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  • DevOps na prática – entrega de software confiável e automatizada

    DevOps na prática – entrega de software confiável e automatizada

    Aproximadamente 55.225 palavras.

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    Casa do Código Capítulo 2. Tudo começa em produç ão verificar que o banco de dados foi criado com sucesso, você pode executar o seguinte comando que lista todos os banco de dados existentes:

    vagrant@db$ mysql -u root -p -e"SHOW DATABASES"

    Enter password:

    +——————–+ | Database | +——————–+ | information_schema | | loja_schema | | mysql | | performance_schema | | test | +——————–+ Assim como não é recomendável executar comandos no sistema opera- cional como usuárioroot, não é recomendável executar queries no MySQL como usuárioroot. Uma boa prática é criar usuários específicos para cada aplicaç ão, liberando apenas o acesso necessário para a aplicaç ão rodar. Além disso, a instalaç ão padrão do servidor MySQL inclui uma conta anônima para acesso ao banco de dados. Antes de criar a conta para a loja virtual, precisa- mos remover a conta anônima:

    vagrant@db$ mysql -uroot -p -e "DELETE FROM mysql.user WHERE user=’’; > FLUSH PRIVILEGES"

    Enter password:

    Uma vez que a conta anônima foi removida, criaremos um usuário cha- madoloja, com uma senha “lojasecret”, com acesso exclusivo aoschema loja_schema:

    vagrant@db$ mysql -uroot -p -e "GRANT ALL PRIVILEGES ON loja_schema.* > TO’loja’@ ’%’IDENTIFIED BY’lojasecret’;"

    Enter password:

    Para testar que o novo usuário foi criado corretamente, podemos executar umaquerysimples para verificar que tudo está OK (a senha deve ser “lojase-

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    2.3. Configurando dependências nos servidores de produç ão Casa do Código cret” pois estamos executando o comando como usuáriolojaao invés de root):

    vagrant@db$ mysql -u loja -p loja_schema -e "select database(), user()"

    Enter password:

    +————–+—————-+ | database() | user() | +————–+—————-+ | loja_schema | loja@localhost | +————–+—————-+ Neste ponto, o servidor de banco de dados já está configurado e rodando corretamente. Para deslogar da máquina virtualdb, você pode digitar o co- mandologoutou pressionarCtrl+D. O banco de dados ainda está vazio – nenhuma tabela ou dados foram criados – porém iremos cuidar disto na seção 2.4. Antes disso, precisamos terminar de configurar o resto da infraestrutura:

    o servidor web.

    Servidor web Iremos instalar o Tomcat e configurar uma fonte de dados para usar o banco de dados criado anteriormente. Para isto, precisamos logar no servidor rodando o comandovagrant ssh web, que abre uma sessão SSH com o servidorweb. Uma vez logado, a instalaç ão do Tomcat é feita através do pacotetomcat7. Também precisamos instalar o cliente para conectar com o banco de dados MySQL, disponível no pacotemysql-client:

    vagrant@web$ sudo apt-get update Ign http://us.archive.ubuntu.com precise InRelease Ign http://us.archive.ubuntu.com precise-updates InRelease …

    Reading package lists… Done vagrant@web$ sudo apt-get install tomcat7 mysql-client Reading package lists… Done Building dependency tree …

    ldconfig deferred processing now taking place

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    Casa do Código Capítulo 2. Tudo começa em produç ão Isto irá instalar o Tomcat 7, o cliente MySQL e todas as suas dependências, incluindo o Java 6. Para verificar que o Tomcat está rodando corretamente, você pode abrir seu navegador e digitar a URLhttp://192.168.33.12:8080/do servidor web –192.168.33.12foi o endereço IP configurado no Vagrant e8080é a porta onde o Tomcat roda por padrão. Se tudo estiver ok, você deve ver uma página com uma mensagem"It works!”.

    A loja virtual precisa de uma conexão segura com o servidor para transfe- rir dados pessoais – como senhas ou números de cartão de crédito – de forma criptografada. Para isso, precisamos configurar um conector SSL para que o Tomcat consiga rodar tanto em HTTP quanto HTTPS. Conexões SSL usam um certificado assinado por uma autoridade confiável para identificar o ser- vidor e para criptografar os dados que trafegam entre o seu navegador e o ser- vidor. Usaremos a ferramentakeytool, que é parte da distribuiç ão padrão do Java, para gerar um certificado para o nosso servidor web. Durante este processo, você precisará fornecer diversas informações sobre o servidor além de uma senha para proteger okeystore, que no nosso caso será novamente “secret” para simplificar. O comando completo, juntamente com exemplos dos dados que precisam ser fornecidos, fica:

    vagrant@web$cd/var/lib/tomcat7/conf vagrant@web$ sudo keytool -genkey -alias tomcat -keyalg RSA > -keystore .keystore Enter keystore password:

    Re-enter new password:

    What is your first and last name?

    [Unknown]: Loja Virtual What is the name of your organizational unit?

    [Unknown]: Devops na Prática What is the name of your organization?

    [Unknown]: Casa do Código What is the name of your City or Locality?

    [Unknown]: São Paulo What is the name of your State or Province?

    [Unknown]: SP What is the two-letter country code for this unit?

    [Unknown]: BR Is CN=Loja Virtual, OU=Devops na Prática, …, C=BR correct?

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    2.3. Configurando dependências nos servidores de produç ão Casa do Código [no]: yes Enter key password for <tomcat> (RETURN if same as keystore password):

    Explicando o comando passo a passo: a opção-genkeygera uma nova chave; a opção-alias tomcatdefine um apelido para o certificado; a op- ção-keyalg RSAespecifica o algoritmo usado para gerar a chave, nesse caso RSA; por fim, a opção-keystore .keystore define o arquivo que armazenará okeystore. Este formato de arquivo permite armazenar di- versas chaves/certificados no mesmokeystore, por isso é bom escolher um apelido para o certificado gerado para o Tomcat. Além disso, tanto o keystorequanto o certificado do Tomcat são protegidos por senha. Nesse caso, usamos “secret” para ambos.

    Uma vez que o certificado foi criado e armazenado, precisamos configurar o servidor do Tomcat para habilitar o conector SSL. Isso é feito editando o arquivo/var/lib/tomcat7/conf/server.xml:

    vagrant@web$ sudo nano /var/lib/tomcat7/conf/server.xml Dentro deste arquivo, a definiç ão do conector SSL para a porta 8443 já está predefinida, porém comentada. Você precisa descomentar a definiç ão deste conector e adicionar mais dois atributos que representam o arquivo do keystoree a senha de proteção. A parte relevante do arquivo XML que precisamos alterar é:

    <?xml version=’1.0’ encoding=’utf-8’?> <Server"8005" shutdown="SHUTDOWN"> …

    <Servicename="Catalina"> …

    <!– Define a SSL HTTP/1.1 Connector on port 8443 This connector uses the JSSE configuration, when using APR, the connector should be using the OpenSSL style configuration described in the APR documentation –> <Connectorport="8443"protocol="HTTP/1.1"

    SSLEnabled="true"

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    Casa do Código Capítulo 2. Tudo começa em produç ão maxThreads="150""https""true"

    keystoreFile="conf/.keystore"

    keystorePass="secret"

    clientAuth="false""SSLv3"

    …

    </Service> </Server> A configuraç ão do servidor web está quase pronta aqui. A última al- teração que precisamos fazer é aumentar a quantidade de memória que o Tomcat pode usar. A loja virtual exige mais memória do que a instalaç ão padrão do Tomcat define, por isso precisamos alterar uma linha no arquivo /etc/default/tomcat7:

    vagrant@web$ sudo nano /etc/default/tomcat7 A linha que define a opçãoJAVA_OPTSprecisa ser alterada para per- mitir que a máquina virtual do Java use até 512Mb de memória, ao invés da configuraç ão padrão de 128Mb. Após a alteraç ão, a opçãoJAVA_OPTSdeve ficar:

    JAVA_OPTS="-Djava.awt.headless=true -Xmx512M -XX:+UseConcMarkSweepGC"

    Por fim, para que todas as configurações sejam aplicadas, precisamos rei- niciar o servidor Tomcat:

    vagrant@web$ sudo service tomcat7 restart Para verificar que tudo está funcionando, você pode voltar no navega- dor e tentar acessar a página padrão através do conector SSL, acessando a URLhttps://192.168.33.12:8443/. Dependendo de qual navegador você está uti- lizando, um aviso irá surgir para alertar que o certificado do servidor foi au- toassinado. Em um cenário real, você geralmente compra um certificado SSL assinado por uma autoridade confiável, mas nesse caso iremos prosseguir e aceitar o alerta pois sabemos que o certificado foi autoassinado intencional- mente. Se tudo der certo, você verá novamente a página"It works!”, dessa vez usando uma conexão segura em HTTPS.

    Neste momento, ambos os servidores estão configurados e prontos para a última etapa: fazer obuildedeploypara colocar a loja virtual em produç ão!

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    2.4. Build e deploy da aplicaç ão Casa do Código 2.4 Build e deploy da aplicação Até agora, a configuraç ão dos servidores de banco de dados e web foram re- lativamente genéricas. Instalamos os pacotes de software básicos para rodar o MySQL e o Tomcat, configuramos conectores para HTTP/HTTPS, criamos um usuário e um banco de dados vazio, que por enquanto não estão direta- mente associados à loja virtual a não ser pelo nome doschemae do usuário que escolhemos.

    Chegou o momento de baixar e compilar o código, rodar os testes, empa- cotar a aplicaç ão e colocar a loja virtual no ar! Esse processo de compilaç ão, teste e empacotamento é conhecido comobuild. As etapas do processo de buildtambém podem incluir gerenciamento de dependências, rodar ferra- mentas de análise estática do código, cobertura de código, geraç ão de docu- mentaç ão, dentre outros. A principal função do processo debuildé gerar um ou mais artefatos, com versões específicas, que se tornam potenciais candida- tos, ourelease candidates, para o deployem produç ão.

    Geralmente recomenda-se rodar o processo debuildem um ambiente pa- recido com o ambiente de produç ão para evitar incompatibilidades de sistema operacional ou versões de bibliotecas. Poderíamos até configurar o Vagrant para criar uma nova máquina virtual para utilizarmos como servidor debuild.

    Porém, para facilitar a discussão neste capítulo, faremos obuildno servidor web, que é onde odeployvai acontecer. Isso economizará diversos passos agora, porém vamos revisitar este processo no capítulo6.

    Para realizar obuild, é preciso instalar mais algumas ferramentas: o Git(http://git-scm.com/) para controle de versão, o Maven(http://maven.

    apache.org/) para executar o buildem si e oJDK(Java Development Kit) para conseguirmos compilar o código Java:

    vagrant@web$ sudo apt-get install git maven2 openjdk-6-jdk Reading package lists… Done Building dependency tree …

    ldconfig deferred processing now taking place Uma vez que essas ferramentas foram instaladas, precisamos baixar o có- digo que está hospedado no Github através do comandogit clone, e exe- cutar obuildrodando o comandomvn install:

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    Casa do Código Capítulo 2. Tudo começa em produç ão vagrant@web$ vagrant@web$ git clone https://github.com/dtsato/ loja-virtual-devops.git Cloning into ’loja-virtual-devops’…

    remote: Counting objects: 11358, done.

    remote: Compressing objects: 100% (3543/3543), done.

    remote: Total 11358 (delta 6053), reused 11358 (delta 6053) Receiving objects: 100% (11358/11358), 55.47 MiB | 1.14 MiB/s, done.

    Resolving deltas: 100% (6053/6053), done.

    vagrant@web$ vagrant@web$ MAVEN_OPTS=-Xmx256m vagrant@web$ mvn install [INFO] Scanning for projects…

    [INFO] Reactor build order:

    [INFO] loja-virtual-devops [INFO] core [INFO] admin [INFO] site [INFO] combined [INFO] —————————————————- [INFO] Building loja-virtual-devops [INFO] task-segment: [install] [INFO] —————————————————- …

    A primeira execuç ão do Maven vai demorar de 20 a 25 minutos pois di- versas coisas acontecem:

    •Sub-projetos: o projeto está organizado em 4 módulos: corepossui as configurações principais, extensões e customizações da loja virtual; siteé a aplicaç ão web da loja virtual;adminé uma aplicaç ão web restrita para administraç ão e gerenciamento da loja virtual; por fim, combinedé um módulo que agrega as duas aplicações web e o core em um único artefato. Cada módulo atua como um subprojeto que o Maven precisa realizar obuildseparadamente.

    •Resolução de dependências: o Maven irá resolver todas as dependên- cias do projeto e baixar as bibliotecas e frameworks necessários para

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    2.4. Build e deploy da aplicaç ão Casa do Código compilar e rodar cada módulo da loja virtual.

    •Compilaç ão: o código Java e GWT precisa ser compilado para execu- ção. Isso toma um bom tempo na primeira vez. O compilador Java é inteligente o suficiente para recompilar apenas o necessário embuilds subsequentes.

    •Testes automatizados: em módulos que definem testes automatizados, o Maven irá executá-los e gerar relatórios de quais testes passaram e quais falharam.

    •Empacotamento de artefatos: por fim, o módulo coreserá empaco- tado como um arquivo.jarenquanto os módulos web (site, admin ecombined) serão empacotados como um arquivo .war. Ambos os arquivosjarewarsão equivalentes a arquivoszipque você baixa regularmente da internet, no entanto a estrutura interna dos pacotes é bem definida e padronizada pelo Java: ojarcontém classes compi- ladas e serve como biblioteca enquanto owarcontém classes, biblio- tecas, arquivos estáticos e de configuraç ão necessários para rodar uma aplicaç ão web em umcontainerJava como o Tomcat.

    Ao final da execuç ão do processo debuild, se tudo correr bem, você deve ver um relatório do Maven parecido com:

    …

    [INFO] —————————————————- [INFO] Reactor Summary:

    [INFO] —————————————————- [INFO] loja-virtual-devops …………… SUCCESS [1:35.191s] [INFO] core ………………………… SUCCESS [6:51.591s] [INFO] admin ……………………….. SUCCESS [6:54.377s] [INFO] site ………………………… SUCCESS [4:44.313s] [INFO] combined …………………….. SUCCESS [25.425s] [INFO] —————————————————- [INFO] —————————————————- [INFO] BUILD SUCCESSFUL [INFO] —————————————————- [INFO] Total time: 20 minutes 31 seconds

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    Casa do Código Capítulo 2. Tudo começa em produç ão [INFO] Finished at: Sat Mar 15 02:34:24 UTC 2014 [INFO] Final Memory: 179M/452M [INFO] —————————————————- Isso significa que obuildrodou com sucesso e o artefato que nos interessa paradeployé o arquivodevopsnapratica.war do módulocombined, que se encontra no diretóriocombined/target.

    Antes de fazer odeploydo arquivowar, a última configuraç ão necessária no Tomcat é a definiç ão das fontes de dado, ouDataSource, que a aplicaç ão irá acessar para conectar com o banco de dados. Se tais definições estivessem dentro do artefato em si, nós precisaríamos realizar um novobuildtoda vez que os parâmetros de conexão com o banco de dados mudassem ou caso qui- séssemos rodar a mesma aplicaç ão em ambientes diferentes. Em vez disso, a aplicaç ão depende de recursos abstratos através da especificaç ão JNDI (Java Naming and Directory Interface). Estes recursos precisam ser configurados e expostos pelocontainer, possibilitando a alteraç ão sem necessidade de um novobuild.

    A loja virtual precisa de três fontes de dados no JNDI chamadas jdbc/web, jdbc/secureejdbc/storage. No nosso caso, usare- mos o mesmo banco de dados para os três recursos, definidos no arquivo context.xml:

    vagrant@web$ sudo nano /var/lib/tomcat7/conf/context.xml As configurações relevantes são os três elementos <Resource>e a dife- rença entre eles é apenas o atributoname:

    <?xml version=’1.0’ encoding=’utf-8’?> <Context> <WatchedResource>WEB-INF/web.xml</WatchedResource> <Resource"jdbc/web" auth="Container"

    type="javax.sql.DataSource" maxActive="100" maxIdle="30"

    maxWait="10000" username="loja" password="lojasecret"

    driverClassName="com.mysql.jdbc.Driver"

    url="jdbc:mysql://192.168.33.10:3306/loja_schema"/>

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    2.4. Build e deploy da aplicaç ão Casa do Código <Resource auth="Container"

    type="javax.sql.DataSource" maxActive="100" maxIdle="30"

    maxWait="10000" username="loja" password="lojasecret"

    driverClassName="com.mysql.jdbc.Driver"

    url="jdbc:mysql://192.168.33.10:3306/loja_schema"/> <Resourcename="jdbc/storage"auth="Container"

    type="javax.sql.DataSource" maxActive="100" maxIdle="30"

    maxWait="10000" username="loja" password="lojasecret"

    driverClassName="com.mysql.jdbc.Driver"

    url="jdbc:mysql://192.168.33.10:3306/loja_schema"/> </Context> Para fazer odeployda loja virtual em si, simplesmente precisamos copiar o artefatowarpara o lugar certo e o Tomcat fará o necessário para colocar a loja virtual no ar:

    vagrant@web$cd~/loja-virtual-devops vagrant@web$ sudo cp combined/target/devopsnapratica.war > /var/lib/tomcat7/webapps Assim como obuilddemorou um pouco, o processo dedeploytambém vai levar alguns minutos na primeira vez, pois a aplicaç ão irá criar as tabelas e popular os dados usando o Hibernate. Você pode acompanhar o processo dedeployolhando para os logs do Tomcat. O comandotail -fé útil nesse caso pois ele mostra em tempo real tudo que está acontecendo no log:

    vagrant@web$ tail -f /var/lib/tomcat7/logs/catalina.out Mar 15, 2014 2:08:51 AM org.apache.coyote.AbstractProtocol start INFO: Starting ProtocolHandler ["http-bio-8080"] Mar 15, 2014 2:08:51 AM org.apache.coyote.AbstractProtocol start INFO: Starting ProtocolHandler ["http-bio-8443"] Mar 15, 2014 2:08:51 AM org.apache.catalina.startup.Catalina start INFO: Server startup in 408 ms …

    Odeploytermina assim que você perceber que as atividades no log para- ram. Para terminar o comandotailvocê pode usarCtrl+C. Agora é só

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    Casa do Código Capítulo 2. Tudo começa em produç ão testar que tudo está funcionando: abra uma nova janela no navegador e digite a URLhttp://192.168.33.12:8080/devopsnapratica/. Parabéns, a loja virtual está em produç ão!

    Figura 2.3: Página de administraç ão da loja virtual Você também pode acessar a página de administraç ão que se encontra na URLhttp://192.168.33.12:8080/devopsnapratica/admin/(a barra no final da URL é importante). Entrando com o usuário “admin” e senha “admin” você podenavegar pelas páginas de administraç ão e gerenciar o catálogo de produtos, categorias, o conteúdo das páginas da loja virtual, gerenciar pedidos, assimcomo usuários e permissões.

    Agora que estamos em produç ão e conquistamos a última milha, pode- mos focar nos princípios e práticas de DevOps necessários para operar nossaaplicaç ão em produç ão, ao mesmo tempo permitindo que novas mudanças sejam introduzidas de forma confiável.

    Imagem 1 da página 49 (sem descrição)

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    Capítulo3 Monitoramento Agora que a loja virtual está em produç ão, conquistamos a parte mais im- portante do ciclo de vida de qualquersoftware. No entanto, este foi apenas o primeiro passo! Daqui para frente, precisamos vestir o chapéu do time de operações e nos responsabilizar pela estabilidade do sistema em produç ão:

    precisamos garantir que a loja virtual continue funcionando sem problemas.

    Como saber se o sistema está funcionando normalmente ou se está fora do ar? Você pode acessar a loja virtual manualmente e verificar se está tudo ok, porém isso leva tempo e depende de você lembrar de fazê-lo. Você tam- bém pode esperar por reclamações de seus usuários, mas essa também não é uma boa opção. Sistemas de monitoramento existem para resolver esse pro- blema. Você define quais verificações são necessárias para saber se o sistema está funcionando e o sistema de monitoramento envia notificações assim que alguma verificaç ão falhar.

    Um bom sistema de monitoramento irá alertá-lo quando algo estiver er-

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    3.1. Instalando o servidor de monitoramento Casa do Código rado, permitindo que você investigue e arrume o que estiver causando proble- mas o mais rápido possível. Desta forma, você não precisa depender de seus usuários avisarem quando algo está fora do ar, possibilitando uma abordagem mais proativa para resoluç ão de problemas.

    Neste capítulo iremos instalar um sistema de monitoramento e configurá- lo com várias verificações para garantir que a loja virtual esteja funcionando em produç ão. Utilizaremos uma das ferramentas de monitoraç ão mais utili- zadas por equipes de operações: o Nagios(http://www.nagios.org/) . Apesar de ser uma ferramenta antiga e possuir uma interface gráfica não muito ami- gável, ele ainda é uma das opções mais populares por ter uma implementaç ão robusta e um ecossistema enorme de plugins escritos e mantidos pela comu- nidade. Ao final do capítulo, nosso ambiente de produç ão incluirá um novo servidor, conforme mostra a figura3.1.

    Figura 3.1: Ambiente de produç ão da loja virtual 3.1 Instalando o servidor de monitoramento Em um sistema de monitoramento, os servidores geralmente atuam em doispapéis principais:supervisorousupervisionado. O supervisoré responsável por coletar informações sobre o resto da infraestrutura, avaliar se ela está sau- dável e enviar alertas caso encontre algum problema. Ossupervisionadossão os servidores que fazem o trabalho real que você está interessado em moni- torar. Na nossa loja virtual, o servidor web e o servidor de banco de dados

    Imagem 1 da página 52 (sem descrição)

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    Casa do Código Capítulo 3. Monitoramento serão supervisionados por um novo servidor que iremos instalar e configurar para atuar como supervisor.

    Rodar o supervisor externamente aos servidores supervisionados é uma boa prática. Se o supervisor estiver rodando na mesma máquina e algum problema acontecer, ambos ficarão indisponíveis e você não conseguirá ser alertado do problema. Por esse motivo, iremos declarar uma nova máquina virtual no arquivoVagrantfile, com o apelido monitore endereço IP 192.168.33.14:

    Vagrant.configure("2") do|config| config.vm.box ="precise32"

    config.vm.define :dbdo|db_config| db_config.vm.network :private_network, :ip=>"192.168.33.10"

    end config.vm.define :webdo|web_config| web_config.vm.network :private_network, :ip=>"192.168.33.12"

    end config.vm.define :monitordo|monitor_config| monitor_config.vm.network :private_network, :ip=>"192.168.33.14"

    end end Após salvar o arquivo, basta executarvagrant upno mesmo diretó- rio para subir o novo servidor. Se tudo der certo, a saída do comando será parecida com:

    $ vagrant up Bringing machine ’db’ up with ’virtualbox’ provider…

    Bringing machine ’web’ up with ’virtualbox’ provider…

    Bringing machine ’monitor’ up with ’virtualbox’ provider…

    ==> db: Checking if box ’hashicorp/precise32’ is up to date…

    ==> db: VirtualBox VM is already running.

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    3.1. Instalando o servidor de monitoramento Casa do Código ==> web: Checking if box ’hashicorp/precise32’ is up to date…

    ==> web: VirtualBox VM is already running.

    ==> monitor: Importing base box ’hashicorp/precise32’…

    ==> monitor: Matching MAC address for NAT networking…

    ==> monitor: Checking if box ’hashicorp/precise32’ is up to date…

    ==> monitor: Setting the name of the VM:

    blank_monitor_1394851889588_2267 ==> monitor: Fixed port collision for 22 => 2222.

    Now on port 2201.

    ==> monitor: Clearing any previously set network interfaces…

    ==> monitor: Preparing network interfaces based on configuration…

    monitor: Adapter 1: nat monitor: Adapter 2: hostonly ==> monitor: Forwarding ports…

    monitor: 22 => 2201 (adapter 1) ==> monitor: Running ’pre-boot’ VM customizations…

    ==> monitor: Booting VM…

    ==> monitor: Waiting for machine to boot. This may take a few minutes…

    monitor: SSH address: 127.0.0.1:2201 monitor: SSH username: vagrant monitor: SSH auth method: private key monitor: Error: Connection timout. Retrying…

    ==> monitor: Machine booted and ready!

    ==> monitor: Configuring and enabling network interfaces…

    ==> monitor: Mounting shared folders…

    monitor: /vagrant => /private/tmp/blank Para completar a instalaç ão básica, precisamos logar no servidor usando o comandovagrant ssh monitor. Uma vez logado, a instalaç ão do Na- gios é feita através do pacotenagios3. Porém, antes de instalar o Nagios, precisamos configurar o sistema para usar a última versão. Para isto, precisa- mos executar os seguintes comandos:

    vagrant@monitor$ > >

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    Casa do Código Capítulo 3. Monitoramento Package: nagios* Pin: release n=raring Pin-Priority: 990 vagrant@monitor$ > | sudo tee /etc/apt/sources.list.d/raring.list deb http://archive.ubuntu.com/ubuntu raring main vagrant@monitor$ sudo apt-get update Ign http://archive.ubuntu.com raring InRelease Ign http://security.ubuntu.com precise-security InRelease …

    Isso adiciona uma nova entrada na lista de pacotes com oreleasemais novo do Ubuntu – chamado “raring” – e configura as preferências do insta- lador de pacotes para dar prioridade ao novoreleasenos pacotes do Nagios.

    O comandoapt-get updatefaz com que o instalador de pacotes atua- lize seucachepara saber das novas versões disponíveis. Uma vez feito isso, podemos instalar o nagios através do comando:

    vagrant@monitor$ sudo apt-get install nagios3 Reading package lists… Done Building dependency tree …

    O Nagios possui uma dependência com o Postfix, um programa UNIX responsável por envio de e-mails. Por esse motivo, durante a instalaç ão irá aparecer uma tela rosa pedindo configurações para o Postfix. Esco- lhaInternet Sitepara seguir o processo de instalaç ão e na próxima tela, onde ele pede o nome do sistema para envio de e-mails, digite “moni- tor.lojavirtualdevops.com.br”.

    A próxima tela de configuraç ão é do Nagios, e você precisa escolher uma senha para o usuário administrador “nagiosadmin” conseguir acessar a in- terface web. Usaremos a senha “secret”. Após estas configurações, o pro- cesso de instalaç ão deve terminar e você pode testar se a instalaç ão funcio- nou abrindo o seu navegador web e visitando o endereçohttp://nagiosadmin:

    secret@192.168.33.14/nagios3. Caso você tenha escolhido outro usuário ou se- nha, modifique a URL com os dados de acesso corretos. Se tudo der certo, você verá a interface web de administraç ão do Nagios. Clicando no linkSer- vices, você verá uma tela parecida com a figura3.2.

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    3.1. Instalando o servidor de monitoramento Casa do Código Figura 3.2: Interface de administraç ão do Nagios Como você pode perceber, algumas verificações padrão – ou serviços, na terminologia do Nagios – já estão pré-configuradas. Por enquanto, o servi- dor está apenas se automonitorando, atuando tanto como supervisor quanto supervisionado. Nesta tela, cada servidor monitorado – ouhost– possui um conjunto de serviços. O servidor do Nagios está representado pelo nome lo- calhoste cada linha na tabela representa uma verificaç ão independente. O status verde “OK” significa que a verificaç ão passou, enquanto o status “PEN- DING” significa que a verificaç ão ainda não rodou. As verificações padrão são:

    •Carga atual: a carga de um sistema UNIX mede o quão ocupada a CPU está. Para ser mais exato, a carga é uma média móvel do tamanho da fila de processos esperando para executar. Quando a CPU começa a se sobrecarregar, os processos precisam esperar mais tempo para ro- dar, aumentando a fila e fazendo o sistema rodar mais devagar. Esta verificaç ão envia um alerta quando a carga atual ultrapassa um certo limite.

    •Usuários atuais: verifica quantos usuários estão logados no sistema.

    Imagem 1 da página 56 (sem descrição)

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    Casa do Código Capítulo 3. Monitoramento Essa é uma maneira simplificada de detectar intrusão no servidor e en- viar alertas quando o número de usuários logados vai além do esperado.

    •Espaço de disco: quando um servidor fica sem espaço em disco, di- versos problemas começam a aparecer. Um dos motivos mais comuns para isso é a geraç ão de logs em sistemas de produç ão. Para evitar este problema é importante monitorar quanto espaço livre ainda resta. Esta verificaç ão envia alertas quando o espaço livre atinge um certo limite.

    •HTTP: verifica que o servidor está aceitando conexões HTTP. Neste caso, o Nagios instalou um servidor web para que possamos acessar a interface de administraç ão da figura3.2. Por padrão, esta verificaç ão enviará alertas caso não consiga abrir uma conexão HTTP na porta 80.

    •SSH: verifica que o servidor está aceitando conexões SSH na porta 22 e envia alertas quando encontra algum problema.

    •Número total de processos: outra forma de avaliar se o servidor está sobrecarregado é através do número total de processos. Se muitos pro- cessos estiverem executando ao mesmo tempo, o sistema operacional vai gastar mais tempo gerenciando qual pode rodar na CPU, não so- brando tempo suficiente para que nenhum deles rode efetivamente.

    Esta verificaç ão envia alertas quando o número total de processos ul- trapassa um certo limite.

    A primeira vista, pode parecer que são muitas verificações para monito- rar um único servidor. No entanto, seguindo o mesmo princípio de escre- ver poucas asserções por teste quando desenvolvemos código usando TDD, verificações mais granulares ajudam a identificar o ponto de falha mais ra- pidamente quando algum problema acontece. Em vez de receber um alerta genérico dizendo que o servidor está com problemas, você vai ter informa- ções específicas para identificar a causa do problema mais rapidamente.

    Nas próximas seções discutiremos um pouco mais sobre os conceitos e as configurações do Nagios e aprenderemos como supervisionar outros servi- dores, como adicionar mais verificações e como receber alertas quando algo dá errado.

    Página 58

    3.2. Monitorando outros servidores Casa do Código 3.2 Monitorando outros servidores Com o Nagios instalado e efetuando verificações, precisamos configurá-lo para monitorar nossos outros servidores de produç ão. Para isto precisamos declarar onde estão os outros servidores e quais verificações executar. Cria- remos um novo arquivo para definir todas as configurações pertinentes à loja virtual:

    vagrant@monitor$ sudo nano /etc/nagios3/conf.d/loja_virtual.cfg Neste arquivo iremos declarar os servidores da loja virtual, definindo no- voshostscom os respectivos endereços IP:

    define host { use generic-host host_name 192.168.33.10 hostgroups ssh-servers, debian-servers } define host { use generic-host host_name 192.168.33.12 hostgroups ssh-servers, debian-servers } Sempre que alteramos um arquivo de configuraç ão, precisamos recarregá-los para que o Nagios detecte as mudanças. Para isto, usamos o comandoreload:

    vagrant@monitor$ sudo service nagios3 reload No Nagios, umhostrepresenta um dispositivo a ser monitorado, como por exemplo um servidor, um roteador ou uma impressora. Podemos tam- bém agruparhostssemelhantes emhost groupse definir configurações para diversos servidores de uma vez, evitando duplicaç ão. O mesmohostpode ser membro de mais de umhost group.

    No arquivo de configuraç ão/etc/nagios3/conf.d/loja_virtual.cfg, definimos que os nossos servidores são membros de dois grupos:

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    Casa do Código Capítulo 3. Monitoramento ssh-serversedebian-servers. O grupo ssh-serverscria uma verificaç ão para o serviço SSH. O grupo debian-serversnão define nenhuma verificaç ão extra, mas adiciona informações como o logotipo da Debian que aparece no ícone do servidor na interface web do Nagios.

    Para verificar que as configurações foram aplicadas com sucesso, você pode recarregar a página de administraç ão e esperar até que as novas veri- ficações SSH estejam OK, conforme mostra a figura3.3.

    Figura 3.3: Monitorando serviço SSH em mais servidores Para facilitar a configuraç ão, iremos adicionar nossos servidores a dois novoshost groups: um grupo chamado web-serverspara os servidores web e um grupo chamadodb-serverspara os servidores de banco de dados.

    Faremos isso editando o mesmo arquivo de configuraç ão:

    vagrant@monitor$ sudo nano /etc/nagios3/conf.d/loja_virtual.cfg Será preciso adicionar os novoshost groupse modificar a configuraç ão doshostsexistentes para adicioná-los aos grupos corretos:

    define hostgroup { hostgroup_name db-servers alias Database Servers

    Imagem 1 da página 59 (sem descrição)

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    3.3. Explorando os comandos de verificaç ão do Nagios Casa do Código } define hostgroup { hostgroup_name web-servers alias Web Servers } define host { use generic-host host_name 192.168.33.10 hostgroups ssh-servers, debian-servers, db-servers } define host { use generic-host host_name 192.168.33.12 hostgroups ssh-servers, debian-servers, web-servers } Após recarregar o arquivo de configuraç ão – usando o mesmo comando sudo service nagios3 reload – você pode verificar que os novos gru- pos existem clicando no linkHost Groupsna tela de administraç ão do Nagios.

    Executar diversas verificações e enviar alertas quando algo está errado são as funcionalidades mais importantes de um sistema de monitoramento como o Nagios. Na próxima seção, vamos conhecer os diversos tipos de checagens que estão disponíveis para verificar que a loja virtual está funcionando corre- tamente.

    3.3 Explorando os comandos de verificação do Nagios Cada serviço do Nagios está associado a um comando que é executado em cada verificaç ão. O comando nada mais é do que um script que pode ser exe- cutado diretamente da linha de comando. Diversos comandos já vêm instala- dos com o Nagios por padrão, porém você pode criar seus próprios scripts ou instalar plugins da comunidade para estender sua biblioteca de verificações.

    Página 61

    Casa do Código Capítulo 3. Monitoramento Vamos explorar alguns dos comandos pré-instalados, que estão disponí- veis no diretório/usr/lib/nagios/plugins. Por exemplo, o comando check_ssh, que é executado na verificaç ão do serviço SSH:

    vagrant@monitor$ vagrant@monitor$ ./check_ssh 192.168.33.12 SSH OK – OpenSSH_5.9p1 Debian-5ubuntu1 (protocol 2.0) vagrant@monitor$ 0 vagrant@monitor$ ./check_ssh 192.168.33.11 No route to host vagrant@monitor$ 2 Perceba que ao rodar o comandocheck_sshpassando o endereço IP do servidor web, ele imprime uma mensagem com um resumo de uma linha do que aconteceu. Essa mensagem geralmente é da forma<VERIFICAÇÃO> <STATUS> – <MENSAGEM COM DETALHES>, porém o que define o re- sultado da verificaç ão não é o formato da mensagem, mas sim, o código de saída do processo – ouexit code, representado pela variável$?no bash:

    •0 – OK: indica que a verificaç ão passou com sucesso. Representado pelo status verde na interface web.

    •1 – WARNING: indica que a verificaç ão passou o primeiro limite de alerta. Representado pelo status amarelo na interface web.

    •2 – CRITICAL: indica que a verificaç ão falhou e algo está errado. Re- presentado pelo status vermelho na interface web.

    •3 – UNKNOWN: indica que a verificaç ão não conseguiu decidir se o serviço está bem ou não. Representado pelo status laranja na interface web.

    Outra verificaç ão que podemos fazer é que conseguimos acessar o servi- dor web por HTTP:

    vagrant@monitor$ ./check_http -H 192.168.33.12 Connection refused

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    3.3. Explorando os comandos de verificaç ão do Nagios Casa do Código HTTP CRITICAL – Unable to open TCP socket vagrant@monitor$ 2 vagrant@monitor$ ./check_http -H 192.168.33.12 -p 8080 HTTP OK: HTTP/1.1 200 OK – 2134 bytes in 0.007 second response time …

    vagrant@monitor$ 0 Perceba que precisamos passar a opção-Hpara indicar qualhostdeve ser verificado. Além disso, como não especificamos a porta a ser verificada, o comandocheck_httpusa a porta 80 por padrão. Ao passarmos a opção -pcom o valor 8080 – a porta onde o servidor Tomcat está escutando – a verificaç ão passa com sucesso.

    Um último comando para explorarmos é a verificaç ão de quanto espaço em disco ainda está disponível:

    vagrant@monitor$ ./check_disk -H 192.168.33.12 -w 10% -c 5% /usr/lib/nagios/plugins/check_disk: invalid option — ’H’ Unknown argument Usage:

    check_disk -w limit -c limit [-W limit] [-K limit] …

    vagrant@monitor$ ./check_disk -w 10% -c 5% DISK OK – free space: / 74473 MB (97% inode=99%); …

    Perceba que, ao contrário do comandocheck_http, o comando check_disknão aceita a opção-He consegue apenas verificar quanto es- paço em disco está disponível no servidor local. Isso acontece pois o serviço HTTP é um serviço de rede acessível remotamente. Por outro lado, o co- mandocheck_diskprecisa de informações locais do servidor para deci- dir quanto espaço de disco está disponível e não pode ser executado remota- mente.

    O Nagios possui três opções quando você precisa realizar uma verificaç ão remota de um serviço que não está disponível na rede:

    •Checagem por SSH: através do comando check_by_ssh, o Nagios consegue abrir uma conexão SSH com o servidor remoto e executar o

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    Casa do Código Capítulo 3. Monitoramento comando lá. Esta é uma opção simples pois não exige a instalaç ão de nenhum agente no servidor supervisionado. No entanto, conforme o número de verificações remotas aumenta, isso pode aumentar a carga no servidor supervisor, pois ele precisará criar e destruir diversas co- nexões SSH.

    •Checagem ativa com NRPE: o Nagios Remote Plugin Executor, ou NRPE, é um plugin que permite a execuç ão de verificações que de- pendem de recursos locais no servidor supervisionado. Um processo agente do NRPE roda no servidor supervisionado e fica esperando pe- didos de verificaç ão do supervisor. Quando o Nagios precisa executar uma verificaç ão, ele pede para o agente NRPE rodá-la e coleta os resul- tados quando a verificaç ão termina. Este tipo de verificaç ão é ativa pois quem inicia o pedido de execuç ão do comando é o servidor supervisor.

    •Checagem passiva com NSCA: o Nagios Service Check Acceptor, ou NSCA, é um plugin que permite a execuç ão de verificações remotas de forma passiva no servidor supervisionado. Um processo cliente do NSCA roda no servidor supervisionado e executa as verificações peri- odicamente, enviando os resultados para um servidor NSCA que roda no supervisor. Este tipo de verificaç ão é passiva pois quem inicia a exe- cução do comando é o próprio servidor supervisionado.

    A figura3.4mostra as diferentes formas de realizar verificações com o Nagios. Verificações de serviços de rede, como check_httprodam direto do servidor supervisor. Verificações que precisam rodar no servidor super- visionado, podem ser chamadas ativamente comcheck_by_sshou através do plugin NRPE. Por fim, verificações passivas podem rodar de forma inde- pendente no servidor supervisionado e os resultados enviados para o Nagios através do plugin NSCA.

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    3.4. Adicionando verificações mais específicas Casa do Código Figura 3.4: Verificações remotas com Nagios Agora que já conhecemos os diferentes tipos de verificações do Nagios e sabemos como executar seus diferentes comandos, vamos tornar o monito- ramento da infraestrutura da loja virtual mais robusto.

    3.4 Adicionando verificações mais específicas Além das verificações padrão, você pode declarar seus próprios serviços e associá-los a um únicohostou a um grupo dehosts. Na infraestrutura da loja virtual, o servidor de banco de dados está rodando o MySQL como um serviço de rede. Podemos verificar que o serviço está disponível adicionando uma verificaç ão associada ao grupodb-serversno final do arquivo de con- figuraç ão/etc/nagios3/conf.d/loja_virtual.cfg:

    define hostgroup …

    define host …

    define service { service_description MySQL use generic-service hostgroup_name db-servers check_command check_tcp!3306 } Após recarregar o Nagios e esperar pela próxima execuç ão da verificaç ão, um novo serviço “MySQL” aparecerá com o status OK. Esta verificaç ão usa o comandocheck_tcpque tenta abrir uma conexão TCP na porta especifi- cada – nesse caso a porta onde o MySQL roda é 3306. A sintaxe do Nagios para passar argumentos para um comando é separá-los com um ponto de exclamaç ão (!).

    Imagem 1 da página 64 (sem descrição)

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    Casa do Código Capítulo 3. Monitoramento Esta verificaç ão garante que existe algum processo aceitando conexões TCP na porta 3306, porém não garante que tal processo seja o MySQL.

    Para verificar que o banco de dados realmente está lá, é preciso usar um outro comandocheck_mysql, já instalado no diretório de plugins /usr/lib/nagios/plugins. Executando diretamente da linha de co- mando, podemos ver quais argumentos ele aceita:

    vagrant@monitor$ /usr/lib/nagios/plugins/check_mysql –help …

    Usage:

    check_mysql [-d database] [-H host] [-P port] [-s socket] [-u user] [-p password] [-S] …

    Vamos então adicionar uma nova verificaç ão no arquivo de configuraç ão da loja virtual:

    define hostgroup …

    define host …

    define service …

    define service { service_description MySQL-lojavirtual use generic-service hostgroup_name db-servers check_command check_mysql_database!loja!lojasecret !loja_schema } Você deve ter percebido que o comando executado na linha de co- mando se chamacheck_mysql, porém o comando que usamos para de- clarar o serviço se chama check_mysql_database. Isso acontece pois os comandos precisam ser declarados dentro do Nagios antes de serem usados por um serviço. Nesse caso, o plugin já definiu os comandos do Nagios e podemos ver suas declarações olhando o conteúdo do arquivo /etc/nagios-plugins/config/mysql.cfg:

    vagrant@monitor$ cat /etc/nagios-plugins/config/mysql.cfg define command{

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    3.4. Adicionando verificações mais específicas Casa do Código command_name check_mysql command_line /usr/lib/nagios/plugins/check_mysql -H ’$HOSTADDRESS$’ } …

    define command{ command_name check_mysql_database command_line /usr/lib/nagios/plugins/check_mysql -d ’$ARG3$’ -H …

    } …

    O último comando permite passar argumentos para o nome de usuário, senha e qual banco de dados queremos verificar. Podemos ver também a or- dem em que os argumentos devem ser passados quando declaramos nosso serviço: o Nagios substitui os tokens$ARG1$, $ARG2$, $ARG3$pelos va- lores separados pelo ponto de exclamaç ão na respectiva ordem.

    Agora que temos nosso banco de dados monitorado, é hora de adicio- nar algumas verificações para os servidores web. Seguindo o mesmo raciocí- nio de antes, os serviços de rede expostos pelo servidor web são as conexões HTTP e HTTPS do Tomcat. O comando que podemos usar para realizar tais verificações é o check_http, também instalado no diretório de plu- gins/usr/lib/nagios/plugins. Executando diretamente da linha de comando, podemos ver quais argumentos ele aceita:

    vagrant@monitor$ /usr/lib/nagios/plugins/check_http –help …

    Usage:

    check_http -H <vhost> | -I <IP-address> [-u <uri>] [-p <port>] [-w <warn time>] [-c <critical time>] [-t <timeout>] [-L] [-a auth] [-b proxy_auth] [-f <ok|warning|critcal|follow|sticky|stickyport>] [-e <expect>] [-s string] [-l] [-r <regex> | -R <ignorecase regex>] [-P string] [-m <min_pg_size>:<max_pg_size>] [-4|-6] [-N]

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    Casa do Código Capítulo 3. Monitoramento [-M <age>] [-A string] [-k string] [-S <version>] [–sni] [-C <warn_age>[,<crit_age>]] [-T <content-type>] [-j method] NOTE: One or both of -H and -I must be specified …

    Nesse caso, apesar do plugin já declarar alguns comandos do Nagios no arquivo/etc/nagios-plugins/config/http.cfg, nenhum deles aceita o argumento-ppara passar a porta. Como o tomcat não está ro- dando na porta HTTP padrão (80), antes de associarmos um novo serviço ao grupo de servidoresweb-serversprecisamos declarar nossos próprios co- mandos. Faremos isso no arquivo de configuraç ão da loja virtual (lembrando que a barra invertida indica apenas que o comando deve ser definido todo na mesma linha):

    define hostgroup …

    define host …

    define service …

    define service …

    define command { command_name check_tomcat_http command_line /usr/lib/nagios/plugins/check_http -H ’$HOSTADDRESS$’ -p ’$ARG1$’ -u ’$ARG2$’ -e ’HTTP/1.1 200 OK’ } define service { service_description Tomcat use generic-service hostgroup_name web-servers check_command check_tomcat_http!8080!’/devopsnapratica/’ } O argumento-Hrepresenta o endereço dohostmonitorado, o primeiro argumento representa a porta da verificaç ão HTTP e o segundo argumento é a URI. Nosso comando também passa a opção-epara garantir que a resposta do servidor é um status de sucesso:HTTP/1.1 200 OK.

    Por fim, vamos adicionar uma última verificaç ão para garantir que a co- nexão SSL também funciona na porta 8443 do Tomcat:

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    3.4. Adicionando verificações mais específicas Casa do Código define hostgroup …

    define host …

    define service …

    define service …

    define command …

    define service …

    define command { command_name check_tomcat_https command_line /usr/lib/nagios/plugins/check_http -H ’$HOSTADDRESS$’ –ssl=3 -p ’$ARG1$’ -u ’$ARG2$’ -e ’HTTP/1.1 200 OK’ } define service { service_description Tomcat SSL use generic-service hostgroup_name web-servers check_command check_tomcat_https!8443!’/devopsnapratica/ admin/’ } Após recarregar a configuraç ão do Nagios e esperar pela execuç ão das novas verificações, a tela de serviços na interface de administraç ão deve estar parecida com a figura3.5.

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    Casa do Código Capítulo 3. Monitoramento Figura 3.5: Todas as verificações da loja virtual O arquivo de configuraç ão/etc/nagios3/conf.d/loja_virtual.cfg completo, ao final desta seção ficará assim:

    define hostgroup { hostgroup_name db-servers alias Database Servers } define hostgroup { hostgroup_name web-servers alias Web Servers } define host { use generic-host host_name 192.168.33.10 hostgroups ssh-servers, debian-servers, db-servers } define host { use generic-host host_name 192.168.33.12

    Imagem 1 da página 69 (sem descrição)

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    3.4. Adicionando verificações mais específicas Casa do Código hostgroups ssh-servers, debian-servers, web-servers } define service { service_description MySQL use generic-service hostgroup_name db-servers check_command check_tcp!3306 } define service { service_description MySQL-lojavirtual use generic-service hostgroup_name db-servers check_command check_mysql_database!loja!lojasecret !loja_schema } define command { command_name check_tomcat_http command_line /usr/lib/nagios/plugins/check_http -H ’$HOSTADDRESS$’ -p ’$ARG1$’ -u ’$ARG2$’ -e ’HTTP/1.1 200 OK’ } define service { service_description Tomcat use generic-service hostgroup_name web-servers check_command check_tomcat_http!8080!’/devopsnapratica/’ } define command { command_name check_tomcat_https command_line /usr/lib/nagios/plugins/check_http -H ’$HOSTADDRESS$’ –ssl=3 -p ’$ARG1$’ -u ’$ARG2$’ -e ’HTTP/1.1 200 OK’ } define service {

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    Casa do Código Capítulo 3. Monitoramento service_description Tomcat SSL use generic-service hostgroup_name web-servers check_command check_tomcat_https!8443!’/devopsnapratica/ admin/’ } Agora que temos verificações mais detalhadas sobre o funcionamento da loja virtual, a última coisa que precisamos configurar para ter um sistema de monitoramento robusto é o recebimento de alertas.

    3.5 Recebendo alertas Ter verificações detalhadas do seu sistema é apenas o primeiro passo para construir um sistema de monitoramento robusto. Não adianta nada seu sis- tema de monitoramento detectar um problema se você não puder ser avisado.

    Por isso, é importante configurarmos alertas para receber informações sobre problemas o quanto antes possível.

    Existem vários plugins do Nagios para enviar alertas de diversas manei- ras: e-mail, pager, mensagem SMS, sistemas de chat como MSN, ICQ, Yahoo, ou qualquer coisa que você puder fazer da linha de comando. Você pode inclusive definir seu próprio comando para escolher como o Nagios enviará alertas. Por padrão, o Nagios já vem configurado com dois comandos para enviar alertas por e-mail: um deles notifica que ohostestá com problemas e o outro notifica que algum serviço está com problemas. Podemos ver a defi- nição desses comandos no arquivo/etc/nagios3/commands.cfg:

    vagrant@monitor$ cat /etc/nagios3/commands.cfg …

    define command { command_name notify-host-by-email command_line /usr/bin/printf "%b" … | /usr/bin/mail -s …

    } define command { command_name notify-service-by-email command_line /usr/bin/printf "%b" … | /usr/bin/mail -s …

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    3.5. Recebendo alertas Casa do Código } …

    Além desses comandos, existem mais dois objetos do Nagios que po- dem ser configurados para decidir quem recebe os alertas e quando:con- tatoseperíodos de tempo– outime periods. Períodos de tempo de- finem quando alertas podem ser enviados e estão definidos no arquivo /etc/nagios3/conf.d/timeperiods_nagios2.cfg. Olhando o con- teúdo do arquivo podemos ver as diferentes opções, inclusive o famoso pe- ríodo de suporte 24×7 – 24 horas por dia, 7 dias por semana:

    vagrant@monitor$ cat /etc/nagios3/conf.d/timeperiods_nagios2.cfg …

    define timeperiod { timeperiod_name 24×7 alias 24 Hours A Day, 7 Days A Week sunday 00:00-24:00 monday 00:00-24:00 tuesday 00:00-24:00 wednesday 00:00-24:00 thursday 00:00-24:00 friday 00:00-24:00 saturday 00:00-24:00 } …

    Contatos são as pessoas que recebem alertas. No nosso caso, usare- mos o único contato definido no Nagios para o usuárioroot, no arquivo /etc/nagios3/conf.d/contacts_nagios2.cfg:

    vagrant@monitor$ cat /etc/nagios3/conf.d/contacts_nagios2.cfg …

    define contact { contact_name root alias Root service_notification_period 24×7 host_notification_period 24×7 service_notification_options w,u,c,r host_notification_options d,r

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    Casa do Código Capítulo 3. Monitoramento service_notification_commands notify-service-by-email host_notification_commands notify-host-by-email email root@localhost } …

    Na definiç ão do contato você escolhe o período em que o contato estará em alerta, seu endereço de e-mail, os comandos executados para enviar aler- tas e as opções de notificaç ão. Neste caso, seremos notificados quando ohost estiver indisponível (dparadown) ou recuperado (rpararecovery) e quando serviços entrarem em status de alerta (wparawarning), desconhecido (u paraunkown), crítico (cparacritical) ou recuperado (rpararecovery). O Nagios também suporta configurações para grupos de contatos quando você quer alertar um time inteiro ao invés de uma única pessoa. No entanto, não precisaremos usar esta funcionalidade neste capítulo.

    Para garantir que nossa infraestrutura consiga enviar alertas de verdade, precisamos escolher qual serviço de mensagens será usado pelo Nagios. Ape- sar de ninguém gostar de ser acordado de madrugada, times de operações precisam dar suporte 24×7 para seus sistemas e portanto preferem ser notifi- cados por pager ou SMS. No entanto, é difícil encontrar algum serviço grátis para envio de SMS, especialmente para operadoras brasileiras. Algumas op- ções de serviços online pagos com cobertura SMS internacional são oTwilio (http://www.twilio.com/) e o Nexmo(http://www.nexmo.com/) .

    Outro serviço online pago bastante usado é o PagerDuty(http://www.

    pagerduty.com/) por permitir gerenciar grupos, contatos, agenda de quem estáon-calle formas de envio de alertas num único lugar, independente do Nagios. O PagerDuty suporta envio de SMS, e-mail, ou até notificações para iPhone ou Android. Antes de começar a pagar pelo plano mensal, é possível criar uma conta de teste válida por 30 dias e o PagerDuty possui uma página bem detalhada explicando como integrá-lo com o Nagios.

    No nosso caso, para evitar uma dependência em um sistema externo pago, vamos usar a configuraç ão padrão do Nagios de envio de alertas por e-mail.

    A única configuraç ão necessária é criar um contato no Nagios para receber os alertas da loja virtual. Faremos isso editando o arquivo de configuraç ão de contatos/etc/nagios3/conf.d/contacts_nagios2.cfg, trocando o

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    3.5. Recebendo alertas Casa do Código endereço de e-mailroot@localhostpelo seu endereço de e-mail de ver- dade:

    …

    define contact { contact_name root …

    email <seu_email>@gmail.com } …

    Para que esta configuraç ão tenha efeito, precisamos recarregar o serviço do Nagios pela última vez:

    vagrant@monitor$ sudo service nagios3 reload * Reloading nagios3 monitoring daemon configuration files nagios3 …done.

    A partir de agora, qualquer alerta será enviado diretamente para o seu e- mail. Para testar que o envio de alertas está funcionando corretamente, você pode parar o serviço SSH e esperar a execuç ão das próximas verificações do Nagios:

    vagrant@monitor$ sudo service ssh stop ssh stop/waiting O Nagios irá tentar executar a verificaç ão quatro vezes antes de declarar o serviço indisponível. Assim que o serviço aparecer com status vermelho na tela de administraç ão do Nagios e o número de tentativas alcançar “4/4”, você deverá receber um alerta por e-mail. Para que tudo volte ao normal, reinicie o serviço SSH:

    vagrant@monitor$ sudo service ssh start ssh start/running, process 3424 Assim que o Nagios detectar que o serviço voltou ao normal, você rece- berá um e-mail avisando que o serviço está recuperado.

    Página 75

    Casa do Código Capítulo 3. Monitoramento 3.6 Um problema atinge produção,e agora?

    Agora que temos um sistema de monitoramento configurado para executar verificações e enviar alertas sobre eventuais problemas na infraestrutura da loja virtual, podemos simular um cenário de falha de um dos servidores. Essa também é uma boa maneira de testar se o sistema de monitoramento está funcionando corretamente.

    Vamos imaginar que nosso servidor de banco de dados tenha sofrido um problema de hardware e parou de funcionar. Para isto, basta sair da máquina virtual de monitoramento executando o comandologoutou simplesmente digitandoCTRL-De pedir para o Vagrant destruir a máquina virtual do banco de dados:

    vagrant@monitor$ Connection to 127.0.0.1 closed.

    $ vagrant destroy db db: Are you sure you want to destroy the ’db’ VM? [y/N] y ==> db: Forcing shutdown of VM…

    ==> db: Destroying VM and associated drives…

    Dentro de alguns minutos, o sistema de monitoramento irá detectar que o servidor está indisponível e enviará um alerta. A partir deste momento, usuá- rios não conseguem mais acessar a loja virtual para efetuar compras. Sendo o engenheiro responsável pela operaç ão em produç ão, você recebe a notificaç ão e responde prontamente para confirmar a falha e agora você precisa restituir o serviço.

    Olhando o console do Nagios, você verá algo parecido com a figura3.6.

    Ohostdo banco de dados e todos os seus serviços estão vermelhos, porém a verificaç ão do serviço HTTP no servidor web também falha, indicando que o problema do banco de dados está afetando a loja virtual.

  • eXtreme Programming – Práticas para o dia a dia no desenvolvimento ágil de software

    eXtreme Programming – Práticas para o dia a dia no desenvolvimento ágil de software

    Aproximadamente 31.043 palavras.

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    Casa do Código Prefácio Prefácio por Klaus Wuestefeld Poucos são os momentos na vida em que ficamos sabendo de uma ideia e dizemos, na hora: “Esta ideia vai revolucionar o mundo.”

    Aconteceu comigo quando vi pela primeira vez o Orkut (que descanse em paz). Caiu um raio na minha cabeça e eu disse: “Este negócio (rede social) vai revolucionar o mundo.”

    Antes disso, em 1999, quando eu ainda chafurdava na burocracia do CMM e do Unified Process, um estagiário da minha empresa me mandou os primeiros links sobre eXtreme Programming (XP).

    A princípio me pareceu bobagem, como “Go Horse”. Logo vi, porém, que Kent Beck, o autor de XP, e as pessoas discutindo a metodologia no primeiro wiki do mundo eram sérias e sabiam do que estavam falando. Eram, na ver- dade, os estudiosos de software mais sérios, embasados e apaixonados que eu já tinha visto.

    Para entender o que foi, para mim, ver as páginas de XP no primeiro wiki do mundo, imagine dois raios simultâneos caindo na sua cabeça: senti que tanto o wiki quanto os métodos ágeis iriam revolucionar o conhecimento e o desenvolvimento de software.

    Comecei a evangelizar XP pelo Brasil e palestrei em um evento de Java em Porto Alegre, em 2004. Estavam lá o Daniel e o Guilherme, coautores deste livro. Caiu um raio na cabeça deles e eles criaram o grupo XP-RS, que promoveu muitos encontros de discussão sobre o assunto.

    Agora, onze anos depois, escrevem este livro, mais necessário que nunca.

    Cansei de ver times tentando fazer Scrum e entregando zero software em produç ão, durante meses, sprint após sprint. Cansei de ver times com quadros de Kanban lindos na parede mas com tempo de entrega (lead-time) na ordem i

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    Casa do Código de meses.

    É fácil, hoje, fazer um cursinho de final de semana qualquer, certificar-se em charlatanismo ágil de software e sair ditando regrinhas de cerimônias que a equipe de desenvolvimento deve seguir.

    Modelos de gestão como Scrum ou Kanban (prefiro) são úteis para ajudar a escolher as histórias certas a desenvolver mas, no fim das contas, o que faz essas histórias sair do outro lado como software rodando sem bugs em produ- ção é a capacidade e dedicaç ão da equipe, usando boas práticas de artesania de software, como as deste livro.

    Sugiro às equipes que ganhem fluência, que dominem XP “by the book”, antes de inventar moda. O time mais ágil, que produziu o software de maior valor, no prazo mais apertado, nas condições mais politicamente adversas, do qual já participei, foi um time onde aplicávamos XP à risca. Pense muito bem antes de decidir que não precisa de determinada prática.

    Quando testar recursos caros ou complicados, utilize constantes que simu- lem o comportamento desses recursos (com estratégias de dummy, stub, spy, fake e mock).

    Não confunda a brevidade de alguns de seus itens, como essa frase, com falta de importância. Este livro é rico e conciso. Cada parágrafo, se explorado, daria outro livro. Já vi uma equipe de dezenas de programadores atrasar em meses seu projeto, por insistir em depender de ambientes de homologaç ão complexos em vez de seguir a dica acima.

    Outro exemplo: já vi uma equipe de uma empresa de software para o mercado financeiro desistir de programaç ão em pares sem saber por que. Está num breve parágrafo deste livro o motivo:

    Cuide do espaço físico, a mobília pode dificultar ficar lado a lado progra- mando (por exemplo em mesas de canto ou em formato de ‘L’). Os programado- res terão dores no corpo depois de um dia de programação em pares com pouca ergonomia. Uma dica é adaptar o espaço físico…

    Por onde começar? É preciso adotar todas as práticas de uma vez?

    Se tiver que escolher alguma prática pra começar, escolha o teste auto- matizado. Testar software manualmente, no século 21, é antiético, como um cirurgião operar sem lavar as mãos. Aprenda os conceitos, a essência da au- tomação de teste. Não perca tempo tentando controlar telas pra fazer testes.

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    Casa do Código Separe da tela todo código de negócios e teste-o diretamente.

    Programaç ão em pares junto com revezamento são práticas que encon- tram resistência tanto dos gestores retranqueiros quanto de alguns membros da equipe mais tímidos (respeitar) ou acomodados (incentivar) mas não de- pendem de mais nada para ser implementadas. Já vi pareamento e reveza- mento transformar uma equipe desmotivada, à beira de agressões físicas, em uma equipe de referência dentro de sua organizaç ão.

    Por fim, é vital que a equipe e seu gestor, se houver, reservem um tempo em torno de um dia (projeto novo) a dois dias (projeto com legado macarrô- nico) por semana com autonomia para a equipe investir em melhorar conti- nuamente sua própria produtividade, aprendendo técnicas como TDD e re- fatorando código. Se não houver esse tempo alocado e a equipe ficar só cor- rendo atrás de incêndios de curto prazo, é melhor largar o livro agora porque ele só vai trazer frustraç ão.

    Se, por outro lado, houver tempo para melhoria, leve este livro como guia, torça para cair um raio na sua cabeça também e boa sorte no caminho.

    Aprenda as práticas de XP, domine-as, entregue software do caralho e, aí sim, adapte-as e transcenda.

    — Klaus Wuestefeld, pioneiro em eXtreme Programming no Brasil e Key- note Speaker do Agile Brazil (2010) Prefácio por Alexandre Freire Se eu tivesse este livro que você tem em mãos na virada do milênio, e conhecesse a Programaç ão eXtrema na época, provavelmente hoje seria mi- lionário, porque teria lançado com sucesso a primeira rede social do mundo.

    Estava trabalhando em umasoftware housemultinacional, baseada em Treviso, na Itália, construindo uma rede social de times de futebol de várzea para a Diadora. Mas fazíamos isso tudo usando o “melhor”, e mais difundido, processo de desenvolvimento de software, o RUP.

    Isso significa que durante os 3 anos em que gastei meu suor e sangue, cons- truindo o incrível software desta rede social, nunca tivemos nenhum usuário, além da sócia que fazia demonstrações trimestrais para os diretores da Di- adora. E quando toda a diretoria mudou, e a empresa resolveu cancelar o projeto, foi fácil fazê-lo, pois não tinha sido lançado.

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    Casa do Código Para mim foi uma experiência muito frustrante, afinal com minha equipe tinha construído um software maravilhoso, uma rede social onde times de futebol de bairro poderiam criar uma página, postar fotos, conseguir “likes”

    de seus fãs e até organizar campeonatos. E o software funcionava que era uma beleza, ou pelo menos funcionava na minha máquina.

    Era o maior projeto da empresa, que acabou indo à falência quando per- deu esse cliente.

    Deparei-me com a pergunta:Será que não existe um jeito melhor de fazer software? De entregar mais valor, mais rápido, para os nossos clientes?. Come- cei as estudar o que na época eram as metodologias “leves” e resolvi voltar para o Brasil e para a faculdade. No ano seguinte, participei da primeira turma do Laboratório de Programaç ão eXtrema do IME/USP.

    E aí que minha vida de desenvolvedor de software mudou. Aprender e praticar Programaç ão eXtrema foi um marco muito importante na minha car- reira, e espero que com este livro, seja um marco na sua também.

    Durante muitos anos após esse primeiro encontro, pratiquei a Programa- ção eXtrema como definida nos livros do Kent Beck. Com os erros e acertos, comecei a entender como a metodologia era completa, e como cada parte era preciosa. Também aprendi a fazer algumas coisas bem difíceis muito bem, como estimar em pontos, só para descobrir no final que não precisava real- mente fazer isso!

    Mas na sua jornada, recomendo que não pule essa prática no começo, a sinergia entre as práticas de XP e o fato de que seus valores e princípios suportam todo o conjunto são umas das razões pelas quais me apaixonei por essa metodologia.

    Hoje em dia, a comunidade ágil é forte, tem presença marcante no Brasil, e somos ainda mais extremos. Pegamos algumas práticas e nos desafiamos levá- las ainda mais ao limite! Com ashistórias de usuárioe ojogo do planejamento evoluímos pra criar também omapa de histórias. Com integração contínua partimos para fazerdeploy contínuo. Com programaç ão em par radicalizamos para fazerprogramação em multirão.

    Mas algumas coisas permanecem para sempre valiosas, como as Retros- pectivas. A melhor técnica que conheço para uma equipe se aprimorar con- tinuamente. É tão universal que até já usei em outros contextos que não o iv

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    Casa do Código desenvolvimento de software.

    Se você for aprender só uma das metodologias ágeis, recomendo forte- mente que seja a Programaç ão eXtrema. Mas experimente-a completa, per- cebendo como os princípios e valores apoiam as práticas, e que estas muitas vezes só funcionam porque dependem das outras. É uma metodologia holís- tica, onde a sinergia conta muito, e com certeza vai melhorar a maneira como você desenvolve software.

    Você tem em mãos um guia definitivo para começar sua jornada, apro- veite a leitura.

    — Alexandre Freire, Diretor de Produtos da Industrial Logic e Keynote do Agile Brazil 2014.

    Prefácio por Paulo Caroli Desde 2000, tenho utilizado (e abusado) de metodologias ágeis. A minha primeira sessão em uma conferência internacional foi na OOPSLA 2000, em que apresentei o resultado da minha tese de mestrado, algo sobre Orienta- ção e Objetos e Design Patterns. Após minha apresentaç ão, fui fazer tietagem com Kent Beck por admirá-lo nos assuntos de smalltalk e design patterns, e acabei comprando seu novo livro com o títuloeXtreme Programming Explai- ned. Deu-se início um caminho sem volta – estava exposto e infectado pela primeira de muitas metodologias ágeis.

    Naquela época eu morava no Vale do Silício e estava trabalhando em uma start-up bem legal. Voltei empolgado da conferencia e logo mostrei o livro para o meu gerente da época. Ele riu e disse “Extreme programming… please do not get extreme on our codebase. Be aware of our clients and deadlines”. O livro ficou no meu cubículo (naquela época até start-ups tinham cubículos), e de tempos em tempos eu o mostrava para algum colega de trabalho.

    Testes unitários e solitários (somente eu os lia e usava). Integraç ão con- tínua com meu próprio código (os outros desenvolvedores estavam em suas branches). E assim eram meus dias de trabalho em 2000 e 2001.

    Mas eu não estava sozinho. Além de Kent Beck, outros conhe- cidos estavam falando e escrevendo sobre suas experiências com XP. Ward Cunningham populava a C2wiki (http://c2.com/cgi/wiki?

    ExtremeProgrammingRoadmap) , enquanto Martin Fowler compartilhava v

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    Casa do Código no seu site (http://martinfowler.com/articles/xp2000.html) . Mais desen- volvedores eram infectados, e compartilhavam suas experiências. E isso se alastrou até os dias de hoje, época em que XP é ensinado em faculdades, e muitas de suas práticas são visíveis em todos departamentos de TI.

    Em 2006, entrei naThoughtWorks e trabalhei com pessoas que participa- ram do início deste movimento ágil. Por exemplo, ouvi as histórias do Martin sobre o primeiro projeto XP, o C3 (Chrysler Comprehensive Compensation).

    Vivi e ouvi relatos de experiência sobre a implantações de XP ao redor do mundo. Em 2008 e 2009 constatei que até projetos de outsourcing na Índia estavam usando XP. Bah, mas eu seguia referenciando aquele livro de 2000!

    Em 2010, eu ajudei a trazer aThoughtWorks para o Brasil, abrindo seu pri- meiro escritório em Porto Alegre. A escolha da cidade não foi somente pelo famoso churrasco, mas sim por admiraç ão ao movimento de XP, e a excelente comunidade já existente. Conheci e aprendi com cada um dos autores deste livro. Daniel, Dionatan, Rafael e Guilherme estão sempre compartilhando conhecimento. Nesta obra, compartilham os valores, práticas e princípios de XP.

    Com muito orgulho, informo que este livro é um resumo do que há de melhor no mundo atual de desenvolvimento de software.

    Boa leitura, — Paulo Caroli, cofundador e agile coach daThoughtworks Brasil.

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    Página 8

    Casa do Código Agradecimentos Antes de tudo, gostaríamos de agradecer a toda a comunidade ágil brasileira, que é uma das maiores e mais participativas no mundo. Temos grandes even- tos em nossa área de métodos ágeis com agilistas muito experientes e somos gratos por isso. Obrigado por todas as trocas de experiências durante esses anos de agilidade no Brasil!

    À comunidade do antigo XP-RS, o atual GUMA-RS Grupo de Usuários de Métodos Ágeis do Rio Grande do Sul (saiba mais emhttp://www.guma-rs.

    org) , o nosso muito obrigado por ser um grande grupo fomentador da agili- dade e do eXtreme Programming!

    Obrigado, e muito, aos nossosbeta readersJamile Alves, Maurício Aniche e Rodrigo Pinho! As opiniões e sugestões de vocês foram essenciais para a melhoria do livro.

    Obrigado também a todas as pessoas da Casa do Código. Vocês nos de- ram um excelente suporte e sempre estiveram dispostos a contribuir com esta obra!

    Aos agilistas Klaus Wuestefeld, Alexandre Freire e Paulo Caroli, a nossa gratidão pelos admiráveis prefácios!

    A nossos alunos e clientes, que nos permitem praticar e aprender em con- junto, e a você leitor, o nosso muito obrigado por interessar-se neste trabalho!

    Esperamos que a leitura deste livro seja útil e agradável! 🙂 Dedico este livro aos desenvolvedores profissionais do Brasil, que se preocu- pam em entregar software de qualidade e buscam excelência técnica!— Daniel Wildt Agradeço a todos que veem nos métodos ágeis um caminho para um mundo melhor! Dedico este livro aos meus pais e irmãos!— Dionatan Moura vii

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    Casa do Código Dedico à minha família: em especial, para meus pais (Paulo e Liberta) e para minha esposa e filha (Juliana e Isabella)!— Guilherme Lacerda Agradeço à Casa do Código pela oportunidade, ao Klaus Wuestefeld, Ale- xandre Freire e Paulo Caroli pelos prefácios inspiradores, à Vivian pela dedica- ção e paciência durante a revisão deste livro, aos meus amigos e parceiros de jornada, Daniel, Dionatan e Guilherme! Além é claro da minha esposa Aline e meu filho Rafael Helm Junior, com eles ao meu lado tudo faz sentido.— Rafael Helm viii

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    Casa do Código Sobreosautores Daniel Wildt Fundador em 2004 do XP-RS Grupo de Usuários de eXtreme Programming do RS , que depois se transformou no GUMA-RS Grupo de Usuários de Méto- dos Ágeis do Rio Grande do Sul. Desde 2003, um praticante interessado pelo desenvolvimento de comunidades, organizações, equipes e pessoas em torno da agilidade. Trabalha em processos de melhoria das técnicas de engenharia de software e processos, sempre em busca de simplicidade e do aprendizado.

    Ajuda pessoas a tornarem-se melhores profissionais, equipes a crescerem por meio de melhoria contínua e produtos/serviços a serem formados. Além da formaç ão técnica, possui formaç ão de Master Trainer em Programaç ão Neu- rolinguística. É CTO na uMov.me (http://umov.me) , coach/instrutor pela Wildtech (http://www.wildtech.com.br) e facilitador no Estaleiro Liberdade (http://www.estaleiroliberdade.com.br) .

    Dionatan Moura Coach ágil na Companhia de Processamento Dados do Estado Rio Grande Sul (PROCERGS), auxiliando na entrega de maior valor ao cidadão por meio da agilidade e inovaç ão. Professor visitante na pós-graduaç ão da UniRitter Laureate International Universities. Mestre e bacharel em Ciên- cia da Computaç ão na UFRGS. Coordenador do Grupo de Usuário de Méto- dos Ageis do RS (GUMA-RS) e do Grupo de Usuários Java do RS (RSJUG).

    Foi desenvolvedor Java por sete anos, e coordenador das trilhas Java do TDC POA 2013 e 2014. Palestrante em eventos ágeis, como: Agile Brazil, TDC e XPConf; e possui as certificações: CSP, SAFe SA, PMP, CSM, PSM I, CSD, CSPO, OCPJP, CTFL, ITIL e MPS-BR. Pode ser encontrado no Twitter como @dionatanmoura e possui um blog:http://dionatanmoura.com.

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    Casa do Código Guilherme Lacerda Pioneiro em Metodologias Ágeis no Brasil, no qual atua desde 2001, com especial ênfase em Lean, SCRUM e eXtreme Programming. Trabalha como Coach, ajudando na adoção de métodos ágeis no Tribunal de Justiç a do RS.

    Professor universitário de graduaç ão (UniRitter) e de pós-graduaç ão (UniRit- ter, Unisinos, UFRGS). Mestre em Ciência da Computaç ão (UFRGS, 2005), área de Engenharia de Software e atualmente doutorando pela mesma ins- tituição, com estudos na área de Refatoraç ão e Smells. Consultor associ- ado da Wildtech, palestrante em dezenas de eventos nacionais e internaci- onais sobre o tema, e fundador e vice-coordenador do XP-RS/GUMA. Possui as certificações CSM e CSP, pela Scrum Alliance. Membro do IASA, Scru- mAlliance, ACM e SBC. Possui os blogs:http://www.guilhermelacerda.nete http://www.codingbyexample.org.

    Rafael Helm Sócio da Wildtech (www.wildtech.com.br), na qual atua como agile co- ach, instrutor e consultor. Experiência de agile coach adquirida em projetos de larga escala em organizações como Receita Federal, Procuradoria Geral da Fazenda Nacional, Ministério de Relações Exteriores, entre outras. Ins- trutor na Wildtech, tendo a oportunidade de treinar empresas e equipes de diferentes localidades do Brasil, incluindo o Ministério da Justiç a, DNIT, PROCERGS, Serpro, Totvs, entre outras. Palestrante em eventos importan- tes como Agile Brazil,The Developers Conference, FISL, XP Conf BR. Au- tor do e-bookHistórias de Usuário – Por que e como escrever requisitos de forma ágil?, que atingiu a marca de 4.000 downloads em menos de um ano (www.wildtech.com.br/historias-de-usuario). Idealizador e cofundador da XP Conf. BR, a conferência nacional sobre eXtreme Programming, e cofun- dador das conferências UX Conf. BR, DevOps Conf. BR e Empreende Conf.

    https://about.me/rafaelhelm Você pode participar da lista de discussão deste livro! Basta escrever para: livro-xp@googlegroups.com.

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    Casa do Código

    Sumário

    • Sumário 1 Por que projetos falham? 1 1.1 Cliente distante página 2
    • 1.2 A cereja do bolo página 4
    • 1.3 Testes no final página 5
    • 1.4 Trabalho empurrado página 6
    • 1.5 Dívidas técnicas página 7
    • 1.6 Conclusão página 9
    • 2 Introdução a métodos ágeis 11 2.1 O Manifesto Ágil página 12
    • 2.2 Lean Software Development página 13
    • 2.3 Scrum página 14
    • 2.4 eXtreme Programming (XP) página 16
    • 3 Valores do eXtreme Programming 19 3.1 Comunicaç ão página 19
    • 3.2 Feedback página 20
    • 3.3 Simplicidade página 20
    • 3.4 Coragem página 21
    • 3.5 Respeito página 22
    • 4 Papéis do eXtreme Programming 23 4.1 Desenvolvedor página 24
    • 4.2 Cliente página 24

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    Sumário

    • Casa do Código 4.3 Coach página 25
    • 4.4 Testador página 25
    • 4.5 Cleaner página 25
    • 4.6 Tracker página 26
    • 4.7 Gerente página 26
    • 4.8 Outros papéis página 27
    • 5 Time coeso 29 5.1 Time multidisciplinar página 30
    • 5.2 Time auto-organizável página 30
    • 5.3 Sentando lado a lado página 31
    • 5.4 As reuniões de retrospectiva e a melhoria contínua página 31
    • 6 Cliente presente 33 6.1 O que fazer quando o cliente não pode estar presente? página 35
    • 7 Histórias de usuário 37 7.1 Modelo 3C página 39
    • 7.2 Ciclo de vida página 39
    • 7.3 Utilizando um modelo de escrita página 40
    • 7.4 Refinando com INVEST página 42
    • 7.5 Implementando com tarefas SMART página 43
    • 7.6 Personas página 43
    • 7.7 Story points página 44
    • 7.8 Escrevendo boas histórias página 44
    • 7.9 Catálogo de story smells página 46
    • 8 Testes de aceitaç ão 49 8.1 Automatizaç ão página 50
    • 8.2 Validando com critérios de aceitaç ão página 50
    • 9 Liberaç ão frequente de pequenas entregas 53 9.1 Foco na qualidade é o ponto-chave página 54
    • 9.2 Releases tudo ou nada página 55

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    Casa do Código

    Sumário

    • 10 O jogo do planejamento 10.1 Definindo o jogo e suas regras página 58
    • 10.2 Entendendo regras e comprometimentos página 59
    • 10.3 Mantendo o foco página 63
    • 10.4 Todo momento é um momento de aprendizado página 64
    • 11 Spikes de planejamento 65 11.1 Jogue fora o código gerado no spike página 66
    • 12 Projeto simples do início ao fim 67 12.1 MVP: produto mínimo viável página 68
    • 13 Metáfora de sistema 71 13.1 Descobrindo uma boa metáfora página 72
    • 14 Reunião diária em pé 75 14.1 Time alinhado página 76
    • 14.2 Troca de conhecimento página 76
    • 14.3 Como começar? página 77
    • 14.4 Erros mais comuns de uma reunião em pé página 77
    • 15 Posse coletiva 81 15.1 My precious! página 82
    • 16 Padrão de codificaç ão 85 16.1 Pequenos projetos também se beneficiam? página 86
    • 16.2 Como definir? página 87
    • 17 Programaç ão em par 89 17.1 Diversos benefícios página 90
    • 17.2 Um desenvolvedor pelo preço de dois? página 91
    • 17.3 A pressão do par página 91
    • 17.4 Nivelando o conhecimento página 92
    • 17.5 Como começar? página 92

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    Sumário

    • Casa do Código 17.6 Dicas para aprimorar a programaç ão em par página 93
    • 17.7 O ambiente de trabalho página 94
    • 17.8 Especificar, projetar, trabalhar, tudo em par página 94
    • 18 Refatoraç ão de código para alta qualidade 95 18.1 Refatore impiedosamente página 96
    • 18.2 Bad smells de código página 97
    • 19 TDD: Desenvolvimento Guiado por Testes 99 19.1 Padrões de TDD página 101
    • 19.2 Show me the code página 105
    • 20 Integraç ão contínua 113 20.1 Como potencializar os benefícios? página 114
    • 20.2 Ferramentas página 116
    • 21 Ritmo sustentável 121 21.1 Velocidade do time página 122
    • 21.2 40 horas semanais página 123
    • 22 Indo além do eXtreme programming 125 22.1 Jogos e dinâmicas página 126
    • 22.2 Behaviour-Driven Development (BDD) página 127
    • 22.3 Domain-Driven Design (DDD) página 127
    • 22.4 Kanban página 128
    • 22.5 Estimando com planning poker página 128
    • 22.6 Resolvendo dívidas técnicas página 129
    • 22.7 Refatorando também o banco de dados página 130
    • 22.8 Código limpo página 130
    • 22.9 Entrega contínua e DevOps página 130
    • 22.10 Leituras sobre desenvolvimento de software página 131
    • 22.11 Artesanato de Software página 132

    Índice Remissivo 138 xiv

    Página 16

    Casa do Código Sumário Bibliografia 144 xv

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    Capítulo1 Porqueprojetosfalham?

    Culpa do cliente, do gerente de projetos, dos testadores, dos analistas de ne- gócios, do time de desenvolvimento, ou simplesmente falta de sorte? Afinal de contas, por que projetos falham, atrasam e/ou fracassam?

    Os desenvolvedores acham que faltou análise; os analistas jogam a culpa no departamento comercial que vendeu o que o software não tem e, ainda por cima, com um prazo impossível de ser cumprido; a equipe de vendas aponta para o cliente dizendo que ele não sabe o que quer; e ele, por sua vez, chama seus advogados para cancelar o contrato.

    É bem provável que você já tenha passado por isso, ou, pelo menos, quase passou.

    Infelizmente, nós, os autores deste livro, já vimos isso acontecer algumas vezes, e normalmente os motivos são os mesmos: falta de proximidade com o cliente; trabalho empurrado goela abaixo do time; codificaç ão a toque de

    Página 19

    1.1. Cliente distante Casa do Código caixa produzindo código sujo; tempo desperdiç ado desenvolvendo o que o cliente não pediu (a famosa cereja do bolo); e o retrógado hábito de testar o software apenas na véspera da sua data de entrega.

    Sendo assim, achamos importante começarmos este livro reforçando por que você não deve cometer estes erros clássicos em seus projetos, para, so- mente depois, entrar no conteúdo doeXtreme Programmingpropriamente dito. Leia com atenção e lembre-se: antes de prescrever o remédio, é necessá- rio identificar a doença.

    1.1 Cliente distante Cena corriqueira em times de desenvolvimento de software: o desenvolve- dor recebe uma especificaç ão para trabalhar, e, enquanto está codificando, percebe que algum detalhe passou despercebido pelo processo de análise do requisito. Isto gerou uma dúvida que o impede de prosseguir seu trabalho com segurança; ou seja, o desenvolvedor não tem certeza do que exatamente deve ser feito.

    Nesses casos de incerteza, normalmente ele procura o analista ou a pessoa responsável por aquela especificaç ão (ou pelo menos deveria fazer isso), e questiona sobre a dúvida que o impede de avançar no código com a certeza de que está fazendo o que foi pedido.

    Quando isso ocorre, é esperado que o analista saiba responder os questi- onamentos do desenvolvedor e o conduza de volta ao caminho correto a ser seguido. O problema é que as pessoas não sabem tudo, incluindo eu, você, e todos os que nós conhecemos. É normal que, em alguns casos, o analista não consiga responder a dúvida do desenvolvedor, pelo menos, não de imediato.

    Quando as dúvidas surgem e ninguém do time sabe o que fazer, a melhor decisão é falar com o cliente, seja por meio de uma reunião, telefone, skype, e-mail ou qualquer outra forma de comunicaç ão. O necessário é falar com ele!

    Entrar no ciclotentativa/ erro/ tentativa/ erro/ …jamais deve ser uma op- ção. As pessoas até podem acertar de vez em quando, mas, na média, essa atitude vai gerar retrabalho lá na frente, além de frustrar o cliente e, posteri- ormente, o time.

    Página 20

    Casa do Código Capítulo 1. Por que projetos falham?

    Sabemos que nem sempre ele estará disponível. Mesmo que esteja fisica- mente próximo de você e de seu time, ele pode simplesmente não estar livre ou interessado em ajudar; quer dizer, não quer se envolver. Até porque já pa- gou uma boa grana para uma empresa fazer seu software e espera que o time de desenvolvimento saiba como fazê-lo.

    Pois bem, este cenário é o que chamamos decliente distante. Acredite, projetos com clientes distantes têm uma grande tendência a serem entregues com atraso, estourarem o orçamento, os frustrarem ao entregar funcionali- dades que não atendam suas expectativas, ou todas as alternativas anteriores juntas (fracasso tremendo).

    E qual é a solução?

    Precisamos aproximar o cliente desde o início do projeto, deixando bem claro que, a qualquer momento, ele poderá ser acionado para tirar dúvidas, e que a cada funcionalidade, ele poderá ser chamado para realizar uma valida- ção. Ou seja, dar seu consentimento sobre se aquele recurso ficou de acordo com o que esperava, ou indicar o que precisa ser ajustado para atendê-lo, caso o resultado não satisfaç a suas expectativas.

    Porém, é necessário tomar cuidado. Pedir o aceite do cliente não signi- fica pedir para ele testar. O teste do software é responsabilidade do time de desenvolvimento e, acredite em nós, eles não gostam de testar software. E, principalmente, não ficam nada felizes quando encontrambugsnele.

    Quando pedimos para ele validar ou aceitar uma funcionalidade, na ver- dade estamos buscando umfeedback. Queremos confirmar se aquela função que acabou de sair do forno está de acordo com a sua expectativa. Estamos buscando segurança para continuar o desenvolvimento do projeto, tendo cer- teza de que os passos dados até agora foram realizados na direção correta.

    E se o cliente odiar a funcionalidade desenvolvida, dizendo que está to- talmente fora do que ele esperava? Ótimo! Nós conseguimos falhar rápido e teremos tempo para corrigir, adaptar ou até mesmo refazer o recurso, conse- guindo finalmente entregar algo de valor a ele. Imagine como seria desagra- dável se, somente no final do projeto, nós descobríssemos que algumas (ou várias) funcionalidades não ficaram de acordo com sua expectativa? Seria terrível! E provavelmente nosso tempo já estaria esgotado.

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    1.2. A cereja do bolo Casa do Código Então, aproxime-se de seu cliente e mantenham-se próximos!

    1.2 Acereja do bolo Você tem seus clientes e eles têm expectativas. Se algumas empresas que pro- duzem software criassem uma confeitaria especializada em bolos, muitos cli- entes receberiam apenas uma receita, ensinando como fazer omalditobolo.

    Digamos que isso não gera nem tanto valor, nem satisfaç ão. Ele estava com fome, queriasócomer um bolo.

    Outros clientes com um pouco mais de sorte receberiam uma massa, nem tão bem batida, mas que faria um belo bolo “abatumado”. Depois de perder vários prazos com o mesmo cliente (o qual, por alguma magia, ainda segue comprando bolo daquele local), acontece que, eventualmente, a empresa con- segue terminar o bolo, exatamente como ele pediu. Só que, lembra das suas experiências anteriores, nas quais ele não o recebeu? Então, a empresa não pode entregar só um simples bolo. É preciso entregar algo maior, algo a mais.

    Surpreender!

    Não precisamos da cereja do bolo! Ou se você gosta de usar o PMBOK® (Project Management Body of KnowledgeCorpo de Conhecimento em Ge- rência de Projetos) como exemplo; estamos falando doGold Plating.

    Se o seu cliente solicita um relatório com as colunas A, B e C; o time deve desenvolver, com qualidade e dentro do prazo, o relatório com as colunas A, B e C. Simples assim!

    Entregar um relatório com as colunas A, B, C, X e Y não faz sentido ne- nhum! Se ele quisesse que as colunas X e Y aparecessem no relatório, teria solicitado. Neste caso, X e Y são a tal cereja do bolo da qual estamos falando.

    Vamos lembrar de algo bem importante. Nosso cliente tem uma grande expectativa: receber aquilo que ele pediu! E ele possui outras também! Quer receber o mais rápido possível, com a mais alta qualidade e o menor custo. E com o menor desperdício possível, é claro. Colocar uma cereja no bolo não vai ajudá-lo a esquecer as falhas anteriores. Nem nas próximas entregas.

    E qual é a solução?

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    Casa do Código Capítulo 1. Por que projetos falham?

    Simplicidade: maximizar o trabalho que não deve ser feito. A meta do time deve ser trabalhar com o cliente para enxugar as funcionalidades neces- sárias. Deve-se questionar muito sua visão de valor.

    Muitos recursos sugeridos por ele não possuem um método fácil de me- dir o valor ou, até mesmo, o Retorno Sobre Investimento (ROIReturn On Investment). Uma simples classificaç ão para entender o valor e o risco de fa- zermos uma determinada funcionalidade pode ser uma boa racionalizaç ão para ajudar na seleção do que precisa ser feito.

    Indo nessa linha, vamos começar trabalhando naquilo que possui alto risco e valor, e descobrir rapidamente se temos algum problema. Lembra da estratégia de falhar rápido? Esse é o jogo. O mundo perfeito é trabalhar na- quilo que possui alto valor e um baixo risco!

    Não queremos trabalhar naquilo que possui baixo valor. O único motivo para isso está relacionado às leis, nas quais temos que seguir para a conformi- dade e evitar alguma multa. De resto, fuja daquilo que não tem valor claro.

    Foque na entrega de valor para seu cliente.

    1.3 Testes no final Afinal, por que testamos? Aliás, é necessário realmente testar?. Ou pior: se sobrar tempo, testamos!

    Essas expressões são comumente ditas por profissionais de software. In- felizmente.

    Deixe-nos explicar melhor: desenvolver software é um processo produ- tivo, no qual executamos tarefas de investigaç ão, design, programaç ão, testes, entre outros. A forma como a indústria começou a desenvolver seus modelos (e independente do modelo a ser adotado) engloba essas etapas.

    A questão a ser observada no processo é que a preocupaç ão com os tes- tes só existe no final. Além de acontecer isoladamente, não se enxerga seu verdadeiro valor, nem sua relaç ão com a qualidade do produto.

    Por esses motivos, os testes não são levados a sério. Por isso, pagamos o preço do retrabalho ao entregar funcionalidades erradas e com falhas. Isso gera desconfiança e estressa uma relaç ão que precisa ser totalmente diferente para atingirmos o objetivo.

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    1.4. Trabalho empurrado Casa do Código E qual é a solução?

    Precisamos trabalhar nos recursos até eles estarem prontos de verdade; ou seja, não podemos permitir que exista dentro do time de desenvolvimento o conceito de queestá pronto, só falta testar.

    O teste não deve ser encarado como uma etapa à parte, como algo extra.

    Os processos de desenvolvimento e testes devem ser vistos como uma única etapa. Esqueça odesenvolver primeiro, testar mais tarde, e busque o desenvol- ver + testar. Entende a diferen ça? As funcionalidades não são testadas mais tarde; elas são testadas agora.

    1.4 Trabalho empurrado Imagine a cena: o gerente de projetos avisa o time de desenvolvimento de que a empresa fechou um novo contrato e que o software deve ser entregue em uma determinada data, deixando já bem claro a todos que não existe possibi- lidade de não a cumprir.

    O time de desenvolvimento começa a analisar os requisitos e gerar as ta- refas, e logo percebe que, para cumprir a data já firmada com o cliente, que inclusive consta no contrato, será necessário produzir em uma velocidade muito acima do habitual. Ao notar isso, o nível de estresse do time é elevado, o ambiente fica tenso e os desenvolvedores programam a toque de caixa, co- meçando a gerar um código sujo, mal estruturado e em cima de requisitos especificados de forma superficial. Como o tempo era curto, ninguém quis perdermuito tempo com especificaç ão, assim todos já foram logo metendo a mão na massa.

    Esse é um claro cenário de trabalho empurrado, que gera muito caos e pouco resultado!

    E qual é a solução?

    Se trabalho empurrado é um problema, trabalho puxado é a soluç ão. O ideal é que esteja à disposiç ão do time o que for necessário para o desen- volvimento de software e que as tarefas estejam corretamente priorizadas e, se possível, dispostas em um mural contendo todas as que serão trabalhadas

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    Casa do Código Capítulo 1. Por que projetos falham?

    nos próximos dias. Desse modo, uma ou mais pessoas puxam as tarefas e tra- balham nelas até o fim, nunca esquecendo dedesenvolver + testar, em vez de desenvolver primeiro, testar mais tarde.

    Após terminar a tarefa, o desenvolvedor vai até o mural, dá uma olhada nas próximas da fila e puxa aquela em que ele sente que consegue trabalhar.

    Claro que é necessário que ele faç a isso com responsabilidade; ou seja, é im- portante que, dentro do possível, ele siga a priorizaç ão. A exceção a essa regra pode ocorrer quando a próxima tarefa da fila refere-se, por exemplo, a um módulo que ele não conhece ou a uma tecnologia com qual ele não se sente seguro. Porém, esses casos são ótimas oportunidades para trabalhar em par com outra pessoa do time e aprender algo novo, tanto em termos de negócio, quanto de tecnologia.

    Nós acreditamos fortemente no trabalho puxado e sempre orientamos nossos times a trabalharem desta forma, de preferência baseados em um mu- ral que permita gestão visual das tarefas e do progresso de trabalho, seja no meio físico ou virtual (no caso de equipes distribuídas).

    Sabemos que quebrar a cultura do trabalho empurrado não é fácil, pois existe (principalmente na cabeça da maioria dos gestores) uma barreira muito forte em relaç ão a isso. Entretanto, garantimos que vale a pena tentar. Durante o livro, vamos mostrar ferramentas e táticas que nos ajudarão nessa missão, como: time coeso, posse coletiva, liberaç ão frequente de pequenas entregas, trabalho em pares, jogo do planejamento, e outros tópicos que ajudam a im- plantar a cultura de trabalho puxado.

    1.5 Dívidas técnicas O projeto começa e o time de desenvolvimento está trabalhando com alta produtividade. Várias partes do software vão sendo construídas e todos estão felizes.

    Passadas algumas semanas, a produtividade caiu um pouco e a euforia do time passou; mas o projeto ainda transcorre dentro da normalidade e eles ainda estão relativamente contentes.

    Passadas mais algumas semanas, a produtividade cai drasticamente e muitos bugs começam a ser encontrados. Nesse momento, o time já está com

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    1.5. Dívidas técnicas Casa do Código a moral baixa, o cliente notou que o projeto não anda bem, o custo de mu- dança de qualquer funcionalidade é muito alto, e você não entende o motivo dessa queda; afinal de contas, o time é bom, a especificaç ão foi bem feita, o cliente está próximo, a comunicaç ão flui e as pessoas são comprometidas. O que está acontecendo?

    É bem provável que o projeto possua uma dívida técnica grande.

    O termodívida técnicaé utilizado para indicar trechos de código que fo- ram mal escritos, ou escritos de qualquer forma, sem refatorar, sem testes automatizados e sem respeitar padrões. São as chamadasgambiarrasouba- cas. Com o passar do tempo, esses trechos atrapalharão os desenvolvedores e mudanças que, teoricamente, seriam simples, passam a levar muito tempo para serem realizadas.

    É provável que você já tenha deparado-se com uma funcionalidade pra- ticamente impossível de ser evoluída, tamanha era a falta de qualidade do código. Em alguns casos, quando isso ocorre, somos obrigados a refazê-la toda, pois o código tornou-se ilegível e isso gera um grande desperdício de tempo e dinheiro.

    Muitos desenvolvedores ainda consideram que qualidade do código é algo extra e que o foco é entregar software com qualidade, não necessariamente produzindocódigode qualidade. Essa é uma escolha perigosa, porque, a me- nos que o projeto seja bem pequeno, o desenvolvedor precisará pagar a conta da dívida técnica produzida, ou simplesmente o projeto vai parar.

    E qual é a solução?

    São excelentes formas de evitar a dívida técnica: especificar requisitos com o formato de histórias de usuários, projeto simples, padrão de codifi- cação, desenvolvimento guiado por testes (TDD), programaç ão em pares, re- fatoraç ão, integraç ão contínua, boas práticas de programaç ão e ritmo susten- tável.

    Mas, se você não sabe como implantar essas práticas no seu time de de- senvolvimento, fique tranquilo! Estamos apenas no começo do livro e abor- daremos esses assuntos mais à frente.

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    Casa do Código Capítulo 1. Por que projetos falham?

    1.6 Conclusão Quando um projeto falhar, não tente encontrar um culpado, olhe para o pas- sado e procure identificar se algum dos problemas ocorreu em seu projeto.

    Precisamos sempre buscar sua causa raiz. Não busque culpados, busque en- tender o que ocorreu e converse com seu time para tentar encontrar uma so- lução, um melhor caminho a ser seguido.

    Reuniões de retrospectiva de projeto são ótimas oportunidades de levan- tar problemas e discutir soluções com seu time. Mais à frente, falaremos sobre elas.

    Lembre-se: em métodos ágeis, incluindo o eXtreme Programming, deve- mos sempre trabalhar com a mente aberta para realizar adaptações em nosso processo de trabalho, a fim de buscar melhoria contínua. É uma busca infinita pelofazer melhor.

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    Capítulo2 Introduç ãoamétodoságeis Em fevereiro de 2001, em Utah, 17 profissionais experientes (consultores, de- senvolvedores e líderes) da comunidade de software reuniram-se para discutir alternativas aos processos e às práticas burocráticas utilizadas nas abordagens tradicionais de Engenharia de Software e Gerência de Projetos. Assim nasceu oManifesto Ágil[17], destacando as diferenças em relaç ão às abordagens tra- dicionais.

    A principal diferença das metodologias ágeis em relaç ão às tradicionais é o enfoque na adaptaç ão, visando ter o mínimo realmente necessário para a realizaç ão do trabalho. Com essa estratégia, busca-se aceitar e trabalhar a mudança, reduzindo custos de implementaç ão.

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    2.1. O Manifesto Ágil Casa do Código 2.1 O ManifestoÁgil O Manifesto Ágil é uma declaraç ão dos valores e dos princípios que funda- mentam o desenvolvimento ágil de software. Ele foi assinado em 2001 por dezessete profissionais de software que já vinham experimentando metodo- logias e práticas mais leves e enxutas. Isso foi tão bem recebido pela comu- nidade que alguns desses desenvolvedores ganharam o mundo palestrando sobre o assunto. O Manifesto Ágil possui 4 valores e 12 princípios, que vamos apresentar em seguida.

    Os 4 valores do Manifesto Ágil são:

    • Indivíduos e interações mais queprocessos e ferramentas; • Software em funcionamentomais quedocumentaç ão abrangente; • Colaboraç ão com o clientemais quenegociaç ão de contratos; • Responder a mudançasmais queseguir um plano.

    E os 12 princípios do Manifesto Ágil são:

    1) Nossa maior prioridade é satisfazer o cliente por meio da entrega contínua e adiantada de software com valor agregado; 2) Mudanças nos requisitos são bem-vindas no desenvolvimento, mesmo tardiamente. Processos ágeis tiram vantagem das mudanças, visando van- tagem competitiva para o cliente; 3) Entregar frequentemente software funcionando, de poucas semanas a poucos meses, com preferência à menor escala de tempo; 4) Pessoas de negócio e desenvolvedores devem trabalhar diariamente em conjunto por todo o projeto; 5) Construa projetos em torno de indivíduos motivados. Dê a eles o ambiente e o suporte necessários e confie neles para fazer o trabalho; 6) O método mais eficiente e eficaz de transmitir informações para (e entre) uma equipe de desenvolvimento é por meio de conversa face a face;

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    Casa do Código Capítulo 2. Introduç ão a métodos ágeis 7) Software funcionando é a medida primária de progresso; 8) Os processos ágeis promovem desenvolvimento sustentável. Os patrocina- dores, desenvolvedores e usuários devem ser capazes de manter um ritmo constante indefinidamente; 9) Contínua atenção à excelência técnica e bom design aumentam a agili- dade; 10) Simplicidade a arte de maximizar a quantidade de trabalho não realizado é essencial; 11) As melhores arquiteturas, requisitos e designs emergem de equipes auto- organizáveis; 12) Em intervalos regulares, a equipe reflete sobre como tornar-se mais eficaz e, então, refina e ajusta seu comportamento de acordo.

    Esses princípios, se bem compreendidos pelo cliente e pelo time, promo- vem uma mudança de atitude. O cliente consegue enxergar valor mais rapida- mente nas entregas frequentes do software e, à medida que visualiza a soluç ão, consegue refletir sobre alternativas e prioridades. O time trabalha mais mo- tivado, porque consegue enxergar valor no seu trabalho que, por meio de fe- edback constante, aprimora continuamente. O bom relacionamento melhora para ambos, visto que a confiança se faz cada vez mais presente.

    Com base nesses valores e princípios, aparecem três abordagens mais es- pecíficas que vêm proporcionado ótimos resultados, seguindo a essência do Manifesto Ágil. A seguir, elas são apresentadas rapidamente.

    2.2 LeanSoftwareDevelopment O Lean, ou Sistema Toyota de Produç ão (STP), revolucionou a indústria da manufatura, tanto pela geraç ão de valor para o cliente, quanto para a satisfa- ção de trabalho para o time. Essas suas características serviram de base para o casal Mary e Tom Poppendieck identificar semelhanças com o desenvolvi- mento ágil de software, criando oLean Software Development(LSD) [50].

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    2.3. Scrum Casa do Código Com base nos seus pensamentos, foram identificados 7 princípios para o desenvolvimento de software:

    1) Eliminar desperdícios; 2) Incluir qualidade no processo; 3) Criar conhecimento; 4) Adiar comprometimentos; 5) Entregar rápido; 6) Respeitar as pessoas; 7) Otimizar o todo.

    O modo Lean de pensar é muito útil para criar uma cultura de melhoria contínua nas equipes. Seus princípios são perfeitamente alinhados aos valores e às práticas do Manifesto Ágil.

    2.3 Scrum O Scrum surgiu na década de 90, criado por Ken Schwaber, Jeff Shuterland e Mike Beedle. Seu principal objetivo é prover um framework de gestão ágil para desenvolver e manter produtos complexos [51].

    Nele, a partir de umBacklog de Produtoinicial, o trabalho que será rea- lizado é priorizado na iteraç ão, denominadaSprint. O desenvolvimento do Backlog da Sprintgera um incremento entregável do produto ao final de cada Sprint, na reunião deRevisão da Sprint. Esse trabalho é desenvolvido com a sincronizaç ão diária doTime de Desenvolvimento, na Reunião Diária. Ao final daSprint, é realizada a reunião deRetrospectiva da Sprint, com o objetivo de reduzir riscos e promover a melhoria contínua. ODono do Produtoé o papel responsável pelo gerenciamento do produto e oScrumMasteré pelo processo, ajudando oTime de Desenvolvimentoa resolver seus impedimentos.

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    Casa do Código Capítulo 2. Introduç ão a métodos ágeis Scrum precisa das práticas técnicas do XP Scrum é um framework bastante popular atualmente e muito utilizado para o gerenciamento de projetos, produtos e times. Por dar mais ênfase no gerenciamento de atividades e tarefas, ele pode (e deve) ser utilizado em con- junto com outros métodos e processos que focam em engenharia ágil de soft- ware, como o eXtreme Programming.

    Jeff Sutherland, cocriador do Scrum, diz que o Manifesto Ágil é sobre Scrum com práticas de engenharia do eXtreme Programming, e essa combi- nação é o framework preferencial [55].

    Veja também o que Ron Jeffries, Martin Fowler e James Shore falam da necessidade das práticas do XP na utilizaç ão do Scrum:

    “Você não vê times Scrum de alto desempenho sem práticas de engenharia do XP. É difícil escalar times XP sem Scrum, e Scrum soluciona os assuntos de interface com a gestão. Seja cuidadoso ao fazer partes de qualquer coisa e chamar isso de ágil.”

    –Ron Jeffries e Jeff Sutherland [56] “Se você estiver procurando introduzir Scrum, certifique-se de prestar uma boa atenção às práticas técnicas. Nós tendemos a aplicar muitas dessas a partir do Extreme Programming e elas se encaixam muito bem.”

    –Martin Fowler [25] “XP e Scrum são as melhores maneiras que nós sabemos para trabalhar bem em conjunto. Eles não são necessários pode haver outras maneiras e eles certamente não são suficientes há um milhão de coisas que devemos fazer para ser bem-sucedido, e elas não estão todas escritas nos livros.”

    –Ron Jeffries [32] “Sem práticas de engenharia ágil do XP, a qualidade do código e a produtividade diminui assintoticamente ao longo do tempo. Com elas, a produtividade começa inferior, mas em seguida aumenta assintoticamente.”

    –James Shore [52]

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    2.4. eXtreme Programming (XP) Casa do Código 2.4eXtremeProgramming(XP) O eXtreme Programming é uma metodologia ágil de desenvolvimento de software voltada para times de pequeno a médio porte, no qual os requisi- tos são vagos e mudam frequentemente. Desenvolvido por Kent Beck, Ward Cunningham e Ron Jeffries [6], o XP tem como principal tarefa a codifica- ção com ênfase menor nos processos formais de desenvolvimento e com uma maior disciplina de engenharia ágil de software para codificaç ão e testes. Tem como valores a comunicaç ão, a simplicidade, o feedback, a coragem e o res- peito.

    O XP valoriza a automatizaç ão de testes, sendo estes criados antes, du- rante e depois da codificaç ão. É flexível para a mudanças de requisitos, valo- rizando o feedback com o usuário e a qualidade do código-fonte final.

    A ideia principal do XP é a criaç ão de software de alta qualidade, abando- nando todo tipo deoverheadde processo que não suporte diretamente a en- trega de valor. Ele é orientado explicitamente às pessoas e vai contra o senso comum do gerenciamento de que elas são peças intercambiáveis dentro do processo de desenvolvimento.

    Sinergia entre as práticas Nos próximos capítulos, detalharemos os valores, os papéis e as diversas práticas do XP, trazendo a teoria e a prática com muitas dicas. Uma prática do XP, um valor ou um papel serve como suporte para outras práticas, outros valores e outros papéis do próprio XP, criando uma sinergia. Por exemplo, as histórias de usuário são base para os testes de aceitaç ão, no qual rodarão na integraç ão contínua e permitirão pequenas entregas, auxiliando no ritmo sus- tentável e na comunicaç ão do time de desenvolvimento com o cliente. Quanto mais afinados eles estiverem, mais benefícios o XP trará ao desenvolvimento de software.

    Esperamos que você navegue de forma prazerosa pelas páginas a seguir.

    Para auxiliá-lo nisso, disponibilizamos abig picturedo XP com seus valores e práticas de gestão, planejamento, projeto e codificaç ão (vide imagem a se- guir). Você pode baixar e imprimi-la em [2].

    Esperamos também que este livro mude sua forma de pensar e agir (se

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    Casa do Código Capítulo 2. Introduç ão a métodos ágeis ainda não mudou), e ajude você, seus clientes e seu time a atingirem satisfa- toriamente seus objetivos, de preferência dentro do prazo, custo e orçamento previstos. 🙂 Fig. 2.1: Big picture do XP. Imagens de Freepik (http://www.flaticon.com/authors/freepikhttp://www.flaticon.com) com a licen ça Cre- ative Commons BY 3.0 (CC BY 3.0) (http://creativecommons.org/licenses/by/3.0/)

    Imagem 1 da página 34 (sem descrição)

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    Capítulo3 ValoresdoeXtreme Programming O eXtreme Programming define cinco valores para que seus papéis e práticas funcionem em sinergia de acordo com sua essência ágil: a comunicaç ão, o feedback, a simplicidade, a coragem e o respeito; que serão descritos a seguir neste capítulo.

    3.1 Comunicação Ter foco na comunicaç ão é essencial em projetos de software, pois é a prin- cipal forma de transmitir e trocar informações e conhecimentos. Por essa razão, é importante incentivar meios eficazes de comunicaç ão, cujo valor está presente no Manifesto Ágil e na maioria das práticas de XP.

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    3.2. Feedback Casa do Código Ela pode ocorrer de várias formas, como, por exemplo: e-mail, telefone, skype (ou outras ferramentas de chat instantâneo), teleconferência, conversa face a face etc. Porém, é preciso entender que nem todas possuem a mesma efetividade.

    A forma mais eficiente é a conversa face a face, usando um quadro branco como apoio para rabiscar ideias e/ou rascunhos sobre arquitetura de software.

    Distribuir quadros brancos no ambiente de desenvolvimento pode funcionar muito bem para estimular discussões de arquitetura, fluxos, algoritmos e, as- sim, aumentar a possibilidade de implementar certo logo na primeira tenta- tiva.

    A comunicação incentiva diretamente outro valor essencial no XP: o fe- edback.

    3.2 Feedback Na adoção das práticas, o feedback é realizado a todo momento, seja em re- lação aos requisitos do cliente, ao resultado da execuç ão de testes unitários, ou na compilaç ão do código na integraç ão contínua. A compreensão das ne- cessidades dos usuários e do negócio propriamente dito é um aprendizado constante. A razão de adotarmos estratégias iterativas e incrementais é que isso permite que os inevitáveis erros das pessoas sejam descobertos o mais cedo possível e reparados de forma metódica.

    3.3 Simplicidade A simplicidade é outro valor presente nas práticas XP, e a chave e a diretriz de um projeto ágil. Ela visa manter o trabalho o mais simples e focado possível, entregando somente o que realmente agrega valor. Acrescentar suporte para futuras funcionalidades de forma desnecessária complica odesigne eleva o esforço para desenvolver incrementos subsequentes.

    Infelizmente, projetar um design simples não é algo fácil, pois muitos ti- mes já estão acostumados com a prática de futurologia, sofrendo da Síndrome de Nostradamus; ou seja, mesmo sabendo o que o cliente quer hoje, eles in- sistem em tentar desenvolver uma soluç ão que também resolva problemas

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    Casa do Código Capítulo 3. Valores do eXtreme Programming futuros. O ponto é: não temos certeza sobre o que vai acontecer no futuro, então precisamos nos focarapenasnos problemas e necessidades atuais do nosso cliente.

    Lembre-se: busque sempre desenvolver o suficiente de forma simples e com qualidade.

    3.4 Coragem A coragem também é incentivada por meio do uso das práticas do XP. Por exemplo, o desenvolvedor apenas se sentirá confiante para refatorar o código criado por outro colega caso o time tenha um padrão de codificaç ão e posse coletiva do código. Além dessa prática, o uso de controle de versão e testes unitários também encorajam isso. Além desses medos naturais de alteraç ão de código, tem-se uma série de preocupações que exercem influência nos pro- cessos de desenvolvimento.

    O cliente teme:

    • Não obter o que foi solicitado/contratado; • Pedir a coisa errada; • Pagar demais e receber pouco; • Jamais ver um plano relevante; • Não saber o que está acontecendo (falta de feedback); • Ater-se às primeiras decisões de projeto e não ser capaz de reagir à mu- dança do negócio.

    Já o desenvolvedor teme:

    • Ser solicitado a fazer mais do que sabe fazer; • Ser ordenado a fazer coisas que não faç am sentido; • Ficar defasado tecnicamente;

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    3.5. Respeito Casa do Código • Receber responsabilidades, mas sem autoridade; • Não receber definições claras sobre o que precisa ser feito; • Sacrificar a qualidade em função do prazo; • Resolver problemas complexos sem ajuda; • Não ter tempo suficiente para fazer um bom trabalho.

    Um verdadeiro time XP é composto de indivíduos corajosos que confiam em suas práticas, bem como nos seus colegas de time. A coragem faz-se ainda mais necessária nos momentos de crise.

    3.5 Respeito O respeito pelos colegas de time e pelo cliente é muito importante. Pessoas que são respeitadas sentem-se valorizadas. Os membros do time precisam respeitar o cliente; o cliente precisa respeitar os membros do time; e, além disso, o cliente deve fazer parte das decisões.

    Os desenvolvedores nunca devem realizar mudanças que quebrem a com- pilação e que fazem os testes de unidade falharem ou realizarem outras ações que possam atrasar o trabalho ou o progresso do time.

    Todos no time devem respeitar a posse coletiva do código, sempre pri- mando pela qualidade e buscando um design simples por meio da refatora- ção.

    A adoção dos demais quatro valores do XP conduzirá a este quinto valor:

    o respeito. Isso vai garantir um alto nível de motivaç ão, além de incentivar a lealdade entre todas as pessoas envolvidas no projeto, criando um verdadeiro senso de trabalho em equipe.

    O ponto é: como se adquirem confiança e respeito? Obviamente, entre- gando softwares que funcionam. E mais que isso, o respeito é fundamental para uma relaç ão transparente e duradoura. É isso que realmente forma a parceria e a colaboraç ão de todos envolvidos, algo essencial para a entrega contínua de valor.

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    Capítulo4 PapéisdoeXtremeProgramming O time XP é formado por papéis com objetivos diferentes, porém comple- mentares, tais como: o papel de desenvolvedor (programador), do cliente, do gerente, docoach, do testador, dotrackere docleaner[6].

    Uma pessoa pode assumir mais de um papel; por exemplo, ser desenvol- vedor e coach, ou, então, desenvolvedor e tracker.

    Porém, é aconselhável que alguns papéis, como coach e gerente, não se- jam assumidos por uma mesma pessoa, porque seus interesses são conflitan- tes. Ou seja, o gerente em determinados momentos pode sofrer uma pressão muito grande para entregar mais softwares e de forma mais rápida, e isso pode fazer com que, inconscientemente, ele repasse essa pressão para o time e acabe deixando de lado as práticas ágeis do XP; enquanto o coach deve justamente manter o time atuando de forma ágil e disciplinada, mantendo a agilidade mesmo em momentos de crise.

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    4.1. Desenvolvedor Casa do Código Nas próximas seções, falaremos mais sobre cada um dos papéis que com- põem um time XP.

    4.1 Desenvolvedor O desenvolvedor, também denominado programador, é o coraç ão do XP. O desenvolvedor multidisciplinado é um profissional capaz de trabalhar em to- das as etapas do desenvolvimento de software, desde a escrita de histórias de usuário até odeployem produç ão. No time XP, ele é um programador que es- tima as histórias de usuários e tarefas, quebra as histórias em tarefas, escreve testes, escreve código, automatiza processos de desenvolvimento e, gradual- mente, aprimora o design do sistema.

    Especificaç ão, prototipaç ão, design, desenvolvimento, testes e atividades ligadas ao DevOps são tarefas que o desenvolvedor poderá exercer em seu dia a dia. Desenvolvedores multidisciplinados elevam o nível de agilidade de um time, uma vez que todos podem vir a atuar em atividades que, eventualmente, tornam-se gargalos do projeto. Visto que eles escrevem código de produç ão em pares, precisam ter boas habilidades sociais e de relacionamento.

    4.2 Cliente Também conhecido comoo dono do ouro, o cliente define e prioriza as his- tórias de usuário, validando o produto desenvolvido por meio de testes de aceitaç ão. É importante que ele esteja o mais próximo possível do time, com disponibilidade suficiente para conversar e tirar as dúvidas habituais.

    O nosso cliente nem sempre será o usuário; ou seja, ele pode conhecer o negócio, definir e priorizar os requisitos, mas não utilizará o software efe- tivamente. Quando esse cenário ocorrer, é necessário aproximar do time al- guns desses usuários, pois, dessa forma, conseguimos priorizar os requisitos e validá-los com eles. São as pessoas que realmente utilizarão o software no dia a dia, afinal.

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    Casa do Código Capítulo 4. Papéis do eXtreme Programming 4.3 Coach É o técnico do time XP. Ele orienta a todos, mantendo a disciplina na aplicaç ão das práticas ágeis, e lembra a equipe da importância das cerimônias (como a reunião em pé, o jogo do planejamento e a reunião de retrospectiva, tudo que veremos mais à frente), da construç ão e manutenção de artefatos e do uso de ferramentas.

    O coach pode facilitar reuniões e orientar o time em relaç ão a que cami- nho seguir quando surgirem dúvidas ou impasses ligados à forma de trabalho.

    É saudável que ele não seja a mesma pessoa que atua como gerente, por- que os interesses desses papéis são diferentes. Enquanto o coach preocupa-se em manter o time engajado e disciplinado, o outro importa-se em priorizar e entregar o software para o cliente. Se uma mesma pessoa acumular os dois papéis, em momentos de crise, o gerente poderá falar mais alto e atropelar as práticas ágeis.

    4.4 Testador O testador no time XP auxilia o cliente a escolher e escrever testes de aceita- ção, para, então, automatizá-los. Ele serve também como um programador coach em técnicas de testes. Para o time de desenvolvimento, o testador não é responsável por pegar erros triviais, isto é papel dos próprios desenvolve- dores. Ele faz parte do time XP, não devendo ser uma pessoa isolada e traba- lhando em outro local. Ele pensa no teste e na qualidade do produto como um todo, considerando também os que rodarão na integraç ão contínua, au- xiliando em par os programadores a resolver problemas do sistema.

    4.5 Cleaner O cleaner é um membro do time que assume o papel de limpar o código; en- corajar os membros a praticar pequenas refatorações; reduzir a complexidade e acoplamento do código; e a aumentar a coesão dos métodos, realizando sua extração e tornando o código cada vez mais enxuto [63]. Ele também se man- tém o tempo todo atento aos impedimentos do time e às dívidas técnicas, ajudando, assim, a garantir a qualidade do código.

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    4.6. Tracker Casa do Código São pré-requisitos para um bom cleaner: a excelência técnica, o conheci- mento do negócio e da arquitetura, bem como uma boa didática para explicar aos desenvolvedores o motivo de cada refatoraç ão para elevar o nível técnico de todos os membros do time.

    O cleaner incentiva o grupo a cuidar da saúde e do bem-estar do código.

    Um bom candidato pode ser o líder técnico ou o arquiteto do produto. Ele também pode conduzirCoding Dojosou outras dinâmicas para elevar o co- nhecimento técnico da equipe.

    4.6 Tracker Responsável por coletar as métricas de projeto, o tracker é capaz de contar uma história da iteraç ão do início ao fim, por meio dos apontamentos que realizou e das informações que foram coletadas. Como um tracker, você é a consciência do time e deverá coletar informações sem perturbar o processo de desenvolvimento mais do que o necessário.

    Ao final de cada iteraç ão, ele pode gerar métricas que mostram o desem- penho do time. O coach pode trabalhá-las com o grupo, buscando manter aquilo que estiver satisfatório e modificar o que não estiver indo bem.

    4.7 Gerente O gerente facilita a comunicaç ão dentro de um time XP e coordena a comu- nicação com clientes, fornecedores e com o resto da organizaç ão. Ele gerencia e acompanha o planejamento do projeto, pois o planejamento no XP é uma atividade, e não uma fase; e auxilia na priorizaç ão das histórias de usuário, as- sim como no agendamento de reuniões e de demonstrações com o cliente e os usuários. Também gera relatórios e gráficos de acompanhamento do projeto e administra a infraestrutura necessária ao time (máquinas, licenças, espaços físicos etc.).

    O gerente não é o chefe do time de desenvolvimento, mas pode (e deve) ser um líder servo, o que significa que ele reconhece e auxilia nas suas neces- sidades reais.

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    Casa do Código Capítulo 4. Papéis do eXtreme Programming 4.8 Outros papéis O XP considera que outros papéis relacionados ao negócio podem fazer parte do time, podendo incluir: usuários, consultores, chefes e executivos [7]. Po- rém, por tratarem-se de papéis complementares do XP, eles não serão abor- dados por nós.

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    Capítulo5 Timecoeso “A aprendizagem não é obrigatória… Nem a sobrevivência.”

    –William Edwards Deming Você se lembra do primeiro valor do Manifesto Ágil?Indivíduos e intera- ções mais que processos e ferramenta. Você já parou para pensar por que esse é o primeiro valor?

    Comumente nas organizações, diversos processos e ferramentas são de- senvolvidos para tentar resolver problemas que, na realidade, são causados por lacunas na comunicaç ão, na confiança das pessoas e na falta de motiva- ção dos indivíduos, criando formalismos que engessam o trabalho e geram novos problemas. Esse primeiro valor enfatiza a importância das pessoas e do trabalho em time para um melhor desenvolvimento de software.

    Eis um dos pontos-chaves no XP: em um projeto, todos fazem parte do time, integrando-se os clientes à equipe de desenvolvimento. Dessa forma, o

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    5.1. Time multidisciplinar Casa do Código grupo coeso possuirá todas as competências de negócio e técnicas para de- senvolver o software.

    Um time efetivamente coeso maximiza os valores do XP: possui maior co- municaç ão por estar integrado, busca continuamente a simplicidade e cons- trói confiança para ter-se coragem e gerar feedback por meio do respeito mú- tuo. A multidisciplinaridade, a auto-organizaç ão, a proximidade física e a melhoria contínua são características essenciais para um time efetivamente coeso.

    5.1 Time multidisciplinar O trabalho multidisciplinar tem raízes nas células de produç ão do Sistema Toyota de Produç ão [41]. O conceito de células de produç ão defende o traba- lho em equipe para a produç ão de itens com características similares, sendo uma grande inovaç ão dos japoneses na década de 70. Isso revolucionou a ideia taylorista-fordista de ter-se apenas um homem por estaç ão de trabalho executando apenas um tipo de tarefa especializada.

    O trabalho em célula de produç ão cria sinergia entre os indivíduos e otimiza o desempenho do processo, eliminando diversos desperdícios, tais como: espera; superproduç ão; estoque; defeitos de qualidade; movimentos; transportes; processos desnecessários; e, principalmente, o não uso da cria- tividade dos funcionários. É importante salientar que o membro de time XP pode assumir mais de um papel, o que foi abordado com mais detalhes no capítulo4.

    5.2 Time auto-organizável Os times coesos são auto-organizáveis; ou seja, são responsáveis pelo seu pró- prio sucesso. Não há a necessidade de controle das atividades de cada indiví- duo do time por um gerente de projetos ou um coordenador. A gestão é tão importante que não fica nas mãos de apenas uma pessoa. O gerente empodera o time nas suas decisões e trabalha no macrogerenciamento. O microgerenci- amento está dentro do próprio time; não há ninguém melhor do que a própria equipe para tomar suas decisões de trabalho. O coach cuidará do método e

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    Casa do Código Capítulo 5. Time coeso da liderança do grupo, porém a liderança situacional pode emergir de seus membros, dependendo da questão a ser resolvida.

    5.3 Sentando lado a lado O espaço físico influencia diretamente a comunicaç ão e o trabalho do time coeso. É essencial que o time sente-se junto no mesmo ambiente físico. No início do dia, os membros realizam as reuniões diárias face a face e, durante ele, a programaç ão em pares é feita constantemente. O ambiente de traba- lho no XP contém quadros para a comunicaç ão e feedback de informações importantes do projeto a todos envolvidos nele.

    5.4 As reuniões de retrospectiva e a melhoria contínua Em desenvolvimento de software, existe apenas o aperfeiçoar, e não a perfei- ção. Não há processo perfeito, nem projeto e nem histórias de usuário. Con- tudo, a melhoria contínua é buscada no dia a dia, sendo possívelaperfeiçoar seu processo, seu projeto e suas histórias.

    Um dos pontos-chaves de um time de alto desempenho está nas suas reu- niões de retrospectiva, pois são identificados progressos a serem realizados no seu trabalho para aprimorar suas práticas. Essa reunião exige uma pro- funda reflexão do próprio trabalho para que se possam encontrar melhorias.

    No Lean, essa autorreflexão é chamada deHanseie o ato de realizá-las é cha- mado deKaizen[41].

    Qual é a abordagem do XP para a melhoria contínua? É simples: conserte o XP quando ele falhar. O eXtreme Programming assume que não trará todas as respostas para o desenvolvimento de software, pois sabemos que não há bala de prata [28]. As regras devem ser seguidas até o time precisar mudá-las.

    Os projetos são encorajados a iniciarem seguindo as regras do XP e, en- tão, a adaptarem qualquer aspecto que não esteja funcionando, tudo isso em um ambiente de experimentaç ão e avaliaç ão. As reuniões frequentes de re- trospectiva farão com que a melhoria contínua seja uma parte natural do de- senvolvimento de software. O livroAgile retrospectivestraz toda a base, além

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    5.4. As reuniões de retrospectiva e a melhoria contínua Casa do Código de muitas dicas para conduzir retrospectivas [40].

    O clima descontraído e divertido nas retrospectivas ajuda bastante os membros do time a expor problemas e tornar a melhoria contínua mais leve.

    As dinâmicas lúdicas com o uso de metáforas também ajudam muito na ex- posição de problemas e na coragem para dar passos em direção ao aperfeiço- amento, pois estimulam a criatividade. Paulo Caroli e Tainã Caetano trazem diversas dessas retrospectivas divertidas no livroFun retrospectives[11].

    O segredo das práticas do XP está na sinergia: uma prática sustenta e potencializa a outra. Por exemplo, as histórias de usuário permitem a comu- nicação para a criaç ão de testes de aceitaç ão e pequenas iterações, agilizando as entregas para obter-se feedback do cliente sobre o software sendo desen- volvido. Uma dica é utilizar a melhoria contínua também para a união das práticas.

    Dica dos autores: qual o tamanho ideal de um time?

    Reconhecemos que, mais importante do que o tamanho do time, é a sua formaç ão: manter o foco por meio da atenção constante e buscar o comprometimento de todos. Porém, é quase unanimidade que gruposde sete pessoas variando mais ou menos duas normalmente funcio-nam bem, principalmente organizando e colocando as práticas em an-damento. Isso facilita a realizaç ão das cerimônias e a dar os primeiros passos. Conhecemos times pequenos (4 a 6 pessoas) que não funciona-vam muito bem, e também já trabalhamos com times maiores (13 ou 14pessoas), nos quais o trabalho funcionava muito bem e de uma formaágil e disciplinada. Na dúvida, experimente!

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    Capítulo6 Clientepresente “Clientes não esperam que você seja perfeito. Eles esperam que você resolva coisas que eles fizeram errado.”

    –Donald Porter, vice-presidente da British Airways Uma das necessidades básicas do XP é ter o cliente presente, pois isso faz com que ele se sinta parte do time, o que agiliza o trabalho dos programado- res. Desse modo, esse envolvimento éextremocom a comunicaç ão e com o feedback.

    Todas as fases do XP precisam da comunicaç ão com o cliente, de prefe- rência face a face. Por isso, é interessante que ele esteja no próprio local do desenvolvimento do software. Escrever especificações leva um tempo muito longo e elas não comunicam efetivamente bem, tanto que poucas pessoas re- almente as leem por completo. É muito mais efetivo conversar sobre o que será necessário no software para seu desenvolvimento já se iniciar.

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    Casa do Código O cliente tem uma participaç ão essencial nojogo do planejamento, es- crevendo e priorizando histórias e discutindo detalhes dos requisitos direta- mente com o time para criarem as tarefas de implementaç ão (vide capítulo 10). Se houver itens importantes a serem documentados, registre-os como critérios de aceitaç ão; assim, eles poderão ser úteis por serem passíveis de au- tomatizaç ão. Ele também precisa estar disponível também para discutir os testes de aceitaç ão para que o time valide as histórias.

    Uma objeção comum sobre ter-se o cliente presente é que ele requisitará apenas o que é de seu interesse e não pensará no negócio como um todo. Isso é de responsabilidade do trabalho dele e de outras pessoas ligadas ao negócio, e poderá acontecer de qualquer forma, com ou sem sua presença.

    Ter somente um representante do negócio (ou até não possuir cliente) pode ser um problema, pois faz com que funcionalidades sem utilidade sejam desenvolvidas e que critérios de aceitaç ão não realistas sejam criados. O time de desenvolvimento trabalhará por itens sem valor real que não fazem parte da soluç ão real.

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    Casa do Código Capítulo 6. Cliente presente Tudo é questão de prioridade É importante entendermos que desenvolver software é, acima de tudo, aprendizado de todos. Para isso, é necessária muita colaboraç ão. Nin- guém desenvolve sozinho. Há alguns anos, estávamos começando um projeto com um novo cliente. Como de praxe, explicamos como funci- onava o nosso trabalho e como a participaç ão dele era importante neste processo. Era uma forma de sensibilizar e mostrar o quão importante estar ativo no desenvolvimento.

    Quando começamos o trabalho, tudo aquilo que havíamos definido foi perdendo força e ele distanciou-se. Chegamos a um ponto em que tivemos que questioná-lo sobre sua participaç ão (ou de alguém que pu- desse ajudar). Ele simplesmente nos disse que não tinha tempo e que es- tava resolvendo outros problemas na empresa. Ficou claro que aquele era o momento de parar. E foi o que fizemos. Simplesmente, parou-se o de- senvolvimento. Dissemos-lhe que, se ele não tinha tempo para envolver- se (ou envolver alguém que pudesse representá-lo), este projeto não era tão importante assim para ele e, portanto, ele não deveria gastar tempo e, principalmente, nem dinheiro com isso. Simples assim.

    6.1 Oquefazerquandooclientenãopodeestar presente?

    Pessoas de negócio podem ser bem requisitadas em seu trabalho e não te-rão tempo disponível para estarem presentes no local do desenvolvimento.Espere, desde o início, lacunas no entendimento de ambas as partes, tantosobre o negócio quanto sobre o desenvolvimento. Nesses casos, é necessáriomaximizar a comunicaç ão buscando outras alternativas de tecnologia e de processo de desenvolvimento.

    Utilize ao máximo a comunicaç ão por telefone e reuniões virtuais. O tra- balho por reuniões remotas é uma boa alternativa. Ajudará também ter umrepresentante que entenda do negócio e tenha tempo e acesso ao cliente. Tente ao menos que ele compareça nas reuniões de planejamento. E mais, se for

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    6.1. O que fazer quando o cliente não pode estar presente? Casa do Código possível, aproveite ao máximo seu tempo e faç a um planejamento presencial intensivo de um dia inteiro ou de uma semana inteira.

    Dica Faça frequentemente pequenas entregas. Essa é uma boa estratégia para alinhar o software com o negócio. Se o cliente não pode ver o time, que ao menos veja o sistema. 😉

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    Capítulo7 Históriasdeusuário “Histórias não são requisitos; elas são discussões sobre resolver problemas para nossa organização, nossos clientes e nossos usuários que levam a acordos sobre o que construir.”

    –Jeff Patton Histórias de usuário (user stories) descrevem seus requisitos em uma forma ágil. Para discutir seus detalhes, é necessária a comunicaç ão face a face entre o time e o cliente, encorajando o trabalho em conjunto. Cada histó- ria segue um ciclo de vida, normalmente nascendo como um épico (histórias grandes), sendo detalhada de acordo com sua prioridade. Elas são textuais, não necessitam de ferramenta específica, são compreensíveis por todos do de- senvolvimento ou do negócio, e são descritas em cartões, também chamadas de cartões de história (story card ). Outras formas de documentaç ão comple- mentares podem ser utilizadas juntamente, o XP não impede isso desde que

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    Casa do Código sejam úteis e necessárias, tais como protótipos ou diagramas.

    Veja alguns exemplos de histórias de usuário:

    • Como um contador, eu quero registrar uma movimentaç ão de patrimô- nio; • Como uma leitora, quero pesquisar livros por categoria; • Como repositor de estoque, quero localizar quais as prateleiras do su- permercado que contêm menos de 50% de sua capacidade de produtos.

    • Como cliente, quero encontrar as pizzarias na minha cidade que este- jam abertas na segunda-feira à noite.

    A essência da utilizaç ão de histórias de usuários como requisitos está de acordo com os valores do Manifesto Ágil.

    •Indivíduos e interaç ões mais que processos e ferramentas:elas enfa- tizam a conversaç ão, não dependendo de processo ou de ferramenta; •Software em funcionamento mais que documentaç ão abrangente:

    elas vão direto ao ponto com uma forma flexível de documentaç ão para o que há de maior valor para o negócio; •Colaboraç ão com o cliente mais que negociaç ão de contratos:por serem sucintas e necessitarem da conversaç ão do cliente com os desen- volvedores, permitem a negociaç ão e colaboraç ão com o negócio; •Responder a mudanç as mais que seguir um plano:elas respondem às mudanças por serem flexíveis em seu ciclo de vida, dando base para as alterações quando necessárias.

    Nas seções a seguir, detalharemos sobre o modelo 3C e o ciclo de vida de histórias. Também mostraremos como escrever usando um modelo de escrita, refinando com INVEST, quebrando as histórias em tarefas SMART e utilizando personas; diversas dicas de escrita de boas histórias; e um catálogo debad smellsde histórias.

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    Casa do Código Capítulo 7. Histórias de usuário 7.1 Modelo3C O tamanho de um cartão é suficiente para detalhar um requisito de usuário?

    Sim, pelo fato de as histórias serem utilizadas como lembretes para a con- versação do time e para a confirmaç ão do cliente. Os cartões de histórias de usuário são como slides: da mesma forma que um instrutor ensina por meio deles, um cliente mostra os requisitos do sistema por meio de histórias de usuário.

    Para deixar claro o propósito das histórias de usuário, Ron Jefries criou o modelo 3C [31]. Cada uma das três letras Crepresenta um aspecto crítico delas:

    •Cartão:as histórias de usuário são escritas em cartões (ou no tamanho de um cartão). Ele não conterá toda a informaç ão de um requisito, mas serve para lembrar a todos do que este se trata. As prioridades e os custos também podem ser anotados neles.

    •Conversação:o requisito é comunicado do cliente ao time por conver- sação (face a face), podendo ser suplementado por documentos.

    •Confirmação:a confirmaç ão da história dá-se por exemplos para criar testes de aceitaç ão; ou seja, pelos critérios de aceitaç ão. O cliente dirá ao time como aceitará cada história por meio de critérios de aceitaç ão.

    Essa é uma ótima forma de suplementar a documentaç ão. A preferên- cia é de que esses critérios sejam automatizados pelo time. A história de usuário estará pronta quando todos eles estiverem passando nos testes de aceitaç ão.

    7.2 Ciclo de vida Cada história segue um ciclo de vida, sendo refinada progressivamente. Elas normalmente nascem em épicos e são agrupadas em temas. Um épico pode ser visto como uma história muito grande [49] que pode levar diversas itera- ções para serem desenvolvidas e que ajudam a esboçar a funcionalidade do produto sem se comprometer com detalhes. Assim que priorizado, ele é que- brado em diversas histórias.

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    7.3. Utilizando um modelo de escrita Casa do Código Um tema representa uma capacidade do produto ou um objetivo, aju- dando a mostrar sua completude e também a encontrar as histórias certas.

    Uma estratégia é priorizar os temas para, então, priorizar as histórias relacio- nadas. Aquelas de maior prioridade terão seus critérios de aceitaç ão comple- tos e, depois, serão refinadas com INVEST (explicado a seguir neste capítulo) e quebradas em tarefas de implementaç ão.

    Um exemplo de épico pode ser:como um repositor de estoque, eu quero gerenciar a reposição do supermercado, fazendo parte do tema “Gestão de esto- que”. Uma história que pode nascer a partir dele é:como repositor de estoque, quero localizar quais as prateleiras do supermercado que contêm menos de 50% de sua capacidade de produtos.

    7.3 Utilizando um modelo de escrita Ter um modelo é útil para a escrita de histórias. Existem alguns tipos de mo- delos e variações; um dos mais utilizados é o da Connextra (vide imagem7.1), que traz as informações principais no cartão:

    •Como um (As a… ): para quem será útil a história, para qual usuário protagonista do sistema; pode também ser uma persona (veremos em 7.6); •Eu quero (I want… ): o que a história está especificando de requisito, a necessidade do usuário propriamente dita; •Para que (So that… ): razão de negócio, o motivo pelo qual a história existe; mostra o valor de negócio da história.

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    Casa do Código Capítulo 7. Histórias de usuário Fig. 7.1: Modelo original de cartão de história de usuário da Connextra. Fonte da imagem:http://agilecoach.typepad.com Basicamente, Connextra gera um modelo de escrita, ilustrado a seguir.

    Fig. 7.2: Modelo de escrita de história de usuário Como exemplo, utilizando-se esse modelo, a históriaComo repositor de estoqueficará dessa forma:

    Imagem 1 da página 58 (sem descrição)
    Imagem 2 da página 58 (sem descrição)

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    7.4. Refinando com INVEST Casa do Código Fig. 7.3: Exemplo de uma história de usuário 7.4 Refinando comINVEST Muitas vezes, as histórias de usuário precisam ser lapidadas, pois podem estar complicadas de entender, grandes demais para serem desenvolvidas, depen- dentes demais para serem entregues, ou podem não ser verificadas. Para esse refinamento, utiliza-se o acrônimo INVEST, o qual traz 7 características. Apli- car todas elas não é tão fácil; até dizem que INVEST é o nirvana das histórias de usuários, mas deve-se tentar ao máximo obtê-las.

    Refinando com INVEST, uma história de usuário deve ser:

    •Independente de outras histórias para facilitar a negociaç ão, a priori- zação e a implementaç ão; •Negociável com o cliente, para que o time possa manter um ritmo sus- tentável para a entrega contínua de valor; •Valorosa, assim cada entrega agregará grande valor ao negócio do cli- ente; •Estimável, desse modo o time poderá estabelecer quais histórias serão implementadas de acordo com sua velocidade; •Small(pequena) o suficiente para ser implementada dentro de uma ite- ração, sem correr grandes riscos de não a completar;

    Imagem 1 da página 59 (sem descrição)

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    Casa do Código Capítulo 7. Histórias de usuário •Testável, apenas assim poderá ter qualidade na entrega e certeza de que o cliente aceitará a história como pronta.

    7.5 Implementando com tarefasSMART Cada história de usuário possuirá tarefas a serem desenvolvidas, como: im- plementaç ão, teste, integraç ão e deploy. Quebrá-las em tarefas gera mais cer- teza do trabalho que o time precisará entregar. Cada uma delas deverá possuir as 5 características do acrônimo SMART:

    • eSpecífica o suficiente para ser entendida, para que se implemente exa- tamente o que é necessário, evitando a sobreposiç ão de outras tarefas; •Mensurável, possuindo um tamanho para garantir que a tarefa seja concluída (contabilizando testes e refatoraç ão); •Alcançável para que todos possam ter acesso às informações necessá- rias para sua conclusão; •Relevante, contribuindo para a implementaç ão da história; •Time-boxed, limitada a uma duraç ão específica (não sendo uma es- timativa formal, mas uma expectativa de desenvolvimento, inclusive para pedir ajuda). Tarefas com grande duraç ão devem ser evitadas, po- dendo serem divididas em tarefas menores ou sendo revisadas.

    7.6 Personas Uma forma recomendada para pensar mais no usuário do sistema é utilizar o conceito de personas, que é a caracterizaç ão de um papel de usuário do sis- tema. Uma persona descreve as qualidades, os valores, o comportamento e os objetivos de usuários alvos no sistema. Uma dica é dar nomes às personas que lembrem seus papéis; por exemplo, o nomeAdemarpara a persona rela- tiva ao papel de administrador. Na escrita da história, escreve-se o nome da persona, em vez do papel de usuário.

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    7.7. Story points Casa do Código 7.7 Story points Story pointsé o nome comum para o tamanho de histórias de usuário. A velocidade do time é dada contabilizando a média de todos osstory pointsre- alizados nas iterações. Dentre as diversas variações de pontuar uma história, a forma mais efetiva é dimensioná-las relacionando com as outras, utilizando a experiência no passado para determinar o quanto pode ser feito em uma ite- ração [27]. O time pode utilizar uma sequência não linear de valores, como a de múltiplos de dois (1, 2, 4, 8, 16, …) ou a de Fibonacci (1, 2, 3, 5, 8, 13, …).

    O que realmente interessa é que se possa prever quantas histórias pode- rão ser entregues nas iterações, diminuindo o risco de termos problemas no desenvolvimento. Há os que acham melhor não estimar, mas apenas contabi- lizar, em média, quantas serão realizadas a cada iteraç ão [36]. Existem times que até utilizam tamanhos de camiseta (P, M, G, GG), e outros que usam dias ideais ou horas de desenvolvimento [13].

    Por estar confuso comstory points, um cliente de Joshua Kerievsky criou o termo NUTs (Nebulous Units of Time Unidades Nebulosas de Tempo) [36].

    Independente da forma de encontrar o tamanho da história, é o grupo que decide suas estimativas e sua velocidade.

    7.8 Escrevendo boas histórias A prática com boas orientações é importante para escrever uma história útil para o time e para o negócio. Mike Cohn, em seu livroUser stories applied, traz orientações para escrever boas histórias de usuário [13]. Complementamos com mais algumas dicas:

    •Comece com as histórias objetivas:os usuários do sistema possuem objetivos diretos no sistema; comece escrevendo as histórias que resol- vam os problemas desses objetivos.

    •Fatie o bolo:escreva histórias que possuam uma camada de cada fase de implementaç ão de uma funcionalidade, desse modo entregará valor.

    Imagine uma história como uma fatia de bolo, em que cada camada é a parte de projeto, codificaç ão, teste, integraç ão e deploy.

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    Casa do Código Capítulo 7. Histórias de usuário •Escreva histórias fechadas:faça com que a história entregue valor real ao negócio, algo que conclua o processo do usuário.

    •Coloque as restrições nos cartões:as restrições são os requisitos não funcionais, como de desempenho, de carga, de segurança e de usabi- lidade. Elas podem ser descritas nos cartões na forma de critérios de aceitaç ão.

    •Escreva suas histórias no horizonte:utilize o ciclo de vida das his- tórias de usuário. Faç a com que elas surjam de épicos. Conforme a prioridade, os épicos são quebrados em histórias e, então, é iniciada a especificaç ão dos critérios de aceitaç ão relacionados.

    •Evite a interface de usuário o maior tempo possível:a essência dos detalhes da interface de usuário é de projeto, e não de requisito de usuá- rio, na maioria das vezes. Detalhá-la torna-se necessário conforme a prioridade aumenta.

    •Algumas coisas não são histórias:histórias são para escrever requisi- tos de usuário, e não para documentar a ajuda do sistema, por exemplo.

    •Inclua os papéis de usuários:a utilizaç ão de um modelo ajuda nisso, pois ele lembra de escrever para quem a história servirá.

    •Escreva para a persona protagonista:muitas vezes, uma história de usuário servirá para mais de uma persona ou mais de um papel de usuá- rio. Por essa razão, escreva a história para a persona ou papel de usuário que mais agregará valor, de maior propósito.

    •Escreva em voz ativa:escrever em voz passiva pode tornar a história confusa.

    •O cliente escreve:apenas dessa forma não haverá lacunas na escrita.

    Quando isso não for possível, faç a com que ele leia, valide e discuta todas as histórias.

    •Dê títulos às histórias:um título ajudará na sua identificaç ão. Não enumere apenas os cartões de história, pois é muito estranho conversar

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    7.9. Catálogo de story smells Casa do Código sobre a “história 32” (como se fazia antigamente com nomes de tabelas de banco de dados).

    •Não esqueça do propósito:lembre-se sempre do propósito de uma his- tória de usuário, que é servir como um lembrete a todos (time e cliente) para a comunicaç ão do requisito.

    •Descreva os defeitos (bugs) como critérios de aceitaç ão:quando hou- ver umbug, provavelmente é porque faltou ter escrito (ou automati- zado) um critério de aceitaç ão. Escreva um critério de aceitaç ão que falhe diretamente no problema.

    7.9 Catálogo de story smells Para escrever boas histórias, também é necessário identificar e evitarbad smells(maus cheiros). O livroUser stories applieddo Mike Cohn possui um catálogo dessessmells[13], que ocorrem normalmente quando:

    •A história depende de várias outras histórias:a interdependência im- possibilita a negociaç ão e a priorizaç ão das histórias; •A história está muito curta:histórias são sucintas, mas não é para serem muito curtas; •A história possui muitos detalhes:repetindo que histórias são sucin- tas. Os detalhes normalmente serão discutidos entre o time e o cliente, lembre-se do modelo 3C; •Há funcionalidades não necessárias:lembre-se do valor do XP: sim- plicidade. Quando houver funcionalidades desnecessárias em histó- rias, é um grande indicador de que não se está pensando em simplici- dade; •O cliente não escreve, não confirma e não prioriza as histórias:esse é um dos mais comuns e piores maus cheiros; •Não está explícito o valor do negócio:escrever a razão de negócio ajuda a demonstrar seu valor. Um modelo ajuda nisso. Histórias com

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    Casa do Código Capítulo 7. Histórias de usuário pouco valor não podem ser priorizadas. Provavelmente, o problema está em uma lacuna na realizaç ão do jogo do planejamento; •É pensado muito à frente nas histórias:isso atrapalha a agilidade, pois mudanças poderão vir logo, então não se deve detalhar muito à frente.

    Deve-se fazer somente o necessário para as histórias priorizadas; •É detalhada a interface de usuário muito antecipadamente:deve-se pensar na interface de usuário quando a história for priorizada. Utilize o tempo presente para trabalhar com as histórias já priorizadas; •Existir detalhes específicos de tecnologia, projeto de banco de da- dos e algoritmos:detalhes de projeto e de implementaç ão não fazem parte de requisitos. Esses detalhes deveriam ser discutidos entre o time, ou então em outros formatos de especificaç ão, tais como diagramas e protótipos.

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    Capítulo8 Testesdeaceitaç ão “Testes de aceitação são mapas da estrada para a iteração, dizendo ao time aonde é preciso ir e quais pontos de referência olhar.”

    –Lisa Crispin O propósito dos testes de aceitaç ão é a comunicaç ão, a transparência e a precisão [43]. Quando os desenvolvedores, os testadores e o cliente concorda- rem com eles, todos entenderão qual é o plano para o comportamento do sis- tema. Chegar a esse ponto é responsabilidade de todas as partes. Eles validam como o cliente aceitará as funcionalidades prontas, pois são testes funcionais que guiam o time no desenvolvimento para, então, colocar em produç ão o que foi decidido que o sistema deve conter.

    Esses testes são criados a partir das histórias de usuários selecionadas pe- las pessoas de negócio no planejamento de iterações (veremos no capítulo 10). A história de usuário apenas estará completa quando todos seus critérios

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    8.1. Automatizaç ão Casa do Código de aceitaç ão estiverem passando. Auxiliado pelo testador do time, o cliente é quem especifica os exemplos dos critérios de aceitaç ão na forma de cenários, que podem conter dados e variações que criticam a história [14]. Os exemplos de cenários esclarecem as histórias ao time.

    8.1 Automatização Testes de aceitaç ão sempre têm de ser automatizados por uma razão sim- ples: custo [43]. Caso você ache custoso ter testes de aceitaç ão automatizados, aguarde para ver o custo da confusão e dodebugde código ao longo prazo.

    Para fazer pequenas entregas frequentes, é necessário que os testes de acei- tação estejam automatizados e que rodem nobuildgerado pelo servidor de integraç ão contínua. O cliente poderá decidir se uma história desenvolvida poderá ir para produç ão mesmo quando alguns testes de aceitaç ão não esti- verem passando. Apenas ele tem esse poder.

    8.2 Validando com critérios de aceitação Cada história de usuário possui um ou mais critério de aceitaç ão, criado tam- bém pelo cliente. O testador ajuda-o a pensar em cenários bons de teste, sendo escritos já prevendo a automatizaç ão. Esses critérios descrevem como a his- tória será aceita pelo cliente e servem de guia para o desenvolvimento.

    Como exemplo, considerando a históriaComo um repositor de estoque, quero localizar quais as prateleiras do supermercado que contêm menos de 50% de sua capacidade de produtos, podemos escrever os critérios de aceitaç ão:

    • Deve exibir uma lista de prateleiras com o setor e a seção de cada uma, e o tipo e o nome do produto contido; • Deve exibir as prateleiras com menos de 50% da capacidade de itens; • Não deve exibir as prateleiras com 50% ou mais da capacidade de itens.

    Os critérios de aceitaç ão também podem seguir um modelo. Comu- mente, o utilizado é o de cenários de BDD (Behaviour-Driven Development Desenvolvimento Guiado por Comportamento) [47]. Esse modelo possui três informações:

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    Casa do Código Capítulo 8. Testes de aceitaç ão •Dado que:precondiç ão, são os passos para preparar para aç ão a ser validada; •Quando:ação que vai disparar o resultado a ser validado; •Então:resultado a ser validado.

    Você encontrará bons exemplos de histórias com critérios de aceitaç ão no livroHistórias de usuário[61]. Como um exemplo, o critério de aceitaç ão Deve exibir o setor e a seção da prateleira com o tipo e o nome do produtousando o modelo, ficará desta forma:

    •Dado queo usuário logado é um repositor de estoque; •Quandoo item de menu “Consultar prateleiras para reposiç ão” for cli- cado; •Entãoa lista de todas as prateleiras para reposiç ão é exibida.

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    Capítulo9 Liberaç ãofrequentedepequenas entregas “Software funcionando é a medida primária de progresso.”

    –7º princípio do Manifesto Ágil Por que deixar o cliente esperando um longo tempo para entregar um re- quisito importante? No XP, cadareleasedeve ser tão pequena quanto possível e com o maior valor de negócio. As pequenas entregas contêm as histórias de usuário identificadas e priorizadas no jogo do planejamento, que veremos a seguir. As histórias de usuários devem ser suficientemente granulares para caberem em uma entrega pequena. Manter a qualidade no desenvolvimento é essencial para poder entregar frequentemente. Em alguns casos, fica difícil liberar releases pequenas, precisando ser uma entrega do tipotudo ou nada.

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    9.1. Foco na qualidade é o ponto-chave Casa do Código Diversos benefícios surgem quando se liberam frequentemente pequenas entregas com alto valor:

    • Entrega de valor adiantado e contínuo; • O processo é aprimorado rapidamente por falhar mais cedo (conceito fail fast); • Feedback do cliente mais cedo para confirmaç ão ou adaptaç ão dos re- quisitos; • Satisfaç ão dos usuários por ter respostas rápidas às suas necessidades; • Maior qualidade, confiança e estabilidade; • Reduz a taxa de defeitos por precisar realizar testes completos em ciclos menores; • Realiza um design simplificado e suficiente apenas para a entrega em questão; • O código é atualizado e integrado com maior frequência; • O software não fica ultrapassado; • Maior engajamento do time por ver seu trabalho sendo útil e empode- rado; • Facilita enxergar os diversos desperdícios ocultados nas grandes entre- gas; • Evita a procrastinaç ão de prazos.

    9.1 Foco na qualidade é o ponto-chave A qualidade é o ponto-chave para entregar com frequência. Os testes auto- matizados e a integraç ão contínua são essenciais para agilizar os builds das entregas com alta qualidade no software. Pequenas entregas maximizam os

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    Casa do Código Capítulo 9. Liberaç ão frequente de pequenas entregas benefícios da abordagem iterativa e incremental, evoluindo o software em pe- quenos pedaços. Times extremos conseguem desenvolver uma entrega a cada iteração ou a cada dia, tal como no conceito de entrega contínua [20].

    Quando isso não for possível, as iterações auxiliarão no acompanhamento do andamento do desenvolvimento da release. De qualquer modo, se não houver um ótimo nível de qualidade em cada build do software, mais e mais defeitos voltarão e menos se poderá entregar nas próximas releases. O foco na qualidade é essencial para entregas pequenas e frequentes.

    9.2 Releases tudo ou nada Ok, sabemos que alguns sistemas sãotudo ou nada; ou seja, para colocar em uso efetivo é necessário que se faç a uma grande entrega. Entretanto, até para esses sistemas é valioso pensar se há algum modo de quebrá-los em entregas menores. As solicitações de mudan ça virão naturalmente quando o usuário utilizar o software, então é melhor ter um processo já orientando a mudanças.

    Entregas grandes não combinam com um planejamento ágil orientado a mu- danças. Lembre-se do quarto valor do Manifesto Ágil:responder a mudanças mais que seguir um plano.

    Quanto mais tempo aguardamos para liberar uma funcionalidade aos usuários, menos tempo você terá e mais complexo será para adaptá-la ou corrigi-la. Na visão enxuta [41], a liberaç ão frequente de pequenas entregas diminui consideravelmente os desperdícios de estoque, defeitos e tempo de espera (do cliente). Isso gera fluidez e reduz o tempo de ciclo das entregas (tempo entre o fim ou o início de produç ão de dois itens). Continuamente, persista na tentativa de diminuir o tamanho de suas entregas.

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    Capítulo10 Ojogodoplanejamento “Planos não são nada. Planejamento é tudo.”

    –Dwight David “Ike” Eisenhower Você já trabalhou em um projetomarcha da morte[65] que é destinado a falhar e que você não podia nem sequer dar opiniões técnicas? Um projeto com tantos problemas que parecia uma bola de neve despencando montanha abaixo? No XP, isso não acontece.

    O jogo do planejamento envolve os clientes e os desenvolvedores para pla- nejarem as entregas de uma forma colaborativa. Também chamado derelease planning, o nome jogomostra a essência da dinâmica: tratar o planejamento como um jogo que contém um objetivo, jogadores, peças e regras. Seu re- sultado é maximizado por meio da colaboraç ão de todos os jogadores. Ele agrega todo o processo necessário para a entrega de software como a escrita de histórias de usuário, a priorizaç ão pelo cliente e a criaç ão das estimativas.

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    10.1. Definindo o jogo e suas regras Casa do Código Visto que o trabalho de planejamento é encarado como um jogo, então quem seria o adversário? Talvez você pense que é o cliente. Errado! Ele é o maior interessado no sucesso do projeto. Afinal, já investiu tempo e dinheiro.

    O adversário está justamente no desafio em se conseguir entregar o melhor produto, dados as variáveis de projeto (prazos, custos,time-to-marketetc.).

    As pessoas de negócio definem o escopo, a prioridade, a composiç ão e as datas das entregas. As decisões de negócio têm suporte das pessoas de desenvolvimento. Estas tomam decisões técnicas por meio de estimativas e de análises de consequências técnicas no negócio, e decidem seu processo de trabalho. Tanto o Negócio quanto o Desenvolvimento têm voz nas decisões das entregas. Não há bola de neve no XP. 🙂 O desenvolvimento iterativo e incremental é utilizado no jogo do planeja- mento. Os incrementos são definidos no planejamento de releases; e as itera- ções, no planejamento de iterações. Cada incremento representa uma entrega de valor em produç ão ao cliente, sendo desenvolvido em uma ou mais itera- ções. A divisão em iterações auxilia o time a quebrar as entregas em pedaços menores para planejamento e feedback de um modo simples e ágil.

    Nas próximas seções, definiremos o jogo como um todo, com suas re- gras e comprometimentos. Falaremos também sobre como manter o foco e a aprendizagem no planejamento.

    10.1 Definindo o jogo e suas regras Os jogos e as regras do jogo do planejamento são:

    •Objetivo:maximizar o valor do software produzido pelo time; ou seja, colocar em produç ão a maior quantidade de histórias de usuário com maior valor ao longo do projeto.

    •Estratégia:o time deve investir o menor esforço para colocar a funci- onalidade de maior valor em produç ão tão rápido quanto possível, em conjunto com estratégias de projeto e programaç ão para reduzir o risco.

    Dividir para conquistar é a estratégia utilizada ao dividir o software em entregas frequentes, e cada entrega em iterações pequenas.

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    Casa do Código Capítulo 10. O jogo do planejamento •As peças:as peças básicas do jogo são histórias de usuário e as tarefas de implementaç ão. As histórias são as peças no planejamento das releases; já as tarefas, no planejamento das iterações.

    •Os jogadores:as pessoas do Desenvolvimento e as pessoas de Negócio.

    •Os movimentos:as regras dos movimentos existem para lembrar a to- dos de como eles gostariam de agir em um melhor ambiente com con- fiança mútua e dar uma referência para quando as coisas não estiverem indo bem.

    10.2 Entendendo regras e comprometimentos Os movimentos do jogo são dados por suas regras e são divididos em duas partes: a primeira trata dos movimentos para as entregas (planejamento de releases); a outra dos movimentos para as iterações (planejamento de itera- ções), conforme apresentado na figura a seguir.

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    10.2. Entendendo regras e comprometimentos Casa do Código Fig. 10.1: Movimentos do jogo do planejamento divididos entre o planeja- mento de releases e de iterações Planejamento de releases Para uma release, o jogo do planejamento define as regras para o cliente direcionar o desenvolvimento na frequência de uma a três semanas. Seus mo- vimentos para uma release são dados em três fases:Exploraç ão,Comprome- timentoeDirecionamento.

    Exploraç ão:ambos os jogadores descobrem novos itens que o sistema pode fazer, dividindo-se em três movimentos:

    •Escrever uma história de usuário:o Negócio escreve algo que o sistema deverá fazer; •Estimar uma história de usuário:o Desenvolvimento estima o tempo ideal de programaç ão para implementar a história;

    Imagem 1 da página 77 (sem descrição)

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    Casa do Código Capítulo 10. O jogo do planejamento •Quebrar uma história de usuário:caso o Desenvolvimento não con- siga estimar a história ou sua estimativa for muito grande, o Negócio identifica sua parte mais importante para que o Desenvolvimento possa estimá-la e desenvolvê-la. Spikes podem ser utilizados para melhorar a estimativa da história (vide capítulo11).

    Comprometimento:o Negócio decide o escopo e o tempo para a pró- xima entrega de acordo com as estimativas, e o Desenvolvimento se compro- mete com a entrega, dividindo-se em quatro movimentos:

    •Ordenar por valor:o Negócio separa as histórias em três categorias:

    as essenciais; as menos essenciais, mas de alto valor; e as que seriam agradáveis de se ter; •Ordenar por risco:o Desenvolvimento separa as histórias em três ca- tegorias: aquelas que podem ser estimadas com precisão, aquelas que podem ser estimadas razoavelmente bem, e aquelas que não podem ser estimadas de qualquer modo; •Ordenar por velocidade:o Desenvolvimento mostra ao Negócio quanto de tempo ideal de programaç ão o time poderá trabalhar em um mês do calendário; •Selecionar escopo:o Negócio escolhe as histórias para a entrega (traba- lhando por tempo) ou uma data para as histórias a serem desenvolvidas (trabalhando por escopo), utilizando as estimativas realizadas pelo De- senvolvimento.

    Direcionamento:o plano é atualizado no que foi aprendido pelo Negócio e pelo Desenvolvimento, dividindo-se em quatro movimentos:

    •Iteração:a cada iteraç ão (uma a três semanas), o Negócio seleciona uma com as histórias de maior valor a serem implementadas; •Recuperação:caso o Desenvolvimento descubra que sua velocidade foi superestimada, ele pode pedir ao Negócio para encaixar apenas as his- tórias de maior valor de acordo com a nova velocidade;

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    10.2. Entendendo regras e comprometimentos Casa do Código •Nova história:caso o Negócio descubra uma nova história a ser adi- cionada à entrega que já está sendo desenvolvida, ele pode escrevê-la, o Desenvolvimento estimá-la, e, então, trocá-la por outra selecionada pelo Negócio; •Reestimar:caso o Desenvolvimento descubra que o plano não é exato, ele pode reestimar todas as histórias restantes.

    Planejamento de iteraç ões As peças são as tarefas de implementaç ão e os jogadores são os programa- dores. As decisões sobre as iterações são mais flexíveis em questão de escopo e de prazos, pois dependem mais do Desenvolvimento; enquanto as sobre entregas dependem mais do Negócio. Suas fases são semelhantes às de uma entrega:Exploraç ão,ComprometimentoeDirecionamento.

    Exploraç ão:o Desenvolvimento cria suas tarefas e identifica o tempo de trabalho, dividindo-se em três movimentos:

    •Escrever uma tarefa:transformar as histórias da iteraç ão atual em tare- fas; •Quebrar ou unir tarefas:caso a tarefa esteja grande demais, quebre- a em tarefas menores. Caso ela esteja pequena demais, una-a a outra relacionada; •Estabeleça um fator de carga:cada programador escolherá seu fator de carga para a iteraç ão, o qual é a porcentagem de tempo que ele real- mente estará desenvolvendo; ou seja, é removido o tempo em que se realiza outras, tais como reuniões do time.

    Comprometimento:o Desenvolvimento compromete-se com suas tare- fas, dividindo-se em três movimentos:

    •Aceitar uma tarefa:o programador puxa a tarefa para si e aceita a res- ponsabilidade por ela; •Estimar a tarefa:o programador responsável pela tarefa a estima em Dias Ideais de programaç ão;

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    Casa do Código Capítulo 10. O jogo do planejamento •Balanceamento:cada programador soma suas tarefas e multiplica pelo fator de carga, balanceando sua carga de trabalho, caso esteja maior ou menor do que a estabelecida.

    Direcionamento:o Desenvolvimento desenvolve as tarefas para verificar a história, dividindo-se em quatro movimentos:

    •Implementar uma tarefa:o programador pega o cartão da tarefa, encon- tra um par para programar, desenvolve a tarefa com TDD (Desenvol- vimento Guiado por Testes) e ao final integra o código fazendo passar a suíte de teste relacionada; •Registrar progresso:a cada dois ou três dias, um membro do time atua- liza o andamento das tarefas de cada membro, com o tempo gasto e o tempo que falta para cada tarefa; •Recuperação:programadores que ficaram sobrecarregados pedem ajuda reduzindo o escopo das tarefas, reduzindo o escopo das histórias, removendo aquelas não essenciais ou pedindo ao cliente para postergar a história para outra iteraç ão; •Verificar a história:caso estiverem prontos, rodar os testes funcionais para as tarefas que já foram concluídas, complementando a suíte de testes funcionais com os novos casos de testes; As histórias de usuários são estimadas antes de serem desenvolvidas. Já na iteraç ão, o programador pega a tarefa para si e depois a estima. Nem todas estarão ligadas diretamente com o Negócio, mas sim com as necessidades do Desenvolvimento; por exemplo, para configurar um servidor de integraç ão.

    10.3 Mantendo o foco Você lembra-se do objetivo do jogo do planejamento? Maximizar o valor do software construído pelo time para o cliente é o foco do jogo. É impor- tante que todos participem (Desenvolvimento e Negócio) com colaboraç ão.

    A simplicidade (a arte de maximizar a quantidade de trabalho não realizado)

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    10.4. Todo momento é um momento de aprendizado Casa do Código é essencial para o feedback contínuo, sendo importante também para o time sentir-se valorizado por fazer entregas frequentes de valor. O Desenvolvi- mento e o Negócio devem manter um ritmo sustentável e constante de traba- lho para manter o foco.

    10.4 Todo momento é um momento de aprendi- zado No jogo do planejamento, até quando se erra, aprende-se. O erro não é visto como algo ruim, desde que se aprenda com ele. Quando o time reconhecer que superestimou sua velocidade, ele deve comunicar ao Negócio para rear- ranjar as histórias dentro de sua nova velocidade. Quando houver problemas com as estimativas, devem-se reavaliar essas estimativas das histórias. É pre- ciso ter coragem para buscar um processo que seja transparente. A comuni- cação e o feedback são importantes para que os dois jogadores aprendam a melhor forma de maximizar o jogo.

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    Capítulo11 Spikesdeplanejamento “Algumas vezes, a melhor maneira de resolver um problema é ir para casa, jantar, assistir TV, ir para a cama, e, então, acordar na manhã seguinte e tomar um banho.”

    –Robert C. Martin Os spikes de planejamento fazem parte de uma prática que ajuda o time a gerar o conhecimento necessário para estimar as histórias de usuários cor- retamente, diminuindo, assim, o risco no planejamento [39]. O objetivo é aumentar a confiança para um bom jogo do planejamento. Um spike é um programa muito simples para explorar soluções potenciais [59].

    Faça spikes arquiteturais para descobrir respostas em dificuldades técni- cas e em problemas de design, ou para conhecer novas tecnologias (APIs, frameworks, ferramentas, linguagens de programaç ão etc.). Quando uma di- ficuldade técnica importante surgir, deixe um par de desenvolvedores fazer

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    11.1. Jogue fora o código gerado no spike Casa do Código uma por alguns dias até ter certeza suficiente sobre sua soluç ão.

    Por ser uma tarefa a ser realizada, os spikes podem ser estimados. Por- tanto, trata-se de um momento planejado, garantindo-se que será feito du- rante uma iteraç ão. Preferencialmente, faç a-o em uma iteraç ão e somente desenvolva a história de usuário relativa na próxima. Lembre-se que ele serve para diminuir o risco da estimativa que servirá no próximo planejamento, e também não se esqueça denão aproveitarseu código.

    11.1 Jogue fora o código gerado no spike Trate o spike como um experimento e assuma que seu código será jogado fora. Vá direto ao ponto para resolver a incerteza. Ele serve para saber como resolver um problema, e não para produzir um código (de produç ão) que o resolva [54]. Não tente criar programas úteis ou reutilizáveis em produç ão.

    O spike serve para aprendizado, uma vez que se trata de uma prática para descoberta. Por isso, ignore todas as preocupações no entorno da questão.

    Vale fazer um paralelo neste ponto. A prototipaç ão é uma técnica de en- genharia de software para a descoberta de requisitos com a avaliaç ão do cli- ente. Normalmente, o protótipo é jogado fora, porque é lento, o código não é funcional e serve apenas para a descoberta, a validaç ão e o refinamento dos requisitos.

    Semelhante a essa técnica, o spike é um método para a descoberta de so- luções com a avaliaç ão técnica, que, inclusive, também tem seu código jogado fora.

    Dica:spike é exceção,não regra Essa prática é para ser utilizada apenas quando necessária, sendo uma exceção, não uma regra. Toda estimativa de história de usuário possuirá incertezas e riscos; isso é intrínseco da complexidade de desenvolver soft- ware.

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    Capítulo12 Projetosimplesdoinícioaofim “Simplicidade é mais complicada do que você pensa. Mas ela é bem valiosa.”

    –Ron Jeffries Obter um projeto simples não é uma tarefa fácil; porém, manter a simpli- cidade agiliza no desenvolvimento de novas funcionalidades e na resposta a mudanças. O projeto simples está presente em todas as fases do XP. A simpli- cidade é abordada de um modoextremo. Ele come ça assim e mantém-se por meio de testes automatizados e refatoraç ão.

    Tentar prever o futuro éantiXP. Nenhuma funcionalidadeadicionalé im- plementada, pois desvia do caminho da soluç ão e aumenta a complexidade do software. Apenas tenha cuidado com as dívidas técnicas que poderão ser ge- radas, ou com funcionalidades inacabadas. A programaç ão em pares evita o design extra, porque um membro da dupla não vai querer esperar que o outro desenvolva coisas sem relevância.

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    12.1. MVP: produto mínimo viável Casa do Código Para termos um código limpo, a refatoraç ão é necessária, assim evitando oscode smells(maus cheiros) nele. Um código é simples [30] quando:

    • Roda todos os testes; • Expressa todas as ideias necessárias; • Não contém código duplicado; • Possui a menor quantidade de classes, métodos e variáveis; • É conciso e legível.

    Em todos os níveis de granularidade de software deve-se pensar na sim- plicidade; ou seja, do código ao produto. Quando o projeto simples atinge o produto, temos o conceito do produto mínimo viável, detalhado a seguir.

    12.1 MVP:produto mínimo viável “Simplicidade a arte de maximizar a quantidade de trabalho não realizado é essencial.”

    –Décimo princípio do Manifesto Ágil Ter o projeto simples é essencial para criar um MVP. O MVP (do inglês, Minimum Product ViableProduto Mínimo Viável) possui a maior quantidade de funcionalidades de valor na menor entrega possível, sendo suficiente para o cliente utilizar e dar feedback ao desenvolvimento.

    A expressãoYAGNI(do inglês,You’re Not Gonna Need ItVocê não pre- cisará disso) lembra todos a desenvolver somente o necessário nas histórias atuais, até no caso de que se saiba que será necessário no futuro.

    Menos é mais.A simplicidade tem foco no desenvolvimento da essência do software. Pequenas entregas de valor representam muito do que o cliente necessita. Alguns programadores (não XP) adoram entregar algo a mais ao cliente; já osextremosnão fazem isso. Programadores XP mantêm o projeto simples do início ao fim.

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    Casa do Código Capítulo 12. Projeto simples do início ao fim Dica: MVPé estratégia de entrega Para trabalhar com MVP é preciso ter uma estratégia na evoluç ão das entregas. Um ótimo exemplo real é o de uma equipe que, na primeira iteração, desenvolveu somente o algoritmo necessário e entregou apenas uma planilha com os resultados que o cliente precisava em seu negócio.

    Na duas próximas, a equipe complementou as regras nesse algoritmo e desenvolveu a interface com o usuário. O MVP entregue na primeira iteração resolveu a maior parte do problema do cliente! A estratégia para entregar o que restava nas duas próximas iterações completou o trabalho, deixando-o muito satisfeito.

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    Capítulo13 Metáforadesistema “98% de nosso pensamento está realmente acontecendo em um nível inconsciente, grande parte através de metáforas.”

    –Esther Derby Metáforas em geral estão no nosso cotidiano. No dia a dia, frequente- mente as usamos para expressarmos ideias de um modo mais simples, fácil e rápido; tentamos encontrar algo semelhante que a pessoa já conheça para ela conseguir entender o que queremos explicar.

    No mundo da computaç ão, fazemos uso de ainda mais metáforas. Você trabalha com documentos, arquivos, pastas e ferramentas em suaárea de tra- balhodo computador. Você já deve ter comprado na internet por meio de umcarrinho de compras. Talvez você já tenha implementado um algoritmo percorrendo uma árvore em largura ou em profundidade; ou já tenha resol- vido umadívida técnicaem seu software. Quem sabe você já enviou um build

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    13.1. Descobrindo uma boa metáfora Casa do Código para opipelineda integraç ão contínua, ou então participou de um debate em forma defishbowl.

    No XP, a metáfora de sistema traz uma visão comum que auxilia o time e o cliente a entender os elementos do sistema. Ela funciona como umpat- ternde alto nível e explica seu design sem uma documentaç ão pesada. Ela é semelhante à linguagem ubíqua, porém, enquanto esta se concentra em uma linguagem comum entre o negócio e os desenvolvedores, aquela foca na lin- guagem da arquitetura da soluç ão.

    O nascimento dessa prática deu-se no sistema de folha de pagamento da Chrysler [9]. A metáfora era de uma fábrica paraproduziro salário, onde as caixas desciam em uma linha de montagem para serem montadas. As caixas são as partes do salário a serem montadas em um item apenas: o salário do funcionário. Um outro exemplo é o de James Shore em seu primeiro projeto XP, que era dedata warehouse(armazém de dados) [53], cujos nomes das clas- ses do sistema utilizavam a metáfora de uma empilhadeira em um armazém.

    Muitas pessoas ignoram o uso dessa prática por não conhecerem sua uti- lidade. Uma metáfora de sistema ajuda a padronizar os nomes dos objetos para entendê-lo e também auxilia a reutilizar códigos. Desse modo, o desen- volvedor pode descobrir se algum objeto já existe no software e decidir onde é o melhor local para colocá-lo. Por trazer um vocabulário compartilhado, é uma excelente fonte de comunicaç ão entre a equipe e pode facilitar também na discussão das estimativas. Apenas uma boa metáfora pode ser realmente efetiva.

    13.1 Descobrindo uma boa metáfora Não é fácil encontrar uma metáfora útil para todo sistema [35]. Ela é repre- sentada por um domínio bem entendido por todos (domínio fonte), para des- crever os objetos e o funcionamento do domínio do sistema (domínio alvo).

    Descobrir uma metáfora é uma tarefa criativa; o segredo está em achar um domínio fonte que facilite o entendimento do domínio alvo. Pelo fato de todas serem inexatas, reexamine continuamente a metáfora atual, já que ela pode possuir uma extensão maior ou ser inadequada; esteja pronto para

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    Casa do Código Capítulo 13. Metáfora de sistema deixá-la caso isso ocorrer [19].

    Joshua Kerievsky define os três Is da metáfora: Iluminaç ão, Inspiraç ão e Integridade [35]. Uma boa metáfora auxilia a iluminar odesign, inspirar novas ideias e ajudar a sentir que o projeto do sistema está coerente, encaixando-se bem em conjunto. Deve-se buscar uma que contenha esses três itens.

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    Capítulo14 Reuniãodiáriaempé “Ter as melhores ideias, o código mais afinado, ou o pensamento mais pragmático é, em última instância, estéril, a menos que você possa se comunicar com outras pessoas.”

    –Andy Hunt & DaveThomas Você já participou de reuniões longas e improdutivas? A resposta é tão óbvia que até parece uma pergunta boba. Reuniões estão no topo da lista de coisas entediantes que desperdiç am o tempo da maioria dos desenvolvedores.

    Para o time no XP, as reuniões diárias em pé do inglêsDaily Stand Up Meetingsão focadas e rápidas, ocorrem no começo do dia e duram até quinze minutos. Seu formato físico é simples: todos de pé formam um círculo e cada pessoa tem a sua vez de falar no sentido horário (ou anti-horário). Ela faz com que o time mantenha-se alinhado, trocando conhecimento constantemente.

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    14.1. Time alinhado Casa do Código Ao começar a fazê-las, diversos erros comuns podem ocorrer. Neste capítulo, traremos um catálogo deles.

    14.1 Time alinhado Cada membro do time responde sucintamente três questões básicas:

    • O que eu fiz ontem?

    • O que eu farei hoje?

    • O que há de problemas no meu caminho?

    Dica:vinte segundos por questão e por participante Uma dica é que cada uma das três questões não deva necessitar mais do que vinte segundos para ser respondida [43]. Desse modo, cada par- ticipante não precisa mais que um minuto para falar e um time de dez pessoas levará dez minutos ou menos de reunião.

    O propósito da reunião é a comunicaç ão do time inteiro. Em todo começo de dia, ele comunica seus problemas, suas soluções e promove a colaboraç ão.

    Reuniões curtas com todo o time são mais efetivas do que diversas reuniõescom pedaços dele. O planejamento diário sincroniza seu trabalho e suas ex- pectativas, discutindo-se as tarefas realizadas e as tarefas a realizar.

    14.2 Troca de conhecimento Na reunião diária, cada indivíduo sabe o que o outro está trabalhando e se possui problemas relacionados a isso. Qualquer membro do grupo pode pe- dir e oferecer ajuda ao outro, tanto em dúvidas de negócio, quanto de técnicas.

    Mesmo que cada programador puxe as tarefas das quais tem conhecimento suficiente para desenvolver, algumas virão somente durante seu desenvolvi- mento. Muitas vezes, algo que foi dito na reunião servirá como referência no futuro. Uma boa forma para pedir ajuda é parear (programar em pares) com

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    Casa do Código Capítulo 14. Reunião diária em pé a pessoa referente ao assunto em questão. Assim, o aprendizado e a troca de conhecimento tornam-se constantes e colaborativos.

    14.3 Como começar?

    O ideal é começar as diárias desde o primeiro dia da primeira iteraç ão cri- ada no jogo do planejamento. A cultura de experimentaç ão é essencial para começar, visto que, raramente, uma diária sai certa pela primeira vez em um time recém-formado. Por mais que ele seja excelente, deve-se entender que o grupo está em formaç ão e algumas coisas terão de ser adaptadas e melho- radas. Temporariamente, um alarme pode ser usado para ajudar a lembrá-lo do horário do começo e do fim da reunião. Fique atento aos erros comuns listados a seguir e melhore continuamente as reuniões diárias em pé.

    14.4 Erros mais comuns de uma reunião em pé “Ao longo dos anos, eu tenho desenvolvido uma simples regra: quando a reunião fica entediante, saia.”

    –[ref the-clean-coder A reunião diária em pé não existe para desperdiç ar tempo, mas o con- trário; ela substitui outras reuniões para ganhar-se tempo. Porém, é neces- sário conhecer os erros mais comuns para identificá-los quando ocorrerem.

    O coach deve ter conhecimento suficiente para ajudar o time a detectá-los e resolvê-los.

    Os erros mais comuns em reuniões diárias em pé são:

    •Reunião de status:a diária não é uma reunião destatus reportingpara uma pessoa, tal como um coordenador ou gerente. Caso seja neces- sário, a dica é realizá-la após alguém fazer ostatus reporting, possivel- mente oTracker.

    •Discutir soluções:um dos propósitos dessa reunião é identificar pro- blemas, não resolvê-los. A dica é continuar com a reunião diária, dei- xando a conversa sobre as soluç ão para depois dela.

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    14.4. Erros mais comuns de uma reunião em pé Casa do Código •O time não vê valor:isso pode ocorrer quando um time ágil está se formando. A dica é levantar esse problema na próxima reunião de re- trospectiva do time. Não postergue.

    •Não ter um horário fixo:todos do time precisam saber o horário fixo diário da reunião para segui-lo estritamente. O horário da diária deve ser sagrado. Uma dica é ter o papel do “chato da diária”; uma pessoa eleita para lembrar do horário e dar um toque caso a reunião demore ou perca o foco. Outra dica: um despertador ajuda a lembrar o time.

    •Sem local dedicado:é importante manter um único lugar para que o time faç a a diária, de preferência ao próprio local de trabalho. A dica é fazer a reunião próximo ao quadro de histórias e tarefas para a gestão visual.

    •Não saber ouvir:para uma boa comunicaç ão, é necessário saber falar e também ouvir atentamente. Uma dica é ter umtokenpara chamar a atenção de todos. Ele pode ser qualquer objeto que chame a aten- ção. Se for um objeto engraç ado, fica mais fácil de pedir a atenção de todos. Já vimos equipes utilizando canetas de quadro, apagadores, guarda-chuvas e até garrafa de óleo diesel (em uma empresa de refina- ria).O token é como uma bengala: é para ser temporário até que o time caminhe bem nas diárias.

    •Não fazer a reunião, porque um indivíduo está ausente:é melhor ter uma reunião sem um membro do time do que não tê-la. A dica é simples: apenas faç a a reunião.

    •Não ficar de pé:uma dica de produtividade é fazer com que todos os participantes fiquem de pé na reunião para que ela seja rápida e tenha foco. Isso faz com que as pessoas prestem mais atenção nas outras. Reu- niões improdutivas com elas sentadas fazem com que seja confortável a participaç ão. Caso ela perca o foco, as pessoas ficarão cansadas e logo vão querer dar um jeito de realinhar e finalizá-la.

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    Casa do Código Capítulo 14. Reunião diária em pé Lembrete!

    A comunicação é o maior propósito do time XP na reunião em pé diária.

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    Capítulo15 Possecoletiva “Myyy PRECIOUSSS.”

    –Gollum, no filme O Senhor do Anéis Posse coletiva é uma prática indispensável no XP, pois envolve colabora- ção, comunicaç ão e feedback. Com a posse coletiva, qualquer membro ou par do time pode implementar uma funcionalidade, arrumar um bug ou refato- rar em qualquer parte do código, a qualquer momento. No XP, todos têm a responsabilidade pelo sistema. Isso encoraja cada membro do time a sentir- se responsável pela qualidade do todo. É claro que nem todos saberão sobre todas as partes igualmente, mas todos saberão, ao menos, um pouco de cada parte do sistema.

    O termo original no livro do eXtreme Programming [6] é collective ow- nershipe não apenascode ownership, porque todos os artefatos no desenvol- vimento são de posse coletiva do time, não só o código. Além dele, a suíte de

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    15.1. My precious! Casa do Código testes é também de propriedade coletiva, assim como o ambiente de integra- ção contínua e os executáveis do build.

    Quando um par do time encontra uma oportunidade de melhorar o có- digo, ele pode tranquilamente refatorar e melhorar seudesign. A posse cole- tiva gera bastante sinergia com as outras práticas do XP, e o versionamento com a integraç ão contínua avisará a todos o que está sendo alterado.

    O trabalho em time com a posse coletiva encoraja a difusão de ideias e de conhecimento. A programaç ão em par ajuda a distribuir esse conhecimento por meio do aprendizado entre os membros do grupo, deixando a posse cole- tiva mais refinada. Porém, para tudo isso funcionar, é necessário que nenhum integrante ache que é o dono de partes do sistema. É preciso colaboraç ão.

    15.1 My precious!

    Você assistiu ao filmeO Senhor dos Anéis? O personagem Gollum (ou Sméa- gol) chamava o anel demy precious(em português, “meu precioso”). Não faç a isso com oseucódigo. Deixe seu time colaborar! O objetivo é evitar as ilhas de conhecimento, reduzindo o risco de depender apenas de uma pessoa. A posse coletiva é um benefício para todos os membros (cada um poderá sair de férias ou tirar uma folga com mais tranquilidade por não dependerem tanto dele, por exemplo).

    Quando a posse não é coletiva, somente uma pessoa é dona do código e os programadores devem submetê-lo para revisão e aprovaç ão. Isso é, basi- camente, o oitavo desperdício no Lean [41], que é relativo ao capital humano e à criatividade dos funcionários. Consequentemente, isso gerará diversos outros desperdícios: espera (o time aguardará a revisão do dono do código); transporte (enviar o código ao dono); defeito (nem toda a decisão do dono será a melhor); superprocessamento (a revisão para controle pelo dono do código); e estoque (a fila de itens a revisar pelo dono).

    Uma pessoa é notavelmente um gargalo no time ou no processo quando não consegue atender todas suas demandas e cria estoque de tarefas, nas quais ninguém pode ajudar. E atenção: qualquer membro poderá sair da empresa a qualquer momento, o que pode impactar no negócio do cliente.

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    Casa do Código Capítulo 15. Posse coletiva Reflexão!

    Faça uma reflexão: quantas pessoas são necessárias faltar ao trabalho para que o sistema não possa mais ser desenvolvido? Quanto menor o número, pior será a situaç ão. A posse coletiva aumenta esse número ao máximo, ou seja, ao tamanho da equipe.

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    Capítulo16 Padrãodecodificaç ão “A quantia de tempo gasto lendo código versus escrevendo é bem mais de 10 para 1. Então, fazer o código mais fácil de ler, o torna mais fácil de escrever.”

    –Robert C. Martin Pelo fato de todos no time XP estarem trabalhando juntos em cada parte do sistema, refatorando código e trocando de pares frequentemente, não se pode haver diferentes formas de codificaç ão. Um padrão torna-se necessário, pois deve facilitar a comunicaç ão entre o time, encorajando a posse coletiva, e evitando problemas na programaç ão em pares e na refatoraç ão.

    O padrão deve ser estabelecido e concordado pelo time, pois faz com que todos o utilizem efetivamente. Caso contrário, a equipe ficará insatisfeita e evitará ao máximo seu uso. Sua existência vale muito mais do que a sua forma, porque ele pode ser revisto e evoluído de acordo com seu uso.

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    16.1. Pequenos projetos também se beneficiam? Casa do Código Algumas linguagens de programaç ão já propõem padrões de codificaç ão, e também é comum uma organizaç ão ou um produto estabelecê-los. Na lin- guagem Java, a Sun estabeleceu em 1997 oJava Code Conventions(Conven- ções de Código Java) [46], válido até os dias atuais. A Google define seus pró- prios guias de estilos para diversas linguagens, como: C++, Java, Objective-C, Python, Shell, HTML/CSS, JavaScript, e Lisp [29]. O kernel do Linux também define seu estilo de codificaç ão [58].

    Imagine centenas ou milhares de programadores produzindo código para um único software sem padronizaç ão? Seria o caos! O kernel do Linux prova- velmente teria tantosbugsque se tornaria inutilizado. O Free Software Foun- dation também define padrões de codificaç ão para seus programas GNU [21], descrevendo o melhor uso da linguagem C, padrões para interfaces, para li- nha de comando, para documentaç ão e para asreleases.

    Ok, esses são projetos grandes. Mas e os projetos pequenos? É o que discutiremos logo a seguir.

    16.1 Pequenos projetos também se beneficiam?

    Certamente, pequenos projetos com times pequenos se beneficiarão com pa- drões de codificaç ão. Ok, alguém ainda pode não ter se convencido e pensar que isso é necessário apenas para grandes projetos. Veja a seguir como um pequeno código pode causar problemas.

    Falta de padronizaç ão de código Sem uma padronizaç ão, um programador pode fazer tranquilamente qualquer um dos quatro códigos mostrados na sequência para calcular o mó- dulo de um número na variávela(o péssimo nome é proposital não te- mos um padrão nesse momento). Esses quatro exemplos vêm da combinaç ão de duas variações: ter uma condiç ãoifcom o bloco interno de código na mesma linha ou não, e ter chaves ou não.

    Condição com bloco interno na mesma linha:

    •Com chaves:

    if(a<= 0) {a= -1 *a; }

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    Casa do Código Capítulo 16. Padrão de codificaç ão •Sem chaves:

    ifa a= -1 *a; Condição com bloco interno na próxima linha:

    •Com chaves:

    if(a<= 0) { a= -1 *a; } •Sem chaves:

    if(a<= 0) a= -1 *a; Ok, sem muitos problemas até então, pois fizemos apenas duas variações nesse pequeno trecho de código. Porém, e se variarmos em mais formas? Se as chaves serão indentadas ou não, se teráelse, se usaremos nomes de va- riáveis sem significado (letraa) ou não. Com isso, teremos mais 3 tipos de variações, totalizando 5 tipos em 32 formas de codificaç ão. Além disso, cer- tamente existem outras mais. Programadores têm suas preferências de estilos ao programar, e essa variabilidade tenderá ao infinito. Então, sem uma pa- dronizaç ão de código, haverá retrabalho, discussão e estresse, mesmo em um pequeno projeto.

    16.2 Como definir?

    Antes de tudo, tente começar com algo que já exista. Pesquise se há um padrão de codificaç ão na sua empresa ou se há algum definido pela linguagem ou tecnologia utilizada. Caso positivo, comece por isso, permitindo que o time revise e aprimore-o. Caso não exista, reúna o grupo inteiro para defini-lo.

    Ninguém melhor que ele próprio para padronizar seu próprio código.

    Para descrever um padrão de código, diversos itens podem ser conside- rados:

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    16.2. Como definir? Casa do Código • Nomenclatura de variáveis; • Nomenclatura de métodos; • Nomenclatura de classes; • Nomenclatura de pacotes; • Indentaç ão da tabulaç ão; • Indentaç ão de chaves; • Indentaç ão das estruturas condicionais; • Uso de parênteses em expressões; • Uso de letras maiúsculas e minúsculas; • Uso deelsenoif; • Uso dedefaultnoswitch; • Uso de tratamento de exceções; • Uso de estruturas de dados específicas; • Importaç ão de classes e bibliotecas; • Diretrizes de Orientaç ão a Objetos; • Uso de padrões de projeto; • Boas práticas de programaç ão; • Comentários de código; • Comentários noscommits; •Logging; • Detalhes específicos da linguagem de programaç ão; • Detalhes específicos do ambiente de desenvolvimento.

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    Capítulo17 Programaç ãoempar “Dados olhos suficientes, todos os erros são óbvios.”

    –Lei de Linus, Eric Steven Raymond Sabe-se que revisão por pares (peer review ) é uma boa prática de desen- volvimento que aumenta a qualidade do software e a colaboraç ão no time.

    Visto que é produtivo, que tal programar e revisar em pares o tempo inteiro?

    No XP, todo o código de produç ão é criado por programaç ão em par (pair programming). Isso significa ter duas pessoas piloto e copiloto trabalhando juntas em apenas um computador, com foco em uma única tarefa e ao mesmo tempo. O que o XP indica é programar em par quando o código de produç ão for escrito. Não necessariamente se deve programar em par 100% do tempo, pois atividades, como pesquisas e leituras, não têm essa necessidade.

    Os nomes dos papéis de um par vêm da metáfora da aviaç ão: piloto e copiloto (ou navegador). O piloto programa, enquanto o copiloto acompa-

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    17.1. Diversos benefícios Casa do Código nha e cuida de tudo o que está sendo realizado, pensando em casos de testes, desde o padrão de codificaç ão até questões de arquitetura. A troca de papéis é essencial para colaboraç ão e partilha de conhecimento.

    Trabalhar dia a dia ao lado de um colega exige habilidades sociais que levam tempo em aprender, porém aumenta a cooperaç ão no time, indepen- dente do status da função de cada integrante. Programaç ão em par não é mentoria, uma vez que é um trabalho colaborativo entre ambas as partes, in- dependente de terem muita diferença nas experiências. Não é aceitável dizer O design que você fez possui um erro, mas sim O design que nós fizemos possui um erro.

    Nas seções deste capítulo, falaremos sobre os diversos benefícios desse tipo de programaç ão, assim como discutiremos o que gestores podem pensar sobre seu custo. Veremos também sobre a pressão do par durante o desenvol- vimento, o nivelamento do conhecimento entre a dupla e como começar (com dicas sobre pareamento e o ambiente de trabalho). Além disso, pergunto: por que não trabalhar em par em todos os tipos de tarefas? 🙂 17.1 Diversos benefícios Diversos benefícios são conhecidos nopareamento[62]:

    •Revisão de código contínua:muitos erros são pegos quando eles es- tão sendo codificados, em vez de serem descobertos por um testador, tornando a quantidade de erros consideravelmente menor; •Discussão contínua da solução:o design é aprimorado e o código fica mais sucinto; •Afinamento do par:o time resolve problemas mais rapidamente por estar coeso também em pares; •Aprendizagem:as pessoas aprendem significativamente sobre o sis- tema e sobre engenharia de software; •Gestão do conhecimento:o projeto acaba com várias pessoas enten- dendo cada pedaço do sistema;

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    Casa do Código Capítulo 17. Programaç ão em par •Trabalho colaborativo:os indivíduos aprendem a trabalhar em time e a conversar mais frequentemente, dando mais fluxo à informaç ão e à dinâmica do grupo; •Motivaç ão:as pessoas apreciam mais o seu trabalho e o trabalho de todos.

    17.2 Um desenvolvedor pelo preço de dois?

    O quê? Dois programadores fazendo o trabalho de um? De modo algum!Isso é o que é dito geralmente por quem não conhece a produtividade e os bene- fícios da programaç ão em par, ou por pessoas que ainda pensam no processo fordista de ter-se apenas um funcionário por estaç ão de trabalho. Produzir softwares é uma atividade complexa e não se deve aplicar processos fabris.

    O coach XP deve ficar atento à organizaç ão do ambiente, tratar da mudança com a visão gerencial e harmonizar os relacionamentos humanos.

    1 + 1 > 2. Duas pessoas trabalhando em um único computador produzirá mais que duas pessoas trabalhando separadas, já que isso aumenta o foco, e também gera qualidade e troca de conhecimento. Com um breve tempo, as vantagens já surgirão, basta acreditar no potencial da equipe. Quem pratica sente seus benefícios.

    17.3 Apressão do par Você já ouviu falar em pressão do time? Isso acontece quando se trabalha com somente uma meta. As pessoas dependem de você, e você delas. Caso alguém não colabore na meta, o próprio time vai naturalmente pressioná-la; ou a própria pessoa se cobrará de alguma forma.

    No trabalho em par, isso não é diferente. Cada membro tem o compro- misso de fazer um bom trabalho. Isso gera maior concentraç ão, incentiva o bom trabalho e aumenta a responsabilidade. Revezar frequentemente faz com que cada um respeite o outro, tratando a pressão como algo bom e não como um problema.Jogue limpo com o seu par, você dependerá dele.

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    17.4. Nivelando o conhecimento Casa do Código 17.4 Nivelando o conhecimento O aprendizado pela troca de conhecimento está na essência da programaç ão em pares. O programador que souber menos logo aprenderá com o mais ex- periente, podendo aprender uma tecnologia, um framework, um algoritmo, um padrão de projeto, uma história de usuário, ou qualquer componente do desenvolvimento de software. O nivelamento de conhecimento é um resul- tado intrínseco dopareamento.

    17.5 Como começar?

    O segredo para começar é ter um clima de experimentaç ão, entendendo que algumas coisas não funcionarão de início e precisarão de melhoria. No jogo do planejamento, histórias e tarefas podem ser elencadas para serem desen- volvidas em pares. Na retrospectiva, o time reflete sobre os benefícios trazidos e o que deve ser melhorado nopareamento.

    Uma boa dica para fazer acontecer esse trabalho em par é limitar o desen- volvimento a um número de tarefas menor que o de programadores. Assim, sempre haverá, ao menos, um programador impedido de pegar uma tarefa, então ele precisará parear com um outro. Utilizando um quadro de Kanban, basta aplicar o limite noWIP(do inglês,Work in ProgressTrabalho em Pro- gresso).

    Dica:revise em pares quando não parear Mesmo que algumas atividades não sejam realizadas em pares o tempo inteiro, utilize sempre a revisão em dupla. O modo mais efici- ente é o de rever o código dessa formaantesde enviá-lo para obranch padrão. Isso resulta um código totalmente revisado que será integrado no seu servidor. Reexaminar depois pode perder a prioridade e gerar re- trabalho. Aproveite também para usar a revisão não apenas no código, mas também em tudo o que é útil para o desenvolvimento.

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    Casa do Código Capítulo 17. Programaç ão em par 17.6 Dicas para aprimorar a programação em par Que tal experimentar essas abordagens?

    •Vamos tentar sua ideia primeiro:alguém da dupla sugere começar pela ideia de soluç ão do outro integrante. Essa abordagem cria um clima de respeito por entender que as soluções de cada um serão ex- perimentadas e melhoradas.

    •Pensar alto:em vez de o piloto ficar olhando para o código e pensando sozinho, ele fala o que está pensando. Isso ajuda o copiloto a entender o que está sendo feito.

    •Regra dos dez segundos:muitas vezes o piloto está em um raciocínio aprimorado e não linear. Por essa razão, o copiloto deve respeitar esse momento e aguardar cerca de dez segundos para intervir. Essa dica é muito boa para não quebrar o raciocínio.

    •Revezar por ciclo de tempo:revezar o papel de piloto e copiloto é es- sencial. Para forçar a troca, o par pode colocar um alarme para desper- tar no final do ciclo de tempo. Esse ciclo não pode ser nem muito curto, nem muito grande. O par saberá o tempo certo, que normalmente varia de dez minutos a uma hora. A Técnica Pomodoro é uma forma efici- ente de revezar o par, controlar o tempo e ter foco. O par desenvolve o software a cada vinte e cinco minutos, e faz um intervalo curto de três a cinco minutos. A cadapomodoro, o copiloto assume o lugar do piloto e vice-versa. A cada quatropomodoros, o intervalo é mais longo, de vinte a trinta minutos.

    •Revezar por ciclo de TDD:revezar por tempo pode quebrar o raciocí- nio do piloto por parar no meio da escrita. Revezar por ciclo de TDD (vide capítulo19) torna interessante a linha de raciocínio seguida. Uma bela variaç ão é que o copiloto assuma na fase de codificaç ão [12], e não na de escrita de testes, fazendo com que um escreva o teste para o outro programar e refatorar.

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    17.7. O ambiente de trabalho Casa do Código 17.7 Oambiente de trabalho Trabalhar fisicamente em pares não exige muita infraestrutura, sendo sufi- ciente apenas um computador configurado normalmente. Para que os pares trabalhem juntos a distância ou sem um espaço físico adequado, existem di- versas ferramentas de trabalho remoto com compartilhamento de tela e de acesso remoto de áudio e vídeo.

    Cuide do espaço físico. A mobília pode dificultar ficar lado a lado pro- gramando (por exemplo, em mesas de canto ou em formato de ‘L’). Os pro- gramadores terão dores no corpo depois de um dia de programaç ão em pares com pouca ergonomia. Uma dica é adaptar o espaço; melhor ainda se houver estações de programaç ão em par, adicionando um teclado, um mouse e um monitor o copiloto, o que é mais favorável para a ergonomia do trabalho.

    17.8 Especificar, projetar, trabalhar, tudo em par Mesmo que essa prática do XP chame-seprogramação em pares, o trabalho como um todo pode ser realizado em dupla. Um programador pode parear com o cliente para tirar dúvidas; o cliente pode parear com um testador para escrever bons testes de aceitaç ão; e um programador pode parear com um testador para discutir alguns testes unitários.

    Dica:pareamento em tudo!

    Somos tão adeptos do trabalho em par que pareamos em atividades além do desenvolvimento de software. Lecionados cursos em par, pales- tramos em eventos em par etc. Sabemos que, assim, um curso ou uma palestra tem muito mais qualidade, motivaç ão e troca de conhecimento.

    Então, que tal começar a parear também?

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    Capítulo18 Refatoraç ãodecódigoparaalta qualidade “Qualquer tolo pode escrever código que o computador possa entender. Bons programadores escrevem código que humanos possam entender.”

    –Martin Fowler Você se lembra das aulas de matemática sobre fatoraç ão? O objetivo era aprender como fatorar uma fraç ão ou equaç ão matemática. Por exemplo, sim- plificar a expressão2*x+2*ypara sua expressão fatorada2*(x+y).

    Pois bem, a refatoraç ão tem o mesmo propósito na codificaç ão. Com ori- gem na Orientaç ão a Objetos, é também chamada derefinamento incremental e mantém a semântica da funcionalidade, alterando apenas odesign.

    Uma refatoraç ão é uma mudança feita na estrutura interna do software que o faz ficar mais fácil de entender e mais barato de modificá-lo, sem mu-

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    18.1. Refatore impiedosamente Casa do Código dar seu comportamento observável [23]. Obter essa simplicidade não é algo fácil, por isso a fazemos por meio de uma série de pequenas alterações, uma a uma sem alterar esse comportamento. Atenção: refatoraç ão não é um ato de reescrever código.

    Deve-se pedir permissão para refatorar? Acreditamos que não. A quali- dade é importante no software, e você é o profissional que decide sobre o uso da refatoraç ão. Por essa razão, ela está embutida na estimativa do desenvolvi- mento. Refatorar é um investimento na qualidade do código e não pode ser visto como retrabalho.

    Quais são seus benefícios?

    • Economiza tempo e aumenta a qualidade; • Melhora o design do software; • O código torna-se mais legível e reutilizável; • Fica mais fácil encontrar defeitos; • Ajuda você a programar mais rápido.

    A abordagem do XP é refatorar impiedosamente; ou seja, não se opta por isso. Falaremos disso a seguir, bem como sobrebad smellsde código.

    Dica:papel do cleaner Tenha alguém no time XP com o papel docleaner. Isso auxilia o time a criar a cultura de refatoraç ão.

    18.1 Refatore impiedosamente Refatorar não é uma tarefa opcional. Escrever código já na primeira vez com um excelente design é difícil. Quando você pensar em refatoraç ão, criará es- tratégias para a codificaç ão e melhorias no software. Pensando no time, a posse coletiva de código (capítulo15) é importante para que qualquer indiví- duo sinta-se confortável para refatorar.

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    Casa do Código Capítulo 18. Refatoraç ão de código para alta qualidade Não deixe para refatorar apenas quando se utiliza TDD, pois existem ou- tros momentos em que você pode fazê-lo, como:

    • Ao adicionar uma função; • Ao consertar um defeito; • Para facilitar o entendimento; • Em revisões de código; • Regra de três: na primeira vez que você fizer algo, apenas faç a. Na se- gunda vez, a duplicaç ão surgirá, mas mantenha assim. Na terceira vez, refatore.

    Dica:pense no próximo!

    Escreva o código para pessoas, não apenas para o compilador. Seu time agradecerá e alguém no futuro certamente ficará feliz em ver um bom código estruturado.

    18.2 Bad smells de código Sabemos que alguns tipos de código são difíceis para alterar, como: código com lógica duplicada ou complexa, código ilegível ou código com compor- tamento adicional e desnecessário. Estes comumente possuem muitosbad smells(maus cheiros), também chamadoscode smells(cheiros de código). Po- demos dizer que se podem descobrir rapidamente osbad smellscom uma breve revisão do código.

    Os maus cheiros podem estar nos níveis de classe, de método ou de atri- buto. A refatoraç ão é a remoção da duplicaç ão e decode smells. Duplicaç ão é sinal de código sujo, de que há mais código do que o necessário em relaç ão a classes, métodos e variáveis. Obter o código limpo (clean code) é o objetivo da refatoraç ão, pois ele fica legível, com alta coesão, baixo acoplamento e sem maus cheiros.

    Alguns exemplos decode smellsa serem refatorados são:

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    18.2. Bad smells de código Casa do Código • Uma classe ou método muito longo; • Uma classe que utiliza muitos métodos de outra classe; • Uma classe que faz muito pouco; • Subclasses muito semelhantes; • Nome de variável não comunicativo; • O não tratamento de uma exceção; • Código duplicado; • Código inútil.

    Uncle Bob (Robert C. Martin) lista em seu livro,Código limpo[42], diver- sosodores; pérolas; heurísticas sobre problemas de comentários e de ambiente de build; e testes gerais de nomenclatura e de testes. Vale a pena a leitura; é muito recomendado para quem deseja fazer um código realmente bom.

    Dica:catálogos de refatorações Martin Fowler mantém na internet um catálogo de refatorações bas- tante completo e detalhado. Nele, você encontrará refatorações, como:adicionar um parâmetro, extrair uma superclasse, mover um método,trocar um array por um objeto e muito mais. Confira-o em [26].

    Além disso, Joshua Kerievsky disponibiliza em seu livro,Refatoração para padrões, uma lista bastante detalhada de como refatorar para pa- drões [34].

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    Capítulo19 TDD:DesenvolvimentoGuiado porTestes “Eu não sou um excelente programador; eu sou apenas um bom programador com excelentes hábitos.”

    –Kent Beck O TDD (do inglêsTest-driven DevelopmentDesenvolvimento Guiado por Testes) é uma técnica para construç ão de software que guia seu desenvolvi- mento por meio da escrita de testes. Sua essência está em seumantra: testar, codificar e refatorar (veja na imagem a seguir). Essa técnica surgiu a partir da refatoraç ão, dando base para guiar a codificaç ão. TDD gera aprendizado, porque ajuda a aprender boas práticas de programaç ão e a criar testes auto- matizados.

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    Casa do Código Fig. 19.1: Mantra do TDD: testar, codificar e refatorar Mas espere um pouco! Escrever testes antes de codificar? Sim, exata- mente! No TDD, primeiramente é escrito o código de teste e depois (somente depois) o de produç ão. Dessa forma, a codificaç ão será guiada por testes e o código de produç ão estará coberto por eles. Os testes guiarão o desenvolvi- mento. É uma mudança de paradigma que vale a pena conhecer.

    Joshua Kerievsky traz a visão desse mantra como um diálogo [34]:

    •Pergunta:você pergunta ao sistema por meio de um teste.

    •Resposta:você responde escrevendo código que passa no teste.

    •Refinamento:você refina a pergunta consolidando ideias, removendo itens desnecessários e clarificando ambiguidades.

    •Repetição:você mantém o diálogo fazendo novas perguntas.

    Na agilidade, trabalhamos com ciclos de trabalho em todos os níveis do projeto. No nível do negócio, utilizamos ciclos de entregas e de iterações para o desenvolvimento de software; no nível do trabalho em equipe, trabalhamos com ciclos em reuniões diárias; e no da codificaç ão, o TDD traz ciclos de trabalho para desenvolver as funcionalidades incrementalmente. Cada um

    Imagem 1 da página 117 (sem descrição)

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    Casa do Código Capítulo 19. TDD: Desenvolvimento Guiado por Testes dura alguns minutos: adiciona-se um teste, fazendo-o funcionar com código de produç ão e refatorando-o.

    Sobre os benefícios do TDD, Maurício Aniche fez um compilado de re- sultados em pesquisas sobre isso [4]. Eles são bastante convincentes no uso de TDD:

    • Programadores produziram código que passaram em aproximada- mente 50% mais testes caixa-preta do que os que não utilizavam; • Reduç ão de 40-50% na quantidade de defeitos e um impacto mínimo na produtividade; • 87,5% dos programadores acreditam que facilitou entender os requisi- tos; • 95,8% acreditam que TDD reduziu o tempo gasto comdebug; • 78% acreditam que aumentou a produtividade da equipe; • 92% acreditam que ajuda a manter um código de maior qualidade; • 79% acreditam que promove um design mais simples.

    19.1 Padrões deTDD Para detalhar o TDD, Kent Beck [8] define quatro classes de padrões: padrões gerais de TDD, padrões de teste para TDD, padrões de barra vermelha, e pa- drões de barra verde. Vamos apresentá-las ao longo deste capítulo.

    Padrões gerais de TDD:

    • Teste seu software com testes automatizados; • Um teste não deve afetar a execuç ão do outro; • Mantenha uma lista de testes; • Escreva um teste antes de escrever código de produç ão; • Comece a escrita do teste pelo métodoassert(…);;

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    19.1. Padrões de TDD Casa do Código • Os dados de testes devem ter significados evidentes.

    Padrões de teste para TDD:

    • Quando escrever casos de teste grandes, comece com sua menor parte que faç a quebrar; • Quando testar recursos caros ou complicados, utilize constantes que si- mulem o comportamento desses recursos (com estratégias dedummy, stub,spy,fakeemock); • Quando estiver programando sozinho, deixe o último teste quebrado.

    Quando você voltar a programar, ele dirá onde você parou.; • Quando estiver programando em time, deixe todos os testes rodando.

    Seu grupo precisará ter todos os testes rodando.

    Os três passos domantra do TDDsão descritos a seguir.

    Passo 1: escrever um teste que falhe Feedback ao programador é um ponto-chave no XP e é guiado por bons testes automatizados. Aí está a importância de automatizá-los: ter um feed- back, uma resposta rápida para guiar o desenvolvimento do software. Sua automatizaç ão é um investimento a curto e longo prazo, pois guia a codifica- ção e aumenta a qualidade do software a longo prazo.

    Uma dúvida bastante comum é se o TDD faz uso apenas de testes de uni- dade. A resposta é negativa, porque ele é ortogonal em relaç ão a ele. Estes verificam unidades de comportamento. O TDD utiliza, principalmente, tes- tes de unidade, mas também pode usar testes funcionais e de aceitaç ão para guiar o desenvolvimento das funcionalidades.

    Para facilitar sua escrita são utilizados frameworks xUnit: JUnit (Java), NUnit (.NET), CPPUnit (C++), PHPUnit (PHP), e mais uma grande diversi- dade dessas ferramentas. As expressões “barra vermelha” (Red bar ) e “barra verde” (Green bar) surgiram desses frameworks, pois são avisos visuais em uma barra colorida integrada no ambiente de desenvolvimento. A vermelha

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    Casa do Código Capítulo 19. TDD: Desenvolvimento Guiado por Testes é o resultado de execuç ão de um ou mais testes falhando; já a verde é o resul- tado da execuç ão de todos os testes passando.

    Para escrever um teste que falhe (barra vermelha), Kent Beck define os padrões:

    • Escreva um teste que gere aprendizado e que se esteja confiante para implementar; • Inicie com um teste para uma operaç ão que não faz nada; • Peça explicações e esclarecimentos por meio dos testes; • Escreva testes para aprender o que um software externo faz; • Anote os outros testes que surgirem para não perder o foco do atual; • Quando houver um defeito encontrado, escreva um teste para apontar obug.

    Passo 2: escrever código funcional para rodar o teste Agora, com um teste já falhando, é hora de escrever o código de produç ão para fazê-lo passar (barra verde). Dessa forma, o código de produç ão ficará praticamente todo coberto por testes. Neste segundo passo, o objetivo é fazer o código passar, sem se preocupar tanto com o seu design, porque isso será feito na próxima etapa: a refatoraç ão.

    Ao usarmosbaby steps(passos de bebê), o código é produzido até dar barra verde. Rode os testes constantemente. Osbaby stepsajudarão a verificar cada passo, você terá feedback contínuo deles. Entregue frequentemente no repositório de código (algumas vezes ao dia). Todos eles devem estar rodando para enviar o código ao repositório; a integraç ão contínua garantirá isso.

    Padrões de barra verde para TDD, para fazer rodar o teste quebrado:

    • Retorne uma constante para simular o resultado e, então, transforme-a gradualmente em uma expressão com variáveis; • Transforme os retornos constantes em expressões, após possuir dois ou três exemplos;

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    19.1. Padrões de TDD Casa do Código • Implemente diretamente as operações simples; • Quando a implementaç ão usar coleções de objetos, inicie sem coleções e, somente depois, utilize-as.

    Dica:utilize seus baby steps conscientemente Em seu livro sobre TDD, Maurício Aniche traz a dica de que osbaby stepsdevem ser realizados de maneira consciente: o desenvolvedor deve buscar pela soluç ão mais simples (e não necessariamente pela modifica- ção mais simples) [4]. Assim como um bebê, o desenvolvedor deve dar um passo seguro, de acordo com a complexidade do problema que está sendo resolvido.

    Passo 3: refatorar o código “O objetivo do TDD é escrever código limpo que funciona.”

    –Ron Jeffries O propósito do TDD está no design do código; o teste é apenas um efeito colateral (ótimo, por sinal). Agora com o código coberto pelo teste, é hora de melhorar seu design, refatorando-o. Um dos erros mais comuns no uso de TDD está em não refatorar constantemente. Tenha muita atenção nessa parte; se você não a fizer, terá um código mais complexo e não fará TDD.

    Segundo Martin Fowler, um dos gurus da refatoraç ão, esta é uma mu- dança feita na estrutura interna do software para deixá-lo mais fácil de enten- der e barato de modificar, sem mudar seu comportamento observável [23].

    Uma das mágicas do TDD está aqui: o comportamento observável é guiado pelo feedback dos testes! Eles apontarão se a refatoraç ão do código o alterou ou não.

    Cada refatoraç ão deve ser realizada embaby steps; ou seja, não se deve fazer grandes refatorações. O feedback contínuo é essencial para evitar que o comportamento observável não seja alterado. Caso seja, os testes automatiza- dos apontarão o problema. Umbaby stepdeve ser simples, mas não simplório.

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    Casa do Código Capítulo 19. TDD: Desenvolvimento Guiado por Testes Assim como em um passo de bebê, você deve dar o maior passo para ir em frente com total segurança.

    Lembre-se de refatorar também seus testes. Eles fazem parte do software, e se não forem refatorados, se tornarão complexos e dificultarão a manuten- ção futura.

    19.2 Show me the code “Talk is cheap. Show me the code.”

    –Linus Torvalds Falar é fácil, mostre-me o código. Ok, vamos começar com um exemplo clássico praticado emCoding Dojos: a conversão de números decimais para romanos. Para isso, escolhemos a linguagem Java e o JUnit para escrever os testes de unidade. Como primeiro ciclo de TDD, vamos converter o número decimal1para romano. Segue o código do teste:

    import.junit.Assert.*; import public class @Test public void assertEquals("I",.converter(1)); } } Esse teste falhará a própria compilaç ão do código, pois inexiste a classe RomanNumberConverter, e muito menos seu método converter. Uma dica é utilizar a IDEIntegrated Development Environment(Eclipse, por exem- plo) para criar as classes e métodos automaticamente, a partir dos erros de compilaç ão. Precisamos fazer esse teste compilar com o código a seguir:

    public classRomanNumberConverter { public staticObjectconverter(int i) { return null; } }

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    19.2. Show me the code Casa do Código Veja que o código está com uma má aparência, mas já compila e o teste já pode ser executado. Porém, ele falha, pois retornanulle deveria retornar I. Visto isso, faremos o primeiro teste funcionar:

    public class public static converter(int i) { return"I"; } } Nosso primeiro teste passou! Você pode estar achando estranho retornar uma constante, mas calma! Lembre-se dosbaby steps, além da simplicidade no XP. Como regra, deve-se retornar uma constante para fazer funcionar os primeiros testes, apenas depois abstrair em variáveis em uma fórmula.

    Agora, possuímos teste passando, portanto podemos refatorar. Faremos as seguintes refatorações, também com baby steps:

    • Tornar mais sugestivo o nome do método de testetestIpara deveRetornarI; • Mudar o retorno do métodoconverterdeObjectparaString; • Tornar o métodoconverterde classe para um método de objeto (removendo ostatic).

    Eis o código com essas refatorações aplicadas:

    public classRomanNumberConverterTest { @Test public voiddeveRetornarI() { assertEquals("I", newRomanNumberConverter().converter(1)); } } public classRomanNumberConverter { publicStringconverter(int i) { return"I"; } }

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    Casa do Código Capítulo 19. TDD: Desenvolvimento Guiado por Testes Lembre-se de rodá-lo a cada pequena refatoraç ão. Desse modo, teremos garantido que não o quebramos.

    Fechamos o nosso primeiro ciclo do mantra do TDD: criamos um teste, fazemo-lo funcionar e o refatoramos embaby steps. Estamos aprendendo o problema. Agora, é o momento de irmos para o nosso segundo ciclo de TDD.

    Hey, atenção! Não saia escrevendo o código funcional! Você precisa de um teste falhando antes de tudo. Ok, então vamos escrever o próximo:

    public class @Test public void assertEquals("I", new().converter(1)); } @Test public void assertEquals("II", new().converter(2)); } } Ah, agora sim temos um teste falhando, então podemos escrever código funcional:

    public class publicint i) { if(i== 1) { return"I"; } else return"II"; } } Esse código está ruim, porém os testes estão rodando. Esses são osbaby steps. O XP foca no necessário e somente o necessário. Agora é hora de refato- rar, melhorando seudesign. Vamos fazer uma pequena refaforaç ão, tornando o nome da variável do métodoconverterdeiparadecimal. Resultando no código:

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    19.2. Show me the code Casa do Código public class publicint decimal) { if(decimal== 1) { return"I"; } else return"II"; } } Acabamos nosso segundo ciclo de TDD. Vamos para o terceiro. Agora você já sabe: primeiro escreva um teste que falhe. Vamos escrever um teste para verificar a conversão do decimal três:

    public classRomanNumberConverterTest { @Test public voiddeveRetornarI() { assertEquals("I", newRomanNumberConverter().converter(1)); } @Test public voiddeveRetornarII() { assertEquals("II", newRomanNumberConverter().converter(2)); } @Test public voiddeveRetornarIII() { assertEquals("III", newRomanNumberConverter().converter(3)); } } Ok, temos o teste falhando para o valor três. Vamos agora criar código funcional. Só que dessa vez, realizaremos obaby stepum pouco maior, come- çando o algoritmo efetivo da soluç ão. Faremos uso da recursividade:

    public classRomanNumberConverter { publicStringconverter(int decimal) { if(decimal== 0) { return"";

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    Casa do Código Capítulo 19. TDD: Desenvolvimento Guiado por Testes } return(decimal – 1) +"I"; } } Os três testes estão passando, excelente. Vamos refatorar? Que tal colo- carmos umelsecom chaves nessa condiç ãoif?

    public classRomanNumberConverter { publicStringconverter(int decimal) { if(decimal== 0) { return""; }else{ returnconverter(decimal – 1) +"I"; } } } Ótimo! Testes passando e código refatorado. Temos o terceiro ciclo de TDD completo.

    Para não ficar exaustivo esse exemplo, vamos adiantar alguns ciclos de TDD. Fizemos mais um ciclo de TDD para cada um dos números decimais:

    5, 6, 7, 8, 9, 10, 28 e 34. O código de testes resultante desses ciclos ficou dessa forma:

    public classRomanNumberConverterTest { @Test public voiddeveRetornarI() { assertEquals("I", newRomanNumberConverter().converter(1)); } @Test public voiddeveRetornarII() { assertEquals("II", newRomanNumberConverter().converter(2)); } @Test public voiddeveRetornarIII() { assertEquals("III",

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    19.2. Show me the code Casa do Código new().converter(3)); } @Test public void assertEquals("IV", new().converter(4)); } @Test public void assertEquals("V", new().converter(5)); } @Test public void assertEquals("VI", new().converter(6)); } @Test public void assertEquals("VII", new().converter(7)); } @Test public void assertEquals("VIII", new().converter(8)); } @Test public void assertEquals("IX", new().converter(9)); } @Test public void assertEquals("X", new().converter(10)); } @Test public void

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    Casa do Código Capítulo 19. TDD: Desenvolvimento Guiado por Testes assertEquals("XXVIII", new().converter(28)); } @Test public void assertEquals("XXXIV", new().converter(34)); } } O código funcional resultante ficou assim:

    public class publicint decimal) { if(decimal== 0) { return""; }else if(decimal<= 3) { return this.converter(decimal – 1) +"I"; }else if(decimal== 4) { return"IV"; }else if(decimal<= 8) { return"V"+this.converter(decimal – 5); }else if(decimal== 9) { return"IX"; }else if(decimal<= 39) { return"X"+this.converter(decimal – 10); } return null; } } Você deve perceber que a funcionalidade ainda não está pronta e o código não está totalmente limpo. Podemos ainda fazer algumas boas refatorações, como: mudar o retorno denullpara umaStringvazia ou criar uma enu- meração para os números romanos.

    Ainda precisamos fazer mais testes. Precisamos verificar casos de erro (quando o decimal for menor que zero), além de verificar as conversões de números maiores com as letras de cinquenta (L), cem (C), quinhentos (D) e

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    19.2. Show me the code Casa do Código mil (M). Sugerimos que você pratique TDD com esse exercício e, de prefe- rência, que complete todos os casos de teste.

    Dica:pratique em umCodingDojo!

    Fazer uma sessão deCoding Dojopropicia um excelente espaço aberto e momento de aprendizado para treinar a programaç ão em pares, TDD, projeto simples e outras práticas do XP. Daniel Wildt tem um post queexplica mais sobre isso em [60].

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    Capítulo20 Integraç ãocontínua “Integração contínua não livra os bugs, mas os tornam dramaticamente mais fáceis de encontrar e de remover.”

    –Martin Fowler Integraç ão contínua (IC) é uma prática, na qual o código que está sendo desenvolvido pelo time é integrado, versionado, construído e verificado di- versas vezes ao dia em um ambiente dedicado. Os programadores XP devem integrar e fazercommitem somente uma versão no repositório de código.

    Cada integraç ão é verificada por umbuildcom testes automatizados, detec- tando erros o mais cedo possível [24].

    Essa prática gera sinergia com as outras do XP. Osbuildsdas pequenas entregas são construídos por meio da IC. Ela auxilia na refatoraç ão, pois ve- rificará obuildautomaticamente a cadacommitrealizado no repositório. Em cada um, o padrão de codificaç ão pode ser verificado automaticamente.

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    20.1. Como potencializar os benefícios? Casa do Código A integraç ão contínua é um processo simples que traz muitos benefícios:

    • Aumenta o feedback, a comunicaç ão na equipe e a moral do time; • Todos veem o que está acontecendo; • Previne e descobre os problemas de integraç ão mais cedo; • Reduz riscos e evita a baixa qualidade; • Não é necessário um integrador dedicado para a equipe; • Todos têm acesso à versão mais atualizada; • Auxilia na reutilizaç ão de código: os desenvolvedores terão sempre o código mais atualizado; • Evita problemas demerge, fazendo pequenas integrações ao longo do tempo.

    Para ter tais benefícios de um modo eficiente, é preciso seguir algumas regras que potencializam a integraç ão contínua. Além disso, é necessário a utilizaç ão de ferramentas para as tarefas automatizadas relativas. Para deta- lhar melhor, falaremos dessas regras e de ferramentas nas próximas seções deste capítulo.

    20.1 Como potencializar os benefícios?

    “Quanto maior for a razão aparente para criar um branch, mais você não deveria criar um branch.”

    –Jez Humble Um ambiente de integraç ão contínua precisa estar bem afinado para que gere excelentes benefícios. Para isso, trazemos um compilado de dicas:

    • Tenha um servidor de integraç ão dedicado; • Tenha apenas uma única fonte de repositório de código;

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    Casa do Código Capítulo 20. Integraç ão contínua • O time faz oscommitsnobranchpadrão (head, trunk, master); • Não quebre obuild, toda mudança deve manter o código rodando; • Antes de fazer commit, todos os testes de unidade devem rodar e passar no build em seu ambiente de desenvolvimento local; • Arrume imediatamente osbuildsquebrados; • Automatize obuilde mantenha-o rápido; • Os testes automatizados devem ser rodados com sucesso nobuild, es- pecialmente os testes de aceitaç ão automatizados; • Torne fácil o acesso do últimobuilda todos do time; • Crie penalidades leves e descontraídas para quem quebrar osbuilds; • Automatize o deploy; • Teste em um ambiente clone do ambiente de produç ão; • Não desative a integraç ão contínua quando estiver sob pressão, nessa hora ela terá ainda mais valor.

    Você acha complicado para um time sempre usar integraç ão contínua?

    Pois saiba que o Google e o Facebook mantêm todo o seu desenvolvimento apenas notrunk! É uma questão de disciplina e atitude. Otrunké o prin- cipalbranch, gerando o nome Trunk Based Development(Desenvolvimento Baseado em Trunk) a essa abordagem.

    No Google, em 2010, já havia mais de 5 mil desenvolvedores trabalhando no mesmo repositório diariamente, em mais de 40 escritórios, com mais de 20 alterações por minuto, com 50% da base de código sendo alterada mensal- mente, e mais de 50 milhões de casos de testes executados diariamente [38].

    No caso do Facebook, ele possui trêstrunks: um para o www(web), outro para Android (mobile) e outro para iOS (mobile). Portanto, é bem acessível que um time apenas consiga utilizar integraç ão contínua, certo?

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    20.2. Ferramentas Casa do Código “Vai ter que pagar bala!”

    Quando alguém da equipe for o responsável por ter quebrado obuild, ele deve comprar um pacote de doces para preencher o pote de balas do time. Essa é uma maneira leve e descontraída de evitar que ele seja quebrado por descuidos. O maior problema pode ocorrer quando o pote está cheio e o time não aguenta mais comê-las. 😉 20.2 Ferramentas Antes de falarmos de ferramentas, é preciso estar claro que integraç ão con- tínua é muito mais uma atitude do que apenas o uso de ferramentas. Ferra- mentas servem para dar suporte a um processo; ou seja, uma por si só não faz nada. Algumas das mais utilizadas para essa integraç ão atualmente são:

    o Jenkins (fork do Hudson), o Bamboo e o CruiseControl. Essas ferramentas trabalham em conjunto com as de versionamento, debuild, de qualidade de código e de testes automatizados. Há uma gama delas para cada tecnologia.

    As ferramentas de versionamento controlam o código-fonte, gerenciando as versões do software. Existem dois modelos principais:

    •Modelo cliente-servidor:todas as versões do código ficam centrali- zadas no servidor. Os clientes possuirão apenas a versão de trabalho e executarão comandos sobre o repositório central. Exemplos dessas ferramentas são o Subversion (SVN) e o Concurrent Version System (CVS); •Modelo distribuído:uma cópia integral de todo o repositório de có- digo fica em cada cliente, ou seja, cada um também é um servidor, não sendo necessário ter um central. Exemplos famosos desse modelo de ferramentas são o Git e o Mercurial.

    As ferramentas debuildempacotam os executáveis do software de acordo com as configurações e uma série de tarefas, também gerenciando dependên- cias de bibliotecas. Normalmente, as ferramentas de desenvolvimento (IDEs)

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    Casa do Código Capítulo 20. Integraç ão contínua já têm integraç ão a essas debuild, sendo um processo transparente para o desenvolvedor. Exemplos desse tipo são o Ant, o Maven e o MSBuild.

    As ferramentas de qualidade de código preocupam-se com o seu design.

    Muitos problemas podem ser automaticamente detectados por elas. São os principais tipos:

    • Analisadores de código (por exemplo, o FindBugs e o PMD); • Verificadores de cobertura de código (por exemplo, o JaCoCo e o Code Coverage); • Verificador de padrão de codificaç ão (CheckStyle); • Frameworks de testes de código (JUnit e PHPUnit); • Gerenciador de qualidade de código (Sonar).

    Sobre ferramentas de teste, existem diversas para cada tipo. Para testes funcionais na web, existe o Selenium; para os de desempenho e de carga em Java, o JMeter; de integraç ão em Java, o Arquillian; e de cenários e critérios de aceitaç ão, o Cucumber, o JBehave (Java) e o SpecFlow (.NET).

    Quando obuildfalhar, a ferramenta de IC notificará todos sobre o ocor- rido. O Jenkins possui umpluginbem-humorado em que o Chuck Norris aparece em uma imagem com umacara de quem não gostounem um pouco dobuildcom falha, oufeliz da vidaquando ele foi realizado com sucesso. Veja nas imagens a seguir:

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    20.2. Ferramentas Casa do Código Fig. 20.1: Chuck Norris não gostando nem um pouco que o build falhou.

    Fonte da imagem:https://wiki.jenkins-ci.org Fig. 20.2: Chuck Norris contente que o build foi construído com sucesso.Fonte da imagem:https://wiki.jenkins-ci.org

    Imagem 1 da página 135 (sem descrição)
    Imagem 2 da página 135 (sem descrição)

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    Casa do Código Capítulo 20. Integraç ão contínua Essepluginpode ser encontrado emhttps://wiki.jenkins-ci.org/display/ JENKINS/ChuckNorris+Plugin.

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    Capítulo21 Ritmosustentável “Desenvolvimento de software é uma maratona, não uma sprint.”

    –Robert C. Martin Imagine uma pessoa correndo em uma maratona. O caminho é longo, então a melhor estratégia é correr em um ritmo constante até a chegada. To- dos os corredores profissionais sabem disso. Caso alguém queira correr mais rápido que seu ritmo, em poucos minutos ele estará ofegante e terá que parar para descansar, também perdendo sua concentraç ão na respiraç ão. O mesmo ocorre ao desenvolver software.

    Ter ritmo sustentável é uma regra criada pelo XP para balancear o de- senvolvimento com as demandas do negócio. Todos têm seus ritmos equi- librados: o time XP, o cliente e pessoas envolvidas com o projeto. Utilizar a simplicidade traz soluções mais efetivas ao cliente, mais ainda quando há mais demandas do negócio do que a capacidade do time. A qualidade do software

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    21.1. Velocidade do time Casa do Código é essencial para manter esse fluxo de trabalho normalizado, porque defeitos gerariam retrabalho para as próximas iterações.

    Produtividade em longo prazo é o ponto-chave aqui. Durante uma se- mana ou pouco mais, o time consegue produzir mais trabalhando com horas extras. Porém, a longo prazo é inviável, porque o rendimento vai decaindo semana a semana.

    Dica:culturaLean A dica é buscar a cultura Lean em seu desenvolvimento de software.

    No Lean, a sobrecarga é chamada deMuri, que é gerada pelo desbalan- ceamento de carga (chamado deMura), que, por sua vez, gera diversos tipos de desperdícios (chamados deMuda) [48]. A sobrecarga gera can- saço, que gera desatenção, que gera defeitos, que gera retrabalho: um ciclo que só vai diminuindo a produtividade e fazendo com que o timepossa abandonar outras práticas do XP.

    Planejar o trabalho, de acordo com a velocidade do grupo e em um ritmo de trabalho sem horas extras, auxilia no ritmo sustentável. Vamos falar dissonas seções deste capítulo.

    21.1 Velocidade do time “Os processos ágeis promovem desenvolvimento sustentável. Ospatrocinadores, desenvolvedores e usuários devem ser capazes de manter umritmo constante indefinidamente.”

    –Oitavo princípio do Manifesto Ágil Um bom jogo do planejamento ajuda no ritmo sustentável, uma vez que será o time que dará as estimativas e negociará as entregas com o cliente. Sua velocidade é importante para determinar um planejamento realista, sem des- balanceamento. Para o grupo encontrar sua velocidade, são necessárias algu- mas iterações. No XP, ela é dada emstory points. Existe uma variaç ão grande sobre estimativas, mas o que realmente interessa é que o time a conheça para estabelecer um ritmo sustentável.

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    Casa do Código Capítulo 21. Ritmo sustentável É papel do time proteger-se de trabalho extra. Algo curioso pode acon- tecer com grupos que estão em um excelente ritmo sustentável com entregas de qualidade: a gestão pode ver que ele está indo muito bem e tentarempur- rarmais tarefas, o que pode comprometer o restante do trabalho e começar a produzir entregas atrasadas de baixa qualidade.

    Horas extras é um sintoma gerado por sérios problemas em um projeto [6]. Muitas vezes, a soluç ão mais rápida para um gestor é fazer com que seus funcionários trabalhem mais, em vez de arrumar o problema raiz. Isso vai contra a melhoria contínua, acoberta o problema real e gera novos.

    Dica:planeje e estime todas as tarefas necessárias Faça um planejamento de todas as atividades necessárias com suas es- timativas. Planeje todas as tarefas necessárias para implementar as histó-rias de usuário, com o objetivo de finalizar uma iteraç ão ou uma entrega com todo o trabalho pronto. Além das tarefas de codificaç ão, planeje e estime as de integraç ão, de teste (incluindo automatizados) e de deploy, como também outras importantes. Caso sobrem atividades para a pró-xima iteraç ão, negocie e replaneje o trabalho.

    21.2 40horas semanais “Eu quero estar revigorado e cheio de energia toda manhã, e cansado e satisfeito toda noite.”

    –Kent Beck O conceito de ritmo sustentável iniciou-se com a prática de 40 horas se- manais (40-hour week) no livro de origem do eXtreme Programming[6]. Ron Jeffries abstraiu esse conceito e o renomeou pararitmo sustentável[5]. Curio- samente, há várias décadas, em 1926, Ford já havia estabelecido a jornada de trabalho de 40 horas semanais, pois sabia que o problema seria resolvido com uma boa organizaç ão, e não com mais horas trabalhadas [37]. A imagem a se- guir ilustra a relaç ão da produtividade por semana de trabalho em um ritmo sustentável (40 horas semanais) e insustentável (60 horas semanais, fazendo horas extras).

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    21.2. 40 horas semanais Casa do Código Fig. 21.1: Gráfico de produtividade por semana para o trabalho de 40 horas semanais e para o com horas-extras de 60 horas Pessoas não são máquinas, e desenvolver software não é uma atividade simples. É necessário raciocínio aprimorado para produzir cada funciona- lidade que é diferente da anterior já feita. Programadores não sãomão de obra, mas sim trabalhadores do conhecimento (chamados decérebro de obra).

    Sabe-se que, nos humanos, o cérebro é o órgão que consome mais energia, to- talizando até 20% do total da energia do corpo [57]. Comumente, um dia de trabalho rende pelo trabalho normal de uma semana, assim como o inverso; uma semana inteira não rende nem por um dia normal de trabalho.

    Algumas pessoas têm capacidade de trabalhar em todo seu potencial cri- ativo, atento e confiante em 45 horas por semana, outras em 35 horas, mas raramente alguém conseguirá isso em 60 horas, em longo prazo. Um time cansado trabalhará menos, não importa quanto tempo trabalhem a mais.

    Imagem 1 da página 141 (sem descrição)

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    Capítulo22 IndoalémdoeXtreme programming “É o que você aprende, depois de você saber tudo, o que importa.”

    –John Wooden No capítulo2, já falamos sobreLean Software DevelopmenteScrum, que são complementares ao XP. A ideia deste capítulo é trazer brevemente algu- mas das principais abordagens e práticas para ir além do eXtreme Program- ming. Certamente, há muitas outras, mas já é um bom começo para aprender ou reforçar. Reflita com seu time sobre como esses assuntos poderão auxiliar no desenvolvimento.

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    22.1. Jogos e dinâmicas Casa do Código 22.1 Jogos e dinâmicas Que tal discutir e aprender as práticas do XP de um modo divertido? Com jogos e dinâmicas, seu time pode trocar muito conhecimento sobre esse mé- todo. Na Industrial Logic, em 2001, Joshua Kerievsky desenvolveu cartas de baralho para aprender XP, além de uma lista de jogos com elas [33]. O ba- ralho possui cartasVque representam os valores do XP;Pque retratam os problemas no desenvolvimento de software; eSque são as soluções trazidas pelas práticas do XP (vide imagem a seguir).

    Fig. 22.1: Extreme Programming playing cards Em 2014, com a permissão da Industrial Logic, Jamile Alves e Dionatan Moura traduziram para português e as adaptaram para serem disponibiliza-das em um formato livre para impressão [3]. Assim, você poderá usá-las comseu time. Experimente os jogos de acordo com seu contexto e lembre-se de se divertir! 🙂

    Imagem 1 da página 143 (sem descrição)

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    Casa do Código Capítulo 22. Indo além do eXtreme programming 22.2 Behaviour-D rivenDevelopment(BDD) OBehaviour-Driven Development(BDD Desenvolvimento Guiado por Com- portamento) possui o mesmo propósito do XP: unir as pessoas de desenvol- vimento com as de negócio. O BDD baseou-se no TDD [47], e serve também para análise ágil e teste de aceitaç ão automatizado. Ele utiliza a especificaç ão por exemplos [1], uma abordagem colaborativa para definir requisitos a par- tir de exemplos realistas, em vez de enunciados abstratos. Cada exemplo é entendido por meio de um cenário com dados reais. Uma história de usuário pode possuir diversos exemplos reais de utilizaç ão. Um de cenário poderia ser:

    •Cenário:pesquisandoextreme programmingno Google.

    •Dado queestou na pesquisa do Google •Edigitoextreme programmingno campo de busca •Quandopressiono a tecla Enter •Entãoé exibida a primeira página de uma lista dos websites com con- teúdo relevante sobre o assunto.

    Quando o software possuir essas especificações executáveis, ele terá a do- cumentaç ão viva; ou seja, ela estará conectada diretamente ao código por meio dos testes de aceitaç ão. Ferramentas de frameworks auxiliam a escrita e a execuç ão dos cenários JBehave (Java), Cucumber (Ruby), RSpec (Ruby), SpecFlow (.Net), e Jasmine (JavaScript).

    22.3 Domain-D rivenDesign(DDD) Domain-Driven Design(DDD Projeto Orientado ao Domínio) é uma abor- dagem criada por Eric Evans que conecta a implementaç ão do software a um modelo, em um contexto específico, por meio de uma linguagem ubíqua [19].

    Ela coloca o foco primário do projeto no domínio, além de permitir a co- laboraç ão entre as pessoas técnicas e as especialistas nele, tudo isso em um

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    22.4. Kanban Casa do Código refinamento iterativo. No XP, o DDD é complementar às metáforas de sis- tema e auxilia a comunicaç ão do time para entender melhor sobre o negócio do cliente.

    22.4 Kanban Kanbansignifica “cartão visual” em japonês. Na linha de produç ão de uma fábrica, um kanban acompanha peças ou partes específicas para sinalizar vi- sualmente a entrega de uma determinada quantidade de itens, agilizando o processo.

    No desenvolvimento de software, o sistema kanban auxilia na visualizaç ão do trabalho em andamento e de cada passo na cadeia de valor (da demanda do cliente até estar em produç ão). Ele também permite limitar o trabalho em progresso (WIPWork in Progress), removendo gargalos na produç ão e dando vazão ao trabalho. Ele embasa as decisões no processo, visualiza sua consequência e identifica oportunidade de melhorias no fluxo da produç ão.

    Tudo isso dando base para a produç ão puxada (trabalhar com a demanda atual existente, e não com base em previsões).

    No XP, as histórias de usuário e tarefas vão para o quadro (escritas em cartões ou post-its) e são gerenciadas visualmente. Em termos do Lean, o uso desse sistema catalisa o pensamento Lean na entrega de sistemas de software.

    Para aprender mais sobre ele, sugerimos o livroKanban em 10 Passos, de Jesper Boeg [10].

    22.5 Estimando com planning poker Para estimar as histórias de usuário e conversar sobre elas durante o jogo do planejamento, você e seu time poderão utilizar oplanning poker. É uma téc- nica de dimensionamento e planejamento das histórias por meio de um con- senso do time. Para isso, cada integrante usará um baralho específico e pontu- ará a história; todos farão isso ao mesmo tempo, como em um poker. O grupo deve fazer rodadas de pontuaç ão até chegar em um consenso. O ponto-chave está na comunicaç ão.

    O baralho é baseado na sequência de Fibonacci; possui as cartas de0, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 20, 40 e100(vide imagem a seguir). A razão

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    Casa do Código Capítulo 22. Indo além do eXtreme programming do uso dessa sequência exponencial é relacionada à incerteza porque, quanto maior for a pontuaç ão, maior será a incerteza da estimativa. A unidade de es- timativa é a que o time definiu (story points, dias ideais, tamanhos de camiseta etc.). Para estimar cada história, o grupo deve conversar sobre seus detalhes e o que será necessário para desenvolvê-la. Lembre-se que estimativas são literalmente estimativas: uma aproximaç ão, e não um prazo formal.

    Fig. 22.2: Cartas do baralho de planning poker 22.6 Resolvendo dívidas técnicas Suponha que você precise implementar uma funcionalidade em seu sistemae você possui duas opções: a primeira é a de entregar um código bem feito e refatorado, com um bomdesign, mas que tomará um pouco a mais de tempo; e a segunda é a de entregar rapidamente um código confuso no qual você esperanunca mais tocar, porque as mudanças ali serão cada vez mais complicadas.

    A primeira opção poderá gerar algumas (raras) dívidas técnicas, porém a segunda certamente causará muitas. O XP defende a primeira opção, mas é possível que se comece a usá-lo em um sistema já existente. Por isso, ressal-tamos as dívidas técnicas.

    Dívida é dívida, e de algum modo você terá que pagar. Pensando por um lado ruim, você pagará apenas os juros (cada vez mais altos), que resultamem váriosbugs, assim como atrasos e custos maiores, entrega a entrega. E a dívida não para por aí: seu código ficará cada vez pior, seu time com maisestresse físico e mental, seu cliente insatisfeito, algumas pessoas se demitirão,ou até o sistema parará de vez.

    Imagem 1 da página 146 (sem descrição)

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    22.7. Refatorando também o banco de dados Casa do Código Por um lado pior ainda, elas ficarão tão grandes que o trabalho será ape- nas resolverbugs. Já pensando por um lado positivo, você utilizará a refatora- ção para ir arrumando continuamente as maiores dívidas técnicas, automati- zando testes e resgatando o ritmo sustentável do time, assim como a satisfaç ão do cliente.

    22.7 Refatorando também o banco de dados Refatoraç ão no XP é uma disciplina que se aplica a todo o sistema, inclusive ao banco de dados. Você já pensou no impacto que uma base de dados com um péssimodesigntem? Esse tipo de refatoraç ão pode ser definida como uma mudança disciplinada na estrutura de uma base de dados que não altera sua semântica, porém melhora seu projeto e minimiza a introduç ão de dados inconsistentes [44].

    O princípio decode smellstambém é aplicado a banco de dados, chamado dedatabase smell(mau cheiro de banco de dados). Fabrízio Mello possui um material sobredatabase smellsem [45]. Essa área de refatoraç ão em banco é recente e possui poucos materiais, mas que já são bastante úteis para começar a refatorar o seu.

    22.8 Código limpo Ok, já falamos de código limpo (clean code) nos capítulos 12,19e18, mas a importância é tão grande no XP que vale a pena reforçar essa prática. O livro Código limpo[42] do Uncle Bob (Robert C. Martin) apresenta a disciplina de escrever código limpo, trazendo diversas dicas, como: nomes significativos, funções, comentários, formataç ão, objetos, estruturas de dados, tratamento de exceções, testes de unidade, classes, concorrência e odores de código. E lembre-se sempre: código limpo não é o que mais se refatora, mas o que me- nos se suja.

    22.9 Entrega contínua eDevOps Entrega contínua é um conjunto de princípios e práticas com o objetivo de compilar, testar e liberar software ao cliente de forma mais rápida e frequente.

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    Casa do Código Capítulo 22. Indo além do eXtreme programming Essa abordagem encaixa-se muito bem com as práticas do XP de liberaç ão constante de pequenas versões e de integraç ão contínua. Podemos dizer que entrega contínua também é uma práticaextrema, pois está bastante alinhada com o primeiro princípio do Manifesto Ágil:nossa maior prioridade é satis- fazer o cliente por meio da entrega contínua e adiantada de software com valor agregado.

    Jez Humble e David Farley descrevem os princípios da entrega de software no livroEntrega contínua[20]:

    • Criar um processo de confiabilidade e repetitividade de entrega de ver- são; • Automatize quase tudo; • Mantenha tudo sob o controle de versão; • Se é difícil, faç a com mais frequência e amenize o sofrimento; • A qualidade deve estar presente desde o início; • “Pronto” quer dizer “entregue"; • Todos são responsáveis pelo processo de entrega; • Melhoria contínua.

    Seguindo tais princípios, você terá um processo aprimorado de entrega contínua.

    22.10 Leituras sobre desenvolvimento de soft- ware Ao longo dos capítulos, referenciamos diversos livros relacionados a cada as- sunto do XP. Vá além, lendo e pesquisando esses e outros livros. Procure também séries de livros e editoras especializadas em software. Lê-los é uma grandiosa fonte de aprendizado. Leia bastante e desperte em si a curiosidade em aprender mais e mais.

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    22.11. Artesanato de Software Casa do Código No Brasil, temos a satisfaç ão de possuir uma editora com foco em livros de desenvolvimento de software nas área de Agile, Java, desenvolvimento Web, Mobile, Games e Front-End. Essa editora é a Casa do Código [15]. Seus livros são escritos por autores com renome na comunidade e são revisados por uma curadoria com experiência na área. Com certeza eles o ajudarão a ir muito além do XP.

    Lá existem livros na área de metodologia e tecnologia. Na de metodologia, existem livros sobre agile, startup, Scrum, TDD (com Java, .NET, Ruby), De- vOps, testes de Software; e na de tecnologia, livros sobre UX, jQuery, HTML5 e CSS3, web design responsivo, games em HTML, JavaScript, Android e IOs, Java 8, JSF, JPA, CDI, REST, Node.js, MongoDB, SQL, PHP, MySQL e muito mais. Show! Não é? 🙂 Um outro livro que é um excelente compilado da agilidade escrito por diversos agilistas brasileiros, referências no país e no mundo, é oMetodos ágeis para desenvolvimento de software[18]. Ele traz os assuntos sobre o Ma- nifesto Ágil, a história dos métodos ágeis no Brasil, Scrum, XP, OpenUP, FDD (Feature-Driven Development), Lean, Kanban, modelagem ágil, DDD (Domain-Driven Design), TDD, estimativas, gestão visual, coaching e facili- tação de times ágeis.

    22.11 Artesanato deSoftware Comumente, aprendemos que desenvolver software é uma atividade baseada na engenharia, na qual os desenvolvedores o constroem com métodos, téc- nicas e ferramentas fundamentadas na engenharia de software e no gerenci- amento de projetos. Existe uma lacuna nisso, pois desenvolvê-los não é uma tarefa simples que possa ser resolvida com métodos tradicionais de engenha- ria. Desenvolvê-los é uma tarefa do conhecimento e complexa.

    O movimento do Artesanato de Software (do inglês,Software Crafts- manship) reconhece que a produç ão de software é uma atividade artesanal, e não fabril. Dentro dessa área, o aprendiz deve estudar técnicas, tecnolo- gias e ferramentas para construir bem o código, aplicando bons princípios de programaç ão. E não para por aí: ele deve também criar hábitos de trabalho e investir em suas habilidades sociais (soft skills). Participar de uma comu-

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    Casa do Código Capítulo 22. Indo além do eXtreme programming nidade também aprimora seu aprendizado. Desse modo, ele se tornará um artesão de software.

    Há um grande elo entre um programador XP e um artesão de software.

    Precisamos de melhores programadores, e não mais simplórios.Pense em quantas dívidas técnicas um programador simplório pode deixar no sistema ao longo de um ano! É um grande impacto! Provavelmente serão necessários dois ou mais para arrumar toda a bagunça.

    Da mesma forma que métodos ágeis, o Artesanato de Software possui um manifesto [64]. O Edson Yanaga, artesão de software, fez sua traduç ão [16]:

    Manifesto pelo Artesanato de Software:como aspirantes a artesãos de software, elevamos o nível do desenvolvimento de software profissional ao praticar e auxiliar outros a aprender o ofício. Por meio desse trabalho, passa- mos a valorizar:

    • Não somente software funcionando, mas também software bem feito; • Não somente responder a mudanças, mas também continuamente adi- cionar valor; • Não somente indivíduos e interações, mas também uma comunidade de profissionais; • Não somente colaboraç ão com o cliente, mas também parcerias produ- tivas.

    Ou seja, na busca pelos itens à esquerda descobrimos que os itens à direita são indispensáveis.

    Relacionado à arte do Artesanato de Software, temos a parte comporta- mental, de atitude, que representa a coragem e o respeito como dois dos cinco valores do XP. Adicionalmente a tais valores, Chad Fowler escreveu o livroO programador apaixonado[22]; e Uncle Bob (Robert C. Martin), o livroCo- dificador limpo(Clean coder) [43]. O primeiro traz diversas dicas para cons- truir uma carreira notável em desenvolvimento de software; já o segundo traz um código de conduta para profissionais de software, sendo pragmático com conflitos, prazos apertados, gerentes pouco razoáveis, dizer não e lidar com a pressão.

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    Índice Remissivo Casa do Código ÍndiceRemissivo Épicos,, 39 40 horas semanais,123 Ambiente físico,31,94 Aprendizado,20,64,76,82,90,92, 132 Artesanato de Software,132 Atitude,13,133 Auto-organizaç ão,30 Baby steps,103 Balanceamento de carga do time,62 Banco de dados,130 Barra verde,102 Barra vermelha,102 Bugs de software,44 Código limpo,8,67,97,130 Casos de teste,102 Catálogo de refatorações, 98 Cenários de teste,50 Cleaner,25 Cliente presente,3,24,33 Coach XP,25,30,77,91 Cobertura de código,117 Code smells,67,97 Coding Dojo,112 Colaboraç ão,81 Comprometimento,32 Comunicaç ão,16,19,26,29,39,49, 72,76,81,85,113,115 Comunicaç ão face a face,12,20,33,37 Cooperaç ão no time,90 Coragem,16,21 Critérios de aceitaç ão,33,44,49 Cultura de experimentaç ão,77,92 Dívidas técnicas,7,25,67,129 Database smells,130 Debug,50 Desenvolvedor,24 Desenvolvimento Guiado por Com- portamento (BDD),50,127 Desenvolvimento Guiado por Testes (TDD),96,99 Desenvolvimento iterativo e incre- mental,20,54,58 Design de código,82,104,117 Design simples,20,22,53,101 Desperdícios,55 DevOps,24,130 Dimensionamento de histórias de usuário,44 Dinâmicas,32,126 Disciplina,32,115

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    Casa do Código Índice Remissivo Engajamento,25,53 Entrega contínua,54,130 Entrega de valor,22 Entregas grandes,55 Entregas pequenas e frequentes,12, 16,44,50,53,58,130 Escopo,61 Especificaç ão por exemplos,127 Estimar histórias,44,60 Estimar tarefas,62 Estimativa por tamanhos de cami- seta,44,128 Estimativas,66,72,122,128 Experimentaç ão,66 Fail fast,3,53,64 Falta de padronizaç ão de código,86 Fator de carga do time,62 Feedback,3,13,16,20,31,63,81,102, 104,113 Ferramentas de integraç ão contínua, 116 Foco,32,63,75,89,91 Gerente,26 Gestão,30 Gestão do conhecimento,90 Habilidades sociais,24,90,132 Hansei,31 Histórias de usuário,8,16,24,26,32, 33,37,49,50,58,65,92,127, 128 Ilhas de conhecimento,82 Integraç ão contínua,8,16,20,25,54, 81,103,113,130 Interface de usuário,44 INVEST,42 Iterações, 14,44,58,61,66,68 Jogo do planejamento,25,33,57,65, 77,92,122,128 Jogos,126 Kaizen,31 Kanban,128 Lean,13,31,55,82,122 Lean Software Development,13,125 Legibilidade de código,96 Liderança situacional,30 Linguagem ubíqua,72,127 Métricas de projeto,26 Macrogerenciamento,30 Manifesto Ágil,11,19,29,38,55,130 Manifesto pelo Artesanato de Soft- ware,133 Melhoria contínua,9,12,14,31,123, 131 Metáfora de sistema,71,127 Microgerenciamento,30 Mocking,102 Modelo 3C,39 Modelo de história de usuário,40 Motivaç ão,7,12,22,29,90 Multidisciplinaridade,24,30 Orientaç ão a Objetos,95 Os três Is da metáfora,73

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    Índice Remissivo Casa do Código Padrão de codificaç ão,8,85,113,117 Padrões de TDD,101 Papéis do XP,23,49,121 Peer review,89,92 Personas,43,44 Pessoas de negócio,12,24,58,59 Planejamento de iterações, 49,58 Planejamento de releases,58 Planning poker,128 Posse coletiva,21,81,85,96 Pressão do par,91 Pressão do time,91,92 Prioridade,34,46 Produtividade,7,75,101,122,123 Produto mínimo viável (MVP),68 Programaç ão em par,8,24,82,85,89 Programador,24 Projeto Orientado ao Domínio (DDD),127 Projeto simples,8,67 Projetos marcha da morte,57 Prototipaç ão,66 Puxar tarefa,62 Quadro de kanban,92 Qualidade,4,7,16,22,25,53,54,89, 96,101,113,121,122 Qualidade de código,117 Quebrar histórias,60 Quebrar tarefas,62 Reúso de código,72,96,113 Refatoraç ão,8,22,25,67,81,85,95, 99,104,113,129,130 Refinamento de histórias de usuário, 42 Release planning,57 Requisitos de usuário,2,16,24,37 Requisitos não funcionais,44 Respeito,16,22 Reunião diária em pé,25,75 Reuniões de retrospectiva,9,25,31 Reuniões remotas,35 Revisão de código,90 Revisão por pares,89,92 Risco,5,58,61,65,113 Ritmo sustentável,8,12,16,63,121 Satisfaç ão do usuário,53 Scrum,14,125 Sequência de Fibonacci,44,128 Sequência de múltiplos de dois,44, 128 Simplicidade,4,12,16,20,63,67,75, 121 Sincronizaç ão do time,76 Sinergia entre as práticas,16,19,32, 82,113 Sistema Toyota de Produç ão,13 SMART,43 Software Craftsmanship,132 Spikes de planejamento,65 Story points,44,122,128 Story smells,46 Tarefas de implementaç ão,24,33,43, 58,128 Testador,25

    Página 154

    Casa do Código Índice Remissivo Testes automatizados,6,16,24,50,54, 67,81,99,101,102,113 Testes de aceitaç ão,16,24,25,32,33, 39,49,102,127 Testes de unidade,20–22, 102 Testes funcionais,102 Time coeso,12,29 Time de desenvolvimento,59 Trabalho em par,94 Trabalho em time,29 Trabalho puxado,6 Tracker,26 Transparência,49 Trunk Based Development,115 Valor de negócio,5,38,53,58,61,63, 130 Valores do XP,19,29 Velocidade do time,6,44,61,64,122 xUnit,102 YAGNI (You’re Not Gonna Need It), 68

    Página 155

    Página 156

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  • Uma família ingleza Scenas da vida do Porto

    Uma família ingleza Scenas da vida do Porto

    Aproximadamente 124.879 palavras.

    As portuguezas não formam typo especifico, dir-me-hão talvez; são uma
    variedade apenas de especie mais vasta. Sempre desejava que conhecessem
    Cecilia, para que depois me dissessem a qual dos typos femininos,
    consentidos e sanccionados, pertencia a amiga de Jenny.

    Se houvesse uma fórmula unica para a belleza feminina, chamar bella a
    qualquer d'estas duas mulheres, agora reunidas diante do leitor, seria
    condemnar a outra; tão diversas, tão oppostas até, eram aquellas duas
    physionomias em tudo! Mas não succede assim; tem tantas maneiras de se
    realisar a belleza, tantos meios de excitar em nós, no mais intimo do
    nosso peito, essas mysteriosas vibrações que nos arrebatam, que seria
    loucura disputar primazias em casos assim. E isto é como no mais.

    Pois por serem bellos os vergeis do Minho, perdem a belleza as leziras
    do Vouga, ou até as paizagens alpestres de Traz-os-Montes?

    Cecilia não era loura nem trigueira, nem d'aquella côr pallida, que
    sonham os poetas e de que os medicos desconfiam; tingia-lhe o rosto,
    graciosamente oval, um colorido que, em linguagem artistica, julgo que
    nem tem ainda palavra creada.

    Se porém, á falta de termos, sempre lhe quizessem chamar pallida, deviam
    acrescentar, que era de uma pallidez, através da qual se presentia o
    sangue cheio de vida, que ás vezes a transformava na diffusa côr de rosa
    de um rosto de creança; os cabellos que, por um ondado natural, se
    erguiam levemente no alto da fronte, vacillavam entre o negro e o
    castanho escuro; os olhos, sim, esses eram negros devéras, e,–qualidade
    bem rara em olhos!–de uma discrição impenetravel. Olhos discretos,
    quando de ordinario são elles os que primeiro atraiçôam e inutilisam a
    reserva dos labios! Olhos, que ousam fitar-vos sem deixar fugir um
    segredo, nem desviar-se, por desconfiarem de si proprios! Discretos, mas
    expressivos de sympathia e de familiar bondade! Não se imaginam os
    encantos de uns olhos assim! E não julguem que são por isso incapazes de
    eloquencia; anime-os um dia a confiança e o amor, e verão os raios
    offuscadores que despedem! Mas o que elles não fazem,–e bem hajam por
    isso–é andarem por ahi a desperdiçar eloquencia, como esses implacaveis
    falladores, que em toda a parte se occupam a declamar discursos. Na
    conformação habitual dos labios, no sorrir, no mover da cabeça, em todos
    os movimentos e gestos emfim, havia, em Cecilia, uma tão completa
    ausencia de arte, tanta naturalidade e franqueza, que a vista deixava-se
    ficar, com prazer suave e sem timidez, a contemplal-a.

    Ha um meio de reconhecer o genero de belleza, a que pertencia
    Cecilia–genero que eu sustento ser o nacional:–quando, junto de uma
    mulher formosa, vos sentirdes á vontade, sem que a razão se vos
    perturbe, sem que por galanteria vos julgueis obrigados a lisonjas, sem
    que fermente em vós o tanto ou quanto de poesia, que encerram todos os
    corações; quando suavemente dominados pela branda influencia de um olhar
    sem requebros, podérdes sustentar com essa mulher uma conversa
    affectuosa, sincera, leal, como a sustentarieis com um amigo ou com uma
    irmã; quando, ao separar-vos d'ella, lhe apertardes cordialmente a mão,
    sem que nem a vossa nem a sua estremeçam ao encontrarem-se, e finalmente
    trouxerdes d'essa entrevista uma impressão agradavel, que mais vos
    acalente do que vos agite os sonhos, ficae certos de que encontrastes um
    dos typos de que fallo.

    Aviso-vos porém que os não julgueis pouco perigosos, apreciando-os pela
    placidez d'estes primeiros effeitos; se levaes em conta de ventura a
    liberdade do coração, fugi-lhes emquanto é tempo; pois, continuando
    n'essa convivencia intima, natural, insinuante, correis o risco de
    insensivelmente vos deixardes prender, se um dia, ao tentar terminal-a,
    surprendeis-vos devéras apaixonados; pela dor que experimentaes,
    conheceis então que fundas raizes lançára já o affecto.

    Eu por mim julgo mais irresistiveis as paixões que se geram assim; as
    que nascem rapidas, teem evolução rapida tambem, e muitas vezes
    apagam-se em pouco tempo.

    Vendo n'isto de paixões uma especie de doenças da alma, como alguns
    querem, era possivel talvez estabelecer n'ellas divisão analoga á que,
    nas do corpo, admittem os medicos. Haveria assim paixões agudas e
    paixões chronicas; umas, como as doenças do mesmo nome, geradas por
    impressões subitas, rapidas na sua marcha, promptas na sua terminação;
    outras adquiridas insidiosamente, por influencias de todos os dias, e de
    que nem se suspeita mal, lavrando a occultas e revelando-se apenas,
    quando o terreno já é seu e a victoria certa.

    Quaes d'ellas zombam mais da arte, devem sabel-o medicos e doentes.

    Mas, voltando a Cecilia, o seu conversar, ao qual dava realce o timbre
    de voz, vibrante e sonoro, tinha uma vivacidade e animação, direi até
    uma eloquencia natural, que entretinha a ouvir-se; no decurso de
    qualquer conversação, era notavel a frequencia com que lhe passavam a
    voz e as feições por contínuas e successivas alternativas de tristeza e
    alegria; como alternam nas campinas a sombra e a claridade, quando
    atravessam rapidas o ar, as nuvens impellidas pelo norte.

    Era assim que, referindo acontecimentos tristes, uma ou outra
    circumstancia d'elles desafiava-lhe um sorriso ou uma observação jocosa,
    e que, no meio da historia mais jovial, não lhe passava despercebido
    qualquer ligeiro vestigio de sentimento que ella tivesse, e de repente
    lhe desapparecia o riso dos labios e os olhos reflectiam uma generosa
    melancolia.

    Um dia, por exemplo, contava ella a Jenny, e contava-o quasi a chorar, o
    infortunio de um pobre centenario, a quem seu pae soccorrera. O
    desgraçado velho vivia n'uma casa miseravel, e, abandonado de todos, ia
    succumbindo á fome, quando Manoel Quentino o disputou compassivo a morte
    tão tormentosa.

    –Se visse o pobre homem!–dizia então Cecilia, com tremor de compaixão
    na voz–se o visse! Como elle nos recebia, chorando e rindo, como me
    pegava nas mãos para as beijar! Como erguia ao céo aquelles olhos, quasi
    cegos pela velhice e pela desgraça! Fazia pena! Tão trémulo, tão
    curvado!…–E, de repente, vindo-lhe aos labios um sorriso, que ella
    não reprimiu, acrescentou:–E então n'aquella idade e n'aquella miseria
    toda, o cuidado que o pobresinho tinha ainda com o rabicho, que usava na
    cabelleira! Coitado!

    De outra vez contava, rindo, o episodio caricato de certo operario, seu
    vizinho, que voltára, uma noite, a casa em completo estado de
    embriaguez, e atordoára a rua inteira com expansões de extemporanea
    alacridade, altercando, cantando e tocando até altas horas. Tudo quanto
    até alli referira lhe merecera sorrisos, mas, n'um instante,
    cobriu-se-lhe o rosto de profunda tristeza, e suspirando, proseguiu,
    cingindo a mão de Jenny:

    –Mas não quer saber? Quando este homem estava mais contente, vieram
    trazer-lhe um cão, que elle estimava muito e que n'aquella mesma noite
    haviam envenenado nas ruas. Parece-me que estou ainda a ver como elle
    ficou; esteve por muito tempo calado a olhar para o pobre animal e
    depois desatou a chorar e a abraçal-o, chamando-lhe seu amigo, seu
    companheiro, até…–acrescentou, sorrindo–até seu irmão. Mettia
    realmente dó. E aquella gente a rir cada vez mais! Era aquillo para rir?
    diga.

    Justeza de observação, talento para apreciar todas as faces dos
    sentimentos e das acções humanas, poucas vezes os dá o estudo no grau,
    em que ella naturalmente os possuia.

    Não se podia pois, repetimos, dizer Cecilia apaixonada como uma
    italiana, pensativa como uma allemã, séria como uma ingleza, languida
    como uma hespanhola, _coquette_ como uma franceza, porque de nenhum
    d'esses typos se aproximava; era verdadeiramente portugueza, e, para
    caracterisar estes, só conheço uma phrase, de que talvez o leitor se vá
    rir, mas pela qual eu tenho inexplicavel predilecção. Associa-lhe o meu
    pensamento tal conjuncto de qualidades physicas e moraes, que sempre que
    a ouço applicar, ella só suppre para mim uma longa descripção, e se for
    a analysal-a não lhe encontro de certo a comprehensão, que
    instinctivamente lhe attribuo. Se ao leitor succeder o mesmo, conceberá
    o typo de Cecilia depois de eu a pronunciar.

    Cecilia era o que naturalmente a todos occorre chamar–uma pobre
    rapariga.–N'esta expressão nada ha que faça suppôr a belleza da pessoa
    a quem se applica, bem sei; nem em rigor se refere a qualidade alguma
    moral.

    É certo; porisso não analyso. Succede porém que, quando de qualquer
    mulher, que não conheço, ouço dizer que é–uma pobre rapariga–, não sei
    por que a imagino bella, bella de belleza nacional e com um coração…
    como o coração de Cecilia.

    Aqui temos a ingleza Jenny, que não poderia receiar confrontos com a sua
    amiga, nem em gentileza nem em bondade; mas, não sei porquê, lembrou-me
    chamar a Jenny anjo e fada, e hesitaria em definil-a, como defino
    Cecilia.

    Accusar-me-hão de dar á filha de Manoel Quentino uma feição
    demasiadamente burgueza, com a phrase burgueza, pela qual a caracteriso.
    Folgarei de que seja merecida a critica, porque…–vá aqui mais outra
    confissão, em que revelarei a minha coragem–, eu sympathiso mais com os
    typos burguezes do que com os typos aristocraticos,–e em mulheres
    sobretudo. Rodeia-se de mais poesia aos meus olhos a rapariga burgueza,
    e sem aspirações a deixar de sel-o, quando a trabalhar á luz do
    candieiro, do que a elegante dos salões, gastando a imaginação em
    problemas de toucador; a costura, a simples, a modesta costura, util e
    abençoada applicação da agulha feminina, agrada-me bem mais do que as
    bonitas futilidades do, reputado mais nobre, trabalho de bastidor; a
    mulher que a si propria se penteia, acho-a mais merecedora da
    contemplação do artista, do que a indolente que, reclinada n'uma
    poltrona e folheando o jornal de modas, entrega a cabeça ás mãos de uma
    criada ou do cabelleireiro. Esta, a ser copiada, basta-lhe por téla …
    um leque ou uma tampa de cartonagem.

    Sim, Cecilia não tinha nada do typo aristocratico; n'isso era ella ainda
    genuinamente do Porto, cidade cujo principal titulo de gloria é o ter,
    em épocas em que a nobreza era tudo, previsto que podia e devia
    prescindir d'ella, para se engrandecer.

    XII

    OUTRO DEPOIMENTO

    –Esteve doente, Cecilia?–perguntou Jenny, accommodando o chapéo da
    amiga.

    –Não; porque m'o pergunta?

    –Nem eu sei. Pareceu-me ler-lhe no rosto… e depois… veio tão tarde.

    –Ai, menina,–replicou Cecilia, sorrindo e ageitando o cabello, que o
    chapéo desordenára–é que se soubesse… Hoje fiz de fidalga.
    Levantei-me depois das oito horas.

    –Sim, preguiçosa? E querem então ver que se esqueceu de trazer aquelles
    cabeções, de que me fallou.

    –Ágora. Olhe; trago esses e até mais alguma cousa…

    –Bem, bem; vamos ver isso tudo–atalhou Jenny, com curiosidade.

    E as duas raparigas foram sentar-se, uma ao lado da outra, no sofá
    proximo da janella.

    –Veio só?–perguntou Jenny, momentos depois.

    –Vim.

    –Sem mêdo?… no dia de entrudo!…

    –Mêdo nenhum. De minha casa aqui são caminhos, que podem dizer-se todos
    de aldeia. Quasi sempre por entre quintas e campos… Encontrei umas
    creancitas, que vinham da mestra, e conversei com ellas todo o tempo.

    E continuando a revistar o interior de um sacco de marroquim verde com
    fechos de aço, Cecilia proseguiu, mudando de tom:

    –Não julgue que lhe vou mostrar nenhuma preciosidade; foi uma
    distracção de meia hora no serão de sabbado. Esta semana tive tanto que
    fazer, que não pude occupar-me com estas bagatelas. Bem sabe que não me
    cresce muito tempo para brincar. Olhe.

    E mostrava a Jenny um delicadissimo primor da arte feminina; um cabeção
    apenas, mas do qual, se me auxiliassem conhecimentos technicos, poderia
    fazer uma descripção, pelo menos do tamanho da que Homero consagrou ao
    escudo de Achilles.

    Mas a sciencia das leitoras e a ignorancia provavel dos leitores n'este
    assumpto não lhes deixarão sentir a lacuna.

    –Pois eu ia quasi dizer-lhe que inda acho este mais bonito, do que o
    outro que me mostrou ha dias–disse Jenny, demorando-se a examinar o
    cabeção.

    –O desenho d'esse é mais delicado, mas… Ai!–acrescentou passando, a
    sorrir, a mão pelos olhos, e suspirando–parece-me que nem vejo, de
    somno que tenho!

    –Somno! E levantou-se tão tarde! Que quer dizer isso hoje, Cecilia?

    –É que me deitei hontem muito tarde tambem.

    –A trabalhar?

    Houve um intervallo de silencio, antes que Cecilia se resolvesse a
    responder. Jenny insistiu, elevando ao mesmo tempo os olhos para ella.
    Viu-a córando e como entretida a segurar um alfinete.

    Os alfinetes são os principaes cumplices de todos os disfarces
    femininos. Sempre que uma mulher precisa de occultar um sorriso, uma
    turbação, um rubor, tem a certeza de encontrar estes amigos officiosos a
    servirem-lhe de pretexto. Ha sempre um alfinete a pregar, a despregar, e
    a repregar de novo.

    A final porém, com visivel esforço sobre si mesma, Cecilia respondeu de
    uma maneira, que em vão procurou tornar natural:

    –Não, Jenny, não foi a trabalhar.

    Jenny presentiu um segredo n'aquelle enleio e hesitação, mas não tentou
    descobril-o; disfarçando as suas suspeitas, disse-lhe:

    –Pôz agora de lado um trabalho de _crochet_, que me pareceu bonito.

    Cecilia mostrou-lh'o, sem dizer nada.

    E o silencio manteve-se algum tempo entre as duas, silencio de as
    constranger a ambas; até que emfim Cecilia, n'uma d'essas subitas
    resoluções tão frequentes n'ella, e pelas quaes parecia querer
    apressar-se a realisar um bom pensamento, antes que ulteriores reflexões
    viessem suffocal-o, pôz de lado, com certa impaciencia, toda a obra que
    tinha estendida no regaço, e tomando as mãos de Jenny, fitou os olhos,
    negros e cheios de vida, nos olhos azues e suavemente melancolicos, com
    que esta a seguia admirada:

    Cecilia conservou-se ainda alguns momentos silenciosa e indecisa; mas
    por fim, córando mais e possuida de sobresalto, que não conseguiu
    disfarçar sob sorrisos:

    –Jenny–disse com a voz trémula de commoção–eu sei que a menina é
    minha amiga, e julgo que o melhor é contar-lhe tudo…

    –Seja o que for que tem para me dizer, se o que a faz hesitar é a
    duvida da minha amizade, posso assegurar-lhe, Cecilia, que…

    –Não, não é, não podia ser–acudiu Cecilia, e por um movimento rapido,
    impensado, irresistivel, levou aos labios as mãos delgadas de Jenny, que
    não lhe pôde fugir a tempo.

    –Que está a fazer?!–disse Jenny, rindo.

    –Deixe-me; sabe como eu lhe quero, sabe a confiança que tenho em si,
    Jenny, pois não sabe? Mas é que … ha certas cousas que sempre custam a
    dizer.

    Jenny sorriu com expressão particular; previa uma confidencia amorosa no
    embaraço de Cecilia.

    Cecilia comprehendeu a significação d'aquelle sorriso, porque se
    apressou a dizer:

    –Não, não é o que julga, Jenny. Não teria a menor hesitação em lh'o
    dizer, se fosse isso. Póde crêl-o.

    Apesar da segurança, com que Cecilia o affirmava, duvido de que, tão sem
    custo, se resolvesse a fazer uma confidencia, que, sendo a primeira
    d'esse genero, faz titubear os mais arrojados. Mas acreditemol-a sob
    palavra, que não temos outro remedio.

    –Seja o que for,–respondeu Jenny, procurando inspirar-lhe
    confiança–não deve ter escrupulos em m'o revelar. Escrupulos porquê?
    Não somos raparigas ambas? da mesma idade quasi?

    –Mas a Jenny é tão differente de todas nós! Tem tanto juizo, que não
    póde deixar de estranhar certas cousas, que nós, as que temos a cabeça
    leve, fazemos sem pensar, e de que mais tarde nos arrependemos.

    –Está a ser injusta ao mesmo tempo commigo e comsigo, Cecilia. Nem essa
    cabeça é leve, nem eu da sisudez que me faz.

    –Pois bem,–continuou a filha de Manoel Quentino–estou resolvida a
    contar-lhe tudo, mas ha de prometter-me dizer no fim, com a maior
    franqueza, o que pensa do que eu lhe contar, sim? Olhe que ficamos de
    mal se me não disser a verdade, inda que me seja desfavoravel.

    –Não ha de ser.

    –Adivinho que será.

    –Oh meu Deus! Cecilia, está a assustar-me–disse Jenny,
    jovialmente.–Ha no seu rosto e nas suas palavras tal expressão de
    terror, que me mette mêdo! Praticaria de facto algum crime?…

    Estas palavras de Jenny, e inda mais o tom em que foram ditas, fizeram
    rir Cecilia, e attenuaram muito a timidez com que luctára até alli.

    –O que eu quero então–disse ella–é que me deixe continuar, emquanto
    fallo, a cercadura d'este cabeção, que ficou em meio. Não sei de que é,
    mas acho-me mais á vontade tendo os olhos entretidos.

    –Como quizer; mas n'esse caso, deixe-me occupar tambem os meus,
    examinando o fundo da sacca.

    –Não trago mais nada, a não ser…

    –Está bom, está bom: eu verei o que é. Principie.

    Applicadas assim cada uma á occupação que escolheram, Cecilia
    principiou:

    –Não sei se já lhe tenho fallado nas filhas do major Mattos, minhas
    vizinhas ha bastantes annos e antigas companheiras de mestra.

    –Muitas vezes. Bem sei.

    –Estas meninas são muito boas, muito minhas amigas, mas…

    Jenny ergueu os olhos para Cecilia, sentindo-a hesitar.

    Cecilia proseguiu:

    –Mas sobretudo o que são…–digo-lhe isto a si, Jenny–são ainda mais
    amigas de se divertir. O genio do pae, tão alegre como o de qualquer
    rapaz de vinte annos, não desmereceu nas filhas, que todos os dias
    inventam novos divertimentos.

    –É uma felicidade ter um genio assim, pois não é?–disse Jenny,
    examinando um pequeno bordado.

    –Isso não vale nada,–acudiu Cecilia, reparando tambem–nem sei como o
    trouxe ahi.

    Jenny arredou-a com a mão e fez-lhe signal que continuasse.

    –Mas emquanto ás minhas amigas,–proseguiu Cecilia–trabalhadeiras são
    ellas; isso lá são, coitadas; mas, não faz ideia, n'uma hora de
    descanso… ás trindades, por exemplo, já não pensam senão em como hão
    de passar o domingo seguinte, e ahi vão lembrar ao pae um passeio pelo
    rio acima, um jantar na Pedra Salgada ou em Fonte da Vinha, um almoço a
    Leça ou á Foz, uma noite ao theatro, e é raro que o pae, que é perdido
    por ellas, não as satisfaça em alguns d'estes projectos, que de mais a
    mais lhe agradam a elle tambem, é preciso que se diga. Muitas vezes
    convidam-me e, devo-o confessar, teem-me valido muitas horas de
    verdadeira distracção, isso tem. É uma familia muito boa, e meu pae não
    põe a menor duvida em deixar-me ir com ella para toda a parte.

    –Estava á espera de uma confidencia que me fizesse estremecer,
    espantar, e saem-me cousas tão naturaes e tão boas, que confesso-lhe,
    menina, chego a estar desgostosa–disse Jenny, fechando o sacco de
    marroquim, onde acabára de guardar todos os bordados e dando ás feições
    um fingido ar de mortificação.

    Cecilia sorriu a esta reflexão, mas acrescentou:

    –Ainda é cêdo. Não se apresse a julgar, que póde ter de contradizer-se
    depois. Havia muito tempo já… ora eu sei?… desde o anno passado, que
    estas meninas tinham entre si combinado um projecto, mais difficil porém
    de executar do que nenhum dos outros. Queriam por força que eu tomasse
    parte n'elle. Ao principio disse-lhes que não; mas tanto me pediram,
    tanto me convenceram de que não havia nada a receiar, que eu acabei por
    prometter que sim. Repare, Jenny, repare. Olhe que principia aqui o mau
    da minha historia. O projecto era…

    –Espere; deixe ver se sei. Incendiar a cidade?

    –Ora!

    –Fazer uma revolução no paiz?

    –Está a brincar?

    –Partirem todas para a Crimeia?

    –Jenny!

    –Ás cautelas e hesitações, com que está…

    –O projecto era irmos todas mascaradas ao theatro.

    –Ah!–disse Jenny, não podendo reprimir um gesto e um movimento de
    estranheza.

    Cecilia, que elevára os olhos para ella, percebeu-lh'os.

    –Eu não disse? Veja como principia já a…

    –Não é por isso, mas… Continue–replicou Jenny, com mais curiosidade,
    e não desviando já os olhos de Cecilia.

    –Este projecto–proseguiu a filha de Manoel Quentino–tinha, como lhe
    disse, grandes difficuldades. O major, tão amigo de fazer a vontade ás
    filhas, não quiz ouvir fallar em tal. Ellas porém é que já não podiam
    tirar aquillo da ideia.

    –E foram?–perguntou Jenny.

    –Havia muito que andavam á espera de occasião. E o carnaval a
    fugir-lhes! Ha de haver porém tres dias que o major foi, por negocios
    militares, obrigado a saír da cidade.

    –E então?…

    –As filhas ficaram sós em casa com uma tia d'ellas, muito boa senhora,
    mas que não sabe recusar-lhes nada. Que mais queriam?

    –Foram?

    –Foram; hontem mesmo. Se parece que tudo se lhes preparou como ellas
    desejavam!

    –E a menina?–interrogou Jenny, cada vez mais preoccupada com o que
    ouvia.

    –Tinham-me convidado para ir de tarde a casa d'ellas. Depois de lá
    estar, mandaram, sem que eu o soubesse, recado a meu pae de que eu
    voltaria tarde, pois tinha de ir com ellas a uma reunião em casa de umas
    senhoras suas amigas.

    –Visto isso…

    –Era noite, quando me apresentaram um dominó e me communicaram o seu
    projecto. Eu ainda lhes puz algumas duvidas, mas…

    –Foi?

    –Fui. Ah! como está já tão séria! Não o dizia eu?

    Effectivamente Jenny não teve poder de disfarçar a impressão, que lhe
    estava fazendo a confidencia de Cecilia, já pela natureza d'ella, já
    pela similhança, com a que do irmão ouvira poucas horas antes.

    –Prometti dizer-lhe a verdade, Cecilia–principiou Jenny, tomando com
    affecto as mãos da sua amiga, que interrompera o trabalho já–e seria
    faltar á minha promessa occultar-lhe que me parece ter sido algum tanto
    aventurada essa resolução. Umas poucas de senhoras, sós, n'um logar como
    aquelle, onde dizem que concorre tanta e tão diversa qualidade de
    gente!… Emfim eu não sei bem, e pelos resultados e que melhor se póde
    julgar d'estes meus receios, que talvez sejam exagerados… e são de
    certo.

    –Não são, não, Jenny. Olhe; eu, ao principio, para lhe fallar verdade,
    ia com certa curiosidade. Só me custava que tivesse sido necessario
    enganar meu pae, mas, como não fazia a menor ideia do que fosse um baile
    de mascaras, estava com desejos de ver; e, demais a mais, a irmã do
    major ia comnosco…

    –E depois?

    –Entramos no theatro, seriam dez horas, íamos todas mascaradas. Por
    signal que me ri muito com a mascara que levava a irmã do major. É
    notavel! foi a primeira que appareceu, e tinha alguma similhança com a
    cara d'ella. Assim como estas caricaturas, que logo á primeira vista se
    conhece de quem são.

    E Cecilia quasi se distrahia com a incidente reflexão ácerca da mascara;
    Jenny chamou-a porém ao assumpto.

    –Mas vamos ao que lhe succedeu.

    –Ah! é verdade. Andamos primeiro por alguns camarotes, em que estavam
    senhoras do conhecimento das minhas companheiras e a quem ellas
    fallaram, sem serem conhecidas. Diverti-me com isto. Que graça achei a
    uma senhora idosa, a quem se metteu na cabeça que nós eramos umas suas
    parentes de Braga, terminando em chamar-me a sua Joanninha! Coitada!
    ficou tão desconsolada, quando, espreitando-me os cabellos, conheceu que
    se havia enganado, que deveras fazia pena!–«E não é! veem, que tristeza
    a minha?!»–dizia ella tanto do coração, que eu não tive mão em mim, que
    a não abraçasse e beijasse; arrisquei-me assim a ser vista e a dar a
    conhecer as outras, que depois muito me ralharam por causa d'isto. Mas
    se eu não pude!

    –Vamos–disse Jenny, sorrindo á sensibilidade da amiga.–E o resto da
    noite?

    –Ai, Jenny, o resto da noite…–respondeu Cecilia, suspirando, como se
    lhe fosse custosa a confissão, e continuou:–Entramos na sala. Nunca foi
    a um baile d'esses? Pouco perdeu. Que calor! que confusão! Um quarto de
    hora depois de alli entrar, já suspirava por saír; mas ellas nem
    pensavam n'isso. Era meia noite talvez, vim sentar-me, cansada,
    enfastiada de todo aquelle tumulto.

    N'este ponto Cecilia parou, como se o que tinha para dizer lhe causasse
    maior perturbação.

    Jenny não pôde deixar de sorrir pela similhança que esta parte da
    confidencia tinha com a do irmão.

    –Pouco tempo depois–proseguiu Cecilia–veio sentar-se junto de mim…
    uma pessoa…

    Um alfinete fez sentir, não sei como, a necessidade de que as attenções
    se applicassem todas para elle, e Cecilia não recusava attender, em taes
    casos, ás reclamações dos seus alfinetes.

    Occupada portanto a pregal-o, ou não sei se a despregal-o, continuou:

    –Uma pessoa que eu conhecia; olhou para mim e… comquanto não
    suppozesse quem eu era, fallou-me; respondi-lhe, e por muito tempo
    ficamos a conversar.

    –Em quê?–perguntou Jenny, com modo natural.

    A esta pergunta, Cecilia hesitou.

    Passados porém alguns instantes, respondeu:

    –Eu sei? Em muitas cousas; e é certo que bem agradavelmente; mas cêdo
    depois vieram outros, menos delicados do que este…

    –Do que este?! Ai, visto isto era um homem? não tinha entendido
    bem–notou Jenny, com ligeiro ar de malicia.

    –Era; pois que tinha eu dito? Ah! sim… uma pessoa. Era um homem, era.
    Os que vieram fizeram-me ver mais claro a imprudencia do passo que
    tinhamos dado.

    Jenny não perdia agora uma só palavra, uma só inflexão, uma só cambiante
    de côr, que observava em Cecilia. Esta não o percebia, porque os
    alfinetes estavam de uma impertinencia, que nem lhe deixavam attender a
    mais nada.

    No entretanto dizia:

    –O mesmo succedeu ás minhas amigas; preparamo-nos logo para deixar o
    baile. Vendo porém que nos seguiam, soccorri-me ao cavalheirismo do que
    primeiro me fallou, e isso nos valeu.

    –Ah!

    –Serviu-nos de guia e protector através das ruas ainda cheias de
    mascaras; mas insistia depois em nos conduzir a casa. Tremi ainda mais
    com esta insistencia, do que com a dos outros. Este conhecia meu pae e
    se soubesse… Oh meu Deus!… Por mais que lhe rogassemos, não queria
    deixar-nos; eu, perdida de susto, pedi a Deus uma inspiração. A
    inspiração veio, e foi poderosa. Elle deixou-nos a final, e nós entramos
    em casa… mas eram quatro horas da manhã.

    O que faltára á confidencia podia Jenny bem suppril-o de per si;
    desviando porém os olhos disfarçadamente, ponderou como se pretendesse
    desenganar-se:

    –Falta-lhe agora dizer, Cecilia, para ser completa a confidencia, quem
    era esse homem e qual foi a inspiração que Deus mandou á menina.

    D'esta vez tambem os alfinetes de Jenny parecia exigirem certos
    cuidados, que ella lhe concedeu.

    Cecilia balbuciava com manifesto enleio:

    –Ah! quem era?… não sei; isto é… quero dizer… era…

    Jenny pegou-lhe na mão.

    –Seja franca até o fim–disse-lhe em tom de insinuante amizade.–Esse
    homem era meu irmão.

    Cecilia estremeceu e olhou espantada para Jenny.

    –Como o sabe?

    –Sei tudo–replicou Jenny, apertando-lhe a mão com affecto.–E sei
    tambem a inspiração que teve, e agradeço-lh'a.

    –Sabe? Mas então…

    –Carlos tem o costume de me contar tudo, e ainda esta manhã… ha
    pouco… me tinha dito…

    –Tudo?–perguntou Cecilia de uma maneira particular e córando.

    –Tudo–respondeu Jenny, dando a esta palavra uma inflexão e animando-a
    de um sorriso, que augmentaram a intensidade d'este rubor.

    Como o leitor viu, tinha havido importante omissão na confidencia de
    Cecilia, omissão que aquelle «tudo» de Jenny lhe mostrava agora ter sido
    inutil.

    –E que opinião fazia elle… que opinião fazia o snr. Carlos de
    mim?–perguntou Cecilia com verdadeira inquietação.

    Jenny revestiu-se de seriedade e reflectiu algum tempo, antes de
    responder.

    Não se imagina como se faziam extraordinariamente bellas as feições de
    Jenny sob a influencia d'este ar de reflexão, que tão frequente lhe
    fixava o olhar e lhe desenhava uma ligeira ruga na fronte.

    Cecilia consultava com apparente sobresalto aquella physionomia
    expressiva.

    –Olhe, Cecilia,–disse Jenny por fim–como a menina ainda agora o
    reconheceu, não foi por certo prudente o passo que deram. A necessidade
    de o occultar de seu pae era bastante prova d'isso, quando nada tivesse
    acontecido que melhor o provasse ainda. Carlos procedeu bem e mal; bem,
    em as proteger; mal, depois. Elle devia ter sempre na ideia, como eu lhe
    disse, que alguma pessoa bem educada, e que de facto tinha desejos de
    occultar-se, podia ser essa mascara que elle, depois de proteger,
    perseguia. Disse-lh'o ha pouco ainda, mas… sabe o que elle me
    respondeu?

    –Que foi?

    –Se eu lh'o digo, Cecilia, é para que a menina faça sempre o que lhe
    aconselharem os presentimentos do seu bom coração, e creia que são
    excellentes as inspirações que lhe vierem d'ahi. Quando eu dizia a
    Carlos que imaginasse que era eu mesma a que estava debaixo d'aquelle
    dóminó, e a que me via perseguida, respondeu-me que não havia
    probabilidade d'isso, porque… pessoas que…

    –Oh! não diga mais, Jenny, não diga mais–atalhou Cecilia, quasi
    fechando-lhe os labios com a mão; e os olhos inundaram-se-lhe de
    lagrimas que, umas após outras, lhe rolaram pelas faces.

    Era uma das irresistiveis expansões d'aquella impetuosa natureza.

    –Bem vê, Cecilia–proseguiu Jenny com affecto–bem vê que não tinha
    razão Carlos, no que suppunha. A culpa toda era d'elle. E agora não se
    afflija, menina. Affligir, porquê? Foi uma brincadeira de raparigas e
    sem consequencias além d'aquellas–acrescentou, sorrindo–de que nem a
    inspiração, que Deus lhe mandou, a pôde livrar. E se isto a faz chorar
    assim, o que ha de deixar para os infortunios reaes?

    –Jenny, prometta-me nunca dizer a… a ninguem que era eu…

    –Socegue. Dentro em pouco nem eu mesma o sei já.

    –Oh! meu Deus só o suppôr!…

    Jenny conseguiu serenar a rapida tempestade, que turvára o espirito de
    Cecilia, e distrahir-lhe a attenção para outros objectos.

    Antes de saír de casa de Mr. Richard, já ella tinha rido, e quando
    entrou na sua, trazia o espirito tranquillo, e respirava com o desafôgo
    dos dezoito annos, e d'aquella indole sem preoccupações.

    Feliz idade e feliz coração!

    XIII

    VIDA PORTUENSE

    Manoel Quentino habitava em uma rua proxima do extremo occidental da
    cidade, afastada assim do maior bulicio d'ella–bulicio que, desde as
    tres horas da tarde até ás seis da manhã, era para o guarda-livros
    insupportavel.

    Os gostos de Manoel Quentino tinham de facto variações diurnas tão
    regulares, como as de um instrumento meteorologico.

    Nas horas de vida commercial impacientava-o o socego do bairro em que
    vivia; ao romper do sol por detraz dos outeiros, que elle avistava ao
    longe das janellas do seu quarto, tomava-o a febre do trabalho; o cantar
    matutino das aves por entre os arbustos do quintal, a não ser aos
    domingos e dias santos, não o tentava a ficar a ouvil-as; parecia que
    mais bellezas de harmonia achava nos gritos dos vendilhões, que enchem
    as ruas da cidade baixa. Pelo contrario, ao declinar da tarde,
    entrava-lhe no coração a nostalgia domestica; começava a odiar o
    escriptorio, a rua dos Inglezes, o borborinho das praças, e a suspirar,
    como o expatriado, pela alegria do regresso; extasiava-se em ver de casa
    descer o astro do dia, e sumir-se no oceano; espectaculo magnifico, ao
    qual da varanda da sala do jantar assistia com o prazer do espectador
    que de um camarote de frente presenceia fascinado a vista final de
    gloria de um drama sacro.

    O arranjo interior da pequena casa de Manoel Quentino exprimia certo
    bem-estar, certo conforto, que principiava a querer transpôr os limites
    que o separavam do luxo.

    Permittiam-o os ordenados que Manoel Quentino, como primeiro
    guarda-livros, recebia das mãos de Mr. Richard, mãos nunca tão
    apertadas, que não deixassem saír algumas mealhas mais do que o
    ajustado.

    Preciso é porém confessar que o espirito economico e a intelligente
    administração de Cecilia concorriam em grande parte para este resultado.
    Pelas suas mãos, de bem pequenas afeitas ao tracto domestico, tão
    escrupulosamente regulados andavam os capitaes, que não só satisfaziam
    ao necessario, mas derivavam-se ainda para o que se póde já dizer
    superfluo.

    Escusado é quasi acrescentar que Cecilia era o idolo de Manoel Quentino.
    N'ella se concentravam todas as affeições do velho. Tinha apenas seis
    annos a filha, quando lh'a deixára confiada a esposa, que elle chorava
    ainda; emquanto cercava a innocente de constante vigilancia e de
    cuidados assiduos que, por inspirações do coração, soubera amenisar de
    carinhos e de meiguices verdadeiramente maternaes, robusteceu-se-lhe
    aquelle amor a ponto de referir d'ahi por diante a elle todos os outros
    sentimentos, que o moviam.

    Nunca lhe pareceu demasiada qualquer despeza feita com Cecilia.

    Empenhou-se em dar-lhe uma educação esmerada, e conseguiu-o.

    Exultava de prazer, vendo crescer em vida, em intelligencia, em bondade,
    aquella bonita creança, junto de cujo berço velára noites e noites,
    scismando no futuro d'ella.

    Pouco a pouco deixára-se possuir de um respeito, de uma veneração pela
    filha, que tinham seus vislumbres de idolatria.

    A primeira madeixa loura cortada aos cabellos de Cecilia, ainda menina,
    trazia-a o velho sempre comsigo, como talisman milagroso; o menor
    bilhete, dos que ella lhe escrevia para o escriptorio, a respeito de
    qualquer negocio domestico, archivava-o, como reliquia, que seria
    profanação deixar perder.

    Tinha puerilidades Manoel Quentino!… puerilidades que só farão rir aos
    poucos, que não as tenham tido iguaes. Movia-o, quasi até ás lagrimas,
    qualquer phrase affectuosa d'aquellas insignificantes correspondencias.

    Como elle era feliz lendo, no alto do bilhete, por exemplo: «Meu bom
    pae» ou «meu querido pae», e no fim d'elle–«sua extremosa filha» ou
    «sua filha obediente».

    Por irresistivel impulso aproximava dos labios aquellas palavras e
    beijava-as com fervor.

    Quando, no meio do trabalho quotidiano, que elle, como vimos, executava
    com uma fleugma e regularidade, que deviam fazer suppôl-o homem pouco
    sujeito a expansões, a ideia de Cecilia lhe passava pelo espirito, tinha
    movimentos de creança.

    Pousava a penna, interrompia a conta, correspondencia, ou o que quer que
    fosse em que estivesse occupado, para esfregar as mãos de contente, como
    o rapaz de escola ao acudir-lhe de subito a lembrança de um feriado
    proximo.

    Ás vezes não resistia a dar dois passeios no escriptorio, trauteando, e
    a vir á janella, com a penna na orelha, a espreitar, por entre os
    vidros, a altura do sol.

    Ao voltar a casa, Manoel Quentino não se distrahia pelas ruas; procurava
    as travessas e atalhos mais solitarios, para evitar importunos;
    tardava-lhe a conversa da filha.

    Quando na presença d'elle se fallava em alguma epidemia, que
    principiasse a ameaçar a cidade, já o bom homem não podia dominar um
    terror intenso; revelava-se-lhe no semblante em caracteres bem evidentes
    e havia-lhe conquistado a reputação de pusilanime, entre os seus
    collegas mais novos; já até se divertiam, mal suspeitavam com que
    crueldade, a despertar frequentes vezes estes receios pânicos.

    A ideia do risco pessoal não era porém a que o fazia empallidecer; um só
    receio, uma só lembrança o torturava então, era a do perigo que podia
    correr a vida de Cecilia.

    Não se concebe em que especie de loucura o lançou uma doença da filha. O
    serviço do escriptorio foi pela primeira vez perturbado na sua marcha
    regular, e a correspondencia, em cuja nitidez caprichava Manoel
    Quentino, não raro lhe saía das mãos toda manchada de lagrimas. No dia
    em que o medico lhe deu, sorrindo, a certeza de que Cecilia estava
    salva, Manoel Quentino não teve mão em si, que se não atirasse, a rir e
    a chorar, aos braços d'elle, chamando-lhe seu bemfeitor e beijando-o com
    paixão.

    Esta crise exacerbou aquelle já extremoso amor de pae.

    Não havia sabbado em que Manoel Quentino, parco em excesso talvez
    comsigo, e que por isso grangeára entre os amigos a immerecida reputação
    de avarento, entrasse em casa com as mãos vazias, sem um mimo, uma
    lembrança para Cecilia, arrostando com as meigas exprobrações d'esta e
    com seus mal simulados arrufos.

    Quantas vezes elle fazia, como costuma dizer-se, vista grossa para o
    azulado ameaçador dos cotovêlos e das costuras do casaco, para as
    quebras lastimosas do seu chapéo de seda, só com o fim de poupar algumas
    libras e comprar um chaile, uma marqueza, um vestido novo a Cecilia!

    Só depois de repetidas insinuações, pedidos, e até affectuosas ameaças
    da parte da filha, só depois d'ella haver esgotado os mil recursos da
    sua eloquencia, é que Manoel Quentino se decidia emfim a olhar por si e
    a attender ás necessidades proprias.

    O meio mais poderoso a que, para isso, Cecilia recorria era pedir-lhe
    que a acompanhasse a um logar publico qualquer. Então o guarda-livros,
    que não aprendera a recusar-lhe nada, promettia, scismava, coçava a
    orelha, examinava o fato, torcia o nariz, resmungava e, no dia ajustado,
    elle ahi se apresentava de uniforme novo para servir de cavalheiro á
    filha.

    A ideia de a fazer passar por uma vexação realisára o milagre e vencera
    a sua modesta repugnancia.

    Cecilia sabia-se objecto d'este culto, e retribuia-lh'o com attenções e
    carinhos, que deixavam comprehender ao pae o que devia ser a felicidade
    suprema.

    O leitor, costumado a passar a noite no theatro, nos bailes ou nas
    assembleias, mal póde fazer ideia do prazer intimo com que Manoel
    Quentino via escurecer a tarde e scintillarem, ainda pallidas, as
    primeiras estrellas no céo.

    Preparava-se-lhe um d'esses gôsos placidos, que são mal concebidos por
    quem d'elles anda arredado em habitos de vida mais turbulenta; mas aos
    quaes não ha talvez caracter ou temperamento humano, que não corra o
    perigo de habituar-se, se por algum tempo lhes experimentar as doçuras.

    É mais facil, e mais vezes se realisa, a transição da vida errante,
    tumultuosa e agitada para estes monótonos prazeres do viver domestico,
    do que a inversa; como se o pendor natural da indole do homem o chamasse
    mais para alli.

    Os serões de Manoel Quentino, aquelles seus tão apreciados serões,
    passavam-se todos com uniformidade tal, que, por um, se ficava, com
    raras excepções, a conhecel-os todos.

    O fim da tarde e a noite d'aquelle dia, em que se passou a parte das
    scenas, que havemos descripto até aqui, podem offerecer-nos uma perfeita
    amostra d'elles.

    Manoel Quentino, depois de jantar, viera assistir, da varanda do
    occidente, ao espectaculo do crepusculo e regalar a vista por sobre as
    quintas, jardins, casas e alamedas do vasto panorama que o mar cingia de
    zona prateada.

    A tarde estava de chuva, mas o vento de sudoeste conseguira romper o
    extenso manto, que cobria o firmamento, e mostrando um pouco do azul da
    abobada celeste, deixava que o sol no occaso dourasse as ultimas nuvens,
    que d'aquelle lado limitavam o horizonte.

    As occupações domesticas de Cecilia só de quando em quando lhe
    permittiam assomar tambem á varanda, e recostando então o braço ao
    espaldar da cadeira do pae, fazia notar a este as particularidades de
    belleza d'aquelle vasto quadro, que o espirito pouco analytico do velho
    sómente apreciava em globo.

    –Repare n'aquella nuvem côr de rosa. Não parece mesmo uma ave com as
    azas abertas?–perguntava Cecilia, designando uma das taes nuvens, que o
    sol tingia os reflexos afogueados.

    –Uma ave!–dizia Manoel Quentino, fitando o objecto designado–Então
    como te parece uma ave aquillo, menina?

    –Pois não acha? Olhe; vê alli a cabeça, depois uma aza, depois a outra?
    Olhe, agora inda parece mais; até a cauda se conhece bem…

    –Eu… se queres que te falle verdade…–continuava Manoel Quentino,
    sem perceber ainda a similhança.

    –Olhem que pae este! Pois devéras não vê? Para onde é que está a olhar?

    E Cecilia vinha collocar a sua bonita cabeça na posição da de Manoel
    Quentino, e tão perto, que o pae não perdia o ensejo de lh'a beijar na
    fronte.

    –Ora diga, pois não lhe parece uma ave aquillo?–insistia Cecilia.

    –Eu… Ah! agora sim!–exclamou o velho, tendo a final percebido a
    similhança–Agora, sim, senhora! Lá está, e que grande bico que ella
    tem! Eh! eh! eh!… Ora o diacho!

    –A menina faz favor de chegar aqui.

    Era a criada Antonia, que reclamava o conselho de Cecilia em alguma
    difficuldade de administração domestica.

    Antonia era um tão genuino typo de criada de servir, que dispensa a
    descripção.

    Cecilia retirou-se da varanda. Manoel Quentino permaneceu com os olhos
    fitos no sitio, para onde lh'os dirigira a filha, até que a nuvem côr de
    rosa de todo se descoloriu e desformou.

    Então baixou-os para a terra e scismava… na sua felicidade.

    Passados instantes, Cecilia aproximou-se pé ante pé, e, sem ser
    presentida, veio por detraz d'elle e tapou-lhe os olhos com as mãos,
    perguntando:

    –Adivinha quem eu sou?

    –Ora tem muito que adivinhar!–respondeu Manoel Quentino,
    gracejando–pelas mãos se conhece logo. É a aguadeira.

    –Ora vamos!–exclamou Cecilia, rindo–Mas para onde é que estava a
    olhar assim entretido, que nem me viu?

    –Estava a ver umas obras, que além se andam a fazer. Aquillo, se me não
    engano, é na casa do conselheiro Arantes.

    –Ora se ha de olhar para acolá, para aquellas arvores, põe-se a reparar
    n'essas casarias! Não lhe appetecia estar alli, debaixo d'aquelles
    carvalhos?

    –Não é nenhum impossivel; se quizeres…

    –Então promette levar-me lá?

    –Prometto tudo o que tu quizeres.

    –Veja o que diz! Depois, se lhe pedir alguma cousa difficil!

    –Eu já estou costumado ás tuas exigencias.

    –Sim? pois eu tenho uma cousa a pedir-lhe.

    –Ha de ser grande.

    –E é, promette fazel-a?

    –Dize lá.

    –Mas promette?

    –Mas dize primeiro.

    –Não, senhor, prometta antes.

    –Bem sabes que te não digo que não.

    –Mas então que dúvida tem em prometter?

    –Está bom, prometto.

    –Dá-me a sua palavra?

    –Dou a minha palavra–disse Manoel Quentino, rindo.

    –Pois o que eu queria pedir-lhe–disse Cecilia, passando os dedos por
    entre os cabellos brancos do pae–era que comprasse outro guarda-chuva,
    que, a fallar verdade, aquelle sempre está!…

    –Ora! cuidei que era outra cousa!

    –Não importa; mas prometteu.

    –Pois sim; mas escuta…

    –Ágora escuto, que tenho mais que fazer.

    E retirava-se apressada para não ouvir, dizendo:

    –Não quero saber, prometteu!

    D'ahi a pouco era o pae que a chamava.

    –Cecilia, ó Cecilia! anda depressa ver um vapor no mar.

    Cecilia correu á varanda.

    –Vês?

    –Agora estou como o pae ha pouco com a nuvem.

    –Pois não vês?! Olha; aqui mesmo ao direito d'aquella chaminé; entre
    aquella entre-aberta de pinheiros.

    –Bem vejo. Entra ou sáe?

    –Quer entrar; mas com o rio assim! Aquillo é vapor inglez. Ora traze-me
    o oculo.

    –Agora é quasi noite e não póde distinguir nada. E demais está frio,
    não será mau fechar a janella e vir cá para baixo. Eu tenho tambem de
    trabalhar e preciso de accender luz mais cêdo.

    –Pois então vamos.

    Principiava então ainda mais agradavel passa-tempo para o honesto
    guarda-livros.

    Desciam para a sala contigua ao quarto de Manoel Quentino; sala
    modestamente mobilada, mas em cada particularidade da qual se revelava o
    bom gosto de Cecilia. Se alli dentro se não encontrava nenhum movel de
    alto preço, nenhum objecto de elegancia luxuosa, não havia tambem as
    ridiculas demonstrações de um gosto grosseiro, amontoadas sem ordem,
    adquiridas sem escolha.

    Descobria-se em todo aquelle recinto um asseio e conchego, que fazia bem
    contemplar.

    Manoel Quentino sentava-se junto da mesa do trabalho, em uma cadeira de
    braços, verdadeiramente patriarchal; Cecilia trazia luz, fechava as
    janellas, pousava a cesta da costura e vinha sentar-se ao lado do pae.

    Manoel Quentino contava alguma cousa do occorrido no escriptorio;
    Cecilia correspondia-lhe, referindo o que, na ausencia de Manoel
    Quentino, succedera em casa.

    N'aquella noite o pae fallou muito de Carlos, das suas travessuras, do
    seu estouvamento, dos enganos que n'aquella manhã lhe fizera ter na
    escripta, do episodio da agua-ardente, dos sentimentos de Mr. Richard
    para com o filho, e sobre tudo do bom coração do rapaz.

    Cecilia escutava-o com attenção, sem nunca o interromper com perguntas,
    mas tambem sem nunca levantar os olhos da costura, para os fitar no pae.

    N'isto retiniu a campainha do portal.

    –Ahi está o homem–disse Manoel Quentino.

    –Antonia, vá alumiar–bradou Cecilia.

    Ouviu-se Antonia descer pesadamente as escadas, depois algumas palavras
    trocadas no portal, os passos de duas pessoas subindo, e o _homem_, que
    Manoel Quentino parecia esperar, entrava para a sala, tirando o chapéo e
    cumprimentando os circumstantes com a invariavel fórmula:

    –Muito boas noites, snr. Manoel Quentino; muito boas noites, menina.

    Este _homem_ era um vizinho e amigo de Manoel Quentino, que, havia muito
    tempo, ganhára o habito de vir todas as noites alli ouvir ler os
    jornaes, tomar chá e sustentar com o guarda-livros o mais soporifero e
    descosido dialogo que se póde conceber, retirando-se emfim, ao bater das
    nove horas, depois de agasalhar o pescoço com uma manta de lã, a qual
    levava sempre de prevenção para toda a parte. Chamava-se José Fortunato;
    fora em tempo negociante de cereaes; n'esta época era proprietario de
    predios velhos, possuidor de papeis de credito, homem de habitos
    pacificos e ideias conservadoras, modesto no vestir, discreto no fallar,
    fazendo ao jantar o seu forte no cozido, e, entre as maiores
    extravagancias da sua vida actual, contando a de comprar, de quando em
    quando, uma lagosta para comer de salada.

    Era d'estes sujeitos, fieis observadores das leis commerciaes, e
    rigorosos nas suas contas, a ponto de poderem parodiar uma das petições
    do Padre-nosso, dizendo:–Fazei que nos paguem, Senhor, as nossas
    dividas, assim como nós pagamos aos nossos credores.

    Esta quotidiana visita a Manoel Quentino tornára-se já para o snr.
    Fortunato uma necessidade, e de igual fórma a presença e o conversar do
    ex-negociante de cereaes, com quanto pouco ferteis em distracções, não
    eram menos precisas ao pae de Cecilia, que estava n'aquella idade, em
    que os habitos imperam com mais força, e menos se amoldam os genios ás
    exigencias de habitos novos.

    Passados os cumprimentos de tarifa, José Fortunato tomava assento ao
    lado de Manoel Quentino, e principiava entre elles um dialogo, que, com
    as variantes que o leitor prevê, era d'este teor a fórma:

    –Muito frio, snr. Fortunato–dizia um.

    –E muita chuva–respondia o outro, ageitando-se.–Esteve hoje lá em
    baixo?

    Pergunta ociosa.

    –Estive.

    –Então que se diz de novo?

    –Nada.

    –O rio vae muito cheio?

    –Parece que começa a abaixar um pouco.

    –Sempre está um tempo, santo nome de Deus!

    –E que desgraças tem já causado!

    –Que eu dou-me melhor com o frio–acrescentava d'ahi a instantes Manoel
    Quentino.

    –Eu lhe digo, eu tambem, para que digamos, não passo mal no inverno;
    tenho mais appetite; mas esta catarrhal…

    Tossia, para exemplo.

    Todos os dias diziam isto um ao outro.

    –Para as terras é que isto vae mal.

    –Já tudo está por a manta de Judas.

    Phrase da linguagem popular, que quer dizer, não sei por quê, que tudo
    está caro.

    –Pois a carne?!

    –Se deixam ir todo o gado para o estrangeiro! Devia fazer-se uma lei,
    que prohibisse esse desafôro.

    Alvitre economico, que ainda não perdeu de moda.

    –Isto está o diacho!

    Este apophthegma fechava quasi sempre e com chave de ouro o dialogo.
    Calaram-se os dois.

    Cecilia, que esperava por este silencio e já por habito sabia o que
    significava, ia então buscar as folhas do dia e preparava-se para ler;
    os dois velhos dispunham-se a escutar.

    Qualquer d'elles experimentava um prazer indefinivel em ouvir ler
    Cecilia.

    Lia com tanta intelligencia e graça, que o snr. José Fortunato
    confessava, que muitas vezes, ouvindo-a, entendia cousas, em que debalde
    tentára penetrar, a grandes esforços de leitura propria.

    Era uma scena curiosa aquella.

    A compaixão paternal só perdoava a Cecilia a secção dos annuncios; o
    mais tudo lhes lia a condescendente rapariga; o artigo de fundo, com
    resignação; com intrepidez, as noticias estrangeiras; com curiosidade,
    as locaes; o folhetim, com mais vontade; e tudo sem o menor
    constrangimento, que podesse aguar aquelle prazer dos seus ouvintes.

    O genio de Cecilia nem sempre lhe permittia proceder, sem commentarios,
    áquella leitura toda. A apologia exaltada do governo interrompia-a ella
    ás vezes com um áparte, capaz de produzir crise ministerial, se fosse
    escutado nas camaras; uma catilinaria, acerbamente opposicionista,
    desafiava-lhe reflexões, que neutralisavam o contagio anti-governamental
    que principiava a fazer das suas nas profundas convicções de ordem do
    snr. José Fortunato.

    O leitor deve estar certo de que, por aquelle tempo, monopolisavam a
    curiosidade publica as variadas peripecias da guerra da Crimeia.

    Cecilia era obrigada a ler aquellas descripções de carnificina, que
    todos os dias enchiam as columnas dos periodicos; isto o fazia ella
    sempre com a fronte contrahida de desgosto.

    Manoel Quentino era pelos alliados, José Fortunato esposava a causa dos
    russos–um e outro sem saberem bem porquê. Cecilia era só pelos mortos e
    feridos.

    Um dia parou no meio da descripção de um dos mais sanguinolentos
    encontros dos dois exercitos, para interpellar o pae sobre a causa
    d'esta guerra implacavel.

    A pergunta embaraçou consideravelmente Manoel Quentino, que olhou para o
    snr. José Fortunato, como a ver se lhe vinha auxilio d'alli; o snr.
    Fortunato o mais que pôde dizer foi:–«Que a guerra era lá por causa de
    umas cousas».

    Cecilia tambem não exigiu saber mais.

    –«Os russos…–leu ella n'aquelle serão–fazem fogo durante a noite
    sobre o campo dos alliados; estes absteem-se de responder.»

    –Teem mêdo–commentou logo o snr. José Fortunato com um sorriso.

    –Isso é plano!–acudia Manoel Quentino, com ares de quem entrava no
    mysterio.

    –«Os atiradores alliados respondem porém de dia com
    proveito»–continuava a ler Cecilia.

    –Então? era ou não era plano? Eu logo vi–exclamou Manoel Quentino,
    exultando.

    –Balas perdidas–replicava o outro, encolhendo os hombros com desdem.

    –«Os soldados–proseguia Cecilia–pedem com enthusiasmo ao general em
    chefe, que dê a batalha»–e, acabando de ler isto, fez um gesto de
    aversão.

    –Pois vão para lá!–respondia o snr. José Fortunato, como homem que
    conhecia a preceito os recursos de defeza da praça.

    –«Em Sebastopol ha duas mil bôcas de fogo»–lia ainda Cecilia.

    José Fortunato olhou para o seu amigo, com gesto provocador e
    triumphante; parecia que o convidava a atacar, propondo-se elle a
    defender com aquelles auxiliares.

    Em seguida Cecilia leu que Vassif-Pachá acabava de tomar o commando do
    exercito da Asia.

    Foi a vez de Manoel Quentino pagar o gesto do outro, como se depositasse
    grande confiança no Vassif e nas operações campaes do exercito da Asia.
    Mas o gosto de triumpho foi maior ainda quando ouviu que, a 30 de
    janeiro, partira para a Crimeia, Ulrich, que elle não sabia quem era,
    com a guarda imperial franceza; José Fortunato só teve, a compensar-lhe
    o receio d'esta acommettida, a noticia de que estavam seis mil russos em
    Pruth.

    As noticias locaes eram o terreno neutro, onde caminhavam a par, e sem
    conflicto, as curiosidades do auditorio.

    Uma cousa não podia Cecilia perdoar aos localistas, era que tratassem
    levianamente certos assumptos tristes: a prisão de um pobre, uma
    desordem domestica, uma tentativa de suicidio, por exemplo.
    Impacientava-se com isto, e formulava um voto de censura, que Manoel
    Quentino e José Fortunato apoiavam.

    O noticiario vinha então abundante de descripções de desastres, causados
    pela cheia do Douro.

    Era com consternação que Cecilia lia a narração de tantas miserias.
    Commoveu-a sobre tudo um facto verdadeiramente tragico, do qual ainda
    haverá talvez no Porto quem conserve memoria. O irmão de um piloto de um
    dos navios que a corrente arrebatára, depois de tentar em vão salvar o
    irmão em perigo, perdeu a razão, vendo-o succumbir; e esta dupla
    catastrophe feriu de morte o velho pae de ambos. Manoel Quentino, que
    tinha razões para saber o que era o amor de pae, limpou uma lagrima a
    occultas. José Fortunato, com ser boa creatura, tinha, em circumstancias
    assim, certas observações sêccas, de fazerem perder a paciencia a um
    santo.

    Ouvindo ler aquillo, disse:

    –Ora! Isso é historia! Os gazetilheiros ás vezes…

    –Historia! Ó snr. Fortunato, por quem é!–exclamou Cecilia
    impaciente–Lembre-se de que é um irmão a querer salvar um irmão, e a
    vel-o morrer; de que é um pae que perde dois filhos; não acha ainda
    razão de mais para a morte ou para a loucura?

    –Pois então o outro que não fosse metter-se ao perigo; devia
    lembrar-se…

    –Ora devia lembrar-se!… quem se lembra de nada n'aquelles momentos? O
    snr. Fortunato tem cousas!

    Fortunato já estava arrependido do que dissera.

    –Com menos motivos–acudiu Manoel Quentino–se arriscou ha tempos na
    Foz o Carlitos, lá o filho do meu patrão. Virou-se no meio do rio um
    pequeno barco valboeiro, que ía governado por duas creanças, uma das
    quaes nem sabia nadar; e elle, que andava ás gaivotas com outros
    inglezes–que é o seu gosto–não esperou mais nada e zás… mergulhou
    como um peixe e salvou a creança. Depois continuou a caçar, com a roupa
    molhada no corpo, inda por muito tempo, em termos de ganhar qualquer
    doença.

    Cecilia estava tão entretida a examinar não sei o quê, que vinha no
    periodico, tão perto tinha os olhos das lettras, que julgo nem dava
    attenção ao episodio, narrado por Manoel Quentino.

    É verdade que, assim que o snr. José Fortunato, depois de ouvil-o,
    disse, com os seus modos sêccos:–«Estroinices», Cecilia levantou a
    cabeça com impeto e fitou-o córando e com uma expressão, pouco
    lisongeira para o velho.

    Eu não sei bem explicar este movimento em uma pessoa distrahida, como
    ella estava, movimento, que aliás não teve consequencias, pois, voltando
    á posição anterior, passou a ler o folhetim.

    Esta parte ouvia-a Manoel Quentino dormitando. Não lhe levem isto a mal
    os folhetinistas. José Fortunato, pelo contrario, ouvia-a com ardor; a
    maneira de ler de Cecilia inoculára-lhe o gosto dos romances. Tomava
    agora pelas peripecias um calor exagerado. Para elle era ponto de fé que
    tudo aquillo acontecera, e que tinham vivido, ou viviam ainda, os
    personagens, entre quem se travava a acção. Censurava por isso com a
    mesma violencia, e louvava com a mesma satisfação esses heroes
    phantasiados, como se fossem membros reaes da sociedade.

    Lido o folhetim, Cecilia passava o jornal ao snr. Fortunato, e ia tratar
    do chá. Fortunato lia para si os annuncios.

    Manoel Quentino passava então pelo somno.

    Depois travava-se entre os dois um dialogo, todo cortado de bocejos
    contagiosos;–os assumptos eram para estes effeitos. Eis o programma
    d'esta noite:

    Primeira parte:–Fortunato principia por dizer–«Pois é
    verdade.»–Replica-lhe Manoel Quentino–que a vida estava para
    elle.–«Queixe-se, que tem de quê»–diz o outro–«E não tenho
    pouco»–responde Manoel Quentino. Dois bocejos de ambos os lados, e
    pausa.

    Segunda parte:–Manoel Quentino queixa-se de umas dores de
    cabeça.–Fortunato attribue-as ao tempo e esfrega os olhos. Manoel
    Quentino inclina-se a que seja antes do estomago. O outro aconselha-lhe
    que não use de café ao almoço. Bocejos reciprocos.

    Terceira parte:–O snr. Fortunato, olhando para o tecto, nota que a sala
    tem diminuto pé direito. Manoel Quentino responde que, para a largura, é
    o bastante. O outro diz algumas palavras sobre as vantagens dos
    estuques. Manoel Quentino concorda e procura uma transição para fallar
    contra os senhorios; Fortunato responde-lhe com uma diatribe contra os
    caseiros. Reproduz-se um bocejo em Manoel Quentino, que se transmitte ao
    outro.

    Quarta parte:–Fortunato diz que está a expirar o carnaval. Manoel
    Quentino replica que lhe não deixa saudades. Fortunato faz igual
    declaração. Manoel Quentino vê com maus olhos a chegada da quaresma, por
    causa das confissões. Discute-se quaes os confessores mais passa-culpas.
    Manoel Quentino lembra-se de perguntar quem inventaria isto de
    confissões. Fortunato fal-as remontar ao tempo dos romanos, supremo grau
    de vetustez, e d'elle conhecido.

    D'esta vez os bocejos ficaram em meio, graças á entrada de Cecilia e de
    Antonia com o taboleiro do chá.

    Era notavel a transformação, operada em Fortunato. Alegrava-o o aspecto
    das tostas e do leite. Então que querem? Não era que o homem precisasse
    d'aquillo; mas emfim todo aquelle apparato bulia-lhe com a sensibilidade
    gustativa e, por os mysteriosos laços do physico e do moral, lá se lhe
    ia entender com a alma por fim.

    Esta satisfação interior desentranhava-se em amabilidades para com a
    Hebe domestica d'aquella ambrozia–a snr.ª Antonia.

    –Ai, snr.ª Antonia–dizia elle–assim é que é; cada vez mais nova.

    –Não me diga isso, snr. Fortunato; logo eu, que estou acabada.

    –Acabada! Ainda mal principiou…

    Eu não sei se era intenção do snr. Fortunato terminar aqui a oração,
    cujo sentido fica um tanto obscuro. E não o sei, porque n'este ponto
    Cecilia interrompeu-o, dizendo-lhe:

    –Faz favor de ver se está bom do assucar, snr. Fortunato.

    –Excellente, menina; mas faz-me favor de mais uma colherinha. Assim,
    muito bem; mais uma agora e mais nada… assim… agora mais não. Está
    muito bem.

    Depois de cada um tomar a sua posição respectiva, o snr. Fortunato
    principiou a fallar, misturando na bôca as palavras com chá, com leite,
    e com tostas e bolos.

    –Pois, menina, eu estou morto agora por ver se o tal meliante escapa da
    prisão.

    –Pois quem foi preso?–perguntou Manoel Quentino, que, tendo estado a
    dormir, não sabia que o seu amigo se referia ao romance, que vinha na
    folha.

    –Então não ouviu?–disse o snr. Fortunato, engulindo um bolo–Ella foi
    bem pilhada, isso lá foi. Porque o homem, pelos modos, não sabia que o
    desconhecido era o pae da rapariga, e tanto que elle ficou espantado
    quando o outro lhe appareceu, vestido de preto, e lhe disse…–Aqui o
    snr. Fortunato engrossou a voz.–«Eu sou a ultima das tuas victimas!»–E
    o filho então é que veio a saber d'isto: sim, porque até alli não sabia
    nada. Veio então a saber que a irmã do amigo do commendador é que tinha
    dado o dinheiro, que elles entregaram á tal viuva do cunhado do
    escrivão.

    Manoel Quentino mexia machinalmente o chá, olhando boquiaberto para o
    amigo, sem que percebesse uma só palavra, apesar do snr. Fortunato
    gesticular, voltado para elle.

    –Que diacho de embrulhada é essa? Eu se o entendo!

    –Então não leu?–teimava o outro–Elles tinham combinado que, logo que
    partisse o navio, o rapaz fosse accusado do roubo feito ao commendador;
    e para isso mandaram dizer aos tios do defunto que as joias foram
    encontradas na caixa do escudeiro do desconhecido, mas…

    –Mas quem demonio é essa gente toda? Que mexerofada de
    cousas!–exclamou Manoel Quentino, devéras impaciente.

    –Então não ouviu?–insistiu o snr. Fortunato, cuja natural difficuldade
    de expressão se exacerbava ao expôr as enredadas aventuras de um romance
    francez.

    Cecilia, que ao principio não attentára no dialogo comico, que se estava
    trocando entre os velhos, não pôde deixar de rir com vontade, ao dar por
    elle.

    –Mas onde aconteceu isso tudo, homem?–perguntava Manoel Quentino.

    –Em Paris. Pois não…

    –O pae não vê que o snr. Fortunato está a fallar do romance?

    –Ah! isso sim.

    –Pois que cuidava?

    –Eu sei lá o que cuidava. Eu cá de romances não entendo. E agora por
    isso lembra-me que aquelle endiabrado rapaz, o Carlitos, teimava que me
    havia de emprestar lá uns romances… Eh! eh! Tem diabo o rapaz.

    –Tambem está um estroina!–disse o snr. Fortunato, que era dos que
    tinham Carlos na conta de homem perigoso.

    –Mas deixe lá, que é uma boa alma!–respondeu Manoel Quentino–Ninguem
    lhe póde querer mal. É capaz de tirar a camisa do corpo para soccorrer
    um pobre. Ahi está que uma vez viram-o, era ainda dia claro, entrar na
    cidade, trazendo o cavallo á arreata e na sella vinha uma pobre velha,
    que elle encontrou na estrada com um pé desmanchado; outro que fosse…
    Ó Cecilia, então? onde tens tu o sentido, que nem reparas que alli o
    snr. Fortunato tem ha tanto tempo a chicara vazia?

    –Ai, perdão–disse Cecilia, córando pela distracção em que caíra.

    Não sei bem por que isto a fez córar assim; mas o facto deu-se.

    O snr. Fortunato, que havia muito tossia e suspirava com o fim de chamar
    para si, e para a chicara, as attenções, disse por delicadeza:

    –Não tinha pressa.

    Manoel Quentino continuou tecendo louvores a Carlos.

    –Mas emquanto á tal historia da mulher–dizia Fortunato, recebendo de
    Cecilia a outra chavena–isso tambem foi parlapatice no rapaz, pois…

    –Então; faz favor de ver se quer mais assucar–disse Cecilia, com um
    certo modo desabrido, que eu tambem não sei explicar, e que contrastava
    com a doçura que lhe era habitual.

    O snr. Fortunato notou-o.

    –Está muito bem, menina–disse elle.–Faz-me o favor de mais uma
    colherinha. Está muito bem.

    –Menos isso, snr. Fortunato–continuou Manoel Quentino.–Bem se vê que
    não conhece o Carlitos. De imposturas é que elle nunca foi. Já em
    creança…

    –Meu pae, sirva-se antes d'estes bolos–disse Cecilia de modo tão
    affectuoso, que alvoroçou a sensibilidade do velho.

    –Deixa estar, filha, que eu cá me vou servindo.

    –Pois sim–insistia o snr. Fortunato–mas que elle não é lá de muitos
    bons costumes, isso é que é verdade.

    –Antonia, sirva aqui o snr. Fortunato–disse Cecilia sêccamente, ordem
    que, por excepcional, surprendeu a todos.

    Tambem não sei bem explicar a razão d'esta ordem.

    –Tudo isso não passa de rapaziada–proseguiu Manoel Quentino.–Mas o
    que se chama fundo, boa alma, isso tem.

    –Olhe, snr. Manoel Quentino, homem que não toma rumo de vida…

    –Tambem ha muitas más almas á testa de grandes estabelecimentos, snr.
    Fortunato. Se um modo de vida fosse garantia e probidade!–disse Cecilia
    com ironia.

    –Pois bem sei que não, menina, mas…

    –Mas, mas, meu caro–disse Manoel Quentino–o que ninguem póde negar é
    que está alli um homem de bem… é verdade isso… Muitos fazem peior
    com menos a desculpal-os.

    O dialogo proseguiu, discutindo-se muito Carlos. Cecilia porém
    absteve-se de tomar parte n'elle.

    Terminou o chá. O ardor da conversa baixou. Manoel Quentino presentia o
    somno. José Fortunato sentia-se a digerir. Cecilia trabalhava e ás vezes
    ficava parada com os olhos fitos na luz, como se ella lhe offerecesse
    qualidades novas a examinar. Davam emfim nove horas.

    –Ora vamos até casa–disse José Fortunato erguendo-se.

    –Olhe se se agasalha–recommendou-lhe Manoel Quentino.

    –Antonia, venha alumiar–disse Cecilia.

    E o snr. Fortunato, feitos os seus cumprimentos, descia as escadas,
    conversando com Antonia até á porta da rua a respeito de frieiras, e
    mettia-se em casa, onde a imaginação teimava em recordar-lhe a doce
    figura de Cecilia, e tudo quanto lhe dissera.

    –Estranhei hoje os modos da rapariga–dizia elle ao deitar-se.

    Uma perfida paixão começára, havia muito, a minar o coração do pobre
    homem.

    Manoel Quentino, como tinha de se levantar cedo, ia-se deitar pouco
    tempo depois de Fortunato sair.

    O dialogo entre o pae e a filha d'esta vez consistiu n'isto:

    –Este snr. Fortunato ás vezes!…

    –É caturra, é…

    –E tem umas ideias! Boa noite, meu pae.

    –Muito boa noite, minha filha. Deus te abençoe.

    Cecilia retirou-se.

    Apesar de na vespera se ter deitado tarde, como o leitor sabe, Cecilia
    não sentia somno. Parecia-lhe estar ainda experimentando o atordoamento
    do baile. Lembrava-lhe tudo quanto Carlos lhe dissera, e o mais que de
    Jenny tinha sabido, e affligia-se então. Depois vinham as reflexões de
    Fortunato, depois as palavras do pae e os episodios que de Carlos
    Whitestone referira. A final cedeu ao somno. Pouco lucrou na transição.
    Ha certo dormir que fatiga mais que a vigilia. Trava-se uma lucta de
    sonhos, que nos deixa extenuados.

    Cecilia imaginou que ia n'um barco, levado pela corrente impetuosa do
    rio, em direcção da barra. O perigo era certo, e comtudo o barco ia
    cheio de mascaras que dançavam. Cecilia gritava, mas ella propria não
    escutava a sua voz. O barqueiro era o snr. Fortunato, e, cousa singular,
    ao mesmo tempo que remava, ia tomando chá. Depois vinha Carlos, com um
    cavallo pela rédea; mas o que mais a surprendia era que vinha pelo mar.
    Carlos queria salval-a, tirando-a do barco, mas as outras mascaras e o
    snr. Fortunato não deixavam. Porém o snr. Fortunato já não era o snr.
    Fortunato, mas sim um dos personagens do romance, que tanto o
    impressionára; e o mar tambem já não era bem mar, porque tinha camarotes
    em volta. E comtudo o perigo persistia, sem saber bem como ou em quê, e
    agora era ella a que fugia de Carlos.

    Finalmente, o sonho era de um enredo complicado, tendo por elementos os
    diversos acontecimentos e assumptos, que mais tinham preoccupado Cecilia
    n'aquelle dia, mas tudo em desordem completa.

    Em consequencia d'este sonho, acordou de manhã, pallida e abatida–o que
    não pouco inquietou Manoel Quentino.

    XIV

    IMMINENCIAS DE CRISE

    Emquanto Cecilia passava assim pacificamente o serão d'aquella noite,
    andava Carlos procurando com anciedade, por todos os salões de mascaras,
    a sua desconhecida da vespera.

    Jenny notára a impaciencia, com que o irmão tinha aguardado a noite e,
    ao vel-o sair, disse-lhe com modo particular:

    –Adeus, Charles; quer-me parecer que te não recolherás d'esta vez pelas
    quatro horas da manhã.

    –Quem sabe, Jenny?

    –Adivinho-o.

    Effectivamente não eram ainda duas horas, quando Carlos Whitestone,
    cansado de procurar em vão, em cada dóminó e sob cada mascara de seda, a
    incognita do ultimo baile, voltou a casa em pouco agradavel disposição
    do espirito.

    Jenny, que o sentiu chegar, sorriu de novo e disse comsigo mesma:

    –Inda bem, que terminou o carnaval. Charles, dentro em dois dias, já
    pensará em outra cousa.

    Acabára de facto o carnaval. Expirára essa época votada á folia e á
    loucura sem rebuços e abria-se agora a da penitencia e dos sermões.

    Em qual das duas ha mais verdades, mascaradas sob falsas apparencias,
    deixo aos moralistas decidir. Ia principiar o reinado dos véos, durante
    o qual a piedade e a moda levam ás sextas-feiras a multidão para a
    igreja de S. João Novo, e ao domingo despejam meia cidade nos arrabaldes
    proximos, para assistir á procissão dos Passos e ao respectivo sermão do
    encontro.

    Quasi toda a manhã de quarta-feira de Cinza passou-a Carlos em casa.

    Contra o que era de esperar do caracter d'elle, dominava-o ainda a
    lembrança da mysteriosa mascara; o despeito de a ter deixado escapar,
    sem que lhe ficassem vestigios, pelos quaes podesse um dia vir a saber
    quem ella fosse, concorria para o não deixar tranquillo agora. Estava
    dando tratos á imaginação, para se lembrar de qualquer meio conducente á
    solução d'aquelle problema de carnaval. Mas nenhum alvitre lhe offerecia
    a imaginação atormentada.

    Saíu emfim, sem saber para quê, nem para onde; em vez de procurar os
    centros de reunião mais concorridos, e onde, de ordinario, se fazia ver
    e ouvir, mudou de rumo, deixou-se ir ao acaso e, passado tempo,
    caminhava por entre os pinhaes, que orlam a parte ainda não edificada da
    rua da Boa Vista.

    Nos seus habitos de vida, essencialmente urbana, eram tão raras as
    occasiões de se ver assim entre arvores e fóra do povoado,
    principalmente áquellas horas do dia, que o facto estava-lhe causando
    uma impressão singular.

    Parecia-lhe um mundo novo; e alli, a dois passos de casa!

    Internou-se por pinhaes e campos, até perder de vista a estrada. Parou
    emfim. N'um estado moral, como o de Carlos n'aquella manhã, não são
    necessarios os grandes espectaculos da natureza para incitarem o
    pensamento a uma d'essas divagações, a que anda tão sujeito o dos
    poetas.

    A vastidão do mar, o horizonte amplissimo, que se descobre do alto das
    montanhas, o fragor da cataracta, que se despenha no valle, subjugam e
    obrigam a meditar até os menos propensos a contemplações abstractas.

    Haja porém um fermento de poesia no espirito de qualquer homem, ou
    tenha-se apoderado d'elle a melancolia, que é uma poesia tambem, e
    menores causas bastarão para se produzirem effeitos ainda maiores.

    O caminhar do insecto ou o rastejar do verme por entre as folhas sêccas
    do chão, a lande, desprendida do ramo e arrebatada na corrente, o raio
    do sol, que vae colorir a maravilhosa teia que a aranha teceu nas
    tojeiras, nas praias o movimento de expansão das actinias, ou rosas do
    mar, esses verdadeiros forcados das fragas, e outros iguaes phenomenos,
    sem importancia para quem os vê com animo distrahido, são já alimento
    bastante para phantasias mais apuradas.

    Carlos tinha a imaginação predisposta para estas impressões subtis, e,
    como raras vezes se sujeitava a ellas, recebia-as agora com duplicada
    intensidade.

    Era pelas tres horas da tarde de um dos mais formosos dias, que nos póde
    conceder fevereiro. Havia no campo aquella frescura, aquelle renascer de
    vida que, após longos dias de chuva, traz um dia de sol claro. O céo não
    tinha uma nuvem, nem lhe empanava o azul o véo transparente de nebrinas.
    Os pinhaes estavam silenciosos, como se, julgando-se já na primavera, se
    tivessem calado para escutar as aves; o vento, de debil que era, mal
    podia agitar as folhas movediças das arvores que o inverno respeita. Era
    tal a serenidade da tarde, que o fumo das casas rusticas subia ao ar
    lentamente, em columnas direitas, sem que uma viração as quebrasse, e só
    muito alto se dissipava na atmosphera.

    Do logar onde parára, Carlos ouvia distinctamente a voz das raparigas do
    campo, chamando o gado, rindo ou cantando.

    Era de longe que partiam aquellas vozes, mas a amenidade da hora e o
    silencio deixavam-as chegar até alli sonoras e perceptiveis.

    Carlos sentiu-se enlevado por tudo aquillo.

    –É uma singular loucura–pensou elle–julgar que se aproveitam os dias
    da juventude da maneira por que eu vou passando os meus. Do homem, que
    teve a minha vida, emquanto novo, costuma dizer-se que soube gosar
    d'ella em tempo. E como é que eu d'ella gosei? Na atmosphera asphyxiante
    de um café; na plateia de um theatro, onde se falla e pensa em tudo
    menos na belleza da arte; nas assembleias semsabores; nas esquinas das
    praças, ou em lojas á moda. Na verdade, que delicioso viver! E o
    espirito, que parece sentir-se palpitar, agitar-se em nós, quando assoma
    a mocidade, acaba por embotar-se, por adormecer; torna-se incapaz de nos
    proporcionar certa ordem de gosos, para os quaes temos faculdades
    creadas. E diz-se então que soube gosar da vida o que voluntariamente se
    privou das mais gratas impressões, que podem sentir-se n'ella!

    Isto dizia, ou antes, pensava Carlos, ao entranhar-se cada vez mais no
    pinheiral, e respirando a pleno peito a atmosphera balsamica do logar.

    –Nem eu sei–proseguia elle–como ainda experimento prazer, ao achar-me
    aqui só. Nos habitos de vida, que fiz meus, perde-se até a faculdade de
    saber sentir assim, a sós; quando é talvez d'esta maneira que a
    imaginação mais subtil se mostra…

    Vejam os leitores até onde iam já arrastando Carlos os attractivos
    d'aquella solidão suburbana!

    Operou-se porém uma transformação nas suas ideias, que parecia vogarem,
    e á vela cheia, seduzidas pelas doçuras da vida de anachoreta. Um
    pensamento, menos misanthropo, mais social, fel-as mudar de rumo.

    –Mas não–reconsiderou elle–não basta sentir; é necessario transmittir
    as expressões dos nossos sentimentos, e os troncos das arvores, a final
    de contas, não são os confidentes mais proprios. Tudo precisa de
    reflectir-se, para não perder na immensidade; a luz, n'um espaço vasto,
    dissipa-se; o som esmorece; o sentimento parece tambem enfraquecer, se
    outra oração, reflectindo-o, o não reforça. É porisso que a presença de
    um amigo… Mas que amigos tenho eu?

    Tremo devéras pelos chamados amigos de Carlos, ao vel-o disposto a
    responder a esta pergunta, que fez a si proprio.

    –F…,–continuou elle–cuja amizade não resistirá á primeira falta de
    senso que lhe notar n'um folhetim; C…, que romperá commigo, se eu
    tiver a franqueza de lhe apontar o menor defeito de equitação; L…, que
    abandonaria o amigo, logo que o visse seguir um terreno, onde elle
    corresse o perigo de enlamear as botas de polimento…, e todos os mais
    da mesma força. Vão lá escolher um d'esses homens para companheiro
    n'estas _viagens sentimentaes_.

    Aqui interrompeu-se para observar um pequeno e agil lacerto, que fugiu
    espavorido ao sentil-o aproximar, e do buraco, onde se occultára,
    continuava espiando-lhe os movimentos com os olhos vivos e como
    scintillantes. Carlos achava curiosissimo este espectaculo vulgar.
    Depois seguiu caminho, distrahido ainda, e pensava:

    –Ahi está; se eu dissesse a qualquer que me entreteve esse pequeno
    reptil, correndo por entre os fetos e por sobre as pedras musgosas
    d'aquelle muro, zombaria da minha candura; chamar-lhe-hia pieguice… Ha
    certas vibrações de sensibilidade, que não se póde communicar… a não
    ser… a não ser a um coração de mulher… Ellas sim, teem certas
    puerilidades sublimes, que… Ora adeus! Temos outra como a dos amigos.
    Se me recordar de algumas mulheres que tenho amado, que vejo eu? A S…,
    mulher nervosa, que teria um deliquio só ao ver aquella
    sardonisca–sensibilidade de toucador; a C…, essa então, mulher forte,
    que só um terremoto como o de Lisboa seria capaz de commover; a E…,
    belleza de salão, que se levanta ao meio dia, admira a natureza… nos
    jardins, e lamenta que a solidão não tenha gente que veja como ella a
    sabe apreciar…; e as outras regulam por isto. Verdade é que eu tambem
    com isto me satisfazia; quem sabe se procurando de outra maneira…

    N'este ponto tomaram as suas meditações outro caracter. Alguns passos
    mais adiante, já elle meditava:

    –Á força de me rir, em sociedade do amor sincero, desinteressado, dos
    casamentos de paixão, da vida de familia, quasi me deixei persuadir de
    que me ria convencido. E comtudo, se me sondar devéras… se aproveitar
    estes momentos raros, em que sou franco e expansivo commigo mesmo…

    O leitor sabe de certo até onde podem chegar as excursões do pensamento,
    quando no terreno que o de Carlos ia seguindo agora; muito mais se, como
    elle, se está em pleno bosque e longe do rumor da cidade; se o sabe, não
    estranhará que, momentos depois, já assim estivesse pensando Carlos:

    –Um amor bem verdadeiro, uma vida bem intima com uma mulher, a quem se
    queira como amante, que se estime como irmã, que se venere como mãe, que
    se proteja como filha…, é evidentemente o destino mais natural ao
    homem; o complemento da sua missão na terra…

    Quando Carlos Whitestone chegára a formular, no pensamento, esta
    profissão de fé, que, uma ou outra vez, concebeu toda a cabeça de vinte
    annos, ainda das mais azadas para desvairamentos, attingia a borda do
    pinheiral opposta áquella, por onde havia entrado.

    D'alli por diante o terreno, mais desimpedido de arvores, era occupado
    por campos em cultura, vinhedos, quintas, e por as casas respectivas;
    umas juntas, outras dispersas, e mais ou menos graciosas todas.

    Carlos sentou-se no pequeno muro de demarcação do pinhal. O horizonte
    que tinha diante de si, era vasto, e o olhar foi, quasi ao extremo
    d'elle, fixar-se em uma das mais distantes d'aquellas casas, ainda que o
    espirito não tomasse a menor parte n'aquella apparente contemplação.

    Tinha esta casa dois andares; era a face posterior a que se avistava
    d'alli. A varanda do primeiro andar estava toda entretecida de
    trepadeiras, que subiam do quintal. No intervallo das duas janellas
    florescia, em uma especie de alegrete, um arbusto, ao que parecia, de
    camelias. Na varanda do andar de cima via-se, pendurada de uma corda,
    que se estendia em todo o comprimento d'ella, alguma roupa branca, sobre
    a qual o sol batia em cheio, fazendo-lhe realçar a alvura.

    Como disse, demoraram-se n'aquelle ponto da perspectiva os olhos de
    Carlos, sem que os seguisse, desde logo, o pensamento, absorto como
    estava ainda na sequencia de meditações sobre os destinos do homem
    n'esta vida.

    Mas, instantes depois, alguma cousa se passou, que foi como que o laço
    de união entre o objecto das contemplações dos olhos e o das do
    espirito, que, desde então, se associou áquelles, no exame da modesta
    vivenda, em cujas vidraças o sol simulava a apparencia de um vasto
    incendio.

    O phenomeno nada tinha de extraordinario comtudo. Na varanda de cima
    apparecera uma mulher; nada mais. Mas esta mulher, ainda que a distancia
    mal permittisse distinguil-a, mostrava, pela elegancia de estatura e
    pela vivacidade de movimentos, ser ainda joven. Não era para estranhar
    que a imaginação de um rapaz de vinte annos a suppozesse tambem formosa.

    Viera examinar a roupa, que estava a córar ao sol; tirava uma e
    substituia-a por a que trazia de dentro; mais adiante, mudava a face
    exposta de outra; de quando em quando interrompia o trabalho e olhava
    para fóra, pondo a mão por cima dos olhos, como a abrigal-os da
    intensidade da luz; outras vezes, voltava-se para a sala e parecia
    fallar a alguém de dentro. Depois desapparecia; voltava de novo, e
    sempre, com manifesta solicitude, applicada ao trabalho.

    Carlos seguia com prazer o ir e voltar d'aquella mulher, que a custo
    distinguia, mas que nem por momentos imaginou que podesse ser uma
    criada.

    Elle, que estivera sonhando com os encantos do viver intimo, aprazia-se
    de imaginar agora, n'aquella casa, um d'esses mundosinhos modestos, que
    lhe estavam a appetecer.

    –Uma esposa, nova por certo, canceirosa com os negocios
    domesticos…–pensava elle–Deve ser um prazer indefinivel sentir-se a
    gente viver sob os cuidados de um d'estes entes, votados assim
    inteiramente á nossa felicidade…

    Era natural, desde que pensou isto, que se lembrasse de Jenny.
    Lembrou-se, é verdade; mas a imaginação sorriu affectuosamente áquella
    doce imagem, e deixou-a. Ao estado do seu coração não satisfazia só o
    sorriso fraternal e meigo que animava de bondade as feições da irmã. A
    seu pezar, surprendia-se a aspirar a mais.

    A tarde adiantava-se, e Carlos não se desviava d'alli; prendia-lhe as
    attenções aquella casa e a sympathica visão da varanda.

    A final fecharam-se as janellas. Pouco faltava para o sol se esconder de
    todo no mar. Carlos reparou então que era tempo de voltar a casa.

    Olhou mais outra vez ainda, e com saudade quasi, para a varanda. Os seus
    poucos e imperfeitos conhecimentos da topographia d'aquella parte da
    cidade não lhe permittiram conjecturar sequer qual fosse a rua a que
    pertencia a habitação.

    A nossa costumada discrição impede-nos de compensar este defeito.

    Seguindo outra vez o caminho, por onde viera, Carlos voltou a casa, mas
    a passos mais apressados.

    Já proximo da porta, sentiu uma mão, que se lhe pousava no hombro.
    Voltou-se; reconheceu um de seus amigos.

    –Que fazes tu, homem?

    –Recolho-me.

    –D'onde vens?

    –Do campo.

    –Ah! cultivas a bucolica? a poesia pastoril?

    –Ás vezes.

    –Dou-te os pezames. Gessner envelheceu; Florian dorme o somno dos
    inoffensivos. A proposito, já te mostrei o meu folhetim de critica, a
    respeito do volume do Serrão?

    –Ainda não.

    –Apparece então no Guichard esta noite. O livro é um pretexto; o que eu
    procuro é caracterisar a litteratura moderna, estremando os campos, hoje
    um pouco confusos, de romanticos e de classicos. Sabes que é o meu
    systema investigar nas pequenas apparencias as grandes revelações? É o
    que faço d'esta vez ainda. Assim, n'este estudo, serviram-me de ponto de
    partida duas palavras apenas; uma colhida de Racine, na _Berenice_;
    outra de Victor Hugo, no _Ruy Blas_. São as palavras finaes de uma e de
    outra tragedia. Antiochus vê partir Berenice e exclama: _Helas_! Ruy
    Blas morre nos braços da rainha e murmura: _Merci!_ Basta-me
    isto.–_Helas_!–é o grito de dor, é o desespêro, é a falta de coragem
    no infortunio; é a ultima palavra de uma litteratura, que não tem
    confiança no futuro, de uma litteratura, que vive só do passado.
    _Merci_!–é, pelo contrario, a resignação, a esperança, o apuramento do
    padecer até á essencia inebriante do soffrimento proprio, que chega a
    confundir-se com o prazer… é pois a phrase digna de uma litteratura
    viva, inspirada do futuro…

    A prelecção continuou; e Carlos reconheceu, pela impaciencia com que a
    estava escutando, a nenhuma disposição que tinha para apreciar n'aquella
    noite a sociedade de seus amigos. Separou-se d'este o mais depressa que
    pôde.

    –Não serei eu que vá ao Guichard esta noite. D'esta vez farei a vontade
    a Jenny. Ficarei em casa–disse elle, logo que conseguiu despedir-se.

    E entrou justamente quando já a campainha chamava para o jantar.

    Jenny, vendo-o chegar, e notando o ar grave que trazia, murmurou
    comsigo:

    –Ainda é cêdo para o restabelecimento. Esperemos.

    XV

    VIDA INGLEZA

    O jantar correu, ao principio, silencioso, como de costume.

    Mr. Richarde, apesar de tudo quanto promettia aquelle seu ar de
    satisfação, fazia as honras da mesa, usando de monosyllabos, e não se
    dava ao trabalho de formular uma oração inteira, sempre que com qualquer
    palavra solta lhe era possivel exprimir o pensamento.

    –_Roast beef_?… Salame?… Fiambre?… Ostras?–Era a maneira, pela
    qual elle perguntava a Carlos ou a Jenny quaes os pratos, de que
    preferiam servir-se.

    –Mostarda… Queijo… Aquillo… Isto… Traz… Tira… Leva…–Eram
    as ordens, que recebiam os criados, os quaes manobravam com uma
    promptidão, seriedade e silencio, essencialmente britannicos.

    Carlos não se mostrava mais expansivo. Além da pouca disposição para
    fallar, que em regra sentia diante do pae, estava n'aquella tarde muito
    fóra das habituaes condições de espirito, e em outra qualquer companhia
    de certo lhe estranhariam igualmente a taciturnidade.

    Jenny dava algumas ordens, em voz baixa, aos criados, que se inclinavam
    diligentes para escutal-a; fazia, no mesmo tom, uma ou outra observação
    a Carlos, e aventurava até algumas perguntas ao pae, sem que lhe fosse
    possivel comtudo generalisar conversa.

    Tudo isto, a regularidade e perfeito methodo de serviço, a gravidade e
    asseio dos criados, e a meia claridade da sala, dava não sei que aspecto
    solemne ao acto, como se fosse uma ceremonia funebre.

    Á medida, porém, que se repetiam as libações e que o effeito dos
    variados vinhos se combinava na cabeça de Mr. Richard, o velho inglez
    principiou a despir-se d'esta soturna gravidade e a lingua a
    desencadeiar-se-lhe, rompendo aquella especie de mutismo, que lhe
    impunham as regras da etiqueta britannica.

    Verificava-se n'isto uma opinião de Fielding, escriptor que disputava a
    Sterne as predilecções litterarias de Mr. Richard; diz effectivamente o
    auctor do _Tom Jones_ que o vinho tem a propriedade de trazer á luz o
    verdadeiro caracter dos homens, caracter que, nos periodos de
    sobriedade, o artificio consegue dissimular muitas vezes. Ora, como
    dissemos, Mr. Richard Whitestone era sorumbatico, por convenção; mas no
    fundo permanecia a jovialidade, que vinha á superficie, á medida que se
    adiantava o jantar.

    Ainda na presença de Jenny, já elle começára a ensaiar alguns gracejos,
    a contar passagens da sua vida de Londres, travessuras da meninice, e
    algumas extravagancias do tempo de rapaz.

    Carlos procurava então maliciosamente o olhar da irmã, a qual, pelo
    contrario, evitava com discrição o d'elle; porque estas historias ambos
    as sabiam já de cór, tão infalliveis ellas occorriam em determinadas
    circumstancias.

    Sempre que, em taes alturas do jantar, Carlos via servir um perú
    recheado, esperava já a narração de como, na sua infancia, Mr. Richard,
    então chamado ainda o pequeno Dick, com mais outros companheiros do
    collegio, tinham conseguido roubar uma d'estas aves do pateo do
    reverendo Jackson, seu mestre, e do detestavel assado que depois, ás
    occultas, fizeram com ella.

    O lombo de vacca inevitavelmente lembrava a anecdota apocripha d'aquelle
    rei de Inglaterra, que em um accesso de bom humor armou cavalleiro este
    saboroso artigo comestivel, ao qual, desde então, se concederam as
    honras de _baronet_, como parece indicar o nome de _Sirloin_ ou _Sir
    loin_, com que os inglezes o designam.

    Um prato de avelãs trazia quasi sempre comsigo a historia de uma celebre
    aveleira, que havia em certo parque das proximidades de Londres, pelo
    tronco da qual tantas vezes Mr. Richard, ainda creança, trepára com
    feliz exito, até um dia em que, escorregando, ficou suspenso de um galho
    por espaço de alguns minutos.

    O _pudding_ era pretexto para fallar no monstruoso _pudding_ que se
    cozinhava na Inglaterra, em não sei que solemnidade popular, e d'ahi a
    enumeração de muitos outros usos, e costumes nacionaes e de varias
    festas notaveis. Entre essas, a mais detidamente descripta era a do Lord
    Mayor; n'esse dia, guardado por toda a City, como dia santo, o
    personagem eleito para aquelle alto cargo é processionalmente levado á
    presença do Lord Chanceller, com o fim de ser por elle confirmada a sua
    eleição. Mr. Richard sabia e descrevia todas as particularidades do
    ceremonial, bem como todas as attribuições dos multiplicados cargos de
    que se compõe a excepcional corporação de Londres, desde o alto Lord
    Mayor até o mais modesto bedel de parochia.

    Como na procissão fluvial pelo Tamisa, celebrada n'aquelle dia, Mr.
    Richard estivera de uma vez em riscos de se afogar, a referencia
    minuciosa d'este caso pedia a de um outro analogo que lhe succedera por
    occasião dos tumultos populares occorridos durante o processo de
    divorcio de Jorge IV, e varias particularidades, pouco edificantes, a
    respeito da rainha Carolina e do seu favorito Bergamy.

    Carlos ouvia tudo isto calado, com ar de resignação e deferencia filial;
    Jenny com uma physionomia mais attenta, ainda que nem sempre a attenção
    do rosto lhe estivesse no espirito tambem.

    Jenny era a primeira a retirar-se da mesa, segundo o discreto costume,
    hoje mais seguido, mas originariamente britannico.

    Então tomavam maior incremento ainda as libações de Mr. Richard
    Whitestone.

    Accendia um charuto e dava-se uns ares de familiaridade, que em nenhuma
    outra occasião se repetiam.

    Carlos, de ordinario, perdia tambem então um pouco do habitual
    retrahimento para com o pae, e, fumando defronte d'elle, entrava com
    mais desafogo n'este dialogo.

    N'aquella tarde, porém, conservou-se ainda pouco expansivo, e quasi
    distrahido, perante a crescente communicabilidade.

    N'este dialogo _inter pocula_ eram infalliveis as referencias do
    negociante ao seu livro favorito–O _Tristram Shandy_, de Sterne.

    Mr. Richard apreciava tudo n'aquelle livro extravagante. Sabia-o quasi
    de cór e, apesar d'isso, lia-o ainda e de todas as vezes ria com a mesma
    vontade, não obstante não encontrar no decurso da leitura já alguma
    cousa imprevista.

    Carlos, ainda quando não tivesse lido a obra, tinha já razão para a
    conhecer a fundo, graças ás quotidianas citações do pae; era porém
    obrigado a escutal-o, como se tudo fosse novo para elle.

    As dissertações philosophicas do pae de Tristram, as ingenuidades e
    venetas guerreiras do tio Tobias, as argucias e façanhas do Corporal
    Trim, as interminaveis e extravagantes divagações de Tristram, o
    supposto auto-biographo, tudo Mr. Richard citava com enthusiasmo e com
    vivacidade.

    Nem lhe passavam por alto os episodios e as dissertações, que respiram
    certas liberdades, verdadeiramente rabelesianas, capazes de alvoroçar os
    ouvidos menos pechosos. O episodio dos amores do tio Tobias e os do seu
    fiel camarada, de indole menos quixotesca, eram até das passagens
    favoritas e das que com mais cordiaes risadas commentava.

    Vinham luzes e proseguia o dialogo, nem sempre demasiado ingenuo.

    Ao levantar da mesa, tomavam-se posições ao fogão; a conversa
    continuava, mas o ponto culminante da loquacidade e da viveza de Mr.
    Richard Whitestone tinha passado já.

    N'este primeiro periodo de declinação sobrevinham as citações do _Tom
    Jones_.

    Mr. Richard não se cansava tambem de exaltar aquelles soberbos perfis da
    penna de Fielding e as judiciosas reflexões que o auctor mistura á
    narrativa.

    Depois, a proximidade do calor do fogão, as exhalações do carvão inglez,
    a preponderancia dos vapores do tabaco, e mais tarde o _punch_,
    deprimiam ainda mais os espiritos do commerciante.

    Passava a fallar de politica, citava o _Times_; n'esta noite disse a
    Carlos que Lord Palmerston estava resolvido a dissolver o parlamento, no
    caso de não encontrar apoio na camara dos communs.

    Isto já foi dito em tom soturno. Carlos era de todo indifferente aos
    destinos do parlamento inglez.

    Depois fallou nos principaes movimentos e feitos de armas do exercito
    alliado na Crimeia e no provavel exito da campanha; e d'aqui entrou em
    considerações sobre o estado do commercio em Londres. Carlos luctava
    heroicamente para reprimir bocejos de fastio.

    Era noite cerrada; a voz de Mr. Richard tinha já umas entonações surdas,
    que, combinadas ás pancadas do relogio da sala, produziam em Carlos um
    effeito soporifero irresistivel.

    Jenny, quando pelo silencio que reinava, sentia que tinham chegado as
    cousas a este periodo critico, voltava outra vez á sala. Era então que o
    irmão aproveitava a occasião para saír.

    N'esta noite ficou.

    Jenny olhou-o admirada.

    Carlos respondeu-lhe, encolhendo os hombros, como a exprimir a resolução
    de ser condescendente aquella vez, ficando.

    A irmã agradeceu-lhe com um gesto; mas pensava comsigo:

    –Bem sei. Ainda não te passou o desgosto pelo mau resultado da tua
    aventura. Paciencia!

    Carlos voltára a casa, como dissemos, reconciliado com a vida domestica
    e convencido de que estava bem disposto para saborear os prazeres de um
    serão inglez.

    Resolveu por isso ficar. Mas a suspeita de Jenny era tambem fundada.

    Desalentado pela falta de indicações em relação ao mysterio da mascara,
    na qual a seu pezar pensava ainda, mingoava-lhe animo para saír, sem
    esperanças de o elucidar.

    Mas a vida domestica, tal como se passava ao fogão, junto do qual Mr.
    Richard quasi dormitava, não era a que o podia satisfazer.

    O viver intimo, cujos encantos Carlos julgára ter concebido aquella
    tarde, era apenas o accessorio de alguma cousa mais essencial ao
    coração, de alguma cousa, cuja necessidade começava a sentir emfim.
    Sorria-lhe o conchego domestico, mas aquecido, mas illuminado por outras
    chammas, que não eram as que lambiam o _fender_ do fogão; animado por
    mais ardentes sentimentos do que os de um affecto fraterno, ainda que
    dos mais estreitos, e do que os do respeito filial, ainda que dos mais
    arreigados e extremosos.

    Estava por isso experimentando agora o desengano, e a comparar a
    monotonia d'aquella noite ingleza, com o prazer que imaginára poder
    saboreiar-se, sem abandonar os lares domesticos.

    Isto fazia-o ainda mais silencioso e sombrio, do que estivera em outras
    noites que passára como aquella em casa.

    Depois que veio Jenny succedeu o que quasi sempre succedia tambem. Mr.
    Richard manifestou desejos de a ouvir tocar.

    Em virtude d'isto, passaram a uma das salas proximas. Mr. Richard
    sentou-se ao lado do fogão, tambem accêso alli; Carlos, proximo d'elle;
    Jenny ao piano.

    Jenny, conhecendo por experiencia as predilecções paternas, abriu a
    collecção dos _Cantos populares_ de Russell e procurou uma poesia de
    Morris; a qual tanto o pae como o irmão ouviam sempre com piedoso
    recolhimento.

    O motivo d'esta attenção estava sobre tudo na lettra, que parecia feita
    de proposito para avivar, em toda esta familia, saudades da vida
    passada. Foi a meia voz, mas com verdadeiro sentimento, que Jenny cantou
    essa poesia, intitulada a _Biblia de minha mãe_, cuja traducção é a
    seguinte:

    «Este livro é tudo quanto me resta d'ella! Ao vel-o, sinto rebentarem-me
    irreprimiveis as lagrimas dos olhos; com os labios tremulos, com a
    fronte turvada, aperto-o ao coração. É esta a arvore de familia, á
    sombra da qual já muitas gerações se teem abrigado.–As mãos de minha
    mãe folhearam esta Biblia; foi ella mesma quem m'a legou ao expirar.

    Ai, como me estão lembrando aquelles, cujos nomes me veem de envolta com
    estas memorias! Tantos que, em torno do lar, costumavam reunir-se após a
    oração da tarde, a conversar no que dizia este livro, em um tom que me
    calava no intimo do seio; ha muito que elles estão com os mortos
    silenciosos; mas sinto-os viver ainda aqui.

    Meu pae lia este livro sagrado aos filhos, ás filhas, á familia toda!
    Como era sereno o olhar de minha mãe, ao curvar a cabeça para escutar a
    palavra de Deus! Aquella figura angelica! Ainda a estou a ver!–Que
    memorias me occorrem em tropel n'este momento!–De novo parece reviver,
    dentro das paredes d'este quarto, aquelle pequeno grupo.

    Tu, ó Biblia! és o mais seguro amigo do homem! Eu tenho já experimentado
    a tua constancia! Quando todos me trahiam, achei-te fiel; vi em ti um
    conselheiro, um guia! As minas da terra não possuem o thesouro, que me
    compre este livro. Ensinando-me a maneira de viver, elle tambem me
    ensina como se deve morrer.»

    O assumpto da canção ingleza, depois que Jenny a terminou, fez caír
    naturalmente a conversa sobre diversas passagens da Biblia; Mr. Richard
    citou um versiculo, outro e outro, até que uma duvida lhe impediu de
    proseguir: d'ahi o pedido feito por elle á filha, para verificar a
    exacta redacção do texto.

    Jenny abriu pois o livro, que em todas as salas se encontrava sempre á
    mão, e leu.

    Carlos gostava de ouvir ler a irmã aquellas singelas e sublimes paginas
    da Biblia.

    Diz-se muito mal da lingua ingleza, e, de facto, ouvindo fallar certos
    filhos da Grã-Bretanha, lembra logo os conhecidos versos:

    O mundo a porfiar que os bretões grunhem
    E os bretões, etc., etc., etc.

    porém uma voz, como a de Jenny, meiga, melodiosa, e modulada com
    intelligencia e graça, parece transformar essa lingua ingrata em não sei
    que cantar de aves, que tem attractivos, até para os que não a
    comprehendem.

    O recolhimento religioso, com que Jenny lia os mais bellos episodios do
    Velho ou do Novo Testamento, augmentava o effeito agradavel da sua voz.

    Infelizmente, porém, a leitura descarnada e despida de commentos
    d'aquellas paginas não bastava ao fervoroso anglicanismo de Mr. Richard
    Whitestone, porisso, a cada passo, a interrompia para citar as
    interpretações de alguns dos reverendos doutores da sua episcopal
    igreja, ou os recentes desenvolvimentos, que ouvira ao ecclesiastico
    inglez na missa protestante, do Campo Pequeno.

    Jenny olhava para o irmão e fazia-lhe signal para que se reprimisse, e
    pelo menos simulasse attenção ás divagações do pae. Serviu-se ás dez
    horas chá preto, e Mr. Richard readquiriu um pouco de animação para, a
    proposito do chá, fallar na importancia da companhia das Indias
    Orientaes, nos serviços feitos por ella ao commercio, na sua historia,
    nas difficuldades com que luctou, e nos meios de que dispunha. Em
    seguida expôz um projecto de lavra propria sobre o engrandecimento das
    colonias inglezas, formulou acerbas censuras ao systema colonial
    portuguez, e em seguida uma expressa condemnação da politica franceza em
    geral.

    Mr. Richard odiava cordialmente a França. Ou elle não fosse inglez.

    Emfim, ás onze horas cessou Mr. Richard de fallar; as palpebras
    começaram a pesar-lhe; a chamma do fogão a amortecer, sem que as tenazes
    fizessem o seu officio, avivando-a.

    Meia hora depois, separava-se a familia, não tendo Carlos, em toda a
    noite, dito uma duzia de palavras.

    Jenny acompanhou ainda algum tempo o irmão através dos corredores, que
    conduziam ao quarto de cada um.

    –Então que tens tu a dizer da minha conversão? d'esta commovente e
    miraculosa regeneração do filho prodigo?–perguntou Carlos a Jenny,
    quando chegavam á porta da sala da livraria, onde deviam separar-se.

    –Que não sei se será muito duradoura–respondeu a irmã.

    –E como queres que o seja, Jenny? Não viste que narcoticas delicias as
    d'este conversar ao fogão? Dormir é um prazer; mas na minha idade!

    –Então, Charles!–disse Jenny, olhando para elle, com ar de
    reprehensão.

    –Olha, minha boa Jenny, acredita o que te digo; eu fui hoje sincero
    devéras nas minhas tentativas de reconciliação com a fada do lar
    domestico, com aquelle genio bom, que protegia a «gata borralhenta» na
    historia que nos contavam em creança. Vim para casa, sonhando umas
    delicias de viver intimo, as quaes, infelizmente, tive o desgosto de
    achar que eram illusorias. Tanto azul e dourado que via transformou-se
    em uma côr… pardacenta…

    –Talvez tu sejas muito exigente.

    –Ai, não o era, não. Mas que queres? Posso ter coragem para ouvir
    ámanhã e depois e sempre a historia do perú do reverendo Jackson? a das
    festas do Lord Mayor? a das assuadas á rainha Carolina? ou deve-se-me
    estranhar que deserte diante das subtilezas theologicas dos doutores da
    nossa igreja, ou…?

    –Tens razão; é preciso principiar por educar o coração, antes de tentar
    regenerar-te.

    –O coração?! Que queres dizer?

    –Tu vens para casa, como vaes para o theatro; procuras distrahir-te.
    Ora é claro que este viver de familia não entretem uma imaginação como a
    tua, se é só para satisfazeres a imaginação que ficas; e concebo que
    tudo isto te deve ser insupportavel, se o coração se fechou já de todo
    aos unicos gôsos, que nós podemos prometter-te.

    –Não me faças tão endurecido, que não saiba já apreciar os tocantes
    prazeres d'essa convivencia intima, Jenny. Julgas que não sei o que vale
    a tua affeição e até a do pae? Mas ouve, filha, e não sejas muito severa
    commigo. Emquanto o pae ha pouco fallava, muito á sua vontade, na
    portentosa companhia das Indias Orientaes, eu estava a pensar…

    –Em quê?

    –Estava a pensar em que eram inteiramente falsas certas ideias, muito
    bonitas, que, esta tarde, durante um passeio, que dei pelo campo…

    –Pelo campo!… Tu?!

    –É verdade, pelo campo, eu… mas… certas ideias, dizia, que me
    haviam occorrido por lá. Agora vejo melhor; e penso que se não deve até
    viver tão ligado, como era costume na antiga vida patriarchal. É justa,
    ou desculpavel pelo menos, esta tendencia moderna para afrouxar um pouco
    mais os laços de familia, sem amortecer de todo os sentimentos que a
    animam e unem, mas tornando mais independentes os habitos de viver de
    cada um. E é assim. Que se lucra em reunir em um feixe apertado dois ou
    tres homens de indoles e de gostos diversos, só porque são parentes, a
    ponto de impedir-lhes os movimentos, e a liberdade de acção? O mais que
    succede, é nenhum d'elles poder dispôr de toda a energia das suas
    faculdades; incommodam-se reciprocamente, de apertados que estão, e…
    odio não direi… mas… ás vezes… certa má vontade… pequenas
    dissensões, e… quando menos se espera, mais azedas discordias ainda,
    são as inevitaveis consequencias d'isso.

    Jenny abanava a cabeça, fitando o irmão, emquanto elle fallava.

    –Que doutrinas!–disse ella por fim–que triste philosophia a tua… de
    hoje. Cada vez te comprehendo menos, Charles.

    Carlos pôz-se a rir.

    –Então porquê, Jenny? Que achas tu em mim de tão incomprehensivel?

    –Ha dias… na manhã que se seguiu a uma das muitas noites, que passas
    fóra de casa, e quando era mais natural que estivesses n'estas ideias de
    agora, fallaste-me com eloquencia e convencimento nas doçuras da vida de
    familia; persuadirias d'aquella vez o mais extraviado. Foi, ainda me
    lembro, a proposito de uns versos, escriptos por um amigo no teu album.
    Hoje então…

    –Tudo se explica; é pela razão, que eu disse. Tentei apertar-me nos
    taes ambicionados laços, seduzido pelas promessas dos romancistas
    moralisadores; a final vi que me magoavam como laços que eram… Mas que
    versos foram esses, que me despertaram tão salutares ideias? Não me
    recordo.

    –Se queres que t'os leia?…–perguntou Jenny, pousando a mão na chave
    da porta da bibliotheca, como preparando-se para abril-a.

    –Se quero? peço-t'o.

    Os dois irmãos entraram na sala quadrada, onde, até a meia altura da
    parede, corria uma estante de palissandro, abastecida de magnificas
    brochuras e encardernações inglezas. Havia no meio da sala uma solida
    mesa rectangular, em estylo antigo, com embutidos de metal nos fechos,
    lavores de primorosa talha nas faces, e apoiada em grossos pés, torcidos
    em espiral,–um perfeito modelo d'essa bella mobilia ultimamente
    resuscitada, graças sobre tudo ás predilecções dos inglezes, que a teem
    tornado já rara, de muito que a procuram. Cobriam esta mesa varias
    publicações recentes, periodicos estrangeiros e do paiz, e gravuras; e
    em volta d'ella, commodas poltronas, e escabellos com assentos estofados
    parecia convidarem á leitura.

    Jenny pousou a luz, e, pegando em um album, que estava entre os outros
    livros e periodicos, principiou folheando-o, emquanto o irmão se sentava
    ao lado d'ella.

    –Se me não engana a memoria–dizia Jenny–é a traducção de uma lenda
    popular da Bretanha que se intitula…–Tendo encontrado justamente a
    pagina que procurava, concluiu:–_Amel e Pennor_.

    –Não tenho já a menor ideia do que seja.

    –Ora ouve então.

    E Jenny principiou a ler, com suavidade e graça inexprimivel, a seguinte
    lenda, verdadeira ou falsamente attribuida por um moderno escriptor
    francez á musa popular da Bretanha.[1]

    –Longe, longe d'aqui, nas costas da Bretanha,
    Poetico paiz, que um mar sinistro banha,
    Vivia, ha muito tempo, um pobre pescador,
    Que se chamava Amel, com a mulher Pennor.
    Tinham elles um filho, uma creança loura,
    Um anjo, que o porvir dos paes inflora e doura;
    Ao voltarem a casa, alegres, todos tres,
    Na praia os surprende a noite de uma vez.
    Crescia o mar veloz, medonho, ingente, forte!
    N'esse tempo as marés eram vivas. A morte
    Sobre as ondas boiava, indomita, cruel!
    Olhando para a esposa, assim lhe diz Amel:
    –«Pennor, vamos morrer! A vaga se aproxima!
    Viverás mais do que eu! Animo! Sobe acima
    Dos hombros meus, mulher. Pousa-te bem. Assim.
    E, ao veres-me sumir… ai, lembra-te de mim!»
    Pennor obedeceu. Firmando-se na areia,
    Desapparece Amel na vaga, que o rodeia.
    –«Amel! bradava a esposa; ai, pobre amigo meu!
    Qual de nós soffre mais?–tu, que morres, ou eu,
    Que te vejo morrer?»–E as aguas, que subiam,
    O corpo da infeliz no vortice envolviam.
    Olhando para o filho, assim lhe diz a mãe:
    –«Filho, vamos morrer! Olha a maré que vem!
    Viverás mais do que eu! Vá! filho, vá! coragem!
    «Sobe aos meus hombros, sobe! e ao tragar-me a voragem,
    Ai, lembra-te de mim e de teu pobre pae!»
    E o mar a submergiu. Chora a creança e vae
    Pouco a pouco afundir-se. Á flor da agua revolta,
    Apenas já fluctua a trança loura e solta…
    …Uma fada passou sobre o affrontado mar;
    Viu o cabello louro, em baixo, a fluctuar;
    Estende a mão piedosa e, segurando a trança,
    Com ella attrahe a si a pallida creança.
    E, sorrindo, dizia:–«Ai, que pesada que és!»
    Mas viu cêdo a razão; inda segura aos pés
    Do filho estremecido, a pobre mãe começa
    A erguer tambem da onda a humida cabeça.
    Sorriu a boa fada, ao ver assim os dois,
    E repetiu ainda:–«Ai, que pesados sois!»
    É que, após a mulher, seguia-se o marido
    Estreitamente aos pés da terna esposa unido.
    Ao vel-o, inda outra vez a meiga fada riu,
    E, leve, para a praia o vôo dirigiu
    Com este cacho vivo, esta humana cadeia,
    Cujos élos o amor piedosamente enleia.

    Pousando o livro, Jenny continuou:

    –Seguem-se mais quatro versos, consagrados á moralidade do conto, os
    quaes talvez me julgues dispensada de ler, por inuteis.

    –De certo. A allegoria é transparente, até sem commentarios. Mas,
    dize-me tu uma cousa, Jenny: que faria ou que diria a boa fada se,
    pairando sobre a praia, um dia, em que as marés não fossem vivas, nem o
    mar ameaçasse devorar a piedosa familia… que faria ou diria ella, se
    encontrasse os tres formando o cacho vivo da imagem, tão ridiculo n'esse
    caso, como tocante nas condições, em que o considera a lenda? A fada por
    certo que sorria tambem, mas acrescentando d'essa vez: «Ai, que varridos
    sois!» Dize-me agora se queres que eu ajunte alguma cousa tambem,
    correspondente aos taes quatro versos de moralidade, que
    supprimiste?–terminou Carlos, tocando levemente as faces de Jenny, e
    com um sorriso triumphante, ao qual ella correspondeu com outro, mas
    replicando:

    –Não, não é preciso. Mas repara, Charles, que as tempestades no mar
    formam-se ás vezes em um momento. E ninguem póde prever a época, em que
    é para receiar o perigo. Não viste como os pescadores voltavam a casa,
    «alegres todos tres», portanto confiados no mar? Se, tendo esta
    confiança, se houvessem separado e não caminhassem com as mãos unidas?
    Ao vir a maré, nem Amel procuraria que a esposa lhe sobrevivesse, nem
    Pennor tentaria salvar o filho, nem o cabello louro da creança, vindo á
    tona da agua, attrahiria as vistas da fada bemfazeja, dando-lhe occasião
    de salvar aquelle … cacho vivo… Entendes?

    –E tão longe ando eu já, que vos não possa offerecer os hombros, se a
    maré vier um dia ameaçar-nos?

    –Não, Charles; nem é a ti, tal como és, que eu ralho e quero mal; mas a
    um Charles, que ás vezes gostas de fingir. É singular! ha certas almas
    generosas que teem o vicio opposto ao da hypocrisia: esforçam-se por
    parecerem más! Para que has de estar a fazer mentir a tua bôca, dizendo
    o que não sentes?

    –Não nego que houvesse algum mau humor nas minhas palavras de ha pouco,
    mas…

    Jenny collocou-lhe a mão diante dos labios.

    –Que esse «mas» fique para ámanhã. Por emquanto inda não confio muito
    n'elle.

    –Então negas-me a justificação?

    –Não vês que, melhor do que tu, te está a justificar a minha confiança?
    É por isso que não quero ouvir-te. É tarde. Boa noite, Charles.

    –Boa noite, Jenny.

    E os dois irmãos separaram-se, apertando cordialmente as mãos.

    Carlos ía mais reconciliado outra vez com as doçuras da vida domestica.
    Ficára-lhe muito agradavel impressão d'este dialogo com Jenny, para que
    podesse deixar de ser essa a sua opinião final.

    XVI

    NO THEATRO

    Dias depois, affixavam-se cartazes nas esquinas, annunciando a _Lucia de
    Lammermoor_.

    Mr. Richard Whitestone não era assiduo frequentador do theatro lyrico.

    Havia porém uma circumstancia, que, infallivelmente, o levava lá, uma
    vez pelo menos.

    Tendo já desesperado de ouvir no theatro do Porto musica de compositores
    inglezes, como Haendel, Gray, Arnold, Bishop e outros, cujos nomes a
    cada momento citava com enthusiasmo, resignára-se a afagar sómente o seu
    acrisolado patriotismo com ir ao theatro, quando se cantavam aquellas
    operas, cujos librettos eram extrahidos de algumas das obras primas da
    litteratura ingleza.

    O _Othello_, o _Macbeth_, os _Capulletos_, as _Prisões de Edimburgo_, os
    _Foscaris_, o _Marino Faliero_ e outras n'este mesmo caso, luctavam
    vantajosamente com o seu muito amor pelo fogão e traziam ao publico
    aquella physionomia, radiante de contentamento e expressiva de saude,
    que o leitor já conhece.

    Preparava-se de antemão, n'essa tarde, relendo a obra, que servira de
    assumpto á opera, e ia depois com vontade para o theatro.

    Não era porém Rossini, Verdi, Bellini, Ricci e Donizetti os que o
    attrahiam e enlevavam; era Shakespeare, era Byron, era Walter Scott,
    cujos grandiosos vultos lhe parecia estar vendo no palco evocados, por
    sua vez, pelos mesmos personagens, que o genio d'elles tinha evocado
    outr'ora.–A musica era o accessorio. Os applausos do publico roubava-os
    Mr. Richard, por patriotismo, aos maestros, para conferir áquelles seus
    famosos conterraneos.

    No numero das taes operas contava-se _Lucia de Lammermoor_. Assumpto
    escossez, tratado por penna escosseza, e das mais admiraveis em desenhar
    typos sympathicos e immortaes, não era para Mr. Richard resistir-lhe.
    Havia de ir por força.

  • Os Simples

    Os Simples

    Aproximadamente 8.264 palavras.

    Produced by João Miguel Neves, Rita Farinha and the Online
    Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This
    file was produced from images generously made available
    by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de
    Portugal).)

    GUERRA JUNQUEIRO

    *Os Simples*

    PORTO

    TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL

    MDCCCXCII

    OS SIMPLES

    IMPRIMIRAM-SE D'ESTE LIVRO:

    1 exemplar em papel pergaminho
    16 exemplares em papel Wathman

    Todos estes exemplares são assignados e numerados pelo auctor.

    GUERRA JUNQUEIRO

    *Os Simples*

    PORTO

    TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL

    MDCCCXCII

    A F.

    _Querida:

    É este por emquanto o meu melhor livro.
    Pertence-te.

    teu J._

    *PRELUDIO*

    I

    A CAMINHO

    (_Abril, ao raiar d'alva. Por uma encosta de sementeiras, pastos,
    olivedos e amendoaes em flor vae um loiro peregrino adolescente, d'olhos
    ingenuos e extasiados no alvor da estrella da manhã_.)

    Um Lavrador

    (_de noventa anos, em mangas de camísa a lavrar uma terra_)

    Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de esp'rança,
    Ides de caminho para algum logar?

    O Peregrino

    Vou dar volta ao mundo…

    O Lavrador

    Sem arnez ou lança?!
    Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de esp'rança,
    Penas e miserias é o que ireis achar!…

    Uma Velhinha

    (_mais adiante_)

    Ó Senhor tão novo, d'olhos inocentes,
    Ides com cuidados para um tal andar!…

    O Peregrino

    Vou a prender monstros, combater serpentes…

    A Velhinha

    Ó Senhor tão novo, d'olhos inocentes,
    Os dragões ferozes vam-no espostejar!…

    Uma Joven Camponeza

    (_mais adiante_)

    Ó Senhor tão novo, d'olhos encantados,
    Ides pela fresca para algum pomar?

    O Peregrino

    Vou-me a ler Destinos, descobrir os Fados…

    A Camponeza

    Ó Senhor tão novo, d'olhos encantados,
    Feiticeiros negros vam-no enfeitiçar!…

    Uma Pastorinha

    (_mais adiante_)

    Ó Senhor tão novo, d'olhos tão brilhantes,
    Vossos olhos disem que ides p'ra casar…

    O Peregrino

    Vou fazer tesoiros, fabricar diamantes…

    A Pastorinha

    Ó Senhor tão novo, d'olhos tão brilhantes,
    Ha ladrões nos bosques, vam-no assassinar!…

    Um Mendigo

    (_mais adiante_)

    Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de chama,
    Vossos olhos ardem como a luz solar!…

    O Peregrino

    Vou descobrir mundos, quero gloria e fama!…

    O Mendigo

    Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de chama,
    Sobe o pó mais alto que os trovões do mar!…

    A Estrella D'Alva

    Ó creança, d'olhos côr da flor dos linhos,
    Por infernos deixas tua paz, teu lar!…

    O Peregrino

    (_desaparecendo ao longe_)

    Florirei as pedras pelos maus caminhos!
    Levo a luz dos astros e as canções dos ninhos
    A sorrir nos beijos e a tremer no olhar!…

    II

    DE VOLTA

    (_Crepusculo, Novembro. Pela encosta fria e desnudada vae andando,
    esfarrapado e exangue, um pobresinho triste, arrimado ao bordão_.)

    Um Lavrador

    (_de cem anos, ainda robusto, à porta do casebre_)

    Mendigo d'olhos sem esp'rança,
    Vaes-te perder na escuridão…
    Entra em meu lar; dorme, descança…

    O Pobresinho

    (_andando sempre_)

    Quem dera a paz divina e mansa,
    Velho, que tens no coração!…

    Uma Velhinha

    (_a resar à porta do moinho_)

    Mendigo d'olhos sem ventura,
    Dentro da azenha ha um enxergão;
    Terás lençoes, terás fartura…

    O Pobresinho

    (_andando sempre_)

    Eu só quizera essa candura,
    Irmã da Graça e da Ilusão!…

    Uma Camponeza

    (_que vem da vindima_)

    Mendigo d'olhos d'engeitado,
    Na nossa casa ha vinho e pão;
    E ha leite fresco; e ha mel doirado…

    O Pobresinho

    (_andando sempre_)

    Tua alegria sem cuidado,
    Eis o que eu busco… em vão! em vão!…

    Uma Pastorinha

    Mendigo d'olhos de coveiro,
    Trago a merenda no surrão;
    O queijo é bom, mas é grosseiro…

    O Pobresinho

    (_andando sempre_)

    Dá-me o teu riso feiticeiro,
    Lirio do monte inda em botão!

    Um Pedinte

    Mendigo d'olhos na agonia,
    Dou-te o meu manto e o meu bordão;
    Nada mais levo… a noite é fria…

    O Pobrezinho

    (_andando sempre_)

    Apenas ai! desejaria
    Tua cristã resignação!…

    A Estrella Vesper

    Ó sonhador louco d'outrora,
    Teus sonhos lindos onde estão?!
    Ebrio da luz, rico d'aurora,
    Vi-te partir… e vejo agora
    Um morto erguido d'um caixão!

    Teus olhos fulvos namorei-os
    De dia e noite, da amplidão:
    Vi-os sorrir entre gorgeios,
    Vi-os cantar e vi-os cheios
    De pranto e febre e indignação!
    Regressa emfim, é teu destino,
    Á paz obscura, á submissão…
    E outra vez meigo e pequenino
    Deixa dormir, como um menino,
    Teu velho e exhausto coração!…

    O Pobresinho

    (_chorando_)

    Só tu, estrella, me conheces
    Em minha dor, minha aflição!…
    Só tu não dormes, não esqueces…
    Só tu ouviste as minhas preces…
    Bemdito, estrella, o teu clarão!

    Setembro–91.

    I

    *A MOLEIRINHA*

    A MOLEIRINHA

    Pela estrada plana, toc, toc, toc,
    Guia o jumentinho uma velhinha errante.
    Como vão ligeiros, ambos a reboque,
    Antes que anoiteça, toc, toc, toc,
    A velhinha atraz, o jumentito adiante!…

    Toc, toc, a velha vae para o moinho,
    Tem oitenta anos, bem bonito rol!…
    E comtudo alegre como um passarinho,
    Toc, toc, e fresca como o branco linho,
    De manhã nas relvas a córar ao sol.

    Vae sem cabeçada, em liberdade franca,
    O gerico russo d'uma linda côr;
    Nunca foi ferrado, nunca usou retranca,
    Tange-o, toc, toc, a moleirinha branca
    Com o galho verde d'uma giesta em flor.

    Vendo esta velhita, encarquilhada e benta,
    Toc, toc, toc, que recordação!
    Minha avó ceguinha se me representa…
    Tinha eu seis anos, tinha ella oitenta,
    Quem me fez o berço fez-lhe o seu caixão!…

    Toc, toc, toc, lindo burriquito,
    Para as minhas filhas quem m'o dera a mim!
    Nada mais gracioso, nada mais bonito!
    Quando a Virgem pura foi para o Egipto,
    Com certeza ia n'um burrico assim.

    Toc, toc, é tarde, moleirinha santa!
    Nascem as estrellas, vivas, em cardume…
    Toc, toc, toc, e quando o galo canta,
    Logo a moleirinha, toc, se levanta,
    P'ra vestir os netos, p'ra acender o lume…

    Toc, toc, toc, como se espaneja,
    Lindo o jumentinho pela estrada chan!
    Tão ingenuo e humilde, dá-me, salvo seja,
    Dá-me até vontade de o levar á egreja,
    Baptisar-lhe a alma p'ra a fazer cristan!

    Toc, toc, toc, e a moleirinha antiga,
    Toda, toda branca, vae n'uma frescata…
    Foi enfarinhada, sorridente amiga,
    Pela mó da azenha com farinha triga,
    Pelos anjos loiros com luar de prata!…

    Toc, toc, como o burriquito avança!
    Que prazer d'outrora para os olhos meus!
    Minha avó contou-me quando fui creança,
    Que era assim tal qual a jumentinha mansa
    Que adorou nas palhas o menino Deos…

    Toc, toc, é noite… ouvem-se ao longe os sinos,
    Moleirinha branca, branca de luar!…
    Toc, toc, e os astros abrem diamantinos,
    Como estremunhados cherubins divinos,
    Os olhitos meigos para a ver passar…

    Toc, toc, e vendo sideral tesoiro,
    Entre os milhões d'astros o luar sem veo,
    O burrico pensa: Quanto milho loiro!
    Quem será que moe estas farinhas d'oiro
    Com a mó de jaspe que anda alem no ceo!…

    Novembro de 1888.

    II

    *CADAVER*

    I

    PRESTITO FUNEBRE

    Que alegrias virgens, campezinas, fremem
    N'este imaculado, limpido arrebol!
    Como os galos cantam!… como as noras gemem!…
    Nos olmeiros brancos, cujas folhas tremem,
    Refulgente e novo passarinha o sol!…

    Pela estrada, que entre cerejaes ondea,
    Uma pequerrucha,–tro-la-ró-la-rá!–
    Vae cantando e guiando o carro para a aldeia…
    São os bois enormes, e a carrada cheia
    Com um castanheiro apodrecido já.

    Oh, que donairosa, linda boieirinha!
    Grandes olhos garços, sorrisinho arisco…
    D'aguilhada em punho lepida caminha,
    Com a graça aerea d'ave ribeirinha,
    Verdilhão, arveola, toutinegra ou pisco.

    Loira, mas do loiro fulvo das abelhas;
    Fresca como os cravos pelo amanhecer;
    Brincos de cerejas presos nas orelhas,
    Na boquita rosea tres canções vermelhas,
    Na aguilhada, ao alto, uma estrelinha a arder!

    Descalcinha e pobre, mas sem ar mendigo,
    Nada mais esvelto, mais encantador!
    Veste-a d'oiro a gloria do bom sol amigo…
    O chapeu é palha que inda ha um mez deu trigo,
    A saíta é linho inda ha bem pouco em flor!…

    E os dois bois enormes, colossaes, fleugmaticos,
    Na aleluia imensa, triunfal, da aurora,
    Vão como bondosos monstros enigmaticos,
    Almas por ventura d'ermitões extaticos
    Ruminando biblias pelos campos fora!…

    Ao arado e ao carro presos noite e dia,
    Como dois grilhetas, quer de inverno ou v'rão!
    E, submissos, uma pequerrucha os guia!
    E nos sulcos que abrem canta a cotovia,
    As boninas riem-se e amadura o pão!…

    Levam as serenas frontes magestosas
    Enramalhetadas como dois altares:
    Madresilvas, loiros, pampanos, mimosas,
    Abelhões ardentes desflorando rosas,
    Borboletas claras em noivado, aos pares…

    E eis no carro morto o castanheiro, emquanto
    Melros assobiam nos trigaes alem…
    Heras amortalham-no em seu verde manto…
    Deu-lhe a terra o leite, dá-lhe a aurora o pranto…
    Que feliz cadaver, que até cheira bem!…

    Musgos, lichens, fetos,–chimica incessante!–
    Fazem montões d'almas d'essa podridão…
    Já n'esse esqueleto seco de gigante,
    Sob a luz vermelha, n'um festim radiante,
    Mil milhões de vidas polulando estão!…

    Sempre á fortaleza casa-se a doçura:
    Como o leão da Biblia morto n'um vergel,
    Do seu tronco ainda na caverna escura
    Um enxame d'oiro rutilo murmura,
    Construindo um favo candido de mel!…

    Oh, os bois enormes, mansos como arminhos,
    Meditando estranhas, incubas visões!…
    Pousam-lhes nas hastes, vede, os passarinhos,
    E por sobre os longos, torridos caminhos
    Dos seus olhos caem bençãos e perdões…

    Chorarão o velho castanheiro ingente,
    Sob o qual dormiram sestas estivaes?
    Almas do arvoredo, o seu olhar plangente
    Saberá acaso misteriosamente
    Traduzir as lingoas em que vós fallaes?!…

    Castanheiro morto! que é da vida estranha
    Que no ovario exiguo d'uma flor nasceu,
    E criou raizes, e se fez tamanha,
    Que tresentos anos sobre uma montanha
    Seus tresentos braços de colosso ergueu?!…

    Onde a alma, origem d'essas formas bellas?
    Em tão varias formas que sonhou dizer?
    Qual a ideia, ó alma, convertida n'ellas?
    E desfeito o encanto, que nos não revelas,
    Que aparencias novas tomará teu ser?…

    Noite escura!… enigmas!… Ai, do que eu preciso,
    Boieirinha linda, linda d'encantar,
    É d'essa inocencia, d'esse paraiso,
    Da alegria d'oiro que ha no teu sorriso,
    Da candura d'alva que ha no teu olhar!…

    Grandes bois que adoro, p'ra fortuna minha,
    Quem me dera a vossa mansidão christã!
    Arrotear os campos, fecundar a vinha,
    E nos olhos garços d'uma boieirinha,
    Ter duas estrellas virgens da manhã!…

    E tambem quizera, mortos castanheiros,
    Como vós erguer-me para o sol a flux,
    Dar tresentos anos sombra aos pegureiros,
    E n'um lar de choça, em festivaes braseiros,
    A aquecer velhinhos, desfazer-me em luz!…

    1889.

    II

    IN PULVIS…

    Oh, que noite negra, que invernia brava!
    Nem uma estrellinha pelo ceo reluz!
    Chora o vento ao longe com a voz tão cava,
    Como quando dizem que de dor chorava
    Toda a santa noite em que expirou Jesus!…

    Vem sanguinolentos gritos muribundos
    Das soturnidades torvas do horisonte!…
    Já nos ermos andam lobos vagabundos…
    Já os rios cheios, com bramidos fundos,
    N'um diluvio d'agoa vão de mar a monte!…

    Em casal de serras arde o castanheiro,
    Lampada de pobres a fazer serão;
    De redor do grande, festival braseiro,
    A velhinha, o velho, o lavrador trigueiro,
    A mulher, os filhos, o bichano e o cão.

    Queima-se o gigante, rude centenario,
    Que jamais os astros hão-de ver florir…
    E do seu cadaver o esplendor mortuario
    Faz d'essa choupana quasi que um sacrario
    Com uma alma d'oiro dentro d'ella a rir!…

    Tem o velho ao colo o seu netinho doente;
    –Morte negra, foge do telhado, ó, ó…–
    E no lar as brasas simultaneamente
    Dizem para o anjo:–tudo é oiro ardente…
    Dizem para o velho:–tudo é cinza e pó!…

    Quantas vezes, quantas! por manhãs radiantes
    Em pequeno, alegre como um colibri,
    Não trepara aos braços todos verdejantes
    D'esse castanheiro, que n'alguns instantes
    Ha-de ver em cinzas já desfeito ali!…

    Quantas vezes, quantas! lhe bailara em torno!
    Quantas noites, quantas! elle ali dormia
    Pelo mez das ceifas, quando o luar é morno,
    E das restolhadas, quentes como um forno,
    Se evolavam cheiros d'arreçã bravia!…

    Como não sentir um entranhado afecto,
    Como não amal-o com veneração,
    Se lhe dera a trave que sustenta o tecto,
    Se lhe dera o berço onde repoisa o neto,
    Se lhe dera a tulha onde arrecada o pão!

    Fez com elle o jugo e fez com elle o arado;
    Fez com elle as portas contra os vendavaes;
    E com elle é feito o velho leito amado,
    Onde se deitara para o seu noivado,
    E onde já morreram seus avós, seus paes!

    E o bom velho embala o seu netinho doente…
    –Morte negra, foge… dorme, dorme… ó, ó…–
    E, fitando as chamas simultaneamente,
    Ri-se a creancinha, vendo o oiro ardente,
    Lagrimeja o velho, vendo cinza e pó!…

    A velhinha resa, resa afervorada…
    Tão velhinha e branca, branca de jasmins,
    Que a idealiso e creio d'esplendor banhada,
    Entre palmas verdes até Deos levada
    N'um andor de rosas pelos serafins…

    Resa pelos mortos… resa á virgem pura…
    Desde a sua infancia tão ditosa e bella,
    Já d'essa choupana (como a noite é escura!)
    Quantos tem partido para a sepultura,
    Quantos tem ficado dentro d'alma d'ella!…

    Dentro d'alma d'ella, triste campo santo,
    Muitas almas vivem mortas a sonhar!…
    Vivem mortas, mudas, n'um dorido encanto…
    Nos seus olhos vitreos cristalisa o pranto,
    Nos seus labios roxos fosforece o luar…

    E essas almas fluidas que ella traz comsigo,
    –Talisman da crença, magico poder!–
    Frias como a neve vem do seu jasigo,
    Vem sentar-se todas no logar antigo,
    A chorar á roda do braseiro a arder!…

    Ai dos pobres mortos que não tem fogueiras,
    Nem velhinhas santas que lhe deem luz!
    Sob leivas, onde ninguem põe roseiras,
    Umas sobre as outras juntam-se as caveiras,
    Dando sangue aos vermes, podridões á Cruz…

    D'esses desgraçados, mortos no abandono,
    Onde estão as almas? P'ra que Deos as fez?
    Quando o vento uivando lhes perturba o somno
    Pela treva errantes, como cães sem dono,
    Andarão perdidas a ulular talvez!…

    Pois até por essas que ninguem conforta
    A velhinha chama… e todas ellas vem…
    –Vinde pobresinhas, (como o vento as corta!)
    Vinde aqui sentar-vos, que eu vos abro a porta,
    A aquecer-vos, filhas, ao meu lar tambem!–

    E a dos olhos garços pastorinha bella
    Fia no seu fuso linho por corar;
    É trigueiro o linho, trigueirinha é ella…
    Rodopia o fuso… quando for donzella,
    Já terá camisas para se ir casar!…

    E esse fuso alegre onde se enrosca o linho
    Já foi ramo verde n'esse tronco em brasas:
    Deu já cachos brancos como o branco arminho,
    Já sobre elle a ave construiu seu ninho,
    Já sobre elle amando palpitaram azas!…

    Fuso como giras em dedinhos breves
    Prasenteiramente, com tão louco ardor!
    Que estarás fiando?… que enxovaes?… que neves?
    Se serão camisas, ou mortalhas leves,
    Cama para bodas, ou lençoes de dor!…

    No vetusto escano o lavrador sombrio
    Pensa na courela… Santo Deos, Jesus!
    Se a tormenta engrossa, se lha leva o rio,
    Como é que hade o gado pelo ardor do estio
    Sustentar-se a piornos de fraguedos nus!…

    Choram ventanias!… panica tristeza!…
    Sentem-se na loja bois a ruminar…
    Queixas insondaveis vem da naturesa!…
    Quanto monstro mudo, quanta lingoa presa,
    Contemplando a Noite sem poder fallar!…

    Ronronando ao lume, dorme o cão e o gato.
    Almas misteriosas, em que sonharão?…
    Como que n'um dubio lusco-fusco abstracto,
    De ter sido tigre lembra-se inda o gato?…
    De ter sido hiena lembra-se inda o cão?…

    Eis as brasas mortas… Eil-o já converso
    O castanheiro em cinza, em fumo vão, em luz…
    Luz e fumo e cinza tudo irá disperso
    Reviver na vida eterna do universo,
    Circulo de enigmas, que ninguem traduz…

    Sempre, sempre, sempre, cinza, fumo e chama
    Viverão, morrendo a toda a hora… sempre!…
    Nuvem que troveja, calix que enbalsama,
    Planta, pedra, insecto, humanidade, lama,
    Serão tudo, tudo!… inconcebivel!… Sempre!

    Mas a alma, as almas quem as ha criado?
    Qual a origem d'onde a sua essencia emana?…
    Ah, em vão levanto o triste olhar magoado
    Para os olhos d'ouro que do azul sagrado
    Lançam as estrellas á miseria humana!…

    Oh em vão!… que os astros, onde em sonho habito,
    São tambem fogueiras sobrenaturaes,
    Que na pavorosa noite do Infinito
    Crepitando espalham seu clarão bemdito,
    Suas alvoradas roseas, virginaes,

    Para em torno d'ellas se aquecerem mundos
    A tremer com frio, a soluçar com dor,
    Miseraveis monstros cegos, vagabundos,
    Atravez d'eternos turbilhões profundos,
    N'um virtiginoso, angustioso horror!…

    E ardam astros d'oiro, ou ardam castanheiros,
    No Infinito imenso ou n'um tugurio assim,
    Fica a mesma cinza d'esses dois braseiros,
    Atomos errantes, sonhos vãos, argueiros
    Na inconsciencia calma da amplidão sem fim!…

    E o mundo e os mundos a girar na altura
    Como vós, ó velhos, morrerão tambem…
    Blocos de materia fria, sem verdura,
    Errarão na vaga imensidade escura,
    Cemiterio d'astros que nem cruzes tem!…

    Dormirão? oh, nunca!… vão eternamente
    Circular na eterna vida universal:
    Nebulosa fluida, lavareda ardente,
    Lodo, o mesmo lodo, como antigamente,
    Com os mesmos dramas entre o Bem e o Mal!…

    Formas da materia, que eu em vão desnudo,
    Que invisiveis forças, e almas encobris?
    Quem o sabe? A Morte, que conhece tudo…
    Mas o enigma impresso no seu labio mudo
    Só na treva aos mortos é que a morte o diz!…

    Só a Morte o sabe… mais a Fé que abrasa,
    Que penetra as coisas com o seu olhar!
    Não ha fé na alma, não ha luz na casa…
    A rasão é um verme, mas a crença é aza…
    Verme! aos infinitos poderás chegar!…

    Ó velhinha santa, minha boa amiga,
    Resa o teu rosario, move os labios teus!…
    A oração é ingenua? Vem de crença antiga?
    Não importa! resa, minha boa amiga,
    Que orações são lingoas de falar com Deos!…

    Ha pedintes cegos de inspiradas frontes,
    Com estrellas n'alma, com visões mentaes,
    Que atravessam rios, que vão dar com fontes,
    Que andam por agrestes, solitarios montes,
    Sem errar a estrada, sem cahir jamais!…

    Pelos bosques ermos, onde venta e neva,
    Com os seus farrapos mais o seu bordão,
    Marcham por milagre na continua treva…
    Oh, dizei, dizei-me quem os guia e leva?
    Que prodigio oculto? que invisivel mão?

    Pois, velhinha branca, tua crença pura,
    Tua resa antiga, que me faz chorar,
    É egual aos cegos, que na noite escura
    Não precisam d'astros para ver a altura,
    Não precisam d'olhos para ter olhar!

    No Infinito mudo tua ingenua crença,
    Tremula ceguinha de risonho alvor,
    Eil-a andando, andando, como que suspensa,
    Pelos descampados d'uma noite imensa,
    Vastidões d'assombros, amplidões d'horror!…

    E onde a aguia, o genio de pupila ovante,
    Tem vertigens, auras, desfalece e cae,
    A ceguinha debil, vagabunda, errante,
    D'olhos ás escuras. Infinito adiante,
    N'um enlevo aereo perpassando vae!…

    Branca e pequenina, ligeirinha e leve,
    Corta por abismos, plagas sem faroes,
    Stepes infindaveis que ninguem descreve,
    Lugubres desertos de mudez e neve,
    Bategas de brasas, turbilhões de soes!…

    Vae andando, andando, té que emfim cercada
    D'uma aleluia mystica de luz,
    Com o bordãosinho que a amparou na estrada
    Bate ás portas d'oiro da feliz morada,
    Presbiterio d'Almas, onde está Jesus!…

    Vem um anjo abril-as; a ceguinha mansa
    Põe-se de joelhos, em adoração…
    Diz-lhe o anjo:–Toma, guarda esta lembrança:
    Uma palma d'astros, a luzir Esp'rança,
    Que á velhinha humilde levarás na mão!

    E, ave pressurosa recolhendo ao ninho,
    Já com alimento para os filhos seus,
    Eil-a que regressa por egual caminho,
    E vem dar-te, ó santa, côr de jaspe e arminho,
    Tão amada ofrenda que te envia Deos!…

    Resa esse rosario, santa lagrimosa!
    Sobre os teus joelhos deixa-me deitar!
    Triste da minh'alma!… vê, que desditosa!…
    Unge-m'a de bençãos, mão religiosa!…
    Cobre-m'a de graças, cristalino olhar!…

    Resa-lhe baixinho, minha boa amiga!
    Resa-lhe rosarios de orações ideaes!
    Morta de miseria, morta de fadiga,
    Deixa que ella durma na pureza antiga…
    Que ella durma… sonhe… e não acorde mais!…

    89.

    III

    *EIRAS AO LUAR*

    EIRAS AO LUAR

    Alvor da lua nas eiras,
    Nem linhos de fiandeiras,
    Nem veos de noivas ou freiras,
    Nem rendas d'ondas do mar!…
    Sobre espigas d'ouro bailam as ceifeiras,
    Na aleluia argentea do clarão do luar!…

    Bailae sob as lagrimosas
    Estrellinhas misteriosas,
    Scintilações, nebulosas,
    Fremitos vagos d'empyreos!…
    Deos golpeia a aurora p'ra dar sangue ás rosas,
    Deos ordenha a lua p'ra dar leite aos lirios!…

    Ai, medas de prata e oiro,
    De lua branca e pão loiro,
    Malhadas no malhadoiro,
    A enfeitiçar e a fulgir!…
    Oh, bailae á volta d'esse bom tesoiro,
    Que é a codea negra que ceaes a rir!…

    Quem nas ladeiras e prados,
    Com as lanças dos arados,
    Abriu sulcos e valados
    Na terra gelida e nua?
    Oh, bailae á volta desses bois deitados,
    Que estão d'olhos tristes adorando a lua!…

    Que bandos de passarinhos,
    Vem lá de campos maninhos,
    De fraguedos, de caminhos,
    Jantar aqui, merendar!…
    Oh, bailae em volta de milhões de ninhos!
    Oh, bailae cantando para os acordar!…

    Entre as palhas do centeio,
    Quantas esmolas no meio,
    Que deixam lirios no seio
    E as mãos escorrendo luz!…
    Oh, bailae em volta do celeiro cheio!
    Oh, bailae á volta dos mendigos nus!…

    Quanta hostia consagrada,
    –Pão da ultima jornada!–
    Dorme na meda encantada
    Ao luar tão leve e tão lindo!…
    Oh, bailae em volta d'essa mó doirada,
    Que bailaes á volta de Jesus dormindo!…

    Alvor da lua nas eiras,
    Nem linhos de fiandeiras,
    Nem veos de noivas ou freiras,
    Nem rendas d'ondas do mar!…
    Oh, bailae ceifeiras, lindas feiticeiras,
    Na aleluia argentea do clarão do luar!…

    Setembro–91.

    IV

    *AS ERMIDAS*

    AS ERMIDAS

    Alvas ermidinhas sob azues maguados,
    Vejo-vos de longe n'uma adoração,
    Como ninhos brancos de Ideal pousados
    Lá n'esses fragosos montes escalvados,
    Onde não ha agoa, nem germina o pão.

    Serranias ermas, solidões contritas…
    Azinheiras como velhos Briarcus….
    Pedras calcinadas… gados parasitas…
    Tristes montes ermos! ermos cenobitas,
    Que em burel d'estevas amortalha Deos!…

    Pelas torvas, fundas noites de invernada,
    Quando os lobos uivam, quando a neve cae,
    Que infinitos sustos n'uma tal morada,
    Para debil virgem tão desamparada
    Com um inocente nos seus braços… ai!

    Como é que não treme pelo seu menino?
    Como é que não chora seu piedoso olhar?
    Como é que o seu labio, fresco e matutino,
    Se abre n'um sorriso, precursor divino
    Da estrellinha d'alva quando vae raiar?!

    Não receia feras quem de rosto ledo
    Sofre sete espadas sobre o coração!…
    E ao filhinho a noite não lhe causa medo,
    Deu-lhe Deos o mundo para seu brinquedo,
    Como um fructo d'oiro tem-no ali na mão!…

    Lá nos altos montes sem trigaes, nem vinhas,
    Sem o bafo impuro que dos homens vem,
    É que a mãe de Christo com as andorinhas,
    E as estrellas d'oiro mesmo ali visinhas,
    N'um casebre terreo se acomoda bem.

    Bispos não precisa; servem-na pastores,
    Capelães d'ovelhas, mais o seu zagal…
    Lampada ás Trindades, chão varrido, flores,
    Nada falta á Virgem, mãe dos pecadores,
    N'uma egrejasinha que é como um pombal.

    E nas brutas, rudes solidões tão calmas
    Ai, muito se engana quem a julga só!
    Entre o luar dos hinos e o verdor das palmas,
    Para lá caminham romarias d'almas…
    Todos nós lá fomos com a nossa avó!…

    Oh, as invisiveis procissões piedosas,
    Romarias fluidas, sobrenaturaes!
    Por onde ellas marcham, brancas, vaporosas,
    Fica nos espaços um alvor de rosas
    E uma angelisante tremulina d'ais!…

    Almas de velhinhas, do palor silente
    D'uma estrella, quando desmaiando está…
    Vão buscar alivios p'ro netinho doente,
    Vão pedir noticias d'algum filho ausente,
    Vão rogar a Gloria para os mortos já…

    Almas de meninos, loiras como abelhas,
    A sorrir ao colo d'almas a cantar…
    Almas em noivados, roseas e vermelhas…
    E almas de pastores ofertando ovelhas,
    Chocalhinhos d'astros, velos de luar…

    Almas d'assassinos dos montados ermos,
    Com o seu remorso como um javali…
    Almas de mendigos, d'aleijões, d'enfermos…
    Almas vagabundas, de perdidos termos,
    Que atravessam agoas p'ra chegar ali!…

    Almas das corolas matinaes, dos ninhos,
    Das aradas verdes, da campina em flor…
    Almas de borregos, touros, passarinhos…
    E almas, sim! das urzes e hervas dos caminhos,
    Porque até nas fragas dorme o Sonho e a Dor!…

    E essas almas todas ella apasigua
    Com o dos seus olhos balsamo eficaz:
    Verte sobre as penas sugestões de lua,
    Mantos dá d'estrellas á miseria nua,
    Lagrimas aos crimes e ao remorso paz…

    Esconjura demos, bruxas, feiticeiras,
    E dos sonhos loucos o torpor febril…
    Dá verdura aos gados, chuva ás sementeiras,
    Faz bailar as moças ao luar nas eiras,
    Faz fugir os lobos vendo o seu candil.

    Mas tambem ha almas, pobresinhas d'ellas!
    Que á romagem d'oiro não acodem já!
    Almas moribundas… Noites de procellas…
    Olha nos casebres tremeluzem velas!…
    É signal que a Morte anda a rondar por lá!…

    Mas a sempre linda Virgem da Amargura
    Baixa do altarzinho toda afadigada,
    E atravez de serras, pela noite escura,
    De menino ao colo,–santa creatura!–
    Lá vae ella andando, não tem medo a nada!…

    Lá vae ella andando… no caminho estreito
    Deixa um rasto d'oiro pela escuridão…
    Deixa um rasto d'oiro de divino efeito,
    Porque as sete espadas, a fulgir no peito,
    Põem-lhe um setestrello sobre o coração…

    E de povo em povo, que é de serra em serra,
    Almas na agonia visitando vae;
    Quando chega, a Morte já as não aterra,
    Ella lhes dá azas p'ra voar da terra,
    Seu menino beijos p'ra levar ao Pae…

    Virgem das Angustias, Virgem da Bonança,
    Quantas noites, quantas! tremula de dor,
    Não vae ser parteira da ovelhinha mansa
    A parir, balando como uma creança,
    Entre fragaredos de meter horror!

    A deshoras mortas eil-a vigilante,
    Prompta a dar socorros ao menor queixume:
    Acender estrellas para o navegante,
    Ir levar ás mães o cordeirinho errante,
    Defender das cobras a ninhada implume…

    Pois como não ha-de consolar as dores
    Dos humildes, simples, engeitados, nus,
    Se inda se recorda de só ver pastores,
    Com cordeiros brancos, cantilenas, flores,
    Na sagrada noite em que pariu Jesus!…

    Sim! adora a rude gente da lavoira,
    Sementeiras, gados, matagaes, lebreus,
    Porque não se esquece da vaquinha loira,
    Que se poz de joelhos ante a mangedoira,
    Quando nas palhinhas dormitava Deos…

    E por isso arreda pestes, ventanias,
    Fomes e procellas, bruxas e trovão,
    Lá para malditas, negras penedias,
    Onde silvam cobras doudas e bravias,
    E onde não existe nem christão, nem pão!…

    E por isso ex-votos, que relembram dores,
    Cobrem de ternura todo o seu altar:
    Bustos de meninos, mãos de cavadores,
    Tranças de donzellas, soluçando amores…
    Corações e peitos, de fazer chorar!…

    Alvas capelinhas, sempre milagrosas,
    Sois n'essas alturas para os olhos meus,
    Como ninhos virgens d'orações piedosas,
    Miradoiros brancos de luar e rosas,
    D'onde as almas simples entreveem Deos!…

    90-91.

    V

    *CANÇÃO PERDIDA*

    CANÇÃO PERDIDA

    Halitos de lilaz, de violeta e d'opala,
    Roxas macerações de dor e d'agonia,
    O campo, anoitecendo e adormecendo, exhala…

    Triste, canta uma voz na sincope do dia:

    Alguem de mim se não lembra
    Nas terras d'alem do mar…
    Ó Morte, dava-te a vida,
    Se tu lha fosses levar!…

    Ó Morte, dava-te a vida,
    Se tu lha fosses levar!…

    Com o beijo do sol na face cadaverica,
    Beijo que a morte esvae em palidez algente,
    Eis a lua a boiar sonambula e chimerica…

    Doce, canta uma voz melancolicamente:

    O meu amor escondi-o
    N'uma cova ao pé do mar…
    Morre o amor, vive a saudade…
    Morre o sol, olha o luar!…

    Morre o amor, vive a saudade…
    Morre o sol, olha o luar!…

    Latescente a neblina opalica flutua,
    Diluindo, evaporando os montes de granito
    Em colossos de sonho, extasiados de lua…

    Flebil, chora uma voz no letargo infinito:

    Quem dá ais ó rouxinol,
    Lá para as bandas do mar?…
    É o meu amor que na cova
    Leva as noites a chorar!…

    É o meu amor que na cova
    Leva as noites a chorar!…

    A lua enorme, a lua argentea, a lua calma,
    Imponderalisou a natureza inteira,
    Descondensou-a em fluido e embebeceu-a em alma…

    Triste expira uma voz na canção derradeira:

    Ó meu amor, dorme, dorme
    Na areia fina do mar,
    Que em antes da estrella d'alva
    Comtigo me irei deitar!…

    Que em antes da estrella d'alva
    Comtigo me irei deitar!…

    Maio–91.

    VI

    *O PASTOR*

    O PASTOR

    Sinos a defuntos! ai, quem morreria!
    Olha, foi o pobre do Ti Zé-Senhor!…
    Velho tão velhinho nenhum outro havia…
    P'ra cumprir cem anos lhe faltava um dia,
    Ha noventa e quatro que era já pastor.

    Zagalzinho alegre, desde tenra infancia
    Já de surrãosito cheio a tiracol,
    A escalar montanhas com ardor, com ancia,
    Por pastagens bravas d'auroral fragancia,
    Branqueadinho a neve e doiradinho a sol!…

    A deserta, imensa, rustica paisagem,
    Cordilheiras, campos, astros d'oiro, luar,
    Tudo se invertera, por continua imagem,
    Em heroica, em livre candidez selvagem
    Na extasiada flor do seu ingenuo olhar.

    Ordenhado o leite, cantarinho cheio,
    Ala para a aldeia, por manhãs sonoras,
    Mordiscando a codea do seu pão centeio,
    Arrancando á frauta um pastoril gorgeio,
    Rapinando ás sebes chupa-meis e amoras.

    Fez-se moço e grande pelas serras brutas,
    Onde as aguias pairam, onde o roble medra,
    E onde os fragaredos barbaros, com grutas,
    Se encastelam crespos, infernaes, em lutas,
    Tal como tormentas de trovões de pedra!

    Cada serrania alcantilada e brava,
    Sob o azul d'Agosto, côr de fogo e pó,
    Recozida a febre e atordoada em lava,
    Lagrimeja apenas d'uma rocha cava
    Pranto, que o bebera uma ovelhinha só!

    E por essas fulvas, ingremes ladeiras
    Pastoreava o gado, quasi morto já:
    Só rochedos tristes, nus como caveiras,
    E zambulhos, zimbros, tojos, cornalheiras,
    Acres como pragas d'uma boca má!

    E depois as torvas, negras invernadas,
    Noites formidandas, lobos a ulular,
    Desmoronamentos, temporaes, nevadas,
    Carcavões abertos pelas enxurradas,
    Troncos de sobreiros de raiz ao ar!…

    Oh, as noites tristes, alapado e quedo,
    N'um covil de feras, ou algar deserto!…
    E dormia ao lume sem temor, sem medo,
    Pois Nossa Senhora, Virgem do Degredo,
    Na ermidinha branca lhe ficava perto…

    Mas no mez de Março pincaros maninhos,
    Montes cenobitas, d'ossos e burel,
    Vestem-se de trevos e de rosmaninhos,
    Com sorrisos d'oiro que alvoroçam ninhos,
    E distilam favos de inocencia e mel!…

    Era então alegre como o sol nascente,
    Mais feliz nos campos do que Deos no altar!
    Anhos e cabritos, leite rescendente,
    Pastos tão mimosos, que quizera a gente
    Transformar-se em ave para os não calcar!

    Tanto Abril florido, tanta calma adusta,
    Tantas inverneiras, sem pesar ou dor,
    Tinham-lhe gravado na expressão robusta
    Como que uma sombra de grandeza augusta,
    Junta a uma inocencia matinal de flor.

    Que importavam gelos, ventanias, feras?
    Peito nu, aberto; construção de touro!
    Quasi me admirava que nas primaveras
    D'esse peito rude não brotassem heras,
    Margaridas, lirios com abelhas d'ouro!

    Ao relento a cama no orvalhado pasto,
    Cerca dos carneiros e dos bons lebreus;
    Que divino leito primitivo e casto,
    Todo embalsamado de serpol, mentrasto,
    Sob a paz imensa do perdão de Deos!…

    E esse gigantesco latagão corado
    Era, como os santos ermitões, frugal:
    Duas azeitonas, queijo do seu gado,
    E de rala escura meio pão migado
    N'um caldeiro d'agoa com azeite e sal.

    Não jantava morte, assassinato, dores,
    Hecatombes tristes que jantamos nós;
    E por isso ria como riem flores,
    Atrahindo em bandos aves de mil cores,
    Feiticeiro simples, com o olhar e a voz!…

    Sua rude frauta de pastor ouvindo
    Na misteriosa luz crepuscular,
    Iam-se as estrellas uma a uma abrindo,
    E desabrochava pelo azul infindo
    Soluçante a lua como um nenufar!…

    Que trinados vivos, d'argentino encanto
    Ai, missa do galo, lhe inspiravas tu,
    N'essa frauta, quando de cajado e manto
    Ia deitar loas ao menino santo
    No altar-mór da egreja sorridente e nu!

    Fôra lá creança, magica ventura!
    Centenario quasi a derradeira vez…
    E gorgeava a frauta com egual candura,
    Pois a alma virgem, luminosa e pura,
    Conservara-a sempre como Deos a fez.

    N'ella penetrava, n'ella se embebia
    Tudo que é inocencia, riso, amor, clarão:
    Fremito de pomba, voz de cotovia,
    Canticos dos montes ao nascer do dia,
    Lagrimas dos astros pela escuridão!…

    Longe dos Pecados de raivosas presas,
    Belzebuths famintos d'olhos de metal,
    Longe das horriveis tentações acezas
    No torpor dos leitos, na embriaguez das mezas,
    Pululantes larvas, vibriões do Mal,

    O pastor ditoso envelheceu ridente
    Por despenhadeiros, alcantis, calvarios,
    E na fronte augusta de ermitão, de crente,
    Lhe geavam anos luminosamente,
    Como as pombas brancas sobre os campanarios!

    Das ovelhas meigas,–intimas heranças!–
    Recolhera toda a abnegação christã:
    Oh, sejaes bemditas, ovelhinhas mansas,
    Que com vosso leite sustentaes creanças,
    E vestis os pobres com a vossa lã!

    Aos noventa anos, festival, risonho,
    Alamo gigante d'agoa viva ao pé;
    Sim! inda na boca risos de medronho,
    E nos olhos lentos, a tremer em sonho,
    Dois miosotis virgens de candura e fé!

    Com seu manto branco de burel grosseiro,
    Cans de puro arminho, baculo na mão,
    Alembrava um santo feito pegureiro,
    Que eu desejaria sobre o altar cruzeiro
    D'uma ogiva d'astros, em adoração!

    Centenario quasi, recordava aspectos
    De lendario tronco n'um feliz vergel,
    Moribundo em meio de seus verdes netos,
    Com a Providencia a agasalhal-o em fetos,
    Com abelhas d'ouro inda a nutril-o a mel,

    E que surdo á voz dos ledos passarinhos,
    E que cego ao ether de esplendor ideal,
    Com o ai extremo lança dois raminhos,
    A chamar ainda por canções de ninhos
    E a dizer aos astros um adeos final!

    Tal o pastor santo, já de vez cahido,
    Já corcovadinho, flebil, quasi morto,
    Arrimado ao velho baculo torcido,
    Nada ouvindo, nada, com o duro ouvido,
    Vagamente olhando com o olhar absorto,

    Ia pelos montes na tristeza infinda
    D'um coração ermo, com a morte aceite,
    A pedir aos anjos para ouvir ainda
    Badalar ovelhas n'uma noite linda,
    Quando a lua os campos alagasse em leite!…

    Seu bisavô fora guardador de gado,
    Guardador de gado seu avô, seu pae;
    Creou filho e netos como foi creado,
    E morreu ditoso porque o seu cajado
    Seu rebanho ainda pastoreando vae!

    Candido, na paz das solidões dormentes,
    Ignorando o mundo rancoroso e vil
    Aos cem anos inda, com a fé dos crentes,
    Punha olhos claros, simples, inocentes,
    Na estrellinha d'alva das manhãs d'Abril!

    Levará no esquife para os ceos a palma
    Da grandeza mansa, da virtude austera.
    Realisou no mundo a perfeição da Alma:
    Porque foi bondoso como a lua é calma,
    Porque foi um santo sem saber que o era!…

    Vós, ó semideuses do entremez da Gloria,
    Cesares, tiranos, capitães, heroes,
    Epicas figuras de imortal memoria,
    Que de serro em serro iluminaes a historia
    Como crepitantes, tragicos faroes,

    Na região do Imenso, no Infinito puro,
    Onde me deslumbra, como um sol, Jesus,
    Não sois mais que larvas a tremer no escuro,
    Que ninguem conhece, que eu em vão procuro
    Com meus olhos calmos n'esse mar de luz!

    E o pastor d'ovelhas, que comeu centeio,
    Que viveu nos montes, que dormiu nas grutas,
    Tão asselvajado, cabeludo e feio,
    Que dissereis quasi que esse monstro veio
    Da matriz da terra, como as pedras brutas,

    Já liberto agora da Ilusão do mundo
    Fez-se em anjo branco, inda outra vez pastor:
    Milhões d'astros seguem seu olhar jocundo,
    São rebanhos d'almas pelo azul profundo
    As ovelhas novas do Ti Zé-Senhor!…

    90-91.

    VII

    *O CAVADOR*

    O CAVADOR

    Dezembro, noite, canta o galo…
    Rouco na treva canta o galo…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Aldeão não durmas!… Vae chamal-o,
    Miseria negra, vae chamal-o!…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Bate-lhe á porta, é teu vassalo,
    Que traga a enxada, é teu vassalo,
    Miseria negra, o cavador!

    O vento ulula… Tremem ninhos…
    Na noite aziaga tremem ninhos…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    A neve cae, fria d'arminhos…
    Na escuridão, fria d'arminhos…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Passa maldito nos caminhos,
    D'enxada ao hombro nos caminhos,
    Fantasma negro, o cavador!

    Vem roxa a estrella d'alvorada…
    Vem morta a estrella d'alvorada…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Montanhas nuas sob a geada!…
    Hirtas, de bronze, sob a geada…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Torvo, inclinado sobre a enxada,
    Rasga as montanhas com a enxada.
    Fantasma negro, o cavador!

    Cavou, cavou desde que é dia…
    Cavou, cavou… Bateu meio dia…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    De pé na encosta erma e bravia,
    Triste na encosta erma e bravia,
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Largando a enxada, «Ave Maria!…»
    Resa em silencio… «Ave Maria!…»
    Fantasma negro, o cavador!

    Cavou, cavou na serra agreste,
    D'alva á noitinha em serra agreste…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    E um caldo em premio tu lhe deste,
    Meu Deos!… seis filhos tu lhe deste…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Batem trindades… «Pae celeste!…
    Bemdito sejas, Pae celeste!…»
    Resa, fantasma, o cavador!

    Cavou cem montes… que é do trigo?!
    Gerou seis bocas… que é do trigo?!
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Bateu a Fome ao seu postigo…
    Bateu a Morte ao seu postigo…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    «Que a paz de Deos seja comigo!
    Que a paz de Deos seja comigo!…»
    Disse, expirando, o cavador!

    Junho–91.

    VIII

    *OS POBRESINHOS*

    OS POBRESINHOS

    Pobres de pobres são pobresinhos,
    Almas sem lares, aves sem ninhos…

    Passam em bandos, em alcateias,
    Pelas herdades, pelas aldeias.

    É em Novembro, rugem procellas…
    Deos nos acuda, nos livre d'ellas!

    Vem por desertos, por estevaes,
    Mantas aos hombros, grandes bornaes.

    Como farrapos, coisas sombrias,
    Trapos levados nas ventanias…

    Filhos de Christo, filhos d'Adão,
    Buscam no mundo codeas de pão!

    Ha-os ceguinhos, em treva densa,
    D'olhos fechados desde nascença.

    Ha-os com f'ridas esburacadas,
    Roxas de lirios, já gangrenadas.

    Uns de voz rouca, grandes bordões,
    Quem sabe lá se serão ladrões!…

    Outros humildes, riso magoado,
    Lembram Jesus que ande disfarçado…

    Engeitadinhos, rotos, sem pão,
    Tremem maleitas d'olhos no chão…

    Campos e vinhas!… hortas com flores!…
    Ai, que ditosos os lavradores!

    Olha, fumegam tectos e lares…
    Fumo tão lindo!… branco, nos ares!…

    Batem ás portas, erguem-se as mães,
    Choram meninos, ladram os cães…

    Resam e cantam, levam a esmola,
    Vinho no bucho, pão na sacola.

    Fructa da horta, caldo ou toucinho,
    Dão sempre os pobres a um pobresinho.

    Um que tem chagas, velho, coitado,
    Quer ligaduras ou mel-rosado.

    Outro, promessa feita a Maria,
    Deitam-lhe azeite na almotolia.

    Pelos alpendres, pelos curraes,
    Dormem deitados como animaes.

    Em caravanas, em alcateias,
    Vão por herdades, vão por aldeias…

    Sabem cantigas, oraçõesinhas,
    Contos d'estrellas, reis e rainhas…

    Choram cantando, penam resando,
    Ai, só a morte sabe até quando!

    Mas no outro mundo Deos lhes prepara
    Leito o mais alvo, ceia a mais rara…

    Os pés doridos lh'os lavarão
    Santos e santas com devoção.

    Para laval-os, perfumaria
    Em gomil d'ouro, d'ouro a bacia.

    E embalsamados, transfigurados,
    Tunicas brancas, como em noivados,

    Viverão sempre na eterna luz,
    Pobres bemditos, amen, Jesus!…

    Outubro–91

    IX

    *CAMPO SANTO*

    CAMPO SANTO

    Ai ao relento, ai ao relento, sonham cavadores!…
    Somno d'arminho… colxão de terra… lençol de flores!…

    Cahi dormentes,
    Cahi exanimes, trementes,
    Palidos silencios do luar dorido!
    Litanias fluidas do luar dorido!
    Misereres brancos do luar dorido!
    Balsamos, piedades, orações dolentes
    Do luar dorido!…

    Ai ao relento, ai ao relento sonham pegureiros!…
    Cama tão fresca!… cobertor branco, de jasmineiros…

    Cahi maviosas,
    Cahi somnambulas, piedosas,
    Concavas tristezas do luar magoado!
    Resonancias d'orgão do luar magoado!
    Extrema-unções profundas do luar magoado!
    Sincopes, oblivios, quietações chorosas
    Do luar magoado!…

    Ai ao relento, ai ao relento sonha a boeirinha!…
    Cama de violetas!… que lhe fez a Virgem, sua madrinha…

    Cahi radiantes,
    Angelisantes,
    Esfolhados lirios do luar divino!
    Musselina argentea do luar divino!
    Halitos de leite do luar divino!
    Perolas, opalas, beijos e diamantes
    Do luar divino!…

    Ai ao relento, ai ao relento as bisavós dormindo!…
    Cama de rosas, sobre-ceo d'astros!… que sonho lindo!…

    Cahi cantando,
    Cahi mas brando, muito brando,
    Misticas nevadas do luar de prata!
    Linho da candura do luar de prata!
    Angelus da ermida do luar de prata!
    Extasis boiando, sagrações ondeando
    No luar de prata!…

    Dormi, dormi!… que bellas camas!… ai, que bons lençoes!…
    Na travesseira, que bem que cheira! cantam roussinoes!…

    Dorme de costas, cavador, ao luar, ao luar de neve!…
    Ai, como a terra era pesada, e se fez leve, leve!…

    Dorme, pastor, ao luar de Junho, dorme sem cuidado!…
    Que anda a Senhora dos Montes-Ermos a guardar-te o gado…

    Durmam velhinhas! durmam creanças! durmam donzellas!
    Quando acordarem já tem os anjos á espera d'ellas…

    Ha-de acordar tudo lá nos ceos doirados…
    Ha-de haver banquetes, ha-de haver noivados…

    Põe a mesa a Virgem para os pobresinhos…
    Ai, que lindos fructos!… ai, que ricos vinhos!…

    Vinhos d'um vinhedo, fructos d'um pomar,
    Que no ceo os anjos regam com luar…

    Ordenhando ovelhas andam serafins,
    Cantarinhos d'oiro, leite de jasmins.

    Outros nas arribas crestam as colmeias,
    Grandes favos brancos como luas cheias.

    Ai, que bom almoço, feito n'um vergel,
    Pomos cor de aurora, leite, vinho e mel!…

    Para as avósinhas tem lá Deos bastantes
    Fusos d'esmeraldas, rocas de diamantes…

    Como vós, ó moças, lá no ceo casaes,
    Ellas darão teias para os enxovaes…

    Já no setestrello dançam nos terreiros,
    Tamboris e violas, frautas e pandeiros…

    Já lá vejo os noivos, com S. João á espera,
    N'uma ermida branca revestida d'hera…

    Ai, dormi, donzellas, ai dormi ao luar,
    Que no ceo com anjos vos ireis casar…

    Ai, dormi, creanças! que no azul divino
    Brincareis alegres com o Deos-menino…

    Partirá comvosco, porque é vosso irmão,
    A laranja,–o mundo, que lá tem na mão…

    Dormi, dormi, sem dor, sem penas…
    Dormi, dormi!…
    E em vossos leitos florescentes,
    De rosas brancas e assucenas,
    Caiam dormentes,
    Caiam exanimes, trementes,
    Graças do baptismo do luar alvissimo!
    Beijos do noivado do luar purissimo!
    Lagrimas da morte do luar tristissimo!
    Canticos d'exequias, orações dolentes
    Do luar santissimo!…

    Abril–91.

    *EPILOGO*

    REGRESSO AO LAR

    Ai, ha quantos anos que eu parti chorando
    D'este meu saudoso, carinhoso lar!…
    Foi ha vinte?… ha trinta?… Nem eu sei já quando!…
    Minha velha ama, que me estás fitando,
    Canta-me cantigas para me eu lembrar!…

    Dei a volta ao mundo, dei a volta á Vida…
    Só achei enganos, decepções, pesar…
    Oh! a ingenua alma tão desiludida!…
    Minha velha ama, com a voz dorida,
    Canta-me cantigas de me adormentar!…

    Trago d'amargura o coração desfeito…
    Vê que fundas maguas no embaciado olhar!
    Nunca eu sahira do meu ninho estreito!…
    Minha velha ama, que me déste o peito,
    Canta-me cantigas para me embalar!…

    Poz-me Deos outrora no frouxel do ninho
    Pedrarias d'astros, gemas de luar…
    Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!…
    Minha velha ama, sou um pobresinho…
    Canta-me cantigas de fazer chorar!…

    Como antigamente, no regaço amado,
    (Venho morto, morto!…) deixa-me deitar!
    Ai, o teu menino como está mudado!
    Minha velha ama, como está mudado!
    Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!…

    Canta-me cantigas, manso, muito manso…
    Tristes, muito tristes, como á noite o mar…
    Canta-me cantigas para ver se alcanço
    Que a minh'alma durma, tenha paz, descanço,
    Quando a Morte, em breve, m'a vier buscar!…

    90.

    *NOTA*

    NOTA

    É este o primeiro dos tres volumesinhos, que hão-de encerrar as minhas
    liricas ineditas. Os outros dois–_Flores de Ideal_–e _Infinito_
    (_Livro d'orações_) virão a lume successivamente, com intervalos de
    mezes.

    Duas palavras sobre os _Simples_.

    Precocemente chegado, pelo sofrimento, ao ocaso da vida, atravessei ha
    anos um periodo agudo, bem doloroso e triste, mas ao mesmo tempo
    salutar. Ante a morte proxima, n'uma anciedade inenarravel, senti-me
    electrisado, como por encanto, de energias subitas. O problema do _alem_
    (como agora se diz) impunha-se, dilacerante e devorador, á minha
    natureza inquieta de religioso e de metafisico. Mas o problema da
    _morte_ é, no fundo, o problema da vida. Estudei, pensei, meditei. Li
    com sofreguidão milhares de paginas. Dias, noites, semanas, mezes,
    revolvi no cerebro escandecido todos os enigmas torturantes. Pedi á
    historia natural (unica historia verdadeira) o segredo intimo das
    coisas. Questionei a razão, ouvi a consciencia. Dei balanço a mim
    proprio. E consegui, ao cabo, o que desejava: ter da vida, ter do
    universo uma ideia metodica e definitiva. Qual? Não é este o momento de
    dizel-o, nem isso interessa seguramente.

    A minha metafisica é para uso proprio. Não construi um sistema de
    filosofia humana. Tratei de responder apenas ás duvidas e curiosidades
    do meu espiríto. Não cheguei sequer a pontos de vista fundamentaes,
    muitissimo diversos dos que já tinha anteriormente. Mas o que era
    intuição tornou-se certeza, e o que era hipotese, mais ou menos
    sentimental e imaginaria, transformou-se n'um corpo de doutrina
    raciocinado e logico. Continuei pela mesma estrada; mas d'antes ia ás
    cegas e tateando, e agora d'olhos bem abertos e a passo firme e
    resoluto.

    D'uma visão mais intima e profunda do universo germinaram em mim novas
    emoções, e portanto uma nova arte. O poeta renasceu e cresceu. Fecundo
    renascimento psicologico, e não apenas uma evoluçãosinha toda literaria,
    meramente verbal e de superficie.

    No prefacio d'outro livro explanarei com vagar as conclusões ultimas do
    meu exame de consciencia, não pelo seu merito intrínseco, repito, mas
    como util comentario da minha obra poetica, de que ellas são
    verdadeiramente a alma essencial e geradora.

    Apasiguada um pouco a dupla crise de angustia intelectual e padecimento
    fisico, esbocei e dei começo a este pequenino poema lirico d'_Os
    Simples_.

    Quiz mentalmente viver a vida singela e primitiva de boas e santas
    creaturas, que atravessam um mundo de miserias e de injustiças, de
    vicios e de crimes, de fomes e de tormentos, sem um olhar de maldição
    para a natureza, sem uma palavra de queixume para o destino. E então
    encarnei, por assim dizer, no pastor grandioso e asceta, na moleirinha
    octogenaria e sorridente, no cavador tragico, nos mendigos bíblicos, na
    mansidão dos bois arroteando os campos e nas lavarêdas d'oiro do
    castanheiro, aquecendo a velhice, alegrando a infancia, iluminando a
    choupana. E, depois d'uma existencia de sacrificio e de puresa,
    d'abnegação e de bondade, deitei esses ingenuos e pobres aldeões na
    terra misericordiosa e florida do campo-santo, pondo-lhes por cima das
    sepulturas rasas o ceo maravilhoso e candido, que em vida sonharam e
    desejaram.

    É claro que essas figuras não são inteiramente reaes, da realidade
    estricta, efemera e tangivel. Criei-as, ou antes completei-as com a
    minha alma, com o meu proprio ideal.

    Quem vir n'este livrinho somente o lado externo e literario, a forma, a
    paisagem, a pintura rustica, não o entendeu, nem o soube ler.

    É muito mais uma auto-biographia psicologica que uma serie de quadros
    campestres e bucolicos.

    A feição, por assim dizer, regional, do livro é, embora importante,
    subordinada e secundaria. A _Moleirinha_ é mínhota. O _Prestito funebre_
    minhoto é. Mas coisa curiosa, o segundo canto–_In Pulvis_ é já de todo
    transmontano. Inconscientemente, sem dar por tal, levei o castanheiro
    para a minha terra, e queimei-o no lar saudoso da minha meninice. Tambem
    eu me queria aquecer a elle, sentar-me ao pé da sua chama…

    Engana-se quem entre _Os Simples_ e a _Velhice do Padre Eterno_
    descobrir porventura contradições. Este lirismo é o reverso d'aquella
    satira. Aquella indignação é o comentario d'esta elegia. O christianismo
    dos _Simples_ é o innocente e meigo christianismo popular, feito com a
    ignorancia absoluta do dogma e com a intuição humana dos Evangelhos. A
    exegese do povo, na sua rudeza nativa e embrionaria, é por vezes d'uma
    penetração sublime e reveladora.

    As minhas antigas opiniões religiosas, em vez de se modificarem,
    acentuam-se cada vez mais. Redobra em mim, com um desenvolvimento
    progressivo de misticismo naturalista, a aversão e a hostilidade á
    egreja catolica, grosseira formula materialisada do transcendente e
    divino espirito de Jesus.

    Em quanto á tecnica do poema, muitissimo havia que dizer, se esta nota
    não fosse escripta rapidamente, á ultima hora, com o impressor á espera.

    A forma poetica encaminha-se á evolução final. Horisonte imenso. O pouco
    que fiz de novo, em tal sentido, não deve nada a ninguem. É meu,
    pertence-me.

    E, de passagem, uma ligeira observação. Este livro, só hoje dado a
    publico, é d'ha muito conhecido entre homens de letras e poetas. E valha
    a verdade exerceu, aqui e alem, ainda inedito, uma certa influencia,
    que, embora leve, é inegavel e manifesta. Podia apontar, citar. Inutil.
    Desejo apenas estabelecer o facto, mais nada.

    Concluindo: tentei uma obra d'arte, que fosse ao mesmo tempo
    absolutamente individual, ingenitamente portugueza e vasta e
    fundamentalmente humana. Alcancei-o? O tempo o dirá.

    14 de Maio de 1892.

    _G. J._

    *INDICE*

    PRELUDIO
    I–A Caminho
    II–De Volta

    I–A MOLEIRINHA

    II–CADAVER
    I–Prestito funebre
    II–In Pulvis

    III–EIRAS AO LUAR

    IV–AS ERMIDAS

    V–CANÇÃO PERDIDA

    VI–O PASTOR

    VII–O CAVADOR

    VIII–OS POBRESINHOS

    IX–CAMPO SANTO

    EPILOGO
    Regresso ao lar

    NOTA

    ERRATA

    Passaram desapercebidos varios erros, principalmente ortograficos,
    de facil emenda para o leitor.

    PREÇOS DA TIRAGEM ESPECIAL

    Exemplar unico em pergaminho 45$000
    Exemplares em papel Wathman 4$000

    _A 1.^a edição d'este livro, destinada a Portugal, pertence ao snr.
    Baptista Domingues, Vianna do Castello, a quem devem dirigir-se todas as
    requisições_.

  • Só

    Só

    Aproximadamente 21.019 palavras.

    Produced by Ricardo Diogo and Tiago Tejo. Edited by Rita
    Farinha (Biblioteca Nacional Digital–http://bnd.bn.pt).
    (This file was produced from images generously made
    available by National Library of Portugal (Biblioteca
    Nacional de Portugal).)

    Je déclare que M. Francisco de França Amado, libraire-éditeur, 141,
    rua da Calçada, Coimbra: est mon unique représentant et dépositaire
    de o «Só», pour le Portugal.

    L.V.

    SÓ

    ANTONIO NOBRE

    SÓ

    PARIS

    LÉON VANIER, ÉDITEUR

    19, QUAI SAINT-MICHEL, 19

    1892

    Tous Droits Réservés

    MEMORIA Á MINHA MÃE AO MEU PAE

    Aquelle que partiu no brigue _Boa Nova_,
    E na barca _Oliveira_, annos depois, voltou;
    Aquelle santo (que velhinho e jà corcova)
    Uma vez, uma vez, linda menina amou:
    Tempos depois, por uma certa lua-nova,
    Nasci eu… O velhinho ainda cà ficou,
    Mas ella disse:–«Vou, alli adiante, à _Cova_,
    Antonio, e volto jà…» E ainda não voltou!
    Antonio é vosso. Tomae là a vossa obra!
    «Só» é o poeta-nato, _o lua_, o santo, a cobra!
    Trouxe-o d'um ventre: não fiz mais do que escrever…
    Lede-o e vereis surgir do poente as idas magoas,
    Como quem ve o sol sumir-se, pelas agoas,
    E sobe aos alcantis para o tornar a ver!

    *Antonio*

    Que noite de inverno! Que frio, que frio!
    Gelou meu carvão:
    Mas boto-o á lareira, tal qual pelo estio,
    Faz sol de verão!

    Nasci, n'um Reino d'Oiro e flores
    Á beira-mar.

    Ó velha Carlota, tivesse-te ao lado,
    Contavas-me historias:
    Assim… desenterro, do val do passado,
    As minhas Memorias.

    Sou neto de Navegadores,
    Heroes, Lobos d'agoa, Senhores
    Da India, d'Aquém e d'Além-mar!

    Moreno coveiro, tocando viola,
    A rir e a cantar!
    Empresta, bom homem, a tua sachola,
    Eu quero cavar:

    E o vento mia! e o vento mia!
    Que irà no mar!

    Erguei-vos, defuntas! da tumba que alveja
    Qual Lua, a distancia!
    Vizões enterradas no adro da Igreja,
    Branquinha, da Infancia…

    Que noite! ó minha Irmã Maria,
    Accende um cyrio à Virgem Pia,
    Pelos que andam no alto mar…

    Lá vem a Carlota que embala uma aurora
    Nos braços, e diz:
    «Meu lindo menino, que Nossa Senhora
    O faça feliz!»

    Ao mundo vim, em terça-feira,
    Um sino ouvia-se dobrar!

    E Antonio crescendo, sãosinho e perfeito,
    Feliz que vivia!
    (E a Dor, que morava com elle no peito,
    Com elle crescia…)

    Vim a subir pela ladeira
    E, n'uma certa terça-feira,
    Estive jà p'ra me matar…

    Mas foi a uma festa, vestido de anjinho,
    Que fado cruel!
    E a Antonio calhou-lhe levar, coitadinho!
    A _Esponja do Fel_…

    Ides gelar, agoas dos montes!
    Ides gelar!

    A Tia Delphina, velhinha tão pura,
    Dormia a meu lado
    E sempre rezava por minha ventura…
    E sou desgraçado!

    Agoas do rio! agoas das fontes!
    Cantigas d'agoa pelos monles,
    Que sois como amas a cantar…

    E eu ia ás novenas, em tardes de Maio,
    Pedir ao Senhor:
    E, ouvindo esses cantos, tremia em desmaio,
    Mudava de cor!

    Passam na rua os estudantes
    A vadrulhar…

    E a Mãe-Madrinha, do tempo da guerra
    A mail-os francezes,
    Quando ia ao confesso, á ermida da serra,
    Levava-me, ás vezes.

    Assim como elles era eu d'antes!
    Meus camaradas! estudantes!
    Deixae o Poeta trabalhar…

    Santinho como ia, santinho voltava:
    Peccados? Nem um!
    E a instancias do padre dizia (e chorava):
    «Não tenho nenhum…»

    Ó Job, coberto de gangrenas,
    Meu avatar!

    As noites, rezava (e rezo ainda agora)
    Ao pé da lareira.
    (A chuva gemente caia lá fóra,
    Fervia a chaleira…)

    Conservo as mesmas tuas penas,
    Mais tuas chagas e gangrenas,
    Que não me farto de coçar!

    –Que Deus se amercie das almas do Inferno!
    –Amen! Oxalá…
    E o moço rosnava, tranzido de inverno:
    –Que bom lá está!

    E a neve cae, como farinha,
    Là d'esse moinho a moer, no Ar:

    O sino da Igreja tocava, á tardinha:
    Que tristes seus dobres!
    Era a hora em que eu ia provar, á cozinha,
    O caldo dos pobres…

    Ó bom Moleiro, cautellinha!
    Não desperdices a farinha
    Que tanto custa a germinar…

    Ó velhas criadas! na roca fiando,
    Nos lentos serões…
    Corujas piando, _Farrusca_ ladrando
    Com medo aos ladrões!

    Andaes, à neve, sem sapatos,
    Vos que nâo tendes que calçar!

    O Zé do Telhado morara, alli perto:
    A triste viuva
    A nossa caza ia pedir, era certo,
    Em noites de chuva…

    Corpos au léu, vesti meus fatos!
    Pés nus! levae esses sapatos…
    Basta-me um par.

    Ó feira das uvas! em tardes de calma…
    (O tempo voou!)
    Pediam-me os pobres «esmola pela alma
    Que Deus lhe levou!»

    Quando eu morrer, hirto da magoa.
    Deitem-me ao mar!

    E havias-os com gotta, e havia-os herpeticos,
    Mostrando a gangrena!
    E mais, e ceguinhos, mas era dos ethicos
    Que eu tinha mais pena…

    Irei indo de fragua, em fragua,
    Até que, emfim, desfeito em agoa,
    Hei-de fazer parte do mar!

    Chegou uma carta tarjada: a estampilha
    Bastou-me enxergar…
    Coitados d'aquelles que perdem a filha,
    Tão longe do lar!

    No Panthéon, tragico, o sino
    Dà meia-noite, devagar:

    Ó tardes de outomno, com fontes carpindo
    Entre herva sedenta…
    Os cravos a abrirem, a lua aspergindo
    Luar, agoa-benta…

    É o Victor, outra vez menino,
    A compor um alexandrino,
    Pelos seus dedos a contar!

    Ao dar meia-noite no _cuco_ da sala,
    Batiam: «Truz! truz!»
    E o Avô que dormia, quietinho na valla,
    Entrava, Jezus!

    Que olhos tristes tem meu vizinho!
    Ve-me comer e poe-se a ougar:

    Nas sachas de Junho, ninguem se batia
    Com nosso cazeiro:
    Que espanto, pudéra! se da freguezia
    Elle era o coveiro…

    Sobe ao meu quarto, bom velhinho!
    Que eu dou-te um copo d'este vinho
    E metade do meu jantar.

    Morria o mais velho dos nossos criados,
    Que pena! que dó!
    Pedi-lhe, tremendo, fizesse recados
    Á alminha da Avó…

    Bairro-Latino! dorme um pouco!
    Faze, meu Deus, por socegar…

    Ó banzas dos rios, gemendo descantes
    E fados do mundo!
    Ó agoas fallantes! ó rios andantes,
    Com eiras no fundo!…

    Calla-te, Georges! estàs jà rouco!
    Deixa-me era paz! Calla-te, louco,
    Ó boulevard!

    Trepava ás figueiras cheiinhas de figos
    Como astros no céu:
    E em baixo, aparando-os, erguiam mendigos
    O roto chapéu…

    Boas almas, vinde ao meu seio!
    Espiritos errantes no Ar!

    Ó lua encantada no fundo do poço,
    Moirinha da magoa!
    O balde descia, chymeras de moço!
    Trazia só agoa…

    Sou médio: evoco-os, noite em meio,
    Vos não acreditaes, eu sei-o…
    Deixal-o não acreditar.

    Meus versos primeiros estão no Adro, ainda,
    Escriptos na cal:
    Cantavam Aquella que é a roza mais linda
    Que tem Portugal!

    Se eu vos podesse dar a vista,
    Ceguinhos que ides a tactear…

    A lua é ceifeira que, ás noites, ensaia
    Bailados na terra…
    Luar é caleiro que, pallido, caia
    Ermidas da serra…

    Quanto essa sorte me contrista!
    Mas ah! mais vale não ter vista,
    Que um mundo d'estes ter d'olhar.

    O conde de Furnas sabia o Horacio,
    Tin-tin, por tin-tin!
    E dava-me, á noite, passeiando em palacio,
    Licção de latim.

    A Morte, agora, é a minha ama…
    Que bem que sabe acalentar!

    E entrei para a escola, meu Deus! quem me dera
    N'essa hora da vida!
    Uzava uma bluza, que linda que era!
    E trança comprida…

    Á noite, quando estou na cama:
    «Nana, nana! Que a tua ama
    Vem jà, não tarda! foi cavar…»

    Os outros rapazes furtavam os ninhos
    Com ovos a abrir;
    Mas eu mercava-lhes os bons passarinhos,
    Deixava-os fugir…

    Camões! ó lua do mar-bravo!
    Vem-me ajudar…

    Os prezos, ás grades da triste cadeia,
    Olhavam-me em face!
    E eu ia á pouzada do guarda da aldeia
    Pedir que os soltasse…

    Tenho o nome do teu escravo;
    Em nome d'elle e do mar-bravo,
    Vem-me ajudar!

    E quando um malvado moia a chibata
    Um filho, ou assim,
    Corria a seus braços, gritando: «Não bata!
    Bata antes em mim…»

    E o vento geme! e o vento geme!
    Que irà no mar!

    E quando dobrava na terra algum sino
    Por velho, ou donzella,
    A meu Pae rogavam «deixasse o menino
    Pegar a uma vela…»

    Lobos d'agoa, que ides ao leme,
    Tende cuidado! a lancha treme…
    Orçar! orçar!

    Enterros de anjinhos! Oh dores que trazem
    Aos tristes cazaes!
    Ha doces, ha vinho, senhores que fazem
    Saudes aos paes…

    Meu velho cão, meu grande amigo,
    Porque me estàs assim a olhar?

    A Prima doidinha por montes andava,
    Á lua, em vigilia!
    Olhae-me, doutores! ha doidos, ha lava,
    Na minha Familia…

    Quando ou choro, choras commigo
    Meu velho cão! és meu amigo…
    Tu nunca me has-de abandonar.

    E os annos correram, e os annos cresceram,
    Com elles cresci:
    Os sonhos que tinha, meus sonhos… morreram,
    Só eu não morri…

    Frades do Monte de Crestello!
    Abri-me as portas! quero entrar…

    Fui vendo que as almas não eram no mundo
    Singellas e francas:
    A minha que o era ficou, n'um segundo,
    Cheiinha de brancas!

    Cortae-me as barbas e o cabello,
    Vesti-me esse habito singello…
    Deixae-me entrar!

    Fiquei pobrezinho, fiquei sem chymeras,
    Tal qual Pedro-Sem,
    Que teve fragatas, que teve galeras,
    Que teve e não tem…

    Moço Luziada! criança!
    Porque estàs trisle, a meditar?

    Vieram as rugas, caiu-me o cabello
    Qual musgo da rocha…
    Fiquei para sempre sequinho, amarello,
    Que nem uma tocha!

    Ves teu paiz sem esperança,
    Que todo allue, à semelhança
    Dos castellos que ergueste no Ar?

    E a velha Carlota, revendo-me agora
    Tão pallido, diz:
    «Meu pobre menino! que Nossa Senhora
    Fez tão infeliz…»

    Pariz, 1891.

    *Menino e Moço*

    Tombou da haste a flor da minha infancia alada,
    Murchou na jarra de oiro o pudico jasmim:
    Voou aos altos céus S.^{ta} Aguia, linda fada,
    Que d'antes estendia as azas sobre mim.

    Julguei que fosse eterna a luz d'essa alvorada,
    E que era sempre dia, e nunca tinha fim
    Essa vizão de luar que vivia encantada,
    N'um castello de prata embutido a marfim!

    Mas, hoje, as aguias de oiro, aguias da minha infancia,
    Que me enchiam de lua o coração, outrora,
    Partiram e no céu evolam-se, a distancia!

    Debalde clamo e choro, erguendo aos céus meus ais:
    Voltam na aza do vento os ais que a alma chora;
    Ellas, porém, Senhor! ellas não voltam mais…

    Leça, 1885.

    *Os Cavalleiros*

    –Onde vaes tu, cavalleiro,
    Pela noite sem luar?
    Diz o vento viajeiro,
    Ao lado d'elle a ventar…
    Não responde o cavalleiro,
    Que vae absorto a scismar.
    –Onde vaes tu, torna o vento,
    N'esse doido galopar?
    Vaes bater a algum convento?
    Eu ensino-te a rezar.
    E a lua surge, um momento,
    A lua, convento do Ar.
    –Vaes levar uma mensagem?
    Dá-m'a que eu vou-t'a entregar:
    Irás em meia viagem
    E eu já de volta hei-de estar.
    E o cavalleiro, á passagem,
    Faz as arvores vergar.
    –Vaes escalar um mosteiro?
    Eu ajudo-t'o a escalar:
    Não ha no mundo pedreiro
    Que a mim se possa egualar!
    Não responde o cavalleiro
    E o vento torna a fallar:
    –Dize, dize! vaes p'ra guerra?
    Monta em mim, vou-te levar:
    Não ha cavallo na Terra
    Que tenha tão bom andar…
    E os trovões rolam na serra
    Como vagas a arrolar!
    –E as guerras has-de ganhal-as,
    Que por ti hei-de velar:
    Ponho-me á frente das balas
    Para a força lhes tirar!
    E as arvores formam alas
    Para os guerreiros passar.
    –Vaes guiar as caravellas
    Por sobre as agoas do mar?
    Guiarei as tuas velas
    Á feição hei-de assoprar.
    E os astros vêm ás janellas
    E a lua vem espreitar…
    –Onde vaes na galopada,
    Á tua infancia, ao teu lar?
    Conheço a tua pousada:
    Já lá tenho ido ficar.
    E vae longe a trovoada,
    Vae de todo a alliviar.
    –Vaes ver tua velha tia,
    Na roca de oiro a fiar?
    Loiro linho que ella fia,
    Ajudei-lh'o eu a seccar!
    E o luar é a Virgem Maria…
    Que lindo vae o luar!
    –Vaes ver a tua mãesinha?
    Coitada! vi-a expirar:
    Tinha a alma tão levezinha,
    Que voou sem eu lhe tocar!…
    E o cavalleiro caminha,
    Caminha sem se importar!
    –Vaes ver tua irmã? Ao peito
    Traz um menino a criar:
    Ai com que bom, lindo geito
    Ella o sabe acalentar!
    E o vento embala no peito
    Uma nuvem, p'ra imitar!
    –Onde vaes tu? Aonde, aonde?
    Phantasma! vaes-te cazar?
    Eu sei da filha d'um conde
    Que por ti vive a penar…
    E o phantasma não responde,
    Sempre, sempre, sempre a andar!
    –Vaes á cata da Ventura
    Que anda os homens a tentar?
    (Ai d'aquelle que a procura
    Que eu nunca a pude encontrar…)
    N'isto, pára a criatura,
    Faz seu cavallo estacar:
    –Vento, sim! Espera, espera!
    Que estrada devo tomar?
    (É um menino, é uma chymera
    E todo lhe ri o olhar…)
    E o vento, com voz austera,
    Dor, querendo disfarçar:
    –Toma todas as estradas
    Todas, áquem e além-mar:
    Serão inuteis jornadas,
    Nunca lá has-de chegar…
    Palavras foram facadas
    Que é vel-o, todo a sangrar…
    E seus cabellos trigueiros
    Começam de branquiar,
    E olham-se os dois cavalleiros…
    Quedam-se ambos a scismar.
    Brilha o Oriente entre os pinheiros,
    Ouvem-se os gallos cantar…
    –Adeus, adeus! Nasce a aurora,
    Adeus! vamos trabalhar!
    Adeus, adeus! vou-me embora:
    Chamaram-me as velas, no mar…
    E o vento vae por hi fóra,
    No seu cavallo, a ventar…

    Pariz, 1891.

    *Purinha*

    O Espirito, a Nuvem, a Sombra, a Chymera,
    Que (aonde ainda não sei) neste mundo me espera
    Aquella que, um dia, mais leve que a bruma,
    Toda cheia de véus, como uma Espuma,
    O Sr. Padre me dará p'ra mim
    E a seus pés me dirá, toda corada: _Sim_!
    Ha-de ser alta como a _Torre de David_,
    Magrinha como um choupo onde se enlaça a vide
    E seu cabello em cachos, cachos d'uvas,
    E negro como a capa das viuvas…
    (Á maneira o trará das virgens de Belem
    Que a Nossa Senhora ficava tão bem!)
    E será uma espada a sua mão,
    E branca como a neve do Marão,
    E seus dedos serão como punhaes,
    Fuzos de prata onde fiarei meus ais!
    E os seus seios serão como dois ninhos,
    E seus sonhos serão os passarinhos,
    E será sua bocca uma romã,
    Seus olhos duas Estrellinhas da Manhã!
    Seu corpo ligeiro, tão leve, tão leve,
    Como um sonho, como a neve,
    Que hei-de suppor estar a ver, ao vel-a,
    Cabrinhas montezas da Serra da Estrella…
    E ha-de ser natural como as hervas dos montes
    E as rolas das serras e as agoas das fontes…
    E ha-de ser boa, excepcional, quazi divina.
    Mais pura, mais simples, que moça e menina.
    Deus, pela voz dos rouxinoes ha-de gabal-a
    E os rios ao passar hão-de cantal-a.
    Seu virgem coração ha-de ser tão branquinho,
    Que não ha neste, mundo a que egualal-o: o linho
    Que, em roca de crystal, fiava a minha Avó
    Parecerá de crepe, e a neve… far-me-á dó,
    Mais a farinha do moleiro e a violeta,
    E a lua para mim será como uma preta!

    Mas em que sitio, aonde? aonde? é que me espera
    Esta Torre, esta Lua, esta Chymera?
    Fui ter com minha fada e disse-lhe: «Madrinha!
    Onde haverá na Terra assim uma Rainha?»
    E a minha fada, com sua vara de encantar,
    Um reino me apontou, lá baixo, ao pé do mar…

    Meninas, lindas meninas!
    Qual de vós é o meu ideal?
    Meninas, lindas meninas
    Do Reino de Portugal!

    E no dia do meu recebimento!
    Manhã cedo, com luar ainda no firmamento,
    Quando ainda no céu não bole uma aza,
    A minha Noiva sairá de caza
    Mail-a sua mãe, mail-os seus irmãos.
    E ha-de sorrir, e hão-de tremer-lhe as mãos…
    E a sua ama ha-de seguil-a até á porta,
    E ficará, coitada! como morta!
    E ha-de ser triste vel-a, ao longe, ainda… olhando,
    Com o avental seus olhos enxugando…
    E hão-de cercal-a sete madrinhas,
    Que hão-de ser sete virgens pobrezinhas,
    Todas contentes por estreiar vestido novo!
    E, ao vel-as, suas mães sorrirão d'entre o povo…
    E o povo da freguezia
    Esperará mais eu, no adro de _Santa Iria_.
    E hão-de mirar-me com seu ar curiozo,
    E hão-de cercar-me, n'um silencio respeitozo.
    E eu hei-de lhes fallar das colheitas, da chuva,
    E dir-me-ão que «já vae pintando a uva…»
    E animados então (o povo é uma criança!)
    Porque o Sr. Morgado deu-lhes confiança,
    «Que Deus o ajude» dirá um, e o regedor:
    «Que seja mui feliz, Sr. Doutor…»
    E eu hei-de agradecer, sorrir, gostar.
    Mas o Anjo, no entanto, não deve tardar…
    E d'entre o grupo exclamará um velho, então:
    «Já nasce o dia!» eu olharei… mas não:
    É a minha Noiva que parece dia,
    Branquinha como a cal de _Santa Iria_!
    E ao vel-a tão branca, de branco vestida,
    Ao longe, ao longe, hei-de cuidar ver uma Ermida!
    E dirá o pastor, com espanto tamanho,
    Que é uma Ovelha que fugiu do seu rebanho!
    E o João Maluco dirá que é o Luar de Janeiro!
    E o pescador explicará ao bom moleiro
    Que é tal qualzinha a sua Lancha pelo mar!
    E o moleiro dirá que é o seu Moinho a andar!
    Que assim já foram as velhinhas scismarão,
    E as netas, coitadas! que, um dia, o serão…
    Mas o Anjo assomará, á porta da capella,
    E eu branco e tremulo hei-de ir ter com ella.
    E a estrella deitar-me-á a benção dos seus olhos
    E uma aldeã deitar-lhe-á violetas, aos molhos!
    E a Bem-Amada entrar na igreja ha-de…
    E ha-de cazar-nos o Sr. Abbade.
    E, em seguida, será a nossa boda,
    E festas haverá, na aldeia toda.
    E as mais raparigas do sitio, solteiras,
    Hao-de bailar bailados sobre as eiras,
    Com _trinta moedas_ de oiro sobre o peito!
    E cantigas dirão a seu respeito.
    E a Noiva em gloria, prepassando nas janellas,
    Sorrirá com simplicidade para ellas.
    E a noite, pouco e pouco, descerá…
    E tudo acabará.
    E depois e depois, o Anjo ha-de se ir deitar,
    E a sua mãe ha-de aabraçar… E hão-de chorar!
    E a sua alcova deitará sobre o quintal,
    Onde uma fonte correrá, entre o ervilhal:
    E, ao ouvil-a cantar, deitadinha na cama,
    O Anjo adormecerá, cuidando que é a sua ama…

    Mas qual a villa, qual a aldeia, qual a serra
    Que este Palacio de Ventura encerra?
    Fui ter com minha fada e disse-lhe: «Madrinha!
    Accaso nunca te mentiu tua varinha?»
    E a minha fada com sua vara de condão
    Nos ares escreveu com tres estrellas: «Não!»

    Meninas, lindas meninas!
    Qual de vós é o meu ideal?
    Meninas! lindas meninas
    Do Reino de Portugal!

    O nosso lar!
    Minha Madrinha! ajuda-me a sonhar!
    Que a nossa caza se erga d'entre uma eminencia,
    Que seja tal qual uma rezidencia,
    Alegre, branca, rustica, por fóra.
    Que digam: «É o Sr. Abbade que alli mora…»
    Mas no interior ella ha-de ser sombria,
    Como eu com esta melancholia…
    E salas escuras, chorando saudades…
    E velhos os moveis, de antigas idades…
    (E, assim, me illuda e, assim, cuide viver
    N'outro seculo em que eu deveria nascer.)
    E nas paredes telas de parentes…
    E janellas abertas sobre os poentes…
    (E a Chymera lerá o seu livro de rezas…)
    E cravos vermelhos por cima das mezas…
    E o relogio dará as horas devagar,
    Como as palpitações de quem se vae finar…
    E, dia inteiro, n'esta solidão,
    Deixar-me-ei esquecer, ao canto do fogão.
    E a scismar e a scismar em que? em quem?
    Na Dor, na Vida, em Deus, no Infinito, no _Além_?
    E eu o Luziada sombrio, o Afflicto, o Médio,
    Rogarei aos Espiritos remedio
    E um bom Espirito virá tratar do doente
    E ha-de tremer de susto a outra gente.
    E a noite descerá, pouco e pouco, no entanto,
    E a noite embrulhará o Afflicto no seu manto!
    Mas a Purinha, então, vindo da rua,
    Toda de branco surgirá, como uma Lua!
    E, então, acordarei d'essa desesperança
    E pela mão me levará, como uma criança.
    E eu pallido! e eu tremendo! e o Anjo pelo caminho,
    «Não te afflijas…» dirá, baixinho…
    E, assim, será piedoza para os mais:
    E ha-de entrar na mizeria dos cazaes,
    Nos montes mais altos, nos sitios mais ermos,
    E será a Saude dos Enfermos!
    E quando pela estrada encontrar um velhinho
    Todo suado, carregadinho,
    (Louvado seja Nosso Senhor!)
    Ha-de tirar seu lenço e ir enxugar-lhe o suor!
    E ás aves, em prisão, abrirá as gaiolas.
    E, aos sabbados, o dia das esmolas,
    A Santa descerá ao patamar da escada,
    Envolta, sem saber, n'uma capa estrellada,
    Esmolas, distribuindo a este e áquelle: e aos ceguinhos
    E mais aos alleijadinhos,
    Mais aos que botam sangue pela bocca,
    Mais aos que vêm cantar, numa rabeca rouca,
    Amores, naufragios e _A Nau Cathrineta_,
    Mais aos Afflictos deste vil Planeta,
    Mais ás viuvas dos degredados…
    E tudo seja pelos meus peccados!
    E ha-de cozer (serão os remendos de flores)
    As velas rôtas dos pescadores
    E a luz do seu olhar benzerá essas velas
    E nunca mais hão-de rasgar-lh'as as procellas!
    E accenderá os cyrios ao Senhor,
    (Que sejam como ella no talhe e na cor!)
    Quando houver temporal… e eu virei p'ra saccada
    Ver os relampagos, ouvir a trovoada!…
    E n'isto só rezumir-se-á a sua vida:
    Vestir os nus, aos pobres dar guarida,
    Fallar á alma que na angustia se consome,
    Dar de comer a quem tem fome,
    Dar de beber a quem tem sede…
    E, lá, do céu, Jezus dirá aos homens: «Vede…»
    E eu hei-de em minhas obras imital-a
    E amal-a como á Virgem e adoral-a.
    E a Virgem ha-de encher com a mesma paixão
    As marés-vazas d'este doido coração
    E as suas ondas ha-de, olympica, aplacar,
    Que para mim, linda Joanninha d'Arc,
    Que para mim será a lua-nova!
    E ha-de ir commigo para a mesma cova,
    Pois que no dia em que eu morrer
    Veneno tomará, n'uma colher…

    Mas em que patria, em que nação é que se esconde
    Esta Bandeira, esta India, este Castello, aonde? aonde?
    Fui ter com minha fada, e disse-lhe: «Madrinha!
    Mas pode haver, assim, na Terra uma Purinha?»
    E a minha fada com sua vara de marfim
    Tocou meu peito… e _alguem_ sorriu lá dentro: _Sim_…

    Meninas, lindas meninas!
    Qual de vós é o meu ideal?
    Meninas, lindas meninas
    Do Reino de Portugal!

    Pariz, 1891.

    *Elegia*

    Vae em seis mezes que deixei a minha terra
    E tu ficaste lá, mettida n'uma serra,
    Boa velhinha! que eras mais uma criança…
    Mas, tão longe de ti, n'este Payz de França,
    Onde mal viste, então, que eu viesse parar,
    Vejo-te, quanta vez! por esta sala a andar…
    Bates. Entreabres de mansinho a minha porta.
    Virás tratar de mim, ainda depois de morta?
    Vens de tão longe! E fazes, só, essa jornada!
    Ajuda-te o bordão que te empresta uma fada.
    Altas horas, emquanto o bom coveiro dorme,
    Escapas-teãda cova e vens, Bondade enorme!
    Atravez do Marão que a lua-cheia banha,
    Atravessas, sorrindo, a mysteriosa Hespanha,
    Perguntas ao pastor que anda guardando o gado,
    (E as fontes cantam e o céu é todo estrellado…)
    Para que banda fica a França, e elle, a apontar,
    Diz: «Vá seguindo sempre a minha estrella, no Ar!»
    E ha-de ficar scismando, ao ver-te assim, velhinha,
    Que és tu a Virgem disfarçada em probrezinha…
    Mas tu, sorrindo sempre, olhando sempre os céus,
    Deixando atraz de ti, os negros Pyrineus,
    Sob os quaes rola a humanidade, nos Expressos,
    Em certo dia ao fim de tantos (conto-os, meço-os!)
    Vindo de villa em villa, e mais de serra em serra,
    Chegas!
    E cae e cae no soalho alguma terra:
    Tua cova que vem pegada aos teus vestidos!

    Ó lua do ceguinho! Amparo dos vencidos!
    Alpendre do perdão! ó Piedade! ó Clemencia!
    Singular fado o nosso, estranha coincidencia:
    Deixamos nossa Patria ao mesmo tempo: tu,
    Adentro d'um caixão, que era tambem bahu,
    Onde levavas as desgraças d'esta vida;
    Eu, n'um paquete sobre a vaga enraivecida
    (Sob a qual, entretanto, havia a paz das loizas)
    E n'elle o esquife do meu lar, as minhas coizas,
    E mais tu sabes, Santa! um sacco de mizerias!
    Mas a existencia, é um dia, esta vida são férias
    E, mal acabem, te verei de novo… em breve!
    E tu de novo me verás…
    Ah! como deve
    Ser frio esse teu lar de debaixo da terra
    Que teu cadaver de oiro ainda intacto encerra:
    Ainda intacto e sempre: disse-me o coveiro
    Que a tua cova era a unica sem cheiro…
    E assim te deixo, Santa! Santa! ao abandono,
    Só, aos cuidados das corujas e do Outomno!
    Com este frio, horror! Senhora da Piedade!
    Sem uma mão amiga e cheia de bondade
    Que te agazalhe e faça a dobra do lençol,
    Que abra a janella para tu veres o sol,
    Que, logo de manhã, venha trazer-te o leite
    E, á noite, a lamparina-esmalte com azeite!
    Sem uma voz que vá ao pé da tua loiza,
    Ancioza, perguntar se queres alguma coiza,
    Cobrir-te, dar-te as boas-noites… Sem ninguem!
    Ai de ti! ai de ti! minha segunda Mãe!

    Dobra era meu coração o sino da saudade…

    Aqui, no meio d'esta fria soledade,
    Evoco a Coimbra triste, em seu aspecto moiro:
    Entro, chapéu na mão, em tua Caza d'Oiro,
    Em frente a um cannavial, cheio de rouxinoes,
    Que era nervozo de mysterio, ao por-dos-soes…
    Vejo o teu lar e a ti, tão pura, tão singella,
    E vejo-te a sorrir, e vejo-te, á janella,
    Quando eu seguia para as aulas, manhã cedo,
    Ancioza, olhando d'entre as folhas do arvoredo,
    Olhando sempre até eu me sumir, a olhar,
    Que ás vezes não me fosse um carro atropelar.
    Vejo o meu quarto de dormir, todo caiado,
    D'onde ouvia arrulhar as pombas, no telhado;
    Oiço o relogio a dar as horas vagamente,
    Devagar, devagar, como os ais d'um doente…
    Vejo-te, á noite, pelas noites de Janeiro,
    Na sala a trabalhar, á luz do candieiro,
    Mais vejo o Emilio, indo a tactear, quasi sem vista,
    Mas que lembrava com seus olhos de ametysta,
    Meio cerrados, como ao sol uma janella,
    Que lindos olhos! uma pomba de _Ramella_!
    E andava á solta pela caza, não fugia,
    Que aos libres ares o cazulo preferia…
    Mais vejo Aquella, cujo olhar são pyrilampos,
    Que tem o nome da mais linda flor dos campos,
    Que tem o nome que tiveste… Vejo-a, ainda,
    Como se hontem fosse, a Margareth, tão linda:
    Vejo-a passar, sorrindo, e faz-me assim lembrar
    No seu vestido rubro, uma papoila a andar…
    Mais te vejo ainda ungir d'affagos minhas penas,
    Mais te vejo voltar, á tarde, das novenas…
    Mais oiço os sinos a dobrar, em _Santa Clara_,
    E tu encommendando a alminha que voara…
    Mais vejo os meus contemporaneos, pela _Estrada_,
    As capas destraçando, ao verem-te á saccada;
    Mais vejo o Ruy, na sua farda de artilheiro,
    E tu mirando-o (o que são mães!) o dia inteiro!
    Mais vejo o sol, aurea cabeça do Senhor,
    Mais vejo os cravos, notas de clarim em flor!
    Mais vejo no quintal as papoilas vermelhas,
    Mais vejo o lar das andorinhas, sob as telhas,
    Mais oiço o tanque a soluçar soluços d'agoa,
    Mais oiço as rãs, coaxando á noite a sua magoa,
    Mais vejo o figueiral todo cheio de figos,
    Mais vejo a tua mão a dal-os aos mendigos…
    Mais oiço os guizos, ao passar da mala-posta,
    Mais vejo a sala de jantar, a meza-posta,
    E tu, Senhora! prezidindo, á cabeceira.
    E (o que a distancia faz!) vejo-te na cadeira,
    Com uma touca preta a cobrir-te os cabellos,
    Que eram de neve, aos caracoes, estou a vel-os!
    (Hei-de ir cortar-t'os, alta noite, ao cemiterio…)
    Mais vejo o Vasco sempre triste, sempre serio,
    D'um lado e eu de outro…

    Que abençoado refeitorio!

    Mas tudo passa n'este mundo tranzitorio!
    E tudo passa e tudo fica! A Vida é assim
    E sel-o-á sempre pelos seculos sem fim!
    Ainda vejo a tua caza, e oiço os teus gritos
    (Mas nas janellas e na porta vejo escriptos!)
    O Vasco é ainda sempre triste, sempre serio
    (Mas sua caza, agora, é ao pé d'um cemiterio…)
    Meu quarto de dormir vejo-o no mesmo estado
    (Mas não sei que é, não me parece tão caiado.)
    A janella ainda tem o mesmo parapeito
    (Mas já não sou «o estudantinho de Direito».)
    Na sala de jantar ainda se estende a meza
    (Mas já não tem a meza-posta, a sobremeza.)
    Vejo o relogio na parede como outrora
    (Mas o ponteiro marca ainda a mesma hora…)
    O candieiro ainda tem o petroleo e a torcida
    (Mas apagou-se a luz a quando a tua vida.)
    A diligencia passa, á tardinha, a tinir,
    (Mas já não tem os olhos teus para a seguir…)
    Passam ainda pela _Estrada_ os estudantes
    (Mas não destraçam suas capas, como d'antes…)
    Vêm da novena ainda as moças e as donzellas
    (Mas procuro-te, em vão, já não te vejo entre ellas…)
    As andorinhas ainda têm o mesmo fito
    (Mas já fizeram trez jornadas ao Egypto…)
    Ainda dobra por defuntos e defuntas
    (Mas não te vejo a ti a rezar de mãos juntas.)
    Ainda lá está o figueiral com figos,
    (Mas não a tua mão a dal-os aos mendigos…)
    O Ruy ainda traz a farda de soldado
    (Mas, agora, já poe mais divizas, ao lado.)
    As rãs coaxam ainda á noite, á beira d'agoa
    (Mas, já não têm quem peça a Deus por essa magoa.)
    O Emilio tem ainda esse olhar que maravilha,
    (Mas, com seus olhos d'hoje, é uma pombinha da _Ilha_)
    Ainda lá estão os cravos, no jardim,
    (Mas já não são as mesmas notas de clarim…)
    Ainda oiço o tanque a soluçar a sua magoa
    (Mas já não acho tão branquinha a sua agoa…)
    A Margareth ainda é a papoila de outrora
    (Mas a papoila… já está uma senhora!)
    Ainda lá estão as papoilas em flor
    (Mas a velhinha já não vae de regador…)
    Meu coração é ainda o Valle de Gangrenas
    (Mas já não tenho quem lhe plante as açucenas…)
    Vive ainda o Sol, vivo eu ainda… (Mas tu morreste!)
    Tudo ficou, tudo passou…

    Que mundo este!

    Pariz, 1891.

    *Os Sinos*

    1

    Os sinos tocam a noivado,
    No Ar lavado!
    Os sinos tocam, no Ar lavado,
    A noivado!

    Que linda criança que assoma na rua!
    Que linda, a andar!
    Em extasi, o povo commenta que é a Lua,
    Que vem a andar…

    Tambem, algum dia, o povo na rua,
    Quando eu cazar,
    Ao ver minha noiva, dirá que é a Lua
    Que vae cazar…

    2

    E o sino toca a baptizado
    Que lindo fado?
    E o sino toca um lindo fado,
    A baptizado!

    E banham o anjinho na agoa de neve,
    Para o lavar,
    E banham o anjinho na agoa de neve,
    Para o sujar.

    Ó boa madrinha, que o enxugas de leve,
    Tem dó d'esses gritos! Comprehende esses ais:
    Antes o enxugue a _Velha_! antes Deus t'o leve!
    Não soffre mais…

    3

    Os sinos dobram por anjinho,
    Coitadinho!
    Os sinos dobram, coitadinho…
    Pelo anjinho!

    Que aceiada que vae p'ra cova!
    Olhae! olhae!
    Sapatinhos de sola nova,
    Olhae! olhae!

    Ó lindos sapatos de solinha nova,
    Bailae! bailae!
    Nas eiras que rodam debaixo da cova…
    Bailae! bailae!

    4

    O sino toca p'ra novena,
    _Gratiae plena_,
    E o sino toca, _gratiae plena_,
    P'ra novena.

    Ide, meninas, á ladainha,
    Ide rezar!
    Pensae nas almas como a minha…
    Ide rezar!

    Se, um dia, me deres alguma filhinha,
    Ó Mãe dos Afflictos! ella ha-de ir, tambem:
    Ha-de ir ás novenas, assim, á tardinha,
    Com sua mãe…

    5

    E o sino chama ao Senhor-fóra,
    A esta hora!
    Os sinos clamam, a esta hora,
    Ao Senhor-fóra!

    Accendei, vizinhos, as velas,
    Allumiae!
    Velas de cera nas janellas!
    Allumiae!

    E luas e estrellas tambem poem velas,
    A allumiar!
    E a _alminha_, a esta hora, já está entre ellas,
    A allumiar…

    6

    E os sinos dobram a defuntos,
    Todos juntos!
    E os sinos dobram, todos juntos,
    A defuntos!

    Que triste ver amortalhados!
    Senhor! Senhor!
    Que triste ver olhos fechados!
    Senhor! Senhor!

    Que pena me fazem os amortalhados,
    Vestidos de preto, deitados de costas…
    E de olhos fechados! e de olhos fechados!
    E de mãos postas!

    E os sinos dobram a defuntos,
    Dlin! dlang! dling! dlong!
    E os sinos dobram, todos juntos,
    Dlong! dlin! dling! dlong

    Pariz, 1891.

    *Terças-Feiras*

    Ao Alberto

    1

    Ó condezinho de Tolstoï (Alberto)
    Santo de minha extrema devoção,
    Alma tamanha, que adorei de perto,
    Lá na _Thebaida_ do Sr. João.

    Meu Calix do Senhor! Meu Pallio aberto!
    Luar branco na minha escuridão!
    Ó minha Joanna d'Arc! Amigo certo
    Na hora incerta! Aguia! Meu Irmão!

    A ti as _Terças-feiras_, n'este Inferno,
    D'aquelle que nasceu, em terça-feira
    E em terça-feira morrerá, talvez…

    Quando eu for morto já, noites de inverno,
    Aos teus filhinhos, conta-as á lareira
    Para eu ouvir de _lá_:

    «Era uma vez…

    Pariz, 1891.

    2

    Legenda do Santo

    «Era uma vez um velho, mui velhinho,
    Vinde, meus filhos! vinde ouvir contar!
    Seguia, ao por-do-sol, por um caminho,
    Dois saccos de Amargura a carregar.

    O pobre velho, todo derreadinho,
    Já não podia mais, queria arreiar;
    Mas passa um cavalleiro: «Olá, santinho!
    Eu deito-lhe uma mão para o ajudar…»

    E o fidalgo desceu do seu cavallo:
    Tomou-lhe os saccos que iam a matal-o
    E aos hombros carregou com o maior!

    E, hoje, o velhinho anda a construir, coitado!
    Que linda ermida, n'esse chão sagrado,
    Onde lhe appareceu _Nosso Senhor_!»

    Pariz, 1891.

    3

    Prologo

    Em hora de afflicçãô, molhei a penna
    Na chaga aberta d'esse corpo amado,
    Mas n'uma chaga a suppurar gangrena,
    Cheia de puz, de sangue já coalhado!

    E depois, com a mão firme e serena,
    Compuz este missal d'um torturado:
    Talvez choreis, talvez vos faça pena…
    Chorae! que immenso tenho eu já chorado.

    Abri-o! Orae com devoção sincera!
    E, à leitura final d'uma oração,
    Vereis cair no solo uma chymera…

    Moços do meu paiz! vereis então
    O que é esta Vida, o que é que vos espera…
    Toda uma Sexta-feira de Paixão!

    Coimbra, 1889.

    4

    Natal d'um Poeta

    Em certo reino, á esquina do planeta,
    Onde nasceram meus Avós, meus Paes,
    Ha quatro lustres, viu a luz um poeta
    Que melhor fôra não a ver jamais.

    Mal despontava para a vida inquieta,
    Logo ao nascer, mataram-lhe os ideaes,
    A falsa-fé, n'uma traição abjecta,
    Como os bandidos nas estradas reaes!

    E, embora eu seja descendente, um ramo
    D'essa arvore de Heroes que, entre perigos
    E guerras, se esforçaram pelo ideal:

    Nada me importas, Paiz! seja meu amo
    O Carlos ou o Zé da Th'reza… Amigos,
    Que desgraça nascer em Portugal!

    Coimbra, 1889.

    5

    Ai de Mim!

    Venho, torna-me velho esta lembrança!
    D'um enterro d'anjinho, nobre e puro:
    Infancia, era este o nome da criança
    Que, hoje, dorme entre os bichos, lá no escuro…

    Trez anjos, a Chymera, o Amor, a Esperança
    Acompanharam-n'o ao jazigo obscuro,
    E recebeu, segundo a velha usança,
    A chave do caixão o meu Futuro.

    Hoje, ambulante e abandonada Ermida,
    Leva-me o fado, á bruta, aos empurrões,
    Vá para a frente! Marcha! Á Vida! Á Vida!

    Que hei-de fazer, Senhor! o qu'é que espera
    Um bacharel formado em illuzões
    Pela Universidade da Chymera?

    Boa Nova, 1887.

    6

    Conde

    Na praia lá da Boa Nova, um dia,
    Edifiquei (foi esse um grande mal)
    Torreão de gloria, o que é a phantasia,
    Todo de lapis-lazzuli e coral!

    N'aquellas redondezas, não havia
    Quem se gabasse d'um dominio egual:
    Oh o Torreão de gloria! parecia
    O territorio d'um Senhor-feudal!

    Um dia, não sei quando, nem sei d'onde;
    Um vento secco de tortura e spleen
    Deitou por terra, ao pó que tudo esconde,

    O meu condado, o meu condado, sim!
    Porque eu já foi um poderoso Conde,
    N'aquella idade em que se é conde assim…

    Porto, 1887.

    7

    Ó Virgens!

    Ó virgens que passaes, ao sol-poente,
    Pelas estradas ermas, a cantar!
    Eu quero ouvir uma canção ardente
    Que me transporte ao meu perdido lar…

    Cantae-me, n'essa voz omnipotente,
    O sol que tomba, aureolando o mar,
    A fartura da seara reluzente,
    O vinho, a graça, a formozura, o luar!

    Cantae! cantae as limpidas cantigas!
    Das ruinas do meu lar desatterrae
    Todas aquellas illuzões antigas

    Que eu vi morrer n'um sonho, como um ai…
    Ó suaves e frescas raparigas;
    Adormecei-me n'essa voz… Cantae!

    Porto, 1886.

    8

    Á Luz de Lua!

    Iamos sós pela floresta amiga,
    Onde em perfumes o luar se evola,
    Olhando os céus, modesta rapariga!
    Como as crianças ao sair da escola.

    Em teus olhos dormentes de fadiga,
    Meio cerrados como o olhar da rola,
    Eu ia lendo essa ballada antiga
    D'uns noivos mortos ao cingir da estola…

    A Lua-a-Branca, que é tua avozinha,
    Cobria com os seus os teus cabellos
    E dava-te um aspeto de velhinha!

    Que linda eras, o luar que o diga!
    E eu compondo estes versos, tu a lel-os,
    E ambos scismando na floresta amiga…

    Porto, 1884.

    9

    Desobriga

    Os meus peccados, Anjo! os meus peccados!
    Contar-t'os? Para que, se não têm fim…
    Sou santo ao pé dos outros desgraçados,
    Mas tu és mais que santa ao pé de mim!

    A ti accendo cyrios perfumados,
    Faço novenas, queimo-te alecrim,
    Quando soffro, me vejo com cuidados…
    Nas tuas rezas, lembra-te de mim!

    Que eu seja puro d'alma e pensamento!
    E que, em dia do grande julgamento,
    Minhas culpas não sejam de maior:

    Pois tenho, que o céu tudo aponta e marca,
    Um processo a correr n'essa comarca,
    Cujo delegado é Nosso Senhor…

    Hamburgo, 1891.

    10

    Que Aborrecido!

    Meus dias de rapaz, de adolescente,
    Abrem a bocca a bocejar sombrios:
    Deslizam vagarozos, como os rios,
    Succedem-se uns aos outros, egualmente.

    Nunca desperto de manhã, contente.
    Pallido sempre com os labios frios,
    Oro, desfiando os meus rozarios pios…
    Fôra melhor dormir, eternamente!

    Mas não ter eu aspirações vivazes,
    E não ter, como têm os mais rapazes,
    Olhos boiando em sol, labio vermelho!

    Quero viver, eu sinto-o, mas não posso:
    E não sei, sendo assim, emquanto moço,
    O que serei, então, depois de velho…

    Bellos-Ares, 1889.

    11

    Poveiro

    Poveirinhos! meus velhos pescadores!
    Na Agoa quizera com vocês morar:
    Trazer o lindo gorro de trez cores,
    Mestre da lancha _Deixem-nos passar_!

    Far-me-ia outro, que os vossos interiores
    De ha tantos tempos, devem já estar
    Calafetados pelo breu das dores,
    Como esses pongos em que andaes no mar!

    Ó meu Pae, não ser eu dos poveirinhos!
    Não seres tu, para eu o ser, poveiro,
    Mail-Irmão do «Senhor de Mattozinhos»!

    No alto mar, ás trovoadas, entre gritos,
    Promettermos, _si o barco fôri intieiro_,
    _Nossa bela á Sinhora dos Afflictos_!

    Leça, 1889.

    12

    O Sr. Abbade

    Quando vem Junho e deixo esta cidade,
    Batina, _Caes_, tuberculozos céus,
    Vou para o Seixo, para a minha herdade:
    Adeus, cavaco e luar! choupos, adeus!

    Tomo o regimen do Sr. Abbade,
    E faço as pazes, elle o quer, com Deus.
    No seu direito olhar vejo a bondade,
    E ás capellinhas vou ver os judeus.

    Que homem sem par! Ignora o que são dores!
    Para elle uma ramada é o pallio verde,
    Os cachos d'uvas são as suas flores!

    Ao seu passal chama elle o mundo todo…
    Sr. Abbade! olhe que nada perde:
    Viva na paz, ahi, longe do lodo.

    Coimbra, 1850.

    13

    Maes, Vinde Ouvir!

    Longe de ti, na cella do meu quarto,
    Meu copo cheio de agoirentas fezes,
    Sinto que rezas do Outro-mundo, harto,
    Pelo teu filho. Minha Mãe, não rezes!

    Para fallar, assim, ve tu! já farto,
    Para me ouvires blasphemar, ás vezes,
    Soffres por mim as dores crueis do parto
    E trazes-me no ventre nove mezes!

    Nunca me houvesses dado á luz, Senhora!
    Nunca eu mamasse o leite aureolado
    Que me fez homem, magica bebida!

    Fôra melhor não ter nascido, fôra,
    Do que andar, como eu ando, degredado
    Por esta Costa d'Africa da Vida…

    Coimbra, 1889.

    14

    Sê Altivo!

    Altos pinheiros septuagenarios
    E ainda empertigados sobre a serra!
    Sois os Enviados-extraordinarios,
    Embaixadores d'El-Rey Pan, na Terra.

    A noite, sob aquelles lampadarios,
    Conferenciaes com elle… Ha paz? Ha guerra?
    E tomam notas vossos secretarios,
    Que o _Livro Verde_ secular encerra.

    Hirtos e altos, Tayllerands dos montes!
    Tendes a linha, não vergaes as frontes
    Na exigencia da côrte, ou beija-mão!

    Voltaes aos homens com desdem a face…
    Ai oxalá! que Pan me despachasse
    Addido á vossa extranha legação!

    Coimbra, 1888.

    15

    Sê de Pedra!

    Não reparaste nunca? Pela aldeia,
    Nos fios telegraphicos da estrada,
    Cantam as aves, desde que o sol nada,
    E, á noite, se faz sol a lua cheia…

    No entanto, pelo arame que as tenteia,
    Quanta tortura vae, n'uma ancia alada!
    O Ministro que joga uma cartada,
    Alma que, ás vezes, d'além-mar anceia:

    –Revolução!–Inutil.–Cem feridos,
    Setenta mortos.–Beijo-te!–Perdidos!
    –Emfim, feliz!–?–!–Desesperado.–Vem!

    E as lindas aves, bem se importam ellas!
    Continuam cantando, tagarellas:
    Assim, Antonio! deves ser tambem.

    Colonia, 1891.

    16

    Vae para um Convento!

    Falhei na Vida. Zut! Ideaes caidos!
    Torres por terra! As arvores sem ramos!
    Ó meus amigos! todos nós falhamos…
    Nada nos resta. Somos uns perdidos.

    Choremos, abracemo-nos, unidos!
    Que fazer? Porque não nos suicidamos?
    Jezus! Jezus! Resignação… Formamos
    No mundo, o Claustro-pleno dos Vencidos.

    Troquemos o burel por esta capa!
    Ao longe, os sinos mysticos da Trappa
    Clamam por nós, convidam-nos a entrar…

    Vamos semear o pão, podar as uvas,
    Pegae na enxada, descalçae as luvas,
    Tendes bom corpo, Irmãos! Vamos cavar…

    Coimbra, 1889.

    17

    A França!

    Vou sobre o Oceano (o luar de lindo enleva!)
    Por este mar de Gloria, em plena paz.
    Terras da Patria somem-se na treva,
    Agoas de Portugal ficam, atraz…

    Onde vou eu? Meu fado onde me leva?
    Antonio, onde vaes tu, doido rapaz?
    Não sei. Mas o vapor, quando se eleva,
    Lembra o meu coração, na ancia em que jaz…

    Ó Luzitania que te vaes á vela!
    Adeus! que eu parto (rezarei por ella…)
    Na minha _Nau Catharineta_, adeus!

    Paquete, meu paquete, anda ligeiro!
    Sobe depressa á gavea, marinheiro,
    E grita, França! pelo amor de Deus!…

    Oceano Atlantico, 1890.

    18

    Tempestade!

    O meu beliche é tal qual o bercinho,
    Onde dormi horas que não vêm mais.
    Dos seus embalos já estou cheiinho:
    Minha velha ama são os vendavaes!

    Uivam os ventos! Fumo, bebo vinho.
    O vapor treme! Abraço a _Biblia_, aos ais…
    Covarde! Que dirá teu Avôzinho,
    Que foi moreante? Que dirão teus Paes?

    Coragem! Considera o que has soffrido,
    O que soffres e o que ainda soffrerás,
    E ve, depois, se accaso é permittido

    Tal medo á Morte, tanto apego ao mundo:
    Ah! fôra bem melhor, vás onde vás,
    Antonio, que o paquete fosse ao fundo!

    Golpho de Biscaya, 1891.

    19

    Continua a Tempestade

    Aqui, sobre estas aguas cor de azeite,
    Scismo em meu lar, na paz que lá havia:
    Carlota, á noite, ia ver se eu dormia
    E vinha, de manhã, trazer-me o leite…

    Aqui, não tenho um unico deleite!
    Talvez… baixando, em breve, á Agoa fria,
    Sem um beijo, sem uma _Ave-Maria_,
    Sem uma flor, sem o menor enfeite…

    Ah! podesse eu voltar á minha infancia!
    Lar adorado, em fumos, a distancia,
    Ao pé de minha Irmã, vendo-a bordar…

    Minha velha aia! conta-me essa historia
    Que principiava, tenho-a na memoria,
    «Era uma vez…»
    Ah deixem-me chorar!

    Canal da Mancha, 1891.

    20

    Vaidade, Tudo Vaidade!

    Vaidade, meu amor, tudo vaidade!
    Ouve: quando eu, um dia, for alguem,
    Tuas amigas ter-te-ão amizade,
    (Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm.

    Vaidade é o luxo, a gloria, a caridade,
    Tudo vaidade! E, se pensares bem,
    Verás, perdoa-me esta crueldade,
    Que é uma vaidade o amor de tua mãe…

    Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna
    E eu vi-me só no mar com minha escuna,
    E ninguem me valeu na tempestade!

    Hoje, já voltam com seu ar composto,
    Mas eu, ve lá! eu volto-lhes o rosto…
    E isto em mim não será uma vaidade?

    Mar do Norte, 1891.

    21

    Paz!

    E a Vida foi, e é assim, e não melhora.
    Esforço inutil, crê! Tudo é illuzão…
    Quantos não scismam n'isso mesmo a esta hora
    Com uma taça, ou um punhal na mão!

    Mas a Arte, o Lar, um filho, Antonio? Embora!
    Chymeras, sonhos, bolas de sabão.
    E a tortura do _além_ e quem lá mora!
    Isso é, talvez, minha unica afflicção…

    Toda a dor pode suspportar-se, toda!
    Mesmo a da noiva morta em plena boda,
    Que por mortalha leva… essa que traz…

    Mas uma não: é a dor do pensamento!
    Ai quem me dera entrar n'esse convento
    Que ha além da Morte e que se chama _A Paz_!

    Pariz, 1891.

    22

    Epilogo

    Meu coração, não batas, pára!
    Meu coração, vae-te deitar!
    A nossa dor, bem sei, é amara,
    A nossa dor, bem sei, é amara…
    Meu coração, vamos sonhar…
    Ao mundo vim, mas enganado.
    Sinto-me farto de viver:
    Vi o que elle era, estou massado,
    Vi o que elle era, estou massado…
    Não batas mais! vamos morrer…
    Bati á porta da Ventura
    Ninguem m'à abriu, bati em vão:
    Vamos a ver se a sepultura,
    Vamos a ver se a sepultura
    Nos faz o mesmo, coração!
    Adeus, Planeta! adeus, ó Lama!
    Que a ambos nós vaes digerir…
    Meu coração, a _Velha_ chama,
    Meu coração, a _Velha_ chama…
    Basta, por Deus! vamos dormir…

    Coimbra, 1888.

    *Carta a Manoel*

    Manoel, tens razão. Venho tarde. Desculpa.
    Mas não foi Anto, não fui eu quem teve a culpa,
    Foi Coimbra. Foi esta paysagem triste, triste,
    A cuja influencia a minha alma não reziste,
    Queres noticias? Queres que os meus nervos fallem?
    Vá! dize aos choupos do Mondego que se callem…
    E pede ao vento que não uive e gema tanto:
    Que, emfim, se soffre abafe as torturas em pranto,
    Mas que me deixe em paz! Ah tu não imaginas
    Quanto isto me faz mal! Peor que as sabbatinas
    Dos _ursos_ na aula, peor que beatas correrias
    De velhas magras, galopando _Ave-Marias_,
    Peor que um diamante a riscar na vidraça!
    Peor eu sei lá, Manoel, peor que uma desgraça!
    Hysterisa-me o vento, absorve-me a alma toda,
    Tal a menina pelas vesperas da boda,
    Atarefada mail-a ama, a arrumar…
    O vento afoga o meu espirito n'um mar
    Verde, azul, branco, negro, cujos vagalhões
    São todos feitos de luar, recordações.
    Á noite, quando estou, aqui, na minha toca,
    O grande evocador do vento evoca, evoca
    Nosso verão magnifico, este anno passado,
    (E a um canto bate, alli, cardiaco, apressado,
    O _tic-tac_ do relogio do fogão)…
    Bons tempos, Manoel, esses que já lá vão!
    Isto, tu sabes? faz vontade de chorar.
    E, pela noite em claro, eu fico-me a scismar,
    Triste, ao clarão da lamparina que desmaia,
    Na existencia que tive este verão na praia,
    Quando, mal na amplidão, vinha arraiando a aurora,
    Ia por esse mar de Jezus-Christo fóra,
    No barco á vela do moreno Gabriel!
    Vejo passar de negro, envoltas n'um burel,
    Quantos sonhos, meu Deus! quantas recordações!
    Phantasmas do passado! encantadas vizões!
    Que, embora estejam lá, no seu paiz distante,
    Oiço-as fallar na minha alcova de estudante.

    Minhas vizões! entrae, entrae, não tenhaes medo!

    Ó _Rio Doce_! tunnel d'agoa e de arvoredo!
    Por onde Anto vogava em o wagon d'um bote…
    E, ao sol do meio dia, os banhos em pelote,
    Quando iamos nadar, á _Ponte de Tavares_!
    Tudo se foi! Espuma em flocos pelos ares!
    Tudo se foi…

    Hoje, mais nada tenho que esta
    Vida claustral, bacharelatica, funesta,
    N'uma cidade assim, cheirando, essa indecente!
    Por toda a parte, desde a Alta á Baixa, a lente!
    Bem me dizias tu, como que adivinhando
    O que isto para mim seria, Amigo, quando
    O anno passado, vim contra tua vontade
    Matricular-me, ahi, n'essa Universidade:
    «Anto não vás…» dizias tu. Eu, fraco, vim.
    Mas certamente, é natural, não chego ao fim.
    Ah quanto fôra bem melhor a formatura,
    Na Escola-Livre da Natureza, Mãe pura!
    Que optimas prelecções as prelecções modernas,
    Cheias de observação e verdades eternas,
    Que faz diariamente o Proff. Oceano!
    Já tinha dado todo o _Coraçao Humano_,
    Manoel! faltava um anno só para acabar
    Meu curso de Psychologia com o Mar.
    Porque troquei pela Coimbra inutil, vã,
    Essa Escola sem par, cujo reitor é Pan?
    Talvez… preguiça, eu sei… A _cabra_ é a cotovia:
    As aulas, lá, começam mal aponta o dia!

    Que tedio o meu, Manoel! Antes de vir, gostava.
    Era a distancia, o _além_, que me impressionava:
    Tinha a poezia do sol-por, d'uma esperança.
    Mas, mal cheguei (que espanto! eu era uma criança…)
    Tudo rolou no solo! A _Tasca das Camellas_
    Para mim, era um sonho, o céu cheio de estrellas:
    Nossa Senhora a dar de ceiar aos estudantes
    Por _6 e 5_! Mas ah! foi-se a Virgem d'antes,
    Tia Camella… só ficou a camelice.

    Comtudo, em meio d'esta futil coimbrice,
    Que lindas coisas a lendaria Coimbra encerra!
    Que paysagera lunar que é a mais doce da Terra!
    Que extraordinarias e medievas raparigas!
    E o rio e as fontes? e as fogueiras? e as cantigas?
    As cantigas! Que encanto! Uma diz-te respeito,
    Manoel; é um sonho, é um beijo, é um amor-perfeito
    Onde o luar gelou: «Manoel! tão lindas moças!
    Manoel! tão lindas são…»

    Que pena que não ouças!

    Quero mostrar-te Coimbra. Has-de gostar. Partamos.
    Dá-me o teu braço e vem d'ahi commigo, vamos!

    Olha… São os _Geraes_, no intervallo das aulas.
    Bateu o quarto. Ve! Vem sahindo das jaulas
    Os estudantes, sob o olhar pardo dos lentes:
    Ao vel-os, quem dirá que são os descendentes
    Dos navegantes do seculo XVI?
    Curvam a espinha, como os aulicos aos reis!
    E magros! tristes! de cabeça derreiada!
    Ah! Como hão-de, amanhã, pegarem uma espada!
    –E os doutores?–Ahi, os tens graves, á porta.
    Porque te ris? Olhal-os tanto… Que te importa?
    Ha duas excepções: o mais, são todos um,
    Quaresma d'alma, sexta-feira de jejum…
    Não quero entanto, meu Manoel, que vás embora
    Sem ver aquelle amor que esta alma adora, adora:
    Olha, acolá. Gigante, altivo como um cedro,
    Olhando para mim com ternura: é o meu Pedro
    Penedo!
    Ó Pedro da minh'alma! meu amigo!
    Que feliz sou, bom velho, em estudar comtigo!
    Mal diria eu em pequenito, quando a ama
    Para eu me callar, vinha fazer-me susto á cama
    Por ti chamava: Pedro! e eu socegava logo,
    Que eras tu o _Papão_! A ama, de olhos em fogo,
    Imitava-te o andar, que não era bem de homem…
    Eu tinha birras?–Ahi vem o lobishomem!
    Dizia ella.–Bate á porta! Truz! truz! truz!
    E tu entravas, Pedro, eu via! Horror! Jezus!

    Meu velho Pedro! meu phantasma de criança!
    Quero-te bem, tanto que tenho na lembrança,
    Quando morreres, Pedro! (o Pedro nunca morre)
    Hei-de pegar em ti, encher de alcool a Torre
    Com todo o meu esmero e, zás! metter-te dentro!
    Pedro! assim ficas enfrascado, ao alto e ao centro,
    E eternamente, para espanto de vindoiros:
    No rotulo porei: _Alli-Bed, Rei dos Moiros_.

    Mas… toca a recolher. Dou uma falta: embora!
    Saiamos…
    Manoel, vamos por ahi fóra
    Lavar a alma, furtar beijos, colher flores,
    Por esses lindos, deliciozos arredores,
    Que vistos uma vez, ah! não se esquecem mais:
    Torres, Condeixa, Santo Antonio de Olivaes,
    Lorvão, Sernache, Nazareth, Tentugal, Cellas!
    Sitios sem par! Onde ha paysagens como aquellas?
    Santos Logares, onde jaz meu coração!
    Cada um é para mim uma recordação…

    _Condeixa_?

    Vamos ao arraial que, alli, ha.
    –Sol, poeira, tanta gente!–É o mesmo, vamos lá!

    Olha! Estudantes, dando o braço ás raparigas,
    Caras de leite, olhos de luar, tranças d'estrigas;
    Arrancam-lhes do seio arfando as violetas,
    Aos hombros d'ellas poem suas capas pretas:
    Que deliciosos estudantes que ellas ficam!
    Velhos aldeões que tudo vêm, mas não implicam,
    Porque, em summa, que mal pode fazer um beijo,
    Vem até nós, sorrindo, aproveitando o ensejo,
    Com o chapéu na mão, simples e bons e honrados:
    Vêm consultar-nos, porque «somos advogados
    E sabemos das leis…» O que devem fazer
    Ahi, n'uma questão, n'uma questão qualquer
    D'agoas com um vizinho: é tal a cheia d'ellas
    Que estraga as plantações!–Que hão-de fazer? Bebel-as!
    E vão-se, assim, jurando aviar nossos conselhos…
    Ai de vós! Ai das vossas agoas, pobres velhos!

    _Tentugal_?

    Que manhã! E não quereres vir…
    Pega nas luvas, no chapéu. Vamos partir.
    É logo alli: quinze kilometros, é perto.
    Espera-nos o Toy, extasia-se o Alberto,
    Pela janella d'esse mundo amplo e rasgado!
    Que lindo dia! ó sol, obrigado, obrigado!
    Paysagem outomnal, alegra-te tambem!
    Hoje, não quero ver ninguem triste, ninguem!
    Outomno, vá! melancholia, faze tregoas!
    Peço paz, rendo-me! Haja paz, n'estas trez legoas!
    Choupos, então? Que é isso? erguei a fronte, vamos!
    Ó verdilhões, ide cantar-lhes sobre os ramos!
    Aves por folhas! Animae-os! animae-os!
    Applica-lhes, ó sol! uma ducha de raios!
    Almas tristes e sós (não é mais triste a minha!)
    Aqui estaes, meu Deus! desde a aurora á tardinha.
    O vento leva-vos a folha, a pelle; o vento
    Leva-vos o orvalho, a agoa, o prezigo, o sustento!
    E dobra-vos ao chão, faz-vos tossir, coitados!
    Estaes aqui, estaes promptos, amortalhados…
    Fazeis lembrar-me, assim, postos n'estes logares,
    Uma colonia de phtysicos, a ares!…
    Não vos verei, talvez, quando voltar; comtudo
    Ver-vos-ei, _la_, um dia, onde se encontra tudo:
    A alma dos choupos, como a do homem, sobe aos céus…
    Ó choupos, até lá… Adeus! adeus! adeus!

    Foi-se a paysagem triste: agora, são collinas;
    Ve-se curraes, eiras, crianças pequeninas,
    Bois a pastar ao longe, aves dizendo missa
    Á natureza e o sol a semear Justiça!
    Vão pela estrada aleijadinhos de moletas;
    Atiro-lhes vintens: vêm pegar-lhes as netas.
    Mas o trem voa á desfilada…–Olá! arreda!
    (Ia-o apanhando: foi por um fio de seda…)
    E assim n'este galope, a charrette rodando,
    Já de Tentugal se vae quazi approximando:
    S. João do Campo já nos fica muito atraz…
    Assim, _Malhado_! puxa! Bravo, meu rapaz!
    Que estamos quasi lá! mexe-me essas ancas!
    Emfim!

    Tentugal toda a rir de cazas brancas!

    A linda aldeia! Venho cá todos os mezes
    E contrariado vou de todas essas vezes.
    Venho ao convento vizitar a linda freira,
    Nunca lhe fallo: talvez, hoje, a vez primeira…
    Vou lá comprar um pastellinho, que eu bem sei
    Que elle trará dentro um bilhete, isto sonhei:
    Assim o pastellinho, ó ventura sonhada!
    Tem de recheio o coração da minha amada.
    Abro o enveloppe ideal. Vamos a ver…–Traz?–Não!

    Regresso a Coimbra só com o meu coração.

    Coimbra, 1888-1889-1890.

    *Para As Raparigas de Coimbra*

    1

    Ó choupo magro e velhinho,
    Corcundinha, todo aos nós:
    És tal qual meu avôzinho,
    Falta-te apenas a voz.

    2

    Minha capa vos acoite
    Que é p'ra vos agazalhar:
    Se por fóra é cor da noite,
    Por dentro é cor do luar…

    3

    Ó sinos de _Santa Clara_,
    Por quem dobraes, quem morreu?
    Ah, foi-se a mais linda cara
    Que houve debaixo do céu!

    4

    A sereia é muito arisca,
    Pescador, que estás ao sol:
    Não cae, tolinho, a essa isca…
    Só pondo uma flor no anzol!

    5

    A lua é a hostia branquinha,
    Onde está Nosso Senhor:
    É d'uma certa farinha
    Que não apanha bolor!

    6

    Vou a encher a bilha e trago-a
    Vazia como a levei!
    Mondego, qu'é da tua agoa?
    Qu'é dos prantos que eu chorei?

    7

    A _cabra_ da velha Torre,
    Meu amor, chama por mim:
    Quando um estudante morre,
    Os sinos chamam, assim.

    8

    –E só porque o mundo zomba
    Que poes luto? Importa lá!
    Antes te vistas de pomba…
    –Pombas pretas tambem ha!

    9

    Therezinhas! Ursulinas!
    Tardes de novena, adeus!
    Os corações ás batinas
    Que diriam? sabe-o Deus…

    10

    Teu coração é uma igreja:
    N'uma eça dorme, alli,
    Manoel, bemdito seja,
    Que morreu d'amor por ti.

    11

    Manoel no _Pio_ repoiza:
    Todos os dias, lá vou
    Ver se quer alguma coiza,
    Perguntar como passou.

    12

    Agora, são tudo amores
    A roda de mim, no _Caes_,
    E, mal se apanham doutores,
    Partem e não voltam mais…

    13

    Aos olhos da minha fronte
    Vinde os cantaros encher:
    Não ha, assim, segunda fonte
    Com duas bicas a correr!

    14

    Nossa Senhora faz meia
    Com linha feita de luz:
    O novello é a lua-cheia,
    As meias são p'ra Jezus.

    15

    Meu violão é um cortiço,
    Tem por abelhas os sons
    Que fabricam, valha-me isso,
    Fadinhos de mel, tão bons…

    16

    Ó fogueiras, ó cantigas,
    Saudades! recordações!
    Bailae, bailae, raparigas!
    Batei, batei, corações!

    Coimbra, 1890.

    *Luzitania no Bairro-Latino*

    Só!
    Ai do Luziada, coitado,
    Que não tem mãe, nem tem avó,
    Que não ama, nem é amado…
    Nuzinho Outomno, no mez d'Abril!
    Que triste foi o seu fado!
    Antes fosse p'ra soldado,
    Antes fosse p'ro Brazil…

    Menino e moço, tive uma Torre de leite,
    Torre sem par!
    Oliveiras que davam azeite,
    Searas que davam linho de fiar,
    Moinhos de velas, como latinas,
    Que S. Silvestre fazia andar…
    Formozas cabras, muito pequeninas,
    Loiras vaquinhas de maternas ancas
    Que me davam o leite de manhã,
    Lindo rebanho de ovelhinhas brancas;
    Meus bibes eram da sua lã…

    Antonio era o pastor d'esse rebanho:
    Com ellas ia para os montes, a pastar.
    E tinha pouco mais ou menos seu tamanho,
    E o pasto d'ellas era o meu jantar…
    E a serra a toalha, o covilhete e a sala.
    Passava a noite, passava o dia
    Com essas boas irmãzinhas
    A quem só mingoava a falla
    Para serem perfeitas criaturinhas…
    E quando na Igreja das _Alvas Saudades_
    Que era da minha Torre a freguezia,
    Batiam as _Trindades_,
    Com os seus olhos christianissimos olhavam-me,
    Eu persignava-me, rezava _Ave-Maria_…
    E as doces ovelhinhas imitavam-me.

    Menino e moço, tive uma Torre de leite,
    Torre sem par!
    Oliveiras que davam azeite…
    Um dia, os castellos cairam do Ar!

    As oliveiras seccaram,
    Morreram as vaccas, perdi as ovelhas,
    Sairam-me os ladrões, só me deixaram
    As velas do moinho… mas rôtas e velhas!

    Que triste fado!
    Antes fosse aleijadinho,
    Antes doido, antes cego…

    Ai do Luziada, coitado!

    Veio da terra, mail-o seu moinho:
    Lá, faziam-no andar as agoas do Mondego,
    Hoje, fazem-no andar agoas do Sena…
    É negra a sua farinha!
    Orae por elle! tende pena!
    Pobre Moleiro da Saudade…
    Ó minha
    Terra encantada, cheia de sol,
    Ó campanarios, ó luas cheias,
    Lavadeira que lavas o lençol,
    Ermidas, sinos das aldeias,
    Ó ceifeira que cegas cantando,
    Ó moleiro das estradas,
    Carros de bois, chiando…
    Flores dos campos, beiços de fadas,
    Poentes de Julho, poentes mineraes,
    Ó choupos, ó luar, ó regas de verão!

    Que é feito de vocês? Onde estaes, onde estaes?

    Ó padeirinhas a amassar o pão,
    Velhinhas na roca a fiar,
    Cabello todo em caracoes!
    Pescadores a pescar
    Com a linha cheia de anzoes!
    Zumbidos das vespas, ferrões das abelhas,
    Ó bandeiras! ó sol! foguetes! ó toirada!
    Ó boi negro entre as capas vermelhas!
    Ó pregões d'agoa fresca e limonada!
    Ó romaria do _Senhor do Viandante_!
    Procissões com muzica e anjinhos!
    Srs. Abbades d'Amarante,
    Com trez ninhadas de sobrinhos!

    Onde estaes? onde estaes?

    Ó minha capa de estudante, ás ventanias!
    Cidade triste agazalhada entre choupaes!
    Ó dobres dos poentes, ás _Ave-Marias_!
    Ó _Cabo do Mundo_! _Moreira da Maia_!
    Estrada de S. Thiago! Sete-Estrello!
    Cazas dos pobres que o luar, á noite, caia…
    Fortalezas de Lipp! ó fosso do _Castello_,
    Amortalhado em perrexil e trepadeiras,
    Onde se enroscam como espozos as lagartas!
    Sr. Governador a podar as rozeiras!
    Ó Bruxa do Padre, que botas as cartas!
    Joaquim da Thereza! Francisco da Hora!

    Que é feito de vós?
    Fallaveis aos barcos que andavam, _la fora_,
    Pelo porta-voz…
    Arrabalde, maritimo da França,
    Conta-me a historia da _Princeza Magalona_,
    E do _Senhor de Calais_,
    Mais o naufragio do vapor _Perseverança_,
    Cujos cadaveres ainda vejo á tona…
    Ó pharolim da _Barra_, lindo, de bandeiras,
    Para os vapores a fazer signaes!
    Verdes, vermelhas, azues, brancas, extrangeiras,
    Diccionario magnifico de cores!
    Alvas espumas, espumando a fragua,
    Ou rebentando, á noite, como flores!
    Ondas do mar! Serras da Estrella d'agoa,
    Cheias de brigues como pinhaes…
    Morenos mareantes, trigueiros pastores!

    Onde estaes, onde estaes?

    Convento d'agoas do mar, ó verde convento,
    Cuja Abbadessa secular é a Lua
    E cujo Padre-capellão é o Vento…
    Agoa salgada d'esses verdes poços,
    Que nenhum balde, por maior, escua!
    Ó mar jazigo de paquetes, de ossos,
    Que o Sul, ás vezes, arrola á praia:
    Olhos em pedra, que ainda chispam brilhos!

    Corpo de virgem, que ainda veste a saia…
    Braços de mães, ainda a apertar braços de filhos!
    Noiva cadaver ainda com véu…
    Ossadas ainda com os mesmos fatos!
    Cabeça roxa ainda de chapéu!
    Pés de defunto que ainda traz sapatos!
    Boquinha linda que já não canta…
    Boccas abertas que ainda soltam ais!
    Noivos em nupcias, ainda, aos beijos, abraçados!
    Corpo intacto, a boiar (talvez alguma santa…)
    Ó defuntos do mar! ó roxos arrolados!

    Onde estaes, onde estaes?

    Ó _Boa Nova_, ermida á beira-mar,
    Unica flor, n'essa viv'alma de areaes!
    Na cal, meu nome ainda lá deve estar,
    Á chuva, ao vento, aos vagalhões, aos raios!
    Ó altar da _Senhora_, coberto de luzes!
    Ó poentes da _Barra_, que fazem desmaios…
    Ó _Sant'Anna_, ao luar, cheia de cruzes!
    Ó logar de _Roldao_! villa de _Perafita_!
    Aldeia de _Gonsalves_! Mesticoza!
    Engenheiros, medindo a estrada com a fita…
    Agoa fresquinha d'_Amoroza_!
    Rebolos pela areia! Ó praia da _Memoria_!
    Onde o Sr. D. Pedro, _Rei-soldado_,
    Atracou, diz a Historia,
    No dia… não estou lembrado;

    Ó capellinha do _Senhor d'Areia_,
    Onde o Senhor appareceu a uma velhinha…
    Algas! farrapos do vestido da sereia!
    Lanchas da Povoa que ides á sardinha,
    Poveiros, que ides para as _vinte braças_,
    Sol-por, entre pinhaes…
    Capellas onde o sol faz mortes, nas vidraças!

    Onde estaes?

    2

    Georges! anda ver meu paiz de marinheiros,
    Traze o teu livro, toma as tuas notas:

    Oh as lanchas dos poveiros
    A sairem a barra, entre ondas e gaivotas!
    Que extranho é!
    Fincam o remo n'agoa, até que o remo torça,
    Á espera da maré,
    Que não tarda hi, avista-se lá fóra!
    E quando a onda vem, fincando-o a toda a força,
    Clamam todos á uma. «_Agôra_! _agôra_! _agôra_!»
    E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo
    (Ás vezes, sabe Deus, para não mais entrar…)
    Que vista admiravel! Que lindo! que lindo!
    Içam a vela, quando já têm mar,
    Dá-lhes o vento e todas, á porfia,
    Lá vão soberbas, sob um céu sem manchas,
    Rozario de velas, que o vento desfia,
    A rezar, a rezar a _Ladainha das Lanchas_:

    _S^{nra} Nagonia_!

    Olha, acolá!
    Que linda vae com seu erro de ortographia…
    Quem me dera ir lá!

    _Senhora Da guarda_!

    (Ao leme vàe o Mestre Zé da Leonor)
    Parece uma gaivota: aponta-lhe a espingarda
    O caçador!

    _Senhora d'ajuda_!
    _Ora pro nobis_!
    _Calluda_!
    _Sêmos probes_!
    _S^{enr} dos ramos_!
    _Istrella do mar_!
    _Ca bamos_!

    Parecem Nossa Senhora, a andar.

    _S^{ra} da luz_!

    Parece o pharol…

    _Maim de Jesus_!

    É tal qual ella, se lhe dá o sol!

    _S^r dos Passos_!
    _Sinhora da Ora_!

    Aguias a voar, pelo mar dentro dos espàços!
    Parecem ermidas caiadas por fóra…

    _S^{nr} dos Navegantes_!
    _Senhor de Matuzinhos_!

    Os mestres ainda são os mesmos d'antes:
    Lá vae o Bernardo da Silva do Mar,
    A mail-os quatro filhinhos,
    Vascos da Gama, que andam a ensaiar…

    _Senhora aos aflitos_!
    _Martyr Sao Sebastiao_!
    _Ouvi os nossos gritos_!
    _Deus nos leve pla mao_!
    _Bamos em paz_!

    Ó lanchas, Deus vos leve pela mão!
    Ide em paz!

    Ainda lá vejo o Zé da Clara, os Remelgados,
    O Jéques, o Pardal, na _Nam te perdes_,
    E das vagas, aos rythmos cadenciados,
    As lanchas vão traçando, á flor das agoas verdes:
    «As armas e os barões assignalados…»

    Lá sae a derradeira!
    Ainda agarra as que vão na dianteira…
    Como ella corre! com que força o vento a impelle:

    _Bamos com Deus_!

    Lanchas, ide com Deus! ide e voltae com elle
    Por esse mar de Christo…

    Adeus! adeus! adeus!

    3

    Georges! anda ver meu pàiz de romarias
    E procissões!

    Olha essas moças, olha estas Marias!
    Caramba! dá-lhes beliscões!
    Os corpos d'ellas, ve! são ourivezarias,
    Gula e luxuria dos Maneis!
    Têm nas orelhas grossas arrecadas,
    Nas mãos (com luvas) _trinta moedas_, em anneis,
    Ao pescoço serpentes de cordões,
    E sobre os seios entre cruzes, como espadas,
    Além dos seus, mais trinta _coraçoes_!
    Vá! Georges, faze-te Manel! viola ao peito,
    Toca a bailar!
    Dá-lhes beijos, aperta-as contra o peito,
    Que hão de gostar!

    Tira o chapéu, silencio!

    Passa a procissão.

    Estralejam foguetes e morteiros.
    Lá vem o Pallio e pegam ao cordão
    Honestos e morenos cavalheiros.
    Altos, tão altos e enfeitados, os andores,
    Parecem _Torres de David_, na amplidão!
    Que linda e aceiada vem a Senhora das Dores!
    Olha o mordomo, á frente, o Sr. Conde.
    Contempla! Que tristes os Nossos Senhores,
    Olhos leaes fitos no vago… não sei onde!

    Os anjinhos!
    Vêm a suar:
    Infantes de trez annos, coitadinhos!
    Mãos inviziveis levam-nos de rastros,
    Que elles mal sabem andar…

    Esta que passa é a _Noite_ cheia de astros!
    (Assim estava, em _certo dia_, na Judeia)
    Aquelle é o _Sol_! (Que bom o sol de olhos pintados!)
    E aquella outra é a _Lua-Cheia_!
    Seus doces olhos fazem luar…
    Essa, acolá, leva na mão os _Dados_,
    Mas perde tudo se vae jogar.
    E esta que passa, toda de arminhos,
    (Ve! d'entre o povo em extazi, olha-a a Mãe)…
    Leva, sorrindo a _Coroa dos Espinhos_,
    Flor de criança que os não tem.
    E que bonita vae a _Esponja de Fel_!
    Mal ella sabe, a innocentinha…
    Nas suas mãos a _Esponja_ deita mel:
    Abelhas d'oiro tomam-lhe a dianteira!
    Lá vem a _Lança_! A bainha
    Traz ainda o sangue da _Sexta-feira_…
    Jezus!
    Que maravilha de criança!
    O Leão morrera ainda outra vez, na cruz,
    Entre ladrões, a suar, lá no Calvario,
    Se fosse este anjo espicaçal-o com a lança…

    Passa o ultimo, o _Sudario_!
    O corpo de Jezus, Nosso Senhor…

    Parece o sol-por!
    E a procissão passa. Maré-cheia de povo!
    É o Oceano Atlantico!
    O bom povinho de fato novo,
    Nas violas de arame soluça, romantico,

    Fadinhos chorozos da su'alma beata.

    Trazem imagens da Funcção nos seus chapéus.

    Poeira opaca. Abafa-se. E, no céu ferro-e-oiro,
    O sol em gloria brilha olympico, e de prata,
    Como a velha cabeça aureolada de Deus!

    Trombetas clamam. Vae correr-se o toiro.
    Passam as chocas, boas mães! passam capinhas.

    Pregões. _Laranjas_! _Ricas cavaquinhas_!
    _Pão de ló de Margaride_!
    _Agoinha fresca da Moirama_!
    _Vinho verde a escorrer da vide_!

    Á porta d'um cazal, um tysico na cama,
    Olha tudo isto com seus olhos de Outro-mundo.
    E uma netinha com um ramo de loireiro
    Enxota as moscas, do moribundo…

    Dança de roda mail-as moças o coveiro.

    Clama um ceguinho:
    «Não ha maior desgraça n'esta vida,
    Que ser ceguinho!»
    Outro, moreno, mostra uma perna partida!
    Mas fede tanto, coitadinho…
    Este, sem braços, diz «que os deixou na pedreira…»
    E esse, acolá, todo o corpinho n'uma chaga,
    Labareda de cancros em fogueira,
    Que o sol atiça e que a gangrena apaga,
    Ó Georges, ve! que excepcional cravina…

    Que lindos cravos para por na botoeira!

    Tysicos! Doidos! Nus! Velhos a ler a sina!
    Etnas de carne! Jobs! Flores! Lazaros! Christos!
    Martyres! Cães! Dhalias de puz! Olhos fechados!
    Rheumaticos! Anões! Deliriuns-tremens! Kistos!
    Monstros, phenomenos, afflictos, aleijados,
    Talvez lá dentro com perfeitos corações:
    Todos, á uma, mugem roucas ladainhas,
    Tragicos, uivam «uma esmola p’las alminhas
    Das suas obrigações!»
    Pelo nariz corre-lhes puz, gangrena, ranho!
    E, coitadinhos! fedem tanto: é de arrazar…

    Qu'é dos pintores do meu paiz extranho?
    Onde estão elles que não vêm pintar!

    Pariz, 1890-1891.

    *Os Figos Pretos*

    –Verdes figueiras soluçantes nos caminhos!
    Vós sois odiadas desde os seculos avós:
    Em vossos galhos nunca as aves fazem ninhos,
    Os noivos fogem de se amar ao pé de vós!

    –Ó verdes figueiras! ó verdes figueiras
    Deixae-o fallar!
    Á vossa sombrinha, nas tardes fagueiras,
    Que bom que é amar!

    –O mundo odeia-vos. Ninguem nos quer, vos ama:
    Os paes transmittem pelo sangue esse odio aos moços.
    No sitio onde medraes, ha quazi sempre lama
    E debruçaes-vos sobre abysmos, sobre poços.

    –Quando eu for defunta para os esqueletos,
    Ponde uma ao meu lado:
    Tristinha, chorando, darà figos pretos…
    De luto pezado!

    –Os aldeões para evitar vosso perfume
    Sua respiração suspendem, ao passar…
    Com vossa lenha não se accende, á noite, o lume,
    Os carpinteiros não vos querem aplainar.

    –Oh cheiro de figos, melhor que o do incenso
    Que incensa o Senhor!
    Podesse eu, quem dera! deital-o no lenço
    Para o meu amor…

    –As outras arvores não são vossas amigas…
    Mãos espalmadas, estendidas, supplicantes,
    Com essas folhas, sois como velhas mendigas
    N'uma estrada, pedindo esmola aos caminhantes!

    –Mendigas de estrada! mendigas de estrada!
    E cheias de figos!
    Os ricos là passam e não vos dao nada,
    Vos daes aos mendigos…

    –Ai de ti! ai de ti! ó figueiral gemente!
    O goivo é mais feliz, todo amarello, lá.
    Ninguem te quer: tua madeira é unicamente
    Utilizada para as forcas, onde as ha…

    –Que màs creaturas! que injustas sois todas
    Que injustas que sois!
    Serà de figueira meu leito da bodas…
    E os berços, depois

    –Tragicas, nuas, esqueleticas, sem pelle,
    Por traz de vós, a lua é bem uma caveira!…
    Ó figos pretos, sois as lagrymas d'aquelle
    Que, em certo dia, se enforcou n'uma figueira!

    –Tambem era negro, de negro cegava
    O pranto, o rosario,
    Que, em certa tardinha, desfiava, desfiava,
    Alguem, no Calvario…

    –E, assim, ao ver no outomno uma figueira nua,
    Se os figos caem de maduros, pelo chão:
    Cuido que é a ossada do Traidor, á luz da lua,
    A chorar, a chorar sua alta traição!

    –Ó minhas figueiras! ó minhas figueiras
    Deixae-o fallar!
    Oh! vinde de hi ver-nos, a arder nas fogueiras
    Cantar e bailar…

    Coimbra, 1889.

    *Febre Vermelha*

    Rozas de vinho! Abri o calice avinhado!
    Para que em vosso seio o labio meu se atole:
    Beber até cair, bebedo, para o lado!
    Quero beber, beber até o ultimo gole!

    Rozas de sangue! Abri o vosso peito, abri-o!
    Montanhas alagae! deixae-as trasbordar!
    As ondas como o oceano, ou antes como um rio
    Levando na corrente Ophelias de luar…

    Camelias! Entreabri os labios de Eleonora!
    Desabrochae, á lua, a ancia dos vossos calis!
    Dá-me o teu genio, dá! ó tulipa de aurora!
    E dá-me o teu veneno, ó rubra digitalis…

    Papoilas! Descerrae essas boccas vermelhas!
    Apagae-me esta sede estonteadora e cruel:
    Ó favos rubros! os meus labios são abelhas,
    E eu ando a construir meu cortiço de mel…

    Rainunculos! Corae minhas faces-de-terra!
    Que seja sangue o leite e rubins as opalas!
    Tal se vêm pelo campo, em seguida a uma guerra,
    Tintos da mesma cor os corações e as balas!…

    Chagas de Christo! Abri as petalas chagadas!
    N'uma raiva de cor, n'uma erupção de luz!
    Escancarae a bocca, ás vermelhas rizadas,
    Cancros de Lazaro! Feridas de Jezus…

    Flores em braza! Orgaos da cor! Tirava
    Operas d'oiro, podesse eu, das vossas teclas.
    Volcões de Maio! ungi minha pelle de lava!
    Dae-me energia, audacia, ó pequeninos Heclas!

    Dae-me do vosso sangue, ó flores! entornae-o
    Nas veias do meu corpo estragado e sem cor:
    Que vida negra! Foi escripto, á luz do raio,
    O triste fado que me deu Nosso Senhor…

    Scismo já farto de velar minha alma doente,
    Não dura um mez siquer, minhas amigas, vede!
    Mas, mal vos vejo, então, pulo alegre e contente
    A uivar, como os leões quando os ataca a sede!

    Corto o estrellado céu, voo atravez do espaço,
    Cruzo o infinito e vou rolar aos pés de Deus,
    Como se accaso fosse, em catapultas de aço,
    Por um Titan de bronze atirado a esses céus!

    Amo o vermelho. Amo-te, ó hostia do sol-posto!
    Fascina-me o escarlate. Os meus tedios estanca:
    E apezar d'isso, ó cruel hysteria do Gosto,
    Certa flor da minh'alma é branca, branca, branca…

    Leça, 1886.

    *Poentes de França*

    –Ó sol! ó sol! ó sol! poente de vinho velho!
    Enche meu copo de S. Graal (deu-m'o a ballada…)
    Ó sol de Normandia! Occidente vermelho,
    Tal o circo andaluz depois d'uma toirada!

    –Vos sois extrangeiros, vos sois extrangeiros,
    Ó poentes de França! não vos amo, não!

    –Ó sol, cautella! já a noite se avizinha
    O Padre-Oceano vae, em breve, commungar:
    Ó hostia vesperal de vermelha farinha,
    Que o bom Moleiro móe, no seu moinho do Ar!

    Ó sol, às _Trindades_, atraz dos pinheiros,
    Á hora em que passam branquinhos moleiros,
    Levando farinha p'ra cozer o pão!

    –Ó forca do sol-por! ó Inferno de Dante!
    Açougue d'astros! ó sabbat de feiticeiras!
    Ó sol ensanguentado! ó cabeça fallante,
    Que o funambulo Poente anda a mostrar nas feiras!

    –Que paz pelo mundo, n'essa hora ditoza!
    Ó poentes de França! não vos amo, não!

    –_Arco da Velha_, a rir rizos de sete cores!
    Ó lua na ascenção! ó sol! ó sol! ó sol!
    Cabeça de Iskariote, entre aguias e condores!
    Ó cabeça de Christo, impressa no lençol!

    Que paz pelo mundo, n'essa hora saudoza
    Quando fecha a lojinha a Sra. Roza,
    Quando vem das sachas o Sr. Joao…

    –Ó sol! ó sol! Titan d'este bloco da Terra!
    Ó sol em sangue que ainda pula e arde e scintilla:
    Ó bala de canhão, tu vens d'alguma guerra:
    Varaste os corações d'um exercito em fila!

    –Ó hora em que as agoas rebentam das minas…
    Ó poentes de França! não vos amo, não!

    –Ó poente verde-mar! ó por-de-sol de azeite!
    Ó longes de trovoada! ó céu dos ventos sues!
    Vacca do Ar, a mugir crepusculos de leite
    E roxos e cardeaes e amarellos e azues!

    –Ó hora em que passam moças e meninas
    Que, em tardes de Maio, vão às _Ursulinas_,
    Com rozas nos seios e um livro na mão…

    –Ó sol! ó sol! Tragico, afflicto, doido, venho
    A tua saude erguer a minha taça ardente!
    Meus grandes olhos são dois bebedos, e tenho
    Dlirium-tremens já, Sir Falstaff do Poente!

    –Eu amo os poentes, mas sem agonias,
    Ó poentes de França! não vos amo, não!

    –Adeus, ó sol! chegou a Noite na fragata,
    A tua porta os marinheiros vão bater:
    Lá vejo os astros por seus calices de prata,
    Na _Taverna do Occaso_, a beber, a beber…

    Ó céus phtysicos, cuspindo em bacias!
    Ó céus como escarros, às _Ave-Marias_!
    Ó poentes de França! não vos amo, não!

    Pariz, 1891.

    *Pobre Tysica*!

    Quando ella passa á minha porta,
    Magra, livida, quazi morta,
    E vae até á beira-mar,
    Labios brancos, olhos pizados:
    Meu coração dobra a finados,
    Meu coração poe-se a chorar…

    Perpassa leve como a folha,
    E suspirando, ás vezes, olha
    Para as gaivotas, para o Ar:
    E, assim, as suas pupillas negras
    Parecem duas toutinegras,
    Tentando as azas para voar!

    Veste um habito cor de leite,
    Saiinha liza, sem enfeite,
    Boina maruja, toda luar:
    Por isso, mal na praia alveja,
    As mais suspiram com inveja:
    «Noiva feliz, que vaes cazar…»

    Triste, acompanha-a um _Terra-Nova_
    Que, dentro em pouco, á fria cova
    A irá de vez acompanhar…
    O chão desnuda com cautella,
    Que _Boy_ conhece o estado d'ella:
    Quando ella tosse, poe-se a uivar!

    E, assim, sósinha com a aia,
    Ao sol, se assenta sobre a praia,
    Entre os bébés, que é o seu logar…
    E o Oceano, tremulo avôzinho,
    Cofiando as barbas cor de linho,
    Vem ter com ella a conversar…

    Fallam de sonhos, de anjos, e elle
    Falla d'amor, falla d'aquelle
    Que tanto e tanto a faz penar…
    E o coração parte-se todo,
    Quando a sorrir, com tão bom modo,
    O Mar lhe diz: «Ha-de sarar…»

    Sarar? Mizerrima esperança!
    Padres! ungi essa criança,
    Podeis sua alma encommendar:
    Corpinho d'anjo, casto e inerme,
    Vae ser amada pelo Verme:
    O bichos vão-na desfructar…

    Sarar? Da cor dos alvos linhos,
    Parecem fuzos seus dedinhos,
    Seu corpo é roca de fiar…
    E, ao ouvir-lhe a tosse secca e fina,
    Eu julgo ouvir n'uma officina
    Taboas do seu caixão pregar!

    Sarar? Magrita como o junco,
    O seu nariz (que é grego e adunco)
    Começa aos poucos de afilar,
    Seus olhos lançam igneas chammas…
    Ó pobre mãe, que tanto a amas,
    Cautella! O outomno está a chegar…

    Leça, 1889.

    *A Poezia do Outomno*

    Noitinha. O sol, qual brigue em chammas, morre
    Nos longes d'agoa… Ó tardes de novena!
    Tardes de sonho em que a poezia escorre
    E os bardos, a sonhar, molham a penna!

    Ao longe, os rios de agoas prateadas
    Por entre os verdes cannaviaes, esguios,
    São como estradas liquidas, e as estradas
    Ao luar, parecem verdadeiros rios!

    Os choupos nus, tremendo, arripiadinhos,
    O chale pedem a quem vae passando…
    E nos seus leitos nupciaes, os ninhos,
    As lavandiscas noivam piando, piando!

    O orvalho cae do céu, como um unguento.
    Abrem as boccas, aparando-o, os goivos…
    E a larangeira, aos repellões do vento,
    Deixa cair por terra a flor dos noivos.

    E o orvalho cae… E, á falta d'agoa, rega
    O val sem fruto, a terra arida e nua!
    E o Padre-Oceano, lá de longe, prega
    O seu Sermão de Lagrymas, á Lua!

    Tardes de outomno! ó tardes de novena!
    Outubro! Mez de Maio, na lareira!
    Tardes…
    Lá vem a Lua, _gratiae plena_,
    Do convento dos céus, a eterna freira!

    Porto, 1886.

    S.^{ta} Iria

    N'um rio virginal d'agoas claras e mansas,
    Pequenino baixel, a santa vae boiando…
    Pouco e pouco, dilue-se o oiro das suas tranças
    E, diluido, ve-se as agoas aloirando.

    Circumda-a um resplendor, a luzir esperanças,
    Unge-lhe a fronte o luar, avelludado e brando,
    E, com a graça etherea e meiga das crianças,
    Formosa Iria vae boiando, vae boiando…

    Á lua, cantam as aldeãs de _Riba-Joia_,
    E, ao verem-na passar, phantastica barquinha,
    Exclamam todas: «Olha um marmore que aboia!»

    Ella entra, emfim, no Oceano… E escuta-se, ao luar,
    A mãe do pescador, rezando a ladainha
    Pelos que andam, Senhor! sobre as agoas do mar…

    Leça, 1885.

    *Enterro de Ophelia*

    Morreu, Vae a dormir, vae a sonhar… Deixal-a!
    (Fallae baixinho: agora mesmo se ficou…)
    Como padres orando, os choupos formam ala,
    Nas margens do ribeiro onde ella se afogou…

    Toda de branco vae, n'esse habito de opala,
    Para um convento: não o que o Hamlet lhe indicou,
    Mas para um outro, horror! que tem por nome _Valla_,
    D'onde jamais saiu quem, lá, uma vez entrou!…

    O lindo Por-do-Sol, que era doido por ella,
    Que a perseguia sempre, em palacio e na rua,
    Vede-o, coitado! mal pode suster a vela…

    Como damas de honor, nymphas seguem-lhe os rastros,
    E, assomando no céu, sua Madrinha, a Lua,
    Por ella vae desfiando as suas contas, Astros!

    Leça, 1888.

    *Ballada do Caixão*

    O meu vizinho é carpinteiro,
    Algibebe de Dona Morte:
    Ponteia e coze, o dia inteiro,
    Fatos de pau de toda a sorte:
    Mogno, debruados de velludo
    Flandres gentil, pinho do Norte…
    Ora eu que trago um sobretudo
    Que já me vae a aborrecer,
    Fui-me lá, hontem: (era Entrudo,
    Havia immenso que fazer!…)
    –Olá, bom homem! quero um fato,
    Tem que me sirva?–Vamos ver…
    Olhou, mexeu na caza toda…
    –Eis aqui um e bem barato.

    –Está na moda?–Está na moda.
    (Gostei e nem quiz apreçal-o:
    Muito justinho, pouca roda…)
    –Quando posso mandar buscal-o?
    –Ao por-do-sol. Vou dal-o a ferro:
    (Poz-se o bom homem a aplainal-o…)

    Ó meus amigos! salvo-erro,
    Juro-o pela alma, pelo céu!
    Nenhum de vós, ao meu enterro,
    Irá mais dandy, olhae! do que eu!

    Pariz, 1891.

    *Á Toa*

    O Primeiro Homem

    Que lindo mundo! E eu só! Que tortura tamanha!
    Ninguem! Meu pae é o céu. Minha mãe é a montanha.

    A Montanha

    Os meus cabellos são os pinheiraes sombrios
    E veias do meu corpo os azulados rios.

    Os Rios

    Nós somos o suor que o Estio asperge e sua,
    Nós somos, em Janeiro, a agoa-benta da Lua!

    A Lua

    Eu sou a bala, no Ar detida, d'essa guerra
    Que teve contra Deus, em seu principio, a Terra…

    A Terra

    E eu uma das maçãs, entre outras a primeira,
    Que certo Virgem viu cair d'uma macieira!

    A Macieira

    Tantas ainda por cair! Vinde colhel-as!
    Abanae a macieira e cairão estrellas!

    A Estrellas

    No mar, á noite, reflectimo-nos, a olhar,
    E formamos, assim, as _Estrellas-do-mar_…

    O Mar

    Sou padre. São d'agoa meus Santos-Evangelhos:
    Accendei meu altar, relampagos vermelhos!

    Os Relampagos

    Nós somos (o contrario, embora, seja escripto)
    Os fogos-tátuos d'esta cova do Infinito…

    O Infinito

    Sou o mar sem borrasca, onde emfim se descança.
    Aqui, vem desagoar o rio da Esperança…

    A Esperança

    Morri, irmãos! mas lá ficaram minhas vestes,
    No vosso mundo: dei-as dadas aos cyprestes.

    Os Cyprestes

    Para apontar os céus, como dedos funereos,
    Plantaram-nos no pó dos mudos cemiterios…

    Os Cemiterios

    Porão, beliches, tudo cheio!… Os céus absortos!
    Não cabe em Josaphat esta leva de mortos!

    Os Mortos

    Seculos tombam uns sobre outros, como blocos,
    E nós dormindo sempre, eternos dorminhocos!

    Porto, 1885.

    *A Vida*

    Ó grandes olhos outomnaes! mysticas luzes!
    Mais tristes do que o amor, solemnes como as cruzes!
    Ó olhos pretos! olhos pretos! olhos cor
    Da capa d'Hamlet, das gangrenas do Senhor!
    Ó olhos negros como noites, como poços!
    Ó fontes de luar, n'um corpo todo ossos!
    Ó puros como o céu! ó tristes como levas
    De degredados!

    Ó Quarta-feira de Trevas!

    Vossa luz é maior, que a de trez luas-cheias:
    Sois vós que allumiaes os prezos, nas cadeias,
    Ó velas do perdão! candeias da desgraça!
    Ó grandes olhos outomnaes, cheios de Graça!
    Olhos accezos como altares de novena!
    Olhos de genio, aonde o Bardo molha a penna!
    Ó carvões que accendeis o lume das velhinhas,
    Lume dos que no mar andam botando as linhas…
    Ó pharolim da barra a guiar os navegantes!
    Ó pyrilampos a allumiar os caminhantes,
    Mais os que vão na diligencia pela serra!
    Ó Extrema-Uncção final dos que se vão da Terra!
    Ó janellas de treva, abertas no teu rosto!
    Thuribulos de luar! Luas-cheias d'Agosto!
    Luas d'Estio! Luas negras de velludo!
    Ó luas negras, cujo luar é tudo, tudo
    Quanto ha de branco: véus de noivas, cal
    Da ermida, velas do hiate, sol de Portugal,
    Linho de fiar, leite de nossas mães, mãos juntas
    Que têm erguidas entre cyrios, as defuntas!
    Consoladores dos Afílictos! Ó olhos, Portas
    Do Céu! Ó olhos sem bulir como agoas-mortas!
    Olhos ophelicos! Dois soes, que dão sombrinha…
    Que são em preto os _Olhos Verdes_ de Joanninha…
    Olhos tranquillos e serenos como pias!
    Olhos Christãos a orar, a orar _Ave Marias
    Cheias de Luz_! Olhos sem par e sem irmãos,
    Aos quaes estendo, toda a hora, as frias mâos!
    Estrellas do pastor! Olhos silenciozos,
    E milagrozos, e misericordiozos,
    Com os teus olhos nunca ha noites sem luar,
    Mesmo no inverno, com chuva e a relampejar!
    Olhos negros! vós sois duas noites fechadas,
    Ó olhos negros! como o céu das trovoadas…

    Mas dize, meu amor! ó Dona de olhos taes!
    De que te serve ter uns astros sem eguaes?
    Olha em redor, poiza os teus olhos! O que ves?
    O mar a uivar! A espuma verde das marés!
    Escarros! A traição, o odio, a agonia, a inveja!
    Toda uma cathedral de lutas, uma igreja
    A arder entre clarões de coleras! O orgulho
    Insupportavel tal o meu, e o sol de Julho!
    Jezus! Jezus! quantos doentinhos sem botica!
    Quantos lares sem lume e quanta gente rica!
    Quantos reis em palacio e quanta alma sem ferias!
    Quantas torturas! Quantas Londres de mizerias!
    Quanta injustiça! quanta dor! quantas desgraças!
    Quantos suores sem proveito! quantas taças
    A trasbordar veneno em espumantes boccas!
    Quantos martyrios, ai! quantas cabeças loucas,
    N'este macomio do Planeta! E as orfandades!
    E os vapores no mar, doidos, ás tempestades!
    E os defuntos, meu Deus! que o vento traz á praia!
    E aquella que não sae por ter uzada a saia!
    E os que sossobram entre a vaidade e o dever!
    E os que têm, amanhã, uma lettra a vencer!
    Olha essa procissão que passa: um torturado
    De Infinito! Um rapaz que ama sem ser amado,
    E para ser feliz fez todos os esforços…
    Olha as insomnias d'uma noite de remorsos,
    Como dez annos de prizão maior-cellular!
    Olha esse tysico a tossir, á beira-mar…
    Olha o bébé que teve Torre de coral
    De lindas illuzões, mas que uma aguia, afinal,
    Devorou, pois, ao vel-a ao longe, avermelhada,
    Cuidou, ingenua! que era carne ensanguentada!
    Quantos são, hoje? Horror! A lembrança das datas…
    Olha essas rugas que têm certos diplomatas!
    Olha esse olhar que têm os homens da politica!
    Olha um artista a ler, soluçando, uma critica…
    Olha esse que não tem talento e o julga ter
    E aquelle outro que o tem… mas não sabe escrever!
    Olha, acolá, a Estupidez! Olha a Vaidade!
    Olha os Afflictos! A Mentira na Verdade!
    Olha um filho a espancar o pae que tem cem annos!
    Olha um moço a chorar seus crueis desenganos!
    Olha o nome de Deus, cuspido n'um jornal!
    Olha aquelle que habita uma Torre de sal,
    Muros e andaimes feitos, não de ondas coalhadas,
    Mas de outras que chorou, de lagrymas salgadas!
    Olha um velhinho a carregar com a farinha
    E o filho no arraial, jogando a vermelhinha!
    Olha a sair a barra a galera _Gentil_
    E a Anna a chorar p'lo João que parte p'ro Brazil!
    Olha, acolá, no caes uma outra como chora:
    É o marido, um ladrão, que vae «p'la barra fóra!»
    Olha esta noiva amortalhada, n'um caixão…

    Jezus! Jezus! Jezus! o que hi vae de afflicção!

    Ó meu amor! é para ver tantos abrolhos,
    Ó flor sem elles! que tu tens tão lindos olhos!
    Ah! foi para isto que te deu leite a tua ama,
    Foi para ver, coitada! essa bola de lama
    Que pelo espaço vae, leve como a andorinha,
    A Terra!

    Ó meu amor! antes fosses ceguinha…

    Pariz, 1891.

    *O Somno de João*

    O João dorme… (Ó Maria,
    Dize áquella cotovia
    Que falle mais devagar:
    Não vá o João, acordar…)

    Tem só um palmo de altura
    E nem meio de largura:
    Para o amigo orangotango
    O João seria… um morango!
    Podia engulil-o um leão
    Quando nasce! As pombas são
    Um poucochinho maiores…
    Mas os astros são menores!

    O João dorme… Que regalo!
    Deixal-o dormir, deixal-o!
    Callae-vos, agoas do moinho!
    Ó mar! falla mais baixinho…
    E tu, Mãe! e tu, Maria!
    Pede áquella cotovia
    Que falle mais devagar:
    Não vá o João, acordar…

    O João dorme… Innocente!
    Dorme, dorme eternamente,
    Teu calmo somno profundo!
    Não acordes para o mundo,
    Póde affogar-te a maré:
    Tu mal sabes o que isto é…

    Ó Mae! canta-lhe a canção,
    Os versos do teu irmão:
    «Na Vida que a Dor povoa,
    Ha só uma coisa boa,
    Que é dormir, dormir, dormir…
    Tudo vae sem se sentir.»

    Deixa-o dormir, até ser
    Um velhinho… até morrer!

    E tu vel-o-ás crescendo
    A teu lado (estou-o vendo
    João! Que rapaz tão lindo!)
    Mas sempre, sempre dormindo…

    Depois, um dia virá
    Que (dormindo) passará
    Do berço, onde agora dorme,
    Para outro, grande, enorme:
    E as pombas que eram maiores
    Que João… ficarão menores!

    Mas para isso, ó Maria!
    Dize áquella cotovia
    Que falle mais devagar:
    Não vá o João, acordar…

    E os annos irão passando.

    Depois, já velhinho, quando
    (Serás velhinha tambem)
    Perder a cor que, hoje, tem,
    Perder as cores vermelhas
    E for cheiinho de engelhas:
    Morrerá sem o sentir,
    Isto é deixa de dormir…
    Acorda e regressa ao seio
    De Deus, que é d'onde elle veio…

    Mas para isso, ó Maria!
    Pede áquella cotovia
    Que falle mais davagar:

    Não vá o João, acordar…

    Pariz, 1891.

    *Ao Canto do Lume*

    Novembro. Só! Meu Deus, que insupportavel mundo!
    Ninguem, viv'alma… O que farão os mais?
    Senhor! a Vida não é um rapido segundo:
    Que longas horas estas horas! Que profundo
    Spleen o d'estas noites immortaes!

    Faz tanto frio. (Só de a ver me gela, a cama…)
    Que frio! Olá, Joseph! bota mais carvão!
    E quando todo se extinguir na aurea chamma,
    Eu botarei (para que serve? já não ama…)
    As cinzas brancas, meu vermelho coração!

    Lá fóra o vento como um gato bufa e mia…
    Ó pescadores, vae tão bravo o mar!
    Cautella… Orçae! Largae a escota! _Ave Maria!
    Cheia de Graça_… Horror! Mortos! E a agoa tão fria!…
    Que triste ver defuntos a boiar!

    Spleen! Que hei-de eu fazer? Dormir, não tenho somno,
    Leva-me a carne a Dor, desgasta-me o perfil.
    Nada ha peior que este somnambulo abandono!
    Ó meus Castellos-em-Hespanha! Ó meu outomno
    D'alma! Ó meu cair-das-folhas, em Abril!

    A Vida! Horror! Ó vós que estaes no ultimo alento!
    Que felizes, sois prestes a partir!
    Ó Morte, quero entrar no teu Recolhimento!…
    Oiço bater. Quem é? Ninguem: um rato… o vento…
    Coitado! é o Georges, tysico, a tossir…

    Mez de Novembro! Mez dos tysicos! Suando
    Quantos, a esta hora, não se estorcem a morrer!
    Ve-se os padres as mãos, contentes, esfregando…
    Mez em que a cera dá mais e a botica, e quando
    Os carpinteiros têm mais obra p'ra fazer…

    Oiço um apito. O trem que se vae… Engatar-te
    Quem me dera o wagon dos sonhos meus!
    Lá passa, ao longe. Adeus! Quizera accompanhar-te…
    –Boa viagem! Feliz de quem vae, de quem parte!
    Coitado de quem fica… Adeus! adeus!

    Viajar? Illuzão. Todo o planeta é zero.
    Por toda a parte é vil o homem e bom o céu.
    –Americas! Japão! Indias! Calvario!… Quero
    Mas é ir, á Ilha, orar sobre a cova do Anthero
    E a Agueda beber agoa do Botareu…

    Vi a Ilha loira, o Mar! Pizei terras de Hespanha,
    Paizes raros, Neves, Areiaes;
    Cantando, ao luar, errei nas ruas da Allemanha,
    Armei na França minha tenda de campanha…
    E tedio, tedio, tedio e nada mais!

    Que hei-de eu fazer? Callae essas canções immundas,
    Cervejarias do Quartier! Rezae, rezae!
    Paysagem, onde estás? Ó luar, agoas profundas!
    Ó choupos, á tardinha, altivos, mas corcundas,
    Tal como aspirações irrealizaveis, ai!

    Não me tortura mais a Dor. Sou feliz. Creio
    Em Deus, n'uma outra vida, além do Ar.
    Meus livros dei-os, meu Philosopho queimei-o:
    Agora, trago uma medalha sobre o seio
    Com a qual fallo, ás noites, ao deitar.

    Espiritos! em vão, debalde por vós clamo:
    Porque me abandonaes? Ó almas, vinde a mim!
    As vezes, vindes consolar-me e não vos chamo,
    E, hoje, não… Porque? Traço o parallelogrammo,
    Extingo o lume, apago a luz: nem mesmo assim!

    Ó almas do Outro-mundo! a minha alma anceia
    Pelo luar da lua de Canaan:
    Quero passar o _além_ que para além se alteia,
    A nação de que a Terra é uma pequena aldeia
    E um logarejo a Estrella da Manhã!

    (E a chuva cae…) Meu Deus! Que insupportavel mundo!
    Viv'alma! (O vento geme…) O que farão os mais?
    Senhor! A Vida não é um rapido segundo:
    Que longas horas estas horas! Que profundo
    Spleen mortal o d'estas noites immortaes!

    Pariz, 1890-1891.

    *A Sombra*

    Não tarda a sombra, ahi. Vae alto o Sete-Estrello
    São horas d'ella vir. Minha alma, attende!
    Que já a lua, a sentinella, rende
    Na esplanada do céu, ás portas do Castello…

    Oiço um rumor: talvez… Eil-a, é ella: ao longe, avisto
    Seu vulto em flor: postas as mãos no seio,
    Com o cabello separado ao meio,
    Todo caido para traz, como o de Christo!

    Sorri. Que linda vem, Jezus! Que bem vestida!
    Quantas lembranças d'este peito arranco!
    Foi assim, que primeiro a vi, de branco,
    Foi n'esse traje que ella sempre andou, em vida!

    Que luz projecta! Que explendor! Parece dia!
    Os gallos cantam, annunciando a aurora!…
    Ide deitar-vos que ainda não é a hora,
    Dorme o teu somno, socegada, ó cotovia!

    Mas vós, ó pedras, affastae-vos, que ella passa!
    Silencio, rouxinoes, eu quero ouvil-a…
    Terá ainda a mesma voz tranquilla?
    Ah! ainda é o mesmo o seu andar, cheio de Graça…

    Mas ao passar por mim, como d'algum perigo,
    Foge. (Talvez, já seja tarde…) Ó Clara!
    Nuvem! Phantasma! Ouve-me! Pára!…
    E oiço a voz d'ella n'um murmurio:
    «Anda commigo…»

    Coimbra, 1888.

    *O Meu Cachimbo*

    Ó meu cachimbo! Amo-te immenso!
    Tu, meu thuribudo sagrado!
    Com que, bom Abbade, incenso
    A Abbadia do meu passado.

    Fumo? E occorre-me á lembrança
    Todo esse tempo que lá vae,
    Quando fumava, ainda criança,
    Ás escondidas do meu Pae.

    Vejo passar a minha vida,
    Como n'um grande cosmorama:
    Homem feito, pallida Ermida,
    Infante, pela mão da ama…

    Por alta noite, ás horas mortas,
    Quando não se ouve pio, ou voz,
    Fecho os meus livros, fecho as portas
    Para fallar comtigo a sós.

    E a noite perde-se em cavaco,
    Na Torre d'Anto, aonde eu moro!
    Alli, mettido no buraco,
    Fumo e, a fumar, ás vezes… choro.

    Chorando (penso e não o digo)
    Os olhos fitos neste chão,
    Que tu és leal, és meu amigo…
    Os meus amigos onde estão?

    Não sei. Tral-os-á o «nevoeiro»…
    Os trez, os intimos, _Aquelles_,
    Estão na Morte, no extrangeiro…
    Dos mais não sei, perdi-me d'elles.

    Morreram-me uns. Por elles peço
    A Deus, quando está de maré:
    E, ás noites, quando eu adormeço,
    Phantasmas, vêm, pé ante pé…

    Tristes, nostalgicos da cova,
    Entram. Sorrio-lhes e fallo…
    Deixam-se estar na minha alcova,
    Até se ouvir cantar o gallo…

    Outros, por esses cinco oceanos,
    Por esse mundo erram, talvez…
    Não me escreveis, ha tantos annos!
    Que será feito de vocês?

    Hoje, delicias do abandono!
    Vivo na paz, vivo no limbo:
    Os meus amigos são o Outomno,
    O Mar e tu, ó meu Cachimbo!

    Ah! quando for do meu enterro,
    Quando eu partir gelado, emfim,
    No meu caixão de mogno e ferro,
    Quero que vás ao pé de mim.

    Santa mulher que me tratares,
    Quando em teus braços desfalleça,
    Caso meus olhos não cerrares,
    Embora! Que isto não te esqueça:

    Colloca, sob a travesseira,
    O meu cachimbo singular
    E enche-o, sollicita enfermeira,
    Com _Gold-Fly_, para eu fumar…

    Como passar a noite, amigo!
    No _Hotel da Cova_ sem conforto?
    Assim, levando-te commigo,
    Esquecer-me-ei de que estou morto…

    Coimbra, 1889.

    *Ca (ro) Da (ta) Ver (mibus)*

    Memoria
    A J. d'Oliveira Macedo,
    Eduardo Coimbra, Antonio Fogaça.

    Ás horas do crepusculo, ao _Bemdito_,
    Quando a formoza Lua, a leiteirinha,
    Vae dar o leite ás cazas do Infinito…

    Ás horas das _Trindades_, á noitinha,
    Quando ha milagres e sublimes couzas
    E caza o rouxinol com a andorinha…

    Quando a alma das virgens religiozas,
    Triste se envolve n'um burel de magoa
    E os anjos noivam mail-as suas Rozas…

    Quando o luar azula a espuma, a fragua,
    E o céu sem fim, a abbobada estrellada,
    Como que tem os olhos razos de agoa…

    N'essa hora indeciza, augustiada,
    Em que o universo está, meio ás escuras,
    Que não se sabe se é antes a alvorada:

    Eu pude ver, erguendo-se ás alturas,
    Essa radioza lagryma de pranto
    Que despedem, morrendo, as criaturas.

    E ao vir da noite, livido de espanto,
    Vi uma estrella a mais no azul do céu:
    É que um poeta, um justo, um bom, um santo,

    Ás horas do crepusculo… morreu!
    O simples coração de Julieta
    Dentro da alma clara de Romeu!

    Uma criação de Deus, mas incompleta:
    Aguia, encerrando um coração de pomba,
    Cedro que dava folhas de violeta!

    Ah, quando vejo alguma flor que tomba
    Meu coração estorce-se de dor,
    De Deus minha alma inconsolavel zomba!

    Um lyrio branco, o seu primeiro amor,
    Aos ventos, aos relampagos, ficou
    N'este Valle de Lagrymas, Senhor!

    Quem lhe dera a mortalha que levou
    Toda coberta do cabello loiro
    Da mystica menina que elle amou!

    Vede-a, acolá, chorando o seu thesoiro,
    Na janella que deita para o mar,
    Soltas ao vento as suas tranças de oiro!

    Ó Via-Lactea, ó Sete-Estrello, ó Luar,
    Ó Lua, noiva da esverdeada fera,
    Deixae do céu a vossa luz tombar!

    Ó aves, que trazeis a primavera,
    Para cobrir o solitario ninho,
    Ide buscar á sua campa a hera!

    Ó pombas de luar, pombas de linho,
    Que ides tão alto, divagando errantes,
    Quazi mortas, perdidas no caminho:

    Do vento sobre as azas triumphantes
    Prendei a aza e, assim, acompanhae
    O scismador que vos cantava d'antes!

    Elle precorre victoriozo, olhae!
    Entre espumas de brancas andorinhas
    O Novo-Mundo, e que ligeiro vae!

    Dizem-lhe adeus da terra as criancinhas,
    Co'as tranças a acenar, mandam-lhe abraços
    E beijos com as pallidas mãozinhas…

    Mas elle vae boiando nos espaços,
    Sendo o seu corpo uma subtil galera
    Com leves remos de marfim, seus braços…

    Onde vae elle? a que ditoza esphera
    Velhinha Morte a sua alma guia?…
    Que vida immensa, lá no céu, o espera!

    Para ganhar o pão de cada dia
    Cuidará da lavoira, mais das flores,
    Lavrando as terras da Virgem Maria!

    Longe dos vis, dos maus, dos peccadores,
    N'uma herdade do céu, entre charruas,
    A cavar entre simples lavradores,

    Semeando estrellas e plantando luas…
    E ainda o choram, que feliz desgosto!
    O vento passa a uivar por essas ruas…

    E um oleo algente, excepcional composto,
    Tomba do Ar: é a Extrema-Uncção da Morte
    Que lhe alvorece as mãos e lhe unge o rosto.

    E choraes! Quem vos dera a sua sorte!
    Porque é que vós carpis, agoas da fonte?
    Não chores mais estrella azul do Norte!

    Dobram-se ao vento os cannaviaes do monte,
    E, como a juba d'um leao hirsuto,
    O cedro curva, em tempestade, a fronte;

    Os pallidos jasmins vestem de luto…
    Comtudo o Morto fixa, inconsciente,
    O vivo olhar sem lagrymas, enxuto.

    Formozo, branco, meigo, sorridente,
    Com esses olhos que parecem soes,
    Vaes repoizar na cova, eternamente.

    O teu genio legaste-o aos rouxinoes.
    E allumia-te a bocca de criança,
    O sorrizo dos virgens, dos heroes!

    E o corpo teu na cova, essa esperança
    Eterna como os seculos e as flores,
    Entre verduras, afinal, descança…

    Ah, nem tigres, nem aguias, nem condores,
    Abrem as campas, lugubres cavernas:
    O coveiro é o melhor dos constructores!
    Covas que elle abra são cazas eternas.

    Leça, 1885.

    *Quando Chegar a Hora*

    Quando eu, feliz! morrer, oiça, Sr. Abbade,
    Oiça isto que lhe peço:
    Mande-me abrir, alli, uma cova á vontade,
    Olhe: eu mesmo lh'a meço…

    O coveiro é podão, fal-as sempre tão baixas…
    O cão pode lá ir:
    Diga ao moço, que tem a pratica das sachas,
    Que m'a venha elle abrir.

    E o sineiro que, em vez de dobrar a finados,
    Que toque a Alléluia!
    Não me diga orações, que eu não tenho peccados:
    A minha alma é dia!

    Será meu confessor o vento, e a luz do raio
    A minha Extrema-Uncção!
    E as carvalhas (chorae o poeta, encommendae-o!)
    De padres farão.

    Mas as aguias, um dia, em bando como astros,
    Virão devagarinho,
    E hão-de exhumar-me o corpo e leval-o-ão de rastros,
    Em tiras, para o ninho!

    E ha-de ser um deboche, um pagode, o demonio,
    N'aquelle dia, ai!
    Aguias! sugae o sangue a vosso filho Antonio,
    Sugae! sugae! sugae!

    Raro têm de comer. A pobreza consome
    As aguias, coitadinhas!
    Ao menos, n'esse dia, eu matarei a fome
    A essas desgraçadinhas…

    De que serve, Sr. Abbade! o nosso pacto:
    Não me lembrei, não vi
    Que tinha feito com as aguias um contrato,
    No dia em que nasci.

    Seixo, 1886.

    *Certa Velhinha*

    1

    Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    Que triste velhinha que vae a passar!
    Não leva candeia; hoje, o céu não tem luzes…
    Cautella, velhinha, não vás tropeçar!

    Os ventos entoam cantigas funestas,
    Relampagos tingem de vermelho o Azul!
    Aonde irá ella, n'uma noite d'estas,
    Com vento da _Barra_ puxado do sul?

    Aonde irá ella, pastores! boieiras!
    Aonde irá ella, n'uma noite assim?
    Se for un phantasma, fazei-lhe fogueiras,
    Se for uma bruxa, queimae-lhe alecrim!

    Contava-me aquella que a tumba já cerra,
    Que Nossa Senhora, quando a chama alguem,
    Escolhe estas noites p'ra descer á Terra,
    Porque em noites d'estas não anda ninguem…

    Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    Que linda velhinha que vem a passar!
    E que olhos aquelles que parecem luzes!
    Quaes velas accezas que a vêm a guiar…

    Que pobre capinha que leva de rastros,
    Tão velha, tão rôta! Que triste viuvez!
    Mas se lhe dá vento, meu Deus! tantos astros!
    É o céu estrellado vestido do envez…

    Seu alvo cabello, molhado das chuvas,
    Parece uma vinha de luar em flor…
    Oh cabello em cachos, como cachos de uvas!
    So no céu ha uvas com aquella cor…

    A luz dos seus olhos é uma luz tamanha
    Que ao redor espalha divino clarão!
    Parece que chove luar na montanha…
    Que noite de inverno que parece verão!

    Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    Velhinha tão alta que vem a chegar!
    Parece uma Torre côada de luzes!
    Ou antes a _Torre de Marfim_, a andar!

    Não! Não é uma Torre côada de luzes,
    Nem antes a _Torre de Marfim_, a andar,
    Que pela tapada das _Quatorze Cruzes_,
    N'uma noite destas, eu vejo passar…

    Tambem não é, ouve, minha velha ama!
    Como tu contavas, a Virgem de Luz:
    Digo-te ao ouvido como ella se chama,
    Mas guarda segredo, que é…
    –Jezus! Jezus!

    2

    Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    Já não é a velhinha que vae a passar:
    Um grande cortejo cheiinho de luzes,
    Anninhas da Eira que vae a enterrar.

    Falla d'um pastor:

    «Anninhas da Eira! Anninhas da Eira!
    Cantae, raparigas, cantae e chorae!
    Morreu, coitadinha! sorrindo, trigueira,
    Como um passarinho, sem soltar um ai.

    Quando era pequeno, levava-me á escola,
    E quando, mais tarde, cresci e medrei,
    Oh danças nas eiras, ao som da viola!
    Nas danças de roda, que beijos lhe dei!

    Os annos vieram, os annos passaram,
    Meu fado arrastou-me, da aldeia sai:
    Nunca mais meus olhos seus olhos tocaram,
    Perdi-a de todo, nunca mais a vi…

    E além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    N'uma noite d'estas com vento a ventar,
    Ó meu Deus! é ella que vae entre luzes!
    Ó meu Deus! é a Anninhas que vae a enterrar!

    Olá! bons senhores, vestidos de preto,
    Deixae a defunta, que a levarei eu!
    O suor alagava-vos, eu levo o carreto…
    O caixão de Anninhas é tambem o meu!

    Tenho os relampagos, deixae-me sem velas
    A rezar por ella, sob o temporal!
    Cai-me no peito, cravae-m'as, procellas!
    Cruzes da tapada, em forma de punhal!»

    Mas os bons senhores, de preto vestidos,
    Cigarros accezos, e velas na mão,
    Lá passam ao vento, com sete sentidos,
    Com medo que, ás vezes, não seja um ladrão…

    «Mãos das ventanias! mãos das ventanias!
    Tirae-lhes a Anninhas e levae-a a Deus!
    Com suas mãosinhas, agora tão frias,
    Irá na viagem a dizer-me adeus…

    Ó vento que passas! corcel de rajada!
    Assenta-nos ambos no mesmo selim:
    Quero ir mais ella na longa jornada…
    Quero ir com Anninhas pelo céu sem fim!

    Ó Leste, que trazes as rolas, ás costas,
    Quaes rolas, leva-nos aos pés do Senhor!
    Quero ir como ella, assim de mãos postas…
    Quero ir com Anninhas para onde ella for!

    Ó Norte dos Marços! ó Sul das procellas,
    Levae-nos quaes brigues, como azas, levae!
    Levae-nos como aguias, levae-nos quaes velas…
    Quero ir com Anninhas para onde ella vae!»

    3

    Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    Que triste velhinha que vae a passar!
    E que olhos aquelles que parecem luzes…
    Aonde irá ella? Quem irá buscar?

    Pariz, 1891.

    *Males de Anto*

    A Ares n'uma aldeia

    Quando cheguei, aqui, Santo Deus! como eu vinha!
    Nem mesmo sei dizer que doença era a minha,
    Porque eram todas, eu sei lá! desde o odio ao tedio.
    Molestias d'alma para as quaes não ha remedio.
    Nada compunha! Nada, nada. Que tormento!
    Dir-se-ia accaso que perdera o meu talento:
    No entanto, ás vezes, os meus nervos gastos, velhos,
    Convulsionavam-nos relampagos vermelhos,
    Que eram, bem o sentia, instantes de Camões!
    Sei de cór e salteado as minhas afflicções:
    Quiz partir, professar n'um convento de Italia,
    Ir pelo Mundo, com os pés n'uma sandalia…
    Comia terra, embebedava-me com luz!
    Extasis, spasmos da Thereza de Jezus!
    Contei n'aquelle dia um cento de desgraças.
    Andava, á noite, só, bebia a noite ás taças.
    O meu cavaco era o dos mortos, o das loizas.
    Odiava os homens ainda mais, odiava as Coizas.
    Nojo de tudo, horror! Trazia sempre luvas
    (Na aldeia, sim!) para pegar n'um cacho d'uvas,
    Ou n'uma flor. Por cauza d'essas mãos… Perdoae-me,
    Aldeões! eu sei que vós sois puros. Desculpae-me.

    Mas, atravez da minha dor, da tempestade,
    Sentia renascer minha antiga bondade
    N'esta alma que a perdera. Achava-me melhor.
    Aos pobrezinhos enxugava-lhes o suor.
    A minha bolsa pequenina, de estudante,
    Era p'ros pobres (E é e sel-o-á d'oravante.)
    E ao vir das tardes, ao passar por um atalho,
    Eu ia olhando o chão, embora com trabalho,
    Pois os meus olhos não podiam de fadigas,
    P'ra não pizar os carreirinhos das formigas
    Que andam, coitadas! noite e dia, a carregar…
    E com vergonha, p'ra ninguem me ver chorar,
    Livido, magro, como um espeto, uma tocha,
    Costumava esconder-me em uma certa rocha,
    Que, por signal, tinha o feitio d'um gabão,
    E punha-me a chorar, a chorar como um leão!
    Tinha os berros do mar, pregando em seu convento
    E a gesticulação dos pinheiraes ao vento!

    Ó Dor! ó Dor! ó Dor! Job não tens dores mais,
    Que as tem maiores este filho de seus Paes!
    Ó Christo! calla os ais na tua ignea garganta,
    Ó Christo! que outra dor mais alta se alevanta!

    Meu pobre coração toda a noite gemia
    Como n'um hospital…

    Entrae na enfermaria!

    Vede! Kistos da Dor! Furo-os com uma lança:
    Que nojo, olhae! são as gangrenas da Esperança!
    Lanceto mais: que lindas cores! um Oceano!
    Ó mornos vagalhões do coração humano,
    Amarellos, azues, negros, cor de sol-posto!
    Ó preamar de puz! maré-viva d'Agosto!…
    Oceano! ó vagalhões! qual é a vossa lua?
    A que horas é a baixamar, quem vos escua?
    Lanceto mais ainda: as Illuzões sombrias!
    Cancros do Tedio a suppurar melancholias!
    Gangrenas verdes, outomnaes, cor de folhagem!
    O puz do Odio a escorrer n'esta alma sem lavagem!
    Tristezas cor de chumbo! Spleen! Perdidos somnos!
    Prantos, soluços, ais (o Mar pelos outomnos!…)
    A febre do Oiro! O Amor calcado aos pés! Genio! Ancia!
    Medievalite! O Sonho! As saudades da Infancia!

    Quantos males, Senhor! Que hospital! Quantas doenças!
    Philosophias vãs! Perda das minhas crenças!
    Nevrastenia! O Susto! Incoherencias! Desmaios!
    Sede de immensa luz como a dos pára-raios!
    Enthusiasmos! Lezão-cardiaca da Raiva!
    Magoas sem fim, prantos sem fim! Chuva, saraiva
    De insultos! Afflicções, desesperos! Gotta
    De coleras! Horror…

    Deixei fugir a escota,
    Perdi-me no alto mar, quando ia na galera
    Á India da Illuzão, ao Brazil da Chymera!…
    Ó Bancuos do remorso! Ó rainhas Machebetts
    Da ambição! ó Reis Lears da loucura! ó Hamlets
    Da minha vingança! ó Ophelias do perdão…
    (Socega! Faze por dormir, meu coração!
    Vae alta a noite…) E o sangue arde-me n'estas veias!
    Febre a cem graus! Delirio: o céu de luas-cheias
    Desde o oriente ao sol-por, de norte a sul coberto:
    O mundo jovial de guarda-sol aberto!
    Mar de esmeralda fluida, praias de oiro em pó!
    Ó esquadras das quaes era almirante eu só!
    Ó clarins a soar entre balas, na guerra!
    E vencer pela patria! E ser Conde da Terra
    E do Mar! El-Rey! Ser Senhor-feudal do Mundo!
    Encher a trasbordar a Vida, mar sem fundo,
    Com palacios, amor, glorias, luxo, batalhas,
    E reis e generaes envoltos nas mortalhas!…
    P'ra contar tanta coiza a encher tantos abysmos,
    Homens! criae outro systema de algarismos!

    Meu Deus! Que pezadello! Ah, tanta febre assusta…
    Struggle-for-life! Ó velho Darwin tanto custa!
    Antes não ter nascido. Ó Morte vem buscar-me…
    Um lenço branco _Adeus_! nos longes, a acenar-me:
    Adeus, meu lar! adeus, minha taça de leite!
    E foi o dia 13… E os corcundas e o azeite
    Que eu entornei, pretas que eu vi, uivos de cães!..
    Choras? Porque, por quem, Anto? Pelos _Alguens_…
    Lagrymas: suor da alma! Cançado? Vaes morrer,
    Vaes dormir… Ainda não! mais febre, suores frios
    Tremuras, convulsões, nevroses, arrepios!
    Unhas de leão, raspando cal n'uma parede!
    Corpos divinos, nus, ao léu! Luxurias, sede
    De amor mystico! Amar freiras de habito branco
    Morrer com ellas despenhado n'um barranco,
    Sob relampagos!…

    Jezus! Jezus! Jezus!

    Ah quanto foi bem peior que a tua a minha cruz!
    Quanto soffri, meu Deus! Ah! quanto eu soffro ainda!
    E isto n'um mez de paz, n'esta epoca tão linda,
    Solsticio de verão, quando nos sabe a vida,
    Quando apparece o cravo, a minha flor querida,
    Quando os soes-postos são uma delicia, quando
    Os aldeões andam a podar, cantarolando,
    E, alli, ao pé dos milheiraes, as lindas netas
    Ceifam curvadas, como na haste as violetas!

    Medico? Para que… A doença era d'alma.
    Saia, apenas, á tardinha, pela calma,
    Sorvendo aos haustos a rezina dos pinheiros.
    Tomava quazi sempre a estrada dos _Malheiros_.
    A nossa caza é ao virar mesmo da estrada,
    Onde perpassam os aldeões na caminhada
    E a mala-posta a rir, cheia de campainhas!
    Ora havia, lá (e ha ainda) umas _Alminhas_
    Com um painel antigo sob um oratorio,
    Que são as almas a penar no Purgatorio.
    E têm esta legenda: «Ó vos que ides passando
    Não esqueçais a nós n'este lume penando!»
    Deitava-lhes 10 reis, mas ficava a scismar
    Que mais penava eu… se ellas quizessem trocar…

    E mais adiante (ainda me lembro: n'um atalho,
    Ao pé da fonte) havia um monte de cascalho
    Com uma cruz de pau, braços ao sul e ao norte,
    Para mostrar que, alli, se fizera uma morte:
    Ora (é um costume) quando alguem vae de longada,
    Ao ver aquella cruz, que parece uma espada,
    Deita uma pedra: cada pedra é uma oração…
    Oh raras orações, que nunca findam, não!
    Perpetuamente, lá ficam os _Padre-Nossos_,
    Rezas de pedra, a orar, a orar por esses ossos!…
    Eu como os mais deitava uma pedra, tambem,
    Dizendo para mim: «se me matasse alguem…»
    Mas eu seguia o meu passeio, estrada fóra,
    E ninguem me matava…

    Ah! vinham a essa hora
    As moças da lavoira a cantar, a cantar,
    (Faziam-me, Senhor! vontade de chorar…)
    Mas quando, perto já, eu me ia approximando,
    Paravam de cantar e ficavam-me olhando…
    E que eu não fosse ouvir murmuravam, baixinho,
    Com dó, a olhar: «Como elle vae acabadinho!»

    Mais adiante, encontrava a mulher do moleiro,
    Que ia o cantaro encher á _Fonte do Salgueiro_,
    Lindos cabellos empoeirados de farinha:
    Era uma flor, mas parecia uma velhinha…
    –Vae melhorzinho?–Assim… vou indo, vou melhor…
    –Pois seja pelas cinco chagas do Senhor…

    E um pouco mais além, no logar do _Cazal_,
    N'uma caza de colmo, assentado ao portal,
    Estava um cego, e a fiar ao lado estava a mãe,
    E mal sentia, ao longe as passadas de alguem,
    Clamava em sua voz vibrante de céguinho:
    «Meu nobre senhor! olhe este desgraçadinho!»
    Ai de mim! ai de mim! como não ve quem passa,
    É que chama a attenção para a sua desgraça!

    E, para bem coroar o meu tragico fado,
    Dizia-me, ao passar, o Dr. Delegado:
    «Vá para caza, fuja aos orvalhos da noute.»
    E, grave, para si:
    «A Sciencia abandonou-te!»

    Horror! horror! horror! Que mizeravel sorte!
    Em tudo via a _Velha_, em tudo via a Morte:
    Um berço que dormia era um caixão p'ra cova!
    Vi-a a Foice no céu, quando era lua-nova…
    Se ia á tapada ver ceifar as raparigas,
    Vi-a entre ellas a cortar tambem espigas!
    E ao ver as terras estrumadas, como lume,
    Quedava-me a scismar no meu destino… estrume!
    A pomba que passava era a minha alma a voar…
    E era a minha agonia um pinheiro a ullular!
    E, ao ver meadas de linho a corarem, ao sol,
    Pensava… se estaria, alli, o meu lençol…
    E o que eu scismava ao ver passar os carpinteiros,
    Cantando alegres e fumando, prazenteiros,
    A tiracollo a cerra, o martello e o formão…
    Vinham, quem sabe! de acabar o meu caixão!
    Deitava-me no chão de ventre para o Ar,
    Scismava: se morrer, é assim que hei-de ficar…

    Como me tinha em pé, não sei. Siquer um musculo!

    A hora christã, entre as nevrozes do crepusculo,
    Entre os susurros da tardinha, ao sol-poente,
    Quando cantam na sombra as fontes, vagamente,
    Quando na estrada vão as mulinhas, a trote,
    Que o alvo moleiro faz marchar sem o chicote
    Ó Natureza! tão amigos são os dois!…
    E se ouvem expirar os chocalhos dos bois,
    Ao longe, ao longe, entre as carvalhas do caminho…
    Quando na ermida dão _Trindades_, de mansinho,
    E os cravos dão á luz o fruto do seu ventre…
    Quando se ve os céus mysticos, doidos, entre
    Soluços e ais a desmaiar, como n'um flato:
    Alli, na encosta aonde bebem n'um regato
    Os animaes, tambem bebia. Ora, uma vez
    (Sim, faz agora pelo S. Martinho um mez)
    Quando para beber me debrucei na pia,
    No fundo d'agoa, vi uma photographia…
    Jezus! Um velho! O seu cabello, assim ao lado,
    O mesmo era que o meu, todo encaracolado!
    O rosto eburneo! o olhar era tal qual o meu!
    E o labio… Horror! Fugi! esse velhinho era eu!

    Fugi!

    E, desde então, não mais sai de caza.
    Ha muito, que não vejo uma flor, uma aza,
    Ha muito já, que não sorvi o mel d'um beijo.
    Do meu cortiço voou a abelha do desejo.
    As duas filhas do cazeiro, ao vir da escola,
    D'antes vinham-me ver, eu dava-lhes esmola.
    Cantavam, riam e saltavam, um demonio!
    E tão lindas, Jezus! tão amigas do Antonio…
    E, agora, mal me vêm, tremem todas, coitadas!
    Eu chamo-as da janella e fogem, assustadas!
    E, ao vel-as, na fugida eu quasi que desmaio…
    Jezus, tao lindas! são duas tardes de Maio!

    Um doente faz medo. Por isso fogem d'elle.
    Estou, aqui, estou ido. Só tenho pelle.
    Nada me salva, nada! É impossivel salvar-me.
    E o que eu tenho a fazer é, apenas, rezignar-me
    E já me resignei… Mas Carlota, esse amor,
    Quiz por força chamar o bom Sr. Doutor.
    E eu consenti, emfim. E lá mandou o creado
    Buscar o cirurgião. Elle é o mais afamado
    N'estas trez legoas, o Dr. da _Preza Velha_.
    Eil-o que chega…
    –Olá!… Ve-me a lingua vermelha,
    Toma-me o pulso…–Está bem, isso não é nada,
    Beba-lhe bem, vá aos domingos á toirada,
    E, sobretudo, veja lá… nada de versos…
    Mas o doutor mais eu, nós somos tão diversos!
    Certo, elle é sábio, mas não tem pratica alguma
    D'estas molestias e o que eu tenho é, apenas, uma
    Tysica d'Alma. Emfim…

    Ó Carlota! ó Carlota!
    Boa velhinha, como ella é meiga e devota!
    Já estaria bom, se me valessem rezas.
    E, no Oratorio, tem duas velas accezas
    Noite e dia, a clamar á Senhora das Dores!
    E queima-lhe alecrim, põe-lhe jarras com flores
    E sei, até, que prometteu uma novena,
    Se eu escapar… Como tudo isso me faz pena!
    E trata-me tão bem, tão bem! como se eu fosse
    Seu filho. Dá-me, olhae, pratinhos de arroz doce
    Com as iniciaes do meu nome em canella,
    E traz-me o caldo, como exijo, na tigella
    Por onde come o seu. E dá-me o vinho fino,
    Onde me molha o pão de ló «p'ro seu menino»
    Que é assim que eu gosto, pelo Calix do Senhor,
    Que pertenceu, outrora, ao meu Tio Reitor.
    Carlota é um beijo. Faz-me todas as vontades.
    Quando me sinto pior, ao bater das _Trindades_,
    E me appetece comer terra, algumas vezes
    (Assim, são nossas mães, perto dos nove mezes)
    Sae a buscar uma mão cheia. Vem molhada:
    Foi ella que chorou… mas diz que «é da orvalhada…»
    E quando, emfim, sombrio, agoniado, farto,
    Me vou deitar, a santa acompanha-me ao quarto:
    Ajuda-me a despir e mette-me na cama.
    E com um mimo que só sabe ter uma ama
    Cobre-me bem, «durma, não scisme,» dá-me um beijo,
    E sae. Finge que sae, cuida ella que eu não vejo,
    Mas fica á porta, á escuta, a ouvir-me fallar só,
    E não se vae deitar…

    Onde ha, assim, uma avó?

    A todo o instante, se ouve á porta: «Tlim, tlim, tlim!»
    Trez legoas em redor manda saber de mim.
    (Aqui, lhes deixo minha eterna gratidão.)
    Toca o sino e lá vae a Carlota ao portão,
    Muito baixinha, atarefada; espreita á grade,
    –Quem é?… E, então, olhae!

    «É o Sr. Abbade
    Que manda esta perdiz, mortinha de manhã»;
    Mais o Sr. D. Sebastião de Villa-Meã
    «Que manda um gigo», mais as senhoras do _Rôfo_
    Que mandam ovos molles, pecegos, pão fofo,
    Uvas de Cheiro, peras D. Joaquina,
    Barrisinhos d'Ovar, copos de gelatina;
    Mais o Sr. Barão das Areias do Mar
    «Que manda este salmão do Tamega, a saltar»;
    Mais o Sr. Doutor de _Linhares_ «que manda
    Os cravos mais lindos que tinha na varanda»;
    Mais «o da _Igreja_ que offerece a codorniz
    Que matou, hoje, na _Tapada de D. Luiz_»;
    Mais o Sr. Miguel das _Alminhas de Pulpa_
    «Que manda este peru e que pede desculpa»;
    E, até, o Astronomo, coitado! e o Zé dos Lodos
    Mandam coisas: sei lá… o que podem. E todos
    Mandam tambem saber «como vae o menino…»
    E, então, Carlota, bom Deus! é tal qual o sino
    Na noite a badalar as suas badaladas!
    Poe-se a contar, carpindo, a minha doença ás criadas.
    Tudo o que eu digo, quanto faço, quanto quero:

    –Olhe, S.^{ra} Julia, ás vezes, desespero…
    Mas, eu quero-lhe tanto! ajudei-o, a criar…
    Em pequenino era tão bom de aturar…
    E depois era tão alegre, tão esperto!
    E então que lindo! era mesmo um cravo aberto!
    Mas, hoje, é aquillo: tem os olhinhos sumidos,
    Tão faltinho de cor, os cabellos compridos,
    E tosse tanta vez! já arqueia das costas…
    Só falta vel-o deitadinho, de mãos postas!
    E elle é tão bom, tem tão bons modos…
    –Coitadinho!
    –Olhe, S.^{ra} Julia, nunca viu o linho
    Que a gente deita ao sol, quando é para seccar,
    E que se poe assim a esticar, a esticar?
    Assim é o meu menino…
    –Ó S.^{ra} Carlota,
    E se eu fallasse á Anna Coruja, essa que bota
    As cartas? Foi talvez malzinho que lhe deu…
    –Nunca foi assim: foi depois que se metteu
    A fumar, a beber e lá com as po'sias.
    Aquillo para mim foram as companhias.
    Vinha p'ra caza, á meia-noite, noite morta,
    E eu fazia serão para lhe abrir a porta.
    E nunca ia á licção, ficava sempre mal
    Nos seus exames, escrevia no jornal;
    E o Pae, que é um santo, como ha poucos, que não via
    Nem ve mais nada, então nunca o reprehendia
    Com medo de o affligir… mas depois, quando estava
    Mettido á noite, só, no seu quarto… scismava.
    –O povo diz por hi que foi paixão que trouxe
    Lá dos estudos, de Coimbra…
    –Antes fosse
    Porque o remedio estava, alli, na Igreja… Adei…
    –Mas se a menina não quizesse… eu sei, eu sei…
    –S.^{ra} Julia! Não havia de querer!
    Não que elle é mesmo alguem hi para se perder,
    Para deitar á rua: um senhor tão prendado!
    Depois, está aqui, está quazi formado…

    Ai valha-me, Jesus! eu perco a ideia, faço
    A minha perdição… Ás vezes, ergue o braço
    E vae por hi fóra, por todas essas salas,
    A prégar, a prégar, e tem mesmo umas fallas
    Que não enxergo bem, mas que fazem tremer:
    Hontem, á noite, quando se ia a recolher,
    (Quando faz lindo luar, quer deitar-se sem vela)
    Entrou na alcova, eu tinha ainda aberta a janella,
    E diz-me, assim, tão mau: «p'ra que veio entornar
    Agoa no quarto?» e vae-se a ver… era o luar!
    E quando foi para chamar o cirurgião?
    Jezus, quanto custou! Que não, que não, que não!
    Não tinha fé nenhuma «em um doutor humano»
    Que só a tinha no Sr. Dr. Oceano…

    Mas uma coiza que lhe faz ainda peior,
    Que o faz saltar e lhe enche a testa de suor,
    É um grande livro que elle traz sempre comsigo,
    E nunca o larga: diz que é o seu melhor amigo,
    E le, le, chama-me: «Carlota, anda ouvir!»
    Mas… nada oiço. Diz que é o Sr. Shakespeare.

    E, ás vezes, bota versos, diz coizas tão más!
    Nada lhe digo, mas aquillo não se faz.
    Ainda, esta manhã: eu estava a por flores
    E as velas accendia á Senhora das Dores,
    (Que tem dó d'elle, coitadinha! chora tanto…)
    Vae o menino a olhar, a olhar, sae-me d'um canto
    E uiva-lhe, assim:
    «Antes as tuas sete espadas!»

    E o que á S.^{ra} Julia diz, diz ás mais criadas.

    Coimbra, 1890.

    Pariz, 1891.

    *Ah Deixem-me Dormir!*

    O Poeta

    Olá, bom velho! é aqui o _Hotel da Cova_,
    Tens algum quarto ainda para alugar?
    Simples que seja, basta-me uma alcova…
    (Como eu estou molhado! é de chorar…)

    O povo

    O luar averte as orvalhadas sobre a rua!
    Jezus! que lindo…

    Vamos! depressa! Vem, faze-me a cama,
    Que eu tenho somno, quero-me deitar!
    Ó velha Morte, minha outra ama!
    Para eu dormir, vem dar-me de mamar…

    A S.^{ra} Julia

    São as Janeiras da Lua!

    O Coveiro

    Os quartos, meu senhor, estão tomados
    Mas se quizer na valla (que é de graça…)
    Dormem, alli, somente os desgraçados:
    Têm bom dormir… bom sitio… ninguem passa…

    O Zé dos Lodos

    A lua é a nossa vacca, ó Maria!
    Mugindo…

    Ainda lá, hontem, hospedei um moço
    E não se queixa… E ha-de poupal-o a traça,
    Porque esses hospedes só trazem osso,
    E a carne em si, valha a verdade, é escassa.

    O Dr. Delegado

    A noite parece dia!

    O Poeta

    Escassa, sim! mas tenho ossada ainda,
    Emquanto que a alma, ai de mim! nada tem…
    Guia-me ao quarto… (a lua vae tão linda!)
    Dize-me: quantos annos me dás? Cem?

    O Sr. Abbade

    E esta? Em vez de trazer a opa que é de logar
    Trouxe a d'anjinho!

    A Mulher do Moleiro

    É o luar, Sr. Abbade, é o luar…

    Oh cem! E os que eu não mostro e o peito guarda…
    Os teus mortinhos, sim! dormem tão bem:
    «Dormi, dormi! que vossa mãe não tarda,
    Foi lavar á _Fontinha de Belem_…»

    O Astronomo

    Isto lunar assim! Isto é o verao
    De S. Martinho!

    O Coveiro

    Aqui. Fica melhor do que em 1^a:
    Colxão assim não acha em parte alguma!
    Os outros são de chumbo, de madeira,
    Mas este, veja bem, é sumauma…

    O Cego do Cazal

    Faz solzinho, que horas são?

    _Cantando_:

    «Colxão de raizes e de folhas, lizo,
    Lençoes de terra brandos como espuma,
    Dal-os-ei ao rol, no Dia de Juizo…»
    Prompto. Quer mais alguma coiza? Fuma?

    Carlota

    Ó luar, anda mais devagarinho!
    Deixa dormir o meu menino…
    Coitadinho!

    O Poeta

    Mais nada. Boas-noites. Fecha a porta.
    (Que linda noite! Os cravos vão a abrir…
    Faz tanto frio)! Apaga a luz! (Que importa?
    A roupa chega para me cobrir…)

    A Mãe do Poeta

    Aqui, espero-te, ha que tempo enorme!
    Tens o logar quentinho…

    Toma lá para ti, guarda. E ouve: na hora
    Final, quando a Trombeta além se ouvir,
    Tu não me venhas acordar, embora
    Chamem… Ah! deixa-me dormir, dormir!

    Deus

    Dorme, dorme.

    Pariz, 1891.

    FIM

    TABOA

    Antonio
    Menino e Moço
    Os Cavalleiros
    Purinha
    Elegia
    Os Sinos
    Terças-Feiras
    Carta A Manoel
    Para As Raparigas De Coimbra
    Luzitania No Bairro-Latino
    Os Figos Pretos
    Febre Vermelha
    Poentes De França
    Pobre Tysica!
    A Poezia Do Outonno
    Sta. Iria
    Enterro De Ophelia
    Ballada Do Caixão
    Á Toa
    A Vida
    O Somno De Joao
    Ao Canto Do Lume
    A Sombra
    O Meu Cachimbo
    Ca (ro) Da (ta) Ver (mibus)
    Quando Chegar A Hora
    Certa Velhinha
    Males De Anto
    Ah Deixem-me Dormir!

    Imprimerie Henri Jouve, 15, rue Racine, Paris.

    Achevé d'imprimer le deux avril mil huit cent quatre-vingt-douze

    Pour

    LÉON VANIER

    éditeur

    Par

    HENRI JOUVE

    15, Rue Racine, 15

    A Paris

  • Os meus amores contos e balladas

    Os meus amores contos e balladas

    Aproximadamente 60.805 palavras.

    Produced by Ricardo F. Diogo (Spelling modernization of
    the original version, already available at Project
    Gutenberg: #17503; Actualização ortográfica da versão
    original, já disponível no Project Gutenberg.)

    OS MEUS AMORES

    TRINDADE COELHO

    *OS MEUS AMORES*

    (Contos e Baladas)

    _2.^a edição_

    LISBOA

    Livraria de António Maria Pereira

    50, 52–Rua Augusta–52, 54

    1894

    _LISBOA_

    Tipografia e Estereotipia Moderna

    11–_Apóstolos_–11

    Ao Doutor

    António Xavier Perestrelo

    «_Os Meus Amores_»

    _Folhas dispersas dos meus anos de ouro,
    Vivo enxame das minhas alvoradas,
    Tenho zelos de vós, folhas sagradas,
    As Desdémonas sois de um outro mouro.

    As brancas horas que eu em sonhos douro,
    Essas horas febris, iluminadas,
    Ei-las fugindo, em tristes debandadas…
    Levais nas asas todo o meu tesouro.

    Folhas: subi, voai ao céu tão alto,
    Que o céu em estrelas vos converta e mude,
    Lá nas longínquas ilusões que exalto;

    Como as frementes águas de um açude,
    Levai a Deus, no derradeiro salto,
    O derradeiro adeus da juventude_…

    _Luís Osório_.

    IDÍLIO RÚSTICO

    _A Fialho de Almeida_.

    Quando atravessou a povoação, rua abaixo, com o rebanho atrás dele,
    era ainda muito cedo. Ao longo das ruas tortuosas, as portas
    conservavam-se fechadas, e não vinha das habitações o mais
    insignificante ruído. Dormia-se a sono solto por todas aquelas casas.
    Apenas algum cão, subitamente acordado em sobressalto pelo chocalhar do
    rebanho, ladrava do alto dos escadórios de pedra onde ficara de
    sentinela, ou de dentro das curraladas, onde levara a noite fazendo
    companhia aos novilhos. Donde em onde, galos madrugadores entoavam
    matinas sonoras, que eram como risadas vibrantes de boémios, nalguma
    estúrdia, a desoras…

    Mas passadas as últimas casas, o silêncio condensava-se para toda a
    banda, numa grande pacificação de templo adormecido. Nem vivalma pela
    ladeira que levava ao rio, por um caminho em zig-zags. Fulgiam no céu
    azul-escuro cardumes prateados de estrelas. A toda a largura, a
    paisagem era torva e indecisa, imersa numa luz muito mortiça que nem
    era bem a da madrugada, nem era bem a da noite. No entanto a manhã era
    calma; nem rumores de brisa pela rama das azinheiras velhas que faziam
    guarda ao córrego por onde o rebanho tomara. Cigarras, grilos nas
    ervagens, rãs que coaxavam nas regueiras, era o mais que se ouvia acima
    do rumor brando dos chocalhos. Nem um balido de ovelha em todo o rebanho
    que se ia submissamente à mercê do pequeno pastor, parando se ele
    parava a colher as amoras frescas dos silvados, recomeçando marcha se de
    novo ele se punha a caminhar.

    Quando passou rente ao meloal da fidalga, ouviu-se o ruído de um tiro,
    que o eco levou para longe.

    –Não gastes pólvora, António!–recomendou o pastor.–Ouviste?

    E logo a voz do guardador:

    –Madrugas hoje, Gonçalo!

    –P'ra que saibas: cá um homem não tem medo.

    –Está bem. Adeus!

    –Saudinha.

    A esse tempo ia-se já definindo a manhã, na luz, no som, na cor. Invadia
    a amplidão da cúpula celeste uma tinta alvacenta, onde as estrelas
    feneciam no seu brilho. Ao alto, na ladeira de além, entravam de fazer-se
    nítidas as linhas sinuosas das cristas, onde enormes rochedos tinham
    altitudes de uma imobilidade misteriosa e sinistra… Neste assomo
    de alvorada, as coisas iam despertando lentamente para a alacridade
    vigorosa da luz. Das moitas e sebes, calhandras em bandos levantavam-se
    repentinamente, em voo perpendicular, e cortavam ares fora, chilreantes
    e alegres, até se perderem de vista por detrás dos arvoredos e cabeços.
    De cauda em riste e orelhas imóveis, o rafeiro espreitava as ervagens
    secas, onde algum réptil passasse vagaroso.

    –Busca, Turco!–fazia-lhe o Gonçalo que tinha medo às cobras.–Busca,
    valente!

    À medida que descia a ladeira, um marulhar monótono de águas ouvia-se,
    mais e mais distinto. Era o rio que parecia perto; mas primeiro que lá
    se chegasse ainda era preciso andar… Era um poder de passos e de
    paciência,–reflectia o pastor, a quem aborreciam de morte os
    intermináveis torcicolos da vereda. Ia andando, descendo sempre, à
    frente do rebanho silencioso. E quando os sapatos começaram de calcar
    areia, e ali, perto, o rio lampejava, sob aquele céu ainda estrelado,
    o Gonçalo desabafou:

    –Uff! até que enfim!–E pensava aliviado:–Nada mais fácil do que
    terem-me saído os lobos!…

    Mas vista àquela hora, e no meio de tal silêncio, a corrente líquida
    tinha o que quer que fosse de sinistro, que evocava lembranças
    aterradoras, espectros dos que ali mesmo tinham morrido afogados, numa
    luta desesperada com as águas, clamando em vão que lhes acudissem, em
    tamanho transe aflitivo. A margem de lá, especialmente, era toda
    acidentada de rochedos informes, blocos medonhos, por entre os quais no
    Inverno o vento assobiava lúgubre, e as águas faziam remoinho, o que era
    um perigo para os pobres barcos que se aventurassem incautos, num
    descuido involuntário–simples remadela pouco a tempo, manobra menos
    segura de leme, ou impulso errado de vara.

    E então, cabeços enormes de um lado e doutro, projectando sobre o largo
    leito do rio a sua sombra pesada e desconforme, que mais triste fazia o
    sitio e parece que mais solitário, pois fechavam-no bruscamente, fazendo
    limitada a paisagem.

    A todo o comprimento da margem, o rebanho pôs-se então a beber manso e
    manso, e sem o mínimo ruído.

    Foi quando o Gonçalo acabou de se convencer que na margem de lá, um
    pouco mais abaixo, outro rebanho bebia também.

    –Tate, Gonçalo! Aquela chocalhada…

    E imóvel, remordendo o lábio, com o ouvido à escuta, pensava:

    –Ora se será ela?…

    Súbito, estremeceu. Ante o seu espírito infantil perpassou, como um
    clarão de relâmpago, a imagem de uma rapariga, pastora como ele, com
    quem se havia encontrado mais vezes, mas que havia muito não vira.

    –Ai, se fosse a Rosária!… dizia consigo.

    E impondo silêncio ao rebanho, que acabara de beber, pôs-se atentamente
    à escuta do tilintar dos chocalhos na margem oposta.

    «O rebanho parecia o mesmo, lá isso… Agora o pastor é que podia ser
    outro que não a Rosária…»

    Senão quando, uma ideia lhe acudiu que o fez sorrir de contente. Atirou
    ao chão a manta e o marmeleiro, e puxando para diante o bornal, feito da
    pele de uma ovelha branca, morta pelas segadas, tirou de lá a sua
    flauta e pôs-se a tocar apressadamente um trecho de cantiga rústica.

    No mesmo instante, uma voz muito sonora gritou-lhe:

    –Eh lá, Gonçalo, és?

    O pastor desatou a rir.

    –Uh lá, Rosária, eu mesmo! Guarde-te Deus, pimpona!

    E logo a voz fresca da rapariga lembrou:

    –Não te esqueceu a moda, rapaz!

    –Isso esquece ela!… Ouviste, Rosária?–Se outra fosse que ma
    tivesse ensinado…

    Neste meio tempo já o Gonçalo retomara a manta e o marmeleiro para ir
    ter com a Rosária. Mas primeiro perguntou:

    –Boto pela ponte, ou és tu que vens, ó cachopa?

    –Vem tu daí. Por cá sempre é outra coisa p'r'as ovelhas. Hã?

    –Basta!

    E dando o sinal da partida, o Gonçalo pôs-se em marcha. Daí a
    pouco, entrava mais o rebanho pela velha ponte mourisca, toda severa de
    construção nos seus três arcos lançados sem elegância, atufados de
    parasitas seculares que a faziam pitoresca, heras, silvas, ortigas
    bravas.

    A meio da ponte, mão piedosa fizera construir pequeno oratório ao Senhor
    Salvador, cujo rosto sereno, espreitando por grades de arame, diziam dar
    coragem a barqueiros e almocreves, que ante o pequeno e humilde nicho
    com respeito se descobrissem, e com devoção rezassem uma velha prece que
    era como um talismã precioso para livrar de maiores
    desgraças–naufrágios no rio, e então maus encontros por aqueles
    caminhos escabrosos, que eram um perigo constante para homens e animais.

    Daí a pouco, as duas crianças estavam perto uma da outra, cada qual
    seguida do seu rebanho.

    –Ora viva a Rosária!–disse o pastor muito alegre, parando defronte da
    cachopa.

    –Bons dias, Gonçalo; então que ventos?

    Entre os dois travou-se então um longo diálogo em que se contaram tudo o
    que haviam feito desde aquele dia em que ambos tinham voltado juntos da
    feira dos Caniços.

    –Por sinal que nem rês se vendeu!–lembrou o Gonçalo.

    –Por sinal!–disse com pena a Rosária.

    Mas ele contou que viera por ali muitas vezes, muitas, sempre na fé que
    a encontrava. «Vê-la agora, só por milagre de santo; quem o havia de
    sonhar! Nanja ele…»

    –Mas se eu estive tão doente!–volveu triste a Rosária.

    E como o outro acudiu a informar-se, ela explicou:

    –Umas quartãs que me tiveram mondada! A peste as mate! Febre que era
    mesmo lume desde manhã até ao escurecer… Uma assim!

    E na sua ingenuidade infantil, contou ao Gonçalo que muitas vezes, na
    febre, sonhara com ele, que se encontravam os dois por montes e prados,
    como agora tinha acontecido, «tal e qual».

    –Assim te Deus salve, ó Rosária?–atalhou rápido o pastor, a quem
    enchiam de orgulho os sonhos daquela pequena amiga.

    –Assim; pois que dúvida?–tornou-lhe confiada a Rosária.

    –Não!–disse agastado o Gonçalo.–Não hás-de dizer assim… Diz certo,
    hás-de jurar direito.

    –Pois assim me Deus salve…

    –Como é verdade…–Diz tudo, Rosária!–suplicava o pastor.

    –Sim, volveu-lhe paciente a companheira,–como é verdade que sonhava
    que nos encontrávamos–concluiu por fim, muito risonha.

    E sem disfarçar o júbilo, prestes o Gonçalo a certificou de que também
    não a esquecera. «Tanto é que tirava da flauta as cantigas todas que
    ela lhe tinha ensinado.»

    –Lembras-te?

    A Rosária faz que sim com a cabeça. E logo, batendo na flauta de
    sabugueiro, o pastor apressou-se a declarar:

    –Saem daqui sem falhar uma.–E resoluto:–Vá feito, Rosária, pede por
    boca!

    A Rosária pediu então a _Pastorinha_.

    –Eu é da que mais gosto,–explicou.–É a mais linda.

    –E é!–concordou o Gonçalo.–Ora escuta lá.

    E levando aos lábios a avena, pôs-se a tocar a _Pastorinha_, enquanto a
    Rosária, com a sua vozita em surdina, entrava a tempo com a letra:

    Onde _vás_, ó Pastorinha,
    Ai-li, ai-li, ai-li, ai-lé…

    –Sabes essa! É mesmo assim!–disse-lhe a Rosária a rir-se.

    –É como vês!–afirmou contente o Gonçalo.

    Aos seus pés tinham-se deitado os rafeiros, e já os dois rebanhos,
    confundidos, andavam na pastagem.

    –Olha as ovelhas juntas!–notou o Gonçalo.

    –Também nós nos quedámos juntos,–volveu-lhe a pequena, sorrindo.–As
    pobres dão-se bem, são amigas…–continuou com júbilo.

    –E nós também, ora também, Rosária?

    –Também–respondeu afoita a pastora.

    E foram-se ter conta no rebanho, que choviam as coimas e as denúncias.

    * * * * *

    A esse tempo, no céu alto e lavado a estrela da alva fenecera por fim, e
    o horizonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o céu em
    cúpula, a luz fresca e viva da manhã vibrava harmonias estranhas que iam
    despertar tudo, a cor da paisagem e a música dos ninhos, cantigas de
    perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manhã de Verão, serena,
    tranquila, dulcíssima. Ia pelo ar um movimento extraordinário de
    asas–passarada alegre que saía agora dos ninhos e voava a matar a sede
    à borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em
    recôncavos de rocha e tomavam para hortejos convizinhos onde a vegetação
    era mais rica de seiva e mais fácil a presa dos insectos, perdizes
    gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos
    vinhedos das encostas, por entre os renques verdejantes, gente em mangas
    de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos, em torcicolos,
    viam-se os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de
    taleigos, e berrando-lhes cada _chó_! que se ouvia na outra ladeira. Já
    nas povoações próximas sinos chamavam para a missa de alva ou tocavam a
    ave-marias. Nas quintas e casas fumegavam os tectos, dizendo horas de
    almoço. De modo que o sol quando rompeu, solene e triunfante no céu
    imaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a natureza acordada
    para a labuta interminável do dia. Numa clareira elevada, dominando o
    rio e um trecho de paisagem para sul, tinham-se sentado os dois pastores
    e continuavam conversa.

    Ao pastor parecia-lhe agora mais bonita a pequena amiga, com a sua cor
    trigueira levemente pálida desde que tivera as maleitas. Não se
    lembrava com que santa que ele tinha visto se lhe parecia agora a
    Rosária…

    –Mas o cabelo assim cortado…–disse com mágoa, mirando-lhe a cabeça
    nua, e passando a mão pela dele,–é que te não fica bem!

    «Melhor fora que lhe tivessem deixado as tranças. Negras, de mais a
    mais, que era como ele gostava…»

    –Promessa da mãe se eu melhorasse–explicou a Rosária–Lembranças… A
    gente quando está aflita…

    –…Quando está aflita…–repetiu como um eco o pequeno. E depois,
    amuado:–Se promete os olhos…

    A rapariga fitou-o, espantada.

    –…é porque tos tirava!–concluiu convicto.

    Houve um momento de silêncio, em que o Gonçalo se pôs a escavar o chão
    com uma pedra, e a Rosária a torcer um fio saliente do seu vestido
    grosseiro. Ouviam-se as ovelhas chocalhando nas pastagens, ia a passar
    na rodeira, longe, um carro que chiava, com uvas para algum lagar.

    –Não falas, Rosária?–perguntou o pastor sem levantar os olhos para
    ela.

    –Também tu…–começou com medo a pequena,–logo te zangas! Olhem a
    lembrança dos olhos! Se a mãe fazia isso, credo!–E depois
    animando-se:–Já foste à Senhora dos Remédios?

    O Gonçalo fez sinal que não tinha ido.

    –Pois foi lá que deixámos as tranças, eu mais a mãe. Num prego ao lado
    do altar, um lacinho verde nas pontas. Ficou lindo.

    O pastor teve um movimento de enfado, não lhe agradava a conversa. E
    para acabar com ela:

    –Que enfim como melhoraste…–fez que concordava, pondo o bilro a
    girar.–Olha como dança…–E depois, mais pensativo, batendo com o
    bilro nos dentes:

    –Que às vezes as promessas pouco fazem…–E interrompendo:–Sabes quem
    fez este bilro?

    –Foste tu, aposto.

    Bateu no peito e fez com a cabeça que sim, mostrando-lho
    orgulhoso–«que visse os _torneados_.» Depois continuou:

    –Vai uma pessoa andando e os santos não se importam. Ora, os
    santos!–Olha a minha Joaquina, tu não conheceste. A gente bem rezou e
    bem promessas fez, mas ela foi-se.

    E pondo-se de joelhos, começou a procurar pelo rebanho.

    –Aquela ovelha, a branca, não vês? A que se vai agora deitar… Pois
    era p'ra Nossa Senhora, repara que é a melhor.–E deitando-se para
    trás:–Lá anda ela a pastar!–concluiu desalentado.

    –Mas tinha de ser,–volveu-lhe triste a Rosária,–que as promessas
    sempre fazem, lá isso…

    E convicta, a pequena contou casos acontecidos para convencer o Gonçalo
    de que sempre valiam as promessas. No entanto, deitado de costas, com a
    jaqueta a fazer de travesseiro, as pernas em ângulo tocando-se com os
    joelhos, o Gonçalo soprava pela palha o bugalhinho que constantemente ia
    subindo e descendo, acompanhado pelo olhar bondoso do cão que ali perto
    se deixara estar sentado. E contando, contando casos, a Rosária ia
    entretendo o pastor. Mas quando ela fazia pausa, logo o rapaz acudia,
    firme na sua objecção:

    –Ora! mas a nossa Joaquina morreu-se! Coitadinha da Joaquina!

    * * * * *

    À medida que o sol ia subindo, no céu glorioso e fulvo, iam os dois
    conduzindo as ovelhas para sítios mais ensombrados, para se livrarem da
    estiagem que ia valente. Calor de rachar, ali por volta do meio-dia, que
    foi quando tomaram para a banda das azinheiras, e para os pinheirais,
    depois. E sempre ao lado um do outro, os dois companheiros levaram de
    conversa quase o dia inteiro. Nunca tinham dado fé que as horas
    passassem tão depressa. Ainda armaram aos pássaros, mas foi o mesmo que
    nada, os demónios andavam espantados e já conheciam as esparrelas.

    –Olha lá não caiam,–tinha dito o Gonçalo, já cansado de estar à
    espreita, agachado, com o fio da armadilha preso ao dedo.–Se eles
    fossem tolos…

    E foi-se a recolher as esparrelas, dando ao demónio os pássaros. Ela
    então propôs que jogassem a pocinha.

    –E o fito, ó Rosária? Sabes jogar ao fito? No adro, aos Domingos de
    tarde, bato-me com qualquer, sabias?

    E generoso:–Mas a ti dou-te partido: vinte e cinco às quarenta…

    Como o tempo rendia, jogaram tudo–a pocinha, o fito, as necas, a
    bilharda. Na bilharda, como o rafeiro trazia à mão, era ele que ia
    buscar o pauzinho, quando zinia longe.

    –Turco, traz cá!

    * * * * *

    No entanto, ia descaindo a tarde. Ao alto, o largo céu esmorecia no seu
    azul suavíssimo. Em todo o espaço o ar estava tranquilo e sereno, e já
    começava para poente a decoração fantástica do ocaso. Parece que se
    ouvia mais distinto o marulhar das águas no rio; já não faiscava assim
    tão viva a areia branca das margens.

    Foi quando o Gonçalo lembrou que era melhor irem-se chegando, mais as
    ovelhas, para as terras onde tinham de pernoitar. E fitando fixamente os
    olhos negros da Rosária, disse-lhe assim:

    –Mas olha o que prometeste… Inda vais feita no que disseste?

    «Ora que lhe custava a ela! Já que as ovelhas tinham andado juntas todo
    o santo dia, que mais era que dormissem no mesmo curral, essa noite?»

    –E o mais, ó Rosária?–perguntou de novo com interesse.

    A pequena ficou perplexa. Mas como o pastor não cessava de a olhar,
    respondeu:

    –Também.–E sorriu-se.–Pois eu…

    Só depois desta segunda promessa o Gonçalo se levantou, e deu o sinal
    de partida, assobiando aos cães.

    Daí a pouco, estavam de marcha para o curral, Quando passavam a velha
    ponte, a obliquidade dos raios do sol fazia alongar desmedidamente pelo
    areal a sombra dos três arcos. Nas rugas da corrente, uma luz alaranjada
    tremeluzia, tirando à água a sua translucidez normal.

    –É bonito!–fez notar o pastor.

    A Rosária explicou logo:

    –São as moiras a caçar com redes de oiro, sabias?

    Para a outra banda, um pouco mais abaixo, assomavam à flor da corrente
    as cabeças dos dois rapazotes do moleiro. Dentro da _chata_ que vogava
    serenamente, a mãe com o mais novito ao colo não os perdia de vista,
    enquanto o pai, em mangas de camisa, de pé num topo de fraga, lhes ia
    ensinando as _manobras_. Ao fundo, três vitelas passavam o rio a vau,
    muito devagar, parando a espaços, alongando o pescoço para a veia de água
    serena, bebendo mansamente. Sobre o vitelo das malhas brancas, o
    guardador cantarolava, acenando com o chapéu ao moleiro–«boas tardes!
    boas tardes!» Ao sair da ponte, o rebanho teve de se afastar um pouco
    do caminho: aproximava-se um almocreve com a longa fila de machos
    carregados, tilintando campainhas.

    –Adeus pequenos! cumprimentou.

    –Venha com Deus!–tornaram-lhe ambos.

    E de novo se puseram em marcha. As ovelhas continuavam confundidas,
    confraternizavam os cães como bons e leais amigos. À frente, o Gonçalo
    ia tocando na flauta o mesmo que a Rosária cantava. O brando rumor dos
    chocalhos, que se levantava de todo o rebanho, casava-se com a música,
    fundindo-se numa nota subtil, de um pitoresco ingénuo de balada…

    Até que chegaram a um topo de serra, escurentado de matagal rasteiro, e
    então, parando um momento, o Gonçalo perguntou, colocando na sua frente
    a Rosária, e pondo-lhe à cara a flauta, na direcção em que devia olhar.

    –Vês além… neste direito? Resvés do castanheiro, não enxergas?

    A outra fez que sim com um gesto, e interrogou:

    –Então é ali?

    –Ali mesmo–volveu-lhe já de marcha.

    E repousando a mão direita sobre o ombro esquerdo da rapariga,
    repetiu-lhe muito contente:

    –É mesmo além.

    Numa terra de restolho, um largo quadrado de cancelas marcava o espaço
    que as ovelhas tinham de ocupar essa noite.

    –Falta pouco; a gente vai pelo atalho que é só mau p'ra quem passa a
    cavalo.

    E como ele ia expansivo, e a companheira não dava palavra, quis então
    saber:

    –Estás triste, ó Rosária?

    –Triste… não. Já agora… tem de ser–volveu-lhe cabisbaixa.

    –Huum! Arrependeu-se…–volveu consigo o pastor.

    * * * * *

    Até que por fim chegaram, tinha anoitecido havia instantes. Gado para
    dentro e toca a merendar; o que era de um era doutro: ele ainda trazia
    azeitonas, um naco de queijo, pão. Mal acabaram de comer, o Gonçalo
    apontou para a cabana que ficava ali perto, e propôs que se deitassem:
    estavam moídos da soalheira de todo o dia e da caminhada agora.

    Quando o Gonçalo e a Rosária entraram na cabana e se deitaram sobre o
    colmo, cobrindo-se com as mantas, e achegando para a cabeça um do outro
    os bornais que faziam de travesseiro, cerrara de todo a noite, e
    formigueiros de estrelas cintilavam vivezas de prata polida no azul
    indefinido do céu.

    –E os lobos?–perguntou a Rosária com medo.

    –Não há perigo–tranquilizou-a o Gonçalo.–Isso é lá com os cães.

    * * * * *

    Pouco a pouco, foi-se extinguindo no curral a música triste dos
    chocalhos. A ladrar, os cães faziam eco. O rebanho devia dormir
    profundamente, imerso no mesmo sono em que jazia prostrada toda a
    Natureza, ao largo. Dentro da cabana, os dois conversaram algum tempo,
    num ciciar brando de vozes, até que por fim, vencidos da fadiga, se
    deixaram adormecer,–quando a história das moiras encantadas ia no seu
    melhor episódio…

    E lá no alto céu, mesmo sobre a cabana, a estrela da tarde não era nem
    mais pura nem mais luminosa do que a alma simples e boa daquelas duas
    crianças…

    Quando ao repontar da manhã se levantaram, e saíram a ver o céu…

    –Bonito dia, Gonçalo!

    –Bonito dia, Rosária! Olha…

    …na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas iam voando…
    voando…

    SULTÃO

    (Copiado do Natural)

    _Ao meu Henrique e a Beldemónio, seu amigo_.

    I

    Ao cair da tarde, o Tomé da Eira entrava em casa, cansado, esfalfado de
    andar um dia inteiro a mourejar no campo.

    –Meus pecados, boa tarde!–dizia ele para a mulher, com um sorriso a
    afectar seriedade.

    Vinha logo o pequeno, o Manuel, de mãos postas pedindo-lhe a bênção.

    –Deus te abençoe.

    –Pai, olhe que o «Sultão»… ia a dizer o pequeno.

    –Bem sei! atalhava logo o Tomé.–O «Sultão» é um maroto e tu és outro.

    E enquanto procurava no bolso da jaqueta a sua bela navalha de
    _meia-lua_, que lhe custara um pinto havia bons quinze anos, e abria a
    gaveta do pão, o Tomé punha-se a fazer de interesseiro consigo mesmo,
    resmungando alto p'ra que a mulher o ouvisse:

    –É que por este caminho não tenho um dia descansado… Nem uma hora…

    Vinha a mulher com as azeitonas, com o queijo, sem dar palavra.

    –…Pois vamos já que já era tempo… Porque p'ra mim há-de chegar… A
    modos que vou já cansando…

    Mas o Tomé não era homem que dissesse estas coisas de coração.
    Pareciam-lhe longos, intermináveis, os aborrecidos Domingos que passava
    sem ir campos fora, madrugador como um melro.

    –Uma aquela como outra qualquer! dizia o bom do Tomé encolhendo os
    ombros, como quem está desgostoso com um génio assim.

    Partiu uma ampla fatia, um naco de queijo muito branco, do leite da sua
    cabrada, e veio sentar-se, consolado, ao fundo da larga escada de pedra
    que dava para a rua, arregaçado, em mangas de camisa, muito à vontade.

    Costume velho do Tomé:–mal se sentava, mastigando o «bocado», dizia
    logo para o filho:

    –Ouves, Manuel? Bota cá fora o «Sultão».

    O rapazito corria o caravelho de uma pequena porta lateral, que rangia
    nos gonzos ao impulso dos seus bracitos roliços, e punha-se a pular de
    contente, dizendo cá da rua:

    –«Sultão»! Sai cá p'ra fora, «Sultão»!

    No fundo negro do pequeno cortelho, na moldura rectangular da porta
    baixa, destacava-se então a cabecita parda de um jumento, orelhas em
    riste, grandes olhos de uma tristeza perpétua, num movimento moroso de
    pálpebras pestanudas…

    E ali se quedava parado, absorto, muito bem posto nas suas pequeninas
    pernas delgadas, a olhar o Tomé que o chamava,–um grande riso de
    alegria nas feições amorenadas, contente de ver o seu «Sultão».

    Mas o pequeno jumento não avançava um passo, divertindo-se em arreliar o
    Tomé, fitando-o com um ar estagnado. Altivo na sua nobre linha de
    quadrúpede de boa raça, alguém lhe poderia ler no olhar, mole e
    impassível, o frio, gelado desprezo a que parecia votar o dono…

    Mas era àquilo mesmo que o bom do lavrador achava graça. E punha-se
    então a falar muito sério, entre resignado e cortês, para o pequeno e
    desdenhoso jumento–o pão e o queijo esquecidos numa das mãos, na outra
    a navalha de _meia-lua_:

    –Então, «Sultão», não vens?

    –Não! parecia responder-lhe o animal. E abstracto, continuava a
    envolvê-lo no seu olhar profundo. A quebrar a harmonia daquela
    imobilidade de estátua, apenas de quando em quando uma pequenina patada
    na soleira, zap!

    –Zangado, «Sultão»? perguntava o lavrador.–De mal comigo?

    E prestes voltava a cara para a outra banda, para se rir à
    vontade…–que não fosse vê-lo o «Sultão»… Metia entre dentes um
    pedacito de queijo, logo uma côdea de pão, e fazendo umas grandes rugas
    na testa, de quem começa a zangar-se, voltava-se então muito sério:

    –Ficas aí, «Sultão»? Já não és meu amigo?

    O jerico abatia um pouco as orelhas, inclinava o pescoço, parece que
    fazendo-se humilde…

    –Então se és, anda daí. Olha…–E mostrava um pedacito de pão.–P'ra
    ti se vieres…

    O «Sultão» dava três passos, e ficava fora do cortelho. E por se vingar,
    o Tomé carregava o semblante numa seriedade muito pesada, e erguendo o
    rosto iracundo chamava-lhe interesseiro, maroto, afirmando que já lhe
    não dava o pão. E desfechando-lhe enfim a ameaça de o vender a um
    cigano, entrava a tratá-lo por senhor–_sôr_ «Sultão»…

    Mas o pequeno jumento ia andando muito devagar… andando… orelhas
    baixas, pescoço caído, a modo de arrependido, parece que pedindo perdão
    da arrelia.

    Nervoso, sapateando, o Tomé voltava a cara para a outra banda, a rir
    como um perdido.

    –Diabo do jerico! diabo do ratão! Capaz é ele de fazer rir as pedras,
    o mariola!–E tossia de engasgado, uma migalhita de queijo na goela.

    No entanto, o «Sultão» ia avançando, muito ronceiro, até que tocava com
    o focinho, levemente, nos joelhos do lavrador. O Tomé sacudia-o:

    –Sai-te p'ra lá! dizia ele muito amuado, sem se voltar.–Cuidas talvez
    que te não conheço, cuidas? Já te não quero, vai-te!

    Mas como que irreflectidamente, fingindo não querer, chegava-lhe ao
    focinho um pedacito do pão, o melhor da fatia. «Sultão» lançava um olhar
    oblíquo, entre sorrateiro e medroso, levantava cautelosamente o beiço
    superior, a tremer, e roubava-lho da mão.

    Pazes feitas! Era então rir a perder, numas casquinadas agudas, muito
    estrídulas.

    –Credo, homem! dizia de cima, da janela, a Sr.^a Josefa.–Até pareces
    doido!

    –Você assim rouba seu dono? Diga! Você assim rouba seu dono? perguntava
    o Tomé, nuns grandes gestos.–Vamos que eu lhe não queria dar da
    merenda? Ladrão, de mais a mais!… Ora bem! agora brinque.

    Era precisamente o que o Tomé queria:–ver o «Sultão» a brincar.

    …Nada, com efeito, meus amigos, que mais divertisse o bom do
    lavrador, e melhor o indemnizasse daquelas fainas laboriosas que lhe
    consumiam os dias, imperturbavelmente, perpetuamente, sob sóis
    causticantes e chuvas torrenciais.

    Por isso, era de ver como ele ria, com uma boa vontade deliciosa, das
    «partidas» e «diabruras» do «Sultão»! Às vezes, o pequeno jumento,
    ferido não sei por que vespa invisível, despedia sem mais nem menos
    numa carreira aberta, focinho entre as pernas dianteiras, agitando a
    cauda, por aquela rua fora. Rompia de toda a banda num alarido o
    rancho pacífico das galinhas, que já no ar andavam como doidas,
    cacarejando, como se um pé de vento as levasse. Acudia gente aos
    postigos, às portas, às janelas, a ver a polvorosa; e súbito se
    inundava a rua de rapazes, rotos, descalços, alguns quase nus, correndo
    atrás do burro, gritando-lhe, acenando-lhe, espantando-o–como se o
    mesmo vento de folia os houvesse varrido a todos, varrendo a própria
    rua… E um lá ia a terra, e sobre esse passavam os outros, e sobre
    todos voava o «Sultão», apupado, perseguido, aclamado, na malta
    espavorida dos inimigos…

    –«Sultão»! eh lá! «Sultão»!

    Súbito, como se lhe estalasse a corda, o animal estacava, e logo de
    volta dele postava-se a rapaziada, mas num alor de nova fuga, não lhe
    desse na bolha atacá-los… E abriam alas de repente, quando ele,
    tomado de novo acesso, voava para as bandas do dono, que por se não
    deixar atropelar investia com o «Sultão» de braços abertos, o que era,
    já se vê, um modo de o abraçar, fingindo medo. E vinham as gargalhadas
    estrídulas, os rogos para que pusesse tréguas, as súplicas para que se
    acomodasse, recuando o lavrador até ao último degrau da escada, onde
    se deixava cair,–derrotado!

    –P'ra lá, «Sultão»! p'ra lá! fazia então o Tomé, opondo-lhe os pés,
    desviando-o, apoiando-se nos cotovelos, muito inclinado para trás, a rir
    como um perdido.

    Então o pequeno jumento estacava, ofegante. Mas prestes rompia a
    girândola dos coices, em que era exímio, sacudindo muito as patas, cauda
    no ar, muito direita, ao mesmo tempo que o Tomé solícito dava aos
    rapazes o aviso de se arredarem–«porque era doido, aquele demónio»!…

    Outras vezes, parece que variando de táctica, entrava de seguir muito
    cauteloso, num ronceirismo pérfido, como um borrego ou como um cão,
    certa mulher que passava. Até que lá ia uma focinhada, e logo após os
    saltos do costume, respondendo com uma ameaça de pinotes à surpresa da
    viandante.

    –Dê, tia Luísa! bata nesse maroto! fazia de lá o Tomé, com ares de
    zangado. E depois, batendo o pé, pedindo que lhe dessem uma
    verdasca:–«Sultão»! venha já p'r'aqui! intimava.

    E se encontrava um cão? Se encontrava um cão, ia logo direito a ele,
    muito devagar, cauda caída, orelhas murchas, num cumprimento humilde
    de focinho. O cão regougava, desconfiado, entreabrindo a dentuça,
    preparando a sua dentada. Não dava o «Sultão» sinais de medo, e humilde
    prosseguia para o outro, propondo paz. Mas ao primeiro latido, recuava um
    passo, espertando da sua indolência passiva; e de espinha arqueada
    ganhava o terreno perdido–fitando impassível o cão… O bruto formava
    então o salto, regougando forte, o pêlo eriçado; e ao investir para a
    primeira dentada, salvava-o de um pulo o «Sultão», evitando-o, até que
    por compaixão lhe dava um pequenino coice, «mais feitio que outra
    coisa», pondo em fuga o mastim, corrido, ganindo, vencido:

    –Eh! valente! gritava-lhe então o Tomé.

    E com duas palmadas na anca, espantava-o enfim para o cortelho, dizendo
    ao correr a caravelha:

    –Não há dinheiro que te pague, assim me Deus salve!

    E comido o caldo-verde da ceia, nunca o Tomé da Eira ia para a cama sem
    primeiro descer a ver o «Sultão»,–de candeia na mão esquerda, e na
    direita, contra o sovaco, a bela quarta do grão, acogulada.

    Muitas vezes acontecia esquecer-se o Tomé a vê-lo comer, de candeia
    atenta, encostado à manjedoura, sorrindo: e, de cima, a Sr.^a Josefa
    tinha de intervir então, gritando-lhe pelas frinchas do sobrado:

    –Tomé, vê se te vens deitar, meu pasmado! olha que são horas.

    E piamente, como fanático, achava verosímil a lenda da burra que
    falou,–história que uma tarde, passando, o abade lhe contara. Tanto
    que mais de uma vez, dando ao burro as boas-noites, estranhou com certo
    desgosto que o «Sultão» lhe não respondesse:

    –Boas noites!

    * * * * *

    Mas o demónio, que sempre as arma, armou-lha também um dia! Foi ao
    cortelho, de manhã cedo, e não encontrou o burro. Ficou parvo! Pôs-se a
    mirar, espantado, a loja que lhe pareceu enorme, e além de
    enorme–gelada…

    –Ó Josefa! Josefa! entrou de gritar da rua.–Ó Josefa!

    A mulher assomou à janela, sobressaltada.

    –Queres apostar que me roubaram o burro, ó mulher?!

    –Que te roubaram o quê? fez a Sr.^a Josefa, muito atónita.

    –O burro, o «Sultão»! Vem cá ver que mo roubaram!

    E como ao tempo acudira já o Manuel, em camisa, descalço, romperam todos
    três na gritaria, defronte do cortelho vazio:

    –À d'el-rei! À d'el-rei! À d'el-rei!

    Até que o regedor, que era compadre, intervindo estremunhado, pôs na
    peugada do burro, mais dos larápios, os cabos que compareceram.

    Mas em vão! Um a um foram regressando, pelo dia adiante, e desfechando
    ao peito abatido do Tomé a negra e vazia palavra:

    –Nada!…

    II

    Dois anos depois. Tarde de Agosto. Ao longe, fechando o horizonte que a
    eira dominava, as arestas dos montes quebravam-se numa sombra igual, e
    embaciavam ainda o poente as suaves, brandas pulverizações doiradas da
    última luz do sol. Riscos vermelhos de nuvens, como grandes vergas de
    ferro levadas ao rubro, destacavam imóveis num fundo verde-mar,
    esvaecido e meigo, raiado de listrões de uma coloração leve de laranja.
    Pequenos algodões transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e
    além, alegremente, a monotonia profunda do azul. Num deslado, sob os
    castanheiros próximos, surgiam os telhados da aldeia, a torre branca da
    igreja, as paredes caiadas da escola.

    A vasta eira comum, levemente acidentada, apresentava àquela hora o
    aspecto tranquilo e de paz de uma grande oficina em repouso. Poucas
    «medas», iam no fim as colheitas: mais uma semana, duas quando muito, e
    estaria tudo recolhido. Já sobre a palha das «parvas» ou ao sopé das
    «medas» altas, entre os utensílios da trilha e a criançada estrídula que
    brincava, os da lavoura descansavam–vermelhos da soalheira intensa de
    todo o dia, alguns deitados, em mangas de camisa, peito nu, arregaçados
    os braços musculosos, numa prostração regalada de matilha que alfim tem
    a sua hora de sossego, após um dia de caçada. Parecem prostrados da
    fadiga os próprios malhos, os trilhos, as pás, os «baleios» que levaram
    todo o santo dia varrendo o chão em volta das «parvas». E aqui e ali,
    dando uma sensação agradável de fartura, perfilam-se os altos sacos no
    meio das rasas, extravasando de grão. Além, gente em mangas de camisa,
    ao redor de um grande montão de palha triturada, vai «limpando»–visto
    que sopra um «ventinho». E sente-se sobre as pás a chuva do grão, ao
    mesmo tempo que a palha, voando, faz monte da outra banda, e os
    «baleios», em mãos de mulheres, não cessam de arrebanhar o grão,
    varrendo em roda num afã… Em certo ponto, carros vazios; um além, de
    altíssimas «angarelas», vai-se enchendo de palha; enquanto outros,
    atulhados de sacos, em rimas entre as cancelas mais baixas,
    estridulamente chiando abalam para as tulhas, levados pelos bois
    gigantes.

    Eiras além, livres dos trilhos que ficavam em cima da palha, levas de
    bois caminhavam vagarosamente, as largas orelhas pendentes, caudas
    oscilantes afagando nas ancas espaçosas o luzidio pêlo. E lá vão
    encosta abaixo, roçando pelos troncos ásperos dos castanheiros a enorme
    corpulência, fartar o largo bandulho à serena água das ribeiras,
    sorvendo vagarosamente, impando a cada sorvo, pesadamente,
    monotonamente, parece que insaciáveis no meio da água em que se atolam,
    submissa…

    Ao fundo da eira, rente aos castanheiros escuros, um rancho de mulheres
    cantava alegremente, em coro. Acabara de ensacar-se o último grão da
    farta colheita do Tomé da Eira.

    –Colheita rica, sim senhor! vinham dizer-lhe os vizinhos.–A primeira
    da aldeia!

    –Qual? isso sim! vão vocês ver a tulha. Muita palha, é que vocês hão-de
    dizer, muita palha e pouco grão…

    E muito azafamado, sem prosápias de maioral nem jeitos de soberba, as
    mangas arregaçadas pelos cotovelos, o Tomé ia e vinha, dando ordens,
    repetindo avisos, distribuindo aqui e além as últimas tarefas.

    –Aí vai um saco, ó tu! É p'r'as «rabeiras». Que não fique nem um
    grão, ouviram? É aviar, toca a aviar! Cautela que não fique por aí
    alguma coisa esquecida: essas pás, esses «baleios», tudo isso.
    Margarida! ó Margarida! qu'é da tua rasa? Deixa! se vai no carro está
    bem.

    E era como um doido a meter-se no serviço de todos, muito expedito,
    loquaz, alegre, pedindo pelas bentas almas que se não deixassem agora
    dormir…

    –Vamos lá! vamos lá! As pás, ó tu que cantas? Deixa-me por aí alguma,
    que eu depois te ensinarei, ouviste?–Que faz aí no chão esse
    «rasouro», ó coisa?–Olha p'r'o que estás a fazer, tu: esses sacos que
    fiquem bem atados.

    O criado, que ia abalar com a carrada, perguntou, já de «aguilhada» no
    ar, se era preciso mais alguma coisa.

    –Não, podes ir. Ouves? lá em casa que tenham a ceia a horas. Avia-te.
    Ouves, Francisco? Não piques os bois, a carrada é valente. A passo,
    deixa ir os animais a passo. Vai-te.

    Como o carro chiava, levantou a voz para dizer:

    –Olha, descarrega na tulha do meio. Na tulha do meio, não ouves? Os
    bois para o lameiro.

    Mas o Francisco apontou dois sacos que ficavam:–«seria preciso vir por
    eles?»

    –Não vale a pena, lá irão.

    E depois, para aquela gente, observou que bem sabia ele quem os
    levava, aqueles dois sacos…

    –Com mil demónios! Apostar que vocês não adivinham?

    «Eles sabiam lá?… Quem quer podia levar os dois sacos, olhem agora!»

    –O «Sultão», sabem? o «Sultão»! Esse é que os levava. E digo-vos então
    que valia o dobro a colheita, assim me Deus salve!

    Alguns riram da lembrança. «Tinha graça que a cisma do animal não lhe
    passava nem à mão de Deus Padre!»

    –A modos que isso é já mania, ó Sr. Tomé?

    Nisto, porém, o lavrador soltou um «oh!» de surpresa. Voltaram-se
    todos–«que era?» Na estrada que a eira dominava, um homem ia passando,
    a cavalo.

    –Vocês não querem ver, ó rapazes?! perguntou o lavrador, fazendo-se
    pálido.–Aquele burro, hein? se não é o «Sultão» é o diabo por ele…

    Recordaram:–«estrela malhada na testa, a mão direita branca»…

    –É ele, com um milhão de diabos! não há que ver! E aquele é o ladrão!

    E cuspindo nas mãos, e arregaçando mais as mangas da camisa, arrancou,
    de um abanão, o cabo de uma «espalhadoura» e botou a fugir direito à
    estrada.

    Prestes ouviu-se um berreiro, as mulheres do rancho em alarido:

    –Que o mata! gritavam todas.–Ai que o mata! Acudam! Ai a desgraça! Nem
    a alma lhe deixa! Acudam!

    Os homens deitaram a correr atrás dele, afluía gente de todas as
    bandas da eira, os cães ladravam.

    –Então, Sr. Tomé? olhe que se perde, Sr. Tomé! diziam-lhe, já
    agarrados a ele.–Largue o cabo, que se desgraça! Tudo se faz a bem,
    Sr. Tomé, largue vossemecê o cabo!

    –Qual bem nem qual diabo! Qual larga? Arreda! Racho-lhe as costelas,
    mais a vocês, se me não largam! Arreda!

    E esbracejava furioso, levando-os de roldão, agarrados a ele mais ao
    cabo. Chegou a ferir um, os outros desanimaram por instantes.

    –Vê, Sr. Tomé?!

    «Não via nada, não queria ver coisa nenhuma! Arreda!» E num rompante de
    ira, abrindo brecha com um «sarilho», de um pulo saltou à estrada, aos
    tropeções nas pedras que encontrava, mal se equilibrando.

    –Abaixo! intimou.–Você é um ladrão!

    –Um quê?

    –Um ladrão! É meu esse burro! Hei-de matá-lo aqui, seu patife!
    Deixem-me! larguem-me! Há-de aí ficar estendido, como um cão!

    E no meio da malta em alvoroço, com a arreata do burro na mão esquerda,
    e na direita o minacíssimo cacete, berrava que o deixassem, que ia tudo
    raso–«com seiscentos milhões de diabos!»

    Seguiu-se altercação, vieram razões de parte a parte, insultos.

    –Já lhe disse que você é um ladrão!

    –Ladrão será você!–tornou-lhe o outro já de pé, avançando de punhos
    cerrados.–E não mo diga outra vez, que o racho!

    Aflitas, algumas mulheres voltavam-se, de mãos postas, para a
    capelinha próxima, rogando o socorro da Virgem. O lavrador entrava de
    tremer como varas verdes, desfigurava-o a raiva, uma saliva muito branca
    bordejava-lhe os cantos da boca. Pela camisa rota, via-se-lhe já um
    pedaço de ombro. Tinham, alfim, conseguido arrancar-lhe o cacete, mas
    agora esbracejava, punhos no ar sobre aquelas cabeças em desordem.

    Já, para uns certos do grupo, o homem do burro se desculpava:–«tinha-o
    comprado a uns ciganos, fossem lá adivinhar que o burro era roubado…»

    –Vê, Sr. Tomé? acudiram logo uns poucos.–O homem não tem culpa.–E
    gritavam-lhe aos ouvidos:–Não tem culpa! Comprou o animal na boa fé.
    Vês–aí está!

    –Mente! objectava incrédulo o Tomé, cada vez mais irado.–Mente!

    –Mente?! perguntava o outro de lá, assanhado.

    –Como um judeu! cuspia-lhe da outra banda o Tomé.

    De modo que para o convencerem, foi preciso afinal levá-lo quase à má
    cara, chamar-lhe homem de rixas, despropositado, bulhento. Ele então,
    abrindo os braços como se fosse para nadar, sossegou um pouco,
    amainou,–prometeu levar aquilo com paciência, às boas. Chegou quase a
    pedir desculpa, limpando com a manga branca as bagas das
    camarinhas.–«Mas tinha perdido a cabeça, que lhe queriam?»

    Chegou-se por fim a um acordo. «Sim, senhores, acomodava-se, mas
    punha uma condição: largasse ele o burro, e o burro é que havia de
    resolver…»

    –Serve-lhe o contrato?

    –Qual contrato?

    –Mau! Larga-se o burro, você entende? deixa se o burro às soltas.
    Depois, é p'ra onde ele for. Se o burro larga p'ra trás, lá p'r'as
    bandas donde você vem… Você donde vem?

    –Dos Casais.

    –Pois aí está. Se o burro tomar p'r'os Casais, o burro fica seu…

    –E tomando direito à aldeia, é do Sr. Tomé,–concluíram alguns do
    grupo, conciliadores.

    –Nem mais! Serve-lhe assim? Diga se lhe serve assim.

    Por um desfastio, o outro concordou. Mas lá lhe parecia história que o
    burro tomasse para a aldeia… Vinha de tão má vontade, que até lhe
    custara tirá-lo de casa.

    –Olhe que vai pr'os Casais! Digo-lhe então que vai pr'os
    Casais…–afirmou.

    –Melhor p'ra você. Mas nós veremos p'ra onde vai. Você está pelo
    dito?–quis saber o Tomé.

    –Sim senhor, estou! Pois que dúvida tem que estou? disse-lhe o outro
    num rompante. Olhe: uma, duas, três; às três largo-lhe a arreata.

    Ia já a abrir a boca para dizer–«uma!»

    –Alto! fez o Tomé. Espere lá um pouco. Primeiro hei-de fazer duas
    festas ao animal.

    E pôs-se a bater-lhe na anca, no pescoço, no peito, demorando-se um
    pouco a fitá-lo de frente, «para que o animal o conhecesse.»

    –«Sultão»! gritou-lhe de repente. Eh! «Sultão»!

    O burro estremeceu… Dir-se-ia que no fundo da sua memória, a
    lembrança porventura adormecida daquele nome despertara subitamente…

    –Eh! Eh! riu-se muito satisfeito o lavrador. O burro, agora, vira-se
    p'ra ali. Isso. Nem é p'r'os Casais nem p'r'o lugar. Assim. Eh! Eh!

    E afastou-se para o lado, aguardando.

    Uma ansiedade dominava naquele momento os do grupo; o Tomé pôs-se a
    roer as unhas, nervoso…

    –Então você porque espera? perguntou.

    Ouviu-se logo a voz do outro, dizendo:

    –À uma!…

    O Tomé sentiu um calafrio; sapateava nervoso, cheio de medo, o olhar de
    esguelha, e entre os dentes ferrados o polegar da mão direita…

    –…às duas!

    –Ih! c'um raio!… dizia baixo o Tomé.

    E sem querer, os olhos cerraram-se-lhe com força.

    –…às três!

    Foi então um barulho de palmas, um berreiro atroador de vivas e
    gargalhadas! O Tomé vencera: corriam todos a abraçá-lo, afirmando que
    o caso era para foguetes.

    –Viva o Sr. Tomé! Viva o «Sultão»! Aquilo é que é burro!

    –Aquilo é que é amigo, hão-de vocês dizer!–emendava o Tomé a rir.
    Tenho-os com dois pés, que não valem metade…

    –Oh! Sr. Tomé! protestavam alguns.

    –Isto não é com vocês, mas é como quem se confessa… Está visto que
    não é com vocês.

    E ria, ria como um perdido, enquanto, estrada fora, o «Sultão» corria
    que voava, cauda no ar, corda de rastos, perdendo-se por fim lá ao
    fundo, na poeirada imensa da estrada, como que nimbado num resplendor
    de apoteose. E na peugada do burro, esbaforido e como doido, seguia
    agora o lavrador, após o fraternal abraço, pregado no dos Casais…

    Quando o Tomé chegou a casa, ofegante, a suar, cheio de gestos e de
    palavras entrecortadas de riso, já o «Sultão», relinchando, pateava à
    porta do antigo cortelho, numa grande impaciência, um «rap-rap»
    contínuo na soleira.

    –Venham ver! Venham cá ver! berrava o Tomé para a vizinhança. Ó
    António! Ó compadre! Ó Maria Engrácia!

    Às janelas assomava gente, perguntando se era fogo.

    –Qual fogo, nem qual carapuça! É o «Sultão», mas é! Este inimigo! Ó
    Josefa! Josefa! cá temos o burro, este demónio. Assoma.

    Ora imaginem agora os senhores, se podem, a efusão do lavrador.
    Abraços? E até beijos. Aquilo era um tesouro perdido que reaparecia
    alfim. A mulher, do alto da escada, benzia-se, perguntando se o seu
    homem teria endoidecido…

    –Palavra de rei, «Sultão», palavra de rei! Anda daí pelos sacos. São
    só dois. Ó Josefa! Ouves? p'ra cá esse garrafão que está ao pé da arca,
    avia-te. A caneca também, ouviste? Essa das riscas vermelhas, a maior.

    E atirando as mãos ambas para a albarda, montou muito regalado, de um
    pulo.

    –Ah!

    A senhora Josefa assomava, ajoujada com o enorme garrafão.

    –Anda, mulher, põe aqui diante de mim. Avia-te.

    Ia a boa da senhora Josefa arriscar uma observação, um conselho,
    qualquer coisa de tomo…

    –Adeus, minhas encomendas! Não me fanfes, mulher, não me fanfes. Põe
    aqui, que mando eu, avia-te. Assim. Está bem.

    –Nome do Padre…

    –Então que lhe queres? Deu-me agora p'r'aqui!

    –Nome do Padre, nome do Filho…

    –A caneca! Venha de lá agora a caneca!

    –…nome do Espírito Santo!

    –Passa bem, ó mulher,–concluiu às gargalhadas, entre as gargalhadas
    dos demais.–Ouves? Quando o Manuel vier dos ninhos, esse maroto,
    manda-mo às eiras. A trote, «Sultão»! Eh! valente!

    E lá parte, veloz como uma seta. Já de longe volta-se do repente:

    –Josefa! ó Josefa! nesse alguidar do meio umas sopas de vinho p'r'o
    «Sultão», ouviste? No do meio. O grande é muito grande, e esse pequeno
    não presta. Ouves? mas quer-se coisa que farte, bem entendido.

    E de novo despediu como uma flecha, abraçado ao garrafão. Arreata para a
    direita, arreata para a esquerda, pernas a dar a dar, ele lá vai numa
    corrida, sumido numa onda de poeira, até chegar às primeiras «medas».

    –Vinho, rapaziada! Ó Maria do Carmo, toma lá uma pinga, mulher! Lá por
    andarmos de mal há 15 anos isso acabou-se!

    E o Tomé atravessou a eira sempre a cavalo no «Sultão», caneca de
    vinho para a direita, caneca de vinho para a esquerda.

    * * * * *

    Meia hora depois regressava, o «Sultão» pela arreata, o Manuel no meio
    dos sacos, e adiante do Manuel o belo garrafão–sem pinga…

    Pelo caminho, a todos o Tomé contava a história, a rir como um perdido,
    num ah! ah! de gargalhadas sonoras, muito íntimas.

    –Colheita rica, sim senhores, um colheitão!

    E parando à porta, ainda a mulher se benzia do alto da escada, mexendo e
    remexendo o alguidar de barro:

    –Nome do Padre, do Filho, do Espírito Santo.

    …Ao mesmo tempo que o Tomé, abrindo os braços, respondia reclamando
    as sopas:

    –Ámen!

    ÚLTIMA DÁDIVA

    _Ao dr. A.A. da Fonseca Pinto_.

    Distante do rio apenas um tiro de bala ficava o horto do José Cosme,
    belo horto ainda que pequeno, todo mimoso de frutas e hortaliças,
    fechado entre velhas paredes musgosas, atufadas em silvedo, comunicando
    com a estrada por um pequeno portelo mal seguro. E eis ali quanto ao
    pobre homem restava dos seus antigos haveres:–o horto, a um canto a
    nora, e perto da nora, sob a umbela tufada e virente da antiga magnólia
    gigantesca, a mísera casinhola de alpendre, apenas com uma porta e duas
    janelitas laterais mas toda pitoresca das heras que a revestiam, que
    lhe pendiam dos beirais enlaçadas com as trepadeiras.

    De modo que na Primavera, quando as parasitas abriam serenamente os seus
    melindrosos cálices sobre esse fundo de verdura reluzente, e a magnólia
    toda se toucava de flores fazendo docel à vivenda, aquele pequeno canto
    de horto, com a sua nora e com a sua água espelhante e límpida, tomava a
    feição ingénua de uma delicadíssima tela de paisagista, aguarela
    deliciosa, alegre e idílica, cheia de encantos na poesia rústica da sua
    simplicidade.

    No Verão, às horas de calor, quando o sol caía a pino sobre a larga
    paisagem adormecida e turva, e as árvores da estrada não davam sombra
    que aliviasse, aquela tranquilidade com que o José Cosme ressonava sob
    o alpendre, braços nus e peito nu, o chapeirão de palha grossa
    resguardando-lhe a cara, fazia inveja aos que por ali passavam, cansados
    e cheios de poeira, flagelados por aquela estiagem inclemente.

    –Ó tio José!–gritavam-lhe do caminho.–Tio José! Ó regalado!

    Mas os que entendiam de lavoura, proprietários e maiorais, esses
    deixavam dormir o José Cosme e ficavam-se a admirar o horto.

    Ora na verdade!… Belo horto, sim senhores! Por aquelas redondezas
    não havia outro que se lhe comparasse, tão esmerada era a sua
    cultura–tão esmerada e tão completa, pois que de mais a mais nem palmo
    de terra ficara inculto. Nas leiras, dispostas com simetria agradável,
    verdejavam cheios de viço, frescos e medrados, legumes de todas as
    castas–desde a alface muito tenra, de folhas verde-claras, toda
    acaçapada no chão húmido das regas, até às trepadeiras das vagens que
    enroscadas ascendiam pela basta «rodriga» de castanho aparada com todo o
    esmero, formando maciços de verdura sombria que os casulos esguios dos
    feijões crivavam de alto a baixo. Árvores, apenas as precisas para
    aformosearem o horto, sem prejudicarem com a sombra a vegetação franca
    das hortaliças. Mas todas as que havia eram mimosas de frutas nas
    estações competentes–cerejas, peras, maçãs, pêssegos mesmo.

    Poucas flores: uma coisa que todos notavam com estranheza. Mas desde que
    lhe morrera a mulher mais a filha, o José Cosme deixara-se de as
    cultivar, e nos canteiros assim devolutos tinha semeado repolhos, que
    por sinal vinham enfezados. Só teve o cuidado de não deixar morrer os
    goivos. Uma vez por ano, em fins de Maio, colhia-os todos de uma vez, e
    ia levá-los em braçado à sepultura rasa das suas defuntas.

    Exactamente nessa tarde tinha ele ido ao cemitério fazer a fúnebre
    visita. Quando se recolheu era já noite. Mal acabou de cear levantou-se
    bruscamente da mesa e foi-se para o horto, com uma grande vontade de
    chorar. Estava nas suas horas tristes, nessas horas em que as energias
    todas da sua alma e até as do seu corpo vergavam sob o flagelo de uma
    dor violenta, exacerbada agora pela saudade dos que lhe tinham
    morrido… E para maior desgraça fugira-lhe o bem das lágrimas. De modo
    que sem esse lenitivo, aquelas medonhas tempestades custavam o dobro a
    suportar. Abstracto, numa espécie de entorpecimento idiota, percorria
    sem descanso todas as ruas do horto, cabisbaixo, acabrunhado, autómato.
    Se por vezes parava, recolhendo-se numa quietação atenta, logo um
    gesto brusco desmanchava a sua imobilidade de estátua, soltava um fundo
    gemido, e punha-se de novo a andar.

    –Vens ou não vens?–perguntava ele, evocando com dorido esforço a
    imagem da mulher ou da filha. Não vinha; e quando aparecia era como se
    fosse um relâmpago, apagava-se logo.

    Nesta lua com a sua dor as horas iam passando longas. Era já tarde,
    talvez a uma da noite. Luz, apenas a das estrelas, pois que o luar
    nascia tarde. Pesava sobre toda a paisagem o largo silêncio da noite,
    apenas cortado, ao longe, pela melopeia sonolenta do rio.

    Um rapaz que ia na estrada olhou por acaso para o horto do José Cosmo e
    viu um vulto perpassar de repente e de repente sumir-se num recanto
    onde a sombra era mais densa.

    –Temos história…–resmungou consigo o rapaz.

    E, rente a uma árvore, quedou-se alapardado, à espreita. Não desconfiou
    que fosse o José Cosme: aquilo era mariola de larápio que vinha por ali
    fazer das suas. Agachou-se então, e pôs-se a procurar uma pedra. Apanhou
    duas, para o caso de não acertar a primeira.

    –Cão do diabo!–exclamou baixo o rapaz, pondo-se em posição de jogar a
    pedra.–Espera que eu te arranjo…–E já ia arremessá-la na direcção do
    canto, quando o vulto saiu da sombra e tomou por um carreiro, direito ao
    lugar onde o rapaz estava.

    –Melhor! Mais a jeito ficas…

    E debruçando-se um pouco na parede, pôs-se a fixar o vulto que avançava,
    para ver se o conhecia. Quem quer que era trazia a jaqueta sobre os
    ombros, alvejavam-lhe as mangas da camisa. A meio do carreiro, mesmo
    defronte dele, parou. Foi então que o rapaz se lembrou do José Cosme.
    O vulto parecia, com efeito, ser o dele; lembrava-se agora de ter
    ouvido que o pobre homem, quando o ralavam saudades da mulher e da
    filha, levava noites em claro, a percorrer como doido aqueles carreiros
    por onde elas tinham andado.

    Quando ouviu soluçar, acabou então de se convencer. Insensivelmente,
    deixou cair as pedras e perguntou:

    –Tio José! Ó tio José! Sou eu, o Luís… Vossemecê que tem?

    O lavrador não respondeu, parece que nem tinha ouvido. O rapaz insistiu:

    –Dói-lhe alguma coisa, ó tio José?

    –Não dói, não. Sabes que mais? peço-te pelas alminhas que me deixes.
    Bem me bondam as minhas aflições. Vai com Deus, vai.

    O rapaz ficou surpreendido, triste do tom de súplica dorida que o José
    Cosme dera àquelas palavras, e retirou-se silencioso, quase aterrado
    agora com a ideia de que poderia ter matado o pobre homem, caso jogasse
    a pedrada.

    No entanto a noite ia avançando, grave, soturna, sem outro ruído que não
    fosse o das águas do rio. E o José Cosme, sem despegar do seu fadário,
    ia e vinha pelas ruas do horto, lembrando um autómato ou um sonâmbulo.
    Às vezes abeirava-se da porta de casa e punha-se a escutar. Como não
    sentia nada, voltava de novo ao seu passeio. Nisto, de uma vez que
    passava em frente do cancelo, pareceu-lhe ouvir passos.

    –Ó Tomás!

    –Sr. José!–respondeu o que entrava, numa voz que era mesmo voz de
    barqueiro.

    O Cosme sentiu então uma grande vontade de chorar, mas remordendo os
    beiços dominou-a. Como o barqueiro estranhasse encontrá-lo a pé, ele
    então redarguiu-lhe que nem se tinha deitado.

    –Como tinha de madrugar…

    –Pois são horas de largar, Sr. José; isto vai p'r'as duas. Não tarda
    que comece a amanhecer.–E como estavam à porta de casa:–Será bom
    acordar já o pequeno: veste, não veste, é tempo que se vai.–Iam à vela
    se o tempo não mudasse. Era bom aviar, por isso.

    Mas à ideia de ter de acordar o pequeno, o José Cosme deixou-se cair
    sobre o banco que estava debaixo do alpendre, e desatou a chorar
    violentamente.

    O barqueiro tentou animá-lo, constrangido.

    –Então, Sr. José?… O chorar é lá para as mulheres. Olhem agora que
    homem!–E tentava levantá-lo, pô-lo de pé.–Limpe lá essas lágrimas, que
    vai afligir o pequeno! Ou quer que ele vá a chorar todo o caminho?

    O Cosme fez que não com a cabeça, violentamente, e pôs-se a enxugar os
    olhos com a manga da camisa.

    –Pois então levante-se lá.–E segurou-o com força por baixo dos
    braços.–Assim! Lá porque o pequeno vai para o Brasil não fique
    vossemecê a pensar que o não torna a ver.

    Mas era isso mesmo o que ele pensava…

    –Porque não sei que me adivinha que não torno a ver o pequeno–concluiu
    a chorar o José Cosme.

    –Cismas! lembranças que vêm à gente quando está aflita. Mas há-de
    vê-lo que o não há-de conhecer, digo-lho eu. Mais ano menos ano,
    aparece-lhe aí rico…

    Rico! bem lhe importava a ele que o pequeno viesse rico. O que desejava
    era que voltasse e que ele ainda fosse vivo só para o abraçar.

    Pois sim, mas era preciso aviar, que tivesse paciência: o José Cosme que
    se animasse para animar o pequeno–recomendava o barqueiro.

    –Sim… sim…–tartamudeava o Cosme.–Vamos lá com Deus! Com'assimU+2026.

    E num profundo ai dolorosíssimo, foi-se direito à porta para chamar a
    pequeno. Não havia remédio, tinha nascido em má hora, havia de ser
    desgraçado até que o levassem para a cova… Sobre a estreita e humilde
    cama o filho dormia profundamente. Que dor, ter de o acordar! Vieram-lhe
    tentações de mandar embora o Tomás e deixar dormir a criança. Quem sabe
    se a sua sorte futura, se toda a sua vida, valeria a boa tranquilidade
    daquele sono! Não tinha coragem para o acordar, fazê-lo vestir: era
    quase um pecado quebrar aquele último sono dormido sob o tecto
    paterno… O último sono! o último sono!

    –Ainda se o deixássemos acordar…–aventurou-se a dizer o triste.

    Mas o Tomás que estava com pressa, lembrou secamente que eram horas de
    pôr o barco a andar.

    O José Cosme acendeu então a candeia, receoso de que a luz o
    acordasse, e achegando-se do filho pôs-se a escutar-lhe a respiração.
    Dormia!… Mas brandamente pousou-lhe a mão sobre a cabeça e chamou
    baixinho, quase ao ouvido, beijando-o, sobressaltado como se fosse
    praticar um grande crime:

    –Filho, olha que são horas, meu filho…

    Quando o pequeno se sentou na cama, estremunhado, ainda sob o
    estonteamento do sono, cerrando os olhos àquela hostilidade viva da
    luz, o pai agarrou-se a ele num abraço, e ambos romperam a chorar.

    –Adeus, pai!

    –Adeus, filho!

    Confrangido, o Tomás que se deixara ficar à porta, avançou para desatar
    aquele abraço.

    –Olhe que é tarde, Sr. José. Perdoe, mas olhe que é tarde!

    O pai vestiu o pequeno, beijou-o ainda muito, e saíram. Debaixo do
    alpendre, o Joaquinzito ficou-se um instante a olhar o tecto.

    –A andorinha, filho?–perguntou o José Cosme.–Deixa que eu hei-de
    olhar por ela, mais pelos filhos quando os tiver. Vai sossegado.

    Mas o pequeno quis vê-la, pediu ao pai que o erguesse, era só um
    instante. Lá estava ela, coitadinha! sentiu-a estremecer quando lhe
    tocou com as pontas dos dedos…

    –Adeus!–disse-lhe o pequeno afagando-a.

    A esta palavra, o pai retraiu os braços e tomando o filho no colo
    seguiu. Atrás, o barqueiro levava ao ombro a mísera arca de pinho: toda
    a bagagem do Joaquim.

    Ao transpor o cancelo o José Cosme deteve-se um pouco e perguntou
    soluçando:

    –Quando voltarás ao horto, meu filho?

    O pequeno não respondeu. Chorava constantemente de ver que o separavam
    de tudo o que adorava–a andorinha, depois da andorinha o horto, as
    árvores, a velha nora, o cancelo, tudo enfim.

    Atravessaram então a estrada e tomaram para a banda do rio. Quando o
    sentiram murmurar, aperraram mais o abraço, deram-se um longo beijo,
    húmido das lágrimas que ambos derramavam. Ah, como o triste pai desejava
    que o rio ficasse ainda longe, mui longe, que fugisse diante deles, de
    modo que nunca o alcançassem! Mas eis que a areia principiava,
    divisava-se já perto o vulto escuro do barco onde os da tripulação
    falavam alto.

    –Pronto?–perguntou ainda de longe o Tomás.

    Do barco responderam que era só marchar, de mais a mais ia romper a lua.

    Chegaram enfim. Num leve silêncio de acaso ouviam-se os soluços dos
    dois, parece que prolongados infinitamente, na sua expressão de
    angústia, pelo deslizar monótono das águas… Aquilo confrangia o
    barqueiro, ele também era pai… Por isso, mal chegaram à beira do rio,
    apressou-se a dizer para o pequeno:

    –Ora bem, Joaquinzinho, beija a mão a teu pai e dize-lhe adeus.

    Ouviu-se um chorar lancinante, a voz do pobre José Cosme a querer animar
    o filho:

    –Então, meu filho?… Deus te abençoe, meu amor… Nossa Senhora te
    veja ir.–E fez-lhe prometer que havia de rezar sempre a Nossa Senhora,
    ele também lhe rezaria, pois era ela quem dava saúde, quem fazia a
    gente feliz.

    –Não te esqueças dela mais da alminha de tua mãe e de tua irmã…

    Mas o pequeno chorava cada vez mais, agarrado ao pescoço do pai,
    beijando-o sofregamente, acarinhando-o, sem forças para dizer palavra.
    Então o José Cosme, perdida a esperança de animar o filho, só exclamava
    desvairado:

    –Valha-me Deus! O Senhor me valha pela sua infinita misericórdia!

    E o Joaquim sempre agarrado a ele, beijava-o na cara, na cabeça, nas
    mãos. Até que o Tomás teve de intervir, era preciso despegar dali por
    uma vez.

    –Com'assim, Sr. José, isto tem de ser…–E segurando o pequeno com
    força puxou-o para ele. Quando já o tinha nos braços, ouviu-se o José
    Cosme que suplicava de mãos postas:

    –Só um instante, só um quase-nadinha, Tomás!–E o pobre pai caía de
    joelhos na areia, numa atitude de súplica.

    Mas nesse momento, o barqueiro saltou de um pulo para o barco, levando
    ao colo a criança.

    –Rema!–intimou em voz rápida.

    O barco recuou então subitamente, ao mesmo tempo que os remos fizeram
    _plhau_! sobre a água.

    Então o choro do José Cosme tornou-se de uma violência desesperada, ao
    ouvir a voz lacrimosa do pequeno dizendo-lhe adeus lá do barco.

    –Adeus, Joaquim, adeus!

    –Adeus, pai!

    –Adeus!

    Mas repentinamente, com voz resoluta e firme, o José Cosme gritou na
    direcção do barco:

    –Tomás! ó Tomás! por alma de teu pai faz lá alto um instante.

    Acabou-se! custara-lhe tomar aquela resolução, mas já agora era melhor
    ficar sozinho de todo. E segurando nos dentes um pequeno objecto,
    arremessou a jaqueta ao areal e de um lance deitou-se a nado. O Tomás
    que ouvira o mergulho do corpo, fez recuar o barco; mas o José Cosme,
    velho nadador destemido, com meia dúzia de braçadas ganhou-lhe de
    pronto a quilha. O filho tinha-se debruçado, na ânsia de esperar o pai,
    de o ver ainda outra vez. Num movimento rápido, o José Cosme entregou
    ao pequeno o que levava entre os dentes, dizendo-lhe a chorar:

    –É a medalha, Joaquim; é a medalhinha de tua mãe, meu filho!…
    Reza-lhe, sim?!

    E chorando cada vez mais, o pobre José Cosme pediu ao barqueiro que lhe
    chegasse o pequeno para o último beijo…

    Dado o último beijo, o barco pôs-se de novo em marcha. Vinha a romper a
    lua, enorme, torva, afogueada, como se viesse de algum banho de sangue
    em região misteriosa de lágrimas… E no silêncio agoireiro da noite,
    apenas cortado pelo bater monótono dos remos e pelo bracejar desalentado
    do triste nadador, à voz do filho que chamava respondia cada vez de mais
    longe–longe como se fora do Infinito! a voz lacrimosa do pai–com o seu
    fúnebre _adeus_! que ele bem sabia ser eterno…

    * * * * *

    …Só quando o eco do último adeus do Joaquim, perdido na distância,
    diluído no luar que surgia, desfeito no lugente murmúrio das águas,
    fundido no derradeiro suspiro da brisa matinal, deixou de chegar à
    praia, é que o pobre abandonou o areal e se foi, sempre a chorar,
    tiritando ao frio da sua desgraça, como a um vento agudíssimo do Pólo,
    na direcção do horto silencioso…

    COMÉDIA DA PROVÍNCIA

    _A Alberto Braga_.

    I

    PRELÚDIOS DE FESTA

    Esse ano, a festa da senhora das Dores devia ser coisa de estalo. A
    começar pelo juiz, todos os da mesa eram de respeito–abonados e
    decididos. Tanto assim, que o fogo preso, que afinal era o melhor da
    festa, vinha lá de Chaves, longe que nem seiscentos diabos. Mas era obra
    de jeito, acabou-se! Tinha-se dito ao homem que trouxesse coisa que
    representasse uma cegonha. O homem respondera que sim, e dava mesmo a
    entender que traria mais animalejos, uma bicharada, talvez um macaco, se
    tivesse tempo de o acabar.

    –Homem de uma cana! resumiu o juiz quando acabou de ler a carta. E
    correu a espalhar a notícia, orgulhoso de que «no seu ano» a _coisa_
    fosse de arromba! Depois, era um despique. No ano atrás, o José da
    Loja, que tinha sido o juiz, gabara-se do seu fogo, só porque vinha lá
    uma peça que era um castelo a dar tiros, assim: Fff! Pum!

    –Ora deixa estar que eu te arranjo… murmurou com os seus botões o
    António Fagote. E sorria satisfeito, de se lembrar que na noite do
    arraial todo o povo o havia de aclamar, dar-lhe vivas pelo fogo que
    apresentara. Espalhou-se a novidade. Uma hora depois, na vila, ninguém
    falava noutra coisa.

    –Então você já sabe?

    –Já sei. A cegonha.

    –A cegonha e o mais: um cavalo, um bezerro…

    –O que eu quero ver é o camelo. Feio bicho, já viu?

    –Pintado. No Monteverde se me não engano. Logo adiante do _Valente Rei
    Arauto Fiel_.

    Enganava-se.

    O escrivão da Câmara, que tinha laracha, encontrou-se na rua com o Alves
    aferidor.

    –Até que enfim, amigo Alves. Até que enfim vou ter o gosto de o ver
    arder.

    O outro não percebeu. «Que se explicasse…»

    –Um urso, no arraial queima-se um urso.

    –Então ardemos ambos, redarguiu embezerrado o Alves.–Também se lá
    queima um burro.

    Às duas por três, o António Fagote viu a casa cheia de gente. Quem não
    ia, mandava recado: todos queriam saber se vinha o animalejo da sua
    predilecção.

    O homem começava a azedar-se. Chegou mesmo a mandar fechar a porta, por
    dentro.

    –Põe a tranca, se for preciso.

    Mas então era cá da rua:

    –Ó Sr. António!

    E na porta as pancadas ferviam:

    –Truz! truz! truz! Sr. António!

    –Éna! c'um raio de diabos!–fazia lá de dentro o homem, furioso.

    –O senhor faz favor? É só uma palavrinha.

    À janela assomava então o António Fagote, com os óculos na ponta do
    nariz e a carta do foguetório na mão.

    –O camelo? perguntava zangado.–O urso?! Camelos me parecem vocês,
    ouviram? O que o homem diz é isto.

    E lia a carta, rematando:

    –Uma cegonha, outros animalejos, quem sabe lá o que serão, e talvez o
    macaco, se houver tempo de o acabar. E agora, sabem que mais?… Tirava
    os óculos e ia-se embora, capaz de os trincar a todos.–Irra!

    E lá de si para si pensava que era melhor ter guardado segredo. Não
    fosse ele burro… Mesmo porque cada um começou logo a inventar
    animais, e todos é que não podiam vir. Claro! E não vindo todos, aí
    tínhamos nós descontentes. E havendo descontentes, quem lucrava era o
    José da Loja.

    –Temos o caldo entornado! pensava aflito o Fagote, amedrontado com
    aquele espectro do José da Loja, o seu rival! De mais a mais, já lhe
    tinha chegado aos ouvidos que o outro agoirava mal do negócio…

    –Farófias! tinha dito o José da Loja. Farófias!

    –Pois se mo diz na cara, arrebento-o! vociferava o Fagote, quando tal
    soube.

    E arrebentava, que o Fagote era homem para isso, tinha pulso. Desde
    rapaz que uma lenda de valentia se fizera na sua vida: contavam-se
    proezas, desde uma vez que varrera uma feira, por causa de eleições.
    Depois, bom olho para a caçadeira. Duma ocasião, que foi preciso dar
    montaria aos ladrões, portou-se como um leão, foi ele que deu voz de
    preso ao chefe da quadrilha. E como foi que lha deu? A frase ficou
    lendária:

    –Como-te a alma se te mexes!

    –E o outro não se mexeu, que ele comia-lhe a alma! comentavam
    convictos.

    Como esta, muitas outras. E foi talvez por estas proezas que a sua
    figura adquiriu para a velhice o jeito desempenado que tinha. Estava com
    60 anos e a sua atitude viril impressionava ainda agora. Não era
    nutrido, mas era sanguíneo, tez morena, cara rapada, olhos pequenos, uma
    largura de ombros que era o principal indício de força. Pescoço curto.
    Mesmo a brincar, quando cerrava os punhos e arremetia com força,
    conhecia-se-lhe a rijeza dos músculos naquele movimento sacudido.

    –Safa! que isso aí é de ferro! diziam os rapazes. Duma cana, hein?

    Mas bom homem, de uma grande franqueza de modos, simples e afável. Para
    se sair era preciso picá-lo. E uma vez, quando era juiz ordinário, uma
    testemunha tanto o picou em audiência, que ele desceu lá da cadeira,
    foi-se a ela e quebrou-lhe a cara. Por isso falava sério quando
    prometia arrebentar o José da Loja. A mulher interveio pacificadora:

    «Que não desse ouvidos a ditos. Deixasse o homem, que não era tão mau
    como o pintavam.»

    –Ó mulher! cala a caixa e não me defendas esse velhaco! redarguiu o
    Fagote. Do que ele é capaz sei eu.

    Mas nesta ocasião, de todas as velhacarias do José da Loja, só lhe
    lembrava uma: ter sido juiz o ano atrás!

    Isto parecia-lhe com efeito uma velhacaria, feita a ele que era juiz
    este ano.

    –Pois tu que pensas? dizia ele para a mulher. Quem me meteu a festa
    em casa foi ele. Ele é que se lembrou de me escolher, como quem diz:
    «entrego-te a vara, sempre quero ver como te arranjas…»

    –Nome do Padre, do Filho… A mulher benzia-se «das ideias do seu
    António.»

    –Sejam ideias, que não sejam! teimou o Fagote. Isto foi tal e qual,
    assim me Deus salve!

    –Mas quem to disse, homem? Quem foi que to disse?

    –Quem mo disse? Olha! E mostrou-lhe o dedo mínimo da mão direita.–Foi
    este mindinho. Não falha.

    E então desabafou: «que não pensasse o José da Loja, que o havia de
    levar à parede. Agora levava! A festa há-de se fazer, e festa de
    arromba; _nanja_ como a dele que só levava seis anjos, e não sei
    quantos andores, acho que meia dúzia!»

    –Ó mulher, então é para que saibas onde chega o brio de um homem!
    Caramba! Sendo preciso, ouves? sendo preciso até vendia a camisa do
    corpo. Nem trinta sanfonas como o sanfona do José da Loja! E espipava
    olhos de cólera para a mulher que remendava uns sacos, compungida de
    ver assim o seu António.

    E pôs-se então a renovar ordens, recomendações que a mulher já estava
    farta de ouvir. «Mas com tempo é que as coisas se pensavam, não era ao
    atar das sangrias!»

    –Leitões se os cá não houver, manda-se o Miguel à cata deles por
    esses povos à roda. Querem-se de 7 semanas, três pelo menos.

    A mulher contraveio:–«dois seriam bastantes…»

    –Mau que aí principiamos nós!–E pôs-se a assobiar e a rufar com o pé
    no soalho, arreliado.–Três é que hão-de ser. Não quero cá dois, porque
    dois eram os do _outro_, o ano passado.

    A esta razão, a mulher calou-se. O António Fagote gostou do silêncio da
    mulher, que o lisonjeava nos seus despeitos contra o _outro_.

    –Agora não fanfas tu… insistiu ele, risonho. É assim mesmo que eu
    gosto. Sinal é que tens vergonha. A _outra_ tamém não é mais que a ti.

    A _outra_ era a mulher do José da Loja, está visto.

    –Nem mais, nem tanto, emendou a Luísa Fagote, abespinhada.

    –Isso mesmo! abundou o juiz da festa. Não me lembrava agora que antes
    de casarem…

    –E olha que depois de casada… insinuou a Sr.^a Luísa, de venta no ar,
    enfiando a agulha. Cala-te boca.

    Façamos de conta que a boca se calou, com efeito. Que não se calou.
    Mas neste particular, o resto do diálogo convém que se omita, mesmo
    porque afinal nem eu nem os senhores queremos mal à mulher do José da
    Loja. Há-de perdoar-me o António Fagote, mas nisto não lhe faço a
    vontade. O pudor acima de tudo! E ademais ele bem sabe que eu sou
    conhecido da mulher. Adiante. Basta que lhes diga que por uma associação
    lógica de ideias a conversa veio parar em vitelas…

    –É preciso vermos como há-de ser isso da vitela, disse o António
    Fagote. Sem vitela é que se não faz nada. Uma perna sempre se gasta.

    Combinaram falar com tempo ao Manuel Cortador, segurar esse negócio. De
    mais a mais sabia-se que o pregador dava o cavaco por um bom pedaço de
    vitela assada.

    –O pregador é que arrasta aí muita gente, observou a Sr.^a Luísa. Para
    um bocado de sentimento não há como ele. Quando foi das missões, o que
    ele dizia daquele púlpito abaixo! É quanto se pode!

    –A mim o devem, se cá vem!–disse orgulhoso o Fagote. Que o homem não
    queria vir, desculpava-se com a saúde: que tinha de ir a umas caldas, e
    14 léguas a cavalo por estas canículas eram de acabar com ele.

    –Isso desaba aí o poder do mundo! Em se sabendo que é o missionário…

    Estavam nisto, quando bateram à porta. O Fagote foi ver à janela.

    –Bem, muito obrigado. E a senhora mestra? Estimo, estimo.

    Era a criada da mestra régia, foram abrir.

    –A senhora mestra manda muitos recadinhos, saber como está a Sr.^a
    Luísa, e este bilhetinho para o Sr. António.

    Entraram todos na saleta. Como era já tarde, o António Fagote foi
    acender uma luz.

    «Que conversassem, enquanto ele via se tinha resposta.»

    –Muito calor, começou a Sr.^a Luísa.

    –E então a casa da Sr.^a mestra que é mesmo um forno, disse por demais
    a criada.

    E antes que a conversa pegasse, avisou a Sr.^a Luísa, ao ouvido, de que
    lhe queria uma palavrinha.

    Foram para uma varanda que havia nas traseiras. A tarde descaía, numa
    serenidade calma. Sentaram-se uma junto da outra, muito familiares.

    –Está-se aqui bem! exclamou consolada a Sr.^a Luísa.

    –Está. E então bonitas vistas. Mas o que eu queria dizer era pedir-lhe
    um favor, disse atrapalhada a criada.

    –Se estiver na minha mão…

    A outra começou: «A Sr.^a Luísa estava ao facto do que se dizia dela
    com o criado do inglês. Decerto estava ao facto. Mas era mentira.
    Jurava-lhe pelo que havia de mais sagrado que era redonda
    mentira.»–Estamos para casar! é o que estamos! «Ele já mandara vir os
    papéis lá da terra, não podiam tardar».–Está claro que eu tenho
    afeição ao rapaz…

    –Ele esteve aí doente uma temporada, interveio a Sr.^a Luísa, para
    dizer alguma coisa.

    –Esteve. Umas quartãs que o iam arrebanhando. Mas é aí que eu quero
    chegar.

    –Que experimente o limão azedo, aconselhou a Sr.^a Luísa. É milagroso
    nas quartãs. Não se aflija, que isso não há-de ser nada.–E
    dispunha-se a consolar a rapariga, a dizer-lhe tudo o que sabia de bom
    para matar quartãs, pensando que era o que ela queria, afinal.

    –Não senhora. O rapaz está melhor. Caso é que não recaia. Mas é por via
    disso que eu lhe quero pedir um favor.

    Chegou para ela o banco de cortiça e confidenciou:

    –Já o andam a desinquietar para ir com os mais furtar a bandeira,
    qualquer noite. E ele vai, prometeu que sim. Mas veja, naquele
    estado! inda não há nada que saiu da cama.

    –Pelos modos, os rapazes vão este ano longe pelo pau, disse com pompa
    a Sr.^a Luísa.–Muito longe!

    –Ouvi que à Ribeira Velha, ao lameiro do Canelas. E logo com quem
    eles se vão meter, o Canelas! Se desconfia, vai-se para lá de clavina
    e faz alguma desgraça. Mais ele, que é atrevido!

    Cautelosa, a mulher do juiz redarguiu que lá onde eles iam pelo pau é
    que ela não sabia.

    –A outra noite é que para aí estiveram a combinar, o meu António mais
    os mordomos. Não ouvi.

    –Pois é lá! exclamou a criada. Mas o que eu queria, Sr.^a Luísa, é que
    o seu marido me não deixasse ir o rapaz na malta,–suplicou aflita a
    rapariga.

    –Lá isso, esteja descansada, não vai! prometeu com grande autoridade
    a Sr.^a Luísa.–Digo-lhe eu que não vai. E se não quer mais nada…

    –Era só isto, muito agradecida à senhora.

    Nesse momento entrava o Fagote, em mangas de camisa, os óculos para a
    testa.

    –Ora pois então aqui vai a resposta. Má letra, a Sr.^a mestra que
    desculpe. Mas enfim que leia como puder.

    –Então muita maçada co'a festa? inquiriu solícita a rapariga.

    –Muita. Faz lá ideia? Maçada e despesa. Olhe que se faz despesa. Todos
    os dias são precisas coisas, mais isto, mais aquilo. Aí está que já
    hoje mandei pedir para o Porto uma palheta para o clarinete do Alves.

    –Chh! fez admirada a rapariga.

    –Pois é verdade. Fora o mais! fora o mais! Nicas! E depois de uma
    pausa:–Só com o que se gasta no jantar, e é verdade que há muita coisa
    de casa, mas só com o que se gasta no jantar, a bem dizer que se fazia
    uma horta, além no prado.

    –Muita gente… disse a rapariga.

    –Muita! e depois de certa aquela… À mesa talvez vinte e quatro
    pessoas…

    A rapariga benzeu-se!

    –Vinte e quatro, p'ra mais que não p'ra menos, insistiu o António
    Fagote.–Olhe: o pregador…

    –Isso dizem que é coisa asseada! interrompeu a rapariga.

    –É. Não o há melhor. Missionário…–explicou o juiz. Pois o pregador,
    um; com mais quatro padres, cinco; com quatro músicos, nove; o compadre,
    os pequenos, dois, doze.

    –A comadre não vem! que pena! fez do lado a Sr.^a Luísa.

    –Não. O compadre e os pequenos já disse. Doze. O Morgado da Fonte e o
    António Capador, catorze. O Teles, é verdade, Teles escrivão, quinze.
    (_Pausa_). Com mais alguém que venha, vinte e quatro. Pode-se contar com
    mais de vinte e quatro pessoas à mesa.–E a rir-se: Mas há-de sobrar
    muita coisa, graças a Deus… E depois os pobres?

    –Isso então é uma praga! exclamou a Sr.^a Luísa. Até parece que vêm do
    chão assim… E colocava em pinha os dedos todos das mãos ambas.
    Assim…

    Mas fazia-se tarde, a rapariga despediu-se.–«Adeusinho! o que havia de
    estimar é que tudo corresse como desejavam.»–E se for preciso qualquer
    coisa… ofereceu-se. As minhas fracas posses…

    –Obrigada. Não faltarão ocasiões. Muitos recadinhos à senhora
    mestra…

    –E que hei-de estimar que o mano chegue de saúde, concluiu o António
    Fagote.

    E então explicou à mulher: «Aquele bilhete da mestra era a mandar-lhe
    perguntar se sempre era certo vir o macaco de fogo».

    –Diz que o irmão, o brasileiro, assim que souber que há macaco de fogo
    no arraial, não tem mão em si que não venha. E Deus o queira, porque o
    ponho ao pálio. Como três e dois serem cinco.

    A senhora Luísa quis saber a resposta que lhe mandara.

    –Disse-lhe que sim. Pois?! O que eu quero cá é o brasileiro. Sempre é
    homem que sabe dar o merecimento às coisas… Mas o diabo agora é o
    macaco! ponderou muito apreensivo. Está para aí meio mundo à espera
    do macaco…

    A senhora Luísa quedou-se pensativa, absorta no seu receio de que o
    bicho não viesse.

    –Tate! fez o António Fagote, batendo uma palmada rija na testa.–Dá cá
    daí a minha véstia. Manda-se uma «parte» ao homem.

    –Também pode ser, concordou a senhora Luísa. Mas hoje é que não,
    aquilo já está fechado, o fio.

    –Vai amanhã. «Agradeço favores. Traga macaco sem falta». Isto. Talvez
    acrescente: «Não se olha a dinheiro». Mas é que acrescento, por via
    das dúvidas.

    Então, a senhora Luísa confidenciou quase ao ouvido do homem:

    –Ouves? já se não pode ir ao lameiro do Canelas pelo pau.

    –Hã? qual pau?

    –O da bandeira. Todo o mundo já o sabe.

    Ele riu-se.

    –Todo o mundo, hein? Melhor! Oh! oh! todo o mundo!…

    E como ela ficasse estupefacta.

    –Nunca ouviste dizer que se põe o ramo numa porta e que se vende o
    vinho noutra?

    –Ah!…

    –Mas são verdes. Pois aí é que vai a história, e cantarolou,
    satisfeito:

    O ladrão do negro melro
    Onde foi fazer o ninho

    * * * * *

    Mas o melhor do caso foi no dia seguinte, quando logo de manhãzinha o
    António Fagote sentiu bater à porta, de rijo.

    –Vai lá ver o que será, ó Luísa!–disse da cama o Fagote sobressaltado.

    Não tardou nada que o José Manco lhe entrasse de rompante pelo quarto.

    –Vista-se, homem! Ande daí depressa! Vista-se.

    –Há novidade? perguntou logo o Fagote, sobressaltado.

    –Vista-se! com dez milhões de diabos! Insistiu o outro.

    –Hom'essa! fez espantado o Fagote. Alguém à morte?

    –Pior do que isso! resumiu o José Manco.

    –Pior do que isso, então não sei…

    –Não tardará que o saiba. Avie-se, que eu cá o espero na rua.

    O António Fagote vestiu-se à toa, aparvalhado. Foi já na rua que acabou
    de enfiar a jaqueta. As correias dos sapatos iam de rastos, não levava
    chapéu.

    –Pronto! cá estou!

    –Venha comigo, avie-se. Abotoe as calças, se faz favor.

    E rodaram rua acima.

    –Diabo! mas então…? ia perguntando o Fagote.

    –Aguarde, que já vai saber. Não tarda.

    De quatro escanchadas foram dar ao adro da igreja.

    –Roubaram Nosso Pai, aposto?!

    –Pior! redarguiu o outro. Pior! Alto aí! Ora arregale-me esses olhos
    e veja vossemecê isto, esta porcaria!

    E tragicamente, o José Manco apontou para meia folha de papel, pregada
    na torre com miolo de pão centeio mastigado. Era um pasquim! Vários
    desenhos de animais, sobressaindo um burro de grandes orelhas, aos
    coices. E no fundo, em grandes caracteres, isto:–_Farófia_!

    Por um pouco, António Fagote, de mãos atrás das costas, amarasmou-se,
    com os olhos fitos no papel.

    E quando o outro pensava que ele ia romper desaustinadamente numa
    escamação, aos lábios do António Fagote aflorou apenas um sorriso.

    –Hum! resmungou. Bem sei…

    –Não tem que saber,–fez o outro.

    –O patife do José da Loja…

    –Pois está visto.

    –Bem, levará quatro lambadas, epilogou com grande sossego o
    Fagote.–Arranque lá isso, e venha você daí, se quer ver.

    O José Manco não queria ver, fazia ideia. Mas opinou prudentemente que
    era melhor botar o patife ao desprezo.

    –Pois sim, disse o António Fagote, dobrando em quatro o papel e
    metendo-o na algibeira de dentro.–Pois sim!

    Mas o outro que o conhecia, insistiu no pedido, com certos argumentos
    arrancados do código penal. «Que não fosse agora pagar por bom
    semelhante estafermo. Como mordomo, também era com ele a ofensa, com
    ele José Manco. Mas fazia de conta… Como o outro que diz, vozes de
    burro não chegam ao céu».

    –Bem, levará só uma lambada, atendendo a que mais ninguém viu isto,
    disse num grande ar de condescendência o Fagote.–E você vá lá regar a
    horta.

    Foi-se dali direito à casa do José da Loja. Estava ainda fechada.
    Pôs-se à coca, de longe, com a ira muito exulcerada pela arrelia
    daquela demora.

    –Grande cão! grande cão! monologava.

    Até que enfim reparou que a porta se abria. Era o rendeiro em pessoa, de
    casaco de lona e chinelos de trança, muito fresco. Não deu pelo António
    Fagote senão quando se viu ao pé dele, cara a cara entre o balcão e a
    porta.

    –Ó Sr. José.

    –Dirá.

    –Venho aqui saber de um caso.

    Tirou do bolso o papel, desdobrou-o, devagar, e depois de lho pôr ao pé
    da cara:

    –Foi o Sr. José que fez isto?

    O outro olhou-o, atónito.

    –Sim! se foi o Sr. José que fez isto?

    –Nada, eu não senhor.

    –Jura pela boa sorte dos seus filhos?

    Aqui, o tendeiro entupiu, desconfiado.

    –Jura pela boa sorte dos seus filhos? repetiu mais de rijo o Fagote.

    O José da Loja, moita! Então o juiz explicou-lhe:

    –É porque se jura, muito bem. Se não jura o caso é outro.

    –É outro, que outro?!–disse arrogante o José da Loja, num ímpeto,
    barriga panda sob o casacório de lona.

    –Isto!–E foi-lhe uma bofetada para a cara.–E muito caladinho, que eu
    também não digo nada. Agora o papel, olhe! Fê-lo em pedaços, e
    atirou-lhe com eles à cara aparvalhada.

    Saiu dali e foi _matar o bicho_, tranquilamente, como quem vem de
    cumprir uma obra de misericórdia.

    * * * * *

    Na véspera da festa, um sábado às 10 horas da manhã, o fogueteiro
    passava enfim num deslado da vila direito à capela da Senhora das
    Dores. Largou um foguete, que estrondeou no ar, galhardamente.

    –O fogueteiro! chegou o fogueteiro!

    Por toda a vila passou um longo frémito de entusiasmo quando se ouviu o
    foguete. Desabituados, os cães ladravam, em correria doida pelas ruas.
    O rapazio levantou-se em algazarra, e correu ao encontro do fogueteiro,
    a admirá-lo, a oferecer-se. Na labuta viva das casas renovavam-se
    ordens já dadas. Aquele foguete era a bem dizer o primeiro ruído da
    festa, não havia tempo a perder. De casa dos mordomos saíam esbaforidas
    as criadas, com ordem de se informarem do que precisaria «o Sr.
    fogueteiro». Alguns mais previdentes mandaram almoço, e que dissesse o
    que queria para o jantar.

    Solenemente, o juiz da festa atravessou quase a correr a vila,
    perguntando a todo o mundo se o que estoirara tinha sido efectivamente
    um foguete.

    –Foi foguete! pois que dúvida! diziam-lhe radiantes. Prometia, sim
    senhor! prometia! Se fossem todos assim… Caramba! que estoiro! Pum!

    –P'ra que saibam! clamava o António Fagote. E então isto? e punha-se a
    girar de volta com o braço–o que é fogo do chão?–Mas tinha-se visto em
    calças pardas para que o homem não faltasse. Complicações! Pelos modos
    tinham-no convidado para outra festa, com mais bagalhoça, está claro. O
    caso tinha estado sério!

    Mentia.

    –Hein? mas não o enganavam?

    –Qual! era o fogueteiro sem tirar nem pôr. Lá ia ele a atravessar as
    eiras, com duas bestas carregadas. Caramba! duas cargas de fogo!

    O juiz botou a fugir. Quando passou pela porta do abade, gritou cá da
    rua:

    –Senhor abade! ó senhor abade!

    –Que é lá?

    –Chegue à janela, faz favor?

    –Mas está muito sol, entre você, se quer.

    –Só duas palavras:

    O abade, um rapaz novo, assomou à janela.

    –Que é?

    –Chegou o homem!

    –O homem! que homem?

    –O fogueteiro, quem há-de ser?

    –Ah, sim, disse o abade a rir-se, velhaco. E você vai ter com ele?

    –De cara.

    –Faz-me então um favor?

    –Dirá.

    –Dê-lhe recados meus.

    E retirou-se da janela, a rir, enquanto o António Fagote prosseguia no
    seu caminho, esbaforido, espalhafatoso, perguntando a toda a gente se
    aquilo tinha sido o fogueteiro.

    –Grande homem! com seiscentos diabos!

    Quando chegou ao adro estava tudo cheio de rapazes, em redor dos dois
    machos carregados. O Fagote cuidou morrer de contente. Foi-se ao
    fogueteiro, com fúria.

    –Esses ossos! e abraçou-o arrebatado, enternecido, chamando-lhe «seu
    amigo, seu grande amigo».

    –Rapazes! gritou ele então. E tirou o chapéu da cabeça, muito
    solene.–Viva o senhor fogueteiro!

    –Viva!

    …Isso não juro, porque não reparei. Mas estou em dizer aos senhores
    que o António Fagote–chorou!…

    II

    TIPOS DA TERRA

    Desembocaram num largo. Era o ponto mais central da terra,–«_a
    praça_.»–Aqui e ali, ao acaso, algumas árvores enfezadas, quase tudo
    olmos brancos, vegetavam a medo, com os troncos protegidos por velhas
    grades de madeira, desmanteladas. Era um terreiro vasto, muito chato,
    com casas em volta,–o que na vila havia de melhor em construções.
    Ficava ao meio o pelourinho, exótico, mutilado, de uma pedra grosseira e
    muito negra. Era uma alta coluna de oito faces, com o seu anel de
    ferro ao meio, e uma argola pendente do anel. A coluna, que se eleva
    sobre um pedestal de três degraus, em hexágono, terminava ao alto num
    grande _X_ de pedra deitado horizontalmente. Um espigão de ferro, de
    três gumes como os floretes de esgrima, irrompia hostilmente do meio do
    _X_, perfurando o espaço. Em volta, a casaria era triste, sem estilo,
    sem gosto, sem cal. Algumas _pedras de armas_ em velhas paredes
    decrépitas, desequilibradas, hidrópicas, atestavam aristocracias
    remotas, agora de todo extintas. Ao alto, dominando a negrura
    chamuscada dos telhados, o velho castelo, romano de origem, fazia
    tristeza com as suas ameias derrocadas, e as grossas paredes em ruínas.
    Ao lado do castelo erguia-se destacadamente a velha torre do relógio,
    de uma arquitectura primitiva. Tinham dado onze horas, mas eram apenas as
    sete: aquele–«_estafermo_»–é que não andava nunca direito. De dia
    ninguém o entendia, com o seu ponteiro de ferro girando num mostrador
    sem letras, de uma pedra azulada. De noite fartava-se de badalar,
    alvoroçando a povoação como se fosse a fogo, ora atrasado ora adiantado,
    dando meia-noite quando eram quatro da tarde, e meio-dia mal despontava
    o sol.

    Eram as sete. Àquela hora é que os–«_figuros_»–da terra, quase tudo
    empregados públicos, vinham para o largo, à fresca. Alguns
    passeavam,–seu fraque, sua bengala de cana com castão, chapelinho à
    banda, sapato branco um ou outro. Nas escadas do pelourinho, sentados,
    outros do mesmo feitio cavaqueavam,–coletes desabotoados, perna
    cruzada, chapéu para a nuca, às três pancadas. Um de pêra comprida, no
    degrau superior, contava facécias. Os outros riam alarvemente,
    chamavam-lhe intrujão. Algumas–«_madamas_»–pelas janelas em volta,
    nostálgicas, anafadas, de claro. À porta do estanco, em cima, havia
    outra roda,–uns de pé, outros sentados em caixas, alguns montando
    cadeiras de pinho. Era a–_roda mais forte_,–quase tudo maiores
    burocratas:–o Melo da Administração, o Antunes da Câmara, o Escrivão
    de Fazenda, o Rodrigues do Real de Água. E outros. À porta, perfilado e
    muito cerimonioso, o dono do estanco, alto, esguio, flexível, com a sua
    cara rapada e o seu chinó castanho, eriçado e velho. Era de maneiras
    feminis, uma falinha melíflua, cantante, viva, muito desempenado
    quando andava, saracoteando-se todo, em biquinhos de pés como se fosse
    levantar voo. Chamavam-lhe Ernestinho. Não se podia falar diante dele
    num rato morto, numa carocha. Aquilo «fazia-lhe nervoso», enojava-o,
    ficava-se a cuspinhar meia hora, dizendo constantemente:

    –Ai Jesus! ai Jesus! Caticha! Nossa Senhora do Carmo! Nem sei como não
    lanço fora.»

    E se riam, ele exasperava-se: não compreendia como pudessem falar em
    tais coisas… De resto, bom sujeito, finório para o seu negócio,–um
    poucochinho beato,–diziam-lhe.

    –Meu proveito. Não que eu não quero a minha alma nas penas do inferno,
    a arder. Leiam a _Missão Abreviada_, leiam esse rico livro.

    E as palavras saíam-lhe a correr, espremidas nos seus lábios delgados,
    um poucochinho sibiladas nos _ss_.

    –Cigarros, Ernestinho, um vintém deles. Querem-se dos de Lima,
    desses fortes.

    Declarou que também havia dos «especiais.» Algum senhor queria? Tinham
    chegado três maços, p'ra ver. Oito por um vintém.

    –Pois guarde-os!–disseram alguns, horrorizados com a ideia de dar um
    vintém por oito cigarros.–Guarde-os!

    «O senhor engenheiro, quando vinha à vila, perguntava-lhe sempre por
    eles. Dos de Lima nem o cheiro, não gostava.»

    –Olha o figurão!–disseram a rir. Por esse mundo fora sempre há muito
    idiota! forte cavalgadura!

    O Ernestinho veio com os cigarros, em feixe nas pontinhas dos dedos. À
    porta, antes de os entregar contou-os de novo. Doze. Estavam certos.

    –O senhor Ernesto, se faz favor, ponha isto lá no caderno, ao pé dos
    outros.

    Ernestinho foi para dentro, contrafeito, fazer o apontamento. Houve um
    silêncio oprimido, o dos cigarros tossiu para o quebrar, ao mesmo tempo
    que num gesto acanhado, receoso, fazia menção de oferecer:–«alguém
    era servido?»

    Dentro do balcão, ao pé das garrafas com licor, e das botijas de
    genebra, Ernestinho somava a conta. Era já taluda.–«E vão dois e dois
    quatro e dois seis, seiscentos e vinte! Sabe Deus quando os
    receberia!»–E suspirava, arrumando os maços encetados, sob o olhar
    tranquilo e indiferente do Santo Antoninho que lá estava em cima, ao
    alto das estantes quase vazias, no seu nicho feito de um caixote forrado
    a verde, com flores artificiais muito sujas e duas velinhas dos lados.
    Mas resignava-se, que não tinha outro remédio. Eram os ossos do
    ofício…

    Cá fora tinham dado fé, acotovelavam-se chamando asno ao
    Ernestinho,–um pulha a quem ajudavam a viver… Se hoje não há
    dinheiro, há-o amanhã, essa é boa! E pagava-se, c'os diabos! E
    pagava-se. Mas não senhor! aquela besta mostrava sempre má cara, o
    alarve! A culpa tinham-na eles, afinal que o procuravam, que o
    preferiam. Tomaram os outros ter aquela freguesia…

    O dos cigarros fiados anuía, assobiando baixo o _Água leva o
    regadinho_. Por fim levantou-se, lentamente, com um ar de enfado, um
    sorrisinho de despeito nos lábios, encolhendo os ombros.

    –Estender as pernas,–disse. Quem vem daí?

    Todos ficavam, era uma estopada andar p'ra trás p'ra diante, naquela
    sensaboria da praça.

    –Até logo. Você aparece no _sítio_, à noite?

    –Apareço, vou à desforra.

    E cumprimentando em roda:

    –Meus caros! Muito boa tarde, Sr. Ernesto.

    Foi-se, puxando para baixo as pernas da calça, alisando as joelheiras.

    –Que tal está o asno, hein? Quer, ainda por cima, que o Ernestinho lhe
    diga _bem-haja_…

    Era um parvo.–Era um tolo.–Tinha dívidas nos outros estancos.–Em toda
    a parte.–Lá em casa a família passava fomes.–Um batoteiro de marca.

    Houve agitação, alguns puseram-se de pé, outros mudaram de lugares. Ia a
    passar um grande carro de palha chiando muito. Ernestinho chegava-se de
    novo, muito ronceiro, roendo as unhas.

    –Com que então… _ponha lá ao pé dos outros_?–disseram-lhe, para o
    lisonjear nos seus despeitos.–Bem bom freguês!

    Ele encolheu os ombros e cerrou os olhos, beatificamente, num gesto
    de mártir resignado. E não disse palavra–p'ra falar daquele tinha de
    falar também deles…

    Mandaram vir limonadas,–três limonadas!

    –Aí vão trinta réis!

    Diabo! era preciso animar aquilo. Assim não tinha jeito. E puseram-se a
    falar do tempo, das moscas, daqueles idiotas que andavam na praça a
    dar-se ares. Ensoberbecia-os a ideia de que iam tomar três limonadas,–e
    sentiam-se felizes, alegres, um tanto estroinas.

    O Ernestinho deu dois passos fora da porta, e chamou para a varanda,
    onde grandes manjericões floriam:

    –Ó Emília! Emilinha!

    A mulher assomou, gorducha, muito mole.

    –Três limonadas, ouves? Três limonadinhas, depressa.

    As conversas animavam-se. Pois senhores! havia de ser difícil encontrar
    uma colecção de asnos assim. Falavam dos que passeavam na praça, aos
    grupos.–Deus os faz, Deus os ajunta. O palerma do Fernandinho dera-lhe
    agora para cantar. Lá andava ele. Volta meia volta,

    _Vai alta a lua na mansão da morte_

    com umas tremuras na voz, que eram mesmo de o esbofetear. Estava
    antipático, aborrecido, desde que andava de namoro com a Marques. Só
    tinha uma coisa boa–a caligrafia.–Um talhe de letra
    bonito,–confessavam.–E as calças, hein? reparem vocês naquelas
    calças, vai flamante. Casualmente, Fernandinho olhou de longe para os
    do estanco, disse-lhes _adeus_ com a mão, afável. Corresponderam todos,
    muito risonhos, mas a chamar-lhe nomes por entre os dentes:–idiota,
    palerma, pechisbeque…

    Sozinho, numa lentidão moribunda, olhos nas botas, olhos no céu, o
    Teles escrivão passava ao largo, ruminando alguma poesia. Às vezes
    quedava-se extático, suspenso, o polegar esquerdo entre os dentes, um
    olho cerrado fortemente, a meditar. Vinha um gesto e punha-se de novo em
    marcha, contrafeito.

    –Ó senhores! mas não me dirão em que anda a parafusar o Teles, aquele
    telhudo? E isto:–e pôs-se a imitar o escrivão.

    Riram. O Melo imitava-o bem, o alma do diabo, no andar especialmente.
    Mas aquilo era um logogrifo. Há uma semana às turras a um logogrifo
    em acróstico.

    –Isso é o Teles!–fez um que vinha da praça.–Aquilo é um intrujão.
    Na rua não é que se adivinham logogrifos. Ó Ernestinho, você ainda tem
    daquilo que _ferve_?

    O Ernestinho deixou descair o lábio, não percebia…

    –Homem! daquilo que vinha numas garrafórias escuras, compridotas…

    –Quer dizer gasosas. Uma rolha segura com guitas…

    –Ora é isso mesmo, nem mais.

    –Bem sei.

    Mas não tinha já. Nem mesmo queria mais, p'ra quê? Achavam caro um
    tostão…

    –Eram aos três para beber uma garrafa…

    –Pudera! Por um pataco, trinta réis levando o açúcar, fazia o _Ervas_
    uma soda,–objectaram alguns. Ponha lá que em gosto é a mesma coisa.

    –E aquela porcaria, ó Ernestinho, e aquela porcaria amarela que
    sujava tudo de escuma?

    Alguns cuspiram, disseram ao Alves que se calasse, que vomitavam, com
    seiscentos diabos!

    –Cerveja!–disse o Ernestinho–cerveja! uma coisa que lá p'ra baixo
    toda a gente bebe por gosto, as senhoras mesmo.

    E com um sorriso de desdém, exclamou:

    –O que é ser do calcanhar do mundo! Em nome do Padre, e do Filho…

    Mas na praça um grupo altercava. Ouviu-se distintamente a
    palavra–«_pulha_»–pronunciada com força. Saíram em tropel, ficaram só
    três.–O que pagava as limonadas exultou:–Homem! nem de propósito!
    Ficava exactamente quem ele queria, estava mesmo a ver que aquela
    súcia lhe chupava o refresco:

    –Tó Ruça! já lá vai esse tempo.

    Precisamente, a senhora Emília chegava, com os copos numa bandeja:–Que
    provassem, diriam se precisava mais açúcar. Mas parecia-lhe que devia
    estar bom…

    Beberam de um trago, estava óptima. A senhora Emília tinha dedo para
    aquelas coisas.

    –Obrigado, ó Melo!

    –Obrigado, ó menino!

    E os dois saíram de rompante, chamando _pato_ ao Melo, rindo-se dele
    e limpando os beiços.

    Quando o Melo ia sair,–a ver o que ia na praça,–o Ernestinho, muito
    cortês, objectou-lhe que faltavam trinta réis:–Se ali não tinha,
    depois. Isso era o mesmo…

    –Mas trinta réis?!… De que são os trinta réis?–perguntou desconfiado
    o Melo.

    –Do açúcar, foi do refinado,–explicou o Ernestinho. O mascavado
    acabou-se. Amanhã ou depois já devo ter mais. O senhor Melo desculpe.

    Não tinha que desculpar; somente notava que aquelas coisas diziam-se no
    princípio.–E saiu sem dar mais palavra, furioso:–Uma ladroeira! Três
    vinténs não valiam os dois que lhe tinham chupado o refresco…

    Na praça tinha cessado a altercação, os grupos, reunidos, formavam uma
    grande roda, comentava-se. O Melo quis informar-se:–que lhe
    contassem–«_o escândalo_».

    Ora! não fora nada: o Veiga que se tinha lembrado que as
    correspondências na _Voz do Distrito_ eram escritas pelo Albano.
    Disse-lho na cara. O Albano negou, deu a palavra de honra. O Veiga que
    é casmurro, teimou:–que não acreditava, ainda assim!–Vai o outro
    chama-lhe pulha, iam-se pegando. Ora aí está!

    –Mas afinal, quem diabo escreve aquilo?–quis saber o Melo. Aquilo
    há-de ser escrito por alguém, está claro.

    Dez réis pela novidade! Que havia de ser escrito por alguém sabiam
    eles…

    –Quem, então?

    Divergiam as opiniões. Podia ser Fulano, podia ser Beltrano. Um ou outro
    dava a sua palavra de honra que também não era ele, jurava-o. Houve um
    que se lembrou se aquilo seria do padre Mendonça.

    –Qual! Do padre Mendonça não é. Fazia coisa melhor, se se metesse
    nisso. Olha o padre Mendonça, o da _gibreira_ de Braga…

    Mas o da ideia insistiu, renitente:–havia ali suas coisas que o faziam
    lembrar, certas facécias, como a de chamar _Frei Asneira_ ao Reitor e
    _Cabeça de Comarca_ ao Felisberto.

    –Pois se é ele, que se regale, pode limpar as mãos à parede. Mente
    como um alarve, mente da primeira linha até à última!–disse firmemente
    o verdadeiro autor das correspondências. Olhem o que ele diz do juiz
    de direito, só calúnias! O juiz! um homem teso! Tem lá o seu fraco
    pelas saias, mas isso, que diabo! isso não é defeito.

    De resto, eram todos acordes em que as correspondências eram uma
    infâmia. O que se chama uma infâmia pegada. Mexericos e mais nada, uma
    coisa de soalheiro. E depois, o dizer-se lá que entre os rapazes não
    havia duas amizades leais, que era tudo uma impostura…

    Houve um silêncio significativo, talvez de aprovação.

    –Só de pulha!–rematou, por fim o Nunes da Fazenda, o tal que escrevia
    as correspondências com o pseudónimo de _Aramis_. Vejam vocês aquelas
    galegadas ao comendador. Aquilo chama-se lá fazer política?!
    Discuta-se o homem como presidente da Câmara, sim senhor, discuta-se o
    homem público, o funcionário; mas deixe-se-lhe em paz a _marreca_, os
    fundilhos das calças; ninguém quer saber se os criados lhe param em casa
    ou se não. E depois, aquelas alusões à família, aquelas piadas à D.
    Engrácia, pobre velha…

    –A quem?–interrogaram uns poucos. À Dona quê?

    –À D. Engrácia, está bem de ver. Aquela beata que fazia peúgas de lã
    aos missionários é ela. Presumo eu que é ela–fazia o Nunes das
    correspondências com um grande ar de suposição. Eu cá foi para onde
    deitei.

    Os outros não. E como o das correspondências tinha prometido explorar a
    crónica beata, aguardariam mais informações. Supunham, no entanto, ser
    com a D. Joana, a do–«_chá de erva-cidreira_.»–Outra canalhice! A D.
    Joana, para festejar os anos da filha, convidara tudo, _lazarões e
    penicheiros_, não fizera política. Depois foi aquela tareia que se
    viu:–que o chá era erva-cidreira, que tinham bolor os doces de ovos,
    que ela parecia a Quaresma e a filha o Entrudo. Ora isto não se diz, a
    pobre mulher doeu-se. Citavam-se de cor frases inteiras da
    correspondência. Por exemplo:–_A deusa da festa dizem que recebeu
    telegramas de… amor_.–Uma facécia de mau gosto aludindo ao Proença
    telegrafista. Depois do que por aí se diz, é forte… Que afinal, quem
    sabe lá? Entre os dois que diabo pode haver? Namoro?

    No grupo alguns tossiram forte, rindo. O Nunes interveio:

    –Não senhores! Isto agora alto lá. A Amélia é uma rapariga séria…

    Riram às gargalhadas, foi um barulho com a tosse.

    –Quando digo uma rapariga séria… Mau! Acomodem-se lá com o _banzé_,
    vocês deixem falar,–tornou o Nunes, formalizado. Quando digo uma
    rapariga séria, quero dizer… sim… quero dizer…–e procurava a
    frase, entalado,–por exemplo, que ela não é capaz de receber ninguém,
    alta noite, lá pelos quintais, como o tal das correspondências quer
    fazer suspeitar.

    Iam replicar-lhe, mas ele atalhou:

    –Chama-se àquilo ser canalha às direitas, arre! Isto agora é falar
    franco.

    Saltaram-lhe:

    –E você jura, ó Nunes? você jura?–perguntou, com gesto perfurante, o
    Alves dos Pesos e Medidas.

    Não… isso agora…Jurar, não jurava, mas, c'os diabos! pelo que se
    via, pelo que se podia julgar…

    –Léria!–disseram todos.

    O Nunes parece que estava com os beiços com que mamara. Com que então,
    para ele era tudo uma récua de _santas_? Desenganasse-se, que era tudo
    uma canalha, uma corja de sonsas. Que diabo de ingenuidade!

    O Nunes observou modesto, quase agradecido:

    –Ingenuidade, eu te digo… Não é bem isso… O que sou é prudente.
    Desconto sempre noventa por cento àquilo que vocês dizem, aí é que
    está…

    –Vocês é um modo de falar,–emendaram alguns.

    –Vocês, digo eu, vocês… quando escrevem correspondências,–explicou
    sofisticamente o Nunes.

    Calaram-se, disfarçaram. Próximo deles, a Amélia toda de verde, com
    guarnições de fita preta, caminhava ao lado da mãe, solenemente.
    Tiraram todos o chapéu, cortejando risonhos, respeitosos. O Nunes foi
    cumprimentá-las, submisso.

    –Dar o seu passeio, não é verdade?–E apertando-lhes a
    mão:–Vosselência como passou? A senhora D. Amélia? Obrigadíssimo.
    Assim… assim…

    Então? que diziam àquele calor?

    –Abafava-se, ali pelas duas. Que forno!

    –O Brasil tal e qual–reforçou o Nunes.

    Mas que fora feito, que as não tornara a ver desde os anos? Uma noite
    de truz, aquilo sim!

    –Olhe, senhora D. Amélia, a flauta… a flauta é que nem por isso, foi
    pena! O Abelzito andava constipado.

    A D. Amélia explicou. A mãe ficara doente, já não era para aquelas
    noitadas.–E em voz mais baixa, quase dolente:

    –Depois, veio a _Voz do Distrito_, aquilo chocou-a muito.

    –Não há tal!–fez a mãe. Meteu-se-te isso na cabeça. Deixe-a falar,
    senhor Nunes.

    E por pouco que não chorava ao dizer isto.

    O Nunes afectou um sentimento profundo:–Era melhor não falar nisso,
    não pensar em tal; todos as conheciam, todos lhes faziam justiça. Tinham
    acabado de falar na tal correspondência, agora mesmo. Uma
    garotada!–resumiu o Nunes.–E em tom confidencial:

    –Anda-se na pista do garoto. Ele há-de aparecer. E depois… e
    depois… Muito boa tarde, minhas senhoras! O que for soará. É preciso
    dar um exemplo,–concluiu terminantemente. Uma severa lição!

    Despediram-se, elas agradeceram ao Nunes–«a parte que tomava no seu
    desgosto.»–E seguiram cumprimentando para as janelas, perguntando se
    vinham daí, um bocadinho até à capela, espairecer.

    As Silvas pediram que subissem. Um bocadinho só. Ficava muito bem
    aquele vestido à Amélia.

    Não podiam subir, talvez à volta.

    –Pois sim, hás-de ver o meu bordado a missanga. O papagaio está quase
    pronto, que trabalhão!

    Estava na dúvida se lhe poria o bico assim, de gancho. Não gostava. O
    risco era do Fernandinho. Já lhes fizera outro, talvez mais bonito.
    Coisas de anjinhos:

    –Verás.

    Os grupos tinham-se reunido em volta do Pelourinho. Passava gente que
    vinha do trabalho, da labuta áspera da eira,–homens com malhos, e
    mulheres de cestas à cabeça. A tarde descaía numa serenidade calma. No
    degrau de cima, o Paula, oficial da administração, com fama de tipo de
    chalaça, cantava em surdina umas cantigas de caserna, obscenas,
    zaranzando na barriga como se fosse uma guitarra. De volta, os outros
    formavam roda. Todos riam, pediam _bis_.

    –Tu hás-de conhecer isto, ó Chico,–dizia o Paula para o Francisco
    Maria, um cabo que estava de licença. Tu hás-de conhecer isto.

    O administrador do concelho, um pobre diabo desmazeladão e filósofo,
    afirmava que lhe lembrava Coimbra, a pândega das vielas. Ao Paula
    valia-lhe a prenda, palavra de honra que lhe valia a prenda, senão já o
    tinha demitido, às vezes que lhe entrava borracho pela repartição. E
    pedia a rir, boçalmente:

    –Ó Paula, aquela do _bate-bate_, canta lá.

    E trauteava as primeiras notas, castanholando com os dedos.–Se era
    preciso, o Fernandinho ia pelo violão.

    –É verdade, você que fez hoje que não me apareceu na repartição, ó
    Fernando?

    –Dormi, está claro. Ao senhor doutor acontece-lhe o mesmo às vezes.
    Olhem que pergunta!

    Mas o Paula tinha-se calado, bocejava.

    –Então, ó Paula…–suplicava o administrador.

    –Está fechado o realejo… Depois.

    Quem lhe dera que fossem as nove para irem até ao «sítio». Ou perder ou
    ganhar; tinha ali seis tostões que eram para um _mico_.

    –Mas eu não lhe dizia, Sr. doutor? eu não lhe dizia ontem que a _dama_
    se negava? Eu estava mesmo a ver aquilo… Bem feito! «gramou» um
    entalão que se consolou.

    –Quatro coroas.–Na véspera tinha ganho um quartinho.

    Nesse momento passava o juiz, sozinho como sempre. Todos tiraram o
    chapéu, ele passou gravemente, cortejando.

    –Quem eu te quero à perna é o _Aramis_…–rosnou o Teles escrivão que
    embirrava com o juiz desde que o suspendera uma vez.–E ainda ele não
    sabe tudo…–insinuava perfidamente.

    –Pois o resto diga-lho você, diga-lho no _Almanaque de Lembranças_, em
    verso–fez de um lado o Rodrigues do Real dU+2019.água.

    O Teles, com famas de literato, redarguiu que não dava confiança a
    analfabetos.

    –E eu a brutos, sabe você?

    Mau! que eles lá começavam. Oficiais do mesmo ofício… Ó senhores,
    lá porque ambos faziam versos não se seguia que devessem embirrar um com
    o outro. Pelo contrário.

    O Teles, furioso, disse que não embirrava com o outro, que nem lhe dava
    essa importância, essa honra.

    O Rodrigues ia saltar-lhe, tiveram mão nele. Mas jurou que doutra vez
    seria, que fizesse de conta que já lá tinha na cara quatro bofetadas
    tesas.

    –Tesas, hein? olá! quatro bofetadas tesas.

    Havia de dar-lhas, tão certo como dois e dois serem quatro, só para ter
    o gosto de dizer depois, num comunicado, que desafrontara as letras
    portuguesas,–ele, o Rodrigues, ele, um simples fiscal do Real dU+2019.Água.

    Aquilo fez surpresa, convidaram-no a explicar-se.

    –Não senhores! dizia colérico o Rodrigues, com grandes gestos.–Bem sei
    que não valho nada. Escrevi, é verdade que escrevi; faço ainda o meu
    verso quando me dá na cabeça. Uma rapaziada! Estão maus? Concordo. Mas
    não há de ser aquele _négalhé_ que o há-de dizer. Não o julgo
    habilitado. Lá porque tem soletrado dois romances, não se segue. Mas o
    que mando para público sim, o que entrego aos prelos–é meu!–E batia no
    peito com a larga mão espalmada, furioso, numas raivas, de orgulho
    triunfante.–Não roubo! nunca roubarei!–afirmou mais alto o
    Rodrigues, para que o Teles que se ia retirando, no meio de dois
    amigos, conciliadores, o ouvisse.–Repito: não roubo, não faço como
    ele!–E as palavras saíam-lhe salivadas, violentas, por entre os
    lábios espumantes, atiradas ao Teles como pedradas.

    Os outros escutavam agora com interesse. Estavam a dar razão ao
    Rodrigues, instintivamente, sem compreender bem o que ele queria
    dizer.

    –As provas…–e meteu a mão no bolso do seu casaco de lona, com
    ímpeto:–as provas, vê-las aqui estão!

    Mostrou no ar a brochura verde do _Almanaque de Lembranças_.–Era do ano
    que vem, tinha-lhe chegado hoje. Ali estava o Peres do correio que lho
    tinha entregado ele mesmo.

    –Sou testemunha–confirmou do lado não sei quem.

    O Rodrigues, então, afirmou que era preciso historiar, contaria a coisa
    em duas palavras. O Sr. Teles, o borra-botas do Sr. Teles, lembrara-se
    um dia de ser escritor, de ser poeta. O alarve! Todos os anos–zás!
    versalhada para o _Lembranças_…

    –Era colaborador–disse o Antunes da Câmara que admirava o talento de
    Teles.–Era colaborador.

    –Era quê?–interrogou logo o Rodrigues, de mão atrás da
    orelha.–Maçador, maçador é que ele era. Nunca lhe admitiram as
    asneiras, se me faz favor, nunca! Na _correspondência_ troçavam-no,
    chegaram a dizer-lhe que podia fazer fortuna pelas tombas, que o não
    chamava Deus para as letras. Aquele _Serei ousado_? é ele, sei que é
    ele. Nunca o admitiram.

    –Lembro-lhe a _Flor do Campo_, Sr. Rodrigues, lembro-lhe esses
    versos–insistiu o Antunes.

  • Os Lusíadas

    Os Lusíadas

    Aproximadamente 56.628 palavras.

    Luís Vaz de Camões
    Os Lusíadas

    Canto Primeiro

    1
    As armas e os barões assinalados,
    Que da ocidental praia Lusitana,
    Por mares nunca de antes navegados,
    Passaram ainda além da Taprobana,
    Em perigos e guerras esforçados,
    Mais do que prometia a força humana,
    E entre gente remota edificaram
    Novo Reino, que tanto sublimaram;

    2
    E também as memórias gloriosas
    Daqueles Reis, que foram dilatando
    A Fé, o Império, e as terras viciosas
    De África e de Ásia andaram devastando;
    E aqueles, que por obras valerosas
    Se vão da lei da morte libertando;
    Cantando espalharei por toda parte,
    Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

    3
    Cessem do sábio Grego e do Troiano
    As navegações grandes que fizeram;
    Cale-se de Alexandro e de Trajano
    A fama das vitórias que tiveram;
    Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
    A quem Neptuno e Marte obedeceram:
    Cesse tudo o que a Musa antígua canta,
    Que outro valor mais alto se alevanta.

    4
    E vós, Tágides minhas, pois criado
    Tendes em mim um novo engenho ardente,
    Se sempre em verso humilde celebrado
    Foi de mim vosso rio alegremente,
    Dai-me agora um som alto e sublimado,
    Um estilo grandíloquo e corrente,
    Porque de vossas águas, Febo ordene
    Que não tenham inveja às de Hipoerene.

    5
    Dai-me uma fúria grande e sonorosa,
    E não de agreste avena ou frauta ruda,
    Mas de tuba canora e belicosa,
    Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
    Dai-me igual canto aos feitos da famosa
    Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
    Que se espalhe e se cante no universo,
    Se tão sublime preço cabe em verso.

    6
    E vós, ó bem nascida segurança
    Da Lusitana antígua liberdade,
    E não menos certíssima esperança
    De aumento da pequena Cristandade;
    Vós, ó novo temor da Maura lança,
    Maravilha fatal da nossa idade,
    Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
    Para do mundo a Deus dar parte grande;

    7
    Vós, tenro e novo ramo florescente
    De uma árvore de Cristo mais amada
    Que nenhuma nascida no Ocidente,
    Cesárea ou Cristianíssima chamada;
    (Vede-o no vosso escudo, que presente
    Vos amostra a vitória já passada,
    Na qual vos deu por armas, e deixou
    As que Ele para si na Cruz tomou)

    8
    Vós, poderoso Rei, cujo alto Império
    O Sol, logo em nascendo, vê primeiro;
    Vê-o também no meio do Hemisfério,
    E quando desce o deixa derradeiro;
    Vós, que esperamos jugo e vitupério
    Do torpe Ismaelita cavaleiro,
    Do Turco oriental, e do Gentio,
    Que inda bebe o licor do santo rio;

    9
    Inclinai por um pouco a majestade,
    Que nesse tenro gesto vos contemplo,
    Que já se mostra qual na inteira idade,
    Quando subindo ireis ao eterno templo;
    Os olhos da real benignidade
    Ponde no chão: vereis um novo exemplo
    De amor dos pátrios feitos valerosos,
    Em versos divulgado numerosos.

    10
    Vereis amor da pátria, não movido
    De prémio vil, mas alto e quase eterno:
    Que não é prémio vil ser conhecido
    Por um pregão do ninho meu paterno.
    Ouvi: vereis o nome engrandecido
    Daqueles de quem sois senhor superno,
    E julgareis qual é mais excelente,
    Se ser do mundo Rei, se de til gente.

    11
    Ouvi, que não vereis com vãs façanhas,
    Fantásticas, fingidas, mentirosas,
    Louvar os vossos, como nas estranhas
    Musas, de engrandecer-se desejosas:
    As verdadeiras vossas são tamanhas,
    Que excedem as sonhadas, fabulosas;
    Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro,
    E Orlando, inda que fora verdadeiro,

    12
    Por estes vos darei um Nuno fero,
    Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço,
    Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero
    A cítara para eles só cobiço.
    Pois pelos doze Pares dar-vos quero
    Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço;
    Dou-vos também aquele ilustre Gama,
    Que para si de Eneias toma a fama.

    13
    Pois se a troco de Carlos, Rei de França,
    Ou de César, quereis igual memória,
    Vede o primeiro Afonso, cuja lança
    Escura faz qualquer estranha glória;
    E aquele que a seu Reino a segurança
    Deixou com a grande e próspera vitória;
    Outro Joane, invicto cavaleiro,
    O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro.

    14
    Nem deixarão meus versos esquecidos
    Aqueles que nos Reinos lá da Aurora
    Fizeram, só por armas tão subidos,
    Vossa bandeira sempre vencedora:
    Um Pacheco fortíssimo, e os temidos
    Almeidas, por quem sempre o Tejo chora;
    Albuquerque terríbil, Castro forte,
    E outros em quem poder não teve a morte.

    15
    E enquanto eu estes canto, e a vós não posso,
    Sublime Rei, que não me atrevo a tanto,
    Tomai as rédeas vós do Reino vosso:
    Dareis matéria a nunca ouvido canto.
    Comecem a sentir o peso grosso
    (Que pelo mundo todo faça espanto)
    De exércitos e feitos singulares,
    De África as terras, e do Oriente os marços,

    16
    Em vós os olhos tem o Mouro frio,
    Em quem vê seu exício afigurado;
    Só com vos ver o bárbaro Gentio
    Mostra o pescoço ao jugo já inclinado;
    Tethys todo o cerúleo senhorio
    Tem para vós por dote aparelhado;
    Que afeiçoada ao gesto belo e tenro,
    Deseja de comprar-vos para genro.

    17
    Em vós se vêm da olímpica morada
    Dos dois avós as almas cá famosas,
    Uma na paz angélica dourada,
    Outra pelas batalhas sanguinosas;
    Em vós esperam ver-se renovada
    Sua memória e obras valerosas;
    E lá vos tem lugar, no fim da idade,
    No templo da suprema Eternidade.

    18
    Mas enquanto este tempo passa lento
    De regerdes os povos, que o desejam,
    Dai vós favor ao novo atrevimento,
    Para que estes meus versos vossos sejam;
    E vereis ir cortando o salso argento
    Os vossos Argonautas, por que vejam
    Que são vistos de vós no mar irado,
    E costumai-vos já a ser invocado.

    19
    Já no largo Oceano navegavam,
    As inquietas ondas apartando;
    Os ventos brandamente respiravam,
    Das naus as velas côncavas inchando;
    Da branca escuma os mares se mostravam
    Cobertos, onde as proas vão cortando
    As marítimas águas consagradas,
    Que do gado de Próteo são cortadas

    20
    Quando os Deuses no Olimpo luminoso,
    Onde o governo está da humana gente,
    Se ajuntam em concílio glorioso
    Sobre as cousas futuras do Oriente.
    Pisando o cristalino Céu formoso,
    Vêm pela Via-Láctea juntamente,
    Convocados da parte do Tonante,
    Pelo neto gentil do velho Atlante.

    21
    Deixam dos sete Céus o regimento,
    Que do poder mais alto lhe foi dado,
    Alto poder, que só co'o pensamento
    Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado.
    Ali se acharam juntos num momento
    Os que habitam o Arcturo congelado,
    E os que o Austro tem, e as partes onde
    A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde.

    22
    Estava o Padre ali sublime e dino,
    Que vibra os feros raios de Vulcano,
    Num assento de estrelas cristalino,
    Com gesto alto, severo e soberano.
    Do rosto respirava um ar divino,
    Que divino tornara um corpo humano;
    Com uma coroa e ceptro rutilante,
    De outra pedra mais clara que diamante.

    23
    Em luzentes assentos, marchetados
    De ouro e de perlas, mais abaixo estavam
    Os outros Deuses todos assentados,
    Como a razão e a ordem concertavam:
    Precedem os antíguos mais honrados;
    Mais abaixo os menores se assentavam;
    Quando Júpiter alto, assim dizendo,
    C'um tom de voz começa, grave e horrendo:

    24
    "Eternos moradores do luzente
    Estelífero pólo, e claro assento,
    Se do grande valor da forte gente
    De Luso não perdeis o pensamento,
    Deveis de ter sabido claramente,
    Como é dos fados grandes certo intento,
    Que por ela se esqueçam os humanos
    De Assírios, Persas, Gregos e Romanos.

    25
    "Já lhe foi (bem o vistes) concedido
    C'um poder tão singelo e tão pequeno,
    Tomar ao Mouro forte e guarnecido
    Toda a terra, que rega o Tejo ameno:
    Pois contra o Castelhano tão temido,
    Sempre alcançou favor do Céu sereno.
    Assim que sempre, enfim, com fama e glória,
    Teve os troféus pendentes da vitória.

    26
    "Deixo, Deuses, atrás a fama antiga,
    Que coa gente de Rómulo alcançaram,
    Quando com Viriato, na inimiga
    Guerra romana tanto se afamaram;
    Também deixo a memória, que os obriga
    A grande nome, quando alevantaram
    Um por seu capitão, que peregrino
    Fingiu na cerva espírito divino.

    27
    "Agora vedes bem que, cometendo
    O duvidoso mar num lenho leve,
    Por vias nunca usadas, não temendo
    De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve:
    Que havendo tanto já que as partes vendo
    Onde o dia é comprido e onde breve,
    Inclinam seu propósito e porfia
    A ver os berços onde nasce o dia.

    28
    "Prometido lhe está do Fado eterno,
    Cuja alta Lei não pode ser quebrada,
    Que tenham longos tempos o governo
    Do mar, que vê do Sol a roxa entrada.
    Nas águas têm passado o duro inverno;
    A gente vem perdida e trabalhada;
    Já parece bem feito que lhe seja
    Mostrada a nova terra, que deseja.

    29
    "E porque, como vistes, têm passados
    Na viagem tão ásperos perigos,
    Tantos climas e céus experimentados,
    Tanto furor de ventos inimigos,
    Que sejam, determino, agasalhados
    Nesta costa africana, como amigos.
    E tendo guarnecida a lassa frota,
    Tornarão a seguir sua longa rota."

    30
    Estas palavras Júpiter dizia,
    Quando os Deuses por ordem respondendo,
    Na sentença um do outro diferia,
    Razões diversas dando e recebendo.
    O padre Baco ali não consentia
    No que Júpiter disse, conhecendo
    Que esquecerão seus feitos no Oriente,
    Se lá passar a Lusitana gente.

    31
    Ouvido tinha aos Fados que viria
    Uma gente fortíssima de Espanha
    Pelo mar alto, a qual sujeitaria
    Da índia tudo quanto Dóris banha,
    E com novas vitórias venceria
    A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha.
    Altamente lhe dói perder a glória,
    De que Nisa celebra inda a memória.

    32
    Vê que já teve o Indo sojugado,
    E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso,
    Por vencedor da Índia ser cantado
    De quantos bebem a água de Parnaso.
    Teme agora que seja sepultado
    Seu tão célebre nome em negro vaso
    D'água do esquecimento, se lá chegam
    Os fortes Portugueses, que navegam.

    33
    Sustentava contra ele Vénus bela,
    Afeiçoada à gente Lusitana,
    Por quantas qualidades via nela
    Da antiga tão amada sua Romana;
    Nos fortes corações, na grande estrela,
    Que mostraram na terra Tingitana,
    E na língua, na qual quando imagina,
    Com pouca corrupção crê que é a Latina.

    34
    Estas causas moviam Citereia,
    E mais, porque das Parcas claro entende
    Que há de ser celebrada a clara Deia,
    Onde a gente belígera se estende.
    Assim que, um pela infâmia, que arreceia,
    E o outro pelas honras, que pretende,
    Debatem, e na porfia permanecem;
    A qualquer seus amigos favorecem.

    35
    Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura
    De silvestre arvoredo abastecida,
    Rompendo os ramos vão da mata escura,
    Com ímpeto e braveza desmedida;
    Brama toda a montanha, o som murmura,
    Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida:
    Tal andava o tumulto levantado,
    Entre os Deuses, no Olimpo consagrado.

    36
    Mas Marte, que da Deusa sustentava
    Entre todos as partes em porfia,
    Ou porque o amor antigo o obrigava,
    Ou porque a gente forte o merecia,
    De entre os Deuses em pé se levantava:
    Merencório no gesto parecia;
    O forte escudo ao colo pendurado
    Deitando para trás, medonho e irado,

    37
    A viseira do elmo de diamante
    Alevantando um pouco, mui seguro,
    Por dar seu parecer, se pôs diante
    De Júpiter, armado, forte e duro:
    E dando uma pancada penetrante,
    Com o conto do bastão no sólio puro,
    O Céu tremeu, e Apolo, de torvado,
    Um pouco a luz perdeu, como enfiado.

    38
    E disse assim: "Ó Padre, a cujo império
    Tudo aquilo obedece, que criaste,
    Se esta gente, que busca outro hemisfério,
    Cuja valia, e obras tanto amaste,
    Não queres que padeçam vitupério,
    Como há já tanto tempo que ordenaste,
    Não onças mais, pois és juiz direito,
    Razões de quem parece que é suspeito.

    39
    "Que, se aqui a razão se não mostrasse
    Vencida do temor demasiado,
    Bem fora que aqui Baco os sustentasse,
    Pois que de Luso vem, seu tão privado;
    Mas esta tenção sua agora passe,
    Porque enfim vem de estâmago danado;
    Que nunca tirará alheia inveja
    O bem, que outrem merece, e o Céu deseja.

    40
    "E tu, Padre de grande fortaleza,
    Da determinação, que tens tomada,
    Não tornes por detrás, pois é fraqueza
    Desistir-se da cousa começada.
    Mercúrio, pois excede em ligeireza
    Ao vento leve, e à seta bem talhada,
    Lhe vá mostrar a terra, onde se informe
    Da índia, e onde a gente se reforme."

    41
    Como isto disse, o Padre poderoso,
    A cabeça inclinando, consentiu
    No que disse Mavorte valeroso,
    E néctar sobre todos esparziu.
    Pelo caminho Lácteo glorioso
    Logo cada um dos Deuses se partiu,
    Fazendo seus reais acatamentos,
    Para os determinados aposentos.

    42
    Enquanto isto se passa na formosa
    Casa etérea do Olimpo onipotente,
    Cortava o mar a gente belicosa,
    Já lá da banda do Austro e do Oriente,
    Entre a costa Etiópica e a famosa
    Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente
    Queimava então os Deuses, que Tifeu
    Com o temor grande em peixes converteu.

    43
    Tão brandamente os ventos os levavam,
    Como quem o céu tinha por amigo:
    Sereno o ar, e os tempos se mostravam
    Sem nuvens, sem receio de perigo.
    O promontório Prasso já passavam,
    Na costa de Etiópia, nome antigo,
    Quando o mar descobrindo lhe mostrava
    Novas ilhas, que em torno cerca e lava.

    44
    Vasco da Gama, o forte capitão,
    Que a tamanhas empresas se oferece,
    De soberbo e de altivo coração,
    A quem Fortuna sempre favorece,
    Para se aqui deter não vê razão,
    Que inabitada a terra lhe parece:
    Por diante passar determinava;
    Mas não lhe sucedeu como cuidava.

    45
    Eis aparecem logo em companhia
    Uns pequenos batéis, que vêm daquela
    Que mais chegada à terra parecia,
    Cortando o longo mar com larga vela.
    A gente se alvoroça, e de alegria
    Não sabe mais que olhar a causa dela.
    Que gente será esta, em si diziam,
    Que costumes, que Lei, que Rei teriam?

    46
    As embarcações eram, na maneira,
    Mui veloces, estreitas e compridas:
    As velas, com que, vêm, eram de esteira
    Dumas folhas de palma, bem tecidas;
    A gente da cor era verdadeira,
    Que Faeton, nas terras acendidas,
    Ao mundo deu, de ousado, o não prudente:
    O Pado o sabe, o Lampetusa o sente.

    47
    De panos de algodão vinham vestidos,
    De várias cores, brancos e listrados:
    Uns trazem derredor de si cingidos,
    Outros em modo airoso sobraçados:
    Da cinta para cima vêm despidos;
    Por armas têm adargas o terçados;
    Com toucas na cabeça; e navegando,
    Anafis sonoros vão tocando.

    48
    Co'os panos e co'os braços acenavam
    As gentes Lusitanas, que esperassem;
    Mas já as proas ligeiras se inclinavam
    Para que junto às ilhas amainassem.
    A gente e marinheiros trabalhavam,
    Como se aqui os trabalhos se acabassem;
    Tomam velas; amaina-se a verga alta;
    Da âncora, o mar ferido, em cima salta.

    49
    Não eram ancorados, quando a gente
    Estranha pelas cordas já subia.
    No gesto ledos vêm, e humanamente
    O Capitão sublime os recebia:
    As mesas manda pôr em continente;
    Do licor que Lieo prantado havia
    Enchem vasos de vidro, e do que deitam,
    Os de Faeton queimados nada enjeitam.

    50
    Comendo alegremente perguntavam,
    Pela Arábica língua, donde vinham,
    Quem eram, de que terra, que buscavam,
    Ou que partes do mar corrido tinham?
    Os fortes Lusitanos lhe tornavam
    As discretas respostas, que convinham:
    "Os Portugueses somos do Ocidente,
    Imos buscando as terras do Oriente.

    51
    "Do mar temos corrido e navegado
    Toda a parte do Antártico e Calisto,
    Toda a costa Africana rodeado,
    Diversos céus e terras temos visto;
    Dum Rei potente somos, tão amado,
    Tão querido de todos, e benquisto,
    Que não no largo mar, com leda fronte,
    Mas no lago entraremos de Aqueronte.

    52
    "E por mandado seu, buscando andamos
    A terra Oriental que o Indo rega;
    Por ele, o mar remoto navegamos,
    Que só dos feios focas se navega.
    Mas já razão parece que saibamos,
    Se entre vós a verdade não se nega,
    Quem sois, que terra é esta que habitais,
    Ou se tendes da Índia alguns sinais?"

    53
    "Somos, um dos das ilhas lhe tornou,
    Estrangeiros na terra, Lei e nação;
    Que os próprios são aqueles, que criou
    A natura sem Lei e sem razão.
    Nós temos a Lei certa, que ensinou
    O claro descendente de Abraão
    Que agora tem do mundo o senhorio,
    A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio.
    Informações. A Ilha de Moçambique.

    54
    "Esta ilha pequena, que habitamos,
    em toda esta terra certa escala
    De todos os que as ondas navegamos
    De Quíloa, de Mombaça e de Sofala;
    E, por ser necessária, procuramos,
    Como próprios da terra, de habitá-la;
    E por que tudo enfim vos notifique,
    Chama-se a pequena ilha Moçambique.

    55
    "E já que de tão longe navegais,
    Buscando o Indo Idaspe e terra ardente,
    Piloto aqui tereis, por quem sejais
    Guiados pelas ondas sabiamente.
    Também será bem feito que tenhais
    Da terra algum refresco, e que o Regente
    Que esta terra governa, que vos veja,
    E do mais necessário vos proveja."

    56
    Isto dizendo, o Mouro se tornou
    A seus batéis com toda a companhia;
    Do Capitão e gente se apartou
    Com mostras de devida cortesia.
    Nisto Febo nas águas encerrou,
    Co'o carro de cristal, o claro dia,
    Dando cargo à irmã, que alumiasse
    O largo mundo, enquanto repousasse.

    57
    A noite se passou na lassa frota
    Com estranha alegria, e não cuidada,
    Por acharem da terra tão remota
    Nova de tanto tempo desejada.
    Qualquer então consigo cuida e nota
    Na gente e na maneira desusada,
    E como os que na errada Seita creram,
    Tanto por todo o mundo se estenderam,

    58
    Da Lua os claros raios rutilavam
    Pelas argênteas ondas Neptuninas,
    As estrelas os Céus acompanhavam,
    Qual campo revestido de boninas;
    Os furiosos ventos repousavam
    Pelas covas escuras peregrinas;
    Porém da armada a gente vigiava,
    Como por longo tempo costumava.

    59
    Mas assim como a Aurora marchetada
    Os formosos cabelos espalhou
    No Céu sereno, abrindo a roxa entrada
    Ao claro Hiperiónio, que acordou,
    Começa a embandeirar-se toda a armada,
    E de toldos alegres se adornou,
    Por receber com festas e alegria
    O Regedor das ilhas, que partia.

    60
    Partia alegremente navegando,
    A ver as naus ligeiras Lusitanas,
    Com refresco da terra, em si cuidando
    Que são aquelas gentes inumanas,
    Que, os aposentos cáspios habitando,
    A conquistar as terras Asianas
    Vieram; e por ordem do Destino,
    O Império tomaram a Constantino.

    61
    Recebe o Capitão alegremente
    O Mouro, e toda a sua companhia;
    Dá-lhe de ricas peças um presente,
    Que só para este efeito já trazia;
    Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente
    Não usado licor, que dá alegria.
    Tudo o Mouro contente bem recebe;
    E muito mais contente come e bebe.

    62
    Está a gente marítima de Luso
    Subida pela enxárcia, de admirada,
    Notando o estrangeiro modo e uso,
    E a linguagem tão bárbara e enleada.
    Também o Mouro astuto está confuso,
    Olhando a cor, o trajo, e a forte armada;
    E perguntando tudo, lhe dizia
    "Se por ventura vinham de Turquia?"

    63
    E mais lhe diz também, que ver deseja
    Os livros de sua Lei, preceito eu fé,
    Para ver se conforme à sua seja,
    Ou se são dos de Cristo, como Crê.
    E porque tudo note e tudo veja,
    Ao Capitão pedia que lhe dê
    Mostra das fortes armas de que usavam,
    Quando co'os inimigos pelejavam.

    64
    Responde o valeroso Capitão
    Por um, que a língua escura bem sabia:
    "Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação
    De mim, da Lei, das armas que trazia.
    Nem sou da terra, nem da geração
    Das gentes enojosas de Turquia:
    Mas sou da forte Europa belicosa,
    Busco as terras da índia tão famosa.

    65
    A lei tenho daquele, a cujo império
    Obedece o visíbil e ínvisíbil
    Aquele que criou todo o Hemisfério,
    Tudo o que sente, o todo o insensíbil;
    Que padeceu desonra e vitupério,
    Sofrendo morte injusta e insofríbil,
    E que do Céu à Terra, enfim desceu,
    Por subir os mortais da Terra ao Céu.

    66
    Deste Deus-Homem, alto e infinito,
    Os livros, que tu pedes não trazia,
    Que bem posso escusar trazer escrito
    Em papel o que na alma andar devia.
    Se as armas queres ver, como tens dito,
    Cumprido esse desejo te seria;
    Como amigo as verás; porque eu me obrigo,
    Que nunca as queiras ver como inimigo."

    67
    Isto dizendo, manda os diligentes
    Ministros amostrar as armaduras:
    Vêm arneses, e peitos reluzentes,
    Malhas finas, e lâminas seguras,
    Escudos de pinturas diferentes,
    Pelouros, espingardas de aço puras,
    Arcos, e sagitíferas aljavas,
    Partazanas agudas, chuças bravas:

    68
    As bombas vêm de fogo, e juntamente
    As panelas sulfúreas, tão danosas;
    Porém aos de Vulcano não consente
    Que dêem fogo às bombardas temerosas;
    Porque o generoso ânimo e valente,
    Entre gentes tão poucas e medrosas,
    Não mostra quanto pode, e com razão,
    Que é fraqueza entre ovelhas ser leão.

    69
    Porém disto, que o Mouro aqui notou,
    E de tudo o que viu com olho atento
    Um ódio certo na alma lhe ficou,
    Uma vontade má de pensamento.
    Nas mostras e no gesto o não mostrou;
    Mas com risonho e ledo fingimento
    Tratá-los brandamente determina,
    Até que mostrar possa o que imagina.

    70
    Pilotos lhe pedia o Capitão,
    Por quem pudesse à Índia ser levado;
    Diz-lhe que o largo prémio levarão
    Do trabalho que nisso for tomado.
    Promete-lhos o Mouro, com tenção
    De peito venenoso, e tão danado,
    Que a morte, se pudesse, neste dia,
    Em lugar de pilotos lhe daria.

    71
    Tamanho o ódio foi, e a má vontade,
    Que aos estrangeiros súbito tomou,
    Sabendo ser sequazes da verdade,
    Que o Filho de David nos ensinou.
    ó segredos daquela Eternidade,
    A quem juízo algum nunca alcançou!
    Que nunca falte um pérfido inimigo
    Aqueles de quem foste tanto amigo!

    72
    Partiu-se Disto enfim coa companhia,
    Das naus o falso Mouro despedido,
    Com enganosa e grande cortesia,
    Com gesto ledo a todos, e fingido.
    Cortaram os batéis a curta via
    Das águas de Neptuno, e recebido
    Na terra do obsequente ajuntamento
    Se foi o Mouro ao cógnito aposento.

    73
    Do claro assento etóreo o grão Tebano,
    Que da paternal coxa foi nascido,
    Olhando o ajuntamento Lusitano
    Ao Mouro ser molesto e avorrecido,
    No pensamento cuida um falso engano,
    Com que seja de todo destruído.
    E enquanto isto só na alma imaginava,
    Consigo estas palavras praticava:

    74
    "Está do fado já determinado,
    Que tamanhas vitórias, tão famosas,
    Hajam os Portugueses alcançado
    Das Indianas gentes belicosas.
    E eu só, filho do Padre sublimado,
    Com tantas qualidades generosas,
    Hei de sofrer que o fado favoreça
    Outrem, por quem meu nome se escureça?

    75
    "Já quiseram os Deuses que tivesse
    O filho de Filipo nesta parte
    Tanto poder, que tudo submetesse
    Debaixo de seu jugo o fero Marte.
    Mas há-se de sofrer que o fado desse
    A tão poucos tamanho esforço e arte,
    Que eu co'o grão Macedónio, e o Romano,
    Demos lugar ao nome Lusitano?

    76
    "Não será assim, porque antes que chegado
    Seja este Capitão, astutamente
    Lhe será tanto engano fabricados
    Que nunca veja as partes do Oriente.
    Eu descerei à Terra, e o indignado
    Peito revolverei da Maura gente;
    Porque sempre por via irá direita
    Quem do oportuno tempo se aproveita."

    77
    Isto dizendo, irado e quase insano,
    Sobre a terra africana descendeu,
    Onde vestindo a forma e gesto humano,
    Para o Prasso sabido se moveu.
    E por melhor tecer o astuto engano,
    No gesto natural se converteu
    Dum Mouro, em Moçambique conhecido
    Velho, sábio, e co'o Xeque mui valido.

    78
    E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas
    A sua falsidade acomodadas,
    Lhe diz como eram gentes roubadoras,
    Estas que ora de novo são chegadas;
    Que das nações na costa moradoras
    Correndo a fama veio que roubadas
    Foram por estes homens que passavam,
    Que com pactos de paz sempre ancoravam.

    79
    E sabe mais, lhe diz, como entendido
    Tenho destes cristãos sanguinolentos,
    Que quase todo o mar têm destruído
    Com roubos, com incêndios violentos;
    E trazem já de longe engano urdido
    Contra nós; e que todos seus intentos
    São para nos matarem e roubarem,
    E mulheres e filhos cativarem.

    80
    "E também sei que tem determinado
    De vir por água a terra muito cedo
    O Capitão dos seus acompanhado,
    Que da tensão danada nasce o medo.
    Tu deves de ir também co'os teus armado
    Esperá-lo em cilada, oculto e quedo;
    Porque, saindo a gente descuidada,
    Cairão facilmente na cilada.

    81
    "E se inda não ficarem deste jeito
    Destruídos, ou mortos totalmente
    Eu tenho imaginado no conceito
    Outra manha e ardil, que te contente:
    Manda-lhe dar piloto, que de jeito
    Seja astuto no engano, e tão prudente,
    Que os leve aonde sejam destruídos,
    Desbaratados, mortos, ou perdidos."

    82
    Tanto que estas palavras acabou,
    O Mouro, nos tais casos sábio e velho,
    Os braços pelo colo lhe lançou,
    Agradecendo muito o tal conselho;
    E logo nesse instante concertou
    Para a guerra o belígero aparelho,
    Para que ao Português se lhe tornasse
    Em roxo sangue a água, que buscasse.

    83
    E busca mais, para o cuidado engano,
    Mouro, que por piloto à nau lhe mande,
    Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano,
    De quem fiar-se possa um feito grande.
    Diz-lhe que acompanhando o Lusitano,
    Por tais costas e mares com ele ande,
    Que, se daqui escapar, que lá diante
    Vá cair onde nunca se alevante.

    84
    Já o raio Apolíneo visitava
    Os montes Nabatêos acendido,
    Quando o Gama, colos seus determinava
    De vir por água a terra apercebido.
    A gente nos batéis se concertava,
    Como se fosse o engano já sabido:
    Mas pode suspeitar-se facilmente,
    Que o coração pressago nunca mente.

    85
    E mais também mandado tinha a terra,
    De antes, pelo piloto necessário,
    E foi-lhe respondido em som de guerra,
    Caso do que cuidava mui contrário;
    Por isto, e porque sabe quanto erra
    Quem se crê de seu pérfido adversário,
    Apercebido vai como podia,
    Em três batéis somente que trazia.

    86
    Mas os Mouros que andavam pela praia,
    Por lhe defender a água desejada,
    Um de escudo embraçado e de azagaia,
    Outro de arco encurvado e seta ervada,
    Esperam que a guerreira gente saia,
    Outros muitos já postos em cilada.
    E, porque o caso leve se lhe faça,
    Põem uns poucos diante por negaça,

    87
    Andam pela ribeira alva, arenosa,
    Os belicosos Mouros acenando
    Com a adarga e co'a hástia perigosa,
    Os fortes Portugueses incitando.
    Não sofre muito a gente generosa
    Andar-lhe os cães os dentes amostrando.
    Qualquer em terra salta tão ligeiro,
    Que nenhum dizer pode que é primeiro.

    88
    Qual no corro sanguino o ledo amante,
    Vendo a formosa dama desejada,
    O touro busca, e pondo-se diante,
    Salta, corre, sibila, acena, e brada,
    Mas o animal atroce, nesse instante,
    Com a fronte cornígera inclinada,
    Bramando duro corre, e os olhos cerra,
    Derriba, fere e mata, e põe por terra:

    89
    Eis nos batéis o fogo se levanta
    Na furiosa e dura artilharia,
    A plúmbea péla mata, o brado espanta,
    Ferido o ar retumba e assovia:
    O coração dos Mouros se quebranta,
    O temor grande o sangue lhe resfria.
    Já foge o escondido de medroso,
    E morre o descoberto aventuroso.

    90
    Não se contenta a gente Portuguesa,
    Mas seguindo a vitória estrui e mata;
    A povoação, sem muro e sem defesa,
    Esbombardeia, acende e desbarata.
    Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa,
    Que bem cuidou comprá-la mais barata;
    Já blasfema da guerra, e maldizia,
    O velho inerte, e a mãe que o filho cria.

    91
    Fugindo, a seta o Mouro vai tirando
    Sem força, de covarde e de apressado,
    A pedra, o pau, e o canto arremessando;
    Dá-lhe armas o furor desatinado.
    Já a ilha e todo o mais desemparando,
    A terra firme foge amedrontado;
    Passa e corta do mar o estreito braço,
    Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço

    92
    Uns vão nas almadias carregadas,
    Um corta o mar a nado diligente,
    Quem se afoga nas ondas encurvadas,
    Quem bebe o mar, e o deita juntamente.
    Arrombam as miúdas bombardadas
    Os pangaios subtis da bruta gente:
    Desta arte o Português enfim castiga
    A vil malícia, pérfida, inimiga.

    93
    Tornam vitoriosos para a armada,
    Co'o despojo da guerra e rica presa,
    E vão a seu prazer fazer aguada,
    Sem achar resistência, nem defesa.
    Ficava a Maura gente magoada,
    No ódio antigo mais que nunca acesa;
    E vendo sem vingança tanto dano,
    Somente estriba no segundo engano.

    94
    Pazes cometer manda arrependido
    O Regedor daquela iníqua terra,
    Sem ser dos Lusitanos entendido,
    Que em figura de paz lhe manda guerra;
    Porque o piloto falso prometido,
    Que toda a má tenção no peito encerra,
    Para os guiar à morte lhe mandava,
    Como em sinal das pazes que tratava.

    95
    O Capitão, que já lhe então convinha
    Tornar a seu caminho acostumado,
    Que tempo concertado e ventos tinha
    Para ir buscar o Indo desejado,
    Recebendo o piloto, que lhe vinha,
    Foi dele alegremente agasalhado;
    E respondendo ao mensageiro a tento,
    As velas manda dar ao largo vento.

    96
    Desta arte despedida a forte armada,
    As ondas de Anfitrite dividia,
    Das filhas de Nereu acompanhada,
    Fiel, alegre e doce companhia.
    O Capitão, que não caía em nada
    Do enganoso ardil, que o Mouro urdia,
    Dele mui largamente se informava
    Da Índia toda, e costas que passava.

    97
    Mas o Mouro, instruído nos enganos
    Que o malévolo Baco lhe ensinara,
    De morte ou cativeiro novos danos,
    Antes que à Índia chegue, lhe prepara:
    Dando razões dos portos Indianos,
    Também tudo o que pede lhe declara,
    Que, havendo por verdade o que dizia,
    De nada a forte gente se temia.

    98
    E diz-lhe mais, com o falso pensamento
    Com que Sinon os Frígios enganou:
    Que perto está uma ilha, cujo assento
    Povo antigo cristão sempre habitou.
    O Capitão, que a tudo estava a tento,
    Tanto com estas novas se alegrou,
    Que com dádivas grandes lhe rogava,
    Que o leve à terra onde esta gente estava.

    99
    O mesmo o falso Mouro determina,
    Que o seguro Cristão lhe manda e pede;
    Que a ilha é possuída da malina
    Gente que segue o torpe Mahamede.
    Aqui o engano e morte lhe imagina,
    Porque em poder e forças muito excede
    A Moçambique esta ilha, que se chama
    Quíloa, mui conhecida pela fama.

    100
    Para lá se inclinava a leda frota;
    Mas a Deusa em Citere celebrada,
    Vendo como deixava a certa rota
    Por ir buscar a morte não cuidada,
    Não consente que em terra tão remota
    Se perca a gente dela tanto amada.
    E com ventos contrários a desvia
    Donde o piloto falso a leva e guia.

    101
    Mas o malvado Mouro, não podendo
    Tal determinação levar avante,
    Outra maldade iníqua cometendo,
    Ainda em seu propósito constante,
    Lhe diz que, pois as águas discorrendo
    Os levaram por força por diante,
    Que outra ilha tem perto, cuja gente
    Eram Cristãos com Mouros juntamente.

    102
    Também nestas palavras lhe mentia,
    Como por regimento enfim levava,
    Que aqui gente de Cristo não havia,
    Mas a que a Mahamede celebrava.
    O Capitão, que em tudo o Mouro cria,
    Virando as velas, a ilha demandava;
    Mas, não querendo a Deusa guardadora,
    Não entra pela barra, e surge fora.

    103
    Estava a ilha à terra tão chegada,
    Que um estreito pequeno a dividia;
    Uma cidade nela situada,
    Que na fronte do mar aparecia,
    De nobres edifícios fabricada,
    Como por fora ao longe descobria,
    Regida por um Rei de antiga idade:
    Mombaça é o nome da ilha e da cidade.

    104
    E sendo a ela o Capitão chegado,
    Estranhamente ledo, porque espera
    De poder ver o povo batizado,
    Como o falso piloto lhe dissera,
    Eis vêm batéis da terra com recado
    Do Rei, que já sabia a gente que era:
    Que Baco muito de antes o avisara,
    Na forma doutro Mouro, que tomara.

    105
    O recado que trazem é de amigos,
    Mas debaixo o veneno vem coberto;
    Que os pensamentos eram de inimigos,
    Segundo foi o engano descoberto.
    Ó grandes e gravíssimos perigos!
    Ó caminho de vida nunca certo:
    Que aonde a gente põe sua esperança,
    Tenha a vida tão pouca segurança!

    106
    No mar tanta tormenta, e tanto dano,
    Tantas vezes a morte apercebida!
    Na terra tanta guerra, tanto engano,
    Tanta necessidade avorrecida!
    Onde pode acolher-se um fraco humano,
    Onde terá segura a curta vida,
    Que não se arme, e se indigne o Céu sereno
    Contra um bicho da terra tão pequeno?

    Canto Segundo

    1
    Já neste tempo o lúcido Planeta,
    Que as horas vai do dia distinguindo,
    Chegava à desejada e lenta meta,
    A luz celeste às gentes encobrindo,
    E da casa marítima secreta
    Lhe estava o Deus Noturno a porta abrindo,
    Quando as infidas gentes se chegaram
    As naus, que pouco havia que ancoraram.

    2
    Dentre eles um, que traz encomendado
    O mortífero engano, assim dizia:
    "Capitão valeroso, que cortado
    Tens de Neptuno o reino e salsa via,
    O Rei que manda esta ilha, alvoroçado
    Da vinda tua, tem tanta alegria,
    Que não deseja mais que agasalhar-te,
    Ver-te, e do necessário reformar-te.

    3
    "E porque está em extremo desejoso
    De te ver, como cousa nomeada,
    Te roga que, de nada receoso,
    Entres a barra, tu com toda armada:
    E porque do caminho trabalhoso
    Trarás a gente débil e cansada,
    Diz que na terra podes reformá-la,
    Que a natureza obriga a desejá-la.

    4
    "E se buscando vás mercadoria
    Que produze o aurífero Levante,
    Canela, cravo, ardente especiaria,
    Ou droga salutífera e prestante;
    Ou se queres luzente pedraria,
    O rubi fino, o rígido diamante,
    Daqui levarás tudo tão sobejo
    Com que faças o fim a teu desejo."

    5
    Ao mensageiro o Capitão responde
    As palavras do Rei agradecendo:
    E diz que, porque o Sol no mar se esconde,
    Não entra para dentro, obedecendo;
    Porém que, como a luz mostrar por onde
    Vá sem perigo a frota, não temendo,
    Cumprirá sem receio seu mandado,
    Que a mais por tal senhor está obrigado.

    6
    Pergunta-lhe depois, se estão na terra
    Cristãos, como o piloto lhe dizia;
    O mensageiro astuto, que não erra,
    Lhe diz, que a mais da gente em Cristo cria.
    Desta sorte do peito lhe desterra
    Toda a suspeita e cauta fantasia;
    Por onde o Capitão seguramente
    Se fia da infiel e falsa gente.

    7
    E de alguns que trazia condenados
    Por culpas e por feitos vergonhosos,
    Por que pudessem ser aventurados
    Em casos desta sorte duvidosos,
    Manda dous mais sagazes, ensaiados,
    Por que notem dos Mouros enganosos
    A cidade e poder, e por que vejam
    Os Cristãos, que só tanto ver desejam.

    8
    E por estes ao Rei presentes manda,
    Por que a boa vontade, que mostrava,
    Tenha firme, segura, limpa e branda;
    A qual bem ao contrário em tudo estava.
    Já a companhia pérfida e nefanda
    Das naus se despedia e o mar cortava:
    Foram com gestos ledos e fingidos,
    Os dous da frota em terra recebidos.

    9
    E depois que ao Rei apresentaram,
    Co'o recado, os presentes que traziam,
    A cidade correram, e notaram
    Muito menos daquilo que queriam;
    Que os Mouros cautelosos se guardaras
    De lhes mostrarem tudo o que pediam:
    Que onde reina a malícia, está o receio,
    Que a faz imaginar no peito alheio.

    10
    Mas aquele que sempre a mocidade
    Tem no rosto perpétua, e foi nascido
    De duas mães, que urdia a falsidade
    Por ver o navegante destruído,
    Estava numa casa da cidade,
    Com rosto humano e hábito fingido,
    Mostrando-se Cristão, e fabricava
    Um altar sumptuoso, que adorava.

    11
    Ali tinha em retrato afigurada
    Do alto e Santo Espírito a pintura:
    A cândida pombinha debuxada
    Sobre a única Fénix, Virgem pura;
    A companhia santa está pintada
    Dos doze, tão torvados na figura,
    Como os que, só das línguas que caíram,
    De fogo, várias línguas referiram.

    12
    Aqui os dous companheiros conduzidos
    Onde com este engano Baco estava,
    Põem em terra os giolhos, e os sentidos
    Naquele Deus que o mundo governava.
    Os cheiros excelentes, produzidos
    Na Pancaia odorífera, queimava
    O Tioneu, e assim por derradeiro
    O falso Deus adora o verdadeiro.

    13
    Aqui foram de noite agasalhados,
    Com todo o bom e honesto tratamento,
    Os dous Cristãos, não vendo que enganados
    Os tinha o falso e santo fingimento.
    Mas assim como os raios espalhados
    Do Sol foram no mundo, e num momento
    Apareceu no rúbido horizonte
    Da moça de Titão a roxa fronte,

    14
    Tornam da terra os Mouros co'o recado
    Do Rei, para que entrassem, e consigo
    Os dous que o Capitão tinha mandado,
    A quem se o Rei mostrou sincero amigo;
    E sendo o Português certificado
    De não haver receio de perigo,
    E que gente de Cristo em terra havia,
    Dentro no salso rio entrar queria.

    15
    Dizem-lhe os que mandou, que em terra
    Sacras aras e sacerdote sinto; viram
    Que ali se agasalharam o dormiram,
    Enquanto a luz cobriu o escuro manto;
    E que no Rei e gentes não sentiram
    Senão contentamento e gosto tanto,
    Que não podia certo haver suspeita
    Numa mostra tão clara e tão perfeita.

    16
    Com isto o nobre Gama recebia
    Alegremente os Mouros que subiam;
    Que levemente um ânimo se fia
    De mostras, que tão certas pareciam.
    A nau da gente pérfida se enchia,
    Deixando a bordo os barcos que traziam.
    Alegres vinham todos, porque crêm
    Que a presa desejada certa têm.

    17
    Na terra, cautamente aparelhavam
    Armas e munições que, como vissem
    Que no rio os navios ancoravam,
    Neles ousadamente se subissem;
    E, nesta treição determinavam
    Que os de Luso de todo destruíssem,
    E que incautos pagassem deste jeito
    O mal que em Moçambique tinham feito.

    18
    As âncoras tenaces vão levando
    Com a náutica grita costumada;
    Da proa as velas sós ao vento dando
    Inclinam para a barra abalizada.
    Mas a linda Ericina, que guardando
    Andava sempre a gente assinalada,
    Vendo a cilada grande, e tão secreta,
    Voa do Céu ao mar como uma seta.

    19
    Convoca as alvas filhas de Nereu,
    Com toda a mais cerúlea companhia,
    Que, porque no salgado mar nasceu,
    Das águas o poder lhe obedecia.
    E propondo-lhe a causa a que desceu,
    Com todas juntamente se partia,
    Para estorvar que a armada não chegasse
    Aonde para sempre se acabasse.

    20
    Já na água erguendo vão, com grande pressa,
    Com as argênteas caudas branca escuma;
    Cloto eo'o peito corta e atravessa
    Com mais furor o mar do que costuma.
    Salta Nise, Nerine se arremessa
    Por cima da água crespa, em força suma.
    Abrem caminho as ondas encurvadas
    De temor das Nereidas apressadas.

    21
    Nos ombros de um Tritão, com gesto aceso,
    Vai a linda Dione furiosa;
    Não sente quem a leva o doce peso,
    De soberbo com carga tão formosa.
    Já chegam perto donde o vento teso
    Enche as velas da frota belicosa;
    Repartem-se e rodeiam nesse instante
    As naus ligeiras, que iam por diante.

    22
    Põe-se a Deusa com outras em direito
    Da proa capitaina, e ali fechando
    O caminho da barra, estão de jeito,
    Que em vão assopra o vento, a vela inchando.
    Põem no madeiro duro o brando peito,
    Para detrás a forte nau forçando;
    Outras em derredor levando-a estavam,
    E da barra inimiga a desviavam.

    23
    Quais para a cova as próvidas formigas,
    Levando o peso grande acomodado,
    As forças exercitam, de inimigas
    Do inimigo inverno congelado;
    Ali são seus trabalhos e fadigas,
    Ali mostram vigor nunca esperado:
    Tais andavam as Ninfas estorvando
    A gente Portuguesa o fim nefando.

    24
    Torna para detrás a nau forçada,
    Apesar dos que leva, que gritando
    Mareiam velas; ferve a gente irada,
    O leme a um bordo e a outro atravessando;
    O mestre astuto em vão da popa brada,
    Vendo como diante ameaçando
    Os estava um marítimo penedo,
    Que de quebrar-lhe a nau lhe mete medo.

    25
    A celeuma medonha se alevanta
    No rudo marinheiro que trabalha;
    O grande estrondo a Maura gente espanta,
    Como se vissem hórrida batalha;
    Não sabem a razão de fúria tanta,
    Não sabem nesta pressa quem lhe valha;
    Cuidam que seus enganos são sabidos,
    E que hão de ser por isso aqui punidos.

    26
    Ei-los subitamente se lançavam
    A seus batéis velozes que traziam;
    Outros em cima o mar alevantavam,
    Saltando n'água, a nado se acolhiam;
    De um bordo e doutro súbito saltavam,
    Que o medo os compelia do que viam;
    Que antes querem ao mar aventurar-se
    Que nas mãos inimigas entregar-se.

    27
    Assim como em selvática alagoa
    As rãs, no tempo antigo Lícia gente,
    Se sentem por ventura vir pessoa,
    Estando fora da água incautamente,
    Daqui e dali saltando, o charco soa,
    Por fugir do perigo que se sente,
    E acolhendo-se ao couto que conhecem,
    Sós as cabeças na água lhe aparecem:

    28
    Assim fogem os Mouros; e o piloto,
    Que ao perigo grande as naus guiara,
    Crendo que seu engano estava noto,
    Também foge, saltando na água amara.
    Mas, por não darem no penedo imoto,
    Onde percam a vida doce e cara,
    A âncora solta logo a capitaina,
    Qualquer das outras junto dela amaina.

    29
    Vendo o Gama, atentado, a estranheza
    Dos Mouros, não cuidada, e juntamente
    O piloto fugir-lhe com presteza,
    Entende o que ordenava a bruta gente;
    E vendo, sem contraste e sem braveza
    Dos ventos, ou das águas sem corrente,
    Que a nau passar avante não podia,
    Havendo-o por milagre, assim dizia:

    30
    "Ó caso grande, estranho e não cuidado,
    Ó milagre claríssimo e evidente,
    Ó descoberto engano inopinado,
    Ó pérfida, inimiga e falsa gente!
    Quem poderá do mal aparelhado
    Livrar-se sem perigo sabiamente,
    Se lá de cima a Guarda soberana
    Não acudir à fraca força humana?

    31
    "Bem nos mostra a divina Providência
    Destes portos a pouca segurança;
    Bem claro temos visto na aparência,
    Que era enganada a nossa confiança.
    Mas pois saber humano nem prudência
    Enganos tão fingidos não alcança,
    Ó tu, Guarda Divina, tem cuidado
    De quem sem ti não pode ser guardado!

    32
    "E se te move tanto a piedade
    Desta mísera gente peregrina,
    Que só por tua altíssima bondade,
    Da gente a salvas pérfida e malina,
    Nalgum porto seguro de verdade
    Conduzir-nos já agora determina,
    Ou nos amostra a terra que buscamos,
    Pois só por teu serviço navegamos."

    33
    Ouviu-lhe essas palavras piedosas
    A formosa Dione, e comovida,
    Dentre as Ninfas se vai, que saudosas
    Ficaram desta súbita partida.
    Já penetra as Estrelas luminosas,
    Já na terceira Esfera recebida
    Avante passa, e lá no sexto Céu,
    Para onde estava o Padre, se moveu.

    34
    E como ia afrontada do caminho,
    Tão formosa no gesto se mostrava,
    Que as Estrelas e o Céu e o Ar vizinho,
    E tudo quanto a via namorava.
    Dos olhos, onde faz seu filho o ninho,
    Uns espíritos vivos inspirava,
    Com que os Pólos gelados acendia,
    E tornava do Fogo a esfera fria.

    35
    E por mais namorar o soberano
    Padre, de quem foi sempre amada e eriça,
    Se lhe apresenta assim como ao Troiano,
    Na selva Idea, já se apresentara.
    Se a vira o caçador, que o vulto humano
    Perdeu, vendo Diana na água clara,
    Nunca os famintos galgos o mataram,
    Que primeiro desejos o acabaram.

    36
    Os crespos fios d'ouro se esparziam
    Pelo colo, que a neve escurecia;
    Andando, as lácteas tetas lhe tremiam,
    Com quem Amor brincava, e não se via;
    Da alva petrina flamas lhe saíam,
    Onde o Menino as almas acendia;
    Pelas lisas colunas lhe trepavam
    Desejos, que como hera se enrolavam.

    37
    C'um delgado sendal as partes cobre,
    De quem vergonha é natural reparo,
    Porém nem tudo esconde, nem descobre,
    O véu, dos roxos lírios pouco avaro;
    Mas, para que o desejo acenda o dobre,
    Lhe põe diante aquele objeto raro.
    Já se sentem no Céu, por toda a parte,
    Ciúmes em Vulcano, amor em Marte.

    38
    E mostrando no angélico semblante
    Co'o riso uma tristeza misturada,
    Como dama que foi do incauto amante
    Em brincos amorosos mal tratada,
    Que se aqueixa e se ri num mesmo instante,
    E se torna entre alegre magoada,
    Desta arte a Deusa, a quem nenhuma iguala,
    Mais mimosa que triste ao Padre fala:

    39
    "Sempre eu cuidei, ó Padre poderoso,
    Que, para as cousas que eu do peito amasse,
    Te achasse brando, afábil e amoroso,
    Posto que a algum contrário lhe pesasse;
    Mas, pois que contra mim te vejo iroso,
    Sem que to merecesse, nem te errasse,
    Faça-se como Baco determina;
    Assentarei enfim que fui mofina.

    40
    "Este povo que é meu, por quem derramo
    As lágrimas que em vão caídas vejo,
    Que assaz de mal lhe quero, pois que o amo,
    Sendo tu tanto contra meu desejo!
    Por ele a ti rogando choro e bramo,
    E contra minha dita enfim pelejo.
    Ora pois, porque o amo é mal tratado,
    Quero-lhe querer mal, será guardado.

    41
    "Mas moura enfim nas mãos das brutas gentes,
    Que pois eu fui…" E nisto, de mimosa,
    O rosto banha em lágrimas ardentes,
    Como co'o orvalho fica a fresca rosa.
    Calada um pouco, como se entre os dentes
    Se lhe impedira a fala piedosa,
    Torna a segui-la; e indo por diante,
    Lhe atalha o poderoso e grão Tonante.

    42
    E destas brandas mostras comovido,
    Que moveram de um tigre o peito duro,
    Co'o vulto alegre, qual do Céu subido,
    Torna sereno e claro o ar escuro,
    As lágrimas lhe alimpa, e acendido
    Na face a beija, e abraça o colo puro;
    De modo que dali, se só se achara,
    Outro novo Cupido se gerara.

    43
    E co'o seu apertando o rosto amado,
    Que os soluços e lágrimas aumenta,
    Como menino da ama castigado,
    Que quem no afaga o choro lhe acrescente,
    Por lhe pôr em sossego o peito irado,
    Muitos casos futuros lhe apresenta.
    Dos fados as entranhas revolvendo,
    Desta maneira enfim lhe está dizendo:

    44
    "Formosa filha minha, não temais
    Perigo algum nos vossos Lusitanos,
    Nem que ninguém comigo possa mais,
    Que esses chorosos olhos soberanos;
    Que eu vos prometo, filha, que vejais
    Esquecerem-se Gregos e Romanos,
    Pelos ilustres feitos que esta gente
    Há-de fazer nas partes do Oriente.

    45
    "Que se o facundo Ulisses escapou
    De ser na Ogígia ilha eterno escravo,
    E se Antenor os seios penetrou
    Ilíricos e a fonte de Timavo;
    E se o piedoso Eneias navegou
    De Cila e de Caríbdis o mar bravo,
    Os vossos, mores cousas atentando,
    Novos mundos ao mundo irão mostrando.

    46
    "Fortalezas, cidades e altos muros,
    Por eles vereis, filha, edificados;
    Os Turcos belacíssimos e duros,
    Deles sempre vereis desbaratados.
    Os Reis da índia, livres e seguros,
    Vereis ao Rei potente sojugados;
    E por eles, de tudo enfim senhores,
    Serão dadas na terra leis melhores.

    47
    "Vereis este, que agora pressuroso
    Por tantos medos o Indo vai buscando,
    Tremer dele Neptuno, de medroso
    Sem vento suas águas encrespando.
    Ó caso nunca visto e milagroso,
    Que trema e ferva o mar, em calma estando!
    Ó gente forte e de altos pensamentos,
    Que também dela hão medo os Elementos!

    48
    "Vereis a terra, que a água lhe tolhia,
    Que inda há-de ser um porto mui decente,
    Em que vão descansar da longa via
    As naus que navegarem do Ocidente.
    Toda esta costa enfim, que agora urdia
    O mortífero engano, obediente
    Lhe pagará tributos, conhecendo
    Não poder resistir ao Luso horrendo.

    49
    "E vereis o mar Roxo, tão famoso,
    Tornar-se-lhe amarelo, de enfiado;
    Vereis de Ormuz o Reino poderoso
    Duas vezes tomado e sojugado.
    Ali vereis o Mouro furioso
    De suas mesmas setas traspassado:
    Que quem vai contra os vossos, claro veja
    Que, se resiste, contra si peleja.

    50
    "Vereis a inexpugnábil Dio forte,
    Que dous cercos terá, dos vossos sendo.
    Ali se mostrará seu preço e sorte,
    Feitos de armas grandíssimos fazendo.
    Invejoso vereis o grão Mavorte
    Do peito Lusitano fero e horrendo:
    Do Mouro ali verão que a voz extrema
    Do falso Mahamede ao Céu blasfema.

    51
    "Goa vereis aos Mouros ser tomada,
    A qual virá depois a ser senhora
    De todo o Oriente, e sublimada
    Co'os triunfos da gente vencedora.
    Ali soberba, altiva, e exalçada,
    Ao Gentio, que os ídolos adora,
    Duro freio porá, e a toda a terra
    Que cuidar de fazer aos vossos guerra.

    52
    "Vereis a fortaleza sustentar-se
    De Cananor, com pouca força e gente;
    E vereis Calecu desbaratar-se,
    Cidade populosa e tão potente:
    E vereis em Cochim assinalar-se
    Tanto um peito soberbo e insolente,
    Que cítara jamais cantou vitória,
    Que assim mereça eterno nome e glória.

    53
    "Nunca com Marte instructo e furioso,
    Se viu ferver Leucate, quando Augusto
    Nas civis Actias guerras animoso,
    O Capitão venceu Romano injusto,
    Que dos povos da Aurora, e do famoso
    Nilo, e do Bactra Cítico e robusto
    A vitória trazia, e presa rica,
    Preso na Egípcia linda e nego pudica.

    54
    Como vereis o mar fervendo aceso
    Colos incêndios dos vossos pelejando,
    Levando o Idololatra, e o Mouro preso,
    De nações diferentes triunfando.
    E sujeita a rica Áurea Quersoneso,
    Até ao longínquo China navegando,
    E as ilhas mais remotas do Oriente,
    Ser-lhe-á todo o Oceano obediente.

    55
    "De modo, filha minha, que de jeito
    Amostrarão esforço mais que humano,
    Que nunca se verá tão forte peito,
    Do Gangético mar ao Gaditano,
    Nem das Boreais ondas ao Estreito,
    Que mostrou o agravado Lusitano,
    Posto que em todo o mundo, de afrontados,
    Ressuscitassem todos os passados."

    56
    Como isto disse, manda o consagrado
    Filho de Maia à Terra, por que tenha
    Um pacífico porto o sossegado,
    Para onde sem receio a frota venha;
    F, para que em Mombaça, aventurado,
    O forte Capitão se não detenha,
    Lhe manda mais, que em sonhos lhe mostra
    A terra, onde quieto repousasse.

    57
    Já pelo ar o Cileneu voava;
    Com as asas nos pés à Terra desce;
    Sua vara fatal na mão levava,
    Com que os olhos cansados adormece:
    Com esta, as tristes almas revocava
    Do Inferno, e o vento lhe obedece.
    Na cabeça o galero costumado.
    E desta arte a Melinde foi chegado.

    58
    Consigo a Fama leva, por que diga
    Do Lusitano o preço grande e raro,
    Que o nome ilustre a um certo amor obriga
    E faz, a quem o tem, amado e caro.
    Desta arte vai fazendo a gente amiga,
    Co rumor famosíssimo, e perclaro.
    Já Melinde em desejos arde todo
    De ver da gente forte o gesto e modo.

    59
    Dali para Mombaça logo parte,
    Aonde as naus estavam temerosas,
    Para que à gente mande que se aparte
    Da barra amiga e terras suspeitosas:
    Porque mui pouco val esforço e arte,
    Contra infernais vontades enganosas;
    Pouco val coração, astúcia e siso,
    Se lá dos Céus não vem celeste aviso.

    60
    No feio caminho a noite tinha anelado,
    E, as estrelas no Céu, coa luz alhea,
    Tinham o largo Mundo alumiado;
    E só co'o sono a gente se recreia.
    O Capitão ilustre, já cansado
    De vigiar a noite que arreceia,
    Breve repouso então aos olhos dava,
    A outra gente a quartos vigiava;

    61
    Quando Mercúrio em sonhos lhe aparece,
    Dizendo: "Fuge, fuge, Lusitano,
    Da cilada que o Rei malvado tece,
    Por te trazer ao fim, e extremo dano;
    Fuge, que o vento, e o Céu te favorece;
    Sereno o tempo tens e o Oceano,
    E outro Rei mais amigo, noutra parte,
    Onde podes seguro agasalhar-te.

    62
    "Não tens aqui senão aparelhado
    O hospício que o cru Diomedes dava,
    Fazendo ser manjar acostumado
    De cavalos a gente que hospedava;
    As aras de Busíris infamado,
    Onde os hóspedes tristes imolava,
    Terás certas aqui, se muito esperas.
    Fuge das gentes pérfidas e feras.

    63
    "Vai-te ao longo da costa discorrendo,
    E outra terra acharás de mais verdade,
    Lá quase junto donde o Sol ardendo
    Iguala o dia e noite em quantidade;
    Ali tua frota alegre recebendo
    Um Rei, com muitas obras de amizade,
    Gasalhado seguro te daria,
    E, para a índia, certa e sábia guia."

    64
    Isto Mercúrio disse, e o sono leva
    Ao Capitão, que com mui grande espanto
    Acorda, e vê ferida a escura treva
    De uma súbita luz e raio santo.
    E vendo claro quanto lhe releva
    Não se deter na terra iníqua tanto,
    Com novo espírito ao mestre seu mandava
    Que as velas desse ao vento que assopravam.

    65
    "Dai velas, disse, dai ao largo vento,
    Que o Céu nos favorece e Deus o manda;
    Que um mensageiro vi do claro assento
    Que só em favor de nossos passos anda."
    Alevanta-se nisto o movimento
    Dos marinheiros, de uma e de outra banda;
    Levam gritando as âncoras acima,
    Mostrando a ruda força, que se estima.

    66
    Neste tempo, que as âncoras levavam,
    Na sombra escura os Mouros escondidos
    Mansamente as amarras lhe cortavam,
    Por serem, dando à costa, destruídos;
    Mas com vista de linces vigiavam
    Os Portugueses, sempre apercebidos.
    Eles, como acordados os sentiram,
    Voando, e não remando, lhe fugiram.

    67
    Mas já as agudas proas apartando
    Iam as vias húmidas de argento;
    Assopra-lhe galerno o vento, e brando,
    Com suave e seguro movimento.
    Nos perigos passados vão falando,
    Que mal se perderão do pensamento
    Os casos grandes, donde em tanto aperto
    A vida em salvo escapa por acerto.

    68
    Tinha uma volta dado o Sol ardente
    E noutro começava, quando viram
    Ao longe deus navios, brandamente
    Co'os ventos navegando, que respiram:
    Porque haviam de ser da Maura gente,
    Para eles arribando, as velas viram:
    Um, de temor do mal que arreceava,
    Por se salvar a gente à costa dava.

    69
    Não é o outro que fica tão manhoso;
    Mas nas mãos vai cair do Lusitano,
    Sem o rigor de Marte furioso,
    E sem a fúria horrenda de Vulcano;
    Que como fosse débil e medroso
    Da pouca gente o fraco peito humano,
    Não teve resistência; e se a tivera,
    Mais dano resistindo recebera.

    70
    E como o Gama muito desejasse
    Piloto para a Índia que buscava,
    Cuidou que entre estes Mouros o tomasse;
    Mas não lhe sucedeu como cuidava,
    Que nenhum deles há que lhe ensinasse
    A que parte dos céus a Índia estava;
    Porém dizem-lhe todos, que tem perto
    Melinde, onde achará piloto certo.

    71
    Louvam do Rei os Mouros a bondade,
    Condição liberal, sincero peito,
    Magnificência grande e humanidade,
    Com partes de grandíssimo respeito.
    O Capitão o assela por verdade,
    Porque já lhe dissera, deste jeito,
    Cileneu em sonhos; e partia
    Para onde o sonho e o Mouro lhe dizia.

    72
    Era no tempo alegre, quando entrava
    No roubador de Europa a luz Febeia,
    Quando um e outro corno lhe aquentava,
    E Flora derramava o de Amalteia:
    A memória do dia renovava
    O pressuroso Sol, que o Céu rodeia,
    Em que Aquele, a quem tudo está sujeito,
    O selo pôs a quanto tinha feito;

    73
    Quando chegava a frota àquela parte,
    Onde o Reino Melinde já se via,
    De toldos adornada, e leda de arte
    Que bem mostra estimar o santo dia.
    Treme a bandeira, voa o estandarte,
    A cor purpúrea ao longe aparecia;
    Soam os atambores o pandeiros,
    E assim entravam ledos e guerreiros.

    74
    Enche-se toda a praia Melindana
    Da gente que vem ver a leda armada,
    Gente mais verdadeira, e mais humana,
    Que toda a doutra terra atrás deixada.
    Surge diante a frota Lusitana,
    Pega no fundo a âncora pesada;
    Mandam fora um dos Mouros que tomaram,
    Por quem sua vinda ao Rei manifestaram.

    75
    O Rei, que já sabia da nobreza
    Que tanto os Portugueses engrandece,
    Tomarem o seu porto tanto preza,
    Quanto a gente fortíssima merece:
    E com verdadeiro ânimo e pureza,
    Que os peitos generosos enobrece,
    Lhe manda rogar muito que saíssem,
    Para que de seus reinos se servissem.

    76
    São oferecimentos verdadeiros,
    E palavras sinceras, não dobradas,
    As que o Rei manda aos nobres cavaleiros,
    Que tanto mar e terras tem passadas.
    Manda-lhe mais lanígeros carneiros,
    E galinhas domésticas cevadas,
    Com as frutas, que então na terra havia;
    E a vontade à dádiva excedia.

    77
    Recebe o Capitão alegremente
    O mensageiro ledo e seu recado;
    E logo manda ao Rei outro presente,
    Que de longe trazia aparelhado:
    Escarlata purpúrea, cor ardente,
    O ramoso coral, fino e prezado,
    Que debaixo das águas mole cresce,
    E como é fora delas se endurece.

    78
    Manda mais um, na prática elegante,
    Que co'o Rei nobre as pazes concertasse,
    E que de não sair naquele instante
    De suas naus em terra o desculpasse.
    Partido assim o embaixador prestante,
    Como na terra ao Rei se apresentasse,
    Com estilo que Palas lhe ensinava,
    Estas palavras tais falando orava:

    79
    "Sublime Rei, a quem do Olimpo puro
    Foi da suma Justiça concedido
    Refrear o soberbo povo duro,
    Não menos dele amado, que temido:
    Como porto mui forte e mui seguro,
    De todo o Oriente conhecido,
    Te vimos a buscar, para que achemos
    Em ti o remédio certo que queremos.

    80
    "Não somos roubadores, que passando
    Pelas fracas cidades descuidadas,
    A ferro e a fogo as gentes vão matando,
    Por roubar-lhe as fazendas cobiçadas;
    Mas da soberba Europa navegando,
    Imos buscando as terras apartadas
    Da Índia grande e rica, por mandado
    De um Rei que temos, alto e sublimado.

    81
    "Que geração tão dura há hi de gente,
    Que bárbaro costume e usança feia,
    Que não vedem os portos tão somente,
    Mas inda o hospício da deserta areia?
    Que má tenção, que peito em nós se sente,
    Que de tão pouca gente se arreceia?
    Que com laços armados, tão fingidos,
    Nos ordenassem ver-nos destruídos?

    82
    "Mas tu, e quem mui certo confiamos
    Achar-se mais verdade, ó Rei benigno,
    E aquela certa ajuda em ti esperamos,
    Que teve o perdido Ítaco em Alcino,
    A teu porto seguro navegamos,
    Conduzidos do intérprete divino;
    Que, pois a ti nos manda, está mui claro,
    Que és de peito sincero, humano e raro.

    83
    "E não cuides, ó Rei, que não saísse
    O nosso Capitão esclarecido
    A ver-te, ou a servir-te, porque visse
    Ou suspeitasse em ti peito fingido:
    Mas saberás que o fez, porque cumprisse
    O regimento, em tudo obedecido,
    De seu Rei, que lhe manda que não saia,
    Deixando a frota, em nenhum porto ou praia.

    84
    "E porque é, de vassalos o exercício,
    Que os membros tem regidos da cabeça,
    Não quererás, pois tens de Rei o ofício,
    Que ninguém a seu Rei desobedeça;
    Mas as mercês e o grande benefício,
    Que ora acha em ti, promete que conheça
    Em tudo aquilo que ele e os seus puderem,
    Enquanto os rios para o mar correrem."

    85
    Assim dizia; e todos juntamente,
    Uns com outros em prática falando,
    Louvavam muito o estâmago da gente,
    Que tantos céus e mares vai passando.
    E o Rei ilustre, o peito obediente
    Dos Portugueses na alma imaginando,
    Tinha por valor grande e mui subido
    O do Rei que é tão longe obedecido.

    86
    E com risonha vista e ledo aspeito,
    Responde ao embaixador, que tanto estima:
    "Toda a suspeita má tirai do peito,
    Nenhum frio temor em vós se imprima;
    Que vosso preço e obras são de jeito
    Para vos ter o mundo em muita estima;
    E quem vos fez molesto tratamento,
    Não pode ter subido pensamento.

    87
    "De não sair em terra toda a gente,
    Por observar a usada preminência,
    Ainda que me pese estranhamente,
    Em muito tenho a muita obediência;
    Mas, se lho o regimento não consente,
    Nem eu consentirei que a excelência
    De peitos tão leais em si desfaça,
    Só porque a meu desejo satisfaça.

    88
    "Porém, como a luz crástina chegada
    Ao mundo for, em minhas almadias
    Eu irei visitar a forte armada,
    Que ver tanto desejo, há tantos dias;
    E se vier do mar desbaratada,
    Do furioso vento e longas vias,
    Aqui terá, de limpos pensamentos,
    Piloto, munições e mantimentos."

    89
    Isto disse; e nas águas se escondia
    O filho de Latona; e o mensageiro
    Coa embaixada alegre se partia
    Para a frota, no seu batel ligeiro.
    Enchem-se os peitos todos de alegria.
    Por terem o remédio verdadeiro
    Para acharem a terra que buscavam;
    E assim ledos a noite festejavam.

    90
    Não faltam ali os raios de artifício,
    Os trêmulos cometas imitando;
    Fazem os bombardeiros seu ofício,
    O céu, a terra e as ondas atroando.
    Mostra-se dos Ciclopas o exercício
    Nas bombas que de fogo estão queimando;
    Outros com vozes, com que o céu feriam,
    Instrumentos altíssonos tangiam.

    91
    Respondem-lhe da terra juntamente,
    Co'o raio volteando, com zunido;
    Anda em giros no ar a roda ardente,
    Estoura o pó sulfúreo escondido.
    A grita se alevanta ao céu, da gente;
    O mar se via em fogos acendido,
    E não menos a terra; e assim festeja
    Um ao outro, a maneira de peleja.

    92
    Mas já o Céu inquieto revolvendo,
    As gentes incitava a seu trabalho,
    E já a mãe de Menon a luz trazendo,
    Ao sono longo punha certo atalho;
    Iam-se as sombras lentas desfazendo,
    Sobre as flores da terra em frio orvalho,
    Quando o Rei Melindano se embarcava
    A ver a frota, que no mar estava.

    93
    Viam-se em derredor ferver as praias
    Da gente, que a ver só concorre leda;
    Luzem da fina púrpura as cabaias,
    Lustram os panos da tecida seda;
    Em lugar das guerreiras azagaias
    E do arco, que os cornos arremeda
    Da Lua, trazem ramos de palmeira,
    Dos que vencem, coroa verdadeira.

    94
    Um batel grande e largo, que toldado
    Vinha de sedas de diversas cores,
    Traz o Rei de Melinde, acompanhado
    De nobres e seu Reino e de senhores:
    Vem de ricos vestidos adornado,
    Segundo seus costumes e primores;
    Na cabeça uma fota guarnecida
    De ouro, e de seda e de algodão tecida.

    95
    Cabaia de Damasco rico e dino,
    Da Tíria cor, entre eles estimada,
    Um colar ao pescoço, de ouro fino,
    Onde a matéria da obra é superada,
    C'um resplendor reluze adamantino;
    Na cinta, a rica bem lavrada;
    Nas alparcas dos pés, em fim de tudo,
    Cobrem ouro e aljôfar ao veludo.

    96
    Com um redondo emparo alto de seda,
    Numa alta e dourada hástia enxerido,
    Um ministro à solar quentura veda.
    Que não ofenda e queime o Rei subido.
    Música traz na proa, estranha e leda,
    De áspero som, horríssono ao ouvido,
    De trombetas arcadas em redondo,
    Que, sem concerto, fazem rudo estrondo.

    97
    Não menos guarnecido o Lusitano
    Nos seus batéis, da frota se partia
    A receber no mar o Melindano,
    Com lustrosa e lograda companhia.
    Vestido o Gama vem ao modo Hispano,
    Mas Francesa era a roupa que vestia,
    De cetim da Adriática Veneza
    Carmesi, cor que a gente tanto preza:

    98
    De botões douro as mangas vêm tomadas,
    Onde o Sol reluzindo a vista cega;
    As calças soldadescas recamadas
    Do metal, que Fortuna a tantos nega,
    E com pontas do mesmo delicadas
    Os golpes do gibão ajunta e achega;
    Ao Itálico modo a áurea espada;
    Pluma na gorra, um pouco declinada.

    99
    Nos de sua companhia se mostrava
    Da tinta, que dá o múrice excelente,
    A vária cor, que os olhos alegrava,
    E a maneira do trajo diferente.
    Tal o formoso esmalte se notava
    Dos vestidos, olhados juntamente,
    Qual aparece o arco rutilante
    Da bela Ninfa, filha de Taumante.

    100
    Sonorosas trombetas incitavam
    Os ânimos alegres, ressoando;
    Dos Mouros os batéis, o mar coalhavam,
    Os toldos pelas águas arrojando;
    As bombardas horríssonas bramavam,
    Com as nuvens de fumo o Sol tomando;
    Amiúdam-se os brados acendidos,
    Tapam com as mãos os Mouros os ouvidos.

    101
    Já no batel entrou do Capitão
    O Rei, que nos seus braços o levava;
    Ele coa cortesia, que a razão
    (Por ser Rei) requeria, lhe falava.
    C'umas mostras de espanto e admiração,
    O Mouro o gesto e o modo lhe notava,
    Como quem em mui grande estima tinha
    Gente que de tão longe à índia vinha.

    102
    E com grandes palavras lhe oferece
    Tudo o que de seus Reinos lhe cumprisse,
    E que, se mantimento lhe falece,
    Como se próprio fosse, lho pedisse.
    Diz-lhe mais, que por fama bem conhece
    A gente Lusitana, sem que a visse;
    Que já ouviu dizer, que noutra terra
    Com gente de sua Lei tivesse guerra.

    103
    E como por toda África se soa,
    Lhe diz, os grandes feitos que fizeram,
    Quando nela ganharam a coroa
    Do Reino, onde as Hespéridas viveram;
    E com muitas palavras apregoa
    O menos que os de Luso mereceram,
    E o mais que pela fama o Rei sabia.
    Mas desta sorte o Gama respondia:

    104
    "Ó tu, que só tiveste piedade,
    Rei benigno, da gente Lusitana,
    Que com tanta miséria e adversidade
    Dos mares experimenta a fúria insana;
    Aquela alta e divina Eternidade,
    Que o Céu revolve e rege a gente humana,
    Pois que de ti tais obras recebemos,
    Te pague o que nós outros não podemos.

    105
    "Tu só, de todos quantos queima Apolo,
    Nos recebes em paz, cio mar profundo;
    Em ti dos ventos hórridos de Eolo
    Refúgio achamos bom, fido e jocundo.
    Enquanto apascentar o largo Pólo
    As Estrelas, e o Sol der lume ao Mundo,
    Onde quer que eu viver, com fama e glória
    Viverão teus louvores em memória."

    106
    Isto dizendo, os barcos vão remando
    Para a frota, que o Mouro ver deseja;
    Vão as naus uma e uma rodeando,
    Porque de todas tudo note e veja.
    Mas para o céu Vulcano fuzilando,
    A frota coas bombardas o festeja,
    E as trombetas canoras lhe tangiam;
    Co'os anafis os Mouros respondiam.

    107
    Mas depois de ser tudo já notado
    Do generoso Mouro, que pasmava
    Ouvindo o instrumento inusitado,
    Que tamanho terror em si mostrava,
    Mandava estar quieto e ancorado
    N'água o batel ligeiro que os levava,
    Por falar de vagar co'o forte Gama,
    Nas cousas de que tem notícia e faina.

    108
    Em práticas o Mouro diferentes
    Se deleitava, perguntando agora
    Pelas guerras famosas e excelentes
    Co'o povo havidas, que a Mafoma adora;
    Agora lhe pergunta pelas gentes
    De toda a Hespéria última, onde mora;
    Agora pelos povos seus vizinhos,
    Agora pelos úmidos caminhos.

    109
    "Mas antes, valeroso Capitão,
    Nos conta, lhe dizia, diligente,
    Da terra tua o clima, e região
    Do mundo onde morais distintamente;
    E assim de vossa antiga geração,
    E o princípio do Reino tão potente,
    Co'os sucessos das guerras do começo,
    Que, sem sabê-las, sei que são de preço.

    110
    "E assim também nos conta dos rodeios
    Longos, em que te traz o mar irado,
    Vendo os costumes bárbaros alheios.
    Que a nossa África ruda tem criado.
    Conta: que agora vêm co'os áureos freios
    Os cavalos que o carro marchetado
    Do novo Sol, da fria Aurora trazem,
    O vento dorme, o mar e as ondas jazem.

    111
    "E não menos co'o tempo se parece
    O desejo de ouvir-te o que contares;
    Que quem há, que por fama não conhece
    As obras Portuguesas singulares?
    Não tanto desviado resplandece
    De nós o claro Sol, para julgares
    Que os Melindanos têm tão rudo peito,
    Que não estimem muito um grande feito.

    112
    "Cometeram soberbos os Gigantes,
    Com guerra vã, o Olimpo claro e puro;
    Tentou Pirítoo e Teseu, de ignorantes,
    O Reino de Plutão horrendo e escuro.
    Se houve feitos no mundo tão possantes,
    Não menos é trabalho ilustre e duro,
    Quanto foi cometer Inferno o Céu,
    Que outrem cometa a fúria de Nereu.

    113
    "Queimou o sagrado templo de Diana,
    Do subtil Tesifónio fabricado,
    Heróstrato, por ser da gente humana
    Conhecido no mundo e nomeado:
    Se também com tais obras nos engana
    O desejo de um nome avantajado,
    Mais razão há que queira eterna glória
    Quem faz obras tão dignas de memória."

    Canto Terceiro

    1
    Agora tu, Calíope, me ensina
    O que contou ao Rei o ilustre Gama:
    Inspira imortal canto e voz divina
    Neste peito mortal, que tanto te ama.
    Assim o claro inventor da Medicina,
    De quem Orfeu pariste, ó linda Dama,
    Nunca por Dafne, Clície ou Leucotoe,
    Te negue o amor devido, como soe.

    2
    Põe tu, Ninfa, em efeito meu desejo,
    Como merece a gente Lusitana;
    Que veja e saiba o mundo que do Tejo
    O licor de Aganipe corre e mana.
    Deixa as flores de Pindo, que já vejo
    Banhar-me Apolo na água soberana;
    Senão direi que tens algum receio,
    Que se escureça o teu querido Orfeio.

    3
    Prontos estavam todos escutando
    O que o sublime Gama contaria,
    Quando, depois de um pouco estar cuidando,
    Alevantando o rosto, assim dizia:
    "Mandas-me, ó Rei, que conte declarando
    De minha gente a grão genealogia:
    Não me mandas contar estranha história,
    Mas mandas-me louvar dos meus a glória.

    4
    "Que outrem possa louvar esforço alheio,
    Cousa é que se costuma e se deseja;
    Mas louvar os meus próprios, arreceio
    Que louvor tão suspeito mal me esteja;
    E para dizer tudo, temo e creio,
    Que qualquer longo tempo curto seja:
    Mas, pois o mandas, tudo se te deve,
    Irei contra o que devo, e serei breve.

    5
    "Além disso, o que a tudo enfim me obriga,
    É não poder mentir no que disser,
    Porque de feitos tais, por mais que diga,
    Mais me há-de ficar inda por dizer.
    Mas, porque nisto a ordens leve e siga,
    Segundo o que desejas de saber,
    Primeiro tratarei da larga terra,
    Depois direi da sanguinosa guerra.

    6
    "Entre a Zona que o Cancro senhoreia,
    Meta setentrional do Sol luzente,
    E aquela que por f ria se arreceia
    Tanto, como a do meio por ardente,
    Jaz a soberba Europa, a quem rodeia,
    Pela parte do Areturo, e do Ocidente,
    Com suas salsas ondas o Oceano,
    E pela Austral o mar Mediterrano.

    7
    "Da parte donde o dia vem nascendo,
    Com Ásia se avizinha; mas o rio
    Que dos montes Rifeios vai correndo,
    Na alagoa Meotis, curvo o frio,
    As divide: e o mar que, fero e horrendo,
    Viu dos Gregos o irado senhorio,
    Onde agora de Tróia triunfante
    Não vê mais que a memória o navegante.

    8
    "Lá onde mais debaixo está do Pólo,
    Os montes Hiperbóreos aparecem,
    E aqueles onde sempre sopra Eolo,
    E co'o nome, dos sopros se enobrecem.
    Aqui tão pouca força tem de Apolo
    Os raios que no mundo resplandecem,
    Que a neve está contido pelos montes,
    Gelado o mar, geladas sempre as fontes.

    9
    "Aqui dos Citas grande quantidade
    Vivem, que antigamente grande guerra
    Tiveram, sobre a humana antiguidade,
    Co'os que tinham então a Egípcia terra;
    Mas quem tão fora estava da verdade,
    (Já que o juízo humano tanto erra)
    Para que do mais certo se informara,
    Ao campo Damasceno o perguntara.

    10
    "Agora nestas partes se nomeia
    A Lápia fria, a inculta Noruega,
    Escandinávia Ilha, que se arreia
    Das vitórias que Itália não lhe nega.
    Aqui, enquanto as águas não refreia
    O congelado inverno, se navega
    Um braço do Sarmático Oceano
    Pelo Brúsio, Suécio e frio Dano.

    11
    "Entre este mar e o Tánais vive estranha
    Gente: Rutenos, Moseos e Livónios,
    Sármatas outro tempo; e na montanha
    Hircínia os Marcomanos são Polónios.
    Sujeitos ao Império de Alemanha
    São Saxones, Boêmios e Panónios,
    E outras várias nações, que o Reno frio
    Lava, e o Danúbio, Amasis e Albis rio.

    12
    "Entre o remoto Istro e o claro Estreito,
    Aonde Hele deixou co'o nome a vida,
    Estão os Traces de robusto peito,
    Do fero Marte pátria tão querida,
    Onde, colo Hemo, o Ródope sujeito
    Ao Otomano está, que submetida
    Bizâncio tem a seu serviço indino:
    Boa injúria do grande Constantino!

    13
    "Logo de Macedónia estão as gentes,
    A quem lava do Axio a água fria;
    E vós também, ó terras excelentes
    Nos costumes, engenhos e ousadia,
    Que criastes os peitos eloquentes
    E os juízos de alta fantasia,
    Com quem tu, clara Grécia, o Céu penetras,
    E não menos por armas, que por letras.

    14
    "Logo os Dálmatas vivem; e no seio,
    Onde Antenor já muros levantou,
    A soberba Veneza está no meio
    Das águas, que tão baixa começou.
    Da terra um braço vem ao mar, que cheio
    De esforço, nações várias sujeitou,
    Braço forte, de gente sublimada,
    Não menos nos engenhos, que na espada.

    15
    "Em torno o cerca o Reino Neptunino,
    Co'os muros naturais por outra parte;
    Pelo meio o divide o Apenino,
    Que tão ilustre fez o pátrio Marte;
    Mas depois que o Porteiro tem divino,
    Perdendo o esforço veio, e bélica arte;
    Pobre está já de antiga potestade:
    Tanto Deus se contenta de humildade!

    16
    "Gália ali se verá que nomeada
    Co'os Cesáreos triunfos foi no mundo,
    Que do Séquana e Ródano é regada,
    E do Giruna frio e Reno fundo.
    Logo os montes da Ninfa sepultada
    Pirene se alevantam, que segundo
    Antiguidades contam, quando arderam,
    Rios de ouro e de prata então correram.

    17
    "Eis aqui se descobre a nobre Espanha,
    Como cabeça ali de Europa toda,
    Em cujo senhorio o glória estranha
    Muitas voltas tem dado a fatal roda;
    Mas nunca poderá, com força ou manha,
    A fortuna inquieta pôr-lhe noda,
    Que lhe não tire o esforço e ousadia
    Dos belicosos peitos que em si cria.

    18
    "Com Tingitânia entesta, e ali parece
    Que quer fechar o mar Mediterrano,
    Onde o sabido Estreito se enobrece
    Co'o extremo trabalhado Tebano.
    Com nações diferentes se engrandece,
    Cercadas com as ondas do Oceano;
    Todas de tal nobreza e tal valor,
    Que qualquer delas cuida que é melhor.

    19
    "Tem o Tarragonês, que se fez claro
    Sujeitando Parténope inquieta;
    O Navarro, as Astúrias, que reparo
    Já foram contra a gente Mahometa;
    Tem o Galego cauto, e o grande e raro
    Castelhano, a quem fez o seu Planeta
    Restituidor de Espanha e senhor dela,
    Bétis, Lião, Granada, com Castela.

    20
    "Eis aqui, quase cume da cabeça
    De Europa toda, o Reino Lusitano,
    Onde a terra se acaba e o mar começa,
    E onde Febo repousa no Oceano.
    Este quis o Céu justo que floresça
    Nas armas contra o torpe Mauritano,
    Deitando-o de si fora, e lá na ardente
    África estar quieto o não consente.

    22
    "Esta é a ditosa pátria minha amada,
    A qual se o Céu me dá que eu sem perigo
    Torne, com esta empresa já acabada,
    Acabe-se esta luz ali comigo.
    Esta foi Lusitânia, derivada
    De Luso, ou Lisa, que de Baco antigo
    Filhos foram, parece, ou companheiros,
    E nela então os Íncolas primeiros.

    22
    "Desta o pastor nasceu, que no seu nome
    Se vê que de homem forte os feitos teve;
    Cuja fama ninguém virá que dome,
    Pois a grande de Roma não se atreve.
    Esta, o velho que os filhos próprios come
    Por decreto do Céu, ligeiro e leve,
    Veio a fazer no mundo tanta parte,
    Criando-a Reino ilustre; e foi desta arte:

    23
    "Um Rei, por nome Afonso, foi na Espanha,
    Que fez aos Sarracenos tanta guerra,
    Que por armas sanguinas, força e manha,
    A muitos fez perder a vida o a terra;
    Voando deste Rei a fama estranha
    Do Herculano Calpe à Cáspia serra,
    Muitos, para na guerra esclarecer-se,
    Vinham a ele e à morte oferecer-se.

    24
    "E com um amor intrínseco acendidos
    Da Fé, mais que das honras populares,
    Eram de várias terras conduzidos,
    Deixando a pátria amada e próprios lares.
    Depois que em feitos altos e subidos
    Se mostraram nas armas singulares,
    Quis o famoso Afonso que obras tais
    Levassem prémio digno e dons iguais.

    25
    "Destes Anrique, dizem que segundo
    Filho de um Rei de Ungria exprimentado,
    Portugal houve em sorte, que no mundo
    Então não era ilustre nem prezado;
    E, para mais sinal d'amor profundo,
    Quis o Rei Castelhano, que casado
    Com Teresa, sua filha, o Conde fosse;
    E com ela das terras tornou posse.

    26
    "Este, depois que contra os descendentes
    Da escrava Agar vitórias grandes teve,
    Ganhando muitas terras adjacentes,
    Fazendo o que a seu forte peito deve,
    Em prémio destes feitos excelentes,
    Deu-lhe o supremo Deus, em tempo breve,
    Um filho, que ilustrasse o nome ufano
    Do belicoso Reino Lusitano.

    27
    "Já tinha vindo Anrique da conquista
    Da cidade Hierosólima sagrada,
    E do Jordão a areia tinha vista,
    Que viu de Deus a carne em si lavada;
    Que não tendo Gotfredo a quem resista,
    Depois de ter Judeia sojugada,
    Muitos, que nestas guerras o ajudaram,
    Para seus senhorios se tornaram;

    28
    "Quando chegado ao fim de sua idade,
    O forte e famoso Úngaro estremado,
    Forçado da fatal necessidade,
    O espírito deu a quem lhe tinha dado,
    Ficava o filho em tenra mocidade,
    Em quem o pai deixava seu traslado,
    Que do mundo os mais fortes igualava;
    Que de tal pai tal filho se esperava.

    29
    "Mas o velho rumor, não sei se errado,
    Que em tanta antiguidade não há certeza,
    Conta que a mãe, tomando todo o estado,
    Do segundo himeneu não se despreza.
    O filho órfão deixava deserdado,
    Dizendo que nas terras a grandeza
    Do senhorio todo só sua era,
    Porque, para casar, seu pai lhes dera.

    30
    "Mas o Príncipe Afonso, que desta arte
    Se chamava, do avô tomando o nome,
    Vendo-se em suas terras não ter parte,
    Que a mãe, com seu marido, as manda e come,
    Fervendo-lhe no peito o duro Marte,
    Imagina consigo como as tome.
    Revolvidas as causas no conceito,
    Ao propósito firme segue o efeito.

    31
    "De Guimarães o campo se tingia
    Co'o sangue próprio da intestina guerra,
    Onde a mãe, que tão pouco o parecia,
    A seu filho negava o amor e a terra.
    Com ele posta em campo já se via;
    E não vê a soberba o muito que erra
    Contra Deus, contra o maternal amor;
    Mas nela o sensual era maior.

    32
    "Ó Progne crua! ó mágica Medeia!
    Se em vossos próprios filhos vos vingais
    Da maldade dos pais, da culpa alheia,
    Olhai que inda Teresa peca mais:
    Incontinência má, cobiça feia,
    São as causas deste erro principais:
    Cila, por uma, mata o velho pai,
    Esta, por ambas, contra o filho vai.

    33
    "Mas já o Príncipe claro o vencimento
    Do padrasto e da iníqua mãe levava;
    Já lhe obedece a terra num momento,
    Que primeiro contra ele pelejava.
    Porém, vencido de ira o entendimento,
    A mãe em ferros ásperos atava;
    Mas de Deus foi vingada em tempo breve:
    Tanta veneração aos pais se deve!

    34
    "Eis se ajunta o soberbo Castelhano,
    Para vingar a injúria de Teresa,
    Contra o tão raro em gente Lusitano,
    A quem nenhum trabalho agrava ou pesa.
    Em batalha cruel o peito humano,
    Ajudado da angélica defesa,
    Não só contra tal fúria se sustenta,
    Mas o inimigo aspérrimo afugenta.

    35
    "Não passa muito tempo, quando o forte
    Príncipe em Guimarães está cercado
    De infinito poder; que desta sorte
    Foi refazer-se o inimigo magoado;
    Mas, com se oferecer à dura morte
    O fiel Egas amo, foi livrado;
    Que de outra arte pudera ser perdido,
    Segundo estava mal apercebido.

    36
    "lulas o leal vassalo, conhecendo
    Que seu senhor não tinha resistência,
    Se vai ao Castelhano, prometendo
    Que ele faria dar-lhe obediência.
    Levanta o inimigo o cerco horrendo,
    Fiado na promessa e consciência
    De Egas Moniz; mas não consente o peito
    Do moço ilustre a outrem ser sujeito.

    37
    "Chegado tinha o prazo prometido,
    Em que o Rei Castelhano já aguardava
    Que o Príncipe, a seu mando sometido,
    Lhe desse a obediência que esperava.
    Vendo Egas que ficava fementido,
    O que dele Castela não cuidava,
    Determina de dar a doce vida
    A troco da palavra mal cumprida.

    38
    "E com seus filhos e mulher se parte
    A alevantar com eles a fiança,
    Descalços e despidos, de tal arte,
    Que mais move a piedade que a vingança.
    –"Se pretendes, Rei alto, de vingar-te
    De minha temerária confiança,
    Dizia, eis aqui venho oferecido
    A te pagar, coa vida, o prometido.

    39
    "Vês aqui trago as vidas inocentes
    Dos filhos sem pecado e da consorte;
    Se a peitos generosos e excelentes,
    Dos fracos satisfaz a fera morte.
    Vês aqui as mãos e a língua delinquentes:
    Nelas sós exprimenta toda a sorte
    De tormentos, de mortes, pelo estilo
    De Cínis e do touro de Perilo"!–

    40
    "Qual diante do algoz o condenado,
    Que já na vida a morte tem bebido,
    Põe no cepo a garganta, e já entregado
    Espera pelo golpe tão temido:
    Tal diante do Príncipe indinado,
    Egas estava a tudo oferecido.
    Mas o Rei, vendo a estranha lealdade,
    Mais pôde, enfim, que a ira a piedade.

    41
    "Ó grão fidelidade Portuguesa,
    De vassalo, que a tanto se obrigava!
    Que mais o Persa fez naquela empresa,
    Onde rosto e narizes se cortava?
    Do que ao grande Dario tanto pesa,
    Que mil vezes dizendo suspirava,
    Que mais o seu Zopiro são prezara,
    Que vinte Babilónias que tomara.

    42
    Mas já o Príncipe Afonso aparelhava
    O Lusitano exército ditoso,
    Contra o Mouro que as terras habitava
    D'além do claro Tejo deleitoso;
    Já no campo de Ourique se assentava
    O arraial soberbo e belicoso,
    Defronte do inimigo Sarraceno,
    Posto que em força e gente tão pequeno.

    43
    "Em nenhuma outra cousa confiado,
    Senão no sumo Deus, que o Céu regia,
    Que tão pouco era o povo batizado,
    Que para um só cem Mouros haveria.
    Julga qualquer juízo sossegado
    Por mais temeridade que ousadia,
    Cometer um tamanho ajuntamento,
    Que para um cavaleiro houvesse cento.

    44
    "Cinco Reis Mouros são os inimigos,
    Dos quais o principal Ismar se chama;
    Todos exprimentados nos perigos
    Da guerra, onde se alcança a ilustre fama.
    Seguem guerreiras damas seus amigos,
    Imitando a formosa e forte Dama,
    De quem tanto os Troianos se ajudaram,
    E as que o Termodonte já gostaram.

    45
    "A matutina luz serena e fria,
    As estrelas do Pólo já apartava,
    Quando na Cruz o Filho de Maria,
    Amostrando-se a Afonso, o animava.
    Ele, adorando quem lhe aparecia,
    Na Fé todo inflamado assim gritava:
    –"Aos infiéis, Senhor, aos infiéis,
    E não a mim, que creio o que podeis!"

    46
    "Com tal milagre os ânimos da gente
    Portuguesa inflamados, levantavam
    Por seu Rei natural este excelente
    Príncipe, que do peito tanto amavam;
    E diante do exército potente
    Dos imigos, gritando o céu tocavam,
    Dizendo em alta voz:–"Real, real,
    Por Afonso alto Rei de Portugal."

    47
    "Qual co'os gritos e vozes incitado,
    Pela montanha o rábido Moloso,
    Contra o touro remete, que fiado
    Na força está do corno temeroso:
    Ora pega na orelha, ora no lado,
    Latindo mais ligeiro que forçoso,
    Até que enfim, rompendo-lhe a garganta,
    Do bravo a força horrenda se quebranta:

    48
    "Tal do Rei novo o estâmago acendido
    Por Deus e pelo povo juntamente,
    O Bárbaro comete apercebido,
    Co'o animoso exército rompente.
    Levantam nisto os perros o alarido
    Dos gritos, tocam a arma, ferve a gente,
    As lanças e arcos tomam, tubas soam,
    Instrumentos de guerra tudo atroam.

    49
    "Bem como quando a flama, que ateada
    Foi nos áridos campos (assoprando
    O sibilante Bóreas) animada
    Co'o vento, o seco mato vai queimando;
    A pastoral companha, que deitada
    Co'o doce sono estava, despertando
    Ao estridor do fogo que se ateia,
    Recolhe o fato, e foge para a aldeia:

    50
    "Desta arte o Mouro atónito e torvado,
    Toma sem tento as armas mui depressa;
    Não foge; mas espera confiado,
    E o ginete belígero arremessa.
    O Português o encontra denodado,
    Pelos peitos as lanças lhe atravessa:
    Uns caem meios mortos, e outros vão
    A ajuda convocando do Alcorão.

    51
    "Ali se vêem encontros temerosos,
    Para se desfazer uma alta serra,
    E os animais correndo furiosos
    Que Neptuno amostrou ferindo a terra.
    Golpes se dão medonhos e forçosos;
    Por toda a parte andava acesa a guerra:
    Mas o de Luso arnês, couraça e malha
    Rompe, corta, desfaz, abola e talha.

    52
    "Cabeças pelo campo vão saltando
    Braços, pernas, sem dono e sem sentido;
    E doutros as entranhas palpitando,
    Pálida a cor, o gesto amortecido.
    Já perde o campo o exército nefando;
    Correm rios de sangue desparzido,
    Com que também do campo a cor se perde,
    Tornado carmesi de branco e verde.

    53
    "Já fica vencedor o Lusitano,
    Recolhendo os troféus e presa rica;
    Desbaratado e roto o Mauro Hispano,
    Três dias o grão Rei no campo fiei.
    Aqui pinta no branco escudo ufano,
    Que agora esta vitória certifica,
    Cinco escudos azuis esclarecidos,
    Em sinal destes cinco Reis vencidos,

    54
    "E nestes cinco escudos pinta os trinta
    Dinheiros por que Deus fora vendido,
    Escrevendo a memória em vária tinta,
    Daquele de quem foi favorecido.
    Em cada uni dos cinco, cinco pinta,
    Porque assim fica o número cumprido,
    Contando duas vezes o do meio,
    Dos cinco azuis, que em cruz pintando veio.

    55
    "Passado já algum tempo que passada
    Era esta grão vitória, o Rei subido
    A tomar vai Leiria, que tomada
    Fora, mui pouco havia, do vencido.
    Com esta a forte Arronches sojugada
    Foi juntamente, e o sempre enobrecido
    Scalabicastro, cujo campo ameno,
    Tu, claro Tejo, regas tão sereno.

    56
    "A estas nobres vilas sometidas,
    Ajunta também Mafra, em pouco espaço,
    E nas serras da Lua conhecidas,
    Sojuga a fria Sintra o duro braço;
    Sintra, onde as Naiades, escondidas
    Nas fontes, vão fugindo ao doce laço,
    Onde Amor as enreda brandamente,
    Nas águas acendendo fogo ardente.

    57
    "E tu, nobre Lisboa, que no Mundo
    Facilmente das outras és princesa,
    Que edificada foste do facundo,
    Por cujo engano foi Dardânia acesa;
    Tu, a quem obedece o mar profundo,
    Obedeceste à força Portuguesa,
    Ajudada também da forte armada,
    Que das Boreais partes foi mandada.

    58
    "Lá do Germânico Albis, e do Rene,
    E da fria Bretanha conduzidos,
    A destruir o povo Sarraceno,
    Muitos com tensão santa eram partidos.
    Entrando a boca já do Tejo ameno,
    Co'o arraial do grande Afonso unidos,
    Cuja alta fama então subia aos Céus,
    Foi posto cerco tos muros Ulisseus.

    59
    "Cinco vezes a Lua se escondera,
    E outras tantas mostrara cheio o rosto,
    Quando a cidade entrada se rendera
    Ao duro cerco, que lhe estava posto.
    Foi a batalha tão sanguina e fera,
    Quanto obrigava o firme pressuposto
    De vencedores ásperos e ousados,
    E de vencidos já desesperados.

    60
    "Desta arte enfim tomada se rendeu
    Aquela que, nos tempos já passados,
    A grande força nunca obedeceu
    Dos frios povos Cíticos ousados,
    Cujo poder a tanto se estendeu
    Que o Ibero o viu e o Tejo amedrontados;
    E enfim co'o Bétis tanto alguns puderam
    Que à terra de Vandália nome deram.

    61
    "Que cidade tão forte por ventura
    Haverá que resista, se Lisboa
    Não pôde resistir à força dura
    Da gente, cuja fama tanto voa?
    Já lhe obedece toda a Estremadura,
    Óbidos, Alenquer, por onde soa
    O tom das frescas águas, entre as pedras,
    Que murmurando lava, e Torres Vedras.

    62
    "E vós também, ó terras Transtaganas,
    Afamadas co'o dom da flava Ceres,
    Obedeceis às forças mais que humanas,
    Entregando-lhe os muros e os poderes.
    E tu, lavrador Mouro, que te enganas,
    Se sustentar a fértil terra queres;
    Que Elvas, e Moura, e Serpa conhecidas,
    E Alcácere-do-Sal estão rendidas.

    63
    "Eis a nobre Cidade, certo assento
    Do rebelde Sertório antigamente,
    Onde ora as águas nítidas de argento
    Vem sustentar de longo a terra e a gente,
    Pelos arcos reais, que cento e cento
    Nos ares se alevantam nobremente,
    Obedeceu por meio e ousadia
    De Giraldo, que medos não temia.

    64
    "Já na cidade Beja vai tomar
    Vingança de Trancoso destruída
    Afonso, que não sabe sossegar,
    Por estender coa fama a curta vida.
    Não se lhe pode muito sustentar
    A cidade; mas sendo já rendida,
    Em toda a cousa viva a gente irada
    Provando os fios vai da dura espada.

    65
    "Com estas sojugada foi Palmela,
    E a piscosa Cezimbra, e juntamente,
    Sendo ajudado mais de sua estrela,
    Desbarata um exército potente:
    Sentiu-o a vila, e viu-o a serra dela,
    Que a socorrê-la vinha diligente
    Pela fralda da serra, descuidado
    Do temeroso encontro inopinado.

    66
    "O Rei de Badajoz era alto Mouro,
    Com quatro mil cavalos furiosos,
    Inúmeros peões, d'armas e de ouro
    Guarnecidos, guerreiros e lustrosos.
    Mas, qual no mês de Maio o bravo touro,
    Co'os ciúmes da vaca, arreceosos,
    Sentindo gente o bruto e cego amante
    Salteia o descuidado caminhante:

    67
    "Desta arte Afonso súbito mostrado
    Na gente dá, que passa bem segura,
    Fere, mata, derriba denodado;
    Foge o Rei Mouro, e só da vida cura.
    Dum pânico terror todo assombrado,
    Só de segui-lo o exército procura;
    Sendo estes que fizeram tanto abalo
    Não mais que só sessenta de cavalo.

    68
    "Logo segue a vitória sem tardança
    O grão Rei incansábil, ajuntando
    Gentes de todo o Reino, cuja usança
    Era andar sempre terras conquistando.
    Cercar vai Badajoz, e logo alcança
    O fim de seu desejo, pelejando
    Com tanto esforço, e arte, e valentia,
    Que a fez fazer às outras companhia.

    69
    "Mas o alto Deus, que para longe guarda
    O castigo daquele que o merece,
    Ou, para que se emende, às vezes tarda,
    Ou por segredos que homem não conhece,
    Se até que sempre o forte Rei resguarda
    Dos perigos a que ele se oferece;
    Agora lhe não deixa ter defesa
    Da maldição da mãe que estava presa.

    70
    "Que estando na cidade, que cercara,
    Cercado nela foi dos Lioneses,
    Porque a conquista dela lhe tomara,
    De Lião sendo, e não dos Portugueses.
    A pertinácia aqui lhe custa cara,
    Assim como acontece muitas vezes,
    Que em ferros quebra as pernas, indo aceso
    A batalha, onde foi vencido e preso.

    71
    "Ó famoso Pompeio, não te pene
    De teus feitos ilustres a ruína,
    Nem ver que a justa Némesis ordene
    Ter teu sogro de ti vitória dina,
    Posto que o frio Fásis, ou Siene,
    Que para nenhum cabo a sombra inclina,
    O Bootes gelado e a linha ardente,
    Temessem o teu nome geralmente.

    72
    "Posto que a rica Arábia e que os ferozes
    Eníocos e Colcos, cuja fama
    O Véu dourado estende, e os Capadoces,
    E Judeia, que um Deus adora e ama,
    E que os moles Sofenos, e os atroces
    Cilícios, com a Arménia, que derrama
    As águas dos dous rios, cuja fonte
    Está noutro mais alto e santo monte;

    73
    "E posto enfim que desde o mar de Atlante
    Até o Cítico Tauro monte erguido,
    Já vencedor te vissem, não te espanto
    Se o campo Emátio só te viu vencido,
    Porque Afonso verás, soberbo e ovante,
    Tudo render-se ser depois rendido.
    Assim o quis o conselho alto e celeste,
    Que vença o sogro a ti, e o genro a este.

    74
    "Tornado o Rei sublime finalmente,
    Do divino Juízo castigado,
    Depois que em Santarém soberbamente
    Em vão dos Sarracenos foi cercado,
    E depois que do mártire Vicente
    O santíssimo corpo venerado
    Do Sacro Promontório conhecido
    A cidade Ulisseia foi trazido;

    75
    "Porque levasse avante seu desejo,
    Ao forte filho manda o lasso velho
    Que às terras se passasse d'Alentejo,
    Com gente e co'o belígero aparelho.
    Sancho, d'esforço o d'ânimo sobejo,
    Avante passa, e faz correr vermelho
    O rio que Sevilha vai regando,
    Co'o sangue Mauro, bárbaro e nefando.

    76
    "E com esta vitória cobiçoso,
    Já não descansa o moço até que veja
    Outro estrago como este, temeroso,
    No Bárbaro que tem cercado Beja.
    Não tarda muito o Príncipe ditoso
    Sem ver o fim daquilo que deseja.
    Assim estragado o Mouro, na vingança
    De tantas perdas põe sua esperança.

    77
    "Já se ajuntam do monte a quem Medusa
    O corpo fez perder, que teve o Céu;
    Já vem do promontório de Ampelusa
    E do Tinge, que assento foi de Anteu.
    O morador de Abila não se escusa,
    Que também com suas armas se moveu,
    Ao som da Mauritana e ronca tuba,
    Todo o Reino que foi do nobre Juba.

    78
    "Entrava com toda esta companhia
    O Miralmomini em Portugal;
    Treze Reis mouros leva de valia,
    Entre os quais tem o ceptro imperial;
    E assim fazendo quanto mal podia,
    O que em partes podia fazer mal,
    Dom Sancho vai cercar em Santarém;
    Porém não lhe sucede muito bem.

    79
    "Dá-lhe combates ásperos, fazendo
    Ardis de guerra mil o Mouro iroso;
    Não lhe aproveita já trabuco horrendo,
    Mina secreta, aríete forçoso:
    Porque o filho de Afonso não perdendo
    Nada do esforço e acordo generoso,
    Tudo provê com ânimo e prudência;
    Que em toda a parte há esforço e resistência.

    80
    "Mas o velho, a quem tinham já obrigado
    Os trabalhosos anos ao sossego,
    Estando na cidade, cujo prado
    Enverdecem as águas do Mondego,
    Sabendo como o filho está cercado
    Em Santarém do Mauro povo cego,
    Se parte diligente da cidade;
    Que não perde a presteza coa idade.

    81
    "E coa famosa gente à guerra usada
    Vai socorrer o filho; e assim ajuntados,
    A Portuguesa fúria costumada
    Em breve os Mouros tem desbaratados.
    A campina, que toda está coalhada
    De marlotas, capuzes variados,
    De cavalos, jaezes, presa rica,
    De seus senhores mortos cheia fica.

    82
    "Logo todo o restante se partiu
    De Lusitânia, postos em fugida;
    O Miralmomini só não fugiu,
    Porque, antes de fugir, lhe foge a vida.
    A quem lhe esta vitória permitiu
    Dão louvores e graças sem medida:
    Que em casos tão estranhos claramente
    Mais peleja o favor de Deus que a gente.

    83
    "De tamanhas vitórias triunfava
    O velho Afonso, Príncipe subido,
    Quando, quem tudo enfim vencendo andava,
    Da larga e muita idade foi vencido.
    A pálida doença lhe tocava
    Com fria mão o corpo enfraquecido;
    E pagaram seus anos deste jeito
    A triste Libitina seu direito.

    84
    "Os altos promontórios o choraram,
    E dos rios as águas saudosas
    Os semeados campos alagaram
    Com lágrimas correndo piedosas.
    Mas tanto pelo mundo se alargaram
    Com faina suas obras valerosas,
    Que sempre no seu Reino chamarão
    "Afonso, Afonso" os ecos, mas em vão.

    85
    "Sancho, forte mancebo, que ficara
    Imitando seu pai na valentia,
    E que em sua vida já se exprimentara,
    Quando o Bétis de sangue se tingia,
    E o bárbaro poder desbaratara
    Do Ismaelita Rei de Andaluzia;
    E mais quando os que Beja em vão cercaram,
    Os golpes de seu braço em si provaram;

    86
    "Depois que foi por Rei alevantado,
    Havendo poucos anos que reinava,
    A cidade de Silves tem cercado,
    Cujos campos o bárbaro lavrava.
    Foi das valentes gentes ajudado
    Da Germânica armada que passava,
    De armas fortes e gente apercebida,
    A recobrar Judeia já perdida.

    87
    "Passavam a ajudar na santa empresa
    O roxo Federico, que moveu
    O poderoso exército em defesa
    Da cidade onde Cristo padeceu,
    Quando Guido, coa gente em sede acesa,
    Ao grande Saladino se rendeu,
    No lugar onde aos Mouros sobejavam
    As águas que os de Guido desejavam.

    88
    "Mas a formosa armada, que viera
    Por contraste de vento àquela parte,
    Sancho quis ajudar na guerra fera,
    Já que em serviço vai do santo Marte.
    Assim como a seu pai acontecera
    Quando tomou Lisboa, da mesma arte
    Do Germano ajudado Silves toma,
    E o bravo morador destrue e doma.

    89
    "E se tantos troféus do Mahometa
    Alevantando vai, também do forte
    Lionês não consente estar quieta
    A terra, usada aos casos de Mavorte,
    Até que na cerviz seu jugo meta
    Da soberba Tui, que a mesma sorte
    Viu ter a muitas vilas suas vizinhas,
    Que, por armas, tu, Sancho, humildes tinhas.

    90
    "Mas entre tantas palmas salteado
    Da temerosa morte, fica herdeiro
    Um filho seu, de todos estimado,
    Que foi segundo Afonso, e Rei terceiro.
    No tempo deste, aos Mouros foi tomado
    Alcácere-do-Sal por derradeiro;
    Porque dantes os Mouros o tomaram,
    Mas agora estruídos o pagaram.

    91
    "Morto depois Afonso, lhe sucede
    Sancho segundo, manso e descuidado,
    Que tanto em seus descuidos se desmede,
    Que de outrem, quem mandava, era mandado.
    De governar o Reino, que outro pede,
    Por causa dos privados foi privado,
    Porque, como por eles se regia,
    Em todos os seus vícios consentia.

    92
    "Não era Sancho, não, tão desonesto
    Como Nero, que um moço recebia
    Por mulher, e depois horrendo incesto
    Com a mãe Agripina cometia;
    Nem tão cruel às gentes e molesto,
    Que a cidade queimasse onde vivia,
    Nem tão mau como foi Heliogabalo,
    Nem como o mole Rei Sardanapalo.

    93
    "Nem era o povo seu tiranizado,
    Como Sicília foi de seus tiranos;
    Nem tinha como Fálaris achado
    Gênero de tormentos inumanos;
    Mas o Reino, de altivo e costumado
    A senhores em tudo soberanos,
    A Rei não obedece, nem consente,
    Que não for mais que todos excelente.

    94
    "Por esta causa o Reino governou
    O Conde Bolonhês, depois alçado
    Por Rei, quando da vida se apartou
    Seu irmão Sancho, sempre ao ócio dado.
    Este, que Afonso o bravo, se chamou,
    Depois de ter o Reino segurado,
    Em dilatá-lo cuida, que em terreno
    Não cabe o altivo peito, tão pequeno.

    95
    "Da terra dos Algarves, que lhe fora
    Em casamento dada, grande parte
    Recupera co'o braço, e deita fora
    O Mouro, mal querido já de Marte.
    Este de todo fez livre e senhora
    Lusitânia, com força e bélica arte;
    E acabou de oprimir a nação forte,
    Na terra que aos de Luso coube em sorte.

    96
    "Eis depois vem Dinis, que bem parece
    Do bravo Afonso estirpe nobre e dina,
    Com quem a fama grande se escurece
    Da liberalidade Alexandrina.
    Com este o Reino próspero florece
    (Alcançada já a paz áurea divina)
    Em constituições, leis e costumes,
    Na terra já tranquila claros lumes.

    97
    "Fez primeiro em Coimbra exercitar-se
    O valeroso ofício de Minerva;
    E de Helicona as Musas fez passar-se
    A pisar do Monde-o a fértil erva.
    Quanto pode de Atenas desejar-se,
    Tudo o soberbo Apolo aqui reserva.
    Aqui as capelas dá tecidas de ouro,
    Do bácaro e do sempre verde louro.

    98
    "Nobres vilas de novo edificou
    Fortalezas, castelos mui seguros,
    E quase o Reino todo reformou
    Com edifícios grandes, e altos muros.
    Mas depois que a dura Átropos cortou
    O fio de seus dias já maduros,
    Ficou-lhe o filho pouco obediente,
    Quarto Afonso, mas forte e excelente.

    99
    "Este sempre as soberbas Castelhanas
    Co'o peito desprezou firme e sereno,
    Porque não é das forças Lusitanas,
    Temer poder maior, por mais pequeno.
    Mas porém, quando as gentes Mauritanas,
    A possuir o Hespérico terreno
    Entraram pelas terras de Castela,
    Foi o soberbo Afonso a socorrê-la.

    100
    "Nunca com Semirâmis gente tanta
    Veio os campos idáspicos enchendo,
    Nem Atila, que Itália toda espanta,
    Chamando-se de Deus açoute horrendo,
    Gótica gente trouxe tanta, quanta
    Do Sarraceno bárbaro estupendo,
    Co'o poder excessivo de Granada,
    Foi nos campos Tartésios ajuntada.

    101
    "E vendo o Rei sublime Castelhano
    A força inexpugnábil, grande e forte,
    Temendo mais o fim do povo hispano,
    Já perdido uma vez, que a própria morte,
    Pedindo ajuda ao forte Lusitano,
    Lhe mandava a caríssima consorte,
    Mulher de quem a manda, e filha amada
    Daquele a cujo Reino foi mandada.

    102
    "Entrava a formosíssima Maria
    Pelos paternais paços sublimados,
    Lindo o gesto, mas fora de alegria,
    E seus olhos em lágrimas banhados;
    Os cabelos angélicos trazia
    Pelos ebúrneos ombros espalhados:
    Diante do pai ledo, que a agasalha,
    Estas palavras tais, chorando, espalha:

    103
    –"Quantos povos a terra produziu
    De África toda, gente fera e estranha,
    O grão Rei de Marrocos conduziu
    Para vir possuir a nobre Espanha:
    Poder tamanho junto não se viu,
    Depois que o salso mar a terra banha.
    Trazem ferocidade, e furor tanto,
    Que a vivos medo, e a mortos faz espanto.

    104
    –"Aquele que me deste por marido,
    Por defender sua terra amedrontada,
    Co'o pequeno poder, oferecido
    Ao duro golpe está da Maura espada;
    E se não for contigo socorrido,
    Ver-me-ás dele e do Reino ser privada,
    Viúva e triste, e posta em vida escura,
    Sem marido, sem Reino, e sem ventura.

    105
    "Portanto, ó Rei, de quem com puro medo
    O corrente Muluca se congela,
    Rompe toda a tardança, acude cedo
    A miseranda gente de Castela.
    Se esse gesto, que mostras claro e ledo,
    De pai o verdadeiro amor assela,
    Acude e corre, pai, que se não corres,
    Pode ser que não aches quem socorres."–

    106
    "Não de outra sorte a tímida Maria
    Falando está, que a triste Vénus, quando
    A Júpiter, seu pai, favor pedia
    Para Eneias, seu filho, navegando;
    Que a tanta piedade o comovia
    Que, caído das mãos o raio infando,
    Tudo o clemente Padre lhe concede,
    Pesando-lhe do pouco que lhe pede.

    107
    "Mas já co'os esquadrões da gente armada
    Os Eborenses campos vão coalhados:
    Lustra co'o Sol o arnês, a lança, a espada;
    Vão rinchando os cavalos jaezados.
    A canora trombeta embandeirada,
    Os corações à paz acostumados
    Vai às fulgentes armas incitando,
    Pelas concavidades retumbando.

    108
    "Entre todos no meio se sublima,
    Das insígnias Reais acompanhado,
    O valeroso Afonso, que por cima
    De todos leva o colo alevantado;
    E somente co'o gesto esforça e anima
    A qualquer coração amedrontado.
    Assim entra nas terras de Castela
    Com a filha gentil, Rainha dela.

    109
    "Juntos os dous Afonsos finalmente
    Nos campos de Tarifa estão defronte
    Da grande multidão da cega gente,
    Para quem são pequenos campo e monte.
    Não há peito tão alto e tão potente,
    Que de desconfiança não se afronte,
    Enquanto não conheça e claro veja
    Que co'o braço dos seus Cristo peleja.

    110
    "Estão de Agar os netos quase rindo
    Do poder dos Cristãos fraco e pequeno,
    As terras como suas repartindo
    Antemão, entre o exército Agareno,
    Que com título falso possuindo
    Está o famoso nome Sarraceno.
    Assim também com falsa conta e nua,
    À nobre terra alheia chamam sua.

    111
    "Qual o membrudo e bárbaro Gigante,
    Do rei Saul, com causa, tão temido,
    Vendo o pastor inerme estar diante,
    Só de pedras e esforço apercebido,
    Com palavras soberbas o arrogante
    Despreza o fraco moço mal vestido,
    Que, rodeando a funda, o desengana
    Quanto mais pode a Fé que a força humana:

    112
    "Desta arte o Mouro pérfido despreza
    O poder dos Cristãos, e não entende
    Que está ajudado da Alta Fortaleza,
    A quem o inferno horrífico se rende.
    Co ela o Castelhano, e com destreza
    De Marrocos o Rei comete e ofende.
    O Português, que tudo estima em nada,
    Se faz temer ao Reino de Granada.

    113
    "Eis as lanças e espadas retiniam
    Por cima dos arneses: bravo estrago!
    Chamam (segundo as leis que ali seguiam)
    Uns Mafamede, e os outros Santiago.
    Os feridos com grita o Céu feriam,
    Fazendo de seu sangue bruto lago,
    Onde outros meios mortos se afogavam,
    Quando do ferro as vidas escapavam.

    114
    "Com esforço tamanho estrui e mata
    O Luso ao Granadil, que, em pouco espaço,
    Totalmente o poder lhe desbarata,
    Sem lhe valer defesa ou peito de aço.
    De alcançar tal vitória tão barata
    Inda não bem contente o forte braço,
    Vai ajudar ao bravo Castelhano,
    Que pelejando está co'o Mauritano.

    115
    "Já se ia o Sol ardente recolhendo
    Para a casa de Tethys, e inclinado
    Para o Ponente, o Véspero trazendo,
    Estava o claro dia memorado,
    Quando o poder do Mauro grande e horrendo
    Foi pelos fortes Reis desbaratado,
    Com tanta mortandade, que a memória
    Nunca no mundo viu tão grã vitória.

    116
    "Não matou a quarta parte o forte Mário
    Dos que morreram neste vencimento,
    Quando as águas co'o sangue do adversário
    Fez beber ao exército sedento;
    Nem o Peno asperíssimo contrário
    Do Romano poder, de nascimento,
    Quando tantos matou da ilustro Roma,
    Que alqueires três de anéis dos mortos toma.

    117
    "E se tu tantas almas só pudeste
    Mandar ao Reino escuro de Cocito,
    Quando a santa Cidade desfizeste
    Do povo pertinaz no antigo rito:
    Permissão e vingança foi celeste,
    E não força de braço, ó nobre Tito,
    Que assim dos Vates foi profetizado,
    E depois por Jesu certificado.

    118
    "Passada esta tão próspera vitória,
    Tornando Afonso à Lusitana terra,
    A se lograr da paz com tanta glória
    Quanta soube ganhar na dura guerra,
    O caso triste, e dino da memória,
    Que do sepulcro os homens desenterra,
    Aconteceu da mísera e mesquinha
    Que depois de ser morta foi Rainha.

    119
    "Tu só, tu, puro Amor, com força crua,
    Que os corações humanos tanto obriga,
    Deste causa à molesta morte sua,
    Como se fora pérfida inimiga.
    Se dizem, fero Amor, que a sede tua
    Nem com lágrimas tristes se mitiga,
    É porque queres, áspero e tirano,
    Tuas aras banhar em sangue humano.

    120
    "Estavas, linda Inês, posta em sossego,
    De teus anos colhendo doce fruto,
    Naquele engano da alma, ledo e cego,
    Que a fortuna não deixa durar muito,
    Nos saudosos campos do Mondego,
    De teus fermosos olhos nunca enxuto,
    Aos montes ensinando e às ervinhas
    O nome que no peito escrito tinhas.

    121
    "Do teu Príncipe ali te respondiam
    As lembranças que na alma lhe moravam,
    Que sempre ante seus olhos te traziam,
    Quando dos teus fermosos se apartavam:
    De noite em doces sonhos, que mentiam,
    De dia em pensamentos, que voavam.
    E quanto enfim cuidava, e quanto via,
    Eram tudo memórias de alegria.

    122
    "De outras belas senhoras e Princesas
    Os desejados tálamos enjeita,
    Que tudo enfim, tu, puro amor, despreza,
    Quando um gesto suave te sujeita.
    Vendo estas namoradas estranhezas
    O velho pai sesudo, que respeita
    O murmurar do povo, e a fantasia
    Do filho, que casar-se não queria,

    123
    "Tirar Inês ao mundo determina,
    Por lhe tirar o filho que tem preso,
    Crendo co'o sangue só da morte indina
    Matar do firme amor o fogo aceso.
    Que furor consentiu que a espada fina,
    Que pôde sustentar o grande peso
    Do furor Mauro, fosse alevantada
    Contra uma fraca dama delicada?

    124
    "Traziam-na os horríficos algozes
    Ante o Rei, já movido a piedade:
    Mas o povo, com falsas e ferozes
    Razões, à morte crua o persuade.
    Ela com tristes o piedosas vozes,
    Saídas só da mágoa, e saudade
    Do seu Príncipe, e filhos que deixava,
    Que mais que a própria morte a magoava,

  • Os fidalgos da Casa Mourisca

    Os fidalgos da Casa Mourisca

    Aproximadamente 147.699 palavras.

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    Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team
    at https://www.pgdp.net

    OS FIDALGOS DA CASA MOURISCA

    OS FIDALGOS

    DA

    CASA MOURISCA

    CHRONICA DA ALDEIA

    POR

    *JULIO DINIZ*

    *VOLUME I*

    *PORTO*

    TYPOGRAPHIA DO JORNAL DO PORTO
    Rua Ferreira Borges, 31

    1871

    OS FIDALGOS DA CASA MOURISCA

    I

    A tradição popular em Portugal, nos assumptos de historia patria, não se
    remonta além do periodo da dominação arabe nas Hespanhas.

    Pouco ou nada sabe o povo de celtiberos, de romanos e de wisigodos. É,
    porém, entre elle noção corrente que, em outros tempos, fôra este paiz
    habitado por mouros, e que só á força de cutiladas e de botes de lança
    os expulsaram os christãos para as terras da Mourama. Os vultos heroicos
    de reis e cavalleiros nossos, que se assignalaram nas luctas d'essa
    época, ainda não desappareceram das chronicas oraes, onde vivem
    illuminados por a mesma poetica luz das xacaras e dos romances
    nacionaes; e hoje ainda, nas dansas e jogos que se celebram nos logares
    publicos das villas e aldeias, por occasião das principaes solemnidades
    do anno, apraz-se a memoria do povo de recordar os feitos d'aquelles
    tempos historicos por meio de simulados combates de mouros e christãos.

    Nos contos narrados em volta da lareira, onde nas longas noites de serão
    se reune a familia rustica, ou ás rapidas horas d'uma noite de estio, na
    soleira da porta, ao auditorio attento que segue com os olhos a lua em
    silenciosa carreira por um céo sem estrellas, avulta uma creação
    extremamente sympathica, a das mouras encantadas, princezas
    formosissimas que ficaram d'esses remotos tempos na peninsula, em paços
    invisiveis, á espera de quem lhes venha quebrar o captiveiro, soltando a
    palavra magica.

    Falla-se em diversos pontos das nossas provincias, com a seriedade que é
    propria a uma arreigada crença, de thesouros enterrados, que os mouros
    por ahi deixaram, na esperança de voltarem um dia a resgatal-os, e já
    não tem sido poucas as escavações emprehendidas no ávido intuito de os
    descobrir.

    Esta mesma noção historica do povo é a que dá logar a um outro frequente
    facto. Quando, no centro de qualquer aldeia, se eleva um palacio, um
    solar de familia, distincto dos edificios communs por uma qualquer
    particularidade architectonica mais saliente, ouvireis no sitio
    designal-o por o nome de Casa Mourisca, e, se não se guarda ahi memoria
    da sua fundação, a chronica lhe assignará infallivelmente como data a
    lendaria e mysteriosa época dos mouros.

    Era o que succedia com o solar dos senhores Negrões de Villar de Corvos,
    que, em tres leguas em redondo, eram por isso conhecidos pelo nome dos
    Fidalgos da Casa Mourisca.

    Não se persuada o leitor de que possuia aquelle solar feição
    pronunciadamente arabe, que justificasse a denominação popular, ou que
    mãos agarenas houvessem de feito cimentado os alicerces da casa nobre
    denominada assim. Ás pequenas torres quadradas, que se erguiam, coroadas
    de ameias, nos quatro angulos do edificio, ao desenho ogival das portas
    e janellas, ás estreitas setteiras abertas nos muros, e finalmente a
    certo ar de castello feudal, que um dos antepassados d'esta fidalga
    familia tentou dar aos paços de sua residencia senhoril, devêra ella a
    qualificação de mourisca, que persistira, apesar dos protestos da arte.
    Nenhum estylo architectonico fôra na construcção escrupulosamente
    respeitado; o gosto e capricho do proprietario presidiram mais que tudo
    á traça e execução da obra; não ha pois exigencias artisticas que me
    imponham a obrigação de descrevel-a miudamente.

    Diga-se porém a verdade; fossem quaes fossem os defeitos de
    architectura, as incongruencias e absurdos d'aquella fabrica grandiosa,
    quem, ao dobrar a ultima curva da estrada irregular por onde se vinha á
    aldeia, via surgir de repente do seio de um arvoredo secular aquelle
    vulto escuro e sombrio, contrastando com os brancos e risonhos casaes
    disseminados por entre a verdura das collinas proximas, mal podia reter
    uma exclamação de surpreza e involuntariamente parava a contemplal-o.

    Ou o sol no poente lhe doirasse a fachada de granito, ou as ameias, que
    o coroavam, se desenhassem como negra dentadura no céo azul, alumiado
    pela claridade matinal, era sempre melancolico e triste o aspecto
    d'aquella residencia, sempre magestoso e severo.

    Reparando mais attentamente, outros motivos concorriam ainda para
    fortalecer esta primeira impressão. O tempo não se limitára a colorir o
    velho solar com as tintas negras da sua palheta; derrocára-lhe aqui e
    além uma ameia ou um balaustre do eirado, mutilára-lhe a cruz da
    capella, desconjunctára-lhe a cantaria em extensos lanços de muro,
    abrindo-lhe intersticios, d'onde irrompia uma inutil vegetação parasita:
    e esta permanencia de estragos, trahindo a incuria ou a insufficiencia
    de meios do proprietario actual, iniciava no espirito do observador uma
    serie de melancolicas reflexões.

    E se o movesse a curiosidade a indagar na visinhança informações sobre a
    familia que alli habitava, obtel-as-ia proprias a corroborar-lhe os seus
    primeiros e espontaneos juizos.

    Os chamados Fidalgos da Casa Mourisca eram actualmente tres. D. Luiz, o
    pae, velho sexagenario, grave, severo, e taciturno; Jorge e Mauricio, os
    seus dois filhos, robustos e esbeltos rapazes: o mais velho dos quaes,
    Jorge, ainda não completára vinte e tres annos.

    A historia d'aquella casa era a historia sabida dos ricos fidalgos da
    provincia, que, orgulhosos e imprevidentes, deixaram, a pouco e pouco,
    embaraçar as propriedades com hypothecas e contractos ruinosos,
    desfallecer a cultura nos campos, empobrecer os celleiros, despovoar os
    curraes, exhaurir a seiva da terra, transformar longas varzeas em
    charnecas, e desmoronarem-se as paredes das residencias e das granjas e
    os muros de circunscripção das quintas.

    Filho segundo de uma das mais nobres familias da provincia, D. Luiz fôra
    pelos paes destinado para a carreira diplomatica, na qual entrou
    apadrinhado e favorecido por os mais altos personagens da côrte.

    Nas primeiras capitaes da Europa, em cujas embaixadas serviu, obteve o
    fidalgo provinciano um grau de illustração e de tracto do mundo, um
    verniz social, que nunca adquiriria se, como tantos, de moço se creasse
    para morgado.

    Quando, por morte do primogenito, veio a succeder nos vinculos, D. Luiz
    podia considerar-se, graças á occupação dos seus primeiros annos de
    mocidade, como o mais instruido e civilisado proprietario da sua
    provincia; e como tal effectivamente foi sempre havido pelos outros, que
    o tractavam com uma deferencia excepcional.

    Ainda depois da morte do irmão, D. Luiz, costumado ao viver da grande
    sociedade e á esplendida elegancia das côrtes estrangeiras, não
    abandonou a carreira que encetára. Secretario de embaixada em Vienna,
    casou alli com a filha de um fidalgo portuguez, que então residia n'essa
    corte, encarregado de negocios politicos.

    Ao manifestarem-se em Portugal os primeiros symptomas da profunda
    revolução, que devia alterar a face social do paiz, D. Luiz mostrou-se
    logo hostil ao movimento nascente, e abandonando então o seu logar
    diplomatico, voltou ao reino para representar um papel importante nas
    scenas politicas d'essa época.

    Ahi tiveram origem grande parte dos desgostos domesticos, que lhe
    amarguraram o resto da vida.

    Os parentes de sua esposa abraçaram a causa liberal.

    D. Luiz, com toda a intolerancia partidaria, rompeu completamente as
    relações com elles, ferindo assim no intimo os affectos mais sanctos da
    pobre senhora, que sentia esmagar-se-lhe o coração entre as fortes e
    irreconciliaveis paixões dos que ella com igual affecto amava.

    O rancor faccioso foi ainda mais longe em D. Luiz. Impelliu-o á
    perseguição.

    O irmão mais novo da esposa, obedecendo ao enthusiasmo de rapaz e á
    vehemencia de uma convicção sincera, sustentára com a penna, e mais
    tarde com a espada, a causa da ideia nova, que tanto namorava os animos
    generosos e juvenis.

    Sobre a bella e arrojada cabeça d'aquelle adolescente pesaram as sombras
    das suspeitas e das vinganças politicas; e D. Luiz, cego pela paixão,
    não duvidou em fazer-se instrumento d'ellas.

    Este era o irmão querido da esposa, que o fidalgo estremecia; mas nem as
    supplicas, nem as lagrimas d'ella puderam abrandar a força d'aquelle
    rancor.

    O imprudente moço viu-se perseguido, prêso, processado e em quasi
    imminente risco de expiar, como tantos, no supplicio o crime de pensar
    livremente. Conseguindo, quasi por milagre, escapar á furia dos seus
    perseguidores, emigrou para voltar mais tarde n'essa memoranda
    expedição, que principiou em Portugal a heroica iliada da nossa
    emancipação politica.

    Guerreiro tão fogoso, como o fôra publicista, o pobre rapaz não assistiu
    porém á victoria da sua causa. Ao raiar da aurora liberal, por que tanto
    anhelava, cahiu em uma das ultimas e mais disputadas refregas d'aquella
    sanguinolenta lucta, crivado de balas inimigas, sendo a sua ultima voz
    um grito de enthusiasmo pela grande ideia, em cujo martyrologio se ia
    inscrever o seu nome.

    A morte d'este enthusiasta levou o lucto e a tristeza ao solar de D.
    Luiz. O coração amoravel e extremoso da infeliz senhora recebeu então um
    golpe decisivo; das consequencias d'aquella dôr nunca mais podia ella
    convalescer. A sua vida foi depois toda para luto e para lagrimas.

    Fez-se a paz, implantou-se no paiz a arvore da liberdade; D. Luiz deixou
    então a vida da côrte e veio encerrar no canto da provincia os seus
    despeitos, os seus odios e os seus desalentos. Trouxe comsigo um enxame
    de misanthropos, a quem o sol da liberdade igualmente incommodava, e que
    tinham resolvido pedir á natureza conforto contra os suppostos delictos
    da humanidade.

    O solar do fidalgo transformou-se pois em asylo de muitos
    correligionarios, como elle desgostosos e irreconciliaveis com a nova
    organisação social.

    Instituiu-se alli uma pequena côrte na aldeia, uma especie de assembleia
    ou conventiculo politico, que não poucas vezes attrahiu as vistas dos
    liberaes desconfiados e as ameaças dos mais insoffridos. Havia alli
    homens de todas as condições, e alguns de illustração e sciencia.

    A hospitalidade do fidalgo era magnifica. D. Luiz mostrava ignorar, ou
    não querer saber, qual o preço por que ella lhe ficava. Indifferente a
    tudo, dir-se-ia sêl-o tambem á ruina da sua propria casa, que apressava
    assim.

    A victoria da causa contraria; a morte, em curtos intervallos, de tres
    filhos, que parecia cahirem victimas de uma sentença fatal; o receio
    pela vida dos outros; a tristeza e doença progressivas da esposa, a quem
    aquelles odios e luctas tinham despedaçado o coração; ás vezes uma vaga
    consciencia da sua situação precaria, e por ventura ainda remorsos pelas
    violencias, a que os odios politicos o impelliram, quebrantaram o
    caracter, outr'ora varonil, d'aquelle homem, que desde então começou a
    mostrar-se taciturno e descoroçoado. A prova evidente de que alguns
    remorsos tambem lhe torturavam o espirito fôra a insolita generosidade,
    com que recebeu e gasalhou permanentemente em sua casa um pobre soldado
    do exercito liberal, meio mutilado pela guerra d'esses tempos, e que
    tinha sido o fiel camarada do infeliz mancebo, contra quem tanto se
    encarniçára o odio do implacavel realista.

    Viera o soldado entregar á esposa do fidalgo uma medalha, ultima
    lembrança do irmão que lh'a enviára, quando já agonisante no campo do
    combate. Havia-a confiado ao camarada para que a entregasse áquella, a
    quem tanto queria.

    D. Luiz não só permittiu que o soldado fizesse a entrega em mão propria
    da esposa, mas deixou-o com ella em larga conferencia, não querendo que
    a sua presença a reprimisse na ancia natural de saber as menores
    particularidades da vida e da morte do infeliz, de quem o emissario fôra
    companheiro inseparavel. Não se limitou a isso a tolerancia do fidalgo.
    Viu, sem a menor reflexão, que o mensageiro se demorava alguns dias na
    Casa Mourisca, e não oppôz resistencia alguma ao pedido, que a esposa
    mais tarde lhe fez para que o deixasse ficar alli, no logar do hortelão
    que fallecêra.

    Este facto insignificante foi de não pequena influencia nos destinos
    d'aquella familia.

    Os filhos de D. Luiz, creados no meio d'essa côrte de provincia,
    cresciam sob influencias que actuavam d'uma maneira contradictoria sobre
    os seus caracteres infantis.

    Não lhes faltavam mestres que os instruissem, que muitos eram os
    habilitados para isso nas salas do fidalgo, refugio de tantos illustres
    descontentes. Graças a estas especiaes condições, puderam os dois
    rapazes receber uma educação, difficil de conseguir em um canto tão
    retirado da provincia, como aquelle era.

    Mas, ao lado da lição dos mestres, que, juntamente com a sciencia, se
    esforçavam por imbuir-lhes os seus principios politicos, aos quaes se
    atinham como a artigos de fé, havia uma outra lição mais obscura, mas
    por ventura mais efficaz. Era a lição da mãe e a do veterano.

    A esposa de D. Luiz era uma senhora de esmeradissima educação e de um
    profundo bom senso. Amava o marido, mas via com pezar os excessos, a que
    o impelliam as suas opiniões politicas. Educada no seio de uma familia
    liberal, possuia sentimentos favoraveis ás ideias novas; mas sabia
    guardal-os no coração, para não despertar conflictos na familia.

    Porém, no tracto intimo entre mãe e filhos, trahia-se muita vez essa
    prudente discrição, e as fidalgas crianças iam recebendo a doutrina, de
    que os outros lhes blasphemavam como de heresias, e naturalmente,
    seduzidas pela origem d'onde ella lhes vinha, abriam-lhe de melhor
    vontade o coração, do que aos preceitos austeros e um pouco pedantescos
    dos mestres.

    Demais, ouviam tantas vezes a mãe fallar-lhes do irmão que perdêra, dos
    seus sentimentos generosos, do seu nobre caracter e da sua dedicação
    heroica a bem da causa liberal, que elles, e o mais velho sobre tudo,
    costumaram-se a venerar a memoria do tio, como a de um heroe e a de um
    martyr e a vêl-o aureolado de um verdadeiro prestigio lendario.

    Para isto porém concorreu mais que outrem o hortelão.

    O velho soldado era uma chronica viva das batalhas e façanhas d'aquelles
    tempos historicos e um panegyrista ardente do seu pobre official, cujo
    ultimo suspiro recolhêra.

    As crianças sentiam-se instinctivamente attrahidas para a companhia do
    velho, em cujas narrações pintorescas e vivamente coloridas achavam um
    encanto irresistivel. Feria-lhes fundo a curiosidade a maneira por que
    elle fallava dos trabalhos da emigração, dos episodios do cerco do
    Porto, da fome, da peste e da guerra, triplice calamidade que conhecêra
    de perto, das batalhas em que havia entrado, da bravura do seu amo, e
    finalmente do Imperador, por quem o mutilado veterano professava um
    enthusiasmo quasi supersticioso, e a cujo vulto a sua narrativa
    imaginosa dava um aspecto epico e sobrenatural.

    As crianças não se fartavam de interrogar aquella testemunha presencial
    de tantos feitos heroicos.

    E assim eram neutralisadas as doutrinas dos pedagogos eruditos,
    encarregados da educação dos filhos de D. Luiz, e estes iam crescendo
    affeiçoados aos principios liberaes, que amavam de instincto, antes de
    os amarem de reflexão.

    Mas dias de maior provação estavam reservados para esta familia.

    A munificencia que o senhor da Casa Mourisca mantivera no voluntario
    desterro, a que se condemnou, obrigára-o a enormes e perigosos
    sacrificios.

    D. Luiz nunca propriamente se occupára da gerencia dos seus bens. Fiel
    aos habitos aristocraticos dos seus maiores, deixára desde muito a
    procuradores todos os cuidados de administração, e de quando em quando
    recebia d'elles a noticia de que a sua casa se estava perdendo, sem que
    se lembrasse de perguntar a si proprio se não seria possivel oppôr um
    obstaculo áquella ruina.

    O padre Januario, ou frei Januario dos Anjos, velho egresso, homem de
    letras gordas, que se estabelecêra commodamente n'aquella acastellada
    residencia, como em casa sua, era um d'esses procuradores.

    Faça-se justiça ao padre, que não era de má fé, nem em proveito proprio,
    que elle apressava, com mão poderosa, a decadencia de D. Luiz. Mas,
    homem de curtas faculdades e de nenhum expediente financeiro, se obtinha
    capitaes para o seu constituinte, nas crises mais apertadas, era sempre
    sob condições de tal natureza, que deixava de cada vez mais onerada a
    propriedade e mais irremediavel o triste futuro d'ella. Succedeu pois o
    que era de esperar. Dispersou-se a côrte de D. Luiz. Por muito que
    fizessem os administradores da casa para a manter no costumado
    esplendor, cêdo principiaram a transparecer os signaes da declinação.
    Foi o aviso para a debandada. Uns porque delicadamente comprehenderam
    que a sua permanencia concorreria para augmentar as difficuldades, com
    que o fidalgo já luctava; outros, porque aspiravam melhores auras, longe
    d'alli, em solares menos estremecidos pelo vaivem da adversidade; é
    certo que todos se foram retirando, a um por um, e deixaram a familia
    só.

    Augmentou com este isolamento a taciturnidade do fidalgo.

    Depois veio a doença e a morte da esposa, d'aquella que lhe tinha sido
    tão fiel amiga, que, para lhe poupar desgostos, até escondia as
    lagrimas, que elle lhe fazia verter; veio essa nova dôr atribular-lhe
    ainda mais a existencia. E ainda não haviam acabado as provações! No
    fundo do calice estavam ainda depositadas as gotas mais amargas.

    D. Luiz tinha por esses tempos uma filha, mimoso legado da esposa, cuja
    missão consoladora continuava no mundo. Queria-lhe muito o pae! Se não
    havia de querer! O coração árido d'aquelle velho e o tenro coração
    d'aquella criança procuravam-se, como para um pelo outro se completarem.

    O velho fidalgo, concentrado e quasi rispido para com os outros filhos,
    se alguma vez teve nos labios sorrisos desanuviados e sinceros, foi na
    presença da sua Beatriz. Aquelle desgraçado coração, vazio de affectos,
    queimado de odios e de paixões esterilisadoras, sentia um grato
    refrigerio em deixar-se penetrar do suave influxo das caricias da
    criança, que beijava as faces rugosas do pae e lhe brincava com os
    cabellos prateados; e muitas vezes, n'esses momentos, lagrimas de
    desafogo dissipavam a cerração que ia na alma d'aquelle homem, que com
    tanta força sabia odiar.

    E não era só o pae que experimentava essa influencia.

    Jorge, que de pequeno fôra pensativo e serio, sentia-se tomar por a
    bondade e ternura de Beatriz. Criança ainda, tinha ella, quando a sós
    com o irmão, um olhar penetrante e um gesto grave como o d'elle, um
    espirito para communicar á vontade com o seu. Ella parecia comprehender
    o alcance do auxilio que poderia receber um dia d'aquelle rapaz sisudo,
    que a fitava, e elle sentia-se engrandecer aos proprios olhos,
    lembrando-se de que seria sua missão na vida proteger aquelle anjo.

    Mauricio, genio mais impetuoso e impaciente, dobrava tambem a vontade a
    um aceno da fragil e delicada creatura, em quem um estouvamento seu
    desafiava lagrimas. E estas lagrimas eram a unica repressão que o
    continham nos desvarios.

    Pois até n'esta filha feriu o Senhor o pobre ancião.

    Criança mimosa, colheu-a um sopro da morte, ainda com o sorriso nos
    labios, e prostrou-a exanime no tumulo.

    Fez-se então devéras escuro no espirito do pae.

    Quando aquella pequena fada domestica desappareceu, como uma visão
    vaporosa em contos de magia, foi como que se todos ficassem em trevas. A
    vida era tão outra! O ente que absorvia os instantes d'aquelles tres
    homens, a quem todos tres tributavam os seus mais puros affectos e os
    seus pensamentos mais constantes, desapparecêra, e elles olhavam-se
    assustados, meio loucos, como se de subito se lhes tivesse apagado a luz
    que os alumiava; sentiam a indecisão do homem, a quem no meio da estrada
    fulmina inesperada cegueira.

    Passada a violencia da primeira dôr, em todos ficou a saudade, negra e
    concentrada em D. Luiz, melancolica em Jorge, expansiva e vehemente em
    Mauricio; e para todos o nome de Beatriz, a recordação dos seus gestos,
    das suas palavras, era um talisman, cuja efficacia nunca se desmentia. A
    alma d'aquelle anjo assistia ainda á familia, que o chorava, e á sua
    mysteriosa direcção obedeciam todos, sem o perceberem.

    Morta aos dezeseis annos, Beatriz vivia ainda nos logares que habitava.

    Ha entes assim, cuja influencia posthuma lhes dá uma quasi
    immortalidade, á maneira da luz sideral, que continua a scintillar para
    nós, depois de aniquilado o fóco que a emittia.

    O padre Januario tornou-se desde então a creatura indispensavel, e a
    companhia exclusiva de D. Luiz, que via n'elle o unico representante da
    sua antiga côrte.

    Acerrimo partidario do regimen absoluto, apesar de lhe não ser possivel
    enfeixar dois argumentos serios em defeza d'elle, o padre Januario
    passava a vida aproveitando os mais ridiculos ensejos para premissas dos
    seus corollarios anti-liberaes, artificio com que lisongeava as paixões
    do seu illustre amo e patrono, e mantinha n'elle o fogo sagrado.

    O padre achava-se bem n'aquella vida monotona, que exercia sobre si os
    mais notaveis effeitos analepticos. Podia dizer-se que elle dividia alli
    o tempo entre duas occupações exclusivas: comer e esperar com
    impaciencia as horas da comida.

    Uma unica circumstancia assombrava os dias do padre. Era a presença na
    Casa Mourisca do hortelão, em quem fallamos, e que mantinha com elle uma
    aberta hostilidade. Frei Januario exasperava-se sempre que o ouvia
    fallar no Imperador e no Cerco e nos Voluntarios da Rainha e na Carta,
    com o enthusiasmo e a emphase de um soldado d'aquelles tempos. Por vezes
    rompiam ambos em scenas violentas; por vezes o capellão ia aconselhar ao
    fidalgo a demissão d'aquelle homem, que ameaçava infectar de liberalismo
    a familia inteira.

    D. Luiz porém, apesar de nunca fallar com o hortelão, não attendia
    n'estas reclamações o padre. Conservando no seu serviço o veterano,
    satisfazia a um pedido da esposa, e não teria coragem para fazer o
    contrario. Assim perpetuavam-se os conflictos entre os dois, porque nem
    o procurador supportava as rudes franquezas do soldado, nem este os
    remoques encapotados do procurador.

    Tal era a situação da familia da Casa Mourisca na época em que vae
    procural-a a nossa narração.

    Já se vê quão mal assegurado andava o futuro dos dois jovens filhos de
    D. Luiz. A educação que elles haviam recebido não tendêra a fim algum
    prático.

    D. Luiz não podia soffrer a ideia de dar a seus filhos uma profissão. A
    nobre carreira das armas, que mais lhes conviria, estava-lhes fechada
    pelas ultimas evoluções politicas. Os descendentes dos ultra-monarchicos
    Negrões de Villar de Corvos não eram para se assalariarem em defeza dos
    principios e das instituições que abalaram os velhos thronos, firmados
    no direito divino. Nobre era tambem a carreira ecclesiastica, que muitos
    dos seus antepassados haviam trilhado, apoiados no baculo episcopal; mas
    se D. Luiz estava persuadido de que já não havia religião n'este
    territorio de antigos crentes? e se frei Januario teimava, ensinado pelo
    mallogro de longas pretenções ás honras de umas meias vermelhas, que só
    se adiantava nas phalanges do clero quem fosse pedreiro livre!

    Assim pois os jovens descendentes do velho realista passavam o tempo
    cavalgando e caçando nas immediações, e fruindo em sancto ocio uma vida,
    cujos espinhos todos procuravam occultar-lhes. Caminhavam por estrada de
    rosas para um fundo precipicio, d'onde lhes desviavam as vistas.

    Deve porém dizer-se que não caminhavam ambos igualmente desprevenidos;
    porque de criança era diverso o caracter dos dois, e de dia para dia
    mais a differença se pronunciava.

    Jorge, na infancia como na juventude, fôra sempre grave e reflectido.
    Nos brinquedos tomava para si o desempenho de um papel serio. Era o pae,
    o mestre, o commandante, o medico, o padre, tudo aquillo que o obrigasse
    a um porte sisudo e a uma gravidade de homem. Adolescente, nunca as
    raparigas do logar lhe ouviram uma phrase atrevida; era sempre uma
    saudação affectuosa, casta e quasi paternal a que lhes dirigia, ainda
    quando as encontrasse a sós nas veredas mais solitarias das devezas ou
    pinheiraes. Ellas habituaram-se áquella juvenil seriedade, saudavam-n'o
    como a um velho, fallavam d'elle com acatamento, certas de encontrarem
    n'aquelle silencioso rapaz um protector na occasião precisa, mas nunca
    um namorado. E comtudo a figura esbelta de Jorge, a varonil e
    intelligente expressão d'aquelle rosto bem desenhado e um certo fulgor
    no olhar, que denunciava energia de caracter, obrigavam a desviar-se
    para o vêr mais de um olhar feminino, quando elle passava com um livro
    debaixo do braço ou a cavallo pelos caminhos do campo.

    As pessoas da indole de Jorge impoem uma especie de estranho temor ás
    mulheres, que se afastam d'ellas como de um ser mysterioso, d'onde lhes
    podem vir perigos desconhecidos.

    Mauricio, pelo contrario, mal podia dizer de que idade encetára o seu
    primeiro amor. Com os brinquedos pueris misturára já uns arremedos de
    galanteio e mais o competente cortejo de arrufos e de ciumes. Desde
    então nunca lhe andou o coração devoluto, ainda que tambem nunca tão
    tomado e absorvido por amores, que o fizesse passar por qualquer belleza
    feminina, sem uma lisonja e sem um sorriso.

    Era popularissimo entre as raparigas da aldeia; todas o conheciam, e
    elle a todas designava por os nomes. A todas não, que para as feias
    tinha uma memoria ingrata.

    Além d'isso Jorge gastava muito do seu tempo na leitura. Era bem provida
    a livraria da casa. A educação esmerada da mãe e bom gosto litterario
    tinham enriquecido a bibliotheca dos melhores modelos da litteratura
    nacional e da estrangeira. Ahi encontraram os dois rapazes farto
    alimento para a sua curiosidade. Jorge lia tambem furtivamente os poucos
    livros, espolio do tio fallecido, os quaes o hortelão guardára como
    reliquia, furtando-os ao auto de fé a que os condemnaria inevitavelmente
    a indignação do fidalgo e do padre. N'esses livros aprendeu Jorge a
    pensar, a comprehender o alcance de certas ideias e de certas
    instituições, e a fazer a justiça devida a muitos preconceitos, que lhe
    haviam imposto como dogmas.

    A um espirito d'estes, educado em observar e reflectir, não podiam
    passar por muito tempo desapercebidos os numerosos symptomas da
    decadencia que apresentava a Casa Mourisca. Assim, por vezes vinha-lhe
    ao espirito uma secreta apprehensão pelo seu precario futuro.

    Mauricio, imaginação mais forte, natureza mais ardente, caracter mais
    frivolo e voluvel, vivia a sua vida de joven fidalgo de provincia;
    deixava-se ir na corrente dos seus amores faceis, dos seus prazeres e
    das suas dissipações, allucinado por os sonhos e chimeras de uma fertil
    fantasia, e não profundava os olhos até o seio obscuro das realidades. A
    sua leitura era exclusiva de romancistas e poetas. Imaginação nimiamente
    inquieta, razão por indolencia inactiva, não via, nem quereria vêr, o
    espectro, que ás vezes apparecia aos olhos do irmão.

    Uma circumstancia havia, a que mais que a outras devia Jorge a apparição
    d'esse espectro, que, á semelhança da sombra do rei da Dinamarca, em
    Hamlet, ia exercendo uma funda influencia no animo do adolescente.

    Esta circumstancia não era só para elle manifesta. Ao viajante, que já
    suppozemos parado a contemplar o vulto denegrido da Casa Mourisca, não
    passaria ella tambem desapercebida.

    Na raiz da collina fronteira áquella, onde o solar dos fidalgos erguia
    as suas torres ameiadas, assentava o mais risonho e prospero casal dos
    arredores. Era uma completa casa rustica, conhecida por aquelles sitios
    pelo nome, que por excellencia se lhe dera, da Herdade.

    O contraste entre a Herdade e o velho solar era perfeito.

    Ella graciosa e alvejante, elle severo e sombrio; de um lado todos os
    signaes de actualidade, de vida, de trabalho, da industria que tudo
    aproveita, que não dorme, que não descança; a economia, a previdencia, o
    futuro: do outro, o passado, a tradição esteril, o silencio, a incuria,
    o desperdicio, a ruina: a cada pedra que o tempo derrubava do palacio,
    correspondia uma que se assentava na Herdade para alicerces de novas
    construcções; aqui desmoronava-se um pavilhão, alli levantava-se um
    celleiro, uma azenha, um lagar; aos velhos carvalhos, ás heras
    vigorosas, aos avelludados musgos, aos lichens multicores, severas
    galas, com que se adornava a casa nobre, oppunha a Herdade os pomares
    productivos, as ondulantes searas, os prados verdes, as vinhas ferteis e
    proximo de casa, os canteiros de rosas e balsaminas, onde volteavam
    incessantes as abelhas das colmeias proximas. Nas amplas cavallariças do
    palacio, onde outr'ora relinchavam duzias de cavallos das mais apuradas
    raças, ainda batiam com impaciencia no lagedo dois velhos exemplares de
    bom sangue, cujo sacrificio a economia não exigira ainda; nas mais
    modestas cavallariças do casal, duas eguas robustas, promptas para o
    serviço, e domaveis por uma criança, preparavam-se em fartas mangedouras
    para frequentes e longas excursões; e ao entardecer abriam-se os curraes
    a numerosas cabeças de gado, cujos mugidos chegavam até o alto da Casa
    Mourisca, onde o velho fidalgo muita vez os escutava, pensativo e
    melancolico.

    Este contraste, que apontamos, era a circumstancia que evocava no
    espirito de Jorge o espectro que o entristecia.

    O dono da Herdade fôra pobre, servira como criado na casa dos fidalgos,
    passára depois a rendeiro de um pequeno casal, mais tarde arrendára uma
    fazenda maior; chegando emfim a ser proprietario, tornára-se em pouco
    tempo possuidor de extensos bens, e era já o chefe d'uma familia
    numerosa e talvez o primeiro agricultor d'aquelle circulo.

    Porque prosperava a Herdade, e porque declinava o palacio? Se de tão
    pouco se chegára a tanto, como se podia cahir de tanto em tão pouco?

    Taes eram, em summa, as vagas reflexões que se assenhoreavam do espirito
    de Jorge, quando das janellas do seu quarto, em uma das torres do
    palacio, ou do alto de alguma eminencia, observava a animação, a vida da
    propriedade do seu antigo criado, e voltava depois os olhos para o vulto
    silencioso e como adormecido do velho paço dos seus maiores.

    II

    Por uma manhã de setembro, limpida e serena, como ás vezes são na nossa
    terra as manhãs do outomno, Jorge sahiu a pé, a passear pelos campos.
    Errou ao acaso por bouças e tapadas, seguiu a estreita vereda a custo
    cedida ao transito pela sôfrega cultura nas terras marginaes do pequeno
    rio da aldeia. Depois, subindo a uma eminencia, parou a contemplar do
    alto o aspecto do feracissimo valle, que suavemente se lhe abatia aos
    pés, e no fundo do qual se erguia, d'entre veigas e pomares, a Herdade,
    de que já fallamos.

    Jorge sentou-se sobre uma d'essas enormes moles de granito, que se
    encontram com frequencia em certos logares da provincia, soltas pelos
    montes, como se fossem roladas para alli em remotas eras por mãos de
    fundibularios gigantes, empenhados em encarniçada lucta. Os olhos
    dirigiram-se-lhe instinctivamente para a Herdade, onde se fixaram, como
    se com força irresistivel os attrahisse o espectaculo que via.

    Era a época de mais intensa vida nas granjas. Os cereaes, cobrindo as
    eiras, lourejavam aos raios desanuviados do sol; carros, a vergarem sob
    o fardo das colheitas, transpunham lentos as portas patentes do
    quinteiro, chiando estridorosamente; apinhavam-se além em montes as
    cannas e o folhelho de milho, restos de recentes descamisadas; longas
    series de mêdas elevavam-se mais longe, á maneira de tendas em um
    arraial de campanha; juntas de bois, já livres do jugo, repousavam das
    fadigas d'aquelles dias de azafama, ruminando em socego; os moços da
    lavoura iam e vinham, atarefados em diversos misteres; e de tudo isto
    erguia-se um clamor de trabalho, que o socego dos campos e a serenidade
    do dia deixavam chegar distincto até o alto da collina.

    O dono da Herdade, o antigo criado da Casa Mourisca, presidia áquellas
    tarefas, e em volta d'elle moviam-se, saltavam e riam duas ou tres
    robustas crianças, com quem brincava um formidavel rafeiro.

    E era esta a scena que Jorge contemplava, e que em tão profundas
    meditações parecia absorvêl-o. De repente distrahiu-o o som dos passos
    de alguem que se aproximava d'aquelle mesmo logar, em que tão
    desapercebidamente lhe ia correndo a manhã.

    Voltando-se, viu seu irmão Mauricio, que em traje rigoroso e competentes
    petrechos de caça, e com a esmerada elegancia e apuro, que lhe eram
    habituaes, subia a collina, precedido de dois ou tres cães de boa raça,
    que de longe descobriram Jorge e correram para elle, afagando-o, com
    latidos e cabriolas.

    Mauricio, assim avisado e conduzido pelos cães, veio ter com o irmão,
    exclamando jovialmente á distancia de alguns passos:

    –Em flagrante delicto de meditação poetica, o snr. Jorge! Bravo! Já não
    desespero de te vêr um dia fazer versos.

    Jorge respondeu, encolhendo os hombros:

    –Quem se senta no alto de um monte, depois de subir toda a encosta
    d'elle sem parar, póde fazêl-o simplesmente com o prosaico intento de
    tomar fôlego. Se isto fosse symptoma de poesia, então…

    –Pois sim, mas já isso de subir o monte com as mãos vazias, como estás,
    sem uma espingarda que revele um razoavel fim no passeio, é um symptoma
    importante. Quem é que se dá ao incommodo de uma ascensão d'essas,
    quando o gozo da perspectiva que espera encontrar lhe não compensa as
    fadigas? E quem tem d'essas compensações senão os poetas, que são os
    unicos que sabem _ce qu'on entend sur la montagne_?

    Avez vous quelque fois, calme et silencieux,
    Monté sur la montagne en presence des cieux?

    E, a recitar os primeiros versos da poesia alludida, sentava-se ao lado
    do irmão, pousava a espingarda, e descobrindo a cabeça, sacudia aos
    ventos os formosos e bastos cabellos castanhos, objecto de muitos
    cuidados seus.

    Os cães andavam inquietos a farejar por entre as urzes e as tojeiras do
    monte.

    Interrompendo de subito a recitação, Mauricio proseguiu:

    –Mas que teima a tua em te mostrares frio ante estas magnificencias!
    Que escrupulos póde haver em declarar isto tudo admiravel? Repara como é
    bem talhado aquelle córte além, no monte; parece feito de proposito para
    deixar vêr no plano posterior aquella povoação distante, que não sei que
    nome tem. E alli o campanario, com a sua alameda? Quem teria a feliz
    inspiração de o assentar tão bem? Onde é que elle ficaria melhor? Parece
    que andou um gosto de artista a dirigir estas coisas.

    E acrescentou, suspirando:

    –Ai, na aldeia o scenario bem está, pouco tem que se lhe diga; mas os
    actores e a comedia que aqui se representa é que são de uma insipidez!

    Os instinctos urbanos de Mauricio, cuja indole mal se accommodava á
    simplicidade campesina, e o fazia suspirar pela vida das capitaes,
    arrancavam-lhe frequentemente d'estas exclamações.

    Jorge, que escutára o irmão sob uma meia distracção e sem desviar os
    olhos da Herdade, replicou-lhe sorrindo:

    –Ha quasi uma hora que estou aqui, e posso jurar-te que não tinha
    notado uma só d'essas particularidades da paisagem que descreves.

    –Gostas mais da contemplação em globo. Até isso é de poeta. Analysar
    minuciosamente as impressões recebidas não é o seu forte.

    –Enganas-te ainda; não era tambem o conjuncto da paisagem que eu
    observava; mas um ponto limitado d'ella, muito limitado.

    –Qual era então?

    –Olha alli para baixo; a Herdade de Thomé, aquella azafama, aquella
    gente toda a trabalhar, a vida que alli vae!

    –Ora adeus!–exclamou Mauricio–é justamente o que me não roubaria um
    momento de attenção. Não te estou a dizer que para mim o que ha de
    insupportavel no campo é a gente que o habita, a vida que n'elle se
    passa? Faz pena vêr que especie de contempladores tem a natureza para
    estas maravilhas. A indifferença com que estes selvagens encaram tudo
    isto! Repara, vê aquelle labrego passar lá em baixo na ponte; olha lá se
    elle desvia a cabeça para algum dos lados, ou se pára um momento para
    gozar do bello espectaculo que d'alli observa. Olha para aquillo!
    Selvagem! Pergunta ao Thomé ou a toda essa gente que lá anda em baixo a
    trabalhar quantas vezes admiraram as bellezas de uma noite de luar,
    vista do alto do oiteiro pequeno, ou se o pôr do sol lhes produz alguma
    sensação na alma, a não ser a lembrança de que vão sendo horas da ceia.

    Jorge sorria ao ouvir o irmão, e tornou placidamente:

    –Que homem este! A poesia precisa de ter quem a entenda e quem a faça;
    e olha que nem sempre os que a entendem a fazem, nem os que a fazem a
    entendem. Esta pobre gente do campo é uma parte integrante d'elle; não o
    contemplam, completam-n'o. Que querias tu? Gostavas talvez mais de que
    em vez d'essa gente indifferente, que trabalha, estivessem por ahi os
    montes, os valles e as ribeiras povoados de poetas contempladores como
    tu? Deves confessar que seria um campo bem ridiculo esse. Se eu até,
    para que te diga a verdade, estou persuadido de que não encontraria
    encantos nos logares muito visitados, que ha por as quatro partes do
    mundo, onde, a cada momento, apreciadores inglezes, francezes, russos e
    allemães passeiam, soltando exclamações polyglotas, e onde o nosso
    enthusiasmo nos é prescripto a paginas tantas do GUIA DO VIAJANTE. O que
    torna os lavradores poeticos é a inconsciencia com que elles o são.

    –Vistos de longe. Pelo menos concorda n'isto; vistos de longe, e de
    muito longe.

    –Vistos de longe, sim, que duvida? como tudo o mais. Ao perto tambem
    muitos d'esses prados são pantanos mal cheirosos, que infectam, e
    mexe-se uma miryada de insectos repugnantes n'essa verdura que tanto
    admiras. Dize-me uma coisa, Mauricio, parece-te que o nosso velho solar
    prejudica a belleza d'esta paisagem?

    –Se prejudica? Ora essa! Adorna-a. Olha que bem que elle sahe d'aquelle
    fundo que lhe fazem os castanheiros!

    –Muito bem, e comtudo, visto de perto, ha lá tristes e prosaicas
    realidades–observou Jorge, suspirando.

    Ao olhar de estranheza, com que, ao ouvir-lhe estas palavras, o irmão o
    fitou, Jorge correspondeu, dizendo:

    –Sim, Mauricio, triste e prosaica realidade para quem o olhar de perto.
    Ha nada mais triste do que aquelles campos invadidos pelas ortigas, que
    nós lá temos, do que aquelles pomares mal tractados, e aquelles
    celleiros em ruinas? Quererás encontrar poesia na nossa pobreza,
    Mauricio?

    –Pobreza?!

    –Pobreza, sim; pois que nome lhe queres dar? Olha, compara o aspecto
    d'essa casa branca de um andar, que ahi fica em baixo, com o do nosso
    paço acastellado, a actividade d'aquelles homens com a somnolencia
    chronica do nosso capellão; compara ainda, Mauricio, compara a
    desafogada alegria de Thomé com a tristeza sem conforto do nosso pae.

    Mauricio curvou a cabeça, e uma como sombra de tristeza parou-lhe algum
    tempo na fronte, habitualmente desanuviada. Dir-se-ia que pela primeira
    vez o vulto descarnado da realidade se lhe apresentava aos olhos, até
    então fascinados pelo fulgor de lisongeiras illusões.

    Mas, depois de breves instantes de silencio, respondeu ao irmão:

    –Pois bem, será como dizes. Creio até que seja essa a verdade. A
    riqueza está alli, a pobreza do nosso lado; porém a poesia… oh! essa
    deixa-nol-a ficar, que bem sabes que não é ella a habitual companheira
    da opulencia.

    –Da opulencia ociosa, egoista e inutil, de certo que não; mas da
    opulencia activa, benefica, que semeia, que transmitte a vida em volta
    de si, da opulencia que fomenta o trabalho, que cultiva os terrenos
    maninhos, que fertilisa a terra esteril, que sustenta, que educa e
    civilisa o povo, oh! d'essa é a poesia companheira tambem. Se o castello
    arruinado tem poesia bastante para fazer correr lagrimas de saudade; a
    granja, activa e prospera, tem-n'a de sobra para as provocar de
    enthusiasmo e de fé no futuro.

    Mauricio ficou outra vez silencioso; depois, como se pretendesse sacudir
    de si as ideias negras evocadas pelas palavras do irmão, exclamou
    erguendo-se e com affectado estouvamento:

    –Estás enganado, Jorge, o que reina alli em baixo não é a poesia, é…
    é… é a economia. A poesia não assiste ao edificio que se levanta, mas
    ao que se arruina; gosta mais dos musgos, do que da cal; do lado do
    passado é que a encontras, melancolica, que é o ar que lhe convém. E
    ella tem razão; o futuro tem muita vida para precisar do prestigio
    poetico. A poesia dos utilitarios! Com o que tu me vens! Não sei quem
    foi que ha tempos me disse ter lido uma noticia curiosa a respeito da
    Inglaterra. Parece que o espirito industrial e economico d'aquella gente
    vae por lá destruindo as florestas, as matas, as sebes vivas, o que
    emmudecerá dentro em pouco os córos das aves; os rebanhos, que d'antes
    pastavam pelas campinas verdes, hoje já prosaicamente se vão engordando
    nos estabulos! Que mais falta? A voz dos camponezes, as cantigas e as
    musicas ruraes hão de calar-se ao ruido do ranger das machinas e do
    silvo do vapor. Admiravel! Em vez do fumo alvo e tenue das choças ficará
    o céo coberto de fumo negro e espesso do carvão de pedra. Que modelo de
    aldeia o que nos vem da Inglaterra! Na verdade! que poesia!

    –No que tu me vens fallar! Na Inglaterra agricola!–acudiu Jorge–Mas
    antes lá é que bem se comprehende a poesia da vida rural, que até a
    nobreza a não despreza. Sempre ouvi dizer que os senhores das terras e
    os rendeiros fraternisam e auxiliam-se mutuamente, e que os trabalhos do
    anno succedem-se entre festas e solemnidades populares, lucrando todos,
    trabalhando todos, e enriquecendo cada vez mais a terra. Deves confessar
    que ha mais poesia nos dominios senhoris dos lords de Inglaterra, que
    dirigem por si mesmos as suas vastas emprezas agricolas, do que nos
    pardieiros em ruinas dos nossos morgados, em cujas velhas salas dormem
    os proprietarios o somno da ignorancia, da inutilidade e da devassidão.

    –Não o nego, mas… na nossa casa, naquella triste Casa Mourisca, ha um
    quê de poesia, de poesia elegiaca, se assim quizeres. Essa de que fallas
    será a poesia das georgicas; mas a da elegia deixa-m'a ficar.

    –O peior, Mauricio, é que um dia virá talvez em que o tremendo
    prosaismo da completa miseria dissipará esse tenue perfume que dizes.

    –Safa! Estás hoje com uns humores de Cassandra, Jorge! Deixa lá;
    lembra-te de que se diz que nas nossas propriedades ha um thesouro
    escondido desde o tempo dos mouros, e que um dia alguem de nossa familia
    o achará, ficando fabulosamente rico. Que essa esperança dissipe o humor
    negro que tens. Vamos, vem d'ahi. Pega n'esta espingarda e vae caçar. É
    bom para dissipar visões.

    –Não estou hoje para caçar.

    –Então vaes reatar aqui o fio das tuas cogitações?

    –Não, vou reatal-o acolá.

    –Vaes á Herdade?!

    –Vou.

    –Fazer o quê?

    –Vêr de mais perto aquella poesia, ou aquella prosa, como quizeres.

    –Sabes que o pae não gosta que lidemos muito de perto com o Thomé?

    –Sei. É um preconceito. Elle não o saberá.

    –Um preconceito! Bom! Estás hoje muito philosopho. Adeus, Jorge; espero
    vêr-te ao jantar de melhor aspecto.

    –Adeus, Mauricio.

    E os dois irmãos separaram-se. Mauricio, precedido pelos cães, seguiu em
    direcção dos montes, cantando. Jorge desceu a collina e caminhou para a
    Herdade.

    III

    Thomé da Povoa era o typo mais completo de fazendeiro, que póde
    desejar-se.

    «Alma sã em corpo são»: esta phrase do poeta é a que descreve melhor o
    homem; no physico, a força e a saude em pessoa; no moral, a honradez e a
    alegria.

    Emquanto houvesse alguem que trabalhasse em casa, não descançava elle.
    Delicias do somno de madrugada, attractivos das sestas, a tudo resistia
    com nunca desmentida coragem. Na abastança conservava os costumes
    laboriosos de tempos mais arduos. Tudo lhe corria pelas mãos, a tudo
    superintendia. Antes de almoçar já elle havia passado revista á Herdade
    toda. No decurso do dia montava a cavallo e lá ia inspeccionar uma ou
    outra propriedade mais distante, que não deixava entregue á discrição
    dos caseiros. Uma ou duas vezes no mez estendia as suas excursões até o
    Porto, chamado por negocios relativos á lavoura.

    Franco, lizo de contas, pontual nos pagamentos, cavalheiro nos
    contractos, não se lhe limitava o credito á circumscripção da sua
    aldeia, estendia-se até á cidade, onde o seu nome era melhor garantia em
    certas transacções, do que o de muitos faustosos negociantes. Em
    familia, perfeitamente patriarchal, estremecia a mulher e os filhos; e a
    lembrança de que para elles trabalhava, illudia-lhe as fadigas e os
    desalentos.

    Quando Jorge se dirigiu á Herdade, presidia ainda Thomé aos diversos
    trabalhos, em que a sua gente andava occupada n'aquella manhã.

    Não havia alli braços quietos, nem movimentos inuteis. N'aquellas casas
    o trabalho não distingue sexo nem idade. Todos desde a infancia se
    familiarisam com elle. Dá-se o mesmo que se dá com o tracto dos bois;
    sómente na cidade é que estes possantes e bondosos animaes mettem medo
    ás mulheres e ás crianças; na aldeia umas e outras os afagam e dirigem.

    Assim pois trabalhava-se, fallava-se, ria-se e cantava-se com alma nas
    eiras e quinteiros da Herdade.

    E Thomé, centro d'aquelle movimento, lançando os olhos a tudo, dirigindo
    a todos a palavra e a todos prestando o auxilio do seu braço robusto; e
    da porta da casa, assistindo tambem áquella scena rural, a boa e sancta
    mulher do fazendeiro, a socia fiel nos seus prazeres e penas,
    sustentando ao collo o ultimo dos seus filhos, emquanto que os mais
    crescidos jogavam as escondidas por entre aquella gente azafamada.

    –Olha lá esse carro que não está bem seguro, ó Manoel. Vê lá se me
    arranjas ainda hoje por aqui alguma desgraça… Ó meu maluco, não
    reparas que me vaes semeando as espigas pelo chão? Salta, apanha-me tudo
    isso, que eu não quero nada desperdiçado… Está quieto, João, vae para
    casa, agora não se brinca no quinteiro. Sahe-me de ao pé dos bois,
    menino! Ai que tu… Ó Luiza, olha se mandas dar uma pinga áquelles
    homens…. Que quer você, tio? Cubra-se, ponha o seu chapéo. Ai, vem por
    causa de muro que cahiu? Olhe, tenha paciencia, volte cá ámanhã. Hoje
    não posso olhar por isso… Ó Chico Engeitado, que diabo estás tu
    fazendo, pateta? Deixa-me estar essas pipas. Vae-me recolher aquelle
    milho que eu te disse; corre… O moleiro já veio? Pois as azenhas já
    moem, e o homem não tem desculpas que dê pela demora… Ó Manoel, arreda
    esse carro mais para o meio, senão não póde entrar o outro, homem de
    Deus! Disseram ao Luiz que visse como estava o milho da baixa do rio?
    Que m'o não vá cortar antes do tempo. Eu sempre quero lá ir primeiro;
    elle não apodrece na terra. Ó mulher, chama para lá esses pequenos, que
    podem aleijar-se por aqui. Vae, Joãosinho, vae para casa e leva o mano.
    Olha, queres uma espiga assada? Ó Chico, escolhe ahi duas espigas para
    os pequenos. Que demonio anda aquelle cão a fazer atraz das gallinhas?
    Aqui já, atrevido! Vá, vá, rapazes! Vocês n'esse andar não acabam hoje.
    Dá cá um ensinho, que eu vou arredando este folhelho.

    No meio d'este fogo cerrado de ordens, de conselhos e de observações foi
    Thomé da Povoa interrompido pela voz da mulher, que exclamou:

    –Ai, ó Thomé, olha quem alli está!

    O fazendeiro voltou-se e deu com os olhos em Jorge, que do portão do
    quinteiro viera, cumprindo o que tinha dito ao irmão, contemplar o mesmo
    espectaculo, que tanto o havia attrahido ao observal-o da collina.

    Era raro que os filhos de D. Luiz visitassem a Herdade. O velho fidalgo
    ainda se não costumára á prosperidade do homem que fôra seu criado. A
    granja era como que uma censura pungente á sua imprevidencia; era uma
    lição muda que elle recebia a todos os momentos, que o humilhava no seu
    orgulho e pungia-lhe o coração de remorsos.

    Thomé não se mostrava soberbo nem insolente, antes conservava por a
    familia da Casa Mourisca, e principalmente por D. Luiz, certa deferencia
    e respeito, que se ressentiam ainda da passada posição do fazendeiro em
    casa do fidalgo.

    Este porém procurára o primeiro pretexto para interromper as relações
    com Thomé. Uma questão de aguas, occasionada por a abertura de uma mina
    em terrenos da Herdade, serviu-lhe para o intento. D. Luiz, sempre
    indifferente a litigios d'essa ordem, mostrou-se então muito cioso de
    seus hypotheticos direitos, e, não obstante a nenhuma animosidade que
    houve da parte do lavrador, desde essa época nunca mais conviveu com
    elle.

    Jorge e Mauricio, que costumavam frequentar a casa do homem que os
    trouxera ao collo e que lhes queria devéras, receberam ordem para não
    voltarem lá.

    Thomé da Povoa sentiu-se com este proceder, que não tinha merecido; mas
    possuia bastante finura para perceber a verdadeira causa da irritação do
    fidalgo; por isso limitou-se a encolher os hombros, dizendo para a
    mulher:

    –Então que queres tu que eu lhe faça? assim nasceu, e assim ha de
    morrer.

    Eis a razão porque a presença de Jorge o surprendeu; mas, sem dar
    signaes de estranheza, caminhou para elle com as mãos estendidas e o
    rosto aberto em risos da mais cordial hospitalidade.

    –Entre, snr. Jorge, entre. Isto por aqui está tudo uma desordem, mas
    emfim é casa de lavrador, e em setembro não ha maneira de a ter asseada.
    Ó Luiza, manda para aqui uma cadeira… ou deixa estar, é melhor entrar
    lá para dentro.

    –Não, Thomé, eu prefiro ficar aqui. E não se incommode. Olhe, já estou
    sentado.

    –Ora! n'um carro! Isso é que não. Nada, não tem geito. Luiza, manda
    então a cadeira, manda. Quer beber alguma coisa, snr. Jorge?

    –Agradecido, Thomé; não tenho sêde. Appeteceu-me vir vêr de perto esta
    lida, que por aqui vae, e que estive observando, perto de uma hora, alli
    de cima: por isso desci.

    –Ora essa! Pois bem vindo seja, que sempre me dá alegria ver aquelles
    meninos, que conheci tão pequerruchos como estes.

    E apontava para as crianças que, agarradas ás pernas do pae, olhavam com
    grandes olhos para Jorge.

    –São todos seus?–perguntou Jorge, afagando-as e sentando uma nos
    joelhos.

    –E aquelle que a mãe traz ao collo e a pequena que está na cidade.

    –Ai, sim, a Bertha. Deve estar uma senhora?

    –Está crescidita, está. Mas vamos, tome alguma coisa. Olhe que o meu
    vinho é puro e não faz mal de qualidade alguma. Aquillo é sumo de uva e
    nada mais.

    –Obrigado, obrigado; mas não bebo agora. Peço-lhe que continue com o
    seu trabalho, sem se importar commigo. Para isso é que vim.

    –Ai, isto está a acabar. Vae no meio dia–acrescentou olhando para o
    sol–d'aqui a nada vae esta gente jantar e… Para onde levas tu esse
    carro, ó desalmado? Perdoe-me, snr. Jorge, mas estes diabos… Eu
    attendo-o já.

    E, sem poder conter-se, collocou-se elle proprio á frente dos bois, e
    encaminhou o carro na direcção conveniente.

    –Vocês juraram dar-me cabo dos limoeiros. Olhe que tenho tido limões
    este anno, que é uma coisa por maior, snr. Jorge–disse elle,
    regressando ao seu posto com um enorme limão, que mostrava com orgulho.

    Luiza voltou com uma cadeira para offerecer a Jorge.

    –Como está crescido e fero–dizia ella, olhando-o com curiosidade e
    complacencia–e o mano como vae? Vi-o ha dias passar a cavallo alli na
    ponte do Giestal. Pareceu-me bom.

    –E como está seu pae, snr. Jorge?–perguntou Thomé gravemente.

    Jorge ia respondendo a estas perguntas e seguindo o movimento dos
    criados da lavoura, a quem de quando em quando Thomé dava ordens e fazia
    recommendações, que entremeiava na conversa, sem perder o fio d'esta.

    Luiza, com o filho ao collo, não abandonou tambem a scena, senão quando
    o sino da igreja parochial bateu as tres badaladas que recordam aos
    fieis a oração do meio dia. O trabalho na eira e no quinteiro
    suspendeu-se como por encanto. Os homens descobriram-se a fazer uma
    curta reza, no fim da qual a mulher de Thomé, depois de dar aos
    presentes as boas tardes, disse, seguindo o caminho de casa:

    –Venham jantar.

    Todos obedeceram immediatamente á agradavel ordem, e em pouco tempo
    ficou só e silenciosa a scena, havia pouco tão ruidosa e animada.

    –São horas do seu jantar, Thomé–disse Jorge, levantando-se para sahir.

    –Depois d'esta gente acabar, é que eu principio. A Luiza não póde
    attender a todos a um tempo. Deixe-se o menino estar. Eu não lhe
    offereço do meu jantar, porque não é feito para si; mas se quizer dar
    uma volta por os campos emquanto elles jantam…

    –Se lhe não causar incommodo…

    –Nenhum; até preciso de ir vêr o que elles hoje trabalharam no poço que
    mandei abrir lá em baixo.

    E empurrando a porta, que dava para as outras partes do casal, Thomé
    obrigou Jorge a passar adiante e seguiu-o logo depois.

    E de caminho ia-lhe commentando tudo que viam; narrou como alporcára uns
    pecegueiros, o resultado que tirára do enxoframento das vinhas, a
    quantidade de fructa que o laranjal lhe produzira, quanto despendêra na
    construcção do lagar, as difficuldades que encontrou na abertura da
    nora, o que fizera pouco productiva aquelle anno a cultura do trigo, os
    cuidados que lhe mereceram os meloaes, e mil outras coisas relativas ao
    amanho das suas terras, das quaes nem um só palmo se poderia encontrar,
    onde as plantas nocivas usurpassem o logar das proveitosas.

    Jorge escutou-o com uma attenção e interesse, que estavam causando
    grande estranheza a Thomé, pouco acostumado a vêr as pessoas da
    categoria de Jorge, e da idade d'elle ainda menos, interrogarem-n'o com
    tanta curiosidade e ouvirem-n'o com tanta sisudez sobre objectos de
    lavoura.

    E as perguntas do joven fidalgo não eram vagas e ociosas, como essas que
    por condescendencia se fazem, para lisongear a vaidade natural de um
    proprietario. Havia n'ellas uma precisão, uma minuciosidade;
    acompanhavam-n'as reflexões tão acertadas, duvidas tão racionaes, que
    Thomé não podia illudir-se, e via bem que o descendente dos nobres
    Negrões de Villar de Corvos o interrogava com desejo de saber.

    Esta convicção enthusiasmava Thomé, que proseguia com ardor as suas
    informações.

    Jorge quiz saber aproximadamente o custeio necessario para manter uma
    propriedade como aquella no ponto de cultura em que estava, e o capital
    exigido para a elevar a esse grau de florescencia.

    Thomé era forte na especialidade dos orçamentos; por isso deu com a
    melhor vontade a Jorge as informações que este lhe pedia.

    A final Jorge, depois de um mais longo intervallo de silencio, que
    terminou com um suspiro, disse, como a medo, e desviando a cabeça, a
    fingir-se entretido no exame da roda hydraulica de uma nora:

    –E porque será que só os campos que nos pertencem estão cheios de
    ortigas e saramagos, Thomé?

    Thomé da Povoa voltou-se de repente para Jorge, e fitou n'elle um olhar
    penetrante. Porque o fazendeiro tinha ás vezes um certo olhar, que ia
    até o fundo do pensamento de uma pessoa.

    –Quer que lhe diga porque é, snr. Jorge?–perguntou elle logo depois,
    com um tom de voz serio e quasi triste.

    –Quero, sim.

    –É porque o dono d'elles é o snr. D. Luiz Negrão de Villar de Corvos, o
    fidalgo da Casa Mourisca, como por aqui lhe chamamos todos.

    Jorge olhou interrogadoramente para Thomé, que continuou:

    –É pela mesma razão porque chove nas salas do morgado do Penedo e
    porque seus primos do Cruzeiro perderam o anno passado todo o Casal de
    Mattoso. Se eu tivesse agora vagar para contar-lhe a minha vida, desde
    que sahi aos vinte e dois annos de sua casa, snr. Jorge, até hoje, o
    menino não me perguntava depois porque os seus campos estão cheios de
    serralha e de saramagos. Trabalhei muito, snr. Jorge, não é só com agua
    que se regam estas terras para as ter no ponto em que as vê; é com o
    suor do rosto de um homem. É preciso que o dono vigie por ellas, sem
    confiar em ninguem, como um pae vigia pela educação dos filhos. Ora ahi
    está. As bençãos de um padre capellão não dão adubo ás
    terras–acrescentou Thomé com um sorriso epigrammatico a commentar a
    allusão, que não escapára a Jorge.

    –Mas como se explica isto, Thomé?–continuou Jorge com a docilidade de
    um discipulo–os meus avós nunca se occuparam muito com a lavoura;
    passaram a vida quasi toda na côrte e nas embaixadas, e raras vezes
    visitaram as suas terras, onde só vinham para caçar, e comtudo a nossa
    casa era então uma das mais ricas da provincia, e hoje…

    –Isso lá… Olhe, snr. Jorge, se elles se não occuparam dos seus bens e
    não sentiram o mal, é porque tinham ainda muito que perder. Quem hoje o
    está pagando é seu pae e amanhã serão os meninos. Isto é como uma pessoa
    robusta que leva vida extravagante. Emquanto é nova e tem muitas forças,
    não dá por as que perde e julga que nada lhe faz mal, mas chega lá a um
    certo ponto e de repente acha-se fraca e então é que considera o damno
    que fez a si mesma e aos filhos que gerou. Entende o que eu digo?

    –Entendo, Thomé, entendo, e creio que é essa a verdade. Além de
    que–proseguiu Jorge pensativo–n'aquelles tempos, as classes
    privilegiadas podiam entregar-se sem receio a uma vida de incuria e de
    dissipação, porque os privilegios velavam por ellas e remediavam-lhes os
    desvarios; adormeceram n'essa confiança e não sentiram que tinham mudado
    as condições sociaes, e agora ao acordarem…

    Jorge, que dissera estas palavras mais para si do que para o seu
    interlocutor, interrompeu-as subitamente, e apontando para a Casa
    Mourisca, que d'alli se avistava, exclamou quasi com desespero:

    –E não será ainda possivel sustentar aquella casa na sua quéda?

    Thomé da Povoa sorriu com uma expressão de intelligencia.

    –Entregue-a ás mãos de um lavrador, de um homem de trabalho, que possa
    dispôr d'alguns capitaes para os primeiros tempos, e verá.

    –Principiaria por deitar abaixo aquellas paredes velhas e aquellas
    arvores–observou Jorge, olhando com tristeza para o seu meio arruinado
    solar e para os bosques seculares que o rodeavam.

    –Talvez deitasse–disse Thomé–póde bem ser que o fizesse, porque lá
    amor a essas coisas não teem elles, não. Mas não seria necessario. Eu,
    que tambem lhes tenho affeição, áquelle arvoredo e áquellas paredes
    negras, porque alli passei um tempo… mau era elle de certo… mas
    emfim… sempre tinha vinte annos…, eu, que me não atreveria a
    deitar-lhe o machado… ainda me aventurava a pôr aquillo no pé em que
    esteve.

    Jorge não pôde tirar ás suas palavras um ligeiro tom de amargura e quasi
    de ironia, quando, depois d'esta resposta de Thomé, exclamou voltando-se
    para a Casa Mourisca:

    –Espera pois, casa de meus paes, que a nossa miseria nos expulse dos
    teus tectos e te abra as portas á familia de um lavrador abastado, para
    vêres reparados os teus muros, e cultivados esses campos maninhos; assim
    Deus dê a esse homem um pouco de amor ás coisas velhas, para te não
    destruir na reforma.

    Thomé, que percebeu a occulta expressão d'estas palavras, replicou com
    dignidade:

    –Porque não ha de antes dizer, snr. Jorge: Espera, casa de meus paes,
    que Deus inspire um dos teus donos, para que olhe por seus proprios
    olhos para os teus achaques e os cure por suas mãos?

    –Os remedios são caros na botica, Thomé. Os pobres vêem ás vezes morrer
    um doente, porque não podem comprar a droga que o salvaria.

    –Senhor Jorge–acudiu Thomé com um ar quasi solemne–resolva-se devéras
    a ser homem, deixe-se de viver como vivem e teem vivido os seus, queira
    do coração fazer-se economico, trabalhador e vigilante, livre-se da
    praga dos seus mordomos e procuradores, deixe o padre dizer missas, mal
    ou bem, conforme puder, porque isso é lá com Deus e elle, faça tudo isto
    e os capitaes não lhe faltarão. O homem que principiou a ganhal-os
    n'aquella casa será um dos que não porá duvida em empregal-os, até onde
    chegarem, para a sustentar e não deixar cahir; e onde não chegarem os
    capitaes, chegará o credito.

    –É uma esmola que me offerece, Thomé?–perguntou Jorge, mas sem o menor
    signal de irritação.

    –Não, snr. Jorge, não é. Nem o menino m'a aceitava, nem eu poderia
    fazêl-a, sem prejudicar meus filhos. Não é uma esmola, é um emprestimo,
    menos perigoso do que os arranjados pelo padre capellão. Não é vergonha
    um emprestimo, quando se faz em condições de poder por elle alliviar-se
    um homem de dividas mais pesadas e de credores mal intencionados, e
    resgatar e melhorar a propriedade. Ha muito que a sua casa vive d'isso,
    mas a taes portas tem ido bater e tão mau uso tem feito do pouco e caro
    que obtinha que, em vez de se salvar, cada vez se perdia mais. Não fica
    mal um emprestimo, snr. Jorge, quando se procura satisfazer com lealdade
    os compromissos que se ajustaram. Então não vê que até os governos pedem
    emprestado?

    –Mas quando, como no meu caso, não ha garantias a offerecer, o
    emprestimo é bem parecido com a esmola, deve confessar.

    –Não ha garantias? Quem foi que lhe disse isso? E a sua probidade?…
    Sabe que mais? Eu sempre lhe vou contar a minha historia e verá depois
    se tenho razão no que digo.

    E Thomé da Povoa, conduzindo Jorge para a sombra da ramada que toldava a
    nora, na roda da qual se sentaram ambos, principiou:

    –Quando sahi da casa de seu pae, por esta vontade, ás vezes bem doida,
    que a gente tem de trabalhar por sua conta, empreguei algum dinheirito,
    que juntára, em arrendar um casebre e uma horta, da qual, lidando do
    romper do dia até á noite, tirava quando muito o preciso para não morrer
    de fome. O menino sabe aquella nesga de campo, que eu tenho ao pé dos
    açudes e o palheirito que fica ao lado?

    –Bem sei.

    –Pois foi essa a minha primeira casa. A Luiza, com quem por esse tempo
    casei, trabalhava tanto como eu, e assim iamos vivendo, sabe Deus como,
    mas pagando pontualmente o nosso aluguel e sem ficar a dever nada na
    tenda. O meu senhorio era um homem muito rico e muito de bem. Deus lhe
    falle n'alma! O menino ha de ter ouvido fallar d'elle: era o doutor
    Menezes, pessoa de muito saber e que tinha sido da relação do Porto.

    –Ainda tenho uma ideia de o vêr.

    –Não havia melhor senhorio; nada exigente com os caseiros e até sempre
    prompto a ajudal-os. Um anno veio uma sequeira, que matou toda a
    novidade. Foi uma coisa de fazer dó. Nem gota de agua, as fontes sêcas,
    as levadas enxutas, os moinhos parados, e os lavradores a agarrarem as
    mãos na cabeça e a pedir a Deus misericordia! A coisa foi de maneira
    que, chegado o tempo de pagar a renda, poucos tinham com que a pagar.

    –Succedeu-lhe o mesmo a si? Está visto.

    –A mim?! eu nada colhi n'esse anno; mas de maneira nenhuma queria
    faltar ao ajustado com o senhorio. Fui-me ao escaninho da caixa, tirei
    para fóra uns cruzados novos que, a muito custo, puzera de lado para o
    caso de uma doença; mas não era coisa que chegasse. Como ha de ser, como
    não ha de ser, eis que a minha Luiza, que sempre foi boa companheira, me
    diz: «Não te afflijas, homem; ahi vão as minhas arrecadas, pega», e
    atirou-m'as para cima dos cruzados. Lá me custava o servir-me das
    arrecadas da rapariga, que era a unica riqueza que ella tinha; mas não
    houve outro remedio. Pul-as em penhor, e com o dinheiro que me deram
    completei o aluguer, e no dia marcado apresentei-me em casa do doutor
    Menezes.

    –E elle?

    –Parece-me que ainda o estou a vêr no seu quarto de estudo, com as
    pernas embrulhadas em uma manta e olhando-me por cima dos oculos: «Então
    o que o traz por cá, Thomé?» «Eu, snr. doutor, venho para o que v. s.ª
    sabe.» «Ah! sim, estamos no S. Miguel. O anno pelos modos foi mau.» «Ora
    se foi! mas emfim vamo-nos conformando com a vontade do Senhor. Outro
    virá melhor.» E fui-me chegando para a banca e tirei do bolso o
    dinheiro, que me puz a contar e a encastellar. O homem estava calado a
    vêr aquillo. Quando cheguei ao fim olhou para mim d'uma certa maneira e
    disse-me: «Então está ahi tudo?» Está, sim senhor, v. s.ª não viu? «E
    você quer-me dar tanta coisa?» D'esta vez fui eu que me puz a olhar para
    elle admirado. «Então não é este o preço ajustado no arrendamento?» «É
    celebre, disse o snr. doutor abanando a cabeça, é o primeiro rendeiro
    que me paga tão prompto este anno e sem pedir que lhe perdoe alguma
    coisa, vista a escassez da estação. Onde foi você buscar esse dinheiro,
    ó Thomé? Você é o mais pobre dos meus caseiros e eu lá vi o estado do
    seu campo.» Eu não tive remedio senão contar-lhe tudo. Elle nem me
    deixou acabar. «Leve isso d'aqui, homem, e desempenhe as arrecadas da
    sua mulher. Eu não sou nenhum vampiro para sugar o sangue do meu
    proximo.»

    –Bella alma!–exclamou Jorge commovido pela narração.

    Thomé continuou:

    –«Em todo o caso–disse-me d'ahi a pouco o snr. doutor–você fez hoje
    um grande negocio sem o saber. Você é trabalhador, que isso tenho eu
    visto por a maneira porque me traz bem aproveitado o campito que lhe
    aluguei. Mas, para tirar partido dos seus bons desejos, faltava-lhe o
    capital e hoje arranjou-o.

    –Que queria elle dizer n'isso?

    –Foi o que eu lhe perguntei. «Arranjou-o sim, senhor, respondeu elle,
    porque arranjou credito, que vale por um capital enorme. O que você fez,
    mostra-me o de que é capaz. Appareça ámanhã por aqui, porque temos que
    tractar.»

    –E que lhe queria elle?–perguntou Jorge, cada vez mais attento.

    –No dia seguinte fui procural-o, sem imaginar o que fosse que elle
    tinha para dizer-me. Mal me viu, exclamou logo: «Ora venha cá, Thomé,
    sente-se aqui, porque temos um contracto a fazer.» E, obrigando-me a
    sentar ao lado d'elle, continuou: «Vocemecê vae assignar-me um escripto
    de arrendamento da minha propriedade das Barrocas.» Ora faça ideia o
    menino de como eu fiquei, assim que tal ouvi. Conhece a quinta das
    Barrocas? aquillo é um condado, se póde dizer. Como havia eu de
    arrendal-a, Sancto Deus! Elle, conhecendo o meu espanto, acudiu logo:
    «Não lhe pareça isso uma coisa por ahi além. Nós ajustamos a renda e
    você vae tomar conta d'aquillo. A quinta está bem educada e nutrida, e
    estou certo de que não o deixará ficar mal no fim do anno.» «Mas,
    disse-lhe eu, v. s.ª bem vê que uma peça d'aquellas precisa de braços
    para ser bem trabalhada, de braços e de certas despezas.» Mas, homem,
    torna-me elle, quem lhe diz menos d'isso? Olhe lá que eu a deixe ao
    desamparo, para você m'a entregar no estado em que por ahi em geral os
    caseiros as entregam aos senhorios. Mas é bem feito, que elles tambem
    fazem uns arrendamentos taes, que os caseiros morreriam esfomeados, se
    não esfomeassem a terra.

    –Mas esse homem era um grande philosopho!–observou Jorge.

    –«Vá você para lá–continuou elle–tracte-me bem d'aquillo, e os
    capitaes precisos para instrumentos, gado, adubos, jornaleiros e algumas
    obras, eu lh'os adiantarei. Você é trabalhador, a terra é boa, ia
    apostar que ambos havemos de lucrar.

    –E o Thomé foi?

    –Fui, e foi o principio da minha felicidade. A terra era abençoada! e
    depois, alli nada faltava para a fazer produzir. Creia o snr. Jorge que
    o dinheiro tambem nasce como a semente. O dinheiro, enterrado assim na
    terra, produz dinheiro, senhor. Eu lá o vi, que quanto mais se gastava
    com a terra, mais ella produzia. Foi lá que eu aprendi a ser lavrador.
    Muito devi aos conselhos d'aquelle homem. «Anda para diante Thomé,
    dizia-me elle. Se queres que o cavallo te não deite a terra e te leve a
    longa jornada, dá-lhe bem de comer; a ração de aveia que lhe furtares da
    mangedoura é a que mais cara te sahe.» Mais tarde, quando eu, com a
    ajuda de Deus, já ia, além de pagar as minhas dividas a pouco e pouco,
    juntando algum peculio no canto da caixa, foi elle que me disse: «Não
    abafes o dinheiro, Thomé. Põe-n'o ao ar para elle se não estragar; tudo
    quer ar n'este mundo.» E ahi me animei eu, ao principio com mêdo, que
    fui perdendo depois, a dar emprego ás minhas economias; e era um gosto
    vêr como ellas augmentavam. Passados annos eram taes, que já eu pensava
    em comprar umas terras, que era cá o meu sonho. Foi elle ainda quem me
    tirou isso da cabeça. «Não tenhas pressa de ser proprietario, prégava-me
    elle, olha que os lucros que vaes ter, gastando todo o teu dinheiro em
    comprar qualquer leira de terra, não correspondem ao gostinho de te
    chamares dono d'ella. Não te afogues em pouca agua. Se comprares um
    cavallo e ficares sem cinco reis para o sustento d'elle, vê lá que
    negociarrão; pois as terras tambem comem e tu bem o deves saber.» E o
    caso é que me convenceu e nem pensei mais n'isso.

    –Mas a final sempre comprou?

    –Quando elle mesmo m'o disse. Foi á praça esta granja, que não era
    ainda o que é hoje. «Vê agora se ficas com aquillo», disse-me o snr.
    doutor. A propriedade era de valor e eu não queria empregar na compra
    todo o meu capital. O snr. doutor ajudou-me mais uma vez, e a
    propriedade passou para as minhas mãos. Então trabalhei mais do que
    nunca. Todo o meu empenho era remir depressa a minha divida, porque,
    emquanto o não fizesse, parecia-me que não podia chamar ainda meu a
    isto. Deus ajudou-me com annos felizes e com boas colheitas, e como
    continuava com o arrendamento das Barrocas e depois com este negocio de
    gado, pude, mais cêdo do que esperava, pagar a minha ultima prestação e
    remir a divida.

    Chegando a este ponto da sua narrativa, animou-se a physionomia de Thomé
    da Povoa de um clarão de enthusiasmo e com as faces córadas e os olhos
    radiantes proseguiu, suspirando com desafogo.

    –Que dia aquelle, snr. Jorge! Eu nem lhe sei dizer o que sentia em mim!
    Eu sei lá?! Quando voltei da casa do doutor, com o escripto da quitação
    no bolso, vinha a tremer, pulava-me no peito o coração como o de uma
    criança; abri surrateiramente aquella porta da quinta, e sósinho, como
    um ladrão, sem que ninguem me visse, entrei aqui. Digo-lhe que estava
    quasi louco. Até fallei alto; lembra-me bem de que disse ao vêr-me cá
    dentro: Isto é meu! E depois que sabia que era meu, parecia-me outra
    coisa tudo isto. Meu! eu não me fartava de repetir esta palavra! Meu!
    Estas arvores eram minhas, estas fontes eram minhas, até estes passaros,
    que por ahi cantavam, eram meus, porque emfim vinham fazer ninho e
    cantar no que me pertencia. Vae rir-se, se eu lhe disser o que fiz. Eu
    abracei estas arvores, eu bati palmadas n'estes muros, lavei-me n'esses
    tanques todos, bebi agua d'essas fontes, deitei-me á sombra d'essas
    arvores, eu cantei, eu saltei, eu chorei, e a final…. quer que lhe
    diga? Não tive mão em mim que não ajoelhasse para beijar esta terra!
    beijei, sim, beijei esta terra, que eu ganhára á custa de muito
    trabalho, de muito suor e de nenhuma vileza. Tinha orgulho, e tenho-o,
    em me lembrar de que tudo isto me viera de eu ser honrado e amigo de
    cumprir a minha palavra. Eu não me recordo de ter um contentamento assim
    na minha vida, a não ser no dia em que estreitei nos braços a Luiza, e
    que tambem pela primeira vez lhe chamei minha mulher. Era quasi a mesma
    coisa; este era o meu segundo casamento. D'ahi em diante foi que eu
    soube o que é ter amor á terra. Desde a sementeira á colheita era um
    cuidado incessante com o campo. Ver crescer as plantas, para mim
    causava-me tanto prazer como vêr o crescer dos filhos; cada novo rebento
    era como que um nascimento em casa. Media o quanto iam crescendo as
    arvores que plantava e trazia contados os fructos dos pomares. Aquillo
    nos primeiros tempos foi uma loucura. Aqui tem a minha vida. Deus
    ajudou-me, e d'ahi por diante tudo me tem corrido bem. Já vê, snr.
    Jorge, que quem deve o que é a ter sido honesto, não póde recusar o seu
    pouco auxilio a um rapaz de brios e de probidade como é o menino.

    Jorge estendeu a mão a Thomé, dizendo-lhe sensibilisado:

    –Fez-me bem ouvil-o, Thomé. A sua vida é um exemplo, é uma lição, e
    n'ella procurarei aprender. Eu tambem sinto os mesmos desejos de remir a
    rninha ultima divida para depois chamar meu ao que me pertence. E n'esse
    dia eu tambem abraçaria com enthusiasmo aquellas velhas arvores, e
    ajoelharia para beijar a terra, que os meus antepassados me deixaram.
    Mas não sei se a empreza estará ao alcance das minhas forças.

    –Está. Eu lhe digo. Ha aqui só uma difficuldade a vencer. Empregue toda
    a sua força para esse fim, porque se tracta do bem de sua casa, do seu
    futuro e da sua dignidade. É preciso que o pae lhe dê licença para o
    menino administrar a casa e que o padre capellão se contente com dizer
    missas, porque depois…

    –Ainda quando vencesse essa difficuldade, que é grande, Thomé, porque
    meu pae ainda vê em mim uma criança, surgiria outra. De si nunca meu
    pae…

    Thomé da Povoa não o deixou concluir.

    –Eu sei, mas o snr. D. Luiz não se mette por miudo nos negocios da
    casa, desde que tem um procurador encarregado d'elles. Consiga que elle
    ponha em si a confiança que tão mal emprega no padre, e eu lhe prometto
    que o mais se fará. Eu não exijo mais garantias para o meu dinheiro, do
    que um escripto seu, snr. Jorge. Demais, como a sua experiencia é pouca,
    eu, se m'o permittir, guial-o-hei nos primeiros tempos. Como seu pae não
    gosta de que o menino venha por aqui, virá sem que elle o saiba. Os
    serões de inverno são longos, nós conversaremos algumas noites.

    Jorge disse finalmente com resolução:

    –Aceito, Thomé. Fallarei a meu pae. O dever de salvar a minha casa da
    ruina me dará coragem. Aceito, porque tenho fé em que me não será
    impossivel pagar-lhe mais tarde a divida que contrahir.

    –E eu tenho fé em que ha de ainda haver dias alegres e de festa
    n'aquella triste casa. Não é verdade que se diz que ha lá um thesouro
    escondido? Pois cave na terra, que o ha de encontrar.

    A voz de Luiza, ao longe, annunciou n'este momento ao marido que o
    jantar esperava por elle.

    Jorge sahiu d'alli com o coração palpitando de esperanças e de commoção,
    que lhe estava já causando a ideia da entrevista que precisava de ter
    com o pae.

    Thomé jantou com o appetite de quem tinha feito uma boa acção e
    realisado uma ideia, com que havia muito tempo lhe lidava o cerebro.

    A mulher achou-o mais fallador do que de costume; e depois de jantar
    voltou para a eira, cantando.

    Era feliz n'aquelle momento a sua alma generosa.

    IV

    Em uma das espaçosas salas da Casa Mourisca, alumiada por tres rasgadas
    janellas ogivaes e mobilada ainda com certa opulencia, vestigios do
    esplendor passado, esperavam a hora de jantar o velho fidalgo e o seu
    capellão-procurador frei Januario dos Anjos.

    Não foi rigoroso o emprego no plural do verbo da ultima oração.

    Frei Januario era quem esperava, porque essa era tambem a principal
    occupação dos seus dias. Os gozos do paladar mal lhe compensavam as
    amarguras d'estas longas expectações. Eram ellas talvez que não o
    deixavam medrar na proporção dos alimentos consumidos, porque frei
    Januario era magro. O mysterio physiologico d'esta magreza ainda não era
    para se devassar de prompto.

    D. Luiz lia as folhas absolutistas, que lhe mandavam da capital e do
    Porto, e dava assim em alimento ao seu odio contra as instituições
    liberaes um dos fructos mais saborosos d'ellas–a liberdade de
    imprensa–; fructo, em que os seus correligionarios mordem com demasiada
    complacencia, apesar de ser para elles fructo prohibido.

    De quando em quando D. Luiz interrompia a leitura com uma phrase de
    approvação ao artigo que lia ou de censura a qualquer medida promovida
    pelo governo, que nunca tinha razão.

    Frei Januario secundava, com toda a força do seu obscuro credo politico,
    as reflexões de s. exc.ª, e requintava na intensidade dos anathemas, com
    que eram fulminados os homens da época.

    Mas, solta a phrase que o caso pedia, e as competentes exclamações,
    voltava o padre a consultar o relogio, a abrir a bôca, a suspirar; dava
    dois ou tres passeios na sala e terminava por ir inspeccionar a cozinha.
    Os intervallos das refeições eram para elle seculos!

    –Humh!–disse D. Luiz n'aquella manhã, poisando a folha, como enojado
    com o que lêra–Lá foi concedido um subsidio para a construcção do lanço
    de estrada de Valle-escuro!

    –Fartos sejam elles de estradas!–acudiu logo frei Januario–Para esta
    gente a moralidade e a ventura de um paiz consiste em ter estradas e
    diligencias, e acabou-se. Olhem lá se elles levantam sequer uma igreja?
    Isso sim! O dinheiro do clero sabem elles roubar! E que pena não terão
    por não deitarem a baixo os templos que por ahi ainda ha! Mas atraz do
    tempo tempo vem. Vontade não lhes falta.

    Não sei se foi esta ultima phrase que recordou ao padre que tambem a
    elle não faltava vontade… de comer. O certo é que, mudando de tom,
    acrescentou:

    –Querem vêr que o Bernardino se esqueceu hoje do jantar? Isto são quasi
    duas horas, e eu não ouço tugir nem mugir na cozinha! Nada, aqui anda
    coisa. Com licença, eu vou vêr e volto já.

    E frei Januario sahiu da sala para ir pela vigesima vez á cozinha, que
    elle suspeitava abandonada pela incuria do cozinheiro, estando pois a
    familia toda ameaçada com a tremenda catastrophe d'uma retardação do
    jantar.

    D. Luiz pegou de novo nas folhas e deixou-se ficar lendo até á volta do
    padre, que entrou indignado.

    –Eu que dizia?! Posto á taramela com o hortelão, sem se lembrar do
    jantar? Olhem se eu lá não ia! Não que dizem que uma pessoa póde
    descançar nos criados. Ha de poder! São uma corja! E, v. exc.ª não quer
    crêr, aquelle excommungado d'aquelle hortelão ha de ser a ruina d'esta
    casa. Foi uma imprudencia da parte do snr. D. Luiz metter em casa um
    libertino d'aquelles, mação nos ossos e no sangue. Foi um passo muito
    errado… Aquillo é um pessimo exemplo para os outros. Sabe v. exc.ª em
    que elle estava fallando? Na cantiga do costume. No desembarque do
    Mindello. Quando eu cheguei ainda lhe ouvi dizer que eram sete mil e
    quinhentos bravos que vieram pôr fóra da cidade os oitenta mil lobos que
    andavam lá, e coisas assim. E o cozinheiro a dar-lhe ouvidos, e o leitão
    a queimar-se e a sôpa a pegar-se no fundo da panella, que logo me
    cheirou a esturro. É preciso que v. ex.ª dê as providencias, quando
    não…

    D. Luiz, tomando menos a peito do que o capellão os destinos do jantar e
    da sôpa, e fiel ao habito de nunca fallar, nem em mal nem em bem, do
    hortelão, não respondeu e proseguiu a leitura das folhas.

    D'ahi a pouco referiu ao padre a noticia que tinha lido do desastre
    succedido a uma diligencia ao passar em uma ponte que na occasião
    abatêra, resultando muitas victimas.

    A indignação do padre exaltou-se.

    –Pois se esta gente que nos governa deixa as estradas e pontes em um
    abandono d'esses! Vejam que tempos os nossos! e que governos que não se
    importam com as vidas dos cidadãos! Em que paiz do mundo se vêem
    estradas assim arruinadas como as nossas? São os bens que nos trouxeram
    os homens da Carta! Isto é bonito!

    E o padre Januario continuou ainda por algum tempo a condemnar, pelo
    crime de desleixo e de falta de protecção á viação publica, os mesmos
    governos que, momentos antes, accusára de conceder para esse fim
    subsidios e de lhe dar importancia demasiada.

    A politica de frei Januario é vulgar na nossa terra.

    D. Luiz, tendo concluido a leitura da folha, pôl-a de lado e resumiu a
    serie de pensamentos que essa leitura lhe suggerira, na seguinte e
    contrahida synthese:

    –Isto vae cada vez melhor, frei Januario.

    –Isto vae bonito, não tem duvida nenhuma–secundou o padre.

    –O peior é o futuro–tornou o fidalgo, assombrado.

    –Ai, o futuro ha de ser fresco!–repetiu o procurador, fungando uma
    pitada.

    –Emfim, quem viver verá aonde isto vae parar, onde nos leva esta
    torrente.

    –E não é preciso viver muito. Mais dia menos dia temos ahi os
    hespanhoes, ou então passamos a ser inglezes. Não ha que vêr; da maneira
    por que vão as coisas…

    –Ai, pobre Portugal!–exclamou melancolicamente D. Luiz.

    –Que vaes á vela–concluiu o padre.–Desde que puzeram a cabeça á roda
    a esta gente com liberalismos… ficou tudo transtornado. Agora todos
    mandam, todos fallam, e não ha quem governe. Isto de não haver um que
    governe… Estes patetas não se desenganam de que um paiz é como uma
    casa. Ora deixem á vontade os criados em uma cozinha, sem ninguem que os
    vigie, e verão o que vae! esperem por o jantar, que hão de achar-se
    servidos!

    O simile fôra suggerido a frei Januario pela sua constante preoccupação.

    –O que me custa é lembrar-me de que meus filhos teem de viver n'esta
    sociedade assim organisada. Quem sabe a sorte que lhes está reservada,
    aos pobres rapazes!–disse o fidalgo, suspirando com escuras
    apprehensões sobre a posição precaria da familia.

    –Os filhos de v. exc.ª não devem transigir em caso algum com estes
    homens!–exclamou com vehemencia o padre–É não fazer como a sobrinha de
    v. exc.ª, a snr.ª D. Gabriella, que já é baroneza das feitas por elles.
    Quando se é fidalgo é preciso ser fidalgo.

    –É bem negro o futuro que espera as casas como a nossa, e sabe Deus se
    em parte preparado por nós–insistia o fidalgo.–Tambem peccamos.

    –Pois é uma triste verdade, mas isso não é razão para que os que
    nasceram n'essas casas se abaixem diante dos que nem sabem aonde
    nasceram. Deixe v. exc.ª medrar quanto quizer o Thomé da Herdade, que no
    fim de tudo sempre ha de mostrar que andou descalço em criança e que foi
    levar a beber o gado d'esta casa. Ha certas coisas que não dá o
    dinheiro.

    –O Thomé da Herdade!–repetiu D. Luiz com amargura–Esse é que
    prospéra, os tempos estão para elle. Quem viu e quem vê aquillo!

    –Então que quer? Inda mais havemos de ver. E então não sabe v. ex.ª que
    o homem mandou educar a filha na cidade, como se fosse a filha de
    alguem?

    –A Bertha?

    –Sim, a que é afilhada de v. exc.ª Com que fim faz aquelle toleirão uma
    coisa d'essas? Veja a parlapatice d'aquelle homem. Não repara na posição
    falsa em que colloca a rapariga. Metteu-se-lhe talvez na cabeça que
    ainda a casava com algum fidalgo! Póde ser. Veja v. exc.ª se ella serve
    para algum dos seus filhos.

    D. Luiz sorriu, encolhendo os hombros.

    –Ora para que precisa a mulher de um lavrador, que é a final o que ella
    tem de ser, das prendas e da educação que o pae lhe mandou dar? Não me
    dirá v. exc.ª?

    –Todos hoje teem aspirações a subir–reflectiu D. Luiz com ironia.–A
    maré sóbe.

    –Eu bem sei o que é que dá causa a estas tolerias. Tudo isto vem da
    barulhada que estes liberalões fizeram na sociedade. Tudo está remexido
    e ninguem se entende. O sapateiro que nos vem tomar medida de umas botas
    parece um visconde. Onde isso é bonito, segundo dizem, é em Lisboa. Hoje
    todos por lá tem excellencia!

    N'estes sediços commentarios sobre o estado do seculo deixaram-se ficar
    os dois por muito tempo, desafogando assim a sua má vontade contra as
    instituições modernas. O padre Januario porém não perdia com isto a
    ideia do jantar, e de quando em quando voltava os olhos para o relogio,
    cujos lentos ponteiros não correspondiam nunca á impaciencia dos seus
    desejos. Emfim deu uma hora e frei Januario ergueu-se instinctivamente
    para ir vêr se o jantar estava servido.

    Passado pouco tempo tocava a sineta, tão grata aos ouvidos do reverendo.
    Vibraram pelos desertos aposentos e extensos corredores da Casa Mourisca
    aquelles sons, que em felizes tempos punham em movimento uma numerosa e
    esplendida côrte, que os ventos da adversidade tinham dispersado.

    D. Luiz entrou na sala do jantar, onde com impaciencia o aguardava já o
    capellão.

    Aquella grande sala vazia, aquella extensa mesa, apenas servida com
    quatro talheres, fallava tanto do esplendor passado e da decadencia
    presente, que poucos logares havia na casa que deixassem no fidalgo mais
    melancolicas impressões. Nunca se lhe anuviava tanto o coração como ao
    sentar-se á cabeceira da mesa, em torno da qual outr'ora vira rostos
    conhecidos e amigos, hoje tão solitaria e abandonada.

    D. Luiz, reparando que o escudeiro principiava a servir, perguntou,
    apontando para os logares dos filhos, que ainda estavam de vago.

    –Então os senhores não ouviram a sineta?

    –Os senhores ainda não vieram.

    –Nem Jorge?–perguntou D. Luiz, como se estranhasse menos a ausencia de
    Mauricio.

    –Nem um, nem outro.

    –O snr. D. Mauricio–observou o padre, que temia um adiamento do
    jantar–sahiu para a caça; quando virá elle agora?

    E dizendo isto, fazia signal ao criado para que servisse o fidalgo.

    –E Jorge?–insistiu o pae.

    –O snr. D. Jorge… esse não sei… talvez esteja ahi por alguma parte.

    O fidalgo, evidentemente contrariado com a ausencia dos filhos, que
    ainda mais augmentava a solidão d'aquella sala, resignou-se a principiar
    a jantar sem elles.

    O jantar correu em silencio.

    O humor negro de um dos commensaes e o appetite do outro não davam azo
    ao dialogo.

    Estava o padre deliciando-se com uma farta posta de assado e o
    competente accessorio de massas, quando Jorge entrou na sala.

    D. Luiz não lhe dirigiu a palavra, nem sequer um olhar.

    Jorge formulou uma vaga desculpa, que o pae interrompeu com um gesto a
    mandal-o sentar; e, passados momentos, levantou-se elle e sahiu
    silencioso.

    Frei Januario, tendo já satisfeito as primeiras e mais urgentes
    exigencias do seu estomago, achou-se disposto a continuar o dialogo. Por
    isso, ao encetar a sobremesa, dirigiu por comprazer a palavra a Jorge:

    –Com que vem do seu passeio, hein? A manhã estava bem bonita. E então o
    que viu por esses campos?

    –Muito trabalho, snr. frei Januario, muita vida rural–respondeu Jorge.

    –Sim, agora é o tempo das colheitas. Anda por ahi tudo azafamado.

    –Mas porque é, snr. frei Januario, que nos campos da nossa casa não
    vejo o movimento dos outros?

    A imprevista interpellação do adolescente ia entalando o padre.

    –Causou-me sensação isto hoje–proseguiu Jorge.–Quem subir ao alto do
    outeiro da Faia, por exemplo, e olhar de lá, em roda de si, para o
    valle, póde marcar as propriedades da nossa casa; onde vir um campo
    quasi maninho, um muro a cahir, umas paredes negras, um aspecto de
    cemiterio, tenha a certeza de que nos pertencem esses bens.

    –Não é tanto assim… É verdade que… meu rico filho, que quer? depois
    que os homens do liberalismo tomaram conta d'este paiz, as coisas
    mudaram. Quem não está por o que elles querem…

    –Não vejo em que elles influam para isto, snr. frei Januario. Quem nos
    impede de fazer o que os outros fazem? de cultivar os nossos campos? de
    pôr homens a trabalhar n'essas terras incultas?

    –O que os outros fazem, diz elle! Os outros… os outros… e quem são
    os outros? Uns miseraveis que eu conheci de pé descalço, a limpar os
    cavallos e a cavar nos campos d'esta casa.

    –Tanto mais para admirar e para louvar o esforço que os tirou d'essa
    posição humilde e os elevou áquella, que hoje occupam.

    –Olhem que grande milagre! Homens que não devem respeito a si mesmos,
    para quem todo o trabalho está bem, como não hão de enriquecer? Ora essa
    é muito boa!

    –E os que devem respeito a si mesmos estão pois condemnados á miseria?

    –Á miseria… á miseria!… Que palavra! Ora para o que lhe deu hoje!
    Foi febre que se lhe pegou? Se ella anda por ahi tão accêsa! O menino
    ainda é muito criança para pensar n'estas coisas. Coma e beba e…

    As faces de Jorge tingiram-se de um rubor intenso, e redarguiu com
    energia e irritação:

    –Não sou criança, frei Januario; acredite que o não sou. Tenho mais de
    vinte annos e estou resolvido a ser homem. Córo da minha ociosidade,
    quando vejo que sómente as nossas terras fazem vergonha á actividade
    d'este povo. Tenho annos para viver, deveres de honra a cumprir, um nome
    para conservar sem mancha, e quero saber que futuro me preparam os
    gerentes da nossa casa, quero desviar a tempo de mim a tremenda
    responsabilidade de ser na minha familia talvez o primeiro a faltar um
    dia aos seus compromissos. É por isso que fallei e que desejo que me
    responda, snr. frei Januario.

    –Ai, menino, menino; isso não é seu! Ahi anda doutrina liberal. Eu
    cheiro-a a distancia de legoas. Então quando o senhor seu pae me honra
    com a sua confiança, é acaso justo, é acaso bonito que eu seja
    suspeitado e interrogado por uma criança, que ainda nada sabe do mundo?

    –E quando hei de aprender? Querem-me estupido, como esses morgados que
    por ahi se arruinam?

    –Mas que quer o snr. Jorge a final? Então não sabe que desde que os
    lavradores se fizeram fidalgos, ninguem lucta com elles? O dinheiro está
    de lá; para lá vão os trabalhadores, senhor. Ora é boa! Eu acho graça a
    certa gente!

    –O dinheiro está de lá! Mas como conseguiram elles enriquecer? Pois não
    diz que eram uns miseraveis?

    –Ah! então quer principiar como elles principiaram, cavando com uma
    enxada todo o dia e furtando á bôca para juntar ao canto da caixa com o
    fim de comprar uns bois? etc. etc. Veja se quer.

    –Não principiavamos de tão longe como elles, escusavamos de tantos
    sacrificios. Bastava que olhassemos com attenção para o muito que temos
    ainda, e que tentassemos desenredar, a pouco e pouco, esta meiada, que
    nos enleia e que nos ha de afogar a todos.

    –Ora é boa! E então o que é que eu faço, o que é que estou fazendo ha
    quasi trinta e oito annos em que o snr. D. Luiz me distingue com a sua
    confiança? Mas a coisa não é tão facil, como lhe parece. É boa!

    –Mas quaes são os seus planos, padre Januario, qual é o seu systema de
    administração?

    –Os meus planos?!… Ora essa!… Então que planos quer que sejam os
    meus? Systema de administração!… isso é phrase de côrtes… Humh!
    tenho entendido… É o que eu digo… Ó snr. Jorge, ora falle-me a
    verdade, ahi andam ideias de liberalismo. Com quem fallou esta manhã?
    ora diga.

    –Venham d'onde vierem as ideias. A origem pouco importa, a questão é
    que ellas sejam boas. Eu não tracto de liberaes nem de absolutistas
    agora. Vejo que a minha casa se perde, vejo cahirem os muros e nunca se
    repararem; vejo campos e campos sem a menor cultura, encontro em tudo
    quanto nos pertence profundos signaes de decadencia, e quero saber a
    grandeza do mal que nos opprime.

    –E se fôr grande o mal, o que quer que se lhe faça?

    –Quero que se trabalhe para remedial-o; que se façam sacrificios uteis,
    que deixemos a louca vergonha e o orgulho enfatuado que nos faz viver
    hoje ainda uma vida que não é d'estes tempos. Desenganemo-nos; a época
    não é de privilegios nem de isenções nobiliarias, é de trabalho e de
    actividade. Plebeu é hoje só o ocioso, nobre é todo o que se torna util
    pelo trabalho honrado.

    –Jesus! O que ahi vae! O que ahi vae! Eu bem o digo! Ha liberal na
    costa! Isso é tão certo como dois e dois serem quatro. Se o pae o ouvia!

    –Ha de ouvir-me, porque tenciono hoje mesmo fallar-lhe.

    –Que vae fazer, snr. Jorge?

    –O meu dever. Eu e meu irmão seremos um dia os representantes da nossa
    familia. Para que nos orgulhemos do nome que herdamos, é necessario que
    esse nome não tenha manchas e que nós lh'as não lancemos.

    –Mas quem lhe diz, quem lhe falla em manchas? Ora… ora… ora… ora
    esta não está má!

    –Frei Januario, eu não sou criança, repito-o. Sel-o-ia hontem, hoje não
    o sou já. Faça de conta que o sol d'esta manhã me amadureceu. Por isso
    não me illudo emquanto á natureza dos meios com que se sustenta ainda
    n'esta casa um resto do esplendor de antigos tempos. Pois mais valeria
    comer em louça nacional e vender as matilhas e os dois cavallos de luxo,
    que ainda temos, para comprar dois bois.

    –Mas…

    –Até logo, frei Januario, conversaremos mais de espaço sobre isto.

    –Mas…

    Jorge, sem o attender, dispunha-se a sahir, quando o padre, quasi
    assustado, o chamou.

    –Mas venha cá. Ouça-me, valha-me Deus! Olhem que homem este! Tem muita
    razão no que diz. Sim, senhor. As coisas não vão bem. Hoje não é hontem;
    e esta casa já viu melhores tempos do que os que correm. Mas de quem é a
    culpa? É de mim ou do senhor seu pae? Pois não foste! Para remediar o
    mal trabalhamos nós ha muito. A culpa é d'esta gente que nos governa,
    d'estes homens que juraram perder tudo quanto era nobreza para poderem á
    vontade fazer das suas, sem ter quem lhe vá á mão. Percebe agora? Desde
    que os liberaes…

    –Por quem é, frei Januario, não me venha outra vez com os liberaes. Eu
    tenho a razão bastante clara para vêr as coisas como ellas são, e não me
    deixar levar por essa cantiga do costume. Os liberaes!… Os liberaes o
    que fizeram foi alliviar a agricultura dos enormes encargos que d'antes
    pesavam sobre ella e que não a deixavam prosperar, foi crear leis e
    instituições que facilitassem os esforços dos laboriosos e castigassem
    severamente a incuria e a ociosidade. Quando ao desopprimir-se o
    lavrador de tributos pesados e iniquos e dos odiosos vexames do fisco,
    ao tornarem-se-lhe mais faceis os contractos e as transmissões da
    propriedade, ao crearem-se-lhe recursos para elle tirar do seu trabalho
    e da sua intelligencia dez vezes mais do que d'antes podia obter, quando
    na época em que tudo isto se realisa, uma casa como a nossa, em vez de
    prosperar como tantas, vê apressada a sua decadencia, é porque tem em si
    um velho e incuravel cancro a roêl-a. E é esse cancro que eu quero
    conhecer, para extirpal-o, se ainda fôr possivel.

    –Eu estou pasmado! Pelo que ouço, acha o menino que todas essas
    fornadas de leis, que esta gente tem feito, são muito boas e que a sua
    casa devia ser muito bem servida com ellas?

    –Essas leis de que se queixa, são racionaes; uma casa racionalmente
    administrada não póde pois perder com ellas.

    –Sim, senhor! Visto isso, o menino, que depois da morte dos manos,
    ficou sendo o filho mais velho da familia, gostou talvez muito de vêr
    acabar com os morgados? Sim, como as leis modernas são tão boas, havia
    de gostar–argumentou o procurador, com ares de finura, como de quem
    apanhava em falso o seu adversario.

    Jorge respondeu serenamente:

    –E porque não? A abolição dos morgados acho eu que foi um grande acto
    de justiça e de moralidade; além de ser uma medida de longo alcance
    politico.

    –Ai… ai… ai… O que mais terei de ouvir! O menino está perdido!…
    Pois já me applaude a maldita lei, que ha de dar cabo das familias mais
    illustres do reino… Ai, como elle está!…

    –Deixe-se d'isso. A abolição dos vinculos só trouxe a morte ás casas
    que deviam morrer. O que ella fez foi proclamar a necessidade do
    trabalho indistinctamente para quem quizer prosperar. O esplendor das
    familias deve ficar sómente ao cuidado dos membros d'ellas e não da lei.
    Quando esses não tenham brio nem dignidade para o sustentar, justo é que
    elle se apague, e que o nome dos antepassados não continue a ser
    deshonrado pelos vicios e ociosidade dos descendentes. Mas deixemo-nos
    d'estas discussões, frei Januario. O meu partido está tomado. Mais tarde
    saberá das consequencias d'elle.

    E Jorge sahiu da sala, deixando o egresso apatetado com o que ouvira.

    –Que anda aqui liberalismo, isso para mim é de fé. Mas que mosca o
    morderia? Querem vêr que já fizeram do rapaz mação? Pois olhem que não é
    outra coisa. Eu quando os ouço fallar muito do trabalho… já estou de
    pé atraz. Tem graça! Quem os ouvir, persuade-se de que o trabalho é um
    prazer. Ora adeus! O trabalho é uma necessidade, o trabalho é um
    castigo. Para ahi vou eu. Que trabalho tinha Adão no paraizo? E não lhe
    chamam os livros sagrados um logar de delicias? Amassar o pão com o suor
    do rosto, olhem que titulo de nobreza! Estes modernismos! Mas é a
    cantiga da moda. O trabalho ennobrece, o trabalho consola, o trabalho é
    uma coisa muito appetitosa… Será, será, mas eu, por mim, se pudesse
    deixar de trabalhar… Ah! ah! ah.

    Aqui bocejava o egresso.

    –Mas que alli anda liberalismo, isso é tão certo como eu estar onde
    estou. Como elle fallou nos morgados!… Provará que é tão pateta que,
    sendo elle morgado, diz d'aquillo. E que vae declarar ao pae… Não
    declara nada. Um criançola que não sabe senão passear. Tomára elle que o
    deixem… O ocioso é que é o plebeu, o nobre é o que trabalha. Sim, sim,
    contem-me d'essas. Aquillo é musica de anjos. Diga-se o que é verdade,
    quem puder deixar de trabalhar…

    Frei Januario, n'estas graves ponderações, deixou-se a pouco e pouco
    invadir pelo somno, e acabou por adormecer á mesa, sonhando-se em uma
    especie de paraizo, como o tal logar de delicias de Adão, cuja
    ociosidade sempre fôra objecto muito dos seus enlevos.

    Deixemol-o adormecido, e vamos ter com Jorge a um dos menos arruinados
    angulos da Casa Mourisca.

    V

    Jorge continuou no seu quarto a serie de meditações com que trouxera
    occupado o espirito toda a manhã. Abria alguns livros, consultava-os com
    attenção, afastava-os depois com impaciencia, porque raros pareciam
    responder cabalmente ás mudas interrogações que elle lhes dirigia.

    A bibliotheca da Casa Mourisca era na maior parte composta de livros
    proprios para a cultura do espirito, mas sem definida tendencia para uma
    applicação pratica qualquer.

    Jorge tinha o gosto bem educado e não era indifferente ás obras de pura
    arte; mas d'esta vez dominava-o uma ideia fixa, um ardente desejo de se
    instruir nos preceitos positivos de economia rural, e nos conhecimentos
    necessarios para a realisação da grande obra em que meditava. Algumas
    arithmeticas, um ou outro raro folheto de agricultura e poucos numeros
    soltos de jornaes estrangeiros, foi tudo quanto pôde encontrar e que
    consultou, sem que o satisfizessem as noções rudimentares que n'elles
    lia. A pequena livraria do tio, á qual devêra grande parte dos seus
    avançados principios sociaes, estava já esgotada por elle; além de que
    não abundava em livros de indole verdadeiramente didactica.

    Depois de ter folheado por algum tempo todas essas brochuras, Jorge
    fechou os olhos, como para concentrar o espirito, e resolver só por elle
    os problemas, cuja solução em vão procurára na leitura. E a razão de
    Jorge era poderosa bastante para o servir no empenho; colheu d'ella mais
    fructos do que das paginas dos livros elementares, que anciosamente
    consultava.

    A estas cogitações veio emfim arrancal-o a chegada de Mauricio, já quasi
    ao fechar da tarde.

    Mauricio, logo que transpôz a porta, arremessou o chapéo sobre a mesa
    com certa vivacidade de movimentos, que trahia uma profunda agitação.
    Atravessou silenciosamente o quarto com passos apressados, sentou-se ou
    antes deixou-se cahir sobre uma cadeira, e correu a mão por a fronte,
    sacudindo para traz os cabellos com um movimento febril.

    Jorge, que percebeu em todos estes signaes um dos costumados frenesis do
    irmão, interrogou-o:

    –Que é isso, Mauricio? Que é o que tens? Que te succedeu lá por fóra?

    –Deixa-me, Jorge–respondeu Mauricio, levantando-se outra vez e
    pondo-se a passear no quarto.–Se soubesses como eu venho suffocado de
    raiva?

    –Contra quem?

    –Contra esta canalha d'esta gente do campo. Uns miseraveis insolentes
    que lançam a lama suja, onde nasceram e vivem, á face da gente com o
    mais intoleravel arrojo! Mas eu esmago-os com a sola da bota!

    –Bom! Temos bravatas de fidalguia! Esses arreganhos de senhor feudal
    hoje são de mau gosto, Mauricio. Olha que já passou o tempo d'elles.

    –É sempre tempo de castigar um insolente. O essencial é que se tenha
    sangue nas veias e pundonor no coração.

    –E sangue tambem no coração–emendou Jorge, sorrindo.–Olha que tambem
    é lá preciso.

    –Não rias, Jorge! Por quem és!–tornou o irmão despeitado.–Bem vês que
    fallo seriamente.

    –Então conta-me tudo. Receio que haja ahi alguma das tuas exagerações.

    –Não exagero. Esta manhã fui caçar, como sabes. Corri o monte com pouca
    felicidade; os cães pareciam ter perdido o faro. Voltava já para casa
    sem esperança, quando, alli pela Quebrada do Moinho, levantaram-se-me
    quatro codornizes; atiro-lhes, mas mal as feri. Ellas seguem na direcção
    das azenhas, atravessam os campos que estão em baixo e vão poisar no
    pinhal que fica para lá da prêsa do Queimado. Sabes? Eu desço com os
    cães, e, para não dar a volta do portello, galguei o murito da fazenda
    do Luiz da Azinhaga e ia para atravessar o campo, quando aquelle
    grosseirão do matto, aquelle villão infame sahe da casa da eira, aonde
    andava com os criados, e berra-me: «Olá, ó fidalguinho, isto aqui não é
    terra baldia, nem roupa de francezes.» Eu olhei para elle, mas não lhe
    respondi e continuei andando; elle tornou de lá, e já caminhando para
    mim: «Menino, não ouviu? Eu não quero os meus campos trilhados.» «O que
    estragar, pagarei», respondi-lhe já azedado. O estupido soltou uma
    risada insolente, e disse-me: «Com o que? Pergunte primeiro em casa se o
    que lá tem chega para pagar o que devem já.» Ouvindo isto, perdi a
    cabeça e corri para o homem, exclamando: «Para que não duvides da minha
    palavra, eu te vou já pagar uma divida, canalha.» Elle estava desarmado,
    mas recuou para pegar em uma enxada; os homens que trabalhavam na eira
    correram para mim com malhos e mangoaes; armei a espingarda logo; o
    primeiro que me ameaçasse estendia-o, palavra d'honra! N'isto ouvi uns
    gritos por detraz de mim. Era o Thomé da Povoa que passava e que correu
    a separar-nos. Fez-nos um sermão e trouxe-me quasi á força d'alli. Ahi
    tens como está esta gentalha. Já não podemos sahir sem nos arriscarmos a
    ser insultados e assassinados. Quem deu a esses miseraveis o atrevimento
    de fallar nas dividas da nossa casa?

    –Quem as contrahiu e não procura pagal-as–respondeu, triste mas
    placidamente, Jorge.

    E logo depois acrescentou:

    –Mas dizes bem, Mauricio, foi uma desagradavel occorrencia. Já vês
    agora que eu tinha razão no que te dizia esta manhã.

    –O que foi?

    –Isto não póde continuar assim, Mauricio. Nem tu nem eu temos animo
    para soffrer humilhações, e ellas são inevitaveis.

    –Inevitaveis?! Eu te juro…

    –Não jures; não é pela violencia que os obrigaremos a calar. Ou, se se
    calarem, tem a certeza de que o olhar com que nos seguirem, o pensamento
    que lhes despertarmos, serão para nós igualmente humilhantes. Ha muito
    que eu adivinho esse pensamento na maneira por que nos fitam. E foi isso
    que me fez pensar.

    –Mas que intentas fazer então? Qual é o teu plano?

    –Fazer-me respeitado; mostrar que não sou inferior a elles.

    –Sim, mas de que maneira?

    –Resgatando a nossa casa, calando com a paga a bôca d'esses credores
    insolentes, e collocando-nos, pela prosperidade das nossas terras, ao
    lado d'elles todos, e acima, pela nobreza dos nossos sentimentos.

    –Queres então fazer-te lavrador?

    –Quero trabalhar. Olha, Mauricio, tenho pensado muito estes ultimos
    dias, e hoje mais do que nos outros. A nossa regeneração depende de nos
    despirmos dos preconceitos sem fundamento, com que nos educaram. A nossa
    perda é uma inevitavel e justa consequencia do nosso louco modo de
    pensar e de viver, do nosso falso orgulho e dos nossos habitos viciosos.
    Pois que quer dizer este infatuamento com que fallamos dos nossos avós?
    Qual foi a acção nobre, magnanima, que deu tal esplendor a nossa
    familia, que se não possa apagar esse esplendor com a vida de
    ociosidade, de desleixo e de dissipação ingloria que levamos? A chronica
    não é clara a esse respeito. Tivemos guerreiros que morreram pela
    patria, é nobreza, de certo; mas quantos soldados obscuros não existiram
    entre os ascendentes d'esses pobres homens que por ahi ha, tão heroes
    como os nossos, mas ignorados? tivemos um ou dois bispos; elles, algum
    pobre sacerdote, modesto e humilde, que fez por ventura mais serviços á
    religião do que o nosso parente mitrado; mas não lhes deu isso nobreza.
    O que lhes faltou talvez foi um avoengo que prestasse serviços
    particulares a algum rei benevolente, que em compensação o fez nobre por
    toda a eternidade; porque tambem ha d'estas raizes em muitas arvores
    genealogicas; desengana-te.

    –Estás eivado de uma philosophia democratica e revolucionaria, que não
    sei onde te levará, Jorge. E em vista d'isso que resolves?

    –Resolvo não continuar a merecer essas humilhações, que não posso
    deixar de reconhecer que são justas. Elles teem mais direito de nos
    desprezar do que nós a elles.

    –Desprezar-nos!–repetiu indignado Mauricio.

    –Sim, sim; desprezar-nos. E senão repara. A nossa casa deve muito.
    Grande parte dos nossos bens estão hypothecados. O nome da nossa familia
    não é já segura garantia nos contractos, e os emprestimos, que todos os
    dias os nossos procuradores contrahem, são obtidos por um preço que em
    pouco tempo nos levará á miseria. Na aldeia todos sabem isto. Não queres
    pois que nos desprezem, ao verem-nos, rapazes de vinte annos, robustos,
    e com energia e intelligencia, gastar ociosamente a vida e a juventude
    em passeios e em caçadas, olhando por cima do hombro para esses homens
    que talvez ámanhã, authorisados por a lei, nos virão pôr fóra de nossas
    casas e tomar posse d'ellas? É acaso nobre este nosso proceder,
    Mauricio? Esta cegueira, com que vamos na corrente que nos arrasta ao
    precipicio, não merece pelo menos um sorriso de compaixão?

    –Tu exageras, Jorge. Acaso teremos já chegado a taes extremos, que…

    –Nem tu imaginas a que extremos temos chegado; mas ainda nos poderemos
    salvar, se quizermos ser homens.

    –E como?

    –Mudando de vida, applicando-nos devéras á restauração d'esta casa.

    –Mas…

    –D'aqui a pouco tenciono procurar o pae e fallar-lhe desenganadamente,
    pedir-lhe que me deixe olhar por mim proprio para a administração das
    nossas propriedades, que nas mãos de fr. Januario caminham a uma perda
    certa.

    –Mas que entendes tu de administração?

    –Aprenderei. O interesse é um grande mestre. Não tiveram outro esses
    rusticos proprietarios, que por ahi vemos enriquecer.

    Mauricio ficou pensativo.

    A ideia do irmão parecia havel-o ferido profundamente. Estava-lhe
    achando um sabor de poesia que lhe agradava. Porque Mauricio, não tendo
    o caracter meditativo e o espirito analytico de Jorge, era nas coisas da
    vida guiado mais pela imaginação do que pela razão. Se uma causa o
    seduzia, adoptava-a, sem a julgar. Igualmente a rejeitaria, se á
    primeira intuição lhe desagradasse. Era tão facil de se enthusiasmar por
    o que ao principio repellira, que não se podia ter muita confiança
    n'aquelle ardor. Lavrava muito depressa a lavareda para ser de longa
    duração.

    Assim aconteceu d'esta vez, pois voltando-se para Jorge, disse-lhe com
    uma impetuosidade juvenil:

    –Dizes bem, Jorge. O nosso dever manda-nos acabar com esta vida de ocio
    e de inutilidade. É assim. É preciso que sejamos homens. Temos uma
    missão a cumprir, generosa e nobre. Trabalhemos. O trabalho traz comsigo
    a recompensa e os gozos. De certo deve sentir-se orgulhosa e satisfeita
    a alma do que trabalha, porque vê que cumpre um dever. O que se nos
    figura fadiga é prazer. Pois não te parece que um escriptor, por
    exemplo, deve ser feliz nas horas de composição? e que o artista curvado
    sobre os instrumentos do seu officio, e o lavrador vergado no campo, nem
    sequer sentem o suor que lhes corre da fronte? Tens razão, trabalhemos,
    a poesia visitar-nos-ha nas nossas horas de labor, e não nos deixará
    sentir saudades dos perdidos ocios de fidalgo.

    Jorge escutava o irmão com um sorriso triste e innocentemente malicioso,
    e commentava com um movimento de cabeça uma e outra d'estas estrophes em
    honra do trabalho. Quando Mauricio concluiu, elle ponderou-lhe com a sua
    habitual serenidade:

    –Valha-te Deus, Mauricio, que estás tu ahi a dizer? Não sonhes nem
    adoptes uma resolução séria, como a de que fallo, sob o dominio d'essas
    illusões. Vê as coisas como ellas são. O trabalho é nobre por certo, mas
    a poesia d'elle nem sempre a percebe quem muito de perto lhe conhece as
    fadigas. Não vás seduzido para a carreira do trabalho, porque cedo te
    desanimaria um cruel desengano. É preciso entrar n'isto guiado pela
    razão, e não por um enthusiasmo fugaz. O escriptor nas horas de
    composição, e principalmente o artista e o lavrador nas fadigas do seu
    mister, não teem esses gozos que fantasias; antes devem sentir muitas
    vezes grandes desalentos e grandes fastios. O que os estimula, mais do
    que a poesia, é o dever. Recompensas ha, não nego que as haja, além das
    materiaes. Deve haver uma certa tranquillidade de consciencia, uma
    ausencia de remorsos, isto de um homem poder fitar sem vergonha os que
    trabalham a seu lado, como se lhes dissesse: «Tambem tenho direito a
    viver.» Isso sim; mas o ideal, que sonhas, anda longe das officinas, das
    fabricas e dos gabinetes de estudo, ou se ahi penetra, é á maneira
    d'aquelles deuses do paganismo, que acompanhavam invisiveis os heroes
    que protegiam. Estarás sob a influencia d'elle, mas não o verás. Se a
    contemplação d'essa divindade é a recompensa que esperas, deixa-te antes
    ficar a montear por estas aldeias.

  • Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 07

    Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 07

    Aproximadamente 50.547 palavras.

    Produced by Carla Martins Ramos, Ricardo Diogo, and Tiago
    Tejo and edited by Rita Farinha (Biblioteca Nacional
    Digital–http://bnd.bn.pt).

    OPUSCULOS

    *OPUSCULOS*

    POR

    A. HERCULANO

    SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA

    SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA

    SOCIO CORRESPONDENTE DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID DO INSTITUTO
    DE FRANÇA (ACADEMIA DAS INSCRIPÇÕES) DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE
    TURIM DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA-YORK, ETC.

    *TOMO VII*

    *QUESTÕES PUBLICAS*

    TOMO IV

    1.^a EDIÇÃO

    LISBOA

    TAVARES CARDOSO & IRMÃO–EDITORES

    _5, Largo de Camões, 6

    1898

    Typ. da Empreza Litteraria e Typographica

    Rua de D. Pedro, 184–Porto

    ADVERTENCIA

    O inedito em forma de projecto de decreto insérto n'este volume com a
    data de 1851, e de certo modo os estudos que o volume encerra relativos
    ao concelho de Belem, relacionam-se com factos pouco conhecidos da vida
    do auctor, e por isso expomos sobre elles os seguintes esclarecimentos
    para sua melhor intelligencia. Em 1851 combinara A. Herculano collaborar
    com o ministerio que subiu ao poder em 23 de maio d'esse anno, em um
    vasto plano de reformas destinadas a melhorar o estado economico,
    politico e administrativo do nosso paiz. Com esse proposito se prestou a
    entrar em varias commissões não remuneradas para que foi nomeado,
    entregando-se desde logo á sua patriotica empresa. Mas este pacto tão
    esperançoso para o paiz, apenas pôde manter-se por alguns dias, antes da
    recomposição ministerial de 7 de julho do mesmo anno, cessando de todo
    quando ella occorreu. Dos trabalhos de que o historiador se encarregara
    e em que n'aquelle breve espaço de tempo pozera mão, ainda por morte
    d'elle se conservavam nas suas pastas apontamentos e manuscriptos em
    diversos estados de desenvolvimento; e foi entre esses vestigios de um
    formoso sonho patriotico, que achamos aquelle projecto que, pela materia
    de que tracta, nos pareceu dever ser incluido no presente volume. Com
    esse projecto pretendia A. Herculano promover em grande escala a cultura
    dos nossos terrenos maninhos, especialmente a dos que eram vinculados,
    facultando a alienação do dominio util d'estes ultimos, por meio de
    emphyteuse, e interessando na acquisição d'elles o povo do campo e na
    cessão os administradores de vinculos. No preambulo, como o
    apresentâmos, faltam algumas considerações com que o auctor o precedeu
    ácerca do alcance economico dos decretos dictatoriaes de D. Pedro IV,
    pois que do respectivo manuscripto apenas apurámos fragmentos truncados;
    mas a omissão não o prejudica quer na redacção quer na doutrina, quanto
    ao seu essencial objectivo, sendo certo que o assumpto de taes
    considerações está largamente tractado pelo auctor no seu estudo sobre
    vinculos publicado no vol. IV d'esta collecção. Com o conhecimento
    d'este estudo facil nos foi deduzir da leitura de um dos referidos
    fragmentos, que A. Herculano attribuia ao seu projecto a vantagem de
    poder obstar a que os maninhos que se tornassem allodiaes pela extincção
    dos vinculos, viessem a accumular-se, malbaratados e incultos, nas mãos
    de poucos e já abastados proprietarios, á similhança do que succedera
    com muitos dos bens territoriaes que as leis de D. Pedro libertaram para
    o dominio do estado. A extinccão dos vinculos viria depois, com maior
    proveito de todos os interessados incluindo a sociedade. Em outro dos
    fragmentos se lê que o governo tencionava mandar rever o decreto de 22
    de junho de 1846, sobre foraes, para o reconduzir ao genuino pensamento
    do decreto de 13 de agosto de 1832, sobre a mesma materia, aclarando-se
    tambem as disposições d'este ultimo. Mas alguns annos depois, como se
    conclue de uma correspondencia que o auctor mandou para o _Archivo
    Rural_ e que fecha este volume, já elle achava tarde para se proceder a
    essa revisão, attenta a multiplicidade de transacções já então
    effectuadas segundo a lei de 1846.

    Quanto aos estudos relativos ao concelho de Belem são do tempo em que A.
    Herculano presidiu á camara municipal d'aquelle concelho, no biennio de
    1854-1856, e constam de duas representações da camara, uma ao governo,
    outra ás côrtes, e de um projecto de _Caixa de Soccorros Agricolas_.
    Foram todos publicados em folhetos e vão reproduzidos no presente volume
    apenas com leves emendas de revisão que o auctor deixou indicadas. Estes
    importantes estudos e a presença do auctor na vereação do concelho,
    tambem se relacionam com os factos politicos a que acima nos referimos.
    A medida administrativa traduzida pelos decretos de 11 de setembro de
    1852, que extinguiram o termo de Lisboa e com elle constituiram os
    concelhos de Belem e dos Olivaes, estava incluida no plano de reformas
    do ministerio de 23 de maio de 1851; mas o ministerio seguinte não
    attendera n'estes diplomas a todas as razões de justiça em que ella
    devia basear-se, succedendo que os novos concelhos ficaram privados dos
    recursos a que tinham natural direito e lhes eram imprescindiveis para
    prover á sua livre administração e manter a sua independencia. Como as
    opiniões de A. Herculano n'esta materia e a sua intervenção n'aquelle
    plano de reformas eram conhecidas de muitas pessoas influentes do
    concelho de Belem, d'ahi nasceu a idea de o investirem no encargo de
    vereador, para que elle viesse reclamar contra a injustiça e aclarar o
    pensamento originario da medida decretada. Accresce que em 1854 o
    ministerio ainda era o mesmo que referendara aquelles decretos, e d'este
    modo se explica a eleição do historiador e pelo theor das representações
    da camara se ajuiza de toda a questão. Porém, não foi apenas para
    satisfazer aquelles justificados designios dos seus constituintes que A.
    Herculano acceitou o encargo popular para que fôra eleito. Uma aspiração
    mais elevada, sobrelevando quaesquer intuitos politicos, o guiou n'esse
    procedimento, aspiração que se revelou em todos os actos da camara da
    sua presidencia, e accentuadamente se patenteia nos estudos de que
    falamos: era crear no concelho de Belem uma norma de administração local
    que, tornando-o florescente, podesse servir de incentivo a outros
    concelhos: era tentar a propaganda do municipalismo pelo exemplo, já que
    em 1851 lhe escapara o ensejo para fazer revigorar em todo o paiz, a
    grande instituição que elle tanto encarecia e que, segundo as suas
    profundas investigações historicas, foi n'outras éras a base da nossa
    prosperidade e força politica.

    Não é para este logar a narração de como a camara presidída por A.
    Herculano veio a ser dissolvida pelo governo, não conseguindo o
    historiador levar a cabo a sua nobre tentativa. Os esclarecimentos que
    ficam expostos são bastantes para o fim a que se destinam.

    1898.

    Os editores.

    DUAS EPOCHAS E DOUS MONUMENTOS OU A GRANJA REAL DE MAFRA

    1843

    Houve entre nós um rei nascido com uma indole generosa e magnifica: foi
    D. João V. Favoreceu a fortuna a grandiosidade do seu animo. Durante o
    reinado d'este principe as entranhas da America pareciam converter-se em
    ouro, e a terra brotar diamantes para enriquecerem o thesouro portuguez,
    e o nosso primeiro rei do seculo XVIII pôde emular Luiz XIV em fasto e
    magnificencia. Ha, porém, differenças entre os dous monarchas: Luiz XIV,
    mais guerreador que guerreiro, malbaratou o sangue de seus subditos em
    conquistas estereis; D. João V, mais pacífico que timido, comprou
    sempre, sem olhar ao preço, a paz externa dos seus naturaes. Luiz XIV
    levou a altissimo gráu d'esplendor as letras e as sciencias: D. João V
    tentou-o; mas ficou muito áquem do principe francez. Devemos todavia
    lembrar-nos de que Luiz XIV era senhor de uma vasta monarchia, e D. João
    V rei de uma nação pequena. Uma litteratura extensa e ao mesmo tempo
    vigorosa só apparece onde ha muitos homens. É como a grande cultura, que
    só pode fazer-se em opulentas propriedades e dilatados terrenos.

    D. João V teve como Luiz XIV o seu Louvre; mas um Louvre em harmonia com
    o caracter, não tanto religioso como beato e hypocrita, do seu paiz
    n'aquella epocha. Mafra ficou duvidosa no desenho, entre o mosteiro e o
    palacio. As duas entidades architectonicas compenetram-se ahi d'um modo
    inextricavel. A púrpura está lá remendada de burel; o burel alindado com
    púrpura, e o sceptro do rei enlaça-se com a corda d'esparto, ao passo
    que a alpargata franciscana ousa pisar os degráus do throno. Os que
    sabem quão corrompidos foram os costumes em Portugal no princípio do
    seculo passado, e quão esplendido e ostentoso foi o culto divino; quão
    brilhante foi a côrte portugueza n'esse tempo, e por quão frouxas mãos
    andou o leme do estado, não precisam vêr Mafra. Mafra é a imagem de tudo
    isso.

    Um grande edificio, fosse qual fosse o destino que seu fundador lhe
    quizesse dar, é sempre e de muitos modos um livro de historia. Os que
    n'elle buscam só um typo por onde aferir o progresso ou decadencia das
    artes na epocha da sua edificação, lêem apenas um capitulo d'esse livro.
    Os castellos, os templos, e os palacios, triplice genero de monumentos
    que encerra em si toda a architectura da Europa moderna, formam uma
    chronica immensa, em que ha mais historia que nos escriptos dos
    historiadores. Os architectos não suspeitavam que viria tempo em que os
    homens soubessem decifrar nas moles de pedras affeiçoadas e accumaladas
    a vida da sociedade que as ajuntou, e deixavam-se ir ao som das suas
    inspirações, que eram determinadas pelo viver e crêr e sentir da geração
    que passava. Elles não sabiam, como os historiadores, que no seu livro
    de pedra, tambem como nos d'aquelles, se podia mentir á posteridade. Por
    motivo tal foi a architectura sincera.

    Mafra é um monumento rico, mas sem poesia, e por isso sem verdadeira
    grandeza: é um monumento de uma nação que dormita após um banquete como
    os de Lucullo: é o toucador de uma Lais ou Phrine assentado dentro do
    templo do Deus dos christãos, e sob outro aspecto, é a beataria d'uma
    velha tonta, affectando a linguagem da fé ardente e profunda d'Origines
    ou de Tertulliano.

    Sem contestação, Mafra é uma bagatella maravilhosa, o dixe de um rei
    liberal, abastado e magnifico; é pouco mais ou menos o que foi Portugal
    na primeira metade do seculo XVIII.

    Collocai pela imaginação Mafra ao pé da Batalha, e podereis entender
    quanto é clara e precisa a linguagem d'estas chronicas, lidas de poucos,
    em que as gerações escrevem mysteriosamente a historia do seu viver. A
    Batalha é grave como o vulto homerico de D. João I, poetica e altiva
    como os cavalleiros da ala de Mem Rodriguez, religiosa, tranquilla,
    santa como D. Philippa rodeada dos seus cinco filhos. As mãos que
    edificaram Santa Maria da Victoria, meneando as armas em Aljubarrota,
    deviam ser vencedoras. A Batalha representa uma geração energica, moral,
    crente: Mafra uma geração afeminada, que se finge forte e grande. A
    Batalha é um poema de pedra: Mafra é uma semsaboria de marmore. Ambas,
    ecchos perennes que repercutem nos seculos que vão passando a expressão
    complexa, e todavia clara e exacta, de duas epochas historicas do mesmo
    povo, sua juventude viçosa e robusta, e sua velhice cachetica.

    O caracter de um monumento do tempo presente não póde ser por certo um
    edificio gigante, um templo, ou um palacio. Onde as crenças religiosas
    vacillam como a luz que se apaga, o templo seria uma pagina de historia
    fabulosa: onde a pobreza extrema substitue a riqueza, um tanto estupida
    e fastosa com mau gosto, o palacio esplendido seria um capitulo
    anachronico. O monumento deve resumir a sociedade, e em nenhum d'esses
    generos de _memoradum_ se acharia representado o actual existir.

    Que somos nós hoje? Uma nação que tende a regenerar-se: diremos mais:
    que se regenera. Regenera-se, porque se reprehende a si propria; porque
    se revolve no lodaçal onde dormia tranquilla; porque, se irrita da sua
    decadencia, e já não sorri sem vergonha ao insultar d'estranhos; porque
    principia, emfim, a reconhecer que o trabalho não deshonra, e vai
    esquecendo as visagens senhorís de fidalga. Deixai passar essas paixões
    pequenas e más que combatem na arena politica, deixai fluctuar á luz do
    sol na superficie da sociedade esses corações cancerosos que ahi vêdes;
    deixai erguerem-se, tombar, despedaçarem-se essas vagas encontradas e
    confusas das opiniões! Tudo isto acontece quando se agita o oceano; e o
    mar do povo agita-se debaixo da sua superficie. O sargaço immundo, a
    escuma fétida e turva hão-de desapparecer. Um dia o oceano popular será
    grandioso, puro e sereno como sahiu das mãos de Deus. A tempestade é a
    precursora da bonança. O lago asphaltite, o Mar-Morto, esse é que não
    tem procellas.

    O nosso estrebuxar, muitas vezes colerico, muitas mais mentecapto e
    ridiculo, próva que a Europa se enganava quando cria que esta nobre
    terra do ultimo occidente era o cemiterio de uma nação cadaver. Vivemos:
    e ainda que similhante viver seja o delirio febril de moribundo, esta
    situação violenta, aos olhos dos que sabem vêr, é uma crise de salvação,
    posto que dolorosa, e lenta. Confiemos e esperemos: o nome portuguez não
    foi riscado do livro dos eternos destinos.

    Um dos signaes evidentes da restauração social do paiz, e ao mesmo tempo
    o caracter mais notavel que distingue esta epocha é o seu movimento
    industrial, industrial na mais extensa significação da palavra. Primeira
    entre as differentes industrias é a agricultura, e a agricultura tem
    incontestavelmente sido o nosso principal progresso.

    Qual será portanto o monumento que melhor resuma este periodo de
    regeneração? Será o aspecto do solo, o viço dos campos, a abundancia
    substituida á escaceza na morada do homem laborioso. Arroteai algumas
    geiras de terra: em um marco esculpi a data d'essa transformação: cobri
    a superficie de Portugal d'estes marcos. Eis ahi, não um, porém mil
    monumentos que significarão o espirito do presente.

    Plantai o bosque na serrania escalvada: que elle braceje virente para o
    céu, e enrede as suas raizes nas rachas da penedia. Agitada pelo vento,
    a selva com o seu rugir irá contando a cada seculo que nascer as
    tendencias laboriosas do nosso, que já começam a apparecer. Os cimos das
    montanhas são as verdadeiras aras de Deus: é lá que oravam as nações
    virgens. Sanctificai a vossa religião de patriotismo pelo culto
    universal e primitivo: o bosque murmurando com o espirar da aragem é um
    hymno ao Ancião dos Dias: que este hymno nos consagre a memoria ao amor
    e gratidão de nossos filhos!

    Ao lado dos paços monasticos de Mafra, monumento de uma era de vans
    grandezas, vai-se hoje alevantando sem ruido o monumento modesto, mas
    eloquente e sancto, da idéa progressiva da actualidade. Ao lado d'essas
    pedras amontoadas, d'esses torreões gigantes, macissos, e pesadamente
    estupidos, serpeam já os prados virentes por veigas e valles, cobertos
    ainda ha pouco de abrolhos e urzes. Contrastando com os lanços de
    muralhas caiádas da ochre, que amarelleja bestialmente, como um cordão
    de ouropel enfiado em diamantes, por entre a côr severa dos marmores
    tisnados pelo tempo, vêem-se ao longo verdejar os pinheirinhos, que
    coroam as alturas ao norte e oriente d'aquelle edificio monstruoso,
    hybrido, e extravagante como uma composição pseudo-poetica da
    Phenix-Renascida. As folhas de terra cultivada dilatam-se pelas chapadas
    e encostas, várias na côr segundo a altura das cearas, ou conforme a
    qualidade do solo, nos sitios onde ainda as sementeiras não surgem no
    comêço do germinar. É como um xadrez enorme, cujas casas se houvessem
    repartido ao acaso n'um taboleiro irregular e immenso.

    A vontade real fez apparecer o edificio: outras Vontades Reaes fizeram
    nascer a granja-modelo. Para a primeira requeria-se ouro e força; para a
    segunda intelligencia e amor do paiz. O sceptro foi robusto e potente
    quando amontoou aquella penedia lavrada e esculpida: o sceptro é o
    symbolo da paz e da beneficencia quando em vez de converter pão em
    pedras, converte gandra bravia e esteril em um nobre exemplo que mostre
    ao povo onde está a sua derradeira esperança, o progresso da industria e
    o amor do trabalho.

    Para a maravilhosa inutilidade de D. João V gastaram-se por largos annos
    os milhões que de continuo nos entregava a America: o lidar accumulado
    de cincoenta mil homens consumiu-se em desbastar e pulir essas pedras
    hoje esquecidas, que apenas servem para alimentar por algumas horas a
    curiosidade dos que passam. É uma verdade cem vezes repetida, que o
    preço de Mafra teria coberto Portugal das melhores estradas da Europa;
    mas nem por ser trivial essa verdade deixa de ser dolorosa. E todavia
    tal preço era o menos! As maldiccões submissas dos que foram arrastados
    de todos os angulos da monarchia, para esta grande anudúva nacional, e
    as lagrymas das suas familias, não as pôde suffocar a adulação cortezã;
    transsudaram até nós nas paginas da historia, e cahindo sobre o ataúde
    dourado do principe que as fez verter, deixaram a inscripção do seu nome
    manchada de uma nódoa que o tempo não gastará.

    A vasta e risonha granja que viceja ao lado do negro e carrancudo
    edificio não custou uma só mealha dos dinheiros publicos; não arrancou
    uma lagryma. Não são maldicções o seu fructo: são bençãos dos que vivem:
    serão no futuro bençãos da posteridade.

    O convento-palacio, nascido sob manto de púrpura, alegre na sua
    juventude e habituado a pompas de longos annos, ahi está, illustre
    mendigo, assentado hoje n'um como ermo, onde a vida robusta de seculos
    que lhe fadára o fundador, se vai convertendo em antecipada decrepidez.
    Inutilmente com a sua grande voz de bronze elle pede que o abriguem das
    injurias das estacões. As aguas do céu, filtrando-lhe por entre os
    membros, lá os vão lentamente desconjuntando, o sol cresta-lhe a fronte
    e faz prosperar os musgos, que lhe arrugam a rija epiderme: o vento
    redemoinha atravez das suas janellas mal seguras, e bramindo n'aquellas
    solidões do seu recinto, atira ao rosto das estatuas, aos acanthos dos
    capiteis, á face polida das paredes de marmore, o pó que tomou nas azas
    passando pelas serranias. No meio do estrepitar do mundo ninguem escuta
    o gemer do gigante de pedra; ninguem se lembra de tirar do peculio do
    estado a mais pequena somma para elle. E porque? Porque a sua miseria
    não fala aos corações nem aos entendimentos. Memorias gloriosas? Não as
    ha lá. Utilidade? Para que serve essa pedreira immensa?

    A granja, porém, de Mafra nem teme as aguas do céu, nem os raios
    creadores do sol: povôa os seus agros outeiros de pinhaes, a cujo abrigo
    zombará em breve da furia dos ventos. Não vae pedir soccorros á
    munificencia publica: util já aos pequenos e humildes, sê-lo-ha tambem
    algum dia a quem a fez nascer, util em proveitos materiaes, e, o que
    mais vale, em fructos de verdadeira gloria.

    Ha quatro annos apenas, que os muros da cêrca ou tapada de Mafra,
    estirando-se como serpe monstruosa por tres leguas, atravez de valles e
    outeiros, encerravam um vasto maninho coberto de sarças rasteiras, onde
    raro se via alevantar uma arvore solitaria, curva e pendida pelo açoutar
    continuo das ventanias, ou algum pequeno e enfezado pinhal perdido no
    meio d'aqueles mattos inuteis. Era um symbolo de barbaria ao pé d'um
    symbolo de opulencia. O edificio e o parque pareciam significar no seu
    conjuncto–o orgulho tendo por fundamento o nada.

    Ha tres annos ordenaram SS. MM. se começassem a desbravar esses terrenos
    incultos. O actual intendente das cavalheriças reaes, o Snr. A. Severino
    Alves, foi encarregado de administrar as caudelarias alli estabelecidas,
    e da direcção daquelle arroteamento. Obra de uma sexta parte da tapada
    mais proxima do edificio destinou-se immediatamente para a cultura, e os
    trabalhos principiaram. O estado em que estes se acham, comparado com as
    despezas, proporcionalmente diminutas, que se tem feito, provam que
    talvez houvesse quem fosse tão digno de ser encarregado de realisar o
    pensamento generoso, nobre, e civilisador dos nossos Principes, mas que
    ninguem por certo o seria mais que o Snr. A. Severino Alves.

    O que vamos dizer não é completo; não é a historia particularisada de
    tudo que examinámos com os proprios olhos; porque não queremos ser
    prolixos. O nosso intento é vêr se contribuimos para o verdadeiro
    progresso da terra em que nascemos. Se os grandes ou pequenos
    proprietarios que abandonam os seus campos e herdades, ou que desprezam
    os meios de os tornar mais productivos, se mostram surdos ao bradar da
    imprensa e de todos os homens sisudos, revocando esta malaventurada
    nação á actividade e ao trabalho, que se envergonhem ao menos com o
    exemplo que lhes dá o throno. Em quanto os governos e os parlamentos
    ponderam a conveniencia, a necessidade do estabelecimento das quintas de
    estudo, em Mafra, sem ruido, sem verbosos relatorios e discursos, se vae
    estabelecendo e aperfeiçoando uma granja modelo, que esperâmos faça
    sentir dentro de pouco á agricultura portuguesa o seu benefico influxo.
    Certos de que SS. MM. se collocarão á frente do movimento agricola do
    paiz, porque o augmento da agricultura deve trazer a prosperidade aos
    seus subditos, n'este jornal, que se derrama por todos os angulos de
    Portugal, daremos noticia das experiencias que se forem fazendo, dos
    melhoramentos que se forem introduzindo nas propriedades do apanagio da
    Corôa. A nossa situação especial nos habilita para obter a este respeito
    exactas informações. A utilidade que d'ahi possa resultar aos
    agricultores, retribuam-n'a elles em gratidão aos Principes que souberam
    ser dignos do amor dos portuguezes, e entenderam plenamente o grave e
    progressivo pensamento d'este seculo.

    Escolhida a porção de terreno na tapada de Mafra, que se devia destinar
    á cultura, dividiu-se aquella parte em oito grandes tractos ou folhas,
    cujo arroteamento se tem seguido successivamente e sem interrupção até
    hoje.

    O systema adoptado para este fim foi o melhor que era possivel imaginar.
    Alem da cultura feita á custa da Casa Real, vão-se distribuindo aos
    habitantes da villa de Mafra os terrenos que elles querem desbravar. O
    inteiro uso-fructo d'estes terrenos fica pertencendo por tres annos a
    quem os converte de maninhos que eram em terras araveis, e ainda que o
    solo da tapada me pareça de inferior qualidade, e se achasse muito
    deteriorado pelas plantas ruins de que estava coberto, todavia essa
    cultura tem dado excellentes resultados. A producção da batata, planta
    tão conveniente para terrenos arroteados de novo, ha sido tal, que no
    anno passado se alevantaram na tapada 1:800 carradas d'este util solano,
    cuja introducção na Europa tornou impossiveis as fomes espantosas, que
    de annos a annos lhe desbastavam a povoação. N'essas encostas e veigas
    onde, tão pouco tempo ha, os olhos esmoreciam alongando-se pelos
    sarçaes, vêem-se estendidas as searas, os campos de milho e os batataes,
    e nos rostos dos habitantes da villa e dos povoádos circumvisinhos, e
    nos seus trajos e porte, vê-se que se o amor da taberna tem diminuido,
    os habitos do trabalho, e por isso a abastança tem augmentado.

    Mais de vinte egoas, mãis e filhas, e de quarenta poldros, constituem já
    uma caudelaria que vai adquirindo rapido crescimento. Cincoenta vaccas
    entre as de casta vulgar, torinas e de uma excellente raça asiatica, ahi
    são tractadas com esmero talvez não inferior ao que se emprega na
    começada caudelaria. Os estabulos e curraes, ordenados pelos melhores
    methodos modernos, e com attenção a importantes considerações
    hygienicas, seriam um bom modelo para aquelles que pensam reduzir-se o
    tratamento dos gados unicamente a dar-lhes muito de comer, não importa
    se bom ou máu.

    Ainda que na granja de Mafra os animaes sejam alimentados, por via de
    regra, á manjadoura, systema hoje aconselhado nos paizes mais adiantados
    como preferivel por graves motivos, nem por isso deixa de haver n'este
    estabelecimento agricola muitos prados pastaveis, compostos, alem da
    azevem, de uma mistura de certo numero d'aquellas plantas de que
    separadamente se compõem os artificiaes. Estes, porém, merecem com razão
    os especiaes cuidados do Snr. Severino Alves.

    As plantas que constituem estes prados, tanto regados como seccos, são a
    luzerna, os trevos, branco e encarnado, o onobrychis (sainfoin), a
    anafa, a cenoura, e a ervilhaca. A cultura d'algumas d'estas forragens
    ainda se limita a diminutas experiencias, mas a de outras já tem
    adquirido bastante extensão. Admirámos sobretudo um luzernal, onde o
    methodo da transplantação produziu magnificos resultados. Cada pé de
    luzerna lançando em roda os seus muitos rebentões ou filhos, fórma uma
    especie de mouta robusta, que produz em cada córte muito maior porção de
    pasto do que produziria uma superficie egual á que occupa, semeada de
    luzerna que não fosse transplantada.

    O incremento que estes prados podem ter n'aquelles, d'antes tão pobres e
    tristes, hoje tão ricos e risonhos terrenos, é d'extrema importancia.
    Duas enormes lagôas, uma das quaes é constantemente refrescada e
    supprida por uma pequena veia d'agua perenne, foram limpas e vedadas
    construindo-se canos subterraneos por onde se hajam de sangrar
    convenientemente. Estas lagôas, collocadas em certa altura, podem regar
    um valle extensissimo, optimo para o augmento de prados.

    A silvicultura, essa parte tão interessante e tão bella da sciencia de
    agricultar, tem em Mafra um terrivel inimigo–o noroeste. Este vento
    sopra ahi com violencia extraordinaria. Alguma arvore silvestre, que
    vivia solitaria no meio d'aquelles mattos rasteiros, vergada para sueste
    na altura das arrancas, estende rachytica os seus ramos açoutados pelas
    ventanias quasi parallelos com a terra. Estabeleceu-se porém um systema
    d'abrigos, que deve dentro d'alguns annos tornar não só possivel, mas
    até facil, a propagação de arvores de floresta e de fructo. Os
    pinheirinhos bravos (_pinus maritima_) cobrem já os cabeços escalvados
    que se alevantam por meio das chapadas, encostas, e valles, e os
    castanheiros, carvalhos, e azinheiros bordam os caminhos: estes bosques,
    quando crescidos, annullarão em grande parte a violencia dos ventos, e
    então será possivel o plantio de outras arvores silvestres e
    fructiferas, principalmente das oliveiras, de que já se vão preparando
    extensos e bem ordenados viveiros.

    Uma consideração que occorre naturalmente ao imaginar similhante
    extensão de cultura, é a dos adubos, e a do modo de os fazer
    progressivamente augmentar. Ácerca d'este ponto capitalissimo, daremos
    brevemente curiosas e interessantes noticias, em um artigo especial.
    Então teremos occasião de falar dos differentes methodos de amanhar as
    terras, que progressivamente se vão introduzindo na granja de Mafra.

    Os instrumentos aratorios e mais machinas do serviço agricola são
    construidos no mesmo estabelecimento em officina para isso
    principalmente deputada. Ahi se encontra a charrua ingleza, a araveça
    grande de uma aivéca, a pequena de duas, o semeador, as grades
    triangulares e de diversos feitios, o trilho de debulhar, o engenho de
    traçar cevada, carros inglezes, etc., alem dos instrumentos proprios do
    paiz construidos com perfeição.

    Tal é o rapido quadro da transformação que apresenta uma parte d'esses
    maninhos inuteis da tapada de Mafra. Importante em si, similhante
    transformação muito mais o tem sido pela influencia que o exemplo produz
    n'aquelles arredores: o agricultor, que por assim dizer palpa as
    vantagens que resultam de um systema illustrado de agricultar, vae
    abandonando as suas grosseiras usanças, que todos os discursos dos
    livros não alcançariam estirpar. Mafra está sendo um fóco de luz, uma
    fonte de progresso agricola. Entre os beneficios que tem produzido este
    é porventura o maior. Aquella vasta granja, se proporciona a muitos
    abastança, o alimento para o corpo, offerece a muitos mais as revelações
    da sciencia–o alimento para o espirito.

    O edificio ahi está mendigo, abandonado, canceroso já, e inutil, ao lado
    da granja cheia de viço, rica, generosa, e abençoada d'esperanças. São
    dous monumentos de dous seculos diversos, ambos obras de Reis. Que a
    philosophia julgue um e outro, e julgue tambem as vontades e as
    intelligencias que fizeram surgir um e outro.

    BREVES REFLEXÕES SOBRE ALGUNS PONTOS DE ECONOMIA AGRICOLA

    1849

    Ajuda, 8 de março de 1849

    Circumstancias meteorolOgicas extraordinarias ameaçam o nosso bello paiz
    de uma colheita nulla. Perto de trez mezes de aridez, na epocha do anno
    em que as chuvas são mais necessarias, têm quasi destruido as esperanças
    dos agricultores. Um mez mais que dure esta situação, e o mal
    tornar-se-ha intensissimo e, em grande parte, irremediavel.

    Os espiritos fracos contentam-se com blasphemar ou carpir-se. Isto é
    cobardia. Muitos voltam-se para Deus e imploram a Providencia. Isto é
    respeitavel. Outros pensam nos alvitres para occorrer á miseria e á
    fome, que pode vir a pesar sobre a população menos abastada. Isto é
    generoso e nobre. Mas aquillo em que poucos pensam é em converter esta
    situação assustadora n'uma lição salutar; em deduzir do mal presente
    proveito para o futuro.

    O nosso povo actual é um pouco similhante a seus avós, os marinheiros do
    seculo XVI, que affrontavam as procellas dos mares da India e da
    America. Rudes e feros na bonança, voltavam-se para o céu quando a
    tempestade ameaçava submergil-os. Era d'aquelles trances que os
    sacerdotes, seus companheiros de riscos e aventuras, se aproveitavam
    para os revocar ás sanctas doutrinas da fé, e era ordinariamente então
    que n'essas almas rudes achavam accesso o arrependimento e as verdades
    da religião.

    Desejariamos que a imprensa fosse tambem um pouco similhante aos bons
    missionarios do seculo XVI; que nos dias da angustia dissesse algumas
    verdades duras aos povos, quando mais não fosse, ao menos para
    interromper a monotonia das que diariamente diz aos reis. A imprensa que
    vive da publicidade, da publicidade que se estriba na bolsa do povo,
    praticaria um acto de devoção mais corajosa, falando severamente aos
    seus naturaes patronos, do que dirigindo-se aos principes, de quem ella
    depende incomparavelmente menos para existir e prosperar.

    Por isso nós a convidariamos para que, sem distincção de partidos, sem
    lhe importar com a diversidade da sua missão politica ou litteraria,
    aproveitasse o ensejo de temores que assaltam geralmente os animos, para
    insinuar n'estes importantes verdades.

    A natureza do flagello que nos opprime, as observações que fizemos n'uma
    pequena excursão para o lado de Cintra, nos suscitaram estas reflexões,
    a que esperamos associem outras de mais valor as pessoas competentes.
    Posto que dominados por uma viva affeição á agricultura, a essa rainha
    das industrias, somos apenas curiosos n'esta materia. Ha, porém, uma
    certa somma de verdades iniciaes na sciencia que estão ao alcance de
    todos os que as buscam, seja como estudo, seja como curiosidade.

    Portugal tem uma agricultura incompleta. Se exceptuarmos o Minho,
    podemos dizer que o producto do nosso sólo é exclusivamente representado
    pelos cereaes, pelo vinho e pelo azeite. Por importantes, comtudo, que
    sejam os dous ultimos, o principal é, como em todos os paizes, o dos
    cereaes.

    Mas é doutrina incontestavel que para a cultura d'estes poder prosperar
    é necessaria a copia de estrumes; que para haver copia d'estes é
    necessario gado; que este não existe, ou tem uma existencia precaria
    onde não ha pastagens, e estas são sempre miseraveis e insufficientes
    n'um paiz onde a _intensidade_, digamos assim, do systema agricola não é
    proporcional á sua _extensão_; onde a arte não ajuda energicamente a
    natureza a supprir a alimentação dos animaes.

    Portugal não tem creações de gado: queremos dizer, não tem n'este ramo
    de industria rural senão o restrictamente necessario para a lavoura,
    pelo que respeita a gado grosso; e o seu gado lanigero é pouco numeroso,
    imperfeito, e rareado annualmente pelos resultados de um tractamento
    quasi selvagem. Porque? Porque ainda não adoptámos a doutrina
    fundamental de toda a agricultura judiciosa, a creação dos animaes n'uma
    larga escala, nem buscámos ainda os meios para isso adequados.

    As nossas terras mais ferteis produzem de 10 a 15 sementes, e a
    producção das mediocres é entre 5 e 8. Tendo a cultura adquirido uma
    grande _extensão_, com esta producção acanhada o lavrador acha-se
    collocado entre dous extremos deploraveis. Se o anno é mau, a limitada
    proporção entre a semente e o producto torna-se ainda mais restricta, e
    embora suba o preço do genero, o fabrico absorve quasi a colheita: se o
    anno é propicio, a barateza no mercado vem a inutilisar a abundancia, e
    o cultivador fica sempre miseravel.

    A imperfeição das machinas e dos methodos, o pessimo systema, ou antes a
    negação de systema nas rotações, e varias outras causas, contribuem para
    este estado violento; mas a causa principal é a desproporção enorme na
    distribuição do solo: o homem crê fazer para si a parte do leão, e
    engana-se. Espoliando os animaes que o ajudam nas suas laboriosas
    tarefas, os animaes que o vestem ou lhe fertilisam os campos, do quinhão
    que lhes cabe nos fructos d'estes, torna-se desgraçado a si no meio de
    uma abundancia mais apparente que real.

    Na Inglaterra, o paiz modelo da agricultura, os productos de um terço,
    pelo menos, da terra cultivada pertencem aos animaes domesticos. Nós
    talvez não lhes reservamos um centesimo. O erro n'esta parte produz uma
    infinidade de factos, que principalmente determinam a falta de progresso
    _d'intensidade_ na agricultura nacional.

    Um anno pouco favoravel, como o que vae correndo, descobre logo por
    diversos modos a nossa situação deploravel.

    De que ouvimos principalmente queixar os agricultores, quando os
    interrogamos sobre os fataes effeitos d'este estio inesperado, que veio
    pesar sobre nós no coração do inverno? De que esse pouco gado que
    possuem morrerá á fome. Porque? Porque o lavrador põe quasi
    exclusivamente as suas esperanças nas hervagens espontaneas; entrega á
    Providencia o cuidado dos seus bois e das suas ovelhas. Esta confiança
    nem é prudente, nem religiosa. Deus não deu inutilmente ao homem a
    faculdade de reflectir, nem os braços para o trabalho. A protecção da
    Providencia não vae até o ponto de supprir o desprezo da nossa
    actividade intellectual e material.

    Perdemos os poucos gados, que possuimos, quando o inverno é secco;
    perdemol-os se é excessivamente chuvoso. Pode-se dizer que este facto
    pinta e resume o estado do nosso progresso agricola.

    Que prevenções faz em geral o cultivador para obviar a qualquer d'eslas
    hypotheses terriveis, tão faceis de verificar-se, principalmente a
    segunda? Nenhumas. Onde estão os fenos devidamente colhidos e
    reservados, onde as raizes das plantas chenopodeas e cruciferas, onde os
    prados artificiaes, regados pelos ribeiros, onde, emfim, todos esses
    recursos, de que o agricultor dos paizes centraes e do norte lança mão
    para resistir ás incertezas das estações?

    O lavrador cultivou cereaes, muitos cereaes, e repousou, pelo que tocava
    ao seu gado; nos dons espontaneos do inverno. O inverno negou-os. Resta
    pedir a Deus que reduza á regularidade as variações atmosphericas,
    variações incertas só para nós, e dependentes de leis naturaes, que
    porventura os progressos da meteorologia virão ainda revelar-nos, e que
    não cremos se hajam de alterar a favor da nossa imprevidencia.

    Sabemos o que se costuma responder a isto: «Esses fenos, esses prados,
    essas raizes fusiformes, que constituem uma alimentação abundante para
    os animaes, são possiveis nos paizes humidos do norte. O nosso clima
    adusto torna impossivel a applicação de um systema analogo.»

    Seria longo, mas pouco difficil, mostrar sob todos os aspectos o
    sophistico d'este argumento; mostral-o por factos. Impressionados pelo
    que, com tristeza, acabamos de ver n'um tracto de terra de cinco leguas,
    limitar-nos-hemos a algumas considerações especiaes.

    E primeiro que tudo, com que direito se invoca, para defender a incuria
    agricola, falta de humidade no nosso clima, quando deixamos correr
    annualmente para o mar milhões de pipas d'agua pelos grandes rios e por
    centenares de regatos, que podiam, muitas vezes com leve trabalho,
    fertilisar os campos visinhos e alimentar prados, cuja producção
    excederia quanto a cultura dos paizes do norte offerece, n'este género,
    mais admiravel?

    Depois, que meios se empregam para temperar pela arte os effeitos da
    nossa situação meridional? Os habitos adversos a esses meios são os que
    dominam entre a população campestre. É sabido que as arvores, ainda nas
    noites mais seccas do estio, attrahem á terra uma grande porção de
    humidade. A que deve o Minho a frescura dos seus valles, os enormes
    productos do seu solo, que não soffre comparação com as nossas terras
    fortes da Estremadura? A uma arborisação admiravel. O homem do sul tem
    odio, litteralmente odio, não só ás selvas, mas até á arvore solitaria,
    que pode assombrar-lhe algumas pavêas de cereaes, porque os cereaes são
    o idolo que resume todos os seus affectos, embora a cruel experiencia
    lhe venha provar, nos annos desfavoraveis á cultura das gramineas, que o
    seu systema acanhado e exclusivo conduz facilmente á miseria e à
    perdição.

    Este ódio às mattas e arvoredos tem-se tornado n'uma especie de
    contagio, que vae lavrando e ameaça as provincias septentrionaes. A
    Beira ha muito que começou a ser despojada dos seus magnificos bosques,
    que por partes a tornavam rival do Minho. Os effeitos, porém, do
    destroço insensato dos grandes vegetaes sentem-se principalmente na
    Estremadura, e sobretudo n'este tracto de terra entre dous mares, onde
    se acha situada a capital. Os vapores, que as arvores, povoando os cimos
    dos montes, attrahiriam para os valles, não descem á terra: os ventos do
    norte, precipitando-se livres dos visos calvos das collinas, fustigam as
    encostas do sul, remoinham nas planicies, e não consentem sequer que o
    orvalho console á noite a vegetação devorada pelo sol do meio-dia. Na
    verdade, a aridez dos campos na estação estival pouco importa ao
    cultivador exclusivo de cereaes; mas quando causas desconhecidas
    impedem, durante o inverno, o curso dos ventos chuvosos, quando o verão
    vem substituir-se ao inverno, não sabemos se como castigo se como
    advertencia, então elle maldiz essas torrentes de ventania, que produzem
    mais seccura em vinte e quatro horas do que tres dias de sol ardente.
    Maldil-as, sem se lembrar ou sem saber, que seus paes e elle proprio
    contribuiram para a existencia de similhante flagello pela destruição
    das mattas, ou, quando menos, pelo descuido no plantio d'ellas.

    O ciume cego com que a menor leira de terra aravel é disputada aos
    arvoredos, por causa do predominio exclusivo dos cereaes, explica
    indirectamente esse furor com que são perseguidas as arvores, até nos
    sitios mais inferteis; com que se lhes disputa a vida até por entre as
    penedias das serras. Como a cultura das forragens é insignificante, e
    enormemente desproporcionada á dos cereaes; como o céu está encarregado,
    pelo commum dos agricultores, de prover á sustentação dos gados, o
    baldio é o segundo artigo do credo agricola d'elles. Os pastos communs
    são a cidadella da inercia e o theatro reservado pela ignorancia ás
    maravilhas da Providencia. Todas as desvantagens de conservar incultos
    terrenos que poderiam servir ao homem se adoptassemos um systema mixto,
    ou se attendessemos ás indicações da sciencia e á natureza do nosso
    clima, para promovermos a arborisação nos logares accommodados para
    ella, não são comparaveis ao delicioso espectaculo de ver retouçar meia
    duzia de ovelhas, vaccas, e bois hecticos, nas gandras bravias, quando,
    n'um systema de cultura judicioso, conservariamos gordos e anafados
    dobrado numero de animaes, unicamente com a producção da nossa
    propriedade particular, _sem que deixassemos de colher n'esta a mesma
    quantidade de trigo_, que nos produz o deploravel methodo da cultura
    exclusiva.

    A existencia dos baldios municipaes, dos pastos communs, é um dos mais
    graves embaraços ao progresso da agricultura entre nós. Favorecendo a
    natural indolencia do homem do campo, facilitando-lhe recursos que, até
    certo ponto, supprem os defeitos de um methodo errado e incompleto de
    afolhamentos, de uma cultura sem proporção nem equilibrio, elles oppõem
    uma barreira, as mais das vezes invencivel, á introducção de um systema
    sensato e proficuo. Ignorando os melhoramentos que as rotações
    judiciosas trazem ao solo, as vantagens da estabulação, os methodos de
    multiplicar em quantidade e em energia os adubos animaes, desconhecendo
    a applicação dos correctivos mineraes, o agricultor baseia nos maninhos,
    não só uma substituição á cultura das forragens, mas tambem um meio de
    adubar as suas terras, embora os estrumes vegetaes que d'elles tira,
    pessimamente preparados, dêem á terra uma alimentação miseravel. É-lhe
    necessario que as urzes povoem as serras nuas de arvoredo, tanto para
    ahi pascerem os gados durante uma parte do anno, como para supprirem a
    carencia d'estrumes, resultado d'essa alimentação erradia do gado, em
    que o cultivador, podemos dizer, lança fóra o mais rico thesouro de
    principios restauradores, um dos productos mais importantes da creação
    dos animaes.

    Se as grandes verdades na sciencia são, em regra, ferteis de
    consequencias proveitosas, os grandes erros não são menos ferteis de
    consequencias fataes. Como as urzes expulsam as arvores dos terrenos
    incultos, é justamente nas visinhanças de extensos maninhos onde muitas
    vezes mais se experimenta a falta de lenhas, e que por consequencia os
    povos mais rapidamente destroem as cepas d'esses mesmos mattos que os
    supprem de pastagens e d'estrumes. Sendo esse o unico meio de obter
    combustivel, e não correspondendo o desenvolvimento das raizes lenhosas
    á rapidez e extensão do consumo, o resultado final é facil de prever. Ha
    de chegar um dia em que a imprevidencia tenha dado inteiro o seu fructo.
    Esses cabeços e gandras, rareados pela mão do matteiro, espoliados
    emfim, dos ultimos fragmentos da sua triste corôa de piornos e tojos,
    achar-se-hão convertidos em arneiros escalvados, onde a falta absoluta
    de humus torne impossivel a vida da herva mais rasteirinha. É um facto
    que, por muitas partes, se tem já verificado, e que successivamente se
    vae verificando por outras. Então os effeitos dos erros agronomicos, a
    que a gente do campo tem um affecto tão cégo, pesarão terrivelmente
    sobre ella, vindo depois o remedio só pelo excesso do mal.

    Admittindo por um pouco as suppostas vantagens dos baldios, e no
    interesse d'esses mesmos pastos communs, a necessidade de dedicar uma
    porção d'elles á silvicultura torna-se evidente. Em Cintra, por exemplo,
    cujos antigos bosques desappareceram ha muito, e onde a cepa já começa a
    escacear, como é facil de conhecer á simples inspecção do terreno
    correndo os recessos da serra, os habitantes d'aquelles contornos
    deviam, por muitas razões, mas sobretudo por causa do combustivel,
    forcejar para que os cimos escalvados das cordilheiras se povoassem de
    pinhaes ou de soutos e devesas de outras arvores, que esses magros
    terrenos consentissem. Independentemente das influencias, que a nudez ou
    o selvoso d'aquelles escarpados rochedos possa ter na cultura dos campos
    visinhos; ainda sem attender a que Cintra perde de dia para dia, pela
    devastação dos grandes vegetaes, os encantos que ahi attrahem os felizes
    do mundo, e que por longos annos teem sido para os povos dos arredores
    um manancial de prosperidade; ao menos a consideração de que a falta de
    um dos objectos mais necessarios á vida, igualmente indispensavel para o
    rico e para o pobre, vae em sensivel progresso, devia conduzil-os a
    reconhecer que a arborisação da serra é reclamada talvez já pelo
    interesse da geração actual, e sem duvida pelo das gerações que hão de
    vir.

    E todavia, um successo recente, um successo que fez certo ruido, prova
    que ou todas estas idéas se desconhecem, ou se pospõem a considerações
    de um egoismo, que nem sequer tem o merito de ser habil, ou que
    finalmente o nosso paiz está condemnado a vêr sujeitar ao arrebatamento
    das paixões politicas as questões mais estranhas, as conveniencias
    economicas, os meios de progresso material, as indicações da
    experiencia, trazendo-se para um campo neutro, e que para todos devêra
    ser sagrado, as luctas deploraveis dos nossos bandos civis. O facto a
    que alludimos foi lançado nos debates da imprensa, e por isso é hoje do
    nosso dominio.

    S.M. El-Rei pretendeu aforar uma porção das cumiadas da montanha de
    Cintra contiguas ao parque da Pena. Aquella porção de terreno ingrato e
    calvo era destinado á sementeira ou plantio de um bosque que cobrisse de
    verdura e de vida uma pequena parte d'essa ossada de rochedos, que se
    vão prolongando até a beira do oceano.

    Muitos moradores das aldeias circumvisinhas viram, porém, n'este empenho
    uma calamidade. O maninho era ameaçado nos seus direitos inauferiveis, o
    dorso dos penhascos offendido na sua pudibunda nudez. Realmente o caso
    era grave. Agitou-se tudo, protestou-se, requereu-se. A urze e o piorno
    acharam logo advogados contra o pinheiro orgulhoso, contra o luxo da
    vegetação. Isto é absurdo e incrivel. Embora. A celebre phrase «_creio
    porque é impossivel_» não tem só applicação aos mysterios do céu;
    tem-n'a ás miserias da terra.

    Se os principios mais solidos da economia agricola não são uma solemne
    mentira, a pretensão d'El-Rei era legitima; as suas intenções liberaes.
    Não se tractava de constranger os povos a abandonarem subitamente o
    deploravel systema dos pastos communs: tractava-se de dar um exemplo de
    previdencia e de progresso: tractava-se de applicar ao solo um capital,
    que só depois de quinze ou vinte annos poderia produzir um diminuto
    redito: de certo não havia aqui, pelo menos, uma inspiração de cubiça.
    Nenhum homem desapaixonado e que ame sinceramente o desenvolvimento da
    industria agricola, pondo a mão na consciencia, deixará de qualificar a
    pretensão de justa, e a intenção de progressiva.

    E nós limitamo-nos a estas qualificações, porque o lyrismo em materias
    economicas é um pouco sem sabor; porque nos fazem nausea os extases e as
    metaphoras de velho estylo, com que se costumam sempre avaliar os actos
    dos principes. Ainda não decorámos as phrases fundidas com que é d'uso
    exaltar esses actos, sejam máus, indifferentes ou bons, e que só servem
    de desvirtuar os ultimos. Somos pessimos cortezãos, e, demais,
    incorregiveis. Mas tambem não sabemos lisonjear o povo; porque a lisonja
    perde-o, como perde os principes: temos por isso bastante consciencia de
    nós mesmos, para reclamar a favor d'El-Rei, que não tem o habito das
    discussões publicas, que não pode vir a essa arena, a justiça que lhe
    compete e a que tem tanto direito como o cidadão mais obscuro. Não
    acreditamos que um homem, porque se chama rei, esteja banido do direito
    commum; que, pária de nova especie, deva soffrer em silencio que lhe
    calumniem uma intenção pura, que o condemnem por actos que n'outro
    qualquer seriam louvados. Quando a imprensa se perturba e cega até o
    ponto de assim o practicar, entristecemo-nos por ella; porque estamos
    convencidos da sanctidade da sua missão, e temos os olhos fitos, não nas
    paixões pequenas do presente, mas sim nas esperanças do futuro.

    Consideramos aquelle aforamento em si, no seu resultado, nas idéas que o
    aconselhavam. Não sabemos se, no modo de o realisar, se faltou a alguma
    das solemnidades legaes. Não valia a pena. Que valesse, os agentes de
    S.M. deviam ser dobradamente zelosos em guardal-as. Fizeram mal se as
    preteriram. Do que porém já foi confessado em um jornal se deduz que não
    aconteceu assim.

    O requerimento a favor da sanctidade do deserto, da integridade do
    maninho, appareceu estampado. É um monumento: não podia ser outra cousa.
    Pinta o paiz.

    Se os nossos governos de todas as epochas e de todas as opiniões
    tivessem gastado a centesima parte do dinheiro, que tantas vezes
    malbaratam, em ensinar a lêr os habitantes do campo, em inculcar-lhes as
    verdades practicas com que a sciencia tem vivificado outros povos, não
    appareceria, no anno do Senhor de 1849, um tal requerimento.

    Como epigraphe a elle faça-se uma advertencia. O maninho total de Cintra
    abrange dez milhões de braças quadradas: os pedregaes aforados teem
    quatrocentas e sessenta de comprido sobre cento e cincoenta de largo. A
    mutilação é horrivel. Os requerentes declaram que esta área abrange uma
    grande parte da serra.

    Quando Sancho Pança, o aldeão manchego, se persuadiu de que subira às
    solidões do espaço, e mirara das alturas o nosso planeta, disse que lhe
    parecera a terra do tamanho de uma avellan, e os homens mais pequenos
    que carneiros. O bom Sancho era um typo!

    Pondera-se a escaceza de lenhas nos arredores da serra. Qual é o
    remedio? É impedir que n'um angulo d'ella sejam semeados pinhaes ou se
    façam plantios de outras arvores. O alvitre é infallivel e sobretudo
    logico.

    Na historia, na litteratura, nos documentos, achareis testemunhos
    frequentes e irrecusaveis de um facto. Cintra foi por seculos a montanha
    das selvas. Onde estão estas? Cahiram sob o machado da imprevidencia. Os
    estevaes seguiram-nas. Agora revolve-se o chão para arrancar algumas
    raizes. Que arrancarão as gerações futuras? Pedras? Christo converteu-as
    em pão: mas os moradores d'aquelles contornos não teem absoluta certeza
    de que seus filhos e netos serão capazes de maravilhas analogas: de as
    converter em combustivel.

    E que teem elles com seus filhos e netos? Elles que pertencem a uma
    epocha profundamente caracterisada pelo egoismo?

    No requerimento figuram os operarios indo ao domingo buscar lenha á
    serra, por não poderem dispensar um dia de semana para esse mister, o
    que prova evidentemente não ser licito aforar sessenta e tantas mil
    braças quadradas de terreno n'um baldio de dez milhões d'ellas.

    Depois, os mesmos trabalhadores apparecem de mãos cruzadas por falta de
    trabalho, mandando os filhos arrancar matto para viverem, prova de egual
    força e de uma concordancia admiravel com a antecedente. Estes
    jornaleiros, occupados e desoccupados, são pobres e miseraveis que
    possuem ovelhas, vaccas, eguas, etc., situação na verdade só comparavel
    à dos operarios de Bethnal-Green, symbolo e resumo da miseria industrial
    ingleza. Por fim invocam-se as leis; leis modificadas pela
    jurisprudencia administrativa moderna; leis promulgadas em epochas, nas
    quaes ou eram desconhecidos os verdadeiros principios de economia
    agricola, ou estes eram ignorados pelos legisladores; leis que, se o uso
    não houvesse obliterado uma grande parte das suas disposições, iriam
    lançar nas garras do fisco muitos d'esses tractos de cultura chamados
    vulgarmente _tomadas_, que se encontram hoje onde só existiam, ha um ou
    meio seculo, extensos maninhos, e em cujo aforamento os homens
    laboriosos que os desbravaram se viram sempre combatidos pelo ciume do
    vulgo, que não pode tolerar irem-lhe encurtando os dominios da
    indolencia, romperem-lhe um só lanço da barreira mais forte, que se
    oppõe ao verdadeiro progresso agricola.

    Isto não se discute. Pelo menos a nós fallecenos o animo para tanto.
    Como demonstrar que dous e dous são quatro a quem quer que sejam cinco?

    Deploramos o abandono em que se deixa a intelligencia do povo:
    deploramos que a classe media, que tem a força porque está organisada;
    que tem a força porque possue a riqueza; que tem a força porque é
    illustrada, não vote uma parte dos seus recursos a allumiar os rudes, os
    homens de trabalho, que são seus irmãos, e que teem direito não só ao
    pão do corpo mas ao do espirito, ou antes que sem este não chegarão
    nunca a minorar as difficuldades com que luctam para obter aquelle, nem
    a rodear-se dos confortos que são compativeis com a sua condição.
    Deploramos, sobre tudo, o talento naturalmente nobre quando sacrifica ás
    conveniencias transitorias verdades que, em outra situação, proclamaria
    sem hesitar; deploramol-o n'esses momentos aziágos, em que se esquece de
    elevar-se acima das antipathias ou sympathias pessoaes. Quando se tem um
    passado de independencia e de probidade politica, é generoso não
    vacillar ante a viciosa vergonha de fazer justiça aos que se crêem
    poderosos, embora essa justiça haja de remontar até um rei.

    A questão dos maninhos de Cintra é a questão perpétua dos pastos
    communs, que tem agitado todos os paizes, e que em toda a parte está
    resolvida em theoria e em practica, menos na Peninsula. Submettida essa
    questão ás discussões da imprensa, mal haveria intelligencia que não
    vergasse na tentativa de defender o baldio; o baldio no que elle tem de
    mais nocivo e absurdo. Confundiram-se idéas que importa distinguir;
    estabeleceram-se proposições que julgamos contrarias ao melhoramento da
    agricultura, inconvenientes ao bem estar futuro do homem de trabalho,
    aos seus interesses reaes. Persuadidos de que as nossas opiniões na
    questão geral, que ess'outra particular veio suscitar, podem ser uteis,
    accrescentaremos n'um subsequente artigo[1] algumas reflexões sobre a
    distribuição e applicação dos maninhos.

    A GRANJA DO CALHARIZ

    1851

    Este nosso Portugal que em tantas cousas é uma terra de maravilhas,
    maravilhas na verdade bem tristes ás vezes, offerece uma das não menos
    curiosas na primeira, na mais grave questão de progresso material que se
    pode agitar entre qualquer povo, e sobretudo entre nós. Falo da questão
    das reformas agricolas. É rara a semana em que não se tracta na imprensa
    litteraria, e ainda na imprensa politica, um ou outro ponto da arte ou
    sciencia de cultivar, considerada debaixo d'este ou d'aquelle aspecto.
    Escriptos ha no meio de tantas publicações que estão revelando em seus
    auctores vastidão de conhecimentos theoricos; poucos onde se exponham e
    discutam os systemas de agricultar nacionaes, que nem todos, nem em tudo
    são maus; raros onde se nos mostrem verificadas pela practica propria as
    doutrinas dos livros estranhos. Entretanto é incontestavel que se
    escreve muito ácêrca da agricultura, e traduz-se ainda muito mais. Mas
    quando se forceja tanto por espalhar _novas_, e, talvez no maior numero
    de casos, _melhores_ doutrinas entre os agricultores, quando todos falam
    na creação de granjas experimentaes; quando os proprios lavradores e
    pessoas affeiçoadas ás cousas do campo já pensam, até, em formar
    associações, não para agiotar com a agricultura, mas para discutir as
    reformas rasoaveis, que se pódem tentar, não é admiravel que exista no
    paiz, a cinco leguas da capital, uma granja modelo dirigida por um
    cultivador habil theorico e distincto practico, o snr. Gagliardi, sem
    que os homens competentes annunciem esta boa nova, sem que, visitando
    uma e muitas vezes aquelle magnifico estabelecimento, dêem conta aos
    interessados n'estas questões dos factos que ahi observaram, dos
    resultados das innovações ahi levadas a effeito? Em vez de
    subministrarem aos cultivadores portuguezes as razões scientificas,
    (para a maior parte d'elles inintelligiveis) pelas quaes se lhes
    aconselham como preferiveis taes systemas, taes methodos ou taes
    especies de cultura, não seria melhor, mais perceptivel para todos pôr
    ao lado da regra o exemplo, ao lado da theoria o facto, mas o facto
    positivo, concludente, irrecusavel, porque é d'esta terra, está aqui,
    onde todos o pódem verificar? Não valeria isto tanto como as mais uteis
    paginas de Thaer, de Dombasle, ou de Gasparin, bem ou mal traduzidas,
    bem ou mal soldadas, mas quasi sempre obscuras para uma população rural
    pouco illustrada na sua generalidade? A mim parece-me que similhante
    trabalho, emprehendido pelos homens profissionaes, seria um dos
    melhores, talvez o melhor serviço que poderiam fazer ao adiantamento
    agricola de Portugal. Quem sae de Lisboa e fala com lavradores,
    d'aquelles mesmos que são instruidos, sabe que a repugnancia a alterar
    os systemas de longos annos seguidos no paiz é geral. Esta repugnancia,
    contra a qual tanto se tem escripto, não é nem um capricho estolido, nem
    unicamente afferro irreflectido ás usanças do passado. Nasce em boa
    parte de causas legitimas. O agricultor vive da sua industria: um erro,
    uma experiencia com mau resultado, uma confiança desacautelada em
    qualquer theoria erronea, que se lhe inculque n'um livro ou n'um jornal,
    não tem para elle por consequencia unica uma mortificação de amor
    proprio: leva-lhe o pão que ha de comer; leva-lhe o pão de seus filhos.
    A natureza é tão implacavel como as antigas leis do talião e da
    revindicta: em agricultura, quem comette erros paga-os. Os agronomos que
    tanto bradam contra os preceitos inveterados, e que até certo ponto e em
    certos casos teem razão, deviam reflectir n'isto. Depois, crê-se que
    todos os nossos cultivadores hão sido surdos á voz da imprensa? Não, por
    certo. Tem-se adoptado, não um, mas cem, mas mil conselhos dados por
    ella. Foram, porém, bons todos esses conselhos? Tambem não, por certo. É
    necessario confessar que muitas vezes se tem discursado em materias
    agronomicas sem consciencia, e que muitas mais o camponez tem sido
    illudido pelos escriptores, illudidos tambem pelos livros de fóra,
    feitos para outros climas, para dirigir os amanhos de propriedades
    rusticas diversamente constituidas, e cujo systema de cultivação é
    determinado por differentes circumstancias economicas, como procura de
    productos variados, facilidade de transporte, abundancia de mercados,
    preço do trabalho, frequencia de capitaes disponiveis, etc. Essas
    illusões são fataes. O cultivador, que, movido pelas decisivas
    doutrinas, pelas promessas magnificas, pelas invectivas acerbas do
    jornal ou do livro que lhe chegou ás mãos, tentou em certa escala, na fé
    da _letra redonda_, uma revolução no seu systema de agricultar, e que
    tira em resultado d'isso uma perda irreparavel, pragueja contra a
    sciencia por culpa da insciencia, e fecha-lhe para sempre a porta.
    Depois não teem faltado enthusiastas, que, arrastados pela poesia
    bucolica, não rara em muitos livros de agricultura, e deslumbrados como
    o Triptolemo de Walter-Scott pelas dissertações dos Columellas e Varrões
    modernos, se arrojam impetuosos á conquista de descommunaes riquezas,
    que se lhes promettem, olhando com soberano desprezo os methodos mais
    sensatos dos seus visinhos, mudam tudo, revolvem tudo, gritam contra a
    _rotina_, e os _rotineiros_ e obtêm no fim de trez ou quatro annos uma
    gloriosa… mendicidade. Estes exemplos (e prouvera a Deus que, de
    quinze annos a esta parte, elles fossem apenas cinco ou dez ou vinte)
    ainda são mais fataes. Aquelle espectaculo aterrador, aquelle fructo
    amargo do estonteamento e da imprudencia é para os animos atemorisados a
    condemnacão irrevogavel de toda a sciencia, de todo o progresso. E, á
    vista dos factos, ao menos considerados superficialmente, como os
    consideram em geral os habitantes do campo, podemos acaso negar que
    esses a quem se dá desdenhosamente a alcunha franceza de _rotineiros_,
    teem até certo ponto razão?

    D'aqui a necessidade absoluta de espectaculos, de exemplos contrarios:
    d'aqui a necessidade extrema de estribar a doutrina escripta com a penna
    na doutrina escripta com a charrua, com a enchada e com o alvião. Não
    seria bom que se usasse de uma reserva prudente em propagar a parte
    especulativa e sobretudo os requintes da sciencia, cuja utilidade é
    contestavel ainda em paizes mais adiantados, emquanto essa parte não
    estiver confirmada entre nós pela apreciação practica em maior ou menor
    escala? Parece-me que sim.

    E todavia, repito, tal apreciação, feita já sobre muitas questões
    agronomicas na vasta propriedade de Calhariz, é desconhecida do publico.
    Alguns curiosos, alguns lavradores, alguns agronomos teem visitado
    aquelle estabelecimento, que talvez já podemos chamar o nosso instituto
    de Grignon ou de Roville, e que decerto lh'o poderiamos chamar dentro de
    quatro annos, se a morte não houvera privado este paiz de um animo
    grandioso e amigo do progresso da patria, o defuncto duque de Palmella.
    Mas esses curiosos, esses lavradores, esses agronomos teem-se contentado
    com uma admiração esteril. Se procederam a inqueritos severos sobre os
    resultados das diversas culturas experimentadas n'aquelle
    estabelecimento, sobre machinas, adubos, rotações, sobre todas as
    cousas, em summa, de que dependem os bons ou os maus systemas de
    agricultar; se mais que tudo, em cada genero de cultura compararam o
    custo com o valor venal do producto, que é a suprema questão agricola,
    não o sei eu; mas é certo que até agora nada se publicou a este respeito
    que eu saiba. E comtudo, o fazel-o seria mais util do que repetir
    opiniões peregrinas, sem sancção de experiencia, e quem sabe se
    accommodadas sempre a este solo e a este clima?

    Eu não posso fazel-o: sou n'estas materias um curioso. Faltam-me os
    elementos scientificos para ser agronomo. A direcção dos meus estudos
    foi outra. Amo, porém, ardentemente o progresso moral e material da
    terra em que nasci; e vejo que elle deve sobretudo vir do
    desenvolvimento da agricultura, da solução racional das questões
    scientificas, economicas, e até juridicas e politicas que pódem ter
    relação com a primeira das industrias, primeira em todos os paizes, mas
    que entre nós está immensamente acima de quaesquer outras, e praza a
    Deus que o esteja sempre. É por isso que escrevo isto, não como
    desempenho do dever que incumbe a outros, mas como incitamento aos mais
    habeis. Faço-o tambem para practicar um acto de justiça. Emquanto a
    imprensa, durante quinze annos, clamou debalde aos governos a favor dos
    institutos agricolas, sem os quaes está demonstrado até á saciedade que
    não haverá progresso real na maxima industria portugueza, um simples
    particular tentava com sacrificio de avultados cabedaes uma empreza que
    os governos não ousavam tentar, ou que esqueciam, enlevados na
    edificação de theatros, de jardins, de praças, de monumentos, em
    manifestações luxuarias, indispensaveis para provarmos ao mundo que
    nadamos em ouro, e para darmos sabida á superabundancia dos lucros dos
    nossos quasi unicos contribuintes, os cultivadores, que não saberiam a
    que applicar o seu immenso superfluo, se o tributo os não alliviasse
    d'elle para comprarmos esse luxo das creanças barbadas da inclita
    Lisboa. Faço-o, digo, porque a imprensa devia á memória do fallecido
    duque de Palmella um testemunho de gratidão pela sua nobre devoção á
    patria, devoção que só com o decurso do tempo podia ser apreciada
    devidamente; porque era practicada sem ostentação nem ruido.

    Este testemunho, que eu me atrevo a dar em nome do paiz, é insuspeito.
    Nunca procurei a intimidade do duque, nunca traduzi em convites para a
    acceitar os signaes de benevolencia, a distincção immerecida com que
    sempre me tractou, quer em publico quer em particular, quando
    casualmente nos encontravamos. Confesso mais: pensava mal d'elle em
    muitas coisas; tinha-lhe esta especie de antipathia inoffensiva que
    tenho á maior parte dos homens politicos do nosso paiz. Nem na emigração
    nem na patria fui nunca isso a que se chamava _ser palmellista_. Começo
    a sel-o desde que visitei o Calhariz; desde que examinei o que alli se
    tem feito, e sobretudo desde que vi a correspondencia do duque com o
    snr. Gagliardi, correspondencia que não era destinada, que não podia
    sel-o, a vêr a luz publica. O desapego do ouro para ordenar experiencias
    custosas, de resultado incerto, e a que elle punha uma só condição, a
    _de poderem redundar em proveito do paiz_, é evidente n'essas cartas,
    que corrigiram as minhas ideas ácêrca do homem que as escreveu.

    Dou graças a Deus de ter visitado tão tarde a granja do Calhariz. Hoje
    as minhas palavras vão murmurar sobre um tumulo, em volta de pobres
    cinzas, que não teem poder para a recompensa e nem sequer voz para o
    agradecimento. N'este seculo de grandes corrupções falta muitas vezes
    esforço para fazer justiça, quando se pode suspeitar de venalidade ou
    lisonja o que não passa de um tributo de admiração legitima.

    PROJECTO DE DECRETO

    1851

    Senhora!

    O alvo do presente projecto de decreto é abrir o caminho ao homem de
    trabalho para o goso puro e legitimo que nasce do sentimento de
    propriedade, pôr-lhe nas mãos o mais efficaz, o mais seguro instrumento
    de prosperidade, a terra, habilital-o, emfim, para sem temor do futuro
    acceitar as doçuras e os encargos de chefe de familia, facilitando-se
    assim um desenvolvimento vigoroso de população.

    Senhora! No meio d'este grande lavor de transformação social em que a
    Europa se debate, a braços com as ideas tempestuosas que agitam os
    espiritos e com os males economicos que a devoram, e que, se não
    legitimam as ideas de reformas absurdas, legitimam pela sanctidade de
    uma agonia profunda a agitação das classes laboriosas, o povo tem dado
    mais de uma vez documentos de ferocidade e bruteza repugnantes e
    terriveis. Em mais de um paiz o proletariado sempre crescente, ruge de
    contínuo ameaças contra a paz e ordem publicas e contra a patria, porque
    o pobre não sabe o que é patria, não a ama, ou antes não a tem, visto
    que não ha um forte laço moral que o ligue a ella por affectos ou por
    esperanças. É n'estes corações chagados que alguns espiritos ardentes
    illudidos e fanatisados pela propria imaginação, e ao mesmo tempo muitos
    especuladores ambiciosos instillam theorias destructoras da sociedade,
    que tendem a lançar as multidões n'um cháos de desordem, em que a
    propriedade e a familia sejam completamente annulladas.

    Em Portugal, Senhora, o atrazo industrial do paiz, a sua civilisação
    comparativamente pequena, são garantias contra os graves perigos que
    rodeam outras sociedades onde a condição das classes pobres é
    incomparavelmente peior, porque o capital abuza da sua força immensa
    para as opprimir. Mas cumprirá acaso que para nos premunirmos contra os
    riscos do futuro fechemos a porta á civilisação? Não romperia quaesquer
    diques esse oceano de progresso que invade todas as regiões do velho e
    do novo mundo? O augmento da industria fabril, a concorrencia, mil
    factos economicos nascidos mais da natureza das cousas, que da vontade
    dos homens, teem trazido essa collisão fatal entre o que possue e o que
    não possue, entre o trabalho e o capital, collisão que forma hoje o
    supremo, o tremendo problema politico e social das nações mais
    adiantadas. Deixariamos por isso de proteger a nossa industria fabril;
    combateriamos a concorrencia, esse maximo incentivo da actividade
    humana; annullariamos as consequencias de certos factos que d'ahi
    nascem? Deveriamos, ou poderiamos fazel-o? Seria preciso negar a
    liberdade individual, contrariar os principios politicos e economicos
    mais incontestaveis e voltar, como pretendem alguns espiritos fracos,
    aterrados pelas manifestações das classes laboriosas, á theocracia ou ao
    feudalismo dos seculos de barbaria, para adoptarmos prevenções de
    similhante natureza.

    Que ha, pois, a fazer? Encarar com frieza o futuro, estudar as
    complicadas causas que trouxeram gradualmente a esta penosa situação uma
    grande parte da Europa, e evitar o perigo, sem entrar em um combate
    desigual com a civilisação cuja victoria final é sempre certa. Complexas
    e variadas em si, essas causas enfraquecem-se por diversas maneiras;
    previnam-se os seus desastrados effeitos com medidas adequadas;
    aproveitem-se para isso as custosas experiencias dos outros povos, de
    modo que nem as consequencias das phases economicas sejam tão fataes,
    nem venham tão rapidas que criem embaraços insoluveis. As nações mais
    atrazadas teem, na falta de outras vantagens, a de saber com antecipação
    as difficuldades prácticas do progresso material e de poderem proceder
    com prudencia.

    Quem observar, Senhora, a marcha de certas ideas de desorganisação,
    ha-de notar que ellas predominam onde ou a industria fabril tem
    accumulado em breves limites populações numerosas de obreiros, que
    possuem apsnas o salario de um trabalho mal retribuido, ou onde a terra
    pouquissimo dividida ou cultivada transitoriamente por colonos
    oppressos, não consente ao homem do povo o sentimento da propriedade. Em
    todos os paizes os districtos mais pacificos e onde as classes
    inferiores não pensam em dissolver a sociedade são os districtos ruraes,
    e sobretudo aquelles onde o solo retalhado e possuido com segurança
    pelos pequenos cultivadores, tem creado para elles uma patria; porque a
    patria para as comprehensões vulgares e rudes e até certo ponto para
    outras mais elevadas, é o logar restricto a que as prendem os
    interesses, o longo habito e os affectos profundos, que só a familia e a
    propriedade sabem inspirar.

    Favoreçamos a industria fabril, porque ella é uma necessidade da epocha
    e da civilisação; mas forcejemos ainda mais por desenvolver a população
    agricola, que subministrará a essa industria, no seu excedente, braços
    robustos, organisações cheias de seiva e de vida. Façamos caminhar de
    frente as duas industrias; porque cada uma d'ellas é a grande
    consumidora dos productos da outra; mas procuremos sobretudo dilatar o
    espirito de familia e o amor da propriedade pela agricultura. O que
    rodeou com sebes um campo, o que o roteou e semeou pelas proprias mãos e
    pelas mãos de sua mulher e de seus filhos, será forçosamente um homem de
    paz, um defensor da ordem publica. As revoluções sociaes podem
    comprimir-se com o ferro; mas só se ferem de morte quando se removem as
    suas causas reaes, e se faz sentir practicamente ao povo que as
    exaggerações dos estouvados ou dos ambiciosos, são falsas ou ridiculas.

    Não é necessario, Senhora, dizer que a presente proposta de decreto terá
    dous resultados principaes: levar a cultura a uma grande porção de
    terrenos incultos, e fomentar poderosamente a divisão da propriedade.
    Basta lêl-a para se ver que n'ella predomina esse pensamento. Mas
    presidiram á sua elaboração tantas outras considerações de conveniencia
    publica e de progresso material e moral, que os ministros de V.
    Magestade teem por dever seu explanal-as, para que seja possivel avaliar
    se elles comprehenderam ou não, n'esta parte, as maternaes intenções e
    os vivos desejos de V. Magestade, em tudo o que respeita a futura
    prosperidade do paiz.

    Adoptando o principio geral de libertar temporariamente dos tributos
    directos os tractos de terra inculta que se arroteassem, o governo
    procurou tornal-o verdadeiramente util e prolifico, modificando-o por
    condições essenciaes. A divisão do solo pela emphyteuse, e a preferencia
    de protecção dada a certas culturas, são no entender do governo as
    provisões mais importantes do decreto sob este ponto de vista.
    Considerado em relação ao Estado esse principio tem a vantagem de
    produzir o bem sem gravame do thesouro. Os maninhos que se desbravarem,
    não offerecem actualmente materia tributavel: reduz-se, portanto, tudo a
    suppor que esta situação, que aliás só pode acabar rapidamente por meio
    de exempções valiosas, continua em relação ao imposto directo a
    subsistir por um periodo maior ou menor, segundo a categoria da cultura
    a que for destinado este ou aquelle terreno. Em relação, porém, ao
    imposto indirecto é obvio que o augmento de producção e consumo, effeito
    necessario da lei, trará desde logo por esse lado um accrescimo
    progressivo da renda publica.

    A emphyteuse, favorecida por este decreto é, não só um grande meio para
    facilitar a applicação do capital á terra, porque não sendo necessário
    applical-o á acquisição antecipada, digamos assim, da materia prima,
    pode operar em maior escala sobre a producção, mas tambem, e
    principalmente pela sua tendencia natural a tornar-se parcellaria, como
    effeito da maior protecção que a esta sua modalidade a lei concede, o
    instrumento mais poderoso que se pode empregar para trazer o
    proletariado á propriedade, e que portanto produzirá todos os resultados
    politicos e moraes cujo influxo benefico na paz futura do paiz, não pode
    ser duvidoso para a alta penetração de V. Magestade.

    Á emphyteuse e ao systema parcellario teem opposto, Senhora, varias
    considerações economicas, os adversarios d'essa instituição, filha da
    civilisação romana, que resistindo a todos os abalos, a todas as
    transformações profundas verificadas durante os seculos medios, chegou
    até nós, abonando por esse facto a sua congruencia com a indole das
    sociedades humanas. Considerada no seu valor absoluto, e pelas regras da
    moral e da justiça, nada se vê na separação entre o dominio directo e
    util, que offenda uma ou outra. Os motivos para a preferir á
    allodialidade, ou para lhe preferir esta são todos relativos,
    condicionaes. Olhada a questão em these, como theoria abstracta, algumas
    razões podem militar a favor da allodialidade, mas, era hypothese, em
    relação ao nosso estado actual, a emphyteuse é preferivel se quizermos
    dar impulso á cultura e mais rapido movimento á transmissão da
    propriedade. N'um paiz onde a representação monetaria escacea, onde o
    atrazo da sciencia agronomica é incontestavel, onde, emfim, a elevação
    do salario e a depreciação dos generos teem produzido um desiquilibrio
    embaraçoso para o cultivador, a consideração acima feita de que o
    principio da allodialidade, isto é, a compra do fundo, absorve desde
    logo uma parte do capital, que nos aforamentos se substitue, em rigor,
    pela promessa de um juro, juro pagavel depois de obtido o producto da
    applicação do capital, bem demonstra que aquelle principio não soffre
    comparação com o emphyteutico, e quanto este será efficaz para os fins a
    que se destina o presente decreto.

    Modificada pelo systema parcellario a emphyteuse contrapõe-se ao systema
    dos latifundios allodiaes. Caracterisados assim, a antinomia entre os
    dous principios torna-se mais evidente e profunda. Mas é aqui tambem
    onde a superioridade de um ao outro, se torna mais incontestavel. Os
    defensores dos vastos allodios ponderam que a grande cultura é só
    propria dos extensos terrenos, só ella é compativel com os grandes
    melhoramentos, só ahi se podem introduzir as machinas, que produzindo
    mais barato facilitam o consumo; e, não podendo negar os inconveníentes
    sociaes da grande propriedade, accrescentam que sujeitos ao direito
    commum, esses predios se retalharão pela divisão forçada das successões,
    resultando d'ahi que dentro de curto praso ha-de apparecer um novo
    phenomeno economico e agricola; isto é, que a propriedade, dividindo-se
    quanto ao dominio, se conservará unida quanto ao trabalho, porque de
    outro modo, separando-se, individualisando-se o trabalho, a grande seria
    forçosamente substituida pela pequena cultura, e inutilisando-se as
    machinas, os novos possuidores do solo teriam de annullar um capital
    avultado sem vantagem conhecida. Assim quanto a elles, a exploração
    industrial da terra se conservará unida pela associação, ao passo que o
    dominio se irá retalhando atravez de todas as phases possiveis, n'uma
    esphera separada.

    Estas doutrinas, Senhora, são inexactas em grande parte. Pondo de lado
    os inconvenientes, as difficuldades prácticas da associação applicada ao
    trabalho agricola, quando, separado o dominio, o valor do producto
    relativo a cada fracção do fundo, não é só determinado pela applicação
    do trabalho, mas tambem pela força productiva do solo, grandemente
    variavel em vastos tractos de terra; suppondo possivel e até fácil
    similhante associação, e admittindo sem reserva os seus importantes
    effeitos, não se vê como o incitamento do interesse individual não possa
    conduzir os colonos no systema emphyteutico, a associarem-se para
    substituir pela grande a pequena cultura, adoptando as machinas que
    barateam os productos e empregando um trabalho commum. Por outra parte é
    inexacto que a pequena cultura não possa simplificar-se pela introducção
    de machinas e instrumentos novos ou aperfeiçoados, embora n'um grau
    inferior ao da grande cultura, e por isso fazer tambem descer até certo
    ponto o valor das subsistencias e dos outros productos agricolas,
    accrescendo a essa consideração o facto incontestavel, de que se a
    introducção dos instrumentos e machinas que simplificam o trabalho
    agricola, acha mais poderosos incentivos na grande cultura, os methodos
    aperfeiçoados teem nascido e nascem quotidianamente, da experiencia e
    das necessidades da pequena cultura. Independentemente porém, d'este
    argumento, sendo a divisão do solo pela indole da allodialidade sem
    questão mais tardia do que pela emphyteuse parcellaria, favorecida
    immediatamente pela lei, porque privaremos a geração presente, o homem
    de trabalho actual, do beneficio que queremos proporcionar aos
    vindouros? Emfim, Senhora, os que attribuem tão rapidos e efficazes
    effeitos aos obitos e ás successões, attenderam a todos os factos que
    modificam e retardam esses effeitos? Lembraram-se, por exemplo, dos
    consorcios, dos dotes, das terças e de tantas outras instituições civis,
    tendentes a entorpecer esse meio, sem duvida poderoso, de retalhar os
    predios rusticos? Attenderam acaso aos usos immemoriaes de algumas
    provincias, como o Alemtejo, onde o costume dos chamados quinhões torna
    a allodialidade inutil para a divisão das grandes herdades, porque se
    reparte a renda mas fica o solo unido em poder de um só agricultor?

    Que o systema da emphyteuse parcellaria seja o meio mais efficaz e
    talvez unico de chamar as classes humildes á propriedade, parece
    evidente. A acquisição do dominio pleno de vastos predios suppõe
    avultados capitaes. A dos pequenos predios suppõe-nos menores; mas ainda
    os suppõe. Nos emprazamentos de áreas limitadas como aquellas cujo
    maximo se fixa no presente decreto, e que é o mesmo estabelecido no
    Alvará de 27 de novembro de 1804, as economias do simples seareiro, do
    operario rural, bastarão de ordinario para as despezas do arroteamento.
    Elle conta além d'isso com os proprios braços, com o auxilio de sua
    mulher e de seus filhos, recursos cuja efficacia o sentimento da
    propriedade sabe redobrar de um modo maravilhoso. Como consequencia do
    facto logo que os aforamentos d'esta especie se facilitem e protejam, o
    trabalhador celibatario, a quem convidam as exempções concedidas por
    este decreto, e que uma ambição legitima incita a aproveitar-se do
    beneficio da lei, cuidará em associar a si uma companheira que o auxilie
    na sua laboriosa empreza. Assim os consorcios serão promovidos e
    portanto o desenvolvimento da população.

    Se, porém, a applicação do capital quasi unico das classes pobres, o
    trabalho dos proprios braços se torna não só possivel mas tambem facil
    pela emphyteuse parcellaria, o emprego do grande capital monetario
    torna-se onde ella predomina assaz difficil. A experiencia quotidiana
    nos ensina que os pequenos predios ruraes cultivados por conta do seu
    dono, mas não pelas mãos d'elle são constantemente causa de ruina. A
    pequena cultura exige grande numero de prevenções, e de economias
    insignificantes mas severas, uma actividade contínua, um zelo sem
    limites, um meditar incessante em tornar productiva a minima parcella de
    terra. Nada d'isto se obtem a troco de salarios, com que o homem do
    capital monetario tem de contar para alem d'isso obter um lucro, e com
    que o homem de trabalho não conta porque tirando da cultura o seu
    salario e o da sua familia, elle considera a somma d'esses salarios como
    o principal lucro. Assim os capitaes amoedados não podendo fraccionar-se
    em pequenas e ruinosas emprezas, operarão com dobrada energia na grande
    cultura que sempre ha-de ser avultada, ao passo que se tornarão mais
    accessiveis á industria fabril.

    A consideração mais grave que se pode oppor á idea que predomina n'esta
    proposta de decreto, e o Governo não quer, Senhora, dissimulal-a, é que
    abrindo-se em larga escala o caminho da propriedade ás classes
    trabalhadoras, os agricultores actuaes, que já laboram na difficuldade
    do augmento gradual do salario ao lado da diminuição de valor nos
    productos, verão crescer essa difficuldade pela distracção de um
    avultado numero de braços que habilitados para trabalhar por conta
    propria, recusarão fazel-o por conta alheia. Até certo ponto a
    consideração é verdadeira. Mas por um lado ha algumas que a attenuam, e
    por outro o governo pode e ha-de empregar os meios para que esse
    inconveniente seja compensado. Primeiro que tudo como o recurso unico do
    operario é o trabalho, ha-de verificar-se frequentemente o que já
    acontece por muitas partes. Nos tractos de terra mais ferteis que se tem
    arroteado pelo systema parcellario, porque, ainda sem o favor da lei, o
    interesse individual tem sido bastante para o fazer adoptar em diversos
    logares, o novo proprietario redobrando d'esforcos reparte as suas lidas
    entre a cultura propria e a alheia. Essa divisão é grandemente
    facilitada pelo atrazo da agricultura entre nós, porque sendo esta na
    maxima parte dedicada aos cereaes, ás vinhas e aos olivedos apresenta
    uma procura mui desigual de trabalho, de modo que elevando o salario
    desmesuradamente em certas epochas em outras essa procura affrouxa,
    chegando o obreiro rural a ponto de não achar muitas vezes emprego.
    Onde, porém, não for possivel restabelecer o equilibrio por similhante
    meio, esse embaraço irá gradualmente desapparecendo com o accrescimo da
    população, sendo entretanto um incentivo poderoso para os grandes
    cultivadores irem trocando o systema das culturas exclusivas pelo das
    culturas alternas, que, exigindo n'um tempo dado menor numero de braços,
    exige um mais constante emprego d'elles. Finalmente tendo a peito o
    governo acudir quanto antes á primeira necessidade do paiz, a
    construcção das estradas, para as quaes vae applicar todos os recursos
    de que pode dispor, a facilidade da viação e por consequencia a barateza
    do transporte, compensarão amplamente qualquer elevação de salarios, que
    n'um ou n'outro caso possa resultar da applicação do presente decreto.

    Não é necessário nem possivel, Senhora, entrar em largas explicações
    sobre os motivos que levaram o governo a propor a V. Magestade, a
    promulgação das disposições contidas nos diversos paragraphos do art.
    4.^o. A gradação estabelecida entre as varias culturas corresponde ao
    estado actual da nossa industria agricola e á necessidade de não dirigir
    cegamente o impulso que se pretende dar-lhe. O favor, desproporcionado
    na apparencia, que se liberalisa á plantação dos bosques, não se estriba
    só na consideração do demorado resultado que se dá no seu cultivo;
    funda-se tambem na da repugnancia á arborisação que é um dos erros mais
    communs e que parece necessario combater energicamente. É obvia tambem a
    causa das excepções ácerca do pinheiro maritimo, unica madeira que
    superabunda no nosso mercado. O favor comparativamente excessivo que o
    decreto pretende dar á cultura collectiva ou singular das forragens, das
    amoreiras e do canhamo, importa a idéa de fortalecer pela sabedoria das
    leis civis as reformas que hão-de trazer o ensino e educação dos futuros
    agricultores, por via das sociedades agrícolas, das escholas, e dos
    predios rusticos experimentaes, que o governo começou já a promover e
    fundar, e que está resolvido a fazer progredir logo que para isso se lhe
    proporcionem recursos, contando aliás com o auxilio de todos os homens
    de boa vontade e sinceros amigos do paiz. Escaceam entre nós os gados,
    sobretudo nas provincias do sul, porque a cultivação dos cereaes tem
    progredido em extensão e não em intensidade; porque os systemas biennal
    e triennal, que ahi predominam e que em certas circumstancias serão
    desculpaveis, serão até preferiveis, nunca podem ser uma regra geral
    senão onde a agricultura está na infancia: emfim, a falta de gados e de
    bons methodos de afolhamento explicam a maior parte dos embaraços da
    grande cultura em Portugal. Por outro lado se considerarmos os enormes
    valores que a Italia, o paiz mais analogo ao nosso e ainda
    agronomicamente inferior a elle, sabe tirar da producção da seda,
    devemos propagar até onde for possivel o cultivo da amoreira. Tambem a
    experiencia tem provado que o canhamo do nosso paiz, cultivado
    judiciosamente e nos terrenos convenientes, excede em bondade não só o
    da Russia mas o proprio canhamo de Bolonha, reputado o melhor da Italia.
    Por ultimo os fundamentos da menor protecção dada aos ramos de
    agricultura largamente espalhados pelo reino, fundamentos que em parte
    derivam do que fica dito, são obvios para V. Magestade.

    Era impossivel, Senhora, propor a promulgação de um decreto tendente a
    trazer á producção os terrenos incultos e a fomentar a divisão
    espontanea da propriedade territorial, sem estender a sua acção ao solo
    vinculado. São sobretudo os vinculos que nos offerecem o triste
    espectaculo de terras, muitas vezes de primeira qualidade, inuteis e
    desaproveitadas. Entre as razões moraes, politicas e economicas, que
    condemnam a instituição dos vinculos, esse facto subministra contra ella
    um argumento assaz ponderoso. A sua extincção parcial ou completa é
    questão, na verdade, que os ministros de V. Magestade não poderiam
    discutir aqui, e que se deve tractar pausada e reflectidamente; porque,
    resolvida de leve e, sobretudo, decretada de golpe, a abolição dos
    vinculos ainda parcial, teria, talvez, inconvenientes politicos e até
    economicos maiores do que geralmente se pensa. Todavia a instituição é
    em these insustentavel e se considerações de tempo e de circumstancias,
    podem absolver a sua existencia e aconselhar a sua condicional
    conservação, essas considerações são absolutamente inapplicaveis aos
    terrenos incultos, que na maior parte dos casos não representam valor
    algum, ou só o representam minimo. Exemptar os vinculos de contribuirem
    para o bem commum n'esta parte seria absurdo.

    Egualal-os para os effeitos da lei ás propriedades allodiaes, dar-lhes
    as mesmas vantagens e impor-lhes as mesmas restricções era justiça. Foi
    o que se fez n'este projecto de decreto.

    É evidente que nos aforamentos dos maninhos vinculados se dá um facto
    similhante ao que se verifica nos dos maninhos allodiaes. A somma total
    dos fóros representa um juro e portanto a creação de um capital. O
    decreto, suppondo para estabelecer as suas ulteriores providencias, que
    a somma dos fóros representa um juro de cinco por cento, faz d'ahi
    resultar um capital inferior á realidade, porque é sabido que os
    emprazamentos difficilmente produzem essa renda. Em todo o caso esta
    nascerá do favor da lei, favor que se não é um sacrificio effectivo e
    presente, virá a sel-o de futuro. Um tal favor, tendo por fim
    exclusivamente desenvolver o progresso de uma agricultura sensata e
    chamar o proletariado ao amor da paz e da ordem, pela acquisição da
    propriedade, produziria ao mesmo tempo, sem as convenientes restricções,
    a consequencia de augmentar o valor dos vinculos ou por outra, daria
    maior vulto a um genero de propriedade que á luz das indicações
    economicas apenas pode ser tolerado. Era, portanto, dever do governo
    obstar a similhante augmento, e o governo obstou-lhe com as providencias
    consignadas nos artigos 11.^o, 12.^o, 13.^o, 14.^o e 15.^o. Ao passo que
    firmou o principio de libertar um cumulo de bens igual em valor ao
    capital accrescido pelos novos aforamentos, deu o maximo alvedrio aos
    administradores de vinculos para se aproveitarem do beneficio do
    decreto, pelo modo que reputassem mais conveniente, e até para não se
    aproveitarem d'elle. Entretanto elle feriu n'um ponto a integridade dos
    cumulos vinculados. Foi na disposição do artigo 13.^o; mas este
    sacrificio é tão tenue comparado com o alto objectivo de promover a
    divisão do solo, que os ministros de V. Magestade poderão antes ser
    taxados de nimiamente escrupulosos a favor da instituição, do que
    suspeitos em demasia de seus adversarios.

    Alguem poderá objectar, Senhora, que em logar do systema um tanto
    complicado que os ministros de V. Magestade adoptaram, para operar um
    grande movimento de propriedade nos bens vinculados, seria mais simples,
    depois de auctorisar e favorecer a alienação do dominio util dos
    terrenos incultos pela emphyteuse parcellaria, auctorisar também a
    alienação do dominio directo d'esses mesmos bens, ou pela remissão ou
    pela venda. Com a lealdade que professam os ministros de V. Magestade,
    dirão a proposito d'esta consideração, que parece razoavel, o seu
    pensamento inteiro. Primeiro que tudo o movimento dos valores, da
    propriedade considerada de um modo absoluto, seria na verdade o mesmo;
    mas o movimento do dominio util da propriedade territorial seria
    equivalente a metade, a um terço, e em certos casos ainda a menos. O fim
    principal do decreto, o augmentar o numero dos proprietarios, tão
    favorecido pelos artigos 12.^o e 13.^o, ficaria incomparavelmente mais
    restricto; o numero dos afiliados pelo sentimento da propriedade e da
    familia ao partido da paz e da ordem, seria muito menor. Por outro lado
    esse systema complexo cria um incentivo poderoso e talvez irresistivel,
    para o rapido aforamento dos baldios vinculados. Não será tanto o homem
    de trabalho que procure obter um tracto de terra para cultivar, como o
    administrador de vinculo que busque o homem de trabalho para lh'o
    offerecer, porque um grande interesse o incita. Gravados por dividas em
    grande parte ficticias e fructo monstruoso dos desvarios das paixões e
    de uma agiotagem infrene, uma parte dos possuidores de vinculos e
    sobretudo dos grandes vinculos, laboram em graves difficuldades
    economicas, de que os soltará em muitos casos a libertação de uma parte
    dos bens vinculados. Nem se diga que a muitos d'elles faltará a cordura
    para aproveitar utilmente o beneficio da lei: a obcecação d'estes não
    deve reverter em damno dos prudentes e avisados; ao passo que esses
    taes, ainda quando se não verificasse a libertação de uma parte do
    vinculo, saberiam sempre completar de um ou de outro modo a propria
    ruina, ajudados pela agudeza infernal da usura e da agiotagem.

    Em todo o caso, Senhora, o governo respeitou com escrupulo o fundo
    hypothecario e os direitos de terceiro, sem entrar no exame da
    legitimidade moral da origem d'esses direitos. Depois de um grande
    movimento de propriedade dentro d'essa instituição immobilisadora, o
    fundo vinculado fica em rigor sendo o mesmo e portanto a mesma a
    garantia dos encargos e hypothecas. É esse na opinião dos ministros de
    V. Magestade, o principal merito, n'esta parte, da presente proposta de
    decreto.

    Por todos os motivos e fundamentos economicos e politicos até aqui
    ponderados, o governo tem a honra de offerecer á Regia approvação de V.
    Magestade o seguinte:

    DECRETO

    Artigo 1.^o São confirmadas, ampliadas, alteradas ou revogadas as
    disposições dos Alvarás de 23 de julho de 1766, de 27 de novembro de
    1804 e de 11 de julho de 1815, da Carta de Lei de 24 de novembro de
    1823, e de outra qualquer legislação geral existente, relativas a
    maninhos ou terrenos incultos de qualquer especie ou denominação que
    sejam, possuidos allodialmente, e que forem reduzidos a cultura por
    contractos d'emprazamento, debaixo das condições declaradas nos artigos
    do presente decreto.

    Artigo 2.^o Os emprazamentos a que se refere o artigo antecedente
    constituirão prazos fateosins perpetuos hereditarios. Fica a respeito
    d'elles supprimido o direito senhorial do laudemio, bem como o de opção
    e prelação. O canon será fixado livremente por accordo entre o senhorio
    e o emphyteuta.

    Artigo 3.^o Os terrenos assim reduzidos a cultura ficarão
    temporariamente exemptos de todos e quasquer impostos directos geraes ou
    municipaes, tanto em relação à renda liquida do emphyteuta, como ao foro
    estipulado por este com o senhorio directo.

    Artigo 4.^o Os novos predios constituidos em virtude d'este decreto, e
    cuja superficie não exceder dez mil braças quadradas (proximamente dez
    geiras) gosarão da exempção concedida no artigo antecedente, debaixo das
    condições e com as limitações seguintes:

    § 1.^o–A exempção durará 30 annos em relação aos predios que forem
    applicados, ao menos em duas terças partes da sua superficie, ao plantio
    de bosques de arvores de córte, que não sejam pinheiros maritimos, salvo
    sendo o predio situado na orla do mar oceano, até a distancia de uma
    legua para o interior das terras, dentro da qual a cultura dos pinheiros
    maritimos é equiparada á de quaesquer outros arvoredos de córte.

    § 2.^o–A mesma exempção durará 16 annos sendo os predios applicados, ao
    menos em dous terços da sua superficie, á cultura, singular ou
    collectiva, da amoreira branca, do canhamo e dos prados artificiaes,
    quer permanentes, quer temporarios, sendo porém necessario, no caso de
    se applicarem os dous terços sobredictos á cultura dos prados
    artificiaes, com exclusão da amoreira branca e do canhamo, que se
    conserve sempre um quarto do dicto predio em prados artificiaes
    permanentes, para se verificar a exempção concedida.

    § 3.^o–A mesma exempção durará 12 annos se ao menos os dictos dous
    terços forem applicados ao plantio de oliveiras.

    § 4.^o–Durará 8 annos a sobredicta exempção se ao menos dous terços do
    predio forem applicados á cultura da vinha.

    § 5.^o–Se ao menos dous terços do predio forem applicados á cultura dos
    cereaes ou a outras quaesquer culturas não especificadas nos §§
    antecedentes, esse predio gosará por seis annos de igual exempção.

    Artigo 5.^o O beneficio da exempção não é applicavel em nenhum caso aos
    prazos instituidos em terrenos incultos de regadio ou pantanosos, que se
    applicarem no todo ou em parte á cultura de arrozaes.

    Artigo 6.^o Se a superficie do prazo exceder a que é fixada no artigo
    4.^o, o periodo da exempção será reduzido a metade do tempo, em cada uma
    das hypotheses dos diversos §§ do mesmo artigo.

    § unico–Exceptua-se a cultura dos arvoredos de córte de que tracta o §
    1.^o do artigo 4.^o, á qual é applicavel favor igual, seja qual for a
    extensão do terreno emprazado.

    Artigo 7.^o Se um individuo possuir, quer como emphyteuta originario,
    quer como cessionario, dous ou mais prazos d'aquelles de que tracta o
    artigo 4.^o, a exempção ficará reduzida a metade do tempo em relação a
    cada um d'elles, salva sempre a hypothese do § 1.^o do dicto artigo 4.^o.

    Artigo 8.^o O beneficio reduzido, designado no artigo 6.^o, é igualmente
    concedido ao proprietario que, conservando em si unidos os dominios
    directo e util, tornar productivos os seus terrenos incultos, dando-lhes
    a applicação de que tractam o § unico do dicto artigo e o § 1.^o do
    artigo 4.^o.

    Artigo 9.^o O presente decreto fica sendo extensivo a quaesquer maninhos
    ou terrenos incultos que tenham a natureza vincular. Para os effeitos
    d'esta disposição os dictos terrenos são considerados como livres e
    allodiaes, e os administradores actuaes ou futuros dos vinculos havidos
    como proprietarios d'esses terrenos com dominio pleno, unicamente para
    poderem celebrar com respeito a elles os contractos emphyteuticos,
    permittidos nos artigos anteriores, com as condições n'estes expressas.

    Artigo 10.^o Os fóros estabelecidos em cada um dos prazos, cuja
    instituição é facultada no artigo antecedente, ficarão incorporados no
    vinculo a que pertencia o terreno emprazado, e sujeitos desde logo aos
    encargos e hypothecas que pesarem sobre o mesmo vinculo.

    Artigo 11.^o Tanto que o administrador de um vinculo houver emprazado,
    pela maneira precedentemente prescripta, a totalidade dos terrenos
    incultos pertencentes ao mesmo vinculo, ser-lhe-ha licito alienar o
    dominio pleno de uma porção de predios urbanos, ou de predios rusticos
    cultivados anteriormente á data deste decreto, e pertencentes ao cumulo
    vinculado. Esta porção alienavel será igual em valor ao capital que
    corresponderia á importancia dos fóros, considerados como juro de cinco
    por cento; isto é, será igual em valor a vinte vezes a somma dos fóros.
    A livre alienação de taes predios não poderá ser embaraçada pelos
    encargos ou hypothecas que possam pesar sobre o vinculo, ou por
    quaesquer outros motivos ou pretextos.

    Artigo 12.^o Se o administrador do vinculo preferir alienar unicamente
    por contractos de emprazamento na fòrma estabelecida no artigo 2.^o,
    unica admittida para os effeitos d'este decreto, o dominio util dos
    predios urbanos ou dos rusticos cultivados, alienaveis em virtude do
    artigo precedente, a porção d'elles será igual em valor ao capital que
    corresponderia á importancia dos fóros accrescidos, considerados como
    juro de dous e meio por cento; isto é, será igual em valor a quarenta
    vezes a importancia dos dictos fóros accrescidos. N'esse caso o canon
    estabelecido nos respectivos contractos emphyteuticos, não poderá ser
    inferior a metade da renda dos predios aforados, calculada pelo
    rendimento medio dos ultimos trez annos. Os fóros resultantes d'esses
    contractos ficarão incorporados no vinculo.

    Artigo 13.^o Se os emprazamentos facultados no artigo anterior forem
    feitos por superficies iguaes ou inferiores a dez mil braças quadradas,
    ao menos em metade da porção de bens alienaveis, calculada pela fórma
    estatuida n'esse artigo, o administrador do vinculo poderá alienar pela
    dicta fórma, ou segundo a que se faculta no artigo 11.^o, mais outra
    porção de bens vinculados, igual a um decimo do fundo libertado pelas
    disposições dos referidos artigos. N'esta hypothese como na outra os
    fóros ficarão vinculados, e nunca serão inferiores a metade da renda
    media, calculada sobre o rendimento dos ultimos trez annos.

    Artigo 14.^o Se o administrador preferir um systema mixto de venda do
    dominio pleno, de emprazamentos por vastas superficies, e
    d'emprazamentos por superficies restringidas a dez mil braças, o computo
    do fundo alienavel será proporcionado, em harmonia com as disposições
    dos artigos 11.^o, 12.^o e 13.^o.

    Artigo 15.^o Se o administrador do vinculo não usar da faculdade que lhe
    é concedida nos tres artigos antecedentes, uma porção de bens do
    vinculo, computada do modo estatuido no artigo 11.^o, ficará por sua
    morte livre, allodial e exempta de quasquer encargos ou hypothecas que
    pesem sobre o vinculo, por mais especíaes que sejam, regulando-se a
    successão d'esses bens pelo direito commum.

    Artigo 16.^o As medições a que se procederá previamente para se
    verificar o disposto nos artigos 4.^o e 9.^o, dependerão da approvação
    da auctoridade administrativa local, ouvido o delegado ou subdelegado do
    procurador regio.

    Artigo 17.^o As avaliações indispensaveis para se verificar o disposto
    nos artigos 11.^o, 12.^o, 13.^o, 14.^o e 15.^o, serão feitas
    judicialmente, ouvidos os successores dos vinculos, e aquelles que
    tiverem acção sobre os rendimentos dos mesmos vinculos por encargos ou
    por hypothecas.

    Artigo 18.^o Fica revogada toda a legislação em contrario.

    O PAIZ E A NAÇÃO

    (ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL–«o PAIZ»)

    1851

    I

    Por falta de tempo temos deixado de dizer algumas palavras sobre as
    observações fulminantes com que _A Nação_ reduziu a pó impalpavel, o
    nosso artigo sobre as differenças profundas que caracterisavam o
    cartismo de 1832 a 1834, e o pseudo-cartismo de 1842 a 1850.

    O nosso artigo feria o absolutismo se não nas suas tradições mais
    hediondas e atrozes, ao menos nas mais odiosas para o povo, nas suas
    instituições espoliadoras e vexatorias; nas suas rapinas legaes com que
    elle sustentava uma nobreza servil e devassa, uma côrte prostituida, uma
    alcatéa de magistrados venaes, com que mantinha esses tribunaes de
    inquisição, de inconfidencia, de policia, onde se passavam mysterios
    horriveis, com que locupletava essa patriarchal, esses cabidos, essas
    congregações religiosas, onde reinavam dissoluções sem numero e sem
    nome, onde os vicios, alimentados por grossas prebendas, não faziam
    differença dos que reinam nos salões e alcovas da agiotagem, senão em
    serem mais hypocritas, e estarem velados pelo silencio de ferro que a
    censura impunha aos animos generosos e independentes que poderiam
    apontal-os ao paiz. Um gemido ou um murmurio de qualquer d'esses animos
    mais audazes, bastava para sepultar nas masmorras ou repellir para o
    exilio, o revolucionario que ousava apontar para as orgias clericaes,
    para as corrupções cortezãs, para a venalidade dos ministros e
    tribunaes, para a baixeza de uma fidalguia desmoralisada, tão abjecta
    ante a tyrannia, como oppressora e orgulhosa para com o povo. Foram
    víctimas e testemunhas d'esse systema de Baixo-Imperio, d'esse governo
    de eunuchos immoraes, de salteadores legitimos, o padre Vieira,
    Francisco de Lucena, José Anastacio da Cunha, o padre Theodoro de
    Almeida, Phylinto Elysio, e tantos outros homens que a gloria vingou dos
    velhacos corruptos, que reduziram esta nação livre, forte e respeitada
    ha quatrocentos annos, a ser, como era já na segunda decada d'este
    seculo, a fabula e o escarneo das gentes.

    Vós dizeis que _O Paiz_ conta com ser o unico documento da historia
    contemporanea para o futuro. Enganaes-vos. Fizestes de nós um espelho em
    que se reflectia a vossa imagem. Vós é que imaginaes que a historia da
    tyrannia está só escripta nos vossos hymnos insensatos á ignorancia, ao
    obscurantismo, á intendencia da policia, á inquisição e aos
    conventos-prostibulos de sua magestade fidelissima o muito poderoso,
    virtuoso e excellente rei, o senhor D. João V, o benevolo soberano, que,
    ao arrancar-se dos braços de alguma freira de Odivellas, mandava
    arrastar entre linhas de soldados imbelles as populações das provincias,
    para virem trabalhar na grande demencia e ridicularia de pedra e cal
    chamada o convento de Mafra, onde para seu divertimento sua real
    magestade queria metter uma grande manada de frades comilões e
    ignorantes.

    Nós não pensamos que _O Paiz_ seja o unico documento para a historia do
    presente. Mas tambem não crêmos que a historia do absolutismo esteja nas
    _Gazetas_ e _Relações_ de Fr. Francisco Brandão, nem nos _Mercurios_ de
    Sousa de Macedo, nem nas estupendas orações jaculatorias dos fidalgos
    tolos que constituiam a maioria da academia de historia, nem nas gazetas
    de Montarroio e dos seus successores até o divertidissimo Lopes. Estae
    certos de que o presente ou o futuro ha de estudar essas epochas
    saudosas por bem diversos monumentos.

    Houve um frade, membro illustre da ordem monastica mais respeitavel, da
    que só talvez era respeitavel, a benedictina, que escreveu a historia
    secreta e sincera dos reinados de Affonso VI e de Pedro II. Deveis
    conhecel-a porque sois eruditos. Colligi todas as prostituições, todas
    as villanias, todas as ladroeiras, todas as anarchias, todas as
    cobardias, todas as infamias dos ultimos dezoito annos, e comparae-as
    com as descriptas pelo secretario geral da congregação de S. Bento, e
    depois com as dos dous livros horriveis da _catastrophe_ e da
    _anti-catastrophe_, e dizei-nos quantos annos de desordem moral e
    material serão ainda precisos, para formalisar uma conta corrente entre
    a epocha liberal e esse pequeno periodo das eras do absolutismo?

    Sois singularmente esquecidos!

    Dizei-nos uma coisa. Estes homens chamados liberaes, que nos teem
    roubado, mal-governado, ludibriado, traído, quem os viu nascer, quem os
    educou, quem os fez homens publicos? Foi o governo liberal que creou
    essa alcatéa de velhacos e salteadores? É muito moderno para isso. Longe
    de nós citar nomes. Mas se os podessemos citar vêl-os-ieis approvados
    era costumes e sciencia pela vossa velha universidade, despachados pelo
    vosso desembargo do paço, empregados pelos vossos ministros e pela vossa
    regencia nos cargos de administração e fazenda; promovidos aos postos
    militares pela vossa côrte beata; recompensados com distincções
    honorificas e lucrativas pelos vossos virtuosos e pios governos. Que tem
    a geração nova, fervorosa nas suas crenças, ardente nas suas esperanças,
    pundonorosa nos seus sentimentos, com essas fézes que ainda escorrem
    sobre nós, da sentina do absolutismo?

    N'este campo do jornalismo sabeis que differença ha entre nós e vós. É a
    que provém da indole dos respectivos partidos. Nós combatemos com as
    armas francas e leaes da sinceridade: vós com as armas, que crémos não
    tomastes por vossa vontade, mas que eram as unicas que o vosso partido
    vos podia subministrar, e que o deshonram mais a elle do que a vós;
    combateis com as armas atraiçoadas da falta de sinceridade e de
    franqueza. A imprensa independente e liberal accusa os seus homens
    publicos sem disfarce, aponta francamente os defeitos das suas leis,
    reforma as suas opiniões erradas, reprova os proprios actos quando,
    reflectindo melhor, julga que errou; porque o partido dos impios
    reconhece que é composto de homens sujeitos aos erros e paixões. Vós,
    partido devoto e temente a Deus, bateis-vos debaixo dos escapularios,
    dos bentinhos, das camandulas, dos agnus-dei: corações mais fidalgos,
    sentis que estaes e sempre estivestes acima das fragilidades humanas: o
    absolutismo e os seus desembargadores, inquisidores, esbirros e
    carrascos, eram impeccaveis, omniscientes, infalliveis. Se o diabo
    tivesse sido alguma vez capitão-mór, geral dos bernardos, alguazil,
    monsenhor, intendente da policia, declaraveis o diabo um sancto
    benemerito da monarchia.

    Nas vossas instituições, nas vossas leis, nas vossas crenças, ou antes
    nas vossas farças politicas e religiosas, nada ha que deitar fóra, desde
    as sandices das côrtes de Lamego até ás ourinas de côres com que ha
    poucos annos querieis inventar uma sancta de carne e osso, para metter
    pelo chão abaixo os socarrões d'este seculo blasphemo, sancta que os
    malvados maçons, professores e facultativos do hospital de S. José,
    tiveram a insolencia de demonstrar que não passava de um mísero
    instrumento das imposturas do beaterio e dos negociantes e pregoeiros da
    tyrannia.

    Vós negaes-nos o direito de denominar liberrimas as tradições de D.
    Pedro, porque os decretos com que elle libertou a sua patria dos
    comilões e mandriões ao divino e ao profano, que devoravam o fructo do
    suor do povo, que lhe bebiam o sangue por taças de prata, assentados nos
    antros escuros da hypocrisia, reclinados no collo de mulheres perdidas,
    foram promulgados na epocha em que elle exercia a dictadura, em que,
    empenhado n'uma lucta de morte com o despotismo, que se erguia tenebroso
    e desesperado para a ultima e decisiva batalha, fizera o que sempre
    practicaram os chefes dos povos, quer nas monarchias, quer nas
    republicas, em circumstancias analogas; negaes o liberrimo d'essas
    tradições porque D. Pedro concentrava em si todos os poderes? Essa
    negativa vinda de outra parte dava materia á discussão: da vossa é uma
    cousa ridicula. Podeis, estribados nos solidos fundamentos das côrtes de
    Lamego, negar a legitimidade de D. Pedro; mas suppor que, como rei que
    fôra, como representante de sua filha, como seu logar-tenente, como seu
    tutor e protector natural, não podia temporariamente evocar a si uma
    auctoridade, de que, segundo as vossas doutrinas, tinham tido direito de
    usar permanentemente os seus predecessores, é uma d'aquellas finuras da
    logica realista que vós inventastes para divertimento d'esta terra.
    Dizei-nos: d'onde veiu a legitimidade das leis e actos governativos de
    D. João VI, como principe regente, quando ainda não era rei de Portugal
    e sendo viva a legitima soberana, posto que impossibilitada de exercer a
    suprema magistratura? Onde estão as actas dos tres-estados que lhe
    conferiram o poder absoluto de legislador? Onde as actas dos
    tres-estados que deram a um principe, que respeitamos porque é
    desgraçado e proscripto, o direito de usar na abrilada de poderes
    magestaticos, estando o soberano vivo? A necessidade? A salvação
    publica? Então concedei-nos tambem a nós o direito de vermos a
    necessidade e a salvação publica, na dictadura de D. Pedro.

    O liberrimo das tradições do duque de Bragança, não está na origem da
    sua auctoridade; está no espirito e nas tendencias d'esses decretos com
    que a posteridade lhe tecerá a sua corôa de gloria. Está em ter desfeito
    e atirado para a feira da ladra, os instrumentos carunchosos e sebentos,
    com que os phlebotomistas da monarchia absoluta, sugavam a melhor parte
    e a mais pura, da substancia dos que trabalham; está em ter rasgado a
    trapagem de instituições e leis espoliadoras, por cujo restabelecimento
    os velhos sybaritas do partido realista, aquelles que choram pelas
    grossas commendas e grossas prebendas, iam ha annos fazer preces ao céu,
    junto do leito da sua sancta improvisada. O liberrimo dos decretos da
    dictadura de D. Pedro, consiste em serem esses os látegos com que
    sacudimos os vendilhões do templo, e enxotámos das vias publicas os
    salteadores legaes; consiste em serem elles que tornaram impossivel uma
    restauração absolutista; porque o absolutismo, que só se firmava em
    abusos, não teria hoje em que se estribar. Os capitães-móres, os
    dizimos, os frades, as bruxas, as milicias, os quartos, os oitavos, as
    jugadas, a patriarchal, os lobis-homens, as cortes de Lamego, as alçadas
    _ad hoc_, os tractos espertos, a legitimidade dos adulterios
    desembargatorios, foram-se. Foram-se, pobres comilões das commendas e
    prebendas, todas as coisas poeticas e sanctas, cuja irreparavel perda
    deploraes, accesos em sancto amor da monarchia e da religião de nossos
    antepassados.

    Sois imprudentes! Porque falámos na extincção dos tributos foraleiros,
    como de um dos actos capitaes da dictadura de D. Pedro, como de uma
    providencia que por si só faria a gloria de um principe, redarguis-nos
    com a miseria de muitas familias nobres, que ficaram privadas de
    subsistencia pelo decreto de 13 de agosto.

    Quereis um excellente conselho para essas familias nobres? Trabalhem. É
    exactamente o que fazem os homens do povo quando teem fome: é
    exactamente o que Deus ordenava que Adão fizesse, se queria comer, e
    posto que a fidalguia não provenha d'esse primeiro tronco das castas
    populares, aquelle exemplo biblico não é absolutamente para despresar.

    Depois a queixa é mal fundada. A lei de junho de 1846, remediou até onde
    era possivel o escandalo de que vos queixaes. Essa lei perfilhae-a, que
    é conforme no seu pensamento ás vossas aspirações. Escandalo! Tão
    escandalo como seria o de colher a policia um bando de salteadores na
    sua caverna, tirar-lhes a preza já dividida entre elles, e restituil-a
    aos passageiros nús, famélicos, espoliados.

    A historia d'esses tributos, da sua conservação ao lado dos tributos
    geraes do paiz, da sua delapidação, apesar dos protestos solemnes dos
    povos, repetidos por seculos nas assembléas nacionaes, em quanto o
    absolutismo não esmagou as antigas liberdades d'esta terra, é que é um
    d'aquelles escandalos que ás vezes as nações apagam com sangue, quando
    os principes não sabem como D. Pedro, riscal-os com o _traço de penna_
    que amaldiçoaes.

    Quando quizerdes que vos desenhemos aquella negra historia em largos
    traços de penna, far-vol-o-hemos, ajuntando-lhe ao lado um quadro das
    façanhas d'essa nobreza, cuja sorte lamentaes. Estae certos de que a
    sapiencia realista ha de scismar alguns dias, antes de vos tirar das
    aperturas da situação em que viestes collocar-vos. Tendes discutido
    tanto o presente, que é preciso discutir-vos tambem o passado.

    Não quereis que falemos da liberdade da terra, porque não falamos dos
    _bens usurpados á egreja_. A que bens vos referís? Aos das congregações
    religiosas? Dizei-nos: 1.^o, se ellas possuiam esses bens em virtude das
    leis, se por derogações especiaes d'ellas; 2.^o, se o poder temporal
    podia ou não recusar a conservação das corporações monasticas; 3.^o, se
    extinctas ellas, os seus bens, possuidos em contradicção com as leis de
    amortisação, caíam ou não no dominio do estado. Pensae um pouco antes de
    responder. Vêde não estragueis as doutrinas dos bons tempos que já lá
    vão.

    Perdoae-nos: mas quando alludís aos pescadores, argumentaes com todo o
    mimo e garbo da dialectica monsenhora, miliciana e dizimeira. Sois de má
    fé tão exemplar, que merecieis ser feitos abbades de Lobrigos, antes
    d'essa abbadia de trinta mil cruzados ser chamada á muxila por uma das
    nobres familias, cobertas hoje de lucto, por verem os rombos que os
    impios e demagogos fizeram no throno e no altar. Redarguis-nos que
    apezar das liberdades e excepções que D. Pedro concedeu á pesca, os
    pescadores andam a mendigar. Pois não era d'isso que nós nos
    queixavamos? Não era justamente por ter o pseudo-cartismo de 1842 matado
    a liberdade cartista de 1832, que nós bradavamos _aqui d'el-rei_?
    Quereis, porém, saber um facto curioso? Quando os Cabraes, pela lei de
    10 de julho de 1843, restabeleceram os vexames de que D. Pedro libertara
    a pesca, estribaram-se n'uma lei miguelista de 1830. Foi d'esta lei que
    partiram, foi esta lei que invocaram, ligando o absolutismo de 1842 ao
    de 1828, o systema espoliador antigo ao systema espoliador recente.
    Andae, que n'esta parte os Cabraes são vossos primogenitos, e por isso
    não admireis que os pescadores mendiguem: é o mesmo que succedia antes
    da odiosa dictadura de D. Pedro, quando estes iam a Queluz, aos duzentos
    e trezentos, pedir esmola ao snr. D. Miguel.

    Não consentís que folguemos da extincção dos dizimos, porque o clero
    está na miseria e o systema actual de retribuição aos parochos é
    inconveniente. N'este ultimo ponto estamos de acordo. Mas ahi tendes a
    differenca entre a nossa lealdade e a má fé realista. Nós não nos
    envergonhamos de dizer que os liberaes erraram em querer que os parochos
    fossem directamente subsidiados pelos seus parochianos, e que os
    resultados moraes e religiosos de um tal systema são máus; não hesitamos
    em proclamar a reforma, em accusar duramente os governos que não a
    emprehendem. Vós, pelo contrario, quereis remediar o inconveniente com
    um mal maior, só porque os dizimos coexistiram com o absolutismo. Que
    vos importa que nove decimos d'esse tributo absurdo, d'esse tributo
    iniquo porque feria só uma classe, a classe mais digna de contemplação,
    d'esse tributo anti-economico que recahia, não sobre o producto liquido,
    mas sobre o producto bruto, fossem devorados por uma fidalguia safada e
    corrompida, que só sabia arrastar-se e comer; e por bispos opulentos que
    com os dizimos fundavam fartos patrimonios para todos os seus parentes,
    por conegos devassos, por essa comedia ao divino, publica-fórma em
    miniatura da egreja romana, chamada a patriarchal; por conventos de
    frades gordos e ignorantes; por beneficíados _supplices_ e _in quocumque
    statu_, por todos aquelles, e por tudo aquillo, emfim, que mais abusivo
    era, que mais fóra estava do espirito do christianismo? Com que fronte
    ousaes falar da miseria actual dos parochos? Nem ella é como a pintaes,
    nem é toleravel que alludam a ella os defensores dos governos immoraes
    que introduziram tão vergonhosos abusos, que consentiam aos padroeiros,
    aos beneficiados, aos commendadores, aos conegos, que despendessem nos
    banquetes, no luxo, no jogo, nos lupanares, o fructo dos suores do
    lavrador, extorquido impiamente em nome de Deus, em quanto os curas de
    alma só obtinham d'esses poderosos senhores, congruas de fabulosa
    exiguidade.

    Quereis um contracto? Temos meios de verificar quaes são as congruas
    actuaes das diversas parochias do reino: tambem os temos para saber
    quaes eram no tempo do absolutismo. Tomemos uma diocese qualquer, para
    instituirmos a comparação entre uma e outra epocha. Se, na sua maioria,
    as congruas actuaes forem inferiores ás antigas nas parochias
    dizimeiras, tendes vós razão de nos accusardes de causadores da miseria
    do clero curado, pela extincção dos dizimos; se porém se verificar o
    contrario, haveis de acceitar a qualificação de hypocritas, pois
    defendeis as instituições do passado não porque eram melhores, mas
    porque rendiam mais para os agiotas do absolutismo, isto é, para os
    fidalgos, para os commendadores, para os abbades nedios, para os
    beneficiados _in quocumque_. Se nós fomos tão maus para o clero
    aproveitae a nossa proposta. Olhae que é uma limpa veniaga.

    Por ultimo increpaes-nos de que referindo-nos à suppressão do systema
    vicioso das milicias e ordenanças, d'esse Potosi inexgotavel dos
    capitães-móres e coroneis de _tibiquoque_, não nos lembrassemos dos
    soldados, que verteram o sangue e perderam os membros ha quarenta annos
    em defesa da patria, e que morreram de fome. Dirigis n'esta parte uma
    increpação justa, não a nós, que não somos poder, que nunca o fomos, mas
    aos governos posteriores á restauração de 1833. Todavia, que tem isso
    com a extincção das ordenanças e milicias? A vossa dialectica realista
    dá, na verdade, saltos mortaes. A nossa vae mais devagar. Se esses
    soldados esquecidos perderam o sangue e os membros em defesa da patria,
    ha quarenta annos, o esquecimento indigno dos seus serviços divide-se
    por metade: vinte annos com curtos intervallos pertencem ao absolutismo,
    vinte á restauração. Onde estão, absolutistas, registadas as pensões que
    lhes déstes: onde é situado o hospital de invalidos que edificastes? O
    unico que existe devem-no os veteranos portuguezes a uma nobre e sancta
    princeza, á viuva do principe D. José, á _Tia Malhada_, que vós sabeis.
    De edificações vossas não temos noticia, senão da continuação do palacio
    da Ajuda, uma das primeiras necessidades do paiz, das forcas erectas na
    praça nova do Porto e no caes do Sodré, de uns paredões em Carnaxide
    para a egreja da Senhora da Rocha, e das formidaveis fortificações do
    Tejo, com que tornastes Lisboa inconquistavel.

    Talvez vos referis unicamente aos officiaes realistas separados do
    quadro do exercito em 1834. Isto é mais natural, porque vós,
    fidalguinhos, não curaes da soldadesca, peonagem indecente, vil relé
    popular. Nós lamentamos tambem que os serviços d'esses antigos militares
    se menoscabem por causa de odios politicos, que a victoria devia ter
    feito esquecer. Como vós, estamos promptos para reprehender e accusar,
    para deplorar e pedir; para execrar e amaldiçoar estes nossos satrapas
    pseudo-liberaes, que deixam ir de porta em porta os velhos Belisarios de
    Portugal. Mas, realistas, escondei sob as vossas capas de S. Ignacio
    essas mãos tinctas em sangue, derrubae para o rosto o chapéu da
    companhia, não vos descubram esse olhar implacavel! Entre os militares
    que pendurastes das forcas; entre aquelles com que atulhastes as cadéas
    e as masmorras das fortalezas, com que povoastes as praias do desterro e
    os presidios de Africa, não havia nenhuns d'esses que verteram o sangue
    em defeza da patria commum? Por que, durante cinco annos, mansos
    cordeiros do evangelho, rosicléres ambulantes de veronicas e relicarios,
    não vos veiu ao espirito um unico pensamento de perdão e de piedade?
    Dizei-nos o que terieis feito de todos esses militares, se a providencia
    tivesse deixado protrair-se até agora o vosso reinado? Eram para vós
    inimigos politicos? É exactamente o que foram para nós os vossos
    officiaes. Maldicto o liberal que ainda conserva rancores para os
    vencidos: maldicto o governo que não lhes paga a divida da patria. Mas
    que a justiça divina cáia tambem sobre aquelles que derramaram nos
    patibulos o sangue dos valentes que já o tinham derramado por esta
    terra; ou lhes fizeram verter durante cinco annos o suor da agonia sobre
    as lageas dos calabouços, ou os tornaram errantes por praias estranhas,
    onde lhes branquearam os cabellos as saudades da sua terra, onde teriam
    acabado a vida, proscriptos e miseraveis, se o braço da Providencia e o
    genio do duque de Bragança não os houveram salvado.

    Collegas, deixae-vos d'estas questões de que não entendeis nada. Ide lêr
    a vida do padre Anchieta, que decididamente é o sancto que fez mais
    milagres n'este mundo, ou se preferis occupar-vos em outra obra pia, ide
    ajudar os cabralistas a vender a bulla da sancta-cruzada, que elles
    compraram a prazos, ao vosso virtuoso amigo o cardeal Antonelli. Será
    uma vergonha que não haja dinheiro para o pagamento, quando elle sacar
    letras sobre o escriptorio da salvação de Portugal.

    II

    Na viva discussão entre Proudhon e Bastiat, sobre o credito e a
    legitimidade dos juros, este ultimo dizia ao seu irritado adversario na
    carta com que terminou a discussão: «_Todos os gremios religiosos se
    parecem uns com os outros: quando não teem razão, agoniam-se._» É o caso
    da redacção da _Nação_ comnosco.

    O nosso artigo foi provocado. Não tinhamos atacado o jornal realista.
    Apreciaramos n'um artigo nosso o espirito das reformas de D. Pedro
    comparando-o com o espirito que caracterisou a reacção de 1842. Era uma
    questão estranha ao partido realista. Na verdade alludimos então
    accidentalmente ao absolutismo; mas imaginavamos que a _Nação_,
    reservando para o seu partido a nacionalidade, considerava o
    absolutismo, cujo predominio no paiz, durante certos periodos da nossa
    historia, é incontestavel, como uma aberração, um abuso da constituição
    primitiva do paiz, constituição assaz livre, posto que não tão
    democratica como o indicariam algumas provisões d'essas côrtes, a que a
    _Nação_ foi buscar duas linhas para lenda da sua bandeira, se táes
    côrtes houveram existido. Imaginavamos que a _Nação_ comprehendia nos
    seus affectos esses seculos de nobre recordação, em que este cantinho do
    mundo se governava com garantias e liberdades singulares para o povo; em
    que o feudalismo não transpunha as nossas fronteiras, em quanto, a bem
    dizer, toda a Europa gemia debaixo do seu jugo de ferro. Imaginavamos
    que a _Nação_ se recordava das nossas admiraveis cartas de
    municipalidade, dos nossos parlamentos, d'essas duas heranças de
    liberdade romana e de liberdade germanica, que nossos avós haviam
    salvado atravez da edade media. Enganava-mo-nos. A _Nação_ regeita tudo
    isso: a _Nação_ cifra todo o passado nos seculos mais recentes. Da
    comedia monastica das côrtes de Lamego salta á comedia real das côrtes
    de 1641. Para ella a velha monarchia não é a dos primeiros Affonsos, de
    D. Diniz, de Affonso IV, de D. Fernando, de João I ou de Affonso V: é o
    absolutismo, comparativamente moderno, na sua forma pura, exclusiva. Só
    depois vimos isto; só depois vimos que os tempos anteriores ao
    estabelecimento do poder real sem limites, estavam tanto fóra da
    communhão realista, eram tão hereticos para a sua monarchia orthodoxa,
    como estes tempos liberaes, que, em nossa profunda ignorancia,
    suppunhamos estribarem a sua legitimidade historica nas tradições
    primitivas. Sem o saber tinhamos blasphemado do credo realista: do
    sancto, do legitimo, do divino absolutismo. Mas a ignorancia do credo de
    uma egreja alheia, não devia concitar o anathema contra o ignorante. A
    _Nação_ devia ter advertido com caridade a nossa rudeza, conforme manda
    o evangelho. Era uma obra de misericordia. Em logar d'isso fustigou-nos
    duramente. Foi um proceder ferino.

    Irritamo-nos tambem. Poderiamos discutir com a _Nação_ sobre as formulas
    da liberdade. Talvez muitas d'aquellas com que a monarchia cresceu e
    vigorou fossem, accommodadas á civilisação de hoje, preferiveis ás
    actuaes: era uma questão de doutrina disputavel. Acceitar como base de
    controversia a negação completa da liberdade humana, o predominio de um
    homem sobre a humanidade, a sciencia certa e o poder absoluto
    individual, como fundamento do direito; eis o que a consciencia, a
    dignidade do homem, o seu espirito immortal, não consente á
    intelligencia que dispute com placidez. O absolutismo como theoria
    politica é a nossos olhos um insulto feito a Deus e ao genero humano.
    Isto é, para nós, uma verdade de consciencia. Seguimos o impulso da
    indignação; porque só a indignação póde corresponder a essa theoria a um
    tempo immoral e feroz. N'um artigo de jornal, escripto a correr, talvez
    haja uma ou outra phrase mais ou menos inconveniente: retiramol-a. Mas
    as idéas, nem uma, por mais violenta que os nossos adversarios a
    supponham; porque a verdade não se retira diante da apotheose da
    corrupção e da tyrannia.

    No meio, porém, da cólera não esquecemos a cortezia de jornalistas.
    Evitámos tudo que fosse pessoal aos redactores da _Nação_; lançamos até
    á conta do seu partido a deslealdade da sua argumentação. E não
    respeitámos só os redactores; procurámos não ferir individualmente
    ninguem. Nas increpações a um partido a responsabilidade que se lança
    sobre elle reparte-se em tantas quotas, que o valor de cada uma é
    inapreciavel. A _Nação_ dirigiu-se ao individuo, aproximou escriptos
    cujo tom, cujo caracter era diverso, e que, a haverem sido similhantes,
    ella se teria prostituido discutindo alguns e elogiando-os em parte.
    Falou no _Raio_ e no _Rabecão_, n'esses papeis abjectos, que insultavam
    os individuos e penetravam na vida particular; n'esses papeis que
    apparecem em toda a parte em que reina a liberdade de imprensa, a
    liberdade da idéa e da palavra; n'esses papeis que não provam outra
    cousa senão uma verdade sediça, senão que se abusa ás vezes das coisas
    mais legitimas e uteis. Era, porém, ao orgão do absolutismo que tocava
    fazer allusões d'estas? De que epocha são o _Mastigoforo_, o _Cacete_, a
    _Besta-Esfolada_, e centenares de publicações analogas? Eram essas
    publicações hediondas como aquellas que alludis, especulações torpes de
    alguns miseraveis que exploravam o escandalo para viver? Não. Eram
    composições de homens que vós elevaveis ao episcopado; eram obra de
    sacerdotes, que iam consagrar a hostia ao cordeiro, e prégar o evangelho
    (sabe Deus o que elles prégavam) com os labios escorrendo em fel, com as
    mãos immundas de tincta que elles sabiam se havia de converter em
    sangue. E era isso um abuso da liberdade de escrever, que vós tão
    largamente aproveitaes, embora seja invenção diabolica dos
    liberdadeiros? Não. A censura, a auctoridade, o poder publico,
    inexoravel, frio, grave, calculado, lá estava. Esses sacerdotes iam com
    os seus libellos subir as escadas do desembargo do paço, onde se
    enfileiravam as solemnes cabelleiras dos bons tempos, ou bater á cella
    onde curtia os periodos do Larraga, o sabio de então, o frade ou o monge
    pedante. E o desembargador, ou o frade, ou o monge liam pausadamente o
    libello, e a injuria torpe, calumniosa, pessoal, sanguinolenta, descia
    para os prélos legitimada pelo tribunal, sanctificada pelo convento,
    irreplicavel, fulminante; porque o magistrado e o frade lá tinham nas
    mãos o açamo para impedir a retaliação, para obstar ao gemido da
    victima. Liberdadeiros detestaveis, que fizestes libertando a palavra e
    o pensamento? Para vossa vergonha eterna ahi tendes o _Rabecão_ e o
    _Raio_.

    Nós chamámos as coisas pelo seu nome: chamámos prostituição á
    prostituição; mas remontámos os seculos; buscámos nas gerações,
    extinctas ha muito, os nossos exemplos. Sabeis, e se não sabeis
    perguntae-o em segredo aos vossos compartidarios, que não precisavamos
    de remontar muitas decadas, ou andar muitas leguas, para irmos encontrar
    debaixo dos freixos de um parque, espalhadas no chão, as folhas avulsas
    do capitulo 26 do livro XI dos Annaes de Tacito. Vós accometteis os
    vivos, insultaes quem não se póde defender, porque só o faria
    envilecendo-se, cuspis nas faces de uma mulher, vilipendiaes a
    sanctidade da fraqueza, quando nós vos davamos o exemplo do respeito
    pela sanctidade da proscripção e da desgraça. Cavalleiros portuguezes
    antigos, erguei-vos das vossas camilhas de pedra; vinde contemplar as
    gentis façanhas dos defensores do passado!

    Que a _Nação_ prosiga em vinte columnas com que nos ameaça, refutar as
    nossas seis columnas cuja extensão a espantaram. Esperamol-a. Depois
    nós. Veremos se saindo dos accidentes vem aos factos: se acceita a luva
    que lhe atirámos. Se nos prova a justiça, a conveniencia, a moralidade
    das prestações foraleiras, dos dizimos, da soltura clerical e monastica,
    dos gravames sobre a pesca; emfim, de todas essas vergonhas de que D.
    Pedro nos libertou, pelo que a sua memoria nos é cara.

    III

    Os sete seculos

    Agora nós.

    Defensores do absolutismo, vós escrevestes um livro a proposito de um
    artigo do _Paiz_, que tinheis provocado, e atulhastes com elle não
    sabemos quantas columnas do vosso jornal. É que esse artigo vos feriu
    profundamente. As nossas ignorancias, as nossas falsidades, as nossas
    faltas de logica e de estylo, as nossas loucuras, o nosso orgulho
    insensato, todas as miserias do espirito humano, epilogadas em nós, que
    deveriam despertar a compaixão d'essas almas catholicas e pias,
    fizeram-vos proromper em rugidos de uma cólera essencialmente heretica,
    pagã, selvagem. Atirastes-nos com os thuribulos, com as galhetas, com os
    flabellos, com os tocheiros, com as sacras, com os missaletes.
    Apinhastes-vos á porta da sacristia a gritar, a vociferar, a quererdes
    saltar uns por cima dos outros. Os remoques, os vituperios, as
    maldições, as pragas choveram por dias sobre nós, que de braços cruzados
    e com as lagrimas nos olhos, contemplavamos compungidos a vossa
    resignação christã.

    Defensores do absolutismo, isso não é bonito! Tanto fogo, tantas
    descargas cerradas sem ordem nem disciplina, não prestam para nada. Uma
    carga de bayoneta vale mais que tudo isso. Granadeiros do Mindello,
    conforme nos chamaes, sabemos como o simples reluzir das bayonetas era
    efficaz comvosco. Ficastes sempre um pouco milicianos. Gastaes muita
    polvora; mas atrapalhaes-vos demasiado ao desfechar, e as balas zumbem
    apenas por cima da cabeça dos inimigos.

    Caricatura de Eumenide, a _Nação_, ahi estava ha uns poucos de annos a
    descompor, não a podridão de vicios e de corrupções, com que o
    despotismo de tres seculos envenenou a seiva da sociedade; não a herança
    de envilecimento que o habito de tremer diante dos frades inquisidores,
    ou dos cabelleiras da inconfidencia e da intendencia, severos e puros
    como os accusadores da filha de Helcias, legara aos que vieram antes de
    nós, e estes á geração que vae acabando; não a abjecção aprendida nas
    ante-salas da nobreza, do alto clero, dos magistrados venaes, dos
    cortezãos que mercadejavam nas mercês regias, mas sim a liberdade, a
    civilisação, o progresso, que são leis de Deus, reveladas nas aspirações
    de todos os homens, nos caracteres dos seculos, no desenvolvimento
    invencivel do espirito humano; a liberdade, a civilisação e o progresso,
    que se conteem no Evangelho de Christo e não no Evangelho dos Phariseus,
    e que hão-de ir lentamente desbaratando esse _caput mortuum_ de
    depravações e baixezas, que os despotas passavam de mão em mão para
    dominarem pela desmoralisação e pelo terror. Eumenide de roca á cinta, a
    _Nação_ ahi estava aguentando nas costas gibosas, a canastra cheia de
    parches fetidos com que a hypocrisia da côrte, dos tribunaes, das
    sacristias, cobria as chagas purulentas do corpo social, flagellado,
    rasgado, exhaurido de forças pelos vampiros defensores do throno e do
    altar: ella ahi estava resmoninhando improperios contra a dignidade e os
    fóros do homem, e apregoando a panacea para todos os males, na immunda
    trapagem da canastra absolutista. Não lhe diziamos nada: não lh'o
    diriamos talvez nunca. Tentou-a porém o peccado um dia, para vir lançar
    á nossa porta o seu ridiculo pregão. Fez-nos asco a mumia ambulante, e
    com o bico da bota atirámos-lhe a canastra ao ar. Os parches
    espalharam-se no chão, e quem passava tapou o nariz e os olhos; era um
    espectaculo hediondo e repugnante. A velha ficou embaçada, absorta na
    dôr e na colera. Depois tornou a si, arrancou mãos cheias de cabellos
    desgrenhados: careteou, rugiu, babou-se: e, Messalina desdentada e
    tonta, fincando os punhos engelhados nos quadris angulosos, epilogou em
    si a Ribeira-Nova e blasphemou, blasphemou, blasphemou quatro dias.

    Grita, Eumenide de farça; grita, que te ouçam todos! Tens razão, pobre
    velha, a bota impia estragou-te a mercadoria. Apanha essas rodilhas
    esfarrapadas das commendas e prebendas, e concerta outra vez a canastra.
    Vitupera esta raça maldicta dos liberdadeiros, que não querem sentir os
    ossos a estalar no potro, ou vêl-os queimar nas fogueiras da
    sancta-inquisição; que não querem que os desembargadores durmam
    impunemente no thalamo nupcial, o somno do adulterio em nome do livro
    5.^o; que não querem dar cem mil cruzados a cada successor dos descalços
    apostolos, para fundarem morgados á parentella, nem grossas prebendas
    aos monsenhores, conegos e beneficiados _in quocumque_, para atulharem
    de legitimações os livros da chancellaria, e fazerem apparecer uma
    edição annual do _Cosinheiro Moderno_. Apanha a canastra e os fedorentos
    emplastros, e continua a apregoar os teus _recipes_, sacudindo de vez em
    quando esse latego imaginario com que, na tua tonteira, pensas castigar
    a civilisação, por ter enterrado a sentina do absolutismo nas ruinas das
    taipas e páus podres de que era construida.

    Vinde cá, defensores do absolutismo, quem vos deu o direito de falardes
    d'esta nobre terra de Portugal nos tempos em que era livre? Em Portugal
    o despotismo é que é moderno, e a liberdade antiga. Cerrae de todo os
    olhos, vós os que amaes curvar-vos ante um senhor dos vossos bens e das
    vossas cabeças. Não vos deslumbre o brilho dos quatro primeiros seculos
    da monarchia! As gerações d'essas eras sacrosanctas não vos pertencem;
    são as dos nossos antepassados: os vossos acham-se nas que viveram de
    joelhos á porta da inquisição, do palacio-monstro de D. Manuel e do
    convento absurdo de Mafra.

    Defensores do absolutismo! A historia dos tempos das commendas e
    prebendas por que vós choraes, começa n'uma usurpação e acaba n'outra: a
    primeira a da liberdade do povo, a segunda a do throno legitimo. Entre
    estes dous horisontes, cerrados e negros, está contida apenas a longa
    decadencia, a lenta agonia de uma nação pequena pelo numero, mas grande
    pelo esforço, grande sobretudo pela sua actividade agricola, commercial
    e maritima; grande pela politica dos seus principes populares; grande
    por um energico e tenaz amor dos seus fóros; grande pela sabedoria
    comparativa das suas instituições e leis, no meio do atrazo politico da
    Europa; grande, não pelas virtudes das classes privilegiadas, mas sim
    pelas dos villãos, pelas de nossos avós; grande pela alliança estreita
    entre a monarchia e a democracia, contra as oligarchias que nascem da
    indestructivel desegualdade humana e que, segundo os tempos, se chamam
    patriciado, fidalguia, agiotagem, e cuja manifestação suprema se exprime
    constantemente por duas palavras unicas: violencia e rapina.

    Defensores do absolutismo e da legitimidade! Os actos politicos dos
    tempos que vos pertencem e que vós defendeis, constituem apenas uma
    serie de illegitimidades: mais do que isso, uma serie de attentados
    commettidos contra o povo, pelos principes pervertidos, por uma
    fidalguia que, tão orgulhosa d'antes, se declarara vencida ao ver rolar
    algumas cabeças sob o cutello do algoz, e que achára em fim ser mais
    commodo servir, enganar, e comer, comer muito; pervertidos pelos
    jurisconsultos que tinham ido beber nas escholas estrangeiras as
    doutrinas de direito publico dos tyrannos de Roma, como vós nos accusaes
    de termos ido beber as ideas de liberdade, que estão escriptas no
    coração do homem, nos livros dos impios d'este e do precedente seculo.

    Defensores do absolutismo e do direito divino! Em que dia desceu este do
    céu sobre a cabeça d'el-rei D. Manuel, para ordenar aos seus escribas
    que rasgassem centenares de pactos constitucionaes, onde estavam
    escriptos os fóros e liberdades d'esta terra; centenares de pactos
    municipaes, onde estavam consignadas as liberdades e garantias das
    cidades e villas do reino? Em que dia desceu o direito divino a
    sanctificar a conversão em simples leis fiscaes, dos codigos em que se
    continham as immunidades e franquias populares, cujo espirito sempre, e
    cuja lettra muitas vezes provam, que esses codigos eram rigorosos
    contractos politicos, livremente offerecidos e acceitos? A reforma que
    os povos pediam á corôa era acaso a morte das suas liberdades, ou era a
    cessação dos abusos que a nobreza, a magistratura real e o clero tinham
    introduzido, pouco a pouco, em contravenção com o direito publico
    municipal, base do direito politico do paiz? Respondei.

    Respondei, defensores do absolutismo! Que eram os nossos parlamentos até
    1480, senão as assembléas onde o povo protestava sempre, ameaçava não
    raro, e castigava algumas vezes cerrando as bolças, as quebras do que,
    na linguagem imperfeita d'aquellas eras, chamava seus privilegios, e que
    nós hoje chamamos direitos e garantias politicas? Que eram esses
    parlamentos (concedei-nos o uso d'esta palavra liberdadeira e
    revolucionaria, de que já usavam nossos avós, os malhados do seculo XV)
    senão uma aferição solemne entre os actos do governo, o exercicio do
    poder real, por si ou por seus delegados, e as regras do direito
    constitucional com que crescera e vigorava o paiz?

    Respondei, se o sabeis, e se o não sabeis ide estudal-o em documentos um
    pouco mais graves e authenticos, do que esse rol de tolices bernardas a
    que chamaes côrtes de Lamego. Elles estão patentes para vós como para
    nós. Mentistes quando dissestes que fizeramos monopolio d'esses titulos
    da legitima e verdadeira gloria d'esta nação, que se constituiu e
    cresceu á sombra da liberdade, porque só assim as nações se constituem e
    crescem. Mentistes para encobrir a vossa incapacidade e preguiça. Para
    os buscar, estudal-os e comprehendel-os, é necessario o sacrificio do
    tempo, dos prazeres, da saude, dos interesses materiaes; é necessaria a
    abnegação da existencia exterior, no que ella tem mais grato, para
    viver, anno após anno, de uma vida interior que nos devora, de uma idéa
    que nos illumina. É esta idéa que vos foge, que não cabe no vosso
    espirito, enlevado na visão beatifica e longinqua das commendas e das
    prebendas, apoquentado pela saudosa imagem d'aquelles pescoços anafados,
    roliços, torneados em roscas atoucinhadas, dos bons tempos patriarchaes,
    canonicaes e monachaes. Esses tempos, essas saudades, essa religião da
    gula, do luxo, dos vicios hypocritas; essa contemplação continua da
    corrupção absolutista, é que não vos deixa erguer os olhos para os
    pulverulentos archivos do reino, cujo exame nos lançaes em rosto como se
    fôra um crime! Não! Vós não podeis vêr os pergaminhos cobertos de pó.
    Esse pó que repousa sobre elles, vôa para os ares quando se lhes toca: o
    lodo do charco em que tendes os olhos fitos é que nunca se alevanta da
    terra, e as vossas palpebras de servos estão atrophiadas; os vossos
    olhos esqueceram o movimento com que os dos homens livres olham para o
    que está elevado, para o ar e para o céu.

    É por isso que quando a verdade inexoravel vem esmagar os embustes em
    que estribaes a tyrannia, achaes mais simples negar essa verdade, e
    accusar de falsificadora a mão que a atira ás faces sem pudor do
    absolutismo. O homem de bem quando diz a outro homem–falsificaste,
    inventaste, deturpaste, sumiste os documentos de um, ou de muitos
    factos,–traz sempre na mão as provas de uma accusação, que importa um
    crime perante as leis moraes e perante as leis civis. Sem isso a injuria
    não deshonra o accusado, deshonra o accusador. Discipulos do denunciante
    do illustre Damião de Goes; discipulos do padre Simão Rodrigues; beatos
    filhos de Sancto Ignacio, bem se vê que respeitaes as tradições da vossa
    ordem, e que estudaes a moral pelos livros dos Busembaus, dos Lessios,
    dos Tamburinis, os quaes vos aconselham, que _se quiserdes deitar a
    perder qualquer pessoa, convém que comeceis por espalhar calumnias para
    a difamar, porque, acreditando-se mais facilmente o mal que o bem,
    sereis cridos, com o que o calumniado perderá a força que lhe dá a boa
    reputação, e sereis vingados_. O que é ter no bahú a roupeta, á
    cabeceira as camandulas, e haver estudado por bons livros! E que demonio
    podieis vós fazer senão calumniar sanctamente, em quanto não deixamos o
    nosso _monopolio_, e não se faculta o uso dos archivos á vossa sede de
    instrucção, ao vosso amor da verdade, ao vosso extremado afferro pelas
    instituições primitivas?

    Defensores do absolutismo, como assim? Engrifaes-vos para defender
    contra os salteadores do Mindello a _vossa propriedade_, as prestações
    foraleiras, os dizimos, os benesses das capitanias-móres, e metteis ao
    mesmo tempo no peitilho da roupeta, os sete seculos da monarchia? Isso
    não vale: isso não é para mãos bentas. Largae quatro seculos que não são
    vossos: guardae os tres que vos pertencem. Antes d'elles, não cançaremos
    de vol-o repetir, o povo portuguez era livre, não n'um latinorio piegas
    de frade bernardo, mas na realidade dos factos, e pelo mechanismo da
    sociedade politica.

    Essa liberdade não se consubstanciava inteira na existencia das grandes
    assembléas nacionaes. Pelo contrario, as côrtes eram a sua manifestação
    mais incompleta. Ahi o povo, a villanagem, que vós sabeis, nobres
    senhores, empregava, ainda ameaçando e reprehendendo, formulas cortezes
    para com o monarcha, analogas, até em phrases, ás que emprega a
    villanagem ingleza de hoje para com os seus reis. No que era novo, nas
    medidas administrativas, ou nas leis civis que a civilisação mostrava
    uteis ou justas, o povo limitava-se a discutir a sua conveniencia; mas
    no que feria o pacto fundamental das cidades e villas, ou aquella parte
    do direito consuetudinario, homologado conjunctamente com a carta
    municipal, e que representava direitos politicos, oppunha-se tenazmente
    á innovacão. A monarchia n'esse caso curvava a cabeça e reconhecia a
    sanctidade dos principios. Nunca um rei de Portugal livre ousou dizer
    aos seus concelhos: «quebrei as vossas immunidades, os vossos fóros,
    porque assim aprouve á minha sciencia certa, poder real e absoluto.»
    Quando as accusacões dos povos apontam a offensa das garantias, a
    reparação, ou a promessa solemne d'ella não falha, porventura, uma só
    vez, nas actas das côrtes dos antigos tempos.

    Assim a liberdade popular estribava-se não tanto nos parlamentos como
    nos foraes, e a garantia dos principios contidos n'estes, era a
    estructura robusta dos corpos municipaes. Os concelhos eram a
    organisação da democracia contra os poderosos, que só entravam n'esses
    gremios politicos por concessões raras, condicionaes, difficeis de
    obter, sobretudo nos tempos primitivos. Essa organisação dava os meios
    de repellir as violencias dos tyrannetes privilegiados: dava uma
    terrivel solemnidade aos aggravamentos dos povos. Os cavalleiros
    villãos, os bésteiros municipaes, a peonagem armada lá tinham o ferro
    para o desaggravo, se o rei não cumpria o seu dever. A força estava
    atraz da doutrina; porque a força e só ella mantem solidamente o
    direito. É um axioma que vós acceitaes largamente. E senão, pedi aos
    vossos amigos de Roma, da Austria, da Prussia, da Russia e da Turquia,
    que mandem para casa os seus milhões de soldados, e nós vos daremos em
    breve, novas da boa-saude do direito divino.

    Que fez a monarchia do seculo XVI e dos que se lhe seguiram, dos nossos
    velhos concelhos? Entregou-os amarrados aos fidalgos, aos padres e aos
    agentes do poder real. Substituiu gradualmente um exercito permanente á
    democracia armada, a essa democracia que tão leal fôra aos antigos reis,
    que os tinha ajudado a conterem nos limites do seu direito os dignos
    barões, avós de vossas excellencias reverendissimas. D. Manuel, que
    subiu ao throno, cuspindo nas nodoas de sangue de seus irmãos
    assassinados, enlevado dos descobrimentos e conquistas feitas pelos
    corações generosos, pelos homens ousados que os ultimos dias de
    liberdade legaram aos primeiros de tyrannia, acabou a obra do seu
    antecessor. Os foraes em vez de se cunharem de novo com os seus
    primitivos caracteres politicos, ficaram desde a sua reforma lettra
    morta para as franquias do povo, lettra morta como padrões
    constitucionaes, e só viva e bem viva para as extorsões do fisco.
    Algumas formulas externas que restavam nos costumes apagaram-se pouco a
    pouco; mas o espirito de liberdade morreu e o absolutismo assentou-se
    tranquillamente sobre o paiz.

    Até ao seculo XV, posto que já a indole politica da sociedade começasse
    a alterar-se, porque os desembargadores caminharam de longe e de vagar
    para não serem sentidos, os procuradores de côrtes tinham uma
    significação, um valor politico; atraz d'elles e do seu mandado estava
    um grupo social, a democracia, formado de muitos grupos, os concelhos.
    Desde que estes se compozeram de _clero, nobreza e povo_, desde que as
    classes se confundiram politicamente, a liberdade popular morreu. Os
    concelhos não foram mais d'ahi ávante, do que um instrumento de governo
    e uma divisão territorial e administrativa. Cessou entre nós o direito
    politico do povo, e reinou despeado o absolutismo. Que são todas essas
    côrtes posteriores senão um simulacro, ou antes um escarneo dos nossos
    antigos parlamentos? Esses procuradores do _povo_, eleitos pelo _clero_,
    _nobreza_ e _povo_, senão uns titeres com que os oppressores se
    divertiam á custa da democracia? Desde o seculo XVI Portugal teve factos
    politicos mais ou menos tyrannicos, mais ou menos vergonhosos, mais ou
    menos abusivos; mas o direito constitucional onde estava elle? Onde
    estavam os pactos sociaes que Fernão de Pina trocára por outros,
    _reformados_ exclusivamente com os olhos no céo e nas amplas barrigas
    dos alcaides-móres, dos donatarios da corôa, dos dignissimos avós de
    vossas excellencias e reverencias? Estavam esquecidos no fundo dos
    archivos do reino, onde ainda estão hoje para vossa vergonha eterna,
    raça de escravos, que succedestes n'esta nobre terra a uma raça gigante
    de homens livres; estavam onde ainda existem hoje, onde os podeis lêr e
    polluir com essas mãos servas, mentirosos insignes, porque as portas
    estão abertas para examinardes a infidelidade com que os citamos, as
    entrelinhas que n'elles escrevemos, as raspaduras com que os viciamos.
    Ide, miseraveis, punir-nos!

    Respondei, illustres Pegas _ad ordinationem_, donde veiu aos reis de
    Portugal o direito de rescindir contractos politicos solemnes? Os
    monarchas portuguezes da edade media reconheceram estarem limitados os
    deveres dos povos e os proprios direitos, por essas cartas
    constitucionaes, que reunidas eram o complexo do direito publico do
    paiz, e que tinham em si proprias as garantias da realidade: os seus
    successores proclamaram o principio contrario e derivaram d'ahi a
    manifestação do poder publico. Como agrupaes vós estas duas idéas que se
    excluem, que se negam? Como unis a morte á vida? Como ousaes dizer:
    _pertencem-nos sete seculos_? A vós? dementes! O primeiro monumento
    grave da vossa historia, o primeiro resultado practico das vossas
    adoradas doutrinas é a inquisição. A inquisição não foi filha da
    perversidade da curia romana, que tem sobejos crimes para que não se lhe
    attribuam os alheios. A inquisição foi um calculo frio e feroz do
    absolutismo de D. João III (este é vosso: guardae-o) que estava pobre
    pela sua falta de juizo e pelas vaidades paternas. Quiz queimar os
    judeus para os roubar, e pediu lume a Roma, que lh'o recusou largo
    tempo, porque não ignorava para que elle o pedia. Quando quizerdes as
    provas d'isso, fallae; já se sabe, entrelinhadas, supprimidas,
    respançadas, viciadas segundo o velho costume de que nos accusaes com as
    provas na mão, como bons e verdadeiros jesuitas.

    Absolutistas, vós acceitaes a solidariedade do passado: posto que não
    possaes reclamar senão a do que vos pertence. Falamos por isso comvosco,
    não para apontar uma ou outra mancha no vosso predominio, como vós
    modestamente imaginaes, mas para vos dizer o que elle foi na sua
    essencia. Começastes, insultando o evangelho, por queimar aquelles que
    não adoravam Deus á vossa guiza, e terminastes, matando ás machadadas
    prisioneiros inermes, diante dos quaes, armados, tantas vezes tinheis
    fugido. Na vossa historia o espectro da tyrannia esconde a fronte no
    fumo da carne humana, assada para o sancto rei D. João III ter dinheiro,
    e firma os pés nas poças de sangue, sobre os ossos triturados e as
    carnes esmagadas pelos machados dos bravos que tão valentemente fugiam
    das nossas bayonetas. Mas o vosso pedestal e a vossa corôa são
    comparativamente dous dixes infantis. O crime imperdoavel, sem nome,
    pelo qual a posteridade vos ha de escrever a maldição sobre a campa, é o
    terdes vivido abraçados durante tres seculos com esse espectro da
    tyrannia. É o terdes arrastado aos pés dos cortezãos, dos conegos de Gil
    Vicente, dos Pegas, dos bobos regios, dos frades gordos, luxuriosos e
    hypocritas, de que nos fala o viso-rei D. João de Castro na sua
    correspondencia inedita, (viciada por nós, já se sabe), as velhas
    liberdades do paiz, as liberdades do povo, que querieis espoliar sem que
    vos resistisse, concedendo-lhe apenas, se estaveis de pachorra para dar
    gargalhadas, o direito dos gemidos.

    Quando o vosso idolo vos fugiu das mãos, quando a espoliação,
    regio-fidalga, clerical e desembargatoria passou para mãos castelhanas,
    que vos tractaram como vós tinheis tractado o povo durante oitenta
    annos, veiu-vos, excellentissimos e reverendissimos senhores, um accesso
    momentaneo de febre liberdadeira. Incumbistes então um frade ignorante
    de vos redigir um codigo imaginario, em que todas as instituiçães
    sociaes da edade media estão desmentidas, e em que até o regicidio é
    elevado á altura de principio politico. Porque fizestes isto? Porque
    entre vós e as epochas de liberdade havia um abysmo insondavel; porque o
    seculo que precedêra se divorciava da antiga monarchia, em que os povos
    não precisavam do regicidio para defender os seus fóros, de que só foram
    privados por uma serie de traições cobardes e indignas.

    Na verdade depois de sacudido o jugo estranho representastes uma farça
    parlamentar, e depois outras farças analogas. Sempre gostastes de
    galhofa, como succede a todos os mandriões, que comem bem e dormem
    commodamente á custa do suor alheio. Vieram á folia politica os
    procuradores do _povo_, eleitos tambem pelo _clero_ e _nobreza_ das
    cidades e villas: vieram ahi os padres e os fidalgos. Apraziam-vos estes
    espectaculos em que o povo fazia o papel de urso. Que importa que no
    preambulo das côrtes de 1641, se escrevesse a doutrina da soberania
    nacional sobre os proprios reis. Era o horror da tyrannia, que tambem
    vos fizera experimentar como morde, quem vos arrancava esta concessão
    theorica, reproduzida por Velasco de Gouvêa, no livro com que a vossa
    recondita erudição nos assassina? Perguntae-o aos vossos cabelleiras do
    absolutismo. Essa doutrina foi declarada depois _illusiva_, _ob_ e
    _subrepticia_, _atroz_ e _sacrilega_, introduzida n'essas côrtes e no
    livro de Velasco, pelo _synedrio monarchomaco_ dos jesuitas; porque é de
    advertir que o jesuitismo e o absolutismo andaram sempre ás unhadas,
    emquanto os Franzonis e os Autonellis não os jungiram com a mesma soga,
    para trabalharem na vinha do Senhor com a benção cardinalicia.

    Entre parenthesis. Os jurisconsultos de ha cem annos pareciam-se
    convosco, doutores da _Nação_. É a mesma logica. Regeitavam as idéas
    jesuiticas sobre o direito dos subditos para deporem os reis, e
    acceitavam as côrtes de Lamego, o codigo do frade bernardo, onde se
    proclama o regicidio. O absolutismo tem ao menos uma gloria: é a de
    verificar em si um milagre: o de ser ao mesmo tempo profundamente atroz
    e soberanamente ridiculo.

    Vamos, sabichões! Que é o que vale? São as doutrinas do synedrio
    monarchomaco de Velasco e do frade regicida, ou é o direito divino?
    Podemos esganar de vez em quando o nosso reizito, se reconhecer
    supremacia estranha; depôl-o, se não nos andar a geito, ou pelo
    contrario é inviolavel a legitimidade da monarchia?

    E dizeis vós que haveis de morrer no vosso posto! Qual posto, nem qual
    morte, nem qual carapuça? Quem ha-de agora matar meia duzia de patetas,
    que parecem mandados de proposito pela Providencia para divertimento
    d'esta terra, no meio das mágoas e afllicções que lhe causa o
    cabralismo?

    Sabeis o que são, alem de farças, as vossas côrtes de 1641, e as outras
    côrtes do absolutismo? São um monte de inepcias em direito politico.
    Depois de proclamarem a soberania nacional por ordem dos jesuitas, os
    absolutistas de 1641 estabeleciam que o testamento de um rei era uma
    constituição, d'onde derivava a legitimidade de outro rei por direito
    incontroverso!

    Defensores do absolutismo, buscae nas actas parlamentares da edade
    media, alguma passagem em que os mandatarios dos concelhos de Portugal
    declarem, como os titeres de 1641, que a demissão dos tributos
    violentos, _impostos tyrannicamente_ pelos reis de Castella, era uma
    _liberalidade_, uma _magnificencia_, uma mercê d'el-rei. Onde achaes vós
    lá esta linguagem de Baixo-Imperio? Lá oppunham-se os aggravamentos dos
    concelhos aos abusos do poder. Era a distancia que vae de uma epoca de
    liberdade a outra de servidão.

    A servidão, a servidão! Eis o grande crime dos tres seculos que vos
    pertencem. Pensaes vós que nos importam, considerados em si, os
    adulterios da mulher de Affonso VI, ou que D. João V dormisse em
    Odivellas, ou cantassem n'aquella bestialidade architectonica de Mafra,
    cem ou duzentos frades comilões e ignorantes? Importa-nos tudo isso
    porque vós, que nos accusaes de não havermos feito nada em dezoito
    annos, não fizestes cóusa nenhuma em tres seculos, senão consumir a
    substancia publica em devassidões e em bugiarias; senão queimar judeus
    para os roubar, e perseguir-vos uns aos outros, jesuitas e absolutistas,
    quando vos faltou o judaismo para cevar os vossos instinctos
    sanguinarios. O que nos importa é que vós, legitimistas de agua doce,
    representaes a illegitimidade de tres seculos: a tyrannia convertida em
    principio politico, por velhacadas desembargatorias que havemos de vos
    contar um dia, e pela ingratidão fementida da dynastia manuelina para
    com o povo, que tão leal havia sido á monarchia nas suas luctas com os
    padres e fidalgos d'esta terra. Importa-nos que, accusando-nos
    diariamente de destruidores dos thronos, tendes estampada na fronte do
    vosso jornal a lei regicida do frade bernardo, e que entoando hymnos á
    lealdade, ao realismo do alto clero e da fidalguia, ousaes metter no
    peitilho da roupeta os quatro seculos de liberdade, durante os quaes o
    unico exemplo de um rei atirado do throno para o exilio, e substituido
    por um principe estrangeiro, (estrangeiro segundo as vossas doutrinas)
    foi dado pelo alto clero e pela nobreza, em quanto o povo combatia a
    favor de uma illustre desdita. Importa-nos pagar-vos a divida do partido
    liberal, que estaes insultando refalsadamente, porque tem tido a
    desgraça de haverem obtido o poder, pelos meios essencialmente
    absolutistas da corrupção e da violencia, homens cujas doutrinas
    prácticas de governo são as vossas, e contra as quaes tendes visto
    protestar a maioria do partido liberal, com a palavra e com o ferro, do
    mesmo modo que o fizera contra vós. Importa-nos que penseis parvamente
    ao vêr-nos regeitar a anarchia ou a demagogia, ter descoberto nas nossas
    idéas contradicções monstruosas. Importa-nos que enchaes as bochechas
    com as vossas crenças, escrevendo ao signal das chibatas dos vossos
    sargentos, adoradores da censura, da abnegação servil das proprias
    idéas, e tendo opiniões uniformes por que estão stereotypadas nas
    capellas e sacristias. Importa-nos que, não vos movendo impulsos de
    convicções espontaneas, quando vêdes na imprensa as provas de que o
    sacerdocio vem audazmente insultar, n'um convenio insolente, as regalias
    do imperio civil, (a sustentação das quaes é o unico ponto em que são
    acordes as doutrinas politicas dos sete seculos da monarchia) vos caleis
    cobardemente, para não terdes de despir a roupeta de sancto Ignacio, ou
    de tirar a cabelleira desembargatoria, ao que essa questão forçosamente
    vos constrangeria, provando assim que os vossos enthusiasmos
    monarchicos, o vosso patriotismo, são apenas hypocrisias necessarias
    para vêr se grangeaes de novo as commendas e as prebendas, os quartos e
    as jugadas, as alcaidarias-móres e as capitanias-móres, os bispados e as
    conezias, e os beneficios succulentos.

    _Sic valeas ut farina es_.

    IV

    As prestações foraleiras e a fidalguia

    Os servos voluntarios e perpetuos, os que venderam alma e corpo á
    tyrannia, insultam-nos a nós liberaes, e cospem sobre as cinzas de D.
    Pedro, porque não quizemos que esta terra de Portugal fosse uma vasta
    gleba de adscriptos que trabalhassem para suas excellencias
    reverendissimas. Os bens da corôa, o patrimonio publico, os tributos
    locaes eram propriedade d'esse grupo de nobres luxuarios, que enlameavam
    com o rodar dos seus coches, com o galopar dos seus cavallos, o homem
    laborioso curvado para o sólo desde que o sol rompia até que
    desapparecia no occaso. Assim nol-o affirmam. Debalde nossos avós, os
    villãos, protestaram contra a accumulação dos tributos geraes e dos
    locaes, debalde a monarchia, a propria monarchia absoluta, fazia
    recordar nas leis e nos actos, que a renda publica não era, não podia
    ser, patrimonio dos donatarios; os doutores da _Nação_, esses Pegas que
    nos atiram a proposito de tudo com a sua sabença juridica, que nos falam
    nas manuelinas e nas philippinas, nas extravagantes, e nas leis de D.
    José, declaram que os bens da corôa eram do dominio dos comilões,
    alcunham-nos de communistas e, quando dizemos a esses illustres senhores
    que vão trabalhar, respondem-nos em nome d'elles que os espoliámos já do
    fructo do trabalho dos seus antepassados, e que queremos que trabalhem
    de novo para de novo os roubarmos, porque o primeiro roubo não satisfez
    as ambições de todos nós.

    O que é mais admiravel n'estas palavras absurdas, a demencia ou a
    imprudencia?

    Mentís, porque todas as leis, todos os actos do poder, desde a lei
    mental até á lei sobre confirmações do 1769, vos estão dizendo que as
    terras, os direitos dominicaes, os tributos locaes, as jurisdições, as
    rendas, tudo emfim, quanto fôra havido da corôa pelos donatarios, era em
    seu poder um simples uso-fructo, que o rei podia fazer cessar por
    solemne, perpetua, incondicional, que fosse a concessão.

    D'onde vinha, pois, esse direito de propriedade de que falaes, em
    contradicção não só com o direito publico do tempo da liberdade, mas até
    com as leis, com as doutrinas e com os actos do absolutismo? D'onde
    vinha essa propriedade, causidicos dos orgulhosos comilões, e mandriões
    das armarias e dos reposteiros? Da prescripcão? Mas vós, doutores da
    _Nação_, ignoraes que ainda nas vossas côrtes de 1641, se proclamou a
    doutrina de que contra o paiz não ha prescripção, emquanto elle não tem
    liberdade para reclamar, e esqueceis que a tolerancia dos povos durante
    os seculos XVI, XVII e XVIII, ácerca da ladroice com que eram
    malbaratados os bens da corôa, não significa o seu consenso, mas sim os
    terrores do absolutismo?

    Vós pensaes que os redactores do _Paiz_ são os dos jornaes do conde de
    Thomar, aos quaes vós ousastes dizer que as côrtes de Lamego haviam sido
    invocadas a favor de D. Catharina em 1550, antes de as inventar o frade
    bernardo, e que não souberam punir-vos d'esta falsificação?

    Mentís quando dizeis que nós queremos que os fidalgos trabalhem para os
    espoliar de novo. Falta a primeira espoliação para d'ella inferirdes a
    segunda. O decreto de 13 de agosto que respondeu definitivamente aos
    aggravos dos nossos avós, os canalhas do tempo de D. Fernando, de D.
    João I, de Affonso V; que tornou uma realidade práctica, em harmonia com
    a sciencia economica e fiscal das eras modernas, as promessas d'aquelles
    principes e o direito que elles reconheciam nos povos, se teve algum
    defeito foi o ser nimiamente generoso com os donatarios, com os
    excellentissimos filhos do sol e netos da lua: foi a homenagem que os
    ladrões do Mindello prestaram ao trabalho e á morigeração, aos nobres
    que haviam sabido tractar d'esses bens mal-havidos por seus
    antepassados, investindo-os no dominio allodial dos predios que
    desfructavam até ahi por uma posse mal-segura, mas que, como bons
    economos, como homens de costumes regulares, os cultivavam por si ou por
    seus rendeiros, e não tinham alienado o dominio util d'elles por titulos
    permanentes. O decreto de 13 de agosto não perguntou se os que auferiam
    proveitos das suas disposições, eram liberaes ou absolutistas; libertou
    o solo e honrou a morigeração e o trabalho. O partido liberal
    deixou-vos, excellentissimos, aquillo de que segundo as vossas leis
    tinha direito de privar-vos. Os descamisados, os homens do povo que o
    absolutismo trazia subjugados pela miseria, e a classe media em cujos
    bens patrimoniaes e adquiridos licitamente, vós vos cevastes durante
    cinco annos pelos sequestros, pelas peitas dadas aos vossos esbirros
    togados, para concederem um pouco de ar nas masmorras, e pelas luvas
    para trocarem a forca pelos presidios de Africa, podiam ajustar contas
    comvosco, expulsando-vos d'esses bens mal-havidos para se resarcirem de
    lhes haverdes roubado tudo, inclusivamente a camisa, recordações
    gloriosas, em que se estriba o vosso direito de lhes chamardes
    descamisados.

    Os descamisados perguntam-vos pela nossa bocca quanto renderam na
    almoeda dos sequestros, as camisas repassadas do suor da agonia, quando
    despistes os martyres da liberdade enforcados no campo de Sanct'Anna, na
    Praça-Nova, no Cães do Tojo, no Cães do Sodré? Quanto renderam as
    camisas dos martyres da liberdade fallecidos nos presidios pestiferos da
    Africa e nas casa-matas de S. Julião e de Cascaes, as dos mortos a páu
    ao serem conduzidos das enxovias do Porto para as de Lamego, e as dos
    presos assassinados nas outras cadêas do reino? Quantas orgias fizestes
    no fundo das sacristias, nas alcovas soturnas dos palacios com esse
    dinheiro? As dos prisioneiros mortos a machado, essas haviam de estar
    muito despedaçadas. Pouco deviam valer.

    Nós vamos traçar-vos em rapido esboço os titulos da _vossa propriedade_,
    que vos convidâmos a desmentir.

    A fazenda publica do paiz consistia na sua origem em propriedades, cujos
    cultivadores pagavam fóros, pensões, quotas por um systema assaz variado
    e complexo, nos tributos dos concelhos, pagos pelo uso-fructo do sólo, e
    por um systema analogo, nas multas judiciaes, nas portagens ou direitos
    de barreira das villas e cidades, e finalmente nos impostos das
    alfandegas maritimas. Os tributos indirectos, os cobrados nas alfandegas
    e barreiras recahiam pela sua natureza sobre todas as classes. Dos
    tributos directos eram isentos os nobres. Nas honras e coutos não
    entrava o agente fiscal nem o judicial. Para as despezas do estado
    pagava o homem laborioso; o nobre mandrião não tinha nada com isso.

    O serviço militar, o tributo de sangue estava regulado pelo mesmo
    principio. Organisados os concelhos, os seus habitantes, divididos em
    cavalleiros, besteiros e peões, segundo a sua fortuna, ou a natureza
    anterior da sua propriedade, eram arrolados para o serviço da guerra, ou
    para os trabalhos de fortificação, que se consideravam analogos.
    Armavam-se, compravam cavallos e sustentavam-se á sua custa, salvo se a
    guerra ou os trabalhos se protraiam demasiadamente. Os nobres eram
    isentos da defeza da patria, salvo o caso de uma recompensa. A maxima
    parte da renda publica n'isso se consumia. Os ricos-homens governadores
    civis e militares dos districtos, recebiam uma grande parte dos tributos
    locaes, e distribuiam a percepção das rendas dos bens publicos pelos
    cavalleiros, a cada um sua aldêa, sua porção de cazaes, etc. A isto
    chamava-se prestamos. Os alcaides-móres, chefes militares, e até certo
    ponto civis dos concelhos, haviam pelo seu serviço uma porção de rendas.

    Este systema profundamente injusto, segundo as idéas de hoje, não feria
    então os espiritos. O nobre tinha o direito de não supportar encargos na
    sua propriedade patrimonial, e de não defender a patria; o villão devia
    pagar e servir, e ainda com o seu dinheiro comprava o serviço dos
    illustres suissos d'aquelle tempo.

    Rico-homias, prestamos, alcaidarias, tudo era movel: o rei tirava-o,
    dava-o, trocava-o a seu bel-prazer; porque nada d'isso passava em rigor
    de um systema de subvenções pessoaes. Entre nós não havia nada que
    recordasse a fixidade do feudalismo.

    Gradualmente estes encargos e concessões foram-se tornando menos moveis;
    mas a hereditariedade feudal nunca se introduziu: mesmo quando os filhos
    succediam aos paes, os estylos e as leis recordavam que tudo isso era
    accidental, temporario, dependente da vontade do poder central, do
    principe.

    Mas tambem gradualmente se introduziu um abuso. Ás rendas publicas
    procedidas das imposições directas sobre o solo, dadas a qualquer nobre
    e depois d'elle a seus filhos, foram-se pouco a pouco considerando como
    mercês graciosas, e d'ahi nasceram os soldos, as _quantias dos nobres_,
    isto é, um vencimento em dinheiro para servirem o paiz.

    Dizemos _quantias dos nobres_ porque tambem os villãos tinham
    _quantias_, mas negativas; isto é, avaliavam-se-lhes os bens para na
    proporção d'estes terem armas e cavallos, serem bésteiros ou lanceiros,
    para formarem, digamos assim, a cavalleria, a infanteria pezada e a
    infanteria ligeira, tudo gratuito.

    Introduzido aquelle abuso dos soldos, a economia d'esta organisacão
    ficou sendo: o povo pagar na proporção dos seus meios, e servir
    militarmente na mesma proporção: os nobres serem isentos de tributos e
    de serviço militar, ao passo que, como homens de guerra, comiam uma boa
    porção da renda publica em soldos, e outra parte como donatarios da
    corôa.

    Nos fins do seculo XIV este iniquo systema de percepção e distríbuição
    da renda publica, tinha tomado proporções tão espantosas, que a
    principal materia dos aggravamentos populares, nas diversas assembléas
    de côrtes do reinado de D. Fernando, é este assumpto. Ahi o rei
    reconheceu a extensão do mal, e prometteu até onde fosse possivel
    remedio, que na verdade era difficultoso, attento o poder da nobreza.

    Na revolução de D. João I, uma grande parte da nobreza, ou seguiu a
    parcialidade de Castella, ou se mostrou avessa ao mestre de Aviz. Os
    fidalgos, porém, não se esqueceram no meio dos transes e miserias porque
    a nação passava na lucta gigante que emprehendera, de conservar intacta
    a malversação da fazenda publica. Emquanto as derramas e as sizas vinham
    pelas necessidades da guerra aggravar a sorte do povo, a fidalguia
    invocava o passado para que se lhe pagassem as _quantias_ em dinheiro, e
    as terras se lhe dessem gratuitamente, para ser _mercê acabada_. D. João
    I commettêra a _atrocidade_ de resolver com o povo em cortes, que aos
    fidalgos que serviam na guerra se lhes descontassem as quantias nos
    redditos das terras de que eram donatarios, já se sabe, comendo elles o
    resto de mão-beijada, porque esse resto não se dividia em prestamos para
    pagarem a outros cavalleiros que os seguissem na guerra, segundo a
    organisação primitiva. Era só o serviço pessoal que por essas terras se
    exigia dos illustres suissos dos seculos XIV e XV. Os villãos, esses
    combatiam de graça, lá estavam para sustentar com a bolça e com o corpo,
    a independencia do paiz.

    Esse vil e escandaloso requerimento da nobreza lá está impresso ha
    muitos annos na ordenação affonsina. Vós, doutores da _Nação_,
    conhecereis melhor a philippina, o codigo do rei estrangeiro, mas nós
    conhecemos melhor a affonsina, o codigo do rei portuguez.

    Sabeis vós, como a nobreza se desforrava da falta de despacho á sua
    petição? O sancto Nunalvares, os mestres das ordens e os outros
    fidalgos, roubavam os mantimentos nas povoações por onde passavam: os
    alcaides-móres em vez de pagarem ás guarnições dos castellos, pediam
    gente dos concelhos para os guardar; e os senhores quando se achavam
    n'alguma povoação com homens de armas, bastantes para sopear os villãos,
    deixavam-se ficar ahi, comendo e bebendo sem pagar e forçando mulheres.
    Lá tendes essas gloriosas paginas da nobreza nas côrtes de 1397.

    O desbarato gradual da renda publica pelas mãos dos fidalgos, fez
    apparecer o systema dos tributos geraes directos: a principio pelos
    _pedidos reaes_, que eram em rigor o mesmo que o recente imposto de
    repartição, que ha poucos annos se quiz introduzir no paiz, com a
    differença de que os pedidos só se repartiam entre os concelhos. As
    sizas foram o primeiro tributo geral directo que abrangeu tudo. Sobre
    estas bases se fundou o systema das contribuições geraes, de que o
    estado subsequentemente viveu.

    Nas côrtes do seculo XV, como nas do anterior, o povo protestou sempre
    contra a dispersão dos bens da corôa. A monarchia dava-lhe razão,
    promettia emenda, e alguma cousa chegou a fazer por vezes, mas
    insufficiente e estragada d'ahi a pouco por influencia dos poderosos. Ha
    uma observação singular a este respeito. O povo em vez de exigir a
    organisação dos impostos geraes, e a suppressão dos chamados direitos
    reaes que constituiam o grosso dos bens da corôa, queria que se
    despojassem os donatarios, e que o estado vivesse das suas rendas
    primitivas. Era um erro economico, mas que provava o desinteresse dos
    villãos, e quanto elles amavam as instituições de liberdade, com que
    estava ligado por muitos modos, aquelle systema da imposição antiga.

    O absolutismo triumphante poz emfim ordem n'estas gritarias populares. O
    paiz ficou dotado com dous systemas tributarios: o primitivo para os
    fidalgos e desembargadores comerem, pagando-se-lhes além d'isso o
    serviço que faziam: para os fidalgos e desembargadores começados por
    _mercé acabada_, como diziam os virtuosos avós de suas excellencias e
    reverencias: o outro systema para se pagar aos que comiam os fructos do
    antigo, e para o resto das despezas do estado. Como se isto não bastasse
    metteram-lhes na barriga os dizimos e os outros rendimentos das
    commendas, prebendas e beneficios.

    Realmente, os absolutistas teem razão de chorar pelos bons tempos.
    Aquillo era uma delicia. Este seculo de ferro só foi feito para os
    demagogos e para os pedreiros livres.

    E crêem os pantalões que em falando em duas ou tres batalhas, em dous ou
    tres nomes historicos, em Ourique, em Aljubarrota e em Montes-Claros, em
    Martim de Freitas, no Condestavel e em Affonso d'Albuquerque, na Sancta
    religião, no amor das nossas cousas antigas, teem feito tudo; teem-nos
    mettido pelo chão abaixo, esmagados pelo peso de tantas maravilhas.

    Pensam que ao lado da historia dos conventos, das cathedraes e dos
    palacios, não se escreve a da choupana, a do homem de trabalho? Pensam
    que se esses nobres senhores teem os seus registos esplendidos e
    luxuarios, o povo não tem tambem as suas humildes memorias de
    espoliações, de aggravos, de soffrimentos? Enganam-se. Tem-nas, e lê-as.
    Por isso é impossivel a volta do absolutismo.

    E crêdes vós que esta gente insaciavel, chegou a comprehender o
    patriotismo e a abnegação? Abri as chancellarias de Philippe II, vereis
    que ella sacrificou sempre ao egoismo e á cubica. Lá achareis os
    ferretes que o rei castelhano poz em tantas familias illustres por seus
    avós e pela sua situação. Lá estão os preços porque cada alcaide-mór,
    cada titular, cada desembargador vendia esta terra ao estrangeiro, em
    quanto a _canalha_, a villanagem, combatia e morria nas espadas e lanças
    dos soldados do duque d'Alva, pensando ter um novo D. João I no prior do
    Crato, o miseravel que tractava tambem com Philippe II sobre o preço
    d'esse povo generoso, que cria n'elle, porque era da raça dos seus
    principes.

    Depois de sessenta annos de oppressão, em que o paiz recebera duras
    lições, crêdes que os donatarios da corôa aprenderam a amar a patria e a
    morrer por ella. Quereis o reverso dos quarenta conspiradores de 1640,
    muitos dos quaes vingaram com a revolução aggravos particulares? Não vos
    falaremos das conspirações fidalgas e episcopaes contra D. João IV.
    Pedimos-vos só que leiaes um parecer, hoje impresso, do procurador da
    corôa, Thomé Pinheiro da Veiga, um dos mais venerados e veneraveis
    caracteres d'aquella epocha. Vianna, no meio da excitação popular que a
    revolução produzira, teve uma saudade, uma velleidade das suas garantias
    da edade-media. Lembrou-se dos tempos em que pertencia ao povo em muitos
    concelhos do typo de Salamanca, que fôra o da sua origem, a instituição
    electiva do seu chefe militar, do seu alcaide-mór. Pediu-a. Thomé
    Pinheiro da Veiga foi ouvido sobre a pretenção e votou por ella. N'um
    impeto de indignação, elle que tinha por dever reprimir e _amaldiçoar_
    (como elle se exprime) estas pretenções da democracia, viu-se
    constrangido a abençoal-as. E porque? Lêde-o. Porque os alcaides-móres
    comiam as rendas e desamparavam os castellos no fervor da guerra, sem
    gastarem um vintem na defesa, não havendo _quasi nenhum_, que cumprisse
    os seus deveres, no que se pareciam com os outros chefes militares, os
    capitães-móres, que comiam os soldos e roubavam os soldados. Elle ahi
    lança em rosto aos avós de vossas excellencias e reverencias, o atroarem
    o paço com petições de bens da corôa, sem fazerem cousa nenhuma. Será
    Thomé Pinheiro um dos ladrões do Mindello?

    Bem sabeis que tambem fariamos um livro contra vós, se quizessemos
    descer aos factos singulares que mostram a corrupção espalhada
    largamente entre a aristocracia dos tempos do absolutismo. Não quizemos
    senão apresentar-vos em grande, a origem monstruosa d'essa
    _propriedade_, de que nós a espoliamos, e mostrar-vos quanto ella em
    massa era digna de que se conservassem dous systemas tributarios no
    paiz: um para o estado e outro para ella: ambos, porém, tirados aos
    contribuintes.

    Direis que com esses bens da corôa recompensou o absolutismo os serviços
    das comquistas? Recompensou é verdade; mas foi os d'aquelles que vinham
    curvar a fronte gloriosa á corrupção cortezã: as almas altivas e nobres
    tinham paga diversa. Lembrae-vos de Pacheco, de Albuquerque, de Camões.
    Depois serviram elles nos tempos modernos para isso mesmo? Quantas
    alcaidarias-móres, quantos direitos reguengueiros, quantas terras da
    corôa, distribuistes pelos soldados da guerra peninsular, cuja sorte
    vindes hoje deplorar com lagrimas hypocritas? Fostes sequer buscar os
    bens da corôa a essas casas, onde elles se tinham tornado uma especie de
    patrimonio, para recompensar aquelles que se batiam contra nós os
    salteadores do Mindello? Repartistes sequer a tunica popular segundo as
    vossas idéas de justiça politica? Respondei.

    Com o decreto de 13 de agosto D. Pedro cumpriu as promessas dos seus
    antepassados, os reis da edade-media; mas cumpriu-as segundo as
    condições da civilisação moderna: aboliu o systema tributario local e
    excepcional que seria hoje absurdo, e que devorado pela nobresa era um
    duplicado escandalo. As cinzas de tantas gerações de villãos espoliados
    por seculos, foram, emfim, vingadas pelo braço de um rei. Que quereis?
    Nós, os vis, por força havemos de abençoar a memoria de D. Pedro.

    Dizei, doutores da _Nação_, é verdade ou é mentira aquillo que se
    escreveu nas actas das _vossas_ côrtes de 1641, que não ha prescripção
    contra o reino emquanto elle não tem faculdade, nem liberdade para
    reclamar os seus direitos? Outra vez: respondei.

    Sabeis vós uma coisa? Se o decreto de 13 de agosto podesse conter
    disposições de uma reparação atroz, não só seria preciso fazer cessar as
    prestações foraleiras, mas tambem mandar trabalhar nos campos com as
    cadêas da servidão aos pés, tres ou quatro gerações de donatarios de
    bens da corôa, por conta das suas victimas. Nem assim, talvez, flcaria
    compensada a oppressão e o escandalo de alguns seculos.

    V

    No momento em que escreviamos e mandavamos para a imprensa o ultimo
    artigo, em resposta ao que a _Nação_ escrevera contra nós, a proposito
    das leis da dictadura de D. Pedro, mal imaginavamos que o agente publico
    intervinha na questão, para defender nos tribunaes a memoria do
    imperador, se, como crêmos, é exacto o que se lê hoje nas columnas
    d'aquelle jornal. Se o tivessemos sabido a tempo, o nosso artigo teria
    sido supprimido. Desde o momento em que a auctoridade interveiu no
    combate, a questão acabou para nós. D. Pedro e a sua vida pertencem hoje
    á historia: na nossa opinião o defendel-o ou aggredil-o não pertence ao
    ministerio publico. Crêmos que sem negar os seus deffeitos de homem,
    teriamos meios de o fazer vêr a uma luz mais favoravel, do que o viu a
    _Nação_, e que saberiamos reivindicar para elle a justiça dos homens,
    que apreciam os actos e os successos não só em si, mas tambem nas suas
    causas e effeitos. As reivindicações da imprensa são mais efficazes e
    uteis para os mortos do que as dos tribunaes.

    Na redacção do _Paiz_ ha quem fosse soldado de D. Pedro; quem entrasse
    em mais de vinte combates sob o seu mando supremo. Não lhe consta que
    elle désse nunca ordem aos seus soldados para que, no recontro com os
    inimigos, chamassem os officiaes de justiça para os prenderem, ou os
    escrivães para os auctoarem. A ordem era levar os sessenta na patrona,
    outros sessenta no burnal, e as bayonetas bem pulidas. Se as ordens
    tivessem sido o inverso, o ministerio publico não teria hoje o incómmodo
    de accusar o jornal realista.

    De hoje ávante até que se conclua o processo da _Nação_, o orgão do
    partido do snr. D. Miguel não nos ha-de encontrar mais no campo da
    imprensa, ainda mesmo quando nos aggredisse. A perseguição sanctificou e
    tornou para nós inviolaveis os nossos adversarios politicos.

    Os redactors do _Paiz_ são em geral pobres, e os recursos de um jornal
    nascente são sempre limitados. Se, todavia, os gastos de um processo, ou
    o seu resultado na hypothese de ser desfavoravel, collocarem a _Nação_
    em embaraços pecuniarios, nós rogamos singella e sinceramente aos seus
    redactores que não se esqueçam de que no escriptorio do _Paiz_, hão de
    encontrar alguns dos seus irmãos na imprensa, posto que seus inimigos, e
    provavelmente inimigos irreconciliaveis, em opiniões politicas[2].

    REPRESENTAÇÃO DA CAMARA MUNICIPAL DE BELEM AO GOVERNO

    1854

    Senhor.

    A camara do concelho de Belem, eleita para o biennio de 1854 e 1855, no
    momento de entrar no exercicio das suas funcções, entendeu que o seu
    primeiro dever é fazer subir á presença de V.M., uma exposição fiel da
    situação economica e administrativa do novo municipio, e pedir justiça
    para os habitantes d'elle, sem o que a camara não se poderá habilitar
    para estabelecer os seus meios de administração e satisfazer aos
    encargos que pesam sobre ella. Os vereadores sentem ter de distrahir a
    attenção de V.M. e a dos seus ministros, dos negocios geraes do Estado
    para uma questão puramente local; mas constrange-os a assim procederem a
    obrigação que teem de não trahir a confiança que n'elles depositaram os
    seus concidadãos.

    Os decretos de 11 de setembro de 1852, que constituiram os dous
    concelhos de Belem e dos Olivaes com o antigo termo de Lisboa, foram uma
    providencia benefica; mas foram ainda mais do que isso: foram uma
    providencia justa no seu pensamento. O Governo reconheceu no respectivo
    relatorio a _urgencia e a justiça_ d'aquella medida reclamada pelos
    povos. Posto que ahi não se particularisassem os fundamentos d'essa
    justiça, os ministros que propozeram e referendaram aquelles decretos
    tinham-nos por certo presentes. Á camara de Belem cumpre, todavia,
    apontar os principaes para n'elles estribar as conclusões mais
    importantes d'esta representação.

    Talvez em nenhuma questão de direito publico, o legislador deva ser mais
    cauteloso em não ferir o dogma da igualdade dos cidadãos perante a lei,
    do que em materia de tributos. Era todavia n'esta relação que os
    habitantes do _denominado_ termo de Lisboa, pareciam constituir uma
    classe de ilotas no meio da população portugueza. Aos tributos geraes
    d'este territorio, que entravam nos cofres do Estado, accresciam outros
    que constituiam pela sua indole e origem, e pela sua importancia, a
    melhor porção dos impostos municipaes, sendo necessario ainda contribuir
    com uma serie de pesadas e variadas contribuições directas e indirectas,
    que conservavam o primitivo destino, para perfazer a sua quota nos
    encargos geraes do concelho de Lisboa, a que o mesmo territorio andava
    annexo. Por este modo os numerosos habitantes de algumas leguas
    quadradas em volta da capital, ficavam n'essa parte fóra do direito
    commum.

    Na apparencia, esta situação constitucionalmente impossivel, vinha a ser
    a mesma de Lisboa, onde as contribuições arrecadadas na repartição das
    Sete Casas, são verdadeiros impostos municipaes que entram no thesouro
    publico e de que o Governo deduz certa parte para dotação do concelho.
    Mas em Lisboa esta excepção tinha e tem um fim justo. Tende a
    estabelecer a igualdade parecendo destruil-a: equilibra por excesso de
    encargos um excesso de vantagens. Lisboa tem theatros, aqueductos,
    jardins, monumentos que custaram milhões tirados dos cofres publicos,
    escholas superiores, academias, museus, bibliothecas, tudo mantido á
    custa do Estado. Grande parte das contribuições geraes despendem-se no
    seu seio, e a circumstancia de ser o centro da administração, o foco do
    luxo e da civilisação do paiz, dá-lhe uma população fluctuante, que vem
    por mil modos consummir ahi boa parte da renda liquida da propriedade e
    do trabalho nacional. A applicação de uma porção das rendas do municipio
    a compensar beneficios tão custosos para o resto do reino como
    importantes para a cidade, é justa. Repetimol-o, desigualdade apparente
    é n'este caso a igualdade real.

    Estas considerações não eram nem são applicaveis ao territorio
    circumadjacente de Lisboa, districto pela maior parte rural, cuja
    industria agricola definhava, como bem advertiu o Governo, debaixo da
    pressão inevitavel da fiscalisação dos impostos de consumo. Aqui a
    desigualdade de situação, relativamente aos outros concelhos ruraes, era
    palpavel e escandalosa, porque não tinha nenhuma das compensações que
    justificam o gravame extraordinario que pesa sobre a capital. Bastava
    comparar dous factos que estavam patentes aos olhos de todos, para
    conhecer a injustiça que se practicava. Ao ponto que em Lisboa os
    edificios arruinados se reedificavam e se multiplicavam as novas
    construcções; emquanto ahi o commercio em grosso e de retalho e as
    industrias fabris cresciam a olhos vistos, na parte urbana mais populosa
    do termo e que se considerava até como um bairro da cidade, nas
    freguezias de Belem e Ajuda, viam-se cair ou serem derribadas as casas,
    fecharem-se lojas, acabarem pequenas industrias, emfim todos os signaes
    de uma rapida decadencia. A oppressão e o excesso do imposto faziam seu
    officio; o que faltava eram os elementos de vida que annullam em Lisboa
    os effeitos da desigualdade das contribuições.

    Taes deviam ser os fundamentos principaes da desannexação. A
    consequencia forçosa d'esta, era equiparar os novos concelhos aos outros
    concelhos do reino. Foi o que só se fez até certo ponto, deixando-se
    continuar a subsistir a injustiça na applicação para o thesouro publico,
    de uma parte dos impostos de sua natureza municipaes, que até então se
    cobravam pela alfandega das Sete Casas.

    Os decretos de 11 de setembro de 1852, tiveram por objecto beneficiar os
    habitantes do antigo termo. Negal-o seria negar a verdade. O que não
    lhes fizeram foi justiça inteira. Talvez se possa sustentar a
    legitimidade do imposto excepcional e gradativo, que a lei estabeleceu
    nas licenças para a venda de líquidos, até certa distancia da linha de
    circumvallação de Lisboa. É materia essa que esta camara ainda não
    examinou devidamente e sobre que, portanto, não se julga habilitada para
    reclamar, podendo acaso considerar-se tal tributo como uma transformação
    de parte dos impostos de consumo da capital, que de nenhum modo se
    poderiam cobrar nas barreiras. Mas alem d'esse, estabeleceram-se outros
    dous para os quaes a camara não acha razão plausivel. São os de dez reis
    em canada de vinho, vendido a miudo e de quinze reis em arratel de carne
    verde. A disposição que os estabeleceu, reduzindo os direitos que o
    termo pagava ás Sete Casas, importava um beneficio, uma concessão
    parcial; mas importava tambem um encargo que nada pode justificar.

    No relatorio que precede um dos decretos de 11 de setembro relativos a
    este assumpto, assevera-se que a solução dos impostos especiaes que os
    novos concelhos continuam a pagar, é justa _pelos beneficios e cómmodos
    que lhes resultam do contacto com a capital_.

    Quaes são os fundamentos d'esta affirmativa? Occultou-os o Governo. A
    camara procurou rastrial-os. Examinando a serie de factos em que ella se
    poderia estribar, não achou senão tres que não sejam insignificantes:
    1.^o a segurança publica mantida n'uma pequena porção do seu territorio
    pela guarda municipal: 2.^o desnecessidade de um estabelecimento
    especial d'expostos: 3.^o a proximidade do grande mercado de Lisboa para
    os productos da industria agricola dos dous concelhos. Fóra d'isto a
    camara não atina com as vantagens que possa trazer aos seus
    administrados a visinhança da capital.

    Pelo que respeita ao serviço de segurança publica, feito n'uma pequena
    parte do concelho, a camara de Belem, uma vez que se faça inteira
    justiça, pagará cora a melhor vontade pelo seu cofre, a quota que se
    arbitrar proporcional ao serviço da guarda municipal de Lisboa n'este
    concelho.

    Relativamente aos expostos o concelho de Belem está igualmente prompto a
    contribuir para a Sancta Casa da Misericordia de Lisboa, do mesmo modo
    que contribue a camara da cidade, guardada a relação das respectivas
    populações, alem de estar certo que a Junta Geral do Districto não
    deixará de prover n'esse caso, conforme as attribuições que lhe confere
    o § 7 do art. 216.^o do codigo Administrativo.

    Reconhecendo essas vantagens, a camara de Belem dá um documento de boa
    fé, offerecendo-se voluntariamente a retribuil-as. A mesma boa fé a
    obriga, porém, a ponderar que o 3.^o fundamento que póde occorrer para a
    conservação de impostos excepcionaes, ou não existe ou é compensado de
    sobra por desvantagens reaes.

    A população dos novos concelhos de Belem e dos Olivaes é uma população
    principalmente rural, facto que não deveria ter esquecido na confecção
    das leis de setembro. Todos sabem que hoje o maior embaraço da
    agricultura portugueza é a escacez de braços. Tendo-se desenvolvido
    muito em extensão e pouco em intensidade, o augmento progressivo do seu
    producto bruto, resultado da maior area cultivada, não está em harmonia
    com o desenvolvimento da população agricola. Assim, em quanto os
    productos da primeira industria nacional caminham regularmente para a
    baixa pela superabundancia, o salario tende de contínuo a elevar-se. No
    reino em geral a situação do proletario melhorou e muito, porém o
    cultivador por essas tendencias oppostas de alta e baixa, mas que
    convergem ambas em seu damno, cada vez se vê em maiores apuros e
    difficuldades. Este phenomeno commum aggrava-se nas cercanias de Lisboa
    por diversas circumstancias, que justamente procedem da visinhança de
    uma populosa capital. A industria fabril desenvolvida em Lisboa
    desproporcionadamente com o resto do paiz, exceptuando, talvez o Porto,
    traz uma procura maior de braços, que é causa poderosa do accrescimo do
    salario rural nos concelhos limitrophes. Depois o excesso de produccão
    geral mantendo um excesso de concorrencia por toda a parte, exaggera
    esta no principal mercado do reino, e a depressão dos preços torna-se
    correlativa d'essa exaggeração; por isso acontece, não só equipararem-se
    ás vezes, mas até acharem-se mais baratos os generos (captivos de
    direitos) na capital do que nos districtos remotos onde foram
    produzidos. Accrescente-se a isto a decadencia no mercado dos trigos
    durazios, principal producção do antigo termo, e a preferencia dada aos
    trigos ribeiros improprios d'estes terrenos; accrescente-se tambem a
    continua destruição dos pomares por uma enfermidade que não tem sido,
    que não será provavelmente atalhada, e poder-se-ha calcular se os novos
    concelhos, debaixo destas condições desfavoraveis, independentes da sua
    proximidade ou não proximidade da capital, mas peioradas pelas
    circumstancias que nascem d'essa visinhança, devem ser onerados com
    impostos extraordinarios.

    Na situação economica em que se acha a agricultura, de produzir caro e
    vender barato, a tenuidade do lucro sente-se com dobrada força na
    visinhança da capital, e essa visinhança para as populações agricolas,
    longe de ser um bem é um mal. A maxima concorrencia do numerario é em
    Lisboa, e o numerario como outra qualquer mercadoria deprime-se pela
    concorrencia; ou por outra, a vida torna-se mais cara por esse motivo
    não só na cidade mas tambem nas suas immediações. Ao passo porém, que se
    dá este facto, occorre outro que com elle se combina. A população rural
    visinha de Lisboa, cuja civilisação material é muito maior que a das
    provincias, participa mais ou menos d'essa civilisação, porque a
    influencia d'esta é inevitavel e irresistivel. D'ahi resulta para ella
    um maior numero de necessidades a satisfazer com o numerario deprimido
    no seu valor de troca. E este facto vem não só influir directamente no
    bem estar do proprietario, do agricultor, do seareiro, do pequeno
    commerciante, dos contribuintes, em summa, mas tambem associar-se ás
    causas geraes e locaes da elevação do salario, e a recair por outro modo
    indirectamente sobre elles.

    Ha mais. Quando a acção fiscal das Sete Casas abrangia tambem o termo,
    os cereaes que vinham de fóra encontravam aqui um tributo que
    rigorosamente constituia um dos chamados direitos protectores para os
    lavradores d'estes contornos. Era o de 60 reis por arroba no genero, ao
    passo que os cereaes de lavra propria consumidos no termo não soffriam
    contribuição alguma de consumo. Separados os novos concelhos, os cereaes
    estranhos vem concorrer livremente com os de producção local, que aliás
    tem de ir luctar com elles no mercado de Lisboa, onerados com os mesmos
    60 reis por arroba que os outros pagam. Accresce a isto outro
    inconveniente resultante da proximidade de um grande mercado. Os cereaes
    do Ribatejo e Alemtejo affluindo á capital, deprimidos como se notou já
    por uma concorrencia excessiva, achando aberto o mercado contiguo dos
    novos concelhos, com um favor de quasi 50 reis por alqueire que lhes
    resulta da suppressão do direito fiscal n'estes pontos, e sem differença
    de custo no transporte, affluem naturalmente aqui ainda mais do que a
    Lisboa, e augmentam pelos effeitos de urna concorrencia exaggerada, no
    mercado interno dos dictos concelhos, os embaraços geraes e particulares
    em que laboram os agricultores do nosso territorio.

    A camara, Senhor, tem de advertir de passagem, para que os seus desejos
    não sejam calurmniados e as suas idéas mal interpretadas, que não
    suspira por direitos alguns protectores, por leis d'excepção que
    favoreçam a agricultura do concelho de Belem com detrimento da alheia.
    Pelo contrario está persuadida de que a liberdade da industria e do
    commercio, quanto mais ampla melhor, hade vir a remediar os males que
    quasi sempre resultam da transição do antigo systema de tropeços
    fiscaes, para o systema contrario que é o verdadeiramente protector. A
    camara crê ser fiel interprete da opinião dos seus representados,
    asseverando que estes preferem a sua independencia municipal, a essa
    união absurda com a capital, que tinha por base a injustiça e a
    iniquidade; preferem-na a essa rede de vexames que fazia pesar sobre
    este territorio a fiscalisação das Sete Casas e que eram uma fonte
    perenne de immoralidade e de crimes; preferem-na aos tributos desiguaes
    e sem razão d'existencia com que estavam onerados. O intuito da camara é
    provar que os que se decretaram são tão injustos como os que foram
    supprimidos, porque as vantagens da visinhança de Lisboa em que a
    dictadura se fundou para os estabelecer, não existem ou são annulladas
    por desvantagens que resultam da mesma circumstancia.

    Ha, Senhor, um fado assaz significativo, que se prende a esta questão, e
    sobre o qual a camara de Belem chama a attencão dos ministros de V.M. O
    termo fiscal das Sete Casas não abrangia só o territorio dos concelhos
    novamente creados: estendia-se por freguezias de outros concelhos
    limitrophes. Acabando com o termo, e creando os novos impostos só nos
    dous municipios, a dictadura libertou indirectamente de todos os onus
    extraordinarios aquellas freguezias. Se isso era justo em relação a
    ellas, como o seria tambem que ficassem ao mesmo tempo oneradas as que
    compõem os concelhos de Belem e dos Olivaes? Nenhuns motivos podem
    existir para tão flagrante desigualdade.

    Mas supponhamos, Senhor, que as considerações em que se estriba a
    imposição dos novos tributos, cuja suppressão a camara pede, eram
    exactas. Não desapparecem essas razões diante de outro facto da propria
    dictadura, de que ella se esqueceu ao promulgar os decretos de 11 de
    setembro? O Governo contractou a feitura de um caminho de ferro que
    partindo da capital vai atravessar alguns territorios mais ferteis do
    reino. Os effeitos de uma tal via de communicação serão o approximar,
    tornar contiguos, digamos assim, das portas da capital, um grande numero
    de ricos concelhos da Extremadura e do Alemtejo. Em relação ao contacto
    commercial entre esta e muitos dos concelhos do Ribatejo; em relação á
    facilidade de transportes, e communicações de toda a ordem, esses
    concelhos ficarão mais perto do centro de Lisboa do que Odivellas,
    Carnide, Porcalhota, o valle de Oliveiras ou a ribeira de Algés, cujos
    cultivadores teem de conduzir os productos da sua industria ou de ir
    buscar os objectos de que carecem, por estradas ordinarias abertas
    imperitamente em encostas ladeirentas, estradas que não é possivel mudar
    ou sequer melhorar, sem dispendio de avultados impostos municipaes.

    Se dos novos concelhos se devem tirar algumas dezenas de contos de reis
    porque estão em proximo contacto com Lisboa, ou a igualdade dos cidadãos
    perante as leis tributarias é uma fabula, ou a esses concelhos
    corographicamente mais remotos, mas atravessados pelo caminho de ferro,
    se ha-de exigir uma maioria de impostos, tanto ou mais pesados que os
    creados pelos decretos de 11 de setembro, para o termo desannexado e
    constituido municipalmente.

    Mas abstrahindo da existencia ou não existencia do caminho de ferro,
    temos um facto actual e não contingente, que mostra com evidencia o
    nenhum fundamento de um imposto especial nos dous municipios do antigo
    termo. É o dos concelhos da margem esquerda do Tejo em frente de Lisboa.
    Todos sabem que a facilidade de transporte e communicação pelas vias
    aquaticas apenas é inferior á que proporcionam as estradas ferreas, e
    que em relação á barateza esse meio de transito é ás vezes superior ao
    d'estas. Nos seus effeitos economicos a distancia de algumas freguezias
    dos novos concelhos ao interior da cidade, empregando os meios
    ordinarios de transporte, pelos caminhos communs, está talvez n'uma
    razão quadrupla da distancia d'Almada (por exemplo) ao centro da
    capital. E todavia ninguem se lembra de fazer pagar aos habitantes
    d'aquelles territorios um imposto especial, pela rapidez e facilidade
    das suas communicações com Lisboa.

    A camara, Senhor, não pede esses impostos, porque não pede absurdos, nem
    folga com os males e oppressões alheias. Reclama simplesmente para os
    seus administrados o direito commum, a lei da igualdade garantida na
    Carta constitucional.

    Demonstrada a insubsistencia da razão do relatorio que precede um dos
    decretos de 11 de setembro, resta outra talvez menos categoricamente
    expressa no mesmo relatorio, mas que era a mais forte em relação ao
    thesouro publico. O respectivo ministro presuppunha uma diminuição de
    renda pelo facto da desannexação do termo. Obstava-lhe isto á suppressão
    de alguns direitos de consummo em Lisboa, mas influia tambem na
    conservação de parte d'elles no antigo termo. Vem proval-o a discussão
    que houve na camara dos Dignos Pares na sessão de 13 de agosto de 1853,
    exclusivamente relativa aos impostos excepcionaes conservados nos dous
    novos concelhos. N'essa sessão o mesmo ministro declarou que, attento o
    estado da Fazenda, a mente do Governo não fôra effectuar uma reducção no
    _quantitativo_ dos impostos, mas _unicamente_ alliviar os vexames. Posto
    que esta declaração seja altamente inexacta, (visto que foi diminuido o
    quantitativo na carne e no vinho, e substituida a base do consummo pela
    da venda, o que põe a salvo do mesmo imposto, todos os que mandarem vir
    de fóra do concelho aquelles dous generos directamente para o proprio
    consummo, e visto que foram inteiramente abolidos outros impostos das
    Sete Casas, no termo, como os do azeite e do combustivel) todavia a
    explicação é terminante quanto ás considerações economicas que moveram a
    dictadura a conservar nos novos concelhos _uma parte_ dos antigos
    impostos. Além da persuasão de que era justo pagar mais pela
    contiguidade de Lisboa, as apprehensões do Governo ácerca de um
    desfalque na renda publica, em frente de um _deficit_, obrigaram-no
    pois, a não estender a esta parte do paiz o beneficio do direito commum.

    Sem discutir se é licito invocar motivos de tal ordem quando se tracta
    de um negocio de justiça ou de injustiça, porque se o acto é justo as
    considerações de conveniencia ou inconveniencia são superfluas, e se é
    injusto nunca ellas o podem legitimar, a camara de Belem acceita esse
    fundamento. Se, porém, os factos vierem provar que a desannexação do
    termo, longe de trazer um desfalque nas rendas cobradas pelas Sete
    Casas, deu um resultado contrario, isto é, um augmento de receita, é
    evidente que esse mesmo fundamento cae por terra, e a conservação dos
    direitos nos novos concelhos fica reduzida á categoria de uma oppressão
    absolutamente infundada.

    E é exactamente, Senhor, o que se verifica. Tomado o rendimento das Sete
    Casas e Terreiro (repartições unidas pelas reformas de 11 de setembro de
    1852) durante os primeiros seis mezes da nova organisação, (setembro,
    outubro, novembro, dezembro, de 1852, janeiro e fevereiro de 1853)
    acha-se que o seu valor foi de 532:098$421 réis: examinando porém os
    rendimentos das duas repartições separadas, nos mezes correspondentes de
    1851 a 52, acha-se que o das Sete Casas foi de 416:054$523 réis e o do
    Terreiro de 70:894$940 réis, o que perfaz um total de 486:949$463 réis.
    Assim a concentração da acção fiscal até á linha da circumvallação, onde
    essa acção é possivel e efficaz, produziu o effeito que devia produzir,
    um augmento de receita em seis mezes de 45:148$958 réis. Na verdade, os
    novos direitos creados sobre legumes e que subiram n'esse periodo a
    5:450$561 réis, reduziriam o excesso a menos de 40 contos: mas deve-se
    attender tambem a que desappareceu do rendimento das Sete Casas a verba
    dos direitos de exportação de vinhos, e além d'isso, por effeito da nova
    lei da sisa, o producto d'esta diminuiu nos seis mezes de 1852 a 53,
    tomados por termo de comparação, de 3:500$000 réis, podendo-se deduzir
    da falta de uma verba e da diminuição da outra, que o sobredito
    accrescimo nos direitos de consummo, excede muito os 45 contos de réis.

    Taes são, Senhor, os factos e as razões que a camara municipal de Belem
    submette á consideração de V.M., ácerca dos impostos extraordinarios que
    ficaram pesando sobre os novos municipios. A abolição d'elles é
    moralmente necessaria, e de certo o Governo de V.M. não deixará, á vista
    das considerações expostas, de tomar, perante o Parlamento, a iniciativa
    de uma modificação indispensavel da lei, cujo espirito e cuja intenção
    benefica não é possivel desconhecer.

    A camara, Senhor, diz–intenção benefica–e dil-o mui de proposito.
    Repetindo ainda uma vez que os habitantes d'este concelho tiraram
    vantagens reaes dos decretos de 11 de setembro, ella sente que lhe
    cumpra representar dentro em breve a V.M., sobre as interpretações
    forçadas que se tem dado ás disposições claras e terminantes da lei,
    para se gravarem os povos, e abusos que se tem practicado e practicam,
    para conservar em proveito particular os vexames de que, na sessão de 13
    de agosto de 1853, o ministro da fazenda asseverava (provavelmente por
    falta de exactas informações) estarem livres os novos municipios. N'esta
    parte a camara recorrerá opportunamente a V.M., para que de prompto se
    occorra a males, cujo remedio depende simplesmente do executivo. Na
    presente supplica restringe-se a mostrar os inconvenientes que só podem
    ser removidos pelo legislativo.

    A insubsistencia dos motivos que se buscaram para conservar os novos
    concelhos n'uma situação excepcional produziu, como era de esperar,
    disposições que na lei contrariavam esses motivos. A consciencia de que
    realmente os novos concelhos não deviam ser onerados com os encargos
    especiaes que se lhes impozeram, inspirou a prescripção do artigo 12.^o
    do decreto de 11 de setembro de 1852, expedido pelo Ministerio do Reino,
    no qual se estatue que o Governo dará annualmente uma prestação ás
    camaras dos municipios novamente creados, equivalente á despeza media
    que anteriormente fazia a camara de Lisboa, com a illuminação e calçadas
    no territorio desannexado. Se na realidade os impostos então
    estabelecidos eram uma conpensação das vantagens obtidas pela
    proximidade da capital, se o Governo queria alem d'isso obstar com elles
    a um augmento de _deficit_, a camara de Belem não póde atinar com a
    razão porque se lhe havia de fazer um dom puramente gratuito,
    augmentando para isso o _deficit_ em detrimento commum da nação. Nem se
    diga que essa dadiva é deduzida da prestação concedida ao conselho de
    Lisboa. Não importam para este caso nem a origem ou legitimidade
    d'aquella prestação, nem a justiça das deducções que n'ella se fazem. O
    que importa é que estabelecendo a dotação que se destina a esta camara,
    a dictadura ou não estava bem firme nos principios que invocava, ou
    desbaratava uma somma que aliás deveria entrar nos cofres publicos,
    fazendo donativo d'ella aos habitantes do antigo termo.

    Mas esta disposição não é só contradictoria com os fundamentos das
    provisões tributarias de um dos decretos de 11 de setembro: é tambem
    inexplicavel em si mesma. Ordena-se ahi que as sommas dadas aos novos
    concelhos, sejam calculadas pela media da anterior despeza local, de
    illuminação e calçadas. Porque, porém, essas duas unicas verbas hão-de
    ser tomadas para base do calculo, e não conjunctamente a assaz avultada
    da limpeza, a dos vencimentos, etc.?

    Se o Governo entende, contra as suas proprias declarações, que recebendo
    d'estes dous concelhos perto de 60 contos annuaes de contribuição
    extraordinaria, tem o dever de prover ás suas despezas municipaes, não é
    por certo com supprimentos calculados arbitrariamente e muito inferiores
    aos encargos locaes, que reparará a flagrante injustiça d'aquella
    contribuição.

    Se todavia taes provisões devem cair deante das considerações que
    theoricamente as invalidam, que dirá, Senhor, esta camara ácerca do
    artigo 6.^o do decreto de 11 de setembro expedido pelo Ministerio do
    Reino, que priva o concelho das propriedades municipaes, para as
    attribuir ao de Lisboa? Acaso os logradouros communs dos visinhos e que
    só pelos visinhos podem materialmente ser utilisados, os mercados, cuja
    localidade aliás pertence á camara escolher, com approvação da Junta
    Geral de Districto, os cemiterios emfim, onde repousam as cinzas dos
    paes, irmãos e filhos dos habitantes do concelho, podem ou devem
    constituir propriedade alheia? Esta prescripção, van quanto a mercados e
    logradouros de que os habitantes de Lisboa não podem utilisar-se,
    offerece, quanto aos cemiterios, uma nova especie de servidão, a
    servidão que passa alem dos tumulos. As cinzas dos mortos do concelho de
    Belem pertencerão ao municipio da capital, e poderão ser mudadas ou
    dispersas ou vendidas com o chão que as cobre, sem que seja licito á
    propria municipalidade obstar a taes actos? Fortes deviam ser os motivos
    que a dictadura teve presentes para tomar tão estranha providencia; mas
    esta camara não os alcança, e por isso mal póde combatel-os.

    Demonstrado, como parece ficar, que os decretos de 11 de setembro,
    justos e beneficos no seu pensamento, pelas provisões especiaes que
    encerram, annullam na maior parte os bons effeitos d'esse pensamento,
    segue-se a necessidade da sua reforma. Tendo sido os mesmos decretos
    acto do Governo constituido em dictadura, e sendo para elle honroso o
    havel-os publicado, embora imperfeitos no seu desenvolvimento, esta
    camara entendeu que devia antes dirigir-se a V.M. do que ao Parlamento,
    para que o Governo podesse usar n'este negocio de uma iniciativa que
    justamente lhe pertence.

    Não só essa consideração, mas tambem o sabido e provado amor de V.M. á
    equidade e a tudo quanto possa arredar dos povos oppressões e vexames,
    asseguram feliz exito a uma pretenção tão legitima, e fundada em tão
    urgentes razões. Se, porém, os ministros de V.M. houvessem de
    desprezal-a, o que de nenhum modo esta camara espera, então ella se
    veria na necessidade de appellar directamente para os representantes do
    paiz, e não cessaria nas suas supplicas até obter desaggravo e inteira
    justiça.

    A camara de Belem está tão convencida de que não existe motivo nenhum
    razoavel para os seus administrados viverem, em relação aos impostos,
    fóra do direito commum; conhece tanto a impossibilidade de sobrecarregar
    com fintas, derramas ou outros quaesquer tributos, um concelho em cuja
    parte urbana as apparencias externas bastam para indicar decadencia, e
    que na parte rural lucta com as difficuldades que ficam ponderadas;
    repugna-lhe tão profundamente annullar pelo estabelecimento de novos
    encargos, o allivio que resultou para este territorio da sua separação
    da capital, que está na firmissima resolução de não exigir dos
    habitantes d'elle um unico ceitil para as despezas do municipio, em
    quanto não forem libertados do tributo extraordinario lançado pelas leis
    de setembro sobre dous dos mais importantes objectos de consummo, as
    carnes verdes e o vinho, tributo cuja importancia n'este concelho excede
    a 30 contos de réis. Seja qual fôr o resultado dos seus esforços, que
    serão incessantes ácerca d'este negocio, a resolução que tomou de não
    legitimar com a sua aquiescencia uma situação constitucionalmente
    impossivel, ficará inabalavel porque assenta em convicções
    indestructiveis.

    A camara reconhece que o mal não pode ser remediado senão n'um certo
    prazo, pela indispensavel intervenção do Parlamento. Existe além d'isso
    um contracto de arrematação dos novos impostos no concelho de Belem, que
    só termina em junho do corrente anno, e um dos primeiros deveres do
    Governo é manter illésa a fé publica. O tempo que resta ainda para os
    habitantes d'este municipio soffrerem a arrematação dos direitos de
    venda sobre o vinho e carnes verdes, é sufficiente para o Governo fazer
    votar nas duas casas do Parlamento, as reformas indispensaveis dos
    decretos dictatoriaes de 11 de setembro. No decurso d'este periodo a
    camara procurará conciliar os deveres que lhe impõe a voz da consciencia
    com a escrupulosa obediencia ás leis vigentes, porque sabe que a
    primeira condição da liberdade é a observancia da lei. Na orbita da sua
    acção não tolerará abusos da parte dos arrematantes d'aquelles tributos
    excepcionaes, mas não tolerará tambem que lhes sejam defraudados pelos
    habitantes do concelho do que legitimamente lhes pertencer.

    Applicando ao cofre municipal de Belem uma quota deduzida da dotação do
    de Lisboa, calculada sobre uma base desarrazoada, mas precisa, as leis
    de setembro attribuiram ao Governo e á camara da capital a avaliação
    d'essa quota, excluindo virtualmente a camara de Belem do direito de
    verificar, á vista dos documentos da mesma avaliação, a exacção d'ella.
    É mais uma violencia transitoria a que este concelho tem de
    submetter-se. A camara acceitará essa somma (qualquer que venha a ser)
    fixada pelo arbitrio do Governo e da camara de Lisboa interessada em que
    seja a mais modica possivel. Com ella, com o producto das licenças e com
    outra qualquer pequena fonte de rendimento que possa existir, occorrerá
    ás despezas de administração, de limpeza, de calçadas e de illuminação,
    até onde esses rendimentos chegarem, certa de que os seus representados
    preferirão a falta temporaria de uma parte dos cómmodos e vantagens que
    deve subministrar-lhe a administração municipal, a que esta camara
    practique o minimo acto, do qual se possa deduzir que o concelho presta
    a sancção do seu assentimento a provisões tributarias que são moralmente
    impossiveis.

    Se porventura, Senhor, o Governo de V.M. entendesse dever cerrar os
    ouvidos ás representações d'esta camara, o que nem remotamente os abaixo
    assignados suspeitam, tambem ella poderia elevar respeitosamente á
    presença de V.M., uma supplica para que ordenasse ao seu Governo que,
    usando das attribuições que lhe confere o artigo 106.^o do Codigo
    Administrativo, a dissolvesse, sendo certo que os habitantes do concelho
    de Belem facilmente achariam outros cidadãos que melhor soubessem
    promover os seus interesses municipaes do que os actuaes vereadores.

    Deus Guarde a Vossa Magestade por muitos e dilatados annos como todos
    havemos mister,–Camara 11 de fevereiro de 1854–O presidente, Alexandre
    Herculano–João Ferreira Godinho–João José Teixeira–José Street
    d'Arriaga e Cunha–Visconde da Junqueira.

    REPRESENTAÇÃO DA CAMARA MUNICIPAL DE BELEM AO PARLAMENTO

    1854

    Senhores deputados da nação portugueza.

    A camara municipal do concelho de Belem vem perante o Parlamento pedir a
    reforma dos decretos de 11 de setembro de 1852, que instituiram com o
    antigo termo de Lisboa os dous concelhos de Belem e Olivaes. Ella
    recorreu já com esse intuito ao Governo de Sua Magestade, para que o
    mesmo Governo usasse da sua iniciativa naquella reforma, pelos
    fundamentos expostos no requerimento que lhe dirigiu, e que se ajunta á
    presente súpplica. Á vista d'este o Parlamento não só apreciará, sem que
    seja necessario repetil-as aqui, as razões em que esta camara se
    estriba, para pedir uma reforma altamente reclamada pelos principios
    mais incontestaveis do direito publico constitucional e da economia
    politica, mas tambem avaliará devidamente o proceder do Governo sobre
    tão grave assumpto.

    N'esse requerimento a camara dava ao Ministerio uma prova de deferencia,
    expondo-lhe os aggravos que dos decretos de setembro resultam para os
    seus administrados, e confiando á sua iniciativa o remedio dos mesmos
    aggravos. Via na idéa fundamental dos decretos uma idéa benefica e
    justa, e esperava que o Governo adoptasse uma desenvolução mais logica
    de um pensamento que era seu. Quando assim não succedesse esta camara
    tinha o direito de contar com uma denegação franca e positiva dentro de
    curto prazo. Só assim poderia recorrer em tempo opportuno á
    Representação Nacional. Versando a questão principalmente sobre tributos
    cobrados por arrematação, e devendo esta renovar-se antes de julho do
    anno corrente, é claro que a resolução favoravel da pretensão da camara
    de Belem ficaria indefinidamente addiada, logo que, celebrada a nova
    arrematação, se creasse a necessidade de manter por um, dous ou tres
    annos a fé de um contracto, que nem o proprio Parlamento poderia
    invalidar sem prévia indemnisação aos lesados.

    Á deferencia d'esta camara o Governo respondeu com o silencio; á
    confiança d'ella na sua illustração, na sua justiça, na sua lealdade
    respondeu com uma das propostas apresentadas na Camara dos Senhores
    Deputados pelo Ministro da Fazenda, na sessão de 11 de abril, proposta
    relativa ao imposto do real d'agua, inteiramente connexa com a pretensão
    do municipio de Belem, e cuja approvacão sem restricções importa uma
    negativa ás suas justissimas súpplicas. Este procedimento, posto que
    singular, seria na verdade cómmodo para sem ruido se calcarem aos pés a
    justiça e o direito de milhares de cidadãos, se a esta camara não
    incumbisse velar por elles, e impedir que o Parlamento haja de ser
    illudido, tornando-se innocente cumplice de uma obra de iniquidade.

    Reportando-se ás ponderações feitas no requerimento dirigido ao Governo,
    sobre as diversas disposições mais ou menos irreflectidas e injustas dos
    decretos de 11 de setembro, que esta camara espera sejam abrogadas ou
    substituidas pelo Parlamento, ella invoca especialmente a attenção dos
    Senhores Deputados da Nação sobre o imposto excepcional de quinze réis
    em arratel de carne e de dez réis em canada de vinho, creado nos dous
    novos concelhos de Belem e Olivaes, e assimilado ao real d'agua, por ser
    lançado, não sobre o consumo total, mas sobre a venda a retalho, e por
    ficar incluindo em si, nos ditos concelhos, aquelle antigo tributo
    geral.

    Na representação junta á presente súpplica está ponderada largamente a
    insignificancia dos fundamentos em que a dictadura de 1852 se estribou,
    para crear aquelle tributo excepcional. Aqui, esta camara tem
    considerações de outra ordem que ajuntar ás que offereceu ao Governo, e
    que por certo não serão inuteis na discussão da materia.

    A parte tributaria dos decretos de 11 de setembro pecca desde logo na
    base. É sabido que os tributos do paiz, em harmonia com as nossas
    instituições, se dividem em duas categorias: tributos geraes e
    contribuições municipaes. Directos ou indirectos, a condição de todos os
    impostos geraes é a universalidade. A Carta consagrou este principio. A
    lei que o quebrar é de direito nulla. Pela sua indole o imposto
    indirecto affecta ás vezes mais particularmente uma classe de cidadãos,
    conforme os objectos sobre que recae; mas esse facto resulta sempre das
    leis economicas e da diversidade das condições sociaes. O direito
    publico escripto não póde nunca admittir a hypothese de se tributarem
    diversamente os habitantes de diversas circumscripções. Os impostos
    municipaes, destinados a despezas publicas exclusivamente locaes, são os
    unicos que justamente variam de localidade para localidade, porque o
    municipio é uma pequena sociedade civil dentro da grande sociedade, e os
    seus membros teem deveres e direitos, vantagens e encargos proprios e
    exclusivos da vida publica municipal. Os decretos de setembro, em
    contravenção d'estas doutrinas, crearam um tributo hybrido nos dous
    concelhos do antigo termo: fundiram no imposto do real d'agua outro, que
    é municipal na sua indole, porque exclusivo e de localidade, e que é ao
    mesmo tempo geral na sua applicação, por ser destinado a entrar nos
    cofres do Estado. Esta situação, monstruosa e constitucionalmente
    impossivel, é que o Parlamento, a quem incumbe manter as doutrinas da
    Carta e a inviolabilidade dos principios, deve primeiro que tudo fazer
    cessar.

    Na verdade a dictadura fundamentou as insolitas provisões dos decretos
    de 11 de setembro, nas vantagens que os dous concelhos deviam auferir da
    proximidade da capital. Dado, porém não concedido, o facto, a
    consequencia d'elle, se a dictadura soubesse respeitar as boas
    doutrinas, seria exigir uma compensação directa do municipio, na
    hypothese de que essas vantagens resultavam de um sacrificio especial do
    Estado, porque, resultando das condições naturaes e corographicas dos
    dous concelhos, é ignorar os elementos da economia politica, imaginar
    que taes vantagens escapam aos tributos geraes. Reduzindo os fundamentos
    allegados pela dictadura ás suas verdadeiras dimensões na representação
    junta, esta camara declarou que acceitaria de bom grado o encargo de
    retribuir directamente quaesquer beneficios, em que se dessem os
    caracteres que exigem uma retribuição especial. Era o mais que
    legitimamente d'ella se podia exigir, e que ella se apressou a offerecer
    para tirar todos os pretextos á espoliação.

    Independente da inconstitucionalidade do tributo especial, que os
    decretos de setembro estabeleceram nos dous concelhos do antigo termo,
    para elles poderem gosar de um direito desconhecido dos publicistas, o
    _direito de proximidade_, é de notar o desacordo d'este acto da
    dictadura com o systema que, como tal, e depois como poder executivo, o
    actual Ministerio parece haver adoptado. As suas tendencias, pela
    reducção das pautas, pela adopção do imposto de repartição e por outras
    providencias analogas, bem ou mal concebidas, são evidentemente para o
    tributo directo e para a sua divisão equitativa. E todavia, tractando de
    impôr uma especie de contribuição de guerra nos dous concelhos que
    creára, em vez de exigir a troca de serviços, fossem elles quaes fossem,
    a compensação directa dos sacrificios especiaes do Estado em beneficio
    especial dos mesmos municipios, por uma somma qualquer paga pelos cofres
    das respectivas camaras, a dictadura quintuplicou ahi o imposto do real
    d'agua, imposto cuja substituição ha muito houvera procurado qualquer
    Governo, que, habituando-se a fazer ou a propôr leis depois de examinar
    os factos, achasse que elle tira das bolsas dos contribuintes talvez o
    triplo do que entra nos cofres publicos, com offensa flagrante dos
    principios fundamentaes sobre materia de contribuições, acceitos por
    todos os economistas desde Adam Smith até hoje.

    A dictadura, promulgando os decretos de 11 de setembro, reconheceu nos
    respectivos relatorios uma verdade sabida por todos, a decadencia da
    riqueza nos territorios _extramuros_ sujeitos á fiscalisacão das
    Sete-Casas, decadencia que na realidade, e segundo a opinião do proprio
    Governo, procedia do peso dos impostos e dos vexames, ainda mais
    gravosos, que se ligavam á sua arrecadação e fiscalisação. Esse estado,
    procedido de uma situação tributaria especial, repugnava a todas as
    conveniencias publicas; repugnava á justiça e á moral. A primeira e mais
    importante necessidade na reforma das Sete-Casas era, na opinião dos
    Ministros, destruir esse estado anormal. O Governo entendia com a medida
    que decretava _prover amplamente ás urgentes e justas reclamações dos
    povos_. É evidente que as consequencias logicas d'estas premissas
    consistiam em acabar com o tributo excepcional e com as oppressões; em
    acabar no termo, como diziam os Ministros, com os _impostos de cidade e
    vexames a elles inherentes_. Vejamos como estas bellas promessas se
    realisaram.

    Depois d'espoliar os novos concelhos de todos os proprios, que lhes
    pertenciam pelo simples facto de existirem, attribuindo á camara de
    Lisboa baldios, logradouros, predios urbanos e rusticos, mercados,
    aqueductos, e até os ossos dos mortos, nos dous concelhos de Belem e
    Olivaes, do modo que se vê nos decretos de 11 de setembro, e vai
    largamente exposto no requerimento appenso a esta súpplica, a dictadura
    veiu á questão do imposto especial. Escondido no meio das phrases
    pomposas, dos annuncios prosperos do futuro, encontra-se no relatorio
    dos Ministros o seguinte periodo:–«os concelhos novamente creados,
    ficando sujeitos ás imposições geraes do reino, apenas são obrigados ao
    pagamento de alguns tributos a maior, que ainda os deixa em grandissima
    vantagem em relação ao seu estado anterior.»–Examinemos se os factos
    condizem com estas affirmativas.

    O antigo termo fiscal das Sete-Casas, como é vulgarmente sabido,
    compunha-se de 37 freguezias, 23 pertencentes ao termo municipal de
    Lisboa, e 14 aos termos de outros concelhos limitrophes. No anno
    economico que precedeu immediatamente a reforma das Sete-Casas e a
    creação dos dous concelhos de Belem e Olivaes, o rendimento d'essa casa
    fiscal no termo d'ella dependente foi proximamente, segundo os mappas
    officiaes, de reis 62:000$000. Suppondo as forças economicas das 23
    freguezias _extramuros_ do concelho de Lisboa similhantes ás das 14 dos
    outros concelhos, porque as desigualdades entre as de cada um dos dous
    grupos são compensadas pelas desigualdades entre as do outro grupo,
    segue-se que os habitantes dos dous novos concelhos, ou das 23
    freguezias, pagavam proximamente 38 ou 40 contos. O novo imposto foi
    arrematado nos dous concelhos em 51 contos, despresadas as fracções. É
    portanto evidente que o encargo tributario dos dous concelhos ficou
    sendo maior do que era d'antes. Á vista disto, o Parlamento poderá
    apreciar qual é essa _grandissïma vantagem_ em que os deixaram,
    relativamente ao seu estado anterior, os decretos de 11 de setembro.

    Cumpre aqui obviar a um reparo que por parte do Governo, ou dos homens
    de simples theorias se poderá fazer. Descendo á analyse dos impostos das
    Sete-Casas achar-se-ha na verdade que d'antes, no territorio dos dous
    novos concelhos, eram tributados mais generos do que hoje, e que nas
    proprias carnes verdes o imposto era duplo e no vinho quadruplo. Mas o
    ponto verdadeiro da questão é o comparar a totalidade do onus a que
    estes territorios estavam sujeitos, com aquelle a que o estão agora.
    Quando se diz que era impossivel que o termo prosperasse debaixo da
    pressão dos tributos, attende-se ao facto real, e não ao facto nominal.
    A differenca enorme, que achamos entre os suppostos resultados das
    imposições e fiscalisação das Sete-Casas e os seus resultados
    verdadeiros, o que prova? Prova o mesmo que se deduz de outro facto
    altamente significativo, observado na historia do rendimento das
    Sete-Casas no decurso de 18 ou 20 annos, isto é, que esse rendimento
    augmenta logo que se encurta o termo fiscal, diminue desde que este se
    dilata; prova que a medida de reduzir a acção das Sete-Casas ao
    perimetro da circumvallação da cidade foi profundamente judiciosa, e um
    acto em que, á justiça feita aos habitantes do antigo termo,
    separando-os municipalmente da capital, se associou a conveniencia do
    thesouro; prova finalmente que, a não suppormos uma espantosa
    malversação nas Sete-Casas, o contrabando, esse castigo supremo e
    inevitavel de leis ineptas e anti-economicas, remediava até certo ponto
    a exaggeração do tributo, sendo impotente contra elle uma fiscalisação
    violenta, assoladora, immoral nas suas consequencias, e incapaz de
    preencher os fins a que era destinada.

    O imposto sobre a carne e o vinho basta pois, na realidade, para
    compensar actualmente com um gravame novo, ainda maior, o gravame
    antigo. Mas não ha só isto. Na representação junta, dirigida ao Governo,
    esta camara absteve-se de discutir o imposto gradativo, estabelecido
    pelos decretos de 11 de setembro para as vendas de liquidos. Queria
    examinar primeiramente os effeitos positivos d'esse imposto, que ao
    simples aspecto parece ter unicamente por objecto tornar mais facil a
    fiscalisação das barreiras da cidade, e ferir especialmente, de um modo
    indirecto, o consumo de vinho feito pelas classes inferiores da capital
    fóra da linha de circumvallação. A verdade, porém, é que elle nem
    protege a fiscalisação naquella linha, nem recae só sobre o povo da
    capital que vem (quasi exclusivamente nos dias sanctos) consumir vinho
    nos arrabaldes. Por grande que seja este consumo, é evidentemente muito
    inferior ao dos proprios moradores dos novos concelhos, cujo gasto é
    diario, e que consomem outros liquidos. Assim, calculando proximamente
    em 7 contos de réis annuaes o producto das licenças gradativas de cem,
    cincoenta, vinte e dez mil réis, exigidas pelo fisco ás lojas de
    liquidos dos novos concelhos, póde-se affirmar sem exaggeração que 4
    contos de réis recaem sobre os habitantes d'elles e não sobre a
    população inferior de Lisboa. Esta somma addicionada aos 51 contos por
    que foi arrematado o imposto da carne e vinho, eleva o gravame actual
    pelo menos a 55 contos, augmentando-lhe assim o excesso sobre o gravame
    antigo. Ao mesmo tempo a nova taxa de licença, pelo lado dos seus
    effeitos economicos e commerciaes, é por muitos modos vexatoria para os
    novos concelhos; porque o resultado della foi fecharem as portas
    centenares de pequenas lojas de liquidos, que não poderam resistir a um
    direito quasi prohibitivo, convertendo-se assim a taxa n'uma especie de
    direito de patente de um exclusivo, exigida aos donos dos grandes
    armazens de liquidos. De similhante exclusivo resultou que, além de
    ficarem na miseria centenares de familias, apesar do imposto gradativo o
    preço do vinho não subiu, porque o novo encargo para os grandes
    estabelecimentos ficou superabundantemente compensado pelo triplicado ou
    quadruplicado da venda. Todavia as consequencias d'este estado de cousas
    vão mais longe. Diminuindo em virtude de tal facto o numero das licenças
    municipaes, e consequentemente os redditos das novas camaras
    provenientes d'essa origem, ellas teem de ir buscar por outro qualquer
    meio ás algibeiras dos contribuintes, o supprimento de similhante
    desfalque.

    Esta perda e gravame para os habitantes dos dous concelhos reverte,
    porém, em beneficio do fisco? Como todos os tributos, sobretudo
    indirectos, imprevidentemente estabelecidos, os 6 ou 7 contos auferidos
    por esse meio, produzem por outro lado um desfalque, talvez igual. São
    duzentos a trezentos sellos de licenças, duzentas a trezentas verbas de
    decima e do imposto de quatro por cento sobre casas, que desappareceram
    com a cessação d'esses duzentos a trezentos estabelecimentos
    commerciaes. Entretanto os 6 a 7 contos da taxa gradativa figurarão como
    um augmento de receita no orçamento geral do Estado, do mesmo modo que
    tantas outras decepções, que n'elle figuram por motivos analogos.

    Esta camara disse que o imposto gradativo não protege a fiscalisação nas
    barreiras da cidade. Efectivamente n'esta relação elle é de todo
    impotente ou nullo. Basta para o conhecer saber-se o que no nosso
    systema fiscal se entende em regra por imposto de consumo, á vista do
    Codigo Administrativo e leis correlativas. O imposto de consumo
    unicamente se póde verificar na venda a retalho. Assim, não sómente em
    virtude dos regulamentos existentes, mas tambem pelas indicações da
    experiencia, o unico meio de fiscalisação para taes impostos é o methodo
    dos manifestos combinados com os varejos dados nas lojas de retalho. O
    systema do imposto das barreiras, como existe em Lisboa, é o que
    propriamente corresponde aos direitos chamados em França d'_octroi et
    d'entrée_. Se as barreiras e registos fiscaes na orla dos dous novos
    concelhos fossem licitos, e todos os generos importados pagassem sem
    distincção um direito maior ou menor, essas barreiras, especie de guarda
    avançada das de Lisboa, defenderiam mais ou menos estas, fazendo elevar
    sempre os preços dos generos no territorio dos dous concelhos, que assim
    voltariam legalmente ao estado de oppressão e vexame, de que as leis de
    setembro tentaram libertal-os. Mas sem isto, nem o imposto de consumo
    sobre a carne e o vinho, nem a taxa gradativa das licenças conduzem, por
    essa parte, a resultado algum. O contrabandista não precisa de ser
    taberneiro, carniceiro ou merceeiro, para exercer o seu odioso mister, e
    não o sendo póde livremente conduzir o objecto destinado ao contrabando
    até á proximidade da linha de circumvallação, sem pagar nem o imposto
    nem a taxa gradativa. Uma vez que não venda a retalho o que conduz, nada
    tem com elle o fisco ou os seus subrogados.

    Que o Parlamento releve a esta camara uma observação. As linhas fiscaes
    de Lisboa defendem-se como se defenderam ha vinte annos as suas linhas
    militares. Defendem-se com animos probos; com a lealdade dos agentes
    fiscaes; com a vigilancia e actividade de quem quer e sabe cumprir o seu
    dever; com a severidade do castigo e com a justiça das recompensas. O
    espirito mais rude comprehende que uma alta muralha, dominada por um
    passeio de ronda, onde de noite e de dia se patrulhe convenientemente, e
    cujas vinte ou trinta portas sejam continuamente vigiadas por homens
    zelosos, é inaccessivel ao contrabando. Se, por hypothese, houvesse um
    Ministro que viesse perante o Parlamento dizer–«tenho nas barreiras da
    capital empregados fiscaes que trahem o seu dever: tenho chefes a quem
    incumbe vigial-os e que não os vigiam: tenho regulamentos imperfeitos:
    tenho considerações de patronato que me impedem de demitir os suspeitos,
    e de fazer punir os culpados: concedei-me, portanto, que cinja essas
    barreiras com uma faixa de territorio sujeito a uma lei excepcional, com
    um vasto _pomoerium_ de maldição, cujos habitantes innocentes,
    absolutamente innocentes, dos descaminhos que tolero por falta de
    energia e de vigilancia, ou por considerações pessoaes, sejam obrigados
    a compensar pelas suas bolsas, os effeitos da corrupção ou da
    incapacidade dos meus propostos e subordinados»,–o Parlamento
    rejeitaria com indignação esta proposta demente e atroz, e por certo o
    individuo que assim escarnecesse da intelligencia e da consciencia dos
    Representantes do paiz, não tornaria a sentar-se nos bancos do
    Ministerio.

    Não é, por consequencia, possivel que o Governo pense em defender por
    este lado a manutenção das provisões tributarias dos decretos de 11 de
    setembro, aliás já condemnadas no tribunal da razão, por contradictorias
    com a sua idéa fundamental, visto que em vez de reduzirem os impostos
    que _effectivamente_ pesavam sobre o territorio dos dous concelhos, os
    aggravam, directa e indirectamente, ainda mais.

    Ao augmento de encargos que veiu pesar pelo tributo indirecto sobre este
    opprimido territorio, em virtude de expressas disposições das leis de
    setembro, accresce o de outro imposto directo, augmento que resulta das
    leis geraes de Fazenda. Os quatro por cento sobre a renda das casas cuja
    base era em Belem, como districto municipal de Lisboa, de 30$000 réis,
    agora, convertido este territorio em concelho sobre si, teem por base a
    renda de 12$000 réis, vindo a sobrecarregar as classes pobres com um
    tributo de que estavam exemptas, e aos proprietarios urbanos que, com
    difficuldade achavam inquilinos para os seus predios, do que dão
    testemunho as casas deshabitadas e em ruinas que se encontram a cada
    passo n'esta povoação, augmentam-se por essa mudança de base tributaria,
    as difficuldades para auferirem uma renda modica dos seus capitaes
    immobilisados.

    Se, porém, aquelles decretos e as suas consequencias, não tornaram menos
    oppressivas as contribuições que affligiam o antigo termo, cumpre
    confessar que ao menos o exemptavam dos vexames a que os sujeitava a
    fiscalisação das Sete-Casas, com o seu cortejo de violencias, de
    embaraços commerciaes, de extorsões, de rixas, e até de assassinios,
    quadro repugnante, que por inutil esta camara não desenhará diante dos
    olhos dos Senhores Deputados. Mas infelizmente esse beneficio, que está
    na lei e que devia traduzir-se nos factos, não chegou a realisar-se no
    concelho de Belem. O que se tem passado a similhante respeito não se
    acreditaria, se a narrativa dos successos não se estribasse em provas
    irrecusaveis. Na representação junta, esta camara julgou dever abster-se
    de mencionar certos factos e de apreciar severamente outros, de modo que
    parecesse dirigir ao Governo acres censuras. O procedimento d'este para
    com ella, soltando-a de quaesquer considerações, habilitam-na para dizer
    a verdade nua, a verdade em toda a sua extensão, perante os
    Representantes do paiz.

    Apenas celebrados pelos fins de 1852 os contractos de arrematação dos
    novos impostos, nos dous concelhos do antigo termo de Lisboa, e o do
    real d'agua no resto do antigo termo fiscal das Sete-Casas, os
    arrematantes estabeleceram immediatamente registos fiscaes no perimetro
    do territorio que os seus contractos abrangiam. N'estes registos
    exigiam-se direitos de consumo, e davam-se guias dos generos
    despachados. Por auctoridade particular collocaram-se homens armados em
    diversos pontos, e começaram a apprehender-se individuos que, diziam os
    guardas dos arrematantes, se esquivavam ao pagamento dos impostos. A
    fiscalisação, emfim, das Sete-Casas, tão odiosa e tão justamente odiada,
    renascia n'este infeliz territorio com todo o seu sequito de abusos e
    violencias. Unanimemente, porém, as auctoridades administrativas do
    concelho dos Olivaes e dos outros concelhos limitrophes ao antigo termo
    municipal de Lisboa, aonde d'antes chegava o termo fiscal das
    Sete-Casas, intimaram os arrematantes para retirarem os registos, e
    fazerem cessar um systema de fiscalisação incompativel com os
    regulamentos e com a indole do imposto que haviam arrematado. Obedeceram
    elles ás intimações dos magistrados administrativos, e o abuso cessou.
    No Concelho de Belem não succedeu assim. A auctoridade tolerou tudo, e
    os renovados vexames das Sete-Casas continuaram. Como era natural,
    surgiram as resistencias, e os arrematantes pensaram em manter o abuso
    recorrendo ao Governo. Requereram ao Ministerio da Fazenda para que lhes
    assegurasse a conservação d'aquella especie de barreiras fiscaes que
    haviam estabelecido; mas as suas súpplicas foram indeferidas; nem podiam
    deixar de o ser. Communicou-se officialmente esta resolução ao
    respectivo Administrador de concelho, que se recusou a cumpril-a por
    motivos que esta camara ignora, e apesar das leis, dos regulamentos e da
    decisão do Ministro, as cousas continuaram no mesmo estado.

    Entretanto crescia a reacção popular contra um abuso intoleravel, e
    tanto mais intoleravel quando se considerava que os outros concelhos
    limitrophes, e sobretudo o dos Olivaes, creado pelas mesmas leis, com as
    mesmas condições de existencia, e sendo-lhe applicaveis os mesmos
    regulamentos fiscaes, estavam perfeitamente exemptos de taes vexames, só
    reservados ao territorio do concelho de Belem. Os habitantes d'este
    lembraram-se então de procurar allivio aos seus males recorrendo tambem
    ao Ministro, que já ordenara se lhes pozesse termo e que não havia sido
    obedecido. Dirigiram pelo Ministerio da Fazenda um requerimento em que
    pediam de novo essa justiça, que já espontaneamente se lhes mandara
    fazer. Mais de um anno tem decorrido desde então, e até hoje, uma
    súpplica tão simples, tão justa, tão clara, até, para o Ministro, que de
    antemão e por si proprio a resolvêra, não pôde obter uma resolução
    favoravel!

    A camara de Belem deixa á apreciação do Parlamento similhantes factos. A
    sua significação e o seu valor podem todavia calcular-se melhor pela
    comparação com outros que lhes são correlativos. Singulares e estranhos,
    esta camara não ousa nem quer explical-os. Pertence ao Parlamento
    remontar ás suas causas.

    É de antigos tempos contestavel e contestada a extensão que se deve dar
    ao imposto do real d'agua. É questionavel se elle deve recair unicamente
    sobre as carnes verdes ou se tambem abrange as seccas, salgadas ou
    fumadas. Os tribunaes teem julgado diversamente, e o Governo em diversas
    epochas e por diversos actos tem procurado fazer admittir a significação
    mais lata. Estes actos do Governo são perfeitamente indifferentes,
    porque não é ao Executivo, mas ao Legislativo que pertence a
    interpretação das leis. De que a do real d'agua é obscura não ha a menor
    dúvida. Ao passo que o Poder Judicial vacilla a este respeito, o
    Ministro da Fazenda vem ao Parlamento pedir a sua interpretação,
    reconhecendo por esse acto a nullidade de todas as portarias, circulares
    ou officios com que se tem pretendido fixar o sentido d'ella. Posto
    isto, venhamos aos factos.

    Os decretos de 11 de setembro de 1852, conglobaram o real d'agua no novo
    imposto que estabeleceram nos dous concelhos. Liberto dos impostos das
    Sete-Casas, este territorio ficava por esse facto submettido ao do real
    d'agua, a que a dictadura, por aquelles decretos, veiu accrescentar nove
    réis em canada de vinho e onze réis em arratel de carne. Os §§ 1.^o e
    2.^o do artigo 3.^o do decreto expedido pelo Ministerio da Fazenda,
    dizem que os dous concelhos são obrigados:

    «A pagar o imposto de dez réis por cada canada de vinho vendido a miudo,
    nos mesmos termos em que se paga o real d'agua.»

    «A pagar quinze réis por cada arratel de _carne verde_,
    comprehendendo-se n'este direito o real d'agua, e os tres réis
    addicionaes.»

    Se a dictadura entendia que o imposto do real d'agua era legalmente
    extensivo ás carnes seccas, é evidente que quiz restringir a nova
    imposição ás carnes verdes.: se entendia que não o era, quiz tornar bem
    sensivel a intelligencia que dava á lei do real d'agua, excluindo
    positivamente as carnes seccas. Se estas ultimas se comprehendiam
    n'aquella designação limitativa, quaes eram as que excluia a lei?

    Trez mezes depois o Ministerio da Fazenda publicava as condições para a
    arrematação do real d'agua no antigo termo fiscal das Sete-Casas,
    comprehendendo o territorio dos dous novos concelhos, desannexado do
    municipio de Lisboa, e as freguezias dos outros concelhos limitrophes,
    que haviam pertencido ao termo fiscal das Sete-Casas. A quinta condição
    dizia assim:

    Que ao arrematante ficará pertencendo no territorio que constituia o
    termo fiscal da extincta alfandega das Sete-Casas, a percepção do
    imposto do real d'agua, assim em canada de vinho que se vender para
    consumo nas ditas terras, quer seja nas tabernas, quer fóra d'ellas,
    como em arratel de carne de gado vacum, suino, lanigero e cabrum, que no
    estado de verde, secca, ou por qualquer fórma preparada, fôr vendida nos
    açougues ou fóra d'elles; sendo o sobredito imposto, nas freguezias dos
    concelhos que faziam parte do referido termo, de um real por canada de
    vinho, e quatro réis em arratel de carne, conforme foi estabelecido pelo
    alvará de 23 de janeiro de 1643, lei de 21 de novembro de 1844, e mais
    legislação a similhante respeito; e nas freguezias que formam
    actualmente os concelhos de Belem e Olivaes, de dez réis em canada de
    vinho, e quinze réis em arratel de carne, como se acha determinado nos
    n.^os 1.^o e 2.^o do artigo 3.^o do decreto de 11 de setembro do
    presente anno.

    N'esta condição o Ministerio da Fazenda revelava a intelligencia que a
    dictadura déra á lei do imposto do real d'agua, isto é, a extensiva,
    mandando regular a percepção d'elle pela legislação anterior á
    dictadura, e ao mesmo tempo mandava que nos dous novos concelhos se
    observasse na percepção do imposto excepcional dos dez réis em canada de
    vinho e dos quinze réis em arratel de carne, o disposto nos n.^os 1.^o e
    2.^o acima citados do decreto com força de lei de 11 de setembro,
    expedido pelo mesmo Ministerio, e que o restringia ao vinho e ás carnes
    verdes. A condição discriminava as duas hypotheses e referia-se nos seus
    dous membros ás leis que regulavam uma e outra. Rigorosamente a condição
    estava dentro da estricta legalidade. Seria nulla se d'ella se
    departisse.

    Os arrematantes, depois de celebrado o contracto, não entendendo a
    condição, ou fingindo não a entender, exigiram direitos das carnes
    seccas. Resistiram-lhes os interessados. Recorreram elles ao Governo. A
    12 de janeiro de 1853 expedia-se pelo Ministerio da Fazenda a seguinte
    portaria:

    «Ministerio da Fazenda.–Direcção Geral das Alfandegas.–Sua Magestade a
    Rainha, attendendo ao que lhe representaram os arrematantes do imposto
    do real d'agua, nas carnes, e no vinho dos Concelhos de Belem e Olivaes,
    sobre a necessidade de se fazer constar aos moradores d'estes Concelhos,
    que lhes cumpre pagar a elles arrematantes não só aquelle imposto na
    razão de dez réis em canada de vinho, e quinze réis em arratel de carne
    verde, e secca, de todas as qualidades d'estes generos que foram
    encontrados em ser na occasião do varejo a que se procedeu, e das que de
    novo admittirem para consumo; mas tambem o imposto addicional para
    amortisação das notas do Banco de Lisboa: Ha por bem determinar que o
    Delegado do Thesouro, no districto de Lisboa, expeça as ordens
    convenientes aos escrivães de fazenda dos Concelhos de Belem, e Olivaes,
    para que elles façam constar por meio de Editaes affixados nos lugares
    publicos dos mesmos Concelhos, quaes as condições com que o referido
    imposto foi arrematado, e as penas a que está sujeito todo e qualquer
    individuo que se recusar ao pagamento d'elle, as quaes são as de que
    tractam os §§ 4.^o e 7.^o do Alvará de 23 de Janeiro de 1643, e mais
    leis posteriores a similhante respeito.»

    O Parlamento desculpará por certo alguma expressão mais dura que possa
    escapar aos signatarios da presente súpplica, ao fazerem a repugnante
    exegese d'este singular diploma. A maior demonstração de benevolencia
    que poderiam dar ao Ministro que o assignou seria acreditar que o fez
    sem ler o que assignava. Esta camara quer suppol-o assim. Na essencia a
    portaria de 12 de janeiro illude a questão. É uma d'essas composições,
    com pretensão á ambiguidade, indignas de um Ministro da Corôa. Despojada
    do seu preambulo, das longas e tortuosas phrases que se arrastam como a
    serpente, o que resta? Uma ordem para se publicarem por Editaes as
    condições da arrematação, e as penas em que incorre quem devendo pagar o
    imposto, recusar fazel-o. Mas o que pediam os arrematantes? Pediam, que
    entre outras cousas, se fizesse constar, não aos logistas, aos
    vendedores de retalho, mas _aos moradores_ dos dous concelhos, que
    deviam pagar quinze réis de cada arratel não de carne verde, mas de
    _carne verde, e secca_. Era este o ponto importante. Na sua modesta
    súpplica elles exigiam simplesmente que ao direito de consumo cobrado
    sobre a venda a retalho, fosse substituido um direito de entrada ou
    barreiras. Queriam tornar fecundos os seus registos de Belem. Pediam
    que, limitando o decreto de 11 de setembro o imposto da carne ás carnes
    verdes, o Governo o estendesse ás carnes seccas. Eram pretensões
    absurdas que o Ministro devia desattender porque tendiam a ultrapassar
    uma lei, e lei tributaria. Pediam-lhe que perpetrasse um crime. E em vez
    de repellir a injuria; em vez de recommendar aos seus subalternos
    severidade e vigilancia em cohibirem as violencias dos arrematantes e em
    manterem o direito dos cidadãos, que se defendiam da espoliação, o
    Ministro, invocando n'esta comedia vergonhosa o nome do Chefe do Estado,
    ordenava que se lhes recordasse a penalidade fulminada contra os que
    tentam subtrahir-se ao pagamento dos tributos legitimos. Por uma
    inversão de todas as idéas administrativas e até do senso commum, a
    advertencia severa fazia-se aos cidadãos ameaçados, que se defendiam com
    a lei: a attenção era para as pretensões da cobiça insolente que
    reclamava para chegar aos seus fins, o apoio illegal do poder!

    Que todo o homem honesto diga com a mão na consciencia, se ao ler a
    portaria de 12 de janeiro não conhece o intuito com que foi redigida; se
    não sente que se busca produzir um effeito de temor, para que os
    habitantes dos dous concelhos se hajam de submetter ás exacções dos
    arrematantes justas ou injustas, sem que todavia se possa em rigor
    accusar o Ministro de exorbitar? Quem não tivesse presentes os decretos
    de 11 de setembro; quem não conhecesse bem o mechanismo dos nossos
    impostos de consumo e os diversos regulamentos sobre a sua percepção e
    fiscalisação, vendo n'essa portaria que o Governo _attendia_ ás
    representações dos arrematantes, sobre a _necessidade_ de recommendar
    aos cidadãos o cumprimento de certos deveres, e que o mesmo Governo
    depois de enumerar sem distincção esses deveres, reaes e imaginarios,
    ameaçava os renitentes com o rigor das leis; quem, dizemos, se não
    persuadiria de que os arrematantes invocavam unicamente direitos
    legitimos, resultantes de um contracto, que a boa fé do Executivo era
    obrigada a manter?

    O povo, todavia, continuou no concelho de Belem a resistir ao vexame dos
    registos e guias, e d'estas resistencias chegaram a originar-se
    symptomas de graves conflictos. Por outra parte os vendedores de carnes
    seccas, bem aconselhados, deixaram os agentes publicos affixar os seus
    Editaes, as suas condições, as suas portarias, e recorreram ao Poder
    Judicial, de quem ainda hoje está pendente a decisão do negocio. D'esse
    Poder esperam elles justiça, se antes d'isso as Côrtes não approvarem a
    actual proposta do Ministro da Fazenda; porque sanccionada ella, nada
    mais resta aos cidadãos do que curvar a cabeça ante a soberania
    nacional.

    Aos factos precedentes veiu, passados mezes, associar-se outro que os
    completa, e que illustrando o anterior procedimento do Ministerio da
    Fazenda, acaba de habilitar a Camara dos Senhores Deputados para avaliar
    aquelle procedimento e talvez remontar ás suas causas. Interpellado na
    Camara dos Dignos Pares, na sessão de 13 de agosto de 1853, sobre os
    impostos e vexames dos dous concelhos de Belem e Olivaes, o Ministro da
    Fazenda contradisse o direito e os factos, e fez revelações
    deploraveis.–Disse que a intenção do Governo, (queria dizer da
    dictadura) nos decretos de setembro fôra pôr os povos ao abrigo das
    vexações, sem o thesouro d'isso tirar partido, e que tambem o Governo (a
    dictadura) não quizera diminuir o quantitativo dos impostos nos dous
    concelhos, como o declarava no relatorio de um d'esses decretos. Tudo
    isto era inexacto. Os vexames não cessaram como se acaba de mostrar. O
    thesouro tirou partido da reforma, porque em lugar de 38 ou 40 contos
    que auferia do territorio dos dous concelhos, passou a tirar 55 contos
    como tambem se mostrou. Diminuiu-se o quantitativo dos impostos, embora
    os factos viessem depois provar que a diminuição era nominal. Emfim, a
    dictadura não declarou as intenções que o Ministro lhe attribuia n'essa
    memoravel sessão, citando aquelle relatorio, porque todas quantas
    considerações n'elle se fazem relativas a _deficit_, impossibilidade de
    reduzir impostos, etc., referem-se aos direitos fiscaes na cidade de
    Lisboa, e não aos dos dous concelhos, como facilmente verificará quem se
    der ao trabalho de o ler. E tanto assim, que depois d'essas
    considerações os Ministros da dictadura accrescentaram, que os concelhos
    de Belem e Olivaes «ficavam sujeitos ás imposições geraes do Reino, e
    apenas obrigados ao pagamento de alguns tributos a maior, que ainda os
    deixava _em grandissima vantagem em relação ao seu estado anterior_, mas
    que era justo pagassem pelos beneficios e cómmodos que lhes resultam do
    contacto com a capital.»

    Se isto é deploravel, mais o foi ainda a defesa da portaria de 12 de
    janeiro. O Ministro que nessa conjunctura confessava que não soubera
    redigir o decreto de 11 de setembro, relativo ao assumpto, podia tambem
    declarar francamente que não soubera o que tinha feito expedindo-a. A
    Camara dos Dignos Pares seria por certo indulgente á vista d'esta
    confissão ingenua. O joven Ministro achou, porém, mais facil emprehender
    a apologia d'aquella monstruosidade administrativa. Para isso preferiu
    confessar que a portaria tinha por alvo fazer considerar como extensivo
    ás carnes seccas o novo imposto. O real d'agua era-o na opinião do
    Tribunal do Thesouro, do conselho da direcção dos impostos e d'elle
    Ministro, que hoje vem pedir ao Parlamento a interpretação d'essas leis
    sobre o real d'agua, ácerca das quaes nenhuma duvida tinha. Por um
    genero novo de hermeneutica tirou d'esse facto supposto uma conclusão
    singular. O decreto de 11 de setembro era lei promulgada por uma
    dictadura. Esta, assumindo, bem ou mal, o poder legislativo, podia
    modificar, alterar, revogar todas as leis do Reino, menos o alvará de
    1643 e a carta de lei de 1844, relativos ao real d'agua. A esse poder
    nem se quer era licito dar-lhes uma interpretação menos extensiva do que
    lhes dava o Ministerio da Fazenda e as repartições ou individuos d'elle
    dependentes. Aquelle alvará e as leis correlativas eram inviolaveis como
    o Chefe do Estado, embora se dissesse no decreto de 11 de setembro que
    os dous novos concelhos pagariam o imposto de quinze réis por arratel de
    _carne verde_. Supposta a inviolabilidade do alvará de 1643 e da
    interpretação ministerial, essa designação não podia significar o que
    significa. A expressão _carnes verdes_, dizia o Ministro, é alli
    similhante á disposição _em globo_ do alvará de 1643 e da lei de
    1844.–Na sua opinião _verde_ é o genero, _secco_ a especie. Até hoje os
    adjectivos indicavam as qualidades do sujeito, e importavam sempre uma
    limitação porque excluiam as qualidades contrarias, e repugnavam ao
    absoluto; mas desde agora podem incorporar aquellas e representar este.
    Se qualificarmos de branco um corpo qualquer, isso não obstará a que
    seja ao mesmo tempo preto. _Branco_ ficará qualificando o genero;
    _preto_ ficará qualificando a especie. É pelo menos esta a theoria do
    illustre Ministro da Fazenda. A grammatica geral e o diccionario da
    lingua foram abrogados por elle naquella memorada sessão.

    Apesar, porém, da nova theoria, o Ministro não evitou a responsabilidade
    dos seus actos. Quando se publicaram as condições da arrematação do
    imposto que nos dous concelhos de Belem e dos Olivaes substituiu o real
    d'agua, essa theoria era desconhecida no mundo visivel. Podia existir na
    intelligencia do Ministro e na jurisprudencia occulta dos seus tribunaes
    e conselhos fiscaes, mas de certo não na dos licitantes d'aquella
    arrematação. O dever, portanto, do Ministro era expôl-a a tempo, e tanto
    mais que existindo ainda a dictadura seria legal, embora absurda, a
    interpretação dada por ella ao n.^o 2 do artigo 3.^o do respectivo
    decreto. Valia a pena fazel-o n'uma questão de tributos. Declarando-se
    aos licitantes que a expressão _carnes verdes_ significava igualmente
    _carnes seccas_, é evidente que o preço da arrematação subiria alguns
    contos de réis. Adoptal-a por uma portaria quinze ou vinte dias depois
    da adjudicação, e interpretal-a e confirmal-a perante o Parlamento
    passados seis mezes, foi defraudar o thesouro, em proveito particular,
    da somma differencial a que teria subido o preço da arrematação.

    Mas se tudo isto apenas merece a compaixão ou o riso dos Senhores
    Deputados, ha no acto ministerial de 12 de janeiro uma circumstancia que
    se tornava de notavel gravidade, desde que o Ministro vinha declarar
    n'uma das casas do Parlamento que a ambiguidade evidente na forma d'esse
    acto, não existia na indole e na intenção d'elle e que, praticando-o, o
    Ministro da Fazenda adoptára como verdadeiras e legitimas as indicações
    dos arrematantes. Dizia-se na portaria que os _moradores_ dos dous
    concelhos deviam pagar o imposto do vinho e de todas as carnes verdes e
    seccas existentes, ou que de futuro se consumissem. Esta doutrina
    alterava forçosamente o systema da fiscalisação. Pelo Codigo
    Administrativo os impostos sobre o consumo affectam só os generos
    vendidos a retalho dentro de qualquer circumscripção fiscal. O vinho ou
    as carnes que os moradores conduzem de fóra d'essa circumscripção, para
    seu proprio consumo e não para revenderem, são livres. D'aqui a _fórma_
    de se verificar a cobrança e fiscalisação do imposto. É a esta _fórma_
    de arrecadação a que evidentemente allude o decreto de 11 de setembro. O
    vendedor a retalho manifesta o genero perante a auctoridade quando o
    intruduz e paga o imposto: os agentes fiscaes fiscalisam pelos varejos,
    comparando os resultados d'estes com os manifestos. Considerando como
    sujeitos ao pagamento do imposto todos os moradores da circumscripção, e
    onerado sem excepção o genero tributado consumido dentro d'ella, (que é
    o que succede em Lisboa) a fórma da cobrança e fiscalisação varia
    necessariamente. Surgem então as barreiras, as linhas de circumvallação
    e, á falta d'estas, os registos, as guias, os homens armados que vigiam
    a orla do redil fiscal, que espancam e assassinam os contrabandistas, ou
    que são por elles espancados e assassinados. Volta-se ao systema das
    portagens do seculo XIII. A portaria de 12 de janeiro, confundindo o
    tributo portuguez de consumo pela venda a retalho com o tributo francez
    de _octroi_, de barreiras, ou de consumo absoluto, legitimava as guias,
    os registos, os guardas armados que existiam por excepção no concelho de
    Belem, ao passo que indeferia a súpplica dos arrematantes para os
    estabelecerem. A auctoridade local, despresando esse indeferimento e
    mantendo o vexame, era mais logica do que o Ministerio da Fazenda, e
    este mais logico deixando sem solução até hoje a representação dos
    moradores do concelho, do que indeferindo a pretensão dos arrematantes.

    De tudo quanto se passou na sessão de 13 de agosto da Camara dos Dignos
    Pares, a proposito da interpellação do Sr. Conde de Peniche, nada
    porventura é mais singular do que a audacia com que o Ministro
    exclamava: «_Hoje não ha a guia_ (nos dous concelhos): _transita-se por
    toda a parte sem o incómmodo d'esses exames geraes a que procediam os
    guardas das Sete-Casas: não ha registo, etc._» E no mesmo dia, e á mesma
    hora, talvez, em que elle orava no Parlamento, os guardas dos
    arrematantes estavam postados a espaços nas estradas do concelho de
    Belem, e os moradores que conduziam generos para seu consumo eram
    arrastados aos registos, onde se lhes exigiam os impostos, que pagavam
    ou deixavam de pagar conforme conheciam melhor ou peior o seu direito, e
    tinham mais ou menos valor para o sustentar. No dia, e talvez na hora,
    em que o Ministro falava, davam-se guias selladas e pagas n'esses
    registos, que não só existiam então, mas tambem existem hoje, embora com
    um caracter menos vexatorio, porque esta camara saberia defender os seus
    administrados se actualmente se dessem violencias, recorrendo, não ao
    Ministerio da Fazenda, mas sim ao chefe da policia para que mantivesse a
    segurança das vias publicas, e aos tribunaes para que punissem os
    culpados.

    A camara de Belem, depois da exposição de todos estes factos, tão
    incriveis como verdadeiros, transcreve um periodo da resposta dada pelo
    Ministro da Fazenda á interpellação do Digno Par Conde de Peniche. São
    as suas palavras textuaes:

    «Se o Governo substituisse os vexames dos arrematantes pelos da Fazenda
    teria feito talvez peior; porque os impostos arrematados são sempre
    cobrados com maior rigor fiscal; mas o Governo não tem admittido o
    registo pelos arrematantes; não está estabelecido o systema de guias
    como antes estava…»

    Confessa, portanto, o Ministro que em relação aos vexames, o systema que
    chama de Fazenda, e pelo qual esta camara suppõe que elle entende o das
    Sete-Casas ou de barreiras com registos, guias, etc., a situação dos
    novos concelhos, dada a hypothese da arrematação dos impostos, seria
    mais dura de soffrer do que antes, pela maior severidade da fiscalisação
    feita em proveito particular. Ora o systema que tem regido o Concelho de
    Belem é o dos registos e guias. Logo a situação dos habitantes d'este
    concelho tem sido, conforme a opinião dos Ministros, mais vexatoria do
    que sob o regimen das Sete-Casas.

    Fica, portanto, claro, á vista dos factos ponderados n'esta súpplica e
    na representação annexa dirigida ao Governo, que o concelho de Belem,
    espoliado dos bens que lhe deviam pertencer, sobrecarregado de onus
    tributarios, nominalmente menores, mas na realidade maiores do que os da
    epocha em que formava parte do de Lisboa, soffrendo em relação aos
    impostos geraes as consequencias da acquisição da sua individualidade
    municipal, continuando a experimentar por um abuso intoleravel da
    auctoridade os vexames das anteriores fórmas fiscaes, vilipendiado na
    sua magistratura municipal pelo desdenhoso silencio com que foi
    despresada a modesta e respeitosa representação dirigida ao Governo pela
    camara do mesmo concelho, não podia deixar de vir buscar protecção e
    justiça no seio do Parlamento. É o que em nome d'elle esta camara faz.
    Fal-o porque é o seu restricto dever; fal-o porque de outro modo
    trahiria a confiança dos que a elegeram. Pede a reforma dos decretos de
    11 de setembro; pede que as provisões d'esses decretos se affiram pelos
    principios eternos da moral e da justiça; que o concelho de Belem seja
    libertado de tributos excepcionaes e que tambem seja privado de
    quaesquer vantagens excepcionaes, cuja manutenção esteja a cargo da
    Fazenda Publica ou do municipio de Lisboa, uma vez que não se prefira
    haver uma compensação recebida do cofre d'esta camara; que se lhe retire
    consequentemente a subvenção deduzida das prestações dadas pelo Governo
    á camara de Lisboa; que se lhe restituam as propriedades, terrenos e
    edificios municipaes contidos no perimetro do concelho, e que fique este
    sujeito unicamente ao imposto do real d'agua como os outros concelhos do
    Reino, cobrado e fiscalisado do mesmo modo; pede em summa, em quanto
    esse admiravel invento dos economistas de D. João IV continuar a
    devastar o paiz, que aos habitantes d'este territorio seja applicado o
    direito commum, e concedido igual quinhão nos deveres e encargos que
    oneram os outros cidadãos, igualdade garantida a todos pela lei politica
    da monarchia.

    Esta camara, precisando de applicar ás despezas ordinarias do municipio
    uma somma excedente a dezeseis contos de réis, tem de rendimento actual,
    incluindo a subvenção do Governo estabelecida nas leis de setembro,
    menos de nove contos de réis. Onerados já com o imposto excepcional, a
    carne e o vinho, não poderiam ser tributados municipalmente senão n'uma
    proporção tenuissíma. No meio dos embaraços em que labora a agricultura
    do concelho, embaraços que se acham expostos na representação dirigida
    ao Governo, seria absolutamente impossivel sobrecarregar com imposições
    os cereaes, o principal, o quasi unico alimento das classes mais
    infelizes, e a unica producção importante d'este territorio. Os impostos
    indirectos sobre outras subsistencias dariam apenas sommas
    insignificantes. Resta a contribuição directa. Esta pelas nossas
    instituições administrativas não póde exceder a dez por cento da decima
    do concelho, e hoje da respectiva quota de repartição, a qual se eleva
    proximamente a 16 contos de réis, e cujo decimo, portanto, equivale
    apenas a 1:600$000 réis. Assim, ainda lançando todas as contribuições
    possiveis, directas e indirectas, esta camara difficilmente chegaria a
    igualar a sua receita com as suas inevitaveis despezas. Mas para obstar
    á decadencia da riqueza na circumscripção municipal de Belem, decadencia
    evidente a todos os olhos e que o proprio Governo reconheceu, além
    d'essas despezas ordinarias a municipalidade tem de recorrer á
    reconstrucção de estradas geraes e caminhos travessos, pela maior parte
    intransitaveis, para o que se precisam sommas avultadissimas,
    despendidas com a mais severa economia, porque a linha das estradas e
    caminhos de todo o municipio equivale á extensão de muitas leguas. Urge
    tambem a construcção de matadouros, porque a população inteira clama
    contra os abusos no fornecimento das carnes verdes, abusos que não só
    lhe affectam as bolsas, mas tambem a saude e a existencia, e para obstar
    aos quaes o unico meio é o estabelecimento de matadouros publicos, onde
    o genero se fiscalise, porque um dos resultados do imposto do real
    d'agua quer simples quer quintuplicado, como nos dous novos concelhos, é
    impossibilitar a concorrencia e converter o fornecimento das carnes
    verdes em monopolio dos arrematantes do imposto. Ás despezas porém, do
    meneio ordinario do regimen municipal, e ás extraordinarias que são
    inevitaveis para acudir á decadencia do concelho, e ás primeiras
    exigencias da hygiene publica, ajunta-se a necessidade de occorrer á
    creação do material indispensavel da administração de um concelho novo,
    constituido no termo de outro concelho, para o qual passou a maior parte
    do material empregado no serviço do territorio desannexado. Em
    similhante situação, a camara actual ignora a que meios hade recorrer
    para manter a administração do municipio, se continuar a pesar sobre
    elle o imposto excepcional.

    N'estes termos, a camara espera do Parlamento uma resolução favoravel
    sobre o presente assumpto.

    E.R.M.

    Ajuda 28 de abril de 1854. O presidente, Alexandre Herculano. Vogaes,
    João Ferreira Godinho–José Street d'Arriaga e Cunha–Joaquim Ferreira
    Pinto Basto–João José Teixeira Leal–Mathias Antonio Vieira.

    PROJECTO DE CAIXA DE SOCCORROS AGRICOLAS

    1855

    Senhor.

    A camara municipal de Belem, resolvida a occorrer a uma das maiores
    necessidades do concelho, a crear uma instituição do mais subido
    interesse e cuja utilidade já hoje ninguem se atreve a pôr em duvida,
    embora as opiniões variem sobre o modo de a realisar, offerece á
    approvação do Governo de Vossa Magestade, pedindo o uso da iniciativa do
    mesmo Governo perante o Parlamento a favor d'elle, o projecto de lei
    junto, relativo á fundação de uma Caixa de Soccorros Agricolas, especie
    de banco rural, accommodado ás necessidades d'este concelho, ao nosso
    estado economico e juridico, aos nossos usos agricolas, e até ás idéas e
    talvez ás preoccupações dos cultivadores, idéas e preoccupacões que, não
    havendo inconveniente, se devem respeitar, porque é esse o meio de fazer
    acceitar instituições novas, de cuja importancia só a experiencia de
    seus salutares effeitos póde persuadir os menos illustrados. Vossa
    Magestade permittirá que esta camara exponha, com a brevidade que taes
    materias comportam, os fundamentos que abonam a idéa geral do projecto e
    as suas varias disposições.

    Por toda a Europa se tem reconhecido a necessidade de salvar da usura a
    industria agricola, de facilitar a esta capitaes, cujo modico juro seja
    accommodado aos modestos lucros do cultivador. Em Portugal, onde tantas
    vezes e por tantas maneiras tem reinado uma agiotagem desenfreada, nem a
    industria fabril, nem o commercio, nem a fazenda publica teem padecido
    talvez por este lado metade dos males que a agricultura padece. Nas
    provincias do sul, sobretudo, os campos são devorados por uma praga de
    usurarios, que conservam o lavrador n'uma barbara servidão, e que
    defecando-lhe de continuo os recursos, não só lhe obstam a toda e
    qualquer tentativa de aperfeiçoamento rural, mas tambem o vão
    gradualmente conduzindo á miseria. Clama-se contra o atrazo dos
    cultivadores portuguezes, contra a imperfeição dos methodos, e esses
    clamores são em grande parte pouco assisados. Sem pretendermos que a
    nossa agricultura seja modelo, é certo que muitos dos defeitos que se
    lhe notam, não são senão necessidades resultantes do clima, do solo, do
    estado da viação, das condições dos mercados, do modo de ser da
    propriedade, e de mil outras circumstancias economicas e juridicas, que
    os agronomos especulativos desconhecem, ou que não apreciam. Se
    attendermos á elevação quasi constante dos salarios ruraes desde 1834
    para cá, á depreciação progressiva dos generos, e sobretudo á carestia
    sempre crescente dos capitaes, o accrescimo constante da massa dos
    nossos productos agricolas, abona a crença de que o systema de
    agricultar não é tão imperfeito como folgam de pintal-o os admiradores
    exclusivos das prácticas estrangeiras. Os grandes embaraços para o mais
    rapido desenvolvimento da agricultura consistem sobretudo na falta de
    capitaes, nas leis que por differentes modos se oppõem á divisão da
    terra e á translação do dominio, á falta de vias de transito e de
    policia rural, a circumstancias, em summa, que nada teem que vêr com
    esta ou com aquella fórma de instrumentos agricolas, com este ou com
    aquelle systema de afolhamentos, com a introducção d'esta ou d'aquella
    cultura nova, ou que, se teem alguma influencia n'essas cousas, é em dar
    razão ás vezes ao agricultor para não as adoptar, embora sejam boas
    absolutamente consideradas.

    A camara de Belem, tractando de remover o maior dos obstaculos ao
    desenvolvimento da agricultura n'este concelho, a carestia dos capitaes,
    deve fazer sentir a maneira como a usura procede na obra infernal de
    arruinar os cultivadores. O quadro que ella vae traçar é triste, mas
    verdadeiro, e oxalá não representasse ao mesmo tempo o que se passa na
    maioria dos outros concelhos, ao menos no sul do reino.

    Em geral a usura exercida sobre a agricultura é de duas especies. A 1.^a
    tem os caracteres genericos d'esta immoralidade: o mutuante, segundo a
    necessidade do agricultor, empresta sobre as hypothecas ordinarias com
    os juros mais exorbitantes que póde, suppostas taes ou taes
    circurmstancias no mutuario: é um agiota insolente, vulgar, ávido como
    qualquer outro. A 2.^a especie tem caracteres á parte: é a usura
    hypocrita, muito mais commum no campo do que a primeira. O usurario
    d'esta especie segue diverso rumo. É homem chão, modesto, exacto no
    cumprimento dos seus deveres civis, laborioso, valedor: é quasi um bom
    homem. Ignora as partidas dobradas e repugnam-lhe por via de regra, não
    só os juros exorbitantes mas até o juro legal. Quando empresta o seu
    dinheiro ao agricultor é por dó d'elle; é para lhe acudir n'um apuro. O
    que quer é assegurar o reembolso da somma mutuada. Tendo horror ás
    demandas, se o lavrador é proprietario não lhe acceita o predio como
    hypotheca, porque conhece a imperfeição das nossas leis hypothecarias:
    se o não é, nem por isso quer abandonal-o. N'esta situação que faz?
    Empresta sem juro; mas exige um contracto que lhe dê a certeza do
    reembolso. O cultivador ha de pagar-lhe em genero na eira. E como ha de
    ser o pagamento? Os cereaes regular-se-hão pelo preço mais inferior do
    genero n'essa conjunctura. É uma precaução. Para os riscos das baixas
    possiveis que depois sobrevenham de uma venda anterior, de uma divida
    desconhecida, de uma colheita insignificante, etc., o mutuario promette
    o abatimento de um, de dous, de tres vintens ou mais em alqueire. É
    outra precaução. O usurario é compassivo, é benevolo para com a sua
    victima, mas precisa de ser prudente. O contracto fica secreto ou como
    secreto; não se escreve porque o mutuante conta com a probidade do
    mutuario, ou para melhor dizer, com o temor que este terá de achar em
    novos apuros condições mais onerosas, e esses apuros são quasi
    inevitaveis desde que o cultivador caíu uma vez nas suas mãos. Taes são
    as fórmas mais communs da agiotagem rural n'este e n'outros concelhos.
    As circumstancias especiaes modificam-nas, mas em geral as transacções
    d'este genero caracterisam-se assim.

    O segredo que se guarda ácerca d'estas transacções obscuras e hediondas,
    a que se póde chamar a crapula da agiotagem, predomina tambem
    forçosamente no facto geral que resume esses mil factos de usura. A
    cargo da irregularidade das estações e dos mercados, da falta de vias de
    transito, do peso dos impostos, etc., ficam todos os males do lavrador.
    Murmura-se vagamente e em voz baixa; mas nas queixas publicas o usurario
    passa illéso. Como buscando o verme que destroe a arvore antiga, é
    preciso que o ouvido do observador seja bem agudo e o silencio á roda
    d'elle bem profundo, para sentir a usura roendo no amago da industria
    agricola. Se o Governo ou o Parlamento instituissem um inquerito solemne
    a este respeito, o mais provavel é que fosse nullo o seu resultado. O
    agricultor calar-se-hia porque não crê na auctoridade; não espera d'ella
    remedio. Martyr, olharia para o algoz e vêr-lhe-hia nas mãos os
    instrumentos dos tractos, ao passo que no poder publico só creria
    descortinar a indifferença, a fraqueza, a impotencia. Curvar-se-hia por
    isso e respeitaria o mais forte. Evitaria assim que no seguinte anno a
    sua imprudencia fosse castigada com mais uma volta na corda do potro;
    com mais um ou dous vintens de abatimento no preço por que devera vender
    cada alqueire de trigo.

    Para se avaliar bem toda a extensão do mal, é necessario, Senhor,
    attender a alguns factos. Ordinariamente o lavrador executa com um
    capital seu os primeiros trabalhos annuaes. Na prosecução d'esses
    trabalhos é que é vulgar virem a faltar-lhe os recursos, e é então que
    elle compromette o futuro. As mondas, as sachas, as cavas, as ceifas, as
    vindimas, acham-no muitas vezes desprovido. Ora entre estes ultimos
    trabalhos e o recolhimento dos fructos medeiam apenas de cinco a dous
    mezes e ainda prazos mais curtos. Por outro lado, como é vulgarmente
    sabido, a epocha em que os productos da agricultura teem menor valor é
    na occasião da colheita. Ajunte-se a isto a reducção de um tanto no
    preço de cada alqueire de cereaes ou de cada almude de vinho, e
    imagine-se qual será a exorbitancia do lucro do mutuante. Supponhamos (e
    esta supposição não vae por certo longe do que commummente succede) que
    o preço medio annual dos trigos temporãos, principal producção d'este
    concelho, corresponde a 500 reis, e que na epocha das eiras o cereal
    vale a 460 reis. Fazendo o abatimento de 20 reis em alqueire, o lavrador
    paga com cada um d'estes apenas 440 reis de uma divida que, suppondo-se
    contrahida por uma media de tres mezes, vem a soffrer um juro de 12 por
    cento em trimestre, ou 48 por cento ao anno.

    Esta camara, Senhor, não foi buscar exemplos aos casos mais
    escandalosos, que annualmente occorrem. Quando o credito do lavrador
    está abalado, muitas vezes por causa das mesmas usuras de que foi
    victima, quando a sua reputação de probidade não é inconcussa, quando os
    seus habitos de economia são pouco severos, quando as incertezas das
    estações o empobreceram, as usuras redobram de violencia. Mas, ou
    maiores ou menores, as difficuldades da sua situação augmentam de anno
    para anno, e o resultado mais ou menos remoto d'essa situação é a ruina
    e a miseria. O cancro da usura devorou-lhe interiormente a vida
    economica lento, lento e sem ruido; e esta lentidão e este silencio são
    uma das caracteristicas da agiotagem rural que a tornam mais difficil de
    extirpar. O que enleva, o que arrasta sobretudo o lavrador, é o mysterio
    d'essas transacções leoninas que não se escrevem, que não se vão contar
    na praça, porque o usurario é discreto e sabe tirar partido d'essa
    preoccupação dos agricultores.

    Foi attendendo a estes factos e ás circumstancias d'elles, que se
    concebeu o projecto de uma instituição que, supprindo com vantagem os
    bancos ruraes como existem nos outros paizes e que parecem, ao menos por
    emquanto, inapplicaveis ao nosso, trouxesse um alivio seguro á
    agricultura d'este concelho, mais compromettida e ameaçada de ruina do
    que se cuida. O pensamento do projecto foi aproveitar a experiencia,
    digamos assim, da industria da usura para a combater, organisando a
    Caixa de Soccorros de modo que á facilidade das transacções se ajuntasse
    a modicidade do juro, e o respeito por certos habitos e preoccupações
    que o progresso da illustração ha de destruir, mas que desattendidos
    emquanto são vigorosos, impedem sempre a realisação das melhores cousas.

    Affirmou, Senhor, esta camara que a Caixa de Soccorros, instituição
    simples e exequivel, substituirá com vantagem os bancos ruraes, que esta
    camara reputa inapplicaveis ao paiz. Efectivamente varias objecções
    gravissimas se pódem oppôr á tentativa de crear entre nós o chamado
    credito rural por via de bancos. Que são os bancos territoriaes ou
    hypothecarios? Uma instituição de garantia, intermedia entre o mutuante
    e o mutuario, ou mais exactamente entre o capital e a propriedade, e que
    attrahe aquelle pela segurança, esta pela barateza do dinheiro que a
    segurança do emprestimo produz. Na expressão da indole de taes bancos se
    manifesta desde logo o imperfeito da instituição, ainda absolutamente
    considerada. Não é só, diremos mais, não é tanto a propriedade rural
    como a industria rural que precisa de ser por toda a parte soccorrida
    por capitaes baratos. A terra é um capital como o dinheiro, porque não
    passa de um instrumento de producção: o productor é o que a cultiva. É
    para este, para quem representa o trabalho que sobretudo taes bancos
    deveram ser instituidos. Proprietario ou rendeiro, que importa a qual
    das duas cathegorias pertence o cultivador, o industrial agricola? Um
    carecerá só de ser mutuario do capital dinheiro; outro carecerá do
    capital dinheiro e do capital terra. Qual d'elles precisa de maior
    protecção? Evidentemente o segundo. Os bancos ruraes não satisfazem a
    esta necessidade. Aproveitam aos primeiros, porém não aos segundos, ao
    menos directamente. E todavia, não dizemos em Portugal, mas em quasi
    todos os paizes, o maximo numero dos cultivadores são os rendeiros. Na
    Polonia, na Allemanha, na Russia, na Dinamarca, na Belgica, as
    instituições de credito agricola não vão além da propriedade
    territorial. Nem outra cousa podia ser porque ellas suppõem geralmente a
    existencia do fundo, os bens de raiz, como hypotheca para o reembolso.
    D'esse facto deriva outra objecção grave contra os bancos ruraes. Os
    paizes do norte, onde a instituição nasceu, teem luctado com os mil
    tropeços, que traz á sua consolidação o regimen hypothecario, e a França
    debate-se para a crear com as difficuldades d'esse mesmo regimen, mais
    imperfeito ainda que n'aquelles paizes. Entre nós o systema de
    hypothecas póde considerar-se na infancia, e elle seria um obstaculo
    insuperavel ao estabelecimento dos bancos de credito territorial.

    Dir-se-ha que as nossas leis hypothecarias serão reformadas como acto
    preliminar á creação dos bancos? As nações mais adiantadas teem
    consumido annos e annos em estudos e tentativas para reformar essas
    leis, que prendem directa ou indirectamente com todo o direito civil, e
    ainda não o teem completamente alcançado. É permittido por isso duvidar
    de que tal facto se verifique entre nós, que ainda não temos um Codigo
    Civil e onde a legislação é um chaos. Faz, na verdade, sorrir a
    facilidade com que se imagina prover em Portugal, ao complemento e
    organisação d'esse esboço que ahi temos de um systema hypothecario.

    As instituições destinadas a servirem de intermedio entre os
    capitalistas e os proprietarios, ou dependem de associações poderosas e
    respeitaveis, ou da garantia publica. Mas quer sejam de um, quer de
    outro genero, é necessario que o seu credito se repute inabalavel. Sem
    isso debalde se buscaria obter capitaes baratos para agricultura. Mas
    quaes serão as associações poderosas e respeitaveis que possam ou
    queiram organisar entre nós os bancos territoriaes? Por outra parte a
    historia da fazenda publica e dos grandes estabelecimentos de credito
    n'este paiz, não abonaria demasiado a confiança dos mutuantes na
    garantia publica. Todos os diversos bancos ruraes actualmente existentes
    na Europa presuppõem a emissão de notas, de letras, de inscripções, de
    titulos de credito, em summa, para funccionarem. Mas quem prudentemente
    poderia esperar hoje em Portugal a acceitação de taes titulos? Mr.
    Thiers dizia em 1848 perante a assembléa nacional, n'um paiz onde o
    credito publico mal se poderia comparar com o nosso: «Basta que um papel
    se introduza n'um paiz como nota de banco para se me tornar suspeito».
    Nós os portuguezes não suspeitamos: descremos. E esta descrença matará
    todas as tentativas; porque o credito nem se improvisa, nem se decreta.

    Ás precedentes objecções vem associar-se outra, talvez não menos
    peremptoria. Os capitaes em Portugal teem um valor subido. São communs
    os emprestimos, feitos com toda a segurança compativel com o desordenado
    e incompleto das nossas leis civis, a 7, a 8 e a mais por cento. Ainda
    suppondo possivel a existencia de bancos ruraes que offerecessem solidas
    garantias, e que a situação actual da agricultura portugueza admittisse
    a exigencia de um juro de 5 ou 6 por cento, como attrahir os capitaes
    para os bancos? Como resolver o capitalista a contentar-se com um juro
    de 4 ou 5 por cento, visto ser necessario reservar pelo menos 1 por
    cento para as despezas da gerencia dos bancos, quando elle póde obter
    para o seu dinheiro um preço mais subido?

    Restaria só um meio, a emissão de notas que não representassem valores
    positivos; restariam as chimeras da mobilisação do solo e da
    multiplicação dos capitaes, ou por outra a moeda papel, que os utopistas
    crêem ter descoberto porque inventaram algumas phrases ou palavras
    novas, para exprimir erros velhos. Esta camara julga inutil combater
    similhantes preoccupações, porque o Governo de Vossa Magestade e o
    Parlamento estão acima de taes desvios. Se fosse possivel não o estarem,
    a opinião publica faria prompta e inexoravel justiça a esses papeis de
    credito, desacreditados ainda antes de emittidos.

    Esta camara, Senhor, não pretende com o que leva dito negar os
    beneficios produzidos pelos bancos ruraes nos diversos paizes da Europa,
    nem que o progresso das luzes economicas os venha a tornar mais amplos
    nos seus effeitos, nem finalmente que possa chegar um dia em que a sua
    fundação seja não só possivel, mas tambem conveniente ao nosso paiz.
    Quiz só mostar a convicção profunda que tem de que, por agora, para
    fazer alguma cousa verdadeiramente util á agricultura, considerada nas
    suas relações com o capital, cumpre tomar por base outro pensamento, e
    desenvolvel-o em harmonia com o nosso estado economico e civil, e além
    d'isso com as idéas, habitos e até preoccupações innocentes dos
    agricultores.

    Na creação da Caixa de Soccorros, que submette á approvação, e para que
    pede a iniciativa do Governo, esta camara tomou para ponto de partida o
    tributo municipal, em vez da esperança de obter capitaes alheios para
    gerir. A razão é simples: não os obteria senão por um preço que o estado
    da agricultura do concelho não comporta. Considerações mais largas a
    este proposito talvez aqui tivessem cabida, mas ella contenta-se com o
    que já ponderou, e que no caso especial é decisivo. Conhecendo pelos
    exames a que procedeu sobre a materia, que o grande mal consiste nas
    usuras a que o lavrador tem de sujeitar-se para obter os meios de
    executar os amanhos annuaes, foi sobretudo este mal que procurou
    combater. Se a usura espreita as necessidades instantes, que
    regularmente vêm assaltar o cultivador no grangeio annual, é ahi que
    deve ser repellida. A Caixa de Soccorros emprestará annualmente e só
    annualmente. D'este principio resultam a possibilidade e a proficuidade
    da instituição. Resulta: 1.^o que sendo a hypotheca do emprestimo os
    fructos em vez do predio, as questões hypothecarias desapparecem com um
    pequeno favor da lei, e sem offensa grave do direito de terceiro: 2.^o
    que limitando-se a quantia mutuada ao equivalente da renda liquida do
    cultivador, reduzida ainda a tres quartos para obviar aos inconvenientes
    das alterações inevitaveis n'essa renda, a Caixa, obrigada a
    subministrar apenas sommas comparativamente modicas, poderá multiplicar
    os emprestimos e, recolhido integralmente o capital todos os annos,
    salvo nos de escacez completa, estará sempre habilitada com recursos
    para renovar opportunamente o beneficio: 3.^o que limitando-se a
    emprestimos annuaes a mesma Caixa, evitará um dos grandes escolhos dos
    bancos hypothecarios, a absorpcão de capitaes avultados por um periodo
    indeterminado ou demasiado longo; isto é, evitará a causa mais ordinaria
    da ruina dos bancos hypothecarios: 4.^o que por esta mesma razão deixará
    de cair na justificada censura, que mais de uma vez se tem feito aos
    bancos territoriaes, de favorecerem a paixão excessiva pela propriedade,
    paixão vulgar no homem do campo, e a que se póde chamar _o vicio da
    terra_. Este vicio produz, mais frequentemente do que se cuida, a ruina
    do cultivador. Ha uma observação feita já por toda a Europa, e que é
    facil de fazer em Portugal. O lavrador que póde obter um capital por
    tempo indeterminado ou assás longo, não procura em regra dar maior
    intensidade ou aperfeiçoamento, á cultura do predio que cultiva: tracta
    de dilatar o grangeio. Ás difficuldades com que luctava accrescenta
    maiores, endivida-se cada vez mais; cada vez faz maiores sacrificios até
    que completamente se arruina. É esta a historia de muitos. O
    proprietario rural não deve estender a sua propriedade senão com
    economias realisadas: o rendeiro não deve converter-se em proprietario
    senão pelos mesmos meios. Tudo o mais é imprudente e arriscado, e tanto
    mais arriscado quanto é certo que o _vicio da terra_ cria facilmente na
    imaginação do cultivador esperanças de lucros, que se não verificam. Os
    bancos ruraes teem no meio de muitas vantagens este inconveniente. A
    amortisação pelas annuidades, systema facil para o mutuario remir a
    divida insensivelmente, não remedeia o mal senão causando outro. A
    annuidade não significa para o cultivador senão um augmento de juro, que
    excedendo as forças productivas da terra, o arruina tambem. No fim de um
    certo numero de annos não deverá o capital extincto pelas annuidades,
    mas deverá outro que tomará emprestado, quando a somma da annuidade com
    o juro annual exceder o producto liquido da sua industria.

    Nas disposições organicas da Caixa de Soccorros Agricolas, esta camara
    inseriu algumas provisões tendentes a remover uma apprehensão grave.
    Esta apprehensão, a que já anteriormente se alludiu, funda-se n'um facto
    de ordem moral: o cultivador portuguez envergonha-se de tomar dinheiro a
    juro: entende que ha o que quer que seja menos regular n'esse acto tão
    innocente como legitimo. Prefere tudo á publicidade do que elle chama a
    sua miseria, e que ás vezes o é. Não raro o usurario explora este
    sentimento de orgulho, porventura nobre na sua origem. Custa menos ao
    agricultor pedir áquelle a quem já pediu uma vez, e que não assoalha o
    facto, porque o defeito da usura não é ser vangloriosa. O usurario
    contenta-se com reter em servidão perpétua o cultivador que uma vez lhe
    caiu nas mãos. Aos olhos de muitos essa circumstancia pareceria de bem
    pouco momento: a esta camara pareceu que, practicamente, era uma das
    maiores difficuldades a vencer, e por isso insiste n'ella. Um facto,
    hoje esquecido, prova a sua importancia. Em 1845 o Governo decretando um
    emprestimo aos lavradores do Ribatejo, convidou a Companhia das Lezirias
    a fazel-o. Acceitou a Companhia o encargo com condições que presuppunham
    a publicidade como garantia. Pedia-se um juro modico em relação ás
    usuras de que ordinariamente é victima áquelle districto agricola.
    Nenhum mutuario todavia appareceu. Era o emprestimo um acto publico, e
    até certo ponto ruidoso, no qual cumpria que cada um se confessasse
    necessitado. Preferiram a usura, e uma circumstancia apparentemente
    insignificante bastou para inutilisar as intenções bemfazejas do Governo
    e da Companhia. Importava, portanto obstar a que igual successo se
    renovasse no caso presente. Imaginou-se o meio de conciliar a segurança
    da Caixa com as prevenções dos cultivadores, e esta camara crê têl-o
    achado nas disposições dos artigos 5.^o, 11.^o e 12.^o O registo dos
    emprestimos, se não dá a certeza de um segredo absoluto, offerece pelo
    menos tantas garantias de pouca publicidade como a discrição dos
    usurarios. Para o mutuario honesto ha a segurança de que, paga a divida,
    não ficarão d'ella vestigios escriptos, e de que emquanto subsistiu, o
    conhecimento da sua existencia não passou de poucos individuos. Na
    occasião da venda dos productos agricolas, raras vezes terá de se
    verificar o disposto no artigo 14.^o Ninguem duvida em geral de entregar
    ao lavrador uma parte do preço do genero vendido antes de completar a
    tróca.

    Com os simples meios de operar as transacções tanto dos emprestimos como
    da restituição adoptadas por esta camara, o cultivador evita esses
    tramites complicados a que ficaria sujeito n'outra qualquer instituição
    de credito. Os cultivadores, em troco do direito que adquirem a obter um
    capital barato quando lhes convier, não tomam senão o encargo de mandar
    buscar á Caixa de Soccorros uma certidão de corrente, se d'ella
    precisarem antes do dia 30 de agosto, para sem obstaculo negociarem os
    seus generos, e os compradores de productos agricolas nunca poderão
    allegar ignorancia, visto ser prohibido aos cultivadores do concelho
    operarem qualquer transacção sobre fructos, sem mostrarem o estado das
    suas relações com a Caixa.

    A vantagem dos cultivadores, sobretudo dos de cereaes, que são a
    grandissima maioria dos do concelho, não é só a de obterem capitaes a
    1/4 por cento ao mez, ou a 3 por cento ao anno, em logar dos juros
    exorbitantes de 30, 40 ou 50 por cento; é tambem a de poderem vender em
    conjunctura mais propicia do que a da colheita, visto que a restituição
    só tem de estar verificada no fim de janeiro: e se, por causa da
    facilidade de se harmonisarem os emprestimos com os reembolsos, os
    primeiros ficam circumscriptos ao periodo de fevereiro a julho, é esta a
    epocha em que realmente o cultivador precisa d'elles, porque é sabido
    que todo aquelle que não póde executar os primeiros trabalhos do anno
    agricola com os proprios recursos, não está habilitado para ser
    agricultor. Quando porém tal situação se désse, teria o lavrador a
    liberdade de vender na eira, restituindo o emprestimo á Caixa, fazendo
    os primeiros trabalhos com o resto, e vindo buscar em fevereiro novo
    emprestimo.

    Explicado o pensamento da camara no essencial, seria offender a
    intelligencia do Governo e do Parlamento, dar tambem a razão de cada uma
    das provisões do projecto. Em geral, ha n'elle a manifestação de
    desconfiança da boa vontade com que será mantida de futuro a nova
    instituição. Esta desconfiança existe de feito no espirito da actual
    camara. A fundação da Caixa de Soccorros Agricolas fere interesses
    poderosos. Esses interesses cuja legitimidade é mais que disputavel,
    hão-de combatêl-a antes e depois de creada, e o combate será tanto mais
    perigoso, quanto é certo que a usura tem de caminhar nas trevas, usando
    de meios indirectos. Eram necessarias prevenções contra o perigo, e a
    camara crê têl-as tomado. Quando, o que não é de esperar, viesse uma
    vereação hostil á existencia da instituição, as provisões do projecto
    são taes, que os vereadores comprometteriam seriamente a propria
    fortuna, faltando n'esta parte ao seu dever. Além d'isso, o
    administrador da Caixa, cuja subsistencia dependerá da permanencia da
    instituição, defendido de uma demissão injusta da parte da camara pelas
    disposições da lei, será um obstaculo permanente aos abusos que poderiam
    trazer a ruina da mesma Caixa.

    Resta ainda, Senhor, a esta camara dar algumas explicações sobre o meio
    adoptado para a formação do fundo, e sobre a quantia que se fixou para o
    constituir.

    Das considerações até aqui feitas deriva a creação do fundo por meio de
    um imposto. O capital assim accumulado, sendo propriedade do concelho,
    pôde mutuar-se por um juro insignificante sem detrimento de ninguem.
    Levantando-se um capital por emprestimo e applicando-se o imposto á
    amortisação d'elle, as operações da Caixa poderiam na verdade satisfazer
    desde logo a toda a procura de pequenos capitaes; mas é evidente que o
    imposto oneraria o concelho por mais annos, e o juro exigido dos
    mutuarios não poderia ser inferior a seis ou sete por cento, para
    occorrer ao pagamento do juro de 5 por cento (suppondo que se obtivesse
    dinheiro por preço tal) e ás despezas do estabelecimento. A camara,
    porém, está convencida de que a cultura do concelho, sobretudo a de
    cereaes, não soffre similhante juro. Além d'isso, sendo esta uma
    instituição nova no paiz, tendo contra si as repugnancias e hesitações
    que sempre se dão em taes casos, a fóra a guerra que lhe hão-de fazer os
    interessados em manter o estado actual das cousas, a procura de pequenos
    capitaes deve ser tenue a principio e crescer gradativamente á medida
    que o fundo augmentar.

    A base adoptada para determinar o algarismo do fundo foi a estatistica
    dos predios rusticos do concelho, a que a camara mandou proceder com a
    exacção possivel, supposta a sabida carencia de recursos que ha para
    obter a exacção em taes materias. Existem no concelho 812 predios
    rusticos, que se distribuem do modo seguinte, por uma escala gradativa
    da sua renda liquida:

    +———-+——–+———+———+———-+———-+———-+
    | |De 1$000|De 10$000|De 50$000|De 100$000|De 200$000|De 300$000|
    |FREGUEZIAS|a 10$000|a 50$000 |a 100$000|a 200$000 |a 300$000 |a 600$000 |
    | |reis |reis |reis |reis |reis |reis |
    |———-+——–+———+———+———-+———-+———-|
    |Belem | 3 | 10 | 7 | 2 | — | 2 |
    | | | | | | | |
    |Ajuda | 16 | 37 | 14 | 11 | 5 | 3 |
    | | | | | | | |
    |S. Pedro | | | | | | |
    |d' | | | | | | |
    |Alcantara | — | 2 | 11 | 10 | 3 | — |
    | | | | | | | |
    |Bemfica | 30 | 193 | 74 | 48 | 14 | 5 |
    | | | | | | | |
    |S. | | | | | | |
    |Sebastião | | | | | | |
    |da | | | | | | |
    |Pedreira | — | 20 | 20 | 24 | 4 | 3 |
    | | | | | | | |
    |Carnide | — | 49 | 8 | 10 | 2 | 2 |
    | | | | | | | |
    |Odivellas | 18 | 107 | 28 | 13 | 3 | 1 |
    | |——–+———+———+———-+———-+———-|
    |7 | | | | | | |
    |Freguezias| 67 | 418 | 162 | 118 | 31 | 16 |
    +———-+——–+———+———+———-+———-+———-+

    Tomadas as medias da escala gradativa, e multiplicando cada media pelo
    numero de predios de cada-gráu, achamos a media da renda liquida total
    ser de 57:175$000 reis.

    Mas aconselhando a prudencia que se limitem os emprestimos a trez
    quartos da renda liquida de cada mutuario, seguir-se-hia que o fundo da
    Caixa deveria ser proximamente de 42 contos de reis. Entretanto, do
    seguinte mappa, em que os predios rusticos do concelho são classificados
    segundo a natureza das respectivas culturas, deriva a consequencia de
    que uma somma menos elevada satisfará plenamente aos fins da
    instituição. Eis o mappa:

    +————+——-+——+——+——+——+——+——-+——-+
    | FREGUEZIAS |Quintas|Casaes|Terras|Hortas|Vinhas|Cercas|Olivaes|Pinhaes|
    |————+——-+——+——+——+——+——+——-+——-+
    |Belem | 4 | 2 | 14 | 4 | — | 1 | — | — |
    | | | | | | | | | |
    |Ajuda | 19 | 19 | 67 | — | — | 1 | — | — |
    | | | | | | | | | |
    |S. Pedro | | | | | | | | |
    |d'Alcantara | 13 | 6 | — | 2 | 1 | — | 1 | — |
    | | | | | | | | | |
    |Bemfica | 89 | 61 | 219 | — | 25 | — | 3 | — |
    | | | | | | | | | |
    |Carnide | 19 | 1 | 21 | 11 | 27 | 2 | 2 | — |
    | | | | | | | | | |
    |Odivellas | 22 | 34 | 123 | 16 | 9 | 1 | 3 | 2 |
    | | | | | | | | | |
    |S. Sebastião| | | | | | | | |
    |da Pedreira | 33 | 7 | 21 | 2 | 7 | — | 3 | — |
    | |——-+——+——+——+——+——+——-+——-|
    | | 199 | 130 | 465 | 35 | 69 | 5 | 12 | 2 |
    +————+——-+——+——+——+——+——+——-+——-+

    As quintas e as hortas no precedente mappa constituem mais da quarta
    parte dos predios rusticos do concelho. As primeiras pertencentes no
    maximo numero a proprietarios abastados da capital, e cultivadas por
    seus donos, sendo além d'isso muitas d'ellas antes objecto de luxo que
    de industria, não carecerão provavelmente nunca de soccorros da Caixa
    para o seu cultivo. As segundas pela indole de uma cultura, que não
    soffre a accumulação de fructos que possam servir de garantia ao
    emprestimo, estão forçadamente excluidas do beneficio da Caixa. Muitos
    dos predios, porém, incluidos n'estas duas categorias, figuram entre os
    de maior renda na lista das propriedades rusticas do concelho. Seria,
    portanto, necessario que todos os cultivadores, para cuja utilidade, ou
    antes para cuja redempção do captiveiro da usura esta instituição é
    destinada, carecessem de emprestimos integralmente equivalentes a trez
    quartos da respectiva renda liquida, para ser absorvido o fundo creado
    de 35:000$000 reis.

    O imposto destinado para este objecto, posto não seja senão a
    transformação de outro mais antigo e pesado, que hoje não poderia
    subsistir, tem encontrado as difficuldades que se costumam encontrar na
    fiscalisação e cobrança de um imposto novo. Para o realisar era
    necessario que a moderação acompanhasse a firmeza. Esta camara adoptou o
    methodo das avenças, methodo popular que facilita as operações da
    cobrança, tanto para os exactores como para os contribuintes, e que sob
    certo aspecto equivale ao systema do imposto directo e simples, e está
    demonstrando a excellencia d'elle, excellencia que infelizmente o povo
    ainda não comprehende. As avenças feitas não representam por agora a
    verba do que o imposto deve produzir; mas hão de approximar-se d'ella á
    medida que fôr possivel ir tornando a fiscalisação mais severa. Se a
    camara se não illude nas suas previsões, o fundo da Caixa estará
    preenchido dentro de sete ou oito annos, podendo e devendo cessar o
    imposto desde que estiverem preenchidos os fins d'elle.

    Reservando a quarta parte do tributo especial para as despezas geraes do
    municipio, a camara attendeu a que sem esta reserva recaíria sobre os
    outros ramos do serviço municipal a cobrança e fiscalisação d'elle, bem
    como a despeza com a gerencia da Caixa, emquanto os seus rendimentos não
    chegarem para isso, e finalmente considerou essa reserva como uma
    indemnisação pelo encargo estabelecido no ultimo periodo do artigo 23.^o.

    A camara de Belem espera que esta sua tentativa, para acudir á mais
    urgente necessidade de um concelho, em grande parte rural, merecerá a
    benevola attenção de Vossa Magestade, e que o projecto junto, corrigido
    pela sabedoria do Governo de Vossa Magestade, será submettido á
    approvação do Parlamento, que não a recusará por certo a uma
    instituição, cuja utilidade é inquestionavel.

    Deus Guarde a preciosa vida de Vossa Magestade, como todos havemos
    mister.–Camara, em Vereação, 27 de março de 1855.

    O Presidente–_Alexandre Herculano_.

    _Joaquim Ferreira Pinto Bastos_.

    _João José Teixeira Leal_.

    _Matheus Antonio Vieira_.

    _José Street d'Arriaga e Cunha_.

    CAIXA MUNICIPAL DE SOCCORROS AGRICOLAS

    Artigo 1.^o É instituido no concelho de Belem um fundo permanente com a
    denominação de Caixa Municipal de Soccorros Agricolas. O seu destino é
    subministrar capitaes baratos aos cultivadores para os amanhos ruraes.

    Artigo 2.^o O fundo d'esta Caixa formar-se-ha com tres quartos do
    producto do actual imposto de 20 reis em cada alqueire de farinha
    fabricada, até completar a somma de 35:000$000 reis.

    § unico. A camara poderá substituir o dito imposto por outro qualquer,
    uma vez que o seu producto seja pelo menos equivalente ao dos mesmos
    tres quartos do actual. Se a camara, porém, distrahir estes do fim a que
    são destinados, ou supprimir o imposto sem o substituir, antes de se
    completar o fundo, embora com approvação do Conselho de Districto, os
    vereadores ficarão responsaveis por seus bens ao complemento d'elle.

    Artigo 3.^o A administração superior da Caixa incumbe a uma direcção
    composta do presidente da camara, que será o presidente da direcção, do
    fiscal, e de um vogal eleito pelos cinco membros restantes da camara
    d'entre si.

    Artigo 4.^o A Caixa emprestará aos cultivadores do concelho, por prazos
    que nunca excederão a um anno, e a juro de 1/4 por cento ao mez, o
    capital necessario para o movimento da cultura annual dos respectivos
    predios, pela totalidade da somma existente em Caixa até ao complemento
    do fundo creado, e d'ahi ávante pelo total do mesmo fundo, o qual por
    nenhum pretexto poderá ter outra applicação, que não seja a de
    emprestimos annuaes aos cultivadores.

    Artigo 5.^o Haverá um registo, numerado e rubricado em todas as folhas
    pelos membros da direcção, de todos os cultivadores do concelho.

    Artigo 6.^o Os ditos cultivadores serão designados em duas categorias:
    1.^a lavradores; 2.^a fazendeiros.

    § 1.^o Entende-se por lavrador o cultivador de cereaes, e por fazendeiro
    o vinhateiro, o pomareiro e o que cumulativamente cultiva vinhas e
    pomares.

    § 2.^o Quando o grangeio do cultivador abranger ambas as categorias, o
    mesmo cultivador será classificado conforme a importancia relativa
    d'esse grangeio em cada uma d'ellas.

    Artigo 7.^o Abrir-se-ha um titulo a cada um dos cultivadores do
    concelho, contendo o seu nome, a natureza e condições da cultura, que
    determinaram a sua categoria, e bem assim a verba do producto liquido
    ordinario da mesma cultura, á vista da ultima quota do tributo geral
    directo, em que o cultivador tiver sido tributado. A administração,
    porém, da Caixa recorrerá ás informações que julgar opportunas para
    verificar a exacção da verba, que todavia nunca poderá ser superior á
    que corresponde a quota do tributo directo.

    Artigo 8.^o A somma mutuada por cada cultivador, nunca poderá exceder a
    tres quartos da sua renda liquida averbada no registo.

    Artigo 9.^o Serão hypotheca especial do emprestimo os fructos do anno
    corrente, produzidos no predio ou predios cultivados pelo mutuario, e na
    falta d'estes os dos annos immediatos até o reembolso da divida.

    Artigo 10.^o Os emprestimos far-se-hão durante o decurso dos mezes de
    fevereiro a julho de cada anno, por uma vez na importancia de tres
    quartos da renda liquida do mutuario, ou por duas vezes em duas
    parcellas iguaes, que completem os ditos tres quartos, ou apenas por um
    terço da renda liquida do mesmo mutuario, tudo a arbitrio d'este.

    Artigo 11.^o Haverá um livro de talão, chamado do registo annual dos
    emprestimos, numerado e rubricado em todas as folhas pelos membros da
    direcção da Caixa, onde se registarão as ementas dos mesmos emprestimos.
    Estas ementas, que conterão um numero de ordem, o nome do mutuario e a
    quantia por que fica devedor, serão escriptas, datadas e sobscriptas
    pelo administrador da Caixa e assignadas pelos mutuarios ou por outra
    pessoa a seu rogo, e por uma testemunha quando o mutuario não souber
    escrever. No talão escrever-se-ha o numero de ordem, a quantia mutuada e
    data da transacção.

    § 1.^o Cada uma das ementas feitas da maneira determinada no precedente
    artigo, será lançada n'uma folha separadamente.

    § 2.^o As certidões passadas do livro das ementas pelo administrador da
    Caixa, e referendadas pelos membros da commissão e pelo administrador do
    concelho, terão para os effeitos legaes o valor de uma escriptura
    publica de divida.

    § 3.^o O exame do registo annual dos emprestimos é vedado a todas as
    pessoas estranhas á administração da Caixa, salvo ao administrador do
    concelho.

    § 4.^o Na escripturação da Caixa de Soccorros o numero de ordem
    substituirá sempre o nome do mutuario.

    Artigo 12.^o No fim do anno, ou antes se os cultivadores o quizerem,
    verificar-se-ha o reembolso da Caixa, capital e juro, devendo esse
    reembolso estar realisado dentro do mez de janeiro immediato.
    Entregar-se-ha a cada mutuario como quitação a ementa ou ementas, que
    lhe forem relativas cortadas dos respectivos talões.

    Artigo 13.^o A acção e direito da Caixa de Soccorros terá a preferencia
    a outra qualquer acção e direito particular, sobre os fructos do anno em
    que foi contraído o emprestimo. Exceptua-se a acção da fazenda publica
    pelos impostos devidos.

    Artigo 14.^o Ninguem poderá levantar por titulo de compra, troca, cessão
    ou outro qualquer contracto, os fructos do predio rustico cultivados
    pelos individuos designados nos artigo 5.^o e 6.^o, sem que o cultivador
    lhe apresente certidão do estado da sua conta com a Caixa de Soccorros.

    § 1.^o Estas certidões serão rubricadas pelos membros da direção da
    Caixa, e passadas gratuitamente pelo administrador da mesma, e só ao
    cultivador interessado. Se a certidão declarar este em divida, o
    comprador dos fructos será obrigado a entrar na Caixa com a importancia,
    capital e juro, da dita divida, pagando ao cultivador a somma
    correspondente a essa importancia com o recibo respectivo. Se não
    cumprir o disposto n'este artigo, ficará responsavel pela divida,
    capital e juro.

    § 2.^o Se o contracto de compra ou de outra qualquer especie, e o
    levantamento dos fructos tiver sido feito occultamente, aquelle que
    houver feito o contracto ou recebido os fructos, ficará não só
    responsavel pela divida, capital e juro, mas tambem sujeito a uma multa
    de 20 por cento da mesma divida para o official da camara ou da
    administração, que descobrir o facto, ou para outro qualquer individuo
    que venha denuncial-o á direcção da Caixa.

    § 3.^o Se o cultivador tiver vendido os fructos a comprador transeunte e
    desconhecido, sendo por este levantados os mesmos fructos, ficará o dito
    cultivador incurso no crime de burla, e sujeito ás penas das leis.

    § 4.^o Aos cultivadores do concelho, que não houverem recebido
    emprestimos da Caixa, enviar-se-ha a certidão corrente n'esse anno até
    ao dia 30 de agosto, embora elles não a hajam anteriormente exigido.

    Artigo 15.^o Os cultivadores que mudarem de predio serão obrigados a dar
    aviso á administração da Caixa, e a declarar a importancia do seu novo
    grangeio e do rendimento liquido d'elle. Os que não o fizerem, ficarão
    inhabilitados por dous annos para receber emprestimos da Caixa.

    Artigo 16.^o Todos os annos, depois de concluido o lançamento dos
    tributos geraes directos, o administrador do concelho communicará á
    direcção da Caixa as alterações que houverem occorrido nas respectivas
    quotas de repartição, em relação aos cultivadores do concelho. Dadas
    essas alterações, mudar-se-ha no registo a verba, até a qual póde subir
    o emprestimo ao respectivo cultivador.

    Artigo 17.^o Acontecendo que o total das verbas pedidas pelos
    cultivadores exceda os recursos da Caixa, a preferencia será dada em
    razão ascendente da menor renda liquida para a maior.

    Artigo 18.^o Se qualquer cultivador do concelho fôr eleito vereador não
    poderá, em quanto exercer esse cargo, ser mutuario de somma alguma
    havida da Caixa de Soccorros Agricolas.

    Artigo 19.^o A nenhum dos mutuarios individualmente poderá a
    administração da Caixa espaçar o prazo fatal do reembolso no fim do
    anno. Quando por motivo de escacez das colheitas, ou de outra calamidade
    publica, se reputar necessaria a concessão de móra, a camara resolverá
    essa concessão, e fundamentando-a a offerecerá á sancção do Conselho de
    Districto. Sendo por este approvada, gosarão do beneficio da móra todos
    os mutuarios que d'ella quizerem aproveitar-se. Se a camara, porém
    entender que as circumstancias aconselham que se faca a dita concessão,
    ou só á classe dos cultivadores de cereaes, ou só á dos fazendeiros,
    conceder-se-ha a essa classe a móra especial com approvação do Conselho
    de Districto, sob a mesma condição de nunca ser individual.

    § 1.^o A móra entende-se em todo o caso para o capital; o juro será pago
    no prazo prefixo.

    § 2.^o O pagamento da divida não poderá ser exigido nos annos
    subsequentes, senão pela decima parte da renda liquida do cultivador,
    que se calculará com abatimento da mesma decima parte para o effeito de
    novos emprestimos.

    § 3.^o São hypothecas d'esta divida os bens de raiz do
    cultivador-proprietario, e os do cultivador-rendeiro, se os tiver. Se
    este não os tiver, sel-o-hão os seus bens moveis e semoventes, sendo
    além d'isso obrigado a dar fiador idoneo á divida.

    § 4.^o Estas dividas não vencerão juro, e a acção e direito da Caixa
    para as cobrar serão os mesmos da fazenda publica.

    Artigo 20.^o Para supprir até onde fôr possivel o desfalque do fundo
    pala móra, dada a hypothese do artigo antecedente, a Caixa tomará um
    emprestimo dentro das seguintes limitações:

    1.^a O total do emprestimo será equivalente ao capital representado por
    dous terços do rendimento liquido da Caixa, considerados como juro, os
    quaes effectivamente ficarão applicados ao pagamento do juro do
    emprestimo.

    2.^a O terço restante do rendimento liquido ficará destinado á
    amortisação, bem como o remanescente annual dos dous terços applicados
    para o pagamento do juro.

    3.^a A camara, sobre proposta da direcção, submetterá o contracto do
    emprestimo á sancção legal, na forma do artigo 103.^o do Codigo
    Administrativo.

    Artigo 21.^o Os membros da direcção da Caixa serão responsaveis pelos
    actos da sua gerencia, remettendo annualmente até o mez de março uma
    conta especificada das transacções operadas no anno anterior, para o
    Conselho de Districto examinar se a lei foi cumprida, e impôr a
    responsabilidade á direcção.

    Artigo 22.^o Haverá um administrador com o vencimento annual de 300$000
    reis, a quem pertencerá o meneio de todos os negocios da Caixa que lhe
    forem incumbidos pelo respectivo regulamento. Os zeladores da camara
    servirão por turno de contínuos, e o procurador da mesma camara servirá
    de agente forense, mediante uma gratificação annual arbitrada pela
    camara, e approvada pelo Conselho de Districto, a qual nunca excederá a
    20$000 reis. Quando trabalhos extraordinarios o exigirem, a direcção
    requisitará da camara o serviço de um ou mais amanuenses da secretaria
    da mesma camara.

    Artigo 23.^o O administrador da Caixa será nomeado pela camara, que lhe
    exigirá fiança idonea no valor de 3:000$000 reis; só, porém, poderá ser
    demittido por uma resolução do Conselho de Districto, sobre proposta da
    direcção, approvado pela camara, a qual aliás o póde suspender, havendo
    para isso proposta da direcção.

    Artigo 24.^o Os vencimentos acima referidos e mais despezas da Caixa
    serão pagos pelo seu rendimento e emquanto este para isso não chegar,
    será completada a somma total da despeza pelo cofre da camara.

    Artigo 25.^o O rendimento da Caixa, deduzidas as despezas da sua
    gerencia, e fóra do caso previsto no artigo 20.^o, será exclusivamente
    applicado, a arbitrio da camara, aos seguintes objectos: 1.^o á
    manutenção das escholas primarias municipaes de 1.^o ou de 2.^o grau;
    2.^o à compra de sementes, cuja introduccão se repute util, para serem
    gratuitamente distribuidas aos cultivadores, que quizerem tentar a sua
    cultura; 3.^o á compra de instrumentos, machinas ou utensilios
    agricolas, com as mesmas condições e fins; 4.^o á sementeira ou plantio
    de pinhaes ou mattas nos baldios ou terrenos de inferior qualidade,
    pertencentes ao concelho, ou adquiridos por elle para tal fim.

    § _unico_. Estas applicações só se verificarão depois de completo o
    fundo da Caixa. Até ahi o seu rendimento liquido será n'elle
    encorporado.

    Artigo 26.^o A camara fará os regulamentos opportunos para a boa
    gerencia da Caixa, os quaes terão vigor depois de approvados pelo
    Conselho de Districto.

    Camara de Belem, 27 de março de 1855.

    _Alexandre Herculano_.

    SOBRE A QUESTÃO DOS FORAES

    1858

    Meu amigo.–Sinto que as primeiras linhas que escrevo para o seu jornal,
    e que escrevo e escreverei para satisfazer ao desejo que me manifestou,
    de que o ajudasse na sua util empreza conforme as minhas escassas
    possibilidades, seja para rectificar idéas ahi contidas e que me parecem
    pouco exactas. São as de uma correspondencia insérta a paginas 94 do
    1.^o volume do Archivo. Pondera-se n'aquella correspondencia a
    necessidade de uma nova lei de Foraes. Não sei até que ponto essa nova
    lei é possivel, depois de tantos factos consummados em harmonia com a
    carta de lei de 22 de junho de 1846. Quando medito nas difficuldades,
    nas injustiças relativas, nas incertezas que resultariam de novas
    providencias contrarias ás d'aquella lei, eu, que não recuo facilmente
    diante das consequencias de commettimentos de tal ordem, quando se
    tracta de grandes reformas, de grandes actos de justiça social, titubeio
    perante as hypotheses que prevejo se dariam quando se tratasse de
    legislar com mais liberal espirito sobre tão grave assumpto, e faço
    votos para que os legisladores que tentarem tal empreza, achem a solução
    racional de um problema, que a meus olhos não a tem das mais faceis.

    A lei de 1846 é uma lei reaccionaria, profundamente reaccionaria. É a
    explosão da guerra occulta feita por interesses illegitimos ao grande
    acto de justiça nacional, chamado o decreto de 13 de agosto de 1832,
    pensamento talvez o mais grandioso da dictadura do Duque de Bragança, a
    que só faltaram desenvolvimento e provisões, que facilitassem a sua
    execução, falta que subministrou pretextos ao espirito de reacção para o
    falsificar e annullar em grande parte. A lei de 1846 não me inspira só
    hostilidade; inspira-me indignação. Mas quando uma lei tem actuado
    durante doze annos sobre o modo de ser de uma grande parte da
    propriedade territorial do paiz, quando tem regulado milhares de
    contractos, servido de norma a milhares de sentenças, influido em
    milhares de successões, determinado para mais ou para menos milhares de
    fortunas, pretender alteral-a póde não ser uma grande temeridade, mas
    requer por certo uma alta força de intelligencia, e uma circumspecção
    pouco vulgar.

    Mas o que ha mais grave na correspondencia que o meu amigo publicou é
    uma outra circumstancia. Adopta-se ahi um erro analogo ao que produziu
    as peiores disposições da lei de 22 de junho, se abstrahirmos do seu
    pensamento fundamental, o salvar tudo o que, sem extremo escandalo,
    fosse possivel salvar das velhas extorsões dominicaes. O pensamento,
    infelizmente mal desenvolvido, do decreto de 13 de agosto era libertar o
    paiz do nosso primitivo systema de renda publica, derivada por abusos de
    seculos para a algibeira de particulares, e substituido em relação ao
    estado por outro systema de renda, o que trouxera uma situação
    intoleravel para a maior parte da propriedade territorial, a solução de
    duas series de impostos uma só das quaes chegava aos cofres do erario. O
    decreto de 13 de agosto supprimia a serie primitiva, a serie delapidada.
    Era uma idéa simples, clara, justa em these. O mal veiu da
    insufficiencia dos meios na sua applicação á hypothese. O decreto de 13
    de agosto não tivera, não podia ter em mira offender contractos
    particulares sobre propriedade patrimonial: o que cumpria em qualquer
    lei posterior tendente a esclarecel-o e a rectifical-o, era reformar as
    suas provisões que de qualquer modo dessem azo a ser offendido o direito
    privado, e por outra parte completar aquellas que não bastassem a
    extirpar o grande abuso, a immensa extorsão publica a que se pozera o
    machado. Para isso tornava-se necessario designar quaes caracteres,
    quaes condições, na falta de provas directas e incontestaveis, serviriam
    para demonstrar ou para se presumir que tal fôro, tal censo, tal direito
    dominical procedia de um contracto expresso ou tacito com o estado. Onde
    e quando as condições e os caracteres fossem demonstrativos, a prova em
    contrario deveria ser supprimida; onde e quando produzissem só
    presumpções, admittir-se-hia essa prova em contrario. Tudo o mais
    reputar-se-hia resultado de contractos particulares, salvo tambem o
    direito do colono, emphyteuta, ou censuario a provar a origem publica do
    onus ligado ao predio que possuia. O principio da abolição, dada essa
    origem publica, não podia ter nem excepção nem limites. A lei devia
    reconhecer a indemnisação pelo estado na unica hypothese em que ella era
    justa, a da venda de direitos dominicaes feita pela corôa. A verba total
    não havia de ser demasiado avultada; e que o fosse era uma divida que se
    pagava. As gerações são solidarias.

    Em vez d'isto, appellou-se para a distincção cerebrina de _titulo
    generico_ e _titulo especial_, que vinha tanto para o assumpto, como uma
    sura do alcorão, ou um artigo das leis de Manú; e á sombra d'esta
    distincção que não distinguia nada, confundiu-se tudo, e restaurou-se
    quasi tudo fazendo-se aos colonos originariamente da corôa, o grande
    favor de poderem remir o onus dando por elle (considerado como juro ou
    renda) o equivalente em capital. O que os legisladores quizeram bem
    averiguado foi se a transmissão do uso da terra, reservado o dominio,
    fôra escripta para servir de titulo a muitos colonos ou a um só, se n'um
    se em muitos diplomas. Era uma curiosidade archeologica sobre a
    abundancia ou a raridade do pergaminho na idade media, que poderia
    subministrar um capitulo interessante a alguma nova edição da _Economia
    Politica del Medio Evo_, do meu amigo Luiz Cibrario.

    É este erro, esta confusão do direito privado com o publico, mas em
    sentido opposto ao da lei de 22 de junho, que me parece conter-se na
    correspondencia de que falo. Rigorosamente, e considerado na sua
    verdadeira indole, o decreto de 13 de agosto estatuiu sobre uma questão
    de direito publico. Consideral-o de outro modo é desconhecer os seus
    fins e o seu alcance. Libertar a terra é exemptal-a de onus injustos, de
    vexames, de encargos impostos pela força; não é annullar contractos
    livres particulares ácerca da propriedade patrimonial. Quando se pede
    uma lei que crie para emphyteutas e sub-emphyteutas, sem excepção, o
    direito de _remir todos os fóros_, pede-se que a lei desfaça contractos
    livremente debatidos, espontaneamente celebrados, e conformes na sua
    essencia aos principios de justiça absoluta. O canon emphyteutico, o
    censo, qualquer quota no producto da terra que o senhorio directo de um
    predio, de accordo com o colono, reserva para si transmittindo o dominio
    directo, é em rigor a renda de um capital, ou aluguer perpétuo de um
    instrumento de producção. Póde a lei expropriar o dono d'esse
    instrumento para utilidade particular, e por um preço taxado de antemão
    por ella? Se tal se houvesse de admittir porque não se admittiria a
    regra contraria? Porque não revocaria a si o senhorio directo o capital,
    o instrumento, pagando as bemfeitorias ao colono? Suppondo justa a
    primeira prescripção, porque se reputaria injusta a segunda?

    Repito: não sei se é possivel recuar no caminho que abriu a lei de 22 de
    junho. Se o é, se os fóros de Alpiarça pertencem á categoria d'aquelles
    que o decreto da primeira dictadura queria abolidos, e se a lei
    reaccionaria e insensata que destruiu, ao menos em parte, aquelle grande
    acto de justiça nacional, póde ainda ser substituida por outra mais
    conforme com o espirito d'esse acto, não é a remissão de taes fóros que
    d'ella deve resultar, quer o senhorio directo pertença hoje ao estado,
    quer a corporações, quer a individuos; é a suppressão, a abolição
    completa. Quanto a fóros em bens de origem patrimonial, é impossivel
    acceitar a doutrina da correspondencia.

    Escrevo estas linhas, meu amigo, ao correr da penna e sem os
    desenvolvimentos que requeria a gravidade do assumpto, porque antevejo
    os inconvenientes sociaes da propagação de taes doutrinas. Para mim o
    grande meio de progresso na cultivação do paiz, da melhor distribuição
    da população, do melhoramento das classes laboriosas, do chamamento do
    proletario ao goso da propriedade, e por ella aos bons costumes e ao
    amor da familia e da patria, é a emphyteuse. A meus olhos, a emphyteuse
    é o unico meio de obstar aos inconvenientes da divisão indefinita do
    solo, e ao mesmo tempo de combater os males que resultam da existencia
    dos latifundios, sobretudo dos latifundios amortisados, esterilisados
    pela instituição vincular. Mas se a opinião que proclama o direito de
    remissão a bel-prazer do emphyteuta, ameaçar de contínuo o dominio
    directo, todas as providencias que se hajam de tomar, que se devem
    tomar, para impellir indirectamente os donos de vastos tractos de terra
    a retalhal-os por aforamentos, serão baldadas. Os possuidores de
    latifundios mal cultivados preferirão o atrazamento agricola, os menores
    redditos actuaes á espoliação futura, e o paiz difficilmente sahirá de
    uma situação economicamente mais embaraçosa do que muitos crêem, e que
    nos horisontes do futuro se me representa assaz carregada.

    Que o direito emphyteutico seja simplificado; que se dispa de todos os
    accessorios de que o revestiram os costumes e as idéas de epochas
    barbaras, é necessario e justo: que se vicie na sua essencia, n'aquillo
    em que é legitimo, sensato, benefico e civilisador, é absurdo. A lei que
    tal ordenasse seria ao mesmo tempo espoliadora e inepta.

    Julho, 10 de 1858.

    _A. Herculano_.

    FIM DO VOLUME VII.

    NOTAS

    [1] O novo artigo não veio a publico.

    _Nota dos editores_.

    [2] Este artigo foi publicado em 22 de agosto e o primeiro em 7 do mesmo
    mez.

    _Nota dos editores_.

    INDICE

    Advertencia

    Duas epochas e dous monumentos ou a granja real de Mafra

    Breves reflexões sobre alguns pontos de economia agricola

    A Granja do Calhariz

    Projecto de decreto

    _O Paiz e A Nação_

    Representação da Camara Municipal de Belem ao governo

    Representação da Camara Municipal de Belem ao parlamento

    Projecto de Caixa de Soccorros Agricolas

    Sobre a questão dos foraes

  • Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 04

    Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 04

    Aproximadamente 55.130 palavras.

    Produced by Isabel Calderon Dinis (Projecto Enclave) and
    edited by Rita Farinha (Biblioteca Nacional
    Digital–http://bnd.bn.pt)

    OPUSCULOS

    *OPUSCULOS*

    POR

    A. HERCULANO

    SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA

    SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA

    SOCIO CORRESPONDENTE DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID DO INSTITUTO
    DE FRANÇA (ACADEMIA DAS INSCRIPÇÕES) DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE
    TURIM DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA YORK, ETC.

    *TOMO IV*

    QUESTÕES PUBLICAS

    TOMO III

    LISBOA

    *VIUVA BERTRAND & C.^a* SUCCESSORES CARVALHO & C.^a

    73, Chiado, 75

    M DCCC LXXIX

    *COIMBRA–IMPRENSA DA UNIVERSIDADE*

    ADVERTENCIA

    Propondo-nos continuar a interrompida compilação dos _Opusculos_ do
    fallecido escriptor Alexandre Herculano, importa dizermos em breves
    palavras qual é o nosso intuito, para que não se tomem á conta de
    insensato arrojo as timidas diligencias que fazemos por cumprir um
    dever, que reputamos impreterivel.

    Quem leu a primorosa _Advertencia previa_ do primeiro volume d'esta
    collecção sabe que o auctor resolvera imprimir de novo, de envolta com
    alguns trabalhos seus ainda ineditos, os numerosos escriptos que, no
    dilatado periodo de quasi quarenta annos, dera á luz, ou em folhetos
    avulsos, cujas edições estavam esgotadas, ou em folhas periodicas,
    algumas pouco conhecidas hoje, e todas mais ou menos difficeis de reunir
    e compulsar. Como elle proprio declara, um dos motivos, se não o
    principal, que o levava a «ajunctar os _disjecta membra_ de uma grande
    parte do seu passado intellectual», era o desejo de ser um dia julgado,
    com imparcialidade e justiça, pelas idéas que emittira e pelas opiniões
    que sustentara. E foi para tornar mais justa semelhante apreciação que
    assentou em conservar escrupulosamente a parte doutrinal dos opusculos
    primitivos, junctando-lhes, apenas, as datas da sua composição; porque,
    «sem querer no minimo ponto fugir á responsabilidade das suas opiniões,
    entendia que a responsabilidade seria ora maior ora menor, se porventura
    se attendesse á epocha em que essas opiniões foram manifestadas.»

    Fiel a estes principios, e obedecendo ao plano que traçara, conseguiu
    ainda o sabio escriptor dar á luz os tres primeiros volumes da presente
    collecção, nos quaes inseriu grande parte dos trabalhos que maior abalo
    produziram no animo publico, pela elevação, desassombro e energia com
    que ahi são tractados os mais melindrosos assumptos. Muitos outros,
    porém, estavam virtualmente destinados a formar novos livros, que por
    fim haviam de completar os elementos necessarios do processo, sobre que
    tinha de recair a sentença definitiva dos juizes imparciaes, a quem elle
    com tamanha confiança entregava o julgamento da sua causa; e são esses
    trabalhos dispersos, entre os quaes ha não poucos inteiramente
    desconhecidos da geração actual, que diligenciamos reunir e publicar.

    É grave, sem duvida, a responsabilidade moral e litteraria que
    contrahimos, escasso o tempo de que podemos dispor, debeis as forças,
    nulla a competencia. Erraremos, necessariamente, na escolha dos artigos,
    na ordem em que os collocarmos, na preferencia que lhes dermos, e acaso,
    até, na inserção de algum que o proprio auctor excluiria, O que, porém,
    podemos affirmar ao leitor é que empregaremos os maximos esforços para
    que seja fidelissima a transcripção d'esses artigos: fidelissima,
    dizemos, em quanto ao texto; porque a orthographia deixamol-a ao cuidado
    da imprensa. Seria muito moroso, além de sujeito a frequentes
    irregularidades, querer reduzir escriptos de tão differentes epochas, e
    publicados em desvairadas folhas periodicas, sem unidade orthographica,
    ao systema que o auctor ultimamente seguia.

    Para este quarto volume da collecção geral dos _Opusculos_, e terceiro
    das _Questões publicas_, escolhemos dois trabalhos egualmente
    importantes, e que nos parece terem intima correlação.

    O primeiro é um largo e consciencioso estudo ácerca da instituição
    vincular, onde são maduramente apreciadas as vantagens e os
    inconvenientes d'este modo de ser da propriedade, bem como as
    difficuldades que offerecia, n'aquella epocha, a sua immediata abolição.
    Este estudo, que encontrámos completo e mostra ter sido escripto sem
    interrupções, ficou, todavia, inedito na sua maior parte; porque apenas
    se imprimiram os tres primeiros capitulos, no jornal _A Patria_ de 8, 17
    e 25 de fevereiro de 1856, e o quinto, d'ahi a tres annos, nos numeros 5
    e 7 do _Archivo Universal-, a instancias do mallogrado escriptor Rodrigo
    Paganino. Quaes foram os motivos que impediram a publicação dos
    restantes, n'uma conjunctura em que as luminosas reflexões do auctor
    podiam auxiliar a resolução do grave problema, não nos foi possivel
    descobril-os; mas, com quanto a abolição dos vinculos fosse, poucos
    annos depois, levada a effeito, pelas leis de 30 de junho de 1860 e de
    19 de maio de 1863, aos homens competentes pertence o decidir se n'essas
    leis foram, ou não, previstas com lucidez, e resolvidas com acerto todas
    as diffículdades que faziam vacillar um espirito tão esclarecido e um
    animo tão resoluto.

    Compõe-se o segundo trabalho de uma serie de cartas, dirigidas ao sr.
    conselheiro Carlos Bento da Silva, nas quaes o auctor manifesta, com a
    sua habitual lealdade e franqueza, a opinião que tinha ácerca da
    emigração para a America, assumpto que então preoccupava muito os
    espiritos, e hoje parece não dar excessivo cuidado a ninguem. Publicadas
    na _Revista agricola_ e no _Jornal do Commercio_, e sustentando
    doutrinas contrarias, em grande parte, às que eram geralmente seguidas,
    estas cartas levantaram clamores, que, não só interromperam um estudo
    cheio de bom senso e de generosas aspirações, mas arrastaram, em breve,
    para o terreno ingrato das luctas politicas a discussão, que só podia
    ser proveitosa mantendo-se nas regiões serenas da sciencia. Não é, por
    conseguinte, o dezejo de avivar a lembrança de uma controversia
    desagradavel, que nos leva a reproduzir, sem a menor alteração, algumas
    paginas mais calorosas deste trabalho litterario: fazemol-o, porque era
    impossivel mutilar um escripto de tanta importancia, justamente na parte
    em que o auctor, além de responder ás objecções do seu antagonista,
    desenvolve e reforça com argumentos novos as suas proprias idéas.

    Como succede a todos os homens que, súperiores ás preoccupações do seu
    tempo e movidos por um sentimento innato de rectidão, não encobrem o seu
    modo de pensar, nem sacrificam a verdade, embora tenham de censurar
    amigos ou de dar razão a adversarios, Alexandre Herculano foi, por via
    de regra, mal avaliado pelo commum dos seus concidadãos, e victima
    frequentes vezes de infundadas e contradictorias accusações. Têm,
    comtudo, os grandes engenhos e as consciencias immaculadas certa no
    futuro a justiça que os contemporaneos lhes negaram; e nós cremos que o
    leitor desapaixonado, comparando estes dois opusculos, distanciados até
    aqui por um intervallo de cerca de vinte annos e reunidos agora no
    presente volume, encontrará n'elles, como em todas as obras do auctor,
    os mais claros testemunhos da coherencia das suas idéas, da
    imparcialidade dos seus juizos, e da pureza das suas intenções.

    _Os legatarios_.

    OS VINCULOS

    1876

    I

    *Preliminares*

    O caracter mais prominente dos actos legislativos promulgados durante a
    dictadura do duque de Bragança, foi a tendencia para alterar na sua
    essencia, melhorando-a, a condição das classes laboriosas e productoras,
    aquellas em que verdadeiramente reside a força vital da sociedade.

    As leis d'essa epocha singular da nossa moderna historia tinham de
    ordinario por fim principal desmoronar os alicerces do antigo systema
    politico, e tornar impossivel a sua restauração. Era uma idéa grandiosa,
    implacavel como o destino, que presidia á redacção de todas ellas; mas,
    em quasi todas, ao pensamento da lei ou ás suas provisões ligava-se a
    idéa de um allivio ou o de um incitamento á quasi unica industria do
    paiz–a agricultura. Assim a lei dos foraes e a abolição dos dizimos,
    destruindo os recursos de certas corporações de mão-morta e de certa
    aristocracia de berço, em cuja influencia fatal se estribava
    principalmente o velho systema, livravam ao mesmo tempo a propriedade e
    o trabalho rural dos mais gravosos impostos; e a extincção das milicias,
    dos capitães-móres e das ordenanças, ao passo que desorganisava as
    resistencias locaes ás novas instituições, restituia ao lavrador e ao
    obreiro dos campos o uso integral do fructo do seu suor.

    A restauração era grandemente revolucionaria nas suas manifestações
    legislativas; mas, como todas as revoluções vivedoiras, ella
    representava uma revolução politica e ao mesmo tempo uma revolução
    social e economica.

    Em quanto Mousinho da Silveira influiu nos conselhos do duque de
    Bragança, a restauração conservou os caracteres que lhe imprimira esse
    homem singular. Os actos subsequentes da dictadura, sem deixarem de ser
    logicos com os que até ahi se haviam practicado, deixaram de ter egual
    alcance. A extincção, por exemplo, das ordens monasticas, ao mesmo tempo
    que desprezava direitos legitimos, os que os monges tinham ás suas
    dotações, e condemnava á miseria muitos individuos innocentes e
    respeitaveis, atirava para o mercado ou desbaratava sem tino e sem
    previsão um enorme cumulo de propriedade territorial, que, alienada por
    um systema sensato e previdente, teria sido dez vezes mais util á
    prosperidade geral do que realmente foi.

    A suppressão das ordens religiosas e a extincção do papel-moeda
    constituem os dois unicos actos de verdadeira audacia revolucionaria
    practicados pelos successores de Mousinho. As chagas sociaes em que elle
    não puzera o ferro ficaram. Taes foram as complicações do direito
    emphyteutico, que tornam absurda essa excellente fórma de transmissão e
    conservação de propriedade; taes os vinculos, instituição incompativel
    com o espirito da nossa epocha e com o regimen da liberdade; taes as
    contribuições municipaes sobre o consumo; taes os pastos communs, que
    offerecem embaraços permanentes a uma revolução agricola, que as
    circumstancias tornaram indispensavel. Toda essa farragem do passado
    teria provavelmente desapparecido, se o genio de Mousinho houvesse
    dirigido por mais algum tempo os destinos de Portugal.

    O movimento mais ou menos bem regulado d'aquella grandiosa revolução
    tinha por principal incentivo a febre de uma guerra civil violenta,
    especie de duello gigante entre o passado e o futuro. Quando a lucta
    cessou, o impulso reformador foi esmorecendo, e a reacção começou, como
    era natural apoz tamanho abalo, a modificar os espiritos. Houve quem
    parasse nos limites do justo; mas outros passaram além. Movia á piedade
    a situação do clero regular; causava graves apprehensões a
    desorganisação do secular; e o systema de administração franceza, cuja
    adopção fôra um erro de Mousinho, funccionava mal. Estes lados da
    reforma eram os menos defensaveis, e tinham contra si por um lado o
    sentimento religioso offendido, e por outro o incommodo dos povos nas
    suas relações administrativas. Explorou-se a mina: buscou-se tirar
    partido a favor dos velhos abusos das confissões leaes d'aquelles que,
    addictos ás doutrinas generosas da dictadura, eram assaz sinceros para
    condemnarem os erros que se haviam commettido. Animados por essas
    confissões, os interesses illegitimos, que a revolução havia ferido
    profundamente, agítaram-se e conspiraram contra ella. No meio das luctas
    civis que sobrevieram de novo, posto que menos violentas, e das
    incertezas e perturbações publicas, devidas umas aos nossos erros e
    paixões, outras a circumstancias independentes da vontade do paiz e das
    parcialidades, as tradições do duque de Bragança esqueceram
    gradualmente. Os exemplos de tentativas para sophismar ou destruir as
    suas leis economicas não foram raros. Houve mais d'um Oza que estendesse
    a mão á arca santa, não para a amparar, mas para a derribar, sem que
    cahisse fulminado. Nada prova mais esse progresso gradual de reacção do
    que os diversos projectos de refórma do decreto de 13 de agosto de 1832,
    chamado vulgarmente lei dos foraes, e as respectivas discussões nas duas
    camaras, reacção que veiu a formular-se na lei de 22 de junho. A questão
    do restabelecimento completo ou incompleto dos dizimos chegou a
    agitar-se nas commissões do parlamento. A idéa da reorganisação das
    milicias tem passado uma e outra vez pelas cabeças de homens assaz
    influentes, e porventura ahi vive ligada á existencia dos denominados
    batalhões nacionaes, que successivamente perecem e renascem. O jury,
    combatido a principio cora vantagem, como succede a todas as
    instituições novas que por via de regra funccionam mal, accusado por
    algumas das suas decisões, que a maior parte das vezes procediam e
    procedeam de causas alheias à instituição, foi pouco a pouco
    restringido, desnaturado, e posto á mercê dos juizes chamados letrados,
    designação infelizmente inexacta em relação a muitos. Não se ponderou
    que não ha jurados sem segurança publica, e que essa segurança não
    existia; que não os ha sem juizes habeis, e que muitos d'elles o não
    eram; que não os ha sem ensino primario, amplo na extensão e
    intensidade, e que o ensino era entre nós, como ainda é, incompletissimo
    em ambas as relações. Reagiu-se, em summa, no que se pôde, desde a
    vaidade de ter em Lisboa um patriarcha e um simulacro de patriarchal,
    inutilidades dispendiosas que a dictadura annullara, até o imposto sobre
    a pesca, vexame intoleravel abolido pelo duque de Bragança em favor de
    uma classe e de uma industria, que a humanidade e as boas doutrinas
    economicas mandavam proteger com a melhor das protecções, a plena
    liberdade.

    A reacção manifestada nestes e em outros factos parece incutir já
    receios em muitos homens publicos, que reflectem. N'outros uma especie
    de instincto politico suppre a falta da intelligencia superior e da
    razão esclarecida. Sente-se que é preciso conter o movimento retrogrado.
    Em nossa opinião o remedio é simples: é voltar aos bons principios; é
    comprehender bem a indole da restauração; é applicar as suas doutrinas,
    modificando-as nas applicações pelo que a experiencia de vinte annos nos
    deve ter ensinado. A dictadura do duque de Bragança foi demasiado curta
    e tempestuosa. Fez muito; mas não podia fazer tudo. Completae a sua
    obra; favorecei o augmento e o bem estar das classes productoras; ligae
    os seus interesses á manutenção das instituições, e a reacção reduzida á
    impotencia de uma vã theoria cessará de se reproduzir nos factos.

    As questões de direito publico são graves: o respeito pelas fórmulas e
    garantias da liberdade não merecem por certo o desdem com que alguns
    escriptores, aliás sinceramente liberaes, as tem às vezes tractado,
    desdem de que bem desejamos, por nós e por elles, não tenham ainda de
    arrepender-se. Entretanto é indubitavel que o meio mais seguro de
    colligir uma força moral que as mantenha é crear interesses de tal modo
    ligados com a existencia d'ellas, que toda e qualquer reacção os ameace
    collectivamente. É necessario que esses interesses se contraponham á
    organisação social, ao modo de ser da propriedade, ao systema de
    administração e de impostos, á distribuição das classes, congenitos com
    a monarchia absoluta. Não ha evolução completa de progresso sem as duas
    condições do melhoramento material e do aperfeiçoamento social. Podem
    dar-se factos que realisem a primeira, e que todavia sejam estranhos á
    fórmula politica do paiz onde se verificam. Nenhum descobrimento
    contribuiu tanto para o augmento da civilisação como o vapor e os
    caminhos de ferro, e todavia o vapor e os caminhos de ferro tem-se
    estabelecido em maior ou menor extensão, mas com as mesmas facilidades e
    vantagens, tanto na Inglaterra e nos Estados-Unidos, como na Austria ou
    na Russia, sem que alterem ou devam alterar por em quanto a indole
    politica ou social d'esses paizes. O erro deploravel dos adeptos de
    certa escola é desprezarem a distincção entre o progresso que influe no
    melhoramento social e moral dos povos, e aquelle que só melhora a sua
    condição physica. Esses taes não contestam a superioridade do primeiro,
    porque isso seria demasiado imprudente; mas julgam ter cumprido com o
    que devem ás doutrinas que professam, limitando-se a applaudir quaesquer
    tentativas mais ou menos imperfeitas para se obter o ultimo. Dir-se-hia
    que para elles o homem interior em relação ao homem physico equivale a
    zero á esquerda de qualquer algarismo. E todavia não é assim. Se o povo,
    deduzindo as ultimas consequencias de certas maximas que elles ás vezes
    proclamam sem reflexão, se entregasse nas mãos do primeiro despota que
    lhe promettesse o bem estar material; se essa triste philosophia do luxo
    e dos gosos, que dominava no imperio romano sob a tyrannia dos Cesares,
    chegasse a gangrenar inteiramente as sociedades modernas, horrorisados
    da obra para que teriam contribuido, apressar-se-hiam a renegar a
    propria escola e a alistar-se n'aquella, que, sem desprezar o homem
    exterior, não esquece que ha n'elle uma coisa interior chamada a
    consciencia, que reclama a liberdade e a dignidade como condições
    impreteriveis em todo e qualquer progresso das sociedades humanas.

    É debaixo da impressão d'estas doutrinas, e convencidos da sua
    importancia, que vamos escrever. Os estudos que iremos successivamente
    publicando não são um trabalho completo; porque talvez n'elles nenhuma
    questão seja considerada sob todos os seus aspectos. São apenas
    reflexões soltas que temos lançado ao papel nas diversas epochas em que
    circumstancias especiaes nos obrigaram a volver a attenção para os
    negocios publicos: são simples apontamentos, posto que coordenados e
    ampliados agora. Podem ter erros; mas a intenção que os dictou é leal. O
    auctor nunca poz a penna a soldo de partidos ou de escolas; nunca
    mercadejou com a sua razão, nem com a sua consciencia. Á falta de outro
    merecimento, estes estudos tem o da convicção sincera.

    II

    *Processo agricola.–Propriedade rural.–Opportunidade da discussão*

    Apezar do impulso dado ao desinvolvimento agricola pelas leis da
    dictadura de 1832, as consequencias de certos factos historicos, de
    certas instituições abusivas, que por seculos haviam esmagado o paiz,
    ainda em parte se experimentam. Remover essas instituições; neutralisar
    os effeitos d'aquelles factos é completar a revolução politica pelo
    complemento da revolução economica.

    A extincção dos dizimos, das milicias, das ordenanças, das prestações
    foraleiras deram á lavoira uma extensão imprevista, e a situação do
    cultivador portuguez melhorou sensivelmente. Se por uma parte os
    methodos sempre cambiantes da percepção dos tributos, aliás viciosos na
    sua essencia, não houvessem substituido por gravames novos os gravames
    antigos, posto que em muito menor escala; se, por outra parte, a grande
    propriedade não fosse ainda demasiado preponderante; se a falta de
    proporção entre o accrescimo da cultura e o accrescimo da população não
    houvesse augmentado, pela subida do salario, o custo das producções,
    cujo valor a concorrencia nos mercados tem ido progressivamente
    diminuindo; se a falta de instituições de credito agricola e a derivação
    dos recursos pecuniarios do paiz para a agiotagem, resultado de uma
    pessima administração da fazenda publica, não houvessem tornado o
    capital esquivo á agricultura; se o quasi nenhum melhoramento das vias
    de communicação não pesasse indirectamente sobre os productos; se o
    atrazo da instrucção popular não inhabilitasse o homem do campo para
    simplificar os methodos e instrumentos de cultura; se finalmente um
    falso systema de protecção não difficultasse indirectamente ao productor
    portuguez o accesso aos mercados estrangeiros; a industria agricola
    entre nós teria chegado ou chegaria em breve a uma situação brilhante.
    Descentralisação administrativa; divisão razoavel de propriedade;
    construcção de estradas geraes e caminhos concelhios; simplicidade e
    ordem no systema tributario, tanto geral como municipal; meios de crear
    o credito rural accommodado aos habitos e necessidades do paiz; impulso
    á instrucção popular, ou antes nacional, substituindo o impulso, talvez
    excessivo, dado á instrucção litteraria e superior; mudança gradual e
    reflectida do systema protector para o systema da livre permutação, a
    que só se poderá chegar pela descentralisação administrativa; eis o que,
    em nosso intender, constituiria em geral o complemento da revolução de
    1832. Por esses meios, desinvolvidas as forças productivas da terra em
    toda a sua energia, o accrescimo da população acompanharia o accrescimo
    de trabalho; o valor d'este se harmonisaria com o das subsistencias; o
    producto liquido guardaria sempre proporcionalidade com o producto
    bruto, ou, pelo menos, seria bastante para se accumular em capital e
    converter-se em instrumento de producção; e emfim a grande industria
    nacional, livre de peias e, ainda melhor, de uma falsa protecção,
    influiria poderosamente no progresso da industria fabril e do commercio,
    cuja prosperidade é impossivel onde a agricultura definha debaixo do
    peso de instituições ou incompletas ou absurdas.

    De todas estas questões, cuja solução importa a este grande problema,
    nenhuma, se exceptuarmos a da liberdade do commercio, é tão grave,
    difficil e importante como a da divisão do sólo, isto é, da fórma e
    condições da propriedade territorial em relação á industria agricola.
    Debatendo-a, não só se discute uma das principaes materias economicas:
    discutem-se, digamos assim, as bases da sociedade civil.

    A revolução de 1832, a unica revolução séria que tem havido em Portugal,
    occorreu, entre outras coisas, ao damno e á vergonha, a que os erros dos
    nossos antepassados nos haviam conduzido, de comprarmos aos
    estrangeiros, durante uma parte do anno, a subsistencia de uma população
    pouquissimo numerosa em relação ao nosso territorio, e que uma
    insignificante industria fabril por certo não distrahia do trabalho
    agricola. Mas as grandes providencias d'essa epocha não deram nem podiam
    dar á industria e á população rural um impulso de maxima energia.
    Deram-lhes apenas o que procede da libertação da terra, da cessação de
    certas rapinas senhoriaes e fiscaes, e, consequentemente, o impulso
    indirecto que provinha da maior facilidade de produzir subsistencias,
    cuja abundancia e barateza, sempre progressivas, nos tem efficazmente
    convertido, no fim de quinze ou vinte annos, de importadores em
    exportadores. Os outros meios de augmento de população e de industria
    agricola, que eram consectarios do largo systema que a revolução
    adoptara, não se pozeram por obra desde que os dois elevados espiritos
    que tinham encetado a reforma radical do paiz desappareceram, um no
    tumulo, outro no esquecimento ingrato dos seus concidadãos.

    A redempção da terra pela destruição dos antigos vexames devia
    completar-se, de feito, por instituições e leis cujas tendencias fossem
    accordes com as da revolução. Desde que pelas providencias da dictadura
    de D. Pedro se entrava no caminho da reforma; desde que se fazia sair a
    agricultura da immobilidade e somnolencia em que jazera por seculos;
    desde que se lhe dizia «caminha!» era necessario acabar de lhe pôr
    franca a estrada, removendo todos os obstaculos á sua marcha ulterior.
    Não succedeu, porém, assim. Um dos factos mais importantes da historia
    da nossa fazenda publica prova que o systema da revolução, ou não foi
    comprehendido, ou foi promptamente abandonado por aquelles que deviam
    manter as tradições d'essa epocha.

    A lei dos foraes e, ainda mais do que ella, a extincção da maior e mais
    opulenta parte das corporações de mão morta trouxeram á massa de bens
    publicos uma porção avultadissima de propriedade rural. Calcular com
    alguma certeza os valores, os capitaes possuidos por essas corporações
    abolidas, ou rehavidos pela reversão gradual dos bens da corôa, é
    dífficillimo, senão impossivel, pelo pessimo methodo com que taes bens
    foram e tem sido incorporados na fazenda e depois alienados. Não será
    porém excessivo o algarismo de cincoenta a sessenta mil contos. Mas
    esses bens eram na sua maxima parte predios rusticos, ou censos e
    pensões sobre elles, symbolo do senhorio directo e portanto equivalentes
    de um capital. Tendo-se aberto uma nova era ao progresso da agricultura,
    os homens publicos d'então deviam pensar que não seria indifferente e
    sem influencia na economia social do paiz o destino que se désse a tão
    avultada somma de instrumentos de trabalho rural. N'um paiz de vinculos,
    de commendas, de bens de corôa, devia suppôr-se que a grande propriedade
    não estava em equilibrio com a pequena. Não era, porém, necessario
    suppol-o. Sabia-se que só na provincia do Minho preponderava a ultima, e
    que nas outras províincias predominava a primeira, sendo quasi exclusivo
    esse predominio na mais extensa de todas, o Alemtejo. Cumpria, portanto,
    comparar os resultados económicos e sociaes da grande e da pequena
    propriedade. Este exame mostraria, quanto a nós, a necessidade de
    favorecer a multiplicação dos pequenos predios, sobretudo no centro e no
    sul do reino. Não se fez, porém, isto. A massa enorme de riqueza
    territorial possuida então pelo Estado, a qual na maxima parte poderia
    ter cabido em mãos laboriosas e humildes por emprasamentos de superficie
    limitada, ou que, pelo menos, poderia ser vendida depois de retalhada,
    alienou-se por um systema absolutamente contrario. Dividida a
    propriedade tornar-se-hia accessivel a todas as condições e fortunas
    pelo emprasamento, e pela venda a milhares de pequenos peculios. Em vez
    d'isso cahiu geralmente nas mãos de homens opulentos, trocou-se por
    capitaes avultados. Em muitos casos foi o rico proprietario que
    conglobou nos seus extensos predios vastos predios nacionaes, e isto
    n'um mercado onde reinava pela abundancia a depreciação do genero, e
    onde a concorrencia era difficil. Outra parte serviu para converter
    muitos capitalistas em proprietarios. Assim se annullaram os mais
    importantes resultados que se deviam ter tirado da reivindicação parcial
    dos bens da corôa para o patrimonio publico, e da extincção das
    corporações religiosas.

    Foi a ignorancia que produziu o mal? Foi a persuasão de que a grande
    propriedade era mais util do que a pequena? Não o cremos. A verdadeira
    razão era o interesse pessoal dos homens influentes. Tinham-se inventado
    as indemnisações; tinham-se taxado os exilios, as perdas effectivas, os
    lucros cessantes, as perseguições que se haviam padecido por causa de
    opiniões. A religião do juramento, a fé nos principios, a lealdade á
    dynastia legitima deixaram de ser uma herança de honra para se legar
    como exemplo a filhos e netos, e converteram-se em capital com juro: os
    heroes transformaram-se em chatins. Foi uma abdicação moral quasi
    completa, a que a historia fará justiça. Para as indemnisações a
    alienação em grande convinha por mais de um modo. O _Ha-de-haver_ da
    conta de ganhos e perdas engrossava-se prodigiosamente ao lado do _Deve_
    em branco. Os mercadores politicos, que a escripturavam, viam-se no
    governo, no parlamento, nos conselhos, nos altos cargos administrativos,
    judiciaes, e militares. Olharam para essa mole appetitosa e immensa que
    tinham ante si, e talharam a reparação pelo valor da presa cubiçada.
    Quanto mais se accumulassem e portanto se depreciassem no mercado os
    bens nacionaes, maior porção d'elles seria necessaria para satisfazer
    indemnisações exaggeradas. Com o tempo desappareceu tudo. O que não
    serviu para se trocar a honra politica por fortuna predial,
    desbaratou-se por preços insignificantes. Os capitalistas vieram
    substituir-se aos donatarios, aos commendadores e aos frades. Depois os
    heroes e os capitalistas foram ao templo dar graças aos deuses. A
    republica estava salva.

    Então seguiram-se quinze a vinte annos de revoluções tão estrondosas
    como insignificantes. Os partidos disputaram o poder, luctaram,
    digladiaram-se: houve sangue e desventuras; houve theorias dominantes,
    vencidas depois, e vencedoras de novo; houve homens turbulentos e
    cubiçosos (os ambiciosos são raros no nosso paiz) que ora se apoderaram
    do poder, ora desappareceram na obscuridade, quando não no exilio: houve
    todas as convulsões, todas as peripecias dos tempos de politica pessoal,
    de politica de odios acerbos e de interesses individuaes feridos. Só
    faltaram novos incitamentos para o progresso legitimo. Dentro da acção
    administrativa e parlamentar, o desenvolvimento do paiz, desenvolvimento
    innegavel, posto que muito inferior ao que devera ter sido, foi apenas a
    consequencia das providencias da primeira dictadura, e de alguns poucos
    actos da revolução de 1836, em que appareceu um homem de verdadeiro
    talento e de verdadeiro patriotismo, mas que, perdoe-nos elle, quasi
    compensou o bem que fez com os males cuja semente lançou á terra,
    transportando do campo da theoria para o dos factos as idéas
    proteccionistas. Ainda eram, comtudo, idéas: ainda era um reflexo de
    1832. Depois só houve politica esteril ou reaccionaria. O progresso,
    independente das instituições, das leis e da acção administrativa, que
    se realisou n'este periodo, tem-se devido ás idéas e aos esforços
    particulares, á razão e á actividade dos cidadãos, movendo-se n'um
    ambiente de liberdade intellectual; porque é preciso confessar que
    n'esta longa epocha de pequenas paixões e de turbulencias interminaveis
    a iniciativa individual e a liberdade dos espiritos, fóra da esphera
    politica, tem sido geralmente respeitada.

    O cansaço quebrou por fim a violecia das facções e trouxe o periodo do
    repoiso. Boas ou más que fossem as doutrinas dos partidos militantes,
    ellas eram bandeira, não crença. A prova ahi está na historia dos
    ultimos quatro annos. Modificaram-se e mollificaram-se as opiniões,
    porque não tinham sido senão o estandarte dos interesses particulares, e
    porque nas phases variadas da longa lucta das parcialidades aquelles
    interesses chegaram mesmo, por acaso, a uma combinação politicamente
    possivel. Mas este facto trouxe outro mais grave: o paiz, que suspeitava
    de muitos, descreu de todos. É um mal ou um bem absoluto? O futuro o
    dirá. O que é certo é que desanimou e tornou-se indifferente aos
    partidos. Entretanto é incontestavel que vivemos n'uma quadra
    tranquilla. Que os homens influentes da situação o attribuam, não á
    indifferença do paiz, ao seu tedio de conflictos mais ou menos
    sanguinolentos e devastadores, mas sim á illustração, á justiça, á
    moralidade e ao liberalismo do poder, e á sua propria philosophia
    politica, que se remonta acima da comprehensão de nós outros homens
    vulgares, que importa? É uma rixa domestica; é uma questão entre os
    labios e a voz intima do coração. Nada temos com isso. O que nos importa
    é o facto, e o facto é que gosamos de paz e de liberdade de discussão
    ácerca de todas as materias politicas e sociaes. A quem nos deixa isto
    deve-se perdoar alguma coisa. Pode-se ter qualquer sentimento a respeito
    dos homens da situação: ter-lhes odio seria impossivel. Estão abaixo e
    além d'isso.

    E no meio da paz e da liberdade da palavra e da escripta apparecem
    tendencias, e mais do que tendencias, esforços para a realisação de
    novos progressos. O governo actual é arrastado pela opinião publica,
    como o seria qualquer outro que o substituisse, a melhorar as
    communicações internas, e no Minho ergue-se o povo para tomar n'esta
    parte a iniciativa. As questões d'instrucção popular, que passavam
    desapercebidas, excitam já a attencão e o interesse: não tardará que a
    opinião reclame a sua solução practica tão imperiosamente como reclama
    as estradas. As doutrinas da liberdade da industria e do commercio não
    só combatem face a face as preoccupações contrarias, mas até são
    chamadas á prova, e legitimam-se pelos resultados. Os espiritos começam
    a comprehender que o credito rural pode deixar de ser uma utopia, a
    associação uma vã palavra. No parlamento é atacada a instituição dos
    vinculos, e parece aproximar-se a ultima ruina d'estes. O governo,
    emíim, abriu o caminho para se chegar um dia ao verdadeiro systema
    tributario, sem o qual o triumpho completo do livre commercio e da livre
    industria é impossivel. Por ora a repartição do imposto directo,
    substituida á decima, pouco mais é do que uma troca de palavras, e Deus
    queira que não deixe de o ser antes de tempo; mas o povo vai-se afazendo
    á idéa, e é essa uma grande difficuldade vencida para o futuro.

    Estes factos são importantes, e estão, em geral, no espirito da
    revolução de 1832; mas todos elles tem uma desenvolução posterior, e
    essa desenvolução é que ha-de aproximal-os ou afastal-os do systema
    d'aquella epocha. Oppõem-se-lhes as tendencias reaccionarias, algumas
    das quaes já se manifestam nas leis e traduzem-se nos factos. Quando em
    muitos animos preponderam os desejos da restauração do passado; quando
    estes desejos começam a apparecer na legislação, é preciso estar de
    sobreaviso para que a reacção se não introduza no progresso sob o manto
    da imparcialidade. É esse o perigo das doutrinas, que nos aconselham
    afastemos os olhos das questões de ordem moral para só pensarmos no
    melhoramento material. Servirão taes doutrinas a tal ou tal situação,
    porque precisará d'ellas para se absolver a si propria; mas não servem
    ao paiz, e podem ser ainda fataes áquelles mesmos que as propugnam.
    Cumpre na desenvolução de cada reforma ligal-a pelas suas condições ao
    systema da liberdade.

    Se repetidos exemplos de corrupção fizeram descrer o paiz dos homens
    publicos, o progresso material, desligado e independente das condições
    politicas da sociedade actual, pode fazel-o descrer d'essas condições. O
    governo representativo não é commodo nem barato. É preciso que o povo
    considere as vantagens do bem estar como inseparaveis dos incommodos e
    sacrificios que as instituições exigem. O triste espectaculo, que hoje
    presenceamos, de uma grande nação privada dos seus fóros é a mais
    tremenda lição que nos offerece a historia sobre as consequencias de
    converter o porco de Epicuro em symbolo exclusivo da religião social.

    III

    *Abolição dos vinculos*

    O pró e o contra

    Entre as reformas pendentes merece attenção particular a abolição dos
    vinculos. Agita-se hoje essa questão, á roda da qual vêm accumular-se
    outras mais graves. Considerada em si, e só em relação aos seus
    resultados economicos, a extincção d'esta fórma de propriedades
    realisar-se-ha de um modo. Considerada em relação a todas as
    consequencias da medida, tanto economicas como sociaes e politicas,
    ha-de realisar-se de outro. A abolição dos morgados e capellas pode, até
    certo ponto, remediar o mal que resultou do systema inconveniente
    adoptado na distribuição e alienação dos bens nacionaes, se essa
    abolição se reputar um problema subordinado, uma hypothese que entra na
    questão geral da organisação da propriedade em relação ao bem estar
    material, moral e politico da sociedade. A esta luz a solução da questão
    geral determina forçosamente a da hypothese. Não é possivel, portanto,
    separal-as. Nas considerações que vamos fazer, considerações talvez
    incompletas, mas que cremos uteis, procuraremos quanto fôr possivel
    attingir á generalidade.

    As principaes objecções que se podem oppôr á existencia dos vinculos são
    de diversa ordem: moraes, politicas e economicas. Uma parte d'ellas
    entram na questão geral da grande e da pequena propriedade. Outras
    pertencem á ordem politica e á ordem moral.

    Oppõe-se aos vinculos que, sendo estes uma fórma de propriedade em que o
    direito de testar é tirado ao possuidor d'ella, convertido em simples
    administrador, falta a este o principal estimulo para os melhoramentos
    permanentes. Tudo pelo contrario o incita a tirar dos predios que possue
    a maxima utilidade pessoal. Salvas as hypotheses de viva affeição
    áquelle, que, não elle, mas a lei e a instituição fazem seu herdeiro, ou
    de uma decisiva paixão pela agricultura, o administrador do vinculo será
    sempre o peior entre os proprietarios ruraes, e a terra vinculada será
    constantemente um modelo de atrazamento e de incuria, um obstaculo
    permanente ao progresso agricola. A historia e o estado dos vinculos em
    Portugal demonstram _a posteriori_ a verdade e o alcance d'esta
    objecção.

    A instituição vincular é injusta excluindo os irmãos menores de egual
    quinhão na herança paterna, tornando-os dependentes, por um subsidio, do
    irmão mais velho, ao passo que não podem obstar a que este annulle os
    recursos para o pagar. Aquelle incerto meio de subsistencia é, alem
    d'isso, um incentivo de preguiça e ignorancia, uma fonte de irremediavel
    miseria para o homem a quem um berço illustre poz sem culpa sua fora do
    direito commum.

    O vinculo é a negação permanente de uma das primeiras condições da
    propriedade: n'elle os dois dominios estão incorporados n'um só, mas
    esse dominio não está _actualmente_ em parte nenhuma. Ficou, digamos
    assim, chumbado na campa de um tumulo: o tumulo retem-n'o até o fim das
    gerações. O morto desmentiu o direito dos vivos. O seu herdeiro, o homem
    que lhe succedeu na posse da terra e que elle chamou a isso por um acto
    livre e espontaneo, é pouco mais que um simples usufructuario. Mas ha
    outro que deva depois d'elle succeder com pleno direito, porque o
    affecto nascido dos laços domesticos ou do sentimento da gratidão moveu
    o instituidor a tornal-o proprietario d'essa terra apoz o
    quasi-usufructuario? Não ha. Ha só uma serie de descendentes que o
    instituidor desconhece, e, na falta d'estes, os de collateraes que não
    lhe importam. O fundador de um vinculo não fez mais do que empilhar os
    corpos de individuos tirados das diversas gerações para sobre elles
    assentar o throno da sua vaidade. Decretou-se homem grande: teve pena de
    que o futuro esquecesse personagem tão importante. Certa escola
    socialista mais moderada nega no que possue o direito de testar: os que
    estabeleceram a jurisprudencia dos morgados foram os precursores d'essa
    escola. Os antigos sacrificavam ao Deus desconhecido, _ignoto deo_; os
    instituidores de vinculos sacrificam _ignoto homini_.

    Os vinculos refogem, pela condição da inalienabilidade, aos impostos
    sobre transmissão por venda. Tornam, n'esta parte, em virtude de um
    privilegio, impossivel de se realisar ácerca d'elles a proporcionalidade
    constitucional das contribuições.

    A existencia dos vinculos, derivando de um privilegio, está
    absolutamente em antinomia com a lei política, não se provando que essa
    existencia seja de utilidade publica.

    Admittidos entre nós os vinculos em epochas, nas quaes o atrazo agricola
    tornava pouco productiva a terra, esta só podia constituir um morgado ou
    capella importante, vinculando-se uma immensa extensão de solo. No meio,
    porém, de população rara e de cultura pouco intensa e pouco frequente,
    elles não ofereciam grande obstaculo á exploração da terra. Agora,
    porém, que já o agricultor arrosta com os terrenos de segunda qualidade,
    e que a população se desenvolve e cresce, cada decada, cada anno, cada
    dia estão mostrando mais claramente o absurdo de se conservarem
    terrenos, muitas vezes de primeira ordem, incultos ou mal cultivados por
    causa de uma instituição, cuja existencia não é legitimada por nenhum
    motivo attendivel.

    A propriedade d'esta especie esta em regra condemnada á ruina e ao
    atrazamento. O predio vinculado, passando livre ao successor, é uma
    pessima hypotheca. O capital não se põe em contacto com elle senão por
    meio de exorbitantes usuras. Comprehende-se como um mau administrador de
    vinculo para satisfazer os proprios appetites ou paixões sacrifique á
    agiotagem um futuro que é seu; mas não se comprehenderia egual
    sacrificio da parte de um homem cordato, que pretendesse applicar um
    capital avultado aos melhoramentos de propriedades arruinadas pelo
    desleixo e falta de economia dos seus antecessores. Embora as
    bemfeitorias sejam encargo transmissivel, é certo que o dinheiro seria
    sempre incomparavelmente mais caro para elle do que para o proprietario
    cujos bens podem ser executados, e o dinheiro caro é para a agricultura
    do nosso paiz como se não existisse.

    Na verdade, trazida sem restricções a propriedade vinculada ao direito
    commum, o mau administrador desbarataria facilmente os proprios haveres;
    mas o bom poderia com uma parte d'esses bens, por qualquer modo
    alienados, tornar solido o resto da sua fortuna: mais; poderia tirar do
    sacrificio os meios de dar á porção salva um valor egual ou maior do que
    tinha todo o vinculo. Por certo que para isso necessitava de actividade,
    de economia e de intelligencia; mas favorecer taes dotes não seria uma
    das menores vantagens da abolição.

    Se a facil divisão do solo tem em geral uma grande importancia economica
    e social; se a tem egualmente a facil transmissão pelos contratos de
    compra e venda; os vinculos, contradizendo completamente esses dois
    factos, devem cessar de existir.

    Taes são as considerações principaes que se offerecem ou podem offerecer
    para se abolir esta forma especial de propriedade. Os seus defensores
    recorrem não raro a subterfugios e a razões insignificantes. Ha todavia
    algumas considerações que parecem favorecer os vinculos. Contrapol-as às
    allegações em contrario é mostrar que se busca sinceramente a verdade.

    O direito de propriedade é virtualmente atacado na abolição dos
    vinculos. O instituidor de qualquer d'elles estabeleceu-o em bens seus
    inteiramente livres, e sem offensa das leis de successão. Se elle tinha
    o direito de testar esses bens, tinha tambem o direito de regular o modo
    de succeder, de limitar e impôr condições á fruição do que era seu.

    Nas monarchias representativas considera-se a existencia das
    aristocracias como um facto social legitimo. Pelas instituições esse
    facto é convertido em principio politico manifestado no pariato: ou,
    antes, o facto indestructivel da desegualdade social é circumscripto por
    aquellas instituições dentro da orbita politica, ficando ao mesmo tempo
    excluido das relações civis legaes. Desde que, porém, a aristocracia,
    representante da desegualdade, é considerada como elemento politico,
    torna-se necessario garantil-a. Os vinculos, destinados a manter e
    perpetuar as familias aristocraticas, estão portanto essencialmente
    ligados á existencia da monarchia representativa.

    A divisão indefinita do solo tem os inconvenientes que a França, onde as
    instituições de direito publico e de direito civil a favorecem
    excessivamente, já experimenta em larga escala. A idéa de allodialidade
    absoluta da terra, e de favor para a subdivisão contínua da propriedade,
    prevalecendo entre nós no commum dos espiritos, e manifestando-se já nas
    tendencias de certas leis, ha-de emfim vir a produzir os mesmos males
    que produz em França e em outros paizes, e contra os quaes varios
    estados de Allemanha tratam de prevenir-se por via de leis positivas e
    terminantes. A existencia dos morgados estabelece uma compensação a
    similhantes tendencias, e equilibra a grande e a pequena propriedade.

    Suppondo, porém, que em geral a grande propriedade prepondere hoje;
    suppondo ainda que a parte allodial d'ella se não transforme pelo
    decurso do tempo, e que resista ás tendencias e leis que favorecem a
    divisão do solo; nem ainda assim os vinculos devem ser abolidos por
    manterem a grande propriedade. Esta não pode ser considerada como um
    inconveniente, visto parecer demonstrado que a grande cultura produz
    mais barato, que dá em resultado maior producto liquido, e que não ha
    grande cultura sem vasta propriedade. Deduzir da situação accidental dos
    vinculos, situação que ainda se não examinou se podia ser melhorada,
    argumentos contra a essencia de uma instituição, que pode contribuir
    para a creação de importantes valores, parece pessima logica e ainda
    peior economia politica.

    Na hypothese, porém, de que a propriedade perfeitamente livre tenda sem
    remedio a subdividir-se indefinidamente, opinião que tem por si os
    factos e as previsões de distinctos economistas, abolidos os vinculos,
    que é o que fica para satisfazer á necessidade economica da existencia
    de grandes predios ruraes?

    A centralisação é o grande defeito dos governos representativos:
    centralisação da soberania; centralisação da administração pelo
    executivo; centralisação da justiça; centralisação da força publica. Mas
    todos os poderes centraes tendem a destruir a independencia ou a acção
    uns dos outros e a elevar-se acima d'elles. Não raro acontece isto, e a
    experiencia ensina-nos que por via de regra é o executivo quem triumpha,
    sobre tudo pelos meios de corrupção, triumpho tanto mais perigoso,
    quanto é certo que se mantem de ordinario as apparencias
    constitucionaes, e que esse absolutismo é mais facil de sentir do que de
    demonstrar quando acata certas formulas tornadas estereis. A força dos
    agentes administrativos é, n'esta hypothese, immensa; porque se
    multiplica de um modo incalculavel a energia da centralisação já d'antes
    exaggerada. Abolindo-se os morgados e capellas, e destruindo-se por esse
    modo a grande propriedade e as influencias dos nomes historicos, não se
    faz mais do que remover obstaculos ás demasias dos delegados do poder
    central. O _cavalheiro de provincia_, essa entidade com recursos
    materiaes e moraes para contrastar a autocracia do funccionalismo,
    cessará de existir. Retalhados os predios allodiaes pelas heranças, os
    morgados seriam o ultimo e unico refugio da resistencia legal ao
    despotismo da centralisação administrativa.

    Ainda outros argumentos a favor da manutenção dos vinculos se costumam
    deduzir de certa ordem de considerações moraes. Tal é a difficuldade de
    os abolir sem offender direitos adquiridos ou as regras da equidade. Mas
    tambem os adversarios dos vinculos vão buscar nessa mesma ordem de idéas
    considerações que se oppõem á sua conservação. Subsequentemente teremos
    de avaliar alguns d'esses encontrados argumentos quando a successão das
    idéas nol-os suggerir. Aqui só quizemos indicar as ponderações mais
    graves que mutuamente se contrapõem sobre um problema, de cuja solução
    pendem muitos interesses, não só geraes mas tambem particulares, e em
    que por isso as exaggerações e argucias são frequentes e é difficil a
    imparcialidade.

    Basta porém attender ás considerações principaes para se conhecer que a
    sua confirmação ou refutação dependem do modo de resolver os mais serios
    problemas sociaes, taes como a indole e fins das aristocracias nas
    sociedades modernas, a organisação do poder central, e o equilibrio
    politico pela descentralisação administrativa, as vantagens e os
    inconvenientes da grande e da pequena propriedade, da grande e da
    pequena cultura, as leis que determinam o augmento da riqueza publica,
    tudo, emfim, quanto mais intimamente se liga com o progresso material e
    moral do paiz. Importa ter idéas claras ácerca d'esses graves assumptos
    para dar um voto sobre a questão dos morgados. Sem isto os instinctos ou
    os interesses de classe, de partido ou de individuos influirão
    exclusivamente na abolição ou não abolição, e, supposta a primeira
    hypothese, nas disposições da lei por que forem abolidos.

    IV

    *O principio vincular considerado na sua legitimidade*

    A primeira consideração que parece favorecer a conservação dos vinculos
    é de ordem juridica; liga-se com a maxima questão social–o direito de
    propriedade. O commum dos morgados em Portugal foram instituidos em
    terças, de que os instituidores podiam livremente dispor; e quando, com
    licença do rei, então arbitro supremo, abrangiam os bens de legitima,
    resalvavam-se os alimentos, a que se entendia terem jus os filhos por
    direito natural, que ao rei não era licito infringir. Os instituidos,
    com permissão regia, em bens de corôa, em commendas, etc., ou fundados
    por individuos sem herdeiros forçados, é evidente que não offendiam
    direito algum particular, e que o instituidor não fazia senão practicar
    um acto legitimo, dando esse futuro destino a bens que podia livremente
    testar, ou de que a auctoridade suprema lhe consentia dispor para esse
    fim como de cousa propria. Assim a abolição, destruindo a fórma e
    condições impostas na transmissão da propriedade pelo proprietario,
    negaria retroactivamente o uso de um direito legitimo. A lei pode
    prohibir as novas instituições vinculares; mas não pode converter o
    administrador em proprietario, nem regular a successão dos bens de
    vinculo pelo direito commum.

    Na verdade os instituidores de morgados tinham o direito de transmittir
    a propriedade de que livremente podiam dispor com as condições que
    entendessem; mas as consequencias que d'ahi se deduzem estão longe de
    serem incontestaveis. Se admittis a doutrina que apenas estriba o
    direito de propriedade nas leis positivas, é evidente que ellas podem
    modificar, restringir e até annullar esse direito. Se, com mais razão,
    considerais a propriedade como de direito natural, ainda assim as
    difficuldades subsistem. As opiniões variam ácerca da extensão d'esse
    direito. Ha quem negue que a successão testamentaria e _ab intestato_ se
    inclua n'elle; não seja de pura instituição civil: ou, por outra, que o
    direito de propriedade possa subsistir além do tumulo. O acto, porém, de
    instituir um vinculo não é mais do que levar o exercicio d'esse direito
    não só além da morte, mas tambem á perpetuidade. Supponhamos, todavia,
    que a successão esteja envolvida no direito natural da familia. Não se
    comprehende melhor como a successão vincular se haja de fundar em tal
    direito. Que é o que transmittiu o instituidor? Apenas uma parte do
    dominio. Nenhum dos seus herdeiros tem o dominio absoluto dos bens do
    vinculo: o que tem é, digamos assim, apenas meia propriedade. Resulta
    d'aqui um facto. Pela nossa jurisprudencia os morgados extinguem-se: e
    esta extincção dimana da sua natureza. Quando ao ultimo administrador
    não restam parentes consanguineos, que tambem por consanguinidade o
    sejam do instituidor, o morgado acabou. Os bens vinculados devolvem-se
    então á corôa, á fazenda publica, á sociedade. Por mais intimos que
    sejam os laços de familia que unam o derradeiro possuidor com outros
    individuos, esses individuos são excluidos. Comtudo a legitimidade da
    successão nos vinculos, como em outra qualquer propriedade, estriba-se
    forçosamente ou na lei civil revogavel, ou no direito natural da
    familia. N'esta ultima hypothese o vinculo repugna ao principio da sua
    propria validade. Porque veiu a succeder o Estado? O dominio residia
    n'elle? Dir-se-hia que sim. A idéa de semi-propriedade é uma idéa de
    restricção, limitativa: cumpre por isso que exista a cousa restringida,
    limitada. Concebe-se, por exemplo, perfeitamente o usofructo nos bens
    não vinculados: após o usofructuario ha sempre um herdeiro definitivo.
    Nos morgados não acontece assim. Existe á limitação sem a cousa
    limitada, se não suppozermos o Estado revestido d'aquelle dominio que
    não existe no possuidor. Em relação, pois, ao direito natural da
    propriedade a existencia dos vinculos é uma cousa incoherente,
    contradictoria, inexplicavel.

    Mas ha uma consideração ainda mais grave a oppor áquelles que invocam os
    fundamentos do direito em favor d'essa instituição. É que, para
    subsistir, ella carece absolutamente das leis de privilegio. A sociedade
    deve proteger o livre uso da propriedade e as disposições testamentarias
    em quanto ellas se conformam com o direito commum. Lei de excepção para
    taes ou taes hypotheses é que não deve nem pode admittir senão por um
    motivo que virtualmente o faça entrar na regra geral–a utilidade
    publica; e a utilidade publica só pode qualificar-se por uma declaração
    legal, por uma disposição de direito positivo. Declarada não util a
    existencia dos vinculos, o direito politico faz desapparecer
    necessariamente desde logo as leis que mantêm os vinculos. Revogadas
    estas, como se não pode conceber propriedade sem proprietario, ou o
    dominio completo dos bens de morgado será considerado como _nullius_ e
    recahirá no Estado, ou esse dominio se incorporará no meio dominio,
    convertendo-se o administrador em proprietario. Seria, com effeito,
    absurdo que qualquer individuo tivesse o direito de regular a applicação
    e uso dos proprios bens _post mortem_ por tal arte que não se houvesse
    de realisar a sua vontade sem certas disposições especiaes de direito
    positivo, e que a sociedade fosse constrangida a promulgar ou a manter
    semelhantes disposições. A soberania de tal homem excederia a da razão
    publica, unica de legitimidade indubitavel.

    A abolição, pois, dos vinculos, ou, para falarmos mais exactamente, a
    revogação das leis positivas que os protegem, e sem as quaes a sua
    existencia não se comprehende, respeita o direito de propriedade. A
    questão pode versar sobre a conveniencia ou não conveniencia do
    principio vincular, e sobre a maneira da abolição ou da conservação, mas
    nunca sobre o direito que o paiz tem de retirar o seu apoio a esta
    antiga instituição.

    Tirada, porém, a base de um direito primitivo e indestructivel, os
    defensores dos morgados appellam para o direito politico. A monarchia
    representativa consagra o principio da desegualdade social, fazendo-a
    representar pela aristocracia de berço, cuja conservação forçada deriva
    da indole do pariato hereditario. Exigindo-se para este, além de outras
    habilitações, uma renda avultada, importa que as instituições e as leis
    mantenham a perpetuidade d'essa renda, em harmonia com as que consagram
    a perpetuidade das funcções. A permanencia dos vinculos assegura esse
    resultado, ao passo que a sua abolição importa a não existencia do
    pariato hereditario.

    A lei politica estabelece o pariato hereditario e o vitalicio; mas nem
    determina a proporção de um ou de outro, nem, rigorosamente, exige a
    existencia simultanea de ambos. Não a exige, porque seria absurda essa
    exigencia. Sem as leis organicas e com a Carta na mão, o rei poderia
    substituir o par fallecido sem herdeiro que o representasse por um par
    vitalicio. Esta hypothese verificada em vinte ou trinta casos teria
    acabado com o pariato hereditario. Vice-versa o rei poderia deixar de
    supprir os logares vagos por morte dos pares vitalicios, ou tornal-os
    hereditarios e acabar assim com a não hereditariedade.

    A lei de 11 de abril de 1845, exigindo, além de outras habilitações, uma
    certa renda ao individuo que succede no pariato, levou em mira a
    manutenção da dignidade e independencia dos membros da camara alta. Ora
    essas condições não podem verificar-se com uma renda imaginaria: é
    preciso que esta seja real e effectiva. Mas são justamente os vinculos
    que menos asseguram a realidade e effectividade de semelhante renda, e
    que ao mesmo tempo offerecem mais meios para ser sophismada a letra e
    desmentido o espirito da lei. O mau administrador de morgado (e a regra
    é ser mau administrador do fundo quem não passa de pouco mais de
    usufructuario) pode reduzir-se a si proprio á miseria dentro de um ou
    dous annos, e perder a independencia e a dignidade que a lei requer
    n'elle: pode, até, transmittir ao seu successor a propria miseria,
    porque são vulgarmente sabidos os alvitres de que usa o capital, ou, se
    quizerem, a agiotagem, para illudir o principio da immunidade vincular.
    Na apparencia, porém, a renda exigida pela lei continua a subsistir: o
    fundo não desapparece: o administrador actual lá possue nominalmente
    _uma casa_ de quatro, seis ou oito contos de réis. Na verdade hoje não
    tem que almoçar, ámanhã não terá que jantar; ao seu successor acontecerá
    o mesmo; mas que importa? A letra da lei está salva: o que se annullou
    completamente foi o seu intuito, o seu espirito, a razão que a
    sanctificava. Se os bens do par fossem sujeitos á lei commum, este facto
    servir-lhe-hia de poderoso incentivo para ser um cidadão economico,
    activo e bem morigerado; porque a manutenção da dignidade de par, em si
    e n'aquelle que houvesse de succeder-lhe, dependeria d'essas virtudes,
    virtudes que aliás não deixariam de influir nas suas opiniões e no seu
    procedimento politico, e de reverterem em beneficio da republica.

    Mas admittamos por um momento que o pariato hereditario seja inseparavel
    da existencia dos vinculos. Não se segue d'ahi a necessidade de os
    conservar. É facil reformar o artigo constitucional que consagra
    simultaneamente a hereditariedade e o vitalicio no pariato, reduzindo-o
    a esta ultima fórmula. Se a abolição dos vinculos involve um grande
    interesse social, a solução mais razoavel será a suppressão da
    hereditariedade do pariato, suppressão que em nosso modo de ver
    representaria um verdadeiro progresso na organisação politica, acabando
    com uma idéa falsa.

    Esta idéa, na qual se estriba o pariato por successão, é a de que a
    aristocracia, elemento politico, é forçadamente o mesmo que a
    aristocracia de linhagem: ou, por outra, que o facto indestructivel da
    desegualdade humana se ha de manifestar eterna e quasi exclusivamente na
    fórmula dos tempos feudaes.

    É uma opinião que vale a pena de se examinar.

    V

    *Desegualdade e personalidade*

    A desegualdade natural entre os homens tem sido negada de um modo
    absoluto nos tempos modernos: tem-se empregado todas as subtilezas da
    philosophia do direito para demonstrar a possibilidade de destruir um
    facto indestructivel. Tudo nasce, em nosso entender, de se confundirem
    as idéas de diversa ordem.

    A egualdade civil não é só possivel, é necessaria. Deriva do direito
    natural que cada um tem de desenvolver a sua actividade até onde não
    impede a desenvolução da actividade alheia. Esse direito suppõe deveres
    correlativos. A sociedade existe para manter aquelle e estes. É por isso
    que o estado social é inseparavel da humanidade, e que o homem da
    natureza, sonhado por alguns philosophos do seculo passado como anterior
    á sociedade, não passa de uma chimera. Um simples exemplo fará sentir
    melhor esta incontestavel doutrina do que longas dissertações. O que,
    trabalhando, deu valor a um tracto de terra desoccupado e inculto e o
    fez fructificar, desenvolveu legitimamente a propria actividade. Se
    outrem quizer colher os fructos ou substituir-se ao primeiro occupador
    do campo agricultado exorbitará da esphera legitima da propria
    actividade, e deixará de cumprir o dever de respeitar a livre acção
    alheia. N'este exemplo se resumem e symbolisam as infinitas relações
    civis que a sociedade mantém e que correspondem ás idéas de egualdade.
    As instituições que asseguram o livre movimento do individuo dentro da
    esphera da propria acção, sejam quaes forem, são instituições de
    liberdade, porque mantém a egualdade civil.

    Mas a egualdade civil importa a desegualdade social. Outro exemplo
    tornará tambem evidente esta doutrina. Se em campina illimitada e
    fertil, mas sem dono e inculta, dous individuos occuparam dous tractos
    de terra diversos, e um d'elles dotado de maiores forças physicas, de
    melhores instrumentos, de maior energia e actividade, assignalou mais
    extensa área aos proprios esforços e accumulou maior somma de trabalho
    intelligente, e por consequencia maior somma de productos, nem por isso
    o menos forte e menos habil pode queixar-se de que elle penetrou na sua
    esphera de legitima actividade. Se pretendesse que a sociedade
    repartisse com elle uma parte dos valores creados pelo seu vizinho,
    pretenderia uma injustiça–a quebra da egualdade civil. Por outro lado,
    se o mais robusto e intelligente, pretextando a incapacidade relativa,
    physica e moral, do menos energico e menos habil, pretendesse
    apoderar-se da terra e dos instrumentos do pequeno cultivador, a
    sociedade seria injusta se lhe désse razão; se tolerasse que elle
    estendesse a esphera da propria actividade até penetrar na esphera da
    acção alheia: toleraria a quebra da egualdade civil, se não mantivesse
    cada qual na orbita que lhe fôra assignalada pelo supremo direito da
    natureza.

    Se a manutenção, porém, do livre exercicio da actividade dos vizinhos
    era n'este caso equivalente á manutenção da egualdade e da justiça, as
    consequencias que derivassem d'esse facto, e só d'elle, seriam tambem
    incontroversamente legitimas. Ora uma d'ellas, a mais importante, havia
    de ser forçosamente a desegualdade social; a desegualdade d'aquellas
    relações cujas normas se estabelecem, em parte, pelas regras a que
    chamamos direito publico, direito que a razão e a historia nos
    apresentam como mais cambiante, menos conforme no espaço, e menos
    permanente no tempo, do que as regras das relações civis. A desegualdade
    social dos dois vizinhos manifestar-se-ia em muitos factos
    impreteriveis. O que por excesso de energia e de trabalho tivesse obtido
    melhores, mais numerosos, e mais variados productos, gosaria mais, e
    necessariamente, pela intelligencia e pelos recursos materiaes,
    exerceria maior influxo no animo dos outros homens. A sua generosidade
    fora mais ampla, a sua hospitalidade mais opulenta, o seu tracto mais
    aprazivel, a sua opinião mais seguida: isto é, elle seria socialmente um
    algarismo em relação ao qual o seu vizinho representaria outro bem
    inferior. E todavia a desegualdade nascida da egualdade não offenderia o
    direito, não seria senão justiça.

    O arroteador do grande predio é o symbolo da aristocracia: como emanação
    do direito fundamental que virtualmente a gera é que esta se absolve e
    legitíma. Mas d'ahi nasce o corollario de que ella é essencialmente
    individual, personalissima. A desegualdade não é de gerações, de
    linhagens predestinadas: é de individuos. Por isso as suas manifestações
    collectivas, para serem naturaes e logicas, devem ter ao mesmo tempo o
    sello da individualidade. A aristocracia, como entidade real, é uma
    concreção necessaria, mas artificial; é a generalisação da idéa das
    desegualdades individuaes; é a incorporação das maximas forças sociaes;
    é o reconhecimento e a organisação de um facto impreterivel.

    Na verdade, superioridade social herdada e derivando do direito natural
    da familia pode em alguns casos ser legitima; mas é accidental, e vem
    entrar em ultima analyse na regra da superioridade individual. Se o pae,
    que era um membro da aristocracia pela sua riqueza, a legar ao filho,
    este o será como seu pae, independentemente de todas as instituições
    positivas, do mesmo modo que deixará de o ser na realidade desde o dia
    em que perder essa herança, sejam quaes forem as leis que pretendam
    manter-lhe um caracter social que lhe desappareceu da fronte.

    A fórma por que adquiriu os valores, que o convertem em uma força de
    excepção, nada importa, uma vez que seja legitima. É indifferente que
    lh'os désse o trabalho, a intelligencia ou o berço. O importante, o
    indispensavel é que elle actualmente os possua: que exista um facto que
    a força bruta pode destruir, mas que a razão publica não pode deixar de
    reconhecer.

    O influxo moral de um nome illustre, herdado de antepassados, é tambem
    uma força social. Esse influxo constitue a nobreza, a qual, não sendo em
    rigor um facto indestructivel, é todavia uma realidade. A democracia,
    quando o condemna ou o nega, engana-se. O valor da _aristocracia de
    sangue_ assenta n'uma ordem de idéas extranha ao direito; procede do
    sentimento, digamos assim, poetico das sociedades, porque todas as
    sociedades tem a sua poesia. A esta luz nada mais legitimo do que a
    fidalguia; porque o senso esthetico é uma condição natural das
    sociedades civilisadas, e o orgulho pelas tradições gloriosas do passado
    constitue uma parte da sua vida moral. A nobreza de linhagem é um
    monumento do passado. Os que pretendem expungil-a da lista das
    manifestações da vida social devem por maioria de razão mandar destruir
    os tumulos dos heroes e dos sabios, e dispersar-lhes as cinzas ao vento,
    quebrar-lhes os bustos e as estatuas, arrazar os templos, os obeliscos,
    os monumentos, sejam quaes forem, que ligam as glorias do passado ao
    presente pelas recordações. Aquelle que affirma ser coisa absolutamente
    van a herança de um grande nome, não chame vandalo ao que derriba a
    quadrella da muralha ou a torre do castello antigo para calçar as ruas.
    Este não faz mais do que elle: nega a significação dos monumentos; nega
    tudo aquillo que só a poesia nacional sanctifica. N'este systema a unica
    maneira de ser rigorosamente logico é ir até aonde foi a revolução
    franceza de 1793. É necessario que ao lado das pedras, que desabam,
    rolem pelo chão as cabeças.

    O facto social, em que se estriba a aristocracia de linhagem, está,
    porém, ligado a uma condição que forçadamente dá a esta o mesmo caracter
    de personalidade, que é indelevel nas outras especies de aristocracia.
    Essa condição deriva do principio de que o poetico é inseparavel do
    moral, o bello do bom. Ora o que se eleva acima dos outros, porque
    herdou um nome venerado pela opinião, está adstricto a respeitar a
    moralidade dos seus actos para não perder essa _força_ herdada, que não
    póde existir sem a sua condição philosophica. Esta doutrina é confirmada
    plenamente pela observação practica. Os netos degenerados dos homens
    grandes, se os depojardes de todas as distincções facticias que servem
    de encobrir o vicio e a incapacidade, invocarão debalde o nome de seus
    avós como uma _desegualdade_, uma _força_, que os eleva _socialmente_
    acima d'aquelles que _civilmente_ são seus iguaes. O sentimento moral,
    que exteriormente se traduzia em consideração e respeito, desappareceu
    ao passo que a lei esthetica se annullou. Assim a nobreza hereditaria,
    dependendo inteiramente da acção do individuo, entra na lei geral da
    aristocracia–a personalidade.

    O erro dos escriptores democraticos, que entendem ser possivel a
    destruição _effectiva_ de uma classe aristocratica, procede de
    confundirem a fidalguia hereditaria com a do corpo aristocratico; de
    tomarem a especie pelo genero. É possivel que a especie chegue a
    desapparecer temporariamente, ou por degeneração moral dos individuos
    que representam as velhas linhagens, ou pela extincção d'estas; mas o
    tempo sanctificará as novas illustrações que se alevantam, e em quanto
    as nações tiverem o sentimento do bom e do bello, isto é, em quanto
    tiverem uma condição sem a qual não podem existir, a progenie d'esses
    homens summos herdará a força moral de seus nomes, e só a perderá
    destruindo-a pela _villania_ pessoal.

    Mas extincta ou existente, brilhante ou obumbrada, a fidalguia não é uma
    formula essencial da aristocracia. Para ser revalidado o protesto da
    desegualdade social em todas as gerações, não é necessaria a assignatura
    das castas; não é preciso que esse protesto seja firmado com sellos
    blasonados. O genero fica, embora a especie desappareça.

    Reflectiram bem os que dizem que as sociedades caminham á completa
    egualdade democratica, porque se facilita o caminho das mais elevadas
    situações, das mais poderosas influencias, a todas as vontades
    energicas, a todos os talentos fecundos, e porque, do fastigio das
    grandezas e do poderio, familias e individuos caem facilmente na
    obscuridade e na impotencia social? Esta observação, que muitos julgam
    profunda, não passa de uma trivialidade sem alcance. A questão é se esse
    fastigio, esse poderio, essas influencias, essas manifestações, em
    summa, da desegualdade humana desappareceram; se podem desapparecer ou
    se ha sempre, ou não ha, sujeitos em quem ellas se personalisem; se,
    collocados em situação identica e tendo interesses communs, elles
    constituem ou não uma entidade moral juxtaposta ou sobreposta á
    democracia. Eis a questão. Que importa se a preeminencia do individuo se
    explica por um testamento, por um berço, pelo genio, pelo trabalho, ou
    por um acaso feliz? Seja qual for a origem d'essa preeminencia, d'essa
    força, a sociedade pode negal-a, combatel-a, annullal-a temporariamente;
    o que não pode é impedir a sua reproducção. A desegualdade é a lei: a
    aristocracia a sua manifestação indestructivel.

    No mosaismo e no brahmismo o sacerdocio foi e é a herança de tribus ou
    de castas privilegiadas; no christianismo, porém, o sacerdocio acceitou
    sempre homens de todas as condições e hierarchias. Desde a dignidade do
    metropolita até ás humildes funcções do ostiario, que situação houve ou
    ha na igreja, a que igualmente não houvessem ou não hajam de ser
    chamados o nobre, o burguez, o filho da plebe? E todavia o clero foi por
    seculos a mais poderosa aristocracia conhecida. As tradições de
    influencia e predominio do corpo ecclesiastico perderam-se, alteraram-se
    acaso, porque não era a hereditariedade do berço que as mantinha? Não
    era e não é o corpo do clero a negação da familia, e por consequencia da
    hereditariedade? Houve nunca, especialmente durante a idade media, uma
    classe social mais compacta, mais distincta das outras, com interesses
    mais exclusivos, com uma acção collectiva mais irresistivel e incessante
    na vida das nações? O clero que combatia nos campos, nas conspirações, e
    nos parlamentos contra o poder central; que não raro o fazia ceder, e
    que o esmagava algumas vezes, valia bem mais do que essa fidalguia
    hereditaria dos ultimos seculos, que vivia das migalhas distribuidas
    pela côroa, e que, sem iniciativa nem vigor, comprava com genuflexões
    nos paços do rei a altanaria que ostentava nas ruas e praças do povo.

    Parece-nos evidente que a aristocracia, ao passo que é indestructivel
    como elemento social, é no concreto e em relação aos individuos
    essencialmente pessoal e por consequencia movel. Assim, na sua
    manifestação politica, não pode perder esse caracter que lhe é
    essencial.

    Pouco tardará a epocha em que a razão triumphe das preoccupações, a
    realidade de hoje das tradições de uma sociedade que deixou de existir.
    O pariato deve tornar-se em breve simplesmente vitalicio e talvez
    amissivel. Dado e não concedido que a existencia dos vinculos fosse uma
    condição impreterivel do pariato hereditario, a abolição d'elles não
    faria senão apressar n'esta parte convenientemente a reforma das
    instituições politicas.

    VI

    *Os vinculos garantia de liberdade*

    Demonstrado, como parece, que nem na abrogação do direito vincular se
    offende principio algum de justiça absoluta, nem a manifestação politica
    das desegualdades sociaes está ligada á existencia dos vinculos, antes
    de entrar nas difficeis questões economicas que este debate suscita,
    passemos a examinar o que ha mais grave nas objecções politicas que se
    offerecem contra a abolição d'esta fórma especial de propriedade. As
    considerações sobre as resistencias, que uma aristocracia territorial
    permanente e hereditaria pode oppôr ás demasias de um poder central
    excessivamente forte, parecem-nos fundadas, e nunca se poderão
    desprezar, em quanto o nosso systema administrativo fôr, como é, uma
    copia, mais ou menos mal delineada, do systema administrativo da França.
    Na verdade hoje a unica resistencia séria, que os abusos do executivo e
    dos seus delegados podem encontrar em certas provincias, é a d'essa
    especie de aristocracia rural, que vulgarmente se designa pelo nome de
    _cavalheiros_. A illustração e a riqueza, não excessiva mas solida,
    consistindo geralmente em bens territoriaes, pertencem principalmente a
    esta classe nos districtos do norte do reino, onde predomina quasi
    exclusivamente a pequena propriedade. Sem a fundação de municipios assaz
    vastos e poderosos, mas organisados de modo que a vastidão do territorio
    não faça com que a administração se difficulte aos administrados; sem as
    magistraturas municipaes recuperarem a força primitiva que
    successivamente perderam; sem um novo methodo de renovação d'essas
    magistraturas, que mantenha na administração dos concelhos a sequencia e
    unidade de systema e de idéas; sem se lhes restituirem as funcções que
    lhes são proprias e que a centralisação lhes traz alheadas; sem, em
    summa, restaurar a vida municipal, de que resta apenas um vão simulacro;
    o correctivo contra os abusos do poder central só pode consistir nas
    resistencias legaes e pacificas dos individuos que, pelo respeito
    tradicional do povo ao nome da sua familia, pelos recursos materiaes de
    que dispõem, pela maior cultura intellectual, pelos instinctos generosos
    que lhes inspira uma educação mais elevada, constituem um elemento
    poderoso de equilibrio. Quem tem residido nas provincias do norte ou por
    ellas viajado sabe que naquella classe é que principalmente se dão essas
    condições de superioridade individual, que suppre até certo ponto nas
    relações politicas a falta ou o incompleto das instituições locaes.

    É preciso notar aqui um facto, que ao diante havemos de ponderar mais
    detidamente. Os vinculos nas provincias do norte não tem em geral os
    mesmos caracteres que nas provincias do sul: aproximam-se mais, nas suas
    condições economicas, dos bens emphyteuticos, e não é raro achar
    individuos que se denominam morgados e que não passam de possuidores de
    prazos. Tão facil é neste ponto a confusão das cousas pelos accidentes
    externos. Em geral, o vinculo dos districtos do norte ou é instituido em
    uma ou mais propriedades de mediocre grandeza, ou em propriedades e em
    direitos dominicaes. Mas o que em todo o caso se pode affirmar é que as
    grandes fortunas vinculares são raras. Os poucos inconvenientes
    economicos dos vinculos mediocres havemos de avalial-os n'outra parte.
    Para o intuito presente o que importa é attender ás consequencias
    politicas da sua abolição. Ou mediocres em si, ou compostos de diversas
    e pouco vastas propriedades, e de censos e pensões senhoriaes, entrando
    esses vinculos no direito commum, as leis da successão e os accidentes
    da vida, que accumulam ou dissolvem mais rapidamente as pequenas do que
    as grandes fortunas, fariam desapparecer em breve a aristocracia
    provincial, e por conseguinte um poderoso elemento de resistencia ás
    demasias da auctoridade central, e uma importante garantia de liberdade.

    Mas, dir-se-ha, assim como a desvinculação, o livre movimento da
    propriedade, produziria a dissolução das fortunas e das familias
    patricias, tambem esse movimento elevaria, como já eleva, outras
    familias, crearia, como já cria, outras fortunas, e uma especie de
    aristocracia movel e pessoal substituiria a hereditaria como elemento de
    resistencia e equilibrio. Em these a resposta é concludente: o que não
    tem é applicação á hypothese.

    'Nesta, o argumento a favor dos vinculos estriba-se em factos
    transitorios e especiaes, factos que só o tempo e os progressos sempre
    lentos da civilisação moral e material podem destruir. De certo os
    vinculos não são de um modo absoluto obstaculo ás demasias do poder
    nesta especie de organisação plethorica, de apoplexia administrativa
    eminente em que vivemos. São-no relativamente. A restauração da vida
    municipal, a descentralisação bem caracterisada; seria o remedio natural
    e completo contra os excessos do executivo. Com elle, não só a
    aristocracia permanente e hereditaria, mas tambem a individual e movel
    seriam inuteis como obstaculos ou instrumentos de equilibrio. Mas
    tracta-se do presente, e no presente as condições da nossa sociedade dão
    todo o valor ás considerações politicas em que os defensores dos
    vinculos estribam a manutenção delles.

    A riqueza maior ou menor não basta para que o cidadão saiba, queira e
    possa defender o seu direito ou erguer a voz a favor do opprimido. É
    necessario que a educação o habituasse a uma nobre altivez ou á
    independencia moderada mas firme do homem livre, e que a cultura do
    intendimento o habilitasse para discernir e apreciar os proprios
    direitos e deveres, e os direitos e deveres dos agentes do poder. Ora
    esses dotes, nos districtos da Beira, Traz-os-Montes e Minho, dão-se
    principalmente entre os cavalheiros, que, alem das idéas que lhes
    inculcam na educação domestica, frequentam de ordinario os estudos
    juridicos, e que, ainda abandonando a cultura das letras, não perdem
    nunca, digamos assim, o verniz litterario e as idéas geraes que
    adquiriram na universidade; porque a universidade, com todos os seus
    defeitos, ainda é o foco d'onde irradia a luz da civilisação
    intellectual para a maxima porção do paiz. Os advogados, os
    facultativos, um certo numero de ecclesiasticos, e os administradores de
    vinculos, constituem quasi exclusivamente a classe illustrada das
    provincias sertanejas. Na verdade, o filho de um ou de outro lavrador
    mais abastado, de um ou de outro industrial ou commerciante, recebe a
    educação universitaria, e despido de ambições honra-se de seguir a
    condição paterna; mas o geral d'estes busca na carreira das letras uma
    situação mais elevada ou pelo fôro ou pela medicina ou pelas funcções
    publicas. Os possuidores de direitos territoriaes ou de predios assaz
    consideraveis para não serem obrigados a cultival-os pelas suas proprias
    mãos, e para não procurarem um supprimento de renda pelo exercicio de
    uma profissão scientifica, são quasi unicamente os administradores dos
    vinculos. 'Nelles reside, por tanto, e residirá por muito tempo a
    principal força de resistencia, a quasi unica barreira que encontra uma
    centralisação excessiva.

    Nos districtos sertanejos, nesses tractos do paiz onde vive a maxima
    parte da sua população, só muito excepcionalmente apparecem os grandes
    capitaes monetarios, as grandes industrias, o grande commercio, e, como
    já dissemos, nos do norte até é rara a vasta propriedade. Não ha, por
    consequencia, ahi as poderosas influencias pessoaes que resultam de
    factos puramente economicos. As grandes influencias só podem proceder de
    se darem no mesmo individuo condições de diversa ordem–a superioridade
    da intelligencia, a superioridade da fortuna, a superioridade de um nome
    illustre que o povo está costumado a venerar, e a elevação de animo
    resultado da educação domestica, elevação de que é consectario o valor
    civil indispensavel para defender a liberdade e os outros direitos, ou
    proprios ou dos pequenos e humildes. Com a ruina das familias nobres
    essas influencias salutares desapparecerão quasi completamente, e o
    imperio das portarias e das circulares não achará limites.

    O celebre dr. Johnson, fallando das substituições inglezas, dizia que
    tinham a vantagem de não produzirem senão um tolo em cada familia. O dr.
    Johnson fazia um epigramma de mau gosto, porque era falso. A historia
    diplomatica, militar, naval, administrativa e parlamentar da Inglaterra
    prova que os primogenitos da aristocracia ingleza podem ser tanto homens
    grandes como os segundo-genitos, ou como os filhos da raça puramente
    saxonia. Entre nós o epigramma do dr. Johnson é uma preoccupação
    popular, preoccupação que invade até espiritos que tinham obrigação de
    serem superiores a ella. A idéa da incapacidade dos administradores de
    vinculos é tão verdadeira como a da ignorancia e imbecilidade mental dos
    cistercienses, que não eram nem mais ignorantes nem mais imbecis do que
    outros quaesquer frades. Os que tem visitado os districtos interiores do
    reino sabem por experiencia que é no seio das familias aristocraticas
    onde se encontram mais vestigios do que o antigo caracter portuguez
    tinha generoso, elevado e bom, e onde se acha mais illustração, embora
    misturada com os preconceitos nobiliarios. É nessa categoria que
    predomina uma benevolencia efficaz e real para com as classes
    inferiores, benevolencia muito mais rara entre a duvidosa burguezia
    saída d'essas mesmas classes.

    Esta burguezia das provincias, considerada em geral, está longe por
    emquanto de ser uma forte barreira aos excessos da auctoridade central.
    Os seus destinos politicos tem de ser grandes quando existirem no paiz
    instituições congenitas com a indole das tradições primitivas d'elle;
    quando nos cançarmos de traduzir _ad usum_ administração franceza em
    portuguez bastardo. Por emquanto faltam-lhe os principaes elementos dos
    que constituem a força da opinião e o espirito publico; falta-lhe a
    cultura intellectual, que nos habilita para irmos até ás raias do nosso
    direito sem as ultrapassar; falta-lhe o orgulho da independencia, que
    está principalmente na consciencia e no caracter. Tudo isto tem
    excepções, e excepções notaveis; mas fallamos da regra geral. A
    burguezia mais ou menos opulenta das provincias, e sobretudo dos
    districtos do centro e do norte, forma-se pela pequena industria, pelo
    commercio de retalho, e pelos mediocres grangeios agricolas. Fóra das
    duas cidades mais populosas, as grandes fabricas, as vastas emprezas
    commerciaes, em summa, as applicações de avultados capitaes e a
    existencia d'estes na mão de um individuo, são cousas raras. Mas é acaso
    de esperar d'aquelle, que começou obscura e quasi pobremente a edificar
    uma fortuna modesta pelo trabalho, pela parcimonia, pelos habitos da
    obediencia passiva, quasi da subserviencia, sem educação politica, sem
    educação litteraria, sem idéas geraes, e que depois de vinte ou trinta
    annos de esforços, de prudencia, de abnegação, de sacrificios moraes e
    materiaes, creou uma riqueza, que aliás poderia servir-lhe de esteio, e
    inspirar audacia para manter a dignidade e independencia de cidadão de
    um paiz livre; é de esperar, dizemos, de tal homem que lhe chegue tão
    tarde o sentimento e a convicção profunda do seu direito e o valor
    politico para o fazer respeitar do poder? Que o leitor busque a resposta
    na sua razão, e, ainda melhor, na sua experiencia.

    Para nós é grave, pois, a questão da existencia ou não existencia de uma
    especie de aristocracia provinciana, que tenha, em geral, por titulo da
    sua preponderancia o nome, a educação, e a fortuna, em quanto o
    municipio fôr entre nós pouco mais de que um vão nome, ou de que uma
    tapeçaria das salas administrativas. É grave essa questão, porque são
    ainda graves, ao menos para nós, as questões da liberdade e da dignidade
    humanas. Quando as resistencias d'essa aristocracia aos excessos a que
    tende naturalmente uma centralisação exaggerada fossem demasiado
    egoistas, e nunca servissem de egide ás classes democraticas
    desorganisadas e opprimidas, quereriamos mantel-a como protesto, como
    laço entre as tradições do passado e a organisação do futuro. Se a
    historia serve para alguma cousa, lembremo-nos de que o absolutismo se
    erguia em Portugal á altura de uma instituição quando a um chefe da
    aristocracia do paiz rolava a cabeça pelo cadafalso, e outro cahia
    apunhalado aos pés d'aquelle monarcha, tão caro a uma democracia
    inintelligente, que substituiu a vontade real, como principio politico,
    ao rude esboço de monarchia representativa com que a sociedade
    portugueza vivera e progredira durante mais de tres seculos. Diminuir as
    resistencias individuaes ao absolutismo do executivo, em quanto se não
    criam resistencias collectivas, é um erro profundo. Direitos, que não
    tem força para se traduzirem em factos, são, por nos servirmos de uma
    phrase de Shakespeare, palavras, palavras e mais palavras. São isto, e
    nada mais.

    VII

    *Difficuldades moraes e economicas na abolição dos vinculos*

    Se considerações de ordem politica parece aconselharem a manutenção
    temporaria dos pequenos mas numerosos vinculos das provincias do norte,
    na questão practica da abolição da propriedade vincular suscitam-se
    dificuldades de ordem economica e de ordem moral, que tendem
    indirectamente a manter uma instituição, a qual, absolutamente
    considerada, não tem motivo nenhum racional de existencia. A apreciação
    d'essas difficuldades deve influir nas resoluções que se hajam de tomar
    sobre tão grave assumpto.

    Supponhamos que abolimos os vinculos; que fazemos entrar essa parte de
    propriedade territorial no direito commum; que lançamos esse capital
    immobilisado no vortice das evoluções economicas, fazendo-o mover
    livremente por toda a esphera da sua acção. Foi, em these, um
    melhoramento social importante. Falta o modo practico de conseguir esses
    resultados salutares.

    A lei proclamou que o principio vincular pereceu; que o direito commum
    rege toda a propriedade. Mas não basta proclamar a regra geral: é
    preciso ver o modo de a applicar aos factos.

    Quaes são estes factos?

    Até agora havia certa especie de propriedade, em que uma porção de
    dominio pertencia não sabemos a quem (porque o considerar como
    co-proprietarios os _successores_, entidades contingentes, não passa de
    uma subtileza juridica), e outra porção d'esse dominio, que se confunde
    quasi com o usofructo, pertencia a um individuo chamado administrador de
    morgado. É esta fórmula da propriedade a que deixou de existir.

    O administrador do morgado passou a ser proprietario d'aquillo de que
    era pouco mais que usufructuario: pode hypothecar, doar, vender,
    emprazar, testar, como outro qualquer possuidor de bens allodiaes. Este
    facto, porém, deve forçosamente produzir consequencias juridicas e
    economicas.

    A primeira é para o Estado. O Estado é sempre, ao menos potencialmente,
    um dos successores, mas successor que existe já, que não é uma entidade
    contingente. Extincta a linha chamada pelo instituidor, o herdeiro
    definitivo é o Estado, que não morre, ao passo que as linhas
    successorias vem mais tarde ou mais cedo a extinguir-se. Convertendo o
    vinculo em bens livres, a sociedade despojou-se de um direito em
    beneficio de um homem que não tem motivo nenhum especial para
    beneficiar.

    Os vinculos tem encargos pios, que, ou pela propria instituição ou por
    effeito de providencias legislativas, revertem muitas vezes em beneficio
    de instituições, cuja existencia as doutrinas economicas não podem
    condemnar. Seja qual for a resolução que se tome a este respeito
    abolindo-se os vinculos, ou a propriedade que se quiz fazer allodial
    ficará forçadamente censitica, ou serão espoliados os institutos de
    caridade.

    Embora os jurisconsultos considerem ou não os bens vinculados como
    hypotheca dos alimentos dos irmãos do administrador, o que é certo
    economicamente é que esses alimentos constituem uma renda, e que essa
    renda é representada necessariamente por um capital incluido na somma
    dos bens vinculados, porque as subtilezas juridicas não alteram a
    essencia das cousas. Desvinculados aquelles bens, ficarão as pensões dos
    segundo-genitos consideradas como onus e seguindo os bens atravez de
    todas as phases de venda, emphyteuticação e hypotheca? Qual será o valor
    de troca dos predios gravados por pensões cuja duração é indeterminada?
    Serão os segundo-genitos espoliados dos alimentos para tornar a
    propriedade inteiramente livre?

    Á luz economica, a utilidade real do administrador era poder, em quanto
    vivo, consummir a renda liquida do vinculo, excepto a parte destinada
    aos encargos. Rigorosamente, ao menos em grande numero de hypotheses, as
    pensões dos segundo-genitos representando uma renda e correspondendo a
    um capital estavam no caso da renda fruida pelo administrador. Porque,
    pois, não entregar aos segundo-genitos como allodiaes porções de bens ao
    menos equivalentes ao capital das respectivas pensões? Porque ha-de a
    lei favorecer desegualmente o mais velho convertendo-o só a elle em
    proprietario? Não repugna esse facto a um dos motivos que se invocam
    para a abolição–a desegualdade de direitos entre os irmãos? Desde que a
    lei reconhece que essa desegualdade é uma injustiça pode reservar a
    reparação d'ella para a geração seguinte?

    Mas juncto a este direito ha outro direito antinomico, inconciliavel com
    elle. É o do immediato successor. Salvos os raros casos da lenta
    devolução ao Estado, o vinculo sempre tem um successor immediato, porque
    a successão vai até o millesimo gráu de parentesco. O nascimento deu a
    esse individuo, quem quer que seja, o direito de succeder integralmente
    no morgado, embora onerado com alimentos. Desde que a obrigação de os
    solver cessar, por morte dos pensionistas ou por outra qualquer
    circumstancia, a fruição d'essa parte da renda liquida será sua. Se,
    reduzidos os bens vinculados a allodiaes, uma parte d'esses bens tiver
    passado aos irmãos do antecedente administrador, elle será espoliado do
    seu direito n'essa parte pela lei.

    Estatuindo-se, porém, que a applicação d'esta sómente se verificasse por
    morte do administrador actual, evitar-se-hiam esses inconvenientes? Não
    por certo. O direito do successor existe já durante a vida do
    administrador. Como pois serão partiveis os bens entre elle e seus
    irmãos sem offensa grave do anterior direito, sem uma espoliação? Na
    verdade, em relação á sua legitima elle passa a possuir com pleno
    dominio; mas servir-lhe-ha isso de compensação ao que perde? Estribado
    n'um direito que as leis lhe garantiam, achou-se collocado n'uma
    situação social accorde com os seus futuros recursos. Educação, habitos,
    profissão, relações de familia, tudo foi calculado para elle ou por elle
    á luz d'esse direito. Sem culpa sua, a sociedade retira-lhe, digamos
    assim, a base da sua vida civil. Será isto justo? A lei que proclamou
    como iniqua a indivisibilidade dos vinculos, e que todavia a manteve em
    beneneficio do administrador, no momento em que a morte d'este chama o
    successor a uma situação perfeitamente identica cessa de tolerar a
    iniquidade que tolerou até ahi.

    Removendo o facto da abolição para a epocha da morte do immediato
    successor, uma parte d'estes inconvenientes da ordem moral poderiam
    evitar-se; mas nem se evitariam todos, nem a abrogação do principio
    vincular teria grande importancia. Apenas indicámos aqui uma parte das
    difficuldades que cumpria resolver, conforme á consciencia e á justiça,
    em relação á familia. Muitas se apresentariam ainda quando a
    transformação do direito e do facto houvessem de verificar-se n'uma
    epocha mais remota. Legislar, porém, sobre factos economicos, que só
    poderiam realizar-se depois de quarenta ou cincoenta annos, parece-nos
    absurdo. Suppondo a media da vida humana de 30 annos, e portanto a media
    da vida que resta aos administradores actuaes de 15, pode tambem
    calcular-se a media da extincção de todos os administradores e
    immediatos successores em 45 annos. O que é incalculavel é o progresso
    que terão feito n'este periodo as idéas politicas e economicas, e a
    relação em que estaria uma lei actual de desvinculação com essas idéas e
    com o estado da sociedade: podendo-se affirmar, sem receio de erro, que
    no fim de tão largo periodo uma tal lei seria obsoleta antes de ser
    applicada.

    Depois, a solução da questão dos vinculos é uma instante necessidade.
    Este modo de ser da propriedade, conservado sem modificação, embaraça
    profundamente o progresso economico, ao menos n'uma parte do reino.
    Veremos adiante como a nossa situação exige que se pense attentamente na
    maneira por que a população está distribuida pela superficie do paiz, e
    o movimento que cumpre dar á translação e divisão da propriedade
    rustica. Os vinculos são um grande obstaculo á satisfação d'essa
    necessidade, e o unico modo legal de desvincular a propriedade–a
    subrogação–não corresponde ás exigencias da situação presente, antes a
    contraría como teremos occasião de observar.

    Mas a jurisprudencia que regula as subrogações é sobretudo immoral e
    antieconomica. A subrogacão faz-se, em regra, por inscripcões ou
    apolices de divida fundada, e o que se exige n'esse contracto é o
    equivalente não do capital mas da renda. A renda media da propriedade
    territorial não excede a tres por cento, em quanto a das inscripções é,
    ainda hoje depois de reduzido o juro, de seis a sete por cento, visto
    que o valor nominal das apolices é mais que duplo do seu valor de
    mercado. Assim 47$000 réis em dinheiro, convertidos n'uma apolice de cem
    mil réis, crearão uma renda de 3$000 réis; em quanto, convertidos em
    propriedade territorial, apenas darão 1$410 reis. Trocado por
    inscripções o predio, resta portanto um capital de mais de metade do
    valor d'esse predio, de que o administrador de vinculo parece poder
    livremente dispor. Como, porém, taes actos para serem válidos necessitam
    da acquiescencia do successor do vinculo, cumpre repartir com elle: e se
    o successor é menor, recorre-se não raro á corrupção para obter o
    consentimento dos seus tutores e curadores; porque a subrogação por
    inscripções é sempre para elle um mal. O remanescente divide-se de
    ordinario entre o novo proprietario e o administrador; porque, em regra,
    semelhantes transacções são feitas debaixo da pressão de necessidades
    urgentes: o luxo, o jogo, as devassidões, a miseria são as mais das
    vezes os conselheiros d'estes deploraveis negocios, e a situação mais ou
    menos apurada do possuidor do vinculo determina as deducções mais ou
    menos fortes a favor do capitalista. Raras vezes acontece reverter
    integralmente o agio da transacção em beneficio do primeiro.

    A lei em que se estriba esta especie de contractos não pertence á nossa
    epocha. É o alvará de 13 de maio 1797, que permitte a subrogação por
    apolices. Semelhante meio de aggredir as instituições vinculares não é
    uma transacção entre o passado e o futuro, porque estas podem e devem
    fazer-se quando grandes e radicados interesses se oppõem a uteis
    innovações: é apenas uma astucia indigna de figurar na jurisprudencia de
    nações livres. Se entendeis que não existe outro meio de libertar a
    terra vinculada se não destruindo absolutamente os vinculos, matae-os,
    mas não os _assassineis_. Os expedientes da timidez são os peiores de
    todos. N'este meio capcioso não ha, porém, só isso: ha outros
    inconvenientes não menos graves. É o primeiro o jogo de bolsa, a
    agiotagem dos fundos publicos feita pela lei; é a creação de um elemento
    de falso credito. Milhares de contos de inscripções, procurados
    successivamente no mercado, e procurados para se amortisarem, para não
    voltarem a elle, tem contribuido e contribuem de certo para a elevação
    do preço dos titulos de divida fundada. Mas essa elevação, que em regra
    é um indicio de credito, deixa de o ser n'este caso, porque a procura
    significa, não a confiança, mas a necessidade creada pela lei. Na compra
    pelo capitalista e na venda immediata que este faz ao administrador de
    vinculo a troco da propriedade territorial, ao primeiro não importa o
    que lhe custam os titulos que compra, nem a sua futura depreciação, em
    quanto o segundo, indifferente até certo ponto a isso, visto que só lhe
    interessa a manutenção do juro e a regularidade do pagamento d'este,
    considera como uma vantagem o trocar a propriedade por titulos o mais
    depreciados que for possivel, porque maior será o seu lucro individual
    n'aquella operação, operação que desmente as leis do mercado, por isso
    que é essencialmente viciosa.

    A procura dos fundos publicos, resultado de especulações livres,
    podendo, em resultado de outras especulações, converter-se brevemente em
    offerta, não incita os governos a abusarem do credito; ao passo que a
    procura das apolices para subrogações é um incitamento para novas
    emissões, e portanto um meio de facilitar o augmento da divida do
    Estado. Averbadas nos titulos dos vinculos, essas inscripções
    immobilisaram-se, e o governo pode ir substituindo-as gradualmente com
    diversos pretextos, sem que o mercado se resinta, ao menos de um modo
    facil de appreciar, do augmento da divida publica. Por ventura esse
    unico pensamento explica o alvará de 1797.

    Não são os administradores de moderados vinculos, que os cultivam por si
    proprios em todo ou em parte, e a quem o modico rendimento d'elles
    obriga a viver longe dos grandes centros da população e do luxo, os que
    de ordinario recorrem a estas transacções deploraveis. São, por via de
    regra, os donos de grandes casas, os cortesãos, os titulares, os homens
    para quem os habitos de uma vida dissipada ou luxuaria se converteram em
    segunda natureza, os opulentos possuidores dos vastos predios do sul,
    incapazes não raro de se dedicarem a uma administração complicada e
    trabalhosa, que mal se accommoda com a sua educação; são de ordinario
    estes, quando a desordem dos seus negocios os tem collocado em
    difficuldades insoluveis, que se precipitam na voragem das subrogações.
    Não faltam exemplos de ser o lavrador abastado, o proprio rendeiro do
    predio destinado á subrogação, quem se aproveita das circumstancias para
    se apoderar do solo onde exerce a sua industria. Succede isto quando
    elle casualmente vem, n'uma conjunctura de angustia, tentar com o cumulo
    das suas lentas economias a miseria ostentosa do administrador
    arruinado. 'Nesta hypothese o mal das subrogações é menor. Na verdade
    aquelle capital, accumulado por privações, por honestos e longos
    esforços, seria mais utilmente empregado em augmentar as forças
    productivas do solo; mas ao menos o industrial agricola consolida a
    propriedade com o trabalho, e as novas economias irão d'ahi ávante
    preencher fins mais positivos para a sociedade. É, todavia, commum esta
    hypothese? Não por certo. O desperdicio, o luxo, as noites febris do
    jogo, os affectos de bastidor, as vãs ambições da vaidade, os extravios
    de um sensualismo que a saciedade leva até o delirio; as paixões ruins
    em summa, que arruinam tantas familias das classes mais elevadas, só
    raramente consentem que nos cataclysmos das grandes fortunas vinculares
    aquella hypothese se verifique. É o cabedal monetario do especulador, a
    quem, não sabemos se com justiça, se dá o nome insultuoso de agiota, o
    que vai de ordinario trocar-se pela propriedade territorial. A razão é
    obvia. O capitalista está sempre prompto para empregar dinheiro n'uma
    transacção vantajosa, e elle sabe que o desleixo, a incapacidade, ou os
    vicios dos administradores dos vinculos são campos feracissimos para a
    especulação.

    Mas posto que a abolição completa dos morgados, ainda que fosse em
    virtude de uma lei irreflectida e imprevidente, valesse mais que a
    existencia d'elles com o systema da destruição lenta pelo meio indirecto
    das subrogações, é certo que a abolição traria tambem, em muitos casos,
    ou uma difficuldade insoluvel, ou uma vantagem para os mutuantes de
    capitaes, que não seria menos immoral do que as subrogações, porque
    equivaleria a uma espoliação dos mutuarios. Fallamos do que succederia a
    respeito dos vinculos, cujos administradores contrahiram dividas mais ou
    menos avultadas, ficando hypothecados á divida os rendimentos dos bens
    vinculares durante a vida d'elles, ou d'elles e dos immediatos
    successores, se os ultimos intervieram no contracto com o seu
    assentimento.

    Diz-se que a agiotagem mais infrene preside commummiente a esta especie
    de negocios. Cremos que nisto ha pelo menos exaggeração. De certo que o
    juro de ura emprestimo de tal ordem deve ser avultado; mas pode ser
    avultado sem ser excessivo. Não ha ahi só a renda do capital mutuado: ha
    um juro de risco. É evidente que a restricção legal de passarem livres
    aos successores os bens vinculados pode modificar de mil modos as
    condições do mutuo. Na hypothese de intervir no contracto o immediato
    successor, o risco é menor mas não deixa de ser grandissimo. A garantia
    é dupla, mas egualmente incerta: é a instabilidade de duas vidas em
    logar da de uma. Depois, a idade mais ou menos avançada do administrador
    do vinculo, ou d'este e do successor quando o successor intervem, os
    seus habitos de maior ou menor dissipação, a existencia de outras
    dividas, a deterioração dos bens vinculados e por consequencia a
    diminuição gradativa do rendimento; esses factos e dezenas de outros
    analogos determinam a maior ou menor elevação do juro em contractos que,
    considerados de um modo absoluto, seriam altamente usurarios, mas que as
    poucas probabilidades do pagamento integral talvez plenamente
    justifiquem.

    Mas como se representa esse juro de risco? Uma lei inepta, impotente
    sempre para impedir a usura, e que, taxando o lucro do capital, não
    discrimina as circumstancias que o devem fazer variar, fixa ao dinheiro
    determinado preço para todas as hypotheses. A necessidade, porém, e o
    capital são astutos: o capitalista e o administrador do morgado sabem
    como se illude a lei. O juro de risco representa-se no capital e no juro
    da parte nominal d'este. Quando se recebe uma somma, o contracto
    refere-se ao duplo; a mais ou menos, conforme o valor do dinheiro, a
    gravidade do risco, a necessidade do mutuario e a consciencia do
    mutuante. A transacção, respeitando na apparencia a lei, ludibria-a na
    essencia: sorte de todas as leis civis, que radicalmente contradizem as
    economicas.

    Qual é, porém, a consequencia d'estes factos, que constituem a historia
    da avultadissima divida que grava os vinculos? É que uma parte d'essa
    divida representa apenas um juro e juro de risco. No contracto que lhe
    deu existencia houve um verdadeiro jogo sobre um calculo de
    probabilidades. O capitalista arriscou-se a perder a somma que realmente
    emprestou, recebendo como premio no caso de amortisação o capital
    nominal, além dos juros legaes; a eventualidade d'esse premio
    equilibrou-se portanto com a possibilidade da não amortisação. Entre as
    vantagens e as desvantagens deu-se a mutua compensação.

    Desvinculae, porém, a propriedade vincular e sujeitae-a ao direito
    commum. Em relação ás dividas que pesam sobre ella violaes um contracto,
    irregular na verdade, mas irregular porque as leis que sanctificavam a
    exempção hereditaria dos vinculos, e as que fixavam o juro do
    emprestimo, o tornavam tal forçadamente. Supponde illicitas, criminosas
    as transacções d'esta especie: considerae, se quizerdes, o mutuante como
    usurario e o mutuario como prodigo. A desvinculação pune este e premeia
    aquelle. A divida nominal, escripta no contracto, é uma; a real é outra.
    O mutuante receberá, porém, ou por execução ou por outro qualquer modo,
    o valor expresso. O que terá desapparecido é a desvantagem do risco.

    A iniquidade é flagrante, e tem-se reconhecido que o é. Como meio de a
    evitar lembram-se varios arbitrios para restringir a acção do credor
    sobre os bens desvinculados. De todos esses arbitrios o mais simples e o
    que parece mais justo e exequivel é o de considerar taes bens como ainda
    vinculados em relação ás dividas contrahidas, limitando-se o direito do
    credor á percepção da renda, durante a vida d'aquelle ou d'aquelles que
    contrahiram o encargo, se n'este periodo não se verificar a amortisacão
    completa. Mas qual será o resultado d'esta nova situação d'aquella
    especie de propriedade? A quasi impossibilidade da alienação. Ninguem
    compraria um predio cuja renda está hypothecada por um periodo
    indeterminado (e a que, portanto, não se pode fixar o valor) senão por
    um preço infimo, que salvasse todas as eventualidades, e que o vendedor
    não acceitaria. A transacção só poderá effeituar-se com o proprio
    credor; mas este, certo de que é impossivel a competencia, ha-de levar
    as suas pretensões até onde chegar a possibilidade de se realisarem as
    vantagens que aliás lhe dá o proprio direito. Assim a transacção tem de
    ser forçosamente lesiva para o vendedor; lesiva a ponto de impedir a
    alienação, ou de se realisar a expoliação que se pretendera evitar.

    A consequencia ordinaria de tal arbitrio seria, pois, a immobilidade dos
    bens ainda depois de desvinculados; ou, por outra, a desvinculação pelo
    que respeita aos grandes morgados, sobre cujos redditos pesam
    avultadissimos encargos e que são os mais numerosos, não alteraria as
    principaes condições da sua existencia actual que justificam a abolição.
    O livre movimento do dominio territorial, a subdivisão da propriedade, o
    desenvolvimento da população e da cultura, o augmento das sizas; tudo
    isso ficaria, em regra, suspenso até á morte dos individuos pessoalmente
    responsaveis pelas dividas. É outra vez o adiamento, que parece
    tornar-se inevitavel desde que, partindo da idéa da abolição absoluta,
    se pretende legislar sobre a propriedade privilegiada, na qual o
    interesse publico exige modificações immediatas.

    VIII

    *Os vinculos considerados em relação á grande e á pequena propriedade, á
    grande e á pequena cultura*

    Antes de debater em relação a Portugal uma questão ventilada com ardor
    na Europa ha mais de um seculo, a da grande e da pequena propriedade,
    consideremol-a successivamente como resolvida em favor de um e de outro
    systema, e indaguemos que influencia possa exercer no predominio de um
    ou de outro a conservação ou a abolição dos vinculos. Vendo-os a esta
    luz, os que defendem a sua manutenção presuppõem a grande propriedade
    como ligada á grande cultura, e a grande cultura como preferivel á
    pequena. Os que sustentam a abolição presuppõem vantajosa a divisão
    indefinita da propriedade, embora acompanhada da pequena cultura, que em
    regra é a consequencia da subdivisão illimitada do solo, e ácerca de
    cujas vantagens variam as opiniões d'aquelles mesmos que mais
    ardentemente desejam a suppressão de todas as instituições tendentes a
    impedir a livre divisão do solo.

    Os que, preferindo os vastos predios e a grande lavoura aos pequenos
    casaes, cuja cultura principalmente se caracterisa pelo trabalho braçal,
    vêem nos vinculos um meio poderoso de manter o systema agricola que
    suppõem mais vantajoso, podem acaso invocar em seu abono os factos?
    Podem invocal-os os que pensam de modo contrario? Comecemos pelos
    exemplos do nosso paiz, que são os primeiros que nos importa estudar.

    Já n'outra parte nos referimos á differença profunda que se dá entre os
    vinculos das provincias septemtrionaes e os das provincias meridionaes
    do reino. Nos districtos do norte a constituição moral dos vinculos é a
    mesma dos vinculos situados nos districtos do sul; mas a sua
    constituição material é diversa. Em geral os vinculos do norte são
    constituidos, em relação á propriedade territorial, n'um maior ou menor
    numero de predios de dimensões taes que a designação de latifundios lhes
    seria inteiramente inapplicavel. São quintas, casaes, bouças, campos;
    nunca ou raramente uma granja, uma herdade analoga áquillo a que damos
    estes nomes nos districtos do sul. O senhorio directo de predios
    emphyteuticos e os censos completam para o administrador do morgado o
    cumulo da renda territorial. Todas as fórmas de exploração agricola se
    manifestam n'aquella multidão de propriedades vinculadas: a cultura
    directa, a parçaria, o arrendamento, o colonato. Discorrei pelo Minho.
    Certos edificios nas villas, nas aldeias, mais grandiosos, ornados de
    pedras-d'armas, hão-de revelar-vos a existencia de centenares de
    morgados: mas os campos e a sua cultura, as quintas e as suas dimensões
    não vos dirão nada; porque a allodialidade, a emphyteuse, o vinculo na
    sua influencia sobre a agricultura não imprimem aos campos caracteres
    especiaes que distingam estas diversas especies de propriedade, ou
    diversifiquem as culturas.

    Penetremos agora no Alemtejo, sobretudo no Alemtejo central e
    meridional. Como o Minho é o typo da propriedade e da cultura
    septemtrionaes do reino, o Alemtejo é o typo mais acabado da propriedade
    e da cultura meridionaes. As outras provincias são a transição entre os
    dous extremos. Como o Minho é a terra classica da subdivisão
    territorial, o Alemtejo é a terra classica dos latifundios. Grande parte
    d'estes latifundios pertencem a importantes morgados; mas o resto
    constitue geralmente propriedades allodiaes, sendo os prasos n'aquella
    provincia, em contradicção com o que succede no Minho, apenas uma
    excepção rara, e ainda assim caracterisados ás vezes pela indole geral
    da propriedade no Alemtejo–a extensão demasiada. Um systema de cultura
    uniforme é applicado ahi sem distincção aos predios livres e aos
    vinculados.

    Na Extremadura e na Beira occidental, mas principalmente na Extremadura,
    predomina a cultura media e a propriedade media, se exceptuarmos as
    margens do Tejo desde a Barquinha até perto de Lisboa, onde a extensão
    da propriedade, como na Beira-baixa, annuncia, por assim nos
    exprimirmos, a aproximação do Alemtejo. Mas, no meio de todos estes
    cambiantes nas dimensões dos predios rusticos, vemos os vinculos
    amoldarem-se a todas as fórmas de propriedade e de cultura, e
    amortizarem em si a quinta, o casal, a granja, o praso, a horta, o
    pinhal, o montado, a charneca interminavel; com a mesma facilidade com
    que se amoldam ás manifestações extremas da grande e da pequena
    propriedade e da pequena cultura.

    Que se infere d'estes factos? Que outras causas alheias á instituição
    vincular determinam a maior ou menor vastidão dos predios rusticos e o
    seu systema de grangeio. Umas são puramente historicas, outras
    juridicas, outras agronomicas, outras economicas. Não queremos dizer com
    isto que a instituição não influa, n'um ou n'outro caso, no facto de
    maior ou menor dimensão dos predios, e na sua situação agricola; mas
    cremos que de todas as causas esta é a menos importante. Desejariamos
    que os defensores da manutenção dos vinculos como garantia de grande
    propriedade nos explicassem a existencia dos vastos allodios do
    Alemtejo, a sua força de cohesão contra os effeitos do direito commum da
    successão, pelo engenhoso expediente dos _quinhões_, de que n'outra
    parte teremos de falar. Esses predios estão provando que não é
    necessario o principio vincular para impedir a disgregação das grandes
    propriedades rusticas; que o interesse individual bem ou mal avaliado,
    as condições do solo e clima, a natureza das culturas dependentes
    d'essas condições, o estado economico do respectivo districto, e, até,
    os habitos e preconceitos, podem assegurar a união de amplos tractos de
    terra, embora deixe de existir uma instituição que o espirito publico
    reprova, por motivos que, posto sejam especiosos ás vezes, são em grande
    parte subejamente justificados.