Categoria: Portugues

  • DevOps na prática – entrega de software confiável e automatizada

    DevOps na prática – entrega de software confiável e automatizada

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    © Casa do Código Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei nº9.610, de 10/02/1998.

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    Casa do Código Livros para o programador Rua Vergueiro, 3185 – 8º andar 04101-300 – Vila Mariana – São Paulo – SP – Brasil

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    Casa do Código "Para meu pai, que me introduziu ao mundo da computação e é meu exemplo de vida.”

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    Casa do Código Prefácio Jez Humble Pouco depois que me formei na universidade em 1999, eu fui contratado por umastart-upem Londres. Meu chefe, Jonny LeRoy, ensinou-me a prática de implantaç ão contínua: quando terminávamos uma nova funcionalidade, fazíamos alguns testes manuais rápidos na nossa estaç ão de trabalho e, em seguida, copiávamos osscriptsASP relevantes por FTP para o servidor de produç ão – uma prática que eu não recomendaria hoje, mas que teve a van- tagem de nos permitir mostrar novas ideias para nossos usuários muito rapi- damente.

    Em 2004, quando entrei naThoughtWorks, meu trabalho era ajudar em- presas a entregar software e eu fiquei chocado ao descobrir que prazos de me- ses ou mesmo anos eram comuns. Felizmente, tive a sorte de trabalhar com várias pessoas inteligentes em nossa indústria que estavam explorando for- mas de melhorar estes resultados, ao mesmo tempo aumentando a qualidade e melhorando a nossa capacidade de servir nossos usuários. As práticas que desenvolvemos também tornaram a vida melhor para as pessoas com quem estávamos trabalhando (por exemplo, não precisávamos mais fazerdeploys fora do horário comercial) – uma indicaç ão importante de que você está fa- zendo algo certo. Em 2010, Dave Farley e eu publicamosEntrega Contínua, onde descrevemos os princípios e práticas que tornam possível entregar pe- quenas alterações incrementais, de forma rápida, barata e com baixo risco.

    No entanto, o nosso livro omite os detalhes práticos do que você re- almente precisa para começar a criar uma pipeline de entrega, como pôr em prática sistemas de monitoramento e infraestrutura como código, além dos outros passos práticos importantes necessários para implementar entrega contínua. Por isso estou muito contente que o Danilo escreveu o livro que está iii

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    Casa do Código em suas mãos, que eu acho ser uma contribuiç ão importante e valiosa para a nossa área. O Danilo está profundamente envolvido em ajudar organizações a implementar as práticas de entrega contínua há vários anos e tem ampla experiência, e eu tenho certeza de que você vai achar o seu livro prático e informativo. Desejo-lhe tudo de melhor na sua jornada.

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    Casa do Código Sobreolivro Entregar software em produç ão é um processo que tem se tornado cada vez mais difícil no departamento de TI de diversas empresas. Ciclos longos de teste e divisões entre as equipes de desenvolvimento e de operações são alguns dos fatores que contribuem para este problema. Mesmo equipes ágeis que produzem software entregável ao final de cada iteraç ão sofrem para chegar em produç ão quando encontram estas barreiras.

    DevOps é um movimento cultural e profissional que está tentando que- brar essas barreiras. Com o foco em automaç ão, colaboraç ão, compartilha- mento de ferramentas e de conhecimento, DevOps está mostrando que de- senvolvedores e engenheiros de sistema têm muito o que aprender uns com os outros.

    Neste livro, mostramos como implementar práticas de DevOps e Entrega Contínua para aumentar a frequência de deploys na sua empresa, ao mesmo tempo aumentando a estabilidade e robustez do sistema em produç ão. Você vai aprender como automatizar o build e deploy de uma aplicaç ão web, como automatizar o gerenciamento da infraestrutura, como monitorar o sistema em produç ão, como evoluir a arquitetura e migrá-la para a nuvem, além de conhecer diversas ferramentas que você pode aplicar no seu trabalho.

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    Casa do Código Agradecimentos Ao meu pai, Marcos, por ser sempre um exemplo a seguir e por ir além tentando acompanhar os exemplos de código mesmo sem nenhum conhe- cimento no assunto. À minha mãe, Solange, e minha irmã, Carolina, pelo incentivo e por corrigirem diversos erros de digitaç ão e português nas ver- sões preliminares do livro.

    À minha parceira e melhor amiga, Jenny, pelo carinho e apoio durante as diversas horas que passei trabalhando no livro.

    Ao meu editor, Paulo Silveira, pela oportunidade, pela confiança e por saber como dar um puxão de orelha ou um incentivo na hora certa para que o livro se tornasse uma realidade. À minha revisora e amiga, Vivian Matsui, por corrigir todos os meus erros de português.

    Aos meus revisores técnicos: Hugo Corbucci, Daniel Cordeiro e Carlos Vilella. Obrigado por me ajudarem a encontrar formas melhores de explicar conceitos difíceis, pela opinião sobre os termos difíceis de traduzir, por ques- tionarem minhas decisões técnicas e por me ajudarem a melhorar o conteúdo do livro.

    Aos colegas Prasanna Pendse, Emily Rosengren, Eldon Almeida e outros membros do grupo “Blogger’s Bloc” naThoughtWorks, por me incentivarem a escrever mais e pelofeedbacknos capítulos iniciais, mesmo não entendendo a língua portuguesa.

    Aos meus inúmeros outros colegas de trabalho daThoughtWorks, em es- pecial Rolf Russell, Brandon Byars e Jez Humble, que ouviram minhas ideias sobre o livro e me ajudaram a escolher a melhor forma de abordar cada as- sunto, capítulo por capítulo.

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    Casa do Código Por fim, a todos que contribuíram de forma direta ou indireta na escrita deste livro.

    Muito obrigado!

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    Casa do Código Sobreoautor Danilo Sato começou a programar ainda criança, quando muitas pessoas ainda não tinham computador em casa. Em 2000 entrou no curso de bacha- relado em Ciência da Computaç ão da Universidade de São Paulo, começando sua carreira como administrador da Rede Linux do IME-USP durante 2 anos.

    Ainda na graduaç ão começou a estagiar como desenvolvedor Java/J2EE e teve seu primeiro contato com Métodos Ágeis na disciplina de Programaç ão Ex- trema (XP).

    Iniciou o mestrado na USP logo após a graduaç ão e, orientado pelo Pro- fessor Alfredo Goldman, defendeu em Agosto de 2007 a dissertaç ão “Uso Efi- caz de Métricas em Métodos Ágeis de Desenvolvimento de Software” [16].

    Durante sua carreira, Danilo atuou como consultor, desenvolvedor, admi- nistrador de sistemas, analista, engenheiro de sistemas, professor, arquiteto e coach, tornando-se consultor líder daThoughtWorks em 2008, onde traba- lhou em projetos Ruby, Python e Java no Brasil, EUA e no Reino Unido. Atu- almente tem ajudado clientes a adotar práticas de DevOps e Entrega Contínua para reduzir o tempo entre a concepção de uma ideia e sua implementaç ão com código rodando em produç ão.

    Além da carreira profissional, Danilo também tem experiência como pa- lestrante em conferências nacionais e internacionais, apresentando palestras eworkshopsna: XP 2007/2009/2010, Agile 2008/2009, Ágiles 2008, Cone- xão Java 2007, Falando em Agile 2008, Rio On Rails 2007, PyCon Brasil 2007, RejectConf SP 2007, Rails Summit Latin America 2008, Agile Brazil 2011/2012/2013, QCon SP 2011/2013, RubyConf Brasil 2012/2013, além de ser o fundador do Coding Dojo @ São Paulo e organizador da Agile Brazil 2010, 2011 e 2012.

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    Sumário

    • Sumário 1 Introdução 1.1 Abordagem tradicional página 2
    • 1.2 Uma abordagem alternativa: DevOps e entrega contínua. . 4 1.3 Sobre o livro página 6
    • 2 Tudo começa em produção 11 2.1 Nossa aplicaç ão de exemplo: a loja virtual página 12
    • 2.2 Instalando o ambiente de produç ão página 15
    • 2.3 Configurando dependências nos servidores de produç ão. . 20 2.4 Build e deploy da aplicaç ão página 28
    • 3 Monitoramento 35 3.1 Instalando o servidor de monitoramento página 36
    • 3.2 Monitorando outros servidores página 42
    • 3.3 Explorando os comandos de verificaç ão do Nagios página 44
    • 3.4 Adicionando verificações mais específicas página 48
    • 3.5 Recebendo alertas página 55
    • 3.6 Um problema atinge produç ão, e agora? página 59
    • 4 Infraestrutura como código 61 4.1 Provisionamento, configuraç ão ou deploy? página 62
    • 4.2 Ferramentas de gerenciamento de configuraç ão página 65
    • 4.3 Introduç ão ao Puppet: recursos, provedores, manifestos e de- pendências página 67

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    Sumário

    • Casa do Código 4.4 Reinstalando o servidor de banco de dados página 74
    • 4.5 Reinstalando o servidor web página 82
    • 4.6 Fazendo deploy da aplicaç ão página 87
    • 5 Puppet além do básico 97 5.1 Classes e tipos definidos página 97
    • 5.2 Empacotamento e distribuiç ão usando módulos página 101
    • 5.3 Refatorando o código Puppet do servidor web página 105
    • 5.4 Separaç ão de responsabilidades: infraestrutura vs. aplicaç ão115 5.5 Puppet forge: reutilizando módulos da comunidade página 119
    • 5.6 Conclusão página 126
    • 6 Integraç ão contínua 127 6.1 Práticas de engenharia ágil página 128
    • 6.2 Começando pelo básico: controle de versões página 128
    • 6.3 Automatizando o build do projeto página 131
    • 6.4 Testes automatizados: diminuindo risco e aumentando a con- fiança página 133
    • 6.5 O que é integraç ão contínua? página 139
    • 6.6 Provisionando um servidor de integraç ão contínua página 142
    • 6.7 Configurando o build da loja virtual página 147
    • 6.8 Infraestrutura como código para o servidor de integraç ão contínua página 158
    • 7 Pipeline de entrega 165 7.1 Afinidade com a infraestrutura: usando pacotes nativos. . . 166 7.2 Integraç ão contínua do código de infraestrutura página 184
    • 7.3 Pipeline de entrega página 198
    • 7.4 Próximos Passos página 205
    • 8 Tópicos avanç ados 207 8.1 Fazendo deploy na nuvem página 209
    • 8.2 DevOps além das ferramentas página 230

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    Sumário

    • 8.3 Sistemas avançados de monitoramento página 231
    • 8.4 Pipelines de entrega complexas página 234
    • 8.5 Gerenciando mudanças no banco de dados página 234
    • 8.6 Orquestraç ão de deploy página 235
    • 8.7 Gerenciando configurações por ambiente página 236
    • 8.8 Evoluç ão arquitetural página 238
    • 8.9 Segurança página 241
    • 8.10 Conclusão página 242

    Bibliografia 246 xiii

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    Capítulo1 Introduç ão Com o avanço da tecnologia, software tem se tornado parte fundamental do dia a dia de muitas empresas. Ao planejar suas férias em família – agendando quarto em hotéis, comprando passagens de avião, realizando transações fi- nanceiras, enviando SMS ou compartilhando as fotos da viagem – você in- terage com diversos sistemas de software. Quando um desses sistemas está fora do ar, o problema não é apenas da empresa que está perdendo negócios, mas também dos usuários que não conseguem realizar suas tarefas. Por esse motivo é importante investir na qualidade e estabilidade do software desde o momento em que a primeira linha de código é escrita até o momento em que ele está rodando em produç ão.

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    1.1. Abordagem tradicional Casa do Código 1.1 Abordagem tradicional Metodologias de desenvolvimento de software evoluíram, porém o processo de transformar ideias em código ainda envolve diversas atividades como: le- vantamento de requisitos,design, arquitetura, implementaç ão e teste. Os Mé- todos Ágeis de desenvolvimento de software surgiram no final da década de 90 propondo uma nova abordagem para organizar tais atividades. Ao invés de realizá-las em fases distintas – modelo conhecido como processo em cas- cata – elas acontecem em paralelo o tempo todo, em iterações curtas. Ao final de cada iteraç ão, o software se torna mais e mais útil, com novas funcionali- dades e menosbugs, e o time decide junto com o cliente qual a próxima fatia a ser desenvolvida.

    Assim que o cliente decide que o software está pronto para ir ao ar e o código é colocado em produç ão, os verdadeiros usuários começam a usar o sistema. Nesse momento, diversas outras preocupações se tornam relevantes:

    suporte, monitoramento, segurança, disponibilidade, desempenho, usabili- dade, dentre outras. Quando o software está em produç ão, a prioridade é mantê-lo rodando de forma estável. Em casos de falha ou desastres, o time precisa estar preparado para reagir de forma proativa e resolver o problema rapidamente.

    Devido à natureza dessas atividades, muitos departamentos de TI pos- suem uma divisão clara de responsabilidades entre otime de desenvolvi- mentoe otime de operaç ões. Enquanto o time de desenvolvimento é res- ponsável por criar novos produtos e aplicações, adicionar funcionalidades ou corrigirbugs, o time de operações é responsável por cuidar desses produtos e aplicações em produç ão. O time de desenvolvimento é incentivado a intro- duzir mudanças, enquanto o time de operações preza pela estabilidade.

    À primeira vista, esta divisão de responsabilidades parece fazer sentido.

    Cada equipe possui objetivos e formas de trabalho diferentes. Enquanto o time de desenvolvimento trabalha em iterações, o time de operações precisa reagir instantaneamente quando algo dá errado. Além disso, as ferramentas e o conhecimento necessário para trabalhar nessas equipes são diferentes. O time de desenvolvimento evolui o sistema introduzindo mudanças. Por outro lado, o time de operações evita mudan ças, pois elas trazem um certo risco à estabilidade do sistema. Cria-se então um conflito de interesse entre essas

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    Casa do Código Capítulo 1. Introduç ão duas equipes.

    Uma vez que o conflito existe, a forma mais comum de gerenciar essa relação é através da criaç ão de processos que definem o modo de trabalho e as responsabilidades de cada equipe. De tempos em tempos, a equipe de desenvolvimento empacota o software que precisa ir para produç ão, escreve documentaç ão explicando como configurar o sistema, como realizar a insta- lação em produç ão e repassa a responsabilidade para o time de operações. É comum o uso de sistemas de controle deticketspara gerenciar a comunica- ção entre as equipes assim como a definiç ão de acordos de nível de serviço (service-level agreementsou SLAs) para garantir que osticketssejam proces- sados e respondidos em um tempo adequado.

    Essa passagem de bastão – também conhecida em inglês pelo termohand- off– cria um gargalo no processo de levar código do desenvolvimento e teste para produç ão. É comum chamar esse processo dedeployem ambiente de produç ão. Em português é até possível ouvir o neologismodeploiar, ou então o termo correto em português, que seria “implantar”.

    Com o passar do tempo, o processo tende a se tornar mais e mais burocrá- tico, fazendo com que a frequência dedeploysdiminua. Com isso, o número de mudanças introduzidas em cadadeploytende a acumular, aumentando também o risco de cadadeploye criando o ciclo vicioso mostrado na figura 1.1.

    Figura 1.1: Ciclo vicioso entre desenvolvimento e operações Esse ciclo vicioso não só diminui a habilidade da empresa de responder rapidamente a mudanças no negócio, como também impacta etapas anterio-

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    1.2. Uma abordagem alternativa: DevOps e entrega contínua Casa do Código res do processo de desenvolvimento. A separaç ão entre os times de desenvol- vimento e de operações, o hand-offde código existente entre eles e a cerimô- nia envolvida no processo dedeployacabam criando o problema conhecido como “a Última Milha” [17].

    A última milha se refere à fase final do processo de desenvolvimento que acontece após o software atender todos os requisitos funcionais mas antes de ser implantado em produç ão. Ela envolve várias atividades para verificar se o que vai ser entregue é estável ou não, como: testes de integraç ão, testes de sis- tema, testes de desempenho, testes de segurança, homologaç ão com usuários (também conhecido comoUser Acceptance TestsouUAT), testes de usabili- dade, ensaios dedeploy, migraç ão de dados etc.

    É fácil ignorar a última milha quando a equipe está produzindo e demons- trando funcionalidades novas a cada uma ou duas semanas. Porém, são pou- cas as equipes que de fato fazemdeployem produç ão ao final de cada itera- ção. Do ponto de vista do negócio, a empresa só terá retorno no investimento quando o software estiver realmente rodando em produç ão. O problema da última milha só é visível quando se toma uma visão holística do processo.

    Para resolvê–lo é preciso olhar além das barreiras impostas entre as diferentes equipes envolvidas: seja a equipe de negócios, a equipe de desenvolvimento ou a equipe de operações.

    1.2 Uma abordagem alternativa: D evOps e en- trega contínua Muitas empresas de sucesso na internet – como Google, Amazon, Netflix, Flickr, GitHub e Facebook – perceberam que a tecnologia pode ser usada a seu favor e que o atraso nodeploypara produç ão significa atrasar sua habilidade de competir e se adaptar a mudanças no mercado. É comum que elas realizem dezenas ou até centenas dedeployspor dia!

    Essa linha de pensamento que tenta diminuir o tempo entre a criaç ão de uma ideia e sua implementaç ão em produç ão é também conhecida como “Entrega Contínua” [6] e está revolucionando o processo de desenvolvi- mento e entrega de software. Alguns autores preferem utilizar o termo em inglês,continuous delivery.

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    Casa do Código Capítulo 1. Introduç ão Quando o processo dedeploydeixa de ser uma cerimônia e passa a se tornar algo corriqueiro, o ciclo vicioso da figura1.1se inverte completamente.

    O aumento da frequência dedeploysfaz com que a quantidade de mudanças em cadadeploydiminua, reduzindo também o risco associado com aquele deploy. Esse benefício não é algo intuitivo, porém quando algo dá errado é muito mais fácil descobrir o que aconteceu, pois a quantidade de fatores que podem ter causado o problema é menor.

    No entanto, a diminuiç ão do risco não implica na remoção completa dos processos criados entre as equipes de desenvolvimento e de operações. O segredo que permite a inversão do ciclo é a automatizaç ão desse processo, conforme mostra a figura1.2. Automatizar o processo dedeploypermite que ele seja executado a qualquer momento de forma confiável, removendo o risco de um erro humano causar problemas.

    Figura 1.2: Práticas de DevOps ajudam a quebrar o ciclo vicioso através da automaç ão de processos Investir em automatizaç ão não é uma ideia nova, muitas equipes já es- crevem testes automatizados como parte do processo de desenvolvimento de software. Práticas como o desenvolvimento dirigido a testes (Test-Driven De- velopmentou TDD) [3] ou a integraç ão contínua [12] – que será discutida em mais detalhes no capítulo6– são comuns e amplamente aceitas na comuni- dade de desenvolvimento. Esse foco em automaç ão de testes, juntamente com a criaç ão de equipes multidisciplinares, ajudou a quebrar a barreira existente entre desenvolvedores, testadores e analistas de negócio, criando uma cultura de colaboraç ão entre pessoas com habilidades complementares trabalhando

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    1.3. Sobre o livro Casa do Código como parte da mesma equipe.

    Inspirado no sucesso dos métodos ágeis, um novo movimento surgiu para levar a mesma linha de raciocínio para o próximo nível: o movimentoDe- vOps. Seu objetivo é criar uma cultura de colaboraç ão entre as equipes de desenvolvimento e de operações que permite aumentar o fluxo de trabalho completado – maior frequência dedeploys– ao mesmo tempo aumentando a estabilidade e robustez do ambiente de produç ão.

    Além de uma mudança cultural, o movimento DevOps enfoca bastante nas práticas de automaç ão das diversas atividades necessárias para atacar a úl- tima milha e entregar código de qualidade em produç ão, como: compilaç ão do código, testes automatizados, empacotamento, criaç ão de ambientes para teste ou produç ão, configuraç ão da infraestrutura, migraç ão de dados, mo- nitoramento, agregamento delogse métricas, auditoria, segurança, desempe- nho,deploy, entre outros.

    Empresas que aplicaram essas práticas de DevOps com sucesso não enxer- gam mais o departamento de TI como um gargalo mas sim como um agente de capacitaç ão do negócio. Elas conseguem se adaptar a mudanças no mer- cado rapidamente e realizar diversosdeployspor dia de forma segura. Algu- mas delas inclusive fazem com que um novo desenvolvedor realize umdeploy para produç ão no seu primeiro dia de trabalho!

    Este livro irá apresentar, através de exemplos reais, as principais práti- cas de DevOps e Entrega Contínua para permitir que você replique o mesmo sucesso na sua empresa. O objetivo principal do livro é aproximar as comuni- dades de desenvolvimento e de operações. Desenvolvedores conhecerão um pouco mais sobre as preocupações e práticas envolvidas para operar e manter sistemas estáveis em produç ão, enquanto engenheiros e administradores de sistema irão aprender como introduzir mudanças de forma segura e incre- mental através de automaç ão.

    1.3 Sobre o livro O principal objetivo do livro é mostrar na prática como aplicar os concei- tos e técnicas de DevOps e Entrega Contínua. Por esse motivo, tivemos que escolher quais tecnologias e ferramentas utilizar. Nossa preferência foi usar

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    Casa do Código Capítulo 1. Introduç ão linguagens e ferramentas de código livre e priorizamos aquelas que são bas- tante usadas na indústria.

    Você vai precisar usar as ferramentas escolhidas para acompanhar os exemplos de código. Porém, sempre que apresentarmos uma nova ferra- menta, vamos discutir um pouco sobre as outras alternativas, para que você possa pesquisar qual opção faz mais sentido no seu contexto.

    Você não precisa de nenhum conhecimento prévio específico para acom- panhar os exemplos. Se você tiver experiência no ecossistema Java ou Ruby, será um bônus. Nosso ambiente de produç ão vai rodar em UNIX (Linux, para ser mais específico), portanto um pouco de conhecimento no uso da linha de comando pode ajudar mas não é obrigatório [13]. De toda forma, você vai ser capaz de rodar todos os exemplos na sua própria máquina, independente se está rodando Linux, Mac ou Windows.

    Público alvo Este livro é voltado para desenvolvedores, engenheiros de sistema, admi- nistradores de sistema, arquitetos, gerentes e qualquer pessoa com conheci- mentos técnicos que tenha interesse em aprender mais sobre as práticas de DevOps e Entrega Contínua.

    Estrutura dos capítulos O livro foi escrito para ser lido do início ao fim de forma sequencial. De- pendendo da sua experiência com o assunto abordado em cada capítulo, você pode preferir avançar ou seguir em uma ordem diferente.

    Nocapítulo2apresentamos a aplicaç ão de exemplo que será usada no restante do livro e as tecnologias usadas para construí-la. Como o foco do li- vro não é no desenvolvimento da aplicaç ão em si, usamos uma aplicaç ão não trivial escrita em Java e usando diversas bibliotecas bem comuns no ecossis- tema Java. Ao final do capítulo, a aplicaç ão vai estar rodando em produç ão.

    Com um ambiente de produç ão no ar, nocapítulo3vamos vestir o cha- péu do time de operações e configurar um servidor de monitoramento para detectar falhas e enviar notificações sempre que algum problema for encon- trado. Ao final do capítulo, seremos notificados de que um dos servidores caiu.

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    1.3. Sobre o livro Casa do Código Nocapítulo4vamos reconstruir o servidor problemático, dessa vez de forma automatizada, tratando a infraestrutura como código. Ocapítulo5 é uma continuaç ão do assunto, abordando tópicos mais avançados e refato- rando o código para torná-lo mais modular, legível e extensível.

    Após vestir o chapéu do time de operações, iremos voltar nossa aten ção para o desenvolvimento de software. Ocapítulo6discute práticas de enge- nharia ágil que ajudam a escrever código de qualidade. Vamos aprender sobre os diversos tipos de testes automatizados e subir um novo servidor dedicado para fazer integraç ão contínua do código da nossa aplicaç ão.

    Apresentamos o conceito da pipeline de entrega nocapítulo7. Coloca- mos o código de infraestrutura na integraç ão contínua e implementamos um processo automatizado para instalar a versão mais nova da aplicaç ão em pro- dução com o simples clique de um botão.

    Nocapítulo8migramos o ambiente de produç ão para a nuvem. Por fim, discutimos tópicos mais avançados, com ponteiros para recursos onde você pode pesquisar e aprender mais sobre os assuntos que ficaram de fora do es- copo deste livro.

    Convenç ões de código Nos exemplos de código, vamos usar reticências…para omitir as par- tes não importantes. Quando o código já existe, vamos repetir as linhas ao redor da área que precisa ser alterada para dar um pouco de contexto sobre a modificaç ão.

    Quando a linha é muito comprida e não couber na página, vamos usar uma barra invertidapara indicar que a próxima linha no livro é a continu- ação da linha anterior. Você pode simplesmente ignorar a barra invertida e continuar digitando na mesma linha.

    Nos exemplos na linha de comando, além da barra invertida, usaremos um sinal de maior>na próxima linha para indicar que ela ainda é parte do mesmo comando. Isto é para distinguir o comando que precisa ser digitado da saída que o comando produz quando for executado. Ao executar os co- mandos, você pode simplesmente digitar tudo na mesma linha, ignorando a e o>.

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    Casa do Código Capítulo 1. Introduç ão Mais recursos Criamos um fórum de discussão no Google Groups onde você pode en- viar perguntas, sugestões oufeedbackdireto para o autor. Para se inscrever, acesse a URL:

    https://groups.google.com/d/forum/livro-devops-na-pratica Todos os exemplos de código do livro também estão disponíveis no GitHub do autor, nas URLs:

    https://github.com/dtsato/loja-virtual-devops https://github.com/dtsato/loja-virtual-devops-puppet

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    Capítulo2 Tudocomeçaemproduç ão Ao contrário do que muitos processos de desenvolvimento sugerem, o ciclo de vida do software só deveria começar quando usuários começam a usá-lo.

    O problema da última milha apresentado no capítulo1deveria ser a primeira milha, pois nenhum software entrega valor antes de entrar em produç ão. Por isso, o objetivo deste capítulo é subir um ambiente de produç ão completo, começando do zero, e instalar uma aplicaç ão Java relativamente complexa que será usada como ponto de partida para os conceitos e práticas de DevOps apresentados no livro.

    Ao final deste capítulo, teremos uma loja virtual web completa rodando – suportada por um banco de dados – que permitirá que usuários se cadas- trem, efetuem compras, além de fornecer ferramentas de administraç ão para gerenciamento do catálogo de produtos, das promoções e do conteúdo dis- ponibilizado na loja virtual.

    De que adianta adicionar novas funcionalidades, melhorar o desempe-

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    2.1. Nossa aplicaç ão de exemplo: a loja virtual Casa do Código nho, corrigir defeitos, deixar as telas da loja virtual mais bonitas se isso tudo não for para produç ão? Vamos começar fazendo exatamente essa parte difícil, essa tal de última milha: colocar o software em produç ão.

    2.1 Nossa aplicação de exemplo: a loja virtual Como o foco do livro não é no processo de desenvolvimento em si, mas sim nas práticas de DevOps que auxiliam obuild,deploye operaç ão de uma apli- cação em produç ão, usaremos uma aplicaç ão fictícia baseada em um projeto de código aberto. A loja virtual é uma aplicaç ão web escrita em Java sobre a plataformaBroadleaf Commerce(http://www.broadleafcommerce.org/) . O código utilizado neste capítulo e no restante do livro foi escrito com base no site de demonstraç ão oferecido pela Broadleaf e pode ser acessado no seguinte repositório do GitHub:

    https://github.com/dtsato/loja-virtual-devops/ OBroadleaf Commerceé uma plataforma flexível que expõe pontos de configuraç ão e de extensão que podem ser customizados para implementar funcionalidades específicas. No entanto, boa parte das funcionalidades pa- drão de um site de compras online como o Submarino ou a Amazon já estão disponíveis, incluindo:

    • Navegaç ão e busca no catálogo de produtos; • Páginas de produto com nome, descriç ão, preço, fotos e produtos rela- cionados; • Carrinho de compras; • Processo decheckoutcustomizável incluindo códigos promocionais, dados de cobrança e de entrega; • Cadastro de usuário; • Histórico de compras; • Ferramentas de administraç ão para: catálogo de produtos, promoções, preços, taxas de frete e páginas com conteúdo customizado.

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    Casa do Código Capítulo 2. Tudo começa em produç ão Figura 2.1: Uma prévia da página inicial da loja virtual Além disso, oBroadleaf Commerceutiliza diversos frameworks bem es- tabelecidos na comunidade Java, tornando o exemplo mais interessante do ponto de vista de DevOps, pois representa bem a complexidade envolvida no processo debuildedeployde uma aplicaç ão Java no mundo real. Os deta- lhes de implementaç ão vão além do escopo deste livro, porém é importante conhecer um pouco das principais tecnologias e frameworks utilizados nesta aplicaç ão:

    •Java: a aplicaç ão é escrita em Java (http://java.oracle.com/) , compatível com a versão Java SE 6 e superiores.

    •Spring: o Spring (http://www.springframework.org/) é um framework de desenvolvimento de aplicações corporativas popular na comunidade Java que oferece diversos componentes como: injeção de dependências, gerenciamento de transações, seguran ça, um framework de MVC, den- tre outros.

    •JPA e Hibernate: o JPA é a API de persistência do Java e o Hiber- nate (http://www.hibernate.org/) é a implementaç ão mais famosa da JPA na comunidade Java, oferecendo recursos para realizar o mapea- mento objeto-relacional (object-relational mapping ou ORM) entre ob- jetos Java e as tabelas no banco de dados.

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    2.1. Nossa aplicaç ão de exemplo: a loja virtual Casa do Código •Google Web Toolkit: o GWT (http://developers.google.com/ web-toolkit/) é um framework desenvolvido pelo Google para facilitar a criaç ão de interfaces ricas que rodam no browser. O GWT permite que o desenvolvedor escreva código Java que é então compilado para Javascript. A loja virtual utiliza o GWT para implementar a interface gráfica das ferramentas de administraç ão.

    •Apache Solr: o Solr (http://lucene.apache.org/solr/) é um servidor de pesquisa que permite a indexaç ão do catálogo de produtos da loja vir- tual e oferece uma API eficiente e flexível para efetuar consultas de texto em todo o catálogo.

    •Tomcat: o Tomcat (http://tomcat.apache.org/) é um servidor que im- plementa as tecnologias web – Java Servlet e JavaServer Pages – do Java EE. Apesar doBroadleaf Commercerodar em servidores de aplicaç ão alternativos – como Jetty, GlassFish ou JBoss – utilizaremos o Tomcat por ser uma escolha comum em diversas empresas rodando aplicações web Java.

    •MySQL: o MySQL (http://www.mysql.com/) é um servidor de banco de dados relacional. O JPA e o Hibernate permitem que a aplicaç ão rode em diversos outros servidores de banco de dados – como Oracle, PostgreSQL ou SQL Server – porém também utilizaremos o MySQL por ser uma escolha popular e por disponibilizar uma versão de código aberto.

    Não é uma aplicaç ão pequena. Melhor ainda: ela utiliza bibliotecas que são frequentemente encontradas na grande maioria das aplicações Java no mercado. Como falamos, vamos utilizá-la como nosso exemplo, mas você também pode seguir o processo com a sua própria aplicaç ão, ou ainda esco- lher outro software, independente de linguagem, para aprender as técnicas de DevOps que serão apresentadas e discutidas durante o livro.

    O próximo objetivo é colocar a loja virtual no ar, porém, antes de fazer o primeirodeploy, é preciso ter um ambiente de produç ão pronto, com servi- dores onde o código possa rodar. O ambiente de produç ão em nosso exemplo será inicialmente composto de 2 servidores, conforme mostra a figura2.2.

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    Casa do Código Capítulo 2. Tudo começa em produç ão Figura 2.2: Ambiente de produç ão da loja virtual Usuários acessarão a loja virtual, que rodará em uma instância do Tom- cat no servidor web. O servidor web rodará todas as bibliotecas e frameworks Java utilizados pela loja virtual, inclusive uma instância embutida do Solr. Por fim, a aplicaç ão web utilizará o MySQL, rodando em um servidor de banco de dados separado. Esta é uma arquitetura web de duas camadas comumente utilizada por diversas aplicações no mundo real. No capítulo 8discutiremos com mais detalhes os fatores que influenciam a escolha da arquitetura física para sua aplicaç ão, porém por enquanto vamos usar algo comum para sim- plificar o exemplo e colocar a loja virtual no ar o quanto antes.

    2.2 Instalando o ambiente de produção Comprar servidores e hardware para a loja virtual custaria muito dinheiro, então inicialmente iremos usar máquinas virtuais. Isso permitirá criar todo o ambiente de produç ão na nossa máquina. Existem diversas ferramentas para rodar máquinas virtuais – como VMware ou Parallels – porém algumas são pagas e a maioria usa uma interface gráfica para configuraç ão, o que tornaria este capítulo uma coleção descreenshotsdifíceis de acompanhar.

    Para resolver esses problemas, usaremos duas ferramentas que facilitam o uso e configuraç ão de máquinas virtuais: oVagrant(http://www.vagrantup.

    com) e oVirtualBox(http://www.virtualbox.org) . O VirtualBox é uma ferra- menta da Oracle que permite configurar e rodar máquinas virtuais nas princi- pais plataformas: Windows, Linux, Mac OS X e Solaris. O VirtualBox possui uma ferramenta de linha de comando para executar e configurar as máquinas virtuais, porém para facilitar ainda mais o trabalho, usaremos o Vagrant que fornece uma DSL em Ruby para definir, gerenciar e configurar ambientes vir- tuais. O Vagrant possui também uma interface de linha de comando simples

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    2.2. Instalando o ambiente de produç ão Casa do Código para subir e interagir com esses ambientes virtuais.

    Caso você já possua o Vagrant e o VirtualBox instalados e funcionando, você pode pular para a subseção"Declarando e Subindo os Servidores”. Caso contrário, o processo de instalaç ão dessas ferramentas é simples.

    Instalando o VirtualBox Para instalar o VirtualBox, acesse a página dedownloadhttp://www.

    virtualbox.org/wiki/Downloadse escolha a versão mais atual. No momento da escrita do livro, a versão mais nova é o VirtualBox 4.3.8 e será a versão uti- lizada no decorrer do livro. Escolha o pacote de instalaç ão de acordo com a sua plataforma: no Windows o instalador é um arquivo executável.exe; no Mac OS X o instalador é um pacote.dmg; no Linux o VirtualBox disponibi- liza pacotes.debou.rpm, dependendo da sua distribuiç ão.

    Uma vez que você tenha feito odownload, instale o pacote. No Win- dows e no Mac OS X, basta dar um duplo clique no arquivo de ins- talação (.exeno Windows e.dmgno Mac OS X) e seguir as ins- truções do instalador. No Linux, caso tenha escolhido o pacote.deb, instale-o executando o comandodpkg -i {arquivo.deb}, substi- tuindo{arquivo.deb}pelo nome do arquivo baixado, por exemplo virtualbox-4.3_4.3.8-92456~Ubuntu~raring_i386.deb. Caso tenha escolhido o pacote.rpm, instale-o executando o comandorpm -i {arquivo.rpm}, substituindo {arquivo.rpm}pelo nome do arquivo bai- xado, por exemploVirtualBox-4.3-4.3.8_92456_el6-1.i686.rpm.

    Observaç ão: no Linux, caso seu usuário não sejaroot, você precisará rodar os comandos anteriores com o comandosudona frente, por exemplo:sudo dpkg -i {arquivo.deb} ousudo rpm -i {arquivo.rpm}.

    Para testar que o VirtualBox está instalado corretamente, acesse o termi- nal e execute o comandoVBoxManage -v. Para abrir o terminal no Win- dows, você pode usarWin+Re digitarcmd. Caso tudo esteja correto, o co- mando retornará algo como “4.3.8r92456”, dependendo da versão instalada.

    Instalando o Vagrant Uma vez que o VirtualBox estiver instalado, prossiga com o processo de instalaç ão do Vagrant, que é bem parecido. Acesse a página dedownloaddo

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    Casa do Código Capítulo 2. Tudo começa em produç ão Vagranthttp://www.vagrantup.com/downloads.htmle escolha a versão mais atual. No momento da escrita do livro, a versão mais nova é o Vagrant 1.5.1 e será a versão utilizada no decorrer do livro. Faç a odownloaddo pacote de instalaç ão de acordo com a sua plataforma: no Windows o instalador é um arquivo.msi; no Mac OS X o instalador é um pacote.dmg; no Linux o Va- grant disponibiliza pacotes.debou.rpm, dependendo da sua distribuiç ão.

    Assim que tenha feito odownloaddo pacote, instale-o: no Windows e no Mac OS X, basta dar um duplo clique no arquivo de instalaç ão (.msi no Windows e.dmgno Mac OS X) e seguir as instruções do instala- dor. No Linux, basta seguir os mesmos passos da instalaç ão do Virtual- Box no Linux usando o pacote escolhido (vagrant_1.5.1_i686.deb ou vagrant_1.5.1_i686.rpm). No Mac OS X e no Windows, o comando vagrantjá é colocado noPATHapós a instalaç ão. No Linux, você vai preci- sar adicionar/opt/vagrant/binno seuPATH.

    Para testar que o Vagrant está instalado corretamente, acesse o terminal e execute o comandovagrant -v. Caso tudo esteja correto, o comando retornará algo como “Vagrant 1.5.1”, dependendo da versão instalada.

    O último passo necessário é configurar uma imagem inicial que serve de templatepara inicializar cada máquina virtual. Estas imagens, também co- nhecidas comobox, servem como ponto de partida, contendo o sistema ope- racional básico. No nosso caso, utilizaremos umaboxoferecida pelo próprio Vagrant, que contém a imagem de um Linux Ubuntu 12.04 LTS de 32 bits.

    Para baixar e configurar estabox, é preciso executar o comando:

    $ vagrant box add hashicorp/precise32 ==> box: Loading metadata for box ’hashicorp/precise32’ box: URL: https://vagrantcloud.com/hashicorp/precise32 …

    Esse comando irá fazer odownloaddo arquivo de imagem da máquina virtual, que é grande (299MB), portanto ele vai demorar para executar e uma boa conexão com a internet será necessária. Uma lista de outras ima- gens disponibilizadas pela comunidade Vagrant pode ser encontrada em http://www.vagrantbox.es/e o processo de inicializaç ão é parecido com o co- mando anterior. A empresa por trás do Vagrant, a HashiCorp, introduziu

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    2.2. Instalando o ambiente de produç ão Casa do Código recentemente oVagrant Cloud(https://vagrantcloud.com/) , uma forma de encontrar e compartilharboxescom a comunidade.

    Declarando e subindo os servidores Uma vez que o Vagrant e o VirtualBox estão funcionando, declarar e ge- renciar um ambiente virtual é simples. A declaraç ão de configuraç ão das má- quinas virtuais é feita em um arquivo chamadoVagrantfile. O comando vagrant initcria um arquivoVagrantfileinicial, com comentários que explicam todas as opções de configuraç ão disponíveis.

    No nosso caso, iremos começar de forma simples e configurar apenas o necessário para subir os dois servidores de produç ão. O conteúdo do Vagrantfileque precisamos é:

    VAGRANTFILE_API_VERSION="2"

    Vagrant.configure( VAGRANTFILE_API_VERSION) do|config| config.vm.box ="hashicorp/precise32"

    config.vm.define :dbdo|db_config| db_config.vm.network :private_network, :ip=>"192.168.33.10"

    end config.vm.define :webdo|web_config| web_config.vm.network :private_network, :ip=>"192.168.33.12"

    end end Esse arquivo configura duas máquinas virtuais, com apelidos de “db”

    e “web”. Ambas utilizarão aboxhashicorp/precise32 que instala- mos anteriormente. Cada uma possui um bloco de configuraç ão que de- fine um endereço IP para configurar a conexão com a rede. Os endereços IP 192.168.33.10e192.168.33.12foram escolhidos de forma arbitrária para evitar conflitos com as configurações de rede da sua máquina.

    Para subir os servidores, basta executar o comandovagrant upno mesmo diretório onde o arquivoVagrantfilefoi criado e o Vagrant to- mará conta de subir e configurar as máquinas virtuais para você. Se tudo correr bem, a saída do comando será algo parecido com:

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    Casa do Código Capítulo 2. Tudo começa em produç ão $ vagrant up Bringing machine ’db’ up with ’virtualbox’ provider…

    Bringing machine ’web’ up with ’virtualbox’ provider…

    ==> db: Importing base box ’hashicorp/precise32’…

    ==> db: Matching MAC address for NAT networking…

    ==> db: Checking if box ’hashicorp/precise32’ is up to date…

    ==> db: Setting the name of the VM: blank_db_1394680068450_7763 ==> db: Clearing any previously set network interfaces…

    ==> db: Preparing network interfaces based on configuration…

    db: Adapter 1: nat db: Adapter 2: hostonly ==> db: Forwarding ports…

    db: 22 => 2222 (adapter 1) ==> db: Booting VM…

    ==> db: Waiting for machine to boot. This may take a few minutes…

    db: SSH address: 127.0.0.1:2222 db: SSH username: vagrant db: SSH auth method: private key ==> db: Machine booted and ready!

    ==> db: Configuring and enabling network interfaces…

    ==> db: Mounting shared folders…

    db: /vagrant => /private/tmp/blank ==> web: Importing base box ’hashicorp/precise32’…

    ==> web: Matching MAC address for NAT networking…

    ==> web: Checking if box ’hashicorp/precise32’ is up to date…

    ==> web: Setting the name of the VM:

    blank_web_1394680087001_3842 ==> web: Fixed port collision for 22 => 2222. Now on port 2200.

    ==> web: Clearing any previously set network interfaces…

    ==> web: Preparing network interfaces based on configuration…

    web: Adapter 1: nat web: Adapter 2: hostonly ==> web: Forwarding ports…

    web: 22 => 2200 (adapter 1) ==> web: Booting VM…

    ==> web: Waiting for machine to boot. This may take a few minutes…

    web: SSH address: 127.0.0.1:2200

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    2.3. Configurando dependências nos servidores de produç ão Casa do Código web: SSH username: vagrant web: SSH auth method: private key ==> web: Machine booted and ready!

    ==> web: Configuring and enabling network interfaces…

    ==> web: Mounting shared folders…

    web: /vagrant => /private/tmp/blank Isso significa que as máquinas virtuais estão funcionando e prontas para serem usadas. Se você ler a saída com cuidado, verá que os passos foram os mesmos para ambas as máquinasdbeweb. Além disso, o Vagrant tam- bém mapeou portas de SSH e montou uma partiç ão para acessar os arquivos existentes no diretório da máquina hospedeira. Isso pode soar um pouco con- fuso, mas demonstra algumas das funcionalidades poderosas que o Vagrant disponibiliza.

    2.3 Configurandodependênciasnosservidores de produção Agora que os servidores estão rodando, é preciso instalar os pacotes e depen- dências para que a loja virtual funcione. Administradores de sistema prova- velmente já estão acostumados a trabalhar em diversas máquinas ao mesmo tempo, porém desenvolvedores geralmente trabalham sempre em uma má- quina só.

    Nas próximas seções começaremos a interagir com mais de uma máquina ao mesmo tempo e a maior parte dos comandos precisarão ser executados no servidor correto. Usaremos uma notaç ão especial para guiar as instruções no restante do livro, representando o usuário e o servidor nopromptda li- nha de comando para servir de lembrete para você verificar se está rodando o comando no servidor certo. O padrão será{usuário}@{servidor}$, no qual o usuário geralmente serávagrante o servidor pode variar entre dbouweb. Desta forma, comandos precedidos devagrant@db$devem ser executados no servidordbe comandos precedidos devagrant@web$ devem ser executados no servidorweb.

    Ao invés de pular de um servidor para o outro, iremos focar inicialmente em um servidor por vez, começando pelo servidor de banco de dados.

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    Casa do Código Capítulo 2. Tudo começa em produç ão Servidor de banco de dados Primeiramente, precisamos logar no servidor de banco de dados para ins- talar o MySQL. Isso é feito através do comandovagrant ssh db, que abre uma sessão SSH com o servidordb. Uma vez logado, a instalaç ão do servidor MySQL é feita através do pacotemysql-server:

    vagrant@db$ sudo apt-get update Ign http://us.archive.ubuntu.com precise InRelease Ign http://us.archive.ubuntu.com precise-updates InRelease …

    Reading package lists… Done vagrant@db$ sudo apt-get install mysql-server Reading package lists… Done Building dependency tree …

    ldconfig deferred processing now taking place Para entender o que está acontecendo, vamos analisar cada parte desse comando. O comandoapt-geté usado para gerenciar quais pacotes es- tão instalados no sistema. A instruç ãoupdateatualiza o índice de paco- tes para as últimas versões. A instruç ãoinstallserve para instalar um novo pacote no sistema. Nesse caso o pacote que queremos instalar é o pa- cotemysql-serverque contém o servidor MySQL. O comando inteiro é precedido pelo comandosudo. Em sistemas UNIX, existe um usuário espe- cial com “super poderes” conhecido como usuárioroote o comandosudo permite executar algo como se o usuário atual fosseroot.

    O processo de instalaç ão do servidor MySQL exige a escolha de uma se- nha de acesso para o usuárioroot. Você precisará fornecer essa senha duas vezes no processo de instalaç ão. A escolha de uma senha segura é importante para garantir a segurança do sistema, porém é também um tópico de discus- são à parte, que abordaremos no capítulo8. Se alguém descobrir a senha mestre, ele poderá executar qualquer comando no banco de dados, inclusive apagar todas as tabelas! Na vida real você não quer que isso aconteça, porém, no exemplo do livro, usaremos uma senha simples para facilitar: “secret”. Se preferir, você pode escolher outra senha, mas daqui para frente tome cuidado

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    2.3. Configurando dependências nos servidores de produç ão Casa do Código para substituir qualquer menção da senha “secret” pela senha que você esco- lheu.

    Ao terminar a instalaç ão do pacote, o servidor MySQL já vai estar rodando, porém apenas para acesso local. Como precisamos acessar o banco de dados do servidor web, é preciso configurar o MySQL para per- mitir conexões externas. Para isto, basta criar o arquivo de configuraç ão /etc/mysql/conf.d/allow_external.cnf. Você pode usar o editor de texto que preferir –emacsevimsão duas opções comuns – porém aqui usaremos onanopor ser um editor mais simples de aprender para quem não está acostumado a editar arquivos na linha de comando. O comando seguinte cria o arquivo (comorootnovamente) desejado:

    vagrant@db$ sudo nano /etc/mysql/conf.d/allow_external.cnf Basta então digitar o conteúdo do arquivo abaixo e usarCtrl+Opara salvar eCtrl+Xpara salvar e sair do editor:

    [mysqld] bind-address =0.0.0.0 Uma vez que o arquivo foi criado, é preciso reiniciar o servidor MySQL para que ele perceba a nova configuraç ão. Isso é feito com o comando:

    vagrant@db$ sudo service mysql restart mysql stop/waiting mysql start/running, process 6460 Neste momento, o servidor MySQL já está pronto e rodando, porém ainda não criamos nenhum banco de dados. É comum que cada aplicaç ão crie seu próprio banco de dados, ouschema, para persistir suas tabelas, índices e da- dos. Precisamos então criar um banco de dados para a loja virtual, que cha- maremos deloja_schema, através do comando:

    vagrant@db$ mysqladmin -u root -p create loja_schema Enter password:

    Ao executar este comando, a opção-u rootinstrui que a conexão com o MySQL deve ser feita como usuário root e a opção-pirá perguntar a se- nha, que nesse caso será “secret”. O resto do comando é autoexplicativo. Para

  • eXtreme Programming – Práticas para o dia a dia no desenvolvimento ágil de software

    eXtreme Programming – Práticas para o dia a dia no desenvolvimento ágil de software

    Aproximadamente 31.043 palavras.

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    Casa do Código Prefácio Prefácio por Klaus Wuestefeld Poucos são os momentos na vida em que ficamos sabendo de uma ideia e dizemos, na hora: “Esta ideia vai revolucionar o mundo.”

    Aconteceu comigo quando vi pela primeira vez o Orkut (que descanse em paz). Caiu um raio na minha cabeça e eu disse: “Este negócio (rede social) vai revolucionar o mundo.”

    Antes disso, em 1999, quando eu ainda chafurdava na burocracia do CMM e do Unified Process, um estagiário da minha empresa me mandou os primeiros links sobre eXtreme Programming (XP).

    A princípio me pareceu bobagem, como “Go Horse”. Logo vi, porém, que Kent Beck, o autor de XP, e as pessoas discutindo a metodologia no primeiro wiki do mundo eram sérias e sabiam do que estavam falando. Eram, na ver- dade, os estudiosos de software mais sérios, embasados e apaixonados que eu já tinha visto.

    Para entender o que foi, para mim, ver as páginas de XP no primeiro wiki do mundo, imagine dois raios simultâneos caindo na sua cabeça: senti que tanto o wiki quanto os métodos ágeis iriam revolucionar o conhecimento e o desenvolvimento de software.

    Comecei a evangelizar XP pelo Brasil e palestrei em um evento de Java em Porto Alegre, em 2004. Estavam lá o Daniel e o Guilherme, coautores deste livro. Caiu um raio na cabeça deles e eles criaram o grupo XP-RS, que promoveu muitos encontros de discussão sobre o assunto.

    Agora, onze anos depois, escrevem este livro, mais necessário que nunca.

    Cansei de ver times tentando fazer Scrum e entregando zero software em produç ão, durante meses, sprint após sprint. Cansei de ver times com quadros de Kanban lindos na parede mas com tempo de entrega (lead-time) na ordem i

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    Casa do Código de meses.

    É fácil, hoje, fazer um cursinho de final de semana qualquer, certificar-se em charlatanismo ágil de software e sair ditando regrinhas de cerimônias que a equipe de desenvolvimento deve seguir.

    Modelos de gestão como Scrum ou Kanban (prefiro) são úteis para ajudar a escolher as histórias certas a desenvolver mas, no fim das contas, o que faz essas histórias sair do outro lado como software rodando sem bugs em produ- ção é a capacidade e dedicaç ão da equipe, usando boas práticas de artesania de software, como as deste livro.

    Sugiro às equipes que ganhem fluência, que dominem XP “by the book”, antes de inventar moda. O time mais ágil, que produziu o software de maior valor, no prazo mais apertado, nas condições mais politicamente adversas, do qual já participei, foi um time onde aplicávamos XP à risca. Pense muito bem antes de decidir que não precisa de determinada prática.

    Quando testar recursos caros ou complicados, utilize constantes que simu- lem o comportamento desses recursos (com estratégias de dummy, stub, spy, fake e mock).

    Não confunda a brevidade de alguns de seus itens, como essa frase, com falta de importância. Este livro é rico e conciso. Cada parágrafo, se explorado, daria outro livro. Já vi uma equipe de dezenas de programadores atrasar em meses seu projeto, por insistir em depender de ambientes de homologaç ão complexos em vez de seguir a dica acima.

    Outro exemplo: já vi uma equipe de uma empresa de software para o mercado financeiro desistir de programaç ão em pares sem saber por que. Está num breve parágrafo deste livro o motivo:

    Cuide do espaço físico, a mobília pode dificultar ficar lado a lado progra- mando (por exemplo em mesas de canto ou em formato de ‘L’). Os programado- res terão dores no corpo depois de um dia de programação em pares com pouca ergonomia. Uma dica é adaptar o espaço físico…

    Por onde começar? É preciso adotar todas as práticas de uma vez?

    Se tiver que escolher alguma prática pra começar, escolha o teste auto- matizado. Testar software manualmente, no século 21, é antiético, como um cirurgião operar sem lavar as mãos. Aprenda os conceitos, a essência da au- tomação de teste. Não perca tempo tentando controlar telas pra fazer testes.

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    Casa do Código Separe da tela todo código de negócios e teste-o diretamente.

    Programaç ão em pares junto com revezamento são práticas que encon- tram resistência tanto dos gestores retranqueiros quanto de alguns membros da equipe mais tímidos (respeitar) ou acomodados (incentivar) mas não de- pendem de mais nada para ser implementadas. Já vi pareamento e reveza- mento transformar uma equipe desmotivada, à beira de agressões físicas, em uma equipe de referência dentro de sua organizaç ão.

    Por fim, é vital que a equipe e seu gestor, se houver, reservem um tempo em torno de um dia (projeto novo) a dois dias (projeto com legado macarrô- nico) por semana com autonomia para a equipe investir em melhorar conti- nuamente sua própria produtividade, aprendendo técnicas como TDD e re- fatorando código. Se não houver esse tempo alocado e a equipe ficar só cor- rendo atrás de incêndios de curto prazo, é melhor largar o livro agora porque ele só vai trazer frustraç ão.

    Se, por outro lado, houver tempo para melhoria, leve este livro como guia, torça para cair um raio na sua cabeça também e boa sorte no caminho.

    Aprenda as práticas de XP, domine-as, entregue software do caralho e, aí sim, adapte-as e transcenda.

    — Klaus Wuestefeld, pioneiro em eXtreme Programming no Brasil e Key- note Speaker do Agile Brazil (2010) Prefácio por Alexandre Freire Se eu tivesse este livro que você tem em mãos na virada do milênio, e conhecesse a Programaç ão eXtrema na época, provavelmente hoje seria mi- lionário, porque teria lançado com sucesso a primeira rede social do mundo.

    Estava trabalhando em umasoftware housemultinacional, baseada em Treviso, na Itália, construindo uma rede social de times de futebol de várzea para a Diadora. Mas fazíamos isso tudo usando o “melhor”, e mais difundido, processo de desenvolvimento de software, o RUP.

    Isso significa que durante os 3 anos em que gastei meu suor e sangue, cons- truindo o incrível software desta rede social, nunca tivemos nenhum usuário, além da sócia que fazia demonstrações trimestrais para os diretores da Di- adora. E quando toda a diretoria mudou, e a empresa resolveu cancelar o projeto, foi fácil fazê-lo, pois não tinha sido lançado.

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    Casa do Código Para mim foi uma experiência muito frustrante, afinal com minha equipe tinha construído um software maravilhoso, uma rede social onde times de futebol de bairro poderiam criar uma página, postar fotos, conseguir “likes”

    de seus fãs e até organizar campeonatos. E o software funcionava que era uma beleza, ou pelo menos funcionava na minha máquina.

    Era o maior projeto da empresa, que acabou indo à falência quando per- deu esse cliente.

    Deparei-me com a pergunta:Será que não existe um jeito melhor de fazer software? De entregar mais valor, mais rápido, para os nossos clientes?. Come- cei as estudar o que na época eram as metodologias “leves” e resolvi voltar para o Brasil e para a faculdade. No ano seguinte, participei da primeira turma do Laboratório de Programaç ão eXtrema do IME/USP.

    E aí que minha vida de desenvolvedor de software mudou. Aprender e praticar Programaç ão eXtrema foi um marco muito importante na minha car- reira, e espero que com este livro, seja um marco na sua também.

    Durante muitos anos após esse primeiro encontro, pratiquei a Programa- ção eXtrema como definida nos livros do Kent Beck. Com os erros e acertos, comecei a entender como a metodologia era completa, e como cada parte era preciosa. Também aprendi a fazer algumas coisas bem difíceis muito bem, como estimar em pontos, só para descobrir no final que não precisava real- mente fazer isso!

    Mas na sua jornada, recomendo que não pule essa prática no começo, a sinergia entre as práticas de XP e o fato de que seus valores e princípios suportam todo o conjunto são umas das razões pelas quais me apaixonei por essa metodologia.

    Hoje em dia, a comunidade ágil é forte, tem presença marcante no Brasil, e somos ainda mais extremos. Pegamos algumas práticas e nos desafiamos levá- las ainda mais ao limite! Com ashistórias de usuárioe ojogo do planejamento evoluímos pra criar também omapa de histórias. Com integração contínua partimos para fazerdeploy contínuo. Com programaç ão em par radicalizamos para fazerprogramação em multirão.

    Mas algumas coisas permanecem para sempre valiosas, como as Retros- pectivas. A melhor técnica que conheço para uma equipe se aprimorar con- tinuamente. É tão universal que até já usei em outros contextos que não o iv

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    Casa do Código desenvolvimento de software.

    Se você for aprender só uma das metodologias ágeis, recomendo forte- mente que seja a Programaç ão eXtrema. Mas experimente-a completa, per- cebendo como os princípios e valores apoiam as práticas, e que estas muitas vezes só funcionam porque dependem das outras. É uma metodologia holís- tica, onde a sinergia conta muito, e com certeza vai melhorar a maneira como você desenvolve software.

    Você tem em mãos um guia definitivo para começar sua jornada, apro- veite a leitura.

    — Alexandre Freire, Diretor de Produtos da Industrial Logic e Keynote do Agile Brazil 2014.

    Prefácio por Paulo Caroli Desde 2000, tenho utilizado (e abusado) de metodologias ágeis. A minha primeira sessão em uma conferência internacional foi na OOPSLA 2000, em que apresentei o resultado da minha tese de mestrado, algo sobre Orienta- ção e Objetos e Design Patterns. Após minha apresentaç ão, fui fazer tietagem com Kent Beck por admirá-lo nos assuntos de smalltalk e design patterns, e acabei comprando seu novo livro com o títuloeXtreme Programming Explai- ned. Deu-se início um caminho sem volta – estava exposto e infectado pela primeira de muitas metodologias ágeis.

    Naquela época eu morava no Vale do Silício e estava trabalhando em uma start-up bem legal. Voltei empolgado da conferencia e logo mostrei o livro para o meu gerente da época. Ele riu e disse “Extreme programming… please do not get extreme on our codebase. Be aware of our clients and deadlines”. O livro ficou no meu cubículo (naquela época até start-ups tinham cubículos), e de tempos em tempos eu o mostrava para algum colega de trabalho.

    Testes unitários e solitários (somente eu os lia e usava). Integraç ão con- tínua com meu próprio código (os outros desenvolvedores estavam em suas branches). E assim eram meus dias de trabalho em 2000 e 2001.

    Mas eu não estava sozinho. Além de Kent Beck, outros conhe- cidos estavam falando e escrevendo sobre suas experiências com XP. Ward Cunningham populava a C2wiki (http://c2.com/cgi/wiki?

    ExtremeProgrammingRoadmap) , enquanto Martin Fowler compartilhava v

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    Casa do Código no seu site (http://martinfowler.com/articles/xp2000.html) . Mais desen- volvedores eram infectados, e compartilhavam suas experiências. E isso se alastrou até os dias de hoje, época em que XP é ensinado em faculdades, e muitas de suas práticas são visíveis em todos departamentos de TI.

    Em 2006, entrei naThoughtWorks e trabalhei com pessoas que participa- ram do início deste movimento ágil. Por exemplo, ouvi as histórias do Martin sobre o primeiro projeto XP, o C3 (Chrysler Comprehensive Compensation).

    Vivi e ouvi relatos de experiência sobre a implantações de XP ao redor do mundo. Em 2008 e 2009 constatei que até projetos de outsourcing na Índia estavam usando XP. Bah, mas eu seguia referenciando aquele livro de 2000!

    Em 2010, eu ajudei a trazer aThoughtWorks para o Brasil, abrindo seu pri- meiro escritório em Porto Alegre. A escolha da cidade não foi somente pelo famoso churrasco, mas sim por admiraç ão ao movimento de XP, e a excelente comunidade já existente. Conheci e aprendi com cada um dos autores deste livro. Daniel, Dionatan, Rafael e Guilherme estão sempre compartilhando conhecimento. Nesta obra, compartilham os valores, práticas e princípios de XP.

    Com muito orgulho, informo que este livro é um resumo do que há de melhor no mundo atual de desenvolvimento de software.

    Boa leitura, — Paulo Caroli, cofundador e agile coach daThoughtworks Brasil.

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    Casa do Código Agradecimentos Antes de tudo, gostaríamos de agradecer a toda a comunidade ágil brasileira, que é uma das maiores e mais participativas no mundo. Temos grandes even- tos em nossa área de métodos ágeis com agilistas muito experientes e somos gratos por isso. Obrigado por todas as trocas de experiências durante esses anos de agilidade no Brasil!

    À comunidade do antigo XP-RS, o atual GUMA-RS Grupo de Usuários de Métodos Ágeis do Rio Grande do Sul (saiba mais emhttp://www.guma-rs.

    org) , o nosso muito obrigado por ser um grande grupo fomentador da agili- dade e do eXtreme Programming!

    Obrigado, e muito, aos nossosbeta readersJamile Alves, Maurício Aniche e Rodrigo Pinho! As opiniões e sugestões de vocês foram essenciais para a melhoria do livro.

    Obrigado também a todas as pessoas da Casa do Código. Vocês nos de- ram um excelente suporte e sempre estiveram dispostos a contribuir com esta obra!

    Aos agilistas Klaus Wuestefeld, Alexandre Freire e Paulo Caroli, a nossa gratidão pelos admiráveis prefácios!

    A nossos alunos e clientes, que nos permitem praticar e aprender em con- junto, e a você leitor, o nosso muito obrigado por interessar-se neste trabalho!

    Esperamos que a leitura deste livro seja útil e agradável! 🙂 Dedico este livro aos desenvolvedores profissionais do Brasil, que se preocu- pam em entregar software de qualidade e buscam excelência técnica!— Daniel Wildt Agradeço a todos que veem nos métodos ágeis um caminho para um mundo melhor! Dedico este livro aos meus pais e irmãos!— Dionatan Moura vii

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    Casa do Código Dedico à minha família: em especial, para meus pais (Paulo e Liberta) e para minha esposa e filha (Juliana e Isabella)!— Guilherme Lacerda Agradeço à Casa do Código pela oportunidade, ao Klaus Wuestefeld, Ale- xandre Freire e Paulo Caroli pelos prefácios inspiradores, à Vivian pela dedica- ção e paciência durante a revisão deste livro, aos meus amigos e parceiros de jornada, Daniel, Dionatan e Guilherme! Além é claro da minha esposa Aline e meu filho Rafael Helm Junior, com eles ao meu lado tudo faz sentido.— Rafael Helm viii

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    Casa do Código Sobreosautores Daniel Wildt Fundador em 2004 do XP-RS Grupo de Usuários de eXtreme Programming do RS , que depois se transformou no GUMA-RS Grupo de Usuários de Méto- dos Ágeis do Rio Grande do Sul. Desde 2003, um praticante interessado pelo desenvolvimento de comunidades, organizações, equipes e pessoas em torno da agilidade. Trabalha em processos de melhoria das técnicas de engenharia de software e processos, sempre em busca de simplicidade e do aprendizado.

    Ajuda pessoas a tornarem-se melhores profissionais, equipes a crescerem por meio de melhoria contínua e produtos/serviços a serem formados. Além da formaç ão técnica, possui formaç ão de Master Trainer em Programaç ão Neu- rolinguística. É CTO na uMov.me (http://umov.me) , coach/instrutor pela Wildtech (http://www.wildtech.com.br) e facilitador no Estaleiro Liberdade (http://www.estaleiroliberdade.com.br) .

    Dionatan Moura Coach ágil na Companhia de Processamento Dados do Estado Rio Grande Sul (PROCERGS), auxiliando na entrega de maior valor ao cidadão por meio da agilidade e inovaç ão. Professor visitante na pós-graduaç ão da UniRitter Laureate International Universities. Mestre e bacharel em Ciên- cia da Computaç ão na UFRGS. Coordenador do Grupo de Usuário de Méto- dos Ageis do RS (GUMA-RS) e do Grupo de Usuários Java do RS (RSJUG).

    Foi desenvolvedor Java por sete anos, e coordenador das trilhas Java do TDC POA 2013 e 2014. Palestrante em eventos ágeis, como: Agile Brazil, TDC e XPConf; e possui as certificações: CSP, SAFe SA, PMP, CSM, PSM I, CSD, CSPO, OCPJP, CTFL, ITIL e MPS-BR. Pode ser encontrado no Twitter como @dionatanmoura e possui um blog:http://dionatanmoura.com.

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    Casa do Código Guilherme Lacerda Pioneiro em Metodologias Ágeis no Brasil, no qual atua desde 2001, com especial ênfase em Lean, SCRUM e eXtreme Programming. Trabalha como Coach, ajudando na adoção de métodos ágeis no Tribunal de Justiç a do RS.

    Professor universitário de graduaç ão (UniRitter) e de pós-graduaç ão (UniRit- ter, Unisinos, UFRGS). Mestre em Ciência da Computaç ão (UFRGS, 2005), área de Engenharia de Software e atualmente doutorando pela mesma ins- tituição, com estudos na área de Refatoraç ão e Smells. Consultor associ- ado da Wildtech, palestrante em dezenas de eventos nacionais e internaci- onais sobre o tema, e fundador e vice-coordenador do XP-RS/GUMA. Possui as certificações CSM e CSP, pela Scrum Alliance. Membro do IASA, Scru- mAlliance, ACM e SBC. Possui os blogs:http://www.guilhermelacerda.nete http://www.codingbyexample.org.

    Rafael Helm Sócio da Wildtech (www.wildtech.com.br), na qual atua como agile co- ach, instrutor e consultor. Experiência de agile coach adquirida em projetos de larga escala em organizações como Receita Federal, Procuradoria Geral da Fazenda Nacional, Ministério de Relações Exteriores, entre outras. Ins- trutor na Wildtech, tendo a oportunidade de treinar empresas e equipes de diferentes localidades do Brasil, incluindo o Ministério da Justiç a, DNIT, PROCERGS, Serpro, Totvs, entre outras. Palestrante em eventos importan- tes como Agile Brazil,The Developers Conference, FISL, XP Conf BR. Au- tor do e-bookHistórias de Usuário – Por que e como escrever requisitos de forma ágil?, que atingiu a marca de 4.000 downloads em menos de um ano (www.wildtech.com.br/historias-de-usuario). Idealizador e cofundador da XP Conf. BR, a conferência nacional sobre eXtreme Programming, e cofun- dador das conferências UX Conf. BR, DevOps Conf. BR e Empreende Conf.

    https://about.me/rafaelhelm Você pode participar da lista de discussão deste livro! Basta escrever para: livro-xp@googlegroups.com.

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    Casa do Código

    Sumário

    • Sumário 1 Por que projetos falham? 1 1.1 Cliente distante página 2
    • 1.2 A cereja do bolo página 4
    • 1.3 Testes no final página 5
    • 1.4 Trabalho empurrado página 6
    • 1.5 Dívidas técnicas página 7
    • 1.6 Conclusão página 9
    • 2 Introdução a métodos ágeis 11 2.1 O Manifesto Ágil página 12
    • 2.2 Lean Software Development página 13
    • 2.3 Scrum página 14
    • 2.4 eXtreme Programming (XP) página 16
    • 3 Valores do eXtreme Programming 19 3.1 Comunicaç ão página 19
    • 3.2 Feedback página 20
    • 3.3 Simplicidade página 20
    • 3.4 Coragem página 21
    • 3.5 Respeito página 22
    • 4 Papéis do eXtreme Programming 23 4.1 Desenvolvedor página 24
    • 4.2 Cliente página 24

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    Sumário

    • Casa do Código 4.3 Coach página 25
    • 4.4 Testador página 25
    • 4.5 Cleaner página 25
    • 4.6 Tracker página 26
    • 4.7 Gerente página 26
    • 4.8 Outros papéis página 27
    • 5 Time coeso 29 5.1 Time multidisciplinar página 30
    • 5.2 Time auto-organizável página 30
    • 5.3 Sentando lado a lado página 31
    • 5.4 As reuniões de retrospectiva e a melhoria contínua página 31
    • 6 Cliente presente 33 6.1 O que fazer quando o cliente não pode estar presente? página 35
    • 7 Histórias de usuário 37 7.1 Modelo 3C página 39
    • 7.2 Ciclo de vida página 39
    • 7.3 Utilizando um modelo de escrita página 40
    • 7.4 Refinando com INVEST página 42
    • 7.5 Implementando com tarefas SMART página 43
    • 7.6 Personas página 43
    • 7.7 Story points página 44
    • 7.8 Escrevendo boas histórias página 44
    • 7.9 Catálogo de story smells página 46
    • 8 Testes de aceitaç ão 49 8.1 Automatizaç ão página 50
    • 8.2 Validando com critérios de aceitaç ão página 50
    • 9 Liberaç ão frequente de pequenas entregas 53 9.1 Foco na qualidade é o ponto-chave página 54
    • 9.2 Releases tudo ou nada página 55

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    Casa do Código

    Sumário

    • 10 O jogo do planejamento 10.1 Definindo o jogo e suas regras página 58
    • 10.2 Entendendo regras e comprometimentos página 59
    • 10.3 Mantendo o foco página 63
    • 10.4 Todo momento é um momento de aprendizado página 64
    • 11 Spikes de planejamento 65 11.1 Jogue fora o código gerado no spike página 66
    • 12 Projeto simples do início ao fim 67 12.1 MVP: produto mínimo viável página 68
    • 13 Metáfora de sistema 71 13.1 Descobrindo uma boa metáfora página 72
    • 14 Reunião diária em pé 75 14.1 Time alinhado página 76
    • 14.2 Troca de conhecimento página 76
    • 14.3 Como começar? página 77
    • 14.4 Erros mais comuns de uma reunião em pé página 77
    • 15 Posse coletiva 81 15.1 My precious! página 82
    • 16 Padrão de codificaç ão 85 16.1 Pequenos projetos também se beneficiam? página 86
    • 16.2 Como definir? página 87
    • 17 Programaç ão em par 89 17.1 Diversos benefícios página 90
    • 17.2 Um desenvolvedor pelo preço de dois? página 91
    • 17.3 A pressão do par página 91
    • 17.4 Nivelando o conhecimento página 92
    • 17.5 Como começar? página 92

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    Sumário

    • Casa do Código 17.6 Dicas para aprimorar a programaç ão em par página 93
    • 17.7 O ambiente de trabalho página 94
    • 17.8 Especificar, projetar, trabalhar, tudo em par página 94
    • 18 Refatoraç ão de código para alta qualidade 95 18.1 Refatore impiedosamente página 96
    • 18.2 Bad smells de código página 97
    • 19 TDD: Desenvolvimento Guiado por Testes 99 19.1 Padrões de TDD página 101
    • 19.2 Show me the code página 105
    • 20 Integraç ão contínua 113 20.1 Como potencializar os benefícios? página 114
    • 20.2 Ferramentas página 116
    • 21 Ritmo sustentável 121 21.1 Velocidade do time página 122
    • 21.2 40 horas semanais página 123
    • 22 Indo além do eXtreme programming 125 22.1 Jogos e dinâmicas página 126
    • 22.2 Behaviour-Driven Development (BDD) página 127
    • 22.3 Domain-Driven Design (DDD) página 127
    • 22.4 Kanban página 128
    • 22.5 Estimando com planning poker página 128
    • 22.6 Resolvendo dívidas técnicas página 129
    • 22.7 Refatorando também o banco de dados página 130
    • 22.8 Código limpo página 130
    • 22.9 Entrega contínua e DevOps página 130
    • 22.10 Leituras sobre desenvolvimento de software página 131
    • 22.11 Artesanato de Software página 132

    Índice Remissivo 138 xiv

    Página 16

    Casa do Código Sumário Bibliografia 144 xv

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    Página 18

    Capítulo1 Porqueprojetosfalham?

    Culpa do cliente, do gerente de projetos, dos testadores, dos analistas de ne- gócios, do time de desenvolvimento, ou simplesmente falta de sorte? Afinal de contas, por que projetos falham, atrasam e/ou fracassam?

    Os desenvolvedores acham que faltou análise; os analistas jogam a culpa no departamento comercial que vendeu o que o software não tem e, ainda por cima, com um prazo impossível de ser cumprido; a equipe de vendas aponta para o cliente dizendo que ele não sabe o que quer; e ele, por sua vez, chama seus advogados para cancelar o contrato.

    É bem provável que você já tenha passado por isso, ou, pelo menos, quase passou.

    Infelizmente, nós, os autores deste livro, já vimos isso acontecer algumas vezes, e normalmente os motivos são os mesmos: falta de proximidade com o cliente; trabalho empurrado goela abaixo do time; codificaç ão a toque de

    Página 19

    1.1. Cliente distante Casa do Código caixa produzindo código sujo; tempo desperdiç ado desenvolvendo o que o cliente não pediu (a famosa cereja do bolo); e o retrógado hábito de testar o software apenas na véspera da sua data de entrega.

    Sendo assim, achamos importante começarmos este livro reforçando por que você não deve cometer estes erros clássicos em seus projetos, para, so- mente depois, entrar no conteúdo doeXtreme Programmingpropriamente dito. Leia com atenção e lembre-se: antes de prescrever o remédio, é necessá- rio identificar a doença.

    1.1 Cliente distante Cena corriqueira em times de desenvolvimento de software: o desenvolve- dor recebe uma especificaç ão para trabalhar, e, enquanto está codificando, percebe que algum detalhe passou despercebido pelo processo de análise do requisito. Isto gerou uma dúvida que o impede de prosseguir seu trabalho com segurança; ou seja, o desenvolvedor não tem certeza do que exatamente deve ser feito.

    Nesses casos de incerteza, normalmente ele procura o analista ou a pessoa responsável por aquela especificaç ão (ou pelo menos deveria fazer isso), e questiona sobre a dúvida que o impede de avançar no código com a certeza de que está fazendo o que foi pedido.

    Quando isso ocorre, é esperado que o analista saiba responder os questi- onamentos do desenvolvedor e o conduza de volta ao caminho correto a ser seguido. O problema é que as pessoas não sabem tudo, incluindo eu, você, e todos os que nós conhecemos. É normal que, em alguns casos, o analista não consiga responder a dúvida do desenvolvedor, pelo menos, não de imediato.

    Quando as dúvidas surgem e ninguém do time sabe o que fazer, a melhor decisão é falar com o cliente, seja por meio de uma reunião, telefone, skype, e-mail ou qualquer outra forma de comunicaç ão. O necessário é falar com ele!

    Entrar no ciclotentativa/ erro/ tentativa/ erro/ …jamais deve ser uma op- ção. As pessoas até podem acertar de vez em quando, mas, na média, essa atitude vai gerar retrabalho lá na frente, além de frustrar o cliente e, posteri- ormente, o time.

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    Casa do Código Capítulo 1. Por que projetos falham?

    Sabemos que nem sempre ele estará disponível. Mesmo que esteja fisica- mente próximo de você e de seu time, ele pode simplesmente não estar livre ou interessado em ajudar; quer dizer, não quer se envolver. Até porque já pa- gou uma boa grana para uma empresa fazer seu software e espera que o time de desenvolvimento saiba como fazê-lo.

    Pois bem, este cenário é o que chamamos decliente distante. Acredite, projetos com clientes distantes têm uma grande tendência a serem entregues com atraso, estourarem o orçamento, os frustrarem ao entregar funcionali- dades que não atendam suas expectativas, ou todas as alternativas anteriores juntas (fracasso tremendo).

    E qual é a solução?

    Precisamos aproximar o cliente desde o início do projeto, deixando bem claro que, a qualquer momento, ele poderá ser acionado para tirar dúvidas, e que a cada funcionalidade, ele poderá ser chamado para realizar uma valida- ção. Ou seja, dar seu consentimento sobre se aquele recurso ficou de acordo com o que esperava, ou indicar o que precisa ser ajustado para atendê-lo, caso o resultado não satisfaç a suas expectativas.

    Porém, é necessário tomar cuidado. Pedir o aceite do cliente não signi- fica pedir para ele testar. O teste do software é responsabilidade do time de desenvolvimento e, acredite em nós, eles não gostam de testar software. E, principalmente, não ficam nada felizes quando encontrambugsnele.

    Quando pedimos para ele validar ou aceitar uma funcionalidade, na ver- dade estamos buscando umfeedback. Queremos confirmar se aquela função que acabou de sair do forno está de acordo com a sua expectativa. Estamos buscando segurança para continuar o desenvolvimento do projeto, tendo cer- teza de que os passos dados até agora foram realizados na direção correta.

    E se o cliente odiar a funcionalidade desenvolvida, dizendo que está to- talmente fora do que ele esperava? Ótimo! Nós conseguimos falhar rápido e teremos tempo para corrigir, adaptar ou até mesmo refazer o recurso, conse- guindo finalmente entregar algo de valor a ele. Imagine como seria desagra- dável se, somente no final do projeto, nós descobríssemos que algumas (ou várias) funcionalidades não ficaram de acordo com sua expectativa? Seria terrível! E provavelmente nosso tempo já estaria esgotado.

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    1.2. A cereja do bolo Casa do Código Então, aproxime-se de seu cliente e mantenham-se próximos!

    1.2 Acereja do bolo Você tem seus clientes e eles têm expectativas. Se algumas empresas que pro- duzem software criassem uma confeitaria especializada em bolos, muitos cli- entes receberiam apenas uma receita, ensinando como fazer omalditobolo.

    Digamos que isso não gera nem tanto valor, nem satisfaç ão. Ele estava com fome, queriasócomer um bolo.

    Outros clientes com um pouco mais de sorte receberiam uma massa, nem tão bem batida, mas que faria um belo bolo “abatumado”. Depois de perder vários prazos com o mesmo cliente (o qual, por alguma magia, ainda segue comprando bolo daquele local), acontece que, eventualmente, a empresa con- segue terminar o bolo, exatamente como ele pediu. Só que, lembra das suas experiências anteriores, nas quais ele não o recebeu? Então, a empresa não pode entregar só um simples bolo. É preciso entregar algo maior, algo a mais.

    Surpreender!

    Não precisamos da cereja do bolo! Ou se você gosta de usar o PMBOK® (Project Management Body of KnowledgeCorpo de Conhecimento em Ge- rência de Projetos) como exemplo; estamos falando doGold Plating.

    Se o seu cliente solicita um relatório com as colunas A, B e C; o time deve desenvolver, com qualidade e dentro do prazo, o relatório com as colunas A, B e C. Simples assim!

    Entregar um relatório com as colunas A, B, C, X e Y não faz sentido ne- nhum! Se ele quisesse que as colunas X e Y aparecessem no relatório, teria solicitado. Neste caso, X e Y são a tal cereja do bolo da qual estamos falando.

    Vamos lembrar de algo bem importante. Nosso cliente tem uma grande expectativa: receber aquilo que ele pediu! E ele possui outras também! Quer receber o mais rápido possível, com a mais alta qualidade e o menor custo. E com o menor desperdício possível, é claro. Colocar uma cereja no bolo não vai ajudá-lo a esquecer as falhas anteriores. Nem nas próximas entregas.

    E qual é a solução?

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    Casa do Código Capítulo 1. Por que projetos falham?

    Simplicidade: maximizar o trabalho que não deve ser feito. A meta do time deve ser trabalhar com o cliente para enxugar as funcionalidades neces- sárias. Deve-se questionar muito sua visão de valor.

    Muitos recursos sugeridos por ele não possuem um método fácil de me- dir o valor ou, até mesmo, o Retorno Sobre Investimento (ROIReturn On Investment). Uma simples classificaç ão para entender o valor e o risco de fa- zermos uma determinada funcionalidade pode ser uma boa racionalizaç ão para ajudar na seleção do que precisa ser feito.

    Indo nessa linha, vamos começar trabalhando naquilo que possui alto risco e valor, e descobrir rapidamente se temos algum problema. Lembra da estratégia de falhar rápido? Esse é o jogo. O mundo perfeito é trabalhar na- quilo que possui alto valor e um baixo risco!

    Não queremos trabalhar naquilo que possui baixo valor. O único motivo para isso está relacionado às leis, nas quais temos que seguir para a conformi- dade e evitar alguma multa. De resto, fuja daquilo que não tem valor claro.

    Foque na entrega de valor para seu cliente.

    1.3 Testes no final Afinal, por que testamos? Aliás, é necessário realmente testar?. Ou pior: se sobrar tempo, testamos!

    Essas expressões são comumente ditas por profissionais de software. In- felizmente.

    Deixe-nos explicar melhor: desenvolver software é um processo produ- tivo, no qual executamos tarefas de investigaç ão, design, programaç ão, testes, entre outros. A forma como a indústria começou a desenvolver seus modelos (e independente do modelo a ser adotado) engloba essas etapas.

    A questão a ser observada no processo é que a preocupaç ão com os tes- tes só existe no final. Além de acontecer isoladamente, não se enxerga seu verdadeiro valor, nem sua relaç ão com a qualidade do produto.

    Por esses motivos, os testes não são levados a sério. Por isso, pagamos o preço do retrabalho ao entregar funcionalidades erradas e com falhas. Isso gera desconfiança e estressa uma relaç ão que precisa ser totalmente diferente para atingirmos o objetivo.

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    1.4. Trabalho empurrado Casa do Código E qual é a solução?

    Precisamos trabalhar nos recursos até eles estarem prontos de verdade; ou seja, não podemos permitir que exista dentro do time de desenvolvimento o conceito de queestá pronto, só falta testar.

    O teste não deve ser encarado como uma etapa à parte, como algo extra.

    Os processos de desenvolvimento e testes devem ser vistos como uma única etapa. Esqueça odesenvolver primeiro, testar mais tarde, e busque o desenvol- ver + testar. Entende a diferen ça? As funcionalidades não são testadas mais tarde; elas são testadas agora.

    1.4 Trabalho empurrado Imagine a cena: o gerente de projetos avisa o time de desenvolvimento de que a empresa fechou um novo contrato e que o software deve ser entregue em uma determinada data, deixando já bem claro a todos que não existe possibi- lidade de não a cumprir.

    O time de desenvolvimento começa a analisar os requisitos e gerar as ta- refas, e logo percebe que, para cumprir a data já firmada com o cliente, que inclusive consta no contrato, será necessário produzir em uma velocidade muito acima do habitual. Ao notar isso, o nível de estresse do time é elevado, o ambiente fica tenso e os desenvolvedores programam a toque de caixa, co- meçando a gerar um código sujo, mal estruturado e em cima de requisitos especificados de forma superficial. Como o tempo era curto, ninguém quis perdermuito tempo com especificaç ão, assim todos já foram logo metendo a mão na massa.

    Esse é um claro cenário de trabalho empurrado, que gera muito caos e pouco resultado!

    E qual é a solução?

    Se trabalho empurrado é um problema, trabalho puxado é a soluç ão. O ideal é que esteja à disposiç ão do time o que for necessário para o desen- volvimento de software e que as tarefas estejam corretamente priorizadas e, se possível, dispostas em um mural contendo todas as que serão trabalhadas

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    Casa do Código Capítulo 1. Por que projetos falham?

    nos próximos dias. Desse modo, uma ou mais pessoas puxam as tarefas e tra- balham nelas até o fim, nunca esquecendo dedesenvolver + testar, em vez de desenvolver primeiro, testar mais tarde.

    Após terminar a tarefa, o desenvolvedor vai até o mural, dá uma olhada nas próximas da fila e puxa aquela em que ele sente que consegue trabalhar.

    Claro que é necessário que ele faç a isso com responsabilidade; ou seja, é im- portante que, dentro do possível, ele siga a priorizaç ão. A exceção a essa regra pode ocorrer quando a próxima tarefa da fila refere-se, por exemplo, a um módulo que ele não conhece ou a uma tecnologia com qual ele não se sente seguro. Porém, esses casos são ótimas oportunidades para trabalhar em par com outra pessoa do time e aprender algo novo, tanto em termos de negócio, quanto de tecnologia.

    Nós acreditamos fortemente no trabalho puxado e sempre orientamos nossos times a trabalharem desta forma, de preferência baseados em um mu- ral que permita gestão visual das tarefas e do progresso de trabalho, seja no meio físico ou virtual (no caso de equipes distribuídas).

    Sabemos que quebrar a cultura do trabalho empurrado não é fácil, pois existe (principalmente na cabeça da maioria dos gestores) uma barreira muito forte em relaç ão a isso. Entretanto, garantimos que vale a pena tentar. Durante o livro, vamos mostrar ferramentas e táticas que nos ajudarão nessa missão, como: time coeso, posse coletiva, liberaç ão frequente de pequenas entregas, trabalho em pares, jogo do planejamento, e outros tópicos que ajudam a im- plantar a cultura de trabalho puxado.

    1.5 Dívidas técnicas O projeto começa e o time de desenvolvimento está trabalhando com alta produtividade. Várias partes do software vão sendo construídas e todos estão felizes.

    Passadas algumas semanas, a produtividade caiu um pouco e a euforia do time passou; mas o projeto ainda transcorre dentro da normalidade e eles ainda estão relativamente contentes.

    Passadas mais algumas semanas, a produtividade cai drasticamente e muitos bugs começam a ser encontrados. Nesse momento, o time já está com

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    1.5. Dívidas técnicas Casa do Código a moral baixa, o cliente notou que o projeto não anda bem, o custo de mu- dança de qualquer funcionalidade é muito alto, e você não entende o motivo dessa queda; afinal de contas, o time é bom, a especificaç ão foi bem feita, o cliente está próximo, a comunicaç ão flui e as pessoas são comprometidas. O que está acontecendo?

    É bem provável que o projeto possua uma dívida técnica grande.

    O termodívida técnicaé utilizado para indicar trechos de código que fo- ram mal escritos, ou escritos de qualquer forma, sem refatorar, sem testes automatizados e sem respeitar padrões. São as chamadasgambiarrasouba- cas. Com o passar do tempo, esses trechos atrapalharão os desenvolvedores e mudanças que, teoricamente, seriam simples, passam a levar muito tempo para serem realizadas.

    É provável que você já tenha deparado-se com uma funcionalidade pra- ticamente impossível de ser evoluída, tamanha era a falta de qualidade do código. Em alguns casos, quando isso ocorre, somos obrigados a refazê-la toda, pois o código tornou-se ilegível e isso gera um grande desperdício de tempo e dinheiro.

    Muitos desenvolvedores ainda consideram que qualidade do código é algo extra e que o foco é entregar software com qualidade, não necessariamente produzindocódigode qualidade. Essa é uma escolha perigosa, porque, a me- nos que o projeto seja bem pequeno, o desenvolvedor precisará pagar a conta da dívida técnica produzida, ou simplesmente o projeto vai parar.

    E qual é a solução?

    São excelentes formas de evitar a dívida técnica: especificar requisitos com o formato de histórias de usuários, projeto simples, padrão de codifi- cação, desenvolvimento guiado por testes (TDD), programaç ão em pares, re- fatoraç ão, integraç ão contínua, boas práticas de programaç ão e ritmo susten- tável.

    Mas, se você não sabe como implantar essas práticas no seu time de de- senvolvimento, fique tranquilo! Estamos apenas no começo do livro e abor- daremos esses assuntos mais à frente.

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    Casa do Código Capítulo 1. Por que projetos falham?

    1.6 Conclusão Quando um projeto falhar, não tente encontrar um culpado, olhe para o pas- sado e procure identificar se algum dos problemas ocorreu em seu projeto.

    Precisamos sempre buscar sua causa raiz. Não busque culpados, busque en- tender o que ocorreu e converse com seu time para tentar encontrar uma so- lução, um melhor caminho a ser seguido.

    Reuniões de retrospectiva de projeto são ótimas oportunidades de levan- tar problemas e discutir soluções com seu time. Mais à frente, falaremos sobre elas.

    Lembre-se: em métodos ágeis, incluindo o eXtreme Programming, deve- mos sempre trabalhar com a mente aberta para realizar adaptações em nosso processo de trabalho, a fim de buscar melhoria contínua. É uma busca infinita pelofazer melhor.

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    Capítulo2 Introduç ãoamétodoságeis Em fevereiro de 2001, em Utah, 17 profissionais experientes (consultores, de- senvolvedores e líderes) da comunidade de software reuniram-se para discutir alternativas aos processos e às práticas burocráticas utilizadas nas abordagens tradicionais de Engenharia de Software e Gerência de Projetos. Assim nasceu oManifesto Ágil[17], destacando as diferenças em relaç ão às abordagens tra- dicionais.

    A principal diferença das metodologias ágeis em relaç ão às tradicionais é o enfoque na adaptaç ão, visando ter o mínimo realmente necessário para a realizaç ão do trabalho. Com essa estratégia, busca-se aceitar e trabalhar a mudança, reduzindo custos de implementaç ão.

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    2.1. O Manifesto Ágil Casa do Código 2.1 O ManifestoÁgil O Manifesto Ágil é uma declaraç ão dos valores e dos princípios que funda- mentam o desenvolvimento ágil de software. Ele foi assinado em 2001 por dezessete profissionais de software que já vinham experimentando metodo- logias e práticas mais leves e enxutas. Isso foi tão bem recebido pela comu- nidade que alguns desses desenvolvedores ganharam o mundo palestrando sobre o assunto. O Manifesto Ágil possui 4 valores e 12 princípios, que vamos apresentar em seguida.

    Os 4 valores do Manifesto Ágil são:

    • Indivíduos e interações mais queprocessos e ferramentas; • Software em funcionamentomais quedocumentaç ão abrangente; • Colaboraç ão com o clientemais quenegociaç ão de contratos; • Responder a mudançasmais queseguir um plano.

    E os 12 princípios do Manifesto Ágil são:

    1) Nossa maior prioridade é satisfazer o cliente por meio da entrega contínua e adiantada de software com valor agregado; 2) Mudanças nos requisitos são bem-vindas no desenvolvimento, mesmo tardiamente. Processos ágeis tiram vantagem das mudanças, visando van- tagem competitiva para o cliente; 3) Entregar frequentemente software funcionando, de poucas semanas a poucos meses, com preferência à menor escala de tempo; 4) Pessoas de negócio e desenvolvedores devem trabalhar diariamente em conjunto por todo o projeto; 5) Construa projetos em torno de indivíduos motivados. Dê a eles o ambiente e o suporte necessários e confie neles para fazer o trabalho; 6) O método mais eficiente e eficaz de transmitir informações para (e entre) uma equipe de desenvolvimento é por meio de conversa face a face;

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    Casa do Código Capítulo 2. Introduç ão a métodos ágeis 7) Software funcionando é a medida primária de progresso; 8) Os processos ágeis promovem desenvolvimento sustentável. Os patrocina- dores, desenvolvedores e usuários devem ser capazes de manter um ritmo constante indefinidamente; 9) Contínua atenção à excelência técnica e bom design aumentam a agili- dade; 10) Simplicidade a arte de maximizar a quantidade de trabalho não realizado é essencial; 11) As melhores arquiteturas, requisitos e designs emergem de equipes auto- organizáveis; 12) Em intervalos regulares, a equipe reflete sobre como tornar-se mais eficaz e, então, refina e ajusta seu comportamento de acordo.

    Esses princípios, se bem compreendidos pelo cliente e pelo time, promo- vem uma mudança de atitude. O cliente consegue enxergar valor mais rapida- mente nas entregas frequentes do software e, à medida que visualiza a soluç ão, consegue refletir sobre alternativas e prioridades. O time trabalha mais mo- tivado, porque consegue enxergar valor no seu trabalho que, por meio de fe- edback constante, aprimora continuamente. O bom relacionamento melhora para ambos, visto que a confiança se faz cada vez mais presente.

    Com base nesses valores e princípios, aparecem três abordagens mais es- pecíficas que vêm proporcionado ótimos resultados, seguindo a essência do Manifesto Ágil. A seguir, elas são apresentadas rapidamente.

    2.2 LeanSoftwareDevelopment O Lean, ou Sistema Toyota de Produç ão (STP), revolucionou a indústria da manufatura, tanto pela geraç ão de valor para o cliente, quanto para a satisfa- ção de trabalho para o time. Essas suas características serviram de base para o casal Mary e Tom Poppendieck identificar semelhanças com o desenvolvi- mento ágil de software, criando oLean Software Development(LSD) [50].

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    2.3. Scrum Casa do Código Com base nos seus pensamentos, foram identificados 7 princípios para o desenvolvimento de software:

    1) Eliminar desperdícios; 2) Incluir qualidade no processo; 3) Criar conhecimento; 4) Adiar comprometimentos; 5) Entregar rápido; 6) Respeitar as pessoas; 7) Otimizar o todo.

    O modo Lean de pensar é muito útil para criar uma cultura de melhoria contínua nas equipes. Seus princípios são perfeitamente alinhados aos valores e às práticas do Manifesto Ágil.

    2.3 Scrum O Scrum surgiu na década de 90, criado por Ken Schwaber, Jeff Shuterland e Mike Beedle. Seu principal objetivo é prover um framework de gestão ágil para desenvolver e manter produtos complexos [51].

    Nele, a partir de umBacklog de Produtoinicial, o trabalho que será rea- lizado é priorizado na iteraç ão, denominadaSprint. O desenvolvimento do Backlog da Sprintgera um incremento entregável do produto ao final de cada Sprint, na reunião deRevisão da Sprint. Esse trabalho é desenvolvido com a sincronizaç ão diária doTime de Desenvolvimento, na Reunião Diária. Ao final daSprint, é realizada a reunião deRetrospectiva da Sprint, com o objetivo de reduzir riscos e promover a melhoria contínua. ODono do Produtoé o papel responsável pelo gerenciamento do produto e oScrumMasteré pelo processo, ajudando oTime de Desenvolvimentoa resolver seus impedimentos.

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    Casa do Código Capítulo 2. Introduç ão a métodos ágeis Scrum precisa das práticas técnicas do XP Scrum é um framework bastante popular atualmente e muito utilizado para o gerenciamento de projetos, produtos e times. Por dar mais ênfase no gerenciamento de atividades e tarefas, ele pode (e deve) ser utilizado em con- junto com outros métodos e processos que focam em engenharia ágil de soft- ware, como o eXtreme Programming.

    Jeff Sutherland, cocriador do Scrum, diz que o Manifesto Ágil é sobre Scrum com práticas de engenharia do eXtreme Programming, e essa combi- nação é o framework preferencial [55].

    Veja também o que Ron Jeffries, Martin Fowler e James Shore falam da necessidade das práticas do XP na utilizaç ão do Scrum:

    “Você não vê times Scrum de alto desempenho sem práticas de engenharia do XP. É difícil escalar times XP sem Scrum, e Scrum soluciona os assuntos de interface com a gestão. Seja cuidadoso ao fazer partes de qualquer coisa e chamar isso de ágil.”

    –Ron Jeffries e Jeff Sutherland [56] “Se você estiver procurando introduzir Scrum, certifique-se de prestar uma boa atenção às práticas técnicas. Nós tendemos a aplicar muitas dessas a partir do Extreme Programming e elas se encaixam muito bem.”

    –Martin Fowler [25] “XP e Scrum são as melhores maneiras que nós sabemos para trabalhar bem em conjunto. Eles não são necessários pode haver outras maneiras e eles certamente não são suficientes há um milhão de coisas que devemos fazer para ser bem-sucedido, e elas não estão todas escritas nos livros.”

    –Ron Jeffries [32] “Sem práticas de engenharia ágil do XP, a qualidade do código e a produtividade diminui assintoticamente ao longo do tempo. Com elas, a produtividade começa inferior, mas em seguida aumenta assintoticamente.”

    –James Shore [52]

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    2.4. eXtreme Programming (XP) Casa do Código 2.4eXtremeProgramming(XP) O eXtreme Programming é uma metodologia ágil de desenvolvimento de software voltada para times de pequeno a médio porte, no qual os requisi- tos são vagos e mudam frequentemente. Desenvolvido por Kent Beck, Ward Cunningham e Ron Jeffries [6], o XP tem como principal tarefa a codifica- ção com ênfase menor nos processos formais de desenvolvimento e com uma maior disciplina de engenharia ágil de software para codificaç ão e testes. Tem como valores a comunicaç ão, a simplicidade, o feedback, a coragem e o res- peito.

    O XP valoriza a automatizaç ão de testes, sendo estes criados antes, du- rante e depois da codificaç ão. É flexível para a mudanças de requisitos, valo- rizando o feedback com o usuário e a qualidade do código-fonte final.

    A ideia principal do XP é a criaç ão de software de alta qualidade, abando- nando todo tipo deoverheadde processo que não suporte diretamente a en- trega de valor. Ele é orientado explicitamente às pessoas e vai contra o senso comum do gerenciamento de que elas são peças intercambiáveis dentro do processo de desenvolvimento.

    Sinergia entre as práticas Nos próximos capítulos, detalharemos os valores, os papéis e as diversas práticas do XP, trazendo a teoria e a prática com muitas dicas. Uma prática do XP, um valor ou um papel serve como suporte para outras práticas, outros valores e outros papéis do próprio XP, criando uma sinergia. Por exemplo, as histórias de usuário são base para os testes de aceitaç ão, no qual rodarão na integraç ão contínua e permitirão pequenas entregas, auxiliando no ritmo sus- tentável e na comunicaç ão do time de desenvolvimento com o cliente. Quanto mais afinados eles estiverem, mais benefícios o XP trará ao desenvolvimento de software.

    Esperamos que você navegue de forma prazerosa pelas páginas a seguir.

    Para auxiliá-lo nisso, disponibilizamos abig picturedo XP com seus valores e práticas de gestão, planejamento, projeto e codificaç ão (vide imagem a se- guir). Você pode baixar e imprimi-la em [2].

    Esperamos também que este livro mude sua forma de pensar e agir (se

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    Casa do Código Capítulo 2. Introduç ão a métodos ágeis ainda não mudou), e ajude você, seus clientes e seu time a atingirem satisfa- toriamente seus objetivos, de preferência dentro do prazo, custo e orçamento previstos. 🙂 Fig. 2.1: Big picture do XP. Imagens de Freepik (http://www.flaticon.com/authors/freepikhttp://www.flaticon.com) com a licen ça Cre- ative Commons BY 3.0 (CC BY 3.0) (http://creativecommons.org/licenses/by/3.0/)

    Imagem 1 da página 34 (sem descrição)

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    Capítulo3 ValoresdoeXtreme Programming O eXtreme Programming define cinco valores para que seus papéis e práticas funcionem em sinergia de acordo com sua essência ágil: a comunicaç ão, o feedback, a simplicidade, a coragem e o respeito; que serão descritos a seguir neste capítulo.

    3.1 Comunicação Ter foco na comunicaç ão é essencial em projetos de software, pois é a prin- cipal forma de transmitir e trocar informações e conhecimentos. Por essa razão, é importante incentivar meios eficazes de comunicaç ão, cujo valor está presente no Manifesto Ágil e na maioria das práticas de XP.

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    3.2. Feedback Casa do Código Ela pode ocorrer de várias formas, como, por exemplo: e-mail, telefone, skype (ou outras ferramentas de chat instantâneo), teleconferência, conversa face a face etc. Porém, é preciso entender que nem todas possuem a mesma efetividade.

    A forma mais eficiente é a conversa face a face, usando um quadro branco como apoio para rabiscar ideias e/ou rascunhos sobre arquitetura de software.

    Distribuir quadros brancos no ambiente de desenvolvimento pode funcionar muito bem para estimular discussões de arquitetura, fluxos, algoritmos e, as- sim, aumentar a possibilidade de implementar certo logo na primeira tenta- tiva.

    A comunicação incentiva diretamente outro valor essencial no XP: o fe- edback.

    3.2 Feedback Na adoção das práticas, o feedback é realizado a todo momento, seja em re- lação aos requisitos do cliente, ao resultado da execuç ão de testes unitários, ou na compilaç ão do código na integraç ão contínua. A compreensão das ne- cessidades dos usuários e do negócio propriamente dito é um aprendizado constante. A razão de adotarmos estratégias iterativas e incrementais é que isso permite que os inevitáveis erros das pessoas sejam descobertos o mais cedo possível e reparados de forma metódica.

    3.3 Simplicidade A simplicidade é outro valor presente nas práticas XP, e a chave e a diretriz de um projeto ágil. Ela visa manter o trabalho o mais simples e focado possível, entregando somente o que realmente agrega valor. Acrescentar suporte para futuras funcionalidades de forma desnecessária complica odesigne eleva o esforço para desenvolver incrementos subsequentes.

    Infelizmente, projetar um design simples não é algo fácil, pois muitos ti- mes já estão acostumados com a prática de futurologia, sofrendo da Síndrome de Nostradamus; ou seja, mesmo sabendo o que o cliente quer hoje, eles in- sistem em tentar desenvolver uma soluç ão que também resolva problemas

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    Casa do Código Capítulo 3. Valores do eXtreme Programming futuros. O ponto é: não temos certeza sobre o que vai acontecer no futuro, então precisamos nos focarapenasnos problemas e necessidades atuais do nosso cliente.

    Lembre-se: busque sempre desenvolver o suficiente de forma simples e com qualidade.

    3.4 Coragem A coragem também é incentivada por meio do uso das práticas do XP. Por exemplo, o desenvolvedor apenas se sentirá confiante para refatorar o código criado por outro colega caso o time tenha um padrão de codificaç ão e posse coletiva do código. Além dessa prática, o uso de controle de versão e testes unitários também encorajam isso. Além desses medos naturais de alteraç ão de código, tem-se uma série de preocupações que exercem influência nos pro- cessos de desenvolvimento.

    O cliente teme:

    • Não obter o que foi solicitado/contratado; • Pedir a coisa errada; • Pagar demais e receber pouco; • Jamais ver um plano relevante; • Não saber o que está acontecendo (falta de feedback); • Ater-se às primeiras decisões de projeto e não ser capaz de reagir à mu- dança do negócio.

    Já o desenvolvedor teme:

    • Ser solicitado a fazer mais do que sabe fazer; • Ser ordenado a fazer coisas que não faç am sentido; • Ficar defasado tecnicamente;

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    3.5. Respeito Casa do Código • Receber responsabilidades, mas sem autoridade; • Não receber definições claras sobre o que precisa ser feito; • Sacrificar a qualidade em função do prazo; • Resolver problemas complexos sem ajuda; • Não ter tempo suficiente para fazer um bom trabalho.

    Um verdadeiro time XP é composto de indivíduos corajosos que confiam em suas práticas, bem como nos seus colegas de time. A coragem faz-se ainda mais necessária nos momentos de crise.

    3.5 Respeito O respeito pelos colegas de time e pelo cliente é muito importante. Pessoas que são respeitadas sentem-se valorizadas. Os membros do time precisam respeitar o cliente; o cliente precisa respeitar os membros do time; e, além disso, o cliente deve fazer parte das decisões.

    Os desenvolvedores nunca devem realizar mudanças que quebrem a com- pilação e que fazem os testes de unidade falharem ou realizarem outras ações que possam atrasar o trabalho ou o progresso do time.

    Todos no time devem respeitar a posse coletiva do código, sempre pri- mando pela qualidade e buscando um design simples por meio da refatora- ção.

    A adoção dos demais quatro valores do XP conduzirá a este quinto valor:

    o respeito. Isso vai garantir um alto nível de motivaç ão, além de incentivar a lealdade entre todas as pessoas envolvidas no projeto, criando um verdadeiro senso de trabalho em equipe.

    O ponto é: como se adquirem confiança e respeito? Obviamente, entre- gando softwares que funcionam. E mais que isso, o respeito é fundamental para uma relaç ão transparente e duradoura. É isso que realmente forma a parceria e a colaboraç ão de todos envolvidos, algo essencial para a entrega contínua de valor.

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    Capítulo4 PapéisdoeXtremeProgramming O time XP é formado por papéis com objetivos diferentes, porém comple- mentares, tais como: o papel de desenvolvedor (programador), do cliente, do gerente, docoach, do testador, dotrackere docleaner[6].

    Uma pessoa pode assumir mais de um papel; por exemplo, ser desenvol- vedor e coach, ou, então, desenvolvedor e tracker.

    Porém, é aconselhável que alguns papéis, como coach e gerente, não se- jam assumidos por uma mesma pessoa, porque seus interesses são conflitan- tes. Ou seja, o gerente em determinados momentos pode sofrer uma pressão muito grande para entregar mais softwares e de forma mais rápida, e isso pode fazer com que, inconscientemente, ele repasse essa pressão para o time e acabe deixando de lado as práticas ágeis do XP; enquanto o coach deve justamente manter o time atuando de forma ágil e disciplinada, mantendo a agilidade mesmo em momentos de crise.

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    4.1. Desenvolvedor Casa do Código Nas próximas seções, falaremos mais sobre cada um dos papéis que com- põem um time XP.

    4.1 Desenvolvedor O desenvolvedor, também denominado programador, é o coraç ão do XP. O desenvolvedor multidisciplinado é um profissional capaz de trabalhar em to- das as etapas do desenvolvimento de software, desde a escrita de histórias de usuário até odeployem produç ão. No time XP, ele é um programador que es- tima as histórias de usuários e tarefas, quebra as histórias em tarefas, escreve testes, escreve código, automatiza processos de desenvolvimento e, gradual- mente, aprimora o design do sistema.

    Especificaç ão, prototipaç ão, design, desenvolvimento, testes e atividades ligadas ao DevOps são tarefas que o desenvolvedor poderá exercer em seu dia a dia. Desenvolvedores multidisciplinados elevam o nível de agilidade de um time, uma vez que todos podem vir a atuar em atividades que, eventualmente, tornam-se gargalos do projeto. Visto que eles escrevem código de produç ão em pares, precisam ter boas habilidades sociais e de relacionamento.

    4.2 Cliente Também conhecido comoo dono do ouro, o cliente define e prioriza as his- tórias de usuário, validando o produto desenvolvido por meio de testes de aceitaç ão. É importante que ele esteja o mais próximo possível do time, com disponibilidade suficiente para conversar e tirar as dúvidas habituais.

    O nosso cliente nem sempre será o usuário; ou seja, ele pode conhecer o negócio, definir e priorizar os requisitos, mas não utilizará o software efe- tivamente. Quando esse cenário ocorrer, é necessário aproximar do time al- guns desses usuários, pois, dessa forma, conseguimos priorizar os requisitos e validá-los com eles. São as pessoas que realmente utilizarão o software no dia a dia, afinal.

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    Casa do Código Capítulo 4. Papéis do eXtreme Programming 4.3 Coach É o técnico do time XP. Ele orienta a todos, mantendo a disciplina na aplicaç ão das práticas ágeis, e lembra a equipe da importância das cerimônias (como a reunião em pé, o jogo do planejamento e a reunião de retrospectiva, tudo que veremos mais à frente), da construç ão e manutenção de artefatos e do uso de ferramentas.

    O coach pode facilitar reuniões e orientar o time em relaç ão a que cami- nho seguir quando surgirem dúvidas ou impasses ligados à forma de trabalho.

    É saudável que ele não seja a mesma pessoa que atua como gerente, por- que os interesses desses papéis são diferentes. Enquanto o coach preocupa-se em manter o time engajado e disciplinado, o outro importa-se em priorizar e entregar o software para o cliente. Se uma mesma pessoa acumular os dois papéis, em momentos de crise, o gerente poderá falar mais alto e atropelar as práticas ágeis.

    4.4 Testador O testador no time XP auxilia o cliente a escolher e escrever testes de aceita- ção, para, então, automatizá-los. Ele serve também como um programador coach em técnicas de testes. Para o time de desenvolvimento, o testador não é responsável por pegar erros triviais, isto é papel dos próprios desenvolve- dores. Ele faz parte do time XP, não devendo ser uma pessoa isolada e traba- lhando em outro local. Ele pensa no teste e na qualidade do produto como um todo, considerando também os que rodarão na integraç ão contínua, au- xiliando em par os programadores a resolver problemas do sistema.

    4.5 Cleaner O cleaner é um membro do time que assume o papel de limpar o código; en- corajar os membros a praticar pequenas refatorações; reduzir a complexidade e acoplamento do código; e a aumentar a coesão dos métodos, realizando sua extração e tornando o código cada vez mais enxuto [63]. Ele também se man- tém o tempo todo atento aos impedimentos do time e às dívidas técnicas, ajudando, assim, a garantir a qualidade do código.

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    4.6. Tracker Casa do Código São pré-requisitos para um bom cleaner: a excelência técnica, o conheci- mento do negócio e da arquitetura, bem como uma boa didática para explicar aos desenvolvedores o motivo de cada refatoraç ão para elevar o nível técnico de todos os membros do time.

    O cleaner incentiva o grupo a cuidar da saúde e do bem-estar do código.

    Um bom candidato pode ser o líder técnico ou o arquiteto do produto. Ele também pode conduzirCoding Dojosou outras dinâmicas para elevar o co- nhecimento técnico da equipe.

    4.6 Tracker Responsável por coletar as métricas de projeto, o tracker é capaz de contar uma história da iteraç ão do início ao fim, por meio dos apontamentos que realizou e das informações que foram coletadas. Como um tracker, você é a consciência do time e deverá coletar informações sem perturbar o processo de desenvolvimento mais do que o necessário.

    Ao final de cada iteraç ão, ele pode gerar métricas que mostram o desem- penho do time. O coach pode trabalhá-las com o grupo, buscando manter aquilo que estiver satisfatório e modificar o que não estiver indo bem.

    4.7 Gerente O gerente facilita a comunicaç ão dentro de um time XP e coordena a comu- nicação com clientes, fornecedores e com o resto da organizaç ão. Ele gerencia e acompanha o planejamento do projeto, pois o planejamento no XP é uma atividade, e não uma fase; e auxilia na priorizaç ão das histórias de usuário, as- sim como no agendamento de reuniões e de demonstrações com o cliente e os usuários. Também gera relatórios e gráficos de acompanhamento do projeto e administra a infraestrutura necessária ao time (máquinas, licenças, espaços físicos etc.).

    O gerente não é o chefe do time de desenvolvimento, mas pode (e deve) ser um líder servo, o que significa que ele reconhece e auxilia nas suas neces- sidades reais.

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    Casa do Código Capítulo 4. Papéis do eXtreme Programming 4.8 Outros papéis O XP considera que outros papéis relacionados ao negócio podem fazer parte do time, podendo incluir: usuários, consultores, chefes e executivos [7]. Po- rém, por tratarem-se de papéis complementares do XP, eles não serão abor- dados por nós.

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    Capítulo5 Timecoeso “A aprendizagem não é obrigatória… Nem a sobrevivência.”

    –William Edwards Deming Você se lembra do primeiro valor do Manifesto Ágil?Indivíduos e intera- ções mais que processos e ferramenta. Você já parou para pensar por que esse é o primeiro valor?

    Comumente nas organizações, diversos processos e ferramentas são de- senvolvidos para tentar resolver problemas que, na realidade, são causados por lacunas na comunicaç ão, na confiança das pessoas e na falta de motiva- ção dos indivíduos, criando formalismos que engessam o trabalho e geram novos problemas. Esse primeiro valor enfatiza a importância das pessoas e do trabalho em time para um melhor desenvolvimento de software.

    Eis um dos pontos-chaves no XP: em um projeto, todos fazem parte do time, integrando-se os clientes à equipe de desenvolvimento. Dessa forma, o

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    5.1. Time multidisciplinar Casa do Código grupo coeso possuirá todas as competências de negócio e técnicas para de- senvolver o software.

    Um time efetivamente coeso maximiza os valores do XP: possui maior co- municaç ão por estar integrado, busca continuamente a simplicidade e cons- trói confiança para ter-se coragem e gerar feedback por meio do respeito mú- tuo. A multidisciplinaridade, a auto-organizaç ão, a proximidade física e a melhoria contínua são características essenciais para um time efetivamente coeso.

    5.1 Time multidisciplinar O trabalho multidisciplinar tem raízes nas células de produç ão do Sistema Toyota de Produç ão [41]. O conceito de células de produç ão defende o traba- lho em equipe para a produç ão de itens com características similares, sendo uma grande inovaç ão dos japoneses na década de 70. Isso revolucionou a ideia taylorista-fordista de ter-se apenas um homem por estaç ão de trabalho executando apenas um tipo de tarefa especializada.

    O trabalho em célula de produç ão cria sinergia entre os indivíduos e otimiza o desempenho do processo, eliminando diversos desperdícios, tais como: espera; superproduç ão; estoque; defeitos de qualidade; movimentos; transportes; processos desnecessários; e, principalmente, o não uso da cria- tividade dos funcionários. É importante salientar que o membro de time XP pode assumir mais de um papel, o que foi abordado com mais detalhes no capítulo4.

    5.2 Time auto-organizável Os times coesos são auto-organizáveis; ou seja, são responsáveis pelo seu pró- prio sucesso. Não há a necessidade de controle das atividades de cada indiví- duo do time por um gerente de projetos ou um coordenador. A gestão é tão importante que não fica nas mãos de apenas uma pessoa. O gerente empodera o time nas suas decisões e trabalha no macrogerenciamento. O microgerenci- amento está dentro do próprio time; não há ninguém melhor do que a própria equipe para tomar suas decisões de trabalho. O coach cuidará do método e

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    Casa do Código Capítulo 5. Time coeso da liderança do grupo, porém a liderança situacional pode emergir de seus membros, dependendo da questão a ser resolvida.

    5.3 Sentando lado a lado O espaço físico influencia diretamente a comunicaç ão e o trabalho do time coeso. É essencial que o time sente-se junto no mesmo ambiente físico. No início do dia, os membros realizam as reuniões diárias face a face e, durante ele, a programaç ão em pares é feita constantemente. O ambiente de traba- lho no XP contém quadros para a comunicaç ão e feedback de informações importantes do projeto a todos envolvidos nele.

    5.4 As reuniões de retrospectiva e a melhoria contínua Em desenvolvimento de software, existe apenas o aperfeiçoar, e não a perfei- ção. Não há processo perfeito, nem projeto e nem histórias de usuário. Con- tudo, a melhoria contínua é buscada no dia a dia, sendo possívelaperfeiçoar seu processo, seu projeto e suas histórias.

    Um dos pontos-chaves de um time de alto desempenho está nas suas reu- niões de retrospectiva, pois são identificados progressos a serem realizados no seu trabalho para aprimorar suas práticas. Essa reunião exige uma pro- funda reflexão do próprio trabalho para que se possam encontrar melhorias.

    No Lean, essa autorreflexão é chamada deHanseie o ato de realizá-las é cha- mado deKaizen[41].

    Qual é a abordagem do XP para a melhoria contínua? É simples: conserte o XP quando ele falhar. O eXtreme Programming assume que não trará todas as respostas para o desenvolvimento de software, pois sabemos que não há bala de prata [28]. As regras devem ser seguidas até o time precisar mudá-las.

    Os projetos são encorajados a iniciarem seguindo as regras do XP e, en- tão, a adaptarem qualquer aspecto que não esteja funcionando, tudo isso em um ambiente de experimentaç ão e avaliaç ão. As reuniões frequentes de re- trospectiva farão com que a melhoria contínua seja uma parte natural do de- senvolvimento de software. O livroAgile retrospectivestraz toda a base, além

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    5.4. As reuniões de retrospectiva e a melhoria contínua Casa do Código de muitas dicas para conduzir retrospectivas [40].

    O clima descontraído e divertido nas retrospectivas ajuda bastante os membros do time a expor problemas e tornar a melhoria contínua mais leve.

    As dinâmicas lúdicas com o uso de metáforas também ajudam muito na ex- posição de problemas e na coragem para dar passos em direção ao aperfeiço- amento, pois estimulam a criatividade. Paulo Caroli e Tainã Caetano trazem diversas dessas retrospectivas divertidas no livroFun retrospectives[11].

    O segredo das práticas do XP está na sinergia: uma prática sustenta e potencializa a outra. Por exemplo, as histórias de usuário permitem a comu- nicação para a criaç ão de testes de aceitaç ão e pequenas iterações, agilizando as entregas para obter-se feedback do cliente sobre o software sendo desen- volvido. Uma dica é utilizar a melhoria contínua também para a união das práticas.

    Dica dos autores: qual o tamanho ideal de um time?

    Reconhecemos que, mais importante do que o tamanho do time, é a sua formaç ão: manter o foco por meio da atenção constante e buscar o comprometimento de todos. Porém, é quase unanimidade que gruposde sete pessoas variando mais ou menos duas normalmente funcio-nam bem, principalmente organizando e colocando as práticas em an-damento. Isso facilita a realizaç ão das cerimônias e a dar os primeiros passos. Conhecemos times pequenos (4 a 6 pessoas) que não funciona-vam muito bem, e também já trabalhamos com times maiores (13 ou 14pessoas), nos quais o trabalho funcionava muito bem e de uma formaágil e disciplinada. Na dúvida, experimente!

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    Capítulo6 Clientepresente “Clientes não esperam que você seja perfeito. Eles esperam que você resolva coisas que eles fizeram errado.”

    –Donald Porter, vice-presidente da British Airways Uma das necessidades básicas do XP é ter o cliente presente, pois isso faz com que ele se sinta parte do time, o que agiliza o trabalho dos programado- res. Desse modo, esse envolvimento éextremocom a comunicaç ão e com o feedback.

    Todas as fases do XP precisam da comunicaç ão com o cliente, de prefe- rência face a face. Por isso, é interessante que ele esteja no próprio local do desenvolvimento do software. Escrever especificações leva um tempo muito longo e elas não comunicam efetivamente bem, tanto que poucas pessoas re- almente as leem por completo. É muito mais efetivo conversar sobre o que será necessário no software para seu desenvolvimento já se iniciar.

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    Casa do Código O cliente tem uma participaç ão essencial nojogo do planejamento, es- crevendo e priorizando histórias e discutindo detalhes dos requisitos direta- mente com o time para criarem as tarefas de implementaç ão (vide capítulo 10). Se houver itens importantes a serem documentados, registre-os como critérios de aceitaç ão; assim, eles poderão ser úteis por serem passíveis de au- tomatizaç ão. Ele também precisa estar disponível também para discutir os testes de aceitaç ão para que o time valide as histórias.

    Uma objeção comum sobre ter-se o cliente presente é que ele requisitará apenas o que é de seu interesse e não pensará no negócio como um todo. Isso é de responsabilidade do trabalho dele e de outras pessoas ligadas ao negócio, e poderá acontecer de qualquer forma, com ou sem sua presença.

    Ter somente um representante do negócio (ou até não possuir cliente) pode ser um problema, pois faz com que funcionalidades sem utilidade sejam desenvolvidas e que critérios de aceitaç ão não realistas sejam criados. O time de desenvolvimento trabalhará por itens sem valor real que não fazem parte da soluç ão real.

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    Casa do Código Capítulo 6. Cliente presente Tudo é questão de prioridade É importante entendermos que desenvolver software é, acima de tudo, aprendizado de todos. Para isso, é necessária muita colaboraç ão. Nin- guém desenvolve sozinho. Há alguns anos, estávamos começando um projeto com um novo cliente. Como de praxe, explicamos como funci- onava o nosso trabalho e como a participaç ão dele era importante neste processo. Era uma forma de sensibilizar e mostrar o quão importante estar ativo no desenvolvimento.

    Quando começamos o trabalho, tudo aquilo que havíamos definido foi perdendo força e ele distanciou-se. Chegamos a um ponto em que tivemos que questioná-lo sobre sua participaç ão (ou de alguém que pu- desse ajudar). Ele simplesmente nos disse que não tinha tempo e que es- tava resolvendo outros problemas na empresa. Ficou claro que aquele era o momento de parar. E foi o que fizemos. Simplesmente, parou-se o de- senvolvimento. Dissemos-lhe que, se ele não tinha tempo para envolver- se (ou envolver alguém que pudesse representá-lo), este projeto não era tão importante assim para ele e, portanto, ele não deveria gastar tempo e, principalmente, nem dinheiro com isso. Simples assim.

    6.1 Oquefazerquandooclientenãopodeestar presente?

    Pessoas de negócio podem ser bem requisitadas em seu trabalho e não te-rão tempo disponível para estarem presentes no local do desenvolvimento.Espere, desde o início, lacunas no entendimento de ambas as partes, tantosobre o negócio quanto sobre o desenvolvimento. Nesses casos, é necessáriomaximizar a comunicaç ão buscando outras alternativas de tecnologia e de processo de desenvolvimento.

    Utilize ao máximo a comunicaç ão por telefone e reuniões virtuais. O tra- balho por reuniões remotas é uma boa alternativa. Ajudará também ter umrepresentante que entenda do negócio e tenha tempo e acesso ao cliente. Tente ao menos que ele compareça nas reuniões de planejamento. E mais, se for

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    6.1. O que fazer quando o cliente não pode estar presente? Casa do Código possível, aproveite ao máximo seu tempo e faç a um planejamento presencial intensivo de um dia inteiro ou de uma semana inteira.

    Dica Faça frequentemente pequenas entregas. Essa é uma boa estratégia para alinhar o software com o negócio. Se o cliente não pode ver o time, que ao menos veja o sistema. 😉

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    Capítulo7 Históriasdeusuário “Histórias não são requisitos; elas são discussões sobre resolver problemas para nossa organização, nossos clientes e nossos usuários que levam a acordos sobre o que construir.”

    –Jeff Patton Histórias de usuário (user stories) descrevem seus requisitos em uma forma ágil. Para discutir seus detalhes, é necessária a comunicaç ão face a face entre o time e o cliente, encorajando o trabalho em conjunto. Cada histó- ria segue um ciclo de vida, normalmente nascendo como um épico (histórias grandes), sendo detalhada de acordo com sua prioridade. Elas são textuais, não necessitam de ferramenta específica, são compreensíveis por todos do de- senvolvimento ou do negócio, e são descritas em cartões, também chamadas de cartões de história (story card ). Outras formas de documentaç ão comple- mentares podem ser utilizadas juntamente, o XP não impede isso desde que

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    Casa do Código sejam úteis e necessárias, tais como protótipos ou diagramas.

    Veja alguns exemplos de histórias de usuário:

    • Como um contador, eu quero registrar uma movimentaç ão de patrimô- nio; • Como uma leitora, quero pesquisar livros por categoria; • Como repositor de estoque, quero localizar quais as prateleiras do su- permercado que contêm menos de 50% de sua capacidade de produtos.

    • Como cliente, quero encontrar as pizzarias na minha cidade que este- jam abertas na segunda-feira à noite.

    A essência da utilizaç ão de histórias de usuários como requisitos está de acordo com os valores do Manifesto Ágil.

    •Indivíduos e interaç ões mais que processos e ferramentas:elas enfa- tizam a conversaç ão, não dependendo de processo ou de ferramenta; •Software em funcionamento mais que documentaç ão abrangente:

    elas vão direto ao ponto com uma forma flexível de documentaç ão para o que há de maior valor para o negócio; •Colaboraç ão com o cliente mais que negociaç ão de contratos:por serem sucintas e necessitarem da conversaç ão do cliente com os desen- volvedores, permitem a negociaç ão e colaboraç ão com o negócio; •Responder a mudanç as mais que seguir um plano:elas respondem às mudanças por serem flexíveis em seu ciclo de vida, dando base para as alterações quando necessárias.

    Nas seções a seguir, detalharemos sobre o modelo 3C e o ciclo de vida de histórias. Também mostraremos como escrever usando um modelo de escrita, refinando com INVEST, quebrando as histórias em tarefas SMART e utilizando personas; diversas dicas de escrita de boas histórias; e um catálogo debad smellsde histórias.

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    Casa do Código Capítulo 7. Histórias de usuário 7.1 Modelo3C O tamanho de um cartão é suficiente para detalhar um requisito de usuário?

    Sim, pelo fato de as histórias serem utilizadas como lembretes para a con- versação do time e para a confirmaç ão do cliente. Os cartões de histórias de usuário são como slides: da mesma forma que um instrutor ensina por meio deles, um cliente mostra os requisitos do sistema por meio de histórias de usuário.

    Para deixar claro o propósito das histórias de usuário, Ron Jefries criou o modelo 3C [31]. Cada uma das três letras Crepresenta um aspecto crítico delas:

    •Cartão:as histórias de usuário são escritas em cartões (ou no tamanho de um cartão). Ele não conterá toda a informaç ão de um requisito, mas serve para lembrar a todos do que este se trata. As prioridades e os custos também podem ser anotados neles.

    •Conversação:o requisito é comunicado do cliente ao time por conver- sação (face a face), podendo ser suplementado por documentos.

    •Confirmação:a confirmaç ão da história dá-se por exemplos para criar testes de aceitaç ão; ou seja, pelos critérios de aceitaç ão. O cliente dirá ao time como aceitará cada história por meio de critérios de aceitaç ão.

    Essa é uma ótima forma de suplementar a documentaç ão. A preferên- cia é de que esses critérios sejam automatizados pelo time. A história de usuário estará pronta quando todos eles estiverem passando nos testes de aceitaç ão.

    7.2 Ciclo de vida Cada história segue um ciclo de vida, sendo refinada progressivamente. Elas normalmente nascem em épicos e são agrupadas em temas. Um épico pode ser visto como uma história muito grande [49] que pode levar diversas itera- ções para serem desenvolvidas e que ajudam a esboçar a funcionalidade do produto sem se comprometer com detalhes. Assim que priorizado, ele é que- brado em diversas histórias.

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    7.3. Utilizando um modelo de escrita Casa do Código Um tema representa uma capacidade do produto ou um objetivo, aju- dando a mostrar sua completude e também a encontrar as histórias certas.

    Uma estratégia é priorizar os temas para, então, priorizar as histórias relacio- nadas. Aquelas de maior prioridade terão seus critérios de aceitaç ão comple- tos e, depois, serão refinadas com INVEST (explicado a seguir neste capítulo) e quebradas em tarefas de implementaç ão.

    Um exemplo de épico pode ser:como um repositor de estoque, eu quero gerenciar a reposição do supermercado, fazendo parte do tema “Gestão de esto- que”. Uma história que pode nascer a partir dele é:como repositor de estoque, quero localizar quais as prateleiras do supermercado que contêm menos de 50% de sua capacidade de produtos.

    7.3 Utilizando um modelo de escrita Ter um modelo é útil para a escrita de histórias. Existem alguns tipos de mo- delos e variações; um dos mais utilizados é o da Connextra (vide imagem7.1), que traz as informações principais no cartão:

    •Como um (As a… ): para quem será útil a história, para qual usuário protagonista do sistema; pode também ser uma persona (veremos em 7.6); •Eu quero (I want… ): o que a história está especificando de requisito, a necessidade do usuário propriamente dita; •Para que (So that… ): razão de negócio, o motivo pelo qual a história existe; mostra o valor de negócio da história.

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    Casa do Código Capítulo 7. Histórias de usuário Fig. 7.1: Modelo original de cartão de história de usuário da Connextra. Fonte da imagem:http://agilecoach.typepad.com Basicamente, Connextra gera um modelo de escrita, ilustrado a seguir.

    Fig. 7.2: Modelo de escrita de história de usuário Como exemplo, utilizando-se esse modelo, a históriaComo repositor de estoqueficará dessa forma:

    Imagem 1 da página 58 (sem descrição)
    Imagem 2 da página 58 (sem descrição)

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    7.4. Refinando com INVEST Casa do Código Fig. 7.3: Exemplo de uma história de usuário 7.4 Refinando comINVEST Muitas vezes, as histórias de usuário precisam ser lapidadas, pois podem estar complicadas de entender, grandes demais para serem desenvolvidas, depen- dentes demais para serem entregues, ou podem não ser verificadas. Para esse refinamento, utiliza-se o acrônimo INVEST, o qual traz 7 características. Apli- car todas elas não é tão fácil; até dizem que INVEST é o nirvana das histórias de usuários, mas deve-se tentar ao máximo obtê-las.

    Refinando com INVEST, uma história de usuário deve ser:

    •Independente de outras histórias para facilitar a negociaç ão, a priori- zação e a implementaç ão; •Negociável com o cliente, para que o time possa manter um ritmo sus- tentável para a entrega contínua de valor; •Valorosa, assim cada entrega agregará grande valor ao negócio do cli- ente; •Estimável, desse modo o time poderá estabelecer quais histórias serão implementadas de acordo com sua velocidade; •Small(pequena) o suficiente para ser implementada dentro de uma ite- ração, sem correr grandes riscos de não a completar;

    Imagem 1 da página 59 (sem descrição)

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    Casa do Código Capítulo 7. Histórias de usuário •Testável, apenas assim poderá ter qualidade na entrega e certeza de que o cliente aceitará a história como pronta.

    7.5 Implementando com tarefasSMART Cada história de usuário possuirá tarefas a serem desenvolvidas, como: im- plementaç ão, teste, integraç ão e deploy. Quebrá-las em tarefas gera mais cer- teza do trabalho que o time precisará entregar. Cada uma delas deverá possuir as 5 características do acrônimo SMART:

    • eSpecífica o suficiente para ser entendida, para que se implemente exa- tamente o que é necessário, evitando a sobreposiç ão de outras tarefas; •Mensurável, possuindo um tamanho para garantir que a tarefa seja concluída (contabilizando testes e refatoraç ão); •Alcançável para que todos possam ter acesso às informações necessá- rias para sua conclusão; •Relevante, contribuindo para a implementaç ão da história; •Time-boxed, limitada a uma duraç ão específica (não sendo uma es- timativa formal, mas uma expectativa de desenvolvimento, inclusive para pedir ajuda). Tarefas com grande duraç ão devem ser evitadas, po- dendo serem divididas em tarefas menores ou sendo revisadas.

    7.6 Personas Uma forma recomendada para pensar mais no usuário do sistema é utilizar o conceito de personas, que é a caracterizaç ão de um papel de usuário do sis- tema. Uma persona descreve as qualidades, os valores, o comportamento e os objetivos de usuários alvos no sistema. Uma dica é dar nomes às personas que lembrem seus papéis; por exemplo, o nomeAdemarpara a persona rela- tiva ao papel de administrador. Na escrita da história, escreve-se o nome da persona, em vez do papel de usuário.

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    7.7. Story points Casa do Código 7.7 Story points Story pointsé o nome comum para o tamanho de histórias de usuário. A velocidade do time é dada contabilizando a média de todos osstory pointsre- alizados nas iterações. Dentre as diversas variações de pontuar uma história, a forma mais efetiva é dimensioná-las relacionando com as outras, utilizando a experiência no passado para determinar o quanto pode ser feito em uma ite- ração [27]. O time pode utilizar uma sequência não linear de valores, como a de múltiplos de dois (1, 2, 4, 8, 16, …) ou a de Fibonacci (1, 2, 3, 5, 8, 13, …).

    O que realmente interessa é que se possa prever quantas histórias pode- rão ser entregues nas iterações, diminuindo o risco de termos problemas no desenvolvimento. Há os que acham melhor não estimar, mas apenas contabi- lizar, em média, quantas serão realizadas a cada iteraç ão [36]. Existem times que até utilizam tamanhos de camiseta (P, M, G, GG), e outros que usam dias ideais ou horas de desenvolvimento [13].

    Por estar confuso comstory points, um cliente de Joshua Kerievsky criou o termo NUTs (Nebulous Units of Time Unidades Nebulosas de Tempo) [36].

    Independente da forma de encontrar o tamanho da história, é o grupo que decide suas estimativas e sua velocidade.

    7.8 Escrevendo boas histórias A prática com boas orientações é importante para escrever uma história útil para o time e para o negócio. Mike Cohn, em seu livroUser stories applied, traz orientações para escrever boas histórias de usuário [13]. Complementamos com mais algumas dicas:

    •Comece com as histórias objetivas:os usuários do sistema possuem objetivos diretos no sistema; comece escrevendo as histórias que resol- vam os problemas desses objetivos.

    •Fatie o bolo:escreva histórias que possuam uma camada de cada fase de implementaç ão de uma funcionalidade, desse modo entregará valor.

    Imagine uma história como uma fatia de bolo, em que cada camada é a parte de projeto, codificaç ão, teste, integraç ão e deploy.

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    Casa do Código Capítulo 7. Histórias de usuário •Escreva histórias fechadas:faça com que a história entregue valor real ao negócio, algo que conclua o processo do usuário.

    •Coloque as restrições nos cartões:as restrições são os requisitos não funcionais, como de desempenho, de carga, de segurança e de usabi- lidade. Elas podem ser descritas nos cartões na forma de critérios de aceitaç ão.

    •Escreva suas histórias no horizonte:utilize o ciclo de vida das his- tórias de usuário. Faç a com que elas surjam de épicos. Conforme a prioridade, os épicos são quebrados em histórias e, então, é iniciada a especificaç ão dos critérios de aceitaç ão relacionados.

    •Evite a interface de usuário o maior tempo possível:a essência dos detalhes da interface de usuário é de projeto, e não de requisito de usuá- rio, na maioria das vezes. Detalhá-la torna-se necessário conforme a prioridade aumenta.

    •Algumas coisas não são histórias:histórias são para escrever requisi- tos de usuário, e não para documentar a ajuda do sistema, por exemplo.

    •Inclua os papéis de usuários:a utilizaç ão de um modelo ajuda nisso, pois ele lembra de escrever para quem a história servirá.

    •Escreva para a persona protagonista:muitas vezes, uma história de usuário servirá para mais de uma persona ou mais de um papel de usuá- rio. Por essa razão, escreva a história para a persona ou papel de usuário que mais agregará valor, de maior propósito.

    •Escreva em voz ativa:escrever em voz passiva pode tornar a história confusa.

    •O cliente escreve:apenas dessa forma não haverá lacunas na escrita.

    Quando isso não for possível, faç a com que ele leia, valide e discuta todas as histórias.

    •Dê títulos às histórias:um título ajudará na sua identificaç ão. Não enumere apenas os cartões de história, pois é muito estranho conversar

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    7.9. Catálogo de story smells Casa do Código sobre a “história 32” (como se fazia antigamente com nomes de tabelas de banco de dados).

    •Não esqueça do propósito:lembre-se sempre do propósito de uma his- tória de usuário, que é servir como um lembrete a todos (time e cliente) para a comunicaç ão do requisito.

    •Descreva os defeitos (bugs) como critérios de aceitaç ão:quando hou- ver umbug, provavelmente é porque faltou ter escrito (ou automati- zado) um critério de aceitaç ão. Escreva um critério de aceitaç ão que falhe diretamente no problema.

    7.9 Catálogo de story smells Para escrever boas histórias, também é necessário identificar e evitarbad smells(maus cheiros). O livroUser stories applieddo Mike Cohn possui um catálogo dessessmells[13], que ocorrem normalmente quando:

    •A história depende de várias outras histórias:a interdependência im- possibilita a negociaç ão e a priorizaç ão das histórias; •A história está muito curta:histórias são sucintas, mas não é para serem muito curtas; •A história possui muitos detalhes:repetindo que histórias são sucin- tas. Os detalhes normalmente serão discutidos entre o time e o cliente, lembre-se do modelo 3C; •Há funcionalidades não necessárias:lembre-se do valor do XP: sim- plicidade. Quando houver funcionalidades desnecessárias em histó- rias, é um grande indicador de que não se está pensando em simplici- dade; •O cliente não escreve, não confirma e não prioriza as histórias:esse é um dos mais comuns e piores maus cheiros; •Não está explícito o valor do negócio:escrever a razão de negócio ajuda a demonstrar seu valor. Um modelo ajuda nisso. Histórias com

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    Casa do Código Capítulo 7. Histórias de usuário pouco valor não podem ser priorizadas. Provavelmente, o problema está em uma lacuna na realizaç ão do jogo do planejamento; •É pensado muito à frente nas histórias:isso atrapalha a agilidade, pois mudanças poderão vir logo, então não se deve detalhar muito à frente.

    Deve-se fazer somente o necessário para as histórias priorizadas; •É detalhada a interface de usuário muito antecipadamente:deve-se pensar na interface de usuário quando a história for priorizada. Utilize o tempo presente para trabalhar com as histórias já priorizadas; •Existir detalhes específicos de tecnologia, projeto de banco de da- dos e algoritmos:detalhes de projeto e de implementaç ão não fazem parte de requisitos. Esses detalhes deveriam ser discutidos entre o time, ou então em outros formatos de especificaç ão, tais como diagramas e protótipos.

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    Capítulo8 Testesdeaceitaç ão “Testes de aceitação são mapas da estrada para a iteração, dizendo ao time aonde é preciso ir e quais pontos de referência olhar.”

    –Lisa Crispin O propósito dos testes de aceitaç ão é a comunicaç ão, a transparência e a precisão [43]. Quando os desenvolvedores, os testadores e o cliente concorda- rem com eles, todos entenderão qual é o plano para o comportamento do sis- tema. Chegar a esse ponto é responsabilidade de todas as partes. Eles validam como o cliente aceitará as funcionalidades prontas, pois são testes funcionais que guiam o time no desenvolvimento para, então, colocar em produç ão o que foi decidido que o sistema deve conter.

    Esses testes são criados a partir das histórias de usuários selecionadas pe- las pessoas de negócio no planejamento de iterações (veremos no capítulo 10). A história de usuário apenas estará completa quando todos seus critérios

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    8.1. Automatizaç ão Casa do Código de aceitaç ão estiverem passando. Auxiliado pelo testador do time, o cliente é quem especifica os exemplos dos critérios de aceitaç ão na forma de cenários, que podem conter dados e variações que criticam a história [14]. Os exemplos de cenários esclarecem as histórias ao time.

    8.1 Automatização Testes de aceitaç ão sempre têm de ser automatizados por uma razão sim- ples: custo [43]. Caso você ache custoso ter testes de aceitaç ão automatizados, aguarde para ver o custo da confusão e dodebugde código ao longo prazo.

    Para fazer pequenas entregas frequentes, é necessário que os testes de acei- tação estejam automatizados e que rodem nobuildgerado pelo servidor de integraç ão contínua. O cliente poderá decidir se uma história desenvolvida poderá ir para produç ão mesmo quando alguns testes de aceitaç ão não esti- verem passando. Apenas ele tem esse poder.

    8.2 Validando com critérios de aceitação Cada história de usuário possui um ou mais critério de aceitaç ão, criado tam- bém pelo cliente. O testador ajuda-o a pensar em cenários bons de teste, sendo escritos já prevendo a automatizaç ão. Esses critérios descrevem como a his- tória será aceita pelo cliente e servem de guia para o desenvolvimento.

    Como exemplo, considerando a históriaComo um repositor de estoque, quero localizar quais as prateleiras do supermercado que contêm menos de 50% de sua capacidade de produtos, podemos escrever os critérios de aceitaç ão:

    • Deve exibir uma lista de prateleiras com o setor e a seção de cada uma, e o tipo e o nome do produto contido; • Deve exibir as prateleiras com menos de 50% da capacidade de itens; • Não deve exibir as prateleiras com 50% ou mais da capacidade de itens.

    Os critérios de aceitaç ão também podem seguir um modelo. Comu- mente, o utilizado é o de cenários de BDD (Behaviour-Driven Development Desenvolvimento Guiado por Comportamento) [47]. Esse modelo possui três informações:

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    Casa do Código Capítulo 8. Testes de aceitaç ão •Dado que:precondiç ão, são os passos para preparar para aç ão a ser validada; •Quando:ação que vai disparar o resultado a ser validado; •Então:resultado a ser validado.

    Você encontrará bons exemplos de histórias com critérios de aceitaç ão no livroHistórias de usuário[61]. Como um exemplo, o critério de aceitaç ão Deve exibir o setor e a seção da prateleira com o tipo e o nome do produtousando o modelo, ficará desta forma:

    •Dado queo usuário logado é um repositor de estoque; •Quandoo item de menu “Consultar prateleiras para reposiç ão” for cli- cado; •Entãoa lista de todas as prateleiras para reposiç ão é exibida.

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    Capítulo9 Liberaç ãofrequentedepequenas entregas “Software funcionando é a medida primária de progresso.”

    –7º princípio do Manifesto Ágil Por que deixar o cliente esperando um longo tempo para entregar um re- quisito importante? No XP, cadareleasedeve ser tão pequena quanto possível e com o maior valor de negócio. As pequenas entregas contêm as histórias de usuário identificadas e priorizadas no jogo do planejamento, que veremos a seguir. As histórias de usuários devem ser suficientemente granulares para caberem em uma entrega pequena. Manter a qualidade no desenvolvimento é essencial para poder entregar frequentemente. Em alguns casos, fica difícil liberar releases pequenas, precisando ser uma entrega do tipotudo ou nada.

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    9.1. Foco na qualidade é o ponto-chave Casa do Código Diversos benefícios surgem quando se liberam frequentemente pequenas entregas com alto valor:

    • Entrega de valor adiantado e contínuo; • O processo é aprimorado rapidamente por falhar mais cedo (conceito fail fast); • Feedback do cliente mais cedo para confirmaç ão ou adaptaç ão dos re- quisitos; • Satisfaç ão dos usuários por ter respostas rápidas às suas necessidades; • Maior qualidade, confiança e estabilidade; • Reduz a taxa de defeitos por precisar realizar testes completos em ciclos menores; • Realiza um design simplificado e suficiente apenas para a entrega em questão; • O código é atualizado e integrado com maior frequência; • O software não fica ultrapassado; • Maior engajamento do time por ver seu trabalho sendo útil e empode- rado; • Facilita enxergar os diversos desperdícios ocultados nas grandes entre- gas; • Evita a procrastinaç ão de prazos.

    9.1 Foco na qualidade é o ponto-chave A qualidade é o ponto-chave para entregar com frequência. Os testes auto- matizados e a integraç ão contínua são essenciais para agilizar os builds das entregas com alta qualidade no software. Pequenas entregas maximizam os

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    Casa do Código Capítulo 9. Liberaç ão frequente de pequenas entregas benefícios da abordagem iterativa e incremental, evoluindo o software em pe- quenos pedaços. Times extremos conseguem desenvolver uma entrega a cada iteração ou a cada dia, tal como no conceito de entrega contínua [20].

    Quando isso não for possível, as iterações auxiliarão no acompanhamento do andamento do desenvolvimento da release. De qualquer modo, se não houver um ótimo nível de qualidade em cada build do software, mais e mais defeitos voltarão e menos se poderá entregar nas próximas releases. O foco na qualidade é essencial para entregas pequenas e frequentes.

    9.2 Releases tudo ou nada Ok, sabemos que alguns sistemas sãotudo ou nada; ou seja, para colocar em uso efetivo é necessário que se faç a uma grande entrega. Entretanto, até para esses sistemas é valioso pensar se há algum modo de quebrá-los em entregas menores. As solicitações de mudan ça virão naturalmente quando o usuário utilizar o software, então é melhor ter um processo já orientando a mudanças.

    Entregas grandes não combinam com um planejamento ágil orientado a mu- danças. Lembre-se do quarto valor do Manifesto Ágil:responder a mudanças mais que seguir um plano.

    Quanto mais tempo aguardamos para liberar uma funcionalidade aos usuários, menos tempo você terá e mais complexo será para adaptá-la ou corrigi-la. Na visão enxuta [41], a liberaç ão frequente de pequenas entregas diminui consideravelmente os desperdícios de estoque, defeitos e tempo de espera (do cliente). Isso gera fluidez e reduz o tempo de ciclo das entregas (tempo entre o fim ou o início de produç ão de dois itens). Continuamente, persista na tentativa de diminuir o tamanho de suas entregas.

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    Capítulo10 Ojogodoplanejamento “Planos não são nada. Planejamento é tudo.”

    –Dwight David “Ike” Eisenhower Você já trabalhou em um projetomarcha da morte[65] que é destinado a falhar e que você não podia nem sequer dar opiniões técnicas? Um projeto com tantos problemas que parecia uma bola de neve despencando montanha abaixo? No XP, isso não acontece.

    O jogo do planejamento envolve os clientes e os desenvolvedores para pla- nejarem as entregas de uma forma colaborativa. Também chamado derelease planning, o nome jogomostra a essência da dinâmica: tratar o planejamento como um jogo que contém um objetivo, jogadores, peças e regras. Seu re- sultado é maximizado por meio da colaboraç ão de todos os jogadores. Ele agrega todo o processo necessário para a entrega de software como a escrita de histórias de usuário, a priorizaç ão pelo cliente e a criaç ão das estimativas.

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    10.1. Definindo o jogo e suas regras Casa do Código Visto que o trabalho de planejamento é encarado como um jogo, então quem seria o adversário? Talvez você pense que é o cliente. Errado! Ele é o maior interessado no sucesso do projeto. Afinal, já investiu tempo e dinheiro.

    O adversário está justamente no desafio em se conseguir entregar o melhor produto, dados as variáveis de projeto (prazos, custos,time-to-marketetc.).

    As pessoas de negócio definem o escopo, a prioridade, a composiç ão e as datas das entregas. As decisões de negócio têm suporte das pessoas de desenvolvimento. Estas tomam decisões técnicas por meio de estimativas e de análises de consequências técnicas no negócio, e decidem seu processo de trabalho. Tanto o Negócio quanto o Desenvolvimento têm voz nas decisões das entregas. Não há bola de neve no XP. 🙂 O desenvolvimento iterativo e incremental é utilizado no jogo do planeja- mento. Os incrementos são definidos no planejamento de releases; e as itera- ções, no planejamento de iterações. Cada incremento representa uma entrega de valor em produç ão ao cliente, sendo desenvolvido em uma ou mais itera- ções. A divisão em iterações auxilia o time a quebrar as entregas em pedaços menores para planejamento e feedback de um modo simples e ágil.

    Nas próximas seções, definiremos o jogo como um todo, com suas re- gras e comprometimentos. Falaremos também sobre como manter o foco e a aprendizagem no planejamento.

    10.1 Definindo o jogo e suas regras Os jogos e as regras do jogo do planejamento são:

    •Objetivo:maximizar o valor do software produzido pelo time; ou seja, colocar em produç ão a maior quantidade de histórias de usuário com maior valor ao longo do projeto.

    •Estratégia:o time deve investir o menor esforço para colocar a funci- onalidade de maior valor em produç ão tão rápido quanto possível, em conjunto com estratégias de projeto e programaç ão para reduzir o risco.

    Dividir para conquistar é a estratégia utilizada ao dividir o software em entregas frequentes, e cada entrega em iterações pequenas.

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    Casa do Código Capítulo 10. O jogo do planejamento •As peças:as peças básicas do jogo são histórias de usuário e as tarefas de implementaç ão. As histórias são as peças no planejamento das releases; já as tarefas, no planejamento das iterações.

    •Os jogadores:as pessoas do Desenvolvimento e as pessoas de Negócio.

    •Os movimentos:as regras dos movimentos existem para lembrar a to- dos de como eles gostariam de agir em um melhor ambiente com con- fiança mútua e dar uma referência para quando as coisas não estiverem indo bem.

    10.2 Entendendo regras e comprometimentos Os movimentos do jogo são dados por suas regras e são divididos em duas partes: a primeira trata dos movimentos para as entregas (planejamento de releases); a outra dos movimentos para as iterações (planejamento de itera- ções), conforme apresentado na figura a seguir.

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    10.2. Entendendo regras e comprometimentos Casa do Código Fig. 10.1: Movimentos do jogo do planejamento divididos entre o planeja- mento de releases e de iterações Planejamento de releases Para uma release, o jogo do planejamento define as regras para o cliente direcionar o desenvolvimento na frequência de uma a três semanas. Seus mo- vimentos para uma release são dados em três fases:Exploraç ão,Comprome- timentoeDirecionamento.

    Exploraç ão:ambos os jogadores descobrem novos itens que o sistema pode fazer, dividindo-se em três movimentos:

    •Escrever uma história de usuário:o Negócio escreve algo que o sistema deverá fazer; •Estimar uma história de usuário:o Desenvolvimento estima o tempo ideal de programaç ão para implementar a história;

    Imagem 1 da página 77 (sem descrição)

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    Casa do Código Capítulo 10. O jogo do planejamento •Quebrar uma história de usuário:caso o Desenvolvimento não con- siga estimar a história ou sua estimativa for muito grande, o Negócio identifica sua parte mais importante para que o Desenvolvimento possa estimá-la e desenvolvê-la. Spikes podem ser utilizados para melhorar a estimativa da história (vide capítulo11).

    Comprometimento:o Negócio decide o escopo e o tempo para a pró- xima entrega de acordo com as estimativas, e o Desenvolvimento se compro- mete com a entrega, dividindo-se em quatro movimentos:

    •Ordenar por valor:o Negócio separa as histórias em três categorias:

    as essenciais; as menos essenciais, mas de alto valor; e as que seriam agradáveis de se ter; •Ordenar por risco:o Desenvolvimento separa as histórias em três ca- tegorias: aquelas que podem ser estimadas com precisão, aquelas que podem ser estimadas razoavelmente bem, e aquelas que não podem ser estimadas de qualquer modo; •Ordenar por velocidade:o Desenvolvimento mostra ao Negócio quanto de tempo ideal de programaç ão o time poderá trabalhar em um mês do calendário; •Selecionar escopo:o Negócio escolhe as histórias para a entrega (traba- lhando por tempo) ou uma data para as histórias a serem desenvolvidas (trabalhando por escopo), utilizando as estimativas realizadas pelo De- senvolvimento.

    Direcionamento:o plano é atualizado no que foi aprendido pelo Negócio e pelo Desenvolvimento, dividindo-se em quatro movimentos:

    •Iteração:a cada iteraç ão (uma a três semanas), o Negócio seleciona uma com as histórias de maior valor a serem implementadas; •Recuperação:caso o Desenvolvimento descubra que sua velocidade foi superestimada, ele pode pedir ao Negócio para encaixar apenas as his- tórias de maior valor de acordo com a nova velocidade;

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    10.2. Entendendo regras e comprometimentos Casa do Código •Nova história:caso o Negócio descubra uma nova história a ser adi- cionada à entrega que já está sendo desenvolvida, ele pode escrevê-la, o Desenvolvimento estimá-la, e, então, trocá-la por outra selecionada pelo Negócio; •Reestimar:caso o Desenvolvimento descubra que o plano não é exato, ele pode reestimar todas as histórias restantes.

    Planejamento de iteraç ões As peças são as tarefas de implementaç ão e os jogadores são os programa- dores. As decisões sobre as iterações são mais flexíveis em questão de escopo e de prazos, pois dependem mais do Desenvolvimento; enquanto as sobre entregas dependem mais do Negócio. Suas fases são semelhantes às de uma entrega:Exploraç ão,ComprometimentoeDirecionamento.

    Exploraç ão:o Desenvolvimento cria suas tarefas e identifica o tempo de trabalho, dividindo-se em três movimentos:

    •Escrever uma tarefa:transformar as histórias da iteraç ão atual em tare- fas; •Quebrar ou unir tarefas:caso a tarefa esteja grande demais, quebre- a em tarefas menores. Caso ela esteja pequena demais, una-a a outra relacionada; •Estabeleça um fator de carga:cada programador escolherá seu fator de carga para a iteraç ão, o qual é a porcentagem de tempo que ele real- mente estará desenvolvendo; ou seja, é removido o tempo em que se realiza outras, tais como reuniões do time.

    Comprometimento:o Desenvolvimento compromete-se com suas tare- fas, dividindo-se em três movimentos:

    •Aceitar uma tarefa:o programador puxa a tarefa para si e aceita a res- ponsabilidade por ela; •Estimar a tarefa:o programador responsável pela tarefa a estima em Dias Ideais de programaç ão;

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    Casa do Código Capítulo 10. O jogo do planejamento •Balanceamento:cada programador soma suas tarefas e multiplica pelo fator de carga, balanceando sua carga de trabalho, caso esteja maior ou menor do que a estabelecida.

    Direcionamento:o Desenvolvimento desenvolve as tarefas para verificar a história, dividindo-se em quatro movimentos:

    •Implementar uma tarefa:o programador pega o cartão da tarefa, encon- tra um par para programar, desenvolve a tarefa com TDD (Desenvol- vimento Guiado por Testes) e ao final integra o código fazendo passar a suíte de teste relacionada; •Registrar progresso:a cada dois ou três dias, um membro do time atua- liza o andamento das tarefas de cada membro, com o tempo gasto e o tempo que falta para cada tarefa; •Recuperação:programadores que ficaram sobrecarregados pedem ajuda reduzindo o escopo das tarefas, reduzindo o escopo das histórias, removendo aquelas não essenciais ou pedindo ao cliente para postergar a história para outra iteraç ão; •Verificar a história:caso estiverem prontos, rodar os testes funcionais para as tarefas que já foram concluídas, complementando a suíte de testes funcionais com os novos casos de testes; As histórias de usuários são estimadas antes de serem desenvolvidas. Já na iteraç ão, o programador pega a tarefa para si e depois a estima. Nem todas estarão ligadas diretamente com o Negócio, mas sim com as necessidades do Desenvolvimento; por exemplo, para configurar um servidor de integraç ão.

    10.3 Mantendo o foco Você lembra-se do objetivo do jogo do planejamento? Maximizar o valor do software construído pelo time para o cliente é o foco do jogo. É impor- tante que todos participem (Desenvolvimento e Negócio) com colaboraç ão.

    A simplicidade (a arte de maximizar a quantidade de trabalho não realizado)

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    10.4. Todo momento é um momento de aprendizado Casa do Código é essencial para o feedback contínuo, sendo importante também para o time sentir-se valorizado por fazer entregas frequentes de valor. O Desenvolvi- mento e o Negócio devem manter um ritmo sustentável e constante de traba- lho para manter o foco.

    10.4 Todo momento é um momento de aprendi- zado No jogo do planejamento, até quando se erra, aprende-se. O erro não é visto como algo ruim, desde que se aprenda com ele. Quando o time reconhecer que superestimou sua velocidade, ele deve comunicar ao Negócio para rear- ranjar as histórias dentro de sua nova velocidade. Quando houver problemas com as estimativas, devem-se reavaliar essas estimativas das histórias. É pre- ciso ter coragem para buscar um processo que seja transparente. A comuni- cação e o feedback são importantes para que os dois jogadores aprendam a melhor forma de maximizar o jogo.

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    Capítulo11 Spikesdeplanejamento “Algumas vezes, a melhor maneira de resolver um problema é ir para casa, jantar, assistir TV, ir para a cama, e, então, acordar na manhã seguinte e tomar um banho.”

    –Robert C. Martin Os spikes de planejamento fazem parte de uma prática que ajuda o time a gerar o conhecimento necessário para estimar as histórias de usuários cor- retamente, diminuindo, assim, o risco no planejamento [39]. O objetivo é aumentar a confiança para um bom jogo do planejamento. Um spike é um programa muito simples para explorar soluções potenciais [59].

    Faça spikes arquiteturais para descobrir respostas em dificuldades técni- cas e em problemas de design, ou para conhecer novas tecnologias (APIs, frameworks, ferramentas, linguagens de programaç ão etc.). Quando uma di- ficuldade técnica importante surgir, deixe um par de desenvolvedores fazer

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    11.1. Jogue fora o código gerado no spike Casa do Código uma por alguns dias até ter certeza suficiente sobre sua soluç ão.

    Por ser uma tarefa a ser realizada, os spikes podem ser estimados. Por- tanto, trata-se de um momento planejado, garantindo-se que será feito du- rante uma iteraç ão. Preferencialmente, faç a-o em uma iteraç ão e somente desenvolva a história de usuário relativa na próxima. Lembre-se que ele serve para diminuir o risco da estimativa que servirá no próximo planejamento, e também não se esqueça denão aproveitarseu código.

    11.1 Jogue fora o código gerado no spike Trate o spike como um experimento e assuma que seu código será jogado fora. Vá direto ao ponto para resolver a incerteza. Ele serve para saber como resolver um problema, e não para produzir um código (de produç ão) que o resolva [54]. Não tente criar programas úteis ou reutilizáveis em produç ão.

    O spike serve para aprendizado, uma vez que se trata de uma prática para descoberta. Por isso, ignore todas as preocupações no entorno da questão.

    Vale fazer um paralelo neste ponto. A prototipaç ão é uma técnica de en- genharia de software para a descoberta de requisitos com a avaliaç ão do cli- ente. Normalmente, o protótipo é jogado fora, porque é lento, o código não é funcional e serve apenas para a descoberta, a validaç ão e o refinamento dos requisitos.

    Semelhante a essa técnica, o spike é um método para a descoberta de so- luções com a avaliaç ão técnica, que, inclusive, também tem seu código jogado fora.

    Dica:spike é exceção,não regra Essa prática é para ser utilizada apenas quando necessária, sendo uma exceção, não uma regra. Toda estimativa de história de usuário possuirá incertezas e riscos; isso é intrínseco da complexidade de desenvolver soft- ware.

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    Capítulo12 Projetosimplesdoinícioaofim “Simplicidade é mais complicada do que você pensa. Mas ela é bem valiosa.”

    –Ron Jeffries Obter um projeto simples não é uma tarefa fácil; porém, manter a simpli- cidade agiliza no desenvolvimento de novas funcionalidades e na resposta a mudanças. O projeto simples está presente em todas as fases do XP. A simpli- cidade é abordada de um modoextremo. Ele come ça assim e mantém-se por meio de testes automatizados e refatoraç ão.

    Tentar prever o futuro éantiXP. Nenhuma funcionalidadeadicionalé im- plementada, pois desvia do caminho da soluç ão e aumenta a complexidade do software. Apenas tenha cuidado com as dívidas técnicas que poderão ser ge- radas, ou com funcionalidades inacabadas. A programaç ão em pares evita o design extra, porque um membro da dupla não vai querer esperar que o outro desenvolva coisas sem relevância.

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    12.1. MVP: produto mínimo viável Casa do Código Para termos um código limpo, a refatoraç ão é necessária, assim evitando oscode smells(maus cheiros) nele. Um código é simples [30] quando:

    • Roda todos os testes; • Expressa todas as ideias necessárias; • Não contém código duplicado; • Possui a menor quantidade de classes, métodos e variáveis; • É conciso e legível.

    Em todos os níveis de granularidade de software deve-se pensar na sim- plicidade; ou seja, do código ao produto. Quando o projeto simples atinge o produto, temos o conceito do produto mínimo viável, detalhado a seguir.

    12.1 MVP:produto mínimo viável “Simplicidade a arte de maximizar a quantidade de trabalho não realizado é essencial.”

    –Décimo princípio do Manifesto Ágil Ter o projeto simples é essencial para criar um MVP. O MVP (do inglês, Minimum Product ViableProduto Mínimo Viável) possui a maior quantidade de funcionalidades de valor na menor entrega possível, sendo suficiente para o cliente utilizar e dar feedback ao desenvolvimento.

    A expressãoYAGNI(do inglês,You’re Not Gonna Need ItVocê não pre- cisará disso) lembra todos a desenvolver somente o necessário nas histórias atuais, até no caso de que se saiba que será necessário no futuro.

    Menos é mais.A simplicidade tem foco no desenvolvimento da essência do software. Pequenas entregas de valor representam muito do que o cliente necessita. Alguns programadores (não XP) adoram entregar algo a mais ao cliente; já osextremosnão fazem isso. Programadores XP mantêm o projeto simples do início ao fim.

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    Casa do Código Capítulo 12. Projeto simples do início ao fim Dica: MVPé estratégia de entrega Para trabalhar com MVP é preciso ter uma estratégia na evoluç ão das entregas. Um ótimo exemplo real é o de uma equipe que, na primeira iteração, desenvolveu somente o algoritmo necessário e entregou apenas uma planilha com os resultados que o cliente precisava em seu negócio.

    Na duas próximas, a equipe complementou as regras nesse algoritmo e desenvolveu a interface com o usuário. O MVP entregue na primeira iteração resolveu a maior parte do problema do cliente! A estratégia para entregar o que restava nas duas próximas iterações completou o trabalho, deixando-o muito satisfeito.

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    Capítulo13 Metáforadesistema “98% de nosso pensamento está realmente acontecendo em um nível inconsciente, grande parte através de metáforas.”

    –Esther Derby Metáforas em geral estão no nosso cotidiano. No dia a dia, frequente- mente as usamos para expressarmos ideias de um modo mais simples, fácil e rápido; tentamos encontrar algo semelhante que a pessoa já conheça para ela conseguir entender o que queremos explicar.

    No mundo da computaç ão, fazemos uso de ainda mais metáforas. Você trabalha com documentos, arquivos, pastas e ferramentas em suaárea de tra- balhodo computador. Você já deve ter comprado na internet por meio de umcarrinho de compras. Talvez você já tenha implementado um algoritmo percorrendo uma árvore em largura ou em profundidade; ou já tenha resol- vido umadívida técnicaem seu software. Quem sabe você já enviou um build

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    13.1. Descobrindo uma boa metáfora Casa do Código para opipelineda integraç ão contínua, ou então participou de um debate em forma defishbowl.

    No XP, a metáfora de sistema traz uma visão comum que auxilia o time e o cliente a entender os elementos do sistema. Ela funciona como umpat- ternde alto nível e explica seu design sem uma documentaç ão pesada. Ela é semelhante à linguagem ubíqua, porém, enquanto esta se concentra em uma linguagem comum entre o negócio e os desenvolvedores, aquela foca na lin- guagem da arquitetura da soluç ão.

    O nascimento dessa prática deu-se no sistema de folha de pagamento da Chrysler [9]. A metáfora era de uma fábrica paraproduziro salário, onde as caixas desciam em uma linha de montagem para serem montadas. As caixas são as partes do salário a serem montadas em um item apenas: o salário do funcionário. Um outro exemplo é o de James Shore em seu primeiro projeto XP, que era dedata warehouse(armazém de dados) [53], cujos nomes das clas- ses do sistema utilizavam a metáfora de uma empilhadeira em um armazém.

    Muitas pessoas ignoram o uso dessa prática por não conhecerem sua uti- lidade. Uma metáfora de sistema ajuda a padronizar os nomes dos objetos para entendê-lo e também auxilia a reutilizar códigos. Desse modo, o desen- volvedor pode descobrir se algum objeto já existe no software e decidir onde é o melhor local para colocá-lo. Por trazer um vocabulário compartilhado, é uma excelente fonte de comunicaç ão entre a equipe e pode facilitar também na discussão das estimativas. Apenas uma boa metáfora pode ser realmente efetiva.

    13.1 Descobrindo uma boa metáfora Não é fácil encontrar uma metáfora útil para todo sistema [35]. Ela é repre- sentada por um domínio bem entendido por todos (domínio fonte), para des- crever os objetos e o funcionamento do domínio do sistema (domínio alvo).

    Descobrir uma metáfora é uma tarefa criativa; o segredo está em achar um domínio fonte que facilite o entendimento do domínio alvo. Pelo fato de todas serem inexatas, reexamine continuamente a metáfora atual, já que ela pode possuir uma extensão maior ou ser inadequada; esteja pronto para

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    Casa do Código Capítulo 13. Metáfora de sistema deixá-la caso isso ocorrer [19].

    Joshua Kerievsky define os três Is da metáfora: Iluminaç ão, Inspiraç ão e Integridade [35]. Uma boa metáfora auxilia a iluminar odesign, inspirar novas ideias e ajudar a sentir que o projeto do sistema está coerente, encaixando-se bem em conjunto. Deve-se buscar uma que contenha esses três itens.

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    Capítulo14 Reuniãodiáriaempé “Ter as melhores ideias, o código mais afinado, ou o pensamento mais pragmático é, em última instância, estéril, a menos que você possa se comunicar com outras pessoas.”

    –Andy Hunt & DaveThomas Você já participou de reuniões longas e improdutivas? A resposta é tão óbvia que até parece uma pergunta boba. Reuniões estão no topo da lista de coisas entediantes que desperdiç am o tempo da maioria dos desenvolvedores.

    Para o time no XP, as reuniões diárias em pé do inglêsDaily Stand Up Meetingsão focadas e rápidas, ocorrem no começo do dia e duram até quinze minutos. Seu formato físico é simples: todos de pé formam um círculo e cada pessoa tem a sua vez de falar no sentido horário (ou anti-horário). Ela faz com que o time mantenha-se alinhado, trocando conhecimento constantemente.

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    14.1. Time alinhado Casa do Código Ao começar a fazê-las, diversos erros comuns podem ocorrer. Neste capítulo, traremos um catálogo deles.

    14.1 Time alinhado Cada membro do time responde sucintamente três questões básicas:

    • O que eu fiz ontem?

    • O que eu farei hoje?

    • O que há de problemas no meu caminho?

    Dica:vinte segundos por questão e por participante Uma dica é que cada uma das três questões não deva necessitar mais do que vinte segundos para ser respondida [43]. Desse modo, cada par- ticipante não precisa mais que um minuto para falar e um time de dez pessoas levará dez minutos ou menos de reunião.

    O propósito da reunião é a comunicaç ão do time inteiro. Em todo começo de dia, ele comunica seus problemas, suas soluções e promove a colaboraç ão.

    Reuniões curtas com todo o time são mais efetivas do que diversas reuniõescom pedaços dele. O planejamento diário sincroniza seu trabalho e suas ex- pectativas, discutindo-se as tarefas realizadas e as tarefas a realizar.

    14.2 Troca de conhecimento Na reunião diária, cada indivíduo sabe o que o outro está trabalhando e se possui problemas relacionados a isso. Qualquer membro do grupo pode pe- dir e oferecer ajuda ao outro, tanto em dúvidas de negócio, quanto de técnicas.

    Mesmo que cada programador puxe as tarefas das quais tem conhecimento suficiente para desenvolver, algumas virão somente durante seu desenvolvi- mento. Muitas vezes, algo que foi dito na reunião servirá como referência no futuro. Uma boa forma para pedir ajuda é parear (programar em pares) com

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    Casa do Código Capítulo 14. Reunião diária em pé a pessoa referente ao assunto em questão. Assim, o aprendizado e a troca de conhecimento tornam-se constantes e colaborativos.

    14.3 Como começar?

    O ideal é começar as diárias desde o primeiro dia da primeira iteraç ão cri- ada no jogo do planejamento. A cultura de experimentaç ão é essencial para começar, visto que, raramente, uma diária sai certa pela primeira vez em um time recém-formado. Por mais que ele seja excelente, deve-se entender que o grupo está em formaç ão e algumas coisas terão de ser adaptadas e melho- radas. Temporariamente, um alarme pode ser usado para ajudar a lembrá-lo do horário do começo e do fim da reunião. Fique atento aos erros comuns listados a seguir e melhore continuamente as reuniões diárias em pé.

    14.4 Erros mais comuns de uma reunião em pé “Ao longo dos anos, eu tenho desenvolvido uma simples regra: quando a reunião fica entediante, saia.”

    –[ref the-clean-coder A reunião diária em pé não existe para desperdiç ar tempo, mas o con- trário; ela substitui outras reuniões para ganhar-se tempo. Porém, é neces- sário conhecer os erros mais comuns para identificá-los quando ocorrerem.

    O coach deve ter conhecimento suficiente para ajudar o time a detectá-los e resolvê-los.

    Os erros mais comuns em reuniões diárias em pé são:

    •Reunião de status:a diária não é uma reunião destatus reportingpara uma pessoa, tal como um coordenador ou gerente. Caso seja neces- sário, a dica é realizá-la após alguém fazer ostatus reporting, possivel- mente oTracker.

    •Discutir soluções:um dos propósitos dessa reunião é identificar pro- blemas, não resolvê-los. A dica é continuar com a reunião diária, dei- xando a conversa sobre as soluç ão para depois dela.

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    14.4. Erros mais comuns de uma reunião em pé Casa do Código •O time não vê valor:isso pode ocorrer quando um time ágil está se formando. A dica é levantar esse problema na próxima reunião de re- trospectiva do time. Não postergue.

    •Não ter um horário fixo:todos do time precisam saber o horário fixo diário da reunião para segui-lo estritamente. O horário da diária deve ser sagrado. Uma dica é ter o papel do “chato da diária”; uma pessoa eleita para lembrar do horário e dar um toque caso a reunião demore ou perca o foco. Outra dica: um despertador ajuda a lembrar o time.

    •Sem local dedicado:é importante manter um único lugar para que o time faç a a diária, de preferência ao próprio local de trabalho. A dica é fazer a reunião próximo ao quadro de histórias e tarefas para a gestão visual.

    •Não saber ouvir:para uma boa comunicaç ão, é necessário saber falar e também ouvir atentamente. Uma dica é ter umtokenpara chamar a atenção de todos. Ele pode ser qualquer objeto que chame a aten- ção. Se for um objeto engraç ado, fica mais fácil de pedir a atenção de todos. Já vimos equipes utilizando canetas de quadro, apagadores, guarda-chuvas e até garrafa de óleo diesel (em uma empresa de refina- ria).O token é como uma bengala: é para ser temporário até que o time caminhe bem nas diárias.

    •Não fazer a reunião, porque um indivíduo está ausente:é melhor ter uma reunião sem um membro do time do que não tê-la. A dica é simples: apenas faç a a reunião.

    •Não ficar de pé:uma dica de produtividade é fazer com que todos os participantes fiquem de pé na reunião para que ela seja rápida e tenha foco. Isso faz com que as pessoas prestem mais atenção nas outras. Reu- niões improdutivas com elas sentadas fazem com que seja confortável a participaç ão. Caso ela perca o foco, as pessoas ficarão cansadas e logo vão querer dar um jeito de realinhar e finalizá-la.

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    Casa do Código Capítulo 14. Reunião diária em pé Lembrete!

    A comunicação é o maior propósito do time XP na reunião em pé diária.

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    Capítulo15 Possecoletiva “Myyy PRECIOUSSS.”

    –Gollum, no filme O Senhor do Anéis Posse coletiva é uma prática indispensável no XP, pois envolve colabora- ção, comunicaç ão e feedback. Com a posse coletiva, qualquer membro ou par do time pode implementar uma funcionalidade, arrumar um bug ou refato- rar em qualquer parte do código, a qualquer momento. No XP, todos têm a responsabilidade pelo sistema. Isso encoraja cada membro do time a sentir- se responsável pela qualidade do todo. É claro que nem todos saberão sobre todas as partes igualmente, mas todos saberão, ao menos, um pouco de cada parte do sistema.

    O termo original no livro do eXtreme Programming [6] é collective ow- nershipe não apenascode ownership, porque todos os artefatos no desenvol- vimento são de posse coletiva do time, não só o código. Além dele, a suíte de

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    15.1. My precious! Casa do Código testes é também de propriedade coletiva, assim como o ambiente de integra- ção contínua e os executáveis do build.

    Quando um par do time encontra uma oportunidade de melhorar o có- digo, ele pode tranquilamente refatorar e melhorar seudesign. A posse cole- tiva gera bastante sinergia com as outras práticas do XP, e o versionamento com a integraç ão contínua avisará a todos o que está sendo alterado.

    O trabalho em time com a posse coletiva encoraja a difusão de ideias e de conhecimento. A programaç ão em par ajuda a distribuir esse conhecimento por meio do aprendizado entre os membros do grupo, deixando a posse cole- tiva mais refinada. Porém, para tudo isso funcionar, é necessário que nenhum integrante ache que é o dono de partes do sistema. É preciso colaboraç ão.

    15.1 My precious!

    Você assistiu ao filmeO Senhor dos Anéis? O personagem Gollum (ou Sméa- gol) chamava o anel demy precious(em português, “meu precioso”). Não faç a isso com oseucódigo. Deixe seu time colaborar! O objetivo é evitar as ilhas de conhecimento, reduzindo o risco de depender apenas de uma pessoa. A posse coletiva é um benefício para todos os membros (cada um poderá sair de férias ou tirar uma folga com mais tranquilidade por não dependerem tanto dele, por exemplo).

    Quando a posse não é coletiva, somente uma pessoa é dona do código e os programadores devem submetê-lo para revisão e aprovaç ão. Isso é, basi- camente, o oitavo desperdício no Lean [41], que é relativo ao capital humano e à criatividade dos funcionários. Consequentemente, isso gerará diversos outros desperdícios: espera (o time aguardará a revisão do dono do código); transporte (enviar o código ao dono); defeito (nem toda a decisão do dono será a melhor); superprocessamento (a revisão para controle pelo dono do código); e estoque (a fila de itens a revisar pelo dono).

    Uma pessoa é notavelmente um gargalo no time ou no processo quando não consegue atender todas suas demandas e cria estoque de tarefas, nas quais ninguém pode ajudar. E atenção: qualquer membro poderá sair da empresa a qualquer momento, o que pode impactar no negócio do cliente.

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    Casa do Código Capítulo 15. Posse coletiva Reflexão!

    Faça uma reflexão: quantas pessoas são necessárias faltar ao trabalho para que o sistema não possa mais ser desenvolvido? Quanto menor o número, pior será a situaç ão. A posse coletiva aumenta esse número ao máximo, ou seja, ao tamanho da equipe.

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    Capítulo16 Padrãodecodificaç ão “A quantia de tempo gasto lendo código versus escrevendo é bem mais de 10 para 1. Então, fazer o código mais fácil de ler, o torna mais fácil de escrever.”

    –Robert C. Martin Pelo fato de todos no time XP estarem trabalhando juntos em cada parte do sistema, refatorando código e trocando de pares frequentemente, não se pode haver diferentes formas de codificaç ão. Um padrão torna-se necessário, pois deve facilitar a comunicaç ão entre o time, encorajando a posse coletiva, e evitando problemas na programaç ão em pares e na refatoraç ão.

    O padrão deve ser estabelecido e concordado pelo time, pois faz com que todos o utilizem efetivamente. Caso contrário, a equipe ficará insatisfeita e evitará ao máximo seu uso. Sua existência vale muito mais do que a sua forma, porque ele pode ser revisto e evoluído de acordo com seu uso.

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    16.1. Pequenos projetos também se beneficiam? Casa do Código Algumas linguagens de programaç ão já propõem padrões de codificaç ão, e também é comum uma organizaç ão ou um produto estabelecê-los. Na lin- guagem Java, a Sun estabeleceu em 1997 oJava Code Conventions(Conven- ções de Código Java) [46], válido até os dias atuais. A Google define seus pró- prios guias de estilos para diversas linguagens, como: C++, Java, Objective-C, Python, Shell, HTML/CSS, JavaScript, e Lisp [29]. O kernel do Linux também define seu estilo de codificaç ão [58].

    Imagine centenas ou milhares de programadores produzindo código para um único software sem padronizaç ão? Seria o caos! O kernel do Linux prova- velmente teria tantosbugsque se tornaria inutilizado. O Free Software Foun- dation também define padrões de codificaç ão para seus programas GNU [21], descrevendo o melhor uso da linguagem C, padrões para interfaces, para li- nha de comando, para documentaç ão e para asreleases.

    Ok, esses são projetos grandes. Mas e os projetos pequenos? É o que discutiremos logo a seguir.

    16.1 Pequenos projetos também se beneficiam?

    Certamente, pequenos projetos com times pequenos se beneficiarão com pa- drões de codificaç ão. Ok, alguém ainda pode não ter se convencido e pensar que isso é necessário apenas para grandes projetos. Veja a seguir como um pequeno código pode causar problemas.

    Falta de padronizaç ão de código Sem uma padronizaç ão, um programador pode fazer tranquilamente qualquer um dos quatro códigos mostrados na sequência para calcular o mó- dulo de um número na variávela(o péssimo nome é proposital não te- mos um padrão nesse momento). Esses quatro exemplos vêm da combinaç ão de duas variações: ter uma condiç ãoifcom o bloco interno de código na mesma linha ou não, e ter chaves ou não.

    Condição com bloco interno na mesma linha:

    •Com chaves:

    if(a<= 0) {a= -1 *a; }

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    Casa do Código Capítulo 16. Padrão de codificaç ão •Sem chaves:

    ifa a= -1 *a; Condição com bloco interno na próxima linha:

    •Com chaves:

    if(a<= 0) { a= -1 *a; } •Sem chaves:

    if(a<= 0) a= -1 *a; Ok, sem muitos problemas até então, pois fizemos apenas duas variações nesse pequeno trecho de código. Porém, e se variarmos em mais formas? Se as chaves serão indentadas ou não, se teráelse, se usaremos nomes de va- riáveis sem significado (letraa) ou não. Com isso, teremos mais 3 tipos de variações, totalizando 5 tipos em 32 formas de codificaç ão. Além disso, cer- tamente existem outras mais. Programadores têm suas preferências de estilos ao programar, e essa variabilidade tenderá ao infinito. Então, sem uma pa- dronizaç ão de código, haverá retrabalho, discussão e estresse, mesmo em um pequeno projeto.

    16.2 Como definir?

    Antes de tudo, tente começar com algo que já exista. Pesquise se há um padrão de codificaç ão na sua empresa ou se há algum definido pela linguagem ou tecnologia utilizada. Caso positivo, comece por isso, permitindo que o time revise e aprimore-o. Caso não exista, reúna o grupo inteiro para defini-lo.

    Ninguém melhor que ele próprio para padronizar seu próprio código.

    Para descrever um padrão de código, diversos itens podem ser conside- rados:

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    16.2. Como definir? Casa do Código • Nomenclatura de variáveis; • Nomenclatura de métodos; • Nomenclatura de classes; • Nomenclatura de pacotes; • Indentaç ão da tabulaç ão; • Indentaç ão de chaves; • Indentaç ão das estruturas condicionais; • Uso de parênteses em expressões; • Uso de letras maiúsculas e minúsculas; • Uso deelsenoif; • Uso dedefaultnoswitch; • Uso de tratamento de exceções; • Uso de estruturas de dados específicas; • Importaç ão de classes e bibliotecas; • Diretrizes de Orientaç ão a Objetos; • Uso de padrões de projeto; • Boas práticas de programaç ão; • Comentários de código; • Comentários noscommits; •Logging; • Detalhes específicos da linguagem de programaç ão; • Detalhes específicos do ambiente de desenvolvimento.

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    Capítulo17 Programaç ãoempar “Dados olhos suficientes, todos os erros são óbvios.”

    –Lei de Linus, Eric Steven Raymond Sabe-se que revisão por pares (peer review ) é uma boa prática de desen- volvimento que aumenta a qualidade do software e a colaboraç ão no time.

    Visto que é produtivo, que tal programar e revisar em pares o tempo inteiro?

    No XP, todo o código de produç ão é criado por programaç ão em par (pair programming). Isso significa ter duas pessoas piloto e copiloto trabalhando juntas em apenas um computador, com foco em uma única tarefa e ao mesmo tempo. O que o XP indica é programar em par quando o código de produç ão for escrito. Não necessariamente se deve programar em par 100% do tempo, pois atividades, como pesquisas e leituras, não têm essa necessidade.

    Os nomes dos papéis de um par vêm da metáfora da aviaç ão: piloto e copiloto (ou navegador). O piloto programa, enquanto o copiloto acompa-

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    17.1. Diversos benefícios Casa do Código nha e cuida de tudo o que está sendo realizado, pensando em casos de testes, desde o padrão de codificaç ão até questões de arquitetura. A troca de papéis é essencial para colaboraç ão e partilha de conhecimento.

    Trabalhar dia a dia ao lado de um colega exige habilidades sociais que levam tempo em aprender, porém aumenta a cooperaç ão no time, indepen- dente do status da função de cada integrante. Programaç ão em par não é mentoria, uma vez que é um trabalho colaborativo entre ambas as partes, in- dependente de terem muita diferença nas experiências. Não é aceitável dizer O design que você fez possui um erro, mas sim O design que nós fizemos possui um erro.

    Nas seções deste capítulo, falaremos sobre os diversos benefícios desse tipo de programaç ão, assim como discutiremos o que gestores podem pensar sobre seu custo. Veremos também sobre a pressão do par durante o desenvol- vimento, o nivelamento do conhecimento entre a dupla e como começar (com dicas sobre pareamento e o ambiente de trabalho). Além disso, pergunto: por que não trabalhar em par em todos os tipos de tarefas? 🙂 17.1 Diversos benefícios Diversos benefícios são conhecidos nopareamento[62]:

    •Revisão de código contínua:muitos erros são pegos quando eles es- tão sendo codificados, em vez de serem descobertos por um testador, tornando a quantidade de erros consideravelmente menor; •Discussão contínua da solução:o design é aprimorado e o código fica mais sucinto; •Afinamento do par:o time resolve problemas mais rapidamente por estar coeso também em pares; •Aprendizagem:as pessoas aprendem significativamente sobre o sis- tema e sobre engenharia de software; •Gestão do conhecimento:o projeto acaba com várias pessoas enten- dendo cada pedaço do sistema;

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    Casa do Código Capítulo 17. Programaç ão em par •Trabalho colaborativo:os indivíduos aprendem a trabalhar em time e a conversar mais frequentemente, dando mais fluxo à informaç ão e à dinâmica do grupo; •Motivaç ão:as pessoas apreciam mais o seu trabalho e o trabalho de todos.

    17.2 Um desenvolvedor pelo preço de dois?

    O quê? Dois programadores fazendo o trabalho de um? De modo algum!Isso é o que é dito geralmente por quem não conhece a produtividade e os bene- fícios da programaç ão em par, ou por pessoas que ainda pensam no processo fordista de ter-se apenas um funcionário por estaç ão de trabalho. Produzir softwares é uma atividade complexa e não se deve aplicar processos fabris.

    O coach XP deve ficar atento à organizaç ão do ambiente, tratar da mudança com a visão gerencial e harmonizar os relacionamentos humanos.

    1 + 1 > 2. Duas pessoas trabalhando em um único computador produzirá mais que duas pessoas trabalhando separadas, já que isso aumenta o foco, e também gera qualidade e troca de conhecimento. Com um breve tempo, as vantagens já surgirão, basta acreditar no potencial da equipe. Quem pratica sente seus benefícios.

    17.3 Apressão do par Você já ouviu falar em pressão do time? Isso acontece quando se trabalha com somente uma meta. As pessoas dependem de você, e você delas. Caso alguém não colabore na meta, o próprio time vai naturalmente pressioná-la; ou a própria pessoa se cobrará de alguma forma.

    No trabalho em par, isso não é diferente. Cada membro tem o compro- misso de fazer um bom trabalho. Isso gera maior concentraç ão, incentiva o bom trabalho e aumenta a responsabilidade. Revezar frequentemente faz com que cada um respeite o outro, tratando a pressão como algo bom e não como um problema.Jogue limpo com o seu par, você dependerá dele.

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    17.4. Nivelando o conhecimento Casa do Código 17.4 Nivelando o conhecimento O aprendizado pela troca de conhecimento está na essência da programaç ão em pares. O programador que souber menos logo aprenderá com o mais ex- periente, podendo aprender uma tecnologia, um framework, um algoritmo, um padrão de projeto, uma história de usuário, ou qualquer componente do desenvolvimento de software. O nivelamento de conhecimento é um resul- tado intrínseco dopareamento.

    17.5 Como começar?

    O segredo para começar é ter um clima de experimentaç ão, entendendo que algumas coisas não funcionarão de início e precisarão de melhoria. No jogo do planejamento, histórias e tarefas podem ser elencadas para serem desen- volvidas em pares. Na retrospectiva, o time reflete sobre os benefícios trazidos e o que deve ser melhorado nopareamento.

    Uma boa dica para fazer acontecer esse trabalho em par é limitar o desen- volvimento a um número de tarefas menor que o de programadores. Assim, sempre haverá, ao menos, um programador impedido de pegar uma tarefa, então ele precisará parear com um outro. Utilizando um quadro de Kanban, basta aplicar o limite noWIP(do inglês,Work in ProgressTrabalho em Pro- gresso).

    Dica:revise em pares quando não parear Mesmo que algumas atividades não sejam realizadas em pares o tempo inteiro, utilize sempre a revisão em dupla. O modo mais efici- ente é o de rever o código dessa formaantesde enviá-lo para obranch padrão. Isso resulta um código totalmente revisado que será integrado no seu servidor. Reexaminar depois pode perder a prioridade e gerar re- trabalho. Aproveite também para usar a revisão não apenas no código, mas também em tudo o que é útil para o desenvolvimento.

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    Casa do Código Capítulo 17. Programaç ão em par 17.6 Dicas para aprimorar a programação em par Que tal experimentar essas abordagens?

    •Vamos tentar sua ideia primeiro:alguém da dupla sugere começar pela ideia de soluç ão do outro integrante. Essa abordagem cria um clima de respeito por entender que as soluções de cada um serão ex- perimentadas e melhoradas.

    •Pensar alto:em vez de o piloto ficar olhando para o código e pensando sozinho, ele fala o que está pensando. Isso ajuda o copiloto a entender o que está sendo feito.

    •Regra dos dez segundos:muitas vezes o piloto está em um raciocínio aprimorado e não linear. Por essa razão, o copiloto deve respeitar esse momento e aguardar cerca de dez segundos para intervir. Essa dica é muito boa para não quebrar o raciocínio.

    •Revezar por ciclo de tempo:revezar o papel de piloto e copiloto é es- sencial. Para forçar a troca, o par pode colocar um alarme para desper- tar no final do ciclo de tempo. Esse ciclo não pode ser nem muito curto, nem muito grande. O par saberá o tempo certo, que normalmente varia de dez minutos a uma hora. A Técnica Pomodoro é uma forma efici- ente de revezar o par, controlar o tempo e ter foco. O par desenvolve o software a cada vinte e cinco minutos, e faz um intervalo curto de três a cinco minutos. A cadapomodoro, o copiloto assume o lugar do piloto e vice-versa. A cada quatropomodoros, o intervalo é mais longo, de vinte a trinta minutos.

    •Revezar por ciclo de TDD:revezar por tempo pode quebrar o raciocí- nio do piloto por parar no meio da escrita. Revezar por ciclo de TDD (vide capítulo19) torna interessante a linha de raciocínio seguida. Uma bela variaç ão é que o copiloto assuma na fase de codificaç ão [12], e não na de escrita de testes, fazendo com que um escreva o teste para o outro programar e refatorar.

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    17.7. O ambiente de trabalho Casa do Código 17.7 Oambiente de trabalho Trabalhar fisicamente em pares não exige muita infraestrutura, sendo sufi- ciente apenas um computador configurado normalmente. Para que os pares trabalhem juntos a distância ou sem um espaço físico adequado, existem di- versas ferramentas de trabalho remoto com compartilhamento de tela e de acesso remoto de áudio e vídeo.

    Cuide do espaço físico. A mobília pode dificultar ficar lado a lado pro- gramando (por exemplo, em mesas de canto ou em formato de ‘L’). Os pro- gramadores terão dores no corpo depois de um dia de programaç ão em pares com pouca ergonomia. Uma dica é adaptar o espaço; melhor ainda se houver estações de programaç ão em par, adicionando um teclado, um mouse e um monitor o copiloto, o que é mais favorável para a ergonomia do trabalho.

    17.8 Especificar, projetar, trabalhar, tudo em par Mesmo que essa prática do XP chame-seprogramação em pares, o trabalho como um todo pode ser realizado em dupla. Um programador pode parear com o cliente para tirar dúvidas; o cliente pode parear com um testador para escrever bons testes de aceitaç ão; e um programador pode parear com um testador para discutir alguns testes unitários.

    Dica:pareamento em tudo!

    Somos tão adeptos do trabalho em par que pareamos em atividades além do desenvolvimento de software. Lecionados cursos em par, pales- tramos em eventos em par etc. Sabemos que, assim, um curso ou uma palestra tem muito mais qualidade, motivaç ão e troca de conhecimento.

    Então, que tal começar a parear também?

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    Capítulo18 Refatoraç ãodecódigoparaalta qualidade “Qualquer tolo pode escrever código que o computador possa entender. Bons programadores escrevem código que humanos possam entender.”

    –Martin Fowler Você se lembra das aulas de matemática sobre fatoraç ão? O objetivo era aprender como fatorar uma fraç ão ou equaç ão matemática. Por exemplo, sim- plificar a expressão2*x+2*ypara sua expressão fatorada2*(x+y).

    Pois bem, a refatoraç ão tem o mesmo propósito na codificaç ão. Com ori- gem na Orientaç ão a Objetos, é também chamada derefinamento incremental e mantém a semântica da funcionalidade, alterando apenas odesign.

    Uma refatoraç ão é uma mudança feita na estrutura interna do software que o faz ficar mais fácil de entender e mais barato de modificá-lo, sem mu-

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    18.1. Refatore impiedosamente Casa do Código dar seu comportamento observável [23]. Obter essa simplicidade não é algo fácil, por isso a fazemos por meio de uma série de pequenas alterações, uma a uma sem alterar esse comportamento. Atenção: refatoraç ão não é um ato de reescrever código.

    Deve-se pedir permissão para refatorar? Acreditamos que não. A quali- dade é importante no software, e você é o profissional que decide sobre o uso da refatoraç ão. Por essa razão, ela está embutida na estimativa do desenvolvi- mento. Refatorar é um investimento na qualidade do código e não pode ser visto como retrabalho.

    Quais são seus benefícios?

    • Economiza tempo e aumenta a qualidade; • Melhora o design do software; • O código torna-se mais legível e reutilizável; • Fica mais fácil encontrar defeitos; • Ajuda você a programar mais rápido.

    A abordagem do XP é refatorar impiedosamente; ou seja, não se opta por isso. Falaremos disso a seguir, bem como sobrebad smellsde código.

    Dica:papel do cleaner Tenha alguém no time XP com o papel docleaner. Isso auxilia o time a criar a cultura de refatoraç ão.

    18.1 Refatore impiedosamente Refatorar não é uma tarefa opcional. Escrever código já na primeira vez com um excelente design é difícil. Quando você pensar em refatoraç ão, criará es- tratégias para a codificaç ão e melhorias no software. Pensando no time, a posse coletiva de código (capítulo15) é importante para que qualquer indiví- duo sinta-se confortável para refatorar.

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    Casa do Código Capítulo 18. Refatoraç ão de código para alta qualidade Não deixe para refatorar apenas quando se utiliza TDD, pois existem ou- tros momentos em que você pode fazê-lo, como:

    • Ao adicionar uma função; • Ao consertar um defeito; • Para facilitar o entendimento; • Em revisões de código; • Regra de três: na primeira vez que você fizer algo, apenas faç a. Na se- gunda vez, a duplicaç ão surgirá, mas mantenha assim. Na terceira vez, refatore.

    Dica:pense no próximo!

    Escreva o código para pessoas, não apenas para o compilador. Seu time agradecerá e alguém no futuro certamente ficará feliz em ver um bom código estruturado.

    18.2 Bad smells de código Sabemos que alguns tipos de código são difíceis para alterar, como: código com lógica duplicada ou complexa, código ilegível ou código com compor- tamento adicional e desnecessário. Estes comumente possuem muitosbad smells(maus cheiros), também chamadoscode smells(cheiros de código). Po- demos dizer que se podem descobrir rapidamente osbad smellscom uma breve revisão do código.

    Os maus cheiros podem estar nos níveis de classe, de método ou de atri- buto. A refatoraç ão é a remoção da duplicaç ão e decode smells. Duplicaç ão é sinal de código sujo, de que há mais código do que o necessário em relaç ão a classes, métodos e variáveis. Obter o código limpo (clean code) é o objetivo da refatoraç ão, pois ele fica legível, com alta coesão, baixo acoplamento e sem maus cheiros.

    Alguns exemplos decode smellsa serem refatorados são:

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    18.2. Bad smells de código Casa do Código • Uma classe ou método muito longo; • Uma classe que utiliza muitos métodos de outra classe; • Uma classe que faz muito pouco; • Subclasses muito semelhantes; • Nome de variável não comunicativo; • O não tratamento de uma exceção; • Código duplicado; • Código inútil.

    Uncle Bob (Robert C. Martin) lista em seu livro,Código limpo[42], diver- sosodores; pérolas; heurísticas sobre problemas de comentários e de ambiente de build; e testes gerais de nomenclatura e de testes. Vale a pena a leitura; é muito recomendado para quem deseja fazer um código realmente bom.

    Dica:catálogos de refatorações Martin Fowler mantém na internet um catálogo de refatorações bas- tante completo e detalhado. Nele, você encontrará refatorações, como:adicionar um parâmetro, extrair uma superclasse, mover um método,trocar um array por um objeto e muito mais. Confira-o em [26].

    Além disso, Joshua Kerievsky disponibiliza em seu livro,Refatoração para padrões, uma lista bastante detalhada de como refatorar para pa- drões [34].

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    Capítulo19 TDD:DesenvolvimentoGuiado porTestes “Eu não sou um excelente programador; eu sou apenas um bom programador com excelentes hábitos.”

    –Kent Beck O TDD (do inglêsTest-driven DevelopmentDesenvolvimento Guiado por Testes) é uma técnica para construç ão de software que guia seu desenvolvi- mento por meio da escrita de testes. Sua essência está em seumantra: testar, codificar e refatorar (veja na imagem a seguir). Essa técnica surgiu a partir da refatoraç ão, dando base para guiar a codificaç ão. TDD gera aprendizado, porque ajuda a aprender boas práticas de programaç ão e a criar testes auto- matizados.

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    Casa do Código Fig. 19.1: Mantra do TDD: testar, codificar e refatorar Mas espere um pouco! Escrever testes antes de codificar? Sim, exata- mente! No TDD, primeiramente é escrito o código de teste e depois (somente depois) o de produç ão. Dessa forma, a codificaç ão será guiada por testes e o código de produç ão estará coberto por eles. Os testes guiarão o desenvolvi- mento. É uma mudança de paradigma que vale a pena conhecer.

    Joshua Kerievsky traz a visão desse mantra como um diálogo [34]:

    •Pergunta:você pergunta ao sistema por meio de um teste.

    •Resposta:você responde escrevendo código que passa no teste.

    •Refinamento:você refina a pergunta consolidando ideias, removendo itens desnecessários e clarificando ambiguidades.

    •Repetição:você mantém o diálogo fazendo novas perguntas.

    Na agilidade, trabalhamos com ciclos de trabalho em todos os níveis do projeto. No nível do negócio, utilizamos ciclos de entregas e de iterações para o desenvolvimento de software; no nível do trabalho em equipe, trabalhamos com ciclos em reuniões diárias; e no da codificaç ão, o TDD traz ciclos de trabalho para desenvolver as funcionalidades incrementalmente. Cada um

    Imagem 1 da página 117 (sem descrição)

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    Casa do Código Capítulo 19. TDD: Desenvolvimento Guiado por Testes dura alguns minutos: adiciona-se um teste, fazendo-o funcionar com código de produç ão e refatorando-o.

    Sobre os benefícios do TDD, Maurício Aniche fez um compilado de re- sultados em pesquisas sobre isso [4]. Eles são bastante convincentes no uso de TDD:

    • Programadores produziram código que passaram em aproximada- mente 50% mais testes caixa-preta do que os que não utilizavam; • Reduç ão de 40-50% na quantidade de defeitos e um impacto mínimo na produtividade; • 87,5% dos programadores acreditam que facilitou entender os requisi- tos; • 95,8% acreditam que TDD reduziu o tempo gasto comdebug; • 78% acreditam que aumentou a produtividade da equipe; • 92% acreditam que ajuda a manter um código de maior qualidade; • 79% acreditam que promove um design mais simples.

    19.1 Padrões deTDD Para detalhar o TDD, Kent Beck [8] define quatro classes de padrões: padrões gerais de TDD, padrões de teste para TDD, padrões de barra vermelha, e pa- drões de barra verde. Vamos apresentá-las ao longo deste capítulo.

    Padrões gerais de TDD:

    • Teste seu software com testes automatizados; • Um teste não deve afetar a execuç ão do outro; • Mantenha uma lista de testes; • Escreva um teste antes de escrever código de produç ão; • Comece a escrita do teste pelo métodoassert(…);;

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    19.1. Padrões de TDD Casa do Código • Os dados de testes devem ter significados evidentes.

    Padrões de teste para TDD:

    • Quando escrever casos de teste grandes, comece com sua menor parte que faç a quebrar; • Quando testar recursos caros ou complicados, utilize constantes que si- mulem o comportamento desses recursos (com estratégias dedummy, stub,spy,fakeemock); • Quando estiver programando sozinho, deixe o último teste quebrado.

    Quando você voltar a programar, ele dirá onde você parou.; • Quando estiver programando em time, deixe todos os testes rodando.

    Seu grupo precisará ter todos os testes rodando.

    Os três passos domantra do TDDsão descritos a seguir.

    Passo 1: escrever um teste que falhe Feedback ao programador é um ponto-chave no XP e é guiado por bons testes automatizados. Aí está a importância de automatizá-los: ter um feed- back, uma resposta rápida para guiar o desenvolvimento do software. Sua automatizaç ão é um investimento a curto e longo prazo, pois guia a codifica- ção e aumenta a qualidade do software a longo prazo.

    Uma dúvida bastante comum é se o TDD faz uso apenas de testes de uni- dade. A resposta é negativa, porque ele é ortogonal em relaç ão a ele. Estes verificam unidades de comportamento. O TDD utiliza, principalmente, tes- tes de unidade, mas também pode usar testes funcionais e de aceitaç ão para guiar o desenvolvimento das funcionalidades.

    Para facilitar sua escrita são utilizados frameworks xUnit: JUnit (Java), NUnit (.NET), CPPUnit (C++), PHPUnit (PHP), e mais uma grande diversi- dade dessas ferramentas. As expressões “barra vermelha” (Red bar ) e “barra verde” (Green bar) surgiram desses frameworks, pois são avisos visuais em uma barra colorida integrada no ambiente de desenvolvimento. A vermelha

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    Casa do Código Capítulo 19. TDD: Desenvolvimento Guiado por Testes é o resultado de execuç ão de um ou mais testes falhando; já a verde é o resul- tado da execuç ão de todos os testes passando.

    Para escrever um teste que falhe (barra vermelha), Kent Beck define os padrões:

    • Escreva um teste que gere aprendizado e que se esteja confiante para implementar; • Inicie com um teste para uma operaç ão que não faz nada; • Peça explicações e esclarecimentos por meio dos testes; • Escreva testes para aprender o que um software externo faz; • Anote os outros testes que surgirem para não perder o foco do atual; • Quando houver um defeito encontrado, escreva um teste para apontar obug.

    Passo 2: escrever código funcional para rodar o teste Agora, com um teste já falhando, é hora de escrever o código de produç ão para fazê-lo passar (barra verde). Dessa forma, o código de produç ão ficará praticamente todo coberto por testes. Neste segundo passo, o objetivo é fazer o código passar, sem se preocupar tanto com o seu design, porque isso será feito na próxima etapa: a refatoraç ão.

    Ao usarmosbaby steps(passos de bebê), o código é produzido até dar barra verde. Rode os testes constantemente. Osbaby stepsajudarão a verificar cada passo, você terá feedback contínuo deles. Entregue frequentemente no repositório de código (algumas vezes ao dia). Todos eles devem estar rodando para enviar o código ao repositório; a integraç ão contínua garantirá isso.

    Padrões de barra verde para TDD, para fazer rodar o teste quebrado:

    • Retorne uma constante para simular o resultado e, então, transforme-a gradualmente em uma expressão com variáveis; • Transforme os retornos constantes em expressões, após possuir dois ou três exemplos;

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    19.1. Padrões de TDD Casa do Código • Implemente diretamente as operações simples; • Quando a implementaç ão usar coleções de objetos, inicie sem coleções e, somente depois, utilize-as.

    Dica:utilize seus baby steps conscientemente Em seu livro sobre TDD, Maurício Aniche traz a dica de que osbaby stepsdevem ser realizados de maneira consciente: o desenvolvedor deve buscar pela soluç ão mais simples (e não necessariamente pela modifica- ção mais simples) [4]. Assim como um bebê, o desenvolvedor deve dar um passo seguro, de acordo com a complexidade do problema que está sendo resolvido.

    Passo 3: refatorar o código “O objetivo do TDD é escrever código limpo que funciona.”

    –Ron Jeffries O propósito do TDD está no design do código; o teste é apenas um efeito colateral (ótimo, por sinal). Agora com o código coberto pelo teste, é hora de melhorar seu design, refatorando-o. Um dos erros mais comuns no uso de TDD está em não refatorar constantemente. Tenha muita atenção nessa parte; se você não a fizer, terá um código mais complexo e não fará TDD.

    Segundo Martin Fowler, um dos gurus da refatoraç ão, esta é uma mu- dança feita na estrutura interna do software para deixá-lo mais fácil de enten- der e barato de modificar, sem mudar seu comportamento observável [23].

    Uma das mágicas do TDD está aqui: o comportamento observável é guiado pelo feedback dos testes! Eles apontarão se a refatoraç ão do código o alterou ou não.

    Cada refatoraç ão deve ser realizada embaby steps; ou seja, não se deve fazer grandes refatorações. O feedback contínuo é essencial para evitar que o comportamento observável não seja alterado. Caso seja, os testes automatiza- dos apontarão o problema. Umbaby stepdeve ser simples, mas não simplório.

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    Casa do Código Capítulo 19. TDD: Desenvolvimento Guiado por Testes Assim como em um passo de bebê, você deve dar o maior passo para ir em frente com total segurança.

    Lembre-se de refatorar também seus testes. Eles fazem parte do software, e se não forem refatorados, se tornarão complexos e dificultarão a manuten- ção futura.

    19.2 Show me the code “Talk is cheap. Show me the code.”

    –Linus Torvalds Falar é fácil, mostre-me o código. Ok, vamos começar com um exemplo clássico praticado emCoding Dojos: a conversão de números decimais para romanos. Para isso, escolhemos a linguagem Java e o JUnit para escrever os testes de unidade. Como primeiro ciclo de TDD, vamos converter o número decimal1para romano. Segue o código do teste:

    import.junit.Assert.*; import public class @Test public void assertEquals("I",.converter(1)); } } Esse teste falhará a própria compilaç ão do código, pois inexiste a classe RomanNumberConverter, e muito menos seu método converter. Uma dica é utilizar a IDEIntegrated Development Environment(Eclipse, por exem- plo) para criar as classes e métodos automaticamente, a partir dos erros de compilaç ão. Precisamos fazer esse teste compilar com o código a seguir:

    public classRomanNumberConverter { public staticObjectconverter(int i) { return null; } }

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    19.2. Show me the code Casa do Código Veja que o código está com uma má aparência, mas já compila e o teste já pode ser executado. Porém, ele falha, pois retornanulle deveria retornar I. Visto isso, faremos o primeiro teste funcionar:

    public class public static converter(int i) { return"I"; } } Nosso primeiro teste passou! Você pode estar achando estranho retornar uma constante, mas calma! Lembre-se dosbaby steps, além da simplicidade no XP. Como regra, deve-se retornar uma constante para fazer funcionar os primeiros testes, apenas depois abstrair em variáveis em uma fórmula.

    Agora, possuímos teste passando, portanto podemos refatorar. Faremos as seguintes refatorações, também com baby steps:

    • Tornar mais sugestivo o nome do método de testetestIpara deveRetornarI; • Mudar o retorno do métodoconverterdeObjectparaString; • Tornar o métodoconverterde classe para um método de objeto (removendo ostatic).

    Eis o código com essas refatorações aplicadas:

    public classRomanNumberConverterTest { @Test public voiddeveRetornarI() { assertEquals("I", newRomanNumberConverter().converter(1)); } } public classRomanNumberConverter { publicStringconverter(int i) { return"I"; } }

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    Casa do Código Capítulo 19. TDD: Desenvolvimento Guiado por Testes Lembre-se de rodá-lo a cada pequena refatoraç ão. Desse modo, teremos garantido que não o quebramos.

    Fechamos o nosso primeiro ciclo do mantra do TDD: criamos um teste, fazemo-lo funcionar e o refatoramos embaby steps. Estamos aprendendo o problema. Agora, é o momento de irmos para o nosso segundo ciclo de TDD.

    Hey, atenção! Não saia escrevendo o código funcional! Você precisa de um teste falhando antes de tudo. Ok, então vamos escrever o próximo:

    public class @Test public void assertEquals("I", new().converter(1)); } @Test public void assertEquals("II", new().converter(2)); } } Ah, agora sim temos um teste falhando, então podemos escrever código funcional:

    public class publicint i) { if(i== 1) { return"I"; } else return"II"; } } Esse código está ruim, porém os testes estão rodando. Esses são osbaby steps. O XP foca no necessário e somente o necessário. Agora é hora de refato- rar, melhorando seudesign. Vamos fazer uma pequena refaforaç ão, tornando o nome da variável do métodoconverterdeiparadecimal. Resultando no código:

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    19.2. Show me the code Casa do Código public class publicint decimal) { if(decimal== 1) { return"I"; } else return"II"; } } Acabamos nosso segundo ciclo de TDD. Vamos para o terceiro. Agora você já sabe: primeiro escreva um teste que falhe. Vamos escrever um teste para verificar a conversão do decimal três:

    public classRomanNumberConverterTest { @Test public voiddeveRetornarI() { assertEquals("I", newRomanNumberConverter().converter(1)); } @Test public voiddeveRetornarII() { assertEquals("II", newRomanNumberConverter().converter(2)); } @Test public voiddeveRetornarIII() { assertEquals("III", newRomanNumberConverter().converter(3)); } } Ok, temos o teste falhando para o valor três. Vamos agora criar código funcional. Só que dessa vez, realizaremos obaby stepum pouco maior, come- çando o algoritmo efetivo da soluç ão. Faremos uso da recursividade:

    public classRomanNumberConverter { publicStringconverter(int decimal) { if(decimal== 0) { return"";

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    Casa do Código Capítulo 19. TDD: Desenvolvimento Guiado por Testes } return(decimal – 1) +"I"; } } Os três testes estão passando, excelente. Vamos refatorar? Que tal colo- carmos umelsecom chaves nessa condiç ãoif?

    public classRomanNumberConverter { publicStringconverter(int decimal) { if(decimal== 0) { return""; }else{ returnconverter(decimal – 1) +"I"; } } } Ótimo! Testes passando e código refatorado. Temos o terceiro ciclo de TDD completo.

    Para não ficar exaustivo esse exemplo, vamos adiantar alguns ciclos de TDD. Fizemos mais um ciclo de TDD para cada um dos números decimais:

    5, 6, 7, 8, 9, 10, 28 e 34. O código de testes resultante desses ciclos ficou dessa forma:

    public classRomanNumberConverterTest { @Test public voiddeveRetornarI() { assertEquals("I", newRomanNumberConverter().converter(1)); } @Test public voiddeveRetornarII() { assertEquals("II", newRomanNumberConverter().converter(2)); } @Test public voiddeveRetornarIII() { assertEquals("III",

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    19.2. Show me the code Casa do Código new().converter(3)); } @Test public void assertEquals("IV", new().converter(4)); } @Test public void assertEquals("V", new().converter(5)); } @Test public void assertEquals("VI", new().converter(6)); } @Test public void assertEquals("VII", new().converter(7)); } @Test public void assertEquals("VIII", new().converter(8)); } @Test public void assertEquals("IX", new().converter(9)); } @Test public void assertEquals("X", new().converter(10)); } @Test public void

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    Casa do Código Capítulo 19. TDD: Desenvolvimento Guiado por Testes assertEquals("XXVIII", new().converter(28)); } @Test public void assertEquals("XXXIV", new().converter(34)); } } O código funcional resultante ficou assim:

    public class publicint decimal) { if(decimal== 0) { return""; }else if(decimal<= 3) { return this.converter(decimal – 1) +"I"; }else if(decimal== 4) { return"IV"; }else if(decimal<= 8) { return"V"+this.converter(decimal – 5); }else if(decimal== 9) { return"IX"; }else if(decimal<= 39) { return"X"+this.converter(decimal – 10); } return null; } } Você deve perceber que a funcionalidade ainda não está pronta e o código não está totalmente limpo. Podemos ainda fazer algumas boas refatorações, como: mudar o retorno denullpara umaStringvazia ou criar uma enu- meração para os números romanos.

    Ainda precisamos fazer mais testes. Precisamos verificar casos de erro (quando o decimal for menor que zero), além de verificar as conversões de números maiores com as letras de cinquenta (L), cem (C), quinhentos (D) e

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    19.2. Show me the code Casa do Código mil (M). Sugerimos que você pratique TDD com esse exercício e, de prefe- rência, que complete todos os casos de teste.

    Dica:pratique em umCodingDojo!

    Fazer uma sessão deCoding Dojopropicia um excelente espaço aberto e momento de aprendizado para treinar a programaç ão em pares, TDD, projeto simples e outras práticas do XP. Daniel Wildt tem um post queexplica mais sobre isso em [60].

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    Capítulo20 Integraç ãocontínua “Integração contínua não livra os bugs, mas os tornam dramaticamente mais fáceis de encontrar e de remover.”

    –Martin Fowler Integraç ão contínua (IC) é uma prática, na qual o código que está sendo desenvolvido pelo time é integrado, versionado, construído e verificado di- versas vezes ao dia em um ambiente dedicado. Os programadores XP devem integrar e fazercommitem somente uma versão no repositório de código.

    Cada integraç ão é verificada por umbuildcom testes automatizados, detec- tando erros o mais cedo possível [24].

    Essa prática gera sinergia com as outras do XP. Osbuildsdas pequenas entregas são construídos por meio da IC. Ela auxilia na refatoraç ão, pois ve- rificará obuildautomaticamente a cadacommitrealizado no repositório. Em cada um, o padrão de codificaç ão pode ser verificado automaticamente.

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    20.1. Como potencializar os benefícios? Casa do Código A integraç ão contínua é um processo simples que traz muitos benefícios:

    • Aumenta o feedback, a comunicaç ão na equipe e a moral do time; • Todos veem o que está acontecendo; • Previne e descobre os problemas de integraç ão mais cedo; • Reduz riscos e evita a baixa qualidade; • Não é necessário um integrador dedicado para a equipe; • Todos têm acesso à versão mais atualizada; • Auxilia na reutilizaç ão de código: os desenvolvedores terão sempre o código mais atualizado; • Evita problemas demerge, fazendo pequenas integrações ao longo do tempo.

    Para ter tais benefícios de um modo eficiente, é preciso seguir algumas regras que potencializam a integraç ão contínua. Além disso, é necessário a utilizaç ão de ferramentas para as tarefas automatizadas relativas. Para deta- lhar melhor, falaremos dessas regras e de ferramentas nas próximas seções deste capítulo.

    20.1 Como potencializar os benefícios?

    “Quanto maior for a razão aparente para criar um branch, mais você não deveria criar um branch.”

    –Jez Humble Um ambiente de integraç ão contínua precisa estar bem afinado para que gere excelentes benefícios. Para isso, trazemos um compilado de dicas:

    • Tenha um servidor de integraç ão dedicado; • Tenha apenas uma única fonte de repositório de código;

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    Casa do Código Capítulo 20. Integraç ão contínua • O time faz oscommitsnobranchpadrão (head, trunk, master); • Não quebre obuild, toda mudança deve manter o código rodando; • Antes de fazer commit, todos os testes de unidade devem rodar e passar no build em seu ambiente de desenvolvimento local; • Arrume imediatamente osbuildsquebrados; • Automatize obuilde mantenha-o rápido; • Os testes automatizados devem ser rodados com sucesso nobuild, es- pecialmente os testes de aceitaç ão automatizados; • Torne fácil o acesso do últimobuilda todos do time; • Crie penalidades leves e descontraídas para quem quebrar osbuilds; • Automatize o deploy; • Teste em um ambiente clone do ambiente de produç ão; • Não desative a integraç ão contínua quando estiver sob pressão, nessa hora ela terá ainda mais valor.

    Você acha complicado para um time sempre usar integraç ão contínua?

    Pois saiba que o Google e o Facebook mantêm todo o seu desenvolvimento apenas notrunk! É uma questão de disciplina e atitude. Otrunké o prin- cipalbranch, gerando o nome Trunk Based Development(Desenvolvimento Baseado em Trunk) a essa abordagem.

    No Google, em 2010, já havia mais de 5 mil desenvolvedores trabalhando no mesmo repositório diariamente, em mais de 40 escritórios, com mais de 20 alterações por minuto, com 50% da base de código sendo alterada mensal- mente, e mais de 50 milhões de casos de testes executados diariamente [38].

    No caso do Facebook, ele possui trêstrunks: um para o www(web), outro para Android (mobile) e outro para iOS (mobile). Portanto, é bem acessível que um time apenas consiga utilizar integraç ão contínua, certo?

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    20.2. Ferramentas Casa do Código “Vai ter que pagar bala!”

    Quando alguém da equipe for o responsável por ter quebrado obuild, ele deve comprar um pacote de doces para preencher o pote de balas do time. Essa é uma maneira leve e descontraída de evitar que ele seja quebrado por descuidos. O maior problema pode ocorrer quando o pote está cheio e o time não aguenta mais comê-las. 😉 20.2 Ferramentas Antes de falarmos de ferramentas, é preciso estar claro que integraç ão con- tínua é muito mais uma atitude do que apenas o uso de ferramentas. Ferra- mentas servem para dar suporte a um processo; ou seja, uma por si só não faz nada. Algumas das mais utilizadas para essa integraç ão atualmente são:

    o Jenkins (fork do Hudson), o Bamboo e o CruiseControl. Essas ferramentas trabalham em conjunto com as de versionamento, debuild, de qualidade de código e de testes automatizados. Há uma gama delas para cada tecnologia.

    As ferramentas de versionamento controlam o código-fonte, gerenciando as versões do software. Existem dois modelos principais:

    •Modelo cliente-servidor:todas as versões do código ficam centrali- zadas no servidor. Os clientes possuirão apenas a versão de trabalho e executarão comandos sobre o repositório central. Exemplos dessas ferramentas são o Subversion (SVN) e o Concurrent Version System (CVS); •Modelo distribuído:uma cópia integral de todo o repositório de có- digo fica em cada cliente, ou seja, cada um também é um servidor, não sendo necessário ter um central. Exemplos famosos desse modelo de ferramentas são o Git e o Mercurial.

    As ferramentas debuildempacotam os executáveis do software de acordo com as configurações e uma série de tarefas, também gerenciando dependên- cias de bibliotecas. Normalmente, as ferramentas de desenvolvimento (IDEs)

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    Casa do Código Capítulo 20. Integraç ão contínua já têm integraç ão a essas debuild, sendo um processo transparente para o desenvolvedor. Exemplos desse tipo são o Ant, o Maven e o MSBuild.

    As ferramentas de qualidade de código preocupam-se com o seu design.

    Muitos problemas podem ser automaticamente detectados por elas. São os principais tipos:

    • Analisadores de código (por exemplo, o FindBugs e o PMD); • Verificadores de cobertura de código (por exemplo, o JaCoCo e o Code Coverage); • Verificador de padrão de codificaç ão (CheckStyle); • Frameworks de testes de código (JUnit e PHPUnit); • Gerenciador de qualidade de código (Sonar).

    Sobre ferramentas de teste, existem diversas para cada tipo. Para testes funcionais na web, existe o Selenium; para os de desempenho e de carga em Java, o JMeter; de integraç ão em Java, o Arquillian; e de cenários e critérios de aceitaç ão, o Cucumber, o JBehave (Java) e o SpecFlow (.NET).

    Quando obuildfalhar, a ferramenta de IC notificará todos sobre o ocor- rido. O Jenkins possui umpluginbem-humorado em que o Chuck Norris aparece em uma imagem com umacara de quem não gostounem um pouco dobuildcom falha, oufeliz da vidaquando ele foi realizado com sucesso. Veja nas imagens a seguir:

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    20.2. Ferramentas Casa do Código Fig. 20.1: Chuck Norris não gostando nem um pouco que o build falhou.

    Fonte da imagem:https://wiki.jenkins-ci.org Fig. 20.2: Chuck Norris contente que o build foi construído com sucesso.Fonte da imagem:https://wiki.jenkins-ci.org

    Imagem 1 da página 135 (sem descrição)
    Imagem 2 da página 135 (sem descrição)

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    Casa do Código Capítulo 20. Integraç ão contínua Essepluginpode ser encontrado emhttps://wiki.jenkins-ci.org/display/ JENKINS/ChuckNorris+Plugin.

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    Capítulo21 Ritmosustentável “Desenvolvimento de software é uma maratona, não uma sprint.”

    –Robert C. Martin Imagine uma pessoa correndo em uma maratona. O caminho é longo, então a melhor estratégia é correr em um ritmo constante até a chegada. To- dos os corredores profissionais sabem disso. Caso alguém queira correr mais rápido que seu ritmo, em poucos minutos ele estará ofegante e terá que parar para descansar, também perdendo sua concentraç ão na respiraç ão. O mesmo ocorre ao desenvolver software.

    Ter ritmo sustentável é uma regra criada pelo XP para balancear o de- senvolvimento com as demandas do negócio. Todos têm seus ritmos equi- librados: o time XP, o cliente e pessoas envolvidas com o projeto. Utilizar a simplicidade traz soluções mais efetivas ao cliente, mais ainda quando há mais demandas do negócio do que a capacidade do time. A qualidade do software

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    21.1. Velocidade do time Casa do Código é essencial para manter esse fluxo de trabalho normalizado, porque defeitos gerariam retrabalho para as próximas iterações.

    Produtividade em longo prazo é o ponto-chave aqui. Durante uma se- mana ou pouco mais, o time consegue produzir mais trabalhando com horas extras. Porém, a longo prazo é inviável, porque o rendimento vai decaindo semana a semana.

    Dica:culturaLean A dica é buscar a cultura Lean em seu desenvolvimento de software.

    No Lean, a sobrecarga é chamada deMuri, que é gerada pelo desbalan- ceamento de carga (chamado deMura), que, por sua vez, gera diversos tipos de desperdícios (chamados deMuda) [48]. A sobrecarga gera can- saço, que gera desatenção, que gera defeitos, que gera retrabalho: um ciclo que só vai diminuindo a produtividade e fazendo com que o timepossa abandonar outras práticas do XP.

    Planejar o trabalho, de acordo com a velocidade do grupo e em um ritmo de trabalho sem horas extras, auxilia no ritmo sustentável. Vamos falar dissonas seções deste capítulo.

    21.1 Velocidade do time “Os processos ágeis promovem desenvolvimento sustentável. Ospatrocinadores, desenvolvedores e usuários devem ser capazes de manter umritmo constante indefinidamente.”

    –Oitavo princípio do Manifesto Ágil Um bom jogo do planejamento ajuda no ritmo sustentável, uma vez que será o time que dará as estimativas e negociará as entregas com o cliente. Sua velocidade é importante para determinar um planejamento realista, sem des- balanceamento. Para o grupo encontrar sua velocidade, são necessárias algu- mas iterações. No XP, ela é dada emstory points. Existe uma variaç ão grande sobre estimativas, mas o que realmente interessa é que o time a conheça para estabelecer um ritmo sustentável.

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    Casa do Código Capítulo 21. Ritmo sustentável É papel do time proteger-se de trabalho extra. Algo curioso pode acon- tecer com grupos que estão em um excelente ritmo sustentável com entregas de qualidade: a gestão pode ver que ele está indo muito bem e tentarempur- rarmais tarefas, o que pode comprometer o restante do trabalho e começar a produzir entregas atrasadas de baixa qualidade.

    Horas extras é um sintoma gerado por sérios problemas em um projeto [6]. Muitas vezes, a soluç ão mais rápida para um gestor é fazer com que seus funcionários trabalhem mais, em vez de arrumar o problema raiz. Isso vai contra a melhoria contínua, acoberta o problema real e gera novos.

    Dica:planeje e estime todas as tarefas necessárias Faça um planejamento de todas as atividades necessárias com suas es- timativas. Planeje todas as tarefas necessárias para implementar as histó-rias de usuário, com o objetivo de finalizar uma iteraç ão ou uma entrega com todo o trabalho pronto. Além das tarefas de codificaç ão, planeje e estime as de integraç ão, de teste (incluindo automatizados) e de deploy, como também outras importantes. Caso sobrem atividades para a pró-xima iteraç ão, negocie e replaneje o trabalho.

    21.2 40horas semanais “Eu quero estar revigorado e cheio de energia toda manhã, e cansado e satisfeito toda noite.”

    –Kent Beck O conceito de ritmo sustentável iniciou-se com a prática de 40 horas se- manais (40-hour week) no livro de origem do eXtreme Programming[6]. Ron Jeffries abstraiu esse conceito e o renomeou pararitmo sustentável[5]. Curio- samente, há várias décadas, em 1926, Ford já havia estabelecido a jornada de trabalho de 40 horas semanais, pois sabia que o problema seria resolvido com uma boa organizaç ão, e não com mais horas trabalhadas [37]. A imagem a se- guir ilustra a relaç ão da produtividade por semana de trabalho em um ritmo sustentável (40 horas semanais) e insustentável (60 horas semanais, fazendo horas extras).

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    21.2. 40 horas semanais Casa do Código Fig. 21.1: Gráfico de produtividade por semana para o trabalho de 40 horas semanais e para o com horas-extras de 60 horas Pessoas não são máquinas, e desenvolver software não é uma atividade simples. É necessário raciocínio aprimorado para produzir cada funciona- lidade que é diferente da anterior já feita. Programadores não sãomão de obra, mas sim trabalhadores do conhecimento (chamados decérebro de obra).

    Sabe-se que, nos humanos, o cérebro é o órgão que consome mais energia, to- talizando até 20% do total da energia do corpo [57]. Comumente, um dia de trabalho rende pelo trabalho normal de uma semana, assim como o inverso; uma semana inteira não rende nem por um dia normal de trabalho.

    Algumas pessoas têm capacidade de trabalhar em todo seu potencial cri- ativo, atento e confiante em 45 horas por semana, outras em 35 horas, mas raramente alguém conseguirá isso em 60 horas, em longo prazo. Um time cansado trabalhará menos, não importa quanto tempo trabalhem a mais.

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    Capítulo22 IndoalémdoeXtreme programming “É o que você aprende, depois de você saber tudo, o que importa.”

    –John Wooden No capítulo2, já falamos sobreLean Software DevelopmenteScrum, que são complementares ao XP. A ideia deste capítulo é trazer brevemente algu- mas das principais abordagens e práticas para ir além do eXtreme Program- ming. Certamente, há muitas outras, mas já é um bom começo para aprender ou reforçar. Reflita com seu time sobre como esses assuntos poderão auxiliar no desenvolvimento.

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    22.1. Jogos e dinâmicas Casa do Código 22.1 Jogos e dinâmicas Que tal discutir e aprender as práticas do XP de um modo divertido? Com jogos e dinâmicas, seu time pode trocar muito conhecimento sobre esse mé- todo. Na Industrial Logic, em 2001, Joshua Kerievsky desenvolveu cartas de baralho para aprender XP, além de uma lista de jogos com elas [33]. O ba- ralho possui cartasVque representam os valores do XP;Pque retratam os problemas no desenvolvimento de software; eSque são as soluções trazidas pelas práticas do XP (vide imagem a seguir).

    Fig. 22.1: Extreme Programming playing cards Em 2014, com a permissão da Industrial Logic, Jamile Alves e Dionatan Moura traduziram para português e as adaptaram para serem disponibiliza-das em um formato livre para impressão [3]. Assim, você poderá usá-las comseu time. Experimente os jogos de acordo com seu contexto e lembre-se de se divertir! 🙂

    Imagem 1 da página 143 (sem descrição)

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    Casa do Código Capítulo 22. Indo além do eXtreme programming 22.2 Behaviour-D rivenDevelopment(BDD) OBehaviour-Driven Development(BDD Desenvolvimento Guiado por Com- portamento) possui o mesmo propósito do XP: unir as pessoas de desenvol- vimento com as de negócio. O BDD baseou-se no TDD [47], e serve também para análise ágil e teste de aceitaç ão automatizado. Ele utiliza a especificaç ão por exemplos [1], uma abordagem colaborativa para definir requisitos a par- tir de exemplos realistas, em vez de enunciados abstratos. Cada exemplo é entendido por meio de um cenário com dados reais. Uma história de usuário pode possuir diversos exemplos reais de utilizaç ão. Um de cenário poderia ser:

    •Cenário:pesquisandoextreme programmingno Google.

    •Dado queestou na pesquisa do Google •Edigitoextreme programmingno campo de busca •Quandopressiono a tecla Enter •Entãoé exibida a primeira página de uma lista dos websites com con- teúdo relevante sobre o assunto.

    Quando o software possuir essas especificações executáveis, ele terá a do- cumentaç ão viva; ou seja, ela estará conectada diretamente ao código por meio dos testes de aceitaç ão. Ferramentas de frameworks auxiliam a escrita e a execuç ão dos cenários JBehave (Java), Cucumber (Ruby), RSpec (Ruby), SpecFlow (.Net), e Jasmine (JavaScript).

    22.3 Domain-D rivenDesign(DDD) Domain-Driven Design(DDD Projeto Orientado ao Domínio) é uma abor- dagem criada por Eric Evans que conecta a implementaç ão do software a um modelo, em um contexto específico, por meio de uma linguagem ubíqua [19].

    Ela coloca o foco primário do projeto no domínio, além de permitir a co- laboraç ão entre as pessoas técnicas e as especialistas nele, tudo isso em um

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    22.4. Kanban Casa do Código refinamento iterativo. No XP, o DDD é complementar às metáforas de sis- tema e auxilia a comunicaç ão do time para entender melhor sobre o negócio do cliente.

    22.4 Kanban Kanbansignifica “cartão visual” em japonês. Na linha de produç ão de uma fábrica, um kanban acompanha peças ou partes específicas para sinalizar vi- sualmente a entrega de uma determinada quantidade de itens, agilizando o processo.

    No desenvolvimento de software, o sistema kanban auxilia na visualizaç ão do trabalho em andamento e de cada passo na cadeia de valor (da demanda do cliente até estar em produç ão). Ele também permite limitar o trabalho em progresso (WIPWork in Progress), removendo gargalos na produç ão e dando vazão ao trabalho. Ele embasa as decisões no processo, visualiza sua consequência e identifica oportunidade de melhorias no fluxo da produç ão.

    Tudo isso dando base para a produç ão puxada (trabalhar com a demanda atual existente, e não com base em previsões).

    No XP, as histórias de usuário e tarefas vão para o quadro (escritas em cartões ou post-its) e são gerenciadas visualmente. Em termos do Lean, o uso desse sistema catalisa o pensamento Lean na entrega de sistemas de software.

    Para aprender mais sobre ele, sugerimos o livroKanban em 10 Passos, de Jesper Boeg [10].

    22.5 Estimando com planning poker Para estimar as histórias de usuário e conversar sobre elas durante o jogo do planejamento, você e seu time poderão utilizar oplanning poker. É uma téc- nica de dimensionamento e planejamento das histórias por meio de um con- senso do time. Para isso, cada integrante usará um baralho específico e pontu- ará a história; todos farão isso ao mesmo tempo, como em um poker. O grupo deve fazer rodadas de pontuaç ão até chegar em um consenso. O ponto-chave está na comunicaç ão.

    O baralho é baseado na sequência de Fibonacci; possui as cartas de0, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 20, 40 e100(vide imagem a seguir). A razão

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    Casa do Código Capítulo 22. Indo além do eXtreme programming do uso dessa sequência exponencial é relacionada à incerteza porque, quanto maior for a pontuaç ão, maior será a incerteza da estimativa. A unidade de es- timativa é a que o time definiu (story points, dias ideais, tamanhos de camiseta etc.). Para estimar cada história, o grupo deve conversar sobre seus detalhes e o que será necessário para desenvolvê-la. Lembre-se que estimativas são literalmente estimativas: uma aproximaç ão, e não um prazo formal.

    Fig. 22.2: Cartas do baralho de planning poker 22.6 Resolvendo dívidas técnicas Suponha que você precise implementar uma funcionalidade em seu sistemae você possui duas opções: a primeira é a de entregar um código bem feito e refatorado, com um bomdesign, mas que tomará um pouco a mais de tempo; e a segunda é a de entregar rapidamente um código confuso no qual você esperanunca mais tocar, porque as mudanças ali serão cada vez mais complicadas.

    A primeira opção poderá gerar algumas (raras) dívidas técnicas, porém a segunda certamente causará muitas. O XP defende a primeira opção, mas é possível que se comece a usá-lo em um sistema já existente. Por isso, ressal-tamos as dívidas técnicas.

    Dívida é dívida, e de algum modo você terá que pagar. Pensando por um lado ruim, você pagará apenas os juros (cada vez mais altos), que resultamem váriosbugs, assim como atrasos e custos maiores, entrega a entrega. E a dívida não para por aí: seu código ficará cada vez pior, seu time com maisestresse físico e mental, seu cliente insatisfeito, algumas pessoas se demitirão,ou até o sistema parará de vez.

    Imagem 1 da página 146 (sem descrição)

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    22.7. Refatorando também o banco de dados Casa do Código Por um lado pior ainda, elas ficarão tão grandes que o trabalho será ape- nas resolverbugs. Já pensando por um lado positivo, você utilizará a refatora- ção para ir arrumando continuamente as maiores dívidas técnicas, automati- zando testes e resgatando o ritmo sustentável do time, assim como a satisfaç ão do cliente.

    22.7 Refatorando também o banco de dados Refatoraç ão no XP é uma disciplina que se aplica a todo o sistema, inclusive ao banco de dados. Você já pensou no impacto que uma base de dados com um péssimodesigntem? Esse tipo de refatoraç ão pode ser definida como uma mudança disciplinada na estrutura de uma base de dados que não altera sua semântica, porém melhora seu projeto e minimiza a introduç ão de dados inconsistentes [44].

    O princípio decode smellstambém é aplicado a banco de dados, chamado dedatabase smell(mau cheiro de banco de dados). Fabrízio Mello possui um material sobredatabase smellsem [45]. Essa área de refatoraç ão em banco é recente e possui poucos materiais, mas que já são bastante úteis para começar a refatorar o seu.

    22.8 Código limpo Ok, já falamos de código limpo (clean code) nos capítulos 12,19e18, mas a importância é tão grande no XP que vale a pena reforçar essa prática. O livro Código limpo[42] do Uncle Bob (Robert C. Martin) apresenta a disciplina de escrever código limpo, trazendo diversas dicas, como: nomes significativos, funções, comentários, formataç ão, objetos, estruturas de dados, tratamento de exceções, testes de unidade, classes, concorrência e odores de código. E lembre-se sempre: código limpo não é o que mais se refatora, mas o que me- nos se suja.

    22.9 Entrega contínua eDevOps Entrega contínua é um conjunto de princípios e práticas com o objetivo de compilar, testar e liberar software ao cliente de forma mais rápida e frequente.

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    Casa do Código Capítulo 22. Indo além do eXtreme programming Essa abordagem encaixa-se muito bem com as práticas do XP de liberaç ão constante de pequenas versões e de integraç ão contínua. Podemos dizer que entrega contínua também é uma práticaextrema, pois está bastante alinhada com o primeiro princípio do Manifesto Ágil:nossa maior prioridade é satis- fazer o cliente por meio da entrega contínua e adiantada de software com valor agregado.

    Jez Humble e David Farley descrevem os princípios da entrega de software no livroEntrega contínua[20]:

    • Criar um processo de confiabilidade e repetitividade de entrega de ver- são; • Automatize quase tudo; • Mantenha tudo sob o controle de versão; • Se é difícil, faç a com mais frequência e amenize o sofrimento; • A qualidade deve estar presente desde o início; • “Pronto” quer dizer “entregue"; • Todos são responsáveis pelo processo de entrega; • Melhoria contínua.

    Seguindo tais princípios, você terá um processo aprimorado de entrega contínua.

    22.10 Leituras sobre desenvolvimento de soft- ware Ao longo dos capítulos, referenciamos diversos livros relacionados a cada as- sunto do XP. Vá além, lendo e pesquisando esses e outros livros. Procure também séries de livros e editoras especializadas em software. Lê-los é uma grandiosa fonte de aprendizado. Leia bastante e desperte em si a curiosidade em aprender mais e mais.

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    22.11. Artesanato de Software Casa do Código No Brasil, temos a satisfaç ão de possuir uma editora com foco em livros de desenvolvimento de software nas área de Agile, Java, desenvolvimento Web, Mobile, Games e Front-End. Essa editora é a Casa do Código [15]. Seus livros são escritos por autores com renome na comunidade e são revisados por uma curadoria com experiência na área. Com certeza eles o ajudarão a ir muito além do XP.

    Lá existem livros na área de metodologia e tecnologia. Na de metodologia, existem livros sobre agile, startup, Scrum, TDD (com Java, .NET, Ruby), De- vOps, testes de Software; e na de tecnologia, livros sobre UX, jQuery, HTML5 e CSS3, web design responsivo, games em HTML, JavaScript, Android e IOs, Java 8, JSF, JPA, CDI, REST, Node.js, MongoDB, SQL, PHP, MySQL e muito mais. Show! Não é? 🙂 Um outro livro que é um excelente compilado da agilidade escrito por diversos agilistas brasileiros, referências no país e no mundo, é oMetodos ágeis para desenvolvimento de software[18]. Ele traz os assuntos sobre o Ma- nifesto Ágil, a história dos métodos ágeis no Brasil, Scrum, XP, OpenUP, FDD (Feature-Driven Development), Lean, Kanban, modelagem ágil, DDD (Domain-Driven Design), TDD, estimativas, gestão visual, coaching e facili- tação de times ágeis.

    22.11 Artesanato deSoftware Comumente, aprendemos que desenvolver software é uma atividade baseada na engenharia, na qual os desenvolvedores o constroem com métodos, téc- nicas e ferramentas fundamentadas na engenharia de software e no gerenci- amento de projetos. Existe uma lacuna nisso, pois desenvolvê-los não é uma tarefa simples que possa ser resolvida com métodos tradicionais de engenha- ria. Desenvolvê-los é uma tarefa do conhecimento e complexa.

    O movimento do Artesanato de Software (do inglês,Software Crafts- manship) reconhece que a produç ão de software é uma atividade artesanal, e não fabril. Dentro dessa área, o aprendiz deve estudar técnicas, tecnolo- gias e ferramentas para construir bem o código, aplicando bons princípios de programaç ão. E não para por aí: ele deve também criar hábitos de trabalho e investir em suas habilidades sociais (soft skills). Participar de uma comu-

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    Casa do Código Capítulo 22. Indo além do eXtreme programming nidade também aprimora seu aprendizado. Desse modo, ele se tornará um artesão de software.

    Há um grande elo entre um programador XP e um artesão de software.

    Precisamos de melhores programadores, e não mais simplórios.Pense em quantas dívidas técnicas um programador simplório pode deixar no sistema ao longo de um ano! É um grande impacto! Provavelmente serão necessários dois ou mais para arrumar toda a bagunça.

    Da mesma forma que métodos ágeis, o Artesanato de Software possui um manifesto [64]. O Edson Yanaga, artesão de software, fez sua traduç ão [16]:

    Manifesto pelo Artesanato de Software:como aspirantes a artesãos de software, elevamos o nível do desenvolvimento de software profissional ao praticar e auxiliar outros a aprender o ofício. Por meio desse trabalho, passa- mos a valorizar:

    • Não somente software funcionando, mas também software bem feito; • Não somente responder a mudanças, mas também continuamente adi- cionar valor; • Não somente indivíduos e interações, mas também uma comunidade de profissionais; • Não somente colaboraç ão com o cliente, mas também parcerias produ- tivas.

    Ou seja, na busca pelos itens à esquerda descobrimos que os itens à direita são indispensáveis.

    Relacionado à arte do Artesanato de Software, temos a parte comporta- mental, de atitude, que representa a coragem e o respeito como dois dos cinco valores do XP. Adicionalmente a tais valores, Chad Fowler escreveu o livroO programador apaixonado[22]; e Uncle Bob (Robert C. Martin), o livroCo- dificador limpo(Clean coder) [43]. O primeiro traz diversas dicas para cons- truir uma carreira notável em desenvolvimento de software; já o segundo traz um código de conduta para profissionais de software, sendo pragmático com conflitos, prazos apertados, gerentes pouco razoáveis, dizer não e lidar com a pressão.

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    Índice Remissivo Casa do Código ÍndiceRemissivo Épicos,, 39 40 horas semanais,123 Ambiente físico,31,94 Aprendizado,20,64,76,82,90,92, 132 Artesanato de Software,132 Atitude,13,133 Auto-organizaç ão,30 Baby steps,103 Balanceamento de carga do time,62 Banco de dados,130 Barra verde,102 Barra vermelha,102 Bugs de software,44 Código limpo,8,67,97,130 Casos de teste,102 Catálogo de refatorações, 98 Cenários de teste,50 Cleaner,25 Cliente presente,3,24,33 Coach XP,25,30,77,91 Cobertura de código,117 Code smells,67,97 Coding Dojo,112 Colaboraç ão,81 Comprometimento,32 Comunicaç ão,16,19,26,29,39,49, 72,76,81,85,113,115 Comunicaç ão face a face,12,20,33,37 Cooperaç ão no time,90 Coragem,16,21 Critérios de aceitaç ão,33,44,49 Cultura de experimentaç ão,77,92 Dívidas técnicas,7,25,67,129 Database smells,130 Debug,50 Desenvolvedor,24 Desenvolvimento Guiado por Com- portamento (BDD),50,127 Desenvolvimento Guiado por Testes (TDD),96,99 Desenvolvimento iterativo e incre- mental,20,54,58 Design de código,82,104,117 Design simples,20,22,53,101 Desperdícios,55 DevOps,24,130 Dimensionamento de histórias de usuário,44 Dinâmicas,32,126 Disciplina,32,115

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    Casa do Código Índice Remissivo Engajamento,25,53 Entrega contínua,54,130 Entrega de valor,22 Entregas grandes,55 Entregas pequenas e frequentes,12, 16,44,50,53,58,130 Escopo,61 Especificaç ão por exemplos,127 Estimar histórias,44,60 Estimar tarefas,62 Estimativa por tamanhos de cami- seta,44,128 Estimativas,66,72,122,128 Experimentaç ão,66 Fail fast,3,53,64 Falta de padronizaç ão de código,86 Fator de carga do time,62 Feedback,3,13,16,20,31,63,81,102, 104,113 Ferramentas de integraç ão contínua, 116 Foco,32,63,75,89,91 Gerente,26 Gestão,30 Gestão do conhecimento,90 Habilidades sociais,24,90,132 Hansei,31 Histórias de usuário,8,16,24,26,32, 33,37,49,50,58,65,92,127, 128 Ilhas de conhecimento,82 Integraç ão contínua,8,16,20,25,54, 81,103,113,130 Interface de usuário,44 INVEST,42 Iterações, 14,44,58,61,66,68 Jogo do planejamento,25,33,57,65, 77,92,122,128 Jogos,126 Kaizen,31 Kanban,128 Lean,13,31,55,82,122 Lean Software Development,13,125 Legibilidade de código,96 Liderança situacional,30 Linguagem ubíqua,72,127 Métricas de projeto,26 Macrogerenciamento,30 Manifesto Ágil,11,19,29,38,55,130 Manifesto pelo Artesanato de Soft- ware,133 Melhoria contínua,9,12,14,31,123, 131 Metáfora de sistema,71,127 Microgerenciamento,30 Mocking,102 Modelo 3C,39 Modelo de história de usuário,40 Motivaç ão,7,12,22,29,90 Multidisciplinaridade,24,30 Orientaç ão a Objetos,95 Os três Is da metáfora,73

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    Índice Remissivo Casa do Código Padrão de codificaç ão,8,85,113,117 Padrões de TDD,101 Papéis do XP,23,49,121 Peer review,89,92 Personas,43,44 Pessoas de negócio,12,24,58,59 Planejamento de iterações, 49,58 Planejamento de releases,58 Planning poker,128 Posse coletiva,21,81,85,96 Pressão do par,91 Pressão do time,91,92 Prioridade,34,46 Produtividade,7,75,101,122,123 Produto mínimo viável (MVP),68 Programaç ão em par,8,24,82,85,89 Programador,24 Projeto Orientado ao Domínio (DDD),127 Projeto simples,8,67 Projetos marcha da morte,57 Prototipaç ão,66 Puxar tarefa,62 Quadro de kanban,92 Qualidade,4,7,16,22,25,53,54,89, 96,101,113,121,122 Qualidade de código,117 Quebrar histórias,60 Quebrar tarefas,62 Reúso de código,72,96,113 Refatoraç ão,8,22,25,67,81,85,95, 99,104,113,129,130 Refinamento de histórias de usuário, 42 Release planning,57 Requisitos de usuário,2,16,24,37 Requisitos não funcionais,44 Respeito,16,22 Reunião diária em pé,25,75 Reuniões de retrospectiva,9,25,31 Reuniões remotas,35 Revisão de código,90 Revisão por pares,89,92 Risco,5,58,61,65,113 Ritmo sustentável,8,12,16,63,121 Satisfaç ão do usuário,53 Scrum,14,125 Sequência de Fibonacci,44,128 Sequência de múltiplos de dois,44, 128 Simplicidade,4,12,16,20,63,67,75, 121 Sincronizaç ão do time,76 Sinergia entre as práticas,16,19,32, 82,113 Sistema Toyota de Produç ão,13 SMART,43 Software Craftsmanship,132 Spikes de planejamento,65 Story points,44,122,128 Story smells,46 Tarefas de implementaç ão,24,33,43, 58,128 Testador,25

    Página 154

    Casa do Código Índice Remissivo Testes automatizados,6,16,24,50,54, 67,81,99,101,102,113 Testes de aceitaç ão,16,24,25,32,33, 39,49,102,127 Testes de unidade,20–22, 102 Testes funcionais,102 Time coeso,12,29 Time de desenvolvimento,59 Trabalho em par,94 Trabalho em time,29 Trabalho puxado,6 Tracker,26 Transparência,49 Trunk Based Development,115 Valor de negócio,5,38,53,58,61,63, 130 Valores do XP,19,29 Velocidade do time,6,44,61,64,122 xUnit,102 YAGNI (You’re Not Gonna Need It), 68

    Página 155

    Página 156

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  • Uma família ingleza Scenas da vida do Porto

    Uma família ingleza Scenas da vida do Porto

    Aproximadamente 124.879 palavras.

    VI

    AO DESPERTAR DE CARLOS

    Jenny ficou ainda por muito tempo immovel junto da porta, onde se
    despedira do pae. O olhar corria-lhe pelos objectos que a rodeiavam; o
    pensamento porém não acompanhava o olhar.

    Aquellas feições, em que se podia reconhecer, mysteriosamente, combinada
    á candura de uma creança não sei que severidade, toda maternal, tomavam
    agora um ar de preoccupação e melancolia, uma d'essas sombras, que as
    ideias graves parece projectarem no semblante de quem não aprendeu a
    dissimulal-as.

    Jenny presentia haver chegado uma nova occasião de ser necessario
    intervir com a sua influencia pacificadora e angelica para dissipar a
    nuvem, embora tenue, que assomava no horizonte domestico.

    Exercera já de um dos lados essa influencia, conseguira adoçar as
    disposições acerbas de Mr. Richard para com o filho; faltava-lhe porém o
    resto, estava ainda incompleta a obra; era preciso ensaial-a sobre
    Carlos tambem.

    E Jenny, que bem conhecia o irmão, tinha fé em que o não tentaria
    debalde.

    Rompia porisso um raio de confiança por entre as sombras d'aquella
    preoccupação.

    Foi n'este estado de espirito que chamou André para que fosse acordar o
    irmão.

    André era o mais antigo criado da casa, especie de mordomo jubilado, que
    servia Mr. Whitestone desde o seu estabelecimento no Porto e trouxera já
    ao collo os dois filhos do inglez.

    –Vá,–disse Jenny–diga a Charles que eu o espero na bibliotheca.

    Carlos dormia tranquillamente, quando o velho André lhe entrou no
    quarto. A respiração profunda, pausada e regular denunciava um somno,
    livre de pesadelos e de sonhos importunos.

    O criado, depois de escutar algum tempo aquelle som, unico que, com o do
    bater da pendula vizinha, se percebia no quarto, caminhou com precaução,
    bem escusada a quem vinha para despertar, até uma das janellas, que
    entreabriu.

    Espalhou-se então no aposento uma meia claridade, coada através das
    longas cortinas que, soltas das abraçadeiras douradas, rojavam pelo
    tapete.

    Pôde então o velho observar a completa desordem que ia n'aquella sala.

    Estes raios de luz, menos felizes do que os evocados pelo _fiat lux_ do
    _Genesis_, póde dizer-se que vieram ainda illuminar um cháos; pois
    difficilmente se encontraria mais apropriada expressão para designar o
    aspecto do aposento, a cuja vista se dissolveu em sorrisos toda a sisuda
    gravidade, desenhada nos labios e nas feições do mordomo.

    A scena, de facto, escapa á mais esmiuçadora descripção.

    Parecia que todos os objectos, alli contidos, haviam, durante a noite,
    entrado em dança phantastica, de tal sorte os surprendera o dia,
    deslocados da natural situação.

    As cadeiras, amontoadas em desordem no meio da sala, haviam usurpado as
    attribuições dos guarda-roupas; estes, abertos de par em par,
    patenteavam o interior desordenado e quasi vazio, como após um saque de
    cidade conquistada.

    Nas mesas, nos sofás, em _voltaires_, no chão, por toda a parte emfim,
    menos nos logares competentes, via-se casacos, coletes, calças, mantas
    de differentes côres e feitios. O pavimento achava-se literalmente
    alastrado de objectos de impossivel enumeração; aqui, umas luvas,
    calçadas pela primeira vez na vespera e já postas de lado como inuteis;
    alli, alguns ramos de flores desfolhadas e murchas, cuja posse,
    procurada talvez com incansavel insistencia, trouxe depressa após si o
    abandono e o esquecimento; n'outros pontos, charutos meio consumidos, os
    fragmentos de uma preciosa jarra de porcelana da India, um livro, que
    commettera o delicto de não excitar a curiosidade, uma cadeira derrubada
    com o fardo que lhe pesou sobre o espaldar; cartas, collarinhos,
    retratos, lenços, chicotes. As esporas no logar do relogio; este pousado
    na beira do marmore do fogão; sobre o leito, um dominó de setim;
    pendente á cabeceira, o jornal da vespera e um longo cachimbo com tubo
    de gutta-percha; aos pés polvorinho de caça, o robe-de-chambre de
    damasco e o teliz da horsa favorita; no velador, um tinteiro de prata,
    transformado em cinzeiro de charutos; um chapéo pendurado na chave da
    porta; o candieiro no chão, alguns livros e mappas geographicos quasi
    debaixo da cama. Um _abat-jour_ de cartão envernizado com figuras
    extravagantes, representando chins em posições todas chinezamente
    ridiculas, servia de barrete ao busto de Shakespeare, cujo pescoço
    estava além d'isso diplomaticamente enfeitado com uma gravata de baile;
    defronte, Byron, coberto com chapéo de feltro de abas largas, o qual lhe
    pendia galhardamente sobre a orelha esquerda, parecia fitar com
    petulancia o seu illustre conterraneo; no outro angulo, era aquella
    figura séria e bondosa de sir Walter Scott, com não sei que ares de
    acanhado debaixo do barrete turco, que a guerra da Crimeia pozera então
    á moda; e finalmente um quarto busto occultava, sob mascara de setim
    preto, a expressão de candura e de soffredora tristeza do cantor dos
    combates dos anjos e demonios, o sublime Milton.

    Dir-se-hia que estes grandes personagens da litteratura ingleza,
    obedecendo á voz do carnaval, haviam surgido da sepultura, para virem
    celebrar tambem entre si, com as suas cabeças pallidas, a mais estranha
    mascarada.

    No meio de toda esta confusão, um enorme _terra-nova_, de ventas
    leoninas e corpulencia de touro, languidamente recostado nas molles
    almofadas do sofá luxuoso, pousava as patas musculosas e pelludas sobre
    um magnifico album de gravuras, com a mais absoluta irreverencia pela
    preciosidade, que assim lhe servia de cabeceira e de estrado.

    Imagine-se o resto.

    André, o methodico André, sorria e abanava a cabeça no meio de tanta
    desordem. Demorou-se alguns instantes a examinar todo aquelle
    desarranjo, que bem simulava os vestigios de recente lucta; depois
    caminhou para o leito, afastou vagarosamente, de má vontade ainda, as
    cortinas brancas, que o resguardavam, e curvando a cabeça, fitou os
    olhos na fronte espaçosa e liza de Carlos, sem que se resolvesse a
    acordal-o de dormir tão tranquillo.

    Carlos tinha a physionomia sympathica e expressiva. O melhor do typo
    saxonio encontrava-se alli. Os cabellos louros, curtos e naturalmente
    annelados, deixavam-lhe livre a fronte ampla, de bossas proeminentes, e
    cujos angulos se prolongavam por sobre as temporas; as côres eram do
    alvo delicado, proprio dos typos septentrionaes; o nariz de perfil, em
    que não entrava o elemento da mais desvanecida curva; os labios, algum
    tanto grossos e levemente encrespados n'um sorriso, entre ironico e
    affectuoso, prompto a caracterisar-se com facilidade igual n'um ou
    n'outro d'estes sentidos; as palpebras longas, salientes e nas quaes, em
    curvas azuladas, transparecia uma rede de pequenas veias, e em torno ás
    orbitas o circulo de côr desmaiadamente rôxa, vestigio de longas noites
    de agitadas vigilias; taes eram os traços principaes d'aquella
    physionomia aberta e attrahente, que, em alguns d'elles, offerecia o que
    quer que era de Byron. Os olhos, n'aquelle momento velados, possuiam
    fogo correspondente á vivacidade do espirito que os animava; as feições,
    paralysadas agora pelo somno, gosavam em vigilia de mobilidade extrema e
    eloquente, outro ponto de analogia com as do poeta inglez, segundo a
    crença dos seus biographos.

    André acabou emfim por o chamar, mas com voz, que parecia de quem
    desejava não ser escutado.

    –Snr. Carlos–disse elle.

    Apesar de pronunciada em tom baixo, e quasi a mêdo, bastou esta palavra
    para o despertar.

    Abriu immediatamente os olhos, fitou-os no criado e, estendendo os
    braços n'aquelle quasi involuntario movimento, com que todas as manhãs
    despedaçamos as ultimas cadeias com que nos algema o somno, deixou-lh'os
    cair em volta do pescoço, como para apoiar-se, dizendo ainda com voz mal
    distincta:

    –Bons dias, André. Que horas são?

    –Meio dia.

    Foi a resposta que obteve, acompanhada de significativo sorriso.

    –_Save us!_–exclamou Carlos, imitando a despenseira ingleza, de quem
    era esta a phrase habitual, e ao mesmo tempo voltou os olhos para o
    relogio fronteiro, o qual, como em resposta a esta mimica
    interrogatoria, bateu doze lentas e sonoras pancadas.

    –Pois não me parecia–continuou Carlos, ao acabar de contal-as.–Ia até
    estranhar-te a madrugada, sabes tu? E… e… o pae?

    –Saíu já.

    –E… e que disse?

    André encolheu os hombros, respondendo:

    –Nada.

    Era a maneira de exprimir que alguma cousa dissera.

    Carlos comprehendeu isto mesmo, mas não perguntou mais nada.

    –Toca a pôr a pé, que são horas!–dizia o André, occupando-se a
    levantar alguns dos objectos que via pelo chão.

    –Deshumano, cruel, que me recordas?–respondeu-lhe Carlos em tom de
    recitação tragica.

    –Vamos, vamos, preguiçoso.

    Carlos abriu ainda outra vez a bôca em gesto quasi sentimental de
    despedida ao somno que se afastava; afagou com a mão o colossal
    _terra-nova_, que veio pousar-lhe a cabeça nos joelhos, e abriu ao acaso
    o livro que encontrou á mão, um romance de Dickens, do qual leu algumas
    linhas distrahido.

    –Então?–insistiu o André, vendo-o pouco disposto a levantar-se–Fica
    ahi?

    –Vae-me buscar o almoço, homem. Traze-me só café. Parece-me que inda
    agora terminei aquelle turbulento jantar de hontem.

    –Então quer almoçar aqui?

    –E julgo que é uma resolução muito louvavel.

    –Mas…

    –Mas o quê?… Que objecções lhe pões? Falla.

    –É que miss Jenny espera-o na bibliotheca.

    Carlos de um salto sentou-se na cama.

    –Ó pateta! e inda agora me vens com isso? Depressa–chega-me d'ahi esse
    robe-de-chambre.–Isso não… não vês que é um dominó?… Anda…
    avia-te… Aquelle lenço… O outro… Bem… Vae… Dize a Jenny que
    n'um momento estou com ella.

    E depois de proceder com a maior celeridade áquelle ligeiro _toilette_
    de manhã, Carlos entrou na bibliotheca, onde Jenny o esperava.

    Era n'esta bibliotheca que muitas vezes os dois irmãos se entregavam a
    leituras communs, restos de habitos adquiridos na infancia, quando pelos
    mesmos livros estudavam, formando um gracioso grupo de cabeças louras,
    objecto das contemplações apaixonadas e das bençãos cordiaes de Mr.
    Richard Whitestone.

    –Bom dia, Charles–disse Jenny, estendendo-lhe a mão, que elle apertou
    affectuosamente.

    –Fiz-te esperar muito, filha? Perdôa-me; mas aquelle pateta não soube
    dizer-me logo que tu…

    –Desculpa mandar-te acordar, mas…

    –Fizeste bem; senão, dormiria até á noite.

    –Vieste hontem muito tarde, Charles–disse Jenny, abaixando-se
    disfarçadamente para acariciar o _terra-nova_, que se lhe deitára aos
    pés.

    –Pois ouviste-me?

    –Ouvi.

    –Então acordei-te, Jenny? Não foi por falta de cautela, porém… sempre
    sou um desastrado!

    –Não, não acordaste. Eu não tinha adormecido ainda.

    –Não tinhas adormecido! Ás quatro horas! Estiveste doente, Jenny?

    –Não, mas…

    Carlos olhou para a irmã com uns modos, que procurou tornar severos.

    –Querem ver que foi por minha causa?… Então que te tenho eu dito,
    Jenny? Fico de mal comtigo se tornas a ter essas canceiras por mim, a
    ponto de…

    –Não, não foi por canceira, é que…

    –É que tu és uma teimosa e o que merecias…

    –Não se trata agora d'isso. Dize-me: vens hoje mais cêdo?

    –Hoje! Á terça-feira de entrudo! Ó Jenny! Deixa ao menos passar o
    carnaval, deixa já agora acabar esta maldita época, e depois… depois
    verás que hei de ficar muitas noites em casa ao pé de ti e de… Tens-te
    enfastiado muito aqui só, não tens, pobre pequena?

    –Ora, não fallo por mim; mas… é que… isso faz-te doente por certo,
    Charles. Esses jantares tão longos… Essas noites tão mal dormidas…

    –A mim?! A mim nada me faz mal, filha; lá por isso…

    –E depois… Olha, Charles, ha devéras tanto tempo já que te não vemos
    comnosco, á noite… Não é por mim que fallo, repito; mas o pae… bem
    sabes, antigos habitos… gosta de nos ver reunidos todos… a certas
    horas. Coitado! Não digo sempre, mas… ás vezes, de quando em quando,
    se te não custasse…

    –Pois sim, Jenny, pois sim. Deixa voltar o verão, que eu prometto…
    prometto que, muitas vezes até, hei de fazer o que dizes. Mas as noites
    de inverno! As noites de inverno, não obstante tudo quanto imaginou
    aquelle bom Thomson nas suas _Estações_, são tão longas para se passarem
    em casa!

    –As de estio… depois… já sei… has de achal-as tão formosas que…

    –Não–replicou Carlos, sorrindo;–então depois de eu te prometter havia
    de… Mas, olha cá, Jenny, tu és muito boa, e já sei que me vaes até
    ralhar por o que eu vou dizer; mas deves concordar em que de facto é
    pouco agradavel, para um rapaz da minha idade pelo menos, a maneira por
    que o pae costuma passar aqui as suas _soirées_. Aquelle eterno _Times_,
    aquelle _Times_ sem fim aterra-me, Jenny. A _Biblia_ é um livro que
    respeito e admiro, mas tremo um pouco das paraphrases dos nossos
    reverendos lettrados; confesso que tremo. O _Tristam Shandy_ do Sterne
    já o sei de cor; no _Tom Jones_ de Fielding, quando o não tivesse ainda
    lido, não haveria já capitulo de que não fosse bem informado, á força de
    o ouvir citar; e, a fallar verdade, ter de passar uma noite a escutar,
    mais uma vez, os commentarios a um e outro, com que fatalmente nos
    flagella o inesgotavel enthusiasmo paterno… a fallar verdade!

    –Charles!–disse Jenny, em tom reprehensivo.

    –E para cumulo dos males–proseguiu Carlos–estar sempre debaixo da
    permanente ameaça de uma visita do _spleen_ de Mr. Morlays ou da, não
    menos para temer, jovialidade de Mr. Brains, Heraclito, e Democrito,
    inglezes que o sabor nacional tornou mais difficeis de digerir ainda, do
    que os proprios philosophos gregos. Ahi está o que me faz procurar
    aquelles logares onde, como diz Thomson: «sussurra um publico, possuido
    de todos os assumptos, e animado de mixtos discursos».

    Jenny não pôde deixar de sorrir ás reflexões do irmão; mas, como para
    diminuir o effeito d'esta fraqueza, apressou-se a dizer-lhe:

    –Pois sim, Charles; mas nem hontem! Hontem, na verdade!… no dia dos
    teus annos!…

    –Então que queres, menina? Não me lembrei de tal, realmente. Acredita.
    Reputo tão pouco motivo para festas o facto do meu nascimento!

    –Mas os que te estimam formam melhor opinião d'esse dia. Nem lhes
    queres dar o prazer de t'o affirmarem?

    –Daria se… se me lembrasse.

    –O pae destinava-te uma surpreza. Coitado! Fez-me pena a maneira por
    que elle me encarregou, ainda ha pouco, de te entregar este
    relogio–disse Jenny, passando para as mãos do irmão o presente de Mr.
    Richard.

    –Devéras?! Pois elle… Pobre pae! Vês? E eu que lhe roubei esse
    prazer! Ai Jenny, esta minha cabeça! Tu inda ao menos sabes o que me vae
    no coração, não é assim?

    –Sei, Charles, sei.

    –Mas os outros…

    –Todos te fazem justiça, só tu é que…

    –Mas repara, Jenny, é um relogio magnifico este; pois não é?! Bem; não
    ha que ver, snr. Carlos; é preciso que pela sua parte faça alguma cousa
    tambem. Está dito; não esperarei pelo verão. O carnaval está a expirar;
    acabando elle … penitenciar-me-hei na quaresma.

    –O carnaval! Muito divertidos devem ser esses bailes de mascaras, para
    assim te attrahirem, Charles!

    –Enganas-te, Jenny; são insipidos, mas… Tu não pódes talvez entender
    isto, que não obstante é exacto… são insipidos, mas irresistiveis ao
    mesmo tempo.

    –Ora!

    –Acredita-me. Rara é a noite em que me não encho de tédio, em que não
    morro de semsaboria no meio d'aquelle infernal tumulto, e então, se de
    lá me lembro de ti, do socego dos teus serões, do silencio das tuas
    noites, do teu bonito quarto côr de violeta, pergunto a mim mesmo,
    Jenny, por que me conservo longe d'alli, o que me afasta das portas
    d'esse paraizo, voluntariamente perdido por este louco, que nem merece
    ser teu irmão. Sinto vontade então de soltar uma lamentação como a de
    Eva por errar n'um mundo, que ao pé do teu, Jenny, é tambem obscuro e
    selvagem; por estar a respirar n'um ar bem menos puro.–Não é assim que
    diz o Milton?–E comtudo não tenho nenhum archangelico poder a impôr-me
    a expatriação. Vês?

    –Estás a gracejar, Charles?

    –Acredita que não. Outros te poderiam dizer o mesmo se…

    –E é isso que te conservou por lá, ainda hoje, até ás quatro horas da
    manhã?

    –Hoje? Ah, mas… perdão, Jenny; tudo tem suas excepções. A noite de
    hontem, por exemplo, não me deixou desagradavel memoria de si; devo
    confessal-o.

    –Então?

    –Então… é que eu tenho que te contar, e se tiveres a paciencia de me
    escutar e prometteres não me ralhar muito…

    –Ah! pois temos culpas?

    –Eu sei? Desconfio tanto de mim, que já me não atrevo a affirmar que
    procedesse bem. Mas tu o dirás.

    Jenny sorriu.

    –Ouçamos–disse ella, preparando o almoço, que um criado acabava de
    trazer para a sala.

    VI

    REVISTA DA NOITE

    –Como te disse, Jenny,–principiou Carlos, procedendo áquelle
    extemporaneo almoço, ás horas a que muita gente encetava a séria e
    importante tarefa da digestão do jantar–hontem correu-me a noite mais
    agradavel que de costume.

    –Sim? Então que te succedeu?

    –Eu te conto. Levantamo-nos da mesa ás onze horas; foi um longo jantar,
    ao qual os brindes continuados não deixaram nunca desfallecer a
    animação. Entrei no theatro, um pouco atordoado e um pouco pezaroso;
    atordoado pelos effeitos excitantes d'aquellas muitas libações e
    d'aquelle ruído todo…

    –E pezaroso…

    –Com os remorsos que a tua carta me veio despertar.

    –Ah!… remorsos?!…

    –Afianço-te que os tive. N'estas disposições de animo parecia-me um
    inferno o theatro, verdadeiros demonios aquellas insulsas mascaras,
    gritos de condemnados as desafinações da orchestra…

    –E ficaste?

    –E fiquei; fiquei, ancioso por que o final do divertimento me
    auctorisasse a retirada. Já vejo que nem ideia fazes sequer d'estas
    cousas, que aliás são verdadeiras. Deixa-me continuar.

    –Continúa–disse Jenny, folheando ao acaso um livro de gravuras
    inglezas, que estava na mesa.–Mas é devéras estranha essa maneira de te
    divertires… martyrisando-te.

    –É, confesso que é. Mas outros muitos estão n'este caso; pódes crel-o.

    –Bem; vamos adiante–replicou Jenny, fitando os olhos nas lettras
    douradas da brochura.

    Carlos proseguiu:

    –Deixei os meus companheiros e sentei-me extenuado; nem queria ver, nem
    apreciava nada do que em torno de mim succedia. A final, porém, por
    fazer alguma cousa, reparei nos vizinhos de hombro a hombro, entre quem
    a sorte me arrojára.

    Jenny ergueu para o irmão a vista, com um modo particular.

    –Do lado direito, encontrei um homem gordo, que dormia. Como a
    felicidade alheia não é espectaculo de que nos venha conforto, quando o
    infortunio nos punge, desviei com despeito os olhos d'esta
    bemaventurança e voltei-os…

    –Para o lado esquerdo?

    –Justamente; para o lado esquerdo.

    –E… e o que achaste d'esse lado do coração, Charles?–perguntou
    Jenny, sorrindo.

    –Ai, Jenny! ai, minha pobre irmã! prepara a tua santa paciencia, que
    aqui venho eu confiar-te mais uma das minhas paixões.

    –Eu logo vi; não sei porque foi que t'o estava a ler no rosto. Então é
    devéras uma paixão?

    –Receio que sim.

    –Pobre Charles! Que fatalidade!

    –Estás a rir?–disse Carlos, sorrindo tambem e estendendo a chavena
    para a encher outra vez–Ora ouve. Ao meu lado esquerdo, do lado do
    coração, como dizes, estava um dóminó feminino, fitando-me de uma
    maneira … como nem te sei dizer… e com uns olhos… mal sabes que
    bonitos olhos eram aquelles, Jenny!

    –Os da mascara?–perguntou Jenny, preparando a chavena.

    –Não; os da mascarada, os quaes eu percebia através das aberturas
    oculares da elegante mascara de setim preto que ella trazia. A cabeça
    descaía-lhe ligeiramente sobre o hombro em postura de tanta languidez e
    melancolia, e n'esta posição a sêda da mascara descobria-lhe um canto de
    labios e um principio de collo tão bem modelados, que eu não pude
    desviar mais d'alli o olhar extasiado, e… e… Então que quer dizer
    agora esse teu sorriso, Jenny?

    –Estou a admirar a rapidez com que te apaixonas e extasias.

    –É que não imaginas que bonito cortôrno o d'aquelle rosto; não
    imaginas! Eu digo-te uma cousa, Jenny; bem sei quantas illusões andam
    ligadas á mascara de sêda, que, por descuido estudado, se afasta um
    pouco, o preciso… o conveniente… Porque na maior parte dos rostos ha
    pequenos pontos fracos, que a mascara artificiosamente occulta, deixando
    só apparecer as perfeições. Conheço que é facil illudir-se então o olhar
    e phantasiar-se falsamente o todo pela parte que se póde ver, conheço…

    –Basta, basta, Charles. Pena é que de tão pouco te sirva o tanto que
    conheces, visto que ainda hontem…

    –Hontem não havia, não podia haver illusão. Isso é que não. Aquella
    cabeça não era d'essas cabeças buliçosas, como folhas de alamo, que
    morrem por ser adivinhadas. Era uma cabeça scismadora, melancolica,
    cheia de sentimento, estremecendo a cada belleza que, com pezar seu, não
    podéra occultar…

    –Ah! Que singular cabeça!

    –E depois ha certos extremos de perfeição, que a natureza, quando os
    cria, não os vae desperdiçar assim em qualquer rosto, que nas mais
    feições destroe d'esses primores parciaes. E n'este caso estava tudo o
    que eu vira do perfil da minha sympathica vizinha, a quem dirigi a
    palavra!

    –A quem dirigiste a palavra!

    –Sim; que achas tu de extraordinario n'isto, para fazeres esse
    movimento? N'um baile de mascaras prescinde-se das apresentações,
    ridicula invenção da etiqueta, que eu desconfio ser originaria da nossa
    diplomatica Inglaterra.

    A reflexão historica transformou n'um sorriso o movimento de surpreza de
    Jenny.

    Carlos continuou:

    –E depois vaes ver que tudo quanto lhe disse podia bem ser repetido á
    mais ingenua lady n'um dos nossos bailes de familia. A final de contas,
    irmanzita, eu, que arranjei por ahi, não sei bem como, a reputação de
    atrevido, tenho ainda canduras, de que muitos dos mais timidos se riam
    já aos quinze annos.

    Esta confissão, na qual alguma cousa havia verdadeira, desafiou em Jenny
    um gesto de duvida, que o mesmo sorriso affectuoso veio porém suavisar.

    –Olha que é assim–proseguiu o irmão–e senão… escuta. Como te disse,
    fallei á minha sympathica vizinha. Perguntei-lhe se estava muito
    fatigada. Ahi tens; a pergunta é mais do que ingenua, é quasi ridicula.
    Que lhe censuras tu?

    –A essa, de certo que nada. E depois?

    –Ella respondeu-me:–«Bem mais fatigada d'isto tudo do que esperava,
    vindo aqui, snr. Carlos.»

    –Como disseste?… Snr. Carlos?!

    –É verdade, «snr. Carlos». Sabia o meu nome a mysteriosa incognita;
    sabia o meu nome! Está de ver que augmentou a minha curiosidade.
    Continuando a conversar, vim a saber d'ella que tinha vindo alli
    acompanhada de outros dóminós femininos, cujo humor mais galhofeiro
    contrastava com aquella melancólica seriedade. Ficamos a conversar um
    com outro, amigavelmente, innocentemente, assim como eu converso agora
    comtigo. E… queres que te diga? havia até alguma cousa do teu fallar,
    maneiras de dizer tuas, na conversa d'aquella rapariga; e era isto
    talvez o que me impunha certo acatamento para com ella, de que não podia
    livrar-me. Não imaginas a graça, o bom senso, a viveza, que revelou em
    todo aquelle dialogo commigo. Mostrou-se muito informada a meu respeito
    e até a respeito da nossa familia; houve um momento, em que deu mostras
    de querer fallar de ti; eu porém evitei a conversa…

    –Porquê?!–perguntou Jenny, fingindo-se offendida.

    –Porque…–balbuciou Carlos embaraçado, e depois, com mais resolução,
    continuou:–Digo-te a verdade Jenny; respeito-te muito; tenho por o teu
    nome uma veneração muito grande, para que me fosse agradavel ouvil-o
    pronunciar n'aquelles logares, e pronunciado de mais a mais por…–não
    obstante o favoravel conceito que continuo a fazer da
    desconhecida–mas… por labios que… não sei ainda… que não tenho a
    certeza se serão dignos d'isso. Passadas duas horas talvez n'este
    inoffensivo conversar, chegaram, já fartos de alvorotar o salão, alguns
    dos rapazes, que me tinham acompanhado. Foi-me pouco agradavel,
    confesso-o, a presença dos meus amigos e sobretudo desagradabilissimos
    os galanteadores conceitos que dirigiram á minha interlocutora e os
    gracejos com que a respeito d'ella me mimosearam.

    –Coitada!

    –Coitada? Ai, se já principias assim a lamental-a … mal vae á minha
    historia.

    –Pois acaso?…

    –Escuta. Ao principio, ella não mostrou timidez; sustentou com
    vivacidade o dialogo, aparando e retribuindo triumphantemente os
    galanteios, que elles lhe dirigiram. Mas a lucta era desigual; porque
    emfim os contendores, n'esta esgrima de palavras, tinham de reserva
    armas, de que ella não podia servir-se. Foi então, ao reconhecer isto,
    que se mostrou inquieta e ergueu-se para retirar-se; seguimol-a; á porta
    do salão ella e as companheiras voltaram-se, viram-nos e pareceram
    atemorisadas. Ella então, a desconhecida, dirigiu-se a mim e pediu-me
    que lhes servisse de protector, appellou para a minha generosidade e
    eu…

    –Tu protegeste-as, não é verdade?–disse Jenny, juntando as mãos, e
    fixando no irmão um olhar de sympathia–Protegeste, não protegeste?

    –Fui, fui um D. Quixote de donzellas perseguidas. Então que queres tu?
    Não te dizia eu que havia ainda em mim muito da candura dos quinze
    annos?

    –Não te arrependas, Charles, não te arrependas de ser generoso.

    –É certo que consegui afastar os meus associados, o que não foi pequena
    tarefa; fiz valer porém os direitos de descobridor e prometti-lhes
    revelar o segredo d'aquella mascara, segredo cuja investigação me
    competia. Feito isto, segui-as. Ao principio tudo foram effusões de
    gratidão á minha nobreza de caracter, ao meu coração, aos meus
    sentimentos, etc., mas, quando nos livramos das ruas mais centraes e
    passou o perigo da perseguição que temiam, tudo mudou de figura e
    principiaram já a pedir-me para tambem me retirar. Esta ingratidão
    offendeu-me e recusei… Então? ahi estás séria outra vez!

    –E com razão, Charles. Pois pediam-te e tu… Isso já não é de
    generoso… Quem sabe os motivos?

    –Perdôa-me, Jenny; tu é que não sabes nada d'estas cousas. Pouco
    generosas eram ellas. E demais, esses pedidos seriam sinceros? A regra é
    recusal-os sempre; e está certa de que quasi nunca a recusa offende.

    –Basta que uma vez…

    –Mas repara, Jenny… Valha-me Deus!… Ora vem cá. Tu estás-me ahi a
    phantasiar uns bailes de mascaras á tua moda. Suppões que todos estes
    dóminós eram… eu sei lá… outras tantas princezas disfarçadas ou
    outras Jennys como tu.

    –Pois bem, uma vez que o disseste, vamos que era eu?…

    Carlos previu o mau terreno, em que se collocava, admittindo a hypothese
    e porisso interrompeu a irmã, dizendo:

    –Mas não supponho, nem posso suppôr, porque… porque ainda ninguem viu
    uma Jenny n'aquelles logares; e demais ouve, que eu não sou ainda assim
    merecedor de tantas severidades. Teimei, como disse, em seguil-as; para
    desistir, exigia conhecel-as; ellas porém recusaram tirar a mascara e
    sobretudo a tal, que eu mais desejava saber quem era. Ás tres horas e
    meia estavamos aqui defronte de casa, aonde me tinham trazido
    manifestamente para me tentarem a entrar. Resisti á tentação e transpuz,
    sem hesitar, a porta, continuando a seguil-as. As companheiras da minha
    incognita levavam já o caso a rir e acredito que não poriam grande
    duvida em darem-se a conhecer; ella porém mostrava-se… ou fingia-se,
    deveras afflicta; dirigiu-se a mim e de mãos juntas pediu-me que me
    retirasse.

    –E tu?…

    –Eu… eu recusei.

    –Ó Charles!

    –Ouve. Ella insistiu. Disse-me que lhe poderia fazer muito mal se
    teimasse, e eu insisti…

    –Como és ás vezes tão mau!

    –Mas se eu não acreditava na sinceridade d'aquelles mêdos, e agora
    mesmo… Mas a final, a rapariga disse-me com uma voz chorosa e na qual
    me pareceu descobrir tanta sinceridade: «–Peço-lhe este favor por…»
    Adivinhas por quem ella me foi pedir?

    –Não.

    –«Peço-lhe este favor por sua irmã, por Jenny»; sim, por ti, foi por ti
    que ella me pediu e fêl-o ajuntando as mãos com tal candura, que eu…
    Precisas de perguntar-me se condescendi d'esta vez?

    Jenny estendeu a mão ao irmão.

    –Obrigada. A final o bem triumpha sempre no teu coração. Estava certa
    d'isso.

    Carlos baixou a cabeça, como mortificado com estes louvores da irmã.
    Dir-se-hia que aquellas palavras lhe estavam a fazer sentir remorsos,
    longe de os desvanecerem.

    Depois de uma hesitação de momentos, terminou por dizer, com evidente
    enleio:

    –Olha, Jenny… eu por fim de contas não sou homem para aceitar
    louvores que não mereço… repugna-me esta hypocrisia; custa-me deveras,
    mas… sou forçado a dizer-te que… que não sou digno d'esses
    applausos.

    –Porquê?

    –Porque… alguma cousa se passou… Eu não disse tudo ainda e… É
    verdade que… condescendi… sim… mas não tão desinteressadamente
    como… sim… porque exigi… usurpei… á maneira de compensação…

    –O quê?

    –Um beijo, ao qual a pobre rapariga não retirou a tempo a face e que a
    lançou n'uma especie de desespêro, fingido talvez, de certo… mas bem
    fingido…

    Jenny reproduziu o gesto de desgosto.

    –Mas não me condemnes, Jenny,–apressou-se Carlos a acrescentar–porque
    a final eu nem lhe vi o rosto, e estou provavelmente condemnado a nunca
    descobrir quem ella seja. Além d'isso cumpri religiosamente o
    promettido, renunciando a acompanhal-a, o que me custou devéras; ainda
    hoje me preoccupa o olhar, a voz d'aquella rapariga e quasi lamento…
    Vamos, não continues a olhar-me d'esse modo. Pois recusas perdoar-me,
    quando eu…

    –A fallar verdade, mereces bem pouco que te perdoem. Mas, como cedeste
    em meu nome, quasi me tiraste o direito de ser severa. O final… o
    final… na verdade…

    –E vês o meu endurecimento na culpa? foi isso de toda a aventura o que
    me deixou mais agradavel memoria de si…

    –Então!–disse Jenny, batendo-lhe com o livro na mão–Olha se queres
    que retire ainda o perdão que já te dei. Que mais terás a pezar-te na
    consciencia? aproveita o ensejo d'esta minha disposição benevola.

    –Julgo que não tenho mais nada.

    –Ahi está uma alma com excellente opinião de si! Visto isso, tens
    cumprido todos os teus deveres?

    –Mas… deveres de que genero?

    –Que pergunta! Pois nem sabes os deveres que tens?! Maus indicios!
    Deveres de christão, de cidadão, de filho, e de…

    –O que ahi vae! o que ahi vae! Por quem és, Jenny! vamos por partes,
    senão…

    –Pois bem, quero fallar-te agora só de uns, que me parece teres
    descurado um pouco.

    –Falla.

    –Dize-me: tens ido ao escriptorio?…

    –Ai, o escriptorio!–disse Carlos, rindo–Então era d'isso que me
    querias fallar? Bem longe estava eu de pensar no escriptorio.

    –Tens lá ido?

    –Eu não.

    –Não!

    –Ha já bastante tempo que lá não vou, ha… mas… achas isso grande
    peccado?

    –E pergúntal-o? Não é o trabalho um dever?

    –O trabalho será.

    –Então…

    –É que faz sua differença. Tu não sabes como eu trabalho no
    escriptorio? É outra d'essas imposturas sociaes, que me fariam rir
    devéras, se não fossem tão fastidiosas. É preciso que saibas, minha boa
    Jenny, que no escriptorio, o trabalho real, o trabalho util, o
    trabalho–trabalho, está encarnado na pessoa de Manoel Quentino. Esse
    sim. É quem alli faz tudo, quem a tudo dá solução, e parece-me que o
    unico até capaz de o fazer. Exige-se que eu vá lá tambem, não para
    trabalhar; a minha cooperação o mais que faz é impacientar o bom do
    homem, distrahir os outros caixeiros e alterar a ordem methodica dos
    papeis commerciaes. Eu vou só para fingir que entro n'aquellas cousas,
    para representar de commerciante, embora não penetre em nenhum dos
    segredos ou transacções, em que anda empenhada a firma. Hoje lembram-se
    de me communicar o principio de certo negocio, do qual se julgam depois
    tão dispensados de dizer-me o resultado, como eu de perguntar por elle;
    ámanhã, dar-me-hão parte da conclusão de outro, cuja existencia eu
    ignorava ainda. Ora aqui tens como eu sou commerciante. O pae gosta de
    me ver lá em baixo, como representante da firma Whitestone & C.ª, e mais
    nada. Chego ao escriptorio, abro a janella, mostro-me ao publico como
    uma especie de taboleta da casa, dou tres passeios na Praça, converso em
    tudo, menos no negocio, e venho embora. Se isto é trabalhar…

    –Mas, já que te repugna essa ociosidade, porque não trabalhas devéras?

    –Porque não é costume. O trabalho é para o guarda-livros. Nós somos uma
    especie de padrinhos; damos o nome á creança e pagamos-lhes o enxoval,
    mas não nos encarregamos das fadigas da sua educação. Comtudo, já uma ou
    outra vez tentei trabalhar, por descargo de consciencia; mas lembrança
    minha era saudada com uma risada do Manoel Quentino e com o riso mal
    disfarçado dos outros caixeiros. Pelos modos era disparate certo.

    –Pois bem; porisso mesmo que tão pouco se exige de ti é que devias ser
    mais assiduo.

    –Mas é tão monotono! Fazes lá ideia! Odeio aquella rua dos Inglezes,
    Jenny; abomino-a.

    –E preferes mortificar o pae, que já hoje se queixou das tuas faltas,
    quando um pequeno sacrificio…

    –Não lhe chames pequeno; mas, grande que seja, estou resolvido a
    fazel-o para te agradar. Ámanhã…

    –Ámanhã!–disse Jenny, encolhendo os hombros.

    –Pois então? queres que já hoje?…

    –E porque não?

    –Mas vê que já é tarde…

    –Mais tarde será se te demorares.

    Carlos emmudeceu.

    –E ao mesmo tempo–proseguiu Jenny–aproveitaria a occasião de mandar
    saber d'aquella pobre viuva ingleza, que ha já tantos dias não apparece.
    Não tenho querido que lá vá nenhum criado, porque, por mais que lhes
    recommende, todos gostam de a aperrear, e ella, coitada, afflige-se
    tanto… Se tu fosses hoje ao escriptorio, ficava-te em caminho…

    Jenny sabia que qualquer acção generosa servia a Carlos de estimulo para
    realisar sacrificios: por isso lhe lembrou esta visita de caridade a uma
    das muitas pobres, que a familia Whitestone soccorria. Não se enganou a
    previdencia da irmã.

    –Está dito–disse Carlos com modo resoluto.–Vou hoje … trabalhar.
    Mal sabe Manoel Quentino, que é o grande motor d'aquella machina
    commercial, o que lhe está imminente. O homem dá ao demo o meu auxilio;
    mas que t'o agradeça, Jenny. Manda-me o José para me ajudar a vestir;
    inda hoje me não deu o gosto de o ver, o mariola.

    –Ai, o José?–disse Jenny, pousando a mão no hombro do irmão–Olha,
    Charles, o pobre rapaz tem a mãe tão doente, que eu tive pena d'elle e
    mandei-o…

    –Basta, basta; fizeste bem. Eu não me lembrava d'isso, senão…
    Passaremos sem o José, e não passaremos mal.

    Jenny abraçou o irmão, e saiu contente da sala.

    Em consequencia d'este dialogo, Carlos appareceu na Praça Commercial
    pelas duas horas da tarde.

    VIII

    NA PRAÇA

    Havia grande actividade na larga rua chamada dos Inglezes, á hora a que
    o filho de Mr. Richard Whitestone alli chegou.

    A vida commercial estava então no seu auge; numerosos grupos occupavam
    os passeios, o centro da rua e os portaes das velhas casas, que de um e
    de outro lado limitam. Presta-se a curioso estudo o aspecto da Praça em
    occasião assim.

    Nas posturas, no ademan e em varias outras exterioridades dos
    differentes individuos, que compõem estes grupos, póde-se encontrar
    indicios da posição commercial, que elles occupam.

    Vêem-se homens de aspecto grave, de movimentos pausados, de palavras
    medidas e espremidas, escutados, aqui e além, por um auditorio attento,
    mudo, boquiaberto, cujas cabeças, balançando-se, como as dos bonecos de
    porcelana, commentam com movimentos de approvação as palavras d'estes
    oraculos;–são directores de bancos, ou de companhias commerciaes de
    outra qualquer natureza, bem ou mal reputados as primeiras capacidades
    da Praça; os accionistas, sempre inquietos pelo seu futuro dos capitaes,
    meditam cada palavra d'elles, como as de uma mensagem de Napoleão III,
    na abertura do parlamento francez.

    Mais longe, passeiam, com ar de quem está confiado em si, outros que não
    escutam os primeiros, mas que os saudam com fraternal familiaridade. Não
    teem tão numeroso cortejo a rodeial-os, porém são igualmente
    cumprimentados por todas as cabeças da Praça; chamam aos labios das
    pessoas, a quem se dirigem, um sorriso de affabilidade, e obrigam-lhes o
    tronco á inclinação expressiva de acatamento, pouco differente da
    eloquencia persuasiva, a qual, segundo um escriptor humorista, é
    representada por o angulo de 85º 1/2 com o horizonte.–São estes os
    negociantes, que não administram capitaes alheios, mas que dispõem de
    grandes capitaes proprios; de quem menos directamente depende portanto a
    numerosa turba dos pequenos capitalistas, mas cujos destinos influem,
    mais ou menos, sobre os de toda a Praça. Além d'isso teem a fazel-os
    valer o prestigio da riqueza, prestigio que se impõe até aos que nada
    esperam d'ella.

    Observa-se ás vezes um espectaculo, á primeira vista de difficil
    interpretação. Um homem, humildemente vestido, de aspecto triste, de
    cabeça baixa e barbas crescidas, é escutado com anciedade na roda dos
    mais esplendidos membros do corpo commercial; todos parecem esforçar-se
    por não perder a menor palavra das poucas e sumidas, que o tal homem
    pronuncia. De vez em quando, elle murmura não sei que phrase e limpa ou
    faz que limpa uma lagrima, e os outros levantam as mãos ao céo, cruzam
    os braços, encolhem os hombros, coçam a cabeça, dão uma volta, como a
    distrahir mágoas, e tornam a acercar-se d'elle, como se fosse o centro
    de attracção d'aquelles elementos dispersos; e toda a scena se produz de
    novo. Que quer dizer isto?–É um negociante fallido de pouco e rodeiado
    de credores, a quem, na sua humiliação, domina e que, de quando em
    quando apavora, calculando com voz dolente o diminuto dividendo que lhes
    concederá. Não ha posição social, situação na vida, por mais abjecta e
    precaria que pareça, que não tenha a sua aristocracia. Os ladrões teem
    os monarchas conquistadores; os homicidas, os duellistas e guerreiros; a
    pobre, a opprimida, a miseravel classe dos devedores, tem os grandes
    negociantes fallidos.

    O olhar exercitado em estudar a physiologia da praça talvez possa
    distinguir do negociante, cujos pagamentos ainda em época alguma foram
    suspensos, aquelles, cujas remotas _fracturas_ teem sido miraculosamente
    _consolidadas_ pelos dotes das esposas. Mas a segurança e franqueza de
    maneiras é tão igual nas duas especies, que á nossa analyse não é
    possivel a discriminação.

    A contrastar com todos estes, vê-se uma turba, igualmente numerosa,
    agitar-se na Praça, sempre a passo rapido, rapazes pela maior parte com
    papeis, saccas ou amostras na mão; sáem de um portal para entrar em
    outro; descem a calçada do Terreiro em direcção á alfandega, ao caes ou
    a bordo de algum navio mercante; consultam os individuos dos grupos, que
    já mencionamos, ou aguardam pacientes que elles os descubram e
    interroguem; dirigem-se-lhes então, tirando o chapéo–attenção nem
    sempre retribuida–; são estes os segundos caixeiros, os chamados «de
    fóra», os praticantes de escriptorio, os cobradores, e ainda os
    despachantes; aquelles, emfim, sobre quem mais pesada se exerce a carga
    da vida do commercio e que menos proventos auferem d'ella. Distinguem-se
    pelo grau de velocidade dos passos; a dos despachantes chega a ser
    incommoda de ver-se.

    É digna de nota tambem a posição que tomam mais ordinariamente os dois
    interlocutores dos curtos dialogos, que a cada momento se travam no meio
    da rua, entre os representantes das diversas hierarchias sociaes, que se
    dizem–caixeiro e patrão–. O caixeiro está perfilado, com a mão na aba
    do chapéo e os olhos fitos nos labios do negociante; este responde-lhe,
    olhando para o lado e, ás vezes, sorrindo até para um collega, que de
    longe falla por acênos–distracção perigosa para a clareza da ordem
    dada, mas cujas consequencias são attribuidas depois a quem a recebeu;
    os patrões mais accessiveis levam a sua bondade a ponto de puxarem por o
    botão do casaco, ou de desapertarem o do collete do subordinado,
    emquante lhe dão instrucções. Quando o caixeiro expõe o resultado da
    commissão que executou, é-lhe permittido o accionado, mórmente se, na
    execução d'ella, houve a vencer a renitencia de algum devedor emerito,
    circumstancia, na qual póde até tentar um epigramma, com a certeza de
    que agradará. Porém quando são mais modestos os ares do caixeiro e mais
    impertinentes os do patrão, é quando o segundo está sendo convencido por
    o outro de um erro, que repugna ao seu amor-proprio confessar.

    Ha ainda outra classe, tambem inquieta, apressada, incansavel, porém
    muito longe das disposições para a reverencia d'esta ultima, em que
    fallamos. Ha nas suas cortezias rasgadas alguma cousa de artificial, que
    não illude ninguem, e ás vezes a menos ceremoniatica familiaridade
    substitue até essas apparencias de respeito. São espantosos de
    tenacidade a perseguirem em certos casos o commerciante, que em vão
    tenta fugir-lhes; passam-lhe da esquerda para a direita, da direita para
    a esquerda; atravessam-se-lhe no caminho; entram com elle nos portaes,
    sobem com elle as escadas, invadem-lhe o ádito dos escriptorios,
    transpõem a barreira dos mostradores, encostam-se sem ceremonia ás
    escrivaninhas, batem-lhe amigavelmente nos hombros, collocam-lhe diante
    dos olhos garrafas, vidros, massos de fazenda, tabellas de preços,
    amostras de todos os generos commerciaveis, de que andam constantemente
    munidos e a custo se resolvem a soltar das mãos a victima, que chegaram
    a atacar.–São estes os corretores e agentes de casas estrangeiras.

    A classe dos primeiros guarda-livros é a porção aristocratica d'esta
    _bureaucracia_ ou escriptoriocracia commercial. Mostra-se principalmente
    á janella dos primeiros andares, onde vem, de vez em quando, descansar
    das fadigas de uma escripturação. De ordinario, conservam a penna entre
    os dedos, como para significar que é momentanea a pausa–o que nem
    sempre succede. Mais necessarios, e porisso mais apreciados e
    attendidos, gosam já de certas franquias e privilegios entre os da sua
    classe. É-lhes concedido fallarem da janella para a rua com algum
    collega ou amigo que passa; a alguns até se permitte fumar na varanda um
    charuto, e ausentarem-se algum tempo do escriptorio sem prévia
    requisição; na rua, saudam mais desassombrados os patrões e são menos
    distrahidamente correspondidos por estes.

    Acrescente-se agora a progenie ociosa dos grandes
    capitalistas–commerciantes honorarios, cuja vida commercial se reduz,
    como a de Carlos, a passeiar na Praça até ás quatro horas da tarde; o
    brazileiro retirado, distrahindo-se a presenciar, como espectador, o
    labutar do negocio, á maneira da maritimo velho que se senta á beira-mar
    a olhar para as ondas, de que vive arredado já; acrescente-se ainda o
    empregado da alfandega, fumando o cigarro, nas frequentes entreabertas
    de descanso de suas laboriosas manhãs; os carrejões em disponibilidade,
    estacionados a cada esquina; os moços de escriptorio encostados ás
    ombreiras das portas: os meninos dos directores de companhias, confiados
    á vigilancia de algum empregado subalterno; isto tudo composto de
    inglezes ruivos, de allemães louros, de brazileiros escuros, de
    portuguezes de todas as côres, e ter-se-ha imaginado o aspecto da Praça
    commercial do Porto, á hora em que Carlos Whitestone a atravessou.

    Carlos passava pelos differentes grupos alli reunidos como por entre
    gente, que toda lhe era igualmente familiar.

    Como sempre, e como em toda a parte, não se constrangia alli tambem.

    O genio que tinha não lhe consentia etiquetas; a sua posição social não
    deixava que ninguem lhe estranhasse as familiaridades.

    Enfiava o braço no de um dos mais sisudos commerciantes, a quem tratava
    pelo nome de baptismo; de repente, deixava-o, para accender o charuto no
    cigarro de um segundo caixeiro de escriptorio, que o estava saboreando
    ás occultas, e alli mesmo pactuava com este qualquer partida de caça.
    Aproximava-se do grupo de capitalistas e barões, que discutiam
    acaloradamente o relatório de uma companhia, e cêdo, com suas reflexões
    e commentarios, fazia degenerar a conversa para assumpto mais frivolo e
    jovial; abandonava-os, e ia abraçar alguns rapazes, tão laboriosos como
    elle, que fallavam dos bailes da vespera ou abriam a bôca de enfadados;
    d'alli dirigia-se a cumprimentar um inglez esgalgado, que passava sobre
    uma hursa, mais esgalgada ainda, e examinava com olhos de conhecedor as
    qualidades physicas do quadrupede e os expedientes da arte do
    cavalleiro; tolhia a passagem do despachante que atravessava a correr a
    Praça e, apesar de tantas pressas, conseguia fazel-o parar a escutal-o:
    chamava pelo nome o gallego da esquina, para que lhe viesse sacudir a
    lama das botas, e, durante esta operação, divertia-se a bater-lhe com o
    chicote na copa do chapéo. Ás vezes ouvia com apparente attenção um
    homem, que lhe vinha fallar de certo negocio pendente do escriptorio
    Whitestone, mas, se a exposição se demorava, o seu interlocutor, quando
    menos o esperasse, achava-se só, porque Carlos fora, sem ceremonia,
    conversar com o guarda-livros, seu amigo, que avistára na janella de um
    primeiro andar. Tão depressa entrava em um dialogo com o mendigo que lhe
    pedia esmola, como com qualquer rapariga, cujas graças o attrahissem.

    N'este genero de occupações se demorou Carlos Whitestone na Praça
    aquelle dia, procurando ser visto pelo pae,–unico fim que tinha na
    ideia.

    Mr. Richard estava porém na Assembleia Ingleza ou Feitoria, da qual era
    assiduo frequentador.

    Um dos muitos grupos, de que Carlos Whitestone se aproximou, compunha-se
    das mais graduadas individualidades da praça.

    Carlos passou o braço por cima do hombro de um barão, enfiou o outro no
    de um capitalista brazileiro, e cumprimentou familiarmente um velho
    inglez, que estava na companhia tambem.

    –O que não ha em toda a Europa é uma Bolsa assim como a do Porto–dizia
    um commerciante bem intencionado, em quem se encarnára a balda, muito
    portugueza, de pendurar no pinaculo da perfeição alguma cousa boa, que
    temos ainda por cá.

    O inglez estremeceu de pasmo.

    –_What!!_–A exclamação saiu-lhe ingleza na violencia da explosão–Na
    Europa! Que diz, senhor? Vocemecê já viajou?

    –Nada, não, senhor; ainda não saí do Porto; mas dizem entendedores…

    –Ora então… então… A Bolsa de Londres… o Royal Exchange… não
    vamos mais longe… o Royal Exchange, o moderno; porque o primeiro Royal
    Exchange foi do tempo da rainha Elisabeth, construido por um architecto
    chamado Gresham, em 1500 e tantos; ardeu em 1667. Dois annos depois
    levantou-se o segundo; este foi construido por Jerman; ainda me lembra
    bem d'elle; ardeu em 1838. Estava eu em Londres. Em 1842 lançou-se a
    primeira pedra de novo, que foi segundo o plano de Tite, e dentro em
    tres annos estava completo.

    –E esse quando ardeu?–perguntou Carlos.

    O inglez sorriu, sem responder á pergunta, e preparava-se para entrar em
    circumstanciada descripção da planta baixa e alta do edificio.

    Carlos interrompeu-o outra vez:

    –O que estou vendo, Mr. Lyons, é que ha em Londres uma terrivel
    disposição para _arderem as bolsas_.

    O barão e o brazileiro acharam extraordinaria graça ao dito de Carlos, e
    batendo-lhe no hombro e chamando-lhe «maganão, patusco, cabeça de
    vento», e outras injurias assim amaveis, não quizeram mais saber do que
    lhe dizia o inglez, o qual se viu constrangido e engulir o resto da
    noticia historica e architectonica.

    –Mas, senhores!–dizia em outro grupo, para o qual Carlos se dirigiu, o
    meticuloso possuidor de umas cinco acções de certa companhia, a um dos
    directores da mesma–Eu não vejo as cousas bem figuradas. Para que hei
    de estar a dizer o contrario? Negocios com o governo nunca me agradaram.
    O governo! Quem é o governo? O governo a final não é pessoa que se
    penhore; porisso voto que…

    –Mas repare,–dizia o director com exemplar paciencia–repare que as
    garantias offerecidas são das mais seguras; o governo compromette-se…

    –E adeus, minhas encommendas!–tornou o outro–Ora que é scisma! Mas
    quem é o governo? Eu não sei quem é o governo! Uns valdevinos, que hoje
    são tudo e ámanhã são nada… Faz-se o contracto com uns e ámanhã
    respondem por elle caras novas. Não me entendo com isso. Muito bonitas
    fallas, sim, senhores; mas como não respondem por o que é seu… E os
    nossos capitaes…

    Estes capitaes eram cem mil réis por junto.

    O director pedia resignação a Deus, para não romper com o obstinado.

    Carlos representou aqui de enviado celeste. Tomou o braço do accionista
    dissidente, e, sem lhe attender aos esforços, afastou-o para o passeio,
    dizendo-lhe a meia voz:

    –O senhor já sabe do que se trata hoje na Praça? Vae organisar-se uma
    companhia monstro.

    –Pois sim, sim; mas deixe-me, que tenho que discutir alli com o
    senhor…

    –Ouça–insistia Carlos–é negocio dos accionistas ganharem quarenta por
    cento, avaliando muito por baixo.

    O homem, que era de ingenuidade proverbial entre os collegas, olhou para
    Carlos com gesto entre desconfiado e inquiridor.

    Depois a phrase «quarenta por cento» era de uma sonoridade!

    A physionomia de Carlos tomára uma expressão de sisudez irreprehensivel.

    –Pois sim, mas… eu agora…–dizia ainda o homem.

    Carlos insistiu:

    –Olhe que lhe fallo serio. É uma companhia de capitalistas inglezes,
    que se vae metter n'isso. Meu pae está encarregado do trabalho da
    instituição. É porisso que eu…

    –Mas que é a final?–perguntou o sujeito com curiosidade.

    –Demais espera-se que o governo conceda um subsidio…

    O homem teve vontade de perguntar quem era o governo, mas resistiu á
    tentação d'esta vez.

    –Mas qual é o fim?–perguntou em vez d'isso.

    –E o commercio do Porto vae resentir-se vantajosamente d'este
    commettimento–continuava Carlos, devéras embaraçado em organisar a tal
    companhia.

    –Mas o fim da empreza? … o fim?–bradava já o outro.

    –O fim? Um grande fim… uma nova via de trafego commercial entre a
    cidade alta e a baixa.

    –Como? Alguma rua…

    –Não, senhor; aproveita-se uma riqueza ainda inexplorada, que ha no
    seio da cidade.

    Um enxame de ideias extravagantes esvoaçaram na imaginação do
    accionista, que já com ardente curiosidade perguntou:

    –Mas… que é? como?

    –Nada menos do que tornar navegavel o rio da Villa.

    O accionista dissidente olhou ainda alguns instantes para Carlos; mas
    cêdo depois voltou-lhe as costas _desapontado_ e procurou o director,
    que estivera interpellando; este porém aproveitára o ensejo e
    desapparecera, esquivando-se a resolver o difficil problema que o outro
    lhe apontára ao peito–Quem era o governo?

    O leitor, que é do Porto, permitta-me que eu explique aos que o não são,
    que este nome pomposo de rio da Villa é dado a um pequeno riacho de
    aguas menos limpas que se despenha por uns sitios escusos e não mais
    asseiados do que ellas, até desaguar furtivamente e como envergonhado,
    no Douro.

    O primeiro individuo de quem, depois d'este, Carlos se avizinhou, era
    uma potencia commercial, que ouvia amavelmente o pedido que lhe fazia um
    collega, para elle pedir a outro, para este pedir a terceiro e este
    terceiro pedir ao ministro para o ministro empregar na alfandega o filho
    do cunhado do primeiro que pedia. Esta complicação enredada de
    pedidos–da qual inevitavelmente se havia de resentir o periodo, como
    resentiu–parecia clarissima para o que estava sendo exorado, pois, sem
    pedir explicações, e como homem que logo á primeira vista entrou no
    ámago da questão, não fazia senão prometter applicar todo o seu
    valimento e ser até importuno para servir o amigo.

    Carlos chegou no meio d'essas promessas cordialissimas. É preciso que se
    diga que Carlos sabia, por acaso, que este capitalista havia recebido,
    aquella mesma manhã, uma carta de Lisboa, assegurando-lhe que fora
    provido, no logar disputado, um parente seu. Esta circumstancia fez com
    que o pouco dissimulado irmão de Jenny ficasse verdadeiramente abysmado
    diante da impavidez, com que o negociante illudia o amigo. Obedecendo á
    franqueza pouco de sociedade, que dissemos ser um dos elementos do
    caracter d'elle, Carlos não pôde emfim reprimir-se, que não dissesse:

    –Mas, senhor F., olhe o que promette; esqueceu-se de que o seu parente
    C. foi, hontem mesmo, despachado para esse logar?

    Seguiu-se uma careta entre os dois interlocutores, que trocaram algumas
    phrases, em taes casos forçosamente tolas; fartos emfim de mastigar
    orações sem nexo, separaram-se friamente.

    O capitalista ralhou muito com Carlos; porém Carlos ainda ralhou mais
    com elle pela sua pouca lisura.

    E o certo é que ficaram amigos. Ha nos caracteres francos e generosos
    como o de Carlos, o que quer que seja que dissipa resentimentos ainda
    aos mais reservados e egoistas.

    Resolveu finalmente o irmão de Jenny entrar no escriptorio.

    Ao dirigir-se para lá, viu que lhe vinha ao encontro um homem gordo,
    baixo e córado, que já de longe lhe estava fazendo cortezias.

    Parou a escutal-o.

    –V. s.ª passou bem?–disse o recem-chegado.

    Carlos correspondeu ao cumprimento.

    –Ora eu–continuou o homem–já ha pouco fui ao escriptorio de v. s.ª;
    mas nem v. s.ª nem o senhor seu pae lá estavam. Eu não sei se v. s.ª me
    conhece.

    –Não, senhor–disse Carlos, entretido a olhar para o laço da gravata do
    seu interlocutor.

    –Eu sou o Anastacio Rebello, que fiz aquelle carregamento de laranjas o
    anno passado…

    Carlos fez distrahidamente um gesto affirmativo, e passou a examinar o
    botão de peito do snr. Anastacio Rebello.

    –Ora v. s.ª–proseguiu este–ha de estar certo de que ha dois mezes…
    um meu correspondente de Braga me pediu… Eu não sei se o pae de v. s.ª
    lhe disse… Talvez não dissesse…

    –Talvez não–disse Carlos, sem o attender…

    –Pois o negocio é simples: este meu correspondente… que é também meu
    compadre… isto é, eu é que sou padrinho do filho d'elle, uma creança
    de treze annos, que esteve ha mezes em minha casa, a banhos na Foz, por
    causa de uns humores frios que…

    Carlos assobiava já.

    –Mas agora quer este meu compadre… Olhe; aqui está a carta que elle
    me escreveu;–proseguiu o homem, procurando-a no casaco–eu julgo que a
    trago commigo… Por ella fará ideia.

    E principiou a tirar papeis sobre papeis, cartas, escriptos, ordens,
    letras, contas, recibos… dizendo, ao passo que examinava cada qual por
    sua vez:

    –Não… isto é outra cousa… é a ordem para me pagarem uns cincoenta e
    tantos mil réis… E já não veem sem tempo… Mas onde diabo puz eu a
    carta?… Não é isto… Isto é o escripto de arrendamento da minha casa
    do Forno Velho… Isto é… Que S. Pedro é isto?… Ah! a carta do
    Maranhão… isto … isto é uma encommenda que me fazem de Bragança…
    V. s.ª não me sabe dizer onde se vende… a estampa da guerra da
    Crimeia?

    –Eu não, senhor–disse Carlos, dando dois passos para o escriptorio.

    –Encommendaram-m'a e eu…–continuava o homem, seguindo-o–Ah! achei;
    cá está a carta!–exclamou, segurando Carlos pela manga do casaco–Ora
    quer ler?

    –Eu não, senhor–respondeu este, tentando evadir-se.

    –«Prezado amigo e compadre–principiou o homem a ler.–«Recebi a sua de
    13 e agradeço-lhe as recommendações, que me manda. A comadre…–é a
    mulher d'elle–recommenda-se á snr.ª D. Maria do Carmo–é a minha
    mulher…–e o Juca…–é o tal meu afilhado…–manda muitos beijos ao
    padrinho…

    –Que é o senhor–disse Carlos, já impaciente com a massada.

    –Justamente–respondeu o homem, sorrindo á perspicacia de Carlos.

    –Pois sim, mas eu agora não posso demorar-me–acrescentou Carlos,
    fazendo outra tentativa para fugir.

    –Isto tambem não interessa…–concordou o homem–aqui mais abaixo é
    que… tal, tal, tal… sim, senhores…–«A festa do Bom Jesus este
    anno promette ser feita com espavento e eu espero que
    vocemecê…»–Elles querem que eu…

    –Com licença, que estou com pressa.

    –Sim; isto tambem não faz ao caso. É aqui abaixo…–«A camara
    municipal foi reeleita, como sabe; a gente da opposição levou uma
    derrota que…»

    Carlos já não podia mais.

    –Ora, meu caro senhor, que tenho eu com isso? Faz favor de me dizer?

    –Tem v. s.ª razão… É que eu julgava… Tal, tal, tal–«O seguro não
    quer pagar os prejuizos do incendio da minha casa da rua do
    Souto…»–Olhe que tambem isto de seguros…

    –Adeus–disse Carlos, rompendo de todo com o snr. Anastacio Rebello.

    –Ah! é aqui; agora sim–exclamou este triumphantemente–Cá
    está…–Aquella encommenda que eu fiz para Inglaterra…

    Justamente quando o snr. Anastacio chegava ao ponto desejado, através
    d'aquelle mar, cheio de baixios, da carta do seu correspondente, Carlos
    vendo uma galante costureira, que a passos apressados atravessava a rua,
    deixou-o sem ceremonia para se dirigir a ella.

    –Adeus, minha flor.

    A rapariga respondeu-lhe:

    –Ninguem o conheceu hontem no baile.

    –Então esteve lá?

    E proseguiu o dialogo, mesmo em presença de toda a sisuda classe
    commercial, que ao filho de Richard Whitestone tudo desculpava.

    Anastacio Rebello dobrou a carta do compadre, e afastou-se escandalisado
    com o que via.

    Outros rapazes aproximaram-se. A rapariga fugiu.

    Carlos, depois de alguns instantes tomados por occupações analogas ás
    que descrevemos, caminhou emfim para o escriptorio.

    Era assim que elle tratava negocios na Praça Commercial; vejamos no
    escriptorio.

    IX

    NO ESCRIPTORIO

    Na velha sala de paredes cinzentas e de soalho carcomido pelo caruncho,
    onde Mr. Richard Whitestone tinha o escriptorio, havia vinte annos que
    escrevia, addicionava, subtrahia, multiplicava, e dividia algarismos, e
    isto tudo resmoneando, cantarolando e tossindo, o snr. Manoel Quentino,
    personagem da idade do seu seculo, primeiro guarda-livros da casa, e
    homem de habitos de vida, tão beneficiadores da saude do corpo, como
    mantenedores da serenidade do espirito.

    Manoel Quentino era a alma d'aquelle recinto. Na confusão de papeis, com
    que lidava, taes como:–correspondencias, facturas, contas correntes,
    contas de venda, conhecimentos, primeiras, segundas e terceiras vias de
    letras, minutas de seguros, recibos e mais documentos commerciaes, elle
    só, habituado desde muitos annos áquillo, podia descobrir uma disposição
    ordenada.

    D'isto mesmo se gabava; o que não se devia taxar de presumpção da sua
    parte.

    Pedissem-lhe de repente a mais insignificante carta, que elle, sem
    hesitar, iria dar com ella. Era porém seu o segredo d'esta singular
    classificação, que dera ás cousas; para o proprio Mr. Richard,
    antolhava-se um dédalo o escriptorio, dédalo onde, ao querer
    orientar-se, não dispensava nunca o fio conductor das explicações do
    guarda-livros.

    Homem de habitos regulares, a mais não poder ser, invariavelmente ao
    soarem as sete horas da manhã no verão, e as oito, no inverno, estava
    Manoel Quentino movendo a chave na porta do escriptorio; e meia hora
    depois, sentado já á banca, todo entregue ao trabalho da escripta. Ás
    tres da tarde, no inverno, e ás quatro, no verão, movia segunda vez a
    chave, mas em sentido contrario; exceptuando uma ou outra occasião
    extraordinaria, em que a affluencia de serviço o obrigava a serões.

    Não era Manoel Quentino d'estes guarda-livros de mão rapida, e de
    prompto expediente, que n'um momento dão solução a muitos negocios
    juntos. Elle tudo queria feito com tempo, e, como a cada momento dizia:
    «para pressas é que não era»; graças, porém, á paciencia e á
    regularidade de trabalho, que não perdia nunca, insensivelmente o
    serviço adiantava-se-lhe nas mãos e difficil seria acharem-o atrazado
    alguma vez.

    Observava pontualmente o judicioso preceito: _festina lente_, e
    comprovava, com o exemplo, a efficacia d'elle.

    Queria Manoel Quentino immensamente áquelle escriptorio, tal qual se
    achava, assim mesmo desataviado e nú. Por vezes, Mr. Richard, e
    principalmente Carlos, haviam procurado realisar n'elle certos
    melhoramentos, que o fizessem mais commodo; tiveram porém de recuar
    diante das repugnancias do velho guarda-livros, que declarou affligir-se
    devéras com isso; e, como era elle a parte mais interessada no caso,
    visto que alli passava grande parte da vida, foi-lhe facil vencer.

    Em resultado d'isso, continuava a deliciar-se com aquellas quatro
    paredes escuras, com o tecto de castanho apainelado, que o tempo
    ennegrecera, com o chão aspero e picado pelos insectos, com as janellas
    de construcção antiga, de pequenos caixilhos, e abundantes em fechos,
    aldrabas e postigos, com a porta de fortaleza, cujos gonzos perros
    tinham um chiar, que era para Manoel Quentino como o timbre de uma voz
    de amigo, agradavel ainda quanto pouco harmoniosa, com as escrivaninhas,
    os mochos, os cabides, o lavatorio e toda a mobilia emfim, feita segundo
    os velhos modelos dos escriptorios antigos.

    Eram aquellas as testimunhas do encanecimento dos seus cabellos; como
    taes as amava.

    Além de Manoel Quentino, compunha-se o pessoal do escriptorio de dois
    segundos caixeiros e um rapaz de serviço, a todos os quaes o
    guarda-livros accusava constantemente de mandriões e ao mesmo tempo
    quasi os impedia de trabalhar, pela excessiva disposição que tinha para
    fazer tudo por suas mãos.

    Momentos antes de Carlos chegar, Manoel Quentino havia dado aos
    escripturarios duas cartas insignificantes a copiar e entregára-se elle,
    com todos os seus cinco sentidos, á redacção da correspondencia para
    Londres.

    Dos escripturarios, um, tendo terminado a sua facil tarefa,
    aproveitou-se da distracção de Manoel Quentino, tirou ás escondidas da
    escrivaninha um romance de Paulo de Kock e pôz-se a lel-o, com a sôfrega
    curiosidade dos dezesete annos; o outro occupou o tempo a escrever uma
    carta de amores á dama dos seus pensamentos, carta em que, por
    incidente, foram inclusas algumas allusões epigrammaticas ao
    guarda-livros, a quem entre outras cousas se chamava «Argos
    desapiedado»; o rapaz de serviço, deixado tambem em disponibilidade,
    entretinha-se a perseguir as moscas da vidraça ou a traçar com o dedo
    lettras maiusculas nos vidros, que humedecia com o bafo. Qualquer
    d'estas tres occupações, sendo pouco ruidosa, mantinha-se no escriptorio
    um silencio, que agradava a Manoel Quentino.

    Elle era o unico a interrompel-o, graças ao singular monologo, que
    estava de contínuo murmurando á penna com que escrevia.

    Dava-se effectivamente em Manoel Quentino uma illusão singular.

    Á força de lidar com a penna, á força de tão indissoluvelmente a ver
    associada ao seu destino, o velho guarda-livros acabára por julgal-a
    quasi dotada de certa intelligencia e fallava-lhe, animando-a,
    reprehendendo-a, sopeando-lhe os impetos, como a caprichoso corcel que
    se pretende guiar.

    –Anda, anda,–dizia elle–que ronceira que estás hoje! Olha que não
    temos esse tempo, que julgas… Então?… Que é isso agora?… Pois já
    queres mais tinta? Depressa gastaste a que bebeste! Vá, avia-te…
    Bonito R! Isso não esperava eu de ti!… Adeus! Agora mais este
    cabello!… E sujas-me todo!… Trapalhona!… Ai, que impertinente que
    estás!… Adiante! adiante! adiante!… Espera, espera… Lá te esqueceu
    um D!… E agora?… Agora vê se te mexes entre essas duas lettras…
    Assim… Ah! … não toques nos SS … assim… Bem… Continúa, mas com
    tento… Então! Não querem ver que páras outra vez? Ora isto é
    demais!… Deixa estar que… Oh!

    Era um borrão, que lhe caía no meio da pagina e lhe inutilisava a
    correspondencia quasi no seu termo.

    «Trai la rai, la rai, larai lai
    Trai, larai, larai, larão, lão
    Trai larai lai, larai larai lai,
    Trai lari, lari, lari, larão lão.
    Trai lari, lari, lari, larão lão.»

    Isto era a trautear o hymno da Carta, cousa que elle fazia sempre
    n'estas occasiões criticas. E sem mais alguma observação pôz a folha
    suja de lado, preparou outra e encetou nova correspondencia, não sem
    primeiro substituir a penna, dizendo-lhe ao deixal-a:

    –Descansa. Hoje não estás nos teus dias. Vem cá tu–dizia para
    outra.–Vê lá como te portas!

    E, olhando fixo para ella:

    –Umh! Não tens lá muito boa cara! não… Ora vamos a ver… Vá,
    despacha-te, que tenho mais que fazer!… Abre os bicos… abre…
    Assim… bem! Sim, senhora!… Bravo… Ninguem havia de dizer que tu…
    Caspite!…

    E com estas palavras de animação ia applaudindo o bom serviço da penna e
    quasi lhe parecia vel-a trabalhar com mais ardor, assim estimulada.

    Foi n'este momento que um valente encontrão abriu a porta do
    escriptorio, e o _terra-nova_, precedendo Carlos Whitestone, invadiu o
    até alli silencioso e tranquillo recinto, principiando logo por entornar
    a infusa com agua, collocada a um dos cantos da sala.

    Manoel Quentino, que estremecera com a subita apparição do quadrupede,
    ao ver o estrago que a sua impetuosidade produzira, pôz-se a olhar
    silencioso para elle e em seguida para a porta, como se contasse com
    mais alguma invasão, não menos revolucionaria do que esta.

    Effectivamente Carlos não se fez esperar.

    –_Good Morning_, Mr. Manoel Quentino!–bradou Carlos do limiar, fazendo
    para o guarda-livros uma reverencia muito rasgada.

    –_Good Morning_, Mr. Charles–respondeu Manoel Quentino, encolhendo os
    hombros e dando ás feições um ar de paciente resignação, uma especie de
    bondoso mau humor.

    Cumpre advertir aqui que Manoel Quentino fallava o inglez, graças á sua
    longa convivencia com os _Her Majesty's subjects_ residentes na nossa
    cidade; mas o inglez de Manoel Quentino era, até certo ponto, como o
    portuguez do patrão. Causava especial sensação ouvil-o pronunciar todas
    as palavras inglezas n'um tom, inflexão e maneiras, do cunho mais
    genuinamente portuguez. Podia dizer-se que Manoel Quentino fallava
    portuguez em inglez.

    –Ditosos olhos que o vêem!–disse elle a Carlos; e depois para o rapaz
    do escriptorio:–Olha aquella agua que se entornou…–e para Carlos
    outra vez com gesto velhaco:–Então esteve doente?

    –Eu? Tenho gosado a mais florescente saude do mundo–respondeu Carlos.

    –Como não tem apparecido!–Anda, avia-te rapaz!

    –Tenho-lhe talvez feito aqui muita falta?

    –Umh!–resmungou Manoel Quentino.

    Os caixeiros, que com a entrada de Carlos haviam escondido, um o
    romance, outro o modelo epistolar, sorriram entre-olhando-se.

    –E você como tem passado por aqui sem mim, minha flor?–perguntou
    Carlos, mexendo-lhe nos papeis–Cada vez mais bonito, cada vez mais
    contente.

    –Adeus, adeus. Não bula ahi, homem! Que é o que quer? que é o que quer?

    –Lumes. Não ha lumes n'esta casa? que diabo!…

    –Eu logo vi. Não pensa senão em fumar. Espere lá, espere lá. Não me
    desarranje isso. Eu dou-lhe lumes, eu dou. Ora ahi tem. E deixe-me.

    Carlos accendeu um charuto e offereceu outro a cada um dos caixeiros,
    que os afagaram com olhares ávidos, mas sem se atreverem a aceital-os.

    –Fumem–insistia Carlos.

    Manoel Quentino levantou os olhos e fixou-os nos dois rapazes.

    Sob a influencia d'aquelle olhar, hesitaram ainda.

    Carlos obrigou-os porém a aceitar, offereceu-lhes lume para accenderem,
    e emquanto o faziam, voltou-se para Manoel Quentino, e vendo a cara de
    contrariado com que ficava, aproximou-se d'elle:

    –Que tem você, Manoel Quentino? Deixe fumar os rapazes. Não seja
    fossil.

    –Se o pae vier por ahi, cuida que ha de gostar de… E demais a mais, é
    distrahil-os do serviço…

    –Que serviço? Olhem o grande serviço que elles
    faziam!–Rapaz–acrescentou logo depois, dirigindo-se ao perseguidor das
    moscas da janella–vae á rua de Santo Antonio saber se aquelle meu
    casaco está prompto… e chega de caminho ao theatro de S. João,
    pergunta pelo bilheteiro e dize-lhe que vaes de meu mando tomar seis
    cadeiras para a recita de quinta-feira… entendes? Seis cadeiras;
    depois…

    –E faz favor de me dizer quando é que elle ha de levar a
    correspondencia ao correio?–perguntou com mau humor Manoel Quentino.

    –Eu sei lá d'isso? Anda, vae…

    –Mas…

    –Ora! mande ao correio quem quizer… Avia-te. Salta.

    O rapaz saíu a correr.

    Manoel Quentino encolheu os hombros.

    Carlos dirigiu-se á janella, que abriu de par em par. Uma rajada de
    vento, entrando na sala, fez esvoaçar toda a papelada da banca de Manoel
    Quentino.

    –Lá vae! lá vae! lá vae tudo com os diabos!–exclamou o
    guarda-livros–Adeus, minha vida; estou arranjado!

    Carlos desatou a rir.

    –Isso; ria-se, que tem muita graça! Então os senhores que
    fazem?–perguntou, descarregando as iras sobre os caixeiros–Ponham-se á
    palestra e a fumar, e eu que trabalhe; hein?

    –Deixe estar que eu apanho isso–disse Carlos, continuando a rir.

    E todos quatro principiaram a apanhar os papeis, dispersos por a sala.

    –Vão lá saber agora…–proseguiu Manoel Quentino–vão lá saber agora a
    ordem em que eu tinha tudo isto! Olhem… olhem… Ficou bonita a carta
    do correspondente de Liverpool! Sim, senhores! Olhem para estas contas
    da gerencia da capella ingleza! Tambem ficaram asseiadas! Pois estas
    apolices… E o maldito cão a afocinhar-me na agua aquella minuta!…
    Passa fóra! Eh!… passa fóra, tratante.

    E voltando á escrivaninha pôz-se a coordenar outra vez os papeis.

    –Ó Manoel Quentino–perguntou-lhe Carlos já da janella–quem é aquella
    rapariga que está aqui defronte no terceiro andar? Aquella cara é nova
    para mim.

    –Eu sei lá d'isso, homem? Tomára que me deixassem.

    –Quem é, ó Paulo, você ha de saber. Um rapaz da sua idade…–disse
    Carlos, dirigindo-se familiarmente a um dos caixeiros.

    Era este um rapaz ainda imberbe, pallido, com certo fundo de melancolia,
    transparecendo por debaixo do jovial sorriso, proprio dos seus, ainda
    incompletos, dezoito annos.

    Á pergunta de Carlos, aproximou-se da janella.

    –Não sei–disse depois de ver a pessoa designada–não a conheço. O
    Pires ha de saber.

    Pires era o nome do outro caixeiro, que por sua vez foi chamado.

    E todos tres, em resultado d'esta conferencia, ficaram encostados á
    varanda, praticando em varios assumptos de igual momento.

    Manoel Quentino, que já tinha posto por ordem os papeis, olhava de
    quando em quando para a janella e principiava:

    Trai la rai…

    trauteava o hymno da Carta.

    O vento, depois de prejudicar a papelada do guarda-livros, dirigiu os
    seus furores contra a pituitaria do mesmo; Manoel Quentino começou a
    espirrar.

    –Deus me salve!–dizia elle de cada vez.

    Á quinta não teve mão em si, que não dissesse a Carlos:

    –O' snr. Carlos! Ora a fallar a verdade, homem! Isso sempre é um gosto
    exquisito! Ahi posto á janella com este vento dos diabos! Eu já
    estou…–e espirrava outra vez–já estou constipado.

    –N'esse caso recolho-me–disse Carlos, fechando a janella e vindo
    debruçar-se na escrivaninha de Manoel Quentino, o qual começára de novo
    a correspondencia.

    –Sim, senhor, snr. Manoel Quentino;–dizia Carlos expellindo uma
    baforada de fumo, á qual o velho fez caretas–você será parente de
    Quentino Durward, de que falla o Walter Scott? Você sabe quem era o
    Walter Scott, Manoel Quentino?

    –Eu não, senhor…–respondeu o velho, continuando a escrever.

    –Walter Scott era um romancista. Sabe o que é ser romancista? Diga-me,
    já leu algum romance?

    –Não, senhor, que tenho mais que fazer.

    –Pois deixe estar que lhe hei de emprestar romances para ler…

    –Muito agradecido.

    –O primeiro ha de ser _O Cavalheiro de_…

    Os dois caixeiros fungaram do outro lado da sala.

    –_De Harmental_–concluiu maliciosamente Carlos–e acrescentou:–Não
    sei de que se riem estes senhores.

    –É porque teem a vida muito canceirosa–respondeu Manoel Quentino.

    –Depois hei de emprestar-lhe a _Mademoiselle_…

    O mesmo effeito nos caixeiros.

    –_Mademoiselle de La Seiglière_–delicada concepção de Jules
    Sandeau–concluiu Carlos, olhando-os com gravidade comica.

    –Adeus, já me fez enganar!–exclamou Manoel Quentino–Por sua causa
    escrevi agora–cavalheiro–em vez de–Companhia.

    –Isso emenda-se.

    –Ha de emendar boas cousas.

    –Emenda, sim. Olhe d'esse _a_ faz-se bem um _o_; depois o _m_ fórma-se
    do _v_ e do…

    –O remedio é outro…

    E com exemplar paciencia começou nova carta.

    –Oh! com os diabos! Então vae outra vez principiar?

    –É o que o senhor faz.

    –O caso é que você tem bonita lettra! Invejo-lh'a. Se me ensinasse a
    escrever assim!

    –Não precisa.

    E, para fixar a attenção, ia dizendo em voz alta o que escrevia:

    –Recebi o seu favor de 14 do corrente e em resposta…

    –Não preciso? Preciso tal–proseguiu Carlos–rapariga a quem eu
    escreva…

    –Do nosso ajuste–dizia Manoel Quentino, e fallando para Carlos
    alternadamente:–Elle ahi vem com as raparigas; o que eu lhe queria eram
    os cuidados!…–O preço do genero…

    –Então parece-lhe indigno o assumpto? Ora diga, Manoel Quentino, diga
    se, quando era rapaz, não massava tambem com o tal assumpto os velhos do
    seu tempo.

    –E a competente commissão.–Não que eu, quando era rapaz, já tinha mais
    em que cuidar…–Em vista pois das ordens recebidas…–Cuida que me
    levantava ao meio dia para pensar em moças, e que me deitava lá por
    altas horas, inda por causa d'ellas?

    –Então que fazia você?–insistia Carlos, tomando a penna e desenhando
    uma figura na margem do jornal do dia.

    –Com lucros provaveis…–O que eu fazia bem o sei; ainda me não
    esqueceram as madrugadas dos meus vinte annos…

    –Ah! madrugadas!… Bem entendo!…

    –Para trabalhar, para trabalhar! Está muito enganado, se cuida que
    todos tiveram a sua vida. Bom era isso!–A fallencia da casa Rodrigues
    e…

    –Grande vida a minha!–continuava Carlos–Ha lá nada mais semsabor?
    Veja que precioso tempo perdido n'esta soturna sala.

    E ao dizer isto ia, insensivelmente, sem reparar no que fazia,
    aproximando a penna da borda da carta, que Manoel Quentino escrevia, e
    quasi principiava a desenhar algum ornato n'ella.

    –Oh! oh!–exclamou o velho, arredando-lhe a mão–Que ia fazer? Se lhe
    parece, suje-me agora a carta.

    Carlos ergueu-se rindo e pôz-se a passeiar na sala.

    –O pae inda não veio hoje aqui?

    –Ha que tempos!

    –E não volta?

    –Ha de voltar, se Deus quizer.–É preciso fechar isto mais cêdo
    hoje–continuou Carlos.–Estes senhores precisam de gosar o carnaval.

    –Bom carnaval é o d'este mundo!

    –Que horas são?

    –Duas e vinte minutos–Respondeu Manoel Quentino, sem olhar para o
    relogio e não errando meio minuto.

    –Se meu pae…–principiava a dizer Carlos, mas foi interrompido pelo
    ranger das botas de Mr. Richard, que se ouviu nas escadas.

    Restabeleceu-se a ordem no escriptorio.

    Os caixeiros pozeram-se a escrever, e o proprio Carlos pegou em uma
    folha ingleza e fez que a examinava na secção commercial.

    Manoel Quentino curvou-se ainda mais sobre a banca e moveu com maior
    agilidade a penna sobre o papel paquete, em que estava escrevendo.

    Mr. Richard entrou no escriptorio com o rosto jovial e assobiando uma
    das suas predilectas toadas inglezas; mas, graças ao duro ouvido musical
    de que era dotado o velho _gentleman_, tão transtornada lhe saía ella,
    que o proprio auctor lhe custaria de certo a reconhecel-a.

    O _Butterfly_, com a leveza, que justificava o nome de lepidoptero, que
    lhe tinham posto, atravessou a sala e foi cumprimentar o seu companheiro
    _terra-nova_, o qual, sentado, com a lingua de fóra, o recebeu com
    benevola, mas sisuda, magestade.

    Todos se ergueram á entrada de Mr. Richard, em cujo rosto um olhar,
    exercitado em estudal-o, facilmente descobriria certa expressão de
    contentamento, despertada pela vista do filho, o qual, elle, n'aquelle
    dia, estava bem longe de esperar alli.

    O plano de Jenny sortira bom effeito.

    Mr. Richard dirigiu-se immediatamente ao seu gabinete particular. Carlos
    foi ter com elle, para lhe pedir a benção e ao mesmo tempo aproveitou a
    occasião para lhe agradecer o relogio e para desculpar-se de não ter
    assistido na vespera ao jantar de familia.

    Mr. Richard Whitestone já não tinha cousa alguma no coração contra o
    filho. A vinda d'este ao escriptorio fora bastante para dissipar a menor
    sombra de resentimento.

    –Não teve duvida–repetia elle muitas vezes, interrompendo a longa
    justificação de Carlos–não teve duvida, não teve duvida… Pois… esse
    relogio é de um fabricante muito acreditado, e, segundo o homem affirma
    aos compradores, não fará differença de meio minuto em cinco annos!
    Talvez seja confiança de mais!–acrescentou, rindo com vontade.

    –Ou cegueira paternal–observou Carlos, rindo como elle.

    –Sim, sim, ou isso, cegueira paternal, sim–concordou Mr. Richard,
    rindo cada vez mais e experimentando elle mesmo tambem os effeitos da
    tal cegueira.

    E em seguida destapou duas garrafas de cerveja de Bass, tirou do armario
    uma copiosa provisão de bolacha e, na companhia do filho, celebrou a sua
    terceira refeição d'aquella manhã.

    Passados minutos, voltaram ambos ao escriptorio nas melhores disposições
    d'este mundo.

    Se Jenny os podesse ver então, como exultaria de contentamento!

    Mr. Richard encaminhou-se para a escrivaninha de Manoel Quentino, Carlos
    sentou-se na escrivaninha opposta, e fingiu examinar os livros
    commerciaes.

    Mr. Richard dirigiu varias perguntas ao guarda-livros, sobre alguns
    negocios pendentes, ás quaes Manoel Quentino deu respostas laconicas,
    mas peremptorias.

    O inglez consultou depois algumas cartas, entregou outras ao
    guarda-livros, tomou notas, expediu ordens, examinou a escripturação,
    abriu o copiador e, de repente, voltando as costas a Manoel Quentino e
    dirigindo-se a Carlos:

    –Já leste a carta do nosso correspondente em Londres?–perguntou com
    affabilidade.

    –Ainda não, senhor.

    –Manoel Quentino! Então porque lh'a não mostrou?!–disse o pae,
    voltando-se outra vez para o guarda-livros; e depois acrescentou de novo
    para Carlos:–Ha noticias importantes e que fazem prever a probabilidade
    de ser este um anno de vantajosas transacções, se por acaso…

    –É um homem diligente, Mr. Leeson–notou Carlos, querendo dizer alguma
    cousa, mas com tanta infelicidade, que trocou o nome do correspondente
    de Londres pelo do de Liverpool.

    –Ho!–disse logo Mr. Richard, mortificado–Leeson!… de Londres!
    Repara!… de Londres!?

    Carlos conheceu que tinha sido inconveniente a observação, mas o peior
    era que não sabia corrigil-a, pois que de todo lhe esquecera o nome do
    tal correspondente.

    –Ai, de Londres…–dizia elle embaraçado.–Eu julguei que… sim, de
    Londres; é que me pareceu…

    Mr. Richard esperava ouvir o verdadeiro nome, pronunciado por o filho;
    mas não succedeu assim.

    Manoel Quentino, que tinha bem fundados motivos–motivos, que o leitor
    deve prever quaes fossem–para não julgar de instante necessidade pôr
    Carlos Whitestone ao corrente das noticias commerciaes, abriu comtudo a
    escrivaninha e, procurando a carta em questão, levou-a a Carlos, não
    podendo disfarçar um sorriso, ao qual este correspondeu com ligeiro
    movimento de hombros.

    Carlos, em vez de citar o nome do correspondente, pôz-se portanto a
    examinar a carta.

    –Falle-lhe n'aquelle negocio da aguardente–disse Manoel Quentino quasi
    ao ouvido de Carlos, antes de se retirar outra vez para a banca onde
    escrevia.

    Mr. Richard pozera-se a passeiar na sala, esfregando as mãos, e de
    quando em quando parava junto da vidraça, onde tocava um ligeiro rufo.
    Não estava ainda de todo restabelecido da má impressão que lhe causára o
    haver encontrado o filho tão pouco sciente do nome dos correspondentes
    da casa.

    Carlos ficou a olhar para a carta commercial, mas julgo que nem a lia.
    Estava pensando como havia de aproveitar o conselho, pouco explicito, de
    Manoel Quentino e fallar ao pae no tal problematico negocio da
    aguardente, para elle inteiramente mysterioso.

    Temia, referindo-se-lhe aventuradamente, aggravar as difficuldades da
    sua posição, longe de diminuil-as.

    Manoel Quentino continuava a escrever, lançando para Carlos, ao molhar
    da penna, um sorriso malicioso.

    Este pousou a carta.

    O pae olhava-o obliquamente, como a esperar alguma reflexão.

    Carlos fitou ainda Manoel Quentino, o qual lhe fez um imperceptivel
    signal.

    Carlos aventurou-se:

    –Emquanto ao negocio da aguardente…–disse elle com certa
    hesitação–nada…

    O effeito foi maravilhoso!

    Mr. Whitestone voltou-se com viveza e, sem disfarçar a intima
    satisfação, que lhe causava ver o filho tão bem informado, exclamou:

    –Ah! tambem reparaste? Foi o que logo me deu que entender. Cuidei que
    nem estavas ao facto!

    Carlos, animado com o resultado, proseguiu com mais coragem:

    –Como era negocio de vulto…

    Manoel Quentino fez porém uma carêta, que o levou a corrigir.

    –Isto é… de vulto não digo… mas…

    –Mas que podia bem vir a sel-o para o futuro … é assim–atalhou Mr.
    Richard.

    –Exactamente–concordou o filho.

    Manoel Quentino sorria.

    –Mas já estive a pensar–proseguiu Mr. Richard–talvez influissem
    n'isto as condições do mercado em Londres. Subiria o genero a ponto de
    exceder o maximo indicado nas nossas cartas.

    –Póde ser, mas…–dizia Carlos, olhando para Manoel Quentino, á espera
    de receber inspirações d'alli.

    Este affeiçoou os labios como para pronunciar uma palavra, que a Carlos
    pareceu dever ser «juro». Por isso abalançou-se outra vez a dizer:

    –E tambem o juro…

    Parou, porque devéras não sabia o que devesse dizer do juro, nem se era
    natural imaginar que tivesse subido ou descido.

    Manoel Quentino moveu a cabeça em direcção do tecto, exprimindo
    mimicamente a primeira hypothese.

    –Talvez o juro subisse–concluiu, em vista d'isto, Carlos Whitestone.

    Mr. Richard aproveitou a insinuação do filho, e evidentemente satisfeito
    notou com vivacidade:

    –Effectivamente o juro está muito alto em Londres.

    –Ha muito tempo que o não tivemos tão desfavoravel–apressou-se Carlos
    em dizer, d'esta vez sem hesitar, visto que dava apenas nova fórma á
    mesma ideia.

    –É verdade que não. Creio até que ainda n'estes ultimos dez annos não
    subiu tanto, como agora.

    Carlos percebeu em Manoel Quentino um movimento de desapprovação, que o
    animou a dizer:

    –Isso é que não sei; dez annos será demais, comtudo…

    –Olha que não é demais–insistiu Mr. Richard, devéras admirado das
    informações do filho; e, depois de meditar algum tempo, continuou,
    voltando-se para o guarda-livros:–Em que anno teve logar aquella quebra
    da casa Blackfield de Londres, Manoel Quentino?

    –Em outubro de 1847–respondeu este, sem levantar os olhos da escripta.

    –Em 47?–Ai, então tens razão, tens; 47 a 55… 8… É isso… Porque
    eu lembro-me de que estava então o juro a 8 por cento.

    –E d'essa vez–acrescentou Manoel Quentino–o cambio era-nos mais
    desfavoravel que hoje.

    –É isso, é isso.

    Esta conversa prolongou-se por algum tempo com visivel satisfação de Mr.
    Richard, com bastante difficuldade para Carlos e com superior diplomacia
    do bondoso Manoel Quentino, que estava sendo collaborador de Jenny, na
    obra de pacificação domestica, encetada por ella.

    Ouviram-se emfim tres horas na torre de S. Francisco, e Mr. Richard,
    depois de ultimo exame aos livros e algumas recommendações mais, saíu do
    escriptorio, dando as boas tardes a Manoel Quentino, fazendo a Carlos um
    signal de despedida, menos sêcco do que de ordinario, e, o que mais era,
    afagando na passagem o _terra-nova_, cousa que não praticava, senão em
    occasiões de grande harmonia com o filho.

    Ainda mal se tinha perdido nas escadas o som dos passos de Mr. Richard e
    o dos latidos de contentamento do _Butterfly_, impaciente de liberdade,
    já a carta do correspondente de Londres, descrevendo uma parabola, vinha
    caír na escrivaninha ao lado de Manoel Quentino, e Carlos accendia novo
    charuto e dispunha-se a seguir o exemplo paterno.

    –Até que soou a hora da redempção!–exclamou elle, pondo o chapéo na
    cabeça.

    –Então já se vae embora?–disse Manoel Quentino, maliciosamente.

    –E acha você que não tomei dóse bastante de commercio esta manhã? Isto
    em pleno carnaval? Que impiedade!

    –Eh! eh! eh! E que me diz do tal negocio da aguardente? Então com que,
    está alto o juro, hein? Eh! eh! eh!

    –Vi-me devéras embaraçado com a tal aguardente!

    –Mas saíu-se bem.

    –Agradeço-lhe o auxilio.

    –Quer mandar dizer alguma cousa ao correspondente a tal respeito?

    –Que vá para o diabo! Não me pôde occorrer o arrevezado nome d'esse
    maldito. Como se chama elle?

    –Então não sabe ainda? Woodfall Hope… Uma das primeiras firmas
    commerciaes de Londres; e n'este negocio da aguardente…

    –Não, isso mais devagar, Manoel Quentino–atalhou Carlos–não lhe aturo
    nem mais uma palavra a respeito do tal negocio da aguardente. Boas
    tardes. Adeus, meus senhores. Deixem isso e vão ver as mascaras. Adeus.

    –_Farewell_! Mr. Charles… Eh! eh! eh!…

    Dentro em pouco, ouvia-se o descer apressado de Carlos, e a pancada
    violenta da meia cancella do portal impellida de encontro ao batente.

    O escriptorio voltou ao primeiro silencio. A Praça estava quasi deserta.
    Como era terça-feira de carnaval, terminára mais cêdo a azafama do
    commercio. Os caixeiros bocejavam e o chiar da penna de Manoel Quentino
    augmentavam o effeito somnifero do logar.

    De repente porém foi mais ruidosamente interrompido o silencio por o
    «Trai larai, larai, larai, lai» do guarda-livros.

    O bom homem, revendo o trabalho feito, descobriu omissões e enganos, que
    o obrigavam a refazel-o outra vez; a isto procedeu com exemplarissima
    paciencia.

    Voltou a si todas as culpas.

    –Ora eu devia ter mais juizo. Ainda me deixo distrahir como as
    creanças; merecia palmatoadas.

    Depois, lembrando-se de Carlos:

    –Aquelle traquinas tambem! Valha-me Deus!

    Em seguida para os caixeiros:

    –Os senhores podem ir embora. Vão ás mascaras, vão; e olhem se teem
    juizo e não arruinem a saude. Adeus. Eu ainda fico.

    –Mas se quer que o ajudemos, snr. Manoel Quentino…–disseram elles,
    por deferencia.

    –Eu quero, mas é que me deixem. Vão com Deus.

    Os caixeiros não se fizeram rogar.

    –Agora, juizo–continuou Manoel Quentino, ficando só–juizo, senão só
    chego a casa á noite, e a Cecilia ha de estar com canceira já. Como se
    transtornou hoje tudo! Eu, que contava acabar com isto mais cêdo, pois
    levava o serviço adiantado e vae… Como diabo lhe deu o rapaz para vir
    hoje ao escriptorio?… Bom moço, isso lá é, um coração de pomba… A
    cabeça é que… E n'isto de negocio, então!… Eh! eh! eh!… E o pae a
    imaginar ha pouco… A gente sempre tem cegueiras pelos filhos! Cala-te,
    bôca, que tambem não pódes fallar! Coitados dos paes! E o velho quer-lhe
    devéras… Toda a sua pena é o rapaz não tomar gosto para o commercio.
    Aquillo tambem muda… Verduras! Bom rapaz! bom rapaz! Tem a quem saír.
    O pae, um homem de bem ás direitas… a mãe era uma santa senhora…
    Pois a irmã? Isso então nem fallemos… Um anjo! E pensar que não são
    catholicos! A fallar a verdade! Ora adeus! protestantes d'estes, que
    remedio tem S. Pedro senão ir recebendo-os no céo.

    Em consequencia da visita de Carlos, só ás tres e meia foi que Manoel
    Quentino pôde terminar a sua tarefa e fechar o escriptorio, para voltar
    a casa com appetite no estomago e tranquillidade no coração. Já vê o
    leitor que tinha razão Carlos ao assegurar que não era das mais
    proveitosas a sua ingerencia nos negocios commerciaes.

    X

    JENNY

    Jenny entrou no seu quarto, logo depois da partida de Carlos para o
    escriptorio. Era um delicioso quarto, côr de violeta, onde se divisava o
    bom gosto e a elegancia desaffectada, maravilhosamente unidos a um não
    sei quê de austeridade ingleza, não em tal grau que destruisse a feição
    leve e graciosa, que compete aos aposentos de uma mulher de vinte annos,
    mas bastante para os despojar de certo excesso de ornamentos, que em
    extremo agradam a alguns espiritos, mais que femininos, pueris.

    Não lhe era cabida a descripção, que um romancista francez nos faz do
    quarto de uma das suas heroinas, pintando-nos tão abundantes as
    tapeçarias e alcatifas que, em todo elle, se não mediria uma pollegada
    de madeira a descoberto, e tão flacidas e macias, que n'essa gaiola
    perfumada poderia qualquer avesita voar, de canto a canto, sem receio de
    magoar as azas.

    Este requinte de molle elegancia parisiense mal se quadrava com a indole
    séria e com a actividade natural de Jenny Whitestone. Ha em toda a
    ingleza um pouco de puritana; no caracter das mais ternas conserva-se
    sempre alguma cousa que, debaixo do ponto de vista moral, corresponde
    áquelle esbelto e inflexivel de fórma, que lhes é proprio, tão diverso
    do requebrar indolente e quasi morbido das mulheres meridionaes.

    Não se encontrava no quarto de Jenny um unico objecto d'essa mobilia,
    quasi de boneca, dos _boudoirs_ da moda, onde predominam o _papier
    maché_, o pau rosa, a madeira branca e dourada; e os primores de uma
    arte, que, á força de querer apurar em delicadeza os seus productos, os
    faz ás vezes acanhados e ridiculos.

    A elegancia, alli, não abdicava certa dignidade, á qual hoje é raro
    combinar-se. Nenhum dos costumados artificios da industria moderna; tudo
    era o que parecia ser; o marmore, marmore; o bronze, bronze; o damasco,
    damasco; as rendas, rendas verdadeiras. Não havia nos moveis esses
    tenuissimos folheados, mascarando, com madeiras de preço, outras de
    menos valor; nenhumas d'essas maravilhas de imitação, obtidas com
    vernizes e tintas; nenhuns metaes enfeitados, pelo galvanismo, com
    falsos titulos de nobreza. Nem um só objecto mentia dentro d'aquelle
    recinto.

    Os caracteres, naturalmente observadores da boa fé, até n'estas cousas a
    amam.

    A côr predominante do quarto, de um tom que agradaria a pintores, fazia
    vantajosamente sobresair a alvura dos cortinados do leito, castamente
    descidos.

    Côres mais garridas só as das camelias, que, em singelas jarras de
    _biscuit_ e porcellana, adornavam o toucador e o fogão.

    Não usurpavam o logar, devido ás pobres flores, essa profusão de
    quinquilharias, hoje tanto á moda: vidros de essencias, de pomadas, de
    oleo, cartonagens de todos os feitios, figuras de porcellana e de jaspe,
    flores de pennas, de papel, de sola, de cascas de cebolas, de tudo com
    preferencia ás verdadeiras; retratos de rainhas e de reis, sabonetes de
    varias côres e fórmas e uma infinidade de pequenos objectos, que dão a
    qualquer d'esses gabinetes a apparencia de bazar ou de exposição de
    feira.

    Alguns bronzes de arte, alguns purissimos crystaes de Inglaterra,
    algumas bonitas floreiras e uma ou outra obra de litteratura ou de
    religião, n'aquellas inimitaveis brochuras inglezas, era o mais que alli
    se podia ver.

    As paredes estavam limpas de arrebicadas lithographias coloridas,
    representando meninas a disfarçarem um sorriso atraz do leque, a
    brincarem com um gato, a cheirarem uma flor, a olharem-nos através de
    uma luneta e em outras muitas posições todas affectadas, de tão
    graciosas que querem ser; em vez d'este adorno, então commum nas salas
    do Porto, notavam-se as mais afamadas producções do inexcedivel buril
    britannico e algumas aquarellas, cópias fieis de paizagens inglezas.

    A luz penetrava na sala por entre discretas venezianas e cortinas, que
    lhe temperavam a intensidade, até o grau adequado aos habitos de viver
    de Jenny.

    De tudo emfim vinha a este quarto um aspecto de placido recolhimento, em
    que se aprazia o espirito, pensador e inclinado á melancolia, da
    amoravel irmã de Carlos.

    Era alli dentro que, corridos os reposteiros e as cortinas, recostada ás
    mãos a fronte pensativa, em silencio, a sós, tantas vezes, como agora, a
    sympathica menina se entregava a meditações abençoadas de Deus, e das
    quaes dimanavam jubilos suaves para quantos de perto a rodeiavam.

    Agitado o coração de saudades, sempre vivas e pungentes, contemplava
    n'esses momentos, com fervor quasi religioso, o retrato da mãe, fiel e
    mimosa miniatura, que recatava como a mais preciosa das suas joias.

    A imagem d'aquella, que a estremecera tanto e que parecia ainda olhal-a
    com um bondoso sorriso, que nem a morte lhe apagára dos labios, produzia
    em Jenny a mais poderosa impressão.

    Ás vezes, á força de muito a contemplar, figurava-se-lhe que essas
    amadas feições se animavam, que um ligeiro movimento lhe corria nos
    labios, que um raio de vida fulgia, por instantes, nos olhos tão cheios
    de piedade e de tristeza.

    Que alegria para o coração da pobre Jenny! Persuadia-se de que a alma da
    mãe, evocada pela sympathia filial, passára alli, illuminára
    momentaneamente a imagem inerte, e abençoára a filha, que tão pequena
    deixára orphã de apaixonadas caricias.

    Esta illusão vivia com Jenny; era n'ella um d'esses intimos segredos do
    coração humano, para os quaes não há confidentes possiveis. Perante a
    amizade mais provada, perante o amor mais extremoso, a alma, por
    expansiva que seja, não se revela toda. Ha uma parte obscura do nosso
    mundo interior, sempre inaccessa aos olhares estranhos, onde se refugiam
    esses muitos segredos do eu para o eu, segredos, de que nós mesmos nos
    ririamos, se os labios ousassem pronuncial-os um dia;–que não ousam. Ha
    exemplos de perfumes tão subtis, que, aberto o vaso que os contém, quasi
    instantaneamente se dissipam na atmosphera; assim estes mysterios
    interiores, inconsistente alimento da nossa phantasia, perdem-se tambem,
    ao tentarmos communical-os.

    Guarde cada um para si essa parte do pensamento, superstições
    infundadas, crenças pueris, que não podem separar-se de nós, sem que nós
    proprios as desconheçamos e com os estranhos zombemos d'ellas, das
    pobres, que não nasceram para viver senão assim, presas á alma, de cuja
    essencia parece receberem vida.

    São como umas delicadas algas maritimas, cuja textura tenuissima se
    expande na agua em formosas arborisações, illudindo as esperanças dos
    que, namorados de tanta belleza, as arrancam de lá; fóra do ambiente, em
    que vegetam, cêdo se mirram e desformam.

    Bem lucida e forte era a razão de Jenny, e comtudo, no mundo interior,
    nutria a crença illusoria–pelo menos illusoria me parece, a mim que de
    fóra a examino–de que aquelle retrato de sua mãe não tinha uma
    expressão invariavel.

    Eu queria dizer que isto era sentido, e não pensado, pela bondosa
    menina; mas não sei se o rigor philosophico me permittirá a linguagem; e
    comtudo não vejo como de outra sorte dar conta d'este frequente
    phenomeno psychologico–o da persistencia de certas crenças irracionaes,
    nos espiritos mais vigorosos e logicos.

    Dias havia, em que nos traços e delineamentos d'aquella miniatura, Jenny
    julgava descobrir um ar de alegria, que logo se lhe insinuava no
    coração; outros em que, pelo contrario, ganhavam vulto a seus olhos não
    sei que sombras de tristeza que a faziam estremecer, como se fossem
    presagio de mal.

    Seriam reflexos de presentimentos proprios, que então a illudiam?
    Talvez; e ficar-se-ha comprehendendo melhor o mysterio, interpretando-o
    assim?

    Presentimentos! Que espirito philosophico ha ahi, que os admitta?

    Jenny era ainda uma creança, quando perdeu a mãe; no meio dos jogos e
    dos brinquedos infantis veio um dia surprendel-a este profundo golpe no
    coração; ao seu lado, crescera o mal ameaçador e terrivel, mas, no
    descuido de tão tenros annos, só dera por elle, quando a victima lhe
    caía prostrada nos braços. Feliz idade, a d'estas imprevidencias! N'um
    momento a vida inteira se lhe affeiçoou muito diversa, do como até então
    a antevira. Cêdo, muito cêdo, aquella creança franzina e debil, recebeu
    a solemne investidura da sacrosanta missão de mulher; transmittiu-lh'a a
    mãe, já moribunda; legou-lhe, nos derradeiros instantes, a tarefa
    abençoada, que até o fim cumprira, sem um só dia de desalento.

    Apertando nas mãos já frias as da filha lacrimosa, que só então vira a
    morte, que, tanto havia, a ameaçava nos seus mais queridos affectos,
    incumbiu áquelles poucos annos o pesado encargo da familia; e com a voz
    trémula e os olhos turvados pelas sombras do adormecer final, disse-lhe
    que a essas mãos ia deixar entregue a paz da vida interior, a felicidade
    dos seus; que a ellas confiava os thesouros e balsamos de affeições e de
    carinhos, com que, no lar domestico, se sanam tantas dores e
    desillusões, colhidas lá fóra, nas luctas da sociedade; depois, cingindo
    ao peito a filha, como em extrema recommendação, para a qual as palavras
    lhe faltavam já, morreu beijando-a; ungiu-a de suas ultimas lagrimas e
    impressionou-lhe a mente infantil a ponto que a orphã, depois de a
    chorar sobre o tumulo, levantou-se mulher, mulher apesar dos seus doze
    annos, mulher pela sisudez dos pensamentos, pela consciencia viva e
    fervente da sua nova missão.

    É um ensino efficaz o do infortunio! Desde essa hora fatal, como que se
    abriram os olhos de Jenny para verem mais fundo no coração d'aquelles
    que era dever seu tornar felizes. Só então principiou a reflectir que,
    entre os corações mais nobres e puros, se estabelecem ás vezes
    contrastes, de que podem resultar conflictos dolorosos; que o infortunio
    e as miserias da vida nem sequer proveem da funesta influencia do mal,
    de que se tenha deixado eivar completamente uma alma humana; que mais
    vezes é do encontro de duas paixões, na essencia generosas, que a
    tempestade se origina. No alto mar, um vento dominante póde governar o
    movimento e a derrota de um navio, mas é necessario que seja extrema a
    sua violencia, para que elle, por si só, o faça sossobrar; penetre porém
    o vaso mais poderoso no seio d'esses redemoinhos, que formam os ventos
    encontrados; e a submersão será quasi inevitavel.

    É assim na vida.

    Não basta que sejam grandes e sympathicos os caracteres, que laços de
    familia ou de sociedade prendem uns aos outros, para que entre elles
    exista harmonia. Que nas suas orbitas os animem movimentos contrarios, e
    serão já de temer os embates e as perturbações fataes.

    A natureza physica tambem nos mostra como venenos energicos resultam ás
    vezes da combinação de elementos inoffensivos.

    Tudo isto se foi esclarecendo, á força de meditações, no espirito da
    pequena Jenny, que tão precoce adeus teve de dizer áquellas espontaneas
    e não motivadas alegrias da infancia, que n'ella findaram com o ultimo
    suspiro da mãe.

    E cêdo foi, muito cedo para uma creança ingleza que, de ordinario, na
    idade em que as outras principiam já a querer ser senhoras, brinca
    alegre e descuidada nos parques, correndo, saltando, rindo, sem se
    affligir por a fimbria dos vestidos ainda se lhe não humedecer na relva.

    Esta livre expansão, que sabem e costumam dar á alegria as pequenas
    inglezas, é talvez a causa de serem desaffectadamente sérias, quando
    emfim a natureza, e não a arte prematura, as faz mulheres.

    Cessaram pois em Jenny os risos d'essa idade, risos expansivos e
    irreprimiveis, que a cada palavra, que á menor causa rebentam, como da
    laranjeira florida chovem sobre o prado as pétalas nevadas e fragrantes,
    á mais leve viração que lhe agita a folhagem.

    Afez-se a reflectir, a votar-se toda á felicidade dos seus, procurando
    insinuar-se nos pequenos segredos de caracter de cada um, para os
    dirigir, sem lucta funesta, na mesma esphera de acção, no mesmo circulo,
    em que tinham de viver.

    Desde essa época principiou a crescer e a vigorar com rapidez o
    predominio de Jenny em toda a familia–suave sujeição, grata aos que a
    supportavam, como uma benção do céo.

    Até então amára-se em Jenny uma creança meiga, cujas graças joviaes
    faziam distrahir o espirito de preoccupações mais sérias; cêdo porém
    tomou esse amor diverso e mais respeitoso caracter.

    Em Mr. Richard Whitestone á affeição protectora, de que rodeiava a
    filha, principiou a misturar-se uma deferencia, que tinha seus vestigios
    de veneração; em Carlos, a familiaridade que as idades quasi iguaes e os
    jogos e estudos communs haviam feito nascer entre ambos, degenerou
    gradualmente em um sentimento de mais respeito, em uma docil submissão,
    que em todos os seus actos se denunciava.

    Forte com esta dupla preponderancia, ía cumprindo Jenny religiosamente o
    legado da mãe, sempre com o pensamento n'ella, sempre com os olhos na
    sua imagem, na qual julgava entrever os reflexos da alegria ou da
    tristeza, que a sorte da familia devia por certo despertar n'aquella
    alma de justa, que a contemplava do céo.

    Este oraculo, para todos mudo, só eloquente para os sentidos da filha,
    consultava-o Jenny com ardente fé ao encerrar-se sósinha no quarto, onde
    a luz e o rumor de fóra penetravam discretamente, como convinha a logar
    de tão piedosos mysterios.

    Era triste a imagem d'esta vez!

    Triste porquê?

    Se os labios da irmã de Carlos trahissem n'aquelle momento as ideias,
    que tão profundamente a absorviam, elles fallariam d'este modo:

    –Pobre mãe! porque venho encontrar-te assim triste? Não passaria ainda
    a nuvem d'esta manhã?… Mas era tão ligeira!… tão leve! que a mim
    mesma me inquietou pouco. Que adivinhas tu, boa mãe?–Isto pensava, ao
    beijar o retrato–Alegra-te; Carlos deve estar agora no escriptorio;
    pobre Carlos! É tão bondoso aquelle coração! Como elle havia de amar-te,
    como havia de acariciar-te, mãe, se ainda vivesses comnosco! Poucos o
    conhecem bem. Mas por que estás ainda triste? Has de ver como voltarão
    amigos. É facil reconciliar aquelles corações, que a final tanto se
    estremecem! Uma ou outra nuvem, que passe entre ambos, gera-a o mesmo
    excesso de amor. Parece-me que ia dizer como tudo se passou. A vista de
    Carlos foi bastante para dissipar todo aquelle resentimento…
    resentimento proprio de quem muito estima!… Então! Já não tens
    confiança na tua filha? Bem vês como todos aqui me querem. Elles de
    certo vêem em mim alguma cousa do teu espirito, mãe, para serem assim
    tão doceis com uma pobre rapariga. É á tua alma, á tua alma, que me
    acompanha, que elles obedecem a final. Continúa ao meu lado, mãe, e eu
    serei forte; não me abandones, e verás que não ha fundamentos para
    apprehensões. E ainda triste!–E beijava o retrato–E ainda!… e
    ainda… e ainda!…–beijava-o repetidas vezes.

    Depois tentava a razão dissipar aquelas piedosas illusões:

    –Estou louca!–pensava então Jenny–Pois como póde um retrato…

    Aproximava-se mais da luz.

    As illusões voltavam outra vez, como volta o enxame de abelhas que o
    vento afasta das flores.

    –Não sei, não sei como isto é, não posso saber… mas esta expressão é
    mais triste do que a de hontem… De que procede esta tristeza?… A
    maneira por que me fallou do baile de hontem… O baile! … acaso …
    aquela mascara?… Mas que póde resultar d'alli?… Meu Deus! diria que
    ainda te pozeste mais triste! Deverei pois acreditar…

    N'isto ouviu passos fóra da porta.

    Quebrou-se o encanto! Como que se extinguiu toda a impressão do retrato
    para os sentidos, meio allucinados, da commovida…
    visionaria–chamar-lhe-hei assim?–Apressou-se em escondel-o.

    A figura de Luiza, aquella mesma criada que já conhecemos, appareceu no
    limiar.

    –Que é, Luiza?

    –É a filha do snr. Manoel Quentino.

    –Ah! chegou finalmente Cecilia? Que entre, Luiza, que entre. Nem sei
    para que a fez esperar–acudiu Jenny com vivacidade.

    Era Cecilia uma das suas mais affeiçoadas amigas.

    XI

    CECILIA

    Passados momentos, entrava no quarto, ligeira como uma andorinha,
    risonha como uma creança, a filha de Manoel Quentino. Era a unica
    familia que o velho guarda-livros tinha no mundo.

    Jenny estendeu-lhe affectuosamente a mão … e «beijaram-se», pensará a
    leitora. Pois não beijaram, não, minha senhora; as inglezas poupam muito
    mais esse thesouro dos beijos, do que as mulheres dos outros paizes; um
    amigavel aperto de mãos, um sorriso, uma phrase affectuosa… e mais
    nada. Será para os fazer mais apreciados, quando concedidos?

    Cecilia era um modelo da belleza portugueza, e portuense talvez, nas
    suas mais felizes realisações.

    É costume entre nós, quando se quer exaltar, no conceito dos leitores, a
    belleza de uma mulher, classifical-a entre as hespanholas, entre as
    italianas, entre as allemãs, e entre as inglezas, mas nunca entre as
    nossas compatriotas, que soffrem, ha muitos annos, com sublime
    resignação de martyres, esta velha e flagrante injustiça.

    Parece que o typo nacional é indigno de referencia, e que só quando
    d'elle aberra e, por um capricho da natureza, reveste a feição
    estrangeira, é que uma figura de mulher merece as fórmulas, mais ou
    menos sonoras e hyperbolicas, da nossa admiração.

    É vulgar ouvir-se dizer:–«Como é bella! Ha n'aquelle todo vaporoso
    certo ar germanico!»–«Que mulher! Tem o _salero_ de uma
    hespanhola!»–«Que magestade! que _morbideza_! É uma perfeita _madonna_
    italiana!»–«Que poetica gravidade! Dir-se-hia uma candida _lady_!» O
    que porém se não ouve, pelo menos o que eu ainda não ouvi, é: «–Que
    sympathica rapariga! É uma portugueza perfeita!»

    A causa d'isto é o sermos nós uma nação pequena e pouco á moda, acanhada
    e bisonha n'esta grande e luzida sociedade europeia, onde por obsequio
    somos admittidos, dando-nos já por muito lisongeados, quando os
    estrangeiros se deixam, benevolamente, admirar por nós.

    Falta-nos certo uso de sociedade, que ensina cada qual a occupar o seu
    logar. Quando não encarecemos exageradamente as cousas patrias, á
    maneira d'aquelle sujeito que vimos n'um dos grupos da Praça, caímos no
    excesso opposto e nem sequer fallamos d'ellas, como se nos corressemos
    da origem.

    Bem que peze á vaidade nacional, é forçoso o fazer aqui, em familia, uma
    confissão:–Nós temos o defeito d'aquelles provincianos que, nos
    circulos da capital, suffocam envergonhados, como cousa de mau gosto,
    uns restos de amor da terra, que ainha os punge, e deitam-se a exaltar,
    com affectação altamente comica, os prazeres e commoções da vida das
    grandes cidades, que ainda mal gosaram e ainda mal saboreiam;–fallam
    dos theatros, dos bailes, da cantora da moda, do escandalo do dia, sem
    se atreverem a dizer uma palavra pelo menos das arvores, das paizagens,
    das tradições, dos costumes locaes, do conchego domestico da sua
    provincia, o que porventura os outros lhe escutariam com mais vontade; e
    no fim de tudo ficam mais ridiculamente provincianos, do que nunca.

    Assim tambem os portuguezes, acanhados nos circulos da Europa, não ousam
    conferir diplomas de excellencia a cousa que lhes pertença;
    envergonham-se de fallar nas riquezas patrias, emquanto abrem a bôca,
    por convenção, a tanta insignificancia que, em todos os generos, a
    vaidade estrangeira apregôa como primores: levam o excesso da modestia,
    se é só modestia isso, até receiarem que as vistas dos estranhos
    averiguem do que lhes vae por casa, e agradecem, com effusões de
    sensibilidade, uma ou outra phrase de louvor, que, em momentos raros,
    elles lhes concedem.

    Se ousamos fallar de Camões, ao mesmo tempo que de Tasso, de Dante e de
    Milton; se ousamos apregoar o vinho do Porto, junto com o de Xerez,
    Chateau-Laffite e Tokay, é porque lhes deram lá fóra o diploma de
    fidalguia; que por nós … continuariamos, calados, a ler um e a beber o
    outro, sem bem conhecermos a preciosidade que liamos e que bebiamos, ou
    pelo menos correndo-nos de uma nos parecer sublime, e a outra deliciosa.

    Ainda que se taxe um dos similes de menos delicado, é certo que o mesmo
    succede com as bellezas femininas; costumamo-nos ás exclamações á
    moda:–«Ah! as hespanholas!»–«Oh! as italianas!»–«Ai, as allemãs!» e
    julgariamos de mau gosto dizer em publico:–«As portuguezas!» até sem
    interjeição prévia a encarecer-lhes a valia.

    E isto fazem-o até muitos, que nunca transpozeram as barreiras d'esta
    cidade, onde não abundam os typos d'essas varias bellezas exoticas.

    Eu porém atrever-me-hei a arvorar a bandeira puritana n'esta campanha
    gloriosa.

    De certo não serão os leitores que m'o levarão a mal.

    Deus me defenda de querer, por forma alguma, ferir a fama tradicional de
    todas as já estudadas e classificadas bellezas, admittidas e exaltadas,
    como taes, no mundo inteiro; a minha tolerancia abrange todas; queria
    sómente que se abrisse tambem logar para as nossas patricias, que bem
    merecem essa distincção.

  • Os Simples

    Os Simples

    Aproximadamente 8.264 palavras.

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    Portugal).)

    GUERRA JUNQUEIRO

    *Os Simples*

    PORTO

    TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL

    MDCCCXCII

    OS SIMPLES

    IMPRIMIRAM-SE D'ESTE LIVRO:

    1 exemplar em papel pergaminho
    16 exemplares em papel Wathman

    Todos estes exemplares são assignados e numerados pelo auctor.

    GUERRA JUNQUEIRO

    *Os Simples*

    PORTO

    TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL

    MDCCCXCII

    A F.

    _Querida:

    É este por emquanto o meu melhor livro.
    Pertence-te.

    teu J._

    *PRELUDIO*

    I

    A CAMINHO

    (_Abril, ao raiar d'alva. Por uma encosta de sementeiras, pastos,
    olivedos e amendoaes em flor vae um loiro peregrino adolescente, d'olhos
    ingenuos e extasiados no alvor da estrella da manhã_.)

    Um Lavrador

    (_de noventa anos, em mangas de camísa a lavrar uma terra_)

    Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de esp'rança,
    Ides de caminho para algum logar?

    O Peregrino

    Vou dar volta ao mundo…

    O Lavrador

    Sem arnez ou lança?!
    Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de esp'rança,
    Penas e miserias é o que ireis achar!…

    Uma Velhinha

    (_mais adiante_)

    Ó Senhor tão novo, d'olhos inocentes,
    Ides com cuidados para um tal andar!…

    O Peregrino

    Vou a prender monstros, combater serpentes…

    A Velhinha

    Ó Senhor tão novo, d'olhos inocentes,
    Os dragões ferozes vam-no espostejar!…

    Uma Joven Camponeza

    (_mais adiante_)

    Ó Senhor tão novo, d'olhos encantados,
    Ides pela fresca para algum pomar?

    O Peregrino

    Vou-me a ler Destinos, descobrir os Fados…

    A Camponeza

    Ó Senhor tão novo, d'olhos encantados,
    Feiticeiros negros vam-no enfeitiçar!…

    Uma Pastorinha

    (_mais adiante_)

    Ó Senhor tão novo, d'olhos tão brilhantes,
    Vossos olhos disem que ides p'ra casar…

    O Peregrino

    Vou fazer tesoiros, fabricar diamantes…

    A Pastorinha

    Ó Senhor tão novo, d'olhos tão brilhantes,
    Ha ladrões nos bosques, vam-no assassinar!…

    Um Mendigo

    (_mais adiante_)

    Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de chama,
    Vossos olhos ardem como a luz solar!…

    O Peregrino

    Vou descobrir mundos, quero gloria e fama!…

    O Mendigo

    Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de chama,
    Sobe o pó mais alto que os trovões do mar!…

    A Estrella D'Alva

    Ó creança, d'olhos côr da flor dos linhos,
    Por infernos deixas tua paz, teu lar!…

    O Peregrino

    (_desaparecendo ao longe_)

    Florirei as pedras pelos maus caminhos!
    Levo a luz dos astros e as canções dos ninhos
    A sorrir nos beijos e a tremer no olhar!…

    II

    DE VOLTA

    (_Crepusculo, Novembro. Pela encosta fria e desnudada vae andando,
    esfarrapado e exangue, um pobresinho triste, arrimado ao bordão_.)

    Um Lavrador

    (_de cem anos, ainda robusto, à porta do casebre_)

    Mendigo d'olhos sem esp'rança,
    Vaes-te perder na escuridão…
    Entra em meu lar; dorme, descança…

    O Pobresinho

    (_andando sempre_)

    Quem dera a paz divina e mansa,
    Velho, que tens no coração!…

    Uma Velhinha

    (_a resar à porta do moinho_)

    Mendigo d'olhos sem ventura,
    Dentro da azenha ha um enxergão;
    Terás lençoes, terás fartura…

    O Pobresinho

    (_andando sempre_)

    Eu só quizera essa candura,
    Irmã da Graça e da Ilusão!…

    Uma Camponeza

    (_que vem da vindima_)

    Mendigo d'olhos d'engeitado,
    Na nossa casa ha vinho e pão;
    E ha leite fresco; e ha mel doirado…

    O Pobresinho

    (_andando sempre_)

    Tua alegria sem cuidado,
    Eis o que eu busco… em vão! em vão!…

    Uma Pastorinha

    Mendigo d'olhos de coveiro,
    Trago a merenda no surrão;
    O queijo é bom, mas é grosseiro…

    O Pobresinho

    (_andando sempre_)

    Dá-me o teu riso feiticeiro,
    Lirio do monte inda em botão!

    Um Pedinte

    Mendigo d'olhos na agonia,
    Dou-te o meu manto e o meu bordão;
    Nada mais levo… a noite é fria…

    O Pobrezinho

    (_andando sempre_)

    Apenas ai! desejaria
    Tua cristã resignação!…

    A Estrella Vesper

    Ó sonhador louco d'outrora,
    Teus sonhos lindos onde estão?!
    Ebrio da luz, rico d'aurora,
    Vi-te partir… e vejo agora
    Um morto erguido d'um caixão!

    Teus olhos fulvos namorei-os
    De dia e noite, da amplidão:
    Vi-os sorrir entre gorgeios,
    Vi-os cantar e vi-os cheios
    De pranto e febre e indignação!
    Regressa emfim, é teu destino,
    Á paz obscura, á submissão…
    E outra vez meigo e pequenino
    Deixa dormir, como um menino,
    Teu velho e exhausto coração!…

    O Pobresinho

    (_chorando_)

    Só tu, estrella, me conheces
    Em minha dor, minha aflição!…
    Só tu não dormes, não esqueces…
    Só tu ouviste as minhas preces…
    Bemdito, estrella, o teu clarão!

    Setembro–91.

    I

    *A MOLEIRINHA*

    A MOLEIRINHA

    Pela estrada plana, toc, toc, toc,
    Guia o jumentinho uma velhinha errante.
    Como vão ligeiros, ambos a reboque,
    Antes que anoiteça, toc, toc, toc,
    A velhinha atraz, o jumentito adiante!…

    Toc, toc, a velha vae para o moinho,
    Tem oitenta anos, bem bonito rol!…
    E comtudo alegre como um passarinho,
    Toc, toc, e fresca como o branco linho,
    De manhã nas relvas a córar ao sol.

    Vae sem cabeçada, em liberdade franca,
    O gerico russo d'uma linda côr;
    Nunca foi ferrado, nunca usou retranca,
    Tange-o, toc, toc, a moleirinha branca
    Com o galho verde d'uma giesta em flor.

    Vendo esta velhita, encarquilhada e benta,
    Toc, toc, toc, que recordação!
    Minha avó ceguinha se me representa…
    Tinha eu seis anos, tinha ella oitenta,
    Quem me fez o berço fez-lhe o seu caixão!…

    Toc, toc, toc, lindo burriquito,
    Para as minhas filhas quem m'o dera a mim!
    Nada mais gracioso, nada mais bonito!
    Quando a Virgem pura foi para o Egipto,
    Com certeza ia n'um burrico assim.

    Toc, toc, é tarde, moleirinha santa!
    Nascem as estrellas, vivas, em cardume…
    Toc, toc, toc, e quando o galo canta,
    Logo a moleirinha, toc, se levanta,
    P'ra vestir os netos, p'ra acender o lume…

    Toc, toc, toc, como se espaneja,
    Lindo o jumentinho pela estrada chan!
    Tão ingenuo e humilde, dá-me, salvo seja,
    Dá-me até vontade de o levar á egreja,
    Baptisar-lhe a alma p'ra a fazer cristan!

    Toc, toc, toc, e a moleirinha antiga,
    Toda, toda branca, vae n'uma frescata…
    Foi enfarinhada, sorridente amiga,
    Pela mó da azenha com farinha triga,
    Pelos anjos loiros com luar de prata!…

    Toc, toc, como o burriquito avança!
    Que prazer d'outrora para os olhos meus!
    Minha avó contou-me quando fui creança,
    Que era assim tal qual a jumentinha mansa
    Que adorou nas palhas o menino Deos…

    Toc, toc, é noite… ouvem-se ao longe os sinos,
    Moleirinha branca, branca de luar!…
    Toc, toc, e os astros abrem diamantinos,
    Como estremunhados cherubins divinos,
    Os olhitos meigos para a ver passar…

    Toc, toc, e vendo sideral tesoiro,
    Entre os milhões d'astros o luar sem veo,
    O burrico pensa: Quanto milho loiro!
    Quem será que moe estas farinhas d'oiro
    Com a mó de jaspe que anda alem no ceo!…

    Novembro de 1888.

    II

    *CADAVER*

    I

    PRESTITO FUNEBRE

    Que alegrias virgens, campezinas, fremem
    N'este imaculado, limpido arrebol!
    Como os galos cantam!… como as noras gemem!…
    Nos olmeiros brancos, cujas folhas tremem,
    Refulgente e novo passarinha o sol!…

    Pela estrada, que entre cerejaes ondea,
    Uma pequerrucha,–tro-la-ró-la-rá!–
    Vae cantando e guiando o carro para a aldeia…
    São os bois enormes, e a carrada cheia
    Com um castanheiro apodrecido já.

    Oh, que donairosa, linda boieirinha!
    Grandes olhos garços, sorrisinho arisco…
    D'aguilhada em punho lepida caminha,
    Com a graça aerea d'ave ribeirinha,
    Verdilhão, arveola, toutinegra ou pisco.

    Loira, mas do loiro fulvo das abelhas;
    Fresca como os cravos pelo amanhecer;
    Brincos de cerejas presos nas orelhas,
    Na boquita rosea tres canções vermelhas,
    Na aguilhada, ao alto, uma estrelinha a arder!

    Descalcinha e pobre, mas sem ar mendigo,
    Nada mais esvelto, mais encantador!
    Veste-a d'oiro a gloria do bom sol amigo…
    O chapeu é palha que inda ha um mez deu trigo,
    A saíta é linho inda ha bem pouco em flor!…

    E os dois bois enormes, colossaes, fleugmaticos,
    Na aleluia imensa, triunfal, da aurora,
    Vão como bondosos monstros enigmaticos,
    Almas por ventura d'ermitões extaticos
    Ruminando biblias pelos campos fora!…

    Ao arado e ao carro presos noite e dia,
    Como dois grilhetas, quer de inverno ou v'rão!
    E, submissos, uma pequerrucha os guia!
    E nos sulcos que abrem canta a cotovia,
    As boninas riem-se e amadura o pão!…

    Levam as serenas frontes magestosas
    Enramalhetadas como dois altares:
    Madresilvas, loiros, pampanos, mimosas,
    Abelhões ardentes desflorando rosas,
    Borboletas claras em noivado, aos pares…

    E eis no carro morto o castanheiro, emquanto
    Melros assobiam nos trigaes alem…
    Heras amortalham-no em seu verde manto…
    Deu-lhe a terra o leite, dá-lhe a aurora o pranto…
    Que feliz cadaver, que até cheira bem!…

    Musgos, lichens, fetos,–chimica incessante!–
    Fazem montões d'almas d'essa podridão…
    Já n'esse esqueleto seco de gigante,
    Sob a luz vermelha, n'um festim radiante,
    Mil milhões de vidas polulando estão!…

    Sempre á fortaleza casa-se a doçura:
    Como o leão da Biblia morto n'um vergel,
    Do seu tronco ainda na caverna escura
    Um enxame d'oiro rutilo murmura,
    Construindo um favo candido de mel!…

    Oh, os bois enormes, mansos como arminhos,
    Meditando estranhas, incubas visões!…
    Pousam-lhes nas hastes, vede, os passarinhos,
    E por sobre os longos, torridos caminhos
    Dos seus olhos caem bençãos e perdões…

    Chorarão o velho castanheiro ingente,
    Sob o qual dormiram sestas estivaes?
    Almas do arvoredo, o seu olhar plangente
    Saberá acaso misteriosamente
    Traduzir as lingoas em que vós fallaes?!…

    Castanheiro morto! que é da vida estranha
    Que no ovario exiguo d'uma flor nasceu,
    E criou raizes, e se fez tamanha,
    Que tresentos anos sobre uma montanha
    Seus tresentos braços de colosso ergueu?!…

    Onde a alma, origem d'essas formas bellas?
    Em tão varias formas que sonhou dizer?
    Qual a ideia, ó alma, convertida n'ellas?
    E desfeito o encanto, que nos não revelas,
    Que aparencias novas tomará teu ser?…

    Noite escura!… enigmas!… Ai, do que eu preciso,
    Boieirinha linda, linda d'encantar,
    É d'essa inocencia, d'esse paraiso,
    Da alegria d'oiro que ha no teu sorriso,
    Da candura d'alva que ha no teu olhar!…

    Grandes bois que adoro, p'ra fortuna minha,
    Quem me dera a vossa mansidão christã!
    Arrotear os campos, fecundar a vinha,
    E nos olhos garços d'uma boieirinha,
    Ter duas estrellas virgens da manhã!…

    E tambem quizera, mortos castanheiros,
    Como vós erguer-me para o sol a flux,
    Dar tresentos anos sombra aos pegureiros,
    E n'um lar de choça, em festivaes braseiros,
    A aquecer velhinhos, desfazer-me em luz!…

    1889.

    II

    IN PULVIS…

    Oh, que noite negra, que invernia brava!
    Nem uma estrellinha pelo ceo reluz!
    Chora o vento ao longe com a voz tão cava,
    Como quando dizem que de dor chorava
    Toda a santa noite em que expirou Jesus!…

    Vem sanguinolentos gritos muribundos
    Das soturnidades torvas do horisonte!…
    Já nos ermos andam lobos vagabundos…
    Já os rios cheios, com bramidos fundos,
    N'um diluvio d'agoa vão de mar a monte!…

    Em casal de serras arde o castanheiro,
    Lampada de pobres a fazer serão;
    De redor do grande, festival braseiro,
    A velhinha, o velho, o lavrador trigueiro,
    A mulher, os filhos, o bichano e o cão.

    Queima-se o gigante, rude centenario,
    Que jamais os astros hão-de ver florir…
    E do seu cadaver o esplendor mortuario
    Faz d'essa choupana quasi que um sacrario
    Com uma alma d'oiro dentro d'ella a rir!…

    Tem o velho ao colo o seu netinho doente;
    –Morte negra, foge do telhado, ó, ó…–
    E no lar as brasas simultaneamente
    Dizem para o anjo:–tudo é oiro ardente…
    Dizem para o velho:–tudo é cinza e pó!…

    Quantas vezes, quantas! por manhãs radiantes
    Em pequeno, alegre como um colibri,
    Não trepara aos braços todos verdejantes
    D'esse castanheiro, que n'alguns instantes
    Ha-de ver em cinzas já desfeito ali!…

    Quantas vezes, quantas! lhe bailara em torno!
    Quantas noites, quantas! elle ali dormia
    Pelo mez das ceifas, quando o luar é morno,
    E das restolhadas, quentes como um forno,
    Se evolavam cheiros d'arreçã bravia!…

    Como não sentir um entranhado afecto,
    Como não amal-o com veneração,
    Se lhe dera a trave que sustenta o tecto,
    Se lhe dera o berço onde repoisa o neto,
    Se lhe dera a tulha onde arrecada o pão!

    Fez com elle o jugo e fez com elle o arado;
    Fez com elle as portas contra os vendavaes;
    E com elle é feito o velho leito amado,
    Onde se deitara para o seu noivado,
    E onde já morreram seus avós, seus paes!

    E o bom velho embala o seu netinho doente…
    –Morte negra, foge… dorme, dorme… ó, ó…–
    E, fitando as chamas simultaneamente,
    Ri-se a creancinha, vendo o oiro ardente,
    Lagrimeja o velho, vendo cinza e pó!…

    A velhinha resa, resa afervorada…
    Tão velhinha e branca, branca de jasmins,
    Que a idealiso e creio d'esplendor banhada,
    Entre palmas verdes até Deos levada
    N'um andor de rosas pelos serafins…

    Resa pelos mortos… resa á virgem pura…
    Desde a sua infancia tão ditosa e bella,
    Já d'essa choupana (como a noite é escura!)
    Quantos tem partido para a sepultura,
    Quantos tem ficado dentro d'alma d'ella!…

    Dentro d'alma d'ella, triste campo santo,
    Muitas almas vivem mortas a sonhar!…
    Vivem mortas, mudas, n'um dorido encanto…
    Nos seus olhos vitreos cristalisa o pranto,
    Nos seus labios roxos fosforece o luar…

    E essas almas fluidas que ella traz comsigo,
    –Talisman da crença, magico poder!–
    Frias como a neve vem do seu jasigo,
    Vem sentar-se todas no logar antigo,
    A chorar á roda do braseiro a arder!…

    Ai dos pobres mortos que não tem fogueiras,
    Nem velhinhas santas que lhe deem luz!
    Sob leivas, onde ninguem põe roseiras,
    Umas sobre as outras juntam-se as caveiras,
    Dando sangue aos vermes, podridões á Cruz…

    D'esses desgraçados, mortos no abandono,
    Onde estão as almas? P'ra que Deos as fez?
    Quando o vento uivando lhes perturba o somno
    Pela treva errantes, como cães sem dono,
    Andarão perdidas a ulular talvez!…

    Pois até por essas que ninguem conforta
    A velhinha chama… e todas ellas vem…
    –Vinde pobresinhas, (como o vento as corta!)
    Vinde aqui sentar-vos, que eu vos abro a porta,
    A aquecer-vos, filhas, ao meu lar tambem!–

    E a dos olhos garços pastorinha bella
    Fia no seu fuso linho por corar;
    É trigueiro o linho, trigueirinha é ella…
    Rodopia o fuso… quando for donzella,
    Já terá camisas para se ir casar!…

    E esse fuso alegre onde se enrosca o linho
    Já foi ramo verde n'esse tronco em brasas:
    Deu já cachos brancos como o branco arminho,
    Já sobre elle a ave construiu seu ninho,
    Já sobre elle amando palpitaram azas!…

    Fuso como giras em dedinhos breves
    Prasenteiramente, com tão louco ardor!
    Que estarás fiando?… que enxovaes?… que neves?
    Se serão camisas, ou mortalhas leves,
    Cama para bodas, ou lençoes de dor!…

    No vetusto escano o lavrador sombrio
    Pensa na courela… Santo Deos, Jesus!
    Se a tormenta engrossa, se lha leva o rio,
    Como é que hade o gado pelo ardor do estio
    Sustentar-se a piornos de fraguedos nus!…

    Choram ventanias!… panica tristeza!…
    Sentem-se na loja bois a ruminar…
    Queixas insondaveis vem da naturesa!…
    Quanto monstro mudo, quanta lingoa presa,
    Contemplando a Noite sem poder fallar!…

    Ronronando ao lume, dorme o cão e o gato.
    Almas misteriosas, em que sonharão?…
    Como que n'um dubio lusco-fusco abstracto,
    De ter sido tigre lembra-se inda o gato?…
    De ter sido hiena lembra-se inda o cão?…

    Eis as brasas mortas… Eil-o já converso
    O castanheiro em cinza, em fumo vão, em luz…
    Luz e fumo e cinza tudo irá disperso
    Reviver na vida eterna do universo,
    Circulo de enigmas, que ninguem traduz…

    Sempre, sempre, sempre, cinza, fumo e chama
    Viverão, morrendo a toda a hora… sempre!…
    Nuvem que troveja, calix que enbalsama,
    Planta, pedra, insecto, humanidade, lama,
    Serão tudo, tudo!… inconcebivel!… Sempre!

    Mas a alma, as almas quem as ha criado?
    Qual a origem d'onde a sua essencia emana?…
    Ah, em vão levanto o triste olhar magoado
    Para os olhos d'ouro que do azul sagrado
    Lançam as estrellas á miseria humana!…

    Oh em vão!… que os astros, onde em sonho habito,
    São tambem fogueiras sobrenaturaes,
    Que na pavorosa noite do Infinito
    Crepitando espalham seu clarão bemdito,
    Suas alvoradas roseas, virginaes,

    Para em torno d'ellas se aquecerem mundos
    A tremer com frio, a soluçar com dor,
    Miseraveis monstros cegos, vagabundos,
    Atravez d'eternos turbilhões profundos,
    N'um virtiginoso, angustioso horror!…

    E ardam astros d'oiro, ou ardam castanheiros,
    No Infinito imenso ou n'um tugurio assim,
    Fica a mesma cinza d'esses dois braseiros,
    Atomos errantes, sonhos vãos, argueiros
    Na inconsciencia calma da amplidão sem fim!…

    E o mundo e os mundos a girar na altura
    Como vós, ó velhos, morrerão tambem…
    Blocos de materia fria, sem verdura,
    Errarão na vaga imensidade escura,
    Cemiterio d'astros que nem cruzes tem!…

    Dormirão? oh, nunca!… vão eternamente
    Circular na eterna vida universal:
    Nebulosa fluida, lavareda ardente,
    Lodo, o mesmo lodo, como antigamente,
    Com os mesmos dramas entre o Bem e o Mal!…

    Formas da materia, que eu em vão desnudo,
    Que invisiveis forças, e almas encobris?
    Quem o sabe? A Morte, que conhece tudo…
    Mas o enigma impresso no seu labio mudo
    Só na treva aos mortos é que a morte o diz!…

    Só a Morte o sabe… mais a Fé que abrasa,
    Que penetra as coisas com o seu olhar!
    Não ha fé na alma, não ha luz na casa…
    A rasão é um verme, mas a crença é aza…
    Verme! aos infinitos poderás chegar!…

    Ó velhinha santa, minha boa amiga,
    Resa o teu rosario, move os labios teus!…
    A oração é ingenua? Vem de crença antiga?
    Não importa! resa, minha boa amiga,
    Que orações são lingoas de falar com Deos!…

    Ha pedintes cegos de inspiradas frontes,
    Com estrellas n'alma, com visões mentaes,
    Que atravessam rios, que vão dar com fontes,
    Que andam por agrestes, solitarios montes,
    Sem errar a estrada, sem cahir jamais!…

    Pelos bosques ermos, onde venta e neva,
    Com os seus farrapos mais o seu bordão,
    Marcham por milagre na continua treva…
    Oh, dizei, dizei-me quem os guia e leva?
    Que prodigio oculto? que invisivel mão?

    Pois, velhinha branca, tua crença pura,
    Tua resa antiga, que me faz chorar,
    É egual aos cegos, que na noite escura
    Não precisam d'astros para ver a altura,
    Não precisam d'olhos para ter olhar!

    No Infinito mudo tua ingenua crença,
    Tremula ceguinha de risonho alvor,
    Eil-a andando, andando, como que suspensa,
    Pelos descampados d'uma noite imensa,
    Vastidões d'assombros, amplidões d'horror!…

    E onde a aguia, o genio de pupila ovante,
    Tem vertigens, auras, desfalece e cae,
    A ceguinha debil, vagabunda, errante,
    D'olhos ás escuras. Infinito adiante,
    N'um enlevo aereo perpassando vae!…

    Branca e pequenina, ligeirinha e leve,
    Corta por abismos, plagas sem faroes,
    Stepes infindaveis que ninguem descreve,
    Lugubres desertos de mudez e neve,
    Bategas de brasas, turbilhões de soes!…

    Vae andando, andando, té que emfim cercada
    D'uma aleluia mystica de luz,
    Com o bordãosinho que a amparou na estrada
    Bate ás portas d'oiro da feliz morada,
    Presbiterio d'Almas, onde está Jesus!…

    Vem um anjo abril-as; a ceguinha mansa
    Põe-se de joelhos, em adoração…
    Diz-lhe o anjo:–Toma, guarda esta lembrança:
    Uma palma d'astros, a luzir Esp'rança,
    Que á velhinha humilde levarás na mão!

    E, ave pressurosa recolhendo ao ninho,
    Já com alimento para os filhos seus,
    Eil-a que regressa por egual caminho,
    E vem dar-te, ó santa, côr de jaspe e arminho,
    Tão amada ofrenda que te envia Deos!…

    Resa esse rosario, santa lagrimosa!
    Sobre os teus joelhos deixa-me deitar!
    Triste da minh'alma!… vê, que desditosa!…
    Unge-m'a de bençãos, mão religiosa!…
    Cobre-m'a de graças, cristalino olhar!…

    Resa-lhe baixinho, minha boa amiga!
    Resa-lhe rosarios de orações ideaes!
    Morta de miseria, morta de fadiga,
    Deixa que ella durma na pureza antiga…
    Que ella durma… sonhe… e não acorde mais!…

    89.

    III

    *EIRAS AO LUAR*

    EIRAS AO LUAR

    Alvor da lua nas eiras,
    Nem linhos de fiandeiras,
    Nem veos de noivas ou freiras,
    Nem rendas d'ondas do mar!…
    Sobre espigas d'ouro bailam as ceifeiras,
    Na aleluia argentea do clarão do luar!…

    Bailae sob as lagrimosas
    Estrellinhas misteriosas,
    Scintilações, nebulosas,
    Fremitos vagos d'empyreos!…
    Deos golpeia a aurora p'ra dar sangue ás rosas,
    Deos ordenha a lua p'ra dar leite aos lirios!…

    Ai, medas de prata e oiro,
    De lua branca e pão loiro,
    Malhadas no malhadoiro,
    A enfeitiçar e a fulgir!…
    Oh, bailae á volta d'esse bom tesoiro,
    Que é a codea negra que ceaes a rir!…

    Quem nas ladeiras e prados,
    Com as lanças dos arados,
    Abriu sulcos e valados
    Na terra gelida e nua?
    Oh, bailae á volta desses bois deitados,
    Que estão d'olhos tristes adorando a lua!…

    Que bandos de passarinhos,
    Vem lá de campos maninhos,
    De fraguedos, de caminhos,
    Jantar aqui, merendar!…
    Oh, bailae em volta de milhões de ninhos!
    Oh, bailae cantando para os acordar!…

    Entre as palhas do centeio,
    Quantas esmolas no meio,
    Que deixam lirios no seio
    E as mãos escorrendo luz!…
    Oh, bailae em volta do celeiro cheio!
    Oh, bailae á volta dos mendigos nus!…

    Quanta hostia consagrada,
    –Pão da ultima jornada!–
    Dorme na meda encantada
    Ao luar tão leve e tão lindo!…
    Oh, bailae em volta d'essa mó doirada,
    Que bailaes á volta de Jesus dormindo!…

    Alvor da lua nas eiras,
    Nem linhos de fiandeiras,
    Nem veos de noivas ou freiras,
    Nem rendas d'ondas do mar!…
    Oh, bailae ceifeiras, lindas feiticeiras,
    Na aleluia argentea do clarão do luar!…

    Setembro–91.

    IV

    *AS ERMIDAS*

    AS ERMIDAS

    Alvas ermidinhas sob azues maguados,
    Vejo-vos de longe n'uma adoração,
    Como ninhos brancos de Ideal pousados
    Lá n'esses fragosos montes escalvados,
    Onde não ha agoa, nem germina o pão.

    Serranias ermas, solidões contritas…
    Azinheiras como velhos Briarcus….
    Pedras calcinadas… gados parasitas…
    Tristes montes ermos! ermos cenobitas,
    Que em burel d'estevas amortalha Deos!…

    Pelas torvas, fundas noites de invernada,
    Quando os lobos uivam, quando a neve cae,
    Que infinitos sustos n'uma tal morada,
    Para debil virgem tão desamparada
    Com um inocente nos seus braços… ai!

    Como é que não treme pelo seu menino?
    Como é que não chora seu piedoso olhar?
    Como é que o seu labio, fresco e matutino,
    Se abre n'um sorriso, precursor divino
    Da estrellinha d'alva quando vae raiar?!

    Não receia feras quem de rosto ledo
    Sofre sete espadas sobre o coração!…
    E ao filhinho a noite não lhe causa medo,
    Deu-lhe Deos o mundo para seu brinquedo,
    Como um fructo d'oiro tem-no ali na mão!…

    Lá nos altos montes sem trigaes, nem vinhas,
    Sem o bafo impuro que dos homens vem,
    É que a mãe de Christo com as andorinhas,
    E as estrellas d'oiro mesmo ali visinhas,
    N'um casebre terreo se acomoda bem.

    Bispos não precisa; servem-na pastores,
    Capelães d'ovelhas, mais o seu zagal…
    Lampada ás Trindades, chão varrido, flores,
    Nada falta á Virgem, mãe dos pecadores,
    N'uma egrejasinha que é como um pombal.

    E nas brutas, rudes solidões tão calmas
    Ai, muito se engana quem a julga só!
    Entre o luar dos hinos e o verdor das palmas,
    Para lá caminham romarias d'almas…
    Todos nós lá fomos com a nossa avó!…

    Oh, as invisiveis procissões piedosas,
    Romarias fluidas, sobrenaturaes!
    Por onde ellas marcham, brancas, vaporosas,
    Fica nos espaços um alvor de rosas
    E uma angelisante tremulina d'ais!…

    Almas de velhinhas, do palor silente
    D'uma estrella, quando desmaiando está…
    Vão buscar alivios p'ro netinho doente,
    Vão pedir noticias d'algum filho ausente,
    Vão rogar a Gloria para os mortos já…

    Almas de meninos, loiras como abelhas,
    A sorrir ao colo d'almas a cantar…
    Almas em noivados, roseas e vermelhas…
    E almas de pastores ofertando ovelhas,
    Chocalhinhos d'astros, velos de luar…

    Almas d'assassinos dos montados ermos,
    Com o seu remorso como um javali…
    Almas de mendigos, d'aleijões, d'enfermos…
    Almas vagabundas, de perdidos termos,
    Que atravessam agoas p'ra chegar ali!…

    Almas das corolas matinaes, dos ninhos,
    Das aradas verdes, da campina em flor…
    Almas de borregos, touros, passarinhos…
    E almas, sim! das urzes e hervas dos caminhos,
    Porque até nas fragas dorme o Sonho e a Dor!…

    E essas almas todas ella apasigua
    Com o dos seus olhos balsamo eficaz:
    Verte sobre as penas sugestões de lua,
    Mantos dá d'estrellas á miseria nua,
    Lagrimas aos crimes e ao remorso paz…

    Esconjura demos, bruxas, feiticeiras,
    E dos sonhos loucos o torpor febril…
    Dá verdura aos gados, chuva ás sementeiras,
    Faz bailar as moças ao luar nas eiras,
    Faz fugir os lobos vendo o seu candil.

    Mas tambem ha almas, pobresinhas d'ellas!
    Que á romagem d'oiro não acodem já!
    Almas moribundas… Noites de procellas…
    Olha nos casebres tremeluzem velas!…
    É signal que a Morte anda a rondar por lá!…

    Mas a sempre linda Virgem da Amargura
    Baixa do altarzinho toda afadigada,
    E atravez de serras, pela noite escura,
    De menino ao colo,–santa creatura!–
    Lá vae ella andando, não tem medo a nada!…

    Lá vae ella andando… no caminho estreito
    Deixa um rasto d'oiro pela escuridão…
    Deixa um rasto d'oiro de divino efeito,
    Porque as sete espadas, a fulgir no peito,
    Põem-lhe um setestrello sobre o coração…

    E de povo em povo, que é de serra em serra,
    Almas na agonia visitando vae;
    Quando chega, a Morte já as não aterra,
    Ella lhes dá azas p'ra voar da terra,
    Seu menino beijos p'ra levar ao Pae…

    Virgem das Angustias, Virgem da Bonança,
    Quantas noites, quantas! tremula de dor,
    Não vae ser parteira da ovelhinha mansa
    A parir, balando como uma creança,
    Entre fragaredos de meter horror!

    A deshoras mortas eil-a vigilante,
    Prompta a dar socorros ao menor queixume:
    Acender estrellas para o navegante,
    Ir levar ás mães o cordeirinho errante,
    Defender das cobras a ninhada implume…

    Pois como não ha-de consolar as dores
    Dos humildes, simples, engeitados, nus,
    Se inda se recorda de só ver pastores,
    Com cordeiros brancos, cantilenas, flores,
    Na sagrada noite em que pariu Jesus!…

    Sim! adora a rude gente da lavoira,
    Sementeiras, gados, matagaes, lebreus,
    Porque não se esquece da vaquinha loira,
    Que se poz de joelhos ante a mangedoira,
    Quando nas palhinhas dormitava Deos…

    E por isso arreda pestes, ventanias,
    Fomes e procellas, bruxas e trovão,
    Lá para malditas, negras penedias,
    Onde silvam cobras doudas e bravias,
    E onde não existe nem christão, nem pão!…

    E por isso ex-votos, que relembram dores,
    Cobrem de ternura todo o seu altar:
    Bustos de meninos, mãos de cavadores,
    Tranças de donzellas, soluçando amores…
    Corações e peitos, de fazer chorar!…

    Alvas capelinhas, sempre milagrosas,
    Sois n'essas alturas para os olhos meus,
    Como ninhos virgens d'orações piedosas,
    Miradoiros brancos de luar e rosas,
    D'onde as almas simples entreveem Deos!…

    90-91.

    V

    *CANÇÃO PERDIDA*

    CANÇÃO PERDIDA

    Halitos de lilaz, de violeta e d'opala,
    Roxas macerações de dor e d'agonia,
    O campo, anoitecendo e adormecendo, exhala…

    Triste, canta uma voz na sincope do dia:

    Alguem de mim se não lembra
    Nas terras d'alem do mar…
    Ó Morte, dava-te a vida,
    Se tu lha fosses levar!…

    Ó Morte, dava-te a vida,
    Se tu lha fosses levar!…

    Com o beijo do sol na face cadaverica,
    Beijo que a morte esvae em palidez algente,
    Eis a lua a boiar sonambula e chimerica…

    Doce, canta uma voz melancolicamente:

    O meu amor escondi-o
    N'uma cova ao pé do mar…
    Morre o amor, vive a saudade…
    Morre o sol, olha o luar!…

    Morre o amor, vive a saudade…
    Morre o sol, olha o luar!…

    Latescente a neblina opalica flutua,
    Diluindo, evaporando os montes de granito
    Em colossos de sonho, extasiados de lua…

    Flebil, chora uma voz no letargo infinito:

    Quem dá ais ó rouxinol,
    Lá para as bandas do mar?…
    É o meu amor que na cova
    Leva as noites a chorar!…

    É o meu amor que na cova
    Leva as noites a chorar!…

    A lua enorme, a lua argentea, a lua calma,
    Imponderalisou a natureza inteira,
    Descondensou-a em fluido e embebeceu-a em alma…

    Triste expira uma voz na canção derradeira:

    Ó meu amor, dorme, dorme
    Na areia fina do mar,
    Que em antes da estrella d'alva
    Comtigo me irei deitar!…

    Que em antes da estrella d'alva
    Comtigo me irei deitar!…

    Maio–91.

    VI

    *O PASTOR*

    O PASTOR

    Sinos a defuntos! ai, quem morreria!
    Olha, foi o pobre do Ti Zé-Senhor!…
    Velho tão velhinho nenhum outro havia…
    P'ra cumprir cem anos lhe faltava um dia,
    Ha noventa e quatro que era já pastor.

    Zagalzinho alegre, desde tenra infancia
    Já de surrãosito cheio a tiracol,
    A escalar montanhas com ardor, com ancia,
    Por pastagens bravas d'auroral fragancia,
    Branqueadinho a neve e doiradinho a sol!…

    A deserta, imensa, rustica paisagem,
    Cordilheiras, campos, astros d'oiro, luar,
    Tudo se invertera, por continua imagem,
    Em heroica, em livre candidez selvagem
    Na extasiada flor do seu ingenuo olhar.

    Ordenhado o leite, cantarinho cheio,
    Ala para a aldeia, por manhãs sonoras,
    Mordiscando a codea do seu pão centeio,
    Arrancando á frauta um pastoril gorgeio,
    Rapinando ás sebes chupa-meis e amoras.

    Fez-se moço e grande pelas serras brutas,
    Onde as aguias pairam, onde o roble medra,
    E onde os fragaredos barbaros, com grutas,
    Se encastelam crespos, infernaes, em lutas,
    Tal como tormentas de trovões de pedra!

    Cada serrania alcantilada e brava,
    Sob o azul d'Agosto, côr de fogo e pó,
    Recozida a febre e atordoada em lava,
    Lagrimeja apenas d'uma rocha cava
    Pranto, que o bebera uma ovelhinha só!

    E por essas fulvas, ingremes ladeiras
    Pastoreava o gado, quasi morto já:
    Só rochedos tristes, nus como caveiras,
    E zambulhos, zimbros, tojos, cornalheiras,
    Acres como pragas d'uma boca má!

    E depois as torvas, negras invernadas,
    Noites formidandas, lobos a ulular,
    Desmoronamentos, temporaes, nevadas,
    Carcavões abertos pelas enxurradas,
    Troncos de sobreiros de raiz ao ar!…

    Oh, as noites tristes, alapado e quedo,
    N'um covil de feras, ou algar deserto!…
    E dormia ao lume sem temor, sem medo,
    Pois Nossa Senhora, Virgem do Degredo,
    Na ermidinha branca lhe ficava perto…

    Mas no mez de Março pincaros maninhos,
    Montes cenobitas, d'ossos e burel,
    Vestem-se de trevos e de rosmaninhos,
    Com sorrisos d'oiro que alvoroçam ninhos,
    E distilam favos de inocencia e mel!…

    Era então alegre como o sol nascente,
    Mais feliz nos campos do que Deos no altar!
    Anhos e cabritos, leite rescendente,
    Pastos tão mimosos, que quizera a gente
    Transformar-se em ave para os não calcar!

    Tanto Abril florido, tanta calma adusta,
    Tantas inverneiras, sem pesar ou dor,
    Tinham-lhe gravado na expressão robusta
    Como que uma sombra de grandeza augusta,
    Junta a uma inocencia matinal de flor.

    Que importavam gelos, ventanias, feras?
    Peito nu, aberto; construção de touro!
    Quasi me admirava que nas primaveras
    D'esse peito rude não brotassem heras,
    Margaridas, lirios com abelhas d'ouro!

    Ao relento a cama no orvalhado pasto,
    Cerca dos carneiros e dos bons lebreus;
    Que divino leito primitivo e casto,
    Todo embalsamado de serpol, mentrasto,
    Sob a paz imensa do perdão de Deos!…

    E esse gigantesco latagão corado
    Era, como os santos ermitões, frugal:
    Duas azeitonas, queijo do seu gado,
    E de rala escura meio pão migado
    N'um caldeiro d'agoa com azeite e sal.

    Não jantava morte, assassinato, dores,
    Hecatombes tristes que jantamos nós;
    E por isso ria como riem flores,
    Atrahindo em bandos aves de mil cores,
    Feiticeiro simples, com o olhar e a voz!…

    Sua rude frauta de pastor ouvindo
    Na misteriosa luz crepuscular,
    Iam-se as estrellas uma a uma abrindo,
    E desabrochava pelo azul infindo
    Soluçante a lua como um nenufar!…

    Que trinados vivos, d'argentino encanto
    Ai, missa do galo, lhe inspiravas tu,
    N'essa frauta, quando de cajado e manto
    Ia deitar loas ao menino santo
    No altar-mór da egreja sorridente e nu!

    Fôra lá creança, magica ventura!
    Centenario quasi a derradeira vez…
    E gorgeava a frauta com egual candura,
    Pois a alma virgem, luminosa e pura,
    Conservara-a sempre como Deos a fez.

    N'ella penetrava, n'ella se embebia
    Tudo que é inocencia, riso, amor, clarão:
    Fremito de pomba, voz de cotovia,
    Canticos dos montes ao nascer do dia,
    Lagrimas dos astros pela escuridão!…

    Longe dos Pecados de raivosas presas,
    Belzebuths famintos d'olhos de metal,
    Longe das horriveis tentações acezas
    No torpor dos leitos, na embriaguez das mezas,
    Pululantes larvas, vibriões do Mal,

    O pastor ditoso envelheceu ridente
    Por despenhadeiros, alcantis, calvarios,
    E na fronte augusta de ermitão, de crente,
    Lhe geavam anos luminosamente,
    Como as pombas brancas sobre os campanarios!

    Das ovelhas meigas,–intimas heranças!–
    Recolhera toda a abnegação christã:
    Oh, sejaes bemditas, ovelhinhas mansas,
    Que com vosso leite sustentaes creanças,
    E vestis os pobres com a vossa lã!

    Aos noventa anos, festival, risonho,
    Alamo gigante d'agoa viva ao pé;
    Sim! inda na boca risos de medronho,
    E nos olhos lentos, a tremer em sonho,
    Dois miosotis virgens de candura e fé!

    Com seu manto branco de burel grosseiro,
    Cans de puro arminho, baculo na mão,
    Alembrava um santo feito pegureiro,
    Que eu desejaria sobre o altar cruzeiro
    D'uma ogiva d'astros, em adoração!

    Centenario quasi, recordava aspectos
    De lendario tronco n'um feliz vergel,
    Moribundo em meio de seus verdes netos,
    Com a Providencia a agasalhal-o em fetos,
    Com abelhas d'ouro inda a nutril-o a mel,

    E que surdo á voz dos ledos passarinhos,
    E que cego ao ether de esplendor ideal,
    Com o ai extremo lança dois raminhos,
    A chamar ainda por canções de ninhos
    E a dizer aos astros um adeos final!

    Tal o pastor santo, já de vez cahido,
    Já corcovadinho, flebil, quasi morto,
    Arrimado ao velho baculo torcido,
    Nada ouvindo, nada, com o duro ouvido,
    Vagamente olhando com o olhar absorto,

    Ia pelos montes na tristeza infinda
    D'um coração ermo, com a morte aceite,
    A pedir aos anjos para ouvir ainda
    Badalar ovelhas n'uma noite linda,
    Quando a lua os campos alagasse em leite!…

    Seu bisavô fora guardador de gado,
    Guardador de gado seu avô, seu pae;
    Creou filho e netos como foi creado,
    E morreu ditoso porque o seu cajado
    Seu rebanho ainda pastoreando vae!

    Candido, na paz das solidões dormentes,
    Ignorando o mundo rancoroso e vil
    Aos cem anos inda, com a fé dos crentes,
    Punha olhos claros, simples, inocentes,
    Na estrellinha d'alva das manhãs d'Abril!

    Levará no esquife para os ceos a palma
    Da grandeza mansa, da virtude austera.
    Realisou no mundo a perfeição da Alma:
    Porque foi bondoso como a lua é calma,
    Porque foi um santo sem saber que o era!…

    Vós, ó semideuses do entremez da Gloria,
    Cesares, tiranos, capitães, heroes,
    Epicas figuras de imortal memoria,
    Que de serro em serro iluminaes a historia
    Como crepitantes, tragicos faroes,

    Na região do Imenso, no Infinito puro,
    Onde me deslumbra, como um sol, Jesus,
    Não sois mais que larvas a tremer no escuro,
    Que ninguem conhece, que eu em vão procuro
    Com meus olhos calmos n'esse mar de luz!

    E o pastor d'ovelhas, que comeu centeio,
    Que viveu nos montes, que dormiu nas grutas,
    Tão asselvajado, cabeludo e feio,
    Que dissereis quasi que esse monstro veio
    Da matriz da terra, como as pedras brutas,

    Já liberto agora da Ilusão do mundo
    Fez-se em anjo branco, inda outra vez pastor:
    Milhões d'astros seguem seu olhar jocundo,
    São rebanhos d'almas pelo azul profundo
    As ovelhas novas do Ti Zé-Senhor!…

    90-91.

    VII

    *O CAVADOR*

    O CAVADOR

    Dezembro, noite, canta o galo…
    Rouco na treva canta o galo…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Aldeão não durmas!… Vae chamal-o,
    Miseria negra, vae chamal-o!…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Bate-lhe á porta, é teu vassalo,
    Que traga a enxada, é teu vassalo,
    Miseria negra, o cavador!

    O vento ulula… Tremem ninhos…
    Na noite aziaga tremem ninhos…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    A neve cae, fria d'arminhos…
    Na escuridão, fria d'arminhos…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Passa maldito nos caminhos,
    D'enxada ao hombro nos caminhos,
    Fantasma negro, o cavador!

    Vem roxa a estrella d'alvorada…
    Vem morta a estrella d'alvorada…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Montanhas nuas sob a geada!…
    Hirtas, de bronze, sob a geada…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Torvo, inclinado sobre a enxada,
    Rasga as montanhas com a enxada.
    Fantasma negro, o cavador!

    Cavou, cavou desde que é dia…
    Cavou, cavou… Bateu meio dia…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    De pé na encosta erma e bravia,
    Triste na encosta erma e bravia,
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Largando a enxada, «Ave Maria!…»
    Resa em silencio… «Ave Maria!…»
    Fantasma negro, o cavador!

    Cavou, cavou na serra agreste,
    D'alva á noitinha em serra agreste…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    E um caldo em premio tu lhe deste,
    Meu Deos!… seis filhos tu lhe deste…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Batem trindades… «Pae celeste!…
    Bemdito sejas, Pae celeste!…»
    Resa, fantasma, o cavador!

    Cavou cem montes… que é do trigo?!
    Gerou seis bocas… que é do trigo?!
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Bateu a Fome ao seu postigo…
    Bateu a Morte ao seu postigo…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    «Que a paz de Deos seja comigo!
    Que a paz de Deos seja comigo!…»
    Disse, expirando, o cavador!

    Junho–91.

    VIII

    *OS POBRESINHOS*

    OS POBRESINHOS

    Pobres de pobres são pobresinhos,
    Almas sem lares, aves sem ninhos…

    Passam em bandos, em alcateias,
    Pelas herdades, pelas aldeias.

    É em Novembro, rugem procellas…
    Deos nos acuda, nos livre d'ellas!

    Vem por desertos, por estevaes,
    Mantas aos hombros, grandes bornaes.

    Como farrapos, coisas sombrias,
    Trapos levados nas ventanias…

    Filhos de Christo, filhos d'Adão,
    Buscam no mundo codeas de pão!

    Ha-os ceguinhos, em treva densa,
    D'olhos fechados desde nascença.

    Ha-os com f'ridas esburacadas,
    Roxas de lirios, já gangrenadas.

    Uns de voz rouca, grandes bordões,
    Quem sabe lá se serão ladrões!…

    Outros humildes, riso magoado,
    Lembram Jesus que ande disfarçado…

    Engeitadinhos, rotos, sem pão,
    Tremem maleitas d'olhos no chão…

    Campos e vinhas!… hortas com flores!…
    Ai, que ditosos os lavradores!

    Olha, fumegam tectos e lares…
    Fumo tão lindo!… branco, nos ares!…

    Batem ás portas, erguem-se as mães,
    Choram meninos, ladram os cães…

    Resam e cantam, levam a esmola,
    Vinho no bucho, pão na sacola.

    Fructa da horta, caldo ou toucinho,
    Dão sempre os pobres a um pobresinho.

    Um que tem chagas, velho, coitado,
    Quer ligaduras ou mel-rosado.

    Outro, promessa feita a Maria,
    Deitam-lhe azeite na almotolia.

    Pelos alpendres, pelos curraes,
    Dormem deitados como animaes.

    Em caravanas, em alcateias,
    Vão por herdades, vão por aldeias…

    Sabem cantigas, oraçõesinhas,
    Contos d'estrellas, reis e rainhas…

    Choram cantando, penam resando,
    Ai, só a morte sabe até quando!

    Mas no outro mundo Deos lhes prepara
    Leito o mais alvo, ceia a mais rara…

    Os pés doridos lh'os lavarão
    Santos e santas com devoção.

    Para laval-os, perfumaria
    Em gomil d'ouro, d'ouro a bacia.

    E embalsamados, transfigurados,
    Tunicas brancas, como em noivados,

    Viverão sempre na eterna luz,
    Pobres bemditos, amen, Jesus!…

    Outubro–91

    IX

    *CAMPO SANTO*

    CAMPO SANTO

    Ai ao relento, ai ao relento, sonham cavadores!…
    Somno d'arminho… colxão de terra… lençol de flores!…

    Cahi dormentes,
    Cahi exanimes, trementes,
    Palidos silencios do luar dorido!
    Litanias fluidas do luar dorido!
    Misereres brancos do luar dorido!
    Balsamos, piedades, orações dolentes
    Do luar dorido!…

    Ai ao relento, ai ao relento sonham pegureiros!…
    Cama tão fresca!… cobertor branco, de jasmineiros…

    Cahi maviosas,
    Cahi somnambulas, piedosas,
    Concavas tristezas do luar magoado!
    Resonancias d'orgão do luar magoado!
    Extrema-unções profundas do luar magoado!
    Sincopes, oblivios, quietações chorosas
    Do luar magoado!…

    Ai ao relento, ai ao relento sonha a boeirinha!…
    Cama de violetas!… que lhe fez a Virgem, sua madrinha…

    Cahi radiantes,
    Angelisantes,
    Esfolhados lirios do luar divino!
    Musselina argentea do luar divino!
    Halitos de leite do luar divino!
    Perolas, opalas, beijos e diamantes
    Do luar divino!…

    Ai ao relento, ai ao relento as bisavós dormindo!…
    Cama de rosas, sobre-ceo d'astros!… que sonho lindo!…

    Cahi cantando,
    Cahi mas brando, muito brando,
    Misticas nevadas do luar de prata!
    Linho da candura do luar de prata!
    Angelus da ermida do luar de prata!
    Extasis boiando, sagrações ondeando
    No luar de prata!…

    Dormi, dormi!… que bellas camas!… ai, que bons lençoes!…
    Na travesseira, que bem que cheira! cantam roussinoes!…

    Dorme de costas, cavador, ao luar, ao luar de neve!…
    Ai, como a terra era pesada, e se fez leve, leve!…

    Dorme, pastor, ao luar de Junho, dorme sem cuidado!…
    Que anda a Senhora dos Montes-Ermos a guardar-te o gado…

    Durmam velhinhas! durmam creanças! durmam donzellas!
    Quando acordarem já tem os anjos á espera d'ellas…

    Ha-de acordar tudo lá nos ceos doirados…
    Ha-de haver banquetes, ha-de haver noivados…

    Põe a mesa a Virgem para os pobresinhos…
    Ai, que lindos fructos!… ai, que ricos vinhos!…

    Vinhos d'um vinhedo, fructos d'um pomar,
    Que no ceo os anjos regam com luar…

    Ordenhando ovelhas andam serafins,
    Cantarinhos d'oiro, leite de jasmins.

    Outros nas arribas crestam as colmeias,
    Grandes favos brancos como luas cheias.

    Ai, que bom almoço, feito n'um vergel,
    Pomos cor de aurora, leite, vinho e mel!…

    Para as avósinhas tem lá Deos bastantes
    Fusos d'esmeraldas, rocas de diamantes…

    Como vós, ó moças, lá no ceo casaes,
    Ellas darão teias para os enxovaes…

    Já no setestrello dançam nos terreiros,
    Tamboris e violas, frautas e pandeiros…

    Já lá vejo os noivos, com S. João á espera,
    N'uma ermida branca revestida d'hera…

    Ai, dormi, donzellas, ai dormi ao luar,
    Que no ceo com anjos vos ireis casar…

    Ai, dormi, creanças! que no azul divino
    Brincareis alegres com o Deos-menino…

    Partirá comvosco, porque é vosso irmão,
    A laranja,–o mundo, que lá tem na mão…

    Dormi, dormi, sem dor, sem penas…
    Dormi, dormi!…
    E em vossos leitos florescentes,
    De rosas brancas e assucenas,
    Caiam dormentes,
    Caiam exanimes, trementes,
    Graças do baptismo do luar alvissimo!
    Beijos do noivado do luar purissimo!
    Lagrimas da morte do luar tristissimo!
    Canticos d'exequias, orações dolentes
    Do luar santissimo!…

    Abril–91.

    *EPILOGO*

    REGRESSO AO LAR

    Ai, ha quantos anos que eu parti chorando
    D'este meu saudoso, carinhoso lar!…
    Foi ha vinte?… ha trinta?… Nem eu sei já quando!…
    Minha velha ama, que me estás fitando,
    Canta-me cantigas para me eu lembrar!…

    Dei a volta ao mundo, dei a volta á Vida…
    Só achei enganos, decepções, pesar…
    Oh! a ingenua alma tão desiludida!…
    Minha velha ama, com a voz dorida,
    Canta-me cantigas de me adormentar!…

    Trago d'amargura o coração desfeito…
    Vê que fundas maguas no embaciado olhar!
    Nunca eu sahira do meu ninho estreito!…
    Minha velha ama, que me déste o peito,
    Canta-me cantigas para me embalar!…

    Poz-me Deos outrora no frouxel do ninho
    Pedrarias d'astros, gemas de luar…
    Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!…
    Minha velha ama, sou um pobresinho…
    Canta-me cantigas de fazer chorar!…

    Como antigamente, no regaço amado,
    (Venho morto, morto!…) deixa-me deitar!
    Ai, o teu menino como está mudado!
    Minha velha ama, como está mudado!
    Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!…

    Canta-me cantigas, manso, muito manso…
    Tristes, muito tristes, como á noite o mar…
    Canta-me cantigas para ver se alcanço
    Que a minh'alma durma, tenha paz, descanço,
    Quando a Morte, em breve, m'a vier buscar!…

    90.

    *NOTA*

    NOTA

    É este o primeiro dos tres volumesinhos, que hão-de encerrar as minhas
    liricas ineditas. Os outros dois–_Flores de Ideal_–e _Infinito_
    (_Livro d'orações_) virão a lume successivamente, com intervalos de
    mezes.

    Duas palavras sobre os _Simples_.

    Precocemente chegado, pelo sofrimento, ao ocaso da vida, atravessei ha
    anos um periodo agudo, bem doloroso e triste, mas ao mesmo tempo
    salutar. Ante a morte proxima, n'uma anciedade inenarravel, senti-me
    electrisado, como por encanto, de energias subitas. O problema do _alem_
    (como agora se diz) impunha-se, dilacerante e devorador, á minha
    natureza inquieta de religioso e de metafisico. Mas o problema da
    _morte_ é, no fundo, o problema da vida. Estudei, pensei, meditei. Li
    com sofreguidão milhares de paginas. Dias, noites, semanas, mezes,
    revolvi no cerebro escandecido todos os enigmas torturantes. Pedi á
    historia natural (unica historia verdadeira) o segredo intimo das
    coisas. Questionei a razão, ouvi a consciencia. Dei balanço a mim
    proprio. E consegui, ao cabo, o que desejava: ter da vida, ter do
    universo uma ideia metodica e definitiva. Qual? Não é este o momento de
    dizel-o, nem isso interessa seguramente.

    A minha metafisica é para uso proprio. Não construi um sistema de
    filosofia humana. Tratei de responder apenas ás duvidas e curiosidades
    do meu espiríto. Não cheguei sequer a pontos de vista fundamentaes,
    muitissimo diversos dos que já tinha anteriormente. Mas o que era
    intuição tornou-se certeza, e o que era hipotese, mais ou menos
    sentimental e imaginaria, transformou-se n'um corpo de doutrina
    raciocinado e logico. Continuei pela mesma estrada; mas d'antes ia ás
    cegas e tateando, e agora d'olhos bem abertos e a passo firme e
    resoluto.

    D'uma visão mais intima e profunda do universo germinaram em mim novas
    emoções, e portanto uma nova arte. O poeta renasceu e cresceu. Fecundo
    renascimento psicologico, e não apenas uma evoluçãosinha toda literaria,
    meramente verbal e de superficie.

    No prefacio d'outro livro explanarei com vagar as conclusões ultimas do
    meu exame de consciencia, não pelo seu merito intrínseco, repito, mas
    como util comentario da minha obra poetica, de que ellas são
    verdadeiramente a alma essencial e geradora.

    Apasiguada um pouco a dupla crise de angustia intelectual e padecimento
    fisico, esbocei e dei começo a este pequenino poema lirico d'_Os
    Simples_.

    Quiz mentalmente viver a vida singela e primitiva de boas e santas
    creaturas, que atravessam um mundo de miserias e de injustiças, de
    vicios e de crimes, de fomes e de tormentos, sem um olhar de maldição
    para a natureza, sem uma palavra de queixume para o destino. E então
    encarnei, por assim dizer, no pastor grandioso e asceta, na moleirinha
    octogenaria e sorridente, no cavador tragico, nos mendigos bíblicos, na
    mansidão dos bois arroteando os campos e nas lavarêdas d'oiro do
    castanheiro, aquecendo a velhice, alegrando a infancia, iluminando a
    choupana. E, depois d'uma existencia de sacrificio e de puresa,
    d'abnegação e de bondade, deitei esses ingenuos e pobres aldeões na
    terra misericordiosa e florida do campo-santo, pondo-lhes por cima das
    sepulturas rasas o ceo maravilhoso e candido, que em vida sonharam e
    desejaram.

    É claro que essas figuras não são inteiramente reaes, da realidade
    estricta, efemera e tangivel. Criei-as, ou antes completei-as com a
    minha alma, com o meu proprio ideal.

    Quem vir n'este livrinho somente o lado externo e literario, a forma, a
    paisagem, a pintura rustica, não o entendeu, nem o soube ler.

    É muito mais uma auto-biographia psicologica que uma serie de quadros
    campestres e bucolicos.

    A feição, por assim dizer, regional, do livro é, embora importante,
    subordinada e secundaria. A _Moleirinha_ é mínhota. O _Prestito funebre_
    minhoto é. Mas coisa curiosa, o segundo canto–_In Pulvis_ é já de todo
    transmontano. Inconscientemente, sem dar por tal, levei o castanheiro
    para a minha terra, e queimei-o no lar saudoso da minha meninice. Tambem
    eu me queria aquecer a elle, sentar-me ao pé da sua chama…

    Engana-se quem entre _Os Simples_ e a _Velhice do Padre Eterno_
    descobrir porventura contradições. Este lirismo é o reverso d'aquella
    satira. Aquella indignação é o comentario d'esta elegia. O christianismo
    dos _Simples_ é o innocente e meigo christianismo popular, feito com a
    ignorancia absoluta do dogma e com a intuição humana dos Evangelhos. A
    exegese do povo, na sua rudeza nativa e embrionaria, é por vezes d'uma
    penetração sublime e reveladora.

    As minhas antigas opiniões religiosas, em vez de se modificarem,
    acentuam-se cada vez mais. Redobra em mim, com um desenvolvimento
    progressivo de misticismo naturalista, a aversão e a hostilidade á
    egreja catolica, grosseira formula materialisada do transcendente e
    divino espirito de Jesus.

    Em quanto á tecnica do poema, muitissimo havia que dizer, se esta nota
    não fosse escripta rapidamente, á ultima hora, com o impressor á espera.

    A forma poetica encaminha-se á evolução final. Horisonte imenso. O pouco
    que fiz de novo, em tal sentido, não deve nada a ninguem. É meu,
    pertence-me.

    E, de passagem, uma ligeira observação. Este livro, só hoje dado a
    publico, é d'ha muito conhecido entre homens de letras e poetas. E valha
    a verdade exerceu, aqui e alem, ainda inedito, uma certa influencia,
    que, embora leve, é inegavel e manifesta. Podia apontar, citar. Inutil.
    Desejo apenas estabelecer o facto, mais nada.

    Concluindo: tentei uma obra d'arte, que fosse ao mesmo tempo
    absolutamente individual, ingenitamente portugueza e vasta e
    fundamentalmente humana. Alcancei-o? O tempo o dirá.

    14 de Maio de 1892.

    _G. J._

    *INDICE*

    PRELUDIO
    I–A Caminho
    II–De Volta

    I–A MOLEIRINHA

    II–CADAVER
    I–Prestito funebre
    II–In Pulvis

    III–EIRAS AO LUAR

    IV–AS ERMIDAS

    V–CANÇÃO PERDIDA

    VI–O PASTOR

    VII–O CAVADOR

    VIII–OS POBRESINHOS

    IX–CAMPO SANTO

    EPILOGO
    Regresso ao lar

    NOTA

    ERRATA

    Passaram desapercebidos varios erros, principalmente ortograficos,
    de facil emenda para o leitor.

    PREÇOS DA TIRAGEM ESPECIAL

    Exemplar unico em pergaminho 45$000
    Exemplares em papel Wathman 4$000

    _A 1.^a edição d'este livro, destinada a Portugal, pertence ao snr.
    Baptista Domingues, Vianna do Castello, a quem devem dirigir-se todas as
    requisições_.

  • Só

    Só

    Aproximadamente 21.019 palavras.

    Produced by Ricardo Diogo and Tiago Tejo. Edited by Rita
    Farinha (Biblioteca Nacional Digital–http://bnd.bn.pt).
    (This file was produced from images generously made
    available by National Library of Portugal (Biblioteca
    Nacional de Portugal).)

    Je déclare que M. Francisco de França Amado, libraire-éditeur, 141,
    rua da Calçada, Coimbra: est mon unique représentant et dépositaire
    de o «Só», pour le Portugal.

    L.V.

    SÓ

    ANTONIO NOBRE

    SÓ

    PARIS

    LÉON VANIER, ÉDITEUR

    19, QUAI SAINT-MICHEL, 19

    1892

    Tous Droits Réservés

    MEMORIA Á MINHA MÃE AO MEU PAE

    Aquelle que partiu no brigue _Boa Nova_,
    E na barca _Oliveira_, annos depois, voltou;
    Aquelle santo (que velhinho e jà corcova)
    Uma vez, uma vez, linda menina amou:
    Tempos depois, por uma certa lua-nova,
    Nasci eu… O velhinho ainda cà ficou,
    Mas ella disse:–«Vou, alli adiante, à _Cova_,
    Antonio, e volto jà…» E ainda não voltou!
    Antonio é vosso. Tomae là a vossa obra!
    «Só» é o poeta-nato, _o lua_, o santo, a cobra!
    Trouxe-o d'um ventre: não fiz mais do que escrever…
    Lede-o e vereis surgir do poente as idas magoas,
    Como quem ve o sol sumir-se, pelas agoas,
    E sobe aos alcantis para o tornar a ver!

    *Antonio*

    Que noite de inverno! Que frio, que frio!
    Gelou meu carvão:
    Mas boto-o á lareira, tal qual pelo estio,
    Faz sol de verão!

    Nasci, n'um Reino d'Oiro e flores
    Á beira-mar.

    Ó velha Carlota, tivesse-te ao lado,
    Contavas-me historias:
    Assim… desenterro, do val do passado,
    As minhas Memorias.

    Sou neto de Navegadores,
    Heroes, Lobos d'agoa, Senhores
    Da India, d'Aquém e d'Além-mar!

    Moreno coveiro, tocando viola,
    A rir e a cantar!
    Empresta, bom homem, a tua sachola,
    Eu quero cavar:

    E o vento mia! e o vento mia!
    Que irà no mar!

    Erguei-vos, defuntas! da tumba que alveja
    Qual Lua, a distancia!
    Vizões enterradas no adro da Igreja,
    Branquinha, da Infancia…

    Que noite! ó minha Irmã Maria,
    Accende um cyrio à Virgem Pia,
    Pelos que andam no alto mar…

    Lá vem a Carlota que embala uma aurora
    Nos braços, e diz:
    «Meu lindo menino, que Nossa Senhora
    O faça feliz!»

    Ao mundo vim, em terça-feira,
    Um sino ouvia-se dobrar!

    E Antonio crescendo, sãosinho e perfeito,
    Feliz que vivia!
    (E a Dor, que morava com elle no peito,
    Com elle crescia…)

    Vim a subir pela ladeira
    E, n'uma certa terça-feira,
    Estive jà p'ra me matar…

    Mas foi a uma festa, vestido de anjinho,
    Que fado cruel!
    E a Antonio calhou-lhe levar, coitadinho!
    A _Esponja do Fel_…

    Ides gelar, agoas dos montes!
    Ides gelar!

    A Tia Delphina, velhinha tão pura,
    Dormia a meu lado
    E sempre rezava por minha ventura…
    E sou desgraçado!

    Agoas do rio! agoas das fontes!
    Cantigas d'agoa pelos monles,
    Que sois como amas a cantar…

    E eu ia ás novenas, em tardes de Maio,
    Pedir ao Senhor:
    E, ouvindo esses cantos, tremia em desmaio,
    Mudava de cor!

    Passam na rua os estudantes
    A vadrulhar…

    E a Mãe-Madrinha, do tempo da guerra
    A mail-os francezes,
    Quando ia ao confesso, á ermida da serra,
    Levava-me, ás vezes.

    Assim como elles era eu d'antes!
    Meus camaradas! estudantes!
    Deixae o Poeta trabalhar…

    Santinho como ia, santinho voltava:
    Peccados? Nem um!
    E a instancias do padre dizia (e chorava):
    «Não tenho nenhum…»

    Ó Job, coberto de gangrenas,
    Meu avatar!

    As noites, rezava (e rezo ainda agora)
    Ao pé da lareira.
    (A chuva gemente caia lá fóra,
    Fervia a chaleira…)

    Conservo as mesmas tuas penas,
    Mais tuas chagas e gangrenas,
    Que não me farto de coçar!

    –Que Deus se amercie das almas do Inferno!
    –Amen! Oxalá…
    E o moço rosnava, tranzido de inverno:
    –Que bom lá está!

    E a neve cae, como farinha,
    Là d'esse moinho a moer, no Ar:

    O sino da Igreja tocava, á tardinha:
    Que tristes seus dobres!
    Era a hora em que eu ia provar, á cozinha,
    O caldo dos pobres…

    Ó bom Moleiro, cautellinha!
    Não desperdices a farinha
    Que tanto custa a germinar…

    Ó velhas criadas! na roca fiando,
    Nos lentos serões…
    Corujas piando, _Farrusca_ ladrando
    Com medo aos ladrões!

    Andaes, à neve, sem sapatos,
    Vos que nâo tendes que calçar!

    O Zé do Telhado morara, alli perto:
    A triste viuva
    A nossa caza ia pedir, era certo,
    Em noites de chuva…

    Corpos au léu, vesti meus fatos!
    Pés nus! levae esses sapatos…
    Basta-me um par.

    Ó feira das uvas! em tardes de calma…
    (O tempo voou!)
    Pediam-me os pobres «esmola pela alma
    Que Deus lhe levou!»

    Quando eu morrer, hirto da magoa.
    Deitem-me ao mar!

    E havias-os com gotta, e havia-os herpeticos,
    Mostrando a gangrena!
    E mais, e ceguinhos, mas era dos ethicos
    Que eu tinha mais pena…

    Irei indo de fragua, em fragua,
    Até que, emfim, desfeito em agoa,
    Hei-de fazer parte do mar!

    Chegou uma carta tarjada: a estampilha
    Bastou-me enxergar…
    Coitados d'aquelles que perdem a filha,
    Tão longe do lar!

    No Panthéon, tragico, o sino
    Dà meia-noite, devagar:

    Ó tardes de outomno, com fontes carpindo
    Entre herva sedenta…
    Os cravos a abrirem, a lua aspergindo
    Luar, agoa-benta…

    É o Victor, outra vez menino,
    A compor um alexandrino,
    Pelos seus dedos a contar!

    Ao dar meia-noite no _cuco_ da sala,
    Batiam: «Truz! truz!»
    E o Avô que dormia, quietinho na valla,
    Entrava, Jezus!

    Que olhos tristes tem meu vizinho!
    Ve-me comer e poe-se a ougar:

    Nas sachas de Junho, ninguem se batia
    Com nosso cazeiro:
    Que espanto, pudéra! se da freguezia
    Elle era o coveiro…

    Sobe ao meu quarto, bom velhinho!
    Que eu dou-te um copo d'este vinho
    E metade do meu jantar.

    Morria o mais velho dos nossos criados,
    Que pena! que dó!
    Pedi-lhe, tremendo, fizesse recados
    Á alminha da Avó…

    Bairro-Latino! dorme um pouco!
    Faze, meu Deus, por socegar…

    Ó banzas dos rios, gemendo descantes
    E fados do mundo!
    Ó agoas fallantes! ó rios andantes,
    Com eiras no fundo!…

    Calla-te, Georges! estàs jà rouco!
    Deixa-me era paz! Calla-te, louco,
    Ó boulevard!

    Trepava ás figueiras cheiinhas de figos
    Como astros no céu:
    E em baixo, aparando-os, erguiam mendigos
    O roto chapéu…

    Boas almas, vinde ao meu seio!
    Espiritos errantes no Ar!

    Ó lua encantada no fundo do poço,
    Moirinha da magoa!
    O balde descia, chymeras de moço!
    Trazia só agoa…

    Sou médio: evoco-os, noite em meio,
    Vos não acreditaes, eu sei-o…
    Deixal-o não acreditar.

    Meus versos primeiros estão no Adro, ainda,
    Escriptos na cal:
    Cantavam Aquella que é a roza mais linda
    Que tem Portugal!

    Se eu vos podesse dar a vista,
    Ceguinhos que ides a tactear…

    A lua é ceifeira que, ás noites, ensaia
    Bailados na terra…
    Luar é caleiro que, pallido, caia
    Ermidas da serra…

    Quanto essa sorte me contrista!
    Mas ah! mais vale não ter vista,
    Que um mundo d'estes ter d'olhar.

    O conde de Furnas sabia o Horacio,
    Tin-tin, por tin-tin!
    E dava-me, á noite, passeiando em palacio,
    Licção de latim.

    A Morte, agora, é a minha ama…
    Que bem que sabe acalentar!

    E entrei para a escola, meu Deus! quem me dera
    N'essa hora da vida!
    Uzava uma bluza, que linda que era!
    E trança comprida…

    Á noite, quando estou na cama:
    «Nana, nana! Que a tua ama
    Vem jà, não tarda! foi cavar…»

    Os outros rapazes furtavam os ninhos
    Com ovos a abrir;
    Mas eu mercava-lhes os bons passarinhos,
    Deixava-os fugir…

    Camões! ó lua do mar-bravo!
    Vem-me ajudar…

    Os prezos, ás grades da triste cadeia,
    Olhavam-me em face!
    E eu ia á pouzada do guarda da aldeia
    Pedir que os soltasse…

    Tenho o nome do teu escravo;
    Em nome d'elle e do mar-bravo,
    Vem-me ajudar!

    E quando um malvado moia a chibata
    Um filho, ou assim,
    Corria a seus braços, gritando: «Não bata!
    Bata antes em mim…»

    E o vento geme! e o vento geme!
    Que irà no mar!

    E quando dobrava na terra algum sino
    Por velho, ou donzella,
    A meu Pae rogavam «deixasse o menino
    Pegar a uma vela…»

    Lobos d'agoa, que ides ao leme,
    Tende cuidado! a lancha treme…
    Orçar! orçar!

    Enterros de anjinhos! Oh dores que trazem
    Aos tristes cazaes!
    Ha doces, ha vinho, senhores que fazem
    Saudes aos paes…

    Meu velho cão, meu grande amigo,
    Porque me estàs assim a olhar?

    A Prima doidinha por montes andava,
    Á lua, em vigilia!
    Olhae-me, doutores! ha doidos, ha lava,
    Na minha Familia…

    Quando ou choro, choras commigo
    Meu velho cão! és meu amigo…
    Tu nunca me has-de abandonar.

    E os annos correram, e os annos cresceram,
    Com elles cresci:
    Os sonhos que tinha, meus sonhos… morreram,
    Só eu não morri…

    Frades do Monte de Crestello!
    Abri-me as portas! quero entrar…

    Fui vendo que as almas não eram no mundo
    Singellas e francas:
    A minha que o era ficou, n'um segundo,
    Cheiinha de brancas!

    Cortae-me as barbas e o cabello,
    Vesti-me esse habito singello…
    Deixae-me entrar!

    Fiquei pobrezinho, fiquei sem chymeras,
    Tal qual Pedro-Sem,
    Que teve fragatas, que teve galeras,
    Que teve e não tem…

    Moço Luziada! criança!
    Porque estàs trisle, a meditar?

    Vieram as rugas, caiu-me o cabello
    Qual musgo da rocha…
    Fiquei para sempre sequinho, amarello,
    Que nem uma tocha!

    Ves teu paiz sem esperança,
    Que todo allue, à semelhança
    Dos castellos que ergueste no Ar?

    E a velha Carlota, revendo-me agora
    Tão pallido, diz:
    «Meu pobre menino! que Nossa Senhora
    Fez tão infeliz…»

    Pariz, 1891.

    *Menino e Moço*

    Tombou da haste a flor da minha infancia alada,
    Murchou na jarra de oiro o pudico jasmim:
    Voou aos altos céus S.^{ta} Aguia, linda fada,
    Que d'antes estendia as azas sobre mim.

    Julguei que fosse eterna a luz d'essa alvorada,
    E que era sempre dia, e nunca tinha fim
    Essa vizão de luar que vivia encantada,
    N'um castello de prata embutido a marfim!

    Mas, hoje, as aguias de oiro, aguias da minha infancia,
    Que me enchiam de lua o coração, outrora,
    Partiram e no céu evolam-se, a distancia!

    Debalde clamo e choro, erguendo aos céus meus ais:
    Voltam na aza do vento os ais que a alma chora;
    Ellas, porém, Senhor! ellas não voltam mais…

    Leça, 1885.

    *Os Cavalleiros*

    –Onde vaes tu, cavalleiro,
    Pela noite sem luar?
    Diz o vento viajeiro,
    Ao lado d'elle a ventar…
    Não responde o cavalleiro,
    Que vae absorto a scismar.
    –Onde vaes tu, torna o vento,
    N'esse doido galopar?
    Vaes bater a algum convento?
    Eu ensino-te a rezar.
    E a lua surge, um momento,
    A lua, convento do Ar.
    –Vaes levar uma mensagem?
    Dá-m'a que eu vou-t'a entregar:
    Irás em meia viagem
    E eu já de volta hei-de estar.
    E o cavalleiro, á passagem,
    Faz as arvores vergar.
    –Vaes escalar um mosteiro?
    Eu ajudo-t'o a escalar:
    Não ha no mundo pedreiro
    Que a mim se possa egualar!
    Não responde o cavalleiro
    E o vento torna a fallar:
    –Dize, dize! vaes p'ra guerra?
    Monta em mim, vou-te levar:
    Não ha cavallo na Terra
    Que tenha tão bom andar…
    E os trovões rolam na serra
    Como vagas a arrolar!
    –E as guerras has-de ganhal-as,
    Que por ti hei-de velar:
    Ponho-me á frente das balas
    Para a força lhes tirar!
    E as arvores formam alas
    Para os guerreiros passar.
    –Vaes guiar as caravellas
    Por sobre as agoas do mar?
    Guiarei as tuas velas
    Á feição hei-de assoprar.
    E os astros vêm ás janellas
    E a lua vem espreitar…
    –Onde vaes na galopada,
    Á tua infancia, ao teu lar?
    Conheço a tua pousada:
    Já lá tenho ido ficar.
    E vae longe a trovoada,
    Vae de todo a alliviar.
    –Vaes ver tua velha tia,
    Na roca de oiro a fiar?
    Loiro linho que ella fia,
    Ajudei-lh'o eu a seccar!
    E o luar é a Virgem Maria…
    Que lindo vae o luar!
    –Vaes ver a tua mãesinha?
    Coitada! vi-a expirar:
    Tinha a alma tão levezinha,
    Que voou sem eu lhe tocar!…
    E o cavalleiro caminha,
    Caminha sem se importar!
    –Vaes ver tua irmã? Ao peito
    Traz um menino a criar:
    Ai com que bom, lindo geito
    Ella o sabe acalentar!
    E o vento embala no peito
    Uma nuvem, p'ra imitar!
    –Onde vaes tu? Aonde, aonde?
    Phantasma! vaes-te cazar?
    Eu sei da filha d'um conde
    Que por ti vive a penar…
    E o phantasma não responde,
    Sempre, sempre, sempre a andar!
    –Vaes á cata da Ventura
    Que anda os homens a tentar?
    (Ai d'aquelle que a procura
    Que eu nunca a pude encontrar…)
    N'isto, pára a criatura,
    Faz seu cavallo estacar:
    –Vento, sim! Espera, espera!
    Que estrada devo tomar?
    (É um menino, é uma chymera
    E todo lhe ri o olhar…)
    E o vento, com voz austera,
    Dor, querendo disfarçar:
    –Toma todas as estradas
    Todas, áquem e além-mar:
    Serão inuteis jornadas,
    Nunca lá has-de chegar…
    Palavras foram facadas
    Que é vel-o, todo a sangrar…
    E seus cabellos trigueiros
    Começam de branquiar,
    E olham-se os dois cavalleiros…
    Quedam-se ambos a scismar.
    Brilha o Oriente entre os pinheiros,
    Ouvem-se os gallos cantar…
    –Adeus, adeus! Nasce a aurora,
    Adeus! vamos trabalhar!
    Adeus, adeus! vou-me embora:
    Chamaram-me as velas, no mar…
    E o vento vae por hi fóra,
    No seu cavallo, a ventar…

    Pariz, 1891.

    *Purinha*

    O Espirito, a Nuvem, a Sombra, a Chymera,
    Que (aonde ainda não sei) neste mundo me espera
    Aquella que, um dia, mais leve que a bruma,
    Toda cheia de véus, como uma Espuma,
    O Sr. Padre me dará p'ra mim
    E a seus pés me dirá, toda corada: _Sim_!
    Ha-de ser alta como a _Torre de David_,
    Magrinha como um choupo onde se enlaça a vide
    E seu cabello em cachos, cachos d'uvas,
    E negro como a capa das viuvas…
    (Á maneira o trará das virgens de Belem
    Que a Nossa Senhora ficava tão bem!)
    E será uma espada a sua mão,
    E branca como a neve do Marão,
    E seus dedos serão como punhaes,
    Fuzos de prata onde fiarei meus ais!
    E os seus seios serão como dois ninhos,
    E seus sonhos serão os passarinhos,
    E será sua bocca uma romã,
    Seus olhos duas Estrellinhas da Manhã!
    Seu corpo ligeiro, tão leve, tão leve,
    Como um sonho, como a neve,
    Que hei-de suppor estar a ver, ao vel-a,
    Cabrinhas montezas da Serra da Estrella…
    E ha-de ser natural como as hervas dos montes
    E as rolas das serras e as agoas das fontes…
    E ha-de ser boa, excepcional, quazi divina.
    Mais pura, mais simples, que moça e menina.
    Deus, pela voz dos rouxinoes ha-de gabal-a
    E os rios ao passar hão-de cantal-a.
    Seu virgem coração ha-de ser tão branquinho,
    Que não ha neste, mundo a que egualal-o: o linho
    Que, em roca de crystal, fiava a minha Avó
    Parecerá de crepe, e a neve… far-me-á dó,
    Mais a farinha do moleiro e a violeta,
    E a lua para mim será como uma preta!

    Mas em que sitio, aonde? aonde? é que me espera
    Esta Torre, esta Lua, esta Chymera?
    Fui ter com minha fada e disse-lhe: «Madrinha!
    Onde haverá na Terra assim uma Rainha?»
    E a minha fada, com sua vara de encantar,
    Um reino me apontou, lá baixo, ao pé do mar…

    Meninas, lindas meninas!
    Qual de vós é o meu ideal?
    Meninas, lindas meninas
    Do Reino de Portugal!

    E no dia do meu recebimento!
    Manhã cedo, com luar ainda no firmamento,
    Quando ainda no céu não bole uma aza,
    A minha Noiva sairá de caza
    Mail-a sua mãe, mail-os seus irmãos.
    E ha-de sorrir, e hão-de tremer-lhe as mãos…
    E a sua ama ha-de seguil-a até á porta,
    E ficará, coitada! como morta!
    E ha-de ser triste vel-a, ao longe, ainda… olhando,
    Com o avental seus olhos enxugando…
    E hão-de cercal-a sete madrinhas,
    Que hão-de ser sete virgens pobrezinhas,
    Todas contentes por estreiar vestido novo!
    E, ao vel-as, suas mães sorrirão d'entre o povo…
    E o povo da freguezia
    Esperará mais eu, no adro de _Santa Iria_.
    E hão-de mirar-me com seu ar curiozo,
    E hão-de cercar-me, n'um silencio respeitozo.
    E eu hei-de lhes fallar das colheitas, da chuva,
    E dir-me-ão que «já vae pintando a uva…»
    E animados então (o povo é uma criança!)
    Porque o Sr. Morgado deu-lhes confiança,
    «Que Deus o ajude» dirá um, e o regedor:
    «Que seja mui feliz, Sr. Doutor…»
    E eu hei-de agradecer, sorrir, gostar.
    Mas o Anjo, no entanto, não deve tardar…
    E d'entre o grupo exclamará um velho, então:
    «Já nasce o dia!» eu olharei… mas não:
    É a minha Noiva que parece dia,
    Branquinha como a cal de _Santa Iria_!
    E ao vel-a tão branca, de branco vestida,
    Ao longe, ao longe, hei-de cuidar ver uma Ermida!
    E dirá o pastor, com espanto tamanho,
    Que é uma Ovelha que fugiu do seu rebanho!
    E o João Maluco dirá que é o Luar de Janeiro!
    E o pescador explicará ao bom moleiro
    Que é tal qualzinha a sua Lancha pelo mar!
    E o moleiro dirá que é o seu Moinho a andar!
    Que assim já foram as velhinhas scismarão,
    E as netas, coitadas! que, um dia, o serão…
    Mas o Anjo assomará, á porta da capella,
    E eu branco e tremulo hei-de ir ter com ella.
    E a estrella deitar-me-á a benção dos seus olhos
    E uma aldeã deitar-lhe-á violetas, aos molhos!
    E a Bem-Amada entrar na igreja ha-de…
    E ha-de cazar-nos o Sr. Abbade.
    E, em seguida, será a nossa boda,
    E festas haverá, na aldeia toda.
    E as mais raparigas do sitio, solteiras,
    Hao-de bailar bailados sobre as eiras,
    Com _trinta moedas_ de oiro sobre o peito!
    E cantigas dirão a seu respeito.
    E a Noiva em gloria, prepassando nas janellas,
    Sorrirá com simplicidade para ellas.
    E a noite, pouco e pouco, descerá…
    E tudo acabará.
    E depois e depois, o Anjo ha-de se ir deitar,
    E a sua mãe ha-de aabraçar… E hão-de chorar!
    E a sua alcova deitará sobre o quintal,
    Onde uma fonte correrá, entre o ervilhal:
    E, ao ouvil-a cantar, deitadinha na cama,
    O Anjo adormecerá, cuidando que é a sua ama…

    Mas qual a villa, qual a aldeia, qual a serra
    Que este Palacio de Ventura encerra?
    Fui ter com minha fada e disse-lhe: «Madrinha!
    Accaso nunca te mentiu tua varinha?»
    E a minha fada com sua vara de condão
    Nos ares escreveu com tres estrellas: «Não!»

    Meninas, lindas meninas!
    Qual de vós é o meu ideal?
    Meninas! lindas meninas
    Do Reino de Portugal!

    O nosso lar!
    Minha Madrinha! ajuda-me a sonhar!
    Que a nossa caza se erga d'entre uma eminencia,
    Que seja tal qual uma rezidencia,
    Alegre, branca, rustica, por fóra.
    Que digam: «É o Sr. Abbade que alli mora…»
    Mas no interior ella ha-de ser sombria,
    Como eu com esta melancholia…
    E salas escuras, chorando saudades…
    E velhos os moveis, de antigas idades…
    (E, assim, me illuda e, assim, cuide viver
    N'outro seculo em que eu deveria nascer.)
    E nas paredes telas de parentes…
    E janellas abertas sobre os poentes…
    (E a Chymera lerá o seu livro de rezas…)
    E cravos vermelhos por cima das mezas…
    E o relogio dará as horas devagar,
    Como as palpitações de quem se vae finar…
    E, dia inteiro, n'esta solidão,
    Deixar-me-ei esquecer, ao canto do fogão.
    E a scismar e a scismar em que? em quem?
    Na Dor, na Vida, em Deus, no Infinito, no _Além_?
    E eu o Luziada sombrio, o Afflicto, o Médio,
    Rogarei aos Espiritos remedio
    E um bom Espirito virá tratar do doente
    E ha-de tremer de susto a outra gente.
    E a noite descerá, pouco e pouco, no entanto,
    E a noite embrulhará o Afflicto no seu manto!
    Mas a Purinha, então, vindo da rua,
    Toda de branco surgirá, como uma Lua!
    E, então, acordarei d'essa desesperança
    E pela mão me levará, como uma criança.
    E eu pallido! e eu tremendo! e o Anjo pelo caminho,
    «Não te afflijas…» dirá, baixinho…
    E, assim, será piedoza para os mais:
    E ha-de entrar na mizeria dos cazaes,
    Nos montes mais altos, nos sitios mais ermos,
    E será a Saude dos Enfermos!
    E quando pela estrada encontrar um velhinho
    Todo suado, carregadinho,
    (Louvado seja Nosso Senhor!)
    Ha-de tirar seu lenço e ir enxugar-lhe o suor!
    E ás aves, em prisão, abrirá as gaiolas.
    E, aos sabbados, o dia das esmolas,
    A Santa descerá ao patamar da escada,
    Envolta, sem saber, n'uma capa estrellada,
    Esmolas, distribuindo a este e áquelle: e aos ceguinhos
    E mais aos alleijadinhos,
    Mais aos que botam sangue pela bocca,
    Mais aos que vêm cantar, numa rabeca rouca,
    Amores, naufragios e _A Nau Cathrineta_,
    Mais aos Afflictos deste vil Planeta,
    Mais ás viuvas dos degredados…
    E tudo seja pelos meus peccados!
    E ha-de cozer (serão os remendos de flores)
    As velas rôtas dos pescadores
    E a luz do seu olhar benzerá essas velas
    E nunca mais hão-de rasgar-lh'as as procellas!
    E accenderá os cyrios ao Senhor,
    (Que sejam como ella no talhe e na cor!)
    Quando houver temporal… e eu virei p'ra saccada
    Ver os relampagos, ouvir a trovoada!…
    E n'isto só rezumir-se-á a sua vida:
    Vestir os nus, aos pobres dar guarida,
    Fallar á alma que na angustia se consome,
    Dar de comer a quem tem fome,
    Dar de beber a quem tem sede…
    E, lá, do céu, Jezus dirá aos homens: «Vede…»
    E eu hei-de em minhas obras imital-a
    E amal-a como á Virgem e adoral-a.
    E a Virgem ha-de encher com a mesma paixão
    As marés-vazas d'este doido coração
    E as suas ondas ha-de, olympica, aplacar,
    Que para mim, linda Joanninha d'Arc,
    Que para mim será a lua-nova!
    E ha-de ir commigo para a mesma cova,
    Pois que no dia em que eu morrer
    Veneno tomará, n'uma colher…

    Mas em que patria, em que nação é que se esconde
    Esta Bandeira, esta India, este Castello, aonde? aonde?
    Fui ter com minha fada, e disse-lhe: «Madrinha!
    Mas pode haver, assim, na Terra uma Purinha?»
    E a minha fada com sua vara de marfim
    Tocou meu peito… e _alguem_ sorriu lá dentro: _Sim_…

    Meninas, lindas meninas!
    Qual de vós é o meu ideal?
    Meninas, lindas meninas
    Do Reino de Portugal!

    Pariz, 1891.

    *Elegia*

    Vae em seis mezes que deixei a minha terra
    E tu ficaste lá, mettida n'uma serra,
    Boa velhinha! que eras mais uma criança…
    Mas, tão longe de ti, n'este Payz de França,
    Onde mal viste, então, que eu viesse parar,
    Vejo-te, quanta vez! por esta sala a andar…
    Bates. Entreabres de mansinho a minha porta.
    Virás tratar de mim, ainda depois de morta?
    Vens de tão longe! E fazes, só, essa jornada!
    Ajuda-te o bordão que te empresta uma fada.
    Altas horas, emquanto o bom coveiro dorme,
    Escapas-teãda cova e vens, Bondade enorme!
    Atravez do Marão que a lua-cheia banha,
    Atravessas, sorrindo, a mysteriosa Hespanha,
    Perguntas ao pastor que anda guardando o gado,
    (E as fontes cantam e o céu é todo estrellado…)
    Para que banda fica a França, e elle, a apontar,
    Diz: «Vá seguindo sempre a minha estrella, no Ar!»
    E ha-de ficar scismando, ao ver-te assim, velhinha,
    Que és tu a Virgem disfarçada em probrezinha…
    Mas tu, sorrindo sempre, olhando sempre os céus,
    Deixando atraz de ti, os negros Pyrineus,
    Sob os quaes rola a humanidade, nos Expressos,
    Em certo dia ao fim de tantos (conto-os, meço-os!)
    Vindo de villa em villa, e mais de serra em serra,
    Chegas!
    E cae e cae no soalho alguma terra:
    Tua cova que vem pegada aos teus vestidos!

    Ó lua do ceguinho! Amparo dos vencidos!
    Alpendre do perdão! ó Piedade! ó Clemencia!
    Singular fado o nosso, estranha coincidencia:
    Deixamos nossa Patria ao mesmo tempo: tu,
    Adentro d'um caixão, que era tambem bahu,
    Onde levavas as desgraças d'esta vida;
    Eu, n'um paquete sobre a vaga enraivecida
    (Sob a qual, entretanto, havia a paz das loizas)
    E n'elle o esquife do meu lar, as minhas coizas,
    E mais tu sabes, Santa! um sacco de mizerias!
    Mas a existencia, é um dia, esta vida são férias
    E, mal acabem, te verei de novo… em breve!
    E tu de novo me verás…
    Ah! como deve
    Ser frio esse teu lar de debaixo da terra
    Que teu cadaver de oiro ainda intacto encerra:
    Ainda intacto e sempre: disse-me o coveiro
    Que a tua cova era a unica sem cheiro…
    E assim te deixo, Santa! Santa! ao abandono,
    Só, aos cuidados das corujas e do Outomno!
    Com este frio, horror! Senhora da Piedade!
    Sem uma mão amiga e cheia de bondade
    Que te agazalhe e faça a dobra do lençol,
    Que abra a janella para tu veres o sol,
    Que, logo de manhã, venha trazer-te o leite
    E, á noite, a lamparina-esmalte com azeite!
    Sem uma voz que vá ao pé da tua loiza,
    Ancioza, perguntar se queres alguma coiza,
    Cobrir-te, dar-te as boas-noites… Sem ninguem!
    Ai de ti! ai de ti! minha segunda Mãe!

    Dobra era meu coração o sino da saudade…

    Aqui, no meio d'esta fria soledade,
    Evoco a Coimbra triste, em seu aspecto moiro:
    Entro, chapéu na mão, em tua Caza d'Oiro,
    Em frente a um cannavial, cheio de rouxinoes,
    Que era nervozo de mysterio, ao por-dos-soes…
    Vejo o teu lar e a ti, tão pura, tão singella,
    E vejo-te a sorrir, e vejo-te, á janella,
    Quando eu seguia para as aulas, manhã cedo,
    Ancioza, olhando d'entre as folhas do arvoredo,
    Olhando sempre até eu me sumir, a olhar,
    Que ás vezes não me fosse um carro atropelar.
    Vejo o meu quarto de dormir, todo caiado,
    D'onde ouvia arrulhar as pombas, no telhado;
    Oiço o relogio a dar as horas vagamente,
    Devagar, devagar, como os ais d'um doente…
    Vejo-te, á noite, pelas noites de Janeiro,
    Na sala a trabalhar, á luz do candieiro,
    Mais vejo o Emilio, indo a tactear, quasi sem vista,
    Mas que lembrava com seus olhos de ametysta,
    Meio cerrados, como ao sol uma janella,
    Que lindos olhos! uma pomba de _Ramella_!
    E andava á solta pela caza, não fugia,
    Que aos libres ares o cazulo preferia…
    Mais vejo Aquella, cujo olhar são pyrilampos,
    Que tem o nome da mais linda flor dos campos,
    Que tem o nome que tiveste… Vejo-a, ainda,
    Como se hontem fosse, a Margareth, tão linda:
    Vejo-a passar, sorrindo, e faz-me assim lembrar
    No seu vestido rubro, uma papoila a andar…
    Mais te vejo ainda ungir d'affagos minhas penas,
    Mais te vejo voltar, á tarde, das novenas…
    Mais oiço os sinos a dobrar, em _Santa Clara_,
    E tu encommendando a alminha que voara…
    Mais vejo os meus contemporaneos, pela _Estrada_,
    As capas destraçando, ao verem-te á saccada;
    Mais vejo o Ruy, na sua farda de artilheiro,
    E tu mirando-o (o que são mães!) o dia inteiro!
    Mais vejo o sol, aurea cabeça do Senhor,
    Mais vejo os cravos, notas de clarim em flor!
    Mais vejo no quintal as papoilas vermelhas,
    Mais vejo o lar das andorinhas, sob as telhas,
    Mais oiço o tanque a soluçar soluços d'agoa,
    Mais oiço as rãs, coaxando á noite a sua magoa,
    Mais vejo o figueiral todo cheio de figos,
    Mais vejo a tua mão a dal-os aos mendigos…
    Mais oiço os guizos, ao passar da mala-posta,
    Mais vejo a sala de jantar, a meza-posta,
    E tu, Senhora! prezidindo, á cabeceira.
    E (o que a distancia faz!) vejo-te na cadeira,
    Com uma touca preta a cobrir-te os cabellos,
    Que eram de neve, aos caracoes, estou a vel-os!
    (Hei-de ir cortar-t'os, alta noite, ao cemiterio…)
    Mais vejo o Vasco sempre triste, sempre serio,
    D'um lado e eu de outro…

    Que abençoado refeitorio!

    Mas tudo passa n'este mundo tranzitorio!
    E tudo passa e tudo fica! A Vida é assim
    E sel-o-á sempre pelos seculos sem fim!
    Ainda vejo a tua caza, e oiço os teus gritos
    (Mas nas janellas e na porta vejo escriptos!)
    O Vasco é ainda sempre triste, sempre serio
    (Mas sua caza, agora, é ao pé d'um cemiterio…)
    Meu quarto de dormir vejo-o no mesmo estado
    (Mas não sei que é, não me parece tão caiado.)
    A janella ainda tem o mesmo parapeito
    (Mas já não sou «o estudantinho de Direito».)
    Na sala de jantar ainda se estende a meza
    (Mas já não tem a meza-posta, a sobremeza.)
    Vejo o relogio na parede como outrora
    (Mas o ponteiro marca ainda a mesma hora…)
    O candieiro ainda tem o petroleo e a torcida
    (Mas apagou-se a luz a quando a tua vida.)
    A diligencia passa, á tardinha, a tinir,
    (Mas já não tem os olhos teus para a seguir…)
    Passam ainda pela _Estrada_ os estudantes
    (Mas não destraçam suas capas, como d'antes…)
    Vêm da novena ainda as moças e as donzellas
    (Mas procuro-te, em vão, já não te vejo entre ellas…)
    As andorinhas ainda têm o mesmo fito
    (Mas já fizeram trez jornadas ao Egypto…)
    Ainda dobra por defuntos e defuntas
    (Mas não te vejo a ti a rezar de mãos juntas.)
    Ainda lá está o figueiral com figos,
    (Mas não a tua mão a dal-os aos mendigos…)
    O Ruy ainda traz a farda de soldado
    (Mas, agora, já poe mais divizas, ao lado.)
    As rãs coaxam ainda á noite, á beira d'agoa
    (Mas, já não têm quem peça a Deus por essa magoa.)
    O Emilio tem ainda esse olhar que maravilha,
    (Mas, com seus olhos d'hoje, é uma pombinha da _Ilha_)
    Ainda lá estão os cravos, no jardim,
    (Mas já não são as mesmas notas de clarim…)
    Ainda oiço o tanque a soluçar a sua magoa
    (Mas já não acho tão branquinha a sua agoa…)
    A Margareth ainda é a papoila de outrora
    (Mas a papoila… já está uma senhora!)
    Ainda lá estão as papoilas em flor
    (Mas a velhinha já não vae de regador…)
    Meu coração é ainda o Valle de Gangrenas
    (Mas já não tenho quem lhe plante as açucenas…)
    Vive ainda o Sol, vivo eu ainda… (Mas tu morreste!)
    Tudo ficou, tudo passou…

    Que mundo este!

    Pariz, 1891.

    *Os Sinos*

    1

    Os sinos tocam a noivado,
    No Ar lavado!
    Os sinos tocam, no Ar lavado,
    A noivado!

    Que linda criança que assoma na rua!
    Que linda, a andar!
    Em extasi, o povo commenta que é a Lua,
    Que vem a andar…

    Tambem, algum dia, o povo na rua,
    Quando eu cazar,
    Ao ver minha noiva, dirá que é a Lua
    Que vae cazar…

    2

    E o sino toca a baptizado
    Que lindo fado?
    E o sino toca um lindo fado,
    A baptizado!

    E banham o anjinho na agoa de neve,
    Para o lavar,
    E banham o anjinho na agoa de neve,
    Para o sujar.

    Ó boa madrinha, que o enxugas de leve,
    Tem dó d'esses gritos! Comprehende esses ais:
    Antes o enxugue a _Velha_! antes Deus t'o leve!
    Não soffre mais…

    3

    Os sinos dobram por anjinho,
    Coitadinho!
    Os sinos dobram, coitadinho…
    Pelo anjinho!

    Que aceiada que vae p'ra cova!
    Olhae! olhae!
    Sapatinhos de sola nova,
    Olhae! olhae!

    Ó lindos sapatos de solinha nova,
    Bailae! bailae!
    Nas eiras que rodam debaixo da cova…
    Bailae! bailae!

    4

    O sino toca p'ra novena,
    _Gratiae plena_,
    E o sino toca, _gratiae plena_,
    P'ra novena.

    Ide, meninas, á ladainha,
    Ide rezar!
    Pensae nas almas como a minha…
    Ide rezar!

    Se, um dia, me deres alguma filhinha,
    Ó Mãe dos Afflictos! ella ha-de ir, tambem:
    Ha-de ir ás novenas, assim, á tardinha,
    Com sua mãe…

    5

    E o sino chama ao Senhor-fóra,
    A esta hora!
    Os sinos clamam, a esta hora,
    Ao Senhor-fóra!

    Accendei, vizinhos, as velas,
    Allumiae!
    Velas de cera nas janellas!
    Allumiae!

    E luas e estrellas tambem poem velas,
    A allumiar!
    E a _alminha_, a esta hora, já está entre ellas,
    A allumiar…

    6

    E os sinos dobram a defuntos,
    Todos juntos!
    E os sinos dobram, todos juntos,
    A defuntos!

    Que triste ver amortalhados!
    Senhor! Senhor!
    Que triste ver olhos fechados!
    Senhor! Senhor!

    Que pena me fazem os amortalhados,
    Vestidos de preto, deitados de costas…
    E de olhos fechados! e de olhos fechados!
    E de mãos postas!

    E os sinos dobram a defuntos,
    Dlin! dlang! dling! dlong!
    E os sinos dobram, todos juntos,
    Dlong! dlin! dling! dlong

    Pariz, 1891.

    *Terças-Feiras*

    Ao Alberto

    1

    Ó condezinho de Tolstoï (Alberto)
    Santo de minha extrema devoção,
    Alma tamanha, que adorei de perto,
    Lá na _Thebaida_ do Sr. João.

    Meu Calix do Senhor! Meu Pallio aberto!
    Luar branco na minha escuridão!
    Ó minha Joanna d'Arc! Amigo certo
    Na hora incerta! Aguia! Meu Irmão!

    A ti as _Terças-feiras_, n'este Inferno,
    D'aquelle que nasceu, em terça-feira
    E em terça-feira morrerá, talvez…

    Quando eu for morto já, noites de inverno,
    Aos teus filhinhos, conta-as á lareira
    Para eu ouvir de _lá_:

    «Era uma vez…

    Pariz, 1891.

    2

    Legenda do Santo

    «Era uma vez um velho, mui velhinho,
    Vinde, meus filhos! vinde ouvir contar!
    Seguia, ao por-do-sol, por um caminho,
    Dois saccos de Amargura a carregar.

    O pobre velho, todo derreadinho,
    Já não podia mais, queria arreiar;
    Mas passa um cavalleiro: «Olá, santinho!
    Eu deito-lhe uma mão para o ajudar…»

    E o fidalgo desceu do seu cavallo:
    Tomou-lhe os saccos que iam a matal-o
    E aos hombros carregou com o maior!

    E, hoje, o velhinho anda a construir, coitado!
    Que linda ermida, n'esse chão sagrado,
    Onde lhe appareceu _Nosso Senhor_!»

    Pariz, 1891.

    3

    Prologo

    Em hora de afflicçãô, molhei a penna
    Na chaga aberta d'esse corpo amado,
    Mas n'uma chaga a suppurar gangrena,
    Cheia de puz, de sangue já coalhado!

    E depois, com a mão firme e serena,
    Compuz este missal d'um torturado:
    Talvez choreis, talvez vos faça pena…
    Chorae! que immenso tenho eu já chorado.

    Abri-o! Orae com devoção sincera!
    E, à leitura final d'uma oração,
    Vereis cair no solo uma chymera…

    Moços do meu paiz! vereis então
    O que é esta Vida, o que é que vos espera…
    Toda uma Sexta-feira de Paixão!

    Coimbra, 1889.

    4

    Natal d'um Poeta

    Em certo reino, á esquina do planeta,
    Onde nasceram meus Avós, meus Paes,
    Ha quatro lustres, viu a luz um poeta
    Que melhor fôra não a ver jamais.

    Mal despontava para a vida inquieta,
    Logo ao nascer, mataram-lhe os ideaes,
    A falsa-fé, n'uma traição abjecta,
    Como os bandidos nas estradas reaes!

    E, embora eu seja descendente, um ramo
    D'essa arvore de Heroes que, entre perigos
    E guerras, se esforçaram pelo ideal:

    Nada me importas, Paiz! seja meu amo
    O Carlos ou o Zé da Th'reza… Amigos,
    Que desgraça nascer em Portugal!

    Coimbra, 1889.

    5

    Ai de Mim!

    Venho, torna-me velho esta lembrança!
    D'um enterro d'anjinho, nobre e puro:
    Infancia, era este o nome da criança
    Que, hoje, dorme entre os bichos, lá no escuro…

    Trez anjos, a Chymera, o Amor, a Esperança
    Acompanharam-n'o ao jazigo obscuro,
    E recebeu, segundo a velha usança,
    A chave do caixão o meu Futuro.

    Hoje, ambulante e abandonada Ermida,
    Leva-me o fado, á bruta, aos empurrões,
    Vá para a frente! Marcha! Á Vida! Á Vida!

    Que hei-de fazer, Senhor! o qu'é que espera
    Um bacharel formado em illuzões
    Pela Universidade da Chymera?

    Boa Nova, 1887.

    6

    Conde

    Na praia lá da Boa Nova, um dia,
    Edifiquei (foi esse um grande mal)
    Torreão de gloria, o que é a phantasia,
    Todo de lapis-lazzuli e coral!

    N'aquellas redondezas, não havia
    Quem se gabasse d'um dominio egual:
    Oh o Torreão de gloria! parecia
    O territorio d'um Senhor-feudal!

    Um dia, não sei quando, nem sei d'onde;
    Um vento secco de tortura e spleen
    Deitou por terra, ao pó que tudo esconde,

    O meu condado, o meu condado, sim!
    Porque eu já foi um poderoso Conde,
    N'aquella idade em que se é conde assim…

    Porto, 1887.

    7

    Ó Virgens!

    Ó virgens que passaes, ao sol-poente,
    Pelas estradas ermas, a cantar!
    Eu quero ouvir uma canção ardente
    Que me transporte ao meu perdido lar…

    Cantae-me, n'essa voz omnipotente,
    O sol que tomba, aureolando o mar,
    A fartura da seara reluzente,
    O vinho, a graça, a formozura, o luar!

    Cantae! cantae as limpidas cantigas!
    Das ruinas do meu lar desatterrae
    Todas aquellas illuzões antigas

    Que eu vi morrer n'um sonho, como um ai…
    Ó suaves e frescas raparigas;
    Adormecei-me n'essa voz… Cantae!

    Porto, 1886.

    8

    Á Luz de Lua!

    Iamos sós pela floresta amiga,
    Onde em perfumes o luar se evola,
    Olhando os céus, modesta rapariga!
    Como as crianças ao sair da escola.

    Em teus olhos dormentes de fadiga,
    Meio cerrados como o olhar da rola,
    Eu ia lendo essa ballada antiga
    D'uns noivos mortos ao cingir da estola…

    A Lua-a-Branca, que é tua avozinha,
    Cobria com os seus os teus cabellos
    E dava-te um aspeto de velhinha!

    Que linda eras, o luar que o diga!
    E eu compondo estes versos, tu a lel-os,
    E ambos scismando na floresta amiga…

    Porto, 1884.

    9

    Desobriga

    Os meus peccados, Anjo! os meus peccados!
    Contar-t'os? Para que, se não têm fim…
    Sou santo ao pé dos outros desgraçados,
    Mas tu és mais que santa ao pé de mim!

    A ti accendo cyrios perfumados,
    Faço novenas, queimo-te alecrim,
    Quando soffro, me vejo com cuidados…
    Nas tuas rezas, lembra-te de mim!

    Que eu seja puro d'alma e pensamento!
    E que, em dia do grande julgamento,
    Minhas culpas não sejam de maior:

    Pois tenho, que o céu tudo aponta e marca,
    Um processo a correr n'essa comarca,
    Cujo delegado é Nosso Senhor…

    Hamburgo, 1891.

    10

    Que Aborrecido!

    Meus dias de rapaz, de adolescente,
    Abrem a bocca a bocejar sombrios:
    Deslizam vagarozos, como os rios,
    Succedem-se uns aos outros, egualmente.

    Nunca desperto de manhã, contente.
    Pallido sempre com os labios frios,
    Oro, desfiando os meus rozarios pios…
    Fôra melhor dormir, eternamente!

    Mas não ter eu aspirações vivazes,
    E não ter, como têm os mais rapazes,
    Olhos boiando em sol, labio vermelho!

    Quero viver, eu sinto-o, mas não posso:
    E não sei, sendo assim, emquanto moço,
    O que serei, então, depois de velho…

    Bellos-Ares, 1889.

    11

    Poveiro

    Poveirinhos! meus velhos pescadores!
    Na Agoa quizera com vocês morar:
    Trazer o lindo gorro de trez cores,
    Mestre da lancha _Deixem-nos passar_!

    Far-me-ia outro, que os vossos interiores
    De ha tantos tempos, devem já estar
    Calafetados pelo breu das dores,
    Como esses pongos em que andaes no mar!

    Ó meu Pae, não ser eu dos poveirinhos!
    Não seres tu, para eu o ser, poveiro,
    Mail-Irmão do «Senhor de Mattozinhos»!

    No alto mar, ás trovoadas, entre gritos,
    Promettermos, _si o barco fôri intieiro_,
    _Nossa bela á Sinhora dos Afflictos_!

    Leça, 1889.

    12

    O Sr. Abbade

    Quando vem Junho e deixo esta cidade,
    Batina, _Caes_, tuberculozos céus,
    Vou para o Seixo, para a minha herdade:
    Adeus, cavaco e luar! choupos, adeus!

    Tomo o regimen do Sr. Abbade,
    E faço as pazes, elle o quer, com Deus.
    No seu direito olhar vejo a bondade,
    E ás capellinhas vou ver os judeus.

    Que homem sem par! Ignora o que são dores!
    Para elle uma ramada é o pallio verde,
    Os cachos d'uvas são as suas flores!

    Ao seu passal chama elle o mundo todo…
    Sr. Abbade! olhe que nada perde:
    Viva na paz, ahi, longe do lodo.

    Coimbra, 1850.

    13

    Maes, Vinde Ouvir!

    Longe de ti, na cella do meu quarto,
    Meu copo cheio de agoirentas fezes,
    Sinto que rezas do Outro-mundo, harto,
    Pelo teu filho. Minha Mãe, não rezes!

    Para fallar, assim, ve tu! já farto,
    Para me ouvires blasphemar, ás vezes,
    Soffres por mim as dores crueis do parto
    E trazes-me no ventre nove mezes!

    Nunca me houvesses dado á luz, Senhora!
    Nunca eu mamasse o leite aureolado
    Que me fez homem, magica bebida!

    Fôra melhor não ter nascido, fôra,
    Do que andar, como eu ando, degredado
    Por esta Costa d'Africa da Vida…

    Coimbra, 1889.

    14

    Sê Altivo!

    Altos pinheiros septuagenarios
    E ainda empertigados sobre a serra!
    Sois os Enviados-extraordinarios,
    Embaixadores d'El-Rey Pan, na Terra.

    A noite, sob aquelles lampadarios,
    Conferenciaes com elle… Ha paz? Ha guerra?
    E tomam notas vossos secretarios,
    Que o _Livro Verde_ secular encerra.

    Hirtos e altos, Tayllerands dos montes!
    Tendes a linha, não vergaes as frontes
    Na exigencia da côrte, ou beija-mão!

    Voltaes aos homens com desdem a face…
    Ai oxalá! que Pan me despachasse
    Addido á vossa extranha legação!

    Coimbra, 1888.

    15

    Sê de Pedra!

    Não reparaste nunca? Pela aldeia,
    Nos fios telegraphicos da estrada,
    Cantam as aves, desde que o sol nada,
    E, á noite, se faz sol a lua cheia…

    No entanto, pelo arame que as tenteia,
    Quanta tortura vae, n'uma ancia alada!
    O Ministro que joga uma cartada,
    Alma que, ás vezes, d'além-mar anceia:

    –Revolução!–Inutil.–Cem feridos,
    Setenta mortos.–Beijo-te!–Perdidos!
    –Emfim, feliz!–?–!–Desesperado.–Vem!

    E as lindas aves, bem se importam ellas!
    Continuam cantando, tagarellas:
    Assim, Antonio! deves ser tambem.

    Colonia, 1891.

    16

    Vae para um Convento!

    Falhei na Vida. Zut! Ideaes caidos!
    Torres por terra! As arvores sem ramos!
    Ó meus amigos! todos nós falhamos…
    Nada nos resta. Somos uns perdidos.

    Choremos, abracemo-nos, unidos!
    Que fazer? Porque não nos suicidamos?
    Jezus! Jezus! Resignação… Formamos
    No mundo, o Claustro-pleno dos Vencidos.

    Troquemos o burel por esta capa!
    Ao longe, os sinos mysticos da Trappa
    Clamam por nós, convidam-nos a entrar…

    Vamos semear o pão, podar as uvas,
    Pegae na enxada, descalçae as luvas,
    Tendes bom corpo, Irmãos! Vamos cavar…

    Coimbra, 1889.

    17

    A França!

    Vou sobre o Oceano (o luar de lindo enleva!)
    Por este mar de Gloria, em plena paz.
    Terras da Patria somem-se na treva,
    Agoas de Portugal ficam, atraz…

    Onde vou eu? Meu fado onde me leva?
    Antonio, onde vaes tu, doido rapaz?
    Não sei. Mas o vapor, quando se eleva,
    Lembra o meu coração, na ancia em que jaz…

    Ó Luzitania que te vaes á vela!
    Adeus! que eu parto (rezarei por ella…)
    Na minha _Nau Catharineta_, adeus!

    Paquete, meu paquete, anda ligeiro!
    Sobe depressa á gavea, marinheiro,
    E grita, França! pelo amor de Deus!…

    Oceano Atlantico, 1890.

    18

    Tempestade!

    O meu beliche é tal qual o bercinho,
    Onde dormi horas que não vêm mais.
    Dos seus embalos já estou cheiinho:
    Minha velha ama são os vendavaes!

    Uivam os ventos! Fumo, bebo vinho.
    O vapor treme! Abraço a _Biblia_, aos ais…
    Covarde! Que dirá teu Avôzinho,
    Que foi moreante? Que dirão teus Paes?

    Coragem! Considera o que has soffrido,
    O que soffres e o que ainda soffrerás,
    E ve, depois, se accaso é permittido

    Tal medo á Morte, tanto apego ao mundo:
    Ah! fôra bem melhor, vás onde vás,
    Antonio, que o paquete fosse ao fundo!

    Golpho de Biscaya, 1891.

    19

    Continua a Tempestade

    Aqui, sobre estas aguas cor de azeite,
    Scismo em meu lar, na paz que lá havia:
    Carlota, á noite, ia ver se eu dormia
    E vinha, de manhã, trazer-me o leite…

    Aqui, não tenho um unico deleite!
    Talvez… baixando, em breve, á Agoa fria,
    Sem um beijo, sem uma _Ave-Maria_,
    Sem uma flor, sem o menor enfeite…

    Ah! podesse eu voltar á minha infancia!
    Lar adorado, em fumos, a distancia,
    Ao pé de minha Irmã, vendo-a bordar…

    Minha velha aia! conta-me essa historia
    Que principiava, tenho-a na memoria,
    «Era uma vez…»
    Ah deixem-me chorar!

    Canal da Mancha, 1891.

    20

    Vaidade, Tudo Vaidade!

    Vaidade, meu amor, tudo vaidade!
    Ouve: quando eu, um dia, for alguem,
    Tuas amigas ter-te-ão amizade,
    (Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm.

    Vaidade é o luxo, a gloria, a caridade,
    Tudo vaidade! E, se pensares bem,
    Verás, perdoa-me esta crueldade,
    Que é uma vaidade o amor de tua mãe…

    Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna
    E eu vi-me só no mar com minha escuna,
    E ninguem me valeu na tempestade!

    Hoje, já voltam com seu ar composto,
    Mas eu, ve lá! eu volto-lhes o rosto…
    E isto em mim não será uma vaidade?

    Mar do Norte, 1891.

    21

    Paz!

    E a Vida foi, e é assim, e não melhora.
    Esforço inutil, crê! Tudo é illuzão…
    Quantos não scismam n'isso mesmo a esta hora
    Com uma taça, ou um punhal na mão!

    Mas a Arte, o Lar, um filho, Antonio? Embora!
    Chymeras, sonhos, bolas de sabão.
    E a tortura do _além_ e quem lá mora!
    Isso é, talvez, minha unica afflicção…

    Toda a dor pode suspportar-se, toda!
    Mesmo a da noiva morta em plena boda,
    Que por mortalha leva… essa que traz…

    Mas uma não: é a dor do pensamento!
    Ai quem me dera entrar n'esse convento
    Que ha além da Morte e que se chama _A Paz_!

    Pariz, 1891.

    22

    Epilogo

    Meu coração, não batas, pára!
    Meu coração, vae-te deitar!
    A nossa dor, bem sei, é amara,
    A nossa dor, bem sei, é amara…
    Meu coração, vamos sonhar…
    Ao mundo vim, mas enganado.
    Sinto-me farto de viver:
    Vi o que elle era, estou massado,
    Vi o que elle era, estou massado…
    Não batas mais! vamos morrer…
    Bati á porta da Ventura
    Ninguem m'à abriu, bati em vão:
    Vamos a ver se a sepultura,
    Vamos a ver se a sepultura
    Nos faz o mesmo, coração!
    Adeus, Planeta! adeus, ó Lama!
    Que a ambos nós vaes digerir…
    Meu coração, a _Velha_ chama,
    Meu coração, a _Velha_ chama…
    Basta, por Deus! vamos dormir…

    Coimbra, 1888.

    *Carta a Manoel*

    Manoel, tens razão. Venho tarde. Desculpa.
    Mas não foi Anto, não fui eu quem teve a culpa,
    Foi Coimbra. Foi esta paysagem triste, triste,
    A cuja influencia a minha alma não reziste,
    Queres noticias? Queres que os meus nervos fallem?
    Vá! dize aos choupos do Mondego que se callem…
    E pede ao vento que não uive e gema tanto:
    Que, emfim, se soffre abafe as torturas em pranto,
    Mas que me deixe em paz! Ah tu não imaginas
    Quanto isto me faz mal! Peor que as sabbatinas
    Dos _ursos_ na aula, peor que beatas correrias
    De velhas magras, galopando _Ave-Marias_,
    Peor que um diamante a riscar na vidraça!
    Peor eu sei lá, Manoel, peor que uma desgraça!
    Hysterisa-me o vento, absorve-me a alma toda,
    Tal a menina pelas vesperas da boda,
    Atarefada mail-a ama, a arrumar…
    O vento afoga o meu espirito n'um mar
    Verde, azul, branco, negro, cujos vagalhões
    São todos feitos de luar, recordações.
    Á noite, quando estou, aqui, na minha toca,
    O grande evocador do vento evoca, evoca
    Nosso verão magnifico, este anno passado,
    (E a um canto bate, alli, cardiaco, apressado,
    O _tic-tac_ do relogio do fogão)…
    Bons tempos, Manoel, esses que já lá vão!
    Isto, tu sabes? faz vontade de chorar.
    E, pela noite em claro, eu fico-me a scismar,
    Triste, ao clarão da lamparina que desmaia,
    Na existencia que tive este verão na praia,
    Quando, mal na amplidão, vinha arraiando a aurora,
    Ia por esse mar de Jezus-Christo fóra,
    No barco á vela do moreno Gabriel!
    Vejo passar de negro, envoltas n'um burel,
    Quantos sonhos, meu Deus! quantas recordações!
    Phantasmas do passado! encantadas vizões!
    Que, embora estejam lá, no seu paiz distante,
    Oiço-as fallar na minha alcova de estudante.

    Minhas vizões! entrae, entrae, não tenhaes medo!

    Ó _Rio Doce_! tunnel d'agoa e de arvoredo!
    Por onde Anto vogava em o wagon d'um bote…
    E, ao sol do meio dia, os banhos em pelote,
    Quando iamos nadar, á _Ponte de Tavares_!
    Tudo se foi! Espuma em flocos pelos ares!
    Tudo se foi…

    Hoje, mais nada tenho que esta
    Vida claustral, bacharelatica, funesta,
    N'uma cidade assim, cheirando, essa indecente!
    Por toda a parte, desde a Alta á Baixa, a lente!
    Bem me dizias tu, como que adivinhando
    O que isto para mim seria, Amigo, quando
    O anno passado, vim contra tua vontade
    Matricular-me, ahi, n'essa Universidade:
    «Anto não vás…» dizias tu. Eu, fraco, vim.
    Mas certamente, é natural, não chego ao fim.
    Ah quanto fôra bem melhor a formatura,
    Na Escola-Livre da Natureza, Mãe pura!
    Que optimas prelecções as prelecções modernas,
    Cheias de observação e verdades eternas,
    Que faz diariamente o Proff. Oceano!
    Já tinha dado todo o _Coraçao Humano_,
    Manoel! faltava um anno só para acabar
    Meu curso de Psychologia com o Mar.
    Porque troquei pela Coimbra inutil, vã,
    Essa Escola sem par, cujo reitor é Pan?
    Talvez… preguiça, eu sei… A _cabra_ é a cotovia:
    As aulas, lá, começam mal aponta o dia!

    Que tedio o meu, Manoel! Antes de vir, gostava.
    Era a distancia, o _além_, que me impressionava:
    Tinha a poezia do sol-por, d'uma esperança.
    Mas, mal cheguei (que espanto! eu era uma criança…)
    Tudo rolou no solo! A _Tasca das Camellas_
    Para mim, era um sonho, o céu cheio de estrellas:
    Nossa Senhora a dar de ceiar aos estudantes
    Por _6 e 5_! Mas ah! foi-se a Virgem d'antes,
    Tia Camella… só ficou a camelice.

    Comtudo, em meio d'esta futil coimbrice,
    Que lindas coisas a lendaria Coimbra encerra!
    Que paysagera lunar que é a mais doce da Terra!
    Que extraordinarias e medievas raparigas!
    E o rio e as fontes? e as fogueiras? e as cantigas?
    As cantigas! Que encanto! Uma diz-te respeito,
    Manoel; é um sonho, é um beijo, é um amor-perfeito
    Onde o luar gelou: «Manoel! tão lindas moças!
    Manoel! tão lindas são…»

    Que pena que não ouças!

    Quero mostrar-te Coimbra. Has-de gostar. Partamos.
    Dá-me o teu braço e vem d'ahi commigo, vamos!

    Olha… São os _Geraes_, no intervallo das aulas.
    Bateu o quarto. Ve! Vem sahindo das jaulas
    Os estudantes, sob o olhar pardo dos lentes:
    Ao vel-os, quem dirá que são os descendentes
    Dos navegantes do seculo XVI?
    Curvam a espinha, como os aulicos aos reis!
    E magros! tristes! de cabeça derreiada!
    Ah! Como hão-de, amanhã, pegarem uma espada!
    –E os doutores?–Ahi, os tens graves, á porta.
    Porque te ris? Olhal-os tanto… Que te importa?
    Ha duas excepções: o mais, são todos um,
    Quaresma d'alma, sexta-feira de jejum…
    Não quero entanto, meu Manoel, que vás embora
    Sem ver aquelle amor que esta alma adora, adora:
    Olha, acolá. Gigante, altivo como um cedro,
    Olhando para mim com ternura: é o meu Pedro
    Penedo!
    Ó Pedro da minh'alma! meu amigo!
    Que feliz sou, bom velho, em estudar comtigo!
    Mal diria eu em pequenito, quando a ama
    Para eu me callar, vinha fazer-me susto á cama
    Por ti chamava: Pedro! e eu socegava logo,
    Que eras tu o _Papão_! A ama, de olhos em fogo,
    Imitava-te o andar, que não era bem de homem…
    Eu tinha birras?–Ahi vem o lobishomem!
    Dizia ella.–Bate á porta! Truz! truz! truz!
    E tu entravas, Pedro, eu via! Horror! Jezus!

    Meu velho Pedro! meu phantasma de criança!
    Quero-te bem, tanto que tenho na lembrança,
    Quando morreres, Pedro! (o Pedro nunca morre)
    Hei-de pegar em ti, encher de alcool a Torre
    Com todo o meu esmero e, zás! metter-te dentro!
    Pedro! assim ficas enfrascado, ao alto e ao centro,
    E eternamente, para espanto de vindoiros:
    No rotulo porei: _Alli-Bed, Rei dos Moiros_.

    Mas… toca a recolher. Dou uma falta: embora!
    Saiamos…
    Manoel, vamos por ahi fóra
    Lavar a alma, furtar beijos, colher flores,
    Por esses lindos, deliciozos arredores,
    Que vistos uma vez, ah! não se esquecem mais:
    Torres, Condeixa, Santo Antonio de Olivaes,
    Lorvão, Sernache, Nazareth, Tentugal, Cellas!
    Sitios sem par! Onde ha paysagens como aquellas?
    Santos Logares, onde jaz meu coração!
    Cada um é para mim uma recordação…

    _Condeixa_?

    Vamos ao arraial que, alli, ha.
    –Sol, poeira, tanta gente!–É o mesmo, vamos lá!

    Olha! Estudantes, dando o braço ás raparigas,
    Caras de leite, olhos de luar, tranças d'estrigas;
    Arrancam-lhes do seio arfando as violetas,
    Aos hombros d'ellas poem suas capas pretas:
    Que deliciosos estudantes que ellas ficam!
    Velhos aldeões que tudo vêm, mas não implicam,
    Porque, em summa, que mal pode fazer um beijo,
    Vem até nós, sorrindo, aproveitando o ensejo,
    Com o chapéu na mão, simples e bons e honrados:
    Vêm consultar-nos, porque «somos advogados
    E sabemos das leis…» O que devem fazer
    Ahi, n'uma questão, n'uma questão qualquer
    D'agoas com um vizinho: é tal a cheia d'ellas
    Que estraga as plantações!–Que hão-de fazer? Bebel-as!
    E vão-se, assim, jurando aviar nossos conselhos…
    Ai de vós! Ai das vossas agoas, pobres velhos!

    _Tentugal_?

    Que manhã! E não quereres vir…
    Pega nas luvas, no chapéu. Vamos partir.
    É logo alli: quinze kilometros, é perto.
    Espera-nos o Toy, extasia-se o Alberto,
    Pela janella d'esse mundo amplo e rasgado!
    Que lindo dia! ó sol, obrigado, obrigado!
    Paysagem outomnal, alegra-te tambem!
    Hoje, não quero ver ninguem triste, ninguem!
    Outomno, vá! melancholia, faze tregoas!
    Peço paz, rendo-me! Haja paz, n'estas trez legoas!
    Choupos, então? Que é isso? erguei a fronte, vamos!
    Ó verdilhões, ide cantar-lhes sobre os ramos!
    Aves por folhas! Animae-os! animae-os!
    Applica-lhes, ó sol! uma ducha de raios!
    Almas tristes e sós (não é mais triste a minha!)
    Aqui estaes, meu Deus! desde a aurora á tardinha.
    O vento leva-vos a folha, a pelle; o vento
    Leva-vos o orvalho, a agoa, o prezigo, o sustento!
    E dobra-vos ao chão, faz-vos tossir, coitados!
    Estaes aqui, estaes promptos, amortalhados…
    Fazeis lembrar-me, assim, postos n'estes logares,
    Uma colonia de phtysicos, a ares!…
    Não vos verei, talvez, quando voltar; comtudo
    Ver-vos-ei, _la_, um dia, onde se encontra tudo:
    A alma dos choupos, como a do homem, sobe aos céus…
    Ó choupos, até lá… Adeus! adeus! adeus!

    Foi-se a paysagem triste: agora, são collinas;
    Ve-se curraes, eiras, crianças pequeninas,
    Bois a pastar ao longe, aves dizendo missa
    Á natureza e o sol a semear Justiça!
    Vão pela estrada aleijadinhos de moletas;
    Atiro-lhes vintens: vêm pegar-lhes as netas.
    Mas o trem voa á desfilada…–Olá! arreda!
    (Ia-o apanhando: foi por um fio de seda…)
    E assim n'este galope, a charrette rodando,
    Já de Tentugal se vae quazi approximando:
    S. João do Campo já nos fica muito atraz…
    Assim, _Malhado_! puxa! Bravo, meu rapaz!
    Que estamos quasi lá! mexe-me essas ancas!
    Emfim!

    Tentugal toda a rir de cazas brancas!

    A linda aldeia! Venho cá todos os mezes
    E contrariado vou de todas essas vezes.
    Venho ao convento vizitar a linda freira,
    Nunca lhe fallo: talvez, hoje, a vez primeira…
    Vou lá comprar um pastellinho, que eu bem sei
    Que elle trará dentro um bilhete, isto sonhei:
    Assim o pastellinho, ó ventura sonhada!
    Tem de recheio o coração da minha amada.
    Abro o enveloppe ideal. Vamos a ver…–Traz?–Não!

    Regresso a Coimbra só com o meu coração.

    Coimbra, 1888-1889-1890.

    *Para As Raparigas de Coimbra*

    1

    Ó choupo magro e velhinho,
    Corcundinha, todo aos nós:
    És tal qual meu avôzinho,
    Falta-te apenas a voz.

    2

    Minha capa vos acoite
    Que é p'ra vos agazalhar:
    Se por fóra é cor da noite,
    Por dentro é cor do luar…

    3

    Ó sinos de _Santa Clara_,
    Por quem dobraes, quem morreu?
    Ah, foi-se a mais linda cara
    Que houve debaixo do céu!

    4

    A sereia é muito arisca,
    Pescador, que estás ao sol:
    Não cae, tolinho, a essa isca…
    Só pondo uma flor no anzol!

    5

    A lua é a hostia branquinha,
    Onde está Nosso Senhor:
    É d'uma certa farinha
    Que não apanha bolor!

    6

    Vou a encher a bilha e trago-a
    Vazia como a levei!
    Mondego, qu'é da tua agoa?
    Qu'é dos prantos que eu chorei?

    7

    A _cabra_ da velha Torre,
    Meu amor, chama por mim:
    Quando um estudante morre,
    Os sinos chamam, assim.

    8

    –E só porque o mundo zomba
    Que poes luto? Importa lá!
    Antes te vistas de pomba…
    –Pombas pretas tambem ha!

    9

    Therezinhas! Ursulinas!
    Tardes de novena, adeus!
    Os corações ás batinas
    Que diriam? sabe-o Deus…

    10

    Teu coração é uma igreja:
    N'uma eça dorme, alli,
    Manoel, bemdito seja,
    Que morreu d'amor por ti.

    11

    Manoel no _Pio_ repoiza:
    Todos os dias, lá vou
    Ver se quer alguma coiza,
    Perguntar como passou.

    12

    Agora, são tudo amores
    A roda de mim, no _Caes_,
    E, mal se apanham doutores,
    Partem e não voltam mais…

    13

    Aos olhos da minha fronte
    Vinde os cantaros encher:
    Não ha, assim, segunda fonte
    Com duas bicas a correr!

    14

    Nossa Senhora faz meia
    Com linha feita de luz:
    O novello é a lua-cheia,
    As meias são p'ra Jezus.

    15

    Meu violão é um cortiço,
    Tem por abelhas os sons
    Que fabricam, valha-me isso,
    Fadinhos de mel, tão bons…

    16

    Ó fogueiras, ó cantigas,
    Saudades! recordações!
    Bailae, bailae, raparigas!
    Batei, batei, corações!

    Coimbra, 1890.

    *Luzitania no Bairro-Latino*

    Só!
    Ai do Luziada, coitado,
    Que não tem mãe, nem tem avó,
    Que não ama, nem é amado…
    Nuzinho Outomno, no mez d'Abril!
    Que triste foi o seu fado!
    Antes fosse p'ra soldado,
    Antes fosse p'ro Brazil…

    Menino e moço, tive uma Torre de leite,
    Torre sem par!
    Oliveiras que davam azeite,
    Searas que davam linho de fiar,
    Moinhos de velas, como latinas,
    Que S. Silvestre fazia andar…
    Formozas cabras, muito pequeninas,
    Loiras vaquinhas de maternas ancas
    Que me davam o leite de manhã,
    Lindo rebanho de ovelhinhas brancas;
    Meus bibes eram da sua lã…

    Antonio era o pastor d'esse rebanho:
    Com ellas ia para os montes, a pastar.
    E tinha pouco mais ou menos seu tamanho,
    E o pasto d'ellas era o meu jantar…
    E a serra a toalha, o covilhete e a sala.
    Passava a noite, passava o dia
    Com essas boas irmãzinhas
    A quem só mingoava a falla
    Para serem perfeitas criaturinhas…
    E quando na Igreja das _Alvas Saudades_
    Que era da minha Torre a freguezia,
    Batiam as _Trindades_,
    Com os seus olhos christianissimos olhavam-me,
    Eu persignava-me, rezava _Ave-Maria_…
    E as doces ovelhinhas imitavam-me.

    Menino e moço, tive uma Torre de leite,
    Torre sem par!
    Oliveiras que davam azeite…
    Um dia, os castellos cairam do Ar!

    As oliveiras seccaram,
    Morreram as vaccas, perdi as ovelhas,
    Sairam-me os ladrões, só me deixaram
    As velas do moinho… mas rôtas e velhas!

    Que triste fado!
    Antes fosse aleijadinho,
    Antes doido, antes cego…

    Ai do Luziada, coitado!

    Veio da terra, mail-o seu moinho:
    Lá, faziam-no andar as agoas do Mondego,
    Hoje, fazem-no andar agoas do Sena…
    É negra a sua farinha!
    Orae por elle! tende pena!
    Pobre Moleiro da Saudade…
    Ó minha
    Terra encantada, cheia de sol,
    Ó campanarios, ó luas cheias,
    Lavadeira que lavas o lençol,
    Ermidas, sinos das aldeias,
    Ó ceifeira que cegas cantando,
    Ó moleiro das estradas,
    Carros de bois, chiando…
    Flores dos campos, beiços de fadas,
    Poentes de Julho, poentes mineraes,
    Ó choupos, ó luar, ó regas de verão!

    Que é feito de vocês? Onde estaes, onde estaes?

    Ó padeirinhas a amassar o pão,
    Velhinhas na roca a fiar,
    Cabello todo em caracoes!
    Pescadores a pescar
    Com a linha cheia de anzoes!
    Zumbidos das vespas, ferrões das abelhas,
    Ó bandeiras! ó sol! foguetes! ó toirada!
    Ó boi negro entre as capas vermelhas!
    Ó pregões d'agoa fresca e limonada!
    Ó romaria do _Senhor do Viandante_!
    Procissões com muzica e anjinhos!
    Srs. Abbades d'Amarante,
    Com trez ninhadas de sobrinhos!

    Onde estaes? onde estaes?

    Ó minha capa de estudante, ás ventanias!
    Cidade triste agazalhada entre choupaes!
    Ó dobres dos poentes, ás _Ave-Marias_!
    Ó _Cabo do Mundo_! _Moreira da Maia_!
    Estrada de S. Thiago! Sete-Estrello!
    Cazas dos pobres que o luar, á noite, caia…
    Fortalezas de Lipp! ó fosso do _Castello_,
    Amortalhado em perrexil e trepadeiras,
    Onde se enroscam como espozos as lagartas!
    Sr. Governador a podar as rozeiras!
    Ó Bruxa do Padre, que botas as cartas!
    Joaquim da Thereza! Francisco da Hora!

    Que é feito de vós?
    Fallaveis aos barcos que andavam, _la fora_,
    Pelo porta-voz…
    Arrabalde, maritimo da França,
    Conta-me a historia da _Princeza Magalona_,
    E do _Senhor de Calais_,
    Mais o naufragio do vapor _Perseverança_,
    Cujos cadaveres ainda vejo á tona…
    Ó pharolim da _Barra_, lindo, de bandeiras,
    Para os vapores a fazer signaes!
    Verdes, vermelhas, azues, brancas, extrangeiras,
    Diccionario magnifico de cores!
    Alvas espumas, espumando a fragua,
    Ou rebentando, á noite, como flores!
    Ondas do mar! Serras da Estrella d'agoa,
    Cheias de brigues como pinhaes…
    Morenos mareantes, trigueiros pastores!

    Onde estaes, onde estaes?

    Convento d'agoas do mar, ó verde convento,
    Cuja Abbadessa secular é a Lua
    E cujo Padre-capellão é o Vento…
    Agoa salgada d'esses verdes poços,
    Que nenhum balde, por maior, escua!
    Ó mar jazigo de paquetes, de ossos,
    Que o Sul, ás vezes, arrola á praia:
    Olhos em pedra, que ainda chispam brilhos!

    Corpo de virgem, que ainda veste a saia…
    Braços de mães, ainda a apertar braços de filhos!
    Noiva cadaver ainda com véu…
    Ossadas ainda com os mesmos fatos!
    Cabeça roxa ainda de chapéu!
    Pés de defunto que ainda traz sapatos!
    Boquinha linda que já não canta…
    Boccas abertas que ainda soltam ais!
    Noivos em nupcias, ainda, aos beijos, abraçados!
    Corpo intacto, a boiar (talvez alguma santa…)
    Ó defuntos do mar! ó roxos arrolados!

    Onde estaes, onde estaes?

    Ó _Boa Nova_, ermida á beira-mar,
    Unica flor, n'essa viv'alma de areaes!
    Na cal, meu nome ainda lá deve estar,
    Á chuva, ao vento, aos vagalhões, aos raios!
    Ó altar da _Senhora_, coberto de luzes!
    Ó poentes da _Barra_, que fazem desmaios…
    Ó _Sant'Anna_, ao luar, cheia de cruzes!
    Ó logar de _Roldao_! villa de _Perafita_!
    Aldeia de _Gonsalves_! Mesticoza!
    Engenheiros, medindo a estrada com a fita…
    Agoa fresquinha d'_Amoroza_!
    Rebolos pela areia! Ó praia da _Memoria_!
    Onde o Sr. D. Pedro, _Rei-soldado_,
    Atracou, diz a Historia,
    No dia… não estou lembrado;

    Ó capellinha do _Senhor d'Areia_,
    Onde o Senhor appareceu a uma velhinha…
    Algas! farrapos do vestido da sereia!
    Lanchas da Povoa que ides á sardinha,
    Poveiros, que ides para as _vinte braças_,
    Sol-por, entre pinhaes…
    Capellas onde o sol faz mortes, nas vidraças!

    Onde estaes?

    2

    Georges! anda ver meu paiz de marinheiros,
    Traze o teu livro, toma as tuas notas:

    Oh as lanchas dos poveiros
    A sairem a barra, entre ondas e gaivotas!
    Que extranho é!
    Fincam o remo n'agoa, até que o remo torça,
    Á espera da maré,
    Que não tarda hi, avista-se lá fóra!
    E quando a onda vem, fincando-o a toda a força,
    Clamam todos á uma. «_Agôra_! _agôra_! _agôra_!»
    E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo
    (Ás vezes, sabe Deus, para não mais entrar…)
    Que vista admiravel! Que lindo! que lindo!
    Içam a vela, quando já têm mar,
    Dá-lhes o vento e todas, á porfia,
    Lá vão soberbas, sob um céu sem manchas,
    Rozario de velas, que o vento desfia,
    A rezar, a rezar a _Ladainha das Lanchas_:

    _S^{nra} Nagonia_!

    Olha, acolá!
    Que linda vae com seu erro de ortographia…
    Quem me dera ir lá!

    _Senhora Da guarda_!

    (Ao leme vàe o Mestre Zé da Leonor)
    Parece uma gaivota: aponta-lhe a espingarda
    O caçador!

    _Senhora d'ajuda_!
    _Ora pro nobis_!
    _Calluda_!
    _Sêmos probes_!
    _S^{enr} dos ramos_!
    _Istrella do mar_!
    _Ca bamos_!

    Parecem Nossa Senhora, a andar.

    _S^{ra} da luz_!

    Parece o pharol…

    _Maim de Jesus_!

    É tal qual ella, se lhe dá o sol!

    _S^r dos Passos_!
    _Sinhora da Ora_!

    Aguias a voar, pelo mar dentro dos espàços!
    Parecem ermidas caiadas por fóra…

    _S^{nr} dos Navegantes_!
    _Senhor de Matuzinhos_!

    Os mestres ainda são os mesmos d'antes:
    Lá vae o Bernardo da Silva do Mar,
    A mail-os quatro filhinhos,
    Vascos da Gama, que andam a ensaiar…

    _Senhora aos aflitos_!
    _Martyr Sao Sebastiao_!
    _Ouvi os nossos gritos_!
    _Deus nos leve pla mao_!
    _Bamos em paz_!

    Ó lanchas, Deus vos leve pela mão!
    Ide em paz!

    Ainda lá vejo o Zé da Clara, os Remelgados,
    O Jéques, o Pardal, na _Nam te perdes_,
    E das vagas, aos rythmos cadenciados,
    As lanchas vão traçando, á flor das agoas verdes:
    «As armas e os barões assignalados…»

    Lá sae a derradeira!
    Ainda agarra as que vão na dianteira…
    Como ella corre! com que força o vento a impelle:

    _Bamos com Deus_!

    Lanchas, ide com Deus! ide e voltae com elle
    Por esse mar de Christo…

    Adeus! adeus! adeus!

    3

    Georges! anda ver meu pàiz de romarias
    E procissões!

    Olha essas moças, olha estas Marias!
    Caramba! dá-lhes beliscões!
    Os corpos d'ellas, ve! são ourivezarias,
    Gula e luxuria dos Maneis!
    Têm nas orelhas grossas arrecadas,
    Nas mãos (com luvas) _trinta moedas_, em anneis,
    Ao pescoço serpentes de cordões,
    E sobre os seios entre cruzes, como espadas,
    Além dos seus, mais trinta _coraçoes_!
    Vá! Georges, faze-te Manel! viola ao peito,
    Toca a bailar!
    Dá-lhes beijos, aperta-as contra o peito,
    Que hão de gostar!

    Tira o chapéu, silencio!

    Passa a procissão.

    Estralejam foguetes e morteiros.
    Lá vem o Pallio e pegam ao cordão
    Honestos e morenos cavalheiros.
    Altos, tão altos e enfeitados, os andores,
    Parecem _Torres de David_, na amplidão!
    Que linda e aceiada vem a Senhora das Dores!
    Olha o mordomo, á frente, o Sr. Conde.
    Contempla! Que tristes os Nossos Senhores,
    Olhos leaes fitos no vago… não sei onde!

    Os anjinhos!
    Vêm a suar:
    Infantes de trez annos, coitadinhos!
    Mãos inviziveis levam-nos de rastros,
    Que elles mal sabem andar…

    Esta que passa é a _Noite_ cheia de astros!
    (Assim estava, em _certo dia_, na Judeia)
    Aquelle é o _Sol_! (Que bom o sol de olhos pintados!)
    E aquella outra é a _Lua-Cheia_!
    Seus doces olhos fazem luar…
    Essa, acolá, leva na mão os _Dados_,
    Mas perde tudo se vae jogar.
    E esta que passa, toda de arminhos,
    (Ve! d'entre o povo em extazi, olha-a a Mãe)…
    Leva, sorrindo a _Coroa dos Espinhos_,
    Flor de criança que os não tem.
    E que bonita vae a _Esponja de Fel_!
    Mal ella sabe, a innocentinha…
    Nas suas mãos a _Esponja_ deita mel:
    Abelhas d'oiro tomam-lhe a dianteira!
    Lá vem a _Lança_! A bainha
    Traz ainda o sangue da _Sexta-feira_…
    Jezus!
    Que maravilha de criança!
    O Leão morrera ainda outra vez, na cruz,
    Entre ladrões, a suar, lá no Calvario,
    Se fosse este anjo espicaçal-o com a lança…

    Passa o ultimo, o _Sudario_!
    O corpo de Jezus, Nosso Senhor…

    Parece o sol-por!
    E a procissão passa. Maré-cheia de povo!
    É o Oceano Atlantico!
    O bom povinho de fato novo,
    Nas violas de arame soluça, romantico,

    Fadinhos chorozos da su'alma beata.

    Trazem imagens da Funcção nos seus chapéus.

    Poeira opaca. Abafa-se. E, no céu ferro-e-oiro,
    O sol em gloria brilha olympico, e de prata,
    Como a velha cabeça aureolada de Deus!

    Trombetas clamam. Vae correr-se o toiro.
    Passam as chocas, boas mães! passam capinhas.

    Pregões. _Laranjas_! _Ricas cavaquinhas_!
    _Pão de ló de Margaride_!
    _Agoinha fresca da Moirama_!
    _Vinho verde a escorrer da vide_!

    Á porta d'um cazal, um tysico na cama,
    Olha tudo isto com seus olhos de Outro-mundo.
    E uma netinha com um ramo de loireiro
    Enxota as moscas, do moribundo…

    Dança de roda mail-as moças o coveiro.

    Clama um ceguinho:
    «Não ha maior desgraça n'esta vida,
    Que ser ceguinho!»
    Outro, moreno, mostra uma perna partida!
    Mas fede tanto, coitadinho…
    Este, sem braços, diz «que os deixou na pedreira…»
    E esse, acolá, todo o corpinho n'uma chaga,
    Labareda de cancros em fogueira,
    Que o sol atiça e que a gangrena apaga,
    Ó Georges, ve! que excepcional cravina…

    Que lindos cravos para por na botoeira!

    Tysicos! Doidos! Nus! Velhos a ler a sina!
    Etnas de carne! Jobs! Flores! Lazaros! Christos!
    Martyres! Cães! Dhalias de puz! Olhos fechados!
    Rheumaticos! Anões! Deliriuns-tremens! Kistos!
    Monstros, phenomenos, afflictos, aleijados,
    Talvez lá dentro com perfeitos corações:
    Todos, á uma, mugem roucas ladainhas,
    Tragicos, uivam «uma esmola p’las alminhas
    Das suas obrigações!»
    Pelo nariz corre-lhes puz, gangrena, ranho!
    E, coitadinhos! fedem tanto: é de arrazar…

    Qu'é dos pintores do meu paiz extranho?
    Onde estão elles que não vêm pintar!

    Pariz, 1890-1891.

    *Os Figos Pretos*

    –Verdes figueiras soluçantes nos caminhos!
    Vós sois odiadas desde os seculos avós:
    Em vossos galhos nunca as aves fazem ninhos,
    Os noivos fogem de se amar ao pé de vós!

    –Ó verdes figueiras! ó verdes figueiras
    Deixae-o fallar!
    Á vossa sombrinha, nas tardes fagueiras,
    Que bom que é amar!

    –O mundo odeia-vos. Ninguem nos quer, vos ama:
    Os paes transmittem pelo sangue esse odio aos moços.
    No sitio onde medraes, ha quazi sempre lama
    E debruçaes-vos sobre abysmos, sobre poços.

    –Quando eu for defunta para os esqueletos,
    Ponde uma ao meu lado:
    Tristinha, chorando, darà figos pretos…
    De luto pezado!

    –Os aldeões para evitar vosso perfume
    Sua respiração suspendem, ao passar…
    Com vossa lenha não se accende, á noite, o lume,
    Os carpinteiros não vos querem aplainar.

    –Oh cheiro de figos, melhor que o do incenso
    Que incensa o Senhor!
    Podesse eu, quem dera! deital-o no lenço
    Para o meu amor…

    –As outras arvores não são vossas amigas…
    Mãos espalmadas, estendidas, supplicantes,
    Com essas folhas, sois como velhas mendigas
    N'uma estrada, pedindo esmola aos caminhantes!

    –Mendigas de estrada! mendigas de estrada!
    E cheias de figos!
    Os ricos là passam e não vos dao nada,
    Vos daes aos mendigos…

    –Ai de ti! ai de ti! ó figueiral gemente!
    O goivo é mais feliz, todo amarello, lá.
    Ninguem te quer: tua madeira é unicamente
    Utilizada para as forcas, onde as ha…

    –Que màs creaturas! que injustas sois todas
    Que injustas que sois!
    Serà de figueira meu leito da bodas…
    E os berços, depois

    –Tragicas, nuas, esqueleticas, sem pelle,
    Por traz de vós, a lua é bem uma caveira!…
    Ó figos pretos, sois as lagrymas d'aquelle
    Que, em certo dia, se enforcou n'uma figueira!

    –Tambem era negro, de negro cegava
    O pranto, o rosario,
    Que, em certa tardinha, desfiava, desfiava,
    Alguem, no Calvario…

    –E, assim, ao ver no outomno uma figueira nua,
    Se os figos caem de maduros, pelo chão:
    Cuido que é a ossada do Traidor, á luz da lua,
    A chorar, a chorar sua alta traição!

    –Ó minhas figueiras! ó minhas figueiras
    Deixae-o fallar!
    Oh! vinde de hi ver-nos, a arder nas fogueiras
    Cantar e bailar…

    Coimbra, 1889.

    *Febre Vermelha*

    Rozas de vinho! Abri o calice avinhado!
    Para que em vosso seio o labio meu se atole:
    Beber até cair, bebedo, para o lado!
    Quero beber, beber até o ultimo gole!

    Rozas de sangue! Abri o vosso peito, abri-o!
    Montanhas alagae! deixae-as trasbordar!
    As ondas como o oceano, ou antes como um rio
    Levando na corrente Ophelias de luar…

    Camelias! Entreabri os labios de Eleonora!
    Desabrochae, á lua, a ancia dos vossos calis!
    Dá-me o teu genio, dá! ó tulipa de aurora!
    E dá-me o teu veneno, ó rubra digitalis…

    Papoilas! Descerrae essas boccas vermelhas!
    Apagae-me esta sede estonteadora e cruel:
    Ó favos rubros! os meus labios são abelhas,
    E eu ando a construir meu cortiço de mel…

    Rainunculos! Corae minhas faces-de-terra!
    Que seja sangue o leite e rubins as opalas!
    Tal se vêm pelo campo, em seguida a uma guerra,
    Tintos da mesma cor os corações e as balas!…

    Chagas de Christo! Abri as petalas chagadas!
    N'uma raiva de cor, n'uma erupção de luz!
    Escancarae a bocca, ás vermelhas rizadas,
    Cancros de Lazaro! Feridas de Jezus…

    Flores em braza! Orgaos da cor! Tirava
    Operas d'oiro, podesse eu, das vossas teclas.
    Volcões de Maio! ungi minha pelle de lava!
    Dae-me energia, audacia, ó pequeninos Heclas!

    Dae-me do vosso sangue, ó flores! entornae-o
    Nas veias do meu corpo estragado e sem cor:
    Que vida negra! Foi escripto, á luz do raio,
    O triste fado que me deu Nosso Senhor…

    Scismo já farto de velar minha alma doente,
    Não dura um mez siquer, minhas amigas, vede!
    Mas, mal vos vejo, então, pulo alegre e contente
    A uivar, como os leões quando os ataca a sede!

    Corto o estrellado céu, voo atravez do espaço,
    Cruzo o infinito e vou rolar aos pés de Deus,
    Como se accaso fosse, em catapultas de aço,
    Por um Titan de bronze atirado a esses céus!

    Amo o vermelho. Amo-te, ó hostia do sol-posto!
    Fascina-me o escarlate. Os meus tedios estanca:
    E apezar d'isso, ó cruel hysteria do Gosto,
    Certa flor da minh'alma é branca, branca, branca…

    Leça, 1886.

    *Poentes de França*

    –Ó sol! ó sol! ó sol! poente de vinho velho!
    Enche meu copo de S. Graal (deu-m'o a ballada…)
    Ó sol de Normandia! Occidente vermelho,
    Tal o circo andaluz depois d'uma toirada!

    –Vos sois extrangeiros, vos sois extrangeiros,
    Ó poentes de França! não vos amo, não!

    –Ó sol, cautella! já a noite se avizinha
    O Padre-Oceano vae, em breve, commungar:
    Ó hostia vesperal de vermelha farinha,
    Que o bom Moleiro móe, no seu moinho do Ar!

    Ó sol, às _Trindades_, atraz dos pinheiros,
    Á hora em que passam branquinhos moleiros,
    Levando farinha p'ra cozer o pão!

    –Ó forca do sol-por! ó Inferno de Dante!
    Açougue d'astros! ó sabbat de feiticeiras!
    Ó sol ensanguentado! ó cabeça fallante,
    Que o funambulo Poente anda a mostrar nas feiras!

    –Que paz pelo mundo, n'essa hora ditoza!
    Ó poentes de França! não vos amo, não!

    –_Arco da Velha_, a rir rizos de sete cores!
    Ó lua na ascenção! ó sol! ó sol! ó sol!
    Cabeça de Iskariote, entre aguias e condores!
    Ó cabeça de Christo, impressa no lençol!

    Que paz pelo mundo, n'essa hora saudoza
    Quando fecha a lojinha a Sra. Roza,
    Quando vem das sachas o Sr. Joao…

    –Ó sol! ó sol! Titan d'este bloco da Terra!
    Ó sol em sangue que ainda pula e arde e scintilla:
    Ó bala de canhão, tu vens d'alguma guerra:
    Varaste os corações d'um exercito em fila!

    –Ó hora em que as agoas rebentam das minas…
    Ó poentes de França! não vos amo, não!

    –Ó poente verde-mar! ó por-de-sol de azeite!
    Ó longes de trovoada! ó céu dos ventos sues!
    Vacca do Ar, a mugir crepusculos de leite
    E roxos e cardeaes e amarellos e azues!

    –Ó hora em que passam moças e meninas
    Que, em tardes de Maio, vão às _Ursulinas_,
    Com rozas nos seios e um livro na mão…

    –Ó sol! ó sol! Tragico, afflicto, doido, venho
    A tua saude erguer a minha taça ardente!
    Meus grandes olhos são dois bebedos, e tenho
    Dlirium-tremens já, Sir Falstaff do Poente!

    –Eu amo os poentes, mas sem agonias,
    Ó poentes de França! não vos amo, não!

    –Adeus, ó sol! chegou a Noite na fragata,
    A tua porta os marinheiros vão bater:
    Lá vejo os astros por seus calices de prata,
    Na _Taverna do Occaso_, a beber, a beber…

    Ó céus phtysicos, cuspindo em bacias!
    Ó céus como escarros, às _Ave-Marias_!
    Ó poentes de França! não vos amo, não!

    Pariz, 1891.

    *Pobre Tysica*!

    Quando ella passa á minha porta,
    Magra, livida, quazi morta,
    E vae até á beira-mar,
    Labios brancos, olhos pizados:
    Meu coração dobra a finados,
    Meu coração poe-se a chorar…

    Perpassa leve como a folha,
    E suspirando, ás vezes, olha
    Para as gaivotas, para o Ar:
    E, assim, as suas pupillas negras
    Parecem duas toutinegras,
    Tentando as azas para voar!

    Veste um habito cor de leite,
    Saiinha liza, sem enfeite,
    Boina maruja, toda luar:
    Por isso, mal na praia alveja,
    As mais suspiram com inveja:
    «Noiva feliz, que vaes cazar…»

    Triste, acompanha-a um _Terra-Nova_
    Que, dentro em pouco, á fria cova
    A irá de vez acompanhar…
    O chão desnuda com cautella,
    Que _Boy_ conhece o estado d'ella:
    Quando ella tosse, poe-se a uivar!

    E, assim, sósinha com a aia,
    Ao sol, se assenta sobre a praia,
    Entre os bébés, que é o seu logar…
    E o Oceano, tremulo avôzinho,
    Cofiando as barbas cor de linho,
    Vem ter com ella a conversar…

    Fallam de sonhos, de anjos, e elle
    Falla d'amor, falla d'aquelle
    Que tanto e tanto a faz penar…
    E o coração parte-se todo,
    Quando a sorrir, com tão bom modo,
    O Mar lhe diz: «Ha-de sarar…»

    Sarar? Mizerrima esperança!
    Padres! ungi essa criança,
    Podeis sua alma encommendar:
    Corpinho d'anjo, casto e inerme,
    Vae ser amada pelo Verme:
    O bichos vão-na desfructar…

    Sarar? Da cor dos alvos linhos,
    Parecem fuzos seus dedinhos,
    Seu corpo é roca de fiar…
    E, ao ouvir-lhe a tosse secca e fina,
    Eu julgo ouvir n'uma officina
    Taboas do seu caixão pregar!

    Sarar? Magrita como o junco,
    O seu nariz (que é grego e adunco)
    Começa aos poucos de afilar,
    Seus olhos lançam igneas chammas…
    Ó pobre mãe, que tanto a amas,
    Cautella! O outomno está a chegar…

    Leça, 1889.

    *A Poezia do Outomno*

    Noitinha. O sol, qual brigue em chammas, morre
    Nos longes d'agoa… Ó tardes de novena!
    Tardes de sonho em que a poezia escorre
    E os bardos, a sonhar, molham a penna!

    Ao longe, os rios de agoas prateadas
    Por entre os verdes cannaviaes, esguios,
    São como estradas liquidas, e as estradas
    Ao luar, parecem verdadeiros rios!

    Os choupos nus, tremendo, arripiadinhos,
    O chale pedem a quem vae passando…
    E nos seus leitos nupciaes, os ninhos,
    As lavandiscas noivam piando, piando!

    O orvalho cae do céu, como um unguento.
    Abrem as boccas, aparando-o, os goivos…
    E a larangeira, aos repellões do vento,
    Deixa cair por terra a flor dos noivos.

    E o orvalho cae… E, á falta d'agoa, rega
    O val sem fruto, a terra arida e nua!
    E o Padre-Oceano, lá de longe, prega
    O seu Sermão de Lagrymas, á Lua!

    Tardes de outomno! ó tardes de novena!
    Outubro! Mez de Maio, na lareira!
    Tardes…
    Lá vem a Lua, _gratiae plena_,
    Do convento dos céus, a eterna freira!

    Porto, 1886.

    S.^{ta} Iria

    N'um rio virginal d'agoas claras e mansas,
    Pequenino baixel, a santa vae boiando…
    Pouco e pouco, dilue-se o oiro das suas tranças
    E, diluido, ve-se as agoas aloirando.

    Circumda-a um resplendor, a luzir esperanças,
    Unge-lhe a fronte o luar, avelludado e brando,
    E, com a graça etherea e meiga das crianças,
    Formosa Iria vae boiando, vae boiando…

    Á lua, cantam as aldeãs de _Riba-Joia_,
    E, ao verem-na passar, phantastica barquinha,
    Exclamam todas: «Olha um marmore que aboia!»

    Ella entra, emfim, no Oceano… E escuta-se, ao luar,
    A mãe do pescador, rezando a ladainha
    Pelos que andam, Senhor! sobre as agoas do mar…

    Leça, 1885.

    *Enterro de Ophelia*

    Morreu, Vae a dormir, vae a sonhar… Deixal-a!
    (Fallae baixinho: agora mesmo se ficou…)
    Como padres orando, os choupos formam ala,
    Nas margens do ribeiro onde ella se afogou…

    Toda de branco vae, n'esse habito de opala,
    Para um convento: não o que o Hamlet lhe indicou,
    Mas para um outro, horror! que tem por nome _Valla_,
    D'onde jamais saiu quem, lá, uma vez entrou!…

    O lindo Por-do-Sol, que era doido por ella,
    Que a perseguia sempre, em palacio e na rua,
    Vede-o, coitado! mal pode suster a vela…

    Como damas de honor, nymphas seguem-lhe os rastros,
    E, assomando no céu, sua Madrinha, a Lua,
    Por ella vae desfiando as suas contas, Astros!

    Leça, 1888.

    *Ballada do Caixão*

    O meu vizinho é carpinteiro,
    Algibebe de Dona Morte:
    Ponteia e coze, o dia inteiro,
    Fatos de pau de toda a sorte:
    Mogno, debruados de velludo
    Flandres gentil, pinho do Norte…
    Ora eu que trago um sobretudo
    Que já me vae a aborrecer,
    Fui-me lá, hontem: (era Entrudo,
    Havia immenso que fazer!…)
    –Olá, bom homem! quero um fato,
    Tem que me sirva?–Vamos ver…
    Olhou, mexeu na caza toda…
    –Eis aqui um e bem barato.

    –Está na moda?–Está na moda.
    (Gostei e nem quiz apreçal-o:
    Muito justinho, pouca roda…)
    –Quando posso mandar buscal-o?
    –Ao por-do-sol. Vou dal-o a ferro:
    (Poz-se o bom homem a aplainal-o…)

    Ó meus amigos! salvo-erro,
    Juro-o pela alma, pelo céu!
    Nenhum de vós, ao meu enterro,
    Irá mais dandy, olhae! do que eu!

    Pariz, 1891.

    *Á Toa*

    O Primeiro Homem

    Que lindo mundo! E eu só! Que tortura tamanha!
    Ninguem! Meu pae é o céu. Minha mãe é a montanha.

    A Montanha

    Os meus cabellos são os pinheiraes sombrios
    E veias do meu corpo os azulados rios.

    Os Rios

    Nós somos o suor que o Estio asperge e sua,
    Nós somos, em Janeiro, a agoa-benta da Lua!

    A Lua

    Eu sou a bala, no Ar detida, d'essa guerra
    Que teve contra Deus, em seu principio, a Terra…

    A Terra

    E eu uma das maçãs, entre outras a primeira,
    Que certo Virgem viu cair d'uma macieira!

    A Macieira

    Tantas ainda por cair! Vinde colhel-as!
    Abanae a macieira e cairão estrellas!

    A Estrellas

    No mar, á noite, reflectimo-nos, a olhar,
    E formamos, assim, as _Estrellas-do-mar_…

    O Mar

    Sou padre. São d'agoa meus Santos-Evangelhos:
    Accendei meu altar, relampagos vermelhos!

    Os Relampagos

    Nós somos (o contrario, embora, seja escripto)
    Os fogos-tátuos d'esta cova do Infinito…

    O Infinito

    Sou o mar sem borrasca, onde emfim se descança.
    Aqui, vem desagoar o rio da Esperança…

    A Esperança

    Morri, irmãos! mas lá ficaram minhas vestes,
    No vosso mundo: dei-as dadas aos cyprestes.

    Os Cyprestes

    Para apontar os céus, como dedos funereos,
    Plantaram-nos no pó dos mudos cemiterios…

    Os Cemiterios

    Porão, beliches, tudo cheio!… Os céus absortos!
    Não cabe em Josaphat esta leva de mortos!

    Os Mortos

    Seculos tombam uns sobre outros, como blocos,
    E nós dormindo sempre, eternos dorminhocos!

    Porto, 1885.

    *A Vida*

    Ó grandes olhos outomnaes! mysticas luzes!
    Mais tristes do que o amor, solemnes como as cruzes!
    Ó olhos pretos! olhos pretos! olhos cor
    Da capa d'Hamlet, das gangrenas do Senhor!
    Ó olhos negros como noites, como poços!
    Ó fontes de luar, n'um corpo todo ossos!
    Ó puros como o céu! ó tristes como levas
    De degredados!

    Ó Quarta-feira de Trevas!

    Vossa luz é maior, que a de trez luas-cheias:
    Sois vós que allumiaes os prezos, nas cadeias,
    Ó velas do perdão! candeias da desgraça!
    Ó grandes olhos outomnaes, cheios de Graça!
    Olhos accezos como altares de novena!
    Olhos de genio, aonde o Bardo molha a penna!
    Ó carvões que accendeis o lume das velhinhas,
    Lume dos que no mar andam botando as linhas…
    Ó pharolim da barra a guiar os navegantes!
    Ó pyrilampos a allumiar os caminhantes,
    Mais os que vão na diligencia pela serra!
    Ó Extrema-Uncção final dos que se vão da Terra!
    Ó janellas de treva, abertas no teu rosto!
    Thuribulos de luar! Luas-cheias d'Agosto!
    Luas d'Estio! Luas negras de velludo!
    Ó luas negras, cujo luar é tudo, tudo
    Quanto ha de branco: véus de noivas, cal
    Da ermida, velas do hiate, sol de Portugal,
    Linho de fiar, leite de nossas mães, mãos juntas
    Que têm erguidas entre cyrios, as defuntas!
    Consoladores dos Afílictos! Ó olhos, Portas
    Do Céu! Ó olhos sem bulir como agoas-mortas!
    Olhos ophelicos! Dois soes, que dão sombrinha…
    Que são em preto os _Olhos Verdes_ de Joanninha…
    Olhos tranquillos e serenos como pias!
    Olhos Christãos a orar, a orar _Ave Marias
    Cheias de Luz_! Olhos sem par e sem irmãos,
    Aos quaes estendo, toda a hora, as frias mâos!
    Estrellas do pastor! Olhos silenciozos,
    E milagrozos, e misericordiozos,
    Com os teus olhos nunca ha noites sem luar,
    Mesmo no inverno, com chuva e a relampejar!
    Olhos negros! vós sois duas noites fechadas,
    Ó olhos negros! como o céu das trovoadas…

    Mas dize, meu amor! ó Dona de olhos taes!
    De que te serve ter uns astros sem eguaes?
    Olha em redor, poiza os teus olhos! O que ves?
    O mar a uivar! A espuma verde das marés!
    Escarros! A traição, o odio, a agonia, a inveja!
    Toda uma cathedral de lutas, uma igreja
    A arder entre clarões de coleras! O orgulho
    Insupportavel tal o meu, e o sol de Julho!
    Jezus! Jezus! quantos doentinhos sem botica!
    Quantos lares sem lume e quanta gente rica!
    Quantos reis em palacio e quanta alma sem ferias!
    Quantas torturas! Quantas Londres de mizerias!
    Quanta injustiça! quanta dor! quantas desgraças!
    Quantos suores sem proveito! quantas taças
    A trasbordar veneno em espumantes boccas!
    Quantos martyrios, ai! quantas cabeças loucas,
    N'este macomio do Planeta! E as orfandades!
    E os vapores no mar, doidos, ás tempestades!
    E os defuntos, meu Deus! que o vento traz á praia!
    E aquella que não sae por ter uzada a saia!
    E os que sossobram entre a vaidade e o dever!
    E os que têm, amanhã, uma lettra a vencer!
    Olha essa procissão que passa: um torturado
    De Infinito! Um rapaz que ama sem ser amado,
    E para ser feliz fez todos os esforços…
    Olha as insomnias d'uma noite de remorsos,
    Como dez annos de prizão maior-cellular!
    Olha esse tysico a tossir, á beira-mar…
    Olha o bébé que teve Torre de coral
    De lindas illuzões, mas que uma aguia, afinal,
    Devorou, pois, ao vel-a ao longe, avermelhada,
    Cuidou, ingenua! que era carne ensanguentada!
    Quantos são, hoje? Horror! A lembrança das datas…
    Olha essas rugas que têm certos diplomatas!
    Olha esse olhar que têm os homens da politica!
    Olha um artista a ler, soluçando, uma critica…
    Olha esse que não tem talento e o julga ter
    E aquelle outro que o tem… mas não sabe escrever!
    Olha, acolá, a Estupidez! Olha a Vaidade!
    Olha os Afflictos! A Mentira na Verdade!
    Olha um filho a espancar o pae que tem cem annos!
    Olha um moço a chorar seus crueis desenganos!
    Olha o nome de Deus, cuspido n'um jornal!
    Olha aquelle que habita uma Torre de sal,
    Muros e andaimes feitos, não de ondas coalhadas,
    Mas de outras que chorou, de lagrymas salgadas!
    Olha um velhinho a carregar com a farinha
    E o filho no arraial, jogando a vermelhinha!
    Olha a sair a barra a galera _Gentil_
    E a Anna a chorar p'lo João que parte p'ro Brazil!
    Olha, acolá, no caes uma outra como chora:
    É o marido, um ladrão, que vae «p'la barra fóra!»
    Olha esta noiva amortalhada, n'um caixão…

    Jezus! Jezus! Jezus! o que hi vae de afflicção!

    Ó meu amor! é para ver tantos abrolhos,
    Ó flor sem elles! que tu tens tão lindos olhos!
    Ah! foi para isto que te deu leite a tua ama,
    Foi para ver, coitada! essa bola de lama
    Que pelo espaço vae, leve como a andorinha,
    A Terra!

    Ó meu amor! antes fosses ceguinha…

    Pariz, 1891.

    *O Somno de João*

    O João dorme… (Ó Maria,
    Dize áquella cotovia
    Que falle mais devagar:
    Não vá o João, acordar…)

    Tem só um palmo de altura
    E nem meio de largura:
    Para o amigo orangotango
    O João seria… um morango!
    Podia engulil-o um leão
    Quando nasce! As pombas são
    Um poucochinho maiores…
    Mas os astros são menores!

    O João dorme… Que regalo!
    Deixal-o dormir, deixal-o!
    Callae-vos, agoas do moinho!
    Ó mar! falla mais baixinho…
    E tu, Mãe! e tu, Maria!
    Pede áquella cotovia
    Que falle mais devagar:
    Não vá o João, acordar…

    O João dorme… Innocente!
    Dorme, dorme eternamente,
    Teu calmo somno profundo!
    Não acordes para o mundo,
    Póde affogar-te a maré:
    Tu mal sabes o que isto é…

    Ó Mae! canta-lhe a canção,
    Os versos do teu irmão:
    «Na Vida que a Dor povoa,
    Ha só uma coisa boa,
    Que é dormir, dormir, dormir…
    Tudo vae sem se sentir.»

    Deixa-o dormir, até ser
    Um velhinho… até morrer!

    E tu vel-o-ás crescendo
    A teu lado (estou-o vendo
    João! Que rapaz tão lindo!)
    Mas sempre, sempre dormindo…

    Depois, um dia virá
    Que (dormindo) passará
    Do berço, onde agora dorme,
    Para outro, grande, enorme:
    E as pombas que eram maiores
    Que João… ficarão menores!

    Mas para isso, ó Maria!
    Dize áquella cotovia
    Que falle mais devagar:
    Não vá o João, acordar…

    E os annos irão passando.

    Depois, já velhinho, quando
    (Serás velhinha tambem)
    Perder a cor que, hoje, tem,
    Perder as cores vermelhas
    E for cheiinho de engelhas:
    Morrerá sem o sentir,
    Isto é deixa de dormir…
    Acorda e regressa ao seio
    De Deus, que é d'onde elle veio…

    Mas para isso, ó Maria!
    Pede áquella cotovia
    Que falle mais davagar:

    Não vá o João, acordar…

    Pariz, 1891.

    *Ao Canto do Lume*

    Novembro. Só! Meu Deus, que insupportavel mundo!
    Ninguem, viv'alma… O que farão os mais?
    Senhor! a Vida não é um rapido segundo:
    Que longas horas estas horas! Que profundo
    Spleen o d'estas noites immortaes!

    Faz tanto frio. (Só de a ver me gela, a cama…)
    Que frio! Olá, Joseph! bota mais carvão!
    E quando todo se extinguir na aurea chamma,
    Eu botarei (para que serve? já não ama…)
    As cinzas brancas, meu vermelho coração!

    Lá fóra o vento como um gato bufa e mia…
    Ó pescadores, vae tão bravo o mar!
    Cautella… Orçae! Largae a escota! _Ave Maria!
    Cheia de Graça_… Horror! Mortos! E a agoa tão fria!…
    Que triste ver defuntos a boiar!

    Spleen! Que hei-de eu fazer? Dormir, não tenho somno,
    Leva-me a carne a Dor, desgasta-me o perfil.
    Nada ha peior que este somnambulo abandono!
    Ó meus Castellos-em-Hespanha! Ó meu outomno
    D'alma! Ó meu cair-das-folhas, em Abril!

    A Vida! Horror! Ó vós que estaes no ultimo alento!
    Que felizes, sois prestes a partir!
    Ó Morte, quero entrar no teu Recolhimento!…
    Oiço bater. Quem é? Ninguem: um rato… o vento…
    Coitado! é o Georges, tysico, a tossir…

    Mez de Novembro! Mez dos tysicos! Suando
    Quantos, a esta hora, não se estorcem a morrer!
    Ve-se os padres as mãos, contentes, esfregando…
    Mez em que a cera dá mais e a botica, e quando
    Os carpinteiros têm mais obra p'ra fazer…

    Oiço um apito. O trem que se vae… Engatar-te
    Quem me dera o wagon dos sonhos meus!
    Lá passa, ao longe. Adeus! Quizera accompanhar-te…
    –Boa viagem! Feliz de quem vae, de quem parte!
    Coitado de quem fica… Adeus! adeus!

    Viajar? Illuzão. Todo o planeta é zero.
    Por toda a parte é vil o homem e bom o céu.
    –Americas! Japão! Indias! Calvario!… Quero
    Mas é ir, á Ilha, orar sobre a cova do Anthero
    E a Agueda beber agoa do Botareu…

    Vi a Ilha loira, o Mar! Pizei terras de Hespanha,
    Paizes raros, Neves, Areiaes;
    Cantando, ao luar, errei nas ruas da Allemanha,
    Armei na França minha tenda de campanha…
    E tedio, tedio, tedio e nada mais!

    Que hei-de eu fazer? Callae essas canções immundas,
    Cervejarias do Quartier! Rezae, rezae!
    Paysagem, onde estás? Ó luar, agoas profundas!
    Ó choupos, á tardinha, altivos, mas corcundas,
    Tal como aspirações irrealizaveis, ai!

    Não me tortura mais a Dor. Sou feliz. Creio
    Em Deus, n'uma outra vida, além do Ar.
    Meus livros dei-os, meu Philosopho queimei-o:
    Agora, trago uma medalha sobre o seio
    Com a qual fallo, ás noites, ao deitar.

    Espiritos! em vão, debalde por vós clamo:
    Porque me abandonaes? Ó almas, vinde a mim!
    As vezes, vindes consolar-me e não vos chamo,
    E, hoje, não… Porque? Traço o parallelogrammo,
    Extingo o lume, apago a luz: nem mesmo assim!

    Ó almas do Outro-mundo! a minha alma anceia
    Pelo luar da lua de Canaan:
    Quero passar o _além_ que para além se alteia,
    A nação de que a Terra é uma pequena aldeia
    E um logarejo a Estrella da Manhã!

    (E a chuva cae…) Meu Deus! Que insupportavel mundo!
    Viv'alma! (O vento geme…) O que farão os mais?
    Senhor! A Vida não é um rapido segundo:
    Que longas horas estas horas! Que profundo
    Spleen mortal o d'estas noites immortaes!

    Pariz, 1890-1891.

    *A Sombra*

    Não tarda a sombra, ahi. Vae alto o Sete-Estrello
    São horas d'ella vir. Minha alma, attende!
    Que já a lua, a sentinella, rende
    Na esplanada do céu, ás portas do Castello…

    Oiço um rumor: talvez… Eil-a, é ella: ao longe, avisto
    Seu vulto em flor: postas as mãos no seio,
    Com o cabello separado ao meio,
    Todo caido para traz, como o de Christo!

    Sorri. Que linda vem, Jezus! Que bem vestida!
    Quantas lembranças d'este peito arranco!
    Foi assim, que primeiro a vi, de branco,
    Foi n'esse traje que ella sempre andou, em vida!

    Que luz projecta! Que explendor! Parece dia!
    Os gallos cantam, annunciando a aurora!…
    Ide deitar-vos que ainda não é a hora,
    Dorme o teu somno, socegada, ó cotovia!

    Mas vós, ó pedras, affastae-vos, que ella passa!
    Silencio, rouxinoes, eu quero ouvil-a…
    Terá ainda a mesma voz tranquilla?
    Ah! ainda é o mesmo o seu andar, cheio de Graça…

    Mas ao passar por mim, como d'algum perigo,
    Foge. (Talvez, já seja tarde…) Ó Clara!
    Nuvem! Phantasma! Ouve-me! Pára!…
    E oiço a voz d'ella n'um murmurio:
    «Anda commigo…»

    Coimbra, 1888.

    *O Meu Cachimbo*

    Ó meu cachimbo! Amo-te immenso!
    Tu, meu thuribudo sagrado!
    Com que, bom Abbade, incenso
    A Abbadia do meu passado.

    Fumo? E occorre-me á lembrança
    Todo esse tempo que lá vae,
    Quando fumava, ainda criança,
    Ás escondidas do meu Pae.

    Vejo passar a minha vida,
    Como n'um grande cosmorama:
    Homem feito, pallida Ermida,
    Infante, pela mão da ama…

    Por alta noite, ás horas mortas,
    Quando não se ouve pio, ou voz,
    Fecho os meus livros, fecho as portas
    Para fallar comtigo a sós.

    E a noite perde-se em cavaco,
    Na Torre d'Anto, aonde eu moro!
    Alli, mettido no buraco,
    Fumo e, a fumar, ás vezes… choro.

    Chorando (penso e não o digo)
    Os olhos fitos neste chão,
    Que tu és leal, és meu amigo…
    Os meus amigos onde estão?

    Não sei. Tral-os-á o «nevoeiro»…
    Os trez, os intimos, _Aquelles_,
    Estão na Morte, no extrangeiro…
    Dos mais não sei, perdi-me d'elles.

    Morreram-me uns. Por elles peço
    A Deus, quando está de maré:
    E, ás noites, quando eu adormeço,
    Phantasmas, vêm, pé ante pé…

    Tristes, nostalgicos da cova,
    Entram. Sorrio-lhes e fallo…
    Deixam-se estar na minha alcova,
    Até se ouvir cantar o gallo…

    Outros, por esses cinco oceanos,
    Por esse mundo erram, talvez…
    Não me escreveis, ha tantos annos!
    Que será feito de vocês?

    Hoje, delicias do abandono!
    Vivo na paz, vivo no limbo:
    Os meus amigos são o Outomno,
    O Mar e tu, ó meu Cachimbo!

    Ah! quando for do meu enterro,
    Quando eu partir gelado, emfim,
    No meu caixão de mogno e ferro,
    Quero que vás ao pé de mim.

    Santa mulher que me tratares,
    Quando em teus braços desfalleça,
    Caso meus olhos não cerrares,
    Embora! Que isto não te esqueça:

    Colloca, sob a travesseira,
    O meu cachimbo singular
    E enche-o, sollicita enfermeira,
    Com _Gold-Fly_, para eu fumar…

    Como passar a noite, amigo!
    No _Hotel da Cova_ sem conforto?
    Assim, levando-te commigo,
    Esquecer-me-ei de que estou morto…

    Coimbra, 1889.

    *Ca (ro) Da (ta) Ver (mibus)*

    Memoria
    A J. d'Oliveira Macedo,
    Eduardo Coimbra, Antonio Fogaça.

    Ás horas do crepusculo, ao _Bemdito_,
    Quando a formoza Lua, a leiteirinha,
    Vae dar o leite ás cazas do Infinito…

    Ás horas das _Trindades_, á noitinha,
    Quando ha milagres e sublimes couzas
    E caza o rouxinol com a andorinha…

    Quando a alma das virgens religiozas,
    Triste se envolve n'um burel de magoa
    E os anjos noivam mail-as suas Rozas…

    Quando o luar azula a espuma, a fragua,
    E o céu sem fim, a abbobada estrellada,
    Como que tem os olhos razos de agoa…

    N'essa hora indeciza, augustiada,
    Em que o universo está, meio ás escuras,
    Que não se sabe se é antes a alvorada:

    Eu pude ver, erguendo-se ás alturas,
    Essa radioza lagryma de pranto
    Que despedem, morrendo, as criaturas.

    E ao vir da noite, livido de espanto,
    Vi uma estrella a mais no azul do céu:
    É que um poeta, um justo, um bom, um santo,

    Ás horas do crepusculo… morreu!
    O simples coração de Julieta
    Dentro da alma clara de Romeu!

    Uma criação de Deus, mas incompleta:
    Aguia, encerrando um coração de pomba,
    Cedro que dava folhas de violeta!

    Ah, quando vejo alguma flor que tomba
    Meu coração estorce-se de dor,
    De Deus minha alma inconsolavel zomba!

    Um lyrio branco, o seu primeiro amor,
    Aos ventos, aos relampagos, ficou
    N'este Valle de Lagrymas, Senhor!

    Quem lhe dera a mortalha que levou
    Toda coberta do cabello loiro
    Da mystica menina que elle amou!

    Vede-a, acolá, chorando o seu thesoiro,
    Na janella que deita para o mar,
    Soltas ao vento as suas tranças de oiro!

    Ó Via-Lactea, ó Sete-Estrello, ó Luar,
    Ó Lua, noiva da esverdeada fera,
    Deixae do céu a vossa luz tombar!

    Ó aves, que trazeis a primavera,
    Para cobrir o solitario ninho,
    Ide buscar á sua campa a hera!

    Ó pombas de luar, pombas de linho,
    Que ides tão alto, divagando errantes,
    Quazi mortas, perdidas no caminho:

    Do vento sobre as azas triumphantes
    Prendei a aza e, assim, acompanhae
    O scismador que vos cantava d'antes!

    Elle precorre victoriozo, olhae!
    Entre espumas de brancas andorinhas
    O Novo-Mundo, e que ligeiro vae!

    Dizem-lhe adeus da terra as criancinhas,
    Co'as tranças a acenar, mandam-lhe abraços
    E beijos com as pallidas mãozinhas…

    Mas elle vae boiando nos espaços,
    Sendo o seu corpo uma subtil galera
    Com leves remos de marfim, seus braços…

    Onde vae elle? a que ditoza esphera
    Velhinha Morte a sua alma guia?…
    Que vida immensa, lá no céu, o espera!

    Para ganhar o pão de cada dia
    Cuidará da lavoira, mais das flores,
    Lavrando as terras da Virgem Maria!

    Longe dos vis, dos maus, dos peccadores,
    N'uma herdade do céu, entre charruas,
    A cavar entre simples lavradores,

    Semeando estrellas e plantando luas…
    E ainda o choram, que feliz desgosto!
    O vento passa a uivar por essas ruas…

    E um oleo algente, excepcional composto,
    Tomba do Ar: é a Extrema-Uncção da Morte
    Que lhe alvorece as mãos e lhe unge o rosto.

    E choraes! Quem vos dera a sua sorte!
    Porque é que vós carpis, agoas da fonte?
    Não chores mais estrella azul do Norte!

    Dobram-se ao vento os cannaviaes do monte,
    E, como a juba d'um leao hirsuto,
    O cedro curva, em tempestade, a fronte;

    Os pallidos jasmins vestem de luto…
    Comtudo o Morto fixa, inconsciente,
    O vivo olhar sem lagrymas, enxuto.

    Formozo, branco, meigo, sorridente,
    Com esses olhos que parecem soes,
    Vaes repoizar na cova, eternamente.

    O teu genio legaste-o aos rouxinoes.
    E allumia-te a bocca de criança,
    O sorrizo dos virgens, dos heroes!

    E o corpo teu na cova, essa esperança
    Eterna como os seculos e as flores,
    Entre verduras, afinal, descança…

    Ah, nem tigres, nem aguias, nem condores,
    Abrem as campas, lugubres cavernas:
    O coveiro é o melhor dos constructores!
    Covas que elle abra são cazas eternas.

    Leça, 1885.

    *Quando Chegar a Hora*

    Quando eu, feliz! morrer, oiça, Sr. Abbade,
    Oiça isto que lhe peço:
    Mande-me abrir, alli, uma cova á vontade,
    Olhe: eu mesmo lh'a meço…

    O coveiro é podão, fal-as sempre tão baixas…
    O cão pode lá ir:
    Diga ao moço, que tem a pratica das sachas,
    Que m'a venha elle abrir.

    E o sineiro que, em vez de dobrar a finados,
    Que toque a Alléluia!
    Não me diga orações, que eu não tenho peccados:
    A minha alma é dia!

    Será meu confessor o vento, e a luz do raio
    A minha Extrema-Uncção!
    E as carvalhas (chorae o poeta, encommendae-o!)
    De padres farão.

    Mas as aguias, um dia, em bando como astros,
    Virão devagarinho,
    E hão-de exhumar-me o corpo e leval-o-ão de rastros,
    Em tiras, para o ninho!

    E ha-de ser um deboche, um pagode, o demonio,
    N'aquelle dia, ai!
    Aguias! sugae o sangue a vosso filho Antonio,
    Sugae! sugae! sugae!

    Raro têm de comer. A pobreza consome
    As aguias, coitadinhas!
    Ao menos, n'esse dia, eu matarei a fome
    A essas desgraçadinhas…

    De que serve, Sr. Abbade! o nosso pacto:
    Não me lembrei, não vi
    Que tinha feito com as aguias um contrato,
    No dia em que nasci.

    Seixo, 1886.

    *Certa Velhinha*

    1

    Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    Que triste velhinha que vae a passar!
    Não leva candeia; hoje, o céu não tem luzes…
    Cautella, velhinha, não vás tropeçar!

    Os ventos entoam cantigas funestas,
    Relampagos tingem de vermelho o Azul!
    Aonde irá ella, n'uma noite d'estas,
    Com vento da _Barra_ puxado do sul?

    Aonde irá ella, pastores! boieiras!
    Aonde irá ella, n'uma noite assim?
    Se for un phantasma, fazei-lhe fogueiras,
    Se for uma bruxa, queimae-lhe alecrim!

    Contava-me aquella que a tumba já cerra,
    Que Nossa Senhora, quando a chama alguem,
    Escolhe estas noites p'ra descer á Terra,
    Porque em noites d'estas não anda ninguem…

    Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    Que linda velhinha que vem a passar!
    E que olhos aquelles que parecem luzes!
    Quaes velas accezas que a vêm a guiar…

    Que pobre capinha que leva de rastros,
    Tão velha, tão rôta! Que triste viuvez!
    Mas se lhe dá vento, meu Deus! tantos astros!
    É o céu estrellado vestido do envez…

    Seu alvo cabello, molhado das chuvas,
    Parece uma vinha de luar em flor…
    Oh cabello em cachos, como cachos de uvas!
    So no céu ha uvas com aquella cor…

    A luz dos seus olhos é uma luz tamanha
    Que ao redor espalha divino clarão!
    Parece que chove luar na montanha…
    Que noite de inverno que parece verão!

    Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    Velhinha tão alta que vem a chegar!
    Parece uma Torre côada de luzes!
    Ou antes a _Torre de Marfim_, a andar!

    Não! Não é uma Torre côada de luzes,
    Nem antes a _Torre de Marfim_, a andar,
    Que pela tapada das _Quatorze Cruzes_,
    N'uma noite destas, eu vejo passar…

    Tambem não é, ouve, minha velha ama!
    Como tu contavas, a Virgem de Luz:
    Digo-te ao ouvido como ella se chama,
    Mas guarda segredo, que é…
    –Jezus! Jezus!

    2

    Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    Já não é a velhinha que vae a passar:
    Um grande cortejo cheiinho de luzes,
    Anninhas da Eira que vae a enterrar.

    Falla d'um pastor:

    «Anninhas da Eira! Anninhas da Eira!
    Cantae, raparigas, cantae e chorae!
    Morreu, coitadinha! sorrindo, trigueira,
    Como um passarinho, sem soltar um ai.

    Quando era pequeno, levava-me á escola,
    E quando, mais tarde, cresci e medrei,
    Oh danças nas eiras, ao som da viola!
    Nas danças de roda, que beijos lhe dei!

    Os annos vieram, os annos passaram,
    Meu fado arrastou-me, da aldeia sai:
    Nunca mais meus olhos seus olhos tocaram,
    Perdi-a de todo, nunca mais a vi…

    E além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    N'uma noite d'estas com vento a ventar,
    Ó meu Deus! é ella que vae entre luzes!
    Ó meu Deus! é a Anninhas que vae a enterrar!

    Olá! bons senhores, vestidos de preto,
    Deixae a defunta, que a levarei eu!
    O suor alagava-vos, eu levo o carreto…
    O caixão de Anninhas é tambem o meu!

    Tenho os relampagos, deixae-me sem velas
    A rezar por ella, sob o temporal!
    Cai-me no peito, cravae-m'as, procellas!
    Cruzes da tapada, em forma de punhal!»

    Mas os bons senhores, de preto vestidos,
    Cigarros accezos, e velas na mão,
    Lá passam ao vento, com sete sentidos,
    Com medo que, ás vezes, não seja um ladrão…

    «Mãos das ventanias! mãos das ventanias!
    Tirae-lhes a Anninhas e levae-a a Deus!
    Com suas mãosinhas, agora tão frias,
    Irá na viagem a dizer-me adeus…

    Ó vento que passas! corcel de rajada!
    Assenta-nos ambos no mesmo selim:
    Quero ir mais ella na longa jornada…
    Quero ir com Anninhas pelo céu sem fim!

    Ó Leste, que trazes as rolas, ás costas,
    Quaes rolas, leva-nos aos pés do Senhor!
    Quero ir como ella, assim de mãos postas…
    Quero ir com Anninhas para onde ella for!

    Ó Norte dos Marços! ó Sul das procellas,
    Levae-nos quaes brigues, como azas, levae!
    Levae-nos como aguias, levae-nos quaes velas…
    Quero ir com Anninhas para onde ella vae!»

    3

    Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    Que triste velhinha que vae a passar!
    E que olhos aquelles que parecem luzes…
    Aonde irá ella? Quem irá buscar?

    Pariz, 1891.

    *Males de Anto*

    A Ares n'uma aldeia

    Quando cheguei, aqui, Santo Deus! como eu vinha!
    Nem mesmo sei dizer que doença era a minha,
    Porque eram todas, eu sei lá! desde o odio ao tedio.
    Molestias d'alma para as quaes não ha remedio.
    Nada compunha! Nada, nada. Que tormento!
    Dir-se-ia accaso que perdera o meu talento:
    No entanto, ás vezes, os meus nervos gastos, velhos,
    Convulsionavam-nos relampagos vermelhos,
    Que eram, bem o sentia, instantes de Camões!
    Sei de cór e salteado as minhas afflicções:
    Quiz partir, professar n'um convento de Italia,
    Ir pelo Mundo, com os pés n'uma sandalia…
    Comia terra, embebedava-me com luz!
    Extasis, spasmos da Thereza de Jezus!
    Contei n'aquelle dia um cento de desgraças.
    Andava, á noite, só, bebia a noite ás taças.
    O meu cavaco era o dos mortos, o das loizas.
    Odiava os homens ainda mais, odiava as Coizas.
    Nojo de tudo, horror! Trazia sempre luvas
    (Na aldeia, sim!) para pegar n'um cacho d'uvas,
    Ou n'uma flor. Por cauza d'essas mãos… Perdoae-me,
    Aldeões! eu sei que vós sois puros. Desculpae-me.

    Mas, atravez da minha dor, da tempestade,
    Sentia renascer minha antiga bondade
    N'esta alma que a perdera. Achava-me melhor.
    Aos pobrezinhos enxugava-lhes o suor.
    A minha bolsa pequenina, de estudante,
    Era p'ros pobres (E é e sel-o-á d'oravante.)
    E ao vir das tardes, ao passar por um atalho,
    Eu ia olhando o chão, embora com trabalho,
    Pois os meus olhos não podiam de fadigas,
    P'ra não pizar os carreirinhos das formigas
    Que andam, coitadas! noite e dia, a carregar…
    E com vergonha, p'ra ninguem me ver chorar,
    Livido, magro, como um espeto, uma tocha,
    Costumava esconder-me em uma certa rocha,
    Que, por signal, tinha o feitio d'um gabão,
    E punha-me a chorar, a chorar como um leão!
    Tinha os berros do mar, pregando em seu convento
    E a gesticulação dos pinheiraes ao vento!

    Ó Dor! ó Dor! ó Dor! Job não tens dores mais,
    Que as tem maiores este filho de seus Paes!
    Ó Christo! calla os ais na tua ignea garganta,
    Ó Christo! que outra dor mais alta se alevanta!

    Meu pobre coração toda a noite gemia
    Como n'um hospital…

    Entrae na enfermaria!

    Vede! Kistos da Dor! Furo-os com uma lança:
    Que nojo, olhae! são as gangrenas da Esperança!
    Lanceto mais: que lindas cores! um Oceano!
    Ó mornos vagalhões do coração humano,
    Amarellos, azues, negros, cor de sol-posto!
    Ó preamar de puz! maré-viva d'Agosto!…
    Oceano! ó vagalhões! qual é a vossa lua?
    A que horas é a baixamar, quem vos escua?
    Lanceto mais ainda: as Illuzões sombrias!
    Cancros do Tedio a suppurar melancholias!
    Gangrenas verdes, outomnaes, cor de folhagem!
    O puz do Odio a escorrer n'esta alma sem lavagem!
    Tristezas cor de chumbo! Spleen! Perdidos somnos!
    Prantos, soluços, ais (o Mar pelos outomnos!…)
    A febre do Oiro! O Amor calcado aos pés! Genio! Ancia!
    Medievalite! O Sonho! As saudades da Infancia!

    Quantos males, Senhor! Que hospital! Quantas doenças!
    Philosophias vãs! Perda das minhas crenças!
    Nevrastenia! O Susto! Incoherencias! Desmaios!
    Sede de immensa luz como a dos pára-raios!
    Enthusiasmos! Lezão-cardiaca da Raiva!
    Magoas sem fim, prantos sem fim! Chuva, saraiva
    De insultos! Afflicções, desesperos! Gotta
    De coleras! Horror…

    Deixei fugir a escota,
    Perdi-me no alto mar, quando ia na galera
    Á India da Illuzão, ao Brazil da Chymera!…
    Ó Bancuos do remorso! Ó rainhas Machebetts
    Da ambição! ó Reis Lears da loucura! ó Hamlets
    Da minha vingança! ó Ophelias do perdão…
    (Socega! Faze por dormir, meu coração!
    Vae alta a noite…) E o sangue arde-me n'estas veias!
    Febre a cem graus! Delirio: o céu de luas-cheias
    Desde o oriente ao sol-por, de norte a sul coberto:
    O mundo jovial de guarda-sol aberto!
    Mar de esmeralda fluida, praias de oiro em pó!
    Ó esquadras das quaes era almirante eu só!
    Ó clarins a soar entre balas, na guerra!
    E vencer pela patria! E ser Conde da Terra
    E do Mar! El-Rey! Ser Senhor-feudal do Mundo!
    Encher a trasbordar a Vida, mar sem fundo,
    Com palacios, amor, glorias, luxo, batalhas,
    E reis e generaes envoltos nas mortalhas!…
    P'ra contar tanta coiza a encher tantos abysmos,
    Homens! criae outro systema de algarismos!

    Meu Deus! Que pezadello! Ah, tanta febre assusta…
    Struggle-for-life! Ó velho Darwin tanto custa!
    Antes não ter nascido. Ó Morte vem buscar-me…
    Um lenço branco _Adeus_! nos longes, a acenar-me:
    Adeus, meu lar! adeus, minha taça de leite!
    E foi o dia 13… E os corcundas e o azeite
    Que eu entornei, pretas que eu vi, uivos de cães!..
    Choras? Porque, por quem, Anto? Pelos _Alguens_…
    Lagrymas: suor da alma! Cançado? Vaes morrer,
    Vaes dormir… Ainda não! mais febre, suores frios
    Tremuras, convulsões, nevroses, arrepios!
    Unhas de leão, raspando cal n'uma parede!
    Corpos divinos, nus, ao léu! Luxurias, sede
    De amor mystico! Amar freiras de habito branco
    Morrer com ellas despenhado n'um barranco,
    Sob relampagos!…

    Jezus! Jezus! Jezus!

    Ah quanto foi bem peior que a tua a minha cruz!
    Quanto soffri, meu Deus! Ah! quanto eu soffro ainda!
    E isto n'um mez de paz, n'esta epoca tão linda,
    Solsticio de verão, quando nos sabe a vida,
    Quando apparece o cravo, a minha flor querida,
    Quando os soes-postos são uma delicia, quando
    Os aldeões andam a podar, cantarolando,
    E, alli, ao pé dos milheiraes, as lindas netas
    Ceifam curvadas, como na haste as violetas!

    Medico? Para que… A doença era d'alma.
    Saia, apenas, á tardinha, pela calma,
    Sorvendo aos haustos a rezina dos pinheiros.
    Tomava quazi sempre a estrada dos _Malheiros_.
    A nossa caza é ao virar mesmo da estrada,
    Onde perpassam os aldeões na caminhada
    E a mala-posta a rir, cheia de campainhas!
    Ora havia, lá (e ha ainda) umas _Alminhas_
    Com um painel antigo sob um oratorio,
    Que são as almas a penar no Purgatorio.
    E têm esta legenda: «Ó vos que ides passando
    Não esqueçais a nós n'este lume penando!»
    Deitava-lhes 10 reis, mas ficava a scismar
    Que mais penava eu… se ellas quizessem trocar…

    E mais adiante (ainda me lembro: n'um atalho,
    Ao pé da fonte) havia um monte de cascalho
    Com uma cruz de pau, braços ao sul e ao norte,
    Para mostrar que, alli, se fizera uma morte:
    Ora (é um costume) quando alguem vae de longada,
    Ao ver aquella cruz, que parece uma espada,
    Deita uma pedra: cada pedra é uma oração…
    Oh raras orações, que nunca findam, não!
    Perpetuamente, lá ficam os _Padre-Nossos_,
    Rezas de pedra, a orar, a orar por esses ossos!…
    Eu como os mais deitava uma pedra, tambem,
    Dizendo para mim: «se me matasse alguem…»
    Mas eu seguia o meu passeio, estrada fóra,
    E ninguem me matava…

    Ah! vinham a essa hora
    As moças da lavoira a cantar, a cantar,
    (Faziam-me, Senhor! vontade de chorar…)
    Mas quando, perto já, eu me ia approximando,
    Paravam de cantar e ficavam-me olhando…
    E que eu não fosse ouvir murmuravam, baixinho,
    Com dó, a olhar: «Como elle vae acabadinho!»

    Mais adiante, encontrava a mulher do moleiro,
    Que ia o cantaro encher á _Fonte do Salgueiro_,
    Lindos cabellos empoeirados de farinha:
    Era uma flor, mas parecia uma velhinha…
    –Vae melhorzinho?–Assim… vou indo, vou melhor…
    –Pois seja pelas cinco chagas do Senhor…

    E um pouco mais além, no logar do _Cazal_,
    N'uma caza de colmo, assentado ao portal,
    Estava um cego, e a fiar ao lado estava a mãe,
    E mal sentia, ao longe as passadas de alguem,
    Clamava em sua voz vibrante de céguinho:
    «Meu nobre senhor! olhe este desgraçadinho!»
    Ai de mim! ai de mim! como não ve quem passa,
    É que chama a attenção para a sua desgraça!

    E, para bem coroar o meu tragico fado,
    Dizia-me, ao passar, o Dr. Delegado:
    «Vá para caza, fuja aos orvalhos da noute.»
    E, grave, para si:
    «A Sciencia abandonou-te!»

    Horror! horror! horror! Que mizeravel sorte!
    Em tudo via a _Velha_, em tudo via a Morte:
    Um berço que dormia era um caixão p'ra cova!
    Vi-a a Foice no céu, quando era lua-nova…
    Se ia á tapada ver ceifar as raparigas,
    Vi-a entre ellas a cortar tambem espigas!
    E ao ver as terras estrumadas, como lume,
    Quedava-me a scismar no meu destino… estrume!
    A pomba que passava era a minha alma a voar…
    E era a minha agonia um pinheiro a ullular!
    E, ao ver meadas de linho a corarem, ao sol,
    Pensava… se estaria, alli, o meu lençol…
    E o que eu scismava ao ver passar os carpinteiros,
    Cantando alegres e fumando, prazenteiros,
    A tiracollo a cerra, o martello e o formão…
    Vinham, quem sabe! de acabar o meu caixão!
    Deitava-me no chão de ventre para o Ar,
    Scismava: se morrer, é assim que hei-de ficar…

    Como me tinha em pé, não sei. Siquer um musculo!

    A hora christã, entre as nevrozes do crepusculo,
    Entre os susurros da tardinha, ao sol-poente,
    Quando cantam na sombra as fontes, vagamente,
    Quando na estrada vão as mulinhas, a trote,
    Que o alvo moleiro faz marchar sem o chicote
    Ó Natureza! tão amigos são os dois!…
    E se ouvem expirar os chocalhos dos bois,
    Ao longe, ao longe, entre as carvalhas do caminho…
    Quando na ermida dão _Trindades_, de mansinho,
    E os cravos dão á luz o fruto do seu ventre…
    Quando se ve os céus mysticos, doidos, entre
    Soluços e ais a desmaiar, como n'um flato:
    Alli, na encosta aonde bebem n'um regato
    Os animaes, tambem bebia. Ora, uma vez
    (Sim, faz agora pelo S. Martinho um mez)
    Quando para beber me debrucei na pia,
    No fundo d'agoa, vi uma photographia…
    Jezus! Um velho! O seu cabello, assim ao lado,
    O mesmo era que o meu, todo encaracolado!
    O rosto eburneo! o olhar era tal qual o meu!
    E o labio… Horror! Fugi! esse velhinho era eu!

    Fugi!

    E, desde então, não mais sai de caza.
    Ha muito, que não vejo uma flor, uma aza,
    Ha muito já, que não sorvi o mel d'um beijo.
    Do meu cortiço voou a abelha do desejo.
    As duas filhas do cazeiro, ao vir da escola,
    D'antes vinham-me ver, eu dava-lhes esmola.
    Cantavam, riam e saltavam, um demonio!
    E tão lindas, Jezus! tão amigas do Antonio…
    E, agora, mal me vêm, tremem todas, coitadas!
    Eu chamo-as da janella e fogem, assustadas!
    E, ao vel-as, na fugida eu quasi que desmaio…
    Jezus, tao lindas! são duas tardes de Maio!

    Um doente faz medo. Por isso fogem d'elle.
    Estou, aqui, estou ido. Só tenho pelle.
    Nada me salva, nada! É impossivel salvar-me.
    E o que eu tenho a fazer é, apenas, rezignar-me
    E já me resignei… Mas Carlota, esse amor,
    Quiz por força chamar o bom Sr. Doutor.
    E eu consenti, emfim. E lá mandou o creado
    Buscar o cirurgião. Elle é o mais afamado
    N'estas trez legoas, o Dr. da _Preza Velha_.
    Eil-o que chega…
    –Olá!… Ve-me a lingua vermelha,
    Toma-me o pulso…–Está bem, isso não é nada,
    Beba-lhe bem, vá aos domingos á toirada,
    E, sobretudo, veja lá… nada de versos…
    Mas o doutor mais eu, nós somos tão diversos!
    Certo, elle é sábio, mas não tem pratica alguma
    D'estas molestias e o que eu tenho é, apenas, uma
    Tysica d'Alma. Emfim…

    Ó Carlota! ó Carlota!
    Boa velhinha, como ella é meiga e devota!
    Já estaria bom, se me valessem rezas.
    E, no Oratorio, tem duas velas accezas
    Noite e dia, a clamar á Senhora das Dores!
    E queima-lhe alecrim, põe-lhe jarras com flores
    E sei, até, que prometteu uma novena,
    Se eu escapar… Como tudo isso me faz pena!
    E trata-me tão bem, tão bem! como se eu fosse
    Seu filho. Dá-me, olhae, pratinhos de arroz doce
    Com as iniciaes do meu nome em canella,
    E traz-me o caldo, como exijo, na tigella
    Por onde come o seu. E dá-me o vinho fino,
    Onde me molha o pão de ló «p'ro seu menino»
    Que é assim que eu gosto, pelo Calix do Senhor,
    Que pertenceu, outrora, ao meu Tio Reitor.
    Carlota é um beijo. Faz-me todas as vontades.
    Quando me sinto pior, ao bater das _Trindades_,
    E me appetece comer terra, algumas vezes
    (Assim, são nossas mães, perto dos nove mezes)
    Sae a buscar uma mão cheia. Vem molhada:
    Foi ella que chorou… mas diz que «é da orvalhada…»
    E quando, emfim, sombrio, agoniado, farto,
    Me vou deitar, a santa acompanha-me ao quarto:
    Ajuda-me a despir e mette-me na cama.
    E com um mimo que só sabe ter uma ama
    Cobre-me bem, «durma, não scisme,» dá-me um beijo,
    E sae. Finge que sae, cuida ella que eu não vejo,
    Mas fica á porta, á escuta, a ouvir-me fallar só,
    E não se vae deitar…

    Onde ha, assim, uma avó?

    A todo o instante, se ouve á porta: «Tlim, tlim, tlim!»
    Trez legoas em redor manda saber de mim.
    (Aqui, lhes deixo minha eterna gratidão.)
    Toca o sino e lá vae a Carlota ao portão,
    Muito baixinha, atarefada; espreita á grade,
    –Quem é?… E, então, olhae!

    «É o Sr. Abbade
    Que manda esta perdiz, mortinha de manhã»;
    Mais o Sr. D. Sebastião de Villa-Meã
    «Que manda um gigo», mais as senhoras do _Rôfo_
    Que mandam ovos molles, pecegos, pão fofo,
    Uvas de Cheiro, peras D. Joaquina,
    Barrisinhos d'Ovar, copos de gelatina;
    Mais o Sr. Barão das Areias do Mar
    «Que manda este salmão do Tamega, a saltar»;
    Mais o Sr. Doutor de _Linhares_ «que manda
    Os cravos mais lindos que tinha na varanda»;
    Mais «o da _Igreja_ que offerece a codorniz
    Que matou, hoje, na _Tapada de D. Luiz_»;
    Mais o Sr. Miguel das _Alminhas de Pulpa_
    «Que manda este peru e que pede desculpa»;
    E, até, o Astronomo, coitado! e o Zé dos Lodos
    Mandam coisas: sei lá… o que podem. E todos
    Mandam tambem saber «como vae o menino…»
    E, então, Carlota, bom Deus! é tal qual o sino
    Na noite a badalar as suas badaladas!
    Poe-se a contar, carpindo, a minha doença ás criadas.
    Tudo o que eu digo, quanto faço, quanto quero:

    –Olhe, S.^{ra} Julia, ás vezes, desespero…
    Mas, eu quero-lhe tanto! ajudei-o, a criar…
    Em pequenino era tão bom de aturar…
    E depois era tão alegre, tão esperto!
    E então que lindo! era mesmo um cravo aberto!
    Mas, hoje, é aquillo: tem os olhinhos sumidos,
    Tão faltinho de cor, os cabellos compridos,
    E tosse tanta vez! já arqueia das costas…
    Só falta vel-o deitadinho, de mãos postas!
    E elle é tão bom, tem tão bons modos…
    –Coitadinho!
    –Olhe, S.^{ra} Julia, nunca viu o linho
    Que a gente deita ao sol, quando é para seccar,
    E que se poe assim a esticar, a esticar?
    Assim é o meu menino…
    –Ó S.^{ra} Carlota,
    E se eu fallasse á Anna Coruja, essa que bota
    As cartas? Foi talvez malzinho que lhe deu…
    –Nunca foi assim: foi depois que se metteu
    A fumar, a beber e lá com as po'sias.
    Aquillo para mim foram as companhias.
    Vinha p'ra caza, á meia-noite, noite morta,
    E eu fazia serão para lhe abrir a porta.
    E nunca ia á licção, ficava sempre mal
    Nos seus exames, escrevia no jornal;
    E o Pae, que é um santo, como ha poucos, que não via
    Nem ve mais nada, então nunca o reprehendia
    Com medo de o affligir… mas depois, quando estava
    Mettido á noite, só, no seu quarto… scismava.
    –O povo diz por hi que foi paixão que trouxe
    Lá dos estudos, de Coimbra…
    –Antes fosse
    Porque o remedio estava, alli, na Igreja… Adei…
    –Mas se a menina não quizesse… eu sei, eu sei…
    –S.^{ra} Julia! Não havia de querer!
    Não que elle é mesmo alguem hi para se perder,
    Para deitar á rua: um senhor tão prendado!
    Depois, está aqui, está quazi formado…

    Ai valha-me, Jesus! eu perco a ideia, faço
    A minha perdição… Ás vezes, ergue o braço
    E vae por hi fóra, por todas essas salas,
    A prégar, a prégar, e tem mesmo umas fallas
    Que não enxergo bem, mas que fazem tremer:
    Hontem, á noite, quando se ia a recolher,
    (Quando faz lindo luar, quer deitar-se sem vela)
    Entrou na alcova, eu tinha ainda aberta a janella,
    E diz-me, assim, tão mau: «p'ra que veio entornar
    Agoa no quarto?» e vae-se a ver… era o luar!
    E quando foi para chamar o cirurgião?
    Jezus, quanto custou! Que não, que não, que não!
    Não tinha fé nenhuma «em um doutor humano»
    Que só a tinha no Sr. Dr. Oceano…

    Mas uma coiza que lhe faz ainda peior,
    Que o faz saltar e lhe enche a testa de suor,
    É um grande livro que elle traz sempre comsigo,
    E nunca o larga: diz que é o seu melhor amigo,
    E le, le, chama-me: «Carlota, anda ouvir!»
    Mas… nada oiço. Diz que é o Sr. Shakespeare.

    E, ás vezes, bota versos, diz coizas tão más!
    Nada lhe digo, mas aquillo não se faz.
    Ainda, esta manhã: eu estava a por flores
    E as velas accendia á Senhora das Dores,
    (Que tem dó d'elle, coitadinha! chora tanto…)
    Vae o menino a olhar, a olhar, sae-me d'um canto
    E uiva-lhe, assim:
    «Antes as tuas sete espadas!»

    E o que á S.^{ra} Julia diz, diz ás mais criadas.

    Coimbra, 1890.

    Pariz, 1891.

    *Ah Deixem-me Dormir!*

    O Poeta

    Olá, bom velho! é aqui o _Hotel da Cova_,
    Tens algum quarto ainda para alugar?
    Simples que seja, basta-me uma alcova…
    (Como eu estou molhado! é de chorar…)

    O povo

    O luar averte as orvalhadas sobre a rua!
    Jezus! que lindo…

    Vamos! depressa! Vem, faze-me a cama,
    Que eu tenho somno, quero-me deitar!
    Ó velha Morte, minha outra ama!
    Para eu dormir, vem dar-me de mamar…

    A S.^{ra} Julia

    São as Janeiras da Lua!

    O Coveiro

    Os quartos, meu senhor, estão tomados
    Mas se quizer na valla (que é de graça…)
    Dormem, alli, somente os desgraçados:
    Têm bom dormir… bom sitio… ninguem passa…

    O Zé dos Lodos

    A lua é a nossa vacca, ó Maria!
    Mugindo…

    Ainda lá, hontem, hospedei um moço
    E não se queixa… E ha-de poupal-o a traça,
    Porque esses hospedes só trazem osso,
    E a carne em si, valha a verdade, é escassa.

    O Dr. Delegado

    A noite parece dia!

    O Poeta

    Escassa, sim! mas tenho ossada ainda,
    Emquanto que a alma, ai de mim! nada tem…
    Guia-me ao quarto… (a lua vae tão linda!)
    Dize-me: quantos annos me dás? Cem?

    O Sr. Abbade

    E esta? Em vez de trazer a opa que é de logar
    Trouxe a d'anjinho!

    A Mulher do Moleiro

    É o luar, Sr. Abbade, é o luar…

    Oh cem! E os que eu não mostro e o peito guarda…
    Os teus mortinhos, sim! dormem tão bem:
    «Dormi, dormi! que vossa mãe não tarda,
    Foi lavar á _Fontinha de Belem_…»

    O Astronomo

    Isto lunar assim! Isto é o verao
    De S. Martinho!

    O Coveiro

    Aqui. Fica melhor do que em 1^a:
    Colxão assim não acha em parte alguma!
    Os outros são de chumbo, de madeira,
    Mas este, veja bem, é sumauma…

    O Cego do Cazal

    Faz solzinho, que horas são?

    _Cantando_:

    «Colxão de raizes e de folhas, lizo,
    Lençoes de terra brandos como espuma,
    Dal-os-ei ao rol, no Dia de Juizo…»
    Prompto. Quer mais alguma coiza? Fuma?

    Carlota

    Ó luar, anda mais devagarinho!
    Deixa dormir o meu menino…
    Coitadinho!

    O Poeta

    Mais nada. Boas-noites. Fecha a porta.
    (Que linda noite! Os cravos vão a abrir…
    Faz tanto frio)! Apaga a luz! (Que importa?
    A roupa chega para me cobrir…)

    A Mãe do Poeta

    Aqui, espero-te, ha que tempo enorme!
    Tens o logar quentinho…

    Toma lá para ti, guarda. E ouve: na hora
    Final, quando a Trombeta além se ouvir,
    Tu não me venhas acordar, embora
    Chamem… Ah! deixa-me dormir, dormir!

    Deus

    Dorme, dorme.

    Pariz, 1891.

    FIM

    TABOA

    Antonio
    Menino e Moço
    Os Cavalleiros
    Purinha
    Elegia
    Os Sinos
    Terças-Feiras
    Carta A Manoel
    Para As Raparigas De Coimbra
    Luzitania No Bairro-Latino
    Os Figos Pretos
    Febre Vermelha
    Poentes De França
    Pobre Tysica!
    A Poezia Do Outonno
    Sta. Iria
    Enterro De Ophelia
    Ballada Do Caixão
    Á Toa
    A Vida
    O Somno De Joao
    Ao Canto Do Lume
    A Sombra
    O Meu Cachimbo
    Ca (ro) Da (ta) Ver (mibus)
    Quando Chegar A Hora
    Certa Velhinha
    Males De Anto
    Ah Deixem-me Dormir!

    Imprimerie Henri Jouve, 15, rue Racine, Paris.

    Achevé d'imprimer le deux avril mil huit cent quatre-vingt-douze

    Pour

    LÉON VANIER

    éditeur

    Par

    HENRI JOUVE

    15, Rue Racine, 15

    A Paris

  • Os meus amores contos e balladas

    Os meus amores contos e balladas

    Aproximadamente 60.805 palavras.

    Produced by Ricardo F. Diogo (Spelling modernization of
    the original version, already available at Project
    Gutenberg: #17503; Actualização ortográfica da versão
    original, já disponível no Project Gutenberg.)

    OS MEUS AMORES

    TRINDADE COELHO

    *OS MEUS AMORES*

    (Contos e Baladas)

    _2.^a edição_

    LISBOA

    Livraria de António Maria Pereira

    50, 52–Rua Augusta–52, 54

    1894

    _LISBOA_

    Tipografia e Estereotipia Moderna

    11–_Apóstolos_–11

    Ao Doutor

    António Xavier Perestrelo

    «_Os Meus Amores_»

    _Folhas dispersas dos meus anos de ouro,
    Vivo enxame das minhas alvoradas,
    Tenho zelos de vós, folhas sagradas,
    As Desdémonas sois de um outro mouro.

    As brancas horas que eu em sonhos douro,
    Essas horas febris, iluminadas,
    Ei-las fugindo, em tristes debandadas…
    Levais nas asas todo o meu tesouro.

    Folhas: subi, voai ao céu tão alto,
    Que o céu em estrelas vos converta e mude,
    Lá nas longínquas ilusões que exalto;

    Como as frementes águas de um açude,
    Levai a Deus, no derradeiro salto,
    O derradeiro adeus da juventude_…

    _Luís Osório_.

    IDÍLIO RÚSTICO

    _A Fialho de Almeida_.

    Quando atravessou a povoação, rua abaixo, com o rebanho atrás dele,
    era ainda muito cedo. Ao longo das ruas tortuosas, as portas
    conservavam-se fechadas, e não vinha das habitações o mais
    insignificante ruído. Dormia-se a sono solto por todas aquelas casas.
    Apenas algum cão, subitamente acordado em sobressalto pelo chocalhar do
    rebanho, ladrava do alto dos escadórios de pedra onde ficara de
    sentinela, ou de dentro das curraladas, onde levara a noite fazendo
    companhia aos novilhos. Donde em onde, galos madrugadores entoavam
    matinas sonoras, que eram como risadas vibrantes de boémios, nalguma
    estúrdia, a desoras…

    Mas passadas as últimas casas, o silêncio condensava-se para toda a
    banda, numa grande pacificação de templo adormecido. Nem vivalma pela
    ladeira que levava ao rio, por um caminho em zig-zags. Fulgiam no céu
    azul-escuro cardumes prateados de estrelas. A toda a largura, a
    paisagem era torva e indecisa, imersa numa luz muito mortiça que nem
    era bem a da madrugada, nem era bem a da noite. No entanto a manhã era
    calma; nem rumores de brisa pela rama das azinheiras velhas que faziam
    guarda ao córrego por onde o rebanho tomara. Cigarras, grilos nas
    ervagens, rãs que coaxavam nas regueiras, era o mais que se ouvia acima
    do rumor brando dos chocalhos. Nem um balido de ovelha em todo o rebanho
    que se ia submissamente à mercê do pequeno pastor, parando se ele
    parava a colher as amoras frescas dos silvados, recomeçando marcha se de
    novo ele se punha a caminhar.

    Quando passou rente ao meloal da fidalga, ouviu-se o ruído de um tiro,
    que o eco levou para longe.

    –Não gastes pólvora, António!–recomendou o pastor.–Ouviste?

    E logo a voz do guardador:

    –Madrugas hoje, Gonçalo!

    –P'ra que saibas: cá um homem não tem medo.

    –Está bem. Adeus!

    –Saudinha.

    A esse tempo ia-se já definindo a manhã, na luz, no som, na cor. Invadia
    a amplidão da cúpula celeste uma tinta alvacenta, onde as estrelas
    feneciam no seu brilho. Ao alto, na ladeira de além, entravam de fazer-se
    nítidas as linhas sinuosas das cristas, onde enormes rochedos tinham
    altitudes de uma imobilidade misteriosa e sinistra… Neste assomo
    de alvorada, as coisas iam despertando lentamente para a alacridade
    vigorosa da luz. Das moitas e sebes, calhandras em bandos levantavam-se
    repentinamente, em voo perpendicular, e cortavam ares fora, chilreantes
    e alegres, até se perderem de vista por detrás dos arvoredos e cabeços.
    De cauda em riste e orelhas imóveis, o rafeiro espreitava as ervagens
    secas, onde algum réptil passasse vagaroso.

    –Busca, Turco!–fazia-lhe o Gonçalo que tinha medo às cobras.–Busca,
    valente!

    À medida que descia a ladeira, um marulhar monótono de águas ouvia-se,
    mais e mais distinto. Era o rio que parecia perto; mas primeiro que lá
    se chegasse ainda era preciso andar… Era um poder de passos e de
    paciência,–reflectia o pastor, a quem aborreciam de morte os
    intermináveis torcicolos da vereda. Ia andando, descendo sempre, à
    frente do rebanho silencioso. E quando os sapatos começaram de calcar
    areia, e ali, perto, o rio lampejava, sob aquele céu ainda estrelado,
    o Gonçalo desabafou:

    –Uff! até que enfim!–E pensava aliviado:–Nada mais fácil do que
    terem-me saído os lobos!…

    Mas vista àquela hora, e no meio de tal silêncio, a corrente líquida
    tinha o que quer que fosse de sinistro, que evocava lembranças
    aterradoras, espectros dos que ali mesmo tinham morrido afogados, numa
    luta desesperada com as águas, clamando em vão que lhes acudissem, em
    tamanho transe aflitivo. A margem de lá, especialmente, era toda
    acidentada de rochedos informes, blocos medonhos, por entre os quais no
    Inverno o vento assobiava lúgubre, e as águas faziam remoinho, o que era
    um perigo para os pobres barcos que se aventurassem incautos, num
    descuido involuntário–simples remadela pouco a tempo, manobra menos
    segura de leme, ou impulso errado de vara.

    E então, cabeços enormes de um lado e doutro, projectando sobre o largo
    leito do rio a sua sombra pesada e desconforme, que mais triste fazia o
    sitio e parece que mais solitário, pois fechavam-no bruscamente, fazendo
    limitada a paisagem.

    A todo o comprimento da margem, o rebanho pôs-se então a beber manso e
    manso, e sem o mínimo ruído.

    Foi quando o Gonçalo acabou de se convencer que na margem de lá, um
    pouco mais abaixo, outro rebanho bebia também.

    –Tate, Gonçalo! Aquela chocalhada…

    E imóvel, remordendo o lábio, com o ouvido à escuta, pensava:

    –Ora se será ela?…

    Súbito, estremeceu. Ante o seu espírito infantil perpassou, como um
    clarão de relâmpago, a imagem de uma rapariga, pastora como ele, com
    quem se havia encontrado mais vezes, mas que havia muito não vira.

    –Ai, se fosse a Rosária!… dizia consigo.

    E impondo silêncio ao rebanho, que acabara de beber, pôs-se atentamente
    à escuta do tilintar dos chocalhos na margem oposta.

    «O rebanho parecia o mesmo, lá isso… Agora o pastor é que podia ser
    outro que não a Rosária…»

    Senão quando, uma ideia lhe acudiu que o fez sorrir de contente. Atirou
    ao chão a manta e o marmeleiro, e puxando para diante o bornal, feito da
    pele de uma ovelha branca, morta pelas segadas, tirou de lá a sua
    flauta e pôs-se a tocar apressadamente um trecho de cantiga rústica.

    No mesmo instante, uma voz muito sonora gritou-lhe:

    –Eh lá, Gonçalo, és?

    O pastor desatou a rir.

    –Uh lá, Rosária, eu mesmo! Guarde-te Deus, pimpona!

    E logo a voz fresca da rapariga lembrou:

    –Não te esqueceu a moda, rapaz!

    –Isso esquece ela!… Ouviste, Rosária?–Se outra fosse que ma
    tivesse ensinado…

    Neste meio tempo já o Gonçalo retomara a manta e o marmeleiro para ir
    ter com a Rosária. Mas primeiro perguntou:

    –Boto pela ponte, ou és tu que vens, ó cachopa?

    –Vem tu daí. Por cá sempre é outra coisa p'r'as ovelhas. Hã?

    –Basta!

    E dando o sinal da partida, o Gonçalo pôs-se em marcha. Daí a
    pouco, entrava mais o rebanho pela velha ponte mourisca, toda severa de
    construção nos seus três arcos lançados sem elegância, atufados de
    parasitas seculares que a faziam pitoresca, heras, silvas, ortigas
    bravas.

    A meio da ponte, mão piedosa fizera construir pequeno oratório ao Senhor
    Salvador, cujo rosto sereno, espreitando por grades de arame, diziam dar
    coragem a barqueiros e almocreves, que ante o pequeno e humilde nicho
    com respeito se descobrissem, e com devoção rezassem uma velha prece que
    era como um talismã precioso para livrar de maiores
    desgraças–naufrágios no rio, e então maus encontros por aqueles
    caminhos escabrosos, que eram um perigo constante para homens e animais.

    Daí a pouco, as duas crianças estavam perto uma da outra, cada qual
    seguida do seu rebanho.

    –Ora viva a Rosária!–disse o pastor muito alegre, parando defronte da
    cachopa.

    –Bons dias, Gonçalo; então que ventos?

    Entre os dois travou-se então um longo diálogo em que se contaram tudo o
    que haviam feito desde aquele dia em que ambos tinham voltado juntos da
    feira dos Caniços.

    –Por sinal que nem rês se vendeu!–lembrou o Gonçalo.

    –Por sinal!–disse com pena a Rosária.

    Mas ele contou que viera por ali muitas vezes, muitas, sempre na fé que
    a encontrava. «Vê-la agora, só por milagre de santo; quem o havia de
    sonhar! Nanja ele…»

    –Mas se eu estive tão doente!–volveu triste a Rosária.

    E como o outro acudiu a informar-se, ela explicou:

    –Umas quartãs que me tiveram mondada! A peste as mate! Febre que era
    mesmo lume desde manhã até ao escurecer… Uma assim!

    E na sua ingenuidade infantil, contou ao Gonçalo que muitas vezes, na
    febre, sonhara com ele, que se encontravam os dois por montes e prados,
    como agora tinha acontecido, «tal e qual».

    –Assim te Deus salve, ó Rosária?–atalhou rápido o pastor, a quem
    enchiam de orgulho os sonhos daquela pequena amiga.

    –Assim; pois que dúvida?–tornou-lhe confiada a Rosária.

    –Não!–disse agastado o Gonçalo.–Não hás-de dizer assim… Diz certo,
    hás-de jurar direito.

    –Pois assim me Deus salve…

    –Como é verdade…–Diz tudo, Rosária!–suplicava o pastor.

    –Sim, volveu-lhe paciente a companheira,–como é verdade que sonhava
    que nos encontrávamos–concluiu por fim, muito risonha.

    E sem disfarçar o júbilo, prestes o Gonçalo a certificou de que também
    não a esquecera. «Tanto é que tirava da flauta as cantigas todas que
    ela lhe tinha ensinado.»

    –Lembras-te?

    A Rosária faz que sim com a cabeça. E logo, batendo na flauta de
    sabugueiro, o pastor apressou-se a declarar:

    –Saem daqui sem falhar uma.–E resoluto:–Vá feito, Rosária, pede por
    boca!

    A Rosária pediu então a _Pastorinha_.

    –Eu é da que mais gosto,–explicou.–É a mais linda.

    –E é!–concordou o Gonçalo.–Ora escuta lá.

    E levando aos lábios a avena, pôs-se a tocar a _Pastorinha_, enquanto a
    Rosária, com a sua vozita em surdina, entrava a tempo com a letra:

    Onde _vás_, ó Pastorinha,
    Ai-li, ai-li, ai-li, ai-lé…

    –Sabes essa! É mesmo assim!–disse-lhe a Rosária a rir-se.

    –É como vês!–afirmou contente o Gonçalo.

    Aos seus pés tinham-se deitado os rafeiros, e já os dois rebanhos,
    confundidos, andavam na pastagem.

    –Olha as ovelhas juntas!–notou o Gonçalo.

    –Também nós nos quedámos juntos,–volveu-lhe a pequena, sorrindo.–As
    pobres dão-se bem, são amigas…–continuou com júbilo.

    –E nós também, ora também, Rosária?

    –Também–respondeu afoita a pastora.

    E foram-se ter conta no rebanho, que choviam as coimas e as denúncias.

    * * * * *

    A esse tempo, no céu alto e lavado a estrela da alva fenecera por fim, e
    o horizonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o céu em
    cúpula, a luz fresca e viva da manhã vibrava harmonias estranhas que iam
    despertar tudo, a cor da paisagem e a música dos ninhos, cantigas de
    perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manhã de Verão, serena,
    tranquila, dulcíssima. Ia pelo ar um movimento extraordinário de
    asas–passarada alegre que saía agora dos ninhos e voava a matar a sede
    à borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em
    recôncavos de rocha e tomavam para hortejos convizinhos onde a vegetação
    era mais rica de seiva e mais fácil a presa dos insectos, perdizes
    gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos
    vinhedos das encostas, por entre os renques verdejantes, gente em mangas
    de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos, em torcicolos,
    viam-se os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de
    taleigos, e berrando-lhes cada _chó_! que se ouvia na outra ladeira. Já
    nas povoações próximas sinos chamavam para a missa de alva ou tocavam a
    ave-marias. Nas quintas e casas fumegavam os tectos, dizendo horas de
    almoço. De modo que o sol quando rompeu, solene e triunfante no céu
    imaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a natureza acordada
    para a labuta interminável do dia. Numa clareira elevada, dominando o
    rio e um trecho de paisagem para sul, tinham-se sentado os dois pastores
    e continuavam conversa.

    Ao pastor parecia-lhe agora mais bonita a pequena amiga, com a sua cor
    trigueira levemente pálida desde que tivera as maleitas. Não se
    lembrava com que santa que ele tinha visto se lhe parecia agora a
    Rosária…

    –Mas o cabelo assim cortado…–disse com mágoa, mirando-lhe a cabeça
    nua, e passando a mão pela dele,–é que te não fica bem!

    «Melhor fora que lhe tivessem deixado as tranças. Negras, de mais a
    mais, que era como ele gostava…»

    –Promessa da mãe se eu melhorasse–explicou a Rosária–Lembranças… A
    gente quando está aflita…

    –…Quando está aflita…–repetiu como um eco o pequeno. E depois,
    amuado:–Se promete os olhos…

    A rapariga fitou-o, espantada.

    –…é porque tos tirava!–concluiu convicto.

    Houve um momento de silêncio, em que o Gonçalo se pôs a escavar o chão
    com uma pedra, e a Rosária a torcer um fio saliente do seu vestido
    grosseiro. Ouviam-se as ovelhas chocalhando nas pastagens, ia a passar
    na rodeira, longe, um carro que chiava, com uvas para algum lagar.

    –Não falas, Rosária?–perguntou o pastor sem levantar os olhos para
    ela.

    –Também tu…–começou com medo a pequena,–logo te zangas! Olhem a
    lembrança dos olhos! Se a mãe fazia isso, credo!–E depois
    animando-se:–Já foste à Senhora dos Remédios?

    O Gonçalo fez sinal que não tinha ido.

    –Pois foi lá que deixámos as tranças, eu mais a mãe. Num prego ao lado
    do altar, um lacinho verde nas pontas. Ficou lindo.

    O pastor teve um movimento de enfado, não lhe agradava a conversa. E
    para acabar com ela:

    –Que enfim como melhoraste…–fez que concordava, pondo o bilro a
    girar.–Olha como dança…–E depois, mais pensativo, batendo com o
    bilro nos dentes:

    –Que às vezes as promessas pouco fazem…–E interrompendo:–Sabes quem
    fez este bilro?

    –Foste tu, aposto.

    Bateu no peito e fez com a cabeça que sim, mostrando-lho
    orgulhoso–«que visse os _torneados_.» Depois continuou:

    –Vai uma pessoa andando e os santos não se importam. Ora, os
    santos!–Olha a minha Joaquina, tu não conheceste. A gente bem rezou e
    bem promessas fez, mas ela foi-se.

    E pondo-se de joelhos, começou a procurar pelo rebanho.

    –Aquela ovelha, a branca, não vês? A que se vai agora deitar… Pois
    era p'ra Nossa Senhora, repara que é a melhor.–E deitando-se para
    trás:–Lá anda ela a pastar!–concluiu desalentado.

    –Mas tinha de ser,–volveu-lhe triste a Rosária,–que as promessas
    sempre fazem, lá isso…

    E convicta, a pequena contou casos acontecidos para convencer o Gonçalo
    de que sempre valiam as promessas. No entanto, deitado de costas, com a
    jaqueta a fazer de travesseiro, as pernas em ângulo tocando-se com os
    joelhos, o Gonçalo soprava pela palha o bugalhinho que constantemente ia
    subindo e descendo, acompanhado pelo olhar bondoso do cão que ali perto
    se deixara estar sentado. E contando, contando casos, a Rosária ia
    entretendo o pastor. Mas quando ela fazia pausa, logo o rapaz acudia,
    firme na sua objecção:

    –Ora! mas a nossa Joaquina morreu-se! Coitadinha da Joaquina!

    * * * * *

    À medida que o sol ia subindo, no céu glorioso e fulvo, iam os dois
    conduzindo as ovelhas para sítios mais ensombrados, para se livrarem da
    estiagem que ia valente. Calor de rachar, ali por volta do meio-dia, que
    foi quando tomaram para a banda das azinheiras, e para os pinheirais,
    depois. E sempre ao lado um do outro, os dois companheiros levaram de
    conversa quase o dia inteiro. Nunca tinham dado fé que as horas
    passassem tão depressa. Ainda armaram aos pássaros, mas foi o mesmo que
    nada, os demónios andavam espantados e já conheciam as esparrelas.

    –Olha lá não caiam,–tinha dito o Gonçalo, já cansado de estar à
    espreita, agachado, com o fio da armadilha preso ao dedo.–Se eles
    fossem tolos…

    E foi-se a recolher as esparrelas, dando ao demónio os pássaros. Ela
    então propôs que jogassem a pocinha.

    –E o fito, ó Rosária? Sabes jogar ao fito? No adro, aos Domingos de
    tarde, bato-me com qualquer, sabias?

    E generoso:–Mas a ti dou-te partido: vinte e cinco às quarenta…

    Como o tempo rendia, jogaram tudo–a pocinha, o fito, as necas, a
    bilharda. Na bilharda, como o rafeiro trazia à mão, era ele que ia
    buscar o pauzinho, quando zinia longe.

    –Turco, traz cá!

    * * * * *

    No entanto, ia descaindo a tarde. Ao alto, o largo céu esmorecia no seu
    azul suavíssimo. Em todo o espaço o ar estava tranquilo e sereno, e já
    começava para poente a decoração fantástica do ocaso. Parece que se
    ouvia mais distinto o marulhar das águas no rio; já não faiscava assim
    tão viva a areia branca das margens.

    Foi quando o Gonçalo lembrou que era melhor irem-se chegando, mais as
    ovelhas, para as terras onde tinham de pernoitar. E fitando fixamente os
    olhos negros da Rosária, disse-lhe assim:

    –Mas olha o que prometeste… Inda vais feita no que disseste?

    «Ora que lhe custava a ela! Já que as ovelhas tinham andado juntas todo
    o santo dia, que mais era que dormissem no mesmo curral, essa noite?»

    –E o mais, ó Rosária?–perguntou de novo com interesse.

    A pequena ficou perplexa. Mas como o pastor não cessava de a olhar,
    respondeu:

    –Também.–E sorriu-se.–Pois eu…

    Só depois desta segunda promessa o Gonçalo se levantou, e deu o sinal
    de partida, assobiando aos cães.

    Daí a pouco, estavam de marcha para o curral, Quando passavam a velha
    ponte, a obliquidade dos raios do sol fazia alongar desmedidamente pelo
    areal a sombra dos três arcos. Nas rugas da corrente, uma luz alaranjada
    tremeluzia, tirando à água a sua translucidez normal.

    –É bonito!–fez notar o pastor.

    A Rosária explicou logo:

    –São as moiras a caçar com redes de oiro, sabias?

    Para a outra banda, um pouco mais abaixo, assomavam à flor da corrente
    as cabeças dos dois rapazotes do moleiro. Dentro da _chata_ que vogava
    serenamente, a mãe com o mais novito ao colo não os perdia de vista,
    enquanto o pai, em mangas de camisa, de pé num topo de fraga, lhes ia
    ensinando as _manobras_. Ao fundo, três vitelas passavam o rio a vau,
    muito devagar, parando a espaços, alongando o pescoço para a veia de água
    serena, bebendo mansamente. Sobre o vitelo das malhas brancas, o
    guardador cantarolava, acenando com o chapéu ao moleiro–«boas tardes!
    boas tardes!» Ao sair da ponte, o rebanho teve de se afastar um pouco
    do caminho: aproximava-se um almocreve com a longa fila de machos
    carregados, tilintando campainhas.

    –Adeus pequenos! cumprimentou.

    –Venha com Deus!–tornaram-lhe ambos.

    E de novo se puseram em marcha. As ovelhas continuavam confundidas,
    confraternizavam os cães como bons e leais amigos. À frente, o Gonçalo
    ia tocando na flauta o mesmo que a Rosária cantava. O brando rumor dos
    chocalhos, que se levantava de todo o rebanho, casava-se com a música,
    fundindo-se numa nota subtil, de um pitoresco ingénuo de balada…

    Até que chegaram a um topo de serra, escurentado de matagal rasteiro, e
    então, parando um momento, o Gonçalo perguntou, colocando na sua frente
    a Rosária, e pondo-lhe à cara a flauta, na direcção em que devia olhar.

    –Vês além… neste direito? Resvés do castanheiro, não enxergas?

    A outra fez que sim com um gesto, e interrogou:

    –Então é ali?

    –Ali mesmo–volveu-lhe já de marcha.

    E repousando a mão direita sobre o ombro esquerdo da rapariga,
    repetiu-lhe muito contente:

    –É mesmo além.

    Numa terra de restolho, um largo quadrado de cancelas marcava o espaço
    que as ovelhas tinham de ocupar essa noite.

    –Falta pouco; a gente vai pelo atalho que é só mau p'ra quem passa a
    cavalo.

    E como ele ia expansivo, e a companheira não dava palavra, quis então
    saber:

    –Estás triste, ó Rosária?

    –Triste… não. Já agora… tem de ser–volveu-lhe cabisbaixa.

    –Huum! Arrependeu-se…–volveu consigo o pastor.

    * * * * *

    Até que por fim chegaram, tinha anoitecido havia instantes. Gado para
    dentro e toca a merendar; o que era de um era doutro: ele ainda trazia
    azeitonas, um naco de queijo, pão. Mal acabaram de comer, o Gonçalo
    apontou para a cabana que ficava ali perto, e propôs que se deitassem:
    estavam moídos da soalheira de todo o dia e da caminhada agora.

    Quando o Gonçalo e a Rosária entraram na cabana e se deitaram sobre o
    colmo, cobrindo-se com as mantas, e achegando para a cabeça um do outro
    os bornais que faziam de travesseiro, cerrara de todo a noite, e
    formigueiros de estrelas cintilavam vivezas de prata polida no azul
    indefinido do céu.

    –E os lobos?–perguntou a Rosária com medo.

    –Não há perigo–tranquilizou-a o Gonçalo.–Isso é lá com os cães.

    * * * * *

    Pouco a pouco, foi-se extinguindo no curral a música triste dos
    chocalhos. A ladrar, os cães faziam eco. O rebanho devia dormir
    profundamente, imerso no mesmo sono em que jazia prostrada toda a
    Natureza, ao largo. Dentro da cabana, os dois conversaram algum tempo,
    num ciciar brando de vozes, até que por fim, vencidos da fadiga, se
    deixaram adormecer,–quando a história das moiras encantadas ia no seu
    melhor episódio…

    E lá no alto céu, mesmo sobre a cabana, a estrela da tarde não era nem
    mais pura nem mais luminosa do que a alma simples e boa daquelas duas
    crianças…

    Quando ao repontar da manhã se levantaram, e saíram a ver o céu…

    –Bonito dia, Gonçalo!

    –Bonito dia, Rosária! Olha…

    …na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas iam voando…
    voando…

    SULTÃO

    (Copiado do Natural)

    _Ao meu Henrique e a Beldemónio, seu amigo_.

    I

    Ao cair da tarde, o Tomé da Eira entrava em casa, cansado, esfalfado de
    andar um dia inteiro a mourejar no campo.

    –Meus pecados, boa tarde!–dizia ele para a mulher, com um sorriso a
    afectar seriedade.

    Vinha logo o pequeno, o Manuel, de mãos postas pedindo-lhe a bênção.

    –Deus te abençoe.

    –Pai, olhe que o «Sultão»… ia a dizer o pequeno.

    –Bem sei! atalhava logo o Tomé.–O «Sultão» é um maroto e tu és outro.

    E enquanto procurava no bolso da jaqueta a sua bela navalha de
    _meia-lua_, que lhe custara um pinto havia bons quinze anos, e abria a
    gaveta do pão, o Tomé punha-se a fazer de interesseiro consigo mesmo,
    resmungando alto p'ra que a mulher o ouvisse:

    –É que por este caminho não tenho um dia descansado… Nem uma hora…

    Vinha a mulher com as azeitonas, com o queijo, sem dar palavra.

    –…Pois vamos já que já era tempo… Porque p'ra mim há-de chegar… A
    modos que vou já cansando…

    Mas o Tomé não era homem que dissesse estas coisas de coração.
    Pareciam-lhe longos, intermináveis, os aborrecidos Domingos que passava
    sem ir campos fora, madrugador como um melro.

    –Uma aquela como outra qualquer! dizia o bom do Tomé encolhendo os
    ombros, como quem está desgostoso com um génio assim.

    Partiu uma ampla fatia, um naco de queijo muito branco, do leite da sua
    cabrada, e veio sentar-se, consolado, ao fundo da larga escada de pedra
    que dava para a rua, arregaçado, em mangas de camisa, muito à vontade.

    Costume velho do Tomé:–mal se sentava, mastigando o «bocado», dizia
    logo para o filho:

    –Ouves, Manuel? Bota cá fora o «Sultão».

    O rapazito corria o caravelho de uma pequena porta lateral, que rangia
    nos gonzos ao impulso dos seus bracitos roliços, e punha-se a pular de
    contente, dizendo cá da rua:

    –«Sultão»! Sai cá p'ra fora, «Sultão»!

    No fundo negro do pequeno cortelho, na moldura rectangular da porta
    baixa, destacava-se então a cabecita parda de um jumento, orelhas em
    riste, grandes olhos de uma tristeza perpétua, num movimento moroso de
    pálpebras pestanudas…

    E ali se quedava parado, absorto, muito bem posto nas suas pequeninas
    pernas delgadas, a olhar o Tomé que o chamava,–um grande riso de
    alegria nas feições amorenadas, contente de ver o seu «Sultão».

    Mas o pequeno jumento não avançava um passo, divertindo-se em arreliar o
    Tomé, fitando-o com um ar estagnado. Altivo na sua nobre linha de
    quadrúpede de boa raça, alguém lhe poderia ler no olhar, mole e
    impassível, o frio, gelado desprezo a que parecia votar o dono…

    Mas era àquilo mesmo que o bom do lavrador achava graça. E punha-se
    então a falar muito sério, entre resignado e cortês, para o pequeno e
    desdenhoso jumento–o pão e o queijo esquecidos numa das mãos, na outra
    a navalha de _meia-lua_:

    –Então, «Sultão», não vens?

    –Não! parecia responder-lhe o animal. E abstracto, continuava a
    envolvê-lo no seu olhar profundo. A quebrar a harmonia daquela
    imobilidade de estátua, apenas de quando em quando uma pequenina patada
    na soleira, zap!

    –Zangado, «Sultão»? perguntava o lavrador.–De mal comigo?

    E prestes voltava a cara para a outra banda, para se rir à
    vontade…–que não fosse vê-lo o «Sultão»… Metia entre dentes um
    pedacito de queijo, logo uma côdea de pão, e fazendo umas grandes rugas
    na testa, de quem começa a zangar-se, voltava-se então muito sério:

    –Ficas aí, «Sultão»? Já não és meu amigo?

    O jerico abatia um pouco as orelhas, inclinava o pescoço, parece que
    fazendo-se humilde…

    –Então se és, anda daí. Olha…–E mostrava um pedacito de pão.–P'ra
    ti se vieres…

    O «Sultão» dava três passos, e ficava fora do cortelho. E por se vingar,
    o Tomé carregava o semblante numa seriedade muito pesada, e erguendo o
    rosto iracundo chamava-lhe interesseiro, maroto, afirmando que já lhe
    não dava o pão. E desfechando-lhe enfim a ameaça de o vender a um
    cigano, entrava a tratá-lo por senhor–_sôr_ «Sultão»…

    Mas o pequeno jumento ia andando muito devagar… andando… orelhas
    baixas, pescoço caído, a modo de arrependido, parece que pedindo perdão
    da arrelia.

    Nervoso, sapateando, o Tomé voltava a cara para a outra banda, a rir
    como um perdido.

    –Diabo do jerico! diabo do ratão! Capaz é ele de fazer rir as pedras,
    o mariola!–E tossia de engasgado, uma migalhita de queijo na goela.

    No entanto, o «Sultão» ia avançando, muito ronceiro, até que tocava com
    o focinho, levemente, nos joelhos do lavrador. O Tomé sacudia-o:

    –Sai-te p'ra lá! dizia ele muito amuado, sem se voltar.–Cuidas talvez
    que te não conheço, cuidas? Já te não quero, vai-te!

    Mas como que irreflectidamente, fingindo não querer, chegava-lhe ao
    focinho um pedacito do pão, o melhor da fatia. «Sultão» lançava um olhar
    oblíquo, entre sorrateiro e medroso, levantava cautelosamente o beiço
    superior, a tremer, e roubava-lho da mão.

    Pazes feitas! Era então rir a perder, numas casquinadas agudas, muito
    estrídulas.

    –Credo, homem! dizia de cima, da janela, a Sr.^a Josefa.–Até pareces
    doido!

    –Você assim rouba seu dono? Diga! Você assim rouba seu dono? perguntava
    o Tomé, nuns grandes gestos.–Vamos que eu lhe não queria dar da
    merenda? Ladrão, de mais a mais!… Ora bem! agora brinque.

    Era precisamente o que o Tomé queria:–ver o «Sultão» a brincar.

    …Nada, com efeito, meus amigos, que mais divertisse o bom do
    lavrador, e melhor o indemnizasse daquelas fainas laboriosas que lhe
    consumiam os dias, imperturbavelmente, perpetuamente, sob sóis
    causticantes e chuvas torrenciais.

    Por isso, era de ver como ele ria, com uma boa vontade deliciosa, das
    «partidas» e «diabruras» do «Sultão»! Às vezes, o pequeno jumento,
    ferido não sei por que vespa invisível, despedia sem mais nem menos
    numa carreira aberta, focinho entre as pernas dianteiras, agitando a
    cauda, por aquela rua fora. Rompia de toda a banda num alarido o
    rancho pacífico das galinhas, que já no ar andavam como doidas,
    cacarejando, como se um pé de vento as levasse. Acudia gente aos
    postigos, às portas, às janelas, a ver a polvorosa; e súbito se
    inundava a rua de rapazes, rotos, descalços, alguns quase nus, correndo
    atrás do burro, gritando-lhe, acenando-lhe, espantando-o–como se o
    mesmo vento de folia os houvesse varrido a todos, varrendo a própria
    rua… E um lá ia a terra, e sobre esse passavam os outros, e sobre
    todos voava o «Sultão», apupado, perseguido, aclamado, na malta
    espavorida dos inimigos…

    –«Sultão»! eh lá! «Sultão»!

    Súbito, como se lhe estalasse a corda, o animal estacava, e logo de
    volta dele postava-se a rapaziada, mas num alor de nova fuga, não lhe
    desse na bolha atacá-los… E abriam alas de repente, quando ele,
    tomado de novo acesso, voava para as bandas do dono, que por se não
    deixar atropelar investia com o «Sultão» de braços abertos, o que era,
    já se vê, um modo de o abraçar, fingindo medo. E vinham as gargalhadas
    estrídulas, os rogos para que pusesse tréguas, as súplicas para que se
    acomodasse, recuando o lavrador até ao último degrau da escada, onde
    se deixava cair,–derrotado!

    –P'ra lá, «Sultão»! p'ra lá! fazia então o Tomé, opondo-lhe os pés,
    desviando-o, apoiando-se nos cotovelos, muito inclinado para trás, a rir
    como um perdido.

    Então o pequeno jumento estacava, ofegante. Mas prestes rompia a
    girândola dos coices, em que era exímio, sacudindo muito as patas, cauda
    no ar, muito direita, ao mesmo tempo que o Tomé solícito dava aos
    rapazes o aviso de se arredarem–«porque era doido, aquele demónio»!…

    Outras vezes, parece que variando de táctica, entrava de seguir muito
    cauteloso, num ronceirismo pérfido, como um borrego ou como um cão,
    certa mulher que passava. Até que lá ia uma focinhada, e logo após os
    saltos do costume, respondendo com uma ameaça de pinotes à surpresa da
    viandante.

    –Dê, tia Luísa! bata nesse maroto! fazia de lá o Tomé, com ares de
    zangado. E depois, batendo o pé, pedindo que lhe dessem uma
    verdasca:–«Sultão»! venha já p'r'aqui! intimava.

    E se encontrava um cão? Se encontrava um cão, ia logo direito a ele,
    muito devagar, cauda caída, orelhas murchas, num cumprimento humilde
    de focinho. O cão regougava, desconfiado, entreabrindo a dentuça,
    preparando a sua dentada. Não dava o «Sultão» sinais de medo, e humilde
    prosseguia para o outro, propondo paz. Mas ao primeiro latido, recuava um
    passo, espertando da sua indolência passiva; e de espinha arqueada
    ganhava o terreno perdido–fitando impassível o cão… O bruto formava
    então o salto, regougando forte, o pêlo eriçado; e ao investir para a
    primeira dentada, salvava-o de um pulo o «Sultão», evitando-o, até que
    por compaixão lhe dava um pequenino coice, «mais feitio que outra
    coisa», pondo em fuga o mastim, corrido, ganindo, vencido:

    –Eh! valente! gritava-lhe então o Tomé.

    E com duas palmadas na anca, espantava-o enfim para o cortelho, dizendo
    ao correr a caravelha:

    –Não há dinheiro que te pague, assim me Deus salve!

    E comido o caldo-verde da ceia, nunca o Tomé da Eira ia para a cama sem
    primeiro descer a ver o «Sultão»,–de candeia na mão esquerda, e na
    direita, contra o sovaco, a bela quarta do grão, acogulada.

    Muitas vezes acontecia esquecer-se o Tomé a vê-lo comer, de candeia
    atenta, encostado à manjedoura, sorrindo: e, de cima, a Sr.^a Josefa
    tinha de intervir então, gritando-lhe pelas frinchas do sobrado:

    –Tomé, vê se te vens deitar, meu pasmado! olha que são horas.

    E piamente, como fanático, achava verosímil a lenda da burra que
    falou,–história que uma tarde, passando, o abade lhe contara. Tanto
    que mais de uma vez, dando ao burro as boas-noites, estranhou com certo
    desgosto que o «Sultão» lhe não respondesse:

    –Boas noites!

    * * * * *

    Mas o demónio, que sempre as arma, armou-lha também um dia! Foi ao
    cortelho, de manhã cedo, e não encontrou o burro. Ficou parvo! Pôs-se a
    mirar, espantado, a loja que lhe pareceu enorme, e além de
    enorme–gelada…

    –Ó Josefa! Josefa! entrou de gritar da rua.–Ó Josefa!

    A mulher assomou à janela, sobressaltada.

    –Queres apostar que me roubaram o burro, ó mulher?!

    –Que te roubaram o quê? fez a Sr.^a Josefa, muito atónita.

    –O burro, o «Sultão»! Vem cá ver que mo roubaram!

    E como ao tempo acudira já o Manuel, em camisa, descalço, romperam todos
    três na gritaria, defronte do cortelho vazio:

    –À d'el-rei! À d'el-rei! À d'el-rei!

    Até que o regedor, que era compadre, intervindo estremunhado, pôs na
    peugada do burro, mais dos larápios, os cabos que compareceram.

    Mas em vão! Um a um foram regressando, pelo dia adiante, e desfechando
    ao peito abatido do Tomé a negra e vazia palavra:

    –Nada!…

    II

    Dois anos depois. Tarde de Agosto. Ao longe, fechando o horizonte que a
    eira dominava, as arestas dos montes quebravam-se numa sombra igual, e
    embaciavam ainda o poente as suaves, brandas pulverizações doiradas da
    última luz do sol. Riscos vermelhos de nuvens, como grandes vergas de
    ferro levadas ao rubro, destacavam imóveis num fundo verde-mar,
    esvaecido e meigo, raiado de listrões de uma coloração leve de laranja.
    Pequenos algodões transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e
    além, alegremente, a monotonia profunda do azul. Num deslado, sob os
    castanheiros próximos, surgiam os telhados da aldeia, a torre branca da
    igreja, as paredes caiadas da escola.

    A vasta eira comum, levemente acidentada, apresentava àquela hora o
    aspecto tranquilo e de paz de uma grande oficina em repouso. Poucas
    «medas», iam no fim as colheitas: mais uma semana, duas quando muito, e
    estaria tudo recolhido. Já sobre a palha das «parvas» ou ao sopé das
    «medas» altas, entre os utensílios da trilha e a criançada estrídula que
    brincava, os da lavoura descansavam–vermelhos da soalheira intensa de
    todo o dia, alguns deitados, em mangas de camisa, peito nu, arregaçados
    os braços musculosos, numa prostração regalada de matilha que alfim tem
    a sua hora de sossego, após um dia de caçada. Parecem prostrados da
    fadiga os próprios malhos, os trilhos, as pás, os «baleios» que levaram
    todo o santo dia varrendo o chão em volta das «parvas». E aqui e ali,
    dando uma sensação agradável de fartura, perfilam-se os altos sacos no
    meio das rasas, extravasando de grão. Além, gente em mangas de camisa,
    ao redor de um grande montão de palha triturada, vai «limpando»–visto
    que sopra um «ventinho». E sente-se sobre as pás a chuva do grão, ao
    mesmo tempo que a palha, voando, faz monte da outra banda, e os
    «baleios», em mãos de mulheres, não cessam de arrebanhar o grão,
    varrendo em roda num afã… Em certo ponto, carros vazios; um além, de
    altíssimas «angarelas», vai-se enchendo de palha; enquanto outros,
    atulhados de sacos, em rimas entre as cancelas mais baixas,
    estridulamente chiando abalam para as tulhas, levados pelos bois
    gigantes.

    Eiras além, livres dos trilhos que ficavam em cima da palha, levas de
    bois caminhavam vagarosamente, as largas orelhas pendentes, caudas
    oscilantes afagando nas ancas espaçosas o luzidio pêlo. E lá vão
    encosta abaixo, roçando pelos troncos ásperos dos castanheiros a enorme
    corpulência, fartar o largo bandulho à serena água das ribeiras,
    sorvendo vagarosamente, impando a cada sorvo, pesadamente,
    monotonamente, parece que insaciáveis no meio da água em que se atolam,
    submissa…

    Ao fundo da eira, rente aos castanheiros escuros, um rancho de mulheres
    cantava alegremente, em coro. Acabara de ensacar-se o último grão da
    farta colheita do Tomé da Eira.

    –Colheita rica, sim senhor! vinham dizer-lhe os vizinhos.–A primeira
    da aldeia!

    –Qual? isso sim! vão vocês ver a tulha. Muita palha, é que vocês hão-de
    dizer, muita palha e pouco grão…

    E muito azafamado, sem prosápias de maioral nem jeitos de soberba, as
    mangas arregaçadas pelos cotovelos, o Tomé ia e vinha, dando ordens,
    repetindo avisos, distribuindo aqui e além as últimas tarefas.

    –Aí vai um saco, ó tu! É p'r'as «rabeiras». Que não fique nem um
    grão, ouviram? É aviar, toca a aviar! Cautela que não fique por aí
    alguma coisa esquecida: essas pás, esses «baleios», tudo isso.
    Margarida! ó Margarida! qu'é da tua rasa? Deixa! se vai no carro está
    bem.

    E era como um doido a meter-se no serviço de todos, muito expedito,
    loquaz, alegre, pedindo pelas bentas almas que se não deixassem agora
    dormir…

    –Vamos lá! vamos lá! As pás, ó tu que cantas? Deixa-me por aí alguma,
    que eu depois te ensinarei, ouviste?–Que faz aí no chão esse
    «rasouro», ó coisa?–Olha p'r'o que estás a fazer, tu: esses sacos que
    fiquem bem atados.

    O criado, que ia abalar com a carrada, perguntou, já de «aguilhada» no
    ar, se era preciso mais alguma coisa.

    –Não, podes ir. Ouves? lá em casa que tenham a ceia a horas. Avia-te.
    Ouves, Francisco? Não piques os bois, a carrada é valente. A passo,
    deixa ir os animais a passo. Vai-te.

    Como o carro chiava, levantou a voz para dizer:

    –Olha, descarrega na tulha do meio. Na tulha do meio, não ouves? Os
    bois para o lameiro.

    Mas o Francisco apontou dois sacos que ficavam:–«seria preciso vir por
    eles?»

    –Não vale a pena, lá irão.

    E depois, para aquela gente, observou que bem sabia ele quem os
    levava, aqueles dois sacos…

    –Com mil demónios! Apostar que vocês não adivinham?

    «Eles sabiam lá?… Quem quer podia levar os dois sacos, olhem agora!»

    –O «Sultão», sabem? o «Sultão»! Esse é que os levava. E digo-vos então
    que valia o dobro a colheita, assim me Deus salve!

    Alguns riram da lembrança. «Tinha graça que a cisma do animal não lhe
    passava nem à mão de Deus Padre!»

    –A modos que isso é já mania, ó Sr. Tomé?

    Nisto, porém, o lavrador soltou um «oh!» de surpresa. Voltaram-se
    todos–«que era?» Na estrada que a eira dominava, um homem ia passando,
    a cavalo.

    –Vocês não querem ver, ó rapazes?! perguntou o lavrador, fazendo-se
    pálido.–Aquele burro, hein? se não é o «Sultão» é o diabo por ele…

    Recordaram:–«estrela malhada na testa, a mão direita branca»…

    –É ele, com um milhão de diabos! não há que ver! E aquele é o ladrão!

    E cuspindo nas mãos, e arregaçando mais as mangas da camisa, arrancou,
    de um abanão, o cabo de uma «espalhadoura» e botou a fugir direito à
    estrada.

    Prestes ouviu-se um berreiro, as mulheres do rancho em alarido:

    –Que o mata! gritavam todas.–Ai que o mata! Acudam! Ai a desgraça! Nem
    a alma lhe deixa! Acudam!

    Os homens deitaram a correr atrás dele, afluía gente de todas as
    bandas da eira, os cães ladravam.

    –Então, Sr. Tomé? olhe que se perde, Sr. Tomé! diziam-lhe, já
    agarrados a ele.–Largue o cabo, que se desgraça! Tudo se faz a bem,
    Sr. Tomé, largue vossemecê o cabo!

    –Qual bem nem qual diabo! Qual larga? Arreda! Racho-lhe as costelas,
    mais a vocês, se me não largam! Arreda!

    E esbracejava furioso, levando-os de roldão, agarrados a ele mais ao
    cabo. Chegou a ferir um, os outros desanimaram por instantes.

    –Vê, Sr. Tomé?!

    «Não via nada, não queria ver coisa nenhuma! Arreda!» E num rompante de
    ira, abrindo brecha com um «sarilho», de um pulo saltou à estrada, aos
    tropeções nas pedras que encontrava, mal se equilibrando.

    –Abaixo! intimou.–Você é um ladrão!

    –Um quê?

    –Um ladrão! É meu esse burro! Hei-de matá-lo aqui, seu patife!
    Deixem-me! larguem-me! Há-de aí ficar estendido, como um cão!

    E no meio da malta em alvoroço, com a arreata do burro na mão esquerda,
    e na direita o minacíssimo cacete, berrava que o deixassem, que ia tudo
    raso–«com seiscentos milhões de diabos!»

    Seguiu-se altercação, vieram razões de parte a parte, insultos.

    –Já lhe disse que você é um ladrão!

    –Ladrão será você!–tornou-lhe o outro já de pé, avançando de punhos
    cerrados.–E não mo diga outra vez, que o racho!

    Aflitas, algumas mulheres voltavam-se, de mãos postas, para a
    capelinha próxima, rogando o socorro da Virgem. O lavrador entrava de
    tremer como varas verdes, desfigurava-o a raiva, uma saliva muito branca
    bordejava-lhe os cantos da boca. Pela camisa rota, via-se-lhe já um
    pedaço de ombro. Tinham, alfim, conseguido arrancar-lhe o cacete, mas
    agora esbracejava, punhos no ar sobre aquelas cabeças em desordem.

    Já, para uns certos do grupo, o homem do burro se desculpava:–«tinha-o
    comprado a uns ciganos, fossem lá adivinhar que o burro era roubado…»

    –Vê, Sr. Tomé? acudiram logo uns poucos.–O homem não tem culpa.–E
    gritavam-lhe aos ouvidos:–Não tem culpa! Comprou o animal na boa fé.
    Vês–aí está!

    –Mente! objectava incrédulo o Tomé, cada vez mais irado.–Mente!

    –Mente?! perguntava o outro de lá, assanhado.

    –Como um judeu! cuspia-lhe da outra banda o Tomé.

    De modo que para o convencerem, foi preciso afinal levá-lo quase à má
    cara, chamar-lhe homem de rixas, despropositado, bulhento. Ele então,
    abrindo os braços como se fosse para nadar, sossegou um pouco,
    amainou,–prometeu levar aquilo com paciência, às boas. Chegou quase a
    pedir desculpa, limpando com a manga branca as bagas das
    camarinhas.–«Mas tinha perdido a cabeça, que lhe queriam?»

    Chegou-se por fim a um acordo. «Sim, senhores, acomodava-se, mas
    punha uma condição: largasse ele o burro, e o burro é que havia de
    resolver…»

    –Serve-lhe o contrato?

    –Qual contrato?

    –Mau! Larga-se o burro, você entende? deixa se o burro às soltas.
    Depois, é p'ra onde ele for. Se o burro larga p'ra trás, lá p'r'as
    bandas donde você vem… Você donde vem?

    –Dos Casais.

    –Pois aí está. Se o burro tomar p'r'os Casais, o burro fica seu…

    –E tomando direito à aldeia, é do Sr. Tomé,–concluíram alguns do
    grupo, conciliadores.

    –Nem mais! Serve-lhe assim? Diga se lhe serve assim.

    Por um desfastio, o outro concordou. Mas lá lhe parecia história que o
    burro tomasse para a aldeia… Vinha de tão má vontade, que até lhe
    custara tirá-lo de casa.

    –Olhe que vai pr'os Casais! Digo-lhe então que vai pr'os
    Casais…–afirmou.

    –Melhor p'ra você. Mas nós veremos p'ra onde vai. Você está pelo
    dito?–quis saber o Tomé.

    –Sim senhor, estou! Pois que dúvida tem que estou? disse-lhe o outro
    num rompante. Olhe: uma, duas, três; às três largo-lhe a arreata.

    Ia já a abrir a boca para dizer–«uma!»

    –Alto! fez o Tomé. Espere lá um pouco. Primeiro hei-de fazer duas
    festas ao animal.

    E pôs-se a bater-lhe na anca, no pescoço, no peito, demorando-se um
    pouco a fitá-lo de frente, «para que o animal o conhecesse.»

    –«Sultão»! gritou-lhe de repente. Eh! «Sultão»!

    O burro estremeceu… Dir-se-ia que no fundo da sua memória, a
    lembrança porventura adormecida daquele nome despertara subitamente…

    –Eh! Eh! riu-se muito satisfeito o lavrador. O burro, agora, vira-se
    p'ra ali. Isso. Nem é p'r'os Casais nem p'r'o lugar. Assim. Eh! Eh!

    E afastou-se para o lado, aguardando.

    Uma ansiedade dominava naquele momento os do grupo; o Tomé pôs-se a
    roer as unhas, nervoso…

    –Então você porque espera? perguntou.

    Ouviu-se logo a voz do outro, dizendo:

    –À uma!…

    O Tomé sentiu um calafrio; sapateava nervoso, cheio de medo, o olhar de
    esguelha, e entre os dentes ferrados o polegar da mão direita…

    –…às duas!

    –Ih! c'um raio!… dizia baixo o Tomé.

    E sem querer, os olhos cerraram-se-lhe com força.

    –…às três!

    Foi então um barulho de palmas, um berreiro atroador de vivas e
    gargalhadas! O Tomé vencera: corriam todos a abraçá-lo, afirmando que
    o caso era para foguetes.

    –Viva o Sr. Tomé! Viva o «Sultão»! Aquilo é que é burro!

    –Aquilo é que é amigo, hão-de vocês dizer!–emendava o Tomé a rir.
    Tenho-os com dois pés, que não valem metade…

    –Oh! Sr. Tomé! protestavam alguns.

    –Isto não é com vocês, mas é como quem se confessa… Está visto que
    não é com vocês.

    E ria, ria como um perdido, enquanto, estrada fora, o «Sultão» corria
    que voava, cauda no ar, corda de rastos, perdendo-se por fim lá ao
    fundo, na poeirada imensa da estrada, como que nimbado num resplendor
    de apoteose. E na peugada do burro, esbaforido e como doido, seguia
    agora o lavrador, após o fraternal abraço, pregado no dos Casais…

    Quando o Tomé chegou a casa, ofegante, a suar, cheio de gestos e de
    palavras entrecortadas de riso, já o «Sultão», relinchando, pateava à
    porta do antigo cortelho, numa grande impaciência, um «rap-rap»
    contínuo na soleira.

    –Venham ver! Venham cá ver! berrava o Tomé para a vizinhança. Ó
    António! Ó compadre! Ó Maria Engrácia!

    Às janelas assomava gente, perguntando se era fogo.

    –Qual fogo, nem qual carapuça! É o «Sultão», mas é! Este inimigo! Ó
    Josefa! Josefa! cá temos o burro, este demónio. Assoma.

    Ora imaginem agora os senhores, se podem, a efusão do lavrador.
    Abraços? E até beijos. Aquilo era um tesouro perdido que reaparecia
    alfim. A mulher, do alto da escada, benzia-se, perguntando se o seu
    homem teria endoidecido…

    –Palavra de rei, «Sultão», palavra de rei! Anda daí pelos sacos. São
    só dois. Ó Josefa! Ouves? p'ra cá esse garrafão que está ao pé da arca,
    avia-te. A caneca também, ouviste? Essa das riscas vermelhas, a maior.

    E atirando as mãos ambas para a albarda, montou muito regalado, de um
    pulo.

    –Ah!

    A senhora Josefa assomava, ajoujada com o enorme garrafão.

    –Anda, mulher, põe aqui diante de mim. Avia-te.

    Ia a boa da senhora Josefa arriscar uma observação, um conselho,
    qualquer coisa de tomo…

    –Adeus, minhas encomendas! Não me fanfes, mulher, não me fanfes. Põe
    aqui, que mando eu, avia-te. Assim. Está bem.

    –Nome do Padre…

    –Então que lhe queres? Deu-me agora p'r'aqui!

    –Nome do Padre, nome do Filho…

    –A caneca! Venha de lá agora a caneca!

    –…nome do Espírito Santo!

    –Passa bem, ó mulher,–concluiu às gargalhadas, entre as gargalhadas
    dos demais.–Ouves? Quando o Manuel vier dos ninhos, esse maroto,
    manda-mo às eiras. A trote, «Sultão»! Eh! valente!

    E lá parte, veloz como uma seta. Já de longe volta-se do repente:

    –Josefa! ó Josefa! nesse alguidar do meio umas sopas de vinho p'r'o
    «Sultão», ouviste? No do meio. O grande é muito grande, e esse pequeno
    não presta. Ouves? mas quer-se coisa que farte, bem entendido.

    E de novo despediu como uma flecha, abraçado ao garrafão. Arreata para a
    direita, arreata para a esquerda, pernas a dar a dar, ele lá vai numa
    corrida, sumido numa onda de poeira, até chegar às primeiras «medas».

    –Vinho, rapaziada! Ó Maria do Carmo, toma lá uma pinga, mulher! Lá por
    andarmos de mal há 15 anos isso acabou-se!

    E o Tomé atravessou a eira sempre a cavalo no «Sultão», caneca de
    vinho para a direita, caneca de vinho para a esquerda.

    * * * * *

    Meia hora depois regressava, o «Sultão» pela arreata, o Manuel no meio
    dos sacos, e adiante do Manuel o belo garrafão–sem pinga…

    Pelo caminho, a todos o Tomé contava a história, a rir como um perdido,
    num ah! ah! de gargalhadas sonoras, muito íntimas.

    –Colheita rica, sim senhores, um colheitão!

    E parando à porta, ainda a mulher se benzia do alto da escada, mexendo e
    remexendo o alguidar de barro:

    –Nome do Padre, do Filho, do Espírito Santo.

    …Ao mesmo tempo que o Tomé, abrindo os braços, respondia reclamando
    as sopas:

    –Ámen!

    ÚLTIMA DÁDIVA

    _Ao dr. A.A. da Fonseca Pinto_.

    Distante do rio apenas um tiro de bala ficava o horto do José Cosme,
    belo horto ainda que pequeno, todo mimoso de frutas e hortaliças,
    fechado entre velhas paredes musgosas, atufadas em silvedo, comunicando
    com a estrada por um pequeno portelo mal seguro. E eis ali quanto ao
    pobre homem restava dos seus antigos haveres:–o horto, a um canto a
    nora, e perto da nora, sob a umbela tufada e virente da antiga magnólia
    gigantesca, a mísera casinhola de alpendre, apenas com uma porta e duas
    janelitas laterais mas toda pitoresca das heras que a revestiam, que
    lhe pendiam dos beirais enlaçadas com as trepadeiras.

    De modo que na Primavera, quando as parasitas abriam serenamente os seus
    melindrosos cálices sobre esse fundo de verdura reluzente, e a magnólia
    toda se toucava de flores fazendo docel à vivenda, aquele pequeno canto
    de horto, com a sua nora e com a sua água espelhante e límpida, tomava a
    feição ingénua de uma delicadíssima tela de paisagista, aguarela
    deliciosa, alegre e idílica, cheia de encantos na poesia rústica da sua
    simplicidade.

    No Verão, às horas de calor, quando o sol caía a pino sobre a larga
    paisagem adormecida e turva, e as árvores da estrada não davam sombra
    que aliviasse, aquela tranquilidade com que o José Cosme ressonava sob
    o alpendre, braços nus e peito nu, o chapeirão de palha grossa
    resguardando-lhe a cara, fazia inveja aos que por ali passavam, cansados
    e cheios de poeira, flagelados por aquela estiagem inclemente.

    –Ó tio José!–gritavam-lhe do caminho.–Tio José! Ó regalado!

    Mas os que entendiam de lavoura, proprietários e maiorais, esses
    deixavam dormir o José Cosme e ficavam-se a admirar o horto.

    Ora na verdade!… Belo horto, sim senhores! Por aquelas redondezas
    não havia outro que se lhe comparasse, tão esmerada era a sua
    cultura–tão esmerada e tão completa, pois que de mais a mais nem palmo
    de terra ficara inculto. Nas leiras, dispostas com simetria agradável,
    verdejavam cheios de viço, frescos e medrados, legumes de todas as
    castas–desde a alface muito tenra, de folhas verde-claras, toda
    acaçapada no chão húmido das regas, até às trepadeiras das vagens que
    enroscadas ascendiam pela basta «rodriga» de castanho aparada com todo o
    esmero, formando maciços de verdura sombria que os casulos esguios dos
    feijões crivavam de alto a baixo. Árvores, apenas as precisas para
    aformosearem o horto, sem prejudicarem com a sombra a vegetação franca
    das hortaliças. Mas todas as que havia eram mimosas de frutas nas
    estações competentes–cerejas, peras, maçãs, pêssegos mesmo.

    Poucas flores: uma coisa que todos notavam com estranheza. Mas desde que
    lhe morrera a mulher mais a filha, o José Cosme deixara-se de as
    cultivar, e nos canteiros assim devolutos tinha semeado repolhos, que
    por sinal vinham enfezados. Só teve o cuidado de não deixar morrer os
    goivos. Uma vez por ano, em fins de Maio, colhia-os todos de uma vez, e
    ia levá-los em braçado à sepultura rasa das suas defuntas.

    Exactamente nessa tarde tinha ele ido ao cemitério fazer a fúnebre
    visita. Quando se recolheu era já noite. Mal acabou de cear levantou-se
    bruscamente da mesa e foi-se para o horto, com uma grande vontade de
    chorar. Estava nas suas horas tristes, nessas horas em que as energias
    todas da sua alma e até as do seu corpo vergavam sob o flagelo de uma
    dor violenta, exacerbada agora pela saudade dos que lhe tinham
    morrido… E para maior desgraça fugira-lhe o bem das lágrimas. De modo
    que sem esse lenitivo, aquelas medonhas tempestades custavam o dobro a
    suportar. Abstracto, numa espécie de entorpecimento idiota, percorria
    sem descanso todas as ruas do horto, cabisbaixo, acabrunhado, autómato.
    Se por vezes parava, recolhendo-se numa quietação atenta, logo um
    gesto brusco desmanchava a sua imobilidade de estátua, soltava um fundo
    gemido, e punha-se de novo a andar.

    –Vens ou não vens?–perguntava ele, evocando com dorido esforço a
    imagem da mulher ou da filha. Não vinha; e quando aparecia era como se
    fosse um relâmpago, apagava-se logo.

    Nesta lua com a sua dor as horas iam passando longas. Era já tarde,
    talvez a uma da noite. Luz, apenas a das estrelas, pois que o luar
    nascia tarde. Pesava sobre toda a paisagem o largo silêncio da noite,
    apenas cortado, ao longe, pela melopeia sonolenta do rio.

    Um rapaz que ia na estrada olhou por acaso para o horto do José Cosmo e
    viu um vulto perpassar de repente e de repente sumir-se num recanto
    onde a sombra era mais densa.

    –Temos história…–resmungou consigo o rapaz.

    E, rente a uma árvore, quedou-se alapardado, à espreita. Não desconfiou
    que fosse o José Cosme: aquilo era mariola de larápio que vinha por ali
    fazer das suas. Agachou-se então, e pôs-se a procurar uma pedra. Apanhou
    duas, para o caso de não acertar a primeira.

    –Cão do diabo!–exclamou baixo o rapaz, pondo-se em posição de jogar a
    pedra.–Espera que eu te arranjo…–E já ia arremessá-la na direcção do
    canto, quando o vulto saiu da sombra e tomou por um carreiro, direito ao
    lugar onde o rapaz estava.

    –Melhor! Mais a jeito ficas…

    E debruçando-se um pouco na parede, pôs-se a fixar o vulto que avançava,
    para ver se o conhecia. Quem quer que era trazia a jaqueta sobre os
    ombros, alvejavam-lhe as mangas da camisa. A meio do carreiro, mesmo
    defronte dele, parou. Foi então que o rapaz se lembrou do José Cosme.
    O vulto parecia, com efeito, ser o dele; lembrava-se agora de ter
    ouvido que o pobre homem, quando o ralavam saudades da mulher e da
    filha, levava noites em claro, a percorrer como doido aqueles carreiros
    por onde elas tinham andado.

    Quando ouviu soluçar, acabou então de se convencer. Insensivelmente,
    deixou cair as pedras e perguntou:

    –Tio José! Ó tio José! Sou eu, o Luís… Vossemecê que tem?

    O lavrador não respondeu, parece que nem tinha ouvido. O rapaz insistiu:

    –Dói-lhe alguma coisa, ó tio José?

    –Não dói, não. Sabes que mais? peço-te pelas alminhas que me deixes.
    Bem me bondam as minhas aflições. Vai com Deus, vai.

    O rapaz ficou surpreendido, triste do tom de súplica dorida que o José
    Cosme dera àquelas palavras, e retirou-se silencioso, quase aterrado
    agora com a ideia de que poderia ter matado o pobre homem, caso jogasse
    a pedrada.

    No entanto a noite ia avançando, grave, soturna, sem outro ruído que não
    fosse o das águas do rio. E o José Cosme, sem despegar do seu fadário,
    ia e vinha pelas ruas do horto, lembrando um autómato ou um sonâmbulo.
    Às vezes abeirava-se da porta de casa e punha-se a escutar. Como não
    sentia nada, voltava de novo ao seu passeio. Nisto, de uma vez que
    passava em frente do cancelo, pareceu-lhe ouvir passos.

    –Ó Tomás!

    –Sr. José!–respondeu o que entrava, numa voz que era mesmo voz de
    barqueiro.

    O Cosme sentiu então uma grande vontade de chorar, mas remordendo os
    beiços dominou-a. Como o barqueiro estranhasse encontrá-lo a pé, ele
    então redarguiu-lhe que nem se tinha deitado.

    –Como tinha de madrugar…

    –Pois são horas de largar, Sr. José; isto vai p'r'as duas. Não tarda
    que comece a amanhecer.–E como estavam à porta de casa:–Será bom
    acordar já o pequeno: veste, não veste, é tempo que se vai.–Iam à vela
    se o tempo não mudasse. Era bom aviar, por isso.

    Mas à ideia de ter de acordar o pequeno, o José Cosme deixou-se cair
    sobre o banco que estava debaixo do alpendre, e desatou a chorar
    violentamente.

    O barqueiro tentou animá-lo, constrangido.

    –Então, Sr. José?… O chorar é lá para as mulheres. Olhem agora que
    homem!–E tentava levantá-lo, pô-lo de pé.–Limpe lá essas lágrimas, que
    vai afligir o pequeno! Ou quer que ele vá a chorar todo o caminho?

    O Cosme fez que não com a cabeça, violentamente, e pôs-se a enxugar os
    olhos com a manga da camisa.

    –Pois então levante-se lá.–E segurou-o com força por baixo dos
    braços.–Assim! Lá porque o pequeno vai para o Brasil não fique
    vossemecê a pensar que o não torna a ver.

    Mas era isso mesmo o que ele pensava…

    –Porque não sei que me adivinha que não torno a ver o pequeno–concluiu
    a chorar o José Cosme.

    –Cismas! lembranças que vêm à gente quando está aflita. Mas há-de
    vê-lo que o não há-de conhecer, digo-lho eu. Mais ano menos ano,
    aparece-lhe aí rico…

    Rico! bem lhe importava a ele que o pequeno viesse rico. O que desejava
    era que voltasse e que ele ainda fosse vivo só para o abraçar.

    Pois sim, mas era preciso aviar, que tivesse paciência: o José Cosme que
    se animasse para animar o pequeno–recomendava o barqueiro.

    –Sim… sim…–tartamudeava o Cosme.–Vamos lá com Deus! Com'assimU+2026.

    E num profundo ai dolorosíssimo, foi-se direito à porta para chamar a
    pequeno. Não havia remédio, tinha nascido em má hora, havia de ser
    desgraçado até que o levassem para a cova… Sobre a estreita e humilde
    cama o filho dormia profundamente. Que dor, ter de o acordar! Vieram-lhe
    tentações de mandar embora o Tomás e deixar dormir a criança. Quem sabe
    se a sua sorte futura, se toda a sua vida, valeria a boa tranquilidade
    daquele sono! Não tinha coragem para o acordar, fazê-lo vestir: era
    quase um pecado quebrar aquele último sono dormido sob o tecto
    paterno… O último sono! o último sono!

    –Ainda se o deixássemos acordar…–aventurou-se a dizer o triste.

    Mas o Tomás que estava com pressa, lembrou secamente que eram horas de
    pôr o barco a andar.

    O José Cosme acendeu então a candeia, receoso de que a luz o
    acordasse, e achegando-se do filho pôs-se a escutar-lhe a respiração.
    Dormia!… Mas brandamente pousou-lhe a mão sobre a cabeça e chamou
    baixinho, quase ao ouvido, beijando-o, sobressaltado como se fosse
    praticar um grande crime:

    –Filho, olha que são horas, meu filho…

    Quando o pequeno se sentou na cama, estremunhado, ainda sob o
    estonteamento do sono, cerrando os olhos àquela hostilidade viva da
    luz, o pai agarrou-se a ele num abraço, e ambos romperam a chorar.

    –Adeus, pai!

    –Adeus, filho!

    Confrangido, o Tomás que se deixara ficar à porta, avançou para desatar
    aquele abraço.

    –Olhe que é tarde, Sr. José. Perdoe, mas olhe que é tarde!

    O pai vestiu o pequeno, beijou-o ainda muito, e saíram. Debaixo do
    alpendre, o Joaquinzito ficou-se um instante a olhar o tecto.

    –A andorinha, filho?–perguntou o José Cosme.–Deixa que eu hei-de
    olhar por ela, mais pelos filhos quando os tiver. Vai sossegado.

    Mas o pequeno quis vê-la, pediu ao pai que o erguesse, era só um
    instante. Lá estava ela, coitadinha! sentiu-a estremecer quando lhe
    tocou com as pontas dos dedos…

    –Adeus!–disse-lhe o pequeno afagando-a.

    A esta palavra, o pai retraiu os braços e tomando o filho no colo
    seguiu. Atrás, o barqueiro levava ao ombro a mísera arca de pinho: toda
    a bagagem do Joaquim.

    Ao transpor o cancelo o José Cosme deteve-se um pouco e perguntou
    soluçando:

    –Quando voltarás ao horto, meu filho?

    O pequeno não respondeu. Chorava constantemente de ver que o separavam
    de tudo o que adorava–a andorinha, depois da andorinha o horto, as
    árvores, a velha nora, o cancelo, tudo enfim.

    Atravessaram então a estrada e tomaram para a banda do rio. Quando o
    sentiram murmurar, aperraram mais o abraço, deram-se um longo beijo,
    húmido das lágrimas que ambos derramavam. Ah, como o triste pai desejava
    que o rio ficasse ainda longe, mui longe, que fugisse diante deles, de
    modo que nunca o alcançassem! Mas eis que a areia principiava,
    divisava-se já perto o vulto escuro do barco onde os da tripulação
    falavam alto.

    –Pronto?–perguntou ainda de longe o Tomás.

    Do barco responderam que era só marchar, de mais a mais ia romper a lua.

    Chegaram enfim. Num leve silêncio de acaso ouviam-se os soluços dos
    dois, parece que prolongados infinitamente, na sua expressão de
    angústia, pelo deslizar monótono das águas… Aquilo confrangia o
    barqueiro, ele também era pai… Por isso, mal chegaram à beira do rio,
    apressou-se a dizer para o pequeno:

    –Ora bem, Joaquinzinho, beija a mão a teu pai e dize-lhe adeus.

    Ouviu-se um chorar lancinante, a voz do pobre José Cosme a querer animar
    o filho:

    –Então, meu filho?… Deus te abençoe, meu amor… Nossa Senhora te
    veja ir.–E fez-lhe prometer que havia de rezar sempre a Nossa Senhora,
    ele também lhe rezaria, pois era ela quem dava saúde, quem fazia a
    gente feliz.

    –Não te esqueças dela mais da alminha de tua mãe e de tua irmã…

    Mas o pequeno chorava cada vez mais, agarrado ao pescoço do pai,
    beijando-o sofregamente, acarinhando-o, sem forças para dizer palavra.
    Então o José Cosme, perdida a esperança de animar o filho, só exclamava
    desvairado:

    –Valha-me Deus! O Senhor me valha pela sua infinita misericórdia!

    E o Joaquim sempre agarrado a ele, beijava-o na cara, na cabeça, nas
    mãos. Até que o Tomás teve de intervir, era preciso despegar dali por
    uma vez.

    –Com'assim, Sr. José, isto tem de ser…–E segurando o pequeno com
    força puxou-o para ele. Quando já o tinha nos braços, ouviu-se o José
    Cosme que suplicava de mãos postas:

    –Só um instante, só um quase-nadinha, Tomás!–E o pobre pai caía de
    joelhos na areia, numa atitude de súplica.

    Mas nesse momento, o barqueiro saltou de um pulo para o barco, levando
    ao colo a criança.

    –Rema!–intimou em voz rápida.

    O barco recuou então subitamente, ao mesmo tempo que os remos fizeram
    _plhau_! sobre a água.

    Então o choro do José Cosme tornou-se de uma violência desesperada, ao
    ouvir a voz lacrimosa do pequeno dizendo-lhe adeus lá do barco.

    –Adeus, Joaquim, adeus!

    –Adeus, pai!

    –Adeus!

    Mas repentinamente, com voz resoluta e firme, o José Cosme gritou na
    direcção do barco:

    –Tomás! ó Tomás! por alma de teu pai faz lá alto um instante.

    Acabou-se! custara-lhe tomar aquela resolução, mas já agora era melhor
    ficar sozinho de todo. E segurando nos dentes um pequeno objecto,
    arremessou a jaqueta ao areal e de um lance deitou-se a nado. O Tomás
    que ouvira o mergulho do corpo, fez recuar o barco; mas o José Cosme,
    velho nadador destemido, com meia dúzia de braçadas ganhou-lhe de
    pronto a quilha. O filho tinha-se debruçado, na ânsia de esperar o pai,
    de o ver ainda outra vez. Num movimento rápido, o José Cosme entregou
    ao pequeno o que levava entre os dentes, dizendo-lhe a chorar:

    –É a medalha, Joaquim; é a medalhinha de tua mãe, meu filho!…
    Reza-lhe, sim?!

    E chorando cada vez mais, o pobre José Cosme pediu ao barqueiro que lhe
    chegasse o pequeno para o último beijo…

    Dado o último beijo, o barco pôs-se de novo em marcha. Vinha a romper a
    lua, enorme, torva, afogueada, como se viesse de algum banho de sangue
    em região misteriosa de lágrimas… E no silêncio agoireiro da noite,
    apenas cortado pelo bater monótono dos remos e pelo bracejar desalentado
    do triste nadador, à voz do filho que chamava respondia cada vez de mais
    longe–longe como se fora do Infinito! a voz lacrimosa do pai–com o seu
    fúnebre _adeus_! que ele bem sabia ser eterno…

    * * * * *

    …Só quando o eco do último adeus do Joaquim, perdido na distância,
    diluído no luar que surgia, desfeito no lugente murmúrio das águas,
    fundido no derradeiro suspiro da brisa matinal, deixou de chegar à
    praia, é que o pobre abandonou o areal e se foi, sempre a chorar,
    tiritando ao frio da sua desgraça, como a um vento agudíssimo do Pólo,
    na direcção do horto silencioso…

    COMÉDIA DA PROVÍNCIA

    _A Alberto Braga_.

    I

    PRELÚDIOS DE FESTA

    Esse ano, a festa da senhora das Dores devia ser coisa de estalo. A
    começar pelo juiz, todos os da mesa eram de respeito–abonados e
    decididos. Tanto assim, que o fogo preso, que afinal era o melhor da
    festa, vinha lá de Chaves, longe que nem seiscentos diabos. Mas era obra
    de jeito, acabou-se! Tinha-se dito ao homem que trouxesse coisa que
    representasse uma cegonha. O homem respondera que sim, e dava mesmo a
    entender que traria mais animalejos, uma bicharada, talvez um macaco, se
    tivesse tempo de o acabar.

    –Homem de uma cana! resumiu o juiz quando acabou de ler a carta. E
    correu a espalhar a notícia, orgulhoso de que «no seu ano» a _coisa_
    fosse de arromba! Depois, era um despique. No ano atrás, o José da
    Loja, que tinha sido o juiz, gabara-se do seu fogo, só porque vinha lá
    uma peça que era um castelo a dar tiros, assim: Fff! Pum!

    –Ora deixa estar que eu te arranjo… murmurou com os seus botões o
    António Fagote. E sorria satisfeito, de se lembrar que na noite do
    arraial todo o povo o havia de aclamar, dar-lhe vivas pelo fogo que
    apresentara. Espalhou-se a novidade. Uma hora depois, na vila, ninguém
    falava noutra coisa.

    –Então você já sabe?

    –Já sei. A cegonha.

    –A cegonha e o mais: um cavalo, um bezerro…

    –O que eu quero ver é o camelo. Feio bicho, já viu?

    –Pintado. No Monteverde se me não engano. Logo adiante do _Valente Rei
    Arauto Fiel_.

    Enganava-se.

    O escrivão da Câmara, que tinha laracha, encontrou-se na rua com o Alves
    aferidor.

    –Até que enfim, amigo Alves. Até que enfim vou ter o gosto de o ver
    arder.

    O outro não percebeu. «Que se explicasse…»

    –Um urso, no arraial queima-se um urso.

    –Então ardemos ambos, redarguiu embezerrado o Alves.–Também se lá
    queima um burro.

    Às duas por três, o António Fagote viu a casa cheia de gente. Quem não
    ia, mandava recado: todos queriam saber se vinha o animalejo da sua
    predilecção.

    O homem começava a azedar-se. Chegou mesmo a mandar fechar a porta, por
    dentro.

    –Põe a tranca, se for preciso.

    Mas então era cá da rua:

    –Ó Sr. António!

    E na porta as pancadas ferviam:

    –Truz! truz! truz! Sr. António!

    –Éna! c'um raio de diabos!–fazia lá de dentro o homem, furioso.

    –O senhor faz favor? É só uma palavrinha.

    À janela assomava então o António Fagote, com os óculos na ponta do
    nariz e a carta do foguetório na mão.

    –O camelo? perguntava zangado.–O urso?! Camelos me parecem vocês,
    ouviram? O que o homem diz é isto.

    E lia a carta, rematando:

    –Uma cegonha, outros animalejos, quem sabe lá o que serão, e talvez o
    macaco, se houver tempo de o acabar. E agora, sabem que mais?… Tirava
    os óculos e ia-se embora, capaz de os trincar a todos.–Irra!

    E lá de si para si pensava que era melhor ter guardado segredo. Não
    fosse ele burro… Mesmo porque cada um começou logo a inventar
    animais, e todos é que não podiam vir. Claro! E não vindo todos, aí
    tínhamos nós descontentes. E havendo descontentes, quem lucrava era o
    José da Loja.

    –Temos o caldo entornado! pensava aflito o Fagote, amedrontado com
    aquele espectro do José da Loja, o seu rival! De mais a mais, já lhe
    tinha chegado aos ouvidos que o outro agoirava mal do negócio…

    –Farófias! tinha dito o José da Loja. Farófias!

    –Pois se mo diz na cara, arrebento-o! vociferava o Fagote, quando tal
    soube.

    E arrebentava, que o Fagote era homem para isso, tinha pulso. Desde
    rapaz que uma lenda de valentia se fizera na sua vida: contavam-se
    proezas, desde uma vez que varrera uma feira, por causa de eleições.
    Depois, bom olho para a caçadeira. Duma ocasião, que foi preciso dar
    montaria aos ladrões, portou-se como um leão, foi ele que deu voz de
    preso ao chefe da quadrilha. E como foi que lha deu? A frase ficou
    lendária:

    –Como-te a alma se te mexes!

    –E o outro não se mexeu, que ele comia-lhe a alma! comentavam
    convictos.

    Como esta, muitas outras. E foi talvez por estas proezas que a sua
    figura adquiriu para a velhice o jeito desempenado que tinha. Estava com
    60 anos e a sua atitude viril impressionava ainda agora. Não era
    nutrido, mas era sanguíneo, tez morena, cara rapada, olhos pequenos, uma
    largura de ombros que era o principal indício de força. Pescoço curto.
    Mesmo a brincar, quando cerrava os punhos e arremetia com força,
    conhecia-se-lhe a rijeza dos músculos naquele movimento sacudido.

    –Safa! que isso aí é de ferro! diziam os rapazes. Duma cana, hein?

    Mas bom homem, de uma grande franqueza de modos, simples e afável. Para
    se sair era preciso picá-lo. E uma vez, quando era juiz ordinário, uma
    testemunha tanto o picou em audiência, que ele desceu lá da cadeira,
    foi-se a ela e quebrou-lhe a cara. Por isso falava sério quando
    prometia arrebentar o José da Loja. A mulher interveio pacificadora:

    «Que não desse ouvidos a ditos. Deixasse o homem, que não era tão mau
    como o pintavam.»

    –Ó mulher! cala a caixa e não me defendas esse velhaco! redarguiu o
    Fagote. Do que ele é capaz sei eu.

    Mas nesta ocasião, de todas as velhacarias do José da Loja, só lhe
    lembrava uma: ter sido juiz o ano atrás!

    Isto parecia-lhe com efeito uma velhacaria, feita a ele que era juiz
    este ano.

    –Pois tu que pensas? dizia ele para a mulher. Quem me meteu a festa
    em casa foi ele. Ele é que se lembrou de me escolher, como quem diz:
    «entrego-te a vara, sempre quero ver como te arranjas…»

    –Nome do Padre, do Filho… A mulher benzia-se «das ideias do seu
    António.»

    –Sejam ideias, que não sejam! teimou o Fagote. Isto foi tal e qual,
    assim me Deus salve!

    –Mas quem to disse, homem? Quem foi que to disse?

    –Quem mo disse? Olha! E mostrou-lhe o dedo mínimo da mão direita.–Foi
    este mindinho. Não falha.

    E então desabafou: «que não pensasse o José da Loja, que o havia de
    levar à parede. Agora levava! A festa há-de se fazer, e festa de
    arromba; _nanja_ como a dele que só levava seis anjos, e não sei
    quantos andores, acho que meia dúzia!»

    –Ó mulher, então é para que saibas onde chega o brio de um homem!
    Caramba! Sendo preciso, ouves? sendo preciso até vendia a camisa do
    corpo. Nem trinta sanfonas como o sanfona do José da Loja! E espipava
    olhos de cólera para a mulher que remendava uns sacos, compungida de
    ver assim o seu António.

    E pôs-se então a renovar ordens, recomendações que a mulher já estava
    farta de ouvir. «Mas com tempo é que as coisas se pensavam, não era ao
    atar das sangrias!»

    –Leitões se os cá não houver, manda-se o Miguel à cata deles por
    esses povos à roda. Querem-se de 7 semanas, três pelo menos.

    A mulher contraveio:–«dois seriam bastantes…»

    –Mau que aí principiamos nós!–E pôs-se a assobiar e a rufar com o pé
    no soalho, arreliado.–Três é que hão-de ser. Não quero cá dois, porque
    dois eram os do _outro_, o ano passado.

    A esta razão, a mulher calou-se. O António Fagote gostou do silêncio da
    mulher, que o lisonjeava nos seus despeitos contra o _outro_.

    –Agora não fanfas tu… insistiu ele, risonho. É assim mesmo que eu
    gosto. Sinal é que tens vergonha. A _outra_ tamém não é mais que a ti.

    A _outra_ era a mulher do José da Loja, está visto.

    –Nem mais, nem tanto, emendou a Luísa Fagote, abespinhada.

    –Isso mesmo! abundou o juiz da festa. Não me lembrava agora que antes
    de casarem…

    –E olha que depois de casada… insinuou a Sr.^a Luísa, de venta no ar,
    enfiando a agulha. Cala-te boca.

    Façamos de conta que a boca se calou, com efeito. Que não se calou.
    Mas neste particular, o resto do diálogo convém que se omita, mesmo
    porque afinal nem eu nem os senhores queremos mal à mulher do José da
    Loja. Há-de perdoar-me o António Fagote, mas nisto não lhe faço a
    vontade. O pudor acima de tudo! E ademais ele bem sabe que eu sou
    conhecido da mulher. Adiante. Basta que lhes diga que por uma associação
    lógica de ideias a conversa veio parar em vitelas…

    –É preciso vermos como há-de ser isso da vitela, disse o António
    Fagote. Sem vitela é que se não faz nada. Uma perna sempre se gasta.

    Combinaram falar com tempo ao Manuel Cortador, segurar esse negócio. De
    mais a mais sabia-se que o pregador dava o cavaco por um bom pedaço de
    vitela assada.

    –O pregador é que arrasta aí muita gente, observou a Sr.^a Luísa. Para
    um bocado de sentimento não há como ele. Quando foi das missões, o que
    ele dizia daquele púlpito abaixo! É quanto se pode!

    –A mim o devem, se cá vem!–disse orgulhoso o Fagote. Que o homem não
    queria vir, desculpava-se com a saúde: que tinha de ir a umas caldas, e
    14 léguas a cavalo por estas canículas eram de acabar com ele.

    –Isso desaba aí o poder do mundo! Em se sabendo que é o missionário…

    Estavam nisto, quando bateram à porta. O Fagote foi ver à janela.

    –Bem, muito obrigado. E a senhora mestra? Estimo, estimo.

    Era a criada da mestra régia, foram abrir.

    –A senhora mestra manda muitos recadinhos, saber como está a Sr.^a
    Luísa, e este bilhetinho para o Sr. António.

    Entraram todos na saleta. Como era já tarde, o António Fagote foi
    acender uma luz.

    «Que conversassem, enquanto ele via se tinha resposta.»

    –Muito calor, começou a Sr.^a Luísa.

    –E então a casa da Sr.^a mestra que é mesmo um forno, disse por demais
    a criada.

    E antes que a conversa pegasse, avisou a Sr.^a Luísa, ao ouvido, de que
    lhe queria uma palavrinha.

    Foram para uma varanda que havia nas traseiras. A tarde descaía, numa
    serenidade calma. Sentaram-se uma junto da outra, muito familiares.

    –Está-se aqui bem! exclamou consolada a Sr.^a Luísa.

    –Está. E então bonitas vistas. Mas o que eu queria dizer era pedir-lhe
    um favor, disse atrapalhada a criada.

    –Se estiver na minha mão…

    A outra começou: «A Sr.^a Luísa estava ao facto do que se dizia dela
    com o criado do inglês. Decerto estava ao facto. Mas era mentira.
    Jurava-lhe pelo que havia de mais sagrado que era redonda
    mentira.»–Estamos para casar! é o que estamos! «Ele já mandara vir os
    papéis lá da terra, não podiam tardar».–Está claro que eu tenho
    afeição ao rapaz…

    –Ele esteve aí doente uma temporada, interveio a Sr.^a Luísa, para
    dizer alguma coisa.

    –Esteve. Umas quartãs que o iam arrebanhando. Mas é aí que eu quero
    chegar.

    –Que experimente o limão azedo, aconselhou a Sr.^a Luísa. É milagroso
    nas quartãs. Não se aflija, que isso não há-de ser nada.–E
    dispunha-se a consolar a rapariga, a dizer-lhe tudo o que sabia de bom
    para matar quartãs, pensando que era o que ela queria, afinal.

    –Não senhora. O rapaz está melhor. Caso é que não recaia. Mas é por via
    disso que eu lhe quero pedir um favor.

    Chegou para ela o banco de cortiça e confidenciou:

    –Já o andam a desinquietar para ir com os mais furtar a bandeira,
    qualquer noite. E ele vai, prometeu que sim. Mas veja, naquele
    estado! inda não há nada que saiu da cama.

    –Pelos modos, os rapazes vão este ano longe pelo pau, disse com pompa
    a Sr.^a Luísa.–Muito longe!

    –Ouvi que à Ribeira Velha, ao lameiro do Canelas. E logo com quem
    eles se vão meter, o Canelas! Se desconfia, vai-se para lá de clavina
    e faz alguma desgraça. Mais ele, que é atrevido!

    Cautelosa, a mulher do juiz redarguiu que lá onde eles iam pelo pau é
    que ela não sabia.

    –A outra noite é que para aí estiveram a combinar, o meu António mais
    os mordomos. Não ouvi.

    –Pois é lá! exclamou a criada. Mas o que eu queria, Sr.^a Luísa, é que
    o seu marido me não deixasse ir o rapaz na malta,–suplicou aflita a
    rapariga.

    –Lá isso, esteja descansada, não vai! prometeu com grande autoridade
    a Sr.^a Luísa.–Digo-lhe eu que não vai. E se não quer mais nada…

    –Era só isto, muito agradecida à senhora.

    Nesse momento entrava o Fagote, em mangas de camisa, os óculos para a
    testa.

    –Ora pois então aqui vai a resposta. Má letra, a Sr.^a mestra que
    desculpe. Mas enfim que leia como puder.

    –Então muita maçada co'a festa? inquiriu solícita a rapariga.

    –Muita. Faz lá ideia? Maçada e despesa. Olhe que se faz despesa. Todos
    os dias são precisas coisas, mais isto, mais aquilo. Aí está que já
    hoje mandei pedir para o Porto uma palheta para o clarinete do Alves.

    –Chh! fez admirada a rapariga.

    –Pois é verdade. Fora o mais! fora o mais! Nicas! E depois de uma
    pausa:–Só com o que se gasta no jantar, e é verdade que há muita coisa
    de casa, mas só com o que se gasta no jantar, a bem dizer que se fazia
    uma horta, além no prado.

    –Muita gente… disse a rapariga.

    –Muita! e depois de certa aquela… À mesa talvez vinte e quatro
    pessoas…

    A rapariga benzeu-se!

    –Vinte e quatro, p'ra mais que não p'ra menos, insistiu o António
    Fagote.–Olhe: o pregador…

    –Isso dizem que é coisa asseada! interrompeu a rapariga.

    –É. Não o há melhor. Missionário…–explicou o juiz. Pois o pregador,
    um; com mais quatro padres, cinco; com quatro músicos, nove; o compadre,
    os pequenos, dois, doze.

    –A comadre não vem! que pena! fez do lado a Sr.^a Luísa.

    –Não. O compadre e os pequenos já disse. Doze. O Morgado da Fonte e o
    António Capador, catorze. O Teles, é verdade, Teles escrivão, quinze.
    (_Pausa_). Com mais alguém que venha, vinte e quatro. Pode-se contar com
    mais de vinte e quatro pessoas à mesa.–E a rir-se: Mas há-de sobrar
    muita coisa, graças a Deus… E depois os pobres?

    –Isso então é uma praga! exclamou a Sr.^a Luísa. Até parece que vêm do
    chão assim… E colocava em pinha os dedos todos das mãos ambas.
    Assim…

    Mas fazia-se tarde, a rapariga despediu-se.–«Adeusinho! o que havia de
    estimar é que tudo corresse como desejavam.»–E se for preciso qualquer
    coisa… ofereceu-se. As minhas fracas posses…

    –Obrigada. Não faltarão ocasiões. Muitos recadinhos à senhora
    mestra…

    –E que hei-de estimar que o mano chegue de saúde, concluiu o António
    Fagote.

    E então explicou à mulher: «Aquele bilhete da mestra era a mandar-lhe
    perguntar se sempre era certo vir o macaco de fogo».

    –Diz que o irmão, o brasileiro, assim que souber que há macaco de fogo
    no arraial, não tem mão em si que não venha. E Deus o queira, porque o
    ponho ao pálio. Como três e dois serem cinco.

    A senhora Luísa quis saber a resposta que lhe mandara.

    –Disse-lhe que sim. Pois?! O que eu quero cá é o brasileiro. Sempre é
    homem que sabe dar o merecimento às coisas… Mas o diabo agora é o
    macaco! ponderou muito apreensivo. Está para aí meio mundo à espera
    do macaco…

    A senhora Luísa quedou-se pensativa, absorta no seu receio de que o
    bicho não viesse.

    –Tate! fez o António Fagote, batendo uma palmada rija na testa.–Dá cá
    daí a minha véstia. Manda-se uma «parte» ao homem.

    –Também pode ser, concordou a senhora Luísa. Mas hoje é que não,
    aquilo já está fechado, o fio.

    –Vai amanhã. «Agradeço favores. Traga macaco sem falta». Isto. Talvez
    acrescente: «Não se olha a dinheiro». Mas é que acrescento, por via
    das dúvidas.

    Então, a senhora Luísa confidenciou quase ao ouvido do homem:

    –Ouves? já se não pode ir ao lameiro do Canelas pelo pau.

    –Hã? qual pau?

    –O da bandeira. Todo o mundo já o sabe.

    Ele riu-se.

    –Todo o mundo, hein? Melhor! Oh! oh! todo o mundo!…

    E como ela ficasse estupefacta.

    –Nunca ouviste dizer que se põe o ramo numa porta e que se vende o
    vinho noutra?

    –Ah!…

    –Mas são verdes. Pois aí é que vai a história, e cantarolou,
    satisfeito:

    O ladrão do negro melro
    Onde foi fazer o ninho

    * * * * *

    Mas o melhor do caso foi no dia seguinte, quando logo de manhãzinha o
    António Fagote sentiu bater à porta, de rijo.

    –Vai lá ver o que será, ó Luísa!–disse da cama o Fagote sobressaltado.

    Não tardou nada que o José Manco lhe entrasse de rompante pelo quarto.

    –Vista-se, homem! Ande daí depressa! Vista-se.

    –Há novidade? perguntou logo o Fagote, sobressaltado.

    –Vista-se! com dez milhões de diabos! Insistiu o outro.

    –Hom'essa! fez espantado o Fagote. Alguém à morte?

    –Pior do que isso! resumiu o José Manco.

    –Pior do que isso, então não sei…

    –Não tardará que o saiba. Avie-se, que eu cá o espero na rua.

    O António Fagote vestiu-se à toa, aparvalhado. Foi já na rua que acabou
    de enfiar a jaqueta. As correias dos sapatos iam de rastos, não levava
    chapéu.

    –Pronto! cá estou!

    –Venha comigo, avie-se. Abotoe as calças, se faz favor.

    E rodaram rua acima.

    –Diabo! mas então…? ia perguntando o Fagote.

    –Aguarde, que já vai saber. Não tarda.

    De quatro escanchadas foram dar ao adro da igreja.

    –Roubaram Nosso Pai, aposto?!

    –Pior! redarguiu o outro. Pior! Alto aí! Ora arregale-me esses olhos
    e veja vossemecê isto, esta porcaria!

    E tragicamente, o José Manco apontou para meia folha de papel, pregada
    na torre com miolo de pão centeio mastigado. Era um pasquim! Vários
    desenhos de animais, sobressaindo um burro de grandes orelhas, aos
    coices. E no fundo, em grandes caracteres, isto:–_Farófia_!

    Por um pouco, António Fagote, de mãos atrás das costas, amarasmou-se,
    com os olhos fitos no papel.

    E quando o outro pensava que ele ia romper desaustinadamente numa
    escamação, aos lábios do António Fagote aflorou apenas um sorriso.

    –Hum! resmungou. Bem sei…

    –Não tem que saber,–fez o outro.

    –O patife do José da Loja…

    –Pois está visto.

    –Bem, levará quatro lambadas, epilogou com grande sossego o
    Fagote.–Arranque lá isso, e venha você daí, se quer ver.

    O José Manco não queria ver, fazia ideia. Mas opinou prudentemente que
    era melhor botar o patife ao desprezo.

    –Pois sim, disse o António Fagote, dobrando em quatro o papel e
    metendo-o na algibeira de dentro.–Pois sim!

    Mas o outro que o conhecia, insistiu no pedido, com certos argumentos
    arrancados do código penal. «Que não fosse agora pagar por bom
    semelhante estafermo. Como mordomo, também era com ele a ofensa, com
    ele José Manco. Mas fazia de conta… Como o outro que diz, vozes de
    burro não chegam ao céu».

    –Bem, levará só uma lambada, atendendo a que mais ninguém viu isto,
    disse num grande ar de condescendência o Fagote.–E você vá lá regar a
    horta.

    Foi-se dali direito à casa do José da Loja. Estava ainda fechada.
    Pôs-se à coca, de longe, com a ira muito exulcerada pela arrelia
    daquela demora.

    –Grande cão! grande cão! monologava.

    Até que enfim reparou que a porta se abria. Era o rendeiro em pessoa, de
    casaco de lona e chinelos de trança, muito fresco. Não deu pelo António
    Fagote senão quando se viu ao pé dele, cara a cara entre o balcão e a
    porta.

    –Ó Sr. José.

    –Dirá.

    –Venho aqui saber de um caso.

    Tirou do bolso o papel, desdobrou-o, devagar, e depois de lho pôr ao pé
    da cara:

    –Foi o Sr. José que fez isto?

    O outro olhou-o, atónito.

    –Sim! se foi o Sr. José que fez isto?

    –Nada, eu não senhor.

    –Jura pela boa sorte dos seus filhos?

    Aqui, o tendeiro entupiu, desconfiado.

    –Jura pela boa sorte dos seus filhos? repetiu mais de rijo o Fagote.

    O José da Loja, moita! Então o juiz explicou-lhe:

    –É porque se jura, muito bem. Se não jura o caso é outro.

    –É outro, que outro?!–disse arrogante o José da Loja, num ímpeto,
    barriga panda sob o casacório de lona.

    –Isto!–E foi-lhe uma bofetada para a cara.–E muito caladinho, que eu
    também não digo nada. Agora o papel, olhe! Fê-lo em pedaços, e
    atirou-lhe com eles à cara aparvalhada.

    Saiu dali e foi _matar o bicho_, tranquilamente, como quem vem de
    cumprir uma obra de misericórdia.

    * * * * *

    Na véspera da festa, um sábado às 10 horas da manhã, o fogueteiro
    passava enfim num deslado da vila direito à capela da Senhora das
    Dores. Largou um foguete, que estrondeou no ar, galhardamente.

    –O fogueteiro! chegou o fogueteiro!

    Por toda a vila passou um longo frémito de entusiasmo quando se ouviu o
    foguete. Desabituados, os cães ladravam, em correria doida pelas ruas.
    O rapazio levantou-se em algazarra, e correu ao encontro do fogueteiro,
    a admirá-lo, a oferecer-se. Na labuta viva das casas renovavam-se
    ordens já dadas. Aquele foguete era a bem dizer o primeiro ruído da
    festa, não havia tempo a perder. De casa dos mordomos saíam esbaforidas
    as criadas, com ordem de se informarem do que precisaria «o Sr.
    fogueteiro». Alguns mais previdentes mandaram almoço, e que dissesse o
    que queria para o jantar.

    Solenemente, o juiz da festa atravessou quase a correr a vila,
    perguntando a todo o mundo se o que estoirara tinha sido efectivamente
    um foguete.

    –Foi foguete! pois que dúvida! diziam-lhe radiantes. Prometia, sim
    senhor! prometia! Se fossem todos assim… Caramba! que estoiro! Pum!

    –P'ra que saibam! clamava o António Fagote. E então isto? e punha-se a
    girar de volta com o braço–o que é fogo do chão?–Mas tinha-se visto em
    calças pardas para que o homem não faltasse. Complicações! Pelos modos
    tinham-no convidado para outra festa, com mais bagalhoça, está claro. O
    caso tinha estado sério!

    Mentia.

    –Hein? mas não o enganavam?

    –Qual! era o fogueteiro sem tirar nem pôr. Lá ia ele a atravessar as
    eiras, com duas bestas carregadas. Caramba! duas cargas de fogo!

    O juiz botou a fugir. Quando passou pela porta do abade, gritou cá da
    rua:

    –Senhor abade! ó senhor abade!

    –Que é lá?

    –Chegue à janela, faz favor?

    –Mas está muito sol, entre você, se quer.

    –Só duas palavras:

    O abade, um rapaz novo, assomou à janela.

    –Que é?

    –Chegou o homem!

    –O homem! que homem?

    –O fogueteiro, quem há-de ser?

    –Ah, sim, disse o abade a rir-se, velhaco. E você vai ter com ele?

    –De cara.

    –Faz-me então um favor?

    –Dirá.

    –Dê-lhe recados meus.

    E retirou-se da janela, a rir, enquanto o António Fagote prosseguia no
    seu caminho, esbaforido, espalhafatoso, perguntando a toda a gente se
    aquilo tinha sido o fogueteiro.

    –Grande homem! com seiscentos diabos!

    Quando chegou ao adro estava tudo cheio de rapazes, em redor dos dois
    machos carregados. O Fagote cuidou morrer de contente. Foi-se ao
    fogueteiro, com fúria.

    –Esses ossos! e abraçou-o arrebatado, enternecido, chamando-lhe «seu
    amigo, seu grande amigo».

    –Rapazes! gritou ele então. E tirou o chapéu da cabeça, muito
    solene.–Viva o senhor fogueteiro!

    –Viva!

    …Isso não juro, porque não reparei. Mas estou em dizer aos senhores
    que o António Fagote–chorou!…

    II

    TIPOS DA TERRA

    Desembocaram num largo. Era o ponto mais central da terra,–«_a
    praça_.»–Aqui e ali, ao acaso, algumas árvores enfezadas, quase tudo
    olmos brancos, vegetavam a medo, com os troncos protegidos por velhas
    grades de madeira, desmanteladas. Era um terreiro vasto, muito chato,
    com casas em volta,–o que na vila havia de melhor em construções.
    Ficava ao meio o pelourinho, exótico, mutilado, de uma pedra grosseira e
    muito negra. Era uma alta coluna de oito faces, com o seu anel de
    ferro ao meio, e uma argola pendente do anel. A coluna, que se eleva
    sobre um pedestal de três degraus, em hexágono, terminava ao alto num
    grande _X_ de pedra deitado horizontalmente. Um espigão de ferro, de
    três gumes como os floretes de esgrima, irrompia hostilmente do meio do
    _X_, perfurando o espaço. Em volta, a casaria era triste, sem estilo,
    sem gosto, sem cal. Algumas _pedras de armas_ em velhas paredes
    decrépitas, desequilibradas, hidrópicas, atestavam aristocracias
    remotas, agora de todo extintas. Ao alto, dominando a negrura
    chamuscada dos telhados, o velho castelo, romano de origem, fazia
    tristeza com as suas ameias derrocadas, e as grossas paredes em ruínas.
    Ao lado do castelo erguia-se destacadamente a velha torre do relógio,
    de uma arquitectura primitiva. Tinham dado onze horas, mas eram apenas as
    sete: aquele–«_estafermo_»–é que não andava nunca direito. De dia
    ninguém o entendia, com o seu ponteiro de ferro girando num mostrador
    sem letras, de uma pedra azulada. De noite fartava-se de badalar,
    alvoroçando a povoação como se fosse a fogo, ora atrasado ora adiantado,
    dando meia-noite quando eram quatro da tarde, e meio-dia mal despontava
    o sol.

    Eram as sete. Àquela hora é que os–«_figuros_»–da terra, quase tudo
    empregados públicos, vinham para o largo, à fresca. Alguns
    passeavam,–seu fraque, sua bengala de cana com castão, chapelinho à
    banda, sapato branco um ou outro. Nas escadas do pelourinho, sentados,
    outros do mesmo feitio cavaqueavam,–coletes desabotoados, perna
    cruzada, chapéu para a nuca, às três pancadas. Um de pêra comprida, no
    degrau superior, contava facécias. Os outros riam alarvemente,
    chamavam-lhe intrujão. Algumas–«_madamas_»–pelas janelas em volta,
    nostálgicas, anafadas, de claro. À porta do estanco, em cima, havia
    outra roda,–uns de pé, outros sentados em caixas, alguns montando
    cadeiras de pinho. Era a–_roda mais forte_,–quase tudo maiores
    burocratas:–o Melo da Administração, o Antunes da Câmara, o Escrivão
    de Fazenda, o Rodrigues do Real de Água. E outros. À porta, perfilado e
    muito cerimonioso, o dono do estanco, alto, esguio, flexível, com a sua
    cara rapada e o seu chinó castanho, eriçado e velho. Era de maneiras
    feminis, uma falinha melíflua, cantante, viva, muito desempenado
    quando andava, saracoteando-se todo, em biquinhos de pés como se fosse
    levantar voo. Chamavam-lhe Ernestinho. Não se podia falar diante dele
    num rato morto, numa carocha. Aquilo «fazia-lhe nervoso», enojava-o,
    ficava-se a cuspinhar meia hora, dizendo constantemente:

    –Ai Jesus! ai Jesus! Caticha! Nossa Senhora do Carmo! Nem sei como não
    lanço fora.»

    E se riam, ele exasperava-se: não compreendia como pudessem falar em
    tais coisas… De resto, bom sujeito, finório para o seu negócio,–um
    poucochinho beato,–diziam-lhe.

    –Meu proveito. Não que eu não quero a minha alma nas penas do inferno,
    a arder. Leiam a _Missão Abreviada_, leiam esse rico livro.

    E as palavras saíam-lhe a correr, espremidas nos seus lábios delgados,
    um poucochinho sibiladas nos _ss_.

    –Cigarros, Ernestinho, um vintém deles. Querem-se dos de Lima,
    desses fortes.

    Declarou que também havia dos «especiais.» Algum senhor queria? Tinham
    chegado três maços, p'ra ver. Oito por um vintém.

    –Pois guarde-os!–disseram alguns, horrorizados com a ideia de dar um
    vintém por oito cigarros.–Guarde-os!

    «O senhor engenheiro, quando vinha à vila, perguntava-lhe sempre por
    eles. Dos de Lima nem o cheiro, não gostava.»

    –Olha o figurão!–disseram a rir. Por esse mundo fora sempre há muito
    idiota! forte cavalgadura!

    O Ernestinho veio com os cigarros, em feixe nas pontinhas dos dedos. À
    porta, antes de os entregar contou-os de novo. Doze. Estavam certos.

    –O senhor Ernesto, se faz favor, ponha isto lá no caderno, ao pé dos
    outros.

    Ernestinho foi para dentro, contrafeito, fazer o apontamento. Houve um
    silêncio oprimido, o dos cigarros tossiu para o quebrar, ao mesmo tempo
    que num gesto acanhado, receoso, fazia menção de oferecer:–«alguém
    era servido?»

    Dentro do balcão, ao pé das garrafas com licor, e das botijas de
    genebra, Ernestinho somava a conta. Era já taluda.–«E vão dois e dois
    quatro e dois seis, seiscentos e vinte! Sabe Deus quando os
    receberia!»–E suspirava, arrumando os maços encetados, sob o olhar
    tranquilo e indiferente do Santo Antoninho que lá estava em cima, ao
    alto das estantes quase vazias, no seu nicho feito de um caixote forrado
    a verde, com flores artificiais muito sujas e duas velinhas dos lados.
    Mas resignava-se, que não tinha outro remédio. Eram os ossos do
    ofício…

    Cá fora tinham dado fé, acotovelavam-se chamando asno ao
    Ernestinho,–um pulha a quem ajudavam a viver… Se hoje não há
    dinheiro, há-o amanhã, essa é boa! E pagava-se, c'os diabos! E
    pagava-se. Mas não senhor! aquela besta mostrava sempre má cara, o
    alarve! A culpa tinham-na eles, afinal que o procuravam, que o
    preferiam. Tomaram os outros ter aquela freguesia…

    O dos cigarros fiados anuía, assobiando baixo o _Água leva o
    regadinho_. Por fim levantou-se, lentamente, com um ar de enfado, um
    sorrisinho de despeito nos lábios, encolhendo os ombros.

    –Estender as pernas,–disse. Quem vem daí?

    Todos ficavam, era uma estopada andar p'ra trás p'ra diante, naquela
    sensaboria da praça.

    –Até logo. Você aparece no _sítio_, à noite?

    –Apareço, vou à desforra.

    E cumprimentando em roda:

    –Meus caros! Muito boa tarde, Sr. Ernesto.

    Foi-se, puxando para baixo as pernas da calça, alisando as joelheiras.

    –Que tal está o asno, hein? Quer, ainda por cima, que o Ernestinho lhe
    diga _bem-haja_…

    Era um parvo.–Era um tolo.–Tinha dívidas nos outros estancos.–Em toda
    a parte.–Lá em casa a família passava fomes.–Um batoteiro de marca.

    Houve agitação, alguns puseram-se de pé, outros mudaram de lugares. Ia a
    passar um grande carro de palha chiando muito. Ernestinho chegava-se de
    novo, muito ronceiro, roendo as unhas.

    –Com que então… _ponha lá ao pé dos outros_?–disseram-lhe, para o
    lisonjear nos seus despeitos.–Bem bom freguês!

    Ele encolheu os ombros e cerrou os olhos, beatificamente, num gesto
    de mártir resignado. E não disse palavra–p'ra falar daquele tinha de
    falar também deles…

    Mandaram vir limonadas,–três limonadas!

    –Aí vão trinta réis!

    Diabo! era preciso animar aquilo. Assim não tinha jeito. E puseram-se a
    falar do tempo, das moscas, daqueles idiotas que andavam na praça a
    dar-se ares. Ensoberbecia-os a ideia de que iam tomar três limonadas,–e
    sentiam-se felizes, alegres, um tanto estroinas.

    O Ernestinho deu dois passos fora da porta, e chamou para a varanda,
    onde grandes manjericões floriam:

    –Ó Emília! Emilinha!

    A mulher assomou, gorducha, muito mole.

    –Três limonadas, ouves? Três limonadinhas, depressa.

    As conversas animavam-se. Pois senhores! havia de ser difícil encontrar
    uma colecção de asnos assim. Falavam dos que passeavam na praça, aos
    grupos.–Deus os faz, Deus os ajunta. O palerma do Fernandinho dera-lhe
    agora para cantar. Lá andava ele. Volta meia volta,

    _Vai alta a lua na mansão da morte_

    com umas tremuras na voz, que eram mesmo de o esbofetear. Estava
    antipático, aborrecido, desde que andava de namoro com a Marques. Só
    tinha uma coisa boa–a caligrafia.–Um talhe de letra
    bonito,–confessavam.–E as calças, hein? reparem vocês naquelas
    calças, vai flamante. Casualmente, Fernandinho olhou de longe para os
    do estanco, disse-lhes _adeus_ com a mão, afável. Corresponderam todos,
    muito risonhos, mas a chamar-lhe nomes por entre os dentes:–idiota,
    palerma, pechisbeque…

    Sozinho, numa lentidão moribunda, olhos nas botas, olhos no céu, o
    Teles escrivão passava ao largo, ruminando alguma poesia. Às vezes
    quedava-se extático, suspenso, o polegar esquerdo entre os dentes, um
    olho cerrado fortemente, a meditar. Vinha um gesto e punha-se de novo em
    marcha, contrafeito.

    –Ó senhores! mas não me dirão em que anda a parafusar o Teles, aquele
    telhudo? E isto:–e pôs-se a imitar o escrivão.

    Riram. O Melo imitava-o bem, o alma do diabo, no andar especialmente.
    Mas aquilo era um logogrifo. Há uma semana às turras a um logogrifo
    em acróstico.

    –Isso é o Teles!–fez um que vinha da praça.–Aquilo é um intrujão.
    Na rua não é que se adivinham logogrifos. Ó Ernestinho, você ainda tem
    daquilo que _ferve_?

    O Ernestinho deixou descair o lábio, não percebia…

    –Homem! daquilo que vinha numas garrafórias escuras, compridotas…

    –Quer dizer gasosas. Uma rolha segura com guitas…

    –Ora é isso mesmo, nem mais.

    –Bem sei.

    Mas não tinha já. Nem mesmo queria mais, p'ra quê? Achavam caro um
    tostão…

    –Eram aos três para beber uma garrafa…

    –Pudera! Por um pataco, trinta réis levando o açúcar, fazia o _Ervas_
    uma soda,–objectaram alguns. Ponha lá que em gosto é a mesma coisa.

    –E aquela porcaria, ó Ernestinho, e aquela porcaria amarela que
    sujava tudo de escuma?

    Alguns cuspiram, disseram ao Alves que se calasse, que vomitavam, com
    seiscentos diabos!

    –Cerveja!–disse o Ernestinho–cerveja! uma coisa que lá p'ra baixo
    toda a gente bebe por gosto, as senhoras mesmo.

    E com um sorriso de desdém, exclamou:

    –O que é ser do calcanhar do mundo! Em nome do Padre, e do Filho…

    Mas na praça um grupo altercava. Ouviu-se distintamente a
    palavra–«_pulha_»–pronunciada com força. Saíram em tropel, ficaram só
    três.–O que pagava as limonadas exultou:–Homem! nem de propósito!
    Ficava exactamente quem ele queria, estava mesmo a ver que aquela
    súcia lhe chupava o refresco:

    –Tó Ruça! já lá vai esse tempo.

    Precisamente, a senhora Emília chegava, com os copos numa bandeja:–Que
    provassem, diriam se precisava mais açúcar. Mas parecia-lhe que devia
    estar bom…

    Beberam de um trago, estava óptima. A senhora Emília tinha dedo para
    aquelas coisas.

    –Obrigado, ó Melo!

    –Obrigado, ó menino!

    E os dois saíram de rompante, chamando _pato_ ao Melo, rindo-se dele
    e limpando os beiços.

    Quando o Melo ia sair,–a ver o que ia na praça,–o Ernestinho, muito
    cortês, objectou-lhe que faltavam trinta réis:–Se ali não tinha,
    depois. Isso era o mesmo…

    –Mas trinta réis?!… De que são os trinta réis?–perguntou desconfiado
    o Melo.

    –Do açúcar, foi do refinado,–explicou o Ernestinho. O mascavado
    acabou-se. Amanhã ou depois já devo ter mais. O senhor Melo desculpe.

    Não tinha que desculpar; somente notava que aquelas coisas diziam-se no
    princípio.–E saiu sem dar mais palavra, furioso:–Uma ladroeira! Três
    vinténs não valiam os dois que lhe tinham chupado o refresco…

    Na praça tinha cessado a altercação, os grupos, reunidos, formavam uma
    grande roda, comentava-se. O Melo quis informar-se:–que lhe
    contassem–«_o escândalo_».

    Ora! não fora nada: o Veiga que se tinha lembrado que as
    correspondências na _Voz do Distrito_ eram escritas pelo Albano.
    Disse-lho na cara. O Albano negou, deu a palavra de honra. O Veiga que
    é casmurro, teimou:–que não acreditava, ainda assim!–Vai o outro
    chama-lhe pulha, iam-se pegando. Ora aí está!

    –Mas afinal, quem diabo escreve aquilo?–quis saber o Melo. Aquilo
    há-de ser escrito por alguém, está claro.

    Dez réis pela novidade! Que havia de ser escrito por alguém sabiam
    eles…

    –Quem, então?

    Divergiam as opiniões. Podia ser Fulano, podia ser Beltrano. Um ou outro
    dava a sua palavra de honra que também não era ele, jurava-o. Houve um
    que se lembrou se aquilo seria do padre Mendonça.

    –Qual! Do padre Mendonça não é. Fazia coisa melhor, se se metesse
    nisso. Olha o padre Mendonça, o da _gibreira_ de Braga…

    Mas o da ideia insistiu, renitente:–havia ali suas coisas que o faziam
    lembrar, certas facécias, como a de chamar _Frei Asneira_ ao Reitor e
    _Cabeça de Comarca_ ao Felisberto.

    –Pois se é ele, que se regale, pode limpar as mãos à parede. Mente
    como um alarve, mente da primeira linha até à última!–disse firmemente
    o verdadeiro autor das correspondências. Olhem o que ele diz do juiz
    de direito, só calúnias! O juiz! um homem teso! Tem lá o seu fraco
    pelas saias, mas isso, que diabo! isso não é defeito.

    De resto, eram todos acordes em que as correspondências eram uma
    infâmia. O que se chama uma infâmia pegada. Mexericos e mais nada, uma
    coisa de soalheiro. E depois, o dizer-se lá que entre os rapazes não
    havia duas amizades leais, que era tudo uma impostura…

    Houve um silêncio significativo, talvez de aprovação.

    –Só de pulha!–rematou, por fim o Nunes da Fazenda, o tal que escrevia
    as correspondências com o pseudónimo de _Aramis_. Vejam vocês aquelas
    galegadas ao comendador. Aquilo chama-se lá fazer política?!
    Discuta-se o homem como presidente da Câmara, sim senhor, discuta-se o
    homem público, o funcionário; mas deixe-se-lhe em paz a _marreca_, os
    fundilhos das calças; ninguém quer saber se os criados lhe param em casa
    ou se não. E depois, aquelas alusões à família, aquelas piadas à D.
    Engrácia, pobre velha…

    –A quem?–interrogaram uns poucos. À Dona quê?

    –À D. Engrácia, está bem de ver. Aquela beata que fazia peúgas de lã
    aos missionários é ela. Presumo eu que é ela–fazia o Nunes das
    correspondências com um grande ar de suposição. Eu cá foi para onde
    deitei.

    Os outros não. E como o das correspondências tinha prometido explorar a
    crónica beata, aguardariam mais informações. Supunham, no entanto, ser
    com a D. Joana, a do–«_chá de erva-cidreira_.»–Outra canalhice! A D.
    Joana, para festejar os anos da filha, convidara tudo, _lazarões e
    penicheiros_, não fizera política. Depois foi aquela tareia que se
    viu:–que o chá era erva-cidreira, que tinham bolor os doces de ovos,
    que ela parecia a Quaresma e a filha o Entrudo. Ora isto não se diz, a
    pobre mulher doeu-se. Citavam-se de cor frases inteiras da
    correspondência. Por exemplo:–_A deusa da festa dizem que recebeu
    telegramas de… amor_.–Uma facécia de mau gosto aludindo ao Proença
    telegrafista. Depois do que por aí se diz, é forte… Que afinal, quem
    sabe lá? Entre os dois que diabo pode haver? Namoro?

    No grupo alguns tossiram forte, rindo. O Nunes interveio:

    –Não senhores! Isto agora alto lá. A Amélia é uma rapariga séria…

    Riram às gargalhadas, foi um barulho com a tosse.

    –Quando digo uma rapariga séria… Mau! Acomodem-se lá com o _banzé_,
    vocês deixem falar,–tornou o Nunes, formalizado. Quando digo uma
    rapariga séria, quero dizer… sim… quero dizer…–e procurava a
    frase, entalado,–por exemplo, que ela não é capaz de receber ninguém,
    alta noite, lá pelos quintais, como o tal das correspondências quer
    fazer suspeitar.

    Iam replicar-lhe, mas ele atalhou:

    –Chama-se àquilo ser canalha às direitas, arre! Isto agora é falar
    franco.

    Saltaram-lhe:

    –E você jura, ó Nunes? você jura?–perguntou, com gesto perfurante, o
    Alves dos Pesos e Medidas.

    Não… isso agora…Jurar, não jurava, mas, c'os diabos! pelo que se
    via, pelo que se podia julgar…

    –Léria!–disseram todos.

    O Nunes parece que estava com os beiços com que mamara. Com que então,
    para ele era tudo uma récua de _santas_? Desenganasse-se, que era tudo
    uma canalha, uma corja de sonsas. Que diabo de ingenuidade!

    O Nunes observou modesto, quase agradecido:

    –Ingenuidade, eu te digo… Não é bem isso… O que sou é prudente.
    Desconto sempre noventa por cento àquilo que vocês dizem, aí é que
    está…

    –Vocês é um modo de falar,–emendaram alguns.

    –Vocês, digo eu, vocês… quando escrevem correspondências,–explicou
    sofisticamente o Nunes.

    Calaram-se, disfarçaram. Próximo deles, a Amélia toda de verde, com
    guarnições de fita preta, caminhava ao lado da mãe, solenemente.
    Tiraram todos o chapéu, cortejando risonhos, respeitosos. O Nunes foi
    cumprimentá-las, submisso.

    –Dar o seu passeio, não é verdade?–E apertando-lhes a
    mão:–Vosselência como passou? A senhora D. Amélia? Obrigadíssimo.
    Assim… assim…

    Então? que diziam àquele calor?

    –Abafava-se, ali pelas duas. Que forno!

    –O Brasil tal e qual–reforçou o Nunes.

    Mas que fora feito, que as não tornara a ver desde os anos? Uma noite
    de truz, aquilo sim!

    –Olhe, senhora D. Amélia, a flauta… a flauta é que nem por isso, foi
    pena! O Abelzito andava constipado.

    A D. Amélia explicou. A mãe ficara doente, já não era para aquelas
    noitadas.–E em voz mais baixa, quase dolente:

    –Depois, veio a _Voz do Distrito_, aquilo chocou-a muito.

    –Não há tal!–fez a mãe. Meteu-se-te isso na cabeça. Deixe-a falar,
    senhor Nunes.

    E por pouco que não chorava ao dizer isto.

    O Nunes afectou um sentimento profundo:–Era melhor não falar nisso,
    não pensar em tal; todos as conheciam, todos lhes faziam justiça. Tinham
    acabado de falar na tal correspondência, agora mesmo. Uma
    garotada!–resumiu o Nunes.–E em tom confidencial:

    –Anda-se na pista do garoto. Ele há-de aparecer. E depois… e
    depois… Muito boa tarde, minhas senhoras! O que for soará. É preciso
    dar um exemplo,–concluiu terminantemente. Uma severa lição!

    Despediram-se, elas agradeceram ao Nunes–«a parte que tomava no seu
    desgosto.»–E seguiram cumprimentando para as janelas, perguntando se
    vinham daí, um bocadinho até à capela, espairecer.

    As Silvas pediram que subissem. Um bocadinho só. Ficava muito bem
    aquele vestido à Amélia.

    Não podiam subir, talvez à volta.

    –Pois sim, hás-de ver o meu bordado a missanga. O papagaio está quase
    pronto, que trabalhão!

    Estava na dúvida se lhe poria o bico assim, de gancho. Não gostava. O
    risco era do Fernandinho. Já lhes fizera outro, talvez mais bonito.
    Coisas de anjinhos:

    –Verás.

    Os grupos tinham-se reunido em volta do Pelourinho. Passava gente que
    vinha do trabalho, da labuta áspera da eira,–homens com malhos, e
    mulheres de cestas à cabeça. A tarde descaía numa serenidade calma. No
    degrau de cima, o Paula, oficial da administração, com fama de tipo de
    chalaça, cantava em surdina umas cantigas de caserna, obscenas,
    zaranzando na barriga como se fosse uma guitarra. De volta, os outros
    formavam roda. Todos riam, pediam _bis_.

    –Tu hás-de conhecer isto, ó Chico,–dizia o Paula para o Francisco
    Maria, um cabo que estava de licença. Tu hás-de conhecer isto.

    O administrador do concelho, um pobre diabo desmazeladão e filósofo,
    afirmava que lhe lembrava Coimbra, a pândega das vielas. Ao Paula
    valia-lhe a prenda, palavra de honra que lhe valia a prenda, senão já o
    tinha demitido, às vezes que lhe entrava borracho pela repartição. E
    pedia a rir, boçalmente:

    –Ó Paula, aquela do _bate-bate_, canta lá.

    E trauteava as primeiras notas, castanholando com os dedos.–Se era
    preciso, o Fernandinho ia pelo violão.

    –É verdade, você que fez hoje que não me apareceu na repartição, ó
    Fernando?

    –Dormi, está claro. Ao senhor doutor acontece-lhe o mesmo às vezes.
    Olhem que pergunta!

    Mas o Paula tinha-se calado, bocejava.

    –Então, ó Paula…–suplicava o administrador.

    –Está fechado o realejo… Depois.

    Quem lhe dera que fossem as nove para irem até ao «sítio». Ou perder ou
    ganhar; tinha ali seis tostões que eram para um _mico_.

    –Mas eu não lhe dizia, Sr. doutor? eu não lhe dizia ontem que a _dama_
    se negava? Eu estava mesmo a ver aquilo… Bem feito! «gramou» um
    entalão que se consolou.

    –Quatro coroas.–Na véspera tinha ganho um quartinho.

    Nesse momento passava o juiz, sozinho como sempre. Todos tiraram o
    chapéu, ele passou gravemente, cortejando.

    –Quem eu te quero à perna é o _Aramis_…–rosnou o Teles escrivão que
    embirrava com o juiz desde que o suspendera uma vez.–E ainda ele não
    sabe tudo…–insinuava perfidamente.

    –Pois o resto diga-lho você, diga-lho no _Almanaque de Lembranças_, em
    verso–fez de um lado o Rodrigues do Real dU+2019.água.

    O Teles, com famas de literato, redarguiu que não dava confiança a
    analfabetos.

    –E eu a brutos, sabe você?

    Mau! que eles lá começavam. Oficiais do mesmo ofício… Ó senhores,
    lá porque ambos faziam versos não se seguia que devessem embirrar um com
    o outro. Pelo contrário.

    O Teles, furioso, disse que não embirrava com o outro, que nem lhe dava
    essa importância, essa honra.

    O Rodrigues ia saltar-lhe, tiveram mão nele. Mas jurou que doutra vez
    seria, que fizesse de conta que já lá tinha na cara quatro bofetadas
    tesas.

    –Tesas, hein? olá! quatro bofetadas tesas.

    Havia de dar-lhas, tão certo como dois e dois serem quatro, só para ter
    o gosto de dizer depois, num comunicado, que desafrontara as letras
    portuguesas,–ele, o Rodrigues, ele, um simples fiscal do Real dU+2019.Água.

    Aquilo fez surpresa, convidaram-no a explicar-se.

    –Não senhores! dizia colérico o Rodrigues, com grandes gestos.–Bem sei
    que não valho nada. Escrevi, é verdade que escrevi; faço ainda o meu
    verso quando me dá na cabeça. Uma rapaziada! Estão maus? Concordo. Mas
    não há de ser aquele _négalhé_ que o há-de dizer. Não o julgo
    habilitado. Lá porque tem soletrado dois romances, não se segue. Mas o
    que mando para público sim, o que entrego aos prelos–é meu!–E batia no
    peito com a larga mão espalmada, furioso, numas raivas, de orgulho
    triunfante.–Não roubo! nunca roubarei!–afirmou mais alto o
    Rodrigues, para que o Teles que se ia retirando, no meio de dois
    amigos, conciliadores, o ouvisse.–Repito: não roubo, não faço como
    ele!–E as palavras saíam-lhe salivadas, violentas, por entre os
    lábios espumantes, atiradas ao Teles como pedradas.

    Os outros escutavam agora com interesse. Estavam a dar razão ao
    Rodrigues, instintivamente, sem compreender bem o que ele queria
    dizer.

    –As provas…–e meteu a mão no bolso do seu casaco de lona, com
    ímpeto:–as provas, vê-las aqui estão!

    Mostrou no ar a brochura verde do _Almanaque de Lembranças_.–Era do ano
    que vem, tinha-lhe chegado hoje. Ali estava o Peres do correio que lho
    tinha entregado ele mesmo.

    –Sou testemunha–confirmou do lado não sei quem.

    O Rodrigues, então, afirmou que era preciso historiar, contaria a coisa
    em duas palavras. O Sr. Teles, o borra-botas do Sr. Teles, lembrara-se
    um dia de ser escritor, de ser poeta. O alarve! Todos os anos–zás!
    versalhada para o _Lembranças_…

    –Era colaborador–disse o Antunes da Câmara que admirava o talento de
    Teles.–Era colaborador.

    –Era quê?–interrogou logo o Rodrigues, de mão atrás da
    orelha.–Maçador, maçador é que ele era. Nunca lhe admitiram as
    asneiras, se me faz favor, nunca! Na _correspondência_ troçavam-no,
    chegaram a dizer-lhe que podia fazer fortuna pelas tombas, que o não
    chamava Deus para as letras. Aquele _Serei ousado_? é ele, sei que é
    ele. Nunca o admitiram.

    –Lembro-lhe a _Flor do Campo_, Sr. Rodrigues, lembro-lhe esses
    versos–insistiu o Antunes.

  • Os Lusíadas

    Os Lusíadas

    Aproximadamente 56.628 palavras.

    Luís Vaz de Camões
    Os Lusíadas

    Canto Primeiro

    1
    As armas e os barões assinalados,
    Que da ocidental praia Lusitana,
    Por mares nunca de antes navegados,
    Passaram ainda além da Taprobana,
    Em perigos e guerras esforçados,
    Mais do que prometia a força humana,
    E entre gente remota edificaram
    Novo Reino, que tanto sublimaram;

    2
    E também as memórias gloriosas
    Daqueles Reis, que foram dilatando
    A Fé, o Império, e as terras viciosas
    De África e de Ásia andaram devastando;
    E aqueles, que por obras valerosas
    Se vão da lei da morte libertando;
    Cantando espalharei por toda parte,
    Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

    3
    Cessem do sábio Grego e do Troiano
    As navegações grandes que fizeram;
    Cale-se de Alexandro e de Trajano
    A fama das vitórias que tiveram;
    Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
    A quem Neptuno e Marte obedeceram:
    Cesse tudo o que a Musa antígua canta,
    Que outro valor mais alto se alevanta.

    4
    E vós, Tágides minhas, pois criado
    Tendes em mim um novo engenho ardente,
    Se sempre em verso humilde celebrado
    Foi de mim vosso rio alegremente,
    Dai-me agora um som alto e sublimado,
    Um estilo grandíloquo e corrente,
    Porque de vossas águas, Febo ordene
    Que não tenham inveja às de Hipoerene.

    5
    Dai-me uma fúria grande e sonorosa,
    E não de agreste avena ou frauta ruda,
    Mas de tuba canora e belicosa,
    Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
    Dai-me igual canto aos feitos da famosa
    Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
    Que se espalhe e se cante no universo,
    Se tão sublime preço cabe em verso.

    6
    E vós, ó bem nascida segurança
    Da Lusitana antígua liberdade,
    E não menos certíssima esperança
    De aumento da pequena Cristandade;
    Vós, ó novo temor da Maura lança,
    Maravilha fatal da nossa idade,
    Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
    Para do mundo a Deus dar parte grande;

    7
    Vós, tenro e novo ramo florescente
    De uma árvore de Cristo mais amada
    Que nenhuma nascida no Ocidente,
    Cesárea ou Cristianíssima chamada;
    (Vede-o no vosso escudo, que presente
    Vos amostra a vitória já passada,
    Na qual vos deu por armas, e deixou
    As que Ele para si na Cruz tomou)

    8
    Vós, poderoso Rei, cujo alto Império
    O Sol, logo em nascendo, vê primeiro;
    Vê-o também no meio do Hemisfério,
    E quando desce o deixa derradeiro;
    Vós, que esperamos jugo e vitupério
    Do torpe Ismaelita cavaleiro,
    Do Turco oriental, e do Gentio,
    Que inda bebe o licor do santo rio;

    9
    Inclinai por um pouco a majestade,
    Que nesse tenro gesto vos contemplo,
    Que já se mostra qual na inteira idade,
    Quando subindo ireis ao eterno templo;
    Os olhos da real benignidade
    Ponde no chão: vereis um novo exemplo
    De amor dos pátrios feitos valerosos,
    Em versos divulgado numerosos.

    10
    Vereis amor da pátria, não movido
    De prémio vil, mas alto e quase eterno:
    Que não é prémio vil ser conhecido
    Por um pregão do ninho meu paterno.
    Ouvi: vereis o nome engrandecido
    Daqueles de quem sois senhor superno,
    E julgareis qual é mais excelente,
    Se ser do mundo Rei, se de til gente.

    11
    Ouvi, que não vereis com vãs façanhas,
    Fantásticas, fingidas, mentirosas,
    Louvar os vossos, como nas estranhas
    Musas, de engrandecer-se desejosas:
    As verdadeiras vossas são tamanhas,
    Que excedem as sonhadas, fabulosas;
    Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro,
    E Orlando, inda que fora verdadeiro,

    12
    Por estes vos darei um Nuno fero,
    Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço,
    Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero
    A cítara para eles só cobiço.
    Pois pelos doze Pares dar-vos quero
    Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço;
    Dou-vos também aquele ilustre Gama,
    Que para si de Eneias toma a fama.

    13
    Pois se a troco de Carlos, Rei de França,
    Ou de César, quereis igual memória,
    Vede o primeiro Afonso, cuja lança
    Escura faz qualquer estranha glória;
    E aquele que a seu Reino a segurança
    Deixou com a grande e próspera vitória;
    Outro Joane, invicto cavaleiro,
    O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro.

    14
    Nem deixarão meus versos esquecidos
    Aqueles que nos Reinos lá da Aurora
    Fizeram, só por armas tão subidos,
    Vossa bandeira sempre vencedora:
    Um Pacheco fortíssimo, e os temidos
    Almeidas, por quem sempre o Tejo chora;
    Albuquerque terríbil, Castro forte,
    E outros em quem poder não teve a morte.

    15
    E enquanto eu estes canto, e a vós não posso,
    Sublime Rei, que não me atrevo a tanto,
    Tomai as rédeas vós do Reino vosso:
    Dareis matéria a nunca ouvido canto.
    Comecem a sentir o peso grosso
    (Que pelo mundo todo faça espanto)
    De exércitos e feitos singulares,
    De África as terras, e do Oriente os marços,

    16
    Em vós os olhos tem o Mouro frio,
    Em quem vê seu exício afigurado;
    Só com vos ver o bárbaro Gentio
    Mostra o pescoço ao jugo já inclinado;
    Tethys todo o cerúleo senhorio
    Tem para vós por dote aparelhado;
    Que afeiçoada ao gesto belo e tenro,
    Deseja de comprar-vos para genro.

    17
    Em vós se vêm da olímpica morada
    Dos dois avós as almas cá famosas,
    Uma na paz angélica dourada,
    Outra pelas batalhas sanguinosas;
    Em vós esperam ver-se renovada
    Sua memória e obras valerosas;
    E lá vos tem lugar, no fim da idade,
    No templo da suprema Eternidade.

    18
    Mas enquanto este tempo passa lento
    De regerdes os povos, que o desejam,
    Dai vós favor ao novo atrevimento,
    Para que estes meus versos vossos sejam;
    E vereis ir cortando o salso argento
    Os vossos Argonautas, por que vejam
    Que são vistos de vós no mar irado,
    E costumai-vos já a ser invocado.

    19
    Já no largo Oceano navegavam,
    As inquietas ondas apartando;
    Os ventos brandamente respiravam,
    Das naus as velas côncavas inchando;
    Da branca escuma os mares se mostravam
    Cobertos, onde as proas vão cortando
    As marítimas águas consagradas,
    Que do gado de Próteo são cortadas

    20
    Quando os Deuses no Olimpo luminoso,
    Onde o governo está da humana gente,
    Se ajuntam em concílio glorioso
    Sobre as cousas futuras do Oriente.
    Pisando o cristalino Céu formoso,
    Vêm pela Via-Láctea juntamente,
    Convocados da parte do Tonante,
    Pelo neto gentil do velho Atlante.

    21
    Deixam dos sete Céus o regimento,
    Que do poder mais alto lhe foi dado,
    Alto poder, que só co'o pensamento
    Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado.
    Ali se acharam juntos num momento
    Os que habitam o Arcturo congelado,
    E os que o Austro tem, e as partes onde
    A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde.

    22
    Estava o Padre ali sublime e dino,
    Que vibra os feros raios de Vulcano,
    Num assento de estrelas cristalino,
    Com gesto alto, severo e soberano.
    Do rosto respirava um ar divino,
    Que divino tornara um corpo humano;
    Com uma coroa e ceptro rutilante,
    De outra pedra mais clara que diamante.

    23
    Em luzentes assentos, marchetados
    De ouro e de perlas, mais abaixo estavam
    Os outros Deuses todos assentados,
    Como a razão e a ordem concertavam:
    Precedem os antíguos mais honrados;
    Mais abaixo os menores se assentavam;
    Quando Júpiter alto, assim dizendo,
    C'um tom de voz começa, grave e horrendo:

    24
    "Eternos moradores do luzente
    Estelífero pólo, e claro assento,
    Se do grande valor da forte gente
    De Luso não perdeis o pensamento,
    Deveis de ter sabido claramente,
    Como é dos fados grandes certo intento,
    Que por ela se esqueçam os humanos
    De Assírios, Persas, Gregos e Romanos.

    25
    "Já lhe foi (bem o vistes) concedido
    C'um poder tão singelo e tão pequeno,
    Tomar ao Mouro forte e guarnecido
    Toda a terra, que rega o Tejo ameno:
    Pois contra o Castelhano tão temido,
    Sempre alcançou favor do Céu sereno.
    Assim que sempre, enfim, com fama e glória,
    Teve os troféus pendentes da vitória.

    26
    "Deixo, Deuses, atrás a fama antiga,
    Que coa gente de Rómulo alcançaram,
    Quando com Viriato, na inimiga
    Guerra romana tanto se afamaram;
    Também deixo a memória, que os obriga
    A grande nome, quando alevantaram
    Um por seu capitão, que peregrino
    Fingiu na cerva espírito divino.

    27
    "Agora vedes bem que, cometendo
    O duvidoso mar num lenho leve,
    Por vias nunca usadas, não temendo
    De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve:
    Que havendo tanto já que as partes vendo
    Onde o dia é comprido e onde breve,
    Inclinam seu propósito e porfia
    A ver os berços onde nasce o dia.

    28
    "Prometido lhe está do Fado eterno,
    Cuja alta Lei não pode ser quebrada,
    Que tenham longos tempos o governo
    Do mar, que vê do Sol a roxa entrada.
    Nas águas têm passado o duro inverno;
    A gente vem perdida e trabalhada;
    Já parece bem feito que lhe seja
    Mostrada a nova terra, que deseja.

    29
    "E porque, como vistes, têm passados
    Na viagem tão ásperos perigos,
    Tantos climas e céus experimentados,
    Tanto furor de ventos inimigos,
    Que sejam, determino, agasalhados
    Nesta costa africana, como amigos.
    E tendo guarnecida a lassa frota,
    Tornarão a seguir sua longa rota."

    30
    Estas palavras Júpiter dizia,
    Quando os Deuses por ordem respondendo,
    Na sentença um do outro diferia,
    Razões diversas dando e recebendo.
    O padre Baco ali não consentia
    No que Júpiter disse, conhecendo
    Que esquecerão seus feitos no Oriente,
    Se lá passar a Lusitana gente.

    31
    Ouvido tinha aos Fados que viria
    Uma gente fortíssima de Espanha
    Pelo mar alto, a qual sujeitaria
    Da índia tudo quanto Dóris banha,
    E com novas vitórias venceria
    A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha.
    Altamente lhe dói perder a glória,
    De que Nisa celebra inda a memória.

    32
    Vê que já teve o Indo sojugado,
    E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso,
    Por vencedor da Índia ser cantado
    De quantos bebem a água de Parnaso.
    Teme agora que seja sepultado
    Seu tão célebre nome em negro vaso
    D'água do esquecimento, se lá chegam
    Os fortes Portugueses, que navegam.

    33
    Sustentava contra ele Vénus bela,
    Afeiçoada à gente Lusitana,
    Por quantas qualidades via nela
    Da antiga tão amada sua Romana;
    Nos fortes corações, na grande estrela,
    Que mostraram na terra Tingitana,
    E na língua, na qual quando imagina,
    Com pouca corrupção crê que é a Latina.

    34
    Estas causas moviam Citereia,
    E mais, porque das Parcas claro entende
    Que há de ser celebrada a clara Deia,
    Onde a gente belígera se estende.
    Assim que, um pela infâmia, que arreceia,
    E o outro pelas honras, que pretende,
    Debatem, e na porfia permanecem;
    A qualquer seus amigos favorecem.

    35
    Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura
    De silvestre arvoredo abastecida,
    Rompendo os ramos vão da mata escura,
    Com ímpeto e braveza desmedida;
    Brama toda a montanha, o som murmura,
    Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida:
    Tal andava o tumulto levantado,
    Entre os Deuses, no Olimpo consagrado.

    36
    Mas Marte, que da Deusa sustentava
    Entre todos as partes em porfia,
    Ou porque o amor antigo o obrigava,
    Ou porque a gente forte o merecia,
    De entre os Deuses em pé se levantava:
    Merencório no gesto parecia;
    O forte escudo ao colo pendurado
    Deitando para trás, medonho e irado,

    37
    A viseira do elmo de diamante
    Alevantando um pouco, mui seguro,
    Por dar seu parecer, se pôs diante
    De Júpiter, armado, forte e duro:
    E dando uma pancada penetrante,
    Com o conto do bastão no sólio puro,
    O Céu tremeu, e Apolo, de torvado,
    Um pouco a luz perdeu, como enfiado.

    38
    E disse assim: "Ó Padre, a cujo império
    Tudo aquilo obedece, que criaste,
    Se esta gente, que busca outro hemisfério,
    Cuja valia, e obras tanto amaste,
    Não queres que padeçam vitupério,
    Como há já tanto tempo que ordenaste,
    Não onças mais, pois és juiz direito,
    Razões de quem parece que é suspeito.

    39
    "Que, se aqui a razão se não mostrasse
    Vencida do temor demasiado,
    Bem fora que aqui Baco os sustentasse,
    Pois que de Luso vem, seu tão privado;
    Mas esta tenção sua agora passe,
    Porque enfim vem de estâmago danado;
    Que nunca tirará alheia inveja
    O bem, que outrem merece, e o Céu deseja.

    40
    "E tu, Padre de grande fortaleza,
    Da determinação, que tens tomada,
    Não tornes por detrás, pois é fraqueza
    Desistir-se da cousa começada.
    Mercúrio, pois excede em ligeireza
    Ao vento leve, e à seta bem talhada,
    Lhe vá mostrar a terra, onde se informe
    Da índia, e onde a gente se reforme."

    41
    Como isto disse, o Padre poderoso,
    A cabeça inclinando, consentiu
    No que disse Mavorte valeroso,
    E néctar sobre todos esparziu.
    Pelo caminho Lácteo glorioso
    Logo cada um dos Deuses se partiu,
    Fazendo seus reais acatamentos,
    Para os determinados aposentos.

    42
    Enquanto isto se passa na formosa
    Casa etérea do Olimpo onipotente,
    Cortava o mar a gente belicosa,
    Já lá da banda do Austro e do Oriente,
    Entre a costa Etiópica e a famosa
    Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente
    Queimava então os Deuses, que Tifeu
    Com o temor grande em peixes converteu.

    43
    Tão brandamente os ventos os levavam,
    Como quem o céu tinha por amigo:
    Sereno o ar, e os tempos se mostravam
    Sem nuvens, sem receio de perigo.
    O promontório Prasso já passavam,
    Na costa de Etiópia, nome antigo,
    Quando o mar descobrindo lhe mostrava
    Novas ilhas, que em torno cerca e lava.

    44
    Vasco da Gama, o forte capitão,
    Que a tamanhas empresas se oferece,
    De soberbo e de altivo coração,
    A quem Fortuna sempre favorece,
    Para se aqui deter não vê razão,
    Que inabitada a terra lhe parece:
    Por diante passar determinava;
    Mas não lhe sucedeu como cuidava.

    45
    Eis aparecem logo em companhia
    Uns pequenos batéis, que vêm daquela
    Que mais chegada à terra parecia,
    Cortando o longo mar com larga vela.
    A gente se alvoroça, e de alegria
    Não sabe mais que olhar a causa dela.
    Que gente será esta, em si diziam,
    Que costumes, que Lei, que Rei teriam?

    46
    As embarcações eram, na maneira,
    Mui veloces, estreitas e compridas:
    As velas, com que, vêm, eram de esteira
    Dumas folhas de palma, bem tecidas;
    A gente da cor era verdadeira,
    Que Faeton, nas terras acendidas,
    Ao mundo deu, de ousado, o não prudente:
    O Pado o sabe, o Lampetusa o sente.

    47
    De panos de algodão vinham vestidos,
    De várias cores, brancos e listrados:
    Uns trazem derredor de si cingidos,
    Outros em modo airoso sobraçados:
    Da cinta para cima vêm despidos;
    Por armas têm adargas o terçados;
    Com toucas na cabeça; e navegando,
    Anafis sonoros vão tocando.

    48
    Co'os panos e co'os braços acenavam
    As gentes Lusitanas, que esperassem;
    Mas já as proas ligeiras se inclinavam
    Para que junto às ilhas amainassem.
    A gente e marinheiros trabalhavam,
    Como se aqui os trabalhos se acabassem;
    Tomam velas; amaina-se a verga alta;
    Da âncora, o mar ferido, em cima salta.

    49
    Não eram ancorados, quando a gente
    Estranha pelas cordas já subia.
    No gesto ledos vêm, e humanamente
    O Capitão sublime os recebia:
    As mesas manda pôr em continente;
    Do licor que Lieo prantado havia
    Enchem vasos de vidro, e do que deitam,
    Os de Faeton queimados nada enjeitam.

    50
    Comendo alegremente perguntavam,
    Pela Arábica língua, donde vinham,
    Quem eram, de que terra, que buscavam,
    Ou que partes do mar corrido tinham?
    Os fortes Lusitanos lhe tornavam
    As discretas respostas, que convinham:
    "Os Portugueses somos do Ocidente,
    Imos buscando as terras do Oriente.

    51
    "Do mar temos corrido e navegado
    Toda a parte do Antártico e Calisto,
    Toda a costa Africana rodeado,
    Diversos céus e terras temos visto;
    Dum Rei potente somos, tão amado,
    Tão querido de todos, e benquisto,
    Que não no largo mar, com leda fronte,
    Mas no lago entraremos de Aqueronte.

    52
    "E por mandado seu, buscando andamos
    A terra Oriental que o Indo rega;
    Por ele, o mar remoto navegamos,
    Que só dos feios focas se navega.
    Mas já razão parece que saibamos,
    Se entre vós a verdade não se nega,
    Quem sois, que terra é esta que habitais,
    Ou se tendes da Índia alguns sinais?"

    53
    "Somos, um dos das ilhas lhe tornou,
    Estrangeiros na terra, Lei e nação;
    Que os próprios são aqueles, que criou
    A natura sem Lei e sem razão.
    Nós temos a Lei certa, que ensinou
    O claro descendente de Abraão
    Que agora tem do mundo o senhorio,
    A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio.
    Informações. A Ilha de Moçambique.

    54
    "Esta ilha pequena, que habitamos,
    em toda esta terra certa escala
    De todos os que as ondas navegamos
    De Quíloa, de Mombaça e de Sofala;
    E, por ser necessária, procuramos,
    Como próprios da terra, de habitá-la;
    E por que tudo enfim vos notifique,
    Chama-se a pequena ilha Moçambique.

    55
    "E já que de tão longe navegais,
    Buscando o Indo Idaspe e terra ardente,
    Piloto aqui tereis, por quem sejais
    Guiados pelas ondas sabiamente.
    Também será bem feito que tenhais
    Da terra algum refresco, e que o Regente
    Que esta terra governa, que vos veja,
    E do mais necessário vos proveja."

    56
    Isto dizendo, o Mouro se tornou
    A seus batéis com toda a companhia;
    Do Capitão e gente se apartou
    Com mostras de devida cortesia.
    Nisto Febo nas águas encerrou,
    Co'o carro de cristal, o claro dia,
    Dando cargo à irmã, que alumiasse
    O largo mundo, enquanto repousasse.

    57
    A noite se passou na lassa frota
    Com estranha alegria, e não cuidada,
    Por acharem da terra tão remota
    Nova de tanto tempo desejada.
    Qualquer então consigo cuida e nota
    Na gente e na maneira desusada,
    E como os que na errada Seita creram,
    Tanto por todo o mundo se estenderam,

    58
    Da Lua os claros raios rutilavam
    Pelas argênteas ondas Neptuninas,
    As estrelas os Céus acompanhavam,
    Qual campo revestido de boninas;
    Os furiosos ventos repousavam
    Pelas covas escuras peregrinas;
    Porém da armada a gente vigiava,
    Como por longo tempo costumava.

    59
    Mas assim como a Aurora marchetada
    Os formosos cabelos espalhou
    No Céu sereno, abrindo a roxa entrada
    Ao claro Hiperiónio, que acordou,
    Começa a embandeirar-se toda a armada,
    E de toldos alegres se adornou,
    Por receber com festas e alegria
    O Regedor das ilhas, que partia.

    60
    Partia alegremente navegando,
    A ver as naus ligeiras Lusitanas,
    Com refresco da terra, em si cuidando
    Que são aquelas gentes inumanas,
    Que, os aposentos cáspios habitando,
    A conquistar as terras Asianas
    Vieram; e por ordem do Destino,
    O Império tomaram a Constantino.

    61
    Recebe o Capitão alegremente
    O Mouro, e toda a sua companhia;
    Dá-lhe de ricas peças um presente,
    Que só para este efeito já trazia;
    Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente
    Não usado licor, que dá alegria.
    Tudo o Mouro contente bem recebe;
    E muito mais contente come e bebe.

    62
    Está a gente marítima de Luso
    Subida pela enxárcia, de admirada,
    Notando o estrangeiro modo e uso,
    E a linguagem tão bárbara e enleada.
    Também o Mouro astuto está confuso,
    Olhando a cor, o trajo, e a forte armada;
    E perguntando tudo, lhe dizia
    "Se por ventura vinham de Turquia?"

    63
    E mais lhe diz também, que ver deseja
    Os livros de sua Lei, preceito eu fé,
    Para ver se conforme à sua seja,
    Ou se são dos de Cristo, como Crê.
    E porque tudo note e tudo veja,
    Ao Capitão pedia que lhe dê
    Mostra das fortes armas de que usavam,
    Quando co'os inimigos pelejavam.

    64
    Responde o valeroso Capitão
    Por um, que a língua escura bem sabia:
    "Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação
    De mim, da Lei, das armas que trazia.
    Nem sou da terra, nem da geração
    Das gentes enojosas de Turquia:
    Mas sou da forte Europa belicosa,
    Busco as terras da índia tão famosa.

    65
    A lei tenho daquele, a cujo império
    Obedece o visíbil e ínvisíbil
    Aquele que criou todo o Hemisfério,
    Tudo o que sente, o todo o insensíbil;
    Que padeceu desonra e vitupério,
    Sofrendo morte injusta e insofríbil,
    E que do Céu à Terra, enfim desceu,
    Por subir os mortais da Terra ao Céu.

    66
    Deste Deus-Homem, alto e infinito,
    Os livros, que tu pedes não trazia,
    Que bem posso escusar trazer escrito
    Em papel o que na alma andar devia.
    Se as armas queres ver, como tens dito,
    Cumprido esse desejo te seria;
    Como amigo as verás; porque eu me obrigo,
    Que nunca as queiras ver como inimigo."

    67
    Isto dizendo, manda os diligentes
    Ministros amostrar as armaduras:
    Vêm arneses, e peitos reluzentes,
    Malhas finas, e lâminas seguras,
    Escudos de pinturas diferentes,
    Pelouros, espingardas de aço puras,
    Arcos, e sagitíferas aljavas,
    Partazanas agudas, chuças bravas:

    68
    As bombas vêm de fogo, e juntamente
    As panelas sulfúreas, tão danosas;
    Porém aos de Vulcano não consente
    Que dêem fogo às bombardas temerosas;
    Porque o generoso ânimo e valente,
    Entre gentes tão poucas e medrosas,
    Não mostra quanto pode, e com razão,
    Que é fraqueza entre ovelhas ser leão.

    69
    Porém disto, que o Mouro aqui notou,
    E de tudo o que viu com olho atento
    Um ódio certo na alma lhe ficou,
    Uma vontade má de pensamento.
    Nas mostras e no gesto o não mostrou;
    Mas com risonho e ledo fingimento
    Tratá-los brandamente determina,
    Até que mostrar possa o que imagina.

    70
    Pilotos lhe pedia o Capitão,
    Por quem pudesse à Índia ser levado;
    Diz-lhe que o largo prémio levarão
    Do trabalho que nisso for tomado.
    Promete-lhos o Mouro, com tenção
    De peito venenoso, e tão danado,
    Que a morte, se pudesse, neste dia,
    Em lugar de pilotos lhe daria.

    71
    Tamanho o ódio foi, e a má vontade,
    Que aos estrangeiros súbito tomou,
    Sabendo ser sequazes da verdade,
    Que o Filho de David nos ensinou.
    ó segredos daquela Eternidade,
    A quem juízo algum nunca alcançou!
    Que nunca falte um pérfido inimigo
    Aqueles de quem foste tanto amigo!

    72
    Partiu-se Disto enfim coa companhia,
    Das naus o falso Mouro despedido,
    Com enganosa e grande cortesia,
    Com gesto ledo a todos, e fingido.
    Cortaram os batéis a curta via
    Das águas de Neptuno, e recebido
    Na terra do obsequente ajuntamento
    Se foi o Mouro ao cógnito aposento.

    73
    Do claro assento etóreo o grão Tebano,
    Que da paternal coxa foi nascido,
    Olhando o ajuntamento Lusitano
    Ao Mouro ser molesto e avorrecido,
    No pensamento cuida um falso engano,
    Com que seja de todo destruído.
    E enquanto isto só na alma imaginava,
    Consigo estas palavras praticava:

    74
    "Está do fado já determinado,
    Que tamanhas vitórias, tão famosas,
    Hajam os Portugueses alcançado
    Das Indianas gentes belicosas.
    E eu só, filho do Padre sublimado,
    Com tantas qualidades generosas,
    Hei de sofrer que o fado favoreça
    Outrem, por quem meu nome se escureça?

    75
    "Já quiseram os Deuses que tivesse
    O filho de Filipo nesta parte
    Tanto poder, que tudo submetesse
    Debaixo de seu jugo o fero Marte.
    Mas há-se de sofrer que o fado desse
    A tão poucos tamanho esforço e arte,
    Que eu co'o grão Macedónio, e o Romano,
    Demos lugar ao nome Lusitano?

    76
    "Não será assim, porque antes que chegado
    Seja este Capitão, astutamente
    Lhe será tanto engano fabricados
    Que nunca veja as partes do Oriente.
    Eu descerei à Terra, e o indignado
    Peito revolverei da Maura gente;
    Porque sempre por via irá direita
    Quem do oportuno tempo se aproveita."

    77
    Isto dizendo, irado e quase insano,
    Sobre a terra africana descendeu,
    Onde vestindo a forma e gesto humano,
    Para o Prasso sabido se moveu.
    E por melhor tecer o astuto engano,
    No gesto natural se converteu
    Dum Mouro, em Moçambique conhecido
    Velho, sábio, e co'o Xeque mui valido.

    78
    E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas
    A sua falsidade acomodadas,
    Lhe diz como eram gentes roubadoras,
    Estas que ora de novo são chegadas;
    Que das nações na costa moradoras
    Correndo a fama veio que roubadas
    Foram por estes homens que passavam,
    Que com pactos de paz sempre ancoravam.

    79
    E sabe mais, lhe diz, como entendido
    Tenho destes cristãos sanguinolentos,
    Que quase todo o mar têm destruído
    Com roubos, com incêndios violentos;
    E trazem já de longe engano urdido
    Contra nós; e que todos seus intentos
    São para nos matarem e roubarem,
    E mulheres e filhos cativarem.

    80
    "E também sei que tem determinado
    De vir por água a terra muito cedo
    O Capitão dos seus acompanhado,
    Que da tensão danada nasce o medo.
    Tu deves de ir também co'os teus armado
    Esperá-lo em cilada, oculto e quedo;
    Porque, saindo a gente descuidada,
    Cairão facilmente na cilada.

    81
    "E se inda não ficarem deste jeito
    Destruídos, ou mortos totalmente
    Eu tenho imaginado no conceito
    Outra manha e ardil, que te contente:
    Manda-lhe dar piloto, que de jeito
    Seja astuto no engano, e tão prudente,
    Que os leve aonde sejam destruídos,
    Desbaratados, mortos, ou perdidos."

    82
    Tanto que estas palavras acabou,
    O Mouro, nos tais casos sábio e velho,
    Os braços pelo colo lhe lançou,
    Agradecendo muito o tal conselho;
    E logo nesse instante concertou
    Para a guerra o belígero aparelho,
    Para que ao Português se lhe tornasse
    Em roxo sangue a água, que buscasse.

    83
    E busca mais, para o cuidado engano,
    Mouro, que por piloto à nau lhe mande,
    Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano,
    De quem fiar-se possa um feito grande.
    Diz-lhe que acompanhando o Lusitano,
    Por tais costas e mares com ele ande,
    Que, se daqui escapar, que lá diante
    Vá cair onde nunca se alevante.

    84
    Já o raio Apolíneo visitava
    Os montes Nabatêos acendido,
    Quando o Gama, colos seus determinava
    De vir por água a terra apercebido.
    A gente nos batéis se concertava,
    Como se fosse o engano já sabido:
    Mas pode suspeitar-se facilmente,
    Que o coração pressago nunca mente.

    85
    E mais também mandado tinha a terra,
    De antes, pelo piloto necessário,
    E foi-lhe respondido em som de guerra,
    Caso do que cuidava mui contrário;
    Por isto, e porque sabe quanto erra
    Quem se crê de seu pérfido adversário,
    Apercebido vai como podia,
    Em três batéis somente que trazia.

    86
    Mas os Mouros que andavam pela praia,
    Por lhe defender a água desejada,
    Um de escudo embraçado e de azagaia,
    Outro de arco encurvado e seta ervada,
    Esperam que a guerreira gente saia,
    Outros muitos já postos em cilada.
    E, porque o caso leve se lhe faça,
    Põem uns poucos diante por negaça,

    87
    Andam pela ribeira alva, arenosa,
    Os belicosos Mouros acenando
    Com a adarga e co'a hástia perigosa,
    Os fortes Portugueses incitando.
    Não sofre muito a gente generosa
    Andar-lhe os cães os dentes amostrando.
    Qualquer em terra salta tão ligeiro,
    Que nenhum dizer pode que é primeiro.

    88
    Qual no corro sanguino o ledo amante,
    Vendo a formosa dama desejada,
    O touro busca, e pondo-se diante,
    Salta, corre, sibila, acena, e brada,
    Mas o animal atroce, nesse instante,
    Com a fronte cornígera inclinada,
    Bramando duro corre, e os olhos cerra,
    Derriba, fere e mata, e põe por terra:

    89
    Eis nos batéis o fogo se levanta
    Na furiosa e dura artilharia,
    A plúmbea péla mata, o brado espanta,
    Ferido o ar retumba e assovia:
    O coração dos Mouros se quebranta,
    O temor grande o sangue lhe resfria.
    Já foge o escondido de medroso,
    E morre o descoberto aventuroso.

    90
    Não se contenta a gente Portuguesa,
    Mas seguindo a vitória estrui e mata;
    A povoação, sem muro e sem defesa,
    Esbombardeia, acende e desbarata.
    Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa,
    Que bem cuidou comprá-la mais barata;
    Já blasfema da guerra, e maldizia,
    O velho inerte, e a mãe que o filho cria.

    91
    Fugindo, a seta o Mouro vai tirando
    Sem força, de covarde e de apressado,
    A pedra, o pau, e o canto arremessando;
    Dá-lhe armas o furor desatinado.
    Já a ilha e todo o mais desemparando,
    A terra firme foge amedrontado;
    Passa e corta do mar o estreito braço,
    Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço

    92
    Uns vão nas almadias carregadas,
    Um corta o mar a nado diligente,
    Quem se afoga nas ondas encurvadas,
    Quem bebe o mar, e o deita juntamente.
    Arrombam as miúdas bombardadas
    Os pangaios subtis da bruta gente:
    Desta arte o Português enfim castiga
    A vil malícia, pérfida, inimiga.

    93
    Tornam vitoriosos para a armada,
    Co'o despojo da guerra e rica presa,
    E vão a seu prazer fazer aguada,
    Sem achar resistência, nem defesa.
    Ficava a Maura gente magoada,
    No ódio antigo mais que nunca acesa;
    E vendo sem vingança tanto dano,
    Somente estriba no segundo engano.

    94
    Pazes cometer manda arrependido
    O Regedor daquela iníqua terra,
    Sem ser dos Lusitanos entendido,
    Que em figura de paz lhe manda guerra;
    Porque o piloto falso prometido,
    Que toda a má tenção no peito encerra,
    Para os guiar à morte lhe mandava,
    Como em sinal das pazes que tratava.

    95
    O Capitão, que já lhe então convinha
    Tornar a seu caminho acostumado,
    Que tempo concertado e ventos tinha
    Para ir buscar o Indo desejado,
    Recebendo o piloto, que lhe vinha,
    Foi dele alegremente agasalhado;
    E respondendo ao mensageiro a tento,
    As velas manda dar ao largo vento.

    96
    Desta arte despedida a forte armada,
    As ondas de Anfitrite dividia,
    Das filhas de Nereu acompanhada,
    Fiel, alegre e doce companhia.
    O Capitão, que não caía em nada
    Do enganoso ardil, que o Mouro urdia,
    Dele mui largamente se informava
    Da Índia toda, e costas que passava.

    97
    Mas o Mouro, instruído nos enganos
    Que o malévolo Baco lhe ensinara,
    De morte ou cativeiro novos danos,
    Antes que à Índia chegue, lhe prepara:
    Dando razões dos portos Indianos,
    Também tudo o que pede lhe declara,
    Que, havendo por verdade o que dizia,
    De nada a forte gente se temia.

    98
    E diz-lhe mais, com o falso pensamento
    Com que Sinon os Frígios enganou:
    Que perto está uma ilha, cujo assento
    Povo antigo cristão sempre habitou.
    O Capitão, que a tudo estava a tento,
    Tanto com estas novas se alegrou,
    Que com dádivas grandes lhe rogava,
    Que o leve à terra onde esta gente estava.

    99
    O mesmo o falso Mouro determina,
    Que o seguro Cristão lhe manda e pede;
    Que a ilha é possuída da malina
    Gente que segue o torpe Mahamede.
    Aqui o engano e morte lhe imagina,
    Porque em poder e forças muito excede
    A Moçambique esta ilha, que se chama
    Quíloa, mui conhecida pela fama.

    100
    Para lá se inclinava a leda frota;
    Mas a Deusa em Citere celebrada,
    Vendo como deixava a certa rota
    Por ir buscar a morte não cuidada,
    Não consente que em terra tão remota
    Se perca a gente dela tanto amada.
    E com ventos contrários a desvia
    Donde o piloto falso a leva e guia.

    101
    Mas o malvado Mouro, não podendo
    Tal determinação levar avante,
    Outra maldade iníqua cometendo,
    Ainda em seu propósito constante,
    Lhe diz que, pois as águas discorrendo
    Os levaram por força por diante,
    Que outra ilha tem perto, cuja gente
    Eram Cristãos com Mouros juntamente.

    102
    Também nestas palavras lhe mentia,
    Como por regimento enfim levava,
    Que aqui gente de Cristo não havia,
    Mas a que a Mahamede celebrava.
    O Capitão, que em tudo o Mouro cria,
    Virando as velas, a ilha demandava;
    Mas, não querendo a Deusa guardadora,
    Não entra pela barra, e surge fora.

    103
    Estava a ilha à terra tão chegada,
    Que um estreito pequeno a dividia;
    Uma cidade nela situada,
    Que na fronte do mar aparecia,
    De nobres edifícios fabricada,
    Como por fora ao longe descobria,
    Regida por um Rei de antiga idade:
    Mombaça é o nome da ilha e da cidade.

    104
    E sendo a ela o Capitão chegado,
    Estranhamente ledo, porque espera
    De poder ver o povo batizado,
    Como o falso piloto lhe dissera,
    Eis vêm batéis da terra com recado
    Do Rei, que já sabia a gente que era:
    Que Baco muito de antes o avisara,
    Na forma doutro Mouro, que tomara.

    105
    O recado que trazem é de amigos,
    Mas debaixo o veneno vem coberto;
    Que os pensamentos eram de inimigos,
    Segundo foi o engano descoberto.
    Ó grandes e gravíssimos perigos!
    Ó caminho de vida nunca certo:
    Que aonde a gente põe sua esperança,
    Tenha a vida tão pouca segurança!

    106
    No mar tanta tormenta, e tanto dano,
    Tantas vezes a morte apercebida!
    Na terra tanta guerra, tanto engano,
    Tanta necessidade avorrecida!
    Onde pode acolher-se um fraco humano,
    Onde terá segura a curta vida,
    Que não se arme, e se indigne o Céu sereno
    Contra um bicho da terra tão pequeno?

    Canto Segundo

    1
    Já neste tempo o lúcido Planeta,
    Que as horas vai do dia distinguindo,
    Chegava à desejada e lenta meta,
    A luz celeste às gentes encobrindo,
    E da casa marítima secreta
    Lhe estava o Deus Noturno a porta abrindo,
    Quando as infidas gentes se chegaram
    As naus, que pouco havia que ancoraram.

    2
    Dentre eles um, que traz encomendado
    O mortífero engano, assim dizia:
    "Capitão valeroso, que cortado
    Tens de Neptuno o reino e salsa via,
    O Rei que manda esta ilha, alvoroçado
    Da vinda tua, tem tanta alegria,
    Que não deseja mais que agasalhar-te,
    Ver-te, e do necessário reformar-te.

    3
    "E porque está em extremo desejoso
    De te ver, como cousa nomeada,
    Te roga que, de nada receoso,
    Entres a barra, tu com toda armada:
    E porque do caminho trabalhoso
    Trarás a gente débil e cansada,
    Diz que na terra podes reformá-la,
    Que a natureza obriga a desejá-la.

    4
    "E se buscando vás mercadoria
    Que produze o aurífero Levante,
    Canela, cravo, ardente especiaria,
    Ou droga salutífera e prestante;
    Ou se queres luzente pedraria,
    O rubi fino, o rígido diamante,
    Daqui levarás tudo tão sobejo
    Com que faças o fim a teu desejo."

    5
    Ao mensageiro o Capitão responde
    As palavras do Rei agradecendo:
    E diz que, porque o Sol no mar se esconde,
    Não entra para dentro, obedecendo;
    Porém que, como a luz mostrar por onde
    Vá sem perigo a frota, não temendo,
    Cumprirá sem receio seu mandado,
    Que a mais por tal senhor está obrigado.

    6
    Pergunta-lhe depois, se estão na terra
    Cristãos, como o piloto lhe dizia;
    O mensageiro astuto, que não erra,
    Lhe diz, que a mais da gente em Cristo cria.
    Desta sorte do peito lhe desterra
    Toda a suspeita e cauta fantasia;
    Por onde o Capitão seguramente
    Se fia da infiel e falsa gente.

    7
    E de alguns que trazia condenados
    Por culpas e por feitos vergonhosos,
    Por que pudessem ser aventurados
    Em casos desta sorte duvidosos,
    Manda dous mais sagazes, ensaiados,
    Por que notem dos Mouros enganosos
    A cidade e poder, e por que vejam
    Os Cristãos, que só tanto ver desejam.

    8
    E por estes ao Rei presentes manda,
    Por que a boa vontade, que mostrava,
    Tenha firme, segura, limpa e branda;
    A qual bem ao contrário em tudo estava.
    Já a companhia pérfida e nefanda
    Das naus se despedia e o mar cortava:
    Foram com gestos ledos e fingidos,
    Os dous da frota em terra recebidos.

    9
    E depois que ao Rei apresentaram,
    Co'o recado, os presentes que traziam,
    A cidade correram, e notaram
    Muito menos daquilo que queriam;
    Que os Mouros cautelosos se guardaras
    De lhes mostrarem tudo o que pediam:
    Que onde reina a malícia, está o receio,
    Que a faz imaginar no peito alheio.

    10
    Mas aquele que sempre a mocidade
    Tem no rosto perpétua, e foi nascido
    De duas mães, que urdia a falsidade
    Por ver o navegante destruído,
    Estava numa casa da cidade,
    Com rosto humano e hábito fingido,
    Mostrando-se Cristão, e fabricava
    Um altar sumptuoso, que adorava.

    11
    Ali tinha em retrato afigurada
    Do alto e Santo Espírito a pintura:
    A cândida pombinha debuxada
    Sobre a única Fénix, Virgem pura;
    A companhia santa está pintada
    Dos doze, tão torvados na figura,
    Como os que, só das línguas que caíram,
    De fogo, várias línguas referiram.

    12
    Aqui os dous companheiros conduzidos
    Onde com este engano Baco estava,
    Põem em terra os giolhos, e os sentidos
    Naquele Deus que o mundo governava.
    Os cheiros excelentes, produzidos
    Na Pancaia odorífera, queimava
    O Tioneu, e assim por derradeiro
    O falso Deus adora o verdadeiro.

    13
    Aqui foram de noite agasalhados,
    Com todo o bom e honesto tratamento,
    Os dous Cristãos, não vendo que enganados
    Os tinha o falso e santo fingimento.
    Mas assim como os raios espalhados
    Do Sol foram no mundo, e num momento
    Apareceu no rúbido horizonte
    Da moça de Titão a roxa fronte,

    14
    Tornam da terra os Mouros co'o recado
    Do Rei, para que entrassem, e consigo
    Os dous que o Capitão tinha mandado,
    A quem se o Rei mostrou sincero amigo;
    E sendo o Português certificado
    De não haver receio de perigo,
    E que gente de Cristo em terra havia,
    Dentro no salso rio entrar queria.

    15
    Dizem-lhe os que mandou, que em terra
    Sacras aras e sacerdote sinto; viram
    Que ali se agasalharam o dormiram,
    Enquanto a luz cobriu o escuro manto;
    E que no Rei e gentes não sentiram
    Senão contentamento e gosto tanto,
    Que não podia certo haver suspeita
    Numa mostra tão clara e tão perfeita.

    16
    Com isto o nobre Gama recebia
    Alegremente os Mouros que subiam;
    Que levemente um ânimo se fia
    De mostras, que tão certas pareciam.
    A nau da gente pérfida se enchia,
    Deixando a bordo os barcos que traziam.
    Alegres vinham todos, porque crêm
    Que a presa desejada certa têm.

    17
    Na terra, cautamente aparelhavam
    Armas e munições que, como vissem
    Que no rio os navios ancoravam,
    Neles ousadamente se subissem;
    E, nesta treição determinavam
    Que os de Luso de todo destruíssem,
    E que incautos pagassem deste jeito
    O mal que em Moçambique tinham feito.

    18
    As âncoras tenaces vão levando
    Com a náutica grita costumada;
    Da proa as velas sós ao vento dando
    Inclinam para a barra abalizada.
    Mas a linda Ericina, que guardando
    Andava sempre a gente assinalada,
    Vendo a cilada grande, e tão secreta,
    Voa do Céu ao mar como uma seta.

    19
    Convoca as alvas filhas de Nereu,
    Com toda a mais cerúlea companhia,
    Que, porque no salgado mar nasceu,
    Das águas o poder lhe obedecia.
    E propondo-lhe a causa a que desceu,
    Com todas juntamente se partia,
    Para estorvar que a armada não chegasse
    Aonde para sempre se acabasse.

    20
    Já na água erguendo vão, com grande pressa,
    Com as argênteas caudas branca escuma;
    Cloto eo'o peito corta e atravessa
    Com mais furor o mar do que costuma.
    Salta Nise, Nerine se arremessa
    Por cima da água crespa, em força suma.
    Abrem caminho as ondas encurvadas
    De temor das Nereidas apressadas.

    21
    Nos ombros de um Tritão, com gesto aceso,
    Vai a linda Dione furiosa;
    Não sente quem a leva o doce peso,
    De soberbo com carga tão formosa.
    Já chegam perto donde o vento teso
    Enche as velas da frota belicosa;
    Repartem-se e rodeiam nesse instante
    As naus ligeiras, que iam por diante.

    22
    Põe-se a Deusa com outras em direito
    Da proa capitaina, e ali fechando
    O caminho da barra, estão de jeito,
    Que em vão assopra o vento, a vela inchando.
    Põem no madeiro duro o brando peito,
    Para detrás a forte nau forçando;
    Outras em derredor levando-a estavam,
    E da barra inimiga a desviavam.

    23
    Quais para a cova as próvidas formigas,
    Levando o peso grande acomodado,
    As forças exercitam, de inimigas
    Do inimigo inverno congelado;
    Ali são seus trabalhos e fadigas,
    Ali mostram vigor nunca esperado:
    Tais andavam as Ninfas estorvando
    A gente Portuguesa o fim nefando.

    24
    Torna para detrás a nau forçada,
    Apesar dos que leva, que gritando
    Mareiam velas; ferve a gente irada,
    O leme a um bordo e a outro atravessando;
    O mestre astuto em vão da popa brada,
    Vendo como diante ameaçando
    Os estava um marítimo penedo,
    Que de quebrar-lhe a nau lhe mete medo.

    25
    A celeuma medonha se alevanta
    No rudo marinheiro que trabalha;
    O grande estrondo a Maura gente espanta,
    Como se vissem hórrida batalha;
    Não sabem a razão de fúria tanta,
    Não sabem nesta pressa quem lhe valha;
    Cuidam que seus enganos são sabidos,
    E que hão de ser por isso aqui punidos.

    26
    Ei-los subitamente se lançavam
    A seus batéis velozes que traziam;
    Outros em cima o mar alevantavam,
    Saltando n'água, a nado se acolhiam;
    De um bordo e doutro súbito saltavam,
    Que o medo os compelia do que viam;
    Que antes querem ao mar aventurar-se
    Que nas mãos inimigas entregar-se.

    27
    Assim como em selvática alagoa
    As rãs, no tempo antigo Lícia gente,
    Se sentem por ventura vir pessoa,
    Estando fora da água incautamente,
    Daqui e dali saltando, o charco soa,
    Por fugir do perigo que se sente,
    E acolhendo-se ao couto que conhecem,
    Sós as cabeças na água lhe aparecem:

    28
    Assim fogem os Mouros; e o piloto,
    Que ao perigo grande as naus guiara,
    Crendo que seu engano estava noto,
    Também foge, saltando na água amara.
    Mas, por não darem no penedo imoto,
    Onde percam a vida doce e cara,
    A âncora solta logo a capitaina,
    Qualquer das outras junto dela amaina.

    29
    Vendo o Gama, atentado, a estranheza
    Dos Mouros, não cuidada, e juntamente
    O piloto fugir-lhe com presteza,
    Entende o que ordenava a bruta gente;
    E vendo, sem contraste e sem braveza
    Dos ventos, ou das águas sem corrente,
    Que a nau passar avante não podia,
    Havendo-o por milagre, assim dizia:

    30
    "Ó caso grande, estranho e não cuidado,
    Ó milagre claríssimo e evidente,
    Ó descoberto engano inopinado,
    Ó pérfida, inimiga e falsa gente!
    Quem poderá do mal aparelhado
    Livrar-se sem perigo sabiamente,
    Se lá de cima a Guarda soberana
    Não acudir à fraca força humana?

    31
    "Bem nos mostra a divina Providência
    Destes portos a pouca segurança;
    Bem claro temos visto na aparência,
    Que era enganada a nossa confiança.
    Mas pois saber humano nem prudência
    Enganos tão fingidos não alcança,
    Ó tu, Guarda Divina, tem cuidado
    De quem sem ti não pode ser guardado!

    32
    "E se te move tanto a piedade
    Desta mísera gente peregrina,
    Que só por tua altíssima bondade,
    Da gente a salvas pérfida e malina,
    Nalgum porto seguro de verdade
    Conduzir-nos já agora determina,
    Ou nos amostra a terra que buscamos,
    Pois só por teu serviço navegamos."

    33
    Ouviu-lhe essas palavras piedosas
    A formosa Dione, e comovida,
    Dentre as Ninfas se vai, que saudosas
    Ficaram desta súbita partida.
    Já penetra as Estrelas luminosas,
    Já na terceira Esfera recebida
    Avante passa, e lá no sexto Céu,
    Para onde estava o Padre, se moveu.

    34
    E como ia afrontada do caminho,
    Tão formosa no gesto se mostrava,
    Que as Estrelas e o Céu e o Ar vizinho,
    E tudo quanto a via namorava.
    Dos olhos, onde faz seu filho o ninho,
    Uns espíritos vivos inspirava,
    Com que os Pólos gelados acendia,
    E tornava do Fogo a esfera fria.

    35
    E por mais namorar o soberano
    Padre, de quem foi sempre amada e eriça,
    Se lhe apresenta assim como ao Troiano,
    Na selva Idea, já se apresentara.
    Se a vira o caçador, que o vulto humano
    Perdeu, vendo Diana na água clara,
    Nunca os famintos galgos o mataram,
    Que primeiro desejos o acabaram.

    36
    Os crespos fios d'ouro se esparziam
    Pelo colo, que a neve escurecia;
    Andando, as lácteas tetas lhe tremiam,
    Com quem Amor brincava, e não se via;
    Da alva petrina flamas lhe saíam,
    Onde o Menino as almas acendia;
    Pelas lisas colunas lhe trepavam
    Desejos, que como hera se enrolavam.

    37
    C'um delgado sendal as partes cobre,
    De quem vergonha é natural reparo,
    Porém nem tudo esconde, nem descobre,
    O véu, dos roxos lírios pouco avaro;
    Mas, para que o desejo acenda o dobre,
    Lhe põe diante aquele objeto raro.
    Já se sentem no Céu, por toda a parte,
    Ciúmes em Vulcano, amor em Marte.

    38
    E mostrando no angélico semblante
    Co'o riso uma tristeza misturada,
    Como dama que foi do incauto amante
    Em brincos amorosos mal tratada,
    Que se aqueixa e se ri num mesmo instante,
    E se torna entre alegre magoada,
    Desta arte a Deusa, a quem nenhuma iguala,
    Mais mimosa que triste ao Padre fala:

    39
    "Sempre eu cuidei, ó Padre poderoso,
    Que, para as cousas que eu do peito amasse,
    Te achasse brando, afábil e amoroso,
    Posto que a algum contrário lhe pesasse;
    Mas, pois que contra mim te vejo iroso,
    Sem que to merecesse, nem te errasse,
    Faça-se como Baco determina;
    Assentarei enfim que fui mofina.

    40
    "Este povo que é meu, por quem derramo
    As lágrimas que em vão caídas vejo,
    Que assaz de mal lhe quero, pois que o amo,
    Sendo tu tanto contra meu desejo!
    Por ele a ti rogando choro e bramo,
    E contra minha dita enfim pelejo.
    Ora pois, porque o amo é mal tratado,
    Quero-lhe querer mal, será guardado.

    41
    "Mas moura enfim nas mãos das brutas gentes,
    Que pois eu fui…" E nisto, de mimosa,
    O rosto banha em lágrimas ardentes,
    Como co'o orvalho fica a fresca rosa.
    Calada um pouco, como se entre os dentes
    Se lhe impedira a fala piedosa,
    Torna a segui-la; e indo por diante,
    Lhe atalha o poderoso e grão Tonante.

    42
    E destas brandas mostras comovido,
    Que moveram de um tigre o peito duro,
    Co'o vulto alegre, qual do Céu subido,
    Torna sereno e claro o ar escuro,
    As lágrimas lhe alimpa, e acendido
    Na face a beija, e abraça o colo puro;
    De modo que dali, se só se achara,
    Outro novo Cupido se gerara.

    43
    E co'o seu apertando o rosto amado,
    Que os soluços e lágrimas aumenta,
    Como menino da ama castigado,
    Que quem no afaga o choro lhe acrescente,
    Por lhe pôr em sossego o peito irado,
    Muitos casos futuros lhe apresenta.
    Dos fados as entranhas revolvendo,
    Desta maneira enfim lhe está dizendo:

    44
    "Formosa filha minha, não temais
    Perigo algum nos vossos Lusitanos,
    Nem que ninguém comigo possa mais,
    Que esses chorosos olhos soberanos;
    Que eu vos prometo, filha, que vejais
    Esquecerem-se Gregos e Romanos,
    Pelos ilustres feitos que esta gente
    Há-de fazer nas partes do Oriente.

    45
    "Que se o facundo Ulisses escapou
    De ser na Ogígia ilha eterno escravo,
    E se Antenor os seios penetrou
    Ilíricos e a fonte de Timavo;
    E se o piedoso Eneias navegou
    De Cila e de Caríbdis o mar bravo,
    Os vossos, mores cousas atentando,
    Novos mundos ao mundo irão mostrando.

    46
    "Fortalezas, cidades e altos muros,
    Por eles vereis, filha, edificados;
    Os Turcos belacíssimos e duros,
    Deles sempre vereis desbaratados.
    Os Reis da índia, livres e seguros,
    Vereis ao Rei potente sojugados;
    E por eles, de tudo enfim senhores,
    Serão dadas na terra leis melhores.

    47
    "Vereis este, que agora pressuroso
    Por tantos medos o Indo vai buscando,
    Tremer dele Neptuno, de medroso
    Sem vento suas águas encrespando.
    Ó caso nunca visto e milagroso,
    Que trema e ferva o mar, em calma estando!
    Ó gente forte e de altos pensamentos,
    Que também dela hão medo os Elementos!

    48
    "Vereis a terra, que a água lhe tolhia,
    Que inda há-de ser um porto mui decente,
    Em que vão descansar da longa via
    As naus que navegarem do Ocidente.
    Toda esta costa enfim, que agora urdia
    O mortífero engano, obediente
    Lhe pagará tributos, conhecendo
    Não poder resistir ao Luso horrendo.

    49
    "E vereis o mar Roxo, tão famoso,
    Tornar-se-lhe amarelo, de enfiado;
    Vereis de Ormuz o Reino poderoso
    Duas vezes tomado e sojugado.
    Ali vereis o Mouro furioso
    De suas mesmas setas traspassado:
    Que quem vai contra os vossos, claro veja
    Que, se resiste, contra si peleja.

    50
    "Vereis a inexpugnábil Dio forte,
    Que dous cercos terá, dos vossos sendo.
    Ali se mostrará seu preço e sorte,
    Feitos de armas grandíssimos fazendo.
    Invejoso vereis o grão Mavorte
    Do peito Lusitano fero e horrendo:
    Do Mouro ali verão que a voz extrema
    Do falso Mahamede ao Céu blasfema.

    51
    "Goa vereis aos Mouros ser tomada,
    A qual virá depois a ser senhora
    De todo o Oriente, e sublimada
    Co'os triunfos da gente vencedora.
    Ali soberba, altiva, e exalçada,
    Ao Gentio, que os ídolos adora,
    Duro freio porá, e a toda a terra
    Que cuidar de fazer aos vossos guerra.

    52
    "Vereis a fortaleza sustentar-se
    De Cananor, com pouca força e gente;
    E vereis Calecu desbaratar-se,
    Cidade populosa e tão potente:
    E vereis em Cochim assinalar-se
    Tanto um peito soberbo e insolente,
    Que cítara jamais cantou vitória,
    Que assim mereça eterno nome e glória.

    53
    "Nunca com Marte instructo e furioso,
    Se viu ferver Leucate, quando Augusto
    Nas civis Actias guerras animoso,
    O Capitão venceu Romano injusto,
    Que dos povos da Aurora, e do famoso
    Nilo, e do Bactra Cítico e robusto
    A vitória trazia, e presa rica,
    Preso na Egípcia linda e nego pudica.

    54
    Como vereis o mar fervendo aceso
    Colos incêndios dos vossos pelejando,
    Levando o Idololatra, e o Mouro preso,
    De nações diferentes triunfando.
    E sujeita a rica Áurea Quersoneso,
    Até ao longínquo China navegando,
    E as ilhas mais remotas do Oriente,
    Ser-lhe-á todo o Oceano obediente.

    55
    "De modo, filha minha, que de jeito
    Amostrarão esforço mais que humano,
    Que nunca se verá tão forte peito,
    Do Gangético mar ao Gaditano,
    Nem das Boreais ondas ao Estreito,
    Que mostrou o agravado Lusitano,
    Posto que em todo o mundo, de afrontados,
    Ressuscitassem todos os passados."

    56
    Como isto disse, manda o consagrado
    Filho de Maia à Terra, por que tenha
    Um pacífico porto o sossegado,
    Para onde sem receio a frota venha;
    F, para que em Mombaça, aventurado,
    O forte Capitão se não detenha,
    Lhe manda mais, que em sonhos lhe mostra
    A terra, onde quieto repousasse.

    57
    Já pelo ar o Cileneu voava;
    Com as asas nos pés à Terra desce;
    Sua vara fatal na mão levava,
    Com que os olhos cansados adormece:
    Com esta, as tristes almas revocava
    Do Inferno, e o vento lhe obedece.
    Na cabeça o galero costumado.
    E desta arte a Melinde foi chegado.

    58
    Consigo a Fama leva, por que diga
    Do Lusitano o preço grande e raro,
    Que o nome ilustre a um certo amor obriga
    E faz, a quem o tem, amado e caro.
    Desta arte vai fazendo a gente amiga,
    Co rumor famosíssimo, e perclaro.
    Já Melinde em desejos arde todo
    De ver da gente forte o gesto e modo.

    59
    Dali para Mombaça logo parte,
    Aonde as naus estavam temerosas,
    Para que à gente mande que se aparte
    Da barra amiga e terras suspeitosas:
    Porque mui pouco val esforço e arte,
    Contra infernais vontades enganosas;
    Pouco val coração, astúcia e siso,
    Se lá dos Céus não vem celeste aviso.

    60
    No feio caminho a noite tinha anelado,
    E, as estrelas no Céu, coa luz alhea,
    Tinham o largo Mundo alumiado;
    E só co'o sono a gente se recreia.
    O Capitão ilustre, já cansado
    De vigiar a noite que arreceia,
    Breve repouso então aos olhos dava,
    A outra gente a quartos vigiava;

    61
    Quando Mercúrio em sonhos lhe aparece,
    Dizendo: "Fuge, fuge, Lusitano,
    Da cilada que o Rei malvado tece,
    Por te trazer ao fim, e extremo dano;
    Fuge, que o vento, e o Céu te favorece;
    Sereno o tempo tens e o Oceano,
    E outro Rei mais amigo, noutra parte,
    Onde podes seguro agasalhar-te.

    62
    "Não tens aqui senão aparelhado
    O hospício que o cru Diomedes dava,
    Fazendo ser manjar acostumado
    De cavalos a gente que hospedava;
    As aras de Busíris infamado,
    Onde os hóspedes tristes imolava,
    Terás certas aqui, se muito esperas.
    Fuge das gentes pérfidas e feras.

    63
    "Vai-te ao longo da costa discorrendo,
    E outra terra acharás de mais verdade,
    Lá quase junto donde o Sol ardendo
    Iguala o dia e noite em quantidade;
    Ali tua frota alegre recebendo
    Um Rei, com muitas obras de amizade,
    Gasalhado seguro te daria,
    E, para a índia, certa e sábia guia."

    64
    Isto Mercúrio disse, e o sono leva
    Ao Capitão, que com mui grande espanto
    Acorda, e vê ferida a escura treva
    De uma súbita luz e raio santo.
    E vendo claro quanto lhe releva
    Não se deter na terra iníqua tanto,
    Com novo espírito ao mestre seu mandava
    Que as velas desse ao vento que assopravam.

    65
    "Dai velas, disse, dai ao largo vento,
    Que o Céu nos favorece e Deus o manda;
    Que um mensageiro vi do claro assento
    Que só em favor de nossos passos anda."
    Alevanta-se nisto o movimento
    Dos marinheiros, de uma e de outra banda;
    Levam gritando as âncoras acima,
    Mostrando a ruda força, que se estima.

    66
    Neste tempo, que as âncoras levavam,
    Na sombra escura os Mouros escondidos
    Mansamente as amarras lhe cortavam,
    Por serem, dando à costa, destruídos;
    Mas com vista de linces vigiavam
    Os Portugueses, sempre apercebidos.
    Eles, como acordados os sentiram,
    Voando, e não remando, lhe fugiram.

    67
    Mas já as agudas proas apartando
    Iam as vias húmidas de argento;
    Assopra-lhe galerno o vento, e brando,
    Com suave e seguro movimento.
    Nos perigos passados vão falando,
    Que mal se perderão do pensamento
    Os casos grandes, donde em tanto aperto
    A vida em salvo escapa por acerto.

    68
    Tinha uma volta dado o Sol ardente
    E noutro começava, quando viram
    Ao longe deus navios, brandamente
    Co'os ventos navegando, que respiram:
    Porque haviam de ser da Maura gente,
    Para eles arribando, as velas viram:
    Um, de temor do mal que arreceava,
    Por se salvar a gente à costa dava.

    69
    Não é o outro que fica tão manhoso;
    Mas nas mãos vai cair do Lusitano,
    Sem o rigor de Marte furioso,
    E sem a fúria horrenda de Vulcano;
    Que como fosse débil e medroso
    Da pouca gente o fraco peito humano,
    Não teve resistência; e se a tivera,
    Mais dano resistindo recebera.

    70
    E como o Gama muito desejasse
    Piloto para a Índia que buscava,
    Cuidou que entre estes Mouros o tomasse;
    Mas não lhe sucedeu como cuidava,
    Que nenhum deles há que lhe ensinasse
    A que parte dos céus a Índia estava;
    Porém dizem-lhe todos, que tem perto
    Melinde, onde achará piloto certo.

    71
    Louvam do Rei os Mouros a bondade,
    Condição liberal, sincero peito,
    Magnificência grande e humanidade,
    Com partes de grandíssimo respeito.
    O Capitão o assela por verdade,
    Porque já lhe dissera, deste jeito,
    Cileneu em sonhos; e partia
    Para onde o sonho e o Mouro lhe dizia.

    72
    Era no tempo alegre, quando entrava
    No roubador de Europa a luz Febeia,
    Quando um e outro corno lhe aquentava,
    E Flora derramava o de Amalteia:
    A memória do dia renovava
    O pressuroso Sol, que o Céu rodeia,
    Em que Aquele, a quem tudo está sujeito,
    O selo pôs a quanto tinha feito;

    73
    Quando chegava a frota àquela parte,
    Onde o Reino Melinde já se via,
    De toldos adornada, e leda de arte
    Que bem mostra estimar o santo dia.
    Treme a bandeira, voa o estandarte,
    A cor purpúrea ao longe aparecia;
    Soam os atambores o pandeiros,
    E assim entravam ledos e guerreiros.

    74
    Enche-se toda a praia Melindana
    Da gente que vem ver a leda armada,
    Gente mais verdadeira, e mais humana,
    Que toda a doutra terra atrás deixada.
    Surge diante a frota Lusitana,
    Pega no fundo a âncora pesada;
    Mandam fora um dos Mouros que tomaram,
    Por quem sua vinda ao Rei manifestaram.

    75
    O Rei, que já sabia da nobreza
    Que tanto os Portugueses engrandece,
    Tomarem o seu porto tanto preza,
    Quanto a gente fortíssima merece:
    E com verdadeiro ânimo e pureza,
    Que os peitos generosos enobrece,
    Lhe manda rogar muito que saíssem,
    Para que de seus reinos se servissem.

    76
    São oferecimentos verdadeiros,
    E palavras sinceras, não dobradas,
    As que o Rei manda aos nobres cavaleiros,
    Que tanto mar e terras tem passadas.
    Manda-lhe mais lanígeros carneiros,
    E galinhas domésticas cevadas,
    Com as frutas, que então na terra havia;
    E a vontade à dádiva excedia.

    77
    Recebe o Capitão alegremente
    O mensageiro ledo e seu recado;
    E logo manda ao Rei outro presente,
    Que de longe trazia aparelhado:
    Escarlata purpúrea, cor ardente,
    O ramoso coral, fino e prezado,
    Que debaixo das águas mole cresce,
    E como é fora delas se endurece.

    78
    Manda mais um, na prática elegante,
    Que co'o Rei nobre as pazes concertasse,
    E que de não sair naquele instante
    De suas naus em terra o desculpasse.
    Partido assim o embaixador prestante,
    Como na terra ao Rei se apresentasse,
    Com estilo que Palas lhe ensinava,
    Estas palavras tais falando orava:

    79
    "Sublime Rei, a quem do Olimpo puro
    Foi da suma Justiça concedido
    Refrear o soberbo povo duro,
    Não menos dele amado, que temido:
    Como porto mui forte e mui seguro,
    De todo o Oriente conhecido,
    Te vimos a buscar, para que achemos
    Em ti o remédio certo que queremos.

    80
    "Não somos roubadores, que passando
    Pelas fracas cidades descuidadas,
    A ferro e a fogo as gentes vão matando,
    Por roubar-lhe as fazendas cobiçadas;
    Mas da soberba Europa navegando,
    Imos buscando as terras apartadas
    Da Índia grande e rica, por mandado
    De um Rei que temos, alto e sublimado.

    81
    "Que geração tão dura há hi de gente,
    Que bárbaro costume e usança feia,
    Que não vedem os portos tão somente,
    Mas inda o hospício da deserta areia?
    Que má tenção, que peito em nós se sente,
    Que de tão pouca gente se arreceia?
    Que com laços armados, tão fingidos,
    Nos ordenassem ver-nos destruídos?

    82
    "Mas tu, e quem mui certo confiamos
    Achar-se mais verdade, ó Rei benigno,
    E aquela certa ajuda em ti esperamos,
    Que teve o perdido Ítaco em Alcino,
    A teu porto seguro navegamos,
    Conduzidos do intérprete divino;
    Que, pois a ti nos manda, está mui claro,
    Que és de peito sincero, humano e raro.

    83
    "E não cuides, ó Rei, que não saísse
    O nosso Capitão esclarecido
    A ver-te, ou a servir-te, porque visse
    Ou suspeitasse em ti peito fingido:
    Mas saberás que o fez, porque cumprisse
    O regimento, em tudo obedecido,
    De seu Rei, que lhe manda que não saia,
    Deixando a frota, em nenhum porto ou praia.

    84
    "E porque é, de vassalos o exercício,
    Que os membros tem regidos da cabeça,
    Não quererás, pois tens de Rei o ofício,
    Que ninguém a seu Rei desobedeça;
    Mas as mercês e o grande benefício,
    Que ora acha em ti, promete que conheça
    Em tudo aquilo que ele e os seus puderem,
    Enquanto os rios para o mar correrem."

    85
    Assim dizia; e todos juntamente,
    Uns com outros em prática falando,
    Louvavam muito o estâmago da gente,
    Que tantos céus e mares vai passando.
    E o Rei ilustre, o peito obediente
    Dos Portugueses na alma imaginando,
    Tinha por valor grande e mui subido
    O do Rei que é tão longe obedecido.

    86
    E com risonha vista e ledo aspeito,
    Responde ao embaixador, que tanto estima:
    "Toda a suspeita má tirai do peito,
    Nenhum frio temor em vós se imprima;
    Que vosso preço e obras são de jeito
    Para vos ter o mundo em muita estima;
    E quem vos fez molesto tratamento,
    Não pode ter subido pensamento.

    87
    "De não sair em terra toda a gente,
    Por observar a usada preminência,
    Ainda que me pese estranhamente,
    Em muito tenho a muita obediência;
    Mas, se lho o regimento não consente,
    Nem eu consentirei que a excelência
    De peitos tão leais em si desfaça,
    Só porque a meu desejo satisfaça.

    88
    "Porém, como a luz crástina chegada
    Ao mundo for, em minhas almadias
    Eu irei visitar a forte armada,
    Que ver tanto desejo, há tantos dias;
    E se vier do mar desbaratada,
    Do furioso vento e longas vias,
    Aqui terá, de limpos pensamentos,
    Piloto, munições e mantimentos."

    89
    Isto disse; e nas águas se escondia
    O filho de Latona; e o mensageiro
    Coa embaixada alegre se partia
    Para a frota, no seu batel ligeiro.
    Enchem-se os peitos todos de alegria.
    Por terem o remédio verdadeiro
    Para acharem a terra que buscavam;
    E assim ledos a noite festejavam.

    90
    Não faltam ali os raios de artifício,
    Os trêmulos cometas imitando;
    Fazem os bombardeiros seu ofício,
    O céu, a terra e as ondas atroando.
    Mostra-se dos Ciclopas o exercício
    Nas bombas que de fogo estão queimando;
    Outros com vozes, com que o céu feriam,
    Instrumentos altíssonos tangiam.

    91
    Respondem-lhe da terra juntamente,
    Co'o raio volteando, com zunido;
    Anda em giros no ar a roda ardente,
    Estoura o pó sulfúreo escondido.
    A grita se alevanta ao céu, da gente;
    O mar se via em fogos acendido,
    E não menos a terra; e assim festeja
    Um ao outro, a maneira de peleja.

    92
    Mas já o Céu inquieto revolvendo,
    As gentes incitava a seu trabalho,
    E já a mãe de Menon a luz trazendo,
    Ao sono longo punha certo atalho;
    Iam-se as sombras lentas desfazendo,
    Sobre as flores da terra em frio orvalho,
    Quando o Rei Melindano se embarcava
    A ver a frota, que no mar estava.

    93
    Viam-se em derredor ferver as praias
    Da gente, que a ver só concorre leda;
    Luzem da fina púrpura as cabaias,
    Lustram os panos da tecida seda;
    Em lugar das guerreiras azagaias
    E do arco, que os cornos arremeda
    Da Lua, trazem ramos de palmeira,
    Dos que vencem, coroa verdadeira.

    94
    Um batel grande e largo, que toldado
    Vinha de sedas de diversas cores,
    Traz o Rei de Melinde, acompanhado
    De nobres e seu Reino e de senhores:
    Vem de ricos vestidos adornado,
    Segundo seus costumes e primores;
    Na cabeça uma fota guarnecida
    De ouro, e de seda e de algodão tecida.

    95
    Cabaia de Damasco rico e dino,
    Da Tíria cor, entre eles estimada,
    Um colar ao pescoço, de ouro fino,
    Onde a matéria da obra é superada,
    C'um resplendor reluze adamantino;
    Na cinta, a rica bem lavrada;
    Nas alparcas dos pés, em fim de tudo,
    Cobrem ouro e aljôfar ao veludo.

    96
    Com um redondo emparo alto de seda,
    Numa alta e dourada hástia enxerido,
    Um ministro à solar quentura veda.
    Que não ofenda e queime o Rei subido.
    Música traz na proa, estranha e leda,
    De áspero som, horríssono ao ouvido,
    De trombetas arcadas em redondo,
    Que, sem concerto, fazem rudo estrondo.

    97
    Não menos guarnecido o Lusitano
    Nos seus batéis, da frota se partia
    A receber no mar o Melindano,
    Com lustrosa e lograda companhia.
    Vestido o Gama vem ao modo Hispano,
    Mas Francesa era a roupa que vestia,
    De cetim da Adriática Veneza
    Carmesi, cor que a gente tanto preza:

    98
    De botões douro as mangas vêm tomadas,
    Onde o Sol reluzindo a vista cega;
    As calças soldadescas recamadas
    Do metal, que Fortuna a tantos nega,
    E com pontas do mesmo delicadas
    Os golpes do gibão ajunta e achega;
    Ao Itálico modo a áurea espada;
    Pluma na gorra, um pouco declinada.

    99
    Nos de sua companhia se mostrava
    Da tinta, que dá o múrice excelente,
    A vária cor, que os olhos alegrava,
    E a maneira do trajo diferente.
    Tal o formoso esmalte se notava
    Dos vestidos, olhados juntamente,
    Qual aparece o arco rutilante
    Da bela Ninfa, filha de Taumante.

    100
    Sonorosas trombetas incitavam
    Os ânimos alegres, ressoando;
    Dos Mouros os batéis, o mar coalhavam,
    Os toldos pelas águas arrojando;
    As bombardas horríssonas bramavam,
    Com as nuvens de fumo o Sol tomando;
    Amiúdam-se os brados acendidos,
    Tapam com as mãos os Mouros os ouvidos.

    101
    Já no batel entrou do Capitão
    O Rei, que nos seus braços o levava;
    Ele coa cortesia, que a razão
    (Por ser Rei) requeria, lhe falava.
    C'umas mostras de espanto e admiração,
    O Mouro o gesto e o modo lhe notava,
    Como quem em mui grande estima tinha
    Gente que de tão longe à índia vinha.

    102
    E com grandes palavras lhe oferece
    Tudo o que de seus Reinos lhe cumprisse,
    E que, se mantimento lhe falece,
    Como se próprio fosse, lho pedisse.
    Diz-lhe mais, que por fama bem conhece
    A gente Lusitana, sem que a visse;
    Que já ouviu dizer, que noutra terra
    Com gente de sua Lei tivesse guerra.

    103
    E como por toda África se soa,
    Lhe diz, os grandes feitos que fizeram,
    Quando nela ganharam a coroa
    Do Reino, onde as Hespéridas viveram;
    E com muitas palavras apregoa
    O menos que os de Luso mereceram,
    E o mais que pela fama o Rei sabia.
    Mas desta sorte o Gama respondia:

    104
    "Ó tu, que só tiveste piedade,
    Rei benigno, da gente Lusitana,
    Que com tanta miséria e adversidade
    Dos mares experimenta a fúria insana;
    Aquela alta e divina Eternidade,
    Que o Céu revolve e rege a gente humana,
    Pois que de ti tais obras recebemos,
    Te pague o que nós outros não podemos.

    105
    "Tu só, de todos quantos queima Apolo,
    Nos recebes em paz, cio mar profundo;
    Em ti dos ventos hórridos de Eolo
    Refúgio achamos bom, fido e jocundo.
    Enquanto apascentar o largo Pólo
    As Estrelas, e o Sol der lume ao Mundo,
    Onde quer que eu viver, com fama e glória
    Viverão teus louvores em memória."

    106
    Isto dizendo, os barcos vão remando
    Para a frota, que o Mouro ver deseja;
    Vão as naus uma e uma rodeando,
    Porque de todas tudo note e veja.
    Mas para o céu Vulcano fuzilando,
    A frota coas bombardas o festeja,
    E as trombetas canoras lhe tangiam;
    Co'os anafis os Mouros respondiam.

    107
    Mas depois de ser tudo já notado
    Do generoso Mouro, que pasmava
    Ouvindo o instrumento inusitado,
    Que tamanho terror em si mostrava,
    Mandava estar quieto e ancorado
    N'água o batel ligeiro que os levava,
    Por falar de vagar co'o forte Gama,
    Nas cousas de que tem notícia e faina.

    108
    Em práticas o Mouro diferentes
    Se deleitava, perguntando agora
    Pelas guerras famosas e excelentes
    Co'o povo havidas, que a Mafoma adora;
    Agora lhe pergunta pelas gentes
    De toda a Hespéria última, onde mora;
    Agora pelos povos seus vizinhos,
    Agora pelos úmidos caminhos.

    109
    "Mas antes, valeroso Capitão,
    Nos conta, lhe dizia, diligente,
    Da terra tua o clima, e região
    Do mundo onde morais distintamente;
    E assim de vossa antiga geração,
    E o princípio do Reino tão potente,
    Co'os sucessos das guerras do começo,
    Que, sem sabê-las, sei que são de preço.

    110
    "E assim também nos conta dos rodeios
    Longos, em que te traz o mar irado,
    Vendo os costumes bárbaros alheios.
    Que a nossa África ruda tem criado.
    Conta: que agora vêm co'os áureos freios
    Os cavalos que o carro marchetado
    Do novo Sol, da fria Aurora trazem,
    O vento dorme, o mar e as ondas jazem.

    111
    "E não menos co'o tempo se parece
    O desejo de ouvir-te o que contares;
    Que quem há, que por fama não conhece
    As obras Portuguesas singulares?
    Não tanto desviado resplandece
    De nós o claro Sol, para julgares
    Que os Melindanos têm tão rudo peito,
    Que não estimem muito um grande feito.

    112
    "Cometeram soberbos os Gigantes,
    Com guerra vã, o Olimpo claro e puro;
    Tentou Pirítoo e Teseu, de ignorantes,
    O Reino de Plutão horrendo e escuro.
    Se houve feitos no mundo tão possantes,
    Não menos é trabalho ilustre e duro,
    Quanto foi cometer Inferno o Céu,
    Que outrem cometa a fúria de Nereu.

    113
    "Queimou o sagrado templo de Diana,
    Do subtil Tesifónio fabricado,
    Heróstrato, por ser da gente humana
    Conhecido no mundo e nomeado:
    Se também com tais obras nos engana
    O desejo de um nome avantajado,
    Mais razão há que queira eterna glória
    Quem faz obras tão dignas de memória."

    Canto Terceiro

    1
    Agora tu, Calíope, me ensina
    O que contou ao Rei o ilustre Gama:
    Inspira imortal canto e voz divina
    Neste peito mortal, que tanto te ama.
    Assim o claro inventor da Medicina,
    De quem Orfeu pariste, ó linda Dama,
    Nunca por Dafne, Clície ou Leucotoe,
    Te negue o amor devido, como soe.

    2
    Põe tu, Ninfa, em efeito meu desejo,
    Como merece a gente Lusitana;
    Que veja e saiba o mundo que do Tejo
    O licor de Aganipe corre e mana.
    Deixa as flores de Pindo, que já vejo
    Banhar-me Apolo na água soberana;
    Senão direi que tens algum receio,
    Que se escureça o teu querido Orfeio.

    3
    Prontos estavam todos escutando
    O que o sublime Gama contaria,
    Quando, depois de um pouco estar cuidando,
    Alevantando o rosto, assim dizia:
    "Mandas-me, ó Rei, que conte declarando
    De minha gente a grão genealogia:
    Não me mandas contar estranha história,
    Mas mandas-me louvar dos meus a glória.

    4
    "Que outrem possa louvar esforço alheio,
    Cousa é que se costuma e se deseja;
    Mas louvar os meus próprios, arreceio
    Que louvor tão suspeito mal me esteja;
    E para dizer tudo, temo e creio,
    Que qualquer longo tempo curto seja:
    Mas, pois o mandas, tudo se te deve,
    Irei contra o que devo, e serei breve.

    5
    "Além disso, o que a tudo enfim me obriga,
    É não poder mentir no que disser,
    Porque de feitos tais, por mais que diga,
    Mais me há-de ficar inda por dizer.
    Mas, porque nisto a ordens leve e siga,
    Segundo o que desejas de saber,
    Primeiro tratarei da larga terra,
    Depois direi da sanguinosa guerra.

    6
    "Entre a Zona que o Cancro senhoreia,
    Meta setentrional do Sol luzente,
    E aquela que por f ria se arreceia
    Tanto, como a do meio por ardente,
    Jaz a soberba Europa, a quem rodeia,
    Pela parte do Areturo, e do Ocidente,
    Com suas salsas ondas o Oceano,
    E pela Austral o mar Mediterrano.

    7
    "Da parte donde o dia vem nascendo,
    Com Ásia se avizinha; mas o rio
    Que dos montes Rifeios vai correndo,
    Na alagoa Meotis, curvo o frio,
    As divide: e o mar que, fero e horrendo,
    Viu dos Gregos o irado senhorio,
    Onde agora de Tróia triunfante
    Não vê mais que a memória o navegante.

    8
    "Lá onde mais debaixo está do Pólo,
    Os montes Hiperbóreos aparecem,
    E aqueles onde sempre sopra Eolo,
    E co'o nome, dos sopros se enobrecem.
    Aqui tão pouca força tem de Apolo
    Os raios que no mundo resplandecem,
    Que a neve está contido pelos montes,
    Gelado o mar, geladas sempre as fontes.

    9
    "Aqui dos Citas grande quantidade
    Vivem, que antigamente grande guerra
    Tiveram, sobre a humana antiguidade,
    Co'os que tinham então a Egípcia terra;
    Mas quem tão fora estava da verdade,
    (Já que o juízo humano tanto erra)
    Para que do mais certo se informara,
    Ao campo Damasceno o perguntara.

    10
    "Agora nestas partes se nomeia
    A Lápia fria, a inculta Noruega,
    Escandinávia Ilha, que se arreia
    Das vitórias que Itália não lhe nega.
    Aqui, enquanto as águas não refreia
    O congelado inverno, se navega
    Um braço do Sarmático Oceano
    Pelo Brúsio, Suécio e frio Dano.

    11
    "Entre este mar e o Tánais vive estranha
    Gente: Rutenos, Moseos e Livónios,
    Sármatas outro tempo; e na montanha
    Hircínia os Marcomanos são Polónios.
    Sujeitos ao Império de Alemanha
    São Saxones, Boêmios e Panónios,
    E outras várias nações, que o Reno frio
    Lava, e o Danúbio, Amasis e Albis rio.

    12
    "Entre o remoto Istro e o claro Estreito,
    Aonde Hele deixou co'o nome a vida,
    Estão os Traces de robusto peito,
    Do fero Marte pátria tão querida,
    Onde, colo Hemo, o Ródope sujeito
    Ao Otomano está, que submetida
    Bizâncio tem a seu serviço indino:
    Boa injúria do grande Constantino!

    13
    "Logo de Macedónia estão as gentes,
    A quem lava do Axio a água fria;
    E vós também, ó terras excelentes
    Nos costumes, engenhos e ousadia,
    Que criastes os peitos eloquentes
    E os juízos de alta fantasia,
    Com quem tu, clara Grécia, o Céu penetras,
    E não menos por armas, que por letras.

    14
    "Logo os Dálmatas vivem; e no seio,
    Onde Antenor já muros levantou,
    A soberba Veneza está no meio
    Das águas, que tão baixa começou.
    Da terra um braço vem ao mar, que cheio
    De esforço, nações várias sujeitou,
    Braço forte, de gente sublimada,
    Não menos nos engenhos, que na espada.

    15
    "Em torno o cerca o Reino Neptunino,
    Co'os muros naturais por outra parte;
    Pelo meio o divide o Apenino,
    Que tão ilustre fez o pátrio Marte;
    Mas depois que o Porteiro tem divino,
    Perdendo o esforço veio, e bélica arte;
    Pobre está já de antiga potestade:
    Tanto Deus se contenta de humildade!

    16
    "Gália ali se verá que nomeada
    Co'os Cesáreos triunfos foi no mundo,
    Que do Séquana e Ródano é regada,
    E do Giruna frio e Reno fundo.
    Logo os montes da Ninfa sepultada
    Pirene se alevantam, que segundo
    Antiguidades contam, quando arderam,
    Rios de ouro e de prata então correram.

    17
    "Eis aqui se descobre a nobre Espanha,
    Como cabeça ali de Europa toda,
    Em cujo senhorio o glória estranha
    Muitas voltas tem dado a fatal roda;
    Mas nunca poderá, com força ou manha,
    A fortuna inquieta pôr-lhe noda,
    Que lhe não tire o esforço e ousadia
    Dos belicosos peitos que em si cria.

    18
    "Com Tingitânia entesta, e ali parece
    Que quer fechar o mar Mediterrano,
    Onde o sabido Estreito se enobrece
    Co'o extremo trabalhado Tebano.
    Com nações diferentes se engrandece,
    Cercadas com as ondas do Oceano;
    Todas de tal nobreza e tal valor,
    Que qualquer delas cuida que é melhor.

    19
    "Tem o Tarragonês, que se fez claro
    Sujeitando Parténope inquieta;
    O Navarro, as Astúrias, que reparo
    Já foram contra a gente Mahometa;
    Tem o Galego cauto, e o grande e raro
    Castelhano, a quem fez o seu Planeta
    Restituidor de Espanha e senhor dela,
    Bétis, Lião, Granada, com Castela.

    20
    "Eis aqui, quase cume da cabeça
    De Europa toda, o Reino Lusitano,
    Onde a terra se acaba e o mar começa,
    E onde Febo repousa no Oceano.
    Este quis o Céu justo que floresça
    Nas armas contra o torpe Mauritano,
    Deitando-o de si fora, e lá na ardente
    África estar quieto o não consente.

    22
    "Esta é a ditosa pátria minha amada,
    A qual se o Céu me dá que eu sem perigo
    Torne, com esta empresa já acabada,
    Acabe-se esta luz ali comigo.
    Esta foi Lusitânia, derivada
    De Luso, ou Lisa, que de Baco antigo
    Filhos foram, parece, ou companheiros,
    E nela então os Íncolas primeiros.

    22
    "Desta o pastor nasceu, que no seu nome
    Se vê que de homem forte os feitos teve;
    Cuja fama ninguém virá que dome,
    Pois a grande de Roma não se atreve.
    Esta, o velho que os filhos próprios come
    Por decreto do Céu, ligeiro e leve,
    Veio a fazer no mundo tanta parte,
    Criando-a Reino ilustre; e foi desta arte:

    23
    "Um Rei, por nome Afonso, foi na Espanha,
    Que fez aos Sarracenos tanta guerra,
    Que por armas sanguinas, força e manha,
    A muitos fez perder a vida o a terra;
    Voando deste Rei a fama estranha
    Do Herculano Calpe à Cáspia serra,
    Muitos, para na guerra esclarecer-se,
    Vinham a ele e à morte oferecer-se.

    24
    "E com um amor intrínseco acendidos
    Da Fé, mais que das honras populares,
    Eram de várias terras conduzidos,
    Deixando a pátria amada e próprios lares.
    Depois que em feitos altos e subidos
    Se mostraram nas armas singulares,
    Quis o famoso Afonso que obras tais
    Levassem prémio digno e dons iguais.

    25
    "Destes Anrique, dizem que segundo
    Filho de um Rei de Ungria exprimentado,
    Portugal houve em sorte, que no mundo
    Então não era ilustre nem prezado;
    E, para mais sinal d'amor profundo,
    Quis o Rei Castelhano, que casado
    Com Teresa, sua filha, o Conde fosse;
    E com ela das terras tornou posse.

    26
    "Este, depois que contra os descendentes
    Da escrava Agar vitórias grandes teve,
    Ganhando muitas terras adjacentes,
    Fazendo o que a seu forte peito deve,
    Em prémio destes feitos excelentes,
    Deu-lhe o supremo Deus, em tempo breve,
    Um filho, que ilustrasse o nome ufano
    Do belicoso Reino Lusitano.

    27
    "Já tinha vindo Anrique da conquista
    Da cidade Hierosólima sagrada,
    E do Jordão a areia tinha vista,
    Que viu de Deus a carne em si lavada;
    Que não tendo Gotfredo a quem resista,
    Depois de ter Judeia sojugada,
    Muitos, que nestas guerras o ajudaram,
    Para seus senhorios se tornaram;

    28
    "Quando chegado ao fim de sua idade,
    O forte e famoso Úngaro estremado,
    Forçado da fatal necessidade,
    O espírito deu a quem lhe tinha dado,
    Ficava o filho em tenra mocidade,
    Em quem o pai deixava seu traslado,
    Que do mundo os mais fortes igualava;
    Que de tal pai tal filho se esperava.

    29
    "Mas o velho rumor, não sei se errado,
    Que em tanta antiguidade não há certeza,
    Conta que a mãe, tomando todo o estado,
    Do segundo himeneu não se despreza.
    O filho órfão deixava deserdado,
    Dizendo que nas terras a grandeza
    Do senhorio todo só sua era,
    Porque, para casar, seu pai lhes dera.

    30
    "Mas o Príncipe Afonso, que desta arte
    Se chamava, do avô tomando o nome,
    Vendo-se em suas terras não ter parte,
    Que a mãe, com seu marido, as manda e come,
    Fervendo-lhe no peito o duro Marte,
    Imagina consigo como as tome.
    Revolvidas as causas no conceito,
    Ao propósito firme segue o efeito.

    31
    "De Guimarães o campo se tingia
    Co'o sangue próprio da intestina guerra,
    Onde a mãe, que tão pouco o parecia,
    A seu filho negava o amor e a terra.
    Com ele posta em campo já se via;
    E não vê a soberba o muito que erra
    Contra Deus, contra o maternal amor;
    Mas nela o sensual era maior.

    32
    "Ó Progne crua! ó mágica Medeia!
    Se em vossos próprios filhos vos vingais
    Da maldade dos pais, da culpa alheia,
    Olhai que inda Teresa peca mais:
    Incontinência má, cobiça feia,
    São as causas deste erro principais:
    Cila, por uma, mata o velho pai,
    Esta, por ambas, contra o filho vai.

    33
    "Mas já o Príncipe claro o vencimento
    Do padrasto e da iníqua mãe levava;
    Já lhe obedece a terra num momento,
    Que primeiro contra ele pelejava.
    Porém, vencido de ira o entendimento,
    A mãe em ferros ásperos atava;
    Mas de Deus foi vingada em tempo breve:
    Tanta veneração aos pais se deve!

    34
    "Eis se ajunta o soberbo Castelhano,
    Para vingar a injúria de Teresa,
    Contra o tão raro em gente Lusitano,
    A quem nenhum trabalho agrava ou pesa.
    Em batalha cruel o peito humano,
    Ajudado da angélica defesa,
    Não só contra tal fúria se sustenta,
    Mas o inimigo aspérrimo afugenta.

    35
    "Não passa muito tempo, quando o forte
    Príncipe em Guimarães está cercado
    De infinito poder; que desta sorte
    Foi refazer-se o inimigo magoado;
    Mas, com se oferecer à dura morte
    O fiel Egas amo, foi livrado;
    Que de outra arte pudera ser perdido,
    Segundo estava mal apercebido.

    36
    "lulas o leal vassalo, conhecendo
    Que seu senhor não tinha resistência,
    Se vai ao Castelhano, prometendo
    Que ele faria dar-lhe obediência.
    Levanta o inimigo o cerco horrendo,
    Fiado na promessa e consciência
    De Egas Moniz; mas não consente o peito
    Do moço ilustre a outrem ser sujeito.

    37
    "Chegado tinha o prazo prometido,
    Em que o Rei Castelhano já aguardava
    Que o Príncipe, a seu mando sometido,
    Lhe desse a obediência que esperava.
    Vendo Egas que ficava fementido,
    O que dele Castela não cuidava,
    Determina de dar a doce vida
    A troco da palavra mal cumprida.

    38
    "E com seus filhos e mulher se parte
    A alevantar com eles a fiança,
    Descalços e despidos, de tal arte,
    Que mais move a piedade que a vingança.
    –"Se pretendes, Rei alto, de vingar-te
    De minha temerária confiança,
    Dizia, eis aqui venho oferecido
    A te pagar, coa vida, o prometido.

    39
    "Vês aqui trago as vidas inocentes
    Dos filhos sem pecado e da consorte;
    Se a peitos generosos e excelentes,
    Dos fracos satisfaz a fera morte.
    Vês aqui as mãos e a língua delinquentes:
    Nelas sós exprimenta toda a sorte
    De tormentos, de mortes, pelo estilo
    De Cínis e do touro de Perilo"!–

    40
    "Qual diante do algoz o condenado,
    Que já na vida a morte tem bebido,
    Põe no cepo a garganta, e já entregado
    Espera pelo golpe tão temido:
    Tal diante do Príncipe indinado,
    Egas estava a tudo oferecido.
    Mas o Rei, vendo a estranha lealdade,
    Mais pôde, enfim, que a ira a piedade.

    41
    "Ó grão fidelidade Portuguesa,
    De vassalo, que a tanto se obrigava!
    Que mais o Persa fez naquela empresa,
    Onde rosto e narizes se cortava?
    Do que ao grande Dario tanto pesa,
    Que mil vezes dizendo suspirava,
    Que mais o seu Zopiro são prezara,
    Que vinte Babilónias que tomara.

    42
    Mas já o Príncipe Afonso aparelhava
    O Lusitano exército ditoso,
    Contra o Mouro que as terras habitava
    D'além do claro Tejo deleitoso;
    Já no campo de Ourique se assentava
    O arraial soberbo e belicoso,
    Defronte do inimigo Sarraceno,
    Posto que em força e gente tão pequeno.

    43
    "Em nenhuma outra cousa confiado,
    Senão no sumo Deus, que o Céu regia,
    Que tão pouco era o povo batizado,
    Que para um só cem Mouros haveria.
    Julga qualquer juízo sossegado
    Por mais temeridade que ousadia,
    Cometer um tamanho ajuntamento,
    Que para um cavaleiro houvesse cento.

    44
    "Cinco Reis Mouros são os inimigos,
    Dos quais o principal Ismar se chama;
    Todos exprimentados nos perigos
    Da guerra, onde se alcança a ilustre fama.
    Seguem guerreiras damas seus amigos,
    Imitando a formosa e forte Dama,
    De quem tanto os Troianos se ajudaram,
    E as que o Termodonte já gostaram.

    45
    "A matutina luz serena e fria,
    As estrelas do Pólo já apartava,
    Quando na Cruz o Filho de Maria,
    Amostrando-se a Afonso, o animava.
    Ele, adorando quem lhe aparecia,
    Na Fé todo inflamado assim gritava:
    –"Aos infiéis, Senhor, aos infiéis,
    E não a mim, que creio o que podeis!"

    46
    "Com tal milagre os ânimos da gente
    Portuguesa inflamados, levantavam
    Por seu Rei natural este excelente
    Príncipe, que do peito tanto amavam;
    E diante do exército potente
    Dos imigos, gritando o céu tocavam,
    Dizendo em alta voz:–"Real, real,
    Por Afonso alto Rei de Portugal."

    47
    "Qual co'os gritos e vozes incitado,
    Pela montanha o rábido Moloso,
    Contra o touro remete, que fiado
    Na força está do corno temeroso:
    Ora pega na orelha, ora no lado,
    Latindo mais ligeiro que forçoso,
    Até que enfim, rompendo-lhe a garganta,
    Do bravo a força horrenda se quebranta:

    48
    "Tal do Rei novo o estâmago acendido
    Por Deus e pelo povo juntamente,
    O Bárbaro comete apercebido,
    Co'o animoso exército rompente.
    Levantam nisto os perros o alarido
    Dos gritos, tocam a arma, ferve a gente,
    As lanças e arcos tomam, tubas soam,
    Instrumentos de guerra tudo atroam.

    49
    "Bem como quando a flama, que ateada
    Foi nos áridos campos (assoprando
    O sibilante Bóreas) animada
    Co'o vento, o seco mato vai queimando;
    A pastoral companha, que deitada
    Co'o doce sono estava, despertando
    Ao estridor do fogo que se ateia,
    Recolhe o fato, e foge para a aldeia:

    50
    "Desta arte o Mouro atónito e torvado,
    Toma sem tento as armas mui depressa;
    Não foge; mas espera confiado,
    E o ginete belígero arremessa.
    O Português o encontra denodado,
    Pelos peitos as lanças lhe atravessa:
    Uns caem meios mortos, e outros vão
    A ajuda convocando do Alcorão.

    51
    "Ali se vêem encontros temerosos,
    Para se desfazer uma alta serra,
    E os animais correndo furiosos
    Que Neptuno amostrou ferindo a terra.
    Golpes se dão medonhos e forçosos;
    Por toda a parte andava acesa a guerra:
    Mas o de Luso arnês, couraça e malha
    Rompe, corta, desfaz, abola e talha.

    52
    "Cabeças pelo campo vão saltando
    Braços, pernas, sem dono e sem sentido;
    E doutros as entranhas palpitando,
    Pálida a cor, o gesto amortecido.
    Já perde o campo o exército nefando;
    Correm rios de sangue desparzido,
    Com que também do campo a cor se perde,
    Tornado carmesi de branco e verde.

    53
    "Já fica vencedor o Lusitano,
    Recolhendo os troféus e presa rica;
    Desbaratado e roto o Mauro Hispano,
    Três dias o grão Rei no campo fiei.
    Aqui pinta no branco escudo ufano,
    Que agora esta vitória certifica,
    Cinco escudos azuis esclarecidos,
    Em sinal destes cinco Reis vencidos,

    54
    "E nestes cinco escudos pinta os trinta
    Dinheiros por que Deus fora vendido,
    Escrevendo a memória em vária tinta,
    Daquele de quem foi favorecido.
    Em cada uni dos cinco, cinco pinta,
    Porque assim fica o número cumprido,
    Contando duas vezes o do meio,
    Dos cinco azuis, que em cruz pintando veio.

    55
    "Passado já algum tempo que passada
    Era esta grão vitória, o Rei subido
    A tomar vai Leiria, que tomada
    Fora, mui pouco havia, do vencido.
    Com esta a forte Arronches sojugada
    Foi juntamente, e o sempre enobrecido
    Scalabicastro, cujo campo ameno,
    Tu, claro Tejo, regas tão sereno.

    56
    "A estas nobres vilas sometidas,
    Ajunta também Mafra, em pouco espaço,
    E nas serras da Lua conhecidas,
    Sojuga a fria Sintra o duro braço;
    Sintra, onde as Naiades, escondidas
    Nas fontes, vão fugindo ao doce laço,
    Onde Amor as enreda brandamente,
    Nas águas acendendo fogo ardente.

    57
    "E tu, nobre Lisboa, que no Mundo
    Facilmente das outras és princesa,
    Que edificada foste do facundo,
    Por cujo engano foi Dardânia acesa;
    Tu, a quem obedece o mar profundo,
    Obedeceste à força Portuguesa,
    Ajudada também da forte armada,
    Que das Boreais partes foi mandada.

    58
    "Lá do Germânico Albis, e do Rene,
    E da fria Bretanha conduzidos,
    A destruir o povo Sarraceno,
    Muitos com tensão santa eram partidos.
    Entrando a boca já do Tejo ameno,
    Co'o arraial do grande Afonso unidos,
    Cuja alta fama então subia aos Céus,
    Foi posto cerco tos muros Ulisseus.

    59
    "Cinco vezes a Lua se escondera,
    E outras tantas mostrara cheio o rosto,
    Quando a cidade entrada se rendera
    Ao duro cerco, que lhe estava posto.
    Foi a batalha tão sanguina e fera,
    Quanto obrigava o firme pressuposto
    De vencedores ásperos e ousados,
    E de vencidos já desesperados.

    60
    "Desta arte enfim tomada se rendeu
    Aquela que, nos tempos já passados,
    A grande força nunca obedeceu
    Dos frios povos Cíticos ousados,
    Cujo poder a tanto se estendeu
    Que o Ibero o viu e o Tejo amedrontados;
    E enfim co'o Bétis tanto alguns puderam
    Que à terra de Vandália nome deram.

    61
    "Que cidade tão forte por ventura
    Haverá que resista, se Lisboa
    Não pôde resistir à força dura
    Da gente, cuja fama tanto voa?
    Já lhe obedece toda a Estremadura,
    Óbidos, Alenquer, por onde soa
    O tom das frescas águas, entre as pedras,
    Que murmurando lava, e Torres Vedras.

    62
    "E vós também, ó terras Transtaganas,
    Afamadas co'o dom da flava Ceres,
    Obedeceis às forças mais que humanas,
    Entregando-lhe os muros e os poderes.
    E tu, lavrador Mouro, que te enganas,
    Se sustentar a fértil terra queres;
    Que Elvas, e Moura, e Serpa conhecidas,
    E Alcácere-do-Sal estão rendidas.

    63
    "Eis a nobre Cidade, certo assento
    Do rebelde Sertório antigamente,
    Onde ora as águas nítidas de argento
    Vem sustentar de longo a terra e a gente,
    Pelos arcos reais, que cento e cento
    Nos ares se alevantam nobremente,
    Obedeceu por meio e ousadia
    De Giraldo, que medos não temia.

    64
    "Já na cidade Beja vai tomar
    Vingança de Trancoso destruída
    Afonso, que não sabe sossegar,
    Por estender coa fama a curta vida.
    Não se lhe pode muito sustentar
    A cidade; mas sendo já rendida,
    Em toda a cousa viva a gente irada
    Provando os fios vai da dura espada.

    65
    "Com estas sojugada foi Palmela,
    E a piscosa Cezimbra, e juntamente,
    Sendo ajudado mais de sua estrela,
    Desbarata um exército potente:
    Sentiu-o a vila, e viu-o a serra dela,
    Que a socorrê-la vinha diligente
    Pela fralda da serra, descuidado
    Do temeroso encontro inopinado.

    66
    "O Rei de Badajoz era alto Mouro,
    Com quatro mil cavalos furiosos,
    Inúmeros peões, d'armas e de ouro
    Guarnecidos, guerreiros e lustrosos.
    Mas, qual no mês de Maio o bravo touro,
    Co'os ciúmes da vaca, arreceosos,
    Sentindo gente o bruto e cego amante
    Salteia o descuidado caminhante:

    67
    "Desta arte Afonso súbito mostrado
    Na gente dá, que passa bem segura,
    Fere, mata, derriba denodado;
    Foge o Rei Mouro, e só da vida cura.
    Dum pânico terror todo assombrado,
    Só de segui-lo o exército procura;
    Sendo estes que fizeram tanto abalo
    Não mais que só sessenta de cavalo.

    68
    "Logo segue a vitória sem tardança
    O grão Rei incansábil, ajuntando
    Gentes de todo o Reino, cuja usança
    Era andar sempre terras conquistando.
    Cercar vai Badajoz, e logo alcança
    O fim de seu desejo, pelejando
    Com tanto esforço, e arte, e valentia,
    Que a fez fazer às outras companhia.

    69
    "Mas o alto Deus, que para longe guarda
    O castigo daquele que o merece,
    Ou, para que se emende, às vezes tarda,
    Ou por segredos que homem não conhece,
    Se até que sempre o forte Rei resguarda
    Dos perigos a que ele se oferece;
    Agora lhe não deixa ter defesa
    Da maldição da mãe que estava presa.

    70
    "Que estando na cidade, que cercara,
    Cercado nela foi dos Lioneses,
    Porque a conquista dela lhe tomara,
    De Lião sendo, e não dos Portugueses.
    A pertinácia aqui lhe custa cara,
    Assim como acontece muitas vezes,
    Que em ferros quebra as pernas, indo aceso
    A batalha, onde foi vencido e preso.

    71
    "Ó famoso Pompeio, não te pene
    De teus feitos ilustres a ruína,
    Nem ver que a justa Némesis ordene
    Ter teu sogro de ti vitória dina,
    Posto que o frio Fásis, ou Siene,
    Que para nenhum cabo a sombra inclina,
    O Bootes gelado e a linha ardente,
    Temessem o teu nome geralmente.

    72
    "Posto que a rica Arábia e que os ferozes
    Eníocos e Colcos, cuja fama
    O Véu dourado estende, e os Capadoces,
    E Judeia, que um Deus adora e ama,
    E que os moles Sofenos, e os atroces
    Cilícios, com a Arménia, que derrama
    As águas dos dous rios, cuja fonte
    Está noutro mais alto e santo monte;

    73
    "E posto enfim que desde o mar de Atlante
    Até o Cítico Tauro monte erguido,
    Já vencedor te vissem, não te espanto
    Se o campo Emátio só te viu vencido,
    Porque Afonso verás, soberbo e ovante,
    Tudo render-se ser depois rendido.
    Assim o quis o conselho alto e celeste,
    Que vença o sogro a ti, e o genro a este.

    74
    "Tornado o Rei sublime finalmente,
    Do divino Juízo castigado,
    Depois que em Santarém soberbamente
    Em vão dos Sarracenos foi cercado,
    E depois que do mártire Vicente
    O santíssimo corpo venerado
    Do Sacro Promontório conhecido
    A cidade Ulisseia foi trazido;

    75
    "Porque levasse avante seu desejo,
    Ao forte filho manda o lasso velho
    Que às terras se passasse d'Alentejo,
    Com gente e co'o belígero aparelho.
    Sancho, d'esforço o d'ânimo sobejo,
    Avante passa, e faz correr vermelho
    O rio que Sevilha vai regando,
    Co'o sangue Mauro, bárbaro e nefando.

    76
    "E com esta vitória cobiçoso,
    Já não descansa o moço até que veja
    Outro estrago como este, temeroso,
    No Bárbaro que tem cercado Beja.
    Não tarda muito o Príncipe ditoso
    Sem ver o fim daquilo que deseja.
    Assim estragado o Mouro, na vingança
    De tantas perdas põe sua esperança.

    77
    "Já se ajuntam do monte a quem Medusa
    O corpo fez perder, que teve o Céu;
    Já vem do promontório de Ampelusa
    E do Tinge, que assento foi de Anteu.
    O morador de Abila não se escusa,
    Que também com suas armas se moveu,
    Ao som da Mauritana e ronca tuba,
    Todo o Reino que foi do nobre Juba.

    78
    "Entrava com toda esta companhia
    O Miralmomini em Portugal;
    Treze Reis mouros leva de valia,
    Entre os quais tem o ceptro imperial;
    E assim fazendo quanto mal podia,
    O que em partes podia fazer mal,
    Dom Sancho vai cercar em Santarém;
    Porém não lhe sucede muito bem.

    79
    "Dá-lhe combates ásperos, fazendo
    Ardis de guerra mil o Mouro iroso;
    Não lhe aproveita já trabuco horrendo,
    Mina secreta, aríete forçoso:
    Porque o filho de Afonso não perdendo
    Nada do esforço e acordo generoso,
    Tudo provê com ânimo e prudência;
    Que em toda a parte há esforço e resistência.

    80
    "Mas o velho, a quem tinham já obrigado
    Os trabalhosos anos ao sossego,
    Estando na cidade, cujo prado
    Enverdecem as águas do Mondego,
    Sabendo como o filho está cercado
    Em Santarém do Mauro povo cego,
    Se parte diligente da cidade;
    Que não perde a presteza coa idade.

    81
    "E coa famosa gente à guerra usada
    Vai socorrer o filho; e assim ajuntados,
    A Portuguesa fúria costumada
    Em breve os Mouros tem desbaratados.
    A campina, que toda está coalhada
    De marlotas, capuzes variados,
    De cavalos, jaezes, presa rica,
    De seus senhores mortos cheia fica.

    82
    "Logo todo o restante se partiu
    De Lusitânia, postos em fugida;
    O Miralmomini só não fugiu,
    Porque, antes de fugir, lhe foge a vida.
    A quem lhe esta vitória permitiu
    Dão louvores e graças sem medida:
    Que em casos tão estranhos claramente
    Mais peleja o favor de Deus que a gente.

    83
    "De tamanhas vitórias triunfava
    O velho Afonso, Príncipe subido,
    Quando, quem tudo enfim vencendo andava,
    Da larga e muita idade foi vencido.
    A pálida doença lhe tocava
    Com fria mão o corpo enfraquecido;
    E pagaram seus anos deste jeito
    A triste Libitina seu direito.

    84
    "Os altos promontórios o choraram,
    E dos rios as águas saudosas
    Os semeados campos alagaram
    Com lágrimas correndo piedosas.
    Mas tanto pelo mundo se alargaram
    Com faina suas obras valerosas,
    Que sempre no seu Reino chamarão
    "Afonso, Afonso" os ecos, mas em vão.

    85
    "Sancho, forte mancebo, que ficara
    Imitando seu pai na valentia,
    E que em sua vida já se exprimentara,
    Quando o Bétis de sangue se tingia,
    E o bárbaro poder desbaratara
    Do Ismaelita Rei de Andaluzia;
    E mais quando os que Beja em vão cercaram,
    Os golpes de seu braço em si provaram;

    86
    "Depois que foi por Rei alevantado,
    Havendo poucos anos que reinava,
    A cidade de Silves tem cercado,
    Cujos campos o bárbaro lavrava.
    Foi das valentes gentes ajudado
    Da Germânica armada que passava,
    De armas fortes e gente apercebida,
    A recobrar Judeia já perdida.

    87
    "Passavam a ajudar na santa empresa
    O roxo Federico, que moveu
    O poderoso exército em defesa
    Da cidade onde Cristo padeceu,
    Quando Guido, coa gente em sede acesa,
    Ao grande Saladino se rendeu,
    No lugar onde aos Mouros sobejavam
    As águas que os de Guido desejavam.

    88
    "Mas a formosa armada, que viera
    Por contraste de vento àquela parte,
    Sancho quis ajudar na guerra fera,
    Já que em serviço vai do santo Marte.
    Assim como a seu pai acontecera
    Quando tomou Lisboa, da mesma arte
    Do Germano ajudado Silves toma,
    E o bravo morador destrue e doma.

    89
    "E se tantos troféus do Mahometa
    Alevantando vai, também do forte
    Lionês não consente estar quieta
    A terra, usada aos casos de Mavorte,
    Até que na cerviz seu jugo meta
    Da soberba Tui, que a mesma sorte
    Viu ter a muitas vilas suas vizinhas,
    Que, por armas, tu, Sancho, humildes tinhas.

    90
    "Mas entre tantas palmas salteado
    Da temerosa morte, fica herdeiro
    Um filho seu, de todos estimado,
    Que foi segundo Afonso, e Rei terceiro.
    No tempo deste, aos Mouros foi tomado
    Alcácere-do-Sal por derradeiro;
    Porque dantes os Mouros o tomaram,
    Mas agora estruídos o pagaram.

    91
    "Morto depois Afonso, lhe sucede
    Sancho segundo, manso e descuidado,
    Que tanto em seus descuidos se desmede,
    Que de outrem, quem mandava, era mandado.
    De governar o Reino, que outro pede,
    Por causa dos privados foi privado,
    Porque, como por eles se regia,
    Em todos os seus vícios consentia.

    92
    "Não era Sancho, não, tão desonesto
    Como Nero, que um moço recebia
    Por mulher, e depois horrendo incesto
    Com a mãe Agripina cometia;
    Nem tão cruel às gentes e molesto,
    Que a cidade queimasse onde vivia,
    Nem tão mau como foi Heliogabalo,
    Nem como o mole Rei Sardanapalo.

    93
    "Nem era o povo seu tiranizado,
    Como Sicília foi de seus tiranos;
    Nem tinha como Fálaris achado
    Gênero de tormentos inumanos;
    Mas o Reino, de altivo e costumado
    A senhores em tudo soberanos,
    A Rei não obedece, nem consente,
    Que não for mais que todos excelente.

    94
    "Por esta causa o Reino governou
    O Conde Bolonhês, depois alçado
    Por Rei, quando da vida se apartou
    Seu irmão Sancho, sempre ao ócio dado.
    Este, que Afonso o bravo, se chamou,
    Depois de ter o Reino segurado,
    Em dilatá-lo cuida, que em terreno
    Não cabe o altivo peito, tão pequeno.

    95
    "Da terra dos Algarves, que lhe fora
    Em casamento dada, grande parte
    Recupera co'o braço, e deita fora
    O Mouro, mal querido já de Marte.
    Este de todo fez livre e senhora
    Lusitânia, com força e bélica arte;
    E acabou de oprimir a nação forte,
    Na terra que aos de Luso coube em sorte.

    96
    "Eis depois vem Dinis, que bem parece
    Do bravo Afonso estirpe nobre e dina,
    Com quem a fama grande se escurece
    Da liberalidade Alexandrina.
    Com este o Reino próspero florece
    (Alcançada já a paz áurea divina)
    Em constituições, leis e costumes,
    Na terra já tranquila claros lumes.

    97
    "Fez primeiro em Coimbra exercitar-se
    O valeroso ofício de Minerva;
    E de Helicona as Musas fez passar-se
    A pisar do Monde-o a fértil erva.
    Quanto pode de Atenas desejar-se,
    Tudo o soberbo Apolo aqui reserva.
    Aqui as capelas dá tecidas de ouro,
    Do bácaro e do sempre verde louro.

    98
    "Nobres vilas de novo edificou
    Fortalezas, castelos mui seguros,
    E quase o Reino todo reformou
    Com edifícios grandes, e altos muros.
    Mas depois que a dura Átropos cortou
    O fio de seus dias já maduros,
    Ficou-lhe o filho pouco obediente,
    Quarto Afonso, mas forte e excelente.

    99
    "Este sempre as soberbas Castelhanas
    Co'o peito desprezou firme e sereno,
    Porque não é das forças Lusitanas,
    Temer poder maior, por mais pequeno.
    Mas porém, quando as gentes Mauritanas,
    A possuir o Hespérico terreno
    Entraram pelas terras de Castela,
    Foi o soberbo Afonso a socorrê-la.

    100
    "Nunca com Semirâmis gente tanta
    Veio os campos idáspicos enchendo,
    Nem Atila, que Itália toda espanta,
    Chamando-se de Deus açoute horrendo,
    Gótica gente trouxe tanta, quanta
    Do Sarraceno bárbaro estupendo,
    Co'o poder excessivo de Granada,
    Foi nos campos Tartésios ajuntada.

    101
    "E vendo o Rei sublime Castelhano
    A força inexpugnábil, grande e forte,
    Temendo mais o fim do povo hispano,
    Já perdido uma vez, que a própria morte,
    Pedindo ajuda ao forte Lusitano,
    Lhe mandava a caríssima consorte,
    Mulher de quem a manda, e filha amada
    Daquele a cujo Reino foi mandada.

    102
    "Entrava a formosíssima Maria
    Pelos paternais paços sublimados,
    Lindo o gesto, mas fora de alegria,
    E seus olhos em lágrimas banhados;
    Os cabelos angélicos trazia
    Pelos ebúrneos ombros espalhados:
    Diante do pai ledo, que a agasalha,
    Estas palavras tais, chorando, espalha:

    103
    –"Quantos povos a terra produziu
    De África toda, gente fera e estranha,
    O grão Rei de Marrocos conduziu
    Para vir possuir a nobre Espanha:
    Poder tamanho junto não se viu,
    Depois que o salso mar a terra banha.
    Trazem ferocidade, e furor tanto,
    Que a vivos medo, e a mortos faz espanto.

    104
    –"Aquele que me deste por marido,
    Por defender sua terra amedrontada,
    Co'o pequeno poder, oferecido
    Ao duro golpe está da Maura espada;
    E se não for contigo socorrido,
    Ver-me-ás dele e do Reino ser privada,
    Viúva e triste, e posta em vida escura,
    Sem marido, sem Reino, e sem ventura.

    105
    "Portanto, ó Rei, de quem com puro medo
    O corrente Muluca se congela,
    Rompe toda a tardança, acude cedo
    A miseranda gente de Castela.
    Se esse gesto, que mostras claro e ledo,
    De pai o verdadeiro amor assela,
    Acude e corre, pai, que se não corres,
    Pode ser que não aches quem socorres."–

    106
    "Não de outra sorte a tímida Maria
    Falando está, que a triste Vénus, quando
    A Júpiter, seu pai, favor pedia
    Para Eneias, seu filho, navegando;
    Que a tanta piedade o comovia
    Que, caído das mãos o raio infando,
    Tudo o clemente Padre lhe concede,
    Pesando-lhe do pouco que lhe pede.

    107
    "Mas já co'os esquadrões da gente armada
    Os Eborenses campos vão coalhados:
    Lustra co'o Sol o arnês, a lança, a espada;
    Vão rinchando os cavalos jaezados.
    A canora trombeta embandeirada,
    Os corações à paz acostumados
    Vai às fulgentes armas incitando,
    Pelas concavidades retumbando.

    108
    "Entre todos no meio se sublima,
    Das insígnias Reais acompanhado,
    O valeroso Afonso, que por cima
    De todos leva o colo alevantado;
    E somente co'o gesto esforça e anima
    A qualquer coração amedrontado.
    Assim entra nas terras de Castela
    Com a filha gentil, Rainha dela.

    109
    "Juntos os dous Afonsos finalmente
    Nos campos de Tarifa estão defronte
    Da grande multidão da cega gente,
    Para quem são pequenos campo e monte.
    Não há peito tão alto e tão potente,
    Que de desconfiança não se afronte,
    Enquanto não conheça e claro veja
    Que co'o braço dos seus Cristo peleja.

    110
    "Estão de Agar os netos quase rindo
    Do poder dos Cristãos fraco e pequeno,
    As terras como suas repartindo
    Antemão, entre o exército Agareno,
    Que com título falso possuindo
    Está o famoso nome Sarraceno.
    Assim também com falsa conta e nua,
    À nobre terra alheia chamam sua.

    111
    "Qual o membrudo e bárbaro Gigante,
    Do rei Saul, com causa, tão temido,
    Vendo o pastor inerme estar diante,
    Só de pedras e esforço apercebido,
    Com palavras soberbas o arrogante
    Despreza o fraco moço mal vestido,
    Que, rodeando a funda, o desengana
    Quanto mais pode a Fé que a força humana:

    112
    "Desta arte o Mouro pérfido despreza
    O poder dos Cristãos, e não entende
    Que está ajudado da Alta Fortaleza,
    A quem o inferno horrífico se rende.
    Co ela o Castelhano, e com destreza
    De Marrocos o Rei comete e ofende.
    O Português, que tudo estima em nada,
    Se faz temer ao Reino de Granada.

    113
    "Eis as lanças e espadas retiniam
    Por cima dos arneses: bravo estrago!
    Chamam (segundo as leis que ali seguiam)
    Uns Mafamede, e os outros Santiago.
    Os feridos com grita o Céu feriam,
    Fazendo de seu sangue bruto lago,
    Onde outros meios mortos se afogavam,
    Quando do ferro as vidas escapavam.

    114
    "Com esforço tamanho estrui e mata
    O Luso ao Granadil, que, em pouco espaço,
    Totalmente o poder lhe desbarata,
    Sem lhe valer defesa ou peito de aço.
    De alcançar tal vitória tão barata
    Inda não bem contente o forte braço,
    Vai ajudar ao bravo Castelhano,
    Que pelejando está co'o Mauritano.

    115
    "Já se ia o Sol ardente recolhendo
    Para a casa de Tethys, e inclinado
    Para o Ponente, o Véspero trazendo,
    Estava o claro dia memorado,
    Quando o poder do Mauro grande e horrendo
    Foi pelos fortes Reis desbaratado,
    Com tanta mortandade, que a memória
    Nunca no mundo viu tão grã vitória.

    116
    "Não matou a quarta parte o forte Mário
    Dos que morreram neste vencimento,
    Quando as águas co'o sangue do adversário
    Fez beber ao exército sedento;
    Nem o Peno asperíssimo contrário
    Do Romano poder, de nascimento,
    Quando tantos matou da ilustro Roma,
    Que alqueires três de anéis dos mortos toma.

    117
    "E se tu tantas almas só pudeste
    Mandar ao Reino escuro de Cocito,
    Quando a santa Cidade desfizeste
    Do povo pertinaz no antigo rito:
    Permissão e vingança foi celeste,
    E não força de braço, ó nobre Tito,
    Que assim dos Vates foi profetizado,
    E depois por Jesu certificado.

    118
    "Passada esta tão próspera vitória,
    Tornando Afonso à Lusitana terra,
    A se lograr da paz com tanta glória
    Quanta soube ganhar na dura guerra,
    O caso triste, e dino da memória,
    Que do sepulcro os homens desenterra,
    Aconteceu da mísera e mesquinha
    Que depois de ser morta foi Rainha.

    119
    "Tu só, tu, puro Amor, com força crua,
    Que os corações humanos tanto obriga,
    Deste causa à molesta morte sua,
    Como se fora pérfida inimiga.
    Se dizem, fero Amor, que a sede tua
    Nem com lágrimas tristes se mitiga,
    É porque queres, áspero e tirano,
    Tuas aras banhar em sangue humano.

    120
    "Estavas, linda Inês, posta em sossego,
    De teus anos colhendo doce fruto,
    Naquele engano da alma, ledo e cego,
    Que a fortuna não deixa durar muito,
    Nos saudosos campos do Mondego,
    De teus fermosos olhos nunca enxuto,
    Aos montes ensinando e às ervinhas
    O nome que no peito escrito tinhas.

    121
    "Do teu Príncipe ali te respondiam
    As lembranças que na alma lhe moravam,
    Que sempre ante seus olhos te traziam,
    Quando dos teus fermosos se apartavam:
    De noite em doces sonhos, que mentiam,
    De dia em pensamentos, que voavam.
    E quanto enfim cuidava, e quanto via,
    Eram tudo memórias de alegria.

    122
    "De outras belas senhoras e Princesas
    Os desejados tálamos enjeita,
    Que tudo enfim, tu, puro amor, despreza,
    Quando um gesto suave te sujeita.
    Vendo estas namoradas estranhezas
    O velho pai sesudo, que respeita
    O murmurar do povo, e a fantasia
    Do filho, que casar-se não queria,

    123
    "Tirar Inês ao mundo determina,
    Por lhe tirar o filho que tem preso,
    Crendo co'o sangue só da morte indina
    Matar do firme amor o fogo aceso.
    Que furor consentiu que a espada fina,
    Que pôde sustentar o grande peso
    Do furor Mauro, fosse alevantada
    Contra uma fraca dama delicada?

    124
    "Traziam-na os horríficos algozes
    Ante o Rei, já movido a piedade:
    Mas o povo, com falsas e ferozes
    Razões, à morte crua o persuade.
    Ela com tristes o piedosas vozes,
    Saídas só da mágoa, e saudade
    Do seu Príncipe, e filhos que deixava,
    Que mais que a própria morte a magoava,

  • Os fidalgos da Casa Mourisca

    Os fidalgos da Casa Mourisca

    Aproximadamente 147.699 palavras.

    Mauricio sorriu, objectando ao irmão:

    –És suspeito, Jorge. Tu duvidas encontrar a poesia ao teu lado, quando
    trabalhares, porque ainda a não viste, aonde todos a vêem, ahi por essas
    devezas, valles e ribeiras.

    –Vi-a ainda hoje em casa de um lavrador, aonde se trabalhava; tu é que
    não a vias lá.

    –Ah! então já confessas que ella está com os que trabalham?

    –Mas não a vêem esses. Não a viu Thomé, nem nenhum dos seus criados;
    vi-a eu que estava de fóra.

    –E quem deu a Thomé sentidos para a vêr?

    –A ninguem faltam, creio-o. Mas quando se trabalha com verdadeiro
    ardor, a visão encobre-se prudentemente, como se soubesse que quem a tem
    presente, tão namorado está d'ella, que o assaltam as distracções dos
    namorados. E o trabalho é exigente e severo; ha uns cuidados pequeninos,
    impertinentes, prosaicos, de que elle não prescinde. Ás vezes é util até
    certa irritação provocada pelas difficuldades fastidiosas que elle
    suscita; instigam, estimulam brios para vencêl-o.

    Continuaram os dois irmãos este dialogo e assentaram emfim na resolução
    de mudar de vida, cada um com o grau de firmeza propria do seu caracter,
    e portanto com firmeza desigual. Decidiram fallar n'aquelle mesmo
    momento a D. Luiz.

    A occasião era propicia. Frei Januario dormia ainda a sesta, e portanto
    o fidalgo devia estar só no seu quarto.

    Era já noite. O luar coloria com tintas magicas a paisagem fronteira á
    Casa Mourisca. Esta desenhava o seu vulto negro sobre o fundo azul
    pallido do céo sem estrellas. A ramaria dos carvalhos e a queda da agua
    nas fontes levantavam vozes melancolicas do meio das indistinctas
    sombras da quinta.

    Em noites assim conservava-se D. Luiz longo tempo á janella do quarto. A
    fronte encostada á mão, os olhos fitos nos pontos illuminados da
    perspectiva, e o pensamento… ai, quem sabe porque melancolicas
    paragens andava o pensamento do pobre velho?! Passadas magnificencias,
    festas, alegrias e triumphos de tempos mais felizes, memorias de vida
    n'esta habitação hoje silenciosa, e por toda a parte, e sempre, a
    pallida imagem da filha morta, o enlevo de toda a sua vida, que ao
    desapparecer lh'a deixou escura e desencantada… que outras podiam ser
    as visões presentes áquelle espirito sombrio?

    Pobre velho!

    Foi para este quarto escuro que se dirigiram os dois irmãos.

    VI

    Ao chegar á porta dos aposentos do pae experimentou Jorge uma primeira
    hesitação.

    D. Luiz tractava sempre os filhos de uma maneira tão austera,
    abria-se-lhes tão pouco em confidencias, mostrava tão má vontade ao ter
    com elles longas e sérias conversações, que Jorge precisava de exercer
    um grande esforço sobre si mesmo para dar aquelle passo tão fóra dos
    seus habitos.

    Pela primeira vez os filhos procuravam assim o pae no proprio quarto
    d'elle; a estranheza do facto seria pois já uma razão bastante para os
    perturbar, ainda quando não concorresse para o mesmo effeito a natureza
    do assumpto da conferencia, que não podia ser mais solemne.

    A resolução de Jorge era porém muito forte, e o enthusiasmo de Mauricio
    muito inconsiderado, para que se deixassem dominar por aquella quasi
    instinctiva timidez.

    Jorge bateu á porta com intimo sobresalto.

    Respondeu immediatamente a voz de D. Luiz, mandando entrar quem batia.

    Os dois irmãos impelliram diante de si a porta, e afastando o
    reposteiro, entraram.

    Os raios do luar tinham já principiado a penetrar na sala, desenhando no
    pavimento as projecções das janellas ogivaes, que a pouco e pouco
    cresciam para o interior.

    Do lado da porta eram porém ainda espessas as sombras, e D. Luiz não
    podia pois conhecer quem entrava.

    A sala era extensa, e por isso alguns momentos decorreram, longos para a
    impaciencia do fidalgo, antes que os dois rapazes chegassem ao logar
    onde elle os esperava, escutando com estranheza aquelles passos, sem
    poder conjecturar de quem fossem.

    A final proximos da cadeira do pae, pararam e guardaram por instantes
    silencio.

    A fronte descoberta ficava-lhes alumiada pelo luar, e recebia d'aquella
    mysteriosa luz uma singular expressão de gravidade.

    D. Luiz, reconhecendo os filhos, olhou fixamente para elles e
    perguntou-lhes admirado:

    –O que é que pretendem?

    Jorge foi o que respondeu.

    –Se v. exc.ª nos quizer ouvir, meu pae, desejavamos fallar-lhe.

    –Fallar-me?!–repetiu D. Luiz, em tom de espanto e quasi irritado.

    –Sim, senhor.

    –É singular! E a proposito de quê?

    –Do nosso futuro.

    –Ah!–exclamou o fidalgo, procurando encobrir em ironia a sua
    crescente irritação.–Deram-lhe para pensar n'elle agora pelo luar.

    –Penso n'elle ha muitos dias, meu pae. Ha muitos dias que elle me
    inquieta.

    D. Luiz fez um movimento, que immediatamente reprimiu, e passou a
    interrogar Mauricio, no mesmo tom de affectada ironia:

    –Tambem te atacaram as mesmas inquietações pelo futuro?

    –Ha menos tempo, mas com maior fundamento talvez–respondeu-lhe com
    firmeza o filho interrogado.

    D. Luiz calou-se por alguns instantes, depois tornou para Jorge:

    –Então vejamos a causa dos teus receios, saibamos o que te trouxe aqui.

    E principiou a tocar nervosamente com os dedos nos braços da cadeira.

    –Meu pae–principiou Jorge–perdoe-me a liberdade que tomo de fallar
    n'isto a v. exc.ª; mas é o empenho que faço em que o nome e o credito de
    nossa familia se conserve sem mancha… que…

    O fidalgo interrompeu-o, batendo com violencia no peitoril da janella.

    –E quem o manchou?–rugiu elle, quasi meio erguido, e fitando o filho
    com um olhar, cujo fulgor até á claridade tibia da lua se percebia.

    –Até hoje ninguem; manchal-o-hei eu talvez ámanhã, quando não puder
    satisfazer os compromissos da nossa casa; manchal-o-hei, quando me bater
    á porta a miseria e me encontrar com habitos de ociosidade e sem a
    sciencia do trabalho–respondeu placidamente Jorge á violenta
    interpellação do pae.

    –Então já sabes que te baterá á porta a miseria?–inquiriu o fidalgo
    amargamente.

    D'esta vez foi Mauricio quem respondeu:

    –Ha quem se encarregue de nol-o ensinar. Em cada homem do campo temos
    um mestre, e as crianças por ahi já sabem dizer que os fidalgos da Casa
    Mourisca estão empenhados.

    D. Luiz a estas palavras estremeceu, como ao contacto de um ferro
    candente; virou-se irritado para Jorge, fallando quasi a custo:

    –No meu tempo pagavam-se essas lições bem caras! Para isso serviam
    então, pelo menos, os rapazes das nossas familias.

    –Tambem nós as pagariamos, senhor; mas, voltando a casa, dir-nos-ia a
    consciencia que não ficavam assim saldadas todas as dividas. O orgulho e
    a vingança estariam satisfeitos; mas a razão e o dever,
    não–contestou-lhe Jorge.

    –Então queiram dizer-me o que lhes manda a razão, e… e o que mais?…
    Ah, sim… e mais o dever.

    Jorge, sem se perturbar, acudiu:

    –Mandam-nos trabalhar para remir essas dividas; luctar pela integridade
    d'estes bens, que são nossa herança, augmental-os antes se fôr possivel;
    mandam-nos manter em respeito essa gente, que nos olha com atrevimento,
    destruindo para isso os fundamentos da sua insolencia. A razão, meu pae,
    diz-nos que é uma vergonha e um crime para os nossos vinte annos a vida
    ociosa e inutil que passamos aqui.

    –Muito bem; querem então meus filhos que eu lhes dê um modo de vida;
    veem aqui no proposito de arguir-me por me ter descuidado de os…
    arrumar?

    O fidalgo empregou no verbo final, de um sabor burguez, toda a emphase
    sarcastica, que lhe inspirava a sua irritação e orgulho aristocratico.

    –Não, meu pae–insistiu Jorge–vimos apenas lembrar a v. exc.ª que
    chegamos a uma idade em que já nos não satisfazem os gozos da vida de
    rapaz, de que o muito amor de v. exc.ª nos tem permittido saciar. Vimos
    pedir-lhe que nos conceda agora licença de nos occuparmos de outra ordem
    de ideias e de mudarmos de vida. Sentimos despontar em nós desejos
    novos, vimos respeitosamente annuncial-o a v. exc.ª e rogar-lhe a
    permissão para realisal-os.

    D. Luiz sorriu ironico, porque não podia ainda tomar a serio a resolução
    dos filhos, em quem só via duas crianças; e continuou zombando:

    –Está bem. Então tu o que queres ser?

    Jorge respondeu promptamente:

    –Procurador de v. exc.ª na administração da nossa casa.

    D. Luiz olhou d'esta vez para o filho mais seriamente, porque lhe
    causára impressão a firmeza e promptidão da resposta, em vez das
    titubeações que esperava. Convenceu-se de que Jorge não procedia
    levianamente de todo, e que n'elle havia uma tenção formada. Voltando-se
    para Mauricio, interrogou-o, ainda no mesmo tom em que principiára:

    –E tu? Queres ir para o Brazil?

    Mauricio não tinha, como Jorge, uma resposta prompta, porque n'elle o
    projecto era apenas uma resolução vaga e mal definida, e não um plano
    fixo e meditado como o do irmão. Era n'essas fórmas vagas que elle mais
    o namorava, e talvez ao pretender fixal-o, principiasse a experimentar
    as primeiras repugnancias e desillusões.

    D. Luiz esperou alguns instantes pela resposta do filho mais novo, mas,
    como o visse hesitar, continuou, encolhendo os hombros:

    –Ainda não pensaste n'isso. Bom. Ouçamos então primeiro teu irmão.
    Visto isso achas tu que, sob a tua gerencia, a administração de nossa
    casa prosperaria?

    –Creio que não iria peor conduzida do que vae. V. exc.ª conhece
    perfeitamente que não será grande façanha ir tão longe como frei
    Januario.

    –É um homem experiente.

    –Triste resultado o da experiencia. O pae deve, melhor do que nós,
    saber o estado dos negocios d'esta casa; mas quer-me parecer que não me
    enganarei muito, conjecturando a maneira por que elles vão. Pedir
    emprestado sob encargos e hypothecas pesadissimas, não para melhorar o
    que ainda possuimos, mas para consumir o pouco que se obtem em gastos
    improductivos, lavrar arrendamentos com que o senhorio nada lucra e com
    que a propriedade se empobrece, deixar ao desprezo terras não
    arrendadas, é a pratica até hoje seguida, tão facil como funesta.

    –E quem te disse que é possivel fazer outra coisa?–objectou já sem
    ironia o pae.–Os tempos actuaes são de prova para familias como as
    nossas, a maré que sobe traz á flôr da agua o que era lôdo em outros
    tempos.

    –Deixe-me tentar, meu pae.

    –Tentar o que? criança. Queres ser enganado e escarnecido por esses
    manhosos proprietarios e rendeiros, com quem infelizmente temos de
    lidar? Que sabes tu da administração dos bens ruraes?

    –Aprenderei. A sciencia, patente ás faculdades de frei Januario, não é
    defeza a ninguem.

    –Nem tu sabes o que pedes. Não córarias de vergonha no tracto familiar
    a que esses negocios obrigam, com homens grosseiros, insolentes,
    miseraveis de hontem, e que hoje nos atiram á cara com a sua riqueza?

    –Procuraria d'entre esses os de mais educação.

    O velho encolheu os hombros com impaciencia, murmurando:

    –Educação! Elles!

    –Porém, meu pae–argumentou Jorge com mais vehemencia–é uma triste
    necessidade esta. Pense bem. Se é vergonha, como diz, procural-os para
    tractar negocios, maior vergonha será que elles nos procurem para nos
    expulsar d'esta casa; se a um homem da nossa familia fica mal velar por
    ella, peor e menos decoroso lhe será ter de deixar esta terra, onde já
    não possua um palmo de seu, sem poder attribuir essa desgraça senão á
    sua propria incuria. A memoria dos nossos antepassados soffrerá menos se
    um dia se disser dos seus descendentes que trabalharam, para livrar da
    destruição e de mãos alheias o solar que lhes pertencia; do que se se
    contar, apontando para as ruinas d'esta casa, que elles a deixaram cahir
    e invadir por estranhos, sem respeito por as gloriosas tradições que a
    illustravam. É pouco para ambicionar-se esta fama.

    –E depois, meu pae–acudiu Mauricio–que dôr não seria o vêr devassado
    por invasores o quarto em que morreu minha mãe, esta sala, o salão onde
    brincavamos em criança, e até os aposentos de nossa irmã, da sua querida
    Beatriz?

    A memoria da filha morta commovia sempre o coração d'aquelle velho, que
    ella ainda povoava de saudades; por isso curvou desalentado a cabeça
    assim que lhe ouviu o nome, e murmurou:

    –Não; a nossa miseria não irá tão longe. Creio que Deus não me
    reservará esse tremendo castigo. Morrerei primeiro.

    –E nós, se lhe sobrevivermos, senhor, não soffreremos tambem? Quererá
    legar a seus filhos uma herança d'essas?–interpellou-o Jorge.

    O pae escondeu a cabeça entre as mãos, já sem signaes da rispidez com
    que principiara a scena, e não pôde responder a esta interrogação de
    Jorge.

    Mauricio sentiu-se commovido ante aquella sincera manifestação de dôr,
    que observava no pae, na presença d'elles de ordinario tão reservado.

    –Não–acudiu elle impellido por aquelle sentimento–o interior da nossa
    casa não será devassado por estranhos, nem na sua vida, meu pae, nem
    depois da sua morte. Dê-nos apenas permissão para trabalharmos, e nós
    juramos evitar essa humilhação.

    D. Luiz ergueu finalmente a cabeça e pela primeira vez fez signal aos
    filhos para que se sentassem junto de si.

    Depois, dirigindo-se ao mais velho, já em tom menos severo:

    –Jorge–ponderou elle–a tarefa que queres emprehender não é facil. É
    verdade que não teem corrido pelas minhas mãos esses negocios, mas sei
    d'elles o bastante para prever os espinhos que n'elles encontrarias.
    Frei Januario não é um homem de talento, bem o sei, mas tem experiencia
    e boa vontade de nos servir, e ainda assim não prospéra esta casa, que
    foi das melhores da provincia. Como queres tu pois, ha poucos dias uma
    criança que em nada d'isto pensavas, tomar de repente sobre ti o encargo
    d'esta gerencia, e como imaginas que darias boa conta d'ella? Os teus
    planos são vagos. Fallas-me mais nos defeitos dos seguidos até hoje, dos
    que nas excellencias dos teus.

    –Perdão, meu pae, mas não são tão vagos como os suppõe. Pensei já muito
    n'isso. As difficuldades que ainda tenho, com tempo e meditação espero
    resolvêl-as; além d'isso… auxiliado… quando necessario fôr… dos
    conselhos de frei Januario, espero que me será possivel realisar o meu
    intento. Se me permitte exponho-lhe esses planos em poucas palavras.

    Tomando o silencio do pae por signal de aquiescencia, Jorge encetou a
    exposição dos seus projectos economicos.

    Não o seguiremos no longo relatorio, que pae e irmão escutaram admirados
    de tão inesperada sciencia. De facto, as informações de Thomé, os
    fructos da propria reflexão, as ideias adquiridas na leitura meditada
    dos poucos livros da sua bibliotheca, foram os elementos com que o
    espirito essencialmente methodico e organisador de Jorge construira um
    completo systema de administração, que, se tinha defeitos, não eram para
    ser apreciados pelo velho fidalgo, que nunca fôra dado a esses exames. A
    exposição clara, o tom de convicção, o calor do quasi enthusiasmo com
    que o filho fallava, enthusiasmo contagioso, exerceram no velho uma
    profunda influencia. Ao concluir, Jorge tinha vencido a causa.

    D. Luiz estava do fundo d'alma convicto de que este filho fôra destinado
    pela Providencia para ser o restaurador da sua casa.

    E comtudo havia um ponto essencial no plano de Jorge, que elle não
    mencionára. Para realisar a maior parte das medidas economicas, cujos
    maravilhosos effeitos com tanta eloquencia exposera, era indispensavel
    um capital inicial não pouco avultado, e Jorge não dissera como havia de
    obtêl-o. Esta era a parte secreta do seu plano; aquella, cuja menção
    bastaria para desvanecer toda a boa impressão produzida no animo de D.
    Luiz.

    O capital inicial devia vir do emprestimo razoavel, offerecido por Thomé
    da Povoa, ou obtido sob a garantia do credito d'elle. Esta operação era
    indispensavel, era a unica talvez salvadora; por quanto os outros
    capitalistas tinham sempre em vista apoderar-se dos bens do fidalgo, e
    por isso sómente emprestavam sob condições onerosissimas e perigosas.

    Mas o orgulho de D. Luiz não lhe deixaria aceitar favores de Thomé;
    nunca elle consentiria na menor transacção com o que fôra seu criado.

    Por isso Jorge guardou para si sómente esta parte das suas projectadas
    operações, e com D. Luiz felizmente era facil passar por alto certos
    pontos de questões d'esta natureza, que elle mal examinava. Assim pois o
    pae acabou por dar o consentimento pedido.

    –Seja; não me opponho a que te occupes da gerencia da casa, que dentro
    em pouco tempo será vossa. Vejo que tens reflectido n'isso mais do que
    eu julgava; comtudo marco duas condições; a primeira é que nunca faças
    contractos que sejam vergonhosos para o nome de nossa familia.

    –Prometto-lhe que não o envergonharei.

    –A segunda é que não desprezes os conselhos de frei Januario.

    –Por certo que não prescindirei das suas informações.

    –Eu lhe darei parte do que resolvi. E agora…–acrescentou D.
    Luiz–vamos ao resto… E Mauricio?

    Mauricio, interpellado pela segunda vez, achar-se-ia nas mesmas
    difficuldades para responder á interpellação, se Jorge não respondesse
    por elle:

    –Tambem pensei em Mauricio.

    –Ah! tambem?–disse o pae, não podendo occultar a quasi admiração, que
    lhe estava impondo Jorge.

    Mauricio interrogou tambem com a vista o irmão.

    –Se Mauricio confia em mim, é inutil a sua permanencia aqui na aldeia,
    onde não tem em que se occupe.

    –Tens a minha plena confiança, Jorge. E a não me quereres para teu
    guarda-livros…

    –Lembrou-me que Mauricio devia partir para Lisboa. Lá poderá ser mais
    util a si e a nossa casa. É verdade que não é essa por ora uma medida
    economica; antes obrigará a alguns sacrificios. Far-se-hão porém, se
    precisos forem, e Mauricio tem brios bastantes para não os deixar ficar
    improductivos.

    D. Luiz fez um gesto de duvida.

    –Humh!–objectou elle–que carreira póde n'estes tempos seguir na
    capital um filho meu? Queres acaso que elle vá renegar da causa, que a
    nossa familia sempre abraçou, e fazer pacto com essa gente que hoje
    governa?

    –Confesso que mal pensei ainda na carreira que lhe convirá seguir; mas
    sómente lá é que é possivel a escolha. Parece-me que sem deshonra se
    poderá trabalhar e ser util á patria, que é sempre a mesma, qualquer que
    seja o partido que a governe. Mas o caso não urge. V. exc.ª poderia
    escrever n'esse sentido a nossa prima Gabriella, que melhor que ninguem
    poderá fornecer-nos valiosas indicações.

    –Gabriella?! A senhora baroneza do Souto Real!–accentuou
    sarcasticamente o fidalgo.–Ora adeus! Uma doida…

    –Tem-se mostrado sempre nossa amiga–corrigiu Jorge–e ainda por
    occasião do fallecimento de Beatriz…

    –Sim, bom coração tem ella. Mas a sociedade em que vive, desde que
    casou e depois que viuvou, tem-lhe feito adquirir as qualidades da
    época. Não se lembra de que seu pae foi um militar, que morreu com as
    armas na mão a favor da causa legitimista. Hoje conta os seus amigos
    entre a gente, que a fez orphã.

    –Deve perdoar-se a uma mulher essa fraqueza. Ella não tem coração para
    odios. Bem o sabe. Parece-me comtudo que, apesar das suas apparencias
    frivolas, tem um fundo de bom senso d'onde póde sahir um aproveitavel
    conselho. Falle-lhe v. exc.ª com franqueza, diga-lhe quaes as condições
    sob que entende poder Mauricio entrar na sociedade, onde vivem sem
    apostasia muitos adeptos da antiga causa, e eu creio que ella o
    comprehenderá e lhe dará as informações pedidas.

    Ainda n'isto se deixou convencer D. Luiz pela eloquencia do filho. Jorge
    sabia que a prima era uma mulher de influencia no mundo politico e
    elegante, e esperava que a reconhecida diplomacia d'ella conseguisse
    aplanar as difficuldades, em que naturalmente se embaraçariam o orgulho
    e a paixão partidaria do fidalgo. E para assegurar melhor o resultado
    que esperava, resolveu elle proprio escrever-lhe confidencialmente.

    Quando o pae e os filhos se separaram, achava-se em todos os seus
    artigos sanccionado o projecto de Jorge.

    VII

    Frei Januario, dormida a sua regalada sésta, dispoz-se a fazer horas
    para a ceia, indo communicar ao fidalgo a grande nova das disposições de
    espirito, suspeitas e subversivas, em que encontrou o filho mais velho.

    Ainda D. Luiz meditava nas mudanças que ia soffrer o regimen economico
    da casa e nas mais ou menos provaveis consequencias d'ellas, quando a
    voz fanhosa do padre procurador se fez ouvir á porta, articulando o
    costumado–_licet_?–E sem esperar resposta o padre frei Januario foi
    entrando.

    –Ainda ás escuras, snr. D. Luiz?!

    –Nem sempre temos para nos alumiar luzes tão bellas como esta;
    respondeu o fidalgo, designando o luar que já lhe inundava o quarto.

    –Quer não; isto de luar não é lá das melhores coisas e depois o ar da
    noite…

    –A noite está que parece de maio.

    –Sim? mas sempre os vapores dos campos… Eu acho mais prudente
    accender luz e fechar as janellas.

    –Não me opponho, frei Januario, até porque temos que fallar.

    –Sim? Tambem tenho que communicar a v. exc.ª

    –Pois, muito bem. Vamos a isso.

    Fecharam-se as janellas, vieram as luzes e dispoz-se tudo para a
    conferencia.

    D. Luiz exigiu que frei Januario fallasse primeiro.

    –Visto isso, principiarei, e o que sinto é que seja para dar a v. exc.ª
    noticias assustadoras–preludiou o egresso.

    –Assustadoras! Que é a final? Alguma insolente exigencia de credor.

    –Nada, nada; a coisa é outra. Tracta-se do filho de v. exc.ª

    –De Mauricio? Que fez elle?

    –Não, senhor; não é do snr. D. Mauricio, que eu fallo.

    –Então? É de Jorge?

    –Justamente. Eu conto a v. exc.ª

    E frei Januario principiou a expôr ao fidalgo os pormenores da discussão
    que tivera com Jorge ao jantar e a commental-a com reflexões proprias.
    Horas antes, esta communicação teria talvez produzido o effeito
    estupendo, que o egresso calculára; mas a prévia entrevista de D. Luiz
    com os filhos tirára toda a importancia á revelação. D. Luiz apenas
    franziu o sobrolho á parte mais demagogica das doutrinas do filho, mas
    esse mesmo signal de desgosto foi passageiro, e quando o procurador
    acabou a sua estirada confidencia, em vez da indignação e do espanto,
    com que esperava vêl-a acolhida, apenas escutou estas simples palavras,
    pronunciadas com a maior fleugma:

    –E então que pensa d'isso, frei Januario?

    Lá de si para si o padre replicou á pergunta com a sua expressão
    favorita de desapontamento–Lérias!–mas em voz alta não foi tão
    expressivo, e respondeu em phrase mais parlamentar:

    –O que penso? Que hei de eu pensar? E v. exc.ª o que pensa? Eu por mim
    penso que anda aqui febre liberal; o veneno já está no sangue. Tão
    certo! Aquillo dá logo signal de si. Em elles principiando a cantar-me
    ladainhas a S. Trabalho, eu digo logo com os meus botões: «Pois sim,
    sim, estás arranjadinho.» O snr. D. Jorge conversou por ahi com algum
    mação. Quem sabe? Alguns d'esses engenheiros que estão na estalagem do
    Manco. Isto de engenheiros é gente que se não confessa; ou então são
    coisas do hortelão, que eu não seja quem sou se ainda não ha de dar que
    fallar n'esta casa; mas o certo é que lhe metteram na cabeça essas
    caraminholas e se v. exc.ª não olha por isso, eu lhe protesto que dão
    com o rapaz mação, o que é uma pena, porque é um bom rapazinho. Mas
    quando elles me vem com as nobrezas do trabalho aos contos, torço-lhe
    logo o nariz.

    –Parece-me que d'esta vez são sem fundamento os seus receios, frei
    Januario. A final, pondo de parte alguma expressão menos sensata, e que
    o verdor dos annos desculpa, as ideias do rapaz são razoaveis.

    –Razoaveis?

    –Pois porque não? Que quer elle? Occupar em alguma coisa o tempo, que
    perde na ociosidade. Está cançado da vida de rapaz. É natural e é
    louvavel. E em que quer elle empregal-o? No que ámanhã será constrangido
    a fazer, com peior resultado; no que eu devêra ter feito na idade
    d'elle; em trabalhar, em gerir os bens da sua casa. Mais vale então que
    principie já, frei Januario, sob a guia dos seus conselhos, do que
    tarde, ás cegas e sem uma pessoa de confiança a encaminhal-o.

    –Pois é verdade, mas…

    –Elle fallou-me n'isso ha pouco.

    –Ah! pois sempre fez o que disse?!

    –Fez, sim, e fez bem. Achei que o rapaz tinha pensado maduramente no
    caso e dei-lhe a permissão que elle pediu. Era até o que eu tinha para
    dizer-lhe.

    –Então, visto isso, de hoje em diante?…

    –De hoje em diante, Jorge se entenderá comsigo. O frei Januario precisa
    de descançar tambem.

    –Eu ainda não estou cançado–resmungou o padre.

    –Espero que dará a meu filho todos os esclarecimentos de que elle
    precise e todos os conselhos da sua muita experiencia.

    –Não seja essa a duvida; mas, na verdade…

    O relogio do corredor, batendo nove horas, cortou inesperadamente a
    phrase ao egresso.

    Pelos modos a ceia ia tardando.

    –Com licença–disse elle, levantando-se–eu vou vêr como correm as
    coisas na cozinha.

    Mas nos corredores murmurava comsigo, em tom aforismatico:

    –Não tem que vêr. Filho mação, pae idiota… casa perdida.

    Como frei Januario suspeitasse que ia encontrar o cozinheiro menos
    attento no desempenho dos seus gravissimos deveres, dirigiu-se, pé ante
    pé, á cozinha, a fim de surprendêl-o em flagrante.

    Ao avisinhar-se deu-lhe maior rebate ás suspeitas um acalorado travar de
    vozes, que de lá vinha.

    Espreitou. A criadagem estava em congresso; orava o hortelão, o inimigo
    irreconciliavel do padre; escutavam-n'o os outros boquiabertos, e mais
    attento do que nenhum, o cozinheiro, que sentado em um banco baixo, com
    uma perna atravessada sobre a outra e as mãos a segurarem o joelho, nem
    ouvia o chiar das caçarolas, nem se lembrava da ceia.

    O padre fumou com a descoberta.

    O hortelão dizia:

    –Foi então que o imperador… oh aquillo é que era um homem!… foi
    então que elle fez aquella falla que lá está toda na memoria do
    Mindello, que foi onde nós desembarcamos, no dia 8 de julho de 1832,
    alli pela tardinha.

    E o hortelão, tomando uns ares solemnes e endireitando o corpo, começou
    recitando oratoriamente:

    –«Soldados! Aquellas praias são as do malfadado Portugal; alli, vossos
    paes, mães, filhos, esposas, parentes e amigos, suspiram pela vossa
    vinda e confiam…

    Era demais para a magnanimidade de frei Januario. A proclamação de D.
    Pedro desafinava-lhe os nervos, sempre que a ouvia; o que não era poucas
    vezes, graças ao enthusiasmo do hortelão. Cedendo pois ao seu animo
    indignado, o padre rompeu pela cozinha dentro, exclamando:

    –Então que pouca vergonha é esta? O fidalgo á espera da ceia, e esta
    sucia de mandriões aqui postos a ouvir as patranhas d'aquelle senhor!

    Os criados surprendidos ergueram-se em alvoroço e tomaram os seus
    postos. O hortelão reagiu, como era seu costume.

    –Patranhas? Isso lá mais de vagar. Isto vi e ouvi eu, como o vejo e
    ouço a vocemecê, e muito me honro em dizêl-o. Patranhas! Quem quizer,
    póde lêr tudo isso nas gazêtas e muitas coisas mais. Eu fui soldado do
    imperador e…

    –Está bom, está bom: pouco fallatorio. Você o que é, é hortelão; e o
    logar dos hortelões não é na cozinha.

    –Lá se vamos a isso, tambem o do capellão não é ao pé das panellas, e
    comtudo vocemecê póde dizer-se que não tem outro posto, onde esteja mais
    firme.

    –Tenha cuidado com a lingua; olhe que um dia a paciencia esgota-se e
    depois não se queixe.

    –Não se metta o snr. padre commigo, se não quer ouvir. Olhe que eu fui
    soldado, e não é um frade que me leva a melhor. A vontade que elles nos
    teem sei eu, que ainda me lembra de ver arder por os quatro cantos o
    convento de S. Francisco, na noite de 24 para 25 de julho, e por pouco
    que não morriam queimados todos os meus camaradas de caçadores 5. Hein?
    que diz vocemecê áquella caridade?

    –Você não se quer calar? Eu direi ao snr. D. Luiz as conversas que você
    tem aqui na cozinha e a maneira por que falla da religião e da igreja.

    –Quem fallou em tal? Eu em quem fallo é nos frades, que é coisa
    differente.

    A desavença terminou com a subita sahida do padre, que perdia as
    estribeiras n'estas luctas. A criadagem ficou rindo d'elle pelas costas,
    e o hortelão passou a contar por miudo como tinha sido o caso do
    incendio do convento dos Franciscanos.

    O padre, na presença do fidalgo, encetou a sua millionesima queixa
    contra o jardineiro, e acabou por dar o millionesimo conselho da sua
    immediata demissão. O fidalgo ouviu-o pela millionesima vez com o
    silencio do costume.

    D'ahi a momentos estava o procurador aplacado…, porque ceiava.

    Á ceia assistia o fidalgo e os seus dois filhos.

    Ninguem fallou durante a refeição nocturna. O padre estava amuado, D.
    Luiz pensativo, Jorge e Mauricio trocando olhares de intelligencia sobre
    o aspecto carrancudo do padre.

    Ao erguer-se da mesa, D. Luiz disse para o filho mais velho:

    –O snr. frei Januario já está informado do que hoje se combinou. Ámanhã
    elle que tenha a bondade de te dar os conselhos precisos.

    E depois de uma sêca «boa noite», D. Luiz sahiu da sala.

    Os filhos levantaram-se para tambem se retirarem.

    Jorge interrogou o padre:

    –A que horas quer que o procure ámanhã, snr. frei Januario?

    –A que horas?… Ah!… sim… isso… eu sei?… A coisa não é de
    pressa… Se não fôr ámanhã…

    –Ha de ser ámanhã–atalhou Jorge.

    –Ha de ser! Essa é boa! Sabe lá da minha vida? Ha de ser! Tem graça.

    –Não lhe tirarei muito tempo. Socegue. Quero só que me passe os livros
    e os papeis.

    –Os livros!… e os papeis… Mas para que?

    –Porque d'ámanhã em diante tomo conta d'elles.

    –Eu não me entendo com criancices. Na verdade o snr. D. Luiz fez-me o
    que eu nunca esperei d'elle. É bem custoso receber tal paga no fim de
    tantos annos de serviço! E então que patetices! Attender aos caprichos
    de uma criança em coisas tão sérias como estas! E sabe que mais, snr.
    Jorge? Eu não tenho vagar nem paciencia para me pôr agora a ensinar
    meninos.

    Mauricio ia a responder, talvez com aspereza, mas Jorge atalhou-o,
    dizendo:

    –Mas quem lhe falla em ensinar? Quem lhe pede lição ou conselho?

    –Então para que me procura ámanhã?

    –Para que me dê os livros e mais documentos relativos á gerencia da
    casa, e me preste os esclarecimentos que eu lhe pedir. Não são perguntas
    de discipulo…

    –Percebo o que quer dizer na sua, são de juiz.

    –Não. Quem o suppõe réo? Não, senhor. É apenas uma curta conferencia,
    como o trocar da senha entre a guarda que se rende.

    –Então o snr. Jorge está seriamente resolvido a tomar conta d'isto?

    –Muito sériamente.

    –Sim, senhores. Ha de ser bonito! Mas isto é até um caso de
    consciencia, e eu não sei se devo…

    –Aplaque os seus escrupulos, frei Januario. A responsabilidade de um
    procurador expira no dia em que a procuração lhe é retirada pelo
    constituinte. Até ámanhã. Não se esqueça de me apresentar todos os
    livros da sua escripturação.

    –E elle ahi torna! Ora que scisma! Eu sei lá de livros e de
    escripturação, homem? É boa! Isto não é nenhum armazem.

    –Então geria de cabeça, frei Januario?–perguntou Mauricio, rindo.

    –Geria, como entendia. Tomo os apontamentos precisos, mas lá de
    parlapatices e espalhafatos é que nunca fui.

    –Bem; ámanhã examinaremos esses apontamentos; boa noite, frei
    Januario–concluiu Jorge.

    –Snr. frei Januario, muito boa noite–secundou zombeteiramente
    Mauricio.

    –Ide com nossa Senhora–murmurou o padre irritado.

    Os dois rapazes sahiram, rindo dos amuos do egresso.

    Este ficou só, e encetando um habitual complemento da sua substanciosa
    ceia, ia resmungando:

    –Forte pancada a d'esta gente! Olhem agora o criançola… E como elle
    falla?! Parece já um senhor que _todo lo manda_! Os livros! Era o que me
    faltava! era ter livros para assentar contas com rendeiros e dividas da
    casa. Bem digo eu! Mas deixa estar que eu curo-o da mania de metter o
    nariz n'estas coisas. Dou-lhe uma esfrega ámanhã. Em elle vendo como a
    casa está embrulhada, perde logo o furor com que está de a administrar.
    Sempre lhe hei de fazer uma tal barafunda de papelada, que o rapazinho
    ha de ir dizer ao papá que não quer saber de contas. Ora deixa estar!
    Muito me hei de rir. Quando elle principiar a vêr o sarilho, em que isto
    tudo está mettido, que nem eu sei já como sahir d'elle, então é que ha
    de dar vivas, e gritar «aqui d'el-rei.» Ora deixa estar.

    E o padre ria, ria de boa feição, ao pensar no logro que havia de pregar
    a Jorge, ria e comia o bom do homem, que era um gosto vêl-o.

    Depois foi deitar-se, e o somno de uma certa classe de bemaventurados
    baixou-lhe sobre as palpebras, suave e restaurador.

    Jorge não dormiu, como o padre; velou até alta noite, lendo, calculando,
    combinando planos economicos. Mauricio tambem dormiu pouco; pensou
    igualmente no futuro, na revolução que ia operar-se na sua vida, mas de
    um modo vago, sem ter ainda um plano formado, nem trabalhar para isso.
    As mais variadas e brilhantes imagens passavam-lhe pela phantasia, sem
    que se fixasse uma só d'ellas. Era um succeder de ideias tão rapido, que
    parecia estonteal-o, como o illusorio movimento das margens perturba o
    viajante novel arrebatado no convez velocissimo d'um barco a vapor.

    No dia seguinte teve logar a solemne conferencia do padre e de Jorge.

    Frei Januario tentou realisar a traça que com applauso proprio delineára
    na vespera. Desdobrou em cima da mesa toda a papelada, amontuou, sem
    classificação nem escolha, procurações, recibos, contas, contractos de
    arrendamento, titulos de propriedades, escriptos de quitação com a
    fazenda, e outros varios documentos, com intuito de assoberbar a
    inexperiencia de Jorge e castigar-lhe as aspirações ambiciosas.

    Depois de ter assim patenteado aquelle cahos aos olhos do seu proposto
    successor, o padre, encostando os braços á banca, apoiou o queixo entre
    as mãos, posição em que a bôca repuxada lhe tomava um geito de
    caricatura eminentemente comico, e ficou á espera do resultado das suas
    manhas com um sorriso de malicia e triumpho.

    Jorge porém não desanimou. Com um rapido lançar de olhos julgava da
    importancia dos papeis, que successivamente examinava, e assim os punha
    de lado para segundo exame ou os guardava como vistos.

    Dentro em pouco tempo entrou a ordem no cahos, e Jorge passou a mais
    minuciosa revista.

    Frei Januario já se sentia um tanto incommodado com o andamento que ia
    vendo ás coisas, e insensivelmente foi tomando uma posição mais discreta
    e fugiu-lhe do rosto o ar malicioso com que até alli observára Jorge.

    O peior não tinha principiado ainda.

    Jorge acompanhou o segundo exame, a que procedeu sobre os papeis de
    importancia, de uma serie de perguntas, que embaraçaram sobre maneira o
    padre. Reconheceu então que o filho de D. Luiz não era a criança que
    elle suppozera, que via mais claro n'aquelles negocios do que elle
    proprio, com toda a sua experiencia, e que a conferencia, na qual
    esperava dar uma memoranda lição ao impertinente discipulo, podia muito
    bem terminar com notavel desvantagem do mestre.

    Ao principio do fogo cerrado de questões e objecções, o padre tentou
    entrincheirar-se atraz de evasivas, tractando o caso jovialmente, mas
    teve de abandonar essa tactica, diante do tom e aspecto de seriedade
    varonil, com que Jorge lhe insinuou:

    –Snr. frei Januario, eu não vim aqui para brincar, nem o assumpto da
    nossa conversação é digno d'essas jovialidades. Sou um dos futuros
    herdeiros d'esta casa e quero saber como ella tem sido administrada até
    agora.

    O padre experimentou a arma da dignidade offendida.

    –Então quer dizer que desconfia de mim?… e instaura-me um processo?

    –Peço-lhe por favor que não venha com isso outra vez. Ninguem o accusa,
    já lh'o disse. Peco-lhe só esclarecimentos sobre o passado, para poder
    caminhar para diante.

    Frei Januario acabou por se convencer de que não havia fugir á
    sabbatina. Não lhe foi suave tarefa aquella.

    Jorge pela primeira vez lhe fazia vêr os erros de officio que elle
    commettêra, a imprudencia com que dirigira certos negocios, o desleixo
    em que deixára outros, a illegalidade de certos actos, os riscos em que
    puzera parte dos bens da casa. O padre suava, torcia-se, esfregava a
    testa, entrava em explicações confusas d'onde com muito custo sahia,
    titubiava, gemia, protestava, limpava os oculos, chamava em seu auxilio
    céos e terra; mas tudo era inutil poeira de encontro á paciencia e
    fleugma com que Jorge o interrogava ou lhe fazia qualquer observação
    que, sem ser formulada como censura, feria no vivo a susceptibilidade do
    padre. Em uma palavra, o resultado da conferencia foi exactamente o
    opposto ao que frei Januario prognosticára. Quem d'elle sahiu atordoado,
    desgostoso e disposto devéras a não querer saber mais da administração
    da casa, foi o padre e não o rapaz.

    Frei Januario viu com espanto esboroar-se o edificio da sua experiencia,
    em cuja solidez elle proprio tinha a ingenuidade de acreditar, ao
    simples sôpro de uma criança. A impressão que lhe ficou d'este apertado
    inquerito foi tal, que o pobre homem passou a sentir um entranhado mêdo
    de Jorge, e a empallidecer só com a lembrança de uma scena como aquella.

    Sempre que Jorge lhe dirigia a palavra d'ahi por diante, já o padre
    previa com terror uma interpellação e ficava nervoso! Muito mais se D.
    Luiz estivesse presente.

    Assim pois, graças a estes mêdos, frei Januario em vez de tornar-se
    vigilante em relação aos actos de Jorge, tractou de evital-o tanto,
    quanto podia.

    O desgraçado persuadira-se de que tinha commettido tantas faltas na sua
    administração, que o seu desejo era vêr passar já sobre ellas muitos
    annos para desvanecer-lhes os vestigios.

    Jorge ficou pois completamente á vontade. D. Luiz, interrogando o
    capellão, ouvira d'elle que Jorge estava habilitadissimo para
    administrar a sua casa. Foi quanto bastou ao fidalgo para confiar
    cegamente no filho e para annuir sem exame a todos os seus projectos,
    como por tantos annos fizera aos do padre.

    Portanto, sem desconfiança de pessoa alguma, pôde Jorge combinar com
    Thomé, em entrevistas nocturnas na Herdade, o seu plano de
    administração. Thomé era n'estas coisas um prudente e avisado
    conselheiro. Estudaram ambos a maneira de remediar muitas faltas
    commettidas, entraram em correspondencia com o advogado do fazendeiro,
    por causa de uma velha e importante demanda da casa; Jorge visitou todas
    as suas terras, celebrou novos e mais vantajosos arrendamentos sempre
    que pôde, e para estes primeiros actos levantou em segredo parte do
    emprestimo agenciado por meio do capital e do credito de Thomé da Povoa.

    Causou espanto na terra a revolução administrativa da Casa Mourisca. Os
    que mantinham vistas interesseiras sobre os bens do fidalgo e que,
    movidos por ellas entravam em transacções com a casa, conceberam ao
    principio lisongeiras esperanças, vendo que tinham a tractar com um moço
    inexperiente. Cêdo porém se desenganaram, encontrando-o sempre cauteloso
    e perspicaz, graças á intelligencia propria e aos conselhos do
    previdente Thomé, que entrava em tudo sem ser visto nem suspeitado
    sequer.

    As entrevistas de Jorge e do fazendeiro tinham sempre logar de noite,
    como já dissemos.

    Jorge sahia de casa quando já todos dormiam menos Mauricio, unico que se
    recolhia ainda mais tarde e que nem sequer sabia das sortidas do irmão.

    Thomé da Povoa esperava-o na Herdade, onde o rapaz entrava com o mesmo
    mysterio, e ás vezes prolongavam-se até altas horas estes conciliabulos
    economicos.

    N'elles, ambos aprendiam. Thomé abria a Jorge os thesoiros da sua muita
    experiencia, e esclarecia-o com os conselhos dictados por um são juizo e
    uma natural lucidez. Jorge, que já enriquecêra a sua bibliotheca de
    novos livros e de periodicos de agricultura e de economia rural, fallava
    a Thomé dos progressos e melhoramentos agricolas dos paizes
    estrangeiros, e eram para vêr a attenção e o enthusiasmo com que o
    lavrador o escutava. Com o animo arrojado e despido do cego e
    supersticioso amor pelas praticas velhas, Thomé tomava nota de muitas
    d'essas innovações, para as experimentar, praticando-as nas suas
    proprias terras. Que bellos e grandiosos projectos de futura realisação
    não planeavam elles, inspirados das maravilhas obtidas pela agricultura
    nos paizes mais adiantados, onde é exercida por homens intelligentes e
    instruidos!

    Passado pouco tempo Jorge gozava já na aldeia de uma fama de fino
    administrador, que lhe grangeou os respeitos de todos os habitantes.

    Para esta boa fama concorreu uma circumstancia preparada ainda pelos
    ressentimentos de frei Januario.

    Depois de destituido, e ainda para mais derrotado pelo estreito
    inquerito de Jorge, e antes que conseguisse dominar completamente o seu
    despeito, tentára o padre levantar ao rapaz uma nova difficuldade.

    Com esse intento convocou um dia todos os criados da casa e da lavoura,
    que viviam das soldadas do fidalgo, ou melhor na esperança d'ellas, e
    depois de os ter juntos, deu-lhes velhacamente a noticia de que, tendo
    sido dispensado pelo snr. D. Luiz de continuar a gerir os negocios da
    casa, não era d'ahi por diante responsavel pelo pagamento das soldadas
    atrazadas nem das futuras; que esses negocios estavam agora ao cargo do
    snr. D. Jorge e que se entendessem com elle, por quanto da sua parte
    lavava as mãos de tudo.

    A estas palavras, levantou-se murmuração entre alguns criados, que não
    tinham grande confiança no novo gerente e que reclamavam do padre o
    pagamento das soldadas vencidas, dizendo que era elle o responsavel por
    esses pagamentos, visto serem do tempo da sua administração.

    –Não quero saber de contos–insistia o padre.–Por feliz me dou eu em
    me terem tirado dos hombros esta canceira. Os outros que se avenham como
    puderem.

    A celeuma continuava, apesar da contrariedade do hortelão, que declarou
    que pela sua parte estava satisfeito com a mudança, porque o snr. Jorge
    era um rapaz de juizo e de brios, e, melhor do que ninguem, homem para
    cumprir a sua palavra.

    Estavam as coisas n'estes termos, quando um facto imprevisto as
    modificou.

    Foi o apparecimento de Jorge.

    A scena passára-se em uma sala contigua á do cartorio da casa, onde
    desde pela manhã Jorge se encerrára a examinar uns papeis de
    importancia. O padre suppunha-o fóra, e por isso promovêra aquella
    reunião, prestes a tornar-se tumultuosa. Assim pôde Jorge ouvir tudo.

    Percebeu a necessidade de fazer cessar aquella scena escandalosa, e
    terminal-a airosamente, embora á custa de algum sacrificio. N'esta
    resolução levantou-se e abriu de par em par a porta pela qual
    communicavam as duas salas.

    Assim que o viram, os criados emmudeceram. O padre julgou-se perdido.

    Jorge dirigiu-se placidamente áquelles.

    –Quando o snr. frei Januario lhes disse que me procurassem para serem
    pagos do que se lhes deve, era melhor que o fizessem logo, e não
    levantassem esse clamôr proprio de uma feira. Entrem, que eu aqui estou
    para lhes fazer contas.

    E a um gesto imperioso de Jorge, os criados entraram timidos no
    gabinete, occultando-se uns com os outros.

    –Entre tambem, frei Januario–disse Jorge ao padre, que procurava
    retirar-se sorrateiramente da sala.

    O padre teve de obedecer, a seu pesar.

    Jorge sentou-se á mesa e principiou a interrogar os criados, um por um,
    sobre a quantia que se lhes devia, e pagando-lh'a integralmente, depois
    de obtida a informação.

    Assim os correu e satisfez a todos, á excepção do hortelão, que o estava
    a observar calado e com os olhos humidos.

    Jorge voltou-se para elle e disse-lhe:

    –Estou que te fazia offensa, se te pagasse ao mesmo tempo que a estes
    desconfiados. Tu és dos que esperam com esta garantia.

    E estendeu-lhe a mão francamente aberta.

    O hortelão quasi se precipitou para ella e apertou-a commovido nas suas.

    –Ó snr. Jorge! A maior paga que me póde dar é… não me pagar nunca.

    Movidos por esta scena, os outros criados vieram depositar na mesa outra
    vez o dinheiro recebido.

    –Lá por isso… nós tambem esperamos…

    Jorge restituiu-lhes o dinheiro.

    –Não é necessario… Levem-n'o.

    E depois acrescentou:

    –As circumstancias actuaes da nossa casa obrigam-nos a fazer mudanças
    no serviço. Temos de reduzir o numero dos criados de dentro e augmentar
    os de lavoura. Por isso, vossês quatro, Francisco, Lourenço, Pedro e
    Romão, podem procurar outra casa. Para nos servir bastam os outros dois.
    Vossês, os de lavoura, ficam, se quizerem, e se tiverem parentes que
    pretendam empregar-se aqui no mesmo serviço, mandem-nos ter commigo. E
    agora podem ir.

    O tom em que foram ditas estas palavras excluia qualquer observação.
    Sahiram todos.

    –Frei Januario–acrescentou Jorge, dirigindo-se ao padre, que estava
    meio aparvalhado–podia fazer-me saber mais delicadamente esta divida de
    casa. Apesar d'isso agradeço-lhe o ensejo que me deu de a pagar!

    O padre resmungou não sei o quê, e sahiu cada vez com mais medo de
    Jorge.

    –Onde foi o diabo buscar já tanto dinheiro?–pensava elle.–Não póde
    deixar de ser da maçonaria.

    O hortelão ficou só com Jorge.

    O pobre homem estava enthusiasmado com a honrosa distincção que
    recebêra, e para manifestar o seu enthusiasmo passou a contar a Jorge
    como é que se tinha dado o ataque do monte das Antas.

    Esta scena, divulgada em pouco tempo, concorreu, como dissemos, para
    augmentar os creditos de Jorge em toda a aldeia.

    VIII

    Succederam muitos dias sem que na vida dos differentes personagens, que
    já temos apresentado ao leitor, occorressem incidentes dignos de menção.

    Mauricio permanecia na aldeia, e vivia n'ella a mesma vida que até alli,
    porque não se obtivera ainda da prima baroneza a resposta á carta de D.
    Luiz.

    Apesar da energia com que vimos aquelle rapaz abraçar os nobres
    projectos do irmão, exige a verdade que se diga que elle soffria com
    demasiada resignação as delongas da empreza, na parte que lhe dizia
    respeito, e continuava a distrahir-se como d'antes em passeios, caçadas
    e aventuras galantes. Estava-lhe isto no caracter.

    Jorge, esse deitára-se de corpo e alma ao trabalho. Estudava no
    gabinete, discutia nas conferencias com Thomé, e principiára já a
    realisar reformas e melhoramentos, promettedores de vantagens futuras.

    Os capitaes agenciados pelo fazendeiro haviam já permittido libertar a
    casa de muita usura e encetar em uma das melhores propriedades do antigo
    morgado trabalhos agricolas mais activos e methodicos; viam-se já por lá
    as enxadas e os arados revolverem a terra e desarreigarem as hervas
    estereis; já se podava e enxertava nas vinhas e pomares quasi bravios,
    aproveitavam-se as aguas, fertilisava-se o solo, sentia-se renascer
    aquella natureza amortecida, como se entrasse na convalescença de uma
    longa enfermidade.

    Frei Januario presenciava aquelles prodigios com espanto e despeito,
    murmurando dos gastos loucos, em que o rapaz se mettia.

    –Muito havemos de rir a final–dizia elle.–Entradas de leão; agora as
    sahidas…

    Não communicava porém as suas reflexões ao fidalgo, porque tinha mêdo de
    Jorge.

    D. Luiz, que em um dos passeios que costumava dar a cavallo, acompanhado
    de escudeiro, á distancia marcada pela velha pragmatica, teve occasião
    de observar esses melhoramentos, sentiu um intimo prazer, sabendo que
    aquella fazenda era agricultada por conta da casa. O fidalgo não
    procurou informar-se dos meios pelos quaes Jorge chegára a realisar o
    milagre. Cresceu a confiança no filho e de olhos fechados entregou-se a
    ella.

    Não pararam aqui os trabalhos de Jorge. A casa, como já dissemos,
    luctava, havia muito tempo, com um importante litigio, que podia decidir
    do destino de quasi metade dos seus bens. Esta demanda, complicada e de
    uma marcha morosissima, tomára ultimamente uma feição pouco favoravel
    aos fidalgos da Casa Mourisca.

    Frei Januario já prevenira D. Luiz de que a considerasse perdida.

    Jorge, na revista a que procedeu nos archivos de familia, encontrou
    documentos, a seu vêr importantes e até alli não aproveitados, por
    incuria do padre-capellão. Mostrou-os a Thomé, que experiente n'estes
    negocios como um verdadeiro lavrador do Minho, confirmou a valia do
    achado, e ambos resolveram remettêl-os a um novo advogado, a quem se
    entregou a direcção do litigio.

    Haviam pois sido bem encetados os trabalhos de Jorge. Longe ia ainda o
    seu pensamento da realisação completa. O que havia por fazer era muito
    mais do que o que estava feito, mas os principios animavam.

    Por este tempo porém sobreveio um acontecimento, que algum tanto
    transtornou a face d'estes negocios.

    Recebeu-se na Herdade uma carta de Bertha.

    Preciso é porém dizermos algumas palavras a respeito de Bertha, antes de
    a introduzirmos em scena; porque a leitora suspeita já que vae chegar a
    final a heroina da historia; e a ausencia d'ella em sete capitulos
    inteiros talvez não tenha já sido pouco estranhada.

    Bertha, segundo atraz fica dito, era a filha mais velha de Thomé.

    Nascida na época em que o fazendeiro não era ainda o homem abastado em
    que depois se tornou, procuraram-lhe os paes bons padrinhos, para
    assegurarem o futuro da pequena.

    Thomé obteve do fidalgo da Casa Mourisca a condescendencia de acompanhar
    a criança á pia baptismal; Luiza, pela sua parte, solicitou e conseguiu
    identico favor de uma senhora do Porto, para casa de quem ella por muito
    tempo lavára, quando n'esse mister occupava a sua robusta juventude.

    A roda da fortuna, por uma das suas muito sabidas revoluções, alterou a
    posição relativa de toda esta gente, durante o decurso dos primeiros
    annos de Bertha.

    Já sabemos como, em virtude d'esta revolução, Thomé subiu gradual e
    incessantemente, emquanto D. Luiz descia. O mesmo que a este ultimo
    succedeu á tal senhora, cuja indole bondosa e timida não soube oppôr
    estorvos ás prodigalidades de um irmão perdulario; vendo-se em
    consequencia d'isso obrigada a sahir do Porto, onde vendeu tudo o que
    tinha, para ir para Lisboa educar meninas.

    A primeira discipula que teve foi Bertha. Os paes sentiam ambições por a
    filha e queriam dar-lhe a educação de uma senhora, aproveitando e
    cultivando n'ella as boas disposições que já adquirira na convivencia
    com os pequenos da Casa Mourisca, onde era recebida com affecto. Além
    d'isso, outra e mais generosa intenção levou-os a darem aquelle passo.
    Queriam concorrer para alliviar o infortunio da infeliz senhora, que
    sempre na opulencia os auxiliára e estimára. Possuiam porém bastante
    delicadeza para lhe offerecerem soccorros, sem um pretexto a coloril-os.
    Pediram-lhe pois que tomasse conta da educação de Bertha, e assim, além
    da mezada do costume, tinham o ensejo de fazerem valiosos presentes á
    mestra, que percebia e apreciava com lagrimas a generosidade d'aquelle
    proceder.

    Foi assim Bertha mandada educar para Lisboa, o que não provocou escassos
    commentarios na aldeia, onde se disse que o Thomé da Herdade se
    afidalgava, e que já não queria ter filhos lavradores.

    O senhor da Casa Mourisca não viu tambem com bons olhos aquelle passo de
    Thomé, cujo engrandecimento havia já muito tempo que principiára a
    incommodal-o.

    Bertha, que fôra até então a companheira de brinquedos dos meninos da
    Casa Mourisca e de Beatriz, a pallida e meiga criança, que temos visto
    viver ainda na memoria de quantos a amaram, deixou a aldeia uma
    madrugada com lagrimas e soluços.

    Desde então conservou-se em Lisboa, onde só o pae a foi vêr, por duas
    vezes, deixando-a inteiramente entregue aos cuidados da senhora, que lhe
    ganhára affeição, cada vez mais funda.

    Bertha crescêra; as graças infantis foram a pouco e pouco perdendo
    n'ella aquellas illuminadas cores com que nos alegram e, diluindo-se nas
    mysteriosas sombras de uma juventude de mulher, sombras que não empanam
    a belleza, antes lhe dão mais e mais seductor relêvo. Bertha não era já
    a criança que sahira da aldeia, sem um pensamento que retivesse, sem um
    sorriso que encobrisse, sem um olhar que se desviasse pensativo ou
    timido, sem uma dôr que se não manifestasse em lagrimas; era já a virgem
    de dezoito annos, sob a influencia da vida nascente do coração, e
    portanto sujeita a todas as subtis impressões, dominada por todos os
    impulsos contradictorios e por todas as indefinidas aspirações d'aquella
    quadra magica.

    A vida das cidades, sem lhe dar a morbida languidez, que tão sem razão
    anda confundida com a elegancia, apurára-lhe a delicadeza feminina,
    desenvolvêra-lhe a sensibilidade para os affectos e a intelligencia para
    os prazeres do espirito.

    Mas o que em Bertha sobre tudo havia mais digno de referir-se aqui, por
    ser menos commum phenomeno do que esses que descrevemos, era a
    permanencia de uma razão clara no meio dos attractivos e seducções, com
    que a phantasia tantas vezes, em circumstancias taes, a offusca. Gozava,
    mas sem embriaguez; sentia, mas sem arroubamentos; e, apreciando as
    prendas de educação que ia adquirindo, nunca perdia de vista a modestia
    do seu nascimento e a modestia do futuro que naturalmente devia ser o
    seu. Se tinha sonhos de juventude… e quem os não tem n'aquella idade?
    sabia que sonhava e não se distrahia a procurar no mundo real as visões,
    que n'elles lhe appareciam.

    A lembrança da sua origem modesta não a fazia melancolica, mas prudente.
    Não era aquella ideia uma sombra negra, que não lhe deixava vêr a luz;
    simplesmente um como crystal córado, que lhe permittia fital-a, sem mêdo
    de offuscação e cegueira.

    Assim, no meio das suas effusões, das suas melancolias e até dos seus
    pequenos caprichos de rapariga, Bertha nunca deixava de ser uma rapariga
    de juizo.

    A educação de collegio não produzira n'ella a adocicada pedantaria de
    algumas meninas da moda. Nas cartas, que escrevia aos paes, nunca se lia
    uma phrase que elles não entendessem, uma palavra que os embaraçasse e
    lhes fizesse sentir a inferioridade da sua educação. Revelava-se n'isto
    um natural instincto de delicadeza, que Thomé, por um instincto analogo,
    sabia apreciar.

    Sentia que Bertha nunca se envergonharia de chamar a elle pae e mãe á
    boa Luiza, e esta convicção não o deixava arrepender de a haver educado
    com esmero. Pobre do homem se esses cuidados lhe tivessem alienado os
    affectos da rapariga!

    As cartas de Bertha eram escriptas de fórma, que não sómente aos paes
    agradavam, mas a quantos as liam.

    Thomé mostrara-as a Jorge, e este não pôde deixar de apreciar a redacção
    singela e despretenciosa em que parecia reflectir-se a candura e pureza
    d'aquelle caracter de mulher. Havia n'ellas uma maneira de pensar tão
    acertada, vistas tão despidas de preconceitos, tanto sentimento revelado
    com tanta sobriedade de phrases sentimentaes, que são o maior achaque
    nas cartas de mulher; transpareciam tão distinctamente os suaves e
    generosos instinctos da sua alma feminina, que o espirito de Jorge
    sympathisou naturalmente com aquelle outro espirito que, n'essas
    ligeiras manifestações, se revelava tão irmão seu.

    A pouco e pouco uma d'estas sympathias, que ás vezes se originam no
    coração, lentas, brandas, ignoradas, sem a agudeza das paixões,
    despertadas por um ente, de quem apenas se conhece o nome, ou quando
    muito uma feição, um acto da vida, um pensamento, insinuou-se no coração
    de Jorge. Era um sentimento, que não o inquietava ao principio, nem lhe
    perturbava o espirito, por isso não se acautelou d'elle; deixou-se
    repassar d'aquelle grato influxo, sem se lembrar sequer de lhe estudar a
    natureza, e muito menos de suspeitar-lhe os perigos.

    Um dia mostrou-lhe Thomé o retrato da filha. Jorge encontrou n'elle as
    feições que conhecêra infantis, animadas agora pela vida da
    adolescencia. Pareceu-lhe não haver contradicção entre aquella
    physionomia e o caracter que suppozera a Bertha; e a imagem da rapariga
    começou a apparecer-lhe com insistencia nos seus devaneios de rapaz.

    Jorge então assustou-se. Sentia pela primeira vez alguma coisa em si, de
    que a razão lhe não dava boas contas. Pareceu-lhe ser aquillo uma
    fraqueza, indigna do seu caracter serio, e resolveu pois vencêl-a.

    Desde esse momento principiou uma estranha lucta n'aquella alma, sem que
    apparecessem fóra vestigios que a denunciassem. Sentia um inexprimivel
    prazer ao ouvir fallar de Bertha; e por isso mesmo fugia aos ensejos de
    experimental-o. Esta contenção forçada acabou por produzir no espirito
    de Jorge um effeito singular; foi um grau de irritação, revelado em uma
    especie de hostilidade para com Bertha, cuja imagem viera perturbar-lhe
    a limpidez de coração, que tivera até alli, e fazer-lhe pela primeira
    vez vacillar a razão, que todos n'elle admiravam. Era o caso de poder
    dizer-se, em estylo de conceitos: «queria-lhe mal por lhe querer bem.»
    Receiava-se d'ella, e fazia o possivel para desvanecer a impressão por
    que se sentia dominado.

    Taes são as indicações que julgamos dever dar a respeito de Bertha,
    antes de narrarmos o effeito da carta, que d'ella se recebeu na Herdade.

    Esta não era uma simples carta de cumprimentos ou d'aquellas, em que a
    filha se estendia em longas conversas com o pae, contando-lhe por miudo
    os singelos episodios da sua vida de rapariga. D'esta vez havia n'ella
    uma nova importante e que ia modificar o plano de vida da familia.

    A senhora, em casa de quem Bertha se educava, havia repentinamente
    fallecido.

    Bertha escrevia assim ao pae:

    «Meu querido pae.

    «Escrevo-lhe a chorar e com o coração a partir-se-me de dôr. A minha
    madrinha falleceu esta madrugada. Ainda hontem à noite esteve a
    conversar e a rir comnosco, e tinhamos até combinado para hoje um
    passeio a Cintra! De madrugada foram acordar-me a toda a pressa para
    ir ter com a senhora, que estava mal. Cheguei para a vêr expirar;
    custou-lhe já a dar-me um beijo e a despedir-se de mim. Imagine como
    estou! Nós todas ficamos como loucas! Ainda isto me parece um sonho!
    Veja que malfadada senhora! Agora que principiava a viver outra vez
    mais feliz!… Peço-lhe que me diga o que devo fazer n'este caso. Eu
    sei que o pae já uma vez fallou em mandar-me para outro colegio, se
    por acaso me faltasse a minha madrinha. Deixe-me porém lembrar-lhe
    algumas coisas, e depois decida. Eu não quero dizer que tenha uma
    educação perfeita; mas, como não conto, nem desejo, viver nas salas
    d'aqui, posso bem passar sem esses apuros, que para isso me seriam
    precisos. Muito tem já o pae feito por mim; é preciso agora olhar
    por meus irmãos, e alguns estão em idade em que ainda podem
    agradecer-me alguns serviços, que eu ahi consiga fazer-lhes.
    Mande-me ir. A mãe deve ter muito trabalho em olhar por tudo em
    casa. É tempo que eu a ajude em alguma coisa. Aos dezoito annos é
    uma vergonha não o fazer. É uma parte da minha educação que posso
    concluir ahi e que me será bem necessaria. Demais confesso-lhe que,
    depois da morte de minha madrinha, havia de custar-me a continuar em
    Lisboa. Peço-lhe pois que me deixe ir viver comsigo e matar as
    saudades, que já tenho de todos e de tudo.

    Muitas lembranças á mãe, muitos beijos aos pequenos.

    Sua filha, que espera muito cêdo abraçal-o,

    _Bertha_.

    P.S. Que não esqueça dar muitos recados á Joanna, ao Manoel da Costa
    e á filha, assim como á tia Euzebia e ás mais pessoas amigas.»

    Thomé leu á mulher a carta da filha, e entre ambos discutiram o partido
    que conviria adoptar.

    Saudades maternas e paternas, desejos de vêr de perto e abraçar a filha
    dilecta e primogenita, que havia tanto tempo lhes andava longe das
    vistas, o sonhado prazer de a sentir, animando a casa com todo o calor
    de vida que em torno de si diffunde uma rapariga de dezoito annos,
    resolveram a questão no sentido indicado por Bertha; e para assim a
    resolver, quasi bastava que ella o indicasse.

    Decidiu-se pois que Bertha voltasse para a Herdade.

    D'ahi os necessarios preparativos para a accommodação da filha, cujos
    habitos, modificados pela vida da cidade, deviam ter exigencias, a que
    era justo attender.

    O instincto materno adivinhava melhor do que era d'esperar essas miudas
    necessidades, e a liberalidade paterna provia a ellas. E tudo isto
    preoccupava o feliz casal, cujo contentamento se reflectia em criados e
    jornaleiros.

    Jorge encontrou uma noite Thomé ainda empenhado n'esta labutação
    caseira, e soube d'elle a causa de tanto alvoroço.

    O filho mais velho de D. Luiz ouviu com sobresalto a noticia.

    Parecia prever a aproximação d'um perigo, que mal ousava definir.

    Dissimulou comtudo o que sentia, e deu a Thomé e a Luiza os parabens
    pela proxima chegada da filha, e até os auxiliou com o seu alvitre na
    resolução de algumas difficuldades, relativas ao arranjo do gabinete
    destinado a Bertha.

    Sahiu porém da Herdade debaixo de estranhas impressões moraes.
    Experimentava um mixto de mal definido prazer e ao mesmo tempo de
    desgosto.

    Thomé resolvêra ir elle proprio a Lisboa buscar a filha.

    Interromperam-se pois, durante alguns dias, as conferencias economicas
    da Herdade.

    A demora de Thomé não foi longa.

    Pouco mais de oito dias passados, era elle de volta com a Bertha.

    Uma tarde vinha Mauricio a cavallo de uma excursão pelos campos, quando,
    ao descer por entre os pinheiros de uma bouça cerrada, viu passar, em um
    curto lanço de estrada, que as entreabertas do arvoredo deixavam
    patentes, o vulto de dois cavalleiros.

    Attrahiram-lhe naturalmente a attenção e esperou, para melhor os
    reconhecer, que chegassem a outro lanço mais proximo e mais descoberto
    da estrada que seguiam.

    De facto, pouco depois viu que eram um homem e uma senhora, que
    cavalgavam a par.

    No homem reconheceu Thomé; a senhora pareceu-lhe nova e elegante.

    Em resultado d'esta dupla descoberta dirigiu o cavallo immediatamente
    para elles.

    Perto principiou a divisar na dama, que Thomé acompanhava, feições
    conhecidas.

    Antes porém que esclarecesse a vaga ideia que aquellas feições lhe iam
    suscitando, o fazendeiro exclamou, saudando-o com a mão:

    –Venha dar-me aqui os parabens, snr. Mauricio; venha cá, que me volta
    ao pombal uma pomba que deixei sahir d'elle ha muito tempo.

    Mauricio acabou por corroborar a suspeita que já tivera.

    Era Bertha a amazona.

    Bertha, a pequena aldeã com quem brincára em criança no pateo e na
    quinta da Casa Mourisca, a companheira de sua irmã Beatriz, a afilhada
    de seu pae e a pequenina dama, a quem dedicava já então os seus
    galanteios infantis; era ella, mas com todas as surprendentes e rapidas
    transformações que opéra o sangue da juventude na formosura de criança,
    com todo o realce e prestigio que dá á belleza a educação.

    Bertha era uma rapariga de olhos negros e de bôca graciosa, onde
    fluctuava um sorriso expressivo ao mesmo tempo de alegria e de bondade.
    Havia nos movimentos, nos olhares e nos modos d'ella um mixto da candura
    de uma criança e dos delicados instinctos da mulher; reconhecia-se a
    falta de dissimulação, que é propria dos caracteres generosos, e ao
    mesmo tempo uma natural dignidade, que impõe respeito aos menos
    reverentes.

    Mauricio sentia-se maravilhado diante da filha de Thomé.

    –Bertha!–exclamou elle, sem disfarçar a sua surpreza, nem desviar os
    olhos da rapariga, que o saudára córando.–E é certo que é Bertha!
    Conheço ainda o sorriso, que é o mesmo de outros tempos. Mas que
    differença em tudo o mais!

    Bertha desviou os olhos sob a insistencia e expressão dos de Mauricio, e
    dominando a custo a commoção conseguiu dizer:

    –Fiz-me mais velha, não é verdade?

    –Não, Bertha, fez-se um anjo–acudiu Mauricio.

    –Isso é que não–atalhou Thomé–anjo era d'antes. Hoje já não
    repicariam os sinos, se ella morresse.

    –A terra teria bem razão para lamentar-se. Ao céo é que competiriam as
    festas–atalhou, galanteando, Mauricio.

    –Tambem eu encontro mudança em si, snr. Mauricio–observou
    Bertha.–Quando o deixei, não dizia ainda d'essas coisas.

    E a mesma intima turbação tirava-lhe ainda a firmeza á voz e ao olhar.

    –Porque não as sentia, Bertha–redarguiu Mauricio.

    Bertha abanou a cabeça com ar de duvida e quasi de tristeza, e tornou
    sobresaltada:

    –Parece-me que os que melhor dizem d'essas coisas são os que menos
    sentem.

    –Tambem lhe ensinaram a desconfiar, Bertha?

    –É tão facil ensino! Cada um aprende por si.

    –Vamos–interrompeu Thomé–nada de estar parados no meio da estrada.
    Lembra-te, Bertha, de que tua mãe a estas horas não faz outra coisa mais
    do que espreitar da janella a vêr se te vê chegar.

    –Vamos lá.

    Mauricio dirigiu o cavallo para o lado do de Bertha, que cavalgava assim
    entre o fidalgo e o pae.

    –Que saudades me estão fazendo estes sitios!–dizia Bertha, suspirando
    e emquanto corria a vista pelo horisonte, que a rodeava.–Tudo me é tão
    conhecido ainda!

    –Lembra-se d'aquelles freixos, lá em baixo, ao descer para os Palheiros
    Queimados?–perguntou Mauricio, apontando para o logar que designava.

    –Bem sei. É onde está a fonte da Moira.

    –E aonde nós um dia fomos com a Anna do Védor colher agriões. Está
    certa?

    –É verdade. E por signal que nos sahiu da quinta do Emigrado um cão
    grande que lá havia, e que se atirou a mim com uma furia!

    –E não se lembra de quem lhe acudiu?

    –Sim, foi o snr. Mauricio, mas tambem lhe valeu a Anna do Védor, que se
    não fosse ella, vamos, não sei o que seria.

    –Ainda assim não impediu que o endiabrado me mordesse no pulso; ainda
    conservo a cicatriz. Olhe.

    E Mauricio mostrou o pulso a Bertha, que se curvou para observar o
    vestigio d'aquelle episodio de infancia.

    –É verdade–proseguiu Bertha, já mais á vontade–e a boa ti'Anna do
    Védor? que tanto lhes queria, a si e ao snr. Jorge? Sei que vive; mas
    ainda é o que era d'antes? alegre, robusta, franca?…

    –Quem? a ti'Anna?!–acudiu Thomé–verás, Bertha, que ainda te parece
    mais nova. Aquillo é que é mulher de casa! É um gosto vêl-a, no meio dos
    campos, de mangas arregaçadas e chapéo de palha na cabeça e de enxada ou
    mangoal na mão. O seu trabalho vale por o de dois homens. Pois n'uma
    eira?

    N'este ponto Thomé deu um assobio, que exprimia a grande conta em que
    tinha o trabalho de Anna do Védor.

    –O filho está regedor.

    –É uma boa e generosa alma–tornou Mauricio, com uma expressão de
    sincera sympatia.–E quer-nos como a filhos.

    –Isso quer–confirmou Thomé–quando falla nos seus meninos que trouxe
    ao collo e que sustentou com o seu leite, luzem-lhe os olhos.

    –E tambem me ralha com uma severidade!

    –Vamos, que ella bem sabe porque o faz. Então pensa que não lhe merece
    ainda mais?

    –Não digo que não. Só me queixo de certa parcialidade que manifesta por
    Jorge.

    –E como vae o snr. Jorge?–perguntou Bertha.

    –Muito bem. Fez-se caixeiro. Não sabe? Atirou-se aos livros e á
    papelada da casa, como um homem, e já não ha de tirar-lhe palavra que
    não seja de contas e de negocios.

    –E é um homem ás direitas–disse Thomé, com gravidade.

    –Pois sim, mas podia distrahir-se mais um bocado. Mas então? Deu-lhe
    Deus aquelle genio frio como gêlo!…

    –Eu não sei lá se é frio ou se é quente. O que sei é que é um rapaz de
    juizo e que, se continuar assim, ha de remediar muita doudice, antiga e
    moderna, que ha lá por casa.

    –A moderna é commigo, aposto. Não tem razão. Eu tambem estou decidido a
    trabalhar. Se ainda aqui me vê, a culpa não é minha.

    –Então vae partir?–perguntou Bertha.

    –Que remedio, Bertha? Cumpro uma dura lei. Deixo o coração por aqui,
    acredite; por esses valles, por essas devezas, por essas ribeiras… Mas
    que lhe hei de fazer?

    –E para onde vae?

    –Eu sei? Para onde me levar o destino. Mas o Thomé ri-se! Seu pae
    ri-se, Bertha!

    –Rio-me da lamuria. Quem o ouvir, ha de acreditar que elle parte
    devéras e que lhe custa immenso a partida.

    –E então?

    –A mim já me custa a crêr que o snr. Mauricio nos deixe; mas, a isso
    succeder, não ha de ser a chorar que arranjará as malas.

    –É injusto com o meu coração. É o que se segue.

    –Não, senhor; não sou; mas sei o que é ter vinte annos, e sei o que é
    essa cabeça. E agora o nosso caminho é por aqui. O snr. Mauricio, se
    quizer dar-nos o prazer da sua companhia, tem no fim d'esta rua uma casa
    para o receber, senão…

    –Agradecido, Thomé. Outro dia será. Não quero perturbar com a minha
    presença as alegrias de familia. Adeus, Bertha, continuaremos a ser os
    amigos que eramos d'antes, não é verdade?

    –Porque não, Mauricio… snr. Mauricio?

    E Bertha, com um sorriso de generosa confiança, estendeu a pequena e
    delicada mão á que Mauricio lhe offerecia.

    Este, com uma galanteria, que o seculo actual traz quasi esquecida,
    levou-a cavalheirosamente aos labios, movimento que augmentou as côres
    nas faces de Bertha; depois, cortejando-a com perfeita elegancia, partiu
    a galope.

    Bertha seguiu-o por muito tempo com os olhos e ficou pensativa, depois
    que o perdeu de vista.

    Thomé, que notára tudo isto, não deixou passar muito tempo que não
    admoestasse a filha.

    –Olha cá, Bertha, tem cautela com o teu coração, que não vá elle por
    ahi deixar-se prender. Eu não sei como é costume viver-se hoje lá na
    cidade, mas aqui sei o que vae. Eu te digo, não ponhas muita confiança
    n'estas amizades de Mauricio. Não digo que elle seja mau rapaz, mas a
    cabeça é que é assim não sei como. E n'isso mesmo é que está o perigo.
    Aqui ha poucos rapazes que agradem mais do que elle; é bem feito, vivo,
    esperto, generoso… Na tua idade, e com a educação que tens, não era
    para admirar que te agradasses de um rapaz assim. Mas, pensa emquanto é
    tempo, filha, no mal que a ti propria fazias, se estouvadamente te
    deixavas enfeitiçar. Elles são os fidalgos que sabes, e mais fidalgos
    ainda se julgam do que são. Tu, rapariga, és minha filha, e eu sou um
    lavrador, que já servi n'aquella casa. Entendes? Ó Bertha, por quem és,
    não me faças arrepender da educação que te dei. Porque eu, ás vezes,
    tenho minhas duvidas. Digo eu commigo: «Faria eu bem em educar minha
    filha assim? Se a tivesse deixado viver na aldeia e a creasse como filha
    de lavrador, dava-lhe um marido lavrador, e ella havia de estimal-o e de
    ser feliz com elle, e de olhar com amor pelos filhos descalços, que lhe
    andassem pelos campos e apegados á saia de baêta; mas assim… Quem
    poderá costumal-a a isso? Mas que outro marido póde ella escolher?»

    Bertha escutou o pae com um sorriso nos labios, mas sorriso que não
    annullava a expressão melancolica e pensativa, que conservavam o resto
    das feições. Mais de uma vez se perturbou ao ouvil-o, mas cêdo adquiriu
    a serenidade habitual.

    N'este ponto atalhou-o, dizendo:

    –São prudentes os conselhos que me dá. Farei por não os esquecer. Mas
    não se inquiete pela minha sorte. Nunca me deixei illudir pelos bens que
    a sua bondade me teem permittido gozar na vida; não perdi de vista o que
    sou. Sei ao que devo aspirar, e farei por não collocar a felicidade
    muito acima do alcance de meu braço. Na amizade de Mauricio creio que
    não haverá perigos para mim; mas se os houver, hei de saber fugir-lhes.
    Foram meus companheiros, quando brincavamos todos n'aquella casa;
    quero-lhes por isso, mas sei o que d'elles me separa.

    –Lá de Jorge nada temas. É um caracter serio aquelle. Se disser que é
    teu amigo, é teu amigo devéras; senão, não t'o diria; mas este…

    –Jorge é ainda o que sempre foi. Já em criança era o mesmo. Sempre tão
    serio!

    –Agora ainda mais. Elle hoje não pensa senão nos negocios da casa, que
    tomou a seu cuidado e que levará a bom fim. Creio-o. Vem quasi todas as
    noites a nossa casa; vem de noite por causa do pae, porque o velho não
    tem cura, a querer-me mal.

    –Sim?! Mas que pena!

    –Deixal-o lá, que eu em vingança hei de fazer-lhe o bem que puder.

    Poucos momentos depois chegavam a casa o pae e a filha; esta foi
    recebida nos braços da boa Luiza, que a devorou com beijos e a banhou de
    lagrimas generosas; os irmãos pequenos olhavam espantados para Bertha
    que não conheciam, e cujas maneiras de senhora estranhavam. Os criados
    felicitavam-n'a tirando o chapéo e murmurando phrases incompletas.

    Bertha no meio d'aquella effusão, d'aquelle cordial acolhimento,
    d'aquelle renascer dos dias passados e despertar de memorias queridas,
    sentia-se feliz.

    Debalde Thomé, um dos mais folgados corações alli presentes, bradava que
    era tempo de pôr termo á festa, que cada um tinha a sua vida a tractar,
    e que Bertha precisava de descanço; os abraços succediam-se, os beijos
    estalavam, as perguntas cruzavam-se e interrompiam as respostas em meio.

    Prolongou-se por muito tempo aquelle grato alvoroço, que produz a
    chegada de uma pessoa querida. A ordem, a etiqueta, os costumes, tudo
    esquece; a manifestação é ruidosa, irresistivel, desordenada, anarchica.
    Sómente quando principia a acalmar-se este agradavel delirio de alma, é
    que se repara nas irregularidades da scena, e que se remedeiam.

    Succedeu d'esta vez que só passada meia hora Luiza notou que tinham
    estado tanto tempo no quinteiro, quando os esperava a sala que ella de
    proposito e tão anticipadamente preparára para a recepção.

    A familia recolheu-se então, principiou mais regular e ordenada conversa
    entre mãe e filha, e prolongou-se até tarde.

    Thomé foi n'esse dia pouco vigilante nos campos e mais caseiro do que
    era seu costume.

    Foram momentos festivos para a Herdade, d'estes que é inutil descrever,
    porque não ha expressões que bem traduzam o que se sente então.
    Suppram-n'as as recordações do leitor; e muito sem conforto deve ter
    sido o seu passado, se não lhe dá elementos para conceber alegrias
    d'estas.

    IX

    Duram pouco as effusões, dissipa-se em breve o enthusiasmo dos primeiros
    instantes, em que tornamos a vêr scenas e pessoas conhecidas, de que por
    muito tempo vivemos separados. A alma, de subito agitada, readquire
    gradualmente a serenidade do costume; e o coração, que julgava saciar
    emfim a ancia de mal definidos gozos em que continuamente vive, conhece
    que ainda não chegou essa hora; porque o invadem de novo as mesmas vagas
    e inquietadoras aspirações que sentia.

    É grande a alegria do regresso, mas rapidos os momentos, em que se
    experimenta na sua intensidade. Chegou-se de longe a phantasiar um
    prazer perduravel, sem fim e, apoz as primeiras e irreprimiveis
    expansões, desvanece-se a illusão em que se vinha; como sempre, como em
    toda a parte, o vazio sente-se no coração, que nenhum gozo enche, e ahi
    se volta a aspirar sem saber a quê, e a aguardar uma nova aurora sem
    saber d'onde.

    Quando, á noite, Bertha se retirou emfim ao seu antigo quarto, havia já
    satisfeito a sêde de affectos e de saudades, que a devorava, ao chegar.

    O coração batia-lhe com o rithmo normal, habituára-se de novo a sua
    sensibilidade aos objectos que lhe foram familiares na infancia; da
    impressão que o primeiro olhar que lançou sobre elles lhe produzira, já
    nem indicios restavam.

    O passado, resuscitando, perdêra já o prestigio e a poesia, que só como
    passado tem.

    Ó feiticeiras fadas, que nos acompanhaes quando por longe andamos,
    devorados de saudades, a lembrar-nos da terra em que nascemos, porque
    tão depressa nos abandonaes á chegada? Porque dissipaes os vapores
    inebriantes de que rodeaveis aquellas imagens aos nossos olhos
    fascinados, e nos fazeis vêr a realidade como a viamos d'antes?

    Bertha, só no remanso e solidão do seu quarto, sentiu uma profunda
    melancolia tomar-lhe o coração. Os cuidados e disvelos de Thomé e de
    Luiza não tinham sido sufficientes para transformar completamente
    aquelle aposento em um d'esses recintos, perfumados e graciosos, em que
    respira, como em atmosphera propria, uma mulher delicada.

    A este desconforto relativo não podia ser de todo insensivel a
    organisação feminil de Bertha.

    Sem que ella propria tivesse consciencia do que lhe produzia esse
    effeito, sentia-se com uma disposição para lagrimas, que a surprendia.

    O socego da hora, o silencio do campo, apenas cortado por uns
    indistinctos murmurios, que são o mysterio das noites campestres,
    conspiravam para augmentar-lhe esta melancolia.

    Ha horas assim, em que parece que sentimos confranger-se dentro de nós o
    coração, e o futuro escurecer e contrahir-se o circulo que nos abrange a
    existencia, como um horizonte, que as nuvens pesadas da tempestade
    estreitam cada vez mais a suffocar-nos.

    Não accusem Bertha por esta inexplicavel tristeza que lhe invadiu o
    coração na propria noite, em que voltára á casa paterna. Não duvidem por
    isso dos affectos d'aquella amoravel indole de mulher.

    Nem todas as almas nascem dotadas da commoda flexibilidade com que
    algumas a tudo se amoldam. Ha-as tão delicadas, que a menor mudança
    resentem.

    Os corações que se prendem depressa com raizes onde se demoram, são os
    que mais soffrem nos primeiros momentos de uma transplantação.

    Não era isto em Bertha pezar por ser tão modesta a casa dos seus paes; a
    sua tristeza era mais de instincto que de razão. E pelas impressões que
    vem do instincto, ninguem é responsavel; só á razão ha direito de pedir
    contas, e a de Bertha não recearia prestal-as.

    Como para fugir á estranha melancolia que a dominava, Bertha chegou á
    janella do quarto, que deitava para os campos.

    Ha uma mysteriosa solemnidade no espectaculo que de noite, e noite de
    pouca luz, se goza assim de uma janella aberta, no campo. Ha fóra um
    silencio que amedronta, uma escura vastidão que apavora, silencio que ás
    vezes interrompe o rastejar furtivo de um reptil, o cahir de uma folha,
    e não sei que outros ruidos vagos; escuridão, onde parece distinguir-se
    o movimento de umas fórmas estranhas e monstruosas.

    Se vos demoraes silenciosos n'essa contemplação por algum tempo, já não
    a interrompereis por uma palavra, por um movimento, sem que essa
    interrupção vos sobresalte ou intimide quasi. Estremecereis ao ouvir-vos
    no meio d'aquelle silencio. Instinctivamente falla-se baixo. Parece que
    aquella paz, que aquella quietação, que aquella treva nos absorve, que
    nos domina, que nos attrahe e que de alguma maneira nos faz parte
    integrante de si mesma.

    Opera-se em nós uma quasi magnetisação. Adormece a sensibilidade que nos
    revela o mundo exterior; exalta-se o espirito; e o ruido, que nos acorda
    d'este sonho, faz-nos estremecer. E o que se pensa calado n'esses
    momentos, Sancto Deus! Como a imaginação vagueia, como parece que
    d'aquellas confusas sombras, que temos diante de nós, nos surjem as
    memorias do passado e veem, em silencioso vôo, adejar sobre as nossas
    cabeças e estontear-nos com as suas rapidas e vertiginosas voltas.

    O passado de Bertha era uma singela historia dos mais innocentes
    affectos. Não havia n'ella a intensa luz dos amores, apenas o debil
    clarão da aurora que os precede, essa mysteriosa vibração de alma, que
    sente nascer em si faculdades novas.

    Eram pois imagens apraziveis as que n'aquelle momento lhe appareciam.

    Entre ellas a mais persistente era a da sua pobre amiga Beatriz, a
    delicada criança, que parecia ter vivido sómente para semear de saudades
    o coração de quantos a conheceram.

    Reviviam para Bertha n'aquella hora todas as scenas da infancia passadas
    com ella; os jogos, os folgares e até as lagrimas, choradas em commum.

    Que tempos!

    E ao lado da meiga e pallida figura de Beatriz surgiam as das outras
    duas crianças, seus irmãos. Via o rosto infantil de Jorge, no qual já
    então havia uns assomos da seriedade do seu caracter futuro; lembrava-se
    Bertha das vezes em que elle tomava um ar grave para admoestar ou
    reprehender os seus mais turbulentos companheiros, e do respeito que
    todos lhe tinham, e do muito em que estimavam a sua opinião; e a
    contrastar com esta serena imagem, esboçava-se a do inquieto, vivo e
    estouvado Mauricio, criança prompta nos risos e no chôro, violenta nas
    expansões, tão amoravel como colerica, e em cujo coração infantil
    ferviam já nascentes as paixões de homem. Era esta talvez de todas a
    imagem que avultava mais distincta nas recordações de Bertha. Que de
    episodios em que ella recebia a luz principal do quadro! Dos dois irmãos
    fôra este o predilecto; o seu coração de criança abrira-se mais á
    franqueza de Mauricio, do que á seriedade de Jorge; havia no olhar
    d'este uma expressão grave que a intimidava. Depois a differença da
    idade concorria para augmentar esse effeito.

    E Bertha, pensando n'isto tudo, erguia os olhos para o vulto da Casa
    Mourisca, onde se tinham passado aquellas alegres scenas.

    Era escuro todo elle, e parecia alli posto, como um d'estes monstros
    enormes, que guardavam os jardins encantados.

    De repente o monstro abriu um olho.

    Appareceu uma luz em uma das torres do palacio.

    Era a unica que divisava em toda aquella escuridão.

    Bertha não pôde mais desviar os olhos d'ella.

    De quando em quando, desapparecia momentaneamente a luz, como se alguem
    passeiasse diante. Depois fixou-se, e sómente mais de espaço a espaço se
    eclipsava, para surgir mais viva.

    Tudo parecia indicar que se velava alli dentro.

    –Será o snr. D. Luiz?–perguntava a si mesmo Bertha, observando a
    luz.–Em que pensará elle a estas horas? Pobre velho, alli só, n'aquella
    casa deserta!… É em Beatriz de certo que pensa como eu… Ou, quem
    sabe? talvez não seja o fidalgo, mas algum dos filhos; Mauricio,
    provavelmente… Sim, alli deve ser o quarto d'elles…

    E a imagem do mais novo dos filhos de D. Luiz entrava outra vez no campo
    da visão de Bertha.

    As palavras que trocára com elle aquella tarde, a maneira como a olhára,
    e o que o pae depois lhe dissera a respeito do rapaz, tudo a fazia
    reflectir.

    Adivinharia Thomé com o seu bom instincto de homem do campo?

    Haveria para o coração de Bertha perigos na presença de Mauricio?

    Era tão natural! Em uma alma, preparada para o amor, e que, á similhança
    da noiva nos livros sagrados, espera ha muito, perfumada de mirrha e de
    puros aromas, o noivo que tarda; encontra tão facil asylo a imagem de um
    adolescente, como Mauricio, sobre tudo se o rodeia o prestigio das
    saudades de um passado ridente e o vago reflexo que sempre deixam de si
    umas pueris paixões, com que se illudiu a infancia, que razão tinha
    Thomé para receios e razão tinha Bertha para, pensando n'elles, sondar
    com inquieta apprehensão o sanctuario dos seus mais intimos affectos.

    Prolongou-se esta contemplação em Bertha, e succederam-se-lhe no
    espirito os mais diversos pensamentos, emquanto os olhos se fixaram na
    luz da Casa Mourisca. Só muito tarde desappareceu subitamente essa luz.
    Bertha, como acordando de um sonho, voltou-se então para o interior do
    quarto, do qual lhe parecia haver andado longe em todo aquelle tempo.

    A vela, quasi gasta, que tinha ao lado do leito, mostrava-lhe o muito
    que, sem o sentir, se prolongou aquella sua abstracção.

    A vista dos objectos do quarto evocou-a á realidade. Passou as mãos pelo
    rosto, como para desviar de si a sombra dos graves pensamentos que a
    opprimiam, sacudiu a cabeça suspirando, e procurou serenar o espirito,
    para dormir.

    –É necessario ter juizo–murmurava ella, soltando as tranças–e soprar
    quanto antes estes nevoeiros que me rodeiam, para vêr, como elle é, o
    sol da realidade. É tempo de me deixar de loucuras, e de aceitar a vida
    que tenho a viver, como ella deve ser aceita por uma mulher como eu. Os
    annos de criança passaram.

    E adormeceu n'esta prudente e ajuizada resolução.

    Assim como a luz, que, por entre as trevas da noite, rompia de uma das
    janellas da Casa Mourisca, tivera quem a observasse e prendesse a ella
    uma longa serie de pensamentos; tambem a do quarto de Bertha não se
    perdêra no espaço, sem encontrar uns olhos que lhe recolhessem alguns
    raios na passagem.

    Jorge era quem velava no unico aposento alumiado do velho solar do
    fidalgo.

    Costumava prolongar a sua leitura e os seus estudos por altas horas da
    noite, interrompendo-os de quando em quando por demorados passeios no
    quarto, ou melhor diremos, continuando-os assim.

    Era d'elle o vulto que Bertha via passar por diante da luz, occultando-a
    momentaneamente.

    Esta noite havia porém mais agitação em Jorge do que lhe era habitual;
    os seus movimentos tinham o que quer que era nervoso e quasi febril;
    concentrava menos o espirito na leitura, e interrompia-a mais
    frequentemente.

    As vigilias de Mauricio não eram mais curtas do que as de Jorge, mas
    consagravam-se a differente mister; gastavam-se em aventurosas
    digressões pelos montados e valles da aldeia, em visitas aos solares das
    circumvisinhanças, onde houvesse uma mesa de _wist_ ou um canto de
    fogão, animado pelo sorriso das damas.

    Quando voltava a casa, vinha ainda encontrar o irmão estudando, e era de
    costume d'elles passarem alguns momentos a conversar.

    N'aquella noite, Mauricio recolheu-se muito tarde. Ao sentil-o, Jorge,
    que passeiava no quarto, sentou-se depressa á banca, e inclinou a cabeça
    sobre um livro que tinha aberto diante de si.

    Á entrada de Mauricio, Jorge apenas lhe acenou com a mão, e proseguiu ou
    fingiu que proseguia na leitura que encetára, até terminar a pagina.

    –Boas noites, nigromante–saudou-o Mauricio.–A estas horas, n'esta
    torre, á luz mortiça d'um candieiro e com um livro aberto diante de ti,
    representas admiravelmente um astrologo.

    Jorge apenas lhe respondeu com um sorriso e continuou a folhear o livro.

    Mauricio chegou-se á janella:

    –Mas é preciso, de quando em quando, examinar as estrellas tambem. E
    ellas hoje que estão tão scintillantes! Ah! grande novidade no nosso
    firmamento! Graças a Deus que, além de nós, ha já mais alguem na aldeia
    que não dorme a estas horas!

    Jorge fechou o livro, e foi ter com o irmão á janella.

    –Que queres dizer?–perguntou aproximando-se.

    –Que descobri um planeta novo! mais uma luz na aldeia!

    –Uma luz?!

    –Sim, e é em casa de Thomé.

    Jorge fitou a luz com certa curiosidade e conservou-se algum tempo
    calado; depois murmurou:

    –Thomé ainda de vela a estas horas! É singular!

    –Faz-lhe mais justiça–tornou Mauricio.–Thomé dorme ha boas quatro
    horas. A gente do campo é incapaz do extravagante delicto de
    escandalisar com luz as trevas da noite. N'aquillo percebem-se vestigios
    de habitos cidadãos. Quem vela é a filha, com certeza.

    –Ah! sim… Bertha… esquecia-me de que tinha voltado–acudiu Jorge,
    esforçando-se por dizer isto em tom natural e indifferente.

    –Voltou, e bem outra do que foi!–advertiu Mauricio.

    –Em quê?–perguntou Jorge, olhando para o irmão.

    –Foi d'aqui uma criança agradavel, e veio uma encantadora mulher!

    –Ah! ah; já notaste?–disse Jorge, com um sorriso contrafeito.

    –Digo-te a verdade, Jorge. Parecia-me impossivel, ao vêl-a, que fosse a
    filha do Thomé. Um ar tão delicado, umas maneiras tão distinctas, tão de
    cidade!…

    –Olha se te deixas apaixonar por ella; anda lá!–continuou Jorge, ainda
    no mesmo tom.

    –Não seria prova de mau gosto, afianço-te. Que superioridade, comparada
    a todas as nossas primas d'estes arredores! O que é a educação!

    Jorge encolheu os hombros, dizendo com certo modo irritado:

    –Provavelmente não produzirá em mim os mesmos effeitos. Tenho a certeza
    de que hei de sentir saudades, ao vêl-a, da Bertha, que conheci pequena.

    –Não duvido, porque és bastante philosopho para isso. Eu por mim
    confesso-te que, na idade em que estou e, apesar de toda a sympathia que
    tenho por crianças, não me sinto com disposições para repetir as
    palavras de Christo, a respeito d'ellas. Eu prefiro que se cheguem para
    mim… as grandes…

    –Em vez da criança alegre e innocente–proseguiu Jorge com
    acrimonia–da criança que brincava comnosco e com a nossa pobre Beatriz,
    preferes encontrar a collegial, com o espirito voltado todo para a moda,
    com um pouco de geographia e de historia na cabeça e deixando cahir da
    bôca, quando falla, palavras francezas, como deitava perolas preciosas a
    heroina d'aquelles contos que nos ensinavam em pequenos. E é isto o que
    te encanta?… Pois olha, eu até já não gosto de vêr aberta aquella
    janella a estas horas. Sabe-me aquillo a romanticismo, e é nas raparigas
    uma doença impertinente, insupportavel.

    E Jorge retirou-se da janella com um mau humor difficil de explicar.

    –Ora! se o facto de uma janella aberta de noite fosse indicio do crime
    que dizes, até tu, o homem menos capaz de commettêl-o que eu conheço,
    poderias ser tambem accusado. Enganas-te; Bertha é realmente adoravel.
    Verás. As mulheres, Jorge, teem isso comsigo. Amoldam-se muito mais
    depressa aos habitos de elegancia do que os homens. Com certeza ninguem
    suspeitará, ao vêr Bertha, a origem aldeã que ella teve. A mim
    parecia-me impossivel que aquella gentil rapariga, que tão airosamente
    cavalgava ao meu lado, fosse a filha de Thomé da Povoa e d'aquella
    excellente Luiza.

    –Ah! pois cavalgaste ao lado d'ella? Já?!–notou Jorge, em um tom de
    acerba ironia, que era novo n'elle.

    –Sim; encontrei-os na estrada quando chegavam. Não a conheci ao
    principio. Aproximei-me, conversei com ella, achei-a encantadora. E
    depois tinha no olhar tantas promessas!

    Jorge deu em passeiar, evidentemente agitado.

    –É o que eu digo–murmurava elle com um sorriso nervoso, e continuou:

    –Mauricio, Mauricio; cautela! Cuidado com esse galanteio! Póde ser de
    mais sérias consequencias do que as duzias de paixões que tens tido por
    as nossas primas d'estes sitios. Essas o peior resultado a que poderiam
    conduzir-te era a casar com alguma d'ellas e a enxertar assim no tronco
    illustre da nossa arvore genealogica alguma illustrissima vergontea de
    uma sêpa igualmente ante-diluviana.

    –Ahi estás tu de novo zombando da nossa aristocracia. Desconheço-te,
    Jorge. Realmente não sei d'onde te veio essa febre democratica e
    philosophica, com que andas ha tempos. Picou-te a mosca revolucionaria.

    Jorge acudiu com uma vivacidade, que provavelmente não lhe era inspirada
    pelo assumpto:

    –Não sabes d'onde me vem? Vem-me de meia hora de reflexão por dia. É o
    que basta para me rir da fidalguia de toda esta nossa parentela, que se
    deixa devorar por dividas, imaginando que ha em si alguma coisa que
    resista á sua inutil ociosidade; e que hão de ficar muito admirados
    quando, ao receberem um dia esmola da mulher do seu rendeiro, esta os
    não tractar por fidalgos, nem lhes agradecer a honraria de aceital-a.

    Outro menos despreoccupado do que Mauricio desconfiaria que na
    vehemencia com que Jorge fulminava a incuria aristocratica, havia muito
    de facticio; como se procurasse desviar a attenção do verdadeiro motivo
    do seu estado nervoso.

    –Não estou disposto a discutir a legitimidade das pretenções
    aristocraticas. Deixemos isso. Dizias tu que fugisse de me apaixonar por
    Bertha. Reconheço a prudencia do conselho. Porque é certo que ha
    n'aquella rapariga um não sei quê tão superior ao que por ahi vejo que,
    se eu não tivesse de deixar dentro em pouco tempo estes sitios, para…
    arranjar um modo de vida… não juro que pudesse ser indifferente
    áquelles encantos. Demais ha entre nós recordações de infancia e quer
    parecer-me que ella ainda as não esqueceu.

    Jorge, sem responder, continuava a passeiar no quarto.

    –Mas aquella luz não me sahe do pensamento–proseguiu Mauricio.–Que
    estará fazendo a pobre rapariga a estas horas da noite? Não te parece
    que está alguem á janella?

    –Mal se póde divisar atravez das folhas d'esses castanheiros; mas julgo
    que sim.

    –Pobre pequena! Alli, só, n'esta aldeia. Está scismando em como poderão
    ter realidade as vagas aspirações do seu coração.

    Jorge sorriu, e acrescentou com sarcasmo:

    –Ou de que maneira ha de corresponder-se com algum Romeu collegial, que
    deixou suspirando em Lisboa.

    –Estás insupportavel, Jorge.

    –Uma experiencia!–exclamou, passados alguns momentos de silencio,
    Jorge, voltando á janella, onde permanecia ainda Mauricio.–Tu estás
    dando tractos á imaginação para adivinhares qual será o pensamento de
    Bertha. Eu aventuro uma supposição. Assim como nós vimos aquella luz,
    ella vê esta, e talvez a nossa sombra na janella. É natural que supponha
    que para alli dirigimos as vistas, e muito provavel que adivinhe que
    fallamos d'ella. Sabendo-se observada, não ousa apagar a luz, por querer
    mostrar que tambem prolonga as suas _rêveries_ por noite alta.

    –Ora! deixa-me com as tuas observações!

    –Queres verificar? Apaguemos a luz e veremos o resultado.

    Mauricio condescendeu.

    A unica janella alumiada da Casa Mourisca envolveu-se nas trevas da
    noite.

    Como o leitor já sabe, Bertha, por um motivo differente do insinuado por
    Jorge, apagou tambem pouco depois a luz do seu quarto.

    –Eu que dizia?–exclamou Jorge, rindo triumphantemente, mas como se
    aquelle rir lhe fizesse mal.

    –Pois bem; se adivinhaste, tanto melhor–disse Mauricio, despeitado.

    –Tanto melhor?!

    –Sim. Porque não hei de eu vêr, n'este proposito de acompanhar a nossa
    vigilia, uma prova de sympathia pelo companheiro de infancia que hoje
    tornou a vêr?

    –Ah! ah! Pensas n'isso?

    –Porque não? Olha, Jorge, a mulher sem as fraquezas do coração proprias
    do sexo não é uma mulher perfeita. Eu, se visse anjos cá por este mundo,
    anjos puros, correctos, impeccaveis; tirava-lhes reverente o chapéo,
    benzia-me diante d'elles, rezava-lhes uma oração, mas afianço-te que não
    os amava.

    –Boa noite, Mauricio. Olha que são duas horas.

    –Adeus, Jorge.

    –Não sonhes com Bertha.

    –Não sonhes tu com a arithmetica, que é peior pesadêlo.

    E os dois irmãos separaram-se, rindo.

    A ambos dominou por muito tempo a imagem de Bertha.

    Jorge passou uma noite febril. Tentava desfavorecer Bertha, quanto
    podia, no proprio conceito, esforçando-se por convencer-se de tudo
    quanto a respeito d'ella dissera ao irmão, para diminuir assim a
    impressão, que, a seu pesar, conservava ainda da imagem da rapariga.

    Mauricio dera-lhe a entender que Bertha fôra sensivel ao seu galanteio,
    e esta ideia torturava o espirito de Jorge.

    Pela sua parte, Mauricio tanto lidou com a supposição de que a vigilia
    de Bertha lhe fôra consagrada, que adormeceu firmemente convencido disso
    e sonhou… sonhou… Oh! quem póde exprimir o longo romance dos sonhos
    de um rapaz aos vinte annos e quando possue uma imaginação como a de
    Mauricio!

    X

    Bertha acordou firme no proposito que formára na vespera, de aceitar com
    coragem de mulher as suas novas condições de vida, e de entregar-se de
    alma e vontade ao cumprimento dos deveres domesticos, soffreando para
    isso a indocil imaginação de rapariga.

    Mauricio, pelo contrario, estreiou os seus pensamentos d'aquelle dia,
    avivando tudo quanto pudesse fazer-lhe lembrar de Bertha, e formando a
    resolução de vêl-a e de fallar-lhe.

    Jorge levantou-se cêdo, um tanto fatigado pelo inquieto somno d'aquella
    noite, e procurou distrahir-se, estudando uma questão agronomica, em que
    meditava havia muitos dias.

    Veremos o que as diversas disposições de animo d'estes tres personagens
    deram de si no decurso do dia.

    O aspecto risonho da manhã dissipou as nuvens, que de noite se haviam
    accumulado sobre o espirito de Bertha. Já lhe parecia, áquella suave e
    vivificadora luz, mais risonha a sua sorte, e não podia perdoar a si
    mesma a vaga tristeza que sentira. Auxiliando a mãe nas occupações
    domesticas, encontrava n'isso uma distracção poderosa e quasi um intimo
    prazer. As caricias dos irmãos commoviam-n'a, e foi já com desassombrada
    alegria que, tomando um d'elles ao collo e dando a mão ao outro,
    atravessou os campos cultivados, os vinhedos e os lameiros da Herdade, e
    foi sentar-se no limite d'ella, junto a uma fonte rustica meia occulta
    entre a sebe de rozeiras e estevas, que separava do caminho aquella
    parte do casal. E como lhe causava prazer sentir-se humedecida pelo
    orvalho, que ainda poisava nos trevos e nas fumarias do chão, e cahia em
    gotas limpidas dos cumes das arvores sacudidas na passagem!

    Os irmãos corriam a trazer-lhe as rozas e as mais flôres campestres que
    iam colher, saltando por entre as searas e nos caminhos de passagem, e
    ella entretinha-se a ajuntal-as em pequenos ramos, com que os
    presenteava depois.

    Entregue toda a esta tarefa, sentia-se tão do intimo contente, que se
    pôz a cantar a meia voz a musica de uma cantiga em voga no sitio.

    Pareceu-lhe por mais de uma vez ouvir rumor nas balseiras visinhas, mas
    julgou-o produzido por algum passaro, agitando-se no ninho occulto nos
    silvados, e não lhe deu maior attenção.

    D'uma vez porém, em que os irmãos corriam para ella com uma regaçada de
    flôres, viu-os de repente pararem enleiados e olharem para a sebe que a
    separava da rua proxima. Bertha voltou-se na direcção d'aquelle olhar, e
    descobriu Mauricio, que, por uma entreaberta das silvas, a estava
    observando.

    A filha de Thomé da Povoa levantou-se sobresaltada; e sem poder occultar
    de todo a confusão que experimentava com o inesperado encontro,
    interrogou sorrindo:

    –Estava ahi ha muito?

    –Ha alguns momentos, ao que me parece.

    –A fazer o quê?

    –A vêl-a e a ouvil-a.

    –Com tão pouco se entretem!

    –Então parece-lhe que não será novo para mim o espectaculo?

    –Novo?! Um campo, uma fonte e umas crianças? Ora essa!

    –Enumerou os accessorios, e esqueceu-lhe a figura principal, e n'essa é
    que está a novidade. Se a Bertha soubesse que genero de figuras
    femininas por ahi se me deparam, n'essas bonitas paisagens d'este nosso
    bello paiz?

    –É muito injusto com as suas patricias.

    –Oh! não as lisongeie.

    –N'isso interesso eu tambem, bem vê.

    –Poupe-lhes a humilhação de comparar-se com ellas, Bertha. Creia que,
    indo educar-se a Lisboa, foi para onde a chamavam os instinctos de sua
    natureza superior. Seu pae, julgando tomar uma resolução espontanea, ao
    mandal-a para a capital, obedeceu, sem o saber, a uma força occulta que
    assim o exigia. O seu espirito estava voando para as cidades, onde
    sómente encontrava ambiente apropriado.

    –Engana-se; vê? Achava-me desterrada alli até, e, desde que voltei,
    sinto um bem-estar, que me prova que é esta a minha verdadeira patria,
    que estes são os ares, em que respiro á vontade.

    –Esse bem-estar não tardará que se transforme em fastio.

    –Não, não, não creio.

    –Eu é que não creio que possa dar-se bem aqui, privada de satisfazer as
    aspirações naturaes a um espirito como o seu.

    –Mas, ó meu Deus, que qualidade de espirito me suppõe então? Que
    aspirações são essas que diz?

    –Ora para que finge ignoral-as? Acaso, diga, a satisfaria a vida da
    immensa maioria das tres ou quatro mil pessoas d'este concelho?

    –E espero que ha de satisfazer-me.

    –E que ha de fazer da sua imaginação? Sim, que ha de fazer d'isto que
    se sente na nossa idade, quando se não nasceu Manoel do Portello, ou
    Maria da Azenha?

    –Perdão, será por eu ter nascido simplesmente Bertha da Povoa, que não
    me incommódo com isso.

    –Não me entendeu, Bertha. Não havia nas minhas palavras a menor
    baforada aristocratica; d'essa ridicula mania não padeço eu, graças a
    Deus. D'entre os preclaros membros das casas fidalgas d'estes arredores,
    posso assegurar que, apesar dos sete ou oito nomes, com que cada um se
    assigna, nenhum experimenta isto que eu dizia. Mas Bertha…

    –Olhe, snr. Mauricio. Fallo-lhe com franqueza. Não me supponha o que eu
    não sou, ou então não diga o que não sente. Acredite; as minhas
    aspirações são tão leves, tão realisaveis! Satisfazem-se com estes
    cuidados caseiros; e fóra d'isto, não me sinto bem. Para fazer a vontade
    a meu pae, segui a educação que elle desejou que seguisse; mas nunca
    senti prazer n'isso; nunca morreram em mim as saudades do campo e dos
    trabalhos aldeãos…

    –Acredito que hoje aprecie melhor a aldeia, porque tem já sentidos
    educados para a poesia que ella rescende.

    –A poesia!–repetiu Bertha, com um forçado gesto de desdem, encolhendo
    os hombros.

    Mauricio percebeu-o.

    –Ri-se?–interrogou elle.

    –É que ouço fallar ha tanto n'isso, e se quer que lhe falle a verdade,
    ainda não pude saber bem o que seja.

    –Não sabe o que é a poesia?!

    –A que se escreve nos livros sei, mas fóra d'ahi…–disse Bertha,
    simulando um tom de completa ingenuidade.

    A chegada das crianças, pedindo á irmã que as conduzisse a casa,
    interrompeu n'este ponto o dialogo. Bertha despediu-se amigavelmente de
    Mauricio, que por muito tempo a seguiu com a vista.

    –Será possivel que eu me engane?–pensava elle.–Será a final de contas
    uma mulher vulgar, capaz de continuar as prosaicas tradições da familia?
    Não creio. Antes é astuciosa e dissimulada. N'esta apparente singeleza
    de gostos ha muito espirito escondido. E, ou eu me engano muito, ou não
    é indifferença o que ella sente, quando me falla.

    E sahiu d'alli, trabalhando n'estes pensamentos.

    Bertha, rindo e brincando com os irmãos, pensava tambem:

    –Parece-me que alguma coisa conseguiria. É preciso desvial-o d'este
    proposito; é preciso que elle se enfastie d'este galanteio; que me
    aborreça. Hei de fazer-me bem vulgar, bem ignorante, incapaz de sentir e
    de entendêl-o. Que eu não posso ficar pelo meu coração, que ainda não
    experimentei. Antes quero evitar o ensejo, antes quero não luctar.
    Chamam-me uma rapariga de juizo. Não sei, não sei se o sou, não o posso
    saber nem quero. Ás vezes… desconfio de mim… receio… assusto-me.
    Sentia-me mais animosa d'antes. Parecia-me tão facil dominar-me!…
    Hoje… Não quero, não quero tentar; não quero expôr a tranquillidade do
    meu coração. Eu não me sinto senhora de mim mesma, quando elle me falla.
    É preciso acabar com isto, antes que augmente.

    O dia passou sem outro episodio para Bertha, além da visita de algumas
    relações da familia, que vinham festejar a chegada da primogenita do
    venturoso casal.

    Bertha conseguiu ser amavel com todos, apesar das impertinencias com que
    a interrogavam sobre as particularidades da sua vida na cidade.

    Luiza não se fartava de admirar as maneiras e a eloquencia da filha, e
    não fazia senão alternar a vista entre o rosto de Bertha, que tão grata
    perspectiva era para o seu amor de mãe, e o dos seus interlocutores,
    onde espiava o reflexo da admiração, de que ella propria se sentia
    possuida.

    Assim correu o dia.

    O principio da noite foi consagrado á familia. Então é que chegou a vez
    a Thomé de perguntar, de querer saber, de fazer reflexões sobre o que
    ouvia; e Luiza, a sancta mulher, muitas vezes a responder por a filha,
    como quem já se achava mais adiantada em conhecimentos do que o marido.

    Era já um pouco tarde e Thomé admirava-se da demora de Jorge, a quem
    mandára aviso para que viesse aquella noite, porque tinha que
    communicar-lhe a respeito de negocios que tractára no Porto e Lisboa.
    Ouviu-se porém o ladrar dos cães no quinteiro, o som da aldraba no
    portão e em seguida passos no lagedo das escadas, que conduziam ao
    patamar.

    –Ahi vem o snr. Jorge–disse Luiza para o homem.–Conheço-o já pelo
    andar.

    –É elle, é; e temos hoje bastante que fallar.

    –Eu vou accender o candieiro no quarto–acrescentou Luiza, que sahiu a
    preparar a sala das conferencias.

    Pouco depois Jorge apparecia na sala, em que ficára Thomé com a filha.

    Jorge não era superior a uma occulta commoção, ao entrar alli. Ia
    encontrar-se com Bertha. O momento, de que vagamente se temia, chegára
    emfim. Achava-se em frente do perigo desconhecido, de que sentia intimas
    apprehensões. Era tão forte a sua turbação, que lhe tremiam as pernas ao
    transpôr a porta da sala.

    Na presença de Bertha, Jorge lançou para ella um olhar rapido, mas
    penetrante, e desviou-o logo. O espirito não serenou com o resultado
    d'esse primeiro exame.

    Jorge reconheceu que o perigo, que tanto temia, era real.

    Bertha, prevenida como estava a respeito do genio de Jorge, tão
    differente do do irmão, acolheu-o com mais franqueza e menos precauções
    do que tivera com Mauricio. Contra Jorge não precisava de acautelar o
    coração.

    O cumprimento de Jorge foi serio e quasi frio, sem um vislumbre de
    galanteio, que se parecesse com as finezas de Mauricio. Apenas disse,
    quasi sem olhar para Bertha:

    –Bem vinda, Bertha; estimo vêl-a restituida aos seus. Espero que ainda
    se lembre de um antigo conhecido.

    –Não costumo esquecer-me, snr. Jorge–respondeu Bertha, sem poder
    deixar de examinal-o com curiosidade.

    Jorge proseguiu no mesmo tom:

    –Dizem que se aprende depressa a esquecer nas cidades. Mas quero
    acreditar que a sua memoria desmentirá o dito. E que lhe parece agora
    esta terra?

    E Jorge, fazendo a pergunta, quiz fitar os olhos em Bertha, mas
    desviou-os ao encontrar os d'ella.

    –A mesma que deixei–respondeu Bertha–a aldeia guarda melhor as
    memorias do passado, do que a cidade. Vivem-se annos longe d'ella, e na
    volta parece que as mesmas arvores e as mesmas flôres, que nos
    despediram, nos dão as boas vindas outra vez. Se alguma mudança ha é nas
    pessoas.

    –Encontrou mudança n'essas?

    E Jorge tentou de novo, mas sem melhor resultado, fitar os olhos em
    Bertha.

    –Nem podia deixar de ser–tornou esta–para nós não ha estações; as
    folhas que vão cahindo, não vem primavera renoval-as.

    Jorge pôz-se a folhear, com apparente distracção, um livro que encontrou
    sobre a mesa; e a fronte contrahiu-se-lhe levemente, como se tivesse
    ouvido alguma coisa que lhe desagradasse.

    Bertha continuou fallando-lhe sem constrangimento e olhando-o com a
    curiosidade que despertava naturalmente no seu espirito de rapariga
    aquelle caracter serio de rapaz.

    Thomé propôz a Jorge principiarem os seus trabalhos.

    Bertha despediu-se d'elles, e foi ter com a mãe.

    –Então que lhe parece a minha rapariga, snr. Jorge?–perguntou o
    enlevado Thomé.

    Jorge articulou uma pouco intelligivel phrase de louvor.

    –Olhe o que é a educação–insistiu Thomé.–Quem ha de dizer que foi
    nascida e creada aqui, n'este palheiro e no tempo em que elle era ainda
    um pouco peior do que hoje?!

    –Ah! sim… a educação… vale muito, mas é preciso que os dotes
    naturaes a auxiliem–murmurou Jorge, como se lhe causasse repugnancia o
    assumpto da conversa.

    –Sim; tambem me parece que se a pequena não tivesse quéda… Mas o que
    ella sabe! o que ella leu! o que ella aprendeu! É d'uma pessoa ficar a
    ouvil-a uma noite e um dia inteiros, sem querer saber de mais nada!

    Um ligeiro sorriso, não de todo despido de ironia, encrespou os labios a
    Jorge, que nada respondeu d'esta vez.

    Thomé interpretou o silencio do rapaz como uma manifestação dos seus
    desejos de entrar no exame das contas e documentos, que tinham para vêr
    aquella noite, e por isso abriu a sessão.

    Antes porém teve de ir em procura de uns papeis necessarios.

    Jorge ficou só por um instante, e deu alguns passeios no quarto.
    Aproximando-se de uma mesa que estava proxima da janella, pegou
    machinalmente na obra de costura, ahi deixada por Bertha, mas logo a
    arrojou de si com impaciencia; depois abriu um livro, que, pelo aspecto
    elegante da encadernação, conhecia-se pertencer tambem á filha de Thomé.

    Era um exemplar do poetico idyllio de Saint-Pierre, da historia dos
    amores de Paulo e Virginia.

    Jorge pousou-o sobre a mesa, e voltou-lhe aos labios o mesmo estranho
    sorriso, que mais d'uma vez lh'os contrahira n'aquella noite.

    –Lê romances–murmurava elle.–A estas horas phantasia-se a heroina de
    algum. Está apaixonada por o typo que mais lhe agradou, e busca pelo
    mundo a realisação d'esse ideal. A final é o que eu digo. É como as
    outras. É uma rapariga da moda, pretenciosa, romantica e um pouco
    pedante… É o resultado do systema de Thomé… Fazer viver estas
    mulheres em um mundo de phantasia, e trazêl-as depois para a realidade,
    que lhes ha de parecer insupportavel!… Triste methodo de formar
    esposas e mães!

    E ao pensar isto, sentia uma amargura, uma irritação, que elle proprio
    não podia justificar.

    Depois proseguiu, com crescente malignidade:

    –E quem sabe?… Este livro deixado aqui? Seria esquecimento ou
    proposito? É natural o desejo de ostentar a sciencia e cultura de
    espirito adquiridas no collegio, e ha tão pouca gente no caso de as
    apreciar n'esta aldeia, que não admiro que seja eu um dos eleitos.
    Emfim, são vaidades de rapariga; e peccado venial para que se deve ser
    indulgente. E demais que tenho eu com isso?… Mauricio que averigue, se
    quizer. Está no gosto d'elle…

  • Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 07

    Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 07

    Aproximadamente 50.547 palavras.

    Produced by Carla Martins Ramos, Ricardo Diogo, and Tiago
    Tejo and edited by Rita Farinha (Biblioteca Nacional
    Digital–http://bnd.bn.pt).

    OPUSCULOS

    *OPUSCULOS*

    POR

    A. HERCULANO

    SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA

    SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA

    SOCIO CORRESPONDENTE DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID DO INSTITUTO
    DE FRANÇA (ACADEMIA DAS INSCRIPÇÕES) DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE
    TURIM DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA-YORK, ETC.

    *TOMO VII*

    *QUESTÕES PUBLICAS*

    TOMO IV

    1.^a EDIÇÃO

    LISBOA

    TAVARES CARDOSO & IRMÃO–EDITORES

    _5, Largo de Camões, 6

    1898

    Typ. da Empreza Litteraria e Typographica

    Rua de D. Pedro, 184–Porto

    ADVERTENCIA

    O inedito em forma de projecto de decreto insérto n'este volume com a
    data de 1851, e de certo modo os estudos que o volume encerra relativos
    ao concelho de Belem, relacionam-se com factos pouco conhecidos da vida
    do auctor, e por isso expomos sobre elles os seguintes esclarecimentos
    para sua melhor intelligencia. Em 1851 combinara A. Herculano collaborar
    com o ministerio que subiu ao poder em 23 de maio d'esse anno, em um
    vasto plano de reformas destinadas a melhorar o estado economico,
    politico e administrativo do nosso paiz. Com esse proposito se prestou a
    entrar em varias commissões não remuneradas para que foi nomeado,
    entregando-se desde logo á sua patriotica empresa. Mas este pacto tão
    esperançoso para o paiz, apenas pôde manter-se por alguns dias, antes da
    recomposição ministerial de 7 de julho do mesmo anno, cessando de todo
    quando ella occorreu. Dos trabalhos de que o historiador se encarregara
    e em que n'aquelle breve espaço de tempo pozera mão, ainda por morte
    d'elle se conservavam nas suas pastas apontamentos e manuscriptos em
    diversos estados de desenvolvimento; e foi entre esses vestigios de um
    formoso sonho patriotico, que achamos aquelle projecto que, pela materia
    de que tracta, nos pareceu dever ser incluido no presente volume. Com
    esse projecto pretendia A. Herculano promover em grande escala a cultura
    dos nossos terrenos maninhos, especialmente a dos que eram vinculados,
    facultando a alienação do dominio util d'estes ultimos, por meio de
    emphyteuse, e interessando na acquisição d'elles o povo do campo e na
    cessão os administradores de vinculos. No preambulo, como o
    apresentâmos, faltam algumas considerações com que o auctor o precedeu
    ácerca do alcance economico dos decretos dictatoriaes de D. Pedro IV,
    pois que do respectivo manuscripto apenas apurámos fragmentos truncados;
    mas a omissão não o prejudica quer na redacção quer na doutrina, quanto
    ao seu essencial objectivo, sendo certo que o assumpto de taes
    considerações está largamente tractado pelo auctor no seu estudo sobre
    vinculos publicado no vol. IV d'esta collecção. Com o conhecimento
    d'este estudo facil nos foi deduzir da leitura de um dos referidos
    fragmentos, que A. Herculano attribuia ao seu projecto a vantagem de
    poder obstar a que os maninhos que se tornassem allodiaes pela extincção
    dos vinculos, viessem a accumular-se, malbaratados e incultos, nas mãos
    de poucos e já abastados proprietarios, á similhança do que succedera
    com muitos dos bens territoriaes que as leis de D. Pedro libertaram para
    o dominio do estado. A extinccão dos vinculos viria depois, com maior
    proveito de todos os interessados incluindo a sociedade. Em outro dos
    fragmentos se lê que o governo tencionava mandar rever o decreto de 22
    de junho de 1846, sobre foraes, para o reconduzir ao genuino pensamento
    do decreto de 13 de agosto de 1832, sobre a mesma materia, aclarando-se
    tambem as disposições d'este ultimo. Mas alguns annos depois, como se
    conclue de uma correspondencia que o auctor mandou para o _Archivo
    Rural_ e que fecha este volume, já elle achava tarde para se proceder a
    essa revisão, attenta a multiplicidade de transacções já então
    effectuadas segundo a lei de 1846.

    Quanto aos estudos relativos ao concelho de Belem são do tempo em que A.
    Herculano presidiu á camara municipal d'aquelle concelho, no biennio de
    1854-1856, e constam de duas representações da camara, uma ao governo,
    outra ás côrtes, e de um projecto de _Caixa de Soccorros Agricolas_.
    Foram todos publicados em folhetos e vão reproduzidos no presente volume
    apenas com leves emendas de revisão que o auctor deixou indicadas. Estes
    importantes estudos e a presença do auctor na vereação do concelho,
    tambem se relacionam com os factos politicos a que acima nos referimos.
    A medida administrativa traduzida pelos decretos de 11 de setembro de
    1852, que extinguiram o termo de Lisboa e com elle constituiram os
    concelhos de Belem e dos Olivaes, estava incluida no plano de reformas
    do ministerio de 23 de maio de 1851; mas o ministerio seguinte não
    attendera n'estes diplomas a todas as razões de justiça em que ella
    devia basear-se, succedendo que os novos concelhos ficaram privados dos
    recursos a que tinham natural direito e lhes eram imprescindiveis para
    prover á sua livre administração e manter a sua independencia. Como as
    opiniões de A. Herculano n'esta materia e a sua intervenção n'aquelle
    plano de reformas eram conhecidas de muitas pessoas influentes do
    concelho de Belem, d'ahi nasceu a idea de o investirem no encargo de
    vereador, para que elle viesse reclamar contra a injustiça e aclarar o
    pensamento originario da medida decretada. Accresce que em 1854 o
    ministerio ainda era o mesmo que referendara aquelles decretos, e d'este
    modo se explica a eleição do historiador e pelo theor das representações
    da camara se ajuiza de toda a questão. Porém, não foi apenas para
    satisfazer aquelles justificados designios dos seus constituintes que A.
    Herculano acceitou o encargo popular para que fôra eleito. Uma aspiração
    mais elevada, sobrelevando quaesquer intuitos politicos, o guiou n'esse
    procedimento, aspiração que se revelou em todos os actos da camara da
    sua presidencia, e accentuadamente se patenteia nos estudos de que
    falamos: era crear no concelho de Belem uma norma de administração local
    que, tornando-o florescente, podesse servir de incentivo a outros
    concelhos: era tentar a propaganda do municipalismo pelo exemplo, já que
    em 1851 lhe escapara o ensejo para fazer revigorar em todo o paiz, a
    grande instituição que elle tanto encarecia e que, segundo as suas
    profundas investigações historicas, foi n'outras éras a base da nossa
    prosperidade e força politica.

    Não é para este logar a narração de como a camara presidída por A.
    Herculano veio a ser dissolvida pelo governo, não conseguindo o
    historiador levar a cabo a sua nobre tentativa. Os esclarecimentos que
    ficam expostos são bastantes para o fim a que se destinam.

    1898.

    Os editores.

    DUAS EPOCHAS E DOUS MONUMENTOS OU A GRANJA REAL DE MAFRA

    1843

    Houve entre nós um rei nascido com uma indole generosa e magnifica: foi
    D. João V. Favoreceu a fortuna a grandiosidade do seu animo. Durante o
    reinado d'este principe as entranhas da America pareciam converter-se em
    ouro, e a terra brotar diamantes para enriquecerem o thesouro portuguez,
    e o nosso primeiro rei do seculo XVIII pôde emular Luiz XIV em fasto e
    magnificencia. Ha, porém, differenças entre os dous monarchas: Luiz XIV,
    mais guerreador que guerreiro, malbaratou o sangue de seus subditos em
    conquistas estereis; D. João V, mais pacífico que timido, comprou
    sempre, sem olhar ao preço, a paz externa dos seus naturaes. Luiz XIV
    levou a altissimo gráu d'esplendor as letras e as sciencias: D. João V
    tentou-o; mas ficou muito áquem do principe francez. Devemos todavia
    lembrar-nos de que Luiz XIV era senhor de uma vasta monarchia, e D. João
    V rei de uma nação pequena. Uma litteratura extensa e ao mesmo tempo
    vigorosa só apparece onde ha muitos homens. É como a grande cultura, que
    só pode fazer-se em opulentas propriedades e dilatados terrenos.

    D. João V teve como Luiz XIV o seu Louvre; mas um Louvre em harmonia com
    o caracter, não tanto religioso como beato e hypocrita, do seu paiz
    n'aquella epocha. Mafra ficou duvidosa no desenho, entre o mosteiro e o
    palacio. As duas entidades architectonicas compenetram-se ahi d'um modo
    inextricavel. A púrpura está lá remendada de burel; o burel alindado com
    púrpura, e o sceptro do rei enlaça-se com a corda d'esparto, ao passo
    que a alpargata franciscana ousa pisar os degráus do throno. Os que
    sabem quão corrompidos foram os costumes em Portugal no princípio do
    seculo passado, e quão esplendido e ostentoso foi o culto divino; quão
    brilhante foi a côrte portugueza n'esse tempo, e por quão frouxas mãos
    andou o leme do estado, não precisam vêr Mafra. Mafra é a imagem de tudo
    isso.

    Um grande edificio, fosse qual fosse o destino que seu fundador lhe
    quizesse dar, é sempre e de muitos modos um livro de historia. Os que
    n'elle buscam só um typo por onde aferir o progresso ou decadencia das
    artes na epocha da sua edificação, lêem apenas um capitulo d'esse livro.
    Os castellos, os templos, e os palacios, triplice genero de monumentos
    que encerra em si toda a architectura da Europa moderna, formam uma
    chronica immensa, em que ha mais historia que nos escriptos dos
    historiadores. Os architectos não suspeitavam que viria tempo em que os
    homens soubessem decifrar nas moles de pedras affeiçoadas e accumaladas
    a vida da sociedade que as ajuntou, e deixavam-se ir ao som das suas
    inspirações, que eram determinadas pelo viver e crêr e sentir da geração
    que passava. Elles não sabiam, como os historiadores, que no seu livro
    de pedra, tambem como nos d'aquelles, se podia mentir á posteridade. Por
    motivo tal foi a architectura sincera.

    Mafra é um monumento rico, mas sem poesia, e por isso sem verdadeira
    grandeza: é um monumento de uma nação que dormita após um banquete como
    os de Lucullo: é o toucador de uma Lais ou Phrine assentado dentro do
    templo do Deus dos christãos, e sob outro aspecto, é a beataria d'uma
    velha tonta, affectando a linguagem da fé ardente e profunda d'Origines
    ou de Tertulliano.

    Sem contestação, Mafra é uma bagatella maravilhosa, o dixe de um rei
    liberal, abastado e magnifico; é pouco mais ou menos o que foi Portugal
    na primeira metade do seculo XVIII.

    Collocai pela imaginação Mafra ao pé da Batalha, e podereis entender
    quanto é clara e precisa a linguagem d'estas chronicas, lidas de poucos,
    em que as gerações escrevem mysteriosamente a historia do seu viver. A
    Batalha é grave como o vulto homerico de D. João I, poetica e altiva
    como os cavalleiros da ala de Mem Rodriguez, religiosa, tranquilla,
    santa como D. Philippa rodeada dos seus cinco filhos. As mãos que
    edificaram Santa Maria da Victoria, meneando as armas em Aljubarrota,
    deviam ser vencedoras. A Batalha representa uma geração energica, moral,
    crente: Mafra uma geração afeminada, que se finge forte e grande. A
    Batalha é um poema de pedra: Mafra é uma semsaboria de marmore. Ambas,
    ecchos perennes que repercutem nos seculos que vão passando a expressão
    complexa, e todavia clara e exacta, de duas epochas historicas do mesmo
    povo, sua juventude viçosa e robusta, e sua velhice cachetica.

    O caracter de um monumento do tempo presente não póde ser por certo um
    edificio gigante, um templo, ou um palacio. Onde as crenças religiosas
    vacillam como a luz que se apaga, o templo seria uma pagina de historia
    fabulosa: onde a pobreza extrema substitue a riqueza, um tanto estupida
    e fastosa com mau gosto, o palacio esplendido seria um capitulo
    anachronico. O monumento deve resumir a sociedade, e em nenhum d'esses
    generos de _memoradum_ se acharia representado o actual existir.

    Que somos nós hoje? Uma nação que tende a regenerar-se: diremos mais:
    que se regenera. Regenera-se, porque se reprehende a si propria; porque
    se revolve no lodaçal onde dormia tranquilla; porque, se irrita da sua
    decadencia, e já não sorri sem vergonha ao insultar d'estranhos; porque
    principia, emfim, a reconhecer que o trabalho não deshonra, e vai
    esquecendo as visagens senhorís de fidalga. Deixai passar essas paixões
    pequenas e más que combatem na arena politica, deixai fluctuar á luz do
    sol na superficie da sociedade esses corações cancerosos que ahi vêdes;
    deixai erguerem-se, tombar, despedaçarem-se essas vagas encontradas e
    confusas das opiniões! Tudo isto acontece quando se agita o oceano; e o
    mar do povo agita-se debaixo da sua superficie. O sargaço immundo, a
    escuma fétida e turva hão-de desapparecer. Um dia o oceano popular será
    grandioso, puro e sereno como sahiu das mãos de Deus. A tempestade é a
    precursora da bonança. O lago asphaltite, o Mar-Morto, esse é que não
    tem procellas.

    O nosso estrebuxar, muitas vezes colerico, muitas mais mentecapto e
    ridiculo, próva que a Europa se enganava quando cria que esta nobre
    terra do ultimo occidente era o cemiterio de uma nação cadaver. Vivemos:
    e ainda que similhante viver seja o delirio febril de moribundo, esta
    situação violenta, aos olhos dos que sabem vêr, é uma crise de salvação,
    posto que dolorosa, e lenta. Confiemos e esperemos: o nome portuguez não
    foi riscado do livro dos eternos destinos.

    Um dos signaes evidentes da restauração social do paiz, e ao mesmo tempo
    o caracter mais notavel que distingue esta epocha é o seu movimento
    industrial, industrial na mais extensa significação da palavra. Primeira
    entre as differentes industrias é a agricultura, e a agricultura tem
    incontestavelmente sido o nosso principal progresso.

    Qual será portanto o monumento que melhor resuma este periodo de
    regeneração? Será o aspecto do solo, o viço dos campos, a abundancia
    substituida á escaceza na morada do homem laborioso. Arroteai algumas
    geiras de terra: em um marco esculpi a data d'essa transformação: cobri
    a superficie de Portugal d'estes marcos. Eis ahi, não um, porém mil
    monumentos que significarão o espirito do presente.

    Plantai o bosque na serrania escalvada: que elle braceje virente para o
    céu, e enrede as suas raizes nas rachas da penedia. Agitada pelo vento,
    a selva com o seu rugir irá contando a cada seculo que nascer as
    tendencias laboriosas do nosso, que já começam a apparecer. Os cimos das
    montanhas são as verdadeiras aras de Deus: é lá que oravam as nações
    virgens. Sanctificai a vossa religião de patriotismo pelo culto
    universal e primitivo: o bosque murmurando com o espirar da aragem é um
    hymno ao Ancião dos Dias: que este hymno nos consagre a memoria ao amor
    e gratidão de nossos filhos!

    Ao lado dos paços monasticos de Mafra, monumento de uma era de vans
    grandezas, vai-se hoje alevantando sem ruido o monumento modesto, mas
    eloquente e sancto, da idéa progressiva da actualidade. Ao lado d'essas
    pedras amontoadas, d'esses torreões gigantes, macissos, e pesadamente
    estupidos, serpeam já os prados virentes por veigas e valles, cobertos
    ainda ha pouco de abrolhos e urzes. Contrastando com os lanços de
    muralhas caiádas da ochre, que amarelleja bestialmente, como um cordão
    de ouropel enfiado em diamantes, por entre a côr severa dos marmores
    tisnados pelo tempo, vêem-se ao longo verdejar os pinheirinhos, que
    coroam as alturas ao norte e oriente d'aquelle edificio monstruoso,
    hybrido, e extravagante como uma composição pseudo-poetica da
    Phenix-Renascida. As folhas de terra cultivada dilatam-se pelas chapadas
    e encostas, várias na côr segundo a altura das cearas, ou conforme a
    qualidade do solo, nos sitios onde ainda as sementeiras não surgem no
    comêço do germinar. É como um xadrez enorme, cujas casas se houvessem
    repartido ao acaso n'um taboleiro irregular e immenso.

    A vontade real fez apparecer o edificio: outras Vontades Reaes fizeram
    nascer a granja-modelo. Para a primeira requeria-se ouro e força; para a
    segunda intelligencia e amor do paiz. O sceptro foi robusto e potente
    quando amontoou aquella penedia lavrada e esculpida: o sceptro é o
    symbolo da paz e da beneficencia quando em vez de converter pão em
    pedras, converte gandra bravia e esteril em um nobre exemplo que mostre
    ao povo onde está a sua derradeira esperança, o progresso da industria e
    o amor do trabalho.

    Para a maravilhosa inutilidade de D. João V gastaram-se por largos annos
    os milhões que de continuo nos entregava a America: o lidar accumulado
    de cincoenta mil homens consumiu-se em desbastar e pulir essas pedras
    hoje esquecidas, que apenas servem para alimentar por algumas horas a
    curiosidade dos que passam. É uma verdade cem vezes repetida, que o
    preço de Mafra teria coberto Portugal das melhores estradas da Europa;
    mas nem por ser trivial essa verdade deixa de ser dolorosa. E todavia
    tal preço era o menos! As maldiccões submissas dos que foram arrastados
    de todos os angulos da monarchia, para esta grande anudúva nacional, e
    as lagrymas das suas familias, não as pôde suffocar a adulação cortezã;
    transsudaram até nós nas paginas da historia, e cahindo sobre o ataúde
    dourado do principe que as fez verter, deixaram a inscripção do seu nome
    manchada de uma nódoa que o tempo não gastará.

    A vasta e risonha granja que viceja ao lado do negro e carrancudo
    edificio não custou uma só mealha dos dinheiros publicos; não arrancou
    uma lagryma. Não são maldicções o seu fructo: são bençãos dos que vivem:
    serão no futuro bençãos da posteridade.

    O convento-palacio, nascido sob manto de púrpura, alegre na sua
    juventude e habituado a pompas de longos annos, ahi está, illustre
    mendigo, assentado hoje n'um como ermo, onde a vida robusta de seculos
    que lhe fadára o fundador, se vai convertendo em antecipada decrepidez.
    Inutilmente com a sua grande voz de bronze elle pede que o abriguem das
    injurias das estacões. As aguas do céu, filtrando-lhe por entre os
    membros, lá os vão lentamente desconjuntando, o sol cresta-lhe a fronte
    e faz prosperar os musgos, que lhe arrugam a rija epiderme: o vento
    redemoinha atravez das suas janellas mal seguras, e bramindo n'aquellas
    solidões do seu recinto, atira ao rosto das estatuas, aos acanthos dos
    capiteis, á face polida das paredes de marmore, o pó que tomou nas azas
    passando pelas serranias. No meio do estrepitar do mundo ninguem escuta
    o gemer do gigante de pedra; ninguem se lembra de tirar do peculio do
    estado a mais pequena somma para elle. E porque? Porque a sua miseria
    não fala aos corações nem aos entendimentos. Memorias gloriosas? Não as
    ha lá. Utilidade? Para que serve essa pedreira immensa?

    A granja, porém, de Mafra nem teme as aguas do céu, nem os raios
    creadores do sol: povôa os seus agros outeiros de pinhaes, a cujo abrigo
    zombará em breve da furia dos ventos. Não vae pedir soccorros á
    munificencia publica: util já aos pequenos e humildes, sê-lo-ha tambem
    algum dia a quem a fez nascer, util em proveitos materiaes, e, o que
    mais vale, em fructos de verdadeira gloria.

    Ha quatro annos apenas, que os muros da cêrca ou tapada de Mafra,
    estirando-se como serpe monstruosa por tres leguas, atravez de valles e
    outeiros, encerravam um vasto maninho coberto de sarças rasteiras, onde
    raro se via alevantar uma arvore solitaria, curva e pendida pelo açoutar
    continuo das ventanias, ou algum pequeno e enfezado pinhal perdido no
    meio d'aqueles mattos inuteis. Era um symbolo de barbaria ao pé d'um
    symbolo de opulencia. O edificio e o parque pareciam significar no seu
    conjuncto–o orgulho tendo por fundamento o nada.

    Ha tres annos ordenaram SS. MM. se começassem a desbravar esses terrenos
    incultos. O actual intendente das cavalheriças reaes, o Snr. A. Severino
    Alves, foi encarregado de administrar as caudelarias alli estabelecidas,
    e da direcção daquelle arroteamento. Obra de uma sexta parte da tapada
    mais proxima do edificio destinou-se immediatamente para a cultura, e os
    trabalhos principiaram. O estado em que estes se acham, comparado com as
    despezas, proporcionalmente diminutas, que se tem feito, provam que
    talvez houvesse quem fosse tão digno de ser encarregado de realisar o
    pensamento generoso, nobre, e civilisador dos nossos Principes, mas que
    ninguem por certo o seria mais que o Snr. A. Severino Alves.

    O que vamos dizer não é completo; não é a historia particularisada de
    tudo que examinámos com os proprios olhos; porque não queremos ser
    prolixos. O nosso intento é vêr se contribuimos para o verdadeiro
    progresso da terra em que nascemos. Se os grandes ou pequenos
    proprietarios que abandonam os seus campos e herdades, ou que desprezam
    os meios de os tornar mais productivos, se mostram surdos ao bradar da
    imprensa e de todos os homens sisudos, revocando esta malaventurada
    nação á actividade e ao trabalho, que se envergonhem ao menos com o
    exemplo que lhes dá o throno. Em quanto os governos e os parlamentos
    ponderam a conveniencia, a necessidade do estabelecimento das quintas de
    estudo, em Mafra, sem ruido, sem verbosos relatorios e discursos, se vae
    estabelecendo e aperfeiçoando uma granja modelo, que esperâmos faça
    sentir dentro de pouco á agricultura portuguesa o seu benefico influxo.
    Certos de que SS. MM. se collocarão á frente do movimento agricola do
    paiz, porque o augmento da agricultura deve trazer a prosperidade aos
    seus subditos, n'este jornal, que se derrama por todos os angulos de
    Portugal, daremos noticia das experiencias que se forem fazendo, dos
    melhoramentos que se forem introduzindo nas propriedades do apanagio da
    Corôa. A nossa situação especial nos habilita para obter a este respeito
    exactas informações. A utilidade que d'ahi possa resultar aos
    agricultores, retribuam-n'a elles em gratidão aos Principes que souberam
    ser dignos do amor dos portuguezes, e entenderam plenamente o grave e
    progressivo pensamento d'este seculo.

    Escolhida a porção de terreno na tapada de Mafra, que se devia destinar
    á cultura, dividiu-se aquella parte em oito grandes tractos ou folhas,
    cujo arroteamento se tem seguido successivamente e sem interrupção até
    hoje.

    O systema adoptado para este fim foi o melhor que era possivel imaginar.
    Alem da cultura feita á custa da Casa Real, vão-se distribuindo aos
    habitantes da villa de Mafra os terrenos que elles querem desbravar. O
    inteiro uso-fructo d'estes terrenos fica pertencendo por tres annos a
    quem os converte de maninhos que eram em terras araveis, e ainda que o
    solo da tapada me pareça de inferior qualidade, e se achasse muito
    deteriorado pelas plantas ruins de que estava coberto, todavia essa
    cultura tem dado excellentes resultados. A producção da batata, planta
    tão conveniente para terrenos arroteados de novo, ha sido tal, que no
    anno passado se alevantaram na tapada 1:800 carradas d'este util solano,
    cuja introducção na Europa tornou impossiveis as fomes espantosas, que
    de annos a annos lhe desbastavam a povoação. N'essas encostas e veigas
    onde, tão pouco tempo ha, os olhos esmoreciam alongando-se pelos
    sarçaes, vêem-se estendidas as searas, os campos de milho e os batataes,
    e nos rostos dos habitantes da villa e dos povoádos circumvisinhos, e
    nos seus trajos e porte, vê-se que se o amor da taberna tem diminuido,
    os habitos do trabalho, e por isso a abastança tem augmentado.

    Mais de vinte egoas, mãis e filhas, e de quarenta poldros, constituem já
    uma caudelaria que vai adquirindo rapido crescimento. Cincoenta vaccas
    entre as de casta vulgar, torinas e de uma excellente raça asiatica, ahi
    são tractadas com esmero talvez não inferior ao que se emprega na
    começada caudelaria. Os estabulos e curraes, ordenados pelos melhores
    methodos modernos, e com attenção a importantes considerações
    hygienicas, seriam um bom modelo para aquelles que pensam reduzir-se o
    tratamento dos gados unicamente a dar-lhes muito de comer, não importa
    se bom ou máu.

    Ainda que na granja de Mafra os animaes sejam alimentados, por via de
    regra, á manjadoura, systema hoje aconselhado nos paizes mais adiantados
    como preferivel por graves motivos, nem por isso deixa de haver n'este
    estabelecimento agricola muitos prados pastaveis, compostos, alem da
    azevem, de uma mistura de certo numero d'aquellas plantas de que
    separadamente se compõem os artificiaes. Estes, porém, merecem com razão
    os especiaes cuidados do Snr. Severino Alves.

    As plantas que constituem estes prados, tanto regados como seccos, são a
    luzerna, os trevos, branco e encarnado, o onobrychis (sainfoin), a
    anafa, a cenoura, e a ervilhaca. A cultura d'algumas d'estas forragens
    ainda se limita a diminutas experiencias, mas a de outras já tem
    adquirido bastante extensão. Admirámos sobretudo um luzernal, onde o
    methodo da transplantação produziu magnificos resultados. Cada pé de
    luzerna lançando em roda os seus muitos rebentões ou filhos, fórma uma
    especie de mouta robusta, que produz em cada córte muito maior porção de
    pasto do que produziria uma superficie egual á que occupa, semeada de
    luzerna que não fosse transplantada.

    O incremento que estes prados podem ter n'aquelles, d'antes tão pobres e
    tristes, hoje tão ricos e risonhos terrenos, é d'extrema importancia.
    Duas enormes lagôas, uma das quaes é constantemente refrescada e
    supprida por uma pequena veia d'agua perenne, foram limpas e vedadas
    construindo-se canos subterraneos por onde se hajam de sangrar
    convenientemente. Estas lagôas, collocadas em certa altura, podem regar
    um valle extensissimo, optimo para o augmento de prados.

    A silvicultura, essa parte tão interessante e tão bella da sciencia de
    agricultar, tem em Mafra um terrivel inimigo–o noroeste. Este vento
    sopra ahi com violencia extraordinaria. Alguma arvore silvestre, que
    vivia solitaria no meio d'aquelles mattos rasteiros, vergada para sueste
    na altura das arrancas, estende rachytica os seus ramos açoutados pelas
    ventanias quasi parallelos com a terra. Estabeleceu-se porém um systema
    d'abrigos, que deve dentro d'alguns annos tornar não só possivel, mas
    até facil, a propagação de arvores de floresta e de fructo. Os
    pinheirinhos bravos (_pinus maritima_) cobrem já os cabeços escalvados
    que se alevantam por meio das chapadas, encostas, e valles, e os
    castanheiros, carvalhos, e azinheiros bordam os caminhos: estes bosques,
    quando crescidos, annullarão em grande parte a violencia dos ventos, e
    então será possivel o plantio de outras arvores silvestres e
    fructiferas, principalmente das oliveiras, de que já se vão preparando
    extensos e bem ordenados viveiros.

    Uma consideração que occorre naturalmente ao imaginar similhante
    extensão de cultura, é a dos adubos, e a do modo de os fazer
    progressivamente augmentar. Ácerca d'este ponto capitalissimo, daremos
    brevemente curiosas e interessantes noticias, em um artigo especial.
    Então teremos occasião de falar dos differentes methodos de amanhar as
    terras, que progressivamente se vão introduzindo na granja de Mafra.

    Os instrumentos aratorios e mais machinas do serviço agricola são
    construidos no mesmo estabelecimento em officina para isso
    principalmente deputada. Ahi se encontra a charrua ingleza, a araveça
    grande de uma aivéca, a pequena de duas, o semeador, as grades
    triangulares e de diversos feitios, o trilho de debulhar, o engenho de
    traçar cevada, carros inglezes, etc., alem dos instrumentos proprios do
    paiz construidos com perfeição.

    Tal é o rapido quadro da transformação que apresenta uma parte d'esses
    maninhos inuteis da tapada de Mafra. Importante em si, similhante
    transformação muito mais o tem sido pela influencia que o exemplo produz
    n'aquelles arredores: o agricultor, que por assim dizer palpa as
    vantagens que resultam de um systema illustrado de agricultar, vae
    abandonando as suas grosseiras usanças, que todos os discursos dos
    livros não alcançariam estirpar. Mafra está sendo um fóco de luz, uma
    fonte de progresso agricola. Entre os beneficios que tem produzido este
    é porventura o maior. Aquella vasta granja, se proporciona a muitos
    abastança, o alimento para o corpo, offerece a muitos mais as revelações
    da sciencia–o alimento para o espirito.

    O edificio ahi está mendigo, abandonado, canceroso já, e inutil, ao lado
    da granja cheia de viço, rica, generosa, e abençoada d'esperanças. São
    dous monumentos de dous seculos diversos, ambos obras de Reis. Que a
    philosophia julgue um e outro, e julgue tambem as vontades e as
    intelligencias que fizeram surgir um e outro.

    BREVES REFLEXÕES SOBRE ALGUNS PONTOS DE ECONOMIA AGRICOLA

    1849

    Ajuda, 8 de março de 1849

    Circumstancias meteorolOgicas extraordinarias ameaçam o nosso bello paiz
    de uma colheita nulla. Perto de trez mezes de aridez, na epocha do anno
    em que as chuvas são mais necessarias, têm quasi destruido as esperanças
    dos agricultores. Um mez mais que dure esta situação, e o mal
    tornar-se-ha intensissimo e, em grande parte, irremediavel.

    Os espiritos fracos contentam-se com blasphemar ou carpir-se. Isto é
    cobardia. Muitos voltam-se para Deus e imploram a Providencia. Isto é
    respeitavel. Outros pensam nos alvitres para occorrer á miseria e á
    fome, que pode vir a pesar sobre a população menos abastada. Isto é
    generoso e nobre. Mas aquillo em que poucos pensam é em converter esta
    situação assustadora n'uma lição salutar; em deduzir do mal presente
    proveito para o futuro.

    O nosso povo actual é um pouco similhante a seus avós, os marinheiros do
    seculo XVI, que affrontavam as procellas dos mares da India e da
    America. Rudes e feros na bonança, voltavam-se para o céu quando a
    tempestade ameaçava submergil-os. Era d'aquelles trances que os
    sacerdotes, seus companheiros de riscos e aventuras, se aproveitavam
    para os revocar ás sanctas doutrinas da fé, e era ordinariamente então
    que n'essas almas rudes achavam accesso o arrependimento e as verdades
    da religião.

    Desejariamos que a imprensa fosse tambem um pouco similhante aos bons
    missionarios do seculo XVI; que nos dias da angustia dissesse algumas
    verdades duras aos povos, quando mais não fosse, ao menos para
    interromper a monotonia das que diariamente diz aos reis. A imprensa que
    vive da publicidade, da publicidade que se estriba na bolsa do povo,
    praticaria um acto de devoção mais corajosa, falando severamente aos
    seus naturaes patronos, do que dirigindo-se aos principes, de quem ella
    depende incomparavelmente menos para existir e prosperar.

    Por isso nós a convidariamos para que, sem distincção de partidos, sem
    lhe importar com a diversidade da sua missão politica ou litteraria,
    aproveitasse o ensejo de temores que assaltam geralmente os animos, para
    insinuar n'estes importantes verdades.

    A natureza do flagello que nos opprime, as observações que fizemos n'uma
    pequena excursão para o lado de Cintra, nos suscitaram estas reflexões,
    a que esperamos associem outras de mais valor as pessoas competentes.
    Posto que dominados por uma viva affeição á agricultura, a essa rainha
    das industrias, somos apenas curiosos n'esta materia. Ha, porém, uma
    certa somma de verdades iniciaes na sciencia que estão ao alcance de
    todos os que as buscam, seja como estudo, seja como curiosidade.

    Portugal tem uma agricultura incompleta. Se exceptuarmos o Minho,
    podemos dizer que o producto do nosso sólo é exclusivamente representado
    pelos cereaes, pelo vinho e pelo azeite. Por importantes, comtudo, que
    sejam os dous ultimos, o principal é, como em todos os paizes, o dos
    cereaes.

    Mas é doutrina incontestavel que para a cultura d'estes poder prosperar
    é necessaria a copia de estrumes; que para haver copia d'estes é
    necessario gado; que este não existe, ou tem uma existencia precaria
    onde não ha pastagens, e estas são sempre miseraveis e insufficientes
    n'um paiz onde a _intensidade_, digamos assim, do systema agricola não é
    proporcional á sua _extensão_; onde a arte não ajuda energicamente a
    natureza a supprir a alimentação dos animaes.

    Portugal não tem creações de gado: queremos dizer, não tem n'este ramo
    de industria rural senão o restrictamente necessario para a lavoura,
    pelo que respeita a gado grosso; e o seu gado lanigero é pouco numeroso,
    imperfeito, e rareado annualmente pelos resultados de um tractamento
    quasi selvagem. Porque? Porque ainda não adoptámos a doutrina
    fundamental de toda a agricultura judiciosa, a creação dos animaes n'uma
    larga escala, nem buscámos ainda os meios para isso adequados.

    As nossas terras mais ferteis produzem de 10 a 15 sementes, e a
    producção das mediocres é entre 5 e 8. Tendo a cultura adquirido uma
    grande _extensão_, com esta producção acanhada o lavrador acha-se
    collocado entre dous extremos deploraveis. Se o anno é mau, a limitada
    proporção entre a semente e o producto torna-se ainda mais restricta, e
    embora suba o preço do genero, o fabrico absorve quasi a colheita: se o
    anno é propicio, a barateza no mercado vem a inutilisar a abundancia, e
    o cultivador fica sempre miseravel.

    A imperfeição das machinas e dos methodos, o pessimo systema, ou antes a
    negação de systema nas rotações, e varias outras causas, contribuem para
    este estado violento; mas a causa principal é a desproporção enorme na
    distribuição do solo: o homem crê fazer para si a parte do leão, e
    engana-se. Espoliando os animaes que o ajudam nas suas laboriosas
    tarefas, os animaes que o vestem ou lhe fertilisam os campos, do quinhão
    que lhes cabe nos fructos d'estes, torna-se desgraçado a si no meio de
    uma abundancia mais apparente que real.

    Na Inglaterra, o paiz modelo da agricultura, os productos de um terço,
    pelo menos, da terra cultivada pertencem aos animaes domesticos. Nós
    talvez não lhes reservamos um centesimo. O erro n'esta parte produz uma
    infinidade de factos, que principalmente determinam a falta de progresso
    _d'intensidade_ na agricultura nacional.

    Um anno pouco favoravel, como o que vae correndo, descobre logo por
    diversos modos a nossa situação deploravel.

    De que ouvimos principalmente queixar os agricultores, quando os
    interrogamos sobre os fataes effeitos d'este estio inesperado, que veio
    pesar sobre nós no coração do inverno? De que esse pouco gado que
    possuem morrerá á fome. Porque? Porque o lavrador põe quasi
    exclusivamente as suas esperanças nas hervagens espontaneas; entrega á
    Providencia o cuidado dos seus bois e das suas ovelhas. Esta confiança
    nem é prudente, nem religiosa. Deus não deu inutilmente ao homem a
    faculdade de reflectir, nem os braços para o trabalho. A protecção da
    Providencia não vae até o ponto de supprir o desprezo da nossa
    actividade intellectual e material.

    Perdemos os poucos gados, que possuimos, quando o inverno é secco;
    perdemol-os se é excessivamente chuvoso. Pode-se dizer que este facto
    pinta e resume o estado do nosso progresso agricola.

    Que prevenções faz em geral o cultivador para obviar a qualquer d'eslas
    hypotheses terriveis, tão faceis de verificar-se, principalmente a
    segunda? Nenhumas. Onde estão os fenos devidamente colhidos e
    reservados, onde as raizes das plantas chenopodeas e cruciferas, onde os
    prados artificiaes, regados pelos ribeiros, onde, emfim, todos esses
    recursos, de que o agricultor dos paizes centraes e do norte lança mão
    para resistir ás incertezas das estações?

    O lavrador cultivou cereaes, muitos cereaes, e repousou, pelo que tocava
    ao seu gado; nos dons espontaneos do inverno. O inverno negou-os. Resta
    pedir a Deus que reduza á regularidade as variações atmosphericas,
    variações incertas só para nós, e dependentes de leis naturaes, que
    porventura os progressos da meteorologia virão ainda revelar-nos, e que
    não cremos se hajam de alterar a favor da nossa imprevidencia.

    Sabemos o que se costuma responder a isto: «Esses fenos, esses prados,
    essas raizes fusiformes, que constituem uma alimentação abundante para
    os animaes, são possiveis nos paizes humidos do norte. O nosso clima
    adusto torna impossivel a applicação de um systema analogo.»

    Seria longo, mas pouco difficil, mostrar sob todos os aspectos o
    sophistico d'este argumento; mostral-o por factos. Impressionados pelo
    que, com tristeza, acabamos de ver n'um tracto de terra de cinco leguas,
    limitar-nos-hemos a algumas considerações especiaes.

    E primeiro que tudo, com que direito se invoca, para defender a incuria
    agricola, falta de humidade no nosso clima, quando deixamos correr
    annualmente para o mar milhões de pipas d'agua pelos grandes rios e por
    centenares de regatos, que podiam, muitas vezes com leve trabalho,
    fertilisar os campos visinhos e alimentar prados, cuja producção
    excederia quanto a cultura dos paizes do norte offerece, n'este género,
    mais admiravel?

    Depois, que meios se empregam para temperar pela arte os effeitos da
    nossa situação meridional? Os habitos adversos a esses meios são os que
    dominam entre a população campestre. É sabido que as arvores, ainda nas
    noites mais seccas do estio, attrahem á terra uma grande porção de
    humidade. A que deve o Minho a frescura dos seus valles, os enormes
    productos do seu solo, que não soffre comparação com as nossas terras
    fortes da Estremadura? A uma arborisação admiravel. O homem do sul tem
    odio, litteralmente odio, não só ás selvas, mas até á arvore solitaria,
    que pode assombrar-lhe algumas pavêas de cereaes, porque os cereaes são
    o idolo que resume todos os seus affectos, embora a cruel experiencia
    lhe venha provar, nos annos desfavoraveis á cultura das gramineas, que o
    seu systema acanhado e exclusivo conduz facilmente á miseria e à
    perdição.

    Este ódio às mattas e arvoredos tem-se tornado n'uma especie de
    contagio, que vae lavrando e ameaça as provincias septentrionaes. A
    Beira ha muito que começou a ser despojada dos seus magnificos bosques,
    que por partes a tornavam rival do Minho. Os effeitos, porém, do
    destroço insensato dos grandes vegetaes sentem-se principalmente na
    Estremadura, e sobretudo n'este tracto de terra entre dous mares, onde
    se acha situada a capital. Os vapores, que as arvores, povoando os cimos
    dos montes, attrahiriam para os valles, não descem á terra: os ventos do
    norte, precipitando-se livres dos visos calvos das collinas, fustigam as
    encostas do sul, remoinham nas planicies, e não consentem sequer que o
    orvalho console á noite a vegetação devorada pelo sol do meio-dia. Na
    verdade, a aridez dos campos na estação estival pouco importa ao
    cultivador exclusivo de cereaes; mas quando causas desconhecidas
    impedem, durante o inverno, o curso dos ventos chuvosos, quando o verão
    vem substituir-se ao inverno, não sabemos se como castigo se como
    advertencia, então elle maldiz essas torrentes de ventania, que produzem
    mais seccura em vinte e quatro horas do que tres dias de sol ardente.
    Maldil-as, sem se lembrar ou sem saber, que seus paes e elle proprio
    contribuiram para a existencia de similhante flagello pela destruição
    das mattas, ou, quando menos, pelo descuido no plantio d'ellas.

    O ciume cego com que a menor leira de terra aravel é disputada aos
    arvoredos, por causa do predominio exclusivo dos cereaes, explica
    indirectamente esse furor com que são perseguidas as arvores, até nos
    sitios mais inferteis; com que se lhes disputa a vida até por entre as
    penedias das serras. Como a cultura das forragens é insignificante, e
    enormemente desproporcionada á dos cereaes; como o céu está encarregado,
    pelo commum dos agricultores, de prover á sustentação dos gados, o
    baldio é o segundo artigo do credo agricola d'elles. Os pastos communs
    são a cidadella da inercia e o theatro reservado pela ignorancia ás
    maravilhas da Providencia. Todas as desvantagens de conservar incultos
    terrenos que poderiam servir ao homem se adoptassemos um systema mixto,
    ou se attendessemos ás indicações da sciencia e á natureza do nosso
    clima, para promovermos a arborisação nos logares accommodados para
    ella, não são comparaveis ao delicioso espectaculo de ver retouçar meia
    duzia de ovelhas, vaccas, e bois hecticos, nas gandras bravias, quando,
    n'um systema de cultura judicioso, conservariamos gordos e anafados
    dobrado numero de animaes, unicamente com a producção da nossa
    propriedade particular, _sem que deixassemos de colher n'esta a mesma
    quantidade de trigo_, que nos produz o deploravel methodo da cultura
    exclusiva.

    A existencia dos baldios municipaes, dos pastos communs, é um dos mais
    graves embaraços ao progresso da agricultura entre nós. Favorecendo a
    natural indolencia do homem do campo, facilitando-lhe recursos que, até
    certo ponto, supprem os defeitos de um methodo errado e incompleto de
    afolhamentos, de uma cultura sem proporção nem equilibrio, elles oppõem
    uma barreira, as mais das vezes invencivel, á introducção de um systema
    sensato e proficuo. Ignorando os melhoramentos que as rotações
    judiciosas trazem ao solo, as vantagens da estabulação, os methodos de
    multiplicar em quantidade e em energia os adubos animaes, desconhecendo
    a applicação dos correctivos mineraes, o agricultor baseia nos maninhos,
    não só uma substituição á cultura das forragens, mas tambem um meio de
    adubar as suas terras, embora os estrumes vegetaes que d'elles tira,
    pessimamente preparados, dêem á terra uma alimentação miseravel. É-lhe
    necessario que as urzes povoem as serras nuas de arvoredo, tanto para
    ahi pascerem os gados durante uma parte do anno, como para supprirem a
    carencia d'estrumes, resultado d'essa alimentação erradia do gado, em
    que o cultivador, podemos dizer, lança fóra o mais rico thesouro de
    principios restauradores, um dos productos mais importantes da creação
    dos animaes.

    Se as grandes verdades na sciencia são, em regra, ferteis de
    consequencias proveitosas, os grandes erros não são menos ferteis de
    consequencias fataes. Como as urzes expulsam as arvores dos terrenos
    incultos, é justamente nas visinhanças de extensos maninhos onde muitas
    vezes mais se experimenta a falta de lenhas, e que por consequencia os
    povos mais rapidamente destroem as cepas d'esses mesmos mattos que os
    supprem de pastagens e d'estrumes. Sendo esse o unico meio de obter
    combustivel, e não correspondendo o desenvolvimento das raizes lenhosas
    á rapidez e extensão do consumo, o resultado final é facil de prever. Ha
    de chegar um dia em que a imprevidencia tenha dado inteiro o seu fructo.
    Esses cabeços e gandras, rareados pela mão do matteiro, espoliados
    emfim, dos ultimos fragmentos da sua triste corôa de piornos e tojos,
    achar-se-hão convertidos em arneiros escalvados, onde a falta absoluta
    de humus torne impossivel a vida da herva mais rasteirinha. É um facto
    que, por muitas partes, se tem já verificado, e que successivamente se
    vae verificando por outras. Então os effeitos dos erros agronomicos, a
    que a gente do campo tem um affecto tão cégo, pesarão terrivelmente
    sobre ella, vindo depois o remedio só pelo excesso do mal.

    Admittindo por um pouco as suppostas vantagens dos baldios, e no
    interesse d'esses mesmos pastos communs, a necessidade de dedicar uma
    porção d'elles á silvicultura torna-se evidente. Em Cintra, por exemplo,
    cujos antigos bosques desappareceram ha muito, e onde a cepa já começa a
    escacear, como é facil de conhecer á simples inspecção do terreno
    correndo os recessos da serra, os habitantes d'aquelles contornos
    deviam, por muitas razões, mas sobretudo por causa do combustivel,
    forcejar para que os cimos escalvados das cordilheiras se povoassem de
    pinhaes ou de soutos e devesas de outras arvores, que esses magros
    terrenos consentissem. Independentemente das influencias, que a nudez ou
    o selvoso d'aquelles escarpados rochedos possa ter na cultura dos campos
    visinhos; ainda sem attender a que Cintra perde de dia para dia, pela
    devastação dos grandes vegetaes, os encantos que ahi attrahem os felizes
    do mundo, e que por longos annos teem sido para os povos dos arredores
    um manancial de prosperidade; ao menos a consideração de que a falta de
    um dos objectos mais necessarios á vida, igualmente indispensavel para o
    rico e para o pobre, vae em sensivel progresso, devia conduzil-os a
    reconhecer que a arborisação da serra é reclamada talvez já pelo
    interesse da geração actual, e sem duvida pelo das gerações que hão de
    vir.

    E todavia, um successo recente, um successo que fez certo ruido, prova
    que ou todas estas idéas se desconhecem, ou se pospõem a considerações
    de um egoismo, que nem sequer tem o merito de ser habil, ou que
    finalmente o nosso paiz está condemnado a vêr sujeitar ao arrebatamento
    das paixões politicas as questões mais estranhas, as conveniencias
    economicas, os meios de progresso material, as indicações da
    experiencia, trazendo-se para um campo neutro, e que para todos devêra
    ser sagrado, as luctas deploraveis dos nossos bandos civis. O facto a
    que alludimos foi lançado nos debates da imprensa, e por isso é hoje do
    nosso dominio.

    S.M. El-Rei pretendeu aforar uma porção das cumiadas da montanha de
    Cintra contiguas ao parque da Pena. Aquella porção de terreno ingrato e
    calvo era destinado á sementeira ou plantio de um bosque que cobrisse de
    verdura e de vida uma pequena parte d'essa ossada de rochedos, que se
    vão prolongando até a beira do oceano.

    Muitos moradores das aldeias circumvisinhas viram, porém, n'este empenho
    uma calamidade. O maninho era ameaçado nos seus direitos inauferiveis, o
    dorso dos penhascos offendido na sua pudibunda nudez. Realmente o caso
    era grave. Agitou-se tudo, protestou-se, requereu-se. A urze e o piorno
    acharam logo advogados contra o pinheiro orgulhoso, contra o luxo da
    vegetação. Isto é absurdo e incrivel. Embora. A celebre phrase «_creio
    porque é impossivel_» não tem só applicação aos mysterios do céu;
    tem-n'a ás miserias da terra.

    Se os principios mais solidos da economia agricola não são uma solemne
    mentira, a pretensão d'El-Rei era legitima; as suas intenções liberaes.
    Não se tractava de constranger os povos a abandonarem subitamente o
    deploravel systema dos pastos communs: tractava-se de dar um exemplo de
    previdencia e de progresso: tractava-se de applicar ao solo um capital,
    que só depois de quinze ou vinte annos poderia produzir um diminuto
    redito: de certo não havia aqui, pelo menos, uma inspiração de cubiça.
    Nenhum homem desapaixonado e que ame sinceramente o desenvolvimento da
    industria agricola, pondo a mão na consciencia, deixará de qualificar a
    pretensão de justa, e a intenção de progressiva.

    E nós limitamo-nos a estas qualificações, porque o lyrismo em materias
    economicas é um pouco sem sabor; porque nos fazem nausea os extases e as
    metaphoras de velho estylo, com que se costumam sempre avaliar os actos
    dos principes. Ainda não decorámos as phrases fundidas com que é d'uso
    exaltar esses actos, sejam máus, indifferentes ou bons, e que só servem
    de desvirtuar os ultimos. Somos pessimos cortezãos, e, demais,
    incorregiveis. Mas tambem não sabemos lisonjear o povo; porque a lisonja
    perde-o, como perde os principes: temos por isso bastante consciencia de
    nós mesmos, para reclamar a favor d'El-Rei, que não tem o habito das
    discussões publicas, que não pode vir a essa arena, a justiça que lhe
    compete e a que tem tanto direito como o cidadão mais obscuro. Não
    acreditamos que um homem, porque se chama rei, esteja banido do direito
    commum; que, pária de nova especie, deva soffrer em silencio que lhe
    calumniem uma intenção pura, que o condemnem por actos que n'outro
    qualquer seriam louvados. Quando a imprensa se perturba e cega até o
    ponto de assim o practicar, entristecemo-nos por ella; porque estamos
    convencidos da sanctidade da sua missão, e temos os olhos fitos, não nas
    paixões pequenas do presente, mas sim nas esperanças do futuro.

    Consideramos aquelle aforamento em si, no seu resultado, nas idéas que o
    aconselhavam. Não sabemos se, no modo de o realisar, se faltou a alguma
    das solemnidades legaes. Não valia a pena. Que valesse, os agentes de
    S.M. deviam ser dobradamente zelosos em guardal-as. Fizeram mal se as
    preteriram. Do que porém já foi confessado em um jornal se deduz que não
    aconteceu assim.

    O requerimento a favor da sanctidade do deserto, da integridade do
    maninho, appareceu estampado. É um monumento: não podia ser outra cousa.
    Pinta o paiz.

    Se os nossos governos de todas as epochas e de todas as opiniões
    tivessem gastado a centesima parte do dinheiro, que tantas vezes
    malbaratam, em ensinar a lêr os habitantes do campo, em inculcar-lhes as
    verdades practicas com que a sciencia tem vivificado outros povos, não
    appareceria, no anno do Senhor de 1849, um tal requerimento.

    Como epigraphe a elle faça-se uma advertencia. O maninho total de Cintra
    abrange dez milhões de braças quadradas: os pedregaes aforados teem
    quatrocentas e sessenta de comprido sobre cento e cincoenta de largo. A
    mutilação é horrivel. Os requerentes declaram que esta área abrange uma
    grande parte da serra.

    Quando Sancho Pança, o aldeão manchego, se persuadiu de que subira às
    solidões do espaço, e mirara das alturas o nosso planeta, disse que lhe
    parecera a terra do tamanho de uma avellan, e os homens mais pequenos
    que carneiros. O bom Sancho era um typo!

    Pondera-se a escaceza de lenhas nos arredores da serra. Qual é o
    remedio? É impedir que n'um angulo d'ella sejam semeados pinhaes ou se
    façam plantios de outras arvores. O alvitre é infallivel e sobretudo
    logico.

    Na historia, na litteratura, nos documentos, achareis testemunhos
    frequentes e irrecusaveis de um facto. Cintra foi por seculos a montanha
    das selvas. Onde estão estas? Cahiram sob o machado da imprevidencia. Os
    estevaes seguiram-nas. Agora revolve-se o chão para arrancar algumas
    raizes. Que arrancarão as gerações futuras? Pedras? Christo converteu-as
    em pão: mas os moradores d'aquelles contornos não teem absoluta certeza
    de que seus filhos e netos serão capazes de maravilhas analogas: de as
    converter em combustivel.

    E que teem elles com seus filhos e netos? Elles que pertencem a uma
    epocha profundamente caracterisada pelo egoismo?

    No requerimento figuram os operarios indo ao domingo buscar lenha á
    serra, por não poderem dispensar um dia de semana para esse mister, o
    que prova evidentemente não ser licito aforar sessenta e tantas mil
    braças quadradas de terreno n'um baldio de dez milhões d'ellas.

    Depois, os mesmos trabalhadores apparecem de mãos cruzadas por falta de
    trabalho, mandando os filhos arrancar matto para viverem, prova de egual
    força e de uma concordancia admiravel com a antecedente. Estes
    jornaleiros, occupados e desoccupados, são pobres e miseraveis que
    possuem ovelhas, vaccas, eguas, etc., situação na verdade só comparavel
    à dos operarios de Bethnal-Green, symbolo e resumo da miseria industrial
    ingleza. Por fim invocam-se as leis; leis modificadas pela
    jurisprudencia administrativa moderna; leis promulgadas em epochas, nas
    quaes ou eram desconhecidos os verdadeiros principios de economia
    agricola, ou estes eram ignorados pelos legisladores; leis que, se o uso
    não houvesse obliterado uma grande parte das suas disposições, iriam
    lançar nas garras do fisco muitos d'esses tractos de cultura chamados
    vulgarmente _tomadas_, que se encontram hoje onde só existiam, ha um ou
    meio seculo, extensos maninhos, e em cujo aforamento os homens
    laboriosos que os desbravaram se viram sempre combatidos pelo ciume do
    vulgo, que não pode tolerar irem-lhe encurtando os dominios da
    indolencia, romperem-lhe um só lanço da barreira mais forte, que se
    oppõe ao verdadeiro progresso agricola.

    Isto não se discute. Pelo menos a nós fallecenos o animo para tanto.
    Como demonstrar que dous e dous são quatro a quem quer que sejam cinco?

    Deploramos o abandono em que se deixa a intelligencia do povo:
    deploramos que a classe media, que tem a força porque está organisada;
    que tem a força porque possue a riqueza; que tem a força porque é
    illustrada, não vote uma parte dos seus recursos a allumiar os rudes, os
    homens de trabalho, que são seus irmãos, e que teem direito não só ao
    pão do corpo mas ao do espirito, ou antes que sem este não chegarão
    nunca a minorar as difficuldades com que luctam para obter aquelle, nem
    a rodear-se dos confortos que são compativeis com a sua condição.
    Deploramos, sobre tudo, o talento naturalmente nobre quando sacrifica ás
    conveniencias transitorias verdades que, em outra situação, proclamaria
    sem hesitar; deploramol-o n'esses momentos aziágos, em que se esquece de
    elevar-se acima das antipathias ou sympathias pessoaes. Quando se tem um
    passado de independencia e de probidade politica, é generoso não
    vacillar ante a viciosa vergonha de fazer justiça aos que se crêem
    poderosos, embora essa justiça haja de remontar até um rei.

    A questão dos maninhos de Cintra é a questão perpétua dos pastos
    communs, que tem agitado todos os paizes, e que em toda a parte está
    resolvida em theoria e em practica, menos na Peninsula. Submettida essa
    questão ás discussões da imprensa, mal haveria intelligencia que não
    vergasse na tentativa de defender o baldio; o baldio no que elle tem de
    mais nocivo e absurdo. Confundiram-se idéas que importa distinguir;
    estabeleceram-se proposições que julgamos contrarias ao melhoramento da
    agricultura, inconvenientes ao bem estar futuro do homem de trabalho,
    aos seus interesses reaes. Persuadidos de que as nossas opiniões na
    questão geral, que ess'outra particular veio suscitar, podem ser uteis,
    accrescentaremos n'um subsequente artigo[1] algumas reflexões sobre a
    distribuição e applicação dos maninhos.

    A GRANJA DO CALHARIZ

    1851

    Este nosso Portugal que em tantas cousas é uma terra de maravilhas,
    maravilhas na verdade bem tristes ás vezes, offerece uma das não menos
    curiosas na primeira, na mais grave questão de progresso material que se
    pode agitar entre qualquer povo, e sobretudo entre nós. Falo da questão
    das reformas agricolas. É rara a semana em que não se tracta na imprensa
    litteraria, e ainda na imprensa politica, um ou outro ponto da arte ou
    sciencia de cultivar, considerada debaixo d'este ou d'aquelle aspecto.
    Escriptos ha no meio de tantas publicações que estão revelando em seus
    auctores vastidão de conhecimentos theoricos; poucos onde se exponham e
    discutam os systemas de agricultar nacionaes, que nem todos, nem em tudo
    são maus; raros onde se nos mostrem verificadas pela practica propria as
    doutrinas dos livros estranhos. Entretanto é incontestavel que se
    escreve muito ácêrca da agricultura, e traduz-se ainda muito mais. Mas
    quando se forceja tanto por espalhar _novas_, e, talvez no maior numero
    de casos, _melhores_ doutrinas entre os agricultores, quando todos falam
    na creação de granjas experimentaes; quando os proprios lavradores e
    pessoas affeiçoadas ás cousas do campo já pensam, até, em formar
    associações, não para agiotar com a agricultura, mas para discutir as
    reformas rasoaveis, que se pódem tentar, não é admiravel que exista no
    paiz, a cinco leguas da capital, uma granja modelo dirigida por um
    cultivador habil theorico e distincto practico, o snr. Gagliardi, sem
    que os homens competentes annunciem esta boa nova, sem que, visitando
    uma e muitas vezes aquelle magnifico estabelecimento, dêem conta aos
    interessados n'estas questões dos factos que ahi observaram, dos
    resultados das innovações ahi levadas a effeito? Em vez de
    subministrarem aos cultivadores portuguezes as razões scientificas,
    (para a maior parte d'elles inintelligiveis) pelas quaes se lhes
    aconselham como preferiveis taes systemas, taes methodos ou taes
    especies de cultura, não seria melhor, mais perceptivel para todos pôr
    ao lado da regra o exemplo, ao lado da theoria o facto, mas o facto
    positivo, concludente, irrecusavel, porque é d'esta terra, está aqui,
    onde todos o pódem verificar? Não valeria isto tanto como as mais uteis
    paginas de Thaer, de Dombasle, ou de Gasparin, bem ou mal traduzidas,
    bem ou mal soldadas, mas quasi sempre obscuras para uma população rural
    pouco illustrada na sua generalidade? A mim parece-me que similhante
    trabalho, emprehendido pelos homens profissionaes, seria um dos
    melhores, talvez o melhor serviço que poderiam fazer ao adiantamento
    agricola de Portugal. Quem sae de Lisboa e fala com lavradores,
    d'aquelles mesmos que são instruidos, sabe que a repugnancia a alterar
    os systemas de longos annos seguidos no paiz é geral. Esta repugnancia,
    contra a qual tanto se tem escripto, não é nem um capricho estolido, nem
    unicamente afferro irreflectido ás usanças do passado. Nasce em boa
    parte de causas legitimas. O agricultor vive da sua industria: um erro,
    uma experiencia com mau resultado, uma confiança desacautelada em
    qualquer theoria erronea, que se lhe inculque n'um livro ou n'um jornal,
    não tem para elle por consequencia unica uma mortificação de amor
    proprio: leva-lhe o pão que ha de comer; leva-lhe o pão de seus filhos.
    A natureza é tão implacavel como as antigas leis do talião e da
    revindicta: em agricultura, quem comette erros paga-os. Os agronomos que
    tanto bradam contra os preceitos inveterados, e que até certo ponto e em
    certos casos teem razão, deviam reflectir n'isto. Depois, crê-se que
    todos os nossos cultivadores hão sido surdos á voz da imprensa? Não, por
    certo. Tem-se adoptado, não um, mas cem, mas mil conselhos dados por
    ella. Foram, porém, bons todos esses conselhos? Tambem não, por certo. É
    necessario confessar que muitas vezes se tem discursado em materias
    agronomicas sem consciencia, e que muitas mais o camponez tem sido
    illudido pelos escriptores, illudidos tambem pelos livros de fóra,
    feitos para outros climas, para dirigir os amanhos de propriedades
    rusticas diversamente constituidas, e cujo systema de cultivação é
    determinado por differentes circumstancias economicas, como procura de
    productos variados, facilidade de transporte, abundancia de mercados,
    preço do trabalho, frequencia de capitaes disponiveis, etc. Essas
    illusões são fataes. O cultivador, que, movido pelas decisivas
    doutrinas, pelas promessas magnificas, pelas invectivas acerbas do
    jornal ou do livro que lhe chegou ás mãos, tentou em certa escala, na fé
    da _letra redonda_, uma revolução no seu systema de agricultar, e que
    tira em resultado d'isso uma perda irreparavel, pragueja contra a
    sciencia por culpa da insciencia, e fecha-lhe para sempre a porta.
    Depois não teem faltado enthusiastas, que, arrastados pela poesia
    bucolica, não rara em muitos livros de agricultura, e deslumbrados como
    o Triptolemo de Walter-Scott pelas dissertações dos Columellas e Varrões
    modernos, se arrojam impetuosos á conquista de descommunaes riquezas,
    que se lhes promettem, olhando com soberano desprezo os methodos mais
    sensatos dos seus visinhos, mudam tudo, revolvem tudo, gritam contra a
    _rotina_, e os _rotineiros_ e obtêm no fim de trez ou quatro annos uma
    gloriosa… mendicidade. Estes exemplos (e prouvera a Deus que, de
    quinze annos a esta parte, elles fossem apenas cinco ou dez ou vinte)
    ainda são mais fataes. Aquelle espectaculo aterrador, aquelle fructo
    amargo do estonteamento e da imprudencia é para os animos atemorisados a
    condemnacão irrevogavel de toda a sciencia, de todo o progresso. E, á
    vista dos factos, ao menos considerados superficialmente, como os
    consideram em geral os habitantes do campo, podemos acaso negar que
    esses a quem se dá desdenhosamente a alcunha franceza de _rotineiros_,
    teem até certo ponto razão?

    D'aqui a necessidade absoluta de espectaculos, de exemplos contrarios:
    d'aqui a necessidade extrema de estribar a doutrina escripta com a penna
    na doutrina escripta com a charrua, com a enchada e com o alvião. Não
    seria bom que se usasse de uma reserva prudente em propagar a parte
    especulativa e sobretudo os requintes da sciencia, cuja utilidade é
    contestavel ainda em paizes mais adiantados, emquanto essa parte não
    estiver confirmada entre nós pela apreciação practica em maior ou menor
    escala? Parece-me que sim.

    E todavia, repito, tal apreciação, feita já sobre muitas questões
    agronomicas na vasta propriedade de Calhariz, é desconhecida do publico.
    Alguns curiosos, alguns lavradores, alguns agronomos teem visitado
    aquelle estabelecimento, que talvez já podemos chamar o nosso instituto
    de Grignon ou de Roville, e que decerto lh'o poderiamos chamar dentro de
    quatro annos, se a morte não houvera privado este paiz de um animo
    grandioso e amigo do progresso da patria, o defuncto duque de Palmella.
    Mas esses curiosos, esses lavradores, esses agronomos teem-se contentado
    com uma admiração esteril. Se procederam a inqueritos severos sobre os
    resultados das diversas culturas experimentadas n'aquelle
    estabelecimento, sobre machinas, adubos, rotações, sobre todas as
    cousas, em summa, de que dependem os bons ou os maus systemas de
    agricultar; se mais que tudo, em cada genero de cultura compararam o
    custo com o valor venal do producto, que é a suprema questão agricola,
    não o sei eu; mas é certo que até agora nada se publicou a este respeito
    que eu saiba. E comtudo, o fazel-o seria mais util do que repetir
    opiniões peregrinas, sem sancção de experiencia, e quem sabe se
    accommodadas sempre a este solo e a este clima?

    Eu não posso fazel-o: sou n'estas materias um curioso. Faltam-me os
    elementos scientificos para ser agronomo. A direcção dos meus estudos
    foi outra. Amo, porém, ardentemente o progresso moral e material da
    terra em que nasci; e vejo que elle deve sobretudo vir do
    desenvolvimento da agricultura, da solução racional das questões
    scientificas, economicas, e até juridicas e politicas que pódem ter
    relação com a primeira das industrias, primeira em todos os paizes, mas
    que entre nós está immensamente acima de quaesquer outras, e praza a
    Deus que o esteja sempre. É por isso que escrevo isto, não como
    desempenho do dever que incumbe a outros, mas como incitamento aos mais
    habeis. Faço-o tambem para practicar um acto de justiça. Emquanto a
    imprensa, durante quinze annos, clamou debalde aos governos a favor dos
    institutos agricolas, sem os quaes está demonstrado até á saciedade que
    não haverá progresso real na maxima industria portugueza, um simples
    particular tentava com sacrificio de avultados cabedaes uma empreza que
    os governos não ousavam tentar, ou que esqueciam, enlevados na
    edificação de theatros, de jardins, de praças, de monumentos, em
    manifestações luxuarias, indispensaveis para provarmos ao mundo que
    nadamos em ouro, e para darmos sabida á superabundancia dos lucros dos
    nossos quasi unicos contribuintes, os cultivadores, que não saberiam a
    que applicar o seu immenso superfluo, se o tributo os não alliviasse
    d'elle para comprarmos esse luxo das creanças barbadas da inclita
    Lisboa. Faço-o, digo, porque a imprensa devia á memória do fallecido
    duque de Palmella um testemunho de gratidão pela sua nobre devoção á
    patria, devoção que só com o decurso do tempo podia ser apreciada
    devidamente; porque era practicada sem ostentação nem ruido.

    Este testemunho, que eu me atrevo a dar em nome do paiz, é insuspeito.
    Nunca procurei a intimidade do duque, nunca traduzi em convites para a
    acceitar os signaes de benevolencia, a distincção immerecida com que
    sempre me tractou, quer em publico quer em particular, quando
    casualmente nos encontravamos. Confesso mais: pensava mal d'elle em
    muitas coisas; tinha-lhe esta especie de antipathia inoffensiva que
    tenho á maior parte dos homens politicos do nosso paiz. Nem na emigração
    nem na patria fui nunca isso a que se chamava _ser palmellista_. Começo
    a sel-o desde que visitei o Calhariz; desde que examinei o que alli se
    tem feito, e sobretudo desde que vi a correspondencia do duque com o
    snr. Gagliardi, correspondencia que não era destinada, que não podia
    sel-o, a vêr a luz publica. O desapego do ouro para ordenar experiencias
    custosas, de resultado incerto, e a que elle punha uma só condição, a
    _de poderem redundar em proveito do paiz_, é evidente n'essas cartas,
    que corrigiram as minhas ideas ácêrca do homem que as escreveu.

    Dou graças a Deus de ter visitado tão tarde a granja do Calhariz. Hoje
    as minhas palavras vão murmurar sobre um tumulo, em volta de pobres
    cinzas, que não teem poder para a recompensa e nem sequer voz para o
    agradecimento. N'este seculo de grandes corrupções falta muitas vezes
    esforço para fazer justiça, quando se pode suspeitar de venalidade ou
    lisonja o que não passa de um tributo de admiração legitima.

    PROJECTO DE DECRETO

    1851

    Senhora!

    O alvo do presente projecto de decreto é abrir o caminho ao homem de
    trabalho para o goso puro e legitimo que nasce do sentimento de
    propriedade, pôr-lhe nas mãos o mais efficaz, o mais seguro instrumento
    de prosperidade, a terra, habilital-o, emfim, para sem temor do futuro
    acceitar as doçuras e os encargos de chefe de familia, facilitando-se
    assim um desenvolvimento vigoroso de população.

    Senhora! No meio d'este grande lavor de transformação social em que a
    Europa se debate, a braços com as ideas tempestuosas que agitam os
    espiritos e com os males economicos que a devoram, e que, se não
    legitimam as ideas de reformas absurdas, legitimam pela sanctidade de
    uma agonia profunda a agitação das classes laboriosas, o povo tem dado
    mais de uma vez documentos de ferocidade e bruteza repugnantes e
    terriveis. Em mais de um paiz o proletariado sempre crescente, ruge de
    contínuo ameaças contra a paz e ordem publicas e contra a patria, porque
    o pobre não sabe o que é patria, não a ama, ou antes não a tem, visto
    que não ha um forte laço moral que o ligue a ella por affectos ou por
    esperanças. É n'estes corações chagados que alguns espiritos ardentes
    illudidos e fanatisados pela propria imaginação, e ao mesmo tempo muitos
    especuladores ambiciosos instillam theorias destructoras da sociedade,
    que tendem a lançar as multidões n'um cháos de desordem, em que a
    propriedade e a familia sejam completamente annulladas.

    Em Portugal, Senhora, o atrazo industrial do paiz, a sua civilisação
    comparativamente pequena, são garantias contra os graves perigos que
    rodeam outras sociedades onde a condição das classes pobres é
    incomparavelmente peior, porque o capital abuza da sua força immensa
    para as opprimir. Mas cumprirá acaso que para nos premunirmos contra os
    riscos do futuro fechemos a porta á civilisação? Não romperia quaesquer
    diques esse oceano de progresso que invade todas as regiões do velho e
    do novo mundo? O augmento da industria fabril, a concorrencia, mil
    factos economicos nascidos mais da natureza das cousas, que da vontade
    dos homens, teem trazido essa collisão fatal entre o que possue e o que
    não possue, entre o trabalho e o capital, collisão que forma hoje o
    supremo, o tremendo problema politico e social das nações mais
    adiantadas. Deixariamos por isso de proteger a nossa industria fabril;
    combateriamos a concorrencia, esse maximo incentivo da actividade
    humana; annullariamos as consequencias de certos factos que d'ahi
    nascem? Deveriamos, ou poderiamos fazel-o? Seria preciso negar a
    liberdade individual, contrariar os principios politicos e economicos
    mais incontestaveis e voltar, como pretendem alguns espiritos fracos,
    aterrados pelas manifestações das classes laboriosas, á theocracia ou ao
    feudalismo dos seculos de barbaria, para adoptarmos prevenções de
    similhante natureza.

    Que ha, pois, a fazer? Encarar com frieza o futuro, estudar as
    complicadas causas que trouxeram gradualmente a esta penosa situação uma
    grande parte da Europa, e evitar o perigo, sem entrar em um combate
    desigual com a civilisação cuja victoria final é sempre certa. Complexas
    e variadas em si, essas causas enfraquecem-se por diversas maneiras;
    previnam-se os seus desastrados effeitos com medidas adequadas;
    aproveitem-se para isso as custosas experiencias dos outros povos, de
    modo que nem as consequencias das phases economicas sejam tão fataes,
    nem venham tão rapidas que criem embaraços insoluveis. As nações mais
    atrazadas teem, na falta de outras vantagens, a de saber com antecipação
    as difficuldades prácticas do progresso material e de poderem proceder
    com prudencia.

    Quem observar, Senhora, a marcha de certas ideas de desorganisação,
    ha-de notar que ellas predominam onde ou a industria fabril tem
    accumulado em breves limites populações numerosas de obreiros, que
    possuem apsnas o salario de um trabalho mal retribuido, ou onde a terra
    pouquissimo dividida ou cultivada transitoriamente por colonos
    oppressos, não consente ao homem do povo o sentimento da propriedade. Em
    todos os paizes os districtos mais pacificos e onde as classes
    inferiores não pensam em dissolver a sociedade são os districtos ruraes,
    e sobretudo aquelles onde o solo retalhado e possuido com segurança
    pelos pequenos cultivadores, tem creado para elles uma patria; porque a
    patria para as comprehensões vulgares e rudes e até certo ponto para
    outras mais elevadas, é o logar restricto a que as prendem os
    interesses, o longo habito e os affectos profundos, que só a familia e a
    propriedade sabem inspirar.

    Favoreçamos a industria fabril, porque ella é uma necessidade da epocha
    e da civilisação; mas forcejemos ainda mais por desenvolver a população
    agricola, que subministrará a essa industria, no seu excedente, braços
    robustos, organisações cheias de seiva e de vida. Façamos caminhar de
    frente as duas industrias; porque cada uma d'ellas é a grande
    consumidora dos productos da outra; mas procuremos sobretudo dilatar o
    espirito de familia e o amor da propriedade pela agricultura. O que
    rodeou com sebes um campo, o que o roteou e semeou pelas proprias mãos e
    pelas mãos de sua mulher e de seus filhos, será forçosamente um homem de
    paz, um defensor da ordem publica. As revoluções sociaes podem
    comprimir-se com o ferro; mas só se ferem de morte quando se removem as
    suas causas reaes, e se faz sentir practicamente ao povo que as
    exaggerações dos estouvados ou dos ambiciosos, são falsas ou ridiculas.

    Não é necessario, Senhora, dizer que a presente proposta de decreto terá
    dous resultados principaes: levar a cultura a uma grande porção de
    terrenos incultos, e fomentar poderosamente a divisão da propriedade.
    Basta lêl-a para se ver que n'ella predomina esse pensamento. Mas
    presidiram á sua elaboração tantas outras considerações de conveniencia
    publica e de progresso material e moral, que os ministros de V.
    Magestade teem por dever seu explanal-as, para que seja possivel avaliar
    se elles comprehenderam ou não, n'esta parte, as maternaes intenções e
    os vivos desejos de V. Magestade, em tudo o que respeita a futura
    prosperidade do paiz.

    Adoptando o principio geral de libertar temporariamente dos tributos
    directos os tractos de terra inculta que se arroteassem, o governo
    procurou tornal-o verdadeiramente util e prolifico, modificando-o por
    condições essenciaes. A divisão do solo pela emphyteuse, e a preferencia
    de protecção dada a certas culturas, são no entender do governo as
    provisões mais importantes do decreto sob este ponto de vista.
    Considerado em relação ao Estado esse principio tem a vantagem de
    produzir o bem sem gravame do thesouro. Os maninhos que se desbravarem,
    não offerecem actualmente materia tributavel: reduz-se, portanto, tudo a
    suppor que esta situação, que aliás só pode acabar rapidamente por meio
    de exempções valiosas, continua em relação ao imposto directo a
    subsistir por um periodo maior ou menor, segundo a categoria da cultura
    a que for destinado este ou aquelle terreno. Em relação, porém, ao
    imposto indirecto é obvio que o augmento de producção e consumo, effeito
    necessario da lei, trará desde logo por esse lado um accrescimo
    progressivo da renda publica.

    A emphyteuse, favorecida por este decreto é, não só um grande meio para
    facilitar a applicação do capital á terra, porque não sendo necessário
    applical-o á acquisição antecipada, digamos assim, da materia prima,
    pode operar em maior escala sobre a producção, mas tambem, e
    principalmente pela sua tendencia natural a tornar-se parcellaria, como
    effeito da maior protecção que a esta sua modalidade a lei concede, o
    instrumento mais poderoso que se pode empregar para trazer o
    proletariado á propriedade, e que portanto produzirá todos os resultados
    politicos e moraes cujo influxo benefico na paz futura do paiz, não pode
    ser duvidoso para a alta penetração de V. Magestade.

    Á emphyteuse e ao systema parcellario teem opposto, Senhora, varias
    considerações economicas, os adversarios d'essa instituição, filha da
    civilisação romana, que resistindo a todos os abalos, a todas as
    transformações profundas verificadas durante os seculos medios, chegou
    até nós, abonando por esse facto a sua congruencia com a indole das
    sociedades humanas. Considerada no seu valor absoluto, e pelas regras da
    moral e da justiça, nada se vê na separação entre o dominio directo e
    util, que offenda uma ou outra. Os motivos para a preferir á
    allodialidade, ou para lhe preferir esta são todos relativos,
    condicionaes. Olhada a questão em these, como theoria abstracta, algumas
    razões podem militar a favor da allodialidade, mas, era hypothese, em
    relação ao nosso estado actual, a emphyteuse é preferivel se quizermos
    dar impulso á cultura e mais rapido movimento á transmissão da
    propriedade. N'um paiz onde a representação monetaria escacea, onde o
    atrazo da sciencia agronomica é incontestavel, onde, emfim, a elevação
    do salario e a depreciação dos generos teem produzido um desiquilibrio
    embaraçoso para o cultivador, a consideração acima feita de que o
    principio da allodialidade, isto é, a compra do fundo, absorve desde
    logo uma parte do capital, que nos aforamentos se substitue, em rigor,
    pela promessa de um juro, juro pagavel depois de obtido o producto da
    applicação do capital, bem demonstra que aquelle principio não soffre
    comparação com o emphyteutico, e quanto este será efficaz para os fins a
    que se destina o presente decreto.

    Modificada pelo systema parcellario a emphyteuse contrapõe-se ao systema
    dos latifundios allodiaes. Caracterisados assim, a antinomia entre os
    dous principios torna-se mais evidente e profunda. Mas é aqui tambem
    onde a superioridade de um ao outro, se torna mais incontestavel. Os
    defensores dos vastos allodios ponderam que a grande cultura é só
    propria dos extensos terrenos, só ella é compativel com os grandes
    melhoramentos, só ahi se podem introduzir as machinas, que produzindo
    mais barato facilitam o consumo; e, não podendo negar os inconveníentes
    sociaes da grande propriedade, accrescentam que sujeitos ao direito
    commum, esses predios se retalharão pela divisão forçada das successões,
    resultando d'ahi que dentro de curto praso ha-de apparecer um novo
    phenomeno economico e agricola; isto é, que a propriedade, dividindo-se
    quanto ao dominio, se conservará unida quanto ao trabalho, porque de
    outro modo, separando-se, individualisando-se o trabalho, a grande seria
    forçosamente substituida pela pequena cultura, e inutilisando-se as
    machinas, os novos possuidores do solo teriam de annullar um capital
    avultado sem vantagem conhecida. Assim quanto a elles, a exploração
    industrial da terra se conservará unida pela associação, ao passo que o
    dominio se irá retalhando atravez de todas as phases possiveis, n'uma
    esphera separada.

    Estas doutrinas, Senhora, são inexactas em grande parte. Pondo de lado
    os inconvenientes, as difficuldades prácticas da associação applicada ao
    trabalho agricola, quando, separado o dominio, o valor do producto
    relativo a cada fracção do fundo, não é só determinado pela applicação
    do trabalho, mas tambem pela força productiva do solo, grandemente
    variavel em vastos tractos de terra; suppondo possivel e até fácil
    similhante associação, e admittindo sem reserva os seus importantes
    effeitos, não se vê como o incitamento do interesse individual não possa
    conduzir os colonos no systema emphyteutico, a associarem-se para
    substituir pela grande a pequena cultura, adoptando as machinas que
    barateam os productos e empregando um trabalho commum. Por outra parte é
    inexacto que a pequena cultura não possa simplificar-se pela introducção
    de machinas e instrumentos novos ou aperfeiçoados, embora n'um grau
    inferior ao da grande cultura, e por isso fazer tambem descer até certo
    ponto o valor das subsistencias e dos outros productos agricolas,
    accrescendo a essa consideração o facto incontestavel, de que se a
    introducção dos instrumentos e machinas que simplificam o trabalho
    agricola, acha mais poderosos incentivos na grande cultura, os methodos
    aperfeiçoados teem nascido e nascem quotidianamente, da experiencia e
    das necessidades da pequena cultura. Independentemente porém, d'este
    argumento, sendo a divisão do solo pela indole da allodialidade sem
    questão mais tardia do que pela emphyteuse parcellaria, favorecida
    immediatamente pela lei, porque privaremos a geração presente, o homem
    de trabalho actual, do beneficio que queremos proporcionar aos
    vindouros? Emfim, Senhora, os que attribuem tão rapidos e efficazes
    effeitos aos obitos e ás successões, attenderam a todos os factos que
    modificam e retardam esses effeitos? Lembraram-se, por exemplo, dos
    consorcios, dos dotes, das terças e de tantas outras instituições civis,
    tendentes a entorpecer esse meio, sem duvida poderoso, de retalhar os
    predios rusticos? Attenderam acaso aos usos immemoriaes de algumas
    provincias, como o Alemtejo, onde o costume dos chamados quinhões torna
    a allodialidade inutil para a divisão das grandes herdades, porque se
    reparte a renda mas fica o solo unido em poder de um só agricultor?

    Que o systema da emphyteuse parcellaria seja o meio mais efficaz e
    talvez unico de chamar as classes humildes á propriedade, parece
    evidente. A acquisição do dominio pleno de vastos predios suppõe
    avultados capitaes. A dos pequenos predios suppõe-nos menores; mas ainda
    os suppõe. Nos emprazamentos de áreas limitadas como aquellas cujo
    maximo se fixa no presente decreto, e que é o mesmo estabelecido no
    Alvará de 27 de novembro de 1804, as economias do simples seareiro, do
    operario rural, bastarão de ordinario para as despezas do arroteamento.
    Elle conta além d'isso com os proprios braços, com o auxilio de sua
    mulher e de seus filhos, recursos cuja efficacia o sentimento da
    propriedade sabe redobrar de um modo maravilhoso. Como consequencia do
    facto logo que os aforamentos d'esta especie se facilitem e protejam, o
    trabalhador celibatario, a quem convidam as exempções concedidas por
    este decreto, e que uma ambição legitima incita a aproveitar-se do
    beneficio da lei, cuidará em associar a si uma companheira que o auxilie
    na sua laboriosa empreza. Assim os consorcios serão promovidos e
    portanto o desenvolvimento da população.

    Se, porém, a applicação do capital quasi unico das classes pobres, o
    trabalho dos proprios braços se torna não só possivel mas tambem facil
    pela emphyteuse parcellaria, o emprego do grande capital monetario
    torna-se onde ella predomina assaz difficil. A experiencia quotidiana
    nos ensina que os pequenos predios ruraes cultivados por conta do seu
    dono, mas não pelas mãos d'elle são constantemente causa de ruina. A
    pequena cultura exige grande numero de prevenções, e de economias
    insignificantes mas severas, uma actividade contínua, um zelo sem
    limites, um meditar incessante em tornar productiva a minima parcella de
    terra. Nada d'isto se obtem a troco de salarios, com que o homem do
    capital monetario tem de contar para alem d'isso obter um lucro, e com
    que o homem de trabalho não conta porque tirando da cultura o seu
    salario e o da sua familia, elle considera a somma d'esses salarios como
    o principal lucro. Assim os capitaes amoedados não podendo fraccionar-se
    em pequenas e ruinosas emprezas, operarão com dobrada energia na grande
    cultura que sempre ha-de ser avultada, ao passo que se tornarão mais
    accessiveis á industria fabril.

    A consideração mais grave que se pode oppor á idea que predomina n'esta
    proposta de decreto, e o Governo não quer, Senhora, dissimulal-a, é que
    abrindo-se em larga escala o caminho da propriedade ás classes
    trabalhadoras, os agricultores actuaes, que já laboram na difficuldade
    do augmento gradual do salario ao lado da diminuição de valor nos
    productos, verão crescer essa difficuldade pela distracção de um
    avultado numero de braços que habilitados para trabalhar por conta
    propria, recusarão fazel-o por conta alheia. Até certo ponto a
    consideração é verdadeira. Mas por um lado ha algumas que a attenuam, e
    por outro o governo pode e ha-de empregar os meios para que esse
    inconveniente seja compensado. Primeiro que tudo como o recurso unico do
    operario é o trabalho, ha-de verificar-se frequentemente o que já
    acontece por muitas partes. Nos tractos de terra mais ferteis que se tem
    arroteado pelo systema parcellario, porque, ainda sem o favor da lei, o
    interesse individual tem sido bastante para o fazer adoptar em diversos
    logares, o novo proprietario redobrando d'esforcos reparte as suas lidas
    entre a cultura propria e a alheia. Essa divisão é grandemente
    facilitada pelo atrazo da agricultura entre nós, porque sendo esta na
    maxima parte dedicada aos cereaes, ás vinhas e aos olivedos apresenta
    uma procura mui desigual de trabalho, de modo que elevando o salario
    desmesuradamente em certas epochas em outras essa procura affrouxa,
    chegando o obreiro rural a ponto de não achar muitas vezes emprego.
    Onde, porém, não for possivel restabelecer o equilibrio por similhante
    meio, esse embaraço irá gradualmente desapparecendo com o accrescimo da
    população, sendo entretanto um incentivo poderoso para os grandes
    cultivadores irem trocando o systema das culturas exclusivas pelo das
    culturas alternas, que, exigindo n'um tempo dado menor numero de braços,
    exige um mais constante emprego d'elles. Finalmente tendo a peito o
    governo acudir quanto antes á primeira necessidade do paiz, a
    construcção das estradas, para as quaes vae applicar todos os recursos
    de que pode dispor, a facilidade da viação e por consequencia a barateza
    do transporte, compensarão amplamente qualquer elevação de salarios, que
    n'um ou n'outro caso possa resultar da applicação do presente decreto.

    Não é necessário nem possivel, Senhora, entrar em largas explicações
    sobre os motivos que levaram o governo a propor a V. Magestade, a
    promulgação das disposições contidas nos diversos paragraphos do art.
    4.^o. A gradação estabelecida entre as varias culturas corresponde ao
    estado actual da nossa industria agricola e á necessidade de não dirigir
    cegamente o impulso que se pretende dar-lhe. O favor, desproporcionado
    na apparencia, que se liberalisa á plantação dos bosques, não se estriba
    só na consideração do demorado resultado que se dá no seu cultivo;
    funda-se tambem na da repugnancia á arborisação que é um dos erros mais
    communs e que parece necessario combater energicamente. É obvia tambem a
    causa das excepções ácerca do pinheiro maritimo, unica madeira que
    superabunda no nosso mercado. O favor comparativamente excessivo que o
    decreto pretende dar á cultura collectiva ou singular das forragens, das
    amoreiras e do canhamo, importa a idéa de fortalecer pela sabedoria das
    leis civis as reformas que hão-de trazer o ensino e educação dos futuros
    agricultores, por via das sociedades agrícolas, das escholas, e dos
    predios rusticos experimentaes, que o governo começou já a promover e
    fundar, e que está resolvido a fazer progredir logo que para isso se lhe
    proporcionem recursos, contando aliás com o auxilio de todos os homens
    de boa vontade e sinceros amigos do paiz. Escaceam entre nós os gados,
    sobretudo nas provincias do sul, porque a cultivação dos cereaes tem
    progredido em extensão e não em intensidade; porque os systemas biennal
    e triennal, que ahi predominam e que em certas circumstancias serão
    desculpaveis, serão até preferiveis, nunca podem ser uma regra geral
    senão onde a agricultura está na infancia: emfim, a falta de gados e de
    bons methodos de afolhamento explicam a maior parte dos embaraços da
    grande cultura em Portugal. Por outro lado se considerarmos os enormes
    valores que a Italia, o paiz mais analogo ao nosso e ainda
    agronomicamente inferior a elle, sabe tirar da producção da seda,
    devemos propagar até onde for possivel o cultivo da amoreira. Tambem a
    experiencia tem provado que o canhamo do nosso paiz, cultivado
    judiciosamente e nos terrenos convenientes, excede em bondade não só o
    da Russia mas o proprio canhamo de Bolonha, reputado o melhor da Italia.
    Por ultimo os fundamentos da menor protecção dada aos ramos de
    agricultura largamente espalhados pelo reino, fundamentos que em parte
    derivam do que fica dito, são obvios para V. Magestade.

    Era impossivel, Senhora, propor a promulgação de um decreto tendente a
    trazer á producção os terrenos incultos e a fomentar a divisão
    espontanea da propriedade territorial, sem estender a sua acção ao solo
    vinculado. São sobretudo os vinculos que nos offerecem o triste
    espectaculo de terras, muitas vezes de primeira qualidade, inuteis e
    desaproveitadas. Entre as razões moraes, politicas e economicas, que
    condemnam a instituição dos vinculos, esse facto subministra contra ella
    um argumento assaz ponderoso. A sua extincção parcial ou completa é
    questão, na verdade, que os ministros de V. Magestade não poderiam
    discutir aqui, e que se deve tractar pausada e reflectidamente; porque,
    resolvida de leve e, sobretudo, decretada de golpe, a abolição dos
    vinculos ainda parcial, teria, talvez, inconvenientes politicos e até
    economicos maiores do que geralmente se pensa. Todavia a instituição é
    em these insustentavel e se considerações de tempo e de circumstancias,
    podem absolver a sua existencia e aconselhar a sua condicional
    conservação, essas considerações são absolutamente inapplicaveis aos
    terrenos incultos, que na maior parte dos casos não representam valor
    algum, ou só o representam minimo. Exemptar os vinculos de contribuirem
    para o bem commum n'esta parte seria absurdo.

    Egualal-os para os effeitos da lei ás propriedades allodiaes, dar-lhes
    as mesmas vantagens e impor-lhes as mesmas restricções era justiça. Foi
    o que se fez n'este projecto de decreto.

    É evidente que nos aforamentos dos maninhos vinculados se dá um facto
    similhante ao que se verifica nos dos maninhos allodiaes. A somma total
    dos fóros representa um juro e portanto a creação de um capital. O
    decreto, suppondo para estabelecer as suas ulteriores providencias, que
    a somma dos fóros representa um juro de cinco por cento, faz d'ahi
    resultar um capital inferior á realidade, porque é sabido que os
    emprazamentos difficilmente produzem essa renda. Em todo o caso esta
    nascerá do favor da lei, favor que se não é um sacrificio effectivo e
    presente, virá a sel-o de futuro. Um tal favor, tendo por fim
    exclusivamente desenvolver o progresso de uma agricultura sensata e
    chamar o proletariado ao amor da paz e da ordem, pela acquisição da
    propriedade, produziria ao mesmo tempo, sem as convenientes restricções,
    a consequencia de augmentar o valor dos vinculos ou por outra, daria
    maior vulto a um genero de propriedade que á luz das indicações
    economicas apenas pode ser tolerado. Era, portanto, dever do governo
    obstar a similhante augmento, e o governo obstou-lhe com as providencias
    consignadas nos artigos 11.^o, 12.^o, 13.^o, 14.^o e 15.^o. Ao passo que
    firmou o principio de libertar um cumulo de bens igual em valor ao
    capital accrescido pelos novos aforamentos, deu o maximo alvedrio aos
    administradores de vinculos para se aproveitarem do beneficio do
    decreto, pelo modo que reputassem mais conveniente, e até para não se
    aproveitarem d'elle. Entretanto elle feriu n'um ponto a integridade dos
    cumulos vinculados. Foi na disposição do artigo 13.^o; mas este
    sacrificio é tão tenue comparado com o alto objectivo de promover a
    divisão do solo, que os ministros de V. Magestade poderão antes ser
    taxados de nimiamente escrupulosos a favor da instituição, do que
    suspeitos em demasia de seus adversarios.

    Alguem poderá objectar, Senhora, que em logar do systema um tanto
    complicado que os ministros de V. Magestade adoptaram, para operar um
    grande movimento de propriedade nos bens vinculados, seria mais simples,
    depois de auctorisar e favorecer a alienação do dominio util dos
    terrenos incultos pela emphyteuse parcellaria, auctorisar também a
    alienação do dominio directo d'esses mesmos bens, ou pela remissão ou
    pela venda. Com a lealdade que professam os ministros de V. Magestade,
    dirão a proposito d'esta consideração, que parece razoavel, o seu
    pensamento inteiro. Primeiro que tudo o movimento dos valores, da
    propriedade considerada de um modo absoluto, seria na verdade o mesmo;
    mas o movimento do dominio util da propriedade territorial seria
    equivalente a metade, a um terço, e em certos casos ainda a menos. O fim
    principal do decreto, o augmentar o numero dos proprietarios, tão
    favorecido pelos artigos 12.^o e 13.^o, ficaria incomparavelmente mais
    restricto; o numero dos afiliados pelo sentimento da propriedade e da
    familia ao partido da paz e da ordem, seria muito menor. Por outro lado
    esse systema complexo cria um incentivo poderoso e talvez irresistivel,
    para o rapido aforamento dos baldios vinculados. Não será tanto o homem
    de trabalho que procure obter um tracto de terra para cultivar, como o
    administrador de vinculo que busque o homem de trabalho para lh'o
    offerecer, porque um grande interesse o incita. Gravados por dividas em
    grande parte ficticias e fructo monstruoso dos desvarios das paixões e
    de uma agiotagem infrene, uma parte dos possuidores de vinculos e
    sobretudo dos grandes vinculos, laboram em graves difficuldades
    economicas, de que os soltará em muitos casos a libertação de uma parte
    dos bens vinculados. Nem se diga que a muitos d'elles faltará a cordura
    para aproveitar utilmente o beneficio da lei: a obcecação d'estes não
    deve reverter em damno dos prudentes e avisados; ao passo que esses
    taes, ainda quando se não verificasse a libertação de uma parte do
    vinculo, saberiam sempre completar de um ou de outro modo a propria
    ruina, ajudados pela agudeza infernal da usura e da agiotagem.

    Em todo o caso, Senhora, o governo respeitou com escrupulo o fundo
    hypothecario e os direitos de terceiro, sem entrar no exame da
    legitimidade moral da origem d'esses direitos. Depois de um grande
    movimento de propriedade dentro d'essa instituição immobilisadora, o
    fundo vinculado fica em rigor sendo o mesmo e portanto a mesma a
    garantia dos encargos e hypothecas. É esse na opinião dos ministros de
    V. Magestade, o principal merito, n'esta parte, da presente proposta de
    decreto.

    Por todos os motivos e fundamentos economicos e politicos até aqui
    ponderados, o governo tem a honra de offerecer á Regia approvação de V.
    Magestade o seguinte:

    DECRETO

    Artigo 1.^o São confirmadas, ampliadas, alteradas ou revogadas as
    disposições dos Alvarás de 23 de julho de 1766, de 27 de novembro de
    1804 e de 11 de julho de 1815, da Carta de Lei de 24 de novembro de
    1823, e de outra qualquer legislação geral existente, relativas a
    maninhos ou terrenos incultos de qualquer especie ou denominação que
    sejam, possuidos allodialmente, e que forem reduzidos a cultura por
    contractos d'emprazamento, debaixo das condições declaradas nos artigos
    do presente decreto.

    Artigo 2.^o Os emprazamentos a que se refere o artigo antecedente
    constituirão prazos fateosins perpetuos hereditarios. Fica a respeito
    d'elles supprimido o direito senhorial do laudemio, bem como o de opção
    e prelação. O canon será fixado livremente por accordo entre o senhorio
    e o emphyteuta.

    Artigo 3.^o Os terrenos assim reduzidos a cultura ficarão
    temporariamente exemptos de todos e quasquer impostos directos geraes ou
    municipaes, tanto em relação à renda liquida do emphyteuta, como ao foro
    estipulado por este com o senhorio directo.

    Artigo 4.^o Os novos predios constituidos em virtude d'este decreto, e
    cuja superficie não exceder dez mil braças quadradas (proximamente dez
    geiras) gosarão da exempção concedida no artigo antecedente, debaixo das
    condições e com as limitações seguintes:

    § 1.^o–A exempção durará 30 annos em relação aos predios que forem
    applicados, ao menos em duas terças partes da sua superficie, ao plantio
    de bosques de arvores de córte, que não sejam pinheiros maritimos, salvo
    sendo o predio situado na orla do mar oceano, até a distancia de uma
    legua para o interior das terras, dentro da qual a cultura dos pinheiros
    maritimos é equiparada á de quaesquer outros arvoredos de córte.

    § 2.^o–A mesma exempção durará 16 annos sendo os predios applicados, ao
    menos em dous terços da sua superficie, á cultura, singular ou
    collectiva, da amoreira branca, do canhamo e dos prados artificiaes,
    quer permanentes, quer temporarios, sendo porém necessario, no caso de
    se applicarem os dous terços sobredictos á cultura dos prados
    artificiaes, com exclusão da amoreira branca e do canhamo, que se
    conserve sempre um quarto do dicto predio em prados artificiaes
    permanentes, para se verificar a exempção concedida.

    § 3.^o–A mesma exempção durará 12 annos se ao menos os dictos dous
    terços forem applicados ao plantio de oliveiras.

    § 4.^o–Durará 8 annos a sobredicta exempção se ao menos dous terços do
    predio forem applicados á cultura da vinha.

    § 5.^o–Se ao menos dous terços do predio forem applicados á cultura dos
    cereaes ou a outras quaesquer culturas não especificadas nos §§
    antecedentes, esse predio gosará por seis annos de igual exempção.

    Artigo 5.^o O beneficio da exempção não é applicavel em nenhum caso aos
    prazos instituidos em terrenos incultos de regadio ou pantanosos, que se
    applicarem no todo ou em parte á cultura de arrozaes.

    Artigo 6.^o Se a superficie do prazo exceder a que é fixada no artigo
    4.^o, o periodo da exempção será reduzido a metade do tempo, em cada uma
    das hypotheses dos diversos §§ do mesmo artigo.

    § unico–Exceptua-se a cultura dos arvoredos de córte de que tracta o §
    1.^o do artigo 4.^o, á qual é applicavel favor igual, seja qual for a
    extensão do terreno emprazado.

    Artigo 7.^o Se um individuo possuir, quer como emphyteuta originario,
    quer como cessionario, dous ou mais prazos d'aquelles de que tracta o
    artigo 4.^o, a exempção ficará reduzida a metade do tempo em relação a
    cada um d'elles, salva sempre a hypothese do § 1.^o do dicto artigo 4.^o.

    Artigo 8.^o O beneficio reduzido, designado no artigo 6.^o, é igualmente
    concedido ao proprietario que, conservando em si unidos os dominios
    directo e util, tornar productivos os seus terrenos incultos, dando-lhes
    a applicação de que tractam o § unico do dicto artigo e o § 1.^o do
    artigo 4.^o.

    Artigo 9.^o O presente decreto fica sendo extensivo a quaesquer maninhos
    ou terrenos incultos que tenham a natureza vincular. Para os effeitos
    d'esta disposição os dictos terrenos são considerados como livres e
    allodiaes, e os administradores actuaes ou futuros dos vinculos havidos
    como proprietarios d'esses terrenos com dominio pleno, unicamente para
    poderem celebrar com respeito a elles os contractos emphyteuticos,
    permittidos nos artigos anteriores, com as condições n'estes expressas.

    Artigo 10.^o Os fóros estabelecidos em cada um dos prazos, cuja
    instituição é facultada no artigo antecedente, ficarão incorporados no
    vinculo a que pertencia o terreno emprazado, e sujeitos desde logo aos
    encargos e hypothecas que pesarem sobre o mesmo vinculo.

    Artigo 11.^o Tanto que o administrador de um vinculo houver emprazado,
    pela maneira precedentemente prescripta, a totalidade dos terrenos
    incultos pertencentes ao mesmo vinculo, ser-lhe-ha licito alienar o
    dominio pleno de uma porção de predios urbanos, ou de predios rusticos
    cultivados anteriormente á data deste decreto, e pertencentes ao cumulo
    vinculado. Esta porção alienavel será igual em valor ao capital que
    corresponderia á importancia dos fóros, considerados como juro de cinco
    por cento; isto é, será igual em valor a vinte vezes a somma dos fóros.
    A livre alienação de taes predios não poderá ser embaraçada pelos
    encargos ou hypothecas que possam pesar sobre o vinculo, ou por
    quaesquer outros motivos ou pretextos.

    Artigo 12.^o Se o administrador do vinculo preferir alienar unicamente
    por contractos de emprazamento na fòrma estabelecida no artigo 2.^o,
    unica admittida para os effeitos d'este decreto, o dominio util dos
    predios urbanos ou dos rusticos cultivados, alienaveis em virtude do
    artigo precedente, a porção d'elles será igual em valor ao capital que
    corresponderia á importancia dos fóros accrescidos, considerados como
    juro de dous e meio por cento; isto é, será igual em valor a quarenta
    vezes a importancia dos dictos fóros accrescidos. N'esse caso o canon
    estabelecido nos respectivos contractos emphyteuticos, não poderá ser
    inferior a metade da renda dos predios aforados, calculada pelo
    rendimento medio dos ultimos trez annos. Os fóros resultantes d'esses
    contractos ficarão incorporados no vinculo.

    Artigo 13.^o Se os emprazamentos facultados no artigo anterior forem
    feitos por superficies iguaes ou inferiores a dez mil braças quadradas,
    ao menos em metade da porção de bens alienaveis, calculada pela fórma
    estatuida n'esse artigo, o administrador do vinculo poderá alienar pela
    dicta fórma, ou segundo a que se faculta no artigo 11.^o, mais outra
    porção de bens vinculados, igual a um decimo do fundo libertado pelas
    disposições dos referidos artigos. N'esta hypothese como na outra os
    fóros ficarão vinculados, e nunca serão inferiores a metade da renda
    media, calculada sobre o rendimento dos ultimos trez annos.

    Artigo 14.^o Se o administrador preferir um systema mixto de venda do
    dominio pleno, de emprazamentos por vastas superficies, e
    d'emprazamentos por superficies restringidas a dez mil braças, o computo
    do fundo alienavel será proporcionado, em harmonia com as disposições
    dos artigos 11.^o, 12.^o e 13.^o.

    Artigo 15.^o Se o administrador do vinculo não usar da faculdade que lhe
    é concedida nos tres artigos antecedentes, uma porção de bens do
    vinculo, computada do modo estatuido no artigo 11.^o, ficará por sua
    morte livre, allodial e exempta de quasquer encargos ou hypothecas que
    pesem sobre o vinculo, por mais especíaes que sejam, regulando-se a
    successão d'esses bens pelo direito commum.

    Artigo 16.^o As medições a que se procederá previamente para se
    verificar o disposto nos artigos 4.^o e 9.^o, dependerão da approvação
    da auctoridade administrativa local, ouvido o delegado ou subdelegado do
    procurador regio.

    Artigo 17.^o As avaliações indispensaveis para se verificar o disposto
    nos artigos 11.^o, 12.^o, 13.^o, 14.^o e 15.^o, serão feitas
    judicialmente, ouvidos os successores dos vinculos, e aquelles que
    tiverem acção sobre os rendimentos dos mesmos vinculos por encargos ou
    por hypothecas.

    Artigo 18.^o Fica revogada toda a legislação em contrario.

    O PAIZ E A NAÇÃO

    (ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL–«o PAIZ»)

    1851

    I

    Por falta de tempo temos deixado de dizer algumas palavras sobre as
    observações fulminantes com que _A Nação_ reduziu a pó impalpavel, o
    nosso artigo sobre as differenças profundas que caracterisavam o
    cartismo de 1832 a 1834, e o pseudo-cartismo de 1842 a 1850.

    O nosso artigo feria o absolutismo se não nas suas tradições mais
    hediondas e atrozes, ao menos nas mais odiosas para o povo, nas suas
    instituições espoliadoras e vexatorias; nas suas rapinas legaes com que
    elle sustentava uma nobreza servil e devassa, uma côrte prostituida, uma
    alcatéa de magistrados venaes, com que mantinha esses tribunaes de
    inquisição, de inconfidencia, de policia, onde se passavam mysterios
    horriveis, com que locupletava essa patriarchal, esses cabidos, essas
    congregações religiosas, onde reinavam dissoluções sem numero e sem
    nome, onde os vicios, alimentados por grossas prebendas, não faziam
    differença dos que reinam nos salões e alcovas da agiotagem, senão em
    serem mais hypocritas, e estarem velados pelo silencio de ferro que a
    censura impunha aos animos generosos e independentes que poderiam
    apontal-os ao paiz. Um gemido ou um murmurio de qualquer d'esses animos
    mais audazes, bastava para sepultar nas masmorras ou repellir para o
    exilio, o revolucionario que ousava apontar para as orgias clericaes,
    para as corrupções cortezãs, para a venalidade dos ministros e
    tribunaes, para a baixeza de uma fidalguia desmoralisada, tão abjecta
    ante a tyrannia, como oppressora e orgulhosa para com o povo. Foram
    víctimas e testemunhas d'esse systema de Baixo-Imperio, d'esse governo
    de eunuchos immoraes, de salteadores legitimos, o padre Vieira,
    Francisco de Lucena, José Anastacio da Cunha, o padre Theodoro de
    Almeida, Phylinto Elysio, e tantos outros homens que a gloria vingou dos
    velhacos corruptos, que reduziram esta nação livre, forte e respeitada
    ha quatrocentos annos, a ser, como era já na segunda decada d'este
    seculo, a fabula e o escarneo das gentes.

    Vós dizeis que _O Paiz_ conta com ser o unico documento da historia
    contemporanea para o futuro. Enganaes-vos. Fizestes de nós um espelho em
    que se reflectia a vossa imagem. Vós é que imaginaes que a historia da
    tyrannia está só escripta nos vossos hymnos insensatos á ignorancia, ao
    obscurantismo, á intendencia da policia, á inquisição e aos
    conventos-prostibulos de sua magestade fidelissima o muito poderoso,
    virtuoso e excellente rei, o senhor D. João V, o benevolo soberano, que,
    ao arrancar-se dos braços de alguma freira de Odivellas, mandava
    arrastar entre linhas de soldados imbelles as populações das provincias,
    para virem trabalhar na grande demencia e ridicularia de pedra e cal
    chamada o convento de Mafra, onde para seu divertimento sua real
    magestade queria metter uma grande manada de frades comilões e
    ignorantes.

    Nós não pensamos que _O Paiz_ seja o unico documento para a historia do
    presente. Mas tambem não crêmos que a historia do absolutismo esteja nas
    _Gazetas_ e _Relações_ de Fr. Francisco Brandão, nem nos _Mercurios_ de
    Sousa de Macedo, nem nas estupendas orações jaculatorias dos fidalgos
    tolos que constituiam a maioria da academia de historia, nem nas gazetas
    de Montarroio e dos seus successores até o divertidissimo Lopes. Estae
    certos de que o presente ou o futuro ha de estudar essas epochas
    saudosas por bem diversos monumentos.

    Houve um frade, membro illustre da ordem monastica mais respeitavel, da
    que só talvez era respeitavel, a benedictina, que escreveu a historia
    secreta e sincera dos reinados de Affonso VI e de Pedro II. Deveis
    conhecel-a porque sois eruditos. Colligi todas as prostituições, todas
    as villanias, todas as ladroeiras, todas as anarchias, todas as
    cobardias, todas as infamias dos ultimos dezoito annos, e comparae-as
    com as descriptas pelo secretario geral da congregação de S. Bento, e
    depois com as dos dous livros horriveis da _catastrophe_ e da
    _anti-catastrophe_, e dizei-nos quantos annos de desordem moral e
    material serão ainda precisos, para formalisar uma conta corrente entre
    a epocha liberal e esse pequeno periodo das eras do absolutismo?

    Sois singularmente esquecidos!

    Dizei-nos uma coisa. Estes homens chamados liberaes, que nos teem
    roubado, mal-governado, ludibriado, traído, quem os viu nascer, quem os
    educou, quem os fez homens publicos? Foi o governo liberal que creou
    essa alcatéa de velhacos e salteadores? É muito moderno para isso. Longe
    de nós citar nomes. Mas se os podessemos citar vêl-os-ieis approvados
    era costumes e sciencia pela vossa velha universidade, despachados pelo
    vosso desembargo do paço, empregados pelos vossos ministros e pela vossa
    regencia nos cargos de administração e fazenda; promovidos aos postos
    militares pela vossa côrte beata; recompensados com distincções
    honorificas e lucrativas pelos vossos virtuosos e pios governos. Que tem
    a geração nova, fervorosa nas suas crenças, ardente nas suas esperanças,
    pundonorosa nos seus sentimentos, com essas fézes que ainda escorrem
    sobre nós, da sentina do absolutismo?

    N'este campo do jornalismo sabeis que differença ha entre nós e vós. É a
    que provém da indole dos respectivos partidos. Nós combatemos com as
    armas francas e leaes da sinceridade: vós com as armas, que crémos não
    tomastes por vossa vontade, mas que eram as unicas que o vosso partido
    vos podia subministrar, e que o deshonram mais a elle do que a vós;
    combateis com as armas atraiçoadas da falta de sinceridade e de
    franqueza. A imprensa independente e liberal accusa os seus homens
    publicos sem disfarce, aponta francamente os defeitos das suas leis,
    reforma as suas opiniões erradas, reprova os proprios actos quando,
    reflectindo melhor, julga que errou; porque o partido dos impios
    reconhece que é composto de homens sujeitos aos erros e paixões. Vós,
    partido devoto e temente a Deus, bateis-vos debaixo dos escapularios,
    dos bentinhos, das camandulas, dos agnus-dei: corações mais fidalgos,
    sentis que estaes e sempre estivestes acima das fragilidades humanas: o
    absolutismo e os seus desembargadores, inquisidores, esbirros e
    carrascos, eram impeccaveis, omniscientes, infalliveis. Se o diabo
    tivesse sido alguma vez capitão-mór, geral dos bernardos, alguazil,
    monsenhor, intendente da policia, declaraveis o diabo um sancto
    benemerito da monarchia.

    Nas vossas instituições, nas vossas leis, nas vossas crenças, ou antes
    nas vossas farças politicas e religiosas, nada ha que deitar fóra, desde
    as sandices das côrtes de Lamego até ás ourinas de côres com que ha
    poucos annos querieis inventar uma sancta de carne e osso, para metter
    pelo chão abaixo os socarrões d'este seculo blasphemo, sancta que os
    malvados maçons, professores e facultativos do hospital de S. José,
    tiveram a insolencia de demonstrar que não passava de um mísero
    instrumento das imposturas do beaterio e dos negociantes e pregoeiros da
    tyrannia.

    Vós negaes-nos o direito de denominar liberrimas as tradições de D.
    Pedro, porque os decretos com que elle libertou a sua patria dos
    comilões e mandriões ao divino e ao profano, que devoravam o fructo do
    suor do povo, que lhe bebiam o sangue por taças de prata, assentados nos
    antros escuros da hypocrisia, reclinados no collo de mulheres perdidas,
    foram promulgados na epocha em que elle exercia a dictadura, em que,
    empenhado n'uma lucta de morte com o despotismo, que se erguia tenebroso
    e desesperado para a ultima e decisiva batalha, fizera o que sempre
    practicaram os chefes dos povos, quer nas monarchias, quer nas
    republicas, em circumstancias analogas; negaes o liberrimo d'essas
    tradições porque D. Pedro concentrava em si todos os poderes? Essa
    negativa vinda de outra parte dava materia á discussão: da vossa é uma
    cousa ridicula. Podeis, estribados nos solidos fundamentos das côrtes de
    Lamego, negar a legitimidade de D. Pedro; mas suppor que, como rei que
    fôra, como representante de sua filha, como seu logar-tenente, como seu
    tutor e protector natural, não podia temporariamente evocar a si uma
    auctoridade, de que, segundo as vossas doutrinas, tinham tido direito de
    usar permanentemente os seus predecessores, é uma d'aquellas finuras da
    logica realista que vós inventastes para divertimento d'esta terra.
    Dizei-nos: d'onde veiu a legitimidade das leis e actos governativos de
    D. João VI, como principe regente, quando ainda não era rei de Portugal
    e sendo viva a legitima soberana, posto que impossibilitada de exercer a
    suprema magistratura? Onde estão as actas dos tres-estados que lhe
    conferiram o poder absoluto de legislador? Onde as actas dos
    tres-estados que deram a um principe, que respeitamos porque é
    desgraçado e proscripto, o direito de usar na abrilada de poderes
    magestaticos, estando o soberano vivo? A necessidade? A salvação
    publica? Então concedei-nos tambem a nós o direito de vermos a
    necessidade e a salvação publica, na dictadura de D. Pedro.

    O liberrimo das tradições do duque de Bragança, não está na origem da
    sua auctoridade; está no espirito e nas tendencias d'esses decretos com
    que a posteridade lhe tecerá a sua corôa de gloria. Está em ter desfeito
    e atirado para a feira da ladra, os instrumentos carunchosos e sebentos,
    com que os phlebotomistas da monarchia absoluta, sugavam a melhor parte
    e a mais pura, da substancia dos que trabalham; está em ter rasgado a
    trapagem de instituições e leis espoliadoras, por cujo restabelecimento
    os velhos sybaritas do partido realista, aquelles que choram pelas
    grossas commendas e grossas prebendas, iam ha annos fazer preces ao céu,
    junto do leito da sua sancta improvisada. O liberrimo dos decretos da
    dictadura de D. Pedro, consiste em serem esses os látegos com que
    sacudimos os vendilhões do templo, e enxotámos das vias publicas os
    salteadores legaes; consiste em serem elles que tornaram impossivel uma
    restauração absolutista; porque o absolutismo, que só se firmava em
    abusos, não teria hoje em que se estribar. Os capitães-móres, os
    dizimos, os frades, as bruxas, as milicias, os quartos, os oitavos, as
    jugadas, a patriarchal, os lobis-homens, as cortes de Lamego, as alçadas
    _ad hoc_, os tractos espertos, a legitimidade dos adulterios
    desembargatorios, foram-se. Foram-se, pobres comilões das commendas e
    prebendas, todas as coisas poeticas e sanctas, cuja irreparavel perda
    deploraes, accesos em sancto amor da monarchia e da religião de nossos
    antepassados.

    Sois imprudentes! Porque falámos na extincção dos tributos foraleiros,
    como de um dos actos capitaes da dictadura de D. Pedro, como de uma
    providencia que por si só faria a gloria de um principe, redarguis-nos
    com a miseria de muitas familias nobres, que ficaram privadas de
    subsistencia pelo decreto de 13 de agosto.

    Quereis um excellente conselho para essas familias nobres? Trabalhem. É
    exactamente o que fazem os homens do povo quando teem fome: é
    exactamente o que Deus ordenava que Adão fizesse, se queria comer, e
    posto que a fidalguia não provenha d'esse primeiro tronco das castas
    populares, aquelle exemplo biblico não é absolutamente para despresar.

    Depois a queixa é mal fundada. A lei de junho de 1846, remediou até onde
    era possivel o escandalo de que vos queixaes. Essa lei perfilhae-a, que
    é conforme no seu pensamento ás vossas aspirações. Escandalo! Tão
    escandalo como seria o de colher a policia um bando de salteadores na
    sua caverna, tirar-lhes a preza já dividida entre elles, e restituil-a
    aos passageiros nús, famélicos, espoliados.

    A historia d'esses tributos, da sua conservação ao lado dos tributos
    geraes do paiz, da sua delapidação, apesar dos protestos solemnes dos
    povos, repetidos por seculos nas assembléas nacionaes, em quanto o
    absolutismo não esmagou as antigas liberdades d'esta terra, é que é um
    d'aquelles escandalos que ás vezes as nações apagam com sangue, quando
    os principes não sabem como D. Pedro, riscal-os com o _traço de penna_
    que amaldiçoaes.

    Quando quizerdes que vos desenhemos aquella negra historia em largos
    traços de penna, far-vol-o-hemos, ajuntando-lhe ao lado um quadro das
    façanhas d'essa nobreza, cuja sorte lamentaes. Estae certos de que a
    sapiencia realista ha de scismar alguns dias, antes de vos tirar das
    aperturas da situação em que viestes collocar-vos. Tendes discutido
    tanto o presente, que é preciso discutir-vos tambem o passado.

    Não quereis que falemos da liberdade da terra, porque não falamos dos
    _bens usurpados á egreja_. A que bens vos referís? Aos das congregações
    religiosas? Dizei-nos: 1.^o, se ellas possuiam esses bens em virtude das
    leis, se por derogações especiaes d'ellas; 2.^o, se o poder temporal
    podia ou não recusar a conservação das corporações monasticas; 3.^o, se
    extinctas ellas, os seus bens, possuidos em contradicção com as leis de
    amortisação, caíam ou não no dominio do estado. Pensae um pouco antes de
    responder. Vêde não estragueis as doutrinas dos bons tempos que já lá
    vão.

    Perdoae-nos: mas quando alludís aos pescadores, argumentaes com todo o
    mimo e garbo da dialectica monsenhora, miliciana e dizimeira. Sois de má
    fé tão exemplar, que merecieis ser feitos abbades de Lobrigos, antes
    d'essa abbadia de trinta mil cruzados ser chamada á muxila por uma das
    nobres familias, cobertas hoje de lucto, por verem os rombos que os
    impios e demagogos fizeram no throno e no altar. Redarguis-nos que
    apezar das liberdades e excepções que D. Pedro concedeu á pesca, os
    pescadores andam a mendigar. Pois não era d'isso que nós nos
    queixavamos? Não era justamente por ter o pseudo-cartismo de 1842 matado
    a liberdade cartista de 1832, que nós bradavamos _aqui d'el-rei_?
    Quereis, porém, saber um facto curioso? Quando os Cabraes, pela lei de
    10 de julho de 1843, restabeleceram os vexames de que D. Pedro libertara
    a pesca, estribaram-se n'uma lei miguelista de 1830. Foi d'esta lei que
    partiram, foi esta lei que invocaram, ligando o absolutismo de 1842 ao
    de 1828, o systema espoliador antigo ao systema espoliador recente.
    Andae, que n'esta parte os Cabraes são vossos primogenitos, e por isso
    não admireis que os pescadores mendiguem: é o mesmo que succedia antes
    da odiosa dictadura de D. Pedro, quando estes iam a Queluz, aos duzentos
    e trezentos, pedir esmola ao snr. D. Miguel.

    Não consentís que folguemos da extincção dos dizimos, porque o clero
    está na miseria e o systema actual de retribuição aos parochos é
    inconveniente. N'este ultimo ponto estamos de acordo. Mas ahi tendes a
    differenca entre a nossa lealdade e a má fé realista. Nós não nos
    envergonhamos de dizer que os liberaes erraram em querer que os parochos
    fossem directamente subsidiados pelos seus parochianos, e que os
    resultados moraes e religiosos de um tal systema são máus; não hesitamos
    em proclamar a reforma, em accusar duramente os governos que não a
    emprehendem. Vós, pelo contrario, quereis remediar o inconveniente com
    um mal maior, só porque os dizimos coexistiram com o absolutismo. Que
    vos importa que nove decimos d'esse tributo absurdo, d'esse tributo
    iniquo porque feria só uma classe, a classe mais digna de contemplação,
    d'esse tributo anti-economico que recahia, não sobre o producto liquido,
    mas sobre o producto bruto, fossem devorados por uma fidalguia safada e
    corrompida, que só sabia arrastar-se e comer; e por bispos opulentos que
    com os dizimos fundavam fartos patrimonios para todos os seus parentes,
    por conegos devassos, por essa comedia ao divino, publica-fórma em
    miniatura da egreja romana, chamada a patriarchal; por conventos de
    frades gordos e ignorantes; por beneficíados _supplices_ e _in quocumque
    statu_, por todos aquelles, e por tudo aquillo, emfim, que mais abusivo
    era, que mais fóra estava do espirito do christianismo? Com que fronte
    ousaes falar da miseria actual dos parochos? Nem ella é como a pintaes,
    nem é toleravel que alludam a ella os defensores dos governos immoraes
    que introduziram tão vergonhosos abusos, que consentiam aos padroeiros,
    aos beneficiados, aos commendadores, aos conegos, que despendessem nos
    banquetes, no luxo, no jogo, nos lupanares, o fructo dos suores do
    lavrador, extorquido impiamente em nome de Deus, em quanto os curas de
    alma só obtinham d'esses poderosos senhores, congruas de fabulosa
    exiguidade.

    Quereis um contracto? Temos meios de verificar quaes são as congruas
    actuaes das diversas parochias do reino: tambem os temos para saber
    quaes eram no tempo do absolutismo. Tomemos uma diocese qualquer, para
    instituirmos a comparação entre uma e outra epocha. Se, na sua maioria,
    as congruas actuaes forem inferiores ás antigas nas parochias
    dizimeiras, tendes vós razão de nos accusardes de causadores da miseria
    do clero curado, pela extincção dos dizimos; se porém se verificar o
    contrario, haveis de acceitar a qualificação de hypocritas, pois
    defendeis as instituições do passado não porque eram melhores, mas
    porque rendiam mais para os agiotas do absolutismo, isto é, para os
    fidalgos, para os commendadores, para os abbades nedios, para os
    beneficiados _in quocumque_. Se nós fomos tão maus para o clero
    aproveitae a nossa proposta. Olhae que é uma limpa veniaga.

    Por ultimo increpaes-nos de que referindo-nos à suppressão do systema
    vicioso das milicias e ordenanças, d'esse Potosi inexgotavel dos
    capitães-móres e coroneis de _tibiquoque_, não nos lembrassemos dos
    soldados, que verteram o sangue e perderam os membros ha quarenta annos
    em defesa da patria, e que morreram de fome. Dirigis n'esta parte uma
    increpação justa, não a nós, que não somos poder, que nunca o fomos, mas
    aos governos posteriores á restauração de 1833. Todavia, que tem isso
    com a extincção das ordenanças e milicias? A vossa dialectica realista
    dá, na verdade, saltos mortaes. A nossa vae mais devagar. Se esses
    soldados esquecidos perderam o sangue e os membros em defesa da patria,
    ha quarenta annos, o esquecimento indigno dos seus serviços divide-se
    por metade: vinte annos com curtos intervallos pertencem ao absolutismo,
    vinte á restauração. Onde estão, absolutistas, registadas as pensões que
    lhes déstes: onde é situado o hospital de invalidos que edificastes? O
    unico que existe devem-no os veteranos portuguezes a uma nobre e sancta
    princeza, á viuva do principe D. José, á _Tia Malhada_, que vós sabeis.
    De edificações vossas não temos noticia, senão da continuação do palacio
    da Ajuda, uma das primeiras necessidades do paiz, das forcas erectas na
    praça nova do Porto e no caes do Sodré, de uns paredões em Carnaxide
    para a egreja da Senhora da Rocha, e das formidaveis fortificações do
    Tejo, com que tornastes Lisboa inconquistavel.

    Talvez vos referis unicamente aos officiaes realistas separados do
    quadro do exercito em 1834. Isto é mais natural, porque vós,
    fidalguinhos, não curaes da soldadesca, peonagem indecente, vil relé
    popular. Nós lamentamos tambem que os serviços d'esses antigos militares
    se menoscabem por causa de odios politicos, que a victoria devia ter
    feito esquecer. Como vós, estamos promptos para reprehender e accusar,
    para deplorar e pedir; para execrar e amaldiçoar estes nossos satrapas
    pseudo-liberaes, que deixam ir de porta em porta os velhos Belisarios de
    Portugal. Mas, realistas, escondei sob as vossas capas de S. Ignacio
    essas mãos tinctas em sangue, derrubae para o rosto o chapéu da
    companhia, não vos descubram esse olhar implacavel! Entre os militares
    que pendurastes das forcas; entre aquelles com que atulhastes as cadéas
    e as masmorras das fortalezas, com que povoastes as praias do desterro e
    os presidios de Africa, não havia nenhuns d'esses que verteram o sangue
    em defeza da patria commum? Por que, durante cinco annos, mansos
    cordeiros do evangelho, rosicléres ambulantes de veronicas e relicarios,
    não vos veiu ao espirito um unico pensamento de perdão e de piedade?
    Dizei-nos o que terieis feito de todos esses militares, se a providencia
    tivesse deixado protrair-se até agora o vosso reinado? Eram para vós
    inimigos politicos? É exactamente o que foram para nós os vossos
    officiaes. Maldicto o liberal que ainda conserva rancores para os
    vencidos: maldicto o governo que não lhes paga a divida da patria. Mas
    que a justiça divina cáia tambem sobre aquelles que derramaram nos
    patibulos o sangue dos valentes que já o tinham derramado por esta
    terra; ou lhes fizeram verter durante cinco annos o suor da agonia sobre
    as lageas dos calabouços, ou os tornaram errantes por praias estranhas,
    onde lhes branquearam os cabellos as saudades da sua terra, onde teriam
    acabado a vida, proscriptos e miseraveis, se o braço da Providencia e o
    genio do duque de Bragança não os houveram salvado.

    Collegas, deixae-vos d'estas questões de que não entendeis nada. Ide lêr
    a vida do padre Anchieta, que decididamente é o sancto que fez mais
    milagres n'este mundo, ou se preferis occupar-vos em outra obra pia, ide
    ajudar os cabralistas a vender a bulla da sancta-cruzada, que elles
    compraram a prazos, ao vosso virtuoso amigo o cardeal Antonelli. Será
    uma vergonha que não haja dinheiro para o pagamento, quando elle sacar
    letras sobre o escriptorio da salvação de Portugal.

    II

    Na viva discussão entre Proudhon e Bastiat, sobre o credito e a
    legitimidade dos juros, este ultimo dizia ao seu irritado adversario na
    carta com que terminou a discussão: «_Todos os gremios religiosos se
    parecem uns com os outros: quando não teem razão, agoniam-se._» É o caso
    da redacção da _Nação_ comnosco.

    O nosso artigo foi provocado. Não tinhamos atacado o jornal realista.
    Apreciaramos n'um artigo nosso o espirito das reformas de D. Pedro
    comparando-o com o espirito que caracterisou a reacção de 1842. Era uma
    questão estranha ao partido realista. Na verdade alludimos então
    accidentalmente ao absolutismo; mas imaginavamos que a _Nação_,
    reservando para o seu partido a nacionalidade, considerava o
    absolutismo, cujo predominio no paiz, durante certos periodos da nossa
    historia, é incontestavel, como uma aberração, um abuso da constituição
    primitiva do paiz, constituição assaz livre, posto que não tão
    democratica como o indicariam algumas provisões d'essas côrtes, a que a
    _Nação_ foi buscar duas linhas para lenda da sua bandeira, se táes
    côrtes houveram existido. Imaginavamos que a _Nação_ comprehendia nos
    seus affectos esses seculos de nobre recordação, em que este cantinho do
    mundo se governava com garantias e liberdades singulares para o povo; em
    que o feudalismo não transpunha as nossas fronteiras, em quanto, a bem
    dizer, toda a Europa gemia debaixo do seu jugo de ferro. Imaginavamos
    que a _Nação_ se recordava das nossas admiraveis cartas de
    municipalidade, dos nossos parlamentos, d'essas duas heranças de
    liberdade romana e de liberdade germanica, que nossos avós haviam
    salvado atravez da edade media. Enganava-mo-nos. A _Nação_ regeita tudo
    isso: a _Nação_ cifra todo o passado nos seculos mais recentes. Da
    comedia monastica das côrtes de Lamego salta á comedia real das côrtes
    de 1641. Para ella a velha monarchia não é a dos primeiros Affonsos, de
    D. Diniz, de Affonso IV, de D. Fernando, de João I ou de Affonso V: é o
    absolutismo, comparativamente moderno, na sua forma pura, exclusiva. Só
    depois vimos isto; só depois vimos que os tempos anteriores ao
    estabelecimento do poder real sem limites, estavam tanto fóra da
    communhão realista, eram tão hereticos para a sua monarchia orthodoxa,
    como estes tempos liberaes, que, em nossa profunda ignorancia,
    suppunhamos estribarem a sua legitimidade historica nas tradições
    primitivas. Sem o saber tinhamos blasphemado do credo realista: do
    sancto, do legitimo, do divino absolutismo. Mas a ignorancia do credo de
    uma egreja alheia, não devia concitar o anathema contra o ignorante. A
    _Nação_ devia ter advertido com caridade a nossa rudeza, conforme manda
    o evangelho. Era uma obra de misericordia. Em logar d'isso fustigou-nos
    duramente. Foi um proceder ferino.

    Irritamo-nos tambem. Poderiamos discutir com a _Nação_ sobre as formulas
    da liberdade. Talvez muitas d'aquellas com que a monarchia cresceu e
    vigorou fossem, accommodadas á civilisação de hoje, preferiveis ás
    actuaes: era uma questão de doutrina disputavel. Acceitar como base de
    controversia a negação completa da liberdade humana, o predominio de um
    homem sobre a humanidade, a sciencia certa e o poder absoluto
    individual, como fundamento do direito; eis o que a consciencia, a
    dignidade do homem, o seu espirito immortal, não consente á
    intelligencia que dispute com placidez. O absolutismo como theoria
    politica é a nossos olhos um insulto feito a Deus e ao genero humano.
    Isto é, para nós, uma verdade de consciencia. Seguimos o impulso da
    indignação; porque só a indignação póde corresponder a essa theoria a um
    tempo immoral e feroz. N'um artigo de jornal, escripto a correr, talvez
    haja uma ou outra phrase mais ou menos inconveniente: retiramol-a. Mas
    as idéas, nem uma, por mais violenta que os nossos adversarios a
    supponham; porque a verdade não se retira diante da apotheose da
    corrupção e da tyrannia.

    No meio, porém, da cólera não esquecemos a cortezia de jornalistas.
    Evitámos tudo que fosse pessoal aos redactores da _Nação_; lançamos até
    á conta do seu partido a deslealdade da sua argumentação. E não
    respeitámos só os redactores; procurámos não ferir individualmente
    ninguem. Nas increpações a um partido a responsabilidade que se lança
    sobre elle reparte-se em tantas quotas, que o valor de cada uma é
    inapreciavel. A _Nação_ dirigiu-se ao individuo, aproximou escriptos
    cujo tom, cujo caracter era diverso, e que, a haverem sido similhantes,
    ella se teria prostituido discutindo alguns e elogiando-os em parte.
    Falou no _Raio_ e no _Rabecão_, n'esses papeis abjectos, que insultavam
    os individuos e penetravam na vida particular; n'esses papeis que
    apparecem em toda a parte em que reina a liberdade de imprensa, a
    liberdade da idéa e da palavra; n'esses papeis que não provam outra
    cousa senão uma verdade sediça, senão que se abusa ás vezes das coisas
    mais legitimas e uteis. Era, porém, ao orgão do absolutismo que tocava
    fazer allusões d'estas? De que epocha são o _Mastigoforo_, o _Cacete_, a
    _Besta-Esfolada_, e centenares de publicações analogas? Eram essas
    publicações hediondas como aquellas que alludis, especulações torpes de
    alguns miseraveis que exploravam o escandalo para viver? Não. Eram
    composições de homens que vós elevaveis ao episcopado; eram obra de
    sacerdotes, que iam consagrar a hostia ao cordeiro, e prégar o evangelho
    (sabe Deus o que elles prégavam) com os labios escorrendo em fel, com as
    mãos immundas de tincta que elles sabiam se havia de converter em
    sangue. E era isso um abuso da liberdade de escrever, que vós tão
    largamente aproveitaes, embora seja invenção diabolica dos
    liberdadeiros? Não. A censura, a auctoridade, o poder publico,
    inexoravel, frio, grave, calculado, lá estava. Esses sacerdotes iam com
    os seus libellos subir as escadas do desembargo do paço, onde se
    enfileiravam as solemnes cabelleiras dos bons tempos, ou bater á cella
    onde curtia os periodos do Larraga, o sabio de então, o frade ou o monge
    pedante. E o desembargador, ou o frade, ou o monge liam pausadamente o
    libello, e a injuria torpe, calumniosa, pessoal, sanguinolenta, descia
    para os prélos legitimada pelo tribunal, sanctificada pelo convento,
    irreplicavel, fulminante; porque o magistrado e o frade lá tinham nas
    mãos o açamo para impedir a retaliação, para obstar ao gemido da
    victima. Liberdadeiros detestaveis, que fizestes libertando a palavra e
    o pensamento? Para vossa vergonha eterna ahi tendes o _Rabecão_ e o
    _Raio_.

    Nós chamámos as coisas pelo seu nome: chamámos prostituição á
    prostituição; mas remontámos os seculos; buscámos nas gerações,
    extinctas ha muito, os nossos exemplos. Sabeis, e se não sabeis
    perguntae-o em segredo aos vossos compartidarios, que não precisavamos
    de remontar muitas decadas, ou andar muitas leguas, para irmos encontrar
    debaixo dos freixos de um parque, espalhadas no chão, as folhas avulsas
    do capitulo 26 do livro XI dos Annaes de Tacito. Vós accometteis os
    vivos, insultaes quem não se póde defender, porque só o faria
    envilecendo-se, cuspis nas faces de uma mulher, vilipendiaes a
    sanctidade da fraqueza, quando nós vos davamos o exemplo do respeito
    pela sanctidade da proscripção e da desgraça. Cavalleiros portuguezes
    antigos, erguei-vos das vossas camilhas de pedra; vinde contemplar as
    gentis façanhas dos defensores do passado!

    Que a _Nação_ prosiga em vinte columnas com que nos ameaça, refutar as
    nossas seis columnas cuja extensão a espantaram. Esperamol-a. Depois
    nós. Veremos se saindo dos accidentes vem aos factos: se acceita a luva
    que lhe atirámos. Se nos prova a justiça, a conveniencia, a moralidade
    das prestações foraleiras, dos dizimos, da soltura clerical e monastica,
    dos gravames sobre a pesca; emfim, de todas essas vergonhas de que D.
    Pedro nos libertou, pelo que a sua memoria nos é cara.

    III

    Os sete seculos

    Agora nós.

    Defensores do absolutismo, vós escrevestes um livro a proposito de um
    artigo do _Paiz_, que tinheis provocado, e atulhastes com elle não
    sabemos quantas columnas do vosso jornal. É que esse artigo vos feriu
    profundamente. As nossas ignorancias, as nossas falsidades, as nossas
    faltas de logica e de estylo, as nossas loucuras, o nosso orgulho
    insensato, todas as miserias do espirito humano, epilogadas em nós, que
    deveriam despertar a compaixão d'essas almas catholicas e pias,
    fizeram-vos proromper em rugidos de uma cólera essencialmente heretica,
    pagã, selvagem. Atirastes-nos com os thuribulos, com as galhetas, com os
    flabellos, com os tocheiros, com as sacras, com os missaletes.
    Apinhastes-vos á porta da sacristia a gritar, a vociferar, a quererdes
    saltar uns por cima dos outros. Os remoques, os vituperios, as
    maldições, as pragas choveram por dias sobre nós, que de braços cruzados
    e com as lagrimas nos olhos, contemplavamos compungidos a vossa
    resignação christã.

    Defensores do absolutismo, isso não é bonito! Tanto fogo, tantas
    descargas cerradas sem ordem nem disciplina, não prestam para nada. Uma
    carga de bayoneta vale mais que tudo isso. Granadeiros do Mindello,
    conforme nos chamaes, sabemos como o simples reluzir das bayonetas era
    efficaz comvosco. Ficastes sempre um pouco milicianos. Gastaes muita
    polvora; mas atrapalhaes-vos demasiado ao desfechar, e as balas zumbem
    apenas por cima da cabeça dos inimigos.

    Caricatura de Eumenide, a _Nação_, ahi estava ha uns poucos de annos a
    descompor, não a podridão de vicios e de corrupções, com que o
    despotismo de tres seculos envenenou a seiva da sociedade; não a herança
    de envilecimento que o habito de tremer diante dos frades inquisidores,
    ou dos cabelleiras da inconfidencia e da intendencia, severos e puros
    como os accusadores da filha de Helcias, legara aos que vieram antes de
    nós, e estes á geração que vae acabando; não a abjecção aprendida nas
    ante-salas da nobreza, do alto clero, dos magistrados venaes, dos
    cortezãos que mercadejavam nas mercês regias, mas sim a liberdade, a
    civilisação, o progresso, que são leis de Deus, reveladas nas aspirações
    de todos os homens, nos caracteres dos seculos, no desenvolvimento
    invencivel do espirito humano; a liberdade, a civilisação e o progresso,
    que se conteem no Evangelho de Christo e não no Evangelho dos Phariseus,
    e que hão-de ir lentamente desbaratando esse _caput mortuum_ de
    depravações e baixezas, que os despotas passavam de mão em mão para
    dominarem pela desmoralisação e pelo terror. Eumenide de roca á cinta, a
    _Nação_ ahi estava aguentando nas costas gibosas, a canastra cheia de
    parches fetidos com que a hypocrisia da côrte, dos tribunaes, das
    sacristias, cobria as chagas purulentas do corpo social, flagellado,
    rasgado, exhaurido de forças pelos vampiros defensores do throno e do
    altar: ella ahi estava resmoninhando improperios contra a dignidade e os
    fóros do homem, e apregoando a panacea para todos os males, na immunda
    trapagem da canastra absolutista. Não lhe diziamos nada: não lh'o
    diriamos talvez nunca. Tentou-a porém o peccado um dia, para vir lançar
    á nossa porta o seu ridiculo pregão. Fez-nos asco a mumia ambulante, e
    com o bico da bota atirámos-lhe a canastra ao ar. Os parches
    espalharam-se no chão, e quem passava tapou o nariz e os olhos; era um
    espectaculo hediondo e repugnante. A velha ficou embaçada, absorta na
    dôr e na colera. Depois tornou a si, arrancou mãos cheias de cabellos
    desgrenhados: careteou, rugiu, babou-se: e, Messalina desdentada e
    tonta, fincando os punhos engelhados nos quadris angulosos, epilogou em
    si a Ribeira-Nova e blasphemou, blasphemou, blasphemou quatro dias.

    Grita, Eumenide de farça; grita, que te ouçam todos! Tens razão, pobre
    velha, a bota impia estragou-te a mercadoria. Apanha essas rodilhas
    esfarrapadas das commendas e prebendas, e concerta outra vez a canastra.
    Vitupera esta raça maldicta dos liberdadeiros, que não querem sentir os
    ossos a estalar no potro, ou vêl-os queimar nas fogueiras da
    sancta-inquisição; que não querem que os desembargadores durmam
    impunemente no thalamo nupcial, o somno do adulterio em nome do livro
    5.^o; que não querem dar cem mil cruzados a cada successor dos descalços
    apostolos, para fundarem morgados á parentella, nem grossas prebendas
    aos monsenhores, conegos e beneficiados _in quocumque_, para atulharem
    de legitimações os livros da chancellaria, e fazerem apparecer uma
    edição annual do _Cosinheiro Moderno_. Apanha a canastra e os fedorentos
    emplastros, e continua a apregoar os teus _recipes_, sacudindo de vez em
    quando esse latego imaginario com que, na tua tonteira, pensas castigar
    a civilisação, por ter enterrado a sentina do absolutismo nas ruinas das
    taipas e páus podres de que era construida.

    Vinde cá, defensores do absolutismo, quem vos deu o direito de falardes
    d'esta nobre terra de Portugal nos tempos em que era livre? Em Portugal
    o despotismo é que é moderno, e a liberdade antiga. Cerrae de todo os
    olhos, vós os que amaes curvar-vos ante um senhor dos vossos bens e das
    vossas cabeças. Não vos deslumbre o brilho dos quatro primeiros seculos
    da monarchia! As gerações d'essas eras sacrosanctas não vos pertencem;
    são as dos nossos antepassados: os vossos acham-se nas que viveram de
    joelhos á porta da inquisição, do palacio-monstro de D. Manuel e do
    convento absurdo de Mafra.

    Defensores do absolutismo! A historia dos tempos das commendas e
    prebendas por que vós choraes, começa n'uma usurpação e acaba n'outra: a
    primeira a da liberdade do povo, a segunda a do throno legitimo. Entre
    estes dous horisontes, cerrados e negros, está contida apenas a longa
    decadencia, a lenta agonia de uma nação pequena pelo numero, mas grande
    pelo esforço, grande sobretudo pela sua actividade agricola, commercial
    e maritima; grande pela politica dos seus principes populares; grande
    por um energico e tenaz amor dos seus fóros; grande pela sabedoria
    comparativa das suas instituições e leis, no meio do atrazo politico da
    Europa; grande, não pelas virtudes das classes privilegiadas, mas sim
    pelas dos villãos, pelas de nossos avós; grande pela alliança estreita
    entre a monarchia e a democracia, contra as oligarchias que nascem da
    indestructivel desegualdade humana e que, segundo os tempos, se chamam
    patriciado, fidalguia, agiotagem, e cuja manifestação suprema se exprime
    constantemente por duas palavras unicas: violencia e rapina.

    Defensores do absolutismo e da legitimidade! Os actos politicos dos
    tempos que vos pertencem e que vós defendeis, constituem apenas uma
    serie de illegitimidades: mais do que isso, uma serie de attentados
    commettidos contra o povo, pelos principes pervertidos, por uma
    fidalguia que, tão orgulhosa d'antes, se declarara vencida ao ver rolar
    algumas cabeças sob o cutello do algoz, e que achára em fim ser mais
    commodo servir, enganar, e comer, comer muito; pervertidos pelos
    jurisconsultos que tinham ido beber nas escholas estrangeiras as
    doutrinas de direito publico dos tyrannos de Roma, como vós nos accusaes
    de termos ido beber as ideas de liberdade, que estão escriptas no
    coração do homem, nos livros dos impios d'este e do precedente seculo.

    Defensores do absolutismo e do direito divino! Em que dia desceu este do
    céu sobre a cabeça d'el-rei D. Manuel, para ordenar aos seus escribas
    que rasgassem centenares de pactos constitucionaes, onde estavam
    escriptos os fóros e liberdades d'esta terra; centenares de pactos
    municipaes, onde estavam consignadas as liberdades e garantias das
    cidades e villas do reino? Em que dia desceu o direito divino a
    sanctificar a conversão em simples leis fiscaes, dos codigos em que se
    continham as immunidades e franquias populares, cujo espirito sempre, e
    cuja lettra muitas vezes provam, que esses codigos eram rigorosos
    contractos politicos, livremente offerecidos e acceitos? A reforma que
    os povos pediam á corôa era acaso a morte das suas liberdades, ou era a
    cessação dos abusos que a nobreza, a magistratura real e o clero tinham
    introduzido, pouco a pouco, em contravenção com o direito publico
    municipal, base do direito politico do paiz? Respondei.

    Respondei, defensores do absolutismo! Que eram os nossos parlamentos até
    1480, senão as assembléas onde o povo protestava sempre, ameaçava não
    raro, e castigava algumas vezes cerrando as bolças, as quebras do que,
    na linguagem imperfeita d'aquellas eras, chamava seus privilegios, e que
    nós hoje chamamos direitos e garantias politicas? Que eram esses
    parlamentos (concedei-nos o uso d'esta palavra liberdadeira e
    revolucionaria, de que já usavam nossos avós, os malhados do seculo XV)
    senão uma aferição solemne entre os actos do governo, o exercicio do
    poder real, por si ou por seus delegados, e as regras do direito
    constitucional com que crescera e vigorava o paiz?

    Respondei, se o sabeis, e se o não sabeis ide estudal-o em documentos um
    pouco mais graves e authenticos, do que esse rol de tolices bernardas a
    que chamaes côrtes de Lamego. Elles estão patentes para vós como para
    nós. Mentistes quando dissestes que fizeramos monopolio d'esses titulos
    da legitima e verdadeira gloria d'esta nação, que se constituiu e
    cresceu á sombra da liberdade, porque só assim as nações se constituem e
    crescem. Mentistes para encobrir a vossa incapacidade e preguiça. Para
    os buscar, estudal-os e comprehendel-os, é necessario o sacrificio do
    tempo, dos prazeres, da saude, dos interesses materiaes; é necessaria a
    abnegação da existencia exterior, no que ella tem mais grato, para
    viver, anno após anno, de uma vida interior que nos devora, de uma idéa
    que nos illumina. É esta idéa que vos foge, que não cabe no vosso
    espirito, enlevado na visão beatifica e longinqua das commendas e das
    prebendas, apoquentado pela saudosa imagem d'aquelles pescoços anafados,
    roliços, torneados em roscas atoucinhadas, dos bons tempos patriarchaes,
    canonicaes e monachaes. Esses tempos, essas saudades, essa religião da
    gula, do luxo, dos vicios hypocritas; essa contemplação continua da
    corrupção absolutista, é que não vos deixa erguer os olhos para os
    pulverulentos archivos do reino, cujo exame nos lançaes em rosto como se
    fôra um crime! Não! Vós não podeis vêr os pergaminhos cobertos de pó.
    Esse pó que repousa sobre elles, vôa para os ares quando se lhes toca: o
    lodo do charco em que tendes os olhos fitos é que nunca se alevanta da
    terra, e as vossas palpebras de servos estão atrophiadas; os vossos
    olhos esqueceram o movimento com que os dos homens livres olham para o
    que está elevado, para o ar e para o céu.

    É por isso que quando a verdade inexoravel vem esmagar os embustes em
    que estribaes a tyrannia, achaes mais simples negar essa verdade, e
    accusar de falsificadora a mão que a atira ás faces sem pudor do
    absolutismo. O homem de bem quando diz a outro homem–falsificaste,
    inventaste, deturpaste, sumiste os documentos de um, ou de muitos
    factos,–traz sempre na mão as provas de uma accusação, que importa um
    crime perante as leis moraes e perante as leis civis. Sem isso a injuria
    não deshonra o accusado, deshonra o accusador. Discipulos do denunciante
    do illustre Damião de Goes; discipulos do padre Simão Rodrigues; beatos
    filhos de Sancto Ignacio, bem se vê que respeitaes as tradições da vossa
    ordem, e que estudaes a moral pelos livros dos Busembaus, dos Lessios,
    dos Tamburinis, os quaes vos aconselham, que _se quiserdes deitar a
    perder qualquer pessoa, convém que comeceis por espalhar calumnias para
    a difamar, porque, acreditando-se mais facilmente o mal que o bem,
    sereis cridos, com o que o calumniado perderá a força que lhe dá a boa
    reputação, e sereis vingados_. O que é ter no bahú a roupeta, á
    cabeceira as camandulas, e haver estudado por bons livros! E que demonio
    podieis vós fazer senão calumniar sanctamente, em quanto não deixamos o
    nosso _monopolio_, e não se faculta o uso dos archivos á vossa sede de
    instrucção, ao vosso amor da verdade, ao vosso extremado afferro pelas
    instituições primitivas?

    Defensores do absolutismo, como assim? Engrifaes-vos para defender
    contra os salteadores do Mindello a _vossa propriedade_, as prestações
    foraleiras, os dizimos, os benesses das capitanias-móres, e metteis ao
    mesmo tempo no peitilho da roupeta, os sete seculos da monarchia? Isso
    não vale: isso não é para mãos bentas. Largae quatro seculos que não são
    vossos: guardae os tres que vos pertencem. Antes d'elles, não cançaremos
    de vol-o repetir, o povo portuguez era livre, não n'um latinorio piegas
    de frade bernardo, mas na realidade dos factos, e pelo mechanismo da
    sociedade politica.

    Essa liberdade não se consubstanciava inteira na existencia das grandes
    assembléas nacionaes. Pelo contrario, as côrtes eram a sua manifestação
    mais incompleta. Ahi o povo, a villanagem, que vós sabeis, nobres
    senhores, empregava, ainda ameaçando e reprehendendo, formulas cortezes
    para com o monarcha, analogas, até em phrases, ás que emprega a
    villanagem ingleza de hoje para com os seus reis. No que era novo, nas
    medidas administrativas, ou nas leis civis que a civilisação mostrava
    uteis ou justas, o povo limitava-se a discutir a sua conveniencia; mas
    no que feria o pacto fundamental das cidades e villas, ou aquella parte
    do direito consuetudinario, homologado conjunctamente com a carta
    municipal, e que representava direitos politicos, oppunha-se tenazmente
    á innovacão. A monarchia n'esse caso curvava a cabeça e reconhecia a
    sanctidade dos principios. Nunca um rei de Portugal livre ousou dizer
    aos seus concelhos: «quebrei as vossas immunidades, os vossos fóros,
    porque assim aprouve á minha sciencia certa, poder real e absoluto.»
    Quando as accusacões dos povos apontam a offensa das garantias, a
    reparação, ou a promessa solemne d'ella não falha, porventura, uma só
    vez, nas actas das côrtes dos antigos tempos.

    Assim a liberdade popular estribava-se não tanto nos parlamentos como
    nos foraes, e a garantia dos principios contidos n'estes, era a
    estructura robusta dos corpos municipaes. Os concelhos eram a
    organisação da democracia contra os poderosos, que só entravam n'esses
    gremios politicos por concessões raras, condicionaes, difficeis de
    obter, sobretudo nos tempos primitivos. Essa organisação dava os meios
    de repellir as violencias dos tyrannetes privilegiados: dava uma
    terrivel solemnidade aos aggravamentos dos povos. Os cavalleiros
    villãos, os bésteiros municipaes, a peonagem armada lá tinham o ferro
    para o desaggravo, se o rei não cumpria o seu dever. A força estava
    atraz da doutrina; porque a força e só ella mantem solidamente o
    direito. É um axioma que vós acceitaes largamente. E senão, pedi aos
    vossos amigos de Roma, da Austria, da Prussia, da Russia e da Turquia,
    que mandem para casa os seus milhões de soldados, e nós vos daremos em
    breve, novas da boa-saude do direito divino.

    Que fez a monarchia do seculo XVI e dos que se lhe seguiram, dos nossos
    velhos concelhos? Entregou-os amarrados aos fidalgos, aos padres e aos
    agentes do poder real. Substituiu gradualmente um exercito permanente á
    democracia armada, a essa democracia que tão leal fôra aos antigos reis,
    que os tinha ajudado a conterem nos limites do seu direito os dignos
    barões, avós de vossas excellencias reverendissimas. D. Manuel, que
    subiu ao throno, cuspindo nas nodoas de sangue de seus irmãos
    assassinados, enlevado dos descobrimentos e conquistas feitas pelos
    corações generosos, pelos homens ousados que os ultimos dias de
    liberdade legaram aos primeiros de tyrannia, acabou a obra do seu
    antecessor. Os foraes em vez de se cunharem de novo com os seus
    primitivos caracteres politicos, ficaram desde a sua reforma lettra
    morta para as franquias do povo, lettra morta como padrões
    constitucionaes, e só viva e bem viva para as extorsões do fisco.
    Algumas formulas externas que restavam nos costumes apagaram-se pouco a
    pouco; mas o espirito de liberdade morreu e o absolutismo assentou-se
    tranquillamente sobre o paiz.

    Até ao seculo XV, posto que já a indole politica da sociedade começasse
    a alterar-se, porque os desembargadores caminharam de longe e de vagar
    para não serem sentidos, os procuradores de côrtes tinham uma
    significação, um valor politico; atraz d'elles e do seu mandado estava
    um grupo social, a democracia, formado de muitos grupos, os concelhos.
    Desde que estes se compozeram de _clero, nobreza e povo_, desde que as
    classes se confundiram politicamente, a liberdade popular morreu. Os
    concelhos não foram mais d'ahi ávante, do que um instrumento de governo
    e uma divisão territorial e administrativa. Cessou entre nós o direito
    politico do povo, e reinou despeado o absolutismo. Que são todas essas
    côrtes posteriores senão um simulacro, ou antes um escarneo dos nossos
    antigos parlamentos? Esses procuradores do _povo_, eleitos pelo _clero_,
    _nobreza_ e _povo_, senão uns titeres com que os oppressores se
    divertiam á custa da democracia? Desde o seculo XVI Portugal teve factos
    politicos mais ou menos tyrannicos, mais ou menos vergonhosos, mais ou
    menos abusivos; mas o direito constitucional onde estava elle? Onde
    estavam os pactos sociaes que Fernão de Pina trocára por outros,
    _reformados_ exclusivamente com os olhos no céo e nas amplas barrigas
    dos alcaides-móres, dos donatarios da corôa, dos dignissimos avós de
    vossas excellencias e reverencias? Estavam esquecidos no fundo dos
    archivos do reino, onde ainda estão hoje para vossa vergonha eterna,
    raça de escravos, que succedestes n'esta nobre terra a uma raça gigante
    de homens livres; estavam onde ainda existem hoje, onde os podeis lêr e
    polluir com essas mãos servas, mentirosos insignes, porque as portas
    estão abertas para examinardes a infidelidade com que os citamos, as
    entrelinhas que n'elles escrevemos, as raspaduras com que os viciamos.
    Ide, miseraveis, punir-nos!

    Respondei, illustres Pegas _ad ordinationem_, donde veiu aos reis de
    Portugal o direito de rescindir contractos politicos solemnes? Os
    monarchas portuguezes da edade media reconheceram estarem limitados os
    deveres dos povos e os proprios direitos, por essas cartas
    constitucionaes, que reunidas eram o complexo do direito publico do
    paiz, e que tinham em si proprias as garantias da realidade: os seus
    successores proclamaram o principio contrario e derivaram d'ahi a
    manifestação do poder publico. Como agrupaes vós estas duas idéas que se
    excluem, que se negam? Como unis a morte á vida? Como ousaes dizer:
    _pertencem-nos sete seculos_? A vós? dementes! O primeiro monumento
    grave da vossa historia, o primeiro resultado practico das vossas
    adoradas doutrinas é a inquisição. A inquisição não foi filha da
    perversidade da curia romana, que tem sobejos crimes para que não se lhe
    attribuam os alheios. A inquisição foi um calculo frio e feroz do
    absolutismo de D. João III (este é vosso: guardae-o) que estava pobre
    pela sua falta de juizo e pelas vaidades paternas. Quiz queimar os
    judeus para os roubar, e pediu lume a Roma, que lh'o recusou largo
    tempo, porque não ignorava para que elle o pedia. Quando quizerdes as
    provas d'isso, fallae; já se sabe, entrelinhadas, supprimidas,
    respançadas, viciadas segundo o velho costume de que nos accusaes com as
    provas na mão, como bons e verdadeiros jesuitas.

    Absolutistas, vós acceitaes a solidariedade do passado: posto que não
    possaes reclamar senão a do que vos pertence. Falamos por isso comvosco,
    não para apontar uma ou outra mancha no vosso predominio, como vós
    modestamente imaginaes, mas para vos dizer o que elle foi na sua
    essencia. Começastes, insultando o evangelho, por queimar aquelles que
    não adoravam Deus á vossa guiza, e terminastes, matando ás machadadas
    prisioneiros inermes, diante dos quaes, armados, tantas vezes tinheis
    fugido. Na vossa historia o espectro da tyrannia esconde a fronte no
    fumo da carne humana, assada para o sancto rei D. João III ter dinheiro,
    e firma os pés nas poças de sangue, sobre os ossos triturados e as
    carnes esmagadas pelos machados dos bravos que tão valentemente fugiam
    das nossas bayonetas. Mas o vosso pedestal e a vossa corôa são
    comparativamente dous dixes infantis. O crime imperdoavel, sem nome,
    pelo qual a posteridade vos ha de escrever a maldição sobre a campa, é o
    terdes vivido abraçados durante tres seculos com esse espectro da
    tyrannia. É o terdes arrastado aos pés dos cortezãos, dos conegos de Gil
    Vicente, dos Pegas, dos bobos regios, dos frades gordos, luxuriosos e
    hypocritas, de que nos fala o viso-rei D. João de Castro na sua
    correspondencia inedita, (viciada por nós, já se sabe), as velhas
    liberdades do paiz, as liberdades do povo, que querieis espoliar sem que
    vos resistisse, concedendo-lhe apenas, se estaveis de pachorra para dar
    gargalhadas, o direito dos gemidos.

    Quando o vosso idolo vos fugiu das mãos, quando a espoliação,
    regio-fidalga, clerical e desembargatoria passou para mãos castelhanas,
    que vos tractaram como vós tinheis tractado o povo durante oitenta
    annos, veiu-vos, excellentissimos e reverendissimos senhores, um accesso
    momentaneo de febre liberdadeira. Incumbistes então um frade ignorante
    de vos redigir um codigo imaginario, em que todas as instituiçães
    sociaes da edade media estão desmentidas, e em que até o regicidio é
    elevado á altura de principio politico. Porque fizestes isto? Porque
    entre vós e as epochas de liberdade havia um abysmo insondavel; porque o
    seculo que precedêra se divorciava da antiga monarchia, em que os povos
    não precisavam do regicidio para defender os seus fóros, de que só foram
    privados por uma serie de traições cobardes e indignas.

    Na verdade depois de sacudido o jugo estranho representastes uma farça
    parlamentar, e depois outras farças analogas. Sempre gostastes de
    galhofa, como succede a todos os mandriões, que comem bem e dormem
    commodamente á custa do suor alheio. Vieram á folia politica os
    procuradores do _povo_, eleitos tambem pelo _clero_ e _nobreza_ das
    cidades e villas: vieram ahi os padres e os fidalgos. Apraziam-vos estes
    espectaculos em que o povo fazia o papel de urso. Que importa que no
    preambulo das côrtes de 1641, se escrevesse a doutrina da soberania
    nacional sobre os proprios reis. Era o horror da tyrannia, que tambem
    vos fizera experimentar como morde, quem vos arrancava esta concessão
    theorica, reproduzida por Velasco de Gouvêa, no livro com que a vossa
    recondita erudição nos assassina? Perguntae-o aos vossos cabelleiras do
    absolutismo. Essa doutrina foi declarada depois _illusiva_, _ob_ e
    _subrepticia_, _atroz_ e _sacrilega_, introduzida n'essas côrtes e no
    livro de Velasco, pelo _synedrio monarchomaco_ dos jesuitas; porque é de
    advertir que o jesuitismo e o absolutismo andaram sempre ás unhadas,
    emquanto os Franzonis e os Autonellis não os jungiram com a mesma soga,
    para trabalharem na vinha do Senhor com a benção cardinalicia.

    Entre parenthesis. Os jurisconsultos de ha cem annos pareciam-se
    convosco, doutores da _Nação_. É a mesma logica. Regeitavam as idéas
    jesuiticas sobre o direito dos subditos para deporem os reis, e
    acceitavam as côrtes de Lamego, o codigo do frade bernardo, onde se
    proclama o regicidio. O absolutismo tem ao menos uma gloria: é a de
    verificar em si um milagre: o de ser ao mesmo tempo profundamente atroz
    e soberanamente ridiculo.

    Vamos, sabichões! Que é o que vale? São as doutrinas do synedrio
    monarchomaco de Velasco e do frade regicida, ou é o direito divino?
    Podemos esganar de vez em quando o nosso reizito, se reconhecer
    supremacia estranha; depôl-o, se não nos andar a geito, ou pelo
    contrario é inviolavel a legitimidade da monarchia?

    E dizeis vós que haveis de morrer no vosso posto! Qual posto, nem qual
    morte, nem qual carapuça? Quem ha-de agora matar meia duzia de patetas,
    que parecem mandados de proposito pela Providencia para divertimento
    d'esta terra, no meio das mágoas e afllicções que lhe causa o
    cabralismo?

    Sabeis o que são, alem de farças, as vossas côrtes de 1641, e as outras
    côrtes do absolutismo? São um monte de inepcias em direito politico.
    Depois de proclamarem a soberania nacional por ordem dos jesuitas, os
    absolutistas de 1641 estabeleciam que o testamento de um rei era uma
    constituição, d'onde derivava a legitimidade de outro rei por direito
    incontroverso!

    Defensores do absolutismo, buscae nas actas parlamentares da edade
    media, alguma passagem em que os mandatarios dos concelhos de Portugal
    declarem, como os titeres de 1641, que a demissão dos tributos
    violentos, _impostos tyrannicamente_ pelos reis de Castella, era uma
    _liberalidade_, uma _magnificencia_, uma mercê d'el-rei. Onde achaes vós
    lá esta linguagem de Baixo-Imperio? Lá oppunham-se os aggravamentos dos
    concelhos aos abusos do poder. Era a distancia que vae de uma epoca de
    liberdade a outra de servidão.

    A servidão, a servidão! Eis o grande crime dos tres seculos que vos
    pertencem. Pensaes vós que nos importam, considerados em si, os
    adulterios da mulher de Affonso VI, ou que D. João V dormisse em
    Odivellas, ou cantassem n'aquella bestialidade architectonica de Mafra,
    cem ou duzentos frades comilões e ignorantes? Importa-nos tudo isso
    porque vós, que nos accusaes de não havermos feito nada em dezoito
    annos, não fizestes cóusa nenhuma em tres seculos, senão consumir a
    substancia publica em devassidões e em bugiarias; senão queimar judeus
    para os roubar, e perseguir-vos uns aos outros, jesuitas e absolutistas,
    quando vos faltou o judaismo para cevar os vossos instinctos
    sanguinarios. O que nos importa é que vós, legitimistas de agua doce,
    representaes a illegitimidade de tres seculos: a tyrannia convertida em
    principio politico, por velhacadas desembargatorias que havemos de vos
    contar um dia, e pela ingratidão fementida da dynastia manuelina para
    com o povo, que tão leal havia sido á monarchia nas suas luctas com os
    padres e fidalgos d'esta terra. Importa-nos que, accusando-nos
    diariamente de destruidores dos thronos, tendes estampada na fronte do
    vosso jornal a lei regicida do frade bernardo, e que entoando hymnos á
    lealdade, ao realismo do alto clero e da fidalguia, ousaes metter no
    peitilho da roupeta os quatro seculos de liberdade, durante os quaes o
    unico exemplo de um rei atirado do throno para o exilio, e substituido
    por um principe estrangeiro, (estrangeiro segundo as vossas doutrinas)
    foi dado pelo alto clero e pela nobreza, em quanto o povo combatia a
    favor de uma illustre desdita. Importa-nos pagar-vos a divida do partido
    liberal, que estaes insultando refalsadamente, porque tem tido a
    desgraça de haverem obtido o poder, pelos meios essencialmente
    absolutistas da corrupção e da violencia, homens cujas doutrinas
    prácticas de governo são as vossas, e contra as quaes tendes visto
    protestar a maioria do partido liberal, com a palavra e com o ferro, do
    mesmo modo que o fizera contra vós. Importa-nos que penseis parvamente
    ao vêr-nos regeitar a anarchia ou a demagogia, ter descoberto nas nossas
    idéas contradicções monstruosas. Importa-nos que enchaes as bochechas
    com as vossas crenças, escrevendo ao signal das chibatas dos vossos
    sargentos, adoradores da censura, da abnegação servil das proprias
    idéas, e tendo opiniões uniformes por que estão stereotypadas nas
    capellas e sacristias. Importa-nos que, não vos movendo impulsos de
    convicções espontaneas, quando vêdes na imprensa as provas de que o
    sacerdocio vem audazmente insultar, n'um convenio insolente, as regalias
    do imperio civil, (a sustentação das quaes é o unico ponto em que são
    acordes as doutrinas politicas dos sete seculos da monarchia) vos caleis
    cobardemente, para não terdes de despir a roupeta de sancto Ignacio, ou
    de tirar a cabelleira desembargatoria, ao que essa questão forçosamente
    vos constrangeria, provando assim que os vossos enthusiasmos
    monarchicos, o vosso patriotismo, são apenas hypocrisias necessarias
    para vêr se grangeaes de novo as commendas e as prebendas, os quartos e
    as jugadas, as alcaidarias-móres e as capitanias-móres, os bispados e as
    conezias, e os beneficios succulentos.

    _Sic valeas ut farina es_.

    IV

    As prestações foraleiras e a fidalguia

    Os servos voluntarios e perpetuos, os que venderam alma e corpo á
    tyrannia, insultam-nos a nós liberaes, e cospem sobre as cinzas de D.
    Pedro, porque não quizemos que esta terra de Portugal fosse uma vasta
    gleba de adscriptos que trabalhassem para suas excellencias
    reverendissimas. Os bens da corôa, o patrimonio publico, os tributos
    locaes eram propriedade d'esse grupo de nobres luxuarios, que enlameavam
    com o rodar dos seus coches, com o galopar dos seus cavallos, o homem
    laborioso curvado para o sólo desde que o sol rompia até que
    desapparecia no occaso. Assim nol-o affirmam. Debalde nossos avós, os
    villãos, protestaram contra a accumulação dos tributos geraes e dos
    locaes, debalde a monarchia, a propria monarchia absoluta, fazia
    recordar nas leis e nos actos, que a renda publica não era, não podia
    ser, patrimonio dos donatarios; os doutores da _Nação_, esses Pegas que
    nos atiram a proposito de tudo com a sua sabença juridica, que nos falam
    nas manuelinas e nas philippinas, nas extravagantes, e nas leis de D.
    José, declaram que os bens da corôa eram do dominio dos comilões,
    alcunham-nos de communistas e, quando dizemos a esses illustres senhores
    que vão trabalhar, respondem-nos em nome d'elles que os espoliámos já do
    fructo do trabalho dos seus antepassados, e que queremos que trabalhem
    de novo para de novo os roubarmos, porque o primeiro roubo não satisfez
    as ambições de todos nós.

    O que é mais admiravel n'estas palavras absurdas, a demencia ou a
    imprudencia?

    Mentís, porque todas as leis, todos os actos do poder, desde a lei
    mental até á lei sobre confirmações do 1769, vos estão dizendo que as
    terras, os direitos dominicaes, os tributos locaes, as jurisdições, as
    rendas, tudo emfim, quanto fôra havido da corôa pelos donatarios, era em
    seu poder um simples uso-fructo, que o rei podia fazer cessar por
    solemne, perpetua, incondicional, que fosse a concessão.

    D'onde vinha, pois, esse direito de propriedade de que falaes, em
    contradicção não só com o direito publico do tempo da liberdade, mas até
    com as leis, com as doutrinas e com os actos do absolutismo? D'onde
    vinha essa propriedade, causidicos dos orgulhosos comilões, e mandriões
    das armarias e dos reposteiros? Da prescripcão? Mas vós, doutores da
    _Nação_, ignoraes que ainda nas vossas côrtes de 1641, se proclamou a
    doutrina de que contra o paiz não ha prescripção, emquanto elle não tem
    liberdade para reclamar, e esqueceis que a tolerancia dos povos durante
    os seculos XVI, XVII e XVIII, ácerca da ladroice com que eram
    malbaratados os bens da corôa, não significa o seu consenso, mas sim os
    terrores do absolutismo?

    Vós pensaes que os redactores do _Paiz_ são os dos jornaes do conde de
    Thomar, aos quaes vós ousastes dizer que as côrtes de Lamego haviam sido
    invocadas a favor de D. Catharina em 1550, antes de as inventar o frade
    bernardo, e que não souberam punir-vos d'esta falsificação?

    Mentís quando dizeis que nós queremos que os fidalgos trabalhem para os
    espoliar de novo. Falta a primeira espoliação para d'ella inferirdes a
    segunda. O decreto de 13 de agosto que respondeu definitivamente aos
    aggravos dos nossos avós, os canalhas do tempo de D. Fernando, de D.
    João I, de Affonso V; que tornou uma realidade práctica, em harmonia com
    a sciencia economica e fiscal das eras modernas, as promessas d'aquelles
    principes e o direito que elles reconheciam nos povos, se teve algum
    defeito foi o ser nimiamente generoso com os donatarios, com os
    excellentissimos filhos do sol e netos da lua: foi a homenagem que os
    ladrões do Mindello prestaram ao trabalho e á morigeração, aos nobres
    que haviam sabido tractar d'esses bens mal-havidos por seus
    antepassados, investindo-os no dominio allodial dos predios que
    desfructavam até ahi por uma posse mal-segura, mas que, como bons
    economos, como homens de costumes regulares, os cultivavam por si ou por
    seus rendeiros, e não tinham alienado o dominio util d'elles por titulos
    permanentes. O decreto de 13 de agosto não perguntou se os que auferiam
    proveitos das suas disposições, eram liberaes ou absolutistas; libertou
    o solo e honrou a morigeração e o trabalho. O partido liberal
    deixou-vos, excellentissimos, aquillo de que segundo as vossas leis
    tinha direito de privar-vos. Os descamisados, os homens do povo que o
    absolutismo trazia subjugados pela miseria, e a classe media em cujos
    bens patrimoniaes e adquiridos licitamente, vós vos cevastes durante
    cinco annos pelos sequestros, pelas peitas dadas aos vossos esbirros
    togados, para concederem um pouco de ar nas masmorras, e pelas luvas
    para trocarem a forca pelos presidios de Africa, podiam ajustar contas
    comvosco, expulsando-vos d'esses bens mal-havidos para se resarcirem de
    lhes haverdes roubado tudo, inclusivamente a camisa, recordações
    gloriosas, em que se estriba o vosso direito de lhes chamardes
    descamisados.

    Os descamisados perguntam-vos pela nossa bocca quanto renderam na
    almoeda dos sequestros, as camisas repassadas do suor da agonia, quando
    despistes os martyres da liberdade enforcados no campo de Sanct'Anna, na
    Praça-Nova, no Cães do Tojo, no Cães do Sodré? Quanto renderam as
    camisas dos martyres da liberdade fallecidos nos presidios pestiferos da
    Africa e nas casa-matas de S. Julião e de Cascaes, as dos mortos a páu
    ao serem conduzidos das enxovias do Porto para as de Lamego, e as dos
    presos assassinados nas outras cadêas do reino? Quantas orgias fizestes
    no fundo das sacristias, nas alcovas soturnas dos palacios com esse
    dinheiro? As dos prisioneiros mortos a machado, essas haviam de estar
    muito despedaçadas. Pouco deviam valer.

    Nós vamos traçar-vos em rapido esboço os titulos da _vossa propriedade_,
    que vos convidâmos a desmentir.

    A fazenda publica do paiz consistia na sua origem em propriedades, cujos
    cultivadores pagavam fóros, pensões, quotas por um systema assaz variado
    e complexo, nos tributos dos concelhos, pagos pelo uso-fructo do sólo, e
    por um systema analogo, nas multas judiciaes, nas portagens ou direitos
    de barreira das villas e cidades, e finalmente nos impostos das
    alfandegas maritimas. Os tributos indirectos, os cobrados nas alfandegas
    e barreiras recahiam pela sua natureza sobre todas as classes. Dos
    tributos directos eram isentos os nobres. Nas honras e coutos não
    entrava o agente fiscal nem o judicial. Para as despezas do estado
    pagava o homem laborioso; o nobre mandrião não tinha nada com isso.

    O serviço militar, o tributo de sangue estava regulado pelo mesmo
    principio. Organisados os concelhos, os seus habitantes, divididos em
    cavalleiros, besteiros e peões, segundo a sua fortuna, ou a natureza
    anterior da sua propriedade, eram arrolados para o serviço da guerra, ou
    para os trabalhos de fortificação, que se consideravam analogos.
    Armavam-se, compravam cavallos e sustentavam-se á sua custa, salvo se a
    guerra ou os trabalhos se protraiam demasiadamente. Os nobres eram
    isentos da defeza da patria, salvo o caso de uma recompensa. A maxima
    parte da renda publica n'isso se consumia. Os ricos-homens governadores
    civis e militares dos districtos, recebiam uma grande parte dos tributos
    locaes, e distribuiam a percepção das rendas dos bens publicos pelos
    cavalleiros, a cada um sua aldêa, sua porção de cazaes, etc. A isto
    chamava-se prestamos. Os alcaides-móres, chefes militares, e até certo
    ponto civis dos concelhos, haviam pelo seu serviço uma porção de rendas.

    Este systema profundamente injusto, segundo as idéas de hoje, não feria
    então os espiritos. O nobre tinha o direito de não supportar encargos na
    sua propriedade patrimonial, e de não defender a patria; o villão devia
    pagar e servir, e ainda com o seu dinheiro comprava o serviço dos
    illustres suissos d'aquelle tempo.

    Rico-homias, prestamos, alcaidarias, tudo era movel: o rei tirava-o,
    dava-o, trocava-o a seu bel-prazer; porque nada d'isso passava em rigor
    de um systema de subvenções pessoaes. Entre nós não havia nada que
    recordasse a fixidade do feudalismo.

    Gradualmente estes encargos e concessões foram-se tornando menos moveis;
    mas a hereditariedade feudal nunca se introduziu: mesmo quando os filhos
    succediam aos paes, os estylos e as leis recordavam que tudo isso era
    accidental, temporario, dependente da vontade do poder central, do
    principe.

    Mas tambem gradualmente se introduziu um abuso. Ás rendas publicas
    procedidas das imposições directas sobre o solo, dadas a qualquer nobre
    e depois d'elle a seus filhos, foram-se pouco a pouco considerando como
    mercês graciosas, e d'ahi nasceram os soldos, as _quantias dos nobres_,
    isto é, um vencimento em dinheiro para servirem o paiz.

    Dizemos _quantias dos nobres_ porque tambem os villãos tinham
    _quantias_, mas negativas; isto é, avaliavam-se-lhes os bens para na
    proporção d'estes terem armas e cavallos, serem bésteiros ou lanceiros,
    para formarem, digamos assim, a cavalleria, a infanteria pezada e a
    infanteria ligeira, tudo gratuito.

    Introduzido aquelle abuso dos soldos, a economia d'esta organisacão
    ficou sendo: o povo pagar na proporção dos seus meios, e servir
    militarmente na mesma proporção: os nobres serem isentos de tributos e
    de serviço militar, ao passo que, como homens de guerra, comiam uma boa
    porção da renda publica em soldos, e outra parte como donatarios da
    corôa.

    Nos fins do seculo XIV este iniquo systema de percepção e distríbuição
    da renda publica, tinha tomado proporções tão espantosas, que a
    principal materia dos aggravamentos populares, nas diversas assembléas
    de côrtes do reinado de D. Fernando, é este assumpto. Ahi o rei
    reconheceu a extensão do mal, e prometteu até onde fosse possivel
    remedio, que na verdade era difficultoso, attento o poder da nobreza.

    Na revolução de D. João I, uma grande parte da nobreza, ou seguiu a
    parcialidade de Castella, ou se mostrou avessa ao mestre de Aviz. Os
    fidalgos, porém, não se esqueceram no meio dos transes e miserias porque
    a nação passava na lucta gigante que emprehendera, de conservar intacta
    a malversação da fazenda publica. Emquanto as derramas e as sizas vinham
    pelas necessidades da guerra aggravar a sorte do povo, a fidalguia
    invocava o passado para que se lhe pagassem as _quantias_ em dinheiro, e
    as terras se lhe dessem gratuitamente, para ser _mercê acabada_. D. João
    I commettêra a _atrocidade_ de resolver com o povo em cortes, que aos
    fidalgos que serviam na guerra se lhes descontassem as quantias nos
    redditos das terras de que eram donatarios, já se sabe, comendo elles o
    resto de mão-beijada, porque esse resto não se dividia em prestamos para
    pagarem a outros cavalleiros que os seguissem na guerra, segundo a
    organisação primitiva. Era só o serviço pessoal que por essas terras se
    exigia dos illustres suissos dos seculos XIV e XV. Os villãos, esses
    combatiam de graça, lá estavam para sustentar com a bolça e com o corpo,
    a independencia do paiz.

    Esse vil e escandaloso requerimento da nobreza lá está impresso ha
    muitos annos na ordenação affonsina. Vós, doutores da _Nação_,
    conhecereis melhor a philippina, o codigo do rei estrangeiro, mas nós
    conhecemos melhor a affonsina, o codigo do rei portuguez.

    Sabeis vós, como a nobreza se desforrava da falta de despacho á sua
    petição? O sancto Nunalvares, os mestres das ordens e os outros
    fidalgos, roubavam os mantimentos nas povoações por onde passavam: os
    alcaides-móres em vez de pagarem ás guarnições dos castellos, pediam
    gente dos concelhos para os guardar; e os senhores quando se achavam
    n'alguma povoação com homens de armas, bastantes para sopear os villãos,
    deixavam-se ficar ahi, comendo e bebendo sem pagar e forçando mulheres.
    Lá tendes essas gloriosas paginas da nobreza nas côrtes de 1397.

    O desbarato gradual da renda publica pelas mãos dos fidalgos, fez
    apparecer o systema dos tributos geraes directos: a principio pelos
    _pedidos reaes_, que eram em rigor o mesmo que o recente imposto de
    repartição, que ha poucos annos se quiz introduzir no paiz, com a
    differença de que os pedidos só se repartiam entre os concelhos. As
    sizas foram o primeiro tributo geral directo que abrangeu tudo. Sobre
    estas bases se fundou o systema das contribuições geraes, de que o
    estado subsequentemente viveu.

    Nas côrtes do seculo XV, como nas do anterior, o povo protestou sempre
    contra a dispersão dos bens da corôa. A monarchia dava-lhe razão,
    promettia emenda, e alguma cousa chegou a fazer por vezes, mas
    insufficiente e estragada d'ahi a pouco por influencia dos poderosos. Ha
    uma observação singular a este respeito. O povo em vez de exigir a
    organisação dos impostos geraes, e a suppressão dos chamados direitos
    reaes que constituiam o grosso dos bens da corôa, queria que se
    despojassem os donatarios, e que o estado vivesse das suas rendas
    primitivas. Era um erro economico, mas que provava o desinteresse dos
    villãos, e quanto elles amavam as instituições de liberdade, com que
    estava ligado por muitos modos, aquelle systema da imposição antiga.

    O absolutismo triumphante poz emfim ordem n'estas gritarias populares. O
    paiz ficou dotado com dous systemas tributarios: o primitivo para os
    fidalgos e desembargadores comerem, pagando-se-lhes além d'isso o
    serviço que faziam: para os fidalgos e desembargadores começados por
    _mercé acabada_, como diziam os virtuosos avós de suas excellencias e
    reverencias: o outro systema para se pagar aos que comiam os fructos do
    antigo, e para o resto das despezas do estado. Como se isto não bastasse
    metteram-lhes na barriga os dizimos e os outros rendimentos das
    commendas, prebendas e beneficios.

    Realmente, os absolutistas teem razão de chorar pelos bons tempos.
    Aquillo era uma delicia. Este seculo de ferro só foi feito para os
    demagogos e para os pedreiros livres.

    E crêem os pantalões que em falando em duas ou tres batalhas, em dous ou
    tres nomes historicos, em Ourique, em Aljubarrota e em Montes-Claros, em
    Martim de Freitas, no Condestavel e em Affonso d'Albuquerque, na Sancta
    religião, no amor das nossas cousas antigas, teem feito tudo; teem-nos
    mettido pelo chão abaixo, esmagados pelo peso de tantas maravilhas.

    Pensam que ao lado da historia dos conventos, das cathedraes e dos
    palacios, não se escreve a da choupana, a do homem de trabalho? Pensam
    que se esses nobres senhores teem os seus registos esplendidos e
    luxuarios, o povo não tem tambem as suas humildes memorias de
    espoliações, de aggravos, de soffrimentos? Enganam-se. Tem-nas, e lê-as.
    Por isso é impossivel a volta do absolutismo.

    E crêdes vós que esta gente insaciavel, chegou a comprehender o
    patriotismo e a abnegação? Abri as chancellarias de Philippe II, vereis
    que ella sacrificou sempre ao egoismo e á cubica. Lá achareis os
    ferretes que o rei castelhano poz em tantas familias illustres por seus
    avós e pela sua situação. Lá estão os preços porque cada alcaide-mór,
    cada titular, cada desembargador vendia esta terra ao estrangeiro, em
    quanto a _canalha_, a villanagem, combatia e morria nas espadas e lanças
    dos soldados do duque d'Alva, pensando ter um novo D. João I no prior do
    Crato, o miseravel que tractava tambem com Philippe II sobre o preço
    d'esse povo generoso, que cria n'elle, porque era da raça dos seus
    principes.

    Depois de sessenta annos de oppressão, em que o paiz recebera duras
    lições, crêdes que os donatarios da corôa aprenderam a amar a patria e a
    morrer por ella. Quereis o reverso dos quarenta conspiradores de 1640,
    muitos dos quaes vingaram com a revolução aggravos particulares? Não vos
    falaremos das conspirações fidalgas e episcopaes contra D. João IV.
    Pedimos-vos só que leiaes um parecer, hoje impresso, do procurador da
    corôa, Thomé Pinheiro da Veiga, um dos mais venerados e veneraveis
    caracteres d'aquella epocha. Vianna, no meio da excitação popular que a
    revolução produzira, teve uma saudade, uma velleidade das suas garantias
    da edade-media. Lembrou-se dos tempos em que pertencia ao povo em muitos
    concelhos do typo de Salamanca, que fôra o da sua origem, a instituição
    electiva do seu chefe militar, do seu alcaide-mór. Pediu-a. Thomé
    Pinheiro da Veiga foi ouvido sobre a pretenção e votou por ella. N'um
    impeto de indignação, elle que tinha por dever reprimir e _amaldiçoar_
    (como elle se exprime) estas pretenções da democracia, viu-se
    constrangido a abençoal-as. E porque? Lêde-o. Porque os alcaides-móres
    comiam as rendas e desamparavam os castellos no fervor da guerra, sem
    gastarem um vintem na defesa, não havendo _quasi nenhum_, que cumprisse
    os seus deveres, no que se pareciam com os outros chefes militares, os
    capitães-móres, que comiam os soldos e roubavam os soldados. Elle ahi
    lança em rosto aos avós de vossas excellencias e reverencias, o atroarem
    o paço com petições de bens da corôa, sem fazerem cousa nenhuma. Será
    Thomé Pinheiro um dos ladrões do Mindello?

    Bem sabeis que tambem fariamos um livro contra vós, se quizessemos
    descer aos factos singulares que mostram a corrupção espalhada
    largamente entre a aristocracia dos tempos do absolutismo. Não quizemos
    senão apresentar-vos em grande, a origem monstruosa d'essa
    _propriedade_, de que nós a espoliamos, e mostrar-vos quanto ella em
    massa era digna de que se conservassem dous systemas tributarios no
    paiz: um para o estado e outro para ella: ambos, porém, tirados aos
    contribuintes.

    Direis que com esses bens da corôa recompensou o absolutismo os serviços
    das comquistas? Recompensou é verdade; mas foi os d'aquelles que vinham
    curvar a fronte gloriosa á corrupção cortezã: as almas altivas e nobres
    tinham paga diversa. Lembrae-vos de Pacheco, de Albuquerque, de Camões.
    Depois serviram elles nos tempos modernos para isso mesmo? Quantas
    alcaidarias-móres, quantos direitos reguengueiros, quantas terras da
    corôa, distribuistes pelos soldados da guerra peninsular, cuja sorte
    vindes hoje deplorar com lagrimas hypocritas? Fostes sequer buscar os
    bens da corôa a essas casas, onde elles se tinham tornado uma especie de
    patrimonio, para recompensar aquelles que se batiam contra nós os
    salteadores do Mindello? Repartistes sequer a tunica popular segundo as
    vossas idéas de justiça politica? Respondei.

    Com o decreto de 13 de agosto D. Pedro cumpriu as promessas dos seus
    antepassados, os reis da edade-media; mas cumpriu-as segundo as
    condições da civilisação moderna: aboliu o systema tributario local e
    excepcional que seria hoje absurdo, e que devorado pela nobresa era um
    duplicado escandalo. As cinzas de tantas gerações de villãos espoliados
    por seculos, foram, emfim, vingadas pelo braço de um rei. Que quereis?
    Nós, os vis, por força havemos de abençoar a memoria de D. Pedro.

    Dizei, doutores da _Nação_, é verdade ou é mentira aquillo que se
    escreveu nas actas das _vossas_ côrtes de 1641, que não ha prescripção
    contra o reino emquanto elle não tem faculdade, nem liberdade para
    reclamar os seus direitos? Outra vez: respondei.

    Sabeis vós uma coisa? Se o decreto de 13 de agosto podesse conter
    disposições de uma reparação atroz, não só seria preciso fazer cessar as
    prestações foraleiras, mas tambem mandar trabalhar nos campos com as
    cadêas da servidão aos pés, tres ou quatro gerações de donatarios de
    bens da corôa, por conta das suas victimas. Nem assim, talvez, flcaria
    compensada a oppressão e o escandalo de alguns seculos.

    V

    No momento em que escreviamos e mandavamos para a imprensa o ultimo
    artigo, em resposta ao que a _Nação_ escrevera contra nós, a proposito
    das leis da dictadura de D. Pedro, mal imaginavamos que o agente publico
    intervinha na questão, para defender nos tribunaes a memoria do
    imperador, se, como crêmos, é exacto o que se lê hoje nas columnas
    d'aquelle jornal. Se o tivessemos sabido a tempo, o nosso artigo teria
    sido supprimido. Desde o momento em que a auctoridade interveiu no
    combate, a questão acabou para nós. D. Pedro e a sua vida pertencem hoje
    á historia: na nossa opinião o defendel-o ou aggredil-o não pertence ao
    ministerio publico. Crêmos que sem negar os seus deffeitos de homem,
    teriamos meios de o fazer vêr a uma luz mais favoravel, do que o viu a
    _Nação_, e que saberiamos reivindicar para elle a justiça dos homens,
    que apreciam os actos e os successos não só em si, mas tambem nas suas
    causas e effeitos. As reivindicações da imprensa são mais efficazes e
    uteis para os mortos do que as dos tribunaes.

    Na redacção do _Paiz_ ha quem fosse soldado de D. Pedro; quem entrasse
    em mais de vinte combates sob o seu mando supremo. Não lhe consta que
    elle désse nunca ordem aos seus soldados para que, no recontro com os
    inimigos, chamassem os officiaes de justiça para os prenderem, ou os
    escrivães para os auctoarem. A ordem era levar os sessenta na patrona,
    outros sessenta no burnal, e as bayonetas bem pulidas. Se as ordens
    tivessem sido o inverso, o ministerio publico não teria hoje o incómmodo
    de accusar o jornal realista.

    De hoje ávante até que se conclua o processo da _Nação_, o orgão do
    partido do snr. D. Miguel não nos ha-de encontrar mais no campo da
    imprensa, ainda mesmo quando nos aggredisse. A perseguição sanctificou e
    tornou para nós inviolaveis os nossos adversarios politicos.

    Os redactors do _Paiz_ são em geral pobres, e os recursos de um jornal
    nascente são sempre limitados. Se, todavia, os gastos de um processo, ou
    o seu resultado na hypothese de ser desfavoravel, collocarem a _Nação_
    em embaraços pecuniarios, nós rogamos singella e sinceramente aos seus
    redactores que não se esqueçam de que no escriptorio do _Paiz_, hão de
    encontrar alguns dos seus irmãos na imprensa, posto que seus inimigos, e
    provavelmente inimigos irreconciliaveis, em opiniões politicas[2].

    REPRESENTAÇÃO DA CAMARA MUNICIPAL DE BELEM AO GOVERNO

    1854

    Senhor.

    A camara do concelho de Belem, eleita para o biennio de 1854 e 1855, no
    momento de entrar no exercicio das suas funcções, entendeu que o seu
    primeiro dever é fazer subir á presença de V.M., uma exposição fiel da
    situação economica e administrativa do novo municipio, e pedir justiça
    para os habitantes d'elle, sem o que a camara não se poderá habilitar
    para estabelecer os seus meios de administração e satisfazer aos
    encargos que pesam sobre ella. Os vereadores sentem ter de distrahir a
    attenção de V.M. e a dos seus ministros, dos negocios geraes do Estado
    para uma questão puramente local; mas constrange-os a assim procederem a
    obrigação que teem de não trahir a confiança que n'elles depositaram os
    seus concidadãos.

    Os decretos de 11 de setembro de 1852, que constituiram os dous
    concelhos de Belem e dos Olivaes com o antigo termo de Lisboa, foram uma
    providencia benefica; mas foram ainda mais do que isso: foram uma
    providencia justa no seu pensamento. O Governo reconheceu no respectivo
    relatorio a _urgencia e a justiça_ d'aquella medida reclamada pelos
    povos. Posto que ahi não se particularisassem os fundamentos d'essa
    justiça, os ministros que propozeram e referendaram aquelles decretos
    tinham-nos por certo presentes. Á camara de Belem cumpre, todavia,
    apontar os principaes para n'elles estribar as conclusões mais
    importantes d'esta representação.

    Talvez em nenhuma questão de direito publico, o legislador deva ser mais
    cauteloso em não ferir o dogma da igualdade dos cidadãos perante a lei,
    do que em materia de tributos. Era todavia n'esta relação que os
    habitantes do _denominado_ termo de Lisboa, pareciam constituir uma
    classe de ilotas no meio da população portugueza. Aos tributos geraes
    d'este territorio, que entravam nos cofres do Estado, accresciam outros
    que constituiam pela sua indole e origem, e pela sua importancia, a
    melhor porção dos impostos municipaes, sendo necessario ainda contribuir
    com uma serie de pesadas e variadas contribuições directas e indirectas,
    que conservavam o primitivo destino, para perfazer a sua quota nos
    encargos geraes do concelho de Lisboa, a que o mesmo territorio andava
    annexo. Por este modo os numerosos habitantes de algumas leguas
    quadradas em volta da capital, ficavam n'essa parte fóra do direito
    commum.

    Na apparencia, esta situação constitucionalmente impossivel, vinha a ser
    a mesma de Lisboa, onde as contribuições arrecadadas na repartição das
    Sete Casas, são verdadeiros impostos municipaes que entram no thesouro
    publico e de que o Governo deduz certa parte para dotação do concelho.
    Mas em Lisboa esta excepção tinha e tem um fim justo. Tende a
    estabelecer a igualdade parecendo destruil-a: equilibra por excesso de
    encargos um excesso de vantagens. Lisboa tem theatros, aqueductos,
    jardins, monumentos que custaram milhões tirados dos cofres publicos,
    escholas superiores, academias, museus, bibliothecas, tudo mantido á
    custa do Estado. Grande parte das contribuições geraes despendem-se no
    seu seio, e a circumstancia de ser o centro da administração, o foco do
    luxo e da civilisação do paiz, dá-lhe uma população fluctuante, que vem
    por mil modos consummir ahi boa parte da renda liquida da propriedade e
    do trabalho nacional. A applicação de uma porção das rendas do municipio
    a compensar beneficios tão custosos para o resto do reino como
    importantes para a cidade, é justa. Repetimol-o, desigualdade apparente
    é n'este caso a igualdade real.

    Estas considerações não eram nem são applicaveis ao territorio
    circumadjacente de Lisboa, districto pela maior parte rural, cuja
    industria agricola definhava, como bem advertiu o Governo, debaixo da
    pressão inevitavel da fiscalisação dos impostos de consumo. Aqui a
    desigualdade de situação, relativamente aos outros concelhos ruraes, era
    palpavel e escandalosa, porque não tinha nenhuma das compensações que
    justificam o gravame extraordinario que pesa sobre a capital. Bastava
    comparar dous factos que estavam patentes aos olhos de todos, para
    conhecer a injustiça que se practicava. Ao ponto que em Lisboa os
    edificios arruinados se reedificavam e se multiplicavam as novas
    construcções; emquanto ahi o commercio em grosso e de retalho e as
    industrias fabris cresciam a olhos vistos, na parte urbana mais populosa
    do termo e que se considerava até como um bairro da cidade, nas
    freguezias de Belem e Ajuda, viam-se cair ou serem derribadas as casas,
    fecharem-se lojas, acabarem pequenas industrias, emfim todos os signaes
    de uma rapida decadencia. A oppressão e o excesso do imposto faziam seu
    officio; o que faltava eram os elementos de vida que annullam em Lisboa
    os effeitos da desigualdade das contribuições.

    Taes deviam ser os fundamentos principaes da desannexação. A
    consequencia forçosa d'esta, era equiparar os novos concelhos aos outros
    concelhos do reino. Foi o que só se fez até certo ponto, deixando-se
    continuar a subsistir a injustiça na applicação para o thesouro publico,
    de uma parte dos impostos de sua natureza municipaes, que até então se
    cobravam pela alfandega das Sete Casas.

    Os decretos de 11 de setembro de 1852, tiveram por objecto beneficiar os
    habitantes do antigo termo. Negal-o seria negar a verdade. O que não
    lhes fizeram foi justiça inteira. Talvez se possa sustentar a
    legitimidade do imposto excepcional e gradativo, que a lei estabeleceu
    nas licenças para a venda de líquidos, até certa distancia da linha de
    circumvallação de Lisboa. É materia essa que esta camara ainda não
    examinou devidamente e sobre que, portanto, não se julga habilitada para
    reclamar, podendo acaso considerar-se tal tributo como uma transformação
    de parte dos impostos de consumo da capital, que de nenhum modo se
    poderiam cobrar nas barreiras. Mas alem d'esse, estabeleceram-se outros
    dous para os quaes a camara não acha razão plausivel. São os de dez reis
    em canada de vinho, vendido a miudo e de quinze reis em arratel de carne
    verde. A disposição que os estabeleceu, reduzindo os direitos que o
    termo pagava ás Sete Casas, importava um beneficio, uma concessão
    parcial; mas importava tambem um encargo que nada pode justificar.

    No relatorio que precede um dos decretos de 11 de setembro relativos a
    este assumpto, assevera-se que a solução dos impostos especiaes que os
    novos concelhos continuam a pagar, é justa _pelos beneficios e cómmodos
    que lhes resultam do contacto com a capital_.

    Quaes são os fundamentos d'esta affirmativa? Occultou-os o Governo. A
    camara procurou rastrial-os. Examinando a serie de factos em que ella se
    poderia estribar, não achou senão tres que não sejam insignificantes:
    1.^o a segurança publica mantida n'uma pequena porção do seu territorio
    pela guarda municipal: 2.^o desnecessidade de um estabelecimento
    especial d'expostos: 3.^o a proximidade do grande mercado de Lisboa para
    os productos da industria agricola dos dous concelhos. Fóra d'isto a
    camara não atina com as vantagens que possa trazer aos seus
    administrados a visinhança da capital.

    Pelo que respeita ao serviço de segurança publica, feito n'uma pequena
    parte do concelho, a camara de Belem, uma vez que se faça inteira
    justiça, pagará cora a melhor vontade pelo seu cofre, a quota que se
    arbitrar proporcional ao serviço da guarda municipal de Lisboa n'este
    concelho.

    Relativamente aos expostos o concelho de Belem está igualmente prompto a
    contribuir para a Sancta Casa da Misericordia de Lisboa, do mesmo modo
    que contribue a camara da cidade, guardada a relação das respectivas
    populações, alem de estar certo que a Junta Geral do Districto não
    deixará de prover n'esse caso, conforme as attribuições que lhe confere
    o § 7 do art. 216.^o do codigo Administrativo.

    Reconhecendo essas vantagens, a camara de Belem dá um documento de boa
    fé, offerecendo-se voluntariamente a retribuil-as. A mesma boa fé a
    obriga, porém, a ponderar que o 3.^o fundamento que póde occorrer para a
    conservação de impostos excepcionaes, ou não existe ou é compensado de
    sobra por desvantagens reaes.

    A população dos novos concelhos de Belem e dos Olivaes é uma população
    principalmente rural, facto que não deveria ter esquecido na confecção
    das leis de setembro. Todos sabem que hoje o maior embaraço da
    agricultura portugueza é a escacez de braços. Tendo-se desenvolvido
    muito em extensão e pouco em intensidade, o augmento progressivo do seu
    producto bruto, resultado da maior area cultivada, não está em harmonia
    com o desenvolvimento da população agricola. Assim, em quanto os
    productos da primeira industria nacional caminham regularmente para a
    baixa pela superabundancia, o salario tende de contínuo a elevar-se. No
    reino em geral a situação do proletario melhorou e muito, porém o
    cultivador por essas tendencias oppostas de alta e baixa, mas que
    convergem ambas em seu damno, cada vez se vê em maiores apuros e
    difficuldades. Este phenomeno commum aggrava-se nas cercanias de Lisboa
    por diversas circumstancias, que justamente procedem da visinhança de
    uma populosa capital. A industria fabril desenvolvida em Lisboa
    desproporcionadamente com o resto do paiz, exceptuando, talvez o Porto,
    traz uma procura maior de braços, que é causa poderosa do accrescimo do
    salario rural nos concelhos limitrophes. Depois o excesso de produccão
    geral mantendo um excesso de concorrencia por toda a parte, exaggera
    esta no principal mercado do reino, e a depressão dos preços torna-se
    correlativa d'essa exaggeração; por isso acontece, não só equipararem-se
    ás vezes, mas até acharem-se mais baratos os generos (captivos de
    direitos) na capital do que nos districtos remotos onde foram
    produzidos. Accrescente-se a isto a decadencia no mercado dos trigos
    durazios, principal producção do antigo termo, e a preferencia dada aos
    trigos ribeiros improprios d'estes terrenos; accrescente-se tambem a
    continua destruição dos pomares por uma enfermidade que não tem sido,
    que não será provavelmente atalhada, e poder-se-ha calcular se os novos
    concelhos, debaixo destas condições desfavoraveis, independentes da sua
    proximidade ou não proximidade da capital, mas peioradas pelas
    circumstancias que nascem d'essa visinhança, devem ser onerados com
    impostos extraordinarios.

    Na situação economica em que se acha a agricultura, de produzir caro e
    vender barato, a tenuidade do lucro sente-se com dobrada força na
    visinhança da capital, e essa visinhança para as populações agricolas,
    longe de ser um bem é um mal. A maxima concorrencia do numerario é em
    Lisboa, e o numerario como outra qualquer mercadoria deprime-se pela
    concorrencia; ou por outra, a vida torna-se mais cara por esse motivo
    não só na cidade mas tambem nas suas immediações. Ao passo porém, que se
    dá este facto, occorre outro que com elle se combina. A população rural
    visinha de Lisboa, cuja civilisação material é muito maior que a das
    provincias, participa mais ou menos d'essa civilisação, porque a
    influencia d'esta é inevitavel e irresistivel. D'ahi resulta para ella
    um maior numero de necessidades a satisfazer com o numerario deprimido
    no seu valor de troca. E este facto vem não só influir directamente no
    bem estar do proprietario, do agricultor, do seareiro, do pequeno
    commerciante, dos contribuintes, em summa, mas tambem associar-se ás
    causas geraes e locaes da elevação do salario, e a recair por outro modo
    indirectamente sobre elles.

    Ha mais. Quando a acção fiscal das Sete Casas abrangia tambem o termo,
    os cereaes que vinham de fóra encontravam aqui um tributo que
    rigorosamente constituia um dos chamados direitos protectores para os
    lavradores d'estes contornos. Era o de 60 reis por arroba no genero, ao
    passo que os cereaes de lavra propria consumidos no termo não soffriam
    contribuição alguma de consumo. Separados os novos concelhos, os cereaes
    estranhos vem concorrer livremente com os de producção local, que aliás
    tem de ir luctar com elles no mercado de Lisboa, onerados com os mesmos
    60 reis por arroba que os outros pagam. Accresce a isto outro
    inconveniente resultante da proximidade de um grande mercado. Os cereaes
    do Ribatejo e Alemtejo affluindo á capital, deprimidos como se notou já
    por uma concorrencia excessiva, achando aberto o mercado contiguo dos
    novos concelhos, com um favor de quasi 50 reis por alqueire que lhes
    resulta da suppressão do direito fiscal n'estes pontos, e sem differença
    de custo no transporte, affluem naturalmente aqui ainda mais do que a
    Lisboa, e augmentam pelos effeitos de urna concorrencia exaggerada, no
    mercado interno dos dictos concelhos, os embaraços geraes e particulares
    em que laboram os agricultores do nosso territorio.

    A camara, Senhor, tem de advertir de passagem, para que os seus desejos
    não sejam calurmniados e as suas idéas mal interpretadas, que não
    suspira por direitos alguns protectores, por leis d'excepção que
    favoreçam a agricultura do concelho de Belem com detrimento da alheia.
    Pelo contrario está persuadida de que a liberdade da industria e do
    commercio, quanto mais ampla melhor, hade vir a remediar os males que
    quasi sempre resultam da transição do antigo systema de tropeços
    fiscaes, para o systema contrario que é o verdadeiramente protector. A
    camara crê ser fiel interprete da opinião dos seus representados,
    asseverando que estes preferem a sua independencia municipal, a essa
    união absurda com a capital, que tinha por base a injustiça e a
    iniquidade; preferem-na a essa rede de vexames que fazia pesar sobre
    este territorio a fiscalisação das Sete Casas e que eram uma fonte
    perenne de immoralidade e de crimes; preferem-na aos tributos desiguaes
    e sem razão d'existencia com que estavam onerados. O intuito da camara é
    provar que os que se decretaram são tão injustos como os que foram
    supprimidos, porque as vantagens da visinhança de Lisboa em que a
    dictadura se fundou para os estabelecer, não existem ou são annulladas
    por desvantagens que resultam da mesma circumstancia.

    Ha, Senhor, um fado assaz significativo, que se prende a esta questão, e
    sobre o qual a camara de Belem chama a attencão dos ministros de V.M. O
    termo fiscal das Sete Casas não abrangia só o territorio dos concelhos
    novamente creados: estendia-se por freguezias de outros concelhos
    limitrophes. Acabando com o termo, e creando os novos impostos só nos
    dous municipios, a dictadura libertou indirectamente de todos os onus
    extraordinarios aquellas freguezias. Se isso era justo em relação a
    ellas, como o seria tambem que ficassem ao mesmo tempo oneradas as que
    compõem os concelhos de Belem e dos Olivaes? Nenhuns motivos podem
    existir para tão flagrante desigualdade.

    Mas supponhamos, Senhor, que as considerações em que se estriba a
    imposição dos novos tributos, cuja suppressão a camara pede, eram
    exactas. Não desapparecem essas razões diante de outro facto da propria
    dictadura, de que ella se esqueceu ao promulgar os decretos de 11 de
    setembro? O Governo contractou a feitura de um caminho de ferro que
    partindo da capital vai atravessar alguns territorios mais ferteis do
    reino. Os effeitos de uma tal via de communicação serão o approximar,
    tornar contiguos, digamos assim, das portas da capital, um grande numero
    de ricos concelhos da Extremadura e do Alemtejo. Em relação ao contacto
    commercial entre esta e muitos dos concelhos do Ribatejo; em relação á
    facilidade de transportes, e communicações de toda a ordem, esses
    concelhos ficarão mais perto do centro de Lisboa do que Odivellas,
    Carnide, Porcalhota, o valle de Oliveiras ou a ribeira de Algés, cujos
    cultivadores teem de conduzir os productos da sua industria ou de ir
    buscar os objectos de que carecem, por estradas ordinarias abertas
    imperitamente em encostas ladeirentas, estradas que não é possivel mudar
    ou sequer melhorar, sem dispendio de avultados impostos municipaes.

    Se dos novos concelhos se devem tirar algumas dezenas de contos de reis
    porque estão em proximo contacto com Lisboa, ou a igualdade dos cidadãos
    perante as leis tributarias é uma fabula, ou a esses concelhos
    corographicamente mais remotos, mas atravessados pelo caminho de ferro,
    se ha-de exigir uma maioria de impostos, tanto ou mais pesados que os
    creados pelos decretos de 11 de setembro, para o termo desannexado e
    constituido municipalmente.

    Mas abstrahindo da existencia ou não existencia do caminho de ferro,
    temos um facto actual e não contingente, que mostra com evidencia o
    nenhum fundamento de um imposto especial nos dous municipios do antigo
    termo. É o dos concelhos da margem esquerda do Tejo em frente de Lisboa.
    Todos sabem que a facilidade de transporte e communicação pelas vias
    aquaticas apenas é inferior á que proporcionam as estradas ferreas, e
    que em relação á barateza esse meio de transito é ás vezes superior ao
    d'estas. Nos seus effeitos economicos a distancia de algumas freguezias
    dos novos concelhos ao interior da cidade, empregando os meios
    ordinarios de transporte, pelos caminhos communs, está talvez n'uma
    razão quadrupla da distancia d'Almada (por exemplo) ao centro da
    capital. E todavia ninguem se lembra de fazer pagar aos habitantes
    d'aquelles territorios um imposto especial, pela rapidez e facilidade
    das suas communicações com Lisboa.

    A camara, Senhor, não pede esses impostos, porque não pede absurdos, nem
    folga com os males e oppressões alheias. Reclama simplesmente para os
    seus administrados o direito commum, a lei da igualdade garantida na
    Carta constitucional.

    Demonstrada a insubsistencia da razão do relatorio que precede um dos
    decretos de 11 de setembro, resta outra talvez menos categoricamente
    expressa no mesmo relatorio, mas que era a mais forte em relação ao
    thesouro publico. O respectivo ministro presuppunha uma diminuição de
    renda pelo facto da desannexação do termo. Obstava-lhe isto á suppressão
    de alguns direitos de consummo em Lisboa, mas influia tambem na
    conservação de parte d'elles no antigo termo. Vem proval-o a discussão
    que houve na camara dos Dignos Pares na sessão de 13 de agosto de 1853,
    exclusivamente relativa aos impostos excepcionaes conservados nos dous
    novos concelhos. N'essa sessão o mesmo ministro declarou que, attento o
    estado da Fazenda, a mente do Governo não fôra effectuar uma reducção no
    _quantitativo_ dos impostos, mas _unicamente_ alliviar os vexames. Posto
    que esta declaração seja altamente inexacta, (visto que foi diminuido o
    quantitativo na carne e no vinho, e substituida a base do consummo pela
    da venda, o que põe a salvo do mesmo imposto, todos os que mandarem vir
    de fóra do concelho aquelles dous generos directamente para o proprio
    consummo, e visto que foram inteiramente abolidos outros impostos das
    Sete Casas, no termo, como os do azeite e do combustivel) todavia a
    explicação é terminante quanto ás considerações economicas que moveram a
    dictadura a conservar nos novos concelhos _uma parte_ dos antigos
    impostos. Além da persuasão de que era justo pagar mais pela
    contiguidade de Lisboa, as apprehensões do Governo ácerca de um
    desfalque na renda publica, em frente de um _deficit_, obrigaram-no
    pois, a não estender a esta parte do paiz o beneficio do direito commum.

    Sem discutir se é licito invocar motivos de tal ordem quando se tracta
    de um negocio de justiça ou de injustiça, porque se o acto é justo as
    considerações de conveniencia ou inconveniencia são superfluas, e se é
    injusto nunca ellas o podem legitimar, a camara de Belem acceita esse
    fundamento. Se, porém, os factos vierem provar que a desannexação do
    termo, longe de trazer um desfalque nas rendas cobradas pelas Sete
    Casas, deu um resultado contrario, isto é, um augmento de receita, é
    evidente que esse mesmo fundamento cae por terra, e a conservação dos
    direitos nos novos concelhos fica reduzida á categoria de uma oppressão
    absolutamente infundada.

    E é exactamente, Senhor, o que se verifica. Tomado o rendimento das Sete
    Casas e Terreiro (repartições unidas pelas reformas de 11 de setembro de
    1852) durante os primeiros seis mezes da nova organisação, (setembro,
    outubro, novembro, dezembro, de 1852, janeiro e fevereiro de 1853)
    acha-se que o seu valor foi de 532:098$421 réis: examinando porém os
    rendimentos das duas repartições separadas, nos mezes correspondentes de
    1851 a 52, acha-se que o das Sete Casas foi de 416:054$523 réis e o do
    Terreiro de 70:894$940 réis, o que perfaz um total de 486:949$463 réis.
    Assim a concentração da acção fiscal até á linha da circumvallação, onde
    essa acção é possivel e efficaz, produziu o effeito que devia produzir,
    um augmento de receita em seis mezes de 45:148$958 réis. Na verdade, os
    novos direitos creados sobre legumes e que subiram n'esse periodo a
    5:450$561 réis, reduziriam o excesso a menos de 40 contos: mas deve-se
    attender tambem a que desappareceu do rendimento das Sete Casas a verba
    dos direitos de exportação de vinhos, e além d'isso, por effeito da nova
    lei da sisa, o producto d'esta diminuiu nos seis mezes de 1852 a 53,
    tomados por termo de comparação, de 3:500$000 réis, podendo-se deduzir
    da falta de uma verba e da diminuição da outra, que o sobredito
    accrescimo nos direitos de consummo, excede muito os 45 contos de réis.

    Taes são, Senhor, os factos e as razões que a camara municipal de Belem
    submette á consideração de V.M., ácerca dos impostos extraordinarios que
    ficaram pesando sobre os novos municipios. A abolição d'elles é
    moralmente necessaria, e de certo o Governo de V.M. não deixará, á vista
    das considerações expostas, de tomar, perante o Parlamento, a iniciativa
    de uma modificação indispensavel da lei, cujo espirito e cuja intenção
    benefica não é possivel desconhecer.

    A camara, Senhor, diz–intenção benefica–e dil-o mui de proposito.
    Repetindo ainda uma vez que os habitantes d'este concelho tiraram
    vantagens reaes dos decretos de 11 de setembro, ella sente que lhe
    cumpra representar dentro em breve a V.M., sobre as interpretações
    forçadas que se tem dado ás disposições claras e terminantes da lei,
    para se gravarem os povos, e abusos que se tem practicado e practicam,
    para conservar em proveito particular os vexames de que, na sessão de 13
    de agosto de 1853, o ministro da fazenda asseverava (provavelmente por
    falta de exactas informações) estarem livres os novos municipios. N'esta
    parte a camara recorrerá opportunamente a V.M., para que de prompto se
    occorra a males, cujo remedio depende simplesmente do executivo. Na
    presente supplica restringe-se a mostrar os inconvenientes que só podem
    ser removidos pelo legislativo.

    A insubsistencia dos motivos que se buscaram para conservar os novos
    concelhos n'uma situação excepcional produziu, como era de esperar,
    disposições que na lei contrariavam esses motivos. A consciencia de que
    realmente os novos concelhos não deviam ser onerados com os encargos
    especiaes que se lhes impozeram, inspirou a prescripção do artigo 12.^o
    do decreto de 11 de setembro de 1852, expedido pelo Ministerio do Reino,
    no qual se estatue que o Governo dará annualmente uma prestação ás
    camaras dos municipios novamente creados, equivalente á despeza media
    que anteriormente fazia a camara de Lisboa, com a illuminação e calçadas
    no territorio desannexado. Se na realidade os impostos então
    estabelecidos eram uma conpensação das vantagens obtidas pela
    proximidade da capital, se o Governo queria alem d'isso obstar com elles
    a um augmento de _deficit_, a camara de Belem não póde atinar com a
    razão porque se lhe havia de fazer um dom puramente gratuito,
    augmentando para isso o _deficit_ em detrimento commum da nação. Nem se
    diga que essa dadiva é deduzida da prestação concedida ao conselho de
    Lisboa. Não importam para este caso nem a origem ou legitimidade
    d'aquella prestação, nem a justiça das deducções que n'ella se fazem. O
    que importa é que estabelecendo a dotação que se destina a esta camara,
    a dictadura ou não estava bem firme nos principios que invocava, ou
    desbaratava uma somma que aliás deveria entrar nos cofres publicos,
    fazendo donativo d'ella aos habitantes do antigo termo.

    Mas esta disposição não é só contradictoria com os fundamentos das
    provisões tributarias de um dos decretos de 11 de setembro: é tambem
    inexplicavel em si mesma. Ordena-se ahi que as sommas dadas aos novos
    concelhos, sejam calculadas pela media da anterior despeza local, de
    illuminação e calçadas. Porque, porém, essas duas unicas verbas hão-de
    ser tomadas para base do calculo, e não conjunctamente a assaz avultada
    da limpeza, a dos vencimentos, etc.?

    Se o Governo entende, contra as suas proprias declarações, que recebendo
    d'estes dous concelhos perto de 60 contos annuaes de contribuição
    extraordinaria, tem o dever de prover ás suas despezas municipaes, não é
    por certo com supprimentos calculados arbitrariamente e muito inferiores
    aos encargos locaes, que reparará a flagrante injustiça d'aquella
    contribuição.

    Se todavia taes provisões devem cair deante das considerações que
    theoricamente as invalidam, que dirá, Senhor, esta camara ácerca do
    artigo 6.^o do decreto de 11 de setembro expedido pelo Ministerio do
    Reino, que priva o concelho das propriedades municipaes, para as
    attribuir ao de Lisboa? Acaso os logradouros communs dos visinhos e que
    só pelos visinhos podem materialmente ser utilisados, os mercados, cuja
    localidade aliás pertence á camara escolher, com approvação da Junta
    Geral de Districto, os cemiterios emfim, onde repousam as cinzas dos
    paes, irmãos e filhos dos habitantes do concelho, podem ou devem
    constituir propriedade alheia? Esta prescripção, van quanto a mercados e
    logradouros de que os habitantes de Lisboa não podem utilisar-se,
    offerece, quanto aos cemiterios, uma nova especie de servidão, a
    servidão que passa alem dos tumulos. As cinzas dos mortos do concelho de
    Belem pertencerão ao municipio da capital, e poderão ser mudadas ou
    dispersas ou vendidas com o chão que as cobre, sem que seja licito á
    propria municipalidade obstar a taes actos? Fortes deviam ser os motivos
    que a dictadura teve presentes para tomar tão estranha providencia; mas
    esta camara não os alcança, e por isso mal póde combatel-os.

    Demonstrado, como parece ficar, que os decretos de 11 de setembro,
    justos e beneficos no seu pensamento, pelas provisões especiaes que
    encerram, annullam na maior parte os bons effeitos d'esse pensamento,
    segue-se a necessidade da sua reforma. Tendo sido os mesmos decretos
    acto do Governo constituido em dictadura, e sendo para elle honroso o
    havel-os publicado, embora imperfeitos no seu desenvolvimento, esta
    camara entendeu que devia antes dirigir-se a V.M. do que ao Parlamento,
    para que o Governo podesse usar n'este negocio de uma iniciativa que
    justamente lhe pertence.

    Não só essa consideração, mas tambem o sabido e provado amor de V.M. á
    equidade e a tudo quanto possa arredar dos povos oppressões e vexames,
    asseguram feliz exito a uma pretenção tão legitima, e fundada em tão
    urgentes razões. Se, porém, os ministros de V.M. houvessem de
    desprezal-a, o que de nenhum modo esta camara espera, então ella se
    veria na necessidade de appellar directamente para os representantes do
    paiz, e não cessaria nas suas supplicas até obter desaggravo e inteira
    justiça.

    A camara de Belem está tão convencida de que não existe motivo nenhum
    razoavel para os seus administrados viverem, em relação aos impostos,
    fóra do direito commum; conhece tanto a impossibilidade de sobrecarregar
    com fintas, derramas ou outros quaesquer tributos, um concelho em cuja
    parte urbana as apparencias externas bastam para indicar decadencia, e
    que na parte rural lucta com as difficuldades que ficam ponderadas;
    repugna-lhe tão profundamente annullar pelo estabelecimento de novos
    encargos, o allivio que resultou para este territorio da sua separação
    da capital, que está na firmissima resolução de não exigir dos
    habitantes d'elle um unico ceitil para as despezas do municipio, em
    quanto não forem libertados do tributo extraordinario lançado pelas leis
    de setembro sobre dous dos mais importantes objectos de consummo, as
    carnes verdes e o vinho, tributo cuja importancia n'este concelho excede
    a 30 contos de réis. Seja qual fôr o resultado dos seus esforços, que
    serão incessantes ácerca d'este negocio, a resolução que tomou de não
    legitimar com a sua aquiescencia uma situação constitucionalmente
    impossivel, ficará inabalavel porque assenta em convicções
    indestructiveis.

    A camara reconhece que o mal não pode ser remediado senão n'um certo
    prazo, pela indispensavel intervenção do Parlamento. Existe além d'isso
    um contracto de arrematação dos novos impostos no concelho de Belem, que
    só termina em junho do corrente anno, e um dos primeiros deveres do
    Governo é manter illésa a fé publica. O tempo que resta ainda para os
    habitantes d'este municipio soffrerem a arrematação dos direitos de
    venda sobre o vinho e carnes verdes, é sufficiente para o Governo fazer
    votar nas duas casas do Parlamento, as reformas indispensaveis dos
    decretos dictatoriaes de 11 de setembro. No decurso d'este periodo a
    camara procurará conciliar os deveres que lhe impõe a voz da consciencia
    com a escrupulosa obediencia ás leis vigentes, porque sabe que a
    primeira condição da liberdade é a observancia da lei. Na orbita da sua
    acção não tolerará abusos da parte dos arrematantes d'aquelles tributos
    excepcionaes, mas não tolerará tambem que lhes sejam defraudados pelos
    habitantes do concelho do que legitimamente lhes pertencer.

    Applicando ao cofre municipal de Belem uma quota deduzida da dotação do
    de Lisboa, calculada sobre uma base desarrazoada, mas precisa, as leis
    de setembro attribuiram ao Governo e á camara da capital a avaliação
    d'essa quota, excluindo virtualmente a camara de Belem do direito de
    verificar, á vista dos documentos da mesma avaliação, a exacção d'ella.
    É mais uma violencia transitoria a que este concelho tem de
    submetter-se. A camara acceitará essa somma (qualquer que venha a ser)
    fixada pelo arbitrio do Governo e da camara de Lisboa interessada em que
    seja a mais modica possivel. Com ella, com o producto das licenças e com
    outra qualquer pequena fonte de rendimento que possa existir, occorrerá
    ás despezas de administração, de limpeza, de calçadas e de illuminação,
    até onde esses rendimentos chegarem, certa de que os seus representados
    preferirão a falta temporaria de uma parte dos cómmodos e vantagens que
    deve subministrar-lhe a administração municipal, a que esta camara
    practique o minimo acto, do qual se possa deduzir que o concelho presta
    a sancção do seu assentimento a provisões tributarias que são moralmente
    impossiveis.

    Se porventura, Senhor, o Governo de V.M. entendesse dever cerrar os
    ouvidos ás representações d'esta camara, o que nem remotamente os abaixo
    assignados suspeitam, tambem ella poderia elevar respeitosamente á
    presença de V.M., uma supplica para que ordenasse ao seu Governo que,
    usando das attribuições que lhe confere o artigo 106.^o do Codigo
    Administrativo, a dissolvesse, sendo certo que os habitantes do concelho
    de Belem facilmente achariam outros cidadãos que melhor soubessem
    promover os seus interesses municipaes do que os actuaes vereadores.

    Deus Guarde a Vossa Magestade por muitos e dilatados annos como todos
    havemos mister,–Camara 11 de fevereiro de 1854–O presidente, Alexandre
    Herculano–João Ferreira Godinho–João José Teixeira–José Street
    d'Arriaga e Cunha–Visconde da Junqueira.

    REPRESENTAÇÃO DA CAMARA MUNICIPAL DE BELEM AO PARLAMENTO

    1854

    Senhores deputados da nação portugueza.

    A camara municipal do concelho de Belem vem perante o Parlamento pedir a
    reforma dos decretos de 11 de setembro de 1852, que instituiram com o
    antigo termo de Lisboa os dous concelhos de Belem e Olivaes. Ella
    recorreu já com esse intuito ao Governo de Sua Magestade, para que o
    mesmo Governo usasse da sua iniciativa naquella reforma, pelos
    fundamentos expostos no requerimento que lhe dirigiu, e que se ajunta á
    presente súpplica. Á vista d'este o Parlamento não só apreciará, sem que
    seja necessario repetil-as aqui, as razões em que esta camara se
    estriba, para pedir uma reforma altamente reclamada pelos principios
    mais incontestaveis do direito publico constitucional e da economia
    politica, mas tambem avaliará devidamente o proceder do Governo sobre
    tão grave assumpto.

    N'esse requerimento a camara dava ao Ministerio uma prova de deferencia,
    expondo-lhe os aggravos que dos decretos de setembro resultam para os
    seus administrados, e confiando á sua iniciativa o remedio dos mesmos
    aggravos. Via na idéa fundamental dos decretos uma idéa benefica e
    justa, e esperava que o Governo adoptasse uma desenvolução mais logica
    de um pensamento que era seu. Quando assim não succedesse esta camara
    tinha o direito de contar com uma denegação franca e positiva dentro de
    curto prazo. Só assim poderia recorrer em tempo opportuno á
    Representação Nacional. Versando a questão principalmente sobre tributos
    cobrados por arrematação, e devendo esta renovar-se antes de julho do
    anno corrente, é claro que a resolução favoravel da pretensão da camara
    de Belem ficaria indefinidamente addiada, logo que, celebrada a nova
    arrematação, se creasse a necessidade de manter por um, dous ou tres
    annos a fé de um contracto, que nem o proprio Parlamento poderia
    invalidar sem prévia indemnisação aos lesados.

    Á deferencia d'esta camara o Governo respondeu com o silencio; á
    confiança d'ella na sua illustração, na sua justiça, na sua lealdade
    respondeu com uma das propostas apresentadas na Camara dos Senhores
    Deputados pelo Ministro da Fazenda, na sessão de 11 de abril, proposta
    relativa ao imposto do real d'agua, inteiramente connexa com a pretensão
    do municipio de Belem, e cuja approvacão sem restricções importa uma
    negativa ás suas justissimas súpplicas. Este procedimento, posto que
    singular, seria na verdade cómmodo para sem ruido se calcarem aos pés a
    justiça e o direito de milhares de cidadãos, se a esta camara não
    incumbisse velar por elles, e impedir que o Parlamento haja de ser
    illudido, tornando-se innocente cumplice de uma obra de iniquidade.

    Reportando-se ás ponderações feitas no requerimento dirigido ao Governo,
    sobre as diversas disposições mais ou menos irreflectidas e injustas dos
    decretos de 11 de setembro, que esta camara espera sejam abrogadas ou
    substituidas pelo Parlamento, ella invoca especialmente a attenção dos
    Senhores Deputados da Nação sobre o imposto excepcional de quinze réis
    em arratel de carne e de dez réis em canada de vinho, creado nos dous
    novos concelhos de Belem e Olivaes, e assimilado ao real d'agua, por ser
    lançado, não sobre o consumo total, mas sobre a venda a retalho, e por
    ficar incluindo em si, nos ditos concelhos, aquelle antigo tributo
    geral.

    Na representação junta á presente súpplica está ponderada largamente a
    insignificancia dos fundamentos em que a dictadura de 1852 se estribou,
    para crear aquelle tributo excepcional. Aqui, esta camara tem
    considerações de outra ordem que ajuntar ás que offereceu ao Governo, e
    que por certo não serão inuteis na discussão da materia.

    A parte tributaria dos decretos de 11 de setembro pecca desde logo na
    base. É sabido que os tributos do paiz, em harmonia com as nossas
    instituições, se dividem em duas categorias: tributos geraes e
    contribuições municipaes. Directos ou indirectos, a condição de todos os
    impostos geraes é a universalidade. A Carta consagrou este principio. A
    lei que o quebrar é de direito nulla. Pela sua indole o imposto
    indirecto affecta ás vezes mais particularmente uma classe de cidadãos,
    conforme os objectos sobre que recae; mas esse facto resulta sempre das
    leis economicas e da diversidade das condições sociaes. O direito
    publico escripto não póde nunca admittir a hypothese de se tributarem
    diversamente os habitantes de diversas circumscripções. Os impostos
    municipaes, destinados a despezas publicas exclusivamente locaes, são os
    unicos que justamente variam de localidade para localidade, porque o
    municipio é uma pequena sociedade civil dentro da grande sociedade, e os
    seus membros teem deveres e direitos, vantagens e encargos proprios e
    exclusivos da vida publica municipal. Os decretos de setembro, em
    contravenção d'estas doutrinas, crearam um tributo hybrido nos dous
    concelhos do antigo termo: fundiram no imposto do real d'agua outro, que
    é municipal na sua indole, porque exclusivo e de localidade, e que é ao
    mesmo tempo geral na sua applicação, por ser destinado a entrar nos
    cofres do Estado. Esta situação, monstruosa e constitucionalmente
    impossivel, é que o Parlamento, a quem incumbe manter as doutrinas da
    Carta e a inviolabilidade dos principios, deve primeiro que tudo fazer
    cessar.

    Na verdade a dictadura fundamentou as insolitas provisões dos decretos
    de 11 de setembro, nas vantagens que os dous concelhos deviam auferir da
    proximidade da capital. Dado, porém não concedido, o facto, a
    consequencia d'elle, se a dictadura soubesse respeitar as boas
    doutrinas, seria exigir uma compensação directa do municipio, na
    hypothese de que essas vantagens resultavam de um sacrificio especial do
    Estado, porque, resultando das condições naturaes e corographicas dos
    dous concelhos, é ignorar os elementos da economia politica, imaginar
    que taes vantagens escapam aos tributos geraes. Reduzindo os fundamentos
    allegados pela dictadura ás suas verdadeiras dimensões na representação
    junta, esta camara declarou que acceitaria de bom grado o encargo de
    retribuir directamente quaesquer beneficios, em que se dessem os
    caracteres que exigem uma retribuição especial. Era o mais que
    legitimamente d'ella se podia exigir, e que ella se apressou a offerecer
    para tirar todos os pretextos á espoliação.

    Independente da inconstitucionalidade do tributo especial, que os
    decretos de setembro estabeleceram nos dous concelhos do antigo termo,
    para elles poderem gosar de um direito desconhecido dos publicistas, o
    _direito de proximidade_, é de notar o desacordo d'este acto da
    dictadura com o systema que, como tal, e depois como poder executivo, o
    actual Ministerio parece haver adoptado. As suas tendencias, pela
    reducção das pautas, pela adopção do imposto de repartição e por outras
    providencias analogas, bem ou mal concebidas, são evidentemente para o
    tributo directo e para a sua divisão equitativa. E todavia, tractando de
    impôr uma especie de contribuição de guerra nos dous concelhos que
    creára, em vez de exigir a troca de serviços, fossem elles quaes fossem,
    a compensação directa dos sacrificios especiaes do Estado em beneficio
    especial dos mesmos municipios, por uma somma qualquer paga pelos cofres
    das respectivas camaras, a dictadura quintuplicou ahi o imposto do real
    d'agua, imposto cuja substituição ha muito houvera procurado qualquer
    Governo, que, habituando-se a fazer ou a propôr leis depois de examinar
    os factos, achasse que elle tira das bolsas dos contribuintes talvez o
    triplo do que entra nos cofres publicos, com offensa flagrante dos
    principios fundamentaes sobre materia de contribuições, acceitos por
    todos os economistas desde Adam Smith até hoje.

    A dictadura, promulgando os decretos de 11 de setembro, reconheceu nos
    respectivos relatorios uma verdade sabida por todos, a decadencia da
    riqueza nos territorios _extramuros_ sujeitos á fiscalisacão das
    Sete-Casas, decadencia que na realidade, e segundo a opinião do proprio
    Governo, procedia do peso dos impostos e dos vexames, ainda mais
    gravosos, que se ligavam á sua arrecadação e fiscalisação. Esse estado,
    procedido de uma situação tributaria especial, repugnava a todas as
    conveniencias publicas; repugnava á justiça e á moral. A primeira e mais
    importante necessidade na reforma das Sete-Casas era, na opinião dos
    Ministros, destruir esse estado anormal. O Governo entendia com a medida
    que decretava _prover amplamente ás urgentes e justas reclamações dos
    povos_. É evidente que as consequencias logicas d'estas premissas
    consistiam em acabar com o tributo excepcional e com as oppressões; em
    acabar no termo, como diziam os Ministros, com os _impostos de cidade e
    vexames a elles inherentes_. Vejamos como estas bellas promessas se
    realisaram.

    Depois d'espoliar os novos concelhos de todos os proprios, que lhes
    pertenciam pelo simples facto de existirem, attribuindo á camara de
    Lisboa baldios, logradouros, predios urbanos e rusticos, mercados,
    aqueductos, e até os ossos dos mortos, nos dous concelhos de Belem e
    Olivaes, do modo que se vê nos decretos de 11 de setembro, e vai
    largamente exposto no requerimento appenso a esta súpplica, a dictadura
    veiu á questão do imposto especial. Escondido no meio das phrases
    pomposas, dos annuncios prosperos do futuro, encontra-se no relatorio
    dos Ministros o seguinte periodo:–«os concelhos novamente creados,
    ficando sujeitos ás imposições geraes do reino, apenas são obrigados ao
    pagamento de alguns tributos a maior, que ainda os deixa em grandissima
    vantagem em relação ao seu estado anterior.»–Examinemos se os factos
    condizem com estas affirmativas.

    O antigo termo fiscal das Sete-Casas, como é vulgarmente sabido,
    compunha-se de 37 freguezias, 23 pertencentes ao termo municipal de
    Lisboa, e 14 aos termos de outros concelhos limitrophes. No anno
    economico que precedeu immediatamente a reforma das Sete-Casas e a
    creação dos dous concelhos de Belem e Olivaes, o rendimento d'essa casa
    fiscal no termo d'ella dependente foi proximamente, segundo os mappas
    officiaes, de reis 62:000$000. Suppondo as forças economicas das 23
    freguezias _extramuros_ do concelho de Lisboa similhantes ás das 14 dos
    outros concelhos, porque as desigualdades entre as de cada um dos dous
    grupos são compensadas pelas desigualdades entre as do outro grupo,
    segue-se que os habitantes dos dous novos concelhos, ou das 23
    freguezias, pagavam proximamente 38 ou 40 contos. O novo imposto foi
    arrematado nos dous concelhos em 51 contos, despresadas as fracções. É
    portanto evidente que o encargo tributario dos dous concelhos ficou
    sendo maior do que era d'antes. Á vista disto, o Parlamento poderá
    apreciar qual é essa _grandissïma vantagem_ em que os deixaram,
    relativamente ao seu estado anterior, os decretos de 11 de setembro.

    Cumpre aqui obviar a um reparo que por parte do Governo, ou dos homens
    de simples theorias se poderá fazer. Descendo á analyse dos impostos das
    Sete-Casas achar-se-ha na verdade que d'antes, no territorio dos dous
    novos concelhos, eram tributados mais generos do que hoje, e que nas
    proprias carnes verdes o imposto era duplo e no vinho quadruplo. Mas o
    ponto verdadeiro da questão é o comparar a totalidade do onus a que
    estes territorios estavam sujeitos, com aquelle a que o estão agora.
    Quando se diz que era impossivel que o termo prosperasse debaixo da
    pressão dos tributos, attende-se ao facto real, e não ao facto nominal.
    A differenca enorme, que achamos entre os suppostos resultados das
    imposições e fiscalisação das Sete-Casas e os seus resultados
    verdadeiros, o que prova? Prova o mesmo que se deduz de outro facto
    altamente significativo, observado na historia do rendimento das
    Sete-Casas no decurso de 18 ou 20 annos, isto é, que esse rendimento
    augmenta logo que se encurta o termo fiscal, diminue desde que este se
    dilata; prova que a medida de reduzir a acção das Sete-Casas ao
    perimetro da circumvallação da cidade foi profundamente judiciosa, e um
    acto em que, á justiça feita aos habitantes do antigo termo,
    separando-os municipalmente da capital, se associou a conveniencia do
    thesouro; prova finalmente que, a não suppormos uma espantosa
    malversação nas Sete-Casas, o contrabando, esse castigo supremo e
    inevitavel de leis ineptas e anti-economicas, remediava até certo ponto
    a exaggeração do tributo, sendo impotente contra elle uma fiscalisação
    violenta, assoladora, immoral nas suas consequencias, e incapaz de
    preencher os fins a que era destinada.

    O imposto sobre a carne e o vinho basta pois, na realidade, para
    compensar actualmente com um gravame novo, ainda maior, o gravame
    antigo. Mas não ha só isto. Na representação junta, dirigida ao Governo,
    esta camara absteve-se de discutir o imposto gradativo, estabelecido
    pelos decretos de 11 de setembro para as vendas de liquidos. Queria
    examinar primeiramente os effeitos positivos d'esse imposto, que ao
    simples aspecto parece ter unicamente por objecto tornar mais facil a
    fiscalisação das barreiras da cidade, e ferir especialmente, de um modo
    indirecto, o consumo de vinho feito pelas classes inferiores da capital
    fóra da linha de circumvallação. A verdade, porém, é que elle nem
    protege a fiscalisação naquella linha, nem recae só sobre o povo da
    capital que vem (quasi exclusivamente nos dias sanctos) consumir vinho
    nos arrabaldes. Por grande que seja este consumo, é evidentemente muito
    inferior ao dos proprios moradores dos novos concelhos, cujo gasto é
    diario, e que consomem outros liquidos. Assim, calculando proximamente
    em 7 contos de réis annuaes o producto das licenças gradativas de cem,
    cincoenta, vinte e dez mil réis, exigidas pelo fisco ás lojas de
    liquidos dos novos concelhos, póde-se affirmar sem exaggeração que 4
    contos de réis recaem sobre os habitantes d'elles e não sobre a
    população inferior de Lisboa. Esta somma addicionada aos 51 contos por
    que foi arrematado o imposto da carne e vinho, eleva o gravame actual
    pelo menos a 55 contos, augmentando-lhe assim o excesso sobre o gravame
    antigo. Ao mesmo tempo a nova taxa de licença, pelo lado dos seus
    effeitos economicos e commerciaes, é por muitos modos vexatoria para os
    novos concelhos; porque o resultado della foi fecharem as portas
    centenares de pequenas lojas de liquidos, que não poderam resistir a um
    direito quasi prohibitivo, convertendo-se assim a taxa n'uma especie de
    direito de patente de um exclusivo, exigida aos donos dos grandes
    armazens de liquidos. De similhante exclusivo resultou que, além de
    ficarem na miseria centenares de familias, apesar do imposto gradativo o
    preço do vinho não subiu, porque o novo encargo para os grandes
    estabelecimentos ficou superabundantemente compensado pelo triplicado ou
    quadruplicado da venda. Todavia as consequencias d'este estado de cousas
    vão mais longe. Diminuindo em virtude de tal facto o numero das licenças
    municipaes, e consequentemente os redditos das novas camaras
    provenientes d'essa origem, ellas teem de ir buscar por outro qualquer
    meio ás algibeiras dos contribuintes, o supprimento de similhante
    desfalque.

    Esta perda e gravame para os habitantes dos dous concelhos reverte,
    porém, em beneficio do fisco? Como todos os tributos, sobretudo
    indirectos, imprevidentemente estabelecidos, os 6 ou 7 contos auferidos
    por esse meio, produzem por outro lado um desfalque, talvez igual. São
    duzentos a trezentos sellos de licenças, duzentas a trezentas verbas de
    decima e do imposto de quatro por cento sobre casas, que desappareceram
    com a cessação d'esses duzentos a trezentos estabelecimentos
    commerciaes. Entretanto os 6 a 7 contos da taxa gradativa figurarão como
    um augmento de receita no orçamento geral do Estado, do mesmo modo que
    tantas outras decepções, que n'elle figuram por motivos analogos.

    Esta camara disse que o imposto gradativo não protege a fiscalisação nas
    barreiras da cidade. Efectivamente n'esta relação elle é de todo
    impotente ou nullo. Basta para o conhecer saber-se o que no nosso
    systema fiscal se entende em regra por imposto de consumo, á vista do
    Codigo Administrativo e leis correlativas. O imposto de consumo
    unicamente se póde verificar na venda a retalho. Assim, não sómente em
    virtude dos regulamentos existentes, mas tambem pelas indicações da
    experiencia, o unico meio de fiscalisação para taes impostos é o methodo
    dos manifestos combinados com os varejos dados nas lojas de retalho. O
    systema do imposto das barreiras, como existe em Lisboa, é o que
    propriamente corresponde aos direitos chamados em França d'_octroi et
    d'entrée_. Se as barreiras e registos fiscaes na orla dos dous novos
    concelhos fossem licitos, e todos os generos importados pagassem sem
    distincção um direito maior ou menor, essas barreiras, especie de guarda
    avançada das de Lisboa, defenderiam mais ou menos estas, fazendo elevar
    sempre os preços dos generos no territorio dos dous concelhos, que assim
    voltariam legalmente ao estado de oppressão e vexame, de que as leis de
    setembro tentaram libertal-os. Mas sem isto, nem o imposto de consumo
    sobre a carne e o vinho, nem a taxa gradativa das licenças conduzem, por
    essa parte, a resultado algum. O contrabandista não precisa de ser
    taberneiro, carniceiro ou merceeiro, para exercer o seu odioso mister, e
    não o sendo póde livremente conduzir o objecto destinado ao contrabando
    até á proximidade da linha de circumvallação, sem pagar nem o imposto
    nem a taxa gradativa. Uma vez que não venda a retalho o que conduz, nada
    tem com elle o fisco ou os seus subrogados.

    Que o Parlamento releve a esta camara uma observação. As linhas fiscaes
    de Lisboa defendem-se como se defenderam ha vinte annos as suas linhas
    militares. Defendem-se com animos probos; com a lealdade dos agentes
    fiscaes; com a vigilancia e actividade de quem quer e sabe cumprir o seu
    dever; com a severidade do castigo e com a justiça das recompensas. O
    espirito mais rude comprehende que uma alta muralha, dominada por um
    passeio de ronda, onde de noite e de dia se patrulhe convenientemente, e
    cujas vinte ou trinta portas sejam continuamente vigiadas por homens
    zelosos, é inaccessivel ao contrabando. Se, por hypothese, houvesse um
    Ministro que viesse perante o Parlamento dizer–«tenho nas barreiras da
    capital empregados fiscaes que trahem o seu dever: tenho chefes a quem
    incumbe vigial-os e que não os vigiam: tenho regulamentos imperfeitos:
    tenho considerações de patronato que me impedem de demitir os suspeitos,
    e de fazer punir os culpados: concedei-me, portanto, que cinja essas
    barreiras com uma faixa de territorio sujeito a uma lei excepcional, com
    um vasto _pomoerium_ de maldição, cujos habitantes innocentes,
    absolutamente innocentes, dos descaminhos que tolero por falta de
    energia e de vigilancia, ou por considerações pessoaes, sejam obrigados
    a compensar pelas suas bolsas, os effeitos da corrupção ou da
    incapacidade dos meus propostos e subordinados»,–o Parlamento
    rejeitaria com indignação esta proposta demente e atroz, e por certo o
    individuo que assim escarnecesse da intelligencia e da consciencia dos
    Representantes do paiz, não tornaria a sentar-se nos bancos do
    Ministerio.

    Não é, por consequencia, possivel que o Governo pense em defender por
    este lado a manutenção das provisões tributarias dos decretos de 11 de
    setembro, aliás já condemnadas no tribunal da razão, por contradictorias
    com a sua idéa fundamental, visto que em vez de reduzirem os impostos
    que _effectivamente_ pesavam sobre o territorio dos dous concelhos, os
    aggravam, directa e indirectamente, ainda mais.

    Ao augmento de encargos que veiu pesar pelo tributo indirecto sobre este
    opprimido territorio, em virtude de expressas disposições das leis de
    setembro, accresce o de outro imposto directo, augmento que resulta das
    leis geraes de Fazenda. Os quatro por cento sobre a renda das casas cuja
    base era em Belem, como districto municipal de Lisboa, de 30$000 réis,
    agora, convertido este territorio em concelho sobre si, teem por base a
    renda de 12$000 réis, vindo a sobrecarregar as classes pobres com um
    tributo de que estavam exemptas, e aos proprietarios urbanos que, com
    difficuldade achavam inquilinos para os seus predios, do que dão
    testemunho as casas deshabitadas e em ruinas que se encontram a cada
    passo n'esta povoação, augmentam-se por essa mudança de base tributaria,
    as difficuldades para auferirem uma renda modica dos seus capitaes
    immobilisados.

    Se, porém, aquelles decretos e as suas consequencias, não tornaram menos
    oppressivas as contribuições que affligiam o antigo termo, cumpre
    confessar que ao menos o exemptavam dos vexames a que os sujeitava a
    fiscalisação das Sete-Casas, com o seu cortejo de violencias, de
    embaraços commerciaes, de extorsões, de rixas, e até de assassinios,
    quadro repugnante, que por inutil esta camara não desenhará diante dos
    olhos dos Senhores Deputados. Mas infelizmente esse beneficio, que está
    na lei e que devia traduzir-se nos factos, não chegou a realisar-se no
    concelho de Belem. O que se tem passado a similhante respeito não se
    acreditaria, se a narrativa dos successos não se estribasse em provas
    irrecusaveis. Na representação junta, esta camara julgou dever abster-se
    de mencionar certos factos e de apreciar severamente outros, de modo que
    parecesse dirigir ao Governo acres censuras. O procedimento d'este para
    com ella, soltando-a de quaesquer considerações, habilitam-na para dizer
    a verdade nua, a verdade em toda a sua extensão, perante os
    Representantes do paiz.

    Apenas celebrados pelos fins de 1852 os contractos de arrematação dos
    novos impostos, nos dous concelhos do antigo termo de Lisboa, e o do
    real d'agua no resto do antigo termo fiscal das Sete-Casas, os
    arrematantes estabeleceram immediatamente registos fiscaes no perimetro
    do territorio que os seus contractos abrangiam. N'estes registos
    exigiam-se direitos de consumo, e davam-se guias dos generos
    despachados. Por auctoridade particular collocaram-se homens armados em
    diversos pontos, e começaram a apprehender-se individuos que, diziam os
    guardas dos arrematantes, se esquivavam ao pagamento dos impostos. A
    fiscalisação, emfim, das Sete-Casas, tão odiosa e tão justamente odiada,
    renascia n'este infeliz territorio com todo o seu sequito de abusos e
    violencias. Unanimemente, porém, as auctoridades administrativas do
    concelho dos Olivaes e dos outros concelhos limitrophes ao antigo termo
    municipal de Lisboa, aonde d'antes chegava o termo fiscal das
    Sete-Casas, intimaram os arrematantes para retirarem os registos, e
    fazerem cessar um systema de fiscalisação incompativel com os
    regulamentos e com a indole do imposto que haviam arrematado. Obedeceram
    elles ás intimações dos magistrados administrativos, e o abuso cessou.
    No Concelho de Belem não succedeu assim. A auctoridade tolerou tudo, e
    os renovados vexames das Sete-Casas continuaram. Como era natural,
    surgiram as resistencias, e os arrematantes pensaram em manter o abuso
    recorrendo ao Governo. Requereram ao Ministerio da Fazenda para que lhes
    assegurasse a conservação d'aquella especie de barreiras fiscaes que
    haviam estabelecido; mas as suas súpplicas foram indeferidas; nem podiam
    deixar de o ser. Communicou-se officialmente esta resolução ao
    respectivo Administrador de concelho, que se recusou a cumpril-a por
    motivos que esta camara ignora, e apesar das leis, dos regulamentos e da
    decisão do Ministro, as cousas continuaram no mesmo estado.

    Entretanto crescia a reacção popular contra um abuso intoleravel, e
    tanto mais intoleravel quando se considerava que os outros concelhos
    limitrophes, e sobretudo o dos Olivaes, creado pelas mesmas leis, com as
    mesmas condições de existencia, e sendo-lhe applicaveis os mesmos
    regulamentos fiscaes, estavam perfeitamente exemptos de taes vexames, só
    reservados ao territorio do concelho de Belem. Os habitantes d'este
    lembraram-se então de procurar allivio aos seus males recorrendo tambem
    ao Ministro, que já ordenara se lhes pozesse termo e que não havia sido
    obedecido. Dirigiram pelo Ministerio da Fazenda um requerimento em que
    pediam de novo essa justiça, que já espontaneamente se lhes mandara
    fazer. Mais de um anno tem decorrido desde então, e até hoje, uma
    súpplica tão simples, tão justa, tão clara, até, para o Ministro, que de
    antemão e por si proprio a resolvêra, não pôde obter uma resolução
    favoravel!

    A camara de Belem deixa á apreciação do Parlamento similhantes factos. A
    sua significação e o seu valor podem todavia calcular-se melhor pela
    comparação com outros que lhes são correlativos. Singulares e estranhos,
    esta camara não ousa nem quer explical-os. Pertence ao Parlamento
    remontar ás suas causas.

    É de antigos tempos contestavel e contestada a extensão que se deve dar
    ao imposto do real d'agua. É questionavel se elle deve recair unicamente
    sobre as carnes verdes ou se tambem abrange as seccas, salgadas ou
    fumadas. Os tribunaes teem julgado diversamente, e o Governo em diversas
    epochas e por diversos actos tem procurado fazer admittir a significação
    mais lata. Estes actos do Governo são perfeitamente indifferentes,
    porque não é ao Executivo, mas ao Legislativo que pertence a
    interpretação das leis. De que a do real d'agua é obscura não ha a menor
    dúvida. Ao passo que o Poder Judicial vacilla a este respeito, o
    Ministro da Fazenda vem ao Parlamento pedir a sua interpretação,
    reconhecendo por esse acto a nullidade de todas as portarias, circulares
    ou officios com que se tem pretendido fixar o sentido d'ella. Posto
    isto, venhamos aos factos.

    Os decretos de 11 de setembro de 1852, conglobaram o real d'agua no novo
    imposto que estabeleceram nos dous concelhos. Liberto dos impostos das
    Sete-Casas, este territorio ficava por esse facto submettido ao do real
    d'agua, a que a dictadura, por aquelles decretos, veiu accrescentar nove
    réis em canada de vinho e onze réis em arratel de carne. Os §§ 1.^o e
    2.^o do artigo 3.^o do decreto expedido pelo Ministerio da Fazenda,
    dizem que os dous concelhos são obrigados:

    «A pagar o imposto de dez réis por cada canada de vinho vendido a miudo,
    nos mesmos termos em que se paga o real d'agua.»

    «A pagar quinze réis por cada arratel de _carne verde_,
    comprehendendo-se n'este direito o real d'agua, e os tres réis
    addicionaes.»

    Se a dictadura entendia que o imposto do real d'agua era legalmente
    extensivo ás carnes seccas, é evidente que quiz restringir a nova
    imposição ás carnes verdes.: se entendia que não o era, quiz tornar bem
    sensivel a intelligencia que dava á lei do real d'agua, excluindo
    positivamente as carnes seccas. Se estas ultimas se comprehendiam
    n'aquella designação limitativa, quaes eram as que excluia a lei?

    Trez mezes depois o Ministerio da Fazenda publicava as condições para a
    arrematação do real d'agua no antigo termo fiscal das Sete-Casas,
    comprehendendo o territorio dos dous novos concelhos, desannexado do
    municipio de Lisboa, e as freguezias dos outros concelhos limitrophes,
    que haviam pertencido ao termo fiscal das Sete-Casas. A quinta condição
    dizia assim:

    Que ao arrematante ficará pertencendo no territorio que constituia o
    termo fiscal da extincta alfandega das Sete-Casas, a percepção do
    imposto do real d'agua, assim em canada de vinho que se vender para
    consumo nas ditas terras, quer seja nas tabernas, quer fóra d'ellas,
    como em arratel de carne de gado vacum, suino, lanigero e cabrum, que no
    estado de verde, secca, ou por qualquer fórma preparada, fôr vendida nos
    açougues ou fóra d'elles; sendo o sobredito imposto, nas freguezias dos
    concelhos que faziam parte do referido termo, de um real por canada de
    vinho, e quatro réis em arratel de carne, conforme foi estabelecido pelo
    alvará de 23 de janeiro de 1643, lei de 21 de novembro de 1844, e mais
    legislação a similhante respeito; e nas freguezias que formam
    actualmente os concelhos de Belem e Olivaes, de dez réis em canada de
    vinho, e quinze réis em arratel de carne, como se acha determinado nos
    n.^os 1.^o e 2.^o do artigo 3.^o do decreto de 11 de setembro do
    presente anno.

    N'esta condição o Ministerio da Fazenda revelava a intelligencia que a
    dictadura déra á lei do imposto do real d'agua, isto é, a extensiva,
    mandando regular a percepção d'elle pela legislação anterior á
    dictadura, e ao mesmo tempo mandava que nos dous novos concelhos se
    observasse na percepção do imposto excepcional dos dez réis em canada de
    vinho e dos quinze réis em arratel de carne, o disposto nos n.^os 1.^o e
    2.^o acima citados do decreto com força de lei de 11 de setembro,
    expedido pelo mesmo Ministerio, e que o restringia ao vinho e ás carnes
    verdes. A condição discriminava as duas hypotheses e referia-se nos seus
    dous membros ás leis que regulavam uma e outra. Rigorosamente a condição
    estava dentro da estricta legalidade. Seria nulla se d'ella se
    departisse.

    Os arrematantes, depois de celebrado o contracto, não entendendo a
    condição, ou fingindo não a entender, exigiram direitos das carnes
    seccas. Resistiram-lhes os interessados. Recorreram elles ao Governo. A
    12 de janeiro de 1853 expedia-se pelo Ministerio da Fazenda a seguinte
    portaria:

    «Ministerio da Fazenda.–Direcção Geral das Alfandegas.–Sua Magestade a
    Rainha, attendendo ao que lhe representaram os arrematantes do imposto
    do real d'agua, nas carnes, e no vinho dos Concelhos de Belem e Olivaes,
    sobre a necessidade de se fazer constar aos moradores d'estes Concelhos,
    que lhes cumpre pagar a elles arrematantes não só aquelle imposto na
    razão de dez réis em canada de vinho, e quinze réis em arratel de carne
    verde, e secca, de todas as qualidades d'estes generos que foram
    encontrados em ser na occasião do varejo a que se procedeu, e das que de
    novo admittirem para consumo; mas tambem o imposto addicional para
    amortisação das notas do Banco de Lisboa: Ha por bem determinar que o
    Delegado do Thesouro, no districto de Lisboa, expeça as ordens
    convenientes aos escrivães de fazenda dos Concelhos de Belem, e Olivaes,
    para que elles façam constar por meio de Editaes affixados nos lugares
    publicos dos mesmos Concelhos, quaes as condições com que o referido
    imposto foi arrematado, e as penas a que está sujeito todo e qualquer
    individuo que se recusar ao pagamento d'elle, as quaes são as de que
    tractam os §§ 4.^o e 7.^o do Alvará de 23 de Janeiro de 1643, e mais
    leis posteriores a similhante respeito.»

    O Parlamento desculpará por certo alguma expressão mais dura que possa
    escapar aos signatarios da presente súpplica, ao fazerem a repugnante
    exegese d'este singular diploma. A maior demonstração de benevolencia
    que poderiam dar ao Ministro que o assignou seria acreditar que o fez
    sem ler o que assignava. Esta camara quer suppol-o assim. Na essencia a
    portaria de 12 de janeiro illude a questão. É uma d'essas composições,
    com pretensão á ambiguidade, indignas de um Ministro da Corôa. Despojada
    do seu preambulo, das longas e tortuosas phrases que se arrastam como a
    serpente, o que resta? Uma ordem para se publicarem por Editaes as
    condições da arrematação, e as penas em que incorre quem devendo pagar o
    imposto, recusar fazel-o. Mas o que pediam os arrematantes? Pediam, que
    entre outras cousas, se fizesse constar, não aos logistas, aos
    vendedores de retalho, mas _aos moradores_ dos dous concelhos, que
    deviam pagar quinze réis de cada arratel não de carne verde, mas de
    _carne verde, e secca_. Era este o ponto importante. Na sua modesta
    súpplica elles exigiam simplesmente que ao direito de consumo cobrado
    sobre a venda a retalho, fosse substituido um direito de entrada ou
    barreiras. Queriam tornar fecundos os seus registos de Belem. Pediam
    que, limitando o decreto de 11 de setembro o imposto da carne ás carnes
    verdes, o Governo o estendesse ás carnes seccas. Eram pretensões
    absurdas que o Ministro devia desattender porque tendiam a ultrapassar
    uma lei, e lei tributaria. Pediam-lhe que perpetrasse um crime. E em vez
    de repellir a injuria; em vez de recommendar aos seus subalternos
    severidade e vigilancia em cohibirem as violencias dos arrematantes e em
    manterem o direito dos cidadãos, que se defendiam da espoliação, o
    Ministro, invocando n'esta comedia vergonhosa o nome do Chefe do Estado,
    ordenava que se lhes recordasse a penalidade fulminada contra os que
    tentam subtrahir-se ao pagamento dos tributos legitimos. Por uma
    inversão de todas as idéas administrativas e até do senso commum, a
    advertencia severa fazia-se aos cidadãos ameaçados, que se defendiam com
    a lei: a attenção era para as pretensões da cobiça insolente que
    reclamava para chegar aos seus fins, o apoio illegal do poder!

    Que todo o homem honesto diga com a mão na consciencia, se ao ler a
    portaria de 12 de janeiro não conhece o intuito com que foi redigida; se
    não sente que se busca produzir um effeito de temor, para que os
    habitantes dos dous concelhos se hajam de submetter ás exacções dos
    arrematantes justas ou injustas, sem que todavia se possa em rigor
    accusar o Ministro de exorbitar? Quem não tivesse presentes os decretos
    de 11 de setembro; quem não conhecesse bem o mechanismo dos nossos
    impostos de consumo e os diversos regulamentos sobre a sua percepção e
    fiscalisação, vendo n'essa portaria que o Governo _attendia_ ás
    representações dos arrematantes, sobre a _necessidade_ de recommendar
    aos cidadãos o cumprimento de certos deveres, e que o mesmo Governo
    depois de enumerar sem distincção esses deveres, reaes e imaginarios,
    ameaçava os renitentes com o rigor das leis; quem, dizemos, se não
    persuadiria de que os arrematantes invocavam unicamente direitos
    legitimos, resultantes de um contracto, que a boa fé do Executivo era
    obrigada a manter?

    O povo, todavia, continuou no concelho de Belem a resistir ao vexame dos
    registos e guias, e d'estas resistencias chegaram a originar-se
    symptomas de graves conflictos. Por outra parte os vendedores de carnes
    seccas, bem aconselhados, deixaram os agentes publicos affixar os seus
    Editaes, as suas condições, as suas portarias, e recorreram ao Poder
    Judicial, de quem ainda hoje está pendente a decisão do negocio. D'esse
    Poder esperam elles justiça, se antes d'isso as Côrtes não approvarem a
    actual proposta do Ministro da Fazenda; porque sanccionada ella, nada
    mais resta aos cidadãos do que curvar a cabeça ante a soberania
    nacional.

    Aos factos precedentes veiu, passados mezes, associar-se outro que os
    completa, e que illustrando o anterior procedimento do Ministerio da
    Fazenda, acaba de habilitar a Camara dos Senhores Deputados para avaliar
    aquelle procedimento e talvez remontar ás suas causas. Interpellado na
    Camara dos Dignos Pares, na sessão de 13 de agosto de 1853, sobre os
    impostos e vexames dos dous concelhos de Belem e Olivaes, o Ministro da
    Fazenda contradisse o direito e os factos, e fez revelações
    deploraveis.–Disse que a intenção do Governo, (queria dizer da
    dictadura) nos decretos de setembro fôra pôr os povos ao abrigo das
    vexações, sem o thesouro d'isso tirar partido, e que tambem o Governo (a
    dictadura) não quizera diminuir o quantitativo dos impostos nos dous
    concelhos, como o declarava no relatorio de um d'esses decretos. Tudo
    isto era inexacto. Os vexames não cessaram como se acaba de mostrar. O
    thesouro tirou partido da reforma, porque em lugar de 38 ou 40 contos
    que auferia do territorio dos dous concelhos, passou a tirar 55 contos
    como tambem se mostrou. Diminuiu-se o quantitativo dos impostos, embora
    os factos viessem depois provar que a diminuição era nominal. Emfim, a
    dictadura não declarou as intenções que o Ministro lhe attribuia n'essa
    memoravel sessão, citando aquelle relatorio, porque todas quantas
    considerações n'elle se fazem relativas a _deficit_, impossibilidade de
    reduzir impostos, etc., referem-se aos direitos fiscaes na cidade de
    Lisboa, e não aos dos dous concelhos, como facilmente verificará quem se
    der ao trabalho de o ler. E tanto assim, que depois d'essas
    considerações os Ministros da dictadura accrescentaram, que os concelhos
    de Belem e Olivaes «ficavam sujeitos ás imposições geraes do Reino, e
    apenas obrigados ao pagamento de alguns tributos a maior, que ainda os
    deixava _em grandissima vantagem em relação ao seu estado anterior_, mas
    que era justo pagassem pelos beneficios e cómmodos que lhes resultam do
    contacto com a capital.»

    Se isto é deploravel, mais o foi ainda a defesa da portaria de 12 de
    janeiro. O Ministro que nessa conjunctura confessava que não soubera
    redigir o decreto de 11 de setembro, relativo ao assumpto, podia tambem
    declarar francamente que não soubera o que tinha feito expedindo-a. A
    Camara dos Dignos Pares seria por certo indulgente á vista d'esta
    confissão ingenua. O joven Ministro achou, porém, mais facil emprehender
    a apologia d'aquella monstruosidade administrativa. Para isso preferiu
    confessar que a portaria tinha por alvo fazer considerar como extensivo
    ás carnes seccas o novo imposto. O real d'agua era-o na opinião do
    Tribunal do Thesouro, do conselho da direcção dos impostos e d'elle
    Ministro, que hoje vem pedir ao Parlamento a interpretação d'essas leis
    sobre o real d'agua, ácerca das quaes nenhuma duvida tinha. Por um
    genero novo de hermeneutica tirou d'esse facto supposto uma conclusão
    singular. O decreto de 11 de setembro era lei promulgada por uma
    dictadura. Esta, assumindo, bem ou mal, o poder legislativo, podia
    modificar, alterar, revogar todas as leis do Reino, menos o alvará de
    1643 e a carta de lei de 1844, relativos ao real d'agua. A esse poder
    nem se quer era licito dar-lhes uma interpretação menos extensiva do que
    lhes dava o Ministerio da Fazenda e as repartições ou individuos d'elle
    dependentes. Aquelle alvará e as leis correlativas eram inviolaveis como
    o Chefe do Estado, embora se dissesse no decreto de 11 de setembro que
    os dous novos concelhos pagariam o imposto de quinze réis por arratel de
    _carne verde_. Supposta a inviolabilidade do alvará de 1643 e da
    interpretação ministerial, essa designação não podia significar o que
    significa. A expressão _carnes verdes_, dizia o Ministro, é alli
    similhante á disposição _em globo_ do alvará de 1643 e da lei de
    1844.–Na sua opinião _verde_ é o genero, _secco_ a especie. Até hoje os
    adjectivos indicavam as qualidades do sujeito, e importavam sempre uma
    limitação porque excluiam as qualidades contrarias, e repugnavam ao
    absoluto; mas desde agora podem incorporar aquellas e representar este.
    Se qualificarmos de branco um corpo qualquer, isso não obstará a que
    seja ao mesmo tempo preto. _Branco_ ficará qualificando o genero;
    _preto_ ficará qualificando a especie. É pelo menos esta a theoria do
    illustre Ministro da Fazenda. A grammatica geral e o diccionario da
    lingua foram abrogados por elle naquella memorada sessão.

    Apesar, porém, da nova theoria, o Ministro não evitou a responsabilidade
    dos seus actos. Quando se publicaram as condições da arrematação do
    imposto que nos dous concelhos de Belem e dos Olivaes substituiu o real
    d'agua, essa theoria era desconhecida no mundo visivel. Podia existir na
    intelligencia do Ministro e na jurisprudencia occulta dos seus tribunaes
    e conselhos fiscaes, mas de certo não na dos licitantes d'aquella
    arrematação. O dever, portanto, do Ministro era expôl-a a tempo, e tanto
    mais que existindo ainda a dictadura seria legal, embora absurda, a
    interpretação dada por ella ao n.^o 2 do artigo 3.^o do respectivo
    decreto. Valia a pena fazel-o n'uma questão de tributos. Declarando-se
    aos licitantes que a expressão _carnes verdes_ significava igualmente
    _carnes seccas_, é evidente que o preço da arrematação subiria alguns
    contos de réis. Adoptal-a por uma portaria quinze ou vinte dias depois
    da adjudicação, e interpretal-a e confirmal-a perante o Parlamento
    passados seis mezes, foi defraudar o thesouro, em proveito particular,
    da somma differencial a que teria subido o preço da arrematação.

    Mas se tudo isto apenas merece a compaixão ou o riso dos Senhores
    Deputados, ha no acto ministerial de 12 de janeiro uma circumstancia que
    se tornava de notavel gravidade, desde que o Ministro vinha declarar
    n'uma das casas do Parlamento que a ambiguidade evidente na forma d'esse
    acto, não existia na indole e na intenção d'elle e que, praticando-o, o
    Ministro da Fazenda adoptára como verdadeiras e legitimas as indicações
    dos arrematantes. Dizia-se na portaria que os _moradores_ dos dous
    concelhos deviam pagar o imposto do vinho e de todas as carnes verdes e
    seccas existentes, ou que de futuro se consumissem. Esta doutrina
    alterava forçosamente o systema da fiscalisação. Pelo Codigo
    Administrativo os impostos sobre o consumo affectam só os generos
    vendidos a retalho dentro de qualquer circumscripção fiscal. O vinho ou
    as carnes que os moradores conduzem de fóra d'essa circumscripção, para
    seu proprio consumo e não para revenderem, são livres. D'aqui a _fórma_
    de se verificar a cobrança e fiscalisação do imposto. É a esta _fórma_
    de arrecadação a que evidentemente allude o decreto de 11 de setembro. O
    vendedor a retalho manifesta o genero perante a auctoridade quando o
    intruduz e paga o imposto: os agentes fiscaes fiscalisam pelos varejos,
    comparando os resultados d'estes com os manifestos. Considerando como
    sujeitos ao pagamento do imposto todos os moradores da circumscripção, e
    onerado sem excepção o genero tributado consumido dentro d'ella, (que é
    o que succede em Lisboa) a fórma da cobrança e fiscalisação varia
    necessariamente. Surgem então as barreiras, as linhas de circumvallação
    e, á falta d'estas, os registos, as guias, os homens armados que vigiam
    a orla do redil fiscal, que espancam e assassinam os contrabandistas, ou
    que são por elles espancados e assassinados. Volta-se ao systema das
    portagens do seculo XIII. A portaria de 12 de janeiro, confundindo o
    tributo portuguez de consumo pela venda a retalho com o tributo francez
    de _octroi_, de barreiras, ou de consumo absoluto, legitimava as guias,
    os registos, os guardas armados que existiam por excepção no concelho de
    Belem, ao passo que indeferia a súpplica dos arrematantes para os
    estabelecerem. A auctoridade local, despresando esse indeferimento e
    mantendo o vexame, era mais logica do que o Ministerio da Fazenda, e
    este mais logico deixando sem solução até hoje a representação dos
    moradores do concelho, do que indeferindo a pretensão dos arrematantes.

    De tudo quanto se passou na sessão de 13 de agosto da Camara dos Dignos
    Pares, a proposito da interpellação do Sr. Conde de Peniche, nada
    porventura é mais singular do que a audacia com que o Ministro
    exclamava: «_Hoje não ha a guia_ (nos dous concelhos): _transita-se por
    toda a parte sem o incómmodo d'esses exames geraes a que procediam os
    guardas das Sete-Casas: não ha registo, etc._» E no mesmo dia, e á mesma
    hora, talvez, em que elle orava no Parlamento, os guardas dos
    arrematantes estavam postados a espaços nas estradas do concelho de
    Belem, e os moradores que conduziam generos para seu consumo eram
    arrastados aos registos, onde se lhes exigiam os impostos, que pagavam
    ou deixavam de pagar conforme conheciam melhor ou peior o seu direito, e
    tinham mais ou menos valor para o sustentar. No dia, e talvez na hora,
    em que o Ministro falava, davam-se guias selladas e pagas n'esses
    registos, que não só existiam então, mas tambem existem hoje, embora com
    um caracter menos vexatorio, porque esta camara saberia defender os seus
    administrados se actualmente se dessem violencias, recorrendo, não ao
    Ministerio da Fazenda, mas sim ao chefe da policia para que mantivesse a
    segurança das vias publicas, e aos tribunaes para que punissem os
    culpados.

    A camara de Belem, depois da exposição de todos estes factos, tão
    incriveis como verdadeiros, transcreve um periodo da resposta dada pelo
    Ministro da Fazenda á interpellação do Digno Par Conde de Peniche. São
    as suas palavras textuaes:

    «Se o Governo substituisse os vexames dos arrematantes pelos da Fazenda
    teria feito talvez peior; porque os impostos arrematados são sempre
    cobrados com maior rigor fiscal; mas o Governo não tem admittido o
    registo pelos arrematantes; não está estabelecido o systema de guias
    como antes estava…»

    Confessa, portanto, o Ministro que em relação aos vexames, o systema que
    chama de Fazenda, e pelo qual esta camara suppõe que elle entende o das
    Sete-Casas ou de barreiras com registos, guias, etc., a situação dos
    novos concelhos, dada a hypothese da arrematação dos impostos, seria
    mais dura de soffrer do que antes, pela maior severidade da fiscalisação
    feita em proveito particular. Ora o systema que tem regido o Concelho de
    Belem é o dos registos e guias. Logo a situação dos habitantes d'este
    concelho tem sido, conforme a opinião dos Ministros, mais vexatoria do
    que sob o regimen das Sete-Casas.

    Fica, portanto, claro, á vista dos factos ponderados n'esta súpplica e
    na representação annexa dirigida ao Governo, que o concelho de Belem,
    espoliado dos bens que lhe deviam pertencer, sobrecarregado de onus
    tributarios, nominalmente menores, mas na realidade maiores do que os da
    epocha em que formava parte do de Lisboa, soffrendo em relação aos
    impostos geraes as consequencias da acquisição da sua individualidade
    municipal, continuando a experimentar por um abuso intoleravel da
    auctoridade os vexames das anteriores fórmas fiscaes, vilipendiado na
    sua magistratura municipal pelo desdenhoso silencio com que foi
    despresada a modesta e respeitosa representação dirigida ao Governo pela
    camara do mesmo concelho, não podia deixar de vir buscar protecção e
    justiça no seio do Parlamento. É o que em nome d'elle esta camara faz.
    Fal-o porque é o seu restricto dever; fal-o porque de outro modo
    trahiria a confiança dos que a elegeram. Pede a reforma dos decretos de
    11 de setembro; pede que as provisões d'esses decretos se affiram pelos
    principios eternos da moral e da justiça; que o concelho de Belem seja
    libertado de tributos excepcionaes e que tambem seja privado de
    quaesquer vantagens excepcionaes, cuja manutenção esteja a cargo da
    Fazenda Publica ou do municipio de Lisboa, uma vez que não se prefira
    haver uma compensação recebida do cofre d'esta camara; que se lhe retire
    consequentemente a subvenção deduzida das prestações dadas pelo Governo
    á camara de Lisboa; que se lhe restituam as propriedades, terrenos e
    edificios municipaes contidos no perimetro do concelho, e que fique este
    sujeito unicamente ao imposto do real d'agua como os outros concelhos do
    Reino, cobrado e fiscalisado do mesmo modo; pede em summa, em quanto
    esse admiravel invento dos economistas de D. João IV continuar a
    devastar o paiz, que aos habitantes d'este territorio seja applicado o
    direito commum, e concedido igual quinhão nos deveres e encargos que
    oneram os outros cidadãos, igualdade garantida a todos pela lei politica
    da monarchia.

    Esta camara, precisando de applicar ás despezas ordinarias do municipio
    uma somma excedente a dezeseis contos de réis, tem de rendimento actual,
    incluindo a subvenção do Governo estabelecida nas leis de setembro,
    menos de nove contos de réis. Onerados já com o imposto excepcional, a
    carne e o vinho, não poderiam ser tributados municipalmente senão n'uma
    proporção tenuissíma. No meio dos embaraços em que labora a agricultura
    do concelho, embaraços que se acham expostos na representação dirigida
    ao Governo, seria absolutamente impossivel sobrecarregar com imposições
    os cereaes, o principal, o quasi unico alimento das classes mais
    infelizes, e a unica producção importante d'este territorio. Os impostos
    indirectos sobre outras subsistencias dariam apenas sommas
    insignificantes. Resta a contribuição directa. Esta pelas nossas
    instituições administrativas não póde exceder a dez por cento da decima
    do concelho, e hoje da respectiva quota de repartição, a qual se eleva
    proximamente a 16 contos de réis, e cujo decimo, portanto, equivale
    apenas a 1:600$000 réis. Assim, ainda lançando todas as contribuições
    possiveis, directas e indirectas, esta camara difficilmente chegaria a
    igualar a sua receita com as suas inevitaveis despezas. Mas para obstar
    á decadencia da riqueza na circumscripção municipal de Belem, decadencia
    evidente a todos os olhos e que o proprio Governo reconheceu, além
    d'essas despezas ordinarias a municipalidade tem de recorrer á
    reconstrucção de estradas geraes e caminhos travessos, pela maior parte
    intransitaveis, para o que se precisam sommas avultadissimas,
    despendidas com a mais severa economia, porque a linha das estradas e
    caminhos de todo o municipio equivale á extensão de muitas leguas. Urge
    tambem a construcção de matadouros, porque a população inteira clama
    contra os abusos no fornecimento das carnes verdes, abusos que não só
    lhe affectam as bolsas, mas tambem a saude e a existencia, e para obstar
    aos quaes o unico meio é o estabelecimento de matadouros publicos, onde
    o genero se fiscalise, porque um dos resultados do imposto do real
    d'agua quer simples quer quintuplicado, como nos dous novos concelhos, é
    impossibilitar a concorrencia e converter o fornecimento das carnes
    verdes em monopolio dos arrematantes do imposto. Ás despezas porém, do
    meneio ordinario do regimen municipal, e ás extraordinarias que são
    inevitaveis para acudir á decadencia do concelho, e ás primeiras
    exigencias da hygiene publica, ajunta-se a necessidade de occorrer á
    creação do material indispensavel da administração de um concelho novo,
    constituido no termo de outro concelho, para o qual passou a maior parte
    do material empregado no serviço do territorio desannexado. Em
    similhante situação, a camara actual ignora a que meios hade recorrer
    para manter a administração do municipio, se continuar a pesar sobre
    elle o imposto excepcional.

    N'estes termos, a camara espera do Parlamento uma resolução favoravel
    sobre o presente assumpto.

    E.R.M.

    Ajuda 28 de abril de 1854. O presidente, Alexandre Herculano. Vogaes,
    João Ferreira Godinho–José Street d'Arriaga e Cunha–Joaquim Ferreira
    Pinto Basto–João José Teixeira Leal–Mathias Antonio Vieira.

    PROJECTO DE CAIXA DE SOCCORROS AGRICOLAS

    1855

    Senhor.

    A camara municipal de Belem, resolvida a occorrer a uma das maiores
    necessidades do concelho, a crear uma instituição do mais subido
    interesse e cuja utilidade já hoje ninguem se atreve a pôr em duvida,
    embora as opiniões variem sobre o modo de a realisar, offerece á
    approvação do Governo de Vossa Magestade, pedindo o uso da iniciativa do
    mesmo Governo perante o Parlamento a favor d'elle, o projecto de lei
    junto, relativo á fundação de uma Caixa de Soccorros Agricolas, especie
    de banco rural, accommodado ás necessidades d'este concelho, ao nosso
    estado economico e juridico, aos nossos usos agricolas, e até ás idéas e
    talvez ás preoccupações dos cultivadores, idéas e preoccupacões que, não
    havendo inconveniente, se devem respeitar, porque é esse o meio de fazer
    acceitar instituições novas, de cuja importancia só a experiencia de
    seus salutares effeitos póde persuadir os menos illustrados. Vossa
    Magestade permittirá que esta camara exponha, com a brevidade que taes
    materias comportam, os fundamentos que abonam a idéa geral do projecto e
    as suas varias disposições.

    Por toda a Europa se tem reconhecido a necessidade de salvar da usura a
    industria agricola, de facilitar a esta capitaes, cujo modico juro seja
    accommodado aos modestos lucros do cultivador. Em Portugal, onde tantas
    vezes e por tantas maneiras tem reinado uma agiotagem desenfreada, nem a
    industria fabril, nem o commercio, nem a fazenda publica teem padecido
    talvez por este lado metade dos males que a agricultura padece. Nas
    provincias do sul, sobretudo, os campos são devorados por uma praga de
    usurarios, que conservam o lavrador n'uma barbara servidão, e que
    defecando-lhe de continuo os recursos, não só lhe obstam a toda e
    qualquer tentativa de aperfeiçoamento rural, mas tambem o vão
    gradualmente conduzindo á miseria. Clama-se contra o atrazo dos
    cultivadores portuguezes, contra a imperfeição dos methodos, e esses
    clamores são em grande parte pouco assisados. Sem pretendermos que a
    nossa agricultura seja modelo, é certo que muitos dos defeitos que se
    lhe notam, não são senão necessidades resultantes do clima, do solo, do
    estado da viação, das condições dos mercados, do modo de ser da
    propriedade, e de mil outras circumstancias economicas e juridicas, que
    os agronomos especulativos desconhecem, ou que não apreciam. Se
    attendermos á elevação quasi constante dos salarios ruraes desde 1834
    para cá, á depreciação progressiva dos generos, e sobretudo á carestia
    sempre crescente dos capitaes, o accrescimo constante da massa dos
    nossos productos agricolas, abona a crença de que o systema de
    agricultar não é tão imperfeito como folgam de pintal-o os admiradores
    exclusivos das prácticas estrangeiras. Os grandes embaraços para o mais
    rapido desenvolvimento da agricultura consistem sobretudo na falta de
    capitaes, nas leis que por differentes modos se oppõem á divisão da
    terra e á translação do dominio, á falta de vias de transito e de
    policia rural, a circumstancias, em summa, que nada teem que vêr com
    esta ou com aquella fórma de instrumentos agricolas, com este ou com
    aquelle systema de afolhamentos, com a introducção d'esta ou d'aquella
    cultura nova, ou que, se teem alguma influencia n'essas cousas, é em dar
    razão ás vezes ao agricultor para não as adoptar, embora sejam boas
    absolutamente consideradas.

    A camara de Belem, tractando de remover o maior dos obstaculos ao
    desenvolvimento da agricultura n'este concelho, a carestia dos capitaes,
    deve fazer sentir a maneira como a usura procede na obra infernal de
    arruinar os cultivadores. O quadro que ella vae traçar é triste, mas
    verdadeiro, e oxalá não representasse ao mesmo tempo o que se passa na
    maioria dos outros concelhos, ao menos no sul do reino.

    Em geral a usura exercida sobre a agricultura é de duas especies. A 1.^a
    tem os caracteres genericos d'esta immoralidade: o mutuante, segundo a
    necessidade do agricultor, empresta sobre as hypothecas ordinarias com
    os juros mais exorbitantes que póde, suppostas taes ou taes
    circurmstancias no mutuario: é um agiota insolente, vulgar, ávido como
    qualquer outro. A 2.^a especie tem caracteres á parte: é a usura
    hypocrita, muito mais commum no campo do que a primeira. O usurario
    d'esta especie segue diverso rumo. É homem chão, modesto, exacto no
    cumprimento dos seus deveres civis, laborioso, valedor: é quasi um bom
    homem. Ignora as partidas dobradas e repugnam-lhe por via de regra, não
    só os juros exorbitantes mas até o juro legal. Quando empresta o seu
    dinheiro ao agricultor é por dó d'elle; é para lhe acudir n'um apuro. O
    que quer é assegurar o reembolso da somma mutuada. Tendo horror ás
    demandas, se o lavrador é proprietario não lhe acceita o predio como
    hypotheca, porque conhece a imperfeição das nossas leis hypothecarias:
    se o não é, nem por isso quer abandonal-o. N'esta situação que faz?
    Empresta sem juro; mas exige um contracto que lhe dê a certeza do
    reembolso. O cultivador ha de pagar-lhe em genero na eira. E como ha de
    ser o pagamento? Os cereaes regular-se-hão pelo preço mais inferior do
    genero n'essa conjunctura. É uma precaução. Para os riscos das baixas
    possiveis que depois sobrevenham de uma venda anterior, de uma divida
    desconhecida, de uma colheita insignificante, etc., o mutuario promette
    o abatimento de um, de dous, de tres vintens ou mais em alqueire. É
    outra precaução. O usurario é compassivo, é benevolo para com a sua
    victima, mas precisa de ser prudente. O contracto fica secreto ou como
    secreto; não se escreve porque o mutuante conta com a probidade do
    mutuario, ou para melhor dizer, com o temor que este terá de achar em
    novos apuros condições mais onerosas, e esses apuros são quasi
    inevitaveis desde que o cultivador caíu uma vez nas suas mãos. Taes são
    as fórmas mais communs da agiotagem rural n'este e n'outros concelhos.
    As circumstancias especiaes modificam-nas, mas em geral as transacções
    d'este genero caracterisam-se assim.

    O segredo que se guarda ácerca d'estas transacções obscuras e hediondas,
    a que se póde chamar a crapula da agiotagem, predomina tambem
    forçosamente no facto geral que resume esses mil factos de usura. A
    cargo da irregularidade das estações e dos mercados, da falta de vias de
    transito, do peso dos impostos, etc., ficam todos os males do lavrador.
    Murmura-se vagamente e em voz baixa; mas nas queixas publicas o usurario
    passa illéso. Como buscando o verme que destroe a arvore antiga, é
    preciso que o ouvido do observador seja bem agudo e o silencio á roda
    d'elle bem profundo, para sentir a usura roendo no amago da industria
    agricola. Se o Governo ou o Parlamento instituissem um inquerito solemne
    a este respeito, o mais provavel é que fosse nullo o seu resultado. O
    agricultor calar-se-hia porque não crê na auctoridade; não espera d'ella
    remedio. Martyr, olharia para o algoz e vêr-lhe-hia nas mãos os
    instrumentos dos tractos, ao passo que no poder publico só creria
    descortinar a indifferença, a fraqueza, a impotencia. Curvar-se-hia por
    isso e respeitaria o mais forte. Evitaria assim que no seguinte anno a
    sua imprudencia fosse castigada com mais uma volta na corda do potro;
    com mais um ou dous vintens de abatimento no preço por que devera vender
    cada alqueire de trigo.

    Para se avaliar bem toda a extensão do mal, é necessario, Senhor,
    attender a alguns factos. Ordinariamente o lavrador executa com um
    capital seu os primeiros trabalhos annuaes. Na prosecução d'esses
    trabalhos é que é vulgar virem a faltar-lhe os recursos, e é então que
    elle compromette o futuro. As mondas, as sachas, as cavas, as ceifas, as
    vindimas, acham-no muitas vezes desprovido. Ora entre estes ultimos
    trabalhos e o recolhimento dos fructos medeiam apenas de cinco a dous
    mezes e ainda prazos mais curtos. Por outro lado, como é vulgarmente
    sabido, a epocha em que os productos da agricultura teem menor valor é
    na occasião da colheita. Ajunte-se a isto a reducção de um tanto no
    preço de cada alqueire de cereaes ou de cada almude de vinho, e
    imagine-se qual será a exorbitancia do lucro do mutuante. Supponhamos (e
    esta supposição não vae por certo longe do que commummente succede) que
    o preço medio annual dos trigos temporãos, principal producção d'este
    concelho, corresponde a 500 reis, e que na epocha das eiras o cereal
    vale a 460 reis. Fazendo o abatimento de 20 reis em alqueire, o lavrador
    paga com cada um d'estes apenas 440 reis de uma divida que, suppondo-se
    contrahida por uma media de tres mezes, vem a soffrer um juro de 12 por
    cento em trimestre, ou 48 por cento ao anno.

    Esta camara, Senhor, não foi buscar exemplos aos casos mais
    escandalosos, que annualmente occorrem. Quando o credito do lavrador
    está abalado, muitas vezes por causa das mesmas usuras de que foi
    victima, quando a sua reputação de probidade não é inconcussa, quando os
    seus habitos de economia são pouco severos, quando as incertezas das
    estações o empobreceram, as usuras redobram de violencia. Mas, ou
    maiores ou menores, as difficuldades da sua situação augmentam de anno
    para anno, e o resultado mais ou menos remoto d'essa situação é a ruina
    e a miseria. O cancro da usura devorou-lhe interiormente a vida
    economica lento, lento e sem ruido; e esta lentidão e este silencio são
    uma das caracteristicas da agiotagem rural que a tornam mais difficil de
    extirpar. O que enleva, o que arrasta sobretudo o lavrador, é o mysterio
    d'essas transacções leoninas que não se escrevem, que não se vão contar
    na praça, porque o usurario é discreto e sabe tirar partido d'essa
    preoccupação dos agricultores.

    Foi attendendo a estes factos e ás circumstancias d'elles, que se
    concebeu o projecto de uma instituição que, supprindo com vantagem os
    bancos ruraes como existem nos outros paizes e que parecem, ao menos por
    emquanto, inapplicaveis ao nosso, trouxesse um alivio seguro á
    agricultura d'este concelho, mais compromettida e ameaçada de ruina do
    que se cuida. O pensamento do projecto foi aproveitar a experiencia,
    digamos assim, da industria da usura para a combater, organisando a
    Caixa de Soccorros de modo que á facilidade das transacções se ajuntasse
    a modicidade do juro, e o respeito por certos habitos e preoccupações
    que o progresso da illustração ha de destruir, mas que desattendidos
    emquanto são vigorosos, impedem sempre a realisação das melhores cousas.

    Affirmou, Senhor, esta camara que a Caixa de Soccorros, instituição
    simples e exequivel, substituirá com vantagem os bancos ruraes, que esta
    camara reputa inapplicaveis ao paiz. Efectivamente varias objecções
    gravissimas se pódem oppôr á tentativa de crear entre nós o chamado
    credito rural por via de bancos. Que são os bancos territoriaes ou
    hypothecarios? Uma instituição de garantia, intermedia entre o mutuante
    e o mutuario, ou mais exactamente entre o capital e a propriedade, e que
    attrahe aquelle pela segurança, esta pela barateza do dinheiro que a
    segurança do emprestimo produz. Na expressão da indole de taes bancos se
    manifesta desde logo o imperfeito da instituição, ainda absolutamente
    considerada. Não é só, diremos mais, não é tanto a propriedade rural
    como a industria rural que precisa de ser por toda a parte soccorrida
    por capitaes baratos. A terra é um capital como o dinheiro, porque não
    passa de um instrumento de producção: o productor é o que a cultiva. É
    para este, para quem representa o trabalho que sobretudo taes bancos
    deveram ser instituidos. Proprietario ou rendeiro, que importa a qual
    das duas cathegorias pertence o cultivador, o industrial agricola? Um
    carecerá só de ser mutuario do capital dinheiro; outro carecerá do
    capital dinheiro e do capital terra. Qual d'elles precisa de maior
    protecção? Evidentemente o segundo. Os bancos ruraes não satisfazem a
    esta necessidade. Aproveitam aos primeiros, porém não aos segundos, ao
    menos directamente. E todavia, não dizemos em Portugal, mas em quasi
    todos os paizes, o maximo numero dos cultivadores são os rendeiros. Na
    Polonia, na Allemanha, na Russia, na Dinamarca, na Belgica, as
    instituições de credito agricola não vão além da propriedade
    territorial. Nem outra cousa podia ser porque ellas suppõem geralmente a
    existencia do fundo, os bens de raiz, como hypotheca para o reembolso.
    D'esse facto deriva outra objecção grave contra os bancos ruraes. Os
    paizes do norte, onde a instituição nasceu, teem luctado com os mil
    tropeços, que traz á sua consolidação o regimen hypothecario, e a França
    debate-se para a crear com as difficuldades d'esse mesmo regimen, mais
    imperfeito ainda que n'aquelles paizes. Entre nós o systema de
    hypothecas póde considerar-se na infancia, e elle seria um obstaculo
    insuperavel ao estabelecimento dos bancos de credito territorial.

    Dir-se-ha que as nossas leis hypothecarias serão reformadas como acto
    preliminar á creação dos bancos? As nações mais adiantadas teem
    consumido annos e annos em estudos e tentativas para reformar essas
    leis, que prendem directa ou indirectamente com todo o direito civil, e
    ainda não o teem completamente alcançado. É permittido por isso duvidar
    de que tal facto se verifique entre nós, que ainda não temos um Codigo
    Civil e onde a legislação é um chaos. Faz, na verdade, sorrir a
    facilidade com que se imagina prover em Portugal, ao complemento e
    organisação d'esse esboço que ahi temos de um systema hypothecario.

    As instituições destinadas a servirem de intermedio entre os
    capitalistas e os proprietarios, ou dependem de associações poderosas e
    respeitaveis, ou da garantia publica. Mas quer sejam de um, quer de
    outro genero, é necessario que o seu credito se repute inabalavel. Sem
    isso debalde se buscaria obter capitaes baratos para agricultura. Mas
    quaes serão as associações poderosas e respeitaveis que possam ou
    queiram organisar entre nós os bancos territoriaes? Por outra parte a
    historia da fazenda publica e dos grandes estabelecimentos de credito
    n'este paiz, não abonaria demasiado a confiança dos mutuantes na
    garantia publica. Todos os diversos bancos ruraes actualmente existentes
    na Europa presuppõem a emissão de notas, de letras, de inscripções, de
    titulos de credito, em summa, para funccionarem. Mas quem prudentemente
    poderia esperar hoje em Portugal a acceitação de taes titulos? Mr.
    Thiers dizia em 1848 perante a assembléa nacional, n'um paiz onde o
    credito publico mal se poderia comparar com o nosso: «Basta que um papel
    se introduza n'um paiz como nota de banco para se me tornar suspeito».
    Nós os portuguezes não suspeitamos: descremos. E esta descrença matará
    todas as tentativas; porque o credito nem se improvisa, nem se decreta.

    Ás precedentes objecções vem associar-se outra, talvez não menos
    peremptoria. Os capitaes em Portugal teem um valor subido. São communs
    os emprestimos, feitos com toda a segurança compativel com o desordenado
    e incompleto das nossas leis civis, a 7, a 8 e a mais por cento. Ainda
    suppondo possivel a existencia de bancos ruraes que offerecessem solidas
    garantias, e que a situação actual da agricultura portugueza admittisse
    a exigencia de um juro de 5 ou 6 por cento, como attrahir os capitaes
    para os bancos? Como resolver o capitalista a contentar-se com um juro
    de 4 ou 5 por cento, visto ser necessario reservar pelo menos 1 por
    cento para as despezas da gerencia dos bancos, quando elle póde obter
    para o seu dinheiro um preço mais subido?

    Restaria só um meio, a emissão de notas que não representassem valores
    positivos; restariam as chimeras da mobilisação do solo e da
    multiplicação dos capitaes, ou por outra a moeda papel, que os utopistas
    crêem ter descoberto porque inventaram algumas phrases ou palavras
    novas, para exprimir erros velhos. Esta camara julga inutil combater
    similhantes preoccupações, porque o Governo de Vossa Magestade e o
    Parlamento estão acima de taes desvios. Se fosse possivel não o estarem,
    a opinião publica faria prompta e inexoravel justiça a esses papeis de
    credito, desacreditados ainda antes de emittidos.

    Esta camara, Senhor, não pretende com o que leva dito negar os
    beneficios produzidos pelos bancos ruraes nos diversos paizes da Europa,
    nem que o progresso das luzes economicas os venha a tornar mais amplos
    nos seus effeitos, nem finalmente que possa chegar um dia em que a sua
    fundação seja não só possivel, mas tambem conveniente ao nosso paiz.
    Quiz só mostar a convicção profunda que tem de que, por agora, para
    fazer alguma cousa verdadeiramente util á agricultura, considerada nas
    suas relações com o capital, cumpre tomar por base outro pensamento, e
    desenvolvel-o em harmonia com o nosso estado economico e civil, e além
    d'isso com as idéas, habitos e até preoccupações innocentes dos
    agricultores.

    Na creação da Caixa de Soccorros, que submette á approvação, e para que
    pede a iniciativa do Governo, esta camara tomou para ponto de partida o
    tributo municipal, em vez da esperança de obter capitaes alheios para
    gerir. A razão é simples: não os obteria senão por um preço que o estado
    da agricultura do concelho não comporta. Considerações mais largas a
    este proposito talvez aqui tivessem cabida, mas ella contenta-se com o
    que já ponderou, e que no caso especial é decisivo. Conhecendo pelos
    exames a que procedeu sobre a materia, que o grande mal consiste nas
    usuras a que o lavrador tem de sujeitar-se para obter os meios de
    executar os amanhos annuaes, foi sobretudo este mal que procurou
    combater. Se a usura espreita as necessidades instantes, que
    regularmente vêm assaltar o cultivador no grangeio annual, é ahi que
    deve ser repellida. A Caixa de Soccorros emprestará annualmente e só
    annualmente. D'este principio resultam a possibilidade e a proficuidade
    da instituição. Resulta: 1.^o que sendo a hypotheca do emprestimo os
    fructos em vez do predio, as questões hypothecarias desapparecem com um
    pequeno favor da lei, e sem offensa grave do direito de terceiro: 2.^o
    que limitando-se a quantia mutuada ao equivalente da renda liquida do
    cultivador, reduzida ainda a tres quartos para obviar aos inconvenientes
    das alterações inevitaveis n'essa renda, a Caixa, obrigada a
    subministrar apenas sommas comparativamente modicas, poderá multiplicar
    os emprestimos e, recolhido integralmente o capital todos os annos,
    salvo nos de escacez completa, estará sempre habilitada com recursos
    para renovar opportunamente o beneficio: 3.^o que limitando-se a
    emprestimos annuaes a mesma Caixa, evitará um dos grandes escolhos dos
    bancos hypothecarios, a absorpcão de capitaes avultados por um periodo
    indeterminado ou demasiado longo; isto é, evitará a causa mais ordinaria
    da ruina dos bancos hypothecarios: 4.^o que por esta mesma razão deixará
    de cair na justificada censura, que mais de uma vez se tem feito aos
    bancos territoriaes, de favorecerem a paixão excessiva pela propriedade,
    paixão vulgar no homem do campo, e a que se póde chamar _o vicio da
    terra_. Este vicio produz, mais frequentemente do que se cuida, a ruina
    do cultivador. Ha uma observação feita já por toda a Europa, e que é
    facil de fazer em Portugal. O lavrador que póde obter um capital por
    tempo indeterminado ou assás longo, não procura em regra dar maior
    intensidade ou aperfeiçoamento, á cultura do predio que cultiva: tracta
    de dilatar o grangeio. Ás difficuldades com que luctava accrescenta
    maiores, endivida-se cada vez mais; cada vez faz maiores sacrificios até
    que completamente se arruina. É esta a historia de muitos. O
    proprietario rural não deve estender a sua propriedade senão com
    economias realisadas: o rendeiro não deve converter-se em proprietario
    senão pelos mesmos meios. Tudo o mais é imprudente e arriscado, e tanto
    mais arriscado quanto é certo que o _vicio da terra_ cria facilmente na
    imaginação do cultivador esperanças de lucros, que se não verificam. Os
    bancos ruraes teem no meio de muitas vantagens este inconveniente. A
    amortisação pelas annuidades, systema facil para o mutuario remir a
    divida insensivelmente, não remedeia o mal senão causando outro. A
    annuidade não significa para o cultivador senão um augmento de juro, que
    excedendo as forças productivas da terra, o arruina tambem. No fim de um
    certo numero de annos não deverá o capital extincto pelas annuidades,
    mas deverá outro que tomará emprestado, quando a somma da annuidade com
    o juro annual exceder o producto liquido da sua industria.

    Nas disposições organicas da Caixa de Soccorros Agricolas, esta camara
    inseriu algumas provisões tendentes a remover uma apprehensão grave.
    Esta apprehensão, a que já anteriormente se alludiu, funda-se n'um facto
    de ordem moral: o cultivador portuguez envergonha-se de tomar dinheiro a
    juro: entende que ha o que quer que seja menos regular n'esse acto tão
    innocente como legitimo. Prefere tudo á publicidade do que elle chama a
    sua miseria, e que ás vezes o é. Não raro o usurario explora este
    sentimento de orgulho, porventura nobre na sua origem. Custa menos ao
    agricultor pedir áquelle a quem já pediu uma vez, e que não assoalha o
    facto, porque o defeito da usura não é ser vangloriosa. O usurario
    contenta-se com reter em servidão perpétua o cultivador que uma vez lhe
    caiu nas mãos. Aos olhos de muitos essa circumstancia pareceria de bem
    pouco momento: a esta camara pareceu que, practicamente, era uma das
    maiores difficuldades a vencer, e por isso insiste n'ella. Um facto,
    hoje esquecido, prova a sua importancia. Em 1845 o Governo decretando um
    emprestimo aos lavradores do Ribatejo, convidou a Companhia das Lezirias
    a fazel-o. Acceitou a Companhia o encargo com condições que presuppunham
    a publicidade como garantia. Pedia-se um juro modico em relação ás
    usuras de que ordinariamente é victima áquelle districto agricola.
    Nenhum mutuario todavia appareceu. Era o emprestimo um acto publico, e
    até certo ponto ruidoso, no qual cumpria que cada um se confessasse
    necessitado. Preferiram a usura, e uma circumstancia apparentemente
    insignificante bastou para inutilisar as intenções bemfazejas do Governo
    e da Companhia. Importava, portanto obstar a que igual successo se
    renovasse no caso presente. Imaginou-se o meio de conciliar a segurança
    da Caixa com as prevenções dos cultivadores, e esta camara crê têl-o
    achado nas disposições dos artigos 5.^o, 11.^o e 12.^o O registo dos
    emprestimos, se não dá a certeza de um segredo absoluto, offerece pelo
    menos tantas garantias de pouca publicidade como a discrição dos
    usurarios. Para o mutuario honesto ha a segurança de que, paga a divida,
    não ficarão d'ella vestigios escriptos, e de que emquanto subsistiu, o
    conhecimento da sua existencia não passou de poucos individuos. Na
    occasião da venda dos productos agricolas, raras vezes terá de se
    verificar o disposto no artigo 14.^o Ninguem duvida em geral de entregar
    ao lavrador uma parte do preço do genero vendido antes de completar a
    tróca.

    Com os simples meios de operar as transacções tanto dos emprestimos como
    da restituição adoptadas por esta camara, o cultivador evita esses
    tramites complicados a que ficaria sujeito n'outra qualquer instituição
    de credito. Os cultivadores, em troco do direito que adquirem a obter um
    capital barato quando lhes convier, não tomam senão o encargo de mandar
    buscar á Caixa de Soccorros uma certidão de corrente, se d'ella
    precisarem antes do dia 30 de agosto, para sem obstaculo negociarem os
    seus generos, e os compradores de productos agricolas nunca poderão
    allegar ignorancia, visto ser prohibido aos cultivadores do concelho
    operarem qualquer transacção sobre fructos, sem mostrarem o estado das
    suas relações com a Caixa.

    A vantagem dos cultivadores, sobretudo dos de cereaes, que são a
    grandissima maioria dos do concelho, não é só a de obterem capitaes a
    1/4 por cento ao mez, ou a 3 por cento ao anno, em logar dos juros
    exorbitantes de 30, 40 ou 50 por cento; é tambem a de poderem vender em
    conjunctura mais propicia do que a da colheita, visto que a restituição
    só tem de estar verificada no fim de janeiro: e se, por causa da
    facilidade de se harmonisarem os emprestimos com os reembolsos, os
    primeiros ficam circumscriptos ao periodo de fevereiro a julho, é esta a
    epocha em que realmente o cultivador precisa d'elles, porque é sabido
    que todo aquelle que não póde executar os primeiros trabalhos do anno
    agricola com os proprios recursos, não está habilitado para ser
    agricultor. Quando porém tal situação se désse, teria o lavrador a
    liberdade de vender na eira, restituindo o emprestimo á Caixa, fazendo
    os primeiros trabalhos com o resto, e vindo buscar em fevereiro novo
    emprestimo.

    Explicado o pensamento da camara no essencial, seria offender a
    intelligencia do Governo e do Parlamento, dar tambem a razão de cada uma
    das provisões do projecto. Em geral, ha n'elle a manifestação de
    desconfiança da boa vontade com que será mantida de futuro a nova
    instituição. Esta desconfiança existe de feito no espirito da actual
    camara. A fundação da Caixa de Soccorros Agricolas fere interesses
    poderosos. Esses interesses cuja legitimidade é mais que disputavel,
    hão-de combatêl-a antes e depois de creada, e o combate será tanto mais
    perigoso, quanto é certo que a usura tem de caminhar nas trevas, usando
    de meios indirectos. Eram necessarias prevenções contra o perigo, e a
    camara crê têl-as tomado. Quando, o que não é de esperar, viesse uma
    vereação hostil á existencia da instituição, as provisões do projecto
    são taes, que os vereadores comprometteriam seriamente a propria
    fortuna, faltando n'esta parte ao seu dever. Além d'isso, o
    administrador da Caixa, cuja subsistencia dependerá da permanencia da
    instituição, defendido de uma demissão injusta da parte da camara pelas
    disposições da lei, será um obstaculo permanente aos abusos que poderiam
    trazer a ruina da mesma Caixa.

    Resta ainda, Senhor, a esta camara dar algumas explicações sobre o meio
    adoptado para a formação do fundo, e sobre a quantia que se fixou para o
    constituir.

    Das considerações até aqui feitas deriva a creação do fundo por meio de
    um imposto. O capital assim accumulado, sendo propriedade do concelho,
    pôde mutuar-se por um juro insignificante sem detrimento de ninguem.
    Levantando-se um capital por emprestimo e applicando-se o imposto á
    amortisação d'elle, as operações da Caixa poderiam na verdade satisfazer
    desde logo a toda a procura de pequenos capitaes; mas é evidente que o
    imposto oneraria o concelho por mais annos, e o juro exigido dos
    mutuarios não poderia ser inferior a seis ou sete por cento, para
    occorrer ao pagamento do juro de 5 por cento (suppondo que se obtivesse
    dinheiro por preço tal) e ás despezas do estabelecimento. A camara,
    porém, está convencida de que a cultura do concelho, sobretudo a de
    cereaes, não soffre similhante juro. Além d'isso, sendo esta uma
    instituição nova no paiz, tendo contra si as repugnancias e hesitações
    que sempre se dão em taes casos, a fóra a guerra que lhe hão-de fazer os
    interessados em manter o estado actual das cousas, a procura de pequenos
    capitaes deve ser tenue a principio e crescer gradativamente á medida
    que o fundo augmentar.

    A base adoptada para determinar o algarismo do fundo foi a estatistica
    dos predios rusticos do concelho, a que a camara mandou proceder com a
    exacção possivel, supposta a sabida carencia de recursos que ha para
    obter a exacção em taes materias. Existem no concelho 812 predios
    rusticos, que se distribuem do modo seguinte, por uma escala gradativa
    da sua renda liquida:

    +———-+——–+———+———+———-+———-+———-+
    | |De 1$000|De 10$000|De 50$000|De 100$000|De 200$000|De 300$000|
    |FREGUEZIAS|a 10$000|a 50$000 |a 100$000|a 200$000 |a 300$000 |a 600$000 |
    | |reis |reis |reis |reis |reis |reis |
    |———-+——–+———+———+———-+———-+———-|
    |Belem | 3 | 10 | 7 | 2 | — | 2 |
    | | | | | | | |
    |Ajuda | 16 | 37 | 14 | 11 | 5 | 3 |
    | | | | | | | |
    |S. Pedro | | | | | | |
    |d' | | | | | | |
    |Alcantara | — | 2 | 11 | 10 | 3 | — |
    | | | | | | | |
    |Bemfica | 30 | 193 | 74 | 48 | 14 | 5 |
    | | | | | | | |
    |S. | | | | | | |
    |Sebastião | | | | | | |
    |da | | | | | | |
    |Pedreira | — | 20 | 20 | 24 | 4 | 3 |
    | | | | | | | |
    |Carnide | — | 49 | 8 | 10 | 2 | 2 |
    | | | | | | | |
    |Odivellas | 18 | 107 | 28 | 13 | 3 | 1 |
    | |——–+———+———+———-+———-+———-|
    |7 | | | | | | |
    |Freguezias| 67 | 418 | 162 | 118 | 31 | 16 |
    +———-+——–+———+———+———-+———-+———-+

    Tomadas as medias da escala gradativa, e multiplicando cada media pelo
    numero de predios de cada-gráu, achamos a media da renda liquida total
    ser de 57:175$000 reis.

    Mas aconselhando a prudencia que se limitem os emprestimos a trez
    quartos da renda liquida de cada mutuario, seguir-se-hia que o fundo da
    Caixa deveria ser proximamente de 42 contos de reis. Entretanto, do
    seguinte mappa, em que os predios rusticos do concelho são classificados
    segundo a natureza das respectivas culturas, deriva a consequencia de
    que uma somma menos elevada satisfará plenamente aos fins da
    instituição. Eis o mappa:

    +————+——-+——+——+——+——+——+——-+——-+
    | FREGUEZIAS |Quintas|Casaes|Terras|Hortas|Vinhas|Cercas|Olivaes|Pinhaes|
    |————+——-+——+——+——+——+——+——-+——-+
    |Belem | 4 | 2 | 14 | 4 | — | 1 | — | — |
    | | | | | | | | | |
    |Ajuda | 19 | 19 | 67 | — | — | 1 | — | — |
    | | | | | | | | | |
    |S. Pedro | | | | | | | | |
    |d'Alcantara | 13 | 6 | — | 2 | 1 | — | 1 | — |
    | | | | | | | | | |
    |Bemfica | 89 | 61 | 219 | — | 25 | — | 3 | — |
    | | | | | | | | | |
    |Carnide | 19 | 1 | 21 | 11 | 27 | 2 | 2 | — |
    | | | | | | | | | |
    |Odivellas | 22 | 34 | 123 | 16 | 9 | 1 | 3 | 2 |
    | | | | | | | | | |
    |S. Sebastião| | | | | | | | |
    |da Pedreira | 33 | 7 | 21 | 2 | 7 | — | 3 | — |
    | |——-+——+——+——+——+——+——-+——-|
    | | 199 | 130 | 465 | 35 | 69 | 5 | 12 | 2 |
    +————+——-+——+——+——+——+——+——-+——-+

    As quintas e as hortas no precedente mappa constituem mais da quarta
    parte dos predios rusticos do concelho. As primeiras pertencentes no
    maximo numero a proprietarios abastados da capital, e cultivadas por
    seus donos, sendo além d'isso muitas d'ellas antes objecto de luxo que
    de industria, não carecerão provavelmente nunca de soccorros da Caixa
    para o seu cultivo. As segundas pela indole de uma cultura, que não
    soffre a accumulação de fructos que possam servir de garantia ao
    emprestimo, estão forçadamente excluidas do beneficio da Caixa. Muitos
    dos predios, porém, incluidos n'estas duas categorias, figuram entre os
    de maior renda na lista das propriedades rusticas do concelho. Seria,
    portanto, necessario que todos os cultivadores, para cuja utilidade, ou
    antes para cuja redempção do captiveiro da usura esta instituição é
    destinada, carecessem de emprestimos integralmente equivalentes a trez
    quartos da respectiva renda liquida, para ser absorvido o fundo creado
    de 35:000$000 reis.

    O imposto destinado para este objecto, posto não seja senão a
    transformação de outro mais antigo e pesado, que hoje não poderia
    subsistir, tem encontrado as difficuldades que se costumam encontrar na
    fiscalisação e cobrança de um imposto novo. Para o realisar era
    necessario que a moderação acompanhasse a firmeza. Esta camara adoptou o
    methodo das avenças, methodo popular que facilita as operações da
    cobrança, tanto para os exactores como para os contribuintes, e que sob
    certo aspecto equivale ao systema do imposto directo e simples, e está
    demonstrando a excellencia d'elle, excellencia que infelizmente o povo
    ainda não comprehende. As avenças feitas não representam por agora a
    verba do que o imposto deve produzir; mas hão de approximar-se d'ella á
    medida que fôr possivel ir tornando a fiscalisação mais severa. Se a
    camara se não illude nas suas previsões, o fundo da Caixa estará
    preenchido dentro de sete ou oito annos, podendo e devendo cessar o
    imposto desde que estiverem preenchidos os fins d'elle.

    Reservando a quarta parte do tributo especial para as despezas geraes do
    municipio, a camara attendeu a que sem esta reserva recaíria sobre os
    outros ramos do serviço municipal a cobrança e fiscalisação d'elle, bem
    como a despeza com a gerencia da Caixa, emquanto os seus rendimentos não
    chegarem para isso, e finalmente considerou essa reserva como uma
    indemnisação pelo encargo estabelecido no ultimo periodo do artigo 23.^o.

    A camara de Belem espera que esta sua tentativa, para acudir á mais
    urgente necessidade de um concelho, em grande parte rural, merecerá a
    benevola attenção de Vossa Magestade, e que o projecto junto, corrigido
    pela sabedoria do Governo de Vossa Magestade, será submettido á
    approvação do Parlamento, que não a recusará por certo a uma
    instituição, cuja utilidade é inquestionavel.

    Deus Guarde a preciosa vida de Vossa Magestade, como todos havemos
    mister.–Camara, em Vereação, 27 de março de 1855.

    O Presidente–_Alexandre Herculano_.

    _Joaquim Ferreira Pinto Bastos_.

    _João José Teixeira Leal_.

    _Matheus Antonio Vieira_.

    _José Street d'Arriaga e Cunha_.

    CAIXA MUNICIPAL DE SOCCORROS AGRICOLAS

    Artigo 1.^o É instituido no concelho de Belem um fundo permanente com a
    denominação de Caixa Municipal de Soccorros Agricolas. O seu destino é
    subministrar capitaes baratos aos cultivadores para os amanhos ruraes.

    Artigo 2.^o O fundo d'esta Caixa formar-se-ha com tres quartos do
    producto do actual imposto de 20 reis em cada alqueire de farinha
    fabricada, até completar a somma de 35:000$000 reis.

    § unico. A camara poderá substituir o dito imposto por outro qualquer,
    uma vez que o seu producto seja pelo menos equivalente ao dos mesmos
    tres quartos do actual. Se a camara, porém, distrahir estes do fim a que
    são destinados, ou supprimir o imposto sem o substituir, antes de se
    completar o fundo, embora com approvação do Conselho de Districto, os
    vereadores ficarão responsaveis por seus bens ao complemento d'elle.

    Artigo 3.^o A administração superior da Caixa incumbe a uma direcção
    composta do presidente da camara, que será o presidente da direcção, do
    fiscal, e de um vogal eleito pelos cinco membros restantes da camara
    d'entre si.

    Artigo 4.^o A Caixa emprestará aos cultivadores do concelho, por prazos
    que nunca excederão a um anno, e a juro de 1/4 por cento ao mez, o
    capital necessario para o movimento da cultura annual dos respectivos
    predios, pela totalidade da somma existente em Caixa até ao complemento
    do fundo creado, e d'ahi ávante pelo total do mesmo fundo, o qual por
    nenhum pretexto poderá ter outra applicação, que não seja a de
    emprestimos annuaes aos cultivadores.

    Artigo 5.^o Haverá um registo, numerado e rubricado em todas as folhas
    pelos membros da direcção, de todos os cultivadores do concelho.

    Artigo 6.^o Os ditos cultivadores serão designados em duas categorias:
    1.^a lavradores; 2.^a fazendeiros.

    § 1.^o Entende-se por lavrador o cultivador de cereaes, e por fazendeiro
    o vinhateiro, o pomareiro e o que cumulativamente cultiva vinhas e
    pomares.

    § 2.^o Quando o grangeio do cultivador abranger ambas as categorias, o
    mesmo cultivador será classificado conforme a importancia relativa
    d'esse grangeio em cada uma d'ellas.

    Artigo 7.^o Abrir-se-ha um titulo a cada um dos cultivadores do
    concelho, contendo o seu nome, a natureza e condições da cultura, que
    determinaram a sua categoria, e bem assim a verba do producto liquido
    ordinario da mesma cultura, á vista da ultima quota do tributo geral
    directo, em que o cultivador tiver sido tributado. A administração,
    porém, da Caixa recorrerá ás informações que julgar opportunas para
    verificar a exacção da verba, que todavia nunca poderá ser superior á
    que corresponde a quota do tributo directo.

    Artigo 8.^o A somma mutuada por cada cultivador, nunca poderá exceder a
    tres quartos da sua renda liquida averbada no registo.

    Artigo 9.^o Serão hypotheca especial do emprestimo os fructos do anno
    corrente, produzidos no predio ou predios cultivados pelo mutuario, e na
    falta d'estes os dos annos immediatos até o reembolso da divida.

    Artigo 10.^o Os emprestimos far-se-hão durante o decurso dos mezes de
    fevereiro a julho de cada anno, por uma vez na importancia de tres
    quartos da renda liquida do mutuario, ou por duas vezes em duas
    parcellas iguaes, que completem os ditos tres quartos, ou apenas por um
    terço da renda liquida do mesmo mutuario, tudo a arbitrio d'este.

    Artigo 11.^o Haverá um livro de talão, chamado do registo annual dos
    emprestimos, numerado e rubricado em todas as folhas pelos membros da
    direcção da Caixa, onde se registarão as ementas dos mesmos emprestimos.
    Estas ementas, que conterão um numero de ordem, o nome do mutuario e a
    quantia por que fica devedor, serão escriptas, datadas e sobscriptas
    pelo administrador da Caixa e assignadas pelos mutuarios ou por outra
    pessoa a seu rogo, e por uma testemunha quando o mutuario não souber
    escrever. No talão escrever-se-ha o numero de ordem, a quantia mutuada e
    data da transacção.

    § 1.^o Cada uma das ementas feitas da maneira determinada no precedente
    artigo, será lançada n'uma folha separadamente.

    § 2.^o As certidões passadas do livro das ementas pelo administrador da
    Caixa, e referendadas pelos membros da commissão e pelo administrador do
    concelho, terão para os effeitos legaes o valor de uma escriptura
    publica de divida.

    § 3.^o O exame do registo annual dos emprestimos é vedado a todas as
    pessoas estranhas á administração da Caixa, salvo ao administrador do
    concelho.

    § 4.^o Na escripturação da Caixa de Soccorros o numero de ordem
    substituirá sempre o nome do mutuario.

    Artigo 12.^o No fim do anno, ou antes se os cultivadores o quizerem,
    verificar-se-ha o reembolso da Caixa, capital e juro, devendo esse
    reembolso estar realisado dentro do mez de janeiro immediato.
    Entregar-se-ha a cada mutuario como quitação a ementa ou ementas, que
    lhe forem relativas cortadas dos respectivos talões.

    Artigo 13.^o A acção e direito da Caixa de Soccorros terá a preferencia
    a outra qualquer acção e direito particular, sobre os fructos do anno em
    que foi contraído o emprestimo. Exceptua-se a acção da fazenda publica
    pelos impostos devidos.

    Artigo 14.^o Ninguem poderá levantar por titulo de compra, troca, cessão
    ou outro qualquer contracto, os fructos do predio rustico cultivados
    pelos individuos designados nos artigo 5.^o e 6.^o, sem que o cultivador
    lhe apresente certidão do estado da sua conta com a Caixa de Soccorros.

    § 1.^o Estas certidões serão rubricadas pelos membros da direção da
    Caixa, e passadas gratuitamente pelo administrador da mesma, e só ao
    cultivador interessado. Se a certidão declarar este em divida, o
    comprador dos fructos será obrigado a entrar na Caixa com a importancia,
    capital e juro, da dita divida, pagando ao cultivador a somma
    correspondente a essa importancia com o recibo respectivo. Se não
    cumprir o disposto n'este artigo, ficará responsavel pela divida,
    capital e juro.

    § 2.^o Se o contracto de compra ou de outra qualquer especie, e o
    levantamento dos fructos tiver sido feito occultamente, aquelle que
    houver feito o contracto ou recebido os fructos, ficará não só
    responsavel pela divida, capital e juro, mas tambem sujeito a uma multa
    de 20 por cento da mesma divida para o official da camara ou da
    administração, que descobrir o facto, ou para outro qualquer individuo
    que venha denuncial-o á direcção da Caixa.

    § 3.^o Se o cultivador tiver vendido os fructos a comprador transeunte e
    desconhecido, sendo por este levantados os mesmos fructos, ficará o dito
    cultivador incurso no crime de burla, e sujeito ás penas das leis.

    § 4.^o Aos cultivadores do concelho, que não houverem recebido
    emprestimos da Caixa, enviar-se-ha a certidão corrente n'esse anno até
    ao dia 30 de agosto, embora elles não a hajam anteriormente exigido.

    Artigo 15.^o Os cultivadores que mudarem de predio serão obrigados a dar
    aviso á administração da Caixa, e a declarar a importancia do seu novo
    grangeio e do rendimento liquido d'elle. Os que não o fizerem, ficarão
    inhabilitados por dous annos para receber emprestimos da Caixa.

    Artigo 16.^o Todos os annos, depois de concluido o lançamento dos
    tributos geraes directos, o administrador do concelho communicará á
    direcção da Caixa as alterações que houverem occorrido nas respectivas
    quotas de repartição, em relação aos cultivadores do concelho. Dadas
    essas alterações, mudar-se-ha no registo a verba, até a qual póde subir
    o emprestimo ao respectivo cultivador.

    Artigo 17.^o Acontecendo que o total das verbas pedidas pelos
    cultivadores exceda os recursos da Caixa, a preferencia será dada em
    razão ascendente da menor renda liquida para a maior.

    Artigo 18.^o Se qualquer cultivador do concelho fôr eleito vereador não
    poderá, em quanto exercer esse cargo, ser mutuario de somma alguma
    havida da Caixa de Soccorros Agricolas.

    Artigo 19.^o A nenhum dos mutuarios individualmente poderá a
    administração da Caixa espaçar o prazo fatal do reembolso no fim do
    anno. Quando por motivo de escacez das colheitas, ou de outra calamidade
    publica, se reputar necessaria a concessão de móra, a camara resolverá
    essa concessão, e fundamentando-a a offerecerá á sancção do Conselho de
    Districto. Sendo por este approvada, gosarão do beneficio da móra todos
    os mutuarios que d'ella quizerem aproveitar-se. Se a camara, porém
    entender que as circumstancias aconselham que se faca a dita concessão,
    ou só á classe dos cultivadores de cereaes, ou só á dos fazendeiros,
    conceder-se-ha a essa classe a móra especial com approvação do Conselho
    de Districto, sob a mesma condição de nunca ser individual.

    § 1.^o A móra entende-se em todo o caso para o capital; o juro será pago
    no prazo prefixo.

    § 2.^o O pagamento da divida não poderá ser exigido nos annos
    subsequentes, senão pela decima parte da renda liquida do cultivador,
    que se calculará com abatimento da mesma decima parte para o effeito de
    novos emprestimos.

    § 3.^o São hypothecas d'esta divida os bens de raiz do
    cultivador-proprietario, e os do cultivador-rendeiro, se os tiver. Se
    este não os tiver, sel-o-hão os seus bens moveis e semoventes, sendo
    além d'isso obrigado a dar fiador idoneo á divida.

    § 4.^o Estas dividas não vencerão juro, e a acção e direito da Caixa
    para as cobrar serão os mesmos da fazenda publica.

    Artigo 20.^o Para supprir até onde fôr possivel o desfalque do fundo
    pala móra, dada a hypothese do artigo antecedente, a Caixa tomará um
    emprestimo dentro das seguintes limitações:

    1.^a O total do emprestimo será equivalente ao capital representado por
    dous terços do rendimento liquido da Caixa, considerados como juro, os
    quaes effectivamente ficarão applicados ao pagamento do juro do
    emprestimo.

    2.^a O terço restante do rendimento liquido ficará destinado á
    amortisação, bem como o remanescente annual dos dous terços applicados
    para o pagamento do juro.

    3.^a A camara, sobre proposta da direcção, submetterá o contracto do
    emprestimo á sancção legal, na forma do artigo 103.^o do Codigo
    Administrativo.

    Artigo 21.^o Os membros da direcção da Caixa serão responsaveis pelos
    actos da sua gerencia, remettendo annualmente até o mez de março uma
    conta especificada das transacções operadas no anno anterior, para o
    Conselho de Districto examinar se a lei foi cumprida, e impôr a
    responsabilidade á direcção.

    Artigo 22.^o Haverá um administrador com o vencimento annual de 300$000
    reis, a quem pertencerá o meneio de todos os negocios da Caixa que lhe
    forem incumbidos pelo respectivo regulamento. Os zeladores da camara
    servirão por turno de contínuos, e o procurador da mesma camara servirá
    de agente forense, mediante uma gratificação annual arbitrada pela
    camara, e approvada pelo Conselho de Districto, a qual nunca excederá a
    20$000 reis. Quando trabalhos extraordinarios o exigirem, a direcção
    requisitará da camara o serviço de um ou mais amanuenses da secretaria
    da mesma camara.

    Artigo 23.^o O administrador da Caixa será nomeado pela camara, que lhe
    exigirá fiança idonea no valor de 3:000$000 reis; só, porém, poderá ser
    demittido por uma resolução do Conselho de Districto, sobre proposta da
    direcção, approvado pela camara, a qual aliás o póde suspender, havendo
    para isso proposta da direcção.

    Artigo 24.^o Os vencimentos acima referidos e mais despezas da Caixa
    serão pagos pelo seu rendimento e emquanto este para isso não chegar,
    será completada a somma total da despeza pelo cofre da camara.

    Artigo 25.^o O rendimento da Caixa, deduzidas as despezas da sua
    gerencia, e fóra do caso previsto no artigo 20.^o, será exclusivamente
    applicado, a arbitrio da camara, aos seguintes objectos: 1.^o á
    manutenção das escholas primarias municipaes de 1.^o ou de 2.^o grau;
    2.^o à compra de sementes, cuja introduccão se repute util, para serem
    gratuitamente distribuidas aos cultivadores, que quizerem tentar a sua
    cultura; 3.^o á compra de instrumentos, machinas ou utensilios
    agricolas, com as mesmas condições e fins; 4.^o á sementeira ou plantio
    de pinhaes ou mattas nos baldios ou terrenos de inferior qualidade,
    pertencentes ao concelho, ou adquiridos por elle para tal fim.

    § _unico_. Estas applicações só se verificarão depois de completo o
    fundo da Caixa. Até ahi o seu rendimento liquido será n'elle
    encorporado.

    Artigo 26.^o A camara fará os regulamentos opportunos para a boa
    gerencia da Caixa, os quaes terão vigor depois de approvados pelo
    Conselho de Districto.

    Camara de Belem, 27 de março de 1855.

    _Alexandre Herculano_.

    SOBRE A QUESTÃO DOS FORAES

    1858

    Meu amigo.–Sinto que as primeiras linhas que escrevo para o seu jornal,
    e que escrevo e escreverei para satisfazer ao desejo que me manifestou,
    de que o ajudasse na sua util empreza conforme as minhas escassas
    possibilidades, seja para rectificar idéas ahi contidas e que me parecem
    pouco exactas. São as de uma correspondencia insérta a paginas 94 do
    1.^o volume do Archivo. Pondera-se n'aquella correspondencia a
    necessidade de uma nova lei de Foraes. Não sei até que ponto essa nova
    lei é possivel, depois de tantos factos consummados em harmonia com a
    carta de lei de 22 de junho de 1846. Quando medito nas difficuldades,
    nas injustiças relativas, nas incertezas que resultariam de novas
    providencias contrarias ás d'aquella lei, eu, que não recuo facilmente
    diante das consequencias de commettimentos de tal ordem, quando se
    tracta de grandes reformas, de grandes actos de justiça social, titubeio
    perante as hypotheses que prevejo se dariam quando se tratasse de
    legislar com mais liberal espirito sobre tão grave assumpto, e faço
    votos para que os legisladores que tentarem tal empreza, achem a solução
    racional de um problema, que a meus olhos não a tem das mais faceis.

    A lei de 1846 é uma lei reaccionaria, profundamente reaccionaria. É a
    explosão da guerra occulta feita por interesses illegitimos ao grande
    acto de justiça nacional, chamado o decreto de 13 de agosto de 1832,
    pensamento talvez o mais grandioso da dictadura do Duque de Bragança, a
    que só faltaram desenvolvimento e provisões, que facilitassem a sua
    execução, falta que subministrou pretextos ao espirito de reacção para o
    falsificar e annullar em grande parte. A lei de 1846 não me inspira só
    hostilidade; inspira-me indignação. Mas quando uma lei tem actuado
    durante doze annos sobre o modo de ser de uma grande parte da
    propriedade territorial do paiz, quando tem regulado milhares de
    contractos, servido de norma a milhares de sentenças, influido em
    milhares de successões, determinado para mais ou para menos milhares de
    fortunas, pretender alteral-a póde não ser uma grande temeridade, mas
    requer por certo uma alta força de intelligencia, e uma circumspecção
    pouco vulgar.

    Mas o que ha mais grave na correspondencia que o meu amigo publicou é
    uma outra circumstancia. Adopta-se ahi um erro analogo ao que produziu
    as peiores disposições da lei de 22 de junho, se abstrahirmos do seu
    pensamento fundamental, o salvar tudo o que, sem extremo escandalo,
    fosse possivel salvar das velhas extorsões dominicaes. O pensamento,
    infelizmente mal desenvolvido, do decreto de 13 de agosto era libertar o
    paiz do nosso primitivo systema de renda publica, derivada por abusos de
    seculos para a algibeira de particulares, e substituido em relação ao
    estado por outro systema de renda, o que trouxera uma situação
    intoleravel para a maior parte da propriedade territorial, a solução de
    duas series de impostos uma só das quaes chegava aos cofres do erario. O
    decreto de 13 de agosto supprimia a serie primitiva, a serie delapidada.
    Era uma idéa simples, clara, justa em these. O mal veiu da
    insufficiencia dos meios na sua applicação á hypothese. O decreto de 13
    de agosto não tivera, não podia ter em mira offender contractos
    particulares sobre propriedade patrimonial: o que cumpria em qualquer
    lei posterior tendente a esclarecel-o e a rectifical-o, era reformar as
    suas provisões que de qualquer modo dessem azo a ser offendido o direito
    privado, e por outra parte completar aquellas que não bastassem a
    extirpar o grande abuso, a immensa extorsão publica a que se pozera o
    machado. Para isso tornava-se necessario designar quaes caracteres,
    quaes condições, na falta de provas directas e incontestaveis, serviriam
    para demonstrar ou para se presumir que tal fôro, tal censo, tal direito
    dominical procedia de um contracto expresso ou tacito com o estado. Onde
    e quando as condições e os caracteres fossem demonstrativos, a prova em
    contrario deveria ser supprimida; onde e quando produzissem só
    presumpções, admittir-se-hia essa prova em contrario. Tudo o mais
    reputar-se-hia resultado de contractos particulares, salvo tambem o
    direito do colono, emphyteuta, ou censuario a provar a origem publica do
    onus ligado ao predio que possuia. O principio da abolição, dada essa
    origem publica, não podia ter nem excepção nem limites. A lei devia
    reconhecer a indemnisação pelo estado na unica hypothese em que ella era
    justa, a da venda de direitos dominicaes feita pela corôa. A verba total
    não havia de ser demasiado avultada; e que o fosse era uma divida que se
    pagava. As gerações são solidarias.

    Em vez d'isto, appellou-se para a distincção cerebrina de _titulo
    generico_ e _titulo especial_, que vinha tanto para o assumpto, como uma
    sura do alcorão, ou um artigo das leis de Manú; e á sombra d'esta
    distincção que não distinguia nada, confundiu-se tudo, e restaurou-se
    quasi tudo fazendo-se aos colonos originariamente da corôa, o grande
    favor de poderem remir o onus dando por elle (considerado como juro ou
    renda) o equivalente em capital. O que os legisladores quizeram bem
    averiguado foi se a transmissão do uso da terra, reservado o dominio,
    fôra escripta para servir de titulo a muitos colonos ou a um só, se n'um
    se em muitos diplomas. Era uma curiosidade archeologica sobre a
    abundancia ou a raridade do pergaminho na idade media, que poderia
    subministrar um capitulo interessante a alguma nova edição da _Economia
    Politica del Medio Evo_, do meu amigo Luiz Cibrario.

    É este erro, esta confusão do direito privado com o publico, mas em
    sentido opposto ao da lei de 22 de junho, que me parece conter-se na
    correspondencia de que falo. Rigorosamente, e considerado na sua
    verdadeira indole, o decreto de 13 de agosto estatuiu sobre uma questão
    de direito publico. Consideral-o de outro modo é desconhecer os seus
    fins e o seu alcance. Libertar a terra é exemptal-a de onus injustos, de
    vexames, de encargos impostos pela força; não é annullar contractos
    livres particulares ácerca da propriedade patrimonial. Quando se pede
    uma lei que crie para emphyteutas e sub-emphyteutas, sem excepção, o
    direito de _remir todos os fóros_, pede-se que a lei desfaça contractos
    livremente debatidos, espontaneamente celebrados, e conformes na sua
    essencia aos principios de justiça absoluta. O canon emphyteutico, o
    censo, qualquer quota no producto da terra que o senhorio directo de um
    predio, de accordo com o colono, reserva para si transmittindo o dominio
    directo, é em rigor a renda de um capital, ou aluguer perpétuo de um
    instrumento de producção. Póde a lei expropriar o dono d'esse
    instrumento para utilidade particular, e por um preço taxado de antemão
    por ella? Se tal se houvesse de admittir porque não se admittiria a
    regra contraria? Porque não revocaria a si o senhorio directo o capital,
    o instrumento, pagando as bemfeitorias ao colono? Suppondo justa a
    primeira prescripção, porque se reputaria injusta a segunda?

    Repito: não sei se é possivel recuar no caminho que abriu a lei de 22 de
    junho. Se o é, se os fóros de Alpiarça pertencem á categoria d'aquelles
    que o decreto da primeira dictadura queria abolidos, e se a lei
    reaccionaria e insensata que destruiu, ao menos em parte, aquelle grande
    acto de justiça nacional, póde ainda ser substituida por outra mais
    conforme com o espirito d'esse acto, não é a remissão de taes fóros que
    d'ella deve resultar, quer o senhorio directo pertença hoje ao estado,
    quer a corporações, quer a individuos; é a suppressão, a abolição
    completa. Quanto a fóros em bens de origem patrimonial, é impossivel
    acceitar a doutrina da correspondencia.

    Escrevo estas linhas, meu amigo, ao correr da penna e sem os
    desenvolvimentos que requeria a gravidade do assumpto, porque antevejo
    os inconvenientes sociaes da propagação de taes doutrinas. Para mim o
    grande meio de progresso na cultivação do paiz, da melhor distribuição
    da população, do melhoramento das classes laboriosas, do chamamento do
    proletario ao goso da propriedade, e por ella aos bons costumes e ao
    amor da familia e da patria, é a emphyteuse. A meus olhos, a emphyteuse
    é o unico meio de obstar aos inconvenientes da divisão indefinita do
    solo, e ao mesmo tempo de combater os males que resultam da existencia
    dos latifundios, sobretudo dos latifundios amortisados, esterilisados
    pela instituição vincular. Mas se a opinião que proclama o direito de
    remissão a bel-prazer do emphyteuta, ameaçar de contínuo o dominio
    directo, todas as providencias que se hajam de tomar, que se devem
    tomar, para impellir indirectamente os donos de vastos tractos de terra
    a retalhal-os por aforamentos, serão baldadas. Os possuidores de
    latifundios mal cultivados preferirão o atrazamento agricola, os menores
    redditos actuaes á espoliação futura, e o paiz difficilmente sahirá de
    uma situação economicamente mais embaraçosa do que muitos crêem, e que
    nos horisontes do futuro se me representa assaz carregada.

    Que o direito emphyteutico seja simplificado; que se dispa de todos os
    accessorios de que o revestiram os costumes e as idéas de epochas
    barbaras, é necessario e justo: que se vicie na sua essencia, n'aquillo
    em que é legitimo, sensato, benefico e civilisador, é absurdo. A lei que
    tal ordenasse seria ao mesmo tempo espoliadora e inepta.

    Julho, 10 de 1858.

    _A. Herculano_.

    FIM DO VOLUME VII.

    NOTAS

    [1] O novo artigo não veio a publico.

    _Nota dos editores_.

    [2] Este artigo foi publicado em 22 de agosto e o primeiro em 7 do mesmo
    mez.

    _Nota dos editores_.

    INDICE

    Advertencia

    Duas epochas e dous monumentos ou a granja real de Mafra

    Breves reflexões sobre alguns pontos de economia agricola

    A Granja do Calhariz

    Projecto de decreto

    _O Paiz e A Nação_

    Representação da Camara Municipal de Belem ao governo

    Representação da Camara Municipal de Belem ao parlamento

    Projecto de Caixa de Soccorros Agricolas

    Sobre a questão dos foraes

  • Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 04

    Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 04

    Aproximadamente 55.130 palavras.

    _P.S._ Ao cerrar esta carta recebo o _Jornal do Commercio_ de 8 do
    corrente, onde vem transcripta a minha penultima carta. Precede-a um
    artigo do sr. P. de M., que parece destinado a corrigir factos e
    apreciações contidos no que tenho escripto. Quando accedi á publicação
    d'estas cartas, desde logo resolvi responder com o silencio ás
    impugnações mais ou menos innocentes, mais ou menos habeis, mais ou
    menos irritadas, que eram de esperar. Firo interesses e preconceitos
    arreigados, rejeito opiniões adoptadas talvez sem sufficiente exame.
    Como o homem physico, a idéa aggredida defende-se. É cousa natural. O
    desgosto tem o direito de exprimir-se conforme a indole de quem o
    padece. Deixal-o manifestar-se em paz, e consolar-se com um facil
    triumpho. Declaro-me desde já vencido e refutado. Posso, porém, tractar
    do mesmo modo o trabalho do sr. P. de M.? De certo não. Ao nobre e
    independente caracter do auctor, ao seu talento, á sua especial
    competencia n'estes assumptos, ajuncta-se a sua nunca desmentida
    benevolencia para comigo, benevolencia que, longe de desmentir-se agora,
    se duplica, talvez, até á exaggeracão. Podemos ver o assumpto a luz
    diversa; mas somos ambos desinteressados. Pediu-me v. ex.^a a minha
    opinião: dou-a, boa ou má, sinceramente, lealmente.

    Sobejam-me annos e fallecem-me ambições: por isso não calculo se agrado
    ou desagrado a uma escola, a um partido, a uma classe, e ainda ao
    proprio paiz. Quando, porém, a nobreza moral, a inquestionavel
    competencia, e o conhecido desinteresse me advertem que errei,
    entristeço, porque é provavel que efectivamente errasse. O erro, ainda
    quando involuntario, é sempre um mal. Vou estudar detidamente o trabalho
    que precede, no _Jornal do Commercio_, a minha penultima carta. Não me
    custará a retractação, a que é natural me conduza esse estudo: apenas me
    ficará a magua de ter tomado o tempo a v. ex.^a com as minhas reflexões
    menos acertadas.

    VI

    *Lisboa, outubro 1874.*

    Ill.^{mo} e ex.^{mo} sr.–Meu amigo, depois de ter lido com a attenção
    de que era capaz o escripto do sr. P. de M., sinto não poder
    converter-me.

    E sinto-o pelo prazer que teria em reconhecer a importancia do seu voto,
    e em estribar as minhas opiniões na sua auctoridade indisputavel e
    indisputada sobre o assumpto d'estas cartas. Ao primeiro aspecto, elle
    parece concordar commigo na substancia. Dou a miseria como causa suprema
    da emigração rural, e, no dizer do meu illustre contendor, _em tudo_
    quanto escrevo a tal respeito _ha um fundo de verdade_. Occorrem, porém,
    factos que tornam menos seguras as minhas conclusões.

    Nem sempre, diz elle, a emigração deriva da miseria. Quem o duvida?
    Decerto não sou eu, que não só admitto, mas até especifico outros
    incentivos d'ella, e não só em certos casos a absolvo, mas até a
    applaudo. A questão é se esta causa existe, e sobretudo se existe em
    relação á emigração rural, que era o ponto sobre que v. ex.^a me pedia o
    meu voto, visto ser a essa luz que se considerava o assumpto no
    questionario que me remetteu. Se existe e actua em larga escala, os
    poderes publicos devem forcejar por destruil-a; porque a miseria, como
    phenomeno geral e permanente, deriva sempre de um vicio na economia
    social. No meu modo de ver a acção d'esses poderes não vai mais longe.
    Tremo da tutela publica; porque a tutela publica é o ponto de contacto
    entre o despotismo e o socialismo. Nos actos commummente licitos da vida
    civil não concebo a intervenção da auctoridade para que um unico d'esses
    actos deixe de se practicar. N'esta parte o auctor do artigo, espirito
    esclarecido, liberal e justo, parece que em these concorda commigo.

    O sr. P. de M., reconhecendo a principio que ha um fundo de verdade no
    que digo sobre a insufficiencia do salario, reconhece a existencia da
    miseria que fatalmente deriva d'essa insufficiencia. O que parece não
    admitir é que ella seja remediavel, porque faz nascer da propria
    natureza do organismo social esses factos verdadeiros que apontei. Quer
    isto dizer que a miseria do trabalhador provém indirectamente de uma lei
    natural? Não creio que seja assim. A sociabilidade é que é uma lei. O
    organismo social é a manifestação, a fórmula em que ella se traduz. Essa
    manifestação, essa fórmula depende forçosamente de quem ha-de realisar a
    lei; depende do homem, ente intelligente e livre, e portanto capaz de
    aperfeiçoar as suas obras. O organismo social é, por isso, susceptivel
    de ser transformado. Os progressos da civilisação constituem uma série
    de transformações d'esse organismo. A historia está ahi para o
    testificar. Deus me livre de crer na invencibilidade do mal.

    Assim, no entender do meu tão benevolo contendor, ainda que a miseria
    podesse enumerar-se entre as causas da emigração, cumpriria curvar a
    cabeça ante um facto fatalmente necessario. Não crê, porém, que a
    insufficiencia do salario rural seja uma causa indiscutivel da emigração
    no continente portuguez. Está longe d'isso. Talvez a admitta só nos
    districtos insulares, e se, especificando o que os poderes publicos
    devem fazer relativamente á emigração, não lhes diz que tentem remediar
    a miseria, a qual, ao menos alli, provém de salarios insufficientes, é
    que os dolorosos effeitos d'essa insufficiencia são inevitaveis e
    irremediaveis.

    Qual é pois a causa supereminente, omnimoda, quasi exclusiva, da
    emigração? É a indole aventureira e cubiçosa do homem. Esta indole
    exaggera-se pela acção das idéas de um povo sobre as idéas de outro. A
    idéa moderna das raças germanicas é o emigrarem os que tem alguma cousa,
    e os proletarios morrerem abraçados com a terra da patria. As raças
    celto-romanas, a que de ordinario chamamos povos latinos, são actuadas
    hoje pela idéa germanica: isto sem livros, sem jornaes, sem
    missionarios, sem nenhuma especie de propaganda, e só pela força
    sympathica da idéa. Os que possuem vão-se, os que nada possuem ficam. Se
    esta theoria é verdadeira, os lamentos dos agricultores são um perfeito
    engano. Podem rarear as fileiras dos patrões; as dos simples jornaleiros
    não. Quanto mais a emigração crescer, mais provavel é a baixa dos
    salarios ruraes.

    Procede a theoria do sr. P. de M. de duas fontes: 1.^a a propria
    observação; 2.^a os factos que se dão em Allemanha. Para mim, o primeiro
    seria decisivo, se as observações do sr. P. de M. fossem, não digo
    completas, mas assás extensas. Limitam-se a um tracto maior ou menor das
    costas do oceano. Sabe de casos numerosos em que a idéa germanica se
    reproduz entre nós; isto é, em que, associando-se ás indoles
    aventureiras e cubiçosas, essa idéa arrasta homens remediados a
    liquidarem seus haveres e a demandarem as regiões da America. Não era
    preciso o testemunho irrecusavel do meu honrado contendor para eu crer
    esses factos. Ainda dispensando a intervenção da idéa germanica, estou
    convencido de que os espiritos aventurosos, audazes, desejosos de
    melhorar de fortuna, proletarios ou não proletarios, terão mais de uma
    vez trocado a patria pela America. Para isso tem-se a si; e é o que lhes
    basta. Ambos nós, embora por motivos em parte diversos, julgamos que não
    convem obstar a esta emigração, e que para o fazer a auctoridade não tem
    nenhum meio liberal e legitimo. Mas esses factos das orlas do mar serão
    applicaveis ao complexo total da emigração do reino? O sr. P. de M.
    conhece 50, 100, 200 casos de tal ordem: mais; muitos mais, se quizer. O
    algarismo que os representa ha-de ser sempre grandemente inferior ao de
    50:000 emigrados que, por exemplo, abandonaram o paiz só n'um dos
    ultimos quinquennios. O mais que o meu bom amigo pode fazer é tirar
    illações. Ora, illações de 50, de 100, de 1:000 para 50:000, não me
    parece que tenham grande valor, sobretudo n'esta questão.

    A idéa germanica, em que se funda a theoria do sr. P. de M., resulta de
    um inquerito ordenado recentemente pelo chanceller do imperio allemão.
    Segundo esse inquerito estatistico, relativo aos ultimos cincoenta annos
    (se em Portugal apparecesse uma estatistica d'estas, o que se diria, meu
    Deus!), a emigração allemã até 1840 foi constituida _exclusivamente_
    pelos proletarios: _nem um_ só individuo de classes mais felizes buscou
    fortuna na America. Repentinamente, por uma especie de mutação á vista,
    o proletariado lança raízes na _Vaterland_, na terra d'Arminio. O
    espirito aventureiro, a cubica da riqueza surgem n'aquelle anno. É uma
    cholera moral que invade a Allemanha. A enorme torrente da emigração não
    pára, não se attenua; cresce. O proletariado, porém, não lhe cede _um_
    só individuo. O _maltrapilho_ emigrante passa a tradição. Todos os que
    emigram tem de seu: liquidam e vão levar os capitaes da opulenta
    Allemanha á pobrissima America. O paiz exhaure-se. Esses capitaes
    representam nada menos do que uma somma equivalente á contribuição de
    guerra imposta á França. Propriamente, o que os francezes pagaram foi um
    saldo de contas entre a Allemanha e a America.

    Perdoe-me o meu amigo P. de M. uma supposição vaidosa até á
    extravagancia. Se eu fosse o principe de Bismarck, com o systerna um
    pouco militar da administração prussiana, mandava descançar os
    inquiridores nas casamatas de Spandau, para lhes fazer notar que o
    gracejo não é admissivel em objectos de serviço. Só deixaria de o fazer,
    se particularmente lhes houvesse recommendado que achassem esses
    resultados moralmente impossiveis. V. ex.^a sabe, de certo, por pessoas
    doutas e tementes a Deus, que eu sou um grandissimo impio, peiorado
    agora com minha nesga de petroleiro. Tolere-me, por isso, um acto de
    incredulidade quasi brutal. Não creio uma palavra dos fins apparentes e
    dos resultados objectivos do inquerito. Creio, porém, que milhares e
    milhares dos mais robustos braços, que o rio caudal da emigração arrasta
    annualmente, fariam enorme falta ás espingardas de agulha no dia em que
    a França cedesse ao appetite de ser esmagada de novo. Se o chanceller
    pensa seriamente em retel-os, não ha-de ser só a estatistica encarregada
    de dar plausibilidade ás suas providencias; ha-de ser toda a sciencia
    allemã sem exceptuar a critica de Strauss e a philosophia de Hegel.

    Quando o imperador Guilherme prohibiu ás companhias de caminhos de ferro
    que fizessem abatimento nos preços de transporte aos que se dirigiam aos
    portos de mar para emigrarem, e que esta singular prohibição alevautou
    altos clamores nos Estados-Unidos, o ministro allemão em Washington
    viu-se constrangido a confessar que as providencias tomadas significavam
    precauções contra as tentativas de desforra da França. Não eram
    capitaes, eram braços que o governo queria reter. E de facto, se os
    emigrantes não fossem em grande parte simples jornaleiros, simples
    proletarios, não haviam de ser alguns thalers a mais na despesa do
    transito que retivessem na Europa a multidão de peculios, equivalentes á
    contribuição de guerra da França, que iam felicitar a America.

    Se eu, de má fé, quizesse acceitar a theoria do meu amigo P. de M. sobre
    a emigração, provaria contra elle que a emigração portugueza é essencial
    e quasi exclusivamente de proletarios miseraveis. Se admittisse a força
    impulsiva dos exemplos peregrinos, o pensamento estranho, modificando
    por uma acção mysteriosa o pensar nacional, acharia uma influencia mais
    potente pela força numerica dos exemplos, pela maior proximidade, senão
    affinidade, de raça, e até pela unidade de crenças religiosas, para
    produzir o milagre. Refiro-me á Irlanda. Se existe uma especie de
    magnetismo da classe remediada de origem germanica sobre a classe
    remediada portugueza, porque se não dará o mesmo influxo do proletariado
    celta sobre o proletariado celtoromano? São, porém, a cubica e a
    audacia, ou é a miseria que tem expulsado o irlandez da patria? Se em
    meio seculo a America attrahiu da Allemanha 2.500:000 individuos, só nos
    Estados Unidos, só pelo porto de Nova-York, e só em 20 annos (1847 a
    1866) entraram 1.500:000 emigrados irlandezes. D'estas duas forças
    uniformadoras, qual é a mais poderosa, e qual d'ellas, portanto, teria
    actuado mais em Portugal, se esta acção existisse?

    Posto que seja uma triste convicção, continúo a crer que a miseria é a
    causa suprema da emigração dos campos. A insufficiencia do salario
    produz por dois modos a desgraça do trabalhador–privando-o directamente
    do necessario, e impellindo-o ás vezes, pela dor moral, a buscar o
    estonteamento na embriaguez, que lhe augmenta a propria miseria. É um
    phenomeno vulgar; e se, como observa Laveleye[13]–«quasi por toda a
    parte o salario do obreiro é insufficiente para satisfazer as suas
    necessidades racionaes»,–esse phenomeno geral abrange-nos tambem.
    Forcejar por lhe amortecer a intensidade, por destruil-o, se é possivel,
    tenho-o como dever e interesse communs. Assim, não só removeremos um
    poderoso incentivo de emigração, mas tambem fortaleceremos a sociedade
    contra perigos mais serios. Segue-se d'isto, acaso, que não existem
    outras causas de uma emigração nociva? De certo não. O que não vejo é o
    remedio para neutralisar essas causas, algumas das quaes só alterações
    profundas no mechanismo social poderiam remover. Sirva de exemplo o
    recrutamento, que basta para explicar a emigração dos nossos mancebos
    pelos portos da Galliza, facto que só pode maravilhar os que ignoram até
    onde chega a repugnancia, ou antes o horror da mocidade aldeã a
    arrancarem-n'a por alguns annos do ninho paterno para a lançarem n'um
    teor de vida desconhecido, mas que ella bem sabe não condizer com os
    habitos, com as occupações, com os affectos, que constituem a historia
    completa da sua singela existencia. Pode applicar-se aos que assim o
    fazem o dicto de Quevedo–_matar-se por no morir_; mas é certo que a
    isso os arrasta um impulso interior, irreflexivo e irresistivel.

    Preoccupam quasi exclusivamente o meu caro antagonista os engajadores:
    vê-os por toda a parte; vê, até, no oceano um dos mais terriveis. O
    aspecto e o ruido das ondas attrahem para a America. Permitta-me elle
    que advogue a causa do oceano. Não é muito: a causa de Deus já foi
    defendida na Convenção franceza. Se o mar tem o segredo de attrahir os
    habitantes dos districtos de Vianna, do Porto, de Aveiro e de Coimbra,
    que banha por uma orla, mostra-se de pasmosa incapacidade para o mister
    que exerce, logo que as suas vagas rolam para o sul da foz do Mondego a
    visitar as praias e ribas dos de Leiria, de Lisboa e do Algarve, ao
    passo que o districto de Braga, vendo-o e ouvindo-o apenas por estreito
    espiraculo, e os de Vizeu e Villa Real, conhecendo-o só de nome, lhe
    entregam aos milhares seus filhos. Não seria mais simples e conforme á
    razão pôr de lado influencias em parte contradictorias, em parte
    incomprehensiveis, e buscar na densidade comparativa das populações
    ruraes a explicação do phenomeno? Não é facto eloquentissimo serem os
    districtos onde a população mais rapidamente cresce, e mais densa é em
    relação á superficie do respectivo territorio, os que subministram
    numero incomparavelmente maior de emigrados? Que significa isto, não
    digo em Portugal, digo em toda a parte, senão que a producção, por
    defeito do solo ou do clima, por pouca intensidade ou imperfeição da
    cultura, pela má constituição da propriedade, emfim, por qualquer causa
    natural ou facticia, não corresponde á densidade da população? O excesso
    d'esta em relação aos seus recursos foi, é, e ha-de ser, em todos os
    tempos e logares, o incentivo ordinario das migrações que tem povoado e
    hão-de ir povoando o globo. Mas o desequilibrio entre a producção e as
    necessidades impreteriveis do total dos productores tem de traduzir-se
    em miseria para alguns ou para muitos d'elles antes que o equilibrio
    renasça. Sempre, porém, os symptomas do mal hão-de manifestar-se nos
    orgãos economicamente mais debeis do corpo social, nas classes
    trabalhadoras. Por isso continúo a persuadir-me de que é, não a
    influencia germanica, nem o oceano, mas sim a miseria a verdadeira,
    co-ré dos engajadores.

    Pede o SR. P. de M. severidade para com elles. Eu, de certo, não os
    applaudo nem os protejo; mas, quando theoricamente esquecemos ou negamos
    as causas mais efficazes d'esta ou d'aquella ordem de phenomenos,
    estamos arriscados a engrandecer tão desmesuradamente as secundarias
    quanto o exige a logica do erro. É assumpto de particular estudo este
    dos engajadores, ácerca dos quaes, se não faltam deplorações sentidas e
    accusações genericas, falta a indicação particularisada de sufficientes
    factos especiaes sobre que possam recair apreciações reflectidas. É
    probabilissimo, não me cansarei de confessal-o, que os animos
    emprehendedores e cubiçosos, as imaginações ardentes, sobretudo quando
    os aguilhoar a pobreza, busquem na emigração melhor fortuna. Para elles,
    porém, a influencia germanica parece-me já de sobra, e os induzimentos
    dos engajadores um verdadeiro pleonasmo. Em todo o caso, com essas
    influencias ou sem ellas, ambos nós estamos de accordo em que não se
    devem nem se podem pôr embaraços a esta especie de foragidos. Restam-nos
    os animos irresolutos, as indoles timidas, pobres de imaginativa,
    moderadas nos desejos. Dada a não existencia do irresistivel incentivo
    da miseria, é racionalmente crivel que esses individuos sem ambições
    exaggeradas, sem resolução, sem precisões urgentes, emfim, sem nenhum
    impulso physico ou moral, quebrem violentamente os laços que os prendem
    á terra de infancia, laços fortes sobretudo no homem do campo, só porque
    um individuo, provavelmente desconhecido, os convida a deixar o seu
    prediosinho, a familia, os amigos, os mil affectos, em summa, que nos
    retem na patria, para se arrojar ás solidões do oceano, dobradamente
    temerosas para quem as desconhece? Isto é impossivel!

    Mas o engajador não é uma pura invenção. Acredito; postoque me faltem
    bastantes factos, precisos e indisputaveis, para avaliar a extensão das
    suas malfeitorias. Supponhamos, porém, a não-existencia da miseria
    involuntaria e honesta: desde esse momento o engajador deixa de excitar
    a indignação e deve ser visto a luz diversa do clarão sinistro que o
    allumia.

    Nas profundezas da sociedade, como nas depressões das gandras, ha lagôas
    doentias, charcos apodrecidos. As paixões e os instinctos degenerados em
    vicios alimentam esses brejos. Fluctuam ahi entes embrutecidos. São os
    desgraçados que designamos com os nomes desdenhosos de relé, de
    gentalha, existencias anormaes, zangões dos enxames humanos. O seu
    _habitat_ mais commum é no seio das camadas inferiores das populações
    urbanas, mas o campo não está isento d'elles. Supprimida theoricamente a
    miseria honrada, a actividade dos engajadores move-se forçosamente na
    esphera do vicioso, do abjecto, da parte da população moral e
    economicamente nociva. N'este caso o engajador seria um emunctorio, e
    longe de se lhe contrariarem os esforços, conviria favorecel-os.

    Ou me engano muito, ou é esta a consequencia que se deduz, a final, das
    doutrinas do meu illustre contendor. De certo não a previu quando,
    indignado, pedia aos poderes publicos que sustessem toda a propaganda
    que tivesse por fim promessas fallazes. Se entendo bem esta phrase um
    pouco obscura, parece-me que lhes pede o desempenho de missão difficil.
    Não me occorre, dentro dos limites dos principios liberaes, meio nenhum
    practico de impedir propagandas, quer verbaes, quer escriptas, posto que
    não faltem meios de punir as que offendam as leis. Não sei tambem como
    verificar antecipadamente se quaesquer promessas, contidas no ambito do
    possivel, serão ou não cumpridas: questão do futuro que o presente não
    pode resolver. Parece-me arriscado aconselhar cousas d'estas aos
    governos, propensos sempre a ultrapassar no exercicio do poder a
    barreira incommoda dos principios. O perigo da phrase de certo escapou á
    perspicaz intelligencia do meu illustre adversario, que, liberal
    sincero, proclama a eterna verdade de que o indivíduo é _em primeira_ e
    ultima instancia o juiz do proprio interesse.

    Depois de fundamentar a sua doutrina, o sr. P. de M. accumula as
    considerações que entende invalidarem a minha. Quanto a elle o operario
    rural, se não gosa de todos os commodos possiveis, caminha em movimento
    ascendente para o bem estar, emquanto a grande e a mediana propriedade
    rural vão em temporaria decadencia. Sem negar as contrariedades e
    embaraços, não direi da grande e da mediana propriedade, o que não é o
    mesmo, nem tem a mesma importancia, mas sim da grande e da mediana
    industria agricola, é obvio que as minhas convicções sobre a situação
    relativa das duas classes são bem diversas das do meu tão indulgente
    contendor. Como elle, derivei-as de certa ordem de factos. Esses em que
    a opinião adversa se estriba pareceram-me, uns insufficientes, outros
    inadmissiveis, outros gratuitos ou mal interpretados. Illudir-me-hia? O
    insufficiente, o infundado, o impossivel, o gratuito, podem estar nos
    elementos de que me servi ou nas consequencias que d'elles tirei. É a
    esta luz que devo considerar agora as observações do meu amigo P. de M..
    Obstaculos da vida privada obrigam-me, porém, a interromper aqui a serie
    das idéas que me occorrem sobre a materia. Em breve espero atar-lhes o
    fio e chamar de novo sobre ellas a attenção de v. ex.^a.

    VII

    *Lisboa, outubro 1874.*

    Ill.^{mo} e ex.^{mo} sr.–É pela base que o sr. P. de M. começa a
    demolição das considerações, que me levaram a crer que a emigração rural
    tem por causa prominente a insufficiencia do salario e conseguintemente
    a miseria do jornaleiro.

    Entende elle que, se quizermos habilitar-nos para estudar a questão,
    devemos previamente queimar os documentos officiaes onde se registam os
    factos relativos ao assumpto, e ir estudar estes pessoalmente nos
    diversos districtos do reino, porque os empregados subalternos de
    administração são ignorantes, inhabeis, sem consciencia da propria
    responsabilidade, e porque a estatistica não passa de uma sciencia
    conjectural que cumpre pôr de parte.

    Hesito, na verdade, em tomar o bordão de peregrino e correr os dezesete
    districtos do reino só por estes fundamentos, porque duvido de que sejam
    seguros. Os funccionarios subalternos, expressão demasiado vaga que pode
    abranger toda a jerarchia administrativa, exceptuados os membros do
    governo, são como o resto da sociedade, de cujo seio saem e a cujo seio
    voltam, ignorantes uns, illustrados outros; uns remissos e desleixados
    no exercicio das suas funcções, outros activos e zelosos; uns sem
    consciencia do seu dever, outros pontuaes e briosos. A idéa,
    infelizmente vulgar, de que o funccionario publico é geralmente mau,
    parece-me inexacta e injusta. Como empregados e como homens não são
    peiores nem melhores do que nós, os que não pertencemos a essa classe, o
    somos, quer no exercicio das nossas respectivas profissões, quer na
    nossa vida civil. Se a palavra official é indigna de credito, não sei
    d'onde derive o melhor direito da nossa a ser accreditada. Se acaso eu
    fosse de concelho em concelho interrogar o proprietário rural não
    lavrador, o lavrador proprietario, o lavrador rendeiro, o caseiro ou
    colono parciario permanente, o seareiro ou colono parciario annual, o
    singeleiro, o criado de soldada, o jornaleiro proprietario, e o simples
    jornaleiro, sobre a situação especial de cada uma d'estas classes e
    sobre as suas mutuas relações, estou prevendo que, no fim da
    peregrinação, havia de achar-me possuidor da mais estupenda collecção de
    affirmativas contradictorias, de mentiras evidentes, de factos
    improvaveis ou deturpados, de accusações apaixonadas, de convicios
    reciprocos, resultados ordinarios da lucta de interesses oppostos.
    Porque preferir esse meio de informação ás declarações da auctoridade
    local, sobretudo quando é exercida por individuo estranho á parochia, ao
    concelho, á comarca, ao districto? Se no meio das collisões de
    interesses a corrupção pode leval-o a transfigurar os factos, não o
    fará, por certo, em beneficio da classe dos operarios.

    Para apreciarmos por nós mesmos as situações absoluta e relativa do
    industrial agricola e do operario rural seria necessario que, além de
    termos a consciencia segura acerca da propria imparcialidade,
    exercessemos por dois ou tres annos a profissão de agricultores em cada
    um dos diversos districtos do reino. Sem isso, a estatistica é
    inevitavel; ou estatistica obtida dos que tem responsabilidade, que não
    nego possam illudir, ou estatistica irresponsavel, e, o que mais é,
    interessada. Abranger a totalidade dos factos economicos da industria
    agricola de um paiz inteiro pela propria observação não cabe nem na vida
    nem nas forças de um individuo. Pode essa observação dilatar-se por uma
    área maior ou menor, mas será sempre assás limitada em relação ao todo,
    embora produza ás vezes excellentes monographias que sirvam de
    correctivo aos erros officiaes; mas colligir, de modo mais ou menos
    imperfeito, a generalidade dos factos só o alcançam a vista e a acção
    dos poderes publicos que se estendem a todo o paiz. Como nota De
    Lavergne; as estatisticas geraes servem de aferição ás observações
    individuaes. «Seria cousa nova–diz elle–o supprimil-as, como se, para
    vermos mais claro, forcejando por accender um facho, começassemos por
    apagar outro[14].

    Se a rejeição dos meios officiaes de informação me parece inconveniente
    e injusta, mais singular acho ainda a condemnação absoluta da propria
    estatistica, votada ao ostracismo como sciencia conjectural. Ha aqui
    forçosamente um equivoco. A estatistica tem por objecto colligir e
    ordenar methodicamente os factos sociaes que se podem exprimir com
    algarismos. Nada menos conjectural. Se em vez de factos se colligem
    supposições, não se faz estatistica, faz-se novella. Na estatistica
    applicada é que são possiveis as conjecturas e os erros que d'ellas
    tantas vezes derivam; mas inferir d'isso a inanidade da estatistica é o
    mesmo que negar a validade scientifica da arithmetica, porque muitas
    vezes se erram sommas ou multiplicações. De que dependem por via de
    regra as leis e providencias de indole generica, sejam de ordem juridica
    ou moral, sejam de ordem economica? Dependem de um estudo estatistico
    correlativo. É n'esse estudo que está a sua razão de ser.

    Quando, convencidos da existencia de uma enfermidade social, desejamos
    submetter á opinião publica os arbitrios que nos occorrem para a
    remover, e estes arbitrios tem de estribar-se nos factos que a explicam
    ou caracterisam, podemos contrapor livremente ao voto das maiorias o
    voto individual pelo que toca ao valor e significação d'esses factos e
    ás illações que d'elles se hão de tirar. Domina ahi o raciocinio e não a
    auctoridade. Quanto, porém, á existencia dos mesmos factos, as nossas
    affirmativas ou negativas hão-de esteiar-se em demonstrações claras e
    indubitaveis, ou havemos de admittil-os como a sociedade nol-os
    subministra. Querer que esta acceite o nosso vago testemunho, contra o
    testemunho individuado dos seus agentes, parece-me exigir de mais.
    Podemos recusar as informações d'elles quando evidentemente impossiveis
    ou absurdas, porque n'esse caso o senso commum exerce a sua supremacia;
    mas nem por isso as nossas affirmações em contrario precisam menos de
    provas incontrastaveis. Esta é que me parece a boa doutrina.

    Mas de que estatisticas me servi eu para verificar se a miseria do
    operario rural era uma realidade, ou se era fundado o clamor dos
    cultivadores contra a exorbitancia dos jornaes? Servi-me das indicações
    subministradas por esses funccionarios do governo, para com os quaes se
    mostra tão severo o meu illustrado antagonista? Apenas me referi ás
    opiniões de alguns, que me não parecem ignorantes ou indifferentes. Como
    prova de que nem elles nem eu nos enganavamos sobre a insufficiencia do
    salario, recorri á comparação dos preços do meio dos principaes generos
    de alimentação do trabalhador, e dos preços do meio dos salarios. Estes
    elementos do calculo encontrei-os nos mappas communicados pelas camaras
    municipaes. Nos concelhos onde predomina a propriedade rustica, as
    vereações são compostas de proprietarios e lavradores, ou, pelo menos,
    de individuos que mereceram a sua confiança, porque são elles que
    preponderam nas eleições, pelo numero e pelas influencias. Fiei-me,
    pois, em documentos de magistrados independentes do governo, e, o que
    mais é, representantes da classe, cuja sorte o sr. P. de M. parece achar
    mais digna de piedade que a dos trabalhadores. Os preços do meio não
    foram de certo inventados para servirem aos meus argumentos. A fixação
    annual d'elles é uma funcção exclusivamente municipal; é um facto
    notorio, indubitavel, necessario. Depende d'isso a realisação de certos
    contractos, a solução de certos encargos, e até o cumprimento de
    mandados judiciaes. Haverá inexacções, para mais e para menos, na
    fixação de taes preços; mas semelhantes inexacções compensam-se umas
    pelas outras. Os meus calculos podem ser erroneos; mas as bases sobre
    que assentam, creio-as inconcussas.

    É singular! A situação da classe dos trabalhadores melhora gradualmente,
    emquanto a dos proprietarios ruraes e lavradores peiora. E todavia
    estamos de accordo em suppor que o signal do melhoramento da classe
    operaria consistiria em ir-se transformando o simples jornaleiro em
    proprietario. Parece que n'esse caso deveriamos deplorar a imprevidencia
    do trabalhador que abandona uma situação progressivamente vantajosa,
    para entrar n'outra que vai em decadencia. O meu talentoso adversario
    sentiu que as suas affirmativas tinham o que quer que fosse que
    suscitaria dúvidas. Explicou-as pois. A grande e a mediana propriedade
    luctam com difficuldades e encargos novos, a que foge naturalmente a
    pequena cultura, que tem limitadas precisões, que vive vida frugal, e
    que não tem de pagar o trabalho que a si mesma subministra. Será esta
    explicação exacta e sufficiente? Suspeito que não é. Os mais onerosos
    encargos que definhavam antigamente a industria agricola desappareceram
    em 1834 tanto para a grande como para a pequena cultura. Esmagam-na os
    novos tributos directos? A verba total da contribuição de repartição,
    que nos dizem representar ás vezes 12, 14 e mais por cento do liquido da
    producção nacional, está por si mesma revelando o que é essa
    contribuição directa, e ainda melhor se a compararmos com a verba total
    dos rendimentos annuaes das nossas alfandegas, que, na sua generalidade,
    representam uma percentagem de 10, de 20, de 30, ou ainda de mais, se
    quizerem, sobre o valor venal dos objectos que, na maxima parte,
    forçosamente se hão-de comprar com o producto liquido do trabalho
    nacional, trabalho que sobretudo se manifesta nos valores creados pela
    agricultura, e que indirectamente tem tambem de pagar as percentagens do
    fisco e os ganhos do commercio. Todos nós sabemos um pouco da historia
    contemporanea do tributo directo, ácerca do qual um illustre deputado, o
    sr. Carlos Ribeiro, já teve occasião de dizer notaveis verdades. Se,
    porém, na apreciação da materia collectavel, da renda e dos lucros
    agricolas, ha erros graves, não creio que taes erros revertam de
    ordinario em proveito dos proprietarios humildes e dos simples
    jornaleiros. Mas, sejam quaes forem as nossas opiniões sobre o assumpto,
    o que me parece evidente é que os melhoramentos materiaes do paiz nos
    ultimos quarenta annos tem aproveitado, pela maior parte, á grande e á
    mediana cultura. Possuimos caminhos de ferro, centenares e centenares de
    leguas de boas estradas, principaes incentivos do desenvolvimento
    agricola; temos a propriedade menos sujeita a extorsões e violencias
    publicas e privadas; temos a liberdade e a paz, sempre e em toda a parte
    fecundas de progresso e riqueza; temos dezenas de productos da industria
    rural insignificantes ou desconhecidos para a exportação ha cincoenta
    annos, e que hoje a fazem engrossar em milhares de contos de réis.
    Affirmando que em algumas leis e instituições do paiz, e no nosso
    systema fiscal, ha embaraços para a industria agricola, não creio que
    sejam elles taes que annullem essas immensas vantagens, e sobretudo que
    não abranjam a pequena como abrangem a grande e a mediana propriedade.

    O meu tão cortez adversario aponta um facto como prova de que a sorte
    dos proletarios ruraes tem melhorado. É a frequente accessão de um ou de
    outro, durante os ultimos vinte annos, á posse da propriedade. Reconheço
    a verdade do facto e o meu unico desejo é que elle se realise em
    larguissima escala. Não é, porém, de vinte annos a esta parte que o
    phenomeno se dá. Dá-se desde seculos remotos. Os archivos do estado, das
    ordens monasticas e militares, das casas nobres, dos cabidos e mitras,
    das pessoas, em summa, physicas ou moraes que tinham ou tem o dominio da
    terra, ahi estão para o provar. Impediu d'antes, impede isso hoje, que a
    grande maioria dos chefes de familia obreiros sejam simples proletarios?
    Se nenhum de nós duvida da excellencia do meio, porque comparativamente
    é elle tão pouco efficaz? Terei occasião de submetter a v. ex.^a algumas
    considerações, que me persuado farão sentir como no complexo das nossas
    leis civis e de fazenda se encontram graves obstaculos á posse do solo
    pelo proletariado, ao passo que fallecem os incitamentos para esta se
    realisar. O que explica a accessão do simples jornaleiro á propriedade é
    a sua paixão ardente por ella, o seu amor á terra, que o faz tantas
    vezes vencer esses obstaculos, que o fez vencel-os ainda em epochas bem
    sombrias da historia do colonato. Crê, pelo contrario, o sr. P. de M.
    que o proletario tem hoje não só grandes facilidades de acquisição, mas
    tambem vantagens superiores ás dos grandes e medianos proprietarios para
    obter prosperos resultados. Quanto a estas ultimas, diz-nos elle que o
    pequeno agricultor tem poucas necessidades, vive vida frugal e não paga
    o trabalho que fornece a si mesmo. São, quanto a mim, bem limitadas as
    necessidades inevitaveis, impreteriveis, da vida rustica, e estas
    communs ao grande, ao mediocre e ao pequeno agricultor. As outras, mais
    ou menos facticias, seria excellente para os progressos agricolas que se
    contivessem sempre dentro da orbita dos recursos de cada lavrador ou
    proprietario rural. Não reputo grande fortuna do pequeno agricultor não
    poder crial-as porque não tem meios de as satisfazer.

    Por outra parte, a frugalidade não é uma virtude monopolio de nenhuma
    classe; está á disposição de todas as vontades e de todas as
    consciencias austeras. A mesa mais ou menos opipara é negocio alheio a
    este ou áquelle methodo, a aquellas ou a estas condições da agricultura.
    Tambem não me parece que o pequeno agricultor que não paga o trabalho a
    outrem tenha alguma vantagem em não dar esse dinheiro, fazendo os
    serviços por suas proprias mãos. Quem paga o trabalho da producção é o
    producto. O salario representa a manutenção do obreiro. Que o ganhe
    comsigo, que o ganhe fóra, ha-de viver e manter-se. A verdadeira
    vantagem do jornaleiro proprietario é aproveitar a energia dos proprios
    braços nos dias, nas semanas, nos mezes, em que não encontra quem lhe
    pague essa energia. Se quando acha serviço alheio, prefere o seu, não
    faz mais do que depositar na caixa economica chamada a terra o salario
    d'aquelle dia. A sua situação, assim considerada, é a mesma dos grandes
    e dos medianos agricultores-proprietarios. Como elles, representa duas
    entidades economicas–o dono da terra que aufere a renda, e o industrial
    que aufere o lucro liquido. A importancia dos jornaes que venceu como
    trabalhador não se confunde nem com a renda nem com o lucro: é uma
    deducção que ha a fazer no valor bruto da producção.

    Outra ordem de factos vem confirmar isto mesmo. É vulgarmente sabido que
    na grande e ainda na mediana cultura o producto liquido é
    proporcionalmente maior do que na pequena, e o producto bruto maior
    n'esta do que n'aquellas. Porque? Porque nas primeiras o emprego das
    machinas, o poder dos motores, a divisão dos misteres, o trabalho não
    interrompido e por grandes massas homogeneas, a simplificação das
    operações, e outras vantagens analogas, reduzem o custo, embora tambem,
    até certo ponto, reduzam o resultado. Na pequena cultura o emprego
    exclusivo ou quasi exclusivo dos braços, o zelo com que estes trabalham,
    o esmero com que os serviços são executados, os adubos frequentes, a
    pulverisação da terra, o aproveitamento nas colheitas, a vigilancia
    minuciosa nas pequenas cousas, que é um dos motivos da prosperidade
    moral, mas que exige tempo e applicação, explicam a superioridade
    relativa do producto bruto. Resultam d'estes factos diversos dois
    phenomenos oppostos. O grande ou mediano cultivador consome comsigo e
    com os seus uma pequena porção do que produz, e vende a maxima parte.
    Com o pequeno succede exactamente o contrario. Consome a maior parte dos
    productos, elle e os seus. Vende pouco; mas esse pouco, ás vezes
    associado com os jornaes ganhos em serviço alheio, suppre melhor ou
    peior aquellas necessidades da familia que não podem satisfazer-se com
    os generos da propria lavra. Que significa este consumo quasi inteiro
    dos productos? Significa salarios, seu, da mulher, dos filhos; significa
    terem-se aproveitado bem todas as forças uteis da familia, emquanto no
    trabalho interrompido e vacilante do simples jornaleiro uma grande parte
    d'essas forças são annualmente annulladas.

    No pensar do sr. P. de M., a pouco onerosa acquisição da terra pelo
    aforamento, a parceria agricola, e, ás vezes, as sobras do salario,
    estão facilitando ao trabalhador rural o goso da propriedade. Ignoro
    como a parceria agricola facilita ao trabalhador o goso da propriedade.
    Saberá explical-o o sr. P. de M.. Os salarios capitalisados a que se
    refere conheço-os de ha muito; de uma epocha em que elle, provavelmente,
    apenas começava os seus longos e profundos estudos sobre estas complexas
    materias. Paguei-os e vi capitalisal-os, em enxugos de ribeiras
    paludosas e em extensas lavras de arroz, entre as bahias do Tejo e do
    Sado. Quem eram, porém, os capitalisadores? Mancebos solteiros, no vigor
    da edade, que vinham durante mezes trocar a saude e alguns annos de vida
    n'um clima insalubre por poucas moedas de economias, obtidas mais pelas
    pequenas empreitadas do que pelo salario. E ainda assim, para
    enthesourarem limitadas sobras, cumpria-lhes cortar pelo estricto
    necessario, por uma alimentação já de si insufficiente n'aquellas
    paragens, e não raro o enfraquecimento physico e a insalubridade do
    clima tornavam as longas doenças herdeiras d'esses peculios. Os
    cultivadores sinceros d'ente Tejo e Sado poderão dizer ao meu humano
    contendor se eu descrevo um facto isolado ou assás commum. Este meio
    indirecto de chegar á propriedade não me parece merecer nem confiança,
    nem applauso. Chamo-lhe indirecto, porque não é immediato nem exclusivo
    para que o proletario rural, isto é, para que o homem que nada possue,
    senão a propria actividade e a robustez dos proprios braços, entre no
    goso da propriedade. Todo o individuo que adquire um capital maior ou
    menor, seja por que modo for, pode convertel-o em dominio territorial.
    Fal-o, em regra, por um contracto oneroso, embora variem as fórmas
    d'esse contracto. Ora o sr. P. de M. aponta como primeiro instrumento da
    conversão do trabalhador em pequeno proprietario o aforamento, que
    qualifica de pouco oneroso. Se o é actualmente para o pobre, teremos
    depois occasião de o examinar. Em todo o caso, fazendo essa restricção,
    reconhece que não pode ser para o jornaleiro um meio senão excepcional,
    e as ponderações que fiz, na segunda carta que tive a honra de dirigir a
    v. ex.^a, sobre a quasi impossibilidade em que está o simples
    trabalhador chefe de familia de fazer economias na alta transitoria dos
    salarios, não me parecem de desprezar. De certo, se foram mal cabidas, o
    meu illustre contendor não levará tão longe a sua indulgencia para
    commigo, que deixe de corrigil-as ou refutal-as.

    Resta o aforamento; resta a emphyteuse, considerada absolutamente e em
    si. A emphyteuse, sim; n'essa creio eu. No meu modo de ver, esta enorme
    vulgaridade, esta tradição dos seculos, para a qual certos theoricos
    modernos olham com scientifica sobranceria, é a mais poderosa alavanca
    para a um tempo afastar da emigração os jornaleiros ruraes e alistal-os
    entre os defensores da propriedade, da paz e da ordem. Apezar de todas
    as contrariedades, da falta de auxilio social sufficiente no sentido de
    obter taes fins, esse elemento vivaz e fecundo, ajudado pela ambição de
    possuir a terra, que domina o proletario rural, está ha muitos annos
    produzindo o bem. A questão é se precisa de ser modificado e por que
    modo, quaes os obstaculos que ha a remover para que elle funccione com
    toda a sua energia, e de que favores carece para esta se tornar mais
    forte e de mais rapidos e seguros effeitos. Reservo, como já disse, para
    logar opportuno expor a v. ex.^a o que penso a este respeito. São
    alvitres de um profano. Os competentes acharão outros melhores; mas cada
    qual paga á sociedade o seu tributo de idéas em conformidade dos seus
    recursos intellectuaes, como no imposto directo cada qual _deve_ pagar
    na proporção dos seus haveres. O que é certo é que sobre este ponto
    tenho por mim a valiosa auctoridade do sr. P. de M., que não deixará,
    com a sua mil vezes superior sciencia e experiencia, de supprir,
    emendar, e estabelecer mais solidamente o que nas minhas opiniões houver
    incompleto, erroneo ou mal fundamentado.

    Não desejo que, em geral, o jornaleiro venha a possuir algumas geiras de
    terra e uma choupana, porque queira ou supponha que n'essa situação
    fique em melhores condições relativas que o grande e o mediano
    proprietarios, nem que possa eximir-se de trocar com elles o trabalho
    pelo jornal. Os meus desejos são mais modestos. Vejo n'isso unicamente
    um meio real de tornar permanente e sufficiente o salario da familia
    obreira, applicada e fructifera toda a potencia do trabalho nacional em
    relação á riqueza agricola. Escuso de affirmar de novo a minha crença
    ácerca do bem que d'ahi ha-de resultar para reduzir consideravelmente a
    emigração e fortificar a sociedade, emquanto é tempo, contra os perigos
    que surgem, embora em remoto horizonte. Que o proprietario cultivador
    mais ou menos abastado possua os commodos e gosos que o habito converteu
    para elle em necessidades; mas que o trabalhador tenha os meios de se
    isentar da miseria pelo trabalho; que a familia obreira desconheça a
    nudez, a fome e a falta de abrigo. O christianismo, a humanidade e a
    justiça impõe ás consciencias honradas o dever de adherirem a todos os
    esforços que se façam em tal sentido. A classe media, a classe
    predominante, se pensar n'isso, verá que faz um bom negocio
    associando-se a este pensamento. O egoismo, quando illustrado e sensato,
    pode muitas vezes ajudar a obter o bom resultado de conselhos sinceros e
    moderados, que, se até certo ponto aproveitam aos desvalidos, porventura
    aproveitarão ainda melhor ao interesse d'aquelles que, ignorando a
    historia dos grandes cataclismos das sociedades, vêm n'esses conselhos
    leaes o intuito de os prejudicar.

    O artigo do sr. P. de M. conclue por me chamar a um terreno ardente e
    escorregadio, no qual cuidadosamente tenho evitado entrar. É o das
    relações moraes entre o operario rural e o grande ou mediano cultivador.
    Não vou. Sei aonde elle me pode conduzir. N'esta edade, ama-se a paz.
    Todavia, isso não obsta a que me associe cordealmente aos votos que o
    meu illustre adversario faz para que nos campos se restaurem os laços da
    vida moral. Tem-nos, com effeito, despedaçado quasi completamente as
    luctas de ambições politicas, a cubiça imprevidente de influencias
    obscuras, a depravação e a incapacidade do clero, o vicioso e incompleto
    das instituições, o desleixo dos governos, a impotencia das
    magistraturas ante a preponderancia de forças extra-legaes. É o que
    explica de sobejo a decadencia moral do campo. Nos sitios em que vivo,
    não conheço esses reformadores de má nota, principaes missionarios de
    idéas perniciosas e dissolventes de que o meu caro contendor se queixa,
    salvo se eu proprio o sou, sem d'isso dar tino. Creio mais facil
    descobril-os entre as populações urbanas. Pela minha parte, se pequei,
    foi na persuasão de que as vozes que soam do pulpito da imprensa não
    chegam aos ouvidos do rustico trabalhador, e de que, ainda quando as
    ouvisse, elle não as entenderia. Persuadi-me de que fazia bom serviço ao
    paiz se dirigisse aos animos dos que podem ouvir-me e entender-me
    palavras que os fizessem reflectir sobre os seus verdadeiros interesses,
    e lhes despertassem o sentimento em que, por assim dizer, se encerra
    todo o christianismo–a piedade para com os que padecem. Estou
    certissimo de que a alta intelligencia do sr. P. de M. faz plena justiça
    ás minhas intenções. Que outros a façam ou não, pouco me importa. Todas
    as classes sociaes, cujos interesses, mais ou menos legitimos, são
    feridos por qualquer opinião, acham sempre essa opinião perniciosa e
    dissolvente. É a natureza humana.

    Nada mais certo do que a necessidade de supprimir a anarchia moral e
    estabelecer o respeito _mutuo_, não direi entre as diversas classes, mas
    entre os direitos das diversas classes ou categorias sociaes. No campo e
    na cidade, a moral publica é egualmente necessaria: n'este ponto, não é
    possivel a discordancia entre nós. Que o jornaleiro e o creado ruraes se
    abstenham do tão generalisado vicio dos pequenos, mas continuos furtos e
    estragos nas grandes, nas medianas e nas pequenas propriedades; que dêem
    ao cultivador, ao amo, o trabalho que lhes devem pelo jornal ou soldada
    que recebem, cumprindo um contracto livremente celebrado; que não tornem
    pouco digna de compaixão a sua miseria, pelo jogo, pela embriaguez, pela
    devassidão; que aprendam a respeitar os laços santos da familia; que por
    preguiça, indolencia ou genio brutal, não causem perdas graves e diarias
    no capital movel ou semovente do agricultor; que não tractem, por todos
    os meios que a malicia e a dissimulação lhes suggerem, de transtornar os
    melhoramentos de cultura, que em beneficio proprio, e muitas vezes em
    beneficio d'elles, tenta com sacrificios custosos o grande ou o mediano
    cultivador; que não busquem vingança dos procedimentos que reputam
    injustos com a calumnia, com o incendio covarde, com as aggressões
    atraiçoadas. Forcejemos todos por arredar d'estes habitos funestos o
    trabalhador rural. Mas que o grande ou mediano proprietario ou
    agricultor…

    Agora reparo que esta carta vai já demasiado longa, e que excedo os
    limites rasoaveis de ser importuno. Tractarei de me cohibir de futuro,
    quando outras occupações me permittirem dirigir-me de novo a v. ex.^a.

    VIII

    Ill.^{mo} e ex.^{mo} sr.–Nas cartas precedentes tenho dicto e repetido
    que, na minha opinião, o mais poderoso instrumento para combater de modo
    efficaz a emigração do trabalhador rural, quando ella proceda do
    desequilibrio entre as suas necessidades impreteriveis e os seus meios
    de as remediar, seria o promover energicamente os aforamentos.
    Accrescentei que as providencias dirigidas a occorrer a um mal assás
    grave seriam ao mesmo tempo prevenções não menos efficazes para obstar
    ás perturbações profundas que ameaçam a Europa, contra as quaes as
    outras nações se premunem, e de que não devemos suppor que ficaremos
    isentos.

    Não basta, porém, dizer isto. É preciso descer a considerações mais
    particularisadas sobre o systema emphyteutico; fazer sentir toda a
    extensão da sua benefica influencia; examinar os obstaculos que se
    oppõem ao seu desenvolvimento; ver como, até onde, e em que sentido, a
    lei deve promovel-o, sem quebra das maximas fundamentaes do nosso
    direito publico, mas, sobretudo, sem a minima offensa do direito de
    propriedade, que precisamos de fortificar e não de enfraquecer.

    As vicissitudes da emphytheuse, as suas transformações successivas, o
    seu maior ou menor predominio em diversas epochas e nos diversos paizes
    da Europa central e meridional, desde a sua origem na sociedade romana
    até o nosso tempo, são cousas alheias á questão da sua indole actual.
    Tomemol-a como a constituiu a nossa legislação civil, e vejamos depois
    se esta legislação tem de ser modificada para que ella possa desenvolver
    completamente a sua acção em chamar a classe trabalhadora,
    exclusivamente trabalhadora, ao goso da propriedade.

    Dos tres elementos em que se decompõe o producto da industria agricola,
    a renda, o custo da producção, e o lucro do agricultor, elementos que a
    rigorosa analyse reduziria a um unico–a retribuição do trabalho, tanto
    physico como intellectual, tanto consolidado como em acção–o que, no
    predio emphyteutico, apresenta um modo de ser especial é a renda. No
    predio allodial, o trabalho consolidado e, por assim dizer, n'elle
    immanente, d'onde a renda deriva, é sempre e integralmente do
    proprietario. Se este deixa a outrem a faculdade de cultivar, não lhe
    transmitte a minima parte do seu dominio pleno. A concessão é
    temporaria, por mais longa que seja, e a quebra de qualquer condição do
    contracto de arrendamento pode annullal-o. D'esse contracto deriva a
    fruição do uso transitorio da terra; nunca, porém, a do uso perpetuo.
    Se, com permissão ou sem permissão do dono, o rendeiro consolida ahi
    algum trabalho, este, retribuido ou não retribuido pelo proprietario,
    conforme as circumstancias, incorpora-se forçosamente no dominio pleno.
    Na emphyteuse o dominio divide-se em directo e util. Ha dois
    possuidores: um do senhorio eminente, outro do uso perpetuo. Cada um dos
    dois factos, na sua esphera, é completo, absoluto. Economicamente, o
    dominio directo corresponde á propriedade do capital de trabalho
    consolidado na terra até o acto do aforamento: o censo ou foro
    representa a renda d'esses valores accumulados, o juro d'esse capital
    productivo. O uso perpetuo ou dominio util habilita o acquirente a
    consolidar no predio adquirido novo trabalho, capital novo, cuja renda é
    sua. Abstrahindo da solução do foro e das consequencias que d'isso
    derivam, o emphyteuta está perfeitamente na situação do proprietario
    allodial.

    O codigo civil, abolindo o laudemio, presuppoz implicitamente esta
    doutrina. O laudemio representava, na hypothese de venda, uma quota dos
    valores capitalisados na terra pelo foreiro, deduzida do preço total do
    predio, em beneficio do senhor directo. O codigo respeitou, quanto ao
    passado, a extorsão consentida e absolvida pelo contracto; mas prohibiu
    que continuasse de futuro á sombra de uma praxe, cujo unico fundamento
    era um inveterado abuso. Reconheceu no praso duas propriedades
    incorporadas no mesmo solo, mas distinctas e ambas completas na
    respectiva esphera, e por isso equiparou no privilegio do direito de
    prelação o senhorio e o foreiro.

    Á luz economica, o foro não pode effectivamente ser senão a
    representação do juro ou renda de um capital de trabalho associado
    inseparavelmente com a terra. No estado actual das nações mais ou menos
    civilisadas a separação da terra e do trabalho seria difficil. Por via
    de regra, só pode dar-se na abstracção, subjectivamente: no real, andam
    sempre unidos. A meu ver, o trabalho é a unica base do direito de
    propriedade territorial, como de quaesquer direitos analogos, e é a essa
    luz que elles podem defender-se com vantagem das aggressões socialistas.
    A terra, considerada em si, exclusivamente, é tanto objecto do direito
    de propriedade, como a atmosphera, a luz, a chuva, o vapor, a
    electricidade. As suas forças productivas dormem inuteis e infecundas
    emquanto não as desperta o trabalho, e o trabalho é a prolação do
    individuo, a manifestação da sua intelligencia e da sua força. A sua
    intelligencia e a sua força estão lá. Mutilam-no se o expulsam do solo
    vivificado por elle. Se consumiu o producto que resultou d'aquelle
    facto, voltou ao individuo o que do individuo saira. Se não o consumiu;
    se o converteu em instrumento cooperativo da nova producção, essa deriva
    tão completamente da sua intelligencia e da sua força, como o primeiro
    producto. Assim por diante. D'ahi a perpetuidade inseparavel d'este
    direito primario; d'ahi a faculdade da transmissão, que as leis
    positivas regulam, mas que não criam, porque procede inevitavelmente de
    um direito primordial.

    Na emphyteuse o dono do solo nada, em rigor, transmitte ao foreiro;
    retira, apenas a sua acção sobre a terra; e como o capital do trabalho
    ahi accumulado não pode separar-se d'ella, em vez de o transmittir por
    um preço convencionado, como na venda, fal-o representar pelo juro
    respectivo. É assim que a lei, na falta de outro meio de apreciação,
    considera como equivalentes ao capital do foro vinte prestações
    emphyteuticas.

    Parece oppor-se a esta doutrina o aforamento de terrenos incultos. Se,
    porém, descermos á analyse dos factos economicos e sociaes correlativos,
    achal-a-hemos confirmada por aquillo mesmo que apparentemente a infirma.
    Peço a attenção de v. ex.^a para as subsequentes considerações.
    Ver-se-ha depois quanto ellas importam para resolver, sem offensa dos
    principios, certas difficuldades que obstam á accessão do proletario á
    propriedade territorial.

    O trabalho humano que vai, transformado em valor, incorporar-se n'um
    tracto de terra nem sempre tem a apparencia de uma incorporação real.
    Se, por exemplo, construo um aqueducto para regar um campo, e o levo,
    atravez de predios alheios ou de terrenos de uso commum, até á beira
    d'aquelle campo, o trabalho ou capital que custou o aqueducto está
    inherente, na sua manifestação sensivel, a esses predios ou terrenos;
    mas o seu valor adhere ao campo que as regas vão fecundar. Ás vezes é um
    trabalho alheio e individual, feito sem a minima intenção de me
    beneficiar, que vem, pela força das cousas, tornar-me participante dos
    seus resultados permanentes, e incorporar no meu dominio uma porção do
    seu valor. Possuo, por exemplo, um predio situado na parte inferior de
    um valle varrido por nortadas impetuosas e destruidoras. A parte
    superior do valle, e as collinas nuas que o cercam pertencem a outro
    dono. Para annullar a impetuosidade dos ventos, elle povôa as collinas
    de extensos pinhaes. Foi a sua unica intenção ser util a si; mas sem
    elle o querer, sem o pensar, o seu capital ou o seu trabalho ajunctou um
    valor á minha propriedade. Assim em outras hypotheses, que seria facil
    exemplificar.

    O terreno inculto, mais ou menos visinho de habitações, proximo de vias
    publicas, de fontes publicas, de canaes ou correntes que a mão do homem
    converteu em meios de transporte, tendo facil communicação com os
    grandes mercados; esse terreno, capaz de ser possuido, porque o complexo
    dos factos e de instituições sociaes tornou possivel a sua occupação,
    adquiriu um valor que se uniu inseparavelmente ao solo. Este valor é uma
    quota do trabalho collectivo da sociedade, que a sociedade destinou ao
    uso commum, e que só pode realisar-se individuando-se. A estrada é util,
    porque o individuo pode caminhar por ella; o canal, porque o individuo
    pode ahi navegar; a segurança, porque o individuo pode ser protegido por
    ella. Cousas taes e outras analogas tem valor só pela individuação.

    E esta interferencia do trabalho social na creação de valores que caem
    sob o dominio particular não é uma hypothese gratuita para explicar sob
    certo aspecto a propriedade territorial; é o facto constante, passado e
    presente, que sem interrupção se realisa, tanto quando a civilisação se
    inicía, como quando progride. Os poderes publicos, colligindo parcellas
    do trabalho individual e applicando-as com o intuito do bem commum,
    espargem ineluctavelmente os resultados dos esforços collectivos na
    creacão ou no accrescimo de valor em objectos de dominio privado, embora
    a manifestação sensivel fique ligada ás cousas que, na subtancia,
    pertencem á communidade.

    Supponha-se um tracto vastissimo de terreno inculto, contendo em si as
    mais energicas faculdades de producção, mas situado n'um paiz deserto,
    rodeado de brenhas impervias, murado por alcantís inaccessiveis,
    retalhado por correntes invadiaveis, e acolheita de animaes ferozes. Que
    valor apreciavel teriam os terrenos contidos n'essa região, fosse qual
    fosse a energia creadora dos elementos latentes alli? Nenhum. Abram-se,
    porém, largas estradas atravez das brenhas, achanem-se os alcantís,
    converta a arte os rios em vias aquaticas, ou domem as pontes as suas
    resistencias á communicação dos homens, façam-se brotar as fontes de
    agua potavel, destruam-se ou expulsem-se as feras, e o que não tinha
    valor impregnar-se-ha d'elle. Que o homem surja e se apodere de um
    tracto maior ou menor d'esses terrenos, a individuação realisou-se. Como
    d'antes, aquella superficie conserva o rude sello que ahi estampara a
    natureza: nada apparentemente mudou; e todavia, como lá se encontraram o
    homem e o valor, producto do trabalho social, a propriedade nasceu.

    As forças da natureza são dom gratuito de Deus. Empregal-as como
    auxiliares do trabalho é direito commum, direito egual para todos. Se me
    apoderei das da terra em certo espaço d'ella, só um direito melhor que o
    meu poderia vir depois destruir esse facto. Ora, o direito de outrem é
    precisamente egual ao meu. Ha, pois, duas forças eguaes que se
    equilibram. Portanto, o meu acto, que é anterior, subsiste. Não é ainda
    a propriedade; mas se o trabalho, quer collectivo, quer individual, veiu
    associar a esse acto uma parcella de valor–o elemento radical da
    propriedade–essa propriedade é minha, porque aquelle valor se
    incorporou e immobilisou no objecto em que exerço o meu direito ao livre
    uso das faculdades productivas da terra. Por outro lado, se uma parcella
    do trabalho commum cáe sob o meu dominio exclusivo, tambem n'esse
    trabalho commum ha, pela acção directa, ou representada no imposto, uma
    parte com que eu contribui. Que viesse augmentada ou diminuida, em
    consequencia das leis economicas e dos seus, muitas vezes imprevistos, e
    sempre incoerciveis effeitos, a quota que me coube é na essencia uma
    restituição.

    Assim, no territorio de uma sociedade organisada, om um grau maior ou
    menor de civilisação, o valor do predio inculto, sob o dominio de
    qualquer individuo, teve, ou n'elle ou nos que lh'o transmittiram, uma
    origem tão racional, constitue uma propriedade tão legitima, como o
    valor do predio cultivado. A unica differença está na diversa
    intensidade dos dois valores. De certo o possuidor do predio onde apenas
    se acha consolidada uma quota do producto do trabalho commum, não
    exigirá o mesmo preço de venda ou o mesmo foro que exigiria, se com essa
    quota se achasse incorporado o producto do seu trabalho directo. N'isto
    está unicamente a differença: diversidade de capital e diversidade de
    juro.

    Qual é, pois, o facto que se dá na emphyteuse? O possuidor da terra
    conserva ahi pelo dominio directo o que é seu, e só abandona o uso das
    faculdades productivas do solo, dom gratuito da natureza. Não ha pois
    transmissão de propriedade no contracto emphyteutico, quer este seja
    respectivo a terrenos incultos, quer a terrenos cultivados. Na
    emphyteuse ha um acto e um contracto: contracto de censo, de juro, de
    renda perpetua, como a linguagem juridica lhe quizer chamar; acto de
    abstenção do uso de certas forças naturaes que não podem constituir
    propriedade.

    Das precedentes considerações derivam duas consequencias luminosas que
    podem guiar os poderes publicos nos seus esforços para trazer o
    proletariado rustico a melhores condições de existencia, libertando-o da
    emigração quando a ella o fórça a miseria, ligando-o á manutenção da
    ordem e da propriedade pelo proprio interesse, tornando-o cooperador
    mais energico e efficaz do accrescimo da riqueza publica, e
    moralisando-o pelo bem estar domestico. A primeira consequencia é que
    todas as disposições legislativas tendentes a obter estes fins devem
    especialmente promover a emphyteuse nos terrenos incultos, onde, de
    ordinario, o foro é moderado, e onde o colono não pode deixar de
    incorporar no solo uma parte avultada do seu trabalho; convertido em
    valor immanente, em capital productivo, que augmente de anno para anno o
    bem estar da familia obreira, e crie para ella a verdadeira propriedade
    territorial. Aparcellar, por pequenas emphyteuses, vastos terrenos já
    reduzidos a cultura, tem vantagens e desvantagens que mutuamente se
    annullam e que seria longo e extemporaneo discutir aqui. Nos baldios, as
    desvantagens desapparecem e as vantagens subsistem, como depois veremos.
    A segunda consequencia é que no complexo de leis e providencias
    destinadas a elevar a condição moral e material do trabalhador agricola,
    o respeito ao direito de propriedade e á justiça nunca se ha-de
    preterir, á sombra de qualquer pretexto de utilidade commum, ou de
    qualquer sophisma politico mais ou menos subtil. O estado pode
    distribuir a quem entender, e como entender, a porção de solo que tem
    legalmente debaixo do proprio dominio. É uma pessoa moral que usa do seu
    direito. Se prefere a individuação allodial, em grandes ou pequenos
    tractos de terra, commette, a meu ver, um erro, mas erro legitimo. O que
    não pode é dispor do que é alheio, em nome das conveniencias sociaes. As
    leis agrarias, as leis de sesmaria, mais ou menos applaudidas outr'ora
    pela irreflexão, seriam na epocha actual, em relação á propriedade
    individuada, um absurdo brutal, uma pura violencia. Os desvarios do
    socialismo podem desculpar-se e perdoar-se quando rugem nos grandes
    receptaculos das profundas miserias; mas o socialismo, descendo das
    regiões do poder, que representa a sciencia, a consciencia e a vontade
    justa e serena da sociedade, será fatal ainda mais para as gerações
    futuras do que para a geração presente. Se a liberdade é contagiosa, o
    despotismo é prolifico. A mancenilheira, que mata, cresce e braceja como
    as arvores cujos fructos mantêm a vida. Em questões cuja solução possa
    collidir com a liberdade e a propriedade individuaes, cumpre sobretudo
    que a lei seja suasoria, e tenha, quanto for possivel, um caracter
    facultativo. A persuasão da lei consiste em oppor um interesse maior e
    novo ao interesse menor e antigo. Deixem o resto ás tendencias ingenitas
    do coração humano. Tenho pouca fé no bem que pode provir da extorsão ou
    de outra violencia, da quebra dos direitos originarios dos cidadãos.
    Vai-se longe, guiado pela mão da logica, logo que se entra n'este triste
    caminho.

    IX

    *Val-de-Lobos, janeiro de 1875.*

    Ill.^{mo} e ex.^{mo} sr.–Meu amigo, n'estes sitios, onde a oliveira,
    nos annos de safra, representa o mais importante papel agricola, e onde
    sempre as sementeiras das nossas terras, geralmente pobres, carecem de
    ser temporans, não sobra demasiado tempo ao cultivador, durante os mezes
    de outubro a dezembro, para estar enfileirando idéas, e sabe Deus se
    apenas phrases, sobre o papel. É por isso que tenho deixado respirar v.
    ex.^a da tediosa leitura das minhas cartas. Se, porém, a tardança lhe
    foi allivio, vai esta provar-lhe que ainda não expiou de todo o delicto
    de as haver provocado.

    A ultima das que a precederam suscitou a severidade da critica.
    Achei-me, sem saber como, paradoxal. Pasmará v. ex.^.a Não pasme. É que
    a palavra paradoxo significa hoje cousa diversa do que pensa. No nosso
    tempo significava uma proposição verdadeira ou falsa (de ordinario
    falsa) contraria ao sentir commum. Pois bem. Sabe v. ex.^a em que
    consistiram os meus paradoxos? Em suppor que havia direitos primordiaes,
    originarios, absolutos, e em imaginar (_horresco referens_) que o
    possuidor legal de um terreno inculto era dono legitimo d'elle. Podem
    ser dous erros grosseiros: mas que fossem paradoxos é o que nós não
    suspeitariamos quando frequentavamos as escolas. São-no hoje: que quer
    v. ex.^a que eu lhe faça? E todavia estes dous erros estão no amago de
    uma questão suprema–a da legitimidade ou illegitimidade das condições e
    essencia do liberalismo, do molde social por cuja manutenção ambos nós
    temos longamente combatido; v. ex.^a com os seus poderosos e variados
    meios; eu com os meus fracos recursos. Se porventura são erros, se
    acertos, havemos de averigual-o. Custar-me-ha entretanto considerar os
    taes paradoxos como desacertos, e provavelmente a v. ex.^a succederá o
    mesmo. Estou velho, e v. ex.^a tambem. Os velhos são tenazes em manter
    as suas opiniões da edade viril. Até, ás vezes, ignoram redondamente
    muita cousa boa, que não foi do seu tempo. Digo isto por mim. Ando no
    inverno da vida tão arredado do mundo e dos livros, que o ignorar os
    mais recentes progressos do espirito humano não é em mim nenhum milagre.
    A civilisacão, como os rios caudaes, deslisa pela amplidão das eras
    majestosa e serena, e todavia rapida. Quem não a acompanha nas suas
    incessantes evoluções acha-se abraçado com o erro quando cria abraçar a
    verdade. Nada mais facil do que estar eu dando hoje um lastimoso exemplo
    da exacção d'esta doutrina.

    Consinta-me, em todo o caso, v. ex.^a que, antes de proseguir, recorde e
    resuma aqui, nas menos palavras possiveis, o estado da questão sobre a
    qual teve a imprudencia de pedir o meu voto. É uma razão de ordem.
    Tracta-se da emigração para a America. Na minha opinião, salvo certos
    actos vulgares de protecção e policia, rigorosamente contidos dentro dos
    limites constitucionaes, nada ha a fazer sobre este assumpto, que seja
    fecundo e legitimo, senão proceder de modo que a miseria, causa efficaz
    da emigração, e quanto a mim a mais efficaz de todas, cesse de impellir
    os nossos trabalhadores ruraes para além do Atlantico. As demais causas
    de emigração ligam-se com a liberdade e responsabilidade individuaes, e
    n'um paiz livre, nada ou muito pouco seria licito aos poderes publicos
    tentar para as remover. Parece-me tambem que o grande e, talvez, unico
    meio de combater vigorosamente essa miseria consistiria em associar ao
    trabalho rustico a propriedade territorial, de maneira que mutuamente se
    auxiliassem para melhorar a condição do obreiro. Seguindo esta senda,
    fariamos ao mesmo tempo crua, mas incruenta guerra ao leviathan que
    surge ameaçador nos horizontes politicos, o internacionalismo,
    furtando-lhe o proletario do campo, o proletario seriamente perigoso,
    sobretudo nos paizes de apoucada industria fabril. A emphyteuse, na
    simplicidade a que a reduziu o codigo civil, não lhe deixando da
    emphyteuse romana senão a essencia e o nome, e que a lei pode ainda
    tornar mais facil, e promover, além d'isso, energicamente, afigura-se-me
    um instrumento completamente adequado á realisação d'esse grande
    intuito. Nem o busquei, nem o achei em nenhum recanto de qualquer livro
    exquisito, d'esses que nos vem de fóra e nos quaes tanta gente abdica a
    propria intelligencia. Nasci, cresci, vivi, envelheci ao pé d'elle.
    Tenho-o visto funccionar toda a vida: vejo ao redor de mim os seus
    maravilhosos effeitos. A emphyteuse está radicada nas tradições e nos
    habitos do nosso paiz. Acceitam-n'a, comprehendem-n'a o burguez e o
    rustico, o rico e o pobre, o douto e o ignorante: acceitavam-n'a e
    comprehendiam-n'a quando era uma cousa multimoda, complexa. Ninguem se
    crê nobilitado por ser senhorio directo; ninguem aviltado por ser
    emphyteuta. Se a frequenta mais a pequena propriedade, não a desconhece
    a grande. As provas do que vale para converter charnecas em campos
    ridentes, e para augmentar a pequena e mais esmerada cultura, estão
    escriptas na face da terra por todas as provincias do reino. Pode, em
    summa, dizer-se afoitamente que Portugal é o verdadeiro representante da
    emphyteuse na Europa moderna.

    Para um auctor de paradoxos, lá parece que estas idéas encerram
    trivialidades de mais. É o sentir commum; sobretudo o sentir dos homens
    do campo, cuja propensão para este antigo contracto é indisputavel. Na
    substancia, o meu modo de ver carece absolutamente de originalidade.
    Todas as demais considerações em que tenho entrado são accessorias, e em
    geral tendentes a justificar de antemão as condições com que entendo se
    deve applicar o meio proposto para se obter o fim desejado. A critica,
    na sua indubitavel superioridade, podia olhar com desdem para estas
    velharias e vulgaridades; mas, se admitte a existencia da molestia,
    podia tambem substituil-as pelas prescripções da sua therapeutica. Se,
    como supponho, porque a critica é ás vezes ambigua, queria condemnar a
    emphyteuse de hoje, que se divorciou do passado, não era preciso
    confundir factos distinctos da historia. Era mais simples e instructivo
    demonstrar os inconvenientes ou a inutilidade do meio proposto, se é que
    o reputa inconveniente ou inutil. É verdade que allude vagamente a
    anteriores e fugitivos escriptos, onde se contêm as fórmulas dos
    medicamentos applicaveis ao caso; mas isso parece-me que é exigir muito
    da retentiva de um espirito gasto e cansado. Depois, os que nos lerem,
    que serão bem poucos, porque estas questões não divertem a frivolidade,
    não tem obrigação de conhecer esses escriptos, e de os haver decorado.
    Convinha, por isso, expor, ou ao menos indicar os melhores arbitrios.
    Nunca é demais reaccender o pharol que allumia o navegante nas trevas do
    oceano. O sol esconde-se todos os dias á tarde; mas tambem ainda não se
    esqueceu de surgir todas as manhãs no oriente.

    A critica lamenta que se não fizesse, a proposito da emphyteuse, a
    historia clara e resumida de todos os vexames e extorsões de outros
    tempos, que até epochas bem recentes pesaram sobre a industria rural do
    nosso paiz. Não sei se isto é commigo, ou se é um artificio rhetorico
    para a critica poder fazer essa historia com aquella elegancia
    descuidosa, que só é dada ás grandes syntheses modernas. Se é commigo, a
    minha intelligencia não alcança que proveito se possa tirar, para a
    solução de um problema actual, do livro que pede a critica; porque não é
    nada menos o que ella pede. Do modo como se exprime, parece deduzir-se
    que, no todo ou em parte, a emphyteuse foi o instrumento d'esses vexames
    e extorsões. Sem isso, como perceber que papel havia de fazer no debate
    o exigido volume?

    A razão, porém, d'essa exigencia pretende dal-a a critica.–A historia
    da emphyteuse, e _em geral_ do operario rural (parece que o emphyteuta
    era uma especie do genero operario rural, do moderno proletario rustico)
    serviria para proporcionar á _classe desvalida_ o conhecimento do
    passado, afim de não desanimar e não ter a sua situação actual como a
    peior possivel.–Peço á critica me soffra dar tambem razão de mim.
    Estava persuadido de que as classes desvalidas do campo nem sabiam ler,
    nem tinham tempo para isso, e de que, ainda quando o soubessem ou o
    tivessem, não entenderiam a tal historia, de sua natureza obscura e
    difficil. Depois, a minha capacidade seria insufficiente para a fazer
    comprehender aos entendimentos mediocremente subtis das dictas classes
    desvalidas. Entendi que era melhor estudar os meios de tornar a sua
    sorte menos dura do que prégar-lhes a resignação e
    dizer-lhes:–«Paciencia, meus amigos. A vossa situação não é tão má como
    a pintam. Já houve peior do que isto.»

    Creio que, dicto a ellas e em relação a ellas, a prédica era não sómente
    inutil, mas tambem de mais que duvidosa exacção.

    Eu imaginava que a triste historia da oppressão das populações rusticas
    era alheia á emphyteuse; imaginava que, na origem, foi a historia do
    ergástulo dos latifundios que perderam a Italia, da escravidão rural
    entre os romanos, escravidão aggravada ainda mais pelas conquistas dos
    barbaros nas provincias do imperio em dissolução; imaginava que, depois,
    o escravo immobiliario tanto romano como germanico, cultivador do predio
    rural, fôra melhorando de condição ao passo que se convertia em servo da
    gleba ou adscripticio, e que fora n'essa situação que se transformara
    juridicamente de _cousa_ em ente humano, de ente humano em _pessoa_.
    Cria que, no occidente da Peninsula, uma parte d'estes adscriptos tinham
    passado nos seculos XI e XII a colonos pessoalmente livres de uma terra
    serva, e que fôra esta servidão (a servidão _adscripticia da terra_, de
    que falla a critica, nunca chegou ao meu conhecimento) que fizera
    adherir ao solo cultivado grande parte dos encargos, sujeições e
    vexames, que o servo adscripticio herdara do escravo immobiliario, e que
    o colono livre herdava do adscripto. É o que uma sciencia, que vejo ter
    caducado, ensinava ácerca da origem d'essa enorme variedade de direitos
    senhoriaes que, mais ou menos, continuaram a opprimir a agricultura até
    os nossos dias. Que tem com isto a emphyteuse? A emphyteuse romana era
    um contracto livre entre o proprietario e o colono espontaneo. Esta
    especie de colonato, perpetuado atravez dos seculos, nada tinha que ver
    com a condição das familias de origem servil que de paes a filhos
    cultivaram a honra, o couto, o proprio allodio não nobre, e o territorio
    reguengo. A tradição romana da emphyteuse exerceu n'aquella epocha, e
    ainda mais nos seculos immediatos, vasta influencia, mas foi em
    transferir uma parte do direito de propriedade, isso a que chamamos
    dominio util, para o industrial agricola. Se fez alguma cousa no sentido
    economico, foi tornar menos facil o abuso e a extorsão, definindo por um
    contracto os mutuos direitos e obrigações do senhorio e do cultivador. O
    simples reguengueiro, que agricultava o predio do Estado só porque seus
    paes e avós o tinham agricultado, passava a ter condominio n'esse predio
    pelo aforamento, ao passo que aldeias inteiras mudavam egualmente de
    situação juridica pelos aforamentos collectivos, que variavam de
    condições até o ponto de se tornarem alguns em rudimentos de concelhos.
    As _rações_ ou quotas de fructos, fluctuantes e incertas, convertiam-se
    em prestações fixas, que podiam não ser menos onerosas, mas que ao menos
    eram certas e sabidas. Ao mesmo tempo, nos dilatados alfozes dos grandes
    concelhos que se constituiam, sobretudo no sul do reino, a distribuição
    das terras, pelo sesmo, multiplicava largamente a propriedade allodial
    posto que tributaria, como nos seculos anteriores a diffundira a
    _presuria_ villan. O exemplo dos aforamentos nos territorios reguengos,
    e o temor de que os proprios colonos fossem buscar a fruição da
    propriedade plena, embora tributaria, no seio dos grandes municipios,
    induziam naturalmente os senhores de honras e coutos a transferir do
    mesmo modo para os agricultores um quinhão no dominio das terras
    immunes. A emphyteuse nem aggravava, nem alliviava encargos. Fazia mais
    do que isso: suscitava no coração do homem do campo dois altos
    sentimentos–o da propriedade, embora incompleta, e o de certo grau de
    independencia. Para nós seria bem pouco: para homens apenas emancipados
    era uma revolução; uma d'estas revoluções lentas e serenas, que de
    ordinario são as boas e duradouras.

    Herdeiros dos _presores_ plebeus dos tres primeiros seculos da reacção
    christã e herdeiros dos _privati_ mosarabes, confundidos com aquelles,
    já no seculo XII, sob o nome commum de _herdadores_, e representando a
    propriedade allodial não immune;–vizinhos dos concelhos a quem se
    distribuiram terras com pleno dominio e que tambem se confundiram com os
    antigos herdadores;–foreiros das aldeias por titulo collectivo, e
    foreiros por titulo singular de predios avulsos, nos reguengos, nas
    honras e nos coutos;–reguengueiros convertidos já em proprietarios nos
    fins do seculo XIV, mas obrigados á solução das rações, que tomaram de
    certo modo o caracter de um tributo, e que subsistiram até os nossos
    dias como vestigio do antigo stygma da servidão;–eis os individuos que,
    na velha monarchia, correspondiam ás varias especies de proprietarios
    actuaes, afóra os possuidores com dominio pleno dos predios
    privilegiados, que as revoluções contemporaneas, com sobejo fundamento,
    fizeram entrar no direito commum.

    Ao lado, porém, ou mais exactamente, abaixo d'este grupo, estava outro
    que não era fadado, como elle, para constituir, passados seculos, a
    parte mais numerosa e respeitada, senão a mais rica e mais culta da
    classe media–a dos proprietarios ruraes e agricultores. Constituiam
    ess'outro grupo os individuos de origem servil ou plebeia, que por
    causas diversas não tinham attingido a esphera da propriedade
    territorial ou que haviam perdido esta, e que eram conhecidos pelas
    varias denominações de malados, de solarengos, de homens de criação, de
    mancebos, de cabaneiros, de serviçaes, de soldadeiros, denominações que
    se encontram com frequencia nos antigos documentos, sobretudo nos foraes
    e nas compilações do direito consuetudinario dos concelhos. No seculo
    XIII aquella infima classe abrangia já uma avultada porção de
    individuos, que tinham por unica propriedade o trabalho. Tão
    consideravel era o seu numero, que se julgou necessaria, no reinado de
    Affonso II, uma lei contra a vadiagem, obrigando todo o que não
    possuisse bens de raiz a viver de algum mister ou a assoldadar-se com
    alguem, sob pena de ser expulso do reino. O preço do serviço d'estes
    proletarios, em conformidade das falsas idéas economicas d'aquelles
    tempos, era, annos depois, taxado, sobretudo em relação aos serviçaes do
    campo, n'uma lei de Affonso III. Na legislação dos subsequentes reinados
    e nos artigos de cortes as referencias a esta classe de individuos não
    são raras. Negar a sua existencia entre nós seria desconhecer, não só a
    historia social do reino, mas tambem a de todas as sociedades modernas.

    A critica, porém, confunde, não digo que de má fé, mas por menos pausada
    reflexão, esses dois grupos, tão distinctos d'antes como o são agora.
    Evidentemente andou por aqui a synthese. Depois de enumerar os varios
    tributos directos, os direitos senhoriaes, as rendas, as prestações
    emphyteuticas, os serviços, as rações e foragens das terras
    reguengueiras não aforadas e das immunes, diz que poderia oppor esse
    quadro á situação presente do _operario rural_, mas que não o fará. Tomo
    a liberdade de a contradizer, para ser mais justo com ella do que ella o
    é comsigo mesma. Não só não o fará, mas tambem não poderia fazel-o,
    porque é incapaz de fazer disparates. Pois o operario rural tinha,
    geralmente fallando, alguma cousa que ver com os tributos directos dos
    concelhos e da coroa, com os direitos senhoriaes das terras nobres e
    ecclesiasticas, com as gravosas prestações emphyteuticas, com os quartos
    e foragens reguengueiras, com os dizimos e primicias? Recaiam esses onus
    sobre elle, ou sobre o proprietario ou lavrador a quem servia? A
    consequencia de tantas extorsões era não se cultivarem senão as terras
    que podiam supportal-as e achar-se assim a maior parte do paiz inculto;
    era viverem o lavrador e o proprietario rural não privilegiado uma vida
    quasi tão angustiosa como a do operario; era o estacionamento ou o
    decrescer da população; era o fugir-se á miseria pelo respiradouro das
    emprezas maritimas e das conquistas, que consumiram as forças vivas do
    reino e que, enriquecendo-o na apparencia, o empobreceram na realidade,
    convertendo-o n'um gremio social, cujas feições caracteristicas foram
    por seculos o madraço e o mendigo. Sobre o salario rural não recaíam,
    nem por incidencia, esses onus. Creio o salario actual insufficiente
    emquanto provas positivas, que ha tanto tempo espero, não vierem
    infirmar as revelações da estatistica: não sei como n'esses tempos elle
    poderia ser inferior ao insufficiente. O trabalhador morria. Depois,
    para obstar á depreciação do trabalho lá estava o fatal caldeirão da
    portaria monastica, instrumento de equilibrio economico, que, dispensado
    por nós, a França aproveitou para fundir em _atelier national_. Assim,
    já no principio d'este seculo, quando ainda pesavam sobre a agricultura
    os mais gravosos d'esses antigos encargos, o salario rural attingiu ás
    vezes, n'algumas provincias, o preço de 500 réis, equivalentes quasi a
    700 réis actuaes, maximo a que difficilmente pode hoje chegar[15].

    O liberalismo fez desapparecer quasi inteiramente toda essa farragem de
    extorsões legaes. Quem ganhou com isso não foi o operario rural; foi o
    industrial agricola e o proprietario, quer allodial, quer emphyteutico.
    Seria entre estes, entre os que viveram em epochas passadas e os que
    vivem hoje, que racionalmente se poderiam instituir comparações. Deixo
    de o fazer em attenção á critica. Ella já me disse que a sorte actual
    dos agricultores e proprietarios ruraes era tanto ou mais digna de dó
    que a dos rusticos trabalhadores. Essas comparações deviam mortifical-a.
    A mim é que suspeito me não poria em grandes apuros a comparação das
    condições de existencia material do antigo ganha-pão com as condições
    economicas dos nossos proletarios ruraes.

    Não sei, meu amigo, se nas precedentes reflexões tenho disparatado muito
    ou caído em grosseiros paradoxos. Se tal é, seja indulgente com os
    tristes efeitos d'este rustico viver, que me obscurece o espirito.
    Affigura-se-me que essas reflexões deixam a pobre emphyteuse illibada
    dos crimes sociaes que lhe imputaram. Poder-se-hia, até, invocar em seu
    abono uma especie de _alibi_. Depois dos romanos, a propriedade
    emphyteutica só existiu entre os povos neo-latinos e no Baixo-imperio do
    oriente. Qual, porém, dos direitos senhoriaes, das extorsões, dos
    serviços pessoaes, das desvairadas exigencias dos poderosos e do fisco,
    que enumera a historia dos estados barbaros fundados nas provincias
    romanas, deixa de enumerar a historia dos paizes puramente germanicos?
    De certo a emphyteuse não os produziu, nem foi d'elles instrumento alli.
    Não estava lá. O que lá existiu parallelamente foi a escravidão pessoal
    e depois a servidão da gleba. Porque, pois, attribuir aos mesmos factos
    duas causas inteiramente diversas?

    Que o abuso do dominio territorial havia de influir mais ou menos nas
    transmissões emphyteuticas para a população rural gradualmente
    libertada, é certo, porque era inevitavel. Mas de quaes instituições,
    ainda d'aquellas que continuamos a manter e que reputamos mais
    necessarias ou mais beneficas, não abusava a prepotencia na edade media
    e nos seculos do absolutismo? A indole e as tendencias de qualquer
    epocha revelam-se em todos os aspectos, em todas as fórmulas da vida
    social. O sentimento das desegualdades humanas era tão exaltado e tão
    exclusivo, como o vai sendo hoje o da egualdade democratica; duas idéas
    verdadeiras, quando limitadas, que a exaggeração egualmente falsifica. A
    inferioridade, a vileza dos entes que trabalhavam, dos entes uteis, em
    contraposição á superioridade, á nobreza dos ociosos, quando não dos
    nocivos, foi uma crença radicada e duradoura de que se impregnaram as
    faixas e o berço das nações modernas, porque era ao mesmo tempo
    germanica e romana. A exaggeração, levada até o absurdo, manifestava-se
    em todas as relações sociaes. Só o christianismo foi a negação
    fulminante, a antithese d'aquella brutal persuasão, e a egreja catholica
    ufana-se de contar no gremio do seu antigo clero, das suas antigas
    celebridades, os mais perseverantes adversarios d'ella. Ao christianismo
    devem principalmente as classes trabalhadoras a sua emancipação. Se a
    egreja não fez mais, não fez, talvez, quanto devia e podia, é que se
    compunha de homens; e em todos os gremios, em todas as jerarchias, e em
    todas as epochas, são sempre os menos, são quasi sempre os poucos, que
    ousam luctar contra a corrente impetuosa e implacavel das opiniões
    dominantes.

    Repetirei, acabando esta carta, o que disse a principio. Não concebo a
    que fim practico pretendia chegar a critica, fazendo a resenha, a meu
    ver de um modo pouco exacto, de certo numero de extorsões, de direitos
    senhoriaes mais ou menos oppressivos, e até de tributos nem peiores nem
    melhores, juridica e economicamente fallando, do que alguns tributos
    actuaes, que a analyse deixaria em bem mau estado, se a analyse fosse
    cousa toleravel n'esta epocha das grandes syntheses. Tudo isto tem tanta
    relação com a emphyteuse do codigo civil como com o descobrimento da
    Australia. A critica, todavia, conclue _de tudo isso_ que a emphyteuse
    serviu muitas vezes mais para açoute do que para redempção dos pobres, e
    que o _homem de trabalho_ era, até epochas bem proximas, avexado pelos
    dizimos ecclesiasticos e _seculares_, pelos senhorios nos arrendamentos,
    pelos senhorios directos nas pensões e _rações_ dos predios
    emphyteuticos _e dos prazos_, pelo systema fiscal nas quotas
    tributarias, pelas camaras nos impostos municipaes e derramas. Mas, em
    summa, admitte-se ou não se admitte a emphyteuse? Se não se admitte,
    então _per te_ não admittamos nem arrendamentos, nem camaras, nem
    systema fiscal. Se, porém, a admittimos, deixemo-nos de viajar no
    passado, e vejamos como havemos de utilisal-a em beneficio do presente.
    Mergulhar-se nas trevas dos seculos medios, para nos ensinar que os
    campos ou terrenos cultivados pertenciam precipuamente aos padres e aos
    fidalgos, que devoravam tudo, e que os concelhos eram _recinctos_ para
    onde os cultivadores fugiam e onde tomavam outros officios, entre os
    quaes avultava o de serem creados dos principes e senhores, livrando-se
    do arado para viverem na ociosidade; devassar, digo, os arcanos mais
    secretos da historia, para nos ensinar estas e outras cousas singulares,
    é trabalho que pode ser util a mim e a alguem mais que, como eu, ignore
    essas particularidades; mas parece-me que em nada aproveita ás dolorosas
    questões do presente, que os poderes publicos tem de resolver, e em que
    os homens de boa e sincera vontade, com os seus maiores ou menores
    recursos, tem o dever de auxilial-os.

    Quando outras occupações mais instantes m'o permittirem, procurarei
    submetter á apreciação de v. ex.^a a minha defeza de ter soltado as
    condemnadas proposições de que existem direitos primordiaes ou
    originarios, e de que os predios incultos são de seus donos. Isto é
    negocio mais sério do que a absolvição historica da emphyteuse. Se essas
    proposições são desarrazoados paradoxos, o liberalismo é um absurdo e a
    Carta uma blasphemia. Tirem o caracter absoluto e intransigente a certa
    ordem de principios, e terão de descer de degrau em degrau, através das
    vacillações e divergencias dos socialistas, até ás regiões sanguineas e
    candentes do communismo. O que eu sei com certeza é que, ou seja pela
    emphyteuse, ou seja por outro qualquer honesto arbitrio, é melhor chamar
    o proletario do campo á propriedade rustica, do que deixar, com
    imprevidencia fatal, que o chame a communa ao chuço e ao petroleo, para
    subverter os dois fundamentos da vida social–a familia e a propriedade.

    X

    *Val-de-Lobos, 26 de fevereiro de 1875.*

    Ill.^{mo} e ex.^{mo} sr.–Um quinto artigo do sr. P. de M. acaba de
    fulminar-me e a minha ultima carta. Somos ahi discutidos, eu e ella.

    Aquelle artigo tem dois objectos: a manutenção das doutrinas contidas no
    que o precedeu, e uma desforra de quem lhes não guardou respeito.

    Peço a v. ex.^a me consinta que tambem divida esta carta em duas
    secções: uma sobre as doutrinas, outra sobre a desforra.

    Entremos na secção das doutrinas, que são o que importa aos que se
    interessam n'esta questão. Quanto á desforra, ninguem, creio eu, se
    inquieta por isso. Veremos por seu turno o que ella vale.

    Que foi o que alevantou a tempestade em que presinto que hei-de a final
    soçobrar?

    Pensando nos meios a que poderiamos recorrer para chamar ao goso da
    propriedade rustica o proletario rural, comecei por excluir d'esses
    meios as leis agrarias, as leis de sesmaria, que, renovadas por mais de
    uma vez, nunca impediram que Portugal fosse ao mesmo tempo um breve paiz
    e uma vasta charneca. As causas complexas e profundas que determinaram a
    decadencia da agricultura, a rareza da população, e a miseria das
    classes operarias, não se removem com leis agrarias. Depois, essas leis,
    condemnadas como impotentes pela historia, são no meu modo de ver
    injustas e illiberaes. Mudar-lhes o nome, atavial-as com disfarces não
    as tornariam melhores. Disse-o, e dizendo-o, não imaginava offender
    ninguem. Suppunha que já as tinham collocado entre os monumentos
    archeologicos das ruinas do Carmo. Sonhava. Fez-me tristeza o acordar.

    Estava e estou convencido de que, no seio das nações que chegaram a
    certo grau de civilisação, todo o predio cultivado ou inculto tem valor
    de troca, isto é, que constitue objecto do direito de propriedade; que
    no inculto o valor provém unicamente do trabalho social, no cultivado
    provém em parte d'este, em parte, mas principalmente, do trabalho de
    determinados individuos. Desde que n'um e n'outro ha valor, ha em ambos
    propriedade. De quem é esta no inculto? Cria e creio que é de quem o
    possue. O Estado, representando a sociedade, e convertido em pessoa
    moral por uma convenção, por uma ficção de direito, é capaz de possuir,
    do mesmo modo que as demais pessoas moraes: e não só é capaz de possuir,
    mas tambem de exercer outros direitos civis compativeis com a sua
    indole. Mas tudo isto é inventado, facticio, não natural. Como corpo
    politico, como condição e garantia da mais alta manifestação da
    sociabilidade humana, actuando como poder publico é que não pode
    equiparar-se á pessoa physica. Tudo quanto produz, os valores que cria
    n'esta qualidade, que determina o verdadeiro caracter do Estado, ha-de
    forçosamente individuar-se para ser util. Sicyès, o grande publicista da
    revolução franceza, dizia:–«Se o estado social não tem por _unico_ alvo
    a felicidade dos individuos, não atino com o que seja o estado social.»
    Achava eu razão ao padre Sicyès. No mundo real e á luz economica, o
    Estado é apenas o meio de simplificar e dirigir os esforços individuaes
    a um fim commum, e de multiplicar, ás vezes, de maravilhosa maneira, os
    effeitos d'elles pela collectividade, pela unificação. Quanto a fruir os
    resultados, digam á entidade politica, o Estado, que pleiteie nos
    tribunaes, que mande os filhos á escola, que transite pelas estradas,
    que navegue nos rios e canaes, que adore Deus nos templos, que cultive
    os campos, que negoceie nos mercados. A individuação, quer transitoria,
    quer permanente, dos effeitos do trabalho social é inevitavel.
    Transitoria nos resultados directos, que são as utilidades de uso
    commum, torna-se permanente nos indirectos, que vão levar um valor de
    troca á posse e ao dominio particulares. E assim devia ser. O Estado não
    trabalha: collige os esforços individuaes e dá-lhes nexo e fins communs.
    Se o producto d'esses esforços não revertesse em beneficio dos
    individuos, ficavam estes obviamente logrados. Mas se isto é verdade em
    relação aos productos directos do trabalho social, por maioria de razão
    deverá sel-o tambem em relação aos indirectos.

    A noção de que n'uma sociedade civilisada não ha predios sem valor de
    troca é idéa aurea, a qual já hoje não é licito disputar. Não concebemos
    como exista um predio, onde, indirectamente e mais ou menos, o trabalho
    collectivo não o vá incorporar. Mas, n'essa coordenação de esforços,
    n'essa realisação de utilidades pelo trabalho social, realisação quer
    directa e prevista, quer indirecta e casual, quem actuou? Foi o Estado,
    pessoa moral, entidade facticia, equiparada artificialmente á pessoa
    physica, ou foi o Estado, instituição politica, poder publico, compendio
    e orgão da sociedade? Foi obviamente este. Mas este, quando a ficção
    juridica não o converte em pessoa civil, é iacapaz de direito de
    propriedade. Produz apenas pela acção directora as cousas de uso commum,
    transitoriamente utilisadas pelos individuos. Da existencia d'estas
    cousas de uso commum deriva o valor do predio inculto, do mesmo modo que
    deriva um augmento de valor no predio cultivado. Em virtude de que
    principio ha-de o Estado apropriar-se de um valor que nasceu
    independente da sua intenção, elemento indispensavel para a realisação
    de qualquer direito? Como nasce para a entidade não pessoa civil, mas
    sim poder, administração, justiça, um direito só possivel na pessoa
    civil? E se esse direito se dá no Estado-governo, e se em nome de tal
    direito elle expulsa do predio inculto o que o possue, como ha-de deixar
    de apoderar-se do accrescimo de valor que indirectamente deu tambem ao
    predio cultivado? Onde ficaria n'esse caso a egualdade perante a lei,
    manifestação suprema da egualdade civil, que tambem se funda n'um
    direito originario?

    Entre esses direitos primordiaes, cuja existencia o sr. P. de M. nega no
    seu penultimo artigo, e que no ultimo diz respeitar profundamente, ha
    um–o primeiro na ordem d'elles, o direito á existencia–que, n'uma das
    fórmas da sua realisação, consiste em apoderar-se o individuo dos dons
    gratuitos da natureza, quer estes sejam productos immediatamente
    utilisaveis, quer sejam forças latentes, que, associadas ao trabalho
    humano, criem novas utilidades. É evidente que o direito de propriedade
    não pode ter principio sem que preceda essa fórma de realisação do
    direito á existencia pela apprehensão das forças puras da materia. Mas
    se nos direitos originarios, isto é, no absoluto, não pode haver mais
    nem menos, porque titulo será mais sagrada a apprehensão das forças
    latentes, do que a apprehensão dos dons immediatamente utilisaveis?
    Porque excluirá a _creação_ do direito de propriedade o _exercicio_ do
    direito de apprehensão dos dons fungiveis da terra?

    Para simplificar a questão separemos theoricamente, no predio inculto, o
    valor adquirido em virtude do trabalho social. Deixemos n'elle tão
    sómente as utilidades gratuitas. Do seu lado o sr. P. de M. tambem ajuda
    a simplifical-a. Estabelecendo a sua doutrina, um pouco conquistadora,
    da utilisação forçada dos terrenos incultos, estende-a aos de alguma
    utilidade, embora escassa. Sentiu, talvez, que lhe seria difficil
    encontral-os perfeitamente inuteis para seus possuidores. Quer
    tirar-lh'os mediante compensação, acto que, no seu ultimo artigo, parece
    equiparar á expropriação por utilidade publica, porque (diz elle) tem os
    mesmos fundamentos. Quer, portanto, que, ainda no caso de aproveitar no
    inculto os dons naturaes, o detentor, que exerce alli um direito
    primordial, seja substituido por outro detentor. Chamo-lhe assim, porque
    o segundo tem de o ser emquanto não constituir a propriedade, e pode,
    até, não vir a constituil-a. Mas–dir-se-ha–se o fizer, augmentará a
    riqueza publica e restituirá algum do pão _roubado a innumeras familias_
    pelo primeiro detentor. É certo que a riqueza publica ha-de augmentar
    com a cultura do inculto (o _pão roubado a innumeras familias_ é modo de
    dizer), o que eu tambem vehementemente desejo se obtenha, não por
    violencia, mas por favor do Estado e livre accordo dos interessados. Á
    luz economica, a substituição será util, se o novo detentor fizer o que
    promette. Mas a difficuldade juridica subsiste, e as nações não se regem
    só pelas leis economicas e pelas conveniencias materiaes. A moral e o
    direito tambem tem voto na governança, e desconfio, até, de que tem voto
    de desempate. É axioma juridico que, se o exercicio do meu direito
    perturba os interesses de outrem, não se me pode impor por isso a minima
    responsabilidade. No systema do sr. P. de M., não só se me deve impor,
    mas, se faço a outrem o desarranjo de não o deixar constituir
    propriedade no que possue e disfructa em virtude da lei natural, essa
    responsabilidade vai até á suppressão absoluta do meu direito ao
    usufructo dos dons gratuitos da natureza.

    O que, porém, excede a minha comprehensão n'aquelle systema é querer-se
    compensação para o detentor expulso. Compensação de que, e como? Segundo
    o sr. P. de M., os effeitos do trabalho collectivo que cria o valor,
    objecto do direito de propriedade, não podem redundar em beneficio
    peculiar d'este ou d'aquelle; ou, por outra, a sua incidencia não pode
    juridicamente especificar-se: hão-de redundar em proveito de todos. Mas
    raramente os resultados directos d'esse trabalho, e nunca os indirectos,
    abrangem todos os cidadãos. Ora, se o valor creado por elle, por mais
    indirecto que seja, não pode tornar-se propriedade particular, aquelle
    valor tem forçosamente de ficar sempre no dominio do Estado, que não
    ultrapassará as suas attribuições, antes cumprirá o seu dever (concedido
    que, como governo, possa ser proprietario) se chamar a contas todos os
    possuidores de bens de raiz, quer cultivados, quer incultos. Se acha que
    ás cousas possuidas por um individuo accresceu valor, resultado
    indirecto do trabalho collectivo, e que o mesmo valor não accresceu aos
    bens de todos os outros cidadãos (ainda aos dos que os não tem),
    recolhendo a si o accrescimo, não faz mais do que reivindicar o que é
    seu. Assim, a compensação dada ao possuidor do predio inculto não tem
    razão de ser. Restam os productos espontaneos immediatamente utilisaveis
    que elle usufrue, aliás sem melhor direito que os outros, conforme quer
    o sr. P. de M. Estes productos não tem valor de troca; não podem,
    portanto, apreciar-se. Por isso a compensação é tão impossivel, como
    substituir o amarello pelo redondo, ou o cubico pelo encarnado.

    Mas, dado este systema, que sem duvida é judicioso, exequivel e justo,
    acho ainda uma dureza na precedente doutrina, doutrina aliás
    fundamental. A theoria continúa a reger a materia depois de empossado o
    novo detentor, que _ha-de_ vir a ter o direito de propriedade quando
    associar ás forcas naturaes o _seu_ trabalho. O valor consubstanciado no
    predio por effeito indirecto do trabalho collectivo é do Estado, que não
    pode dal-o a um, porque é de todos. Que se ha-de pois fazer? Ou o
    Estado, pessoa moral, vende aquelle valor criado pela acção do
    Estado-governo, ou, considerando-o como um capital que vai mutuar,
    fal-o-ha representar pelo juro. No primeiro caso, o proletario, que não
    tem com que compre cousas taes, em vez de ser chamado ao dominio
    territorial, ficará excluido peremptoriamente d'elle, e a consequência
    unica será a accumulacão de mais propriedade rustica nas mãos dos que já
    a possuem, ou do capital habilitado para a adquirir. No segundo caso,
    temos o aforamento, a emphyteuse de ominosa memoria, que, apezar de
    todas as demonstrações historicas em contrario não refutadas, nem por
    isso deixa de ter sido instrumento de extorsões e vexames, que por via
    d'ella podem resuscitar.

    Dão-se hypotheses, que o systema do sr. P. de M. forçosamente ha-de
    abranger, e cuja solução, que me atrevo a antever, a consciencia publica
    tem de applaudir com assombro. As convulsões da natureza, por exemplo,
    os phenomenos meteorologicos imprevistos e violentos convertem ás vezes
    o predio cultivado n'uma cousa mais desolada, mais improductiva, mais
    nua, do que o era quando esses terrenos ainda incultos, mas por isso
    mesmo mais capazes de resistir ao furor das procellas, apenas offereciam
    ao homem fructos espontaneos e forcas latentes. A hypothese não é rara.
    Ainda ha pouco Macau nos deu um horroroso documento do facto na
    propriedade urbana. A tempestade destruiu tudo no predio rural, quebrou
    ou arrancou as arvores frondiferas, areiou os campos, revolveu as
    vinhas, derrubou a morada e as officinas da granja. Os gados morreram,
    as apeiragens levou-as a cheia. O dono, attonito, desanimado, sem meios
    para renovar o seu capital fixo e movel, falla em vender o predio.
    Ouve-o o Estado e grita-lhe, estribado nos bons principios: «Alto lá,
    burlão! Que é o que pretendes vender? Os fructos espontaneos, as forças
    latentes? São utilidades que se não vendem. Quererás, porventura,
    alienar o valor que te accrescentou ao predio a excellente estrada por
    onde conduzias os productos ao mercado? A justiça que encontravas nos
    tribunaes quando te disputavam alguma estrema? A segurança real e
    pessoal com que alli vivias, mantida pela força publica? As vantagens,
    em summa, que eu fiz adherir ao teu predio e que não posso ceder-te? Não
    sabes que tudo quanto ahi resta é valor que me pertence? Destruiu a
    tempestade os fructos accumulados do teu trabalho. Chamo-me eu a
    tempestade? Se practicares o acto que meditas, a Africa te espera. A
    burla está prevista no codigo penal.»

    Depende a applicação do systema do sr. P. de M. de providencias cuja
    contextura ignoro e desejaria conhecer para admirar. Deve ser uma das
    mais notaveis assignalar precisamente o que é terreno inculto e o que é
    terreno cultivado. Cumpre que os caracteres de um e do outro sejam
    definidos, bem exactamente descriptos, indubitaveis, de modo que se
    torne impossivel confundirem-se. A confusão seria o arbitrio, e o
    arbitrio em questões de propriedade chama-se despotismo e espoliação.
    Não convirá, ao menos n'isto, o sr. P. de M.?

    Não pretendo negar a solidez do systema, nem embrenhar-me em questões de
    principios. Exponho duvidas sobre a applicação practica d'elle; sobre o
    _quid et quomodo faciendum_. É possivel que vão por ahi algumas
    exuberancias de logica. Não sei retel-a a tempo, segundo dizem; mas eu
    não tenho culpa de ter nascido com a intelligencia debil. Se ha culpa, é
    da logica, em aproveitar-se d'este imbecil do meu espirito, para correr
    á solta pelo campo das desattenções.

    Desejo aplanar difficuldades aos progressos da evolução. As doutrinas
    revolucionarias de 89 sobre os direitos originarios e imprescriptiveis
    do homem estão velhas e gastas, como a minha razão. Os deuses vão-se.
    Com o mau habito de repugnar ao arbitrio e de odiar a oppressão, tanto
    de muitos por um, como de um por muitos (identica anarchia, identica
    tyrannia), desejara que o absolutismo dos Cesares e o absolutismo das
    multidões achassem diante de si e desenhando-se-lhes nas consciencias,
    ao menos para uso dos remorsos, padrões que assignalassem os limites
    entre o campo da auctoridade e as gandras silenciosas do despotismo.
    Quizera que, no logar do antigo direito natural que expira, se
    consagrassem principios novos accordes com os novos systemas, com as
    evoluções e com as evoluções das evoluções _in infinitum_. Quizera que o
    pretendente a detentor do predio inculto, ao sacudir d'alli o detentor
    antigo, podesse estribar-se n'algumas maximas juridicas geralmente
    acceitas. É provavel que o desapossado clame; é provavel que invoque as
    doutrinas herdadas pelo seculo XVIII às sociedades modernas; é provavel
    que faça um discurso ao pretendente. O perigo inspira. Naturalmente
    diz-lhe assim, pouco mais ou menos:–«Cidadão proletario, exiges que te
    ceda este solo inculto que possuo, para d'elle fazeres surgir as forças
    latentes da natureza e casal-as com o teu trabalho, a fim de procrearem
    o direito de propriedade, demonstrando ao mesmo tempo o transformismo de
    Darwin pela selecção sexual, cousa importantissima para a solução da
    contenda que vens alevantar. A tua pretenção, meu amigo, parece-me um
    pouco exorbitante. Tu queres auferir d'este solo as forças naturaes; eu
    aufiro já d'elle os seus productos espontaneos e gratuitos. O teu
    direito de apprehensão é excellente, mas o meu não é ruim. Sou
    preguiçoso e nasci com vocação campestre: contento-me de assar a minha
    caça nas raizes carbonizadas do carrasco e da aroeira; de estirar-me ao
    sol no inverno sobre o colchão perfumado do tomilho e do rosmaninho; de
    aspirar voluptuosamente no estio os effluvios da giesta e da madresilva;
    de scismar vagamente ao lusco-fusco, olhando para o viso crespo e
    dentado da collina deserta, a que fazem espaldar, colgado do ceu, os
    ultimos clarões do dia; de me dessedentar, debruçado sobre o arroio que
    passa; de attender, ás vezes, ás insinuações imperiosas do estomago com
    a azinha e o medronho da selva ou com a camarinha da gandra e a amora do
    silvado. Deus me livre de obstar ao teu direito de trabalhar,
    perfeitamente egual ao meu de fruir. Terás uma vantagem: acharás quem te
    compre o fructo do teu trabalho, e eu não acharei quem me dê um ceitil
    pela fruição dos dons da natureza. Se vender este predio, dar-me-hão o
    restricto equivalente do valor de que o impregnou, sem intenção e pela
    força das cousas, o trabalho social, em que tambem á fina força me
    fizeram lidar, com grave prejuizo da minha indolencia. Vae, amigo,
    trabalha. Se te appetece a agricultura, agriculta. É ampla a face da
    terra, e posso asseverar-te, sem medo de errar, que o genero humano
    ainda não desbravou nem apropriou, pelo trabalho dos individuos ou do
    Estado, a decima parte d'ella. Ha no mundo charnecas a trasbordar. Se o
    Estado faz gosto de que sejas lavrador n'estes sitios, não digo que não.
    Vae ter com o Estado, e dize-lhe que me offereça vantagens, não tocando
    no meu alvedrio. Pode ser que troque por ellas estes dons naturaes; que
    sacrifique a minha vocação campestre. Acredita que sei calcular, e que
    não nasci absolutamente idiota. Emquanto isso não se arranja, deixa-me
    priguiçar n'este chão brenhoso, como tu has-de priguiçar quando a
    propriedade adquirida pelos teus esforços, e em que terás um direito tão
    absoluto como este meu, te habilitar para o fazeres, sem que ninguem te
    ralhe por isso. A differença estará em que os teus commodos e gosos
    serão, como é de razão, bem superiores aos meus. Com que então, o
    usofructo não vale nada? Um civilista era capaz de te dizer que o meu
    constitue uma especie de propriedade. A natureza deu-me o que podia dar:
    eu acceitei o que podia acceitar. Contracto perfeito. Não irei tão
    longe. O trabalho, querido proletario, é um dever moral. Confesso-o. O
    que não te confesso é que seja uma obrigação juridica. Podes
    vituperar-me no sanctuario da tua consciencia: não podes condemnar-me no
    tribunal da tua justiça. Se não te apraz sair da tua patria, do teu
    concelho, da tua freguezia, isso é altamente louvavel: prova que tens um
    coração amoravel, mavioso; não me perturbes, porém, no exercicio do meu
    direito. N'esse caso, muda de rumo, e deixa-te de agriculturas. As
    forças naturaes tem modos indefinitos, senão infinitos, de se associar
    com o trabalho. Não sejas birrento. Um capricho não destroe um direito.
    Vês aquelle ribeiro? Aproveita as suas forças latentes: constroe um
    moinho á beira da agua n'aquelle descampado, além da minha estrema, e
    faze-te moleiro. Se é tarde para aprenderes o officio, nem por isso
    ficas com os braços atados. Não desesperes do consorcio do teu trabalho
    com as energias da natureza. Submette, por exemplo, aos teus esforços a
    maleabilidade do ferro augmentada pelo calorico, e sê malhador de
    ferreiro. Mette depois as sobras do teu salario na caixa economica.
    Estás proprietario. Explora, até, a minha intelligencia, aproveitando-te
    dos meus conselhos. Ainda melhor: explora a tolice humana, uma das
    forças naturaes mais energicas. Faze-te védor d'aguas ou constructor de
    estados sociaes novos; inventa um remedio secreto ou uma imagem que faça
    milagres; vende bilhetes de loteria ou bullas da sancta cruzada. Depois
    capitalisa. Faze tudo, menos bulir no meu usofructo das utilidades
    gratuitas que, n'este tracto de terra, me subministra a natureza.»

    Sei que os sophismas e os insulsos dicterios do retentor do predio
    inculto caem diante da irresistivel theoria que supprime os direitos
    primordiaes, guardando-lhes aliás todos os respeitos e sepultando-os com
    todas as continencias. Mas se o retentor effectivo fica desarmado pela
    theoria, tenho minhas suspeitas de que o pretendente a retentor não fica
    melhor armado. Desconfio de que atraz d'aquelles gracejos de mau gosto
    estejam aninhadas algumas formidaveis verdades. Restará a forca material
    para dirimir a contenda; mas a força bruta, em questões de direito,
    significa anarchia ou tyrania. É por isso que espero sejam substituidos
    os direitos originarios ultimamente fallecidos por uns direitos
    originarios novos que se amoldem ao progresso das successivas evoluções
    sociaes, e que, demittidas do serviço publico as maximas juridicas
    antiquadas, se formulem outras de indole perfeitamente evolutiva, isto
    é, que vão seguindo, pela folhinha, a pista das festas moveis.

    E o capitulo da desforra? Ia-me esquecendo. Ficará para mais opportuna
    occasião.

    XI

    *Val-de-Lobos, 16 de marco de 1875.*

    Ill.^{mo} e ex.^{mo} sr.–Foi apoz uma primeira e rapida leitura do
    quinto artigo do sr. P. de M. sobre a extirpação das rainhas heresias
    economico-juridicas, que pedi licença a v. ex.^a para dividir a presente
    carta em duas secções ou capitulos. Depois, quando pensei no segundo,
    hesitei muito sobre se deveria reduzir-me a significativo silencio.
    Moveram-me em sentido contrario duas considerações. O silencio podia ser
    offensivo para o meu antagonista, e ao mesmo tempo nocivo para uma idéa
    que reputo altamente boa e practica, e de cujas vantagens, se fôr
    applicada, estou intimamente convencido. Ha muita gente, e ás vezes
    preponderante, que acha sempre razão a quem, para debellar uma idéa,
    discute um individuo. Esta especie de criterio amolda-se a todas as
    capacidades. É ruim o individuo? Ruim deve ser a sua doutrina. Má
    arvore, mau fructo. É assim que os habeis argumentadores, quando a
    discussão os cansa ou os irrita, recorrem, ás vezes irreflexivamente, a
    esse ardil de guerra, que, se não mata, debilita, ao menos, a opinião
    adversa. Eis as razões que afinal me induziram a fazer alguns reparos
    sobre a substituição da analyse das minhas opiniões pela analyse do meu
    caracter e da minha intelligencia, substituição a que, aliás, alguem
    achará um merito–o de provar de modo irrefragavel que a maneira mais
    justa, mais facil, mais simples, de chamar os proletarios rusticos á
    posse de poucas geiras de terra, e de os converter em defensores da
    propriedade é espoliar os donos dos terrenos incultos para repartir
    estes com elles.