudades de consolação?

    Separado, e não de poucos dias, d'esse tumulto e ruido da sociedade
    actual, que Deus louvado não entendo nem desejo entender, e em cujas
    opiniões e idéas, ou por demasiado grandiosas ou por vergonhosamente
    pequeninas, não acho medida pela qual afira e concerte as minhas, que
    não passam de triviaes e means; ajuramentado com a propria consciencia
    para deixarmos seguir o mundo seu caminho, bom ou mau, com tanto que não
    nos embargue o nosso, tenho procurando estudar algumas epochas da tão
    poetica e formosa historia da gente portugueza. É para varios d'esses
    estudos imperfeitissimos que eu peço algumas columnas da _Revista
    universal_, não porque elles preencham completamente os fins da
    instituição d'este Jornal–a instrucção; mas porque poderão mover os que
    valem e sabem muito a que, pretendendo corrigir erros sobejos, em que
    por certo cairei; instruam verdadeiramente o commum dos leitores da
    _Revista_, e os chamem a contemplar o espectaculo da nossa sociedade
    antiga.

    Estes estudos, feitos por um systema d'historia como me pareceu que
    elles deviam ser feitos, apparecerão na _Revista_ soltos, em quanto de
    mais perfeito modo os não posso trazer á luz da imprensa. Fragmentos são
    os que unicamente se hão-de e devem lançar nas columnas de uma folha
    volante, entre cujos meritos a variedade é talvez o que mais se busca.
    Trabalhos completos são para livros, e livros d'historia estou eu (sem
    humildade hypocrita o digo) bem longe ainda de os poder fazer. Todavia
    darei a estas Cartas, quanto em mim couber, um certo nexo, que a
    natureza da materia requer. Um dos principaes defeitos dos trabalhos
    historicos do nosso paiz parece-me ser a _insulação_ de cada um dos
    aspectos sociaes de qualquer epocha, que nunca se conhecerá, nem
    entenderá, em quantop a sociedade se não estudar em todas as suas formas
    d'existir, em quanto se não contemplar em todos os seus caracteres.

    Estas Cartas, se merecerem a approvação de vv. ss., poderão algum dia
    servir, no que tiverem bom, se tiverem, de esclarecimento e notas a uma
    parte da Historia Portugueza, como eu concebo que ella se deveria
    escrever: historia não tanto dos individuos como da Nação; historia que
    não ponha á luz do presente o que se deve ver á luz do passado;
    historia, emfim, que ligue os elementos diversos que constituem a
    existencia de um povo em qualquer epocha, em vez de ligar um ou dois
    d'esses elementos, não com os outros que com elle coexistem, mas com os
    seus affins na successão dos tempos, grudados pelos tôpos
    chronicologicos com massa de papel feita das folhas _Arte de verificar
    as datas_.

    *CARTA II*

    Quando, volvendo os olhos para os tempos remotos, indagamos a historia
    de nossos antepassados e da terra em que nascemos, a primeira pergunta
    que nos occorre para fazermos ás tradições e monumentos é naturalmente a
    seguinte: onde, quando, e como nasceu este individuo moral chamado a
    Nação? O berço da sociedade de ser, com effeito, a primeira pagina da
    sua historia.

    Quem, examinando uma carta topographica da Peninsula espanhola, vê esta
    faixa de terra chamada Portugal, estreitada entre o oceano e o vulto
    enorme da Hespanha, sem divisões nascidas da natureza do solo e fundadas
    na geographia physica, que a separem naturalmente della, e quando depois
    disto sabe que por sete seculos, com a curta interrupção de sessenta
    annos, os habitadores deste cantinho do mundo conservaram intacta a sua
    independencia e individualidade nacional, prevê desde logo nesses
    homens, que assim souberam conservar-se livres d'estranho jugo, grandes
    virtudes e generoso esforço, e na organisação social do paiz uma
    extraordinaria robustez e uma harmonia notavel com as suas necessidades
    e indole; porque as instituições e costumes de qualquer povo são a sua
    physiologia, pela qual se lhe explica principalmente o curto ou o
    dilatado da vida. A curiosidade então volta-se para a primeira infancia
    desse povo, para a epocha em que disse a si mesmo: _Eu existo_. Na
    disposição daquelles tenros annos devem-se-lhe achar já os annuncios do
    vigor da juventude e da idade viril.

    Tanto que o imperio wisigodo desabou em ruinas ao embate violento do
    enthusiasmo e pericia militar dos arabes, e a policia e civilisação
    destes substituiu nas Hespanhas a muito mais viciosa e incompleta
    civilisação dos godos, a reacção christã e europea contra a violencia
    mahometana e asiatico-africana começou immediatamente. Desde a batalha
    do Chryssus ou Guadalete, em que expirou o imperio fundado por
    Theodorico e estabelecido em toda a Peninsula por Leovigildo, até o
    encontro de Canicas ou Cangas, em que pôde dizer nasceu o reino de
    Asturias, bem curto espaço mediou. Restituido pela desgraça a esse
    punhado de godos o antigo valôr e energia, em quanto os arabes perdiam o
    primeiro nos ocios do triumpho, nos deleites de uma civilisação immensa,
    e malbaratavam a segunda nas luctas intestinas, os territorios e o
    poderio christão cresceram e prosperaram até o tempo d'Affonso III rei
    d'Oviedo, ao passo que o imperio arabe se achava já decadente no rei
    reinado de Abdallah, antecessor e avô do celebre Abderranhhman III
    (Annassir). Mas Abderrahhman, o maior dos Ommaijadas, restabelecendo a
    unidade do governo na Hespanha arabe, regendo os povos com justiça e
    sabedoria, resistindo aos valentes reis de Leão e Asturias, Ordonho II e
    Ramiro II, e aproveitando habilmente, depois da morte destes, as
    dissenções dos christãos para exercitar sobre elles uma especie de
    patronato, segurou para largos annos na Peninsula o dominio do Islam.
    Seguiram-se as variadas e terriveis guerras de mais de dous seculos
    entre as duas raças inimigas que disputavam o dominio das Hespanhas, e a
    representação dos dramas ensanguentados que mancham torpemente tanto as
    paginas dos annaes christãos como as dos musulmanos. Ora os arabes levam
    de vencida os netos dos godos, ora estes os arabes; de dia para dia as
    fronteiras indecisas das duas nações inimigas circumscrevem-se ou
    alargam-se prodigiosamente: as divisões intestinas de um dos campos são
    por via de regra o signal de victoria para o campo contrario; grandes
    capitães sobem aos thronos, e d'ahi a pouco os thronos se derrocam
    debaixo dos pés de reis inhabeis, viciosos, ou crueis.

    Durante mais de cinco seculos a Peninsula foi um cahos, e a sua historia
    é um mixto confuso e monstruoso de todas as virtudes e de todas as
    atrocidades. Entre os arabes, apezar da cultura intellectual,
    predominava a barbaria moral: as letras e as sciencias, levadas a um
    alto gráu d'esplendor, não suavisaram jámais os costumes ferozes dos
    mahometanos, porque a civilisação moral nunca existiu na terra senão por
    beneficio do christianismo. Nos estados christãos, pelo contrario, era a
    rudeza intellectual que destruia as influencias moraes do evangelho. As
    paixões desenfreadas no meio do estrondo de uma lucta de morte entre
    homens diversos por origem, lingua, instituições e religião, corriam
    despeadas, e os fratricidios, os homicidios, os roubos, as violações, os
    incendios, os sacrilegios multiplicavam-se por toda a parte. As leis
    calavam-se, a espada imperava, e a bruteza do povo era tal, que o
    proprio clero, classe distincta no tempo dos wisigodos por sua cultura,
    tinha caído na extrema barbaridade. Ainda nos fins do seculo XI os
    conegos de Compostella eram comparados por um escriptor, que vivia entre
    elles, a animaes brutos e indomados[5], comparação que justificam
    milhares de successos conservados nos documentos e memorias desses
    tempos.

    Da somma, porém, dos acontecimentos daquella epocha vêem-se resultar
    dous factos geraes–a decadencia da sociedade arabe, e os progressos de
    organisação na sociedade christã. Tendia a dissolver a primeira a grande
    variedade de tribus e nações africanas, asiaticas e europeas, que
    estanceavam pelas diversas provincias da Hespanha, umas vezes sujeitas
    ao khalifado de Cordova, outras rebelladas contra elle[6]. Estas tribus
    e nações, unidas unicamente pela crença commum, guerreavam-se atrozmente
    a todos os instantes, e para maior desordem por entre ellas vivia a raça
    gothica-romana, conhecida pelo nome pouco proprio de mosarabes[7] que,
    sujeitando-se aos arabes na occasião da conquista, forçosamente devia
    desejar o triumpho e predominio dos seus correligionarios. Por outro
    lado a civilisação dos arabes, assentando sobre a falsa base do
    Islamismo, brevemente envelheceu e tornou-se em corrupção de costumes,
    enfraquecendo e envilecendo os animos. O quadro da decadencia moral da
    Hespanha mahometana no meado do Seculo XII, que no livro intitulado
    _Regimento de principes e capitães_ faz Ben Abdelvahed, é espantoso, e
    quanto ao estado politico a situação dos arabes não era melhor. Não
    havia paz nem segurança em parte alguma, e o imperio caía em pedaços no
    meio das dissenções civis[8]. Accrescentavam o mal as estreitas relações
    e unidade politica do imperio de Cordova com as provincias da
    Mauritania, cujas revoluções estendiam os seus effeitos até a Peninsula;
    e as repetidas mudanças de predominio das tribus e dynastias, por via de
    regra, procediam das alterações e guerras que se alevantavam na Africa.

    Pelo contrario os reinos christãos da Hespanha eram mais homogeneos:
    havia ahi muitas dissidencias de ambição; porém as incompatibilidades de
    raça quasi que não existiam, porque só no reinado de Affonso VI os
    francezes vieram influir na Peninsula, mas como individuos e não como
    nação, e esta influencia foi ainda ecclesiastica do que politica. Não
    houve uma colonisação franceza nos dominios de Affonso VI: houve sim a
    collocação de bispos daquelle paiz em muitas dioceses, o chamamento de
    muitos principes e cavalleiros da França aos cargos politicos e
    militares. Estes estrangeiros traziam as idéas e as instituições da sua
    terra natal, traziam ás vezes a oppressão, mas incorporavam-se na raça
    goda. Se impunham habitos e costumes estranhos, acceitavam tambem muitos
    usos e idéas da nova patria, os seus filhos eram inteiramente
    hespanhoes, e este elemento adventicío de povoação, em vez de contribuir
    para o enfraquecimento da força social, servia realmente para a
    fortalecer.

    Os resultados das invasões e conquistas, que de continuo arabes e
    christãos faziam mutuamente nos territorios dos seus a adversarios, eram
    tambem diversos. Ainda rebaixando no que dizem os escriptores arabes
    sobre a excessiva povoação das Hespanhas, é indubitavel que nas
    provincias dominadas pelos serracenos ella foi muito mais numerosa do
    que hoje é. Esta povoação, porém, era em grande parte romano-gothica ou
    mosarabe, e, como já disse, para ella as invasões feitas pelos homens da
    mesma crença não podiam ser consideradas como destinadas a subjuga-la
    mas a quebrar-lhe o jugo dos infieis. Esta circumstancia tornava-se
    tanto mais importante, quanto é certo que os wisigodos que acceitaram o
    dominio arabe, ficaram na mesma situação civil[9] em que se achavam no
    momento da conquista, e por consequencia possuidores de riquezas,
    senhores de servos, superiores por isso forçosamente a uma parte da
    população arabe, e iguaes da mais abastada. Assim não só eram um
    poderoso auxilio para os christãos no meio dos inimigos, mas por muitas
    vezes bastaram por si sós para expulsar d'algumas povoações os
    conquistadores sarracenos[10].

    Desde os meados do undecimo seculo apparece na Hespanha um systema
    regular d'organisação. O concilio, ou côrtes, de Leão convocado em 1020
    por Affonso V constitue uma data importante na historia social da
    Peninsula. N'este concilio, ou côrtes, se estabeleceram leis politicas e
    civis geraes para todas as provincias do reino leonez, que eram Leão,
    Galliza, Asturias e Castella. Fernando I celebrou igualmente côrtes em
    1046, 1050, e 1058.

    O caracter principal das resoluções d'estes parlamentos (á excepção do
    ultimo que elle convocou para dar validade á divisão do reino entre seus
    tres filhos) é o de regular e fixar o direito de propriedade. A par
    d'estas leis geraes, os _fueros_ propriamente dictos (foraes) tendiam a
    augmentar a povoação, estabelecendo as communas e ligando-as por muitos
    modos ao corpo politico. Alguns d'estes foraes conhecidos remontam ao
    tempo de Affonso V, mas multiplicam-se cada vez mais com o correr dos
    tempos. Isto é, o pensamento de organisação vigora e cresce cada vez
    mais. A sociedade christã da Hespanha revela no seculo XI um progresso
    constante de vida, de ordem, e de energia.

    E a sociedade arabe?–A queda do imperio dos Ommaijadas (1037), o qual
    durara perto de tres seculos, foi o resultado das dissenções civis.
    Tirado este centro d'unidade, que nos seus ultimos tempos era apenas um
    nome, os diversos bandos travaram luctas duradouras e sanguinolentas. A
    Hespanha arabe retalhou-se em tantos principados, quantos eram os
    cabeças de partido. A guerra civil prolongou-se por quasi todo o seculo
    XI; e bem que nos estados christãos as houvesse tambem entre os tres
    filhos de Fernando Magno, estas tinham passado rapidamente, e Affonso
    VI, vencidos seus irmãos, reinava por fim tranquillo nas Asturias,
    Galliza, Leão e Castella, e rei de uma nação energica e unida
    conquistava, ou fazia tributarias da sua corôa, as principaes cidades e
    provincias dos sarracenos da Peninsula.

    Para as suas guerras brilhantes muitos nobres cavalleiros francezes
    atravessaram os Pyreneus. Foi entre estes que Henrique de Borgonha veio
    á Hespanha, para ser o fundador da independencia dos portuguezes.

    *CARTA III*

    A origem da independencia de Portugal, e a sua separação do reino
    leonez, tem sido uniformente attribuida pelos nossos historiadores ao
    casamento do principe borgonhez Henrique com D. Thereza, filha de
    Affonso VI. É cousa assentada que o rei leonez, casando sua filha, lhe
    dera _em dote_ a terra de Portugal, que, tendo estado já separada da
    Galliza, então o foi de novo ficando-lhe servindo de limite o Minho.
    Esta opinião que até hoje tem passado inconcussa, sendo ainda recebida
    por um sabio dos nossos dias, respeitavel por todos os titulos,
    parece-me todavia involver difficuldades insuperaveis.

    Até á invação dos arabes, os godos conservaram nas Hespanhas tenazmente
    as instituições germanicas ácerca dos dotes. Pelas suas leis, contrarias
    ao que estatuiam as leis romanas, era noivo quem dotava a mulher.
    Similhante costume dos barbaros, porventura mais nobre que o romano, foi
    regulado por uma lei de Chindaswintho, inserida no _Codigo
    wisigothico_[11]. Esta lei, assim como as mais disposições d'aquelle
    codigo, atravessando o dominio dos arabes, que deixaram aos vencidos o
    governarem-se civilmente pela sua legislação e pelos seus magistrados,
    continuou a vigorar, não só até o tempo de Affonso VI, mas porventura
    até a publicação da lei das Partidas[12]. Não havia pois na legislação
    d'Hespanha, nem nos usos nacionaes, n'esta parte perfeitamente accordes
    com ella, causa alguma para o rei de Leão se lembrar de pôr em pratica,
    no casamento de sua filha, um costume romano, provavelmente até ignorado
    por elle.

    Seria este acto insolito uma imitação de costumes francezes? Fica dicto
    foi no reinado de Affonso VI, principalmente, que as idéas e
    instituições francezas se introduziram na Peninsula. Nas suas vastas
    empresas contra os arabes, este rei ajudou-se grandemente de cavalleiros
    francezes, a quem enriquecia e honrava, ao mesmo passo que enchia as
    cadeiras episcopaes de bispos d'aquella nação.

    A predilecção que elle sempre mostrou pelas cousas de França, e que
    tanto contribuiu para alterar os costumes wisigodos, podiam tê-lo movido
    a seguir, casando suas filhas com os principes borgonhezes Raimundo e
    Henrique, e outra com o conde de Tolosa, os costumes d'aquelle paiz, se
    elles n'esta parte fossem contrarios aos das Hespanhas.

    Mas não acontecia assim. Ainda n'aquelle seculo era commum por toda a
    Europa a instituição germanica ácerca dos dotes. Em Ducange, á palavra
    _Dos_, se acham colligidas as disposições dos diversos codigos europeus
    a este respeito, bem como documentos de que os factos não eram
    contrarios á legislação: o que sempre é necessario examinar na historia
    da idade media, na qual a confusão social, e a ignorancia em que jaziam
    todas as nações, faziam que a pratica das relações civis contrastasse ás
    vezes com os preceitos legaes.

    A difficuldade de acceitar a tradição de um facto incomprehensivel para
    os individuos por quem se diz praticado seria bastante para o tornar
    mais que suspeito. Mas ainda occorrem contra elle outras considerações.

    É incontestavel que Raimundo, o marido de D. Urraca, senhoreou a Galliza
    e Portugal, antes de Henrique; e que a porção do territorio hespanhol
    dado a este para governar como conde, ou consul, foi desmembrada do
    territorio governado pelo conde Raimundo antes do fallecimento d'este.
    Se Portugal foi dado em dote a D. Theresa com direito hereditario,
    segundo affirma a chronica latina do imperador Affonso Raimundez,
    provindo d'essa circumstancia o governo de Henrique, como se ha-de
    suppor que D. Urraca, filha mais velha e incontestavelmente legitima,
    não recebesse em dote tambem, _jure haereditario_, as terras que seu
    marido governou? E se assim foi, como e porque se destruiu em parte este
    direito, dando em dote de outra filha uma porção do que já era dote de
    D. Urraca, e isto sem que Raimundo se queixasse, antes fazendo pactos de
    concordia e mútua alliança, como o que fez com o conde Henrique?

    Além d'isso, D. Elvira, irmã de D. Theresa e casada com o conde de
    Tolosa, não recebeu em dote terras algumas: diz-se que fôra a causa
    d'isto o possuir Raimundo de S. Gil estados em França. Mas que lei ou
    costume d'Hespanha obstava a que elle possuisse um condado em outro
    paiz, conjunctamente com os estados que tivesse em Leão? E se não havia
    legislação ou uso em contrario, porque consentiu este principe, mais
    poderoso que os outros dois, que fossem para elles estas liberalidades,
    ao passo que ficava sem quinhão na monarchia hespanhola, que assim se
    faz retalhar loucamente pelo habil Affonso VI?[13].

    Mas admittindo que isto acontecesse, ainda resta difficuldade maior.
    Além de Urraca, Theresa e Elvira, Affonso VI teve uma filha chamada
    Sancha e outra Elvira[14], nascidas da rainha Isabel, a primeira das
    quaes casou com o conde Rodrigo Gonçalves e a segunda com Rogerio, duque
    de Sicilia. Quanto a este, nada accrescentarei ao que já disse ácerca do
    conde de Tolosa, Raimundo de S. Gil. Mas no conde Rodrigo Gonçalves não
    se dava por certo a circumstancia de ser principe estrangeiro, com
    estados fóra d'Hespanha, e todavia não consta que el-rei dotasse a
    infanta D. Sancha com terras ou provincias que elle devesse possuir
    _hereditariamente_, antes pelo contrario, possuindo o conde Rodrigo as
    honras de Asturias de Santillana, lhe foram estas tiradas por suas
    turbulencias, e reconciliado depois com Affonso VI lhe deu el-rei o
    governo de Segovia, e a alcaidaria de Toledo, que tornou a tirar-lhe
    passados tempos, ao que parece, por seu genio inquieto[15]. Porque seria
    excluido, porém, o conde Rodrigo, nobre, natural, e poderoso, do
    beneficio que recebera um estrangeiro pobre, embora illustre e valente?
    É na verdade inexplicavel similhante contradicção.

    A estes raciocinios, fundados em factos incontroversos, nenhum
    argumento, nenhuma auctoridade se póde oppor senão uma phrase do
    chronista anonymo de Affonso Raimundez, que, fallando de D. Theresa, não
    directamente mas por occasião da guerra de Affonso VII com seu primo
    Affonso Henriques, diz–que Affonso VI a casara com o conde Henrique, e
    a dotara magnficamente, dando-lhe a terra portugalense com _dominio
    hereditario_. Este testemunho singular, porque todas as outras memorias
    coevas guardam silencio a similhante respeito, será porém de tal peso
    que nos faça acreditar um facto contrario á legislação e aos costumes da
    epocha, e laborando nas difficuldades que apontei? Não o creio. A
    chronica latina é proxima, porém não contemporanea do reinado de Affonso
    VII, segundo o diz seu auctor, _que ouviu contar os successos d'aquelle
    reinado aos que os tinham presenciado_[16], o que por certo não poderia
    dizer do reinado de Affonso VI, começado, pela segunda vez, 54 annos
    antes do de seu neto. E sendo d'aquelle reinado o casamento de D.
    Theresa, deve-se confessar que para o A. da chronica eram as
    circumstancias d'elle tradições um pouco remotas.

    Ajunte-se a isso que d'esta historia apenas restavam copias incorrectas
    e incompletas quando, depois de Berganza, a publicou Flores, e que ella
    passou pelas mãos do celebre falsario, consocio de Fr. Bernardo de
    Brito, o padre Higuera[17]. Será portanto bastante por si só para
    dissolver as dúvidas apontadas? Aconselha-lo-ha a boa critica? Parece-me
    que não.

    Mas suppondo a chronica d'Affonso VII esteja correcta e sem
    interpollação, e que a sua auctoridade se deva acceitar como a de um
    testemunho contemporaneo, ainda assim ella provaria quando muito que D.
    Affonso VI dera a seu genro, em attenção a D. Theresa, o governo de
    Portugal para si e seus filhos perpetuamente, visto que o hereditario se
    ía introduzindo nos cargos administrativos como na corôa. Tal seria pois
    n'esse caso a significação da palavra _dote_, que então era mui diversa
    da que hoje lhe damos, e correspondia a _donatio_, como se vê claramente
    dos diplomas que vão indicados em nota[18].

    Mas o conde Henrique governou Portugal em quanto viveu. D. Theresa o
    governou igualmente depois da morte d'elle, em 1112[19], até seu filho a
    desapossar da suprema auctoridade em 1128. Este, finalmente, tomando o
    titulo de rei, firmou para sempre a separação e independencia de
    Portugal dos reinos de Leão e Castella. Como se consummou similhante
    facto? Qual foi a historia d'este successo, verdadeira ou pelo menos
    provavel?[20]

    Como seu primo Raimundo conde de Borgonha; como os demais cavalheiros
    francezes que n'aquella epocha vinham exercitar nas Hespanhas a maxima
    virtude do seculo–o guerrear o Islamismo, Henrique IV, filho de outro
    Henrique senhor de Borgonha ducado, serviu ao que parece por muito tempo
    nos exercitos de Affonso VI. As conquistas de Fernando Magno tinham
    alargado os ambitos do imperio leonez. Affonso VI seguiu a carreira
    gloriosa de seu pae, e Toledo, a antiga capital dos godos, caiu em suas
    mãos. Pelo lado de Portugal os dominios de Fernando Magno tinham-se
    estendido até Coimbra. Seu filho continuou a guerra por esta parte, e
    chegou a apossar-se temporariamente de Santarem, Lisboa e Cintra, mas
    empregou principalmente as forças para o lado de Toledo. O conde
    Raimundo de Borgonha, marido de sua filha D. Urraca, foi por elle
    encarregado do governo da Galliza, incluindo n'esse territorio tudo o
    que corre desde o Minho até o Mondego, e depois até o Téjo: o que n'esse
    tempo ora se considerava como parte da Galliza, ora como um ou mais
    condados distinctos d'ella[21], constituindo no todo, talvez, a mais
    vasta provincia do reino de Leão e Castella.

    Mas esta mesma grandeza tornava necessaria a divisão do territorio;
    porque, estabelecida a auctoridade militar, civil, e politica no centro
    da actual Galliza, não era facil nem admnistrar bem os logares mais
    remotos para o sul, nem preseguir com energia e actividade a guerra na
    frontaria dos mouros. Este pensamento deu provavelmente origem á escolha
    de Henrique para governar as terras que se estendiam desde o Minho até
    as raias da provincia conhecida entre os arabes pelo nome generico
    d'_Algarb_;[22] e por ventura a derrota que padece o conde Raimundo
    n'uma entrada que fizera até Lisboa[23] pelos annos de 1094 serviu para
    apressar a realisação d'este pensamento. Ou Henrique fôsse já conde e
    genro d'el-rei, ou n'esta occasião casasse, e recebesse esse titulo[24]
    pelo governo que se lhe encarregava, o que é certo é que no principio de
    1095 elle governava Coimbra, em 1096 o territorio de Braga,
    incontestavelmente desde o Minho até o Téjo em 1097.[25] Se ao principio
    esteve subordinado a Raimundo na administração parcial de Coimbra e de
    Braga; se logo governou independente d'elle toda a parte de Portugal
    moderno, conquistada já então aos mouros, é cousa que me parece não se
    poder affirmar nem negar, e que talvez algum dia se haja de resolver,
    quando venha a ser conhecido maior numero de documentos d'aquella
    epocha.

    O novo conde deu provavelmente então toda a actividade á guerra com os
    sarracenos; ainda que as noticias dos primeiros annos do seu governo
    sejam bastante escassas. A viagem, porém, que emprehendeu á Terra-Santa
    nos primeiros annos do XII seculo retardou por certo as suas conquistas.
    Esta viagem, intentada depois de 1100, estava indubitavelmente concluida
    em 1106, em que Henrique apparece fazendo uma doação a dous presbyteros
    de uma herdade em Céa.[26] Desde então até à sua morte, em 1112[27],
    elle proseguiu na administração do territorio que lhe fora confiado por
    Affonso VI, e foi no periodo que decorre de 1109, epocha da morte do rei
    de Leão, que elle se prepararou para tornar estado independente o
    condado que lhe fora dado para reger como simples consul ou governador.
    É a este tempo que me parece pertencer o pacto successorio entre
    Henrique e Raimundo, isto é, aos fins de 1106 ou principios de 1107,
    anno do fallecimento de Raimundo[28]. Henrique foi mais feliz
    sobrevivendo ao sogro, e recusando depois da morte d'este reconhecer a
    supremacia de D. Urraca, que succedera a seu pae por falta d'herdeiro
    varão, tendo morrido na batalha d'Uclés o infante D. Sancho, para quem,
    parece, elle procurava a eleição dos hespanhoes, por seu fallecimento.

    Affonso VI foi incontestavelmente um habil e valoroso rei: a morte porém
    de Sancho destruiu todos os seus intentos, e abreviou-lhe por ventura a
    vida. Proximo a morrer, viu que a Hespanha leoneza se dividiria em
    facções, e a experiencia do passado lhe ensinava que isto seria a causa
    da sua ruina. Assim, tendo já dado dous annos antes a investidura da
    Galliza a seu neto Affonso Raimundez[29], cuja mãe e sua filha mais
    velha, a viuva D. Urraca, ficava, na falta de filho varão, successora do
    reino, ordenou a esta casasse com Affonso o _Batalhador_, rei d'Aragão,
    rude e grosseiro soldado, mas por isso mesmo capaz de conservar a
    integridade do estado do leonez[30]. Por morte de D. Urraca a corôa
    devia passar para Affonso Raimundez, que entretanto possuiria a Galliza.
    Estas disposições de Affonso VI cumpriram-se; mas não produziram todo o
    effeito salutar, que elle d'ahi esperava, pelo caracter das personagens
    a quem respeitavam, ou que deviam contribuir para o seu cumprimento.

    A dissolução dos costumes n'aquelles seculos era geral, e D. Urraca não
    escapou a ella. Naturalmente d'ahi nasceram as suas dissensões com o rei
    aragonez, que com a brutalidade propria dos tempos chegou a
    espanca-la[31]. A separação dos dous conjuges deu aso á guerra civil, e
    ás suas terríveis consequencias n'uma epocha em que o vicio, a
    perversidade, e a cubiça se apresentavam em todo o seu vigor barbaro, e
    sem o veu hypocrita com que n'estes tempos mais politicos se costumam
    esconder. Os nobres e cavalleiros, a titulo de pertencerem a este ou
    àquelle bando, apossavam dos castellos de que eram alcaides, ou
    construiam-nos de novo, e d'alli faziam guerra por sua conta, ou os
    convertiam em covis de salteadores, d'onde sahiam a roubar ou matar os
    viandantes e mercadores. Tal é pelo menos o quadro que do estado da
    Galliza faz a _Historia Compostellana_, e que era provavelmente
    similhante no resto do imperio leonez. Tal pelo menos no-lo devem fazer
    suppôr as palavras de Pelaio de Oviedo, quando assevera que por morte
    d'Affonso VI o lucto e as tribulações cobriram o solo da Peninsula.

    Foi no meio d'estas perturbações que o conde Henrique pôde assegurar,
    senão de direito ao menos de facto, a independencia das terras que
    governava. Ora mostrando-se favoravel ao moço Affonso Raimundez contra a
    mãe e padrasto, que se tinham temporariamente congraçado, e incitando
    Pedro Froylaz, conde de Trava, aio do infante, a sustentar animosamente
    a causa do seu pupillo, quando o veio[32] sobre isso consultar; ora
    colligando-se com o rei d'Aragão contra D. Urraca, divorciada de novo do
    marido no anno seguinte de 1111[33]. Henrique evidentemente procurava
    aproveitar nas dissensões civis a occasião de constituir independente o
    seu condado, e, com effeito, procrastinadas as perturbações da Hespanha
    quasi até 1126, elle falleceu em 1112[34], deixando o governo a sua
    mulher D. Theresa, sem nunca submetter o collo ao jugo de D. Urraca.

    É resumidamente nisto que me parece encerrar-se a historia da separação
    de Portugal da monarchia leoneza. Sobre a origem d'este facto tem-se
    discursado muito, porque com a legitimidade d'elle quizeram legitimar a
    nossa independencia os escriptores portuguezes, e com a sua
    illegitimidade impugna-la os escriptores castelhanos. Ha um ou dois
    seculos tal materia poderia ainda parecer grave á luz politica; hoje,
    porém, não sei eu se tocaria, a similhante luz, as raias de ridicula.
    Qual é a nação que não vae achar no seu berço uma violencia ou uma
    illegalidade? E que tem com isso o presente? _Somos independentes porque
    o queremos ser_: eis a razão absoluta, cabal, inconstrastavel, da nossa
    individualidade nacional. E se essa não bastasse, ahi estão escriptos
    com sangue, desde Valdevez até Montes-Claros, por toda esta nobre e
    livre terra de Portugal, os títulos da nossa alforria. Com subtilisar ou
    torcer a historia não é que se defende a patria: a sua defensão está em
    saberem seus filhos pelejar por ella, quando o soldado estrangeiro ousar
    accommetter a terra que nos herdaram nossos paes, e onde elles morreram
    livres, como nós havemos de morrer.

    O eruditissimo auctor das _Memorias_ sobre as origens de Portugal e
    sobre o conde Henrique segue algumas opiniões acerca d'estes primeiros
    tempos da monarchia differentes das minhas. O peso, que o respeitavel
    nome d'aquelle sabio dá a todos os seus escriptos, obriga-me a
    accrescentar varias considerações em abono da opinião, que o estudo
    d'essa epocha e dos seus monumentos me constrange a seguir.

    Destruida, como me parece ficou, a tradição de haver sido dado _em dote_
    a D. Theresa _o dominio_ de Portugal, resta averiguar se não se fundaria
    em outros motivos legaes o procedimento do conde Henrique,
    alevantando-se com o condado de Portugal, e convertendo-o em estado
    independente.

    Digo _alevantando-se_, e digo-o muito de proposito, porque esta
    expressão é a que designa exactamente o facto que resulta dos documentos
    d'aquella epocha. A somma dos diplomas que colligiu J. P. Ribeiro[35],
    relativos ao governo em Portugal do conde Henrique, levam á evidencia
    que, emquanto viveu Affonso VI, seu genro se considerou sempre como um
    consul ou governador de provincia dependente do rei, segundo o systema
    politico e administrativo da Hespanha, e que por morte d'aquelle
    principe é que este reconhecimento de dependencia desapparece dos
    documentos. Não constando, porém, de acto ou diploma algum publico a
    separação legal do condado d'Henrique, antes pelo contrario, não se
    fazendo menção d'ella ajunctamento que antes de morrer, para deixar a
    Galliza a seu neto, e fazer acceitar D. Urraca por successora da
    monarchia, póde concluir-se que a independencia do conde foi apenas uma
    revolta, que as circumstancias das divisões intestinas coroaram de bom
    successo.

    O respeitavel auctor das _Memorias do conde D. Henrique_ diz que «a
    practica d'aquella edade parece _em certo modo_ favoravel ás pretenções,
    que os leonezes e castelhanos tiveram a este respeito. Os muitos e
    grandes senhores, que então havia em Leão, Castella e Galliza, e
    governavam algum grande territorio com o titulo de condes, eram sujeitos
    _como feudatarios_ aos reis…» Seja-me permittido dizer que n'estas
    palavras ha talvez uma notavel confusão d'idéas. Eram as _instituições_,
    não a _practica_, que, não _em certo modo_, mas _postivamente_, eram
    favoraveis a essas pretenções. Os grandes senhores que governavam
    condados eram sujeitos á corôa, não _como feudatarios_, mas como
    exercendo uma _delegação do soberano_. As instituições feudaes
    essencialmente diversas das da Hespanha christã, central e occidental.
    Um conde, um senhor (_princeps terrae_), um alcaide de castello
    (_municeps_) eram n'este paiz existencias e castelleiros (_castellani_)
    dos paizes feudaes. A influencia franceza introduziu na Hespanha muitas
    fórmulas da organisação aristocratica chamada feudalismo, mas na
    essencia a indole wisigothica da sociedade hespanhola subsistiu sempre
    atravez d'essa influencia. É isto o que nos dizem claramente as leis e
    os factos, os documentos, os monumentos e a historia.

    No seculo XI o systema feudal chegou ao seu desenvolvimento completo. Os
    feudos, amoviveis a principio, tinham-se tornado hereditarios, e a
    feudalidade tinha-se estendido não só á terra, mas aos cargos, ao
    serviço publico, a tudo. A perpetuidade foi o seu primeiro caracter: a
    soberania do feudatario em seu feudo, o segundo. Satifeitas as
    obrigações dos serviços do senhor territorial para com o suzerano, elle
    exercitava livremente em suas terras todos os actos, que n'um governo
    absoluto dos tempos modernos póde exercitar o rei. O terceiro caracter
    do feudalismo, que consistia nas relações mutuas entre os nobres e entre
    estes e o monarcha ou suzerano supremo, era todo, por assim dizer,
    exterior á organização interna do dominio feudal. Estes tres caracteres
    são os que distinguem essencialmente aquelle systema politico. Tudo o
    mais é variavel, accessorio, incerto[36]. Dão-se porém esses caracteres
    no que se chama feudalidade hespanhola? Não; porque as instituições do
    paiz lhes eram contrarias. O feudalismo invadindo a Peninsula aninhou-se
    geralmente nas fórmulas, mas nunca pôde penetrar no amago da organização
    social.

    Eu já lembrei o absurdo que resulta de suppôr que ao _dote_ de D. Urraca
    se tirou uma porção para dar tambem _em dote_ a D. Theresa. O mesmo
    absurdo resultaria de suppôr que ao feudo do conde Raimundo se tinha
    tirado um fragmento para infeudar a Henrique. Mas já na instituição
    d'aquelle feudo da Galliza occorre outra difficuldade: ou os condes e
    senhores, que vemos governarem differentes districtos de Galliza e
    Portugal antes de Raimundo, tinham todos morrido e _sem filhos_, quando
    este foi posto no governo do territorio gallego e portuguez, ou d'este
    successo resulta igual absurdo. Associar com taes factos a idéa de
    feudalismo é em meu intender gerar uma monstruosidade; é pretender
    destruir incompatibilidades indestructiveis; é tirar ao feudalismo o seu
    primeiro caracter.

    A célebre carta de Affonso VI ao conde Henrique, ácerca da demanda que
    corria entre o bispo de Coimbra e um tal D. Cibrão sobre a aldêa de
    Golpelhares, em que diz que não a concederá (_outorgabo_) ao D. Cibrão
    se pertencer ao mosteiro de Vacariça[37], seria um attentado flagrante
    contra o direito feudal, como elle se achava já constituido n'aquella
    epocha; seria offender a soberania do feudatario dentro dos seus
    territorios, se Portugal fosse possuido pelo conde segundo os principios
    da jurisprudencia feudal.

    Lemos na _Historia Compostellana_[38] que, tendo o conde Raimundo feito
    uma lei para obviar a certas vexações que padeciam os burguezes de
    Compostella, na qual impunha aos transgressores penas pecuniarias, vindo
    depois Affonso VI fazer as suas devoções a Sanctiago, os cidadãos e o
    proprio consul Raimundo lhe pediram a confirmação d'ella para que fosse
    valedoura no futuro. Ou Raimundo, tendo vindo do paiz do feudalismo,
    ignorava completamente os principios essenciaes do direito feudal, ou
    não se considerava de modo algum como senhor feudatario da Galliza,
    aliás regeitaria similhante confirmação.

    Poderia citar centenares de factos análogos, que estão demonstrando que
    taes feudatarios não existiam na Hespanha. Mas a demonstração capital
    d'esta verdade resulta da impossibilidade em que estava o paiz de
    admittir esses extensos feudos.

    As situações hierarchicas dos senhores de terras nos paizes feudaes eram
    n'aquelle tempo diversas. Os _vavassores majores_, ou _barões_, eram os
    feudatarios da corôa; abaixo d'estes ficavam os simples _vavassores_ e
    _castellani_, subfeudatarios dos primeiros[39]. Esta graduação era
    possivel em França, por exemplo, porque no tempo das conquistas dos
    francos nas Gallias, os capitães das hostes (_herzoge, koninge_),
    tomando para si vastas extensões de territorio, as tinham repartido pelo
    seus guerreiros. Passando da vida errante á existencia fixa, os barbaros
    sentiram logo a necessidade do principio hereditario applicado á
    propriedade territorial. D'aqui os feudos e subfeudos, e as obrigações
    diversas inherentes aos possuidores d'elles. Mas as hierarchias não se
    alteravam á mercê suzerano supremo; o filho do barão era barão como seu
    pae, o filho do vavassor, vavassor como este. Os factos que se possam
    apresentar de algum modo em contrario, ou foram practicados em terras
    que fossem primitivamente _allodios reaes_ (correspondentes aos nossos
    _reguengos_), que o rei podia infeudar a um vavassor para o elevar á
    hierarchia de _Baro_, ou custaram muitas guerras, incendios, e mortes;
    isto é, nasceram da violencia e da extra-legalidade, e não das
    instituições feudaes, a que seriam perfeitamente contrarios.

    Na Hespanha, porém, a elevação de Raimundo e de Henrique não foi
    resultado de uma conquista. Os territõrios da Galliza dados áquelle, e
    os de Portugal dados a este, para governarem como condes, estavam
    libertados do jugo árabe, na sua maxima parte, e regidos por condes,
    senhores, maiorinos, alcaides, etc., que, admittindo ser então a
    organisação politica da sociedade Hespanhola feudal, eram (pelo menos os
    condes) _barões_, isto é, feudatarios immediatos do rei. E como
    consentiriam estes _vavassores majores_ em passar para a classe de
    simples _vavassores_, o que de necessidade aconteceria se na realidade
    se tivessem creado então estes dous grandes feudos? Como não apparece o
    menor vestigio de resistencia a essa violação do direito politico do
    paiz?

    Sei que os que imaginam existirem na Hespanha instituições feudaes
    poderão talvez soccorrer-se ás clausulas, que no pacto successorio entre
    Raimundo e Henrique assentam nos principios de direito feudal[40].
    D'estas passagens muitas outras se poderiam colligir dos diplomas e
    memorias d'esse tempo; mas n'este documento, que era um tractado
    secreto, não admira que os dous principes, sendo ambos francezes,
    contractassem debaixo dos principios da jurisprudencia patria, ou que,
    bem como acontece nos outros diplomas, em que se acham passagens
    analogas, houvesse n'elle um abuso de terminologia feudal accommodada ás
    instituições hispanicas, vindo assim a significarem as palavras _ut sis
    inde meus homo, et de me eam habeas domino_, que o conde Henrique
    ficaria com o governo de Toledo, como conde delegado n'aquella
    provincia, reconhecendo a supremacia real de Raimundo n'esse districto,
    emquanto Portugal ficava sendo estado separado e independente.

    Que se fazia este abuso de termos da Peninsula é incontestavel. O
    _Feudum reddibile_ não existia ainda n'aquella epocha, porque só
    appareceu quando, degeneradas as instituições feudaes, a palavra
    _feudum_ começou a servir para indicar todo o genero de transmissão
    incompleta de propriedade[41]. Não podia, portanto, ser conhecido na
    Hespanha no principío do seculo XII um genero de falso feudo, que se
    oppunha á mesma essencia da propriedade feudal–o hereditario e a
    perpetuidade. Todavia a _Historia Compostellana_ assevera que o
    arcebispo de Santiago dera ao de Braga certas propriedades _ad tempus
    pro feudo_, e este declara que as recebera _in praestimonium sive
    feudum_, d'onde claramente se vê que então se tomava _feudo_ por
    synonymo de _prestano_, sendo aliás coisas diversissimas[42]. A rainha
    D. Urraca, tendo comprado ao mesmo arcebispo de Santiago o castello de
    Cira, pediu-lh'o depois _in pheodum_, diz o historiador compostellano, e
    elle lh'o concedeu com a condição de que logo que lhe fosse pedido o
    entregasse[43]. Se entendessemos, porém, a palavra _pheodum_ na sua
    verdadeira accepção, não houvera sido impossivel similhante contracto?

    Vemos, pois, que a idéa de ter sido dado Portugal em feudo ao conde
    Henrique é tão repugnante e inadmissível como a de lhe ter vindo em dote
    de sua mulher. Resta só um meio para deixar de attribuir pura e
    simplesmente á revolta do conde a sua independencia politica.

    Este meio consiste em suppôr que, morrendo Affonso VI sem filhos varões,
    o conde julgasse que o reino se devia dividir entre suas filhas; que a
    sua mulher tocava, pelo menos, a provincia que elle governava; e que
    finalmente se estribasse n'este fundamento para não se reconhecer
    subdito de D. Urraca. Similhante idéa parece ter occorrido ao
    respeitavel auctor das _Memorias do conde D. Henrique_, quando por
    occasião do célebre pacto successorio, diz que «_os dois condes_, vendo
    que a _herança_ de tão vastos e ricos estados, a que por suas mulheres
    _tinham direito_, lhes escapava das mãos….. isto devia…..
    inspirar-lhes o pensamento de se prevenirem, etc.»

    Tal reflexão, creio eu, não fizeram os dois condes pela mui simples
    razão de que não a podiam fazer; tal motivo não tiveram porque não o
    podiam ter. A razão do pacto, a meu ver, não foi mais que um calculo de
    forças: os dois condes unidos assim eram naturalmente mais fortes que
    qualquer outro competidor ao throno que por morte de Affonso VI se
    alevantasse. O conde Raimundo entendeu, e entendeu bem, que valia a pena
    de sacrificar uma parte de territorio á ambição de Henrique, com a
    condição de cingir a corôa d'Hespanha. Do theor o pacto successorio se
    vê que este negocio começou a ser tecido em Cluni; porque este celebre
    mosteiro era então o foco de todos os grandes enredos politicos, e
    exercia uma influencia immensa na curia romana, sempre prompta para
    proteger novidades uma vez que estas lhe produzissem as celebres
    _benedictiones_[44], de que tantas vezes falla á _Historia
    Compostellana_. E com effeito o negocio tinha assim todas as
    probabilidades de bom resultado, se a morte, como costuma, não viesse
    baralhar as combinações humanas.

    Disse que Raimundo e Henrique não podiam ter tido por motivo do pacto a
    consciência de um direito commum a ambos; porque tal direito seria
    sonhado. Que!? A coròa do reino leonez-castelhano era alguma herdade,
    aldêa, mosteiro, _testamento_[45] emfim, que se repartisse entre
    herdeiros, ficando a este o quarto, a outro o sexto, a aquell'outro o
    resto? Se o fosse, que deveriamos nós chamar a Raimundo, o qual se
    contentava com tomar para seu quinhão _hanc totam terram Regis
    Aldephonsi_, ou ao conde Henrique, que promettia ajuda-lo em tão sancta
    e louvavel empreza? Porque haviam assim de ser espoliadas as outras
    filhas de Affonso VI, entre as quaes se contam algumas com mais
    segurança legitimas que a mulher de Henrique?[46] Raimundo poderia
    talvez julgar-se com justiça na successão, por ser sua mulher a filha
    mais velha de Affonso VI: o hereditario da corôa começara de havia muito
    a fixar-se por direito consuetudinario opposto ao direito politico
    escripto, e Urraca devia succeder a seu pae por este _costume_, que
    apenas deixava a sentença do codigo wisigothico a tal respeito, como
    simples e mera formalidade: Henrique, porém, nada tinha que vêr em
    similhante negocio, e só legalmente lhe cumpria obedecer ao novo
    monarcha, como obedecia a Affonso VI.

    Mas, dir-se-ha, Raimundo podia d'antemão ceder uma parte da monarchia,
    que lhe havia de pertencer, a Henrique, seu cunhado, primo e companheiro
    d'armas, a fim de que este o ajudasse com a força a tornar effectivo o
    seu direito de successão, se este direito existia[47]. Não! A indole das
    instituições hespanholas oppunha-se formalmente a similhante cessão.

    É preciso em todas estas averiguações não esquecer nunca um grande facto
    social d'aquella epocha, facto que o historiador-philosopho Martinez
    Marina provou irrecusavelmente, e que derruba pelos fundamentos essas
    explicações violentas de um acontecimento mui simples–a revolta do
    conde Henrique. Este acontecimento não deshonra o conde, porque elle não
    podia ter as idéas de estreita legalidade, que nós hoje exigimos e
    devemos exigir dos homens politicos. No seu tempo a força corria
    trivialmente parelhas com o direito: era esta uma das infinitas e
    pessimas consequencias moraes da barbaria e rudeza dos tempos. Do mesmo
    modo nenhuma nódoa póde pôr nos fastos gloriosos da nação essa origem
    menos ajustada pelas regras da jurisprudencia politica d'aquellas eras.
    Toda a nação independente legitimamente o é, seja qual for a historia do
    apparecimento da sua individualidade ou da sua organisação. Nem a França
    recusa a usurpação de Pepino, ou de Hugo, nem a Inglaterra a conquista
    de Guilherme o _Normando_: essas nações possuem sobeja luz de gloria
    para desvanecer taes sombras. Será o velho Portugal mais pobre e obscuro
    do que ellas?

    O facto, digo, de que nunca nos devemos esquecer é, que a monarchia
    fundada por Pelaio nas Asturias, e que depois se chamou Leão e Castella,
    não foi uma nova sociedade que appareceu; não foi uma nova raça que pela
    conquista substituísse no dominio da terra uma sociedade conquistada o
    dissolvida. A monarchia leoneza foi a reacção wisigothica contra a
    invasão arabe: mais nada. O throno de Leovigildo recuou deante do throno
    dos califas até as margens do Deva, e d'abi voltou a Toledo. Ida e volta
    foi por uma estrada coberta de cadaveres, e a viagem gastou tres
    seculos. Mas com esse throno, na fuga e no triumpho, as instituições, as
    leis, quasi os costumes, que o rodeavam, subsistiram por largo tempo. As
    _Partidas_ de Affonso o _Sabio_ são a declaração de que a sociedade
    wisigothica tinha emfim expirado, depois de dilatada agonia. Este codigo
    feudal-canonico-romano é o verdadeiro ponto d'intersecção entre a
    monarchia germanica e a monarchia moderna; e ainda áquem das _Partidas_,
    quantas reminiscencias, quantos costumes, quantas leis, enraizadas no
    solo Peninsula pela cuidadosa cultura dos godos, melhor radicadas talvez
    ainda, como as arvores robustas, pelo tufão terrivel da conquista arabe,
    não ficaram vivas, perennes, activas, no meio da sociedade moderna!
    Ninguem mais que nós os filhos das Hespanhas se abraça ternamente com as
    usanças do passado. É que ainda em nossas veias gira muito sangue dos
    godos. Na historia das instituições, os povos da Peninsula são mais
    velhos do que elles pensam.

    Todos sabem que o codigo das _Partidas_ pertence á segunda metade do
    seculo XIII, e que a epocha de Affonso VI pertence aos fins do XI, e
    primeiros annos do XII. Para outro logar deixamos o exame das
    alterações, quasi todas formaes e poucas substanciaes, que os francos
    introduziram na organisação politica da Hespanha: é, porém, indubitavel
    que a natureza da monarchia não tinha sido mudada. A substituição do
    hereditario ao electivo na successão havia-se convertido em uso, é
    verdade; mas este uso não pertencia exclusivamente aos tempos
    posteriores a Pelaio. Anteriormente aos arabes, os godos tinham
    conhecido a vantagem immensa d'aquelle systema de transmissão da corôa
    ao systema electivo; e a successão de paes a filhos começava a fixar-se
    como principio politico na côrte de Toledo, quando justamente uma
    offensa feita a esse principio na enthronização de Rudericus (Rodrigo)
    produziu a guerra civil, que abriu o caminho aos conquistadores
    sarracenos.

    A eleição do rei lá ficou, todavia, escripta na lei da terra, no codigo
    wisigothico, e as consequencias naturaes do principio electivo
    designadas nesta lei, e além d'isso traduzidas nos factos. A acclamação
    do novo imperante, o _hominium_ ou preito e menagem que lhe faziam os
    barões convocados a côrtes (_concilium_), e até a expressão de
    _electus_, de que muitos reis de Oviedo e Leão usaram nos diplomas
    fallando de si, provam que elles não se esqueciam de qual era o
    fundamento legal da sua existencia politica[48]–a escolha dos godos.
    D'esta circumstancia, d'este pensamento, que por assim dizer se achava
    como incorporado no facto contrario–a successão hereditaria–e
    modificava esse facto, nascia que todas as outras disposições do codigo
    wisigothico, relativas ás obrigações contrahidas pelos reis no momento
    da acclamação, se conservavam em vigor como nos tempos em que a
    monarchia era na realidade electiva. Entre estas obrigações era uma das
    mais importantes o prestarem juramento de nunca alhearem os bens ou
    estados da corôa, e de não herdarem a seus filhos senão as terras ou
    bens que adquirissem antes de subirem ao throno, ficando no patrimonio
    do estado tudo o que depois da sua eleição n'elle tivessem
    accrescentado[49]. Era a esta lei, observa Martinez Marina[50], que D.
    Affonso o _Sabio_ se referia no seculo XIII, dizendo: «foro e
    estabelecimento fizeram antigamente em Hespanha, que o senhorio do rei
    nunca se dividisse ou alheasse.»[51] A tradição d'esta antiga
    jurisprudencia veio ainda reflectir de algum modo entre nós na feitura
    da _Lei mental_.

    Similhante instituição obsta a que qualquer cessão de Raimundo a seu
    primo tivesse validade ainda quando subisse ao throno, quanto mais sendo
    apenas um simples pretendente. Assim, ao passo que se vê não ser o pacto
    successorio mais que um documento da ambição dos dous condes, conhece-se
    tambem que é escusado procurar n'elle o titulo da independencia
    portugueza. Ainda, repito, subindo ao throno, Raimundo teria exorbitado
    das suas attribuições: teria offendido uma das partes essencialissimas
    do direito politico da Hespanha, se houvesse alheado da corôa uma tão
    importante porção de territorio como Portugal, sem consentimento do
    _concilium_, ou _côrtes_. Fernando Magno tinha entendido isto
    perfeitamente quando, para dividir a monarchia em tres estados que
    herdassem seus tres filhos, as convocou em Leão a fim de obter o
    consentimento nacional[52].

    Nestas considerações, a meu ver, está a razão capital de se dever
    recusar a sancção historica a essas tradições de dotes, d'infeudações,
    de direitos hereditarios, que se tem acceitado de antigas chronicas com
    demasiada boa fé.

    Não concluirei já agora, sem accrescentar alguns reparos aos argumentos
    negativos, que faz o sabio auctor das _Memorias do conde D. Henrique_, a
    favor da opinião que sustenta a legalidade do acto de separação que deu
    origem á monarchia portugueza.

    Aquelle erudito illustre observa que, practicando o conde depois da
    morte d'Affonso VI todos os actos de um soberano independente (e isto,
    creio eu, ninguem contesta hoje), não appareceu um documento público em
    que os leonezes accusassem Henrique e depois D. Theresa de _rebeldes_,
    ou em que exigissem vassalagem d'elles; que não _ha prova alguma
    positiva e certa de que por esse singular motivo fizessem a guerra aos
    portuguezes_; que finalmente nenhuma das _numerosas_ chronicas
    d'aquelles tempos haja feito menção da dependencia de Portugal, salvo a
    _Historia Compostellana_, a que, n'esta parte, o illustre auctor das
    citadas _Memorias_ parece recusar o seu assenso por ser obra d'estylo e
    modo d'historiar _exaggerado_, e ás vezes manifestamente apaixonado.

    O governo do conde Henrique divide-se em dois periodos distinctos: o
    primeiro, que corre de 1096 até 1109, isto é, até a morte _d'Affonso_
    VI: o segundo desde esta epocha até a morte d'elle proprio em 1112[53].
    Quanto á primeira não pode haver questãpo sobre a sua dependencia do
    monarcha: os diplomas d'esse tempo não consentem a menor sombra de
    dúvida a similhante respeito. Quanto á segunda tambem me parece
    indubitavel que o conde saccudiu o jugo de Leão; mas o que não posso
    admittir é que os leonezes legalisassem este facto com o seu
    reconhecimento antes do tempo de D. Affonso Henrique.

    Bastaria dizer aqui que um argumento negativo bem pouco fôrça pode ter
    contra provas em contrario deduzidas da propria natureza, instituições,
    leis e costumes do paiz. Mas não ha só isso; considerando em si o
    argumento, elle não parece dos mais vehementes no seu genero. Vejamos.

    Primeiro que tudo, _as numerosas chronicas d'esses tempos_ parece-me uma
    expressão demasiado vaga e incerta. Se o respeitavel sabio, a que
    alludo, intende por _chronicas d'esses tempos_ os escriptores
    _contemporaneos_ do conde e ainda de D. Theresa, que lhe sobreviveu 18
    annos, eu desejaria saber onde existe esse grande numero d'ellas, para
    as lêr, e evitar assim os avultados erros, em que por ignorancia das
    fontes historicas terei provavelmente caído. Se intende os escriptores
    dos tempos immediatos, seja-me permittido lembrar-lhe que Rodrigo de
    Toledo, escrevia na primeira metade do seculo XIII[54], concorda com a
    _Historia Compostellana_ em chamar _rebellião_ ao procedimento do
    conde[55], e n'esse caso não é _singular_ o testimunho d'aquella
    importante historia.

    Eu sei que existe um certo numero de _chronicons d'esses tempos_,
    publicados pela maior parte nos appendices da _Hespanha Sagrada_. Mas
    infelizmente para o nosso caso, aquelles em que os successos vem mais
    particularisados, e que mereceriam não o nome de _historias_, mas
    talvez, alguns pelo menos, o de _chronicas_[56], não ultrapassam a
    epocha d'Affonso VI. Taes são o d'Isidoro de Béja, o do Biclarense, o de
    Sebastião de Salamanca, o de Sampiro, o Monge de Sillos etc. Os que
    passam áquem da morte d'Affonso VI são apenas um aggregado de datas
    relativas aos seculos XII e XIII e aos anteríores, datas estremes de
    nascimentos, batalhas, obitos e phenomenos naturaes. Em taes monumentos,
    essencialmente chronologicos, como fôra possivel encontrar a menção do
    facto que pela sua propria natureza devia ser lento, e concluido por uma
    série de actos graduaes e escuros, praticados successivamente durante
    annos? Como se poderia achar uma historia politica em rudes apontamentos
    de monges ignorantes, que muitas vezes para indicarem uma batalha
    importante contentavam-se com dizer: _Era de tal_–_Foi a de Sagralias:
    foi a d'Ucles_? Eu, ao menos, não creio que similhante espécie ahi se
    podesse encontrar.

    Mas, se abstrairmos d'estes _chronicons_, que obras historicas nos
    restam escriptas n'esse tempo ou proximamente, com tal extensão, que
    devamos buscar n'ellas noticia d'este facto politico e complexo? Conheço
    apenas tres: a _Historia Compostellana_, a _Chronica d'Affonso VII_, e o
    livro de D. Rodrigo Ximenes _Das coisas de Hespanha_. Como já notei, a
    primeira e terceira chamam rebellião a esse facto: a segunda é que
    guarda silencio a similhante respeito. Tire d'aqui o leitor a conclusão
    que quizer, não se esquecendo que já ponderei sobre o valor historico
    que me parece têr a _Chronica d'Affonso VII_.

    O clarissimo auctor das _Memorias do conde D. Henrique_ regeita, ao que
    parece, n'este ponto a auctoridade dos historiadores compostellanos
    (postoque na _Memoria sobre a origem de Portugal_ os houvesse
    qualificado de _não suspeitos_) por serem _exaggerados_ e _apaixonados_.
    Esta observação é exactissima. Quem ler dez ou vinte capitulos d'aquella
    chronica ficará plenamente convencido de tão inquestionavel verdade, sem
    que lhe seja preciso ter presente a extensa dissertação de Masdeu a este
    respeito.[57] Mas o que _exaggeram_ os tres conegos de Sanctiago
    auctores do livro?–A perversidade de D. Urraca, e as virtudes do
    arcebispo Diogo Gelmirez. Não ha injúria que elles não vomitem repetidas
    vezes contra aquella rainha, que sem ser sancta, ou pelo menos beata,
    como a pinta Flores, não foi tão detestavel mulher como os tres honrados
    conegos a descreveram. Por outra parte não ha lisonja ridicula ou louvor
    despropositado que não dirijam ao seu velhaco, hypocrita, cubiçoso e
    violento patrono. Porque serão pois elles suspeitos mostrando-se
    favoraveis ás pretensões de D. Urraca ácerca de Portugal, quando, além
    d'isso, não tinham motivo nenhum de odio contra D. Theresa, que
    beneficiou a sé de Compostella, e que até, andando Diogo Gelmirez com a
    rainha D. Urraca devastando o Minho, lhe deu aviso de que sua irmã o
    queria prender ou matar? É realmente incomprehensivel para mim o motivo
    por que na questão da legitimidade ou illegitimidade da separação de
    Portugal a _Historia Compostellana_ haja de ser-nos suspeita por
    exaggeração e parcialidade.

    Finalmente, a exigencia de um documento leonez, pelo qual conste a
    pretendida sujeição de Portugal, parece-me demasiado violenta. Qual
    devia ser o documento? Um manisfesto? No seculo XII não creio existisse
    ainda essa divindade dos homens honestos, chamada opinião pública. Nas
    questões politicas recorria-se ás armas para obter justiça ou desforço,
    e não se faziam allegações. Se apparecesse um tal documento, a prova da
    sua falsidade seria a sua existencia; e todavia só por um manifesto
    poderiam constar directamente as pretensões de D. Urraca e de Affonso
    VII. Indirectamente, porém, na propria _Memoria_, a que alludo, se
    lembra seu respeitavel auctor do que D. Urraca se intitúlava _rainha de
    toda a Hespanha_. Que mais podia fazer? Doações em Portugal de bens da
    corôa? Ninguem lh'as quizera, porque não se effeituariam, visto que
    Portugal não a tinha por senhora. Providencias governativas? Não lhe
    obedeceriam. De que titulo, pois, pode resultar a prova directa que se
    exige?

    Prova directa digo, porque só esta tinha em mente por certo o sabio, de
    cuja opiniões me vejo constrangido a afastar-me, quando escreveu que não
    existe documento pelo qual _conste a pretendida sujeição_[58]. Era
    impossivel que elle se não lembrasse do tractado que traz Brandão[59] em
    cujo preambulo se lê: «É este o juramento e convenio que faz a _rainha_
    D. Urraca a sua irmã a _infanta_ D. Theresa.» Desejaria eu saber porque,
    intitulando-se a viuva do conde Henrique constantemente _regina_ nos
    documentos de Portugal, consentiu em um tractado de paz com sua irmã que
    esta reservasse para si similhante titulo, e lhe désse unicamente o
    d'_infanta_? Como se registou tal denominação no _Liber Fidei_ de Braga,
    d'onde a tirou Brandão, sendo assim offensiva da legitima independencia
    e senhorio real de D. Theresa?

    Accrescentarei uma conjectura. O documento produzido por Brandão não tem
    data. Quem lêr attentamente os capitulos 40 e 42 do livro 2.^o da
    _Historia Compostellana_ poderá talvez attribui-lo ao anno de 1121, em
    que D. Urraca acompanhada do guerreiro arcebispo Diogo Gelmirez entrou
    por Portugal dentro, e o devastou, chegando D. Theresa ás estreitezas de
    se ver cercada no castello de Lanhoso. Distraídos pelos perigos do seu
    heroe Gelmirez, que n'esta occasião D. Urraca, dizem elles, quiz prende,
    esqueceram-se de narrar expressamente as consequencias politicas da
    guerra. Mas dos factos referidos n'esses capitulos se pode deduzir que
    as duas irmãs fizeram pazes, e até os dois campos inimigos conviveram
    familiarmente[60]. Aquelle tractado não é por ventura mais que o
    desfècho da invasão; bem como as condições vantajosas que por elle devia
    obter D. Theresa, o repentino intento de prender o arcebispo, e a
    notoria perfidia e turbulencia d'aquelle sancto varão, me fazem
    suspeitar que elle tramaria alguma traição contra a sua soberana, a qual
    odiava cordialmente, e tractando secretamente com D. Theresa (cujo
    repentino accésso de amor por um homem que lhe devastava o paiz é aliás
    inexplicavel) pretenderia com a juncção das suas forças ás portuguezas
    aniquilar D. Urraca. Se assim foi, porque isto é apenas uma conjectura
    verosimil, habilmente andou a rainha em conceder uma paz vantajosa a sua
    irmã, para poder desaggravar-se da traição de Gelmirez. Admittida esta
    hypothese, o documento do _Liber Fidei_ e a _Historia Compostellana_
    concorda e explicam-se excellentemente.

    O titulo d'_infanta_, dado com exclusão de outro a D. Theresa, não
    apparece unicamente no _Liber Fidei_. Remettendo Bernardo, arcebispo de
    Toledo, a Diogo Gelmirez copia de certas letras apostolicas relativas ao
    celebre Mauricio Bordino, arcebispo de Braga, envia-lhe com ellas outras
    dirigidas á _infanta dos portuguezes_[61]. Vê-se d'esta passagem, da
    carta do primaz que tal era o titulo diplomatico com que na côrte de
    Toledo se designava D. Theresa; titulo vago, que mostra, a meu vêr, a
    incerteza d'aquella côrte entre o facto, que provavelmente não tinha
    fôrça para annullar, e o direito de supremacia, que julgava evidente.

    Ficarei aqui pelo que toca ao facto da origem da independencia de
    Portugal: algum dia examinaremos como ella se consolidou e legalisou.
    Chama-nos mais grave assumpto–a historia social do nosso paiz n'essa
    épocha.

    *CARTA IV*

    A folhinha d'algibeira, tecendo o catalogo dos nossos reis, divide-se em
    quatro dynastias: a 1.^a Luso-Capêta, a 2.^a, do Mestre d'Aviz, a 3.^a
    dos Philippes, a 4.^a Brigantina. A folhinha resume e representa o
    estado da sciencia historica do nosso paiz.

    Mas a folhinha, salvo o incompleto e inexacto d'aquellas divisões
    dynasticas, tem razão. Ella tece o catalogo das familias reaes. Quem não
    tem razão é a sciencia, que, annunciando a _Historia de Portugal_, em
    vez de distribuir as épochas chronologicas pelas transformações
    essenciaes da sociedade, sujeita a ordem dos acontecimentos sociaes ás
    mudanças das raças reinantes. Isto é altamente absurdo.

    Mr. Thierry, fallando das divisões dynasticas applicadas á historia
    franceza, já observou a impropriedade de similhante systema[62].
    «Supponde (diz elle) que um estrangeiro, pessoa de juizo, que não seja
    hospede na leitura dos historiadores originaes da decadencia do imperio
    romano, e que nunca houvesse aberto um volume moderno da nossa historia;
    supponde, digo, que ao encontrar a primeira vez um livro d'estes lhe
    corra o indice, e divise ahi por balizas, ou antes por fundamentos da
    obra, a distincção das diversas raças. Que idéa quereis que faça d'estas
    raças e do pensamento do auctor? Ha-de provavelmente crer que tal
    distincção corresponde á de diversas gentes, ou gaulesas ou peregrinas,
    cuja mistura produziu a nação franceza; e quando souber que se enganou,
    que são unicamente diversas familias de principes, sobre as quaes versa
    todo o systema da nossa historia, ficará sem duvida cheio
    d'assombro.»–Esta reflexão do mais célebre historiador francez da
    épocha presente, é inteiramente applicavel ao nosso paiz.

    Com effeito, quem, á vista das diversões estabelecidas na _Historia de
    Portugal_, imaginará, por exemplo, que os acontecimentos sociaes do
    ultimo quartel do seculo XIII, isto é, do reinado de D. Diniz, consituem
    uma divisão naturalissima, uma verdadeira épocha historica, ao mesmo
    tempo que a intrusão dos Philippes apenas mereceria tal nome? Quem
    adivinhará que no reinado de D. João II se completa uma revolução
    capital na indole da organisação politica do paiz, ao passo que a
    revolução de 1640 traz á sociedade portugueza levissimas mudanças no seu
    mode de existir? Ninguem o crerá, se attendendo unicamente ás épochas
    assentadas pelos historiadores se persuadir de que a historia é a
    biographia dos individuos eminentes.

    A historia pode comparar-se a uma columna polygona de marmore. Quem
    quizer examina-la deve andar ao redor d'ella, contempla-la em todas as
    suas faces. O que entre nós se tem feito, com honrosas excepções, é
    olhar para um dos lados, contar-lhe os veios da pedra, medir-lhe a
    altura por palmos, pollegadas e linhas. E até não sei dizer ao certo se
    estas indagações se teem applicado a uma face ou unicamente a uma
    aresta.

    Mas é similhante trabalho desprezivel? Não por certo. Este exame miudo,
    feito com consciencia, tem grande applicação, e ainda em si é
    importante; mas dar-nos isso como a historia da nação é, salvo erro,
    enganar redondamente o genero humano; é não perceber os fins da
    historia, a sua applicação como sciencia; é sobretudo fazer uma coisa, a
    que podêmos chamar novella, distincta sómente d'aquellas a que se dá tal
    titulo, pelo tedioso, árido e sem sabor da leitura que offerece.

    As divisões historicas actuaes nasceram d'este modo falso (por
    incompleto) de considerar o passado. A necessidade de estabelecer uma
    chronologia rigorosa era evidente: os factos politicos e a vida dos
    homens publicos precisavam de ser fixados com exacção no correr dos
    tempos, principalemente para o julgamento dos diplomas, genero de
    monumentos, em que as gerações extinctas se pintam melhor, que em
    nenhuns outros. O erro, a meu vêr, foi acreditar que ficando-se aqui
    existia a historia: erro digo, e completo; porque nem se quer a
    biographia dos homens eminentes surgiu de taes averiguações. Temos a
    certidão do seu nascimento, baptismo, casamento e morte. Se foi um
    guerreiro, temos a descripção das suas batalhas; se legislador, a medida
    intellectual e moral de seu espirito, os seus habitos e costumes, não os
    conhecemos. E porque? Porque esse homem é uma abstracção: está separado
    do seu seculo. As opiniões, os costumes, os usos, todos os modos, emfim,
    de existir da épocha em que viveu, são desconhecidos para nós; e todavia
    tudo isso, toda essa existencia complexa de muitos milhares de homens, a
    que se chama nação, devia ter uma influencia immensa, absoluta,
    n'aquella existencia individual do homem illustre, que o historiador
    acreditou poder fazer-nos conhecer com os simples extractos de quatro
    chronicas, cosidos com bom ou máu estylo ás respectivas certidões de
    baptismo, de casamento e de obito.

  • Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 02

    Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 02

    Aproximadamente 63.487 palavras.

    Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt),
    Nuno Lopes (Projecto Enclave) and edited by Rita Farinha

    *OPUSCULOS*

    POR

    A. HERCULANO

    SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA

    SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA

    SOCIO CORRESPONDENTE DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID DO INSTITUTO
    DE FRANÇA (ACADEMIA DAS INSCRIPÇÕES) DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE
    TURIM DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA YORK, ETC.

    QUESTÕES PUBLICAS

    *TOMO II*

    LISBOA

    EM CASA DA VIUVA BERTRANDA & C.^a–CHIADO, N.^o 73

    M DCCC LXXIII

    MONUMENTOS PATRIOS

    1838

    I

    Diz-se que uma das mais bellas missões da imprensa é defender a boa
    razão, a arte, e a honra e gloria da patria. Imagina-se ampla colheita
    de renome, de bençãos, de vantagens de toda a especie para o escriptor
    que alevanta a voz a favor do bom, do justo e do bello, se a voz do que
    escreve é assás poderosa para se esperar que mova os animos dos seus
    concidadãos. E com effeito, indicar a estes o recto caminho, quando
    transviados; tentar affeiçoá-los a nobres e puros sentimentos; fazê-los
    amar o solo natal; despertar-lhes affectos pelo que foi grande e nobre
    na historia do paiz, parece que deveria produzir fructos de benção para
    o escriptor que o tentasse. Não é, todavia, assim. Ha para isso um
    obstaculo quasi insuperavel; a superstição pelas idéas e tendencias do
    presente, mais cega que a superstição pelas crenças do passado. As
    paixões são mais energicas do que as reminiscencias, as aspirações que
    as saudades. Gloria, lucro, respeito, bençãos são para aquelle que afaga
    com palavras mentidas as preoccupações populares; para aquelle que, sem
    discrime, louva, adorna ou repete como echo as opiniões que ao redor
    delle, talvez por cima delle, esmagando-lhe a consciencia, passam como
    torrente. Tumultua o genero humano correndo ao longo dos seculos: o
    louvador, ás vezes o promotor do tumulto, se a natureza lhe concedeu
    imaginação e talento, vai adiante como capitão e guia da geração que
    corre ebria: incita-a, arrasta-a, deslumbra-a. As corôas voam-lhe do
    meio do tropel sobre a cabeça. Verdade é que ao cabo do tanto lidar elle
    se despenhará com essa geração no abysmo do passado; verdade é que o
    abysmo se fechará para elle com o sêllo da reprovação de cima, e que,
    porventura, não tardará que o futuro passe por ahi a sorrir, ou se
    afaste com tedio do sepulchro dealbado do erro ou da villania. Mais isso
    que importa? O homem que vendeu ao seculo a consciencia e o engenho, que
    Deus não lhe deu para mercadejar com elle, foi bemquisto e glorificado
    emquanto vivo; foi antesignano do progresso, embora este seja avaliado
    algum dia como progresso fatal!

    Mas que póde esperar aquelle que, nessa longa e ampla estrada do tempo,
    por onde o genero humano corre desordenado, quizer vir, do lado do
    futuro e em nome do futuro, dizer á geração a que pertence:–parae lá–?
    Embora a sua voz troveje: embora as suas palavras devam fazer vibrar
    todas as cordas do coração e despertar todas as convicções da alma: não
    espere ser ouvido. As multidões continuarão a passar desattentas.
    Escarnecido, amaldicçoado talvez, dormirá esquecido na morte, e os
    sabios e prudentes cultores de uma philosophia corrompida e egoista
    dirão, com insultuosa compaixão, ao passar pelo que jaz no pó:–Pobre
    louco, recebeste o premio de querer contrastar o seculo!

    O que havemos dito é crua verdade; mas é a verdade. Ha nesta epocha dous
    caminhos a seguir; um, estrada larga, batida, plana, sem precipicios,
    mas que conduz á prostituição da intelligencia; outro, vereda estreita,
    tortuosa, malgradada, mas que se dirige ao applauso da propria
    consciencia. Aquelles cujas esperanças não vão além dos umbraes do
    cemiterio e que ahi veem, não o termo da sua perigrinação na terra, mas
    o remate da existencia, que sigam a facil estrada. Nós, porém, que
    guardâmos para além da vida as nossas melhores esperanças, tomaremos o
    bordão do romeiro e iremos rasgar os pés pela vereda d’espinhos.
    Resignar-nos-hemos nos desprezes e, como os soldados do eremita Pedro,
    que, pondo a cruz vermelha no hombro para irem morrer na Palestina,
    clamavam–«Deus assim o quer! Deus assim o quer!»–diremos
    tambem:–«soffrâmos o menoscabo e o vilipendio: soffrâmos que assim o
    quer Deus.»

    É contra a indole destruidora dos homens de hoje que a razão e a
    consciencia nos forçam a erguer a voz e a chamar, como o antigo eremita,
    todos os animos capazes de nobre esforço para nova cruzada. Ergueremos
    um brado a favor dos monumentos da historia, da arte, da gloria
    nacional, que todos os dias vemos desabar em ruinas. Esses que julgam
    progresso apagar ou transfigurar os vestigios venerandos da antiguidade
    que sorriam das nossas crenças supersticiosas; nós sorriremos tambem,
    mas de lastima, e as gerações mais illustradas que hão de vir decidirão
    qual destes sorrisos significava a ignorancia e a barbaridade, e se não
    existe uma superstição do presente como ha a superstição do passado.

    A mais recente quadra de destruição para os monumentos, tanto artisticos
    como historicos, de Portugal, póde dividir-se em duas epochas bem
    distinctas. Acabou uma: a outra é aquella em que vivemos.

    A ultima metade do seculo XVIII e os annos já decorridos deste seculo
    tem sido um periodo de reforma ou antes de revolução. A revolução não é
    de hontem. Quasi sempre as manifestações ruidosas e, digamos assim,
    externas das epochas de grandes transformações vem muito depois de
    iniciadas estas. No seio da formula social que vai fenecer ha a gestação
    da formula social que surge. Quando as labaredas rompem pelas janellas
    do edificio, ha muito que o incendio lavra pelo interior dos aposentos.

    Entre nós, as reformas começou-as um homem grande, mas que era homem do
    seu tempo. Genio positivo e mui pouco especulativo, ministro de um rei
    absoluto, e sabendo que, se não caminhasse depressa, ficaria no caminho,
    o marquez de Pombal fez resurgir de salto sciencia, artes, industria e
    administração. A maioria do paiz obedecia ás reformas, mas sem as
    comprehender. O circulo dos individuos que alcançavam o valor dellas e o
    influxo que deviam ter no futuro, era assás limitado. A iniciação estava
    feita, mas o fogo tinha de lavrar muito tempo debaixo da cinzas.
    Exteriormente, a maior parte das reformas, destoando de habitos
    inveterados, repugnando não raro a opiniões vulgares, devendo ter
    resultados remotos, que o commum dos espiritos não sabiam antever, nem
    podiam apreciar, definharam-se ou morreram logo que se quebrou o braço
    de ferro que as realisára e mantivera, sorte ordinaria de todos os
    commettimentos sociaes que antecedem a diffusão das idéas que
    representam. O conde de Oeiras, pondo os estudos ao nivel dos do resto
    da Europa, fez acceitar o movimento scientifico desta; mas as
    intelligencias reconduzidas de salto ao bom caminho, sem transições
    graduaes, acceitaram mais as fórmas do que comprehenderam o espirito.

    O que succedeu na sciencia succedeu na litteratura. Acabaram os
    acrostichos, os restos do gongorismo, os sermões de antitheses e
    argucias, os elogios e conferencias palavrosas e retumbantes da Academia
    da Historia, onde o proprio reformador tambem peccara: ficámos, porém,
    com a litteratura á Luiz XIV, cuja influencia em Portugal começara a
    despontar no horisonte desde o começo daquelle seculo e que, depois, os
    nossos innocentes Arcades acceitaram como emanação legitima da arte
    grega e romana. Peior do que na sciencia, a regeneração litteraria,
    desprovida de nacionalidade, alheia ás tradições portuguesas, nascia,
    digamos assim, morta. O mau gosto desapparecera, mas em logar delle
    ficava cousa que pouco mais valia; a inspiração pautada, o estro
    convencional e a vacuidade da idéa escondida debaixo da opulencia da
    fórma.

    Se, em parte, as sciencias e a industria foram introduzidas, ou como
    inventadas, no reinado do marquez de Pombal, as artes plasticas, e
    principalmente a architectura, cuja historia, mais do que a de nenhuma
    arte, neste momento nos importa, já anteriormente existiam. A epocha de
    D. João V foi uma epocha de luxo e riqueza lançados sobre um paiz
    miseravel, como alfombra preciosa em pavimento carunchoso e podre. Esse
    luxo e riqueza, que brotavam das minas da America, foram favoraveis aos
    artistas. As obras magnificas do nosso Luiz XIV, ou antes do simia de
    Luiz XIV, e mais que tudo a edificação do fradesco palacio de Mafra
    fizeram apparecer estatuarios, esculptores, architectos. Achou-os o
    conde de Oeiras, e deu aos seus talentos nova applicação. Ao gosto
    corrompido da architectura italiana, que era a seguida em Portugal, fez
    substituir um gosto mais severo, mais util e mais mesquinho. Era o homem
    politico, o homem da vida practica dirigindo as artes: eram as artes
    reduzidas pura e simplesmente a um ramo de administração. Compare-se o
    caracter geral do convento de Mafra com o das grandes obras do marquez
    de Pombal, o plano da nova Lisboa, o Terreiro do Paço, a Alfandega, o
    Arsenal da Marinha, a parte moderna dos edificios da Universidade de
    Coimbra. Em Mafra, achar-se-hão a exageração de ornatos e os primores do
    cinzel, mas nenhuma inspiração verdadeiramente nobre e grande;
    achar-se-ha o desmesurado supprindo o sublime: nas obras do marquez, só
    se encontram largas moles desadornadas, edificios monotonos, postoque
    uteis ou necessarios, uma praça magnifica, onde campeiam monolithos
    enormes e que seriam admiraveis se não estivessem cobertos de remendos e
    parches, e cujas paredes se pintaram de ochre para poupar alguns palmos
    de silharia, alguns palmos de marmore n'uma collina de marmore. O plano
    de qualquer obra publica desta epocha dir-se-hia sempre traçado na mente
    de um negociante hollandês. O despotismo ignorante e presumido estragara
    a arte com a puerilidade; o despotismo illustrado estragou-a com a
    razão. Mafra é um poema da Fenix-Renascida: a Lisboa do marquez de
    Pombal um soneto de Diniz ou uma ode de Garção. A cidade depois do
    convento é o Novo-methodo do padre Pereira expulsando das escholas
    latinas a grammatica do padre Alvares.

    Morreu D. José I, facto insignificante em si, mas grave pelas suas
    consequencias. Com a morte desse homem desappareceu da scena politica o
    forte espirito que reinara em vez delle. Portugal soçobrou então; apenas
    sobre o seu vortice de perdição boiaram por algum tempo as letras e a
    sciencia sustentadas ao de cima pelo braço do duque de Lafões. A
    architectura, que n'um paiz pequeno e pobre, como o nosso, depende quasi
    exclusivamente do governo para existir, não decahiu porque estava já
    decadente: o que fez foi retroceder das fórmas mesquinhas, mas graves e
    simples, que adoptara, para os fogaréus e burriés e repolhos e espiraes
    e grinaldas da epocha anterior. Quereis saber o que ella foi d'ahi
    ávante? Olhae para o mais notavel edificio do subsequente reinado, para
    o convento do Coração de Jesus. Como o pensamento unico do governo era
    desmentir o bom, o mau, o indifferente, tudo, em summa, quanto se fizera
    no antecedente reinado, buscou-se restaurar a architectura de Mafra,
    menos a vastidão, menos a opulencia. Caricatura de caricatura. Aquelles
    portaes microscopicos, aquellas columnas disformes e deformes,
    encostadas á portada da igreja, especie de polypos de pedra, guardados
    alli para servirem de pilares em outro monumento que delles viesse a
    carecer; aquelle atrio que recorda o _vomitorium_ dos amphitheatros
    romanos; aquellas torres onde não se pouparam nem columnellos inuteis,
    nem franjas e avellorios de marmore; tudo isso é amostra do gosto da
    epocha, gosto que tem durado e que ainda campeia nas fachadas de varios
    armazens ao divino construidos nos ultimos sessenta annos e baptisados
    com a pomposa denominação de templos.

    Tal foi em Portugal a architectura durante seculo e meio. O
    renascimento, que condemnou em peso, como barbaras, as origens das
    nações modernas e especialmente o que desdizia das diversas
    manifestações da civilisação grega e romana, envolveu n'esta
    condemnação, em muitos casos injusta ou inepta, os admiraveis monumentos
    de arte que a idade media legara aos tempos modernos. As gerações
    subsequentes, educadas n'uma adoração irreflexiva de tudo quanto viera
    da Grecia e de Roma pagans, não podiam comprehender a sublime magestade
    e, digamos assim, o espiritualismo da arte christan. Os paços, os
    castellos, as pontes, os cruzeiros, as galilés das praças, as portas, as
    torres, os pelourinhos das cidades e villas, construidos desde o XI até
    o XV seculo quasi que desappareceram. Conservaram-se alguns mosteiros e
    sanctuarios, algumas cathedraes e parochias, não por serem obras da
    arte, mas por serem logares consagrados a instituições religiosas, e
    talvez por terem faltado os recursos para os substituir por novas
    edificações.

    Ainda assim, restar-nos-hiam hoje em mosteiros, em cathedraes e em
    outros edificios consagrados ao culto inestimaveis monumentos, se nesta
    terra, desamparada de Deus e da arte, tivesse havido sequer um vislumbre
    de gosto e de veneração pelo passado, e não fosse justamente entre o
    clero, isto é, entre os guardadores naturaes desses mesmos monumentos,
    que surgissem os seus mais funestos adversarios. Porém os bispos sabiam
    theologia e direito canonico; os conegos e parochos, alguns sabiam
    latim; os frades, pelo menos os membros das antigas ordens monachaes,
    eram eruditos e homens de letras; mas nem os bispos, nem os conegos e
    curas d'almas, nem os frades entendiam de architectura. Entregaram tudo
    aos architectos e mestres de obras, que estragaram tudo. Quasi que
    escaceiava a pedra para se converter em cal. Os batefolhas não tinham
    mãos a medir. Columnas, capiteis, abobadas, torres, portaes, arcarias,
    claustros, tudo foi caiado, dourado, enfeitado, estragado. Procurae na
    maior parte das nossas sés, das nossas collegiadas, das nossas velhas
    parochias, um desses pilares polystylos, desses capiteis e cimalhas
    rendadas, desses bocetes e penduroes variados, dessas gargulas ás vezes
    insolentes, ás vezes terrificas, ás vezes finamente epigrammaticas, e
    nada achareis do que foi. Aquelles livros de pedra, complexos como os
    poemas de cavallaria, ingenuos como os poemas do Cid ou dos Nibelungen,
    converteram-se em palimpsestos donde se raspou a historia das crenças,
    dos costumes, dos trajos, das alfaias de antigas eras; onde se apagaram
    os vestigios de successos notaveis, de dramas populares, de lendas
    poeticas, e até retratos unicos de varões singulares. Nesses livros
    preciosos, em vez do seu primitivo conteúdo, só achareis as rasuras que
    mãos ineptas ahi fizeram e os caracteres que sobre essas paginas,
    outrora eloquentes, traçou a peior das barbarias, a barbaria pretenciosa
    e civilisada. Passou por lá o picão do reformador, a colher do
    estucador, o mordente do dourador. Paredes, pilares, capiteis, laçarias,
    ogivas estão rebocados, alvos, polidos, dourados. A luz do sol já não
    bate no pavimento do templo convertida em luz baça e saudosa pelos
    vidros córados das frestas esguias, dos espelhos circulares: agora alaga
    em torrentes essas paredes brancas e lisas, que fingem ás vezes
    absurdamente pedras impossiveis estendidas pela colher do alveneu sobre
    a face rugosa, mas secular e veneranda, da verdadeira pedra. O templo de
    Deus é como a sala do baile, como a sala dos legisladores, como a sala
    do theatro, como a praça publica, sem mysterios, sem tradições, sem
    saudades.

    Mas se a culta barbaria dos nossos avós e de nossos paes forcejou por
    cobrir com remendado véu os monumentos dos primeiro seculos da
    monarchia, deixou em muitos delles ao menos, os seus formosos e ideaes
    perfis, as suas linhas architectonicas. O pensamento que inspirou essas
    concepções grandiosas como que se alevanta d'entre as devastações
    perpetradas pelo camartélo, pela picareta e pelos boiões de cal delida,
    e apesar de se haverem dirigido sem tino, sem gosto, sem harmonia as
    restaurações dos edificios que as injurias do tempo em parte haviam
    arruinado, resta ainda muito que estudar e admirar nesses monstros. Até,
    em alguns delles, é possivel supprimir, pela imaginação, o moderno e pôr
    em logar deste o antigo. A poesia ainda não desamparou de todo o
    mutilado monumento.

    Mas durarão por muito tempo esses restos da mais formosa e magnifica de
    todas as artes? Não o esperamos; mas lavraremos aqui, ao menos, um
    protesto contra o vandalismo actual. Nossos paes destruiram por
    ignorancia e ainda mais desleixo: destruiram, digamos assim,
    negativamente: nós destruimos por idéas ou falsas ou exageradas;
    destruimos activamente; destruimos, porque a destruição é uma vertigem
    desta epocha. Feliz quem isto escreve, se podesse curar alguem da febre
    demolidora; salvar uma pedra, só que fosse, das mãos dos modernos hunos!

    II

    Falámos da decadencia da architectura durante seculo e meio; porque as
    manifestações dessa decadencia foram sempre as mesmas em tão largo
    perido. Vê-se a arte na sua lenta agonia rodeiada de curandeiros que se
    propõem sará-la, mas que a transfiguram, sem alcançarem qual é o achaque
    intimo que a devora: vêmos acumular columnas a proposito e
    desprositadamente: vêmos gesso, ouro e talha: vêmos converter os velhos
    monumentos em monstros de Horacio; pôr ao lado da torre ou do curucheu
    gothico zimborios á Buonaroti ou portadas á Barrozio; enxertar a capella
    do seculo XVIII na parede de nave do seculo XIV semelhante a um viveiro
    de cogumélos, nascidos por entre as fisgas humidas da pedraria, a favor
    da meia obscuridade daquellas profundas arcadas: vêmos alteiar edificios
    que representam o gosto architectonico do mercador de retalho, e erguer
    templos cujo indecente e ridiculo elogio é o de serem _bonitos_: vêmos
    as grandes praças de Lisboa, bem esquadriadas, bem symmetricas, bem
    prosaicas: vêmos igrejas, como a da Encarnação ou a dos Martyres,
    caiadas, pulidas, alindadas, onde não móra um só pensamento de Deus. A
    arte entendeu-se assim por largos dias. Ao passo que se imprimia a
    Poetica do padre Freire, que se coroava a Osmia, e que se publicavam por
    ordem superior as poesias, assim chamadas, de Ribeiro dos Sanctos,
    encostavam-se columnas disformes pelas paredes de um pio armazem,
    conhecido vulgarmente pelo nome de igreja de S. Domingos, ladeiavam-se
    com ellas os portaes dos edificios publicos e as frestas do atrio tyscio
    do convento do Coração de Jesus. No meio daquellas semsaborias
    architectonicas parecia sentir-se uma tendencia instinctiva para a
    regeneração; mas essa tendencia, que buscava uma solução ao problema nas
    tradições da arte romana ou antes grega, não podia lá encontrá-la. Fora
    o renascimento; fora a admiração dessas tradições, até certo ponto
    justa, mas exagerada depois, que dentro de pouco mais de cem annos
    chegara, de modificação em modificação, até a architectura do seculo
    XVII, á architectura da Sé nova de Coimbra, do Seminario de Santarem, á
    architectura jesuita. Não só a regeneração litteraria e a politica, mas
    tambem a da arte devia consistir em considerar o renascimento, não como
    phase, mas como lacuna na vida das nações christans, das sociedades
    novas; em descer logicamente do crer e sentir da sua idade viril. Embora
    a arte seja uma só; embora seja sempre e em toda a parte a expressão
    sensivel do ideal, tanto este como as suas manifestações é que são
    diversos nas diversas epochas e em sociedades differentes. Naquelle
    dilatado periodo de decadencia o que sobretudo faltava á architectura
    era a luz, o horisonte, a atmosphera respiravel, em que podesse viver e
    produzir.

    A decadencia, porém, na epocha em que vivêmos é outra, e mais profunda.
    Já não ha a corrupção do gosto, o inapplicavel das theorias, o erro do
    entendimento. Agora é o instincto barbaro, a malevolencia selvagem, a
    philosophia da brutalidade. Dura ha poucos annos; mas esses poucos annos
    darão maior numero de paginas negras á historia da arte do que lhe deu
    seculo e meio. O picão e o camartello só ha bem pouco tempo que podem
    dizer–triumphámos. Até então escaliçavam-se paredes, roçavam-se
    esculpturas, faziam-se embréchados; mas agora derribam-se curuchéus,
    partem-se columnas, derrocam-se muralhas, quebram-se lousas de
    sepulturas, e vão-se apagando todas as provas da historia. Faz-se o
    palimpsesto do passado. Corre despeiado o vandalismo de um a outro
    extremo do reino, desbaratando e assolando tudo. Comico perfeito,
    desempenha todos os papeis, veste todos os trajos. Aqui é vereador, alli
    administrador de concelho: ora é ministro, logo deputado: hoje é
    escriptor, ámanhan funccionario. Corre na carruagem do fidalgo, faz
    assentos de debito e credito no escriptorio do mercador, dá syllabadas
    em latim de missaes, préga nos botequins sermões d'economia politica e
    do direito publico, capitaneia soldados, vende bens nacionaes, ensina
    sciencias; em summa, é tudo e mora por toda a parte. Attento ao menor
    murmurio dos tempos que foram, indignado pela mais fugitiva lembrança
    das gerações extinctas, irrita-se com tudo que possa significar uma
    recordação. Assim excitado, argumenta, ora, esbraveja, esfalfa-se. O
    eretismo dos nervos só póde affrouxar-lho, como as harmonias
    melancholicas de harpa eolia, o ruido de algum monumento que desabe.

    Apesar da ferocidade nervosa do vandalismo, não se creia, todavia, que
    elle é desalinhado no vestuario, carrancudo na catadura, descomposto nos
    meneios. Nada disso. O vandalismo é aprimorado no trajo, lhano e grave a
    um tempo no porte, pontual na cortezia. Encontrá-lo-heis nas sallas
    requebrando as damas, dançando, tomando chá; no theatro palmeiando com
    luvas brancas os lances dramaticos. Entende francês e leu jà Voltaire,
    Pigault-Lebrun e os melhores tractados do wisth: quasi que sabe ler e
    escrever português. O vandalismo é culto, instruido, civil, affavel.
    Tirem-lhe de diante os monumentos; será o epilogo de todos os dotes e
    boas qualidades; será a mansidão incarnada.

    Mas, infelizmente para elle, o velho Portugal estava cuberto de
    recordações do passado. Cada facto historico tinha uma igreja, uma casa,
    um mosteiro, um castello, uma muralha, um sepulchro, que eram os
    documentos perennes desse facto e da existencia dos individuos que nelle
    haviam intervindo. Encontrando tantas injurias mudas á decadencia
    presente, o vandalismo irritou-se, ergueu-se e falou em feudos, em
    dizimos, em corrupções fradescas, em maninhádegos, em servos de gleba,
    em direitos de osas, em superstições; catou, em summa, todas as
    vergonhas e deshonras do passado que pôde e soube, entresachando-as com
    sentenças e logares communs do cathecismo politico de Ramon Salas e, por
    uma logica incomprehensivel, por uma logica sua, chamou os homens do
    alvião e da picareta e começou a derribar, victoriado pelo povo. Só
    elle, immovel no meio da mobilidade do nosso tempo, no meio das opiniões
    encontradas, das luctas, das commoções, tem apontado constante ao seu
    alvo, a demolição indiscriminada do passado. Assim, pertence a todos os
    bandos politicos, acceita todos os principios, curva-se a todos os
    jugos, comtanto que o deixem roer os testemunhos da historia e da arte;
    que o deixem fazer-nos esquecer da gloria nacional e de que somos um
    povo de illustre ascendencia. Este pensamento é o seu pensamento unico,
    perpetuo, inabalavel.

    Ha pouco que que da villa de Peniche nos escreviam o seguinte: «Tendo
    havido quem ousasse revolver e desfazer o tumulo em que jazia o cadaver
    de D. Luiz de Athaide, na igreja do extincto convento do Bom-Jesus desta
    villa, o facto excitou nos que concorreram a observar os despojos
    mortaes daquelle heroe vivos desejos de ouvirem falar da sua vida e
    feitos.» Não nos fallecem cartas em que se contenham noticias de
    analogas profanações. De todos os angulos do reino se alevantam brados
    de homens generosos, que lamentam a ruina dos velhos edificios, a
    profanação das sepulturas, a destruição de todas as memorias da arte e
    da historia. Quem hoje quizesse escrever as biographias dos nossos
    homens illustres, talvez já não podesse dizer onde actualmente jazem os
    restos da maior parte delles. O braço omnipotente do vandalismo
    estendeu-se para os sepulchros; as campas estalaram e os ossos de nossos
    avós lançaram-se aos cães e rolam pelo pó das estradas e pelas
    immundicies das ruas. As inscripções lapidares vão-se enterrando por
    alicerces e paredes, não á face destas, porque ahi alguem ainda poderia
    lê-las; mas no fundo dos cavoucos ou no amago dos muros. Sem isso, não
    nos vangloriariamos com inteira justiça de ter completamente renegado de
    nossos maiores.

    Referiu-nos um respeitavel viajante hespanhol que, entre os entulhos do
    convento de S. Domingos de Lisboa, vira uma lagea onde se lia o
    epitaphio de Fr. Luiz de Granada. Sollicitou dos demolidores que a
    tirassem do meio das ruinas, porque essa pedra era valiosa memoria.
    Provavelmente os economistas da alavanca, os philosophos da picareta
    riram a bom rir do desvario daquelle hespanhol fanatico. A lapide
    sepulchral de um dos homens mais sabios e eloquentes que a Peninsula
    gerou lá jazerá a estas horas nos fundamentos de algum edificio, cujo
    rendimento, abatidos decima e concertos, o vandalismo e o dono acharão
    de certo preferivel á gloria de Fr. Luiz de Granada.

    Oh, civilisação!

    Levaram-nos a Coimbra em 1834 obrigações de serviço publico. Residiamos
    ahi quando foi supprimido o mosteiro de Santa-Cruz. Correu então a
    noticia de que se pretendia pedir ao governo que esse bello edificio
    fosse doado ao municipio. Mas, para que? Para a camara o arrasar e fazer
    uma praça. Não se realisou o nefando alvitre; mas os bons desejos não
    faltaram. Uma praça no logar onde estivera Sancta-Cruz; uma praça
    calçada com os fragmentos dos rendados umbraes do velho templo, com as
    lageas quebradas dos tumulos de Affonso Henriques e de Sancho I e dos
    demais varões illustres que alli repousam! Ha ahi, porventura, quem
    avalie a sublimidade de tal pensamento e meça a incommensuravel
    distancia que vai d'um edificio monumento, onde apenas ha historia,
    arte, poesia, religião, a um terreiro amplo, bem amplo, onde a vadiagem
    possa estirar-se regaladamente ao sol? Infelizmente; a cidade
    litteraria, a _alma mater_, ficou privada deste documento ineluctavel da
    sua illustração.

    Pelas largas que tem tomado o vandalismo, podemos assegurar que dentro
    deste seculo não haverá em Portugal um monumento. O Mexico ufanar-se-ha
    do seu templo de Palenque, da sua pyramide de Tehuantepec; a India dos
    subterraneos de Ellora e de Elephanta, e até, os habitantes barbaros da
    Australia terão que mostrar aos estrangeiros os _moraes_ dos seus
    antigos deuses. Só nós os portugueses não lhes poderemos dizer:–«eis os
    testemunhos indubitaveis de que fomos uma nação antiga e gloriosa».

    Correi as principaes cidades do reino; buscae os mais veneraveis
    edificios. Ou jazem por terra ou foram applicados a usos que lhes estão
    produzindo a ruina. A bella e grandiosa igreja de S. Francisco do Porto,
    único monumento importante do seculo XV que possuia aquella cidade, foi
    consagrada a armazem da alfandega. O mosteiro dos Jeronymos em Belem,
    obra prima da architectura média entre ao néo-gothica e a da chamada do
    renascimento, edificio magnifico de uma epocha de transição na arte,
    como Sancta Sophia de Constantinopla o é de uma epocha analoga, foi
    deturpada, não nos importa por quem, e o seu maravilhoso claustro
    ludibriado com tapumes caiados e convertido em dormitorios forçamente
    humidos e malsãos. A Batalha, Alcobaça, o convento da ordem de Christo
    em Thomar cáhem em ruinas, e diz-se–«que importa?» Barbaros! Importa a
    arte, as recordações, a memoria de nossos paes, a conservação de cousas
    cuja perda é irremediavel, a gloria nacional, o passado e o futuro, as
    obras mais admiraveis do engenho humano, a historia, a religião. Vós,
    homens da destruição, dos alinhamentos, dos terreiros, da civilisação
    vandalica, é que importaes bem pouco; porque, semelhantes a vermes,
    roeis e não edificaes; porque não deixareis rasto no mundo depois de
    apagar tantos vestigios alheios; porque nada valendo, menoscabaes os que
    valeram muito; porque se um templo, um mosteiro, um castello duraram
    seis ou oito seculos e durariam, sem vós, outros tantos, as vossas
    picaretas, as vossas alavancas, os vossos camartellos estarão comidos de
    ferrugem e informes antes de vinte annos, e são essas as unicas e
    tristes memorias da vossa ominosa passagem na terra.

    Desprezar os monumentos é brutal; persegui-los é impio e sacrilego. Os
    que os desprezam fazem o que faziam os lombardos, apoderando-se da
    Italia, ás formosas obras da architectura greco-romana. Deixavam-nas
    perecer; porém não as destruiam. Os que as arrasam ou mutilam são
    adeptos de uma velha heresia que resurge; são iconoclastos redivivos.

    Procurae hoje, por exemplo, em Lisboa as antiquissimas igrejas
    parochiaes de Sancta Marinha e de S. Martinho: achareis os logares onde
    estiveram, e achá-los-heis, porque aos hunos encapados em lemiste não é
    dado supprimir um fragmento do orbe terraqueo. Os homens desta Lilliput
    da intelligencia estão desentulhando aquelles terrenos para fazerem
    casas. Onde haviam elles de morar, senão fizessem alli mais umas casas?
    Sancta Marinha encerrava memorias anteriores á monarchia, e a parochia
    de S. Martinho prendia-se com a historia da grande crise por que
    Portugal passou nos fins do XIV seculo. Mas de que momento é essa
    consideração, se attendermos a que lá, onde estiveram os dous templos
    ricos de idade e de tradições, se podem construir duas moradas bem
    pintadas, bem alvas exteriormente, com sua beirada vermelha e seu rodapé
    amarello? Que importa que se dispersem os ossos do conde Andeiro ou se
    desfaça a sepultura do conde de Alvor? As cinzas dos mortos podem jazer
    tão tranquillas debaixo do balcão de uma taberna, como aos pés de um
    altar, á sombra da eterna cruz. Bemdicta sejas tu, geração philosophica,
    geração arrasadora, geração camartelladora! O futuro, está certa disso,
    ha de fazer-te justiça.

    Uma das mais notaveis obras do seculo XIV foi, sem duvida, a muralha com
    que el-rei D. Fernando cingiu Lisboa. Todos julgavam impossivel a sua
    edificação, dizem os chronistas, porque suppunham que levaria cem annos
    a construir: aquelle principe soube, porém, acabá-la em dous. Os povos
    foram chamados de grandes distancias a trabalhar nella, fazendo-se
    aliás, todas as prevenções para suavisar aquella especie de anudúva
    extraordinaria. A esta muralha deve hoje Portugal não ser uma provincia
    d'Hespanha, porque salvou Lisboa de cahir nas mãos d'el-rei de Castella.
    Se isto se tivesse realisado, o reino estava perdido. Considerada a
    semelhante luz, a muralha de D. Fernando era, talvez, o nosso mais
    importante monumento historico. O progressivo accrescimo da capital
    tinha-a em grande parte destruido; mas restava ainda, além de outros, um
    lanço importantissimo. Era o angulo que fechava a cidade pelo lado do
    bairro dos judeus. Por este angulo, onde houvera uma porta e onde ainda
    restavam os vestigios de uma torre que a defendia, a torre de Alvaro
    Paes, se podia delinear quasi exactamente a direcção que seguiam os dous
    lanços de norte e de oeste. Era, assim, uma especie de padrão que
    indicava os limites septemtrionaes e occidentaes da povoação, e uma
    reliquia que demonstrava a grossura e solidez da antiga muralha, mui
    superior á de outras porteriormente construidas em epochas mais ricas e
    mais civilisadas.

    Este angulo, este fragmento, testemunha do periodo mais glorioso da
    nossa historia, lá se está derribando para se fazer uma praça quanto
    possivel ampla. Homens gigantes, como nós, não cabem onde couberam
    nossos avós, pygmeus conquistadores da Africa e da India. Far-se-ha pois
    uma praça, que, se não prestar para mais nada, poderá servir de mercado
    de hortaliça. Uma pyramide de repolhos substituirá o adarve, por onde,
    em noite sem lua, se viam a espaços scintillar as armaduras dos
    escudeíros ou cavalleiros idos em sobrerolda a vigiar as roldas dos
    besteiros do conto da cidade, quando pela terceira vez no reinado de D.
    Fernando os castelhanos a accommettiam com grande poder. Alli, no sitio
    daquella porta, por onde o, depois tão celebre, Nunalvares sairia muitas
    vezes nessa conjuctura a espalhar o terror e a morte entre os homens de
    armas inimigos, venha a lide incruenta sobre o preço da couve, sobre o
    viçoso ou murcho das favas, substituir o grito clamoroso de S. Jorge,
    que chamava nosso avós, os rudes burgueses do seculo XIV, aos combates
    em defesa da patria.

    O que estes netos de Attila, de collarinhos e peitilhos engommados, são,
    sobretudo, é ridiculos.

    Vergonha é confessá-lo: os estrangeiros tem mostrado maior veneração
    pelas antiguidades do nosso paiz do que os portugueses. Um estrangeiro
    salvou no convento dominicano de Bemfica a antiga capella de D. João de
    Castro. Ha pouco ouvimos outro, em cujos olhos chammejava a indignação,
    clamar altamente contra a barbaria com que se deixavam estragar no
    mosteiro de Belem varios quadros magnificos de eschola portuguesa, nos
    quaes os passaros, entrando pelas frestas mal reparadas do edificio, vão
    amontoando as immundicies. Mas estes estrangeiros são homens que sabem
    qual seja o valor dos monumentos da arte e da historia. Nós é que temos
    perdido o sentimento e a intelligencia para apreciar essas cousas.

    Se com a nossa incuria aggressiva e com a nossa raiva assoladora
    desmentimos o passado, para darmos em tudo documento de insipiencia
    desmentimos, até, essas mesmas opiniões e tendencias do presente, a que
    recorremos para condemnar em nome do progresso, sem distincção nem
    juizo, o mau e o bom de eras antigas. É a economia politica a sciencia
    do nosso tempo: todos falam em capitaes, em industria, em riquezas
    sociaes, em valores. Mas que serão os monumentos? Que serão essas
    admiraveis aggregações de marmore ou de granito? São o resultado ou
    _producto_ da concepção, da applicação e da execução: vem a ser,
    portanto, uma riqueza social. E por quê e para quê annullaes vós essa
    riqueza? Dado que representasse um capital improductivo, com que intuito
    o deitaes fóra? Não o são, porém, na sua maxima parte, os monumentos.
    Quando a arte ou os factos historicos os tornam recommendaveis,
    convertem-se em capital productivo. Calculae quantos viajantes terão
    atravessado Portugal neste seculo. De certo que não vieram cá para
    correrem nas nossas commodas diligencias pelas nossas bellas estradas,
    ou navegarem nos nossos rapidos vapores pelos nossos amplos canaes; de
    certo que não vieram para aprenderem a agricultar com os nossos
    agricultores, nem a fabricar com os nossos fabricantes; mas para
    admirarem os mosteiros da Batalha, de Alcobaça e de Belem, a sé velha
    Coimbra, a cathedral, a igreja de S. Francisco e o templo romano de
    Evora, a matriz de Caminha e a collegiada de Guimarães, os castellos da
    Feira e de Almourol, e emfim, tantas obras primas de architectura que
    encerra este cantinho do mundo. Crêdes que esses romeiros da arte voltam
    da romagem aos seus lares sem dispender muito ouro, e esqueceis que esse
    ouro ficou por mãos portuguesas? E falaes de economia politica, e
    anniquilaes o capital dos monumentos? Adoradores do camartello, por
    qualquer lado que se observe a vossa obra, não se descobre senão o
    absurdo.

    Quizeramos que os homens deste paiz que tem coração português fizessem
    uma associação, cujo trabalho de patriotismo ligasse os seus membros
    dispersos por todo o reino; que os residentes em Lisboa constituissem
    uma especie de juncta, á qual os das provincias, logo que á sua noticia
    chegasse a demolição de algum monumento da historia ou da arte,
    remettessem uma breve nota, individuando as circumstancias do edificio
    destruido e o nome do arrasador, quer este fosse magistrado ou
    funccionario publico ou municipal, quer fosse individuo particular.
    Quizeramos depois que essa breve nota, sem reflexões, sem affrontas,
    estampada em todos os jornaes, se legasse á posteridade. Nenhuma lei
    prohibe que se narre, singelamente e sem o qualificar, um facto que o
    seculo julga indifferente. Ninguem, por certo, teria a queixar-se de
    semelhante publicação. Eram simplesmente factos que se transmittiam á
    apreciação da posteridade; era apenas um trabalho historico.

    «Mas isso provocava as maldicções dos vindouros.–E que importam as
    maldicções dos vindouros ao que não cura nem da arte, nem do passado,
    nem do futuro, nem da gloria nacional, nem da memoria de seus avós, nem
    dos sepulchros, nem das tradições, nem sequer, emfim, dos interesses
    materiaes que resultam e hão de resultar da conservação dos monumentos?
    Que importa isso áquelles para quem os horisontes da vida são
    exclusivamente os horisontes da terra? Nada. Ririam desse corpo de
    delido de terrivel processo. Mas, talvez, seus filhos e netos não
    rissem, vendo-se obrigados a renegar de um nome, no qual gerações mais
    allumiadas e mais nobres haviam forçosamente de imprimir o ferrete de
    perpetua deshonra.

    III

    Os xeques da tribu arabe de Bka estavam um dia, pela volta da tarde,
    assentados juncto das columnas de um templo, na extremidade oriental da
    acrópole de Balbek.

    D'aqui, pondo a mão sobre os olhos para os resguardarem do sol que os
    deslumbrava, os chefes da tribu de Bka alongavam a vista para a banda do
    poente.

    E o sol, que descia rapido, mandava a sua luz suave atravez daquellas
    arcarias gigantes o immensas; daquellas columnas monolithas, a menor das
    quaes os braços de dez mil árabes não valeriam a erguer.

    A hora era de meditação e de melancholia, e os xeques olhavam com
    aspecto carregado para a ossada grandiosa da erma cidade, que é como um
    olhar de desdem com que o mundo antigo contempla o mundo moderno, e é ao
    mesmo tempo demonstração solemne da vaidade disso a que se chama poderio
    e gloria, cuja duração se confunde na eternidade com a duração de um
    dia.

    E por entre aquellas rumas de mármores e de syenites viam-se passar,
    buscando as suas leves e moveis habitações, dispersas entre as ruinas,
    os arabes do deserto, semelhantes aos gusanos que refervem no cadaver
    meio apodrecido do elephante abandonado pelos caçadores nas margens
    solitarias do Zambeze.

    E depois de largo silencio, um dos xeques abaixou os olhos e, com voz
    presa de furor intimo, disse para os companheiros:

    «Porque consentiremos nós, os filhos do Propheta, que estes gigantes de
    pedra estejam continuamente assoberbando a tenda humilde do arabe, que
    passa livre no mundo?

    Se a nossa vida é um instante, o homem não deve construir edificios
    destinados a transpor seculos. É quasi blasphemia revestir o transitorio
    com o trajo da eternidade. A eternidade não é da terra; é do paraiso.
    Porque haviam de querer os que já não são immobilisar no deserto para os
    seus ultimos netos esse arraial quasi interminavel de tendas de pedra?

    Para que semeiaram as gerações passadas uma seara immensa de abysmos
    pelos pendores do Ante-Libano, arrancando delle pedreiras macissas, como
    se fossem os grãos de areia, com que ergue collinas movediças o sopro do
    Simúm quando varre o deserto?

    Que temos nós com os tempos que já passaram, para que elles venham
    increpar-nos com a muda insolencia dos monumentos o nosso livre e solto
    viver, e instituir parallelos offensivos entre a decadencia actual e o
    esplendor das artes e a magnificencia laboriosa e incommoda daquellas
    eras de grandeza e poderio?

    Que importa que então saissem da Assyria os conquistadores da Asia e as
    frotas que descobriam novos céus e novos mares, ou que os poetas de
    então tivessem para cantar lendas de façanhas quasi incriveis?

    Em vez das conquistas, a liberdade. Hoje não ha acto que seja defeso ao
    arabe do deserto. Corremos livres por livres descampados. Embora o
    reluzir do sabre de um spahi de Ibrahim faça fugir aterrados cem
    cavalleiros nossos, e o frangue do occidente nos despreze como barbaros.
    Saboreamos quietamente o pão esmolado ou arrebatado ao que o cultivou
    para nós. Da bolsa do viandante o ouro cai-nos aos pés com seu dono. O
    nosso trabalho é apenas erguer aquelle quando este cai. Depois de uma
    vida sem sacrificio, sem amarguras, que nenhum monumento contará aos
    vindouros, dormiremos na paz do esquecimento, porque não deixaremos
    vestigios da nossa jazida. Não se revolvem os ossos dos mortos, quando o
    seu ultimo abrigo é a amplidão do nosso oceano de areias, que não
    consente nem lapides, nem inscripções, nem edificios na sua face
    tristemente pallida.

    Porque, pois, continuarão eternamente erguidos estes templos, estes
    palacios, estas muralhas, reprehensão ou antes injuria perpetua ao nosso
    viver?

    Que se ajunctem os filhos das profundas solidões do deserto, e que, dia
    a dia, vão esboroando uma parte, minima que seja, desses pannos de muros
    de cem covados, formados de poucas pedras; dessas columnatas, sobre
    cujos frizos e arestas pousa á noite o abutre, como costuma pousar sobre
    a cumiada de longa serrania, a que essa obra de homens se assemelha.»

    Callou-se o xeque. Os outros abaixaram as cabeças com lento meneio, como
    quem approvava o dicto.

    Se eu, se vós, chegassemos neste momento ao pé do velho templo de Balbek
    e ouvissemos o discursar do beduino, o que diriamos no primeiro impeto
    de justissima indignação?

    Diriamos que o xeque era uma vibora, que, esmagada debaixo de vinte
    seculos, queria voltar contra a historia os dentes envenenados, como se
    a peçonha da sua colera podesse anniquilar a historia.

    E antes que a nefanda obra que elle traçava e os demais applaudiam
    começasse a ser executada, falariamos assim áquelles loucos:

    «Vós outros quereis derribar a memoria das gerações que foram, porque a
    magestade do passado pesa mais sobre a vossa consciencia do que pesam
    sobre esse chão que parece acurvar-se e gemer debaixo de tantas
    grandezas, os pylones macissos, as sphinges gigantes, as arcarias
    profundas, as pedras de dez covados inseridas em muralhas
    indestructiveis. Melhor fora que forcejasseis por ser tambem grandes,
    convertendo-vos á virtude antiga, e que, em vez de constituir um bando
    de miseraveis, vos tornasseis n'uma nação illustrada e forte, capaz de
    legar á posteridade monumentos como estes, quando lhe chegasse a sua
    ultima hora; porque a morte abrange todas as sociedades, todas as
    civilisações, como abrange todos os individuos.

    Credes que a luz do sol occidental, batendo nas columnas avermelhadas do
    velho templo, vos reflecte nas faces envilecidas o rubor que as tinge?
    Não sentis o sangue que estas palavras vos fazem subir do coração ao
    gesto? É o sangue e não o marmore; é que, mau grado vosso, ellas foram
    despertar uma voz que não podeis soffocar, a da consciencia, que vos
    reprehende da actual decadencia. A vermelhidão que surgiu nessas faces
    crestadas não reflecte da pedra lisa; reflecte-se das almas que se
    rebellam contra si mesmas.»

    Ouzariamos nós, em verdade, dizer isto aos beduinos, sem que tambem o
    rubor viesse tingir-nos as faces?

    Não; porque somos como elles; porque, bem como elles, nos persuadimos de
    que, varrendo todos os vestigios do Portugal antigo, poderemos esconder
    aos estranhos a nossa decadencia actual; porque, além disso, cremos que
    para ser deste seculo, é preciso renegar dos antepassados.

    Todavia, ainda ha quem deplore a destruição das memorias venerandas de
    melhores tempos; ainda ha quem lucte contra a torrente de barbaria que
    alaga este paiz tão rico de recordações, recordações que tantos animos
    envilecidos pretendem fazer esquecer. Sabemos que os nossos brados de
    indignação acham echo em muitos corações. Temos visto e recebido cartas
    acerca deste assumpto escriptas com a eloquencia da convicção e de
    profundo despeito. São protestos solemnes de que nem todos os filhos
    desta terra venderam a alma ao demonio da devastação. Provam ellas que o
    ruido dos alviões e picaretas não basta para afogar os brados da razão,
    da consciencia e do amor patrio. Lendo-as, o sangue referve nas veias
    contra essa idéa fatal que entrou na maioria dos espiritos, de que tudo
    quanto é antigo é mau ou insignificante, quando a peior cousa que ha é
    essa idéa, a mais insignificante a cabeça onde se aninha, a mais
    destestavel a mão que a traduz em obras, estampando sobre a terra da sua
    infancia a inscripção que o atheismo decreta para os sepulchros:–aqui é
    a jazida do nada.

    É singular, por exemplo, a historia das recentes vicissitudes por que
    tem passado a collegiada de Sancta Maria da Oliveira em Guimarães.
    Guimarães parece fadada para victima desta especie de escandalos. A
    igreja da collegiada de Guimarães era um dos mais bellos monumentos de
    architectura ogival. O seu tecto de grossas vigas primorosamente
    lavradas constituia com o da sé do Funchal e poucas mais toda a riqueza
    de Portugal neste genero, porque, durante a idade média, empregava-se
    geralmente a abobada de pedra nas edificações sumptuosas. Além disso, as
    bem proporcionadas arcarias, os capiteis adornados de esculpturas
    variadas e subtis, as tres naves magestosas divididas por elegantes
    columnas, inspiravam em subido grau aquelle respeito melancholico e
    saudoso que é um segredo das igrejas chamadas gothicas. Os annos não
    tinham deslisado em vão por cima do monumento: arruinado em partes,
    carecia de reparos. O cabido ajunctou para isso grossas sommas.
    Chamaram-se obreiros, e ha sete ou oito annos que estes lidam por apagar
    todos os vestigios da antiga arte. Quebraram-se os lavores dos capiteis
    e cornijas: substituiram-se com pedras lisas: estas pedras cubriram-se
    de madeira: esta madeira dourou-se, pintou-se, caiou-se. O templo do
    Mestre d'Aviz lá está alindado; lá está cuberto de arrebiques. Os que
    deviam manter-lhe a magestade das cans; os que deviam dispender seus
    thesouros accumulados, não em remoçá-lo, mas em conservar-lhe o
    venerando aspecto e as rugas dos seculos, fizeram da casa do Senhor um
    velha prostituta que esconde debaixo do caio e do carmim a flaccidez do
    gesto. Blasphemaram de Deus, não com blasphemias de palavras, mas com a
    blasphemia das obras. Deram emfim documento indubitavel de que não havia
    alli quem soubesse a harmonia que existe entre a architectura e a
    religião; que se lembrasse de que o livro da lei e o templo são dous
    typos sensiveis, dous verbos que inspiram, um directamente ao espirito,
    outro symbolicamente aos olhos, as relações entre o homem e Deus, e de
    que não só é impiedade negar ouvidos ao verbo escripto, mas que tambem é
    impio rasgar o livro de pedra.

    E que disseram os habitantes de Guimarães durante oito annos em que os
    vermes andaram a roer naquelle cadaver?

    Louvaram o _bonito_ da obra. O longo tasquinhar do cabido
    despertou-lhes, até, o appetite. Alguns lembram-se já de demolir as
    muralhas da villa reconstruidas por D. Dinis. Talham ainda banquete mais
    lauto. Tentam arrasar as paredes que restam dos paços do conde Henrique;
    dos paços onde Affonso I nasceu. A gloria dos conegos de Santa Maria da
    Oliveira, tão dispendiosamente conquistada, offuscar-se-hia, assim, por
    pouco dinheiro, como a luz pallida da lua nos esplendores do surgir do
    sol.

    Arrasados, pois, os muros reconstruidos pelo rei lavrador, apagados os
    ultimos vestigios dos paços dos nossos primeiros monarchas, raspado e
    serapintado o interior da igreja de Santa Maria, Guimarães, em vez de
    ficar antiga, ficará velha garrida. Unicamente, para a trahir, lhe
    restará uma ruga na face: o frontispicio da collegiada. Mas se a
    picareta do municipio pretender humilhar, como sacrilegamente se cogita,
    o colherim, as tigellas de ochre e vermelhão e as broxas canonicaes,
    vingue-se o illustrissimo cabido arranjando mais alguns vintens, e
    mandando á custa delles picar e caiar aquelle frontispicio. Depois, para
    esmagar de todo as audazes emulações burguesas, enfeite triumphantemente
    a frontaria da sua igreja com um rodapé encarnado.

    Mas haverá um governo que tolere tantos desvarios, tantas devastações
    brutaes? Póde haver, e ha. Não seria difficil encontrar ministros e
    administradores geraes, que, se não fora o defeito de lerem sem
    soletrar, symptoma altamente suspeito para os eleitores, dariam
    excellentes vereações aos concelhos desta terra, onde o sangue dos
    conquistadores suevos parece ter ficado predominando nas veias dos seus
    habitantes. Mais de um governo tem disputado ás camaras municipaes
    primores de barbaridade. Já alludimos á igreja de S. Francisco do Porto
    convertida em armazem da alfandega; ao claustro de Belem convertido em
    dormitorio; ao abandono dos conventos de Thomar, da Batalha e de
    Alcobaça. Ha, porém, mais. Vede essa igreja de S. Domingos de Santarem.
    As suas velhas e grossas portas estão fechadas e o convento está vazio
    dos seus antigos habitadores. Não é, todavia, provavel que o templo
    mandado edificar pelo malfadado Sancho II e de cuja primitiva fabrica
    ainda resta inteira a capella mor, ficasse deserto de culto, como o
    convento ficou ermo de frade. A suppressão das ordens monasticas não foi
    a abolição das solemnidades religiosas. Vede, pois, o templo, que, se
    agora está fechado, não tardará a ecchoar com orações e psalmos.
    Transportae-vos pela imaginação para o interior da igreja na hora em que
    os canticos e o incenso se alevantam ante o altar; em que o orgam sólta
    a sua voz melancholica; em que a nave está cheia de povo e o sacerdote
    ora por elle e com elle; na hora em que o sol coado através das esguias
    janellas reflecte pelas pedras que o tempo amarelleceu uma luz
    suavemente pallida; imaginae essa hora, e vereis que, se o convento se
    despovoou, nem por isso ficou despovoado o templo. A oração do
    dominicano não é necessaria nas solemnidades da igreja. Não o abandonou
    á soledade a pia sollicitude dos fieis. De noite, as lampadas,
    penduradas ao longo da nave, ou brilhando na escuridão das capellas,
    como estrellas engastadas em céu profundo, despedem frouxos raios que
    vão quebrar-se por cima de campas onde se divisam, em caracteres
    confusos e gastos nomes de varões illustres que alli vieram repousar das
    lidas da vida á sombra da cruz. Lá estão os sepulchros de Gil e de
    Martim d'Ocem, cuja voz exprimia a summa razão e a summa sciencia nos
    conselhos dos reis; lá alveja o jazigo do infante D. Affonso, filho de
    Affonso IV, e o de Fernando Sanches, a quem Fr. Luiz de Sousa chama
    _bastardo querido_ de D. Dinis. Por ahi dormem muitos pobres frades,
    cuja vida obscura, mas cuja morte foi invejada. Misturam-se alli os
    ossos dos que foram grandes na terra com os dos que reputamos grandes no
    céu; e uns e outros são como testemunhas que tornam mais solemne o
    culto, esse laço que liga ao céu a terra. Mas as portas do edificio
    sagrado rangem nos quicios de ferro, para se abrirem de par em par.
    Ondas de povo vão precipitar-se pelo estreito ádito e espraiar-se até
    juncto do altar. O sacerdote vai começar o sacrificio incruento, e o
    orgam acompanhar as orações com as suas harmonias. Entremos.

    Não! Refujamos! Orações, psalmos, harmonias, luzes, incenso, sacerdotes,
    povo, nada disso ha ahi. Há só as trevas da nave pesando sobre as trevas
    dos sepulchros. O velho templo é um palheiro do Commissariado…

    E quem fez isso? Foi o vereador boçal de um concelho obscuro? Não. Foi o
    governo de uma nação que se diz civilisada, ou que pelo menos toma
    assento no convivio das nações da Europa.

    Quasi contiguo á igreja palheiro existe outra, modelo em muitas cousas
    da mais elegante architectura ogival. É a do extincto convento de S.
    Francisco. Lá, na parte da nave sobposta ao côro, o tumulo da infanta D.
    Constança, cujos lavores se vão diariamente quebrando e oblitterando,
    serve de cabide a sellins e arreios de cavallaria. Applicação igual e
    igual fim vai tendo o del-rei D. Fernando, que anteriormente os frades
    tinham transferido da nave para o côro.

    Com estes exemplos do governo não é de admirar que ahi mesmo em Santarem
    se derribem as portas das velhas muralhas para calçar as ruas, ou que na
    antiga villa da Torre-de-Moncorvo, hoje Moncorvo só, a antiquissima
    torre que dera origem e nome á povoação, fosse deitada por terra com o
    mesmo intuito; que, emfim, se tracte de dar ás muralhas da Guarda
    identico destino. Aqui o vandalismo confunde-se com a demencia. Na
    Guarda, ninho d'aguias, collocado no cimo de um cerro de granito, a
    pedra vai calçar a pedra. D'antes, no inverno, o viver alli era bem
    duro, quando os edificios estavam abrigados atraz da solida cerca.
    Agora, o vento gelado que passa pelas cumiadas da serra da Estrella virá
    precipitar-se rugindo por aquellas ruas meio desertas e tornar
    inhabitavel a povoação. A Guarda, que em si propria é um monumento, e
    que encerra uma cathedral magnifica, estará no decurso, talvez, de
    poucas décadas convertida n'um covil de féras.

    Dos males que os seculos passados legaram ao presente nenhum foi tal
    fatal como a ignorancia em que deliberadamente se conservavam as
    multidões. Essa ignorancia que ha de levar annos, talvez seculos, a
    dissipar, era incomparavelmente menos nociva em epochas de servidão,
    quando o poder absoluto, concentrado em poucas mãos, podia facilmente
    reunir n'um foco as luzes intellectuaes do paiz e aproveitá-las
    desassombradamente na solução das questões de administração. Hoje que o
    vassalo se converteu em cidadão; hoje que os erros e preoccupações das
    intelligencias incultas se despenham de todos os lados na torrente da
    opinião publica e se confundem de modo inextricavel com as idéas
    sensatas; hoje, finalmente, que é necessario não afrontar essa torrente,
    nem querer fazê-la refluir á força, os resultados fataes da ignorancia
    são incomparavelmente mais difficeis de evitar e remediar. Se as portas
    dos ministerios estivessem fechadas para os arrasadores professos, e
    fosse exigivel dos pretendentes a pastas uma justificação de que, nem
    pelo lado paterno, nem pelo materno, descendiam de algum soldado de
    Genserico, ainda assim, dada a competencia dos magistrados municipaes, e
    o valor moral que resulta para os seus actos da sua origem electiva, um
    governo illustrado, mas que não quizesse ultrapassar os limites da
    propria auctoridade, não poderia talvez reduzir completamente ao
    silencio o fragor das demolições que reboa por todos os angulos do
    reino. O camartello é o enlevo, o bezerro d'ouro, o Moloch, o Baal da
    nossa burguesia. Um camartellão deitado sobre uma ara de pedra em frente
    dos paços do concelho deveria substituir os seculares pelourinhos
    (tambem já, em parte, roidos ou despedaçados), como symbolo do poder
    municipal.

    Imaginemos, de feito, cinco, seis, ou mais figurões assentados ao redor
    d'uma banca, falando sem juizo, ás vezes sem decencia, sempre sem
    grammatica, sobre a administração do municipio, e ponderando os
    proveitos e aformoseamentos que para este hão-de resultar da destruição
    de um monumento da arte ou da historia. Lá pede a palavra um delles,
    logista gordo, ensebado, vermelho, quasi-virtuoso, e cujas unhas e cuja
    barba estão accusando a tesoura e a navalha de vergonhoso desleixo no
    desempenho das respectivas funcções. É o Demosthenes do conciliabulo.
    Aprendeu a ler pela Historia de Carlos Magno e dos Doze Pares, e é
    assignante das traducções de Paul de Kock, para se exercitar. Um
    palacio, um muro, uma igreja de eras remotas fazem-no estremecer de
    horror. Ao lado de cada ameia do castello ermo lhe parece enxergar um
    cavalleiro cuberto de armas ferrugentas; em cada torre crê ouvir soar as
    badaladas da campa feudal. Escutam com assombro os outros cidadãos
    vereadores o Mirabeau logista. Os animos commovem-se: os cabellos
    arripiam-se. A sentença contra o monumento vai ser fulminada. Ha um
    instante de terrivel silencio. O presidente pede votos.–«A terra»:–diz
    o homem gordo.–«A terra»:–vão repetindo com voz solemne os outros
    membros do sanhedrim. Então o secretario lavra o fatal accordam. Por
    entre aquellas letras, logo á nascença amarellas, e escriptas com penna
    de duvidosa classificação ornithologica, surge magestosa no meio de cada
    palavra uma letra capital, como que protegendo as que a precedem e
    seguem. Acabou-se emfim a magistral composição: o erudito secretario
    estende o papel ao presidente, que, enlevado na voz melodiosa da
    consciencia a asseverar-lhe que fez desmarcado serviço á patria, o
    recebe ás avessas, e lhe lança no topo, com ademan desdenhoso, a cruz de
    seu signal. Passa aos outros juizes a acta fulminante. O logista que,
    por incessantes exercicios gymnasticos nas paginas de Paul de Kock, já
    soletra com rapidez vertiginosa, e conhece n'um relance o erro do
    presidente, cujo pundonor litterario não ousa, aliás, ferir advertindo-o
    do lapso, escreve o proprio nome, em menos de dez minutos, no seu devido
    logar, e debaixo da garatuja do Mirabeau burguês, os outros magistrados
    municipaes vão plantando as respectivas cruzes n'um devoto calvario.
    Emfim, o secretario assigna, e o crime está consummado.

    Torre, muro, paço, ou o que quer que sejas, cuja ruina foi decretada,
    para ti já não ha salvação. Amanhan, nos teus lanços desconjunctados, no
    teu cimento desfeito, nas tuas pedras estouradas, nos teus fundamentos
    revoltos, estará escripto á ponta de picareta e de alavanca a palavra
    fatal–«a terra!»–extrahida do calvario municipal.

    Mas–dir-se-ha–que quereis que se faça ácerca dos monumentos? Que
    queremos que se faça?! Que se deixem em paz. Não pedimos museus; porque
    estes não são, digamos assim, senão necropoles, em relação á
    architectura. Depois, em muitos casos, os monumentos não se transportam,
    nem cabem lá. Os fragmentos de um edificio, tirados do seu logar, sem
    destino, sem união, são mortos; são cinza e pó de cadaveres. Reunam-se
    em bibliothecas e em galerias os livros e os quadros que não foram
    roubados, estragados ou abandonados por ignorancia crassissima; mas as
    pedras só pedem repouso. Que os representantes do paiz lhe salvem os
    seus titulos mais nobres. Haja no seio do parlamento uma voz que se
    alevante energica a favor do passado. Essa voz achará eccho em todos os
    districtos do reino, porque em todos elles há homens sisudos e peitos
    generosos. Appareça uma lei ácerca do assumpto, efficaz pela sancção do
    castigo, já que, n'um seculo corrompido e de decadencia, as
    palavras–pundonor e gloria–vão insensivelmente passando para o
    glossario dos archaismos. Entenda-se, emfim, que nenhum monumento
    historico pertence propriamente ao municipio em cujo ambito jaz, mas sim
    á nação toda. Por via de regra, nem a mão poderosa que o ergueu regía só
    esse municipio, nem as sommas que ahi se despenderam sairam delle só,
    nem a historia que transforma o monumento em documento é a historia de
    uma villa ou cidade, mas sim a de um povo inteiro. Se, por exemplo, aos
    habitantes de Guimarães, de Coimbra, do Porto ou de Lisboa não importa
    que desappareçam as mudas testemunhas dos factos que ahi se deram, dos
    homens que ahi passaram; se não lhes importa que o viajante vá examinar
    os monumentos que os livros dizem existir ahi, e que, achando-os
    convertidos em pavimentos das ruas, fuja espavorido temendo alguma
    fréchada ou azagaiada, suppondo-se, por illusão momentanea, nos sertões
    invios da Cafraria; se não curam da propria reputação, consentindo que
    os seus eleitos vão assentar praça posthuma nas extinctas legiões
    d'Attila, e que o seu clero se filie na seita dos modernos iconoclastas,
    ao menos que o governo e o parlamento não deem ao mundo documento de
    igual ignorancia e barbaria, mas acudam ao que ainda resta. Que uma lei
    salvadora aposente de vez os picões e alviões e alavancas que tantas
    esculpturas tem roçado, tantas campas profanado, tantas columnas
    quebrado e tantas torres, muros, ameías, campanarios, arcarias, galilés
    derribado e desfeito.

    DA PROPRIEDADE LITTERARIA E DA RECENTE CONVENÇÃO COM FRANÇA AO VISCONDE
    D'ALMEIDA GARRETT

    1851

    APPENDICE

    1872

    Senhor Visconde.–Ha dias que no _Diario do Governo_ se publicaram
    varios documentos assignados por v. ex.^a, entre os quaes um, cujo
    verdadeiro nome e indole ignoro pela minha pouca noticia dos ritos
    diplomaticos e formulas officiaes. Neste documento, no meio de graves
    ponderações dirigidas á Soberana por v. ex.^a ácerca da convenção
    recentemente celebrada com a republica francesa, vem citado o meu nome
    em abono, se não daquella triste convenção, ao menos do decreto que
    creou e legitimou em Portugal a propriedade litteraria. A honra que v.
    ex.^a me faz citando o meu nome, e citando-o conjunctamente com o do
    illustre Silvestre Pinheiro, exigiria da minha parte o mais vivo
    reconhecimento, se eu podera acceitá-la. Infelizmente prohibe-m'o a
    consciencia. Enganaria os meus conscidadãos; enganaria a v. ex.^a, se
    com o silencio désse a minha fraca sancção á doutrina da propriedade
    litteraria, a qual considero mais que disputavel, ou á convenção com
    França, que, além de consagrar opiniões que reputo profundamente
    inexactas, é prejudicialissima por diversos modos aos interesses da
    nossa terra. E torna-se tanto mais indispensavel esta minha
    manifestação, quanto é certo que, não só em conversações particulares,
    mas tambem pela imprensa, desapprovei altamente a feitura desse ruinoso
    convenio. N'um jornal, em que eu collaborava, appareceram varias
    considerações, que supponho não serem de desprezar, contra os ajustes
    celebrados com França a semelhante respeito. Essas considerações eram
    minhas: adopto-as hoje, como então as exarei, sem lhes ajunctar a minha
    assignatura, porque um nome não dá nem tira força a um raciocinio, e um
    absurdo não fica mais ou menos absurdo quando é ou deixa de ser adoptado
    por um engenho grande ou pequeno. Todos sabiam que o artigo do _Paiz_
    contra a convenção litteraria era meu: foi, até, por isso,
    accidentalmente me constou a publicação do papel dirigido por v. ex.^a a
    S. M. a Rainha; foi por isso, e só por isso, visto que nunca leio o
    _Diario_, e nomeiadamente a parte official, com temor de chegar a
    esquecer a grammatica geral, e a indole e propriedade da nossa lingua.
    Por alguem, que suppôs ver ahi uma refutação do que eu tinha escripto,
    soube da existencia de tal papel, que, no entender dessa pessoa,
    affectava com arte ser uma especie de prevenção contra objecções
    futuras. Busquei o _Diario_, e desenganei-me de que haviam dado ao
    documento uma interpretação inexacta e malevola. Lendo-o, convenci-me de
    que a alta razão de v. ex.^a reluctava contra a obra fatal do convenio,
    e de que a voz dos sophistas, que v. ex.^a suppunha ouvir do lado do
    futuro, era a da propria intelligencia, que condemnava a illusão em que
    se transviara. Tentando persuadir a Soberana, v. ex.^a, sem talvez o
    saber, persuadia-se a si proprio. Era malevola e injusta, portanto, a
    significação que se dava áquelle e aos outros documentos publicados no
    _Diario_ a este proposito. Se v. ex.^a intentasse refutar as
    considerações do _Paiz_, te-lo-hia feito directamente, francamente,
    lealmente: sobejam-lhe para isso recursos. V. ex.^a teria apreciado as
    razões dos que condemnam a convenção, e não se limitaria a qualificá-los
    de sophistas, sem mostrar que o sophisma estava do lado delles. V. ex.^a
    é uma intelligencia demasiado superior, para não recorrer a essa pobre
    argumentação _ad odium_, de que contra mim mesmo a hypocrisia ignorante
    e irritada ainda ha pouco tempo deu nesta terra tão deploraveis
    exemplos. Só nas circumstancias em que v. ex.^a escrevia, quando a
    imprensa não tinha interposto o seu voto sobre a materia, e quando v.
    ex.^a estava provavelmente persuadido de que ás doutrinas em que se
    funda o tractado e ás provisões delle se não opporiam senão sophismas;
    só nessas circumstancias, digo, v. ex.^a poderia empregar as duras
    phrases com que condemnou os adversarios possiveis da convenção
    litteraria.

    Persuadido de que isto era assim, e de que os termos geraes, em que v.
    ex.^a se expressava, não destruiam na minima cousa as minhas posteriores
    observações, eu teria evitado o para mim, por muitas razões,
    ingratissimo trabalho de escrever a v. ex.^a sobre o assumpto, se v.
    ex.^a me não houvera, até certo ponto, chamado á auctoria sobre a
    doutrina que serve de fundamento tanto ao decreto de 8 de Julho, como á
    convenção, que se reputa seu corollario. Mas, podendo concluir-se das
    palavras com que v. ex.^a quiz honrar-me, que eu commungo nas suas idéas
    sobre a propriedade litteraria, o que não sería exacto, devo rectificar
    os factos a que v. ex.^a allude, e expôr depois as duvidas que tenho
    contra a legitimidade das doutrinas de v. ex.^a nesta materia, bem como
    os inconveniente que, na minha opinião, resultam para Portugal da
    applicação de taes doutrinas á feitura do tractado ou convenção, em que
    v. ex.^a foi um dos plenipotenciarios.

    Diz v. ex.^a que eu e Silvestre Pinheiro tinhamos approvado e
    aperfeiçoado o trabalho de v. ex.^a sobre o direito de propriedade
    litteraria, o qual hoje se acha convertido em lei do reino. Pelo que me
    toca, posso assegurar a v. ex.^a que de tal approvação e aperfeiçoamento
    não conservo outra memoria que não seja a seguinte: estando eu e v.
    ex.^a na camara dos deputados na legislatura de 1840, tinha v. ex.^a
    apresentado um projecto de lei sobre aquella materia. Pertencia eu á
    minoria da camara, e no seu zelo por fazer passar uma providencia, que,
    sinceramente o creio, reputava util e justa, v. ex.^a teve a bondade de
    falar comigo e com outros membros da opposição, para que não a
    fizessemos a esse projecto sobre que ía deliberar-se. D'entre os
    individuos com quem v. ex.^a tractou o assumpto, recordo-me de quatro,
    dos srs. Soure, Ferrer, Marreca e Seabra, o ultimo dos quaes, conforme
    minha lembrança, reluctou antes de acceder aos desejos de v. ex.^a Eis a
    memoria que conservo de semelhante negocio. Se v. ex.^a me mostrou então
    o seu projecto, e se eu lhe propús a alteração ou o accrescentamento de
    algum artigo, nem o affirmo, nem o contesto. São cousas que
    completamente me esqueceram. Mas, se o fiz, que se deduz d'ahi a favor
    ou contra o pensamento da lei; a favor ou contra o direito de
    propriedade litteraria? Esses additamentos ou observações podia
    submettê-los á consideração de v. ex.^a, acceitando hypotheticamente a
    doutrina, sem a fazer minha; podia propô-los em attenção ao
    desenvolvimento logico do projecto, ou ás circumstancias externas que
    devessem modificá-lo, sem adoptar a idéa geradora delle. Se, porém, v.
    ex.^a quer que por esse facto eu mostrasse seguir então as idéas de v.
    ex.^a, declaro que sou agora contrario a ellas, e demitto de mim
    qualquer responsabilidade que de tal facto, se o foi, possa provir-me.
    Dez annos não passam debalde para a intelligencia humana, e eu não me
    envergonho de corrigir e mudar as minhas opiniões, porque não me
    envergonho de raciocinar e aprender. O que me traria o rubor ás faces
    seria alterar doutrinas e crenças para promover os meus interesses;
    duvidaria, até, de o fazer, se tal mudança, por caso fortuito, se
    ligasse com vantagens para mim. Mercê de Deus, nessa parte tenho sido
    feliz. É desgraça que ainda me não succedeu.

    Permitta-me v. ex.^a que, antes de lhe expôr as duvidas que tenho ácerca
    da propriedade litteraria, eu invoque, para desculpar a minha descrença,
    o scepticismo d'uma das primeiras intelligencias de Portugal neste
    seculo, que é v. ex.^a mesmo. Parecendo sustentar como incontroversa a
    doutrina que serviu de fundamento ao decreto e á convenção, affirmar que
    a moral e o direito seriam offendido se essa doutrina não se reduzisse á
    practica legal, equiparar a contrafacção á fraude, ao roubo e á
    falsificação, considerar como blasphemos e sophistas os que duvidam da
    legitimidade moral da sua theoria, v. ex.^a assevera, comtudo, que não
    estipularia definitivamente o artigo 8.^o do convenio, que fere os
    interesses provenientes da contrafacção, nem as mais provisões que delle
    se deduzem, se não houvera verificado que era minima a somma das nossas
    importações de livros da Belgica. V. ex.^a, consinta-me dizê-lo,
    calumniar-se-hia a si proprio se houvessemos de dar a estas proposições
    encontradas um valor absoluto. Se v. ex.^a estivesse perfeitamente
    convencido das nequicias e immoralidades que lhe apraz atribuir á
    contrafacção, e da legitimidade _sacratissima_ que presuppõe na
    propriedade litteraria, v. ex.^a não poderia hesitar na estipulação do
    artigo 8.^o, fossem quaes fossem os proveitos que tirassemos da sua
    eliminação; porque nas doutrinas indisputaveis de moral e de justiça
    quem é capaz, não digo de deixar de proceder em conformidade d'ellas,
    mas sequer de hesitar, é tambem capaz de trahir o seu dever, e v. ex.^a
    nunca por certo o seria. Se v. ex.^a, para resolver o negocio, julgou
    opportuno examinar a questão d'interesse, para admittir ou repellir o
    artigo 8.^o da convenção, cumpre-me acreditar que reputava duvidosa a
    legitimidade da sua doutrina.

    Examinemos a essencia dessa doutrina.

    O que é o direito propriedade? É o direito transmissivel de possuir e
    transformar um valor creado pelo trabalho do que o possue, ou
    transforma. Esse direito complexo existe desde o momento em que o homem
    applicou o trabalho intelligente á materia, e creou assim um valor. As
    modificações, os limites que a sociedade lhe impõe vem da indole e das
    necessidades della; não são inherentes ao mesmo direito.

    A propriedade litteraria (abstrahindo das obras d'arte para simplificar
    a questão) não póde ser senão o direito sobre um valor creado pelo
    trabalho dos que o crearam; sobre a representação material da idéa;
    porque esse valor está ligado a um objecto que se chama o _livro_, na
    accepção vulgar e sensivel desta palavra.

    O que é o livro? Um complexo de phrases unidas entre si para
    representarem uma certa somma de idéas, fixadas no papel para se
    transmittirem á intelligencia, e repetidas certo numero de vezes para
    aproveitarem a muitos individuos; mas para aproveitarem ainda mais ao
    auctor.

    Como nasce o livro? Pelos esforços combinados do escriptor, do
    capitalista que empregou o capital para a sua publicação, do fabricante
    de papel, do compositor, do impressor, etc. São estes esforços junctos
    que criam o valor do livro, valor que, antes ou depois de trocado, se
    reparte pelos que trabalharam em creá-lo.

    Qual é a parte que pertence ao auctor nesse complexo de esforços? A
    correspondente ao seu trabalho, no sentido vulgar da palavra, porque só
    o trabalho material, embora dirigido pela intelligencia, como todo o
    trabalho productivo, póde crear verdadeiramente um valor de troca. Esta
    quota, indeterminada em si, é fixada em cada um dos casos pelas
    convenções espontaneas e livres entre os individuos que concorreram para
    a existencia do valor venal que o livro representa.

    Como se procede ordinariamente nessa operação economica? O editor, seja
    o proprio auctor, seja pessoa diversa que subministre o capital,
    retribue o trabalho de todos os outros individuos e realisa o valor da
    mercadoria, conjunctamente com a renda do capital, por meio da venda.
    Todos esses esforços e factos economicos que delles derivam foram
    calculados, avaliados. A totalidade dos exemplares de qualquer
    publicação representa a totalidade desses diversos valores; é
    determinada por elles e determina-os ao mesmo tempo, porque ha uma
    condição extranha que a restringe, a das probabilidades maiores ou
    menores da procura no mercado.

    Estas phases que se dão na industria dos livros, na sua fabricação e
    commercio, são as mesmas que se dão n'outra qualquer industria. As leis
    civis que a protegem devem, portanto, ser as mesmas que protegem as
    outras. A igualdade civil não consente que sejam nem mais nem menos.

    O direito de propriedade litteraria, como v. ex.^a o entende, cria,
    porém, um valor ficticio para crear uma propriedade que não o é menos.
    De feito, o que é que se transfere de uma edição para outra? Unicamente
    as idéas, as phrases, as palavras, combinadas deste ou daquelle modo.
    Pois isso póde ser propriedade de ninguem? Menos ainda, se é possivel,
    que o ar, o calorico, a chuva, a luz do sol, a neve, ou o frio. Como
    cada um destes phenomenos naturaes, essas idéas, essas phrases, essas
    palavras podem ser uteis; mas a _utilidade_ não é o _valor_; porque nada
    d'isso é susceptivel de uma apreciação de troca. O professor, por
    exemplo, não vende as suas doutrinas e as formulas com que as exprime;
    vende o tempo e o trabalho que emprega em ensiná-las; vende o tempo e o
    trabalho que emprega em ensiná-las; vende o tempo e o trabalho que
    consumiu em adquiri-las. O discipulo que as ouviu uma ou mais vezes, e
    que as decorou, póde ir repeti-las, ensiná-las a outros, sem que ninguem
    se lembre de o considerar como um contrafactor. Onde está a razão para
    se darem naturezas diversas á concepção escripta e á concepção falada? A
    lei, para ser logica, deve prohibir a repetição do discurso proferido
    seja onde fôr, na cadeira, no pulpito, nas assembléas consultivas e
    deliberantes, uma vez que o acto da repetição possa produzir lucro. Se a
    idéa que se manifesta se torna pelo simples facto da manifestação uma
    propriedade, é preciso que assim se verifique sempre e em todas as
    hypotheses; porque a qualidade de escriptor não dá a ninguem melhor
    direito do que ao resto dos cidadãos.

    Permitta-me v. ex.^a que eu procure um exemplo onde se possa bem sentir
    o diverso modo por que cada um de nós concebe a questão. Um individuo
    quis edificar uma habitação mais ou menos sumptuosa, mais ou menos
    commoda, para negociar o predio depois de acabado. Chamou um architecto
    e ajustou com elle retribuir-lhe o desenho na proporção do lucro da
    venda. O architecto delineou o edificio: o edificador reuniu o cimento,
    a pedra, as madeiras e os outros materiaes para a edificação. Veio então
    o mestre d'obras com os seus obreiros: lançaram-se os fundamentos;
    altearam-se as paredes; travaram-se os madeiramentos; assentaram-se os
    tectos; dividiram-se e adornaram-se os aposentos; pôs-se, emfim, remate
    ao edificio. Vendeu-se este depois, e o architecto recebeu a retribuição
    do seu trabalho. Em rigor que tinha elle feito? Manifestara o seu
    pensamento; escrevera um livro, e imprimira-o n'um unico exemplar, para
    haver uma quota, proporcional e livremente ajustada, do producto da
    venda desse exemplar. Quanto a mim, recebida esta quota, a especie de
    co-propriedade que elle tinha no predio cessou. O comprador podia fazer
    reproduzir o edificio tal qual n'outra ou n'outras partes; podiam
    reproduzi-lo todos que o vissem. Se, porém, fosse verdadeira a doutrina
    de v. ex.^a era necessario que se chamasse o architecto a cada nova
    edificação que se emprehendesse, e que de novo se lhe pagasse o desenho,
    como lho pagara o primeiro emprezario. A theoria da propriedade
    applicada ás manifestações da intelligencia para ser lógica comsigo
    mesma tem de ir até o absurdo. E senão, imaginemos outras hypotheses.

    Um marceneiro ideou uma cadeira elegante e commoda; deu depois
    existencia e vulto á sua concepção, fabricando uma duzia ou um cento de
    cadeiras, em que essa concepção se manifestou, e vendeu-as com um lucro
    mais ou menos avultado. Os que crêem na propriedade das idéas devem
    invocar o direito de propriedade para a concepção do marceneiro, porque
    o marceneiro é tão cidadão como o escriptor: devem declarar contrafactor
    outro qualquer individuo da mesma profissão, que, vendo a procura no
    mercado daquella fórma de moveis, os imitou sem licença do inventor; sem
    lhe pagar o preço da idéa, o preço da sua propriedade intellectual.

    Um cultivador, á força de observações e de meditação, tendo unido ao
    estudo da sciencia de agricultar o da natureza do solo e das condições
    do clima em que habita, achou emfim um systema de rotação e um methodo
    de cultura muito mais perfeito que o dos seus vizinhos. Esses methodo e
    systema, applicados á terra, produziram-lhe, em vez de dez sementes,
    vinte; em vez de uma colheita annual, duas. Os vizinhos, convencidos da
    utilidade das idéas do cultivador, applicaram o novo systema de rotação,
    o novo methodo de amanhos aos proprios campos: _contrafizeram_ o livro
    do lavrador, escripto a ferro de charrua nas vastas paginas da terra.
    Venha uma lei que véde este attentado contra a propriedade sacratissima
    das idéas.

    E essa lei protectora que se estenda a tudo quanto o espirito humano
    póde conceber: prohiba-se a luz que o trabalho da intelligencia derrama
    no meio da sociedade, e que se chama a civilisação; annulle-se a obra de
    Deus que pôs no mundo os homens summos como apostolos da sua sabedoria
    eterna, como instrumentos da sua providencia; neguem-se os destinos de
    perpetuo progresso, que são os do genero humano, e cujo mais poderoso
    mobil é a imitação, se essa luz, se essa civilisação, se esse progresso
    não for comprado na praça publica; se não se respeitar o direito da
    propriedade litteraria, que não é, que não póde ser senão o direito de
    propriedade das idéas manifestadas, não importa com que formulas;
    materialisadas, não importa por que meio, nos objectos sensiveis.

    Todavia, dir-se-ha, o trabalho dos auctores com essa protecção dada ao
    livro só como uma especie de manufactura para que elles contribuiram,
    não fica dignamente retribuido. Depois, não é isso fazer descer o homem
    de talento ao nivel do rude obreiro? Não é envilecer o nobre mister de
    escriptor? Absurdo tudo isso! Desde que pondes a retribuição do engenho
    á mercê da procura no mercado, é necessario que elle se submetta ás
    condições do mercado. Quem o reduz unicamente à qualidade de fabricante
    de livros sois vós com as vossas leis de propriedade. Se o quereis
    recompensar como é recompensado o lavrador, o industrial, não exijaes
    para elle um direito diverso. O auctor de um volume, que custou um anno
    de trabalho, realisada a venda de mil exemplares que se imprimiram,
    lucrou, supponhamos, 300$000 réis. Que meio tendes para verificar que o
    seu trabalho não está pago? Que outra cousa, senão o mercado, regula o
    valor dos serviços? Quem vos disse, que, attribuindo ao auctor o direito
    exclusivo de reimprimir o livro, elle ou seus herdeiros, tantas vezes
    quantas o exigir a procura, durante a sua vida e mais trinta annos
    depois da sua morte, nem mais um mez, nem menos um mez, é que a
    retribuição correspondeu ao lavor? Onde está a vossa balança, o vosso
    metro? Respondei.

    E cabe aqui repetir uma observação a que por parte dos defensores da
    propriedade litteraria nunca se deu resposta que tivesse o senso commum.
    Se as idéas e as phrases de um livro constituem uma propriedade, um
    valor, um capital accumulado e fixo; se esta propriedade é sacratissima,
    ou por outra, se é sagrada entre as mais sagradas, porque lhe recusaes a
    vantagem que o direito assegura sem excepção a todo o outro capital
    accumulado e activo, a perpetuidade? Porque espoliaes os herdeiros do
    auctor no fim de trinta annos? O capital não se consummiu, porque o
    livro ahi está. Em virtude de que principio moral ou juridico hão-de
    elles ser privados de uma herança sacratissima? Em virtude da utilidade
    publica? Mas as expropriações de outra qualquer propriedade menos
    sagrada, em proveito commum, por mais remota que seja a origem desse
    capital accumulado, pagam-se. A expropriação publica não é mais do que
    uma troca regulada, como todos os valores, pelo preço do mercado.

    O que me parece ineluctavel, sr. visconde, á vista destas ponderações, é
    que o escriptor, ao mesmo tempo homem de trabalho e evangelisador da
    civilisacão e do progresso, exerce na terra um duplicado mister. Na
    feitura de um livro ha dous phenomenos distinctos: um material, outro
    immaterial. O material é o lavor visivel que essa feitura custou. O
    auctor consumiu horas e horas sobre os livros, emprehendeu viagens,
    trabalhou nos laboratorios, revolveu bibliothecas e archivos, penetrou
    nas minas e subterraneos, herborisou por valles e serras, observou os
    ceus, sondou os mares, e depois, encerrado no seu gabinete, durante dias
    inteiros, no ardor da canicula; durante longas noites nos rigores do
    inverno, ennegreceu o papel com a traducção visivel das reflexões ou dos
    factos que o seu espirito havia coordenado. Em todas estas occupações,
    em todos estes phenomenos exteriores não houve da parte delle senão a
    obediencia á lei commum do genero humano; a condição do trabalho imposta
    a nossos primeiros paes. Exteriormente, a sua situação é a mesma do
    official mechanico, que, depois de cinco annos de aprendizagem, obteve
    meios de trabalhar de sol a sol para ganhar um salario. Nenhum principio
    de moral, de justiça lhe dá melhor direito que ao operario que funde o
    ferro, que acepilha a madeira, que ara a terra. Sob este aspecto, a
    sociedade nada mais lhe deve do que as garantias da retribuição do seu
    trabalho dentro das regras ordinarias de apreciação. Ao lado, porém, de
    esforços grosseiros houve outros immateriaes e inapreciaveis pela
    craveira commum. São os da cogitação, da inspiração, do genio; são os
    que elevam o engenho acima do vulgo; são os que trazem á terra as
    centelhas da infinita sciencia, da immensa sabedoria de Deus; são os que
    attingem os mysterios, as harmonias do universo, que o escriptor vem
    revelar; são aquelles com que aspiramos estas perennes emanações do
    Verbo que se espargem sobre a humanidade, transfusas pela intelligencia,
    e que se chamam a civilisação; são os que dão ao homem de letras uma
    especie de sacerdocio, o sacerdocio da imprensa. Estes esforços
    immateriaes não se apreciam, não se medem, não se recompensam como a
    creação e o transporte ao mercado d'alguns saccos de trigo, ou como o
    covado de chita produzido pelo tear do operario fabril.

    Não! Se a imprensa é um sacerdocio, não confundamos o que ha nella
    elevado e espiritual com o trabalho venal e externo; não instituamos a
    simonia como um direito; não equiparemos a idéa pura, que vem de Deus ao
    homem como os raios do sol que nos illuminam, como o ar que respirâmos,
    como todas as utilidades gratuitas que a Providencia nos concede; não a
    equiparemos ao ouro amoedado, á geira de terra; não meçamos a obra onde
    predomina a inspiração pela bitola com que medimos aquella em que
    predominam os esforços dos musculos.

    Para os que não são capazes de apreciar _a priori_ as antinomias que ha
    na applicação do direito de propriedade material aos trabalhos do
    espirito será útil examinar os resultados practicos dessa applicação. A
    propriedade material, o capital accumulado e activo produz uma renda:
    esta renda é maior ou menor conforme a importancia desse capital. Se
    1:000$000 réis em terras produz 50$000 réis, 20:000$000 réis hão-de
    produzir 1:000$000 réis; se 200$000 réis empregados na agiotagem
    produzem 40$000 réis, 600$000 réis hão-de produzir 120$000 réis: esta
    lei é constante e uniforme, quando circumstancias accidentaes e
    extranhas não a modificam. Nas letras succede exactamente o contrario.
    Supponde que cogitações, que contensão d'espirito, que calculos, que
    raciocinios, que observações custaram a Pedro Nunes, a Leibnitz, a
    Newton, a Vico, a Brotero, a Kant os livros que nos deixaram. Que
    thesouros accumulados, que capital d'estudo, ideas! E todavia,
    protegidos pela lei da propriedade litteraria, esses homens summos,
    esses homens cujos nomes são immortaes, teriam com ella morrido de fome;
    porque os seus escriptos publicados, os seus meios de obter uma renda,
    seriam lentos e insufficientes. Comparae agora com elles os romancistas
    modernos, os Arlincourts, os de Kocks, os Balzacs, os Sues, os Dickens.
    Estes homens, cujos estudos se reduzem a correr os theatros, os bailes,
    as tabernas, os lupanares, a viajar commodamente de cidade para cidade,
    de paiz para paiz, a gosar os deleites que cada um delles lhes offerece,
    a adornar os vicios, a exaggerar as paixões, a trajar ridiculamente os
    affectos mais puros, a corromper a mocidade e as mulheres; estes homens,
    que só buscam produzir effeitos que subjuguem as multidões; que
    espreitam as inclinações do povo para as lisonjeiarem, os seus gostos
    depravados para os satisfazerem; a estes operarios da dissolução e não
    da civilisação, a estes sim, aproveitam as doutrinas da propriedade
    litteraria! Para elles a recompensa do mercado; para elles os grossos
    proventos do industrialismo litterario, que ó o grande incitamento dos
    seus infecundos trabalhos. A litteratura-mercadoria, a
    litteratura-agiotagem, tem na verdade progredido espantosamente á sombra
    de tão deploraveis doutrinas! Um dos nossos escriptores modernos, que
    mais abusou do talento, e que mais proventos auferiu do systema ignobil
    do industrialismo nas letras, o padre Macedo, disse, não me recordo em
    que escripto, que a folhinha era e seria sempre a desesperação dos
    auctores, porque nenhum livro tinha ou teria nunca tantas edições. Neste
    dicto está resumida toda a critica do falso direito de propriedade
    litteraria. Silvestre Pinheiro, o grande pensador português deste
    seculo, com cujo nome v. ex.^a acaba de me fazer a honra de associar o
    meu, e João Pedro Ribeiro, o restaurador dos estudos historicos em
    Portugal, morreram n'uma situação vizinha da penuria. É como teriam
    morrido sob o regimen da propriedade litteraria; porque para elles foi
    como se esse regimen já existisse: ninguem lhes contrafez, ninguem lhes
    contrafará os seus livros. Sabe v. ex.^a quem ganharia immensamente em
    viver hoje? O auctor do Carlos-Magno. As edições daquelle celebre rol de
    semsaborias e despropositos ainda não cessaram de repetir-se.

    Que propriedade será esta, em que os terrenos de alluvião,
    cuidadosamente cultivados, só geram espinhos, e as gredas inferteis
    produzem messes opulentas, sem nenhum cultivo?

    Permitta-me, sr. visconde, que eu duvide da inteireza da sua fé na
    doutrina da propriedade litteraria. V. ex.^a cedeu antes a um generoso e
    nobre impeto de coração do que a reflectidas convicções. N'uma situação
    elevada, v. ex.^a não esqueceu os seus antigos companheiros nesta rude
    peregrinação das letras, em que o seu glorioso exemplo foi incitamento a
    nós todos. Não se envergonhou de nos estender a mão aos que pouco
    podemos e valemos diante dos grandes do mundo. Pensou que uma lei de
    propriedade litteraria nos seria grandemente util; util, sobretudo
    áquelles que, desvalidos e pobres, vem no verdor dos annos associar-se a
    nós os que já podemos chamar-nos os veteranos da imprensa. V. ex.^a não
    previu todos os inconvenientes de ordem moral e litteraria que do novo
    direito introduzido no paiz podem provir. Mas sejam quaes forem os
    tristes desenganos que elle nos traga, nem eu me queixo, nem creio que
    ninguem deva queixar-se das intenções de v. ex.^a; dôo-me só, devemos
    doer-nos todos de que em materia tão grave falhasse uma tão bella
    intelligencia.

    O direito de propriedade litteraria, sr. visconde, já existia
    virtualmente entre nós nos tempos da censura e da inquisição; já viveu
    largos annos nessas más companhias. Aquelle direito vigorava de certo
    modo em resultado dos nossos usos administrativos. No seculo XVI ou XVII
    os _privilegios de impressão_ creavarn os mesmos factos juridicos que
    resultam da lei aconselhada por v. ex.^a A differença estava em ser uma
    jurisprudencia que assentava em praxes administrativas e não em lei
    geral. Dava-se ao auctor ou editor auctorisação exclusiva para publicar
    uma edição de qualquer livro: esgotada a edição, repetia-se igual
    concessão, e os que não a tinham ficavam inhibidos de o reproduzir.
    Fazia-se mais: almotaçava-se o genero; taxava-se o preço de cada
    exemplar. Applicavam-se-lhe as idéas economicas d'então sobre as
    transacções do mercado. Já se vê que a theoria de propriedade
    litteraria, do industrialismo applicado á missão elevada e pura do
    escriptor, não é nova. Succede-lhe o que succede a muitas das
    providencias legaes, que, com rotulos trocados, nos andam ahi a carrear
    de Londres e de Paris, sirvam ou não para cá.

    Foi debaixo desse regimen do _privilegio de impressão_, que um genio a
    quem Portugal deve em gloria quanto uma nação póde dever a um homem; foi
    com duas edições dos Lusiadas feitas dentro do mesmo anno, e defendidas
    pela garantia de obra grossa chamada privilegio, ou propriedade
    litteraria, que Luiz de Camões foi morrer entre as angustias da miseria
    e do abandono na pobre enxerga d'um hospital. Pouco depois os jesuitas,
    imprimindo aos milhares em diversos formatos e typos as _Cartas do
    Japão_, lisonjeiando o gosto popular com as narrativas dos próprios
    milagres no oriente, mettiam nos cofres de S. Ignacio bons cruzados
    extorquidos á credulidade, e, especulando na superstição, faziam as
    vezes dos Balzacs e de Kocks, que especulam nas paixões más e viciosas
    de sociedades corrompidas e gastas.

    Porém–dir-se-há–se essa mesma recompensa, que retribue na razão
    inversa do merito, se tirasse ao cultor da sciencia, reduzido a receber
    o preço do seu trabalho como simples obreiro; se as concepções uteis e
    civilisadoras do espirito; se as grandes e nobres idéas, que encerram os
    elementos do progresso futuro, não tivessem premio condigno, as fontes
    desse progresso estancar-se-hiam na sua origem; e o homem d'engenho
    preferiria o trabalho braçal, que fortifica os membros e prolonga a
    vida, ás contensões do espirito que a devoram. D'accordo. Mas, em logar
    de estabelecer recompensas, identicas na essencia, na fórma, nas
    condições para esforços perfeitamente heterogeneos, que se movem em
    espheras absolutamente distinctas, eu concebo e desejo retribuições
    diversas para os diversos casos. Pague o mercado o trabalho material;
    mas retribua a sociedade a obra do espirito, que não é destinada ao
    commodo d'um ou d'outro individuo, mas sim á utilidade commum.

    E ella retribue; ha de retribui-la sempre, com leis de propriedade
    literaria ou sem ellas; com o poder publico ou apesar delle. Que é a
    gloria? Que são a consideração, os respeitos, as distincções com que a
    sociedade tracta o homem que perante o seu tribunal deu provas
    indubitaveis de talento ou de genio; que collocou algumas pedras no
    immenso e interminavel edificio da civilisação? Que é essa voz da
    opinião publica, que esmaga tantas invejas, que faz calar tantos odios,
    e que os pune com a irrisão, quando ousam manifestar-se; que vos cria
    amigos nos logares onde nunca estivestes, entre individuos que nunca vos
    viram; que transpõe os mares; que se dilata por toda a parte, em que o
    vosso livro fez bater um coração, ou saciou um espirito sedento de
    sciencia? Quanto dariam ás vezes os ricos e os felizes e os poderosos
    para comprarem ou imporem essas affeições mysteriosas que o escriptor
    pobre e desvalido vai despertar, por uma acção invisivel, no seio das
    multidões? A consciencia, que vos assegura que tendes tudo isso em grau
    mais ou menos subido, recompensa-vos dos vossos esforços intellectuaes.
    Vaidade ou orgulho legitimo, essa persuasão é um goso, e o goso é a
    causa final de todas as ambições, de todo o trabalho humano. São na
    verdade diversas as utilidades que provém da riqueza das que provém do
    engenho. Predominam naquellas os commodos materiaes, nestas a satisfação
    interior; mas por isso mesmo; tanto n'umas como n'outras, ha a
    homogeneidade, a harmonia entre os esforços e as recompensas.

    Se v. ex.^a, interrogando a propria consciencia, volver os olhos para a
    sua carreira litteraria, ha de forçosamente convir na exacção destas
    observações. Quando, por exemplo, um dos dramas, a que não faltou senão
    a fortuna de ser escripto em alguma das duas linguas principaes da
    Europa, o francês ou o allemão, para ser um dos mais notaveis monumentos
    litterarios da nossa epocha; quando _Fr. Luiz de Sousa_ fazia correr as
    mudas lagrymas de um auditorio extasiado, ou lhe arrancava ruidosos
    applausos d'enthusiasmo, pensava acaso v. ex.^a nas edições legitimas ou
    contrafeitas, no honorarios da representação, nas provisões da lei de
    propriedade litteraria? Atrevo-me a protestar que não: atrevo-me a jurar
    que v. ex.^a se reputava sobejamente pago com sentir-se grande, com
    fazer vibrar as cordas da dor e da piedade em tantas almas; com essas
    manifestações ardentes que respondiam ao verbo de seu genio, digamos
    assim, incarnado n'um espectaculo scenico.

    Mas–arguir-se-ha novo–se o trabalho do escriptor é duplo e
    heterogeneo, tambem a sua existencia o é. Se a mente o eleva acima do
    vulgo; se o illumina mais do que ao vulgo um raio da intelligencia
    divina, os seus pés rasgam-se tambem, como os delle, nos abrolhos da
    vida. A dor, as privações, todos os males humanos, todas as necessidades
    pesam do mesmo modo sobre o engenho. A virtude da abnegação, o animo
    para luctar com a miseria e ainda para viver na estreiteza não são mais
    communs no homem de letras do que nos outros homens. Limitados a uma
    retribuição de ordem moral pelo lavor litterario, e equiparados ao
    operario pelo trabalho material, muitos abandonariam o seu ingrato
    mister, com detrimento do progresso e civilisação do paiz, e da propria
    sciencia. Torno a repetir que concordo plenamente nessa parte. O
    remedio, porém, para taes inconvenientes não está na lei de propriedade
    litteraria. Creio tê-lo provado. A civilisação de qualquer povo não é um
    negocio d'individuos, é uma questão da sociedade, de que depende o seu
    futuro: é uma religião que tem ministros, e estes ministros são os
    homens de letras ou de sciencia. Se estabeleceis distincções,
    privilegios, subvenções para o sacerdocio do culto externo, porque não
    haveis de subministrar os commodos da vida, as recompensas, reguladas
    pela jerarchia intellectual, para o sacerdocio da imprensa? É por este
    arbitrio que as retribuições materiaes se tornam possiveis, não pela
    falsa medida da procura commercial. A sociedade, creando uma existencia
    aprazivel áquelle que lhe util, não estabelece equações impossiveis
    entre as idéas e os cruzados novos; mas proporciona os gosos do
    individuo aos gosos que elle lhe deu. Em vez da anarchia deleteria e
    repugnante que o regimen da propriedade litteraria produz, e em que o
    homem de talento, mas immoral, envenena as multidões para se locupletar,
    emquanto o genio de sciencia e consciencia morre de fome, um systema de
    recompensas publicas prudentemente organisado traria a ordem e a
    justiça, e substituiria o verdadeiro progresso ás orgias intellectuaes,
    á veniaga da corrupção moral, resultado infallivel da conversão das
    idéas em capital productivo.

    O direito de propriedade litteraria! Que aproveita esse direito ao
    mancebo desconhecido, em cuja alma se eleva a sancta aspiração da arte
    ou da sciencia, e para quem, no berço, a fortuna se mostrou avara? Como
    entrará elle nesse mercado do espirito, onde a marca de um nome illustre
    é necessaria para se tentarem com vantagem as luctas da concorrencia?
    Esse direito, que se diz protector do talento e das fadigas do espirito,
    como é que protege os neophytos das letras, aquelles que mais carecem de
    protecção? Suppre elle alguma das instituições que realmente fazem
    progredir a cultura do espirito humano?

    Uma lei de recompensas nacionaes seria a verdadeira lei protectora dos
    tabalhos da intelligencia. Nos paizes onde existe a jurisprudencia
    introduzida agora em Portugal existem ao lado della fundações
    poderosissimas, que são as que suscitam os livros realmente uteis. Em
    França o premio Monthyon e os outros analogos, as pensões academicas, as
    empresas litterarias ou scientificas do governo, o professorado, os
    provimentos de certos cargos destinados, inventados talvez, unicamente
    para dar pão aos homens de letras, tem sido os incitamentos mais
    efficazes para se escreverem as obras graves e civilisadoras. A lei de
    propriedade litteraria, ou antes a lei d'envilecimento, que pendura a
    idea no mercado entre o barril da manteiga e a sacca de algodão, essa o
    que produz em regra é os taes livros absurdos, frivolos, prejudiciaes,
    que, na opinião de v. ex.^a, são quasi os unicos cujas contrafacções nos
    subministra a Belgica.

    Quando, ex.^{mo} sr., o direito creado neste paiz pelo decreto de 8 de
    julho não tivesse contra si as precedentes considerações, e outras que
    omitto para não fazer um livro em vez de uma carta, bastaria um facto
    para condemnar esse decreto, e conseguintemente a convenção com França,
    que, embora anterior, se estriba no pensamento daquelle decreto e fica
    sendo um corollario delle. Toda a lei inutil é má, e esta é
    inutilissima. Desejaria que se me apontasse uma contrafacção, uma unica,
    feita entre nós; um exemplo desses delictos que as provisões do decreto
    tendem a cohibir. Se existe, é tão obscuro que não chegou á minha
    noticia.

    Examinada a pouca solidez de alicerce em que assenta a convenção
    litteraria com França, consinta-me v. ex.^a que eu passe a fazer algumas
    ponderações ácerca dessa mesma convenção. Não sei se as razões que me
    obrigam a considerá-la como um acto diplomatico deploravel tem algum
    valor, ou se me condemnam a entrar na categoria dos sophistas, contra os
    quaes v. ex.^a quiz prevenir de antemão a Soberana no papel que lhe
    dirigiu. Seja v. ex.^a o meu juiz.

    Já tomei a liberdade, sr. visconde, de dizer que duvidava da inteireza
    da sua fé no direito de propriedade litteraria. Agora começarei por
    dizer que não acredito na dos homens d'estado da França, que mandam
    sollicitar nos paizes pequenos e atrazados convenções em que seja
    sanctificado esse mais que controverso direito. Ha nisto, a meu ver, a
    arte vulpina de quem quer fazer triumphar uma idéa em cuja energia e
    legitimidade não crê. Se a França estivesse convencida da justiça e
    moralidade do principio que pretende introduzir no direito publico da
    Europa, não vinha tractar comnosco, nem com o Piemonte: dirigia-se aos
    dous grandes focos da imprensa; aos dous paizes seus rivaes na sciencia,
    e tambem no industrialismo litterario, a Allemanha e a Inglaterra. Era
    caminhar direito ao alvo; era provar uma convicção sincera.

    A falta desta convicção deduz-se tambem do exame dos motivos immediatos
    do convenio. O que fere sobretudo os interesses da França é a
    contrafacção belga: e esse convenio é uma phase da guerra declarada ao
    industrialismo litterario da Belgica pelo industrialismo litterario da
    França. Os franceses poseram-nos nas mãos, a nós e aos piemonteses, os
    riffles dos seus arsenaes, e lançam-nos em atiradores para a frente do
    inimigo. Se os homens de estado daquelle paiz estivessem persuadidos de
    que a propriedade litteraria é a mais inquestionavel de todas as
    propriedades, como a v. ex.^a apraz chamar-lhe, não procederiam assim;
    porque o seu procedimento sería indigno de uma grande nação. Segundo a
    nova doutrina, centenares, talvez milhares de franceses estão sendo
    roubados pelos belgas no mais legitimos e sagrados dos seus haveres.
    Bruxellas é o Alger do mundo litterario. Supponhamos agora que este
    facto escandaloso se verificava em haveres menos sagrados; que, durante
    annos e annos, Lamartine, Dumas, Sue, Thiers, e cem, e mil outros
    personagens influentes e respeitados, passando por aquella Achem da
    Europa, por aquella horrenda _spelunca latronum_, eram constantemente
    desvalijados á porta das hospedarias por grupos dos chananeos
    bruxellenses, sem que os magistrados ou a força publica interviessem a
    favor dos espoliados estangeiros. Crê v. ex.^a que nesta hypothese a
    França nos viria pedir que não comprassemos a matalotagem daquellas
    illustres victimas; que fechassemos os nossos portos aos adellos das
    margens do Senne? Não. Reclamações instantes, ameaçadoras e violentas
    partiriam de Paris para Bruxellas, e fariam entrar o gabinete e a nação
    belgas no caminho da moralidade e da justiça. Se essas reclamações
    fossem desattendidas, veriamos as esquadras de Rochefort e de Brest
    navegarem para a foz do Scalda, e as brigadas francesas passarem a
    fronteira. Porque não succede isto n'um caso que se diz mais grave? É
    porque os que proclamam em França a sanctidade do industrialismo
    litterario não acreditam na validade moral das proprias theorias. O
    governo francês, actuado pelas poderosas influencias da imprensa,
    desejoso de conciliar a benevolencia dos fabricantes do genero
    litteratura, protege pelos meios que póde uma industria importante: e
    faz bem. Nós é que não sei se o fazemos, ajudando-o nesse empenho com
    prejuizo proprio.

    Se á convenção de 12 de abril falta a base moral em que se quis fundar,
    falta-lhe ainda mais a base racional e de conveniencia; porque, se á
    primeira se pôde dar certa plausibilidade com pretextos e phrases, que
    não admira illudam as comprehensões vulgares, quando, até, illudiram a
    alta intelligencia de v. ex.^a, não vejo necessidade, circumstancia,
    utilidade, ou consideração alguma que favoreça a segunda. Por esta parte
    a convenção, sem nos trazer um unico bem, acarreta-nos muitos males,
    sobre os quaes, com permissão de v. ex.^a, offerecerei aqui varias
    ponderações, além daquellas que já expús no jornal _O Paiz_. As
    principaes que então expendi foram, em resumo, que, ainda admittindo que
    á fabricação dos livros contrafeitos se associasse um acto immoral,
    seria cousa inaudita que uma nação prohibisse a entrada de qualquer
    objecto industrial só porque no acto da sua producção concorresse alguma
    circumstancia menos conforme com as regras da ethica e do direito; que,
    se tal principio se houvesse de estabelecer, sería necessario ordenar um
    inquerito moral sobre a industria e o commercio estrangeiros, e fechar
    depois os nosses portos a tudo aquillo em que achassemos esse vicio de
    origem; que, não se contrafazendo em França os nossos escriptos, nem
    comprando aquelle paiz senão por excepção algum livro português
    contrafeito ou não contrafeito, não póde haver neste caso reciprocidade
    entre Portugal e França; e de feito, n'um commercio puramente passivo,
    todo e qualquer tractado, que não seja para o ligar com outro commercio
    activo, será sempre inconveniente; que, creando embaraços á diffusão da
    leitura em Portugal, a convenção contrariava poderosamente os progressos
    da civilisação entre nós; que, pelas condições actuaes do nosso trafico
    de livros com o Brazil, para cujo movimento não contribuem só as
    publicações portuguesas, mas tambem as reexportações de livros
    estrangeiros; o tractado, tornando estas geralmente inexequiveis, longe
    de favorecer os auctores portugueses, os privaria em boa parte dos
    beneficios da concorrencia no mercado brazileiro; que o sello ordenado
    no artigo 13.^o da convenção para legitimar a posse das contrafacções,
    não só era injusto, punindo quem comprou na boa fé do direito existente,
    mas tambem involvia a imposição de um tributo, que, embora se
    considerasse válido como acto da dictadura, traria o absurdo de não
    poder ser annullado pelo parlamento, visto achar-se estatuito n'um
    convenio feito com um paiz estrangeiro; que, finalmente, esse imposto do
    sello era exigido antes de se verificar, pelos meios que a propria
    convenção assignala, quaes são os livros contrafeitos, o que o torna
    inexequivel. Taes foram as objecções que me occorreram ao escrever o
    artigo do _Paiz_, e que não são talvez metade das que poderiam fazer-se
    áquelle infeliz tractado, se o comportassem os breves limites das
    columnas d'um jornal politico, mas que me pareceram só por si
    sufficientes para pensarmos desde logo em remediar um tal erro, apenas
    expire o praso durante o qual somos forçados a respeitar a convenção
    litteraria.

    Entretanto não leve v. ex.^a a mal que n'uma publicação avulsa eu aponte
    varias outras provisões dessa convenção que reputo inconvenientes ou
    injustas. Move-me a fazê-lo o desejo de não passar aos olhos de v. ex.^a
    por um daquelles sophistas contra que v. ex.^a invectiva no papel em que
    se congratula com o Chefe do Estado pela conclusão de um negocio, que a
    meus olhos é o mais deploravel que ha muitos annos temos concluido com
    um paiz estrangeiro, embora a nossa historia diplomatica não seja a mais
    gloriosa do mundo.

    Considerados em geral os ajustes celebrados entre v. ex.^a e mr. Barrot,
    affigura-se-me a mim que v. ex.^a cahiu n'uma singular illusão. A sua
    mente era, se não me engano, que esta convenção, ao passo que consagrava
    os principios da moral e do direito, fosse favorecer aquelles–«que
    trabalham no silencio do gabinete, rodeiados da penuria e da fome tantas
    vezes, victimas da sciencia, martyres da civilisação, que não poucas o
    tem pago com a vida, que pela maior parte sacrificam fortuna, saude, o
    futuro de seus filhos á gloria das letras, do seu paiz, e da especie
    humana».–Eis-aqui os que v. ex.^a queria que fossem protegidos por um
    tractado que vai ferir os contrafactores, e sobretudo os contrafactores
    belgas. Isto dizia v. ex.^a á soberana: dizia-o sinceramente, na minha
    opinião, arrastado por um nobre e generoso, embora inexacto, pensamento.
    Mas que dizia tambem v. ex.^a ao ministro do reino no seu officio de 28
    de maio ácerca deste mesmo assumpto?–«As nossas quasi unicas
    importações da livraria belga são de maus livros, de romances absurdos,
    de quanto ha mais frivolo e prejudicial na litteratura francesa
    contemporanea; pois todos os outros livros, os bons, os uteis, os
    civilisadores, directamente os havemos de França, e os lemos nas edições
    legitimas, sem prejuizo de seus proprietarios».

    Se, porém, v. ex.^a supunha que isto era assim, como é possivel que
    associasse o seu illustre nome áquella fatal convenção? Para os
    escriptores franceses de livros bons, uteis, civilisadores, é ella
    perfeitamente inutil. A sua propriedade, na opinião de v. ex.^a, está
    segura e defendida no estado actual das cousas. A quem pois favorece o
    tractado? Que propriedade vai elle garantir, admittindo tal propriedade?
    A dos maus livros, a dos romances absurdos, a de quanto ha mais frivolo
    e prejudicial na litteratura francesa contemporanea. Que triste illusão
    foi esta, sr. visconde, que levou v. ex.^a a convencionar favores
    exclusivos para a insensatez, para a corrupção e para a immoralidade?

    Felizmente por um lado e infelizmente por outro, o presupposto de v.
    ex.^a, quanto ás contrafacções da Belgica, não é todavia exacto. Se v.
    ex.^a verificasse quaes tem sido no ultimo decennio as importações dos
    livros belgas; se examinasse os catalogos dos livreiros de Lisboa, Porto
    e Coimbra, comparando-os com os catalogos dos diversos estabelecimentos
    typographicos de Bruxellas, convencer-se-hia de que não compramos só
    livros maus á Belgica; de que nem sempre o trabalho da imprensa é alli
    apllicado ás obras de simples distracção, e de que não raro os prelos
    belgas reproduzem os escriptos graves e uteis, postoque, na verdade, em
    proporção inferior, e provavelmente mais de uma vez com perda. Mas a
    superioridade numerica dos livros inuteis e insignificantes encontra do
    mesmo modo nas publicações _legitimas_ de todos os paizes, e é o
    resultado, não da contrafacção, mas sim do industrialismo litterario,
    industrialismo que as doutrinas da propriedade, mal applicadas ao
    pensamento, não fazem senão promover. Ao redor de mim, no momento e no
    logar onde escrevo, tenho muitos volumes datados de Bruxellas, que não
    me parecem nem insignificantes nem inuteis, e estou certo de que v.
    ex.^a me faz a justiça de acreditar que não me entretenho demasiado com
    leituras frivolas. Estes livros de edição belga (que por signal não
    estou inclinado a mandar sellar, collocando-me assim em manifesta
    rebellião) preferi-os por serem mais baratos, circumstancia attendivel
    para mim, que não sou abastado, e muito mais attendivel para os que,
    menos felizes do que eu, _rodeiados de penuria, victimas da sciencia, e
    martyres da civilisação_ tem de cortar pelo necessario á vida physica
    para comprarem o alimento da vida immaterial. Para estes quizera eu, não
    convenções litterarias que, accrescentando afflicções ao afflicto, lhes
    tolham satisfazer a primeira necessidade do homem de letras, a dos
    livros, mas instituições que os amparassem na aspera peregrinação em que
    vão consumindo a existencia. Quando mancebos desta geração que vem após
    nós, e que confio em Deus será a todos os respeitos melhor do que a
    nossa, desprezados, esquecidos, e tanto mais desprezados e esquecidos,
    quanto mais um nobre orgulho os conserva arredados do grande receptaculo
    de corrupções chamado o poder, luctam debalde com a pobreza para crearem
    pelos esforços da intelligencia uma situação no mundo! Como eu, v. ex.^a
    não ignora quantas vezes essas almas predestinadas, e que annunciam a
    este paiz a aurora de melhor futuro, se vêem constrangidas a ir vender
    por vil preço ao minotauro da imprensa periodica escriptos imperfeitos,
    na lingua, no estylo, no desenho, no pensamento, mas onde centelham as
    faiscas do genio. E nós, nós que fazemos tractados, cujo resultado, se
    fosse possivel tê-lo, seria grangeiar para os romancistas, para os
    poetas, para os especuladores litterarios da França mais uma noite de
    orgias, ou os meios de dar mais uma vez por anno verniz nas suas
    carruagens, sorrimo-nos das faltas grammaticaes, das incorrecções
    d'estylo, dos erros de sciencia dos pobres desvalidos, que nasceram como
    nós nesta terra, sem nos lembrarmos de que no seu balbuciar litterario
    lhes serve frequentemente de musa a urgente necessidade, quando não a
    miseria! Nós, os homens feitos, que temos centenares de contos de réis
    para construir theatros, que sejam ao mesmo tempo aleijões artisticos e
    escandalos administrativos, e que não temos vinte contos, dez contos,
    cinco contos para dar pão aos talentos desafortunados, vamos em troco
    d'isso privá-los dos meios d'instrucção; vamos privá-los de livros!

  • Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 01

    Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 01

    Aproximadamente 54.592 palavras.

    Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt),
    Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team

    OPUSCULOS

    POR

    A. HERCULANO

    SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA
    SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA
    SOCIO CORRESPONDENTE
    DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID
    DO INSTITUTO DE FRANÇA (ACADEMIA DAS INSCRIPÇÕES)
    DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE TURIM
    DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA YORK, ETC.

    QUESTÕES PUBLICAS

    TOMO I

    LISBOA
    EM CASA DA VIUVA BERTRAND & C.ª–CHIADO, N.º 73

    M DCCC LXXIII

    IMPRENSA NACIONAL

    *ADVERTENCIA PRÉVIA*

    Havia annos que os meus velhos editores e amigos, os fallecidos Irmãos
    Bertrands, admiraveis typos dessa modesta austeridade e dessa nobre
    honradez, em todas as relações da vida civil, que eram gloriosa tradição
    da classe burguesa, e que a burguesia destes nossos tempos, ensanefada
    já de ouropeis fidalgos, não parece inclinada a manter com excessivo
    ciume; havia muito, digo, que os meus editores instavam comigo para que
    ajunctasse em volumes alguns opusculos, escriptos por mim e publicados
    por elles em diversas conjuncturas, cujas edições se achavam de todo
    esgotadas. Na sua opinião, eu devia incluir tambem nessa collecção
    outros opusculos, que, ou impressos avulsamente por minha conta, ou
    inseridos em publicações periodicas, tinham feito certo ruido, e não se
    encontravam já no commercio. Entendiam igualmente que nesta compilação
    de trabalhos sobre assumptos tão variados poderiam introduzir-se
    quaesquer outros ainda ineditos, que me não parecessem indignos de virem
    a lume, o que, no seu modo de ver, daria certo realce á publicação que
    se propunham, e em cujo exito confiavam.

    Apesar das ponderações que me faziam homens tão experimentados nas
    cousas da imprensa, hesitei muito tempo em acceder aos seus intuitos.
    Após largos annos consumidos na vida agitada das letras, em que o meu
    baixel mais de uma vez fora açoutado por violentas tempestades, tinha,
    emfim, ancorado no porto tranquillo e feliz do silencio e da
    obscuridade. Olhava com uma especie de horror para as vagas revoltas da
    immensa lucta das intelligencias, contraste profundo da vida rural a que
    me acolhera. Depois, o espirito sentia bem a propria decadencia, cujos
    effeitos a interrupção dos habitos litterarios devia aggravar.
    Reflectia, sobretudo, no tedioso de rever escriptos, parte dos quaes
    remontavam a tempos assás distantes. Podia, na verdade, devia talvez,
    deixá-los passar como estavam, no que respeita á maior ou menor exacção
    das doutrinas, porque a pretensão á infallibilidade é sempre ridicula no
    individuo, e eu nunca tive tal pretensão; mas era indispensavel
    castigá-los em relação á fórma. O methodo, o estylo, a linguagem, as
    condições, em summa, da arte de escrever são, no mundo das letras, o que
    a boa educação, a cortesia, as attenções, o respeito para com os usos
    recebidos são no tracto civil, o que os ritos são nas sociedades
    religiosas. No ente que cogita, a idéa póde e ha de variar com o decurso
    do tempo, com a ampliação dos horisontes do pensamento. Sobrepõe-se
    gradualmente a verdade ao erro, e ainda mal que, outras vezes, é o erro
    que succede ao erro, quando não á verdade. Aprender quasi sempre é
    esquecer; affirmar quasi sempre é negar: esquecer o que aprendemos;
    negar o que nós proprios affirmámos. É por isso que, no meio de milhões
    de duvidas, cada geração lega á que lhe succede poucas verdades
    incontrastaveis, e que a lentidão do progresso real é um bem triste e
    desenganador dynamometro da tão limitada potencia das faculdades
    humanas. Não assim pelo que toca ás formulas externas das manifestações
    do espirito. O incompleto, o barbaro, o vicioso, o tolhido, o
    desordenado, o obscuro não são o revolutear do oceano das idéas: são
    simplesmente ignorancia ou preguiçoso desalinho, mais ou menos
    indesculpaveis.

    Ora a revisão de escriptos de tão diversas epochas, ainda limitando-me
    ao exame da contextura e execução, repugnava-me. Era renovar o tracto
    com as letras no que ha nellas menos attractivo, na questão da fórma. E
    todavia, sem esse trabalho preliminar, não podia decentemente satisfazer
    os desejos dos meus editores, desejos que o ultimo d'elles, pouco antes
    de fallecer, ainda vivamente manifestava.

    Mas, o que era na realidade esta repugnancia ao trabalho, embora fosse
    um trabalho ingrato? Era o egoismo dos annos derradeiros; o amor á
    quietação da intelligencia, que, no outono da vida, é em nós como o
    prenuncio da completa, da eterna paz. Para vencer esta enfermidade dos
    espiritos cançados e gastos, cumpre que surja nelles um incitamento
    poderoso, uma necessidade instante. Foi, porém, este incitamento ou esta
    necessidade que, a final, nasceu para mim, justamente das condições da
    vida rural.

    Para o velho que vive na granja, na quinta, no casal, como que perdidos
    por entre as collinas e serras do nosso anfractuoso paiz, ha na
    existencia uma condição que todos os annos lhe prostra o animo por
    alguns mezes, doença moral, mancha negra da vida rustica, facil de
    evitar nas cidades. É o tedio das longas noites de inverno; das horas
    estereis em que o peso do silencio e da soledade cai com duplicada força
    sobre o espirito. Para o velho do ermo, nesses intervallos da vida
    exterior, a corrente impetuosa do tempo parece chegar de subito a pégo
    dormente e espraiar-se pela sua superficie. A leitura raramente o
    acaricia, porque os livros novos são raros. A decima visão da mesma
    idéa, vestida do seu decimo trajo, repelle-o, não o distrahe. As
    convicções ardentes, as alegrias das illuminações subitas, as coleras e
    indignações que inspiram e que, na mocidade e nos annos viris, enchem a
    cella do estudo de turbulencias interiores, de arrebatamentos
    indomaveis, de debates inaudiveis, de lagrymas não sentidas, de amargo
    sorrir, cousas são que se desvaneceram. Matou-as o gear do inverno da
    existencia. Desfallece-lhe o animo, mal tenta embrenhar-se na selva das
    cogitações, engolfar-se nas ondas dos pensamentos, que, em melhor idade,
    lhe roubavam á consciencia os ruidos longinquos e confusos das
    multidões, e aquella especie de zumbido obscuro que ha no silencio
    profundo, e as passadas tenebrosas da noite, e o surgir e o galgar do
    sol ao zenith, emquanto a penna inspirada arfava, deslisando sobre o
    papel, semelhante á véla branca da bateirinha, que, ao refrescar do
    vento, vai e vem de margem a margem, atravez da ria. Não: para o velho
    não ha a febre da alma que devora o tempo. Sente-o gotejar no passado,
    como os suores da terra que cáhem, lagryma após lagryma, pela claraboia
    de galeria deserta na mina abandonada. É verdade que a natureza compensa
    o esmorecer e passar do vigor e da actividade intellectual com a propria
    somnolencia do espirito, voluptuosidade da velhice, ameno e dourado
    pôr-do-sol, que se refrange no espectro da sepultura já vizinha e o
    illumina suavemente. Mas o dormitar do entendimento, para ser deleitoso
    enleio, exige o movimento externo e as singelas occupações e cuidados da
    vida campestre. Sem isso, e é isso que falta muitas vezes nas
    interminaveis noites de inverno, a inercia da intelligencia, que vagueia
    no indefinito sem o norte da realidade, vai-se convertendo pouco a pouco
    em intoleravel tormento; tormento no qual ha, por fim, o que quer que
    seja da céllula circular e esmeradamente branqueiada, onde o grande
    criminoso é entregue, sósinho, á euménide da propria consciencia. N'esta
    extremidade, por mais somnolenta e obscurecida que esteja a mente, por
    mais que ella ame o repouso, o trabalho do espirito, ainda o mais arido,
    é preferivel, cem vezes preferivel, ao fluctuar indeciso no vacuo.

    Foi por isto que comecei a ajunctar os _disjecta membra_ de uma grande
    parte do meu passado intellectual; a accrescentar, a cortar, a corrigir,
    a completar. Vencido o primeiro inverno, vi desapparecerem os marcos
    negros juncto dos quaes cumpria que longamente me assentasse ao cabo de
    cada um dos poucos estadios que ainda me restam a transitar pela estrada
    da vida. Que esta confissão ingenua sirva para ser absolvido da especie
    da correria que, apesar dos mais firmes propositos, faço, ainda uma vez,
    na republica das letras.

    Os escriptos aqui reunidos, os quaes, na sua maior parte, foram
    inspirados por impressões momentaneas, perderam o interesse que lhes
    provinha das circumstancias que os provocaram; mas, ainda assim, podem
    ficar como marcos milliarios que ajudem a assignalar as luctas e o
    progresso das idéas em Portugal no decurso de mais de trinta annos que
    as datas d'esses escriptos abrangem. Naquellas luctas o auctor dos
    seguintes opusculos teve largo quinhão, e se, como é possivel, nem
    sempre a razão esteve da sua parte, esteve-o sempre a convicção. É do
    que lhe parece hão-de dar testemunho a propria contextura e o proprio
    estylo dessas composições, que não vinham só da intelligencia, que
    vinham muitas vezes tambem do coração. A demasiada vivacidade, a talvez
    exaggerada energia, com que frequentemente ahi são expostas e defendidas
    taes ou taes ideas e combatidas outras, revelam a indole impetuosa mas
    sincera de quem escreveu essas paginas. Foi, porventura, este o melhor
    titulo do auctor á benevolencia publica largamente manifestada;
    benevolencia que encontrou ainda em muitos que estavam longe de
    commungar com elle nas doutrinas para as quaes buscava ou obter o
    triumpho ou adquirir sectarios.

    Ordenando esta compilação, não me adstringi nem a conservar
    rigorosamente a ordem das epochas a que esses varios escriptos
    pertencem, nem a distribui-los precisamente conforme a sua indole.
    Adoptei um termo medio, que me facilitasse ao mesmo tempo o trabalho de
    revisão, e me habilitasse para ir successivamente publicando qualquer
    volume á medida que o coordenasse. N'uma grande variedade de assumptos,
    o espirito não se amoldaria a reconsiderá-los nem pela ordem das datas,
    nem pela identidade da materia. A intelligencia é caprichosa, e
    duplicadamente caprichosa na sua decadencia. Attendendo em geral á
    natureza dos diversos opusculos, entendi que podiam dividir-se em tres
    categorias–Questões publicas–Estudos historicos–Litteratura.–Estas
    tres categorias constituirão tres series separadas, servindo-lhes apenas
    de nexo o serem uma collecção geral das minhas opiniões, quer em
    questões litterarias ou historicas, quer em questões sociaes. Assim, um
    volume seguir-se-ha a outro da mesma ou de diversa serie sem
    inconveniente para a publicação, e sem se tornar necessario que, n'um
    trabalho tedioso e frequentemente interrompido, a attenção se dirija por
    muito tempo e sem desvio para idéas até certo ponto congeneres ou pelo
    menos analogas.

    Ajunctando aos titulos dos opusculos as datas em que foram escriptos, o
    auctor teve em mira habilitar o leitor para o julgar com justiça. Sem
    querer no minimo ponto fugir á responsabilidade das suas opiniões,
    entende que a responsabilidade será ora maior, ora menor, se porventura
    se attender á epocha em essas opiniões foram manifestadas. O decurso de
    trinta a quarenta annos, no turbilhão, cada vez mais rapido, em que hoje
    as idéas passam, modificando-se, transformando-se, é um periodo que
    corresponde a seculos nos tempos em que o progresso humano era sem
    comparação mais lento. As doutrinas, as apreciações criticas, os
    systemas, os livros quasi que envelhecem tão depressa como o homem. O
    pensamento que ha vinte annos parecia uma verdade nova póde hoje parecer
    apenas um problema não resolvido, e até um erro condemnado; a observação
    profunda de então ser hoje trivialidade; a critica subtil, que levou um
    raio de luz a certos recessos obscuros dos factos, achar-se incorporada
    e transfigurada em apreciação mais complexa que illumine dilatados
    horisontes. Por isso, a data de cada um dos opusculos contidos nos
    seguintes volumes é um dos elementos indispensaveis para estes serem
    avaliados com justiça e imparcialidade. Nem sempre fugimos á pressão das
    idéas que se manifestam ao redor de nós, e muito faz aquelle que algumas
    vezes sabe elevar-se acima das preoccupações ou dos interesses da epocha
    em que escreve.

    Não se associarão a estas considerações, que sollicitam a indulgencia,
    algumas instigações do amor proprio? Suspeito que sim. Nos seguintes
    escriptos ha, em mais de um logar, idéas, previsões, affirmativas,
    negações que não raro grangeiaram para o auctor as qualificações de
    temerario, de paradoxal, de visionario. Em certos casos, o decurso do
    tempo encarregou-se de decidir de que lado estava ou a perspicacia ou a
    boa razão: em alguns, o paradoxo, a visão, foram-se lentamente
    insinuando em outros espiritos, e mais de uma vez o visionario primitivo
    veio a achar-se como sumido na turba de tardígrados visionarios. Que o
    facto não contribuisse para se datarem estes opusculos ninguem o
    acreditaria, nem eu pretendo negá-lo. Chamarão uns a isso orgulho:
    chamar-lhe-hão outros vaidade. E uns e outros terão razão. A vaidade e o
    orgulho que são, senão duas especies de um genero unico de fraquezas? O
    vaidoso é o que chama o mundo para espectador do seu orgulho: o
    orgulhoso é o que se colloca a si como unico espectador da propria
    vaidade. Symptomas varios de enfermidade identica: manifestações
    diversas de uma só miseria do coração humano.

    A VOZ DO PROPHETA

    1837

    INTRODUCÇÃO

    1867

    Depois da epocha em que o seguinte opusculo foi publicado e dos factos
    que lhe deram origem, têem decorrido mais de trinta annos. Os homens que
    intervieram nesses factos dormem já, pela maior parte, debaixo da terra.
    Com raras excepções, restam apenas alguns dos que eram mais moços. O
    auctor da _Voz do Propheta_ pertence a esse numero. Contava vinte e seis
    annos naquelle tempo.

    O homem de hoje póde julgar imparcialmente o escripto do homem de então.
    O animo tranquillo póde avaliar a paixão que o inspirou. Aquelles a quem
    esse verbo ardente feria viram no auctor um partidario que friamente
    calculava os resultados politicos das suas palavras. Injustiça ou erro;
    o mesmo que havia da parte delle em ver nos homens que forcejavam por
    dirigir a revolta de 1836, por fazer sair desse facto um governo
    regular, grandes criminosos. A verdade era que, n'uns davam-se ambições,
    mas ambições talvez nobres; n'outros houve, de certo, o sacrificio das
    proprias sympathias, o silencio imposto ás proprias convicções, para que
    a revolta não degenerasse em anarchia. Em muitos desses individuos,
    apparentemente revolucionarios, havia o patriotismo reflexivo, e até a
    abnegação, emquanto em nós, os que os aggrediamos com a sinceridade da
    indignação, havia, por amor exagerado aos bons principios, uma colera
    que em muitas cousas offuscava a razão. A _Voz do Propheta_ representa
    esse estado dos espiritos.

    Hoje a exageração sincera do insulto, a invectiva hyperbolica,
    inspirada, não pelo calculo, mas pelas irritações da consciencia, mal se
    comprehende. Neste crepusculo da vida publica, tão favoravel ás
    prostituições do cidadão, como o crepusculo do dia ás prostituições da
    mulher; nesta epocha de extrema agonia, iniciada pela proclamação dos
    _interesses materiaes_ acima de tudo, fórmula decente de sanctificar o
    egoismo, porque para cada individuo o interesse material alheio é apenas
    um interesse de ordem moral; agora que a boa educação dos homens novos
    mudou a linguagem politica, e vai arrojando para os archaismos
    historicos a lucta face a face, a punhalada pelos peitos; agora que a
    strychnina da allusão calumniosa e amena, o enredo tortuoso, a traição
    ridente vão expulsando da arena das facções as objurgatorias, rudes na
    substancia e na fórma, a _Voz do Propheta_ é, sem duvida, uma composição
    agreste e brutal. Inutil como exemplo e modelo, servirá todavia como
    amostra do que eram as malevolencias da geração cujos raros
    representantes, hoje quasi estrangeiros no seu paiz, não tardarão a ir
    esconder no tumulo as ultimas grosserias que deturpam a suavidade dos
    costumes e as tolerancias de toda a especie dos cultos filhos de
    barbaros.

    Os homens que em 1837 se aggrediam violentamente na imprensa e no campo
    tinham, de feito, habitos e sentir diversos dos actuaes. As febres
    politicas eram então ardentes, indomaveis, porque derivavam de crenças.
    Naquella epocha havia, como houve sempre, belforinheiros da politica;
    mas constituiam a excepção. O geral era gente baptisada com fogo e com
    sangue nas duas religiões inimigas do absolutismo e do liberalismo.
    Chamo-lhes religiões, porque o eram. A guerra civil, que terminara em
    1834, tivera muitos dos caracteres das antigas cruzadas. Sobretudo nos
    primeiros impetos della, haviam-se practicado actos de abnegação, de
    constancia, de valor e de soffrimento sobrehumanos, ao passo que se
    perpetravam outros de bruteza e ferocidade inauditas. A maior parte
    delles, factos obscuros, individuaes, reiterados cada dia, cada hora
    daquelle prolongado paroxismo de grandiosa barbaria, não os registou,
    não os registará nunca a historia, talvez. E todavia, é isso que explica
    a proceridade da estatura moral dos homens daquelle tempo, estatura a
    que não chegaram, nem provavelmente chegarão as gerações subsequentes.
    Sem paixões violentas e exclusivas, não ha as energias que assombram.
    Então a existencia e os commodos e gosos della eram tão casuaes e
    transitorios, as privações e dores de tão completa vulgaridade, que dar
    a vida ou tirá-la aos outros pouco mais significavam do que acções
    indifferentes. Diante do fanatismo politico, a reflexão que discrimina o
    bom do mau, o justo do injusto, quasi que era puerilidade. Podia
    ceder-se, e não raro cedia-se, a instinctos generosos para com o
    adversario: a justiça em apreciá-lo moralmente, ou em respeitar-lhe os
    direitos, isso é que se tornara difficil.

    Taes eram os homens que, depois de esmagarem a monarchia absoluta,
    vinham, emfim, a aggredir-se mutuamente na imprensa e no campo. A
    revolta, desmembrando o partido liberal, constituia dous partidos
    violentos, daquella violencia a que estavam affeitos e cujo embate devia
    produzir males profundos e em parte irremediaveis.

    Esta scisão, logo depois da victoria, era difficil de explicar fóra de
    Portugal. Aqui entendia-se, embora derivasse de um facto injustificavel.
    A harmonia de opiniões, a unidade de crenças e intuitos dos vencedores
    dissipava-se, porque realmente não existia senão nas suas relações
    negativas. Negava-se, combatia-se o passado. Era no que havia accordo.
    As apparencias de união e conformidade creara-as a grandeza do perigo. A
    phalange é e será sempre o mais poderoso instrumento de guerra, moral e
    materialmente. Embora, porém, houvesse diversidade de doutrinas, o que
    havia mais era contraposição de interesses. Para as primeiras se
    manifestarem e tenderem ao predominio bastavam a liberdade da palavra
    oral e escripta, e a discussão parlamentar. Aos segundos, dada a
    impetuosidade e impaciencia da ambição humana, sobretudo nas raças
    latinas, não bastava nenhuma liberdade. Recorreu-se ao illegal, ao
    tumultuario, e a revolta de septembro de 1836 appareceu.

    Quem a preparou e fez surgir? Não sei. Ostensivamente, os seus auctores
    foram a plebe de Lisboa e alguns soldados que se negaram a dispersar os
    amotinados. Os individuos que, depois de consummado o facto, tomaram nas
    mãos as redeas do governo, recusaram para si a paternidade daquelle féto
    político. Creio que, affirmando-se innocentes, falavam verdade; senão
    todos, ao menos alguns. Fugir, porém, á responsabilidade de uma
    situação, que aliás se busca fortalecer e constituir, é indirectamente
    condemná-la; é dizer _não_ com a consciencia; _sim_ com os labios. A
    sentença daquelle motim lavravam-na os mesmos que forcejavam por
    convertê-lo n'uma cousa grave. Por outra parte, o que me parece evidente
    é que os governos que cahem como cahiu o que existia, embora simulem de
    vivos, estão já moralmente mortos.

    E o governo de então estava-o. Por grandes que os seus serviços ao paiz
    houvessem sido durante a lucta, o seu proceder depois da victoria não o
    abonava. Havia quem fizesse sentir isso, quem até desmesuradamente o
    exagerasse. Exageravam-no, sobretudo, os vencidos. Emquanto durou o
    ruido das armas, os lamentos destes não se ouviam; mas quando o estrondo
    cessou, e asserenaram os terrores, os queixumes foram-se convertendo em
    invectivas colericas, e tambem em accusações não raro ou justificadas ou
    plausiveis. A liberdade da palavra falada e escripta tinha-se
    conquistado não só contra os defensores da censura e do absolutismo, mas
    tambem para elles. Nas expansões da sua dor e do seu despeito, no pouco
    ou muito que essas expansões contribuiram para o descredito dos homens
    que mais cordialmente odiavam, tiveram os vencidos occasião de
    reconhecer que a liberdade humana, ruim em these, sobretudo para a
    salvação eterna, póde, em tal ou tal circumstancia, não ser
    absolutamente má.

    Os depositarios do poder executivo tinham, porém, adversarios mais
    perigosos. No gremio liberal houvera homens, alguns de dotes não
    vulgares, que, ou por despeitos pessoaes, ou por falta de animo para
    affrontarem os trabalhos e riscos de commettimento desigual, ou
    finalmente por obstaculos independentes do seu alvedrio, tinham ficado
    extranhos á guerra civil, sumidos em escondrijos na propria patria, ou
    acoutados na terra estrangeira para escaparem aos impetos da tyrannia.
    Desaccordos nascidos no exilio entre alguns destes ultimos e os homens
    de valia de quem o Duque de Bragança se rodeiara quando emprehendia a
    guerra da restauração, não tinham feito senão medrar e azedar-se
    progressivamente por diversas causas. Estes desaccordos, que pareciam
    pouco importantes emquanto durou a contenda, apenas essa epocha
    tormentosa cessou, tornaram-se mais graves, porque os individuos que se
    haviam conservado como extranhos á lucta em que se lhes conquistava uma
    patria, tinham amigos e parciaes numerosos entre os que pelejavam e
    venciam. Constituido o regimen parlamentar, as malevolencias, mais ou
    menos latentes, converteram-se em hostilidade acerba. Esta hostilidade
    podia ter, e tinha em parte, motivos maus; mas, contida no ambito
    constitucional, era, até certo ponto, bem fundada e util.

    Os estadistas, que, cercados durante annos de espantosas difíiculdades,
    souberam superá-las exercendo o poder, eram indubitavelmente homens de
    alta esphera. Podia reputar-se problematica a virtude de um ou de outro:
    a capacidade e a firmeza não podiam disputar-se a nenhum delles.
    Affeitos a reger o paiz com o vigor de uma dictadura, inevitavel
    emquanto durara a guerra, e com as formulas militares, custava-lhes
    esquecerem-se dos habitos dessa epocha, confundindo mais de uma vez, na
    praxe da administração, as duas idéas oppostas, de paiz libertado e de
    paiz conquistado. Por outra parte, os que muito haviam padecido queriam
    gosar muito, e o reino, devorado por discordias intestinas superiores ás
    proprias forças e exhausto de recursos, via comprometter o futuro da
    riqueza publica por larguezas, não só desacertadas, mas tambem
    juridicamente injustificaveis. Homens que teriam legado á posteridade
    nomes gloriosos e sem mancha, e que, mais modestos nas suas ambições
    materiaes, seriam vultos heroicos na historia, pagaram-se como
    _condottieri_ mercenarios, ao passo que outros, depondo as armas e
    voltando á vida civil, exigiam ser revestidos de cargos publicos para
    exercer os quaes lhes faltavam todos os predicados; homens cujo unico
    titulo era terem combatido com maior ou menor denodo nas fileiras
    liberaes ou haverem padecido nas masmorras os tratos da tyrannia. A
    grande, a séria, a profunda revolução que se fizera no meio do estrondo
    das armas levara de envolta com os dizimos, com os bens da corôa, com as
    capitanias-mores, com toda a farragem do absolutismo, os antigos
    _officios_, moeda que por seculos servira para pagar algumas vezes
    meritos reaes, muitas mais vezes, porém, prostituições e villanias. Mas
    as funcções publicas, os empregos vieram supprir essa moeda, tomando não
    raramente cunho analogo, e distribuindo-se com a mesma justiça e
    cordura. Estes e outros erros e abusos que o governo commettera, ora por
    impulso proprio, ora para satisfazer as influencias preponderantes com
    que o poder tem de transigir, necessidade fatal do regimen parlamentar,
    e um dos maiores defeitos da sua indole ainda tão imperfeita,
    engrossaram rapidamente, com os muitos desgostosos e indignados, a
    parcialidade que na origem representava antes malevolencias pessoaes do
    que antinomia de doutrinas.

    Foi por isso que a revolta de septembro, se não achou eccho pelo paiz,
    também não achou nelle repugnancia manifesta, e pôde na capital
    constituir-se e tomar em poucos dias a importancia que não tinha em si.
    A consciencia da propria impopularidade, o inesperado dos
    acontecimentos, talvez, até o tedio e cansaço de aggressões continuas,
    haviam feito titubeiar os membros do governo decahido, tornando-os
    inhabeis para séria resistencia, emquanto os seus adversarios
    aproveitavam o successo com a energia de inimizades encanecidas e de
    ambições até ahi não satisfeitas.

    Os homens que entenderam ser do seu interesse ou do interesse do paiz
    fazer surgir daquelle estado anormal uma situação regular viram que a
    primeira necessidade era elevar o motim á altura de uma revolução.
    Faltava o assumpto. O derribar um ministerio não o subministra. Basta
    para isso a acção mais ou menos lenta, mas segura e pacifica, da
    liberdade da palavra, da imprensa e do voto. O povo que com estes
    recursos não sabe tirar os seus negocios das mãos de quem lh'os gere
    mal, é um povo ou que ainda não chegou á maioridade ou que já se arrasta
    na senilidade. Urgiam, porém, as circumstancias. Á falta de outra cousa,
    proclamou-se irreflexivamente a constituição de 1822 com as modificações
    que decretassem as futuras constituintes.

    Tinha-se, pois, feito uma revolução para obter um projecto, um texto de
    discussão constitucional? Se o intuito dos amotinados fôra só derribar
    os ministros, o facto era excessivo, injustificavel e portanto
    illegitimo e criminoso; se porém o motim, nobilitado em revolução, tinha
    por alvo alterar as instituições, não menos digno de reprovação se
    tornava, porque era um crime inutil. A Carta encerrava em si o processo
    da propria reforma, processo aliás prudente, regular, exequivel. Partir
    da constituição de 1822, acervo de theorias irrealisaveis, se theorias
    se podiam chamar, de instituições talvez impossiveis sempre, mas de
    certo impossiveis n'uma sociedade como a nossa e na epocha em que taes
    instituições se iam assim exhumar do cemiterio dos desacertos humanos,
    era mais que insensato. A revolução, reconhecendo a necessidade de
    reformar o codigo que restabelecia, condemnava-o, e condemnava-se.

    Parece-me que me não engano se disser que, em geral, aos liberaes mais
    illustrados e sinceros a nova situação politica repugnava altamente.
    Ponderavam que a mudança das instituições politicas de qualquer paiz por
    via de uma revolução é sempre um abalo profundo cheio de riscos, e que
    mais de uma vez, longe de produzir o bem, tem conduzido as sociedades á
    sua ruina. Sem rejeitar de modo absoluto as revoluções como elemento de
    progresso, é certo que ellas são um meio extremo. Só, talvez, a
    necessidade de combater o despotismo as justifique, porque só debaixo de
    tal regimen são impossiveis quaesquer outras manifestações da opinião
    publica, e não existe campo diverso onde a lucta do direito contra a
    força, das idéas novas contra os velhos abusos possa travar-se. Em 1836
    essas manifestações não tinham porém obstaculo algum, e o campo onde as
    doutrinas podiam debater-se, os interesses contrapor-se, os partidos
    digladiar-se, era amplissimo. Se em taes circumstancias uma revolução
    fosse legitima, quaes seriam aquellas em que se lhe negasse a
    legitimidade?

    Depois, nas proprias relações politicas, o espirito humano não se dirige
    unicamente pela reflexão. As paixões e affectos modificam e alteram as
    suggestões do raciocinio; porque o homem imprime necessariamente em
    todos os actos da vida as condições do seu ser. A favor da manutenção da
    Carta não militava só a boa-razão; militavam affectos, e affectos
    profundos. A Carta havia sido o grito de guerra do campo liberal em lide
    de um contra dez. Havia sido, digamos assim, a traducção moderna do
    _Sanctiago!_ de Affonso I, do _S. Jorge!_ do Mestre d'Aviz. Nas
    reminiscencias indeleveis de muitos de então, (bem poucos hoje) estavam
    ainda os vivas á Carta proferidos por labios que iam cerrar-se na morte,
    quando as bayonetas inimigas desciam inexoraveis sobre o peito ou sobre
    o ventre dos nossos soldados feridos e derribados[1]. Em nome da Carta
    se tinha desfeito o triangulo fatal do patibulo, e quebrado o ferrolho
    da masmorra e da enxovia, em nome della se tinham aberto para os
    foragidos as portas da patria que davam para os desertos do desterro, do
    desterro que é sempre solidão e desventura. A Carta fora como a estrella
    polar da esperança nos dias, tão longos, da fome, da nudez, das
    tempestades, do desalento. Vivia depois como envolta na saudade desses
    dias, acre e quasi dolorosa saudade, que nós os velhos ainda sentimos,
    mas que será provavelmente uma cousa inintelligivel para as gerações
    novas.

    A razão, pois, e o sentimento falavam a muitos energicamente em favor
    das instituições annulladas. Falavam tambem a favor dellas a consciencia
    e a dignidade humanas. Tinham jurado manter essas instituições milhares
    e milhares de homens; milhares e milhares de homens as tinham nobremente
    mantido com o sangue, com as privações, com a resignação illimitada no
    sacrificio. Podem valer pouco os juramentos politicos; póde, até, ser
    absurdo o juramento em geral. Mas a quebra de promessas solemnes e
    espontaneas, seja qual for a sua formula, será sempre uma villania
    emquanto tiverem culto a honra e a lealdade.

    Taes eram os principaes incentivos que induziam grande numero de
    liberaes a constituirem um partido hostil á nova ordem de cousas. A
    denominação de cartista, que esse partido adoptou, não correspondia
    rigorosamente ás causas da sua existencia, nem aos seus intuitos ou á
    sua indole. Mas representava até certo ponto isso tudo, ao mesmo tempo
    que era conciso, e facilmente comprehensivel para o vulgo. O cartista
    não reputava todas as instituições, todos os preceitos da Carta como a
    mais alta manifestação da sabedoria humana. Nesta parte os liberaes eram
    em geral eclecticos. Tanto o partido da revolução, como o
    anti-revolucionario nenhum tinha em si unidade completa de principios;
    nem entre um e outro havia senão antinomias parciaes quanto ás doutrinas
    de direito politico. No primeiro, que tomava por base das ulteriores
    reformas uma constituição democratica, exagerada até o despotismo das
    turbas, havia individuos para quem, como o tempo mostrou, as theorias da
    democracia ainda mais moderada eram altamente odiosas, ao passo que
    outros forcejavam por chegar, senão á republica, ao menos a instituições
    republicanas. No partido cartista dava-se o mesmo phenomeno. Todas as
    modificações do governo representativo tinham ahi fautores; tinham-nos,
    talvez, até, as doutrinas do absolutismo illustrado. A meu ver, a
    distincção profunda e precisa entre o cartismo e o septembrismo
    consistia em negar o primeiro o principio da revolução, dentro das
    instituições representativas livre e solemnemente adoptadas ou acceitas
    pelo paiz, e em affirmá-lo o segundo. Tudo o mais em ambos os campos era
    fluctuante e vago.

    É essa a explicação de um facto que os homens daquelle tempo poderão
    testemunhar recorrendo ás proprias reminiscencias. Alistaram-se nas
    fileiras cartistas talvez mais individuos que haviam sido adversos aos
    ministros derribados, do que amigos e parciaes seus, ao passo que alguns
    destes abraçavam sem hesitar a revolução. De uns e de outros se deve
    crer que preferiam nobremente as suas opiniões aos seus interesses, ás
    suas affeições ou inimizades pessoaes. Para muitas dessas opiniões havia
    logar em ambas as parcialidades. Os que, porém, só attendiam á
    moralidade e cordura dos actos de administração ordinaria, lançavam-se,
    por via de regra, na revolução; os que, sem desattender taes questões,
    sem approvarem corrupções ou iniquidades a que eram extranhos e que
    tinham condemnado, remontavam a mais elevadas considerações de ordem
    moral e politica, abraçavam o cartismo. Não falo dos especuladores que
    se resolviam conforme as vantagens que se lhes antolhavam n'um ou
    n'outro campo. O proceder destes taes tinha na consciencia publica
    então, como depois, como sempre, uma qualificação conhecida.

    Mas, dir-se-ha, como nessa epocha se disse, que entre o cartismo e o
    septembrismo se dava uma distincção mais radical e profunda. A Carta,
    outorgada por D. Pedro IV, representava o direito divino dos reis; era
    uma concessão de senhor, em vez de um pacto social, ao passo que a
    constituição de 1822, derivada da soberania popular, era a consagração
    das doutrinas democraticas. Considerada a esta luz, a revolução adquiria
    as proporções de um facto gravissimo, porque assentava a liberdade em
    novos fundamentos, e vinha a ser um passo gigante dado na estrada do
    progresso politico.

    Na epocha, quasi exclusivamente liberal, em que se passavam aquelles
    successos, a resposta do cartismo a estas allegacões parecia facil. Não
    sei se o seria agora; agora que se tem achado e demonstrado, segundo
    parece, não prestar para nada o liberalismo. As intelligencias vigorosas
    da mocidade hodierna têem aberto caminho a theorias ou novas ou
    rejuvenescidas que nós os velhos de hoje e moços de então ou ignoravamos
    ou suppunhamos estereis, e talvez pueris, e de que sorriamos, quando
    alguns engenhos que reputavamos tão brilhantes como superficiaes,
    buscavam, evangelisando-as, jungir por meio dellas as turbas, más porque
    ignorantes, odientas porque invejosas, espoliadoras porque miseraveis,
    ao carro das proprias ambições. A questão da soberania popular não era
    precisamente o que preoccupava mais os entendimentos, cultos, mas
    tardos, daquelle tempo, e a democracia não apaixonava demasiado os
    animos, sobretudo os animos dos que haviam pelejado desde os Açores até
    Evoramonte as batalhas da liberdade, ou padecido na patria durante cinco
    annos, sem o refrigerio sequer de um gemido tolerado, as orgias do
    despotismo. Uns tinham visto de perto a face da democracia; tinham-na
    visto por entre a selva de oitenta mil baionetas que fora preciso
    quebrar-lhe nas mãos para a liberdade triumphar; tinham-na visto nas
    chapadas e pendores das collinas que circumdam o Porto, até onde os
    olhos podem enxergar, alvejando-lhe nos hombros os cem mil embornaes
    preparados para recolher os despojos da cidade da Virgem, da cidade
    maldicta, rendida e posta a sacco; outros haviam-na visto de machado e
    de cutello em punho, mutilando e assassinando prisioneiros inermes e
    agrilhoados. O liberalismo achara a catadura da democracia pouco
    sympathica. Restava a soberania popular. Essa funccionara durante cinco
    annos e dera mostra de si. A soberania do direito divino, repartindo com
    ella o supremo poder, provava que não era tão ignorante como a faziam.
    Tinha litteratura. Applicava, modificando-o, o verso:

    Divisum imperium cum _plebe_ Caesar habet.

    As classes inferiores constituiam então, como hoje, como hão de
    constituir sempre, a maioria do paiz, e foi a esta maioria que ella
    entregou os direitos que cedia. Era a legitimidade consagrando outra
    legitimidade. Amavam-se, comprehendiam-se ambas. É que entre as
    extremidades ha contacto ás vezes. A democracia americana cuida ter
    inventado a lei do Linch. Puro plagio. Inventou-a em Portugal a
    soberania popular. Havia uma differença. Na America a plebe prende,
    julga, condemna á morte e executa; em Portugal o direito divino
    reservara para si o tribunal excepcional e o privilegio do cadafalso.
    Modesta no exercicio do supremo poder, a soberania popular limitou-se á
    prisão, ao espancamento, á multa, elevada, quando occorria, até o
    confisco. Se o incendio, o estupro, o assassinio se ingeriam ás vezes
    nesses actos judiciaes, era por simples casualidade. Manchas, tem-nas o
    sol. O mercador, o artista, o industrial, o professor, o proprietario
    urbano e o rural, o homem de letras, o cultivador, o capitalista, todas
    as desigualdades sociaes, todos esses attentados vivos contra a perfeita
    igualdade democratica conservaram por muito tempo dolorosas lembranças
    do amplexo das duas soberanias.

    O liberalismo, que durante a contenda fora um pouco aspero para com a
    democracia, mais de uma vez tambem, empregara sacrilegamente a prancha
    do sabre e a coronha da espingarda para cohibir o excesso de zêlo
    administrativo e judicial da soberania popular. A brutalidade do
    liberalismo obrigara esta a abdicar após a abdicação da soberania de
    direito divino. Os dogmas, pois, em que se estribava a constituição de
    1822, e contra os quaes protestava a historia, ainda palpitante, dos
    ultimos annos, eram inefficazes, porque os tornava impotentes a
    heterodoxia das consciencias. Duvido de que nesses rudes tempos de
    positivismo liberal elles obtivessem uma só conversão sincera.

    O amor do real e do evidente era um dos grandes defeitos dos homens de
    então. O cartismo argumentava: «Que nos importa, dizia, d'onde veio a
    Carta? A questão é se ella consagra a liberdade humana e a cérca de
    garantias. É deficiente? É defeituosa? Esperemos que a razão publica, a
    torrente da opinião force os poderes do estado a completá-la, a
    corrigi-la. A opinião illustrada largamente preponderante é irresistivel
    nos governos livres. O que não é irresistivel é a opinião de alguns ou
    de muitos que benevolamente se encarregam de interpretar pelo proprio
    voto o voto commum, o voto dos que têem capacidade para o dar.–«Não se
    reputaria louco, accrescentava o cartismo, o representante de uma
    familia outr'ora opulenta, mas reduzida á miseria por espoliação remota,
    que, ao vir, por impulso espontaneo, o descendente do espoliador
    restituir-lhe os bens extorquidos, repellisse aquelle acto de nobreza e
    virtude, achando desar recuperá-los pacificamente? E se tal desar
    existiu; se a outorga da Carta e a tacita acceitação do paiz não podiam,
    aos olhos da metaphysica politica, elevá-la á altura de um pacto social,
    os immensos sacrificios que o restaurá-la, depois de abolida, custou á
    parte mais illustrada, mais rica, mais activa e laboriosa da nação, ás
    forças vivas da sociedade, e as torrentes de sangue e de lagrymas que
    serviram de sacro encausto á assignatura do paiz não valeriam bem o
    plebiscito da maioria inintelligente, o plebiscito daquellas classes
    inferiores que pelejaram até o ultimo extremo, senão com valor, de certo
    com ferocidade, para conservar essa monstruosa e horrivel soberania que
    a servidão lhes trouxera?

    Tem passado trinta annos depois daquella epocha; as paixões tempestuosas
    de então fizeram silencio, e o cartismo e o septembrismo são dous
    cadaveres sepultados no cemiterio da historia. O auctor da _Voz do
    Propheta_ contempla tão placidameute o seu opusculo como se mão extranha
    o houvera escripto. A experiencia e os desenganos fazem-no sorrir
    daquellas coleras, daquellas hyperboles dos vinte e seis annos. Quantos
    erros, quantas ignorancias em muitas das suas opiniões desse tempo! E
    todavia, ainda os sentimentos que inspiravam o cartismo no seu berço lhe
    parecem nobres e elevados, as doutrinas que constituiam a sua essencia
    solidas e justas. É innegavel que o credo democratico, em que os
    adversarios se estribavam, tem desde essa epocha adquirido numerosos
    sectarios. O velho liberalismo passa de moda. O dogma da soberania
    popular, proclamado como supremo direito, substitue o unico direito
    absoluto que elle reconhecia, a liberdade e os fóros individuaes. Isso
    passou: agora a igualdade civil, que era um consectario do dogma
    liberal, transfere-se para o mundo politico, e um nivel imaginario passa
    theoricamente por cima de todas as desigualdades humanas, perpetuas,
    indestructiveis. A paixão da liberdade esmorece, porque a absorve e
    transforma a da igualdade, a mais forte, a quasi unica paixão da
    democracia. E a igualdade democratica, onde chega a predominar, caminha
    mais ou menos rapida, mas sem desvio, para a sua derradeira
    consequencia, a annullação do individuo diante do estado, manifestada
    por uma das duas formulas, o despotismo das multidões, ou o despotismo
    dos cesares do plebiscito.

    O partido cartista tinha por si as grandes e recentes recordações, a
    consistencia politica, os bons principios que representava, e,
    sobretudo, o sensato e practico das theorias que predominavam entre os
    seus membros. Mas a eiva moral quasi que lhe começou no berço. O seu
    primeiro erro foi adoptar por chefes os homens eminentes que, pela
    gerencia dos negocios em situações difficilimas, tinham concitado contra
    si, como succede quasi sempre e a quasi todos, a animadversão publica,
    talvez a da maioria daquelles mesmos que acceitavam agora a sua direcção
    politica. Deviam honrar-se taes homens, embora muitos dos actos da sua
    administração não podessem defender-se, porque esses actos eram bem
    pequeno desconto aos immensos serviços que a liberdade lhes devia.
    Tomá-los, porém, por guias era acceitar uma parte da sua
    responsabilidade; era polluir a pureza das doutrinas com as manchas da
    fraqueza humana; era, sobretudo, arriscar que a irritação das paixões e
    os intuitos de desaggravo dirigissem o procedimento de um partido novo e
    cheio de vida, que só deveriam inspirar a razão tranquilla e a
    applicação logica das proprias doutrinas. Deste primeiro erro nasceram
    as tentativas infelizes de contra-revolução. Essas tentativas não podiam
    reputar-se crime, porque o elemento revolucionario tinha entrado como
    formula politica no direito publico do paiz, mas eram altamente
    illogicas em relação á índole e ao symbolo do cartismo. Por outro lado,
    o governo da revolução mostrava-se, ao mesmo tempo, tolerante para com
    as opiniões e energico em cohibir excessos. Por isso o partido cartista
    podia contar com a victoria incruenta que na urna lhe havia de dar o
    paiz; victoria para os principios, e não desaggravo para as paixões
    irritadas. Que este resultado era seguro, provaram-no os factos. Vencido
    na guerra civil, desauctorisado e moralmente enfraquecido, o cartismo
    viu triumphar em grande parte as suas idéas na contextura da
    constituição de 1838, votada por umas constituintes onde os vencidos
    estavam representados por insignificante minoria. Era a condemnação
    solemne da revolução, lavrada por um parlamento eleito debaixo da
    influencia della. O que no novo codigo politico parecia mais opposto á
    indole da Carta era a organisação da segunda camara, e todavia o
    cartismo adquiria por aquelle meio uma arma poderosa para de futuro
    reformar constitucionalmente o que havia mau na recente organisação de
    um dos corpos colegislativos, de modo que nem se restaurasse o absurdo
    pariato hereditario e illimitado, nem a assembléa conservadora
    significasse apenas a interposição de uma parede entre duas porções de
    parlamento unico. Uma vez que o senado procedia simplesmente da eleição,
    logo que o cartismo obtivesse a preponderancia eleitoral, dominaria
    completamente em ambas as camaras. Dentro em dous annos, de feito, o
    predominio do cartismo era indubitavel.

    O ulterior procedimento deste partido estava estrictamente determinado
    pela sua origem e pelo seu passado. Como vimos, não era tanto a sua
    indole menos democratica, o seu apego á liberdade e aos direitos
    individuaes com preferencia a tudo, que o caracterisavam. Sans opiniões,
    erradas opiniões, havia-as tanto n'um como n'outro campo. O que
    constituia a essencia do cartismo era a lealdade ao juramento; a
    lealdade viril no cumprimento da palavra dada pelo homem honrado quando
    a dá no pleno uso do seu alvedrio. Os cartistas tinham feito tudo quanto
    materialmente podiam, mais do que moralmente deviam, para supprimir a
    revolução. Não o tinham conseguido, e ella fechara o periodo da sua
    duração, protestando na lei politica decretada pelas constituintes
    contra a propria origem, contra a sua razão de ser. A constituição de
    1838 era um campo neutro onde todos se podiam encontrar pacificamente e
    procurar, sem sair da legalidade, o predominio das respectivas opiniões.

    E o cartismo entrou naquelle campo. Quando o paiz viu os homens que tão
    tenazmente haviam mantido a fé que deviam ao seu juramento, jurarem
    solemnemente o novo pacto, acreditou que falavam verdade, e que o cyclo
    das revoluções terminara. Passados tempos, a urna provava aos cartistas,
    de modo indubitavel, que nas classes influentes, nas forças vivas da
    sociedade, a preponderancia era sua. No fim de tres annos podia-se dizer
    que o triumpho moral do cartismo estava consummado. O poder e o futuro
    pertenciam-lhe.

    Um facto inopinado veio então desbaratar todos os calculos, desmentir
    todas as previsões. Uma grande parte, ou antes a maioria desse partido,
    cuja essencia era a lealdade a solemnes promessas, e a execração das
    revoluções no seio de um paiz livre, hasteou subitamente a bandeira
    revolucionaria, substituindo ao motim da plebe o unico motim peior do
    que elle, o da soldadesca. Quebrando inutilmente o seu ultimo juramento,
    derribava a constituição do estado e proclamava o restabelecimento da
    Carta pura, que, sem os acontecimentos de 1836, os mesmos homens que a
    achavam agora um codigo perfeito teriam constitucionalmente modificado.
    É que á victoria dos principios faltava um laurel, o desaggravo do amor
    proprio offendido. O partido cartista suicidava-se juncto, ao altar da
    vaidade, e amortalhava-se a si proprio, morrendo, no estandarte da
    revolução.

    Depois houve muitos que continuaram a chamar-se cartistas, porque os
    vocabulos são propriedade dos homens, e a propriedade, conforme o velho
    direito, consiste na faculdade de usar e abusar. Era como os graus e
    veneras das ordens de cavallaria extinctas. Enfeitam, mas correspondem
    ao nada. Symbolos vãos sobre um sepulchro. Para a historia, como a
    historia ha-de ser quando de todo houverem calado as paixões dos que
    intervieram nessas tristes luctas, o cartismo tinha expirado com a
    restauração da Carta.

    [Nota de rodapé 1: Assim vi morrerem alguns soldados do 5.° de caçadores
    e voluntarios da Rainha no temerario reconhecimento de Vallongo, que
    precedeu a batalha de Ponte-Ferreira.]

    A VOZ DO PROPHETA

    PRIMEIRA SERIE

    Et irruet populus, vir ad virum, et
    unusquisque ad proximum suum:
    tumultuabitur puer contra senem et
    ignobilis contra nobilem.

    ISAIAS, III-5.

    I

    O Espirito de Deus passou pelo meu espirito, e disse-me: vai, e faze
    resoar nos ouvidos das turbas palavras de terror e de verdade.

    E eu obedecerei ao meu Deus no meio dos punhaes de assassinos.

    Povo!… breve soará a tua hora extrema: tu mesmo a assignalaste no
    decorrer dos tempos.

    O anjo exterminador vibra sobre ti a espada da assolação, e tu danças e
    folgas ebrio das tuas esperanças.

    Essa terra que pisas crês que é um solo remido por tuas mãos: repara
    porém; olha que é um sepulchro.

    Amplo é o sepulchro de um povo: dentro em breve tu ahi calarás para
    sempre.

    Creste-te forte, porque sabes rugir como a panthera: mas somente Deus é
    grande.

    Encheste o vaso das tuas iniquidades; elle trasbordou, e a terra ficou
    polluida.

    Maldictos os nomes dos que accenderam o volcão popular; nomes
    abominaveis perante o céu e a terra.

    Portugal foi pesado na balança da eterna justiça, e a Providencia
    retirou a mão de cima delle.

    Derribem-se os altares, cerrem-se as portas dos templos: Deus já não
    acceita os sacrificios, nem ouve as preces deste povo, senão como uma
    expressão de escarneo.

    E como o aquilão varre a folha secca do outono, o sopro do Senhor
    varrerá da face da terra esta raça corrompida e immoral.

    II

    O que tem ouvidos para ouvir ouça: o que tem olhos para ver veja: o que
    tem coração para se contristar, contriste-se.

    O povo tinha a liberdade e quiz a licença; tinha a justiça e quiz a
    iniquidade: o povo perecerá.

    Desgraçado daquelle que anda fóra dos caminhos do Senhor: correndo
    despelado por despenhadeiros, sentir-se-ha por fim baqueiar no fundo de
    um precipicio.

    Porque a lei e a virtude foram postas no mundo para proveito do homem,
    não para proveito de Deus.

    Quando uma nação quebra todos os laços sociaes, della será todo o damno.

    Para as turbas o cheiro do sangue é perfume suave; o roubo gloriosa
    conquista.

    E ellas se fartarão de sangue e de rapinas com a voluptuosidade atroz do
    anthropophago que se banqueteia com os membros semivivos do seu
    semelhante.

    Porque a plebe desenfreiada é como o phantasma do crime, como o espectro
    da morte, como o grito do exterminio.

    Horrível é o aspecto do empestado, que, entreabrindo o lençol que lhe
    servirá de mortalha, descobre as pustulas, donde mana a podridão e o
    cheiro da sanie, e que por entre os labios amarellos e os dentes
    cerrados deixa fugir o som rouco do estertor.

    Mas para o homem honesto, que contemplar uma scena das raivas da plebe e
    ouvir as suas blasphemias e vir as faces hediondas dos homens
    dissolutos, será como allivio a asquerosidade das chagas, o halito podre
    e o rouco estertor do empestado.

    III

    E o povo continúa a dançar em roda do seu mesmo sepulchro.

    E as outras nações meneiam a cabeça em signal de compaixão.

    Os tyrannos sorriem e dizem por escarneo aos homens virtuosos: ide, e
    dae a liberdade ás turbas: erguei á dignidade de homens livres servos
    devassos e educados no lodo: elles vos pagarão com a unica moeda que
    guardam em seus thesouros.

    A relé popular é chamada as fezes da sociedade, não porque é humilde,
    não porque é pobre, mas porque é vil e malvada.

    O sabio e o virtuoso indigentes são mais nobres do que os grandes da
    republica, do que os dominadores da terra.

    O ferrete da abjecção e da infamia estampa-se em qualquer fronte sem
    excepção de berço, e aos que trazem este signal de reprovação é que a
    philosophia chama escoria da sociedade.

    A medida por que Deus conta os graus dos meritos da vida é a da pureza
    de coração; é a do aperfeiçoamento da intelligencia.

    Os typos das diversas alturas a que sobe o espirito humano na carreira
    indefinita da perfeição formam como uma pyramide, cuja base assenta no
    fundo de um tremedal, cujo ápice se esconde no interior dos céus.

    Muitos nasceram no infimo da pyramide e subiram a grande altura: outros
    de grande altura desceram a mergulhar-se no lodo.

    E tanto a uns como a outros julgará a immutavel justiça de Deus.

    IV

    Os soldados da liberdade morreram nos combates da patria e misturaram o
    seu sangue com o sangue dos satellites da tyrannia: os seus ossos
    alvejam nas serras e nos valles, como alvejam as ossadas dos servos com
    quem combateram.

    Foi sasão essa de abundante messe de almas puras para o céu. Consolem as
    lagrymas dos justos as cinzas desses valentes.

    Eram apenas um punhado; a morte ceifou os mais delles; o resto já não
    tem força senão para pranteiar sobre as ruinas da patria.

    E o vidente pranteiará com elles, porque o Senhor lhe amostrou o futuro.

    Se os homens do desterro e das tempestades podessem levantar-se da sua
    jazida, a terra de antigas glorias ainda seria salva: mas elles dormem o
    perpetuo somno do repouso.

    E foi o ultimo leito honrado em que portugueses se reclinaram no seu dia
    extremo.

    Felizes os que então se despediram do sol e misturaram com a terra o pó
    que lhes emprestara a terra.

    Os dias dos que restamos não eram ainda contados; porque nossos erros
    pediam a punição do opprobrio.

    O Senhor nosso Deus é justo; curvemos a cabeça diante da sua
    Providencia.

    V

    Formosos eram os tempos em que pelejavamos pela liberdade do povo; tão
    formosos, quão negros estes em que a plebe peleja pela licença.

    As nossas armas vomitavam a morte: semeiava-a tambem o inimigo pelas
    nossas fileiras: e nós estavamos firmes nos pincaros das montanhas, ou,
    descendo, faziamo-las resoar debaixo de nossos pés.

    E arrojando-nos aos contrarios, as bayonetas reluziam á luz do sol; e o
    tinido dos ferros encontrados, e o clamor dos feridos, e o estampido dos
    tiros reboavam pelas quebradas dos valles.

    Quando a victoria, embora sanguinolenta, nos coroava a fronte, o
    triumpho era para nós um delirio; porque o combate fora de homens
    valentes.

    Na historia do soffrimento humano a mais bella pagina é a historia do
    nosso soffrimento. Nem a peste, nem a fome, nem a desesperação de todo o
    humano soccorro dobraram a robustez de corações ousados.

    Porque pelejavamos por uma causa justa, e Deus estava comnosco.

    Por serranias agrestes e aridas combatemos debaixo de sóes ardentes, e
    as entranhas mirravamse-nos de sede: tinhamos os labios resequidos como
    a urze já morta, e humedeciamo-los com as lagrymas da dor, e
    supportavamos a sede.

    Encostados a mal construídos vallos e cercados por quarenta mil
    soldados, vigiavamos pelas noites longas e tenebrosas do inverno. A
    chuva cahia-nos em torrentes da atmosphera densa sobre os membros
    mal-vestidos, e o oeste sibillava em nossas armas.

    Ou se as cataractas do céu se vedavam, o frio leste trazia-nos o seu
    sopro envolvido nas geadas dos montes penhascosos.

    Cruelissimas eram estas entre as noites crueis desse tempo; porque ao
    redor de nós tudo estava devastado, e não havia um unico tronco para
    alimentar a fogueira do arraial.

    E o frio recalcava a vida toda no coração do soldado; e elle sem um
    lamento soffria o rigor de noite dilatadissima.

    A fome apresentou-se diante de nós: medonho era o seu aspecto: os
    membros desfalleciam-nos e as armas por vezes nos cahiam das mãos.

    Mas o amor da patria estava vivo em todos os corações. A Providencia
    infundia-nos valor, e soffremos sem murmurar a fome.

    Gloria a Deus!–Os ultimos portugueses saíram illesos da prova. Os
    antigos cavalleiros os receberam como irmãos lá onde são com o Senhor.

    Bemaventurados os que deixaram esta terra de lagrymas, porque não viram
    que o seu sangue fôra derramado em vão.

    VI

    E depois dos combates íamos sepultar os mortos.

    No campo da batalha abria-se uma grande cova, e simultaneante se
    lançavam nella os cadaveres de amigos e de inimigos.

    Porque além do limiar do outro mundo calam todos os humanos odios.

    E o tecto de terra estendia-se sobre os muitos que ahi dormiam no mesmo
    jazigo.

    E algum pranto derramado sobre o pó revolto, e as preces da igreja
    proferidas pelo sacerdote consolavam os extinctos.

    Plantava-se a cruz sobre a gleba para consagrar a memoria dos mortos;
    para pedir a esmola da oração ao que passasse, e para lhe annunciar que
    todos os que alli repousavam eram irmãos por Jesu Christo; eram irmãos
    pelo sepulchro.

    Perdoavamos para sermos perdoados: perdoavamos porque eramos fortes.

    VII

    Alevantou-se a plebe, e logo commetteu um crime.

    Agitava-se e ondeiava pelas ruas com clamor inintelligivel; arrastava-a
    o espirito das turbulencias civis.

    Um homem inerme passou por entre os amotinados: era um dos votados ao
    exterminio: muitos tiros e golpes partiram do meio da turba, e o homem
    cahiu exangue e sem vida.

    E arrastaram até o cemiterio publico, ao som de injurias e risadas,
    esses restos que a morte sanctificara. As maldicções do odio mais
    profundo param á beira do tumulo. A maldicção popular, essa é que não
    parou ahi.

    Soterraram por meio corpo o cadaver e cuspiram naquellas faces lividas
    aonde já não podia subir do coração o rubor, e que os olhos cerrados não
    podiam já mundificar com lagrymas.

    E esse homem assassinado e arrastado e cuberto da escuma fetida da
    gentalha, fora um dos que salvaram o povo do cutello dos tyrannos.

    Plebe: commetteste um assassinio, e serás julgada. A ferro morrerá o que
    ferir com ferro: disse-o o Propheta do Golgotha.

    Deixaste acaso a face da tua victima descuberta para monumento do crime?

    Quizeste porventura desafiar a eterna justiça, e convocar a combate o
    Regedor dos mundos?

    Se na tua maldade e soberba assim o pensaste, sabe que baldada foi a
    profanação da sepultura.

    Se nos confins da terra sumisses o morto; se o escondesses nos abysmos
    do oceano; se o arrojasses na cratera de um volcão encendido, lá Deus o
    havia de divisar.

    Porque todo o gemido do moribundo resoa até o throno do Eterno.

    Preparae-vos, vermes, se tanto ousaes: porque o Senhor se erguerá sobre
    os orbes, e o estridor da setta exterminadora sibillará atravez do
    Universo: ella se cravará na terra que pisaes e passareis como o fumo.

    Ai daquelle que, impenitente, acordar ao som da ultima trombeta tincto
    no sangue injustamente derramado de algum de seus irmãos!

    Em verdade vos digo que para esse já não ha perdão, mas só o ranger de
    dentes e o bramir sempiterno.

    VIII

    Povo! Onde estão os teus sabios, os teus generaes, os teus nobres, os
    teus abastados, os teus homens virtuosos!

    Os timidos escondem-se diante da tua sanha: os valentes, não podendo
    combater com as turbas, erram no oceano á mercê das tempestades.

    E é a segunda vez que se affrontam com ellas por amor da liberdade e da
    lei.

    Deus proverá os foragidos, como provê de sustento os animaes que
    vagueiam na terra e as aves que cruzam os ares.

    E os timidos que, ouvindo o rugido da plebe, se embrenham por antros de
    serranias, por profundezas de bosques, confiem tambem no Senhor.

    Porque delle vem a salvação para os bons no dia da cólera e do castigo.

    Que os perseguidos se consolem lembrando-se dos proprios erros, porque
    ninguem se isenta da culpa, e antes remi-la neste valle do desterro, do
    que além da sepultura.

    O que padece não deve queixar-se, nem rebellar-se contra a Providencia:
    porque essa queixa inspira-a a soberba.

    Que é um homem em comparação de uma cidade; uma cidade em comparação de
    um povo: um povo em comparação do genero humano; o genero humano em
    comparação do Universo?

    E que intelligencia é capaz de medir a distancia que vai do primeiro ao
    ultimo?

    Milhões de milhões de vezes menos importa a existencia de um individuo
    na somma das existencias, do que na pyramide de Cheops o mais miudo grão
    de argamassa importa á solidez do monumento.

    Emquanto vive na terra, o homem é um atomo na immensidade: grande será
    depois da morte no reino do céu; grande ainda entre os bramidos do
    inferno.

    Porque para elle existe a eternidade só então: só então comprehende a
    omnipotencia de Deus.

    IX

    Cinco annos em nome do Evangelho uma parte do povo perseguiu seus
    irmãos, e cobriu-os de opprobrio.

    Em nome do Evangelho pregoou-se o odio, a vingança, e o perjurio: em
    nome do Crucificado pregoou-se o incendio, o roubo, o sangue e o
    exterminio.

    Mas o dia da punição chegou, porque as lagrymas da innocencia orvalharam
    o seio de Deus.

    Elle estendeu o seu braço, suscitou os ousados, e conduziu-os de milagre
    em milagre. Então os impios dobraram a cerviz altiva.

    As nossas victorias foram de homens fortes; mas a robustez de animo
    vinha-nos daquelle que é fonte e origem de toda a humana virtude.

    Vestia-se então a maldade dos trajos puros da religião para perpetrar
    impunemente crimes: hoje abriga-se á sombra da arvore sancta da
    liberdade para assolar a terra da nossa infancia.

    Ai dos maus, porque os olhos do Todo-poderoso lhes vêem nus os corações
    em toda a hediondez da sua perversidade!

    A justiça celeste nunca dorme, como na alma do criminoso nunca se cala o
    remorso.

    E a hora da tribulação e das angustias chegará para os malvados; e elles
    amaldicçoarão o ventre materno e os peitos que os amamentaram.

    X

    Povo! os que hoje saudas como numes, ámanhã fa-los-has em pedaços, e
    arrastarás pelas ruas os seus cadaveres cobertos de feridas e pisaduras.

    Porque, bem que tarde, conhecerás que elles te hão enganado.

    Prometteram-te abundancia, e achar-te-has faminto; prometteram-te
    liberdade, e achar-te-has servo.

    A licença mata a liberdade; porque se livremente opprimes, livremente
    podes ser oppresso; se o assassinio é teu direito, direito será para os
    outros assassinar-te.

    Se a força, e não a moral, é a lei popular, quando os tyrannos tiverem
    mais força, legitimamente podem pôr no collo do povo um jugo de ferro.

    Ministros da tyrannia são os que suscitaram a lucta das facções, os que
    deram o primeiro grito da revolta, os que accenderam a guerra civil;

    Porque a nação se dilacerará, e enfraquecida passará das mãos da plebe
    para as mãos d'algum despota que a devore.

    Lembrae-vos da Serpente, que enganou nossos primeiros paes: foi com
    palavras sonoras, com promessas de gloria e de ventura que ella perdeu a
    ambos.

    Dado que para vós não houvesse liberdade e elles vo-la offerecessem á
    custa de perpetuo damno, devieis tê-los por vossos destruidores.

    Porque a liberdade não é tanto um fim como um meio: quer-se a liberdade
    não tanto para as nações serem livres, como para serem felizes.

    Que importa o respeito de propriedade ao que nada possue? Que vale a
    liberdade da palavra para o que só tem de proferir maldicções e
    queixumes? Que monta que os vossos pares vos julguem, se o odio das
    facções nos fez inimigos uns dos outros?

    Sem concordia, inevitavel é que o edifício social desabe: e porventura
    nascerá a concordia do meio das sedições?

    XI

    Se no coração de algum dos concitadores da anarchia existe vislumbre de
    virtude, ai delle! Ai delle, se a sua alma é inteiramente negra!

    Porque de qualquer dos modos um abysmo está cavado debaixo de seus pés:
    na estrada do arrependimento o da vingança popular, no seguimento do
    crime o da justiça de Deus.

    Elles revelaram á multidão o segredo da sua força, e as turbas os
    levarão diante de si.

    O leão ruge livre na arena, e o conductor que o desatrellou cumpre que
    mais ligeiro lhe preceda na carreira, aliás será o primeiro que elle
    desfaça entre as garras.

    Aquelles que hoje são o amor das turbas serão chamados por ellas para
    presidirem a conselhos de sangue, a longos dramas de destruição e de
    angustias.

    E se a consciencia lhes clamar com a voz do remorso, e se tremulos
    quizerem retroceder, a plebe lhes dirá–ávante!

    E se ousarem implorar piedade para com as victimas do desenfreiamento e
    da barbaridade, rir-se-ha a plebe, e gritar-lhes-ha–ávante!

    E se, aterrados da altura do precipicio, voltarem atrás um passo, este
    passo será o extremo: a plebe os anniquilará.

    Elles encheram o calice das amarguras publicas: os justos o beberão aos
    tragos; mas as fezes serão para os escanções do banquete popular.

    A salvação unica do instigador de revoltas e uniões está em admittir
    todas as consequencias dellas.

    E então forçoso lhe é tornar-se conspicuo no crime e revolver-se no
    sangue.

    Mas qual será a eternidade de tal homem?

    Deus não deu palavras ás línguas da terra para o dizerem. É esse um dos
    mysterios do inferno.

    XII

    Temo as horas caladas da noite, e o coração aperta-se quando o somno me
    pesa sobre as palpebras amortecidas:

    Porque para mim o somno não é repouso, e os phantasmas das sombras são
    mais crueis do que as crueis realidades do dia.

    Deus converteu a sua voz no meu pensamento e collocou nos meus labios o
    grito da sua colera.

    O seu verbo desfará a minha alma, como o ar aquecido dilatando-se dentro
    do vaso o desfaz em fragmentos.

    O espanto cerca-me no meio das trevas, e o futuro está parado diante de
    mim como um pesadello eterno.

    Em um momento reune o Senhor na minha alma as dores com que por largos
    dias gemerá esta desventurada patria.

    E, em sonhos, oro ao Deus de nossos paes; mas na sua ira o Altissimo
    repelle as minhas preces; e acordo debulhado em lagrymas.

    Este acordar arremessa-me á vida actual, a esta atmosphera de
    depravação, ao meio do deshonesto tumultuar de um povo corrompido.

    E a oração, que em sonhos ousara levantar a Deus, cahe gelada na terra
    ao som das pragas e blasphemias da turba desenfreiada.

    XIII

    Eu vi uma visão do futuro, e o Senhor me disse: vai e revela-a na terra.

    Como em panorama immenso, um reino inteiro estava diante dos meus olhos.

    E nas duas cidades mais populosas delle homens de má catadura começavam
    de agglomerar-se nas praças e a trasbordar pelas ruas.

    E nos campos e nas aldeias outros homens com aspecto de reprobos
    começavam tambem a apinhar-se nos passos das serras, nas assomadas das
    montanhas e nas clareiras das florestas.

    E tanto nas faces dos filhos dos campos, como nas dos habitadores das
    cidades adivinhava-se o grito de exterminio que bramia no fundo dos
    corações.

    Os magotes de serranos fundiram-se n'uma só turma; e o mesmo succedeu
    aos das cidades.

    E cada uma das turmas se converteu em uma besta-féra, que se assemelhava
    ao tigre.

    Agigantada era a sua estatura, e na fronte de uma lia-se–Fanatismo–e
    na da outra–Desenfreiamento.–

    Com os olhos tinctos em fel e sangue, correram então os dous monstros um
    para o outro, ergueram-se em pé e estenderam as garras.

    No mesmo instante abriram-se os céus: dous grandes cutelos afiados e
    dous fachos encendidos cahiram juncto das alimarias ferozes.

    E nas laminas dos cutelos estavam escriptas com letras de fogo as
    palavras seguintes–Maldicção de Deus.

    E cada uma das alimarias segurou com a esquerda um dos fachos, e com a
    direita um dos cutelos.

    A das cidades arrojou o seu facho sobre os campos, e os campos ficaram
    em um momento áridos e ermos.

    E a outra sacudiu o seu sobre as duas cidades, e subito no logar onde
    ellas foram estavam dous montões de ruínas.

    Depois, combatendo por largo tempo e atassalhadas de golpes, cahiram e
    renderam os espiritos.

    Então as lagrymas me offuscaram os olhos; porque bem entendia o que
    significava a visão.

    Mas enxugando-os, tornei a lançá-los para o logar da peleja.

    E vi uma solidão safara e negra, sobre a qual a perder de vista para
    todos os lados alvejavam milhares de ossadas.

    E em cima dellas estavam assentados dous espectros gigantes. Chamavam-se
    Assolação e Silencio.

    XIV

    Era uma noite serena, e, ao clarão da lua, a sombra de templo antigo
    estirava-se no terreiro contiguo.

    Os sinos dormiam nos campanarios das torres erguidas, e tudo estava
    calado no ambito do monumento religioso, herdado aos homens impios deste
    seculo pelos homens crentes dos tempos que foram.

    Atravez das esguias e ponte-agudas janellas da igreja transverberava na
    praça a luz amortecida das alampadas penduradas ante as capellas
    desertas.

    Era a hora em que se passam cousas mysteriosas por adros e cemiterios, e
    em que vagueiam pela terra os mortos condemnados a assim cumprirem com
    sua justiça.

    N'um angulo do terreiro estava eu. Não sabía que mão me tinha para alli
    arrastado; mas era a mão de Deus.

    Ao longo de uma rua que naquelle logar desembocava vinha ondeiando um
    turbilhão negro, cujo rugido era semelhante ao rugido do pinhal da
    montanha em noite tempestuosa.

    E parecia aquelle grande vulto um fragmento do cahos, a quem, de todos
    os elementos de harmonia e de ordem, só o Creador concedera o movimento.

    E chegou o tumulto diante da igreja e espraiou-se por toda a praça, e
    houve profundo silencio.

    E um homem alevantou a voz no meio do tropel, que pendia de seus labios,
    e disse:

    «Vós sacudistes o jugo dos poderosos, e o nome de rei e o titulo de
    nobre são palavras sem significação na linguagem de nação regenerada.

    O povo que jazia no lodaçal alevantou-se como gigante de prodigiosa
    altura, e estendendo os braços, estreitou os palacios dos abastados e
    dos potentados: os pannos dos muros vacillaram nos seus fundamentos de
    marmore e de granito, e começaram de desmoronar-se e baqueiaram por
    terra.

    E o gigante popular riu-se e assentou-se em cima de montões de ruinas.
    Foi este dia dia de sempiterna gloria.

    Mas os monumentos da credulidade e do fanatismo de nossos paes ainda
    assoberbam a cidade dos homens livres. A hypocrisia abriga-se á sombra
    dos altares e invoca, talvez contra nós, um Deus que não existe.

    O unico Deus de corações generosos é a liberdade. Quando cumpre, o altar
    della é o cadafalso: o seu sacerdote o algoz: o seu culto verter o
    sangue dos tyrannos.

    A religião que tem por fundamento a humildade e a abnegação de si é a
    religião dos servos.

    É por isso que nossos paes foram servos.

    Amaldicçoemos, pois, o nome dos que nos geraram e derribemos a obra da
    superstição.

    E cada um daquelles precítos amaldicçoou seu pae. Os cabellos
    erriçaram-se-me de horror.

    Então a turba arrojou-se ao portal do templo, e os largos ferros dos
    machados scintillavam erguidos e faziam estourar as portas. Pelas naves
    da igreja retumbava um gemido longo e sonoro.

    E o terreiro ficou esgotado dessas ondas de povo, vertidas pelo ádito da
    velha cathedral dentro de seu amplo recincto.

    Como os vermes se arrastam vagueiando pelos membros do cadaver, assim os
    homens do sacrilegio se espalharam, arremessando-se aos altares e a
    todos os logares onde reluzia a prata ou o ouro.

    E cuspindo sobre a hostia do Cordeiro, pisavam-na aos pés e motejavam do
    Crucificado.

    E despido o templo das riquezas alli depositadas em testemunho da
    piedade de seculos, os impios saíram delle carregados de despojos.

    Depois, accendendo fachos, lançaram-lhe fogo por todos os angulos, e
    breve as chammas se ergueram ao céu com espantoso ruido.

    O estalido das pedras que se desconjunctavam, e o fragor das abobadas
    desabando, e o estridor do incendio, que trepava em espiraes pelas
    columnas e se estendia em lençoes vermelhos, lambendo a face dos muros,
    e o ultimo gemido dos orgãos era a orchestra deste sarau popular.

    E a plebe folgava de roda, e embriagava-se, passando de mão em mão as
    taças do vinho espumoso, e tecendo danças com as mais vis prostitutas.

    Tal foi o sonho do futuro que o Senhor me enviou n'uma noite de agonia.

    XV

    O anjo das predicções mudou então na minha alma a scena do porvir.

    Á mesma hora, á mesma luz da lua, estava eu no logar onde vira o povo
    quebrar as portas do sanctuario; onde vira os homens dissolutos transpor
    a ultima barreira que os separava dos tigres, e lançar de si o ultimo
    signal que os distinguia dos espiritos das trevas.

    Dos fustes truncados das columnas do templo pendiam hervas bravias, e
    nos muros semi-rotos enlaçava-se a héra.

    Nos campanarios afumados pelo incendio haviam as aves nocturnas
    construído os seus ninhos: ao cahir das trevas, em vez dos sons
    religiosos dos sinos, despenhavam-se lá dos cimos das torres os pios
    melancholicos da poupa solitaria.

    E no meio do terreiro surgia o que quer que era negro e que não se
    assemelhava a nenhuma obra da natureza, a nenhuma obra das mãos do homem
    feita para o uso da vida.

    Approximei-me. Era o patibulo.

    Um vulto humano pendia do alto delle e volteiava para um e outro lado á
    mercê da brisa da noite.

    E tinha as faces disformes e os olhos espantados, e da bôca meia aberta
    gotejava-lhe a espaços o sangue.

    Eu estava com os olhos cravados nelle, e não os podia despregar do homem
    do patibulo.

    E involuntariamente cahi de joelhos: as preces pelo morto íam-me a
    romper dos labios. Sentia ardente a fronte e batia-me o pulso rapido e
    com força.

    Á primeira palavra de oração que proferi, um estremeção agitou o cadaver
    do justiçado.

    E sem mecher os beiços murmurou sons inarticulados: depois proferiu
    algumas palavras: a sua voz era a de um ventriloquo.

    Cala-te!–disse o cadaver.–A eternidade é já minha. Deus riscou-me do
    livro da vida: maldicto seja o seu nome!

    Fartei-me de crimes na terra: por isso fui condemnado.

    A minha existencia foi como um halito de pulmoens ralados: a minha voz
    nunca ensinou senão a destruição.

    Hypocrita da liberdade, pregoei a anarchia e a licença, como os
    hypocritas da religião pregoam a intolerancia e o exterminio.

    Fui eu o que nas trevas preparei a discordia dos homens livres; que
    suscitei o primeiro dia de furor popular.

    Colloquei em frente dos amotinados alguns mancebos, em cujo seio havia
    fragmentos de virtude, mas cuja ambição era cega.

    Porque bem sabia eu que a plebe immoral anniquilaria todos os que não
    fossem tão dissolutos como ella.

    Deixei na arena dos bandos civis todos os meus émulos, e abandonei o
    paiz que de futuro devia ser minha prêa.

    Quando voltei, o povo tinha feito pedaços os seus idolos de um dia, e
    havia-os sumido debaixo dos pés das turbas.

    Era então que começava o meu imperio. Ai dos que eu tinha arrolado no
    livro da morte! Nenhum ficou sobre a terra.

    Milhares deixaram a cabeça debaixo do cutelo do algoz: milhares
    volteiaram no cadafalso por noites de luar, como agora eu volteio.

    E este baraço que ora me sobreleva do chão ainda o achei aquecido do
    collo da minha ultima victima.

    Fartei a sede de vingança e de sangue que mirrava o meu coração, e morri
    seguro de que deixava atraz de mim a campa cerrada em cima de todos os
    virtuosos.

    O tyranno do céu folgue embora em me ver no inferno: ao menos pude
    apagar o seu nome na terra que me deu o berço.

    Um brado meu desmoronou os templos: o sacerdocio desappareceu; a oração
    calou para todo o sempre.

    Agora tambem eu passei; porque na senda do crime o povo com uma passada
    vence o caminho de um seculo, e eu era apenas um homem.

    Os que empolgaram o poder, que me foi arrancado, não os tinha ainda
    conhecido, porque se arrastavam hontem em regiões obscuras; aliás
    ter-me-hiam precedido em descer aos abysmos.

    Aqui, dando um longo gemido, o suppliciado calou; os olhos
    fecharam-se-lhe, e a cabeça pendeu-lhe para o peito.

    Emquanto falara, bem conheci quem era; mas o Senhor me ordenou não
    revelasse o seu nome.

    XVI

    O anjo das predicções mudou o espirito dos meus sonhos.

    Era por noite fria de inverno: n'uma quadra desadornada de palacio meio
    arruinado jazia um homem em pobrissima enxerga.

    No seu rosto estava pintada a doença e a fome, as bagas do suor da morte
    transudavam-lhe da fronte, e dos olhos fugia-lhe a lagryma extrema do
    moribundo.

    Os farrapos que vestia não o resguardavam do frio; e o homem tremia, e
    os dentes batiam-lhe uns contra os outros.

    E no seu delirio o misero soltava palavras cortadas.–Agua!
    agua!–dizia; porque a sede lhe roía as entranhas. E não havia quem lhe
    desse um pucaro de agua.

    Tribunos da plebe, dae-me um pouco de pão. Ah! bem negro que seja! que
    tambem eu sou do povo.–E lançava os olhos para os seus farrapos.

    Fui nobre e rico; mas esquecei-vos disso! Perdoae-me, porque nada me
    resta: tão pobre sou como o mais humilde mendigo, que d'antes estendia a
    mão para o ultimo dos meus servos.

    E o homem sorria, e o seu riso significava a desesperação da sua alma.

    Depois olhou para um crucifixo que estava encostado á parede, e estendeu
    para lá os braços.

    Mas não havia quem lhe unisse ao peito a imagem do Salvador: não havia
    um sacerdote que lhe desse o extremo _vale_.

    Então deixou descahir os braços, fechou os olhos, e morreu. Sobre o
    cadaver ir-lhe-ha amontoando o tempo as ruinas dos paços que lhe
    herdaram seus paes.

    E será esta a campa republicana do homem que foi nobre e abastado.

    XVII

    O anjo das predicções mudou o espirito dos meus sonhos.

    Era o dia da lucta das facções: era um dia de ampla carnificina.

    E o demonio do meio-dia pairava sobre a cidade do sangue, e blasphemava
    do Senhor.

    O povo corria furioso e tumultuava; e os tiros e golpes soavam pelas
    praças, pelas ruas e pelas encruzilhadas.

    O gemer dos feridos, as pragas dos vencidos, e as ameaças dos vencedores
    conglobavam-se em rumor semelhante ao arquejar de volcão.

    As portas dos edificios estouravam pelos gonzos e fechaduras, e a plebe
    clamorosa entrava de tropel até o mais recondito das habitações.

    E o ulular das mulheres, e o vagido dos infantes e o chôro dos velhos
    rompiam por entre o clamor da matança.

    Mas a lascivia e o punhal breve punham o sello do silencio nas frontes
    de inteiras famílias.

    No recontro das diversas parcialidades os irmãos assassinavam os irmãos,
    os filhos assassinavam os paes.

    Porque á voz das sedições, o povo tinha quebrado, depois dos laços
    sociaes, os vinculos da natureza.

    E o roubo, a dissolução, a morte e o incendio estavam assentados nos
    quatro angulos de uma cidade outrora populosa e rica.

    Estas eram as divindades que adorava a plebe nos dias da licença e do
    furor.

    XVIII

    O anjo das predicções mudou o espirito dos meus sonhos.

    Nas abas de uma serra das provincias do norte ainda as casinhas de
    pequena aldeia alvejavam certa manhã ao despontar o sol.

    E nas assomadas dos montes, e nos comoros dos outeiros ondeiavam os
    cimos dos pinhaes agitados pela viração matutina.

    A aldeia e os campos que a rodeiavam eram, no meio deste paiz assolado,
    como o vulto da esperança erguido sobre a lousa do sepulchro.

    E os habitantes pacificos do valle não sabiam que as tempestades
    politicas trovejavam além das suas montanhas.

    Mas nesse dia souberam-no para morrerem. O raio da furia popular
    fulminou-lhes a destruição.

    Bandos de soldados negrejavam em ondas descendo para a planicie; e os
    primeiros raios do sol espelhavam-se nas suas armas.

    E seguiu-se mais uma scena de carnificina, como tantas que eu tinha
    visto em meus sonhos do futuro. O ultimo abrigo da felicidade neste
    mal-aventurado paiz foi reduzido a cinzas.

    Os velhos morriam abraçados aos troncos dos carvalhos e castanheiros,
    seus veneraveis amigos da infancia, que tinham testemunhado a ventura de
    seis gerações inteiras.

    Os moços cahiam combatendo pela salvação dos paes, das esposas e dos
    filhos; mas, inexpertos nas armas, levemente eram vencidos da soldadesca
    feroz.

    Na ermida do presbyterio buscaram as mulheres indefensas guarida contra
    os assassinos; porque as desgraçadas não sabiam que a religião tinha
    fugido desta terra dos crimes.

    Alli, ante o altar do Senhor, foram vilipendiadas e saciaram a bruteza
    dos filhos da dissolução.

    E no dia seguinte, nos soutos e nos pinhaes da encosta ouvia-se tão
    somente o murmurio das ramas; e no meio do valle fumegava um monte de
    cinzas.

    XIX

    O anjo das predicções mudou o espirito dos meus sonhos.

    N'uma vasta sala estavam congregados muitos homens de aspecto feroz e em
    cujos olhos faiscavam as coleras immensas dos bandos civis.

    Chamavam-se estes homens os legisladores, os eleitos do povo.

    Vans denominações eram essas: a lei residia na vontade mudavel da plebe;
    e elles eram em grande parte mandados para aquelle recincto pela
    parcialidade que então triumphava.

    De roda, em balcoens erguidos, agitava-se a plebe tumultuosa.

    Alli se lavravam os decretos de exterminio: e era, ouvindo-os, que as
    turbas victoriavam os homens do sangue.

    Mas, se aos labios de algum assomava uma palavra de humanidade, e se
    ousava proferi-la inteira, os gritos de traição e de morte
    recalcavam-lhe das faces para o coração esse impensado impeto de
    piedade.

    Neste dia pelejavam as parcialidades nas ruas para decidir quem tinha
    direito de commetter mais crimes: era dia de abundante colheita para o
    sepulchro e para o inferno.

    Mas ao recincto, outrora chamado o sanctuario das leis, não chegava o
    clamor do combate: porque ahi a discordia excitava alaridos e, sacudindo
    o seu facho, encendia os animos de uns contra outros, Luctavam tambem as
    parcialidades lá dentro.

    Na praça publica a victoria convertia a final o que naquella assembléa
    se chamava minoria facciosa em irresistivel maioria. A plebe soberana
    annunciou-o aos legisladores, fazendo estourar a golpes de machado as
    portas da immensa quadra, onde o vozeiar não era de ardentes debates,
    mas sim de pugilato infrene. A turba-rei precipitou-se como torrente: o
    tumulto ondeiou pela sala espaçosa, e houve um momento de ancia e de
    silencio.

    Então os punhaes reluziram erguidos e desceram com força; e os gritos e
    as pragas e as blasphemias misturaram-se com o estertor dos moribundos.

    E a plebe nos balcoens batia as palmas, e dizia entre risadas:–_viva!_

    Tal foi a ultima scena de meus sonhos; e nada mais me revelou o Senhor.

    XX

    O Filho do Homem comprazia-se em ensinar a sabedoria por meio de
    parabolas: na parabola está a philosophia do povo.

    Um agricultor possuia certo campo que não produzia senão fructos
    enfezados; porque o solo se havia tornado sáfaro por falta de cultura
    durante largos annos.

    Porém ainda, aqui e acolá, pela extensão da veiga, vecejavam algumas
    arvores e cepas de boas castas, e que só de maltractadas pareciam
    bravias.

    E este agricultor morreu, deixando o campo de seus paes a tres filhos
    que tinha; e estes tractaram entre si ácerca do que deviam fazer da
    herança paterna.

    E o mais velho disse:–Respeitemos a memoria de nossos antepassados, e
    deixemos aos que de nós vierem o campo que herdámos do mesmo modo que o
    recebemos:

    Porque se não diga que menoscabamos a prudencia dos velhos e que
    pretendemos ser mais avisados do que foi nosso pae.

    Elle viveu, posto que pobre, tranquillo: vívamos como elle viveu.

    E disse o segundo-genito:–Veneranda é a memoria dos que nos geraram:
    comtudo tambem se deve acatar a razão, que nos foi dada por Deus.

    Conservemos todas as obras do tempo passado; mas melhoremos tudo o que
    nellas houver ruim.

    Ahi estão arvores uteis no meio da nossa herdade: não as derribemos,
    porque o fazê-lo, além de impiedade, fora rematada loucura.

    Porém roteemos os bréjos e sarçaes, adubemos a terra, e procuremos fazer
    novos plantios adequados á qualidade do solo.

    E disse o irmão mais novo:–Que nos importa os que passaram, ou que
    temos nós com o que elles fizeram?

    Nossos paes viveram nas trevas da ignorancia; e por isso todas as suas
    obras são loucura e vaidade.

    A luz e a sciencia só veio ao mundo em nossos dias, e só a propria
    sabedoria póde fazer-nos felizes.

    Comecemos pois por arrancar deste agro todos os vestigios de antiga
    cultivação: não verdeça nelle nem uma unica planta.

    E depois buscaremos arvores extranhas de fructos saborosos e sementes
    uteis, e a nossa herdade causará inveja a todos os vizinhos.

    Cada um dos irmãos estava firme em seu proposito, e os servos e os
    familiares bandeiaram-se em tres partidos.

    E luctaram uns com os outros, e triumphou a opinião do mais velho.

    E o campo mal cultivado, cada vez produzia menos, e a fome veio
    assentar-se no limiar da porta dos tres irmãos.

    O que vendo o segundo-genito, disse aos do seu bando:

    Força é que tiremos o poder das mãos dos que nos governam, aliás
    morreremos todos á pura mingua.

    E assim o fizeram; e, posto que a lucta fosse longa e encarniçada,
    venceram; porque a razão estava da sua parte, e Deus os abençoava.

    Então começaram a trabalhar: alimparam as arvores dos ramos seccos e
    exuberantes; adubaram os campos e prados, e arrancaram as moutas e as
    plantas nocivas.

    E lançaram boas sementes á terra, e quando a seara foi crescendo,
    começaram de mondar-lhe o joio e as outras hervas damninhas.

    Promettia naquelle anno ser excellente a colheita, e no coração dos
    familiares renascia já a esperança.

    Mas o irmão mais novo, possuido do espirito de destruição, colligou-se
    com os criados devassos e que aborreciam o trabalho continuo a que eram
    forçados.

    E fizeram uma união contra o segundo-genito e tiraram-lhe o mando,
    valendo-se de muitos clientes do primogenito, os quaes, por via da
    dissensão entre os dous mais novos, esperavam triumphasse o mais velho.

    Lançaram-se então ao campo, destruiram a sementeira, cortaram as
    arvores, e passaram a charrua por cima dos campos arrelvados.

    E buscaram sementes exquisitas e arvores exoticas, e atiraram á terra
    desalinhadamente com tudo isso, e depois adormeceram.

    As arvores, porém, seccaram logo, e as sementes, apenas rebentaram,
    morreram; porque os imprudentes não haviam estudado nem a natureza do
    clima, nem as propriedades do solo, nem as regras de agricultar.

    E a familia inteira no fim do anno tinha perecido de fome.

    XXI

    Na terra de Cethim houve um rei que era bom e cheio de liberalidade e
    valor.

    E cançado de reinar, disse em certo dia a seu filho, que ainda era muito
    moço:

    Pesam-me já demais a coroa e o sceptro, e os esplendores do throno não
    me deslumbram. Vem, e assenta-te nelle.

    E o filho obedeceu, e começou de reger os povos por certas leis
    estabelecidas por seu pae, o qual foi viver em regiões longínquas.

    Mas um tyranno alevantou-se com o reino, e o moço principe errou largo
    tempo por extranhos paizes com os poucos seguidores de sua má ventura.

    E o bom rei que descera do throno correu a restituir ao filho a herança
    que lhe legara.

    E a sua espada foi como a de Gedeão; o seu braço come o dos Machabeus.

    Então o principe desterrado voltou á patria, reassumiu o sceptro que lhe
    fora roubado, e a lei e a justiça recobraram o antigo vigor.

    Depois o rei virtuoso morreu de puras fadigas, e foi dormir com seus
    paes: sobre a sua memoria desceram não só as bençãos dos seus soldados,
    mas tambem as de todos os amigos da justiça e da paz.

    Nas trevas, porém, homens corrompidos começavam a tramar dissensões
    civis; porque pretendiam que os bons soffressem, depois da tyrannia de
    um unico mau, a tyrannia de muitos homens ruins.

    E estes mysterios da corrupção vieram a lume, e a plebe disse um dia ao
    principe e aos cidadãos pacificos:–A força está em nós, e a força é o
    direito: obedecei-nos pois, aliás um descerá do throno, outros serão
    reduzidos a pó.

    E tudo calou diante da plebe; porque era verdade que ella tinha a força.

    Os nobres, os prudentes, e os homens bons cubriram-se de dó, e no gesto
    lia-se-lhes a amargura do coração.

    Mas o moço rei a quem os turbulentos fingiam acatar, porque descera até
    elles, mostrou-se contente do seu damno, e engolfou-se nas delicias de
    que o rodeiaram os algozes da patria.

    Foi então que se apagou em todos os animos honestos o ultimo raio de
    esperança.

    XXII

    Havia naquelle tempo em Cethim um propheta, em cuja boca posera Deus o
    verbo da eterna verdade.

    E este propheta entrou um dia nos paços do principe e disse-lhe:

    Mancebo inconsiderado, emquanto folgas e ris, vai desconjunctar-se
    debaixo de teus pés o throno que te herdaram teus paes.

    Lembra-te de que subiste a elle por cima das ossadas de vinte mil dos
    teus amigos, regadas pelas lagrymas de cem mil familias.

    E não te esqueças de que entre esses ossos jaziam os de teu pae: não
    maldigas com tuas obras a sua memoria; porque elle foi justificado
    diante do Senhor.

    Crês tu que os homens do nada te perdoarão o teres nascido do sangue dos
    reis? Enganas-te! Crime para elles é este que nunca te será relevado.

    O sorriso que na tua presença lhes aclara o torvo das faces, não o
    creias de amor: repara, e verás que é o riso infernal do desprezo.

    Os filhos da abjecção queriam igualar-se comtigo; não, sendo elles quem
    subisse, mas sendo tu quem descesse.

    As taboas da lei foram feitas pedaços; se o vê-las partidas te apraz ou
    disso não curas, antes de o patenteiar cumpria-te restituir-nos as vidas
    e o sangue de nossos irmãos.

    Este paiz soffreu tudo por guardar o pacto que jurou, e que também tu
    juraste: que direito é o teu para approvares que esse pacto seja
    rasgado? Porque não padecerias alguma cousa a bem dos que tanto
    padeceram por ti?

    Crês, porventura, que é bello e generoso assentares-te em um throno que
    a relé do povo conspurcou de lodo e de infamia?

    A plebe era forte: embora. Mais forte era o tyranno de outrora, e
    baqueiou por terra.

    Devias deixar aos maus a consummação do seu crime e não o sanctificares
    tu.

    Devias confiar na Providencia, e arrojar de ti o manto de ignominia que
    sobre os hombros te lançavam.

    Devias conservar sem mancha o teu nome, porque está ligado ao do que te
    deu o ser, e este será glorioso até o termo dos séculos.

    Nós iremos ajoelhar juncto ao sepulchro de teu pae, e ás cinzas do rei
    virtuoso pediremos a justiça que não encontramos na face da terra.

    Oh, que se fosse possivel alevantar-se elle em pé sobre a campa, um seu
    olhar te encheria de remorsos; um brado seu fulminaria os perversos!

    Taes foram as palavras que o propheta de Cethim disse ao principe
    mancebo: o que depois aconteceu não o sei eu narrar.

    E este é um fragmento da historia de eras que passaram ha muito.

    XXIII

    A justiça de Deus é grande: maior a sua misericordia.

    Para o que se arrepende mana do seio do Senhor fonte perenne de perdão,
    e as preces do contrito sobem ligeiras até os degraus de seu throno.
    Depois dos dias de afflicção, elle envia o consolo e quebra em pedaços o
    vaso da sua colera.

    Povo, que vagueias desenfreiado pelas sendas da morte, converte-te á
    vida, converte-te ao Deus de teus paes.

    Elle não se esquecerá dos netos desses fortes que espalharam a luz do
    seu Verbo entre os mais remotos barbaros, e os teus erros serão
    esquecidos.

    Nossos avós souberam ser livres sem ser licenciosos; souberam ser
    grandes sem crimes: eterna é a sua gloria.

    Ousariamos nós irmos ajunctar-nos com elles no repouso do tumulo
    carregados das maldicções do Altissimo, e sepultando comnosco a herança
    do nome português cuberta da execração do universo?

    Lembrae-vos de que as cinzas dos cavalleiros de João primeiro; dos
    valentes de Ceuta, de Tangere e de Arzila, dos conquistadores do
    Oriente, estão envoltas na terra que pisaes.

    E onde quer que ponhaes os pés levantará o passado um grito de
    reprehensão contra a depravação do seculo actual.

    Formosa e pura é a luz do sol neste amoroso clima do occidente: não
    queiraes convertê-la no facho avermelhado e sinistro que fulgura por
    cavernas de salteadores e de assassinos.

    Unamo-nos, pois, como irmãos, e abraçando-nos uns com outros, cáiam
    algumas lagrymas de reconciliação sobre esta terra tão regada de
    lagrymas de amargura; tão ensopada no sangue do fratricidio.

    Refloreçamos entre nós a paz e a amizade: tenhamos um nome só, o de
    portugueses, um só bando, o da patria.

    Ainda algum dia estes rogos do propheta serão ouvidos: mas quando, é um
    segredo de Deus.

    A VOZ DO PROPHETA

    SEGUNDA SERIE

    Iniquitas surrexit in virga impietatis;
    non ex eis, et non ex populo, neque
    ex sonitu eorum, et non erit requies
    in eis.

    EZECHIEL, VII-11.

    I

    Lisboa, cidade de marmore, rainha do oceano, tu és a mais formosa entre
    as cidades do mundo.

    A brisa que varre os teus outeiros é pura como o céu azul, que se
    espelha no teu amplo porto, semelhante a grande mar.

    Trinta seculos tem surgido depois que tu surgiste, e sorvendo milhares
    de existencias cahiram todos no abysmo do passado.

    E tu os has visto nascer e morrer; e sorriste-te, porque julgavas que a
    vida te estava travada com a vida do universo.

    Escondendo nas trevas dos tempos remotissimos a tua origem, dizias ás
    demais cidades da Europa:–Sou vossa irmã mais velha.

    Nobre e rica outrora, quando o Oriente e a Africa te mandavam o ouro das
    suas veias, os extranhos vinham assentar-se-te ao pé dos muros e
    abastecer-se com as migalhas cahidas das mesas dos teus banquetes.

    Cada um dos teus velhos palacios abrigou já os ultimos dias de um grande
    capitão; em cada pedra dos teus templos ha uma recordação das virtudes
    passadas; em muitas lousas de sepulturas nomes que não morrerão.

    Nas eras de tua gloria, os monarchas dos ultimos confins da terra se
    haviam por honrados com chamar irmãos a teus filhos; e filhos teus davam
    e tiravam coroas.

    As tuas armadas aravam as campinas do oceano, e neste nem uma vaga
    deixou de gemer debaixo das naus do Tejo.

    Para as frotas da nova Tyro, os golpes de machado resoavam ao mesmo
    tempo nos bosques da Europa e da Africa, do Oriente e do Novo-Mundo: os
    lenhos do Indostão cosidos com os da Nigricia fluctuavam por mares
    distantes, e sobre elles se hasteiava um signal de terror para o orbe:
    era o pendão das Quinas.

    Então, oh cidade do Tejo, reinavas tu e eras forte, mais do que Roma ou
    Carthago; mas o imperio e a força vinham-te das virtudes de teus filhos,
    dos homens a quem sem pudor chamamos nossos avós.

    Vivificavam-te o seio um sem numero de bem nascidos espiritos, e eras
    seminario feracissimo de corações generosos.

    Porém, que te resta hoje do antigo esplendor, da gloria de tantos
    seculos? Um echo do passado nas paginas da historia, o sol puro da tua
    primavera, os restos dos paços e templos que os terremotos te não
    consumiram, e o grande vulto das aguas do amplo ádito do Tejo.

    II

    Mas este echo da historia, que devia ser para ti como um grito de
    remorso, não ha ouvidos que o escutem, e soa em vão e morre no meio do
    vozeiar descomposto da plebe:

    Mas este céu puro que te cobre, e que testemunhará no grande dia as
    virtudes de nossos maiores, testificará também perante o Senhor a tua
    corrupção actual:

    Mas este porto, que a liberdade regrada de tres annos começava a povoar
    de entenas, torná-lo-ha o reinado da licença tão ermo como os extremos
    dos mares gelados:

    Mas pelos palacios de marmore já não retumba a voz dos heroes, e os
    templos estão desertos: só por lupanares e praças sussurra o clamor dos
    populares, ou entoando os canticos das orgias, ou tumultuando em
    assuadas e preparando o dia em que satisfaçam a sede do roubo e do
    assassinio.

    Viuva prostituida, os vicios corromperam-te a seiva da vida, e a
    gangrena e os herpes corroem-te os membros, que ainda vestes de trajos
    louçãos, mas onde a morte se encarnou ha muito.

    Formosa ainda no aspecto, assemelhas-te ao sepulchro do evangelho, alvo
    e polido no exterior, mas cheio de podridão e negrura.

    Nova Jerusalém, a dextra do Senhor vergou pesando-te os crimes e, como a
    antiga, saberás se por ventura são asperas as angustias que o
    Omnipotente manda aos povos no dia da sua justiça.

    Rapida é a carreira do malvado pelos atalhos do crime: porque esses
    atalhos levam, de despenhadeiro em despenhadeiro, ao abysmo da perdição.

    Breve empallidece o outono as folhas das arvores; breve as desprende dos
    troncos; breve as espalha e some, arrebatando-as sobre as azas dos
    ventos.

    Esse curto praso bastou ao povo para esgotar os thesouros da
    misericordia divina, que os erros e culpas de seculos não haviam podido
    empobrecer.

    Os feitos portentosos de dous annos de combates civis foram
    amaldicçoados pelo povo em uma noite de sedição, e a arvore da liberdade
    cerceiada juncto da terra.

    E as esperanças de salvação e de felicidade passaram como o sonho
    matutino que se desvanece ao alteiar do sol.

    III

    Como a antiga Jerusalém se afundou em mar de crimes, assim a moderna
    Sião, a grande cidade do occidente, se mergulhou em torrente de
    perversidades.

    E a maldicção celeste que sumiu aquella d'entre as nações pesará ainda
    mais rijamente sobre a desgraçada Lisboa, sobre esta caverna de vicios e
    de desenfreiamento.

    Á roda dos muros de Solima apinhavam-se os cavalleiros de Babilonia, e
    as tendas de Nabuchodonosor estavam assentadas ao pé da torrente de
    Cedron.

    E as catapultas arrojavam pedras sobre os eirados do templo, no cimo do
    Moria: os arietes batiam os baluartes, que vacillavam até os
    fundamentos, e o granizo das settas sibilava, passando por entre as mal
    defendidas ameias.

    E ao longe scintillavam os ferros das lanças e o bronze dos elmos e dos
    cossoletes, e ouvia-se o nitrir dos cavallos.

    Surgira o dia extremo para a cidade das maravilhas, para a reproba
    Solima. E d'alli a um anno, sobre as ruinas della estava assentado um
    velho.

    Era o propheta de Anathot, que, em cima da ossada dos palacios e do
    templo, entoava uma elegia tremenda, a elegia da sua nação.

    IV

    Tambem o dia em que, entre os vestigios da cidade maldicta, algum vate
    levante um grito de agonia, um grito de desesperança, não tardará a
    chegar.

    Porque Deus ergueu-se no seu furor, e mandou descer sobre este paiz o
    anjo do exterminio.

    Mais cruel será o teu castigo, oh terra do meu berço, do que o de
    Jerusalém: porque ella pereceu a mãos de extranhos, e seus filhos
    morreram defendendo os lares paternos.

    Mas a ti é um matricidio popular, é a febre ardente das sedições que te
    vae arremessar ao sepulchro.

    Os teus muros converter-se-hão em circo: pelas praças e ruas
    pelejar-se-hão pelejas como de gladiadores, combates como de mastins e
    feras.

    Porque o temor de Deus saiu do coração do povo, e entraram nelle todas
    as raivas do inferno.

    Aspero é para o que morre assassinado não poder clamar ao céu justiça
    contra o seu matador.

    E neste mau caso cahirá o povo; porque serão as suas proprias mãos que
    lhe rasgarão as entranhas: será elle quem lavre a sua sentença de morte.

    Elle se amaldicçoará a si, e o remorso e a desesperação de toda a humana
    piedade lhe dobrarão as agonias do passamento.

    V

    Os que pelejaram contra os tyrannos purpurados mal sabiam que lhes
    quebravam o sceptro de ferro, para metter a espada da assolação na
    dextra de tyrannos cobertos de vermes e farrapos.

    Mal pensavam que uma raça corrupta não conhece outra estrada senão a da
    servidão ou a da licenciosidade.

    A nação, esmagada pelos reis, tinha muito tempo gemido debaixo da
    propria miseria.

    Mas surgiu um principe que deu a liberdade ao povo e que veio morrer
    para lh'a restituir, quando elle vilmente a deixou baqueiar por terra.

    E estes homens, que pouco antes haviam dobrado o joelho perante o
    despotismo, mostraram-se tão orgulhosos e insolentes, quanto, até então
    haviam sido abjectos e timidos.

    E n'uma orgia popular fizeram resoar gritos insultuosos nos ouvidos
    daquelle que duas vezes os libertara, e invocaram-lhe a morte. Nesse
    momento longe estavam os seus soldados, e muitos delles arquejavam
    moribundos no campo onde se pelejou a ultima batalha da patria.

    Em verdade vos digo que tal crime é dos que Deus não perdoa; porque a
    ingratidão é a mais horrenda de todas as perversões humanas.

    Elles apressaram o repouso do tumulo para o salvador da republica: mas o
    nome de parricidas será o que sobre a jazida lhes escreverá a historia.

    VI

    O sonho da liberdade, o sonho da minha juventude, esta fonte da poesia e
    de acções generosas, converteu-se para mim n'um pesadello cansado.

    Digno era o povo de compaixão quando estava em ferros, e por bom feito
    se tinha entre as almas puras o affrontar-se o homem com a morte pela
    salvação dos seus semelhantes:

    Porque, subindo ao patibulo ou expirando entre o estrondo das armas, a
    voz da consciencia assegurava ao que fenecia as lagrymas e as bençãos
    dos vindouros, e que algum dia cyprestes se plantariam na terra que lhe
    bebesse o sangue.

    Mas isto era crer na virtude popular: era apenas um sonho, e a
    consciencia mentia.

    A corrupção estava no amago das existencias. A arvore da vida social
    carcomiu-a a servidão. Cumpria que as tempestades politicas a
    derribassem; que os vermes da sociedade lhe roessem e desfizessem os
    troncos.

    E estes vermes são as turmas de uma plebe invejosa, que incessantemente
    trabalham na grande obra da publica destruição.

    Almas virtuosas, que nos paizes ainda escravos preparaes no silencio a
    queda dos tyrannos, não apresseis o grande dia da emancipação popular.

    Porque nesse mesmo momento sereis amaldicçoados pelos que salvastes, e
    cubertos de escarneos e de injurias, sabereis que a plebe lança em
    poucos mezes mais crimes na balança da eterna justiça do que os tyrannos
    ahi hão lançado por seculos.

    VII

    Certo dia, o conde de Avranches entrava nos paços de Affonso quinto, e
    os cortesãos calumniavam sem pudor o bom duque de Coimbra, o salvador da
    republica.

    E o conde disse-lhes:–mentis, como desleaes; e aos melhores tres de vós
    prova-lo-hei á lança e á espada: innocente e justo é o mui nobre filho
    de meu senhor e rei, Dom João de excellente memoria.

    E ninguem ousou responder ao velho cavalleiro da Garrotéa; porque bem
    sabiam que a sua consciencia era pura e o seu montante pesado.

    D'ahi a alguns dias elle provou o dicto. Na batalha de Alfarrobeira,
    sobre um montão de cadaveres, cahiu defendendo a innocencia e bom nome
    do seu desventurado amigo.

    Onde estavam os do valente capitão da nova Diu, do rei soldado da
    patria, quando o vulgacho no meio da praça publica, assentado no seu
    lodaçal mandava derrocar as leis, as recordações e a gloria d'uma nação
    inteira?

    Onde estavam os amigos de D. Pedro, quando a memoria do grande homem era
    amaldicçoada na condemnação da sua obra; quando sobre as suas cinzas a
    dissolução cuspia escarneos; quando a liberdade morria ás mãos da
    licença popular?

    Quem se ergueu, seguro em boa consciencia, para lançar a luva em defesa
    da justiça, e dizer ás turbas:–sois desleaes e mentis?

    Ninguem! Todas as espadas ficaram embainhadas. Em Portugal já não ha um
    cavalleiro. Na batalha de Alfarrobeira morreu o conde de Avranches, e a
    sua espada foi sepultada com elle.

    VIII

    Quando os reis se assentavam em thronos de ferro; quando a lisonja os
    rodeiava de prestigios, e o terror estava assentado ás portas dos seus
    palacios, era bello e generoso affrontar-se o homem com a tyrannia e
    menoscabar as dores dos supplicios.

    Então era ousado o propheta, quando, nos paços de Balthasar, lia nos
    muros, escriptas pela mão de Deus, palavras de condemnação.

    Eram sublimes os martyres, quando perante os cesares davam testemunho do
    evangelho, e escarnecendo dos apparelhos de morte, se deitavam
    tranquillamente sobre a cruz da agonia.

    Era bello ouvir o poeta de Florença trovejar contra a prostituta Roma,
    denunciar ao mundo a corrupção e os crimes dos pontifices do Tibre, e
    comer no desterro um pão eivado de lagrymas e esmolado por estranhos.

    Era bello, quando nós, assentados sobre os gelos do Norte, saudavamos do
    desterro a terra que nos deu o berço, e vinhamos, fracos pelo numero,
    mas fortes de coração, lançar as nossas baionetas na balança da
    Providencia, onde a tyrannia tinha tambem lançado as suas.

    Tudo isto era bello e generoso; porque então os pequenos gemiam
    oppressos debaixo dos pés dos grandes, e ao homem justo incumbia fazer
    resoar na terra a voz da eterna justiça, o grito da liberdade.

    Mas hoje que a plebe reina e, como ampla voragem, ameaça tragar a
    virtude, a liberdade, a justiça e todas as recordações sanctas do
    passado, para o homem de boa consciencia sê-lo-ha, tambem, o morrer.

    Sê-lo-ha o bradar no meio das turbas, e derramar sobre ellas a
    condemnação, que Deus confiou em todos os seculos aos labios do
    innocente e virtuoso.

    Sê-lo-ha chegar aos tribunos populares, apontar-lhes para o céu, e
    apresentar a cabeça ao cutello dos lictores.

    IX

    Povo, hoje és tu quem impera, e absoluto é o teu poder; porque te dizes
    unica fonte delle.

    Toma, pois, em tuas mãos a vara do magistrado, e assenta-te uma vez mais
    no teu throno, amassado com sangue e pó.

    Vem assentar-te, e julga-nos, a nós, que tu maldizes, e aos tribunos,
    aos instigadores de tumultos, que cobres de amor e de bençãos.

    Porque isto diz o Senhor Deus: se a plebe julgar com justiça, a plebe
    ainda será salva.

    Desça o terror da tua vingança sobre o coração do que te houver
    offendido; volvam-se no pó as frontes onde tu achares estampado o
    ferrete do crime.

    Recorre as acções da nossa vida, recorre as obras passadas das vidas dos
    teus tribunos, e por preço do perdão de Deus, julga-nos com justiça.

    Quando tu jazias na servidão, e os grilhões, encarnando-se-te nos pés e
    nos pulsos, te roçavam pelos ossos, peleijavamos nós por te salvar;
    derramavamos o nosso sangue por ti.

    Por ti viamos o irmão e o amigo morder o pó dos campos de batalha, e
    calavamos; sentiamo-nos descahir de fome, e não soltavamos um queixume.

    Porque guardavamos os ais para o silencio das trevas. Soldados da
    patria, ousariamos acaso queixar-nos diante da luz do sol?

    E elles, que faziam, emquanto as nossas noites eram veladas debaixo de
    um céu de ferro e de fogo, emquanto os nossos dias se consumiam entre o
    sibilar dos pelouros?

    Elles? Nos lupanares e tabernas de paizes extranhos, folgavam nos
    banquetes da embriaguez; reclinavam-se no leito da prostituição.

    Elles? Cubriam-nos de insultos, chamavam loucura e vaidade á nossa nobre
    ousadia, e riam-se do juramento que faziamos de morrer ou dar a
    liberdade a nossos irmãos.

    Elles? Buscavam por todas as vias semeiar a zizania e os odios, damnar a
    nossa causa sancta, e fazer-nos perecer debaixo das ruinas de uma cidade
    illustre.

    Eis o que elles fizeram em proveito da patria. No meio do foro, diante
    de teu tribunal terrivel, descubra quem o ousar o peito, e mostre e
    conte as cicatrizes das feridas que recebeu pela salvação da republica.

    Um só delles as mostrará; porque esse foi valente e amigo da virtude.
    Anjo de luz, porque te despenhaste no abysmo?

    A historia escrevia o teu nome na pagina das bênçãos: tu mesmo o
    riscaste e o foste escrever na pagina das maldicções……………….
    ……………………………………………………………..
    ……………………………………………………………..

    X

    Porém, debalde invocariamos justiça perante o tribunal popular; porque o
    povo é abastado de injustiça e ingratidão.

    Os que estão cubertos de cicatrizes, os que foram longamente saciados de
    angustias por salvá-lo seriam condemnados, e os tribunos, os
    concitadores da anarchia, cujas obras unicas tem sido conduzir a patria
    ao abysmo da perdição, seriam absolvidos, seriam abençoados.

    Embora: a nossa consciencia está tranquilla, e no grande dia é Deus quem
    a todos nos julgará.

    Houve um propheta outrora em Israel, e chamava-se o Filho do Homem.

    E este propheta amava os humildes e os pobres, e reprehendia os
    poderosos.

    E condemnava os hypocritas da religião, e por isso era abominado pelos
    grandes e pelos sacerdotes.

    Mas respeitava as leis, e ensinava a obediencia: mandava que se pagasse
    o tributo das duas drachmas do templo, e o tributo de Cesar.

    E affeiava aos populares os seus vicios e abominações; e por isso era
    tambem malquisto da gentalha.

    E, condemnado á morte pelos poderosos, o povo, a quem tinha trazido a
    luz e a vida eterna, o povo, que elle tanto amava, cubria-o de
    opprobrios.

    E podendo salvá-lo do supplicio, antepunha-lhe um grande criminoso, e
    clamava aos algozes:–Pregae-o na cruz, e cáia o seu sangue sobre a
    nossa cabeça e sobre a cabeça de nossos filhos.

    E este propheta era o Messias, era o redemptor do genero humano, era o
    filho de Deus.

    Consolem-se, pois, aquelles que sobre os hombros tomaram o odio dos
    tyrannos por amor do povo, e a quem o povo paga com injurias e pragas.

    Como Jesu-Christo, os hypocritas e os oppressores das nações
    abominam-nos: como a Jesu-Christo, o vulgacho cobre-nos de affrontas, e
    pede para nós aos seus tribunos a condemnação e o supplicio.

    E que nos cumpre fazer para seguirmos em tudo o exemplo do Justo
    assassinado, do Deus que nos deixou na terra o consolo e a esperança?

    Pedir morrendo ao Eterno Pae o perdão de nossos perseguidores e, como o
    divino Mestre, lançar á conta da ignorancia as culpas de corações
    corruptos.

    Imitando o Salvador na cruz, seja um pensamento de benção o nosso
    pensamento extremo; porque o derradeiro suspiro do christão deve ser um
    murmurio de affecto grande para os que o amaram, mas ainda maior para os
    que o odeiaram e perseguiram.

    XI

    E ainda uma vez, filhos da perdição, ainda uma vez vos falarei em nome
    do Senhor nosso Deus.

    Que foi o que fizestes assassinando as esperanças da salvação publica,
    derribando a sancta tradição da patria?

    Até no crime fostes apoucados. Porque não se ergue um de vós, perverso,
    mas sublime, como o archanjo das trevas, e diz:–fui eu o concitador do
    motim popular, fui eu o primeiro que clamei «quebrem-se as taboas da
    lei?»

    Louvaes a sedição, chamaes-lhe obra illustre, e nenhum de vós acceita a
    gloria de ser o bem-feitor do seu paiz?

    Quando combatiamos pela liberdade gravavamos os proprios nomes em nossas
    armas, e o inimigo que ousasse vê-las de perto, ahi os lería inteiros.

    Não combatiamos nas trevas; e os nossos capitães diziam ao
    mundo:–Vede:–e mostravam a face diante da luz do sol.

    Hypocritas, que enganaes o povo, credes porventura que tambem enganareis
    o Senhor e que, semelhantes á prostituta que engeita o fructo de seu
    crime, engeitareis diante delle a obra da vossa iniquidade?

    Não! Lá se levantarão os nossos e os vossos filhos, para quem preparaes
    berço de miseria, vida de amargura e morte de desesperação.

    E elles testemunharão contra vós na presença do Altissimo: e haverá ahi
    choro e ranger de dentes.

    XII

    Ambiciosos, que desvairaes o povo, o Senhor leu no fundo dos vossos
    corações e revelou-me o que ahi está escripto!

    A cubiça do mando e do ouro é o vosso amor de patria; a vossa ancia de
    liberdade a sêde de tyrannia.

    Merecedores de jazer perpetuamente na escuridade, e ermos de virtude e
    de sabedoria, não podendo fulgir com luz celestial, tentastes romper as
    trevas de vossos caminhos com o clarão torvo do inferno.

  • O Mandarim

    O Mandarim

    Aproximadamente 20.685 palavras.

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    EÇA DE QUEIROZ

    O MANDARIM

    LIVRARIA INTERNACIONAL

    DE

    ERNESTO CHARDRON, EDITOR.

    Porto e Braga

    1880

    O MANDARIM

    PROLOGO

    1.^o AMIGO (_bebendo Cognac e soda, debaixo d'arvores, n'um terraço, á
    beira d'agua_)

    Camarada, por estes calores do estio que embotam a ponta da sagacidade,
    repousemos do aspero estudo da Realidade humana… Partamos para os
    campos do Sonho, vaguear por essas azuladas collinas romanticas onde se
    ergue a torre abandonada do Sobrenatural, e musgos frescos recobrem as
    ruinas do Idealismo… Façamos phantasia!…

    2.^o AMIGO

    Mas sobriamente, camarada, parcamente!… E como nas sabias e amaveis
    Allegorias da Renascença, misturando-lhe sempre uma Moralidade
    discreta…

    (COMEDIA INEDITA).

    I

    Eu chamo-me Theodoro–e fui amanuense do Ministerio do Reino.

    N'esse tempo vivia eu á travessa da Conceição n.^o 106, na casa
    d'hospedes da D. Augusta, a esplendida D. Augusta, viuva do major
    Marques. Tinha dois companheiros: o Cabrita, empregado na Administração
    do bairro central, esguio e amarello como uma tocha d'enterro; e o
    possante, o exuberante tenente Couceiro, grande tocador de viola
    franceza.

    A minha existencia era bem equilibrada e suave. Toda a semana, de mangas
    de lustrina á carteira da minha repartição, ia lançando, n'uma formosa
    letra cursiva, sobre o papel Tojal do Estado, estas phrases faceis:
    «_Ill.^{mo} e Exc.^{mo} Snr._–_Tenho a honra de communicar a V. Exc.^a…
    Tenho a honra de passar ás mãos de V. Exc.^a, Ill.^{mo} e Exc.^{mo} Snr…_»

    Aos domingos repousava: installava-me então no canapé da sala de jantar,
    de cachimbo nos dentes, e admirava a D. Augusta, que, em dias de missa,
    costumava limpar com clara d'ovo a caspa do tenente Couceiro. Esta hora,
    sobretudo no verão, era deliciosa: pelas janellas meio cerradas
    penetrava o bafo da soalheira, algum repique distante dos sinos da
    Conceição Nova, e o arrulhar das rolas na varanda; a monotona susurração
    das moscas balançava-se sobre a velha cambraia, antigo véo nupcial da
    Madame Marques, que cobria agora no aparador os pratos de cerejas
    bicaes; pouco a pouco o tenente, envolvido n'um lençol como um idolo no
    seu manto, ia adormecendo, sob a fricção molle das carinhosas mãos da D.
    Augusta; e ella, arrebitando o dedo minimo branquinho e papudo,
    sulcava-lhe as rêpas lustrosas com o pentesinho dos bichos… Eu então,
    enternecido, dizia á deleitosa senhora:

    –Ai D. Augusta, que anjo que é!

    Ella ria; chamava-me _enguiço_! Eu sorria, sem me escandalisar.
    _Enguiço_ era com effeito o nome que me davam na casa–por eu ser magro,
    entrar sempre as portas com o pé direito, tremer de ratos, ter á
    cabeceira da cama uma lithographia de Nossa Senhora das Dôres que
    pertencera á mamã, e corcovar. Infelizmente corcóvo–do muito que
    verguei o espinhaço, na Universidade, recuando como uma pêga assustada
    diante dos senhores Lentes; na repartição, dobrando a fronte ao pó
    perante os meus Directores Geraes. Esta attitude de resto convém ao
    bacharel; ella mantem a disciplina n'um Estado bem organisado; e a mim
    garantia-me a tranquillidade dos domingos, o uso d'alguma roupa branca,
    e vinte mil reis mensaes.

    Não posso negar, porém, que n'esse tempo eu era ambicioso–como o
    reconheciam sagazmente a Madame Marques e o lepido Couceiro. Não que me
    revolvesse o peito o appetite heroico de dirigir, do alto d'um throno,
    vastos rebanhos humanos; não que a minha louca alma jámais aspirasse a
    rodar pela Baixa em trem da Companhia, seguida d'um correio
    choitando;–mas pungia-me o desejo de poder jantar no Hotel Central com
    Champagne, apertar a mão mimosa de viscondessas, e, pelo menos duas
    vezes por semana, adormecer, n'um extasi mudo, sobre o seio fresco de
    Venus. Oh! moços que vos dirigieis vivamente a S. Carlos, atabafados em
    paletots caros onde alvejava a gravata de _soirée_! Oh! tipoias,
    apinhadas de andaluzas, batendo galhardamente para os touros–quantas
    vezes me fizestes suspirar! Porque a certeza de que os meus vinte mil
    reis por mez e o meu geito encolhido de enguiço me excluiam para sempre
    d'essas alegrias sociaes vinha-me então ferir o peito–como uma frecha
    que se crava n'um tronco, e fica muito tempo vibrando!

    Ainda assim, eu não me considerava sombriamente um «pária». A vida
    humilde tem doçuras: é grato, n'uma manhã de sol alegre, com o
    guardanapo ao pescoço, diante do bife de grelha, desdobrar o Diario de
    Noticias; pelas tardes de verão, nos bancos gratuitos do Passeio,
    gozam-se suavidades de idyllio; é saboroso á noite no Martinho, sorvendo
    aos goles um café, ouvir os verbosos injuriar a patria… Depois, nunca
    fui excessivamente infeliz–porque não tenho imaginação: não me
    consumia, rondando e almejando em torno de paraisos ficticios, nascidos
    da minha propria alma desejosa como nuvens da evaporação d'um lago; não
    suspirava, olhando as lucidas estrellas, por um amor á Romeo, ou por uma
    gloria social á Camors. Sou um positivo. Só aspirava ao racional, ao
    tangivel, ao que já fôra alcançado por outros no meu bairro, ao que é
    accessivel ao bacharel. E ia-me resignando, como quem a uma _table
    d'hôte_ mastiga a bucha de pão secco á espera que lhe chegue o prato
    rico da _Charlotte russe_. As felicidades haviam de vir: e para as
    apressar eu fazia tudo o que devia como portuguez e como
    constitucional:–pedia-as todas as noites a Nossa Senhora das Dôres, e
    comprava decimos da loteria.

    No entanto procurava distrahir-me. E como as circumvoluções do meu
    cerebro me não habilitavam a compôr odes, á maneira de tantos outros ao
    meu lado que se desforravam assim do tedio da profissão; como o meu
    ordenado, paga a casa e o tabaco, me não permittia um vicio–tinha
    tomado o habito discreto de comprar na feira da Ladra antigos volumes
    desirmanados, e á noite, no meu quarto, repastava-me d'essas leituras
    curiosas. Eram sempre obras de titulos ponderosos: Galera da Innocencia,
    Espelho Milagroso, Tristeza dos Mal Desherdados… O typo venerando, o
    papel amarellado com picadas de traça, a grave encadernação freiratica,
    a fitinha verde marcando a pagina–encantavam-me! Depois, aquelles
    dizeres ingenuos em letra gorda davam uma pacificação a todo o meu sêr,
    sensação comparavel á paz penetrante d'uma velha cêrca de mosteiro, na
    quebrada d'um valle, por um fim suave de tarde, ouvindo o correr d'agua
    triste…

    Uma noite, ha annos, eu começára a lêr, n'um d'esses in-folios vetustos,
    um capitulo intitulado _Brecha das Almas_; e ia cahindo n'uma
    somnolencia grata, quando este periodo singular se me destacou do tom
    neutro e apagado da pagina, com o relevo d'uma medalha d'ouro nova
    brilhando sobre um tapete escuro: copío textualmente:

    «No fundo da China existe um Mandarim mais rico que todos os reis
    de que a Fabula ou a Historia contam. D'elle nada conheces, nem o
    nome, nem o semblante, nem a sêda de que se veste. Para que tu
    herdes os seus cabedaes infindaveis, basta que toques essa
    campainha, posta a teu lado, sobre um livro. Elle soltará apenas um
    suspiro, n'esses confins da Mongolia. Será então um cadaver: e tu
    verás a teus pés mais ouro do que póde sonhar a ambição d'um avaro.
    Tu, que me lês e és um homem mortal, tocarás tu a campainha?»

    Estaquei, assombrado, diante da pagina aberta: aquella interrogação
    «homem mortal, tocarás tu a campainha?» parecia-me facêta, picaresca, e
    todavia perturbava-me prodigiosamente. Quiz lêr mais; mas as linhas
    fugiam, ondeando como cobras assustadas, e no vazio que deixavam, d'uma
    lividez de pergaminho, lá ficava, rebrilhando em negro, a interpellação
    estranha–«tocarás tu a compainha?»

    Se o volume fosse d'uma honesta edição Michel-Levy, de capa amarella,
    eu, que por fim não me achava perdido n'uma floresta de ballada allemã,
    e podia da minha sacada vêr branquejar á luz do gaz o correame da
    patrulha–teria simplesmente fechado o livro, e estava dissipada a
    allucinação nervosa. Mas aquelle sombrio in-folio parecia estalar magia;
    cada letra affectava a inquietadora configuração d'esses signaes da
    velha cabala, que encerram um attributo fatidico; as virgulas tinham o
    retorcido petulante de rabos de diabinhos, entrevistos n'uma alvura de
    luar; no _ponto d'interrogação_ final eu via o pavoroso gancho com que o
    Tentador vai fisgando as almas que adormeceram sem se refugiar na
    inviolavel cidadella da Oração!… Uma influencia sobrenatural
    apoderando-se de mim, arrebatava-me devagar para fóra da realidade, do
    raciocinio: e no meu espirito foram-se formando duas visões–d'um lado
    um Mandarim, decrepito, morrendo sem dôr, longe, n'um kiosque chinez, a
    um _ti-li-tin_ de campainha; do outro toda uma montanha de ouro
    scintillando aos meus pés! Isto era tão nitido, que eu via os olhos
    obliquos do velho personagem embaciarem-se, como cobertos d'uma tenue
    camada de pó; e sentia o fino tinir de libras rolando juntas. E immovel,
    arripiado, cravava os olhos ardentes na campainha, pousada pacatamente
    diante de mim sobre um diccionario francez–a campainha prevista, citada
    no mirifico in-folio…

    Foi então que, do outro lado da mesa, uma voz insinuante e metallica me
    disse, no silencio:

    –Vamos, Theodoro, meu amigo, estenda a mão, toque a campainha, seja um
    forte!

    O _abat-jour_ verde da vela punha uma penumbra em redor. Ergui-o, a
    tremer. E vi, muito pacificamente sentado, um individuo corpulento, todo
    vestido de preto, de chapéo alto, com as duas mãos calçadas de luvas
    negras gravemente apoiadas ao cabo d'um guarda-chuva. Não tinha nada de
    phantastico. Parecia tão contemporaneo, tão regular, tão classe-média
    como se viesse da minha repartição…

    Toda a sua originalidade estava no rosto, sem barba, de linhas fortes e
    duras; o nariz brusco, d'um aquilino formidavel, apresentava a expressão
    rapace e atacante d'um bico d'aguia; o córte dos labios, muito firme,
    fazia-lhe como uma bocca de bronze; os olhos, ao fixar-se, assemelhavam
    dois clarões de tiro, partindo subitamente d'entre as sarças tenebrosas
    das sobrancelhas unidas; era livido–mas, aqui e além na pelle,
    corriam-lhe raiações sanguineas como n'um velho marmore phenicio.

    Veio-me á idéa de repente que tinha diante de mim o Diabo: mas logo todo
    o meu raciocinio se insurgiu resolutamente contra esta imaginação. Eu
    nunca acreditei no Diabo–como nunca acreditei em Deus. Jámais o disse
    alto, ou o escrevi nas gazetas, para não descontentar os poderes
    publicos, encarregados de manter o respeito por taes entidades: mas que
    existam estes dois personagens, velhos como a Substancia, rivaes
    bonacheirões, fazendo-se mutuamente pirraças amaveis,–um de barbas
    nevadas e tunica azul, na toilette do antigo Jove, habitando os altos
    luminosos, entre uma côrte mais complicada que a de Luiz XIV; e o outro
    enfarruscado e manhoso, ornado de cornos, vivendo nas chammas
    inferiores, n'uma imitação burgueza do pitoresco Plutão–não acredito.
    Não, não acredito! Céo e Inferno são concepções sociaes para uso da
    plebe–e eu pertenço á classe-média. Rezo, é verdade, a Nossa Senhora
    das Dôres: porque, assim como pedi o favor do senhor doutor para passar
    no meu acto; assim como, para obter os meus vinte mil reis, implorei a
    benevolencia do senhor deputado; igualmente para me subtrahir á tisica,
    á angina, á navalha de ponta, á febre que vem da sargeta, á casca de
    laranja escorregadia onde se quebra a perna, a outros males publicos,
    necessito ter uma protecção extra-humana. Ou pelo rapa-pé ou pelo
    incensador o homem prudente deve ir fazendo assim uma serie de sabias
    adulações desde a Arcada até ao Paraiso. Com um compadre no bairro, e
    uma comadre mystica nas Alturas–o destino do bacharel está seguro.

    Por isso, livre de torpes superstições, disse familiarmente ao individuo
    vestido de negro:

    –Então, realmente, aconselha-me que toque a campainha?

    Elle ergueu um pouco o chapéo, descobrindo a fronte estreita, enfeitada
    d'uma gaforinha crespa e negrejante como a do fabuloso Alcides, e
    respondeu, palavra a palavra:

    –Aqui está o seu caso, estimavel Theodoro. Vinte mil reis mensaes são
    uma vergonha social! Por outro lado, ha sobre este globo coisas
    prodigiosas: ha vinhos de Borgonha, como por exemplo o _Romanée-Conti_
    de 58 e o _Chambertin_ de 61, que custam, cada garrafa, de dez a onze
    mil reis; e quem bebe o primeiro calix, não hesitará, para beber o
    segundo, em assassinar seu pai… Fabricam-se em Paris e em Londres
    carruagens de tão suaves molas, de tão mimosos estofos, que é preferivel
    percorrer n'ellas o Campo Grande, a viajar, como os antigos deuses,
    pelos céos, sobre os fôfos coxins das nuvens… Não farei á sua
    instrucção a offensa de o informar que se mobilam hoje casas, d'um
    estylo e d'um conforto, que são ellas que realisam superiormente esse
    regalo ficticio, chamado outr'ora a «Bemaventurança». Não lhe fallarei,
    Theodoro, d'outros gozos terrestres: como, por exemplo, o Theatro do
    _Palais Royal_, o _baile Laborde_, o _Café Anglais_… Só chamarei a sua
    attenção para este facto: existem sêres que se chamam
    Mulheres–differentes d'aquelles que conhece, e que se denominam Femeas.
    Estes sêres, Theodoro, no meu tempo, a paginas 3 da Biblia, apenas
    usavam exteriormente uma _folha de vinha_. Hoje, Theodoro, é toda uma
    symphonia, todo um engenhoso e delicado poema de rendas, _baptistes_,
    setins, flôres, joias, cachemiras, gazes e velludos… Comprehende a
    satísfação inenarravel que haverá, para os cinco dedos de um christão,
    em percorrer, palpar estas maravilhas macias;–mas tambem percebe que
    não é com o troco d'uma placa honesta de cinco tostões que se pagam as
    contas d'estes cherubins… Mas ellas possuem melhor, Theodoro: são os
    cabellos côr do ouro ou côr da treva, tendo assim nas suas tranças a
    apparencia emblematica das duas grandes tentações humanas–a fome do
    metal precioso e o conhecimento do absoluto transcendente. E ainda teem
    mais: são os braços côr de marmore, d'uma frescura de lirio orvalhado;
    são os seios, sobre os quaes o grande Praxiteles modelou a sua Taça, que
    é a linha mais pura e mais ídeal da Antiguidade…. Os seios, outr'ora
    (na idéa d'esse ingenuo Ancião que os formou, que fabricou o mundo, e de
    quem uma inimizade secular me veda de pronunciar o nome), eram
    destinados á nutrição augusta da humanidade; socegue porém, Theodoro;
    hoje nenhuma maman racional os expõe a essa funcção deterioradora e
    severa; servem só para resplandecer, aninhados em rendas, ao gaz das
    _soirées_,–e para outros usos secretos. As conveniencias impedem-me de
    proseguir n'esta exposição radiosa das bellezas, que constituem o _Fatal
    Feminino_… De resto as suas pupillas já rebrilham…. Ora todas estas
    coisas, Theodoro, estão para além, infinitamente para além dos seus
    vinte mil reís por mez… Confesse, ao menos, que estas palavras teem o
    veneravel sello da verdade!…

    Eu murmurei com as faces abrasadas:

    –Teem.

    E a sua voz proseguiu, paciente e suave:

    –Que me diz a cento e cinco, ou cento e seis mil contos? Bem sei, é uma
    bagatella… Mas emfim, constituem um começo; são uma ligeira
    habilitação para conquistar a felicidade. Agora pondere estes factos: o
    Mandarim, esse Mandarim do fundo da China, está decrepito e está
    gottoso: como homem, como funccionario do celeste imperio, é mais inutil
    em Pekin e na humanidade, que um seixo na bocca d'um cão esfomeado. Mas
    a transformação da substancia existe: garanto-lh'a eu, que sei o segredo
    das coisas… Porque a terra é assim: recolhe aqui um homem apodrecido,
    e restitue-o além ao conjuncto das fórmas como vegetal viçoso. Bem póde
    ser que elle, inutil como Mandarim no Imperio do Meio, vá ser util
    n'outra terra como rosa perfumada ou saboroso repôlho. Matar, meu filho,
    é quasi sempre equilibrar as necessidades universaes. É eliminar aqui a
    excrescencia para ir além supprir a falta. Penetre-se d'estas solidas
    philosophias. Uma pobre costureira de Londres anceia por vêr florir, na
    sua trapeira, um vaso cheio de terra negra: uma flôr consolaria aquella
    desherdada; mas na disposição dos sêres, infelizmente, n'esse momento, a
    substancia que lá devia ser rosa é aqui na Baixa homem d'Estado… Vem
    então o fadista de navalha aberta, e fende o estadista; o enxurro
    leva-lhe os intestinos; enterram-no, com tipoias atraz; a materia começa
    a desorganisar-se, mistura-se á vasta evolução dos atomos–e o superfluo
    homem de governo vai alegrar, sob a fórma de amor perfeito, a agua
    furtada da loura costureira. O assassino é um philanthropo! Deixe-me
    resumir, Theodoro: a morte d'esse velho Mandarim idiota traz-lhe á
    algibeira alguns milhares de contos. Póde desde esse momento dar
    pontapés nos poderes publicos: medite na intensidade d'este gozo! É
    desde logo citado nos jornaes: reveja-se n'esse maximo da gloria humana!
    E agora note: é só agarrar a campainha, e fazer _ti-li-tin._ Eu não sou
    um barbaro: comprehendo a repugnancia d'um _gentleman_ em assassinar um
    contemporaneo: o espirrar do sangue suja vergonhosamente os punhos, e é
    repulsivo o agonisar d'um corpo humano. Mas aqui, nenhum d'esses
    espectaculos torpes… É como quem chama um criado… E são cento e
    cinco ou cento e seis mil contos; não me lembro, mas tenho-o nos meus
    apontamentos… O Theodoro não duvída de mim. Sou um
    cavalheiro:–provei-o, quando, fazendo a guerra a um tyranno na primeira
    insurreição da justiça, me vi precipitado d'alturas que nem Vossa
    Senhoria concebe… Um trambulhão consideravel, meu caro senhor! Grandes
    desgostos! O que me consola é que o OUTRO está tambem muito abalado:
    porque, meu amigo, quando um Jehovah tem apenas contra si um Satanaz,
    tira-se bem de difficuldades mandando carregar mais uma legião
    d'archanjos; mas quando o inimigo é o homem, armado d'uma penna de pato
    e d'um caderno de papel branco–está perdido… Emfim são seis mil
    contos. Vamos, Theodoro, ahi tem a campainha, seja um homem.

    Eu sei o que deve a si mesmo um christão. Se este personagem me tivesse
    levado ao cume d'uma montanha na Palestina, por uma noite de lua cheia,
    e ahi, mostrando-me cidades, raças e imperios adormecidos, sombriamente
    me dissesse:–«Mata o Mandarim, e tudo o que vês em valle e collina será
    teu»,–eu saberia replicar-lhe, seguindo um exemplo illustre, e erguendo
    o dedo ás profundidades constelladas:–«O meu reino não é d'este mundo!»
    Eu conheço os meus authores. Mas eram cento e tantos mil contos,
    offerecidos á luz d'uma vela de stearina, na travessa da Conceição, por
    um sujeito de chapéo alto, apoiado a um guarda-chuva…

    Então não hesitei. E, de mão firme, repeniquei a campainha. Foi talvez
    uma illusão; mas pareceu-me que um sino, de bocca tão vasta como o mesmo
    céo, badalava na escuridão, através do Universo, n'um tom temeroso que
    decerto foi acordar sóes que faziam né-né e planetas pançudos resonando
    sobre os seus eixos…

    O individuo levou um dedo á palpebra, e limpando a lagrima que ennevoára
    um instante o seu olho rutilante:

    –Pobre Ti-Chin-Fú!…

    –Morreu?

    –Estava no seu jardim, socegado, armando, para o lançar ao ar, um
    papagaio de papel, no passatempo honesto d'um Mandarim retirado,–quando
    o surprehendeu este _ti-li-tin_ da campainha. Agora jaz á beira d'um
    arroio cantante, todo vestido de sêda amarella, morto, de pança ao ar,
    sobre a relva verde: e nos braços frios tem o seu papagaio de papel, que
    parece tão morto como elle. Ámanhã são os funeraes. Que a sabedoria de
    Confucio, penetrando-o, ajude a bem emigrar a sua alma!

    E o sujeito, erguendo-se, tirou respeitosamente o chapéo, sahiu, com o
    seu guarda-chuva debaixo do braço.

    Então, ao sentir bater a porta, afigurou-se-me que emergia d'um
    pesadêlo. Saltei ao corredor. Uma voz jovial fallava com a Madame
    Marques; e a cancella da escada cerrou-se subtilmente.

    –Quem é que sahiu agora, ó D. Augusta?–perguntei, n'um suor.

    –Foi o Cabritinha que vai um bocadinho á batota…

    Voltei ao quarto: tudo lá repousava tranquillo, identico, real. O
    in-folio ainda estava aberto na pagina temerosa. Reli-a: agora
    parecia-me apenas a prosa antiquada d'um moralista caturra; cada palavra
    se tornára como um carvão apagado…

    Deitei-me:–e sonhei que estava longe, para além de Pekin, nas
    fronteiras da Tartaria, no kìosque d'um convento de Lamas, ouvindo
    maximas prudentes e suaves que escorriam, com um aroma fino de chá, dos
    labios de um Buddha vivo.

    II

    Decorreu um mez.

    Eu, no entanto, rotineiro e triste, lá ia pondo o meu cursivo ao serviço
    dos poderes publicos, e admirando aos domingos a pericia tocante com que
    a D. Augusta lavava a caspa do Couceiro. Era agora evidente para mim
    que, n'essa noite, eu adormecera sobre o in-folio, e sonhára com uma
    «Tentação da Montanha» sob fórmas familiares. Instinctivamente, porém,
    comecei a preoccupar-me com a China. Ia lêr os telegrammas á Havaneza; e
    o que o meu interesse lá buscava, eram sempre as noticias do Imperio do
    Meio; parece porém que, a esse tempo, nada se passava na região das
    raças amarellas… A _Agencia Havas_ só tagarellava sobre a Herzegovina,
    a Bosnia, a Bulgaria e outras curiosidades barbaras….

    Pouco a pouco fui esquecendo o meu episodio phantasmagorico: e ao mesmo
    tempo, como gradualmente o meu espirito reserenava, voltaram de novo a
    mover-se as antigas ambições que lá habitavam,–um ordenado de Director
    Geral, um seio amoroso de Lola, bifes mais tenros que os da D. Augusta.
    Mas taes regalos pareciam-me tão inaccessiveis, tão nascidos do
    sonho–como os proprios milhões do Mandarim. E pelo monotono deserto da
    vida,–lá foi seguindo, lá foi marchando, a lenta caravana das minhas
    melancolias…

    Um domingo de agosto, de manhã, estirado na cama em mangas de camisa, eu
    dormitava, com o cigarro apagado no labio–quando a porta rangeu
    devagarinho, e entreabrindo a palpebra dormente, vi curvar-se ao meu
    lado uma calva respeitosa. E logo uma voz perturbada murmurou:

    –O snr. Theodoro?… O snr. Theodoro do Ministerio do Reino?…

    Ergui-me lentamente sobre o cotovêlo e respondi, n'um bocejo:

    –Sou eu, cavalheiro.

    O individuo recurvou o espinhaço: assim na presença augusta d'el-rei
    Bobeche se arquêa o cortezão… Era pequenino e obeso: a ponta das
    suiças brancas roçava-lhe as lapellas do fraque d'alpaca: veneraveis
    oculos d'oiro reluziam na sua face bochechuda, que parecia uma prospera
    personificação da Ordem: e todo elle tremia desde a calva, lustrosa até
    aos botíns de bezerro. Pigarreou, cuspilhou, balbuciou:

    –São noticias para vossa senhoria! Consideráveis noticias! O meu nome é
    Silvestre… Silvestre, Juliano & C.^a… Um serviçal criado de vossa
    excellencia… Chegaram justamente pelo paquete de Southampton… Nós
    somos correspondentes de Brito, Alves & C.^a de Macau… Correspondentes
    de Craig and Co d'Hong-Kong… As letras vem d'Hong-Kong…

    O sujeito engasgava-se; e a sua mão gordinha agitava em tremuras um
    _enveloppe_ repleto, com um sello de lacre negro.

    –Vossa excellencia–proseguiu–estava decerto prevenido… Nós é que o
    não estavamos… A atrapalhação é natural… O que esperamos é que vossa
    excellencia nos conserve a sua benevolencia… Nós sempre respeitámos
    muito o caracter de vossa excellencia… Vossa excellencia é n'esta
    terra uma flôr de virtude, e espelho de bons! Aqui estão os primeiros
    saques sobre Bhering and Brothers de Londres… Letras a trinta dias
    sobre Rothschild…

    A este nome, resoante como o mesmo oiro, saltei vorazmente do leito.

    –O que é isso, senhor?–gritei.

    E elle, gritando mais, brandindo o _enveloppe_, todo alçado no bico dos
    botins:

    –São cento e seis mil contos, senhor! Cento e seis mil contos sobre
    Londres, Paris, Hamburgo e Amsterdam, sacados a seu favor,
    excellentissimo senhor!… A seu favor, excellentissimo senhor! Pelas
    casas de Hong-Kong, de Chang-Hai e de Cantão, da herança depositada do
    Mandarim Ti-Chin-Fú!!

    Senti tremer o Globo sob os meus pés–e cerrei um momento os olhos. Mas
    comprehendi, n'um relance, que eu era, desde essa hora, como uma
    incarnação do Sobrenatural, recebendo d'elle a minha força e possuindo
    os seus attributos. Não podia comportar-me como um homem, nem
    desconsiderar-me em expansões humanas. Até, para não quebrar a linha
    hieratica–abstive-me de ir soluçar, como m'o pedia a alma, sobre o
    vasto seio da Madame Marques…

    D'ora em diante cabia-me a impassibilidade d'um Deus–ou d'um Demonio:
    dei, com naturalidade, um puxão ás calças, e disse a Silvestre, Juliano
    & C.^a estas palavras:

    –Está bem! O Mandarim… Esse Mandarim que disse portou-se com
    cavalheirismo. Eu sei de que se trata. É uma questão de familia. Deixe
    ahi os papeis… Bons dias.

    Silvestre, Juliano & C.^a retirou-se, ás arrecuas, de dorso vergado e
    fronte voltada ao chão.

    Eu então fui abrir, toda larga, a janella: e, dobrando para traz a
    cabeça, respirei o ar calido, consoladamente, como uma corça cançada…

    Depois olhei para baixo, para a rua, onde toda uma burguezia se escoava,
    n'uma pacata sahida de missa, entre duas filas de trens. Fixei, aqui e
    além, inconscientemente, algumas cuias de senhoras, alguns metaes
    brilhantes d'arreios. E de repente, veio-me esta idéa, esta triumphante
    certeza–que todas aquellas tipoias as podia eu tomar á hora ou ao anno!
    Que nenhuma das mulheres que via, deixaria de me offerecer o seu seio
    nú, a um aceno do meu desejo! Que todos esses homens, de sobrecasaca de
    domingo, se prostrariam diante de mim como diante de um Christo, de um
    Mahomet ou de um Buddha, se eu lhes sacudisse junto á face cento e seis
    mil contos sobre as praças da Europa!…

    Apoiei-me á varanda: e ri, com tedio, vendo a agitação ephemera
    d'aquella humanidade subalterna–que se considerava livre e forte, em
    quanto por cima, n'uma sacada de quarto andar, eu tinha na mão, n'um
    _enveloppe_ lacrado de negro, o principio mesmo da sua fraqueza e da sua
    escravidão!… Então, satisfações do Luxo, regalos do Amor, orgulhos do
    Poder, tudo gozei, pela imaginação, n'um instante, e d'um só sôrvo. Mas
    logo, uma grande saciedade me foi invadindo a alma: e sentindo o mundo
    aos meus pés–bocejei como um leão farto.

    De que me serviam por fim tantos milhões, senão para me trazerem, dia a
    dia, a affirmação desoladora da villeza humana?… E assim, ao choque de
    tanto oiro, ia desapparecer aos meus olhos como um fumo a belleza moral
    do Universo! Tomou-me uma tristeza mystica. Abati-me sobre uma cadeira;
    e, com a face entre as mãos, chorei abundantemente.

    D'ahi a pouco a Madame Marques abria a porta, toda vistosa nas suas
    sêdas pretas.

    –Está-se á sua espera para jantar, enguiço!…

    Emergi da minha amargura para lhe responder seccamente:

    –Não janto.

    –Mais fica!

    N'esse momento estalavam foguetes ao longe. Lembrei-me que era domingo,
    dia de touros: de repente uma visão rebrilhou, flammejou, attrahindo-me
    deliciosamente:–era a tourada vista d'um camarote; depois um jantar com
    _Champagne_; á noite a orgia, como uma iniciação! Corri á mesa. Atulhei
    as algibeiras de letras sobre Londres. Desci á rua com um furor d'abutre
    fendendo o ar contra a presa. Uma caleche passava, vazia. Detive-a,
    berrei:

    –Aos touros!

    –São dez tostões, meu amo!

    Encarei com repulsão aquelle reles pedaço de materia organisada–que
    fallava em placas de prata a um colosso d'oiro! Enterrei a mão na
    algibeira ajoujada de milhões, e tirei o meu metal: tinha setecentos e
    vinte!

    O cocheiro bateu a anca da egoa e seguiu, resmungando. Eu balbuciei:

    –Mas tenho letras!… Aqui estão! Sobre Londres! Sobre Hamburgo!…

    –Não péga.

    Setecentos e vinte!… E touros, jantar de lord, andaluzas nuas, todo
    esse sonho expirou como uma bola de sabão que bate a ponta de um prego.

    Odiei a Humanidade, abominei o Numerario. Outra tipoia, lançada a trote,
    apinhada de gente festiva, quasi me atropellou n'aquella abstracção em
    que eu ficára com os meus setecentos e vinte na palma da mão suada.

    Cabisbaixo, enchumaçado de milhões sobre Rothschild, voltei ao meu
    quarto andar; humilhei-me á Madame Marques, aceitei-lhe o bife corneo; e
    passei essa primeira noite de riqueza, bocejando sobre o leito
    solitario,–em quanto fóra o alegre Couceiro, o mesquinho tenente de
    quinze mil reis de soldo, ria com a D. Augusta, repenicando á viola o
    _Fado da Cotovia_.

    * * * * *

    Foi só na manhã seguinte, ao fazer a barba, que reflecti sobre a origem
    dos meus milhões. Ella era evidentemente sobrenatural e suspeita.

    Mas como o meu Racionalismo me impedia d'attribuir estes thesouros
    imprevistos á generosidade caprichosa de Deus ou do Diabo, ficções
    puramente escolasticas; como os fragmentos de Positivismo, que
    constituem o fundo da minha Philosophia, não me permittiam a indagação
    _das causas primarias, das origens essenciaes_–bem depressa me decidi a
    aceitar seccamente este Phenomeno; e a utilisal-o com largueza. Portanto
    corri de quinzena ao vento para o _London Brazìlian Bank_…

    Ahi, arremessei para cima do balcão um papel sobre o _Banco
    d'Inglaterra_, de mil libras; e soltei esta deliciosa palavra:

    –Oiro!

    Um caixeiro suggeriu-me com doçura:

    –Talvez lho fosse mais commodo em notas…

    Repeti seccamente:

    –Oiro!

    Atulhei as algibeiras, devagar, aos punhados: e na rua, ajoujado,
    icei-me para uma caleche. Sentía-me gordo, sentia-me obeso; tinha na
    bocca um sabor d'oiro, uma seccura de pó d'oiro na pelle das mãos: as
    paredes das casas pareciam-me faiscar como longas laminas d'oiro: e
    dentro do cerebro ia-me um rumor surdo onde retilintavam metaes–como o
    movimento d'um oceano que nas vagas rolasse barras d'oiro.

    Abandonando-me á oscillação das molas, rebolante como um odre mal firme,
    deixava cahir sobre a rua, sobre a gente, o olhar turvo e tedioso do sêr
    repleto. Emfim, atirando o chapéo para a nuca, estirando a perna,
    empinando o ventre, arrotei formidavelmente de flatulencia ricaça…

    Muito tempo rolei assim pela cidade, bestialisado n'um gozo de Nababo.

    Subitamente um brusco appetite de gastar, de dissipar oiro, veio-me
    enfunar o peito como uma rajada que incha uma véla.

    –Pára, animal!–berrei, ao cocheiro.

    A parelha estacou. Procurei em redor com a palpebra meio cerrada alguma
    coisa cara a comprar–joia de rainha ou consciencia de estadista: nada
    vi; precipitei-me então para um estanco.

    –Charutos! de tostão! de cruzado! Mais caros! de dez tostões!

    –Quantos?–perguntou servilmente o homem.

    –Todos!–respondi, com brutalidade.

    Á porta, uma pobre toda de luto, com o filho encolhido ao seio,
    estendeu-me a mão transparente. Incommodava-me procurar os trocos de
    cobre por entre os meus punhados d'oiro. Repelli-a, impaciente: e, de
    chapéo sobre o olho, encarei friamente a turba.

    Foi então que avistei, adiantando-se, o vulto ponderoso do meu Director
    Geral: immediatamente, achei-me com o dorso curvado em arco e o chapéo
    comprimentador roçando as lages. Era o habito da dependencia: os meus
    milhões não me tinham dado ainda a verticalidade á espinha…

    Em casa despejei o oiro sobre o leito, e rolei-me por cima d'elle, muito
    tempo, grunhindo n'um gozo surdo. A torre, ao lado, bateu tres horas; e
    o sol apressado já descia, levando comsigo o meu primeiro dia de
    opulencia… Então, couraçado de libras, corri a saciar-me!

    Ah, que dia! Jantei n'um gabinete do Hotel Central, solitario e egoista,
    com a mesa alastrada de Bordeus, Borgonha, Champagne, Rheno, licôres de
    todas as communidades religiosas–como para matar uma sêde de trinta
    annos! Mas só me fartei de Collares. Depois, cambaleando, arrastei-me
    para o Lupanar! Que noite! A alvorada clareou por traz das persianas; e
    achei-me estatelado no tapete, exhausto e semi-nú, sentindo o corpo e a
    alma como esvaírem-se, dissolverem-se n'aquelle ambiente abafado onde
    errava um cheiro de pó de arroz, de fêmea e de punch…

    Quando voltei á travessa da Conceição, as janellas do meu quarto estavam
    fechadas, e a véla expirava, com fogachos lividos, no castiçal de latão.
    Então ao chegar junto á cama, vi isto: estirada de través, sobre a
    coberta, jazia uma figura bojuda, de Mandarim fulminado, vestida de sêda
    amarella, com um grande rabicho solto; e entre os braços como morto
    tambem, tinha um papagaio de papel!

    Abri desesperadamente a janella: tudo desappareceu;–o que estava agora
    sobre o leito era um velho paletot alvadio.

    III

    Então começou a minha vida de milionario. Deixei bem depressa a casa da
    Madame Marques–que, desde que me sabía rico, me tratava todos os dias a
    arroz dôce, e ella mesma me servia, com o seu vestido de sêda dos
    domingos. Comprei, habitei o palacete amarello, ao Loreto: as
    magnificencias da minha installação são bem conhecidas pelas gravuras
    indiscretas da Illustração Franceza. Tornou-se famoso na Europa o meu
    leito, d'um gosto exuberante e barbaro, com a barra recoberta de laminas
    d'ouro lavrado, e cortinados d'um raro brocado negro onde ondeam,
    bordados a perolas, versos eroticos de Catullo; uma lampada, suspensa no
    interior, derrama alli a claridade lactea e amorosa d'um luar de verão.

    Os meus primeiros mezes ricos, não o occulto, passei-os a amar–a amar
    com o sincero bater de coração d'um pagem inexperiente. Tinha-a visto,
    como n'uma pagina de novella, regando os seus craveiros á varanda:
    chamava-se Candida; era pequenina, era loira; morava a Buenos-Ayres,
    n'uma casinha casta recoberta de trepadeiras; e lembrava-me pela graça e
    pelo airoso da cinta, tudo o que a Arte tem creado de mais fino e
    fragil–Mimi, Virginia, a Joanninha do Valle de Santarem.

    Todas as noites eu cahia, em extasis de mystico, aos seus pés côr de
    jaspe. Todas as manhãs lhe alastrava o regaço de notas de vinte mil
    reis: ella repellia-as primeiro com um rubor,–depois, ao guardal-as na
    gaveta, chamava-me o seu _anjo Tótó_.

    Um dia que eu me introduzira, a passos subtis, por sobre o espesso
    tapete syrio, até ao seu _boudoir_–ella estava escrevendo, muito
    enlevada, de dedinho no ar: ao vêr-me, toda tremula, toda pallida,
    escondeu o papel que tinha o seu monogramma. Eu arranquei-lh'o, n'um
    ciume insensato. Era a carta, a carta costumada, a carta necessaria, a
    carta que desde a velha antiguidade a mulher sempre escreve; começava
    por _meu idolatrado_–e era para um alferes da visinhança…

    Desarraiguei logo esse sentimento do meu peito como uma planta venenosa.
    Descri para sempre dos Anjos loiros, que conservam no olhar azul o
    reflexo dos céos atravessados: de cima do meu oiro, deixei cahir sobre a
    Innocencia, o Pudor, e outras idealisações funestas acida gargalhada de
    Mephistopheles: e organisei friamente uma existencia animal, grandiosa e
    cynica.

    * * * * *

    Ao bater do meio dia, entrava na minha tina de marmore côr de rosa, onde
    os perfumes derramados davam á agua um tom opaco de leite: depoîs pagens
    tenros, de mão macia, fríccionavam-me com o ceremonial de quem celebra
    um culto: e embrulhado n'um _robe-de-chambre_ de sêda da India, através
    da galeria, dando aqui e além um olhar aos meus Fortunys e aos meus
    Corots, entre alas silenciosas de lacaios, dirigia-me ao bife á ingleza,
    servido em Sèvres, azul e oiro.

    O resto da manhã, se havia calor, passava-o sobre coxins de setim côr de
    perola, n'um _boudoir_ em que a mobilia era de porcelana fina de Dresde
    e as flôres faziam um jardim d'Armida; ahi, saboreava o Diario de
    Noticiais, em quanto lindas raparigas vestidas á japoneza refrescavam o
    ar, agitando leques de plumas.

    De tarde ia dar uma volta a pé, até ao Pote das Almas: era a hora mais
    pesada do dia: encostado á bengala, arrastando as pernas molles, abria
    bocejos de fera saciada,—e a turba abjecta parava a contemplar, em
    extasis, o Nababo enfastiado!

    Ás vezes vinha-me como uma saudade dos meus tempos occupados da
    Repartição. Entrava em casa; e encerrado na livraria, onde o Pensamento
    da Humanidade repousava esquecido e encadernado em marroquim, aparava
    uma penna de pato, e ficava horas lançando sobre folhas do meu querido
    Tojal d'outr'ora: «_Ill.^{mo} e Exc.^{mo} Snr.–Tenho a honra de participar
    a V. Exc.^a… Tenho a honra de passar ás mãos de V. Exc.^a!…_».

    Ao começo da noite um criado, para annunciar o jantar, fazia soar pelos
    corredores na sua tuba de prata, á moda gothica, uma harmonia solemne.
    Eu erguia-me e ia comer, magestoso e solitario. Uma populaça de lacaios,
    de librés de sêda negra, servia, n'um silencio de sombras que resvalam,
    as vitualhas raras, vinhos do preço de joias: toda a mesa era um
    esplendor de flôres, luzes, crystaes, scintillações d'oiro:–e
    enrolando-se pelas pyramides de fructos, misturando-se ao vapor dos
    pratos, errava, como uma nevoa subtil, um tedio inenarravel…

    Depois, apopletico, atirava-me para o fundo do coupé–e lá ia ás
    Janellas Verdes onde nutria, n'um jardim de serralho, entre requintes
    musulmanos, um viveiro de fêmeas: revestiam-me d'uma tunica de sêda
    fresca e perfumada,–e eu abandonava-me a delirios abominaveis…
    Traziam-me semi-morto para casa, ao primeiro alvor da manhã: fazia
    machinalmente o meu signal da cruz, e d'ahi a pouco roncava de ventre ao
    ar, livido e com um suor frio, como um Tiberio exhausto.

    * * * * *

    Entretanto Lisboa rojava-se aos meus pés. O pateo do palacete estava
    constantemente invadido por uma turba: olhando-a enfastiado das janellas
    da galeria, eu via lá branquejar os peitilhos da Aristocracia, negrejar
    a sotaina do Clero, e luzîr o suor da Plebe: todos vinham supplicar, de
    labio abjecto, a honra do meu sorriso e uma participação no meu oiro. Ás
    vezes, consentia em receber algum velho de titulo historico:–elle
    adiantava-se pela sala, quasi roçando o tapete com os cabellos brancos,
    tartamudeando adulações; e immediatamente, espalmando sobre o peito a
    mão de fortes vêas onde corria um sangue de tres seculos, offerecia-me
    uma filha bem-amada para esposa ou para concubina.

    Todos os cidadãos me traziam presentes como a um Idolo sobre o
    altar–uns Odes votivas, outros o meu monogramma bordado a cabello,
    alguns chinelas ou boquilhas, cada um a sua consciencia. Se o meu olhar
    amortecido fixava, por acaso, na rua, uma mulher–era logo ao outro dia
    uma carta em que a creatura, esposa ou prostituta, me offertava a sua
    nudez, o seu amor, e todas as complacencias da lascivia.

    Os jornalistas esporeavam a imaginação para achar adjectivos dignos da
    minha grandeza; fui o _sublime snr. Theodoro_, cheguei a ser o _celeste
    snr. Theodoro_; então, desvairada, a Gazeta das Locaes chamou-me o
    _extra-celeste snr. Theodoro_! Diante de mim nenhuma cabeça ficou jámais
    coberta–ou usasse a corôa ou o côco. Todos os dias me era offerecida
    uma Presidencia de Ministerio ou uma Direcção de Confraria. Recusei
    sempre, com nojo.

    Pouco a pouco o rumor das minhas riquezas foi passando os confins da
    Monarchia. O Figaro, cortezão, em cada numero fallou de mim,
    preferindo-me a Henrique V; o grotesco immortal, que assigna
    _Saint-Genest_, dirigiu-me apostrophes convulsivas, pedindo-me para
    salvar a França; e foi então que as Illustrações estrangeiras
    publicaram, a côres, as scenas do meu viver. Recebi de todas as
    princezas da Europa enveloppes, com sêllos heraldicos, expondo-me, por
    photographias, por documentos, a fórma dos seus corpos e a antiguidade
    das suas genealogias. Duas pilherias que soltei durante esse anno foram
    telegraphadas ao Universo pelos fios da Agencia Havas; e fui considerado
    mais espirituoso que Voltaire, que Rochefort, e que esse fino
    entendimento que se chama _Todo-o-Mundo_. Quando o meu intestino se
    alliviava com estampido–a Humanidade sabia-o pelas gazetas. Fiz
    emprestimos aos Reis, subsidiei guerras civis–e fui caloteado por todas
    as Republicas latinas que orlaram o golfo do Mexico.

    E eu, no entanto, vivia triste…

    * * * * *

    Todas as vezes que entrava em casa estacava, arripiado, diante da mesma
    visão: ou estirada no limiar da porta, ou atravessada sobre o leito
    d'oiro–lá jazia a figura bojuda, de rabicho negro e tunica amarella,
    com o seu papagaio nos braços… Era o Mandarim Ti-Chin-Fú! Eu
    precipitava-me, de punho erguido: e tudo se dissipava.

    Então cahia aniquilado, todo em suor, sobre uma poltrona, e murmurava no
    silencio do quarto, onde as vélas dos candelabros davam tons
    ensaguentados aos damascos vermelhos:

    –_Preciso matar este morto_!

    E todavia, não era esta impertinencia d'um velho phantasma pançudo,
    accommodando-se nos meus moveis, sobre as minhas colchas, que me fazia
    saber mal a vida.

    O horror supremo consistia na idéa, que se me cravára então no espirito
    como um ferro inarrancavel–_que eu tinha assassinado um velho_!

    Não fôra com uma corda em torno da garganta á moda musulmana; nem com
    veneno n'um calix de vinho de Syracusa, á maneira italiana da
    Renascença; nem com algum dos methodos classicos, que na historia das
    Monarchias teem recebido consagrações augustas–a punhal como D. João
    II, á clavina como Carlos IX…

    Tinha eliminado a creatura, de longe, com uma campainha. Era absurdo,
    phantastico, faceto. Mas não diminuia a tragica negrura do facto: _eu
    assassinára um velho_!

    Pouco a pouco esta certeza ergueu-se, petrificou-se na minha alma, e
    como uma columna n'um descampado dominou toda a minha vida interior: de
    sorte que, por mais desviado caminho que tomassem os meus pensamentos
    viam sempre negrejar no horisonte aquella Memoria accusadora; por mais
    alto que se levantasse o vôo das minhas imaginações, ellas terminavam
    por ir fatalmente ferir as azas n'esse Monumento de miseria moral.

    Ah! por mais que se considere Vida e Morte como banaes transformações da
    Substancia, é pavoroso o pensamento–que se fez regelar um sangue
    quente, que se immobilisou um musculo vivo! Quando depois de jantar,
    sentindo ao lado o aroma do café, eu me estirava no sophá, enlanguecido,
    n'uma sensação de plenitude, elevava-se logo dentro em mim, melancolico
    como o côro que vem d'um ergastulo, todo um susurro de accusações:

    –E todavia tu fizeste que esse bem-estar em que te regalas, nunca mais
    fosse gozado pelo veneravel Ti-Chin-Fú!…

    Debalde eu replicava á Consciencia, lembrando-lhe a decrepitude do
    Mandarim, a sua gôta incuravel… Facunda em argumentos, gulosa de
    controversia, ella retorquia logo com furor:

    –Mas, ainda na sua actividade mais resumida, a vida é um bem supremo:
    porque o encanto d'ella reside no seu principio mesmo, e não na
    abundancia das suas manifestações!

    Eu revoltava-me contra este pedantismo rhetorico de pedagogo rigido:
    erguia alto a fronte, gritava-lhe n'uma arrogancia desesperada:

    –Pois bem! Matei-o! Melhor! Que queres tu? o teu grande nome de
    Consciencia não me assusta! És apenas uma perversão da sensibilidade
    nervosa. Posso eliminar-te com _flôr de laranja_!

    E immediatamente sentia passar-me n'alma, com uma lentidão de briza, um
    rumor humilde de murmurações ironicas:

    –Bem, então come, dorme, banha-te e ama…

    Eu assim fazia. Mas logo, os proprios lençoes de Bretanha do meu leito
    tomavam aos meus olhos apavorados os tons lividos d'uma mortalha; a agua
    perfumada em que me mergulhava arrefecia-me sobre a pelle, com a
    sensação espessa d'um sangue que coalha: e os peitos nús das minhas
    amantes entristeciam-me, como lapides de marmore que encerram um corpo
    morto.

    Depois assaltou-me uma amargura maior: comecei a pensar que Ti-Chin-Fú
    tinha de certo uma vasta familia, netos, bisnetos tenros, que,
    despojados da herança que eu comia á farta em pratos de Sèvres, n'uma
    pompa de sultão perdulario, iam atravessando na China todos os infernos
    tradicionaes da miseria humana–os dias sem arroz, o corpo sem agasalho,
    a esmola recusada, a rua lamacenta por morada…

    Comprehendi então porque me perseguia a figura obesa do velho letrado; e
    dos seus labios recobertos pelos longos pellos brancos do seu bigode de
    sombra, parecia-me sahir agora esta accusação desolada:–«Eu não me
    lamento a mim, fórma meio morta que era; chóro os tristes que
    arruinaste, e que a estas horas, quando tu vens do seio fresco das tuas
    amorosas, gemem de fome, regelam na frialdade, apinhados n'um grupo
    expirante, entre leprosos e ladrões, na _Ponte dos Mendigos_, ao pé dos
    terraços do Templo do Céo!»

    Oh tortura engenhosa! Tortura realmente chineza! Não podia levar á bocca
    um pedaço de pão sem imaginar immediatamente o bando faminto de
    criancinhas, a descendencia de Ti-Chin-Fú, penando, como passarinhos
    implumes que abrem debalde o bico e piam em ninho abandonado; se me
    abafava no meu paletot era logo a visão de desgraçadas senhoras, mimosas
    outr'ora de tepido conforto chinez, hoje rôxas de frio, sob andrajos de
    velhas sêdas, por uma manhã de neve; o tecto d'ébano do meu palacete
    lembrava-me a familia do Mandarim, dormindo á beira dos canaes, farejada
    pelos cães; e o meu coupé bem forrado fazia-me arripiar á idéa das
    longas caminhadas errantes, por estradas encharcadas, sob um duro
    inverno asiatico.

    O que eu soffria!–E era o tempo em que a populaça invejosa vinha pasmar
    para o meu palacete, commentando as felicidades inaccessiveis que lá
    deviam habitar!

    Emfim, reconhecendo que a Consciencia era dentro em mim como uma
    serpente irritada–decidi implorar o auxilio d'Aquelle que dizem ser
    superior á Consciencia porque dispõe da Graça.

    Infelizmente eu não acreditava n'Elle… Recorri pois á minha antiga
    divindade particular, ao meu dilecto idolo, padroeira da minha familia,
    Nossa Senhora das Dôres. E, regiamente pago, um povo de curas e conegos,
    pelas cathedraes de cidade e pelas capellas d'aldêa, foi pedindo a Nossa
    Senhora das Dôres que voltasse os seus olhos piedosos para o meu mal
    interior… Mas nenhum allivio desceu d'esses céos inclementes, para
    onde ha milhares d'annos debalde sobe o clamor da miseria humana.

    Então eu proprio me abysmei em praticas piedosas–e Lisboa assistiu a
    este espectaculo extraordinario: um ricaço, um Nababo, prostrando-se
    humildemente ao pé dos altares, balbuciando de mãos postas phrases de
    _Salvè-Rainha_, como se visse na Oração e no Reino do Céo que ella
    conquista, outra cousa mais que uma consolação ficticia que os que
    possuem tudo inventaram para contentar os que não possuem nada… Eu
    pertenço á Burguezia; e sei que se ella mostra á Plebe desprovída um
    paraiso distante, gozos ineffaveis a alcançar–é para lhe afastar a
    attenção dos seus cofres repletos e da abundancia das suas searas.

    Depois, mais inquieto, fiz dizer milhares de missas, simples e cantadas,
    para satisfazer a alma errante de Ti-Chin-Fú. Pueril desvario d'um
    cerebro peninsular! O velho Mandarim na sua classe de letrado, de membro
    da Academia dos Han-Lin, collaborador provavel do grande tratado
    Khou-Tsuane-Chou que já tem setenta e oito mil e setecentos e trinta
    volumes, era certamente um sectario da Doutrina, da Moral positiva de
    Confucio… Nunca elle, sequer, queimára mechas perfumadas em honra de
    Buddha: e os ceremoniaes do Sacrificio mystico deviam parecer á sua
    abominavel alma de grammatico e de sceptico como as pantomimas dos
    palhaços, no theatro de Hong-Tung!

    Então prelados astutos, com experiencia catholica, deram-me um conselho
    subtil–captar a benevolencia de Nossa Senhora das Dores com presentes,
    flôres, brocados e joias, como se quizesse alcançar os favores
    d'Aspasia: e á maneira d'um banqueiro obeso, que obtem as complacencias
    d'uma dançarina dando-lhe um _Cottage_ entre arvores–eu, por uma
    suggestão sacerdotal, tentei peitar a dôce Mãi dos Homens, erguendo-lhe
    uma cathedral toda de marmore branco. A abundancia das flôres punha
    entre os pilares lavrados perspectivas de paraisos: a multiplicidade dos
    lumes lembrava uma magnificencia sideral… Despezas vãs! O fino e
    erudito cardeal Nani veio de Roma consagrar a Igreja; mas, quando eu
    n'esse dia entrei a visitar a minha hospeda divina, o que vi, para além
    das calvas dos celebrantes, entre a mystica nevoa dos incensos, não foi
    a Rainha da Graça, loira, na sua tunica azul,–foi o velho malandro com
    o seu olho obliquo e o seu papagaio nos braços! Era a _elle_, ao seu
    branco bigode tartaro, á sua pança côr d'oca, que todo um sacerdocio
    recamado d'oiro estava offerecendo, ao roncar do orgão, a Eternidade dos
    Louvores!…

    * * * * *

    Então, pensando que Lisboa, o meio dormente em que me movia, era
    favoravel ao desenvolvimento d'estas imaginações–parti, viajei
    sobriamente, sem pompa, com um bahú e um lacaio.

    Visitei, na sua ordem, classica, Paris, a banal Suissa, Londres, os
    lagos taciturnos da Escocia; ergui a minha tenda diante das muralhas
    evangelicas de Jerusalém; e d'Alexandria a Thebas, fui ao comprido
    d'esse longo Egypto monumental e triste como o corredor d'um mausoléo.
    Conheci o enjôo dos paquetes, a monotonia das ruinas, a melancolia das
    multidões desconhecidas, as desillusões do _boulevard_: e o meu mal
    interior ia crescendo.

    Agora já não era só a amargura de ter despojado uma familia veneravel:
    assaltava-me o remorso mais vasto de ter privado toda uma sociedade d'um
    Personagem fundamental, um letrado experiente, columna da Ordem, esteio
    d'Instituições. Não se póde arrancar assim a um Estado uma personalidade
    do valor de cento e seis mil contos, sem lhe perturbar o equilibrio…
    Esta idéa pungia-me, acerbamente. Anciei por saber se na verdade a
    desapparição de Ti-Chin-Fú fôra funesta á decrepita China: li todos os
    jornaes de Hong-Kong e de Chang-Hai, velei a noite sobre Historias de
    viagens, consultei sabios missionarios:–e artigos, homens, livros, tudo
    me falla da decadencia do Imperio do Meio, provincias arruinadas,
    cidades moribundas, plebes esfomeadas, pestes e rebelliões, templos
    aluindo-se, leis perdendo a authoridade, a decomposição d'um mundo, como
    uma nau encalhada que a vaga desfaz tábua a tábua!…

    E eu attribuia-me estas desgraças da Sociedade chineza! No meu espirito
    doente Ti-Chin-Fú! tomára então o valor desproporcionado d'um Cesar, um
    Moysés, um d'esses sêres providenciaes que são a força d'uma raça. Eu
    matára-o; e com elle desapparecera a vitalidade da sua patria! O seu
    vasto cerebro poderia talvez ter salvado, a rasgos geniaes, aquella
    velha monarchia asiatica–e eu immobilisára-lhe a acção creadora! A sua
    fortuna concorreria a refazer a grandeza do Erario–e eu estava-a
    dissipando a offerecer pecegos em janeiro ás messalinas do
    Helder!…–Amigos, conheci o remorso colossal de ter arruinado um
    imperio!

    Para esquecer este tormento complicado, entreguei-me á orgia.
    Installei-me n'um palacete da avenida dos Campos-Elysios–e fui medonho.
    Dava festas á Trimalcião: e, nas horas mais asperas de furia libertina,
    quando das charangas, na estridencia brutal dos cobres, rompiam os
    _can-cans_; quando prostitutas, de seio desbragado, ganiam coplas
    canalhas; quando os meus convidados bohemios, atheus de cervejaria,
    injuriavam Deus, com a taça de _Champagne_ erguida–eu, tomado
    subitamente como Heliogabalo d'um furor de bestialidade, d'um ódio
    contra o Pensante e o Consciente, atirava-me ao chão a quatro patas e
    zurrava formidavelmente de burro…

    Depois quiz ir mais baixo, ao deboche da plebe, ás torpezas alcoólicas
    do _Assomoir_: e quantas vezes, vestido de blusa, com o casquete para a
    nuca, de braço dado com _Mes-Bottes_ ou _Bibi-la-Gaillarde_, n'um tropel
    avinhado, fui cambaleando pelos _boulevards_ exteriores, a uivar, entre
    arrotos:

    _Allons, enfants de la patrie-e-e!…
    Le jour de gloire est arrivé…_

    Foi uma manhã, depois d'um d'estes excessos, á hora em que nas trevas da
    alma do debochado se ergue uma vaga aurora espiritual–que me nasceu, de
    repente, a idéa de partir para a China! E, como soldados em acampamento
    adormecido, que ao som do clarim se erguem, e um a um se vão juntando e
    formando columna–outras idéas se foram reunindo no meu espirito,
    alinhando-se, completando um plano formidavel… Partiria para Pekin;
    descobriria a familia de Ti-Chin-Fú; esposando uma das senhoras,
    legitimaría a posse dos meus milhões; daria áquella casa letrada a
    antiga prosperidade; celebraria funeraes pomposos ao Mandarim, para lhe
    acalmar o espirito irritado; iria pelas provincias miseraveis fazendo
    colossaes distribuições d'arroz; e, obtendo do Imperador o botão de
    crystal de Mandarim, accesso facil a um bacharel, substituir-me-hia á
    personalidade desapparecida de Ti-Chin-Fú–e poderia assim restituir
    legalmente á sua patria, senão a authoridade do seu saber, ao menos a
    força do seu oiro.

    Tudo isto, por vezes, me apparecia como um programma indefinido,
    nevoento, pueril e idealista. Mas já o desejo d'esta aventura original e
    epica me envolvera; e eu ia, arrebatado por elle, como uma folha secca
    n'uma rajada.

    Anhelei, suspirei por pisar a terra da China!–Depois d'altos
    preparativos, apressados a punhados d'oiro, uma noite parti emfim para
    Marselha. Tinha alugado todo um paquete, o _Ceylão_. E na manhã
    seguinte, por um mar azul-ferrete, sob o vôo branco das gaivotas, quando
    os primeiros raios do sol ruborisavam as torres de Nossa Senhora da
    Guarda, sobre o seu rochedo escuro–puz a prôa ao Oriente.

    IV

    O Ceylão teve uma viagem calma e monotona até Chang-Hai.

    D'ahi subimos pelo rio Azul a Tien-Tsin n'um pequeno _steamer_ da
    Companhia Russel. Eu não vinha visitar a China n'uma curiosidade ociosa
    de _touriste_: toda a paizagem d'essa provincia, que se assemelha á dos
    vasos de porcelana, d'um tom azulado e vaporoso, com collinasinhas
    calvas e de longe a longe um arbusto bracejante, me deixou sombriamente
    indifferente.

    Quando o capitão do _steamer_, um _yankee_ impudente de focinho de
    chibo, ao passarmos á altura de Nankin, me propoz parar, ir percorrer as
    ruinas monumentaes da velha cidade de porcelana,–eu recusei, com um
    movimento secco de cabeça, sem mesmo desviar os olhos tristes da
    corrente barrenta do rio.

    Que pesados e soturnos me pareceram os dias de navegação de Tien-Tsin a
    Tung-Chou, em barcos chatos que o cheiro dos remadores chinezes
    empestava; ora através de terras baixas inundadas pelo Pei-hó, ora ao
    longo de pallidos e infindaveis arrozaes; passando aqui uma lugubre
    aldêa de lama negra, além um campo coberto de esquifes amarellos;
    topando a cada momento com cadaveres de mendigos, inchados e
    esverdeados, que desciam ao fio d'agua, sob um céo fusco e baixo!

    Em Tung-Chou fiquei surprehendido, ao dar com uma escolta de cossacos
    que mandava ao meu encontro o velho general Camilloff, heroico official
    das campanhas da Asia Central, e então embaixador da Russia em Pekin. Eu
    vinha-lhe recommendado como um sêr precioso e raro: e o verboso
    interprete Sá-Tó, que elle punha ao meu serviço, explicou-me que as
    cartas de sêllo imperial, avisando-o da minha chegada, recebera-as elle,
    havia semanas, pelos correios da Chancellaria que atravessam a Siberia
    em trenó, descem a dorso de camêlo até á Grande Muralha tartara, e
    entregam ahi a mala a esses corredores mongolicos, vestidos de coiro
    escarlate, que dia e noite galopam sobre Pekin.

    Camilloff enviava-me um poney da Manchouria, ajaezado de sêda, e um
    cartão de visita, com estas palavras traçadas a lapis sob o seu nome:
    «_Saúde! o animal é dôce de bocca_!»

    Montei o poney: e a um _hurrah_! dos cossacos, n'um agitar heroico de
    lanças, partimos á desfilada pela poeirenta planicie–porque já a tarde
    declinava, e as portas de Pekin fecham-se mal o ultimo raio de sol deixa
    as torres do Templo do Céo. Ao principio seguimos uma estrada, caminho
    batido do transito das caravanas, atravancado de enormes lages de
    marmore dessoldadas da antiga Via Imperial. Depois passámos a ponte de
    Pa-li-kao, toda de marmore branco, flanqueada de dragões arrogantes.
    Vamos correndo então á beira de canaes d'agua negra: começam a apparecer
    pomares, aqui e além uma aldêa de côr azulada, aninhada ao pé de um
    Pagode:–de repente, a um cotovêlo do caminho, paro assombrado…

    Pekin está diante de mim! É uma vasta muralha, monumental e barbara,
    d'um negro baço, estendendo-se a perder de vista, e, destacando, com as
    architecturas babylonicas das suas portas de tectos recurvos, sobre um
    fundo de poente de purpura ensanguentada…

    Ao longe, para o Norte, n'um vago de vapor roxo, esbatem-se, como
    suspensas no ar, as montanhas da Mongolia…

    Uma rica liteira esperava-me á porta de Tung-Tsen-Men, para eu
    atravessar Pekin até á Residencia militar de Camilloff. A muralha agora,
    ao perto, parecia erguer-se até aos céos com o horror d'uma construcção
    biblica: á sua base apinhava-se uma confusão de barracas, feira exotica,
    onde rumorejava uma multidão, e a luz de lanternas oscillantes cortava
    já o crepúsculo de vagas manchas côr de sangue; os toldos brancos faziam
    ao pé do negro muro como um bando de borboletas pousadas.

    Senti-me triste; subi á liteira, cerrei as cortinas de sêda escarlate
    todas bordadas a oiro; e cercado dos cossacos, eis-me entrando a velha
    Pekin, por essa porta babelica, na turba tumultuosa, entre carretas,
    cadeirinhas de xarão, cavalleiros mongolicos armados de flechas, bonzos
    de tunica alvejante marchando um a um, e longas filas de lentos
    dromedarios balançando a sua carga em cadencia…

    D'ahi a pouco a liteira parou. O respeitoso Sá-Tó correu as cortinas, e
    vi-me n'um jardim, escurecido e calado, onde, por entre sycomoros
    seculares, kiosques alumiados brilhavam com uma luz dôce, como colossaes
    lanternas pousadas sobre a relva: e toda a sorte de aguas correntes
    murmuravam na sombra. Sob um peristilo feito de madeiros pintados a
    vermelhão, aclarado por fios de lampadas de papel transparente,
    esperava-me um membrudo figurão, de bigodes brancos, apoiado a um grosso
    espadão. Era o general Camilloff. Ao adiantar-me para elle, eu sentia o
    passo inquieto das gazellas fugindo de leve sob as arvores…

    O velho heroe apertou-me um momento ao peito, e conduziu-me logo,
    segundo os usos chinezes, ao banho da hospitalidade, uma vasta tina de
    porcelana, onde entre rodelas finas de limão sobrenadavam esponjas
    brancas, n'um perfume forte de lilaz…

    Pouco depois a lua banhava deliciosamente os jardins: e eu, muito
    fresco, de gravata branca, entrava pelo braço de Camilloff no _boudoir_
    da generala. Era alta e loira; tinha os olhos verdes das sereias de
    Homero; no decote baixo do seu vestido de sêda branca pousava uma rosa
    escarlate; e nos dedos, que lhe beijei, errava um aroma fino de sandalo
    e de chá.

    Conversámos muito da Europa, do Nihilismo, de Zola, de Leão XIII, e da
    magreza de Sarah Bernardth…

    Pela galeria aberta penetrava um ar calido que rescendia a heliotropio.
    Depois ella sentou-se ao piano–e a sua voz de contralto quebrou até
    tarde os silencios melancolicos da cidade tartara, com as picantes arias
    de _Madame Favart_ e com as melodias afagantes do _Rei de Lahore_.

    * * * * *

    Ao outro dia cedo, encerrado com o general n'um dos kiosques do jardim,
    contei-lhe a minha lamentavel historia e os motivos fabulosos que me
    traziam a Pekin. O heroe escutava, cofiando sombriamente o seu espesso
    bigode cossaco…

    –O meu prezado hospede sabe o chinez?–perguntou-me de repente, fixando
    em mim a pupilla sagaz.

    –Sei duas palavras importantes, general: _Mandarim_ e _chá_.

    Bile passou a sua mão de fortes cordovêas sobre a medonha cicatriz que
    lhe sulcava a calva:

    –_Mandarim_, meu amigo, não é uma palavra chineza, e ninguem a entende
    na China. É o nome que no seculo XVI os navegadores do seu paiz, do seu
    bello paiz…

    –Quando nós tinhamos navegadores…–murmurei, suspirando.

    Elle suspirou tambem, por polidez, e continuou:

    –…Que os seus navegadores deram aos funccionarios chinezes. Vem do
    seu verbo, do seu lindo verbo…

    –Quando tinhamos verbos…–rosnei, no habito instinctivo de deprimir a
    patria.

    Elle esgazeou um momento o seu olho redondo de velho mocho–e proseguiu
    paciente e grave:

    –Do seu lindo verbo _mandar_ … Resta-lhe por tanto _chá_. É um
    vocabulo que tem um vasto papel na vida chineza, mas julgo-o
    insufficiente para servir a todas as relações sociaes. O meu estimavel
    hospede pretende esposar uma senhora da famillia Ti-Chin-Fú, continuar a
    grossa influencia que exercia o Mandarim, substituir, domestica e
    socialmente, esse chorado defunto… Para tudo isto dispõe da palavra
    _chá_. É pouco.

    Não pude negar–que era pouco. O venerando russo, franzindo o seu nariz
    adunco de milhafre, pôz-me ainda outras objecções que eu via erguerem-se
    diante do meu desejo–como as muralhas mesmas de Pekin: nenhuma senhora
    da familia Ti-Chin-Fú consentiria jámais em casar com um barbaro; e
    seria impossivel, terrivelmente impossivel que o Imperador, o Filho do
    Sol, concedesse a um estrangeiro as honras privilegiadas d'um
    Mandarim…

    –Mas porque m'as recusaria?–exclamei.–Eu pertenço a uma boa familia
    da provincia do Minho. Sou bacharel formado: portanto na China, como em
    Coimbra, sou um letrado! Já fiz parte d'uma repartição publica… Possuo
    milhões… Tenho a experiencia do estylo administrativo…

    O general ia-se curvando com respeito a esta abundancia dos meus
    attributos.

    –Não é–disse elle emfim–que o Imperador realmente o recusasse: é que
    o individuo que lh'o propozesse seria immediatamente decapitado. A lei
    chineza, n'este ponto, é explicita e secca.

    Baixei a cabeça, acabrunhado.

    –Mas, general–murmurei–eu quero livrar-me da presença odiosa do velho
    Ti-Chin-Fú e do seu papagaio!… Se eu entregasse metade dos meus
    milhões ao thesouro chinez, já que não me é dado pessoalmente
    applical-os, como Mandarim, á prosperidade do Estado…? Talvez
    Ti-Chin-Fú se calmasse…

    O general pousou-me paternalmente a vasta mão sobre o hombro:

    –Êrro, consideravel êrro, mancebo! Esses milhões nunca chegariam ao
    thesouro imperial. Ficariam nas algibeiras insondaveis das classes
    dirigintes: seriam dissipados em plantar jardins, colleccionar
    porcelanas, tapetar de pelles os soalhos, fornecer sêdas ás concubinas:
    não alliviariam a fome d'um só chinez, nem reparariam uma só pedra das
    estradas publicas… Iriam enriquecer a orgia asiatica. A alma de
    Ti-Chin-Fú deve conhecer bem o Imperio: e isso não a satisfaria.

    –E se eu empregasse parte da fortuna do velho malandro em fazer
    particularmente, como philanthropo, largas distribuições d'arroz á
    populaça faminta? É uma idéa…

    –Funesta–disse o general, franzindo medonhamente o sobr'olho.–A côrte
    imperial veria ahi immediatamente uma ambição politica, o tortuoso plano
    de ganhar os favores da plebe, um perigo para a Dynastia… O meu bom
    amigo seria decapitado… É grave…

    –Maldição!–berrei.—Então para que vim eu á China?

    O diplomata encolheu vagarosamente os hombros; mas logo, mostrando n'um
    sorriso astuto os seus dentes amarellos de cossaco:

    –Faça uma coisa. Procure a familia de Ti-Chin-Fú… Eu indagarei do
    primeiro ministro, sua excellencia o principe Tong, onde pára essa prole
    interessante… Reuna-os, atire-lhes uma ou duas duzias de milhões…
    Depois prepare ao defunto funeraes regios. Funeraes d'alto ceremonial,
    com um prestito d'uma legua, filas de bonzos, todo um mundo de
    estandartes, palanquins, lanças, plumas, andores escarlates, legiões de
    carpideiras ululando sinistramente, etc. etc… Se depois de tudo isto a
    sua consciencia não adormecer e o phantasma insistir…

    –Então?

    –Córte as guelas.

    –Obrigado, general.

    * * * * *

    Uma coisa porém era evidente, e n'ella concordaram Camilloff, o
    respeitoso Sá-Tó e a generala:–que, para frequentar a familia
    Ti-Chin-Fú, seguir os funeraes, misturar-me á vida de Pekin, eu devia
    desde já vestir-me como um chinez opulento, da classe letrada, para me
    ir habituando ao traje, ás maneiras, ao ceremonial mandarim…

    A minha face amarellada, o meu longo bigode pendente favoreciam a
    caracterisação:–e quando na manhã seguinte, depois d'arranjado pelos
    costureiros engenhosos da rua Chá-Coua, entrei na sala forrada de sêda
    escarlate, onde já rebrilhavam as porcelanas do almoço sobre a mesa de
    charão negro,–a generala recuou como á appariçâo do proprio Tong-Tché,
    Filho do Céo!

    Eu trazia uma tunica de brocado azul escuro abotoada ao lado, com o
    peitilho ricamente bordado de dragões e flôres d'oiro: por cima um
    casabeque de sêda de um tom azul mais claro, curto, amplo e fôfo: as
    calças de setim côr de avellã descobriam ricas babouches amarellas
    pespontadas a perolas, e um pouco da meia picada d'estrellinhas negras:
    e á cinta, n'uma linda facha franjada de prata, tinha mettido um leque
    de bambú, dos que teem o retrato do philosopho Lá-o-Tsé e são fabricados
    em Swaton.

    E, pelas mysteriosas correlações com que o vestuario influenceia o
    caracter, eu sentia já em mim idéas, instinctos chinezes:–o amor dos
    ceremoniaes meticulosos, o respeito bureocratico das fórmulas, uma ponta
    de scepticismo letrado; e tambem um abjecto terror do Imperador, o odio
    ao estrangeiro, o culto dos antepassados, o fanatismo da tradição, o
    gosto das coisas assucaradas…

    Alma e ventre, era já totalmente um Mandarim. Não disse á
    generala:–_Bon jour, Madame_. Dobrado ao meio, fazendo girar os punhos
    fechados sobre a fronte abaixada, fiz gravemente o _chin-chin_!

    –É adorável, é precioso!–dizia ella, com o seu lindo riso, batendo as
    maosinhas pallidas.

    N'essa manhã, em honra da minha nova incarnação, havia um almoço chinez.
    Que gentis guardanapos de papel de sêda escarlate, com monstros
    fabulosos desenhados a negro! O serviço começou por ostras de Ning-Pó.
    Eximias! Absorvi duas duzias com um intenso regalo chinez. Depois vieram
    deliciosas febras de barbatana de tubarão, olhos de carneiro com picado
    d'alho, um prato de nenufares em calda d'assucar, laranjas de Cantão, e
    emfim o arroz sacramental, o arroz dos avós…

    Delicado repasto, regado largamente de excellente vinho de Chão-Chigne!
    E por fim, com que gôzo recebi a minha taça d'agua a ferver, onde deitei
    uma pitada de folhas de chá imperial, da primeira colheita de março,
    colheita unica, que é celebrada como um rito santo pelas mãos puras de
    virgens!…

    Duas cantadeiras entraram, em quanto nós fumavamos; e muito tempo, n'uma
    modulação guttural, disseram velhas cantigas dos tempos da dynastia
    Ming, ao som de guitarras recobertas de pelles de serpente, que dous
    tartaros agachados repenicavam, n'uma cadencia melancolica e barbara. A
    China tem encantos d'um raro gosto…

    Depois a loira generala cantou-nos, com chiste, a _Femme à barbe_: e
    quando o general sahiu com a sua escolta cossaca para o Yamen do
    principe Tong, a informar-se da residencia da familia Ti-Chin-Fú–eu,
    repleto e bem disposto, sahi com Sá-Tó a vêr Pekin.

    * * * * *

    A habitação de Camilloff ficava na cidade tartara, nos bairros militares
    e nobres. Ha aqui uma tranquillidade austera. As ruas assemelham-se a
    largos caminhos d'aldêa sulcados pelas rodas dos carros; e quasi sempre
    se caminha ao comprido de um muro, d'onde sahem ramos horisontaes de
    sycomoros.

    Por vezes uma carreta passa rapidamente, ao trote de um poney mongol,
    com altas rodas cravejadas de pregos dourados; tudo n'ella oscilla, o
    toldo, as cortinas pendentes de sêda, os ramos de plumas aos angulos; e
    dentro entrevê-se alguma linda dama chineza, coberta de brocados claros,
    a cabeça toda cheia de flôres, fazendo girar nos pulsos dois aros de
    prata, com um ar de tedio ceremonioso. Depois é alguma aristocratica
    cadeirinha de Mandarim, que koulis vestidos d'azul, de rabicho solto,
    vão levando a um trote arquejante para os Yamens do Estado; precede-os
    uma criadagem maltrapilha que ergue ao alto rolos de seda com
    inscripções bordadas, insignias d'authoridade; e dentro o personagem
    bojudo, com enormes oculos redondos, folheia a sua papelada ou dormita
    de beiço cahido…

    A cada momento paravamos a olhar as lojas ricas, com as suas taboletas
    verticaes de letras douradas sobre fundo escarlate: os freguezes, n'um
    silencio d'igreja, subtis como sombras, vão examinando as
    preciosidades–porcelanas da dynastia Ming, bronzes, esmaltes, marfins,
    sêdas, armas marchetadas, os leques maravilhosos de Swaton: por vezes,
    uma fresca rapariga d'olho obliquo, tunica azul, e papoilas de papel nas
    tranças, desdobra algum raro brocado diante d'um grosso chinez que o
    contempla beatamente, com os dedos cruzados na pança: ao fundo o
    mercador apparatoso e immovel, escreve com um pincel sobre longas
    taboinhas de sandalo: e um perfume adocicado que sahe das coisas
    perturba e entristece…

    Eis-aqui a muralha que cérca a Cidade interdictca, morada santa do
    Imperador! Moços nobres vem descendo do terraço d'um templo onde se
    estiveram adestrando á frecha. Sá-Tó disse-me os seus nomes: eram da
    guarda selecta, que nas ceremonias escolta o guarda-sol de sêda
    amarella, com o Dragão bordado, que é o emblema sagrado do Imperador.
    Todos elles comprimentaram profundadamente um velho que ia passando, de
    barbas venerandas, com o casabeque amarello que é o privilegio do
    ancião; vinha fallando só, e trazia na mão uma vara sobre que pousavam
    cotovias domesticadas… Era um principe do Imperio.

    Estranhos bairros! Mas nada me divertia como vêr a cada instante, a uma
    porta de jardim, dois Mandarins pançudos que para entrar se trocavam
    indefinidamente salamalés, cortezias, recusas, risinhos agudos
    d'etiqueta, todo um ceremonial dogmatico–que lhes fazia oscillar d'um
    modo picaresco, sobre as costas, as longas pennas de pavão. Depois se
    erguia os olhos para o ar, lá via sempre pairar enormes papagaios de
    papel, ora em fórma de dragões, ora de cetaceos, ora d'aves
    fabulosas–enchendo o espaço d'uma inverosimil legião de monstros
    transparentes e ondeantes…

    * * * * *

    –Sá-Tó, basta de cidade tartara! Vamos vêr os bairros chinezes…

    E lá fomos penetrando na cidade chineza, pela porta monstruosa de
    Tchin-Men. Aqui habita a burguezia, o mercador, a populaça. As ruas
    alinham-se como uma pauta; e no sólo vetusto e lamacento, feito da
    immundicie de gerações recalcada desde seculos, ainda aqui e além jaz
    alguma das lages de marmore côr de rosa que outr'ora o calçavam, no
    tempo da grandeza dos Ming.

    Dos dois lados são–ora terrenos vagos onde uivam manadas de cães
    famintos, ora filas de casebres fuscos, ora pobres lojas com as suas
    taboletas esguias e sarapintadas, balouçando-se d'uma haste de ferro. A
    distancia erguem-se os arcos triumphaes feitos de barrotes côr de
    purpura, ligados no alto por um telhado oblongo de telhas azues
    envernizadas, que rebrilham como esmaltes. Uma multidão rumorosa e
    espessa, onde domina o tom pardo e azulado dos trajes, circula sem
    cessar; a poeira envolve tudo d'uma nevoa amarellada; um fedor acre
    exhala-se dos enxurros negros; e a cada momento uma longa caravana de
    camêlos fende lentamente a turba, conduzida por mongoes sombrios
    vestidos de pelle de carneiro…

    Fomos até ás entradas das pontes sobre os canaes, onde saltimbancos
    semi-nús, com mascaras simulando demonios pavorosos, fazem destrezas
    d'um picaresco barbaro e subtil; e muito tempo estive a admirar os
    astrologos de longas tunicas, com dragões de papel collados ás cóstas,
    vendendo ruidosamente horoscopos e consultas d'astros. Oh cidade
    fabulosa e singular!

    De repente ergue-se uma gritaria! Corremos: era um bando de presos, que
    um soldado, de grandes oculos, ia impellindo com o guarda-sol, amarrados
    uns aos outros pelo rabicho! Foi ahi n'essa avenida, que eu vi o
    estrepitoso cortejo de um funeral de Mandarim, todo ornado de
    auriflammas e de bandeirolas; grupos de sujeitos funebres vinham
    queimando papeis em fogareiros portateis; mulheres esfarrapadas uivavam
    de dôr espojando-se sobre tapetes; depois erguiam-se, galhofavam, e um
    kouli vestido de luto branco servia-lhes logo chá, d'um grande bule em
    fórma d'ave.

    Ao passar junto ao Templo do Céo, vejo apinhada n'um largo uma legiao de
    mendigos; tinham por vestuario um tijolo preso á cinta n'um cordel; as
    mulheres, com os cabellos entremeados de velhas flôres de papel, roiam
    ossos tranquillamente; e cadaveres de crianças apodreciam ao lado, sob o
    vôo dos moscardos. Adiante topamos com uma jaula de traves, onde um
    condemnado estendia, através das grades, as mãos descarnadas, á
    esmola… Depois Sá-Tó mostrou-me respeitosamente uma praça estreita:
    ahi, sobre pilares de pedra, poupavam pequenas gaiolas contendo cabeças
    de decapitados: e gotta a gotta ia pingando d'ellas um sangue espesso e
    negro…

    * * * * *

    –Ouf!–exclamei, fatigado e aturdido.–Sá-Tó, agora quero o repouso, o
    silencio, e um charuto caro…

    Elle curvou-se: e, por uma escadaria de granito, levou-me ás altas
    muralhas da cidade, formando uma esplanada que quatro carros de guerra a
    par podem percorrer durante leguas.

    E emquanto Sá-Tó, sentado n'um vão d'ameia, bocejava n'um desafôgo de
    _cicerone_ enfastiado, eu fumando contemplei muito tempo aos meus pés a
    vasta Pekin…

    É como uma formidavel cidade da Biblia, Babel, ou Ninive que o propheta
    Jonas levou tres dias a atravessar. O grandioso muro quadrado limita os
    quatro pontos do horisonte, com as suas portas de torres monumentaes,
    que o ar azulado, áquella distancia, faz parecer transparentes. E na
    immensidão do seu recinto agglomeram-se confusamente verduras de
    bosques, lagos artificiaes, canaes scintillantes como aço, pontes de
    marmore, terrenos alastrados de ruinas, telhados envernizados reluzindo
    ao sol; por toda a parte são pagodes heraldicos, brancos terraços de
    templos, arcos triumphaes, milhares de kiosques sahindo d'entre as
    folhagens dos jardins; depois espaços que parecem um montão de
    porcelanas, outros que se assemelham a monturos de lama; e sempre a
    intervallos regulares o olhar encontra algum dos bastiões, d'um aspecto
    heroico e fabuloso…

    A multidão, junto a essas edificações grandiosas, é apenas como grãos
    d'arêa negra que um vento brando vai trazendo e levando…

    Aqui está o vasto palacio imperial, entre arvoredos mysteriosos, com os
    seus telhados d'um amarello d'oiro vivo! Como eu desejaria penetrar-lhe
    os segredos, e ver desenrolar-se, pelas galerias sobrepostas, a
    magnificencia barbara d'essas Dynastias seculares!

    Além ergue-se a torre do Templo do Céo semelhando três guarda-soes
    sobrepostos: depois a grande columna dos Principios, hieratica e sêcca
    como o Genio mesmo da Raça: e adiante branquejam n'uma meia tinta
    sobrenatural os terraços de jaspe do Santuario da Purificação…

    Então interrogo Sá-Tó: e o seu dedo respeitoso vai-me mostrando o Templo
    dos Antepassados, o Palacio da Soberana Concordia, o Pavilhão das Flôres
    das Letras, o Kiosque dos Historiadores, fazendo brilhar, entre os
    bosques sagrados que os cercam, os seus telhados lustrosos de faianças
    azues, verdes, escarlates e côr de limão. Eu devorava, d'olho avido,
    esses monumentos da Antiguidade asiatica, n'uma curiosidade de conhecer
    as impenetraveis classes que os habitam, o principio das Instituições, a
    significação dos Cultos, o espirito das suas letras, a grammatica, o
    dogma, a estranha vida interior d'um cerebro de letrado chinez… Mas
    esse mundo é inviolavel como um Santuario…

    Sentei-me na muralha, e os meus olhos perderam-se pela planicie arenosa
    que se estira para além das portas até aos contrafortes dos montes
    mongolicos; ahi incessantemente redemoinham ondas infindaveis de poeira;
    a toda a hora negrejam filas vagarosas de caravanas… Então invadiu-me
    a alma uma melancolia, que o silencio d'quellas alturas, envolvendo
    Pekin, tornava d'um vago mais desolado: era como uma saudade de mim
    mesmo, um longo pezar de me sentir alli isolado, absorvido n'aquelle
    mundo duro e barbaro: lembrei-me, com os olhos humedecidos, da minha
    aldêa do Minho, do seu adro assombreado de carvalheiras, a venda com um
    ramo de louro á porta, o alpendre do ferrador, e os ribeiros tão frescos
    quando verdejam os linhos…

    Aquella era a época em que as pombas emigram de Pekin para o sul. Eu
    via-as reunirem-se em bandos por cima de mim, partindo dos bosques dos
    templos e dos pavilhões imperiaes; cada uma traz, para a livrar dos
    milhafres, um leve tubo de bambu que o ar faz silvar; e aquellas nuvens
    brancas passavam como impellidas d'uma aragem molle, deixando no
    silencio um lento e melancolico suspiro, uma ondulação eolia, que se
    perdia nos ares pallidos…

    Voltei para casa, pesado e pensativo.

    Ao jantar, Camilloff, desdobrando o seu guardanapo, pediu-me com
    bonhomia as minhas impressões de Pekin.

    –Pekin faz-me sentir bem, general, os versos d'um poeta nosso:

    Sôbolos rios que vão
    Por Babylonia me achei…

    –Pekin é um monstro!–disse Camilloff oscillando reflectidamente a
    calva.–E agora considere, que a esta capital, á classe tartara e
    conquistadora que a possue, obedecem trezentos milhões d'homens, uma
    raça subtil, laboriosa, soffredora, prolifica, invasora… Estudam as
    nossas sciencias… Um calice de Medoc, Theodoro?… Teem uma marinha
    formidavel! O exercito, que outr'ora julgava destroçar o estrangeiro com
    dragões de papelão d'onde sahiam bichas de fogo, tem agora tactica
    prussiana e espingarda d'agulha! Grave!

    –E todavia, general, no meu paiz, quando, a proposito de Macau, se
    falla do Imperio Celeste, os patriotas passam os dedos pela grenha, e
    dizem negligentemente: _Mandamos lá cincoenta homens, e varremos a
    China_…

    A esta sandice–fez-se um silencio. E o general, depois de tossir
    formidavelmente, murmurou, com condescendencia:

    –Portugal é um bello paiz…

    Eu exclamei com seccura e firmeza:

    –É uma choldra, general.

    A generala, collocando delicadamente á borda do prato uma aza de frango,
    e limpando o dedinho, disse:

    –É o paiz da canção de Mignon. É lá que floresce a laranjeira…

    O gordo Meriskoff, doutor allemão pela Universidade de Bonn, chanceller
    da legação, homem de poesia e de commentario, observou com respeito:

    –Generala, o dôce paiz de Mignon é a Italia: _Conheces tu a terra
    privilegiada onde a laranjeira dá flor_? O divino Goethe referia-se á
    Italia, _Italia mater_… A Italia será o eterno amor da humanidade
    sensivel!

    –Eu prefiro a França!–suspirou a esposa do primeiro secretario, uma
    bonecasinha sardenta, de cabello arruivascado.

    –Ah! a França!…–murmurou um addido, revirando um bugalho d'olho
    ternissimo.

    O gordo Meriskoff ageitou os oculos d'oiro:

    –A França tem um mal, que é a Questão social…

    –Oh! a Questão social!–rosnou sombriamente Camilloff.

    –Ah! a Questão social!…–considerou ponderosamente o addido.

    E discreteando com tanta sapiencia, chegámos por fim ao café.

    Ao descer ao jardim, a generala, apoiando-se sentimentalmente ao meu
    braço, murmurou-me, junto á face:

    –Ai, quem me dera viver n'esses paizes apaixonados, onde verdejam os
    laranjaes!…

    –É lá que se ama, generala–segredei-lhe eu, levando-a dôcemente para a
    escuridão dos sycomoros…

    V

    Foi necessario todo um longo verão para descobrir a provincia onde
    residira o defunto Ti-Chin-Fú!

    Que episodio administrativo tão pittoresco, tão chinez! O serviçal
    Camillof, que passava o dia inteiro a percorrer os Yamens do Estado,
    teve de provar primeiro que o desejo de conhecer a morada d'um velho
    Mandarim não encobria uma conspiração contra a segurança do Imperio; e
    depois foi-lhe ainda preciso jurar que não havia n'esta curiosidade um
    attentado contra os Ritos sagrados! Então, satisfeito, o principe Tong
    permittiu que se fizesse o inquerito imperial: centenares d'escribas
    empallideceram noite e dia, de pincel na mão, desenhando relatorios
    sobre papel d'arroz; mysteriosas conferencias sussurraram
    incessantemente por todas as repartições da Cidade Imperial, desde o
    Tribunal astronomico até ao Palacio da Bondade Preferida; e uma
    população de koulis transportava da legação russa para os kiosques da
    Cidade Interdicta, e d'ahi para o Pateo dos Archivos padiolas estalando
    ao peso de maços de documentos vetustos…

    Quando Camilloff perguntava _pelo resultado_, vinha-lhe a resposta,
    satisfactoria que se estavam consultando os Livros Santos de Lá-o-Tsé,
    ou que se iam explorar velhos textos do tempo de Nor-ha-chú. E para
    calmar a impaciencia bellica do russo, o principe Tong remettia, com
    estes recados subtis, algum substancial presente de confeitos recheados,
    ou de gomos de bambú em calda d'assucar…

    * * * * *

    Ora em quanto o general trabalhava com fervor para encontrar a familia
    Ti-Chin-Fú,–eu ia tecendo horas de sêda e oiro (assim diz um poeta
    japonez) aos pés pequeninos da generala…

    Havia um kiosque no jardim sob os sycomoros, que se denominava, á
    maneira chineza, do _Repouso discreto_:–ao lado um arroio fresco ia
    cantando dôcemente sob uma pontesinha rustica pintada de côr de rosa. As
    paredes eram apenas um gradeado de bambú fino forrado de sêda côr de
    ganga: o sol, passando através d'ellas, fazia uma luz sobrenatural de
    opala desmaiada. Ao centro afofava-se um divan de sêda branca, d'uma
    poesia de nuvem matutina, attrahente como um leito nupcial. Aos cantos,
    em ricas jarras transparentes da época de Yeng, erguiam-se, na sua
    gentileza aristocratica, lirios escarlates do Japão. Todo o soalho
    estava recoberto d'esteiras finas de Nankin; e junto á janella
    rendilhada, sobre um airoso pedestal de sandalo, pousava aberto ao alto
    um leque formado de laminas de crystal separadas, que a aragem entrando
    fazia vibrar, n'uma modulação melancolica e terna.

    As manhãs do fim d'agosto em Pekin são muito suaves; já erra no ar um
    enternecimento outonal. A essa hora o conselheiro Meriskoff, os
    officiaes da legação, estavam sempre na chancellaria _fazendo a mala_
    para S. Petersburgo.

    Eu então, de leque na mão, pisando subtilmente na ponta das babouches de
    setim as ruasinhas areadas do jardim, ia entreabrir a porta do _Repouso
    discreto_:

    –Mimi?

    E a voz da generala respondia, suave como um beijo:

    –_All right_…

    Como ella era linda vestida de dama chineza! Nos seus cabellos
    levantados alvejavam flôres de pecegueiro; e as sobrancelhas pareciam
    mais puras e negras avivadas a tinta de Nankin. A camisinha de gaze,
    bordada a soutache de filigrana d'oiro, collava-se aos seus seios
    pequeninos e direitos: vastas, fôfas calças de foulard côr de _côxa de
    Nympha_, que lhe davam uma graça de serralho, recahiam sobre o tornozêlo
    fino, coberto de meia de seda amarella:–e apenas tres dedos da minha
    mão cabiam na sua chinelinha…

    Chamava-se Vladimira; nascera ao pé de Nidji-Novogorod; e fôra educada
    por uma tia velha que admirava Rousseau, lia Faublas, usava o cabello
    empoado, e parecia a grossa lithographia cossaca d'uma dama galante de
    Versalhes…

    O sonho de Vladimira era habitar Paris; e fazendo ferver delicadamente
    as folhas de chá, pedia-me historias ladinas de _Cocottes_, e dizia-me o
    seu culto por Dumas filho…

    Eu arregaçava-lhe a larga manga do casabeque de sêda côr de folha morta,
    e ia fazendo viajar os meus labios devotos pela pelle fresca dos seus
    bellos braços;–e depois sobre o divan, enlaçados, peito contra peito,
    n'um extasi mudo, sentiamos as laminas de crystal resoar eoliamente, as
    pêgas azues esvoaçarem pelos platanos, o fugitivo rhythmo do arroio
    corrente…

    Os nossos olhos humedecidos encontravam ás vezes um quadro de setim
    preto, por cima do divan, onde em caracteres chinezes se desenrolavam
    sentenças do Livro Sagrado de Li-Num «sobre os deveres das esposas». Mas
    nenhum de nós percebia o chinez… E no silencio os nossos beijos
    recomeçavam, espaçados, soando dôcemente, e comparaveis (na lingua
    florida d'aquelles paizes) a perolas que cahem uma a uma sobre uma bacia
    de prata…–Oh suaves séstas dos jardins de Pekin, onde estaes vós?
    Onde estaes, folhas mortas dos lirios escarlates do Japão?…

    * * * * *

    Uma manhã Camilloff entrando na chancellaria, onde eu fumava o cachimbo
    d'amizade de companhia com Meriskoff, atirou o seu enorme sabre para um
    canapé, e contou-nos radiante as noticias que lhe dera o penetrante
    principe Tong.–Descobrira-se emfim que um opulento Mandarim, de nome
    Ti-Chin-Fú, vivera outr'ora nos confins da Mongolia, na villa de
    Tien-Hó! Tinha morrido subitamente: e a sua larga descendencia residia
    lá, em miseria, n'um casebre vil…

    Esta descoberta, é certo, não fôra devida á sagacidade da burocracia
    imperial–mas fizera-a um astrologo do templo de Faqua, que durante
    vinte noites folheára no céo o luminoso archivo dos astros…

    –Theodoro, ha-de ser o seu homem!–exclamou Camilloff.

    E Meriskoff repetiu, sacudindo a cinza do cachimbo:

    –Ha-de ser o seu homem, Theodoro!

    –O meu homem…–murmurei sombriamente.

    Era talvez o _meu homem_, sim! Mas não me seduzia ir procurar o _meu
    homem_ ou a sua familia, na monotonia d'uma caravana, por essas
    desoladas extremidades da China!… Depois, desde que chegára a Pekin,
    eu não tornára a avistar a fórma odiosa de Ti-Chin-Fú e do seu papagaio.
    A Consciencia era dentro em mim como uma pomba adormecida. Certamente, o
    alto esforço de me ter arrancado ás doçuras do _boulevard_ e do Loreto,
    de ter sulcado os mares até ao Império do Meio, parecera á Eterna
    Equidade uma expiação sufficiente e uma peregrinação reparadora.
    Certamente Ti-Chin-Fú, acalmado, recolhera-se com o seu papagaio á
    sempiterna Immobilidade… Para que iria eu, pois, a Tien-Hó? Porque não
    ficaria alli, n'aquelle amavel Pekin, comendo nenufares em calda
    d'assucar, abandonando-me ás somnolencias amorosas do _Repouso
    discreto_, e pelas tardes azuladas, dando o meu passeio pelo braço do
    bom Meriskoff, nos terraços de jaspe da Purificação ou sob os cedros do
    Templo do Céo?…

    Mas já o zeloso Camilloff, de lapis na mão, ia marcando no mappa o meu
    itinerário para Tien-Hó! E mostrando-me, n'um desagradavel
    entrelaçamento, sombras de montes, linhas tortuosas de rios, esfumados
    de lagôas:

    –Aqui está! O meu hospede sobe até Ni-ku-hé, na margem do Pei-Hó…
    D'ahi, em barcos chatos vai a My-yun. Boa cidade, ha lá um Buddha
    vivo… D'ahi, a cavallo, segue até á fortaleza de Ché-hia. Passa a
    grande muralha, famoso espectáculo!… Descança no forte de Ku-pi-hó.
    Póde lá caçar a gazella. Soberbas gazellas… E com dois dias de
    caminhada está em Tien-Hó… Brilhante, hein?… Quando quer partir?
    Ámanhã?…

    –Ámanhã–rosnei, tristonho.

    Pobre generala! N'essa noite, em quanto Meriskoff, ao fundo da sala,
    fazia com tres officiaes da embaixada o seu _whist_ sacramental; e
    Camilloff, ao canto do sophá, de braços cruzados, solemne como n'uma
    poltrona do Congresso de Vienna, dormia de bocca aberta;–ella sentou-se
    ao piano. Eu ao lado, na attitude d'um Lara, devastado pela fatalidade,
    retorcia lugubremente o bigode. E a dôce creatura, entre dois gemidos do
    teclado, d'uma saudade penetrante, cantou revirando para mim os seus
    olhos rebrilhantes e humidos:

    L'oiseau s'envole,
    Lá bas, lá bas!…
    L'oiseau s'envole…
    Ne revient pas…

    –A ave ha-de voltar ao ninho,–murmurei eu enternecido.

    E, afastando-me a esconder uma lagrima, ia resmungando furioso:

    –Canalha de Ti-Chin-Fú! Por tua causa! Velho malandro! Velho garoto!…

    * * * * *

    Ao outro dia lá vou para Tien-Hó–com o respeitoso interprete Sá-tó, uma
    longa fila de carretas, dois cossacos, toda uma populaça de koulis.

    Ao deixar a muralha da cidade tartara, seguimos muito tempo ao comprido
    dos jardins sagrados que orlam o templo de Confucio.

    Era no fim do outono; já as folhas tinham amarellecido; uma doçura
    tocante errava no ar…

    Dos kiosques santos sahia uma susurração de canticos, de nota monotona e
    triste. Pelos terraços, enormes serpentes, veneradas como deuses, iam-se
    arrastando, já entorpecidas da friagem. E aqui e além, ao passar,
    avistavamos buddhistas decrepitos, sêccos como pergaminhos e nodosos
    como raizes, encruzados no chão sob os sycomoros, n'uma immobilidade de
    idolos, contemplando incessantemente o umbigo, á espera da perfeição do
    Nirvana…

    E eu ia pensando, com uma tristeza tão pallida como aquelle mesmo céo
    d'outubro asiatico, nas duas lagrimas redondinhas que vira brilhar, á
    despedida, nos olhos verdes da generala!…

    VI

    Já a tarde declinava, e o sol descia vermelho como um escudo de metal
    candente, quando chegámos a Tien-Hó.

    As muralhas negras da villa erguem-se, do lado do sul, ao pé d'uma
    torrente que ruge entre rochas: para o nascente, a planicie livida e
    poeirenta estende-se até a um grupo escuro de collinas onde branqueja um
    vasto edificio–que é uma Missão Catholica. E para além, para o extremo
    norte são as eternas montanhas rôxas da Mongolia, suspensas sempre no ar
    como nuvens.

    Alojámo-nos n'um barracão fetido, intitulado _Estalagem da Consolação
    terrestre_. Foi-me reservado o quarto nobre, que abria sobre uma galeria
    fixada em estacas; era ornado estranhamente de dragões de papel
    recortado, suspensos por cordeis do travejamento do tecto; á menor
    aragem aquella legião de monstros fabulosos oscillava em cadencia, com
    um rumor secco de folhagem, como tomada de vida sobrenatural e grotesca.

    Antes que escurecesse fui vêr com Sá-tó a villa: mas bem depressa fugi
    ao fedor abominavel das viellas: tudo se me afigurou ser negro–os
    casebres, o chão barrento, os enxurros, os cães famintos, a populaça
    abjecta… Recolhi ao albergue–onde arreeiros mongoes e crianças
    piolhosas me miravam com assombro.

    –Toda esta gente me parece suspeita, Sá-tó–disse eu, franzindo a
    testa.

    —Tem Vossa Honra razão. É uma ralé! Mas não ha perigo: eu matei, antes
    de partirmos, um gallo negro, e a deusa Kaonine deve estar contente.
    Póde Vossa Honra dormir ao abrigo dos maus espiritos… Quer Vossa Honra
    o chá?…

    –Traze, Sá-tó.

    Bebido o chá, conversámos do _grande plano_: na manhã seguinte eu a
    levar a alegria á triste choupana da viuva de Ti-Chin-Fú,
    annunciando-lhe os milhões que lhe dava, depositados já em Pekin:
    depois, de accordo com o Mandarim governador, fariamos uma copiosa
    distribuição de arroz pela populaça: e á noite illuminações, danças como
    n'uma gala publica…

    –Que te parece, Sá-tó?

    –Nos labios de Vossa Honra habita a sabedoria de Confucio… Vai ser
    grande! Vai ser grande!

    Como vinha cançado, bem cêdo comecei a bocejar, e estirei-me sobre o
    estrado de tijolo aquecido que serve de leito nas estalagens da China;
    enrolado na minha pelliça, fiz o signal da cruz, e adormeci pensando nos
    braços brancos da generala, nos seus olhos verdes de sereia…

    Era talvez já meia noite quando despertei a um rumor lento e surdo que
    envolvia o barracão–como de forte vento n'um arvoredo, ou uma maresia
    grossa batendo um paredão. Pela galeria aberta, o luar entrava no
    quarto, um luar triste d'outono asiatico, dando aos dragões suspensos do
    tecto fórmas, semelhanças chimericas…

    Ergui-me, já nervoso–quando um vulto, alto e inquieto, appareceu na
    facha luminosa do luar…

    –Sou eu, Vossa Honra!–murmurou a voz apavorada de Sá-tó.

    E logo, agachando-se ao pé de mim, contou-me n'um fluxo de palavras
    roucas a sua afflicção:–emquanto eu dormia, espalhára-se pela villa que
    um estrangeiro, o _Diabo estrangeiro_, chegára com bagagens carregadas
    de thesouros… Já desde o começo da noite elle tinha entrevisto faces
    agudas, d'olho voraz, rondando o barracão, como chacaes impacientes… E
    ordenára logo aos koulis que entrincheirassem a porta com os carros das
    bagagens, formados em semi-circulo á velha maneira tartara… Mas pouco
    a pouco a malta crescera… Agora vinha d'espreitar por um postigo: e
    era em roda da estalagem toda a populaça de Tien-Hó, rosnando
    sinistramente… A deusa Kaonine não se satisfizera com o sangue do
    gallo preto!… Além d'isso elle vira á porta d'um Pagode uma cabra
    negra recuar!… A noite sería de terrores!… E sua mulher, o osso do
    seu osso, que estava tão longe, em Pekin!…

    –E agora, Sá-tó?–perguntei eu.

    –Agora… Vossa Honra! Agora…

    Calou-se: e a sua magra figura tremia, acaçapada como um cão que se roja
    sob o açoite.

    Eu afastei o cobarde, e adiantei-me para a galeria. Em baixo, o muro
    fronteiro, coberto d'um alpendre, projectava uma funda sombra. Ahi com
    effeito estava uma turba negra apinhada. Ás vezes uma figura,
    rastejando, adiantava-se no espaço alumiado, espreitava, farejava as
    carretas, e sentindo a lua sobre a face, recuava vivamente, fundindo-se
    na escuridão: e como o tecto do alpendre era baixo, faiscava um momento
    á luz algum ferro de lança inclinada…

    –Que querem vossês, canalha?–bradei eu em portuguez.

    A esta voz estrangeira um grunhido sahiu da treva; immediatamente uma
    pedra veio ao meu lado furar o papel encerado da gelosia; depois uma
    flecha silvou, cravou-se por cima da minha cabeça, n'um barrote…

    Desci rapidamente á cozinha da estalagem. Os meus koulis, acocorados
    sobre os calcanhares, batiam o queixo n'um terror; e os dois cossacos
    que me acompanhavam, impassiveis á lareira, cachimbavam, com o sabre nú
    nos joelhos.

    O velho estalajadeiro d'oculos, uma avó andrajosa que eu vira no pateo
    deitando ao ar um papagaio de papel, os arreeiros mongoes, as crianças
    piolhosas, esses tinham desapparecido; só ficára um velho, bebedo
    d'opio, cahido a um canto como um fardo. Fóra ouvia-se já a multidão
    vociferar.

    Interpellei então Sá-tó, que quasi desmaiava, arrimado a uma viga: nós
    estavamos sem armas; os dois cossacos, sós, não podiam repellir o
    assalto: era necessario pois ir acordar o Mandarim governador,
    revelar-lhe que eu era um amigo de Camilloff, um conviva do principe
    Tong, intimal-o a que viesse dispersar a turba, manter a lei santa da
    hospitalidade!…

    Mas Sá-tó confessou-me, n'uma voz debil como um sôpro, que o Governador
    de certo é quem estava dirigindo o assalto! Desde as authoridades até
    aos mendigos, a fama da minha riqueza, a legenda das carretas carregadas
    d'oiro inflammára todos os appetites!… A prudencia ordenava, como um
    mandamento santo, que abandonassemos parte dos thesouros, mulas, caixas
    de comestiveis…

    –E ficar aqui, n'esta aldêa maldita, sem camisas, sem dinheiro e sem
    mantimentos?…

    –Mas com a rica vida, Vossa Honra!

    Cedi. E ordenei a Sá-tó que fosse propôr á turba uma copiosa
    distribuição de sapeques,–se ella consentisse em recolher aos seus
    casebres, e respeitar em nós os hospedes enviados por Buddha…

    Sá-tó subiu á sacada da galeria, a tremer; e rompeu logo a arengar á
    malta, bracejando, atirando as palavras com a violencia d'um cão que
    ladra. Eu abrira já uma maleta, e ia-lhe passando cartuchos, saccos de
    sapeques–que elle arremessava aos punhados com um gesto de semeador…
    Em baixo havia por momentos um tumulto furioso ao chover dos metaes;
    depois um lento suspiro de gula satisfeita; e logo um silencio, n'uma
    suspensão _de quem espera mais_…

    –Mais!–murmurava Sá-tó, voltando-se para mim ancioso.

    Eu, indignado, lá lhe dava outros cartuchos, mais rôlos, mólhos de
    moedas de meio real enfiadas em cordeis… Já a maleta estava vazia. A
    turba rugia, insaciada.

    –Mais, Vossa Honra!–supplicou Sá-tó.

    –Não tenho mais, creatura! O resto está em Pekin!

    –Oh Buddha Santo! Perdidos! Perdidos!–chamou Sá-tó, abatendo-se sobre
    os joelhos.

    A populaça, calada, esperava ainda. De repente, uma ululação selvagem
    rasgou o ar. E eu senti aquella massa avida arremessar-se sobre as
    carretas que defendiam a porta em semi-circulo: ao choque todo o
    madeiramento da _Estalagem da Consolação terrestre_ rangeu e oscillou…

    Corri á varanda. Em baixo era um tropel desesperado em torno dos carros
    derrubados: os machados reluziam cahindo sobre a tampa dos caixotes: o
    coiro das malas abria-se fendido á faca por mãos innumeraveis: no
    alpendre, os cossacos debatiam-se, aos urros, sob o cutelo. Apesar da
    lua, eu via em roda do barracão errarem tochas, n'uma dispersão de
    fagulhas: um alarido rouco elevava-se, fazendo ao longe uivar os cães; e
    de todas as viellas desembocava, corria populaça, sombras ligeiras,
    agitando chuços e foices recurvas…

    Subitamente, na loja terrea, ouvi o tumulto da turba que a invadia pelas
    portas despedaçadas: de certo me procuravam, suppondo que eu teria
    commigo o melhor do thesouro, pedras preciosas ou oiros… O terror
    desvairou-me. Corri a uma grade de bambús para o lado do pateo.
    Demoli-a, saltei sobre uma camada de matto grosso, n'um cheiro acre de
    immundicies. O meu poney, preso a uma trave, relinchava, puxando
    furiosamente o cabresto: arremessei-me sobre elle, empolguei-lhe as
    crinas…

    N'esse momento, do portão da cozinha arrombada rompia uma horda com
    lanternas, lanças, n'um clamor de delirio. O poney, espantado, salta um
    regueiro; uma flecha silva a meu lado; depois um tijolo bate-me no
    hombro, outro nos rins, outro na anca do poney, outro mais grosso
    rasga-me a orelha! Agarrado desesperadamente ás crinas, archejando, com
    a lingua de fóra, o sangue a gottejar da orelha, vou despedido n'uma
    desfilada furiosa ao longo d'uma lua negra… De repente vejo diante de
    mim a muralha, um bastião, a porta da villa fechada!

    Então, allucinado, sentindo atraz rugir a turba, abandonado de todo o
    soccorro humano–_precisei de Deus_! Acreditei n'elle, gritei-lhe que me
    salvasse; e o meu espirito ia tumultuosamente arrebatando, para lhe
    offerecer, fragmentos de orações, de _Salvè-Rainhas_, que ainda me
    jaziam no fundo da memoria… Voltei-me sobre a anca do potro: d'uma
    esquina ao longe surgiu um fogacho de tochas: era a corja!… Larguei de
    golpe ao comprido da alta muralha que corria ao meu lado como uma vasta
    fita negra furiosamente desenrolada: de subito avisto uma brecha, um
    boqueirão erriçado d'esgalhos de sarças, e fóra a planicie que sob a lua
    parecia como uma vasta agua dormente! Lancei-me para lá,
    desesperadamente, sacudido aos galões do potro… E muito tempo galopei
    no descampado.

    De repente o poney, eu, rolámos com um baque surdo. Era uma lagôa.
    Entrou-me pela bocca agua putrida, e os pés enlaçaram-se-me nas raizes
    molles dos nenufares… Quando me ergui, me firmei no sólo,–vi o poney,
    correndo, muito longe, como uma sombra, com os estribos ao vento…

    Então comecei a caminhar por aquella solidão, enterrando-me nas terras
    lodosas, cortando através do matto espinhoso. O sangue da orelha ia-me
    pingando sobre o hombro: á frialdade agreste, o fato encharcado
    regelava-se-me sobre a pelle: e por vezes, na sombra, parecia-me vêr
    luzir olhos de feras.

    Emfim, encontrei um recinto de pedras soltas onde jazia, sob um arbusto
    negro, um d'aquelles montões d'esquifes amarellos que os chinezes
    abandonam nos campos, e onde apodrecem corpos. Abati-me sobre um caixão,
    prostrado: mas um cheiro abominavel pesava no ar: e ao apoiar-me sentia
    o viscoso d'um liquido que escorria pelas fendas das tábuas… Quiz
    fugir. Mas os joelhos negavam-se, tremiam-me: e arvores, rochas, hervas
    altas, todo o horisonte começou a girar em torno de mim como um disco
    muito rapido. Faiscas sanguineas vibravam-me diante dos olhos: e
    senti-me como cahindo de muito alto, devagar, á maneira d'uma penna que
    desce…

    Quando recuperei a consciencia estava estirado n'um banco de pedra, no
    pateo d'um vasto edificio semelhante a um convento, que um alto silencio
    envolvia. Dois padres lazaristas lavavam-me devagar a orelha. Um ar
    fresco circulava; a roldana d'um poço rangia lentamente; um sino tocava
    a matinas. Ergui os olhos, avistei uma fachada branca com janellinhas
    gradeadas e uma cruz no topo: então, vendo n'aquella paz de claustro
    catholico como um recanto da patria recuperada, o abrigo e a consolação,
    rolaram-me das palpebras duas lagrimas mudas.

    VII

    De madrugada, dois padres lazaristas, dirigindo-se a Tien-Hó, tinham-me
    encontrado desmaiado no caminho. E, como disse o alegre padre Loriot,
    «era já tempo»; porque em redor do meu corpo immovel um negro
    semi-circulo d'esses grossos e soturnos corvos da Tartaria já me estava
    contemplando com gula…

    Trouxeram-me sem demora para o convento n'uma padiola,–e grande foi o
    regosijo da communidade quando soube que eu era um latino, um christão e
    um subdito dos Reis Fidelissimos. O convento fórma alli o centro d'um
    pequeno burgo catholico, apinhado em torno da maciça residencia como uma
    casaria de servos á base d'um castello feudal. Existe desde os primeiros
    missionarios que percorreram a Manchouria. Porque nós estamos aqui nos
    confins da China: para além já é a Mongolia, a Terra das Hervas, immenso
    prado verde-escuro, leziria sem fim, colorida aqui e além do vivo das
    flôres silvestres…

    Ahi jaz a vasta planicie dos Nomadas. Da minha janella eu via negrejar
    os circulos de tendas cobertas de feltro, ou de pelles de carneiro; e
    por vezes assistia á partida d'uma tribu, em filas de longas caravanas,
    levando os seus rebanhos para o oeste…

    O superior lazarista era o excellente padre Giulio. A longa permanencia
    entre as raças amarellas tornára-o quasi um chinez: quando eu o
    encontrava no claustro com a sua tunica rôxa, o rabicho longo, a barba
    veneravel, agitando devagar um enorme leque–parecia-me algum sábio
    letrado mandarim commentando mentalmente, na paz de um templo, o Livro
    sacro de Chú. Era um santo: mas o cheiro d'alho que exhalava–afastaria
    as almas mais doloridas e precisadas de consolação.

    Conservo suave a memoria dos dias alli passados! O meu quarto, caiado de
    branco, com uma cruz negra, tinha um recolhimento de cella. Acordava
    sempre ao toque de matinas. Em respeito aos velhos missionarios, vinha
    ouvir a missa á capella: e enternecia-me, alli, tão longe da patria
    catholica, n'aquellas terras mongolicas, vêr á clara luz da manhã a
    casula do padre, com a sua cruz bordada, curvando-se diante do altar, e
    sentir ciciar no fresco silencio–os _Dominus vobiscum_, e os _Cum
    spiritu tuo_…

    De tarde ia á escóla, admirar os pequenos chinezes declinando _Hora,
    Horoe_… E depois do refeitorio, passeando no claustro, escutava
    historias de longiquas missões, de viagens apostolicas ao _Paiz das
    Hervagens_, as prisões supportadas, as marchas, os perigos, as Chronicas
    heroicas da Fé…

    Eu por mim não contei no convento as minhas aventuras phantasticas:
    dei-me como um _touriste_ curioso, tomando apontamentos pelo Universo. E
    esperando que a minha orelha cicatrizasse, abandonava-me, n'uma lassidão
    d'alma, áquella paz de mosteiro…

    Mas estava decidido a deixar bem depressa a China, esse Imperio barbaro,
    que eu odiava agora, prodigiosamente!

    Quando me punha a pensar que viera desde os confins do Occidente, para
    trazer a uma provincia chineza a abundancia dos meus milhões, e que
    apenas lá chegára fôra logo saqueado, apedrejado, fréchado–enchia-me um
    rancor surdo, gastava horas agitando-me pelo quarto, a revolver coisas
    feras que tentaria para me vingar do Imperio do Meio!

    Retirar-me com os meus milhões era a desforra mais pratica, mais facil!
    Demais, a minha idéa de resuscitar artificialmente, para bem da China, a
    personalidade de Ti-Chin-Fú, parecia-me agora absurda, d'uma insensatez
    de sonho. Eu não comprehendia a lingua, nem os costumes, nem os ritos,
    nem as leis, nem os sabios d'aquella raça: que vinha pois fazer alli,
    senão expôr-me, pelo apparato da minha riqueza, aos assaltos d'um povo,
    que, ha quarenta e quatro seculos, é pirata nos mares e traz as terras
    varridas de rapina!…

    Além d'isso, Ti-Chin-Fú e o seu papagaio continuavam invisiveis,
    remontados de certo ao Céo chinez dos Avós: e já o aplacamento do
    remorso visivel diminuira em mim singularmente o desejo da expiação…

    Sem duvida o velho letrado estava fatigado de deixar essas regiões
    ineffaveis para se vir estirar pelos meus moveis. Vira os meus esforços,
    o meu desejo de ser util á sua prole, á sua provincia, á sua raça–e,
    satisfeito, accommodára-se regaladamente para a sua sésta eterna. Eu
    nunca mais avistaria a sua pança amarella!…

    E então mordia-me o appetite de me achar já tranquillo e livre, no
    pacifico gozo do meu oiro, ao Loreto ou no _boulevard_, sorvendo o mel
    ás flôres da Civilisação…

    Mas a viuva de Ti-Chin-Fú, as mimosas senhoras da sua descendencia, os
    netos pequeninos?… Iria eu deixal-os barbaramente, na fome e no frio,
    pelas viellas negras de Tien-Hó? Não. Esses não eram culpados das
    pedradas que me atirára a populaça. E eu christão, asylado n'um convento
    christão, tendo á cabeceira da cama o Evangelho, cercado d'existencias
    que eram incarnações de Caridade–não podia partir do Imperio sem
    restituir áquelles que despojára, a abundancia, esse conforto honesto
    que recommenda o Classico da Piedade Filial…

    Então escrevi a Camilloff. Contava-lhe a minha abjecta fuga, sob as
    pedras da turba chineza; o abrigo christão que me dera a Missão; o vivaz
    desejo de partir do Imperio do Meio. Pedia-lhe que remettesse elle á
    viuva de Ti-Chin-Fú os milhões depositados por mim em casa do mercador
    Tsing-Fó, na avenida de Cha-Coua, ao lado do arco triumphal de Tong,
    junto ao templo da deusa Kaonine.

    O alegre padre Loriot, que ia a Pekin em missão, levou esta carta, que
    eu lacrára com o sêllo do convento–uma cruz sahindo d'um coração em
    chammas…

    Os dias passaram. As primeiras neves alvejaram nas montanhas
    septentrionaes da Manchouria: e eu occupava-me a caçar a gazella pela
    Terra das Hervas… Horas energicas e fortemente vívidas, as d'essas
    manhãs, quando eu largava á desfilada, no grande ar agreste da planicie,
    entre os monteadores mongolicos que, com um grito ululado e vibrante,
    batiam o matagal á lançada! Por vezes, uma gazella saltava: e, d'orelha
    baixa, estirada e fina, partia no fio do vento… Soltavamos o falcão
    que voava sobre ella, d'aza serena, dando-lhe a espaços regulares, com
    toda a força do bico recurvo, uma picada viva no craneo. E iamo'l-a
    abater, por fim, á beira d'alguma agua morta, coberta de nenufares…
    Então os cães negros da Tartaria amontoavam-se-lhe sobre o ventre, e,
    com as patas no sangue, iam-lhe a ponta de dente, desfiando devagar as
    entranhas…

    Uma manhã o leigo da portaria avistou emfim o alegre padre Loriot,
    galgando á lufa-lufa pelo caminho ingreme do burgo, de volta de Pekin,
    com a sua mochila ao hombro, e uma criancinha nos braços: tinha-a
    encontrado abandonada, nuasinha, morrendo á beira d'um caminho:
    baptisára-a logo n'um regato com o nome de _Bem-Achado_: e alli a
    trazia, todo enternecido, arquejando de tanto que estugára o passo, para
    dar depressa á creaturinha esfomeada o bom leite da cabra do convento…

    Depois d'abraçar os religiosos, d'enxugar as grossas bagas de suor,
    tirou da algibeira dos calções um enveloppe com o sello da aguia russa:

    –É isto que manda o papá Camilloff, amigo Theodoro. Ficou optimo. E a
    senhora tambem… Tudo rijo.

    Corri a um recanto do claustro a lêr as duas folhas de prosa. Meu bom
    Camilloff, de calva severa e olho de mocho! Como elle alliava tão
    originalmente ao senso fino d'um habil de Chancellaria as caturrices
    picarescas de diplomata bufo! A carta dizia assim:

    «Amigo, hospede, e carissimo Theodoro,

    «Ás primeiras linhas da sua carta ficámos consternados! Mas logo as
    seguintes nos deram um grato allivio, por nos certificar que estava
    com esses santos padres da Missão christã… Eu parti para o Yamen
    imperial a fazer uma severa reclamação ao principe Tong, sobre o
    escandalo de Tien-Hó. Sua excellencia mostrou um jubilo
    desordenado! Porque, se lamenta como particular a offensa, o roubo
    e as pedradas que o meu hospede soffreu, como ministro do Imperio
    vê ahi a dôce opportunidade d'extorquir á villa de Tien-Hó, em
    multa, em castigo da injuria feita a um estrangeiro, a vantajosa
    somma de _trezentos mil francos_, ou, segundo os calculos do nosso
    sagaz Meriskoff, _cincoenta e quatro contos de reis_ na moeda do
    seu bello paiz! É, como disse Meriskoff, um excellente resultado
    para o Erario imperial, e fica assim a sua orelha copiosamente
    vingada… Aqui, começam a picar os primeiros frios, e já estamos
    usando pelles. O bom Meriskoff lá vai soffrendo do figado, mas a
    dôr não lhe altera o criterio philosophico nem a sábia
    verbosidade… Tivemos um grande desgosto: o lindo cãosinho da boa
    Madame Tagarieff, a esposa do nosso amado secretario, o adoravel
    _Tu-tu_ desappareceu na manhã de 15… Fiz, na policia, instancias
    urgentes, mas o _Tu-tu_ não nos foi restituido,–e o sentimento é
    tanto maior, quanto é sabido que a populaça de Pekin aprecia
    extremamente estes cãesinhos, guisados em calda de assucar…
    Deu-se aqui um facto abominavel e de consequencias funestas: a
    ministra de França, essa petulante Madame Grijon, esse _galho
    sêcco_ (como diz o nosso Meriskoff), no ultimo jantar da legação,
    deu, em desprezo de todas as regras internacionaes, o braço, o seu
    descarnado braço, e a sua direita á mesa a um simples addido
    inglez, lord Gordon! Que me diz a isto? É crivel? É racional? É
    destruir a ordem social! O braço, a direita, a um addido, um
    escossez côr de tijolo, de vidro entalado no olho, quando havia
    presentes todos os embaixadores, os ministros, e eu! Isto tem
    causado, no corpo diplomatico, uma sensação inenarravel…
    Esperamos instrucções dos nossos governos. Como diz Meriskoff,
    oscillando tristemente a cabeça–_é grave… é muito grave_!–O que
    prova (e ninguem o duvidava) que lord Gordon é o Benjamim do _galho
    sêcco_. Que podridão! Que lodo!… A generala não tem passado bem,
    desde a sua partida para essa malfadada Tien-Hó; o doutor Pagloff
    não lhe percebe o mal; é uma languidez, um murchar, uma saudosa
    indolencia que a conserva horas e horas immovel sobre o sophá, no
    _Pavilhão do Repouso discreto_, com o olhar vago e o labio cheio de
    suspiros… Eu não me illudo: sei perfeitamente o que a mina: é a
    desgraçada doença de bexiga, que lhe veio das más aguas, quando
    estivemos na legação de Madrid… Seja feita a vontade do
    Senhor!… Ella pede-me para lhe mandar _un petit bonjour_, e
    deseja que o meu hospede apenas chegue a Paris, se fôr a Paris, lhe
    remetta pela mala da Embaixada para S. Petersburgo (d'ahi virá a
    Pekin) duas duzias de luvas de doze botões, numero _cinco e tres
    quartos_, da marca _Sol_, dos armazens do Louvre; assim como os
    ultimos romances de Zola, Mademoiselle de Maupin de Gautier, e uma
    caixa de frascos de _Opoponax_… Esquecia-me dizer-lhe que mudámos
    de padeiro: fornecemo-nos agora na padaria da Embaixada ingleza:
    deixámos a da Embaixada franceza para não ter communicações com o
    _galho sêcco_… Ahi estão os inconvenientes de não termos aqui na
    Embaixada russa uma padaria–apesar de tantos relatorios, tantas
    reclamações que, sobre esse ponto, tenho feito para a chancellaria
    de S. Petersburgo! Elles sabem bem que em Pekin não ha padarias,
    que cada legação tem a sua propria, como um elemento d'installação
    e d'influencia. Mas quê! Na côrte imperial desattendem-se os mais
    serios interesses da civilisação russa!… Creio que é tudo o que
    ha de novo em Pekin e nas legações. Meriskoff recommenda-se, e
    todos d'esta Embaixada; e tambem o condesinho Arthur, o Zizi da
    legação hespanhola, o _Focinho cahido_, e o Lulú; emfim todos; eu
    mais que ninguem, que me assigno com saudade e affeição

    «_General Camilloff_».

    «P.S. Em quanto á viuva e familia de Ti-Chin-Fú, houve um engano: o
    astrologo do templo de Faqua equivocou-se na interpretação sideral:
    não é realmente em Tien-Hó que reside essa familia… É ao sul da
    China, na provincia de Cantão. Mas também ha uma familia Ti-Chin-Fú
    para além da Grande Muralha, quasi na fronteira russa, no districto
    de Ka-ó-li. A ambas morreu o chefe, a ambas assaltou a pobreza…
    Portanto, esperando novas ordens, não levantei os dinheiros da casa
    de Tsing-Fó. Esta recente informação mandou-m'a hoje sua
    excellencia o principe Tong, com uma deliciosa compota de
    calombro… Devo annunciar-lhe que o nosso bom Sá-Tó aqui
    appareceu, de volta de Tien-Hó, com um beiço rachado e leves
    contusões no hombro, tendo apenas salvado da bagagem saqueada uma
    lithographia de Nossa Senhora das Dôres, que, pela inscripção a
    tinta, vejo que pertencera a sua respeitavel mamã… Os meus
    valentes cossacos, esses, lá ficaram n'uma poça de sangue. Sua
    excellencia o principe Tong condescende em m'os pagar a dez mil
    francos cada um, das sommas extorquidas á villa de Tien-Hó… Sá-Tó
    diz-me que se o meu hospede, como é natural, recomeçar as suas
    viagens através do imperio em busca dos Ti-Chin-Fú,–elle
    considerar-se-hia honrado e venturoso em o acompanhar, com uma
    fidelidade canina e uma docilidade cossaca…

    «_Camilloff_».

    –Não! nunca!–rugi com furor, amarrotando a carta, monologando a largas
    passadas pelo melancolico claustro.–Não, por Deus ou pelo Demonio! Ir
    de novo bater as estradas da China? Jámais! Oh sorte grotesca e
    desastrosa! Deixo os meus regalos ao Loreto, o meu ninho amoroso de
    Paris, venho rolado pela vaga enjoadôra de Marselha a Chang-Hai, soffro
    as pulgas das bateiras chinezas, o fedor das viellas, a poeirada dos
    caminhos aridos–e para quê? Tinha um plano, que se erguia até aos céos,
    grandioso e ornamentado como um trophéo: por sobre elle scintillavam,
    d'alto a baixo, toda a sorte d'acções boas: e eis que o vejo tombar ao
    chão, peça a peça, n'uma ruina! Queria dar o meu nome, os meus milhões,
    e metade do meu leito d'oiro a uma senhora Ti-Chin-Fú–e não m'o
    permittem os prejuizos sociaes d'uma raça barbara! Pretendo, com o botão
    de crystal de Mandarim, remodelar os destinos da China, trazer-lhe a
    prosperidade civil,–e veda-m'o a lei imperial! Aspiro a derramar uma
    esmola sem fim por esta populaça faminta–e corro o perigo ingrato de
    ser decapitado como instigador de rebelliões! Venho enriquecer uma
    villa–e a turba tumultuosa apedreja-me! Ia emfim dar a abundancia, o
    conforto que louva Confucio, á família Ti-Chin-Fú,–e essa familia
    some-se, evapora-se como um fumo, e outras familias Ti-Chin-Fú surgem,
    aqui e além, vagamente, ao sul, a oeste, como clarões enganadores… E
    havia d'ir a Cantão, a Ka-ó-li, expôr a outra orelha a tijolos brutaes,
    fugir ainda pelos descampados, agarrado ás crinas d'um potro? Jámais!

    Parei: e de braços erguidos, fallando ás arcadas do claustro, ás
    arvores, ao ar silencioso e fino que me envolvia:

    –Ti-Chin-Fú!–bradei–Ti-Chin-Fú, para te aplacar, fiz o que era
    racional, generoso e logico! Estás emfim satisfeito, letrado veneravel,
    tu, o teu gentil papagaio, a tua pança official? Falla-me! Falla-me!…

    Escutei, olhei: a roldana do poço, áquella hora do meio dia, rangia
    devagar, no pateo: sob as amoreiras, ao longo da arcaria do claustro,
    seccavam em papel sêda as folhas de chá da colheita d'outubro: da porta
    meio cerrada da aula vinha um susurro lento de declinações latinas: era
    uma paz severa, feita da simplicidade das occupações, da honestidade dos
    estudos, do ar pastoril d'aquella collina, onde dormia, sob um sol
    branco d'inverno, o burgo religioso… E com aquella serenidade
    ambiente, pareceu-me receber na alma, de repente, uma pacificação
    absoluta!

    Accendi com os dedos ainda tremulos um charuto, e disse, limpando na
    testa uma baga de suor, esta palavra, resumo d'um destino:

    –Bem, Ti-Chin-Fú está contente. Fui logo á cella do excellente padre
    Giulio. Elle lia o seu Breviario á janella, debicando confeitos
    d'assucar, com o gato do convento no collo.

    –Reverendissimo, volto á Europa… Algum dos nossos bons padres vai por
    acaso em missão, para os lados de Chang-Hai?…

    O veneravel superior pôz os seus oculos redondos: e folheando com uncção
    um vasto registro em letra chineza, ia assim murmurando:

    –Quinto dia da decima lua… Sim, ha o padre Anacleto para Tien-Tzin,
    para a novena dos Irmãos da Santa Creche. Duodecima lua, o padre Sanchez
    para Tien-Tzin tambem, para a obra do Catecismo aos Orphãos… Sim, caro
    hospede, tem companheiros para Léste…

    –Ámanhã?

    –Ámanhã. É dolorosa a separação n'estes confins do mundo, quando as
    almas se comprehendem bem em Jesus… O nosso padre Gutierrez que lhe
    faça um bom farnel… Nós já o amavamos como irmão, Theodoro… Coma um
    confeito, são deliciosos… As coisas estão em feliz repouso quando se
    acham no seu lugar e elemento natural: o lugar do coração do homem é o
    coração de Deus: e o seu está n'esse asylo seguro… Coma um confeito…
    Que é isso, meu filho, que é isso?

    Eu estava collocando sobre o seu Breviario aberto, n'uma pagina do
    Evangelho de pobreza, um rôlo de notas do _Banco d'Inglaterra;_ e
    balbuciei:

    –Meu reverendissimo, para os seus pobres…

    –Excellente, excellente… O nosso bom Gutierrez que lhe faça um farnel
    copioso… _Amen_, meu filho … _In Deo omnia spes_!…

    Ao outro dia, entre o padre Anacleto e o padre Sanchez, montado na mula
    branca do convento, desci o burgo, ao repique dos sinos. E ahi vamos
    para Hiang-Hiam, villa negra e murada, onde atracam os barcos que descem
    a Tien-Tzin. Já as terras ao longo do Pei-Hó estavam todas brancas de
    neve: nas enseadas baixas já a agua ia gelando: e embrulhados em pelles
    de carneiro, em roda do fogareiro, á pôpa do barco, os bons padres e eu
    iamos conversando de trabalhos de Missionarios, de coisas da China, por
    vezes dos interesses do Céo–passando em redor sem cessar o grosso
    frasco da genebra…

    Era Tien-Tzin separei-me d'aquelles santos camaradas. E d'ahi a duas
    semanas, por um meio dia de sol tepido, passeava, fumando o meu charuto
    e olhando a azafama dos caes d'Hong-Kong, no tombadilho do _Java_ que ia
    levantar ferro para a Europa.

    * * * * *

    Foi um momento commovente para mim, aquelle em que vi, ás primeiras
    voltas do helice, afastar-se a terra da China.

    Desde que acordára, n'essa manhã, uma inquietação surda recomeçava a
    pesar-me na alma. Agora, punha-me a pensar que viera áquelle vasto
    imperio para acalmar pela expiação um protesto temeroso da Consciencia:
    e por fim, impellido por uma impaciencia nervosa, ahi partia, sem ter
    feito mais que deshonrar os bigodes brancos d'um general heroico, e ter
    recebido pedradas pela orelha n'uma villa dos confins da Mongolia.

    Estranho destino, o meu!…

    * * * * *

    Até ao anoitecer estive encostado sombriamente á borda do paquete, vendo
    o mar liso, como uma vasta peça de sêda azul, dobrar-se aos lados em
    duas pregas molles: pouco a pouco grandes estrellas palpitaram na
    concavidade negra; e o helice na sombra ia trabalhando em rhythmo.
    Então, tomado d'uma fadiga molle, fui errando pelo paquete, olhando,
    aqui e além, a bussola alumiada; os montões de cabrestantes; as peças da
    machina, n'uma claridade ardente, batendo em cadencia; as fagulhas que
    fugiam do cano, n'um rôlo de fumaraça negra; os marinheiros de barba
    ruiva, immoveis á roda do leme; e as fórmas dos pilotos, sobre o pontal,
    altas e vagas na noite. Na _cabine_ do capitão, um inglez de capacete de
    cortiça, cercado de damas que bebiam Cognac, ia tocando melancolicamente
    na flauta a aria de _Bonnie Dundee_…

    Eram onze horas quando desci ao meu beliche. As luzes já estavam
    apagadas: mas a lua que se erguia ao nivel da agua, redonda e branca,
    batia o vidro da _cabine_ com um raio de claridade: e então, a essa meia
    tinta pallida, lá vi estirada sobre a maca a figura pançuda, vestida de
    sêda amarella, com o seu papagaio nos braços!

    Era _elle_, outra vez!

    E foi _elle_, perpetuamente! Foi elle em Singapura e em Ceylão. Foi elle
    erguendo-se dos areaes do deserto ao passarmos no canal de Suez;
    adiantando-se á prôa d'um barco de provisões quando parámos em Malta;
    resvalando sobre as rosadas montanhas da Sicilia; emergindo dos
    nevoeiros que cercam o morro de Gibraltar! Quando desembarquei em
    Lisboa, no caes das Columnas, a sua figura bojuda enchia todo o arco da
    rua Augusta; o seu olho obliquo fixava-me–e os dois olhos pintados do
    seu papagaio pareciam fixar-me tambem…

    VIII

    Então, certo que não poderia jámais aplacar Ti-Chin-Fú, toda essa noite
    no meu quarto ao Loreto, onde como outr'ora as velas innumeraveis das
    serpentinas davam aos damascos tons de sangue fresco, meditei sacudir de
    mim, como um adorno de peccado, esses milhões sobrenaturaes. E assim me
    libertaria talvez d'aquella pança e d'aquelle papagaio abominavel!

    Abandonei o palacete ao Loreto, a existencia de Nababo. Fui, com uma
    quinzena coçada, realugar o meu quarto na casa da Madame Marques: e
    voltei á Repartição, d'espinhaço curvo, a implorar os meus vinte mil
    reis mensaes, e a minha dôce penna de amanuense!…

    Mas um soffrimento maior veio amargurar os meus dias. Julgando-me
    arruinado,–todos aquelles, que a minha opulencia humilhára, cobriram-me
    de offensas, como se alastra de lixo uma estatua derrubada de principe
    decahido. Os jornaes, n'um triumpho de ironia, achincalharam a minha
    miseria. A aristocracia, que balbuciára adulações aos pés do Nababo,
    ordenava agora aos seus cocheiros que atropellassem nas ruas o corpo
    encolhido do plumitivo de Secretaría. O clero, que eu enriquecera,
    accusava-me de _feiticeiro_; o povo atirou-me pedras; e a Madame
    Marques, quando eu me queixava humildemente da dureza granitica dos
    bifes,–plantava as duas mãos á cinta, e gritava:

    –Ora o enguiço! Então que quer vossê mais? Aguente! Olha o pelintra!…

    E, apesar d'esta expiação, o velho Ti-Chin-Fú lá estava sempre á minha
    ilharga, obeso e côr d'óca,–porque os seus milhões, que jaziam agora
    estereis e intactos nos Bancos, ainda de facto eram meus!
    Desgraçadamente meus!

    Então, indignado, um dia subitamente reentrei com estrondo no meu
    palacete e no meu luxo. N'essa noite, de novo o resplendor das minhas
    janellas alumiou o Loreto: e pelo portão aberto viram-se como outr'ora
    negrejar, nas suas fardas de sêda negra, as longas filas de lacaios
    decorativos.

    Logo, Lisboa, sem hesitar, se rojou aos meus pés. A Madame Marques
    chamou-me, chorando, _filho do seu coração_. Os jornaes deram-me os
    qualificativos que, de antiga tradição, pertencem á Divindade: fui o
    _Omnipotente_, fui o _Omnisciente_! A aristocracia beijou-me os dedos
    como a um Tyranno: e o clero incensou-me como a um idolo. E o meu
    desprezo pela Humanidade foi tão largo,–que se estendeu ao Deus que a
    creou.

    Desde então uma saciedade enervante mantem-me semanas inteiras n'um
    sophá, mudo e soturno, pensando na felicidade do _não-ser_…

    Uma noite, recolhendo só por uma rua deserta, vi diante de mim o
    Personagem vestido de preto com o guarda-chuva debaixo do braço, o mesmo
    que no meu quarto feliz da travessa da Conceição me fizera, a um
    _ti-li-tin_ de campainha, herdar tantos milhões detestaveis. Corri para
    elle, agarrei-me ás abas da sua sobrecasaca burgueza, bradei:

    –Livra-me das minhas riquezas! Resuscita o Mandarim! Restitue-me a paz
    da miseria!

    Elle passou gravemente o seu guarda-chuva para debaixo do outro braço, e
    respondeu com bondade:

    –Não póde ser, meu prezado senhor, não póde ser…

    Eu atirei-me aos seus pés n'uma supplicação abjecta: mas só vi diante de
    mim, sob uma luz mortiça de gaz, a fórma magra de um cão farejando o
    lixo.

    Nunca mais encontrei este individuo.–E agora o mundo parece-me um
    immenso montão de ruinas onde a minha alma solitaria, como um exilado
    que erra por entre columnas tombadas, geme, sem descontinuar…

    As flôres dos meus aposentos murcham e ninguem as renova: toda a luz me
    parece uma tocha: e quando as minhas amantes véem, na brancura dos seus
    penteadores, encostar-se ao meu leito, eu chóro–como se avistasse a
    legião amortalhada das minhas alegrias defuntas…

    * * * * *

    Sinto-me morrer. Tenho o meu testamento feito. N'elle lego os meus
    milhões ao Demonio; pertencem-lhe; elle que os reclame e que os
    reparta…

    E a vós, homens, lego-vos apenas, sem commentarios, estas palavras: «_Só
    sabe bem o pão que dia a dia ganham as nossas mãos: nunca mates o
    Mandarim_!»

    E todavia, ao expirar, consola-me prodigiosamente esta idéa: que do
    Norte ao Sul e do Oeste a Léste, desde a Grande Muralha da Tartaria até
    ás ondas do Mar Amarello, em todo o vasto Imperio da China, nenhum
    Mandarim ficaria vivo, se tu, tão facilmente como eu, o pudesses
    supprimir e herdar-lhe os milhões, oh leitor, creatura improvisada por
    Deus, obra má de má argilla, meu semelhante e meu irmão!

    Angers, junho, 1880.

    PORTO–TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA

    62, Cancella Velha, 62

  • Obras poéticas de Nicoláo Tolentino de Almeida, Tom. II

    Obras poéticas de Nicoláo Tolentino de Almeida, Tom. II

    Aproximadamente 17.397 palavras.

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    Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team
    at https://www.pgdp.net

    OBRAS POETICAS

    DE

    NICOLÁO TOLENTINO
    DE ALMEIDA.

    TOM. II.

    LISBOA.

    NA REGIA OFFICINA TYPOGRAFICA.

    ANNO M.DCCCI.

    _Com licença da Meza do Desembargo do Paço_.

    QUINTILHAS

    _Offerecidas ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de S.
    Lourenço_.

    Ante vós, Claro Senhor,
    Que pondes os sãos cuidados
    De bons estudos no amor,
    E que d'homens applicados
    Sois o exemplo, e o protector;

    Levanto sem pejo a voz;
    Que essa alma nunca despreza
    O pouco que encontra em nós;
    Não produz a Natureza
    Muitos homens como vós;

    Pois vi outr'ora amparado
    O discreto, e doce Brito,
    Triste moço, em flor cortado,
    Que hia alevantando o esprito,
    De vossas luzes guiado;

    Pois na vida lhe adoçastes
    De seu fado a má ventura,
    E não vos envergonhastes,
    Quando a fria sepultura
    Com as lagrimas lhe honrastes;

    Se os seus Versos sonorozos
    Inda repetis com mágoa;
    E pensamentos saudozos
    Vos trazem aos olhos agua,
    Que os deixa, Senhor, formozos;

    Hoje, outro triste vos faça
    Nascer iguaes sentimentos;
    Com os vossos pés se abraça;
    Não tem os mesmos talentos;
    Mas tem a mesma desgraça;

    Nascido em baixa pobreza,
    Quiz buscar huma Colu'na,
    Foi sempre baldada a empreza,
    Achou ingrata a fortuna,
    Inda mais, que a natureza.

    Em vão paternal ternura
    Com vivo zêlo me assiste;
    Foi trabalho sem ventura;
    Crescia no Filho triste,
    Com a idade, a desventura;

    Das boas Artes no estudo
    Bom Pai empenhar-me quiz;
    Traçava o velho sizudo
    Que fosse hum Filho feliz
    Dos outros Filhos o escudo;

    Forão seus intentos vãos;
    Zombou desgraça importuna
    Destes pensamentos sãos;
    Para vencer a fortuna
    Não ha lagrimas, nem mãos;

    Cortado então de agonias,
    Só esperei ter ventura,
    Quando envolto em cinzas frias
    Escondesse a sepultura
    Meu nome, e meus tristes dias;

    E em quanto o vento forceja,
    E no mar, que em flor rebenta,
    Meu fraco lenho veleja,
    Demando, em tanta tormenta,
    Por porto a Casa de Angeja;

    Surgi em lugar seguro,
    Onde achei mil acolhidos;
    Clareou o dia escuro;
    E meus molhados vestidos
    Pelas paredes penduro;

    De meu fado a força dura
    Foi hum pouco enfraquecendo;
    E ainda que em sombra escura,
    Vem-me ao longe apparecendo
    O bom rosto da Ventura;

    Vossos Sobrinhos me dão
    (Porque de meus males sabem)
    Principios de protecção;
    Mandai-lhe que em mim acabem
    Esta obra da sua mão.

    Mandai, que apressem o passo,
    Que inda longe a méta vejo,
    Pois nas supplicas que faço,
    Não se vence com dezejo,
    Vence-se á forca de braço;

    Mandai, pois tendes direito,
    Que o turvo mar arrostando,
    A' corrente ponhão peito;
    Fallai, Senhor, que em fallando,
    O vosso mandado he feito.

    Não vedes venal incenso
    Por astuta mão queimado;
    Fallo, Senhor, como penso;
    Eu sei quanto he respeitado
    O Erudîto São Lourenço;

    Eu sei bem o alto conceito,
    E as geraes estimações,
    Que todos de vós tem feito;
    Oiço ternas expressões,
    Filhas de amor, e respeito;

    Do bom Irmão, e Sobrinhos
    Oiço tod'ora louvar-vos;
    Oiço-lhes doces carinhos;
    De poderem agradar-vos
    Dezejão achar caminhos;

    Vosso Irmão, e pregoeiro
    Ordena, como sizudo,
    Ao Illustre Neto, e Herdeiro,
    Que das Sciencias no estudo
    Vai dar o passo primeiro,

    Se encoste a vós, sem desvio,
    Qual ao Choupo Hera silvestre;
    Que em Artes, virtude, e brio,
    Mais, do que as regras do Mestre,
    Siga os dictames do Tio;

    Com que gosto oiço, e contemplo,
    Dizer-lhe = Se ao bem te inclinas,
    Segue-o no estudo, e no Templo;
    Elle te dê as doutrinas;
    Elle te sirva de Exemplo.

    Mas sigo inutil empreza,
    Pois sabeis quaes são seus peitos,
    Mistura-se esta fineza
    Com os sagrados direitos
    Do sangue, e da natureza;

    Todo o mundo, em vosso abono,
    Põe na boca os corações,
    E delles vos chama dono;
    Oiço mil acclamações
    Desde a plebe até ao Throno;

    A geral estimação
    Nos arma de authoridade;
    Vinde pôr nesta obra a mão,
    E dai-me felicidade,
    Como me dais instrucção;

    Sabeis a fundo, e de cór,
    Tudo quanto ha bom, escrito;
    Juntai extremos, Senhor;
    Ao homem mais erudíto,
    Juntai o mais bemfeitor.

    Pois sabeis da Antiguidade
    Prozas sans, e sã poezia,
    Deveis sentir mais piedade;
    Quem tem mais filozofia,
    Vê melhor a humanidade:

    Que eu nesta fresca espessura,
    Entre estes Loiros sagrados,
    Sentado sobre a verdura,
    Cantarei Versos limados
    A quem me fez ter ventura.

    Deixarei em mil letreiros
    O vosso Nome entalhado
    Nos troncos destes Loureiros;
    Possa elle ser respeitado
    Do negro vento, e chuveiros;

    Ramos sobre elle estendendo,
    Dafne no seu peito o tome;
    E eu, doces hymnos tecendo,
    Verei ir o tronco, e o Nome
    Té ás Estrellas crescendo.

    QUINTILHAS

    _Offerecidas ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez do
    Lavradio_.

    Se os Versos, que outra ora fiz
    Escutastes prompto, e attento;
    E se aos pés, que abraçar quiz,
    Achou grato acolhimento
    A minha Muza infeliz;

    Dai-me benignos ouvidos
    A outros, em dôr traçados,
    D'arte, e de enfeite despidos;
    Pela verdade dictados,
    E a vós, Senhor, dirigidos;

    Em louvores não os fundo,
    Pois sei que sempre os pizastes;
    E co'as mais acções confundo
    As do tempo, em que tomastes
    As rédeas do Novo Mundo;

    Mas se eu disser parte dellas,
    Não me julgueis lizonjeiro;
    Que vos poupo em não dizellas?
    Se vedes, que o Mundo inteiro
    As vai erguendo ás Estrellas?

    Diz que vio a Capital
    Cheia de pompa, e grandeza;
    E que a ergueis a lustre tal
    D'entre os braços da molleza,
    Que he no Clima natural.

    Que nas mãos, onde se encerra
    Alto Poder respeitozo,
    Mostraste na nova Terra
    Ao Vizinho revoltozo,
    N'uma a paz, em outra a guerra.

    Que offreceis a vida então
    Para a palavra salvar-se,
    Que, os bons Reis não dão em vão;
    Acção digna de contar-se
    Entre as de Mario, ou Catão;

    Que a mão que as Quinas voltêa,
    Justiça ao Povo reparte;
    E que igualmente menêa,
    Ora as Bandeiras de Marte,
    Ora as Balanças de Astiéa;

    Mas já vossa austeridade
    Minha narração reprime;
    Ouvis-me contra vontade;
    Perdoai, Senhor, hum crime,
    De que foi causa a verdade;

    Pois que vos não dão desvelos
    Louvores, que préza a gente,
    Eu vou, Senhor, suspendellos;
    E vou dar-vos novamente
    Motivos de merecellos.

    A minha longa fadiga
    Já sabeis qual he, Senhor;
    Levai-me a bem, que a não diga;
    Deixai-me poupar a dôr
    De abrir huma chaga antiga.

    Pintar Irmans desgrenhadas
    Co'as creanças innocentes.
    Nos débeis braços alçadas,
    E de lagrimas ardentes,
    Quasi sem fruto, banhadas.

    Mostrar-lhe os olhos magoados,
    Onde inutil pranto assiste,
    Immoveis no chão pregados,
    Nutrindo hum silencio triste,
    Falsa paz dos desgraçados;

    Contar-vos, que entre os Irmãos,
    Diz o bom Pai, com ternura,
    Que ao Ceo levantem as mãos;
    Que assim se emenda a ventura,
    E não com queixumes vãos:

    Que he do espirito fraqueza
    Perder suspiros no vento;
    Que venção a natureza;
    Que fação co'soffrimento
    Honroza a dura pobreza;

    Não lhe ver de dor sinais;
    Ter no rosto olhos serenos,
    E no peito agudos ais;
    Que porque se escutão menos,
    Por isso me córtão mais:

    Dar-vos huma inteira idéa
    Da desgraça minha, e delles,
    Pintura de pranto chêa;
    Se he preciza, he para aquelles,
    A quem não dóe dor alhêa.

    As almas tão bem nascidas,
    Como a vossa vejo ser,
    Para serem condoîdas,
    Não tem precizão de ver
    Correr sangue das feridas;

    Sabeis, que soffro a impiedade
    De vã fortuna traidora;
    Mudai pois de heroicidade;
    Vinde pleitear agora
    A cauza da humanidade;

    Por vós tirar não podeis
    Penas, que a alma me abafárão;
    Mas ante o Throno valeis;
    E se o Sceptro vos fiárão,
    Que vos negarão os Reis?

    Reger-lhe os vastos Estados,
    Ir dar-lhe hum novo esplendor,
    São feitos famigerados;
    Mas inda o será maior
    Ir pedir por desgraçados,

    Disse a Cezar o Orador,
    Que os Soldados tinhão parte
    No perigo, e no louvor;
    Que fosse em outro Estendarte
    Elle só o Vencedor;

    Que era, de doce brandura
    O deixar-se então vencer,
    Mór victoria, e mais segura;
    Onde não tinhão poder
    Nem ferro, nem má ventura.

    Vencei vós sem ter Soldados;
    Fazei de dias de dor
    Dias bemaventurados;
    E possa essa mão, Senhor,
    Mais do que podem meus fados;

    Claros Avós imitastes,
    Que o Mundo apenas abrange;
    No berço palmas achastes;
    Dos Heróes que vio o Gange,
    O sangue, e as acções herdastes;

    Remotos Povos vencêrão,
    E mares bravos abrindo;
    As Quinas desenvolvêrão;
    Ante eles o Gange, e o Indo,
    Tintos de sangue corrêrão.

    Vós, que em obras semelhantes
    Fostes ser a Copia honroza
    Do que elles fizerão d'antes,
    Na série maravilhoza
    Das vossas acções brilhantes;

    Consenti, que a larga historia,
    Que Almeidas levanta aos Ceos,
    Lhes deixe no Altar da Gloria
    Pendente, entre os mais Troféos,
    Huma negra Palmatoria.

    _A' Illustrissima, e Excellentissima Senhora Condeça de Tarouca, na
    occasião do seu Casamento_.

    Senhora, o Forte da Estrella,
    Chorando o bem que perdeo,
    Das suas justas saudades
    Por portador me escolheo;

    Quiz que eu viesse contallas
    Ao som desta rouca Lyra,
    De longos annos affeita
    A acompanhar quem suspira;

    Não fallo nos ternos Pais;
    Nelles a alta Jerarquia
    Tempéra saudozo pranto
    Com o pranto da alegria;

    Ao nome dos seus Passados
    Planos caminhos achárão,
    Unindo ao sangue de Heróes
    O sangue de Heróes que herdárão;

    Não fallo no amavel Conde;
    Esse não faz compaixão;
    Tem seges, tem bons cavallos,
    Tem o remedio na mão;

    Sobre rápidos ginetes,
    Quebrando a dura calçada,
    Com o Francisco a reboque,
    Andará sempre na estrada;

    Tambem das caras Irmans
    Não venho as mágoas pintar;
    Co'a terna Mãi muitas vezes
    As virão desafogar;

    Fallo da triste Familia,
    Que em amoroza manîa
    Accuza o Ceo, que vos deo
    Formozura, e Fidalguia;

    Dons, de seu mal cauzadores;
    E que deixão coroado,
    Na mais illustre Conquista,
    O mais ditozo Soldado;

    Ralham delle a toda hora;
    Foi cauza do seu tormento;
    Elogião, e praguejão
    Seu alto merecimento;

    Se he Soldado, siga a Guerra,
    E as funestas glorias della;
    Ataque milhões de Fortes,
    Mas deixe em paz o da Estrella;

    Tem figura, tem talentos;
    Tem alta Estirpe preclara;
    Oxalá que assim não fosse,
    Ella então o desprezára; =

    Mas, Senhores, perdoai-lhes;
    A's vezes na grande dor
    Fallão palavras de raiva
    A linguagem de amor;

    O Silva, o Authomato honrado,[1]
    Anda mais abstracto, e mudo;
    Põe o doce antes da sôpa;
    Queima o Café, quebra tudo;

    [Nota de rodapé 1: Copeiro.]

    O hirsuto, austéro Rodrigues,
    Semblante de poucas pazes,
    Desafoga a sua dor,
    Dando murros nos rapazes;

    Vossa Aya, de tres idades,
    Em canto escuro assentada,
    Vos manda calado pranto,
    N'um cobertor abafada.

    Outras vezes esquecida
    De quanto seu Fado he crú,
    No queixo ajustando o lenço,
    E sobrepondo o bajú:

    Ergue ao ar cansados ossos;
    E sem temer ventos frios,
    Tirando-lhe Amor o pezo
    Dos gelados pés tardios;

    Do bom costume enganada,
    E com a uzada cautela,
    Para dar, e ter, bons dias,
    Vos vai abrir a janela;

    A janela a desengana;
    Renova-lhe a dor no peito;
    Chama em vão o vosso nome,
    Abraçando hum ermo leito.

    Do peito das mais Creadas
    A saudade se não risca,
    Desde as Ayas ralhadoras,
    Té á ladina Francisca.

    E pois que o sangue de Reis,
    Pois que a Augusta Ceremonia,
    Bem a pezar das Creadas,
    Vos trouxe a Santa Apollonia;

    Ide, Senhora, mil vezes
    Curar-lhes a fresca chaga;
    Seu pranto he filho de amor,
    E amor com amor se paga;

    Na rica, airoza Berlinda,
    Dando ao digno Espozo parte,
    Aos patrios lares vos leve
    Amor nos braços de Marte.

    O Téjo, abaixando as ondas,
    Vossos pés virá beijar;
    Vai das Ninfas que creou,
    Ver a Ninfa Tutelar.

    Os Prazeres com os Rizos
    Sejão a vossa equipagem;
    Revôem em torno as Graças,
    De quem sois a inveja, e a imagem:

    Entrai nos tectos dourados,
    Hoje lugar de saudade;
    Ide, dos braços do Amor,
    Lançar-vos nos da Amizade;

    Levai-nos as doces noites,
    Em que a voz que se escutava,
    Sobre as azas da harmonia,
    Nos nossos peitos entrava;

    Quando o Cómico travêsso,
    Entre geitos, e corcovos,
    Habilmente arremedava
    Todos os Muzicos novos,

    O triste, calado Cravo;
    Já não sente a déstra mão;
    Apenas he perseguido
    Pelo Senhor Dom João.[2]

    [Nota de rodapé 2: Menino.]

    Ide, Senhora, levar-nos
    No vosso rosto a alegria;
    Fazei á triste Junqueira,
    O que faz o Sol ao dia;

    Mas, Senhora, a minha Muza
    Tem talvez errado os Cultos;
    Cuidando ter feito obsequios,
    Talvez tenha feito insultos;

    Dirão, que, trocando as cordas
    Forão meus sons desiguaes;
    Que errei em fallar aos Filhos,
    Sem fallar primeiro aos Pais.

    Que podia esta Embaixada
    Se désse em mais habil mão,
    Cumprir as leis da Saudade,
    Sem violar as da razão;

    Mas, Penalvas, dito, dito;
    Defendo o meu sacrilegio;
    Sois tudo; mas não sois Noivos,
    E he este o seu privilegio.

    _No dia dos Annos da Illustrissima, e Excellentissima Senhora D. Maria
    de Noronha, hoje Condeça de Valladares_.

    Senhora, os pobres vestidos
    Do vosso humilde Compadre,
    Não o deixão ir aos Annos
    Da sua Illustre Comadre;

    O conhecido Colete
    De bordadas guarnições,
    Encartado ha longo tempo
    Em Colete das Funções;

    Sobre os seus cançados annos,
    De humido Inverno Assaltado,
    Cheio de invenciveis manchas
    Me foi hoje apresentado;

    Em vão bemfeitor miôlo
    Lhe esfrega o quarto offendido;
    A minha choroza Mana
    Dá o cazo por perdido;

    E se assim me apresentasse
    A tão alta Companhia,
    As suas nódoas serião
    Manchas da seda, e do Dia;

    Do Tempo a fôice raivoza
    Não me dá só hum revéz;
    Além de me fazer velho,
    Faz-me tambem descortez;

    Mas elle honrou hoje o Mundo;
    Sois do Mundo ornato, e inveja;
    Deo hoje mais huma paga
    A' Illustre Caza de Angêja.

    Sua mão, que aperfeiçoa
    Altos dons da Natureza,
    A huns lindos, modestos olhos
    Vai augmentando a belleza;

    Altêa a airoza figura
    Sobre a das Graças moldada;
    A huma alma a mais digna, e nobre
    Dá a mais digna morada;

    Justo Tempo, eu abençôo
    O teu poder desigual;
    E em honra de tantos bens,
    Eu te perdoo o meu mal;

    Cem vezes nas tuas azas
    Nos mande este dia o Ceo;
    As Virtudes o consagrem
    Nos altares de Hymenêo.

    E Vós, Illustre Senhora,
    Perdoai Coletes rotos;
    Valem mais, que inuteis sedas,
    Puro incenso, puros votos;

    Quiz mandallos em bons versos;
    Suou em vão meu topete;
    Fui achar a minha Muza
    Como achei o meu Colete.

    _A' Illustrissima, e Excellentissima Senhora Marqueza de Alegrete,
    quando lhe nasceo huma Filha_.

    Senhora, he couza sabida,
    Que aos Deozes não são vedados
    Os escondidos segredos
    Do escuro livro dos Fados;

    E pois que em tempos antigos
    Já tive alguma valia
    Co'aquelle, a quem coube em forte
    O governo da Poezia;

    Não esperando do Tempo
    O vagarozo progresso,
    E desejando augurar-vos
    O vosso feliz successo;

    Na raiz do alto Parnazo,
    Curvando o humilde joelho,
    Exclamei = Se aqui se escutão
    Votos de hum Poeta velho,

    Não te peço, esquivo Apollo,
    Teus verdes, sagrados loiros;
    Não aspirão a coroas
    Desta testa os velhos coiros;

    Abre, sim, a densa nevoa
    Do vindoiro tempo escuro;
    E ante meus ávidos olhos
    Rasga as sombras do futuro;

    Saiba meu justo dezejo
    Quanto o destino promette
    Aos nossos ardentes votos,
    E aos da assustada Alegrete;

    O Deos, que nunca em mim vio
    De Odes moiras a manía,
    Que sem o assumpto honrarem,
    Lhe deshonrão a Poezia;

    Que em Oiteiros de Oratorio
    Não lhe puz a Lyra ao frio,
    Arriscando-a a ter por paga
    Ou pedrada, ou assobio;

    E muito mais porque vio,
    Que da minha petição
    Erão sagrados motivos
    A amizade, e a gratidão;

    Fez fuzilar em meus olhos
    Nova luz, vedada, e pura;
    E de tudo o que então vi,
    Vos vou fazer a pintura.

    Vi, Senhora, as loiras Graças
    Com doce, e rizonho aspeito,
    Tecendo engenhozas danças
    Em torno de hum aureo leito;

    E abrindo as ricas Cortinas
    Trazerem nos castos braços
    O digno, e precioso Fruto
    De Illustres, sagrados laços.

    Sobre o mimoso semblante,
    Em que os seus dons inspiravão,
    Dos mais altos Pertendentes,
    Mil suspiros auguravão;

    Os Prazeres sobre as azas
    O berço lhe rodeavão;
    Fortuna lhe abria os cofres,
    As Virtudes a embalavão;

    Vi Penalvas, vi Angejas,
    Que aos Ceos mil hymnos mandavão;
    Aos Ceos, que as duas Familias
    Novamente abençoavão:

    Vi a roda das Creadas,
    Que á Menina dando vai,
    Humas, os olhos da Mãi,
    Outras, a boca do Pai;

    Mas Apollo aqui fechando
    As altas couzas futuras,
    E deixando o pobre velho
    Alegre, mas ás escuras;

    Me disse = Conta o que viste;
    O mais, em tempo vindoiro,
    Fiel, apurada historia,
    O dirá em letras de oiro;

    Corri: mas trémulas pernas
    Tem sempre estrada comprida;
    E pois acho a profecia,
    Gradas aos Ceos, já cumprida,

    Beijo respeitozamente
    Estas faixas, que envolvêrão
    Aquella, a quem dão a vida
    Os que a minha protejêrão;

    = Recebe, oh Recem-nascida,
    Terno amor, alto respeito;
    Teus Avós, teus claros Pais
    Te derão este direito;

    E tu, Formoza Alegrete,
    Que depois de erguida a meza,
    Ficavas co'as velhas Aias
    De mágicos filtros prêza;

    Quando eu a teus pés contava,
    Mentirozo historiador,
    Ora a do Caixão de vidro,
    Ora a das Cidras do amor;

    Quando os mesmos tenros annos
    A tua Filha contar,
    Todos os dias virei
    Meu officio exercitar,

    E em tanto, a pezar do tempo,
    Que a fronte me vai gelando,
    Com a rouca Lyra ás costas
    Pelo Parnazo trepando:

    Vou sentar-me entre os Loireiros,
    Que réga Castalia fria;
    Onde revôam em bandos
    Os genios da Poezia;

    E co'a testa descuberta
    A' viração bemfeitora,
    Traçarei mais dignos versos
    Do que estes, que ouvis agora;

    Com tempo os irei fazendo;
    O Deos também me fez ver,
    Que sobre este mesmo assumpto
    Tenho muito que escrever.

    _Na occazião em que o A. hia ver o Varatojo_.

    Meu Amigo, duro Amigo,
    Fatal, rígido Banqueiro,
    Motivo dos meus pezares,
    Herdeiro do meu dinheiro;

    Em taes termos me deixaste,
    Que sou deste rancho o nôjo;
    E co'as lagrimas nos olhos
    Parto para o Varatojo;

    Por ti filho da pobreza,
    Irei ser naquelle mato,
    Qual foi São Sebastião,
    Não na vida, mas no fato;

    Vai tu seguindo a fortuna,
    E leva a bandeira alçada,
    De tarde na laranginha,
    A' noite na Arrenegada;

    Até que voltando a roda,
    Mande teu fado inimigo,
    Que deixes crescer as barbas,
    E venhas viver comigo:

    Vem, e traze o teu baralho,
    Ministro dos meus destroços;
    Farei do vicio virtude,
    Apontando a Padres nossos;

    Vem viver entre altas brenhas;
    Vem curtir as minhas dores;
    Traze o pranto dos Parentes,
    Traze as pragas dos Crédores.

    Não falla vão Agoureiro,
    De cujas palavras rias;
    Meus trabalhos me fizerão
    Mestre nestas profecias.

    Não te fies em ventura;
    Quem joga, tem o meu fim;
    Outrem te dará os gostos,
    Que tu me tens dado a mim.

    _Resposta a huma Carta, que em boa Poezia citava o A. por huns Versos,
    que tinha promettido_.

    A tua polida Carta,
    Que honrou hum Poeta razo,
    Escrita em pura linguagem,
    E assignada no Parnazo;

    Da mais injusta ambição
    Traz testemunhos fieis;
    Possues grossos thezoiros,
    E citas-me por dez reis?

    Quem do doce Anacreonte
    Bebeo o estilo divino,
    Quer prostituir seus olhos
    Co'as Trovas do Tolentino?

    Pago, em fim, divida louca;
    Mas quem quer pontualidade,
    Cuide tambem em pagar
    As dividas da Amizade;

    Sabes que intento imprimir;
    E porque o Povo não fuja,
    Sabio Amigo, emenda, risca,
    Põe sabão na roupa suja;

    Não te vendo falso íncenso;
    Es Juiz da Confraria;
    Oxalá que altos negocios
    Se tratassem em Poezia;

    A Paz, a fugida Paz,
    Voltára seu alvo cóllo;
    E dera brandos ouvidos
    A' branda Lyra de Apollo;

    Reziste humana cabeça
    A' mais discreta razão;
    Mas ao poder da harmonia
    Não reziste o coração:

    Faze, pois, o que eu te peço;
    Que inda que ha vótos diversos,
    Se lhe pões a tua lima,
    Quem morderá nos meus Versos?

    Dá-lhe, depois, teus louvores;
    Comprará toda Lisboa,
    Se huma vez te ouvir dizer =
    Que comprem, que a Obra he boa;

    Farta-me a bolsa; e se queres
    Ver tambem minha alma farta,
    Manda riquezas de Athenas
    Embrulhadas n'outra Carta.

    _Offerecendo hum Perum em caza, aonde todos os Domingos davão ao A. este
    prato_.

    Senhora, tambem hum dia
    Entrarei co'a frente erguida;
    Não serei na vossa meza
    Dependente toda a vida;

    Nem sempre abatido pejo
    Dirá nesta cara feia
    Quanto doe a hum peito altivo
    Matar fome em caza alheia;

    Airozo, gordo Perum,
    He meu soberbo prezente;
    Traz inda as pennas molhadas
    Co'pranto da minha gente;

    No Santo Dia esperavão,
    Quebrando antigo jejum,
    Cravar inexpertos dentes
    Neste primeiro Perum;

    A russa, magra Jozefa,[3]
    Ergueo queixume sentido;
    Custou-lhe mais esta auzencia,
    Que a do defunto Marido.

    [Nota de rodapé 3: Creada.]

    O loiro, alvar galleguinho
    Chegou aos olhos seu trapo;
    Tinha vistas sobre a carne,
    E muitas mais sobre o papo.

    Seu almôço requerendo
    Em luzindo a madrugada,
    Na esquerda, grossa fatia
    D'ambas as partes barrada;

    Na dextra, com branda cana
    O seu pupîlo guiava;
    Em tenras, públicas malvas,
    Para si o apascentava;

    Quando lhe mandei trazer-vos
    O bom companheiro seu,
    Pedindo-me côxos mezes,
    Me disse, que o trouxesse eu.

    Eu o trago; a offerta he pura,
    Mas a tenção a envenena;
    Traz escondida huma uzura,
    Maior, que a da meia sena.[4]

    [Nota de rodapé 4: Partido de jogo.]

    Com hum sorrizo acceitai
    O atraiçoado convite;
    Vem a morrer huma vez,
    Porque muitas resuscite.

    Curai todos os Domingos
    A minha doença interna;
    Sobre a meza milagroza
    Seja esta ave, huma ave eterna;

    De outra, que finge a Poezia,
    Trocai em verdade a pêta;
    E seja hum negro Perum
    A Fenis deste Poeta;

    Na ondada, pia toalha,
    Co'a benção da vossa mão
    Seus frios, despidos ossos,
    De carne se cubriráõ;

    Consenti, que este ouco peito
    Ao prodígio se consagre;
    E que dentro em si colloque
    A mór parte do milagre;

    Quanto ao Padre Prégador,[5]
    Meu voto he não convidallo;
    Porque ha de comer o assumpto,
    Muito melhor que prégallo.

    [Nota de rodapé 5: Capellão da Caza.]

    _A huma Preta, que pertendia que a obsequiassem_.

    Domingas, debalde queres,
    Nesse canto da Cozinha,
    Vencer a invencivel teima
    Da rebelde carapinha;

    Em vão te arripia a frente,
    De que zomba o Deos de Amor,
    Alvo côto de pomada,
    Furtado do Toucador;

    Debalde tufado laço
    De atadeira fitta Ingleza
    Te assombra a lêveda pôpa,
    Rissada por natureza.

    Debalde altêas as ancas,
    Esguias, e enganadoras,
    Co'as velhas algibeirinhas,
    Que vão deixando as Senhoras,

    Amor, fingindo dotar-te,
    Te poz, com traidora mão,
    Junto dos dentes de neve,
    Faces tintas de carvão;

    Inda que ancião pezado,
    Desprézo teus vãos intentos;
    Debaixo de murchas cans
    Nutro altivos pensamentos.

    Vejo a quebrada madeixa
    Já tornada em gêlo frio;
    Tudo o tempo me levou,
    Mas não me levou o brio.

    Debaixo da Zona Ardente
    Jurar-te-hia amor, e fé;
    Mas não tem culto na Europa
    As Deidades de Guiné;

    Se ás vezes te ponho os olhos,
    Não he de amor sinal certo;
    São dezejos de levar-te
    A' caza de João Alberto.[6]

    [Nota de rodapé 6: Comprador.]

    A engomada cazaquinha
    Te descobre novas faltas;
    Para outro corpo foi feita,
    Dizem-no as feições mais altas.

    Já n'outros pés teus çapatos
    Soffrêrão do tempo o açoite;
    Cansada, fendida sêda,
    Mostra dedos côr da noite;

    E pois que a Amor queres dar-te,
    Eu te aponto hum Xafariz,
    Onde aches dignos amantes
    Assentados em barris;

    Acharás o Pai Francisco,
    Homem a bulhas contrario,
    Já duas vezes Juiz
    Na Irmandade do Rozario;

    Acharás o forro Antonio,
    Que o tabaco, e vinho enjôa;
    E tem nos calmozos Junhos
    Caiado meia Lisboa;

    Verás esbelto Crioilo,
    Dado ao vento o peito nû,
    Levantando airosos saltos
    No manejo do barubû;

    Que ávidos cães enxotando,
    Tem, com braço arregaçado,
    Nas êrmas praias do Téjo
    Cem cavallos esfolado;

    Nestes, vaidoza Domingas,
    Assenta bem teu amor;
    Chovão settas de teus olhos
    Em peitos da tua côr;

    Vai da janella da escada
    Acolher, com doce agrado,
    Os suspiros que te envião,
    Ao som do londum chorado;

    E deixa de atormentar-me
    Com tuas loucas idéas;
    Também sinto dores proprias,
    E escuto pouco as alhêas;

    Sim, Domingas, nós marchamos
    Na mesma infeliz estrada;
    E do amor, que eu te não pago,
    Assaz estás bem vingada;

    Tu puzeste em mim teus olhos,
    E eu fui pôr em Marcia os meus;
    Que me paga mil extremos,
    Assim como eu pago os teus;

    Marcia, que em alçando os olhos,
    Mil settas nesta alma crava;
    E em cuja caza tu tens
    A dita de ser escrava;

    Tens-me a mim por companheiro;
    Temos o mesmo Senhor;
    Tu, por cazos da fortuna,
    Eu, por castigo de Amor;

    E pois que eu não posso amar-te,
    Seguirás melhor esteira,
    Se de meus ternos suspiros
    Quizeres ser mensageira;

    Em vendo que ella está só,
    Vai-lhe expôr a paixão minha;
    Eu peço a Amor, que entretanto
    Tóme conta na cozinha;

    Amor lavará teus pratos,
    E escumará a panella,
    Em quanto tu a seus pés
    Dizes, que eu morro por ella;

    Teus grossos, trombudos beiços,
    Lhe vão expôr meus cuidados;
    Hão de ser melhor ouvidos,
    Que sendo por mim contados;

    Pinta-lhe as lagrimas tristes
    Em que meu rosto se lava;
    Por hum infeliz cativo
    Peça huma ditoza escrava;

    Dize-lhe, que não se assuste
    De meu cabello nevado;
    Jura-lhe que não são annos,
    Mas penas, que me tem dado;

    Que a cauza das minhas rugas
    He o seu desabrimento;
    E vai da minha velhice
    Fazer-me hum merecimento;

    Ah Domingas, se em seu peito
    Me fazes achar piedade,
    Tambem eu juro fazer
    A tua felicidade;

    E pois que o teu coração
    Sómente he baixo, e grosseiro,
    Em preferir liberdade
    A tão feliz cativeiro;

    Por amor serei mesquinho;
    Meus gastos verás cortar;
    Para ajuntar-te quantia
    Com que te possas forrar;

    Cheia de teus beneficios
    Minha mão agradecida
    Te irá pôr em larga praça
    Rendozo modo de vida;

    E assentada em novo estrado,
    De fasquiada madeira,
    Ondeando ao som do vento
    Trémulo tecto de esteira,

    Teus negros, airozos braços,
    Chocalhando hum assador,
    Encherão famintos peitos
    De castanhas, e de amor;

    Terás bojudas tigellas
    Sobre incendidos tições,
    Onde fêrvão em cardumes
    Saborosos mexilhões;

    Teus doces, sonóros écos,
    Sem mentir, apregoaráõ
    O azeite de Santarem,
    O cravo do Maranhão.

    Domingas, segue esse rumo;
    Que teu amor reloucado,
    Sem te fazer venturoza,
    Me deixa a mim desgraçado;

    E se sem dó dos meus ais,
    Teimas nos projectos teus,
    Fallando nos teus amores,
    Em vez de fallar nos meus;

    Trocando boa amizade
    Por entranhado rancor,
    Vou descubrir teus intentos
    A teu austéro Senhor;

    Que em zelo honrozo inflammado,
    Sem ser precizo atiçallo,
    Vai a caza do Lagoia[7]
    Trocar-te por hum cavallo.

    [Nota de rodapé 7: Comprador]

    CARTA

    _A hum Amigo, louvando-lhe o estado de cazado_.

    Foi este o ditozo dia,
    Que te deo a Espoza bella;
    Doce, sólida alegria,
    Para ti, junto com ella,
    No mesmo berço nascia;

    Por tua maior ventura,
    Natureza lhe quiz pôr,
    Entre os Dons da Formozura,
    Outro dote inda maior,
    Que he, alma innocente, e pura;

    Eu sei teu costume antigo,
    A Mulher, que he só formoza,
    Não vale tudo comtigo;
    Soubeste escolher Espoza,
    Em quem tens Espoza, e Amigo;

    Quer sempre ter hum Senhor
    Nosso humano coração;
    E na ventura maior
    Inda sente em si hum vão,
    Que só enche o casto amor;

    De quantos males te eximes,
    Dando ao teu tão bom Senhor?
    Damnozas paixões reprimes;
    Recebes das mãos do Amor
    Os prazeres, sem os crimes;

    Céga mocidade errada,
    A' conjugal união
    Quiz chamar vida cansada;
    Diz que he triste escravidão,
    De mil pensões carregada.

    Chama á paz hum dissabor;
    Diz, que de susto, e desdens
    Se alimenta o Deos de Amor;
    E que a certeza dos bens
    Lhes diminue o valor;

    Fechão olhos á verdade,
    Caminhando apôs seus erros;
    E em falsa tranquilidade,
    Ao som de pezados ferros,
    Vão cantando liberdade;

    Mil remórsos na alma estão,
    Que inda que o rosto os suffoca,
    Roendo as entranhas vão;
    Que importa rizo na boca,
    Se ha punhaes no coração?

    Amor he fogo sublime,
    Que nas almas se accendeo;
    As outras paixões reprime;
    Elle he dadiva do Ceo,
    O abuzo he que o faz ser crime;

    Beija, Amigo, os teus grilhões;
    Hum para o outro erão feitos
    Os vossos bons corações;
    Crava em vossos ternos peitos
    Santo Amor os seus farpões;

    Onde achas pessoa estranha,
    Que não contrafaça o rosto,
    Porque vê, que assim te ganha?
    Quem he que na pena, ou gosto,
    Com verdade te acompanha?

    Contas teus cazos sem medo
    A quem por amigo passa;
    Fiaste-te em rosto lêdo;
    Foste no meio da praça
    Assoalhar teu segredo;

    Mal os homens conheceo
    Pura amizade enganada,
    O santo rosto escondeo,
    E tornou-se envergonhada
    Para o Ceo, donde desceo;

    O amigo que te rodeia,
    Véste das tuas paixões;
    Com ellas te lizonjeia;
    São raros os corações,
    Em que dôa dor alheia;

    Quando acertares de ler,
    Que houve entre homens união,
    O Escritor a quiz fazer;
    Não os pintou como são;
    Mas como devião ser;

    São coizas imaginadas
    Dos _Nizos_ o amor profundo;
    São fábulas bem contadas;
    Ou os não houve no Mundo,
    Ou não deixárão pégadas;

    Puro amor, limpa verdade,
    Só entre Esposos estão;
    Desce a elles a Amizade;
    Traz-lhes co'a santa união
    Huma só alma, e vontade;

    Communica á Espoza amada
    Teus mais internos cuidados;
    E vive em paz descançada
    A vida dos bem cazados,
    Vida bemaventurada;

    Sem receio de perigo
    Dorme sono saborozo;
    Que não tens junto comtigo;
    Lisonjeiro suspeitozo,
    Traidor, com rosto de amigo;

    Tens por doce companhia
    Aquella, que o justo Ceo
    Com mil virtudes te invia;
    Tu es o cuidado seu,
    E como seu, te vigia;

    Goza em socego profundo
    Tão pura felicidade;
    Tens hum thezoiro fecundo;
    Tens amor, tens amizade,
    Tens todos os bens do Mundo.

    E se ha entre homens desvelo
    (Coiza que aqui contradigo)
    Conta com hum, que he singelo;
    E foi sempre teu amigo,
    Quanto os homens podem sêlo.

    CARTA

    _Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde D. Jozé
    de Noronha, hoje Marquez de Angeja_.

    Senhor, eu não sou culpado;
    Traçar outros Versos quiz;
    Mas tenho perdido o trilho
    Com as Trovas do Luiz;

    A Muza, que ha pouco as fez,
    Outra rima não me inspira;
    Por mais que mordo nas unhas,
    E que em vão tempéro a Lyra.

    Acceitai meus bons dezejos;
    E como homem de razão
    Não desprezeis baixos Versos,
    Quando os dicta o coração;

    Minhas fiéis expressões,
    Filhas de amor, e saudade,
    O que não tem em poezia,
    Lhe vai supprido em verdade.

    Em quanto co'as soltas vélas,
    Forçadas do vento rijo,
    Demandava a Galeota
    Os areaes do Montijo;

    Em quanto ao Principe Augusto
    O patrio Téjo se humilha,
    E sobre os rasgados hombros
    Lhe leva a soberba quilha;

    Meus olhos, meus tristes olhos,
    Nas aguas seguindo a esteira,
    De lagrimas se arrazavão
    Sobre as praias da Junqueira.

    Dentro do cansado peito
    Se ateou crua peleja;
    Senti huma guerra viva
    De saudades, e de inveja;

    Não era de baixa inveja
    Affecto grosseiro, e injusto;
    Era invejar ao Creado
    Ir junto a seu Amo Augusto.

    Senhor, não sou atrevido;
    Ha lugares derradeiros;
    O meu dezejo me punha
    Entre a chusma dos Remeiros;

    Com as faces açoitadas
    Dos agudos ventos frios,
    Entre os borrifos das ondas,
    E as pragas dos Algarvios;

    A Apóllo pedindo a Lyra,
    Que só para isto invéjo,
    Chamára das frias grutas
    As loiras Filhas do Téjo;

    Que escutando o som divino
    Entre as húmidas moradas,
    E levantando nas ondas
    Suas cabeças doiradas;

    De tal Hospede soberbas
    O lenho rodearião;
    E as aguas co'branco peito
    A' porfia lhe abririão;

    O fatídico Protêo,
    Cheio de saber divino,
    Revelára ao novo Heróe
    Os segredos do Destino;

    Famozas acções cantára,
    Levantando a sábia voz,
    Moldadas sobre as historias
    Dos Augustos Pais, e Avós:

    Mas, Senhor, a minha Muza
    Sem tino ao ar se remonta;
    E vai-se mettendo em obra,
    De que não póde dar conta;

    Esta levantada empreza
    Até a _Boileau_ deo sustos;
    Dizia que só Virgilios
    Podião louvar Augustos;

    He queimar-lhe baixo incenso,
    Cansallo com Versos frios;
    Amor respeitoso, e votos
    Serão os meus elogios:

    Vós, Illustre Villa Verde,
    Com quem sempre me hei achado,
    Fazei que seja o meu nome
    A seus ouvidos levado;

    Se lhe der acolhimento,
    Sigamos de Horacio as traças,
    Façamos que a par das Muzas
    Marchem as rizonhas Graças;

    Dizei-lhe, que na Folhinha,
    Com letras doiradas puz
    Aquelles formozos dias
    Das escadas de Quéluz;

    Aquelles dias ditozos,
    Quando a seus pés ajoelhado,
    Era ao abrigo das Muzas
    Benignamente escutado;

    Quando, tendo já traçado
    Melhorar-me os meus destinos,
    Se dignava perguntar-me
    Como estavão os meninos.

    Quando me mandou, que em verso
    Contasse como escapára
    Naquelle funesto encontro
    Dos taes Carreiros da Enxára;[8]

    [Nota de rodapé 8: Allude ás Decimas.]

    E se inda o favor mereço
    De tão alta Protecção,
    Dizei, que mudei de Officio,
    Porém de ventura, não;

    Que não me enganão zumbaias
    Dos humildes Supplicantes;
    Porque a bolsa mais sincera
    Trata-me inda como dantes.

    Que inda os cães atrás do Russo
    Esperão nelle a merenda,
    Quando eu vou para Lisboa
    Fazendo Versos, e renda;

    Que dando aos oucos ilhaes,
    Vai marchando triste, e só;
    Que as mais seges fazem sécia,
    Porém que a minha faz dó;

    Que até o boçal Gallego,
    Que eu tinha por innocente,
    Já me conhece a fraqueza,
    E já me revíra o dente;

    Depois, que as vélas de cebo
    Já cerceia no topete,
    E vai conquistar o Bairro
    De polainas, e colete;

    Depois que em chapeo de Braga,
    Que só põe em dia claro,
    Cozeo em devota rosca
    Candêa de Santo Amaro;

    Depois que em déstros meneios
    O suado corpo bole,
    E abre guerra ás Cozinheiras
    Ao som da Gaita de fole;

    Já responde focinhudo,
    E eu me cálo as mais das vezes;
    Porque, pelos meus peccados,
    Sou réo de huns poucos de mezes:

    Mas, Senhor, este Epizódio
    Vai sendo dos arrastados,
    O Gallego veio nelle,
    Como me vai aos recados;

    Se o julgardes enfadonho,
    Ao Principe o não conteis;
    Nos factos da minha vida
    A' vontade escolhereis;

    Pintai-lhe a triste familia,
    Gritando-me por dinheiro;
    Hoje o rol de hum Alfaiate,
    A' manhã o de hum Tendeiro;

    Pintai-lhe hum Procurador,
    Que aqui vem todos os dias
    Saber da minha saude
    Da parte das Senhorias;[9]

    [Nota de rodapé 9: Das Cazas.]

    Enfeitai de côr alegre
    A funesta narração;
    Marchão ás vezes os rizos
    Ao lado da compaixão;

    E pois que os vossos esforços
    Nunca me tem sido vãos,
    Acabai, benigno Conde,
    Esta obra das vossas mãos;

    De hum mal fadado Poeta
    Trocai em prazer as penas;
    Já diante d'outro Augusto
    Fez o mesmo outro Mecenas.

    CARTA

    _No dia dos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de
    Angeja D. Jozé de Noronha, estando o Author doente_.

    Senhor, se vos são acceitos
    Pobres Versos, mal limados,
    Entre vidros, e receitas,
    Em triste leito traçados;

    Se de hum sombrio doente
    A fúnebre poezia
    Os prazeres não perturba
    Deste faustissimo Dia;

    Consenti, que a branda Lyra,
    Por vós outr'ora escutada,
    E que teimoza molestia
    Tem ha muito pendurada;

    Sobre este cansado peito,
    Ferida com debil mão,
    Mande ao Ceo singelos hymnos,
    Nascidos do coração;

    Consenti, que eu louve o Dia,
    Para mim assinalado,
    Qne raia em nosso Horizonte,
    De nova luz coroado;

    Dia, que vos vio nascer;
    E que quiz trazer comsigo
    Quem une ao nome de Grande,
    O santo nome de Amigo;

    Quem não quer só a Nobreza
    De Illustres Antepassados;
    E mais ama huma virtude,
    Que cem Titulos herdados;

    Quem sabe, que o vir honrar
    Dos pequenos a baixeza,
    He entre os que nascem Grandes
    A verdadeira Grandeza;

    Quem a favor de infelizes
    Traz sempre occupada a idéa;
    E estima a fortuna propria,
    Só para fazer a alhea;

    Cem vezes, formozo Dia,
    Vem o Horizonte doirar;
    Nunca possão negros ventos
    Tuas luzes perturbar;

    Tu nos déste em peito illustre,
    Que se doe de alheios ais,
    Hum coração adornado
    De mil Virtudes Morais;

    Senhor, eu não doiro enganos,
    Que venal lizonja approva;
    Sabidas verdades digo,
    E sou dellas huima prova;

    Sou hum dos muitos exemplos
    Do vosso bom coração;
    A minha felicidade
    Foi obra da vossa mão;

    Razoando em meu favor
    Contra teimozos destinos,
    Felizmente pleiteastes
    A cauza dos meus Meninos;

    Ao bom Principe pedistes,
    Que com mão compadecida,
    Lhes concedesse humas ferias,
    Que durassem toda a vida;

    Pedistes depois, Senhor,
    Que a sua Real Grandeza
    Se dignasse de arrancar-me
    D'entre os braços da pobreza;

    Sei que nelle he natural
    Ter dó das alheias penas:
    Mas ouve-as melhor Augusto,
    Quando lhas conta Mecenas;

    Por este modo alegrastes
    A triste familia minha;
    E em caza nos levantastes
    O Interdicto da Cozinha:

    Já hum segundo Frizão,
    Pendurada a lingua velha,
    Dá reboque, como póde,
    A' antiga meia parelha;

    Já o sórdido Gallego,
    Meu antigo companheiro,
    De gravata, e carrapito
    Arvorado em Boleeiro;

    Açoitando surdas ancas
    De dois Sendeiros roazes,
    No mesmo Bairro apregôa,
    Ora barrîs; ora pazes;

    Mas, Senhor, deixando graças,
    Pois não as pede a materia,
    E pedindo á minha Muza,
    Que seja comvosco séria;

    Rogo ao Ceo vos dê mil annos,
    Já que são tão bem gastados;
    Annos que achareis depois
    Em Livro de Oiro apontados;

    E se em dia de Mercês
    Ides de Semana entrar,
    Seja a Mercê destes Annos
    O meu nome apprezentar.

    Ao Principe, ajoelhando,
    Em favoravel momento,
    Por mim, Senhor, lhe jurai
    Eterno agradecimento;

    E eu, em largando este leito,
    Já sei a hora opportuna
    De poder ajoelhar-lhe,
    Quando elle chega á Tribuna;

    E pondo-me ao pé do Ginja,
    Que na _Náo Ajuda_ falla;
    E faz a todos os _Glorias_
    Continencias co'a vengalla;

    Surdo á historia do naufragio,
    Com que elle ás vezes me afferra,
    Rezarei ao Deos do Ceo,
    E assistirei aos da Terra.

    CARTA.

    _Tendo mandado huma Senhora ao Author Vinho da Madeira com huma Carta em
    boa Poezia_.

    Hum humilde admirador
    Da vossa bondade, e estilo,
    Beija a Carta precioza,
    Que veio honrallo, e instruillo;

    Desde hoje, do Mestre Horacio
    Minha alma a lição escuza;
    Quiz a minha Bemfeitora
    Ser tambem a minha Muza;

    De fino licor mandastes
    A minha cava prover;
    A vossa mão generoza
    Sabe dar, como escrever;

    A' parca meza assentado,
    Em Vinho, e Carta pegava;
    Hia bebendo, hia lendo,
    E tudo me embebedava;

    Deixo o velho Anacreonte,
    Hoje mettido a hum cantinho;
    Sua meza nunca teve
    Tão bons Versos, tão bom Vinho;

    Se os teve, Vós o roubastes
    Por minha felicidade;
    Já cá tem o Vinho, e os Versos
    Quem delle só tinha a idade;

    Das escumas do Madeira
    Vejo nascer a alegria;
    Com as azas affugenta
    A minha melancolia;

    Já se perturba a cabeça;
    Já tenho emprestadas cores;
    Já começão a esquecer-me
    As molestias, e os Crédores;

    O tal Horacio enganou-se;
    Não conhecêo a parreira;
    Não se chamava Falerno;
    Se era bom, era Madeira;

    He bom, mas tira o juizo;
    Mandai-mo, em vez de o beber;
    Não se arrisque neste jogo
    Quem tem tanto que perder.

    CARTA.

    _Desculpando-se o Author de não ir a huns Annos_.

    Senhora, em honra do Dia,
    Esforçando a mão pezada,
    Tómo a Lyra, ha longo tempo
    Ao silencio consagrada;

    E em quanto lhe alimpo as cordas,
    Que bolor aos dedos dão,
    E atarantadas aranhas
    Despejando o bêco vão;

    C'os olhos ao ar alçados
    A' minha Muza pedia
    Me désse sonóros Versos,
    Dignos de Apollo, e do Dia;

    Que me ensinasse a louvar
    O ditozo Nascimento,
    Que ao vosso brilhante Séxo
    Trouxe mais hum ornamento;

    Que pintasse a loira Venus
    Vosso rosto bafejando;
    Que me mostrasse as tres Graças
    O rico berço embalando;

    Que me ensinasse a cantar,
    Cingida a testa de loiro,
    Huns claros, triunfantes olhos,
    Huns finos cabellos de oiro;

    Que me fizesse augurar,
    Rasgando ao futuro o véo,
    Amor consagrando as settas
    Nos Altares de Hymenêo;

    Mas as Muzas, como as Ninfas,
    Tem para mim os pés mancos;
    Fogem de trémulas vozes,
    Tremem de cabellos brancos;

    Fiquei, pois, desamparado;
    E merecendo desculpa,
    De não vos mandar bons Versos,
    Peco perdão, sem ter culpa;

    Sei que devia ir pedillo
    Respeitozo, e diligente;
    Mas impede-me essa honra
    Hum defluxo impertinente;

    E quem em caza traz botas,
    E vinte xaropes bebe;
    E quando fahe, fahe mettido
    N'uma loge de Algebebe;

    Se fosse em tempo invernozo
    Entrar na illustre Assembléa
    Com leve, ingleza cazaca,
    Fina, transparente mêa;

    Sem acabar cumprimentos,
    Logo o corpo arripiado,
    Gelada a voz sobre os beiços,
    Cahiria constipado;

    E o Marcos largando os bules,
    Pondo o Velho em quentes pannos,
    Entre os applauzos dos vossos,
    Praguejaria os meus annos;

    Vossa bondade não quer
    Pôr o Cortezão em risco,
    De ir com Habito de Christo,
    E vir no de S. Francisco;

    Acceitai dahi meus votos;
    Daqui a mão vos beijei;
    E dos doces que não como,
    Domingo me vingarei;

    Darei escumantes copos
    Ao perum, e aos môlhos seus;
    Brindarei os vossos Annos,
    Tratando mui bem dos meus.

    CARTA.

    _Aconselhando a hum Cebelleireiro, que não continuasse a fazer Versos_.

    Pois que o talento inquieto
    Até em poezia provas,
    E queres ás mais desgraças
    Ajuntar desgraças novas;

    Pois, que em galantes cantigas
    Teu Rival puzeste razo,
    E coroado de trovas
    Vás entrando no Parnazo,

    Quero em trovas avizar-te,
    Que ha baixîos nesta barra;
    Vou ser Prégador trovista,
    Vou ser hum novo Bandarra;

    A occupação de Poeta
    He nobre por natureza;
    Mas todo o Officio tem ossos,
    E os deste são, a pobreza;

    Os dentes do bom Camões
    Sejão fieis testemunhas;
    Muitas vezes esfaimados
    Não achárão senão unhas;

    Depois que seus frios olhos
    Se fechárão no Hospital
    Logo as Filhas da Memoria
    Lhe erguêrão Busto immortal;

    De que serve honra tardia?
    Bem sei, que o rifão vem torto;
    Mas faz lembrar a cevada,
    Que se deo ao asno morto;

    Só as Muzas o chorárão;
    E o enterro devia ser
    Como hoje nos pinta o Lobo
    O de João Xavier.

    Homéro, o divino Homéro,
    Honra de antigas Idades,
    Por cujos inuteis ossos
    Brigárão sete Cidades;

    Doces Versos recitando,
    Pela Grecia discorria;
    Tinha os Thezouros de Apollo,
    E esmola aos homens pedia;

    Mas se de Authores antigos
    Tens tido pouco exercicio,
    Eu te aponto hum bem moderno,
    E até do teu mesmo Officio;

    Foi este o famozo Quita,
    A quem triste fado ordena,
    Que a fome lhe traga o pentem,
    E da mão lhe tire a penna;

    Em quanto na suja banca
    Pobre tarefa tecia,
    Seu espirito sublime
    Sobre o Parnazo se erguia;

    Cozendo sobre o joelho
    Era dura, falsa cáveira,
    A sua alma conversava
    Com Bernardes, e Ferreira;

    Mil vezes travêssas Muzas
    Da baixa obra o desvião;
    E mostrando-lhe o tinteiro,
    Pós, e banha lhe escondião;

    Mas de que servem talentos
    A quem nasceo sem ventura?
    Vale mais, que cem Sonetos,
    A peior penteadura;

    Amigo, vamos errados;
    Escolhemos muito mal;
    He o fado dos Poetas
    Não professarem real;

    Péga no pardo baralho,
    E sobre a cama assentado,
    Fisga as biscas conhecidas
    Ao parceiro descuidado;

    Matando boçaes tafûes,
    Vai mexendo os papelinhos;
    Nem poupes no cadafalso
    As gargantas dos Sobrinhos;

    Em lhe vendo huma de seis,
    Arma-lhe os laços viscozos;
    Antes que lhe caia a xina
    Na ceira dos laparozos;

    Imita ondados cabellos
    Co'rubro lápis na mão;
    Estas pinturas dão xina,
    As da Poezia, não;

    Se em roda de loiras Ninfas
    Gyrão em torno teus ais,
    Em quanto lhe deres Versos,
    Acharás sempre Vestais;

    Fallo como exprimentado;
    Fallo com peito sincero,
    Póde huuma vara de fitta,
    Mais que a Ilíada de Homéro;

    No sonóro bandolim
    Fortuna as armas te deo;
    Não ha Dama, que rezista
    A' moda do Melibêo;

    Toca-lhe mil contradanças;
    Mas se não tiverem Dom,
    Entre ellas não sevandiges
    O Fidalgo Cotilhom;

    Nestas coizas he que eu creio;
    Poezia he mal fadada;
    Assenta, amigo Luiz,
    Que nunca servio de nada;

    Poucas Damas a conhecem;
    Se a pedem, e se a festejão,
    Gostão do que não entendem,
    Pedem o que não dezejão;

    Inda que por moda querem,
    Que lhes repitão Versinhos,
    Tem por modas de mais gosto
    Convulsões, e Jozézinhos;

    Huma Venus me pedio,
    Por quem inda eu hoje peno,
    Que lhe fizesse hum Soneto,
    Inda que fosse pequeno;

    Dinheiro, invisto dinheiro,
    Só em ti he que eu me fundo;
    Tens o Direito da força,
    És o Tyranno do Mundo;

    Amigo, escolhe hum Paralta,
    Corpo esbelto, perna teza,
    O chapeo tocando as nuvens,
    As fivellas á Malteza;

    Ornem-lhe loiros canudos,
    Pendentes com igualdade,
    Tenras faces, onde morão
    A Saûde, e a Mocidade;

    Chegue á bocca rubicunda
    Cheirozo lenço anilado;
    Dê bilhetinho discreto,
    De huma Novela furtado;

    Põe da outra parte hum Ginja,
    Fivella de oiro no pé,
    Bom vestido de lemiste,
    Boa meia grudifé;

    Com óculos no nariz,
    Mas com a penna na mão,
    Assignando vinte letras
    Para Londres, e Amsterdão;

    E dize-me, qual assentas,
    Que será o mais querido?
    Apósto, que as Damas todas
    Cuidão que o Velho he Cupido.

    Amigo, tenho acabado
    O meu comprido Sermão;
    Préguei-te as altas verdades,
    Que trago no coração;

    Abre mão das Poezias,
    Que nenhum prestimo tem;
    E cuida em sólidos meios
    De ganhar algum vintem;

    Se dizes, que contra os Versos,
    Em Verso huma Carta ordeno,
    E que aqui me contradigo,
    Praticando o que condemno;

    A teu forçozo argumento
    Respondo com Fr. Thomaz;
    Faze o que o Prégador diz,
    Não faças o que elle faz.

    CARTA.

    _Pedindo-se ao Author huma Gloza_.

    Menino, dizer finezas,
    Só o proprio Pertendente;
    Amor não póde imitar-se,
    Só o pinta quem o sente;

    Se adora alguma Nerina,
    Se he para ella a tal Gloza,
    Que vão fazer os meus Versos,
    Onde está a sua proza?

    Além disso, essa figura,
    Faces tenras, e córadas,
    Fallão mais discretamente,
    Que mil Cantigas glozadas;

    Lenço nas pontas bordado,
    Cipó, tízicas fivellas,
    Sobre hum corpo assim talhado,
    Se eu gósto, que farão ellas?

    Versos são mui fracas armas
    Para vencer corações;
    He clara a letra redonda,
    Leia a vida de Camões;

    Sua divina Poezia
    Teve mui curtos poderes;
    Tratarão-no mal os homens,
    E inda peior as mulheres;

    Pois entra de amor na estrada,
    Siga nella outro farol;
    Embuce-se a huma esquina,
    Soffra chuva, soffra Sol;

    Erga alli o Altar do Amor;
    Queime alli humilde incenso;
    Suba ao alto do capote
    Branco, alcoviteiro lenso;

    Que importa que os Çapateiros
    Dem assobio insultante,
    Se os negocios vão marchando
    Com passadas de Gigante?

    Cem vezes na mesma tarde
    Pize esbelto a feliz rua;
    Alheias cadeias de aço,
    Relogio de hollanda crua;

    Vá por aqui, que por Versos
    Dá em vão loucas passadas;
    São divertimento inutil,
    São as historias das Fadas;

    Inda que para cantallos
    Lhe désse Garção a Lyra,
    Como hão de crer-lhe verdades
    Na linguagem da mentira?

    Seja acérrimo chorão;
    Pranto entendem raparigas;
    Faça em lagrimas seu fundo,
    E não o faca em Cantigas;

    Palêe co'estes remedios,
    Pois não tem o verdadeiro;
    He elle (aqui em segredo)
    O mílagrozo dinheiro;

    Mas se teima em pedir Versos,
    E conselhos não supporta,
    Então perdôe, meu Menino,
    Póde bater a outra porta.

    CARTA.

    _Agradecendo alguns pratos, que despertárão a vontade de comer_.

    Senhor, a dada Perdiz,
    Acerejada, e fresquinha,
    Veio emendar os estragos
    Da enjoativa gallinha;

    Esta ave he sempre odioza
    A melancólicos dentes;
    Faz lembrar ultimos caldos
    De já perdidos doentes;

    He, além disto, hum cruzado
    Fugido do mialheiro;
    Este meu mortal fastio
    Custou rios de dinheiro;

    Mas da vossa lauta meza
    Bocados medicinais
    Forão tão bem applicados,
    Que me curárão de mais;

    Venceo vosso cozinheiro
    O tal fastio cruel;
    Meu estomago já pede
    Meças com Fr. Manoel;

    Mas, Senhor, vossa piedade
    Vai ser-vos hum dom fatal;
    Quizestes fazer hum bem,
    Que redunda em vosso mal;

    Fizestes nascer a fome,
    E a fome pede mantença;
    Se a deixais entregue a mim,
    Póde morrer á nascença;

    A vossa filha amparai;
    Não he de peitos honrados
    Pôr as suas Creaturas
    Na Roda dos Engeitados.

    Em soando as duas horas,
    Sabei que esta cara minha
    Tem longos, ávidos olhos,
    Fitos na vossa Cozinha;

    Eu não vou, porque inda fraco,
    Indo arrostar ar delgado,
    Antes de matar a fome,
    Morreria constipado.

    CARTA

    _Sobre o mesmo Assumpto_.

    Senhor, assim que eu largar
    A baetal fatiota minha,
    Vou beijar as pias lágeas
    Da vossa farta Cozinha;

    Não foi attento Hespanhol,[10]
    Receitando amarga quina,
    Quem venceo meu mal co'as armas
    Da fallivel Medicina;

    [Nota de rodapé 10: Medico.]

    Vós sabeis traçar receitas
    Mais gratas, e mais felizes:
    Curárão-me oppostos males
    Bem applicadas Perdizes;

    Humas o appetite abrírão,
    Outras socêgo lhe dão;
    Sarárão as duas chagas
    Co'pêllo do mesmo cão:

    Dizem linguas inimigas,
    Que esta doença he ficticia;
    E os Práticos do meu pulso
    A capitúlão malicia.

    Que em meu capote abafadas
    Estas goellas felizes,
    Em vez de cozerem lynfas,
    Estão armando ás Perdizes;

    Senhor, não devo atalhar
    Este conjurado assédio;
    Porque era, provar doença,
    Ingratidão ao remédio;

    Só digo, que não ganhais,
    Dando ouvido ás vozes suas;
    Aqui dais-me huma Perdiz,
    E se lá vou, tiro duas.

    CARTA.

    Bom Sobral, o que eu te disse
    He, a meu pezar, verdade;
    Sonóros, amenos versos,
    São obra da Mocidade;

    Mandaste que em Crescentini;
    Louvando a doce harmonia,
    O que o Mundo diz em proza,
    Eu lho enfeitasse em Poezia;

    Que invocando as brandas Muzas,
    Encostada ao peito a Lyra;
    Cante os ternos sentimentos,
    Que elle nas almas inspira;

    Môço Sobral, tu ignoras
    Da inerte velhice os damnos;
    Nesta fria testa brigão,
    Co'teu preceito, os meus annos:

    Que importa, que a huma orelha
    A tua voz respeitada
    Me mande afinar a Lyra
    Ha dez annos pendurada,

    Se á outra me diz Apollo,
    Que eu sou já dos reformados;
    Que em seu Tribunal não tornão
    A servir Apozentados?

    Longa idade, he longo mal;
    Velho, só he bom o Amigo;
    O teu mesmo Crescentini
    Ha de provar o que eu digo:

    Este homem, que a seu arbitrio
    Move as humanas paixões;
    Que traz na sua voz o sceptro
    Dos sensiveis corações;

    Que nos deixa duvidozos
    Quaes forças maiores são,
    Se os encantos da harmonia,
    Ou se a viveza da acção;

    Que em mim, que sou homem duro,
    E rebelde ás Leis primeiras;
    Que não chóro nos mais homens
    As desgraças verdadeiras;

    Que, insensivel, vi no Circo
    Burlesco Neto arrastado
    Deixar co'a rôta cabeça
    O terreno ensanguentado;

    Que vejo com olhos seccos,
    Com firme semblante inteiro,
    Fugir-me n'um parolim
    O meu ultimo dinheiro;

    Que em mim, digo, arranca pranto;
    Que amolga hum peito de seixo;
    Que muita vez co'chapeo
    Encubro o trêmulo queixo;

    Que quando dos tenros Filhos
    Chorava o triste destino,
    Tinha este peito de bronze
    O coração de Sabino;

    Este homem, que solto o panno,
    Vivas vem á força ouvir;
    Se cantar de hoje a déz lustros,
    Em vez de chorar, faz rir;

    Sobre os levantados áres
    A envergonhada Harmonia,
    Batendo apressadas azas,
    Do seu Filho fugiria;

    E o Jeronymo estendido[11]
    Co'as pernas nos tamboretes,
    Cabeceára entre as rimas
    Dos ociozos bilhetes;

    [Nota de rodapé 11: O Vendedor dos bilhetes.]

    E cuidavas tu, que a foice
    Que a taes dons ha de pôr fim,
    Que ha de ferir Crescentini,
    Me tinha poupado a mim?

    Se eu hoje fosse aos Oiteiros,
    Onde já tive elogios,
    Dir-me-hião crueis verdades
    Mil sinceros assobios;

    Este Genio dos Poetas
    He fugitivo, e mesquinho;
    A' primeira cam nos deixa
    Na ametade do caminho;

    Não he irmão do teu Genio,
    Este estende mão segura;
    Acompanha os seus Valídos
    A' borda da sepultura;

    Fará que sempre as desgraças
    Em tristes peitos emendes;
    Que sigas sempre os exemplos,
    Que dentro de caza aprendes;

    Lastima, pois, minhas rugas,
    Que até me cauzão o mal
    De faltar ao teu preceito,
    E a louvar hum homem tal;

    Mas vasto, cheio Theatro,
    Que elle encalma em tempo frio,
    Falla melhor, que dez Odes,
    He mais util elogio;

    E nelle estas velhas mãos
    Co'as forças que nascem d'alma,
    Darão, em lugar de Versos
    Muito pinto[12], e muito palma.

    [Nota de rodapé 12: Cruzado novo.]

    CARTA

    _A huma Senhora, que em bons Versos pedio ao A. a Sátyra do Velho_.

    Senhora, o Quadro pedido
    Não estava retocado,
    Mas brevemente o remetto,
    Deixai isto ao meu cuidado;

    Mostra os erros da velhice;
    Põe alguns Velhos á raza;
    Custou-me pouco a pintura,
    Por ter as tintas de caza;

    Que já hum Amigo o vio,
    Eu, Senhora, vos confesso,
    Porém mostrei-lho inda em calva
    Como eu tambem lhe appareço

    Vós sois de mais ceremonia,
    E pezais com mais rigor;
    Temi, que sem rir c'os Versos,
    Só vos vissem rir do Author;

    Tómo outra vez o pincel,
    Vou-lhe pôr attenta mão;
    Abençoarei meu trabalho,
    Se lhe derdes protecção;

    Pois que a deve o sangue illustre,
    Tem dois direitos meu cazo;
    Porque a peço a huma Fidalga,
    Que o he tambem no Parnazo;

    De tão alto voto espero,
    Que geral favor me traga
    A huns Versos, que antes de lidos
    Tiverão tamanha paga.

    Ao favor de mos pedirdes,
    Honra, que eu não merecia,
    Ajuntastes o thezoiro
    De mos pedir em Poezia;

    Que fáceis, que amenos Versos!
    Trazem das Muzas o bafo;
    A moral os faz ser vossos,
    Que quanto ao mais são de Sapho;

    Só na pintura dos annos
    Errou essa mestra mão;
    Porque inda que era em Poezia,
    Foi puchar muito a ficção;

    A doce, igual harmonia,
    A imaginação fogoza,
    Depuzerão contra vós,
    E vos chamão mentiroza.

    Se occulto, fyzico acazo
    Branqueou huns fios de oiro,
    Vosso vingador Apollo
    Os cobre de mirto, e loiro;

    Quem marcha ao lado das Graças,
    Não sabe o que he fria idade;
    Deixai-me dizer a mim
    Essa funesta verdade;

    He em mim que o voraz Tempo
    Já empolgou a mão forte;
    Se inda me mêcho em Poezia,
    He já co'a ansia da morte;

    Cedo raivozos Crédores,
    A quem não curei as chagas,
    Darão a meus frios ossos,
    Em lugar de pranto, pragas;

    E outros, a que a carapuça
    Mesmo, sem mira, não erra,
    Dirão com gosto ao Coveiro
    =Enche-lhe a boca de terra.=

    Mas tudo perdoaráõ
    Minhas sepultadas cans,
    Se de cypreste as cobrirdes
    Vós, e as vossas oito Irmans.

    CARTA.

    A ti, amavel Bandeira,
    Partidista da Verdade,
    E de quem tenho mil provas,
    Que o és tambem da Amizade:

    Que são Filozofo vives,
    E o mesmo morrer protestas,
    A' excepção de me dares
    Bilhete de boas festas:

    Tolentino firme amigo
    Inda quando o Mundo caia,
    E a quem obrigas a sêllo
    Desde a rua da Atalaia,[13]

    [Nota de rodapé 13: Onde tinhão morado havia muitos annos.]

    Dezeja pura alegria,
    Saûde, e muito vintem;
    Dezeja-te tudo aquillo,
    Que elle quasi nunca tem;

    Pois, que chuva, e negros ventos
    Me fechão a porta, e o dia,
    E em caza apontão cuidados,
    Redobrada bateria;

    Pois que a horrivel solidão
    Aviva a idéa cruel
    Da gaveta, vão sepulchro
    Do agonizante quartel.

    E a engenhoza Hypocondria
    Me mette no antigo empenho
    De jurar, que estou morrendo
    Das molestias, que não tenho,

    Vou ver se posso esquivar-me
    A tanto mortal immigo,
    Acolhendo-me ás lembranças
    Do nosso bom tempo antigo;

    Tem a sôlta fantazia
    Farto, milagrozo armario;
    Cura-me penas reaes
    Com prazer imaginario;

    O nosso bom tempo antigo!
    Quando alçando a tôrva fronte
    Jantava Quintiliano
    A' meza de Anacreonte;

    Quando nos brilhantes copos
    Do casto, herdado Gorizos,[14]
    Hião mergulhar as azas
    Os Prazeres com os Rizos;

    [Nota de rodapé 14: Nome de huma Quinta do Amigo, a quem o A.
    escreve, a qual produz bom vinho.]

    Quando em renhidas disputas
    Mettias traidora mão,
    Sendo o motivo da guerra
    Solapada mangação.

    E sem haver lindos olhos,
    Sem haver ondadas tranças,
    Doidos com doidos tecião
    Turbulentas contradanças.

    Quando o assustado Ministro,
    Que as margens do Doiro trilha,
    Pôde salvar da procella
    A sua estimavel bilha.

    Clama em vão por tão bom tempo
    Minha discreta saudade;
    Doce, fugitivo tempo,
    Da nossa doirada idade!

    Ante meus olhos sâudozos
    Cruas azas despregou;
    E em cambio de tantos bens,
    Cans, e rugas me deixou.

    Só tu podes, caro Amigo,
    Virar-lhe o vôo apressado;
    E fazer que elle me traga
    Outra vez o meu reinado:

    Não peço bruxos prestigios,
    Basta ouvires meu alvitre,
    Põe a rua da Atalaia
    Na Calçada do Salitre;[15]

    [Nota de rodapé 15: O A. jantava muitas vezes na rua da Atalaia em casa
    do Amigo, a quem escreve, o qual se mudou para o Salitre.]

    Prepara farta vingança
    A meus compridos jejuns;
    Lança, em nome da Amizade,
    Mais nozes aos teus peruns;

    Lance fumo a faca tinta
    Nas victimas degolladas;
    Revôem pelo quintal
    As pennas ensanguentadas;

    Tornem a dar os teus lares
    Guarida á minha desgraça;
    Tornem a ter teus amigos
    Polido Isidro de graça;[16]

    [Nota de rodapé 16: Caza de Pasto.]

    Vai na franca, lauta meza,
    Versos ouvindo, e tecendo;
    Entre as Muzas, entre as Graças
    Vai, a rir, empobrecendo;

    Correntes do Doiro, e Rheno
    Escaldem meu Estro fraco;
    Abrão-me o Templo de Apóllo
    Atrevidas mãos de Baco;

    Sólte o rozado Taful
    A falsa eloquencia sua;
    E marche pelas Sciencias
    Como marcha pela rua;[17]

    [Nota de rodapé 17: Cóxeava.]

    He alma das Companhias,
    Alegres mezas governa;
    Depois de estar assentado,
    Não conheço melhor perna;

    Tomando amolada faca
    Teu sizudo Capitão,
    Nos demonstre, sobre hum lombo,
    A guerra do Rossilhão;

    Aliza assim, caro Amigo,
    Meu velho, engelhado coiro;
    Manda ás Parcas, que o meu fio,
    Já que he curto, seja de oiro.

    Dá brando ouvido a meus rogos;
    Teu bom peito em bem os tome;
    Não te falla vil lizonja,
    Falla-te a Amizade, e a fome:

    E tu, dia tormentozo,
    Que abalas velhas trapeiras,
    Que o telhado me arripias,
    Que me ensopas as esteiras;

    Que em meus reumaticos ossos
    Assentas pezado açoite;
    E sobre medonhas nuvens,
    Me mandas de tarde a noite;

    Serás o dia mais alvo,
    Que em meus largos annos levo,
    Se for acceita esta Carta,
    Que á tua má luz escrevo;

    Chamarei Zéfiros brandos
    A teus roucos ventos frios,
    Se hoje rezolve o Bandeira
    Dar de comer a vádios.

    CARTA

    _A hum Camarista_.

    N'uma infeliz madrugada,
    Antes que o Sol esclareça,
    Mettido em pobre caleça,
    Puz peito, Senhor, á estrada:
    Sahi em hora mingoada,
    Pois negra traição me espera;
    Homens, com genios de féra,
    Me atacárão sem motivo;
    Por milagre fiquei vivo,
    E devo pezar-me a cêra.

    Vi revoltozos Carreiros
    Com duro aguilháo armados;
    Vi nuvens de páos alçados
    Pelos cumes dos oiteiros:
    Roldão, e o bravo Oliveiros,
    Que alta pena Heróes declara,
    Talvez voltassem a cara,
    Que a tantos tremer fazia,
    Se nos campos da Turquia
    Vissem Carreiros da Enxara.

    Vi os Campos inundados
    De gentes vagas, e incertas;
    Vi as estradas cobertas
    De cacheiras, e cajados:
    Não valem rogos, nem brados,
    Não valem ligeiras pernas;
    A raiva, e o Deos das Tavernas
    Accendêo tanto os Campinos,
    Que cuidei que os meus Meninos
    Terião férias eternas.[18]

    [Nota de rodapé 18: O A. era Professor de Rhetorica, e pertendia passar
    para outro emprego.]

    Em quanto no duro chão
    Meu Companheiro arquejava,
    Eu muito humilde esperava
    Tambem a minha ração;
    Bem me lembrou que esta acção
    Deslustrava a minha gloria;
    Mas não pertende vitoria,
    Nem sabe mover espada
    Mão, ha annos, costumada
    A dar só com palmatoria.

    Entre mortaes agonias,
    Da bruta gente escapando,
    Me fui na sege encaixando,
    Maldizendo as romarias;
    Praguejei meus negros dias,
    Dias de pranto, e de dor;
    Conheci então, Senhor,
    Que só me dão meus destinos,
    Ou Carreiros, ou Meninos,
    Que Deos sabe o que he peior.

    Mas a perda da vitoria
    Sirva de abrandar meus fados;
    Dem-vos motivo os Cajados
    De fallar na Palmatoria;
    Saiba o Principe esta historia;
    Contai-lha com viva côr;
    Fazei com que, em meu favor,
    Sentindo affectos diversos,
    Lhe motivem rizo os Versos,
    E lhe faça dó, o Author.

    CARTA

    _A hum Camarista, tendo o A. sido despachado_.

    A rara benignidade,
    Que quiz o Ceo conceder-vos,
    Permitta que de escrever-vos,
    Tome eu hoje a liberdade;
    Pois tendes tanta bondade,
    Peço, nella confiado,
    Que por mim ajoelhado,
    E na bocca o coração,
    Beijeis ao Principe a mão,
    E lhe deis este recado.

    =Dizei, pois, a Sua Alteza,
    Que eu, seu humilde Afilhado,
    Por elle ha pouco arrancado
    D'entre os braços da pobreza,
    Na simples, mas farta meza,
    Entre os Irmãos, e os Parentes,
    Aos Ceos, com votos ardentes,
    Pedimos, que em paga justa,
    Prosperem a Mão Augusta,
    Que nos faz viver contentes:

    E se entre as puras verdades,
    Que Vós lhe podeis contar,
    Virdes, que terão lugar
    Algumas jovialidades,
    Pintai-lhe as felicidades,
    Que vai tendo a gente minha;
    Dizei-lhe que na Cozinha
    Ardem já montões de brazas;
    Que em todas as minhas cazas,
    Era a mais fresca, que eu tinha;

    Que os enroupados Sobrinhos,
    Affrontando o vento frio,
    Vem todos mostrar ao Tio
    Os seus novos jozésinhos;
    Que então lhes conto, e aos vizinhos,
    Por quem a roupa foi dada;
    Que Mão, nunca assás louvada,
    Mão Real, piedoza, e justa,
    Me poz livre a Rua Augusta,[19]
    Por varios crimes vedada;

    [Nota de rodapé 19: Aonde se vende panno.]

    Que hum Tendeiro, que os seus bens
    Me fiava, dando arrancos,
    Veio em barrete, e támancos
    Dar-me logo os parabens;
    Espera que os meus vintens
    O fação tambem feliz;
    Porque, segundo elle diz,
    Ha de haver na sua Tenda
    Mais sahida na fazenda,
    E menos gasto no giz.[20]

    [Nota de rodapé 20: Costumão marcar com giz o que dão fiado.]

    Mas eu hum crime cometto,
    Quando de ensinar-vos trato;
    Quiz ser ao Principe grato,
    Mas fui comvosco indiscreto;
    Homem, como Vós, discreto
    Não preciza formulario;
    A Egoa do Seminario[21]
    Me deve os rompões cravar,
    Por eu querer ensinar
    O Padre nosso ao Vigario.

    [Nota de rodapé 21: Tinha alluzão particular.]

    _A' Illustrissima, Excellentissima Senhora D. Catharina Micaella de
    Souza, tendo feito a honra ao A. de lhe offerecer huma Vestia de Setim;
    e pedindo-lhe este que lembrasse o Requerimento, em que seu Irmão
    pertendia o Governo de hum Forte_.

    Minha respeitoza mão
    De seus limites não sai;
    A escritura, que aqui vai,
    Não he carta, he Petição;
    Até ante os Thronos vão
    Vozes em papel incluzas;
    As minhas não vão confuzas;
    São memorial mui claro;
    Sou Poeta, dai-me amparo,
    He obrigação das Muzas.

    Não peço hoje para mim;
    Bem cuberto anda meu peito;
    Inda beijo, inda respeito
    Huma Vestia de Setim.
    Triste Irmão tem já no fim
    Farda rôta, e chamuscada;
    Tem má côr, e he mal fadada;
    Quer que a mão piedoza, e franca,
    Que a mim me deo Vestia branca,
    Lhe dê Cazaca encarnada.

    _Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde, hoje
    Marquez de Angeja_.

    Em sege estreita entaipados,
    Sol á ilharga, Sol por cima,
    Vinha eu, e o Padre Lima
    Cheios de pó, e encalmados.
    Eis-que na estrada atacados,

    Párão as mulas baratas;
    Cuidei eu que erão Piratas,
    Que tirão vida, e dinheiro,
    Fui ver se era o Clavineiro,
    E achei duas Açafatas.

    Trazião a arma mais dura,
    Que nos peitos se tem posto,
    Trazião ambas no rosto
    O respeito, e a formozura.
    Querem sege mais segura,
    Porque a sua está quebrada;
    E em quanto o Padre na estrada
    Lhe diz palavras pompozas,
    As minhas mãos respeitozas
    Lhe affoufavão a almofada.

    Trabalho infeliz fizerão,
    Porque meus Fados são tais,
    Que acceitando tudo o mais,
    A almofada não quizerão.[22]
    Debaixo dos pés puzerão

    [Nota de rodapé 22: Por cauza dos toucados altos.]

    Minha obra desprezada
    Senhor, não fazemos nada,
    Tomar vãos trabalhos oizas,
    Tem todas as minhas coízas
    O destino da almofada.

    _No dia dos annos da Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de
    Villa Verde, hoje Marquez de Angeja, em cuja caza o Author jantou_.

    Senhor, talvez neste dia
    Já cantei Versos polidos;
    Porém em tectos cahidos
    Não mora o Deos da Poezia.
    Voou; e da testa fria
    Me tirou o verde loiro,
    E das mãos a Lyra de oiro;
    Tudo em fim se foi co'a bréca;
    Mas se a Aganippe se séca,
    Não se ha de secar o Doiro.

    Embora no velho caco
    Murche o cansado miôlo;
    Se os loiros lhe tira Apollo,
    Com parras o adorna Baccho;
    Põe mira meu peito fraco
    Nos vossos puros almudes;
    E em honra de mil virtudes,
    De mil talentos diversos,
    Em vez de fazer dois Versos,
    Farei duas mil saûdes.

    _Sahindo por sortes Compadre de huma Senhora da primeira Grandeza_.

    Devo pouco á Natureza,
    E muito a hum brinco innocente;
    Porque elle me faz parente
    Da mais distinta Nobreza.
    Embora esquiva riqueza
    Pretas fortes me não mande;
    Qne importa que ha annos ande
    Sempre a perder nas menores,
    Se nas dos premios maiores
    Me sahio o premio grande.

    _Fazendo annos o Illustrissimo, e Excelentissimo Senhor Marquez de
    Angeja, Tenente General, na occazião em que sahíra Provedor da
    Mizericordia_.

    Que fazem Versos cansados,
    Applaudindo os vossos Annos,
    Se dos nossos Soberanos
    São melhor elogiados?
    Se os trazem sempre empregados
    Em servir a Monarquia,
    Se a Real Secretaria
    Escreve em vosso favor,
    Taes prozas louvão melhor,
    Do que a melhor Poezia.

    Da vossa dexteridade
    Fião coizas encontradas;
    Dão-vos as duas estradas,
    A do Sangue, e da Piedade.
    Vivei pois comprida idade

    Sempre entre Povos amigos;
    Mas se crescerem perigos,
    Cresceráõ as acções nobres;
    E a mão que defende os Pobres,
    Cortará os Inimigos.

    _No dia dos annos do mesmo Senhor_.

    A Minha Muza cansada,
    Perdendo os vôos ligeiros,
    E ao pé de murchos loireiros
    Com razão apozentada,
    Hoje, Senhor, animada
    Do amor, e da gratidão,
    Esquecendo a multidão
    De frios cabellos brancos,
    Vem, forcejando os pés mancos,
    Metter-me a Lyra na mão.

    Gratidão seus passos rege;
    Quer que em limada Poezia
    Venha louvar neste dia
    Quem em todos me protege;
    Nas cordas de oiro, que elege,
    Quer, que invocando as Camenas,
    Eu cante as horas serenas
    Em que o Ceo piedozo, e justo
    Para o lado de hum Augusto
    Me fez nascer hum Mecenas.

    Eu respondi, que a harmonia
    Me fugio co'a mocidade;
    E que a sólida verdade
    Não depende da Poezia;
    Que em proza sempre seguia
    Seu acertado conselho;
    E que em fim Poeta velho
    Por teima querer rimar,
    He o mesmo que ir dançar
    O vosso ginja, Botelho.[23]

    [Nota de rodapá 23: Creado muito velho, tentado com minuetes.]

    _Ao mesmo Senhor em outro dia de annos_.

    Senhor, co'as minhas Poezias
    Festejava os annos teus;
    Porém mandão já os meus,
    Que eu venha co'as mãos vazias;
    Geladas madeixas frias
    Fechão do Parnazo o passo;
    Pois que já o Tempo escaço
    Esfriar meus Versos quiz,
    Quem me acceitou os que fiz,
    Me agradeça os que não faço.

    Mas he da tua Grandeza,
    E a tal dia acção adquada,
    Inda que não trago nada,
    Não perder a Caza, e a meza;
    Por culpas da Natureza
    Não perca os meus ordenados;
    Cubrão teus tectos doirados
    Inutil, mudo Jarrêta;
    Não o merece o Poeta,
    Mas he costume aos Creados.

    _Ao mesmo Senhor em outro dia de annos_.

    Neste venturozo Dia,
    Honrado, e honrador Marquez,
    Sempre eu vim a vossos pés
    Trazer a offerta em Poezia;
    Ante Vós a Lyra erguia
    Humilde, alegre, e casquilho;
    Mas hoje mudando o trilho,
    A bem, Senhor, me levai,
    Que sendo os annos do Pai,
    Dê a Colgadura ao Filho.

    Moço Illustre, eu dou conselhos,
    Filhos de, amor, e verdade;
    Permittida liberdade
    Aos fieis Creados velhos;
    Ouvi: Bons Pais são espelhos;
    Dão doutrinas sem enganos;
    E eu rogo aos Ceos Soberanos,
    Que ao vosso ouvindo as lições,
    Sejão as vosss acções
    O elogio dos seus Annos.

    _Ao Illustrissimo, e Excelentissimo Senhor Marquez de Marialva, com quem
    se tinha encontrado o A. na Caza em que estava o Embaixador de
    Marrocos_.

    Na Quinta da Praia clama,
    Que lhe tireis a Cadeira
    Hum triste, que quarta feira
    Comvosco esteve em Moirama:
    Se a Estrella, que a Vós o chama,
    Não lhe abranda os seus destinos,
    Torna para os Marroquinos;
    Porque, agoiros por agoiros,
    Antes cativo de Moiros,
    Do que Mestre de Meninos.

    _No dia dos Annos de hum Menino_.

    De plumachos emplumado,
    Manso, alegre Cavallinho,
    Ou torneado carrinho
    D'alvos Carneiros puchado,
    Devião marchar ao lado
    Deste papel que remetto;
    Mas mostrando o meu affecto
    Como póde o meu destino,
    Em obzequio de hum Menino,
    Vou dar aos outros Suéto.

    _Na despedida de hum Ministro, que partia levando seus Filhos_.

    A Lei da pura amizade
    Minhas lagrimas condemna;
    Quer que ceda a minha pena
    A' tua felicidade;
    Vai; e em quanto a vil maldade,

    E a intrigante cubiça,
    A baixa inveja, a injustiça
    Pézas na recta balança,
    Conserva de mim lembrança,
    Que he tambem fazer justiça.

    E vós, lindos Innocentes,
    Que nessas tenras idades
    Já sabeis mover saudades
    Nos amigos, nos parentes,
    Quando lhe virdes pendentes
    As balanças da razão,
    Ide internecello então
    Com rizos, com géstos novos;
    Lembrai-lhe, que aquelles Povos,
    Como vós, seus filhos são.

    _A hum Fidalgo, que pedia para o Author hum lugar na Secretaria, na
    occazião em que elle pertendia o seu proprio Despacho_.

    Se vemos rir quem chorava,
    E tantos exemplos temos,
    Senhor, não desesperemos,
    Deos ainda está onde estava:
    Água branda as pedras cava;
    Em tudo o tempo he precizo;
    Saber teimar com juizo
    Tem mil montes aplanado;
    Talvez sejais despachado,
    E talvez que eu lavre o Avizo.

    Ah Senhor, com que alvoroço,
    Na liza banca forrada,
    Eu de cazaca encarnada,
    E fitta preta ao pescoço
    Lançára o despacho vosso,
    Que tanto tempo esqueceo!
    Que grande favor do Ceo,
    Se o meu primeiro exercicio
    Fosse servir-me do Officio
    A favor de quem mo deo!

    _A respeito de hum Padre, que dizia ter sido Mestre de Rhetorica; que
    tomava triaga contra o veneno que ainda lhe havião de dar; que dizia que
    estava eleito Cardeal; e que era demaziadamente trigueiro, se deo este_

    MOTE.

    _Não tem côr de Cardeal_

    Não ajuda ao Padre a cara;
    Revolvo antigos Annaes,
    E vejo que os Cardeaes
    Tinhão a pelle mais clara;
    Será maravilha rara
    Achar hum de côr igual;
    Forão brancos como a cal
    Mazarino, e Alberoni;
    E a não ser este o Negroni,
    Não tem côr de Cardeal.

    _Respondeo em Decimas, ás quaes se fizerão as seguintes_:

    Que venhão fuscos garraios
    Metter em Versos a mão!
    Potente Jove, aonde estão
    Os teus vingadores raios?
    Hum homem de coiros baios
    Segue as Muzas tuas filhas;
    Tu, pois, que os vaidozos trilhas,
    Faze que este, em todo o cazo,
    Saia logo do Parnazo,
    E passe para Cassilhas.

    Se em rhetorico exercicio
    Já soubeste regras dar,
    Tambem eu posso fallar,
    Porque sou do mesmo officio;
    Que o teu cérebro tem vicio,
    He verdade assás notoria;
    Na Poezia, e na Oratoria
    Vaz em total decadencia;
    Collega, tem paciencia,
    Has de vir á palmatoria.

    No teu escuro Papel,
    Aos bons ouvidos ingrato;
    Achei hum vivo retrato
    Da confuzao de Babel;
    A' patria lingua infiel
    Ès da Nação o desdoiro;
    Bem sei que te chego ao coiro;
    Mas não merece passagem,
    Que a batina, e a linguagem
    Ajuntem Clerigo, e Moiro.

    A quem me queira arguir,
    Mostro, Padre, o tal Papel;
    He testemunha fiel,
    Não me deixará mentir;
    Em novos termos urdir
    Mettes a todos n'um canto;
    Que uzas palavras de encanto
    Assentão gentes maxuchas,
    Boas para ajuntar bruchas,
    Ou para tirar quebranto;

    Deixei-me, pois, de criterio,
    E tomei melhor caminho;
    Meu amigo, a hum louquinho
    He loucura fallar serio;
    Chova, pois, o vituperio
    Sobre esse tostado coiro;
    Saia o tal Cardeal Moiro,
    Que o Capinha, alvoroçado,
    Vai, por ordem do Senado,
    Metter garrochas no toiro.

    Fulla escrava Americana
    Já mandava á luz do dia
    Hum Crioilo, que seria
    Nódoa da Curia Romana;
    Carregado de banana,
    Porque no caminho coma,
    O rumo da Europa toma;
    E em terra, marchando á pata,
    Com sacco, e folha de lata,
    Deo a sua entrada em Roma.

    Assim mesmo estropeado,
    E envolvido em grosso panno,
    Foi entre o Povo Romano
    Com mil respeitos tratado;
    Do vento, e do Sol queimado,
    Semblante quebrado, e afflito,
    Tem tal dom na cara escrito,
    Que gritavão de redor,
    Huns, que he o Rei Belxior,
    Outros, que he S. Benedito.

    Tomou a Benção Papal;
    E teve tanto poder,
    Que sem o Papa o saber,
    Ficou feiro Cardeal;
    Voltou para Portugal
    Já Cardeal Protector;
    Achou cá pouco favor;
    E zombão-lhe do Capello,
    Por ter mui crespo o cabello,
    E ser muito bassa a côr.

    Erra o Vulgo os passos seus;
    He hum cego, e maldizente;
    A côr he méro accidente,
    Todos são filhos de Deos.
    Porém para os lucros teus
    O Capello te faz mal;
    No S. João, e Natal
    Terias gôrda guedelha,
    Armado de faca velha,
    Pincel, e pote de cal.

    Padre, vai-te o mundo ao pêllo;
    E c'o a lingua maldizente
    Te vai cortando igualmente
    As Poezias, e o Capello;
    Porém eu, que sou singelo,
    E meus contrarios ameigo,
    Te affirmo, piedozo, e meigo,
    Que se não tens, por teu mal,
    Em Roma o de Cardeal,
    Tens no Parnazo o de Leigo.

    Deves voltar outra vez,
    E dizem que nisso fallas;
    Mas pégão-se pelas sallas
    Teus molles tardîos pés.
    Se ajuda de custo vês,[24]
    Fazes-te côxo, e ronceiro;
    Meu Padre, és muito matreiro,
    Já todos estão de acôrdo;
    E sem te verem a bórdo,
    Não pões a mão no dinheiro.

    [Nota de rodapé 24: Pedia huma ajuda de custo.]

    Tua saude se estraga,
    Mas teu Medico condemno;
    Meu amigo, o teu veneno
    Não se cura com triaga;
    Para a tua antiga chaga
    Medicina impropria he esta;
    Muda, pois vês que não presta;
    Grita c'os olhos em braza,
    Que te fechem n'uma caza,
    E que te sangrem na testa.

    De balde em Lisboa gritas,
    Attestando a Italia inteira,
    Que regeste huma Cadeira
    Nos Claustros dos Jezuitas;
    As obras que vejo escritas
    Provão que nos tens mentido;
    Até das Ordens duvido,
    Quando as tem cabeças tontas;
    Tu, cá pelas minhas contas,
    Ès hum mulato fugido.

    Foge outra vez, se tal és,
    Qual foge apupado mono;
    Antes que venha teu dono,
    E te ponha nas Galés;
    Antes que enfeite teus pés
    Legal, sonóro fuzil;
    Não veja o patrio Brazil,
    Que os hombros do filho bello,
    Vindo buscar hum Capello,
    Só achárão hum barril.

    Dizem todos, que és fingido,
    Que ninguem louco te chame;
    Por mais que eu lhe jure, e clame,
    Que és mesmo doido varrido;
    Dizem que estás conhecido,
    E que o fazes por estudo;
    Em tal cazo prompto acudo,
    E de outro lado te ataco;
    Se não és doido, és velhaco,
    E talvez que sejas tudo.

    Mas já quem póde me ordena,
    Que armas ponhamos em terra;
    Apôs sanguinoza guerra,
    Alce a frente a Paz serena;
    Sobre essa pelle morena
    Em paz teu Capello ajusta;
    Assento que he coiza justa
    Seguires methodo novo,
    E não dares gosto ao Povo,
    Que quer rir á tua custa.

    Não te finge falso agrado
    Meu semblante contrafeito;
    Não encobre honrado peito
    Coração refalseado;
    Se me julgas disfarçado,
    Alta injustiça me fazes;
    Eu te juro eternas pazes;
    E se falto aos votos meus,
    Ah Padre, permitta Deos
    Que eu sempre ensine rapazes.

    E tu, que sem estes sustos
    Vives cheio de alegrias,
    Serenos, doirados dias,
    Aos pés de teus Reis Augustos;
    Tu, que por titulos justos
    Te chamas o novo Horacio,
    Quando entrares em Palacio
    Conserva de mim lembranças,
    Porque tenho as esperanças
    Postas em ti, e no _Estacio_.[25]

    [Nota de rodapé 25: Bobo célebre.]

    MOTE.

    _Hum suspiro de repente,
    Hum certo mudar de côr,
    São evidentes sinaes
    De que o peito occulta amor_.

    GLOZA.

    Debalde as penas, e os gostos
    Disfarçais, loucos Amantes,
    Se os attentos circumstantes
    Tem em vós os olhos postos;
    De que servem falsos rostos,
    Se o coração desmente
    N'um instante infelizmente
    Sabe perdido o longo estudo,
    Pois vem destruir-vos tudo
    Hum suspiro de repente.

    Nada faz cautella, ou medo
    N'alma que devéras ama;
    Esta turbulenta chamma
    Não sabe arder em segredo;
    Sobe ao rosto, ou tarde, ou sedo,
    Do escondido fogo o ardor;
    Basta a declarar a dor,
    Vãmente n'alma guardada,
    Huma palavra truncada,
    Hum certo mudar de côr.

    Duro amor, que coração
    Saberá nunca occultar-te?
    Que vai fazer força, ou arte,
    Onde as tuas settas vão?
    Cegos Amantes, em vão
    O vivo fogo abafais;
    Esses descuidados ais,
    Que sem tino ao vento dáveis,
    São provas incontestaveis,
    São evidentes sinais.

    De que serve estar fallando
    Sizudos, e comedidos,
    Se esses olhos insoffridos
    Vos estão sempre entregando?
    Alçados de quando em quando
    Vão dizendo a occulta dôr;
    Abaixallos, he peior;
    Que essas vistas contrafeitas
    Dão ás vezes mais suspeitas,
    De que o peito occulta amor.

    _Mandando huma gallinha a huma Pretinha bonita, que gostava de brincar
    com ellas_.

    As tuas fulas mãoszinhas,
    Que a fome já não descarna,
    E que de crearem sarna
    Passão a crear gallinhas;
    Acceitem creações minhas,
    Que eu a outros fins guardava;
    Senhora com côr de escrava,
    Alta estrella, que em ti brilha,
    Manda que se dê á Filha
    Aquillo que o Pai furtava.

    CANTIGAS

    _Feitas nas caldas com o Estribilho_.

    _Olhos meus, cansados olhos,
    O vosso officio he chorar_.

    Nas Caldas, nas tristes Caldas
    Alegria vim buscar;
    Quiz de noíte ver o Sol,
    Quiz achar fogo no mar.
    _Olhos meus, etc._

    Que importa mudar de terra,
    E baldados passos dar,
    Se a toda a parte a que os volto
    Vai comigo o meu pezar.
    _Olhos meus, etc._

    Vejo pálidos doentes
    Pela Copa passear,
    Oiço de antigas molestias
    Tristes effeitos contar.
    _Olhos meus, etc._

    Vejo nas férvidas aguas
    Mirrados corpos banhar,
    E de balde aos surdos Ceos
    Convulsos braços alçar.
    _Olhos meus, etc._

    Vejo de perdido pranto
    Tristes ais acompanhar,
    Com as lagrimas alhêas
    Vou as minhas misturar.
    _Olhos meus, etc._

    Que importa ver Ninfas bellas,
    Se accrescentão meu pezar?
    Gostão de attrahir os olhos,
    E as almas tyrannlzar.
    _Olhos meus, etc._

    Ao som de feridas cordas
    Dão doces vozes ao ar,
    Quaes enganozas Serêas,
    Que cantão para matar.
    _Olhos meus, etc._

    Se o meu pobre coração
    Se deixa huma vez tocar,
    Com escarneos, com rizadas,
    Meu pranto vejo pagar.
    _Olhos meus, etc._

    Fartai-vos, pois, olhos meus
    De lagrimas derramar;
    Vós nascestes para tristes,
    E escolhestes o lugar.
    _Olhos meus, etc._

    _A hum Leigo, que era vesgo, e que nunca teve fastio; e a quem por acazo
    tocou na cabeça a ponta de hum espadim_.

    Ferio sacrilega espada,
    Alçada por mão traidora,
    Cabeça, que sempre fôra
    Té aos Barbeiros vedada;
    D'entre a grenha profanada
    Corre o sangue á terra dura;
    Tosquiou-se a matadura;
    E o casco rebelde a ordens,
    Precizou destas desordens
    Para ter Prima Tonsura.

    Feroz Soldado imprudente,
    Que nova espada esgrimio,
    Foi o ímpio que ferio
    Esta victima innocente;
    A quem do golpe insolente
    O motivo lhe procura,
    Diz que fez compra segura;
    Pois duvidozo na escolha,
    Quiz ver que tal era a folha,
    Cortando por coiza dura.

    Homem de tenção damnada,
    Só tu conseguiste o fim
    De entrar o teu espadim
    Aonde não entra nada;
    Da repentina estocada
    Cahe o Padre desmaiado;
    Mas quando recuperado
    A ti os olhos volveo,
    Sabes o que te valeo?
    Foi teres já almoçado.

    Todo o Mundo te pragueja,
    Porque em detestavel guerra
    Hias deitando por terra
    Esta columna da Igreja;
    Mas se triunfaste a inveja,
    E o Padre morresse então,
    Dize, ó ímpío coração,
    Que tanto em furor te atiças,
    Quem ajudaria ás Missas?
    Quem tocaria ao Sermão?

    Quem nos daria a certeza
    De haver outro homem sizudo,
    Que pudesse comer tudo
    Ouanto se puzer na meza?
    Da próvida Natureza
    Quem havia as Leis seguir!
    Observante em digerir
    Qual outro havia saber
    Depois de acordar, comer,
    Depois de comer, dormir!

    Que importa, ó cruel Soldado,
    Para desculpar teu erro
    Ter sido o teu ímpio ferro
    Já pela Patria arrancado?
    Que importa que em campo armado
    Junto a si Lippe te veja,
    Que importa que o Mundo seja
    Das tuas acções o abono,
    Se a mão que defende o Throno,
    Ataca depois a Igreja?

    E tu, que segues os trilhos,
    Que S. Francisco te fez,
    E pões os teus gordos pés
    Sobre os seus santos ladrilhos;
    Pois que a seus devotos filhos
    Guarda no Ceo largas pagas,
    Nos olhos he bem que o tragas,
    E de modélo não mudes;
    E pois não he nas virtudes,
    Que o seja ao menos nas chagas.

    _Estando o A. doente, e mandando pedir algum prato á meza, aonde jantava
    o sobredito Leigo_.

    Hum estomago cansado,
    De cuja antiga ruina
    Tem sido cauzas iguaes
    A molestia, e a Medicina;

    Que tendo em si dos tres Reinos
    As perigozas heranças,
    Só não bebeo das Boticas
    Os S. Migueis, e as balanças;

    Hum estomago sem forcas,
    E ás leis geraes ínfiel,
    Que não trabalha em diamante,
    Como o de Fr. Manoel;

    Que não tem, como este Padre,
    Tanta fome obediente;
    E olha já para a gallinha
    Como elle olha para a gente;

    Para emendar semrazões,
    Que faz Arte, e Natureza,
    Vai, fugido das Boticas,
    Acoitar-se á vossa meza;

    Mil vezes por outra cauza
    Teve a honra de bussalla;
    Indo então por matar fome,
    Vai hoje por despertalla;

    Perdiz, ou branda vitella,
    São deste remedio o nome;
    Da vossa esplendida meza
    Seja elogio huma fome;

    E porque o Padre o não saiba,
    Será a melhor cautella,
    Mandar tirar a iguaria
    Quando elle olhar para ella.

    _Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez, de Ponte de Lima,
    Ministro de Estado, pedindo-lhe o A. licença para ir ao remedio de
    banhos, na occazião em que o mesmo Senhor se tinha encarregado de lhe
    promever a mercê de se imprimirem as suas Obras na Officina Regia_.

    CARTA.

    Senhor, entreguei meu livro;
    Foi esse filho mesquinho
    Co'a esteril benção do Pai
    Lançar-se aos pés do Padrinho;

    Dei-lhe em dote inuteis rimas,
    Dei-lhe vazio thezoiro;
    Mas vossas mãos milagrozas
    Convertem nadas em oiro;

    Do mal fadado Parnazo
    Quebrareis o injusto encanto;
    Nem sempre seus verdes loiros
    Serão regados com pranto;

    Impertinentes crédores
    Largar-me-hão em fim a rua;
    O meu cégo abrindo a bocca
    Lhes ha de fechar a sua;

    Até apertados genios
    Sem vontade comprarão;
    Farão focinho á Poezia,
    E obzequios á Protecçao;

    Mas, Senhor, de livro basta;
    He ínsulto ás mãos em que anda
    Passar de ser o meu livro
    A ser a minha demanda;

    Foi esse meu rogo ouvido;
    Deixai que para outro mude;
    Tem objecto inda mais alto,
    He mais do que oiro, he saude;

    Contra o mal que me tem feito
    Raivozos Caniculares
    Me off-rece a fresca Ericeira
    Seus claros, sádios mares;

    Sei que nestas ondas bravas
    O banho hum risco teria;
    Posso começallo alli,
    E ir acaballo á Bahia;

    Bramindo na vasta praia
    Enrolada vaga forte,
    Dentro do pérfido seio
    Me traz a saûde, e a morte;

    Mas com protector penedo,
    E cauto Marujo amigo,
    O impune, tónico susto,
    Tórna em remedio o perigo;

    Falta só licença vossa,
    E juro, Senhor, que vem;
    Como podeis Vós negalla,
    Se sabeis que ella he hum bem?

    He o Pindo o meu thezoiro,
    O Oceâno he meu Jordão;
    D'ambos recebo mil bens,
    Mas todos por vossa mão;

    Eu a beijo; ella receba
    Gratidão devida, e pura
    Em tributo que lhe paga
    O Creado, e a Creatura.[26]

    [Nota de rodapé 26: Tinha nomeado o A. Official da Secretaria.]

    _Ao Excellentissimo Senhor D. Lourenço de Lima, tendo promettido ao A.
    que quando chegasse das Caldas, havia lembrar a mercê de se imprimirem
    estas Obras_.

    CARTA.

    Ora do cume dos Montes,
    Ora em suas verdes fraldas,
    Hia estender os meus olhos
    Na longa estrada das Caldas;

    Sobre escumozos cavallos
    Trotando empoada sege,
    Disse quem fez os meus versos
    =Ahi vem quem os protege;=

    Alçando-me, hia a dizer-vos
    =Senhor, chegou o meu prazo;
    Honrastes hoje outros Montes,
    Honrai agora o Parnazo;

    Promettestes fazer ferteis
    Seus estereis Mirto, e Loiro;
    Promettestes que a Hypocrene
    Levaria arêas de oiro;

    Sua clara, inutil vêa
    Réga chão, que não se lavra;
    Vinde fazello fecundo,
    Vinde cumprir-me a palavra.=

    Mas, Senhor, não éreis Vós;
    Era hum Casquilho, e do Povo;
    Tornei a pegar nas Contas,
    Tomei a esperar de novo;

    Mil votos ao Céo mandava
    Este humilde orador fraco,
    Que vos não vissem Carreiros,[27]
    Nem os ladrões do Tabaco;[28]

    [Nota de rodapé 27: Allude ás Decimas da Enchára.]

    [Nota de rodapé 28: Furto célebre feito naquella estrada.]

    Então carrancuda Noite
    Me enxotou co'as negras azas;
    E em honra dos taes Amigos
    Vim como Gato por brazas;

    Sei, em fim, que já chegastes
    Chamou por Vós minha dôr,
    Venha o Illustre Conselheiro
    Honrar-se em Procurador;

    Fazer bem, he mór grandeza;
    Deo-vos, tambem esta, o Pai;
    Vós ambos d'entre os meus loiros
    Cruas silvas arrancai;

    Com piedoza Geografia
    As Paternas mãos benignas,
    Emendando ingratos Mappas,
    Ponhão o Pindo nas Minas;

    O Impressor gosta de Versos;
    Quer que os meus públicos andem;
    Mas he hum tanto acanhado,
    Não imprime sem que o mandem;

    Elle perdoa o contagio;
    Pegai-lhe a minha doença;
    Só deixarei de gemer
    Em gemendo a sua Imprensa;

    Assigne, pois, meu Avizo,
    Pia, obedecida mão;
    Mas não cuideis que com isso
    Dais férias á protecção;

    O mais ávido Leitor,
    Das Quintilhas pregoeiro,
    Ha de achallas insoffriveis
    Em lhe custando dinheiro;

    E só em nojoza Tenda
    De Braguez Chatim mesquinho
    Terão sahida os meus Versos,
    Embrulhando o seu toicinho;

    Só rapazes acharão
    Minha Muza doce, e meiga;
    Não porque tenha Poezia,
    Mas porque teve manteiga;

    Mettei, pois, Senhor, em brios
    Ricos peitos avarentos;
    Dizei, que comprem partidas,
    Que he honra honrar os talentos;

    Que serão, comigo, eternos
    Se me evitarem o mal
    De ir ao Templo da Memoria
    Pela porta do Hospital;

    E então da escondida burra
    Ouvirá a surda aldraba
    Não as vozes da Poezia,
    Mas a voz de quem lha gaba;

    Indo abrindo, juraráõ
    A duas Artes odio, e medo;
    A' da Guerra, em alta voz;
    A' da Poezia, em segredo.

    Entretanto ao digno Pai
    Pedi que me faça Author;
    Sejão públicos no Mundo
    Meus versos, e o seu favor;

    De Limas na honroza historia
    Não serão titulos falsos
    Fazer que as augustas Artes
    Não marchem cos'pés descalços;

    E Vós, firme Protector,
    Fazei que por taes favores
    Vamos beijar-vos a Mão,
    Eu, e os meus dois mil Credores.

    _Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde dos Arcos, sobre o
    mesmo assumpto_.

    CARTA.

    Bateu aos vossos Portaes
    Hum morador do outro Pólo;[29]
    Veio ao Templo de Minerva
    Dar hum recado de Apollo;

    [Nota de rodapé 29: Morava muito distante.]

    Vós sois dos seus obrigados,
    Bebeis seu licôr divino;
    Manda que lembreis na Roza[30]
    O esquecido Tolentino;

    [Nota de rodapé 30: Sitio, aonde morava o Ministro de Estado respectivo.]

    Sei que alli meu pobre livro
    Altos Protectores tem;
    Mas agora só se falla
    Nesta magica _Dutein_;[31]

    [Nota de rodapé 31: Dançarina célebre.]

    Apollo não troca as Artes;
    Mas vendo a Artifice, infia;
    Recêa que com taes braços
    A Dança affaste a Poezia;

    Tambem sois réo; mas bem póde
    A Mágia dos passos seus
    Encantar os vossos olhos,
    Sem fazer chorar os meus.

    _Ao Excellentissimo Senhor D. Fernando de Lima, sobre o mesmo assumpto_.

    CARTA.

    Forte co'a vossa promessa
    Dura voz se vai alçar;
    Não vem como das mais vezes,
    Não vem pedir, vem ralhar;

    Não he de esteril rabugem
    Raiva inutil, que em mim lavra;
    Venho brigar, e vencer-vos,
    Minha arma he vossa palavra;

    São Leis os priscos rifões;
    Na mão a Lei me mettestes;
    Sei que a ricos não deveis,
    Mas a pobre promettestes;

    Promettestes, que huma Imprensa
    Faria hum faminto farto;
    Meu livro, e as vossas promessas
    Inda estão no vosso Quarto;

    Sei que a vossa Illustre Caza
    He das que honrão Portugal;
    Mas eu quero outra melhor,
    Quero a Caza Manescal;[32]

    [Nota de rodapé 32: Administrador da Imprensa Regia.]

    Reis de Hespanha a vossa honrárão,
    E eu espero o mesmo delle;
    Fizerão-vos _Ricos Homens_,
    O mesmo me fará elle;

    Vós sois Protector das Artes,
    E dahi meu mal viria;
    Talvez que pela da Dança
    Vos esqueça a da _Poezia_;

    Por _Dutein_ esquece tudo;
    Estes grupos tão gabados,
    Não digo que são os vossos,
    Porém são os meus peccados;

    As tres Graças a fadárão,
    Mas seus dons funestos são;
    Tira ás Deozas a maçã,[33]
    E a hum triste Poeta o pão;

    [Nota de rodapé 33: Fazia a figura de Venus na Pantomima, em que se
    reprezentava a fabula de Páris, julgando-lhe o pomo de oiro, destinado á
    mais formoza.]

    Se a vosso Pai vou queixar-me,
    Juro que acceita a querella;
    Juro, que vos quer os olhos
    Antes em mim, do que nella;

    Mas, Senhor, deixando graças
    De poetica licença,
    Este brinco quer dizer
    Que apresseis a tal Imprensa;

    Até por curiozidade
    Forjai-me este mialheiro;
    Só para vermos que effeito
    Faz em mim o ter dinheiro;

    Talvez que altiva luneta
    Nos piscos olhos traidores
    Não conheça huns tantos homens,
    Principalmente os Crédores;

    Talvez que o novel Gallego,
    Que soltas bragas trazia,
    Entaipado em pantalonas
    Dê ao Amo senhoria;

    Talvez que inventando heranças
    Bisneto de grão Senhor,
    A falso espectro agradeça
    O que devo ao Protector;

    Senhor, se o oiro tal póde;
    Levantai da empreza a mão;
    Antes réo do meu tendeiro,
    Do que réo de ingratidão

    Mas inda agora he que eu vejo,
    Quanto me fui desmentindo;
    Disse que vinha ralhar,
    Por fim acho-me pedindo;

    Não pude acabar a farça;
    Costume custa a vencer;
    Comvosco a minha linguagem
    He pedir, e agradecer.

    _A' Illustrissima, e Excelentissima Senhora Dona Catharina Micaella de
    Souza, tendo o Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Luiz Pinto de
    Souza expedido Avizo para se imprimirem as Obras do Author na Officina
    Regia_.

    CARTA.

    Senhora, Apollo bem sabe
    Que sois digna companhia
    De quem em doirados annos
    Lhe honrava a doce Poezia;

    Inda de viçozo loiro
    Lhe guarda a verde coroa;
    Fez-lhe falta em sua Corte,
    Mas a bem de outra o perdoa;

    Manda, pois lhe estais ao lado,
    Canteis polidos louvores
    A quem em honra ao Parnazo
    Fez versos, e faz favores;

    Vio o prazer generozo
    Com que acabou a tenção,
    Que crua Parca arrancára
    De outra bemfeitora Mão;[34]

    [Nota de rodapé 34: O Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de
    Ponte de Lima, Ministro de Estado, tinha obtido a mercê de se imprimirem
    estes Versos a beneficio do A. cujo Avizo não chegou a assignar por seu
    repentino falecimento.]

    Vio, que apressou seus negocios
    Perante quem todos rege;
    E que amigo do seu Monte,
    Ora o sóbe, ora o protege;

    Grato ao grande beneficio
    Vos envia o estilo, e a lyra;
    Manda-vos cantar-lhe os hymnos,
    Que lhe traja, e vos inspira;

    Diz que esta empreza vos toca,
    E que não admitte escuzas;
    Que favor feito ao Parnazo
    Hão de agradecello as Muzas;

    Pulsai a lyra, enfreai
    Bravos ventos rugidores;
    Cantai agradecimentos
    A quem cantastes amores;

    Em má honra a longas cans
    Desta empreza escuzo fico;
    Fechou-me Apollo a sua Arte,
    E quer que aprenda a de rico;

    Dura, enganoza sciencia!
    Incómmoda, tumultuaria!
    Muito mais a quem andou
    Sempre na escóla contraria;

    Já em socegado somno
    Não vejo doces ficções;
    Inda a obra está na Imprensa
    E já sonho com ladrões;

    Sonho, que escalada a porta,
    Medonhas caras sem dó,
    Vem furtar a Tolentino
    O que elle furta a _Boileau_;

    Co'esse metal turbulento
    Já d'antemão me malquisto;
    Que me não fará a posse,
    Se a esperança já faz isto?

    Sei quem poz a ultima força
    Ao punhal, de que me dôo;
    Mas, em fim, nada de raivas,
    Dizei-lhe que eu lhe perdôo;

    E que he tal nesta virtude
    Meu conforme coração,
    Que não só perdoo o mal,
    Mas beijo por elle a Mão.

    _Offerecendo alguns dos Versos, que vão neste Livro ao lllustrissimo,
    Excellentissimo Senhor Marquez de Angeja, Ministro de Estado, perante o
    qual se pertendeo desabonar a Poezia, e os Poetas_.

    ILL.^MO E EXC.^MO SENHOR.

    V. Excellencia se digne de não julgar atrevimento ir eu aprezentar hum
    Livro de inuteis Versos naquellas mesmas mãos, em que se apresentão
    Papeis, que decidem dos interesses do Estado, e dos destinos dos homens.
    A Poezia, Senhor, só he odioza a quem nella não he instruido. V.
    Excellencia sabe a origem, e os progressos desta Arte divina; sabe que
    de seu berço foi consagrada ao uzo da Religião, e da Politica; que por
    meio della o homem natural, que nutria vagamente entre fragas, e
    penedîas hum coração tão contrario ao do homem civil, conheceo a
    humanidade, e tomou sobre seus hombros o jugo da Razão, e da Justiça.

    Que os primeiros Legisladores escrevião as Leis em verso, para que a
    harmonia lhes aplanasse, ou encubrisse aquelles passos escabrozos, que
    ferem, e revoltão a nossa natureza, sempre amiga da liberdade; que os
    Filosofos, e Sacerdotes do Egypto ensinavão em Poezia os seus Dogmas;
    que os bons tempos dos Gregos, modélo dos Seculos de Augusto, e de Luiz
    XIV, ao mesmo passo que se alargavão os limites do seu Imperio, vírão
    levadas á ultima perfeição, de que são capazes as obras dos homens, a
    Lirica, a Epica, e a Poezia de theatro.

    V. Excellencia sabe, que os Poetas de Augusto, mais do que as Victorias
    de Farsalia, fizerão chamar-se o seu seculo, o seculo de Oiro: que a
    passagem do Rheno, e a conquista da Hollanda jazerião no esquecimento,
    com o nome de Luiz XIV, se Corneille, e os que o seguírão, não mandassem
    ás extremidades do Mundo a fama de suas Victorias; que ainda hoje a
    França conta, com prazer, entre as acções daquelle Monarca, a protecção,
    e acolhimento, que achárão ante elle as Artes, principalmente a da
    Poezia; e que as ultimas palavras do grande Corneille moribundo, forão
    agradecimentos ás liberalidades de Luiz XIV.

    V. Excellencia sabe, que a Augusta Theologia da Escritura nos instrue
    muitas vezes dos Attributos de Deos por imagens inteiramente poeticas;
    que os Profetas, unindo maravilhosamente o simples ao sublime, fallão da
    existencia, e da Omnipotencia de Deos, com a locução, e com as figuras
    da mais alta Poezia.

    Mas, SENHOR, eu insensivelmente vou fazendo de huma Dedicatoria huma
    Dissertação. V. Excellencia se digne attribuir este erro de methodo á
    desordem de animo, em que me põe a ingrata sem-razão de ver os Poetas
    desfavorecidos de alguns homens, talvez sem mais crime, que serem
    favorecidos das Muzas.

    V. Excellencia, em cuja alma raia a razão illustrada, limpa das sombras
    do abuzo, não faz cahir sobre o Poeta os defeitos, que são do homem: a
    inconstancia de genio, o desconcerto das acções, a filozofia mal
    entendida, que caminha a passo cheio á devassidão de costumes, são os
    crimes de que o vulgo errado accuza indifferentemente todos os Poetas;
    mas se vemos que estas más qualidades brotão no coração de tantos
    homens, que não são Poetas, para que hão de elles sós levar o ferrete,
    que a Natureza corrupta põe indistinctamente sobre todos os que não
    deixão guiar-se da Religião, e da honra? Sempre houve Poetas, bem, e mal
    morigerados, assim como o resto dos outros homens: e porque lei barbara
    ha de pagar a Poezia as fraquezas da humanidade? Porque falsa Logica
    havemos inferir, que o commercio das Muzas, a suave lição dos Antigos,
    em que vemos pintada a Natureza, e explicada docemente a boa filozofia,
    ha de affogar no coração do Poeta as virtudes, que a índole, ou a
    educação talvez alli plantárão?

    V. Excellencia julga mais rectamente; sabe, que em todos os ramos da
    vida Christã, e Civil tem havido Poetas, que hum talento não exclue os
    outros; que Richilieu fazia Versos, e foi grande Ministro; que entre os
    Poetas, como entre todos os mais homens, huns são venturozos, outros
    desgraçados; huns chamados aos grandes Empregos, ontros inteiramente
    esquecidos; que se houve hum Camões, e hum Bernardes, cuja memoria
    posthuma foi a unica paga do seu merecimento; tambem, houve hum Sá e
    Menezes levantado a Camareiro Mór dos Senhores Reis D. João o III, e D.
    Sebastião; hum Pedro de Andrade Caminha, Camareiro Mór do Infante D.
    Duarte; hum Garcia de Rezende muito estimado do Senhor D. João o II;
    hum Sá de Miranda feito Commendador pelo Senhor D. João o III; e para
    não fazer hum catalogo quazi infinito, houve o grande Ferreira, e
    Gabriel Pereira de Castro, os quaes, cada hum no gosto do seu Seculo,
    misturando Bartholo, e Accureio com Homero, e com Virgilio, forão tão
    estimados pelos Versos, que fazião no seu gabinete, como pelas Sentenças
    que lançárão nos diversos Tribunaes a que forão promovidos.

    O conhecimento da Historia Portugueza, huma das lições, que recreão o
    espirito de V. Excellencia, talvez concorra junto com o gosto, que tem
    pelas Artes, a que, seguindo o exemplo de tantos Reis, se não despreze
    de ouvir os Poetas: eu sou huma prova viva de que V. Excellencia os
    ouve, e os protege: nos tempos da antiga Roma Augusto fazia o mesmo, nos
    tempos da moderna, lemos, que Benedicto XIV. não se envergonhou de fazer
    a apologia aos Versos de hum Poeta Francez com aquella mesma mão, de que
    pendião as Chaves do Ceo.

    Esta justiça, e bom acolhimento, que V. Excellencia faz á Poezia, foi
    quem me esforçou a pôr nas respeitaveis mãos de V. Excellencia hum Livro
    de Versos; o terem alguns agradado a V. Excellencia, faz o seu unico
    merecimento: hum tal voto fez com que eu julgasse bem delles, e os
    levantasse á grande honra de serem offerecidos a V. Excellencia. Não me
    acovardão alguns assumptos joviaes, que nelles trato; V. Excellencia
    sabe, que se a Tragedia castiga os costumes pelos grandes afectos da
    compaixão, e do terror, tambem a Sátyra os castiga pelo meio do rizo; e
    este trabalho de minha penna, com que eu entretinha os meus cançados
    dias, passará a ser o mais feliz, se tiver a fortuna de divertir alguns
    instantes a V. Excellencia, para que com mais força torne depois a
    metter mão nos importantes Negocios, de que os Reis, prevenindo os
    dezejos do Público, se dignárão encarregar a V. Excellencia: isto
    dezeja, Senhor

    DE V. Excellencia

    O Criado mais humilde, e mais venerador.

    _Ao mesmo Senhor no dia dos seus Annos_.

    ILL.^MO E EXC.^MO SENHOR.

    Os louvores nem sempre são filhos da lizonja, nem sempre são a linguagem
    baixa, em que os infelices fazem o seu commercio com os Poderozos;
    quando assentão em merecimento sólido, são huma paga devida ás Virtudes;
    o Ceo as dá; os Reis devem-lhe os premios; os outros homens os louvores.

    Hoje, Ill.^mo e Exc.^mo Senhor, nos apontão os Fastos de Portugal o
    feliz Nascimento de V. Excellencia; o costume consagra com Elogios estes
    dias solemnes; a Patria recompensa assim os Annos, que a ella se derão;
    e se em hum dia destinado aos obsequios, eu fosse hum méro espectador,
    hum assistente ociozo, o silencio, tantas vezes virtude, seria agora hum
    crime, seria huma prova da minha ingratidão.

    A força do agradecimento, e a abundancia, da materia me porião na boca
    huma torrente de louvores; mas V. Excellencia põe tanto cuidado em
    merecellos, como em não querer ouvillos; temo a sua modestia; e huma
    virtude de V. Excellencia me não deixa fallar-lhe nas outras; porém ao
    menos seja-me permittido, que a minha alma se encha de complacencia,
    lembrando-se de que tres Reis elogiárão a V. Excellencia, chamando-o a
    grandes coizas; não quizerão que estes talentos jazessem debaixo da
    terra; sobre ella, e sobre os mares os fizerão luzir.

    Na flor dos annos, quando as paixões, os exemplos, a natureza abrem
    guerra viva ao coração do homem, então vio a severa Magestade do Senhor
    Rei D. João o V, que V. Excellencia tão moço nos annos, era já ancião
    no conselho, e nos costumes, queria o seu voto nos Tribunaes, e o seu
    braço nas Armadas, negros ventos, mares cavados, ferro, sangue, erão os
    leitos brandos, em que V. Excellencia hia descançar das honrozas fadigas
    da terra.

    Que direi do Augusto, Piedozo, e ainda de fresco banhado das nossas
    lagrimas, o Senhor Rei D. Jozé o I.? O merecimento, junto com a
    semelhança dos genios, e de idades, puzerão sempre a V. Excellencia ao
    lado daquelle Monarca; mandou-lhe que acceitasse novos, e importantes
    Empregos; recebeo mil provas do seu poder, e da sua familiaridade, e
    entre ellas aquella, que V. Excellencia não disse, mas que todos sabem;
    aquella de que V. Excellencia nunca poderá lembrar-se sem dôr, e sem
    gloria.

    Os Benignos, e Amaveis Soberanos, que vemos sobre o Throno, puzerão o
    Sêllo na Obra, que seus Augustos Predecessores tinhão começado;
    encarregárão a V. Excellencia dos mais importantes Negocios do Estado: a
    madureza nos conselhos, o sevéro espirito de inteireza, os Reis, a Lei,
    a utilidade pública, são os objectos, que vírão sempre na frente dos
    cuidados de V. Excellencia.

    Mas, Senhor, eu vou abuzando da bondade, com que V. Excellencia se digna
    ouvir-me: eu converto a minha falla ao Throno do Todo-poderozo, que tem
    na sua mão as vidas, e os successos dos homens; alli peço ardentemente,
    que dilate, que prospére tão bem cultivados annos; que conserve em V.
    Excellencia o bom Pai, o Vassallo zelozo, o grande Ministro.

    Vós, Illustres Mortos, antigos Instituidores da Caza de Angeja, que
    trouxestes no peito o Sangue de dois Reis, não peçais conta delle;
    descançai em paz nos frios moimentos, cheios de Victorias, cheios de
    Serviços, que pagárão Deos, e os Reis por quem se fizerão. O vosso
    Herdeiro he digno de Vós; caminha sobre as vossas pizadas; herdou os
    vossos Titulos, e as vossas Virtudes.

    E Vós, Moços Illustres, seus dignos Filhos, cujos costumes, frutos do
    exemplo, são alto elogio da mão, que vos educa, já os Reis vos chamão;
    querem nos Filhos perpetuar o Pai. Os largos, e felices annos, que o Ceo
    lhe concederá de vida, serão a vossa escola. Servi os Reis, e a Patria;
    sacrificai-lhe os vossos annos, e as vossas fadigas; sede affaveis,
    justos, inteiros; sede como elle.

    FIM.

    INDICE

    Do que contém este II. Tomo.

    QUINTILHAS.

    _Ao Excellentissimo Senhor Conde de S. Lourenço_.
    _Ao Excellentissimo Senhor Marquez de Lavradio_.

    QUARTETOS.

    _A' Excelentissima Senhora Condeça de Tarouca_.
    _No dia dos Annos da Excellentissima Senhora D. Maria de Noronha_.
    _A' Excellentissima Senhora Marqueza de Alegrete, nascendo-lhe huma
    filha_.
    _Na occasião em que o A. hia ver o Varatojo_.
    _Resposta a huma Carta, que em boa Poezia citava ao A. por huns Versos,
    que tinha promettido_.
    _Offerecendo hum Perum em huma caza, aonde todos os Domingos davão ao A.
    este prato_.
    _A huma Preta, que pertendia que a obzequiassem_.

    CARTAS.

    _A hum Amigo, louvando-lhe o estado de cazado_.
    _Ao Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde D. Jozé de Noronha, hoje
    Marquez de Angeja_.
    _Ao mesmo Senhor, no dia dos seus Annos, estando o A. doente_.
    _Tendo mandado huma Senhora ao A. Vinho da Madeira com huma Carta em boa
    Poezia_.
    _Desculpando-se o A. de não ir a huns Annos_.
    _Aconselhando hum Cabelleireiro, que não continuasse a fazer versos_ .
    _Pedindo-se ao A. huma Gloza_.
    _Agradecendo o A. alguns pratos, que lhe despertárão a vontade de comer_.
    _Sobre o mesmo Assumpto_.
    _Ao Senhor Dezembargador Sebastião Antonio Sobral_.
    _A huma Senhora, que em bons Versos pedio ao A. a Sátyra do Velho_.
    _Ao Senhor Deputado Domingos Pires Monteiro Bandeira_.
    _A hum Camarista_.

    DECIMAS.

    _A' Excellentissima Senhora D. Catharina Micaella de Souza, tendo feito
    a honra ao A. de lhe offerecer huma Vestia de Setim_.
    _Ao Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde, hoje Marquez de Angeja_.
    _No dia dos Annos do mesmo Senhor_.
    _Sahindo por sortes Compadre de huma Senhora da primeira Grandeza_.
    _Fazendo Annos o Excellentissimo Senhor Marquez de Angeja_.
    _Ao mesmo Senhor_.
    _Ao mesmo Senhor_.
    _Ao mesmo Senhor_.
    _Ao Excellentissimo Senhor Marquez de Marialva_.
    _No dia dos Annos de hum Menino_.
    _Na despedida de hum Ministro, que partia levando seus filhos_.
    _A hum Fidalgo, que pedia para o A. hum lugar na Secretaria, na occazião
    em que elle pertendia o seu proprio despacho_.
    _A hum Padre, que dizia ter sido Mestre de Rhetorica, e estava eleito
    Cardeal_.
    _Mote: Hum suspiro de repente_.
    _Mandando huma galinha a huma Pretinha bonita_.
    _Cantigas feitas nas Caldas_.
    _A hum Leigo, que era vesgo_.
    _Estando o A. doente, e mandando pedir algum prato á meza, onde jantava
    o sobredito Leigo_.
    _Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Ponte de Lima,
    Ministro de Estado, pedindo-lhe o A. licença para ir ao remedio de
    banhos_.
    _Ao Excellentissimo Senhor D. Lourenço de Lima_.
    _Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde dos Arcos, sobre o
    mesmo assumpto_.
    _Ao Excellentissimo Senhor D. Fernando de Lima_.
    _A' Illustrissima, e Excellentissima Senhora Dona Catharina Micaela de
    Souza, tendo o Illustrissimo, e Excelentissimo Senhor Luiz Pinto de
    Souza expedido Avizo para se imprimirem as Obras do A. na Officina
    Regia_.

    PROZAS.

    _Ao Excellentissimo Senhor Marquez de Angeja, offerecendo alguns dos
    Versos, que vão neste Livro_.
    _Ao mesmo Senhor no dia dos seus Annos_.

  • O Livro de Cesario Verde

    O Livro de Cesario Verde

    Aproximadamente 14.882 palavras.

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    Digital Library project from the National Library of
    Portugal.

    O LIVRO DE CESARIO VERDE

    Prefácio

    A JORGE VERDE

    Aqui deponho em suas mãos e debaixo dos seus lábios o livro do seu
    irmão. A minha «obra» terminou no dia em que elle saiu da nossa
    doce amizade para a nossa terrível amargura: morri, meu querido
    Jorge–deixe-me chamar assim ao irmão do meu querido Cesario;–morri
    para as alegrias do trabalho, para as esperanças dos enganos doces!
    O desmoronamento fez-se, a um tempo, no espírito e no coração! Dos
    restos do passado deixe-me offerecer-lhe a dedicação extremada:
    peça-me o sacrifício; e, quando no decorrer da vida, se lembrar de
    nós, tenha este pensamento consolador:–A grande alma de meu irmão
    soube impôr-se a um coração endurecido; e tenha este outro pensamento:
    –Mas não estava de todo endurecido o coração que soube amal-a.

    Adeus, meu querido Jorge!

    S.P.

    20 de julho de 1886.

    Encontrámo-nos pela primeira vez no Curso Superior de Lettras. Foi
    em 1873. Cesario Verde marticulara-se no Curso em homenagem ás
    Lettras, como se as Lettras lá estivessem–no Curso. Eu matriculara-me,
    com a esperança de habilitar-me um dia á conquista de uma cadeira
    disponivel. Encontrámo-nos e ficámos amigos–para a vida e para a
    morte.

    Para a vida e para a morte.

    Tenho de fallar de mim, se eu pretendo fallar de Cesario Verde. Elle
    não teve, desde aquelle dia–ha treze annos–maior amigo do que eu
    fui; e sobre esta mesa onde eu estou escrevendo, ás 10 horas da
    noite d'este formidavel dia glacial–20 de Julho de 1886, dia do
    seu enterro,–sobre esta mesa onde eu estou escrevendo tenho estas
    palavras suas de ha poucos dias:–«E como se dê o caso de tu seres
    o mais dedicado dos meus amigos…» Tenho aqui essas palavras:
    ellas constituem a justificação dos meus soluços de ha poucas horas,
    alli, no cemiterio visinho onde elle dorme–o Cesario!–a sua
    primeira noite redimida…

    Eu fui, pois, a luctar nas grandes batalhas da Desgraça, n'aquelle
    anno para mim terrivel de 1874. Fui-me, a dezenas de leguas de
    Lisboa. Elle ficou. E no dia em que eu medi forças com as avançadas
    do meu destino, a inquietação invadiu o espirito e o coração de
    Cesario Verde, por modo que já eu assoberbara com o meu desprezo
    a desventura pertinaz e ainda elle não vingára libertar-se do peso
    de seus cuidados e afflições. Durante annos escreveu-me centenares
    de paginas–commentarios sobre os meus infortunios, conselhos do
    seu espirito lucidissimo, sobresaltos do seu coração fraternal. Um
    dia, trocámos estas palavras:–«Como tu tens tempo, meu amigo, para
    soffrer tanto!»–«Como tu tens tempo, meu amigo, para me acompanhar
    no soffrimento!».

    É indispensavel ter conhecido intimamente Cesario Verde para
    conhecel-o um pouco. Os que apenas lhe ouviram a phrase rapida,
    imperiosa, dogmatica, mal podem imaginar o fundo de tolerancia
    espectante d'aquelle bello e poderoso espirito. Elle tinha o furor
    da discussão–a toda a hora. Eu careço de preparar-me durante horas
    para a simples comprehensão. As exigencias do meu caro polemista
    irritavam-me. Eu respondia ao acaso; mas acontecia por vezes que o
    sorriso ligeiramente ironico do perseguidor expandia-se n'um bom e
    largo sorriso de convencido; e então–meu querido amigo! meu santo
    poeta!–elle saudava com um enthusiasmo de creança amoravel o que
    elle chamava o meu triumpho! Não hesitava em confessar-se vencido;
    e congratulava-se commigo–porque eu o vencera inconscientemente.
    A generosa alma chamava áquillo a minha superioridade!

    Os campos, a verdura dos prados e dos montes; a liberdade do homem
    em meio da natureza livre: os seus sonhos amados; as suas realidades
    amadas! Quando aquelle artista delicado, quando aquelle poeta de
    primeira grandeza julgava em raros momentos sacrificar a Arte aos
    seus gostos de lavrador e de homem pratico, succedia que as cousas
    do campo, da vida pratica assimilavam a fecundante seiva artistica
    do poeta: e então dos fructos alevantavam-se aromas que disputavam
    fóros de poesia aos aromas das flôres. O mesmo sopro bondoso e
    potente agitava e fecundava os milharaes e as violetas e os trigaes
    e as rosas! A bondade summa está no poeta,–mais visivel, pelo menos,
    do que em Deus.

    Artista–e de alta plana! Eu pude vêl-o cioso de seus direitos e
    reivindicando-os com tanto de ingenuidade quanto de vigor. E pois
    que um ligeiro esboço, precedendo mais detido trabalho, estou
    elaborando sobre os traços mais salientes d'aquella individualidade,
    não me dispensarei d'esta indicripção:

    Ha dois mezes escrevia-me Cesario Verde: «O Doutor Sousa Martins
    perguntou-me qual era a minha occupação habitual. Eu respondi-lhe
    naturalmente: Empregado no commercio. Depois, elle referiu-se á
    minha vida trabalhosa que me distrahia, etc. Ora, meu querido amigo,
    o que eu te peço é que, conversando com o dr. Sousa Martins, lhe
    dês a perceber que eu não sou o sr. Verde, empregado no commercio.
    Eu não posso bem explicar-te; mas a tua amizade comprehende os meus
    escrupulos: sim?…»

    E eu fui á beira de Sousa Martins e perguntei-lhe se o poeta Cesario
    Verde podia ser salvo. O grande e illustre medico tranquilisou-me
    –e apunhalou-me em pleno peito:–Que o poeta Cesario Verde estava
    irremediavelmente perdido!

    Meu poeta! Meu amigo! Tu estavas condemnado no tribunal superior,
    quando eu te mentia e ao publico e a mim proprio: estavas condemnado,
    meu santo! Mas podia viver tranquillo o teu orgulho de artista: o
    teu medico sabia que o poeta Cesario Verde eras tu proprio, meu
    pallido agonisante illudido!

    A esthesia, o processo artistico e a individualidade d'este admiravel
    e originalissimo poeta merecem á Critica independente uma attenção
    desvelada. Eu não hesito em vincular o meu nome á promessa de um
    tributo que a obra de Cesario Verde está reclamando.

    * * * * *

    E todavia, não póde o meu espirito evadir-se á idéa consoladora de
    que é um sonho isto que o entenebrece! Não pódes evadir-te, ó meu
    espirito amargurado! mas eu vou libertar-te para a dôr!

    Foi ás cinco da tarde–ainda agora. Caía o sol a prumo sobre a
    estrada do Lumiar e nós vinhamos arrastando a nossa miseria,–nós
    os vivos; o morto arrastava a sua indifferença. Chegámos, com duas
    horas de amargura, alli ao porto de abrigo e de descanço. Veio o
    ceremonial tragico, o latim, o encerramento. Caso de uma eloquencia
    terrivel: Entre algumas dezenas de homens não houve uma phrase
    indifferente–e em dado momento explosiram soluços n'um enternecimento
    que ageitava a loira cabeça do cadaver lá dentro do caixão–como
    as mãos da mãe lh'a ageitaram infantil, no travesseiro, ha vinte
    e quatro annos, e moribunda ha vinte e quatro horas!

    Eram sete horas da tarde, ó minha alma triste! Eu fui-me a chorar
    velhas lagrimas de gelo, avocadas por lagrimas de fogo recemnascidas.
    Fui-me por entre os tumulos, a pedir ao meu Deus de ha trinta annos
    que que me désse força, que me désse força nova,–pois que se
    prolonga o captiveiro! E a sós, caminhando por entre os tumulos,
    ao cair da noite, pareceu-me comprehender que nós recebemos força
    nova em cada nova dôr, para soffrermos de novo–do mesmo modo que
    o alcatruz de uma nóra se despeja para encher-se, para despejar-se
    –sem saber porque…

    20 de Agosto

    * * * * *

    A morada nova do Cesario é de pedra e tem uma porta de ferro, com
    um respiradouro em cruz;–rua n.º 6 do cemiterio dos Prazeres. Á
    porta está um arbusto da familia dos cyprestes–um brinde ao meu
    querido morto. Eu offerecera uma palmeira que o vento esgarçou ao
    terceiro dia, e tive de escolher uma especie resistente, cá da
    minha raça–funebre e resistente. Está verdejante e vigorosa a
    pequenina arvore, e de longe é uma sentinella perdida da minha doce
    amizade religiosa. De longe vou já perguntando á nossa arvore:–Está
    bom o nosso amigo?… E ella inclina os pequeninos trocos, com a
    gravidade do cypreste:–Bem; não houve novidade em toda a noite…

    É que eu vou pelas tardes visital-o; e saber como elle passou é
    todo um meu cuidado, como é toda a minha alegria o bem-estar
    d'aquella hora em que não ha risos. Não fomos risonhos–o Cesario
    e eu. As nossas horas de convivencia foram tristes e severas. Depois
    da morte do Cesario eu deixei de viver nos dominios onde elle sentira
    consolações, alentos, esperanças, onde elle imaginára renascimentos,
    horisontes, claridades novas. Nunca mais publiquei uma palavra que
    se lhe não consagrasse–ao meu querido morto. Em face d'aquelle
    cadaver eu senti alastrar-se no meu pobre ser fatigado o bem-amado
    desprezo da vida. O meu santo está alli,–está resignado: é tudo.
    Vós todos, que o amastes, sabei que elle está resignado–o nosso
    querido morto impassivel!

    E n'uma dessas tardes, alguns dias depois da sua morte, eu aproximei
    da porta de ferro a minha pobre cabeça esbrazeada e olhei para
    dentro do jazigo, involuntariamente; e então, como quer que eu
    visse lá a dentro do jazigo alguns caixões arrumados, e como eu
    acertasse em descobrir o caixão do Cesario, os soluços despedaçaram-se
    contra a minha garganta, n'uma afflicção immensa e cruel. E foi
    então que a voz rouca e enfraquecida do Cesario–lembram-se da voz
    d'elle?–pronunciou distinctamente lá a dentro do caixão:–«Sê
    natural, meu amigo; sê natural!»

    Era a voz do Cesario; era a sua voz tremente e doce, ó meu sagrado
    horror inconsciente! Debrucei-me contra a porta do jazigo e suppliquei
    n'uma angustia:–«Fala! Dize! Falla, outra vez, meu amigo!» Não se
    reproduziu o doloroso encanto. Apenas uma especie de marulho brando,
    um arrastar de folhagem resequida–e o morto na paz da Morte!

    Vão já decorridos dez annos sobre um periodo de alguns mezes serenos
    da minha via dolorosa. Eu viera a conquistar a certeza de que não
    havia luz misericordiosa para a noite que me vem acompanhando e
    torturando os olhos ávidos, desde o berço á sepultura redemptora.
    Cheguei aqui, á cidade maldita da minha primeira hora e trazia o
    sonho de uma aurora pacifica de vida nova no meu pobre espirito
    illudido. A aurora fez-se com um desabamento de esperanças: a
    crueldade bestial que se debruçára sobre o meu primeiro dia não
    estava arrependida, nem fatigada: a perseguição renasceu. E quando
    eu, no singular desespero dos esmagados em sua crença, pensei na
    Morte como no abrigo antecipado–querido abrigo inevitavel!–a voz
    de Cesario foi a voz evocadora para a continuação do soffrimento
    –do soffrimento amparado e protegido…

    Protegido! A protecção foi a maior da grande alma serena para a
    pobre alma abatida: foi de lagrimas que se confundiram com as minhas
    lagrimas; foi aquelle sorriso triste de resignação, consagrado ás
    minhas amarguras,–que para o Cesario não foram mysteriosas; foi o
    aperto de mão robusto, na vertigem do combate; foi a voz firme e
    severa na hora dos desfallecimentos; foi o reflexo permanente que
    a minha angustia encontrou na sua.

    Ah, santo! Ah, meu santo! Ah, meu puro e meu grande! Ah, meu forte!
    Vae-se na corrente, desfallecido, se nos não troveja nos ouvidos a
    voz reanimadora! Vae-se na corrente,–que o sei eu! Mas tu, depois
    do grito salvador, tinhas um applauso vibrante lá do fundo da tua
    grandeza e da tua generosidade. E tu sabias que me salvara a tua
    mão, a tua palavra, a tua alma de justo, a tua face que eu não
    quizera vêr, contrahida e severa, retraindo-se perante o quadro
    da minha fraqueza! Tu bem o sabias,–forte, bom, generoso, nobre,
    sempre bom–e todavia sempre justo!

    A crise mais feroz atravessei-a, pois, abrigado,–abrigado pela sua
    voz amiga. Eu tive de luctar com a lenda de rebellião, com a
    desconfiança dos homens praticos, com o odio dos pequeninos malvados
    offendidos em seus orgulhos e desmascarados em suas hypocrisias:
    conseguintemente, com a suppressão do trabalho,–do pão,–com a
    calumnia, com a intriga, com todas as armadilhas á minha colera,
    com todas as ciladas á minha fé… Ah, perdidos em paiz de Cafres!
    Mal conceberieis o horror de uma lucta como aquella, de todos os
    dias de dez annos, em paiz de conta aberta no bazar da Civilisação!

    Hoje, o meu santo amigo está alli em baixo, na sua morada nova,
    esperando… Espera que eu vá dizer-lhe dos horisontes novos abertos
    á consciencia dos justos; espera que eu vá dizer-lhe as victorias da
    Justiça absoluta–da Justiça illuminada e serena;–espera que eu vá
    dizer-lhe as victorias do Trabalho, da Razão, da Sciencia, da
    Sinceridade, do Amor: os homens reconciliados, esclarecidos, a
    Natureza convertida em Progresso, Deus explicado, o Futuro illuminado,
    a Vida possível, A Mulher fortalecida, o Homem abrandado, as luctas
    supprimidas, o concerto da Terra desentranhando-se em harmonias
    reconhecidas, a Bondade convertida em nórma, os Direitos e os Deveres
    supprimidos pela Igualdade: os seus sonhos, a sua fé, o seu horisonte,
    o seu amor!

    Está alli em baixo, esperando… Eu, mensageiro triste, não saberei
    dizer-lhe o ascendêr dos espiritos, e só poderei levar-lhe no meu
    abatimento a demonstração da minha pouca fé, aggravada pela espantosa
    amargura d'estes ultimos dias,–d'estas ultimas horas. As visões
    do poeta hão de emmurchecer confundidas com as ultimas rozas que a
    minha pobre mão tremente e desfallecida lhe deporá no tumulo, e os
    restos da minha fé hão-de misturar-se com o pó accumulado á entrada
    do seu tumulo pelo Nordéste–menos frio do que a minha alma succumbida!

    * * * * *

    Silva Pinto.

    Os versos

    I

    CRISE ROMANESCA

    DESLUMBRAMENTOS

    Milady, é perigoso contemplal-a,
    Quando passa aromatica e normal,
    Com seu typo tão nobre e tão de sala,
    Com seus gestos de neve e de metal.

    Sem que n'isso a desgoste ou desenfade,
    Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,
    Eu vejo-a, com real solemnidade,
    Ir impondo toilettes complicadas!…

    Em si tudo me attrae como um thesoiro:
    O seu ar pensativo e senhoril,
    A sua voz que tem um timbre de oiro
    E o seu nevado e lucido perfil!

    Ah! Como m'estontêa e me fascina…
    E é, na graça distincta do seu porte,
    Como a Moda superflua e feminina,
    E tão alta e serena como a Morte!…

    Eu hontem encontrei-a, quando vinha,
    Britannica, e fazendo-me assombrar;
    Grande dama fatal, sempre sósinha,
    E com firmeza e musica no andar!

    O seu olhar possue, n'um fogo ardente,
    Um archanjo e um demonio a illuminal-o;
    Como um florete, fere agudamente,
    E afaga como o pello d'um regalo!

    Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
    E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
    O modo diplomatico e orgulhoso
    Que Anna d'Austria mostrava aos cortezãos.

    E emfim prosiga altiva como a Fama,
    Sem sorrisos, dramatica, cortante;
    Que eu procuro fundir na minha chamma
    Seu ermo coração, como um brilhante.

    Mas cuidado, milady, não se afoite,
    Que hão-de acabar os barabaros reaes;
    E os povos humilhados, pela noite,
    Para a vingança aguçam os punhaes.

    E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,
    Sob o setim do Azul e as andorinhas,
    Eu hei-de ver errar, allucinadas,
    E arrastando farrapos–as rainhas!

    SEPTENTRIONAL

    Talvez já te esquecesses, ó bonina,
    Que viveste no campo só commigo,
    Que te osculei a bocca purpurina,
    E que fui o teu sol e o teu abrigo.

    Que fugiste commigo da Babel,
    Mulher como não ha nem na Circassia,
    Que bebemos, nós dois, do mesmo fel,
    E regámos com prantos uma acacia.

    Talvez já te não lembres com desgosto
    D'aquellas brancas noites de mysterio,
    Em que a lua sorria no teu rosto
    E nas lages que estão no cemiterio.

    Quando, á brisa outoniça, como um manto,
    Os teus cabellos d'ambar desmanchados,
    Se prendiam nas folhas d'um acantho,
    Ou nos bicos agrestes dos silvados,

    E eu ia desprendel-os, como um pagem
    Que a cauda solevasse aos teus vestidos;
    E ouvia murmurar á doce aragem
    Uns delirios d'amor, entristecidos;

    Quando eu via, invejoso, mas sem queixas,
    Pousarem borbeletas doudejantes
    Nas tuas formosissimas madeixas,
    D'aquellas côr das messes lourejantes,

    E no pomar, nós dois, hombro com hombro,
    Caminhavamos sós e de mãos dadas,
    Beijando os nossos rostos sem assombro,
    E colorindo as faces desbotadas;

    Quando ao nascer d'aurora, unidos ambos
    N'um amor grande como um mar sem praias,
    Ouviamos os meigos dithyrambos,
    Que os rouxinoes teciam nas olaias,

    E, afastados da aldeia e dos casaes,
    Eu comtigo, abraçado como as heras,
    Escondidos nas ondas dos trigaes,
    Devolvia-te os beijos que me déras;

    Quando, se havia lama no caminho,
    Eu te levava ao collo sobre a greda,
    E o teu corpo nevado como o arminho
    Pesava menos que um papel de sêda…

    E foste sepultar-te, ó seraphim,
    No claustro das Fieis emparedadas,
    Escondeste o teu rosto de marfim
    No véu negro das freiras resignadas.

    E eu passo, tão calado como a Morte,
    N'esta velha cidade tão sombria,
    Chorando afflictamente a minha sorte
    E prelibando o calix da agonia.

    E, tristissima Helena, com verdade,
    Se podéra na terra achar supplicios,
    Eu tambem me faria gordo frade
    E cobriria a carne de cilicios.

    MERIDIONAL

    Cabellos

    Ó vagas de cabello esparsas longamente,
    Que sois o vasto espelho onde eu me vou mirar,
    E tendes o crystal d'um lago refulgente
    E a rude escuridão d'um largo e negro mar;

    Cabellos torrenciaes d'aquella que m'enleva,
    Deixae-me mergulhar as mãos e os braços nús
    No barathro febril da vossa grande treva,
    Que tem scintillações e meigos ceos de luz.

    Deixae-me navegar, morosamente, a remos,
    Quando elle estiver brando e livre de tufões,
    E, ao placido luar, ó vagas, marulhemos
    E enchamos de harmonia as amplas solidões.

    Daixae-me naufragar no cimo dos cachopos
    Occultos n'esse abysmo ebanico e tão bom
    Como um licor rhenano a fermentar nos copos,
    Abysmo que s'espraia em rendas de Alençon!

    E ó magica mulher, ó minha Inegualavel,
    Que tens o immenso bem de ter cabellos taes,
    E os pisas desdenhosa, altiva, imperturbavel,
    Entre o rumor banal dos hymnos triumphaes;

    Consente que eu aspire esse perfume raro,
    Que exhalas da cabeça erguida com fulgor,
    Perfume que estontêa um millionario avaro
    E faz morrer de febre um louco sonhador.

    Eu sei que tu possues balsamicos desejos,
    E vaes na direcção constante do querer,
    Mas ouço, ao ver-te andar, melodicos harpejos,
    Que fazem mansamente amar e elanguescer.

    E a tua cabelleira, errante pelas costas,
    Supponho que te serve, em noites de verão,
    De flaccido espaldar aonde te recostas
    Se sentes o abandono e a morna prostração.

    E ella hade, ella hade, um dia, em turbilhões insanos
    Nos rolos envolver-me e armar-me do vigor
    Que antigamente deu, nos circos dos romanos,
    Um oleo para ungir o corpo ao gladiador.

    * * * * *

    Ó mantos de veludo esplendido e sombrio,
    Na vossa vastidão posso talvez morrer!
    Mas vinde-me aquecer, que eu tenho muito frio
    E quero asphyxiar-me em ondas de prazer.

    IRONIAS DO DESGOSTO

    «Onde é que te nasceu»–dizia-me ella ás vezes–
    «O horror calado e triste ás cousas sepulcraes?
    «Porque é que não possues a verve dos Francezes
    «E aspiras, em silencio, os frascos dos meus saes?

    «Porque é que tens no olhar, moroso e persistente,
    «As sombras d'um jazigo e as fundas abstracções,
    «E abrigas tanto fel no peito, que não sente
    «O abalo feminil das minhas expansões?

    «Ha quem te julgue um velho. O teu sorriso é falso;
    «Mas quando tentas rir parece então, meu bem,
    «Que estão edificando um negro cadafalso
    «E ou vae alguem morrer ou vao matar alguem!

    «Eu vim–não sabes tu?–para gosar em maio,
    «No campo, a quietação banhada de prazer!
    «Não vês, ó descórado, as vestes com que saio,
    «E os jubilos, que abril acaba de trazer?

    «Não vês como a campina é toda embalsamada
    «E como nos alegra em cada nova flor?
    «E então porque é que tens na fronte consternada
    «Um não sei quê tocante e enternecedor?

    E eu só lhe respondia:–«Escuta-me. Conforme
    «Tu vibras os crystaes da bocca musical,
    «Vae-nos minando o tempo, o tempo–o cancro enorme
    «Que te ha de corromper o corpo de vestal.

    «E eu calmamente sei, na dôr que me amortalha,
    «Que a tua cabecinha ornada á Rabagas,
    «A pouco e pouco ha de ir tornando-se grisalha
    «E em breve ao quente sol e ao gaz alvejará!

    «E eu que daria um rei por cada teu suspiro,
    «Eu que amo a mocidade e as modas futeis, vans,
    «Eu morro de pezar, talvez, porque prefiro
    «O teu cabelo escuro ás veneraveis cans!»

    HUMILHAÇÕES
    (De todo o coração–a Silva Pinto)

    Esta aborrece quem é pobre. Eu, quasi Job,
    Acceito os seus desdens, seus odios idolatro-os;
    E espero-a nos salões dos principaes theatros,
    Todas as noites, ignorado e só.

    Lá cança-me o ranger da seda, a orchestra, o gaz;
    As damas, ao chegar, gemem nos espartilhos,
    E emquanto vão passando as cortezans e os brilhos,
    Eu analyso as peças no cartaz.

    Na representação d'um drama de Feuillet,
    Eu aguradava, junto à porta, na penumbra,
    Quando a mulher nervosa e van que me deslumbra
    Saltou soberba o estribo do coupé.

    Como ella marcha! Lembra um magnetisador.
    Roçavam no veludo as guarnições das rendas;
    E, muito embora tu, burguez, me não entendas,
    Fiquei batendo os dentes de terror.

    Sim! Por não podia abandonal-a em paz!
    Ó minha pobre bolsa, amortalhou-se a idéa
    De vel-a aproximar, sentado na platéa,
    De tel a n'um binoculo mordaz!

    Eu occultava o fraque usado nos botões;
    Cada contratador dizia em voz rouquenha:
    –Quem compra algum bilhete ou vende alguma senha?
    E ouviam-se cá fóra as ovações.

    Que desvanecimento! A perola do Tom!
    As outras ao pé d'ella imitam as bonecas;
    Tem menos melodia as harpas e as rabecas,
    Nos grandes espetaculos do Som.

    Ao mesmo tempo, eu não deixava de a abranger;
    Vi-a subir, direita, a larga escadaria
    E entrar no camarote. Antes estimaria
    Que o chão se abrisse para me abater.

    Saí; mas ao sair senti-me atropellar.
    Era um municipal sobre um cavallo. A guarda
    Espanca o povo. Irei-me; e eu, que detesto a farda,
    Cresci com raiva contra o militar.

    De subito, fanhosa, infecta, rota, má,
    Pôz-se na minha frente uma velhinha suja,
    E disse-me, piscando os olhos de coruja:
    –Meu bom senhor! Dá-me um cigarro? Dá?…

    RESPONSO

    I

    N'um castello deserto e solitario,
    Toda de preto, ás horas silenciosas,
    Envolve-se nas pregas d'um sudario
    E chora como as grandes criminosas.

    Podesse eu ser o lenço de Bruxellas
    Em que ella esconde as lagrimas singellas.

    II

    E loura como as doces escocezas,
    D'uma belleza ideal, quasi indecisa;
    Circumda-se de luto e de tristezas
    E excede a melancolica Artemisa.

    Fosse eu os seus vestidos afogados
    E havia de escutar-lhe os seus peccados.

    III

    Alta noite, os planetas argentados
    Deslisam um olhar macio e vago
    Nos seus olhos de pranto marejados
    E nas aguas mansissimas do lago

    Podesse eu ser a lua, a lua terna,
    E faria que a noite fosse eterna.

    IV

    E os abutres e os corvos fazem giros
    De roda das ameias e dos pégos,
    E nas salas resoam uns suspiros
    Dolentes como as supplicas dos cegos.

    Fosse eu aquellas aves de pilhagem
    E cercara-lhe a fronte, em homenagem.

    V

    E ella vaga nas praias rumorosas,
    Triste como as rainhas desthronadas,
    A contemplar as gondolas airosas,
    Que passam, a giorno illuminadas.

    Podesse eu ser o rude gondoleiro
    E alli é que fizera o meu cruzeiro.

    VI

    De dia, entre os veludos e entre as sedas,
    Murmurando palavras afflictivas,
    Vagueia nas umbrosas alamedas
    E acarinha, de leve, as sensitivas.

    Fosse eu aquellas arvores frondosas
    E prendera-lhe as roupas vaporosas.

    VII

    Ou domina, a rezar, no pavimento
    Da capella onde outr'ora se ouviu missa,
    A musica dulcissima do vento
    E o sussuro do mar, que s'espreguiça.

    Podesse eu ser o mar e os meus desejos
    Eram ir borrifar-lhe os pés, com beijos.

    VIII

    E ás horas do crepusculo saudosas,
    Nos parques com tapetes cultivados,
    Quando ella passa curvam-se amorosas
    As estatuas dos seus antepassados.

    Fosse eu tambem granito e a minha vida
    Era vêl-a a chorar arrependida.

    IX

    No palacio isolado como um monge,
    Erram as velhas almas dos precítos,
    E nas noites de inverno ouvem-se ao longe
    Os lamentos dos naufragos afflictos.

    Podesse eu ter tambem uma procella
    E as lentas agonias ao pé d'ella!

    X

    E ás lages, no silencio dos mosteiros,
    Ella conta o seu drama negregado,
    E o vasto carmesim dos resposteiros
    Ondula como um mar ensanguentado.

    Fossem aquellas mil tapeçarias
    Nossas mortalhas quentes e sombrias.

    XI

    E assim passa, chorando, as noites bellas,
    Sonhando nos tristes sonhos doloridos,
    E a reflectir nas gothicas janellas
    As estrellas dos ceus desconhecidos.

    Podesse eu ir sonhar tambem comtigo
    E ter as mesmas pedras no jazigo!

    XII

    Mergulha-se em angustias lacrimosas
    Nos ermos d'um castello abandonado,
    E as proximas florestas tenebrosas
    Repercutem um choro amargurado.

    Unissemos, nós dois, as nossas covas,
    Ó doce castellã das minhas trovas!

    II

    NATURAES

    CONTRARIEDADES

    Eu hoje estou cruel, frenetico, exigente;
    Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
    Incrivel! Já fumei tres massos de cigarros
    Consecutivamente.

    Doe-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
    Tanta depravação nos usos, nos costumes!
    Amo, insensatamente, os acidos, os gumes
    E os angulos agudos.

    Sentei-me á secretaria. Alli defronte móra
    Uma infeliz, sem, peito, os dois pulmões doentes;
    Soffre de falta d'ar, morreram-lhe os parentes
    E engomma para fóra.

    Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
    Tão livida! O doutor deixou-a. Mortifica.
    Lidando sempre! E deve a conta á botica!
    Mal ganha para sopas…

    O obstaculo estimula, torna-nos perversos;
    Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
    Por causa d'um jornal me regeitar, ha dias,
    Um folhetim de versos.

    Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
    No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
    Mais d'uma redacção, das que elogiam tudo,
    Me tem fechado a porta.

    A critica segundo o methodo de Taine
    Ignoram-n'a. Juntei n'uma fogueira immensa.
    Muitissimos papeis ineditos. A imprensa
    Vale um desdem solemne.

    Com raras excepções merece-me o epigramma.
    Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo,
    Um sol-e-dó. Chovisca. O populacho
    Diverte-se na lama.

    Eu nunca dediquei poemas ás fortunas,
    Mas sim, por deferencia a amigos ou a artistas,
    Independente! Só por isso os jornalistas
    Me negam as columnas.

    Receiam que o assignante ingenuo os abandone,
    Se forem publicar taes cousas, taes auctores.
    Arte? Não lhes convem, visto que os seus leitores
    Deliram por Zaccone.

    Um prosador qualquer desfructa fama honrosa,
    Obtem dinheiro, arranja a sua «coterie»;
    E a mim, não ha questão que mais me contrarie
    Do que escrever em prosa.

    A adulação repugna aos sentimentos finos;
    Eu raramente falo aos nossos litteratos,
    E apuro-me em lançar originaes e exactos,
    Os meus alexandrinos…

    E a tisica? Fechada, e com o ferro acceso!
    Ignora que a asphyxia a combustão das brazas,
    Não foge do estendal que lhe humedece as casas,
    E fina-se ao desprezo!

    Mantem-se a chá e pão! Antes de entrar na cova.
    Esvae-se; e todavia, á tarde, fracamente,
    Oiço-a cantarolar uma canção plangente
    D'uma opereta nova!

    Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
    Quem sabe se depois, eu rico e n'outros climas,
    Conseguirei reler essas antigas rimas,
    Impressas em volume?

    Nas lettras eu conheço um campo de manobras;
    Emprega-se a réclame, a intriga, o annuncio, a blague,
    E esta poesia pede um editor que pague
    Todas as minhas obras…

    E estou melhor; passou-me a colera. E a visinha?
    A pobre engommadeira ir-se-ha deitar sem ceia?
    Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia…
    Que mundo! Coitadinha!

    A DEBIL

    Eu, que sou feio, solido, leal,
    A ti, que és bella, fragil, assustada,
    Quero estimar-te, sempre, recatada
    N'uma existencia honesta, de crystal.

    Sentado á mesa d'um café devasso,
    Ao avistar-te, ha pouco, fraca e loura,
    N'esta Babel tão velha e corruptora,
    Tive tenções de offerecer-te o braço.

    E, quando soccorreste um miseravel,
    Eu, que bebia calices d'absintho,
    Mandei ir a garrafa, porque sinto
    Que me tornas prestante, bom, saudavel.

    «Ella ahi vem!» disse eu para os demais;
    E puz-me a olhar, véxado e suspirando,
    O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
    Na frescura dos linhos matinaes.

    Via-te pela porta envidraçada;
    E invejava,–talvez que o não suspeites!–
    Esse vestido simples, sem enfeites,
    N'essa cintura tenra, immaculada.

    Ia passando, a quatro, o patriarcha.
    Triste eu sahi. Doía-me a cabeça;
    Uma turba ruidosa, negra, espessa,
    Voltava das exequias d'um monarcha.

    Adoravel! Tu muito natural
    Seguias a pensar no teu bordado;
    Avultava, n'um largo arborisado,
    Uma estatua de rei n'um pedestal.

    Sorriam nos seus trens os titulares;
    E ao claro sol, guardava-te, no entanto,
    A tua boa mãe, que te ama tanto,
    Que não te morrerá sem te casares!

    Soberbo dia! Impunha-me respeito
    A limpidez do teu semblante grego;
    E uma familia, um ninho de socego,
    Desejava beijar sobre o teu peito.

    Com elegancia e sem ostentação,
    Atravessavas branca, esvelta e fina,
    Uma chusma de padres de batina,
    E d'altos funccionarios da nação.

    «Mas se a atropella o povo turbolento!
    Se fosse, por acaso, alli pisada!»
    De repente, paraste embaraçada
    Ao pé d'um numeroso ajuntamento.

    E eu, que urdia estes faceis esbocetos,
    Julguei vêr, com a vista de poeta,
    uma pombinha timida e quieta
    N'um bando ameaçador de corvos pretos.

    E foi, então, que eu homem varonil,
    Quiz dedicar-te a minha pobre vida,
    A ti, que és tenue, docil, reconhecida,
    Eu, que sou habil, pratico, viril.

    N'UM BAIRRO MODERNO

    A Manuel Ribeiro

    Dez horas da manhã; os transparentes
    Matizam uma casa apalaçada;
    Pelos jardins estancam-se os nascentes,
    E fere a vista, com brancuras quentes,
    A larga rua macadamisada.

    Rez-de-chaussée repousam socegados,
    Abriram-se, n'alguns, as persianas,
    E d'um ou d'outro, em quartos estucados,
    Ou entre a rama dos papeis pintados,
    Reluzem, n'um almoço, as porcelanas.

    Como é saudavel ter o seu conchego,
    E a sua vida facil! Eu descia,
    Sem muita pressa, para o meu emprego,
    Aonde agora quasi sempre chego
    Com as tonturas d'uma apoplexia.

    E rota, pequenina, aramafada,
    Notei de costas uma rapariga,
    Que no xadrez marmoreo d'uma escada,
    Como um retalho de horta agglomerada,
    Pousára, ajoelhando, a sua giga.

    E eu, apesar do sol, examinei-a:
    Poz-se de pé: resoam-lhe os tamancos;
    E abre-se-lhe o algodão azul da meia,
    Se ella se curva, esguedelhada, feia,
    E pendurando os seus bracinhos brancos.

    Do patamar responde-lhe um criado:
    «Se te convém, despacha; não converses.
    Eu não dou mais.» E muito descançado,
    Atira um cobre livido, oxidado,
    Que vem bater nas faces d' uns alperces.

    Subitamente,–que visão de artista!–
    Se eu transformasse os simples vegetaes,
    Á luz do sol, o intenso colorista,
    N'um ser humano que se mova e exista
    Cheio de bellas proporções carnaes?!

    Boiam aromas, fumos de cozinha;
    Com o cabaz ás costas, e vergando,
    Sobem padeiros, claros de farinha;
    E ás portas, uma ou outra campainha
    Toca, frenetica, de vez em quando.

    E eu recompunha, por anatomia,
    Um novo corpo organico, aos bocados.
    Achava os tons e as fórmas. Descobria
    Uma cabeça n'uma melancia,
    E n'uns repolhos seios injectados.

    As azeitonas, que nos dão o azeite,
    Negras e unidas, entre verdes folhos,
    São tranças d'um cabello que se ageite;
    E os nabos–ossos nus, da côr do leite,
    E os cachos d'uvas–os rosarios d'olhos.

    Ha collos, hombros, boccas, um semblante
    Nas posições de certos fructos. E entre
    As hortaliças, tumido, fragrante,
    Como d'alguem que tudo aquilo jante,
    Surge um melão, que me lembrou um ventre.

    E, como um feto, emfim, que se dilate,
    Vi nos legumes carnes tentadoras,
    Sangue na ginja vivida, escarlate,
    Bons corações pulsando no tomate
    E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.

    O sol dourava o céo. E a regateira,
    Como vendera a sua fresca alface
    E déra o ramo de hortelã que cheira,
    Voltando-se, gritou-me prazenteira:
    «Não passa mais ninguem!… Se me ajudasse?!…»

    Eu acerquei-me d'ella, sem desprezo;
    E, pelas duas azas a quebrar,
    Nós levantámos todo aquelle peso
    Que ao chão de pedra resistia preso,
    Com um enorme esforço muscular.

    «Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!»
    E recebi, náquella despedida,
    As forças, a alegria, a plenitude,
    Que brotam d'um excesso de virtude
    Ou d'uma digestão desconhecida.

    E em quanto sigo para o lado opposto,
    E ao longe rodam umas carruagens,
    A pobre afasta-se, ao calor de agosto,
    Descolorida nas maçãs do rosto,
    E sem quadris na saia de ramagens.

    Um pequerrucho rega a trepadeira
    D'uma janella azul; e, com o ralo
    Do regador, parece que joeira
    Ou que borrifa estrellas; e a poeira
    Que eleva nuvens alvas e incensal-o.

    Chegam do gigo emanações sadias,
    Oiço um canario–que infantil chilrada!–
    Lidam ménages entre as gelosias,
    E o sol estende, pelas frontarias,
    Seus raios de laranja distillada.

    E pittoresca e audaz, na sua chita,
    O peito erguido, os pulsos nas ilhargas,
    D'uma desgraça alegre que me incita,
    Ella apregôa, magra, enfezadita,
    As suas couves repolhudas, largas.

    E como as grossas pernas d'um gigante,
    Sem tronco, mas athleticas, inteiras,
    Carregam sobre a pobre caminhante,
    Sobre a verdura rustica, abundante,
    Duas frugaes aboboras carneiras.

    CRYSTALISAÇÕES

    A Bettencourt Rodrigues

    Faz frio. Mas, depois d'uns dias de aguaceiros,
    Vibra uma immensa claridade crua.
    De cocaras, em linha os calceteiros,
    Com lentidão, terrosos e grosseiros,
    Calcam de lado a lado a longa rua.

    Como as elevações seccaram do relento,
    E o descoberto sol abafa e cria!
    A frialdade exige o movimento;
    E as poças d'agua, como em chão vidrento,
    Reflectem a molhada casaria.

    Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita,
    Disseminadas, gritam as peixeiras;
    Luzem, aquecem na manhã bonita,
    Uns barracões de gente pobresita.
    E uns quintalorios velhos com parreiras.

    Não se ouvem aves; nem o choro d'uma nora!
    Tomam por outra parte os viandantes;
    E o ferro e a pedra–que união sonora!–
    Retinem alto pelo espaço fóra,
    Com choques rijos, asperos, cantantes.

    Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros, baços,
    Cuja columna nunca se endireita,
    Partem penedos; cruzam-se estilhaços.
    Pesam enormemente os grossos maços,
    Com que outros batem a calçada feita.

    A sua barba agreste! A lã dos seus barretes!
    Que espessos forros! N'uma das regueiras
    Acamam-se as japonas, os colletes:
    E elles descalçam com os picaretes,
    Que ferem lume sobre pederneiras.

    E n'esse rude mez, que não consente as flores,
    Fundêam, como a esquadra em fria paz,
    As arvores despidas. Sobrias côres!
    Mastros, enxarcias, vergas! Valladores
    Atiram terra com as largas pás.

    Eu julgo-me no Norte, ao frio–o grande agente!–
    Carros de mão, que chiam carregados,
    Conduzem saibro, vagarosamente;
    Vê se a cidade, mercantil, contente:
    Madeiras, aguas, multidões, telhados!

    Negrejam os quintaes, enxuga e alvenaria;
    Em arco, sem as nuvens fluctuantes,
    O ceu renova a tinta corredia;
    E os charcos brilham tanto, que eu diria
    Ter ante mim lagôas de brilhantes!

    E engelhem muito embora, os fracos, os tolhidos,
    Eu tudo encontro alegremente exacto.
    Lavo, refresco, limpo os meus sentidos.
    E tangem-me, excitados, sacudidos,
    O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto!

    Pede-me o corpo inteiro esforços na friagem
    De tão lavada e egual temperatura!
    Os ares, o caminho, a luz reagem;
    Cheira-me a fogo, a silex, a ferragem;
    Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura.

    Mal encarado e negro, um pára emquanto eu passo;
    Dois assobiam, altas as marretas
    Possantes, grossas, temperadas d'aço;
    E um gordo, o mestre, com um ar de ralaço
    E manso, tira o nivel das valletas.

    Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!
    Que vida tão custosa! Que diabo!
    E os cavadores pousam as enxadas,
    E cospem nas callosas mãos gretadas,
    Para que não lhes escorregue o cabo.

    Povo! No panno cru rasgado das camizas
    Uma bandeira penso que transluz!
    Com ella soffres, bebes, agonisas:
    Listrões de vinho lançam-lhe divisas,
    E os suspensorios traçam-lhe uma cruz!

    D'escuro, bruscamente, ao cimo da barroca,
    Surge um perfil direito que se aguça;
    E ar matinal de quem sahiu da toca,
    Uma figura fina, desemboca,
    Toda abafada n'um casaco á russa.

    D'onde ella vem! A actriz que tanto comprimento
    E a quem, á noite na plateia, attraio
    Os olhos lizos como polimento!
    Com seu rostinho estreito, friorento,
    Caminha agora para o seu ensaio.

    E aos outros eu admiro os dorsos, os costados
    Como lajões. Os bons trabalhadores!
    Os filhos das lezirias, dos montados;
    Os das planicies, altos, aprumados;
    Os das montanhas, baixos, trepadores!

    Mas fina de feições, o queixo hostil, distincto,
    Furtiva a tiritar em suas pelles,
    Espanta-me a actrizita que hoje pinto,
    N'este dezembro energico, succinto,
    E n'estes sitios suburbanos, reles!

    Como animaes communs, que uma picada esquente,
    Elles, bovinos, masculos, ossudos,
    Encaram-n'a sanguinea, brutamente:
    E ella vacilla, hesita impaciente
    Sobre as botinhas de tacões agudos.

    Porém, desempenhando o seu papel na peça,
    Sem que inda o publico a passagem abra,
    O demonico arrisca-se, atravessa
    Covas, entulhos, lamaçaes, depressa,
    Com seus pésinhos rapidos, de cabra!

    NOITES GELIDAS

    MERINA

    Rosto comprido, airosa, angelical, macia,
    Por vezes, a allemã que eu sigo e que me agrada,
    Mais alva que o luar de inverno que me esfria,
    Nas ruas a que o gaz dá noites de ballada;
    Sob os abafos bons que o Norte escolheria,
    Com seu passinho curto e em suas lãs forrada,
    Recorda-me a elegancia, a graça, a galhardia
    De uma ovelhinha branca, ingenua e delicada.

    SARDENTA

    Tu, n'esse corpo completo,
    Ó lactea virgem doirada,
    Tens o lymphatico aspecto
    D'uma camelia melada.

    FLORES VELHAS

    Fui hontem visitar o jardimzinho agreste,
    Aonde tanta vez a luz nos beijou,
    E em tudo vi sorrir o amor que tu me deste,
    Soberba como um sol, serena como um vôo.

    Em tudo scintillava o limpido poema
    Com osculos rimado ás luzes dos planetas;
    A abelha inda zumbia em torno da alfazema;
    E ondulava o matiz das leves borboletas.

    Em tudo eu pude ver ainda a tua imagem,
    A imagem que inspirava os castos madrugaes;
    E as virações, o rio, os astros, a pasizagem,
    Traziam-me á memoria idyllios immortaes.

    Diziam-me que tu, no florido passado,
    Detinhas sobre mim, ao pé d'aquellas rosas,
    Aquelle teu olhar moroso e delicado,
    Que fala de languor e d'emoções mimosas;

    E, ó pallida Clarisse, ó alma ardente e pura,
    Que não me desgostou nem uma vez sequer,
    Eu não sabia haurir do calix da ventura
    O nectar que nos vem dos mimos da mulher.

    Falou-me tudo, tudo, em tons commovedores,
    Do nosso amor, que uniu as almas de dois entes;
    As falas quasi irmãs do vento com as flores
    E a molle exhalação das varzeas rescendentes.

    Inda pensei ouvir aquellas coisas mansas
    No ninho de affeições creado para ti,
    Por entre o riso claro, e as vozes das creanças,
    E as nuvens que esbocei, e os sonhos que nutri.

    Lembrei-me muito, muito, ó symbolo das santas,
    Do tempo em que eu soltava as notas inspiradas,
    E sob aquelle ceo e sobre aquellas plantas
    Bebemos o elixir das tardes perfumadas.

    E nosso bom romance escripto n'um desterro,
    Com beijos sem ruido em noites sem luar,
    Fizeram-m'o reler, mais tristes que um enterro,
    Os goivos, a baunilha e as rosas de toucar.

    Mas tu agora nunca, ah! nunca mais te sentas
    Nos bancos de tijolo em musgo atapetados,
    E eu não beijarei, ás horas somnolentas,
    Os dedos de marfim, polidos e delgados…

    Eu, por não ter sabido amar os movimentos
    Da estrophe mais ideal das harmonias mudas,
    Eu sinto as decepções e os grandes desalentos
    E tenho um riso mau como o sorrir de Judas.

    E tudo emfim passou, passou como uma penna,
    Que o mar leva no dorso exposto aos vendavaes,
    E aquella doce vida, aquella vida amena,
    Ah! nunca mais virá, meu lyrio, nunca mais!

    Ó minha boa amiga, ó minha meiga amante!
    Quando hontem eu pisei, bem magro e bem curvado,
    A areia em que rangia a saia roçagante,
    Que foi na minha vida o ceo aurirosado,

    Eu tinha tão impresso o cunho da saudade,
    Que as ondas que formei das suas illusões
    Fizeram-me enganar na minha soledade
    E as azas ir abrindo ás minhas impressões.

    Soltei com devoção lembranças inda escravas,
    No espaço construi phantasticos castellos,
    No tanque debrucei-me em que te debruçavas,
    E onde o luar parava os raios amarellos.

    Cuidei até sentir, mais doce que uma prece,
    Suster a minha fé, n'um veo consolador,
    O teu divino olhar que as pedras amollece,
    E ha muito que me prendeu nos carceres do amor.

    Os teus pequenos pés, aquelles pés suaves,
    Julguei-os esconder por entre as minhas mãos,
    E imaginei ouvir ao conversar das aves
    As celicas canções dos anjos aos teus irmãos.

    NOITE FECHADA

    (L.)

    Lembras-te tu do sabbado passado,
    Do passeio que démos, devagar,
    Entre um saudoso gaz amarellado
    E as caricias leitosas do luar?

    Bem me lembro das altas ruasinhas,
    Que ambos nós percorremos de mãos dadas:
    Ás janellas palravam as visinhas;
    Tinham lividas luzes as fachadas.

    Não me esqueço das cousas que disseste,
    Ante um pesado templo com recortes;
    E os cemiterios ricos, e o cypreste
    Que vive de gorduras e de mortes!

    Nós saíramos proximo ao sol-posto,
    Mas seguiamos cheios de demoras;
    Não me esqueceu ainda o meu desgosto
    Nem o sino rachado que deu horas.

    Tenho ainda gravado no sentido,
    Porque tu caminhavas com prazer,
    Cara rapada, gordo e presumido,
    O padre que parou para te ver.

    Como uma mitra a cúpula da egreja
    Cobria parte do ventoso largo;
    E essa bocca viçosa de cereja,
    Torcia risos com sabor amargo.

    A lua dava tremulas brancuras,
    Eu ia cada vez mais magoado;
    Vi um jardim com arvores escuras,
    Como uma jaula todo gradeado!

    E para te seguir entrei comtigo
    N'um pateo velho que era d'um canteiro,
    E onde, talvez, se faça inda o jazigo
    Em que eu irei apodrecer primeiro!

    Eu sinto ainda a flôr da tua pelle,
    Tua luva, teu veu, o que tu és!
    Não sei que tentação é que te impelle
    Os pequeninos e cançados pés.

    Sei que em tudo attentavas, tudo vias!
    Eu por mim tinha pena dos marçanos,
    Como ratos, nas gordas mercearias,
    Encafunados por immensos annos!

    Tu sorriras de tudo: Os carvoeiros,
    Que apparecem ao fundo d'umas minas,
    E á crua luz os pallidos barbeiros
    Com oleos e maneiras femininas!

    Fins de semana! Que miseria em bando!
    O povo folga, estupido e grisalho!
    E os artistas d'officio iam passando,
    Com as ferias, ralados do trabalho.

    O quadro anterior, d'um que á candêa,
    Ensina a filha a ler, metteu-me dó!
    Gosto mais do plebeu que cambalêa,
    Do bebado feliz que falla só!

    De subito, na volta de uma esquina,
    Sob um bico de gaz que abria em leque,
    Vimos um militar, de barretina
    E galões marciaes de pechisbeque,

    E em quanto elle fallava ao seu namoro,
    Que morava n'um predio de azulêjo,
    Nos nossos labios retinio sonoro
    Um vigoroso e formidavel beijo!

    E assim ao meu capricho abandonada,
    Errámos por travessas, por viellas,
    E passámos por pé d'uma tapada
    E um palacio real com sentinellas.

    E eu que busco a moderna e fina arte,
    Sobre a umbrosa calçada sepulchral,
    Tive a rude intenção de violentar-te
    Imbecilmente como um animal!

    Mas ao rumor dos ramos e d'aragem,
    Como longiquos bosques muito ermos,
    Tu querias no meio da folhagem
    Um ninho enorme para nós vivermos.

    E ao passo que eu te ouvia abstractamente,
    Ó grande pomba tépida que arrulha,
    Vinham batendo o macadam fremente,
    As patadas sonoras da patrulha,

    E atravez a immortal cidadesinha,
    Nós fomos ter ás portas, ás barreiras,
    Em que uma negra multidão se apinha
    De tecelões, de fumos, de caldeiras.

    Mas a noite dormente e esbranquiçada
    Era uma esteira lucida d'amor;
    Ó jovial senhora perfumada,
    Ó terrivel creança! Que esplendor!

    E ali começaria o meu desterro!…
    Lodoso o rio, e glacial, corria;
    Sentámo-nos, os dois, n'um novo aterro
    Na muralha dos caes de cantaria.

    Nunca mais amarei, já que não me amas,
    E é preciso, decerto, que me deixes!
    Toda a maré luzida como escamas,
    Como alguidar de prateados peixes.

    E como é necessario que eu me afoite
    A perder-me de ti por quem existo,
    Eu fui passar ao campo aquella noite
    E andei leguas a pé, pensando n'isto.

    E tu que não serás sómente minha,
    Ás caricias leitosas do luar,
    Recolheste-te, pallida e sósinha
    Á gaiola do teu terceiro andar!

    MANHANS BRUMOSAS

    Aquella, cujo amor me causa alguma pena,
    Põe o chapeo ao lado, abre o cabello á banda,
    E com a forte voz cantada com que ordena,
    Lembra-me, de manhan, quando nas praias anda,
    Por entre o campo e o mar, bucolica, morena,
    Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.

    Que linguas fala? A ouvir-lhe as inflexões inglezas,
    –Na Nevoa azul, a caça, as pescas, os rebanhos!–
    Sigo-lhe os altos pés por estas asperezas;
    E o meu desejo nada em epoca de banhos,
    E, ave de arribação, elle enche de surprezas
    Seus olhos de perdiz, redondos e castanhos.

    As irlandezas teem soberbos desmazelos!
    Ella descobre assim, com lentidões ufanas,
    Alta, escorrida, abstracta, os grossos tornozelos;
    E como aquellas são maritimas, serranas,
    Suggere-me o naufragio, as musicas, os gelos
    E as redes, a manteiga, os queijos, as choupanas.

    Parece um «rural boy»! Sem brincos nas orelhas,
    Traz um vestido claro a comprimir-lhe os flancos,
    Botões a tiracollo e applicações vermelhas;
    E á roda, n'um paiz de prados e barrancos,
    Se as minhas maguas vão, mansissimas ovelhas,
    Correm os seus desdens, como vitellos brancos.

    E aquella, cujo amor me causa alguma pena,
    Põe o chapeo ao lado, abre o cabello á banda,
    E com a forte voz cantada com que ordena,
    Lembra-me, de manhan, quando nas praias anda,
    Por entre o campo e o mar, catholica, morena,
    Uma pastora de audaz da religiosa Irlanda.

    FRIGIDA

    I

    Balzac é meu rival, minha senhora ingleza!
    Eu quero-a porque odeio as carnações redondas!
    Mas elle eternisou-lhe a singular belleza
    E eu turbo-me ao deter seus olhos côr das ondas.

    II

    Admiro-a. A sua longa e placida estatura
    Expõe a magestade austera dos invernos.
    Não cora no seu todo a timida candura;
    Dansam a paz dos ceos e o assombro dos infernos.

    III

    Eu vejo-a caminhar, fleugmatica, irritante,
    N'uma das mãos franzindo um lenço de cambraia!…
    Ninguem me prende assim, funebre, extravagante,
    Quando arregaça e ondula a preguiçosa saia!

    IV

    Ouso esperar, talvez, que o seu amor me acoite,
    Mas nunca a fitarei d'uma maneira franca;
    Traz o esplendor do Dia e as pallidez da Noite,
    É, como o Sol, dourada, e, como a Lua, branca!

    V

    Podesse-me eu prostrar, n'um meditado impulso,
    Ó gelida mulher bizarramente estranha,
    E tremulo depor os labios no seu pulso,
    Entre a macia luva e o punho de bretanha!…

    VI

    Scintilla no seu rosto a lucidez das joias.
    Ao encarar comsigo a phantasia pasma;
    Pausadamente lembra o silvo das giboias
    E a marcha demorada e muda d'um phantasma.

    VII

    Metallica visão que Charles Baudelaire
    Sonhou e presentiu nos seus delirios mornos,
    Permitta que eu lhe adule a distincção que fere,
    As curvas de magreza e o lustre dos adornos!

    VIII

    Deslise como um astro, uma astro que declina;
    Tão descançada e firme é que me desvaria,
    E tem a lentidão d'uma corveta fina
    Que nobremente vá n'um mar de calmaria.

    IX

    Não me imagine um doido. Eu vivo como um monge,
    No bosque das ficções, ó grande flor do Norte!
    E, ao, perseguil-a, penso acompanhar de longe
    O socegado espectro angelico da Morte!

    X

    O seu vagar occulta uma elasticidade
    Que deve dar um gosto amargo e deleitoso,
    E a sua glacial impassibilidade
    Exalta o meu desejo e irrita o meu nervoso.

    XI

    Porem, não arderei aos seus contactos frios,
    E não me enroscará nos serpentinos braços:
    Receio supportar febrões e calefrios;
    Adoro no seu corpo os movimentos lassos.

    XII

    E se uma vez me abrisse o collo transparente,
    E me osculasse, emfim, flexivel e submisso,
    Eu julgaria ouvir alguem, agudamente,
    Nas trevas, a cortar pedaços de cortiça!

    DE VERÃO

    A Eduardo Coelho

    I

    No campo; eu acho n'elle a musa que me anima:
    A claridade, a robustez, a acção.
    Esta manhã, saí com minha prima,
    Em que eu noto a mais sincera estima
    E a mais completa e séria educação.

    II

    Creança encantadora! Eu mal esboço o quadro
    Da lyrica excursão, d'intimidade
    Não pinto a velha ermida com seu adro;
    Sei só desenho de compasso e esquadro,
    Respiro industria, paz, salubridade.

    III

    Andam cantando aos bois; vamos cortando as leiras;
    E tu dizias: «Fumas? E as fagulhas?
    Apaga o teu cachimbo junto ás eiras;
    Colhe-me uns brincos rubros nas ginjeiras!
    Quando me alegra a calma das debulhas!»

    IV

    E perguntavas sobre os ultimos inventos
    Agrícolas. Que aldeias tão lavadas!
    Bons ares! Boa luz! Bons alimentos!
    Olha: Os saloios vivos, corpulentos,
    Como nos fazem grandes barretadas!

    V

    Voltemos. Na ribeira abundam as ramagens
    Dos olivaes escuros. Onde irás?
    Regressam os rebanhos das pastagens;
    Ondeiam milhos, nuvens e miragens,
    E, silencioso, eu fico para traz.

    VI

    N'uma collina azul brilha um logar caiado.
    Bello! E arrimada ao cabo da sombrinha,
    Com teu chapéo de palha, desabado,
    Tu continúas na azinhaga; ao lado
    Verdeja, vicejante, a nossa vinha.

    VII

    N'isto, parando, como alguem que se analysa,
    Sem desprender do chão teus olhos castos,
    Tu começaste, harmonica, indecisa,
    A arregaçar a chita, alegre e lisa
    Da tua cauda um poucochinho a rastos.

    VIII

    Espreitam-te, por cima, as frestas dos celleiros;
    O sol abrasa as terras já ceifadas,
    E alvejam-te, na sombra dos pinheiros,
    Sobre os teus pés decentes, verdadeiros,
    As saias curtas, frescas, engommadas.

    IX

    E, como quem saltasse, extravagantemente,
    Um rego d'agua sem se enxovalhar,
    Tu, a austera, a gentil, a intelligente,
    Depois de bem composta, déste á frente
    Uma pernada comica, vulgar!

    X

    Exotica! E cheguei-me ao pé de ti. Que vejo!
    No atalho enxuto, e branco das espigas
    Caidas das carradas no salmejo,
    Esguio e a negrejar em um cortejo,
    Destaca-se um carreiro de formigas.

    XI

    Ellas, em sociedade, espertas, diligentes,
    Na natureza trémula de sede,
    Arrastam bichos, uvas e sementes;
    E atulha, por instincto, previdentes,
    Seus antros quasi occultos na parede.

    XII

    E eu desatei a rir como qualquer macaco!
    «Tu não as esmagares contra o solo!»
    E ria-me, eu ocioso, inutil, fraco,
    Eu de jasmim na casa do casaco
    E d'oculo deitado a tiracolo!

    XIII

    «As ladras da colheita! Eu se trouxesse agora
    Um sublimado corrosivo, uns pós
    De solimão, eu, sem maior demora,
    Envenenal-as-hia! Tu, por ora,
    Preferes o romantico ao feroz.

    XIV

    Que compaixão! Julgava até que matarias
    Esses insectos importunos! Basta.
    Merecem-te espantosas sympathias?
    Eu felicito suas senhorias,
    Que honraste com um pulo de gymnasta!»

    XV

    E emfim calei-me. Os teus cabellos muito loiros
    Luziam, com doçura, honestamente;
    De longe o trigo em monte, e os calcadoiros,
    Lembravam-me fusões d'immensos oiros,
    E o mar um prado verde e florescente.

    XVI

    Vibravam, na campina, as chocas da manada;
    Vinham uns carros a gemer no outeiro,
    E finalmente, energica, zangada,
    Tu inda assim bastante envergonhada,
    Volveste-me, apontando o formigueiro:

    XVII

    «Não me incommode, não, com ditos detestaveis!
    Não seja simplesmente um zombador!
    Estas mineiras negras, incançaveis,
    São mais economistas, mais notaveis,
    E mais trabalhoras que o senhor.»

    O SENTIMENTO D'UM OCCIDENTAL

    A Guerra Junqueiro

    I

    AVE MARIAS

    Nas nossas ruas, ao anoitecer,
    Ha tal soturnidade, ha tal melancholia,
    Que as sombras, o bulicio, o Tejo, a maresia
    Despertam-me um desejo absurdo de soffrer.

    O ceu parece baixo e de neblina,
    O gaz extravasado enjôa-me, perturba;
    E os edificios, com as chaminés, e a turba
    Toldam-se d'uma côr monotona e londrina.

    Batem os carros de aluguer, ao fundo,
    Levando á via ferrea os que se vão. Felizes!
    Occorrem-me em revista exposições, paizes:
    Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

    Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
    As edificações sómente emmadeiradas:
    Como morcegos, ao cair das badaladas,
    Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

    Voltam os calafates, aos magotes,
    De jaquetão ao hombro, enfarruscados, seccos;
    Embrenho-me, a scismar, por boqueirões, por beccos,
    Ou érro pelos caes a que se atracam botes.

    E evoco, então, as chronicas navaes:
    Mouros, baixeis, heroes, tudo resuscitado!
    Lucta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
    Singram soberbas naus que eu não verei jámais!

    E o fim da tarde inspira-me; e incommoda!
    De um couraçado inglez vogam os escaleres;
    E em terra n'um tinir de louças e talheres
    Flammejam, ao jantar, alguns hoteis da moda.

    N'um trem de praça arengam dois dentistas;
    Um tropego arlequim braceja n'umas andas;
    Os cherubins do lar fluctuam nas varandas;
    Ás portas, em cabello, enfadam-se os logistas!

    Vasam-se os arsenaes e as officinas;
    Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
    E n'um cardume negro, herculeas, galhofeiras,
    Correndo com firmeza, assomam as varinas.

    Vem sacudindo as ancas opulentas!
    Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
    E algumas, á cabeça, embalam nas canastras
    Os filhos que depois naufragam nas tormentas,

    Descalças! Nas descargas de carvão,
    Desde manhã á noite, a bórdo das fragatas;
    E apinham-se n'um bairro aonde miam gatas,
    E o peixe pôdre géra os focos de infecção!

    II

    NOITE FECHADA

    Toca-se as grades, nas cadeias. Som
    Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
    O aljube, em que hoje estão velhinhas e creanças,
    Bem raramente encerra uma mulher de «dom»!

    E eu desconfio, até, de um aneurisma
    Tão morbido me sinto, ao accender das luzes;
    Á vista das prisões, da velha sé, das cruzes,
    Chora-me o coração que se enche e que se abysma.

    A espaços, illuminam-se os andares,
    E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos
    Alastram em lençol os seus reflexos brancos;
    E a lua lembra o circo e os jogos malabares.

    Duas egrejas, n'um saudoso largo,
    Lançam a nodoa negra e funebre do clero:
    N'ellas esfumo um ermo inquisidor severo,
    Assim que pela Historia eu me aventuro e alargo.

    Na parte que abateu no terremoto,
    Muram-se as construcções rectas, eguaes, crescidas;
    Affrontam-me, no resto, as ingremes subidas,
    E os sinos d'um tanger monastico e devoto.

    Mas, n'um recinto publico e vulgar,
    Com bancos de namoro e exiguas pimenteiras,
    Bronzeo, monumental, de proporções guerreiras,
    Um épico d'outr'ora ascende, n'um pilar!

    E eu sonho o Colera, imagina a Febre,
    N'esta accumulação de corpos enfezados;
    Sombrios e espectraes recolhem os soldados;
    Inflamma-se um palacio em face de um casebre.

    Partem patrulhas de cavallaria
    Dos arcos dos quarteis que foram já conventos;
    Edade-média! A pé, outras, a passos lentos,
    Derramam-se por toda a capital, que esfria.

    Triste cidade! Eu temo que me avives
    Uma paixão defunta! Aos lampeões distantes,
    Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
    Curvadas a sorrir ás montras dos ourives.

    E mais: as costureiras, as floristas
    Descem dos magasins, causam-me sobresaltos;
    Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
    E muitas d'ellas são comparsas ou coristas.

    E eu, de luneta de uma lente só,
    Eu acho sempre assumpto a quadros revoltados:
    Entro na brasserie; ás mesas de emigrados,
    Ao riso e á crua luz joga-se o dominó.

    III

    AO GAZ

    E saio. A noite peza, esmaga. Nos
    Passeios de lagedo arrastam-se as impuras.
    Ó molles hospitaes! Sae das embocaduras
    Um sopro que arripia os hombros quasi nús.

    Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
    Ver cirios lateraes, ver filas de capellas,
    Com santos e fieis, andores, ramos, velas,
    Em uma cathedral de um comprimento immenso.

    As burguezinhas do Catholocismo
    Resvalam pelo chão minado pelos canos;
    E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
    As freiras que os jejuns matavam de hysterismo.

    N'um cutileiro, de avental, ao torno,
    Um forjador maneja um malho, rubramente;
    E de uma padaria exhala-se, inda quente,
    Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

    E eu que medito um livro que exarcebe,
    Quizera que o real e a analyse m'o dessem;
    Casas de confecções e modas resplandecem;
    Pelas vitrines ólha um ratoneiro imberbe.

    Longas descidas! Não poder pintar
    Com versos magistraes, salubres e sinceros,
    A esguia diffusão dos vossos reverberos,
    E a vossa pallidez romantica e lunar!

    Que grande cobra, a lubrica pessoa,
    Que espartilhada escolhe uns chales com debuxo!
    Sua excellencia attráe, magnetica, entre luxo,
    Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

    E aquella velha, de bandós! Por vezes,
    A sua traîne imita um leque antigo, aberto,
    Nas barras verticaes, a duas tintas. Perto,
    Escarvam, á victoria, os seus mecklemburguezes.

    Desdobram-se tecidos estrangeiros;
    Plantas ornamentaes seccam nos mostradores;
    Flócos de pós de arroz pairam suffocadores,
    E em nuvems de setins requebram-se os caixeiros,

    Mas tudo cança! Apagam-se nas frentes
    Os candelabros, como estrellas, pouco a pouco;
    Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
    Tornam-se mausoléos as armações fulgentes.

    «Dó da miseria!… Compaixão de mim!…»
    E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
    Pede-me sempre esmola um homemzinho idoso,
    Meu velho professor nas aulas de latim!

    IV

    HORAS MORTAS

    O tecto fundo de oxygenio, d'ar,
    Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
    Vem lagrimas de luz dos astros com olheiras,
    Enleva-me a chimera azul de transmigrar.

    Por baixo, que portões! Que arruamentos!
    Um parafuso cáe nas lages, ás escuras:
    Collocam-se taipaes, rangem as fechaduras,
    E os olhos d'um caleche espantam-me, sangrentos.

    E eu sigo, como as linhas de uma pauta
    A dupla correnteza augusta das fachadas;
    Pois sobem, no silencio, infaustas e trinadas,
    As notas pastoris de uma longiqua flauta.

    Se eu não morresse, nunca! E eternamente
    Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
    Esqueço-me a prever castissimas esposas,
    Que aninhem em mansões de vidro transparente!

    Ó nossos filhos! Que de sonhos ageis,
    Pousando, vos trarão a nitidez ás vidas!
    Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
    N'umas habitações translucidas e frageis.

    Ah! Como a raça ruiva do porvir,
    E as frótas dos avós, e os nómadas ardentes,
    Nós vamos explorar todos os continentes
    E pelas vastidões aquaticas seguir!

    Mas se vivemos, os emparedados,
    Sem arvores, no valle escuro das muralhas!…
    Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
    E os gritos de soccorro ouvir estrangulados.

    E n'estes nebulosos corredores
    Nauseam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
    Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
    Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

    Eu não receio, todavia, os roubos;
    Afastam-se, a distancia, os dubios caminhantes;
    E sujos, sem ladrar, osseos, febris, errantes,
    Amarelladamente, os cães parecem lobos.

    E os guardas, que revistam as escadas,
    Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
    Por cima, as immoraes, nos seus roupões ligeiros,
    Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.

    E, enorme, n'esta massa irregular
    De predios sepulchraes, com dimensões de montes,
    A Dôr humana busca os amplos horisontes,
    E tem marés, de fel, como um sinistro mar!

    DE TARDE

    N'aquelle «pic-nic» de burguezas,
    Houve uma cousa simplesmente bella,
    E que, sem ter historia nem grandezas,
    Em todo o caso dava uma aguarella.

    Foi quando tu, descendo do burrico,
    Foste colher, sem imposturas tolas,
    A um granzoal azul de grão de bico
    Um ramalhete rubro de papoulas.

    Pouco depois, em cima d'uns penhascos,
    Nós acampámos, inda o sol se via;
    E houve talhadas de melão, damascos,
    E pão de ló molhado em malvasia.

    Mas, todo purpuro a sahir da renda
    Dos teus dois seios como duas rolas,
    Era o supremo encanto da merenda
    O ramalhete rubro das papoulas!

    EM PETIZ

    I

    DE TARDE

    Mais morta do que viva, a minha companheira
    Nem força teve em si para soltar um grito;
    E eu, n'esse tempo, um destro e bravo rapazito,
    Como um homemzarrão servi-lhe de barreira!

    Em meio de arvoredo, azenhas e ruinas,
    Pulavam para a fonte as bezerrinhas brancas;
    E, têtas a abanar, as mães de largas ancas,
    Desciam mais atraz, malhadas e turinas.

    Do seio do logar–casitas com postigos–
    Vem-nos o leite. Mas baptisam-n'o primeiro.
    Leva-o, de madrugada, em bilhas, o leiteiro,
    Cujo pregão vos tira ao vosso somno, amigos!

    Nós davamos, os dois, um giro pelo valle:
    Varzeas, povoações, pégos, silencios vastos!
    E os fartos animaes, ao recolher dos pastos,
    Roçavam pelo teu «costume de percale».

    Já não receias tu essa vaquita preta,
    Que eu segurei, prendi por um chavelhoe? Juro
    Que estavas a tremer, cosida com o muro,
    Hombros em pé, medrosa, e fina, de luneta!

    II

    OS IRMÃOSINHOS

    Pois eu, que no deserto dos caminhos,
    Por ti me expunha immenso, contra as vaccas;
    Eu, que apartava as mansas das velhacas,
    Fugia com terror dos pobresinhos!

    Vejo-os no pateo, ainda! Ainda os ouço!
    Os velhos, que nos rezam padre-nossos;
    Os mandriões que rosnam, altos, grossos;
    E os cegos que se apoiam sobre o moço.

    Ah! Os ceguinhos com a côr dos barros,
    Ou que a poeira no suor mascarra,
    Chegam das feiras a tocar guitarra,
    Rolam os olhos como dois escarros!

    E os pobres mettem medo! Os de marmita,
    Para forrar, por anno, alguns patacos,
    Entrapam-se nas mantas com buracos,
    Choramingando, a voz rachada, afflicta.

    Outros pedincham pelas cinco chagas;
    E no poial, tirando as ligaduras,
    Mostram as pernas putridas, maduras,
    Com que se arrastam pelas azinhagas!

    Querem viver! E picam-se nos cardos;
    Correm as villas; sobem os outeiros;
    E ás horas de calor, nos esterqueiros,
    De roda d'elles zumbem os moscardos.

    Aos sabbados, os monstros, que eu lamento,
    Batiam ao portão com seus cajados;
    E um aleijado com os pés quadrados,
    Pedia-nos de cima de um jumento.

    O resmungão! Que barbas! Que saccolas!
    Cheirava a migas, a bafio, a arrotos;
    Dormia as noutes por telheiros rotos,
    E sustentava o burro a pão d'esmolas.

    * * * * *

    Ó minha loura e doce como um bolo!
    Affavel hospeda na nossa casa,
    Logo que a torrida cidade abraza,
    Como um enorme fôrno de tijolo!

    Tu visitavas, esmoler, garrida,
    Umas creanças n'um casal queimado;
    E eu, pela estrada, espicaçava o gado,
    N'uma attitude esperta e decidida.

    Por lobishomens, por papões, por bruxas,
    Nunca soffremos o menor receio.
    Temieis vós, porém, o meu aceio,
    Mendigasitas sordidas, gorduchas!

    Vicios, sezões, epidemias, furtos,
    De certo, fermentavam entre lixos;
    Que podridão cobria aquelles bichos!
    E que luar nos teus fatinhos curtos!

    * * * * *

    Sei de uma pobre, apenas, sem desleixos,
    Ruça, descalça, a trote nos atalhos,
    E que lavava o corpo e os seus retalhos
    No rio, ao pé dos choupos e dos freixos.

    E a douda a quem chamavam a «Ratada»
    E que fallava só! Que antipathia!
    E se com ella a malta contendia,
    Quanta indecencia! Quanta palavrada!

    Uns operarios, n'estes descampados,
    Tambem surdiam, de chapeu de côco,
    Dizendo-se, de olhar rebelde e louco,
    Artistas despedidos, desgraçados.

    Muitos! E um bebedo–o Camões–que fôra
    Rico, e morreu a mendigar, zarolho,
    Com uma pala verde sobre um olho!
    Tivera ovelhas, bois, mulher, lavoura.

    E o resto? Bandos de selvagensinhos:
    Um nú que se gabava de maroto;
    Um, que cortada a mão, coçava o coto,
    E os bons que nos tratavam por padrinhos.

    Pediam fatos, botas, cobertores!
    Outro jogava bem o pau, e vinha
    Chorar, humilde, junto da coxinha!
    «Cinco réisinhos!… Nobres bemfeitores!…

    E quando alguns ficavam nos palheiros,
    E de manhã catavam os piolhos:
    Emquanto o sol batia nos restolhos
    E os nossos cães ladravam, resingueiros!

    Hoje entristeço. Lembro-me dos coxos,
    Dos surdos, dos manhosos, dos manetas.
    Sulcavam as calçadas, de muletas;
    Cantavam, no pomar, os pintarroxos!

    III

    HISTORIAS

    Scismatico, doente, azedo, apoquentado,
    Eu agourava o crime, as facas, a enxovia,
    Assim que um besuntão dos taes se apercebia
    Da minha blusa azul e branca, de riscado.

    Minaveis, ao serão, a cabecita loira,
    Com contos de provincia, ingenuas creaditas:
    Quadrilhas assaltando as quintas mais bonitas,
    E pondo a gente fina, em postas, de salmoira!

    Na noite velha, a mim, como tições ardendo,
    Fitavam-me os olhões pesados das ciganas;
    Deitavam-n'os o fogo aos predios e arribanas;
    Cercava-me um incendio ensanguentado, horrendo.

    E eu que era um cavallão, eu que fazia pinos,
    Eu que jogava a pedra, eu que corria tanto;
    Sonhava que os ladrões–homens de quem m'espanto
    Roubavam para azeite a carne dos meninos!

    E protegia-te eu, n'aquelle outomno brando,
    Mal tu sentias, entre as serras esmoitadas,
    Gritos de maioraes, mugidos de boiadas,
    Branca de susto, meiga e miope, estacando!

    NÓS

    A A. de S. V.

    I

    Foi quando em dois verões, seguidamente, a Febre
    E o Cholera tambem andaram na cidade,
    Que esta população, com um terror de lebre,
    Fugiu da capital como da tempestade.

    Ora, meu pae, depois das nossas vidas salvas,
    (Até então nós só tiveramos sarampo),
    Tanto nos viu crescer entre uns montões de malvas
    Que elle ganhou por isso um grande amor ao campo.

    Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga:
    O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos;
    Mesmo no nosso predio, os outros inquilinos
    Morreram todos. Nós salvámo-nos na fuga.

    Na parte mercantil, foco da epidemia,
    Um panico! Nem um navio entrava a barra,
    A alfandega parou, nenhuma loja abria,
    E os turbolentos caes cessaram a algazarra.

    Pela manhã, em vez dos trens dos baptisados,
    Rodavam sem cessar as seges dos enterros.
    Que triste a sucessão dos armazens fechados!
    Como um domingo inglez na «city», que desterro!

    Sem canalisação, em muitos burgos ermos,
    Seccavam dejecções cobertas de mosqueiros.
    E os medicos, ao pé dos padres e coveiros,
    Os ultimos fieis, tremiam dos enfermos!

    Uma illuminação a azeite de purgueira,
    De noite amarellava os predios macillentos.
    Barricas d'alcatrão ardiam; de maneira
    Que tinham tons d'inferno outros arruamentos.

    Porém, lá fora, á solta, exageradamente
    Emquanto acontecia essa calamidade,
    Toda a vegetação, plethorica, potente,
    Ganhava immenso com a enorme mortandade!

    N'um impeto de seiva os arvoredos fartos,
    N'uma opulenta furia as novidades todas,
    Como uma universal celebração de bodas,
    Amaram-se! E depois houve soberbos partos.

    Por isso, o chefe antigo e bom da nossa casa,
    Triste d'ouvir fallar em orphãos e em viuvas,
    E em permanencia olhando o horizonte em brasa,
    Não quiz voltar senão depois das grandes chuvas.

    Elle d'um lado, via os filhos achacados,
    Um livido flagello e uma molestia horrenda!
    E via, do outro lado, eiras, lezirias, prados,
    E um salutar refugio e um lucro na vivenda!

    E o campo, desde então, segundo o que me lembro,
    É todo o meu amor de todos estes annos!
    Nós vamos para lá; somos provincianos,
    Desde o calor de maio aos frios de novembro!

    II

    Que de fructa! E que fresca e temporã,
    Nas duas boas quintas bem muradas,
    Em que o sol, nos talhões e nas latadas,
    Bate de chapa, logo de manhã!

    O laranjal de folhas negrejantes,
    (Porque os terrenos são resvaladiços)
    Desce em socalcos todos os macissos,
    Como uma escadaria de gigantes.

    Das courellas, que criam cereaes,
    De que os donos–ainda!–pagam foros.
    Dividem-n'o fechados pitosporos,
    Abrigos de raizes verticaes.

    Ao meio, a casaria branca assenta
    Á beira da calçada, que divide
    Os escuros pomares de pevide,
    Da vinha, n'uma encosta soalhenta!

    Entretanto, nao ha maior prazer
    Do que, na placidez das duas horas,
    Ouvir e ver, entre o chiar das noras,
    No largo tanque as bicas a correr!

    Muito ao fundo, entre olmeiros seculares,
    Secca o rio! Em trez mezes d'estiagem,
    O seu leito é um atalho de passagem,
    Pedregosissimo, entre dois logares.

    Como lhe luzem seixos e burgaus
    Roliçõs! Marinham nas ladeiras
    Os renques africanos das piteiras,
    Que como áloes espigam altos paus!

    Montanhas inda mais longiquamente,
    Com restevas, e combros como boças,
    Lembram cabeças estupendas, grossas,
    De cabello grisalho, muito rente.

    E, a contrastar, nos valles, em geral,
    Como em vidraça d'uma enorme estufa,
    Tudo se attrae, se impõe, alarga e entufa,
    D'uma vitalidade equatorial!

    Que de frugalidades nós criamos!
    Que torrão espontaneo que nós somos!
    Pela outomnal maturação dos pomos,
    Com a carga, no chão pousam os ramos.

    E assim postas, nos barros e areiaes,
    As maceiras vergadas fortemente,
    Parecem, d'uma fauna surprehendente,
    Os polypos enormes, diluviaes.

    Comtudo, nós não temos na fazenda
    Nem uma planta só de mero ornato!
    Cada pé mostra-se util, é sensato,
    Por mais finos aromas que rescenda!

    Finalmente, na fertil depressão,
    Nada se vê que a nossa mão não regre:
    A florescencias d'um matiz alegre
    Mostra um sinal–a fructificação!

    * * * * *

    Ora, ha dez annos, n'este chão de lava
    E argila e areia e alluviões dispersas,
    Entre especies botanicas diversas,
    Forte, a nossa familia radiava!

    Unicamente, a minha doce irmã,
    Como uma tenue e immaculada rosa,
    Dava a nota galante e melindrosa
    Na trabalheira rustica, aldeã.

    E foi n'um anno prodigo, excellente,
    Cuja amargura nada sei que adoce,
    Que nós perdemos essa flor precoce,
    Que cresceu e morreu rapidamente!

    Ai d'aquelles que nascem n'este cahos,
    E, sendo fracos, sejam generosos!
    As doenças assaltam os bondosos
    E–custa a crer–deixam viver os maus!

    * * * * *

    Fecho os olhos cançados, e descrevo
    Das telas da memoria retocadas,
    Biscates, hortas, batataes, latadas,
    No paiz montanhoso, com relevo!

    Ah! Que aspectos benignos e ruraes
    N'esta localidade tudo tinha,
    Ao ires, com o banco de palhinha,
    Para a sombra que faz nos parreiraes!

    Ah! Quando a calma, á sesta, nem consente
    Que uma folha se mova ou se desmanche,
    Tu, refeita e feliz com o teu «lunch»,
    Nos ajudavas, voluntariamente!…

    Era admiravel–n'este grau do Sul!–
    Entre a rama avistar o teu rosto alvo,
    Ver-te escolhendo a uva diagalvo,
    Que eu embarcava para Liverpool.

    A exportação de frutas era um jogo:
    Dependiam da sorte do mercado
    O boal, que é de perolas formado,
    E o ferral, que é ardente e côr de fogo!

    Em agosto, ao calor canicular,
    Os passaros e enxames tudo infestam;
    Tu cortavas os bagos que não prestam
    Com a tua thesoura de bordar.

    Douradas, pequeninas, as abelhas,
    E negros, volumosos, os besoiros,
    Circumdavam, com impetos de toiros,
    As tuas candidissimas orelhas.

    Se uma vespa lançava o seu ferrão
    Na tua cutis–petala de leite!–
    Nós collocavamos dez réis e azeite
    Sobre a galante, a rosea inflammação!

    E se um de nós, já farto, arrenegado,
    Com o chapeo caçava a bicharia,
    Cada zangão voando, á luz do dia,
    Lembrava o teu dedal arremessado.

    * * * * *

    Que d'encantos! Na força do calor
    Desabrochavas no padrão da bata,
    E, surgindo da gola e da gravata,
    Teu pescoço era o caule d'uma flor!

    Mas que cegueira a minha! Do teu porte
    A fina curva, a indefinida linha,
    Com bondades d'herbivora mansinha,
    Eram prenuncios de fraqueza e morte!

    Á procura da libra e do «schilling»,
    Eu andava abstracto e sem que visse
    Que o teu alvor romantico de «miss»
    Te obrigava a morrer antes de mim!

    E antes tu, ser lindissimo, nas faces
    Tivesses «panno» como as camponezas;
    E sem brancuras, sem delicadezas,
    Vigorosa e plebeia, inda durasses!

    Uns modos de carnivora feroz
    Podias ter em vez de inoffensivos;
    Tinhas caninos, tinhas incisivos,
    E podias ser rude como nós!

    Pois n'este sítio, que era de sequeiro,
    Todo o genero ardente resistia,
    E, á larguissima luz do Meio-dia,
    Tomava um tom opalico e trigueiro!

    * * * * *

    Sim! Europa do Norte, o que suppões
    Dos vergeis que abastecem teus banquetes,
    Quando ás dockas, com fructas, os paquetes
    Chegam antes das tuas estações?!

    Oh! As ricas «primeurs» da nossa terra
    E as tuas frutas acidas, tardias,
    No azedo amoniacal das queijarias
    Dos fleugmaticos «farmers» d'Inglaterra!

    Ó cidades fabris, industriaes,
    De nevoeiros, poeiradas de hulha,
    Que pensaes do paiz que vos atulha
    Com a fructa que sae dos seus quintaes?

    Todos os annos, que frescor se exhala!
    Abundancias felizes que eu recordo!
    Carradas brutas que iam para bórdo!
    Vapores por aqui fazendo escala!

    Uma alta parreira muscatel
    Por doce não servia para embarque:
    Palacios que rodeiam Hyde-Park,
    Não conheceis esse divino mel!

    Pois a Corôa, o Banco, o Almirantado,
    Não as têm nas florestas em que ha corças,
    Nem em vós que dobraes as vossas forças,
    Pradarias d'um verde illimitado!

    Anglos-Saxonios, tendes que invejar!
    Ricos suicidas, comparae comvosco!
    Aqui tudo espontaneo, alegre, tosco,
    Facilimo, evidente, salutar!

    Opponde ás regiões que dão os vinhos
    Vossos montes d'escorias inda quentes!
    E as febris officinas estridentes
    Ás nossas tecelagens e moinhos!

    E ó condados mineiros! Extensões
    Carboniferas! Fundas galerias!
    Fabricas a vapor! Cutelarias!
    E mechanicas, tristes fiações!

    Bem sei que preparaes correctamente
    O aço e a seda, as laminas e o estofo;
    Tudo o que há de mais dúctil, de mais fofo,
    Tudo o que ha de mais rijo e resistente!

    Mas isso tudo é falso, é machinal,
    Sem vida, como um circulo ou um quadrado,
    Com essa perfeição do fabricado,
    Sem o rythmo do vivo e do real!

    E cá o santo sol, sobre isso tudo,
    Faz conceber as verdes ribanceiras;
    Lança as rosaceas bellas e fructeiras
    Nas searas de trigo palhagudo!

    Uma aldeia d'aqui é mais feliz,
    Londres sombria, em que scintilla a corte!…
    Mesmo que tu, que vives a compor-te,
    Grande seio arquejante de Paris!…

    Ah! Que de gloria, que de colorido,
    quando, por meu mandado e meu conselho,
    Cá se empapelam «as maçãs d'espelho»
    Que Herbert Spencer talvez tenha comido!

    Para alguns são prosaicos, são banaes
    Estes versos de fibra succolenta;
    Como se a polpa que nos dessedenta
    Nem ao menos valesse uns madrigaes!

    Pois o que a bocca trava com surprezas
    Senão as frutas tónicas e puras!
    Ah! N'um jantar de carnes e gorduras
    A graça vegetal das sobremesas!…

    Jack, marujo inglez, tu tens razão
    Quando, ancorando em portos como os nossos,
    As laranjas com cascas e caróços
    Comes com bestial soffreguidão!…

    * * * * *

    A impressão d'outros tempos, sempre viva,
    Dá estremeções no meu passado morto,
    E inda viajo, muita vez, absorto,
    Pelas varzeas da minha retentiva.

    Então recordo a paz familiar,
    Todo um painel pacifico d'enganos!
    E a distancia fatal d'uns poucos annos
    É uma lente convexa, d'augmentar.

    Todos os typos mortos resuscito!
    Perpetuam-se assim alguns minutos!
    E eu exagéro os casos diminutos
    Dentro d'um véo de lagrimas bemdito.

    Pinto quadros por lettras, por signaes,
    Tão luminosos como os do Levante,
    Nas horas em que a calma é mais queimante,
    Na quadra em que o verão aperta mais.

    Como destacam, vivas, certas cores,
    Na vida externa cheia d'alegrias!
    Horas, vozes, locaes, physionomias,
    As ferramentas, os trabalhadores!

    Aspiro um cheiro a cosedura, e a lar
    E a rama do pinheiro! Eu adivinho
    O resinoso, o tão agreste pinho
    Serrado nos pinhaes da beira mar.

    Vinha cortada, aos feixes, a madeira,
    Cheia de nós, d'imperfeições, de rachas;
    Depois armavam-se, n'um prompto as caixas
    Sob uma calma espessa e calaceira!

    Feias e fortes! Punham-lhes papel,
    A forral-as. E em grossa serradura
    Acamava-se a uva prematura
    Que não deve servir para tonel!

    Cingiam-n'as com arcos de castanho
    Nas ribeiras cortados, nos riachos;
    E eram d'assucar e calor os cachos,
    Criados pelo esterco e pelo amanho!

    Ó pobre estrume, como tu compões
    Estes pampanos doces como afagos!
    «Dedos de dama»: transparentes bagos!
    «Tetas de cabra»: lacteas carnações!

    E não eram caixitas bem dispostas
    Como as passas de Malaga e Alicante;
    Com sua fórma estavel, ignorante,
    Estas pesavam, brutalmente, ás costas!

    Nos vinhatorios via fulgurar,
    Com tanta cal que torna as vistas cegas,
    Os parallelogramos das adegas,
    Que têm lá dentro as dornas e o lagar!

    Que rudeza! Ao ar livre dos estios.
    Que grande azafama! Apressadamente
    Como soava um martellar frequente,
    Véspera da saida dos navios!

    Ah! Ninguem entender que ao meu olhar
    Tudo tem certo espirito secreto!
    Com folhas de saudades um objecto
    Deita raizes duras de arrancar!

    As navalhas de volta, por exemplo,
    Cujo bico de passaro se arqueia,
    Forjadas no casebre d'uma aldeia,
    São antigas amigas que eu contemplo!

    Ellas, em seu labor, em seu lidar,
    Com sua ponta como a da podoas,
    Serviam próbas, uteis, dignas, boas,
    Nunca tintas de sangue e de matar.

    E as enxós de martello, que d'um lado
    Cortavam mais do que as enxadas cavam,
    Por outro lado, rápidas, pregavam,
    D'uma pancada, o prego fasquiado!

    O meu animo verga na abstracção,
    Com a espinha dorsal dobrada ao meio;
    Mas se de materiaes descubro um veio
    Ganho a musculatura d'um Sansão!

    E assim–e mais no povo a vida é corna–
    Amo os officios como o de ferreiro,
    Com seu folle arquejante, seu brazeiro,
    Seu malho retumbante na bigorna!

    E sinto, se me ponho a recordar
    Tanto utensilio, tantas perspectivas,
    As tradições antigas, primitivas,
    E a formidavel alma popular!

    Oh! Que brava alegria eu tenho quando
    Sou tal qual como os mais! E, sem talento,
    Faço um trabalho technico, violento,
    Cantando, praguejando, batalhando!

    * * * * *

    Os fruteiros, tostados pelos soes,
    Tinham passado, muita vez, a raia,
    E, espertos, entre os mais da sua laia,
    –Pobres camponios–eram uns heroes.

    E por isso, com phrases imprevistas,
    E colorido e estylo e valentia,
    As «haciendas» que ha na «Andalucia»
    Pintavam como novos paysagistas.

    De como, ás calmas, n'essas excursões,
    Tinham aguas salobras por refrescos;
    E amarellos, enormes, gigantescos,
    Lá batiam o queixo com sesões!

    Tinham corrido já na adusta Hespanha,
    Todo um fertil plató sem arvoredos,
    Onde armavam barracas nos vinhedos,
    Como tendas alegres de campanha.

    Que pragas castelhanas, que alegrão,
    Quanto contavam scenas de pousadas!
    Adoravam as cintas encarnadas
    E as côres, como os pretos do sertáo!

    E tinham, sem que a lei a tal obrigue,
    A educação vistosa das viagens!
    Uns por terra partiam e estalagens,
    Outros, aos montes, no convez d'um brigue!

    Só um havia, triste e sem fallar
    Que arrastava a maior misantropia,
    E, roxo como um figado, bebia
    O vinho tinto que eu mandava dar!

    Pobre da minha geração exangue
    De ricos! Antes, como os abrutados,
    Andar com uns sapatos encebados,
    E ter riqueza chimica no sangue!

    * * * * *

    Mas hoje a rustica lavoura, quer
    Seja o patrão, quer seja o jornaleiro,
    Que inferno! Em vão o lavrador rasteiro
    E a filharada lidam, e a mulher!…

    Desde o princípio ao fim é uma maçada
    De mil demonios! Torna-se preciso
    Ter-se muito vigor, muito juizo
    Para trazer a vida equilibrada!

    Hoje eu sei quanto custam a criar
    As cepas, desde que eu as pódo e empo.
    Ah! O campo não é um passatempo
    Com bucolismos, rouxinoes, luar.

    A nós tudo nos rouba e nos dizima:
    O rapazio, o imposto, as pardaladas,
    As osgas peçonhentas, achatadas,
    E as abelhas que engordam na vindima.

    E o pulgão, a lagarta, os caracoes,
    E ha inda, alem do mais com que se ateima,
    As intemperies, o granizo, a queima,
    E a concorrencia com os hespanhoes.

    Na vendas, os vinhateiros d'Almeria
    Competem contra os nossos fazendeiros.
    Dão frutas aos leilões dos estrangeiros,
    Por uma cotação que nos desvia!

    Pois tantos contras, rudes como são,
    Forte e teimoso, o camponez destroe-os!
    Venham de lá pesados os comboyos
    E os «buques» estivados no porão!

    Não, não é justo que eu a culpa lance
    Sobre estes nadas! Puras bagatellas!
    Nós não vivemos só de coisas bellas,
    Nem tudo corre como n'um romance!

    Para a Terra parir hade ter dor,
    E é para obter as asperas verdades,
    Que os agronomos cursam nas cidades,
    E, á sua custa, aprende o lavrador.

    Ah! Não eram insectos nem as aves
    Que nos dariam dias tão difficeis,
    Se vós, sabios, na gente descobrisseis
    Como se curam as doenças graves.

    Não valem nada a cava, a enxofra, e o mais!
    Difficultoso trato das cearas!
    Lutas constantes sobre as jornas caras!
    Compras de bois nas feiras annuaes!

    O que a alegria em nós destroe e mata,
    Não é rede arrastante d'escalracho,
    Nem é «suão» queimante como um facho,
    Nem invasões bulhosas d'herva pata.

    Podia ter seccado o poço em que eu
    Me debruçava e te pregava sustos,
    E mais as hervas, arvores e arbustos
    Que–tanta vez!–a tua mão colheu.

    «Molestia negra» nem «charbon» não era,
    Como um archote incendiando as parras!
    Tão pouco as bastas e invisiveis garras,
    Da enorme legião do phylloxera!

    Podiam mesmo, com o que contêm,
    Os muros ter caido às invernias!
    Somos fortes! As nossas energias
    Tudo vencem e domam muito bem!

    Que os rios, sim, que como touros mugem,
    Transbordando atulhassem as regueiras!
    Chorassem de resina as larangeiras!
    Ennegrecessem outras com ferrugem!

    As turvas cheias de novembro, em vez
    Do nateiro subtil que fertilisa,
    Fossem a inundação que tudo pisa,
    No rebanho afogassem muita rez!

    Ah! N'esse caso pouco se perdera,
    Pois isso tudo era um pequeno damno,
    Á vista do cruel destino humano
    Que os dedos te fazia como cera!

    Era essa tysica em terceiro grau,
    Que nos enchia a todos de cuidado,
    Te curvava e te dava um ar alado
    Como quem vae voar d'um mundo mau.

    Era a desolação que inda nos mina
    (Porque o fastio é bem peior que a fome)
    Que a meu pai deu a curva que a consome,
    E a minha mãe cabellos de platina.

    Era a chlorose, esse tremendo mal,
    Que desertou e que tornou funesta
    A nossa branca habitação em festa
    Reverberando a luz meridional.

    Não desejemos,–nós os sem defeitos,–
    Que os tysicos pereçam! Má theoria,
    Se pelos meus o apuro principia,
    Se a Morte nos procura em nossos leitos!

    A mim mesmo, que tenho a pretensão
    De ter saude, a mim que adoro a pompa
    Das forças, pode ser que se me rompa
    Uma arteria, e me mine uma lesão.

    Nós outros, teus irmãos, teus companheiros,
    Vamos abrindo um matagal de dores!
    E somos rijos como os serradores!
    E positivos como os engenheiros!

    Porém, hostis, sobresaltados, sós,
    Os homens architectam mil projectos
    De victoria! E eu duvido que os meus netos
    Morram de velhos como os meus avós!

    Porque, parece, ou fortes ou velhacos
    Serão apenas os sobreviventes;
    E ha pessoas sinceras e clementes,
    E troncos grossos com seus ramos fracos!

    E que fazer se a geração decae!
    Se a seiva genealogica se gasta!
    Tudo empobrece! Extingue-se uma casta!
    Morre o filho primeiro do que o pai!

    Mas seja como for, tudo se sente
    Da tua ausencia! Ah! como o ar nos falta,
    Ó flor cortada, susceptivel, alta,
    Que assim seccaste prematuramente!

    Eu que de vezes tenho o desprazer
    De reflectir no tumulo! E medito
    No eterno Incognoscivel infinito,
    Que as idéas não podem abranger!

    Como em paul em que nem cresça a junca
    Sei d'almas estagnadas! Nós absortos,
    Temos ainda o culto pelos Mortos,
    Esses ausentes que não voltam nunca!

    Nós ignoramos, sem religião,
    Ao rasgarmos caminho, a fé perdida,
    Se te vemos ao fim d'esta avenida
    Ou essa horrivel aniquilação!…

    E ó minha martyr, minha virgem, minha
    Infeliz e celeste creatura,
    Tu lembras-nos de longe a paz futura,
    No teu jazigo, como uma santinha!

    E emquanto a mim, és tu que substitues
    Todo o mysterio, toda a santidade,
    Quando em busca do reino da verdade
    Eu ergo o meu olhar aos ceos azues!

    III

    Tinhamos nós voltado á capital maldicta,
    Eu vinha de polir isto tranquillamente,
    Quando nos seccedeu uma cruel desdita,
    Pois um de nós caiu, de subito, doente.

    Uma tuberculose abria-lhe cavernas!
    Dá-me rebate ainda o seu tossir profundo!
    E eu sempre lembrarei, triste, as palavras ternas,
    Com que se despediu de todos e do mundo!

    Pobre rapaz robusto e cheio de futuro!
    Não sei d'um infortunio immenso como o seu!
    Vio o seu fim chegar como um medonho muro,
    E, sem querer, afflicto e attonito, morreu!

    De tal maneira que hoje, eu desgostoso e azedo
    Como tanta crueldade e tantas injustiças,
    Se inda trabalho é como os presos no degredo,
    Com planos de vingança e idéas insubmissas.

    E agora, de tal modo a minha vida é dura,
    Tenho momentos maus, tão tristes, tão perversos,
    Que sinto só desdem pela litteratura,
    E até desprézo e esqueço os meus amados versos!

    PROVINCIANAS

    I

    Olá! Bons dias! Em março
    Que mocetona e que joven
    A terra! Que amor esparso
    Corre os trigos, que se movem
    Ás vagas d'um verde garço!

    Como amanhece! Que meigas
    As horas antes de almoço!
    Fartam-se as vaccas nas veigas
    E um pasto orvalhado e moço
    Produz as novas manteigas.

    Toda a paizagem se doura;
    Tibida ainda, que frecas!
    Bella mulher, sim senhora,
    N'esta manhã pittoresca,
    Primaveral, creadora!

    Bom sol! As sebes d'encosto
    Dão madresilvas cheirosas
    Que entotecem como um mosto
    Floridas, ás espinhosas
    Subio-lhes o sangue ao rosto.

    Cresce o relevo dos montes,
    Como seios offegantes;
    Murmuram como umas fontes
    Os rios que dias antes
    Bramiam galgando pontes.

    E os campos, milhas e milhas,
    Com póvos d'espaço a espaço,
    Fazem-se ás mil maravilhas;
    Dir-se-ia o mar de sargaço
    Glauco, ondulante, com ilhas!

    Pois bem. O inverno deixou-nos.
    É certo. E os grãos e as sementes
    Que ficam d'outros outonos
    Acordam hoje frementes
    Depois d'uns poucos de somnos.

    Mas nem tudo são descantes
    Por esses longos caminhos
    Entre favaes palpitantes
    Há solos bravos, maninhos,
    Que expulsam seus habitantes!

    E n'esta quadra d'amores
    Que emigram os jornaleiros
    Ganhões e trabalhadores!
    Passam clans de forasteiros
    Nas terras de lavradores.

    Tal como existem mercados
    Ou feiras, semanalmente
    Para comprarmos os gados
    Assim ha praças de gente
    Pelos domingos calados!

    Emquanto a ovelha arredonda,
    Vão tribus de sete filhos,
    Por varzeas que fazem onda,
    Para as derregas dos milhos
    E molhadellas da monda.

    De roda pulam borregos;
    Enchem então as cardosas
    As moças d'esses labregos
    Com altas botas bartrosas
    De se atirarem aos regos!

    Eil-as que vem ás manadas
    Com caras de soffrimento,
    Nas grandes marchas forçadas!
    Vem ao trabalho, ao sustento,
    Com fouces, sachos, enchadas!

    Ai o palheiro das servas
    Se o feitor lhe tira as chaves!
    Ellas chegam ás catervas,
    Quando acasalam as aves
    E se fecundam as hervas!…

    II

    Ao meio dia na cama,
    Branca fidalga o que julga
    Das pequenas da su'ama?!
    Vivem minadas da pulga
    Negras do tempo e da lama.

    Não é caso que a commova
    Ver suas irmans de leite,
    Quer faça frio, quer chova,
    Sem uma mamã que as deite
    Na tepidez d'um alcova?!

    Nota: Incompleta esta poesia. Foram os ultimos versos do poeta.

    NOTAS

    Cesario Verde (José Joaquim Cesario Verde) nasceu em Lisboa,
    freguesia da Magdalena, em 25 de fevereiro de 1855 e falleceu no
    Paço do Lumiar em 19 de julho de 1886. Era filho do sr. José
    Anastacio Verde, negociante, e da srª. D. Maria da Piedade dos
    Santos Verde.

    * * * * *

    A estreia do poeta nos dominios da publicidade data de 1873. Foi
    o auctor d'estas notas e editor d'este livro quem fez publicar no
    Diario da Tarde do Porto, em folhetim, os primeiros versos de Cesario
    Verde, precedendo-os de uma carta de apresentação a Manoel d'Arriaga.
    Esses versos não se reproduzem no livro de Cesario Verde, porque o
    poeta os considerou muito inferiores aos que hoje se reproduzem.
    Realmente o eram–pela hesitação do neophyto.

    * * * * *

    Outros versos foram condemnados pelo auctor e a condemnação foi hoje
    respeitada: entre elles citaremos a Satyra ao Diario Illustrado, as
    poesias Vaidosa, Subindo, Desastre, e algumas outras composições de
    menos folego.

    * * * * *

    No Prefacio registra-se a promessa de um estudo critico sobre a Obra
    de Cesario Verde. Essa obra, dispersa nas columnas do Diario da
    tarde, do Porto, da Renascença, da Revista de Coimbra, da Tribuna,
    da Illustração, etc., não será discutida pelo auctor d'estas linhas.
    Não é hoje discutida, nem o será jamais. Sobeja-lhe, ao auctor da
    promessa, em enternecimento e amargura quanto lhe falta em serenidade;
    –ficam auctorizados a dizer: quanto lhe falta em competencia.

    Tambem se registrou algures a promessa de um ajuste de contas com
    os insultadores do poeta. Inutil:–nenhum d'elles sobreviveu aos
    insultos.

    * * * * *

    Os 200 exemplares d'este livro serão distribuidos pelos parentes,
    pelos amigos e pelos admiradores provados do illustre poeta, bem
    como por Bibliothecas do paiz e do estrangeiro. A lista de distribuição
    será publicada. As reclamações justificadas serão attendidas.

    1887.

    S. P.

    INDICE

    Dedicatoria
    Prefacio

    VERSOS

    CRISE ROMANESCA

    Deslumbramentos
    Septentrional
    Meridional
    Ironias do Desgosto
    Humilhações
    Responso

    NATURAES

    Contrariedades
    A debil
    N'um bairro moderno
    Crystalisações
    Noites gelidas
    Sardenta
    Flores velhas
    Noite fechada
    Manhans brumosas
    Frigida
    De verão
    O sentimento d'um occidental
    De tarde
    Em petiz
    Nós
    Provincianas

    Notas

    End of Project Gutenberg's O Livro de Cesario Verde, by Cesario Verde

  • Noções elementares de archeologia

    Noções elementares de archeologia

    Aproximadamente 49.550 palavras.

    Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
    Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
    produced from images generously made available by National
    Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)

    NOÇÕES ELEMENTARES

    DE

    ARCHEOLOGIA

    OBRA ILLUSTRADA COM 324 GRAVURAS

    E

    UMA INTRODUCÇÃO

    Do Sr.

    I. DE VILHENA BARBOSA

    Socio Effectivo da Academia Real das Sciencias

    DEDICADA Á MEMORIA DO ILLUSTRE ARCHEOLOGO

    MR. A. DE CAUMONT

    por

    JOAQUIM POSSIDONIO NARCISO DA SILVA

    Architecto da Casa Real, Socio correspondente do Instituto de França,
    Honorario do Instituto Real dos Architectos Britannicos, da Sociedade
    Franceza de Archeologia, da Sociedade Central dos Architectos de Paris,
    correspondente da Academia Real de S. Fernando, fundador do Museu de
    Archeologia em Lisboa, etc. etc. etc.

    MEDALHA DO CONGRESSO ARCHEOLOGICO DE LOCHES
    CONFERIDA NA SUA SESSÃO DE JUNHO DE 1869

    LISBOA

    LALLEMANT FRÈRES

    6, Rua do Thesouro Velho, 6

    1878

    A SUA ALTEZA REAL

    O SERENISSIMO PRINCIPE

    *D. Carlos Fernando Pedro d'Alcantara*

    DUQUE DE BRAGANÇA

    *Com a mais respeitosa homenagem*

    O. D. C.

    *O humilde auctor d'este compendio*

    JOAQUIM POSSIDONIO NARCISO DA SILVA.

    INTRODUCÇÃO

    I

    Não conheceram os povos da antiguidade a archeologia, pelo menos como
    uma sciencia. Foi ignorada dos proprios gregos e romanos, não obstante a
    sua brilhante civilisacão, e apezar dos primeiros lhe terem creado o
    nome, composto de dois vocabulos seus: _archaios_, que quer dizer
    antigo, e _logos_ discurso. E tanto a desconheciam, confundindo-a com a
    historia, que alguns escriptores gregos e israelitas do principio da era
    christã, deram o nome de archeologia a obras que tratavam simplesmente
    da historia de povos, embora desde tempos remotos, ou que se occupavam
    de antiguidades, mas limitando-se a descreverem os monumentos, sem
    entrarem nas apreciações e conjecturas, que levam o archeologo ao
    conhecimento do viver dos povos da antiguidade.

    Os generaes romanos, quando voltavam d'essas emprezas guerreiras que
    accrescentavam ao imperio novas provincias, traziam mil objectos
    preciosos, variadissimas manifestações da arte e da industria dos
    vencidos, curiosos utensilios e ricos ornamentos em marmore, bronze,
    prata e oiro, obra de diversos povos, e differentes seculos. Pois os
    romanos applaudiam e apreciavam essas preciosidades, que vinham
    enriquecer a sua capital, constituindo-a um verdadeiro museu
    archeologico, apreciavam-n'as, repito, sómente como despojos arrebatados
    aos vencidos pelas suas aguias triumphantes, como tropheus de victorias,
    que glorificavam o seu nome, e estendiam o seu poderio.

    Nem os vasos sagrados do templo de Jerusalem, preciosos pela materia e
    ricos de tradições antiquissimas; nem os obeliscos do Egypto, padrões de
    tão remotas eras; nem as famosas estatuas da Grecia, sublimes creacões
    do genio humano em uma das quadras mais notaveis da historia geral da
    civilisacão; nem estes, nem outros objectos archeologicos e primores
    d'arte, que eram transportados a Roma a todo o momento, nos tempos da
    sua grandeza, faziam meditar os romanos sobre as extinctas civilisações,
    que muitos d'esses objectos recordavam, com o intuito de devassarem os
    mysterios da vida d'essas nações, sumidas nos abysmos do passado.

    Pausanias, geographo e historiador grego que, nas suas longas viagens,
    visitou a maior parte do mundo então conhecido, vindo depois estabelecer
    a sua residencia em Roma, no anno 170 do nascimento de Christo, escreveu
    a _Descripção da Grecia_, na qual trata com minuciosidade de todos os
    seus monumentos. Porém limita-se a descrevel-os como historiographo, sem
    os estudar e apreciar como archeologo.

    Baqueou o imperio romano ao duro embate dos barbaros do norte; e o mesmo
    tufão, que o varreu da face da terra, apagou aquelle facho
    resplandecente, que irradiava a luz da civilisacão para todas as regiões
    do orbe antigo, onde chegavam as armas da soberba Roma.

    Succederam-se, portanto, a tamanho explendor as mais crassas trevas da
    ignorancia e da barbaridade, em que a Europa esteve mergulhada durante
    seculos, até que emfim raiou a aurora da regeneração social, renascendo
    as letras e as artes. Foi então que surgiram os primeiros ensaios da
    archeologia. Dante e Petrarca, os illustres iniciadores da litteratura
    moderna, foram tambem os creadores da sciencia archeologica, precedendo
    a todos os sabios na investigação dos manuscriptos antigos, no
    descobrimento e decifração de velhas inscripções, e no estudo das
    moedas, em que o segundo se occupou.

    Não tardaram a ter imitadores que procurassem desvendar, sob o pó dos
    seculos, os mysterios da historia. A descoberta de algumas pinturas
    antigas, em excavações casuaes, quando os espiritos já começavam a
    raciocinar sobre a theoria da arte, e quando já se principiava a
    apreciar os monumentos da antiguidade como annaes do viver das gerações
    passadas, foi um novo incentivo para os estudiosos, e um raio de luz nos
    escurissimos caminhos da nova sciencia.

    Uma coincidencia feliz veio dar maior impulso e mais auctoridade aos
    estudos archeologicos.

    Miguel Angelo Buounarotti e Raphael Sanzio d'Urbino assombravam Roma e a
    Europa culta com os explendores do seu talento na pintura, na esculptura
    e na architectura, quando Felix de Fredi descobriu n'aquella cidade, em
    1506, entre as ruinas das Thermas de Tito, o famoso grupo de Laocoonte e
    seus dois filhos envolvidos pelas serpentes. Enlevados n'este grande
    primor da esculptura antiga, aquelles dois eximios artistas procuraram
    com desvelada applicacão descobrir o nome do auctor d'esta maravilha da
    arte, e a era em que foi executada. Caminhando de investigação em
    investigação visitaram e estudaram attentamente as grandes ruinas da
    architectura grega e romana, os restos preciosos da sua admiravel
    esculptura e as inscripções lapidares.

    Estes estudos foram tão applaudidos, e tão reconhecidas as suas
    vantagens, que não tardou a fundar-se em Florença, sob o governo dos
    Médicis, a primeira escola publica d'antiguidades.

    Tal foi o começo da archeologia.

    II

    O exemplo de Miguel Angelo e de Raphael, teve imitadores pouco depois em
    França, Allemanha, e outras nações, onde alguns homens estudiosos, não
    cultores das artes, mas apreciadores das suas obras, se occuparam de
    investigações archeologicas, posto que em geral restrictas á numismatica
    e á epigraphia.

    Este segundo periodo da nova sciencia, que é denominado dos
    _antiquarios_, abrange os fins do seculo XVI, todo o XVII e a primeira
    metade do XVIII.

    Portugal não foi indifferente a este progresso. Poderia dizer que n'este
    passo, como em muitos outros, se antecipou ás mais nações, pois que no
    principio da segunda metade do século XV, D. Affonso, marquez de
    Valença, filho primogenito de D. Affonso I, duque de Bragança, indo
    acompanhar a Italia e Allemanha a imperatriz D. Leonor, filha d'el-rei
    D. Duarte, e esposa do imperador d'Allemanha Frederico III, comprou e
    reuniu durante a sua longa viagem muitos objectos d'antiguidade e de
    historia natural, com os quaes, na sua volta á patria, organisou um
    museu, que seu pae augmentou com varios cippos, lapidas e fragmentos
    d'archeologia romana, descobertos no Alemtejo. Foi este o primeiro
    museu, que se creou n'este reino, e creio que precedeu a todos os que se
    crearam na Europa.

    Todavia, apezar d'este estimulo, o estudo d'antiguidades só teve
    principio entre nós passado um seculo; e foi de fóra que então nos veio
    o incentivo.

    Graças ás intimas relações do nosso paiz com as principaes potencias
    maritimas da Europa, desde a entrada do seculo XVI, estabelecidas pelos
    descobrimentos e conquistas dos portuguezes, que fizeram de Lisboa o
    emporio das mercadorias do Oriente, o movimento scientifico, que lavrava
    n'aquellas nações, não se demorava muito em se fazer sentir entre nós.
    Porém no caso de que trato abreviou esse periodo, sem duvida, a viagem
    de um nosso compatriota, que alcançou nas letras nome illustre. André de
    Rezende, depois de ter cursado a universidade de Salamanca, e de ter
    tomado capello em theologia, levado do desejo de se instruir, percorreu
    a França e os Paizes Baixos, demorando-se em Paris e em Bruxellas. O
    trato que teve n'estas cidades com alguns sabios, suscitou-lhe o amor
    dos estudos archeologicos. Regressando á patria entregou-se com ardor e
    perseverança a esses estudos, colligindo alguns cippos e outras lapidas
    com inscripções romanas, que collocou no jardim da casa em que habitava
    na cidade d'Evora, investigando e decifrando um grande numero de
    monumentos epigraphicos do nosso paiz, e compondo por fim varias obras,
    em que dava conta d'essas locubrações predilectas. Duas viram a luz da
    imprensa, com o titulo de: _Historia das antiguidades d'Evora_,
    publicada em 1553; e _Libri quatuor de antiquitatibus Lusitàniæ_,
    impressa em 1593, vinte annos depois da sua morte. D'entre as que deixou
    manuscriptas sobre o mesmo genero d'assumptos, citarei: _Monumenta,
    romanorum in Lusitanis urbibus_.

    Assim começaram estes estudos em Portugal; e do mesmo modo continuaram
    n'esse seculo e no seguinte, restrictos todavia á época do dominio
    romano.

    As nações que percorriam as vias do progresso com passo firme e resoluto
    mostraram-se empenhadas no desenvolvimento dos estudos archeologicos,
    desde o meiado do seculo XVII, fundando academias ou escolas, onde se
    ensinava ou discursava sobre antiguidades.

    Então os adeptos da nova sciencia, sequiosos de emoções e buscando
    alargar a área dos seus estudos, visitam a Grecia, exploram o solo,
    desenterram soberbos monumentos, escrevem e publicam em muitos livros os
    resultados das suas investigações.

    Illustraram-se n'esta cruzada scientifica, principalmente, Jacob Span, e
    Bernardo de Montfaucon, francezes, e Wheler, João Augusto Ernesti, João
    Jorge Groevinus, Gronovius, allemães. Todavia nos seus vastos
    repositorios de memorias e dissertações, posto que tratem mais
    particularmente das antiguidades gregas e romanas, já se occupam de
    todas as partes da archeologia.

    III

    Este impulso fez-se sentir em o nosso paiz nos fins do primeiro quartel
    do seculo XVIII. Fundando-se em Lisboa no anno de 1720, a academia real
    de Historia Portugueza, foi-lhe commettido, juntamente com a tarefa de
    escrever a historia de Portugal, o encargo de velar pela conservação dos
    monumentos nacionaes, obstando a que se destruissem, ou fossem levados
    para fóra do reino, os objectos d'antiguidade, já descobertos, ou que
    viessem a descobrir-se. Fundaram-se em Lisboa alguns museus de
    antiguidades, sendo um no proprio edificio da academia (o palacio dos
    duques de Bragança, na rua do Thesouro Velho), e os outros particulares.
    Entre as muitas obras volumosas, escriptas pelos academicos, e impressas
    por ordem da academia, contam-se algumas consagradas exclusivamente a
    antiguidades nacionaes.

    Em geral os espiritos, que se dedicavam a este genero de litteratura,
    continuavam a concentrar todas as suas attenções nos monumentos romanos,
    de que havia então bastante copia no reino, e que estavam por
    conseguinte muito ligados com a nossa historia. Entretanto houve
    academicos que, saindo fóra d'esse apertado circulo, encetaram estudos
    inteiramente novos no paiz. Martinho de Mendonça e Pina, em 1733, leu em
    uma sessão d'aquella academia uma memoria sobre os _rudes altares_ a que
    chamam _antas_ em Portugal. Este estudo publicado nas _Memorias da
    Academia_, foi o primeiro trabalho litterario, que se fez entre nós
    relativamente a monumentos prehistoricos.

    IV

    Na segunda metade d'esse mesmo seculo teve começo o terceiro periodo da
    archeologia, no qual obteve os fóros de verdadeira sciencia. Abriu esse
    periodo um dos mais talentosos e perseverantes filhos da Allemanha. João
    Joaquim Winckelmann, nascido em 1717, e fallecido em 1768, que se elevou
    pelo seu saber, de uma posição social muito humilde, a vice-reitor da
    universidade de Halle, e a bibliothecario do Vaticano, foi o fundador da
    esthetica moderna, e o creador do estudo philosophico e consciencioso da
    arte antiga. Entre muitas obras, que lhe grangearam subida honra,
    sobresae a _Historia da Arte_, que immortalisou o seu nome. N'esta obra
    magistral, que dividiu em 6 livros, estabeleceu e sellou de um modo
    incontroverso a alliança das artes com a archeologia, marcando a esta,
    como norma e alvo a que deve mirar, seguir escrupulomente sob todos os
    aspectos, pela apreciação do trabalho humano nas artes e na industria, o
    desenvolvimento da civilisação nos seculos passados; e estabelecendo ao
    mesmo tempo o methodo racional e claro para alcançar esse fim.

    Teve grande importancia esta obra, não só por dilatar os horisontes da
    nova sciencia, e abrir amplas vias aos seus cultores; mas tambem por
    diffundir o gosto dos estudos archeologicos, graças á elegancia do seu
    estylo, á lucidez dos seus argumentos, e sobretudo ao enthusiasmo com
    que falla dos grandes primores da arte antiga, e dos evplendores da
    civilisação grega e romana. D'essa benefica influencia originaram-se
    alguns dos mais ricos museus de antiguidades, que hoje existem, e muitas
    collecções partiticulares valiosas, que promoveram e facilitaram o
    estudo.

    Seguindo ousadamente os passos do erudito auctor da _Historia da Arte_,
    assignalaram-se após elle outros archeologos por distinctos serviços
    prestados á sciencia. O conde de Caylus classifica por ordem
    chronologica os monumentos das differentes edades, e penetra o segredo
    que produziu a maior parte das artes. O archeologo italiano Morcelli
    cria um systema regular para a classificação das inscripções, conforme o
    assumpto de que tratam, e para o estudo d'ellas, segundo o seu estylo. O
    celebre numismata padre Eckhel, jesuita allemão, coordena methodicamente
    a sciencia das medalhas; á qual o douto dinamarquez Rask accrescentou a
    ordem alphabetica. O sabio philologo e antiquario padre Passeri,
    italiano, que organisou o rico museu do grã-duque de Toscana, explica a
    um numeroso auditorio sob o portico de Lanzi, em Florença, com mais
    proficiencia do que o fizera Demspter, no seculo antecedente, os idiomas
    e os monumentos da Italia, anteriores á fundação de Roma.

    O descobrimento das ruinas de Herculanum deixára ajuizar de alguns usos
    e costumes dos romanos ainda mal conhecidos. Porém quando em 1755 se
    começou a levantar a espessa mortalha, que envolveu Pompeia em seu leito
    de morte durante 17 seculos, fazendo surgir do sepulchro uma cidade
    romana com as suas praças, ruas e casas guarnecidas e adereçadas
    interiormente, como na hora fatal em que as cinzas do Vesuvio a
    sepultaram no anno 79 da era christã, revelou-se aos olhos absortos dos
    antiquarios a vida publica e privada do povo romano com todos os seus
    usos e costumes, pois que só então foi bem conhecida uma infinidade de
    coisas e circumstancias, que eram inteiramente ignoradas.

    Accentuando-se cada vez mais os progressos da archeologia, o abbade
    Barthelemy, francez, reedifica a Grecia de Pericles, e Jorge Zoega,
    antiquario dinamarquez, começa a erguer o veu que occultava á sciencia o
    antigo Egypto. Napoleão Bonaparte emprehende a conquista d'este paiz, e
    as aguias francezas triumphantes abrem ignotos caminhos á archeologia, e
    patenteiam-lhe um immenso thesouro de preciosas reliquias da mais remota
    antiguidade. Vivant-Denon reproduz com o seu lapis habil e delicado, os
    soberbos monumentos do imperio dos Pharaós, e copía com escrupulosa
    exactidão, dos muros ennegrecidos pelo embate de tantos seculos, esses
    mysteriosos caracteres, que encerram, sob mil fórmas emblematicas, senão
    os annaes, a vida intellectual do antigo povo egypcio.

    D'entre um grande numero de sabios, que illustram a archeologia com os
    seus escriptos, Champolion descobre o alphabeto dos hieroglyphicos, e
    assim preenche uma lacuna de seculos, que a historia tinha deixado no
    esquecimento. Millin funda em 1792 o jornal _Magasin Encyclopedique_,
    por meio do qual derrama e popularisa os estudos archeologicos; publíca
    varias obras importantes sobre esta sciencia, e um _Diccionario de
    Bellas Artes_. Raoul-Rochette enriquece a litteratura franceza com o seu
    excellente _Curso d'Archeologia_, e entre outras publicações não menos
    interessantes, que fazem conhecidos e devidamente apreciados alguns
    sabios inglezes, italianos e allemães, Mr. A. du Caumont facilita e
    popularisa o estudo d'esta sciencia com seu precioso _Abecedario ou
    rudimentos da archeologia_.

    Os livros d'estes homens, de espirito elevado, dão um grande incitamento
    ás investigações archeologicas; e as descobertas dos testemunhos
    authenticos da existencia do homem na remotissima época quaternaria,
    trouxeram ao campo das discussões scientificas a origem da especie
    humana, e o seu viver nos tempos prehistoricos. Colleccionaram-se e
    patentearam-se ao publico os utensilios e instrumentos de que usaram os
    homens na sua idade primitiva, e que se iam descobrindo em excavacões
    casuaes ou feitas expressamente com esse intuito. E não tardou a
    reconhecer-se a conveniencia de se reunirem em congresso os homens que
    nos differentes paizes se dedicavam a estes estudos, para que da
    exposição das suas investigações, e das discussões de uma assembléa tão
    competente e auctorisada, se projectasse luz nas trevas d'esse remoto
    passado.

    Coube a mr. Desor, distincto naturalista, a honra de ser o primeiro a
    apresentar a idéa de um congresso internacional de archeologia
    prehistorica. Este pensamento enunciado em Paris, foi abraçado com
    enthusiasmo; porém antes que podésse ser realisado na terra, onde tivera
    origem, antecipou-se a Italia a encetar estas controversias.

    No outono de 1865 a sociedade das sciencias naturaes, reunida em
    Spezzia, occupou-se dos tempos prehistoricos. No anno seguinte reunem-se
    os archeologos de differentes paizes em Neufchatel, na Suissa, celebram
    o primeiro congresso internacional de archeologia prehistorica; tratam
    largamente do assumpto; ajustam e lançam as bases para a convocação do
    segundo congresso, que dá principio ás suas sessões em Paris, no anno de
    1867, ao mesmo tempo que se abre n'essa cidade a grande exposição
    universal, com uma secção intitulada _Historia do trabalho humano_, onde
    figuram productos variadissimos da industria humana de todos os paizes
    do globo, e de todas as épocas até ás primitivas da humanidade.

    Desde então entrou a archeologia em um periodo de verdadeira actividade
    scientifica, protegida pelos governos das nações mais cultas,
    reconhecida a sua importancia e justamente apreciada por todas as
    pessoas illustradas, qualquer que seja o rumo dos seus conhecimentos.

    V

    Portugal não tem tomado a parte activa, que lhe cumpria tomar, como paiz
    civilisado, e a quem tanto deve a moderna civilisação, n'aquelle
    movimento scientifico. Todavia, não se póde dizer que lhe tenha ficado
    estranho.

    Varias memorias, publicadas pela academia real das sciencias de Lisboa,
    provam que esta corporação se occupou, desde a sua instituição, de
    assumptos archeologicos, relativos á historia do paiz. Além disso
    n'estes últimos annos tem havido entre nós não poucos escriptores que se
    tem dedicado aos estudos archeologicos, e d'entre estes, alguns zelosos
    investigadores do que diz respeito aos tempos prehistoricos.

    Temos sido muito descuidados na formação de museus archeologicos, e é
    uma vergonha que não tenhamos um unico estabelecimento d'este genero,
    digno de ser exposto aos olhos dos estrangeiros illustrados que visitam
    o nosso paiz. E maior vergonha é que não exista, podendo e devendo
    existir, independentemente do recurso ás excavacões muito dispendiosas.
    Era bastante para constituir um museu de objectos archeologicos e
    artisticos, muito rico e variado, os milhares de objectos, producto do
    trabalho humano, em diffrentes edades, de remotas eras, em oiro, prata,
    bronze, vidro, barro e pedra, descobertos nas provincias do reino,
    sobretudo na Estremadura, Alemtejo e Algarve, desde o seculo XV, em
    excavacões casuaes, e muitos objectos preciosos e alfaias dos extinctos
    conventos.

    Por iniciativa, e póde dizer-se por unico esforço do sr. J. Possidonio
    Narciso da Silva, fundador e presidente da real associação dos
    architectos e archeologos portuguezes, deu começo esta associação no
    edificio da egreja gothica e arruinada do extincto convento do Carmo,
    onde se acha estabelecida, a um museu archeologico. Carece, porém, de
    muitas condições para preencher os fins a que são destinadas similhantes
    collecções, sendo uma das principaes, a organisação scientifica e
    chronologica, e conveniente collocação dos objectos alli reunidos. Devo
    accrescentar, porém, que achando-se alli todos os objectos accumulados e
    apertados por falta absoluta d'espaço; aquella organisação e conveniente
    collocação estão dependentes de uma obra importante e despendiosa; a
    cobertura das naves da egreja.

    Guardam-se em differentes estabelecimentos publicos de Lisboa, Porto e
    Evora, diversidade de objectos archeologicos e artisticos, que se
    estivessem reunidos formariam uma collecção mui curiosa, e de certa
    importancia. Tambem são dignas de menção as collecções de fosseis,
    instrumentos e utensilios prehistoricos da secção geologica, no edificio
    do extincto convento de Jesus.

    * * * * *

    Pois que fui mais prolixo do que desejava no quadro historico, que fica
    traçado, procurarei ser conciso nas noções geraes da sciencia
    archeologica, noções que mr. Du Caumont julgou desnecessario explicar
    n'este livro.

    A archeologia é a sciencia que tendo por fim, como o indica o seu nome,
    o estudo da antiguidade, nos ensina a conhecer o viver dos povos antigos
    por meio do exame e apreciação dos monumentos, que nos deixaram, e de
    todos os objectos, que d'elles nos restam como manifestação do seu
    engenho e do seu trabalho.

    A historia narra os successos, indica-lhes as causas, e aponta-lhes as
    consequencias. Julga do caracter e indole dos povos, e dos individuos
    que mais se assignalaram; e trata dos monumentos, como provas que
    mostram o seu desenvolvimento intellectual e industrial, e tambem como
    testemunha d'aquelles successos.

    A archeologia examina attentamente todos os productos materiaes, que os
    antigos povos nos legaram, e d'esse estudo minucioso, comparativo e
    philosophico, faz resaltar o conhecimento das idéas, da religião, dos
    usos e costumes, do desenvolvimento industrial e artistico, emfim do
    viver dos povos, aos quaes esses productos pertenciam.

    Portanto a archeologia faz importantes serviços á historia, não só
    esclarecendo-a, com a luz que derrama onde tudo é trevas, mas tambem
    completando-a com uma infinidade de noções e de objectos reaes, que nos
    apresentam um quadro verdadeiro da vida intima dos povos da antiguidade,
    que sem os esforços dos archeologos seriam ignorados ou apenas
    conhecidos superficialmente.

    A archeologia divide-se em tres partes, que a seu turno se subdividem:
    1.^a _litteraria_–2.^a _artistica_–3.^a _usual_. Comprehende a
    primeira toda a sorte de monumentos em que ha inscripções, quaesquer que
    sejam os seus caracteres e a materia que os contenha. Subdivide-se em
    _paleographia_, _diplomatica_ e _epigraphia_. A _paleographia_ ensina a
    decifrar as antigas escripturas em pergaminho ou em outra substancia com
    caracteres alphabeticos, ou ediographicos, ou signaes emblematicos, como
    os hyeroglyphicos dos egypcios, ou outros convencionaes. A _diplomatica_
    indica o modo de conhecer, pelos caracteres internos e externos, a
    authenticidade dos documentos. A _epigraphia_ trata da interpretação das
    inscripções gravadas em pedra, em metal, ou em qualquer outra materia.

    A _archeologia artistica_ trata de todos os monumentos da antiguidade,
    taes como edificios religiosos, civis e militares, e todos os generos de
    obras d'arte.

    Subdivide-se em _archeologia monumental_, que diz respeito ás obras
    d'architectura, d'esculptura e de pintura; em _iconographia_, que é o
    estudo dos bustos e dos retratos dos personagens historicos; em
    _numismatica_, ramo consagrado ao exame das moedas e medalhas; em
    _glyptographia_, que trata das pedras gravadas, representando quaesquer
    figuras; e, finalmente, em _archeologia usual_, que abrange toda a
    qualidade de alfaias, utensilios e instrumentos sagrados, domesticos,
    militares, funerarios, etc.

    São estas as divisões scientificas da archeologia. Porém, considerada
    relativamente ás grandes épocas da vida da humanidade, póde dividir-se
    em _archeologia prehistorica_, dedicada ao estudo das edades primitivas
    do homem, das quaes não restam memorias escriptas, nem gravadas, nem
    tradicionaes, existindo por unicos vestigios da sua passagem na terra
    alguns rudes monumentos, e utensilios e instrumentos não menos toscos e
    grosseiros, encontrados em escavações: em _archeologia dos antigos
    imperios orientaes_; em _archeologia classica_, ou _greco-romana_; e em
    _archeologia christã_, que comprehende o periodo desde o nascimento de
    Christo até á renascença das artes e letras.

    Emfim a archeologia é uma sciencia tão lata e complexa, que ainda
    precisa, para satisfazer cabalmente a sua importante missão,
    soccorrer-se a outras sciencias accessorias como são a _linguistica_, a
    _paleontologia_, a _geologia_, a _anthropologia_, e a _ethnologia_.

    J. DE VILHENA BARBOSA.

    PROLOGO

    N'este seculo, em que a civilisação tem caminhado progressivamente nas
    principaes nações, não podia esquecer por mais tempo um estudo que
    consiste em investigar o modo como começára a existencia da raça humana
    desde o berço até o seu simultaneo desenvolvimento, não só dos objectos
    necessarios para a defeza exterior, como em relação aos usos domesticos
    e habitações: conseguindo-se por este curioso estudo formar juizo seguro
    ácerca da existencia interior do viver e dos costumes dos primitivos
    habitantes da terra.

    Depois do cataclismo que passou o planeta em que existiram, e das lutas
    encarniçadas e continuas das differentes raças, as quaes se disputavam
    tenazmente a posse do territorio mais fertil e mais ameno, tendo muitas
    d'essas raças já desapparecido do mundo por inteiramente destruidas, e
    em outros se tenham confundido os elementos das suas respectivas
    nacionalidades, pois que nenhum d'elles nos deixou a historia escripta
    d'esses tempos remotos; a sua existencia rude e aventurosa não lhes
    proporcionavam o poderem cultivar a intelligencia, nem suavisar os
    costumes, para se dedicarem ao aperfeiçoamento intellectual: portanto,
    só pelos vestigios da sua imperfeita industria, os quaes se acham
    encerrados entre as camadas successivas da terra, só por diversos
    fragmentos, elles nos poderam revelar a sua vida social, e nos mostraram
    o grau de sua nascente civilisação. Assim formulâmos a historia, ainda
    que incompleta nos primitivos tempos da terra habitada, e descobrindo os
    segredos d'essa existencia, saberemos quaes foram os esforços da
    intelligencia humana desde o seu alvorecer.

    Quando os romanos se impozeram aos outros povos, e em repetidas
    conquistas ampliaram o seu dominio no antigo mundo, invadiram o
    territorio d'essas raças indigenas, e depois de renhidas batalhas o
    povo-rei subjugou-as, hasteando entre ellas a aguia romana; porém
    n'essas épocas já havia historiadores que nos deixaram as narrações de
    taes feitos: assim o estudo d'esses acontecimentos, não é tão difficil,
    porque não precisâmos de ir inteiramente á crusta terraquea pedir-lhe os
    seus segredos.

    A invasão dos barbaros do Norte veiu depois desapossar os romanos de
    suas conquistas, e a destruição que ella causou foi total, e de tal
    modo, que aos actos do elemento da parte mais feroz d'essas hordas se
    ficou chamando _vandalismo_. Se um cataclismo terrestre havia, pois,
    feito desapparecer antes os vestigios dos povos mais antigos do mundo,
    os barbaros do Norte não foram menos prejudiciaes por aniquilarem a
    civilisacão que os romanos haviam plantado na Europa.

    Todos conhecem a decadencia do Baixo-Imperio: as guerras continuas; o
    desprezo e o esquecimento da instrucção; até que appareceu um homem de
    animo forte e de intelligencia superior, que, apoderando-se do poder,
    formou um novo imperio, e pela sua sabedoria e por suas victorias
    alcançou a gloria de haver feito reviver o explendor da civilisação na
    Europa.

    A idade media foi fecunda em acontecimentos, que prepararam os povos
    para aguardarem uma era, em que os seus direitos e a sua civilisação
    triumphassem das arbitrariedades e dos vexames que soffriam; depois
    surgiu o renascimento das lettras e das artes, que foi o prenuncio da
    nova civilisação.

    Fica, portanto, reconhecida a necessidade de um estudo especial dos
    fragmentos e das ruinas dos antigos para formarmos, como já dissemos,
    justa idéa dos usos, costumes e crenças dos primeiros habitantes do
    mundo, e principalmente dos que existiram na Europa, muito mais
    interessante para nós, por vivermos no territorio occupado por elles.
    Poderemos d'este modo dirigir os nossos especiaes estudos para a
    Lusitania, e entrar nas mais minuciosas investigações com respeito aos
    tumulos, ás fortificações, aos templos, aos ornatos, ás habitações, a
    tudo emfim que determina e constitue a sciencia da archeologia, com a
    qual supprimos a falta da historia escripta.

    Foram os allemães, os inglezes e os francezes os primeiros que trataram
    d'essas curiosas investigações; e os sabios que se dedicaram a taes e
    tão uteis estudos, principalmente Mr. de Caumont, e outros, que
    publicaram obras de grande merito, são dignos da nossa admiração e do
    nosso reconhecimento, porque, procurando as origens da industria humana,
    nos revelaram interessantes conhecimentos, que não só serviram para
    coordenar a historia das épocas mais remotas, mas tambem para estimular
    o desejo de conservar as antiguidades que estavam dispersas e
    desprezadas, attestando ignorancia e incuria.

    Em Portugal nunca se pensara n'este ramo de instrucção, posto que em
    alvará de 14 de agosto de 1721 se ordenasse que se fossem colligindo as
    informações indispensaveis e se adquirissem objectos antigos, que
    facilitassem o estudo da archeologia, porém ficou em letra morta; e
    tanto assim que só em 1864 se organisou o primeiro museu archeologico,
    por iniciativa da pessoa que escreve estas linhas, fazendo o governo
    para esse fim a concessão das ruinas da monumental egreja gothica do
    Carmo, de Lisboa, onde tambem depois estabelecemos em annos successivos
    um curso ácerca da historia geral da architectura.

    Como quer que seja, a sciencia da archeologia não fôra cultivada entre
    nós methodicamente, e por isso não deve estranhar-se que não apparecesse
    até hoje, em Portugal, alguma obra elementar que auxiliasse o seu
    estudo. Para supprir tal falta, ousamos nós mandar imprimir um resumido
    trabalho, que comprehende a descripção dos objectos antigos, desde a
    edade de pedra até ao seculo XVII, tomando para norma a notavel obra do
    sr. de Caumont, o qual, além de distinguir-nos com a sua apreciavel
    amisade, nos auctorisou a servirmo-nos dos seus admiraveis trabalhos; e
    já que nos é licito honrar-lhe aqui a memoria gloriosa, sejam estas
    paginas consagradas ao illustre fundador da sciencia archeologica em
    França, como levantado a um dos testemunhos da nossa veneração.

    No volume, que vamos publicar, e cujos fundamentos lançámos haverá sete
    annos, estão illustrados corn gravuras numerosas, mais de 300 no texto,
    as passagens em que se tornava indispensavel esse meio de observação;
    seguindo, quanto possivel, a obra do sr. de Caumont, como já indicámos,
    procuramos ao mesmo tempo amplial-a com as explicações das antiguidades
    encontradas em Portugal, interessando assim ainda mais os nossos
    compatriotas.

    Suppomos que este livro poderá ser tambem de proveito nas nossas
    escolas, onde é tão geralmente reconhecida a necessidade de livros
    especiaes, que fallem aos alumnos de assumptos que são hoje do dominio
    de uma educação liberal; assim se tornarão adeptos do estudo e da
    sciencia archeologica, que lhe fornece as primeiras bases, para que
    sejam outros tantos propagandistas da conservação da nossa arte e das
    nossas preciosidades archeologicas.

    Apezar de ser trabalho complexo e difficil, não só para a nossa limitada
    intelligencia, mas tambem pelos escassos recursos de que podemos dispor
    para uma publicação d'esta ordem, o nosso vivo desejo de divulgar o
    gosto pela archeologia, de satisfazer ao constante empenho em estimular
    o estudo d'esta sciencia indispensavel para bem avaliar a historia da
    arte em Portugal, sirva comtudo de attenuante ás faltas que houvessemos
    de commetter. E tambem, digamol-o, ficam aqui os cimentos de obra mais
    perfeita e de maior tomo para os que possam lançar-lhe hombros mais
    robustos e intelligencia mais apurada. Os que prezam o trabalho e amem o
    estudo relevem a nossa ousadia, e deitem-a á conta da boa vontade e da
    sinceridade com que sempre tentámos bem servir a patria.

    17 de Maio de 1877.

    NOÇÕES ELEMENTARES DE ARCHEOLOGIA

    * * * * *

    CAPITULO I

    *Tempos prehistoricos*

    Chamaram _prehistoricos_ aos tempos antigos de que não existe historia
    escripta.

    Desde os tempos mais remotos, apparece um longo periodo sem historia
    escripta, nem elementos positivos, durante o qual tentamos encontrar o
    progresso e o desenvolvimento da humanidade, unicamente por vestigios
    mais ou menos incompletos.

    O archeologo tem que tomar a penna do historiador e procurar deduzir
    algumas _probabilidades historicas_, com observação escrupulosa dos
    factos averiguados. Os antiquarios modernos têem-se dedicado com
    entranhado amor a este genero de investigações.

    Estabeleceram na historia pertencente á existencia do homem, _anterior
    ás épocas conhecidas_, tres grandes phases, ou estancias, a saber:

    Idade de Pedra
    Idade de Bronze
    Idade de Ferro

    A fundição, ou reducção dos metaes, é uma operação difficil, que foi de
    certo por muito tempo desconhecida: os povos atrazados na civilisação
    deviam fabricar os objectos de que tivessem necessidade para a propria
    defensa e para a caça, assim como para os usos communs da vida,
    empregando pedras rijas, como é o silex (pedreneira), os ossos dos
    animaes, ou a madeira.

    O extraordinario numero de descobrimentos feitos nos diversos paizes,
    principalmente em França, na Suissa, na Inglaterra, e na Dinamarca,
    confirmou esta supposição.

    As collecções dos museus contém quantidade consideravel de pontas de
    frechas, facas, machados, feitas com pedreneira e em rocha rija: grande
    numero de instrumentos de osso, ou de pedra, se tem achado em
    differentes partes, e esses instrumentos conservam-se quasi intactos
    dentro do solo, onde estavam occultos. O periodo secular em que os
    metaes não estavam ainda em uso recebeu, pois, a denominação de _idade
    de pedra_.

    As melhores qualidades de rochas para fabricar os instrumentos
    cortantes, eram o silex (pedreneira), _felds-pathicas_, o _petrosilex_
    verde, e algumas variedades de _porphyro_; porém o silex tem sido, como
    parece, a pedra mais constantemente empregada, e talvez a mais facil de
    preparar a forma requerida.

    Seguramente, se dermos com certa precaução uma martellada sobre um
    fragmento de silex, de forma alongada, esse silex estalará, e a pedra
    que se desligue tomará logo a forma conoidal; ficará chata de um dos
    lados, mostrando do outro uma aresta viva. Podiam-se fazer por este
    modo facas de pederneira, de que em diversas localidades se tem
    encontrado centenares de modelos.

    [Figura 1]

    Fazendo-se estalar esta qualidade de pedra repetidas vezes com certa
    habilidade, podem-se fabricar machados, pontas para flechas e outros
    instrumentos do genero d'aquelles de que apresentamos os desenhos n'esta
    pagina.

    Os objectos pertencentes á _idade de pedra_ e á _idade de bronze_ tem
    sido encontrados, principalmente nos _tumulos_, nas cidades _lacustres_,
    em algumas _cavernas_, antigamente habitadas.

    Examinemos os depósitos que indicamos, porque nos offerecerão, segundo
    recentes explorações, matéria variada e curiosa para o nosso estudo.

    *Tumulos*

    Os tumulos ou sepulchros, compõem-se d'um recinto central formado de
    pedras de rocha de grande dimensão, no qual se entra geralmente por um
    corredor de egual construcção, estando tudo encerrado em immenso montão
    de pedras e terra.

    Quer fosse porque estivesse com imperfeição o recinto central encerrado
    no meio do outeirinho factício; quer, o que parece mais natural, porque
    se servissem _da terra_ ou _das pedras dos tumulos_ em época posterior,
    muitas vezes foram encontrados os pedregulhos que formam a parte central
    sem a terra que os cobria e quasi completamente separados; então n'este
    caso chamavam-se Antas (dolmen).[1]

    [Figura 2: Vista exterior de um tumulo]

    Os defuntos eram depositados com os seus corpos inteiros e em geral
    apresentavam-os _sentados_ e encostados nas paredes do recinto central,
    tendo junto de si os machados e outras armas de pederneira; algumas
    vezes vasos de barro toscamente fabricados, e outros objectos de uso
    commum.

    Veja-se o desenho n.^o 2, de um tumulo completo; o n.^o 3, um tumulo
    aberto com dolmen; o n.^o 4, um dolmen completamente desguarnecido; e o
    n.^o 5, a perfeita Anta de Guitamães, em Vianna do Castello.

    [Figura 3: Vista interior de um tumulo]

    [Figura 4: Dolmen central de um tumulo]

    Varios antiquarios tinham tomado os dolmens desguarnecidos de tumulos
    por _altares druidicos_, porém ao presente esta ideia está quasi
    desprezada, por falta de provas positivas.

    O cobre com liga que lhe dá maior rijeza, foi empregado depois da
    pederneira, ou conjunctamente com ella, quando os nossos antepassados
    aperfeiçoaram esta industria e conheceram o modo de derreter os metaes.

    [Figura 5: Anta de Guitamães (Minho)]

    Os principaes objectos de bronze, foram os _machados_, as _pontas das
    lanças_, as _espadas_, os _punhaes_, as _facas_, os _anzoes_, as
    _fouces_, os _alfinetes_, os _anneis_, os _braceletes;_ estes objectos
    fundidos, muitas vezes com formas elegantes, apresentavam em todos os
    paizes o mesmo feitio, tanto na Dinamarca como em França, e na
    Inglaterra; e isso nos convence de que os typos tradicionaes, talvez
    imitados do mundo antigo pelas nações civilisadas, e trazidos para a
    Europa occidental em época que não se pode fixar, foram reproduzidos sem
    alteração, em moldes apropriados.

    [Figura 6: Fachada do Dolmen de Bournan]

    [Figura 7: Plano do Dolmen de Bournan]

    Esta época importante da historia dos progressos da humanidade rasgou
    bom horisonte no prolongado periodo prehistorico: d'ahi proveio a
    denominação de _idade de bronze_. O difficil era saber-se, por inducção,
    quando e como o bronze apparecera nos paizes septentrionaes.

    Ha annos, o sr. Worsaæ e os antiquarios dinamarquezes publicaram que
    os tumulos da idade de pedra continham compartimentos centraes, conforme
    descrevemos; nos quaes se depositavam os cadaveres sentados, com os
    joelhos juntos á barba e os braços cruzados no peito; em quanto os
    tumulos da idade de bronze não apresentavam esse compartimento
    reservado, sendo construidos com grandes pedras e os outeirinhos,
    compostos de terra e de pequenas pedras, não encerravam cadaveres, mas
    tamsomente as cinzas dos finados, depositadas em vasos de barro; muitas
    vezes appareciam acompanhados de objectos de bronze e ás vezes de ouro.
    Inferia-se d'estas differenças, que os instrumentos de bronze haviam
    sido trazidos por uma raça que invadira, absorvera e talvez aniquillara
    a indigena; raça que teria costumes diversos, armas superiores e
    civilisação mais adiantada que a subjugada.

    Acceitando-se este facto, a idade de bronze seria inaugurada na Europa
    occidental por um povo conquistador em época desconhecida.

    Os objectos de barro não nos guiam suficientemente n'esta exploração. Os
    que foram achados com os instrumentos de bronze são de fabrico
    grosseiro, mal cosidos, e por seu feitio, ornatos e as substancias que
    os compõem, simelham-se muito com os vasos de barro achados nos
    sepulchros que encerravam unicamente objectos de pedra. N'esses diversos
    tumulos raramente se viam vasos com azas; á forma dos gargalos parecia
    não ser conhecida, nem o seu uso; consistindo apenas a ornamentação em
    linhas em direcções diversas; ou ponteado concavo, ou emmoldurado em
    xadrez.

    Além d'isso, a pederneira era ainda de uso geral na idade de bronze, e
    muitas vezes se tem encontrado objectos de pedra e instrumentos de
    bronze nos mesmos tumulos; facto que poderia explicar-se admittindo-se
    que servira successivamente para sepultura em differentes povos.

    Acharem-se cinzas no logar dos cadaveres sentados, pareceu sufficiente
    caracteristico da idade de bronze, pois que nos tumulos, que encerravam
    objectos de metal, havia poucos exemplos de se fazer enterramento na
    posição _sentado_, e essa pratica caracterisa a idade de pedra.

    Tem-se, comtudo, encontrado na mesma sepultura esqueletos sentados na
    proporção de 20 por cento, talvez como demonstração, segundo o sr.
    Lubbock, dos ultimos representantes das gerações passadas que tivessem
    apego aos antigos usos.

    *Habitações lacustres*

    Precisamos de expôr, em primeiro logar, o que se entende por cidades
    _lacustres_.

    Ha annos notava-se em muitos lagos da Suissa, abaixo do nivel natural
    das aguas, estacarias em grupos consideraveis; o dr. Keller, de Zurich,
    socio da sociedade de archeologia franceza, estudou com attenção esses
    vestigios, que por grandissima diminuição das aguas ficaram visiveis; e
    declarou depois, que os primeiros habitantes da Suissa estabeleciam por
    vezes as suas casas em cima da agua, como praticavam algumas tribus da
    antiguidade, e até como fazem ainda alguns povos modernos. Tal
    descobrimento causou sensação entre os antiquarios; muitos observadores
    se dedicaram depois com grande solicitude a explorar o fundo dos lagos,
    nos logares das cidades lacustres indicadas pela presença da estacaria.
    Estas investigações foram proficuas. Poderam-se tirar, servindo-se de
    dragas, grande numero de fragmentos de objectos de barro, e outros
    utensilios, os quaes, comparados com os que foram encontrados nos
    tumulos, reconheceu-se pertencerem tambem a identica civilisação.

    Varias outras estancias lacustres foram depois descobertas na Suissa;
    contaram-se até 32 no lago de Constance; 46 no de Neufchâtel; além das
    que se viram nos de Genebra, de Inkwill, de Pffikon, de Luissel etc.,
    etc. Ainda que nem todas pertençam á idade de bronze ou de pedra, e que
    muitas pareçam ser do tempo da idade de _ferro_, e do periodo romano,
    todavia o maior numero é das idades de pedra e de bronze.

    Os museus de Lausanna, de Genebra, de Neufchâtel e outros, tem
    collecções completas dos objectos chamados _lacustraes_, por causa de
    terem sido conservados por séculos debaixo das aguas.

    Os habitantes das cidades lacustraes achavam sem duvida recursos
    alimentícios na pesca, mas estabeleceram as suas habitações sobre a agua
    para se collocarem ao abrigo dos ataques das feras, ou dos roubos das
    tribus visinhas. Era facil separar inteiramente essas povoações fluviaes
    levantando para isso as pontes, que lhes serviam para communicarem com
    as margens.

    Segundo o estudo das ossadas dos animaes recolhidos pela draga, e de
    diversos fragmentos, conheceu-se que então já havia seis especies de
    animaes domesticados que deviam servir para o alimento dos habitantes; e
    entre essas, encontraram-se restos de veados, bois, de duas formas,
    porcos, cães, cabras e cavallos, notando-se porém que havia poucos
    vestigios do cavallo e da cabra.

    *Cavernas*

    As excavações dirigidas por varios geologos em diversas localidades,
    deram em resultado encontrar-se nas cavernas consideravel numero de
    objectos devidos á industria das raças primitivas, incluindo as da época
    do diluvio, assim como os machados de pederneira, toscamente fabricados,
    e outros instrumentos de silex e osso, e em parte envolvidos com ossadas
    de animaes giganteos, que já hoje não se encontram.

    Os objectos de silex e osso, pela maior parte, parece pertencerem á
    idade de pedra, e provirem das epocas mais remotas da humanidade. Mas
    deve notar-se que sempre apparecem misturados com esses utensilios do
    homem, restos de animaes, que se não encontram hoje, e que pertencem á
    formação do terreno _quaternario_, considerado até então como anterior
    ao apparecimento do homem.

    O descobrimento de uma queixada humana no saibro do Moulin-Quignon,
    proximo de Abbeville, na França, veio estratigraphicamente confirmar
    taes conjecturas e indicações. Embora isto seja do dominio da geologia e
    da paleontologia, os factos novamente averiguados são de summo
    interesse, pois que comprehendem a idéa de indeterminada e espantosa
    antiguidade em que o homem vivia no estado quasi selvagem: não é
    difficil acreditar que assim acontecesse, quando pensarmos na situação
    actual dos povos de Africa central, dos naturaes da America, quando foi
    descoberta, e dos habitantes das ilhas da Oceania. O homem que vive
    isolado, sem communicação com os povos mais adiantados que elle, poderá
    ficar muito tempo no mesmo grau de civilisação; como aconteceu em o
    nosso continente antigo, em quanto os romanos levavam o luxo até o
    extremo, havia então em o Norte, onde já chegam hoje os caminhos de
    ferro, povos semi-selvagens que não tinham participado em cousa alguma
    dos progressos do povo rei; e comtudo deviam depois repartir entre si os
    seus despojos e gosar da sua civilisação.

    Podemos, portanto, admittir que houve por longos annos na Europa, nas
    margens dos rios, uma raça de caçadores e pescadores, e que nos bosques
    existiam o _mammouth_, _o rhinoceronte_, animaes que podiam resistir á
    baixa temperatura que n'essa época era propria em nossa região.
    Julga-se, com fundamento, que tal raça de homens vivia como succede hoje
    entre alguns esquimaus, e como os laponios viveram seculos antes.
    Acrescentaremos que a flora fossil parece mostrar que as modificações
    occorridas na forma por effeito das mudanças climatericas, tiveram os
    seus equivalentes no mundo vegetal antigo.

    Os principaes monumentos dos tempos prehistoricos são, conjuntamente com
    os tumulos, dos quaes já tratamos:

    Os _peulvans_ ou pedras cravadas na terra;

    Os monumentos compostos com pedras similhantes, taes como os
    _alinhamentos_;

    Os circulos formados de pedras, e os recintos simplesmente de terra.

    As pedras oscillantes são pedras de extraordinario peso sobrepostas a
    outras e collocadas em equilibrio, mas que ao menor impulso se fazem
    mover: existem algumas em França, porém na Inglaterra o maior numero. No
    Alemtejo, proximo de Alter do Chão, ha uma d'esta qualidade.

    *Pedras erguidas*

    [Figura 8: Pedras Erguidas]

    As pedras erguidas[2] que se designam egualmente com os nomes de
    _Menhirs_, _Peulvans_, _Pedras cravadas_, etc., são pedras toscas de
    forma esguia ou conica implantadas verticalmente na terra, como se
    collocam os marcos. A sua altura varia desde 2 a 6 metros, ou mais; ás
    vezes estão cravadas de maneira que a extremidade menos grossa fica para
    baixo, e a mais volumosa para cima, como se estivessem sustentadas n'um
    pião. Outras estão simplesmente postas no solo, em logar de serem
    cravadas na terra, porém, é preciso não confundir estas pedras com
    vários pedregulhos _erraticos_, ou que se encontram em posição vertical
    e podem estar assim naturalmente collocados.

    [Figura 9: Alinhamentos de pedra era Ardeven]

    _Alinhamentos_.–Os alinhamentos são formados de pedras esguias. As
    pedras, alinhadas com mais ou menos regularidade, mais ou menos
    intervallos entre si, formam algumas vezes uma única fileira. Umas
    tambem se encontram postas em duas, tres, quatro ou maior numero,
    conservando-se em linhas parallelas. Estas especies de avenidas
    pedregosas são delineadas commummente na direcção de Leste a Oeste, ou
    do Norte a Sul.

    Outras vezes as pedras são substituidas por trincheiras ou fossos de
    terra. Tem-se encontrado em algumas partes, posto que raramente,
    terrados parallelos na direcção de Leste a Oeste, e do Norte a Sul, que
    apresentam, em quanto á disposição, muita analogia com os alinhamentos
    de pedras e parece terem tido o mesmo destino.

    Os alinhamentos de pedras mais notaveis e mais vastos que se conhecem em
    França, são os de _Karnac_, de _Ardeven_, e de _Penmarch_. Compõem-se de
    mais de 1:200 pedras toscas em 11 filas parallelas com 763 toezas de
    comprimento, e 47 de largura. As mais elevadas tem 18 a 20 pés, e as
    mais pequenas 4 a 5. Ha entre ellas algumas de volume tão extraordinario
    que lhes avaliam o pezo em 70 a 80 milheiros.

    Os alinhamentos de _Ardeven_ estão dispostos regularmente em filas
    parallelas, tambem na direcção do Norte para o Sul, e no espaço de 3
    kilometros de extensão.

    *Circulos*

    Outra combinação de pedras erguidas toma a forma de circulos, que têem
    sido designados pelo nome de _cromlecks_.[3]

    [Figura 10: Circulo de pedras]

    Os maiores d'estes circulos existem em Inglaterra; um d'elles, o vasto
    circulo de Avebury, em Wiltshire, está totalmente destruido; porém ainda
    houve quem o visse quasi completo por 1713; compunha-se de 660 pedras, e
    achava-se situado no meio de uma planicie, ficando-lhe o terreno em
    declive de todos os lados, como pode vêr-se na gravura junta.

    [Figura 11: Restauração do monumento d'Avebury.]

    O circulo exterior era formado de 100 pedras de 15 a 16 pés de altura,
    collocadas a 27 pés umas das outras; tinha perto de 1:300 pés de
    diametro, e via-se cercado de profundo fôsso, contornado exteriormente
    por larga trincheira de terra.

    Este grande circulo continha dois circulos mais pequenos, compostos cada
    um de dois renques concentricos de _peulvans_, do qual um tinha 30
    pedras, apresentando um diametro de 466 pés; e o outro 12 pedras, com o
    diâmetro de 186 pés.

    O monumento de Stone-Henge[4] está situado a 6 milhas de Salisbury, em
    uma eminencia, na proximidade da qual se encontram muitos _tumulos_; é
    composto de 4 circulos concentricos, dos quaes os dois maiores são
    circulares, em quanto os outros dois mostram a forma um tanto elliptica.

    [Figura 12: Vista de Stone-Henge, proximo de Salisbury]

    O circulo exterior tinha quasi 97 pés de diâmetro; e compunha-se
    primitivamente de 30 pedras erguidas com altura de 10 a 12 pés,
    collocadas a 1 metro de distancia umas das outras; estas 30 pedras
    sustentavam egual numero de impostas ou pedras collocadas
    horizontalmente que se ligavam nas extremidades e formavam d'este modo
    uma especie de balustrada tosca.

    O segundo circulo ficava a 9 pés do precedente, era formado de 29 pedras
    esguias sem impostas, e por metade da grandeza das do circulo exterior:
    apenas 19 estavam erguidas haverá 38 annos.

    O terceiro circulo, a 13 pés do precedente, apresentava uma illipse
    tendo o pequeno eixo 52 pés, e o maior quasi 55; formado por
    _trilithos_[5] de grande dimensão, o mais elevado, dos quaes tinha 22
    pés de altura.

    Finalmente, o circulo central tambem um pouco elliptico, compunha-se de
    20 _peulvans_ com a altura de quasi 6 pés.

    [Figura 13: Disposição dos renques de pedras em Stone-Henge]

    Na extremidade oriental do oval, dentro do ultimo circulo, havia uma
    pedra medindo 16 pés de comprimento e 4 de largura, posta em plano na
    terra, e que se suppõe serviria de altar.

    As pedras esguias que compunham estes quatro circulos eram quasi todas
    mais largas na base que no vertice; tinham sido cravadas em cavidades
    abertas em rocha de natureza graphite, e havia o cuidado de as
    consolidarem calcando-as com fragmentos de pederneira em volta das
    cavidades.

    Um largo fôsso de 30 pés, collocado entre duas trincheiras, formava o
    quinto recinto circular á roda das pedras do circulo exterior.

    A Dinamarca, a Noruega e a Suecia, conteem certo numero de _cromlecks_,
    quasi todos circulares ou ellipticos, apresentando geralmente uma pedra
    no centro, que se suppõe ter servido de altar.[6]

    Acredita-se que estes monumentos nem sempre foram usados nas ceremonias
    religiosas.[7] Na infancia dos povos, os logares consagrados ao culto
    deviam servir tambem para tribunal de justiça, assim como para ponto de
    reunião dos conselhos patriarchaes ou de notaveis, que tratavam dos
    interesses da nação, das eleições, das inaugurações, etc.

    Em o Norte, os nobres reuniam-se antigamente dentro de recintos
    circulares formados de pedras, para elegerem os seus principes, até a
    promulgação da Bulla de Ouro pelo imperador Carlos IV, em 1356. O
    circulo de pedras, no qual Eric foi proclamado rei da Suecia, existe
    ainda proximo de Upsal; uma grande pedra toma o centro, como em outros
    recintos d'aquelle paiz. Outrotanto se praticava na Irlanda e na
    Escossia.

    Taes são os principaes monumentos de pedra dos tempos prehistoricos.
    Accrescentemos que o vulgo lhes attribue origens fabulosas, como obra de
    um ente colossal chamado _Gargantua_; que a tradicção os tem indicado
    como encerrando preciosos thesouros; abrigos de fadas, de almas do outro
    mundo, e dos espiritos que as acompanham!

    *Recintos formados com terra*

    Estes recintos consistem em um _vallum_ de terra, ás vezes misturada de
    seixos, circumdando extensões mais ou menos consideraveis e cujas formas
    são mui variadas. Poder-se-hia attribuir essa especie de claustros á
    outra época do que a que corresponde aos tempos prehistoricos, se não
    houvesse tumulos encerrados no _vallum_, ou levantados proximo d'elles,
    o que faz suppôr que serão contemporaneos.

    *Architectura dos tempos prehistoricos*

    Pouco sabemos acerca de qual seria a architectura anterior ao dominio
    dos romanos. Presume-se porém que nas primitivas construcções
    empregariam a madeira e o barro.

    As habitações eram circulares, construidas com madeiras e vimes
    enlaçados.

    No interior faziam as divisões com terra; o telhado formavam-n'o de
    ripas de carvalho ligadas com massa de argila e palha cortada, conforme
    os vestigios encontrados na Gallia, na Bretanha, na Germania, em
    Hespanha e Portugal.

    De investigações feitas em França e na Inglaterra, conheceu-se que
    muitas habitações dos celtas tinham antes a forma oval do que redonda, e
    algumas vezes rectangular; mostravam alicerces de pedra secca, e muitas
    eram construidas em nivel inferior ao solo que as circumdavam, quer
    fosse para se resguardarem dos rigores do clima, ou quer para não darem
    ás paredes altura consideravel.

    Estas casas estavam em relação com a simplicidade dos costumes; deviam
    ter um só andar, e apresentavam uma só abertura, que servia de porta e
    janella.

    Em todas a forma era egual, mas as dimensões divergiam. O numero e a
    grandeza das casas deviam corresponder á cathegoria e opulencia dos
    possuidores.

    Os gaulezes abastados tinham sempre junto de si séquito para o qual
    necessitavam de grandes habitações. Escolhiam portanto o terreno para
    ellas nos bosques e perto dos rios, ou em eminencias, afim de servirem
    egualmente de fortalezas para a propria defensa.

    *Utensilios e instrumentos diversos*

    Em época, que não podemos determinar, os nossos antepassados souberam,
    que o estanho combinado com o cobre produzia uma liga mais rija e mais
    pesada que estes dois metaes separados; as analyses que o celebre
    mineralogista Clarke repetidas vezes fez em Inglaterra, e aquellas que
    se fizeram em França, demonstraram que sobre 100 partes quasi todos os
    bronzes antigos contem 12 de estanho e 88 de cobre; porém que esta
    proporção não é constante, e que a quantidade de estanho ou de chumbo
    combinada com o cobre, varia ás vezes desde 4 até 15 por 100.

    Mr. Clarke verificou que os antigos bronzes descobertos na Grecia, no
    Egypto e em algumas partes da Asia,[8] continham a mesma quantidade de
    estanho (88 e 12): sendo esta a proporção necessaria para se obter o
    _maximum_ de densidade resultante d'estes dois metaes.

    Os machados de bronze, que tem sido encontrados em grandissimo numero em
    toda a parte e que se vêem em quasi todas as collecções,[9] apresentam
    entre si differenças notaveis; os typos que damos são os mais
    conhecidos. Estes machados teem um olhal nos lados, e existem de
    diversos tamanhos; as faces lateraes são de feitio de uma folha
    lanceolada sobre o comprido, na qual se vê o vestigio da juncção das
    duas peças do molde em que o instrumento foi vasado.

    Em Portugal descobriu-se um muito singular, não só por suas grandes
    dimensões, mas por ter _dois olhaes_, o que o torna raro no seu genero.

    [Figura 14a]

    [Figura 14b]

    [Figura 14c]

    [Figura 14d]

    Estes machados deviam encavar-se de duas maneiras: n'uns, o cabo entrava
    de espiga n'uma cavidade central _a_, _b_; n'outros, dar-se-lhe-hia a
    forma de palmeta para entrar nos dois lados do instrumento no logar
    preparado _c_; algumas vezes as bordas delgadas e salientes que formavam
    a parte ôcca ficavam reviradas sobre si, por modo a formar uma especie
    de calha _d_, apropriada para conservar a parte encavada.

    *Moldes para machados*

    Os machados de bronze foram sem duvida fundidos em moldes compostos de
    duas peças symetricas, pouco mais ou menos como os que ainda hoje são
    empregados na fundição das colheres de estanho.

    [Figura 15: Molde aberto]

    [Figura 16: Molde fechado]

    É provavel que alguns d'estes moldes fossem de terra ou de pedra; porém
    o maior numero dos que se conservam nos museus são de bronze, fundidos
    egualmente como os machados.

    O primeiro molde para machados celticos que chamou a attenção dos sabios
    foi descoberto na Inglaterra em 1779. Encontraram-se depois em muitas
    partes da França, principalmente na Normandia.

    Estes moldes compôem-se de duas peças ôccas, que se podem juntar e unir
    sem se desconcertar, por meio de uma parte saliente chamada _macho_ que
    está na virola do molde de uma das peças, e se encaixa na fenda
    praticada na virola da outra peça.

    _Espadas de bronze_.–As espadas de bronze compõem-se de lamina e cabo
    (punho). São de folhas direitas, chatas, mas reforçadas no centro da
    lamina, e ás vezes ainda com bojo no espaço comprehendido nos dois
    terços da folha. Cortam dos dois lados e tem ponta aguda.

    A largura de lamina quasi sempre é de pollegada e meia ou duas
    pollegadas na parte mais larga, sendo a sua maior grossura de um quarto
    de pollegada.

    No punho ainda algumas tem os pregos de bronze que haviam servido para
    segurar a guarnição.

    As espadas eram tambem fundidas, e o metal identico ao empregado nos
    machados.

    [Figura 17]

    _Punhaes de bronze_.–Estas armas parecem-se com as espadas, exceptuando
    a lamina que é mais curta. O comprimento de alguns é de 10 a 14
    pollegadas, e a largura da folha de 2 a 21/2 pollegadas na base.

    _Pontas de lança_.–Juntamente com as armas que descrevemos,
    encontram-se de vez em quando pontas de lanças e objectos que foram
    considerados como especies de virolas ou ferragens para guarnecer a
    parte inferior da hastea.

    _Rodeias ou collares (torques)_.–Affirmam alguns historiadores que os
    gaulezes traziam collares ou _torques_, como tambem braceletes e argolas
    nos braços.

    [Figura 18]

    O collar era egualmente usado pelos gregos e romanos, e outros povos;
    talvez não haja outro ornamento de uso mais antigo, nem mais geral.

    Deve-se distinguir entre os _torques_; em primeiro logar, os que são
    formados de muitas peças encadeadas e enfiadas em especie de rosarios de
    perolas grossas de ambar, de azeviche, de vidro colorido, etc., como se
    encontraram dentro de alguns _tumulos_; e depois as cadeias, cujos elos
    são de ouro ou bronze. Em segundo logar, os _torques_, compostos de uma
    unica peça de metal (ouro, bronze, etc.) arqueada de maneira a formar
    circulo do diametro mais ou menos consideravel, e muitas vezes com
    lavores. Em muitos _torques_ as duas extremidades da peça metalica não
    estão soldadas, porém o metal offerece bastante flexibilidade para
    facilitar mettel-as nos punhos, podendo-se unir ou abrir,
    independentemente do fecho; outros _torques_ não apresentam nenhuma
    d'estas formas.

    [Figura 19]

    Appareceram tambem chapas de ouro bastante delgadas com feitio de
    meias-luas, porém cujas pontas estavam arqueadas de modo a formarem
    circulo quasi perfeito. Vêem-se, aos lados e nas extremidades de algumas
    d'estas peças, festões e molduras.

    [Figura 20]

    O pequeno intervallo que separa as duas pontas do crescente não nos faz
    suppôr que este enfeite servisse para se trazer em volta do collo;
    provavelmente ficava suspenso por uma corrente.

    Alguns instrumentos achados por varias vezes nos sepulchros, ou junto
    dos dolmens, em França e mais frequentemente na Irlanda, consistiam em
    hastea de ouro arqueada tendo nas duas extremidades um disco, em alguns
    chato, em outros levemente concavo.

    [Figura 21]

    Ignora-se absolutamente para que uso seriam destinados.

    Finalmente, o objecto seguinte, uma especie de _gargantilha_ formada de
    uma folha de ouro mui delgada, foi achado em França em diversas
    localidades.

    [Figura 22: Collar de ouro descoberto em França]

    As _moedas_ chamadas _celticas_ são provavelmente em parte
    contemporaneas dos ornamentos ou enfeites que descrevemos acima.

    *Objectos de barro*

    São tanto mais difficeis de se distinguirem os _objectos de barro
    celticos_, com excepção dos que se tem encontrado nos _tumulos_, quanto
    em algumas partes estão muitas vezes misturados com outros similhantes
    aos do tempo dos romanos; visto que os mesmos sitios foram habitados
    antes e depois da conquista de Cezar na Peninsula.

    [Figura 23]

    Os objectos de barro descobertos nos _tumulos_, são formados de terra
    preta, mal preparada e com pequenos seixos, o que produziu massa pouco
    solida. Os seus fragmentos são frageis, e não foram cozidos
    sufficientemente; a parte quebrada não mostra arestas vivas, mas sempre
    cheias de cavidades. As superficies d'essas peças, tanto na parte
    interna, como na externa, tem côr quasi egual á do ferro ferrugento;
    porém na parte interna é de negro carregado. Expostas á acção do lume
    tomam exteriormente a côr avermelhada do tijolo; em quanto no interior
    ficam negras, e mais frageis depois d'esta operação.

    [Figura 24: Vasos achados nos tumulos de Inglaterra, Hollanda e outros
    paizes]

    Esses vasos não parece terem sido feitos com auxilio do torno, e não
    apresentam nenhum moldado ou borda; foram unicamente alisados na parte
    exterior com um objecto qualquer, que lhes deu lustro irregularmente, de
    maneira que mostram na superficie altos e baixos, mais ou menos lisos,
    conforme vai indicado na gravura junta.

    Os que foram encontrados nas cidades _lacustras_, mostram inteira
    similhança e caracter no fabrico. A massa não está solidamente ligada,
    por ter algumas partes de pederneira; a côr é preta ou cinzento escuro.
    Esta massa tem pouca consistencia; quando está secca quebra-se
    facilmente, e pode-se desfazer entre os dedos; se a molharmos,
    dar-nos-ha a apparencia de bocados de cortiça velha que estivesse por
    muito tempo exposta á chuva. As suas formas indicam a infancia da arte,
    excepto os fragmentos onde se descobre o uso do torno; os demais
    pertenceram a objectos que parece foram vasados em moldes e polidos á
    mão, ou lavrados com algum instrumento. Reconhece-se na superficie
    exterior de alguns fragmentos o trabalho de uma especie de plaina. Os
    ornamentos compôem-se de filetes imperfeitos, e em pequenos riscos junto
    á borda do orificio.

    [Figura 25: Outros vasos achados nos tumulos]

    Entre os objectos de arte que enumeramos, só vemos os instrumentos cuja
    materia unicamente podia resistir á acção do tempo; os moveis de madeira
    que teriam as habitações gaulezas não conseguiram chegar até os nossos
    dias. Os lagos de certo conservaram-nos muitos objectos, e até pedaços
    de tecidos que recentemente nos esclareceram alguns pontos relativos á
    industria d'esses povos, antes da occupação do territorio da Gallia
    pelos romanos, porém são ainda dados incompletos para se formar cabal
    idéa do estado da industria.

    Terminamos este rapido esboço, apresentando o quadro synoptico das
    antiguidades que servem de assumpto ao primeiro capitulo.

    *MAPPA SYNOPTICO DAS ANTIGUIDADES PREHISTORICAS*

    +———————————–+—————————————+
    | | |
    | *Nomes especificos* | *Caracteres* |
    | | |
    | | |
    | {conicos |Outeirinhos artificiaes de forma, e |
    |_Tumulos_ { |de dimensões differentes, compostos de |
    | {ovaes |pedra e de terra, com _dolmens_ no |
    | |centro. |
    | | |
    | {erguidas |De forma esguia. Firmadas verticalmente|
    | { |na terra como se fossem marcos. |
    |_Pedras_ { | |
    | {assentes |De forma indeterminada. Simplesmente |
    | { |collocadas sobre o solo sem estarem |
    | |cravadas no chão. |
    | | |
    |_Trilithos_ |Duas pedras verticaes sustendo outra |
    | |horisontalmente. |
    | { | |
    | {simples |Uma mesa de pedra collocada sobre |
    | { |pedras postas de cutello, em numero |
    | { |de 3, 4 ou 6. |
    |_Dolmens_ { | |
    | {compostos |Grande mesa de pedra composta de |
    | { |muitos pedaços, sendo, pelo menos, 6 o |
    | { |numero dos pontos de apoio. |
    | | |
    | |_Nota_. Os mais collossaes d'estes |
    | |dolmens formam galeria ficando abertos |
    | |n'uma das extremidades; costumam ser |
    | |designados de _avenidas cobertas_. |
    | | |
    | {simples |Um ou dois renques de pedras em linha |
    | { |recta. |
    |_Alinhamentos_ { | |
    | {compostos |Quatro, cinco e algumas vezes até onze |
    | { |ou doze renques de pedras formando |
    | { |avenidas parallelas. |
    | | |
    |_Pedras postas em grupo_ |Accumulação de pedras, sem ordem, |
    | |mais ou menos consideravel. |
    | | |
    | {simples |Composto d'um só renque de pedras |
    |_Circulos formados { |cravadas ou assentes. |
    |com pedras_ {compostos | |
    | { |Formados de muitos renques de pedras. |
    | | |
    |_Recintos cercados de terra, ou de |De diversas formas. |
    |pedras_. | |
    | | |
    | H { | |
    | A { Vestigios de casas |Logar de cabanas redondas, ovaes, |
    |L B { |algumas vezes rectangulares, indicadas |
    |O I { |por alicerces de pedra tosca sem |
    |G D T { |argamassa ou tão sómente pelo |
    |A E A { |abaixamento do solo. |
    |R Ç { | |
    |E Õ { Subterraneas |Galerias e casas cortadas na rocha. |
    |S E { |Excavações diversas. |
    | S { | |
    | | |
    | { { Punhaes e facas |Um pedaço de silex cortado de maneira |
    | { { |a apresentar uma folha aguda, com dois |
    | { { |gumes, e armado d'um cabo. |
    | { { |Folha de silex sem cabo. |
    | { { | |
    | { { { para frechas|Pequenos dardos, dos quaes o |
    | { { { |comprimento varia desde meia pollegada |
    | { E { _Pontas_ { |até duas |
    | { { { | |
    | I { M { {para rojões |Dardos quasi similhantes aos |
    | N { { { |precedentes, porem mais sobre o |
    | S { { { |comprido. |
    | T { { | |
    | R { P { Martellos |Peça quer redonda dos dois lados, quer |
    | U { E { |d'um lado sómente. |
    | M { D { | |
    | E { R { Pedras para fundas |Redondas ou ovoides, de 2 a 3 polegadas|
    | N { A { |de diametro. |
    | T { { | |
    | O { { Machados |Convexos para o centro, cortados em |
    | S { { |aresta viva nos bordos, acabando de um |
    | { { |lado em ponta romba, e de outro em |
    | { { |gume, o qual descreve uma porção de |
    | { { |ellipse. |
    | D { | |
    | I { { Machados |De formas diversas similhando-se mais |
    | V { { |ou menos a uma cunha. |
    | E { { | |
    | R { E { Fôrmas para machados |São duas peças symetricas, que depois |
    | S { M { |de reunidas a parte ôcca mostra o |
    | O { { |feitio do machado. |
    | S { { | |
    | { B { Espadas |Folhas direitas, chatas, de dois gumes,|
    | { R { |acabando em ponta. |
    | { O { | |
    | { N { Punhaes |Quasi similhante ás espadas na forma, |
    | { Z { |porém com menor comprimento. |
    | { E { | |
    | { { Cabeças de rojões |De forma lanceolada tendo um |
    | { { |engrossamento no meio. |
    | | |
    | { compostas de peças |Correntes metallicas.–Perolas de pedra|
    | { |de côr-alambre, formando rosario. |
    |_Torques_{ | |
    | { de uma só peça |Argolas metallicas mais ou menos |
    | { |grossas muitas vezes com |
    | { |lavrados.–Chapas do feitio de meia |
    | { |lua. |
    | | |
    |Ornamentos diversos |Em bronze e em ouro, com lavrados. |
    | | |
    |Louça de barro |Muito fragil, mal cozida, composta de |
    | |terra preta mal preparada e cheia de |
    | |pequeninos seixos. |
    | | |
    |Moedas |Em ouro, em prata e em bronze. |
    +———————————–+—————————————+

    CAPITULO II

    *Era gallo-romana*

    Entreapparece-nos um dos mais amplos horisontes da historia dos povos
    occidentaes na conquista do imperador romano Cesar. Nos _Commentarios_
    d'este grande general temos perfeita idéa do estado da Gallia na época
    da conquista; conhecem-se tanto os grandes factos que consumou, quanto
    se inferem as consequencias que d'elles advieram á civilisação.

    Cesar encontrou a Gallia dividida em tres nações principaes: os Belgas,
    os Celtas e os Aquitanios.

    O imperador Augusto, que pretendeu organisar o governo regular nos
    paizes conquistados, formou tres novas provincias d'essas tres regiões.

    Segundo esta divisão, foram desannexados e encorporados na Aquitania 14
    povos da Celtica; além de dois que passaram do Norte para a Belgica.
    Assim ficou modificado o territorio dos primitivos povos d'esta parte da
    Europa.

    *Vias de communicação*

    Começaremos a nossa revista dos monumentos da grande época romana,
    descrevendo as vias publicas ou as grandes estradas; tanto mais que
    foram as primeiras obras que o povo rei executou e de que nos deixou
    vestigios.

    As cidades e as estancias eram accessiveis por meio de estradas solidas,
    ou calçadas. Nos intervallos que separavam estes estabelecimentos uns
    dos outros, é que principalmente se encontravam vestigios das vias
    romanas. Seguiam em geral linhas rectas, excepto quando obstaculos
    naturaes, como as montanhas, os barrancos profundos, as lagôas, se
    oppunham a isso, e prolongavam-se tanto quanto possivel nas planicies,
    afim de evitar os terrenos pantanosos.

    Além das estradas principaes, que communicavam uma cidade com outra,
    havia os caminhos vicinaes, _viae vicinales_, que conduziam ás aldeias,
    e estabeleciam relações entre estas e as cidades. Não eram alinhados
    como as primeiras, nem feitos com egual esmero.

    Nas estradas mais bem executadas, a primeira camada, ou a mais funda,
    compunha-se de pedras collocadas em raso, ás vezes assentes com
    argamassa, mas em geral postas simplesmente umas sobre as outras: era o
    que chamavam _statumen_. Em algumas vias, as pedras do _statumen_ eram
    postas de cutello e com inclinação, como explicaremos quando fallarmos
    das paredes construidas em espinha de peixe.

    A largura ordinaria das vias romanas era de 15 a 20 pés. As bordas das
    partes alteadas não se conservam em muitas localidades; arruinaram-se
    por modo que não apresentam hoje sufficiente largura para um carro poder
    passar; e em certos pontos aproximam-se mais de um fôsso, que de uma
    estrada.

    Os caminhos romanos atravessavam os rios sobre pontes, e vaus calçados.
    Em grande numero de localidades, encontram-se os alicerces das pontes,
    ou dos vaus, debaixo da agua, seguindo a directriz das antigas vias. Em
    certos casos o trilho era estabelecido sobre travessas de madeira.

    _Columnas itinerarias_.–Os caminhos romanos eram divididos por marcos
    situados em espaços regulares, e com inscripções que indicavam o numero
    de leguas ou de milhas, comprehendido entre as diversas povoações.

    As capitaes serviam de ponto central para marcar as distancias em todo o
    territorio.

    _Os marcos milliares_ tinham 5 a 6 pés de altura; eram de fórma
    cylindrica; chamavam-se milliares, _milliaria_, ou simplesmente
    _lapidas_.

    D'aqui provem as phrases tão frequentes nos auctores antigos, _ad
    primum_, _secundum_, _tertium lapidem_, a primeira, a segunda e a
    terceira pedra, ou só _ad primum_, _secundum_, _tertium_, etc. ficando
    subentendido _lapidem_ ou _milliarium_.

    A segunda camada, chamada _ruderatio_, era formada de pedras britadas de
    dimensão menor que as anteriores.

    A terceira camada, _nucleus_, compunha-se, ora de cal misturada com
    fragmentos de telha pisados, ora de areia misturada com argila.

    [Figura 26: Columna milliar que existe em França]

    Seixos inteiros, apertados uns contra os outros, ou postos simplesmente
    em leito de areia grossa, _glarea_, formavam a quarta e ultima camada,
    chamada _summa crusta_.

    Era excepcionalmente nas cidades, aldeias ou nos paizes pantanosos, que
    formavam a _summa crusta_ com calçada de pedras cubicas ou polygonaes
    irregulares.

    Em geral, serviam-se para estes trabalhos dos materiaes que encontravam
    na localidade, ou a pequena distancia; sómente os mandavam buscar mais
    longe quando eram de má qualidade no terreno das obras.

    Em muitas partes, as vias antigas foram alteadas do solo, e um _agger_
    servia de base á calçada. Estes _caminhos alteados_ conservam ainda o
    seu nivel superior em espaços muito extensos, e são faceis de
    reconhecer.

    As estradas antigas eram tambem cavadas, como se as preparassem para o
    leito de um rio. As excavações em algumas partes podiam ser consequencia
    do uso prolongado de viandantes e vechiculos; porém, em outras, foi
    visivelmente praticado com o fim de tornar mais suaves as subidas muito
    ingremes.

    [Figura 27: Torre de Pirelonge]

    O uso das columnas milliares data do anno 183 antes da era christã. Foi
    determinado em lei proposta por C.S. Graccho, e depois ampliada ás
    provincias do imperio.

    As inscripções collocadas n'estas columnas foram primitivamente
    laconicas; indicavam apenas o numero de milhas comprehendidas de uma a
    outra localidade. Augusto foi o primeiro que mandou gravar os seus nomes
    e qualificações nos marcos levantados por sua ordem, e os successores
    seguiram-lhe o exemplo.

    _Pyramides_.–As vias romanas não eram sómente guarnecidas pelas
    columnas itinerarias; aos seus lados viam-se tambem torres massiças, ou
    pyramides, ora circulares, ora quadradas.[10]

    Consideravam-se essas pyramides como tumulos; mas a maior parte parecia
    terem sido levantadas para ornar os caminhos, ou antes dedicadas a
    Mercurio, como deus protector das estradas, das artes, e do commercio.
    Em algumas d'ellas abriam especies de nichos que deviam receber a
    estatua de Deus.

    Formavam-se taes construcções de bases quadradas de alvenaria, que
    sustentavam uma serie de grandes pedras de cantaria; o remate
    apresentava a configuração conica, tendo a superficie coberta de
    entalhos sobrepostos, representando folhas de arvores em camadas. A
    torre de Pirelonge, em França, de 74 pés de altura, é um especimen
    d'este genero.

    _Mansão_.–Encontravam-se nas estradas mansões, ou pousadas, mais
    especialmente destinadas para o serviço dos correios, e para os que
    viajavam com auctorisação do imperador. Eram administradas por uns
    funccionarios chamados _mancipes_, cathegoria pouco mais ou menos egual
    á dos nossos directores do correio. Os logares das mudas de menor
    importancia e situadas com pequenos intervallos, chamavam-se _mutações_.
    Denominavam-se emfim _diversoria_ as casas construidas ao longo das
    estradas, quer pertencessem a proprietarios que hospedavam ahi os seus
    amigos, quer recebessem viajantes como os nossos hospedeiros.

    As principaes estradas romanas tinham a classificação de _publicas_ ou
    _militares_, _consulares_ ou _pretorianas_, e os caminhos menos
    frequentados designavam-se com os nomes de _particulares_, _agrarios_ ou
    _vicinaes_.

    *Architectura*

    Os romanos imitavam na sua architectura os Etruscos e os Gregos, porém
    foram menos cuidadosos na pureza das formas, do que no aspecto
    grandioso; e preferiram á formosura monumental o effeito da apparencia e
    da utilidade; portanto, procuravam sempre adpotar um systema que lhes
    desse logar a utilisar nas obras publicas o trabalho dos soldados, e
    dos escravos, dirigidos sómente por limitado numero de architectos ou
    engenheiros. Comprehendiam que era poderoso meio de dominação dotar o
    paiz vencido com os monumentos que não possuissem, introduzir em toda a
    parte a civilisação, transmittindo aos subordinados as vantagens, as
    instituições e os estabelecimentos uteis, dos quaes estavam até então
    privados.

    [Figura 28: Pequeno aparelho, e de espinha como está construido o
    monumento romano de Theséo]

    Em logar, pois, de empregar, como os Gregos, materiaes de extraordinaria
    dimensão, e por consequencia difficies de se ajustarem, preferiam, salvo
    em casos excepcionaes, pôr em obra materiaes de pequena dimensão,
    alvenaria, tijolos reunidos entre si por abundante argamassa.

    Um grande facto architectonico, como foi a adopção da abobada cylindrica
    composta de peças em forma de cunhas, fez com que pudessem afastar-se do
    systema da edificação grega, no qual dominavam as architraves e os
    apoios verticaes. Com a abobada e as arcadas de volta perfeita, de que
    os romanos tiravam tão vantajoso resultado, effectuaram-se notaveis
    construcções, que não se deveram nunca ao genio dos gregos.

    _Pequeno apparelho_.–As paredes de pequeno apparelho, o modo de
    construir mais habitualmente empregado, tem as faces formadas de pedras
    symetricas, quasi quadradas, e cuja face não tem mais de 3 a 4
    pollegadas e raras vezes de 5 a 6. O centro da parede mostra um massiço
    de alvenaria irregular feito com pedra miuda imbebido de cimento.

    Notam-se em varias construcções, de pequeno apparelho, zonas horisontaes
    e continuas de grandes tijolos, destinados a sustentar o nivel das
    pedras pequenas do refôrço da alvenaria. Estas zonas compôem-se
    geralmente de dois ou tres, e tambem de cinco, seis ou sete fileiras de
    tijolos separados por camadas de cimento, cuja espessura é quasi egual á
    dos tijolos.

    Os romanos dispozeram tambem as pedras com o feitio de folhas de fetos,
    ou em espinhas, como se vê na gravura da pagina anterior.

    A argamassa era sempre applicada com grande espessura entre as pedras e
    nenhuma das quaes estava em contacto immediato, mas de certo modo
    imbebidas no cimento.

    As dimensões dos tijolos variavam muito para poder indicar-se
    absolutamente a mais usual; comtudo era entre 14 a 15 pollegadas de
    comprimento por 8 a 10 de largura; mas havia maiores, e até alguns mui
    pequenos.

    _Apparelho reticular_.–Os architectos romanos empregavam egualmente a
    _obra articulada_, ou alvenaria em forma de malhas, differente do
    pequeno apparelho ordinario, por que as pedras do revestimento eram
    cortadas com esmero, de tamanhos eguaes, e collocadas de modo que as
    juntas apresentavam linhas diagonaes, simelhando uma rede. Este genero
    de reforço de alvenaria empregavam-no geralmente como ornamento, pois
    não se encontra applicado exclusivamente, mas quasi sempre combinado e
    intercalado com o pequeno apparelho.

    [Figura 29]

    As paredes do grande apparelho encontram-se nos mais importantes e
    grandiosos edificios, como os templos, os arcos de triumpho, os
    theatros, etc.

    _Argamassa e cimento_.–As argamassas dos romanos compunham-se de cal
    viva e de areia, e frequentemente de tijolo pizado, em proporções
    variaveis, e que seria difficil determinar. A presença do tijolo pisado
    distingue-se de quasi todas as que depois foram empregadas. Todavia
    encontram-se tambem argamassas romanas que não contem nenhuma parcella
    de tijolo, assim como não apresenta nenhum caracter particular.

    _Ordens_.–chama-se _Ordem_ a combinação de diversas partes salientes
    dispostas, com proporções fixas, para compôr um conjuncto regular e
    harmonico de ornamentação das fachadas dos edificios importantes.

    Divide-se uma ordem de architectura em tres partes, ou membros, que são
    pedestal–columna–e um entablamento. Cada membro divide-se em tres
    partes d'este modo:

    { Base.
    Primeiro membro ou pedestal { Soco.
    { Cornija.

    { Base.
    Segundo membro ou columna { Fuste.
    { Capitel.

    { Architrave.
    Terceiro membro ou entablamento { Friso.
    { Cornija.

    Os romanos empregavam cinco ordens:

    A Toscana.
    A Dorica.
    A Jonica.
    A Corinthia.
    A Composita.

    A Dorica, a Jonica e a Corinthia, eram de origem grega.

    A Toscana e a Composita nasceram na Italia.

    É por isso que se designam algumas vezes as tres primeiras sob a
    denominação _ordens gregas_, e as duas outras sob a de _ordem latina_.

    Nas ordens Toscana, Dorica, Jonica e Corinthia, a columna tem proporções
    differentes; as da Corinthia e Composita são eguaes.

    Eis o quadro d'estas proporções conforme o architecto Vignola, que é o
    auctor mais seguido pela simplicidade das subdivisões:

    A altura da { Toscana, de 7 vezes. } Do diametro
    columna vem a { Dorica, de 8 idem. } inferior, isto é
    ser para a { Jonica, de 9 idem. } a grossura tomada
    ordem: { Corinthia, de 10 idem. } no fuste junto da
    { Composita, de 10 idem. } base.

    Portanto, as quatro primeiras ordens differem nas proporções; a da
    quinta ordem são eguaes ás da quarta. Os pedestaes e os entablamentos
    differem tambem nas quatro primeiras ordens.

    Em geral, o pedestal tem o _terço_ da altura da columna, e o
    entablamento a _quarta_ parte, conforme o auctor citado.

    O modulo é medida convencional que serve de escala para desenhar as
    ordens; é sempre a metade do diametro inferior do fuste da columna, o
    qual se divide em 12 partes para as tres primeiras ordens, e em 18
    partes para as duas ultimas.

    { A menos elevada e a mais simples das cinco
    Toscana { ordens.
    { Cornija sem modilhões, nem denticulos.

    { Modilhões, denticulos ou mutulos na cornija,
    { triglyphos no friso, gottas na architrave.
    Dorica { Capitel da mesma forma que o da Toscana, porém
    { um pouco mais ornado, caneluras ou estrias
    { no fuste.

    { Capitel com volutas, cornija ornada de
    Jonica { denticulos.
    { Architrave dividida em três platebandas ou faixas.

    [Figura 30: Fachada d'um templo Dorico]

    [Figura 31: Dorico]

    [Figura 32: Jonico]

    [Figura 33: Corinthio]

    { Capitel ornado de dois renques de folhas de
    { acantho e dezeseis volutas.–Dois renques de
    Corinthia { denticulos e um de modilhões na cornija.–Architrave
    { dividida em tres platebandas ou faixas
    { por baguetas ornadas de molduras.

    { Capitel imitando o das Ordens Corinthia e
    Composita { Jonica.–Cornija com denticulos.–Duas platebandas
    { ou faixas na architrave.

    [Figura 34: Portico da Ordem Toscana]

    As columnas não são sempre applicadas para decoração dos edificios;
    substituem-se ás vezes por pilastras, que, sem ter o aspecto gracioso
    das columnas, produzem não obstante um effeito agradavel á vista. As
    _pilastras_ tem em geral pouca saliencia, não excedendo a mais da metade
    da largura; e não se lhes diminue o diametro da parte superior do fuste,
    como acontece ás columnas.

    Eis a disposição de um _portico_ da ordem Toscana: quando se collocam
    muitas ordens de columnas ou pilastras em um edificio, é preciso que as
    Ordens mais delicadas fiquem sobrepostas ás mais solidas: portanto, não
    se collocam nunca as columnas Toscanas sobre as columnas Jonicas, e se o
    architecto empregar a Jonica, ou a Corinthia, seguirá a regra de
    sobrepôr a segunda á primeira.

    Não julguemos que a architectura antiga está representada pelas _cinco
    ordens_ classificadas e regularisadas pelos insignes architectos
    italianos do _Renascimento das artes_. Ficaremos muito surprehendidos
    quando, examinando os restos da architectura romana existentes nas
    antigas cidades, particularmente na Italia, e n'este paiz em especial
    Roma, virmos que não differem, quasi em parte alguma, na _rigorosa
    similhança_, as cinco celebres Ordens desenhadas e medidas por Vignola,
    Palladio, Serlio, Scamozzi e outros architectos illustres. Pelo
    contrario, os typos principaes da architectura antiga apresentam
    infinita variedade, que augmenta nos edificios cuja data se aproxima dos
    ultimos tempos do imperio, a tal ponto que vem a ser realmente mui
    difficil determinar a Ordem a que pertencem taes ou taes entablamentos,
    capiteis, bases, columnas, etc.

    Os capiteis, principalmente, apresentam diversidade de formas e
    ornamentações, que será baldada a classificação rigorosa; mostram
    todavia na composição riqueza e delicadeza de cinzel, sobejamente
    notaveis; observando-se pelo conhecimento dos effeitos pittorescos,
    produzidos no claro-escuro, o esmero do trabalho. As partes em relevo
    são conservadas com acerto e habilmente executadas.

    Os architectos modernos, creando typos unicos sob a denominação de cada
    uma das Ordens; desejando subordinar tudo a esses typos, privaram-se de
    produzir combinações graciosas, em quanto os artistas do estylo romano,
    engenhosos e fecundos, tiravam partido da liberdade de composição,
    enriquecendo a architectura em que reproduziam as formas, não punham
    peias á imaginação, e evitavam executar obras monotonas, pobres e sem
    attractivos, como succede em muitas presentemente levantadas.

    Os edificios publicos e muitas casas particulares eram durante a
    dominação romana, revestidas de marmore, ou de cimento e cal; e algumas
    tinham mosaicos, e aqueciam-n'as por meio dos hypocaustos.

    Os _mosaicos_[11] antigos, dos quaes se tem encontrado repetidamente
    fragmentos em localidades hoje inhabitaveis, compõem-se de pequeninas
    peças cubicas imbebidas em especie de massa e assentes em cimento
    misturado com tijolo moido.

    [Figura 35]

    Estas pequenas peças de diversas cores eram combinadas de maneira que
    formavam differentes desenhos. Alguns mosaicos representavam combates de
    animaes e outras scenas.

    A mais importante descoberta feita em Portugal foi a que fizemos perto
    de Leiria, em 1874, de um mosaico de cinco côres e com difficeis
    combinações de linhas geometricas, pertencente a uma _villa rustica
    romana_.

    _Hypocaustos_.–Os hypocaustos, estabelecidos no pavimento terreo das
    habitações romanas, eram empregados como os caloriferos modernos.

    Para formarmos idéa exacta do hypocausto, é preciso figurarmos um
    sobrado levantado quasi a 2 pés acima do solo, e sustentado sobre
    pequenos pilares A de egual altura, distantes uns dos outros 1 pé, por
    meio dos quaes o calor circulava e aquecia por egual o piso que cobria
    esta especie de subterraneo. Os pilares dos hypocaustos eram geralmente
    quadrados, compostos de tijolos de 7, e 8 ou 10 pollegadas de
    comprimento, uns sobre os outros, com o intervallo de uma camada de
    argamassa.

    [Figura 36]

    Os pilares do hypocausto recebiam grandes tijolos de 18 a 20 pollegadas
    em quadrado B, formando a base do pavimento das habitações.

    Em muitas localidades, os tijolos eram sobrepostos de modo que
    apresentavam o cimo menos largo que a base.

    O calorico não ficava concentrado no subterraneo onde estava o
    hypocausto: circulava nos pontos mais elevados, e entrava egualmente em
    todas as partes da atmosphera das salas, passando dor tubos quadrados de
    barro cozido 4 e 5, introduzidos na grossura da parede, 3 e 3, gravura
    de pag. 46 [fig. 37], um dos quaes, em posição vertical, penetrava no
    hypocausto, emquanto outros, collocados horisontalmente, circumdavam os
    aposentos.

    O lume que aquecia o hypocausto era acêso n'um forno posto em pequenos
    pateos ou vestibulos proximos do hypocausto.

    _Embutidos e ornamentos_.–O marmore foi frequentemente empregado para a
    decoração das paredes.

    Em geral, os architectos romanos souberam tirar grande partido dos
    materiaes que fornecia o paiz em que se faziam as obras.

    Não era raro vêr entrar em combinação os materiaes indigenas com os
    exoticos mais preciosos, taes como o porphyro, os marmores cipolino, os
    ophitos, etc., etc.

    O uso de pintar as paredes era tão geral que as simples construcções em
    taipa e os tectos revestidos de barro tambem recebiam essa ornamentação.
    A pintura era applicada sobre delgado guarnecimento de cal.

    Os methodos usados pelos romanos para a pintura das paredes são-nos
    imperfeitamente conhecidos. Comtudo, um d'elles consistia em applicar
    com a broxa cera colorida e derretida, estendendo-se ainda quente nas
    paredes.

    [Figura 37: Tubos verticaes (4 e 5) para circular o calor, mettidos nas
    paredes]

    A cêra não era empregada só, mas misturavam-n'a com azeite para a tornar
    mais liquida: todavia, a maior parte d'essas pinturas parece ter sido
    assente a frio, e a sua adherencia seria produzida, talvez, por uma
    especie de colla que lhe ajuntavam.

    As paredes e os tectos eram tambem em algumas habitações revestidos de
    mosaicos de vidro preto, azul, branco, verde escuro, etc., decorações
    que se encontravam em muitas salas de banhos.

    Plinio diz-nos que empregavam o vidro nos mosaicos das abobadas e das
    paredes, advertindo que este uso era recente, comparativamente com o dos
    mosaicos de pedra ou barro cozido. Achâmos na _villa rustica romana_,
    descoberta por nós em Leiria, duas casas com mosaicos d'este ultimo
    modo, e outra de argila cozida.

    _Telhas e telhados_.–Os telhados das casas romanas eram formados de
    telhas chatas de grande dimensão, mais compridas que largas com um
    resalto sobre os dois lados: assim como havia telhas curvas similhantes
    ás dos telhados modernos.[12] As primeiras adaptavam-se umas ás outras
    pelas extremidades que não tinham resalto; as segundas ligavam-se entre
    si no sentido da inclinação do telhado, ficando em fiadas parallelas as
    telhas chatas e para cobrir as juntas e evitar a infiltração das aguas
    da chuva.

    Os fragmentos das telhas com resalto tem resistido quatorze seculos á
    acção destruidora dos elementos, e das pancadas do arado; encontram-se
    espalhados e enterrados em grande quantidade em quasi todos os logares
    onde existiram construcções romanas.

    Em fim, estes restos são o melhor indicio para o reconhecimento das
    regiões antigamente occupadas pelos romanos.

    *Pontes*

    As pontes, obra de tamanha utilidade, tornam-se mui notaveis pelas suas
    ousadas dimensões. Existem presentemente poucos vestigios d'ellas: o
    maior numero ficou destruido, pela força das correntes, ou reconstruido
    em diversas épocas e alterado na primitiva construcção. Podemos apenas
    citar poucas das compostas na época romana.

    Nas pontes, como em outros monumentos gallo-romanos e luso-romanos,
    empregou-se o grande apparelho, e muitas vezes de alvenaria com
    argamassa (_empleton_) revestido de pequenas pedras symetricas (_opus
    incertum_).

    [Figura 38: A ponte de S. Chamas, e as suas duas portas monumentaes]

    Quando usavam os materiaes de grande dimensão, as pedras ficavam prezas
    umas ás outras com os cancros de ferro ou de bronze, e algumas vezes com
    malhetes de madeira de oliveira, previamente secca no forno.

    Nas pontes construidas com pequeno apparelho a boa qualidade da
    argamassa dava-lhes tal solidez, que os pegões que sustentavam os arcos
    não soffreram depois nenhuma alteração.

    Os pegões apresentavam algumas vezes, do lado da corrente, uma parte
    saliente triangular, para cortar assim a força da agua; e se o rio tinha
    demasiada extensão, acontecia então dividil-o em muitos braços, afim de
    construir a ponte em secções. D'este modo corrigia-se a rapidez dos rios
    pela divisão das aguas, e tornava-se menos difficil a construcção das
    pontes. Na idade media foram imitadas.

    As pontes construidas com mais esmero e regularidade eram ás vezes
    verdadeiros monumentos, que serviam tambem para aformoseamento. Algumas
    tinham portas monumentaes ou arcos de triumpho.

    _Pontes de madeira_.–Tratámos das pontes de pedra, porque só estas
    poderiam subsistir até os nossos dias; mas, durante o dominio dos
    romanos, tinham elles egualmente grande numero de pontes construidas de
    madeira.

    Passava-se tambem os rios servindo-se de barcos de passagem, com
    jangadas sustentadas em odres ou tonneis vazios, como é usado ainda hoje
    em casos urgentes. Havia tambem pontes firmadas em barcos, como se vê
    figurado na columna de Trajano em Roma.

    _Muralhas e caes_.–Os caes ou as grandes muralhas de supporte,
    construidas nas margens dos rios, vinham ligar-se ás pontes, quando
    estas existiam nas cidades.

    *Aqueductos*

    Os aqueductos, pela sua consideravel extensão e a importancia das ruinas
    que se conhecem em differentes pontos, offerecem interesse especial.

    Os romanos, como todas as nações civilisadas, gastavam grande
    quantidade de agua para os usos domesticos; sendo muito escrupulosos na
    boa qualidade da agua, embora a fossem buscar a grandes distancias para
    os centros da povoação, empregando para esse fim canaes ou aqueductos.

    [Figura 39: Restauração de um aqueduto em siphão]

    Os aqueductos antigos que ainda existem, como os que possue a Italia, e
    os vêmos em outras partes, apresentam os canos de alvenaria feitos com
    mais ou menos solidez, e mais ou menos cuidadosamente betumados.
    Serviam-se geralmente das pedras de pequenas dimensões, embebidas na
    argamassa. Os canos, sendo proporcionados ao volume de agua que deviam
    levar, eram formados com abobada em volta perfeita, se ás vezes cobertos
    com grandes lageas assentes e sobrepostas sem cimento.

    Para se obter o nivel das encostas que se encontravam na juncção dos
    encanamentos, faziam-n'os passar então sobre arcos mais ou menos
    elevados, que reuniam os dois lados do valle; outras vezes
    sobrepunham-se dois ou tres renques de arcos, com receio de que a
    demasiada altura dos pilares lhes diminuisse a solidez.

    Quando o valle era muito profundo, para por este meio poder firmar-se o
    encanamento do aqueducto em nivel conveniente, conduziam a agua em tubos
    de chumbo que subiam até o cume da collina opposta, onde a agua pudesse
    seguir a sua corrente natural, conforme Vitruvio descreve mui claramente
    no seu 8.^o livro de architectura.

    [Figura 40: Canal subterraneo do aqueducto]

    [Figura 41: Canal de aqueducto sustentado sobre arcadas]

    [Figura 42: Vista geral da ponte do Gard]

    Para evitar trabalhos sempre difficies e dispendiosos, faziam seguir aos
    encanamentos subterrâneos, rodeios, ou sinuosidades, e por esta maneira
    as aguas podiam transpôr grandes espaços sem encontrarem encostas, e sem
    ficarem impedidas pelos obstáculos das montanhas.

    Os aqueductos eram todavia mais communs soterrados, e só apparentes nos
    valles, onde necessariamente os canos passavam sobre paredões ou
    arcarias.

    Os encanamentos que distribuiam as aguas nas fontes para os banhos e
    para outros estabelecimentos publicos e particulares das cidades
    gallo-romanas, eram feitos de chumbo ou barro. Saiam de um reservatório
    commum, ou castello de agua, _castellum_, como se vê um em Évora, do
    tempo de Sertorio.

    A primeira gravura da pag. 51 [fig. 40], mostra o encanamento do
    aqueducto de Fréjo, um dos mais extensos que subsistem, tal qual se
    apresenta á vista quando se mantém subterraneo, ou collocado nas
    encostas das collinas, fig. 41. Este exemplo explica todo o systema
    empregado pelos engenheiros romanos.

    Os aqueductos seguem a construcção egual das obras de arte executadas
    nos caminhos de ferro, transpôem como ellas os valles sobre viaductos, e
    atravessam as montanhas por meio de vallas ou tUneis.

    Pontes e aqueductos serviam para transpôr os valles, e alguns tinham 90
    arcos. A ponte do Gard, em França, era formada de três renques de
    arcadas sobrepostas, servia para o transito e o ultimo conduzia a agua á
    cidade, correndo na extensão de 41:000 metros. Indica a gravura da
    pagina anterior a sua construcção.

    O numero dos aqueductos era extraordinario; não só se encontravam nas
    proximidades das grandes povoações, mas tambem das pequenas, e até junto
    das casas de campo de limitada apparencia.

    *Cloacas*

    As _cloacas_ constituiam outra especie de aqueductos subterraneos para
    receber as aguas inuteis, ou para as aguas da chuva e immundicies.

    Em Roma, estendiam-n'as por toda a cidade, e subdividiam-n'as em muitos
    ramaes que vinham desaguar no Tibre. O principal cano de despejo, com o
    qual os outros communicavam era chamado _cloaca maxima_. Tinha abobadas
    elevadas construidas com grande solidez, por debaixo das quaes se
    passava em barcos[13].

    *Praças publicas*

    _O forum_ era geralmente uma praça onde se reuniam as assembléas do
    povo, onde se administrava a justiça e onde se tratavam os negocios
    publicos. Estava em certas partes rodeado de _porticos_, edificios e
    lojas.

    Nas cidades de importancia secundaria, onde os porticos não eram
    repetidos como em Roma, achavam-se principalmente perto dos monumentos
    publicos, taes como os theatros, as thermas, os palacios, os templos,
    etc. etc.; collocavam muitas vezes os porticos do _forum_, por detraz da
    scena dos theatros, afim de que, conforme diz Vitruvio, quando
    inopinadamente chovesse durante o espectaculo, o povo pudesse abrigar-se
    ali.

    A forma das praças, ou _fora_, era a do quadrilongo. Vitruvio affirma
    que devia ter um terço em comprimento, a mais de um lado que de outro.

    *Basilicas*

    A palavra _basilica_, significa _casa real_: designava em Roma um
    edificio sumptuoso dentro do qual os magistrados faziam justiça, por
    isso a distinguiam do _forum_, onde as sessões eram celebradas ao ar
    livre. As basilicas tinham tambem a fórma de um quadrilongo.

    Parte dos porticos, interiormente decorados, ficava occupada pelos
    commerciantes: portanto, estes edificios eram ao mesmo tempo destinados
    aos negocios forenses, e uma especie de praça de commercio.

    Em quanto á disposição das basilicas as primitivas egrejas christãs
    transmittiram-nos a imitação, e conservaram o nome. As basilicas
    consistiam pois em vasto recinto, tres vezes mais comprido que largo,
    dividido em renques de columnas formando muitas naves. Não ha a certeza
    de que as basilicas fossem rodeadas de paredes por todos os lados;
    julga-se que algumas eram abertas, pelo menos de um lado, para dar mais
    facil accesso ao povo, e para que as galerias communicassem melhor com a
    praça publica.

    Não se pode duvidar de que não tivessem existido basilicas nas cidades
    gallo-romanas; porém seria difficil indicar o sitio que occupariam,
    porque desappareceram completamente os vestigios.

    *Arcos de triumpho e portas monumentaes*

    Os _arcos de triumpho_, porticos levantados á entrada das cidades, no
    logar da passagem publica, perto dos _forums_, diante dos templos, e na
    cabeça das pontes, etc. etc.; afim de indicar a memoria de uma victoria,
    de um grande serviço prestado ao imperio, e algumas vezes sem outro
    intuito mais que o de aformosear as cidades onde se erigiam.

    [Figura 43: Arco de triumpho]

    Dá-se tambem esta denominação ás portas das cidades antigas, que
    apresentavam uma disposição quasi similhante á dos arcos de triumpho.
    Estes, porém, eram monumentos isolados, formando um só corpo, e não se
    ligavam ás construções das trincheiras ou muralhas.

    Era o contrario do que succedia nas _portas da cidade_, as quaes não
    obstante patentearem por vezes nas fachadas grande magnificencia,
    todavia as extremidades lateraes ficavam encravadas nas muralhas dos
    recintos fortificados, formando-lhes assim o accessorio ou a
    ornamentação.

    [Figura 44: Portas de Santo André em Autun]

    Entre as portas, a disposição mais seguida era a que a gravura
    apresenta, copiada da de Santo André de _Autun_, em França.

    *Templos*

    Duas formas eram consagradas para estes edificios religiosos, a
    quadrilonga e a circular. Seguiam mais geralmente a primeira. Os
    _templos_ receberam differentes denominações, conforme a disposição das
    columnas que os decoravam; distinguindo-se pela seguinte maneira:

    Os templos com pilastras–Os _prostylos_, fig. 45.–Os _amphiprostylos_,
    fig. 46.–Os_ peripteros_, fig. 47.–O _monoptero_, fig. 48.–Os
    _pseudo-peripterios_, fig. 49.–Os _hypetheros_, fig. 50.–Os
    _monopteros_.

    [Figura 47: Periptero quadrado]

    [Figura 48: Periptero redondo]

    [Figura 45: Prostylos]

    [Figura 49: Pseudo-Periptero]

    [Figura 50: Hypethreos]

    [Figura 46: Amphiprostylos]

    Os primeiros não tinham senão pilastras nos cunhaes da frente, e só uma
    columna de cada lado da porta.

    Os templos _prostylos_ apresentavam quatro columnas na face exterior, e
    não tinham nenhuma aos lados, nem na parte posterior.

    Nos templos _peripteros_, as columnas rodeavam completamente o edificio;
    sendo em o numero de seis nas fachadas anterior e posterior.

    Nos templos _pseudo-peripteros_ differençavam-se dos antecedentes em que
    as columnas estavam embebidas nas paredes lateraes e na parede do fundo,
    em logar de ficarem separadas.

    Duplo renque de columnas rodeava os templos dipteros, oito das quaes
    ornavam a fachada.

    Finalmente, o templo _monoptero_ apresentava simplesmente a cupula
    sustentada sobre columnas dispostas em circumferencia; e o santuario não
    era fechado.

    Resulta pois, do que fica exposto, que em todos os templos, excepto nos
    monopteros, havia uma parte fechada que era o santuario; em muitos
    templos, corriam em roda d'esse santuario galerias abertas, como especie
    de porticos para a ornamentação externa do edificio. A parte encerrada
    era designada sob o nome de _cella_ ou _nau_. Ahi collocavam a estatua
    da divindade, em honra da qual o templo fôra erigido.

    Na frente da _cella_, e por detraz das columnas da fachada, estava o
    _pronaus_ ou vestibulo, no qual abriam a porta da entrada; á extremidade
    opposta do templo dava-se-lhe o nome de _posticum_. Algumas vezes
    reservavam, na parte posterior da _cella_, um quarto A destinado a
    guardar o thesouro do templo, e que se designava sob o nome de
    _opisthodomos_.

    As columnas eram sempre em numero par nas fachadas dos templos; e
    conforme que se contava quatro, seis, oito ou dez, os templos tomavam a
    denominação de _tetrastylos_ (4 columnas), _hexastylos_ (6 columnas),
    _octostylos_ (8 columnas), ou _decastylos_ (10 columnas).

    Finalmente, certos templos eram rodeados de uma cerca _peribobos_ ou
    antecedidos de pateo fechado, e ornados com portico, á roda do qual
    estavam os aposentos dos sacerdotes.

    A estatua da divindade, feita de bronze, marmore, ou pedra, collocava-se
    no fundo da _cella_, em pedestal um pouco mais elevado que o altar, e
    fazia face á porta da entrada. Em geral, os templos ficavam voltados
    para o oriente.

    [Figura 51: Fachada da Casa Quadrada de Nimes]

    Não se deve julgar que os templos fossem muito vastos; alguns d'elles
    tinham até pequenissimas dimensões, e isso explica-se facilmente pelo
    conhecimento dos usos religiosos antigos, porque o exercicio do culto
    era individual; cada um tinha dias proprios para o sacrificio, em
    quanto, no christianismo, o exercicio do culto é collectivo.

    O templo _pseudo-periptero_ hexastylo ha em Nimes (França), da ordem
    corinthia, o qual serve actualmente para museu de archeologia. A gravura
    mostra as suas bellas proporções e belleza.

    As dimensões e a disposição do _templo de Diana_, em Evora,
    apresenta-nos outro exemplo d'esta ordem de edificios do antigo
    paganismo, que felizmente se conserva em Portugal nas suas magestosas
    ruinas, como se vê na presente gravura.

    [Figura 52: Templo de Diana, em Evora]

    Os templos rectangulares ficavam dispostos como indica a gravura da pag.
    60 [fig. 53], rodeados de porticos; no meio d'elles havia o logar da
    cella e dentro o pedestal para a divindade.

    Os templos circulares dividiam-se em duas classes: a primeira chamada
    _monoptero_, compunha-se sómente de recinto formado por columnas
    collocadas em pedestal commum, _stylobato_; o segundo _periptero_,
    apresentava uma _cella_ á roda da qual havia columnas, pousada
    egualmente sobre um _stylobato_, com degraus para ganhar a altura do
    pedestal, e dar entrada para o templo.

    Fragmentos achados dos templos antigos, fizeram vêr que as suas
    esculpturas tinham sido pintadas de branco e amarello com traços
    encarnados, para dar mais relevo aos contornos.

    Não só havia templos nas cidades, mas tambem nos campos. Alguns d'estes
    eram de grande veneração, pois que serviam de deposito aos mais ricos
    thesouros, principalmente os dedicados a Mercurio.

  • O cancioneiro portuguez da Vaticana

    O cancioneiro portuguez da Vaticana

    Aproximadamente 12.370 palavras.

    THEOPHILO BRAGA.

    O Cancioneiro portuguez da Vaticana
    e suas relações com outros Cancioneiros dos seculos XIII e XIV.

    (Zeitschrift für Romanische Philologie, 1877)

    O apparecimento do Cancioneiro portuguez da Bibliotheca do Vaticano,
    que encerra quasi toda a poesia lyrica do fim da edade media em
    Portugal, veiu mais uma vez provar a superioridade da iniciativa
    individual sobre a estabilidade inerte das instituições collectivas
    que apenas apresentam o vigor do prestigio official; desde 1847 que a
    Academia real das Sciencias de Lisboa deixava jazer no pó do archivo
    de Roma este importante documento nacional, e foram sempre ficticios
    os esforços para obter uma copia d'elle, que de ha muito devera ter
    sido reproduzida no corpo dos _Scriptores_, que forma uma das partes
    dos _Portugaliae Monumenta historica_. No emtanto, no estrangeiro o
    interesse scientifico muitas vezes se havia occupado do passado
    historico de Portugal, e foi a esta corrente que obedeceu o illustre
    philologo romanista Ernesto Monaci coadjuvado pelo activo e
    intelligente editor Max Niemeyer, restituindo a este paiz o texto
    diplomatico do mais precioso dos seus documentos litterarios. Ao
    terminar do modo mais consciensioso a sua empreza, escreve Monaci:
    "voglia il cielo che tornato il libro in Portogallo, diventi presto
    oggetto di studj novelli. È solo nella fonte delle tradizioni patrie
    che lo spirito di una nazione si ringagliardisce." (Canz. port., p.
    XVIII.) Infelizmente na litteratura portugueza ainda se não
    comprehendeu esta verdade salutar, e por isso o talento desbarata-se
    em architectar phantasmagorias de cerebros doentes ou em fazer
    traducções de romances dissolutos. Acceitando a responsabilidade das
    palavras do editor do Cancioneiro da Vaticana dirigidas a esta nação,
    cabia primeiro do que a todos á Academia real das Sciencias de Lisboa
    responder pela seguinte forma:

    1°. Publicar o texto critico e litterario restituido sobre a lição
    diplomatica em grande parte illegivel fóra de Portugal.

    2°. Acompanhar esse texto com todos os dados bibliographicos de que se
    possa alcançar noticia, para sobre elles basear a historia externa da
    formação do Cancioneiro.

    3°. Acompanhal-o de um bom glossario das palavras empregadas na dicção
    provençalesca da poesia palaciana.

    4°. Por ultimo organisar um vasto quadro da historia litteraria de
    Portugal no periodo dos nossos trovadores, deduzido dos abundantes
    factos historicos que fornece o Cancioneiro da Vaticana.

    É para isto que existem as Academias nos paizes civilisados, que os
    governos as subsidiam, e que os seus membros têm o fôro de sabios. Em
    quanto a Academia real das Sciencias de Lisboa não cumpre este seu
    dever, cumpre-nos dar uma noticia d'este Cancioneiro, longos seculos
    perdido pelas bibliothecas estrangeiras.

    N'este codice se encontram as nossas origens litterarias, e as
    relações intimas que filiam a litteratura portugueza no grupo das
    litteraturas romanicas da edade media da Europa; aqui se acham
    representadas as duas correntes da inspiração popular e palaciana ou
    erudita, bem como os costumes intimos de uma sociedade que nos é
    desconhecida, mas d'onde proviemos; os successos historicos aí têm a
    sua nota accentuada; os nomes que figuram nas lendas genealogicas e
    nos feitos de armas no periodo da constituição da nossa nacionalidade
    aí se encontram assignando os mais saborosos cantares consagrados ás
    damas da côrte, que serviam. Finalmente, ali está o documento mais
    vasto em que a lingua portugueza se manifesta no seu esforço para de
    inconsistente dialecto romanico se tornar uma lingua escripta com uma
    grammatica fixa. Um livro assim, onde se acha representado o melhor da
    nossa antiga poesia durante os seculos XIII e XIV, é a joia de uma
    bibliotheca. Como nos mostraremos gratos ao estrangeiro que assim vem
    augmentar os nossos thezouros historicos e restituir-nos o fio perdido
    da nossa tradição nacional? Estudando-o.

    A primeira questão que o Cancioneiro portuguez do Vaticano sugere é
    determinar as suas relações com os antigos cancioneiros provençaes
    portuguezes em grande parte perdidos; esta circumstancia complica o
    problema critico, e por isso importa bem determinar aproximadamente o
    numero d'essos cancioneiros para se fazer o processo de filiação. Tal
    é o intuito d'este nosso primeiro estudo, bastante restricto, por que
    determinar o valor historico do Cancioneiro pelas correntes
    litterarias n'elle representadas, pela allusão aos grandes successos,
    pelo uso de dadas formas poeticas, pelas personalidades dos principaes
    trovadores e pelo estado da lingua portugueza, é uma exploração de tal
    forma vasta, que qualquer d'estas questões excede as proporções de uma
    noticia. Começamos pela critica externa do Cancioneiro, enumerando
    todos os cancioneiros portuguezes dos seculos XIII e XIV que
    contribuiram para a sua formação, procurando ao mesmo tempo o nexo que
    existiria entre elles, e pelas divergencias de texto quaes as
    collecções que se perderam sem chegarem a ser conhecidas.

    1. O Livro das Cantigas do Conde de Barcellos.

    No testamento do Conde D. Pedro, feito em Lalim em 30 de Março de
    1350, se lê esta clausula: "Item, mando o meu _Livro das Cantigas_ a
    el rei de Castella". Interpretando esta clausula, Varnhagem quiz por
    ella attribuir o Cancioneiro da Ajuda ao Conde de Barcellos,
    imprimindo-o em 1849 n'esse presupposto, com o titulo de _Trovas e
    Cantares… ou antes mui provavelmente o Livro das Cantigas do Conde
    de Barcellos_. Esta hypothese cedo caiu diante da evidencia dos
    factos; mas além d'este primeiro erro, existe n'esta affirmacão um
    outro, que é o julgar o _Livro das Cantigas_ formado de canções
    unicamente compostas pelo Conde de Barcellos. Era antigamente vulgar
    terem os principes cancioneiro seu, como objecto sumptuario, isto é,
    uma collecção contendo as melhores poesias de seu tempo; sabendo-se a
    tendencia compiladora e erudita do Conde Dom Pedro, e a sua amisade
    com a aristocracia portugueza e gallega por causa do seu _Nobiliario_,
    é mais no espirito da historia litteraria a hypothese, que o _Livro
    das Cantigas_ era seu pelo facto material da propriedade ou da
    colleccionação, e que este titulo designa um cancioneiro contendo
    composições de diversos trovadores. Vamos fundamentar esta hypothese:
    Primeiramente, o Conde D. Pedro, pelas canções que d'elle restam na
    collecção do Vaticano, era um mediocre trovador, e d'elle diz Affonso
    XI, a quem elle deixara em testamento _o seu Livro das Cantigas:_

    Pois se de quant'el tem errado
    _serve Dom Pedro_, nem lhi dá em grado.

    Alludia á inferioridade das canções de Bernal de Bonaval, que serviam
    ao gosto do Conde Dom Pedro. Em segundo logar, pelo Nobiliario se vê
    quanto o Conde era versado nas tradições bretans que adoptava como
    factos historicos; e no indice do Cancioneiro de Angelo Colocci se
    acham enumeradas como começo d'esse codice: "1. Elis o baço, duque de
    Sansonha, quando passou na Gram Bretanha, qual ora chamam Ingraterra,
    al tempo del Rey Arthur ad combater com Tristano por que lhi avia
    occiso o padre em uma batalha. E andando um dia em sa busca foi por
    Giososa Guarda ú era a reyna Isouda de Corualha, e enamorou-se ali
    elle, e fez por ella aquesta lais, o qual lais poemos aqui, porque era
    o melhor que fora feito.–2. Quatro donzellas, a Morouet de Irlanda,
    al tempo del rei Arthur.–3. Dom Tristan enamorado.–4. Dom
    Tristan.–5. D. Tristam para Genebra".

    Por este conteúdo do começo do Cancioneiro que pertenceu a Colocci, e
    por que no codice da Vaticana mais de uma vez se citam as formas
    poeticas bretãs dos _lais_, podemos concluir que esses cinco Lais
    pertenceriam ao _Livro das Cantigas_, o qual foi encorporado em uma
    grande collecção formando talvez a parte que vae até as canções de
    el-rei D. Diniz que eram tambem um cancioneiro avulso. Por este mesmo
    codice de Angelo Colocci, de que resta o indice, achamos que antes da
    parte que constitue a colecção de el-rei D. Diniz, estavam colligidas
    varias canções de Dom Affonso Sanches, bastardo do rei, as canções de
    Dom Affonso rei de Leão, as de D. Affonso XI de Castella, e depois
    d'estar as do proprio Conde de Barcellos, que são ao todo nove, e
    tambem as de seu irmão el rei D. Affonso IV. Não era qualquer
    compilador ocioso que poderia satisfazer a sua curiosidade obtendo
    d'estes principes e monarchas as canções mais ou menos pessoaes; o
    Conde de Barcellos estava em uma posição especial, sabia metrificar,
    era estimado na côrte de D. Diniz e na de Affonso XI, e tendo passado
    algum tempo em Hesphanha de lá podia trazer canções de varios
    trovadores que nunca estiveram em Portugal. Por tanto o seu _Livro das
    Cantigas_ fôra formado n'estas condições particulares, e o apreço que
    se lhe ligava é que o fez com que o deixasse em testamento ao elegante
    trovador Affonso XI de Castella. A posse de um livro de cantigas era
    quasi um titulo nobiliarchico; na canção 76 da Vaticana, feita á
    maneira de sirvente por Affonso XI contra o Dayão de Calez, diz que
    elle tinha um _Livro de Sons_, por meio do qual seduzia todas as
    mulheres. Foi tambem pelo seu gosto pela poesia provençalesca que o
    Conde de Barcellos manteve a sympathia de D. Affonso IV, filho
    legitimo de D. Diniz, e por isso em uma canção de louvor é chamado o
    _rimante d'el-Rei_. Por tudo isto é mais crível que o _Livro das
    Cantigas_ do Conde fosse o primeiro nucleo com que se formou por
    juxta-posição o grande cancioneiro portuguez, do qual um dos
    apographos é o codice da Vaticana; dizemos por juxta-posição, por que
    se lhe segue o de el-rei Dom Diniz, e porque muitas canções de codice
    de Roma se acham aí mesmo repetidas, indicação inevitavel de terem
    sido colligidas de fontes diversas. Quando o Conde Dom Pedro falleceu
    já era morto Affonso XI, e isto explica como poderia extraviar-se em
    Castella esse _Livro das Cantigas_, e como Pero Gonçalves de Mendoza
    viria a obter a copia que se guardava em um grande volume em casa de
    D. Mecia de Cisneros, e pela primeira vez citada por seu neto, o
    Marquez de Santillana.

    2. Livro das Trovas de El-rei Dom Diniz

    O corpo das canções de el-rei Dom Diniz occupava uma grande parte do
    codice de Dona Mecia de Cisneros; occupava tambem uma parte importante
    no apographo de Colocci, bem como no codice da Vaticana. O modo como
    esta grande quantidade de canções de el-rei Dom Diniz entrou em uma
    vasta compilação explica-se naturalmente, por isso que pelo catalogo
    dos livros de uso de el rei Dom Duarte acha-se citado o _Livro das
    Trovas de el-rei Dom Diniz_, do qual se pode inferir terem existido
    varias copias, por que o numero das canções varia entre as enumeradas
    no indice de Colocci e as contidas no codice da Vaticana, contando
    este ultimo cincoenta e uma canções a mais. Alem d'isso, na parte do
    codice que encerra as canções de D. Diniz, a canção 116 acha-se
    repetida outra vez sob o numero 174 com variantes e differente
    disposição de estrophes, o que denota que essa parte foi compilada de
    copias secundarias, mas classificadas, como vemos pelo titulo das
    _Cantigas de Amigo_ dado a um certo genero de canções, especialmente
    de imitação popular. É provavel que os autographos que serviam para os
    traslados nitidos dos amanuenses fossem por vezes aproveitados por
    outros compiladores; de el-rei Dom Diniz andava tambem um codice
    poetico em poder dos Freires de Christo de Christo de Thomar. Os
    muitos jograes da Galiza, de Castella e de Leão, que frequentavam a
    côrte de Dom Diniz, tambem colligiriam esses corpos de canções de
    _Serranilha_ e de _Mal-dizer_ que os privados dos monarchas trovaram,
    e que elles decoravam para cantarem de officio. Os jograes formaram
    collecções dos melhores cantares para recitarem ou acompanharem á
    citola, pelo que recebiam dinheiro; o costume de ter jograes de
    _Segrel_ ao serviço da casa real levava tambem a formar estes pequenos
    cancioneiros escolhidos.

    3. O Cancioneiro da Ajuda (ou do Collegio dos Nobres).

    O facto de se encontrarem _cincoenta e seis_ canções communs ao Codice
    da Ajuda e ao da Vaticana, torna indispensavel o resumir aqui o que se
    sabe da historia externa do Cancioneiro da Ajuda. As suas folhas são
    de pergaminho, a duas columnas, com pauta para a musica das canções
    que se deveria escrever em seguida, e com varias vinhetas separando os
    diversos grupos de canções de cada trovador e com letras historiadas.
    O cancioneiro está truncado, pois que começa na folha 41, e não existe
    o final, não só por incuria dos possuidores, que o baralharam
    encadernando-o tumultuariamente com o Nobiliario, grudando algumas
    folhas ás capas, mas tambem por que o estado da copia, sem assignatura
    ou designação dos trovadores, letras historiadas incompletas, e falta
    de notação musical, nos revelam que o codice não foi dado por acabado.
    Esta collecção começou-se ainda no reinado de D. Diniz, por que
    juntando-se as folhas lê-se escripto no córte d'ellas: _Rei Dom
    Diniz_, e d'isto tambem se pode deduzir, que se não perderam muitas
    folhas do principio e do fim. D'este codice foram encontradas mais 24
    folhas avulsas na Bibliotheca de Evora, e é tradição corrente que na
    de Coimbra existiam algumas outras tambem.

    A inspecção do Codice da Ajuda, confrontado com outros Codices
    europeus, mostra-nos que elle pertencia indubitavelmente a diversos
    trovadores; Varnhagem notou que existiam dezaseis vinhetas
    imperfeitamente coloridas, que estão desenhadas junto ás canções 2,
    36, 37, 149, 157, 170, 173, 184, 190, 231, 233, 249, 253, 255, 259 e
    fragmento _h_. (Notas ás _Trovas e Cantares_, p. 348.)

    Alem d'este vestigio paleographico, o confronto com o Codice da
    Vaticana levou a achar os seguintes trovadores, communs aos dois
    Cancioneiros: Pero Barroso, Affonso Lopes Baião, Mem Rodrigues
    Tenoyro, João de Guilhade Estevam Froyam, João Vasques, Fernão Velho,
    Ayres Vaz, D. João de Aboim, Pero Gomes Charrinho, Ruy Fernandes,
    Fernam Padrom, Pero da Ponte, Vasco Rodrigo de Calvelo, Pero Solaz,
    Pero d'Armêa, e João de Gaia. Todos estes nomes são de fidalgos
    grandes privados de el-rei D. Diniz, e alguns já figuram em doações de
    D. Affonso III, como D. João de Aboim e Affonso Lopes Baião; Mem
    Rodrigues Tenoyro vivia na côrte de D. Affonso IV, e foi entregue a
    Pedro cruel em troca dos assassinos de Inez de Castro.[1] A parte não
    assignada e que não se encontra no Cancioneiro da Vaticana será por
    ventura o corpo das canções escriptas durante o tempo em que a côrte
    de D. Affonso III esteve fixa em Santarem. Alem d'isso a parte commum
    tem a particularidade de conservar a mesma ordem nas canções, e ao
    mesmo tempo as variantes mais fundamentaes n'essas lições. D'aqui se
    conclue, que já existia um Cancioneiro formado, d'onde este da Ajuda
    estava sendo trasladado, mas que d'esse cancioneiro existiam
    differentes copias formadas, não directamente sobre elle, mas por meio
    dos cancioneiros particulares que o constituiram. A parte não commum
    ao codice de Roma, prova nos tambem que alguns d'esses cancioneiros
    parciaes se perderam, ou eram já tão raros que não chegaram a ser
    encorporados na collecção. Admittida a hypothese de que o Cancioneiro
    da Ajuda, pelo facto de ter pertencido a el-rei D. Diniz e de andar
    encadernado junto do Nobiliario do Conde D. Pedro, fosse o proprio
    _Livro das Cantigas_, como primeiro quiz Varnhagem, o facto de
    apparecerem aí outros trovadores prova-nos a nossa hypothese, que o
    Conde D. Pedro compilara sob esse titulo as canções dos trovadores
    seus contemporaneos. O numero de vinhetas imperfeitamente coloridas do
    cancioneiro da Ajuda são dezaseis; isto leva a inferir que esse codice
    era formado de dezeseis corpos de canções que pertenciam a dezassete
    trovadores. De facto a coincidencia aqui é pasmosa: o numero dos
    trovadores communs ao Cancioneiro da Ajuda e da Vaticana é de
    dezesete! Note-se que este numero é o que se perfaz com os nomes de
    _Fernam Padrom, João de Gaya, e Pero d'Armêa_, que achámos alem
    d'aquelles que primeiro descobriu Varnhagem. D'este numero se tira a
    conclusão que o Cancioneiro da Ajuda pertence exclusivamente a esses
    dezessete trovadores, e que as cincoenta e seis canções communs ao
    Codice da Ajuda eram as que andavam por cancioneiros parciaes, como as
    mais conhecidas, e pelas variantes que appresentam, as mais repetidas.
    Alem d'isso, pode suppor-se que o Cancioneiro da Ajuda não foi
    acabado, por que o estylo _limosino_ em que está escripto, passou de
    moda, preferindo-se os _Cantares d'amigo_, as _serranilhas_, as
    _pastorellas_, os _lais_ e as _sirventes_, mudança de gosto
    proveniente da grande affluencia de jograes gallegos, leonezes e
    castelhanos á côrte de Dom Diniz; e sob o gosto da côrte de Dom
    Affonso IV prevaleceram tambem as canções e musicas bretans, cuja
    corrente parece ainda reflectida no Cancioneiro da Ajuda, em um
    remotissimo vestigio, no fragmento de canção em que se lê a palavra
    _guarvaya_, com que o trovador allude aos seus infelices amores. Nas
    _Leges Wallice_, XXIII, I, encontra-se o dom das nupcias, _kyvarus_,
    que se pagava ao cantor da côrte: "Penkered (musicus primarius) debet
    habere mercedes de filiabus poetarum sibi subditorum; habebit quoque
    munera nuptiarum, id est _kyvarus neythans_, á feminibus nuper datis,
    scilicet XXIIIIor denarios."[2] A connexão historica e a interpretação
    litteral mostram que a _guarvaya_ do trovador portuguez é o mesmo
    facto ou costume bretão _kyvarus_; a verificação pelos processos da
    alteração phonetica pertence para outro logar. Em todo o caso este
    vestigio é um dos nexos mais intimos que se pode achar com o codice
    perdido de Colocci, em que estavam já colligidos alguns _lais_
    bretãos.

    A musica do Cancioneiro da Ajuda tambem foi abandonada, por que foram
    substituidos nos costumes outros instrumentos e outras tonadilhas; no
    poema francez de Bertrand Du Guesclin, fala-se de cantores bretãos na
    côrte de D. Pedro I de Portugal. Foi já n'esta nova corrente poetica e
    com o fervor que ella despertara que se começou a formar o vasto
    cancioneiro, de cuja existencia se sabe por quatro apographos. Crêmos
    que o compilador que trasladou ou organisou o texto authentico d'onde
    saíu o apographo do Vaticano, não soube da existencia do Cancioneiro
    da Ajuda, apezar das cincoenta e seis canções communs a ambos. Este
    facto será mais amplamente explicado.

    4. O Cancioneiro de Dona Mecia de Cisneros.

    Na sua _Carta ao Condestavel de Portugal_, escripta antes de 1449, o
    Marquez de Santillana, no § XV, diz que se recordava de ter visto,
    quando era bastante menino, em poder de sua avó Dona Mecia de
    Cisneros, entre outros livros, um grande volume de cantigas…. O
    Marquez de Santillana nasceu em 1398, e sua avó Dona Mecia, na
    companhia da qual passou a sua infancia, morreu em Dezembro de 1418,
    em Palencia. Em primeiro logar "o _grande volume de Cantigas_, e
    _outros livros_" citados na carta, existiam em casa de D. Mecia de
    Cisneros por que provinham de Garcilasso de la Vega, e de Pero
    Gonzales de Mendoza, como claramente o affirma Amador de los Rios:
    "passo su infancia en casa Doña Mencia de Cisneros, su abuela, donde
    hubo de aficionar-se à la lectura de los poetas en los codices que
    poseyeron Garcilasso de de la Vega y Pero Gonzales de Mendoza…"[3]
    Garcilasso de la Vega, bisavó do Marquez, morrera em 1351, e esta
    data, e as suas relações de parentesco com a aristocracia portugueza
    explicam como a elle ou a Pedro Gonzales de Mendoza chegou o volume
    das cantigas. Portanto esse grande cancioneiro não existia em Hespanha
    antes poucos annos de 1351 e foi pouco antes de 1418 que o joven
    Marquez de Santillana o consultou. Pedro Gonzales de Mendoza era
    tambem poeta do côrte de Don Pedro e de Don Enrique (Amador de los
    Rios, _op.cit._, p. 623), e isto mostra o interesse que o levaria pelo
    seu lado a conservar o grande cancioneiro portuguez.

    A descripção que faz o Marquez de Santillana d'esse codice, coincide
    com o que existe na Bibliotheca do Vaticano em copia do seculo XVI:
    _"un grande volume de Cantigas serranas e dizeres portuguezes e
    gallegos"_. São ao todo mil duzentas e cinco cantigas compostas no
    genero descripto por Santillana, e os poetas são em grande numero
    galegos. Em seguida accrescenta: _"dos quaes a maior parte eram do rei
    D. Diniz de Portugal"_. Effectivamente o trovador que mais canções
    appresenta no codice da Vatícana é el-rei D. Diniz, cujas composições
    estão compiladas entre o numero 80 e 208, sendo ao todo cento e vinte
    nove. Accrescenta mais o Marquez de Santillana: _"cujas obras aquelles
    que as liam, louvavam de invenções subtis, e de graciosas e doces
    palavras"_. Esta affirmação, sobendo-se que o Marquez escreve sobre
    uma recordação da sua infancia, não podia resultar se não dos gabos
    ouvidos a Pero Gonzales de Mendoza, poeta do Cancioneiro de Baena,
    gabos que fizeram com que o livro se conservasse em casa de D. Mecia
    de Cisneros, e d'onde se tirara por ventura essa outra copia que hóje
    existe em poder de um grande de Hespanha, segundo uma affirmação de
    Varnhagem. N'esta mesma carta ao Condestavel de Portugal, allude o
    Marquez aos talentos poeticos de seu avô e cita varias das suas
    composições: _"E Pero Gonzales de Mendoza, meu avô, fez boas
    canções"_. Crêmos que por esta via é que o cancioneiro foi copiado
    para Castella, copiado dizemos nós porque se conforma com um grande
    cancioneiro já organisado, de que o de Roma é um apographo terciario.
    O Marquez de Santillana cita de memoria os principaes trovadores que
    vira transcriptos n'essa vasta collecção: "Havia outras (sc. canções)
    de _Joham Soares de Paiva_, o qual se diz que morrera em Galiza por
    amores de uma infanta de Portugal; e de outro _Ferrant Gonçalves de
    Senabria"_. Pela referencia a estes dois trovadores se vê qual o
    estado do cancioneiro manuscripto ou volume de Cantigas de D. Mecia de
    Cisneros. No apographo da Vaticana se acha uma canção de _João Soares
    de Paiva_, quasi no fim da collecção, (n°. 937) ao passo que no
    cancioneiro que pertenceu a Colocci e de que apenas resta o indice dos
    trovadores (cod. vat. n°. 3217) se acha logo sob o numero 23 o nome de
    _João Soares de Paiva_ com sete canções successivas. Em seguida a este
    trovador cita _Ferrant Gonçalves de Senabria_, porem no Codice de
    Colocci acha-se sob o numero 384 citado _Gonçalves de Seaura_ com dez
    canções a seguir. Isto concorda com a phrase do Marquez, referindo-se
    a essas canções: "Havia outras….." O motivo d'esta referencia
    especial seria por ter este trovador o apellido de _Gonçalves_, de seu
    avô, e por isso ainda pertencente á sua linhagem. No Codice da
    Vaticana agora publicado, acha-se um fragmento de canções de _Fernão
    Gonçalvis_, e só sob o numero 338 outra canção de _Fernão Gonçalves de
    Seavra_, a qual corresponde segundo Monaci ao numero 737 do Codice
    perdido de Colocci.

    Portanto, o Cancioneiro de D. Mecia de Cisneros era completo pelo que
    se deduz da citação d'estes dois trovadores, cujas obras se achavam
    antes da folha 42 do actual Codice Vaticano, na qual começa. No
    Cancioneiro de Colocci, em vez de _cento e vinte nove_ canções, el-rei
    Dom Diniz é representado com _setenta e outo;_ mas ainda assim era uma
    grande collecção para o Marquez poder dizer d'ella em relação ao
    volume das Cantigas _uma maior parte_. Em seguida a estas preciosas
    referencias cita tambem na sua carta _Vasco Peres de Camões_, poeta do
    Cancioneiro de Baena e contemporaneo de Pedro Gonçalves de Mendoza por
    cuja via seria conhecido em casa de Dona Mecia de Cisneros, e pelos
    eruditos que tinham o cuidado da educação do Marquez. Por ultimo,
    infere-se que o Codice de D. Mecia era uma copia castelhana, por que
    transcreve o nome de _Fernão_ em _Ferrant_, e o de _Seavra_ em
    _Senabria_, o que se não pode attribuir a vicio de ortographia do
    Marquez de Santillana. Estes topicos bastam para considerar a copia de
    D. Mecia mais proxima do texto autographo do que a da Vaticana.

    5. Cancioneiro de Angelo Colocci. (_Catalogo di Autori portoghesi
    compilato da Angelo Colocci sopra un antico Canzoniere oggi ignoto._
    Ms. 3217 da Bibl. Vat.)

    O illustre editor Ernesto Monaci ao estudar o manuscripto do
    Cancioneiro da Bibliotheca do Vaticano, n°. 4803, pelas referencias do
    texto e paginação de um outro codice ali intercalladas, reconheceu que
    deveriam ter existido duas fontes para este apographo. Nas suas
    investigações na opulenta Bibliotheca do Vaticano teve a felicidade de
    descobrir o Catalogo dos Trovadores portuguezes no manuscripto 3217, o
    qual combina na maior parte com o dos Trovadores do Cancioneiro n°.
    4803, sendo as emendas d'este ultimo codice da mesma letra do indice
    escripto pelo philologo Angelo Colocci, erudito italiano do seculo
    XVI. É certo que o Cancioneiro da Vaticana pertenceu primeiramente a
    Colocci antes de vir a ser propriedade da Bibliotheca vaticana;
    Colocci era um d'esses distinctos eruditos italianos do fim do seculo
    XV, que colligiram manuscriptos de todos os paizes e cuja opulencia se
    distinguia pela formação de ricas livrarias, taes como Leão X, Bembo,
    Orsini, e outros tantos. Colocci morreu em 1549, tendo a sua livraria
    soffrido bastante no saque de Roma pelo Condestavel de Bourbon em
    1527. Por tanto, entre estas duas datas é que se teria perdido esse
    grande cancioneiro, do qual apenas resta o _Catalogo dos Autores
    portuguezes_, e que a Bibliotheca do Vaticano adquirira o cancioneiro
    n°. 4803, apographo de um outro perdido, mas emendado pela mão de
    Colocci sobre o exemplar hoje representado unicamente pelo indice.

    Antes de examinar qual a riqueza da Livraria de Colocci em
    manuscriptos portuguezes, surge a questão mais difficil de resolver:
    Como vieram estes varios cancioneiros portuguezes para as Livrarias
    italianas?

    Sabe-se que os pontifices mais instruidos mandavam procurar em todos
    os paizes os mais preciosos manuscriptos; de Leão X escreve Ginguené:
    "Não poupava despezas nem rodeios junto das potencias estrangeiras
    para fazer procurar nos paizes mais remotos e até nos estados do norte
    _livros antigos ainda ineditos_."[4] O modo como estes rodeios eram
    efficazes, explica-se pela prohibição de certos livros e pela
    instituição da censura, que já no século XV se exercia em Hespanha e
    em Portugal, como vêmos pelo _Leal Conselheiro_ de El-rei D. Duarte.
    Os livros eram entregues á auctoridade ecclesiastica para serem
    examinados, e sob qualquer pretexto de escrupulo não eram mais
    restituidos. Basta vêr a quantidade de canções obscenas e irreligiosas
    que o Cancioneiro portuguez da Vaticana encerra para se conhecer como
    veiu a caír na mão da auctoridade ecclesiastica e como sob ordem
    superior esse _livro antigo ainda inedito_ foi remettido para Roma.
    Alem d'isto, a paixão pela Renascença da antiguidade, que começou no
    seculo XV, fez com que nos diversos paizes decaísse repentinamente o
    amor pelos seu monumentos nacionaes. D'esta falta de amor pelo proprio
    passado proveiu para Portugal a perda de muitos manuscriptos, como o
    da novella _Amadis de Gaula_, de muitos cancioneiros manuaes, como
    relata Faria e Sousa, pelo que dizia o Dr. João de Barros no principio
    do seculo XVI, que estas cousas se secavam nas nossas mãos. D'esta
    falta de estima pelos monumentos nacionaes, veiu o dispersarem-se
    pelas bibliothecas da Europa muitos thezouros da nossa litteratura,
    como se prova pela existencia da _Demanda do santo Greal_ na
    bibliotheca de Vienna, dos livros de Valentim Fernandes na bibliotheca
    de Munich, do _Leal Conselheiro_ de D. Duarte, _Chronica de Guivé_ de
    Azurara, e _Historia geral de Hespanha_ na bibliotheca de Paris, do
    _Roteiro_ de D. João de Castro no Museu britanico, e do _Cancioneiro
    do Conde de Marialva_, da _Satyra de infelice vida_ do Condestavel de
    Portugal em Madrid. A saida do grande Cancioneiro de Portugal pertence
    a esta forte corrente de dispersão. No fim do seculo XV alguns
    portuguezes eruditos se distinguiam na Europa pelas suas riquezas
    litterarias; em uma _Memória sobre as relações que existiam
    antigamente entre os flamengos de Flandres, especialmente os de Bruges
    e os Portuguezes_, cita-se: "João Vasques, natural de Portugal,
    mordomo de D. Isabel de Portugal, Duqueza de Borgonha:–Vasques
    possuía uma Bibliotheca, ou pelo menos diversos manuscriptos de
    valor."[5] Entre esses livros figuravam _Histoire de Troie la grant_,
    e alguns tinham as armas de Portugal na encadernação, como o velino
    _Horae beatae Mariae Virginis_. Tambem no seculo XV figuravam no
    estrangeiro os eruditos Diogo Affonso de Mangaancha, Vasco Fernandes
    de Lucena, Achilles Estaço, e outros muitos amadores bibliophilos.
    Cuidava-se em comprar livros impressos, por meio das Feitorias
    portuguezas, mas os manuscriptos sobre tudo os da litteratura medieval
    perdiam-se com a mais censuravel incuria. Sabe-se por uma carta de
    João Rodrigues de Sá dirigida a Damião de Goes, que el-rei D. Affonso
    V mandou vir de Italia Frei Justo, a quem fez bispo de Ceuta, com o
    fim de escrever em latim a historia dos antigos reis de Portugal, e
    que todos os documentos que lhe foram entregues se perderam na sua
    mão, por ter repentinamente fallecido da peste. É natural que estes
    subsidios historicos constassem tambem de varios cancioneiros, por que
    a poesia fôra um facto importante nas côrtes de D. Affonso III, D.
    Diniz e D. Affonso IV; alem d'isso o espolio d'este bispo italiano
    seria arrecadado pela auctoridade ecclesiastica e remettido para Roma.
    Por todos estes factos parece justificar-se a hypothese de existir na
    bibliotheca do Vaticano, antes do saque de Roma em 1527, um d'esses
    cancioneiros portuguezes, e que d'aí se dispersaram por essa causa: "A
    bibliotheca do Vaticano, tão liberalmente enriquecida por Leão X, foi
    saqueada; os livros mais preciosos foram preza de um furor ignorante e
    barbaro, como os da bibliotheca dos Medicis em Florença."[6] Pelo
    codice 4803, publicado por Monaci, se vê que este Cancioneiro foi
    copiado de um outro cancioneiro ja bastante truncado, como observou o
    critico editor pelas siglas antigas: _"Manca da fol. II infino a fol.
    43"_; e na pagina 10: _"Fol. 97 desunt multa"_; e pela ultima pagina,
    na qual se vê que ficou interrompida a copia.

    Alem d'esta deducção, tira-se uma outra, isto é, que o Codice 4803 foi
    comparado por Colocci com um outro mais rico e completo do qual só
    resta agora o _catalogo dos trovadores_. Os biographos de Colocci
    tambem consignam o facto de parte da sua opulenta bibliotheca ter sido
    destruida no saque de Roma, em 1527. Este philologo italiano possuia
    um decidido gosto pela poesia vulgar italiana, e conhecia a
    importancia do estudo das litteraturas novolatinas, como se vê pelo
    interesse com que procurava as Canções de Foulques de Marseille, e
    pela posse de varios codices com os titulos _Libro spagnolo di
    Romanze_, e _De varie Romanze volgare_, por ventura alguns d'elles
    provenientes da acquisição de manuscriptos das collecções de Bembo e
    de Orsini; seria algum d'estes livros o Cancioneiro da Vaticana, ou
    esse outro cancioneiro de que apenas resta o catalogo dos auctores.
    N'este catalogo precioso descoberto por Monaci, sob o numero 44–
    _Bonifaz de Jenoa_ segue-se esta referencia a manuscriptos de Bembo:
    _"vide bembo Ms. bonifazio Calvo de Genoa."_ E sob o numero 456–_il
    Rey don Affonso de Leon_, segue-se esta nota: _"bembo, dice di Ragona,
    figlio di Berenghieri."_ A variante do Codice de Bembo _di Ragona_
    seria _d'Aragone_ em vez de _Leon_, isto é, um dos codices parciaes d'
    onde se formou o grande cancioneiro parece fixar-se por esta
    circumstancia. Sob este mesmo numero segue-se: _"Alia lectio i
    Portugal, rey Don Sancho deponit."_ Quer esta observação de Colocci
    significar, que este rei D. Affonso em outro codice é citado como rey
    de Portugal, o que depoz D. Sancho, facto que caracterisa el-rei Dom
    Affonso III, que depoz seu irmão D. Sancho II. N'este caso este
    monarcha tambem fôra trovador, o Colocci possuia algum cancioneiro
    parcial. No mesmo Indice dos Trovadores, sob o numero 467 onde se
    continha as canções de El-rei Dom Affonso rei de Castella e de Leão,
    accrescenta-se: _"vide nel mio lemosino"_, no qual se attribuem as
    mesmas cantigas de preferencia ao rei de Leão, isto é, em harmonia com
    o titulo _di Ragona_, do numero 456. Em uma outra nota que o illustre
    Monaci achou no Codice n°. 4817, de letra d'este erudito, se acha a
    seguinte referencia a um codice portuguez: _"Messer Octaviano di
    messer barbarino, ha il_ libro di portoghesi, _quel da_ Ribera _l'ha
    lassato."_ Sabendo-se pela bibliographia, que o manuscripto da _Menina
    e Moça_ de Bernardim Ribeiro, foi na primeira metade do seculo XVI
    levado para a Italia, imprimindo-se em Ferrara em 1544, cinco annos
    antes da morte de Colocci, parece que a phrase _quel_ (libro) _da
    Ribera_ se refere a esta novella portugueza. Seria por este tempo que
    o cancioneiro portuguez se tornou conhecido em Roma, como dá noticia
    Duarte Nunes de Leão, nas palavras _"que em Roma se achou"_, mas sem
    dizer que já pertencia á Bibliotheca do Vaticano. A epoca em que este
    codice entrou n'esta rica bibliotheca pode fixar-se depois de anno de
    1600, por que os livros e manuscriptos de Colocci foram adquiridos
    pelo erudito Fulvio Orsini, que os deixou em testamento á Vaticana.[7]
    Esta é a opinião de Monaci; não concordamos porém com a sua
    interpretação do trecho de Duarte Nunes de Leão quando este escriptor
    portuguez diz: "segundo vimos por um cancioneiro seu, que em Roma se
    achou, em tempo de el-rei Dom João III…" deduzindo que Nunes de Leão
    chegara _a vêr_ esse cancioneiro; em primeiro logar, Nunes de Leão
    refere-se a um _Cancioneiro seu_, isto é unicamente de el-rei Dom
    Diniz, e não geral, como o de que resta noticia pelo Indice de Colocci
    e pelo apographo da Vaticana; isto já é uma prova da informação vaga
    do chronista, e alem d'isso a phrase _segundo vimos_, significa: como
    se prova, como se deduz. Nunes de Leão conhecia o codice das canções
    de D. Diniz que no principio de século XVII se guardava na Torre do
    Tombo, como elle diz: _"e per outro que está na Torre do Tombo…"_ ou
    talvez pelo que pertencia aos Freires de Christo, de Thomar. Vivendo
    no meado do seculo XVII, já o cancioneiro grande havia sido recebido
    na Bibliotheca do Vaticano e poderia ter noticia da existencia do
    Codice; porém o chronista refere-se principalmente a um _Cancioneiro
    de Dom Diniz_, e as referencias de Sá de Miranda, de Ferreira e de
    Camões são unicamente aos talentos poeticos de D. Diniz. Como chegou a
    Portugal noticia do apparecimento em Roma? Sá de Miranda demorou-se na
    sua viagem á Italia, entre 1521 e 1526, e conviveu com os principaes
    eruditos italianos, Lactancio Tolomei e João Ruscula, e dava-se tambem
    por parente da casa dos Colonas; é possível que, regressando a
    Portugal en 1526, quando havia já cinco annos que D. João III reinava,
    désse a noticia da descoberta de um cancioneiro em Roma, quando
    visitara as principaes livrarias; o facto dos poetas da eschola
    italiana alludirem ao talento poetico de D. Diniz, leva a induzir esta
    noticia como communicada pelo que trouxe a Portugal esse novo gosto
    litterario.

    Em 1527 foi o saque de Roma, e a livraria de Colocci tambem soffreu
    com essa devastação; por ventura algum dos cancioneiros acima citados
    se perdeu, ou foi talvez adquirido algum d'entre os livros roubados
    por esta occasião da Vaticana. É de presumir que o _Libro di
    Portoghesi_ fosse o Cancioneiro de que só resta o Indice, e sendo
    assim, perder-se-hia em poder de Messer Octaviano de messer Barbarino;
    se o libro _da Ribera_ é o manuscripto de Bernardim Ribeiro, impresso
    mais tarde em Ferrara, então pode fixar-se a perda do Cancioneiro
    n'esse mesmo anno em que morreu Colocci. O inventario dos seus livros,
    feito a 27 de Outobro de 1558, nove annos depois da sua morte,
    explica-nos como os livros que estavam emprestados ficaram perdidos.
    Pelo Indice d'este Cancioneiro, achado por Monaci, vê-se que elle
    constava de mil seiscentas e setenta e cinco canções, mais quatro
    centas e setenta, omissas no apographo da Vaticana, hoje publicado.

    6. Il Canzoniere portoghese della Bibliotheca Vaticana, n°. 4803.
    Messo a stampa de Ernesto Monaci. Halle, 1875.

    Desde 1847, que o brasileiro Lopes de Moura publicou em Paris um
    excerpto do grande Cancioneiro portuguez da Vaticana, contendo as
    canções de el-rei Dom Diniz. Como se veiu a conhecer a existencia
    d'este precioso codice em Roma? Desde o principio do seculo XVII que
    elle entrara na Bibliotheca do Vaticano pela doação dos livros de
    Fulvio Orsini; no seculo XVIII, segundo Varnhagem, era citado por um
    bibliophilo hespanhol junto com outros codices de poesias catalans e
    valencianas; o facto de existir com encadernação moderna e com a
    insignia papal de Pio VII (1800–1823) explica-se pela reparação e ao
    mesmo tempo pelo interesse que houve em conservar o cancioneiro
    formado de cadernos differentes e incompletos, e escriptos com tinta
    corrosiva que o pulverisa. Wolf, por intervenção do slavista Kopitar,
    mandou fazer as primeiras investigações no Vaticano para descobrir
    este codice de que tinha vago conhecimento pela vaga allusão de Nunes
    de Leão; foram infructuosas as tentativas; o visconde da Carreira,
    embaixador em Roma, avisado por um franciscano (por ventura o P.
    Roquete, como se sabe pelo prologo da edição de Moura) conseguiu a
    copia da parte publicada em Paris por Aillaud. Desde 1847 até hoje,
    nunca o governo portuguez, nem a Academia real das Sciencias
    comprehenderam o valor d'este monumento. A reproducção das nossas
    riquezas litterarias têm sido sempre feita por estrangeiros, e a
    publicação d'este importantissimo cancioneiro foi agora realisada por
    um rapaz desajudado de subsidios academicos, mas animado pelo amor da
    sciencia. A edição feita em Halle, appresenta todo o rigor
    diplomatico, de modo que os erros do copista italiano do seculo XVI
    podem restituir-se á leitura do portuguez do codice primitivo; apesar
    d'este subsidio, Monaci tentou com um seguro tino critico uma tabella
    dos principaes erros systematicos, e um indice das necessarias
    restituições que se podem fazer em cada canção; em fim, tudo quanto é
    preciso para a intelligencia do texto, existe ali. Monaci conservou a
    disposição do manuscripto na reproducção typographica, já a uma ou a
    duas columnas, com todos os vestigios das differentes numerações e
    siglas referentes a outros codices analogos e mais antigos. Pelo seu
    prologo, de uma precisão rigorosa, se vê toda a historia externa do
    Cancioneiro. O Codice da Vaticana está em papel de linho, com trez
    marcas de agua differentes, tal como se empregava nas edições do
    Varisco; a letra é italiana, tal como a dos documentos do fim do
    seculo XV e principio do seculo XVI, proveniente de dois copistas, um
    que escreveu as poesias, algumas rubricas e notas, outro a maior parte
    dos nomes, as numerações e algumas postillas, contando ao todo 210
    folhas. Da descripção d'este cancioneiro conclue-se, pelo estado em
    que se acha, que outro ou outros cancioneiros foram n'elle copiados ou
    confrontados. A primeira nota que se depara ao abril-o é: "_Manca da
    fol. IJ a fol. 43_;" isto quer dizer, que o cancioneiro foi copiado de
    um outro codice que já se achava assim fragmentado, mas que mais tarde
    foi confrontado com outro que estava completo, como veremos na relação
    com o Indice de Colocci.

    Ao começar o texto acha-se outra referencia: "_A fogli 90_" e segue-se
    a canção de Fernão Gonçalves, o que parece significar, que n'este
    cancioneiro existia outra disposição das poesias á qual se refere este
    numero, que continúa a cotar successivamente outras canções,
    entremeiando-se com numeros romanos, que parecem estabelecer
    referencia a outro cancioneiro. Separemos estas duas ordens de
    numeros, por onde deduzimos o confronto com dois cancioneiros; para se
    localisar melhor a referencia que era de folhas e verso, indicaremos a
    numeração actual das canções: Fol. 91 (canc. 8), 92 (canç. 11); _Fol.
    97 desunt multa_ (canç. 43 fine); junto da canção 61, vem a sigla
    _Desunt_; junto da 63 vem _car_. 106; junto da canção 299: _"Fol. 141
    Al vo"_ (del volumen?); junto da canção 507 vem: "173 _a tergo"_ e
    algumas canções com dois nomes de auctores, como _Martin Campina_ ou
    _Pero Meogo_, como forme a attribuição de um ou outro texto (canc.
    796.). Por fim termina com esta outra rubrica: _"A fol. 290 è
    cominciata una Rubrica e non è finita di copiare"_. Tudo isto prova,
    que se fez o confronto d'este apographo existente cum um codice mais
    completo, seguindo-se o confronto até á folha 300 d'esse codice
    perdido.

    O confronto do Codice por meio da numeração romana não prosegue até ao
    fim; apenas se acha LXXXVJ junto da canção 4; LXXXVIIJ junto da Canção
    14; LXXXVIIIJ junto da canção 26 _fine;_ XCVJ junto da canção 39 a 45;
    XCVIIJ coincide com a referencia anterior, junto da canção 49; XCVIIIJ
    á canção 55; CXII á 62; CXIIIJ á canção 70; CXVIJ á canção 77. Esta
    numeração romana adianta-se aqui mais do que a arabe, signal de que
    havia divergencia entre os dois codices que serviam para confrontação
    com o apographo publicado. É certo porem, que a numeração romana
    termina antes do corpo das canções de el-rei Dom Diniz, d'onde se
    poderá inferir, que até esta parte contribuiu um cancioneiro parcial,
    e que de Dom Diniz só entrava no que era numerado em algarismos. Que
    existiam diversos cancioneiros, pelas mesmas canções d'este codice se
    pode conhecer, como pela canção de D. Affonso de Castella (canç. 76)
    em que allude ao _Livro dos Sons_, que era um cancioneiro com que o
    Dayão de Cales seduzia as mulheres. Na sua edição Monaci deixou
    apontados em um indice fundamental todas as canções repetidas no
    cancioneiro, ou aquellas que mutuamente se plagiavam. Da sua
    comparação se podem tirar poderosas inducções, para se estabelecer
    quantos pequenos cancioneiros haviam servido para formarem o
    cancioneiro grande, do qual o apographo publicado é uma copia. É o que
    vamos tentar.

    _Pequenos Cancioneiros que entraram na formação do Cancioneiro da
    Vaticano_.–A canção 4, de _Sancho Sanches_, apparece repetida com
    mais duas estrophes e assignada por _Pero da Ponte_, sob o numero 569;
    a 2ª e 3ª strophes da versão de Pero da Ponte, faltam na canção de
    Sancho Sanches. As strophes communs têm as seguintes variantes:

    _Sazom foi já_, que me teve em desdem (n°. 4)
    _Tal sazom foi_, que me teve em desdem (nº. 569).

    _Que com'é mais j'agora_ seu amor (n°. 4)
    _Quando me mays forçava_ seu amor. (n°. 569).

    E ora _já_ que pes'a mha senhor (n°. 4)
    E ora _mal_ que pes'a mha senhor (n°. 569).

    Evidentemente estas duas canções foram colligidas de dois cancioneiros
    parciaes, e elles mesmos escriptos em grande parte de memoria.

    A canção 13, de Mem Rodrigues Tenoyro, têm apenas uma estrophe, mas
    repete-se sob o numero 319 com o nome do mesmo trovador e com mais
    duas estrophes que a completam. Deve attribuir-se essa divergencia ao
    ter sido colligida de dois cancioneiros, formado por diversos
    collecctores.

    A canção 29, assignada por João de Guilhade, repete-se sob o numero 38
    com o nome do trovador Stevam Froyam; existem entre ellas leves
    variantes, mas como estão immensamente deturpadas, só pelos dois
    textos se reconstruem. Por este facto se vê, que houve compilação de
    dois cancioneiros, e que o copista mal percebia a letra e fazia
    selecção das canções.

    A canção 116 e 174, do cancioneiro de Dom Diniz, são uma e mesma,
    havendo entre estes dois numeros _variantes_, e sobretudo a 2ª e 3ª
    estrophe alternadas. Não proviria isto dos originaes, escriptos por
    esmerados copistas, que se guardaram na Bibliotheca de el-rei Dom
    Duarte; este facto prova-nos, que o corpo das canções de Dom Diniz,
    que na collecção Vaticana occupa dos n.'os 80 até 208 proveiu de
    copias avulsas de differentes palacianos, e talvez do proprio Conde D.
    Pedro.

    A canção 241, do trovador Payo Soares, apparece com o numero 413
    repetida sob o nome de Affonso Eanes de Coton (Cordu); tem apenas uma
    rapida variante ortographica, mas tanto o facto da repetição, como o
    da attribuição a dois trovadores differentes accusam duas colleções
    parciaes.

    A canções 457 e 469 pertencem a Ayres Nunes Clerigo e são uma unica,
    com a differença que as trez strophes de que constam, tem os versos
    baralhados sem systema; o que se explica pelo caracter jogralesco,
    isto é, que foram duas vezes colligidas no tempo em que eram cantadas
    a caprixo de Ayres Nunes ou de qualquer outro jogral, que as sabia de
    cór; ou então, que provieram de dois cancioneiros onde as duas canções
    se differenciavam pela razão acima indicada.

    A sirvente 472 de Martim Moxa apparece sob o numero 1036, em nome de
    Lourenço, jograr de Sarria, com variantes fundamentaes, que provam
    compilação de dois cancioneiros diversos. O caracter sirventesco fez
    talvez que varios jograes regeitassem a paternidade d'essa canção que
    verbera os privados da côrte de D. Affonso III.

    O numero 613 e 639 são uma mesma canção de João Ayres, burguez de
    Santiago; abundam as variantes entre estas duas composições, signal de
    que provieram de duas copias resultantes da monomania dos cancioneiros
    particulares. E sob o nome d'este mesmo trovador andam as duas canções
    repetidas 634 e 138, tendo esta ultima alem das variantes mais uma
    estrophe e um Cabo.

    Em nome do jogral João Servando apparecem repetidas as canções 738 e
    749 com variantes fundamentaes entre si:

    Ora vou a Sam Servando,
    donas, fazer romaria,
    e nom me leixam com elas
    hir, cá logo alá hiria
    por que vem hy meu amigo. (738)

    Donas vam a Sam Servando
    muytas hoje em romaria,
    mais nom quiz oje mha madre
    que foss' eu hi este dia
    por que vem hy meu amigo. (749)

    As outras variantes nas demais strophes são menos reparaveis, mas no
    numero 738 ha uma strophe a mais. A pequena distancia a que ficam uma
    da outra estas canções, provam-nos que o copista italiano transcreveu
    materialmente uma compilação já formada; e por tanto tudo quanto se
    pode concluir sobre estas canções identicas liga-se á formação d'esse
    cancioneiro perdido d'onde se trasladou o codice da Vaticana.

    Dois casos especiaes se davam n'essa formação do antigo cancioneiro:
    1° ou as canções se attribuiam na repetição a dois trovadores
    differentes taes como Sancho Sanches e Pero da Ponte, João de Guilhade
    e Stevam Froyam, Pay Soares e Affonso Eanes do Cotom, Martim Moxa e
    Lourenco Jograr; 2° ou se repetiam em nome do mesmo trovador, como Mem
    Rodrigues Tenoyro, el-rei D. Diniz, Ayres Nunes Clerigo, João Ayres, e
    João Servando. Para o primeiro caso conclue-se que contribuiram para a
    formação do grande cancioneiro pequenos cancioneiros trasladados de
    cantares dispersos, por curiosidade, ou tambem apanhados na corrente
    oral, porque um só collector notaria os plagiatos. Para o segundo caso
    poderiam os jograes terem contribuido com os seus cadernos de cantos e
    assim com lições differentes de um mesmo texto que se alterava pelas
    continuadas repetições.

    De todo este confronto se conhece a necessidade de estabelecer por
    todos os meios possiveis ás relações entre este apographo da Vaticana
    e os dois cancioneiros de Colocci, perdido, e o da Ajuda.

    _Relações do Cancioneiro da Vaticana com o Cancioneiro de Angelo
    Colocci_.–Antes de Monaci haver descoberto no Ms. n°. 3217 o Indice
    do Cancioneiro perdido do erudito quinhentista italiano Angelo
    Colocci, ja elle determinara pela forma por que está escripto o
    Cancioneiro da Vaticana, que deveria ter existido um original mais
    antigo e mais completo. A descoberta do Indice veiu authenticar a
    existencia d'esse Cancioneiro perdido e explicar pela letra do proprio
    Colocci, quem é que tinha feito o confronto. O illustre Monaci
    comprehendeu logo quanto util seria para a critica o comparar a lista
    dos trovadores do Cancioneiro perdido com a dos trovadores do
    Cancioneiro existente (Appendice I, p. XIX a XXIV); por uma simples
    inspecção fica o leitor habilitado a conhecer as profundas relações
    entre os dois cancioneiros; o de Colocci continha mil seis centas e
    setenta e cinco canções, e o da Vaticana contem mil duzentas e cinco,
    isto é, quatrocentas e setenta canções a menos, por ventura as que
    occupavam até a _fol_. 90. O numero das canções de cada trovador pode
    tambem ser confrontado, porque no Codice de Colocci as canções de
    Colocci eram numeradas por algarismos e cada nome de trovador é
    precedido pelo numero que limita as canções do antecedente. Assim,
    como já acima vimos, as canções de D. Diniz são no Codice da Vaticana
    cincoenta e uma a mais do que no de Colocci. Apezar d'isso as notas
    _desunt multa_ provam-nos que o Cancioneiro de Colocci era muito mais
    rico, como se vê pelos nomes dos seguintes trovadores que faltam no da
    Vaticana:

    Diego Moniz, que tinha ali uma canção; Pero Paes Bazoco, com sete
    canções; João Velaz, Dom Juano; Pero Rodrigues de Palmeyra; Dom
    Rodrigo Dias dos Conveyros; Ayres Soares; Osorio Annes; Nuno Fernandes
    de Mira-Peixe; Fernam Figueiredo de Lemos; Dom Gil Sanches; Ruy Gomes
    o Freyre; João Soares Fomesso; Nuno Eanes Cerzeo; Pero Velho de
    Taveirós; Pay Soares de Taveirós; Fernam Garcia Esgaravunha, do qual
    existiam dezessete canções; João Coelho; Pero Montaldo; duas canções
    do trovador genovez Bonifacio Calvo; o Conde D. Gonçalo Garcia; Dom
    Garcia Mendes de Eixo; El rei Dom Affonso IV, filho de el-rei D.
    Diniz, com quatro canções. No Codice de Colocci, as canções de D.
    Diniz não estavam em um corpo isolado, apresentando mais quatro
    composições destacadas no fim do cancioneiro. Esta parte tambem é
    omissa no Cancioneiro da Vaticana, por que aí se encontram outra vez
    trovadores dos supracitados, como João Garcia, D. Fernam Garcia
    Esgaravunha, Pero Mastaldo, Gil Peres Conde, Dom Ruy Gomes de
    Briteiros, Fernam Soares de Quiñones, etc. Pelo confronto do Indice de
    Colocci se conhece, que embora se sigam ao texto do Cancioneiro da
    Vaticana quatorze folhas em branco, nem por isso ficou muito distante
    do fim, por que só deixaram de ser copiadas algumas sirventes de
    Julião Bolseyro. D' este confronto se conclue: 1°. que o codice d'onde
    se extraíu a copia da Vaticana differia no numero das canções e na sua
    disposição do de Colocci; 2º. que as relações mutuas accusam fontes
    communs, mas colleccionação arbitraria no agrupamento dos differentes
    cancioneiros parciaes.

    _Relações do Cancioneiro da Vaticana com o Cancioneiro da Ajuda_. —
    Lopes de Moura foi o primeiro que encontrou na collecção da Vaticana a
    canção de João Vasques, _Muyt'ando triste no meu coraçom_, que existe
    anonyma no Cancioneiro da Ajuda. Logo depois, Varnhagem achou mais
    quarenta e nove canções communs aos dois codices, e nós mesmo ainda
    viemos a encontrar mais seis canções repetidas. São ao todo cincoenta
    e seis canções communs, facto importante para estabelecer as relações,
    que existiram entre os dois cancioneiros. Em primeiro logar, o
    Cancioneiro da Vaticana foi já copiado de um codice truncado, como por
    exemplo: a canção 43 tem a rubrica final: _"Fol.97 desunt multa"_ e a
    canção seguinte está truncada no principio; porem estas canções de
    João Vasques completam-se pelo Cancioneiro da Ajuda, canção n°. 272 e
    273 (ed. _Trovas e Cantares_). Isto prova, que embora o Cancioneiro da
    Ajuda esteja truncado e por seu turno se complete com algumas canções
    do codice de Roma (_y_, das _Trovas_ == n°. 38, _Canc. da Vat._) ambos
    provieram de fontes differentes, porque tambem nas cincoenta e seis
    canções communs existem notaveis variantes:

    _Nostro senhor_, que lhe bom prez foi dar. (Vatic.)
    _Deus_ que lhe _mui_ bom _parecer_ foi dar. (Ajuda)

    N'esta variante o original do codice vaticano mostra-se mais archaico
    na linguagem. Na canção 46, de Fernão Velho (no codice da Ajuda, n°.
    92) no primeiro verso da 2ª strophe vem uma variante que denota erro
    do copista portuguez conservado inconscientemente pelo antigo copista
    italiano:

    E _mha_ senhor fremosa de bom _parecer_ (Vatic.)
    E _mia_ senhor fremosa de bom _prez._ (Ajud.)

    _Prez_ é uma contracção de _preço_, e d'aqui resultou que o copista
    portuguez traduziu inconscientemente; como organisado no paço, o
    Cancioneiro da Ajuda seria formado directamente da contribuição dos
    muitos trovadores que o frequentavam; o Cancioneiro de Roma era já
    derivado de um apographo secundario, truncado no principio, meio e
    fim, e em certos pontos mais archaico.

    Na canção 47 da Vaticana (93 da Ajuda) pertencente a Fernão Velho,
    vem:

    Quant' eu, _mha senhor, de vós_ receei… (Vatic.)
    Quant' eu _de vós, mia senhor_ receei (Ajud.)

    E vos dix'o _mui_ grand'amor que ei (Vatic.)
    E vos dix'o grande amor que _vós_ ei (Ajud.)

    A canção 48 da Vaticana, apesar das imperfeições da copia italiana,
    pode ser reconstruida pelo typo strophico, porem a nº. 94 da Ajuda
    ficou incompleta:

    _Lição da Ajuda: Lição da Vaticana:_

    E mal dia naci, senhor, E mal dia naci, senhor,
    Pois que m'eu d'u vós sodes, vou; pois que m'eu d'u vos sodes, vou;
    Ca mui bem sou sabedor ca mui bem som sabedor
    Que morrerei u nom jaz al; que morrerey hu nom ey al;
    Pois que m'eu d'u vós sodes, vou. poys que m'eu d'u vos sodes, vou,
    …………. pois que de vos ei a partir _por mal._

    …………. E logo hu m'eu de vós partir
    …………. morrerey se me deus nom val.

    A canção 53 da Vaticana (Ajuda, nº. 99), tem uma strophe mais
    imperfeita do que no codice da Ajuda; mas en compensação tem o _Cabo_,
    que falta no codice portuguez:

    _Ajuda: Vaticana:_

    Meus amigos, muito me praz…. Meus amigos muyto mi praz _d'amor._
    Cá bem pode partir da mayor Ca bem me pode partir da mayor
    Coita de quantas eu oy falar, coyta de quantas eu oy falar,
    De que eu fuy muyt'_y_ a soffredor; do que eu fuy muyt'ha sofredor
    Esto sabe deus, que me foy mostrar _e sabe deus hu a vi bem falar_
    Uma dona que eu vi bem falar e parecer, por meu mal, eu o sey.
    E parecer por meu mal, e o sei.
    …………. Ca poys m'elles nom querem emparar
    …………. e me no seu poder querem leixar,
    …………. nunca por outra emparado serey.

    A canção 395, de Payo Gomes Charrinho, repetida no cancioneiro da
    Ajuda, n°. 276, tambem revela duas fontes diversas:

    e nom lh'ousey mays _d'atanto_ dizer (Vatic.)
    e nom lh'ousey mais _d'aquesto_ dizer. (Ajud.)

    nem _er cuidey_ que tam bem parecia (Vatic.)
    nem _cuidava_ que tambem parecia (Ajud.)

    mays _quand'_eu vi o seu bom parecer (Vatic.)
    mais _u_ eu vi o seu bom parecer. (Ajud.)

    No codice da Vaticana tem esta canção apenas trez estrophes; porem no
    da Ajuda termina com uma quarta:

    E por esto bem consellaria
    quantos oyrem-no seu bem falar
    nom a vejam, e podem-se guardar
    melhor ca m'end'eu guardei, que morria,
    e dixe mal, mais fez-me deus aver
    tal ventura, quando a fui veer
    que nunca dix'o que dizer queria. (Ajuda)

    Evidentemente as alterações de linguagem não foram do copista
    italiano, porque, comparativamente, a expletiva _er_ é mais archaica;
    e por tanto a omissão da 4ª strophe não foi casual, mas resultante do
    estado d'outra fonte.

    A canção 400, da Vaticana, tambem de Payo Gomes Charrinho, tem leves
    variantes na canção 278 da Ajuda, mas importantissimas omissões; assim
    no Codice de Roma, falta na primeira strophe o verso:

    me quer matar e guaria melhor (Vat.)

    e tambem faltam duas strophes completas com o seu Cabo.

    A canção 428, ainda de Charrinho, tambem no Codice da Ajuda, n°. 285
    offerece leves variantes; porem no Codice da Vaticana alternam-se a
    segunda com a terceira strophe, e falta este Cabo da lição da Ajuda:

    E entend'eu cá me quer a tal bem
    em que nom perde, nem gaano en rem.

    A canções 485, 486 e 487 da Vaticana, do trovador Ruy Fernandes,
    acham-se nos pequenos fragmentos legiveis nas folhas do Cancioneiro da
    Ajuda, que serviram de guardas á encadernação do Nobiliario; esses
    fragmentos, seguindo a edição do Varnhagem são _m, n, o_; ainda assim
    se conhece por elles que existiam divergencias entre os dois codices:

    _Ajuda, (m):_ _Vaticana_, n°. 485:
    A _guisa_ de vos elevar a _forza_ de vos elevar
    Por mia morte nom _aver_. por mha morte nom _aduzer_.

    _Ibid., (n):_ _Ibid._, n°. 486:
    _Amigos_, começa o meu mal. _Ora_ começa o meu mal.

    As canções de Fernão Padrom, n'os. 563, 564, 565, a que achámos as
    analogas nos numeros 126, 127 e 128 do codice da Ajuda, tambem
    apresentam variantes.

    As canções n°. 566, 567, 568, 569 e 570, que andam em nome de Pero da
    Ponte no codice da Vaticana e apparecem anonymas no Cancioneiro da
    Ajuda, n'os. 112, 113, 114, 115 e 116 não appresentam mais variantes
    que a simples modificação ortographica em _mha_ e _mia_, que poderia
    provir das differentes epocas das copias. Esta conformidade entre o
    texto da Vaticana e o da Ajuda, leva-nos a concluir que pequenos
    cancioneiros entraram na coordenação de um grande cancioneiro, e que
    as canções mais conformes são aquellas que andaram em menor numero de
    copias antes de se agruparem na collecção geral.

    Já com relação ás Canções de Vasco Rodrigues de Calvelo, apparecem
    variantes e deturpações que não provêm do copista do seculo XVI, mas
    de codices diversos ja corruptos; a canção 580 comparada com a 265 da
    Ajuda tem uma lição menos pura, incompleta, mas differente:

    _Lição da Ajuda: Lição da Vaticana:_
    Per uma dona que quero gram bem ….. que quero gram bem.

    Com'a mim _fez_; ca des _que eu_ naci Como a mim _faz_; que des _quando_ naci
    nunca vi ome _en_ tal coita _viver_ nunca vi ome tal coita _sofrer_
    como eu _vivo_ por melhor bem querer como eu _sofro_ por melhor bem querer

    Com'_a mim fez muy_ coitado d'amor Com'el _faz mim muy_ coitado d'amor.

    A lição da Ajuda termina com este Cabo, que falta no codice da
    Vaticana:

    Com'a mim fez, e nunca me quiz dar
    Bem d'essa dona, que me fez amar.

    A canção 581, tambem de Vasco Rodrigues de Calvelo, sob a designação
    _e_ da lição da Ajuda (ed. _Trov. e Cant._) alem das mutuas variantes,
    tem a 2ª e 3ª a strophes alternadas:

    E se _soubess'_em qual coyta d'amor (Vatic.)
    Se _lh'eu dissess'_em qual coita d'amor (Ajud.)

    per nulha guisa, _pero m'_ey _sabor_ (Vatic.)
    Per nulha guisa, _ca_ ey _gram pavor._ (Ajud.)

    De mais no Codice de Roma falta este Cabo:

    Mais de tod'esto nora lhi dig'eu rem,
    Nem lh'o direy, cá lhe pesará bem.

    Na Canção 582, do mesmo trovador, ha esta divergencia:

    E rogo _sempre_ por mha morte a deus (Vatic.)
    Et rogo _muito_ por mia morte a deus (Ajud.)

    Na Canção 584, tambem de Calvelos, falta esta terceira estrophe, que
    vem no codice da Ajuda:

    Como vós quiserdes será
    De me fazerdes mal e bem
    E pois é tod'em vosso sen
    Fazed'o que quizerdes já…

    A canção 677, de Pero de Armêa, acha-se imitada no codice da Ajuda,
    nº. 56, por forma que a da Vaticana apresenta um caracter de maior
    vulgarisação, e por isso de proveniencia jogralesca:

    _Lição da Ajuda:_ _Lição da Vaticana:_

    Muitos me veem preguntar, Muytos me veem preguntar,
    mia senhor, a quem quero bem; senhor, que lhes diga eu quem
    e nom lhes queró end'eu falar est a dona que eu quero bem
    com medo de vos pesar en, e com pavor de vos pesar
    nem quer'a verdade dizer, nom lhis ouso dizer per rem,
    mais jur'e faço lhes creer senhor, que vos quero bem.
    mentira, por vos lhe negar.

    Duas canções de Pedro Solás, confrontadas com as do codice da Ajuda,
    acabam de separar definitivamente estes dois cancioneiros:

    _Lição da Ajuda_ (nº. 123): _Lição da Vaticana_ (nº. 824):

    Nom est a de Nogueira _E_ nom est a de Nogueira
    A freira, que _mi poder tem;_ a freira que _eu quero bem,_
    Mays _est_ outra _a_ fremosa mays outra mais fremosa
    A que me _quer'eu mayor bem;_ _e_ a que _mim em poder tem;_
    E moyro-m'eu pola freira e moir-m'eu pola freira
    Mais nom pola de Nogueira. mais nom pola de Nogueira.
    ………………………………………………………….

    Se eu a _freira visse o dia _E_ se eu _aquella freyra
    O dia que eu quizesse_ hum dia veer podesse_
    Nom ha coita no mundo nom ha coita no mundo
    Nem _mingua_ que houvesse nem _pesar_ que _eu_ ouvesse
    E moiro-me … e moyro-me …

    _Se m' ela mi amasse _E seu aquella freyra
    Muy gram dereito faria, veer podess'um dia
    Cá lher quer'eu mui gram bem nenhuã coita do mundo
    E punh'y mais cada dia;_ nem pesar nom averia_
    E moiro-me … e moyro-me …

    Estas duas variantes são elaborações differentes do mesmo trovador em
    epocas diversas, e por tanto os dois cancioneiros provêm
    effectivamente de duas fontes. A canção 825 da Vaticana, que se acha
    sob o numero 124 do Codice da Ajuda, apenas tem a terceira e quarta
    estrophes alternadas. O ultimo paradigma entre estes dois
    cancioneiros, apresenta uma composição (1061 da Vaticana, 253 da
    Ajuda) que pertence a João de Gaya, escudeiro da côrte de D. Affonso
    IV, por onde se fixa não só a epoca da colleccionação do codice de
    Lisboa, mas em que a fonte do Codice de Roma nos apparece mais
    completa:

    _Lição da Ajuda:_ _Lição da Vaticana:_

    Conselho, e quer-_se_ matar Conselho e quer-me matar.
    E assi me tormenta amor
    de tal coyta, que nunca par
    ouv'outr'ome, a meu cuydar,
    assy morrerey pecador,
    e, senhor, muyto me praz en
    que prazer tomades por en
    non no dev'eu arrecear.

    E bem o _podedes fazer_ E bem o _devedes saber_, etc.

    Por todos estes factos se vê, que umas vezes o Codice de Roma é omisso
    com relação ao de Lisboa, o que se poderia impensadamente attribuir a
    incuria do copista; esta hypothese não pode ter logar, porque o
    Cancioneiro da Ajuda por muitissimas vezes apresenta eguaes omissões.
    Por tanto essas cincoenta e seis canções communs aos dois codices,
    entraram n'essas respectivas collecções provindo de codices parciaes e
    de differente epoca.

    _Relações do Cancioneiro da Vaticana com o apographo actualmente
    possuido por um Grande de Hespanha_. — No _Cancioneirinho de Trovas
    antigas_, Varnhagem dá noticia no prologo, de ter encontrado em 1857
    na Livraria de um fidalgo hespanhol um antigo cancioneiro portuguez,
    que, pela canções de el-rei D. Diniz que elle continha, lhe suscitou o
    procurar as analogias que teria com o Cancioneiro da Vaticana n°.
    4803; tirou copia do citado Cancioneiro, e em 1858 procedeu em Roma ao
    confronto do codice madrileno com o da Vaticana. Começavam ambas as
    copias com a trova de _Fernão Gonçalves_, seguindo-se-lhe as duas
    canções de _Pero Barroso;_ ambos os codices combinam nos mesmos nomes
    de trovadores, na ordem das canções, e em geral nos erros dos
    copistas. Poder-se-ha concluir que estes dois apographos se derivam
    ambos do mesmo original? Não; apezar de Varnhagem não ser mais
    explicito na descripção do codice madrileno e guardar no mysterio o
    nome do possuidor, comtudo pelas cincoenta composições do
    _Cancioneirinho_ se descobrem profundas _variantes_, que se não podem
    attribuir a erro de leitura, ainda assim tão frequente em Varnhagem.

    Copiamos aqui essas variantes, para que se conclua pela existencia de
    um outro codice mais antigo, tambem perdido. Na canção II, a strophe
    3ª _(Cancioneirinho)_ acha-se assim:

    Os cavalleiros e cidadãos
    d'aqueste rey aviam dizer
    e se deviam com sas mãos poer
    outrosi donas e escudeiros
    que perderam a tam bem senhor
    de quem poss'eu dizer, sem pavor,
    que não ficou dal nos christãos.

    Pelo codice de Roma vê-se a strophe construida da outro modo:

    Os cavalleiros e cidadãos
    que d' este rey aviam dinheiros
    e outrosi donas e escudeiros,
    matar se deviam por sas mãos … (Canç. n°. 708.)

    Na canção VI, a strophe segunda e terceira _(Cancioneirinho)_ estão
    incompletas e interpolladas d'esta forma:

    _Cancioneirinho:_ _Codice da Vaticana:_

    E as aves que voavam E as aves que voavam
    Quando sayam canções quando saya _l'alvor_
    Todas d'amor cantavam todas de amor cantavam
    Pelos ramos d'arredor; pelos ramos d'arredor;

    Mais eu sei tal que escrevesse mais nom sei tal que _i estevesse_
    Que em al cuidar podesse que em al cuidar podesse
    Se nom todo em amor. se nom todo em amor.

    Em pero dix'a gram medo: _Aly stive eu muy quedo
    quis falar e nom ousey_
    em pero dix'a gram medo:
    — Mha senhor, falar-vos-ey — Mha senhor, falar-vos-ey
    Hum pouco, se m' ascuitardes um pouco, se m'ascuitardes
    Mais aqui nom estarey. _e ir-m'ey quando mandardes_
    mais aqui nom estarei.

    (Canc. nº. 554.)

    Pela lição da Vaticana, onde se vêem as duas strophes completas se
    infere que o defeito no _Cancioneirinho_ provem de um texto imperfeito
    e differente, porventura tirado do apographo hespanhol.

    Na canção XV _(Cancioneirinho)_ vem uma strophe imperfeita, porque é
    formada com duas, que lhe alteram o typo:

    _Cancioneirinho:_ _Codice da Vaticana:_

    E foi-las aguardar E fui-las aguardar
    E nom a pude ver; e nom o pude achar
    e moiro-me d'amor. e moiro-me d'amor!
    E fui-las atender,
    e nom no pude veer
    E moiro-me d'amor.

    A canção XVII do _Cancioneirinho_ tem só trez strophes; na lição do
    Codice da Vaticana, ha mais esta:

    Estas doas mui belas
    el m'as deu, ay donzelas,
    nom vol-as negarey;
    mas cintas das fivelas
    eu nom as cingirei.

    Com certeza esta deficiencia proveiu do apographo madrileno. Na canção
    XXI, a strophe 4ª está interpollada, e segundo a lição da Vaticana é
    que se conhece a proveniencia de outro codice:

    _Cancioneirinho:_ _Codice da Vaticana:_

    Cá novas me disserom Ca novas me disserom
    Que vem o meu amigo ca vem o meu amado
    C'and'eu mui leda. e and' eu mui leda,
    poys migu'é tal mandado;
    _E cuido sempre no meu coraçom poys migu'é tal mandado
    Pois nom cuid'al, des que vos vi, que vem o meu amado.
    Se nom en meu amigo,
    E d'amor sei que nulh'ome tem,_
    Pois migo é, tal _mandades;_
    Que vem o meu amado.

    Os versos sublinhados do _Cancioneirinho_, são visivelmente d'outra
    canção, porque tem outro typo strophico, e essa interpolação não se
    pode attribuir a erro de leitura de Varnhagem.

    Na canção XXV, ha uma 4ª strophe, que é repetição da 1ª; na lição da
    Vaticana não existe esta forma; evidentemente o editor do
    _Cancioneirinho_ seguiu aqui o codice madrileno.

    Na canção XLV falta esta strophe, que pela lição do texto da Vaticana
    se vê que é a segunda:

    Nom ja em al d'esto som sabedor
    de m'algum tempo quizera leixar
    e leix'e juro nom a ir matar
    mays poys la matam, serey sofredor
    sempre de coyt'em quant'eu viver,
    cá sol y cuido no seu parecer
    ey muyto mais d'outra rem desejar.

    Na canção XLVI, falta esta 4ª strophe da lição da Vaticana:

    Por en na sazom em que m'eu queixey
    a deus, hu perdi quanto desejei
    oy mais poss'en coraçom deus loar;
    e por que me poz em tal cobro que ey
    por senhor a melhor de quantas sey
    eu, que poz tanto bem que nom ha par.

    A canção XLVIII encerra a prova definitiva de que o codice madrileno
    serviu de base da edição do _Cancioneirinho_, e que esse codice
    proveiu de uma fonte diversa do da Vaticana; aí se acham essas duas
    strophes, que faltam no codice de Roma:

    O que se foi comendo dos murtinhos
    E a sa terra foi bever os vinhos,
    Nom vem al Maio.

    O que da guerra se foi com espanto
    E a sa terra se foi armar manto
    Nom vem al Maio.

    Por outro lado no codice madrileno tambem faltam cinco strophes, por
    que são omissas no _Cancioneirinho:_

    O que da guerra se foi com'emigo
    pero nom veo quand'a preyto sigo
    nom vem al Maio.

    O que tragia o pendou a _aquilom_
    e vendid'é sempr'a traiçom
    nom vem al Maio.

    O que tragia o pendou sen oyto,
    e a sa gente nom dava pam coyto,
    nom vem al Maio.

    E no final da canção:

    O que tragia pendom de cadarço
    macar nom veo no mez de Março,
    nom vem al Maio.

    O que da guerra foy por recaùdo
    macar em Burgos fez pintar escudo,
    nom vem al Maio.

    Indubitavelmente o codice madrileno provém de uma outra fonte, por que
    tem omissões e accrescentamentos, que o differenciam do Codice da
    Vaticana; mas a ordem das canções e os nomes dos trovadores, communs
    aos dois, provam-nos que ambos foram copiados de cancioneiros já
    organisados dos quaes um era já apographo. A circumstancia de
    começarem ambos pela trova de _Fernão Gonçalves_, e de se lêr no
    codice do Roma a nota: _"Manca da fol. ij in fino a fol. 43"_
    provam-nos que o original primitivo já andava truncado e é isto o que
    dá a mais alta importancia ao Indice de Colocci do Cancioneiro perdido
    que era a cópia mais antiga, por que o monumento diplomatico estava
    ainda completo. Monaci não desconheceu o valor das variantes do
    _Cancioneirinho_.

    Depois de toda esta discussão sobre os diminutos vestigios que restam
    de alguns cancioneiros portuguezes dos seculos XIII e XIV, a
    aproximação de numerosos factos secundarios, e as inducções que se
    formam sobre elles, exigem uma recapitulação clara para que se possam
    tirar a limpo algumas conclusões geraes. Representamos os cancioneiros
    que são conhecidos por letras maiusculas, e aquelles cuja existencia
    se pode inferir pelas variantes são notados por letras minusculas; com
    estes signaes formaremos uma tentativa de filiação de todos esses
    cancioneiros em um schema, que poderá, ser modificado á medida que se
    descobrirem novos subsidios:

    A.] _O Livro das Cantigas do Conde de Barcellos_,–citado no seu
    testamento, e deixado a Affonso XI, tambem trovador. Tendo em vista o
    genio compilador do Conde e o andar ligado ao seu Nobiliario o Codice
    da Ajuda, cancioneiro de varios auctores, pode-se inferir que o _Livro
    das Cantigas_ não era exclusivamente do Conde, mas sim uma compilação
    sua. No Cancioneiro da Vaticana encontram-se canções do Conde, de
    Affonso XI e grupos de canções do Codice da Ajuda em numero de
    cincoenta e seis assignadas por fidalgos da côrte de D. Diniz.

    B.] _O Cancioneiro de D. Diniz (Livro das Trovas de Elrei Dom Diniz;_
    existiu separado em volume pelo que se sabe pelo Catalogo dos Livros
    de Uso de el-rei Dom Duarte. Foi encorporado no codice da Vaticana
    depois da canção 79. B¹.] Outro, dos Freires de Christo de Thomar.

    C.] _O Cancioneiro da Ajuda_, começa em folhas 41, a parte anterior
    está perdida e o final não chegou a ser terminado. Isto explica as
    pequenas relações com o Codice de Roma.–As 24 canções achadas na
    Bibliotheca de Evora e as guardas da encadernação do Nobiliario provam
    o muito que se perdeu d'este cancioneiro. Não se chegou a escrever a
    musica das canções, nem a inscrever-lhes os nomes dos auctores que as
    assignavam, e por isso conclue-se que não chegou a servir para a
    collecção de Roma, que é assignada. Não chegaram a entrar n'elle
    canções de el-rei D. Diniz, e portanto entre este e o Cancioneiro de
    Roma pode fixar-se a existencia de outro cancioneiro hoje
    desconhecido.

    D.] _O Cancioneiro de D. Mecia de Cisneros_, grande volume de cantigas
    visto pelo Marquez de Santillana, que o descreve; já continha o
    cancioneiro de D. Diniz, e os trovadores do Codice de Roma citados
    pelo Marquez. Seria a primeira compilação geral, feita mesmo em
    Hespanha?

    E.] _O apographo de Colocci_, perdido talvez pela occasião do saque de
    Roma em 1527, e do qual só se conserva o Indice dos Autores. Tinha
    intimas relações com o codice de D. Mecia. No principio apresentava
    varios _lais_ no gosto bretão e pelos _Nobiliarios_, vemos que o Conde
    Dom Pedro se refere ás tradições bretãs, e tambem el-rei Dom Diniz.
    Seria esta parte assimilada do _Livro das Cantigas_ do Conde de
    Barcellos?

    F.] _Cancioneiro da Vaticana, nº_. 4803; este é menos completo do que
    o antecedente, o que prova que foi copiado de outra fonte. Colocci por
    sua letra o emendou pelo codice hoje perdido. Tem este cancioneiro 56
    canções similhantes no Cancioneiro da Ajuda, com variantes notaveis,
    signal que ambos os Codices se derivam de duas fontes diversas. Tem
    uma parte relativa a successos da côrte de Dom Affonso IV, que provem
    de cancioneiros extranhos e posteriores ao Cancioneiro da Ajuda. A
    ordem dos trovadores não é a mesma do Indice de Colocci.

    G.] _Copia ms. de um Grande de Hespanha_.–Em cincoenta canções
    reproduzidas por Varnhagem acham-se variantes fundamentaes com
    relações á lição do codice de Roma, signal de que a copia alludida
    provém de uma fonte extranha e de epoca differente.

    Os cancioneiros desconhecidos, mas intermediarios aos supracitados são
    hypotheticamente:

    a, b.] Cancioneiros anteriores ás collecções da côrte de D. Diniz, com
    que se formou e, d'onde se trasladou o Cancioneiro da Ajuda, como se
    justifica pelas variantes dos 56 canções reproduzidas no de Roma.

    c.] Cancioneiro perdido, d'onde se não chegou a copiar nem a musica
    das canções nem o nome dos trovadores para o Cancioneiro da Ajuda.

    d.] Cancioneiro onde se encorporaram o _Livro das Cantigas_ e
    _Cancioneiro de D. Diniz_, o que justifica as differenças entre o
    Codice de Dona Mecia e o de Colocci.

    e.] Cancioneiro perdido, cuja existencia se induz das variantes entre
    o Cancioneiro da Vaticana, o de Colocci e o do grande de Hespanha.

    Eis por tanto a nossa tentativa de schema de filiação dos cancioneiros
    portuguezes dos seculos XIII e XIV:

    a b
    ——-/
    c
    C ABB¹
    ———/
    D d
    /———
    E e
    -/
    G F

    É provavel que esta connexão ache contradictores, porém aí ficam todos
    os elementos que pudemos agrupar, para que outros estabeleçam uma
    filiação mais verosímil. Só depois de estudada a historia externa do
    Cancioneiro da Vaticana é que se pode entrar com desassombro no
    desenho da grande epoca litteraria que elle representa. Bem o
    desejaramos fazel-o diante dos que estudam as producções do fim da
    edade media, para reconstruirmos de novo o livro dos _Trovadores
    galecio-portugueses_, escripto antes da posse de tamanhas riquezas. Á
    medida que em Portugal fôr renascendo o amor pela tradição nacional, o
    nome de Ernesto Monaci figurará como de um benemerito, que restituiu a
    este paiz um dos mais bellos monumentos do seu passado historico.

    [1] Fernão Lopes, _Chron. de D. Pedro_ I, cap. 31.
    [2] _Leges Wallice,_ p. 779, 861.
    [3] _Obras del Marquez de Santillana,_ p. XX.
    [4] _Hist. litter. de l'Italie,_ t.IV, p.17.
    [5] _Op. cit_, p.8.
    [6] _Ginguené, Hist. litt_, t. IV, p. 41.
    [7] _Tiraboschi, Storia della Letteratura italiana_, t. VII, 246.

  • Luar de Janeiro

    Luar de Janeiro

    Aproximadamente 6.229 palavras.

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    Augusto Gil

    Luar de Janeiro

    [Figura: Olhos Olhae a Direito]

    Luar de Janeiro

    AUGUSTO GIL

    *Luar de Janeiro*

    LISBOA

    1909

    Edição da empreza d'A Lanterna–Escriptorios, rua das Gaveas, 45, 2.^o

    Typ. do Commercio, rua da Oliveira, ao Carmo, 10, Lisboa

    Áquelles que virem, neste volume de liricas, uma reviravolta effectuada
    sobre a génese d'_O Canto da Cigarra_ objectarei, com antecipada promessa
    de facil prova, que os dois livros teem uma tão intima ligação como a
    existente entre os pontos extremos da curva d'amplitude dum pêndulo.

    Aos que me censurem pela circumstancia de não ter logrado, na minha
    subalterna categoria de poeta menor, firmar-me numa posição d'equilibrio
    estavel, pergunto, em tom humilde, quem é que neste confuso seculo de
    latente misticismo humanitario, de demolidora negação e d'anciedade
    conjunctamente afflictiva e sceptica, terá a coragem de dizer que o
    encontrou–já não quero como artista, porque a esse as influencias
    ambientes lhe communicam entre-cruzadas e descoordenadas vibrações–mas
    na propria e mais serena esphera do pensamento. Se algum de vós me
    retorquir com o _eureka_ do antigo geometra, ou é um sectario, ou um
    caturra,–ou um simples.

    Sabio, como o de Syracusa, é que não é…

    Adeante.

    Novembro de (1)909.

    O auctor

    De la musique encore et toujours

    * * * * *

    Que ton vers soit la bonne aventure
    Éparse au vent crispé du matin
    Qui va fleurant la menthe et le thym,
    _Et tout le reste est litterature_.

    Verlaine

    Et c'est pourquoi ce livre-ci (qu'il était peut-être bon d'écrire) nous
    savons, toi et moi, a quels mysterieux balbutiements le réduirait le
    tête-à-tête–et tout ce que je n'ai pas dit, qu'il ne fallait pas dire.
    Et tu sais combien de pages menteuses devront, pour des motifs de
    faiblesse personnelle ou de nécessité invencible, accompagner la bonne
    page, celle que ce livre encore annonce et ordone–_tu sais, tu
    comprends et tu pardonnes_…

    Charles Morice.

    _A Coelho de Carvalho_

    _Tout court_, porque não ha adjectivos que não empallideçam ante a
    claridade dos seus talentos.

    Luar de janeiro,
    Fria claridade

    Á luz delle foi talvez
    Que primeiro
    A bocca dum português
    Disse a palavra saudade…

    Luar de platina,
    Luar que allumia
    Mas que não aquece,
    Photographia
    D'alegre menina
    Que ha muitos annos já… envelhecesse.

    Luar de janeiro,
    O gelo tornado
    Luminosidade…
    Rosa sem cheiro,
    Amor passado
    De que ficasse apenas a amizade…

    Luar das nevadas,
    Algido e lindo,
    Janellas fechadas,
    Fechadas as portas
    E elle fulgindo,
    Limpido e lindo,
    Como boquinhas de creanças mortas,
    Na morte geladas
    –E ainda sorrindo…

    Luar de janeiro,
    Luzente candeia
    De quem não tem nada,
    –Nem o calor dum brazeiro,
    Nem pão duro para a ceia,
    Nem uma pobre morada…

    Luar dos poetas e dos miseraveis,
    Como se um laço estreito nos unisse,
    São similhaveis
    O nosso mau destino e o que tens…

    De nós, da nossa dôr, a turba–ri-se
    –E a ti, sagrado ladram-te os cães!

    [Figura: A linda imagem pertence ao arruinado Mosteiro do Calvario,
    d'Evora, e constitue a unica mas encantadora manifestação d'arte desse
    pobrissimo convento. Foi doado ás monjas que o occupavam, por D. Izabel
    Juliana de Souza Coutinho, forçada noiva de José de Carvalho, filho do
    Marquez de Pombal. D. Izabel esteve enclausurada no Mosteiro do
    Calvario, por ordem do duro ministro, até se resolver a acceitar a mão
    do filho. Depois da morte do rei D. José, foi o matrimonio annullado,
    vindo D. Izabel a formar o tronco da casa Palmella pelo casamento com D.
    Alexandre de Souza. (Notas extrahidas dum artigo do erudito antiquario
    eborense Sr. José Barata. In _Serões_, Junho de (1)907)

    O menino Jesus será obra de Machado de Castro?]

    SEXTILHAS A UM MENINO JESUS D'EVORA

    _A João Barreira_

    «Em Evora vi um menino…
    …Que a dois annos não chegava
    …Era de maravilhar»…

    Garcia de Rezende. _Miscellanea._

    Num convento solitario
    D'Evora, cidade clara,
    Claro celleiro de pão,
    Existe uma imagem rara
    Obra dum imaginario
    Dos tempos que já lá vão…

    É um menino Jesus,
    De bochechinha brunida
    Côr de maçã camoeza,
    Mas no seu rosto transluz
    Uma expressão dolorida
    Que enche a gente de tristeza…

    De tantissimas imagens
    Nenhuma vi que mais prenda,
    Que maior ternura expanda,
    Com suas calças de renda,
    Seu vestido de ramagens,
    –E corôa posta á banda…

    Gordo, nedio, bem trajado,
    Deveria ser feliz,
    Deveria estar sorrindo;
    Mas o seu olhar maguado,
    Tão maguado, tão lindo,
    Que não o é, bem n'o diz…

    Se não fosse por ser Deus
    E o seu poder infinito
    Ter sempre que o demonstrar,
    Cá na terra e lá nos ceus,
    Estenderia o beicito
    –E desatava a chorar!…

    Corre o tempo descuidado,
    Passa uma hora, outra hora,
    Atraz desta outras se vão
    E, quem o vê, encantado,
    Sem se poder ir embora
    Numa perpetua attração…

    Eu entrei com sol a pino.
    Pouco depois da chegada
    (Pouco a mim me pareceu)
    Deixei de ver o Menino…
    Não era a vista cançada,
    –Foi a noite que desceu…

    Mesmo assim lá ficaria
    Absorto em muda prece
    De quem mal sabe rezar,
    Se o sacristão não viesse,
    Com rodas de Senhoria,
    Dizer-me que ia fechar…

    Pudesse tel-o trazido
    E não fosse eu rico, apenas
    De phantasias, d'esp'ranças,
    Punha-o num nicho florido
    Por sobre as camas pequenas
    Dum hospital de creanças…

    Dum hospital modelar
    Sustentado por meus bens,
    Entre olaias e roseiras,
    Cheio de sol, cheio d'ar,
    E em que as boas enfermeiras
    –Seriam as proprias mães…

    A mais ampla enfermaria
    Desse escolhido local
    De bondade e soffrimento
    –Era o fundo natural
    Da funda melancolia
    Do Menino do convento…

    BALLADA DA NEVE

    Il pleure dans mon coeur
    Comme il pleut sur la ville.

    Verlaine

    _A Vicente Arnoso_

    Batem leve, levemente
    Como quem chama por mim…
    Será chuva? Será gente?
    Gente não é certamente
    E a chuva não bate assim…

    É talvez a ventania;
    Mas ha pouco, ha poucochinho,
    Nem uma agulha bolia
    Na quieta melancolia
    Dos pinheiros do caminho…

    Quem bate assim levemente
    Com tão estranha leveza
    Que mal se ouve, mal se sente?…
    Não é chuva, nem é gente,
    Nem é vento com certeza.

    Fui ver. A neve cahia
    Do azul cinzento do ceu
    Branca e leve, branca e fria…
    –Ha quanto tempo a não via!
    E que saudades, Deus meu!

    Olho-a atravez da vidraça.
    Poz tudo da côr do linho.
    Passa gente e quando passa
    Os passos imprime e traça
    Na brancura do caminho…

    Fico olhando esses signaes
    Da pobre gente que avança
    E noto, por entre os mais,
    Os traços miniaturais
    Duns pézitos de creança…

    E descalcinhos, doridos…
    A neve deixa inda vel-os
    Primeiro bem definidos,
    –Depois em sulcos compridos,
    Porque não podia erguel-os!…

    Que quem já é peccador
    Soffra tormentos, emfim!
    Mas as creanças, Senhor,
    Porque lhes daes tanta dôr?!…
    Porque padecem assim?!…

    E uma infinita tristeza
    Uma funda turbação
    Entra em mim, fica em mim prêsa.
    Cae neve na natureza…
    –E cae no meu coração.

    TOADA PARA AS MÃES ACALENTAREM OS FILHOS

    _A Bertha Cayolla Gil Vianna_, minha sobrinha

    Oh Desgraça! vae-te embora,
    Que esta linda criancinha
    Andou no meu ventre e agora
    Trago-a nos braços. É minha!…

    Do berço, segue-me os passos;
    Onde eu vou, seus olhos vão…
    E quando a aperto nos braços
    –Abraço o meu coração.

    Quando o seu chôro receio,
    Embalo-a, faço que acceite
    A alegria do meu seio
    Na brancura do meu leite…

    E quando assim não descança,
    Que tristezas me consomem!
    –Mas antes chore em creança
    Que depois, quando fôr homem…

    Se ao dal-o ao mundo soffri
    Tormentos, ancias mortaes,
    Desgraça, vae-te d'aqui,
    O que pretendes tu mais?!

    Bate as azas, mas ao voares,
    Não me apagues esta estrella.
    Se alguem d'aqui precisares,
    –Aqui me tens, em vez della!

    Tocam ás ave-marias.
    Foi-se o sol. Não vem a lua.
    Luzinha que me allumias,
    Que sorte será a tua?…

    Riquezas tenhas tão grandes,
    E tal bondade tambem,
    Que ao redor d'onde tu andes
    Não fique pobre ninguem.

    Que a todos chegue a ventura:
    Toda a bocca tenha pão,
    Toda a nudez cobertura,
    Toda a dôr, consolação…

    Mas se o oiro é mau caminho,
    –Antes tu venhas a ser
    O pobre mais pobrezinho
    De quantos pobres houver.

    Iremos por esses montes
    Altos e azues, como os céus…
    Que onde ha fructos e onde ha fontes,
    –Está a meza de Deus!

    E, quando a neve cahir
    E as seivas adormecerem,
    Iremos então pedir…
    (Acceitar o que nos derem!)

    Andaremos á mercê
    Dos genios bons, e dos falsos,
    Leguas e leguas a pé,
    Rotinhos, magros, descalços…

    E onde houver urzes e tojos,
    Pedras que rasgam a pelle,
    Porei o corpo de rôjos
    –Passarás por cima delle!

    Dorme, dorme, meu menino,
    Foi-se o sol. Nasceu a lua.
    Qual será o teu destino?
    Que sorte será a tua?…

    Se um crime tens de fazer,
    Antes fique vago um throno,
    Antes um palacio a arder,
    –Do que uma enxada sem dono…

    Se, porém, no teu destino,
    Ha tão cruentos signaes,
    Dorme, dorme, meu menino,
    –Não tornes a acordar mais!

    O NOSSO LAR

    _A Antonio Arroyo_

    «Sonhar a vida é apenas entretel-a.
    Partamos della para nós, senão
    Lá vae o coração para uma estrella
    E fica a gente sem o coração!»

    _GUEDES TEIXEIRA_. _Esperança Nossa_

    Quem vir–como eu os vejo–decorrer
    Annos e annos duma vida rasa
    Em miseraveis quartos d'aluguer,

    Frios no inverno e no estío em braza,
    –A um amôr sonhado de mulher
    Allía sempre o sonho duma casa…

    O aspecto duma casa raro mente,
    A côr, as linhas duma frontaria
    Dão logo a perceber nitidamente,

    Melhor do que um vizinho o contaria,
    O genio e a indole da gente
    Que nella tem o lar, a moradia.

    Vejam esses _cottages_ tanto em moda
    Entre os inglezes e os capitalistas,
    Com grades no jardim, a toda a roda…

    Impenetraveis ás alheias vistas…
    Não abrem nunca uma janella toda…
    São mudos, graves, individualistas.

    E aquelles caixotões de pedra e cal
    Que surgem ao formar-se um bairro novo,
    No constante engordar da Capital,

    (O que eu, aliás, muito aprecio e louvo…)
    –Não mostram bem, com o seu ar banal,
    A falta de caracter deste povo?

    Quando uma santa e pobre rapariga,
    Em cujo olhar se abranda o meu soffrer
    E a cujo coração o meu se liga,

    Puder chegar a ser minha mulher,
    Eu quero então que a nossa casa diga
    Bondade e alegria de viver.

    Terá um só andar. Grandes alturas
    Causam vertigens, trazem ambições.
    Os sonhos de riqueza e d'aventuras

    Enchem as almas de desillusões.
    A f'licidade vem ás creaturas
    Da pacificação dos corações.

    As portas sem degraus. Que sejam rentes
    Da terra. Portas largas e rasgadas,
    Convidativas, francas, attrahentes;

    Ao rez da terra, para as aleijadas
    e os tropegos velhinhos indigentes
    Se não cançarem a subir escadas…

    Amplas janellas para a natureza.
    Que o sol na sua clara irradiação
    Dissipe atravez dellas a tristeza;

    Amplas–e baixas. Quem precise pão,
    E o vir da rua sobre a nossa meza,
    Que estenda o braço, que lhe lance a mão…

    Ao lado um horto e um jardim fragrante,
    Sem grades aguçadas para o céu.
    A grade é agressiva, hostilisante,

    E sempre a impressão cruel me deu
    Dum dono que bradasse ao caminhante:
    –Tudo isto aqui é meu, sómente meu…

    Sem gradeamento. Um murosito apenas
    Revestido de rosas de toucar,
    De ariolas, de glicinias, de verbenas.

    Muro d'onde os que forem a passar
    Vejam lilazes, cravos, assucenas…
    –E a paz, a doce paz do nosso lar.

    O QUE O FOGO POUPOU DUM POEMETO QUEIMADO

    _Ao Conego Manuel do Nascimento Simão_

    I

    Escrevo em testamento este poema
    Que elle tenha, na angustia com que o ligo,
    O brilho rutilante duma gemma
    Achada nos farrapos dum mendigo…

    Ao vesperal crepusculo da vida
    E sob o olhar da morte é que o componho;
    Erguendo assim, por minha despedida,
    O ultimo escalão dum alto sonho.

    Nesse degrau que d'entre os soes dispersos
    Hade attingir a cúpula dos céus,
    Direi ao mundo os derradeiros versos,
    Porei o coração nas mãos de Deus!

    E as mãos de Deus que os astros têm guiado
    Como se leve pluma cada um fôra,
    Hão de o sentir pesar, sollicitado
    Pelo logar da terra onde ella móra…

    II

    …Sei lá pintar!
    Se eu soubesse pintar, era pintor.

    _Guedes Teixeira_

    Na mais alta cidade portuguêsa
    Nasceu, para abrandar meu fundo mal,
    A mais santa, a mais cheia de pureza
    Das moças deste lindo Portugal.

    Os seus olhos são tristes e suggerem
    Todo um passado de resignação.
    São tristes, certamente por não verem
    O rosto incomparavel onde estão…

    A voz é clara como as assucenas
    E dolorida, candida, modesta.
    É dolorida, porque sente penas
    D'abandonar a sua bocca honesta…

    O riso, que é em nótulas delidas
    Vibra em seus labios tão rapidamente
    Como um beijo d'amor, ás escondidas,
    Na curva duma estrada em que vem gente…

    A mão della, uma vez, poisou na minha;
    Pareceu-me ao sentir-lhe a commoção,
    Que era o seu proprio coração que eu tinha
    A palpitar dentro da minha mão…

    Se passa, ás tardes, e de traz cahindo,
    O sol abraza os longes da paizagem,
    A sombra que em sua frente vae seguindo
    É a luz–a abrir-se, p'ra lhe dar passagem…

    Se passa, acalma os corações maguados
    Como outr'ora as parabolas de Christo
    Acalmavam a dôr aos desgraçados.
    Acalma os corações?! Não… não é isto.

    As estrophes d'amor, a quem o sinta,
    Dão um trabalho cheio de tormento;
    O tenebroso liquido da tinta
    Apaga, rouba a côr ao sentimento.

    Quiz celebrar dum modo original
    As finas graças do seu corpo. Errei-as.
    Oh Fórma! És como um fato d'hospital.
    Palavras! Sois a nevoa das ideias…

    MELODIA CONFIDENCIAL

    (De Albert Samain)

    _A L.C._

    Num andamento
    Discreto, lento,
    Mal se ouve o pêndulo lavrado e antigo.

    Vamos vogando
    No lago brando
    E sem limites do silencio amigo…

    O ultimo e cavo
    Accorde do cravo
    Ficou vibrando exclamativamente.

    E, em espiral
    Ascencional,
    Cingiu-nos num abraço enlanguescente.

    Na alcatifa macia
    Entrou na agonia
    Uma rosa sedenta e abandonada,

    E a ambos nos invade
    A mistica vontade
    D'entrar na morte, no não ser, no nada…

    Com seu docel vermelho
    Forrado d'oiro velho,
    Que evoca velhas eras d'esplendor,

    O leito pesado,
    Como um deus concentrado,
    Remembra obscuramente o nosso amor…

    Na atmosphera morna
    O teu corpo entorna
    Um perfume subtil, sensual, complexo,

    Aroma inapagavel,
    Philtro informulavel
    Gerado á chama clara do teu sexo.

    Teus olhos silentes
    E transparentes
    Teem, no fundo, verdes melancolicos,

    E as brazas do fogão,
    Já quasi extinctas, dão
    Clarões hypnotisantes e symbolicos…

    Amêmo-nos assim
    Com um amor sem fim,
    Verdadeiro na carne e nas ideias;

    P'los dedos enlaçados
    Sejamos penetrados
    D'amor, até ás mais miudinhas veias.

    Em extasis intensos
    Quedemo-nos suspensos
    Por sobre a terra ironica e brutal

    Sem nada saber,
    Sem nada ver,
    –Numa vida isolada e musical…

    Não fales. Não?
    Ou se o fizer's, então
    Que seja de vagar, muito baixinho,

    Numa toada, leve
    Como o halito breve
    Duns labios d'anjo numa pel' d'arminho…

    O PASSEIO DE SANTO ANTONIO

    _A Columbano_

    La fleur des traditions nationales est flétrie. Mais libre a tous
    de puiser, dans l'herbier cosmopolite des legendes, les admirables
    pretextes à fiction qu'il recèle.

    (_Litterature à Tout á L'Heure_.)

    Sahira Santo Antonio do convento,
    A dar o seu passeio costumado
    E a decorar, num tom rezado e lento,
    Um candido sermão sobre o peccado.

    Andando, andando sempre, repetia
    O divino sermão piedoso e brando,
    E nem notou que a tarde esmorecia,
    Que vinha a noite placida baixando…

    E andando, andando, viu-se num outeiro,
    Com arvores e casas espalhadas,
    Que ficava distante do mosteiro
    Uma legua das fartas, das puxadas.

    Surprehendido por se vêr tão longe,
    E fraco por haver andado tanto,
    Sentou-se a descançar o bom do monge,
    Com a resignação de quem é santo…

    O luar, um luar clarissimo nasceu.
    Num raio dessa linda claridade
    O Menino Jesus baixou do céu,
    Poz-se a brincar com o capuz do frade.

    Perto, uma bica d'agua murmurante
    Juntava o seu murmurio ao dos pinhaes.
    Os rouxinoes ouviam-se distante.
    O luar, mais alto, illuminava mais.

    De braço dado, para a fonte, vinha
    Um par de noivos todo satisfeito.
    Ella trazia ao hombro a cantarinha,
    Elle trazia… o coração no peito.

    Sem suspeitarem de que alguem os visse,
    Trocaram beijos ao luar tranquillo.
    O menino, porém, ouviu e disse:
    –Oh Frei Antonio, o que foi aquillo?…

    O santo, erguendo a manga de burel
    Para tapar o noivo e a namorada,
    Mentiu numa voz doce como o mel:
    –Não sei que fosse. Eu cá não ouvi nada…

    Uma risada limpida, sonora,
    Vibrou com timbres d'oiro no caminho.
    –Ouviste, Frei Antonio? Ouviste agora?
    –Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho…

    –Tu não estás com a cabeça boa…
    Um passarinho a cantar assim!…
    E o pobre Santo Antonio de Lisboa
    Calou-se embaraçado, mas por fim,

    Córado como as véstes dos cardeaes,
    Achou esta sahida redemptora:
    –Se o Menino Jesus pregunta mais,
    …Queixo-me á sua mãe, Nossa Senhora!

    Voltando-lhe a carinha contra a luz
    E contra aquelle amôr sem casamento,
    Pegou-lhe ao collo e acrescentou: Jesus,
    São horas…
    –E abalaram p'r'ó convento.

    UM GRÃO DE INCENSO

    _A Lourenço Cayolla_

    Entraste com ar cançado
    Numa egreja fria e triste.
    Ajoelhei-me ao teu lado
    –E nem ao menos me viste…

    Ficaste a rezar alli,
    Naquella immensa tristeza.
    Rezei tambem, mas a ti,
    –Que aos anjos tambem se reza…

    Ficaste a rezar até
    Manhã dentro, manhã alta.
    Como é que tens tanta fé
    –E a caridade te falta?…

    A MÁSCARA

    _A Santos Tavares_

    Por acaso, parou na minha frente,
    De _loup_ e dóminó de seda negra,
    Uma mulher d'olhar resplandecente
    E mento breve de figura grega.

    Tomei-lhe as mãos esguias entre as minhas…

    E os seus olhos doirados reluziram
    Como os punhaes ao sol, quando se tiram,
    Aguçados e frios, das bainhas.

    –Máscara, quem és tu?

    –E tu quem és?…

    –Um homem que te viu e te deseja…

    E um riso vago, de desdem talvez,
    Floriu na sua bocca de cereja.

    Ergui-lhe as mãos asceticas. Beijei-as.

    Em vibrações entrecortadas, sêccas,
    Tiniam taças irisadas, cheias.
    E uma phrase d'amôr, toda em colcheias,
    Vibrava nas arcadas das rebecas.

    Levei-a para o vão duma janella.
    –Máscara, quem és tu?

    –Para que insistes?…

    Outro riso subiu da bocca della
    Aos olhos enigmaticos e tristes.

    E descobriu a face. No capuz
    Emoldurou-se um rosto lindo e sério.

    Que differente porém do que eu supuz!

    A gente nunca deve entrar com luz
    Nos divinos recantos do misterio…

    IN PROMPTUM PASTORAL

    _A Amadeu de Freitas_

    «Muito vence quem se vence
    Muito diz quem não diz tudo,
    Porque a um discreto pertence
    A tempo fazer-se mudo.»

    (_Copla do Infante D. Luiz_.)

    Sob este céu creador
    De manhã vergiliana,
    Apetece ser pastor
    E tocar frauta de cana;

    Não, pastor d'autos d'amor,
    D'eclogas frias e velhas,
    Mas verdadeiro pastor
    De verdadeiras ovelhas…

    Não conhecer o talento
    Nem nada do que se ensina.
    Esta dôr do entendimento
    É peor do que se imagina…

    Guiar o meu coração
    Num ingenuo christianismo.
    Esta civilisação
    É cheia de pessimismo…

    Comer pão negro, pão duro,
    Beber o leite das peáras.
    Pão de centeio é escuro,
    –Mas põe as almas ás claras…

    Amar alguma pastora
    Com palavras e com obras.
    Estas senhoras d'agora
    São mais falsas do que as cóbras…

    E vêr crear com carinho,
    Com cuidados infinitos,
    Á companheira, um filhinho…
    E ás ovelhas, borreguitos…

    MEDITAÇÕES SOBRE THEMAS DO ECCLESIASTES

    I

    _A Celestino Steffanina_

    Vaidade de vaidades, disse o Ecclesiastes: vaidade de vaidades, e
    tudo vaidade.

    (_Capit. I, v. 1_).

    Semeador de iniquidades,
    Porque é que mandas sobre os teus eguaes?!
    O mando o que é? _Vaidade de vaidades_,
    Fumo que ao desfazer-se engrossa mais…

    Oh minha vista o que é que foi que viste
    Cá neste mundo impiedoso e rudo?

    _Que só a vaidade existe_
    –Em todos nós, e em tudo!…

    II

    _A Israel Anahory_

    Todas as coisas são difficeis; o homem não as póde explicar com
    palavras. Os olhos não se fartam de vêr nem o ouvido se enche de
    escutar.

    (_Capit. I, v. 8_).

    Palavras são palavras… Nada dizem.
    Teias d'aranha que jámais impedem
    Que as ideias se escapem e deslizem…

    Nescios os homens são quando procedem
    Como quem a verdade sempre traja
    E nunca della se encontrou despido…

    Difficil é… o que mais simples haja
    –Quanto mais o que fôr mais escondido!…

    Para que uma verdade vá julgar,
    Para que um sentimento vá sentir,
    Olhos: não vos canceis nunca d'olhar
    E vós, ouvidos, não deixeis d'ouvir.

    Mas por fim
    Nem assim…

    O mais profundo pensamento
    É sempre insubsistente e aerio,
    Por que a todo o momento
    –Se perde no misterio…

    III

    _A José Barbosa_

    Que é o que foi? É o mesmo que hade ser. Que é o que se fez? É o
    mesmo que o que se hade fazer.

    Que é o que foi?
    –O mesmo que hade ser…

    A vida é como o passo egual dum boi
    Que vem dos campos ao anoitecer;
    Com o seu lento e resignado aspeito,
    Andou um passo, e logo um outro dá.

    _Tudo quanto foi feito
    De novo se fará_…

    IV

    _A Ladislau Patricio_

    Os olhos do sabio estão na sua cabeça: o insensato anda em trevas:
    e aprendi que era uma e mesma a morte dum e doutro.

    (_Capit. II, v. 14_)

    O sabio tem os olhos da razão
    Além desses que tu na fronte levas,
    Oh nescio que sem guia e sem bordão
    Vaes pela vida a caminhar nas trevas…

    (_E d'ahi? E depois?
    Se surge um incidente,
    Fere indistinctamente
    Ou ambos elles, ou qualquer dos dois_…)

    V

    _A Adelaide Gil, minha irmã_

    Todas as coisas caminham a um logar: de terra foram feitas e em
    terra se hão de tornar do mesmo modo.

    (_Capit. III, v. 3_).

    Mas o que é, afinal, a perfeição?
    Como é que tudo, oh sabios, evolue
    _Se as coisas todas caminhando vão
    Para um egual e unico logar,
    Se o pó que as constitue
    Em pó se hade tornar_?

    VI

    _A Eduardo Graça_

    Todas as coisas teem seu tempo e todas ellas passam debaixo do céu
    segundo o termo que a cada uma foi prescripto.

    (_Capit. III, v. 2_).

    Socega, coração attribulado,
    De toda a dôr se apaga todo o traço.
    Pois quanto ao mundo vem, traz já marcado
    _O seu tempo e tambem o seu espaço_…

    E queira Deus, coração,
    Que esta hora de anciedade
    E de pranto e d'afflicção
    –Nunca te cause saudade!…

    A CANÇÃO DAS PERDIDAS

    _A Vianna da Motta_

    I

    Quem por amôr se perdeu
    Não chore, não tenha pena.
    Uma das santas do céu
    –É Maria Magdalena…

    II

    Minha mãe foi o que eu sou.
    Eu sou o que tantas são.
    Que triste herança te dou,
    Filha do meu coração!

    III

    Meu pae foi para o degredo
    Era eu inda pequena.
    Se não morresse tão cedo,
    Morria agora–de pena…

    IV

    E ha no mundo quem afronte
    Uma mulher quando cae!
    Nasce agua limpa na fonte,
    Quem a suja é quem lá vae…

    V

    Aquelle que me roubou
    A virtude de donzella
    Se outra honra lhe não dou,
    –É porque só tive aquella!…

    VI

    Nós temos o mesmo fado,
    Oh fonte d'agua cantante,
    Quem te quer, pára um boccado.
    Quem não quer, pássa adeante…

    VII

    O meu amôr, por amal-o,
    Poz-me o peito numa chaga:
    Deu-me facadas. Deixal-o.
    Mas ao menos não me paga!

    VIII

    Nem toda a agua do mar
    Por estes olhos chorada
    Daria bem a mostrar
    O que eu sou de desgraçada!

    IX

    Como querem vêr contente
    Este paiz desgraçado,
    Se dão só livros á gente
    Nas escolas do peccado…

    X

    Dormia o meu coração
    Cançado de fingimento.
    Bateste-me, e vae então
    Acordou nesse momento.

    XI

    Se aquillo que a gente sente,
    Cá dentro, tivesse vóz,
    Muita gente… toda a gente
    Teria pena de nós!

    CARTA A UM RAPAZ SENTIMENTAL

    «Um mover d'olhos brando e piedoso
    Sem vêr de quê; um riso brando e honesto
    Quasi forçado; um doce e humilde gesto
    De qualquer alegria duvidoso

    * * * * *

    Um encolhido ousar; uma brandura,
    Um medo sem ter culpa; um ar sereno,
    Um longo e obediente soffrimento.

    * * * * *

    Camões

    Num quente e perturbante fim de tarde,
    Cujo magnetico e profundo enlevo
    Ainda agora em mim crepita e arde,
    Como se fosse a tarde em que te escrevo,

    Ergui os olhos distrahidamente,
    A ver se já brilhava alguma estrella
    No concavo do céu opalescente
    –E vi, numa varanda, os olhos della…

    Do episodio que acabo de contar-te
    Tão simples, tão banal, que dá vontade,
    Para lhe pôr um boccadinho d'arte,
    De lhe roubar um pouco de verdade,

    Foi que este amor espiritual nasceu,
    Nasceu, cresceu e se tornou eterno…
    Repara, amigo, como olhando o céu
    A gente, ás vezes, póde achar o inferno.

    Mas quem podia então adivinhal-o?
    O olhar dessa mulher era tão lindo
    Que deslumbrado me fiquei a olhal-o.
    Descera a noite. A lua ia subindo…

    Era lua cheia e, para mais, d'agosto;
    Dava em toda a varanda. Assim, eu via
    As fórmas portuguêsas do seu rosto
    Nitidamente, como á luz do dia.

    E cá dentro de mim senti nascer
    A dúvida, a incerteza, a hesitação
    Sobre o que mais desejaria ser:
    Se o noivo della, se o primeiro irmão…

    Uma estrella cadente reluziu
    Por sobre as torres da vizinha egreja,
    Pensei commigo: Deus o decidiu:
    É minha noiva que Elle quer que seja.

    Não dizia ventura, mas desgraça,
    A claridade do signal aereo.
    (Na mesma direcção da egreja, passa
    A rua que vae dar ao cemiterio…)

    Porém, como querendo agradecer-me
    A decisão que attribuira a Deus,
    Inclinou-se de leve para ver-me
    E os doces olhos demorou nos meus.

    Sob a caricia desse olhar cinzento,
    Que ao abaixar-se parecia negro,
    O coração que me batia lento,
    Mudou o andamento para alegro.

    Uma hora decorreu. Outras passaram.
    Passaram, foram-se; e naquelle enleio
    Que tempo os nossos olhos conversaram!…
    Estava a noite já em mais de meio.

    Vinha dos montes uma brisa ardente.
    O céu ganhára tons d'azul cobalto.
    O luar cahia silenciosamente.
    Na sombra, os rouxinoes cantavam alto.

    Arrependidos, ou então, cançados
    De se fitarem com demora em mim,
    Os seus olhos piedosos e sagrados
    Ao dialogo d'amor puzeram fim.

    Desviára-os; e entre as palpebras discretas,
    Poisára-os nas mãos claras e pequenas,
    Como se foram duas borboletas
    Voando para duas assucenas.

    Ergueu-se. O busto delicado e fino
    Tinha os suaves, religiosos traços
    Da Virgem num altar. Só o Menino
    Faltava na doçura dos seus braços…

    Num olhar impregnado de candura,
    Disse-me adeus e recolheu. Depois…
    A luminosa noite fez-se escura.
    Calaram-se na sombra os rouxinoes.

    Entrei em casa e quiz dormir. Raiára
    A madrugada sem que o conseguisse.
    Quem um sonho tão limpido sonhára,
    Inutil se tornava que dormisse…

    Annos felizes neste amor gastei.
    Vieram em seguida as horas más.
    O que nellas soffri, o que passei,
    Um dia, noutra carta, o saberás.

    MÃOS FRIAS CORAÇÃO QUENTE

    Dez da manhã. Vento da
    serra. Tres graus negativos

    _Mãos frias, coração quente_!
    Quanta vez isto dizias
    Com o teu ar sorridente,
    Apertando-me as mãos frias…

    Agora decerto o tenho
    Num brazeiro, num vulcão.
    O frio é tanto, é tamanho
    Que a penna cae-me da mão…

    Q'ria dizer-te o que penso
    E o que faço e premedito,
    Mas posso lá ser extenso
    Com este frio maldito!

    Tu perdoas certamente,
    Tu não te zangas, pois não?
    _Mãos frias, coração quente_
    –Lá diz o velho rifão…

    NOIVA

    _A João da Silva_

    «Anda a dôr dissimulada
    Mas ella dará seu fruito.»

    Crisfal

    «_Vae ser pedida. Casa qualquer dia._»

    (_Trecho duma carta_)

    Tive noticias hoje a teu respeito:
    «Vae ser pedida. Casa qualquer dia».
    E o coração tranquillo no meu peito
    –Continuou a bater como batia…

    Surpreso duma tal serenidade,
    Todo eu, intimamente, me sondava:
    Pois nem ciume? Nem sequer saudade?!
    –E nem ciumes, nem saudade achava…

    Saudades, não; que o teu amor antigo
    Guardam-no as cinzas (neste coração)
    Como em Pompeia aquelles grãos de trigo
    Que após centenas d'annos deram pão…

    Saudades! Mas de quê?! Pois não sei eu
    A lei antiga como o proprio mundo
    De que o prazer mal chega, já morreu,
    E só a dôr nas almas cava fundo?

    Causei-te longas horas d'amargura,
    Não consegues voltar a ser feliz;
    A chaga que te abri não terá cura,
    E se curar–lá fica a cicatriz.

    Á luz dum juramento que trahiste
    Tu has de vêr-me toda a vida pois.
    Ergueste-o a Deus num dia amargo e triste
    E Deus casou-nos esse dia, aos dois…

    Ciumes tambem não, por te venderes.
    Desgraçadinha! Antes te houvesses dado;
    Não descerias tanto entre as mulheres,
    Seria mais humano o teu peccado.

    Porém, embora a tua falta aponte,
    P'ra mim és a que foste (ou que eu suppuz);
    O sol desapparece no horisonte
    –E a gente vê-o ainda a dar-nos luz…

    Póde a desgraça erguer em frente a mim
    Altas montanhas d'elevados cumes.
    O sol do amôr doiral-as-ha, e assim,
    Vendo-o tão alto, não terei ciumes.

    Ciumes! _Elle_ é que hade tel-os, quando,
    Em claras noites de luar silente,
    Ouvir vibrar alguma voz, cantando
    Os versos que te fiz devotamente.

    Versos para te ungirem os ouvidos
    E os labios d'anemica e de santa,
    Tão pobres, tão ingenuos, tão sentidos,
    Que o povo humilde os acolheu e os canta.

    Então, se te olhar bem, logo adivinha…
    Logo sombriamente se convence
    De que a tua alma se fundiu na minha
    –E apenas o teu corpo lhe pertence.

    DE PROFUNDIS CLAMAVI AD TE DOMINE

    _Á Leo_

    Ao charco mais escuso e mais immundo
    Chega uma hora no correr do dia
    Em que um raio de sol, claro e jocundo,
    O visita, o alegra, o alumía;

    Pois eu, nesta desgraça em que me afundo,
    Nesta contínua e intérmina agonia,
    Nem tenho uma hora só dessa alegria
    Que chega ás coisas infimas do mundo!…

    Deus meu, acaso a roda do destino
    A movimentam vossas mãos leaes
    Num aceno impulsivo e repentino,

    Sem que na cega turbulencia a domem?!
    Senhor! Não é um seixo o que esmagaes;
    Olhae que é–_o coração dum homem_!…

    JOANNINHA

    _A Mayer Garção_

    Descance de quando em quando…
    Passar assim toda a tarde
    Sempre bordando, bordando,
    Sem que um momento desista,
    Até faz pena! Não lhe arde
    Nem se lhe perturba a vista?…

    Descance de quando em quando…
    Erga os olhos do bordado
    E veja quem vae passando.
    O trabalho alegra a gente,
    Mas assim, tão aturado,
    –Não lhe faz bem certamente.

    Erga a carinha tranquilla,
    Erga esse rosto tão lindo
    E veja os moços da villa
    A passarem por aqui,
    Uns descendo, outros subindo,
    –E todos d'olhos em si…

    Descance de quando em quando
    E veja se escolhe algum;
    Já é tempo d'ir pensando
    Em casar. Não é assim?…
    Se não lhe agrada nenhum,
    –Diga se gosta de mim.

    Desde os começos do outono
    Que eu a trago no sentido,
    Não como, não tenho sono,
    Tudo me dá ralação?
    Quer-me para seu marido?
    –Diga que sim ou que não…

    QUANDO AS ANDORINHAS PARTIAM…

    _A Cassianno Neves_

    Bocca talhada em milagrosas linhas,
    A luz augmenta com o seu falar.

    Esta manhã um bando de andorinhas
    Ia-se embora, atravessava o mar.

    Chegou-lhes ás alturas, pela aragem,
    Um adeus suave que ella lhes dissera,

    –E suspenderam todas a viagem,
    Julgando que voltára a primavera…

    A PARÁBOLA DO PUCARO D'AGUA

    Acreditaram os romanticos que a arte residia principalmente na
    disformidade. Se atravez das proprias dores descessem ás profundas
    realidades da vida, teriam observado que… o viver do povo encerra
    em si uma poesia sagrada. Sentil-a e mostral-a não é tarefa de
    machinista; para tal, não é necessario juntar-lhe effeitos
    theatraes.

    … O que é preciso é ter olhos para vêr na sombra, na pequenez e
    na humildade, é um coração que auxilie a vista nestes recessos do
    lar, nestas sombras de Rembrandt.

    _MICHELET_. _O Povo_

    _A Manuel Penteado_

    Buscava em algum assunto adrede
    A versos que inculcassem novidade,
    Quando uma intensa e irreprimivel sêde
    Me fez voltar do sonho á realidade.

    E pedi agua (já se vê) que veio
    Consoante é d'uzo cá por entre o povo
    Num pucaro de barro ingenuo e feio,
    Servindo-lhe de salva um prato côvo.

    Bebi o liquido dum trago só;
    E dito o «Deus te pague» habitual,
    Subi de novo a escada de Jacob
    No heroico intuito de escalar o ideal…

    Mas o idealismo é como a nevoa ondeante
    Que os rios erguem pela madrugada;
    O olhar destingue-a, quando está distante,
    E da que nos rodeia–não vê nada…

    De que serve afinal tentar a gente
    Reter, dentro das mãos, fumo de palha,
    Se aqui, aos nossos olhos, no existente,
    Ha tanta coisa que os attráia e valha?…

    A agua vinda neste vaso fragil
    Que um ignorado artista modelou
    Num gesto–já mechanisado e agil–
    Á força d'imitar o que encontrou,

    É um assunto cheio de belleza,
    Cheio de claro e alto ensinamento.
    Assim na branda fala portuguêsa
    O désse eu, como o tenho em pensamento!…

    A agua é como a esp'rança
    Que a tudo se sujeita…
    Onde quer que se deita
    Lá fica humildemente acommodada,
    Seja a concha da mão duma creança,
    Ou a taça lendaria da ballada…

    Tanto sacia
    Num vaso tyrrêno dos da antiga Roma
    (Que um só valia
    O rútilo oiro d'avaro banqueiro)
    Como a que se toma
    Na argilla porosa,
    Alegre trabalho dum simples oleiro…

    E é
    Até
    Bem mais saborosa
    No barro suarento
    Deixado á janella,
    Que num opulento
    Copo lavrado
    Que seja pertença de rica baixella
    E sonho gentil, cinzel phantasista
    Dalgum grande artista
    Dos raros d'agora, ou do tempo afastado…

    Bichos humanos, féras em pé,
    Sêde bondosos como a agua o é…

    No luzente alcantil da magnitude,
    Ou no áspero declive da pobreza,
    Nunca cerreis o espirito á virtude,
    Nunca fecheis os olhos á belleza.
    Que todo o coração,
    Desde o sabio de genio ao cavador,
    Seja o Calix de paz e de perdão
    Contendo a agua limpida e lustral
    Dum irmanado e perpetuo amôr…

    Agua que limpe a mácula do mal
    E mitigue a miseria, a ancia, a magua
    Desta cruenta e impiedosa guerra
    Em que tantas creaturas se consomem.

    Nem só da agua
    Que vem da terra
    Tem sêde o homem…

    Nasce uma fonte
    Rumurejante
    Na encosta dum monte;

    E mal que do seio
    Da terra brotou,
    Logo o seu veio
    Transparente
    E diligente
    Buscou e achou
    Mais baixo logar…

    E sempre descendo,
    E sempre a cantar,
    Vae andando,
    Galgando,
    Vencendo,
    (Ou tenta vencer…)
    Folha, raíz, areia, o que tolher
    A sua descida…

    Ao brotar da dura frágoa
    –É uma lagrima d'agua…

    Mas esse humilde fiozinho,
    Que um destino bom impelle,
    Encontra pelo caminho
    Um outro que é como elle…

    Reunem-se, fundem-se os dois,
    Proseguem de companhia,
    E fica dupla depois
    A força que os leva e guia…

    Junta-se aos dois um terceiro,
    Outros confluindo vão,
    E o regato é já ribeiro
    E o ribeiro é rio então…

    E nada agora o domina
    Ao fiozinho da fonte.
    Entre collina e collina,
    Ou entre um monte e outro monte,

    Caminha sem descançar,
    Circula atravez do mundo
    –Até á beira do mar
    Omnipotente e profundo…

    Da altura em que estejaes (ou vos pareça;
    A vaidade é uma amante enganadora)
    Que o mais alto de vós se humilhe e desça
    Como se humilde e pobre sempre fôra…

    E que os demais desçam tambem de todo
    O orgulho e mando sobre escravas gentes
    Até ao valle, de lagrimas e lôdo
    Onde a miseria brada e range os dentes.

    E como as aguas que se vão juntando
    E juntas, e cantando, vão descendo,
    Reuni o choro derramado, quando
    Atravessardes esse valle horrendo.

    E o atoleiro que se havia feito
    No val, dantesco, pútrido, sombrio,
    Mudar-se-ha no irrigante leito
    Dum fertilisador e claro rio;

    E o rio, andando, andando, hade alargar
    –Com biliões de lagrimas vertidas–
    Num infinito e luminoso mar
    De novas e amplas e cantantes vidas!

    Outubro de 1909.

    INDICE

    Prefacio
    Dedicatoria
    Luar de Janeiro
    Sextilhas a um menino Jesus d'Evora
    Ballada da Neve
    Toada para as mães acalentarem os filhos
    O nosso lar
    O que o fogo poupou dum poemeto queimado
    Melodia confidencial
    O passeio de Santo Antonio
    Um grão de incenso
    A máscara
    In promptum pastoral
    Meditações sobre themas do Ecclesiastes
    A canção das perdidas
    Carta a um rapaz sentimental
    Mãos frias coração quente
    Noiva
    De profundis clamavi ad te domine
    Joanninha
    Quando as andorinhas partiam
    A parábola do pucaro d'agua

    Acabado de imprimir aos trinta e um de dezembro de 1909 em Lisboa, na
    Typographia do Commercio, Rua da Oliveira, 10, ao Carmo.

  • Marilia de Dirceo

    Marilia de Dirceo

    Aproximadamente 21.475 palavras.

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    Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)

    MARILIA DE DIRCEO.

    MARILIA DE DIRCEO.

    POR T.A.G.

    PRIMEIRA PARTE.

    LISBOA:

    Na Typ. de J.F.M. de Campos. 1824.

    MARILIA DE DIRCEO.

    LYRA I.

    Eu, Marilia, não sou algum vaqueiro,
    Que viva de guardar alheio gado,
    De tosco trato, de expressões grosseiro,
    Dos frios gelos, e dos sóes queimado.
    Tenho proprio casal, e nelle assisto;
    Dá-me vinho, legume, fruta, azeite,
    Das brancas ovelhinas tiro o leite,
    E mais as finas lãs, de que me visto.
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    Eu vi o meu semblante n'uma fonte,
    Dos annos inda não está cortado:
    Os Pastores, que habitão este monte,
    Respeitão o poder do meu cajado.
    Com tal destreza toco a sanfoninha,
    Que inveja até me tem o proprio Alceste:
    Ao som della concerto a voz celeste;
    Nem canto letra que não seja minha.
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    Mas tendo tantos dotes da ventura,
    Só aprêço lhes dou, gentil Pastora,
    Depois que o teu affecto me segura,
    Que queres do que tenho ser Senhora.
    He bom, minha Marilia, he bom ser dono
    De hum rebanho, que cubra monte, e prado
    Porém, gentil Pastora, o teu agrado
    Vale mais [~q] h[~u] rebanho, e mais [~q] h[~u] throno.
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    Os teus olhos espalhão luz divina,
    A quem a luz do Sol em vão se atreve:
    Papoila, ou rosa delicada, e fina,
    Te cobre as faces, que são côr da neve.
    Os teus cabellos são huns fios d'ouro;
    Teu lindo corpo balsamos vapora.
    Ah! não, não fez o Ceo, gentil Pastora,
    Para gloria de Amor igual Thesouro.
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    Leve-me a sementeira muito embora
    O rio sobre os campos levantado:
    Acabe, acabe a peste matadora,
    Sem deixar huma rez, o nedeo gado.
    Já destes bens, Marilia, não preciso:
    Nem me céga a paixão, que o mundo arrasta,
    Para viver feliz, Marilia, basta
    Que os olhos movas, e me dês hum riso.
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    Hirás a divertir-te na floresta,
    Sustentada, Marilia, no meu braço;
    Aqui descançarei a quente sésta,
    Dormindo num leve somno em teu regaço:
    Era quanto a luta jogão os Pastores,
    E emparelhados correm nas campinas,
    Toucarei teus cabellos de boninas,
    Nos troncos gravarei os teus louvores.
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    Depois que nos ferir a mão da Morte
    Ou seja neste monte, ou n'outra serra,
    Nossos corpos terão, terão a sorte
    De consumir os dous a mesma terra.
    Na campa, rodeada de cyprestes,
    Leráõ estas palavras os Pastores:
    "Quem quizer ser feliz nos seus amores,
    Siga os exemplos que nos derão estes"
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    LYRA II.

    Pintão, Marilia, os Poetas
    A hum menino vendado,
    Com huma aljava de settas,
    Arco empunhado na mão:
    Ligeiras azas nos hombros,
    O tenro corpo despido;
    E de Amor, ou de Cupido
    São os nomes que lhe dão.

    Porém eu, Marilia, nego,
    Que assim seja Amor; pois elle
    Nem he moço, nem he cégo,
    Nem settas, nem azas tem,
    Ora pois, eu vou formar-lhe
    Hum retrato mais perfeito,
    Que elle já ferio meu peito;
    Por isso o conheço bem.

    Os seus compridos cabellos;
    Que sobre as costas ondeão,
    São que os de Apollo mais bellos;
    Mas de loura côr não são.
    Tem a côr da negra noite;
    E com o branco do rosto
    Fazem, Marilia, hum composto
    Da mais formosa união.

    Tem redonda, e lisa testa;
    Arqueadas sobrancelhas;
    A voz meiga, a vista honesta,
    E seus olhos são huns sóes,
    Aqui vence Amor ao Ceo,
    Que no dia luminoso
    O Ceo tem hum Sol formoso,
    E o travesso Amor tem dous.

    Na sua face mimosa,
    Marilia, estão misturadas
    Purpureas folhas de rosa,
    Brancas folhas de jasmim.
    Dos rubins mais preciosos
    Os seus beiços são formados;
    Os seus dentes delicados
    São pedaços de marfim.

    Mal vi seu rosto perfeito
    Dei logo hum suspiro, e elle
    Conheceo haver-me feito
    Estrago no coração.
    Punha em mim os olhos, quando
    Entendia eu não olhava:
    Vendo que o via, baixava
    A modesta vista ao chão.

    Chamei-lhe hum dia formoso;
    Elle ouvindo os seus louvores
    Com hum modo desdenhoso,
    Se surrio, e não fallou.
    Pintei-lhe outra vez o estado,
    Em que estava esta alma posta;
    Não me deo tambem resposta,
    Constrangeo-se, e suspirou.

    Conheço os signaes, e logo
    Animado da esperança,
    Busco dar hum desaffogo
    Ao cansado coração.
    Pégo em seus dedos nevados,
    E querendo dar-lhe hum beijo,
    Cubrio-se todo de pejo,
    E fugio-me com a mão.

    Tu, Marilia, agora vendo
    De Amor o lindo retrato,
    Comtigo estarás dizendo,
    Que he este o retrato teu.
    Sim, Marilia, a copia he tua,
    Que Cupido he Deos supposto:
    Se ha Cupido he só teu rosto,
    Que elle foi quem me venceo.

    LYRA III.

    De amar, minha Marilia, a formosura
    Não se podem livrar humanos peitos.
    Adorão os Heróes, e os mesmos brutos
    Aos grilhões de Cupido estão sujeitos.
    Quem, Marilia, despreza huma belleza,
    A luz da razão precisa,
    E se tem discurso, pisa
    A Lei, que lhe ditou a Natureza.

    Cupido entrou no Ceo. O grande Jove
    Huma vez se mudou em chuva de ouro:
    Outras vezes tomou as varias fórmas
    De General de Thebas, velha, e touro,
    O proprio Deos da Guerra deshumano
    Não viveo de amor illeso;
    Quiz a Venus, e foi prezo
    Na rede, que lhe armou o Deos Vulcano.

    Se amar huma belleza se desculpa
    Em quem ao proprio Ceo, e terra move;
    Qual he a minha gloria, pois igualo,
    Ou excedo no amor ao mesmo Jove?
    Amou o Pai dos Deoses Soberano
    Hum semblante peregrino:
    Eu adoro o teu divino,
    O teu divino rosto, e sou humano.

    LYRA IV.

    Marilia, teus olhos
    São réos, e culpados,
    Que soffra, e que beije
    Os ferros pezados
    De injusto Senhor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Mal vi o teu rosto,
    O sangue gelou-se,
    A lingoa prendeo-se,
    Tremi, e mudou-se
    Das faces a côr.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    A vista furtiva,
    O risco imperfeito,
    Fizerão a chaga,
    Que abriste no peito
    Mais funda, e maior.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Dispuz-me a servir-te;
    Levava o teu gado
    Á fonte mais clara,
    Á vargem, e prado
    De relva melhor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Se vinha da herdade,
    Trazia nos ninhos
    As aves nascidas,
    Abrindo os biquinhos
    De fome ou temor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Se alguem te louvava
    De gosto me enchia;
    Mas sempre o ciume
    No rosto accendia
    Hum vivo calor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Se estavas alegre,
    Dirceo se alegrava;
    Se estavas sentida,
    Dirceo suspirava
    Á força da dor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Fallando com Laura,
    Marilia dizia;
    Surria-se aquella,
    E eu conhecia
    O erro de amor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Movida, Marilia,
    De tanta ternura,
    Nos braços me déste,
    Da tua fé pura
    Hum doce penhor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Tu mesma disseste
    Que tudo podia
    Mudar de figura;
    Mas nunca seria
    Teu peito traidor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Tu já te mudaste;
    E a Olaia frondoza,
    Aonde escreveste
    A jura horrorosa,
    Tem todo o vigor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Mas eu te desculpo,
    Que o fado tyranno
    Te obriga a deixar-me;
    Pois busca o meu damno
    Da sorte, que for.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    LYRA V.

    A caso são estes
    Os sitios formosos,
    Aonde passava
    Os annos gostosos?
    São estes os prados,
    Aonde brincava,
    Em quanto pastava
    O manso rebanho,
    Que Alceo me deixou?
    São estes os sitios?
    São estes; mas eu
    O mesmo não sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.

    Daquelle penhasco
    Hum rio cahia,
    Ao som do sussurro
    Que vezes dormia!
    Agora não cobrem
    Espumas nevadas
    As pedras quebradas:
    Parece que o rio
    O curso voltou.
    São estes os sitios?
    São estes; mas eu
    O mesmo não sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.

    Meus versos alegre
    Aqui repetia:
    O Eco as palavras
    Tres vezes dizia.
    Se chamo por elle
    Já não me responde;
    Parece se esconde,
    Cansado de dar-me
    Os ais que lhe dou.
    São estes os sitios?
    São estes; mas eu
    O mesmo não sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.
    Aqui hum regato
    Corria sereno,
    Por marg[~e]s cobertas
    De flores, e feno:
    Á esquerda se erguia
    Hum bosque fechado;
    E o tempo apressado,
    Que nada respeita,
    Já tudo mudou.
    São estes os sitios?
    São estes; mas eu
    O mesmo não sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.

    Mas como discorro?
    Acaso podia
    Já tudo mudar-se
    No espaço de hum dia?
    Existem as fontes,
    E os freixos copados;
    Dão flores os prados,
    E corre a cascata,
    Que nunca seccou.
    São estes os sitios?
    São estes; mas eu
    O mesmo não sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.

    Minha alma, que tinha
    Liberta a vontade,
    Agora já sente
    Amor, e saudade.
    Os sitios formosos,
    Que já me agradárão,
    Ah! não se mudárão!
    Mudárão-se os olhos,
    De triste que estou.
    São estes os sitios?
    São estes; mas eu
    O mesmo não sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.

    LYRA VI.

    Oh! quanto póde em nós a varia Estrella!
    Que diversos que são os genios nossos!
    Qual solta a branca vélla,
    E affronta sobre o pinho os mares grossos.
    Qual cinge com a malha o peito duro;
    E marchando na frente das cohortes,
    Faz a toare voar, cahir o muro.

    O sordido avarento em vão trabalha,
    Que possa o filho entrar no seu Thesouro.
    Aqui fechado estende
    Sobre a taboa, que verga, as barras de ouro.
    Sacode o jogador da copo os dados;
    E n'uma noite só, que ao somno rouba,
    Perde o resto dos bens do pai herdados.

    O que da voráz gulla o vicio adora
    Da lauta meza os prazeres fia.
    E o terno Alceste chora
    Ao som dos versos a que o genio o guia.
    O sabio Gallileo toma o compasso,
    E sem voar ao Ceo, calcula, e mede
    Das Estrellas, e Sol o immenso espaço.

    Em quanto pois, Marilia, a varia gente,
    Se deixa conduzir do proprio gosto;
    Passo as horas contente
    Notando as graças do teu lindo rosto.
    Sem cansar-me a saber se o Sol se móve,
    Ou se a terra voltea, assim conheço.
    Aonde chega a mão do grande Jove.

    Noto, gentil Marilia, os teus cabellos;
    E noto as faces de Jasmins, e rosas:
    Noto os teus olhos bellos;
    Os brancos dentes, e as feições mimosas.
    Quem fez huma obra tão perfeita, e linda,
    Minha bella Marilia, tambem póde
    Fazer os Ceos, e mais, se ha mais ainda.

    LYRA VII.

    Vou retratar a Marilia,
    A Marilia meus amores;
    Porém como, se eu não vejo
    Quem me empreste as finas cores!
    Dar-mas a terra não póde;
    Não que a sua côr mimosa
    Vence o lyrio, vence a rosa:
    O jasmim, e as outras flores.
    Ah soccorre, Amor, soccorre
    Ao mais grato empenho meu!
    Vôa sobre os Astros, vôa,
    Traze-me as tintas do Ceo.

    Mas não se esmoreça logo;
    Busquemos hum pouco mais;
    Nos mares talvez se encontrem
    Cores que sejão iguaes.
    Porém não, que em parallelo
    Da minha Ninfa adorada
    Perolas não valem nada,
    Não valem nada os coraes.
    Ah soccorre, Amor, soccorre
    Ao mais grato empenho meu!
    Vôa sobre os Astros, vôa,
    Traze-me as tintas do Ceo.

    Só no Ceo achar se podem
    Taes bellezas, como aquellas,
    Que Marilia tem nos olhos,
    E que tem nas faces bellas.
    Mas ás faces graciosas,
    Aos negros olhos, que matão,
    Não imitão, não retratão
    Nem Auroras, nem Estrellas.
    Ah soccorre, Amor, soccorre
    Ao mais grato empenho meu!
    Vôa sobre os Astros, vôa,
    Traz-me as tintas do Ceo.

    Entremos, Amor, entremos,
    Entremos na mesma Esfera.
    Venha Pallas, Venha Juno,
    Venha a Deosa de Cithera.
    Porém não, que se Marilia
    No certame antigo entrasse,
    Bem que a Paris não peitasse,
    A todas as tres vencera.
    Vai-te, Amor, em vão soccorres
    Ao mais grato empenho meu:
    Para formar-lhe o retrato
    Não bastão tintas do Ceo.

    LYRA VIII.

    Marilia, de que te queixas?
    De que te roube Dirceo
    O sincero coração?
    Não te deo tambem o seu?
    E tu, Marilia, primeiro
    Não lhe lançaste o grilhão?
    Todos amão: só Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Queria ter izenção?

    Em torno das castas pombas
    Não rulão ternos pombinhos?
    E rulão, Marilia, em vão?
    Não se afagão c'os biquinhos?
    E a provas de mais ternura
    Não os arrasta a paixão?
    Todos amão: só Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Queria, ter izenção?

    Já viste, minha Marilia,
    Avezinhas, que não fação
    Os seus ninhos no verão?
    Aquellas com quem se enlação
    Não vão cantar-lhe defronte
    Do molle pouzo em que estão?
    Todos amão: só Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Queria ter izenção?

    Se os peixes, Marilia, gerão
    Nos bravos mares, e rios,
    Tudo effeitos de Amor são.
    Amão os brutos impios,
    A serpente venenosa,
    A Onça, o Tigre, o Leão.
    Todos amão: só Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Queria ter izenção?

    As grandes Deosas do Ceo,
    Sentem a setta tyranna
    Da amorosa inclinação.
    Diana, com ser Diana,
    Não se abrasa, não suspira
    Pelo amor de Endymão?
    Todos amão: só Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Queria ter izençao?

    Desiste, Marilia bella,
    De huma queixa sustentada
    Só na altiva opinião.
    Esta chamma he inspirada
    Pelo Ceo; pois nella assenta
    A nossa conservação.
    Todos amão: só Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Não deve ter izenção.

    LYRA IX.

    Eu sou, gentil Marilia, eu sou captivo,
    Porém não me venceo a mão armada
    De ferro, e de furor:
    Huma alma sobre todas elevada
    Não cede a outra força que não seja
    Á tenra mão de Amor.

    Arrastem pois os outros muito embora
    Cadêas nas bigornas trabalhadas
    Com pezados martellos:
    Eu tenho as minhas mãos ao carro atadas
    Com duros ferros não, com fios d'ouro,
    Que são os teus cabellos.

    Occulto nos teus meigos vivos olhos
    Cupido a tudo faz tyranna guerra:
    Sacode a setta ardente;
    E sendo despedida cá da terra,
    As nuvens rompe, chega ao alto Impirio,
    E chega ainda quente.

    As abelhas nas azas suspendidas
    Tirão, Marilia, os succos saborosos
    Das orvalhadas flores:
    Pendentes dos teus beiços graciosos
    Ambrosias chupão, chupão mil feitiços
    Nunca fartos Amores.

    O vento quando parte em largas fitas
    As folhas, que menêa com brandura;
    A fonte crystallina,
    Que sobre as pedras cáe de immensa altura;
    Não fórma hum som tão doce, como fórma
    A tua voz divina.

    Em torno dos teus peitos, que palpitão;
    Exalão mil suspiros desvelados
    Enchames de desejos;
    Se encontrão os teus olhos descuidados,
    Por mais que se atropelem, voão, chegão,
    E dão furtivos beijos.

    O Cisne, quando corta o manso lago,
    Erguendo as brancas azas, e o pescoço;
    A Náo que ao longe passa,
    Quando o vento lhe infuna o panno grosso;
    O teu garbo não tem, minha Marilia,
    Não tem a tua graça.

    Estimem pois os mais a liberdade:
    Eu prézo o captiveiro: sim, nem chamo
    Á mão de Amor impia:
    Honro a virtude, e os teus dotes amo:
    Tambem o grande Achilles veste a saia
    Tambem Alcides fia.

    LYRA X.

    Se existe hum peito,
    Que izento viva
    Da chamma activa,
    Que accende Amor.
    Ah! não habite
    Neste montado;
    Fuja apressado
    Do vil traidor.

    Corra, que o Impio
    Aqui se esconde:
    Não sei aonde;
    Mas sei o que vi.
    Traz novas settas,
    Arco robusto;
    Tremi de susto;
    Em vão fugi.

    Eu vou mostrar-vos,
    Tristes mortaes,
    Quantos signaes
    O Impio tem.
    Oh! como he justo,
    Que todo o humano
    Hum tal tyranno
    Conheça bem!

    No corpo ainda
    Menino existe:
    Mas quem resiste
    Ao braço seu?
    Ao negro Inferno
    Levou a guerra:
    Vencêo a terra,
    Vencêo o Ceo.

    Já mais se cobrem
    Seus membros bellos;
    E os seus cabellos
    Que lindos são!
    Vendados olhos,
    Que tudo alcanção,
    E já mais lanção
    A setta em vão.

    As suas faces
    São côr da neve;
    E a bocca breve
    Só rizos tem.
    Mas, ah! respira
    Negros venenos,
    Que nem ao menos
    Os olhos vem.

    Aljava grande
    Dependurada,
    Sempre atacada
    De bons farpões.
    Fere com estas
    Agudas lanças,
    Pombinhas mansas,
    Bravos leões.

    Se a setta falta
    Tem outra prompta,
    Que a dura ponta
    Já mais torcêo.
    Ninguem resiste
    Aos golpes della:
    Marilia bella
    Foi quem lha dêo.

    Ah! não sustente
    Dura peleija,
    O que deseja
    Ser vencedor.
    Fuja, e não olhe,
    Que só fugindo
    De hum rosto lindo,
    Se vence Amor.

    LYRA XI.

    Naõ toques, minha Musa, não, não toques
    Na sonorosa Lyra,
    Que ás almas, como a minha, namoradas
    Doces Canções inspira:
    Assopra no clarim, que apenas sôa
    Enche de assombro a terra;
    Naquelle, a cujo som cantou Homero,
    Cantou Virgilio a Guerra.

    Busquemos, ó Musa,
    Empreza maior;
    Deixemos as ternas
    Fadigas de Amor.

    Eu já não vejo as graças, de que fórma
    Cupido o seu thesouro:
    Vivos olhos, e faces côr da neve,
    Com crespos fios de ouro;
    Meus olhos só vem gramas, e loureiros;
    Vem carvalhos, e palmas;
    Vem os ramos honrosos, que destinguem
    As vencedoras almas.

    Busquemos, ó Musa,
    Empreza maior;
    Deixemos as ternas
    Fadigas de Amor.

    Cantemos o Heróe, que já no berço
    As Serpes despedaça;
    Que fere os Cácos, que destronca as Hidras,
    Mais os leões que abraça.
    Cantemos, se isto he pouco, a dura guerra
    Dos Tritães, e Tyféos,
    Que arrancão as montanhas, e atrevidos
    Levão armas aos Ceos.

    Busquemos, ó Musa,
    Empreza maior;
    Deixemos as ternas
    Fadigas de amor.

    Anima pois, ó Musa, o instrumento,
    Que a voz tambem levanto;
    Porém tu déste muito assima o ponto,
    Dirceo não póde tanto:
    Abaixa, minha Musa, o tom, que ergueste;
    Eu já, eu já te sigo.
    Mas, ah! vou a dizer _Heróe_, e _Guerra_,
    E só _Marilia_ digo.

    Deixemos, ó Musa,
    Empreza maior,
    Só posso seguir-te
    Cantando de Amor.

    Feres as cordas d'ouro? Ah! sim, agora
    Meu canto já se afina;
    E a huma voz, parece que ao som dellas
    Se faz tambem divina.
    O mesmo que cercou de muro a Thebas
    Não canta assim tão terno;
    Nem póde competir comigo aquelle,
    Que desce ao negro Inferno.

    Deixemos, ó Musa,
    Empreza maior,
    Só posso seguir-te
    Cantando de Amor.

    Mal repito _Marilia_, as doces aves
    Mostrão signaes de espanto,
    Erguem os collos, voltão as cabeças,
    Parão o ledo canto;
    Move-se o tronco, o vento se suspende
    Pasma o gado, e não come:
    Quanto podem meus versos! Quanto póde
    Só de Marilia o nome!

    Deixemos, ó Musa,
    Empreza maior;
    Só posso seguir-te
    Cantando de Amor.

    LYRA XII.

    Topei hum dia
    Ao Deos vendado,
    Que descuidado
    Não tinha as settas
    Na impia mão.
    Mal o conheço,
    Me sóbe logo
    Ao rosto o fogo,
    Que a raiva accende
    No coração.

    _Morre, Tyranno,
    Morre, inimigo_!
    Mal isto digo,
    Raivoso o apérto
    Nos braços meus.
    Tanto que o moço
    Sente apertar-se,
    Para salvar-se
    Tambem me aperta
    Nos braços seus.

    O leve corpo
    Ao ar levanto,
    Ah! e com quanto
    Impulso o trago
    Do ar ao chão!
    Poude suster-se
    A vez primeira;
    Mas á terceira
    Nos pés, que alarga,
    Se firma em vão.

    Mal o derrubo,
    Ferro aguçado
    No já cançado
    Peito, que arqueja,
    Mil golpes deo.
    Suou seu corpo;
    Tremêo gemendo;
    E á côr perdendo,
    Batêo as azas;
    Em fim morreo.

    Qual bravo Alcides,
    Que a hirsuta pelle
    Vestio daquelle
    Grenhoso bruto,
    A quem matou.
    Para que próve
    A empreza honrada,
    C'o a mão manchada
    Recolho as settas,
    Que me deixou.

    Ouvio Marilia
    Que Amor gritava,
    E como estava
    Vizinha ao sitio
    Valer-lhe vem.
    Mas quando chega
    Espavorida,
    Nem já de vida
    O féro monstro
    Indicio tem.

    Então Marilia,
    Que o vê de perto
    De pó cuberto,
    E todo involto
    No sangue seu;
    As mãos aperta
    No peito brando,
    E afflicta dando
    Hum ai, os olhos
    Levanta ao Ceo.

    Chega-se a elle
    Compadecida;
    Lava a ferida
    C'o pranto amargo,
    Que deramou.
    Então o monstro
    Dando hum suspiro,
    Fazendo hum gyro
    C'o a baça vista,
    Resuscitou.

    Respira a Deosa;
    E vem o gosto
    Fazer no rosto
    O mesmo effeito,
    Que fez a dôr.
    Que louca idéa
    Foi a que tive!
    Em quanto vive
    Marilia bella,
    Não morre Amor.

    LYRA XIII.

    Oh! quantos riscos,
    Marilia bella,
    Não atropella
    Quem cégo arrasta
    Grilhões de Amor!
    Hum peito forte,
    De acordo falto,
    Zomba do assalto
    Do vil traidor.

    O amante de Hero
    Da luz guiado,
    C'o peito ousado
    Na escura noite
    Rompia o mar,
    Se o Helesponto
    Se encapellava,
    Ah! não deixava
    De lhe ir fallar.

    Do cantor Thracio
    A heroicidade
    Esta verdade,
    Minha Marilia,
    Prova tambem.
    Cheio de esfôrço
    Vai ao Cocyto
    Buscar afflito
    Seu doce bem.

    Que acção tão grande
    Nunca intentada!
    Ao pé da entrada
    Já tudo assusta
    O coração!
    Pendentes rochas,
    Campos adustos,
    Que nem arbustos
    Nem hervas dão.

    Na funda fralda
    De calvo monte,
    Corre Acheronte,
    Rio de ardente
    Mortal licor.
    Tem o barqueiro
    Testa enrugada,
    Vista inflammada,
    Que mete horror.

    Que seguranças!
    Que fechaduras!
    As portas duras
    Não são de lenhos;
    De ferro são.
    Por tres gargantas,
    Quando alguem bate,
    Raivoso late
    O negro cão.

    Dentro da cova
    Soão lamentos;
    E que tormentos
    Não mostra aos olhos
    A escassa luz!
    Minos a pena
    Manda se intime
    Igual ao crime,
    Que alli conduz.

    Grande penedo
    Este carrega;
    E apenas chega
    Do monte ao cume,
    O faz rolar.
    A pedra sempre
    Ao valle desce,
    Sem que elle cesse
    De a ir buscar.

    Nas limpas aguas
    Habita aquelle:
    Por cima delle
    Verdejão ramos,
    Que pomos dão.
    Debalde a bocca
    Molhar pertende;
    De balde estende
    Faminta mão.

    Tem outro o peito
    Despedaçado:
    Monstro esfaimado
    Já mais descança
    De lho roêr.
    A rôxa carne,
    Que o abutre come,
    Não se consome,
    Torna a crescer.

    Mas bem que tudo
    Pavor inspira,
    Tocando a lyra
    Desce ao Averno
    O bom Cantor.
    Não se entorpece
    A lingua, e braço;
    Não treme o passo,
    Não perde a côr.

    Ah! tambem quanto
    Dirceo obrára,
    Se precisára,
    Marilia bella,
    Do esforço seu!
    Rompêra os mares
    C'o peito terno,
    Fôra ao Inferno,
    Subíra ao Ceo.

    Aos dois amantes
    De Thracia, e Abydo
    Não deo Cupido
    Do que aos mais todos
    Maior valor.
    Por seus vassallos
    Forças reparte,
    Como lhes parte
    Os gráos de Amor.

    LYRA XIV.

    Minha bella Marilia, tudo passa;
    A sorte deste mundo he mal segura;
    Se vem depois dos males a ventura,
    Vem depois dos prazeres a desgraça.
    Estão os mesmos Deoses
    Sujeitos ao poder do impio Fado:
    Apollo já fugio do Ceo brilhante,
    Já foi Pastor de gado.

    A devorante mão da negra Morte
    Acaba de roubar o bem, que temos;
    Até na triste campa não podemos
    Zombar do braço da inconstante sorte.
    Qual fica no sepulchro,
    Que seus a vós erguêrão, descançando:
    Qual no campo, e lhe arranca os frios casos
    Ferro do torto arado.

    Ah! em quanto os Destinos impiedosos
    Não voltão contra nós a face irada,
    Façamos, sim façamos, doce amada,
    Os nossos breves dias mais ditosos.
    Hum coração que frouxo
    A grata posse de seu bem difere,
    A si, Marilia, a si proprio rouba,
    E a si proprio fere.

    Ornemos nossas testas com as flores,
    E façamos de feno hum brando leito,
    Prendamo-nos, Marilia, em laço estreito,
    Gozemos do prazer de sãos Amores.
    Sobre as nossas cabeças,
    Sem que o possão deter, o tempo corre;
    E para nós o tempo, que se passa,
    Tambem, Marilia, morre.

    Com os annos, Marilia, o gôsto falta,
    E se entorpece o corpo já cançado;
    Triste o velho cordeiro está deitado,
    E o leve filho sempre alegre salta.
    A mesma formosura
    He dote, que só goza a mocidade:
    Rugão-se as faces, o cabello alveja,
    Mal chega a longa idade.

    Que havemos d'esperar, Marilia bella?
    Que vão passando os florecentes dias?
    As glorias, que vem tarde, já vem frias;
    E póde em fim mudar-se a nossa estrella.
    Ah! não, minha Marilia,
    Aproveite-se o tempo, antes que faça
    O estrago de roubar ao corpo as forças,
    E ao semblante a graça.

    LYRA XV.

    A minha bella Marilia
    Tem de seu hum bom thesouro,
    Não he, doce Alceo, formado
    Do buscado
    Metal louro.
    He feito de huns alvos dentes,
    He feito de huns olhos bellos,
    De humas faces graciosas,
    De crespos, finos cabellos;
    E de outras graças maiores,
    Que a natureza lhe dêo:
    Bens, que valem sobre a terra,
    E que tem valor no Ceo.

    Eu posso romper os montes,
    Dar ás correntes desvios,
    Pôr cercados espaçosos
    Nos caudosos
    Turvos rios.
    Posso emendar a ventura
    Ganhando astuto a riqueza;
    Mas, ah! charo Alceo, quem póde
    Ganhar huma só belleza
    Das bellezas, que Marilia
    No seu thesouro metêo?
    Bens, que valem sobre a terra,
    E que tem valor no Ceo.

    Da sorte, que vive o rico
    Entre o fausto alegremente,
    Vive o guardador de gado
    Apoucado,
    Mas contente.
    Beije pois torpe avarento
    As arcas de barras chêas:
    Eu não beijo os vís thesouros;
    Beijo as douradas cadêas,
    Beijo as settas, beijo as armas
    Com que o cego Amor vencêo:
    Bens, que valem sobre a terra,
    E que tem valor no Ceo.

    Ama Apollo o fero Marte,
    Ama, Alceo, o mesmo Jove:
    Não he, não, a vã riqueza,
    Sim belleza,
    Quem os move.
    Posto ao lado de Marilia
    Mais que mortal me contemplo:
    Deixo os bens, que aos homens cegão,
    Sigo dos Deoses o exemplo:
    Amo virtudes, e dotes;
    Amo em fim, prezado Alceo,
    Bens, que valem sobre a terra,
    E que tem valor no Ceo.

    LYRA XVI.

    Eu, Glauceste, não duvido
    Ser a tua Eulina amada
    Pastora formosa,
    Pastora engraçada.
    Vejo a sua côr de rosa,
    Vejo o seu olhar divino,
    Vejo os seus purpùreos beiços,
    Vejo o peito crystallino;
    Nem ha cousa, que assemelhe
    Ao crespo cabello louro.
    Ah! que a tua Eulina vale,
    Vale hum immenso thesouro!

    Ella vence muito, e muito
    Á laranjeira copada,
    Estando de flores,
    E frutos ornada.
    He, Glauceste, os teus Amores;
    E nem por outra Pastora,
    Que menos dotes tivera,
    Ou que menos bella fôra,
    O meu Glauceste cançára
    As divinas cordas de ouro.
    Ah! que a tua Eulina vale,
    Val hum immenso thesouro!

    Sim, Eulina he huma Deosa;
    Mas anîma a formosura
    De huma alma de féra,
    Ou inda mais dura.
    Ah! quando Alceo pondéra
    Que o seu Glauceste suspira,
    Perde, perde o soffrimento,
    E qual enfermo delira!
    Tenha embora brancas faces,
    Meigos olhos, fios de ouro,
    A tua Eulina não vale,
    Não vale immenso thesouro.

    O fuzil, que imita a cobra,
    Tambem aos olhos he bello;
    Mas quando alumêa,
    Tu tremes de velo.
    Que importa se mostre chêa
    De mil bellezas a ingrata?
    Não se julga formosura
    A formosura, que mata.
    Evita, Glauceste, evita
    O teu estrago, e desdouro;
    A tua Eulina não vale,
    Não vale immenso thesouro.

    A minha Marilia quanto
    Á natureza não deve!
    Tem divino rosto,
    E tem mãos de neve.
    Se mostro na face o gôsto,
    Ri-se Marilia contente:
    Se canto, canta comigo;
    E apenas triste me sente,
    Limpa os olhos com as tranças
    Do fino cabello louro.
    A minha Marilia vale,
    Vale hum immenso thesouro.

    LYRA XVII.

    Minha Marilia,
    Tu enfadada?
    Que mão ousada
    Perturbar póde
    A paz sagrada
    Do peito teu?

    Porém que muito
    Que irado esteja
    O teu semblante
    Tambem troveja
    O Claro Ceo.

    Eu sei, Marilia,
    Que outra Pastora
    A toda a hora,
    Em toda a parte,
    Céga namora
    Ao teu Pastor.

    Ha sempre fumo
    Aonde ha fogo;
    Assim, Marilia,
    Ha zelos, logo
    Que existe amor.

    Olha, Marilia,
    Na fonte pura
    A tua alvura,
    A tua bocca,
    E a compostura
    Das mais feições.
    Quem tem teu rosto,
    Ah! não receia,
    Que terno amante
    Solte a cadeia,
    Quebre os grilhões.

    Não anda Laura
    Nestas campinas
    Sem as boninas
    No seu cabello,
    Sem pelles finas
    No seu jubão.

    Porém que importa?
    O rico aceio
    Não dá, Marilia,
    Ao rosto feio
    A perfeição.

    LYRA XVIII.

    Não ves aquelle velho respeitavel,
    Que á moleta encostado,
    Apenas mal se move, e mal se arrasta?
    Oh quanto estrago não lhe fez o tempo?
    O tempo arrebatado,
    Que o mesmo bronze gasta.

    Enrugárão-se as faces, e perdêrão
    Seus olhos a viveza;
    Voltou-se o seu cabello em branca neve:
    Já lhe treme a cabeça, a mão, o queixo;
    Nem tem huma belleza
    Das bellezas que teve.

    Assim tambem serei, minha Marilia
    Daqui a poucos annos;
    Que o impio tempo para todos corre.
    Os dentes cahiráõ, e os meus cabellos.
    Ah! sentirei os damnos,
    Que evita só quem morre.

    Mas sempre passarei huma velhice
    Muito menos penoza.
    Não trarei a moleta carregada:
    Descançarei o já vergado corpo
    Na tua mão piedoza,
    Na tua mão nevada.

    As frias tardes em que negra nuvem
    Os chuveiros não lance,
    Irei comtigo ao prado florescente:
    Aqui me buscarás hum sitio ameno,
    Onde os membros descance,
    E ao brando Sol me aquente.

    Apenas me sentar, então movendo
    Os olhos por aquella
    Vistoza parte, que ficar fronteira;
    Apontando direi: _Alli fallámos,
    Alli, ó minha bella,
    Te vi a vez primeira_.

    Verteráõ os meus olhos duas fontes,
    Nascidas de alegria:
    Farão teus olhos ternos outro tanto:
    Então darei, Marilia, frios beijos,
    Na mão formosa, e pia,
    Que me limpar o pranto.

    Assim irá, Marilia, docemente
    Meu corpo supportando
    Do tempo deshumano a dura guerra.
    Contente morrerei, por ser Marilia
    Quem sentida chorando,
    Meus baços olhos cerra.

    LYRA XIX.

    Em quanto pasta alegre o manso gado,
    Minha bella Marilia, nos sentemos
    Á sombra deste cedro levantado.
    Hum pouco meditemos
    Na regular belleza,
    Que em tudo quanto vive, nos descobre
    A sabia Natureza.

    Attende, como aquella vaca preta
    O novilhino seu dos mais separa,
    E o lambe, em quanto chupa a liza teta.
    Attende mais, ó chara,
    Como a ruiva cadella
    Supporta que lhe morda o filho o corpo;
    E salte em cima della.

    Repara, como cheia de ternura
    Entre as azas ao filho essa ave aquenta:
    Como aquella esgravata a terra dura,
    E os seus assim sustenta;
    Como se encoleriza,
    E salta sem receio a todo o vulto,
    Que junto delles piza.

    Que gosto não terá a esposa amante
    Quando der ao filhinho o peito brando,
    E reflectir então no seu semblante!
    Quando, Marilia, quando
    Disser comigo: _he esta
    De teu querido pai a mesma barba,
    A mesma bocca, e testa_.

    Que gosto não terá a mãi, que toca,
    Quando o tem nos seus braços, c'o dedinho
    Nas faces graciosas, e na bocca
    Do innocente filhinho!
    Quando, Marilia bella,
    O tenro infante já com risos mudos
    Começa a conhecê-la!

    Que prazer não terão os pais ao verem
    Com as mãis hum dos filhos abraçados;
    Jogar outros a luta, outros correrem
    Nos cordeiros montados!
    Que estado de ventura!
    Que até naquillo, que de pezo serve,
    Inspira Amor doçura.

    LYRA XX.

    Em huma frondosa
    Roseira se abria
    Hum negro botão.
    Marilia adorada
    O pê lhe torcia
    Com a branca mão.

    Nas folhas viçosas
    Á abelha inraivada
    O corpo escondêo.
    Tocou-lhe Marilia,
    Na mão descuidada
    A fera mordêo.

    A penas lhe morde,
    Marilia gritando,
    C'o dedo fugio.
    Amor, que nos bosques
    Estava brincando,
    Aos ais acudio.

    Mal vio a rotura,
    E o sangue espargido,
    Que a Deoza mostrou;
    Rizonho beijando
    O dedo offendido,
    Assim lhe fallou.

    _Se tu for tão pouco
    O pranto desatas,
    Ah! dá-me attençaõ;
    E como daquelle,
    Que feres, e matas,
    Naõ tens compaixaõ_?

    LYRA XXI.

    Não sei, Marilia, que tenho,
    Depois que vi o teu rosto;
    Pois quanto não he Marilia,
    Já não posso ver com gosto.
    Noutra idade me alegrava,
    Até quando conversava
    Com o mais rude vaqueiro:
    Hoje, ó bella, me aborrece
    Inda o trato lizongeiro
    Do mais discreto pastor.
    Que effeitos são os que sinto!
    Serão effeitos de amor?

    Sáio da minha cabana
    Sem reparar no que faço;
    Busco o sitio aonde moras,
    Suspendo defronte o passo.
    Fito os olhos na janella,
    Aonde, Marilia bella,
    Tu chegas ao fim do dia;
    Se alguem passa, e te saúda,
    Bem que seja cortezia,
    Se accende na face a côr.
    Que effeitos são os que sinto!
    Serão effeitos de Amor?

    Se estou, Marilia, comtigo,
    Não tenho hum leve cuidado;
    Nem me lembra, se são horas
    De levar á fonte o gado.

    Se vivo de ti distante,
    Ao minuto, ao breve instante,
    Finge hum dia o meu desgosto:
    Já mais, Pastora, te vejo
    Que em teu semblante composto
    Não veja graça maior.
    Que effeitos são os que sinto!
    Serão effeitos de Amor?

    Aonde já com o juizo;
    Marilia, tão perturbado,
    Que no mesmo aberto sulco
    Metto de novo o arado.
    Aqui no centêo pégo,
    Noutra parte em vão o cégo:
    Se alguem comigo conversa,
    Ou não respondo, ou respondo
    Noutra coiza tão diversa,
    Que nexo tão tem menor.
    Que effeitos são os que sinto!
    Serão effeitos de Amor?

    Se geme o bufo agoureiro
    Só Marilia me desvella:
    Enche-se o peito de magoa,
    E não sei a causa della.
    Mal durmo, Marilia, sonho,
    Que féro leão medonho
    Te devora nos meus braços:
    Gella-se o sangue nas veias.
    E sólto do somno os laços
    Á força da immensa dor.
    Ah! que os effeitos que sinto
    Só são effeitos de Amor.

    LYRA XXII.

    Muito embora, Marilia, muito embora
    Outra belleza, que não seja a tua,
    Com a vermelha roda, a seis puxada,
    Faça tremer a rua.

    As paredes da salla aonde habita
    Adorne a seda, e o tremó dourado;
    Pendão largas cortinas, penda o lustre
    Do této apainelado.

    Tu não habitarás Palacios grandes,
    Nem andarás nos coches voadores;
    Porém terás hum Vate, que te preze,
    Que cance os teus louvores.

    O tempo não respeita a formosura;
    E da palida morte a mão tyranna
    Arraza os edificios dos Augustos,
    E arraza a vil choupana.

    Que bellezas, Marilia, florecerão
    De quem nem se quer temos a memoria?
    Só podem conservar hum nome eterno
    Os versos, ou a historia.

    Se não houvesse Tasso, nem Petrarcha,
    Por mais que qualquer dellas fosse linda,
    Já não sabia o mundo, se existirão
    Nem Laura, nem Clorinda.

    He melhor, minha bella, ser lembrada
    Por quantos hão de vir sabios humanos,
    Que ter urcos, ter coches, e thesouros,
    Que morrem com os annos.

    LYRA XXIII.

    N'um sitio ameno
    Cheio de rosas,
    De brancos lyrios,
    Murtas viçosas;

    Dos seus amores
    Na companhia
    Dirceo passava
    Alegre o dia.

    Em tom de graça,
    Ao terno amante
    Manda Marilia
    Que toque, e cante.

    Péga na lyra,
    Sem que a tempere,
    A voz levanta,
    E as cordas fere.

    C'os doces pontos
    A mão atina,
    E a voz iguala
    A voz divina.

    Ella, que teve
    De rir-se a idéa,
    Nem move os olhos
    De assombro chêa.

    Então Cupido
    Apparecendo,
    Á bella falla
    Assim dizendo:

    _Do teu amado
    A lyra fias,
    Só porque delle
    Zombando rias_?

    _Quando n'um peito
    Assento faço,
    Do peito subo
    Á lingoa, e braço_.

    _Nem creias que outro
    Estylo tome,
    Sendo eu o mestre,
    A acção teu nome_.

    LYRA XXIV.

    Encheo, minha Marilia, o grande Jove
    De immensos animaes de toda a especie
    As terras, mais os ares,
    O grande espaço dos salobros rios,
    Dos negros, fundos mares.
    Para sua defeza,
    A todos dêo as armas, que convinha;
    Á sabia Natureza.

    Dêo as azas aos passaros ligeiros;
    Dêo ao peixe escamoso as barbatanas:
    Dêo veneno á serpente,
    Ao membrudo Elefante a enorme tromba,
    E ao Javali o dente.
    Coube ao leão a garra:
    Com leve pé saltando o servo foge;
    E o bravo touro marra.

    Ao homem dêo as armas do discurso
    Que valem muito mais que as outras armas:
    Dêo-lhe dedos ligeiros,
    Que podem converter em seu serviço
    Os ferros, e os madeiros;
    Que tecem fortes laços,
    E forjão raios com que aos brutos cortão
    Os vôos, mais os passos.

    Ás timidas donzellas pertencerão
    Outras armas, que tem dobrada força:
    Dêo-lhes a Natureza
    Além do entendimento, além dos braços
    As armas da belleza.
    Só ella ao Ceo se atreve,
    Só ella mudar póde o gello em fogo,
    Mudar o fogo em neve.

    Eu vejo, eu vejo ser a formosura
    Quem arrancou da mão de Coriolano
    A cortadora espada.
    Vejo que foi de Helena o lindo rosto
    Quem pôz em campo armada
    Toda a força de Grecia.
    E quem tirou o Sceptro aos Reis de Roma,
    Só foi, só foi Lucrecia.

    Se podem lindos rostos, mal suspirão,
    O braço desarmar do mesmo Achilles;
    Se estes rostos irados
    Podem soprar o fogo da descordia
    Em póvos alliados;
    Hes arbitra da terra;
    Tu pódes dar, Marilia, a todo o mundo
    A paz, e a dura guerra.

    LYRA XXV.

    O cego Cupido hum dia
    Com os seus Genios fallava,
    Do modo que lhe restava
    De captivar a Dirceo.
    Depois de larga disputa,
    Hum dos Genios mais sagazes
    Este conselho lhe dêo:

    As settas mais aguçadas,
    Como se em roxa batessem,
    Dão nos seus peitos, e descem
    Todas quebradas ao chão.
    Só as graças de Marilia
    Podem vencer hum tão duro,
    Tão izento coração.

    A fortuna desta empreza
    Consiste em armar-se o laço,
    Sem que sinta ser o braço,
    Que lho prepara, de Amor.
    Que elle vive como as aves,
    Que já deixárão as pennas
    No visco do Caçador.

    Na força deste conselho
    O raivoso Deos socega,
    E á tropa a honra entrega
    De o fazer executar.
    Todos pertendem ganhá-la,
    Batem as azas ligeiros,
    E vão as armas buscar.

    Os primeiros se occultárão
    Da Deosa nos olhos bellos;
    Qual se enlaçou nos cabellos;
    Qual ás faces se prendêo.
    Hum amorinho cansado
    Cahio dos labios ao seio,
    E nos peitos se escondêo.

    Outro Genio mais astuto
    Este novo ardil alcança,
    Muda-se n'uma criança
    De divino parecer.
    Esconde as azas, e a venda;
    Esconde as settas, e quanto
    Póde dá-lo a conhecer.

    Ella que vê hum menino
    Todo de graças cuberto,
    Tão risonho, e tão esperto
    Alli sózinho brincar.
    A elle endireita os passos;
    Finge Amor ter medo, e a Deosa
    Mais se empenha em lhe pegar.

    Ella corria chamando;
    Elle fugia, e chorava:
    Assim forão onde estava
    O descuidado Pastor.
    Este, mal vio a belleza,
    E o gentil menino, entende
    A malicia do traidor.

    Põe as mãos sobre os ouvidos,
    Cerra os olhos, e constante
    Não quer ver o seu semblante,
    Não o quer ouvir fallar.
    Qual Ulysses n'outra idade
    Para illudir as Serêas
    Mandou tambores tocar.

    Cupido, que a empreza via,
    Julga o intento frustrado,
    E de raiva transportado
    O corpo no chão lançou.
    Traçou a lingoa nos dentes;
    Mettêo as unas no rosto,
    E os cabellos arrancou.

    O Genio, que se escondia
    Entre os peitos da Pastora,
    Erguêo a cabeça fóra,
    E o successo conhecêo.
    Deixa o socego em que estava,
    E vai ligeiro metter-se
    No peito do bom Dirceo.

    Apenas c'o brando peito
    Lhe tocou a neve fria,
    Com o calor que trazia
    Lhe abrazou o coração.
    Dá o Pastor hum suspiro,
    Abre os seus olhos, e sólta
    Do apertado ouvido a mão.

    Logo que virão os Genios
    Ao triste Pastor disposto
    Para ver o lindo rosto,
    Para as palavras ouvir.
    Cada hum as armas toma,
    Cada hum com ellas busca
    Seu terno peito ferir.

    Com os cabellos da Deosa
    Lhe fórma hum Cupido laços,
    Que lhe segurão os braços,
    Como se fossem grilhões.
    O Pastor já não resiste;
    Antes beija satisfeito
    As suas doces prizões.

    LYRA XXVI.

    O destro Cupido hum dia
    Extrahio mimosas cores
    De frescos lyros, e rosas,
    De jasmins, e de outras flores.

    Com as mais delgadas pennas
    Usa de huma, e de outra tinta,
    E nos angulos do cobre
    A quatro bellezas pinta.

    Por fazer pensar a todos
    No seu lizo centro escreve
    Hum letreiro, que pergunta:
    _Este espaço a quem se deve_?

    Venus, que vio a pintura,
    E lêo a letra engenhosa,
    Pôz por baixo: _Eu delle cedo;
    Dê-se a Marilia formosa_.

    LYRA XXVII.

    Alexandre, Marilia, qual o rio
    Que engrossando no Inverno tudo arraza;
    Na frente das cohortes
    Cérca, vence, abraza
    As Cidades mais fortes.
    Foi na gloria das armas o primeiro,
    Morrêo na flor dos annos, e já tinha
    Vencido o mundo inteiro.

    Mas este bom Soldado, cujo nome
    Não ha poder algum, que não abata,
    Foi, Marilia, sómente
    Hum ditozo pirata,
    Hum salteador valente.
    Se não tem huma fama baixa, e escura;
    Foi por se pôr ao lado da injustiça
    A insolente ventura.

    O grande Cesar, cujo nome vôa,
    Á sua mesma Patria a fé quebranta;
    Na mão a espada toma,
    Opprime-lhe a garganta,
    Dá Senhores a Roma.
    Consegue ser heróe por hum delicto;
    Se acaso não vencesse então seria
    Hum vil traidor proscripto.

    O ser heróe, Marilia, não consiste
    Em queimar os Imperios: move a guerra,
    Espalha o sangue humano,
    E despovoa a terra
    Tambem o máo tyranno.
    Consiste o ser heróe em viver justo:
    E tanto póde ser heróe o pobre,
    Como o maior Augusto.

    Eu he que sou heróe, Marilia bella,
    Seguindo da virtude a honroza estrada.
    Ganhei, ganhei hum throno.
    Ah! não manchei a espada,
    Não a roubei ao dono.
    Ergui-o no teu peito, e nos teus braços:
    E valem muito mais que o mundo inteiro
    Huns tão ditosos laços.

    Aos barbaros, injustos vencedores
    Atormentão remorsos, e cuidados;
    Nem descanção seguros
    Nos Palacios cercados
    De tropa, e de altos muros.
    E a quantos nos não mostra a sabia historia
    A quem mudou o fado em negro opprobrio
    A mal ganhada gloria?

    Eu vivo, minha bella, sim, eu vivo
    Nos braços do descanço, e mais do gosto:
    Quando estou acordado,
    Contemplo no teu rosto
    De graças adornado;
    Se durmo logo sonho, e alli te vejo.
    Ah! nem desperto, nem dormindo sóbe
    A mais o meu desejo.

    LYRA XXVIII.

    Cupido tirando
    Dos hombros a aljava,
    N'um campo de flores
    Contente brincava.

    E o corpo tenrinho
    Depois enfadado,
    Incauto reclina
    Na relva do prado.

    Marilia formosa,
    Que ao Deos conhecia,
    Occulta espreitava
    Quanto elle fazia.

    Mal julga que dorme
    Se chega contente,
    As armas lhe furta,
    E o Deos a não sente.

    Os Faunos, mal virão
    As armas roubadas,
    Sahirão das grutas
    Soltando rizadas.

    Acorda Cupido,
    E a causa sabendo,
    A quantos o insultão
    Responde, dizendo:

    _Temieis as settas
    Nas minhas mãos cruas?
    Vereis o que podem
    Agora nas suas_.

    LYRA XXIX.

    O tyranno Amor risonho
    Me apparece, e me convida
    Para que seu jugo acceite;
    E quer que eu passe em deleite
    O resto da triste vida.

    _O sonoro Anacreonte_
    (Astuto o moço dizia)
    _Já perto da morte estava,
    Inda de amores cantava;
    Por isso alegre vivia_.

    _Aos negros, duros pezares
    Não resiste hum peito fraco,
    Se Amor o não fortalece:
    O mesmo Jove carece
    De Cupido, e mais de Baccho_.

    Eu lhe respondo: _Perjuro
    Nada creio ao que dizes;
    Porque já te fui sujeito,
    Inda conservo no peito
    Estas frescas cicatrizes_.

    Amor, vendo que da offerta
    Algum apreço não faço,
    Me diz affoito que trate
    De ir com elle a combate
    Peito a peito, braço a braço.

    Vou buscar as minhas armas;
    Cinjo primeiro que tudo
    O brilhante arnêz, e á pressa
    Ponho hum elmo na cabeça,
    Tomo a lança, e o grosso escudo.

    Mal no Campo me apresento,
    Marilia (oh Ceos!) me apparece:
    Logo os olhos me fita,
    O meu coração palpita,
    A minha mão desfallece.

    Então me diz o tyranno:
    _Confessa louco o teu erro;
    Contra as armas da belleza
    Não vale a externa defeza.
    Dessa armadura de ferro_.

    LYRA XXX.

    Junto a huma clara fonte
    A mãi de Amor se sentou:
    Encostou na mão o rosto,
    No leve somno pegou.

    Cupido, que a vio de longe,
    Contente ao lugar corrêo;
    Cuidando que era Marilia
    Na face hum beijo lhe dêo.

    Acorda Venus irada:
    Amor a conhece; e então
    Da ousadia, que teve,
    Assim lhe pede o perdão:

    _Foi facil, ó Mãe formosa,
    Foi facil o engano meu;
    Que o semblante de Marilia
    He todo o semblante teu_.

    LYRA XXXI.

    Minha Marilia,
    Se tens belleza,
    Da natureza
    He hum favor.
    Mas se aos vindouros
    Teu nome passa,
    He só por graça
    Do Deos de amor,
    Que terno inflamma
    A mente, o peito
    Do teu Pastor.

    Em vão se virão
    Perlas mimosas,
    Jasmins, e rosas
    No rosto teu.
    Em vão terias
    Essas estrellas,
    E as tranças bellas
    Que o Ceo te dêo;
    Se em doce verso
    Não as cantasse
    O bom Dirceo.

    O voraz tempo
    Ligeiro corre:
    Com elle morre
    A perfeição.
    Essa, que o Egypto
    Sábia modera,
    De Marco impera
    No coração;
    Mas já Octavio
    Não sente a força
    Do seu grilhão.

    Ah! vem, ó bella,
    E o teu querido
    Ao Deos Cupido
    Louvores dar;
    Pois faz que todos
    Com igual sorte
    Do tempo, e morte
    Possão zombar:
    Tu por formosa,
    E elle, Marilia,
    Por te cantar.

    Mas ai! Marilia,
    Que de hum amante,
    Por mais que cante,
    Gloria não vem!
    Amor se pinta
    Menino, e cego:
    No doce emprêgo
    Do charo bem
    Não vê defeitos,
    E augmenta, quantas
    Bellezas tem.

    Nenhum dos Vates,
    Em teu conceito,
    Nutrio no peito
    Nescia paixão?
    Todas aquellas,
    Que vês cantadas,
    Forão dotadas
    De perfeição?
    Forão queridas;
    Porém formosas
    Talvez que não.

    Porém que importa
    Não valha nada
    Seres cantada
    Do teu Dirceo?
    Tu tens, Marilia,
    Cantor celeste;
    O meu Glauceste
    A voz ergueo;
    Irá teu nome
    Aos fins da Terra,
    E ao mesmo Ceo.

    Quando nas azas
    Do leve vento
    Ao Firmamento
    Teu nome for:
    Mostrando Jove
    Graça extremosa,
    Mudando a Esposa
    De inveja a côr;
    De todos ha-de,
    Voltando o rosto,
    Sorrir-se Amor.

    Ah! não se manche
    Teu brando peito
    Do vil defeito
    Da ingratidão:
    Os versos beija,
    Gentil Pastora,
    A penna adora,
    Respeita a mão,
    A mão discreta,
    Que te segura
    A duração.

    LYRA XXXII.

    N'uma noite socegado
    Velhos papeis revolvia,
    E por ver de que tratavão
    Hum por hum a todos lia.

    Erão copias emendadas
    De quantos versos melhores
    Eu compuz na tenra idade
    A meus diversos amores.

    Aqui leio justas queixas
    Contra a ventura formadas,
    Leio excessos mal acceitos,
    Doces promessas quebradas.

    Vendo sem razões tamanhas
    Eu exclamo transportado:
    _Que finezas tão mal feitas!
    Que tempo tão mal passado_!

    Junto pois n'hum grande monte
    Os soltos papeis, e logo,
    Porque reliquias não fiquem,
    Os intento pôr no fogo.

    Então vejo que o Deos cego
    Com semblante carregado
    Assim me falla, e crimina
    O meu intento acertado.

    _Queres queimar esses versos?
    Dize, Pastor attrevido,
    Essas Lyras não te forão
    Inspiradas por Cupido_?

    _Achas que de taes amores
    Não deve existir memoria?
    Sepultando esses triunfos,
    Não roubas a minha gloria_?

    Disse Amor; e mal se calla,
    Nos seus hombros a mão pondo,
    Com hum semblante sereno
    Assim á queixa respondo:

    _Depois, Amor, de me dares
    A minha Marilia bella,
    Devo guardar humas Lyras,
    Que não são em honra della_?

    _E que importa, Amor, que importa
    Que a estes papeis destrua;
    Se he tua esta maõ; que os rasga,
    Se a chamma, que os queima, he tua_?

    Apenas Amor me escuta
    Manda que os lance nas brazas;
    E ergue a chamma c'o vento,
    Que formou batendo as azas.

    LYRA XXXIII.

    Péga na lyra sonora,
    Péga meu charo Glauceste;
    E ferindo as cordas de ouro,
    Mostra aos rusticos Pastores
    A formosura celeste
    De Marilia, meus amores.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Que concurso, meu Glauceste,
    Que concurso tão ditoso!
    Tu és digno de cantares
    O seu semblante divino;
    E o teu canto sonoroso
    Tambem do seu rosto he dino.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Para pintares ao vivo
    As suas faces mimosas,
    A discreta Natureza
    Que providencia não teve!
    Creou no jardim as rosas,
    Fez o lyro, e fez a neve.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    A pintar as negras tranças
    Peço que mais te desvelles:
    Pinta chusmas de amorinhos
    Pelos seus fios trepando;
    Huns tecendo cordas delles,
    Outros com elles brincando.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Para pintares, Glauceste,
    Os seus beiços graciosos,
    Entre as flores tens o cravo,
    Entre as pedras a granada;
    E para os olhos formosos,
    A estrella da madrugada.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Mal retratares do rosto
    Quanto julgares preciso,
    Não dês a cópia por feita;
    Passa a outros dotes, passa,
    Pinta da vista, e do riso
    A modestia, mais a graça.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Pinta o garbo de seu rosto
    Com expressões delicadas;
    Os seus pés, quando passeão,
    Pizando ternos amores;
    E as mesmas plantas calcadas
    Brotando viçosas flores.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Pinta mais, prezado amigo,
    Hum terno amante beijando
    Suas douradas cadeias;
    E em doce pranto desfeito,
    Ao monte, e valle ensinando
    O nome, que tem no peito.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Nem suspendas o teu canto,
    Inda que, Pastor, se veja
    Que a minha bocca suspira,
    Que se banha em pranto o rosto;
    Que os outros chorão de inveja,
    E chora Dirceo de gosto.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    FIM DA 1.^a PARTE.

    MARILIA DE DIRCEO.

    POR T.A.G.

    SEGUNDA PARTE.

    LISBOA: 1824.

    Na Typ. de J.F.M. de Campos.

    MARILIA DE DIRCEO

    LYRA I.

    Já não cínjo de loiro a minha testa,
    Nem sonoras Canções o Deos me inspira:
    Ah! que nem me resta
    Huma já quebrada,
    Mal sonora Lyra!

    Mas neste mesmo estado em que me vejo,
    Pede, Marilia, Amor que vá cantar-te:
    Cumpro o seu desejo;
    E ao que resta supra
    A paixão, e a arte.

    A fumaça, Marilia, da candêa,
    Que a molhada parede ou çuja, ou pinta;
    Bem que tosca, e fêa,
    Agora me póde
    Ministrar a tinta.

    Aos mais preparos o discurso apronta:
    Elle me diz, que faça no pé de huma
    Má laranja ponta,
    E delle me sirva
    Em lugar de pluma.

    Perder as uteis horas não, não devo
    Verás, Marilia, huma idéa nova:
    Sim, eu já te escrevo,
    Do que esta alma dita
    Quanto amor approva.

    Quem vive no regaço da ventura,
    Nada obra em te adorar, que assombro faça:
    Mostra mais ternura
    Quem te estima, e morre
    Nas mãos da desgraça.

    Nesta cruel masmorra tenebrosa
    Ainda vendo estou teus olhos bellos,
    A testa formosa,
    Os dentes nevados,
    Os negros cabellos.

    Vejo, Marilia, sim, e vejo ainda
    A chusma dos Cupidos, que pendentes
    Dessa bôcca linda,
    Nos ares espalhão
    Suspiros ardentes.

    Se alguem me perguntar onde eu te vejo,
    Responderei–no peito–que huns Amores
    De casto desejo
    Aqui te pintárão,
    E são bons Pintores.

    Mal meus olhos te virão, ah! nessa hora
    Teu Retrato fizerão, e tão forte,
    Que entendo, que agora
    Só póde apagallo
    O pulso da Morte.

    Isto escrevia, quando, ó Céos, que pejo!
    Descubro a lêr-me os versos o Deos loiro.
    Ah! dá-lhes hum beijo,
    E diz-me que valem
    Mais que letras de oiro.

    LYRA II.

    Esprema a vil calumnia muito embora
    Entre as mãos denegridas, e insolentes
    Os venenos das plantas,
    E das bravas serpentes.

    Chovão raios e raios, no meu rosto
    Não has-de ver, Marilia, o modo escrito;
    O medo perturbado,
    Que infunde o vil delicto.

    Pódem muito conheço, pódem muito,
    As Furias infernaes, que Pluto move;
    Mas póde mais que todas
    Hum dedo só de Jove.

    Este Deos convertêo em flor mimosa;
    A quem seu nome derão, a Narciso,
    Fêz d' muitos os Astros,
    Qu' inda no Ceo diviso.

    Elle póde livrar-me das injurias
    Do nescio, do atrevido ingrato povo;
    Em nova flor mudar me,
    Mudar-me em Astro novo.

    Porém se os justos Céos por fins occultos
    Em tão tyranno mal me não soccorrem,
    Verás então, que os sabios,
    Bem como vivem, morrem.

    Eu tenho hum coração maior que o mundo.
    Tu, formosa Marilia, bem o sabes:
    Hum coração, e basta,
    Onde tu mesma cabes.

    LYRA III.

    Succede, Marilia bella,
    Á medonha noite o dia:
    A estação chuvosa e fria,
    Á quente secca estação.
    Muda-se a sorte dos tempos;
    Só a rainha sorte não?

    Os troncos, nas Primaveras,
    Brotão em flores viçosos;
    Nos Invernos escabrosos
    Largão as folhas no chão.
    Muda-se a sorte dos troncos;
    Só a minha sorte não?

    Aos brutos, Marilia, cortão
    Armadas redes os passos;
    Rompem depois os seus laços,
    Fogem da dura prisão.
    Muda-se a sorte dos brutos;
    Só a minha sorte não?

    Nenhum dos homens conserva
    Alegre sempre o seu rosto;
    Depois das penas vem gosto,
    Depois do gosto afflicção.
    Muda-se a sorte dos homens;
    Só a minha sorte não?

    Aos altos Deoses movêrão
    Soberbos Gigantes guerra;
    No mais tempo o Ceo, e a Terra
    Lhes tributa adoração.
    Muda-se a sorte dos Deoses;
    Só a minha sorte não?

    Hade, Marilia, mudar-se
    Do destino a inclemencia:
    Tenho por mim a innocencia,
    Tenho por mim a razão.
    Muda-se a sorte de tudo;
    Só a minha sorte não?

    O tempo, ó bella, que gasta
    Os troncos, pedras, e o cobre,
    O véo rompe, com que encobre
    Á verdade a vil traição.
    Muda-se a sorte de tudo;
    Só a minha sorte não?

    Qual eu sou verá o mundo,
    Mais me dará do que eu tinha,
    Tornarei a ver-te minha.
    Que feliz consolação!
    Não ha de tudo mudar-se,
    Só a minha sorte não.

    LYRA IV.

    Já, já me vai, Marilia, branquejando
    Loiro cabello, que circúla a testa.
    Este mesmo, que alveja, vai cahindo,
    E pouco já me resta.

    As faces vão perdendo as vivas côres,
    E vão-se sobre os ossos enrugando,
    Vai fugindo a viveza dos meus olhos;
    Tudo se vai mudando.

    Se quero levantar-me, as costas vergão;
    As forças dos meus membros já se gastão,
    Vou a dar pela casa huns curtos passos,
    Pesão-me os pés, e arrastão.

    Se algum dia me vires desta sorte,
    Vê que assim me não pôz a mão dos annos:
    Os trabalhos, Marilia, os sentimentos,
    Fazem os meus danos.

    Mal te vir me dará em poucos dias,
    A minha mocidade o doce gosto;
    Verás burnir-se a pelle, o corpo encher-se,
    Voltar a côr ao rosto.

    No calmoso Verão as plantas seccão,
    Na Primavera, que aos mortaes encanta,
    Apenas cahe do Ceo o fresco orvalho,
    Verdeja logo a planta.

    A doença deforma a quem padece;
    Mas logo que a doença fez seu termo,
    Torna, Marilia, a ser quem era d'antes,
    O definhado enfermo.

    Suppo[~e]-me qual doente, ou qual a planta,
    No meio da desgraça, que me altera:
    Eu tambem te supponho qual saude,
    Ou qual a Primavera.

    Se dão esses teus meigos, vivos olhos
    Aos mesmos Astros luz, e vida ás flores;
    Que effeitos não farão, em quem por elles
    Sempre morrêo de amores?

    LYRA V.

    Os mares, minha bella, não se movem;
    O brando Norte assopra, nem diviso
    Huma nuvem sequer na Esfera toda,
    O destro Nauta aqui não he preciso;
    Eu só conduzo a náo, eu só modéro
    Do seu governo a roda.

    Mas ah! que o Sul carrega, o mar se empolla,
    Rasga-se a véla, o mastaréo se parte!
    Qualquer varão prudente aqui já teme
    Não tenho a necessaria força, e arte.
    Corra o sabio Piloto, corra, e venha
    Reger o duro leme.

    Como succede á náo no mar, succede
    Aos homens na ventura, e na desgraça:
    Basta ao feliz não ter total demencia,
    Mas quem de venturoso a triste passa,
    Deve entregar o leme do discurso
    Nas mãos da sã prudencia.

    Todo o Ceo se cubrio, os raios chovem;
    E esta alma, em tanta pena consternada,
    Nem sabe aonde possa achar conforto.
    Ah, não, não tardes, vem, Marilia amada,
    Toma o leme da náo, marêa o panno,
    Vai-a salvar no porto.

    Mas ouço já de Amor as sabias vozes:
    Elle me diz que soffra se não morro;
    E perco então se morro huns doces laços.
    Não quero já, Marilia, mais soccorro,
    Oh ditoso soffrer, que lucrar póde
    A gloria dos teus braços.

    LYRA VI.

    De que te queixas,
    Lingua importuna?
    De que a Fortuna
    Roubar-te queira,
    O que te deu?
    Este foi sempre
    O genio seu.

    Levou, Marilia,
    A impia sorte
    Catoens á morte;
    Nem sepultura
    Lhes concedeu.
    Este foi sempre
    O genio seu.

    A outros muitos,
    Que vís nascêrão,
    Nem merecêrão,
    A grandes thronos
    A impia ergueu.
    Este foi sempre
    O genio seu.

    Espalha a cega
    Sobre os humanos
    Os bens, e os damnos;
    E a quem se devão
    Nunca escolheu.
    Este foi sempre
    O genio seu.

    A quanto he justo,
    Já mais se dobra;
    Nem igual obra
    C'os mesmos Deoses
    Do cáro Ceo.
    Este foi sempre
    O genio seu.

    Sóbe ao Ceo Venus
    N'hum carro ufano;
    E cahe Vulcano
    Da pura esfera,
    Em que nasceu.
    Este foi sempre
    O genio seu.

    Mas não me rouba,
    Bem que se mude,
    Honra, e virtude:
    Que o mais he della,
    Mas isto he meu.
    Este foi sempre
    O genio seu.

    LYRA VII.

    Meu prezado Glauceste,
    Se fazes o conceito,
    Que bem que réo abrigo
    A candida virtude no meu peito.
    Se julgas, digo, que mereço ainda
    Da tua mão soccorro;
    Ah! vem dar-m'o agora,
    Agora sim que morro.

    Não quero, que montado
    No Pegaso fogoso,
    Venhas com dura lança
    Ao monstro infame traspassar raivoso.
    Deixa que viva a perfida calumnia,
    E forge o meu tormento:
    Com menos, meu Glauceste,
    Com menos me contento.

    Toma a lyra doirada,
    E toca hum pouco nella:
    Levanta a vóz celeste
    Em parte que te escute a minha bella;
    Enche todo o contorno de alegria;
    Não soffras, que o desgosto
    Affogue em pranto amargo
    O seu divino rosto.

    Eu sei, eu sei, Glauceste,
    Que hum bom Cantor havia,
    Que os brutos amansava;
    Que os troncos, e os penedos attrahia.
    De outro destro Cantor tambem affirma;
    A sábia Antiguidade,
    Que as muralhas erguêra
    De huma grande Cidade.

    Orfeo as cordas fere;
    O som delgado, e terno
    Ao Rei Plutão abranda,
    E o deixa que penetre o fundo Averno.
    Ah, tu a nenhum cedes, nem Glauceste;
    Na lyra, e mais no canto:
    Podes fazer prodigios;
    Obrar ou mais, ou tanto.

    Levanta pois as vozes:
    Que mais, que mais esperas?
    Consola hum peito afflito;
    Que he menos inda, que domar as féras.
    Com isto me darás no meu tormento
    Hum doce lenitivo,
    Que em quanto a bella vive,
    Tambem, Glauceste, vivo.

    LYRA VIII.

    Eu vejo, ó minha bella, aquelle Numen,
    A quem o nome derão de Fortuna,
    Pega-me pelo braço,
    E com voz importuna
    Me diz que mova o passo;
    Que entre no grande Templo, em [~q] se encerra,
    Quanto o destino manda,
    Que ella obre sobre a terra.

    Que coizas portentosas nelle encontro!
    Eu vejo a pobre fundação de Roma,
    Vejo-a queimar Carthago;
    Vejo que as gentes doma;
    E vejo o seu estrago.
    Lá florece o poder do Assyrio Povo:
    Aqui os Medos crescem
    E os perde hum braço novo.

    Então me diz a Deosa: _E que pertendes?
    Todas estas Medalhas vêr agora?
    Ah! não, não sejas louco!
    Espaço de annos fôra
    Para isto ainda pouco.
    Deixo estranhos successos; vem comigo,
    Verás quanto inda deve
    Acontecer comtigo_.

    Levou-me aonde estava a minha historia,
    Que toda me explicou com medo, e arte.
    _Tirei-te libras de oiro_
    Me diz, _e quero dar-te
    Todo aquelle thesoiro.
    Não suspira por bens hum peito nobre_:
    Sevéro lhe respondo.
    _Vivo affeito a ser pobre_.

    Aqui me enruga a Deosa irada a testa;
    E fica sem fallar hum breve espaço.
    _Alegra, alegra o rosto_,
    Prosegue, _alli te faço
    Restituir o posto_.
    Respondo com ar de mofa, e tom sereno.
    _Conheço-te, Fortuna,
    Posso morrer pequeno_.

    _Aqui te dou_, me diz, _a tua amada_.
    Então me banho todo de alegria
    _Cuidei_, me torna a cega,
    _Que essa alma não queria
    Nem esta mesma entrega.
    He esse o bem_, respondo, _que me move;
    Mas este bem he santo,
    Vem só da mão de Jove_.

    Queria mais fallar; eu insoffrido
    Desta maneira rompo os seus accentos:
    _Basta, Fortuna, basta;
    Estes breves momentos
    Lá noutras coizas gasta;
    Da minha sorte nada mais contemplo_.
    E chamando Marilia
    Suspiro, e deixo o Templo.

    LYRA IX.

    A estas horas
    Eu procurava
    Os meus Amores;
    Tinhão-me inveja
    Os mais Pastores.

    A porta abria,
    Inda esfregando
    Os olhos bellos,
    Sem flor, nem fitta
    Nos seus cabellos:

    Ah! que assim mesmo
    Sem compostura,
    He mais formosa,
    Que a estrella d'alva;
    Que a fresca rosa.

    Mal eu a via,
    Hum ar mais leve,
    (Que doce effeito!)
    Já respirava
    Meu terno peito.

    Do cerco apenas
    Soltava o gado,
    Eu lhe amimava
    Aquella ovelha
    Que mais amava.

    Dava-lhe sempre
    No rio, e fonte,
    No prado, e selva,
    Agua mais clara,
    Mais branda relva.

    No cóllo a punha,
    Então brincando
    A mim a unia;
    Mil coizas ternas
    Aqui dizia.

    Marilia vendo
    Que eu só com ella
    He que fallava;
    Ria-se a furto,
    E disfarçava.

    Desta maneira
    Nos castos peitos,
    De dia, em dia
    A nossa chamma
    Mais se accendia.

    Ah! quantas vezes
    No chão sentado,
    Eu lhe lavrava
    As finas rócas,
    Em que fiava?

    Da mesma sorte
    Que á sua amada,
    Que está no ninho,
    Fronteiro canta
    O passarinho.

    Na quente sésta,
    Della defronte,
    Eu me entretinha
    Movendo o ferro
    Da sanfoninha.

    Ella por dar-me
    De ouvir o gosto,
    Mais se chegava:
    Então vaidoso
    Assim cantava:

    Não ha Pastora,
    Que chegar possa
    Á minha bella;
    Nem quem me iguale
    Tambem na estrella:

    Se Amor concede
    Que eu me recline
    No branco peito,
    Eu não invejo
    De Jove o leito:

    Ornão seu peito
    As sãs virtudes,
    Que nos namorão;
    No seu semblante
    As Graças morão.

    Assim vivia:
    Hoje em suspiros
    O canto mudo:
    Assim, Marilia,
    Se acaba tudo.

    LYRA X.

    Arde o velho barril, arde a cabeça,
    Em honra de João na larga rua;
    O credulo Mortal agora indaga,
    Qual seja a sorte sua?

    Eu não tenho alcaxofra, que á luz chegue,
    E nella orvalhe o Ceo de madrugada,
    Para ver se rebentão novas folhas,
    Aonde foi queimada.

    Tambem não tenho hum ovo, que despeje
    Dentro de hum cópo d'agua, e possa nella
    Fingir Palacios grandes, altas Torres,
    E huma Náo á véla.

    Mas, ah! em bem me lembre: eu tenho ouvido
    Que na boca hum bochecho d'agoa tome,
    E atráz de qualquer porta attento esteja,
    Até ouvir hum nome.

    Que o nome, que primeiro ouvir, he esse
    O nome, que ha de ter a minha amada:
    Pode verdade ser, se fôr mentira,
    Tambem não custa nada.

    Vou tudo executar, e de repente
    Ouvi dizer o nome de Filena:
    Despejo logo a boca: ah! não sei como
    Não morro alli de pena!

    Apparece Cupido: então soltando
    Em ar de zombaria huma risada.
    E que tal, me pergunta, esteve a peça?
    Não foi bem pregada?

    Eu já te disse, que Marilia he tua:
    Tu fazes do meu dito tanta conta,
    Que vais acreditar, o que te ensina
    Velha mulher já tonta.

    Humilde lhe respondo: quem debaixo
    Do açoite da Fortuna afflito geme,
    Nas mesmas coisas, que só são brinquedos,
    Se agoirão males, teme.

    LYRA XI.

    Se acaso não estou no fundo Averno
    Padece, ó minha bella, sim padece
    O peito amante, e terno,
    As afflições tyrannas, que os Preceitos
    Arbîtra Rhadamantho em justa pena
    Dos barbaros delictos.

    As Furias infernaes, rangendo os dentes
    Com a mão descarnada não me applicão
    As raivosas serpentes.
    Mas cercão-me outros monstros mais irados:
    Mordem-me sem cessar as bravas serpes
    De mil, e mil cuidados.

    Eu não gasto, Marilia, a vida toda
    Em lançar o penedo da montanha;
    Ou em mover a roda.
    Mas tenho ainda mais cruel tormento:
    Por coisas que me affligem, roda, e gyra
    Cançado pensamento.

    Com retorcidas unhas agarrado
    Ás tepidas entranhas não me come
    Hum abutre esfaimado.
    Mas sinto de outro monstro a crueldade:
    Devora o coração, que mal palpita,
    O abutre da saudade.

    Não vejo os pomos, nem as aguas vejo,
    Que de mim se retirão, quando busco
    Fartar o meu desejo;
    Mas quer, Marilia, o meu destino ingrato,
    Que lograr-te não possa, estando vendo
    Nesta alma o teu retrato.

    Estou no Inferno, estou, Marilia bella;
    E n'huma coisa só he mais humana
    A minha dura estrella:
    Huns não podem mover do Inferno os passos;
    Eu pertendo vôar, e vôar cedo
    Á gloria dos teus braços.

    LYRA XII.

    Ah, Marilia, que tormento
    Não tens de sentir saudosa!
    Não podem ver os teus olhos
    A campina deleitosa,
    Nem a tua mesma Aldêa,
    Que tyrannos não proponhão
    Á inda inquieta idéa
    Huma imagem de afflição.
    Mandarás aos surdos Deoses
    Novos suspiros em vão.

    Quando levares, Marilia,
    Teu ledo rebanho ao prado
    Tu dirás: aqui trazia
    Dirceo tambem o seu gado.
    Verás os sitios ditosos
    Onde, Marilia, te dava,
    Doces beijos amorosos
    Nos dedos da branca mão.
    Mandarás aos surdos Deoses
    Novos suspiros em vão.

    Quando á janella sahires
    Sem quereres, descuidada,
    Tu verás, Marilia, a minha
    E minha pobre morada.
    Tu dirás então comtigo:
    Alli Dirceo esperava
    Para me levar comsigo:
    E alli soffreo a prisão.
    Mandarás aos surdos Deoses
    Novos suspiros em vão.

    Quando vires igualmente
    Do caro Glauceste a choça,
    Onde alegre se juntavão
    Os pouco da escolha nossa,
    Pondo os olhos na varanda
    Tu dirás, de mágoa chêa:
    Todo o congresso alli anda,
    Só o meu Amado não.
    Mandarás aos surdos Deoses
    Novos suspiros em vão.

    Quando passar pela rua
    O meu companheiro honrado,
    Sem que me vejas com elle
    Caminhar emparelhado,
    Tu dirás: não foi tyranna
    Sómente comigo a sorte;
    Tambem cortou deshumana
    A mais fiel união.
    Mandarás aos surdos Deoses
    Novos suspiros em vão.

    N'uma masmorra mettido
    Eu não vejo imagens destas,
    Imagens, que são por certo
    A quem adora funestas.
    Mas se existem separadas
    Dos inchados rôxos olhos,
    Estão, que he mais, retratadas
    No fundo do coração.
    Tambem mando aos surdos Deoses
    Tristes suspiros em vão.

    LYRA XIII.

    Ves, Marilia, hum cordeiro
    De flores enramado,
    Como alegre caminha
    A ser sacrificado?
    O Povo para o Templo já concorre:
    A Pyra sacro-santa já se accende:
    O Ministro o fere, elle bala, e morre.

    Vês agora o novilho,
    A quem segura o laço:
    No chão as mãos especa:
    Nem quer mover hum passo:
    Não conhece que sahe de hum máo terreno;
    Que o forte pulso, que a seguir o arrasta,
    O conduz a viver n'um campo ameno.

    Ignora o bruto, como
    Lhe dispomos a sorte:
    Hum vai forçado á vida,
    Vai outro alegre á morte,
    Nós temos, minha bella, igual demencia:
    Não sabemos os fins, com que nos move
    A sábia, occulta Mão da Providencia.

    De Jacob ao bom filho
    Os máos matar quizerão:
    De conselho mudárão,
    Como escravo o vendêrão:
    José não corre a ser hum servo afflito:
    Vai subindo os degráos, por onde chega
    A ser hum quasi Rei no grande Egypto.

    Quem sabe se o Destino
    Hoje, ó bella, me prende,
    Só porque nisto de outros
    Mais damnos me defende?
    Póde inda raiar hum claro dia.
    Mas quer raie, quer não, ao Ceo adoro;
    E beijo a santa mão, que assim me guia.

    LYRA XIV.

    Alma digna de mil Avós Augustos!
    Tu sentes, tu soluças
    Ao ver cahir os justos;
    Honras as santas leis da Humanidade:
    E aos teus exemplos deve
    Gravar com letras de oiro no seu Templo
    A candida Amizade.

    Não he, não he de Heróe huma alma forte,
    Que vê com rosto enchuto
    No seu igual a morte.
    Não he tambem de Heróe hum peito duro,
    Que a sua gloria firma,
    Em que lhe não resiste ao ferro, e fogo,
    Nem legião, nem muro.

    Oh! quanto ousado Chefe me namora,
    Quando vê a cabeça
    Do bom Pompeo, e chora!
    He grande para mim, quem move os passos,
    E de Dario aos filhos,
    Que como escravos seus tratar podéra,
    Recebe nos seus braços.

    Se alcança Eneas, Capitão piedoso,
    Entre os Heróes do Mundo
    Hum nome glorioso,
    Não he, porque levanta huma cidade;
    He sim, porque nos hombros
    Salvou do incendio ao Pai a quem detinha
    A mão da branca idade.

    Ah! se ao meu contrario entre as chãmas vira;
    Eu mesmo, sim, da morte
    Aos hombros o remira:
    Inda por elle muito mais obrára:
    E se nada servisse,
    Fizera então, Amigo, o que fizeste,
    Gemêra, e suspirára.

    Oh! quanto são duraveis as cadêas
    De huma amizade, quando
    Se dão iguaes idéas!
    Se a pezar dos estorvos se sustinha
    Nossa união sincera,
    Foi por ser a minha alma igual á tua,
    E a tua igual á minha.

    Se, ó caro Amigo, te merece tanto,
    Lá lhe fica a sua alma,
    Limpa-lhe o terno pranto.
    De quem eu fallo, és tu, Marilia bella.
    Ah! sim, honrado Amigo,
    Se enxugar não poderes os seus olhos;
    Prantêa então com ella.

    LYRA XV.

    Eu, Marilia, não fui nenhum Vaqueiro;
    Fui honrado Pastor da tua Aldêa;
    Vestia finas lãns, e tinha sempre
    A minha chóça do preciso chêa.
    Tirarão-me o casal, e o manso gado,
    Nem tenho a que me encoste hum só cajado.

    Para ter, que te dar, he que eu queria
    De mór rebanho ainda ser o dono;
    Prezava o teu semblante, os teus cabellos
    Ainda muito mais que hum grande Throno.
    Agora que te offerte já não vejo
    Além de hum puro amor, de hum são desejo.

    Se o rio levantado me causava
    Levando a sementeira prejuiso,
    Eu alegre ficava apenas via
    Na tua breve boca hum ar de riso.
    Tudo agora perdi; nem tenho o gosto
    De ver-te ao menos compassivo o rosto.

    Propunha-me dormir no teu regaço
    As quentes horas da comprida sésta,
    Escrever teus louvores nos olmeiros,
    Toucar-te de papoilas na floresta.
    Julgou o justo Ceo, que não covinha
    Que a tanto gráo subisse a gloria minha.

    Ah, minha bella, se a Fortuna volta,
    Se o bem que já perdi alcanço, e provo;
    Por essas brancas mãos, por essas faces
    Te juro renascer hum homem novo;
    Romper a nuvem que os meus olhos cerra,
    Amar no Ceo a Jove, e ati na terra.

    Fiadas comprarei as ovelhinhas,
    Que pagarei dos poucos do meu ganho;
    E dentro em pouco tempo nos veremos
    Senhores outra vez de hum bom rebanho.
    Para o contagio lhe não dar sobeja
    Que as affague Marilia, ou só que as veja.

    Se não tivermos lans, e pelles finas,
    Podem mui bem cobrir as carnes nossas
    As pelles dos cordeiros mal cortidas,
    E os pannos feitos com as lans mais grossas.
    Mas ao menos será o teu vestido
    Por mãos de Amor, por minhas mãos cozido.

    Nós iremos pescar na quente sésta
    Com canas, e com cêstos os peixinhos:
    Nós iremos caçar nas manhãs frias
    Com a vara envisgada os passarinhos;
    Para nos divertir faremos quanto
    Reputa o varão sabio, honesto, e santo.

    Nas noites de serão nos sentaremos
    C'os filhos se os tivermos á fogueira;
    Entre as falsas historias, que contares,
    Lhes contarás a minha verdadeira:
    Pasmados te ouviráõ; eu entre tanto
    Ainda o rosto banharei de pranto.

    Quando passarmos juntos pela rua
    Nos mostraráõ c'o dedo os mais Pastores,
    Dizendo huns para os outros: olha os nossos
    Exemplos da desgraça, e sãos amores.
    Contentes viviremos desta sorte,
    Até que chegue a hum dos dois a morte.

    LYRA XVI.

    Vejo, Marilia,
    Que o nédeo gado
    Anda disperso
    No monte, e prado;
    Que assim succede
    Ao desgraçado,
    Que a perder chega
    O seu Pastor.
    Mas inda soffro
    A viva dôr.

    Tambem conheço,
    Que os Pegureiros,
    Que apascentavão
    Os meus cordeiros,
    Darão suspiros
    E verdadeiros;
    Porque perdêrão
    Hum pai no amor.
    Mas inda soffro
    A viva dôr.

    Eu mais alcanço;
    Que a minha herdade
    Estando eu prezo,
    Soffrer não ha-de
    Nem a charrua,
    E nem a grade;
    Que a mão lhe falta
    Do Lavrador.
    Mas inda soffro
    A viva dôr.

    Mas quando sobe
    Á minha idéa,
    Que tu ficaste
    Lá nessa Aldêa.
    De mil cuidados
    E mágoa cheia;
    Das paixões minhas
    Não sou senhor.
    Eu já não soffro
    A viva dôr.

    A quanto chega
    A pena forte!
    Peza-me a vida,
    Desejo a morte,
    A Jove accuso,
    Maldigo a sorte,
    Trato a Cupido
    Por hum traidor.
    Eu já não soffro
    A viva dôr.

    Mas este excesso
    Perdão merece,
    E delle Jove
    Se compadece;
    Que Jove, ó bella,
    Mui bem conhece,
    Aonde chega
    Paixão de amor.
    Eu já não soffro
    A viva dôr.

    LYRA XVII.

    Dirceo te deixa, ó bella,
    De padecer cançado:
    Frio suor já banha
    Seu rosto descórado;
    O sangue já não gyra pela vêa,
    Seus pulsos já não batem;
    E a clara luz dos olhos se bacêa:
    A lagrima sentida já lhe corre;
    Já pára a convulsão, suspira, e morre.

    Seu espirito chega
    Onde se pune o erro:
    Late o cão, e se lhe abrem
    Grossos portões de ferro.
    Aos severos Juizes se apresenta;
    E com sentidas vozes
    Toda a sua tragedia representa:
    Enche-se de ternura, e novo espanto
    O mesmo inexoravel Rhadamantho.

    Abre hum pasmado a boca,
    E a pedra não despede;
    Outro já não se lembra
    Da fome, e mais da sede:
    Descança o curvo bico, e a garra impia
    Negro abutre esfaimado:
    Nem a roca medonha a Parca fia,
    Até as mesmas Furias inclementes
    Deixão cahir das unhas as serpentes.

    Já votão os Juizes;
    E o Rei Plutão lhe ordena
    Deixe o sitio, em que ficão
    Almas dignas de pena.
    Já sahe do escuro Reino, e da memoria
    Lhe passa tudo quanto
    Ou póde dar-lhe mágoa, ou dar-lhe gloria.
    Só, bem que o gosto as turvas agoas tome,
    Inda, Marilia, inda diz teu nome.

    Entra já nos Elysios
    Campinas venturosas,
    Que mansos rios cortão,
    Que cobrem sempre as rosas.
    Escuta o canto das sonoras aves,
    E bebe as agoas puras,
    Que o mel, e de que o leite mais suaves.
    Aqui, diz elle, espero a minha bella,
    Aqui contente viverei com ella.

    Aqui… porém aonde
    Me leva a dôr activa?
    He illusão desta alma.
    Jove inda quer que eu viva.
    Eu devo sim gosar teus doces laços;
    E em paga dos meus males
    Devo morrer, Marilia, nos teus braços.
    Então eu passarei ao Reino amigo;
    E tu irás despois lá ter comigo.

    LYRA XVIII.

    Não mólho, Marilia,
    De pranto a masmorra
    Que o terno Cupido
    Não vôe, e não corra,
    A hilo apanhar.
    Estende-o nas azas
    Sobre elle suspira,
    Por fim se retira,
    E vai-to levar.

    Se o moço não mente,
    Aos tristes gemidos,
    Aos ais lastimosos
    Não guardes unidos,
    Marilia, c'os teus:
    As lagrimas nossas
    No seio amontôa
    Fórma azas, e vôa,
    Vai pô-las nos Ceos.

    A Deosa formosa,
    Que amava aos Troianos,
    Livra-los querendo
    De riscos, e damnos
    A Jove buscou.
    As aguas, que o rosto
    Da Deosa banhárão,
    A Jove abrandárão,
    E assim os salvou.

    Confia-te, ó bella,
    Confia-te em Jove;
    Ainda se abranda,
    Ainda se move
    Com ancias de amor.
    O pranto de Venus,
    Que obrou no Pai tanto,
    Não tem que o teu pranto
    Apreço maior.

    LYRA XIX.

    Nesta triste masmorra,
    De hum semivivo corpo sepultura,
    Inda, Marilia, adoro
    A tua formosura.
    Amor na minha idéa te retrata,
    Busca extremoso, que eu assim resista
    Á dôr immensa, que me cerca, e mata.

    Quando em meu mal pondero,
    Então mais vivamente te diviso:
    Vejo o teu rosto, e escuto
    A tua voz, e riso.
    Movo ligeiro para o vulto os passos:
    Eu beijo a tibia luz em vez de face;
    E aperto sobre o peito em vão os braços.

    Conheço a illusão minha;
    A violencia da mágoa não supporto;
    Foge-me a vista, e caio
    Não sei se vivo, ou morto.
    Enternece-se Amor de estrago tanto;
    Reclina-me no peito, e com mão terna
    Me limpa os olhos do salgado pranto.

    Despois que represento
    Por largo espaço a imagem de hum defunto,
    Movo os membros, suspiro,
    E onde estou pergunto.
    Conheço então que Amor me tem comsigo;
    Ergo a cabeça, que inda mal sustento,
    E com doente voz assim lhe digo.

    Se queres ser piedoso,
    Procura o sitio em que Marilia móra,
    Pinta-lhe o meu estrago,
    E vê, Amor, se chora.
    Se as lagrimas verter a dôr a arrasta,
    Huma dellas me traze sobre as pennas,
    E para allivio meu só isto basta.

    LYRA XX.

    E me visses com teus olhos
    Nesta masmorra mettido;
    De mil idéas funestas,
    E cuidados combatido:
    Qual seria, ó minha bella,
    Qual seria o teu pezar?

    Á força da dôr cedêra;
    E nem estaria vivo,
    Se o menino Deos vendado,
    Extremoso, e compassivo,
    Com o nome de Marilia
    Não me viesse animar.

    Deixo a cama ao romper d'alva;
    O meio dia tem dado,
    E o cabello inda flutua
    Pelas costas desgrenhado.
    Não tenho valor, não tenho;
    Nem para de mim cuidar.

    Diz-me Cupido: E Marilia;
    Não estima esse cabello?
    Se o deixas perder de todo
    Não se ha de enfadar ao vêllo?
    Suspiro pego no pente,
    Vou logo o cabello atar.

    Vem hum taboleiro entrando
    De varios manjares cheio,
    Põe-se na meza a toalha,
    E eu pensativo passeio:
    De todo o comer esfria,
    Sem nelle poder tocar.

    Eu entendo que matar-te,
    Diz Amor, te tens proposto;
    Fazes bem: terá Marilia
    Desgosto sobre desgosto.
    Qual enfermo c'o remedio
    Me afflijo, mas vou jantar.

    Chegão as horas Marilia,
    Em que o Sol já se tem posto,
    Vem-me á memoria que nellas
    Via á janella o teu rosto:
    Reclino na mão a face
    E entro de novo a chorar.

    Diz-me Cupido: Já basta,
    Já basta, Dirceo, de pranto;
    Em obsequio de Marilia
    Vai erguer teu doce canto.
    Pendem as fontes dos olhos,
    Mas eu sempre vou cantar.

    Vem o Forçado accender-me
    A velha çuja candêa;
    Fica, Marilia, a masmorra
    Inda mais triste, e mais fêa.
    Nem mais canto, nem mais posso
    Huma só palavra dar.

    Diz-me Cupido: São horas
    De escrever-se o que está feito;
    Do azeite, e da fumaça
    Huma nova tinta ageito,
    Tomo o páo, que penna finge,
    Vou as Lyras copiar.

    Sem que chegue o leve sono
    Canta o Gallo a vez terceira;
    Eu digo ao Amor; que fico
    Sem deitar-me a noite inteira:
    Faço mimos, e promessas
    Para elle me acompanhar.

    Elle diz que em dormir cuide,
    Que hei-de ver Marilia em sonho;
    Não respondo huma palavra,
    A dura cama componho,
    Apago a triste candêa,
    E vou-me logo deitar.

    Como póde a taes cuidados
    Risistir, ó minha Bella,
    Quem não tem de Amor a graça?
    Se eu que vivo á sombra della
    Inda vivo desta sorte,
    Sempre triste a suspirar?

    LYRA XXI.

    Que diversas que são, Marilia, as horas
    Que passo na masmorra immunda, e fêa,
    Dessas horas felizes, já passadas
    Na tua patria Aldêa.

    Então eu me ajuntava com Glauceste;
    E á sombra de alto Cédro na Campina
    Eu versos te compunha, e elle os compunha
    Á sua cara Eulina.

    Cada qual o seu canto aos Astros leva;
    De exceder hum ao outro qualquer trata
    O ecco agora diz: _Marilia terna_;
    E logo: _Eulina ingrata_.

    Deixão os mesmos Sátyros as grutas:
    Hum para nós ligeiro move os passos;
    Ouve-nos de mais perto, e faz a flauta
    C'os pés em mil pedaços.

    Dirceo (clama hum Pastor,) ah! bem merece
    Da ternissima Marilia a formosura.
    E aonde, clama o outro, quer Eulina
    Achar maior ventura?

    Nenhum Pastor cuidava do rebanho,
    Em quanto em nós durava esta porfia.
    E ella, ó minha amada, só findava
    Depois de acabar-se o dia.

    Á noite te escrevia na cabana
    Os versos, que de tarde havia feito;
    Mal tos dava, e os lias, os guardavas
    No casto, e branco peito.

    Beijando os dedos dessa mão formosa,
    Banhados com as lagrimas do gosto,
    Jurava não cantar mais outras graças
    Que as graças do teu rosto.

    Ainda não quebrei o juramento.
    Eu agora, Marilia, não as canto;
    Mas inda vale mais que os doces versos
    A voz do triste pranto.

    LYRA XXII.

    Por morto, Marilia,
    Aqui me reputo:
    Mil vezes escuto
    O som do arrastado,
    E duro grilhão.
    Mas, ah! que não treme,
    Não treme de susto
    O meu coração.

    A chave lá sôa
    Na porta segura:
    Abre-se a escura,
    Infame masmorra
    Da minha prizão.
    Mas, ah! que não treme;
    Não treme de susto
    O meu coração.

    Eu vejo, Marilia,
    A mil innocentes
    Nas Cruzes pendentes,
    Por falsos delictos,
    Que os homens lhes dão.
    Mas, ah! que não treme,
    Não treme de susto
    O meu coração.

    Se penso que posso
    Perder o gozar-te
    A gloria de dar-te
    Abraços honestos,
    E beijos na mão.
    Marilia, já treme,
    Já treme de susto
    O meu coração.

    Repára, Marilia,
    O quanto he mais forte
    Ainda que a morte,
    N'um peito esforçado
    De amor a paixão.
    Marilia, já treme,
    Já treme de susto
    O meu coração.

    LYRA XXIII.

    Não praguejes, Marilia, não praguejes
    A justiceira mão que lança os ferros:
    Não traz de balde a vingadora espada;
    Deve punir os erros.

    Virtudes de Juiz, virtudes de homem
    As mãos se derão, e em seu peito morão.
    Mandão prender ao Réo austera a boca,
    Porém seus olhos chorão.

    Se á innocencia denigre a vil calumnia
    Que culpa aquelle tem que applica a penna.
    Não he o Julgador, he o processo,
    E a lei quem nos condemna.

    Só no Averno os Juizes não recebem
    Accusação, nem prova de outro humano;
    Aqui todos confessão suas culpas,
    Não póde haver engano.

    Eu vejo as Furias affligindo aos tristes:
    Huma o fogo chega, outra as serpes move;
    Todos maldizem sim a sua estrella,
    Nenhum accusa a Jove.

    Eu tambem inda adoro ao grande Chefe,
    Bem que a prizão me dá que eu não mereço.
    Qual eu sou, minha bella, não me trata,
    Trata-me qual pareço.

    Quem suspira, Marilia, quando pune
    Ao vassallo que julga delinquente;
    Que gosto não terá podendo dar-lhe
    As honras de innocente?

    LYRA XXIV.

    Eu vou, Marilia, vou brigar co' as feras:
    Huma soltárão, eu lhe sinto os passos,
    Aqui aqui a espero
    Nestes despidos braços.
    He hum malhado tigre; a mim já corre,
    Ao peito o aperto, estalão-lhe as costelas,
    Desfallece, cahe, urra, treme, e morre.

    Vem agora hum Leão: sacode a grenha,
    Com faminta paixão a mim se lança;
    Venha embora, que o pulso
    Ainda não se cança.
    Opprimo-lhe a garganta, a lingua estira,
    O corpo lhe fraquêa, os olhos inchão,
    Açoita o chão convulso, arqueja, e espira.

    Mas que vejo, Marilia! tu te assustas?
    Entendes que os destinos inhumanos
    Expoem a minha vida
    No cêrco dos Romanos?
    Com ursos, e com onças eu não luto.
    Luto c'o bravo monstro que me accusa;
    Que os tigres, e leões mais féro, e bruto.

    Embora contra mim raivoso esgrima
    Da vil calumnia a cortadora espada;
    Huma alma, qual eu tenho,
    Não se recêa a nada.
    Eu hei-de, sim, punir-lhe a insolencia,
    Pizar-lhe o negro cóllo, abrir-lhe o peito
    Co' as armas invenciveis da innocencia.

    Ah, quando imaginar, que vingativo
    Mando que desça ao Tartaro profundo
    Hei-de com mão honrada
    Erguer-lhe o corpo immundo.
    Eu então lhe direi: Infame, indîno,
    Obras como costuma o vil humano;
    Faço o que faz hum coraçao divino.

    LYRA XXV.

    Minha Marilia,
    O passarinho,
    A quem roubárão
    Ovos, e ninho,
    Mil vezes pousa
    No seu raminho,
    Piando finge
    Que anda a chorar.
    Mas logo vôa
    Pela espessura,
    Nem mais procura
    Este lugar.

    Se acaso a vacca
    Perde a vitéla,
    Tambem nos mostra,
    Que se desvéla,
    O pasto deixa,
    Muge por ella,
    Até na estrada
    A vem buscar.
    Em poucos dias,
    Ao que parece,
    Della se esquece,
    E vai pastar.

    O voraz Tempo,
    Que o ferro come,
    Que aos mesmos Reinos
    Devora o nome,
    Tambem, Marilia,
    Tambem consome
    Dentro do peito
    Qualquer pezar.
    Ah só não póde
    Ao meu tormento
    Por hum momento
    Allivio dar.

    Tambem, ó bella,
    Não ha quem viva
    Instantes breves
    Na chamma activa;
    Derrete ao bronze
    Sendo excessiva
    Ao mesmo seixo
    Faz estalar.
    Mas do amianto
    A fêbra dura
    Na chamma atura
    Sem se queimar.

    Tambem, Marilia,
    Não ha quem negue,
    Que bem que o fogo
    Nos oleos pegue,
    Que bem que em lingoas
    Ás nuvens chegue,
    Á força d'agoa
    Se ha de apagar.
    Se a negra pedra
    Nós accendemos,
    Com agoa a vemos
    Mais s'inflammar.

    O meu discurso,
    Marilia, he resto:
    A pena iguala
    Ao meu affecto.
    O amor que nutro
    Ao teu aspecto,
    E o teu semblante
    He singular.
    Ah! nem o tempo,
    Nem inda a morte
    A dôr tão forte
    Pode acabar.

    LYRA XXVI.

    Aquelle, a quem fêz cégo a Natureza,
    C'o bordão apalpa, e aos que vem pergunta;
    Ainda se despenha muitas vezes,
    E dois remedios junta.

    De ser céga a Fortuna eu não me queixo;
    Sim me queixo de que má céga seja
    Céga que nem pergunta, nem apalpa,
    He porque errar deseja.

    A quem gastar não sabe, nem se anima,
    Entrega as grossas chaves de hum thesoiro;
    E lança na miseria a quem conhece
    Para que serve o oiro.

    A quem fere, a quem rouba, a infame deixa
    Que a traz do vicio em liberdade corra,
    Eu honro as leis do Imperio, ella me opprime
    N'esta vil masmorra.

    Mas ah! minha Marilia, que esta queixa
    Co' a sólida razão se não coaduna,
    Como me queixo da Fortuna tanto,
    Se sei não ha Fortuna?

    Os Fados, os Destinos, essa Deosa
    Que os Sábios fingem que huma roda move
    He só a occulta mão da Providencia,
    A sábia mão de Jove.

    Nós he que somos cegos, que não vemos;
    A que fins nos conduz por estes modos;
    Por torcidas estradas, ruins varedas
    Caminha ao bem de todos.

    Alegre-se o perverso com as ditas;
    C'o seu merecimento o virtuoso;
    Parecer desgraçado, ó minha bella,
    He muito mais honroso.

    LYRA XXVII.

    A minha amada
    He mais formosa
    Que branco lyrio,
    Dobrada rosa,
    Que o cinnamomo,
    Quando matiza
    Co' a folha a flor.
    Venus não chega
    Ao meu Amor.

    Vasta campina
    De trigo chêa,
    Quando na sésta
    C'o vento ondêa,
    Ao seu cabello
    Quando flutua
    Não he igual.
    Tem a côr negra:
    Mas quanto val!

    Os astros, que andão
    Na esfera pura,
    Quando scintilão
    Na noite escura,
    Não são humanos,
    Tão lindos, como
    Seus olhos são.
    Que ao Sol excedem
    Na luz que dão.

    Ás brancas faces,
    Ah! não se atreve
    Jasmis de Italia,
    Nem inda a neve,
    Quando a desata
    O Sol brilhante
    Com seu calôr.
    São neve, e causão
    No peito ardôr.

    Na breve boca
    Vejo enlaçadas
    As finas per'las
    Com as granadas;
    A par dos beiços
    Rubins da India
    Tem preço vil.
    Nelles se agarrão
    Amores mil.

    Se não lhe désse
    Compadecido
    Tanto soccorro
    O Deos Cupido;
    Se não vivêra
    Huma esperança
    No peito seu;
    Já morto estava
    O bom Dirceo.

    Vê quanto póde
    Teu bello rosto;
    E de goza-lo
    O vivo gosto!
    Que sobmergido
    Em hum tormento
    Quasi infernal,
    Porqu' inda espero
    Resisto ao mal.

    LYRA XXVIII.

    Deten-te, vil humano,
    Não espremas cicutas
    Para fazer-me damno.
    O çumo que ellas dão he pouco forte,
    Procura outras bebidas,
    Que apressem mais a morte.

    Desce ao Reino profundo,
    Ajunta ahi venenos,
    Que nunca visse o mundo;
    Traze o negro licôr, que tem nos dentes,
    Nos dentes retorcidos
    As raivosas serpentes.

    Cachopo levantado,
    Que pôz a Natureza,
    Dentro no Mar salgado,
    Não se abala no meio da tormenta,
    Bem que huma onda, e outra onda
    Sobre elle em flor rebenta.

    Arvore, que na terra
    Ás robustas raizes,
    Buscando o centro, afferra,
    Não teme ao furacão mais violento;
    E menos se se deixa
    Vergar do rijo vento.

    Sou tronco, e rócha, ó bella,
    Que açoita o Sul que brama,
    E o Mar, que se encapella:
    Não temas que do rosto a côr se mude:
    Vence as róchas, e os troncos
    A sólida Virtude.

    A maior desventura
    He sempre a que nos lança
    No horror da sepultura:
    O cobarde a morrer tambem caminha;
    Com que males não póde
    Huma alma como a minha?

    LYRA XXIX.

    Eu descubro procurar-me
    Gentil mancebo, e loiro,
    Trazia a testa adornada
    Com folhas de verde loiro.
    Vejo ser o Pai das Musas,
    E me entrega a lyra d'oiro.

    Já basta, me diz, ó filho,
    Já basta de sentimento;
    O cançado peixe exige
    Hum breve contentamento.
    Louva a formosa Marilia
    Ao som do meu instrumento.

    Firo as cordas; mas que importa?
    A dôr não socega em tanto.
    Ergo a voz, então reparo
    Que quanto mais corre o pranto
    He mais doce, e mais sonoro
    Meu terno, e saudoso canto.

    Apollo fitou os olhos
    Na mão, que regía o braço;
    E depois de estar suspenso,
    De me houvir hum largo espaço;
    Assim diz: _o Deos Cupido
    Faz inda mais do que eu faço_.

    _Eu te dou a minha lyra,
    Louva, louva a tua Bella;
    Porém vê que ta concedo
    Com condição, e cautella_…
    Eu lhe corto a voz, dizendo,
    Que só canto em honra della.

    LYRA XXX.

    O pai das Musas,
    O Pastor loiro
    Deo-me, Marilia,
    Para cantar-te
    A lyra de oiro.

    As cordas firo,
    O brando vento
    Teus dotes leva
    Nas brancas azas
    Ao firmamento.

    O teu cabello
    Vale hum thesoiro;
    Hum só me adorna
    A sabia frente
    Melhor que o loiro.

    Nesses teus olhos
    Amor assiste;
    Delles faz guerra;
    Ninguem lhe foge;
    Ninguem resiste.

    Algumas vezes
    Eu o diviso
    Tão bem occulto
    Nas lindas cóvas,
    Que faz teu riso.

    Nesses teus peitos
    Tem os seus ninhos
    Destros Amores,
    Nelles se gerão
    Os Cupidinhos.

    Vences a Venus,
    Quando com arte
    As armas toma,
    Porque mais prenda
    Ao fero Marte.

    Eu produzia
    Estas idéas,
    Quando, Marilia;
    O som escuto
    Das vis cadêas.

    Dou hum suspiro.
    Corre o meu pranto;
    E inda bebendo
    Lagrimas tristes,
    De novo canto.

    Sou da constancia
    Hum vivo exemplo.
    E vós, ó ferros,
    Honrareis inda
    De Amor o Templo.

    LYRA XXXI.

    Roubou-me, ó minha Amada, a sorte impía,
    Quanto de meu gosava
    N'um só funesto dia.

    Honras de maioral, manada grossa,
    Fertil, extensa herdade,
    Bem reparada chóça.

    Metteo-me nesta infame sepultura,
    Que he sepulcro sem honras,
    Breve masmorra, escura.

    Aqui, ó minha Amada, nem consigo,
    Venha outro desgraçado
    Sentir tambem comigo.

    Mas se esta companhia não mereço;
    Os Deoses me dão outra,
    Inda de mais apreço.

    Não he, não, illusão o que te digo;
    Tu mesma me acompanhas;
    Peno, mas he comtigo.

    Não vejo as tuas faces graciosas,
    Os teus soltos cabellos,
    As tuas mãos mimosas.

    Se eu as visse, infeliz me não dissera,
    Bem que subira ao Porto,
    Bem que na Cruz pendêra.

    Não ouço as tuas vozes magoadas,
    Com ardentes suspiros
    Ás vezes mal formadas.

    Mas vejo, ó cara, as tuas letras bellas;
    Huma por hum beijo,
    E choro então sobre ellas.

    Tu me dizes que siga o meu destino;
    Que o teu amor na ausencia
    Será leal, e fino.

    De novo a carta ao coração aperto,
    De novo a molha o pranto
    Que de ternura verto.

    Ah! leve muito embora o duro Fado;
    A tudo quanto tenho
    Com meu suor ganhado.

    Eu juro, que do roubo nem me queixe,
    Com tanto, ó minha cara,
    Que este só bem me deixe.

    Que males voluntarios não subírão,
    Os que te amão, sómente
    Porque menos te ouvírão?

    Dê pois aos mais seus bens a Deosa céga;
    Que eu tenho aquella gloria,
    Que a mil felizes nega.

    LYRA XXXII.

    Se o vasto mar se encapella,
    E na rócha em flor rebenta,
    Grossa náo, q' não tem léme,
    Em vão sustentar-se intenta;
    Até que naufraga, e corre
    Á discrição da tormenta.

    Quem não tem huma Belleza,
    Em que ponha o seu cuidado,
    Se o Ceo se cobre de nuvens,
    E se assopra o vento irado,
    Não tem forças que resistão
    Ao impulso do seu fado.

    Nesta sombria masmorra,
    Aonde, Marilia, vivo,
    Encosto na mão o rosto,
    Fico ás vezes pensativo.
    Ah! que imagens tão funestas
    Me finge o pezar activo.

    Parece que vejo a honra,
    Marilia, toda enlutada,
    A face de hum pai rugosa,
    N'um mar de pranto banhada,
    Os amigos mascilentos,
    E a familia consternada.

    Quero voltar os meus olhos
    Para outro diverso lado,
    Vejo n'uã grande Praça
    Hum Theatro levantado.
    Vejo as Cruzes, vejo os Potros,
    Vejo o Alfanje afiado.

    Hum frio suor me cobre,
    Lação-se os membros, suspiro,
    Busco allivio ás minhas ancias,
    Não o descubro, deliro.
    Já, meu Bem, já me parece,
    Que nas mãos da morte espiro.

    Vem-me então ao pensamento
    A tua testa nevada,
    Os teus meigos, vivos olhos,
    A tua face rosada,
    Os teus dentes crystallinos,
    A tua boca engraçada.

    Qual, Marilia, a estrella d'alva,
    Que a negra noite affugenta,
    Qual o Sol, que a nevoa espalha
    Apenas a terra aquenta,
    Ou qual Iris, que o Ceo limpa,
    Quando se vê na tormenta.

    Assim, Marilia, desterro
    Triste illusão, e demencia;
    Faz de novo o seu officio,
    A razão, e a prudencia;
    E firmo esperanças doces
    Sobre a candida innocencia.

    Restauro as forças perdidas,
    Sóbe a viva côr ao rosto;
    Gyra o sangue pela vêa,
    E bate o pulso composto.
    Vê, Marilia, o quanto póde
    Contra os meus males teu rosto.

    FIM.

    MARILIA DE DIRCEO.

    POR

    F.A.G.

    TERCEIRA PARTE.

    LISBOA:

    Na Impressão Regia. Anno 1812.

    _Com licença_.

    _Vende-se na loja da Gazeta_.

    AO LEITOR.

    A geral acceitação, que a primeira, e segunda parte da Marilia de Dirceo
    tem devido ao Público, animou ao seu Editor a dar á luz huma terceira
    parte da dita Obra, a que fez juntar outras diversas Rimas do mesmo
    Author, que lhe fazem honra, e que abonão assás a distincta opinião que
    tem adquirido naquelle genero de Poesia. Adverte o Editor, que huma
    terceira parte da dita Marilia de Dirceo ha tempos publicada, he Obra de
    outro engenho, o que facilmente conhecerá ainda o Leitor menos
    intelligente.

    MARILIA DE DIRCEO.

    LYRA I.

    Convidou-me a vêr seu Templo
    O cego Cupido hum dia;
    Encheo-se de gosto o peito,
    Fiz deste Deos hum conceito
    Como delle não fazia.

    Aqui vejo descorados
    Os ternissimos amantes
    Entre as cadêas gemerem;
    Vejo nas piras arderem
    As entranhas palpitantes.

    _A quem ama quanto avista_,
    (Diz Cupido) _não aterra:
    Quem quer cingir o loureiro,
    Tambem vai soffrer primeiro
    Todo o trabalho da guerra_.

    _Com tudo que te dilates
    Neste sitio não convenho;
    Deixa a estancia lastimosa,
    Vem vêr a Salla formosa,
    Aonde o meu Solio tenho_.

    Entro n'outro grande Templo:
    Que perspectiva tão grata!
    Tudo quanto nelle vejo
    Passa além do meu desejo,
    E o discurso me arrebata.

    He de marmore, e de jaspe
    O soberbo frontespicio:
    He todo por dentro d'ouro,
    E a hum tão rico tesouro
    Inda excede o artificio.

    As janellas não se adornão
    De sedas de finas côres:
    Em lugar de cortinados
    Estão prezos, e enlaçados
    Fastões de mimosas flores.

    Em torno da Salla Augusta
    Ardem dourados brazeiros;
    Queimão rezinas, que estalão,
    E postas em fumo exalão
    Da Panchaya os gratos cheiros.

    Ao pé do Throno os seus Genios
    Alegres hymnos entoão:
    Danção as Graças formosas;
    E aqui as horas gostosas
    Em vêz de correrem, vôão.

    Estão sobre o pavimento,
    Igualmente reclinados
    Nos collos de seus amores,
    Os grandes Reis, e Pastores
    De frescas rosas coroados.

    Mal o acôrdo restauro,
    (Me diz, o Moço risonho:)
    _Como ainda não reparas
    Em tantas cousas tão raras,
    De que este Templo componho_?

    _Sabes a historia de Jove?
    Aqui tens o manso Touro;
    Tens o Cisne decantado;
    A Velha em que foi mudado,
    Com a grossa chuva d'ouro_.

    _Applica, Dirceo, agora
    Os olhos para esta parte:
    Aqui tens o verde Louro,
    Que inda estima o Pastor louro,
    E a Rede, que enlaça a Marte_.

    _Vês este Arco destramente
    De branco marfim ornado?
    Á Casta Deosa servia,
    E o perdêo quando dormia
    Do gentil Pastor ao lado_.

    _Vês esta Lyra? com ella
    Tira Orpheo ao bem querido
    Dos infernos aonde estava.
    Vês este Faról? guiava
    Ao meu nadador de Abydo_.

    _Vês estas duas Espadas
    Ainda de sangue cheias?
    A Thysbe, e a Dido matárão;
    E os fortes pulsos armárão
    De Pyramo, e mais de Eneas_.

    _Sabes quem vai no Navio,
    Que nesse mar se levanta?
    He Theseo. Vês esse Pomo?
    He de Cydippe, assim como
    São aquelles de Atalanta_.

    _Vê agora estes retratos,
    Que destros pinceis fizerão:
    Ah! que pinturas divinas!
    Todos são das Heroinas,
    Que mais victorias me dérão_.

    _Repara nesse semblante,
    He o semblante de Helena:
    Lá se avista a Grega Armada,
    E aqui de Troya abrazada
    Se mostra a funesta scena_.

    _Vês est'outra_ formosura?
    _He a bella Deidamía_;
    _Lá_ tem Achilles ao lado,
    _De huma saia disfarçado
    Como com ella vivia_.

    _Cleópatra he quem se segue:
    Alli tens lançando a linha
    Marco Antonio socegado,
    Ao tempo em que Augusto irado,
    Com armada mão caminha_.

    _Aqui Hermes se figura:
    Vê hum Sabio dos maiores,
    Qual infame delinquente,
    Ir desterrado sómente
    Por contar os seus louvores_.

    _Este he de Omphale o retrato:
    Aqui tens (quem o diria!)
    Ao grande Hercules sentado
    Com as mais damas no estrado,
    Onde em seu obsequio fia_.

    _Anda agora a est'outra parte:
    Conheces, Dirceo, aquella_?
    Onde váes? (lhe digo:) explica,
    Que belleza aqui nos fica,
    Sem fazeres caso della?

    Ergo os olhos ponho a vista
    Na imagem não explicada,
    Ó quanto he digna de appreço!
    Mal exclamo assim, conheço
    Ser a minha doce amada.

    O coração pelos olhos
    Em terno pranto sahia,
    E no meu peito saltava:
    Disfarçado Amor, olhava
    Para mim a furto, e ria.

    Depois de passado tempo,
    A mim se chega, e me aballa;
    Desperto de tanto assombro:
    Elle bate no meu hombro,
    E assim affavel me falla.

    _Sim, caro Dirceo, he esta
    A divina formosura,
    Que te destina Cupido;
    Aqui tens o laço urdido
    Da tua immortal ventura_.

    _O Numen, Dirceo, o Numen
    Que aos trabalhos de hum humano
    Desta sorte felicita,
    Não he, como se accredita,
    Não he hum Numen tyranno_.

    _Olha se a cega Fortuna
    De tudo quanto se cria,
    Ou nos mares, ou na terra,
    Em o seu thesouro encerra
    Outro bem de mais valia_?

    _Lizas faces côr de rosa,
    Brancos dentes, olhos bellos,
    Grossos beiços encarnados,
    Pescoço, e peitos nevados,
    Negros e finos cabellos_;

    _Não vale mais, que cingires
    Co' braço de sangue immundo
    Na cabeça o verde louro?
    Do que teres montes d'ouro?
    Do que dares leis ao mundo_?

    _Ah! ensina, sim ensina
    Ao vil mortal atrevido,
    E ao peito que adora terno,
    Que tem para hum Inferno,
    Para o outro hum Ceo, Cupido_.

    Ao resto Amor me convida;
    Eu chorando a mão lhe beijo:
    E lhe digo, Amor, perdôa
    Não seguir-te; pois não vôa
    A vêr mais o meu dezejo.

    LYRA II.

    Em vão do amado
    Filho que foge,
    Venus quer hoje
    Noticias ter.

    Sagaz, e astuto
    Elle se esconde
    Em parte aonde
    Ninguem o vê.

    Dos signaes dados
    Bem se conhece,
    Que elle aborrece
    A Mãi que tem.

    Se os seus defeitos
    Ella publíca,
    Razão lhe fica
    De se offender.

    Foge o Menino,
    E disfarçado
    Vive abrigado
    N'uma cruel.

    Com mil caricias
    A impia o trata;
    Nem o desata
    Do peito seu.

    Se a semelhança
    Sempre amor gera,
    Deve huma fera
    Outra accolher.

    Ah! se o teu nome,
    Marilia, calo,
    Que de ti fallo
    Bem pódes crer.

    LYRA III.

    Tu não verás, Marilia, cem captivos
    Tirarem o cascalho, e a rica terra,
    Ou dos cercos dos rios caudelosos,
    Ou da minada Serra.

    Não verás separar ao habil negro
    Do pezado esmeril a grossa arêa;
    E já brilharem os granetes de ouro,
    No fundo da batêa.

    Não verás derrubar os virgens matos,
    Queimar as capoeiras inda novas,
    Servir de adubo á terra a fertil cinza,
    Lançar os grãos nas cóvas.

    Não verás enrolar negros pacotes
    Das secas folhas do cheiroso fumo;
    Nem espremer entre as dentadas rodas
    Da doce cana o sumo.

    Verás em cima da espaçosa meza
    Altos volumes de enredados feitos;
    Ver-me-has folhear os grandes livros,
    E decidir os pleitos.

    Em quanto revolver os meus Consultos,
    Tu me farás gostosa companhia
    Lendo os fastos da sabia, mestra Historia,
    Os Cantos da Poesia.

    Lerás em alta Voz a imagem bella;
    Eu vendo que lhe dás o justo appreço;
    Gostoso tornarei a lêr de novo
    O cansado processo.

    Se encontrares louvada huma belleza,
    Marilia, não lhe envejes a ventura,
    Que tens quem leve á mais remota idade
    A tua formosura.

    LYRA IV.

    Amor por acaso
    A hum pouso chegava,
    Aonde accolhida
    A Morte se achava.

    Risonhos, e alegres
    Os braços se dérão,
    E as armas unidas
    N'um sitio pozerão.

    De emprezas tamanhas
    Cansados já vinhão,
    E em larga conversa
    A noite entretinhão.

    Hum conta que ha pouco
    A seta aguçada
    Em huma belleza
    Deixára empregada.

    Diz outro que as flexas
    Cravára no peito
    De hum grande, que teve
    O Mundo sujeito.

    Em quanto das forças
    Cada hum persumia,
    Seus membros já laços
    O somno rendia.

    Dormindo tranquillos
    A noite passárão,
    E inda antes da Aurora
    Com ancia acordárão.

    _He tempo que o leito
    Deixemos, ó Morte_;
    Amor, já erguido
    Fallou desta sorte.

    _He tempo_, em resposta
    A morte repete,
    _Que á nossa fadiga
    Dormir não compete_.

    _As armas colhamos,
    Voltemos ao giro:
    Cada hum a seu gosto
    Empregue o seu tiro_.

    Vão inda c'os olhos
    Em somno turbados,
    Ao sitio em que os ferros
    Estão pendurados.

    Amor para as setas
    Da morte se enclina:
    De amor logo a Morte
    C'o as flexas atina.

    Oh golpes tyrannos!
    Oh mãos homicidas!
    São tiros da Morte
    De Amor as feridas.

    De hum sonho, que pinto,
    Marilia conhece,
    Se amor, ou se morte
    Este alma padece.

    LYRA V.

    Eu não sou, minha Nize, pegureiro,
    Que viva de guardar alhêo gado;
    Nem sou pastor grosseiro
    Dos frios gêlos, e do Sol queimado,
    Que veste as pardas lãs do seu cordeiro.
    Graças, ó Nize bella,
    Graças á minha Estrella!

    A Cresso não igualo no thesouro:
    Mas deo-me a Sorte com que honrado viva.
    Não cinjo corôa d'ouro;
    Mas Póvos mando, e na testa altiva
    Verdeja a Corôa do Sagrado Louro.
    Graças, ó Nize bella,
    Graças á minha Estrella!

    Maldito seja aquelle, que só trata
    De contar escondido a vil riqueza!
    Que cego se arrebata
    Em buscar nos Avós a vã nobreza,
    Com que aos mais homens seus iguaes abata.
    Graças, ó Nize bella,
    Graças á minha Estrella!

    As fortunas que em torno de mim vejo,
    Por falsos bens que enganão não reputo;
    Mas antes mais desejo,
    Não para me voltar soberbo em bruto
    Por vêr-me grande quando a mão te beijo.
    Graças, ó Nize bella,
    Graças á minha Estrella!

    Pela Ninfa que jaz vertida em Louro,
    O grande Deos Apollo não delira?
    Jove mudado em Touro,
    E já mudado em Velha não suspira?
    Seguir aos Deoses nunca foi desdouro.
    Graças, ó Nize bella,
    Graças á minha Estrella.

    Pertendão Hanibaes honrar a Historia,
    E cinjão com a mão de sangue chêa
    Os louros da victoria.
    Eu revolvo os teus dons na minha idéa:
    Só dons que vem do Ceo são minha gloria.
    Graças, ó Nize bella,
    Graças á minha Estrella!

    LYRA VI.

    _Traducção_.

    Amor que seus passos
    Ligeiro movia,
    Por mil embaraços
    Que hum bosque tecia.

    Nos hombros me acena
    Com brando raminho;
    E logo me ordena
    Que siga o caminho.

    Por entre a espessura
    Do bosque me avanço:
    E a traz da ventura
    Incauto me lanço.

    Já tinha calcado
    Os montes mais duros:
    C'o peito rasgado
    Os rios escuros.

    Eis que huma serpente
    A lingua vibrando,
    Me crava o seu dente,
    Me deixa espirando.

    Então surprendida
    Da dôr que a traspassa,
    Minha alma ferida
    Aos beiços se passa.

    As iras detesta
    Amor isto vendo,
    E as azas na testa
    Me bate dizendo:

    _Tu choras, tu gemes
    Da Serpe tocado,
    E o braço não temes
    De hum Numen irado_?

    LYRA VII.

    Tu, formosa Marilia, já fizeste
    Com teus olhos ditosas as campinas,
    Do turvo Ribeirão em que nasceste:
    Deixa, Marilia, agora
    As já lavradas terras;
    Anda affoita romper os grossos mares,
    Anda encher de alegria estranhas terras.
    Ah! que por ti suspírão
    Os meus saudosos lares.

    Não corres como Sapho sem ventura
    Em seguimento de hum cruel ingrato,
    Que não sede aos encantos da ternura:
    Segues a hum fino amante,
    Que a perder-te morria.
    Quebra os grilhões do sangue, e vem, ó bella;
    Tu já foste no Sul a minha guia.
    Ah! deves ser no Norte
    Também a minha Estrella.

    Verás ao Deos Neptuno socegado
    Aplainar co' tridente as crespas ondas;
    Ficar como dormindo o mar salgado.
    Verás, verás d' alheta
    Soprar o brando vento,
    Mover-se o léme, disrinzar-se o linho,
    Seguirem os Delfins o movimento,
    Que leva na carreira
    O empavezado pinho.

    Verás como o Leão na prôa arfando
    Converte em branca espuma as negras ondas
    E as talha, e corta com murmurio brando.
    Verás, verás Marilia
    Da janella dourada,
    Que huma comprida estrada representa
    A linfa cristalina, que pizada
    Pela poupa que foge
    Em borbotões rebenta.

    Bruto peixe verás de corpo immenso,
    Tornar ao torto anzol depois de o terem
    Pela rasgada boca ao ar suspenso:
    Os pequenos peixinhos
    Quaes passaros voarem:
    De toninhas verás o mar coalhado,
    Ora surgirem, ora mergulharem,
    Fingindo ao longe as ondas
    Que fórma o vento irado.

    Verás que o grande monstro se apresenta
    Hum repuxo formando com as aguas,
    Que ao ar espalha da robusta venta.
    Verás em fim, Marilia,
    As nuvens levantadas
    Humas de côr azul, ou mais escuras,
    Outras de côr de rosa, ou prateadas
    Fazerem no Orizonte
    Mil diversas figuras.

    Mal chegares á foz do claro Téjo,
    Apenas elle vir o teu semblante
    Dará no léme do baixel hum beijo.
    Eu lhe direi vaidoso:
    Não trago, não comigo
    Nem pedras de valor, nem montes d'ouro,
    Roubei as aureas Minas, e consigo
    Trazer para os teus cofres
    Este maior Thesouro.

    LYRA VIII.

    Em cima dos viventes fatigados
    As verdes dormideiras espremia,
    Os mentirosos sonhos me cercavão.
    Na vaga fantasia
    Ao vivo me pintavão
    As glorias, que disperto
    Meu coração pedia.

    Eu vou, eu vou subindo a Náo possante
    Nos braços conduzindo a minha bella;
    Voltêa a grande roda, e a grossa amarra
    Se enlêa em torno della:
    Já ponho a prôa á barra,
    Já cáhe ao som do apito
    Ora huma, ora outra véla.

    Os arvoredos já se não distinguem:
    A longa praia ao longe não branqueija;
    E já se vão sumindo os altos montes.
    Já não ha que se veja
    Nos claros Orizontes,
    Que não sejão vapores,
    Que Ceo, e mar não seja.

    Parece vão correndo as negras ondas,
    E o pinho qual rochedo estar parado:
    Ergue-se a onda, vem á Náo direita
    E quebra no costado:
    O Navio se deita,
    E ella finge a ladeira
    Sahindo do outro lado.

    Vejo nadarem os brilhantes peixes;
    Cahir do Láes a linha, que os engana:
    Hum dourado no anzol está pendente,
    Soffre morte tyranna;
    Entre tanto que a sente
    Ao tombadilho açoita
    A cauda, e a barbatana.

    Sobre as ondas descubro huma Carroça
    De formosas conchinhas enfeitada;
    Delfins a movem, e vem Thetis nella:
    Na popa está parada:
    Nem póde a Deosa bella
    Tirar os brandos olhos
    Da minha doce amada.

    Nas costas dos Golfinhos vem montados
    Os nûz Tritões, deixando a Esfera cheia
    Co' rouco som dos buzios retorcidos.
    Recrêa, sim recrêa
    Meus attentos ouvidos
    O canto sonoroso
    Da musica Serêa.

    Já sóbe ao grande mastro o bom gageiro;
    Descobre arrumação, e grita terra:
    Á murada caminha alegre a gente;
    Alguns entendem que erra:
    Pelo immovel sómente
    Conheço não ser nuvem,
    Sim o cume de alta serra.

    De Mafra já descubro as grandes torres;
    (E que nova alegria me arrebata!)
    De Cascaes a muleta já vem perto,
    Já de abordar-nos trata:
    Já o piloro esperto
    Inda debaixo manda
    Soltar mezena, e gata.

    Eu vou entrando na espaçosa barra:
    A grossa artilheria já me atrôa.
    Lá ficão Paço de Arcos, e a Junqueira.
    Já corre pela prôa
    Huma amarra ligeira;
    E a Náo já fica surta
    Diante da grã Lisboa.

    Agora, agora sim, agora espero
    Renovar da amizade antigos laços:
    Eu vejo ao velho Pai, que lentamente
    Arrasta a mim os passos:
    Ah como vem contente!
    De longe mal me avista
    Já vem abrindo os braços.

    Dóbro os joelhos pelos pés o aperto,
    E manda que dos pés ao peito passe:
    Marilia quanto eu fiz fazer intenta;
    Antes que os pés lhe abrace
    Nos braços a sustenta;
    Dá-lhe de filha o nome,
    Beija-lhe a branca face.

    Vou a descer a escada (ó Ceos!) acórdo,
    Conheço não estar no claro Tejo.
    Abro os olhos, procuro a minha amada,
    E nem se quer a vejo.
    Venha a hora affortunada,
    Em que não fique em sonhos
    Tão ardente desejo.

    _A huma despedida_.

    Chegou-se o dia mais triste,
    Que o dia da morte fêa:
    Cahi do throno Dircéa,
    Do throno dos braços teus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Impio Fado, que não pôde
    Os doces laços quebrar-me,
    Por vingança quer levar-me
    Distante dos olhos teus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Parto em fim, e vou sem vêr-te,
    Que neste fatal instante,
    Ha de ser o teu semblante
    Mui funesto aos olhos meus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    E crês, Dircéa, que devem
    Vêr meus olhos penduradas
    Tristes lagrimas salgadas
    Correrem dos olhos teus?
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    De teus olhos engraçados,
    Que podérão piedosos,
    De tristes em venturosos
    Converter os dias meus?
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Desses teus olhos divinos,
    Que ternos, e socegados,
    Enchem de flores os prados,
    Enchem de luzes os Ceos?
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Desses teus olhos em fim,
    Que domão Tigres valentes?
    Que nem rigidas Serpentes
    Resistem aos tiros seus?
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Da maneira que serião
    Em não vêr-te criminosos
    Em quanto forão ditosos,
    Agora serião réos.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Parto em fim, Dircéa bella,
    Rasgando os ares cinzentos;
    Virão nas azas dos ventos
    Buscar-te os suspiros meus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Talvez, Dircéa adorada,
    Que os duros Fados me neguem
    A gloria de que elles cheguem
    Aos ternos ouvidos teus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Mas se ditosos chegarem,
    Pois os sólto a teu respeito;
    Dá-lhes abrigo no peito,
    Junta-os c'os suspiros teus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    E quando tornar a vêr-te
    Ajuntando rosto, a rosto,
    Entre os que dérmos de gosto;
    Restitue-me então os meus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    CANÇÃO.

    Dês que vi, formosa Elvira,
    Os teus divinos cabellos,
    Esses vivos olhos bellos,
    Que invéja dos astros são,
    Foi-se, Elvira, foi-se embora
    Toda a paz do coração.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Em quanto, Elvira, se occulta
    A meus olhos teu semblante,
    Hum minuto, hum breve instante
    Parece que fim não tem.
    Se alcanço de vêr-te a gloria,
    Então vôa o tempo bem.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando te ris por acaso
    Para outro qualquer sugeito,
    Estala dentro do peito
    De ciume o coração:
    Se me pões os olhos julgo
    Que zombas de mim então.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando ha brinco na floresta,
    E a divina Olaia canta,
    O mesmo gado levanta
    A cabeça para ouvir.
    Só por mais que Alceo forceje
    Não póde o prazer fingir.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando levo á clara fonte
    O rebanho do meu gado,
    Cáhe-me da mão o cajado,
    E com ella á testa vou:
    Fico pasmado, e ignoro
    O lugar aonde estou.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando vou segar o trigo,
    (Olha bem como ando cego.)
    N'uma parte nelle pego,
    Metto n'outra a fouce em vão;
    Dos que vem alguns se riem,
    Outros mostrão compaixão.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando me deito no colmo,
    Sempre sonho que te vejo,
    Que te fallo, e que te beijo
    A branca nevada mão.
    Acórdo, Pastora, e foges:
    Eu fico mais triste então.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando alguem meu mal pergunta,
    Bem que seja a vez primeira,
    Rompo ainda que não queira
    O segredo sem saber.
    O teu nome, Elvira, digo,
    Quando devo o seu dizer.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Fujo ao trato dos pastores,
    Para hum bosque me retiro;
    Com desafogo suspiro,
    E chamo por ti meu bem.
    Os valles que se enternecem
    Chamão-te ao longe tambem.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando escuto o triste mocho
    A gemer no meu telhado,
    Qualquer mal excogitado
    Não me deve algum temor:
    Só receio que me agoure
    Máo successo ao meu amor.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Os pastores que me avistão
    Com o dedo já me apontão,
    E á roda do fogo contão
    Da maneira que me vem.
    Sou o exemplo dos amantes
    Que esta nossa Aldêa tem.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    SONETO I.

    He gentil, he prendada a minha Altéa;
    As graças, a modestia do seu rosto
    Inspírão no meu peito maior gosto,
    Que vêr o proprio trigo quando ondêa.

    Mas vendo o lindo gesto de Dircéa
    A nova sugeição me vejo exposto;
    Ah! que he mais engraçado, mais composto,
    Que a pura Esfera de mil astros chêa.

    Prender as duas com grilhões estreitos
    He huma acção (ó Deoses!) inconstante,
    Indigna de sinceros, nobres peitos.

    Cupido, se tens dó de hum triste amante,
    Ou fórma de Lorino dous sugeitos,
    Ou fórma desses dous hum só semblante.

    SONETO II.

    N'um fertil campo do soberbo Douro,
    Dormindo sobre a relva descançava,
    Quando vi que a Fortuna me mostrava
    Com alegre semblante o seu Thesouro.

    De huma parte h[~u] montão de prata, e ouro
    Com pedras de valor o chão curvava;
    Aqui hum sceptro, alli hum trono estava,
    Pendião coroas mil de grama, e louro.

    _Acabou-se_ (diz-me então) _a desventura:
    De quantos bens te exponho qual te agrada,
    Pois benigna os concedo, vai, procura_.

    Escolhi, acordei, e não vi nada:
    Commigo assentei logo que a ventura
    Nunca chega a passar de ser sonhada.

    SONETO III.

    Enganei-me, enganei-me, paciencia;
    Accreditei as vozes, cri, Ormia,
    Que a tua singeleza igualaria
    Á tua mais que angelica apparencia.

    Enganei-me, enganei-me, paciencia;
    Ao menos conheci que não devia,
    Pôr nas mãos de huma externa galhardia
    O prazer, o socego, e a innocencia.

    Enganei-me, Cruel, com teu semblante,
    E nada me admiro de faltares,
    Que esse teu sexo nunca foi constante.

    Mas tu perdestes mais em me enganares;
    Que tu não acharás hum firme amante,
    E eu posso de traidoras ter milhares.

    SONETO IV.

    Ainda que de Laura esteja ausente,
    Ha de a chama durar no peito amante;
    Que existe retratado o seu semblante,
    Se não nos olhos meus, na minha mente.

    Mil vezes finjo vêla, e eternamente
    Abraço a sombra vã; só nesse instante
    Conheço que ella está de mim distante,
    Que tudo he illusão que esta alma sente.

    Talvez que ao bem de a vêr Amor resista;
    Porque minha paixão, que aos Ceos he grata,
    Por innocente assim melhor persista:

    Pois quando só na idéa ma retrata,
    Debuxa os dotes com que prende vista,
    Esconde as obras com que offende ingrata.

    SONETO V.

    Ao Templo do Destino fui levado:
    Sobre o Altar hum Cofre se firmava,
    Em cujo seio cada qual buscava
    Tremendo annuncio do futuro estado.

    Tiro hum papel, e leio: Ceo Sagrado!
    Com quanta causa o coração pulsava:
    Este duro Decreto escrito estava,
    Com negra tinta pela mão do Fado.

    _Adore Polidoro a bella Ormia,
    Sem della conseguir a recompensa,
    Nem quebrar-lhe os grilhões a tyrannia_.

    Das mãos, Amor mo arranca, e sem detença
    Tres vezes o levando á boca impía,
    Jurou comprir á risca a tal sentença.

    SONETO VI.

    Ergue-te, ó Pedra, e desde a margem fria,
    Que os muros banha a Lusitana Athenas,
    Mostra-me as desmaiadas assucenas
    Do rosto que me occupa a fantasia.

    Deixa [~q] eu beije a mão, [~q] pôde hum dia
    Ceder de amor ás lastimosas scenas;
    Q'entre as ancias, a dôr, a mágoa, as penas
    Renove a saudosa idolatria.

    Solto do véo mortal, oh Feliz Astro,
    Une ao cadaver a truncada testa,
    Levanta o bello cólo de alabastro:

    Huma alma grande junto a ti protesta
    Fazer a gloria da defunta Castro;
    A illustre Neta vez: Maria he esta.

    _Á Illustrissima e Excellentissima Senhora Condessa de Cavalleiros, D.
    Maria José de Eça e Bourbon_.

    SONETO VII.

    Quantas vezes Lidora me dizia,
    Ao terno peito minha mão levando,
    Conjurem-se em meu mal os Astros, quando
    Achares no meu peito aleivosia.

    Então que não chorasse lhe pedia,
    Por firme seu amor acreditando;
    Ah! que em movendo os olhos suspirando
    Ao mais acautellado enganaria.

    Hum anno assim viveo: ó Ceos! agora
    Mostrou que era mulher: a natureza
    Só por não se mudar a fez traidora.

    Não, não darei mais cultos á belleza,
    Que depois de faltar á fé, Lidora,
    Nem creio que nas Deosas ha firmeza.

    SONETO VIII.

    O Numen Tutelar da Monarquia,
    Que fez do grande Henrique a invicta espada,
    Procurou dos Destinos a morada,
    Por consultar a idade que viria.

    A mil, e mil heróes descriptos via,
    Que exaltão de Furtado a estirpe honrada,
    E na serie, que adora dilatada,
    O nome de Francisco descobria.

    Contempla huma por h[~u]a as letras d'ouro,
    Este penhor, que o tempo não consome,
    Promette ao Reino seu maior thesouro.

    Prosta-se o Genio: e sem [~q] a empreza tome
    De lhe buscar sequer mais outro agoiro,
    O sitio beija, e lhe mostra o nome.

    _Ao Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Visconde de Barbacena,
    Francisco Furtado de Mendonça_.

    SONETO IX.

    Nascer no berço da maior grandeza,
    De palmas, e de louros rodeado,
    Deve-se aos grandes Pais, ao Tronco honrado,
    Que illusrra desde longe a natureza.

    Se porém muito mais se adora, e preza
    O dom que o nobre sangue trás herdado
    Pela propria virtude sustentado,
    Feliz o objecto da presente empreza.

    De mil Heróes no Téjo vencedores
    Hum ramo nasce, hum ramo que a memoria
    Faz immortal de seus Progenitores.

    Eu leio em vaticinio a sua historia;
    Une Francisco a par de seus maiores
    Ao herdado explendor a propria gloria.

    _Ao mesmo excellentissimo Visconde_.

    SONETO X.

    Mudou-se em fim Lidora, essa Lidora
    Por quem mil vezes fé me foi jurada;
    Que vos detem (ó Ceos!) que castigada
    Ainda não deixais tão vil traidora?

    Não haja piedade: sinta agora
    A dita sem remedio em mal trocada;
    Pois se assim não succede, fica ousada
    Para ser outra vez enganadora.

    Vingai, ó justos Ceos…, mas ah! [~q] digo?
    Que maltrateis Lidora? o sentimento
    Privou-me do discurso, eu me desdigo.

    Não, não vibreis o raio violento;
    Pois sei que a compaixão do seu castigo,
    Hade augmentar depois o meu tormento.

    SONETO XI.

    A Deos cabana, a Deos; a Deos, ó gado,
    Albina ingrata, a Deos, em paz te deixo:
    A Deos doce rabil, neste alto freixo
    Te fica ao meu destino consagrado.

    Se te for meu successo perguntado,
    Não declares rabil de quem me queixo;
    Não quero que se saiba vive Aleixo
    Por causa de huma infame desterrado.

    Se vires a Pastor desconhecido,
    Lhe dize então piedoso: Ah! vaite embora,
    Atalha os damnos, que outros tem sentido.

    Habita nesta Aldêa huma Pastora
    De rosto bello, coração fingido,
    Humas vezes cruel, e as mais traidora.

    SONETO XII.

    Com pezadas cadeias maniatado,
    Ás vozes da razão insurdecido,
    Dos Ceos, de mim, dos homens esquecido
    Me vi de amor nas trévas sepultado.

    Alli aliviava o meu cuidado
    Cõ dar de quando em quando algum gemido:
    Ah tempo! que sómente reflectido
    Me fazes entre as ditas desgraçado.

    Assim vivia, quando a falsidade
    De Laura me tornou n'um breve dia
    Quanto a razão não pôde em longa idade.

    Quebrei o vil grilhão que me opprimia:
    Ó feliz de quem gosa a liberdade!
    Bem que venha por mãos da aleivosia.

    SONETO XIII.

    Obrei quanto o discurso me guiava;
    Ouvi os Sabios quando errar temia:
    Aos bons no gabinete o peito abria;
    Na rua a todos como iguaes honrava.

    Julgando os crimes nunca voto dava
    Mais duro, ou pio do que a Lei pedia;
    Mas podendo salvar o justo ria,
    E devendo punir ao réo chorava.

    Nem forão, Villa Rica, os meus intentos
    Metter em ferreo cofre copia d'ouro,
    Que chegue aos filhos, e que passe aos netos.

    Outras são as venturas que me agouro:
    Ganhei saudades, adquiri affectos,
    Vou fazer destes bens melhor thesouro.

    _Feito quando o Author acabou o Lugar de Ouvidor de Villa Rica, e foi
    despaçhado para Desembargador da Bahia_.

    SONETO XIV.

    Quando o torcido buço derramava
    Terror no aspecto ao Portuguez sisudo,
    Quando sem pó, nem oleo o pente agudo
    Duro intonso o cabello em laço atava.

    Quando contra os Irmãos o braço armava
    O forte Nuno oppondo escudo, a escudo;
    Quando a palavra que perfere a tudo
    Com a barba arrancada João firmava.

    Quando a mulher á sombra do marido
    Tremer se via: quando a Lei prudente
    Zelava o sexo do civil ruido;

    Feliz então, então só innocente
    Era de Luso o Reino: oh bem perdido!
    Ditosa condição, ditosa gente!

    SONETO XV.

    Sombras illustres dos varões famosos,
    Que á Grecia, e Roma destes Leis hum dia;
    Vós que do Elysio na região sombria
    Respiraes entre os Zefiros mimosos.

    Grande Licurgo, ó tu Solon, [~q] honrosos
    Louros cingis, que egregia companhia
    Fazeis aos Mazzarinos, eu queria
    Adorar vossos vultos magestosos.

    Vós fizesteis da vossa Patria a gloria;
    Por vós hoje he feliz a humanidade:
    Que dignos sois de huma immortal historia!

    Cesce, cesse porém vossa vaidade;
    Que basta a escurecer vossa memoria
    Hum Carvalho, que adora a nossa idade.

    _Ao Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Marquez de Pombal reformando
    a Universidade de Coimbra_.

    SONETO XVI.

    As molles azas a bater começa
    Entre as palhas o tenro passarinho,
    E largos dias por deixar o ninho
    Se cança, se fadiga, se arremeça.

    H[~u] impulso, outro impulso é vão se apresa,
    Já se firma no pé, já no biquinho,
    Nas folhas se tem, passa ao raminho
    Té que a penna se esforce, e se endureça.

    Quando emfim he capaz de movimento
    Deixa os arbustos vaga pelos ares,
    E sobre as altas faias toma assento:

    Estes sejão, Salicio, os exemplares
    Em que a vossa virtude anime o alento,
    Porque hum dia da Fama honre os Altares.

    _Ao Illustrissimo Senhor Luiz Beltrão de Gouvea_.

    ODE.

    Se entre as louras arêas
    Do meu Jaquitinhonha, hum Genio erguido
    Ás Regiões alheas
    Manda que em doce metro reppetido
    Hoje o teu Nome leve,
    Tanto á virtude, meu Beltrão, se deve.

    Vejo a sordida inveja
    De ira morder-se, e as serpes sacudindo
    Por se tragar forceja:
    De pejo, e de vergonha em vão cobrindo
    Co' as frias mãos o rosto,
    Geme a calumnia no mortal desgosto.

    Vós, Genios fortunados,
    Que do Templo da Gloria honrais a estancia,
    Os meritos sagrados
    Cantai do bom Ministro: He a constancia,
    A sabia fortaleza
    He quem o guia na maior empreza.

    Se os rigidos palmares
    Da Idumeya consulto; o bravo Noto
    Os tormentosos ares
    Não podem mais dobralos: zomba immoto,
    Nem ás ondas tem medo
    Sobranceiro ao Egeo, firme penedo.

    Tal a constancia tua
    Em meio foi dos perfidos rumores;
    A verdade, que nua
    Derramava em teu rosto as vivas côres,
    Sobre as aras decentes
    Vio por triunfo mil trofeos pendentes.

    A vigilancia, o zelo,
    A rectidão do espirito; elevada
    Ao gráo mais rico, e bello,
    Essa virtude, que nos traz provada
    Em meio dos Thesouros
    A sã virtude, que enobrece os Louros:

    Tudo, tudo apparece
    Sabio Ministro da victoria ao lado;
    Athenas, que me offerece
    No seu público Erario accreditado
    Aristides, o Justo,
    Em ti acena o seu modelo augusto.

    Mil vezes orgulhosa
    Negra calumnia o seu desterro tenta;
    A virtude preciosa
    Contra o fero Themistocles sustenta.
    Não ha força que baste,
    Não ha poder que o peito lhe contraste.

    Feliz o Rei, o Povo,
    Feliz tambem de Themis a ballança;
    De hum modo raro, e novo
    Nas tuas mãos eu vejo, que descança:
    Aos premios, ao castigo
    Se reparte sem queixa o braço amigo.

    Ah! sinta a nossa idade
    De hum sangue illustre, de hum talento raro
    A próvida igualdade!
    Melhor do que nos marmores de Pharo,
    Em memoria nos vindouros
    T'ergue o Serro h[~u] Padrão nos seus Thesouros.

    _Imitando o sonho de Scipião_.

    ODE.

    Já vou tocando, ó Licio,
    De Lustros dez o fatigado termo;
    E já meu corpo enfermo
    Se avisinha da morte ao duro officio:
    Que cedo o meu destino me promette
    Calcar as sombras do medonho Lethe!

    Eu descerei contente
    A ver os Manes dos Avós amados;
    Que bem aventurados,
    Se outro mundo tratarão, se outra gente!
    Não virão elles, como eu triste vejo,
    O velho mando peiorar sem pejo.

    Passárão da innocencia
    Pela candida estrada os pés levando;
    Inda a fera violencia
    Não corrompia da Justiça o mando;
    Praticava-se a próvida igualdade
    Entre a Santa Virtude, e a vil maldade.

    A pura fé do Amigo,
    Renovava de Orestes a memoria:
    Commum era o perigo,
    Reciproca tambem a pena, a gloria:
    Que traições, e que enganos tem disposto
    Em nossos dias hum fingido rosto!

    Tudo se vê mudado
    Nesta idade fatal em que de ferro
    O Idolo adorado
    Torpemente protege o crime, o erro:
    Como de susto, e de vergonha cheia
    Se retira de nós a bella Astrea!

    Ah! E quem de teus laços
    Deve ao pezo gemer, ó mundo cego?
    Rotos em mil pedaços
    Os teus grilhões a pendurar já chego;
    Não mais os teus encantos me deleitem,
    Estes miseros restos se aproveitem.

    Que differentes climas
    Já me finjo habitar! Os brandos ares,
    Que tu Zefiro, animas
    Que prazeres me inspirão! Dos pezares,
    Das magoas, do desgosto, e do tormento
    Aqui não sôa o tragico lamento.

    Sôlto do mortal manto
    Cuido que o centro dos Elysios piso!
    Oh quanto he bella, quanto
    A margem deste Lago! Em fresco riso
    Lirios, e rosas, quaes não colhe Flora,
    Aqui saudão a perpetua Aurora.

    Adoravel sciencia,
    Que encheste as noites, e esgotaste os dias,
    Da humana intelligencia,
    Agora sei quam longe te desvias!
    Este o seio da luz, aonde tudo
    Sem fadiga se alcança, e sem estudo!

    O número, a distancia
    Dos Orbes Celestiaes já sabio admiro:
    Noto a eterna constancia
    Do Planeta da Luz; observo o giro
    Da Terra, que regula a varia face
    Com que a proxima Lua, ou morre, ou nasce.

    Certa, e firme a carreira
    Já marco de Saturno, Marte, ou Jove,
    Da esfera derradeira
    Contemplo a força, que os mais Orbes move;
    A harmonia me encanta acorde, e rara,
    Que de Samos o Sabio já notára.

    Aqui se patentêa
    Dos errados systemas o conceito;
    E longe a minha idéa
    De vacilar, já firma o mais perfeito.
    Quem senão tu, ó Genio, sobre humano
    Libertar me podéra deste engano!

    De Massinissa o Paço
    De Carthago ao Heróe tal scena pinta:
    Ao soberbo ameaço
    Da Fortuna, elle vê clara, e distincta,
    Qual o meu Genio me retrata agora,
    A bella Patria, onde o descanço mora.

    He este, ó Licio, he este
    Sem dúvida, o Paiz bello, e sereno,
    Aonde em paz celeste
    Não respira da inveja o atroz veneno:
    E aonde livres da infeliz mudança
    Descança o teu, e o meu bom Pai descança.

    Que doce companhia
    Deveremos fazer-lhes? Ah se apresse
    O momento que hum dia
    Tão gostosa união nos lavra, e tece!
    Cheguemos a beijar as Mãos Sagradas,
    Que enchem de gloria as immortais Moradas.

    Em praticas suaves
    Alli as breves horas gastaremos;
    Nem já nos serão graves
    Na lembrança os trabalhos que aqui temos;
    Nem da pezada humanidade nossa
    Pena haverá, que atormentar-nos possa.

    Mas tu, que dos humanos
    Reges, ó Grande Deos, a dubia sorte;
    Tu, que a meta dos annos
    Firmas, descendo de teu mando a morte,
    Dilata os dias do meu Licio, em quanto,
    Douto me instrue, e me entertem seu canto.

    FIM

    End of Project Gutenberg's Marilia de Dirceo, by Tomás António Gonzaga