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  • O cancioneiro portuguez da Vaticana

    O cancioneiro portuguez da Vaticana

    Aproximadamente 12.370 palavras.

    THEOPHILO BRAGA.

    O Cancioneiro portuguez da Vaticana
    e suas relações com outros Cancioneiros dos seculos XIII e XIV.

    (Zeitschrift für Romanische Philologie, 1877)

    O apparecimento do Cancioneiro portuguez da Bibliotheca do Vaticano,
    que encerra quasi toda a poesia lyrica do fim da edade media em
    Portugal, veiu mais uma vez provar a superioridade da iniciativa
    individual sobre a estabilidade inerte das instituições collectivas
    que apenas apresentam o vigor do prestigio official; desde 1847 que a
    Academia real das Sciencias de Lisboa deixava jazer no pó do archivo
    de Roma este importante documento nacional, e foram sempre ficticios
    os esforços para obter uma copia d'elle, que de ha muito devera ter
    sido reproduzida no corpo dos _Scriptores_, que forma uma das partes
    dos _Portugaliae Monumenta historica_. No emtanto, no estrangeiro o
    interesse scientifico muitas vezes se havia occupado do passado
    historico de Portugal, e foi a esta corrente que obedeceu o illustre
    philologo romanista Ernesto Monaci coadjuvado pelo activo e
    intelligente editor Max Niemeyer, restituindo a este paiz o texto
    diplomatico do mais precioso dos seus documentos litterarios. Ao
    terminar do modo mais consciensioso a sua empreza, escreve Monaci:
    "voglia il cielo che tornato il libro in Portogallo, diventi presto
    oggetto di studj novelli. È solo nella fonte delle tradizioni patrie
    che lo spirito di una nazione si ringagliardisce." (Canz. port., p.
    XVIII.) Infelizmente na litteratura portugueza ainda se não
    comprehendeu esta verdade salutar, e por isso o talento desbarata-se
    em architectar phantasmagorias de cerebros doentes ou em fazer
    traducções de romances dissolutos. Acceitando a responsabilidade das
    palavras do editor do Cancioneiro da Vaticana dirigidas a esta nação,
    cabia primeiro do que a todos á Academia real das Sciencias de Lisboa
    responder pela seguinte forma:

    1°. Publicar o texto critico e litterario restituido sobre a lição
    diplomatica em grande parte illegivel fóra de Portugal.

    2°. Acompanhar esse texto com todos os dados bibliographicos de que se
    possa alcançar noticia, para sobre elles basear a historia externa da
    formação do Cancioneiro.

    3°. Acompanhal-o de um bom glossario das palavras empregadas na dicção
    provençalesca da poesia palaciana.

    4°. Por ultimo organisar um vasto quadro da historia litteraria de
    Portugal no periodo dos nossos trovadores, deduzido dos abundantes
    factos historicos que fornece o Cancioneiro da Vaticana.

    É para isto que existem as Academias nos paizes civilisados, que os
    governos as subsidiam, e que os seus membros têm o fôro de sabios. Em
    quanto a Academia real das Sciencias de Lisboa não cumpre este seu
    dever, cumpre-nos dar uma noticia d'este Cancioneiro, longos seculos
    perdido pelas bibliothecas estrangeiras.

    N'este codice se encontram as nossas origens litterarias, e as
    relações intimas que filiam a litteratura portugueza no grupo das
    litteraturas romanicas da edade media da Europa; aqui se acham
    representadas as duas correntes da inspiração popular e palaciana ou
    erudita, bem como os costumes intimos de uma sociedade que nos é
    desconhecida, mas d'onde proviemos; os successos historicos aí têm a
    sua nota accentuada; os nomes que figuram nas lendas genealogicas e
    nos feitos de armas no periodo da constituição da nossa nacionalidade
    aí se encontram assignando os mais saborosos cantares consagrados ás
    damas da côrte, que serviam. Finalmente, ali está o documento mais
    vasto em que a lingua portugueza se manifesta no seu esforço para de
    inconsistente dialecto romanico se tornar uma lingua escripta com uma
    grammatica fixa. Um livro assim, onde se acha representado o melhor da
    nossa antiga poesia durante os seculos XIII e XIV, é a joia de uma
    bibliotheca. Como nos mostraremos gratos ao estrangeiro que assim vem
    augmentar os nossos thezouros historicos e restituir-nos o fio perdido
    da nossa tradição nacional? Estudando-o.

    A primeira questão que o Cancioneiro portuguez do Vaticano sugere é
    determinar as suas relações com os antigos cancioneiros provençaes
    portuguezes em grande parte perdidos; esta circumstancia complica o
    problema critico, e por isso importa bem determinar aproximadamente o
    numero d'essos cancioneiros para se fazer o processo de filiação. Tal
    é o intuito d'este nosso primeiro estudo, bastante restricto, por que
    determinar o valor historico do Cancioneiro pelas correntes
    litterarias n'elle representadas, pela allusão aos grandes successos,
    pelo uso de dadas formas poeticas, pelas personalidades dos principaes
    trovadores e pelo estado da lingua portugueza, é uma exploração de tal
    forma vasta, que qualquer d'estas questões excede as proporções de uma
    noticia. Começamos pela critica externa do Cancioneiro, enumerando
    todos os cancioneiros portuguezes dos seculos XIII e XIV que
    contribuiram para a sua formação, procurando ao mesmo tempo o nexo que
    existiria entre elles, e pelas divergencias de texto quaes as
    collecções que se perderam sem chegarem a ser conhecidas.

    1. O Livro das Cantigas do Conde de Barcellos.

    No testamento do Conde D. Pedro, feito em Lalim em 30 de Março de
    1350, se lê esta clausula: "Item, mando o meu _Livro das Cantigas_ a
    el rei de Castella". Interpretando esta clausula, Varnhagem quiz por
    ella attribuir o Cancioneiro da Ajuda ao Conde de Barcellos,
    imprimindo-o em 1849 n'esse presupposto, com o titulo de _Trovas e
    Cantares… ou antes mui provavelmente o Livro das Cantigas do Conde
    de Barcellos_. Esta hypothese cedo caiu diante da evidencia dos
    factos; mas além d'este primeiro erro, existe n'esta affirmacão um
    outro, que é o julgar o _Livro das Cantigas_ formado de canções
    unicamente compostas pelo Conde de Barcellos. Era antigamente vulgar
    terem os principes cancioneiro seu, como objecto sumptuario, isto é,
    uma collecção contendo as melhores poesias de seu tempo; sabendo-se a
    tendencia compiladora e erudita do Conde Dom Pedro, e a sua amisade
    com a aristocracia portugueza e gallega por causa do seu _Nobiliario_,
    é mais no espirito da historia litteraria a hypothese, que o _Livro
    das Cantigas_ era seu pelo facto material da propriedade ou da
    colleccionação, e que este titulo designa um cancioneiro contendo
    composições de diversos trovadores. Vamos fundamentar esta hypothese:
    Primeiramente, o Conde D. Pedro, pelas canções que d'elle restam na
    collecção do Vaticano, era um mediocre trovador, e d'elle diz Affonso
    XI, a quem elle deixara em testamento _o seu Livro das Cantigas:_

    Pois se de quant'el tem errado
    _serve Dom Pedro_, nem lhi dá em grado.

    Alludia á inferioridade das canções de Bernal de Bonaval, que serviam
    ao gosto do Conde Dom Pedro. Em segundo logar, pelo Nobiliario se vê
    quanto o Conde era versado nas tradições bretans que adoptava como
    factos historicos; e no indice do Cancioneiro de Angelo Colocci se
    acham enumeradas como começo d'esse codice: "1. Elis o baço, duque de
    Sansonha, quando passou na Gram Bretanha, qual ora chamam Ingraterra,
    al tempo del Rey Arthur ad combater com Tristano por que lhi avia
    occiso o padre em uma batalha. E andando um dia em sa busca foi por
    Giososa Guarda ú era a reyna Isouda de Corualha, e enamorou-se ali
    elle, e fez por ella aquesta lais, o qual lais poemos aqui, porque era
    o melhor que fora feito.–2. Quatro donzellas, a Morouet de Irlanda,
    al tempo del rei Arthur.–3. Dom Tristan enamorado.–4. Dom
    Tristan.–5. D. Tristam para Genebra".

    Por este conteúdo do começo do Cancioneiro que pertenceu a Colocci, e
    por que no codice da Vaticana mais de uma vez se citam as formas
    poeticas bretãs dos _lais_, podemos concluir que esses cinco Lais
    pertenceriam ao _Livro das Cantigas_, o qual foi encorporado em uma
    grande collecção formando talvez a parte que vae até as canções de
    el-rei D. Diniz que eram tambem um cancioneiro avulso. Por este mesmo
    codice de Angelo Colocci, de que resta o indice, achamos que antes da
    parte que constitue a colecção de el-rei D. Diniz, estavam colligidas
    varias canções de Dom Affonso Sanches, bastardo do rei, as canções de
    Dom Affonso rei de Leão, as de D. Affonso XI de Castella, e depois
    d'estar as do proprio Conde de Barcellos, que são ao todo nove, e
    tambem as de seu irmão el rei D. Affonso IV. Não era qualquer
    compilador ocioso que poderia satisfazer a sua curiosidade obtendo
    d'estes principes e monarchas as canções mais ou menos pessoaes; o
    Conde de Barcellos estava em uma posição especial, sabia metrificar,
    era estimado na côrte de D. Diniz e na de Affonso XI, e tendo passado
    algum tempo em Hesphanha de lá podia trazer canções de varios
    trovadores que nunca estiveram em Portugal. Por tanto o seu _Livro das
    Cantigas_ fôra formado n'estas condições particulares, e o apreço que
    se lhe ligava é que o fez com que o deixasse em testamento ao elegante
    trovador Affonso XI de Castella. A posse de um livro de cantigas era
    quasi um titulo nobiliarchico; na canção 76 da Vaticana, feita á
    maneira de sirvente por Affonso XI contra o Dayão de Calez, diz que
    elle tinha um _Livro de Sons_, por meio do qual seduzia todas as
    mulheres. Foi tambem pelo seu gosto pela poesia provençalesca que o
    Conde de Barcellos manteve a sympathia de D. Affonso IV, filho
    legitimo de D. Diniz, e por isso em uma canção de louvor é chamado o
    _rimante d'el-Rei_. Por tudo isto é mais crível que o _Livro das
    Cantigas_ do Conde fosse o primeiro nucleo com que se formou por
    juxta-posição o grande cancioneiro portuguez, do qual um dos
    apographos é o codice da Vaticana; dizemos por juxta-posição, por que
    se lhe segue o de el-rei Dom Diniz, e porque muitas canções de codice
    de Roma se acham aí mesmo repetidas, indicação inevitavel de terem
    sido colligidas de fontes diversas. Quando o Conde Dom Pedro falleceu
    já era morto Affonso XI, e isto explica como poderia extraviar-se em
    Castella esse _Livro das Cantigas_, e como Pero Gonçalves de Mendoza
    viria a obter a copia que se guardava em um grande volume em casa de
    D. Mecia de Cisneros, e pela primeira vez citada por seu neto, o
    Marquez de Santillana.

    2. Livro das Trovas de El-rei Dom Diniz

    O corpo das canções de el-rei Dom Diniz occupava uma grande parte do
    codice de Dona Mecia de Cisneros; occupava tambem uma parte importante
    no apographo de Colocci, bem como no codice da Vaticana. O modo como
    esta grande quantidade de canções de el-rei Dom Diniz entrou em uma
    vasta compilação explica-se naturalmente, por isso que pelo catalogo
    dos livros de uso de el rei Dom Duarte acha-se citado o _Livro das
    Trovas de el-rei Dom Diniz_, do qual se pode inferir terem existido
    varias copias, por que o numero das canções varia entre as enumeradas
    no indice de Colocci e as contidas no codice da Vaticana, contando
    este ultimo cincoenta e uma canções a mais. Alem d'isso, na parte do
    codice que encerra as canções de D. Diniz, a canção 116 acha-se
    repetida outra vez sob o numero 174 com variantes e differente
    disposição de estrophes, o que denota que essa parte foi compilada de
    copias secundarias, mas classificadas, como vemos pelo titulo das
    _Cantigas de Amigo_ dado a um certo genero de canções, especialmente
    de imitação popular. É provavel que os autographos que serviam para os
    traslados nitidos dos amanuenses fossem por vezes aproveitados por
    outros compiladores; de el-rei Dom Diniz andava tambem um codice
    poetico em poder dos Freires de Christo de Christo de Thomar. Os
    muitos jograes da Galiza, de Castella e de Leão, que frequentavam a
    côrte de Dom Diniz, tambem colligiriam esses corpos de canções de
    _Serranilha_ e de _Mal-dizer_ que os privados dos monarchas trovaram,
    e que elles decoravam para cantarem de officio. Os jograes formaram
    collecções dos melhores cantares para recitarem ou acompanharem á
    citola, pelo que recebiam dinheiro; o costume de ter jograes de
    _Segrel_ ao serviço da casa real levava tambem a formar estes pequenos
    cancioneiros escolhidos.

    3. O Cancioneiro da Ajuda (ou do Collegio dos Nobres).

    O facto de se encontrarem _cincoenta e seis_ canções communs ao Codice
    da Ajuda e ao da Vaticana, torna indispensavel o resumir aqui o que se
    sabe da historia externa do Cancioneiro da Ajuda. As suas folhas são
    de pergaminho, a duas columnas, com pauta para a musica das canções
    que se deveria escrever em seguida, e com varias vinhetas separando os
    diversos grupos de canções de cada trovador e com letras historiadas.
    O cancioneiro está truncado, pois que começa na folha 41, e não existe
    o final, não só por incuria dos possuidores, que o baralharam
    encadernando-o tumultuariamente com o Nobiliario, grudando algumas
    folhas ás capas, mas tambem por que o estado da copia, sem assignatura
    ou designação dos trovadores, letras historiadas incompletas, e falta
    de notação musical, nos revelam que o codice não foi dado por acabado.
    Esta collecção começou-se ainda no reinado de D. Diniz, por que
    juntando-se as folhas lê-se escripto no córte d'ellas: _Rei Dom
    Diniz_, e d'isto tambem se pode deduzir, que se não perderam muitas
    folhas do principio e do fim. D'este codice foram encontradas mais 24
    folhas avulsas na Bibliotheca de Evora, e é tradição corrente que na
    de Coimbra existiam algumas outras tambem.

    A inspecção do Codice da Ajuda, confrontado com outros Codices
    europeus, mostra-nos que elle pertencia indubitavelmente a diversos
    trovadores; Varnhagem notou que existiam dezaseis vinhetas
    imperfeitamente coloridas, que estão desenhadas junto ás canções 2,
    36, 37, 149, 157, 170, 173, 184, 190, 231, 233, 249, 253, 255, 259 e
    fragmento _h_. (Notas ás _Trovas e Cantares_, p. 348.)

    Alem d'este vestigio paleographico, o confronto com o Codice da
    Vaticana levou a achar os seguintes trovadores, communs aos dois
    Cancioneiros: Pero Barroso, Affonso Lopes Baião, Mem Rodrigues
    Tenoyro, João de Guilhade Estevam Froyam, João Vasques, Fernão Velho,
    Ayres Vaz, D. João de Aboim, Pero Gomes Charrinho, Ruy Fernandes,
    Fernam Padrom, Pero da Ponte, Vasco Rodrigo de Calvelo, Pero Solaz,
    Pero d'Armêa, e João de Gaia. Todos estes nomes são de fidalgos
    grandes privados de el-rei D. Diniz, e alguns já figuram em doações de
    D. Affonso III, como D. João de Aboim e Affonso Lopes Baião; Mem
    Rodrigues Tenoyro vivia na côrte de D. Affonso IV, e foi entregue a
    Pedro cruel em troca dos assassinos de Inez de Castro.[1] A parte não
    assignada e que não se encontra no Cancioneiro da Vaticana será por
    ventura o corpo das canções escriptas durante o tempo em que a côrte
    de D. Affonso III esteve fixa em Santarem. Alem d'isso a parte commum
    tem a particularidade de conservar a mesma ordem nas canções, e ao
    mesmo tempo as variantes mais fundamentaes n'essas lições. D'aqui se
    conclue, que já existia um Cancioneiro formado, d'onde este da Ajuda
    estava sendo trasladado, mas que d'esse cancioneiro existiam
    differentes copias formadas, não directamente sobre elle, mas por meio
    dos cancioneiros particulares que o constituiram. A parte não commum
    ao codice de Roma, prova nos tambem que alguns d'esses cancioneiros
    parciaes se perderam, ou eram já tão raros que não chegaram a ser
    encorporados na collecção. Admittida a hypothese de que o Cancioneiro
    da Ajuda, pelo facto de ter pertencido a el-rei D. Diniz e de andar
    encadernado junto do Nobiliario do Conde D. Pedro, fosse o proprio
    _Livro das Cantigas_, como primeiro quiz Varnhagem, o facto de
    apparecerem aí outros trovadores prova-nos a nossa hypothese, que o
    Conde D. Pedro compilara sob esse titulo as canções dos trovadores
    seus contemporaneos. O numero de vinhetas imperfeitamente coloridas do
    cancioneiro da Ajuda são dezaseis; isto leva a inferir que esse codice
    era formado de dezeseis corpos de canções que pertenciam a dezassete
    trovadores. De facto a coincidencia aqui é pasmosa: o numero dos
    trovadores communs ao Cancioneiro da Ajuda e da Vaticana é de
    dezesete! Note-se que este numero é o que se perfaz com os nomes de
    _Fernam Padrom, João de Gaya, e Pero d'Armêa_, que achámos alem
    d'aquelles que primeiro descobriu Varnhagem. D'este numero se tira a
    conclusão que o Cancioneiro da Ajuda pertence exclusivamente a esses
    dezessete trovadores, e que as cincoenta e seis canções communs ao
    Codice da Ajuda eram as que andavam por cancioneiros parciaes, como as
    mais conhecidas, e pelas variantes que appresentam, as mais repetidas.
    Alem d'isso, pode suppor-se que o Cancioneiro da Ajuda não foi
    acabado, por que o estylo _limosino_ em que está escripto, passou de
    moda, preferindo-se os _Cantares d'amigo_, as _serranilhas_, as
    _pastorellas_, os _lais_ e as _sirventes_, mudança de gosto
    proveniente da grande affluencia de jograes gallegos, leonezes e
    castelhanos á côrte de Dom Diniz; e sob o gosto da côrte de Dom
    Affonso IV prevaleceram tambem as canções e musicas bretans, cuja
    corrente parece ainda reflectida no Cancioneiro da Ajuda, em um
    remotissimo vestigio, no fragmento de canção em que se lê a palavra
    _guarvaya_, com que o trovador allude aos seus infelices amores. Nas
    _Leges Wallice_, XXIII, I, encontra-se o dom das nupcias, _kyvarus_,
    que se pagava ao cantor da côrte: "Penkered (musicus primarius) debet
    habere mercedes de filiabus poetarum sibi subditorum; habebit quoque
    munera nuptiarum, id est _kyvarus neythans_, á feminibus nuper datis,
    scilicet XXIIIIor denarios."[2] A connexão historica e a interpretação
    litteral mostram que a _guarvaya_ do trovador portuguez é o mesmo
    facto ou costume bretão _kyvarus_; a verificação pelos processos da
    alteração phonetica pertence para outro logar. Em todo o caso este
    vestigio é um dos nexos mais intimos que se pode achar com o codice
    perdido de Colocci, em que estavam já colligidos alguns _lais_
    bretãos.

    A musica do Cancioneiro da Ajuda tambem foi abandonada, por que foram
    substituidos nos costumes outros instrumentos e outras tonadilhas; no
    poema francez de Bertrand Du Guesclin, fala-se de cantores bretãos na
    côrte de D. Pedro I de Portugal. Foi já n'esta nova corrente poetica e
    com o fervor que ella despertara que se começou a formar o vasto
    cancioneiro, de cuja existencia se sabe por quatro apographos. Crêmos
    que o compilador que trasladou ou organisou o texto authentico d'onde
    saíu o apographo do Vaticano, não soube da existencia do Cancioneiro
    da Ajuda, apezar das cincoenta e seis canções communs a ambos. Este
    facto será mais amplamente explicado.

    4. O Cancioneiro de Dona Mecia de Cisneros.

    Na sua _Carta ao Condestavel de Portugal_, escripta antes de 1449, o
    Marquez de Santillana, no § XV, diz que se recordava de ter visto,
    quando era bastante menino, em poder de sua avó Dona Mecia de
    Cisneros, entre outros livros, um grande volume de cantigas…. O
    Marquez de Santillana nasceu em 1398, e sua avó Dona Mecia, na
    companhia da qual passou a sua infancia, morreu em Dezembro de 1418,
    em Palencia. Em primeiro logar "o _grande volume de Cantigas_, e
    _outros livros_" citados na carta, existiam em casa de D. Mecia de
    Cisneros por que provinham de Garcilasso de la Vega, e de Pero
    Gonzales de Mendoza, como claramente o affirma Amador de los Rios:
    "passo su infancia en casa Doña Mencia de Cisneros, su abuela, donde
    hubo de aficionar-se à la lectura de los poetas en los codices que
    poseyeron Garcilasso de de la Vega y Pero Gonzales de Mendoza…"[3]
    Garcilasso de la Vega, bisavó do Marquez, morrera em 1351, e esta
    data, e as suas relações de parentesco com a aristocracia portugueza
    explicam como a elle ou a Pedro Gonzales de Mendoza chegou o volume
    das cantigas. Portanto esse grande cancioneiro não existia em Hespanha
    antes poucos annos de 1351 e foi pouco antes de 1418 que o joven
    Marquez de Santillana o consultou. Pedro Gonzales de Mendoza era
    tambem poeta do côrte de Don Pedro e de Don Enrique (Amador de los
    Rios, _op.cit._, p. 623), e isto mostra o interesse que o levaria pelo
    seu lado a conservar o grande cancioneiro portuguez.

    A descripção que faz o Marquez de Santillana d'esse codice, coincide
    com o que existe na Bibliotheca do Vaticano em copia do seculo XVI:
    _"un grande volume de Cantigas serranas e dizeres portuguezes e
    gallegos"_. São ao todo mil duzentas e cinco cantigas compostas no
    genero descripto por Santillana, e os poetas são em grande numero
    galegos. Em seguida accrescenta: _"dos quaes a maior parte eram do rei
    D. Diniz de Portugal"_. Effectivamente o trovador que mais canções
    appresenta no codice da Vatícana é el-rei D. Diniz, cujas composições
    estão compiladas entre o numero 80 e 208, sendo ao todo cento e vinte
    nove. Accrescenta mais o Marquez de Santillana: _"cujas obras aquelles
    que as liam, louvavam de invenções subtis, e de graciosas e doces
    palavras"_. Esta affirmação, sobendo-se que o Marquez escreve sobre
    uma recordação da sua infancia, não podia resultar se não dos gabos
    ouvidos a Pero Gonzales de Mendoza, poeta do Cancioneiro de Baena,
    gabos que fizeram com que o livro se conservasse em casa de D. Mecia
    de Cisneros, e d'onde se tirara por ventura essa outra copia que hóje
    existe em poder de um grande de Hespanha, segundo uma affirmação de
    Varnhagem. N'esta mesma carta ao Condestavel de Portugal, allude o
    Marquez aos talentos poeticos de seu avô e cita varias das suas
    composições: _"E Pero Gonzales de Mendoza, meu avô, fez boas
    canções"_. Crêmos que por esta via é que o cancioneiro foi copiado
    para Castella, copiado dizemos nós porque se conforma com um grande
    cancioneiro já organisado, de que o de Roma é um apographo terciario.
    O Marquez de Santillana cita de memoria os principaes trovadores que
    vira transcriptos n'essa vasta collecção: "Havia outras (sc. canções)
    de _Joham Soares de Paiva_, o qual se diz que morrera em Galiza por
    amores de uma infanta de Portugal; e de outro _Ferrant Gonçalves de
    Senabria"_. Pela referencia a estes dois trovadores se vê qual o
    estado do cancioneiro manuscripto ou volume de Cantigas de D. Mecia de
    Cisneros. No apographo da Vaticana se acha uma canção de _João Soares
    de Paiva_, quasi no fim da collecção, (n°. 937) ao passo que no
    cancioneiro que pertenceu a Colocci e de que apenas resta o indice dos
    trovadores (cod. vat. n°. 3217) se acha logo sob o numero 23 o nome de
    _João Soares de Paiva_ com sete canções successivas. Em seguida a este
    trovador cita _Ferrant Gonçalves de Senabria_, porem no Codice de
    Colocci acha-se sob o numero 384 citado _Gonçalves de Seaura_ com dez
    canções a seguir. Isto concorda com a phrase do Marquez, referindo-se
    a essas canções: "Havia outras….." O motivo d'esta referencia
    especial seria por ter este trovador o apellido de _Gonçalves_, de seu
    avô, e por isso ainda pertencente á sua linhagem. No Codice da
    Vaticana agora publicado, acha-se um fragmento de canções de _Fernão
    Gonçalvis_, e só sob o numero 338 outra canção de _Fernão Gonçalves de
    Seavra_, a qual corresponde segundo Monaci ao numero 737 do Codice
    perdido de Colocci.

    Portanto, o Cancioneiro de D. Mecia de Cisneros era completo pelo que
    se deduz da citação d'estes dois trovadores, cujas obras se achavam
    antes da folha 42 do actual Codice Vaticano, na qual começa. No
    Cancioneiro de Colocci, em vez de _cento e vinte nove_ canções, el-rei
    Dom Diniz é representado com _setenta e outo;_ mas ainda assim era uma
    grande collecção para o Marquez poder dizer d'ella em relação ao
    volume das Cantigas _uma maior parte_. Em seguida a estas preciosas
    referencias cita tambem na sua carta _Vasco Peres de Camões_, poeta do
    Cancioneiro de Baena e contemporaneo de Pedro Gonçalves de Mendoza por
    cuja via seria conhecido em casa de Dona Mecia de Cisneros, e pelos
    eruditos que tinham o cuidado da educação do Marquez. Por ultimo,
    infere-se que o Codice de D. Mecia era uma copia castelhana, por que
    transcreve o nome de _Fernão_ em _Ferrant_, e o de _Seavra_ em
    _Senabria_, o que se não pode attribuir a vicio de ortographia do
    Marquez de Santillana. Estes topicos bastam para considerar a copia de
    D. Mecia mais proxima do texto autographo do que a da Vaticana.

    5. Cancioneiro de Angelo Colocci. (_Catalogo di Autori portoghesi
    compilato da Angelo Colocci sopra un antico Canzoniere oggi ignoto._
    Ms. 3217 da Bibl. Vat.)

    O illustre editor Ernesto Monaci ao estudar o manuscripto do
    Cancioneiro da Bibliotheca do Vaticano, n°. 4803, pelas referencias do
    texto e paginação de um outro codice ali intercalladas, reconheceu que
    deveriam ter existido duas fontes para este apographo. Nas suas
    investigações na opulenta Bibliotheca do Vaticano teve a felicidade de
    descobrir o Catalogo dos Trovadores portuguezes no manuscripto 3217, o
    qual combina na maior parte com o dos Trovadores do Cancioneiro n°.
    4803, sendo as emendas d'este ultimo codice da mesma letra do indice
    escripto pelo philologo Angelo Colocci, erudito italiano do seculo
    XVI. É certo que o Cancioneiro da Vaticana pertenceu primeiramente a
    Colocci antes de vir a ser propriedade da Bibliotheca vaticana;
    Colocci era um d'esses distinctos eruditos italianos do fim do seculo
    XV, que colligiram manuscriptos de todos os paizes e cuja opulencia se
    distinguia pela formação de ricas livrarias, taes como Leão X, Bembo,
    Orsini, e outros tantos. Colocci morreu em 1549, tendo a sua livraria
    soffrido bastante no saque de Roma pelo Condestavel de Bourbon em
    1527. Por tanto, entre estas duas datas é que se teria perdido esse
    grande cancioneiro, do qual apenas resta o _Catalogo dos Autores
    portuguezes_, e que a Bibliotheca do Vaticano adquirira o cancioneiro
    n°. 4803, apographo de um outro perdido, mas emendado pela mão de
    Colocci sobre o exemplar hoje representado unicamente pelo indice.

    Antes de examinar qual a riqueza da Livraria de Colocci em
    manuscriptos portuguezes, surge a questão mais difficil de resolver:
    Como vieram estes varios cancioneiros portuguezes para as Livrarias
    italianas?

    Sabe-se que os pontifices mais instruidos mandavam procurar em todos
    os paizes os mais preciosos manuscriptos; de Leão X escreve Ginguené:
    "Não poupava despezas nem rodeios junto das potencias estrangeiras
    para fazer procurar nos paizes mais remotos e até nos estados do norte
    _livros antigos ainda ineditos_."[4] O modo como estes rodeios eram
    efficazes, explica-se pela prohibição de certos livros e pela
    instituição da censura, que já no século XV se exercia em Hespanha e
    em Portugal, como vêmos pelo _Leal Conselheiro_ de El-rei D. Duarte.
    Os livros eram entregues á auctoridade ecclesiastica para serem
    examinados, e sob qualquer pretexto de escrupulo não eram mais
    restituidos. Basta vêr a quantidade de canções obscenas e irreligiosas
    que o Cancioneiro portuguez da Vaticana encerra para se conhecer como
    veiu a caír na mão da auctoridade ecclesiastica e como sob ordem
    superior esse _livro antigo ainda inedito_ foi remettido para Roma.
    Alem d'isto, a paixão pela Renascença da antiguidade, que começou no
    seculo XV, fez com que nos diversos paizes decaísse repentinamente o
    amor pelos seu monumentos nacionaes. D'esta falta de amor pelo proprio
    passado proveiu para Portugal a perda de muitos manuscriptos, como o
    da novella _Amadis de Gaula_, de muitos cancioneiros manuaes, como
    relata Faria e Sousa, pelo que dizia o Dr. João de Barros no principio
    do seculo XVI, que estas cousas se secavam nas nossas mãos. D'esta
    falta de estima pelos monumentos nacionaes, veiu o dispersarem-se
    pelas bibliothecas da Europa muitos thezouros da nossa litteratura,
    como se prova pela existencia da _Demanda do santo Greal_ na
    bibliotheca de Vienna, dos livros de Valentim Fernandes na bibliotheca
    de Munich, do _Leal Conselheiro_ de D. Duarte, _Chronica de Guivé_ de
    Azurara, e _Historia geral de Hespanha_ na bibliotheca de Paris, do
    _Roteiro_ de D. João de Castro no Museu britanico, e do _Cancioneiro
    do Conde de Marialva_, da _Satyra de infelice vida_ do Condestavel de
    Portugal em Madrid. A saida do grande Cancioneiro de Portugal pertence
    a esta forte corrente de dispersão. No fim do seculo XV alguns
    portuguezes eruditos se distinguiam na Europa pelas suas riquezas
    litterarias; em uma _Memória sobre as relações que existiam
    antigamente entre os flamengos de Flandres, especialmente os de Bruges
    e os Portuguezes_, cita-se: "João Vasques, natural de Portugal,
    mordomo de D. Isabel de Portugal, Duqueza de Borgonha:–Vasques
    possuía uma Bibliotheca, ou pelo menos diversos manuscriptos de
    valor."[5] Entre esses livros figuravam _Histoire de Troie la grant_,
    e alguns tinham as armas de Portugal na encadernação, como o velino
    _Horae beatae Mariae Virginis_. Tambem no seculo XV figuravam no
    estrangeiro os eruditos Diogo Affonso de Mangaancha, Vasco Fernandes
    de Lucena, Achilles Estaço, e outros muitos amadores bibliophilos.
    Cuidava-se em comprar livros impressos, por meio das Feitorias
    portuguezas, mas os manuscriptos sobre tudo os da litteratura medieval
    perdiam-se com a mais censuravel incuria. Sabe-se por uma carta de
    João Rodrigues de Sá dirigida a Damião de Goes, que el-rei D. Affonso
    V mandou vir de Italia Frei Justo, a quem fez bispo de Ceuta, com o
    fim de escrever em latim a historia dos antigos reis de Portugal, e
    que todos os documentos que lhe foram entregues se perderam na sua
    mão, por ter repentinamente fallecido da peste. É natural que estes
    subsidios historicos constassem tambem de varios cancioneiros, por que
    a poesia fôra um facto importante nas côrtes de D. Affonso III, D.
    Diniz e D. Affonso IV; alem d'isso o espolio d'este bispo italiano
    seria arrecadado pela auctoridade ecclesiastica e remettido para Roma.
    Por todos estes factos parece justificar-se a hypothese de existir na
    bibliotheca do Vaticano, antes do saque de Roma em 1527, um d'esses
    cancioneiros portuguezes, e que d'aí se dispersaram por essa causa: "A
    bibliotheca do Vaticano, tão liberalmente enriquecida por Leão X, foi
    saqueada; os livros mais preciosos foram preza de um furor ignorante e
    barbaro, como os da bibliotheca dos Medicis em Florença."[6] Pelo
    codice 4803, publicado por Monaci, se vê que este Cancioneiro foi
    copiado de um outro cancioneiro ja bastante truncado, como observou o
    critico editor pelas siglas antigas: _"Manca da fol. II infino a fol.
    43"_; e na pagina 10: _"Fol. 97 desunt multa"_; e pela ultima pagina,
    na qual se vê que ficou interrompida a copia.

    Alem d'esta deducção, tira-se uma outra, isto é, que o Codice 4803 foi
    comparado por Colocci com um outro mais rico e completo do qual só
    resta agora o _catalogo dos trovadores_. Os biographos de Colocci
    tambem consignam o facto de parte da sua opulenta bibliotheca ter sido
    destruida no saque de Roma, em 1527. Este philologo italiano possuia
    um decidido gosto pela poesia vulgar italiana, e conhecia a
    importancia do estudo das litteraturas novolatinas, como se vê pelo
    interesse com que procurava as Canções de Foulques de Marseille, e
    pela posse de varios codices com os titulos _Libro spagnolo di
    Romanze_, e _De varie Romanze volgare_, por ventura alguns d'elles
    provenientes da acquisição de manuscriptos das collecções de Bembo e
    de Orsini; seria algum d'estes livros o Cancioneiro da Vaticana, ou
    esse outro cancioneiro de que apenas resta o catalogo dos auctores.
    N'este catalogo precioso descoberto por Monaci, sob o numero 44–
    _Bonifaz de Jenoa_ segue-se esta referencia a manuscriptos de Bembo:
    _"vide bembo Ms. bonifazio Calvo de Genoa."_ E sob o numero 456–_il
    Rey don Affonso de Leon_, segue-se esta nota: _"bembo, dice di Ragona,
    figlio di Berenghieri."_ A variante do Codice de Bembo _di Ragona_
    seria _d'Aragone_ em vez de _Leon_, isto é, um dos codices parciaes d'
    onde se formou o grande cancioneiro parece fixar-se por esta
    circumstancia. Sob este mesmo numero segue-se: _"Alia lectio i
    Portugal, rey Don Sancho deponit."_ Quer esta observação de Colocci
    significar, que este rei D. Affonso em outro codice é citado como rey
    de Portugal, o que depoz D. Sancho, facto que caracterisa el-rei Dom
    Affonso III, que depoz seu irmão D. Sancho II. N'este caso este
    monarcha tambem fôra trovador, o Colocci possuia algum cancioneiro
    parcial. No mesmo Indice dos Trovadores, sob o numero 467 onde se
    continha as canções de El-rei Dom Affonso rei de Castella e de Leão,
    accrescenta-se: _"vide nel mio lemosino"_, no qual se attribuem as
    mesmas cantigas de preferencia ao rei de Leão, isto é, em harmonia com
    o titulo _di Ragona_, do numero 456. Em uma outra nota que o illustre
    Monaci achou no Codice n°. 4817, de letra d'este erudito, se acha a
    seguinte referencia a um codice portuguez: _"Messer Octaviano di
    messer barbarino, ha il_ libro di portoghesi, _quel da_ Ribera _l'ha
    lassato."_ Sabendo-se pela bibliographia, que o manuscripto da _Menina
    e Moça_ de Bernardim Ribeiro, foi na primeira metade do seculo XVI
    levado para a Italia, imprimindo-se em Ferrara em 1544, cinco annos
    antes da morte de Colocci, parece que a phrase _quel_ (libro) _da
    Ribera_ se refere a esta novella portugueza. Seria por este tempo que
    o cancioneiro portuguez se tornou conhecido em Roma, como dá noticia
    Duarte Nunes de Leão, nas palavras _"que em Roma se achou"_, mas sem
    dizer que já pertencia á Bibliotheca do Vaticano. A epoca em que este
    codice entrou n'esta rica bibliotheca pode fixar-se depois de anno de
    1600, por que os livros e manuscriptos de Colocci foram adquiridos
    pelo erudito Fulvio Orsini, que os deixou em testamento á Vaticana.[7]
    Esta é a opinião de Monaci; não concordamos porém com a sua
    interpretação do trecho de Duarte Nunes de Leão quando este escriptor
    portuguez diz: "segundo vimos por um cancioneiro seu, que em Roma se
    achou, em tempo de el-rei Dom João III…" deduzindo que Nunes de Leão
    chegara _a vêr_ esse cancioneiro; em primeiro logar, Nunes de Leão
    refere-se a um _Cancioneiro seu_, isto é unicamente de el-rei Dom
    Diniz, e não geral, como o de que resta noticia pelo Indice de Colocci
    e pelo apographo da Vaticana; isto já é uma prova da informação vaga
    do chronista, e alem d'isso a phrase _segundo vimos_, significa: como
    se prova, como se deduz. Nunes de Leão conhecia o codice das canções
    de D. Diniz que no principio de século XVII se guardava na Torre do
    Tombo, como elle diz: _"e per outro que está na Torre do Tombo…"_ ou
    talvez pelo que pertencia aos Freires de Christo, de Thomar. Vivendo
    no meado do seculo XVII, já o cancioneiro grande havia sido recebido
    na Bibliotheca do Vaticano e poderia ter noticia da existencia do
    Codice; porém o chronista refere-se principalmente a um _Cancioneiro
    de Dom Diniz_, e as referencias de Sá de Miranda, de Ferreira e de
    Camões são unicamente aos talentos poeticos de D. Diniz. Como chegou a
    Portugal noticia do apparecimento em Roma? Sá de Miranda demorou-se na
    sua viagem á Italia, entre 1521 e 1526, e conviveu com os principaes
    eruditos italianos, Lactancio Tolomei e João Ruscula, e dava-se tambem
    por parente da casa dos Colonas; é possível que, regressando a
    Portugal en 1526, quando havia já cinco annos que D. João III reinava,
    désse a noticia da descoberta de um cancioneiro em Roma, quando
    visitara as principaes livrarias; o facto dos poetas da eschola
    italiana alludirem ao talento poetico de D. Diniz, leva a induzir esta
    noticia como communicada pelo que trouxe a Portugal esse novo gosto
    litterario.

    Em 1527 foi o saque de Roma, e a livraria de Colocci tambem soffreu
    com essa devastação; por ventura algum dos cancioneiros acima citados
    se perdeu, ou foi talvez adquirido algum d'entre os livros roubados
    por esta occasião da Vaticana. É de presumir que o _Libro di
    Portoghesi_ fosse o Cancioneiro de que só resta o Indice, e sendo
    assim, perder-se-hia em poder de Messer Octaviano de messer Barbarino;
    se o libro _da Ribera_ é o manuscripto de Bernardim Ribeiro, impresso
    mais tarde em Ferrara, então pode fixar-se a perda do Cancioneiro
    n'esse mesmo anno em que morreu Colocci. O inventario dos seus livros,
    feito a 27 de Outobro de 1558, nove annos depois da sua morte,
    explica-nos como os livros que estavam emprestados ficaram perdidos.
    Pelo Indice d'este Cancioneiro, achado por Monaci, vê-se que elle
    constava de mil seiscentas e setenta e cinco canções, mais quatro
    centas e setenta, omissas no apographo da Vaticana, hoje publicado.

    6. Il Canzoniere portoghese della Bibliotheca Vaticana, n°. 4803.
    Messo a stampa de Ernesto Monaci. Halle, 1875.

    Desde 1847, que o brasileiro Lopes de Moura publicou em Paris um
    excerpto do grande Cancioneiro portuguez da Vaticana, contendo as
    canções de el-rei Dom Diniz. Como se veiu a conhecer a existencia
    d'este precioso codice em Roma? Desde o principio do seculo XVII que
    elle entrara na Bibliotheca do Vaticano pela doação dos livros de
    Fulvio Orsini; no seculo XVIII, segundo Varnhagem, era citado por um
    bibliophilo hespanhol junto com outros codices de poesias catalans e
    valencianas; o facto de existir com encadernação moderna e com a
    insignia papal de Pio VII (1800–1823) explica-se pela reparação e ao
    mesmo tempo pelo interesse que houve em conservar o cancioneiro
    formado de cadernos differentes e incompletos, e escriptos com tinta
    corrosiva que o pulverisa. Wolf, por intervenção do slavista Kopitar,
    mandou fazer as primeiras investigações no Vaticano para descobrir
    este codice de que tinha vago conhecimento pela vaga allusão de Nunes
    de Leão; foram infructuosas as tentativas; o visconde da Carreira,
    embaixador em Roma, avisado por um franciscano (por ventura o P.
    Roquete, como se sabe pelo prologo da edição de Moura) conseguiu a
    copia da parte publicada em Paris por Aillaud. Desde 1847 até hoje,
    nunca o governo portuguez, nem a Academia real das Sciencias
    comprehenderam o valor d'este monumento. A reproducção das nossas
    riquezas litterarias têm sido sempre feita por estrangeiros, e a
    publicação d'este importantissimo cancioneiro foi agora realisada por
    um rapaz desajudado de subsidios academicos, mas animado pelo amor da
    sciencia. A edição feita em Halle, appresenta todo o rigor
    diplomatico, de modo que os erros do copista italiano do seculo XVI
    podem restituir-se á leitura do portuguez do codice primitivo; apesar
    d'este subsidio, Monaci tentou com um seguro tino critico uma tabella
    dos principaes erros systematicos, e um indice das necessarias
    restituições que se podem fazer em cada canção; em fim, tudo quanto é
    preciso para a intelligencia do texto, existe ali. Monaci conservou a
    disposição do manuscripto na reproducção typographica, já a uma ou a
    duas columnas, com todos os vestigios das differentes numerações e
    siglas referentes a outros codices analogos e mais antigos. Pelo seu
    prologo, de uma precisão rigorosa, se vê toda a historia externa do
    Cancioneiro. O Codice da Vaticana está em papel de linho, com trez
    marcas de agua differentes, tal como se empregava nas edições do
    Varisco; a letra é italiana, tal como a dos documentos do fim do
    seculo XV e principio do seculo XVI, proveniente de dois copistas, um
    que escreveu as poesias, algumas rubricas e notas, outro a maior parte
    dos nomes, as numerações e algumas postillas, contando ao todo 210
    folhas. Da descripção d'este cancioneiro conclue-se, pelo estado em
    que se acha, que outro ou outros cancioneiros foram n'elle copiados ou
    confrontados. A primeira nota que se depara ao abril-o é: "_Manca da
    fol. IJ a fol. 43_;" isto quer dizer, que o cancioneiro foi copiado de
    um outro codice que já se achava assim fragmentado, mas que mais tarde
    foi confrontado com outro que estava completo, como veremos na relação
    com o Indice de Colocci.

    Ao começar o texto acha-se outra referencia: "_A fogli 90_" e segue-se
    a canção de Fernão Gonçalves, o que parece significar, que n'este
    cancioneiro existia outra disposição das poesias á qual se refere este
    numero, que continúa a cotar successivamente outras canções,
    entremeiando-se com numeros romanos, que parecem estabelecer
    referencia a outro cancioneiro. Separemos estas duas ordens de
    numeros, por onde deduzimos o confronto com dois cancioneiros; para se
    localisar melhor a referencia que era de folhas e verso, indicaremos a
    numeração actual das canções: Fol. 91 (canc. 8), 92 (canç. 11); _Fol.
    97 desunt multa_ (canç. 43 fine); junto da canção 61, vem a sigla
    _Desunt_; junto da 63 vem _car_. 106; junto da canção 299: _"Fol. 141
    Al vo"_ (del volumen?); junto da canção 507 vem: "173 _a tergo"_ e
    algumas canções com dois nomes de auctores, como _Martin Campina_ ou
    _Pero Meogo_, como forme a attribuição de um ou outro texto (canc.
    796.). Por fim termina com esta outra rubrica: _"A fol. 290 è
    cominciata una Rubrica e non è finita di copiare"_. Tudo isto prova,
    que se fez o confronto d'este apographo existente cum um codice mais
    completo, seguindo-se o confronto até á folha 300 d'esse codice
    perdido.

    O confronto do Codice por meio da numeração romana não prosegue até ao
    fim; apenas se acha LXXXVJ junto da canção 4; LXXXVIIJ junto da Canção
    14; LXXXVIIIJ junto da canção 26 _fine;_ XCVJ junto da canção 39 a 45;
    XCVIIJ coincide com a referencia anterior, junto da canção 49; XCVIIIJ
    á canção 55; CXII á 62; CXIIIJ á canção 70; CXVIJ á canção 77. Esta
    numeração romana adianta-se aqui mais do que a arabe, signal de que
    havia divergencia entre os dois codices que serviam para confrontação
    com o apographo publicado. É certo porem, que a numeração romana
    termina antes do corpo das canções de el-rei Dom Diniz, d'onde se
    poderá inferir, que até esta parte contribuiu um cancioneiro parcial,
    e que de Dom Diniz só entrava no que era numerado em algarismos. Que
    existiam diversos cancioneiros, pelas mesmas canções d'este codice se
    pode conhecer, como pela canção de D. Affonso de Castella (canç. 76)
    em que allude ao _Livro dos Sons_, que era um cancioneiro com que o
    Dayão de Cales seduzia as mulheres. Na sua edição Monaci deixou
    apontados em um indice fundamental todas as canções repetidas no
    cancioneiro, ou aquellas que mutuamente se plagiavam. Da sua
    comparação se podem tirar poderosas inducções, para se estabelecer
    quantos pequenos cancioneiros haviam servido para formarem o
    cancioneiro grande, do qual o apographo publicado é uma copia. É o que
    vamos tentar.

    _Pequenos Cancioneiros que entraram na formação do Cancioneiro da
    Vaticano_.–A canção 4, de _Sancho Sanches_, apparece repetida com
    mais duas estrophes e assignada por _Pero da Ponte_, sob o numero 569;
    a 2ª e 3ª strophes da versão de Pero da Ponte, faltam na canção de
    Sancho Sanches. As strophes communs têm as seguintes variantes:

    _Sazom foi já_, que me teve em desdem (n°. 4)
    _Tal sazom foi_, que me teve em desdem (nº. 569).

    _Que com'é mais j'agora_ seu amor (n°. 4)
    _Quando me mays forçava_ seu amor. (n°. 569).

    E ora _já_ que pes'a mha senhor (n°. 4)
    E ora _mal_ que pes'a mha senhor (n°. 569).

    Evidentemente estas duas canções foram colligidas de dois cancioneiros
    parciaes, e elles mesmos escriptos em grande parte de memoria.

    A canção 13, de Mem Rodrigues Tenoyro, têm apenas uma estrophe, mas
    repete-se sob o numero 319 com o nome do mesmo trovador e com mais
    duas estrophes que a completam. Deve attribuir-se essa divergencia ao
    ter sido colligida de dois cancioneiros, formado por diversos
    collecctores.

    A canção 29, assignada por João de Guilhade, repete-se sob o numero 38
    com o nome do trovador Stevam Froyam; existem entre ellas leves
    variantes, mas como estão immensamente deturpadas, só pelos dois
    textos se reconstruem. Por este facto se vê, que houve compilação de
    dois cancioneiros, e que o copista mal percebia a letra e fazia
    selecção das canções.

    A canção 116 e 174, do cancioneiro de Dom Diniz, são uma e mesma,
    havendo entre estes dois numeros _variantes_, e sobretudo a 2ª e 3ª
    estrophe alternadas. Não proviria isto dos originaes, escriptos por
    esmerados copistas, que se guardaram na Bibliotheca de el-rei Dom
    Duarte; este facto prova-nos, que o corpo das canções de Dom Diniz,
    que na collecção Vaticana occupa dos n.'os 80 até 208 proveiu de
    copias avulsas de differentes palacianos, e talvez do proprio Conde D.
    Pedro.

    A canção 241, do trovador Payo Soares, apparece com o numero 413
    repetida sob o nome de Affonso Eanes de Coton (Cordu); tem apenas uma
    rapida variante ortographica, mas tanto o facto da repetição, como o
    da attribuição a dois trovadores differentes accusam duas colleções
    parciaes.

    A canções 457 e 469 pertencem a Ayres Nunes Clerigo e são uma unica,
    com a differença que as trez strophes de que constam, tem os versos
    baralhados sem systema; o que se explica pelo caracter jogralesco,
    isto é, que foram duas vezes colligidas no tempo em que eram cantadas
    a caprixo de Ayres Nunes ou de qualquer outro jogral, que as sabia de
    cór; ou então, que provieram de dois cancioneiros onde as duas canções
    se differenciavam pela razão acima indicada.

    A sirvente 472 de Martim Moxa apparece sob o numero 1036, em nome de
    Lourenço, jograr de Sarria, com variantes fundamentaes, que provam
    compilação de dois cancioneiros diversos. O caracter sirventesco fez
    talvez que varios jograes regeitassem a paternidade d'essa canção que
    verbera os privados da côrte de D. Affonso III.

    O numero 613 e 639 são uma mesma canção de João Ayres, burguez de
    Santiago; abundam as variantes entre estas duas composições, signal de
    que provieram de duas copias resultantes da monomania dos cancioneiros
    particulares. E sob o nome d'este mesmo trovador andam as duas canções
    repetidas 634 e 138, tendo esta ultima alem das variantes mais uma
    estrophe e um Cabo.

    Em nome do jogral João Servando apparecem repetidas as canções 738 e
    749 com variantes fundamentaes entre si:

    Ora vou a Sam Servando,
    donas, fazer romaria,
    e nom me leixam com elas
    hir, cá logo alá hiria
    por que vem hy meu amigo. (738)

    Donas vam a Sam Servando
    muytas hoje em romaria,
    mais nom quiz oje mha madre
    que foss' eu hi este dia
    por que vem hy meu amigo. (749)

    As outras variantes nas demais strophes são menos reparaveis, mas no
    numero 738 ha uma strophe a mais. A pequena distancia a que ficam uma
    da outra estas canções, provam-nos que o copista italiano transcreveu
    materialmente uma compilação já formada; e por tanto tudo quanto se
    pode concluir sobre estas canções identicas liga-se á formação d'esse
    cancioneiro perdido d'onde se trasladou o codice da Vaticana.

    Dois casos especiaes se davam n'essa formação do antigo cancioneiro:
    1° ou as canções se attribuiam na repetição a dois trovadores
    differentes taes como Sancho Sanches e Pero da Ponte, João de Guilhade
    e Stevam Froyam, Pay Soares e Affonso Eanes do Cotom, Martim Moxa e
    Lourenco Jograr; 2° ou se repetiam em nome do mesmo trovador, como Mem
    Rodrigues Tenoyro, el-rei D. Diniz, Ayres Nunes Clerigo, João Ayres, e
    João Servando. Para o primeiro caso conclue-se que contribuiram para a
    formação do grande cancioneiro pequenos cancioneiros trasladados de
    cantares dispersos, por curiosidade, ou tambem apanhados na corrente
    oral, porque um só collector notaria os plagiatos. Para o segundo caso
    poderiam os jograes terem contribuido com os seus cadernos de cantos e
    assim com lições differentes de um mesmo texto que se alterava pelas
    continuadas repetições.

    De todo este confronto se conhece a necessidade de estabelecer por
    todos os meios possiveis ás relações entre este apographo da Vaticana
    e os dois cancioneiros de Colocci, perdido, e o da Ajuda.

    _Relações do Cancioneiro da Vaticana com o Cancioneiro de Angelo
    Colocci_.–Antes de Monaci haver descoberto no Ms. n°. 3217 o Indice
    do Cancioneiro perdido do erudito quinhentista italiano Angelo
    Colocci, ja elle determinara pela forma por que está escripto o
    Cancioneiro da Vaticana, que deveria ter existido um original mais
    antigo e mais completo. A descoberta do Indice veiu authenticar a
    existencia d'esse Cancioneiro perdido e explicar pela letra do proprio
    Colocci, quem é que tinha feito o confronto. O illustre Monaci
    comprehendeu logo quanto util seria para a critica o comparar a lista
    dos trovadores do Cancioneiro perdido com a dos trovadores do
    Cancioneiro existente (Appendice I, p. XIX a XXIV); por uma simples
    inspecção fica o leitor habilitado a conhecer as profundas relações
    entre os dois cancioneiros; o de Colocci continha mil seis centas e
    setenta e cinco canções, e o da Vaticana contem mil duzentas e cinco,
    isto é, quatrocentas e setenta canções a menos, por ventura as que
    occupavam até a _fol_. 90. O numero das canções de cada trovador pode
    tambem ser confrontado, porque no Codice de Colocci as canções de
    Colocci eram numeradas por algarismos e cada nome de trovador é
    precedido pelo numero que limita as canções do antecedente. Assim,
    como já acima vimos, as canções de D. Diniz são no Codice da Vaticana
    cincoenta e uma a mais do que no de Colocci. Apezar d'isso as notas
    _desunt multa_ provam-nos que o Cancioneiro de Colocci era muito mais
    rico, como se vê pelos nomes dos seguintes trovadores que faltam no da
    Vaticana:

    Diego Moniz, que tinha ali uma canção; Pero Paes Bazoco, com sete
    canções; João Velaz, Dom Juano; Pero Rodrigues de Palmeyra; Dom
    Rodrigo Dias dos Conveyros; Ayres Soares; Osorio Annes; Nuno Fernandes
    de Mira-Peixe; Fernam Figueiredo de Lemos; Dom Gil Sanches; Ruy Gomes
    o Freyre; João Soares Fomesso; Nuno Eanes Cerzeo; Pero Velho de
    Taveirós; Pay Soares de Taveirós; Fernam Garcia Esgaravunha, do qual
    existiam dezessete canções; João Coelho; Pero Montaldo; duas canções
    do trovador genovez Bonifacio Calvo; o Conde D. Gonçalo Garcia; Dom
    Garcia Mendes de Eixo; El rei Dom Affonso IV, filho de el-rei D.
    Diniz, com quatro canções. No Codice de Colocci, as canções de D.
    Diniz não estavam em um corpo isolado, apresentando mais quatro
    composições destacadas no fim do cancioneiro. Esta parte tambem é
    omissa no Cancioneiro da Vaticana, por que aí se encontram outra vez
    trovadores dos supracitados, como João Garcia, D. Fernam Garcia
    Esgaravunha, Pero Mastaldo, Gil Peres Conde, Dom Ruy Gomes de
    Briteiros, Fernam Soares de Quiñones, etc. Pelo confronto do Indice de
    Colocci se conhece, que embora se sigam ao texto do Cancioneiro da
    Vaticana quatorze folhas em branco, nem por isso ficou muito distante
    do fim, por que só deixaram de ser copiadas algumas sirventes de
    Julião Bolseyro. D' este confronto se conclue: 1°. que o codice d'onde
    se extraíu a copia da Vaticana differia no numero das canções e na sua
    disposição do de Colocci; 2º. que as relações mutuas accusam fontes
    communs, mas colleccionação arbitraria no agrupamento dos differentes
    cancioneiros parciaes.

    _Relações do Cancioneiro da Vaticana com o Cancioneiro da Ajuda_. —
    Lopes de Moura foi o primeiro que encontrou na collecção da Vaticana a
    canção de João Vasques, _Muyt'ando triste no meu coraçom_, que existe
    anonyma no Cancioneiro da Ajuda. Logo depois, Varnhagem achou mais
    quarenta e nove canções communs aos dois codices, e nós mesmo ainda
    viemos a encontrar mais seis canções repetidas. São ao todo cincoenta
    e seis canções communs, facto importante para estabelecer as relações,
    que existiram entre os dois cancioneiros. Em primeiro logar, o
    Cancioneiro da Vaticana foi já copiado de um codice truncado, como por
    exemplo: a canção 43 tem a rubrica final: _"Fol.97 desunt multa"_ e a
    canção seguinte está truncada no principio; porem estas canções de
    João Vasques completam-se pelo Cancioneiro da Ajuda, canção n°. 272 e
    273 (ed. _Trovas e Cantares_). Isto prova, que embora o Cancioneiro da
    Ajuda esteja truncado e por seu turno se complete com algumas canções
    do codice de Roma (_y_, das _Trovas_ == n°. 38, _Canc. da Vat._) ambos
    provieram de fontes differentes, porque tambem nas cincoenta e seis
    canções communs existem notaveis variantes:

    _Nostro senhor_, que lhe bom prez foi dar. (Vatic.)
    _Deus_ que lhe _mui_ bom _parecer_ foi dar. (Ajuda)

    N'esta variante o original do codice vaticano mostra-se mais archaico
    na linguagem. Na canção 46, de Fernão Velho (no codice da Ajuda, n°.
    92) no primeiro verso da 2ª strophe vem uma variante que denota erro
    do copista portuguez conservado inconscientemente pelo antigo copista
    italiano:

    E _mha_ senhor fremosa de bom _parecer_ (Vatic.)
    E _mia_ senhor fremosa de bom _prez._ (Ajud.)

    _Prez_ é uma contracção de _preço_, e d'aqui resultou que o copista
    portuguez traduziu inconscientemente; como organisado no paço, o
    Cancioneiro da Ajuda seria formado directamente da contribuição dos
    muitos trovadores que o frequentavam; o Cancioneiro de Roma era já
    derivado de um apographo secundario, truncado no principio, meio e
    fim, e em certos pontos mais archaico.

    Na canção 47 da Vaticana (93 da Ajuda) pertencente a Fernão Velho,
    vem:

    Quant' eu, _mha senhor, de vós_ receei… (Vatic.)
    Quant' eu _de vós, mia senhor_ receei (Ajud.)

    E vos dix'o _mui_ grand'amor que ei (Vatic.)
    E vos dix'o grande amor que _vós_ ei (Ajud.)

    A canção 48 da Vaticana, apesar das imperfeições da copia italiana,
    pode ser reconstruida pelo typo strophico, porem a nº. 94 da Ajuda
    ficou incompleta:

    _Lição da Ajuda: Lição da Vaticana:_

    E mal dia naci, senhor, E mal dia naci, senhor,
    Pois que m'eu d'u vós sodes, vou; pois que m'eu d'u vos sodes, vou;
    Ca mui bem sou sabedor ca mui bem som sabedor
    Que morrerei u nom jaz al; que morrerey hu nom ey al;
    Pois que m'eu d'u vós sodes, vou. poys que m'eu d'u vos sodes, vou,
    …………. pois que de vos ei a partir _por mal._

    …………. E logo hu m'eu de vós partir
    …………. morrerey se me deus nom val.

    A canção 53 da Vaticana (Ajuda, nº. 99), tem uma strophe mais
    imperfeita do que no codice da Ajuda; mas en compensação tem o _Cabo_,
    que falta no codice portuguez:

    _Ajuda: Vaticana:_

    Meus amigos, muito me praz…. Meus amigos muyto mi praz _d'amor._
    Cá bem pode partir da mayor Ca bem me pode partir da mayor
    Coita de quantas eu oy falar, coyta de quantas eu oy falar,
    De que eu fuy muyt'_y_ a soffredor; do que eu fuy muyt'ha sofredor
    Esto sabe deus, que me foy mostrar _e sabe deus hu a vi bem falar_
    Uma dona que eu vi bem falar e parecer, por meu mal, eu o sey.
    E parecer por meu mal, e o sei.
    …………. Ca poys m'elles nom querem emparar
    …………. e me no seu poder querem leixar,
    …………. nunca por outra emparado serey.

    A canção 395, de Payo Gomes Charrinho, repetida no cancioneiro da
    Ajuda, n°. 276, tambem revela duas fontes diversas:

    e nom lh'ousey mays _d'atanto_ dizer (Vatic.)
    e nom lh'ousey mais _d'aquesto_ dizer. (Ajud.)

    nem _er cuidey_ que tam bem parecia (Vatic.)
    nem _cuidava_ que tambem parecia (Ajud.)

    mays _quand'_eu vi o seu bom parecer (Vatic.)
    mais _u_ eu vi o seu bom parecer. (Ajud.)

    No codice da Vaticana tem esta canção apenas trez estrophes; porem no
    da Ajuda termina com uma quarta:

    E por esto bem consellaria
    quantos oyrem-no seu bem falar
    nom a vejam, e podem-se guardar
    melhor ca m'end'eu guardei, que morria,
    e dixe mal, mais fez-me deus aver
    tal ventura, quando a fui veer
    que nunca dix'o que dizer queria. (Ajuda)

    Evidentemente as alterações de linguagem não foram do copista
    italiano, porque, comparativamente, a expletiva _er_ é mais archaica;
    e por tanto a omissão da 4ª strophe não foi casual, mas resultante do
    estado d'outra fonte.

    A canção 400, da Vaticana, tambem de Payo Gomes Charrinho, tem leves
    variantes na canção 278 da Ajuda, mas importantissimas omissões; assim
    no Codice de Roma, falta na primeira strophe o verso:

    me quer matar e guaria melhor (Vat.)

    e tambem faltam duas strophes completas com o seu Cabo.

    A canção 428, ainda de Charrinho, tambem no Codice da Ajuda, n°. 285
    offerece leves variantes; porem no Codice da Vaticana alternam-se a
    segunda com a terceira strophe, e falta este Cabo da lição da Ajuda:

    E entend'eu cá me quer a tal bem
    em que nom perde, nem gaano en rem.

    A canções 485, 486 e 487 da Vaticana, do trovador Ruy Fernandes,
    acham-se nos pequenos fragmentos legiveis nas folhas do Cancioneiro da
    Ajuda, que serviram de guardas á encadernação do Nobiliario; esses
    fragmentos, seguindo a edição do Varnhagem são _m, n, o_; ainda assim
    se conhece por elles que existiam divergencias entre os dois codices:

    _Ajuda, (m):_ _Vaticana_, n°. 485:
    A _guisa_ de vos elevar a _forza_ de vos elevar
    Por mia morte nom _aver_. por mha morte nom _aduzer_.

    _Ibid., (n):_ _Ibid._, n°. 486:
    _Amigos_, começa o meu mal. _Ora_ começa o meu mal.

    As canções de Fernão Padrom, n'os. 563, 564, 565, a que achámos as
    analogas nos numeros 126, 127 e 128 do codice da Ajuda, tambem
    apresentam variantes.

    As canções n°. 566, 567, 568, 569 e 570, que andam em nome de Pero da
    Ponte no codice da Vaticana e apparecem anonymas no Cancioneiro da
    Ajuda, n'os. 112, 113, 114, 115 e 116 não appresentam mais variantes
    que a simples modificação ortographica em _mha_ e _mia_, que poderia
    provir das differentes epocas das copias. Esta conformidade entre o
    texto da Vaticana e o da Ajuda, leva-nos a concluir que pequenos
    cancioneiros entraram na coordenação de um grande cancioneiro, e que
    as canções mais conformes são aquellas que andaram em menor numero de
    copias antes de se agruparem na collecção geral.

    Já com relação ás Canções de Vasco Rodrigues de Calvelo, apparecem
    variantes e deturpações que não provêm do copista do seculo XVI, mas
    de codices diversos ja corruptos; a canção 580 comparada com a 265 da
    Ajuda tem uma lição menos pura, incompleta, mas differente:

    _Lição da Ajuda: Lição da Vaticana:_
    Per uma dona que quero gram bem ….. que quero gram bem.

    Com'a mim _fez_; ca des _que eu_ naci Como a mim _faz_; que des _quando_ naci
    nunca vi ome _en_ tal coita _viver_ nunca vi ome tal coita _sofrer_
    como eu _vivo_ por melhor bem querer como eu _sofro_ por melhor bem querer

    Com'_a mim fez muy_ coitado d'amor Com'el _faz mim muy_ coitado d'amor.

    A lição da Ajuda termina com este Cabo, que falta no codice da
    Vaticana:

    Com'a mim fez, e nunca me quiz dar
    Bem d'essa dona, que me fez amar.

    A canção 581, tambem de Vasco Rodrigues de Calvelo, sob a designação
    _e_ da lição da Ajuda (ed. _Trov. e Cant._) alem das mutuas variantes,
    tem a 2ª e 3ª a strophes alternadas:

    E se _soubess'_em qual coyta d'amor (Vatic.)
    Se _lh'eu dissess'_em qual coita d'amor (Ajud.)

    per nulha guisa, _pero m'_ey _sabor_ (Vatic.)
    Per nulha guisa, _ca_ ey _gram pavor._ (Ajud.)

    De mais no Codice de Roma falta este Cabo:

    Mais de tod'esto nora lhi dig'eu rem,
    Nem lh'o direy, cá lhe pesará bem.

    Na Canção 582, do mesmo trovador, ha esta divergencia:

    E rogo _sempre_ por mha morte a deus (Vatic.)
    Et rogo _muito_ por mia morte a deus (Ajud.)

    Na Canção 584, tambem de Calvelos, falta esta terceira estrophe, que
    vem no codice da Ajuda:

    Como vós quiserdes será
    De me fazerdes mal e bem
    E pois é tod'em vosso sen
    Fazed'o que quizerdes já…

    A canção 677, de Pero de Armêa, acha-se imitada no codice da Ajuda,
    nº. 56, por forma que a da Vaticana apresenta um caracter de maior
    vulgarisação, e por isso de proveniencia jogralesca:

    _Lição da Ajuda:_ _Lição da Vaticana:_

    Muitos me veem preguntar, Muytos me veem preguntar,
    mia senhor, a quem quero bem; senhor, que lhes diga eu quem
    e nom lhes queró end'eu falar est a dona que eu quero bem
    com medo de vos pesar en, e com pavor de vos pesar
    nem quer'a verdade dizer, nom lhis ouso dizer per rem,
    mais jur'e faço lhes creer senhor, que vos quero bem.
    mentira, por vos lhe negar.

    Duas canções de Pedro Solás, confrontadas com as do codice da Ajuda,
    acabam de separar definitivamente estes dois cancioneiros:

    _Lição da Ajuda_ (nº. 123): _Lição da Vaticana_ (nº. 824):

    Nom est a de Nogueira _E_ nom est a de Nogueira
    A freira, que _mi poder tem;_ a freira que _eu quero bem,_
    Mays _est_ outra _a_ fremosa mays outra mais fremosa
    A que me _quer'eu mayor bem;_ _e_ a que _mim em poder tem;_
    E moyro-m'eu pola freira e moir-m'eu pola freira
    Mais nom pola de Nogueira. mais nom pola de Nogueira.
    ………………………………………………………….

    Se eu a _freira visse o dia _E_ se eu _aquella freyra
    O dia que eu quizesse_ hum dia veer podesse_
    Nom ha coita no mundo nom ha coita no mundo
    Nem _mingua_ que houvesse nem _pesar_ que _eu_ ouvesse
    E moiro-me … e moyro-me …

    _Se m' ela mi amasse _E seu aquella freyra
    Muy gram dereito faria, veer podess'um dia
    Cá lher quer'eu mui gram bem nenhuã coita do mundo
    E punh'y mais cada dia;_ nem pesar nom averia_
    E moiro-me … e moyro-me …

    Estas duas variantes são elaborações differentes do mesmo trovador em
    epocas diversas, e por tanto os dois cancioneiros provêm
    effectivamente de duas fontes. A canção 825 da Vaticana, que se acha
    sob o numero 124 do Codice da Ajuda, apenas tem a terceira e quarta
    estrophes alternadas. O ultimo paradigma entre estes dois
    cancioneiros, apresenta uma composição (1061 da Vaticana, 253 da
    Ajuda) que pertence a João de Gaya, escudeiro da côrte de D. Affonso
    IV, por onde se fixa não só a epoca da colleccionação do codice de
    Lisboa, mas em que a fonte do Codice de Roma nos apparece mais
    completa:

    _Lição da Ajuda:_ _Lição da Vaticana:_

    Conselho, e quer-_se_ matar Conselho e quer-me matar.
    E assi me tormenta amor
    de tal coyta, que nunca par
    ouv'outr'ome, a meu cuydar,
    assy morrerey pecador,
    e, senhor, muyto me praz en
    que prazer tomades por en
    non no dev'eu arrecear.

    E bem o _podedes fazer_ E bem o _devedes saber_, etc.

    Por todos estes factos se vê, que umas vezes o Codice de Roma é omisso
    com relação ao de Lisboa, o que se poderia impensadamente attribuir a
    incuria do copista; esta hypothese não pode ter logar, porque o
    Cancioneiro da Ajuda por muitissimas vezes apresenta eguaes omissões.
    Por tanto essas cincoenta e seis canções communs aos dois codices,
    entraram n'essas respectivas collecções provindo de codices parciaes e
    de differente epoca.

    _Relações do Cancioneiro da Vaticana com o apographo actualmente
    possuido por um Grande de Hespanha_. — No _Cancioneirinho de Trovas
    antigas_, Varnhagem dá noticia no prologo, de ter encontrado em 1857
    na Livraria de um fidalgo hespanhol um antigo cancioneiro portuguez,
    que, pela canções de el-rei D. Diniz que elle continha, lhe suscitou o
    procurar as analogias que teria com o Cancioneiro da Vaticana n°.
    4803; tirou copia do citado Cancioneiro, e em 1858 procedeu em Roma ao
    confronto do codice madrileno com o da Vaticana. Começavam ambas as
    copias com a trova de _Fernão Gonçalves_, seguindo-se-lhe as duas
    canções de _Pero Barroso;_ ambos os codices combinam nos mesmos nomes
    de trovadores, na ordem das canções, e em geral nos erros dos
    copistas. Poder-se-ha concluir que estes dois apographos se derivam
    ambos do mesmo original? Não; apezar de Varnhagem não ser mais
    explicito na descripção do codice madrileno e guardar no mysterio o
    nome do possuidor, comtudo pelas cincoenta composições do
    _Cancioneirinho_ se descobrem profundas _variantes_, que se não podem
    attribuir a erro de leitura, ainda assim tão frequente em Varnhagem.

    Copiamos aqui essas variantes, para que se conclua pela existencia de
    um outro codice mais antigo, tambem perdido. Na canção II, a strophe
    3ª _(Cancioneirinho)_ acha-se assim:

    Os cavalleiros e cidadãos
    d'aqueste rey aviam dizer
    e se deviam com sas mãos poer
    outrosi donas e escudeiros
    que perderam a tam bem senhor
    de quem poss'eu dizer, sem pavor,
    que não ficou dal nos christãos.

    Pelo codice de Roma vê-se a strophe construida da outro modo:

    Os cavalleiros e cidadãos
    que d' este rey aviam dinheiros
    e outrosi donas e escudeiros,
    matar se deviam por sas mãos … (Canç. n°. 708.)

    Na canção VI, a strophe segunda e terceira _(Cancioneirinho)_ estão
    incompletas e interpolladas d'esta forma:

    _Cancioneirinho:_ _Codice da Vaticana:_

    E as aves que voavam E as aves que voavam
    Quando sayam canções quando saya _l'alvor_
    Todas d'amor cantavam todas de amor cantavam
    Pelos ramos d'arredor; pelos ramos d'arredor;

    Mais eu sei tal que escrevesse mais nom sei tal que _i estevesse_
    Que em al cuidar podesse que em al cuidar podesse
    Se nom todo em amor. se nom todo em amor.

    Em pero dix'a gram medo: _Aly stive eu muy quedo
    quis falar e nom ousey_
    em pero dix'a gram medo:
    — Mha senhor, falar-vos-ey — Mha senhor, falar-vos-ey
    Hum pouco, se m' ascuitardes um pouco, se m'ascuitardes
    Mais aqui nom estarey. _e ir-m'ey quando mandardes_
    mais aqui nom estarei.

    (Canc. nº. 554.)

    Pela lição da Vaticana, onde se vêem as duas strophes completas se
    infere que o defeito no _Cancioneirinho_ provem de um texto imperfeito
    e differente, porventura tirado do apographo hespanhol.

    Na canção XV _(Cancioneirinho)_ vem uma strophe imperfeita, porque é
    formada com duas, que lhe alteram o typo:

    _Cancioneirinho:_ _Codice da Vaticana:_

    E foi-las aguardar E fui-las aguardar
    E nom a pude ver; e nom o pude achar
    e moiro-me d'amor. e moiro-me d'amor!
    E fui-las atender,
    e nom no pude veer
    E moiro-me d'amor.

    A canção XVII do _Cancioneirinho_ tem só trez strophes; na lição do
    Codice da Vaticana, ha mais esta:

    Estas doas mui belas
    el m'as deu, ay donzelas,
    nom vol-as negarey;
    mas cintas das fivelas
    eu nom as cingirei.

    Com certeza esta deficiencia proveiu do apographo madrileno. Na canção
    XXI, a strophe 4ª está interpollada, e segundo a lição da Vaticana é
    que se conhece a proveniencia de outro codice:

    _Cancioneirinho:_ _Codice da Vaticana:_

    Cá novas me disserom Ca novas me disserom
    Que vem o meu amigo ca vem o meu amado
    C'and'eu mui leda. e and' eu mui leda,
    poys migu'é tal mandado;
    _E cuido sempre no meu coraçom poys migu'é tal mandado
    Pois nom cuid'al, des que vos vi, que vem o meu amado.
    Se nom en meu amigo,
    E d'amor sei que nulh'ome tem,_
    Pois migo é, tal _mandades;_
    Que vem o meu amado.

    Os versos sublinhados do _Cancioneirinho_, são visivelmente d'outra
    canção, porque tem outro typo strophico, e essa interpolação não se
    pode attribuir a erro de leitura de Varnhagem.

    Na canção XXV, ha uma 4ª strophe, que é repetição da 1ª; na lição da
    Vaticana não existe esta forma; evidentemente o editor do
    _Cancioneirinho_ seguiu aqui o codice madrileno.

    Na canção XLV falta esta strophe, que pela lição do texto da Vaticana
    se vê que é a segunda:

    Nom ja em al d'esto som sabedor
    de m'algum tempo quizera leixar
    e leix'e juro nom a ir matar
    mays poys la matam, serey sofredor
    sempre de coyt'em quant'eu viver,
    cá sol y cuido no seu parecer
    ey muyto mais d'outra rem desejar.

    Na canção XLVI, falta esta 4ª strophe da lição da Vaticana:

    Por en na sazom em que m'eu queixey
    a deus, hu perdi quanto desejei
    oy mais poss'en coraçom deus loar;
    e por que me poz em tal cobro que ey
    por senhor a melhor de quantas sey
    eu, que poz tanto bem que nom ha par.

    A canção XLVIII encerra a prova definitiva de que o codice madrileno
    serviu de base da edição do _Cancioneirinho_, e que esse codice
    proveiu de uma fonte diversa do da Vaticana; aí se acham essas duas
    strophes, que faltam no codice de Roma:

    O que se foi comendo dos murtinhos
    E a sa terra foi bever os vinhos,
    Nom vem al Maio.

    O que da guerra se foi com espanto
    E a sa terra se foi armar manto
    Nom vem al Maio.

    Por outro lado no codice madrileno tambem faltam cinco strophes, por
    que são omissas no _Cancioneirinho:_

    O que da guerra se foi com'emigo
    pero nom veo quand'a preyto sigo
    nom vem al Maio.

    O que tragia o pendou a _aquilom_
    e vendid'é sempr'a traiçom
    nom vem al Maio.

    O que tragia o pendou sen oyto,
    e a sa gente nom dava pam coyto,
    nom vem al Maio.

    E no final da canção:

    O que tragia pendom de cadarço
    macar nom veo no mez de Março,
    nom vem al Maio.

    O que da guerra foy por recaùdo
    macar em Burgos fez pintar escudo,
    nom vem al Maio.

    Indubitavelmente o codice madrileno provém de uma outra fonte, por que
    tem omissões e accrescentamentos, que o differenciam do Codice da
    Vaticana; mas a ordem das canções e os nomes dos trovadores, communs
    aos dois, provam-nos que ambos foram copiados de cancioneiros já
    organisados dos quaes um era já apographo. A circumstancia de
    começarem ambos pela trova de _Fernão Gonçalves_, e de se lêr no
    codice do Roma a nota: _"Manca da fol. ij in fino a fol. 43"_
    provam-nos que o original primitivo já andava truncado e é isto o que
    dá a mais alta importancia ao Indice de Colocci do Cancioneiro perdido
    que era a cópia mais antiga, por que o monumento diplomatico estava
    ainda completo. Monaci não desconheceu o valor das variantes do
    _Cancioneirinho_.

    Depois de toda esta discussão sobre os diminutos vestigios que restam
    de alguns cancioneiros portuguezes dos seculos XIII e XIV, a
    aproximação de numerosos factos secundarios, e as inducções que se
    formam sobre elles, exigem uma recapitulação clara para que se possam
    tirar a limpo algumas conclusões geraes. Representamos os cancioneiros
    que são conhecidos por letras maiusculas, e aquelles cuja existencia
    se pode inferir pelas variantes são notados por letras minusculas; com
    estes signaes formaremos uma tentativa de filiação de todos esses
    cancioneiros em um schema, que poderá, ser modificado á medida que se
    descobrirem novos subsidios:

    A.] _O Livro das Cantigas do Conde de Barcellos_,–citado no seu
    testamento, e deixado a Affonso XI, tambem trovador. Tendo em vista o
    genio compilador do Conde e o andar ligado ao seu Nobiliario o Codice
    da Ajuda, cancioneiro de varios auctores, pode-se inferir que o _Livro
    das Cantigas_ não era exclusivamente do Conde, mas sim uma compilação
    sua. No Cancioneiro da Vaticana encontram-se canções do Conde, de
    Affonso XI e grupos de canções do Codice da Ajuda em numero de
    cincoenta e seis assignadas por fidalgos da côrte de D. Diniz.

    B.] _O Cancioneiro de D. Diniz (Livro das Trovas de Elrei Dom Diniz;_
    existiu separado em volume pelo que se sabe pelo Catalogo dos Livros
    de Uso de el-rei Dom Duarte. Foi encorporado no codice da Vaticana
    depois da canção 79. B¹.] Outro, dos Freires de Christo de Thomar.

    C.] _O Cancioneiro da Ajuda_, começa em folhas 41, a parte anterior
    está perdida e o final não chegou a ser terminado. Isto explica as
    pequenas relações com o Codice de Roma.–As 24 canções achadas na
    Bibliotheca de Evora e as guardas da encadernação do Nobiliario provam
    o muito que se perdeu d'este cancioneiro. Não se chegou a escrever a
    musica das canções, nem a inscrever-lhes os nomes dos auctores que as
    assignavam, e por isso conclue-se que não chegou a servir para a
    collecção de Roma, que é assignada. Não chegaram a entrar n'elle
    canções de el-rei D. Diniz, e portanto entre este e o Cancioneiro de
    Roma pode fixar-se a existencia de outro cancioneiro hoje
    desconhecido.

    D.] _O Cancioneiro de D. Mecia de Cisneros_, grande volume de cantigas
    visto pelo Marquez de Santillana, que o descreve; já continha o
    cancioneiro de D. Diniz, e os trovadores do Codice de Roma citados
    pelo Marquez. Seria a primeira compilação geral, feita mesmo em
    Hespanha?

    E.] _O apographo de Colocci_, perdido talvez pela occasião do saque de
    Roma em 1527, e do qual só se conserva o Indice dos Autores. Tinha
    intimas relações com o codice de D. Mecia. No principio apresentava
    varios _lais_ no gosto bretão e pelos _Nobiliarios_, vemos que o Conde
    Dom Pedro se refere ás tradições bretãs, e tambem el-rei Dom Diniz.
    Seria esta parte assimilada do _Livro das Cantigas_ do Conde de
    Barcellos?

    F.] _Cancioneiro da Vaticana, nº_. 4803; este é menos completo do que
    o antecedente, o que prova que foi copiado de outra fonte. Colocci por
    sua letra o emendou pelo codice hoje perdido. Tem este cancioneiro 56
    canções similhantes no Cancioneiro da Ajuda, com variantes notaveis,
    signal que ambos os Codices se derivam de duas fontes diversas. Tem
    uma parte relativa a successos da côrte de Dom Affonso IV, que provem
    de cancioneiros extranhos e posteriores ao Cancioneiro da Ajuda. A
    ordem dos trovadores não é a mesma do Indice de Colocci.

    G.] _Copia ms. de um Grande de Hespanha_.–Em cincoenta canções
    reproduzidas por Varnhagem acham-se variantes fundamentaes com
    relações á lição do codice de Roma, signal de que a copia alludida
    provém de uma fonte extranha e de epoca differente.

    Os cancioneiros desconhecidos, mas intermediarios aos supracitados são
    hypotheticamente:

    a, b.] Cancioneiros anteriores ás collecções da côrte de D. Diniz, com
    que se formou e, d'onde se trasladou o Cancioneiro da Ajuda, como se
    justifica pelas variantes dos 56 canções reproduzidas no de Roma.

    c.] Cancioneiro perdido, d'onde se não chegou a copiar nem a musica
    das canções nem o nome dos trovadores para o Cancioneiro da Ajuda.

    d.] Cancioneiro onde se encorporaram o _Livro das Cantigas_ e
    _Cancioneiro de D. Diniz_, o que justifica as differenças entre o
    Codice de Dona Mecia e o de Colocci.

    e.] Cancioneiro perdido, cuja existencia se induz das variantes entre
    o Cancioneiro da Vaticana, o de Colocci e o do grande de Hespanha.

    Eis por tanto a nossa tentativa de schema de filiação dos cancioneiros
    portuguezes dos seculos XIII e XIV:

    a b
    ——-/
    c
    C ABB¹
    ———/
    D d
    /———
    E e
    -/
    G F

    É provavel que esta connexão ache contradictores, porém aí ficam todos
    os elementos que pudemos agrupar, para que outros estabeleçam uma
    filiação mais verosímil. Só depois de estudada a historia externa do
    Cancioneiro da Vaticana é que se pode entrar com desassombro no
    desenho da grande epoca litteraria que elle representa. Bem o
    desejaramos fazel-o diante dos que estudam as producções do fim da
    edade media, para reconstruirmos de novo o livro dos _Trovadores
    galecio-portugueses_, escripto antes da posse de tamanhas riquezas. Á
    medida que em Portugal fôr renascendo o amor pela tradição nacional, o
    nome de Ernesto Monaci figurará como de um benemerito, que restituiu a
    este paiz um dos mais bellos monumentos do seu passado historico.

    [1] Fernão Lopes, _Chron. de D. Pedro_ I, cap. 31.
    [2] _Leges Wallice,_ p. 779, 861.
    [3] _Obras del Marquez de Santillana,_ p. XX.
    [4] _Hist. litter. de l'Italie,_ t.IV, p.17.
    [5] _Op. cit_, p.8.
    [6] _Ginguené, Hist. litt_, t. IV, p. 41.
    [7] _Tiraboschi, Storia della Letteratura italiana_, t. VII, 246.

  • Noções elementares de archeologia

    Noções elementares de archeologia

    Aproximadamente 49.550 palavras.

    *NOTICE HISTORIQUE ET ARTISTIQUE* des principaux édifices religieux
    du Portugal, in-8.^o, Lisbonne, 1873.

    *ELOGIO HISTORICO* do architecto membro do instituto Mr. Victor
    Baltard, lido na sessão solemne da Real Associação dos Architectos
    Civis e Archeologos Portuguezes, em Maio de 1874, Lisboa, in-4.^o

  • Marilia de Dirceo

    Marilia de Dirceo

    Aproximadamente 21.475 palavras.

    Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
    Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
    produced from images generously made available by National
    Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)

    MARILIA DE DIRCEO.

    MARILIA DE DIRCEO.

    POR T.A.G.

    PRIMEIRA PARTE.

    LISBOA:

    Na Typ. de J.F.M. de Campos. 1824.

    MARILIA DE DIRCEO.

    LYRA I.

    Eu, Marilia, não sou algum vaqueiro,
    Que viva de guardar alheio gado,
    De tosco trato, de expressões grosseiro,
    Dos frios gelos, e dos sóes queimado.
    Tenho proprio casal, e nelle assisto;
    Dá-me vinho, legume, fruta, azeite,
    Das brancas ovelhinas tiro o leite,
    E mais as finas lãs, de que me visto.
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    Eu vi o meu semblante n'uma fonte,
    Dos annos inda não está cortado:
    Os Pastores, que habitão este monte,
    Respeitão o poder do meu cajado.
    Com tal destreza toco a sanfoninha,
    Que inveja até me tem o proprio Alceste:
    Ao som della concerto a voz celeste;
    Nem canto letra que não seja minha.
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    Mas tendo tantos dotes da ventura,
    Só aprêço lhes dou, gentil Pastora,
    Depois que o teu affecto me segura,
    Que queres do que tenho ser Senhora.
    He bom, minha Marilia, he bom ser dono
    De hum rebanho, que cubra monte, e prado
    Porém, gentil Pastora, o teu agrado
    Vale mais [~q] h[~u] rebanho, e mais [~q] h[~u] throno.
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    Os teus olhos espalhão luz divina,
    A quem a luz do Sol em vão se atreve:
    Papoila, ou rosa delicada, e fina,
    Te cobre as faces, que são côr da neve.
    Os teus cabellos são huns fios d'ouro;
    Teu lindo corpo balsamos vapora.
    Ah! não, não fez o Ceo, gentil Pastora,
    Para gloria de Amor igual Thesouro.
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    Leve-me a sementeira muito embora
    O rio sobre os campos levantado:
    Acabe, acabe a peste matadora,
    Sem deixar huma rez, o nedeo gado.
    Já destes bens, Marilia, não preciso:
    Nem me céga a paixão, que o mundo arrasta,
    Para viver feliz, Marilia, basta
    Que os olhos movas, e me dês hum riso.
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    Hirás a divertir-te na floresta,
    Sustentada, Marilia, no meu braço;
    Aqui descançarei a quente sésta,
    Dormindo num leve somno em teu regaço:
    Era quanto a luta jogão os Pastores,
    E emparelhados correm nas campinas,
    Toucarei teus cabellos de boninas,
    Nos troncos gravarei os teus louvores.
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    Depois que nos ferir a mão da Morte
    Ou seja neste monte, ou n'outra serra,
    Nossos corpos terão, terão a sorte
    De consumir os dous a mesma terra.
    Na campa, rodeada de cyprestes,
    Leráõ estas palavras os Pastores:
    "Quem quizer ser feliz nos seus amores,
    Siga os exemplos que nos derão estes"
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    LYRA II.

    Pintão, Marilia, os Poetas
    A hum menino vendado,
    Com huma aljava de settas,
    Arco empunhado na mão:
    Ligeiras azas nos hombros,
    O tenro corpo despido;
    E de Amor, ou de Cupido
    São os nomes que lhe dão.

    Porém eu, Marilia, nego,
    Que assim seja Amor; pois elle
    Nem he moço, nem he cégo,
    Nem settas, nem azas tem,
    Ora pois, eu vou formar-lhe
    Hum retrato mais perfeito,
    Que elle já ferio meu peito;
    Por isso o conheço bem.

    Os seus compridos cabellos;
    Que sobre as costas ondeão,
    São que os de Apollo mais bellos;
    Mas de loura côr não são.
    Tem a côr da negra noite;
    E com o branco do rosto
    Fazem, Marilia, hum composto
    Da mais formosa união.

    Tem redonda, e lisa testa;
    Arqueadas sobrancelhas;
    A voz meiga, a vista honesta,
    E seus olhos são huns sóes,
    Aqui vence Amor ao Ceo,
    Que no dia luminoso
    O Ceo tem hum Sol formoso,
    E o travesso Amor tem dous.

    Na sua face mimosa,
    Marilia, estão misturadas
    Purpureas folhas de rosa,
    Brancas folhas de jasmim.
    Dos rubins mais preciosos
    Os seus beiços são formados;
    Os seus dentes delicados
    São pedaços de marfim.

    Mal vi seu rosto perfeito
    Dei logo hum suspiro, e elle
    Conheceo haver-me feito
    Estrago no coração.
    Punha em mim os olhos, quando
    Entendia eu não olhava:
    Vendo que o via, baixava
    A modesta vista ao chão.

    Chamei-lhe hum dia formoso;
    Elle ouvindo os seus louvores
    Com hum modo desdenhoso,
    Se surrio, e não fallou.
    Pintei-lhe outra vez o estado,
    Em que estava esta alma posta;
    Não me deo tambem resposta,
    Constrangeo-se, e suspirou.

    Conheço os signaes, e logo
    Animado da esperança,
    Busco dar hum desaffogo
    Ao cansado coração.
    Pégo em seus dedos nevados,
    E querendo dar-lhe hum beijo,
    Cubrio-se todo de pejo,
    E fugio-me com a mão.

    Tu, Marilia, agora vendo
    De Amor o lindo retrato,
    Comtigo estarás dizendo,
    Que he este o retrato teu.
    Sim, Marilia, a copia he tua,
    Que Cupido he Deos supposto:
    Se ha Cupido he só teu rosto,
    Que elle foi quem me venceo.

    LYRA III.

    De amar, minha Marilia, a formosura
    Não se podem livrar humanos peitos.
    Adorão os Heróes, e os mesmos brutos
    Aos grilhões de Cupido estão sujeitos.
    Quem, Marilia, despreza huma belleza,
    A luz da razão precisa,
    E se tem discurso, pisa
    A Lei, que lhe ditou a Natureza.

    Cupido entrou no Ceo. O grande Jove
    Huma vez se mudou em chuva de ouro:
    Outras vezes tomou as varias fórmas
    De General de Thebas, velha, e touro,
    O proprio Deos da Guerra deshumano
    Não viveo de amor illeso;
    Quiz a Venus, e foi prezo
    Na rede, que lhe armou o Deos Vulcano.

    Se amar huma belleza se desculpa
    Em quem ao proprio Ceo, e terra move;
    Qual he a minha gloria, pois igualo,
    Ou excedo no amor ao mesmo Jove?
    Amou o Pai dos Deoses Soberano
    Hum semblante peregrino:
    Eu adoro o teu divino,
    O teu divino rosto, e sou humano.

    LYRA IV.

    Marilia, teus olhos
    São réos, e culpados,
    Que soffra, e que beije
    Os ferros pezados
    De injusto Senhor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Mal vi o teu rosto,
    O sangue gelou-se,
    A lingoa prendeo-se,
    Tremi, e mudou-se
    Das faces a côr.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    A vista furtiva,
    O risco imperfeito,
    Fizerão a chaga,
    Que abriste no peito
    Mais funda, e maior.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Dispuz-me a servir-te;
    Levava o teu gado
    Á fonte mais clara,
    Á vargem, e prado
    De relva melhor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Se vinha da herdade,
    Trazia nos ninhos
    As aves nascidas,
    Abrindo os biquinhos
    De fome ou temor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Se alguem te louvava
    De gosto me enchia;
    Mas sempre o ciume
    No rosto accendia
    Hum vivo calor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Se estavas alegre,
    Dirceo se alegrava;
    Se estavas sentida,
    Dirceo suspirava
    Á força da dor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Fallando com Laura,
    Marilia dizia;
    Surria-se aquella,
    E eu conhecia
    O erro de amor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Movida, Marilia,
    De tanta ternura,
    Nos braços me déste,
    Da tua fé pura
    Hum doce penhor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Tu mesma disseste
    Que tudo podia
    Mudar de figura;
    Mas nunca seria
    Teu peito traidor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Tu já te mudaste;
    E a Olaia frondoza,
    Aonde escreveste
    A jura horrorosa,
    Tem todo o vigor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Mas eu te desculpo,
    Que o fado tyranno
    Te obriga a deixar-me;
    Pois busca o meu damno
    Da sorte, que for.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    LYRA V.

    A caso são estes
    Os sitios formosos,
    Aonde passava
    Os annos gostosos?
    São estes os prados,
    Aonde brincava,
    Em quanto pastava
    O manso rebanho,
    Que Alceo me deixou?
    São estes os sitios?
    São estes; mas eu
    O mesmo não sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.

    Daquelle penhasco
    Hum rio cahia,
    Ao som do sussurro
    Que vezes dormia!
    Agora não cobrem
    Espumas nevadas
    As pedras quebradas:
    Parece que o rio
    O curso voltou.
    São estes os sitios?
    São estes; mas eu
    O mesmo não sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.

    Meus versos alegre
    Aqui repetia:
    O Eco as palavras
    Tres vezes dizia.
    Se chamo por elle
    Já não me responde;
    Parece se esconde,
    Cansado de dar-me
    Os ais que lhe dou.
    São estes os sitios?
    São estes; mas eu
    O mesmo não sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.
    Aqui hum regato
    Corria sereno,
    Por marg[~e]s cobertas
    De flores, e feno:
    Á esquerda se erguia
    Hum bosque fechado;
    E o tempo apressado,
    Que nada respeita,
    Já tudo mudou.
    São estes os sitios?
    São estes; mas eu
    O mesmo não sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.

    Mas como discorro?
    Acaso podia
    Já tudo mudar-se
    No espaço de hum dia?
    Existem as fontes,
    E os freixos copados;
    Dão flores os prados,
    E corre a cascata,
    Que nunca seccou.
    São estes os sitios?
    São estes; mas eu
    O mesmo não sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.

    Minha alma, que tinha
    Liberta a vontade,
    Agora já sente
    Amor, e saudade.
    Os sitios formosos,
    Que já me agradárão,
    Ah! não se mudárão!
    Mudárão-se os olhos,
    De triste que estou.
    São estes os sitios?
    São estes; mas eu
    O mesmo não sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.

    LYRA VI.

    Oh! quanto póde em nós a varia Estrella!
    Que diversos que são os genios nossos!
    Qual solta a branca vélla,
    E affronta sobre o pinho os mares grossos.
    Qual cinge com a malha o peito duro;
    E marchando na frente das cohortes,
    Faz a toare voar, cahir o muro.

    O sordido avarento em vão trabalha,
    Que possa o filho entrar no seu Thesouro.
    Aqui fechado estende
    Sobre a taboa, que verga, as barras de ouro.
    Sacode o jogador da copo os dados;
    E n'uma noite só, que ao somno rouba,
    Perde o resto dos bens do pai herdados.

    O que da voráz gulla o vicio adora
    Da lauta meza os prazeres fia.
    E o terno Alceste chora
    Ao som dos versos a que o genio o guia.
    O sabio Gallileo toma o compasso,
    E sem voar ao Ceo, calcula, e mede
    Das Estrellas, e Sol o immenso espaço.

    Em quanto pois, Marilia, a varia gente,
    Se deixa conduzir do proprio gosto;
    Passo as horas contente
    Notando as graças do teu lindo rosto.
    Sem cansar-me a saber se o Sol se móve,
    Ou se a terra voltea, assim conheço.
    Aonde chega a mão do grande Jove.

    Noto, gentil Marilia, os teus cabellos;
    E noto as faces de Jasmins, e rosas:
    Noto os teus olhos bellos;
    Os brancos dentes, e as feições mimosas.
    Quem fez huma obra tão perfeita, e linda,
    Minha bella Marilia, tambem póde
    Fazer os Ceos, e mais, se ha mais ainda.

    LYRA VII.

    Vou retratar a Marilia,
    A Marilia meus amores;
    Porém como, se eu não vejo
    Quem me empreste as finas cores!
    Dar-mas a terra não póde;
    Não que a sua côr mimosa
    Vence o lyrio, vence a rosa:
    O jasmim, e as outras flores.
    Ah soccorre, Amor, soccorre
    Ao mais grato empenho meu!
    Vôa sobre os Astros, vôa,
    Traze-me as tintas do Ceo.

    Mas não se esmoreça logo;
    Busquemos hum pouco mais;
    Nos mares talvez se encontrem
    Cores que sejão iguaes.
    Porém não, que em parallelo
    Da minha Ninfa adorada
    Perolas não valem nada,
    Não valem nada os coraes.
    Ah soccorre, Amor, soccorre
    Ao mais grato empenho meu!
    Vôa sobre os Astros, vôa,
    Traze-me as tintas do Ceo.

    Só no Ceo achar se podem
    Taes bellezas, como aquellas,
    Que Marilia tem nos olhos,
    E que tem nas faces bellas.
    Mas ás faces graciosas,
    Aos negros olhos, que matão,
    Não imitão, não retratão
    Nem Auroras, nem Estrellas.
    Ah soccorre, Amor, soccorre
    Ao mais grato empenho meu!
    Vôa sobre os Astros, vôa,
    Traz-me as tintas do Ceo.

    Entremos, Amor, entremos,
    Entremos na mesma Esfera.
    Venha Pallas, Venha Juno,
    Venha a Deosa de Cithera.
    Porém não, que se Marilia
    No certame antigo entrasse,
    Bem que a Paris não peitasse,
    A todas as tres vencera.
    Vai-te, Amor, em vão soccorres
    Ao mais grato empenho meu:
    Para formar-lhe o retrato
    Não bastão tintas do Ceo.

    LYRA VIII.

    Marilia, de que te queixas?
    De que te roube Dirceo
    O sincero coração?
    Não te deo tambem o seu?
    E tu, Marilia, primeiro
    Não lhe lançaste o grilhão?
    Todos amão: só Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Queria ter izenção?

    Em torno das castas pombas
    Não rulão ternos pombinhos?
    E rulão, Marilia, em vão?
    Não se afagão c'os biquinhos?
    E a provas de mais ternura
    Não os arrasta a paixão?
    Todos amão: só Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Queria, ter izenção?

    Já viste, minha Marilia,
    Avezinhas, que não fação
    Os seus ninhos no verão?
    Aquellas com quem se enlação
    Não vão cantar-lhe defronte
    Do molle pouzo em que estão?
    Todos amão: só Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Queria ter izenção?

    Se os peixes, Marilia, gerão
    Nos bravos mares, e rios,
    Tudo effeitos de Amor são.
    Amão os brutos impios,
    A serpente venenosa,
    A Onça, o Tigre, o Leão.
    Todos amão: só Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Queria ter izenção?

    As grandes Deosas do Ceo,
    Sentem a setta tyranna
    Da amorosa inclinação.
    Diana, com ser Diana,
    Não se abrasa, não suspira
    Pelo amor de Endymão?
    Todos amão: só Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Queria ter izençao?

    Desiste, Marilia bella,
    De huma queixa sustentada
    Só na altiva opinião.
    Esta chamma he inspirada
    Pelo Ceo; pois nella assenta
    A nossa conservação.
    Todos amão: só Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Não deve ter izenção.

    LYRA IX.

    Eu sou, gentil Marilia, eu sou captivo,
    Porém não me venceo a mão armada
    De ferro, e de furor:
    Huma alma sobre todas elevada
    Não cede a outra força que não seja
    Á tenra mão de Amor.

    Arrastem pois os outros muito embora
    Cadêas nas bigornas trabalhadas
    Com pezados martellos:
    Eu tenho as minhas mãos ao carro atadas
    Com duros ferros não, com fios d'ouro,
    Que são os teus cabellos.

    Occulto nos teus meigos vivos olhos
    Cupido a tudo faz tyranna guerra:
    Sacode a setta ardente;
    E sendo despedida cá da terra,
    As nuvens rompe, chega ao alto Impirio,
    E chega ainda quente.

    As abelhas nas azas suspendidas
    Tirão, Marilia, os succos saborosos
    Das orvalhadas flores:
    Pendentes dos teus beiços graciosos
    Ambrosias chupão, chupão mil feitiços
    Nunca fartos Amores.

    O vento quando parte em largas fitas
    As folhas, que menêa com brandura;
    A fonte crystallina,
    Que sobre as pedras cáe de immensa altura;
    Não fórma hum som tão doce, como fórma
    A tua voz divina.

    Em torno dos teus peitos, que palpitão;
    Exalão mil suspiros desvelados
    Enchames de desejos;
    Se encontrão os teus olhos descuidados,
    Por mais que se atropelem, voão, chegão,
    E dão furtivos beijos.

    O Cisne, quando corta o manso lago,
    Erguendo as brancas azas, e o pescoço;
    A Náo que ao longe passa,
    Quando o vento lhe infuna o panno grosso;
    O teu garbo não tem, minha Marilia,
    Não tem a tua graça.

    Estimem pois os mais a liberdade:
    Eu prézo o captiveiro: sim, nem chamo
    Á mão de Amor impia:
    Honro a virtude, e os teus dotes amo:
    Tambem o grande Achilles veste a saia
    Tambem Alcides fia.

    LYRA X.

    Se existe hum peito,
    Que izento viva
    Da chamma activa,
    Que accende Amor.
    Ah! não habite
    Neste montado;
    Fuja apressado
    Do vil traidor.

    Corra, que o Impio
    Aqui se esconde:
    Não sei aonde;
    Mas sei o que vi.
    Traz novas settas,
    Arco robusto;
    Tremi de susto;
    Em vão fugi.

    Eu vou mostrar-vos,
    Tristes mortaes,
    Quantos signaes
    O Impio tem.
    Oh! como he justo,
    Que todo o humano
    Hum tal tyranno
    Conheça bem!

    No corpo ainda
    Menino existe:
    Mas quem resiste
    Ao braço seu?
    Ao negro Inferno
    Levou a guerra:
    Vencêo a terra,
    Vencêo o Ceo.

    Já mais se cobrem
    Seus membros bellos;
    E os seus cabellos
    Que lindos são!
    Vendados olhos,
    Que tudo alcanção,
    E já mais lanção
    A setta em vão.

    As suas faces
    São côr da neve;
    E a bocca breve
    Só rizos tem.
    Mas, ah! respira
    Negros venenos,
    Que nem ao menos
    Os olhos vem.

    Aljava grande
    Dependurada,
    Sempre atacada
    De bons farpões.
    Fere com estas
    Agudas lanças,
    Pombinhas mansas,
    Bravos leões.

    Se a setta falta
    Tem outra prompta,
    Que a dura ponta
    Já mais torcêo.
    Ninguem resiste
    Aos golpes della:
    Marilia bella
    Foi quem lha dêo.

    Ah! não sustente
    Dura peleija,
    O que deseja
    Ser vencedor.
    Fuja, e não olhe,
    Que só fugindo
    De hum rosto lindo,
    Se vence Amor.

    LYRA XI.

    Naõ toques, minha Musa, não, não toques
    Na sonorosa Lyra,
    Que ás almas, como a minha, namoradas
    Doces Canções inspira:
    Assopra no clarim, que apenas sôa
    Enche de assombro a terra;
    Naquelle, a cujo som cantou Homero,
    Cantou Virgilio a Guerra.

    Busquemos, ó Musa,
    Empreza maior;
    Deixemos as ternas
    Fadigas de Amor.

    Eu já não vejo as graças, de que fórma
    Cupido o seu thesouro:
    Vivos olhos, e faces côr da neve,
    Com crespos fios de ouro;
    Meus olhos só vem gramas, e loureiros;
    Vem carvalhos, e palmas;
    Vem os ramos honrosos, que destinguem
    As vencedoras almas.

    Busquemos, ó Musa,
    Empreza maior;
    Deixemos as ternas
    Fadigas de Amor.

    Cantemos o Heróe, que já no berço
    As Serpes despedaça;
    Que fere os Cácos, que destronca as Hidras,
    Mais os leões que abraça.
    Cantemos, se isto he pouco, a dura guerra
    Dos Tritães, e Tyféos,
    Que arrancão as montanhas, e atrevidos
    Levão armas aos Ceos.

    Busquemos, ó Musa,
    Empreza maior;
    Deixemos as ternas
    Fadigas de amor.

    Anima pois, ó Musa, o instrumento,
    Que a voz tambem levanto;
    Porém tu déste muito assima o ponto,
    Dirceo não póde tanto:
    Abaixa, minha Musa, o tom, que ergueste;
    Eu já, eu já te sigo.
    Mas, ah! vou a dizer _Heróe_, e _Guerra_,
    E só _Marilia_ digo.

    Deixemos, ó Musa,
    Empreza maior,
    Só posso seguir-te
    Cantando de Amor.

    Feres as cordas d'ouro? Ah! sim, agora
    Meu canto já se afina;
    E a huma voz, parece que ao som dellas
    Se faz tambem divina.
    O mesmo que cercou de muro a Thebas
    Não canta assim tão terno;
    Nem póde competir comigo aquelle,
    Que desce ao negro Inferno.

    Deixemos, ó Musa,
    Empreza maior,
    Só posso seguir-te
    Cantando de Amor.

    Mal repito _Marilia_, as doces aves
    Mostrão signaes de espanto,
    Erguem os collos, voltão as cabeças,
    Parão o ledo canto;
    Move-se o tronco, o vento se suspende
    Pasma o gado, e não come:
    Quanto podem meus versos! Quanto póde
    Só de Marilia o nome!

    Deixemos, ó Musa,
    Empreza maior;
    Só posso seguir-te
    Cantando de Amor.

    LYRA XII.

    Topei hum dia
    Ao Deos vendado,
    Que descuidado
    Não tinha as settas
    Na impia mão.
    Mal o conheço,
    Me sóbe logo
    Ao rosto o fogo,
    Que a raiva accende
    No coração.

    _Morre, Tyranno,
    Morre, inimigo_!
    Mal isto digo,
    Raivoso o apérto
    Nos braços meus.
    Tanto que o moço
    Sente apertar-se,
    Para salvar-se
    Tambem me aperta
    Nos braços seus.

    O leve corpo
    Ao ar levanto,
    Ah! e com quanto
    Impulso o trago
    Do ar ao chão!
    Poude suster-se
    A vez primeira;
    Mas á terceira
    Nos pés, que alarga,
    Se firma em vão.

    Mal o derrubo,
    Ferro aguçado
    No já cançado
    Peito, que arqueja,
    Mil golpes deo.
    Suou seu corpo;
    Tremêo gemendo;
    E á côr perdendo,
    Batêo as azas;
    Em fim morreo.

    Qual bravo Alcides,
    Que a hirsuta pelle
    Vestio daquelle
    Grenhoso bruto,
    A quem matou.
    Para que próve
    A empreza honrada,
    C'o a mão manchada
    Recolho as settas,
    Que me deixou.

    Ouvio Marilia
    Que Amor gritava,
    E como estava
    Vizinha ao sitio
    Valer-lhe vem.
    Mas quando chega
    Espavorida,
    Nem já de vida
    O féro monstro
    Indicio tem.

    Então Marilia,
    Que o vê de perto
    De pó cuberto,
    E todo involto
    No sangue seu;
    As mãos aperta
    No peito brando,
    E afflicta dando
    Hum ai, os olhos
    Levanta ao Ceo.

    Chega-se a elle
    Compadecida;
    Lava a ferida
    C'o pranto amargo,
    Que deramou.
    Então o monstro
    Dando hum suspiro,
    Fazendo hum gyro
    C'o a baça vista,
    Resuscitou.

    Respira a Deosa;
    E vem o gosto
    Fazer no rosto
    O mesmo effeito,
    Que fez a dôr.
    Que louca idéa
    Foi a que tive!
    Em quanto vive
    Marilia bella,
    Não morre Amor.

    LYRA XIII.

    Oh! quantos riscos,
    Marilia bella,
    Não atropella
    Quem cégo arrasta
    Grilhões de Amor!
    Hum peito forte,
    De acordo falto,
    Zomba do assalto
    Do vil traidor.

    O amante de Hero
    Da luz guiado,
    C'o peito ousado
    Na escura noite
    Rompia o mar,
    Se o Helesponto
    Se encapellava,
    Ah! não deixava
    De lhe ir fallar.

    Do cantor Thracio
    A heroicidade
    Esta verdade,
    Minha Marilia,
    Prova tambem.
    Cheio de esfôrço
    Vai ao Cocyto
    Buscar afflito
    Seu doce bem.

    Que acção tão grande
    Nunca intentada!
    Ao pé da entrada
    Já tudo assusta
    O coração!
    Pendentes rochas,
    Campos adustos,
    Que nem arbustos
    Nem hervas dão.

    Na funda fralda
    De calvo monte,
    Corre Acheronte,
    Rio de ardente
    Mortal licor.
    Tem o barqueiro
    Testa enrugada,
    Vista inflammada,
    Que mete horror.

    Que seguranças!
    Que fechaduras!
    As portas duras
    Não são de lenhos;
    De ferro são.
    Por tres gargantas,
    Quando alguem bate,
    Raivoso late
    O negro cão.

    Dentro da cova
    Soão lamentos;
    E que tormentos
    Não mostra aos olhos
    A escassa luz!
    Minos a pena
    Manda se intime
    Igual ao crime,
    Que alli conduz.

    Grande penedo
    Este carrega;
    E apenas chega
    Do monte ao cume,
    O faz rolar.
    A pedra sempre
    Ao valle desce,
    Sem que elle cesse
    De a ir buscar.

    Nas limpas aguas
    Habita aquelle:
    Por cima delle
    Verdejão ramos,
    Que pomos dão.
    Debalde a bocca
    Molhar pertende;
    De balde estende
    Faminta mão.

    Tem outro o peito
    Despedaçado:
    Monstro esfaimado
    Já mais descança
    De lho roêr.
    A rôxa carne,
    Que o abutre come,
    Não se consome,
    Torna a crescer.

    Mas bem que tudo
    Pavor inspira,
    Tocando a lyra
    Desce ao Averno
    O bom Cantor.
    Não se entorpece
    A lingua, e braço;
    Não treme o passo,
    Não perde a côr.

    Ah! tambem quanto
    Dirceo obrára,
    Se precisára,
    Marilia bella,
    Do esforço seu!
    Rompêra os mares
    C'o peito terno,
    Fôra ao Inferno,
    Subíra ao Ceo.

    Aos dois amantes
    De Thracia, e Abydo
    Não deo Cupido
    Do que aos mais todos
    Maior valor.
    Por seus vassallos
    Forças reparte,
    Como lhes parte
    Os gráos de Amor.

    LYRA XIV.

    Minha bella Marilia, tudo passa;
    A sorte deste mundo he mal segura;
    Se vem depois dos males a ventura,
    Vem depois dos prazeres a desgraça.
    Estão os mesmos Deoses
    Sujeitos ao poder do impio Fado:
    Apollo já fugio do Ceo brilhante,
    Já foi Pastor de gado.

    A devorante mão da negra Morte
    Acaba de roubar o bem, que temos;
    Até na triste campa não podemos
    Zombar do braço da inconstante sorte.
    Qual fica no sepulchro,
    Que seus a vós erguêrão, descançando:
    Qual no campo, e lhe arranca os frios casos
    Ferro do torto arado.

    Ah! em quanto os Destinos impiedosos
    Não voltão contra nós a face irada,
    Façamos, sim façamos, doce amada,
    Os nossos breves dias mais ditosos.
    Hum coração que frouxo
    A grata posse de seu bem difere,
    A si, Marilia, a si proprio rouba,
    E a si proprio fere.

    Ornemos nossas testas com as flores,
    E façamos de feno hum brando leito,
    Prendamo-nos, Marilia, em laço estreito,
    Gozemos do prazer de sãos Amores.
    Sobre as nossas cabeças,
    Sem que o possão deter, o tempo corre;
    E para nós o tempo, que se passa,
    Tambem, Marilia, morre.

    Com os annos, Marilia, o gôsto falta,
    E se entorpece o corpo já cançado;
    Triste o velho cordeiro está deitado,
    E o leve filho sempre alegre salta.
    A mesma formosura
    He dote, que só goza a mocidade:
    Rugão-se as faces, o cabello alveja,
    Mal chega a longa idade.

    Que havemos d'esperar, Marilia bella?
    Que vão passando os florecentes dias?
    As glorias, que vem tarde, já vem frias;
    E póde em fim mudar-se a nossa estrella.
    Ah! não, minha Marilia,
    Aproveite-se o tempo, antes que faça
    O estrago de roubar ao corpo as forças,
    E ao semblante a graça.

    LYRA XV.

    A minha bella Marilia
    Tem de seu hum bom thesouro,
    Não he, doce Alceo, formado
    Do buscado
    Metal louro.
    He feito de huns alvos dentes,
    He feito de huns olhos bellos,
    De humas faces graciosas,
    De crespos, finos cabellos;
    E de outras graças maiores,
    Que a natureza lhe dêo:
    Bens, que valem sobre a terra,
    E que tem valor no Ceo.

    Eu posso romper os montes,
    Dar ás correntes desvios,
    Pôr cercados espaçosos
    Nos caudosos
    Turvos rios.
    Posso emendar a ventura
    Ganhando astuto a riqueza;
    Mas, ah! charo Alceo, quem póde
    Ganhar huma só belleza
    Das bellezas, que Marilia
    No seu thesouro metêo?
    Bens, que valem sobre a terra,
    E que tem valor no Ceo.

    Da sorte, que vive o rico
    Entre o fausto alegremente,
    Vive o guardador de gado
    Apoucado,
    Mas contente.
    Beije pois torpe avarento
    As arcas de barras chêas:
    Eu não beijo os vís thesouros;
    Beijo as douradas cadêas,
    Beijo as settas, beijo as armas
    Com que o cego Amor vencêo:
    Bens, que valem sobre a terra,
    E que tem valor no Ceo.

    Ama Apollo o fero Marte,
    Ama, Alceo, o mesmo Jove:
    Não he, não, a vã riqueza,
    Sim belleza,
    Quem os move.
    Posto ao lado de Marilia
    Mais que mortal me contemplo:
    Deixo os bens, que aos homens cegão,
    Sigo dos Deoses o exemplo:
    Amo virtudes, e dotes;
    Amo em fim, prezado Alceo,
    Bens, que valem sobre a terra,
    E que tem valor no Ceo.

    LYRA XVI.

    Eu, Glauceste, não duvido
    Ser a tua Eulina amada
    Pastora formosa,
    Pastora engraçada.
    Vejo a sua côr de rosa,
    Vejo o seu olhar divino,
    Vejo os seus purpùreos beiços,
    Vejo o peito crystallino;
    Nem ha cousa, que assemelhe
    Ao crespo cabello louro.
    Ah! que a tua Eulina vale,
    Vale hum immenso thesouro!

    Ella vence muito, e muito
    Á laranjeira copada,
    Estando de flores,
    E frutos ornada.
    He, Glauceste, os teus Amores;
    E nem por outra Pastora,
    Que menos dotes tivera,
    Ou que menos bella fôra,
    O meu Glauceste cançára
    As divinas cordas de ouro.
    Ah! que a tua Eulina vale,
    Val hum immenso thesouro!

    Sim, Eulina he huma Deosa;
    Mas anîma a formosura
    De huma alma de féra,
    Ou inda mais dura.
    Ah! quando Alceo pondéra
    Que o seu Glauceste suspira,
    Perde, perde o soffrimento,
    E qual enfermo delira!
    Tenha embora brancas faces,
    Meigos olhos, fios de ouro,
    A tua Eulina não vale,
    Não vale immenso thesouro.

    O fuzil, que imita a cobra,
    Tambem aos olhos he bello;
    Mas quando alumêa,
    Tu tremes de velo.
    Que importa se mostre chêa
    De mil bellezas a ingrata?
    Não se julga formosura
    A formosura, que mata.
    Evita, Glauceste, evita
    O teu estrago, e desdouro;
    A tua Eulina não vale,
    Não vale immenso thesouro.

    A minha Marilia quanto
    Á natureza não deve!
    Tem divino rosto,
    E tem mãos de neve.
    Se mostro na face o gôsto,
    Ri-se Marilia contente:
    Se canto, canta comigo;
    E apenas triste me sente,
    Limpa os olhos com as tranças
    Do fino cabello louro.
    A minha Marilia vale,
    Vale hum immenso thesouro.

    LYRA XVII.

    Minha Marilia,
    Tu enfadada?
    Que mão ousada
    Perturbar póde
    A paz sagrada
    Do peito teu?

    Porém que muito
    Que irado esteja
    O teu semblante
    Tambem troveja
    O Claro Ceo.

    Eu sei, Marilia,
    Que outra Pastora
    A toda a hora,
    Em toda a parte,
    Céga namora
    Ao teu Pastor.

    Ha sempre fumo
    Aonde ha fogo;
    Assim, Marilia,
    Ha zelos, logo
    Que existe amor.

    Olha, Marilia,
    Na fonte pura
    A tua alvura,
    A tua bocca,
    E a compostura
    Das mais feições.
    Quem tem teu rosto,
    Ah! não receia,
    Que terno amante
    Solte a cadeia,
    Quebre os grilhões.

    Não anda Laura
    Nestas campinas
    Sem as boninas
    No seu cabello,
    Sem pelles finas
    No seu jubão.

    Porém que importa?
    O rico aceio
    Não dá, Marilia,
    Ao rosto feio
    A perfeição.

    LYRA XVIII.

    Não ves aquelle velho respeitavel,
    Que á moleta encostado,
    Apenas mal se move, e mal se arrasta?
    Oh quanto estrago não lhe fez o tempo?
    O tempo arrebatado,
    Que o mesmo bronze gasta.

    Enrugárão-se as faces, e perdêrão
    Seus olhos a viveza;
    Voltou-se o seu cabello em branca neve:
    Já lhe treme a cabeça, a mão, o queixo;
    Nem tem huma belleza
    Das bellezas que teve.

    Assim tambem serei, minha Marilia
    Daqui a poucos annos;
    Que o impio tempo para todos corre.
    Os dentes cahiráõ, e os meus cabellos.
    Ah! sentirei os damnos,
    Que evita só quem morre.

    Mas sempre passarei huma velhice
    Muito menos penoza.
    Não trarei a moleta carregada:
    Descançarei o já vergado corpo
    Na tua mão piedoza,
    Na tua mão nevada.

    As frias tardes em que negra nuvem
    Os chuveiros não lance,
    Irei comtigo ao prado florescente:
    Aqui me buscarás hum sitio ameno,
    Onde os membros descance,
    E ao brando Sol me aquente.

    Apenas me sentar, então movendo
    Os olhos por aquella
    Vistoza parte, que ficar fronteira;
    Apontando direi: _Alli fallámos,
    Alli, ó minha bella,
    Te vi a vez primeira_.

    Verteráõ os meus olhos duas fontes,
    Nascidas de alegria:
    Farão teus olhos ternos outro tanto:
    Então darei, Marilia, frios beijos,
    Na mão formosa, e pia,
    Que me limpar o pranto.

    Assim irá, Marilia, docemente
    Meu corpo supportando
    Do tempo deshumano a dura guerra.
    Contente morrerei, por ser Marilia
    Quem sentida chorando,
    Meus baços olhos cerra.

    LYRA XIX.

    Em quanto pasta alegre o manso gado,
    Minha bella Marilia, nos sentemos
    Á sombra deste cedro levantado.
    Hum pouco meditemos
    Na regular belleza,
    Que em tudo quanto vive, nos descobre
    A sabia Natureza.

    Attende, como aquella vaca preta
    O novilhino seu dos mais separa,
    E o lambe, em quanto chupa a liza teta.
    Attende mais, ó chara,
    Como a ruiva cadella
    Supporta que lhe morda o filho o corpo;
    E salte em cima della.

    Repara, como cheia de ternura
    Entre as azas ao filho essa ave aquenta:
    Como aquella esgravata a terra dura,
    E os seus assim sustenta;
    Como se encoleriza,
    E salta sem receio a todo o vulto,
    Que junto delles piza.

    Que gosto não terá a esposa amante
    Quando der ao filhinho o peito brando,
    E reflectir então no seu semblante!
    Quando, Marilia, quando
    Disser comigo: _he esta
    De teu querido pai a mesma barba,
    A mesma bocca, e testa_.

    Que gosto não terá a mãi, que toca,
    Quando o tem nos seus braços, c'o dedinho
    Nas faces graciosas, e na bocca
    Do innocente filhinho!
    Quando, Marilia bella,
    O tenro infante já com risos mudos
    Começa a conhecê-la!

    Que prazer não terão os pais ao verem
    Com as mãis hum dos filhos abraçados;
    Jogar outros a luta, outros correrem
    Nos cordeiros montados!
    Que estado de ventura!
    Que até naquillo, que de pezo serve,
    Inspira Amor doçura.

    LYRA XX.

    Em huma frondosa
    Roseira se abria
    Hum negro botão.
    Marilia adorada
    O pê lhe torcia
    Com a branca mão.

    Nas folhas viçosas
    Á abelha inraivada
    O corpo escondêo.
    Tocou-lhe Marilia,
    Na mão descuidada
    A fera mordêo.

    A penas lhe morde,
    Marilia gritando,
    C'o dedo fugio.
    Amor, que nos bosques
    Estava brincando,
    Aos ais acudio.

    Mal vio a rotura,
    E o sangue espargido,
    Que a Deoza mostrou;
    Rizonho beijando
    O dedo offendido,
    Assim lhe fallou.

    _Se tu for tão pouco
    O pranto desatas,
    Ah! dá-me attençaõ;
    E como daquelle,
    Que feres, e matas,
    Naõ tens compaixaõ_?

    LYRA XXI.

    Não sei, Marilia, que tenho,
    Depois que vi o teu rosto;
    Pois quanto não he Marilia,
    Já não posso ver com gosto.
    Noutra idade me alegrava,
    Até quando conversava
    Com o mais rude vaqueiro:
    Hoje, ó bella, me aborrece
    Inda o trato lizongeiro
    Do mais discreto pastor.
    Que effeitos são os que sinto!
    Serão effeitos de amor?

    Sáio da minha cabana
    Sem reparar no que faço;
    Busco o sitio aonde moras,
    Suspendo defronte o passo.
    Fito os olhos na janella,
    Aonde, Marilia bella,
    Tu chegas ao fim do dia;
    Se alguem passa, e te saúda,
    Bem que seja cortezia,
    Se accende na face a côr.
    Que effeitos são os que sinto!
    Serão effeitos de Amor?

    Se estou, Marilia, comtigo,
    Não tenho hum leve cuidado;
    Nem me lembra, se são horas
    De levar á fonte o gado.

    Se vivo de ti distante,
    Ao minuto, ao breve instante,
    Finge hum dia o meu desgosto:
    Já mais, Pastora, te vejo
    Que em teu semblante composto
    Não veja graça maior.
    Que effeitos são os que sinto!
    Serão effeitos de Amor?

    Aonde já com o juizo;
    Marilia, tão perturbado,
    Que no mesmo aberto sulco
    Metto de novo o arado.
    Aqui no centêo pégo,
    Noutra parte em vão o cégo:
    Se alguem comigo conversa,
    Ou não respondo, ou respondo
    Noutra coiza tão diversa,
    Que nexo tão tem menor.
    Que effeitos são os que sinto!
    Serão effeitos de Amor?

    Se geme o bufo agoureiro
    Só Marilia me desvella:
    Enche-se o peito de magoa,
    E não sei a causa della.
    Mal durmo, Marilia, sonho,
    Que féro leão medonho
    Te devora nos meus braços:
    Gella-se o sangue nas veias.
    E sólto do somno os laços
    Á força da immensa dor.
    Ah! que os effeitos que sinto
    Só são effeitos de Amor.

    LYRA XXII.

    Muito embora, Marilia, muito embora
    Outra belleza, que não seja a tua,
    Com a vermelha roda, a seis puxada,
    Faça tremer a rua.

    As paredes da salla aonde habita
    Adorne a seda, e o tremó dourado;
    Pendão largas cortinas, penda o lustre
    Do této apainelado.

    Tu não habitarás Palacios grandes,
    Nem andarás nos coches voadores;
    Porém terás hum Vate, que te preze,
    Que cance os teus louvores.

    O tempo não respeita a formosura;
    E da palida morte a mão tyranna
    Arraza os edificios dos Augustos,
    E arraza a vil choupana.

    Que bellezas, Marilia, florecerão
    De quem nem se quer temos a memoria?
    Só podem conservar hum nome eterno
    Os versos, ou a historia.

    Se não houvesse Tasso, nem Petrarcha,
    Por mais que qualquer dellas fosse linda,
    Já não sabia o mundo, se existirão
    Nem Laura, nem Clorinda.

    He melhor, minha bella, ser lembrada
    Por quantos hão de vir sabios humanos,
    Que ter urcos, ter coches, e thesouros,
    Que morrem com os annos.

    LYRA XXIII.

    N'um sitio ameno
    Cheio de rosas,
    De brancos lyrios,
    Murtas viçosas;

    Dos seus amores
    Na companhia
    Dirceo passava
    Alegre o dia.

    Em tom de graça,
    Ao terno amante
    Manda Marilia
    Que toque, e cante.

    Péga na lyra,
    Sem que a tempere,
    A voz levanta,
    E as cordas fere.

    C'os doces pontos
    A mão atina,
    E a voz iguala
    A voz divina.

    Ella, que teve
    De rir-se a idéa,
    Nem move os olhos
    De assombro chêa.

    Então Cupido
    Apparecendo,
    Á bella falla
    Assim dizendo:

    _Do teu amado
    A lyra fias,
    Só porque delle
    Zombando rias_?

    _Quando n'um peito
    Assento faço,
    Do peito subo
    Á lingoa, e braço_.

    _Nem creias que outro
    Estylo tome,
    Sendo eu o mestre,
    A acção teu nome_.

    LYRA XXIV.

    Encheo, minha Marilia, o grande Jove
    De immensos animaes de toda a especie
    As terras, mais os ares,
    O grande espaço dos salobros rios,
    Dos negros, fundos mares.
    Para sua defeza,
    A todos dêo as armas, que convinha;
    Á sabia Natureza.

    Dêo as azas aos passaros ligeiros;
    Dêo ao peixe escamoso as barbatanas:
    Dêo veneno á serpente,
    Ao membrudo Elefante a enorme tromba,
    E ao Javali o dente.
    Coube ao leão a garra:
    Com leve pé saltando o servo foge;
    E o bravo touro marra.

    Ao homem dêo as armas do discurso
    Que valem muito mais que as outras armas:
    Dêo-lhe dedos ligeiros,
    Que podem converter em seu serviço
    Os ferros, e os madeiros;
    Que tecem fortes laços,
    E forjão raios com que aos brutos cortão
    Os vôos, mais os passos.

    Ás timidas donzellas pertencerão
    Outras armas, que tem dobrada força:
    Dêo-lhes a Natureza
    Além do entendimento, além dos braços
    As armas da belleza.
    Só ella ao Ceo se atreve,
    Só ella mudar póde o gello em fogo,
    Mudar o fogo em neve.

    Eu vejo, eu vejo ser a formosura
    Quem arrancou da mão de Coriolano
    A cortadora espada.
    Vejo que foi de Helena o lindo rosto
    Quem pôz em campo armada
    Toda a força de Grecia.
    E quem tirou o Sceptro aos Reis de Roma,
    Só foi, só foi Lucrecia.

    Se podem lindos rostos, mal suspirão,
    O braço desarmar do mesmo Achilles;
    Se estes rostos irados
    Podem soprar o fogo da descordia
    Em póvos alliados;
    Hes arbitra da terra;
    Tu pódes dar, Marilia, a todo o mundo
    A paz, e a dura guerra.

    LYRA XXV.

    O cego Cupido hum dia
    Com os seus Genios fallava,
    Do modo que lhe restava
    De captivar a Dirceo.
    Depois de larga disputa,
    Hum dos Genios mais sagazes
    Este conselho lhe dêo:

    As settas mais aguçadas,
    Como se em roxa batessem,
    Dão nos seus peitos, e descem
    Todas quebradas ao chão.
    Só as graças de Marilia
    Podem vencer hum tão duro,
    Tão izento coração.

    A fortuna desta empreza
    Consiste em armar-se o laço,
    Sem que sinta ser o braço,
    Que lho prepara, de Amor.
    Que elle vive como as aves,
    Que já deixárão as pennas
    No visco do Caçador.

    Na força deste conselho
    O raivoso Deos socega,
    E á tropa a honra entrega
    De o fazer executar.
    Todos pertendem ganhá-la,
    Batem as azas ligeiros,
    E vão as armas buscar.

    Os primeiros se occultárão
    Da Deosa nos olhos bellos;
    Qual se enlaçou nos cabellos;
    Qual ás faces se prendêo.
    Hum amorinho cansado
    Cahio dos labios ao seio,
    E nos peitos se escondêo.

    Outro Genio mais astuto
    Este novo ardil alcança,
    Muda-se n'uma criança
    De divino parecer.
    Esconde as azas, e a venda;
    Esconde as settas, e quanto
    Póde dá-lo a conhecer.

    Ella que vê hum menino
    Todo de graças cuberto,
    Tão risonho, e tão esperto
    Alli sózinho brincar.
    A elle endireita os passos;
    Finge Amor ter medo, e a Deosa
    Mais se empenha em lhe pegar.

    Ella corria chamando;
    Elle fugia, e chorava:
    Assim forão onde estava
    O descuidado Pastor.
    Este, mal vio a belleza,
    E o gentil menino, entende
    A malicia do traidor.

    Põe as mãos sobre os ouvidos,
    Cerra os olhos, e constante
    Não quer ver o seu semblante,
    Não o quer ouvir fallar.
    Qual Ulysses n'outra idade
    Para illudir as Serêas
    Mandou tambores tocar.

    Cupido, que a empreza via,
    Julga o intento frustrado,
    E de raiva transportado
    O corpo no chão lançou.
    Traçou a lingoa nos dentes;
    Mettêo as unas no rosto,
    E os cabellos arrancou.

    O Genio, que se escondia
    Entre os peitos da Pastora,
    Erguêo a cabeça fóra,
    E o successo conhecêo.
    Deixa o socego em que estava,
    E vai ligeiro metter-se
    No peito do bom Dirceo.

    Apenas c'o brando peito
    Lhe tocou a neve fria,
    Com o calor que trazia
    Lhe abrazou o coração.
    Dá o Pastor hum suspiro,
    Abre os seus olhos, e sólta
    Do apertado ouvido a mão.

    Logo que virão os Genios
    Ao triste Pastor disposto
    Para ver o lindo rosto,
    Para as palavras ouvir.
    Cada hum as armas toma,
    Cada hum com ellas busca
    Seu terno peito ferir.

    Com os cabellos da Deosa
    Lhe fórma hum Cupido laços,
    Que lhe segurão os braços,
    Como se fossem grilhões.
    O Pastor já não resiste;
    Antes beija satisfeito
    As suas doces prizões.

    LYRA XXVI.

    O destro Cupido hum dia
    Extrahio mimosas cores
    De frescos lyros, e rosas,
    De jasmins, e de outras flores.

    Com as mais delgadas pennas
    Usa de huma, e de outra tinta,
    E nos angulos do cobre
    A quatro bellezas pinta.

    Por fazer pensar a todos
    No seu lizo centro escreve
    Hum letreiro, que pergunta:
    _Este espaço a quem se deve_?

    Venus, que vio a pintura,
    E lêo a letra engenhosa,
    Pôz por baixo: _Eu delle cedo;
    Dê-se a Marilia formosa_.

    LYRA XXVII.

    Alexandre, Marilia, qual o rio
    Que engrossando no Inverno tudo arraza;
    Na frente das cohortes
    Cérca, vence, abraza
    As Cidades mais fortes.
    Foi na gloria das armas o primeiro,
    Morrêo na flor dos annos, e já tinha
    Vencido o mundo inteiro.

    Mas este bom Soldado, cujo nome
    Não ha poder algum, que não abata,
    Foi, Marilia, sómente
    Hum ditozo pirata,
    Hum salteador valente.
    Se não tem huma fama baixa, e escura;
    Foi por se pôr ao lado da injustiça
    A insolente ventura.

    O grande Cesar, cujo nome vôa,
    Á sua mesma Patria a fé quebranta;
    Na mão a espada toma,
    Opprime-lhe a garganta,
    Dá Senhores a Roma.
    Consegue ser heróe por hum delicto;
    Se acaso não vencesse então seria
    Hum vil traidor proscripto.

    O ser heróe, Marilia, não consiste
    Em queimar os Imperios: move a guerra,
    Espalha o sangue humano,
    E despovoa a terra
    Tambem o máo tyranno.
    Consiste o ser heróe em viver justo:
    E tanto póde ser heróe o pobre,
    Como o maior Augusto.

    Eu he que sou heróe, Marilia bella,
    Seguindo da virtude a honroza estrada.
    Ganhei, ganhei hum throno.
    Ah! não manchei a espada,
    Não a roubei ao dono.
    Ergui-o no teu peito, e nos teus braços:
    E valem muito mais que o mundo inteiro
    Huns tão ditosos laços.

    Aos barbaros, injustos vencedores
    Atormentão remorsos, e cuidados;
    Nem descanção seguros
    Nos Palacios cercados
    De tropa, e de altos muros.
    E a quantos nos não mostra a sabia historia
    A quem mudou o fado em negro opprobrio
    A mal ganhada gloria?

    Eu vivo, minha bella, sim, eu vivo
    Nos braços do descanço, e mais do gosto:
    Quando estou acordado,
    Contemplo no teu rosto
    De graças adornado;
    Se durmo logo sonho, e alli te vejo.
    Ah! nem desperto, nem dormindo sóbe
    A mais o meu desejo.

    LYRA XXVIII.

    Cupido tirando
    Dos hombros a aljava,
    N'um campo de flores
    Contente brincava.

    E o corpo tenrinho
    Depois enfadado,
    Incauto reclina
    Na relva do prado.

    Marilia formosa,
    Que ao Deos conhecia,
    Occulta espreitava
    Quanto elle fazia.

    Mal julga que dorme
    Se chega contente,
    As armas lhe furta,
    E o Deos a não sente.

    Os Faunos, mal virão
    As armas roubadas,
    Sahirão das grutas
    Soltando rizadas.

    Acorda Cupido,
    E a causa sabendo,
    A quantos o insultão
    Responde, dizendo:

    _Temieis as settas
    Nas minhas mãos cruas?
    Vereis o que podem
    Agora nas suas_.

    LYRA XXIX.

    O tyranno Amor risonho
    Me apparece, e me convida
    Para que seu jugo acceite;
    E quer que eu passe em deleite
    O resto da triste vida.

    _O sonoro Anacreonte_
    (Astuto o moço dizia)
    _Já perto da morte estava,
    Inda de amores cantava;
    Por isso alegre vivia_.

    _Aos negros, duros pezares
    Não resiste hum peito fraco,
    Se Amor o não fortalece:
    O mesmo Jove carece
    De Cupido, e mais de Baccho_.

    Eu lhe respondo: _Perjuro
    Nada creio ao que dizes;
    Porque já te fui sujeito,
    Inda conservo no peito
    Estas frescas cicatrizes_.

    Amor, vendo que da offerta
    Algum apreço não faço,
    Me diz affoito que trate
    De ir com elle a combate
    Peito a peito, braço a braço.

    Vou buscar as minhas armas;
    Cinjo primeiro que tudo
    O brilhante arnêz, e á pressa
    Ponho hum elmo na cabeça,
    Tomo a lança, e o grosso escudo.

    Mal no Campo me apresento,
    Marilia (oh Ceos!) me apparece:
    Logo os olhos me fita,
    O meu coração palpita,
    A minha mão desfallece.

    Então me diz o tyranno:
    _Confessa louco o teu erro;
    Contra as armas da belleza
    Não vale a externa defeza.
    Dessa armadura de ferro_.

    LYRA XXX.

    Junto a huma clara fonte
    A mãi de Amor se sentou:
    Encostou na mão o rosto,
    No leve somno pegou.

    Cupido, que a vio de longe,
    Contente ao lugar corrêo;
    Cuidando que era Marilia
    Na face hum beijo lhe dêo.

    Acorda Venus irada:
    Amor a conhece; e então
    Da ousadia, que teve,
    Assim lhe pede o perdão:

    _Foi facil, ó Mãe formosa,
    Foi facil o engano meu;
    Que o semblante de Marilia
    He todo o semblante teu_.

    LYRA XXXI.

    Minha Marilia,
    Se tens belleza,
    Da natureza
    He hum favor.
    Mas se aos vindouros
    Teu nome passa,
    He só por graça
    Do Deos de amor,
    Que terno inflamma
    A mente, o peito
    Do teu Pastor.

    Em vão se virão
    Perlas mimosas,
    Jasmins, e rosas
    No rosto teu.
    Em vão terias
    Essas estrellas,
    E as tranças bellas
    Que o Ceo te dêo;
    Se em doce verso
    Não as cantasse
    O bom Dirceo.

    O voraz tempo
    Ligeiro corre:
    Com elle morre
    A perfeição.
    Essa, que o Egypto
    Sábia modera,
    De Marco impera
    No coração;
    Mas já Octavio
    Não sente a força
    Do seu grilhão.

    Ah! vem, ó bella,
    E o teu querido
    Ao Deos Cupido
    Louvores dar;
    Pois faz que todos
    Com igual sorte
    Do tempo, e morte
    Possão zombar:
    Tu por formosa,
    E elle, Marilia,
    Por te cantar.

    Mas ai! Marilia,
    Que de hum amante,
    Por mais que cante,
    Gloria não vem!
    Amor se pinta
    Menino, e cego:
    No doce emprêgo
    Do charo bem
    Não vê defeitos,
    E augmenta, quantas
    Bellezas tem.

    Nenhum dos Vates,
    Em teu conceito,
    Nutrio no peito
    Nescia paixão?
    Todas aquellas,
    Que vês cantadas,
    Forão dotadas
    De perfeição?
    Forão queridas;
    Porém formosas
    Talvez que não.

    Porém que importa
    Não valha nada
    Seres cantada
    Do teu Dirceo?
    Tu tens, Marilia,
    Cantor celeste;
    O meu Glauceste
    A voz ergueo;
    Irá teu nome
    Aos fins da Terra,
    E ao mesmo Ceo.

    Quando nas azas
    Do leve vento
    Ao Firmamento
    Teu nome for:
    Mostrando Jove
    Graça extremosa,
    Mudando a Esposa
    De inveja a côr;
    De todos ha-de,
    Voltando o rosto,
    Sorrir-se Amor.

    Ah! não se manche
    Teu brando peito
    Do vil defeito
    Da ingratidão:
    Os versos beija,
    Gentil Pastora,
    A penna adora,
    Respeita a mão,
    A mão discreta,
    Que te segura
    A duração.

    LYRA XXXII.

    N'uma noite socegado
    Velhos papeis revolvia,
    E por ver de que tratavão
    Hum por hum a todos lia.

    Erão copias emendadas
    De quantos versos melhores
    Eu compuz na tenra idade
    A meus diversos amores.

    Aqui leio justas queixas
    Contra a ventura formadas,
    Leio excessos mal acceitos,
    Doces promessas quebradas.

    Vendo sem razões tamanhas
    Eu exclamo transportado:
    _Que finezas tão mal feitas!
    Que tempo tão mal passado_!

    Junto pois n'hum grande monte
    Os soltos papeis, e logo,
    Porque reliquias não fiquem,
    Os intento pôr no fogo.

    Então vejo que o Deos cego
    Com semblante carregado
    Assim me falla, e crimina
    O meu intento acertado.

    _Queres queimar esses versos?
    Dize, Pastor attrevido,
    Essas Lyras não te forão
    Inspiradas por Cupido_?

    _Achas que de taes amores
    Não deve existir memoria?
    Sepultando esses triunfos,
    Não roubas a minha gloria_?

    Disse Amor; e mal se calla,
    Nos seus hombros a mão pondo,
    Com hum semblante sereno
    Assim á queixa respondo:

    _Depois, Amor, de me dares
    A minha Marilia bella,
    Devo guardar humas Lyras,
    Que não são em honra della_?

    _E que importa, Amor, que importa
    Que a estes papeis destrua;
    Se he tua esta maõ; que os rasga,
    Se a chamma, que os queima, he tua_?

    Apenas Amor me escuta
    Manda que os lance nas brazas;
    E ergue a chamma c'o vento,
    Que formou batendo as azas.

    LYRA XXXIII.

    Péga na lyra sonora,
    Péga meu charo Glauceste;
    E ferindo as cordas de ouro,
    Mostra aos rusticos Pastores
    A formosura celeste
    De Marilia, meus amores.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Que concurso, meu Glauceste,
    Que concurso tão ditoso!
    Tu és digno de cantares
    O seu semblante divino;
    E o teu canto sonoroso
    Tambem do seu rosto he dino.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Para pintares ao vivo
    As suas faces mimosas,
    A discreta Natureza
    Que providencia não teve!
    Creou no jardim as rosas,
    Fez o lyro, e fez a neve.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    A pintar as negras tranças
    Peço que mais te desvelles:
    Pinta chusmas de amorinhos
    Pelos seus fios trepando;
    Huns tecendo cordas delles,
    Outros com elles brincando.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Para pintares, Glauceste,
    Os seus beiços graciosos,
    Entre as flores tens o cravo,
    Entre as pedras a granada;
    E para os olhos formosos,
    A estrella da madrugada.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Mal retratares do rosto
    Quanto julgares preciso,
    Não dês a cópia por feita;
    Passa a outros dotes, passa,
    Pinta da vista, e do riso
    A modestia, mais a graça.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Pinta o garbo de seu rosto
    Com expressões delicadas;
    Os seus pés, quando passeão,
    Pizando ternos amores;
    E as mesmas plantas calcadas
    Brotando viçosas flores.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Pinta mais, prezado amigo,
    Hum terno amante beijando
    Suas douradas cadeias;
    E em doce pranto desfeito,
    Ao monte, e valle ensinando
    O nome, que tem no peito.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Nem suspendas o teu canto,
    Inda que, Pastor, se veja
    Que a minha bocca suspira,
    Que se banha em pranto o rosto;
    Que os outros chorão de inveja,
    E chora Dirceo de gosto.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    FIM DA 1.^a PARTE.

    MARILIA DE DIRCEO.

    POR T.A.G.

    SEGUNDA PARTE.

    LISBOA: 1824.

    Na Typ. de J.F.M. de Campos.

    MARILIA DE DIRCEO

    LYRA I.

    Já não cínjo de loiro a minha testa,
    Nem sonoras Canções o Deos me inspira:
    Ah! que nem me resta
    Huma já quebrada,
    Mal sonora Lyra!

    Mas neste mesmo estado em que me vejo,
    Pede, Marilia, Amor que vá cantar-te:
    Cumpro o seu desejo;
    E ao que resta supra
    A paixão, e a arte.

    A fumaça, Marilia, da candêa,
    Que a molhada parede ou çuja, ou pinta;
    Bem que tosca, e fêa,
    Agora me póde
    Ministrar a tinta.

    Aos mais preparos o discurso apronta:
    Elle me diz, que faça no pé de huma
    Má laranja ponta,
    E delle me sirva
    Em lugar de pluma.

    Perder as uteis horas não, não devo
    Verás, Marilia, huma idéa nova:
    Sim, eu já te escrevo,
    Do que esta alma dita
    Quanto amor approva.

    Quem vive no regaço da ventura,
    Nada obra em te adorar, que assombro faça:
    Mostra mais ternura
    Quem te estima, e morre
    Nas mãos da desgraça.

    Nesta cruel masmorra tenebrosa
    Ainda vendo estou teus olhos bellos,
    A testa formosa,
    Os dentes nevados,
    Os negros cabellos.

    Vejo, Marilia, sim, e vejo ainda
    A chusma dos Cupidos, que pendentes
    Dessa bôcca linda,
    Nos ares espalhão
    Suspiros ardentes.

    Se alguem me perguntar onde eu te vejo,
    Responderei–no peito–que huns Amores
    De casto desejo
    Aqui te pintárão,
    E são bons Pintores.

    Mal meus olhos te virão, ah! nessa hora
    Teu Retrato fizerão, e tão forte,
    Que entendo, que agora
    Só póde apagallo
    O pulso da Morte.

    Isto escrevia, quando, ó Céos, que pejo!
    Descubro a lêr-me os versos o Deos loiro.
    Ah! dá-lhes hum beijo,
    E diz-me que valem
    Mais que letras de oiro.

    LYRA II.

    Esprema a vil calumnia muito embora
    Entre as mãos denegridas, e insolentes
    Os venenos das plantas,
    E das bravas serpentes.

    Chovão raios e raios, no meu rosto
    Não has-de ver, Marilia, o modo escrito;
    O medo perturbado,
    Que infunde o vil delicto.

    Pódem muito conheço, pódem muito,
    As Furias infernaes, que Pluto move;
    Mas póde mais que todas
    Hum dedo só de Jove.

    Este Deos convertêo em flor mimosa;
    A quem seu nome derão, a Narciso,
    Fêz d' muitos os Astros,
    Qu' inda no Ceo diviso.

    Elle póde livrar-me das injurias
    Do nescio, do atrevido ingrato povo;
    Em nova flor mudar me,
    Mudar-me em Astro novo.

    Porém se os justos Céos por fins occultos
    Em tão tyranno mal me não soccorrem,
    Verás então, que os sabios,
    Bem como vivem, morrem.

    Eu tenho hum coração maior que o mundo.
    Tu, formosa Marilia, bem o sabes:
    Hum coração, e basta,
    Onde tu mesma cabes.

    LYRA III.

    Succede, Marilia bella,
    Á medonha noite o dia:
    A estação chuvosa e fria,
    Á quente secca estação.
    Muda-se a sorte dos tempos;
    Só a rainha sorte não?

    Os troncos, nas Primaveras,
    Brotão em flores viçosos;
    Nos Invernos escabrosos
    Largão as folhas no chão.
    Muda-se a sorte dos troncos;
    Só a minha sorte não?

    Aos brutos, Marilia, cortão
    Armadas redes os passos;
    Rompem depois os seus laços,
    Fogem da dura prisão.
    Muda-se a sorte dos brutos;
    Só a minha sorte não?

    Nenhum dos homens conserva
    Alegre sempre o seu rosto;
    Depois das penas vem gosto,
    Depois do gosto afflicção.
    Muda-se a sorte dos homens;
    Só a minha sorte não?

    Aos altos Deoses movêrão
    Soberbos Gigantes guerra;
    No mais tempo o Ceo, e a Terra
    Lhes tributa adoração.
    Muda-se a sorte dos Deoses;
    Só a minha sorte não?

    Hade, Marilia, mudar-se
    Do destino a inclemencia:
    Tenho por mim a innocencia,
    Tenho por mim a razão.
    Muda-se a sorte de tudo;
    Só a minha sorte não?

    O tempo, ó bella, que gasta
    Os troncos, pedras, e o cobre,
    O véo rompe, com que encobre
    Á verdade a vil traição.
    Muda-se a sorte de tudo;
    Só a minha sorte não?

    Qual eu sou verá o mundo,
    Mais me dará do que eu tinha,
    Tornarei a ver-te minha.
    Que feliz consolação!
    Não ha de tudo mudar-se,
    Só a minha sorte não.

    LYRA IV.

    Já, já me vai, Marilia, branquejando
    Loiro cabello, que circúla a testa.
    Este mesmo, que alveja, vai cahindo,
    E pouco já me resta.

    As faces vão perdendo as vivas côres,
    E vão-se sobre os ossos enrugando,
    Vai fugindo a viveza dos meus olhos;
    Tudo se vai mudando.

    Se quero levantar-me, as costas vergão;
    As forças dos meus membros já se gastão,
    Vou a dar pela casa huns curtos passos,
    Pesão-me os pés, e arrastão.

    Se algum dia me vires desta sorte,
    Vê que assim me não pôz a mão dos annos:
    Os trabalhos, Marilia, os sentimentos,
    Fazem os meus danos.

    Mal te vir me dará em poucos dias,
    A minha mocidade o doce gosto;
    Verás burnir-se a pelle, o corpo encher-se,
    Voltar a côr ao rosto.

    No calmoso Verão as plantas seccão,
    Na Primavera, que aos mortaes encanta,
    Apenas cahe do Ceo o fresco orvalho,
    Verdeja logo a planta.

    A doença deforma a quem padece;
    Mas logo que a doença fez seu termo,
    Torna, Marilia, a ser quem era d'antes,
    O definhado enfermo.

    Suppo[~e]-me qual doente, ou qual a planta,
    No meio da desgraça, que me altera:
    Eu tambem te supponho qual saude,
    Ou qual a Primavera.

    Se dão esses teus meigos, vivos olhos
    Aos mesmos Astros luz, e vida ás flores;
    Que effeitos não farão, em quem por elles
    Sempre morrêo de amores?

    LYRA V.

    Os mares, minha bella, não se movem;
    O brando Norte assopra, nem diviso
    Huma nuvem sequer na Esfera toda,
    O destro Nauta aqui não he preciso;
    Eu só conduzo a náo, eu só modéro
    Do seu governo a roda.

    Mas ah! que o Sul carrega, o mar se empolla,
    Rasga-se a véla, o mastaréo se parte!
    Qualquer varão prudente aqui já teme
    Não tenho a necessaria força, e arte.
    Corra o sabio Piloto, corra, e venha
    Reger o duro leme.

    Como succede á náo no mar, succede
    Aos homens na ventura, e na desgraça:
    Basta ao feliz não ter total demencia,
    Mas quem de venturoso a triste passa,
    Deve entregar o leme do discurso
    Nas mãos da sã prudencia.

    Todo o Ceo se cubrio, os raios chovem;
    E esta alma, em tanta pena consternada,
    Nem sabe aonde possa achar conforto.
    Ah, não, não tardes, vem, Marilia amada,
    Toma o leme da náo, marêa o panno,
    Vai-a salvar no porto.

    Mas ouço já de Amor as sabias vozes:
    Elle me diz que soffra se não morro;
    E perco então se morro huns doces laços.
    Não quero já, Marilia, mais soccorro,
    Oh ditoso soffrer, que lucrar póde
    A gloria dos teus braços.

    LYRA VI.

    De que te queixas,
    Lingua importuna?
    De que a Fortuna
    Roubar-te queira,
    O que te deu?
    Este foi sempre
    O genio seu.

    Levou, Marilia,
    A impia sorte
    Catoens á morte;
    Nem sepultura
    Lhes concedeu.
    Este foi sempre
    O genio seu.

    A outros muitos,
    Que vís nascêrão,
    Nem merecêrão,
    A grandes thronos
    A impia ergueu.
    Este foi sempre
    O genio seu.

    Espalha a cega
    Sobre os humanos
    Os bens, e os damnos;
    E a quem se devão
    Nunca escolheu.
    Este foi sempre
    O genio seu.

    A quanto he justo,
    Já mais se dobra;
    Nem igual obra
    C'os mesmos Deoses
    Do cáro Ceo.
    Este foi sempre
    O genio seu.

    Sóbe ao Ceo Venus
    N'hum carro ufano;
    E cahe Vulcano
    Da pura esfera,
    Em que nasceu.
    Este foi sempre
    O genio seu.

    Mas não me rouba,
    Bem que se mude,
    Honra, e virtude:
    Que o mais he della,
    Mas isto he meu.
    Este foi sempre
    O genio seu.

    LYRA VII.

    Meu prezado Glauceste,
    Se fazes o conceito,
    Que bem que réo abrigo
    A candida virtude no meu peito.
    Se julgas, digo, que mereço ainda
    Da tua mão soccorro;
    Ah! vem dar-m'o agora,
    Agora sim que morro.

    Não quero, que montado
    No Pegaso fogoso,
    Venhas com dura lança
    Ao monstro infame traspassar raivoso.
    Deixa que viva a perfida calumnia,
    E forge o meu tormento:
    Com menos, meu Glauceste,
    Com menos me contento.

    Toma a lyra doirada,
    E toca hum pouco nella:
    Levanta a vóz celeste
    Em parte que te escute a minha bella;
    Enche todo o contorno de alegria;
    Não soffras, que o desgosto
    Affogue em pranto amargo
    O seu divino rosto.

    Eu sei, eu sei, Glauceste,
    Que hum bom Cantor havia,
    Que os brutos amansava;
    Que os troncos, e os penedos attrahia.
    De outro destro Cantor tambem affirma;
    A sábia Antiguidade,
    Que as muralhas erguêra
    De huma grande Cidade.

    Orfeo as cordas fere;
    O som delgado, e terno
    Ao Rei Plutão abranda,
    E o deixa que penetre o fundo Averno.
    Ah, tu a nenhum cedes, nem Glauceste;
    Na lyra, e mais no canto:
    Podes fazer prodigios;
    Obrar ou mais, ou tanto.

    Levanta pois as vozes:
    Que mais, que mais esperas?
    Consola hum peito afflito;
    Que he menos inda, que domar as féras.
    Com isto me darás no meu tormento
    Hum doce lenitivo,
    Que em quanto a bella vive,
    Tambem, Glauceste, vivo.

    LYRA VIII.

    Eu vejo, ó minha bella, aquelle Numen,
    A quem o nome derão de Fortuna,
    Pega-me pelo braço,
    E com voz importuna
    Me diz que mova o passo;
    Que entre no grande Templo, em [~q] se encerra,
    Quanto o destino manda,
    Que ella obre sobre a terra.

    Que coizas portentosas nelle encontro!
    Eu vejo a pobre fundação de Roma,
    Vejo-a queimar Carthago;
    Vejo que as gentes doma;
    E vejo o seu estrago.
    Lá florece o poder do Assyrio Povo:
    Aqui os Medos crescem
    E os perde hum braço novo.

    Então me diz a Deosa: _E que pertendes?
    Todas estas Medalhas vêr agora?
    Ah! não, não sejas louco!
    Espaço de annos fôra
    Para isto ainda pouco.
    Deixo estranhos successos; vem comigo,
    Verás quanto inda deve
    Acontecer comtigo_.

    Levou-me aonde estava a minha historia,
    Que toda me explicou com medo, e arte.
    _Tirei-te libras de oiro_
    Me diz, _e quero dar-te
    Todo aquelle thesoiro.
    Não suspira por bens hum peito nobre_:
    Sevéro lhe respondo.
    _Vivo affeito a ser pobre_.

    Aqui me enruga a Deosa irada a testa;
    E fica sem fallar hum breve espaço.
    _Alegra, alegra o rosto_,
    Prosegue, _alli te faço
    Restituir o posto_.
    Respondo com ar de mofa, e tom sereno.
    _Conheço-te, Fortuna,
    Posso morrer pequeno_.

    _Aqui te dou_, me diz, _a tua amada_.
    Então me banho todo de alegria
    _Cuidei_, me torna a cega,
    _Que essa alma não queria
    Nem esta mesma entrega.
    He esse o bem_, respondo, _que me move;
    Mas este bem he santo,
    Vem só da mão de Jove_.

    Queria mais fallar; eu insoffrido
    Desta maneira rompo os seus accentos:
    _Basta, Fortuna, basta;
    Estes breves momentos
    Lá noutras coizas gasta;
    Da minha sorte nada mais contemplo_.
    E chamando Marilia
    Suspiro, e deixo o Templo.

    LYRA IX.

    A estas horas
    Eu procurava
    Os meus Amores;
    Tinhão-me inveja
    Os mais Pastores.

    A porta abria,
    Inda esfregando
    Os olhos bellos,
    Sem flor, nem fitta
    Nos seus cabellos:

    Ah! que assim mesmo
    Sem compostura,
    He mais formosa,
    Que a estrella d'alva;
    Que a fresca rosa.

    Mal eu a via,
    Hum ar mais leve,
    (Que doce effeito!)
    Já respirava
    Meu terno peito.

    Do cerco apenas
    Soltava o gado,
    Eu lhe amimava
    Aquella ovelha
    Que mais amava.

    Dava-lhe sempre
    No rio, e fonte,
    No prado, e selva,
    Agua mais clara,
    Mais branda relva.

    No cóllo a punha,
    Então brincando
    A mim a unia;
    Mil coizas ternas
    Aqui dizia.

    Marilia vendo
    Que eu só com ella
    He que fallava;
    Ria-se a furto,
    E disfarçava.

    Desta maneira
    Nos castos peitos,
    De dia, em dia
    A nossa chamma
    Mais se accendia.

    Ah! quantas vezes
    No chão sentado,
    Eu lhe lavrava
    As finas rócas,
    Em que fiava?

    Da mesma sorte
    Que á sua amada,
    Que está no ninho,
    Fronteiro canta
    O passarinho.

    Na quente sésta,
    Della defronte,
    Eu me entretinha
    Movendo o ferro
    Da sanfoninha.

    Ella por dar-me
    De ouvir o gosto,
    Mais se chegava:
    Então vaidoso
    Assim cantava:

    Não ha Pastora,
    Que chegar possa
    Á minha bella;
    Nem quem me iguale
    Tambem na estrella:

    Se Amor concede
    Que eu me recline
    No branco peito,
    Eu não invejo
    De Jove o leito:

    Ornão seu peito
    As sãs virtudes,
    Que nos namorão;
    No seu semblante
    As Graças morão.

    Assim vivia:
    Hoje em suspiros
    O canto mudo:
    Assim, Marilia,
    Se acaba tudo.

    LYRA X.

    Arde o velho barril, arde a cabeça,
    Em honra de João na larga rua;
    O credulo Mortal agora indaga,
    Qual seja a sorte sua?

    Eu não tenho alcaxofra, que á luz chegue,
    E nella orvalhe o Ceo de madrugada,
    Para ver se rebentão novas folhas,
    Aonde foi queimada.

    Tambem não tenho hum ovo, que despeje
    Dentro de hum cópo d'agua, e possa nella
    Fingir Palacios grandes, altas Torres,
    E huma Náo á véla.

    Mas, ah! em bem me lembre: eu tenho ouvido
    Que na boca hum bochecho d'agoa tome,
    E atráz de qualquer porta attento esteja,
    Até ouvir hum nome.

    Que o nome, que primeiro ouvir, he esse
    O nome, que ha de ter a minha amada:
    Pode verdade ser, se fôr mentira,
    Tambem não custa nada.

    Vou tudo executar, e de repente
    Ouvi dizer o nome de Filena:
    Despejo logo a boca: ah! não sei como
    Não morro alli de pena!

    Apparece Cupido: então soltando
    Em ar de zombaria huma risada.
    E que tal, me pergunta, esteve a peça?
    Não foi bem pregada?

    Eu já te disse, que Marilia he tua:
    Tu fazes do meu dito tanta conta,
    Que vais acreditar, o que te ensina
    Velha mulher já tonta.

    Humilde lhe respondo: quem debaixo
    Do açoite da Fortuna afflito geme,
    Nas mesmas coisas, que só são brinquedos,
    Se agoirão males, teme.

    LYRA XI.

    Se acaso não estou no fundo Averno
    Padece, ó minha bella, sim padece
    O peito amante, e terno,
    As afflições tyrannas, que os Preceitos
    Arbîtra Rhadamantho em justa pena
    Dos barbaros delictos.

    As Furias infernaes, rangendo os dentes
    Com a mão descarnada não me applicão
    As raivosas serpentes.
    Mas cercão-me outros monstros mais irados:
    Mordem-me sem cessar as bravas serpes
    De mil, e mil cuidados.

    Eu não gasto, Marilia, a vida toda
    Em lançar o penedo da montanha;
    Ou em mover a roda.
    Mas tenho ainda mais cruel tormento:
    Por coisas que me affligem, roda, e gyra
    Cançado pensamento.

    Com retorcidas unhas agarrado
    Ás tepidas entranhas não me come
    Hum abutre esfaimado.
    Mas sinto de outro monstro a crueldade:
    Devora o coração, que mal palpita,
    O abutre da saudade.

    Não vejo os pomos, nem as aguas vejo,
    Que de mim se retirão, quando busco
    Fartar o meu desejo;
    Mas quer, Marilia, o meu destino ingrato,
    Que lograr-te não possa, estando vendo
    Nesta alma o teu retrato.

    Estou no Inferno, estou, Marilia bella;
    E n'huma coisa só he mais humana
    A minha dura estrella:
    Huns não podem mover do Inferno os passos;
    Eu pertendo vôar, e vôar cedo
    Á gloria dos teus braços.

    LYRA XII.

    Ah, Marilia, que tormento
    Não tens de sentir saudosa!
    Não podem ver os teus olhos
    A campina deleitosa,
    Nem a tua mesma Aldêa,
    Que tyrannos não proponhão
    Á inda inquieta idéa
    Huma imagem de afflição.
    Mandarás aos surdos Deoses
    Novos suspiros em vão.

    Quando levares, Marilia,
    Teu ledo rebanho ao prado
    Tu dirás: aqui trazia
    Dirceo tambem o seu gado.
    Verás os sitios ditosos
    Onde, Marilia, te dava,
    Doces beijos amorosos
    Nos dedos da branca mão.
    Mandarás aos surdos Deoses
    Novos suspiros em vão.

    Quando á janella sahires
    Sem quereres, descuidada,
    Tu verás, Marilia, a minha
    E minha pobre morada.
    Tu dirás então comtigo:
    Alli Dirceo esperava
    Para me levar comsigo:
    E alli soffreo a prisão.
    Mandarás aos surdos Deoses
    Novos suspiros em vão.

    Quando vires igualmente
    Do caro Glauceste a choça,
    Onde alegre se juntavão
    Os pouco da escolha nossa,
    Pondo os olhos na varanda
    Tu dirás, de mágoa chêa:
    Todo o congresso alli anda,
    Só o meu Amado não.
    Mandarás aos surdos Deoses
    Novos suspiros em vão.

    Quando passar pela rua
    O meu companheiro honrado,
    Sem que me vejas com elle
    Caminhar emparelhado,
    Tu dirás: não foi tyranna
    Sómente comigo a sorte;
    Tambem cortou deshumana
    A mais fiel união.
    Mandarás aos surdos Deoses
    Novos suspiros em vão.

    N'uma masmorra mettido
    Eu não vejo imagens destas,
    Imagens, que são por certo
    A quem adora funestas.
    Mas se existem separadas
    Dos inchados rôxos olhos,
    Estão, que he mais, retratadas
    No fundo do coração.
    Tambem mando aos surdos Deoses
    Tristes suspiros em vão.

    LYRA XIII.

    Ves, Marilia, hum cordeiro
    De flores enramado,
    Como alegre caminha
    A ser sacrificado?
    O Povo para o Templo já concorre:
    A Pyra sacro-santa já se accende:
    O Ministro o fere, elle bala, e morre.

    Vês agora o novilho,
    A quem segura o laço:
    No chão as mãos especa:
    Nem quer mover hum passo:
    Não conhece que sahe de hum máo terreno;
    Que o forte pulso, que a seguir o arrasta,
    O conduz a viver n'um campo ameno.

    Ignora o bruto, como
    Lhe dispomos a sorte:
    Hum vai forçado á vida,
    Vai outro alegre á morte,
    Nós temos, minha bella, igual demencia:
    Não sabemos os fins, com que nos move
    A sábia, occulta Mão da Providencia.

    De Jacob ao bom filho
    Os máos matar quizerão:
    De conselho mudárão,
    Como escravo o vendêrão:
    José não corre a ser hum servo afflito:
    Vai subindo os degráos, por onde chega
    A ser hum quasi Rei no grande Egypto.

    Quem sabe se o Destino
    Hoje, ó bella, me prende,
    Só porque nisto de outros
    Mais damnos me defende?
    Póde inda raiar hum claro dia.
    Mas quer raie, quer não, ao Ceo adoro;
    E beijo a santa mão, que assim me guia.

    LYRA XIV.

    Alma digna de mil Avós Augustos!
    Tu sentes, tu soluças
    Ao ver cahir os justos;
    Honras as santas leis da Humanidade:
    E aos teus exemplos deve
    Gravar com letras de oiro no seu Templo
    A candida Amizade.

    Não he, não he de Heróe huma alma forte,
    Que vê com rosto enchuto
    No seu igual a morte.
    Não he tambem de Heróe hum peito duro,
    Que a sua gloria firma,
    Em que lhe não resiste ao ferro, e fogo,
    Nem legião, nem muro.

    Oh! quanto ousado Chefe me namora,
    Quando vê a cabeça
    Do bom Pompeo, e chora!
    He grande para mim, quem move os passos,
    E de Dario aos filhos,
    Que como escravos seus tratar podéra,
    Recebe nos seus braços.

    Se alcança Eneas, Capitão piedoso,
    Entre os Heróes do Mundo
    Hum nome glorioso,
    Não he, porque levanta huma cidade;
    He sim, porque nos hombros
    Salvou do incendio ao Pai a quem detinha
    A mão da branca idade.

    Ah! se ao meu contrario entre as chãmas vira;
    Eu mesmo, sim, da morte
    Aos hombros o remira:
    Inda por elle muito mais obrára:
    E se nada servisse,
    Fizera então, Amigo, o que fizeste,
    Gemêra, e suspirára.

    Oh! quanto são duraveis as cadêas
    De huma amizade, quando
    Se dão iguaes idéas!
    Se a pezar dos estorvos se sustinha
    Nossa união sincera,
    Foi por ser a minha alma igual á tua,
    E a tua igual á minha.

    Se, ó caro Amigo, te merece tanto,
    Lá lhe fica a sua alma,
    Limpa-lhe o terno pranto.
    De quem eu fallo, és tu, Marilia bella.
    Ah! sim, honrado Amigo,
    Se enxugar não poderes os seus olhos;
    Prantêa então com ella.

    LYRA XV.

    Eu, Marilia, não fui nenhum Vaqueiro;
    Fui honrado Pastor da tua Aldêa;
    Vestia finas lãns, e tinha sempre
    A minha chóça do preciso chêa.
    Tirarão-me o casal, e o manso gado,
    Nem tenho a que me encoste hum só cajado.

    Para ter, que te dar, he que eu queria
    De mór rebanho ainda ser o dono;
    Prezava o teu semblante, os teus cabellos
    Ainda muito mais que hum grande Throno.
    Agora que te offerte já não vejo
    Além de hum puro amor, de hum são desejo.

    Se o rio levantado me causava
    Levando a sementeira prejuiso,
    Eu alegre ficava apenas via
    Na tua breve boca hum ar de riso.
    Tudo agora perdi; nem tenho o gosto
    De ver-te ao menos compassivo o rosto.

    Propunha-me dormir no teu regaço
    As quentes horas da comprida sésta,
    Escrever teus louvores nos olmeiros,
    Toucar-te de papoilas na floresta.
    Julgou o justo Ceo, que não covinha
    Que a tanto gráo subisse a gloria minha.

    Ah, minha bella, se a Fortuna volta,
    Se o bem que já perdi alcanço, e provo;
    Por essas brancas mãos, por essas faces
    Te juro renascer hum homem novo;
    Romper a nuvem que os meus olhos cerra,
    Amar no Ceo a Jove, e ati na terra.

    Fiadas comprarei as ovelhinhas,
    Que pagarei dos poucos do meu ganho;
    E dentro em pouco tempo nos veremos
    Senhores outra vez de hum bom rebanho.
    Para o contagio lhe não dar sobeja
    Que as affague Marilia, ou só que as veja.

    Se não tivermos lans, e pelles finas,
    Podem mui bem cobrir as carnes nossas
    As pelles dos cordeiros mal cortidas,
    E os pannos feitos com as lans mais grossas.
    Mas ao menos será o teu vestido
    Por mãos de Amor, por minhas mãos cozido.

    Nós iremos pescar na quente sésta
    Com canas, e com cêstos os peixinhos:
    Nós iremos caçar nas manhãs frias
    Com a vara envisgada os passarinhos;
    Para nos divertir faremos quanto
    Reputa o varão sabio, honesto, e santo.

    Nas noites de serão nos sentaremos
    C'os filhos se os tivermos á fogueira;
    Entre as falsas historias, que contares,
    Lhes contarás a minha verdadeira:
    Pasmados te ouviráõ; eu entre tanto
    Ainda o rosto banharei de pranto.

    Quando passarmos juntos pela rua
    Nos mostraráõ c'o dedo os mais Pastores,
    Dizendo huns para os outros: olha os nossos
    Exemplos da desgraça, e sãos amores.
    Contentes viviremos desta sorte,
    Até que chegue a hum dos dois a morte.

    LYRA XVI.

    Vejo, Marilia,
    Que o nédeo gado
    Anda disperso
    No monte, e prado;
    Que assim succede
    Ao desgraçado,
    Que a perder chega
    O seu Pastor.
    Mas inda soffro
    A viva dôr.

    Tambem conheço,
    Que os Pegureiros,
    Que apascentavão
    Os meus cordeiros,
    Darão suspiros
    E verdadeiros;
    Porque perdêrão
    Hum pai no amor.
    Mas inda soffro
    A viva dôr.

    Eu mais alcanço;
    Que a minha herdade
    Estando eu prezo,
    Soffrer não ha-de
    Nem a charrua,
    E nem a grade;
    Que a mão lhe falta
    Do Lavrador.
    Mas inda soffro
    A viva dôr.

    Mas quando sobe
    Á minha idéa,
    Que tu ficaste
    Lá nessa Aldêa.
    De mil cuidados
    E mágoa cheia;
    Das paixões minhas
    Não sou senhor.
    Eu já não soffro
    A viva dôr.

    A quanto chega
    A pena forte!
    Peza-me a vida,
    Desejo a morte,
    A Jove accuso,
    Maldigo a sorte,
    Trato a Cupido
    Por hum traidor.
    Eu já não soffro
    A viva dôr.

    Mas este excesso
    Perdão merece,
    E delle Jove
    Se compadece;
    Que Jove, ó bella,
    Mui bem conhece,
    Aonde chega
    Paixão de amor.
    Eu já não soffro
    A viva dôr.

    LYRA XVII.

    Dirceo te deixa, ó bella,
    De padecer cançado:
    Frio suor já banha
    Seu rosto descórado;
    O sangue já não gyra pela vêa,
    Seus pulsos já não batem;
    E a clara luz dos olhos se bacêa:
    A lagrima sentida já lhe corre;
    Já pára a convulsão, suspira, e morre.

    Seu espirito chega
    Onde se pune o erro:
    Late o cão, e se lhe abrem
    Grossos portões de ferro.
    Aos severos Juizes se apresenta;
    E com sentidas vozes
    Toda a sua tragedia representa:
    Enche-se de ternura, e novo espanto
    O mesmo inexoravel Rhadamantho.

    Abre hum pasmado a boca,
    E a pedra não despede;
    Outro já não se lembra
    Da fome, e mais da sede:
    Descança o curvo bico, e a garra impia
    Negro abutre esfaimado:
    Nem a roca medonha a Parca fia,
    Até as mesmas Furias inclementes
    Deixão cahir das unhas as serpentes.

    Já votão os Juizes;
    E o Rei Plutão lhe ordena
    Deixe o sitio, em que ficão
    Almas dignas de pena.
    Já sahe do escuro Reino, e da memoria
    Lhe passa tudo quanto
    Ou póde dar-lhe mágoa, ou dar-lhe gloria.
    Só, bem que o gosto as turvas agoas tome,
    Inda, Marilia, inda diz teu nome.

    Entra já nos Elysios
    Campinas venturosas,
    Que mansos rios cortão,
    Que cobrem sempre as rosas.
    Escuta o canto das sonoras aves,
    E bebe as agoas puras,
    Que o mel, e de que o leite mais suaves.
    Aqui, diz elle, espero a minha bella,
    Aqui contente viverei com ella.

    Aqui… porém aonde
    Me leva a dôr activa?
    He illusão desta alma.
    Jove inda quer que eu viva.
    Eu devo sim gosar teus doces laços;
    E em paga dos meus males
    Devo morrer, Marilia, nos teus braços.
    Então eu passarei ao Reino amigo;
    E tu irás despois lá ter comigo.

    LYRA XVIII.

    Não mólho, Marilia,
    De pranto a masmorra
    Que o terno Cupido
    Não vôe, e não corra,
    A hilo apanhar.
    Estende-o nas azas
    Sobre elle suspira,
    Por fim se retira,
    E vai-to levar.

    Se o moço não mente,
    Aos tristes gemidos,
    Aos ais lastimosos
    Não guardes unidos,
    Marilia, c'os teus:
    As lagrimas nossas
    No seio amontôa
    Fórma azas, e vôa,
    Vai pô-las nos Ceos.

    A Deosa formosa,
    Que amava aos Troianos,
    Livra-los querendo
    De riscos, e damnos
    A Jove buscou.
    As aguas, que o rosto
    Da Deosa banhárão,
    A Jove abrandárão,
    E assim os salvou.

    Confia-te, ó bella,
    Confia-te em Jove;
    Ainda se abranda,
    Ainda se move
    Com ancias de amor.
    O pranto de Venus,
    Que obrou no Pai tanto,
    Não tem que o teu pranto
    Apreço maior.

    LYRA XIX.

    Nesta triste masmorra,
    De hum semivivo corpo sepultura,
    Inda, Marilia, adoro
    A tua formosura.
    Amor na minha idéa te retrata,
    Busca extremoso, que eu assim resista
    Á dôr immensa, que me cerca, e mata.

    Quando em meu mal pondero,
    Então mais vivamente te diviso:
    Vejo o teu rosto, e escuto
    A tua voz, e riso.
    Movo ligeiro para o vulto os passos:
    Eu beijo a tibia luz em vez de face;
    E aperto sobre o peito em vão os braços.

    Conheço a illusão minha;
    A violencia da mágoa não supporto;
    Foge-me a vista, e caio
    Não sei se vivo, ou morto.
    Enternece-se Amor de estrago tanto;
    Reclina-me no peito, e com mão terna
    Me limpa os olhos do salgado pranto.

    Despois que represento
    Por largo espaço a imagem de hum defunto,
    Movo os membros, suspiro,
    E onde estou pergunto.
    Conheço então que Amor me tem comsigo;
    Ergo a cabeça, que inda mal sustento,
    E com doente voz assim lhe digo.

    Se queres ser piedoso,
    Procura o sitio em que Marilia móra,
    Pinta-lhe o meu estrago,
    E vê, Amor, se chora.
    Se as lagrimas verter a dôr a arrasta,
    Huma dellas me traze sobre as pennas,
    E para allivio meu só isto basta.

    LYRA XX.

    E me visses com teus olhos
    Nesta masmorra mettido;
    De mil idéas funestas,
    E cuidados combatido:
    Qual seria, ó minha bella,
    Qual seria o teu pezar?

    Á força da dôr cedêra;
    E nem estaria vivo,
    Se o menino Deos vendado,
    Extremoso, e compassivo,
    Com o nome de Marilia
    Não me viesse animar.

    Deixo a cama ao romper d'alva;
    O meio dia tem dado,
    E o cabello inda flutua
    Pelas costas desgrenhado.
    Não tenho valor, não tenho;
    Nem para de mim cuidar.

    Diz-me Cupido: E Marilia;
    Não estima esse cabello?
    Se o deixas perder de todo
    Não se ha de enfadar ao vêllo?
    Suspiro pego no pente,
    Vou logo o cabello atar.

    Vem hum taboleiro entrando
    De varios manjares cheio,
    Põe-se na meza a toalha,
    E eu pensativo passeio:
    De todo o comer esfria,
    Sem nelle poder tocar.

    Eu entendo que matar-te,
    Diz Amor, te tens proposto;
    Fazes bem: terá Marilia
    Desgosto sobre desgosto.
    Qual enfermo c'o remedio
    Me afflijo, mas vou jantar.

    Chegão as horas Marilia,
    Em que o Sol já se tem posto,
    Vem-me á memoria que nellas
    Via á janella o teu rosto:
    Reclino na mão a face
    E entro de novo a chorar.

    Diz-me Cupido: Já basta,
    Já basta, Dirceo, de pranto;
    Em obsequio de Marilia
    Vai erguer teu doce canto.
    Pendem as fontes dos olhos,
    Mas eu sempre vou cantar.

    Vem o Forçado accender-me
    A velha çuja candêa;
    Fica, Marilia, a masmorra
    Inda mais triste, e mais fêa.
    Nem mais canto, nem mais posso
    Huma só palavra dar.

    Diz-me Cupido: São horas
    De escrever-se o que está feito;
    Do azeite, e da fumaça
    Huma nova tinta ageito,
    Tomo o páo, que penna finge,
    Vou as Lyras copiar.

    Sem que chegue o leve sono
    Canta o Gallo a vez terceira;
    Eu digo ao Amor; que fico
    Sem deitar-me a noite inteira:
    Faço mimos, e promessas
    Para elle me acompanhar.

    Elle diz que em dormir cuide,
    Que hei-de ver Marilia em sonho;
    Não respondo huma palavra,
    A dura cama componho,
    Apago a triste candêa,
    E vou-me logo deitar.

    Como póde a taes cuidados
    Risistir, ó minha Bella,
    Quem não tem de Amor a graça?
    Se eu que vivo á sombra della
    Inda vivo desta sorte,
    Sempre triste a suspirar?

    LYRA XXI.

    Que diversas que são, Marilia, as horas
    Que passo na masmorra immunda, e fêa,
    Dessas horas felizes, já passadas
    Na tua patria Aldêa.

    Então eu me ajuntava com Glauceste;
    E á sombra de alto Cédro na Campina
    Eu versos te compunha, e elle os compunha
    Á sua cara Eulina.

    Cada qual o seu canto aos Astros leva;
    De exceder hum ao outro qualquer trata
    O ecco agora diz: _Marilia terna_;
    E logo: _Eulina ingrata_.

    Deixão os mesmos Sátyros as grutas:
    Hum para nós ligeiro move os passos;
    Ouve-nos de mais perto, e faz a flauta
    C'os pés em mil pedaços.

    Dirceo (clama hum Pastor,) ah! bem merece
    Da ternissima Marilia a formosura.
    E aonde, clama o outro, quer Eulina
    Achar maior ventura?

    Nenhum Pastor cuidava do rebanho,
    Em quanto em nós durava esta porfia.
    E ella, ó minha amada, só findava
    Depois de acabar-se o dia.

    Á noite te escrevia na cabana
    Os versos, que de tarde havia feito;
    Mal tos dava, e os lias, os guardavas
    No casto, e branco peito.

    Beijando os dedos dessa mão formosa,
    Banhados com as lagrimas do gosto,
    Jurava não cantar mais outras graças
    Que as graças do teu rosto.

    Ainda não quebrei o juramento.
    Eu agora, Marilia, não as canto;
    Mas inda vale mais que os doces versos
    A voz do triste pranto.

    LYRA XXII.

    Por morto, Marilia,
    Aqui me reputo:
    Mil vezes escuto
    O som do arrastado,
    E duro grilhão.
    Mas, ah! que não treme,
    Não treme de susto
    O meu coração.

    A chave lá sôa
    Na porta segura:
    Abre-se a escura,
    Infame masmorra
    Da minha prizão.
    Mas, ah! que não treme;
    Não treme de susto
    O meu coração.

    Eu vejo, Marilia,
    A mil innocentes
    Nas Cruzes pendentes,
    Por falsos delictos,
    Que os homens lhes dão.
    Mas, ah! que não treme,
    Não treme de susto
    O meu coração.

    Se penso que posso
    Perder o gozar-te
    A gloria de dar-te
    Abraços honestos,
    E beijos na mão.
    Marilia, já treme,
    Já treme de susto
    O meu coração.

    Repára, Marilia,
    O quanto he mais forte
    Ainda que a morte,
    N'um peito esforçado
    De amor a paixão.
    Marilia, já treme,
    Já treme de susto
    O meu coração.

    LYRA XXIII.

    Não praguejes, Marilia, não praguejes
    A justiceira mão que lança os ferros:
    Não traz de balde a vingadora espada;
    Deve punir os erros.

    Virtudes de Juiz, virtudes de homem
    As mãos se derão, e em seu peito morão.
    Mandão prender ao Réo austera a boca,
    Porém seus olhos chorão.

    Se á innocencia denigre a vil calumnia
    Que culpa aquelle tem que applica a penna.
    Não he o Julgador, he o processo,
    E a lei quem nos condemna.

    Só no Averno os Juizes não recebem
    Accusação, nem prova de outro humano;
    Aqui todos confessão suas culpas,
    Não póde haver engano.

    Eu vejo as Furias affligindo aos tristes:
    Huma o fogo chega, outra as serpes move;
    Todos maldizem sim a sua estrella,
    Nenhum accusa a Jove.

    Eu tambem inda adoro ao grande Chefe,
    Bem que a prizão me dá que eu não mereço.
    Qual eu sou, minha bella, não me trata,
    Trata-me qual pareço.

    Quem suspira, Marilia, quando pune
    Ao vassallo que julga delinquente;
    Que gosto não terá podendo dar-lhe
    As honras de innocente?

    LYRA XXIV.

    Eu vou, Marilia, vou brigar co' as feras:
    Huma soltárão, eu lhe sinto os passos,
    Aqui aqui a espero
    Nestes despidos braços.
    He hum malhado tigre; a mim já corre,
    Ao peito o aperto, estalão-lhe as costelas,
    Desfallece, cahe, urra, treme, e morre.

    Vem agora hum Leão: sacode a grenha,
    Com faminta paixão a mim se lança;
    Venha embora, que o pulso
    Ainda não se cança.
    Opprimo-lhe a garganta, a lingua estira,
    O corpo lhe fraquêa, os olhos inchão,
    Açoita o chão convulso, arqueja, e espira.

    Mas que vejo, Marilia! tu te assustas?
    Entendes que os destinos inhumanos
    Expoem a minha vida
    No cêrco dos Romanos?
    Com ursos, e com onças eu não luto.
    Luto c'o bravo monstro que me accusa;
    Que os tigres, e leões mais féro, e bruto.

    Embora contra mim raivoso esgrima
    Da vil calumnia a cortadora espada;
    Huma alma, qual eu tenho,
    Não se recêa a nada.
    Eu hei-de, sim, punir-lhe a insolencia,
    Pizar-lhe o negro cóllo, abrir-lhe o peito
    Co' as armas invenciveis da innocencia.

    Ah, quando imaginar, que vingativo
    Mando que desça ao Tartaro profundo
    Hei-de com mão honrada
    Erguer-lhe o corpo immundo.
    Eu então lhe direi: Infame, indîno,
    Obras como costuma o vil humano;
    Faço o que faz hum coraçao divino.

    LYRA XXV.

    Minha Marilia,
    O passarinho,
    A quem roubárão
    Ovos, e ninho,
    Mil vezes pousa
    No seu raminho,
    Piando finge
    Que anda a chorar.
    Mas logo vôa
    Pela espessura,
    Nem mais procura
    Este lugar.

    Se acaso a vacca
    Perde a vitéla,
    Tambem nos mostra,
    Que se desvéla,
    O pasto deixa,
    Muge por ella,
    Até na estrada
    A vem buscar.
    Em poucos dias,
    Ao que parece,
    Della se esquece,
    E vai pastar.

    O voraz Tempo,
    Que o ferro come,
    Que aos mesmos Reinos
    Devora o nome,
    Tambem, Marilia,
    Tambem consome
    Dentro do peito
    Qualquer pezar.
    Ah só não póde
    Ao meu tormento
    Por hum momento
    Allivio dar.

    Tambem, ó bella,
    Não ha quem viva
    Instantes breves
    Na chamma activa;
    Derrete ao bronze
    Sendo excessiva
    Ao mesmo seixo
    Faz estalar.
    Mas do amianto
    A fêbra dura
    Na chamma atura
    Sem se queimar.

    Tambem, Marilia,
    Não ha quem negue,
    Que bem que o fogo
    Nos oleos pegue,
    Que bem que em lingoas
    Ás nuvens chegue,
    Á força d'agoa
    Se ha de apagar.
    Se a negra pedra
    Nós accendemos,
    Com agoa a vemos
    Mais s'inflammar.

    O meu discurso,
    Marilia, he resto:
    A pena iguala
    Ao meu affecto.
    O amor que nutro
    Ao teu aspecto,
    E o teu semblante
    He singular.
    Ah! nem o tempo,
    Nem inda a morte
    A dôr tão forte
    Pode acabar.

    LYRA XXVI.

    Aquelle, a quem fêz cégo a Natureza,
    C'o bordão apalpa, e aos que vem pergunta;
    Ainda se despenha muitas vezes,
    E dois remedios junta.

    De ser céga a Fortuna eu não me queixo;
    Sim me queixo de que má céga seja
    Céga que nem pergunta, nem apalpa,
    He porque errar deseja.

    A quem gastar não sabe, nem se anima,
    Entrega as grossas chaves de hum thesoiro;
    E lança na miseria a quem conhece
    Para que serve o oiro.

    A quem fere, a quem rouba, a infame deixa
    Que a traz do vicio em liberdade corra,
    Eu honro as leis do Imperio, ella me opprime
    N'esta vil masmorra.

    Mas ah! minha Marilia, que esta queixa
    Co' a sólida razão se não coaduna,
    Como me queixo da Fortuna tanto,
    Se sei não ha Fortuna?

    Os Fados, os Destinos, essa Deosa
    Que os Sábios fingem que huma roda move
    He só a occulta mão da Providencia,
    A sábia mão de Jove.

    Nós he que somos cegos, que não vemos;
    A que fins nos conduz por estes modos;
    Por torcidas estradas, ruins varedas
    Caminha ao bem de todos.

    Alegre-se o perverso com as ditas;
    C'o seu merecimento o virtuoso;
    Parecer desgraçado, ó minha bella,
    He muito mais honroso.

    LYRA XXVII.

    A minha amada
    He mais formosa
    Que branco lyrio,
    Dobrada rosa,
    Que o cinnamomo,
    Quando matiza
    Co' a folha a flor.
    Venus não chega
    Ao meu Amor.

    Vasta campina
    De trigo chêa,
    Quando na sésta
    C'o vento ondêa,
    Ao seu cabello
    Quando flutua
    Não he igual.
    Tem a côr negra:
    Mas quanto val!

    Os astros, que andão
    Na esfera pura,
    Quando scintilão
    Na noite escura,
    Não são humanos,
    Tão lindos, como
    Seus olhos são.
    Que ao Sol excedem
    Na luz que dão.

    Ás brancas faces,
    Ah! não se atreve
    Jasmis de Italia,
    Nem inda a neve,
    Quando a desata
    O Sol brilhante
    Com seu calôr.
    São neve, e causão
    No peito ardôr.

    Na breve boca
    Vejo enlaçadas
    As finas per'las
    Com as granadas;
    A par dos beiços
    Rubins da India
    Tem preço vil.
    Nelles se agarrão
    Amores mil.

    Se não lhe désse
    Compadecido
    Tanto soccorro
    O Deos Cupido;
    Se não vivêra
    Huma esperança
    No peito seu;
    Já morto estava
    O bom Dirceo.

    Vê quanto póde
    Teu bello rosto;
    E de goza-lo
    O vivo gosto!
    Que sobmergido
    Em hum tormento
    Quasi infernal,
    Porqu' inda espero
    Resisto ao mal.

    LYRA XXVIII.

    Deten-te, vil humano,
    Não espremas cicutas
    Para fazer-me damno.
    O çumo que ellas dão he pouco forte,
    Procura outras bebidas,
    Que apressem mais a morte.

    Desce ao Reino profundo,
    Ajunta ahi venenos,
    Que nunca visse o mundo;
    Traze o negro licôr, que tem nos dentes,
    Nos dentes retorcidos
    As raivosas serpentes.

    Cachopo levantado,
    Que pôz a Natureza,
    Dentro no Mar salgado,
    Não se abala no meio da tormenta,
    Bem que huma onda, e outra onda
    Sobre elle em flor rebenta.

    Arvore, que na terra
    Ás robustas raizes,
    Buscando o centro, afferra,
    Não teme ao furacão mais violento;
    E menos se se deixa
    Vergar do rijo vento.

    Sou tronco, e rócha, ó bella,
    Que açoita o Sul que brama,
    E o Mar, que se encapella:
    Não temas que do rosto a côr se mude:
    Vence as róchas, e os troncos
    A sólida Virtude.

    A maior desventura
    He sempre a que nos lança
    No horror da sepultura:
    O cobarde a morrer tambem caminha;
    Com que males não póde
    Huma alma como a minha?

    LYRA XXIX.

    Eu descubro procurar-me
    Gentil mancebo, e loiro,
    Trazia a testa adornada
    Com folhas de verde loiro.
    Vejo ser o Pai das Musas,
    E me entrega a lyra d'oiro.

    Já basta, me diz, ó filho,
    Já basta de sentimento;
    O cançado peixe exige
    Hum breve contentamento.
    Louva a formosa Marilia
    Ao som do meu instrumento.

    Firo as cordas; mas que importa?
    A dôr não socega em tanto.
    Ergo a voz, então reparo
    Que quanto mais corre o pranto
    He mais doce, e mais sonoro
    Meu terno, e saudoso canto.

    Apollo fitou os olhos
    Na mão, que regía o braço;
    E depois de estar suspenso,
    De me houvir hum largo espaço;
    Assim diz: _o Deos Cupido
    Faz inda mais do que eu faço_.

    _Eu te dou a minha lyra,
    Louva, louva a tua Bella;
    Porém vê que ta concedo
    Com condição, e cautella_…
    Eu lhe corto a voz, dizendo,
    Que só canto em honra della.

    LYRA XXX.

    O pai das Musas,
    O Pastor loiro
    Deo-me, Marilia,
    Para cantar-te
    A lyra de oiro.

    As cordas firo,
    O brando vento
    Teus dotes leva
    Nas brancas azas
    Ao firmamento.

    O teu cabello
    Vale hum thesoiro;
    Hum só me adorna
    A sabia frente
    Melhor que o loiro.

    Nesses teus olhos
    Amor assiste;
    Delles faz guerra;
    Ninguem lhe foge;
    Ninguem resiste.

    Algumas vezes
    Eu o diviso
    Tão bem occulto
    Nas lindas cóvas,
    Que faz teu riso.

    Nesses teus peitos
    Tem os seus ninhos
    Destros Amores,
    Nelles se gerão
    Os Cupidinhos.

    Vences a Venus,
    Quando com arte
    As armas toma,
    Porque mais prenda
    Ao fero Marte.

    Eu produzia
    Estas idéas,
    Quando, Marilia;
    O som escuto
    Das vis cadêas.

    Dou hum suspiro.
    Corre o meu pranto;
    E inda bebendo
    Lagrimas tristes,
    De novo canto.

    Sou da constancia
    Hum vivo exemplo.
    E vós, ó ferros,
    Honrareis inda
    De Amor o Templo.

    LYRA XXXI.

    Roubou-me, ó minha Amada, a sorte impía,
    Quanto de meu gosava
    N'um só funesto dia.

    Honras de maioral, manada grossa,
    Fertil, extensa herdade,
    Bem reparada chóça.

    Metteo-me nesta infame sepultura,
    Que he sepulcro sem honras,
    Breve masmorra, escura.

    Aqui, ó minha Amada, nem consigo,
    Venha outro desgraçado
    Sentir tambem comigo.

    Mas se esta companhia não mereço;
    Os Deoses me dão outra,
    Inda de mais apreço.

    Não he, não, illusão o que te digo;
    Tu mesma me acompanhas;
    Peno, mas he comtigo.

    Não vejo as tuas faces graciosas,
    Os teus soltos cabellos,
    As tuas mãos mimosas.

    Se eu as visse, infeliz me não dissera,
    Bem que subira ao Porto,
    Bem que na Cruz pendêra.

    Não ouço as tuas vozes magoadas,
    Com ardentes suspiros
    Ás vezes mal formadas.

    Mas vejo, ó cara, as tuas letras bellas;
    Huma por hum beijo,
    E choro então sobre ellas.

    Tu me dizes que siga o meu destino;
    Que o teu amor na ausencia
    Será leal, e fino.

    De novo a carta ao coração aperto,
    De novo a molha o pranto
    Que de ternura verto.

    Ah! leve muito embora o duro Fado;
    A tudo quanto tenho
    Com meu suor ganhado.

    Eu juro, que do roubo nem me queixe,
    Com tanto, ó minha cara,
    Que este só bem me deixe.

    Que males voluntarios não subírão,
    Os que te amão, sómente
    Porque menos te ouvírão?

    Dê pois aos mais seus bens a Deosa céga;
    Que eu tenho aquella gloria,
    Que a mil felizes nega.

    LYRA XXXII.

    Se o vasto mar se encapella,
    E na rócha em flor rebenta,
    Grossa náo, q' não tem léme,
    Em vão sustentar-se intenta;
    Até que naufraga, e corre
    Á discrição da tormenta.

    Quem não tem huma Belleza,
    Em que ponha o seu cuidado,
    Se o Ceo se cobre de nuvens,
    E se assopra o vento irado,
    Não tem forças que resistão
    Ao impulso do seu fado.

    Nesta sombria masmorra,
    Aonde, Marilia, vivo,
    Encosto na mão o rosto,
    Fico ás vezes pensativo.
    Ah! que imagens tão funestas
    Me finge o pezar activo.

    Parece que vejo a honra,
    Marilia, toda enlutada,
    A face de hum pai rugosa,
    N'um mar de pranto banhada,
    Os amigos mascilentos,
    E a familia consternada.

    Quero voltar os meus olhos
    Para outro diverso lado,
    Vejo n'uã grande Praça
    Hum Theatro levantado.
    Vejo as Cruzes, vejo os Potros,
    Vejo o Alfanje afiado.

    Hum frio suor me cobre,
    Lação-se os membros, suspiro,
    Busco allivio ás minhas ancias,
    Não o descubro, deliro.
    Já, meu Bem, já me parece,
    Que nas mãos da morte espiro.

    Vem-me então ao pensamento
    A tua testa nevada,
    Os teus meigos, vivos olhos,
    A tua face rosada,
    Os teus dentes crystallinos,
    A tua boca engraçada.

    Qual, Marilia, a estrella d'alva,
    Que a negra noite affugenta,
    Qual o Sol, que a nevoa espalha
    Apenas a terra aquenta,
    Ou qual Iris, que o Ceo limpa,
    Quando se vê na tormenta.

    Assim, Marilia, desterro
    Triste illusão, e demencia;
    Faz de novo o seu officio,
    A razão, e a prudencia;
    E firmo esperanças doces
    Sobre a candida innocencia.

    Restauro as forças perdidas,
    Sóbe a viva côr ao rosto;
    Gyra o sangue pela vêa,
    E bate o pulso composto.
    Vê, Marilia, o quanto póde
    Contra os meus males teu rosto.

    FIM.

    MARILIA DE DIRCEO.

    POR

    F.A.G.

    TERCEIRA PARTE.

    LISBOA:

    Na Impressão Regia. Anno 1812.

    _Com licença_.

    _Vende-se na loja da Gazeta_.

    AO LEITOR.

    A geral acceitação, que a primeira, e segunda parte da Marilia de Dirceo
    tem devido ao Público, animou ao seu Editor a dar á luz huma terceira
    parte da dita Obra, a que fez juntar outras diversas Rimas do mesmo
    Author, que lhe fazem honra, e que abonão assás a distincta opinião que
    tem adquirido naquelle genero de Poesia. Adverte o Editor, que huma
    terceira parte da dita Marilia de Dirceo ha tempos publicada, he Obra de
    outro engenho, o que facilmente conhecerá ainda o Leitor menos
    intelligente.

    MARILIA DE DIRCEO.

    LYRA I.

    Convidou-me a vêr seu Templo
    O cego Cupido hum dia;
    Encheo-se de gosto o peito,
    Fiz deste Deos hum conceito
    Como delle não fazia.

    Aqui vejo descorados
    Os ternissimos amantes
    Entre as cadêas gemerem;
    Vejo nas piras arderem
    As entranhas palpitantes.

    _A quem ama quanto avista_,
    (Diz Cupido) _não aterra:
    Quem quer cingir o loureiro,
    Tambem vai soffrer primeiro
    Todo o trabalho da guerra_.

    _Com tudo que te dilates
    Neste sitio não convenho;
    Deixa a estancia lastimosa,
    Vem vêr a Salla formosa,
    Aonde o meu Solio tenho_.

    Entro n'outro grande Templo:
    Que perspectiva tão grata!
    Tudo quanto nelle vejo
    Passa além do meu desejo,
    E o discurso me arrebata.

    He de marmore, e de jaspe
    O soberbo frontespicio:
    He todo por dentro d'ouro,
    E a hum tão rico tesouro
    Inda excede o artificio.

    As janellas não se adornão
    De sedas de finas côres:
    Em lugar de cortinados
    Estão prezos, e enlaçados
    Fastões de mimosas flores.

    Em torno da Salla Augusta
    Ardem dourados brazeiros;
    Queimão rezinas, que estalão,
    E postas em fumo exalão
    Da Panchaya os gratos cheiros.

    Ao pé do Throno os seus Genios
    Alegres hymnos entoão:
    Danção as Graças formosas;
    E aqui as horas gostosas
    Em vêz de correrem, vôão.

    Estão sobre o pavimento,
    Igualmente reclinados
    Nos collos de seus amores,
    Os grandes Reis, e Pastores
    De frescas rosas coroados.

    Mal o acôrdo restauro,
    (Me diz, o Moço risonho:)
    _Como ainda não reparas
    Em tantas cousas tão raras,
    De que este Templo componho_?

    _Sabes a historia de Jove?
    Aqui tens o manso Touro;
    Tens o Cisne decantado;
    A Velha em que foi mudado,
    Com a grossa chuva d'ouro_.

    _Applica, Dirceo, agora
    Os olhos para esta parte:
    Aqui tens o verde Louro,
    Que inda estima o Pastor louro,
    E a Rede, que enlaça a Marte_.

    _Vês este Arco destramente
    De branco marfim ornado?
    Á Casta Deosa servia,
    E o perdêo quando dormia
    Do gentil Pastor ao lado_.

    _Vês esta Lyra? com ella
    Tira Orpheo ao bem querido
    Dos infernos aonde estava.
    Vês este Faról? guiava
    Ao meu nadador de Abydo_.

    _Vês estas duas Espadas
    Ainda de sangue cheias?
    A Thysbe, e a Dido matárão;
    E os fortes pulsos armárão
    De Pyramo, e mais de Eneas_.

    _Sabes quem vai no Navio,
    Que nesse mar se levanta?
    He Theseo. Vês esse Pomo?
    He de Cydippe, assim como
    São aquelles de Atalanta_.

    _Vê agora estes retratos,
    Que destros pinceis fizerão:
    Ah! que pinturas divinas!
    Todos são das Heroinas,
    Que mais victorias me dérão_.

    _Repara nesse semblante,
    He o semblante de Helena:
    Lá se avista a Grega Armada,
    E aqui de Troya abrazada
    Se mostra a funesta scena_.

    _Vês est'outra_ formosura?
    _He a bella Deidamía_;
    _Lá_ tem Achilles ao lado,
    _De huma saia disfarçado
    Como com ella vivia_.

    _Cleópatra he quem se segue:
    Alli tens lançando a linha
    Marco Antonio socegado,
    Ao tempo em que Augusto irado,
    Com armada mão caminha_.

    _Aqui Hermes se figura:
    Vê hum Sabio dos maiores,
    Qual infame delinquente,
    Ir desterrado sómente
    Por contar os seus louvores_.

    _Este he de Omphale o retrato:
    Aqui tens (quem o diria!)
    Ao grande Hercules sentado
    Com as mais damas no estrado,
    Onde em seu obsequio fia_.

    _Anda agora a est'outra parte:
    Conheces, Dirceo, aquella_?
    Onde váes? (lhe digo:) explica,
    Que belleza aqui nos fica,
    Sem fazeres caso della?

    Ergo os olhos ponho a vista
    Na imagem não explicada,
    Ó quanto he digna de appreço!
    Mal exclamo assim, conheço
    Ser a minha doce amada.

    O coração pelos olhos
    Em terno pranto sahia,
    E no meu peito saltava:
    Disfarçado Amor, olhava
    Para mim a furto, e ria.

    Depois de passado tempo,
    A mim se chega, e me aballa;
    Desperto de tanto assombro:
    Elle bate no meu hombro,
    E assim affavel me falla.

    _Sim, caro Dirceo, he esta
    A divina formosura,
    Que te destina Cupido;
    Aqui tens o laço urdido
    Da tua immortal ventura_.

    _O Numen, Dirceo, o Numen
    Que aos trabalhos de hum humano
    Desta sorte felicita,
    Não he, como se accredita,
    Não he hum Numen tyranno_.

    _Olha se a cega Fortuna
    De tudo quanto se cria,
    Ou nos mares, ou na terra,
    Em o seu thesouro encerra
    Outro bem de mais valia_?

    _Lizas faces côr de rosa,
    Brancos dentes, olhos bellos,
    Grossos beiços encarnados,
    Pescoço, e peitos nevados,
    Negros e finos cabellos_;

    _Não vale mais, que cingires
    Co' braço de sangue immundo
    Na cabeça o verde louro?
    Do que teres montes d'ouro?
    Do que dares leis ao mundo_?

    _Ah! ensina, sim ensina
    Ao vil mortal atrevido,
    E ao peito que adora terno,
    Que tem para hum Inferno,
    Para o outro hum Ceo, Cupido_.

    Ao resto Amor me convida;
    Eu chorando a mão lhe beijo:
    E lhe digo, Amor, perdôa
    Não seguir-te; pois não vôa
    A vêr mais o meu dezejo.

    LYRA II.

    Em vão do amado
    Filho que foge,
    Venus quer hoje
    Noticias ter.

    Sagaz, e astuto
    Elle se esconde
    Em parte aonde
    Ninguem o vê.

    Dos signaes dados
    Bem se conhece,
    Que elle aborrece
    A Mãi que tem.

    Se os seus defeitos
    Ella publíca,
    Razão lhe fica
    De se offender.

    Foge o Menino,
    E disfarçado
    Vive abrigado
    N'uma cruel.

    Com mil caricias
    A impia o trata;
    Nem o desata
    Do peito seu.

    Se a semelhança
    Sempre amor gera,
    Deve huma fera
    Outra accolher.

    Ah! se o teu nome,
    Marilia, calo,
    Que de ti fallo
    Bem pódes crer.

    LYRA III.

    Tu não verás, Marilia, cem captivos
    Tirarem o cascalho, e a rica terra,
    Ou dos cercos dos rios caudelosos,
    Ou da minada Serra.

    Não verás separar ao habil negro
    Do pezado esmeril a grossa arêa;
    E já brilharem os granetes de ouro,
    No fundo da batêa.

    Não verás derrubar os virgens matos,
    Queimar as capoeiras inda novas,
    Servir de adubo á terra a fertil cinza,
    Lançar os grãos nas cóvas.

    Não verás enrolar negros pacotes
    Das secas folhas do cheiroso fumo;
    Nem espremer entre as dentadas rodas
    Da doce cana o sumo.

    Verás em cima da espaçosa meza
    Altos volumes de enredados feitos;
    Ver-me-has folhear os grandes livros,
    E decidir os pleitos.

    Em quanto revolver os meus Consultos,
    Tu me farás gostosa companhia
    Lendo os fastos da sabia, mestra Historia,
    Os Cantos da Poesia.

    Lerás em alta Voz a imagem bella;
    Eu vendo que lhe dás o justo appreço;
    Gostoso tornarei a lêr de novo
    O cansado processo.

    Se encontrares louvada huma belleza,
    Marilia, não lhe envejes a ventura,
    Que tens quem leve á mais remota idade
    A tua formosura.

    LYRA IV.

    Amor por acaso
    A hum pouso chegava,
    Aonde accolhida
    A Morte se achava.

    Risonhos, e alegres
    Os braços se dérão,
    E as armas unidas
    N'um sitio pozerão.

    De emprezas tamanhas
    Cansados já vinhão,
    E em larga conversa
    A noite entretinhão.

    Hum conta que ha pouco
    A seta aguçada
    Em huma belleza
    Deixára empregada.

    Diz outro que as flexas
    Cravára no peito
    De hum grande, que teve
    O Mundo sujeito.

    Em quanto das forças
    Cada hum persumia,
    Seus membros já laços
    O somno rendia.

    Dormindo tranquillos
    A noite passárão,
    E inda antes da Aurora
    Com ancia acordárão.

    _He tempo que o leito
    Deixemos, ó Morte_;
    Amor, já erguido
    Fallou desta sorte.

    _He tempo_, em resposta
    A morte repete,
    _Que á nossa fadiga
    Dormir não compete_.

    _As armas colhamos,
    Voltemos ao giro:
    Cada hum a seu gosto
    Empregue o seu tiro_.

    Vão inda c'os olhos
    Em somno turbados,
    Ao sitio em que os ferros
    Estão pendurados.

    Amor para as setas
    Da morte se enclina:
    De amor logo a Morte
    C'o as flexas atina.

    Oh golpes tyrannos!
    Oh mãos homicidas!
    São tiros da Morte
    De Amor as feridas.

    De hum sonho, que pinto,
    Marilia conhece,
    Se amor, ou se morte
    Este alma padece.

    LYRA V.

    Eu não sou, minha Nize, pegureiro,
    Que viva de guardar alhêo gado;
    Nem sou pastor grosseiro
    Dos frios gêlos, e do Sol queimado,
    Que veste as pardas lãs do seu cordeiro.
    Graças, ó Nize bella,
    Graças á minha Estrella!

    A Cresso não igualo no thesouro:
    Mas deo-me a Sorte com que honrado viva.
    Não cinjo corôa d'ouro;
    Mas Póvos mando, e na testa altiva
    Verdeja a Corôa do Sagrado Louro.
    Graças, ó Nize bella,
    Graças á minha Estrella!

    Maldito seja aquelle, que só trata
    De contar escondido a vil riqueza!
    Que cego se arrebata
    Em buscar nos Avós a vã nobreza,
    Com que aos mais homens seus iguaes abata.
    Graças, ó Nize bella,
    Graças á minha Estrella!

    As fortunas que em torno de mim vejo,
    Por falsos bens que enganão não reputo;
    Mas antes mais desejo,
    Não para me voltar soberbo em bruto
    Por vêr-me grande quando a mão te beijo.
    Graças, ó Nize bella,
    Graças á minha Estrella!

    Pela Ninfa que jaz vertida em Louro,
    O grande Deos Apollo não delira?
    Jove mudado em Touro,
    E já mudado em Velha não suspira?
    Seguir aos Deoses nunca foi desdouro.
    Graças, ó Nize bella,
    Graças á minha Estrella.

    Pertendão Hanibaes honrar a Historia,
    E cinjão com a mão de sangue chêa
    Os louros da victoria.
    Eu revolvo os teus dons na minha idéa:
    Só dons que vem do Ceo são minha gloria.
    Graças, ó Nize bella,
    Graças á minha Estrella!

    LYRA VI.

    _Traducção_.

    Amor que seus passos
    Ligeiro movia,
    Por mil embaraços
    Que hum bosque tecia.

    Nos hombros me acena
    Com brando raminho;
    E logo me ordena
    Que siga o caminho.

    Por entre a espessura
    Do bosque me avanço:
    E a traz da ventura
    Incauto me lanço.

    Já tinha calcado
    Os montes mais duros:
    C'o peito rasgado
    Os rios escuros.

    Eis que huma serpente
    A lingua vibrando,
    Me crava o seu dente,
    Me deixa espirando.

    Então surprendida
    Da dôr que a traspassa,
    Minha alma ferida
    Aos beiços se passa.

    As iras detesta
    Amor isto vendo,
    E as azas na testa
    Me bate dizendo:

    _Tu choras, tu gemes
    Da Serpe tocado,
    E o braço não temes
    De hum Numen irado_?

    LYRA VII.

    Tu, formosa Marilia, já fizeste
    Com teus olhos ditosas as campinas,
    Do turvo Ribeirão em que nasceste:
    Deixa, Marilia, agora
    As já lavradas terras;
    Anda affoita romper os grossos mares,
    Anda encher de alegria estranhas terras.
    Ah! que por ti suspírão
    Os meus saudosos lares.

    Não corres como Sapho sem ventura
    Em seguimento de hum cruel ingrato,
    Que não sede aos encantos da ternura:
    Segues a hum fino amante,
    Que a perder-te morria.
    Quebra os grilhões do sangue, e vem, ó bella;
    Tu já foste no Sul a minha guia.
    Ah! deves ser no Norte
    Também a minha Estrella.

    Verás ao Deos Neptuno socegado
    Aplainar co' tridente as crespas ondas;
    Ficar como dormindo o mar salgado.
    Verás, verás d' alheta
    Soprar o brando vento,
    Mover-se o léme, disrinzar-se o linho,
    Seguirem os Delfins o movimento,
    Que leva na carreira
    O empavezado pinho.

    Verás como o Leão na prôa arfando
    Converte em branca espuma as negras ondas
    E as talha, e corta com murmurio brando.
    Verás, verás Marilia
    Da janella dourada,
    Que huma comprida estrada representa
    A linfa cristalina, que pizada
    Pela poupa que foge
    Em borbotões rebenta.

    Bruto peixe verás de corpo immenso,
    Tornar ao torto anzol depois de o terem
    Pela rasgada boca ao ar suspenso:
    Os pequenos peixinhos
    Quaes passaros voarem:
    De toninhas verás o mar coalhado,
    Ora surgirem, ora mergulharem,
    Fingindo ao longe as ondas
    Que fórma o vento irado.

    Verás que o grande monstro se apresenta
    Hum repuxo formando com as aguas,
    Que ao ar espalha da robusta venta.
    Verás em fim, Marilia,
    As nuvens levantadas
    Humas de côr azul, ou mais escuras,
    Outras de côr de rosa, ou prateadas
    Fazerem no Orizonte
    Mil diversas figuras.

    Mal chegares á foz do claro Téjo,
    Apenas elle vir o teu semblante
    Dará no léme do baixel hum beijo.
    Eu lhe direi vaidoso:
    Não trago, não comigo
    Nem pedras de valor, nem montes d'ouro,
    Roubei as aureas Minas, e consigo
    Trazer para os teus cofres
    Este maior Thesouro.

    LYRA VIII.

    Em cima dos viventes fatigados
    As verdes dormideiras espremia,
    Os mentirosos sonhos me cercavão.
    Na vaga fantasia
    Ao vivo me pintavão
    As glorias, que disperto
    Meu coração pedia.

    Eu vou, eu vou subindo a Náo possante
    Nos braços conduzindo a minha bella;
    Voltêa a grande roda, e a grossa amarra
    Se enlêa em torno della:
    Já ponho a prôa á barra,
    Já cáhe ao som do apito
    Ora huma, ora outra véla.

    Os arvoredos já se não distinguem:
    A longa praia ao longe não branqueija;
    E já se vão sumindo os altos montes.
    Já não ha que se veja
    Nos claros Orizontes,
    Que não sejão vapores,
    Que Ceo, e mar não seja.

    Parece vão correndo as negras ondas,
    E o pinho qual rochedo estar parado:
    Ergue-se a onda, vem á Náo direita
    E quebra no costado:
    O Navio se deita,
    E ella finge a ladeira
    Sahindo do outro lado.

    Vejo nadarem os brilhantes peixes;
    Cahir do Láes a linha, que os engana:
    Hum dourado no anzol está pendente,
    Soffre morte tyranna;
    Entre tanto que a sente
    Ao tombadilho açoita
    A cauda, e a barbatana.

    Sobre as ondas descubro huma Carroça
    De formosas conchinhas enfeitada;
    Delfins a movem, e vem Thetis nella:
    Na popa está parada:
    Nem póde a Deosa bella
    Tirar os brandos olhos
    Da minha doce amada.

    Nas costas dos Golfinhos vem montados
    Os nûz Tritões, deixando a Esfera cheia
    Co' rouco som dos buzios retorcidos.
    Recrêa, sim recrêa
    Meus attentos ouvidos
    O canto sonoroso
    Da musica Serêa.

    Já sóbe ao grande mastro o bom gageiro;
    Descobre arrumação, e grita terra:
    Á murada caminha alegre a gente;
    Alguns entendem que erra:
    Pelo immovel sómente
    Conheço não ser nuvem,
    Sim o cume de alta serra.

    De Mafra já descubro as grandes torres;
    (E que nova alegria me arrebata!)
    De Cascaes a muleta já vem perto,
    Já de abordar-nos trata:
    Já o piloro esperto
    Inda debaixo manda
    Soltar mezena, e gata.

    Eu vou entrando na espaçosa barra:
    A grossa artilheria já me atrôa.
    Lá ficão Paço de Arcos, e a Junqueira.
    Já corre pela prôa
    Huma amarra ligeira;
    E a Náo já fica surta
    Diante da grã Lisboa.

    Agora, agora sim, agora espero
    Renovar da amizade antigos laços:
    Eu vejo ao velho Pai, que lentamente
    Arrasta a mim os passos:
    Ah como vem contente!
    De longe mal me avista
    Já vem abrindo os braços.

    Dóbro os joelhos pelos pés o aperto,
    E manda que dos pés ao peito passe:
    Marilia quanto eu fiz fazer intenta;
    Antes que os pés lhe abrace
    Nos braços a sustenta;
    Dá-lhe de filha o nome,
    Beija-lhe a branca face.

    Vou a descer a escada (ó Ceos!) acórdo,
    Conheço não estar no claro Tejo.
    Abro os olhos, procuro a minha amada,
    E nem se quer a vejo.
    Venha a hora affortunada,
    Em que não fique em sonhos
    Tão ardente desejo.

    _A huma despedida_.

    Chegou-se o dia mais triste,
    Que o dia da morte fêa:
    Cahi do throno Dircéa,
    Do throno dos braços teus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Impio Fado, que não pôde
    Os doces laços quebrar-me,
    Por vingança quer levar-me
    Distante dos olhos teus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Parto em fim, e vou sem vêr-te,
    Que neste fatal instante,
    Ha de ser o teu semblante
    Mui funesto aos olhos meus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    E crês, Dircéa, que devem
    Vêr meus olhos penduradas
    Tristes lagrimas salgadas
    Correrem dos olhos teus?
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    De teus olhos engraçados,
    Que podérão piedosos,
    De tristes em venturosos
    Converter os dias meus?
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Desses teus olhos divinos,
    Que ternos, e socegados,
    Enchem de flores os prados,
    Enchem de luzes os Ceos?
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Desses teus olhos em fim,
    Que domão Tigres valentes?
    Que nem rigidas Serpentes
    Resistem aos tiros seus?
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Da maneira que serião
    Em não vêr-te criminosos
    Em quanto forão ditosos,
    Agora serião réos.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Parto em fim, Dircéa bella,
    Rasgando os ares cinzentos;
    Virão nas azas dos ventos
    Buscar-te os suspiros meus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Talvez, Dircéa adorada,
    Que os duros Fados me neguem
    A gloria de que elles cheguem
    Aos ternos ouvidos teus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Mas se ditosos chegarem,
    Pois os sólto a teu respeito;
    Dá-lhes abrigo no peito,
    Junta-os c'os suspiros teus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    E quando tornar a vêr-te
    Ajuntando rosto, a rosto,
    Entre os que dérmos de gosto;
    Restitue-me então os meus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    CANÇÃO.

    Dês que vi, formosa Elvira,
    Os teus divinos cabellos,
    Esses vivos olhos bellos,
    Que invéja dos astros são,
    Foi-se, Elvira, foi-se embora
    Toda a paz do coração.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Em quanto, Elvira, se occulta
    A meus olhos teu semblante,
    Hum minuto, hum breve instante
    Parece que fim não tem.
    Se alcanço de vêr-te a gloria,
    Então vôa o tempo bem.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando te ris por acaso
    Para outro qualquer sugeito,
    Estala dentro do peito
    De ciume o coração:
    Se me pões os olhos julgo
    Que zombas de mim então.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando ha brinco na floresta,
    E a divina Olaia canta,
    O mesmo gado levanta
    A cabeça para ouvir.
    Só por mais que Alceo forceje
    Não póde o prazer fingir.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando levo á clara fonte
    O rebanho do meu gado,
    Cáhe-me da mão o cajado,
    E com ella á testa vou:
    Fico pasmado, e ignoro
    O lugar aonde estou.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando vou segar o trigo,
    (Olha bem como ando cego.)
    N'uma parte nelle pego,
    Metto n'outra a fouce em vão;
    Dos que vem alguns se riem,
    Outros mostrão compaixão.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando me deito no colmo,
    Sempre sonho que te vejo,
    Que te fallo, e que te beijo
    A branca nevada mão.
    Acórdo, Pastora, e foges:
    Eu fico mais triste então.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando alguem meu mal pergunta,
    Bem que seja a vez primeira,
    Rompo ainda que não queira
    O segredo sem saber.
    O teu nome, Elvira, digo,
    Quando devo o seu dizer.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Fujo ao trato dos pastores,
    Para hum bosque me retiro;
    Com desafogo suspiro,
    E chamo por ti meu bem.
    Os valles que se enternecem
    Chamão-te ao longe tambem.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando escuto o triste mocho
    A gemer no meu telhado,
    Qualquer mal excogitado
    Não me deve algum temor:
    Só receio que me agoure
    Máo successo ao meu amor.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Os pastores que me avistão
    Com o dedo já me apontão,
    E á roda do fogo contão
    Da maneira que me vem.
    Sou o exemplo dos amantes
    Que esta nossa Aldêa tem.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    SONETO I.

    He gentil, he prendada a minha Altéa;
    As graças, a modestia do seu rosto
    Inspírão no meu peito maior gosto,
    Que vêr o proprio trigo quando ondêa.

    Mas vendo o lindo gesto de Dircéa
    A nova sugeição me vejo exposto;
    Ah! que he mais engraçado, mais composto,
    Que a pura Esfera de mil astros chêa.

    Prender as duas com grilhões estreitos
    He huma acção (ó Deoses!) inconstante,
    Indigna de sinceros, nobres peitos.

    Cupido, se tens dó de hum triste amante,
    Ou fórma de Lorino dous sugeitos,
    Ou fórma desses dous hum só semblante.

    SONETO II.

    N'um fertil campo do soberbo Douro,
    Dormindo sobre a relva descançava,
    Quando vi que a Fortuna me mostrava
    Com alegre semblante o seu Thesouro.

    De huma parte h[~u] montão de prata, e ouro
    Com pedras de valor o chão curvava;
    Aqui hum sceptro, alli hum trono estava,
    Pendião coroas mil de grama, e louro.

    _Acabou-se_ (diz-me então) _a desventura:
    De quantos bens te exponho qual te agrada,
    Pois benigna os concedo, vai, procura_.

    Escolhi, acordei, e não vi nada:
    Commigo assentei logo que a ventura
    Nunca chega a passar de ser sonhada.

    SONETO III.

    Enganei-me, enganei-me, paciencia;
    Accreditei as vozes, cri, Ormia,
    Que a tua singeleza igualaria
    Á tua mais que angelica apparencia.

    Enganei-me, enganei-me, paciencia;
    Ao menos conheci que não devia,
    Pôr nas mãos de huma externa galhardia
    O prazer, o socego, e a innocencia.

    Enganei-me, Cruel, com teu semblante,
    E nada me admiro de faltares,
    Que esse teu sexo nunca foi constante.

    Mas tu perdestes mais em me enganares;
    Que tu não acharás hum firme amante,
    E eu posso de traidoras ter milhares.

    SONETO IV.

    Ainda que de Laura esteja ausente,
    Ha de a chama durar no peito amante;
    Que existe retratado o seu semblante,
    Se não nos olhos meus, na minha mente.

    Mil vezes finjo vêla, e eternamente
    Abraço a sombra vã; só nesse instante
    Conheço que ella está de mim distante,
    Que tudo he illusão que esta alma sente.

    Talvez que ao bem de a vêr Amor resista;
    Porque minha paixão, que aos Ceos he grata,
    Por innocente assim melhor persista:

    Pois quando só na idéa ma retrata,
    Debuxa os dotes com que prende vista,
    Esconde as obras com que offende ingrata.

    SONETO V.

    Ao Templo do Destino fui levado:
    Sobre o Altar hum Cofre se firmava,
    Em cujo seio cada qual buscava
    Tremendo annuncio do futuro estado.

    Tiro hum papel, e leio: Ceo Sagrado!
    Com quanta causa o coração pulsava:
    Este duro Decreto escrito estava,
    Com negra tinta pela mão do Fado.

    _Adore Polidoro a bella Ormia,
    Sem della conseguir a recompensa,
    Nem quebrar-lhe os grilhões a tyrannia_.

    Das mãos, Amor mo arranca, e sem detença
    Tres vezes o levando á boca impía,
    Jurou comprir á risca a tal sentença.

    SONETO VI.

    Ergue-te, ó Pedra, e desde a margem fria,
    Que os muros banha a Lusitana Athenas,
    Mostra-me as desmaiadas assucenas
    Do rosto que me occupa a fantasia.

    Deixa [~q] eu beije a mão, [~q] pôde hum dia
    Ceder de amor ás lastimosas scenas;
    Q'entre as ancias, a dôr, a mágoa, as penas
    Renove a saudosa idolatria.

    Solto do véo mortal, oh Feliz Astro,
    Une ao cadaver a truncada testa,
    Levanta o bello cólo de alabastro:

    Huma alma grande junto a ti protesta
    Fazer a gloria da defunta Castro;
    A illustre Neta vez: Maria he esta.

    _Á Illustrissima e Excellentissima Senhora Condessa de Cavalleiros, D.
    Maria José de Eça e Bourbon_.

    SONETO VII.

    Quantas vezes Lidora me dizia,
    Ao terno peito minha mão levando,
    Conjurem-se em meu mal os Astros, quando
    Achares no meu peito aleivosia.

    Então que não chorasse lhe pedia,
    Por firme seu amor acreditando;
    Ah! que em movendo os olhos suspirando
    Ao mais acautellado enganaria.

    Hum anno assim viveo: ó Ceos! agora
    Mostrou que era mulher: a natureza
    Só por não se mudar a fez traidora.

    Não, não darei mais cultos á belleza,
    Que depois de faltar á fé, Lidora,
    Nem creio que nas Deosas ha firmeza.

    SONETO VIII.

    O Numen Tutelar da Monarquia,
    Que fez do grande Henrique a invicta espada,
    Procurou dos Destinos a morada,
    Por consultar a idade que viria.

    A mil, e mil heróes descriptos via,
    Que exaltão de Furtado a estirpe honrada,
    E na serie, que adora dilatada,
    O nome de Francisco descobria.

    Contempla huma por h[~u]a as letras d'ouro,
    Este penhor, que o tempo não consome,
    Promette ao Reino seu maior thesouro.

    Prosta-se o Genio: e sem [~q] a empreza tome
    De lhe buscar sequer mais outro agoiro,
    O sitio beija, e lhe mostra o nome.

    _Ao Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Visconde de Barbacena,
    Francisco Furtado de Mendonça_.

    SONETO IX.

    Nascer no berço da maior grandeza,
    De palmas, e de louros rodeado,
    Deve-se aos grandes Pais, ao Tronco honrado,
    Que illusrra desde longe a natureza.

    Se porém muito mais se adora, e preza
    O dom que o nobre sangue trás herdado
    Pela propria virtude sustentado,
    Feliz o objecto da presente empreza.

    De mil Heróes no Téjo vencedores
    Hum ramo nasce, hum ramo que a memoria
    Faz immortal de seus Progenitores.

    Eu leio em vaticinio a sua historia;
    Une Francisco a par de seus maiores
    Ao herdado explendor a propria gloria.

    _Ao mesmo excellentissimo Visconde_.

    SONETO X.

    Mudou-se em fim Lidora, essa Lidora
    Por quem mil vezes fé me foi jurada;
    Que vos detem (ó Ceos!) que castigada
    Ainda não deixais tão vil traidora?

    Não haja piedade: sinta agora
    A dita sem remedio em mal trocada;
    Pois se assim não succede, fica ousada
    Para ser outra vez enganadora.

    Vingai, ó justos Ceos…, mas ah! [~q] digo?
    Que maltrateis Lidora? o sentimento
    Privou-me do discurso, eu me desdigo.

    Não, não vibreis o raio violento;
    Pois sei que a compaixão do seu castigo,
    Hade augmentar depois o meu tormento.

    SONETO XI.

    A Deos cabana, a Deos; a Deos, ó gado,
    Albina ingrata, a Deos, em paz te deixo:
    A Deos doce rabil, neste alto freixo
    Te fica ao meu destino consagrado.

    Se te for meu successo perguntado,
    Não declares rabil de quem me queixo;
    Não quero que se saiba vive Aleixo
    Por causa de huma infame desterrado.

    Se vires a Pastor desconhecido,
    Lhe dize então piedoso: Ah! vaite embora,
    Atalha os damnos, que outros tem sentido.

    Habita nesta Aldêa huma Pastora
    De rosto bello, coração fingido,
    Humas vezes cruel, e as mais traidora.

    SONETO XII.

    Com pezadas cadeias maniatado,
    Ás vozes da razão insurdecido,
    Dos Ceos, de mim, dos homens esquecido
    Me vi de amor nas trévas sepultado.

    Alli aliviava o meu cuidado
    Cõ dar de quando em quando algum gemido:
    Ah tempo! que sómente reflectido
    Me fazes entre as ditas desgraçado.

    Assim vivia, quando a falsidade
    De Laura me tornou n'um breve dia
    Quanto a razão não pôde em longa idade.

    Quebrei o vil grilhão que me opprimia:
    Ó feliz de quem gosa a liberdade!
    Bem que venha por mãos da aleivosia.

    SONETO XIII.

    Obrei quanto o discurso me guiava;
    Ouvi os Sabios quando errar temia:
    Aos bons no gabinete o peito abria;
    Na rua a todos como iguaes honrava.

    Julgando os crimes nunca voto dava
    Mais duro, ou pio do que a Lei pedia;
    Mas podendo salvar o justo ria,
    E devendo punir ao réo chorava.

    Nem forão, Villa Rica, os meus intentos
    Metter em ferreo cofre copia d'ouro,
    Que chegue aos filhos, e que passe aos netos.

    Outras são as venturas que me agouro:
    Ganhei saudades, adquiri affectos,
    Vou fazer destes bens melhor thesouro.

    _Feito quando o Author acabou o Lugar de Ouvidor de Villa Rica, e foi
    despaçhado para Desembargador da Bahia_.

    SONETO XIV.

    Quando o torcido buço derramava
    Terror no aspecto ao Portuguez sisudo,
    Quando sem pó, nem oleo o pente agudo
    Duro intonso o cabello em laço atava.

    Quando contra os Irmãos o braço armava
    O forte Nuno oppondo escudo, a escudo;
    Quando a palavra que perfere a tudo
    Com a barba arrancada João firmava.

    Quando a mulher á sombra do marido
    Tremer se via: quando a Lei prudente
    Zelava o sexo do civil ruido;

    Feliz então, então só innocente
    Era de Luso o Reino: oh bem perdido!
    Ditosa condição, ditosa gente!

    SONETO XV.

    Sombras illustres dos varões famosos,
    Que á Grecia, e Roma destes Leis hum dia;
    Vós que do Elysio na região sombria
    Respiraes entre os Zefiros mimosos.

    Grande Licurgo, ó tu Solon, [~q] honrosos
    Louros cingis, que egregia companhia
    Fazeis aos Mazzarinos, eu queria
    Adorar vossos vultos magestosos.

    Vós fizesteis da vossa Patria a gloria;
    Por vós hoje he feliz a humanidade:
    Que dignos sois de huma immortal historia!

    Cesce, cesse porém vossa vaidade;
    Que basta a escurecer vossa memoria
    Hum Carvalho, que adora a nossa idade.

    _Ao Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Marquez de Pombal reformando
    a Universidade de Coimbra_.

    SONETO XVI.

    As molles azas a bater começa
    Entre as palhas o tenro passarinho,
    E largos dias por deixar o ninho
    Se cança, se fadiga, se arremeça.

    H[~u] impulso, outro impulso é vão se apresa,
    Já se firma no pé, já no biquinho,
    Nas folhas se tem, passa ao raminho
    Té que a penna se esforce, e se endureça.

    Quando emfim he capaz de movimento
    Deixa os arbustos vaga pelos ares,
    E sobre as altas faias toma assento:

    Estes sejão, Salicio, os exemplares
    Em que a vossa virtude anime o alento,
    Porque hum dia da Fama honre os Altares.

    _Ao Illustrissimo Senhor Luiz Beltrão de Gouvea_.

    ODE.

    Se entre as louras arêas
    Do meu Jaquitinhonha, hum Genio erguido
    Ás Regiões alheas
    Manda que em doce metro reppetido
    Hoje o teu Nome leve,
    Tanto á virtude, meu Beltrão, se deve.

    Vejo a sordida inveja
    De ira morder-se, e as serpes sacudindo
    Por se tragar forceja:
    De pejo, e de vergonha em vão cobrindo
    Co' as frias mãos o rosto,
    Geme a calumnia no mortal desgosto.

    Vós, Genios fortunados,
    Que do Templo da Gloria honrais a estancia,
    Os meritos sagrados
    Cantai do bom Ministro: He a constancia,
    A sabia fortaleza
    He quem o guia na maior empreza.

    Se os rigidos palmares
    Da Idumeya consulto; o bravo Noto
    Os tormentosos ares
    Não podem mais dobralos: zomba immoto,
    Nem ás ondas tem medo
    Sobranceiro ao Egeo, firme penedo.

    Tal a constancia tua
    Em meio foi dos perfidos rumores;
    A verdade, que nua
    Derramava em teu rosto as vivas côres,
    Sobre as aras decentes
    Vio por triunfo mil trofeos pendentes.

    A vigilancia, o zelo,
    A rectidão do espirito; elevada
    Ao gráo mais rico, e bello,
    Essa virtude, que nos traz provada
    Em meio dos Thesouros
    A sã virtude, que enobrece os Louros:

    Tudo, tudo apparece
    Sabio Ministro da victoria ao lado;
    Athenas, que me offerece
    No seu público Erario accreditado
    Aristides, o Justo,
    Em ti acena o seu modelo augusto.

    Mil vezes orgulhosa
    Negra calumnia o seu desterro tenta;
    A virtude preciosa
    Contra o fero Themistocles sustenta.
    Não ha força que baste,
    Não ha poder que o peito lhe contraste.

    Feliz o Rei, o Povo,
    Feliz tambem de Themis a ballança;
    De hum modo raro, e novo
    Nas tuas mãos eu vejo, que descança:
    Aos premios, ao castigo
    Se reparte sem queixa o braço amigo.

    Ah! sinta a nossa idade
    De hum sangue illustre, de hum talento raro
    A próvida igualdade!
    Melhor do que nos marmores de Pharo,
    Em memoria nos vindouros
    T'ergue o Serro h[~u] Padrão nos seus Thesouros.

    _Imitando o sonho de Scipião_.

    ODE.

    Já vou tocando, ó Licio,
    De Lustros dez o fatigado termo;
    E já meu corpo enfermo
    Se avisinha da morte ao duro officio:
    Que cedo o meu destino me promette
    Calcar as sombras do medonho Lethe!

    Eu descerei contente
    A ver os Manes dos Avós amados;
    Que bem aventurados,
    Se outro mundo tratarão, se outra gente!
    Não virão elles, como eu triste vejo,
    O velho mando peiorar sem pejo.

    Passárão da innocencia
    Pela candida estrada os pés levando;
    Inda a fera violencia
    Não corrompia da Justiça o mando;
    Praticava-se a próvida igualdade
    Entre a Santa Virtude, e a vil maldade.

    A pura fé do Amigo,
    Renovava de Orestes a memoria:
    Commum era o perigo,
    Reciproca tambem a pena, a gloria:
    Que traições, e que enganos tem disposto
    Em nossos dias hum fingido rosto!

    Tudo se vê mudado
    Nesta idade fatal em que de ferro
    O Idolo adorado
    Torpemente protege o crime, o erro:
    Como de susto, e de vergonha cheia
    Se retira de nós a bella Astrea!

    Ah! E quem de teus laços
    Deve ao pezo gemer, ó mundo cego?
    Rotos em mil pedaços
    Os teus grilhões a pendurar já chego;
    Não mais os teus encantos me deleitem,
    Estes miseros restos se aproveitem.

    Que differentes climas
    Já me finjo habitar! Os brandos ares,
    Que tu Zefiro, animas
    Que prazeres me inspirão! Dos pezares,
    Das magoas, do desgosto, e do tormento
    Aqui não sôa o tragico lamento.

    Sôlto do mortal manto
    Cuido que o centro dos Elysios piso!
    Oh quanto he bella, quanto
    A margem deste Lago! Em fresco riso
    Lirios, e rosas, quaes não colhe Flora,
    Aqui saudão a perpetua Aurora.

    Adoravel sciencia,
    Que encheste as noites, e esgotaste os dias,
    Da humana intelligencia,
    Agora sei quam longe te desvias!
    Este o seio da luz, aonde tudo
    Sem fadiga se alcança, e sem estudo!

    O número, a distancia
    Dos Orbes Celestiaes já sabio admiro:
    Noto a eterna constancia
    Do Planeta da Luz; observo o giro
    Da Terra, que regula a varia face
    Com que a proxima Lua, ou morre, ou nasce.

    Certa, e firme a carreira
    Já marco de Saturno, Marte, ou Jove,
    Da esfera derradeira
    Contemplo a força, que os mais Orbes move;
    A harmonia me encanta acorde, e rara,
    Que de Samos o Sabio já notára.

    Aqui se patentêa
    Dos errados systemas o conceito;
    E longe a minha idéa
    De vacilar, já firma o mais perfeito.
    Quem senão tu, ó Genio, sobre humano
    Libertar me podéra deste engano!

    De Massinissa o Paço
    De Carthago ao Heróe tal scena pinta:
    Ao soberbo ameaço
    Da Fortuna, elle vê clara, e distincta,
    Qual o meu Genio me retrata agora,
    A bella Patria, onde o descanço mora.

    He este, ó Licio, he este
    Sem dúvida, o Paiz bello, e sereno,
    Aonde em paz celeste
    Não respira da inveja o atroz veneno:
    E aonde livres da infeliz mudança
    Descança o teu, e o meu bom Pai descança.

    Que doce companhia
    Deveremos fazer-lhes? Ah se apresse
    O momento que hum dia
    Tão gostosa união nos lavra, e tece!
    Cheguemos a beijar as Mãos Sagradas,
    Que enchem de gloria as immortais Moradas.

    Em praticas suaves
    Alli as breves horas gastaremos;
    Nem já nos serão graves
    Na lembrança os trabalhos que aqui temos;
    Nem da pezada humanidade nossa
    Pena haverá, que atormentar-nos possa.

    Mas tu, que dos humanos
    Reges, ó Grande Deos, a dubia sorte;
    Tu, que a meta dos annos
    Firmas, descendo de teu mando a morte,
    Dilata os dias do meu Licio, em quanto,
    Douto me instrue, e me entertem seu canto.

    FIM

    End of Project Gutenberg's Marilia de Dirceo, by Tomás António Gonzaga

  • Luar de Janeiro

    Luar de Janeiro

    Aproximadamente 6.229 palavras.

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    Augusto Gil

    Luar de Janeiro

    [Figura: Olhos Olhae a Direito]

    Luar de Janeiro

    AUGUSTO GIL

    *Luar de Janeiro*

    LISBOA

    1909

    Edição da empreza d'A Lanterna–Escriptorios, rua das Gaveas, 45, 2.^o

    Typ. do Commercio, rua da Oliveira, ao Carmo, 10, Lisboa

    Áquelles que virem, neste volume de liricas, uma reviravolta effectuada
    sobre a génese d'_O Canto da Cigarra_ objectarei, com antecipada promessa
    de facil prova, que os dois livros teem uma tão intima ligação como a
    existente entre os pontos extremos da curva d'amplitude dum pêndulo.

    Aos que me censurem pela circumstancia de não ter logrado, na minha
    subalterna categoria de poeta menor, firmar-me numa posição d'equilibrio
    estavel, pergunto, em tom humilde, quem é que neste confuso seculo de
    latente misticismo humanitario, de demolidora negação e d'anciedade
    conjunctamente afflictiva e sceptica, terá a coragem de dizer que o
    encontrou–já não quero como artista, porque a esse as influencias
    ambientes lhe communicam entre-cruzadas e descoordenadas vibrações–mas
    na propria e mais serena esphera do pensamento. Se algum de vós me
    retorquir com o _eureka_ do antigo geometra, ou é um sectario, ou um
    caturra,–ou um simples.

    Sabio, como o de Syracusa, é que não é…

    Adeante.

    Novembro de (1)909.

    O auctor

    De la musique encore et toujours

    * * * * *

    Que ton vers soit la bonne aventure
    Éparse au vent crispé du matin
    Qui va fleurant la menthe et le thym,
    _Et tout le reste est litterature_.

    Verlaine

    Et c'est pourquoi ce livre-ci (qu'il était peut-être bon d'écrire) nous
    savons, toi et moi, a quels mysterieux balbutiements le réduirait le
    tête-à-tête–et tout ce que je n'ai pas dit, qu'il ne fallait pas dire.
    Et tu sais combien de pages menteuses devront, pour des motifs de
    faiblesse personnelle ou de nécessité invencible, accompagner la bonne
    page, celle que ce livre encore annonce et ordone–_tu sais, tu
    comprends et tu pardonnes_…

    Charles Morice.

    _A Coelho de Carvalho_

    _Tout court_, porque não ha adjectivos que não empallideçam ante a
    claridade dos seus talentos.

    Luar de janeiro,
    Fria claridade

    Á luz delle foi talvez
    Que primeiro
    A bocca dum português
    Disse a palavra saudade…

    Luar de platina,
    Luar que allumia
    Mas que não aquece,
    Photographia
    D'alegre menina
    Que ha muitos annos já… envelhecesse.

    Luar de janeiro,
    O gelo tornado
    Luminosidade…
    Rosa sem cheiro,
    Amor passado
    De que ficasse apenas a amizade…

    Luar das nevadas,
    Algido e lindo,
    Janellas fechadas,
    Fechadas as portas
    E elle fulgindo,
    Limpido e lindo,
    Como boquinhas de creanças mortas,
    Na morte geladas
    –E ainda sorrindo…

    Luar de janeiro,
    Luzente candeia
    De quem não tem nada,
    –Nem o calor dum brazeiro,
    Nem pão duro para a ceia,
    Nem uma pobre morada…

    Luar dos poetas e dos miseraveis,
    Como se um laço estreito nos unisse,
    São similhaveis
    O nosso mau destino e o que tens…

    De nós, da nossa dôr, a turba–ri-se
    –E a ti, sagrado ladram-te os cães!

    [Figura: A linda imagem pertence ao arruinado Mosteiro do Calvario,
    d'Evora, e constitue a unica mas encantadora manifestação d'arte desse
    pobrissimo convento. Foi doado ás monjas que o occupavam, por D. Izabel
    Juliana de Souza Coutinho, forçada noiva de José de Carvalho, filho do
    Marquez de Pombal. D. Izabel esteve enclausurada no Mosteiro do
    Calvario, por ordem do duro ministro, até se resolver a acceitar a mão
    do filho. Depois da morte do rei D. José, foi o matrimonio annullado,
    vindo D. Izabel a formar o tronco da casa Palmella pelo casamento com D.
    Alexandre de Souza. (Notas extrahidas dum artigo do erudito antiquario
    eborense Sr. José Barata. In _Serões_, Junho de (1)907)

    O menino Jesus será obra de Machado de Castro?]

    SEXTILHAS A UM MENINO JESUS D'EVORA

    _A João Barreira_

    «Em Evora vi um menino…
    …Que a dois annos não chegava
    …Era de maravilhar»…

    Garcia de Rezende. _Miscellanea._

    Num convento solitario
    D'Evora, cidade clara,
    Claro celleiro de pão,
    Existe uma imagem rara
    Obra dum imaginario
    Dos tempos que já lá vão…

    É um menino Jesus,
    De bochechinha brunida
    Côr de maçã camoeza,
    Mas no seu rosto transluz
    Uma expressão dolorida
    Que enche a gente de tristeza…

    De tantissimas imagens
    Nenhuma vi que mais prenda,
    Que maior ternura expanda,
    Com suas calças de renda,
    Seu vestido de ramagens,
    –E corôa posta á banda…

    Gordo, nedio, bem trajado,
    Deveria ser feliz,
    Deveria estar sorrindo;
    Mas o seu olhar maguado,
    Tão maguado, tão lindo,
    Que não o é, bem n'o diz…

    Se não fosse por ser Deus
    E o seu poder infinito
    Ter sempre que o demonstrar,
    Cá na terra e lá nos ceus,
    Estenderia o beicito
    –E desatava a chorar!…

    Corre o tempo descuidado,
    Passa uma hora, outra hora,
    Atraz desta outras se vão
    E, quem o vê, encantado,
    Sem se poder ir embora
    Numa perpetua attração…

    Eu entrei com sol a pino.
    Pouco depois da chegada
    (Pouco a mim me pareceu)
    Deixei de ver o Menino…
    Não era a vista cançada,
    –Foi a noite que desceu…

    Mesmo assim lá ficaria
    Absorto em muda prece
    De quem mal sabe rezar,
    Se o sacristão não viesse,
    Com rodas de Senhoria,
    Dizer-me que ia fechar…

    Pudesse tel-o trazido
    E não fosse eu rico, apenas
    De phantasias, d'esp'ranças,
    Punha-o num nicho florido
    Por sobre as camas pequenas
    Dum hospital de creanças…

    Dum hospital modelar
    Sustentado por meus bens,
    Entre olaias e roseiras,
    Cheio de sol, cheio d'ar,
    E em que as boas enfermeiras
    –Seriam as proprias mães…

    A mais ampla enfermaria
    Desse escolhido local
    De bondade e soffrimento
    –Era o fundo natural
    Da funda melancolia
    Do Menino do convento…

    BALLADA DA NEVE

    Il pleure dans mon coeur
    Comme il pleut sur la ville.

    Verlaine

    _A Vicente Arnoso_

    Batem leve, levemente
    Como quem chama por mim…
    Será chuva? Será gente?
    Gente não é certamente
    E a chuva não bate assim…

    É talvez a ventania;
    Mas ha pouco, ha poucochinho,
    Nem uma agulha bolia
    Na quieta melancolia
    Dos pinheiros do caminho…

    Quem bate assim levemente
    Com tão estranha leveza
    Que mal se ouve, mal se sente?…
    Não é chuva, nem é gente,
    Nem é vento com certeza.

    Fui ver. A neve cahia
    Do azul cinzento do ceu
    Branca e leve, branca e fria…
    –Ha quanto tempo a não via!
    E que saudades, Deus meu!

    Olho-a atravez da vidraça.
    Poz tudo da côr do linho.
    Passa gente e quando passa
    Os passos imprime e traça
    Na brancura do caminho…

    Fico olhando esses signaes
    Da pobre gente que avança
    E noto, por entre os mais,
    Os traços miniaturais
    Duns pézitos de creança…

    E descalcinhos, doridos…
    A neve deixa inda vel-os
    Primeiro bem definidos,
    –Depois em sulcos compridos,
    Porque não podia erguel-os!…

    Que quem já é peccador
    Soffra tormentos, emfim!
    Mas as creanças, Senhor,
    Porque lhes daes tanta dôr?!…
    Porque padecem assim?!…

    E uma infinita tristeza
    Uma funda turbação
    Entra em mim, fica em mim prêsa.
    Cae neve na natureza…
    –E cae no meu coração.

    TOADA PARA AS MÃES ACALENTAREM OS FILHOS

    _A Bertha Cayolla Gil Vianna_, minha sobrinha

    Oh Desgraça! vae-te embora,
    Que esta linda criancinha
    Andou no meu ventre e agora
    Trago-a nos braços. É minha!…

    Do berço, segue-me os passos;
    Onde eu vou, seus olhos vão…
    E quando a aperto nos braços
    –Abraço o meu coração.

    Quando o seu chôro receio,
    Embalo-a, faço que acceite
    A alegria do meu seio
    Na brancura do meu leite…

    E quando assim não descança,
    Que tristezas me consomem!
    –Mas antes chore em creança
    Que depois, quando fôr homem…

    Se ao dal-o ao mundo soffri
    Tormentos, ancias mortaes,
    Desgraça, vae-te d'aqui,
    O que pretendes tu mais?!

    Bate as azas, mas ao voares,
    Não me apagues esta estrella.
    Se alguem d'aqui precisares,
    –Aqui me tens, em vez della!

    Tocam ás ave-marias.
    Foi-se o sol. Não vem a lua.
    Luzinha que me allumias,
    Que sorte será a tua?…

    Riquezas tenhas tão grandes,
    E tal bondade tambem,
    Que ao redor d'onde tu andes
    Não fique pobre ninguem.

    Que a todos chegue a ventura:
    Toda a bocca tenha pão,
    Toda a nudez cobertura,
    Toda a dôr, consolação…

    Mas se o oiro é mau caminho,
    –Antes tu venhas a ser
    O pobre mais pobrezinho
    De quantos pobres houver.

    Iremos por esses montes
    Altos e azues, como os céus…
    Que onde ha fructos e onde ha fontes,
    –Está a meza de Deus!

    E, quando a neve cahir
    E as seivas adormecerem,
    Iremos então pedir…
    (Acceitar o que nos derem!)

    Andaremos á mercê
    Dos genios bons, e dos falsos,
    Leguas e leguas a pé,
    Rotinhos, magros, descalços…

    E onde houver urzes e tojos,
    Pedras que rasgam a pelle,
    Porei o corpo de rôjos
    –Passarás por cima delle!

    Dorme, dorme, meu menino,
    Foi-se o sol. Nasceu a lua.
    Qual será o teu destino?
    Que sorte será a tua?…

    Se um crime tens de fazer,
    Antes fique vago um throno,
    Antes um palacio a arder,
    –Do que uma enxada sem dono…

    Se, porém, no teu destino,
    Ha tão cruentos signaes,
    Dorme, dorme, meu menino,
    –Não tornes a acordar mais!

    O NOSSO LAR

    _A Antonio Arroyo_

    «Sonhar a vida é apenas entretel-a.
    Partamos della para nós, senão
    Lá vae o coração para uma estrella
    E fica a gente sem o coração!»

    _GUEDES TEIXEIRA_. _Esperança Nossa_

    Quem vir–como eu os vejo–decorrer
    Annos e annos duma vida rasa
    Em miseraveis quartos d'aluguer,

    Frios no inverno e no estío em braza,
    –A um amôr sonhado de mulher
    Allía sempre o sonho duma casa…

    O aspecto duma casa raro mente,
    A côr, as linhas duma frontaria
    Dão logo a perceber nitidamente,

    Melhor do que um vizinho o contaria,
    O genio e a indole da gente
    Que nella tem o lar, a moradia.

    Vejam esses _cottages_ tanto em moda
    Entre os inglezes e os capitalistas,
    Com grades no jardim, a toda a roda…

    Impenetraveis ás alheias vistas…
    Não abrem nunca uma janella toda…
    São mudos, graves, individualistas.

    E aquelles caixotões de pedra e cal
    Que surgem ao formar-se um bairro novo,
    No constante engordar da Capital,

    (O que eu, aliás, muito aprecio e louvo…)
    –Não mostram bem, com o seu ar banal,
    A falta de caracter deste povo?

    Quando uma santa e pobre rapariga,
    Em cujo olhar se abranda o meu soffrer
    E a cujo coração o meu se liga,

    Puder chegar a ser minha mulher,
    Eu quero então que a nossa casa diga
    Bondade e alegria de viver.

    Terá um só andar. Grandes alturas
    Causam vertigens, trazem ambições.
    Os sonhos de riqueza e d'aventuras

    Enchem as almas de desillusões.
    A f'licidade vem ás creaturas
    Da pacificação dos corações.

    As portas sem degraus. Que sejam rentes
    Da terra. Portas largas e rasgadas,
    Convidativas, francas, attrahentes;

    Ao rez da terra, para as aleijadas
    e os tropegos velhinhos indigentes
    Se não cançarem a subir escadas…

    Amplas janellas para a natureza.
    Que o sol na sua clara irradiação
    Dissipe atravez dellas a tristeza;

    Amplas–e baixas. Quem precise pão,
    E o vir da rua sobre a nossa meza,
    Que estenda o braço, que lhe lance a mão…

    Ao lado um horto e um jardim fragrante,
    Sem grades aguçadas para o céu.
    A grade é agressiva, hostilisante,

    E sempre a impressão cruel me deu
    Dum dono que bradasse ao caminhante:
    –Tudo isto aqui é meu, sómente meu…

    Sem gradeamento. Um murosito apenas
    Revestido de rosas de toucar,
    De ariolas, de glicinias, de verbenas.

    Muro d'onde os que forem a passar
    Vejam lilazes, cravos, assucenas…
    –E a paz, a doce paz do nosso lar.

    O QUE O FOGO POUPOU DUM POEMETO QUEIMADO

    _Ao Conego Manuel do Nascimento Simão_

    I

    Escrevo em testamento este poema
    Que elle tenha, na angustia com que o ligo,
    O brilho rutilante duma gemma
    Achada nos farrapos dum mendigo…

    Ao vesperal crepusculo da vida
    E sob o olhar da morte é que o componho;
    Erguendo assim, por minha despedida,
    O ultimo escalão dum alto sonho.

    Nesse degrau que d'entre os soes dispersos
    Hade attingir a cúpula dos céus,
    Direi ao mundo os derradeiros versos,
    Porei o coração nas mãos de Deus!

    E as mãos de Deus que os astros têm guiado
    Como se leve pluma cada um fôra,
    Hão de o sentir pesar, sollicitado
    Pelo logar da terra onde ella móra…

    II

    …Sei lá pintar!
    Se eu soubesse pintar, era pintor.

    _Guedes Teixeira_

    Na mais alta cidade portuguêsa
    Nasceu, para abrandar meu fundo mal,
    A mais santa, a mais cheia de pureza
    Das moças deste lindo Portugal.

    Os seus olhos são tristes e suggerem
    Todo um passado de resignação.
    São tristes, certamente por não verem
    O rosto incomparavel onde estão…

    A voz é clara como as assucenas
    E dolorida, candida, modesta.
    É dolorida, porque sente penas
    D'abandonar a sua bocca honesta…

    O riso, que é em nótulas delidas
    Vibra em seus labios tão rapidamente
    Como um beijo d'amor, ás escondidas,
    Na curva duma estrada em que vem gente…

    A mão della, uma vez, poisou na minha;
    Pareceu-me ao sentir-lhe a commoção,
    Que era o seu proprio coração que eu tinha
    A palpitar dentro da minha mão…

    Se passa, ás tardes, e de traz cahindo,
    O sol abraza os longes da paizagem,
    A sombra que em sua frente vae seguindo
    É a luz–a abrir-se, p'ra lhe dar passagem…

    Se passa, acalma os corações maguados
    Como outr'ora as parabolas de Christo
    Acalmavam a dôr aos desgraçados.
    Acalma os corações?! Não… não é isto.

    As estrophes d'amor, a quem o sinta,
    Dão um trabalho cheio de tormento;
    O tenebroso liquido da tinta
    Apaga, rouba a côr ao sentimento.

    Quiz celebrar dum modo original
    As finas graças do seu corpo. Errei-as.
    Oh Fórma! És como um fato d'hospital.
    Palavras! Sois a nevoa das ideias…

    MELODIA CONFIDENCIAL

    (De Albert Samain)

    _A L.C._

    Num andamento
    Discreto, lento,
    Mal se ouve o pêndulo lavrado e antigo.

    Vamos vogando
    No lago brando
    E sem limites do silencio amigo…

    O ultimo e cavo
    Accorde do cravo
    Ficou vibrando exclamativamente.

    E, em espiral
    Ascencional,
    Cingiu-nos num abraço enlanguescente.

    Na alcatifa macia
    Entrou na agonia
    Uma rosa sedenta e abandonada,

    E a ambos nos invade
    A mistica vontade
    D'entrar na morte, no não ser, no nada…

    Com seu docel vermelho
    Forrado d'oiro velho,
    Que evoca velhas eras d'esplendor,

    O leito pesado,
    Como um deus concentrado,
    Remembra obscuramente o nosso amor…

    Na atmosphera morna
    O teu corpo entorna
    Um perfume subtil, sensual, complexo,

    Aroma inapagavel,
    Philtro informulavel
    Gerado á chama clara do teu sexo.

    Teus olhos silentes
    E transparentes
    Teem, no fundo, verdes melancolicos,

    E as brazas do fogão,
    Já quasi extinctas, dão
    Clarões hypnotisantes e symbolicos…

    Amêmo-nos assim
    Com um amor sem fim,
    Verdadeiro na carne e nas ideias;

    P'los dedos enlaçados
    Sejamos penetrados
    D'amor, até ás mais miudinhas veias.

    Em extasis intensos
    Quedemo-nos suspensos
    Por sobre a terra ironica e brutal

    Sem nada saber,
    Sem nada ver,
    –Numa vida isolada e musical…

    Não fales. Não?
    Ou se o fizer's, então
    Que seja de vagar, muito baixinho,

    Numa toada, leve
    Como o halito breve
    Duns labios d'anjo numa pel' d'arminho…

    O PASSEIO DE SANTO ANTONIO

    _A Columbano_

    La fleur des traditions nationales est flétrie. Mais libre a tous
    de puiser, dans l'herbier cosmopolite des legendes, les admirables
    pretextes à fiction qu'il recèle.

    (_Litterature à Tout á L'Heure_.)

    Sahira Santo Antonio do convento,
    A dar o seu passeio costumado
    E a decorar, num tom rezado e lento,
    Um candido sermão sobre o peccado.

    Andando, andando sempre, repetia
    O divino sermão piedoso e brando,
    E nem notou que a tarde esmorecia,
    Que vinha a noite placida baixando…

    E andando, andando, viu-se num outeiro,
    Com arvores e casas espalhadas,
    Que ficava distante do mosteiro
    Uma legua das fartas, das puxadas.

    Surprehendido por se vêr tão longe,
    E fraco por haver andado tanto,
    Sentou-se a descançar o bom do monge,
    Com a resignação de quem é santo…

    O luar, um luar clarissimo nasceu.
    Num raio dessa linda claridade
    O Menino Jesus baixou do céu,
    Poz-se a brincar com o capuz do frade.

    Perto, uma bica d'agua murmurante
    Juntava o seu murmurio ao dos pinhaes.
    Os rouxinoes ouviam-se distante.
    O luar, mais alto, illuminava mais.

    De braço dado, para a fonte, vinha
    Um par de noivos todo satisfeito.
    Ella trazia ao hombro a cantarinha,
    Elle trazia… o coração no peito.

    Sem suspeitarem de que alguem os visse,
    Trocaram beijos ao luar tranquillo.
    O menino, porém, ouviu e disse:
    –Oh Frei Antonio, o que foi aquillo?…

    O santo, erguendo a manga de burel
    Para tapar o noivo e a namorada,
    Mentiu numa voz doce como o mel:
    –Não sei que fosse. Eu cá não ouvi nada…

    Uma risada limpida, sonora,
    Vibrou com timbres d'oiro no caminho.
    –Ouviste, Frei Antonio? Ouviste agora?
    –Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho…

    –Tu não estás com a cabeça boa…
    Um passarinho a cantar assim!…
    E o pobre Santo Antonio de Lisboa
    Calou-se embaraçado, mas por fim,

    Córado como as véstes dos cardeaes,
    Achou esta sahida redemptora:
    –Se o Menino Jesus pregunta mais,
    …Queixo-me á sua mãe, Nossa Senhora!

    Voltando-lhe a carinha contra a luz
    E contra aquelle amôr sem casamento,
    Pegou-lhe ao collo e acrescentou: Jesus,
    São horas…
    –E abalaram p'r'ó convento.

    UM GRÃO DE INCENSO

    _A Lourenço Cayolla_

    Entraste com ar cançado
    Numa egreja fria e triste.
    Ajoelhei-me ao teu lado
    –E nem ao menos me viste…

    Ficaste a rezar alli,
    Naquella immensa tristeza.
    Rezei tambem, mas a ti,
    –Que aos anjos tambem se reza…

    Ficaste a rezar até
    Manhã dentro, manhã alta.
    Como é que tens tanta fé
    –E a caridade te falta?…

    A MÁSCARA

    _A Santos Tavares_

    Por acaso, parou na minha frente,
    De _loup_ e dóminó de seda negra,
    Uma mulher d'olhar resplandecente
    E mento breve de figura grega.

    Tomei-lhe as mãos esguias entre as minhas…

    E os seus olhos doirados reluziram
    Como os punhaes ao sol, quando se tiram,
    Aguçados e frios, das bainhas.

    –Máscara, quem és tu?

    –E tu quem és?…

    –Um homem que te viu e te deseja…

    E um riso vago, de desdem talvez,
    Floriu na sua bocca de cereja.

    Ergui-lhe as mãos asceticas. Beijei-as.

    Em vibrações entrecortadas, sêccas,
    Tiniam taças irisadas, cheias.
    E uma phrase d'amôr, toda em colcheias,
    Vibrava nas arcadas das rebecas.

    Levei-a para o vão duma janella.
    –Máscara, quem és tu?

    –Para que insistes?…

    Outro riso subiu da bocca della
    Aos olhos enigmaticos e tristes.

    E descobriu a face. No capuz
    Emoldurou-se um rosto lindo e sério.

    Que differente porém do que eu supuz!

    A gente nunca deve entrar com luz
    Nos divinos recantos do misterio…

    IN PROMPTUM PASTORAL

    _A Amadeu de Freitas_

    «Muito vence quem se vence
    Muito diz quem não diz tudo,
    Porque a um discreto pertence
    A tempo fazer-se mudo.»

    (_Copla do Infante D. Luiz_.)

    Sob este céu creador
    De manhã vergiliana,
    Apetece ser pastor
    E tocar frauta de cana;

    Não, pastor d'autos d'amor,
    D'eclogas frias e velhas,
    Mas verdadeiro pastor
    De verdadeiras ovelhas…

    Não conhecer o talento
    Nem nada do que se ensina.
    Esta dôr do entendimento
    É peor do que se imagina…

    Guiar o meu coração
    Num ingenuo christianismo.
    Esta civilisação
    É cheia de pessimismo…

    Comer pão negro, pão duro,
    Beber o leite das peáras.
    Pão de centeio é escuro,
    –Mas põe as almas ás claras…

    Amar alguma pastora
    Com palavras e com obras.
    Estas senhoras d'agora
    São mais falsas do que as cóbras…

    E vêr crear com carinho,
    Com cuidados infinitos,
    Á companheira, um filhinho…
    E ás ovelhas, borreguitos…

    MEDITAÇÕES SOBRE THEMAS DO ECCLESIASTES

    I

    _A Celestino Steffanina_

    Vaidade de vaidades, disse o Ecclesiastes: vaidade de vaidades, e
    tudo vaidade.

    (_Capit. I, v. 1_).

    Semeador de iniquidades,
    Porque é que mandas sobre os teus eguaes?!
    O mando o que é? _Vaidade de vaidades_,
    Fumo que ao desfazer-se engrossa mais…

    Oh minha vista o que é que foi que viste
    Cá neste mundo impiedoso e rudo?

    _Que só a vaidade existe_
    –Em todos nós, e em tudo!…

    II

    _A Israel Anahory_

    Todas as coisas são difficeis; o homem não as póde explicar com
    palavras. Os olhos não se fartam de vêr nem o ouvido se enche de
    escutar.

    (_Capit. I, v. 8_).

    Palavras são palavras… Nada dizem.
    Teias d'aranha que jámais impedem
    Que as ideias se escapem e deslizem…

    Nescios os homens são quando procedem
    Como quem a verdade sempre traja
    E nunca della se encontrou despido…

    Difficil é… o que mais simples haja
    –Quanto mais o que fôr mais escondido!…

    Para que uma verdade vá julgar,
    Para que um sentimento vá sentir,
    Olhos: não vos canceis nunca d'olhar
    E vós, ouvidos, não deixeis d'ouvir.

    Mas por fim
    Nem assim…

    O mais profundo pensamento
    É sempre insubsistente e aerio,
    Por que a todo o momento
    –Se perde no misterio…

    III

    _A José Barbosa_

    Que é o que foi? É o mesmo que hade ser. Que é o que se fez? É o
    mesmo que o que se hade fazer.

    Que é o que foi?
    –O mesmo que hade ser…

    A vida é como o passo egual dum boi
    Que vem dos campos ao anoitecer;
    Com o seu lento e resignado aspeito,
    Andou um passo, e logo um outro dá.

    _Tudo quanto foi feito
    De novo se fará_…

    IV

    _A Ladislau Patricio_

    Os olhos do sabio estão na sua cabeça: o insensato anda em trevas:
    e aprendi que era uma e mesma a morte dum e doutro.

    (_Capit. II, v. 14_)

    O sabio tem os olhos da razão
    Além desses que tu na fronte levas,
    Oh nescio que sem guia e sem bordão
    Vaes pela vida a caminhar nas trevas…

    (_E d'ahi? E depois?
    Se surge um incidente,
    Fere indistinctamente
    Ou ambos elles, ou qualquer dos dois_…)

    V

    _A Adelaide Gil, minha irmã_

    Todas as coisas caminham a um logar: de terra foram feitas e em
    terra se hão de tornar do mesmo modo.

    (_Capit. III, v. 3_).

    Mas o que é, afinal, a perfeição?
    Como é que tudo, oh sabios, evolue
    _Se as coisas todas caminhando vão
    Para um egual e unico logar,
    Se o pó que as constitue
    Em pó se hade tornar_?

    VI

    _A Eduardo Graça_

    Todas as coisas teem seu tempo e todas ellas passam debaixo do céu
    segundo o termo que a cada uma foi prescripto.

    (_Capit. III, v. 2_).

    Socega, coração attribulado,
    De toda a dôr se apaga todo o traço.
    Pois quanto ao mundo vem, traz já marcado
    _O seu tempo e tambem o seu espaço_…

    E queira Deus, coração,
    Que esta hora de anciedade
    E de pranto e d'afflicção
    –Nunca te cause saudade!…

    A CANÇÃO DAS PERDIDAS

    _A Vianna da Motta_

    I

    Quem por amôr se perdeu
    Não chore, não tenha pena.
    Uma das santas do céu
    –É Maria Magdalena…

    II

    Minha mãe foi o que eu sou.
    Eu sou o que tantas são.
    Que triste herança te dou,
    Filha do meu coração!

    III

    Meu pae foi para o degredo
    Era eu inda pequena.
    Se não morresse tão cedo,
    Morria agora–de pena…

    IV

    E ha no mundo quem afronte
    Uma mulher quando cae!
    Nasce agua limpa na fonte,
    Quem a suja é quem lá vae…

    V

    Aquelle que me roubou
    A virtude de donzella
    Se outra honra lhe não dou,
    –É porque só tive aquella!…

    VI

    Nós temos o mesmo fado,
    Oh fonte d'agua cantante,
    Quem te quer, pára um boccado.
    Quem não quer, pássa adeante…

    VII

    O meu amôr, por amal-o,
    Poz-me o peito numa chaga:
    Deu-me facadas. Deixal-o.
    Mas ao menos não me paga!

    VIII

    Nem toda a agua do mar
    Por estes olhos chorada
    Daria bem a mostrar
    O que eu sou de desgraçada!

    IX

    Como querem vêr contente
    Este paiz desgraçado,
    Se dão só livros á gente
    Nas escolas do peccado…

    X

    Dormia o meu coração
    Cançado de fingimento.
    Bateste-me, e vae então
    Acordou nesse momento.

    XI

    Se aquillo que a gente sente,
    Cá dentro, tivesse vóz,
    Muita gente… toda a gente
    Teria pena de nós!

    CARTA A UM RAPAZ SENTIMENTAL

    «Um mover d'olhos brando e piedoso
    Sem vêr de quê; um riso brando e honesto
    Quasi forçado; um doce e humilde gesto
    De qualquer alegria duvidoso

    * * * * *

    Um encolhido ousar; uma brandura,
    Um medo sem ter culpa; um ar sereno,
    Um longo e obediente soffrimento.

    * * * * *

    Camões

    Num quente e perturbante fim de tarde,
    Cujo magnetico e profundo enlevo
    Ainda agora em mim crepita e arde,
    Como se fosse a tarde em que te escrevo,

    Ergui os olhos distrahidamente,
    A ver se já brilhava alguma estrella
    No concavo do céu opalescente
    –E vi, numa varanda, os olhos della…

    Do episodio que acabo de contar-te
    Tão simples, tão banal, que dá vontade,
    Para lhe pôr um boccadinho d'arte,
    De lhe roubar um pouco de verdade,

    Foi que este amor espiritual nasceu,
    Nasceu, cresceu e se tornou eterno…
    Repara, amigo, como olhando o céu
    A gente, ás vezes, póde achar o inferno.

    Mas quem podia então adivinhal-o?
    O olhar dessa mulher era tão lindo
    Que deslumbrado me fiquei a olhal-o.
    Descera a noite. A lua ia subindo…

    Era lua cheia e, para mais, d'agosto;
    Dava em toda a varanda. Assim, eu via
    As fórmas portuguêsas do seu rosto
    Nitidamente, como á luz do dia.

    E cá dentro de mim senti nascer
    A dúvida, a incerteza, a hesitação
    Sobre o que mais desejaria ser:
    Se o noivo della, se o primeiro irmão…

    Uma estrella cadente reluziu
    Por sobre as torres da vizinha egreja,
    Pensei commigo: Deus o decidiu:
    É minha noiva que Elle quer que seja.

    Não dizia ventura, mas desgraça,
    A claridade do signal aereo.
    (Na mesma direcção da egreja, passa
    A rua que vae dar ao cemiterio…)

    Porém, como querendo agradecer-me
    A decisão que attribuira a Deus,
    Inclinou-se de leve para ver-me
    E os doces olhos demorou nos meus.

    Sob a caricia desse olhar cinzento,
    Que ao abaixar-se parecia negro,
    O coração que me batia lento,
    Mudou o andamento para alegro.

    Uma hora decorreu. Outras passaram.
    Passaram, foram-se; e naquelle enleio
    Que tempo os nossos olhos conversaram!…
    Estava a noite já em mais de meio.

    Vinha dos montes uma brisa ardente.
    O céu ganhára tons d'azul cobalto.
    O luar cahia silenciosamente.
    Na sombra, os rouxinoes cantavam alto.

    Arrependidos, ou então, cançados
    De se fitarem com demora em mim,
    Os seus olhos piedosos e sagrados
    Ao dialogo d'amor puzeram fim.

    Desviára-os; e entre as palpebras discretas,
    Poisára-os nas mãos claras e pequenas,
    Como se foram duas borboletas
    Voando para duas assucenas.

    Ergueu-se. O busto delicado e fino
    Tinha os suaves, religiosos traços
    Da Virgem num altar. Só o Menino
    Faltava na doçura dos seus braços…

    Num olhar impregnado de candura,
    Disse-me adeus e recolheu. Depois…
    A luminosa noite fez-se escura.
    Calaram-se na sombra os rouxinoes.

    Entrei em casa e quiz dormir. Raiára
    A madrugada sem que o conseguisse.
    Quem um sonho tão limpido sonhára,
    Inutil se tornava que dormisse…

    Annos felizes neste amor gastei.
    Vieram em seguida as horas más.
    O que nellas soffri, o que passei,
    Um dia, noutra carta, o saberás.

    MÃOS FRIAS CORAÇÃO QUENTE

    Dez da manhã. Vento da
    serra. Tres graus negativos

    _Mãos frias, coração quente_!
    Quanta vez isto dizias
    Com o teu ar sorridente,
    Apertando-me as mãos frias…

    Agora decerto o tenho
    Num brazeiro, num vulcão.
    O frio é tanto, é tamanho
    Que a penna cae-me da mão…

    Q'ria dizer-te o que penso
    E o que faço e premedito,
    Mas posso lá ser extenso
    Com este frio maldito!

    Tu perdoas certamente,
    Tu não te zangas, pois não?
    _Mãos frias, coração quente_
    –Lá diz o velho rifão…

    NOIVA

    _A João da Silva_

    «Anda a dôr dissimulada
    Mas ella dará seu fruito.»

    Crisfal

    «_Vae ser pedida. Casa qualquer dia._»

    (_Trecho duma carta_)

    Tive noticias hoje a teu respeito:
    «Vae ser pedida. Casa qualquer dia».
    E o coração tranquillo no meu peito
    –Continuou a bater como batia…

    Surpreso duma tal serenidade,
    Todo eu, intimamente, me sondava:
    Pois nem ciume? Nem sequer saudade?!
    –E nem ciumes, nem saudade achava…

    Saudades, não; que o teu amor antigo
    Guardam-no as cinzas (neste coração)
    Como em Pompeia aquelles grãos de trigo
    Que após centenas d'annos deram pão…

    Saudades! Mas de quê?! Pois não sei eu
    A lei antiga como o proprio mundo
    De que o prazer mal chega, já morreu,
    E só a dôr nas almas cava fundo?

    Causei-te longas horas d'amargura,
    Não consegues voltar a ser feliz;
    A chaga que te abri não terá cura,
    E se curar–lá fica a cicatriz.

    Á luz dum juramento que trahiste
    Tu has de vêr-me toda a vida pois.
    Ergueste-o a Deus num dia amargo e triste
    E Deus casou-nos esse dia, aos dois…

    Ciumes tambem não, por te venderes.
    Desgraçadinha! Antes te houvesses dado;
    Não descerias tanto entre as mulheres,
    Seria mais humano o teu peccado.

    Porém, embora a tua falta aponte,
    P'ra mim és a que foste (ou que eu suppuz);
    O sol desapparece no horisonte
    –E a gente vê-o ainda a dar-nos luz…

    Póde a desgraça erguer em frente a mim
    Altas montanhas d'elevados cumes.
    O sol do amôr doiral-as-ha, e assim,
    Vendo-o tão alto, não terei ciumes.

    Ciumes! _Elle_ é que hade tel-os, quando,
    Em claras noites de luar silente,
    Ouvir vibrar alguma voz, cantando
    Os versos que te fiz devotamente.

    Versos para te ungirem os ouvidos
    E os labios d'anemica e de santa,
    Tão pobres, tão ingenuos, tão sentidos,
    Que o povo humilde os acolheu e os canta.

    Então, se te olhar bem, logo adivinha…
    Logo sombriamente se convence
    De que a tua alma se fundiu na minha
    –E apenas o teu corpo lhe pertence.

    DE PROFUNDIS CLAMAVI AD TE DOMINE

    _Á Leo_

    Ao charco mais escuso e mais immundo
    Chega uma hora no correr do dia
    Em que um raio de sol, claro e jocundo,
    O visita, o alegra, o alumía;

    Pois eu, nesta desgraça em que me afundo,
    Nesta contínua e intérmina agonia,
    Nem tenho uma hora só dessa alegria
    Que chega ás coisas infimas do mundo!…

    Deus meu, acaso a roda do destino
    A movimentam vossas mãos leaes
    Num aceno impulsivo e repentino,

    Sem que na cega turbulencia a domem?!
    Senhor! Não é um seixo o que esmagaes;
    Olhae que é–_o coração dum homem_!…

    JOANNINHA

    _A Mayer Garção_

    Descance de quando em quando…
    Passar assim toda a tarde
    Sempre bordando, bordando,
    Sem que um momento desista,
    Até faz pena! Não lhe arde
    Nem se lhe perturba a vista?…

    Descance de quando em quando…
    Erga os olhos do bordado
    E veja quem vae passando.
    O trabalho alegra a gente,
    Mas assim, tão aturado,
    –Não lhe faz bem certamente.

    Erga a carinha tranquilla,
    Erga esse rosto tão lindo
    E veja os moços da villa
    A passarem por aqui,
    Uns descendo, outros subindo,
    –E todos d'olhos em si…

    Descance de quando em quando
    E veja se escolhe algum;
    Já é tempo d'ir pensando
    Em casar. Não é assim?…
    Se não lhe agrada nenhum,
    –Diga se gosta de mim.

    Desde os começos do outono
    Que eu a trago no sentido,
    Não como, não tenho sono,
    Tudo me dá ralação?
    Quer-me para seu marido?
    –Diga que sim ou que não…

    QUANDO AS ANDORINHAS PARTIAM…

    _A Cassianno Neves_

    Bocca talhada em milagrosas linhas,
    A luz augmenta com o seu falar.

    Esta manhã um bando de andorinhas
    Ia-se embora, atravessava o mar.

    Chegou-lhes ás alturas, pela aragem,
    Um adeus suave que ella lhes dissera,

    –E suspenderam todas a viagem,
    Julgando que voltára a primavera…

    A PARÁBOLA DO PUCARO D'AGUA

    Acreditaram os romanticos que a arte residia principalmente na
    disformidade. Se atravez das proprias dores descessem ás profundas
    realidades da vida, teriam observado que… o viver do povo encerra
    em si uma poesia sagrada. Sentil-a e mostral-a não é tarefa de
    machinista; para tal, não é necessario juntar-lhe effeitos
    theatraes.

    … O que é preciso é ter olhos para vêr na sombra, na pequenez e
    na humildade, é um coração que auxilie a vista nestes recessos do
    lar, nestas sombras de Rembrandt.

    _MICHELET_. _O Povo_

    _A Manuel Penteado_

    Buscava em algum assunto adrede
    A versos que inculcassem novidade,
    Quando uma intensa e irreprimivel sêde
    Me fez voltar do sonho á realidade.

    E pedi agua (já se vê) que veio
    Consoante é d'uzo cá por entre o povo
    Num pucaro de barro ingenuo e feio,
    Servindo-lhe de salva um prato côvo.

    Bebi o liquido dum trago só;
    E dito o «Deus te pague» habitual,
    Subi de novo a escada de Jacob
    No heroico intuito de escalar o ideal…

    Mas o idealismo é como a nevoa ondeante
    Que os rios erguem pela madrugada;
    O olhar destingue-a, quando está distante,
    E da que nos rodeia–não vê nada…

    De que serve afinal tentar a gente
    Reter, dentro das mãos, fumo de palha,
    Se aqui, aos nossos olhos, no existente,
    Ha tanta coisa que os attráia e valha?…

    A agua vinda neste vaso fragil
    Que um ignorado artista modelou
    Num gesto–já mechanisado e agil–
    Á força d'imitar o que encontrou,

    É um assunto cheio de belleza,
    Cheio de claro e alto ensinamento.
    Assim na branda fala portuguêsa
    O désse eu, como o tenho em pensamento!…

    A agua é como a esp'rança
    Que a tudo se sujeita…
    Onde quer que se deita
    Lá fica humildemente acommodada,
    Seja a concha da mão duma creança,
    Ou a taça lendaria da ballada…

    Tanto sacia
    Num vaso tyrrêno dos da antiga Roma
    (Que um só valia
    O rútilo oiro d'avaro banqueiro)
    Como a que se toma
    Na argilla porosa,
    Alegre trabalho dum simples oleiro…

    E é
    Até
    Bem mais saborosa
    No barro suarento
    Deixado á janella,
    Que num opulento
    Copo lavrado
    Que seja pertença de rica baixella
    E sonho gentil, cinzel phantasista
    Dalgum grande artista
    Dos raros d'agora, ou do tempo afastado…

    Bichos humanos, féras em pé,
    Sêde bondosos como a agua o é…

    No luzente alcantil da magnitude,
    Ou no áspero declive da pobreza,
    Nunca cerreis o espirito á virtude,
    Nunca fecheis os olhos á belleza.
    Que todo o coração,
    Desde o sabio de genio ao cavador,
    Seja o Calix de paz e de perdão
    Contendo a agua limpida e lustral
    Dum irmanado e perpetuo amôr…

    Agua que limpe a mácula do mal
    E mitigue a miseria, a ancia, a magua
    Desta cruenta e impiedosa guerra
    Em que tantas creaturas se consomem.

    Nem só da agua
    Que vem da terra
    Tem sêde o homem…

    Nasce uma fonte
    Rumurejante
    Na encosta dum monte;

    E mal que do seio
    Da terra brotou,
    Logo o seu veio
    Transparente
    E diligente
    Buscou e achou
    Mais baixo logar…

    E sempre descendo,
    E sempre a cantar,
    Vae andando,
    Galgando,
    Vencendo,
    (Ou tenta vencer…)
    Folha, raíz, areia, o que tolher
    A sua descida…

    Ao brotar da dura frágoa
    –É uma lagrima d'agua…

    Mas esse humilde fiozinho,
    Que um destino bom impelle,
    Encontra pelo caminho
    Um outro que é como elle…

    Reunem-se, fundem-se os dois,
    Proseguem de companhia,
    E fica dupla depois
    A força que os leva e guia…

    Junta-se aos dois um terceiro,
    Outros confluindo vão,
    E o regato é já ribeiro
    E o ribeiro é rio então…

    E nada agora o domina
    Ao fiozinho da fonte.
    Entre collina e collina,
    Ou entre um monte e outro monte,

    Caminha sem descançar,
    Circula atravez do mundo
    –Até á beira do mar
    Omnipotente e profundo…

    Da altura em que estejaes (ou vos pareça;
    A vaidade é uma amante enganadora)
    Que o mais alto de vós se humilhe e desça
    Como se humilde e pobre sempre fôra…

    E que os demais desçam tambem de todo
    O orgulho e mando sobre escravas gentes
    Até ao valle, de lagrimas e lôdo
    Onde a miseria brada e range os dentes.

    E como as aguas que se vão juntando
    E juntas, e cantando, vão descendo,
    Reuni o choro derramado, quando
    Atravessardes esse valle horrendo.

    E o atoleiro que se havia feito
    No val, dantesco, pútrido, sombrio,
    Mudar-se-ha no irrigante leito
    Dum fertilisador e claro rio;

    E o rio, andando, andando, hade alargar
    –Com biliões de lagrimas vertidas–
    Num infinito e luminoso mar
    De novas e amplas e cantantes vidas!

    Outubro de 1909.

    INDICE

    Prefacio
    Dedicatoria
    Luar de Janeiro
    Sextilhas a um menino Jesus d'Evora
    Ballada da Neve
    Toada para as mães acalentarem os filhos
    O nosso lar
    O que o fogo poupou dum poemeto queimado
    Melodia confidencial
    O passeio de Santo Antonio
    Um grão de incenso
    A máscara
    In promptum pastoral
    Meditações sobre themas do Ecclesiastes
    A canção das perdidas
    Carta a um rapaz sentimental
    Mãos frias coração quente
    Noiva
    De profundis clamavi ad te domine
    Joanninha
    Quando as andorinhas partiam
    A parábola do pucaro d'agua

    Acabado de imprimir aos trinta e um de dezembro de 1909 em Lisboa, na
    Typographia do Commercio, Rua da Oliveira, 10, ao Carmo.

  • Livro de Máguas

    Livro de Máguas

    Aproximadamente 3.482 palavras.

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    Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)

    FLORBELA ESPANCA

    Livro de Máguas

    MCMXIX

    LIVRO DE MÁGUAS

    FLORBELA ESPANCA

    LIVRO DE MÁGUAS

    MCMXIX

    _A meu Pai_

    Ao meu melhor amigo

    Á querida Alma irmã da minha,

    _Ao meu Irmão_

    Procuremos sòmente a Beleza, que a vida
    É um punhado infantil de areia resequida,
    Um som dágua ou de bronze e uma sombra que passa…

    Eugénio de Castro.

    Isolés dans l'amour ainsi qu'en un bois noir,
    Nos deux coeurs, exalant leur tendresse paisible,
    Seront deux rossignols qui chantent dans le soir.

    Verlaine.

    *Êste livro*…

    ÊSTE LIVRO…

    Êste livro é de máguas. Desgraçados
    Que no mundo passais, chorae ao lê-lo!
    Sòmente a vossa dor de Torturados
    Pode, talvez, senti-lo… e compreendê-lo…

    Este livro é p'ra vós, Abençoados
    Os que o sentirem, sem sêr bom nem belo!
    Bíblia de tristes… Ó Desventurados,
    Que a vossa imensa dôr se acalme ao vê-lo!

    Livro de Máguas… Dôres… Ansiedades!
    Livro de Sombras… Névoas… e Saudades!
    Vai pelo mundo… (Trouxe-o no meu seio…)

    Irmãos na Dôr, os olhos razos de agua,
    Chorae comigo a minha imensa mágua,
    Lendo o meu livro só de máguas cheio!…

    *Vaidade*

    VAIDADE

    Sonho que sou a Poetisa eleita,
    Aquela que diz tudo e tudo sabe,
    Que tem a inspiração pura e perfeita,
    Que reúne num verso a imensidade!

    Sonho que um verso meu tem claridade
    Para encher todo o mundo! E que deleita
    Mesmo aqueles que morrem de saudade!
    Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

    Sonho que sou Alguem cá neste mundo…
    Aquela de saber vasto e profundo,
    Aos pés de quem a terra anda curvada!

    E quando mais no ceu eu vou sonhando,
    E quando mais no alto ando voando,
    Acordo do meu sonho…
    E não sou nada!…

    *Eu*…

    EU…

    Eu sou a que no mundo anda perdida,
    Eu sou a que na vida não tem norte,
    Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
    Sou a crucificada… a dolorida…

    Sombra de névoa ténue e esvaecida,
    E que o destino amargo, triste e forte,
    Impele brutalmente para a morte!
    Alma de luto sempre incompreendida!…

    Sou aquela que passa e ninguem vê…
    Sou a que chamam triste sem o sêr…
    Sou a que chora sem saber porquê…

    Sou talvez a visão que Alguem sonhou,
    Alguem que veio ao mundo p'ra me vêr,
    E que nunca na vida me encontrou!

    *Castelã da Tristêsa*

    CASTELÃ DA TRISTÊSA

    Altiva e couraçada de desdem,
    Vivo sòsinha em meu castelo: a Dôr!
    Passa por êle a luz de todo o amôr….
    E nunca em meu castelo entrou alguem!

    Castelã da Tristêsa, vês?… A quem?!…
    –E o meu olhar é interrogadôr–
    Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pôr…
    Chora o silêncio… nada… ninguem vem…

    Castelã da Tristêsa, porque choras
    Lendo, toda de branco, um livro de oras,
    Á sombra rendilhada dos vitrais?…

    Á noite, debruçada p'las ameias,
    Porque rezas baixinho?… Porque anseias?…
    Que sonho afagam tuas mãos reais?…

    *Tortura*

    TORTURA

    Tirar dentro do peito a Emoção,
    A lucida Verdade, o Sentimento!
    –E ser, depois de vir do coração,
    Um punhado de cinza esparso ao vento!…

    Sonhar um verso d'alto pensamento,
    E puro como um rythmo d'oração!
    –E ser, depois de vir do coração,
    O pó, o nada, o sonho dum momento!…

    São assim ôcos, rudes, os meus versos:
    Rimas perdidas, vendavaes dispersos,
    Com que eu iludo os outros, com que minto!

    Quem me déra encontrar o verso puro,
    O verso altivo e forte, extranho e duro,
    Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!

    *Lágrimas ocultas*

    LÁGRIMAS OCULTAS

    Se me ponho a scismar em outras éras
    Em que ri e cantei, em que era qu'rida,
    Parece-me que foi noutras esféras,
    Parece-me que foi numa outra vida…

    E a minha triste bôca dolorida
    Que dantes tinha o rir das primavéras,
    Esbate as linhas graves e severas
    E cae num abandôno de esquecida!

    E fico, pensativa, olhando o vago…
    Toma a brandura plácida dum lago
    O meu rôsto de monja de marfim…

    E as lágrimas que choro, branca e calma,
    Ninguem as vê brotar dentro da alma!
    Ninguem as vê cair dentro de mim!

    *Torre de névoa*

    TORRE DE NÉVOA

    Subi ao alto, á minha Torre esguia,
    Feita de fumo, névoas e luar,
    E puz-me, comovida, a conversar
    Com os poetas mortos, todo o dia.

    Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
    Dos versos que são meus, do meu sonhar,
    E todos os poetas, a chorar,
    Responderam-me então: «Que fantasia,

    Creança doida e crente! Nós tambêm
    Tivemos ilusões, como ninguem,
    E tudo nos fugiu, tudo morreu!…»

    Calaram-se os poetas, tristemente…
    E é desde então que eu choro amargamente
    Na minha Torre esguia junto ao Ceu!…

    *A minha Dôr*

    A MINHA DÔR

    _A Você_

    A minha Dôr é um convento ideal
    Cheio de claustros, sombras, arcarias,
    Aonde a pedra em convulsões sombrias
    Tem linhas dum requinte escultural.

    Os sinos teem dobres d'agonias
    Ao gemer, comovidos, o seu mal…
    E todos teem sons de funeral
    Ao bater horas, no correr dos dias…

    A minha Dôr é um convento. Ha lírios
    Dum roxo macerado de martírios,
    Tão belos como nunca os viu alguem!

    Nesse triste convento aonde eu móro,
    Noites e dias reso e grito e chóro!
    E ninguem ouve… ninguem vê… ninguem…

    *Dizêres íntimos*

    DIZÊRES INTIMOS

    É tão triste morrer na minha idade!
    E vou ver os meus olhos, penitentes
    Vestidinhos de rôxo, como crentes
    Do soturno convento da Saudade!

    E logo vou olhar (com que ansiedade!…)
    As minhas mãos esguias, languescentes,
    De brancos dedos, uns bébés doentes
    Que hão de morrer em plena mocidade!

    E ser-se novo é ter-se o Paraiso,
    É ter-se a estrada larga, ao sol, florida,
    Aonde tudo é luz e graça e riso!

    E os meus vinte e tres anos… (Sou tão nova!)
    Dizem baixinho a rir: «Que linda a vida!…»
    Responde a minha Dôr: «Que linda a cova!»

    *As minhas Ilusões*

    AS MINHAS ILUSÕES

    Hora sagrada dum entardecer
    D'Outono, á beira mar, côr de safira.
    Sôa no ar uma invisivel lira…
    O sol é um doente a enlanguescer…

    A vaga estende os braços a suster,
    Numa dôr de revolta cheia de ira,
    A doirada cabeça que delira
    Num último suspiro, a estremecer!

    O sol morreu… e veste luto o mar…
    E eu vejo a urna d'oiro, a baloiçar,
    Á flôr das ondas, num lençol d'espuma!

    As minhas Ilusões, dôce tesoiro,
    Tambem as vi levar em urna d'oiro,
    No Mar da Vida, assim… uma por uma…

    *Neurastenia*

    NEURASTENIA

    Sinto hoje a alma cheia de tristesa!
    Um sino dobra em mim, Ave Marias!
    Lá fôra, a chuva, brancas mãos esguias,
    Faz na vidraça rendas de Venesa…

    O vento desgrenhado, chora e resa
    Por alma dos que estão nas agonias!
    E flocos de neve, aves brancas, frias,
    Batem as azas pela Natureza…

    Chuva… tenho tristesa! Mas porquê?!
    Vento… tenho saudades! Mas de quê?!
    Ó neve que destino triste o nosso!

    Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!
    Gritem ao mundo inteiro esta amargura,
    Digam isto que sinto que eu não posso!!…

    *Pequenina*

    PEQUENINA

    _Á Maria Helena Falcão Risques_

    És pequenina e ris… A bôca breve
    É um pequeno idílio côr de rosa…
    Haste de lírio frágil e mimosa!
    Cofre de beijos feito sonho e neve!

    Dôce quimera que a nossa alma deve
    Ao Ceu que assim te fez tão graciosa!
    Que nesta vida amarga e tormentosa
    Te fez nascer como um perfume leve!

    O ver o teu olhar faz bem á gente…
    E cheira e sabe, a nossa bôca, a flôres
    Quando o teu nome diz, suavemente…

    Pequenina que a Mãe de Deus sonhou,
    Que ela afaste de ti aquelas dôres
    Que fizeram de mim isto que sou!

    *A Maior Tortura*

    A MAIOR TORTURA

    _A um grande poeta de Portugal_

    Na vida, para mim, não ha deleite.
    Ando a chorar convulsa noite e dia…
    E não tenho uma sombra fugidía
    Onde poise a cabeça, onde me deite!

    E nem flôr de lilaz tenho que enfeite
    A minha atroz, imensa nostalgia!…
    A minha pobre Mãe tão branca e fria
    Deu-me a beber a Magua no seu leite!

    Poeta, eu sou um cardo despresado,
    A urze que se pisa sob os pés.
    Sou, como tu, um riso desgraçado!

    Mas a minha tortura inda é maior:
    Não ser poeta assim como tu és,
    Para gritar num verso a minha Dôr!…

    *A Flôr do Sonho*

    A FLÔR DO SONHO

    A Flôr do Sonho alvissima, divina
    Miraculosamente abriu em mim,
    Como se uma magnolia de setim
    Fosse florir num muro todo em ruina.

    Pende em meio seio a haste branda e fina
    E não posso entender como é que, emfim,
    Essa tão rara flôr abriu assim!…
    Milagre… fantasia… ou talvez, sina…

    Ó Flôr que em mim nascêste sem abrolhos,
    Que tem que sejam tristes os meus olhos
    Se eles são tristes pelo amôr de ti?!…

    Desde que em mim nascêste em noite calma,
    Voou ao longe a aza da minh'alma
    E nunca, nunca mais eu me entendi…

    *Noite de Saudade*

    NOITE DE SAUDADE

    A Noite vem poisando devagar
    Sobre a terra que inunda de amargura…
    E nem sequer a benção do luar
    A quiz tornar divinamente pura…

    Ninguem vem atraz dela a acompanhar
    A sua dôr que é cheia de tortura…
    E eu oiço a Noite imensa soluçar!
    E eu oiço soluçar a Noite escura!

    Porque és assim tão 'scura, assim tão triste?!
    É que, talvez, ó Noite, em ti existe
    Uma Saudade egual á que eu contenho!

    Saudade que eu nem sei donde me vem…
    Talvez de ti, ó Noite!… Ou de ninguem!…
    Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!!

    *Angustia*

    ANGUSTIA

    Tortura do pensar! Triste lamento!
    Quem nos déra calar a tua voz!
    Quem nos déra cá dentro, muito a sós,
    Estrangular a hidra num momento!

    E não se quer pensar!… E o pensamento
    Sempre a morder-nos bem, dentro de nós…
    Qu'rer apagar no Ceu–Ó sonho atroz!–
    O brilho duma estrela, com o vento!…

    E não se apaga, não… nada se apaga!
    Vem sempre rastejando como a vaga…
    Vem sempre perguntando. «O que te resta?…»

    Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
    Ser pedaço de gelo, ser granito,
    Ser rugido de tigre na floresta!

    *Amiga*

    AMIGA

    Deixa-me ser a tua amiga, Amôr;
    A tua amiga só, já que não queres
    Que pelo teu amôr seja a melhor
    A mais triste de todas as mulheres.

    Que só, de ti, me venha mágua e dôr
    O que me importa a mim?! O que quiséres
    É sempre um sonho bom! Seja o que fôr
    Bemdito sejas tu por m'o dizêres!

    Beija-me as mãos, Amôr, devagarinho…
    Como se os dois nascessemos irmãos,
    Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho…

    Beija-mas bem!… Que fantasia louca
    Guardar assim, fechados, nestas mãos,
    Os beijos que sonhei p'rá minha bôca!…

    *Desejos vãos*

    DESEJOS VÃOS

    Eu qu'ria ser o Mar d'altivo porte
    Que ri e canta, a vastidão imensa!
    Eu qu'ria ser a pedra que não pensa,
    A Pedra do caminho, rude e forte!

    Eu qu'ria ser o Sol, a luz intensa,
    O bem do que é humilde e não tem sorte!
    Eu qu'ria ser a arvore tôsca e densa
    Que ri do mundo vão e até da morte!

    Mas o Mar tambêm chora de tristesa…
    As Arvores tambêm, como quem resa,
    Abrem, aos Ceus, os braços, como um crente!

    E o Sol altivo e forte, ao fim dum dia,
    Tem lágrimas de sangue na agonia!
    E as Pedras… essas… pisa-as toda a gente!…

    *Peor velhice*

    PEOR VELHICE

    Sou velha e triste. Nunca o alvorecer
    Dum riso são andou na minha bôca!
    Gritando que me acudam, em voz rouca,
    Eu, naufraga da Vida, ando a morrer!

    A Vida que ao nascer enfeita e touca
    D'alvas rosas, a fronte da mulher,
    Na minha fronte mística de louca
    Martírios só poisou a emurchecer!

    E dizem que sou nova… A mocidade
    Estará só, então, na nossa idade,
    Ou está em nós e em nosso peito mora?!…

    Tenho a peor velhice, a que é mais triste,
    Aquela onde nem sequer existe
    Lembrança de ter sido nova… outróra…

    *A um livro*

    A UM LIVRO

    No silêncio de cinzas do meu Ser
    Agita-se uma sombra de cypreste.
    Sombra roubada ao livro que ando a ler,
    A esse livro de máguas que me deste.

    Extranho livro aquele que escreveste
    Artista da saudade e do sofrer!
    Extranho livro aquele em que puzéste
    Tudo o que eu sinto, sem poder dizer!

    Leio-o e folhêio, assim, toda a minh'alma!
    O livro que me déste é meu e psalma
    As orações que choro e rio e canto!…

    Poeta egual a mim, ai quem me déra
    Dizer o que tu dizes!… Quem soubéra
    Velar a minha Dôr desse teu manto!…

    *Alma perdida*

    ALMA PERDIDA

    Toda esta noite o rouxinol chorou,
    Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
    Alma de rouxinol, alma da gente,
    Tu és, talvez, alguem que se finou!

    Tu és, talvez, um sonho que passou,
    Que se fundiu na Dôr, suavemente…
    Talvez sejas a alma, alma doente
    D'alguem que quiz amar e nunca amou!

    Toda a noite choraste… e eu chorei
    Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
    Que ninguem é mais triste do que nós!

    Contaste tanta coisa á noite calma,
    Que eu pensei que tu eras a minh'alma
    Que chorasse perdida em tua voz!…

    *De joelhos*

    DE JOELHOS

    «Bendita seja a Mãe que te gerou.»
    Bendito o leite que te fez crescer.
    Bendito o berço aonde te embalou
    A tua ama, p'ra te adormecer!

    Bendita essa canção que acalentou
    Da tua vida o dôce alvorecer…
    Bendita seja a lua que inundou
    De luz, a terra, só para te vêr…

    Benditos sejam todos que te amarem,
    As que em volta de ti ajoelharem,
    Numa grande paixão fervente e louca!

    E se mais que eu, um dia, te quiser
    Alguem, bendita seja essa Mulher,
    Bendito seja o beijo dessa bôca!!

    *Languidez*

    LANGUIDEZ

    Tardes da minha terra, dôce encanto,
    Tardes duma puresa d'açucenas,
    Tardes de sonho, as tardes de novenas,
    Tardes de Portugal, as tardes d'Anto.

    Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!…
    Horas benditas, leves como pênas,
    Horas de fumo e cinza, horas serênas,
    Minhas horas de dôr em que eu sou santo!

    Fecho as palpebras rôxas, quasi pretas,
    Que poisam sôbre duas violetas,
    Azas leves cançadas de voar…

    E a minha bôca tem uns beijos mudos…
    E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
    Traçam gestos de sonho pelo ar…

    *Para quê?!*

    PARA QUÊ?!

    Tudo é vaidade neste mundo vão…
    Tudo é tristesa; tudo é pó, é nada!
    E mal desponta em nós a madrugada,
    Vem logo a noite encher o coração!

    Até o amôr nos mente, essa canção
    Que o nosso peito ri á gargalhada,
    Flôr que é nascida e logo desfolhada,
    Pétalas que se pisam pelo chão!…

    Beijos d'amôr! P'ra quê?!… Tristes vaidades!
    Sonhos que logo são realidades,
    Que nos deixam a alma como morta!

    Só acredita neles quem é louca!
    Beijos d'amor que vão de bôca em bôca,
    Como pobres que vão de porta em porta!…

    *Ao vento*

    AO VENTO

    O vento passa a rir, torna a passar,
    Em gargalhadas asp'ras de demente;
    E esta minh'alma trágica e doente
    Não sabe se ha de rir, se ha de chorar!

    Vento de voz tristonha, voz plangente,
    Vento que ris de mim, sempre a troçar,
    Vento que ris do mundo e do amar,
    A tua voz tortura toda a gente!…

    Vale-te mais chorar, meu pobre amigo!
    Desabafa essa dôr a sós comigo,
    E não rias assim!… Ó vento, chóra!

    Que eu bem conheço, amigo, êsse fadário
    Do nosso peito ser como um Calvario,
    E a gente andar a rir p'la vida fóra!!…

    *Tédio*

    TÉDIO

    Passo pálida e triste. Oiço dizer
    «Que branca que ela é! Parece morta!»
    E eu que vou sonhando, vaga, absorta,
    Não tenho um gesto, ou um olhar sequer…

    Que diga o mundo e a gente o que quizer!
    –O que é que isso me faz?… O que me importa?…
    O frio que trago dentro gela e corta
    Tudo que é sonho e graça na mulher!

    O que é que isso me importa?! Essa tristesa
    É menos dôr intensa que friesa,
    É um tédio profundo de viver!

    E é tudo sempre o mesmo, eternamente…
    O mesmo lago plácido, dormente…
    E os dias, sempre os mesmos, a correr…

    *A minha Tragédia*

    A MINHA TRAGÉDIA

    Tenho ódio á luz e raiva á claridade
    Do sol, alegre, quente, na subida.
    Parece que a minh'alma é perseguida
    Por um carrasco cheio de maldade!

    Ó minha vã, inutil mocidade
    Trazes-me embriagada, entontecida!…
    Duns beijos que me déste, noutra vida,
    Trago em meus lábios rôxos, a saudade!…

    Eu não gosto do sol, eu tenho medo
    Que me leiam nos olhos o segrêdo
    De não amar ninguem, de ser assim!

    Gosto da Noite imensa, triste, preta,
    Como esta extranha e doida borboleta
    Que eu sinto sempre a voltejar em mim!…

    *Sem remédio*

    SEM REMÉDIO

    Aqueles que me teem muito amôr
    Não sabem o que sinto e o que sou…
    Não sabem que passou, um dia, a Dôr,
    Á minha porta e, nesse dia, entrou.

    E é desde então que eu sinto êste pavôr,
    Este frio que anda em mim, e que gelou
    O que de bom me deu Nosso Senhor!
    Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

    Sinto os passos da Dôr, essa cadência
    Que é já tortura infinda, que é demência!
    Que é já vontade doida de gritar!

    E é sempre a mesma mágua, o mesmo tédio,
    A mesma angústia funda, sem remédio,
    Andando atraz de mim, sem me largar!…

    *Mais triste*

    MAIS TRISTE

    É triste, diz a gente, a vastidão
    Do Mar imenso! E aquela voz fatal
    Com que êle fala, agita o nosso mal!
    E a Noite é triste como a Extrema Unção!

    É triste e dilacera o coração
    Um poente do nosso Portugal!
    E não veem que eu sou… eu… afinal,
    A coisa mais maguada das que o são?!…

    Poentes d'agonia trago-os eu
    Dentro de mim e tudo quanto é meu
    É um triste poente d'amargura!

    E a vastidão do Mar, toda essa agua
    Trago-a dentro de mim num Mar de Mágua!
    E a Noite sou eu própria! A Noite escura!!

    *Velhinha*

    VELHINHA

    Se os que me viram já cheia de graça
    Olharem bem de frente para mim,
    Talvez, cheios de dôr, digam assim:
    «Já ela é velha! Como o tempo passa!…»

    Não sei rir e cantar por mais que faça!
    Ó minhas mãos talhadas em marfim,
    Deixem esse fio d'oiro que esvoaça!
    Deixem correr a vida até ao fim!

    Tenho vinte e tres anos! Sou velhinha!
    Tenho cabelos brancos e sou crente…
    Já murmuro orações… falo sòsinha…

    E o bando côr de rosa dos carinhos
    Que tu me fazes, olho-os indulgente,
    Como se fosse um bando de nètinhos…

    *Em busca do Amôr*

    EM BUSCA DO AMOR

    O meu Destino disse-me a chorar:
    «Pela estrada da Vida vae andando;
    E, aos que vires passar, interrogando
    Acerca do Amôr que has de êncontrar.»

    Fui pela estrada a rir e a cantar,
    As contas do meu sonho desfiando…
    E noite e dia, á chuva e ao luar,
    Fuí sempre caminhando e perguntando…

    Mesmo a um velho eu perguntei: «Velhinho,
    Viste o Amôr acaso em teu caminho?»
    E o velho estremeceu… olhou… e riu…

    Agora pela estrada, já cançados
    Voltam todos p'ra traz, desanimados…
    E eu paro a murmurar: Ninguem o viu!…»

    *Impossivel*

    IMPOSSIVEL

    Disseram-me hoje, assim, ao vêr-me triste:
    «Parece Sexta Feira de Paixão.
    Sempre a scismar, scismar, d'olhos no chão,
    Sempre a pensar na dôr que não existe…

    O que é que tem?! Tão nova e sempre triste!
    Faça por 'star contente! Pois então?!…»
    Quando se sofre o que se diz é vão…
    Meu coração, tudo, calado ouviste…

    Os meus males ninguem mos adivinha…
    A minha Dôr não fala, anda sòsinha…
    Dissesse ela o que sente! Ai quem me déra!…

    Os males d'Anto toda a gente os sabe!
    Os meus… ninguem… A minha Dôr não cabe
    Nos cem milhões de versos que eu fizéra!…

    ÍNDICE

    Êste livro
    Vaidade
    Eu…
    Castelã da Tristesa
    Tortura
    Lágrimas ocultas
    Torre de névoa
    A minha dôr
    Dizêres íntimos
    As minhas ilusões
    Neurastenia
    Pequenina
    A maior tortura
    A flôr do sonho
    Noite de saudade
    Angustia
    Amiga
    Desejos vãos
    Peor velhice
    A um livro
    Alma perdida
    De joelhos
    Languidez
    Para quê?!
    Ao vento
    Tédio
    A minha tragédia
    Sem remédio
    Mais triste
    Velhinha
    Em busca do amôr
    Impossivel

    ACABOU-SE DE IMPRIMIR ÊSTE LIVRO
    NO MÊS DE JUNHO DE 1919 NA
    TIPOGRAFIA MAURICIO, RUA
    DO SALITRE, 102-A
    LISBOA