Noções elementares de archeologia
[Figura 178: Tympano pertencente á igreja de Nossa Senhora de Trèves]
*Torres*
Foi no seculo XIII, principalmente, que os architectos conseguiram
levantar até a grandissima altura essas pyramides esguias, que dão tanta
variedade na architectura ogival.
[Figura 179: Uma das torres da cathedral de Coutances (Sinos collocados
em bastante altura)]
Vêem-se aberturas elevadas e estreitas, e muitas vezes por cima as
agulhas da torre; sobre a base da pyramide octogona estão quatro
campanariosinhos, e as quatro faces do octogono que corresponde aos
quatro lanços da torre, sustentam trapeiras com columnas e pyramides por
adorno.
Quando as torres das igrejas ruraes mostram telhados de duas aguas,
construidos com madeiramento ou de abobada, indicara isso que o telhado
não é o primitivo, mas que o substituiram á agulha, quer de madeira,
quer de cantaria.
[Figura 180: Egreja do seculo XIII]
Geralmente as torres edificadas nos paizes meridionaes no seculo XIII
tem apparencia pesada e acaçapada com o telhado de fórma obtusa. As
agulhas de pedra encontram-se em grande numero em certos paizes.
*Altares, pias baptismaes, tumulos*
Eis alguns typos para servirem de exemplos dos _altares_, _pias
baptismaes_ e _tumulos_ pertencentes ao seculo XII, de igrejas nacionaes
e estrangeiras.
[Figura 181: Altar do seculo XII em Norrey (Calvados)]
[Figura 182: Pia baptismal octogona, ornada com arcos ogivaes]
[Figura 183: Pia baptismal sobre pés formados por columnas]
Os altares não tinham então tabernaculo; as santas particulas estavam
reservadas em armarios fechados com portas chapeadas, collocados nos
lados do santuario, e as arcadas d'esses armarios eram abertas no grosso
das paredes da capella-mór, e geralmente as designavam com o nome de
credencias.[48]
[Figura 184]
Os _tumulos_, mettidos nas paredes, como se vê na gravura junta,
chamavam-se _tumulos arqueados_. A estatua do finado estava representada
debaixo d'estas arcadas.[49]
As _campas_ são grandes lageas, as quaes serviam de piso nas igrejas, e
apresentavam a effigie do finado aberta a traço; eram estes os tumulos
mais communs. Tem-se destruido constantemente um sem numero, para lhe
substituirem lageas lisas sem significação nem caracter funereo. Deviam,
pelo contrario, conserval-as cuidadosamente, porque pelos seus
epitaphios ou inscripções, as campas fornecem documentos mui
interessantes para a historia local, e as effigies esculpidas n'ellas
servem para o estudo dos trajos da época.
[Figura 185: Campa pertencente ao ultimo quartel do seculo XIII]
Em alguns cemiterios existem ainda _fanaes_ formados por columnas ôcas,
no cimo das quaes se accendia um _farol_ para alumiar de noite os
enterros, e tambem para fazer lembrar aos transeuntes que as pessoas
enterradas precisavam das suas orações. Estas columnas tinham na base um
altar, no qual se dizia a missa nas occasiões dos enterramentos. Ficavam
collocados no centro dos cemiterios, nos mais importantes dos seculos
XII e XIII.
*ARCHITECTURA CIVIL*
O arco composto de tres pontos applicado ás abobadas, ás aberturas de
portas e janellas e a todos os detalhes da ornamentação, favorecia o
engrandecimento de diversas construcções civis e monasticas, publicas e
particulares. Os conventos tinham-se então enriquecido com os legados de
numerosos fieis, e pelos lucros obtidos com o aperfeiçoamento que tinham
dado á agricultura. A immunidade dos municipios veio a ser para as
cidades, e para as suas industrias, uma causa de engrandecimento, que
muito contribuiu egualmente para o seu progresso. O seculo XIII foi pois
para a architectura civil como para a architectura religiosa, _uma
grande época_.
*Architectura monastica*
Os claustros com arcadas formando galerias, sustentadas por
columnasinhas de uma extraordinaria finura, com capiteis compostos de
folhas, como se vê na gravura do claustro de Santa Trophina d'Aries
(França), nos conventos de Santa Clara em Santarem, em Thomar[50] e o da
Esperança em Lisboa.
As casas de capitulo, os refeitorios, as casas para os hospedes e os
outros edifícios, dispostos em roda do claustro, geralmente abobadas,
recebendo a claridade por aberturas com o feitio de ponto subido; ainda
se vêem, comtudo, algumas de volta perfeita; porém são de tão
extraordinaria delicadeza, que não pódem ser attribuidas ás construidas
no seculo XII. A vista geral da construcção monastica de _Bonport_ [fig.
187], mostra a disposição geral d'estes edificios religiosos.
[Figura 186: Vista longitudinal do refeitorio de Bonport]
[Figura 187: Vista dos edificios de Bonport, tirada das margens do Sena]
[Figura 188: Vista da empena do lado sul do edificio de Vauclair]
Porém, para exemplo de construcções civis e monasticas, não se póde
apresentar outra mais importante, que a que pertence á abbadia de
_Vauclair_, proximo de Laon; é uma das empenas, e uma das fachadas. Esta
fachada não tem menos de 70 metros de comprimento; o edificio é dividido
em numerosas e bellas salas, e compõe-se de dois andares abobadados,
ficando por cima grandiosos celleiros, cujos madeiramentos são muito bem
combinados.
[Figura 189: Vista do grande edifício de Vauclair]
[Figura 190: Córte longitudinal d'esse edificio]
_Granjas_.–As granjas que estavam annexas ao grande pateo exterior das
abbadias tomavam grandes dimensões, principalmente n'aquellas cujas
rendas mais importantes consistiam em trigos; como se vê no edificio em
_Ardennes_, perto de Caen. Esta granja podia conter 100:000 feixes de
trigo: as naves estavam divididas longitudinalmente por nove arcadas.
[Figura 191: Uma das empenas da granja das Àrdennes]
Algumas abbadias possuiam estabelecimentos industriaes. A de _Citèau_
pertenciam-lhe grandes fabricas de cortume, estabelecidas na margem de
um rio que ali corre proximo.
Como especimen de uma entrada de abbadia, quasi sempre composta de duas
portas, uma para os carros, a outra para as pessoas, apresentamos a que
pertencia ao priorado de _S. Vigor_, próximo de _Bayeux_. As portas
tinham geralmente um aposento construido por cima d'ellas.
A _pretoria_, onde se julgavam as causas e as prisões (pois os abbades
tinham muitas vezes a alçada judicial), ficavam quasi sempre junto da
porta da entrada, e o _pretorio_ occupava algumas vezes o primeiro
pavimento.
*Dioceses*
As dioceses foram dispostas no seculo XIII como tinham sido no seculo
precedente, havendo-se aproveitado os progressos architecturaes.
Daremos, para exemplo d'isso, a soberba empena da diocese de _Auxerre_,
edificada em 1250 a 1260; os restos que ainda subsistem do palacio do
bispo de _Laon_, e sobretudo a grande sala construida em 1242; o pateo
d'este palacio era quasi quadrado.
[Figura 192: Entrada da abbadia de Saint-Vigor]
[Figura 193: Empena da diocese de Auxerre (1250 a 1260)]
*Mercados*
As casas para os mercados do seculo XIII, apresentavam a mesma
disposição que as do seculo XII. Damos para exemplo a empena do grande
mercado de _S. Pedro-sobre-Dive_, que se assemelha a uma grandiosa
granja. Pode-se attribuir unicamente ao seculo XIII a parte que mostra a
gravura, pois que se fizeram obras nas outras partes e em diversas
épocas.
[Figura 194: Entrada do mercado de Saint-Pierre-sur-Dive]
*Hospicios*
A disposição dos _hospicios_ era a mesma que no seculo precedente, porém
multiplicavam-se e desenvolviam-se bastante n'este seculo. Certos
hospicios estavam edificados junto das cathedraes, e quasi em contacto
com ellas; outros ficavam sempre collocados proximo de um rio, embora
fosse da parte de fóra das fortificações, ou no interior d'ellas e junto
das portas, sendo mais particularmente destinados para os viajantes.
A grande sala do hospicio de Bayeux, reconstruida pelo bispo Roberto de
Ableges, ficou infelizmente destruida em 1823; mas ainda se lembram que
eram as abobadas de fórma ogival, e que tinha columnas monocylindricas
para as sustentar, dividindo longitudinalmente a grande sala. A linda
capella do seminario actual, um dos mais bellos executados no seculo
XIII, formava uma dependencia do hospicio que devia ter tambem claustro.
A sala do hospital da misericordia de _Chartres_, estava dividida por
columnas, e na extremidade oriental tinha um altar onde se dizia a missa
para os doentes: nos outros hospicios mais importantes tambem existia um
altar para o mesmo piedoso fim. Pederiamos citar outros hospicios dos
ultimos annos do seculo XIII com receio de que desappareçam todos d'aqui
a alguns annos, pois é certo que se os municipios continuarem a destruir
tudo o que fôr antigo, para levantar edificios com grandes quantias,
obtidas por meio de emprestimos, unicamente pela pretensão de ser cousa
determinada pelas autoridades da actual geração, nada teremos que seja
digno de considerar-se pelo lado da arte, nem pela veneração dos
monumentos; porque não só não respeitaram as condições architectonicas,
o que é facil de demonstrar tambem nas restaurações dos edificios
monumentaes em Portugal, assim como nas construcções modernas, taes como
a do hospital no Algarve, e o lazareto; mas sobretudo motivado pelo
desprezo e falta de inspecção das antiguidades nacionaes.
*Campanarios e casas da camara*
Quando no fim do XIII seculo a organisação dos municipios veio a ser
geral, então as cidades tiveram um brazão e uma torre ou campanario,
cujo sino servia para chamar o povo a assistir ás deliberações
municipaes.
As casas das camaras foram geralmente collocadas junto das portas das
cidades no seculo XIII. O sino era montado em torre construida por cima
das abobadas do portal, ou nas proprias torres que flanqueavam essa
entrada.
Pelos fins do seculo XIII as casas das Camaras comprehendiam egualmente
mercados cobertos, os quaes vieram depois a ser edificios consideraveis
nas cidades commerciaes, como está representado na gravura do edificio
de _Ypres_, pag. 193 [fig. 195], posto que fosse concluida sómente em
1304, começando a construcção em 1200. É na verdade magnifico palacio.
*Pontes*
Existem ainda muitas pontes do seculo XIII. Ha outras de que se não
sabem as datas, mas que talvez sejam da mesma época, como a da gravura
da pag. 194 [fig. 196] parece indicar.
A soberba ponte de _Cahors_, defendida pelas suas tres torres, é uma das
mais bellas do XIII seculo, e ainda se conserva a sua solida
construcção.
*Casas particulares*
Nas construcções particulares empregavam madeira ou cantaria. As casas
de madeira, muito mais vulgares que as outras, eram construidas com
madeira apparente: ornavam os paus de prumo, os transversaes, todas as
peças de samblagens; depois enchiam com argamassa os intervallos,
deixando visivel toda a construcção executada em madeira. A base era
quasi sempre feita de cantaria para evitar que a humidade apodrecesse a
madeira.
[Figura 195: Casa da camara e campanario da cidade de Ypres]
[Figura 196: Ponte do seculo XIII]
[Figura 197: Vista geral da ponte de Cahors]
Vêem-se ainda algumas casas de cantaria do seculo XIII nas cidades pouco
povoadas, onde não chegou, felizmente, a mania da destruição ignara.
Damos a vista de uma d'essas construcções para mostrar como eram
executadas as galerias cobertas com alpendres, que cercavam as praças, e
tambem as ruas mais frequentadas.
[Figura 198: Casa do seculo XIII em Arras]
*ARCHITECTURA MILITAR*
Se o genio da architectura contribuira com as suas mais bellas e mais
perfeitas inspirações, na composição d'essas admiraveis cathedraes que
têem justamente appellidado a _grande epopeia de pedra_, o poder feudal
fecundará egualmente o talento dos architectos do seculo XIII.
Se as magestosas cathedraes excitam a admiração e enchem a alma de
commoções religiosas; os castellos de Coucy em França, e os de Leiria e
Palmella em Portugal, com as suas torres colossaes, não deixam menos em
nós esse sentimento, sem duvida contemplando o formidavel aspecto de
taes edificações.
*Forma geral*
A fórma ou disposição geral dos castellos do seculo XIII foi, como
aconteceu antes, subordinado á do terreno conforme se firmasse sobre o
cimo de um rochedo, ou sobre uma planicie cercada de valles e barrancos.
Nos paizes formados por planicies, preferia-se a fórma quadrilonga;
encontrando-se em roda dos dois recintos, os mesmos trabalhos de defeza
que costumavam ter as fortalezas do seculo XII.
[Figura 199: Vista do torreão de Coucy]
*Torre ou torreão*
Se appareceram ainda no seculo XIII torreões quadrados, eram elles mais
restrictos que os construidos nos seculos XI e XII; porém, mais
geralmente, tinham a fórma cylindrica nos que se construiram no centro
da França. Fosse qual fosse o logar escolhido para a torre principal,
ficava sempre isolada e rodeada de um fosso, sendo unicamente accessivel
por meio de uma ponte levadiça.
A contar do XIII seculo, não as erguiam sobre as eminencias das terras
ou pelo menos não as dispunham ali senão raras vezes, e só nos logares
onde a falta de bons materiaes obrigava a recorrer a este meio para
augmentar a altura dos edificios: talvez que os torreões do seculo XIII,
assentes em eminencias, estejam por este modo collocados, pelo menos o
maior numero, porque substituiram as torres mais antigas construidas nos
mesmos terrenos.
*Aposentos*
[Figura 200]
As casas que ficavam proximas do torreão, tomaram nova extensão. O luxo
havia sensivelmente augmentado: foi preciso portanto fazer aposentos
mais espaçosos, vastas salas de recepção, do que se póde fazer idéa pela
gravura da vista geral do antigo castello de Coucy, a pag. 198 [fig.
200]. Algumas d'estas salas eram magnificas, tinham janellas de fórma de
_lanceta_, com vidraças pintadas representando brasões ou espelhos, com
divisões de differentes côres; o chão formado com tijolos vidrados.
*Torres nas muralhas das cidades*
A fórma cylindrica prevaleceu para as torres das muralhas da cidade,
como para os torreões; os architectos do seculo XIII mostraram-se mui
habeis na regularidade e na solidez d'essas bellas pyramides que se
elevaram como fortes columnas para consolidar as muralhas e garantil-as
contra os ataques dos estranhos e inimigos. As torres eram divididas em
dois ou tres andares por sôlhos postos sobre vigamentos, algumas vezes
abobadados de cantaria (mas nunca com tijolos), e terminadas por
galerias com seteiras.
As torres cylindricas deviam resistir melhor aos ataques das machinas do
que as torres quadradas; as suas superficies convexas apresentavam em
todos os pontos a mesma solidez; a introducção das abobadas de ponto
subido em ogiva devia além d'isso fazer abandonar esses extensos
torreões com sobrados planos: acharam mais simples abobadar as torres e
consolidar as abobadas servindo-se de arcos apoiados em columnasinhas,
ou em caxorros postos em egual distancia uns dos outros, e formando nos
aposentos uma decoração analoga áquellas das egrejas. Finalmente, os
telhados conicos dos torreões cylindricos apresentavam menos superficie
e menos perigo, em tempo de sitio, que os telhados a quatro aguas dos
grandes torreões quadrados, que eram tambem ás vezes incendiados pelos
fachos lançados da parte de fóra.
A grande transformação que se operára na architectura em geral, pelo
descobrimento do estylo ogival, devia reagir sobre a architectura
militar: foi preciso pois dar maior elevação aos andares, pôr as torres
em harmonia com as outras construcções. Esta mudança, além d'isto,
estava tão intimamente ligada com a introducção do estylo ogival que se
vê a fórma quadrada presistir nas regiões da França e de Portugal, que
conservaram o estylo _roman de transição_, e ao mesmo tempo com o estylo
ogival; foi principalmente no reino de França, onde a architectura
ogival appareceu tão bella no seculo XIII, que os torreões cylindricos
apresentavam as suas agradaveis fórmas e proporções.
*Apparelhos*
O apparelho que se distingue pela denominação de _mediano_ encontra-se
nas torres e nas muralhas do seculo XIII: porém, as pedras variam de
dimensões conforme a natureza dos materiaes empregados. Em _Coucy_, onde
estas pedras são de sufficiente grandeza e perfeitamente apparelhadas,
eram consolidadas as paredes com vigas encastradas na alvenaria, como
fôra uso nos seculos precedentes. Algumas torres, cujos revestimentos
são em pedra tosca, tem todavia fiadas de cantaria em differentes
alturas, como se fossem faixas de tijolos, e mostrando por este modo
especies d'aros na elevação das torres. A gravura junta mostra esta
disposição.
[Figura 201]
*Janellas*
No exterior dos edificios, as _janellas_ mostram muitas vezes o feitio
de simples frestas chamadas _seteiras_, porque se podiam lançar por
ellas frechas sem receiar as que viessem de fóra. Algumas d'estas
janellas, demasiadamente rasgadas na parte interna, são ornadas de
columnas de cada lado, e de molduras com _tóros_ ou _nervuras_, como se
fazia nas das igrejas. Nos logares menos expostos aos ataques, no
interior dos pateos, encontram-se janellas bipartidas, encaixilhadas em
_lancetas_; as grandes salas dos castellos recebiam do mesmo modo
claridade. Ahi a extremidade da ogiva era tapada com cantaria: de
maneira que as aberturas ficavam de fórma quadrada.
*Portas*
As grandes portas flanqueadas de duas torres, na entrada das praças
fortes, tomaram tambem nas arcadas a fórma ogival; estando algumas vezes
munidas de duas pontes levadiças; uma manobrando por detraz da ponte
levadiça A, e a outra collocada na extremidade opposta da passagem de
abobada, para o interior do recinto C. Habitualmente, não se podia
communicar da porta com as duas torres lateraes: a entrada para ellas
estava situada dentro do _baylum_, isto é, no primeiro recinto.
[Figura 202]
As portas das torres e das casas situadas no interior dos castellos,
mais pequenos que os precedentes, eram ornadas de molduras e de
columnas, mas nunca apresentavam as repetidas archivoltas como as das
portas de entrada das igrejas de igual época, e não se via n'ellas
nenhuma ornamentação.
*Molduras*
As molduras, que se usavam nos castellos do seculo XIII, eram do mesmo
feitio que aquellas empregadas na architectura civil d'aquella epoca.
A pintura sobre as paredes veio auxiliar a esculptura para a decoração
dos castellos, e as grandes salas tinham muitas vezes cobertas as suas
paredes.
*Recintos urbanos*
Sabe-se que grande numero de cidades e grandes povoações foram elevadas
a municipios nos seculos XII e XIII. Esta instituição, uma das mais
importantes revoluções sociaes da edade média, produziu mudanças
extraordinarias na importancia relativa e no estado material das
cidades.
Pouco depois o espirito da industria se reanimou, o commercio veio a ser
objecto de séria attenção, e principiou a prosperar; a população
augmentou sensivelmente, e a riqueza appareceu nos logares que estiveram
por muito tempo servindo de asylo da pobreza.
Então as cidades se engrandeceram e aformosearam.
A maior parte ficou rodeada de muralhas, e aquellas que as tinham já
alargaram o seu antigo recinto.
El-rei D. Fernando I cingiu Lisboa com uma nova cintura de muralhas de
que existem ainda alguns vestigios. Em Coimbra tambem foram reedificadas
por ordem do mesmo monarcha.
As torres, quasi sempre cylindricas nos outros paizes, foram dispostas
ao correr das muralhas das cidades, seguindo a fórma da construcção
adoptada para esse fim.
Quando estas eram postas em estado de defensa, então viam-se coroadas
por essas galerias salientes feitas de madeira, de que a torre de Laval
[fig. 162] apresenta um bello exemplo. Por meio d'estas sacadas de
madeira chamada _hurdicium_, podia-se dominar o pé das fortificações, e
lançar pedras e outros projectis sobre os sitiantes, pelos intervallos
abertos dispostos entre as vigotas que sustentavam o parapeito em falso.
Esses remates de madeira podiam ser incendiados, e os engenheiros do
século XIII procuraram o modo de substituir a pedra á madeira. Portanto,
a grande torre de Coucy tinha caxorros formados de cantaria em que
apoiava a galeria que seria naturalmente de madeira, ficando
correspondente ás aberturas do ultimo andar; podiam citar-se outros
exemplos de tentativas feitas para substituir a pedra á madeira. Foi
sómente no seculo XIV que este melhoramento veio a ser geral.
O recinto d'_Aigues-Mortes_ apresenta a fórma de um parallelogrammo
rectangular; o maior numero das torres era semi-circular no exterior da
muralha, e quadrada no interior, de maneira que apresentava pouca sacada
sobre o baluarte interior e formava linha com elle, levantando-se a
certa altura acima do parapeito. As portas principaes abriam-se entre as
duas torres; o intervallo que existia entre estas ultimas era occupado
pela sala onde se içavam as pontes levadiças; em cada ponte havia duas:
uma para a porta exterior, e outra para a porta interior.
[Figura 203: Uma das portas d'Aigues-Mortes]
Tinham boas escadas, cujos degraus descançando nas abobadas com a volta
de quarto de circulo, deixavam subir á trincheira de cada lado das
grandes pontes.
[Figura 204: Muralhas e torres d'Aigues-Mortes–Vista do interior da
praça]
As abobadas das torres eram guarnecidas de arcos encruzados. Algumas
chaminés existem ainda nas salas que ficam por cima das pontes de
entrada: o cano por onde saía o fumo tem a configuração octogona.
Sabe-se que estas bellas fortificações foram levantadas por Philippe o
_Ousado_ (1270-1285); pertencem pois ao fim do seculo XIII.
As pontes levadiças moviam-se por meio de vigas servindo de alavancas,
ás quaes o taboleiro estava suspenso. Não se encontraram vestigios das
caixas nas quaes entravam as vigas ou alavancas para ficarem os madeiros
recolhidos: este systema julga-se fôra geral, sómente nos seculos XIV e
XV.
[Figura 205: Uma das portas do recinto da muralha de Laon]
A ponte levadiça, que se abaixava detraz das portas correndo por uma
calha aberta na cantaria, tinha por fim multiplicar os obstaculos;
fazendo-a mover do aposento que ficava por cima d'esta porta, e aquelles
que se deixavam apanhar entre as pontes levadiças podiam ser esmagados
da parte superior, ou trespassados de frechas atravez das grades de
resguardo.
Quando os rios passavam pela parte de fóra das muralhas, e que se tinham
aproveitado para servirem tambem como meio de defensa, as pontes tinham
nas extremidades dois fortes; um para defender a entrada da ponte, o
outro para deter a tropa que a quizesse transpôr; estas obras de
fortificação, chamadas _cabeças de ponte_, compunham-se, ás vezes, de
muitas torres e formavam um pequeno quadrado defendido de todos os
lados. Acontecia tambem, quando a ponte tinha certo numero de arcos, o
ultimo de cada extremidade não era abobadado, havendo uma ponte de
madeira que descançava sobre os seus pilares.
[Figura 206: Porta guarnecida de grades]
Havia em determinadas localidades torres collocadas sobre a ponte, como
se vê na gravura da ponte de _Cahors_.
[Figura 207: Vista de uma cabeça de ponte]
CAPITULO V
ERA OGIVAL SECUNDARIA
*ARCHITECTURA RELIGIOSA*
*Forma das igrejas*
Notavel mudança se introduziu no seculo XIV no plano das igrejas pelo
accrescimo de um renque de capellas ao longo de cada um dos lados das
naves. As capellas, que formam de certo modo o complemento dos templos
da idade média foram, n'essa época, construidas depois das obras
completas da edificação dos templos, grande numero de igrejas e muitas
cathedraes do século XIII; a contar do seculo XIV, deu-se muitas vezes á
capella terminal, consagrada á Virgem, maiores dimensões que d'antes.
Contrariamente ao que se fazia em o norte, no sul e no sudoeste de
França, muitas igrejas do século XIV não tinham naves lateraes, mas só a
nave principal; o côro não tinha, como annos depois, a separação da
galeria no arco triumphal, e as cadeiras do côro que a dividiam do resto
da igreja.
Em logar de naves lateraes, formaram capellas rectangulares entre os
pilares dos contrafortes que recebem os arcos das abobadas. Fez-se
então, por cima d'essas capellas, tribunas correspondendo exactamente a
estas, recebendo luz de compridas janellas com duas ou tres aberturas e
no cimo ornadas de triflorios moldurados; porém, no maior numero de
casos, não tinham ornato algum. Comprehender-se-ha melhor esta
disposição pela gravura da pag. 211 [fig. 210] dos dois vãos da
cathedral de _S. Bertrando de Comminges_ (França).
[Figura 208: Plano da cathedral de Bayeux _a_. Capellas annexas do lado
do norte.–_b_. Capellas annexas do lado do sul.]
[Figura 209: Plano de uma igreja do sul da França sem naves lateraes]
[Figura 210: Dois vãos com arcadas da cathedral de
Saint-Bertrand-de-Comminges]
Portanto, no seculo XIV, as igrejas do meio-dia raras vezes tinham o
_triforium_ e o _clerestory_, que occupavam os dois terços da altura das
paredes lateraes. A mesma disposição foi seguida nos seculos XV e XVI.
*Contrafortes*
A largura consideravel que deram no XIV seculo ás janellas do
_clerestorium_, e a pouca resistência que as paredes com aberturas
arrendilhadas apresentavam então ao encontro das abobadas, obrigou a
fortificar as paredes situadas entre as janellas, empregando maior
esmero no trabalho dos arcos-botantes. O contraforte servia tambem nos
edificios do norte de apoio para dois arcos-botantes, sobrepostos, como
se vê na cathedral de Amiens em França, na Batalha em Portugal, etc.
As torrinhas não tinham sómente por fim formar o remate do contraforte;
serviam tambem pelo _seu peso_ para consolidar ainda mais o esforço das
abobadas e os outros produzidos pelos proprios arcos-botantes.
Nos paizes meridionaes, a falta das naves lateraes, como já mencionámos,
ao correr da nave principal, evitou construirem-se arcos-botantes;
porque os contrafortes elevavam-se verticalmente até ao cimo das
paredes, apresentando muitas vezes grande saliencia. A curiosa igreja
dos jacobinos de _Toulouse_, de que damos a vista lateral, pag. 213
[fig. 211], é um exemplo que faz vêr esta disposição habitual do emprego
dos contrafortes executados no meio-dia em França. Esta igreja,
construida inteiramente de tijolos, é uma das mais ousadas construcções
que se conhecem.
O emprego do tijolo concorreu para se fazerem modificações nas fórmas
das aberturas e n'aquellas dos ornamentos; e, n'este caso,
principalmente pela influencia dos materiaes, por tal modo, que o
investigador estranho ao paiz ficaria realmente muito perplexo quando
lhe fosse preciso determinar uma data para indicar a época d'estas
construcções, cujas ogivas são tão semelhantes durante muitos seculos.
[Figura 211: Igreja dos Jacobinos de Toulouse, inteiramente construida
de tijolos]
*Ornamentos*
A maior parte dos ornamentos do seculo XII, vê-se que passaram sem
alteração para o seculo subsequente.
As folhagens, de que já apresentámos typos, quando tratámos da flora
mural, e que ornam muitas vezes os monumentos do ultimo meado XIII
seculo, caracterisam de igual maneira as decorações do principio do XIV.
Pondo de parte essas analogias, as molduras apresentam na execução certa
differença no seculo XIV, principalmente na ultima metade. Se por
ventura se nota, em geral, maior perfeição na _pratica_ das esculpturas,
encontra-se tambem alteração nas fórmas: os tóros não tem já a mesma
rotundidade, nem a sacada que os distinguia no XIII seculo; em uma
palavra, já não é a obra feita sob a antiga direcção. Estas differenças
são mais faceis de descobrir com a vista do que em minuciosa descripção.
Eis aqui desenhados alguns capiteis do seculo XIV com a sua ornamentação
vegetal.
[Figura 212: Capiteis do seculo XIV ornados de folhagens]
[Figura 213: Amores-perfeitos e myosotis]
[Figura 214: Folhas de rainunculos]
*Arqueaduras na ornamentação*
Os arcos continuos servem de remate aos frontões triangulares; e ás
vezes são ornados com enfeites de fórma de _colchetes_.
[Figura 215]
Vêem-se tambem as paredes ornadas com estas _arqueaduras fingidas_
collocadas em ponto muito elevado, subdivididas por delicados pinasios
de pedra, tendo o cimo com rendilhados como se executavam nas janellas.
Este genero de decoração foi muitas vezes empregado sobre grandes
superficies lisas, principalmente no fim do XIV seculo e no seculo
seguinte.
Os _colchetes_ eram collocados mais profusamente sobre os logares que já
designámos, ficando menos separados uns dos outros, como se praticava no
seculo XIII. Alguns se transformavam em folhas largas arqueadas.
*Triforium*
No seculo XIV uma alteração muito notavel se manifestou na galeria do
_triforium_: em logar de ficar tapado como era d'antes, veio a ter
claridade por meio de janellas que correspondiam aos arcos da galeria
inferior.
[Figura 216: Triforium transparente]
O especimen acima mostra um _triforium_ tendo luz por baixo de uma
grande janella de _clerestory_: então as paredes ficavam verdadeiramente
rendilhadas, como se vê na cathedral de Strasbourg, no convento da
Batalha em Portugal, ele. Alguns _triforiuns_ com claridade são
attribuidos ao segundo meado do seculo XIII; porém a maior parte
pertence ao XIV e XV.
*Columnas*
A disposição das columnas é a mesma no seculo XIV que no XIII; aquellas
que estão enfeixadas principiam a tornar-se de aspecto mesquinho, e não
se destacam sufficientemente como as precedentes dos pilares quando se
faziam em grupos. Ao principio do seculo XIV não era raro encontrar
ainda capiteis, que faria suppôr pertencerem ao XIII; porém depressa o
açafate se desformou, e as folhagens mudaram de natureza. Não se vêem no
meado do século XIV, esses colchetes que se arqueavam em volutas e que
formavam de certo modo o ornamento obrigado dos capiteis do XIII.
No seculo XIV, as folhagens eram dispostas nos capiteis de modo a formar
dois ramalhetes sobrepostos, e a dividir assim o açafate em duas partes
quasi iguaes. Esta combinação era tambem muito caracteristica do seculo
XV. Succedia, ao mesmo tempo, na forma das bases, um trabalho de
transformação d'onde devia sair um typo novo.
Essas bases não apresentam mais os escapulados tão profundos como no
século XIII; até desapparecerem inteiramente, e os dois toros ficam mui
separados um do outro.
Os socos tem a importancia nova nos pilares do seculo XIV. Muitas vezes
mostram tantos socos repelidos quantas são as columnasinhas, e são de
fórma octogonaes ou prismaticas. Quando o soco tem muitos _resaltos_,
esses resaltos ficam separados por molduras reentrantes; algumas vezes,
emfim, a parte inferior do pilar é formado por um massiço no qual os
socos parece que são embutidos.
*Janellas*
No seculo XIV, muitas columnas servindo de pinasios verticaes dividiam
essas aberturas no sentido da largura, e o centro da arcada apresentava
muitos compartimentos em feitio de flôr de trêvo, folhas de quatro
pontas ou em florões.
[Figura 217: Janellas do seculo XIV]
A combinação mais usual era aquella que se vê na figura A: duas ogivas
gemeas encimadas por um oculo polylobado, enche todo o vão da janella.
Cada uma das duas ogivas se decompõe em duas outras partes ou em duas
novas aberturas, tendo por cima um florão; de maneira que o todo da
janella apresenta em ponto grande a imagem das duas ogivas gemeas que
emmolduram, e que representara portanto o mesmo feitio das janellas do
seculo XIII. Nos edificios de ordem interior, a janella B é muito
frequente a sua applicacão no seculo XIV. A gravura seguinte mostra uma
janella muito grande, pertencente ao seculo XIV; tal como se vê algumas
vezes na extremidade dos cruzeiros das igrejas, ou na sua fachada
occidental, as mais importantes.
[Figura 218: Janella do cruzeiro usada no século XVI]
*Portaes*
As portas do seculo XIV differem pouco das do seculo XIII: as voltas e
os tympanos são igualmente cheios de pequenas figuras em baixo-relevo;
os frontões triangulares que lhe servem de remate tem rendilhados, em
logar de ficarem lisos ou cheios como no seculo XIII; são tambem
ordinariamente mais elevados e ornados de _crochets_. Sobre os tympanos
de algumas portas, a flor de trêvo, as folhas de quatro pontas, ou
florões, substituem as figuras em alto relevo.
*Arcadas*
Não se encontram as molduras tão excessivamente pronunciadas e
executadas alternativamente, ora redondas, ora concavas, que ornavam no
seculo XIII as archivoltas das grandes arcadas; os toros são muito menos
boliados e por vezes tem feitio ellyptico, não produzindo o contraste da
luz e sombra que dava tão notavel distincção aos arcos repelidos do
primeiro estylo ogival.
*Torres*
As torres eram rematadas por uma agulha em pedra, e tinham passeio com
parapeito e corrimão, como se vê quasi sempre entre a torre e a base da
pyramide, que lhe fica superior, conforme se construia desde o seculo
XIV. Até lá nos telhados pyramidaes das torres tinham posto poucos
ornamentos: esculpiam-lhes unicamente modilhões curvilineos, ou telhas
recortadas; mas no XIV, abriram-lhes buracos contornados como as flôres
de trêvo, em florões, etc., cobriram-lhes os angulos de ornatos de forma
de _crochets_. A reunião d'estes differentes caracteres podem servir
para se distinguirem as grandes torres do seculo XIV das do XIII.
*Ladrilhos*
Os pavimentos de tijolos vidrados foram empregados nas capellas e nas
igrejas, compondo magnificos florões.
*Pinturas muraes*
A pintura empregada nos seculos antecedentes, e que no seculo XIII
cobria os portaes, as curvaturas e partes mais notaveis dos edificios,
foram igualmente prodigalisadas no XIV. Existe d'essa época grande
numero de decorações _polycromaticas_, infelizmente apagadas e
muitissimo deterioradas.
*Pinturas sobre vidro*
Se se considera o effeito geral, a harmonia das tintas e o brilhantismo
das côres, a bella época das vidraças coloridas, foi a do seculo XIII. Á
medida que nos afastamos d'essa época, tão auspiciosa tambem para a
architectura, as producções das pinturas sobre o vidro perdem do seu
brilho, porém as figuras são de maior estatura e desenhadas com mais
esmero.
Considerando, que no sul da França e nas margens do Rheno, os
architectos estavam ainda no seculo XIII dominados pelos principios da
escola do seculo XII, poder-se-hia suppôr que no seculo XIV deveriam ter
adoptado o estylo ogival primitivo; porém não aconteceu assim: quando
elles se decidiram a adoptar o estylo ogival, foram tomal-o no estado em
que se achava. Assim vemol-o, no seculo XIV, na Allemanha e na Bélgica,
com os caracteres quasi similhantes áquelles que dominavam em França.
*Altares*
Os _altares_ do seculo XIV não differem dos do XIII, senão pela natureza
dos detalhes de architectura que fizeram entrar na sua decoração, e que
oferecem os mesmos caracteres que os dos monumentos da época.
Os _armarios_, ou tabernaculos, mettidos nas paredes, proximo do altar,
imitavam, pouco mais ou menos, as mesmas disposições que no seculo XIII.
As _credencias_, por vezes _gemeas_, como se faziam no seculo anterior,
não tinham todavia, no meado seculo XIV, senão uma arcada única e com
uma só piscina.
*Pias baptismaes*
A mesma observação ha que fazer para as pias baptismaes como para os
altares. As formas usadas no seculo XIII encontram-se no XIV; sómente
com a differença de que as pias pedicelladas, com columnas auxiliares,
eram mui raras, e as columnasinhas são applicadas como decorações sobre
um apoio central e fazem corpo com elle, em logar de ficarem destacadas
como antes se praticava.
[Figura 219]
Encontram-se muitas vezes pias oitavadas, como a que está representada
na pag. seguinte [fig. 220], tendo cada um dos lados ornatos e
compartimentos com o feitio de uma janella do estylo radiante: além das
pias d'este typo, vêem-se tambem columnasinhas moldurando essas janellas
e separando as faces umas das outras.
[Figura 220: Pia baptismal octogona do seculo XIV]
*Sepulturas e tumulos*
Os tumulos do seculo XIV distinguem-se dos do XIII unicamente pelo modo
como os ornamentos são executados. Os caracteres que indicamos para a
architectura do seculo XIV dão facilmente a conhecer os tumulos formados
de arcadas collocadas ao correr das paredes.
*Campas*
As pedras tumulares, no seculo XIV, tiveram aprimorada execução; pois
que todos os detalhes dos vestuarios estão reproduzidos com grande
fidelidade, e as composições architecturaes destinadas a formar a parte
ornamental, que encerrava a representação dos personagens, tomam o
feitio das capellas ou das naves de igrejas. Tinham os seus typos
correspondentes nas decorações do mesmo genero no seculo XIII, e nas
vidraças pintadas com representações dos santos, que a igreja expunha á
veneração dos fieis.
No norte, nos Paizes Baixos, e em outras nações, as lageas escolhidas
eram de marmore de côr cinzenta ou preta; em grande parte da França,
foram as campas feitas principalmente de pedra calcaria branca, como
usavam em Portugal; tambem usavam as lageas amarellas ou jaspeadas,
pertencendo ás formações secundarias e terciarias; finalmente, nas
regiões graniticas e schistosas, serviam-se de lageas fornecidas d'estas
rochas[51], porém eram menos empregadas, por causa da difficuldade com
que n'ellas executavam os ornamentos.
*ARCHITECTURA CIVIL*
A architectura monastica conservou no seculo XIV as disposições geraes
adoptadas precedentemente; modificaram apenas a ornamentação: portanto
nos claustros apparecem as arcadas com muitos vãos, tendo como remate
oculos ou espelhos, como se praticava nas construcções das janellas; e
assim o mostra a gravura da pag. 226. [fig. 222]
Pode-se dizer outro tanto dos paços archiepiscopaes, e outros grandes
edificios civis; notando-se, todavia, que foi no seculo XIV que
principiaram a apparecer as grandes janellas com cruzetas de pedra, fig.
B, pag. 225 [fig. 221], que vieram a ser depois tão communs nos seculos
seguintes.
As chaminés conservaram a sua forma elegante, e quando não ficavam
cobertas por um abrigo pyramidal, então assimilhavam-se a uma colunma
cylindrica ou octogona; ás vezes eram ornadas no cimo por folhas de
quatro pontas ou outras molduras.
[Figura 221: Janellas do seculo XIV]
*Hospicios*
Os _hospicios_, os _mercados cobertos_, as _casas da camara_, e os
outros edificios de utilidade publica, não se differençavam dos que eram
construidos no seculo XIII, tanto pela fórma das aberturas, como pela
qualidade das molduras.
Os _hospicios_ compunham-se sempre de um ou muitos salões para os
doentes, dependendo da casa conventual, ou da igreja. Estes edificios
eram dispostos á roda de um pateo principal, mas havia alguns com
segundo pateo para o serviço do estabelecimento.
[Figura 222: Arcos de claustro do seculo XIV]
[Figura 223: Chaminé do seculo XIV]
O hospicio de Nuremberg apresenta corpos de habitações parallelos com
alguns pateos centraes debaixo dos quaes passava um braço de rio, que
era desviado da corrente principal. A architectura das salas d'este
hospicio parecia pertencer além do seculo XIV.
Não fallaremos das _gafarias_, as quaes tinham chegado ao numero de
19:000, depois das guerras das cruzadas, porque eram antes uma reunião
de casinhas ou cellas, no meio das quaes havia um pateo e uma capellinha
consagrada a S. Lazaro, que se não deve considerar hospital publico. Das
numerosas gafarias dos seculos XIII e XIV só existem actualmente as
capellinhas sem que apresentem interesse algum architectonico.[52]
[Figura 224: Hospital de Nuremberg]
*Casas da camara*
Algumas casas dos municipios do seculo XIV, como a de Brunswich, mostra
qual a importancia adquirida por estes monumentos desde o seculo XIII
(vêde a pag. 193 [fig. 195], a casa da camara de Ypres), como se
conservou até no seculo XIV, sendo então decorada com coruchéos,
balaustradas e estatuas, e com as molduras mais elegantes d'aquella
época.
*Mercados, açougues e armazens*
_Mercado coberto de Bruges_. O mercado de Bruges, que pode ser
considerado como monumento mixto, pois que é ornado do campanario
communal, fórma um quadrilatero de 84 metros por 43. As casas mais
visinhas do campanario estavam d'antes isoladas; acrescentaram-lhe as
azas desde 1325 até 1364.
O mercado de _Evron_, em França, construido de madeira, data do seculo
XIV, como igualmente o côro da igreja abbacial: compunha-se de duas
naves formadas por tres filas de prumos.
[Figura 225: Prumos que sustentam o grande madeiramento dos mercados em
Évron]
Apresentemos o traçado das peças de madeira de uma asna d'este grande
madeiramento, e que se apoiam sobre o renque dos prumos de vigas, que
separam as duas naves. Este madeiramento merece estudo particular, e
será apreciado pelos constructores, visto que estes grandes edificios
construidos por esta fórma acabaram de todo, e ainda não foram
sufficientemente estudados.
_Mercado de Dives_. O antigo mercado de Dives, em madeira, tem
igualmente certa importancia. A parte menos antiga, que está do lado
leste, pertence ao seculo XIV; os dez vãos mais bem construidos que
compõem o mercado primitivo, datam certamente da idade media; tem 32
metros de comprimento e 11 metros de largura, decompondo-se da maneira
seguinte: a nave central, 7 metros; as lateraes 4^m,32. A gravura mostra
o córte transversal do madeiramento.
[Figura 226: Córte transversal do mercado de Dives]
Em certas cidades bastante povoadas, onde a corporação dos carniceiros
era poderosa, como em Gand (Belgica) e na Inglaterra, o mercado coberto
formava um monumento.
[Figura 227: Vista d'uma parte do açougue de Gand]
_Açougue de Gand_. Este grande edificio, do qual os viajantes vulgares
não fazem caso, e que os itinerarios não se dão ao incommodo de
descrever, é comtudo digno de ser citado. É dividido no interior em duas
naves por bem combinadas divisões de madeira. As duas portas das
fachadas correspondem ás duas naves. Datando a sua construcção do fim do
seculo XIV, o açougue de Gand foi consideravelmente augmentado depois, e
reconstruido em grande parte no reinado de Carlos V, em 1542.
[Figura 228: Grande armazem de deposito na cidade de Constance]
O armazem de deposito de Constance, pag. 232 [fig. 228], pode dar-nos
idéa dos grandes armazens do seculo XIV; compõe-se de muitos andares,
cujos pavimentos de madeira são sustentados por grossas vigas a prumo.
*Casas particulares*
[Figura 229: Casa antiga construida em Cordes]
As casas particulares do seculo XIV eram, como as do seculo XIII,
construidas de cantaria ou madeira; quando havia na proximidade bons
materiaes, que facilmente se extrahiam e transportavam, davam-lhe a
preferencia; porém, achar-se em similhantes condições era raro, e por
isso preferiam a madeira; veio d'ahi certa combinação no systema
particular das construcções, de que se encarregavam especialmente os
entalhadores para ornamentar as madeiras apparentes; além de facilitarem
as suas edificações.
Escolhemos como especimen das casas construidas de cantaria, uma das
mais notaveis que existem em _Cordes_, como se vê na gravura da pag. 233
[fig. 229].
*ARCHITECTURA MILITAR*
*Formas geraes*
[Figura 230: Galeria saliente de cantaria]
A começar do seculo XIV, as partes habitadas dos castellos tomam formas
mais regulares, encaminhando-a a se aproximar do estylo moderno. No
pateo principal, que é ordinariamente quadrado, apresentam grandes e
vastas habitações que se ligam intimamente com as muralhas de recinto.
Por esta forma, as obras de defensa estão alternadas com os aposentos,
ficando _as construcções civis augmentadas em prejuizo das
fortificações_. Muitos castellos do seculo XIII se completam no XIV com
grandes addicionamentos.
As torres dos angulos encerravam geralmente as escadas para se subir aos
differentes andares. Collocavam tambem uma escada principal na torre
levantada ao centro da fachada nobre do edificio.
Os cachorros de madeira que coroavam as paredes das fortificações
apresentavam, como já dissemos, bastantes inconvenientes, aos quaes
procuravam dar remedio. No seculo XIV as galerias salientes de cantaria
com bésteiras, gravura da pag. 234 [fig. 230], substituiram pouco a
pouco os cachorros nas praças fortes. As muralhas d'_Avignon_, e as de
_Cahors_, reconstruidas no seculo XIV, offerecem bellos exemplos.
[Figura 231: Interior de uma porta com ponte levadiça]
As bésteiras não existiam antes dos seculos XIV e XV; á falta de outro
typo, pela sua construcção pode-se confirmar a antiguidade das muralhas,
quando ellas lhe servem de remate sem nenhuma interrupção. As portas dos
recintos são constantemente defendidas por duas torres, e tendo na parte
superior, como no seculo XIII, uma sala onde faziam mover a ponte
levadiça. Foi no seculo XIV, que principiaram, como já referimos, a ser
munidas de pontes levadiças,[53] movidas por contrapesos. A pequena
porta destinada aos pedestres tinha ponte levadiça particular, como se
vê na gravura da pag. 235 [fig. 231].
Citaremos entre os castellos mais completos do seculo XIV o de
_Pierrefont_, que fomos vêr em 1867 quando a sua restauração era
dirigida pelo eminente architecto e archeologo, o nosso confrade mr.
Viollet-le-Duc.
A formidavel Bastilha de Paris, destruida em 1789, cujo _fac-simile_ se
encontra em grande numero de bibliothecas publicas, fôra começada em
1369 por ordem do rei Carlos V. Esta fortaleza compunha-se de habitações
em grande altura, dispostas regularmente em roda de um pateo
quadrilongo; tinha quatro torres semiesphericas nos angulos do quadrado
e mais duas no centro dos dois maiores lados.
[Figura 232: Vista exterior da Bastilha]
Diversas janellas quadradas se abriam para o interior dos pateos, e
algumas nas muralhas exteriores.
_Vincennes_ é antes uma praça forte do que um castello propriamente
dito; a forma regular do recinto, o torreão, as torres, os parapeitos,
este todo offerece um bello exemplo do grande monumento militar do
seculo XIV,[54] e sempre que se pudesse, dever-se-hia adoptar um plano
symetrico, quando o terreno fosse aproprido para similhante construcção.
Esta fortaleza conserva ainda algumas construcções muito antigas.
O rei Filippe Augusto foi o primeiro soberano que mandou edificar n'este
logar uma casa de campo para suas caçadas.
A maior parte das fortificações foram demolidas em 1337, para se
construirem as que existem; assim como o bello torreão do castello, que
veio a ser prisão do Estado no reinado de Luiz XI. Este torreão é um dos
melhores, no seu genero, que possue a França.
É notavel a elegancia da galeria dos antigos aposentos reaes, bem como a
architectura da capella, construcções pertencentes aos reinados de
Francisco I e da rainha Maria de Medicis.
CAPITULO VI
ERA OGIVAL DO SECULO XV E PRINCIPIO DO XVI
*ARCHITECTURA RELIGIOSA*
Posto que a fórma usual das igrejas tivesse ficado a mesma no seculo XV
e no principio do XVI, os architectos tiveram certa tendência para se
afastarem da regularidade symetrica da época anterior; fizeram nas
igrejas existentes augmentos que vieram a destruir a harmonia,
juntando-lhes, por exemplo, outras capellas fóra das proporções das que
já existiam.
*Ornamentos*
As formas prismaticas ou angulares dominam no feitio das molduras do
seculo XV, tanto nos toros e nas nervuras, como nos pinasios, e até nos
mais insignificantes detalhes; isto dava aos ornamentos _aspero_
aspecto, por causa de _magreza_ no cinzelado, que nunca apresentaram os
executados nos seculos XIII e XIV.
As folhagens mostram, a começar do seculo XV, fórmas inteiramente
differentes das que notámos nos seculos XIII e XIV, são folhas de couve
encrespadas, de cardo e outras plantas. As folhas de vinha foram tambem
empregadas com as outras folhas recortadas: estas formam, nas hombreiras
das portas, das janellas, cornijas e festões executados com tanta
habilidade, que parece se despegam da pedra, e são apenas adherentes na
sua superficie: estas grinaldas eram ás vezes entrelaçadas com fitas. Os
esculptores divertiam-se tambem em representar diversos animaes entre as
folhagens.
[Figura 233: Grinaldas de folhas recortadas]
Os _crochets_, em parte differentes dos executados no seculo XIV,
mostram em geral mudança de fórma análoga a dos ornamentos, representam
folhas de couve ou cardo encrespadas, arredondadas, reviradas,
parecendo-se com cabeças de golphinhos.
*Contrafortes*
O fragmento representado na pag. seguinte [fig. 234], mostra o effeito
dos apainelados, dos pinaculos na sua applicação descançando sobre
animaes–caryatides; finalmente os dos frontões triangulares, por cima
das janellas ornados de folhas encrespadas, rematavam com balaustradas e
divisões do estylo flamejante de _labaredas_.
[Figura 234: Pinaculos descançando sobre animaes–caryátides]
*Columnas e pilastras*
Já não se vêem columnasinhas enfeixadas, porque foram substituidas por
simples nervuras prismzticas. Os capiteis, mais geraes, eram ornadas de
folhagens encrespadas, dispostas em dois ramos sobrepostos um ao outro.
No final do seculo XV e no XVI, não é raro encontrar as columnas
completamente sem capiteis; então as nervuras dos pilares prolongam-se
sem interrupção até ao cimo do edificio e formam um todo com os arcos
ramificados de abobada. Sobre algumas pilastras, encontram-se pinaculos,
molduras com grandes relevos mais ou menos complicados, e misulas para
servirem de peanhas ás estatuas.
[Figura 235]
*Portas*
As portas de arcos abatidas, ou de volta de sarapanel, que se chamam
arcos _Tudor_, porque foram mui usadas em Inglaterra no reinado de
Henrique VII e Henrique VIII, vêem-se principalmente no final do seculo
XV ou no principio do XVI, e eram enfeitadas como as outras portas, com
bellas folhas retorcidas e coroadas de um penacho pediculado, como está
representado na seguinte gravura.
[Figura 236]
*Janellas e oculos (espelhos)*
Os compartimentos, que dividem as janellas e aberturas circulares
chamadas _oculos_ ou _espelhos_, apresentam mais geralmente feitios
retorcidos, assimilhando-se a labaredas, corações esguios, etc. etc.,
que differem das flores de trevo, folhas de quatro pontas, e outras
figuras radiantes. Foi em razão d'estas formas retorcidas, tantas vezes
reproduzidas nos compartimentos das janellas, nos espelhos, nas
balaustradas e nos ornamentos representados na cantaria, que se tem
designado o estylo ogival do seculo XV sob o nome de gothico
_flamejante_.
*Abobadas*
Os arcos das abobadas vieram a ser mais salientes e prismaticos: as suas
peças curvas principiaram tambem a ramificar-se na segunda metade do
seculo XV e no XVI, e os pontos de juncção mostram por vezes
_penduraes_.
[Figura 237: Rosa flammejante em compartimentos triangulares]
*Torres*
As torres do seculo XV apresentam uma grande variedade de formas: ha
algumas, cujas agulhas são muito elegantes (Belgica, Bordelez,
Normandia, ele.); outras são quadradas, flanqueadas de contrafortes
salientes, e que não tem a leveza dos primeiros.
No seculo XV, em logar de flanquear com duas torres as fachadas das
grandes igrejas, tinham muitas vezes levantado uma unica torre quadrada
ao meio do frontão occidental, como _S. Bavon de Gand_, a cathedral de
Berne, e a cathedral de Ulm, etc.
Muitas torres d'esta época apresentam, grav. pag. 245 [fig. 239] sobre
os angulos do corpo quadrado que sustenta a pyramide, _obeliscos_ ou
_torresinhos_ que se ligam ao corpo da torre por arcos botantes de uma
leveza extrema, cujo _intradoz_ é ornado de festões arrendilhados.
Haveria um estudo interessante a fazer-se sobre as torres do seculo XV,
as que existem na cidade de _Ruão_, pois são todas de notavel elegancia,
embora não tenham como remate nem frechas, nem agulhas.
*Altares*
O altar, representado na gravura seguinte, tem 2^m,40 de comprido por
0^m,90 de fundo e 1^m,80 de altura. Sustentam-no tres pequenas columnas.
A decoração na frente compõe-se de quatro curvaturas, alternadamente
separadas por uma columna e por um pendural.
[Figura 238: Um dos altares da igreja do Flogoat (Finisterra)]
*Tabernaculos*
Encontram-se no seculo XV tabernaculos ou _ciboriums_ de pedra que podem
egualmente ser considerados como accessorio dos altares; ainda que
estejam a maior parte das vezes separados e encaixados nas paredes
proximas, como tambem estão as credencias. O especimen seguinte mostra a
configuração dos que existem em muitas igrejas já d'esta epoca.
[Figura 239]
Algumas credencias, do fim do seculo XV, são tambem mui notaveis pelo
numero e acabamento de suas molduras, como se vê na gravura seguinte.
[Figura 240: Credencia dos ultimos annos do seculo XV, na capella de
Jucoville]
*Pias baptismaes*
A forma mais usada no seculo XIV para as pias baptismaes foram
egualmente imitadas no XV, porém as pias d'este ultimo seculo e do
principio do XVI mostram, enquanto ás esculpturas, que foram executadas
primorosamente com molduras prismaticas, similhantes ás que ornam os
nichos, os doceis e os pinaculos da architectura ogival da epoca
terciaria.
[Figura 241: Pia baptismal na igreja de S. Sebaldo]
[Figura 242]
As pias _monopediculadas_ com reservatorio e pé octogono não são raras
no seculo XV: algumas imitam o feitio d'um calix e apresentam da parte
externa a forma hemispherica ou ovoide.
A pia baptismal da cathedral de Bale é pediculada; o calix tem oito
faces com a data de 1465. Estão representados sobre os oito lados d'este
calix: Jesus Christo baptisado no Jordão; S. Lourenço, S. Thiago, S.
Paulo, S. Pedro e S. Martinho. O pé tem egualmente a fórma octogona.
As pias de bronze da igreja de _S. Sebaldo_, em Nuremberg, apresentam a
forma cylindra ornada com circulos em relevo. Os contornos são
graciosos, e está dividida em duas partes e com arcadas collocadas a
par. Os quatro evangelistas se destacam no socco, e parece que sustentam
a parte superior da mesma pia.
*Tribunas–Separações formadas de cantaria*
Era do uso fazer-se um ambito gradado, especie de barreira ou separação
muito enfeitada, posta entre a nave principal e o côro, sustentando
geralmente uma tribuna e a estante onde se lia o Evangelho, como
praticavam antes servindo-se do pulpito. As mais primorosas datam do fim
do seculo XV, ás barreiras em cantaria que separavam o côro das naves, e
que, desde o seculo XIII, já existiam em algumas igrejas; ellas vieram a
ser nos seculos XV e XVI de grande riqueza de trabalho e de merecida
admiração.
*Tumulos e campas*
No final do seculo XV e no XVI empregava-se quasi constantemente, para
os tumulos arqueados, arcos postos a par, similhante a este exemplo que
damos: collocavam um certo numero de tumulos d'este genero ao correr das
paredes nas grandes igrejas.
[Figura 243: Arco duplo de um tumulo]
No seculo XV, encontram-se as pedras das campas cobertas por uma grande
quantidade de detalhes d'architectura, como se executavam nos tumulos em
vulto. O finado era representado occupando o centro de um historiado
portal, composto de nichos, dentro dos quaes ornam pequenas figuras de
santos em differentes alturas, ou então postas em nicho coberto por um
docel; gravura de pag. 248 [fig. 242].
*Cruz dos cemiterios*
No seculo XV, tinha-se lavrado muitas cruzes em pedra para se porem no
meio dos cemiterios, e o estylo das molduras caracterisa
sufficientemente a época da execução. Em algumas cruzes da Bretanha,
distinguem-se grupos de personagens bastante complicados, e de trabalho
muito mais apurado por serem em pedra muito rija.
[Figura 244: Cruz de Scaeb (Finisterra)]
*ARCHITECTURA CIVIL*
O caracter da architectura civil do seculo XV, emquanto ás molduras com
ornatos, é egual ao empregado na architectura religiosa.
*Architectura monastica*
A architectura civil monastica segue o gosto do tempo e adoptou-se nas
arcadas dos claustros, nas janellas ogivaes, com contornos curvilineos,
como já expuzemos quando fallámos da architectura religiosa.
[Figura 245: Fragmento d'um claustro do seculo XV]
Para comprovar, será sufficiente apresentarmos o desenho de um claustro
do fim do seculo XV, com os seus arcos a compartimentos em labaredas,
ficando como esmagados pelos frontões de ramalhetes, uns a par e esguios
[fig. 245B], os outros separados de varios segmentos, cujas curvaturas
são mui desagradaveis (fig. 245A, estampa da pag. 251).
As folhagens golpeadas com as quaes ornavam as curvaturas dos portaes,
são ás vezes vasadas com exaggeração, mas de aprimorada execução.
As janellas quadradas com pinasios de pedra multiplicam-se nos andares
superiores das construcções civis. Nota-se do mesmo modo tendencia a
pôr-se de parte o arco traçado por tres pontos, adoptando-se as
aberturas rectangulares, que vieram a ser quasi exclusivamente
empregadas um seculo depois.
O portal de entrada das abbadias e priorados ficava sempre collocado em
um pavilhão que tinha superiormente aposentos; emquanto á disposição
geral, era a mesma do seculo anterior.
*Paços de concelho*
Na segunda metade do seculo XV constituiu-se grande numero de novas
municipalidades, afim de enfraquecer cada vez mais o poder feudal e
todas as cidades rivalisaram entre si na edificação dos seus _paços de
concelho_, muito dos quaes subsistem ainda e apresentam uma serie de
edificios extremamente interessantes para se examinarem.
O campanario que lhe pertencia, veio a ser então uma torre elegante e de
extrema delicadeza, ornada de variados contornos, como as que se
executavam nas igrejas. Muitas das cidades applicavam quantias avultadas
para construir e ornar seu campanario, afim de que o vissem a grande
distancia, e tambem para dar maior importancia á sua representação.
A casa da camara de _Douai_, é da segunda metade do seculo XV, sendo
mais notavel pelo seu campanario que pela extensão ou elevação do
edificio municipal. A fachada municipal apresenta no plano terreo tres
portaes ornados de folhagens encrespadas, sendo a do centro maior que as
das duas outras.
[Figura 246: Casa da camara e campanario de Douai]
No segundo andar tem nove janellas em ogiva, ornadas de folhagens eguaes
ás que decoravam os portaes.
A attica, que está por cima do entablamento, é mais moderna, porque
pertence ao seculo XVII.
O campanario parece-se com uma torre de igreja, sendo rematada com uma
agulha elegantissima feita de madeira e coberta de chumbo, apresentando
varias ordens sobrepostas com frontões floreteados, e o maior numero
acabando em grimpas; quatro torrinhas circulares e em sacada occupam os
quatro angulos da torre na base d'essa agulha; e o telhado, de forma
conica, mostra quatro pequenas trapeiras egualmente coroadas por
cataventos.
A parle superior do campanario d'_Evreux_ compõe-se de uma torre com
faces arrendadas e de maior leveza, coroada por uma pyramide de madeira
coberta de chumbo.
[Figura 247: Campanario d'Évreux]
A parte inferior d'este campanario é mais antiga, pois que a elegante
pyramide arrendada que corôa o edificio, não pode ser obra além da
segunda metade do seculo XV; talvez trabalho dos artistas que fizeram a
pyramide central da cathedral, que é egualmente arrendada e de madeira
revestida de chumbo.
É util observar como são os feitios das sinetas que ha nos campanarios,
sendo algumas mui antigas; aquella d'_Arras_, é muito curiosa pela sua
bocca ter grande abertura. Tem a inscripção seguinte, que attesta ter
sido fundida em 1434:
LAN: M: CCCC: E: IIII JE: FULS FAIS.
Em muitos municipios não havia nem casa de camara, nem campanarios:
serviam-se do sino das torres da igreja, e era tambem na parochia que se
reuniam as assembléas municipaes.
*Hospicios*
Nas salas dos hospicios encontram-se no seculo XV e no XVI a disposição
que já indicámos na grande sala do hospicio de _Tonnerre_, e em outros;
esta disposição é tambem a mesma nos hospitaes d'esta epoca, em
Flandres. Porém limitemo-nos a citar um dos mais bellos monumentos
conhecidos d'este genero, o hospicio da cidade de _Beaune_, fundado em
1442.
A aza do meio-dia e a de leste eram divididas até a altura do telhado
por uma galeria com dois andares: o primeiro andar d'esta galeria, que
faz lembrar os claustros das abbadias, corresponde ás aberturas do plano
terreo; o segundo dava serventia aos quartos superiores, formando uma
especie de varanda, como era uso construirem-se em um sem numero de
casas de madeira dos seculos XV e XVI.
O telhado que cobre esta especie de attica, fica interrompido por
grandes trapeiras symetricamente collocadas em duas ordens differentes,
cuja disposição dá a esta parte do edificio a apparencia da decoração
oriental. As empenas formadas de tres resaltos com duas, tres e até
quatro aberturas, são compostas de madeiros reunidos de maneira
engenhosa; d'estas especies de frontões recortados se levantam outros
tantos grimpos formados por hasteas de ferro cobertas dos mais delicados
ornamentos de chumbo. Sobre a fileira veste um delicado arrendado do
mesmo metal.
[Figura 248: Especimen da aza meridional do hospicio de Beaune]
Na aza do norte, que tem frente para a rua, está situado o salão para os
doentes. Imagine-se uma espaçosa e magnifica nave com o seu santuario,
os quadros transparentes das suas vidraças de côres, a abobada
aquilhada, as vigas servindo de linhas do madeiramento e guarnições
pintadas com decoração simples, mas accusadas com franqueza; a grande
ogiva da abside, campas tumulares, tres altares do uso oriental,
tribuna, cadeiras do côro em forma de cubiculos com rendilhados, além de
duas filas de camas com docel: eis o quadro magestoso que offerecia á
vista, na origem, esta soberba sala.
Segundo o plano, que dâmos, comprehender-se-ha a disposição e a reunião
d'estas salas. No pateo havia um poço com armação de ferro, tendo uma
graciosa corôa sustentada por tres hastes de ferro, e rampas com ornatos
arrendilhados, as quaes reunidas ao centro formam um telhado conico.
[Figura 249: Plano do hospicio de Beaune]
O portal do hospicio do lado da rua (P), tinha como remate um lindo
alpendre, especie de baldaquino, em cima do qual, sobre pediculos,
estavam as estatuetas de Nossa Senhora, de S. João Baptista e de Santo
Antonio.
*Armazens–Depositos*
Os armazens e depositos continuam no seculo XV a apresentar construcções
extraordinarias e com grande elevação. Citaremos para exemplo o de
Nuremberg. A porta principal d'este vasto armazem é muito elegante; o
tympano tem um escudo de armas e a data da construcção, 1498. O primeiro
corpo d'este edificio, para o qual o portal dá saida para a rua, é o
mais elevado; sendo dividido até ao telhado, em tres andares, e em
quatro se comprehendermos os famosos subterraneos abobadados; depois
apresenta seis andares ou galerias sobrepostas umas ás outras.
[Figura 250: Vista exterior d'uma parte do armazem de depositos, em
Noremberg]
*Chafarizes*
Os chafarizes com feitio de urna não eram raros no seculo XV. O pedestal
d'onde saia a agua caia em tanques e apresentava fórmas bastante
variadas; construiam-nos algumas vezes em metal.
[Figura 251: Vista do chafariz de Cully (Calvados)]
Entre as fontes sómente com tanque, podemos citar a de _Cully_, cuja
nascente, corre por duas aberturas circulares, nas quaes se vê um
pequeno nicho com arcada de feitio trifolio.
*Palacios, casas e residencias campestres*
Muitos palacios nas cidades, e as grandes residencias campestres, que
encerravam todo o necessario para um estabelecimento agricola,
offereciam uma importancia tamanha como a dos edificios publicos.
O palacio de Jacques-Coeur, em _Bourges_, era um dos monumentos civis
mais sumptuosos da segunda metade do seculo XV. Citaremos ainda como
exemplo aquelle de _Cluny_, e grande numero de grandes palacios dos
seculos XV e XVI. Damos na pagina seguinte a vista geral de uma casa de
campo, onde a habitação senhorial está junta á propriedade rural.
N'estas residencias campestres onde se occupavam de agricultura, as
diversas casas para esse serviço cercavam o pateo, ora quadrado, ora de
forma irregular; e ahi estabeleciam as cocheiras, as cavallariças, os
celleiros e os curraes, além da habitação do proprietario.
Nos palacios e nas residencias do campo construidas de cantaria, a
escada ficava collocada mui frequentemente em uma torrinha saliente
sobre a fachada do edificio, grav. pag. 262 [fig. 253]. Esta torrinha de
arestas chanfradas era coberta com telhado em duas aguas, e para se
construir esse telhado davam á parte superior da torrinha a forma
quadrada, para o que era necessario fazerem-lhe duas abobadas pendentes,
afim de ligar os lados cortados com o quadrado de telhado.
As inclinações d'estes telhados eram guarnecidas de _crochets_ em
relevo.
Não obstante, havia outras torres que conservavam a mesma forma que
tinham na base até ao telhado.
As casas do seculo XV e do principio do XVI, são ainda hoje muito
numerosas nas cidades das provincias, as quaes não soffreram, como na
capital, transformação completa; apresentam inteiramente os mesmos
detalhes na ornamentação, como havia nos outros edificios da mesma
época. As esculpturas dos cardos postos nas linhas inclinadas, as folhas
de repolho encrespadas, e outras molduras similhantes, ornavam os
portaes em ogivas, e algumas vezes tambem as cornijas. As paredes
divididas em almofadas guarneciam parte d'ellas.
[Figura 252: Grande solar com casas de exploração rural em Cully
(Calvados)]
As janellas, quasi todas quadradas e subdivididas por uma cruzeta de
pedra, tinham em roda muitos renques de nervuras prismaticas; um cordão
descançando sobre caryatides lhe servia de remate.
As janellas abertas no madeiramento, ou trapeiras, eram coroadas por
frontões pyramidaes extremamente delicados e por vezes acompanhados de
contrafortes ou arcos butantes com recortes e pinaculos cheios de
_crochets_ e lavores. Este systema de ornamentação existiu durante a
primeira metade do seculo XVI. Encontramos um bello especimen no palacio
de justiça em Ruão.
[Figura 253: Torre e escada sustentada por abobadas pendentes]
Em certos sitios, onde seria facil achar-se boa pedra, as casas de
madeira foram menos numerosas que as casas construidas de cantaria.
[Figura 254: Palacio de Justiça de Ruão]
[Figura 255: Casa de cantaria em Saint-Pierre-sur-Dive]
N'aquellas que ainda existem, os andares são bastante salientes, ficando
em sacada uns sobre os outros, e as partes reentrantes, que apparecem no
comprimento da edificação, são ornadas com molduras. Nas gravuras das
paginas 266 [fig. 256] e 267 [fig. 257] vêem-se essas sacadas
progressivas dos andares uns sobre os outros; nas cidades de grande
população viam-se muitas vezes dois andares superiores ao rez-do-chão, e
um terceiro andar posto ainda sobre o telhado, o qual recebia luz por
grandes trapeiras. O maior numero das casas particulares tinha a empena
voltada para o lado da rua; esta disposição era menos frequente nos
palacios ou nas habitações das pessoas abastadas.
Damos, por exemplo, duas casas do fim do seculo XV, construidas de
cantaria, primeiramente aquella que existe em S. Pedro-sur-Dive, pag.
264 [fig. 255], na margem do rio, e dependentes do mosteiro dos
benedictinos: suppõe-se que serviam de tribunal de justiça d'aquella
ordem. A torrinha octogona que guarnece os angulos encerra um oratorio
muito elegante. As vigas apparentes do tecto das casas, principalmente
as das grandes salas, eram ornadas com obras de talha no gosto da época.
A outra casa é mais consideravel com pateo no interior, o qual mostra
galerias e escadas com corrimões de pedra rendilhados, communicando com
differentes andares, pag. 266 [fig. 256]. A disposição e a parte
saliente d'essas galerias produzem n'essas construcções (como em muitas
outras, em que o risco é quasi egual), o seu melhor e mais pittoresco
efeito. Ás vezes tambem no plano terreo ha arcadas em roda dos palcos.
As duas casas de madeira do _Poids-Royal_, em São Ló, foram construidas
em 1494, e a outra que ainda existe pertence a _Honfleur_.
*Taboletas e esculpturas emblematicas*
Nas casas construidas de madeira, sobre os prumos dos angulos era que
muitas vezes se esculpiam as figuras emblematicas para servirem de
taboleta, como a de _S. Julião do Sault_, em França. Na praça vê-se
outra casa que no seculo XV servia de hospedaria, onde ha esculpluras
symbolisando a applicacão que tem a casa; no cunhal do norte, collocaram
uma figura de rosto jovial e como offerecendo com uma das mãos um
cangirão e com a outra um copo, em que parece convidar a provar do vinho
da adega. Por cima, em duplo nicho, via-se a imagem de S. João com o
cordeiro e a pelle do camello; e tambem a imagem de S. Thiago de
Compostella com o seu bordão e chapêo de peregrino, allusão bem evidenle
ás viagens e aos viajantes.
[Figura 256]
[Figura 257: Casa de madeira do Poids-Royal, em Saint-Lo]
[Figura 258: Casa de madeira, em Honfleur]
[Figura 259: Esculpturas sobre uma casa de madeira, em
Saint-Julien-de-Sault (Yonne)]
No outro cunhal apparece a imagem de Santa Barbara com o livro, a torre
e a palma do martyrio, e na parte inferior a imagem da loucura
representadas em alto-relevo; a presença d'esta ultima figura
equivaleria a ter certamente o seguinte letreiro: _Aqui ha diversões e
abrigo para os viajantes_.
[Figura 260: A cruz de ferro de Saint-Quentin]
Juntemos que as taboletas salientes postas da parte de fora das casas,
estavam seguras a braços de ferro, mais ou menos ornamentados, os quaes
eram bem acceitos no fim do seculo XV. Uma _cruz de ferro_ muito antiga
que servia de taboleta á casa que tinha esse mesmo nome, estava
collocada proximo dos paços da camara de S. Quentin: essa cruz tinha as
extremidades do feitio de ancora, executada no estylo chammejante.
*ARCHITECTURA MILITAR*
Os progressos da civilisação dispuzeram cada vez mais os poderosos e os
nobres para darem ás suas residencias aspecto menos severo, tornando-as
mais commodas, diminuindo-lhes as altas muralhas que as desfeiavam e
pareciam isolal-as das povoações circumvisinhas.
Uma circumstancia bastante poderosa fizera diminuir, além d'isso, a
importancia dos antigos castellos, cuja fortaleza consistia
principalmente na altura das muralhas: queremos fallar do uso da
artilheria e das armas de fogo que veio a ser geral no seculo XV. As
elevadas torres com seteiras, e trincheiras formidaveis, não podiam
resistir ao fogo das peças; conjecturou-se que o systema de defensa
seria transformado em pouco tempo, e que uma revolução ia introduzir-se
na arte de guerra; então devia ligar-se muito menos importancia ao que
dera antes tanta força ás praças fortes e aos castellos feudaes.
Todavia, grande numero de castellos pertencentes á segunda metade do
seculo XV apresentava ainda na parte exterior certa apparencia de força;
a entrada era defendida por torres com portas e pontes levadiças; as
muralhas guarnecidas tambem de torres e besteiras.
*Forma geral*
A forma mais geral no fim do seculo XV, foi a quadrada. Havia fortalezas
cujas casas rodeavam completamente o pateo central; em outras
construcções não occupavam mais do que os tres lados do quadrado,
ficando o quarto fechado por um muro. Outros castellos occupavam sómente
um dos lados do recinto. Os fossos, que cercavam estes castellos, sem
agua, tinham geralmente pequena profundidade;–seria pois um obstaculo
mui facil de transpôr.
Na verdade, no seculo XV, _não procuravam já os logares mais eminentes
para se estabelecerem os castellos_; tinham reconhecido os
inconvenientes, de mais um genero, causados por essas elevadas posições,
sempre com entrada dificil, e por isso haviam _descido para as planicies
e os valles_, onde a agua, tão útil ás necessidades da vida, se
encontrava com abundancia.
[Figura 261: Detalhes do castello de Montsereau]
*Ornamentação*
No interior, os castellos não se differençavam quasi nada dos palacios,
das casas nobres construidas nas cidades.
Eram, além d'isso, as molduras inteiramente similhantes áquellas que
apresentamos na archilectura religiosa e civil da mesma época, taes como
nervuras prismaticas muito multiplicadas, arabescos, folhagens
profundamente indicadas, _crochets_, almofadas, arrendados nas pedras,
grandes folhas reviradas, cujo movimento fazia lembrar a forma de uma
cabeça de elephante, pinaculos apoiados na construcção, nichos,
torresinhas pendentes, etc. etc. etc. Até os telhados não ficavam sem
ornatos, sendo o espigão guarnecido de cristas, de _crochets_, ou
diversas molduras executadas em chumbo; acima dos telhados conicos das
torres apresentavam egualmenle pinaculos as espigas imitadas no chumbo,
no ferro ou em argilla.
As seleiras firmavam-se em construcções salientes e em falso, das quaes
podiamos apresentar muitas variedades, além dos exemplos que damos a
pag. 272 [fig. 261].
Melhoraram as construcções antigas, reconstruiram as portas pondo-lhes
pontes levadiças de balanço, cujo uso veiu a generalisar-se; e
augmentaram, melhoradas, as muralhas que eram rematadas por não
interrompida fileira de seteiras, que ás vezes fechavam o recinto.
Todos os castellos existentes nas margens do _Loire_ pertencem á segunda
metade do seculo XV.
As duas torres, de que damos os desenhos na pag. 274. [fig. 262] são
tiradas do castello de _Langeais_, e a outra do de _Plessis-Bourré_,
quasi similhantes; mostrando o gosto d'aquella época, aliás mui
elegante.
A parte cylindrica da torre eleva-se para formar um andar (B), por cima
da galeria das besteiras (A), de maneira que a torre era dividida em
duas partes em logar de ser coberta pelo mesmo telhado. Este systema,
consistindo em estabelecer assim muitos andares de defeza pelas torres e
tambem pelos muros entre os baluartes, fora adoptado desde o XIV seculo;
porém mais geralmente empregado no XVI; posto que, em algumas partes,
sejam vistos os dois systemas de construcções no mesmo castello.
[Figura 262: Uma das torres do castello de Langeais]
[Figura 263: Uma das torres do castello du _Plessis-Bourré_]
Os castellos, que citamos, cujas datas são verdadeiras, apresentam-nos o
typo de muitos outros edificios em diversas localidades, durante a
segunda metade do seculo XV e nos primeiros annos do XVI seculo.
[Figura 264]
CAPITULO VII
*ESTYLO DO RENASCIMENTO*
Chama-se _Renascimento_, a arte que voltou a tomar as fórmas antigas da
architectura, como se a arte tivesse ficado _paralysada_ durante a era
ogival ou roman.
O estylo ogival, que percorrêra os diversos periodos de aperfeiçoamento
e de generação, chegava então ao seu termo, durante o segundo quartel do
seculo XV. A arcada traçada por tres pontos ficava abandonada no XVI,
para se reproduzir com a volta inteira, que igualmente fôra antes posta
de lado pela introducção da ogiva desde o seculo XII: portanto, uma
extraordinaria revolução ia pois operar-se na architectura.
As guerras dos francezes na Italia em tres successivos reinados, levaram
a flôr da nobreza áquelle paiz, e ahi recebeu ella o gosto de tudo, que
o renascimento italiano produzira nas artes e nas letras; o genio de
innovação e reforma que tanto agitava a republica, não sómente os
artistas, mas tambem os theologos, preparára os espiritos para esta
grande mudança.
Porém, a architectura chamada do _Renascimento_ não foi geralmente
empregada nas construcções religiosas do XVI seculo. A fórma da ogiva
tinha recebido para estes edificios uma especie de consagração, e muito
tempo depois da adopção do estylo classico para as construcções civis,
fôra preferida depois para os monumentos religiosos, e até do seculo
XVII se encontram exemplos do emprego da ogiva. Na verdade, estava então
o estylo ogival privado dos seus ornamentos, mostrando grande pobreza
decorativa; apparecia apenas o esqueleto do antigo estylo; porém a ogiva
era ainda usada sómente para as janellas e arcadas.
Poderiamos citar centenares de igrejas edificadas n'este estylo, quando
o do Renascimento ostentava já todo o seu brilho nos palacios
acastellados e nas construcções civis.
Como quer que fosse, as construcções do Renascimento foram mais civis
que religiosas: isto é, construiram-se n'este estylo menos igrejas que
palacios e casas.
*ARCHITECTURA RELIGIOSA*
*Plano das igrejas*
O plano das igrejas do seculo XVI foi pouco mais ou menos o mesmo que no
seculo antecedente.
*Monumentos*
As almofadas e frizos, as pilastras e os outros membros architectonicos
foram cobertos de grande profusão das imitações do reino animal e
vegetal. Genios representando amor, figuras diversas, muitas de
phantasia, se entrelaçavam em contornos caprichosos; porém sempre em
combinações graciosas que foram chamadas _arabescos_, denominação
extravagante, porque os arabes proscreveram a natureza animada das suas
obras de imitação.
A igreja de Semur offerece-nos magnificos arabescos. Os arabescos, para
nos servir d'este termo improprio, que tem prevalecido, eram imitação
das decorações a fresco que se acharam em muitos monumentos antigos, e
que se vêem ainda hoje nas galerias e abobadas sombrias dos banhos de
Tito, em Roma.
*Janellas*
Muitas vezes as _janellas_ eram de volta perfeita, e sem cruzetas de
pedra; as portas e arcadas igualmente tinham a fórma semicircular.
[Figura 265]
A janella, que representamos, foi tirada da igreja de S. Pedro de Caen,
apresentando o estylo do Renascimento mais bem caracterisado, não
sómente na sua fórma, mas igualmente nos seus accessorios (contrafortes,
pilastras, campanariosinhos, candelabros, etc., etc.), nas figuras, nos
modilhões, os quaes formam o remate; e nos entablamentos com balaustrada
que corôa o edificio. Esta balaustrada com os seus graciosos
entrelaçados e com as figurinhas nuas, reproduzem um dos typos d'este
genero mais elegantes do XVI seculo.
Do mesmo modo que no seculo XII, uma architectura de transição se formou
quando deixaram o arco ogival: apparecia outra que tornava a usar a
volta inleira, resultando d'ahi um estylo mixto pelas combinações das
fórmas classicas com os ornamentos do seculo XV. A volta perfeita da
architectura romana, ostentava-se então coberta de vistosos enfeites do
estylo ogival, e a ogiva ligava-se aos arabescos e frontões antigos.
A janella da igreja _de-la-Ferté-Bernard_ (França) dá-nos um exemplo
d'este mixto architectonico, apresentando-nos divisões no estylo do
Renascimento, no meio de uma grande ogiva lavrada com molduras no estylo
do seculo XV: pag. 280. [fig. 266]
*Abobadas*
[Figura 266: Uma janella da igreja de la Ferté-Bernard]
N'esta época, as _abobadas_ conservam a fórma ogival, porém tendem a
baixar a sua elevação, e por vezes são de volta perfeita; os arcos
ramificam-se, vendo-se cobertos de ornatos as abobadas pendentes, como
se observa nas da igreja de _Saint Étienne-du-Mont_ (França), de que
damos a gravura, e cuja construcção, principiada em 1517, não estava
concluida em 1563.
[Figura 267: Igreja Saint-Étienne-du-Mont]
[Figura 268]
Muitas igrejas ruraes, e até outras de maiores dimensões, tinham no
seculo XVI, unicamente abobadas imitadas com madeira, e como estes
forros cheios de obra de talha são importantes pela sua construcção,
seria conveniente fallarmos d'elles; tinham como nos edificios civis da
mesma época, collocadas as vigotas sobre a grossura das paredes, ao que
chamam _freixaes_, e os pontaes formando a ogiva ou a volta perfeita.
Estes eram firmados sobre vigas transversaes, chamadas _linhas_. O pau
de _fileira_ era sustentado de distancia em distancia por peças de
madeira, _penduraes_, erguendo-se verticalmente das linhas até ao tecto
de forma abobadada.
O forro que occultava os curvos e formava o contorno apparente da
abobada era coberto de pinturas, e as juntas das linhas ficavam
dissimuladas por fasquias ornamentadas.
*Altares*
O estylo do Renascimento mudou tambem, como deve suppôr-se, o systema da
ornamentação dos altares, e as fórmas antigas foram modificadas.
Existem ainda, em algumas igrejas ruraes, retabulos em madeira do seculo
XVI, no genero d'aquelle de que apresentamos a gravura na pag. 284 [fig.
269], encimado com docel horisontal. Não será nunca demasiado,
recommendar-se a conservação dos antigos altares, e se esse livro
chegasse ás mãos dos reverendos parochos, rogar-lhes-hiamos que tivessem
isto em attenção, embora, infelizmente, estejam sempre dispostos a
destruir tudo o que é antigo, como aconteceu ultimamente ao bellissimo
tecto da igreja matriz de Maravilla, em Santarem, para o substituir por
trabalho moderno de mau gosto e sem nenhum estylo!
Alguns retabulos representam a vida de Jesus Christo, ou a do orago da
igreja, figurando em uma serie de composições cujas figurinhas são
modeladas com delicadeza extraordinaria e bom colorido.
Muitos retabulos de madeira com figuras do seculo XVI, ficaram
desprezados e escondidos nos forros das igrejas, depois de terem sido
substituidos por pessimas pinturas, e ahi ficarem até que os
especuladores os descobrissem para separar as peças umas das outras, e
vendel-as por bom preço inculcando-as como objectos raros.
[Figura 269: Altar de madeira do seculo XVI]
*Pias baptismaes*
Appareceram _pias baptismaes_, novamente collocadas, sendo cobertas de
folhagem e cercaduras. Em algumas, a circumferencia é dividida em quatro
almofadas encaixilhando composições religiosas executadas em
baixo-relevo. Outras, como esta de que dâmos exemplo, foi ornada com
medalhões. Porém, as pias baptismaes com fórma de calix hemispherico são
sempre em maior numero.
[Figura 270: Pia baptismal do seculo XVI]
*Tumulos*
Dispondo-se n'essa época de bellos materiaes (marmores, alabastros,
porphyros, etc.), que os artistas no renascimento podiam empregar nas
construcções de limitadas dimensões, facilitando ás esculpturas a maior
delicadeza na sua execução, os haviam preferido para os monumentos
funebres. Os tumulos destinados aos papas, cardeaes, aos reis, principes
e nobres, construidos na Italia, França, e Belgica, são n'este genero o
que ha de mais sumptuoso e primoroso.
As pedras das campas tiveram igualmente mudanças nas fórmas dos desenhos
gravados ao traço, como na architectura. A volta perfeita, durante o
curso do seculo XVI, substitue a ogiva pela arcada que moldura a effigie
do finado; estas molduras eram muito simples, comparadas com as que se
faziam antes; as regras e a ornamentação das duas architecturas eram tão
diversas, que não podiam deixar de produzir de outra maneira essa
influencia.
*ARCHITECTURA CIVIL*
Os primeiros ensaios do estylo do Renascimento, no qual a
_multiplicidade das ordens_ era um dos principaes caracteres,
appareceram em França em 1498, e em Portugal em 1559, sendo o principal
exemplo d'este estylo no reino a capella-mór da igreja dos Jeronymos, em
Belem.
Esta architectura desenvolveu-se muito em França, como se vê no augmento
dos palacios de Blois e de Chambord, chegando á perfeição pelo talento
do archiecto Philibert de Lorme e o esculptor Germain Pilon. Posto que
continuasse a florescer com mais ou menos acceitação, até que Perrault,
no reinado de Luiz XIV, seguiu o exemplo dado por Miguel Angelo,
delineando a fachada do palacio do Louvre, tendo portanto abandonado a
_multiplicidade das ordens_ e as minudencias do periodo antecedente,
empregando n'aquelle edificio uma unica ordem, em maior escala e em
estylo mais ousado.
[Figura 271: Casa no estylo do Renascimento, em Périgueux]
[Figura 272: Escada no estylo do Renascimento, em Périgueux]
[Figura 273: Janella no estylo do Renascimento, no castello de
Puy-Guilhem (Bordogne)]
[Figura 274: Fragmento d'uma casa de madeira, em Lisieux]
Na Inglaterra, o estylo da Renascença obteve voga muito depois que em
França. Durante o longo reinado da rainha Isabel conservaram sempre nos
seus palacios e _villas_, o estylo gothico, na mesma época em que já o
esculptor João Goujon igualava quasi a execução do antigo nos ornamentos
do pateo do palacio do Louvre. Foi sómente em 1608, que appareceram em
Oxford (Inglaterra), os primeiros ensaios do estylo da Renascença no
portal da sua Universidade, tendo as cinco ordens sobrepostas.
[Figura 275: Fragmento d'uma casa de madeira, em Caen]
Uma casa que se conserva em Périgueux (França), d'este estylo [fig.
272], em que se notam as janellas das trapeiras, que se destacam sobre o
telhado, são de uma notável elegância.
[Figura 276: Chaminé do seculo XVI]
Outro exemplo, na mesma localidade, em que se vê o corrimão de cantaria
e as abobadas pendentes, ornadas de figuras em baixo-relevo, patenteiam
a importancia que se dava no seculo XVI a esta parte dos edificios,
grav. da pag. 288 [fig. 272]; assim como o desenho d'uma vistosa janella
do palacio de Puy-Guilhem (França), grav. da pag. 289 [fig. 273].
As casas construidas de madeira são algumas vezes mais cheias de
ornamentações que as outras edificadas de cantaria; e os entalhadores
d'aquella época desenvolveram superior talento na execução de lavores
dos madeiros que molduravam as janellas, as trapeiras e os prumos dos
cunhaes.
Ahi está a fachada de uma casa de Lisieux [fig. 274], cidade que possue
ainda bellos exemplos em architectura do seculo XVI; assim como outro
fragmento, representado pela gravura de pag. 291 [fig. 275], da
decoração de uma casa de Caen. Estes dois exemplos, tomados ao acaso
entre mil, bastarão para demonstrar como o estylo do Renascimento ficou
assignalado sobre a madeira nas construcções civis do seculo XVI.
Muitas vezes os grandes aposentos se distinguem por decorações especiaes
e por magnificas chaminés. Finalmente, as cristas, as espigas
construidas em chumbo ou barro cozido que coroavam os telhados,
apresentam no seculo XVI extraordinaria elegancia e excessiva altura.
[Figura 277: Castello de Chevillon]
*ARCHITECTURA MILITAR*
Os castellos do Renascimento, posto que cercados de fossos cheios d'agua
e muitas vezes guarnecidos de torres, todavia já não são praças fortes
na verdadeira accepção da palavra, mas elegantes habitações, nas quaes
tinham em vista sómente conservar as apparencias feudaes. É o que
facilmente se comprehenderá examinando a perspectiva do castello de
Chevillon (França), pag. 293 [fig. 277], cujas torres, que se reflectem
na agua, não mostram absolutamente nada de fortaleza que podesse
resistir aos ataques da infanteria e muito menos da artilheria.
A architectura dos castellos, além das muralhas que os cingiam e os seus
fossos cheios de agua, confunde-se muito com a architectura civil; as
salas, as escadas, as galerias não são menos ornadas do que os palacios
e as casas das camaras; os arabescos e as molduras são até, ás vezes,
prodigalisadas com excesso, como indica a grav. da pag. 295 [fig. 278].
Grande numero de castellos compõe-se simplesmente de um pateo quadrado,
rodeado de construcções ruraes, no fundo do qual está collocada a
habitação senhorial; as janellas d'estas casas quasi sempre foram depois
mudadas ou alteradas, mas conservando quasi intacta a torre com os
angulos cortados que encerra a escada, e que occupa o meio do edificio:
estas _fidalguias_, como eram designadas ás vezes, são bastante communs
nos campos.
A França possue ainda centenares de notáveis castellos do seculo XVI,
mui conhecidos dos _touristes_. Lembram os typos mais grandiosos e
magestosos das construcções d'esta ordem. Limitar-nos-hemos a apresentar
dois lindos monumentos do Renascimento: taes como, o castello de
_Azay-le-Rideau_, distincto pela sua rica ornamentação, e o de
_Bernesq_, pag. 296 [fig. 279] e 297 [fig. 280].
Em seguida apresentamos um especimen dos modestos solares de que ha
grande numero edificados no paiz.
[Figura 278: Ornamentação do castello do Chantelou (França)]
Os castellos, construidos de madeira, continuaram a ser notaveis no
seculo XVI, nas localidades onde esse material de construcção estava
mais em uso; com torres nos angulos, defendidos por fossos cheios
d'agua, e lendo cantaria só na base. Até o pombal senhorial, que fazia
parte do recinto, era tambem de madeira.
[Figura 279: Vista geral do castello d'Azay-Rideau (Indre-et-Loire)]
[Figura 280]
Para entrar no pateo d'estes solares rodeados de agua, era preciso
geralmente atravessar um torreão desligado das outras habitações, tal
como aquelle que existe ainda em _Beuvillers_, do qual em seguida damos
a gravura.
[Figura 281: Vista geral do castello de Bellou (Calvados)]
Estando os castellos menos expostos que as casas urbanas ás mudanças e
reconstrucções, teem por este motivo conservado melhor os madeiramentos
elevados, e os espigões de chumbo ou de barro cosido.
[Figura 282: Entrada do castello de Beuvillers]
Para vermos qual a importancia d'este ornato, copiamos aqui o especimen
de um espigão do Renascimento da antiga fabrica de _Prédauge_, pag. 300
[fig. 283], proximo de Lisieux: ha ainda muitas outras n'esta
localidade, não obstante o subido preço que os adelos offerecem para os
obter, mas o atilado juizo dos seus possuidores não sacrifica de certo
os objectos d'arte ao vil interesse.
[Figura 283: Fabrica de Prédauge (França)]
CAPITULO VIII
*PERIODO MODERNO*
Diremos apenas algumas palavras ácerca do periodo moderno da
architectura.
No seculo XVII e no XVIII procurou-se imitar uma certa disposição
architectonica, que havia prevalecido na Italia nas fachadas das
igrejas, no ultimo quartel do seculo XVI, consistindo em collocar o
portal no meio de columnas que abrangessem a largura da nave principal e
as duas lateraes; depois em sobrepôr outra Ordem de architectura por
cima da primeira, ainda que não correspondesse ao espaço occupado pela
nave principal, onde as suas abobadas se erguiam acima dos telhados
inferiores pertencentes ás naves lateraes.
Esta diminuição de largura dada á fachada, na parte superior, era
disfarçada por um ornato accessorio do feitio de um _S_ deitado,
_quartellas_, para ligar a elevação da segunda Ordem com a parte
inferior que decorava o portal, e ao mesmo tempo servia-lhe de
_contraforte_.
Os jesuitas, que construiram n'essa epoca as suas igrejas adoptando esta
disposição, foram os promotores principaes de tal incoherencia, sobrepôr
as columnas que não correspondiam ás divisões dos andares. Por este
motivo ficou designada _Estylo dos Jesuítas_, que foi adoptado nas
igrejas do seculo XVII.
*ARCHITECTURA RELIGIOSA*
Para exemplo dâmos a gravura da igreja da Sorbonna (França), construida
por ordem de Richelieu, de 1635 a 1659, a qual se compõe de uma Ordem
corinthia na parte inferior, tendo por cima outra Ordem composita,
limitada por um frontão, e sobre os lados as quartellas servindo de
contrafortes para esconder a falta de ligações das naves lateraes com a
decoração principal da fachada. A torre, com feitio de cupula,
apresentava um tambor cylindrico.
[Figura 284: Igreja da Sorbonna]
Em Portugal, em todas as igrejas d'essa época, imitaram egual
disposição. Os planos foram delineados sob a mesma influencia religiosa,
e assim se construiram as igrejas de Santo Estevão, a do Espirito Santo,
o seminario de Santarem, etc.
*Disposição interna nas igrejas*
[Figura 285: Interior da igreja de S. Sulpicio]
A fórma interna era, em geral, muito simples. Constava de arcadas
macissas separadas por pilares, algumas vezes decoradas de pilastras;
pondo em communicacão essas arcadas da nave principal com as outras
lateraes. Uma unica ordem de janellas se collocavam na parte superior,
por cima d'essas arcadas; e ora de volta inteira, ora de verga
horisontal, davam claridade á nave. As naves lateraes e as capellas
correspondentes ás aberturas das arcadas recebem luz por janellas de
egual feitio.
O interior da igreja de S. Sulpicio (França) mostra esta disposição, que
era a mais seguida; portanto, não mostravam indicio algum do
_triforium_, nem logar para a galeria, como se costumava construir no
seculo XVI.
*Torres*
Edificaram-se torres de differentes fórmas. A cupula da igreja da
Sorbonna mostra-nos as que ficam mais usuaes para os grandes edificios;
para as outras de menor grandeza, adoptavam as torres em abobada
hemispherica e lanternim, como se vê na gravura; as quaes foram muito
communs até o final do seculo XVIII.
[Figura 286]
*Altares*
Os retabulos ornados com columnas e frontões foram empregados em toda a
parte para decorarem os altares-móres, desde o fim do seculo XIII, e
formavam verdadeiros monumentos na architectura moderna, que a _moda_
havia introduzido tambem dentro das igrejas ogivaes. Foi d'elles que
derivaram os elementos para as fachadas das igrejas modernas, as quaes,
ainda que combinadas com arte, produziam todavia effeito um tanto
theatral, pouco proprio da magestade da casa de Deus, não obstante terem
apparencia vistosa, como se poderá julgar pela gravura da pag. 305 [fig.
287].
Apezar de que estes altares são muitas vezes pouco harmoniosos no
estylo, convirá comtudo conserval-os como exemplar da original decoração
da época.
[Figura 287: Grande retabulo do seculo XVII]
*Tumulos*
Durante o periodo, de que tratamos, os tumulos eram notaveis pelo
emprego de marmores de variadissimas côres.
[Figura 288: Tumulo com estatuas deitadas]
Apparecem alguns com a fórma das antigas quilhas de navios, apresentando
o bôjo dos dois lados; porém, as fórmas da época antecedente continuam
ainda a ser seguidas, apparecendo por esta rasão as estatuas dos finados
deitadas sobre as campas; porém o maior numero eram representados de
joelhos como se estivessem em oração, pag. 307 [fig. 289].
Em Portugal são raros os tumulos d'essa época, em que appareçam
representados em vulto os finados que n'elles jazem.
[Figura 289: Estatua do seculo XVII (reinado de Luiz XIII)]
*ARCHITECTURA CIVIL*
Se lançarmos a vista sobre a architectura civil da França, da Allemanha
e da Belgica, no seculo XVII, veremos que se construia grande numero de
casas com elevadissimas empenas com os lados em fórma de degraus e
rematadas por grandissimas quartellas, que datam do seculo XVI, pag. 308
[fig. 390].
[Figura 290: Casa allemã da primeira metade do seculo XVII]
[Figura 291: Edificação do começo do seculo XVII]
A empena da gravura que damos para exemplo d'esta especie de
construcções é de 1620.
No seculo XVII, as casas mais importantes tinham as escadas com
patamares mui espaçosos; e os pontos de apoio eram executados com
demasiada grossura. Os balaustres da grade da escada tinham a fórma
quadrangular e o seu corrimão era tambem de grande grossura.
[Figura 292: Palacio de Caillerie (Bayeux)]
As duas gravuras das pag. 309 [fig. 291] e 310 [fig. 292], mostram o
estylo das casas do seculo XVII. Na primeira gravura, já as janellas não
têem pinazios de cantaria, assim como as vidraças não têem os caixilhos
guarnecidos de chumbo para segurar os vidros, sendo substituidos por
pinazios de madeira. As trapeiras conservam as primitivas fórmas,
mostrando os prumos recortados em fórma de quartellas, e os seus
frontões de feitio circular ou triangular, conforme eram empregados no
seculo XVI. Os pannos das chaminés tinham a fórma quadrangular, e
terminavam em frontões.
[Figura 293: Fachada com portal em Trévières, de 1647]
A outra casa, que é de estylo mais adiantado, pois data de 1664,
apresenta um bello portal terminado por frontão, os telhados com
bastante elevação, e as chaminés extremamente altas.
Estas combinações são caracteristicas do seculo XVII.
Ha nos suburbios de Lisboa, no palacio de Palhavã (que foi por nós
restaurado e ampliado no anno de 1862), um bellissimo portal, no estylo
Toscano, de perfeita composição e obra de acabamento apurado, e haverá
poucos nos outros paizes que lhe possam ser comparados, e sem duvida o
celebre architecto Vignola não se negaria a firmar com a sua assignatura
o desenho para esta construcção, tanto mais por ser delineado segundo a
escola d'este artista.
[Figura 294: Uma parte do castello de Harcourt]
O estylo da primeira metade do seculo XVII, o qual predominou durante o
principio do seculo seguinte, apresenta um caracter grandioso, e os
monumentos d'essa época distinguem-se, pelo seu nobre aspecto, das
outras edificações mais importantes do tempo presente.
As outras gravuras apresentam construcções pertencentes ao ultimo
quartel do seculo XVII, e seguem a ordem da antiguidade de suas
edificações. A primeira gravura pertence a uma azenha, posto que na sua
fachada parecerá um palacete. É do anno de 1664, pag. 311 [fig. 293].
As duas partes symetricas flanqueadas por pilastras e o frontão separado
por muitas ordens de frizos sobrepostos, (de pessimo effeito) que occupa
a parte central, parecem caracterisar uma data um pouco mais antiga,
posto que este estylo se perpetuou, em alguns monumentos, até ao
principio do seculo XVIII.
A parte da casa de Harcourt, que representa a outra gravura, pag. 312
[fig. 294], pertence ao principio do seculo XVIII, mas foi edificio
delineado com mais talento e apresenta um aspecto mais regular e nobre.
No seculo XVIII a architectura modificou-se sensivelmente, e o grande
numero dos edificios d'esta época está bem patente, e será escusado
descrever o seu caracter architectonico.
No actual seculo XIX, tem-se feito bastantes alterações na architectura,
e por isso não apresenta um caracter bem distincto, o que se deverá
attribuir ao estado presente social; portanto, não se póde definir a
fórma do estylo que deverá representar a sua architectura.
Finalmente para que qualquer estudo offereça sempre interesse para ser
cultivado pelos estudantes, é preciso não se explicar tudo aos
principiantes, sobre a materia de que se occupam, mui principalmente
n'esta moderna sciencia; para que a curiosidade de a profundar lhes
desperte o desejo de se instruirem cada vez mais, o que lhes facilitará
gradualmente o seu desenvolvimento; afim de evitar que uma demasiada
applicação venha a produzir-lhes o cansaço em conhecer todos os segredos
da archeologia, porque o estudo se não é facil, é sobejamente agradavel
e util. Por minha parte, julgar-me-hei feliz se as noções que deixo
n'estas paginas, poderem suscitar o amor a tão profícuos estudos, porque
d'ahi, no meu entender, virá engrandecimento para o nosso fim.
[Figura 295]
Notas:
[1] Dolmen é composto de duas palavras celticas, _dol_ mesa, e _men_
pedra.
[2] _Menhir_ e _peulvan_ derivam da língua celtica, e têem quasi a mesma
significação; compõem-se de duas palavras _men_ pedra, e _hir_ longo;
_peul_, pilar, _vain_ ou _maen_, pedra: isto é, pedra alongada.
[3] Nome composto de duas palavras dos bretões: _crom_, curva; _leck_,
pedra.
[4] Esta palavra é saxonia e significa «pedras enfileiradas.»
[5] Os antiquarios inglezes designam pelo nome de _trilithos_ a mesma
combinação de pedras, indicando um monumento composto de tres grandes
pedras.
[6] King era da opinião de que havendo pedras erguidas no centro dos
circulos, eram estes destinados para as assembléas civis; em quanto
aquelles em que havia dolmen serviam para as ceremonias religiosas.
[7] Antigamente os orientaes tinham, como os celtas, veneração religiosa
pelas _grandes pedras toscas_; assim como os hebreus, a ponto de Moysés
lhes prohibir que as adorassem.
[8] É notavel que a relação da liga d'este metal, seja egual á dos
bronzes descobertos em regiões tão distantes.
[9] Os machados e frechas achados na Europa comparados com os que usavam
os selvagens da America e os da Nova Hollanda e da Nova Zelandia, causam
admiração por terem as mesmas formas, e muitas vezes, egual materia.
[10] Collocavam tambem nas estradas pedras que serviam para descançar os
viajantes, e para os cavalheiros montarem a cavallo.
[11] Talvez seja derivado da palavra _musæ_, as musas, porque era
principalmente nos templos d'estas deusas que o pavimento de musaico
fôra empregado.
[12] Como foi descoberto, n'este anno, no Outeiro de Ferreira de Zezere
um forno romano, tendo dentro telhas curvas com lavôres.
[13] Actualmente está entulhada até a nascença do arco da abobada.
[14] As de oliveira para Minerva; as de murta para Venus; as do pinheiro
para Pan, etc.
[15] No tempo do imperador Justiniano houve uma luta entre a facção
verde e azul, em que pereceram 40:000 homens. Depois d'este horrivel
acontecimento ficaram abolidas as côres.
[16] Caligula consentiu em que pozessem almofadas ou tapetes nos
assentos de pedra.
[17] Os logares estavam numerados e gravados na pedra, e cada espectador
entrava com um bilhete de forma circular _tossera theatralis_, que
designava o logar que devia occupar.
[18] Foi Quinto Catulos o primeiro que mandou estender um toldo de
purpura.
[19] Suppõe-se que o uso de immolar os primeiros sobre o tumulo dos
guerreiros, e os escravos sobre a sepultura de seus donos, deram origem
a estes combates.
[20] Pompeu foi quem introduziu este uso em Roma; e Mecenas quem
construiu primeiro estes monumentos publicos.
[21] Nas thermas d'este imperador havia 1:600 banheiras de porphyro e
marmore; e n'este edificio podiam 3:000 pessoas tomar banho.
[22] Havia em Roma 856 thermas.
[23] Veja-se na gravura da pag. 82 [fig. 69], os algarismos da planta
que designam os diversos aposentos.
[24] Depois do incendio de Roma, no tempo de Nero, contavam-se ainda
48:000 casas, separadas umas das outras.
[25] O maior sabio agronomo da antiguidade, nascido no seculo I da era
christã.
[26] A mais importante foi a do imperador Adriano, pois comprehendia uma
superficie de dez milhas.
[27] O uso de se queimarem os corpos procedia de um mytho religioso que
se conservou na Grecia e na Italia até o estabelecimento do
christianismo.
[28] O maior cippo descoberto em Portugal foi achado em _Citania_
(Guimarães). É de granito e de extraordinarias dimensões.
[29] Esta palavra de origem grega tem a mesma significação que os
romanos davam ao _cippo_.
[30] Espécie de enxadão, de que os coveiros se serviam.
[31] Em Cetobriga (Setubal) existem cemiterios com os dois modos de
enterramentos; o de incineração, estava collocado no centro de Troia, e
o outro para os corpos sem serem queimados, existia na margem do Sado.
[32] Que é como a espuma: Venus saindo do mar.
[33] Latona, da qual nasceram, na ilha de Dellos, Apollo e Diana.
[34] Lucina, divindade romana que presidia aos partos.
[35] Como havia na Sé de Lisboa, e na igreja de S. Christovam de
Coimbra.
[36] Veja-se a nossa obra, escripta em francez no anno 1868, com o
titulo–_Mémoire d'Archéologie sur la véritable signification des signes
qu'on voit gravés sur les anciens monuments du Portugal_, in-4.^o e avec
344 fac-similes.
[37] Mais proprio seria representar o vitello.
[38] Veja-se a nossa obra já citada na nota da pag. 126 e 127 [Nota 36].
[39] Nota-se um dos mais singulares exemplos que se possa imaginar, em
um capitel das columnas que sustentam a abobada da sala antiga dos
cavalleiros de Luiz XI, na antiga prisão da Conciergerie em Paris; é
composto de duas figuras, uma de Heloiza e outra do Abeillard, o qual
lhe mostra a mutilação que se lhe praticára!!
[40] Descripção das imagens e paineis antigos.
[41] O mais antigo exemplo em Portugal d'este uso apparece na igreja do
famoso mosteiro de Alcobaça; todo o pavimento da igreja era formado de
tijolos quadrados de pequenissima dimensão, e só vidrados na face
superior, de côr esverdeada; estão presentemente soterrados a 0^m,30 por
baixo das lageas que cobrem o piso das naves.
[42] Os mais notaveis que possue Portugal são os sarcophagos d'El-Rei D.
Affonso Henriques, e D. Sancho I, em Santa Cruz de Coimbra; o d'El-Rei
D. Pedro e de D. Ignez de Castro, em Alcobaça; o do Marquez de Vianna em
S. Francisco, em Santarem; o d'El-Rei D. Fernando I, no Museu do Carmo.
[43] Como está representado no sarcophago d'El-Rei D. João I, e de sua
mulher D. Filippa, no jazigo do convento da Batalha.
[44] Encontra-se no livro da Chronica do Mosteiro a explicação d'esta
singularidade, declarando-se ahi que os frades a tinham mandado pôr com
o intuito de passarem por cima da figura representada de um abbade,
visto que elle fôra em demasia severo para com elles! É textual esta
referencia.
[45] Pudemos descobrir ter pertencido ao tumulo de um neto d'El-Rei de
França, que fôra casado com uma filha d'El-Rei D. Diniz.
[46] Além de suas grandes dimensões e apropriada disposição, tinha a
vantagem de atravessal-a um rio, o que facilitava conservar sempre o
peixe vivo dentro da cosinha.
[47] Curvas descriptas com raio maior do que tem a largura da janella.
[48] Como se nota na primeira capella da igreja do Carmo de Lisboa.
[49] Temos exemplos na Sé Velha de Coimbra e na igreja da Batalha.
[50] N'este descobrimos nós o nome do canteiro na base das columnas do
angulo sul, o qual estava encoberto debaixo da cal!
[51] Na antiquissima igreja de S. Miguel, em Guimarães, na nave unica
que tem, está coberta de _campas de granito_, mostrando em relevo
emblemas guerreiros com o escudo e a lança.
[52] Em Cintra, proximo do Ramalhão, ainda em 1872 existiam os vestigios
de uma casa de leprosos, com a sua capellinha; quasi ao meio da estrada
ha um tumulo de um bispo, que falleceu ali d'essa enfermidade. Saindo da
estação principal dos caminhos de ferro em Setubal, encontra-se á
direita, indo para aquella cidade, um bello portal, unico vestigio de
uma outra gafaria, que houve n'aquelle sitio.
[53] Como ainda ha na praça de guerra de Elvas.
[54] Como foi construida a praça forte de Villa Viçosa: actualmente em
completa ruina.
INDICE
INTRODUCÇÃO.
PROLOGO
CAPITULO I
*Tempos prehistoricos*
Tempos prehistoricos
Architectura dos tempos prehistoricos
Utensilios e instrumentos diversos
Objectos de barro
Mappa synoptico das antiguidades prehistoricas
CAPITULO II
*Era gallo-romana*
Era gallo-romana
Architectura
Muralhas de defeza
Inscripções latinas
CAPITULO III
*Idade media*
Idade media
Periodo romano primitivo
Architectura religiosa
Idem civil
Idem militar
CAPITULO IV
*Era ogival*
Era ogival
Architectura religiosa
Idem civil
Idem militar
CAPITULO V
*Era ogival secundaria*
Architectura religiosa
Idem civil
Idem militar
CAPITULO VI
*Seculos XV e XVI*
Architectura religiosa
Idem civil
Idem militar
CAPITULO VII
*Estylo do renascimento*
Estylo do renascimento
Architectura religiosa
Idem civil
Idem militar
CAPITULO VIII
*Periodo moderno*
Periodo moderno
Architectura religiosa
Idem civil
ERRATAS
_N.B._ As variantes de orthographia e as erratas de pouca monta
abstivemo-nos de as indicar, porque facil será ao leitor emendal-as.
OUTRAS PUBLICAÇÕES DO AUCTOR
*O QUE FOI E É A ARCHITECTURA*, e o que aprendem os architectos fóra
de Portugal, in-8.^, Lisboa, 1833.
*NOVA MISCELLANEA RECREATIVA,* obra dedicada às senhoras, in-18.^,
Lisboa, 1844–_Primeira publicação feita em Portugal com letras
floreteadas_.
*REVISTA PITTORESCA DESCRIPTIVA DE PORTUGAL,* com vistas
photographicas, in-folio-grande, Lisboa, 1862.
*DESCRIPÇÃO ARTISTICA* das novas salas do real palacio da Ajuda,
in-8.^, Lisboa, 1865.
*MÉMOIRE DESCRIPTIF* du projet d'une restauration pour l'église
monumentale de Belem, et modèle fait pour l'Exposition Universelle
de Paris, in-8.^o, Lisbonne, 1867.
*MÉMOIRE DE L'ARCHÉOLOGIE* sur la véritable signification des signes
qu'on voit gravés sur les anciens monuments du Portugal, in-4.^o,
avec 156 figures, Lisbonne, 1867.
*DISSERTATION ARTISTIQUE* sur l'architecture en Portugal depuis le
XII au XVIII siècle, in-8.^o, Lisbonne, 1869.
*L'ASSAINISSEMENT DE LA VILLE DE LISBONNE,* mémoire lû dans le
congrès pour l'avancement des sciences, à Bordeaux, in-8.^o, 1872.
*SOUVENIRS DU CONGRÈS INTERNATIONAL* d'Anthropologie et
d'Archèologie pré-historique en Bologne, en grand 8.^o, avec quatre
planches, Lisbonne, 1873.
*ELOGIO HISTORICO* do architecto civil José da Costa Sequeira,
recitado na sessão solemne da Real Associação dos Architectos e
Archeologos Portuguezes, in-8.^o, Lisboa, 1873.
JIM – Assistente
Jim IA: pode errar. Não digite dados pessoais. Suas mensagens são processadas por um serviço externo.