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  • Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 05

    Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 05

    Aproximadamente 58.014 palavras.

    É por isso que, além de ser absurdo em these geral resumir e representar
    a sociedade nos individuos, tal absurdo se torna mais monstruoso, quando
    os tomamos como medida das phases da sociedade. O homem, assim collocado
    fóra de todas as relações sociaes, que lhe modificaram d'este ou
    d'aquelle modo o aspecto moral, podendo representar todas as épochas,
    pertencer a todos os tempos, tomar todas as physionomias, nada
    representa, a nada pertence, nenhuma physionomia tem; e quando n'elle
    buscâmos a imagem do seu tempo, não a achâmos, até porque nem a d'elle
    proprio existe. Ajunctem-se, porém, estas individualidades abstractas,
    embora na ordem do tempo constituam uma dynastia, uma série de capitães,
    de legisladores, de magistrados; junctas ou separadas, ellas nunca
    poderão representar uma épocha historica; o seu apparecimento ou a sua
    falta nunca serão balisas verdadeiras das diversas transformações pelas
    quaes passam os povos na sua vida de seculos.

    Abramos os livros de qualquer historiador nosso. Sejam os do homem que
    mais attingiu o espirito da sciencia historia, exceptuando Antonio
    Caetano do Amaral de João Pedro Ribeiro: sejam o terceiro e quatro
    volumes da _Monarchia Luzitana_, por Fr. Antonio Brandão. Brandão
    começou a sua narrativa com o conde Henrique e concluiu-a com D. Affonso
    III, ou porque sentisse que este era rigorosamente o primeiro periodo da
    nossa historia, ou por mera casualidade, o que eu não creio[63].
    Corram-se esses dois volumes; estudem-se as physionomias do conde, de D.
    Affonso I, e dos seus successores até D. Affonso III: comparem-se com as
    mais bem conhecidas dos nossos reis modernos; com a de D. João IV, de D.
    Affonso VI, de D. Pedro II, de D. João V. Creremos que foram
    contemporâneos uns dos outros: a sua côrte parece-se com as d'estes; o
    teor da sua vida, domestica ou publica, os pensamentos politicos, a
    fórma de administrar, de legislar, de fazer guerra são, com levissimas
    excepções, similhantes; e resumindo n'essas physionomias falsificadas,
    n'essas mascaras historicas, o aspecto social da épocha, ficam os
    seculos XII e XIII similhantes necessariamente á segunda metade do XVII
    e primeira do XVIII. A nossa imaginação transporta para aquelles tempos
    a côrte esplendida, ceremoniatica, erudita, hypocrita e louçan de D.
    João V; ou as intrigas mulherís, os odios covardes, os mexericos
    fradescos, e as vinganças tenebrosas do tempo de Affonso VI e de D.
    Pedro II, cobertos com um manto de decencia, de compostura, de
    regularidade nas fórmas.

    Assim, crendo que temos lido a historia portugueza dos seculos XII e
    XIII, apenas saberemos as datas d'esses primeiros reinados, a
    antiguidade d'algumas familias, os successos militares ou politicos de
    então. Quanto ao resto, não só ignorâmos o que era a sociedade
    primitiva; mas, o que é peior, compomos d'ella uma fabula com as
    reminiscencias da nossa vida, com as tradições de nossos paes, ou com as
    anecdotas, que estes ouviram aos seus. Feito isto, está feito o nosso
    bastimento de sciencia historica.

    * * * * *

    Mas voltemos os olhos para os monumentos d'aquellas eras antigas, em que
    ellas fielmente se reflectem, e fechemos os livros: busquemos a historia
    da sociedade e deixemos por um pouco a dos individuos. Os primeiros
    documentos que nos cairem nas mãos destruirão essas illusões: sentiremos
    a infinita differença entre uns e outros tempos: veremos que os reis, os
    nobres, o clero, os cidadãos, os camponezes de então, eram reis, nobres,
    clero, cidadãos, e camponezes bem diversos dos actuaes. Pouco bastará
    para nos persuadirmos de que a biographia das familias ou dos
    inidividuos nunca pode caracterisar qualquer épocha; antes, pelo
    contrario, a historia dos costumes, das instituições, das idéas, é que
    ha de caracterisar os individuos, ainda quando quizermos estudar
    exclusivamente a vida d'estes, em vez de estudar a vida do grande
    individuo moral, chamado povo ou nação.

    Transcreverei varios documentos relativos ao primeiro periodo da nossa
    historia. Serão os que successivamente me occorrerem, sem fazer escolha.
    Reflicta n'elles o leitor, que conhecer os nossos livros historicos. Que
    julgue se algum d'estes lhe faz suspeitar ao menos o que por aquelles
    anteverá de golpe–um modo d'existir n'essas eras remotas alheio
    inteiramente das formas da sociedade presente.

    * * * * *

    I–«Se algum bispo ou pessoa d'ordens sacras tiver o vicio da
    embriaguez, ou se emende ou seja deposto.»

    «Se um sacerdote ou qualquer clerigo se embriagar, que faça penitencia
    por 20 dias. Se vomitar com a embriaguez, faça penitencia por 40 dias.
    Se for com a Eucharistia, faça penitencia por 60 dias.

    Quem vomita a hostia, e esta é comida por algum cão,
    faça penitencia um anno.[64]

    * * * * *

    II–Achando-se a rainha D. Urraca (1127) em Compostella, o povo
    opprimido pelo bispo Gelmirez revolta-se e accommette a sé e o palacio
    episcopal. Eis como a _Historia Compostellana_ pinta uma commoção
    popular do seculo XII.[65]

    «……é accommettida a egreja do apostolo com repetidos assaltos: as
    pedras, as settas, os dardos, voam por cima do altar…… Estes homens
    perdidissimos deitam fogo á egreja de Santiago, e incendeam-na toda,
    porque uma grande parte d'ella era coberta de ramos de tamargueira e de
    taboas……………..»

    «Depois que o bispo e a rainha vêem a egreja incendiada….fogem para a
    torre dos sinos…. Os compostellanos….accommettem a torre, e despedem
    pedras e settas contra o bispo e a rainha. Mas os que estavam com elles
    defendem-se bem…. Finalmente os compostellanos….valem-se do fogo e,
    unindo os escudos por cima das cabeças, deitam-no dentro por uma fresta
    aberta na parte inferior da torre. O fogo atéa-se e trepa contra os que
    estavam n'ella.»

    «…… Clamavam de fóra: «a rainha se quizer que saia: a ella só
    concedemos permissão de sair e de ficar viva: os outros hão de morrer a
    ferro e fogo». Ouvido o que, e crescendo o incendio, a rainha
    constrangida pelo bispo, e recebendo d'elles palavra de seguro, saiu da
    torre. As turbas, tanto que a vêem sair, accommettem-na, agarram-na e
    levam-na a rastos para um lodaçal; arrebatam-na como lobos, e rasgam-lhe
    os vestidos: fica nua dos peitos para baixo, e assim jaz por muito tempo
    descomposta diante de todos. Muitos quizeram apedreja-la, e até uma
    velha lhe deu com uma pedra na cara.»

    Qual foi o resultado d'estas gentilezas de canibaes? A rainha, escapando
    da cidade como pôde, d'ahi a pouco:

    «…….consentiu em fazer um pacto de reconciliação com os
    compostellanos.»[66]

    Fazendo queixas de seu marido, o rei d'Aragão, a mesma D. Urraca dizia
    diante dos fidalgos da Galliza:

    «…..não sómente me deshonrou com palavras affrontosas, mas tambem é de
    sentir para toda a nobreza que me enxovalhasse as faces com as suas mãos
    immundas, e me désse pontapés.»[67]

    É preciso confessar que havia alguma differença da côrte de Affonso o
    _Batalhador_ á de D. João V.

    * * * * *

    III–«……. O clero bracharense, carecendo de quem o guiasse, desejava
    fosse como fosse obter um pastor; mas não podera achar em todo o bispado
    pessoa digna d'aquella cadeira.

    «Quando (S. Giraldo) entrou na cidade de Braga, e viu o estado bravio
    d'aquelle logar despovoado e sepultado em ruinas, ficou attonito.»[68]

    Louvando o procedimento exemplar e excepcional de S. Giraldo, diz o seu
    discipulo e biographo:

    «Nunca tractou de falcões, nem de caça com cães, ou de jogos d'azar.»

    Eis um caso que elle refere, e que representa bem um aspecto dos
    costumes do seculo XII.

    O arcebispo havia excommungado por incestuoso certo cavalleiro:
    «Aconteceu, porém, n'aquelle tempo, que por mandado do conde Henrique,
    que então dominava na terra portugallense, todos os próceres
    portuguezes, e com elles o excommungado por incestuoso, se ajunctassem
    em Guimarães. Ao qual conventiculo, por assim ser necessario, veio
    tambem o varão de veneravel vida. Celebrando, pois, missa o homem de
    Deus na egreja vimaranense, e estando ahi presentes o conde Henrique e a
    formosa rainha Theresa, com grande numero de próceres, viu que
    sobredicto excommungado estava na egreja com os mais. Immediatamente,
    suspendendo o officio divino, perante todos proclamou incestuoso aquelle
    homem…. Este, inspirado pelo espirito diabolico,….recusou sair da
    egreja. Saiu finalmente por ordem do conde, e aos empuxões dos outros.»

    Para se ver qual era o estado de segurança individual, e do que dependia
    a honra e fazenda das pessoas no seculo XII, extrahirei outro fragmento
    do mesmo livro.

    «Havia n'aquella região certa matrona chamada Toda, que, sendo
    d'illustre sangue, era abastada por grande cópia de herdades e
    muitissimo dinheiro[69], de cuja opulencia invejosos alguns magnates de
    Portugal trabalhavam por perde-la e deshonra-la, para de algum modo lhe
    havarem ás mãos as riquezas. Assim, deram traça a um villico[70] do
    egregio conde Henrique, chamado Ordonho, homem de raça servil, como a
    raptasse e casasse com ella, de modo que manchada por tal casamento
    perdesse a dignidade da honra[71]. Seguindo a traça dos fidalgos, o
    víllico arrebatou a matrona, deu um grande banquete, arranjou o thálamo,
    e dispoz-se para commetter a maldade.»

    Perto da noite, D. Toda, mandando deitar uma serva no leito nupcial,
    fugiu com os trajos d'esta, e escondeu-se nos bosques. Quando o víllico
    deu no engano:

    «Grandemente irado, lançou muitos vigías com _mastins_ pelas saídas dos
    caminhos, pelos desvios dos montes, e pelas brenhas selvaticas em busca
    da nobre mulher.»

    Da sequencia da historia se vê que o honrado víllico ficou impune d'esta
    e de mais atrocidades, que depois commetteu, até que outros,
    provavelmente tão bons como elle, o assassinaram no castello de Lanhoso.

    * * * * *

    IV–Invadindo o imperador Affonso VII a terra de Portugal, saiu-lhe ao
    encontro Affonso I em Valdevez. Devia ser esta uma batalha decisiva para
    a independencia de Portugal. D. Affonso Henriques tinha assentado as
    tendas na estrada por onde marchava seu primo Affonso Raimundo dez. O
    imperador chegou:

    «Logo que vinha alguem da banda do imperador para uma especie de jôgo ou
    torneio, a que os populares chamam bufúrdio, immediatamente lhes saíam
    ao encontro alguns da parte do rei de Portugal, a torneiar com os
    adversarios, e assim aprisionaram Fernando Furtado, irmão do
    imperador,….e muitos outros…. Vendo o imperador que tudo saía
    prosperamente ao rei de Portugal….mandou chamar o arcebispo de Braga e
    outros homens bons, e pediu-lhes que viessem ter com o rei de Portugal,
    para que firmassem boa paz com as condições que a tornam perpetua. Assim
    se fez, porque o rei e o imperador se ajuntaram em uma tenda,
    beijaram-se, comeram e beberam juntos, e fallaram a sós, voltando cada
    qual em paz para a sua terra[72].»

    * * * * *

    V–«Memoria das malfeitorias que el-rei D. Sancho I fez a D. Lourenço
    Fernandes, e das que lhe mandou fazer, e executou Vasco Mendes.
    Primeiramente tirou-lhe setenta moios em pão e vinho, e vinte e cinco
    entre arcas e cubas, e quarenta escudos, e dois colxões e dois
    travesseiros, e entre bancos e leitos onze, e caldeiras e mezas, e
    escudellas e muitos vasos, e chapéos de ferro, e dez porcos, ovelhas e
    cabras, e quinze maravedis, que levaram dos seus homens, aos quaes
    fizeram uma espera, e muitas outras armas. Além d'isto ermaram-lhe
    setenta casaes, perdendo-se por isso a colheita d'este anno que ahi
    tinha, e a do anno que vem, e cem homens de maladia[73], que assim
    perderam. Depois lançaram-na de modo que nada ficou. E derribaram da
    torre o que poderam, e ao que não poderam deitaram fogo, o qual deu cabo
    d'ella, de modo que não póde ser concertada, e para a fazer de novo nem
    com mil e quinhentos maravedis. E quantos casaes tinha tantos lhe
    queimaram, e de mais levaram-lhe um moiro alentado.»

    «Saibam todos os que virem esta escriptura que eu Lourenço Fernandes não
    fiz nem disse coisa, por onde houvesse de padecer tal destruição e
    malfeitoria.»[74]

    * * * * *

    VI–«Estas são as dividas que tem de pagar Pedro Martins d'appellido
    Pimentel… Aos filhos de Durazia de Pardelhas tres libras de uma vaca
    que lhe tomei. Além disso mando cinco maravedis velhos pela rapina que
    fiz aos homens do castello de Vermuim,… Mando tambem oito libras ao
    senhor arcebispo de Braga pela rapina que fiz na terra de Panoias; e aos
    homens de Barró cinco libras, se acharem seus donos, senão deem-nas
    pelas almas d'elles. Mais: em Morangáus cinco libras que roubei….
    Mando além d'isso que, se apparecer alguem a quem eu deva ou tenha
    roubado alguma coisa, se lhe faça e justiça e restituição.»[75]

    * * * * *

    VII–«Os servos, homicidas, ou adulteros, que vierem morar na vossa
    villa, sejam livres e ingénuos.»

    «O morador da vossa villa, que matar homem estranho a ella, não pague
    coisa alguma: e se o de fóra matar o da vossa villa, pague tresentos
    soldos.»[76]

    * * * * *

    VIII–No cêrco de Silves por D. Sancho I os sitiadores tinham aberto e
    abandonado a mina:

    «Aprouve ao rei continuar a mina; e com os seus….proseguiu outra vez
    no trabalho com animo constante.»[77]

    * * * * *

    IX–«Coutamos as casas em esta maneira, quer sejam d'homens nobres, quer
    d'outros: convém a saber, que nenhum não seja ousado de matar, nem de
    talhar membro, nem em nenhuma guisa de malfazer a seu inimigo em sua
    casa. E outrosim não seja ousado de lh'a romper em nenhuma guisa.
    Outrosim mandamos que nenhum do nosso reino não seja ousado que pelos
    homizios sobredictos matem homens de seus inimigos, nem lhes cortem
    membros, nem lhes façam mal em nenhuma guisa, senão áquelles que com
    seus senhores ou por si lhe fazem mal ou deshonra.»[78]

    * * * * *

    Estes extractos são os primeiros que me occorrem. Podia accrescentar
    milhares d'outros similhantes. O que nos revelam elles, bem que
    imperfeitissimamente? Que a sociedade dos seculos remotos era uma coisa
    absolutamente diversa da actual. O que significam esses bispos e
    presbyteros que se embriagam, que por embriaguez são sacrilegos, e cujo
    castigos consiste em penitencias de dias ou de mezes; esse povo
    selvagem, que combate dentro de templo, incendeia-o, e arrasta uma fraca
    mulher pelas ruas espancando-a e rasgando-lhe as vestiduras, quando esta
    mulher se chama a rainha de toda a Hespanha; esse rei cavalleiro que
    commette contra sua espôsa brutaes violencias que hoje envergonhariam
    qualquer homem honrado; esse clero que não acha entre si um individuo
    digno de receber a dignidade episcopal, n'uma cidade romana convertida
    em ruina, e que vai buscar um estrangeiro, no qual se tem por especial
    virtude o não ser caçador ou jogador; esses cavalleiros e prelados, que
    se affrontam mutuamente perante o supremo senhor do paiz, dentro da
    egreja; esses villicos ou auctoridades administrativas, de origem
    servil, que podem violentar damas nobres e ricas impunemente; esses
    exercitos, que resolvem as questões politicas mais graves em recontros
    singulares; esses capitães, que fazem pazes como a plébe termina as suas
    brigas, comendo e bebendo junctos no campo de batalha; esses reis, que
    se vingam por suas mãos, talando, roubando e queimando as propriedades
    do seu inimigo pessoal, ou que trabalham no fundo das minas como simples
    gastadores; esses salteadores, que morrem tranquillamente no seu leito
    declarando-se ladrões cadimos; esses fóros, que convertem as povoações
    em covís de homicidas e adulteros, dando aos seus moradores
    gratuitamente o direito de assassinos, ao mesmo tempo que para os outros
    põe uma taxa de sangue; essas leis emfim, que sanctificam o homicidio e
    a mutilação, limitando-os a casos e individuos determinados? Qual é o
    resumo d'estes poucos factos avulsos, colhidos ao acaso entre infindos
    outros egualmente alheios ás idéas modernas de vida civil? É a
    condemnação dos nossos livros de historia. Em nenhum d'elles se percebe,
    ao menos de leve, por entre as averiguações de datas, por entre as
    descripções de batalhas ou de triumphos, de noivados ou de saímentos de
    grandes e senhores, que ao lado disso, e dando individualmente gesto e
    côr a esses mesmos factos pessoaes, passaram gerações com costumes,
    crenças e instituições diversas, ou antes oppostas em grande parte ás
    nossas; que d'essa sociedade, d'esses homens, na successão da eras e da
    natureza, veio a sociedade moderna, veio a geração actual; que para
    existir a espantosa differença d'aspecto, que ha entre o presente e os
    tempos primitivos, foram necessarias grandes revoluções na indole social
    da nação. Todavia o grave e severo objecto da historia devera ter sido
    principalmente este, se o estudo do passado não é uma vaidade inutil, um
    commentario sem sabôr do livro das linhagens, que, de caminho seja
    dicto, é muito mais historico que boa meia duzia d'escriptos dos nossos
    historiadores[79].

    Subsequentemente veremos quaes são as verdadeiras épochas da historia
    portugueza, considerada a similhante luz, que é a unica importante, a
    unica verdadeiramente historica.

    *CARTA V*

    Na carta antecedente fiz, segundo creio, sentir quão mesquinho e
    incompleto era o systema seguido, quasi sem excepção, nos nossos
    escriptos historicos. Mostrei como esses escriptos dão aso a
    transfigurarmos o aspecto do passado, e como apenas servem para nos
    transmittirem o conhecimento de uma das faces da historia, e ainda esse
    muitas vezes errado ou incompleto. Do novo systema, que deve substituir
    aquelle, fallarei depois, avaliando em abstracto um e outro. Para
    seguir, porém, a ordem do que alli disse, restringir-me-hei agora a
    algumas considerações geraes sobre as grandes epochas da nossa historia.
    O caracter individual de cada uma d'ellas, e as differenças successivas
    que de uma para outra vão apparecendo aos olhos de quem as estuda, só se
    podem julgar e distinguir ao tracta-las especialmente. É o resultado
    geral d'esse estudo; é a synthese dos muitos seculos, que para clareza
    deve preceder a analyse de cada um d'elles.

    Tenho fé que similhante analyse nos virá confirmar as considerações que
    vou fazer, e que são, se não me engano, o resumo da philosophia da
    historia nacional.

    Que ponto na ordem dos tempos será aquelle em que devamos buscar os dias
    de infancia d'este individuo moral, chamado nação portugueza, ou, por
    outros termos, que rigorosamente significam o mesmo, onde é que
    principia a historia de Portugal?

    A resposta a esta pergunta, a ser verdadeira e exacta, involve em si a
    rejeição de metade do que se tem escripto sob o titulo de historia
    portugueza, e que o é tanto como os Annaes da China, ou o Cosmogonia de
    Sanchoniaton. A nossa historia começa unicamente na primeira decada do
    seculo XII; não porque os tempos historicos não remontem a uma epocha
    muitissimo mais remota; mas porque antes d'essa data não existia a
    sociedade portugueza, e as biographias dos individuos collectivos, bem
    como as dos singulares, não podem começar além do seu berço.

    No seculo XVI o renascimento invadiu a historia, como invadia tudo. As
    sociedades modernas faziam visagens e momos de um ridiculo sublime, para
    se mascararem á romana. Assim como os legistas substituiam as
    instituições do imperio ás instituições da edade média; assim os
    eruditos ajustavam as letras e as sciencias pelo typo classico de gregos
    e romanos. Pensava-se pela cabeça d'Aristoteles, fallava-se pela lingua
    de Varrão, historiava-se pela nórma de Tito Livio, e a picareta
    vitruviana roçava os lavores poeticos dos templos e palacios da
    architectura normando-arabe. Se Jupiter não expulsou Jesu-Christo dos
    altares, milagre foi da Providencia: todavia que sabio do tempo de D.
    Manuel ou de D. João III ousaria jurar á fé de Christão?
    _Mehercule_!–diria elle, e dicto isto, teria mui eruditamente jurado.

    No meio d'essa furia latinisante e grecisante como passaria Portugal,
    este filho legitimo da edade média, baptizado em sangue d'infieis n'um
    campo de batalha, sem o sancto chrisma da religião latina? Portugal era
    uma palavra inharmonica, monstruosa, incrivel. Qual academia, qual
    universidade quereria acceita-la no seu gremio? Nonio Marcello, se
    vivesse, rejeita-la-hia com horror. Como dar uma desinencia latina pura
    e suave ao nome brutal e feroz dos portuguezes? Os _portugallenses_ dos
    velhos pergaminhos transudavam por todos os poros a barbaridade. Cicero,
    se tal nome escutasse no senado, ficaria mudo e estupefacto no meio da
    sua mais eloquente verrina. Tudo isto pezaram os sabios d'aquella
    épocha, e depois de longo scismar acertaram com um alvitre maravilhoso
    para se esquivarem á dura alternativa, em que se viam, de renegarem da
    patria ou de offenderem os manes de Varrão e de Nonio. A erudição
    salvou-os com o leve sacríficio da verdade e do senso commum.

    Houve antigamente na Peninsula iberica uma tribu selvagem, conhecida
    entre os romanos pelo nome de _Lusitani_, e o tracto da terra em que
    vagueavam pelo de _Lusitania_. Este territorio abrangia parte do moderno
    Portugal: nada mais foi preciso para nos rebaptizarmos na fonte
    inexgotavel das euphonias do Lacio. No seculo XVI os eruditos teceram á
    gente portugueza a sua arvore de geração. Quando a aristocracia
    estrebuxava moribunda aos pés do throno dos reis, foi que a nação, por
    beneficio dos sabedores, achou a sua origem nobilitada nos seculos pela
    escura historia de um ou dois milheiros de celtas selvagens, que
    estancearam outr'ora na Extremadura, na Beira, e pelo sertão da moderna
    Hespanha ainda até além de Mérida[80].

    D'aqui; do exaggerado amor da antiguidade, e da fatua pretensão que as
    nações, bem como as familias, teem a uma larga serie de avós, nasceu, a
    meu ver, a necessidade de ir começar a nossa historia nos mais remotos
    limites dos tempos historicos; de ir destroncar das escassas memorias de
    Carthago, dos annaes romanos, das chronicas dos barbaros do norte,
    invasores das Hespanhas, fragmentos incompletos e inintelligiveis da
    historia d'esses povos que passaram na Peninsula, e que no meio das suas
    luctas d'exterminio, ou se aniquilaram uns aos outros, ou se confundiram
    em uma raça mixta, que passados seculos de novo se transformou, no
    cadinho eterno das revoluções humanas, em sociedades differentes, com as
    quaes os habitantes modernos das Hespanhas teem apenas uma relação
    imperfeita–a identidade de territorio. Foi por essa mania que nós,
    habitantes de um canto da vasta provincia da Europa chamada Peninsula
    hispanica, buscámios para avoengos uma das mil tribus barbaras, que a
    habitaram nos tempos ante historicos, e que, confundidas todas por
    invasões repetidas, aniquiladas em parte por guerras atrozes,
    incorporadas na massa muito mais avultada de successivos conquistadores,
    deixaram de existir completamente alguns seculos antes de Portugal
    nascer. Mas que é essa imaginaria ascendencia senão um alentado
    desproposito, que parece impossivel tenha sido acceito sem reflexão
    ainda até os nossos dias?

    De feito, não será necessario, para existir a unidade social de duas
    raças remotissimas entre si, que alguns laços as unam, que algum titulo
    de parentesco se dê entre ellas? Não será preciso que, no meio das
    revoluções pelas quaes qualquer povo commummente passa no correr dos
    tempos, fiquem sempre de uma geração para outra largos vestigios do seu
    caracter primitivo, da sua lingua, dos seus costumes; que ao menos
    subsista a identidade do territorio em que os dois povos habitaram? E
    quando nada d'isto resta, com que fundamentos se dirá de um povo que
    elle procede d'outro, do qual apenas achamos o obscuro nome sumido nas
    largas e gloriosas paginas dos annaes das nações conquistadoras?

    * * * * *

    Entre nós subsistem ainda grandes vestigios da dominação romana;
    subsistem na lingua, subsistem até nos costumes populares: mais
    evidentes são ainda os das raças germanicas; temo-los nas instituições,
    nas leis, nas crenças moraes: o mesmo e mais podemos dizer dos arabes;
    destes nos ficaram em boa parte os habitos e a linguagem domestica, o
    systema d'agricultura, e emfim até as similhanças do gesto, e a
    violencia das paixões e affectos. Mas que nos resta dos lusitanos? Do
    pouco que ácerca d'elles sabemos pelos escriptores gregos e romanos, que
    particularidade do seu character, da sua lingua, dos seus costumes, os
    liga comnosco? Porque titulo são elles nossos avós?

    Se o terem habitado em uma parte do nosso solo pode identifica-los
    comnosco, e obrigar-nos a urdir a téa da nossa historia desde tão
    apartados tempos, essa tèa tem de ser ainda mais vasta: cabe-nos tambem
    historiar as escassas recordações das tribus barbaras que demoravam
    pelas outras provincias da Hespanha–a Tarraconense e a Bética. Strabão
    diz que antigamente a Lusitania começava, do poente, nas margens do
    Tejo: fallae-nos, pois, das tribus da Bética, porque o Alemtejo e o
    Algarve foram habitados por ellas. Ainda depois da divisão feita por
    Augusto a parte da Gallecia antiga, que hoje fórma as provincias de
    Tras-os-Montes e Minho, pertenceram á Trarraconense: escrevei por tanto
    a sua historia. Escrevei a historia da Hespanha inteira, se quereis que
    a identidade de territorio constitua unidade nacional entre duas raças
    diversas.

    Custa-nos assim maguar os curiosos de genealogias populares, os crentes
    dos _autem genuit_ historicos; mas por obrigação temos fallar verdade. A
    familia portugueza conta apenas seis seculos d'existencia: é plebea
    entre as mais plebeas nações. Não receemos, porém, que o seu nome se
    apague na memoria dos homens, se algum dia ella deixar d'existir: este
    nome peão está escripto com a espada na face das cinco partes do mundo.
    É como _Portuguezes_, não como lusitanos, que nós seremos para sempre
    lembrados.

    O que fica ponderado ácerca d'esta tribu primitiva é quasi inteiramente
    applicavel ás differentes nações conquistadoras da Peninsula ibérica.
    Carthaginezes, romanos, germanos, arabes, todos passaram na Hespanha;
    todos n'ella deixaram ruinas de diversas sociedades, fragmentos de
    diversas civilisações. D'essas ruinas e d'esses fragmentos se formou o
    reino de Oviedo, Leão e Castella: d'este veio por linha transversal
    (permitta-se-nos a expressão) a monarchia portugueza, e por linha recta
    a monarchia hespanhola ou antes castelhana; porque hespanhoes tambem nós
    somos. A Castella, como mais velha, como morgada, e como
    incomparavelmente mais poderosa, pertencem esses tempos remotos. Sejam
    seus: não lh'os invejamos. N'outro genero de gloria somos maiores do que
    ella–na gloria de lhe havermos resistido sempre, pequenos e pobres; de
    lhe havermos ensinado, a ella e ás outras grandes nações, o caminho das
    conquistas e do poderio; na gloria finalmente de termos dado ao mundo os
    mais subidos exemplos de quanto é forte uma nação pouquissimo numerosa,
    quando crê na propria virtude e confia na protecção de Deus.

    Ainda mal que memorias, e só memorias, são tudo o que d'essa gloria nos
    resta!

    É pois na separação de Portugal do reino leonez que a nossa historia
    começa: tudo o que fica além d'esta data pertence, não a nós, mas á
    Hespanha em geral: é essa a primeira balisa para a divisão das nossas
    épochas.

    * * * * *

    Em dois grandes cyclos me parece dividir-se naturalmente a historia
    portugueza, cada um dos quaes abrange umas poucas de phases sociaes, ou
    épochas: o primeiro é aquelle em que a nação se constitue; o segundo o
    da sua rapida decadencia: o primeiro é o da edade média; o segundo o do
    renascimento.

    Limitar-me-hei n'estas cartas a fallar do primeiro cyclo, porque o julgo
    o mais importante, ou antes o unico importante, se considerarmos a
    historia como sciencia de applicação. Antes de dividir e characterisar
    os seus differentes periodos, seja-me licito fazer algumas reflexões
    geraes sobre ambos os cyclos. N'ellas estão os fundamentos da
    importancia exclusiva que attribuo ao primeiro.

    Habituados pela educação, e até por um estudo superficial e
    irreflectido, a considerar o seculo decimo sexto como a verdadeira era
    da grandeza nacional, parece-nos que o mais rico thesouro das nossas
    recordações historicas está na pintura dos reinados brilhantes de D.
    Manuel e D. João III, na maravilhosa narração das façanhas dos grandes
    capitães d'aquelle tempo, e no espectaculo dos nossos descobrimentos e
    conquistas do Oriente e da America, do engrandecimento do nosso
    commercio, e do respeito e temor, que por isso nos catava o resto do
    mundo–a nós, nação composta de um punhado de homens, mas homens como
    nunca a terra vira; homens cujo braço era de ferro, cujo coração era de
    fogo, que achavam seu remanso nos braços das procellas, seu folgar nas
    batalhas de um contra cem, e que, na morte, buscavam para sudario em que
    se involvessem ou as enxarcias e velas das náus voadas e mettidas a
    pique, ou os pannos rotos de muros de castellos e fortalezas derrocadas;
    homens que sogigaram os mares e fizeram emmudecer a terra; homens,
    emfim, que saldaram completamente com o islamismo e com a Asia a
    avultadissima divida de desar e affronta, que a Cruz e a Europa lhes
    deviam desde os tempos em que as desventuras e revezes das Cruzadas se
    completaram pela perda fatal de Constantinopola.

    Mas, se a historia não é um passatempo vão; se, como toda a sciencia
    humana, deve ter uma causa final objectiva, ao contrario da arte que por
    si mesma é causa, meio, e fim da sua existencia; se no estudo da
    historia patria cada povo vai buscar a razão dos seus costumes, a
    sanctidade das suas instituições, os titulos dos seus direitos; se lá
    vai buscar o conhecimento dos progressos da civilisação nacional, as
    experiencias lentas e custosas, que seus avós fizeram, e com as quaes a
    sociedade se educou para chegar de fragil infancia a virilidade robusta;
    se d'essas experiencias, e dos exemplos domesticos, desejamos tirar
    ensino e sabedoria para o presente e futuro; se na indole da sociedade
    antiga queremos ir vigorar o sentimento da nacionalidade, que, por culpa
    não sei se nossa se alheia, está esmorecido e quasi apagado entre nós;
    não é por certo n'aquella brilhante épocha que havemos d'encontrar esses
    importantes resultados do estudo da historia; porque a virilidade moral
    da nação portugueza completou-se nos fins do seculo XV, e a sua velhice,
    a sua decadencia como corpo social, devia começar immediatamente.

    Arriscadas parecerão talvez estas opiniões; mas, se não me engano, o
    exame dos factos nos ha-de conduzir á demonstração d'ellas.

    As nações são em muitas coisas similhantes aos individuos: facil fôra
    instituir, não poeticamente, mas como todo o rigor philosophico, muitas
    analogias entre a sociedade e o homem physico. No individuo, cuja
    organisação é viciosa ou incompleta, a edade viril passa rapida, e quasi
    sem intermissão se decae da mocidade para o pender da velhice: é esta
    uma verdade physiologica. Dae a qualquer sociedade uma organisação
    incompleta, errada, ou sequer extemporanea; torcei-lhe as tendencias do
    seu modo de existir primitivo; vergae os elementos sociaes, concordes
    com esse modo de existir, a uma formula politica em parte diversa; e
    ficae certos de que esse vicio de constituição não tardará em produzir
    seu fructo de morte. A razão, bem como a experiencia dos seculos, dá
    pleno testimunho d'esta verdade. Resta saber se ella é applicavel ao
    nosso objecto.

    Nós veremos, para deante, como atravez da meia edade, principalmente no
    seculo XV, o elemento monarchico foi gradualmente annullando os
    elementos aristocratico e democratico, ou, para fallar com mais
    propriedade, os elementos feudal e municipal, annullando-os não como
    existencias sociaes, mas como forças politicas. Veremos este pensamento,
    ou antes instincto da monarchia, revelado em um grande numero de factos,
    mas resumidos em quatro que me parecem capitaes–o estabelecimento dos
    juizes letrados–as contribuições geraes substituidas ás contribuições
    de foral como systema de fazenda publica–a promulgação da lei mental–e
    as resoluções das côrtes de 1482, principalmente as relativas a
    jurisdicções. É depois d'estas côrtes que o principio monarchico se
    torna unica força politica, que a unidade absoluta se characterisa
    rigorosamente e, sem aniquilar as classes sociaes, as dobra, subjuga e
    priva de acção publica. Servas, ellas se corrompem rapidamente; a
    gangrena eiva por fim o proprio throno; e em menos de um seculo na nação
    portugueza desapparece debaixo das ruinas da sua nacionalidade e
    independencia.

    Mas esses homens extraordinarios, que avultam no seculo decimo sexto?
    Mas esses incansaveis ceifadores de cidades e reinos, que assombraram o
    mundo? Mas a actividade incrivel d'aquella épocha? Mas o poderio, a
    opulencia, a gloria de D. Manuel e de D. João III? Não era a unidade
    absoluta da monarchia a creadora de tantas maravilhas? Não pertenciam os
    portuguezes d'então a essas classes, que degeneravam e se corrompiam por
    falta de vida politica? Não era com as instituições primitivas
    annulladas e mortas que se obravam tantos milagres de valor, de virtude
    e de patriotismo?

    Estas perguntas, que examinadas superficialmente parecem destruir a
    these que estabeleci, occorrem naturalmente; e todavia pouca reflexão
    basta para vermos que não teem grande valor, emquanto subsequentes
    averiguações nol-as não demostram de nenhum momento. Se quizermos
    attender á data, em que os primeiros symptomas palpaveis e definidos da
    decadencia do nosso poder e gloria começam a apparecer claramente,
    ver-nos-hemos forçados a confessar um facto, que de algum modo responde
    a todas essas perguntas.–A geração, a quem verdadeiramente pertence
    tanta gloria, foi educada pelo seculo anterior. Os grandes homens do
    reinado de D. Manuel tinham conhecido o nosso ultimo rei cavalleiro;
    tinham sido educados na épocha da robustez moral da nação. O seculo
    decimo sexto nada mais fez que aproveitar a herança da edade média.

    As phases da vida dos povos são incomparavelmente mais lentas que as da
    vida humana: n'esta á edade viril segue-se a edade grave, á edade grave
    a velhice, á velhice a decrepidez, á decrepidez a morte; e essas
    mudanças demandam ás vezes meio seculo. Foi o que bastou ás glorias de
    Portugal para descerem do apogéu ao occaso. Para ellas chegarem á
    sepultura em 1580, não devia ter a nação declinado, ao menos moralmente,
    desde D. Manuel?

    * * * * *

    Reflictâmos nos derradeiros momentos de quatro famosos capitães
    portuguezes, que viveram em diversas épochas. N'essas quatro horas de
    agonia me parece ver um symbolo do periodo que abrange a virilidade,
    edade grave, velhice, e decrepidez da nação portugueza. Este symbolo
    resume, se não me engano, a historia da transformação moral d'esse
    periodo.

    Em 1449 o conde d'Abranches, Alvaro Vaz d'Almada, expira em
    Alfarrobeira, rodeado de cadaveres e cançado de derribar seus
    contrarios, defendendo a honra e innocencia do grande infante D. Pedro;
    porque, cavalleiro, cria na virtude d'outro cavalleiro, do seu amigo, a
    quem antes da batalha, cujo exito d'antemão ambos sabiam, jurára sobre a
    hostia consagrada não sobreviver.

    Em 1515 Affonso d'Albuquerque, o maior capitão do mundo, afóra Cesar e
    Bonaparte, depois de estampar as quinas como em signal de servidão na
    fronte da Asia, e de obter dos infieis o nome de leão dos mares, morre
    de desgosto, por ver turbada contra si a face do monarcha; morre, crendo
    que um enrêdo mesquinho de cortezãos póde offuscar a sua gloria, que
    allumia a terra; morre, porque se desconhecem seus serviços.

    Em 1548 D. João de Castro acaba jurando que não roubara um cruzado á
    fazenda publica, nem acceitara uma só peita para torcer a justiça. Era
    necessario o juramento do moribundo para que passasse pura á posteridade
    a memoria de um homem honesto.

    Em 1579 D. João Mascarenhas, coberto de cãs e farto de recompensas,
    calca aos pés a corôa de loiros que obtivera em Diu, e como o mais vil
    usurario estende da Borba do sepulchro a mão descarnada para receber de
    Castella o preço, por que vendera a patria; e expira, se não cheio de
    remorsos, ao menos rico de oiro e ignominia.

    Em 1580 a independencia de Portugal não existia: e o Diabo do Meio-dia,
    por me servir da frisante denominação dada por Sixto 5.^o a Philippe II,
    reinava em todas as Hespanhas.

    As differentes circumstancias companheiras da hora extrema de quatro
    homens eminentes, d'essa hora em que o espirito se mostra nú aos olhos
    da posteridade, revelam o seu estado moral e as suas convicções, e
    n'elle e n'ellas o estado moral e as convicções da geração a que
    pertenceram. No primeiro ha uma individualidade vigorosa, que tem fé na
    propria virtude e no testimunho da consciencia. No segundo ha ainda a
    virtude, mas não ha a consciencia d'ella; substituiu-a o juizo do
    monarcha: a gloria crê precisar da confirmação dos cortezãos; crê
    precisar de um diploma que a legalise. No terceiro ha tambem virtude,
    mas já como que duvidosa de si; a individualidade desappareceu
    completamente; o homem nobre e virtuoso crê que o seu nome se hade
    submergir na corrupção geral que o cerca, e ergue-se no seu leito de
    agonia para bradar aos vindoiros: «juro-vos que fui honesto.» No quarto,
    emfim, a gloria prostitue-se á traição; a nacionalidade é levada ao
    mercado das ambições de estrangeiros; um homem illustre cospe na face da
    patria, expira contando os saccos de oiro que lhe valeu sua perfidia, e
    a nação dissolve-se como um cadaver gangrenado.

    Eis aqui porque eu considero todo o seculo decimo-sexto como um seculo
    de decadencia. O viço da arvore dura algum tempo depois de se lhe haver
    entranhado o gusano no âmago do tronco; porque as folhas nasceram e
    crearam-se quando a seiva ainda era pura. É após isso que as folhas
    amarellecem e caem; os ramos engelham e torcem-se; o tronco secca e
    apodrece. Então passa o sôpro das tempestades, e a arvore desaba em
    terra.

    Mas, dirá alguem, todos esses factos, que constituem o facto complexo da
    decadencia, foram acasos; foram decretos do destino. Explicação
    insensata! As palavras _acaso_ e _destino_ são apenas desculpas vãs, a
    que os entendimentos tardos se acoitam para se esquivarem á indagação
    das causas dos phenomenos historicos. Os acontecimentos que caracterisam
    a generalidade de uma épocha, e que reunidos constituem a synthese
    d'ella, teem sempre origem na indole intima da sociedade, na natureza da
    sua organisação. Se houve uma grande mudança na existencia politica de
    um povo, o caracter da geração que foi educada pelas antigas
    instituições e antigos costumes, e que assistiu a essa transformação,
    poderá ser modificado por ella, mas conservará sempre os principaes
    lineamentos que lhe imprimiram as formulas sociaes que passaram. São os
    homens que vem depois os que traduzem em obras as novas formulas, e é
    pela analyse d'essas obras que a revolução deve ser julgada; porque só
    então os factos são exclusivamente gerados por ella.

    Applicando estes principios á transformação preparada durante a edade
    média, e concluida pelo duro coração e robusta intelligencia de D. João
    II, acharemos facilmente a solução d'esse mysterio da força e esplendor
    do reinado subsequente, e da rapidez quasi incrivel com que tudo isso se
    abysmou em pouco mais de sessenta annos. Virá um dia em que, indagando o
    estado social do seculo XV, achemos ahi as causas dos successos do
    primeiro quartel do decimo sexto; das prosperidades e glorias do reinado
    de D. Manuel.

    * * * * *

    Bem que rapidamente, tenho procurado fazer conhecer quaes sejam os
    fundamentos da these que estabeleci–de que a decadencia da nação
    portugueza, começando apparentemente nos ultimos annos do reinado de D.
    João III, principia essencialmente nos primeiros do reinado antecedente,
    ou, com mais rigorosa data, nas côrtes d'Evora de 1482. Para vermos como
    debaixo da grandeza e brilho exterior d'esses dois reinados ia já
    lavrando a dissolução social, seria necessario saír do cyclo a que me
    pareceu deverem limitar-se estas cartas, isto é, do que propriamente se
    póde chamar edade média portugueza.

    Nas considerações que fiz, n'esta rapida e necessaria digressão sobre o
    verdadeiro character do seculo decimo sexto, está, mais que no respeito
    á chronologia, a razão para havermos de preferir o estudo da edade média
    ao do seculo das nossas glorias. No estudo da épocha vulgarmente chamada
    do renascimento, nome que talvez só por antiphrase ou cruel escarneo lhe
    conviria, fôra preciso fechar os olhos ao brilho de apparentes
    grandezas, e allumiar com o facho da historia o corpo enfermo da
    sociedade portugueza, que apressava a sua hora de morrer com a febre das
    conquistas. Seria necessario vê-lo desmaiar e definhar-se esmagado
    debaixo do pêso da sua grandeza, e depois descer ao sepulchro carcomido
    pelo cancro da propria corrupção moral. Mais um motivo pessoal é esse
    para nos esquecermos d'elle. Para fartar de amargurar os corações que
    amam a terra da patria, não é necessaria a historia; sobra-nos a vida
    presente.

    Mas a razão capital da preferencia, que devemos dar ao estudo da edade
    media, está no que ha pouco ponderei ácerca dos fins objectivos da
    historia. Nem descobrimentos, nem conquistas, nem commercios
    estabelecidos pelo privilegio da espada, nem o luxo e magestade de um
    imperio immenso, nos podem ensinar hoje a sabedoria social. Os
    instinctos maravilhosos de uma nação que tende a constituir-se; as
    luctas dos diversos elementos politicos; as causas e effeitos do
    predominio e abatimento das differentes classes da sociedade; os vicios
    das instituições incompletas e incertas, que obrigaram não só nossos
    avós, mas toda a Europa, a deixar o progresso natural e logico da
    civilisação moderna para se lançar na imitação necessaria, mas bastarda,
    da civilisação antiga; a existencia emfim intellectual, moral, e
    material da edade media é que póde dar proveitosas lições á sociedade
    presente, com a qual tem muitas e mui completas analogias.

    Abstraiâmos, com effeito, da enorme distancia de civilisação que nos
    separa d'esses tempos; abstraiâmos da quasi constante antinomia entre a
    vida civil da edade media e a vida civil actual, e consideremol-as ambas
    unicamente nas suas tendencias politicas. Dizei-me: não ha uma parecença
    notavel entre tão afastadas épochas? Imaginae um periodo da historia do
    genero humano, em que os diversos principios de governo se combatessem
    sem cessar, buscando enfraquecer-se mutuamente, equilibrando-se por
    algum tempo, vencendo-se por fim uns aos outros, e achando brevemente na
    victoria a propria ruina. Imaginae um periodo, em que as crenças
    politicas fossem convertidas em odios implacaveis, herdados muitas vezes
    de paes a filhos; em que as garantias sociaes estivessem muitas vezes
    nas leis e faltassem quasi sempre nos factos; em que cada uma das
    classes accusasse as outras de oppressoras, iniquas, violentas, quando
    subjugada, e fosse iniqua, oppressora, e violenta apenas obtivesse o
    poder; em que a espada do homem de guerra resolvesse frequentemente os
    problemas politicos, e em que ao mesmo tempo a superioridade
    intellectual do individuo tivesse commummente mais acção nas phases da
    sociedade que a auctoridade publica; em que se junctassem no mesmo povo,
    na mesma classe, e até no mesmo homem, os extremos de nobres affectos e
    da corrupção e maldade mais torpes. Imaginae um periodo com estes
    caracteres, e buscae-o depois na historia. Onde é que o encontrae? Na
    edade media. Mudae agora uma palavra; chamae ás classes partidos–e essa
    mudança será apenas de nome, porque os partidos representam os
    interesses diversos das diversas classes–e dizei-nos a que épocha vos
    parece quadrarem taes caracteres? Indubitavelmente á nossa. Porque taes
    coincidencias em tempos distantes? Examinel-o; que em similhante exame
    acharemos mais um motivo para estudarmos com preferencia os quatro
    primeiros seculos da sociedade portugueza.

    A edade media foi o largo e custoso lavor da Europa para transformar a
    unidade do imperio romano na individualidade dos povos modernos. A
    organisação do imperio era essencialmente falsa e absurda; as suas
    partes eram heterogeneas. Se assim não fosse, a furia dos barbaros
    septemtrionaes, ou se teria quebrado embatendo nas fronteiras, ou apenas
    teria trazido ao seu seio o mesmo que as invasões dos tartaros na
    China–apenas revoluções dynasticas. Se a alluvião d'homens do norte não
    desmembrasse o imperio romano, desmembrar-se-hia elle por si. Mais tarde
    ou mais cedo as raças diversas que o compunham, sem o constituirem, se
    haviam de separar, e reconstituir-se na sua individualidade, se as
    tribus septemtrionaes não viessem substituir a acção vigorosa e rapida
    da conquista á acção branda e lenta do tempo. O restabelecimento da
    variedade sobre as ruinas da unidade absoluta é o grande principio que a
    meu ver a edade media representa: esse principio está impresso na maior
    parte das fórmas sociaes, nas instituições, na separação dos idiomas, e
    até na litteratura. Por dez seculos a Europa, que fôra romana, não fez
    mais de que agitar-se á roda d'este principio. Da profunda ignorancia em
    que, como era natural, ella caiu ao expirar da civilisação antiga,
    nasceu a sua impotencia para o fazer predominar duravelmente nos varios
    aspectos da vida das nações: mas as nações ficaram. As diversas
    nacionalidades, separadas por caracteres profundamente distinctos, foram
    o unico resultado importante de mil annos de luctas, de revoluções,
    d'incertezas. Foi só isto que o renascimento não soube nem pôde
    condemnar como abusão e mentira.

    O renascimento não foi unicamente uma rehabilitação do pensar romano na
    arte e na sciencia: foi a restauração completa da unidade como principio
    dominador e exclusivo, salva a distincção das nacionalidades, que ficou
    subsistindo. Cada povo converteu-se, não sei se diga n'uma imagem, se
    n'um arremedilho ou farça do imperio. Faltou um Cesar, ou para melhor
    dizer appareceu em cada paiz o seu–D. João II em Portugal, Isabel em
    Hespanha, Luiz XI em França, Henrique VII em Inglaterra, Maximiliano na
    Allemanha. Era que em cada um d'estes paizes as instituições nacionaes
    tinham cedido o campo ás Institutas e Pandectas.

    O que são as revoluções politicas do nosso tempo? São um protesto contra
    o renascimento; uma rejeição da unidade absoluta; uma renovação das
    tentativas para organizar a variedade. Hoje os povos da Europa atam o
    fio partido das suas tradições da infancia e da mocidade. O seculo XIX é
    o undecimo do que exclusivamente se póde chamar socialismo moderno. Os
    tres que o precederam foram uma especie d'hybernação em que o progresso
    humano esteve, não suspenso, mas latente e concentrado nas
    intelligencias que iam accumulando forças para o traduzir em realidades
    sociaes. Eis d'onde procedem as analogias dos seculos chamados barbaros
    com a épocha em que vivemos.

    Esta interrupção das fórmas exteriores da vida politica moderna foi,
    absolutamente fallando, um mal ou foi um bem? Não o sei; mas sei que foi
    uma necessidade. A lucta continua em que viviam as classes para defender
    ou dar o predominio aos respectivos interesses; a desegualdade de forças
    entre os elementos politicos; a barbaria moral, que sabe misturar muitas
    e grandes virtudes com a corrupção dos costumes, principalmente
    domesticos; a falta d'ordem publica e de melhoramentos materiaes, pelo
    imcompleto da administração geral, que devia regular e supprir a curta
    acção das administrações municipaes; a ignorancia extrema, que reinava
    por toda a parte, na fidalguia por systema, no clero por depravação e
    fanatismo, no povo pela carencia absoluta d'educação; tudo isto tornava
    necessaria a acção da monarchia pura. Era preciso que as nações se
    habilitassem, no tirocinio da oppressão, para a liberdade; que os
    elementos sociaes se descriminassem e repousassem; que a
    intellectualidade se desenvolvesse; que, emfim, as diversas
    nacionalidades existissem _em si_, como existiam _entre si_.

    Porque cumpre confessar que, se o absolutismo pesou duramente na Europa,
    tambem facilitou de um modo admiravel a ligação e harmonia do corpo
    social. A edade media dividira por limites quasi indestructiveis as
    differentes nacionalidades; fizera-as, como disse, existir entre si: o
    principio caracteristico do socialismo moderno–a variedade–tinha sido
    n'esta parte, senão um pensamento, ao menos um instincto imperioso,
    definido, claro e activo; mas a nacionalidade, repito, não existia em si
    ou para si. A variedade ia até o individualismo, isto é, separava ou
    antes fazia inimigas as classes, as hierarchias, as povoações do mesmo
    paiz, os individuos da mesma povoação; e d'este modo aquelle principio,
    que estremára os povos, tendia a annullar a propria obra, levando ao
    excesso a sua intolerancia contra o principio opposto.

    Quando, algum dia, chegarmos ao exame do estado da sociedade portugueza
    na epocha wisigothico-feudal, que abrange o periodo decorrido desde o
    conde Henrique até D. Affonso III, em que a influencia das instituições
    romanas mal despontava, acharemos a prova d'esta verdade: veremos,
    digamos assim, a raiva da divisibilidade; vel-a-hemos não parar nas
    divisões das classes, antes retalhar cada uma d'estas em variadas
    hierarchias. Mais: veremos a desunião, ou para melhor dizer, a guerra
    posta de permeio entre municipio e municipio, e legalisada politicamente
    nos foraes, civilmente nos costumes ou leis tradicionaes; vel-a-hemos
    entre os mesmos burguezes, de familia para familia, de homem para homem:
    vel-a-hemos de geira de terra para geira de terra, da behetria para o
    senhorio, do couto para a honra, da terra da corôa para o reguengo; em
    todos os logares e por todos os modos. E qual era a fórmula material,
    que exprimia esta divisibilidade quasi infinita? O privilegio. O
    privilegio era uma especie d'escada de Jacob; tinha degràus
    innumeraveis. A maior parte consistia em alguns direitos de liberdade
    para o que a elles subira; muitos em direito de opprimir os pequenos; e
    todos em representarem uma idéa falsa, isto é, que a abjecção extrema
    era a regra geral, e que todas as vantagens sociaes vinham por excepção.
    Felizmente a regra geral dava-se em um numero d'individuos menor que a
    excepção; e o privilegio, tomando esta palavra na accepção que hoje
    se-lhe-liga, vinha por essa facto a perder completamente a sua natureza
    excepcional.

    Todos os seculos teem ufanias vãs e infundadas: uma das do nosso, que
    pertence a esta especie, é a de havermos sido inexoraveis liveladores de
    direitos e condições. Enganamo-nos. Mil vezes mais que nós o foi o
    grande principio de unidade politica chamado monarchia absoluta. Nós
    aniquilámos alguns privilegios, que elle conservára, porque eram mais
    d'apparato que de substancia: nós derribámos meia duzia de tripodes,
    onde alguns vangloriosos se empoleiravam, porque, pobres tacanhos,
    precisavam d'isso para que os víssemos. A monarchia derribou gigantes;
    partiu em pedaços miudos a escada immensa do privilegio. Verdade é que
    metade d'esses privilegios eram foros de liberdade, que pertencem a
    todos os homens; mas, como já disse, a edade media lhe ensinára que a
    servidão mais abjecta só deixava d'existir por privilegio, e a monarchia
    não podia assim esquecer tão repetida lição.

    Não consente o bom methodo que antecipe aqui o desenvolvimento das idéas
    que em resumo tenho apontado; por isso limitar-me-hei a só mais uma
    observação. O principio da liberdade pertence incontestavelmente á edade
    media, porque, se não me engano, a liberdade não é mais que a
    facilitação da variedade nos actos humanos, e a variedade é, como tenho
    repetido, o caracter essencial d'essa épocha. O principio da egualdade
    dos direitos e deveres fêl-o porém surgir, e converteu-o em facto geral,
    o predominio da monarchia. Esta condição social, que nos parece hoje tão
    inconcussa, tão obvia, não poderia subsistir na épocha da completa
    desegualdade. Era necessaria a existencia d'uma entidade politica que,
    estando acima de toda a sociedade, tendesse constantemente a nivelar,
    pelo menos em relação a si, as outras entidades, e que finalmente o
    alcançasse. Era preciso que a opinião do poder divino dos reis chegasse
    a sanctificar-se com a decisiva victoria do elemento monarchico, para a
    egualdade civil se comprehender. As idéas actuaes a este respeito são
    apenas a conclusão inteira de certos postulados, dos quaes a monarchia
    tirára principalmente as consequencias relativas a si.

    Obrigado, pelo empenho que tomei de mostrar a importancia do grande
    cyclo historico chamado edade media, a fazer sentir que o posterior a
    elle foi um periodo de decadencia, e por isso forçado a representar em
    parte os males sociaes produzidos pela monarchia absoluta, era
    necessario que mencionasse egualmente os factos que abonam o seu
    triumpho. Pesar uns e outros, e comparal-os pela totalidade dos seus
    resultados, careceria d'averiguações que não tenho feito, e de um grau
    de perspicacia que provavelmente não possuo. Foi por isso que já
    confessei ignorava se esse grande acontecimento tinha sido um mal ou um
    bem, contentando-me com saber que havia sido uma necessidade. As
    considerações que fiz me parecem indical-o sufficientemente. No
    proseguimento d'estas cartas espero que achemos provas completas d'estas
    simples indicações.

    Um reparo se póde fazer ainda ácerca da idéa fundamental sobre que tenho
    procurado fixar a attenção do leitor, isto é, sobre a conveniencia de se
    estudar exclusivamente, ou pelo menos com preferencia, a historia da
    edade media, se do estudo da historia queremos tirar applicações para a
    vida presente. Este escrupulo, analogo ao que resulta da grandeza
    apparente do seculo decimo sexto, e da acção vigorosa da unidade
    absoluta predominando exclusivamente na organisação politica d'essa
    épocha, resolve-se por um modo tambem analogo áquelle de que me servi
    para resolver o primeiro.

    Se a monarchia absoluta como elemento politico trouxe reformas
    necessarias; se é verdade que lhe devemos principalmente o haver dado
    nexo a este corpo moral chamado nação, o ter feito nascer e progredir
    até certo ponto a egualdade civil e a centralisação administrativa; será
    por ventura escusado o conhecimento da sua influencia na organisação
    social? Não deverá esse conhecimento ser mais profundo e exacto, se o
    buscarmos na épocha em que a acção politica da monarchia era unica, e em
    que todas as resistencias dos outros elementos tinham desapparecido, ou
    estavam subjugadas pela preponderancia illimitada da corôa? E não é ao
    seculo decimo sexto e aos dous seguintes que pertence este grande facto?

    Eis-aqui, pois, ainda outra difficuldade, que se póde oppôr á minha
    theoria; difficuldade que apresentei com toda a força de que é
    susceptivel. Esta força, porém, achal-a-hemos só apparente, se quizermos
    attender ao verdadeiro modo de considerar a questão de que hoje nos
    occupamos.

    O elemento monarchico não surgiu repentinamente nos fins do seculo XV.
    Quem não o sabe? Nos acontecimentos humanos tudo vem successivamente;
    cada facto é um annel da cadeia eterna das causas e effeitos. O
    principio da unidade nunca deixou d'existir; porque os mesmos povos que
    destruiram o imperio absoluto, o despotismo dos Cesares, e retalharam o
    orbe romano, traziam comsigo nos capitães das hostes guerreiras, nos
    cabeças das tribus barbaras da Germania, esse elemento, esse principio.
    Depois dos graves e profundos trabalhos historicos de Agostinho Thierry
    quasi ninguem ignora qual era o valor politico dos Xeques e Caciques dos
    antigos selvagens da Europa; o que eram os Alariks, Hlodewigs, e
    Theoderiks, que os escriptores dos tres ultimos seculos poliram e
    enfeitaram com os titulos pomposos de principes e monarchas. Mas a sua
    existencia, e a especie de supremacia, de que a eleição ou a propria
    superioridade physica e intellectual os revestia, é incontestavel. Elles
    não eram reis; os barbaros não lhes davam um nome que correspondesse á
    idéa que este titulo representa; mas os habitantes das provincias
    romanas, que elles conquistavam, lh'o deram. Isto mostraria, se d'isso
    não houvesse outras provas, que suas attribuições de algum modo se
    approximavam da idéa a que entre os povos civilisados do imperio tal
    expressão cabia. Tomada até certo ponto a barbaria dos vencedores pela
    policia dos vencidos, estes reis na lingua romana, foram-no, mais ou
    menos completamente, na realidade dos factos. As monarchias modernas lá
    vão achar sua origem.

    Atravez de toda a edade media, em que o christianismo, conjurado n'essa
    parte com os costumes dos barbaros, bradava independencia e liberdade á
    corrupta civilisação antiga, esta lhe respondia com o brado de ordem e
    paz. Trinta gerações vacilharam entre estes dous gritos, que ambos
    soavam nos corações; porque ambos representavam as primeiras precisões
    sociaes. Por fim os povos, cansados do vacillar de mil annos, cairam,
    como era natural, aos pés da paz e da ordem. As necessidades, para as
    quaes offerecia remedio a civilisação romana, tinham-se tornado mais
    fortes no meio de tantas luctas para as unir com as que nasciam da
    civilisação do evangelho e do instincto da natureza. A monarchia
    mostrára sempre, no meio d'essas largas e trabalhosas tempestades
    humanas, que era a herdeira das tradições do imperio; a unidade do poder
    provára por muitas vezes que ella só possuia o segredo da paz e da ordem
    publica. D'ahi veio o seu inevitavel triumpho.

    No estudo da edade media portugueza acharemos uma prova incontestavel
    d'estas observações. Veremos a lei civil geral substituida gradualmente
    á lei civil local; o systema de fazenda dos tributos geraes substituido
    ao irregular das contribuições de foral; a administração do estado
    nascer sobre as ruinas das administrações do municipio e do senhorio
    quasi feudal, tudo por influencia da corôa; e veremos tambem d'essas
    causas, e d'outras analogas a ella, resultar a ordem e a organisação do
    nosso paiz.

    É ahi que nós podêmos comprehender o elemento monarchico; é ahi que a
    sua acção apparece energica, civilisadora, progressiva; é ahi que elle
    disputa o predominio aos outros elementos, e que se faz popular
    annullando-os. Obtido o triumpho, assemelha-se a todos os vencedores:
    degenera e corrompe-se nos ocios da victoria; sáe das raias de
    organisador, e converte-se em oppressão. Nem d'outro modo podia
    acontecer: elle representava unicamente a ordem e a paz, e os elementos
    d'onde podia nascer a independencia e a liberdade tinham sido
    completamente esmagados ou constrangidos ao silencio.

    Assim, no fim do seculo XV ha verdadeiramente um ponto de intersecção na
    vida da monarchia: a actividade que ella estava habituada a empregar nos
    seus rijos combates com a aristocracia, e em buscar a alliança da
    democracia para a fazer suicidar ao passo que d'ella se ajudava para
    vencer o privilegio; essa actividade, digo, espraia-se nos
    descobrimentos e conquistas, porque não tem já objecto nas fórmulas
    sociaes: n'estas a sua acção benefica cessa porque está completa, e
    principia a sua acção deleteria; no logar da ordem põe a servidão; em
    vez do repouso da paz produz a quietação do temor; á moralidade
    substitue a corrupção dos costumes. Pervertida a indole nacional,
    enfraquecida a energia interior do povo, o poderio exterior começa a
    desmoronar-se logo: o primeiro symptoma de morte claro e indubitavel
    apparece no desamparar as praças d'Africa em tempo de D. João III. O
    ultimo arranco da nação não tarda: é o estertor dos moribundos nos
    campos de Alcacer-Kebir.

    Eis de que modo a propria monarchia, considerada como principio social,
    como elemento de civilisação, se deve com preferencia estudar na épocha
    em que se preparava, mas ainda não existia, o seu predominio absoluto.
    Eis-nos assim outra vez encerrados no cyclo da edade media, do qual
    parecia que ella nos obrigaria a sair.

    RESPOSTA ÁS CENSURAS

    DE

    VILHENA SALDANHA

    1846

    Ajuda, 8 de Abril de 1846.

    Ill.^{mo} sr. redactor da _Revista Universal_.–São bem poucas as
    publicações periodicas que tenho occasião de ver: entre estas poucas uma
    é a que v. s.^a tão dignamente redige. Recebendo hoje o num. 41, n'elle
    encontro um artigo que diz respeito a um livro recentemente publicado
    por mim, o primeiro volume da _Historia de Portugal_. Na breve
    advertencia que precede aquelle trabalho deixei estampadas as minhas
    previsões sobre a resistencia que em muitos espiritos haviam de
    encontrar as opiniões que n'elle segui. Era naturalissima essa
    resistencia, e eu seria demasiado imprudente se esperasse que não
    apparecessem adversarios para as combater; mas a tenção que desde logo
    formei foi a de não replicar, ao menos por agora. Lembrava-me (se é
    licito buscar para as cousas pequenas grandes exemplos) a sorte da
    _Historia critica de Hespanha_, de Masdeu, que não passou dos fins do
    seculo XI, porque o illustre historiador consumiu os ultimos annos da
    vida em satisfazer cabalmente aos reparos e criticas que de toda a parte
    choviam contra aquelle grandioso monumento da litteratura castelhana. O
    artigo do seu jornal me fez, todavia, reflectir de novo no concebido
    proposito. Occorreu-me o receio (e havia motivos para me occorrer) de
    que o silencio se me lançasse á conta de uma orgulhosa e ridicula crença
    na propria impeccabilidade litteraria, e de que os auctores d'esses
    escriptos se persuadissem de que eu menoscabava os seus louvaveis
    esforços em refutarem aquillo que lhes parecera um erro, e que talvez o
    é. Longe de mim tal pensamento. Não pretendi nem pretendo escrever a
    melhor historia de Portugal possivel; mas tenho a consciencia de que o
    meu trabalho é o mais sincero e despreoccupado que n'este genero se fez
    ainda entre nós; tenho a consciencia de haver buscado a verdade com todo
    o empenho que em mim cabia. Este louvor, quer m'o concedam, quer m'o
    neguem, sei que o mereço. Quanto a erros, facil é que n'elles cahisse.
    Os que impugnam lealmente as doutrinas, que julgam ser inexactas, na
    arena onde essas materias se tractam e perante o supremo juiz, o
    publico, esses merecem respeito e não despreso. O despreso pertence aos
    bufarinheiros litterarios, aos criticos de soaleiro e incruzilhada, que
    discreteam nas tertulias de ignorantes, porque teem medo de confiar á
    imprensa aquillo que poderia servir-lhes de corpo de delicto e de
    instrumento de castigo. O despreso é para aquelles que, tendo vivido
    sempre d'uma reputação immerecida, só sabem explicar a obra da
    intelligencia e do amor da verdade por motivos abjectos e torpes.
    Pertence-lhes o despreso: não o nego; mas ainda assim não posso dar-lhes
    o que é seu. Prohibe-m'o o coração. Destes desgraçados tenho dó; dó como
    Dante o tinha das sombras empégadas no Malebolge. Sinto unicamente que a
    sinceridade me não consinta dizer-lhes com o fero ghibelino:

    «Giá t'ho veduto coi capelli asciuti.»

    A razão por que hei-de abster-me de responder por emquanto aos que me
    combatem ou combaterem, é porque, fazendo-o, satisfaria o meu amor
    proprio; não o fazendo, cumpro o meu dever. Annunciei a publicação
    annual de um volume da Historia Portugueza: é uma obrigação que contrahi
    para com muitos centenares de maus cidadãos, como eu, que não se
    escandalisam da _falta de patriotismo_ que reina no mal aventurado
    livro. Se não quizer faltar ao empenho que tomei, cumpre-me não consumir
    o tempo, que tão rapido foge, em debater as objecções da critica. Hei-de
    estudar todas as que se estribarem em argumentos e provas serias; hei-de
    aproveital-as quando me convencer de que sou eu que não tenho razão. Mas
    pretenderem que abandone a prosecução do trabalho principal para voltar
    atraz, e discutir de novo vinte vezes aquillo que só escrevi depois de
    larga discussão comigo mesmo, seria pretenderem o impossivel. Se nunca
    se me offerecer ensejo para dissolver as duvidas que se me opposerem, ou
    se as não apreciar bem, ou se, emfim, ellas forem concludentes, outros
    virão depois de mim, que por esses marcos levantados no terreno da
    historia possam evitar os fojos em que eu tiver caído. Quando mais
    nenhum serviço houvera feito ás lettras patrias, ao menos deve-se-me ter
    sido a causa de que mãos mais robustas que as minhas levantem esses
    padrões á sciencia, e contribuam assim para a gloria litteraria do nosso
    paiz.

    Apesar, porém, da necessidade que tenho de guardar silencio em defesa
    propria, não posso acabar comigo que cerre aqui o discurso. Ha tanta
    cortezia no artigo do seu collaborador, que seria talvez pouco decente o
    recusar comparecer no tribunal aonde me cita. Ha juizes por quem o reu
    condemnado conserva respeito: ha outros que elle detesta ainda depois de
    absolvido. N'aquelles a nobreza do animo e a honestidade de proceder
    explicam o phenomeno; n'estes explicam-no a rudeza do entendimento e a
    brutalidade ou injustiça nas fórmas. Pertence ao numero dos primeiros o
    nobre censor a quem me refiro; por isso assentar-me-hei por algum tempo
    no banco dos criminosos para lhe responder.

    Duas ponderações graves ha no artigo, a que alludo, contra o meu livro:
    ponderações que a serem exactas importariam a accusação merecida de
    haver eu defraudado a nação da sua arvore genealogica, e d'um dos mais
    importantes feitos d'armas–a conquista da cidade que veio a ser a
    capital da monarchia. Culpa da vontade ou culpa da intelligencia; fosse
    o que fosse, o livro era condemnavel. Puz a doutrina, e acceito-a em
    todo o rigor para mim: mas o que não acceito, sem que o digno auctor do
    artigo do seu jornal as reconsidere, são as provas que apresentou contra
    mim.

    Estabeleci por tres modos a não identidade dos lusitanos com os
    portuguezes: não identidade de territorio; não identidade de ração; não
    identidade de lingua. O auctor do artigo sentiu como eu que, na falta
    complexa d'estes tres principaes caracteres dos que distinguem a
    individualidade das grandes familias humanas chamadas nações, a sua
    unidade na successão dos tempos desapparecia. Tratou, portanto, de
    provar-me que não era essa unidade uma simples preoccupação sem
    fundamento historico. Procurarei examinar os seus argumentos com a
    brevidade e clareza possiveis.

    Diz elle que, sendo Estrabão o que mais estreitou os limites da
    Lusitania, a dilatou entre o Tejo e o Douro, isto, é pela Beira e
    Extremadura; que, formando estas duas provincias o centro e _base_
    principal do moderno Portugal, não pódem os portuguezes deixar de se ter
    na conta de descendentes dos lusitanos, pois os _accessorios_ são sempre
    absorvidos pelo principal; e que a Extremadura hespanhola não pode
    chamar-se Lusitania por ficar alguma porção d'esta fora dos limites de
    Portugal.

    Eis aqui o primeiro argumento a favor do nosso lusitanismo. Mas o que
    quiz o nobre critico dizer chamando á Beira e Extremadura _base_ de
    Portugal? Será em consequencia de serem _hoje_ as duas provincias
    centraes de Portugal no continente da Europa? Não posso alcançar como
    esta circumstancia d'ellas estarem no meio deva fazer com que todos os
    portuguezes se considerem como representantes de uma tribu ou aggregado
    de tribus que ahi estancearam, em parte, ha dois ou tres mil annos.
    Permitta-me elle lembrar-lhe que, por esse titulo, outros com maior
    rigor geographico exigiriam que fossemos entroncar a nossa historia com
    as dos pretos d'Africa; porque dos territorios que pela lei politica do
    paiz constituem actualmente o reino do Portugal e Algarves, é de certo
    modo a Africa o territorio mais central da monarchia. A verdade é que o
    estar tal ou tal provincia actualmente no centro, ao sul, ou ao norte,
    nada significa n'esta questão. O que importaria realmente seria saber se
    a Lusitania, antes dos romanos, occupava a maior porção do territorio,
    em que se constituiu depois definitivamente a nação portugueza no seculo
    XIII, e se ahi foi o nucleo da monarchia, aggregando-se depois a essa
    provincia as outras ao sul e ao norte. É o que o illustre auctor do
    artigo parece pretender chamando á Beira e Extremadura _principal_ parte
    de Portugal, e ás duas provincias ao norte do Douro e ás duas ao sul do
    Tejo _accessorios_. A geographia e a historia conspiram, porém, contra
    elle neste ponto. Tira à Extremadura o bem medido terço d'ella que
    demora ao sudoeste do Tejo, reuna com a Beira os dois que ficam, e
    diga-me depois se o Minho, Tras-os-Montes, Alemtejo, terço da
    Extremadura, e o Algarve, offerecem uma superficie menor do que a Beira
    e a Extremadura ao noroeste do Tejo. Repugna não menos a historia á
    denominação de _accessorio_ dada ás provincias de Tras-os-Montes e
    Minho. Durante a reacção christã da monarchia asturiana-leoneza contra
    os sarracenos, a Beira é que foi _accessorio_ de Tras-os-Montes e Minho;
    e existindo já Portugal como reino independente, a Extremadura é que foi
    _accessorio_ das tres provincias ao norte d'ella. Se o facto da accessão
    serve para alguma cousa na materia, nós temos de entroncar-nos com os
    antigos callaios, mais do que com os lusitanos.

    Não cabe n'um artigo de jornal mostrar com a auctoridade do maior e mais
    antigo historiador da conquista romana na Hespanha, Polybio, citado (de
    um dos seus livros perdidos) por Strabão, que uma tribu de turdetanos ou
    turdulos se estabelecera na parte occidental da Beira, _ficando separada
    dos callaicos pelo Douro_;–que, assim, nem sequer pelo lado do oceano
    os limites de Portugal são os mesmos dos lusitanos ante-romanos;–que
    ainda quando os vettões não fossem uma tribu lusitana, o que é muito
    duvidoso, nem por isso a Lusitania deixaria de entrar pela Extremadura
    hespanhola;–e que, por tanto, não concordando por nenhum lado
    circumscripção territorial daquellas tribus com a do nosso paiz, não ha
    identidade de patria entre a raça antiga e o povo moderno, tanto mais
    que é certo ser o territorio dos _lusitani_, antes das divisões romanas,
    a menor porção do Portugal constituido definitivamente, com a conquista
    da provincia sarracena de Chenchir, no meado do seculo XIII.

    O nobre auctor do artigo critico ao meu livro, parecendo accusar-me a
    mim de confundir as divisões administrativas da Hespanha debaixo do
    dominio romano com a divisão anterior dos povos indigenas, é quem na
    realidade confunde as duas especies para me provar que o Alemtejo era
    territorio dos lusitanos, fazendo os successos do tempo de Viriato
    anteriores ao dominio romano. Pois este dominio não estava estabelecido
    desde o tempo de Publio Cornelio Scipião? Não foi a guerra do chefe
    lusitano um verdadeiro levantamento? E por onde ha-de provar-me que no
    tempo dos pretores o territorio do Alemtejo não foi juncto á Lusitania
    propria só administrativamente, e que era povoado de lusitano? Não se
    oppõe a similhante opinião o texto formal do mais antigo e
    particularisador dos geographos que descreveram a Hespanha, Strabão, o
    qual nos diz: «Tago _transmisso_ (lusitani) _finitimos infestarunt_»?

    Eu não disse, como o meu critico assevera, que _toda_ a Andaluzia e
    Extremadura hespanhola se podiam arrogar o titulo de lusitanas: o que
    disse foi que, se o haverem os lusitanos estanceado _n'uma parte_ do
    nosso territorio nos désse o direito de os considerar como antepassados,
    _esse direito_ pertenceria tambem à Extremadura, à Galliza, e à
    Andaluzia. A differença infinita das duas proposições é obvia. Não creio
    a segunda mui difficil de demonstrar, tanto mais sendo certo que a parte
    lusitana é a que constitue a menor _porção_ do nosso paiz.

    Tractando da prova de não identidade deduzida da transformação das
    raças, o auctor do artigo por paridade de circumstancias estende as
    conclusões, que d'ahi tirei para provar a minha doutrina, á Inglaterra e
    á França. Essa objecção nenhuma força me faz. Creio tanto que por este
    lado os inglezes e os francezes representem os kimhris e os gaels, como
    creio que nós representamos os lusitanos. A historia incertissima
    d'esses povos só pertence á França e á Inglaterra por identidade de
    territorio. É uma consolação para os genealogicos d'aquellas duas nações
    que não estou resolvido a invejar-lhes.

    Diz o meu adversario, a quem não posso deixar de attribuir o epitheto de
    prodigo pelos demasiados elogios com que adoça as suas reprehensões,
    que, apesar de todas as conquistas em qualquer paiz, a raça indigena
    sempre fica sendo muito mais numerosa. Não sei se assim devemos
    figurar-nos as associações ou substituições de raças, principalmente
    tractando-se das migrações asiaticas que povoaram o sul da Europa. Essas
    tribus celticas, cimmerias, indo-germanicas, ou o que quer que fossem,
    deviam ser mui pouco numerosas pelas razões que ponderei no meu livro.
    Logo que começou a occupação da Peninsula pelas nações civilisadas,
    phenicios, carthaginezes, e romanos, os homens capazes de combater (e
    entre os selvagens são-no quasi todos) principiaram a sair da Hespanha
    pelos motivos que tambem lá se apontaram, ao passo que as colonias
    d'essas nações se estabeleciam largamente n'este solo. Quero
    conceder-lhe que a vinda de gregos, phenicios e carthaginezes não
    transformou senão por um terço o sangue indigena; que tambem a
    colonisação immensa e systematica dos romanos não o alterou senão por
    outro terço; e que a chamada especialmente invasão dos barbaros só por
    outro terço o corrompeu. Chega depois a conquista sarracena. Veem á
    Peninsula bereberes, arabes, negros; quantas castas de gente na Africa e
    em grande parte da Asia seguiam o islamismo; estabelecem-se; repartem as
    terras; fundam ou povoam cidades: os mosarabes, ou descendentes, dos
    romano-godos, ficam como sumidos no meio d'esta alluvião de novos
    habitadores de ambos os sexos, de todas as condições e idades. A reacção
    começa nas Asturias; a guerra dilata-se; a assolação e a morte reinam
    por seculos; os francos veem d'além dos Pyreneos ajudar frequentes vezes
    os seus correligionarios; a Berberia é um manancial perenne de novos
    collonos africanos; os chefes sarracenos usam da antiga politica romana,
    e levam milhares e milhares de mosarabes para os empregarem nas suas
    empresas além do estreito: e a Hespanha continúa a ser celtica! Na
    segunda metade do seculo XII achamos Affonso I e Sancho I povoando com
    colonias estrangeiras os _desertos_ da Extremadura e do Alemtejo;
    _desertos_ porque a guerra tinha sido viva por estes districtos durante
    trinta ou quarenta annos; e todavia, apezar de quinze ou vinte seculos
    de invasões e guerras, talvez ainda mais atrozes, a raça lusitana
    predominava nos rareados habitantes de Portugal! Talvez. Mas a mim
    figura-se-me isso como uma idéa absurda. Repugna-me. Será curteza
    d'intelligencia.

    Quanto á lingua não contesta o meu contendor que a origem da nossa seja
    a romana: o que affirma é que a mudança essencial de lingua não prova a
    mudança essencial de raça. Uma cousa que desejava me explicasse era
    porque n'aquellas partes da Hespanha, da França, e da Inglaterra, onde
    pela historia sabemos que as conquistas e colonisações successivas
    d'estranhos não poderam no todo ou na maior penetrar ou fixar-se, os
    dialectos que ainda ahi se fallam hoje discordam absolutamente das
    linguas geraes d'estes paizes e se derivam das primitivas. Tracto com os
    conquistadores mais civilisados tiveram-no sempre os welshes, os
    bretões, os biscainhos: a differença esteve só em não se estabelecerem
    fixamente entre elles os novos senhores do seu paiz. Uma cousa me ha-de
    conceder o nobre critico, e é que os lusitanos, tão curiosos de não
    deixarem perder a sua casta no meio de tantas revoluções e da entrada de
    tantas gentes estranhas por vinte e cinco ou trinta seculos, andaram um
    pouco descuidados n'este negocio da lingua.

    Pelo que respeita a dialectos, e a grammaticas, e a artes, e a medalhas
    anteriores ao dominio romano, falta provar que isso tudo é vestigio, não
    dos phenicios, gregos e carthaginezes, que se haviam estabelecido na
    Peninsula antes dos romanos, mas sim das tribus celticas. Quanto ás
    medalhas de lettras desconhecidas, permitta-me o atilado censor que, com
    Peres Bayer e Masdeu, antes as tenha por phenicias, punicas, gregas, e
    ainda latinas, do que por celticas.

    Não chamei selvagens ás tribus da Hespanha antes da civilisação romana:
    chamo-lh'o antes de toda a civilisação, quer phenicia, quer grega, quer
    carthagineza, quer romana. Não está mais na minha mão: cada vez que
    fallo n'um lusitano, n'um callaico, n'um pelendão, n'um arevaco, dos
    primitivos e puros, figura-se-me logo um aymore, um tapuia, um
    tupinamba, serapintado e cuberto de pennas, de quem juro que nenhum dos
    actuaes brazileiros quer ser descendente; e o mais é que lhe acho alguma
    razão, apesar de que teem decorrido pouco mais de tres seculos desde o
    tempo em que no Brazil só havia d'essa gente, e desde que ahi se teem
    estabelecido colonias, não de cinco povos civilisados e de seis ou sete
    barbaros, mas só de portuguezes e até certo ponto de hollandezes.

    Nunca pensei que os lusitanos me fizessem tornar a escrever tanto na
    minha vida! Vamos a assumptos mais serios.

    A segunda para da censura involve uma questão de critica historica. Na
    opinião do nobre censor a minha não foi das melhores quando narrei a
    tomada de Lisboa. Vejamos porque:

    1.^o As duas fontes a que quasi só podemos recorrer sobre este facto são
    as relações dos dois testemunhas oculares, Arnulfo e Dodechino: ora
    estas foram escriptas por estrangeiros, e _como taes_ ávidos de gloria
    para si e para os seus: logo a sua narrativa é suspeita. Os portuguezes
    contentaram-se com a tradição.

    2.^o Não é provavel que os portuguezes nada fizessem senão subirem á
    torre de madeira para de lá descerem atterrados pelos tiros dos
    cercados.

    3.^o O combate de Sacavem não se segue que não existisse por se não
    mencionar nas dictas narrativas. Entre Santarem e Lisboa havia povoação
    moura. Que coisa mais natural do que ser Sacavem um ponto fortificado,
    que servisse de atalaia a Lisboa? O combate n'esse logar é não só
    provavel, mas quasi necessario.

    4.^o Um auctor não pode desprezar de todo as tradições para dar inteira
    fé aos documentos, quando estes não teem todos os caracteres que o
    mereçam, senão em parte.

    Eis as objecções criticas á narrativa da tomada de Lisboa. Não alterei
    senão a ordem d'ellas, porque me facilita o resumir-me na resposta.

    1. Não é exacto que quasi só tenhamos as relações de Arnulfo e Dodechino
    para a tomada de Lisboa. Além de muitos outros historiadores coevos
    estrangeiros, que tractaram do successo mais ou menos largamente, temos
    os portuguezes: quatro que o mencionam em poucas palavras, e um, o
    auctor do _Indiculum_ de S. Vicente, que o refere com maior extensão
    ainda que Dodechino. Servi-me de todos para apurar uma ou outra
    circumstancia. Do _Indiculum_, que é portuguez, tirei tudo o que alli se
    encontrava. E já se vê que é inexacto o que o illustre censor diz sobre
    o ficar entre nós só a tradição. Cinco escriptores para o mesmo
    acontecimento, em tempos nos quaes se escrevia pouquissimo, não me
    parecem provar que os nossos avós se mostrassem inclinados a entregar á
    tradição oral (a que o censor se refere segundo creio) a memoria da
    tomada de Lisboa. Tambem não me parece que tenha razão em affirmar que a
    narrativa de estrangeiros, porque eram estrangeiros (_como taes_), fica
    suspeita. Salvo se o censor me demonstrar que elles n'aquella épocha
    eram mais mentirosos que os portuguezes. Faz-me isto lembrar
    involuntariamente de que em Paris um francez é para dois inglezes, em
    Londres um inglez para dois francezes; em Lisboa um portuguez para
    trinta castelhanos, e em Madrid um castelhano para trezentos
    portuguezes. São opiniões. Eu estou tão persuadido de que, em regra, um
    homem é para outro, como o estou de que tanto pode fallar verdade ou
    mentir um portuguez como um mouro, um judeu, ou um chim.

    É natural, não o nego, que pertencendo Arnulfo e Dodechino ao corpo dos
    cruzados se mostrassem mais attentos a narrar as façanhas dos seus que
    as dos portuguezes; mas que queria o nobre auctor da censura que eu
    fizesse? Que inventasse outras para attribuir a Affonso Henriques e aos
    seus guerreiros? De certo não. O que me cumpria era examinar se a
    narrativa dos dois estrangeiros continha alguma cousa improvavel para a
    rejeitar. Aponte-me, porém, o que ha improvavel no que aproveitei d'essa
    narrativa. É omissa a respeito dos portuguezes? Mas estes podiam fazer
    maravilhas sem que os estrangeiros deixassem de praticar o que d'elles
    contam os dois cruzados. Do que eu não tenho culpa é de que não chegasse
    até nós a memoria de taes maravilhas.

    Peço ao douto censor que observe bem a relação do _Indiculum_. O frade
    portuguez (ao menos tenho-o por tal em quanto se não provar o contrario)
    é o que faz os maiores encarecimentos sobre o valor dos cruzados. D'elle
    é o periodo que transcrevi em nota a pag. 377. Em toda a carta de
    Arnulfo nada se lê que iguale esse periodo. Porque não diz o frade outro
    tanto dos seus? Quem o souber que o explique.

    Mais: Affonso I mandou durante o cerco construir dois cemiterios–o dos
    francos e o dos inglezes–um ao oriente, outro ao occidente, para
    sepultar os martires de Christo que morriam pelejando. Porque não mando
    construir outro ao norte para os portuguezes? Parece que morriam menos,
    e os que morriam se accommodavam com os hospedes. O facto dos dois
    cemiterios não é de Arnulfo; é do _Indiculum_.

    2.^o O que é verdade é que Affonso I era um homem grande; grande capitão
    e grande politico quanto um soldado rude o podia ser. Sem esses dotes
    não se funda uma monarchia, sobretudo no meio das difficuldades que elle
    superou. O mais natural é que poupasse os seus veteranos para outras
    occasiões arriscadas, que não lhe faltariam, nem faltaram, e que na
    tomada de Lisboa se aproveitasse habilmente do caracter cubiçoso,
    violento e audaz dos alliados para poupar quanto fosse possivel os
    subditos. Quem anda lido nos chronistas d'aquella epocha sabe que os
    taes martyres de Christo em presentindo avultado despojo atraz de
    qualquer muralha eram capazes de a desfazer com os dentes; e Affonso I
    lhes cedera o sacco da cidade. Vertendo o sangue para conquistar esta,
    trocavam-n'o por ouro; perecendo, conquistavam o ceu. N'aquelle tempo
    associavam-se bem o enthusiasmo religioso e a cubiça.

    A historia de vacillarem os portuguezes no eirado da torre de madeira,
    nem é improvavel, nem os deshonra. Elles estavam habituados a combates
    campaes e não a assedios regulares de grandes praças. O testemunho de
    escriptor coevo, Ibn-Sahib, nos assegura que o systema ordinario do rei
    de Portugal para se apoderar dos castellos mussulmanos era o dos
    commettimentos nocturnos e inesperados, não o dos sitios regulares.
    Accresce, como consolação, que esta circumstancia mostra terem entrado
    em combate os portuguezes no dia do ataque decisivo.

    3.^o Suppondo que o recontro de Sacavem fosse provavel, não era isso
    motivo para mais do que para o narrar, se o tivesse encontrado em algum
    escriptor, não digo coevo, mas ao menos do seculo XIII ou ainda do
    principio do XIV; mas onde apparece pela primeira vez mencionado tal
    acontecimento? N'um documento do seculo XVI. O enfeixador de patranhas
    Duarte Galvão não apanhou esta. É pena que o tal documento, em cuja
    feitura interveiu o grande velhaco de D. Christovam de Moura, não fosse
    conhecido de Galvão nem de Acenheiro, aquelle famoso historiador que nos
    conta os espantosos casos dos pés de malvas, de que se fizeram trancas
    de portas, e do ouriço que comeu o pintainho dentro da casca do ovo. Mas
    aos olhos de uma pessoa de juizo, como reputo o meu censor, bastariam
    para desacreditar a tal tradição, que esteve escondida quatro seculos
    sem que d'ella houvesse a menor noticia, as circumstancias absurdas de
    que vem lardeada, como entrarem no combate de Sacavem mouros de Thomar,
    isto é, de um territorio _deserto_ (Bulla de Urbano III aos templarios,
    no Archivo Nacional gav. 7 mac. 9) doado em 1159 por Affonso I áquella
    ordem que ahi fundou Thomar em 1160 (Inscripção, no _Elucidario_, t. 2
    p. 359), e a outra circumstancia de andar, antes da tomada de Lisboa,
    Affonso Henriques passeando em Cintra, o ponto mais forte e importante
    que os sarracenos possuiam no districto de Belatha, salvo Santarem e
    Lisboa, segundo o testemunho do contemporaneo Edrisi, e cuja conquista,
    conforme a chronologia da chronica dos Godos e dos chronicons
    conimbricense e lamecense, foi posterior ao menos de alguns dias á de
    Lisboa.

    No que me parece que o meu erudito impugnador se deixou levar demasiado
    da sua imaginação, é em suppôr _quasi necessario_ o combate de Sacavem,
    _porque era provavel_ que ahi houvesse um castello ou logar forte. O seu
    raciocinio é este:

    Entre Santarem e Lisboa havia gente moura:

    _Atqui_: É provavel que entre Lisboa e os christãos houvesse um
    ponto fortificado, que servisse de atalaia a esta cidade, e Sacavem
    era o ponto mais apto para isso, porque tolhia o passo aos
    christãos.

    _Ergo_: Vieram mouros de Thomar soccorrer Lisboa; Affonso I, tendo
    passado por onde não podia passar, mandou gente atraz para os
    repellir; e o combate foi quasi por força em Sacavem.

    O monstruoso e desconnexo d'este raciocinio é obvio. Quanto ao passar
    Affonso Henriques por onde não podia passar, dir-se-ha que elle fez um
    quarto de conversação á direita e marchou por Loures sobre Lisboa. Isso,
    na supposição de estar fortificada a passagem de Sacavem, ou de não
    haver ahi passagem (o que é mais natural), ocorre facilmente; mas é
    preciso confessar que os engenheiros sarracenos, que empregaram braços e
    dinheiro em fazer uma obra que não defendia nada, nem servia para nada,
    mereciam pingados e aspados, segundo a forma espedita da justiça
    mussulmana, para os seus collegas tomarem tento em não malbaratarem
    assim os morabitinos do Estado em destemperos de taipa e pedregulho.

    4.^o Vamos á ultima observação, que é a primeira na ordem em que as fez
    o meu respeitavel impugnador. Quer elle que eu me ativesse ás tradições,
    não dando inteira fé aos documentos, quando estes não a merecem
    plenamente. Já fica provado que a sua regra não serve para o caso
    presente. Mas, ainda em geral, ella me parece falsissima por falta de
    distincção. Que não se dê fé inteira a um documento que não a merece em
    todas as suas partes, é uma d'estas verdades como–o sol dá luz–que não
    vale a pena de se escrever; mas o que eu não vejo é que de ser
    insufficiente ou, até, nulla a auctoridade de um documento ou monumento
    coevo ou quasi coevo se siga que a tradição fica forte e segura. Se ella
    for absurda ou infundada, continúa a sel-o, valha ou não valha o
    documento. Parece-me que o simples senso commum basta para assim se
    crer.

    É preciso, todavia, convirmos sobre a idéa que havemos de associar á
    palavra _tradição_. Se entendemos a tradição oral, que só apparece,
    dizendo-se muito, muito, muito antiga, tres ou quatro seculos depois do
    facto a que se refere, sem que d'ella se encontre a menor sombra nos
    monumentos coevos ou quasi coevos em que naturalmente se devia
    mencionar, confesso ao meu douto impugnador que o unico sentimento que
    essa tradição produz em mim é uma grande vontade de rir; porque já, pela
    experiencia, prevejo que ha-de ser absurda. Um proloquio certissimo da
    nossa terra é que mais depressa se apanha um mentiroso que um coixo.
    Tenho-o verificado tão frequentemente que cada vez estou mais Pharaó,
    obdurado de coração, contra as taes tradições. Peço ao meu nobre censor,
    que me parece pessoa que estuda a historia seriamente, que deixe aos
    poetas o gritar a favor da tradição oral. Eu ja fui do officio, e sei
    que elles teem razão. Os estudos superficiaes pertencem-lhes por direito
    divino e humano. Se fossem empallidecer sobre os feixes mofentos de
    pergaminhos velhos que estão por esses archivos, deixavam de ser poetas,
    porque matavam a imaginação, e eu declaro sinceramente que antes quizera
    que nunca houvesse historia do que o inconveniente de perder o paiz um
    grande poeta. Portugal tem incomparavel mais gloria em haver possuido
    Camões que em ter tido Fr. Antonio Brandão e Antonio Caetano do Amaral.
    No que me parece que elles não são justos é em pretenderem que os
    historiadores, gente chan e humilde, sejam por força poetas. N'isso é
    que anda amplicação rhetorica de mais.

    Se por tradição o meu nobre adversario entende a escripta, subscrevo
    inteiramente ao seu voto. A tradição escripta é aquella de que se
    encontram vestigios nos monumentos ou nos documentos até a epocha em que
    viveram os homens que podiam presenciar o facto a que ella se refere, ou
    aquelles que da bocca d'esses homens podiam ter ouvido a relação do
    mesmo facto. Esta tradição é segura, se alias não ha circumstancias que
    a invalidem ou modifiquem. Similhante tradição é a que a historia pode
    approvar; mais: é aquella que a igreja só admitte para conjunctamente
    com a auctoridade dos livros sagrados servir de prova historica ao
    complexo das suas doutrinas. Esse illustrado e respeitavel systema do
    catholicismo, tão injustamente calumniado pelas igrejas dissidentes,
    estava já expresso, muitos seculos antes de nascer a critica profana, na
    regra contida na bella e profunda formula de Vicente de Lerins: «_Quod
    semper, quod ubique, quod ab omnibus….. creditum est_.»

    Um ou dous anneis, que faltem lá no cabo d'éssa cadeia da tradição,
    bastam historicamente para tirar ao facto toda a certeza; porque muitas
    vezes as fabulas não esperam nenhuns duzentos annos para nascerem e se
    incrustarem no tronco da historia. Não raro estas fabulas são devidas á
    ignorancia e não á má fé. Uma passagem e, até, um nome mal interpretado
    podem dar-lhes motivo. O erro sobre a origem grega do conde D. Henrique,
    erro que grassou entre os antigos escriptores hespanhoes, proveiu, como
    o meu censor sabe, de se interpretarem as palavras de Rodrigo de Toledo
    «_ex partibus bisontinis_» _das partes de Constantinopla_, em lugar de
    se traduzirem _das partes de Besançon_; mas o que talvez não lhe occorra
    é que já Affonso X de Castella ignorava a verdadeira origem d'este seu
    avoengo, que fallecera ainda não havia seculo e meio quando elle começou
    a reinar. Effectivamente na _Chronica General_, escripta por elle ou
    debaixo dos seus olhos, diz-se que o conde D. Henrique era _de tierra de
    Constantinopla_ (_Cron. gener._ fl. 300 v.), Mais: o erro do Nobiliario
    attribuido ao conde D. Pedro, erro adoptado por outros escriptores, de
    que D. Mafalda mulher de Affonso I era hespanhola e filha do senhor de
    Molina, acha-se já n'um resumo de chronica dos nossos primeiros reis,
    lançado no principio de um dos volumes das Inquirições de Affonso III,
    no Archivo Nacional. Ahi, por assim dizer, encontra-se a verdade em
    transformação flagrante para mentira. Maurienne, donde era D. Mafalda,
    pronunciava-se _Moriana_, palavra corrompida n'essa especie de chronica
    em _Moliana_. O auctor d'ella já suppunha que os condes de Haro eram os
    senhores de _Moliana_: os que se seguiram _rectificaram_ Moliana em
    _Molina_, e a fabula tomou definitivamente o logar da historia. Outras
    vezes, porém, conveniencias politicas ou de diversa ordem faziam
    espalhar mentiras em épochas tão proximas áquellas a que se referem, e
    sobre factos tão notaveis, que chega a parecer incrivel como havia
    audacia para tanto. Tal é a historia da acclamação em Ourique,
    mencionada n'um documento original de Palmella, do meado do seculo XIV.
    Ha para a desmascarar mais alguma cousa do que as ponderações que fiz em
    a nota XIV do meu livro: é um documento do Archivo Nacional anterior
    trinta ou quarenta annos apenas ao rollo de Palmella, e de que este é
    quasi textualmente copiado, em que nenhum vestigio se acha da anecdota
    da acclamação, donde fica mais facil apurar a data da fabula, e o
    descubrir as causas por que foi engendrada. Mas isto para seu tempo, que
    a presente resposta já vai demasiado larga. Possa ella não impedir que o
    meu cortez adversario continue a examinar criticamente a _Historia de
    Portugal_, e a apontar aos historiadores futuros os escolhos em que a
    minha pobre barca tiver naufragado!

    DA EXISTENCIA OU NÃO-EXISTENCIA DO FEUDALISMO NOS REINOS DE LEÃO,
    CASTELLA E PORTUGAL

    1875-1877

    I

    Um membro da Academia da Historia, de Madrid, o sr. D. Francisco de
    Cárdenas, publicou ha dous annos o 1.^o volume de uma Historia da
    propriedade territorial em Hespanha, pondo ao seu livro o modesto titulo
    de Tentativa. Só em 1874 tive noticia da obra e alcancei lêl-a.
    Abstrahindo de outras questões, em que divergimos mais ou menos, eu e o
    auctor do novo livro, ha um importante ponto historico em que as nossas
    opiniões são diametralmente oppostas. É o da existencia ou
    não-existencia do feudalismo nos paizes centraes e occidentaes da
    Peninsula, em Oviedo e Leão, em Portugal e em Castella, durante a epocha
    em que elle predominou na Europa. Em mais de um escripto, sobretudo n'um
    livro que corre com o titulo de _Historia de Portugal_, affirmei a minha
    convicção de que a indole das instituições ou, antes, do direito
    publico, escripto ou consuetudinario, da velha monarchia
    ovetense-leonesa e das que d'ella procederam, não só foi estranha, mas
    até repugnante á indole do feudalismo. É talvez um erro de que estou
    imbuido; mas, cumpre dizêl-o, não me parece que o livro do sr.
    Cárdeanas, por mais que medite nos seus argumentos, tenha de ser o
    missionario que me converta á opinião contraria.

    E, todavia, a obra do meu consocio (permitta-me o sr. Cárdenas que lhe
    dê este nome, tendo ambos a honra de pertencer á Academia da Historia)
    está longe de ser um d'esses acervos de erros envoltos em phrases
    sibyllinas, d'essas syntheses historicas de uma historia que ainda em
    grande parte não existe, e que hoje são de moda; syntheses a que não
    precede a analyse, e que apenas servem á ignorancia, com escaceza de
    estudo e sobejidão de audacia, para armar á admiração dos nescios. Com
    gosto confesso que o _Ensayo sobre la historia de propiedad territorial
    en España_ é um trabalho que denuncia largar vigilas e attentas
    cogitações, e que esclarece mais de uma obscuridade da historia social
    da Peninsula; e que, em summa, é um livro sério, ao qual fora injusto
    corresponder com o silencio, a que ás vezes obriga os homens de sincero
    estudo o sentimento da proprio dignidade.

    Mas é por isso mesmo que se tracta da doutrina de um escripto notavel,
    que entendi dever submetter ao auctor d'elle varias considerações sobre
    o que se me afigura um erro capital do _Ensayo_: capital, digo, porque
    attinge e vicia radicalmente a historia do mechanismo da sociedade
    peninsular, pelo menos desde o seculo IX até o XIII, na sua manifestação
    essencial; n'aquillo a que chamamos hoje direito publico interno.

    O sr. Cárdenas sustenta como verdade historica ter sido a Hespanha
    occidental, similhante n'isto aos estados do centro da Europa, um paiz
    feudal. Tolera-se esta doutrina nos discursos parlamentares, nos artigos
    da imprensa politica, nos escriptos de certos publicistas que sabem, com
    mais ou menos arte, fazer das suas generalisações semi-poeticas um leito
    de Procusto para a Historia. Em trabalho, porém, de consciencia e
    circumspecto, emprehendido por um membro da corporação á qual na
    Hespanha especialmente incumbem as investigações d'esta natureza, a
    affirmativa que tende a manter similhante doutrina não passará, por
    certo, n'aquelle paiz, sem o devido reparo. Entretanto, a Portugal, que,
    bem como Castella, traz a sua origem da monarchia ovetense-leoneza, tóca
    tambem intervir n'uma questão que, resolvida no sentido da opinião do
    sr. Cárdenas, parece-me viria collocar a luz falsa as primitivas
    instituições d'este paiz. Assim, em quanto outros mais habilitados
    guardam silencio, seja-me lícito a mim, para quem taes estudos são hoje
    apenas reminiscencias, indicar algumas especies que possam esclarecer o
    assumpto.

    Eis o que a similhante proposito nos diz o sr. Cárdenas:

    «Por este exame ficarão tambem desvanecidas as duvidas que ainda
    restassem ácerca da existencia do feudalismo em alguns dos nossos
    antigos reinos. Teem sustentado varios escriptores que o systema feudal
    europeu, posto que estabelecido em Catalunha e Valencia, não chegou a
    vigorar em Aragão, nem na Navarra, nem, sobretudo, em Leão e Castella.
    Para estribar esta opinião allega-se que nem as leis nem os antigos
    documentos d'estes reinos mencionam os _feudos_, como se a mesma
    instituição não podesse existir com differentes nomes em regiões
    diversas. Pondo de parte não ser absolutamente exacta aquella
    affirmativa, o que importa é averiguar se, bem que com outras formas e
    denominações, existiram em toda a Peninsula os _elementos essenciaes do
    feudalismo_, visto que o fim util e practico de taes investigações não é
    esquadrinhar nomes nem resolver questões de palavras, mas sim determinar
    com exacção as similhanças e dessimilhanças que havia entre as
    instituições sociaes e politicas da Hespanha e as instituições
    contemporaneas dos paizes estranhos, para assim provar a identidade de
    origem, indole e tendencia entre a nossa civilisação e a civilisação da
    Europa. E de feito, sem vigorar na Peninsula o codigo feudal, que, como
    additamento ao de Justiniano, servia de direito commum n'essa materia;
    sem existirem n'algumas provincias pequenos estados com o nome official
    de feudos, acharemos em todas ellas os elementose essenciaes do
    feudalismo, e a organisação feudal mais ou menos acabada e perfeita.»

    Depois de exprimir o conceito que faz dos caracteres que distinguem o
    feudalismo de qualquer outra formula de instituições sociaes e
    politicas, conceito que depois hei-de apreciar, o auctor prosegue:

    «Taes eram tambem os caracteres e attributos de uma parte notavel da
    propriedade territorial nos vastos reinos de Hespanha. Não só em
    Catalunha e Valencia, mas egualmente em Leão e Castella, em Aragão e
    Navarra, havia muitas terras cujo dominio directo involvia o direito de
    exigir fidelidade e serviços militares dos individuos que as possuiam ou
    ahi residiam, exercendo poder e jurisdicção sobre elles, e cujo dominio
    util era limitado no interesse do senhor e das propriedade, que em
    certos reinos estranhos se chamou feudo, denominava-se em Hespanha
    _prestimonio_, _mandação_, _encommenda_, _terra_, _tenencia_, _honra_ ou
    _senhorio_, excepto em Catalunha, Valencia e Ribagorça, onde tambem era
    conhecida com aquelle nome europeu. Foi mais geral e uniforme n'esses
    reinos do que nos de Leão e Castella; mas em nenhum faltou, visto que em
    todos deixou evidentes e numerosos vistigios. Que vale, pois, a varia
    denominação de tal regimen, se em substancia era o mesmo que em outras
    partes se conhecia com a de feudal?[81]»

    Não é menos precisa a seguinte passagem:

    «Tambem em Castella concedia el-rei certas terras em feudo, embora o
    tenham negado alguns escriptores celebres. Dado que essa palavra não
    apparecesse em nenhum documento antigo do reino, seria temerario
    affirmar que o systema feudal ahi não fora conhecido nem usado. Com
    effeito, que são as _commendas_, as _mandações_, os _senhorios_, as
    _honras_, as _terras_, senão feudos mais ou menos disfarçados?[82]»

    Escolhi estas passagens do livro, porque me pareceu serem as que
    exprimem com mais concisão e clareza as idéas do auctor em relação a
    esse ponto historico, idéas que se reproduzem com maior ou menor
    precisão em varios logares onde cabe inculcál-as. Creio, porém, que mais
    detido exame das fontes historicas o levaria a estabelecer a proposição
    diametralmente opposta; isto é, durante o predominio do systema feudal
    além dos Pyreneus, nunca existiu feudalismo nos territorios centraes e
    occidentaes da Peninsula. Aqui, nos rarissimos monumentos anteriores aos
    meiados do seculo XIII em que se encontra a palavra feudo, ella tem
    valor diverso do que se lhe ligava na Europa central.[83] Nem as
    commendas nem as mandações, nem as honras, nem as tenencias ou terras,
    foram feudos, disfarçados ou não disfarçados, qualificações
    incomprehensiveis quando se tracta do modo de ser das sociedades na
    idade media. Hoje é facil achar um ou outro exemplo de como o
    absolutismo sabe aninhar-se debaixo das formulas do governo
    representativo, e de como a reacção se colloca á sombra das liberdades
    conquistadas laboriosamente n'este seculo para tentar reconduzir as
    gerações actuaes e futuras ás instituições tenebrosas dos seculos
    passados. Hoje, cesarismos talvez tão corruptos e oppressores como o de
    Roma decadente esteiam ás vezes o seu predominio nas exaggerações e
    malevolencias democraticas. A idade media, essa era demasiado grosseira.
    Não podem attribuir-se-lhe taes astucias. Descubrir disfarces nas suas
    instituições é vêl-a atravez da sociedade actual.

    II

    Um dos homens mais eminentes de que a Peninsula se honra, e a quem
    principalmente se devem os seus recentes progressos nos trabalhos
    historicos, foi Martinez Marina. O livro sobre a antiga legislação e
    sobre as compilações de leis de Leão e Castella significa um passo
    gigante dado pela Hespanha no estudo da historia da sua idade media. Os
    outros escriptos de Marina, embora de menos valia, não podem dizer-se
    indignos do auctor. É certo que na _Theoria das Côrtes_ e ainda no
    _Ensaio historico sobre a antiga legislação_ elle chega, em parte, a
    conclusões inexactas pela preoccupação que o dominava de justificar a
    liberdade moderna pela tradição nacional. Mas se attribuiu valor
    exaggerado aos vestigios da intervenção popular no regimen da sociedade,
    e sobretudo se deu á vida municipal de outros tempos demasiada amplidão
    e influencia, escriptores houve tambem de grande e merecida reputação
    que desconheceram ou apoucaram esses vestigios, ainda reduzidos ao valor
    real que tiveram, sem que por isso se hajam de menosprezar os resultados
    das suas investigações em relação a outros aspectos da historia.
    Parece-me que em Hespanha existe certa tendencia para contrariar ou,
    antes, para pôr de parte as opiniões e assertos do celebre conego de S.
    Isidro. Em Portugal, entre os homens competentes, Martinez Marina é um
    nome respeitado. A sua apreciação dos monumentos e as inducções que
    d'elles tira teem indubitavel auctoridade, e é só quando outros e mais
    precisos textos lhes repugnam, que essas inducções são combatidas, sem,
    todavia, se deixarem occultas em desdenhoso silencio. Não esquecendo o
    muito que se deve a Masdeu, embora a sua critica seja excessiva e até
    leviana, ás vezes, parece-me que, em relação á idade media, Antonio
    Caetano do Amaral entre nós, e Martinez Marina em Leão e Castella podem
    considerar-se como os fundadores da historia social dos dous povos da
    Peninsula.

    A especie de desfavor que entre os nossos vizinhos tem assombrado a
    memoria de um dos seus mais illustres sabios não procederá, ao menos em
    parte, do juizo desfavoravel que d'elle fez o maior historiador
    publicista de França, Guizot, na _Historia das origens do governo
    representativo_?[84] Este livro notavel, escripto ha mais de meio seculo
    e estimado na Europa, deve ter tido em Hespanha um influxo nocivo á
    reputação de Martinez Marina. E todavia Guizot, que parece haver
    conhecido só a _Teoria de las Cortes_, em vez de julgar o auctor pelo
    complexo das suas obras, julga-o por um escripto mais de partido que de
    sciencia, mas onde, ainda assim, brilham não raro a illustração e o
    talento historico do erudito hespanhol.

    De todos os escriptores que conheço de Portugal ou de Hespanha, que mais
    ou menos dedicaram as suas investigações ao estudo do mechanismo social
    dos estados peninsulares nos seculos primitivos da reacção christan, foi
    justamente Martinez Marina o primeiro em protestar contra a existencia
    de feudalismo na monarchia das Asturias e nas que d'ella derivaram. «O
    governo–diz elle–dos reinos de Asturias, Leão e Castella era
    propriamente um governo monarchico, e a sua constituição politica, por
    qualquer lado que se considere, a mesma do imperio gothico e
    diversissima dos outros governos então conhecidos na Europa. Essa
    constituição repugnava absolutamente nos principios, na legislação e nas
    circumstancias ás monstruosas instituições dos governos feudaes»[85].

    Em nota a esta passagem, Marina allude ao predominio que a idéa
    contraria obtivera em Hespanha, e dá uma explicação d'esse facto, que
    não só me parece verdadeira para aquelle epocha, mas tambem inteiramente
    applicavel ao tempo presente. «Alguns jurisconsultos e escriptores
    nacionaes–observa o auctor do _Ensayo historico_–confundiram a antiga
    constituição gothica e castelhana com o governo feudal tão vulgar na
    Europa durante a idade media, e confundiram-na por terem sido pouco
    diligentes em examinar a nossa legislação primitiva e as memorias
    historicas que nos restam dos tempos antigos. Seguindo nas suas
    investigações o rumo de alguns sabios estrangeiros que escreveram com
    erudição a historia dos governos feudaes, adoptaram-lhes os erros e
    equivocos em que cairam quando quizeram expôr a antiga situação de
    Castella de que apenas tinham conhecimento».[86]

    Como prova do seu asserto transcreve uma passagem do celebre Robertson,
    que na introducção á _Historia de Carlos V_ pinta os reis hespanhoes da
    idade media completamente despojados da soberania, e esta exercida pelos
    vassallos ainda, se é possivel, de mais completo modo do que nos paizes
    verdadeiramente feudaes.

    Á injustiça, com que Marina fora tractado em França por um dos primeiros
    cultores da historia, deu reparação a circumspecta Allemanha. O
    fallecido professor Schaefer, cujos trabalhos relativos á idade media,
    tanto de Portugal como de Hespanha, são os mais notaveis que teem
    apparecido além dos Pyreneus, reivindicou para Marina o logar de guia e
    mestre que lhe pertence. N'uma nota da continuação da _Historia de
    Hespanha_ por Lembke, assim se exprime o illustre professor de Iena:
    «Sou obrigado a recordar aqui a excellencia d'esta obra (_o Ensayo
    historico_) de cuja ultima edição, com bem magua minha, não pude
    aproveitar-me. Pela profunda e ampla investigação das fontes historicas,
    pela luminosa e conveniente distribuição das materias, mas, sobretudo,
    pela mais completa imparcialidade, este livro é superior a outro mais
    conhecido do mesmo auctor, a _Teoria de las Cortes_. Um estudo aturado
    das diversas partes da obra convenceu-me de que na exposição que vou
    fazendo devia tomar Marina por guia quando as suas indagações se
    referiam ao assumpto de que eu tractava[87].»

    E é por isso que Schaefer foi talvez o unico escriptor estranho á
    Peninsula, que soube evitar completamente o erro commum de attribuir á
    monarchia christã das Astúrias a indole feudal. Preoccupados por esta
    idéa, á qual aliás numerosos monumentos lhes parecia repugnarem, alguns
    buscaram conciliar as duas doutrinas oppostas, affirmando que o reino de
    Oviedo e Leão fôra um paiz de feudalismo, porém modificado. «A
    verdade–diz o professor Secretan–está, quanto a nós, entre os dous
    extremos. O feudalismo existiu em Hespanha, mas com um caracter
    inteiramente especial, sobretudo nos estados de Leão e Castella[88].»
    Terei occasião de examinar se o assumpto admitte esta especie de
    transacção entre as duas affirmativas contrarias.

    III

    Pondo, porém, de parte as opiniões de estrangeiros mais ou menos
    habilitados para intervir na questão, venhamos aos escriptores
    nacionaes. Apesar do _Ensayo historico_, e dos ulteriores estudos sobre
    os antigos monumentos, a idéa de que no centro e occidente da Peninsula
    predominara o feudalismo não se abandonou. Tanto em Hespanha como em
    Portugal fala-se todos os dias nos tempos, nos costumes e nas
    instituições feudaes. Os escriptores mais sisudos teem cedido a essa
    preoccupação, sem examinarem sériamente se ha fundamentos que a
    legitimem. Coelho da Rocha, um dos mais eminentes professores da nossa
    Universidade e que menos imperfeitamente expoz a indole da antiga ordem
    politica do paiz, não se esquivou ao erro vulgar[89]. Um auctor mais
    moderno, recentemente fallecido, que gosou da reputação de habil
    jurisconsulto, mas cuja sciencia historica era por certo inferior á de
    Coelho da Rocha, quasi que chega a compadecer-se da ignorancia dos que
    não creem ter existido entre nós o feudalismo[90]. Do mesmo modo, em
    Hespanha, os auctores dos _Elementos de Direito civil e penal_, os srs.
    La Serna e Montalban, viram no _Foro Velho de Castella_ a desinvolução
    do systema feudal, cujas sementes já anteriormente germinavam;[91] e D.
    José Pidal, na dissertação que com o titulo de _Addiciones_ ajunctou, na
    edição de 1847, ao prologo do mesmo _Foro Velho_ por Asso e Manuel, ao
    passo que por um lado expõe as relações entre o rei e os subditos de um
    modo que parece excluir o feudalismo, suppõe, em contrario, a existencia
    de feudos[92]. Omittindo outros auctores, lembrarei o nome de um dos
    homens mais competentes nestes assumpto que teem honrado as letras no
    reino vizinho. É elle um exemplo frizante de como os preconceitos
    litterarios ou scientificos não são menos difficeis de extirpar do que
    as preoccupações radicadas das classes pouco instruidas. Refiro-me a
    Munõz y Romero, erudito infatigavel, cuja morte prematura foi uma perda
    profunda para a litteratura historica da Peninsula. Os seus constantes
    estudos sobre a edade média tinham-no convencido da inanidade da
    doutrina que dotava Leão e Castella com um feudalismo imaginario. Na
    refutação que escreveu da obra de Helfferich e Clermont intitulada:
    _Fueros francos_. _Les communes françaises en Espagne et en Portugal
    pendant le moyen-âge_, publicada em Berlim em 1861, exprime-se assim:
    «Os monges cluniacenses tentaram introduzir em Hespanha o espirito
    feudal, mas debalde, porque as classes inferiores…. rechaçaram _as
    idéas francezas_[93].» Refutando a obra collectiva com outra de um dos
    dous auctores, o sr. Helfferich, o qual accusa de ter duas opiniões
    encontradas, uma para os francezes, outra para os allemães, diz com elle
    que o direito feudal francez contrariava o direito peninsular[94]. Por
    isso não duvida de affirmar pouco depois que «os costumes e o direito
    hespanhoes repugnavam á índole do feudalismo»[95]. Nada mais positivo do
    que esta doutrina que o aturado estudo dos monumentos tinha impresso na
    clara intelligencia de Muñoz y Romero. E todavia é elle proprio, elle
    que sobre o assumpto contrapunha um ao outro os dous escriptos do sr.
    Helfferich, que na mesma _Refutação_ nos diz que nos reinos de Castella,
    Aragão e Navarra tambem o feudalismo se desenvolveu, e que os germens
    d'aquella organisação já existiam nos reinos da Peninsula antes da
    influencia franceza[96]. É que as primeiras phrases exprimiam as
    convicções da sciencia, e as ultimas a transigencia com a prevenção
    vulgar.

  • Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 04

    Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 04

    Aproximadamente 55.130 palavras.

    Produced by Isabel Calderon Dinis (Projecto Enclave) and
    edited by Rita Farinha (Biblioteca Nacional
    Digital–http://bnd.bn.pt)

    OPUSCULOS

    *OPUSCULOS*

    POR

    A. HERCULANO

    SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA

    SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA

    SOCIO CORRESPONDENTE DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID DO INSTITUTO
    DE FRANÇA (ACADEMIA DAS INSCRIPÇÕES) DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE
    TURIM DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA YORK, ETC.

    *TOMO IV*

    QUESTÕES PUBLICAS

    TOMO III

    LISBOA

    *VIUVA BERTRAND & C.^a* SUCCESSORES CARVALHO & C.^a

    73, Chiado, 75

    M DCCC LXXIX

    *COIMBRA–IMPRENSA DA UNIVERSIDADE*

    ADVERTENCIA

    Propondo-nos continuar a interrompida compilação dos _Opusculos_ do
    fallecido escriptor Alexandre Herculano, importa dizermos em breves
    palavras qual é o nosso intuito, para que não se tomem á conta de
    insensato arrojo as timidas diligencias que fazemos por cumprir um
    dever, que reputamos impreterivel.

    Quem leu a primorosa _Advertencia previa_ do primeiro volume d'esta
    collecção sabe que o auctor resolvera imprimir de novo, de envolta com
    alguns trabalhos seus ainda ineditos, os numerosos escriptos que, no
    dilatado periodo de quasi quarenta annos, dera á luz, ou em folhetos
    avulsos, cujas edições estavam esgotadas, ou em folhas periodicas,
    algumas pouco conhecidas hoje, e todas mais ou menos difficeis de reunir
    e compulsar. Como elle proprio declara, um dos motivos, se não o
    principal, que o levava a «ajunctar os _disjecta membra_ de uma grande
    parte do seu passado intellectual», era o desejo de ser um dia julgado,
    com imparcialidade e justiça, pelas idéas que emittira e pelas opiniões
    que sustentara. E foi para tornar mais justa semelhante apreciação que
    assentou em conservar escrupulosamente a parte doutrinal dos opusculos
    primitivos, junctando-lhes, apenas, as datas da sua composição; porque,
    «sem querer no minimo ponto fugir á responsabilidade das suas opiniões,
    entendia que a responsabilidade seria ora maior ora menor, se porventura
    se attendesse á epocha em que essas opiniões foram manifestadas.»

    Fiel a estes principios, e obedecendo ao plano que traçara, conseguiu
    ainda o sabio escriptor dar á luz os tres primeiros volumes da presente
    collecção, nos quaes inseriu grande parte dos trabalhos que maior abalo
    produziram no animo publico, pela elevação, desassombro e energia com
    que ahi são tractados os mais melindrosos assumptos. Muitos outros,
    porém, estavam virtualmente destinados a formar novos livros, que por
    fim haviam de completar os elementos necessarios do processo, sobre que
    tinha de recair a sentença definitiva dos juizes imparciaes, a quem elle
    com tamanha confiança entregava o julgamento da sua causa; e são esses
    trabalhos dispersos, entre os quaes ha não poucos inteiramente
    desconhecidos da geração actual, que diligenciamos reunir e publicar.

    É grave, sem duvida, a responsabilidade moral e litteraria que
    contrahimos, escasso o tempo de que podemos dispor, debeis as forças,
    nulla a competencia. Erraremos, necessariamente, na escolha dos artigos,
    na ordem em que os collocarmos, na preferencia que lhes dermos, e acaso,
    até, na inserção de algum que o proprio auctor excluiria, O que, porém,
    podemos affirmar ao leitor é que empregaremos os maximos esforços para
    que seja fidelissima a transcripção d'esses artigos: fidelissima,
    dizemos, em quanto ao texto; porque a orthographia deixamol-a ao cuidado
    da imprensa. Seria muito moroso, além de sujeito a frequentes
    irregularidades, querer reduzir escriptos de tão differentes epochas, e
    publicados em desvairadas folhas periodicas, sem unidade orthographica,
    ao systema que o auctor ultimamente seguia.

    Para este quarto volume da collecção geral dos _Opusculos_, e terceiro
    das _Questões publicas_, escolhemos dois trabalhos egualmente
    importantes, e que nos parece terem intima correlação.

    O primeiro é um largo e consciencioso estudo ácerca da instituição
    vincular, onde são maduramente apreciadas as vantagens e os
    inconvenientes d'este modo de ser da propriedade, bem como as
    difficuldades que offerecia, n'aquella epocha, a sua immediata abolição.
    Este estudo, que encontrámos completo e mostra ter sido escripto sem
    interrupções, ficou, todavia, inedito na sua maior parte; porque apenas
    se imprimiram os tres primeiros capitulos, no jornal _A Patria_ de 8, 17
    e 25 de fevereiro de 1856, e o quinto, d'ahi a tres annos, nos numeros 5
    e 7 do _Archivo Universal-, a instancias do mallogrado escriptor Rodrigo
    Paganino. Quaes foram os motivos que impediram a publicação dos
    restantes, n'uma conjunctura em que as luminosas reflexões do auctor
    podiam auxiliar a resolução do grave problema, não nos foi possivel
    descobril-os; mas, com quanto a abolição dos vinculos fosse, poucos
    annos depois, levada a effeito, pelas leis de 30 de junho de 1860 e de
    19 de maio de 1863, aos homens competentes pertence o decidir se n'essas
    leis foram, ou não, previstas com lucidez, e resolvidas com acerto todas
    as diffículdades que faziam vacillar um espirito tão esclarecido e um
    animo tão resoluto.

    Compõe-se o segundo trabalho de uma serie de cartas, dirigidas ao sr.
    conselheiro Carlos Bento da Silva, nas quaes o auctor manifesta, com a
    sua habitual lealdade e franqueza, a opinião que tinha ácerca da
    emigração para a America, assumpto que então preoccupava muito os
    espiritos, e hoje parece não dar excessivo cuidado a ninguem. Publicadas
    na _Revista agricola_ e no _Jornal do Commercio_, e sustentando
    doutrinas contrarias, em grande parte, às que eram geralmente seguidas,
    estas cartas levantaram clamores, que, não só interromperam um estudo
    cheio de bom senso e de generosas aspirações, mas arrastaram, em breve,
    para o terreno ingrato das luctas politicas a discussão, que só podia
    ser proveitosa mantendo-se nas regiões serenas da sciencia. Não é, por
    conseguinte, o dezejo de avivar a lembrança de uma controversia
    desagradavel, que nos leva a reproduzir, sem a menor alteração, algumas
    paginas mais calorosas deste trabalho litterario: fazemol-o, porque era
    impossivel mutilar um escripto de tanta importancia, justamente na parte
    em que o auctor, além de responder ás objecções do seu antagonista,
    desenvolve e reforça com argumentos novos as suas proprias idéas.

    Como succede a todos os homens que, súperiores ás preoccupações do seu
    tempo e movidos por um sentimento innato de rectidão, não encobrem o seu
    modo de pensar, nem sacrificam a verdade, embora tenham de censurar
    amigos ou de dar razão a adversarios, Alexandre Herculano foi, por via
    de regra, mal avaliado pelo commum dos seus concidadãos, e victima
    frequentes vezes de infundadas e contradictorias accusações. Têm,
    comtudo, os grandes engenhos e as consciencias immaculadas certa no
    futuro a justiça que os contemporaneos lhes negaram; e nós cremos que o
    leitor desapaixonado, comparando estes dois opusculos, distanciados até
    aqui por um intervallo de cerca de vinte annos e reunidos agora no
    presente volume, encontrará n'elles, como em todas as obras do auctor,
    os mais claros testemunhos da coherencia das suas idéas, da
    imparcialidade dos seus juizos, e da pureza das suas intenções.

    _Os legatarios_.

    OS VINCULOS

    1876

    I

    *Preliminares*

    O caracter mais prominente dos actos legislativos promulgados durante a
    dictadura do duque de Bragança, foi a tendencia para alterar na sua
    essencia, melhorando-a, a condição das classes laboriosas e productoras,
    aquellas em que verdadeiramente reside a força vital da sociedade.

    As leis d'essa epocha singular da nossa moderna historia tinham de
    ordinario por fim principal desmoronar os alicerces do antigo systema
    politico, e tornar impossivel a sua restauração. Era uma idéa grandiosa,
    implacavel como o destino, que presidia á redacção de todas ellas; mas,
    em quasi todas, ao pensamento da lei ou ás suas provisões ligava-se a
    idéa de um allivio ou o de um incitamento á quasi unica industria do
    paiz–a agricultura. Assim a lei dos foraes e a abolição dos dizimos,
    destruindo os recursos de certas corporações de mão-morta e de certa
    aristocracia de berço, em cuja influencia fatal se estribava
    principalmente o velho systema, livravam ao mesmo tempo a propriedade e
    o trabalho rural dos mais gravosos impostos; e a extincção das milicias,
    dos capitães-móres e das ordenanças, ao passo que desorganisava as
    resistencias locaes ás novas instituições, restituia ao lavrador e ao
    obreiro dos campos o uso integral do fructo do seu suor.

    A restauração era grandemente revolucionaria nas suas manifestações
    legislativas; mas, como todas as revoluções vivedoiras, ella
    representava uma revolução politica e ao mesmo tempo uma revolução
    social e economica.

    Em quanto Mousinho da Silveira influiu nos conselhos do duque de
    Bragança, a restauração conservou os caracteres que lhe imprimira esse
    homem singular. Os actos subsequentes da dictadura, sem deixarem de ser
    logicos com os que até ahi se haviam practicado, deixaram de ter egual
    alcance. A extincção, por exemplo, das ordens monasticas, ao mesmo tempo
    que desprezava direitos legitimos, os que os monges tinham ás suas
    dotações, e condemnava á miseria muitos individuos innocentes e
    respeitaveis, atirava para o mercado ou desbaratava sem tino e sem
    previsão um enorme cumulo de propriedade territorial, que, alienada por
    um systema sensato e previdente, teria sido dez vezes mais util á
    prosperidade geral do que realmente foi.

    A suppressão das ordens religiosas e a extincção do papel-moeda
    constituem os dois unicos actos de verdadeira audacia revolucionaria
    practicados pelos successores de Mousinho. As chagas sociaes em que elle
    não puzera o ferro ficaram. Taes foram as complicações do direito
    emphyteutico, que tornam absurda essa excellente fórma de transmissão e
    conservação de propriedade; taes os vinculos, instituição incompativel
    com o espirito da nossa epocha e com o regimen da liberdade; taes as
    contribuições municipaes sobre o consumo; taes os pastos communs, que
    offerecem embaraços permanentes a uma revolução agricola, que as
    circumstancias tornaram indispensavel. Toda essa farragem do passado
    teria provavelmente desapparecido, se o genio de Mousinho houvesse
    dirigido por mais algum tempo os destinos de Portugal.

    O movimento mais ou menos bem regulado d'aquella grandiosa revolução
    tinha por principal incentivo a febre de uma guerra civil violenta,
    especie de duello gigante entre o passado e o futuro. Quando a lucta
    cessou, o impulso reformador foi esmorecendo, e a reacção começou, como
    era natural apoz tamanho abalo, a modificar os espiritos. Houve quem
    parasse nos limites do justo; mas outros passaram além. Movia á piedade
    a situação do clero regular; causava graves apprehensões a
    desorganisação do secular; e o systema de administração franceza, cuja
    adopção fôra um erro de Mousinho, funccionava mal. Estes lados da
    reforma eram os menos defensaveis, e tinham contra si por um lado o
    sentimento religioso offendido, e por outro o incommodo dos povos nas
    suas relações administrativas. Explorou-se a mina: buscou-se tirar
    partido a favor dos velhos abusos das confissões leaes d'aquelles que,
    addictos ás doutrinas generosas da dictadura, eram assaz sinceros para
    condemnarem os erros que se haviam commettido. Animados por essas
    confissões, os interesses illegitimos, que a revolução havia ferido
    profundamente, agítaram-se e conspiraram contra ella. No meio das luctas
    civis que sobrevieram de novo, posto que menos violentas, e das
    incertezas e perturbações publicas, devidas umas aos nossos erros e
    paixões, outras a circumstancias independentes da vontade do paiz e das
    parcialidades, as tradições do duque de Bragança esqueceram
    gradualmente. Os exemplos de tentativas para sophismar ou destruir as
    suas leis economicas não foram raros. Houve mais d'um Oza que estendesse
    a mão á arca santa, não para a amparar, mas para a derribar, sem que
    cahisse fulminado. Nada prova mais esse progresso gradual de reacção do
    que os diversos projectos de refórma do decreto de 13 de agosto de 1832,
    chamado vulgarmente lei dos foraes, e as respectivas discussões nas duas
    camaras, reacção que veiu a formular-se na lei de 22 de junho. A questão
    do restabelecimento completo ou incompleto dos dizimos chegou a
    agitar-se nas commissões do parlamento. A idéa da reorganisação das
    milicias tem passado uma e outra vez pelas cabeças de homens assaz
    influentes, e porventura ahi vive ligada á existencia dos denominados
    batalhões nacionaes, que successivamente perecem e renascem. O jury,
    combatido a principio cora vantagem, como succede a todas as
    instituições novas que por via de regra funccionam mal, accusado por
    algumas das suas decisões, que a maior parte das vezes procediam e
    procedeam de causas alheias à instituição, foi pouco a pouco
    restringido, desnaturado, e posto á mercê dos juizes chamados letrados,
    designação infelizmente inexacta em relação a muitos. Não se ponderou
    que não ha jurados sem segurança publica, e que essa segurança não
    existia; que não os ha sem juizes habeis, e que muitos d'elles o não
    eram; que não os ha sem ensino primario, amplo na extensão e
    intensidade, e que o ensino era entre nós, como ainda é, incompletissimo
    em ambas as relações. Reagiu-se, em summa, no que se pôde, desde a
    vaidade de ter em Lisboa um patriarcha e um simulacro de patriarchal,
    inutilidades dispendiosas que a dictadura annullara, até o imposto sobre
    a pesca, vexame intoleravel abolido pelo duque de Bragança em favor de
    uma classe e de uma industria, que a humanidade e as boas doutrinas
    economicas mandavam proteger com a melhor das protecções, a plena
    liberdade.

    A reacção manifestada nestes e em outros factos parece incutir já
    receios em muitos homens publicos, que reflectem. N'outros uma especie
    de instincto politico suppre a falta da intelligencia superior e da
    razão esclarecida. Sente-se que é preciso conter o movimento retrogrado.
    Em nossa opinião o remedio é simples: é voltar aos bons principios; é
    comprehender bem a indole da restauração; é applicar as suas doutrinas,
    modificando-as nas applicações pelo que a experiencia de vinte annos nos
    deve ter ensinado. A dictadura do duque de Bragança foi demasiado curta
    e tempestuosa. Fez muito; mas não podia fazer tudo. Completae a sua
    obra; favorecei o augmento e o bem estar das classes productoras; ligae
    os seus interesses á manutenção das instituições, e a reacção reduzida á
    impotencia de uma vã theoria cessará de se reproduzir nos factos.

    As questões de direito publico são graves: o respeito pelas fórmulas e
    garantias da liberdade não merecem por certo o desdem com que alguns
    escriptores, aliás sinceramente liberaes, as tem às vezes tractado,
    desdem de que bem desejamos, por nós e por elles, não tenham ainda de
    arrepender-se. Entretanto é indubitavel que o meio mais seguro de
    colligir uma força moral que as mantenha é crear interesses de tal modo
    ligados com a existencia d'ellas, que toda e qualquer reacção os ameace
    collectivamente. É necessario que esses interesses se contraponham á
    organisação social, ao modo de ser da propriedade, ao systema de
    administração e de impostos, á distribuição das classes, congenitos com
    a monarchia absoluta. Não ha evolução completa de progresso sem as duas
    condições do melhoramento material e do aperfeiçoamento social. Podem
    dar-se factos que realisem a primeira, e que todavia sejam estranhos á
    fórmula politica do paiz onde se verificam. Nenhum descobrimento
    contribuiu tanto para o augmento da civilisação como o vapor e os
    caminhos de ferro, e todavia o vapor e os caminhos de ferro tem-se
    estabelecido em maior ou menor extensão, mas com as mesmas facilidades e
    vantagens, tanto na Inglaterra e nos Estados-Unidos, como na Austria ou
    na Russia, sem que alterem ou devam alterar por em quanto a indole
    politica ou social d'esses paizes. O erro deploravel dos adeptos de
    certa escola é desprezarem a distincção entre o progresso que influe no
    melhoramento social e moral dos povos, e aquelle que só melhora a sua
    condição physica. Esses taes não contestam a superioridade do primeiro,
    porque isso seria demasiado imprudente; mas julgam ter cumprido com o
    que devem ás doutrinas que professam, limitando-se a applaudir quaesquer
    tentativas mais ou menos imperfeitas para se obter o ultimo. Dir-se-hia
    que para elles o homem interior em relação ao homem physico equivale a
    zero á esquerda de qualquer algarismo. E todavia não é assim. Se o povo,
    deduzindo as ultimas consequencias de certas maximas que elles ás vezes
    proclamam sem reflexão, se entregasse nas mãos do primeiro despota que
    lhe promettesse o bem estar material; se essa triste philosophia do luxo
    e dos gosos, que dominava no imperio romano sob a tyrannia dos Cesares,
    chegasse a gangrenar inteiramente as sociedades modernas, horrorisados
    da obra para que teriam contribuido, apressar-se-hiam a renegar a
    propria escola e a alistar-se n'aquella, que, sem desprezar o homem
    exterior, não esquece que ha n'elle uma coisa interior chamada a
    consciencia, que reclama a liberdade e a dignidade como condições
    impreteriveis em todo e qualquer progresso das sociedades humanas.

    É debaixo da impressão d'estas doutrinas, e convencidos da sua
    importancia, que vamos escrever. Os estudos que iremos successivamente
    publicando não são um trabalho completo; porque talvez n'elles nenhuma
    questão seja considerada sob todos os seus aspectos. São apenas
    reflexões soltas que temos lançado ao papel nas diversas epochas em que
    circumstancias especiaes nos obrigaram a volver a attenção para os
    negocios publicos: são simples apontamentos, posto que coordenados e
    ampliados agora. Podem ter erros; mas a intenção que os dictou é leal. O
    auctor nunca poz a penna a soldo de partidos ou de escolas; nunca
    mercadejou com a sua razão, nem com a sua consciencia. Á falta de outro
    merecimento, estes estudos tem o da convicção sincera.

    II

    *Processo agricola.–Propriedade rural.–Opportunidade da discussão*

    Apezar do impulso dado ao desinvolvimento agricola pelas leis da
    dictadura de 1832, as consequencias de certos factos historicos, de
    certas instituições abusivas, que por seculos haviam esmagado o paiz,
    ainda em parte se experimentam. Remover essas instituições; neutralisar
    os effeitos d'aquelles factos é completar a revolução politica pelo
    complemento da revolução economica.

    A extincção dos dizimos, das milicias, das ordenanças, das prestações
    foraleiras deram á lavoira uma extensão imprevista, e a situação do
    cultivador portuguez melhorou sensivelmente. Se por uma parte os
    methodos sempre cambiantes da percepção dos tributos, aliás viciosos na
    sua essencia, não houvessem substituido por gravames novos os gravames
    antigos, posto que em muito menor escala; se, por outra parte, a grande
    propriedade não fosse ainda demasiado preponderante; se a falta de
    proporção entre o accrescimo da cultura e o accrescimo da população não
    houvesse augmentado, pela subida do salario, o custo das producções,
    cujo valor a concorrencia nos mercados tem ido progressivamente
    diminuindo; se a falta de instituições de credito agricola e a derivação
    dos recursos pecuniarios do paiz para a agiotagem, resultado de uma
    pessima administração da fazenda publica, não houvessem tornado o
    capital esquivo á agricultura; se o quasi nenhum melhoramento das vias
    de communicação não pesasse indirectamente sobre os productos; se o
    atrazo da instrucção popular não inhabilitasse o homem do campo para
    simplificar os methodos e instrumentos de cultura; se finalmente um
    falso systema de protecção não difficultasse indirectamente ao productor
    portuguez o accesso aos mercados estrangeiros; a industria agricola
    entre nós teria chegado ou chegaria em breve a uma situação brilhante.
    Descentralisação administrativa; divisão razoavel de propriedade;
    construcção de estradas geraes e caminhos concelhios; simplicidade e
    ordem no systema tributario, tanto geral como municipal; meios de crear
    o credito rural accommodado aos habitos e necessidades do paiz; impulso
    á instrucção popular, ou antes nacional, substituindo o impulso, talvez
    excessivo, dado á instrucção litteraria e superior; mudança gradual e
    reflectida do systema protector para o systema da livre permutação, a
    que só se poderá chegar pela descentralisação administrativa; eis o que,
    em nosso intender, constituiria em geral o complemento da revolução de
    1832. Por esses meios, desinvolvidas as forças productivas da terra em
    toda a sua energia, o accrescimo da população acompanharia o accrescimo
    de trabalho; o valor d'este se harmonisaria com o das subsistencias; o
    producto liquido guardaria sempre proporcionalidade com o producto
    bruto, ou, pelo menos, seria bastante para se accumular em capital e
    converter-se em instrumento de producção; e emfim a grande industria
    nacional, livre de peias e, ainda melhor, de uma falsa protecção,
    influiria poderosamente no progresso da industria fabril e do commercio,
    cuja prosperidade é impossivel onde a agricultura definha debaixo do
    peso de instituições ou incompletas ou absurdas.

    De todas estas questões, cuja solução importa a este grande problema,
    nenhuma, se exceptuarmos a da liberdade do commercio, é tão grave,
    difficil e importante como a da divisão do sólo, isto é, da fórma e
    condições da propriedade territorial em relação á industria agricola.
    Debatendo-a, não só se discute uma das principaes materias economicas:
    discutem-se, digamos assim, as bases da sociedade civil.

    A revolução de 1832, a unica revolução séria que tem havido em Portugal,
    occorreu, entre outras coisas, ao damno e á vergonha, a que os erros dos
    nossos antepassados nos haviam conduzido, de comprarmos aos
    estrangeiros, durante uma parte do anno, a subsistencia de uma população
    pouquissimo numerosa em relação ao nosso territorio, e que uma
    insignificante industria fabril por certo não distrahia do trabalho
    agricola. Mas as grandes providencias d'essa epocha não deram nem podiam
    dar á industria e á população rural um impulso de maxima energia.
    Deram-lhes apenas o que procede da libertação da terra, da cessação de
    certas rapinas senhoriaes e fiscaes, e, consequentemente, o impulso
    indirecto que provinha da maior facilidade de produzir subsistencias,
    cuja abundancia e barateza, sempre progressivas, nos tem efficazmente
    convertido, no fim de quinze ou vinte annos, de importadores em
    exportadores. Os outros meios de augmento de população e de industria
    agricola, que eram consectarios do largo systema que a revolução
    adoptara, não se pozeram por obra desde que os dois elevados espiritos
    que tinham encetado a reforma radical do paiz desappareceram, um no
    tumulo, outro no esquecimento ingrato dos seus concidadãos.

    A redempção da terra pela destruição dos antigos vexames devia
    completar-se, de feito, por instituições e leis cujas tendencias fossem
    accordes com as da revolução. Desde que pelas providencias da dictadura
    de D. Pedro se entrava no caminho da reforma; desde que se fazia sair a
    agricultura da immobilidade e somnolencia em que jazera por seculos;
    desde que se lhe dizia «caminha!» era necessario acabar de lhe pôr
    franca a estrada, removendo todos os obstaculos á sua marcha ulterior.
    Não succedeu, porém, assim. Um dos factos mais importantes da historia
    da nossa fazenda publica prova que o systema da revolução, ou não foi
    comprehendido, ou foi promptamente abandonado por aquelles que deviam
    manter as tradições d'essa epocha.

    A lei dos foraes e, ainda mais do que ella, a extincção da maior e mais
    opulenta parte das corporações de mão morta trouxeram á massa de bens
    publicos uma porção avultadissima de propriedade rural. Calcular com
    alguma certeza os valores, os capitaes possuidos por essas corporações
    abolidas, ou rehavidos pela reversão gradual dos bens da corôa, é
    dífficillimo, senão impossivel, pelo pessimo methodo com que taes bens
    foram e tem sido incorporados na fazenda e depois alienados. Não será
    porém excessivo o algarismo de cincoenta a sessenta mil contos. Mas
    esses bens eram na sua maxima parte predios rusticos, ou censos e
    pensões sobre elles, symbolo do senhorio directo e portanto equivalentes
    de um capital. Tendo-se aberto uma nova era ao progresso da agricultura,
    os homens publicos d'então deviam pensar que não seria indifferente e
    sem influencia na economia social do paiz o destino que se désse a tão
    avultada somma de instrumentos de trabalho rural. N'um paiz de vinculos,
    de commendas, de bens de corôa, devia suppôr-se que a grande propriedade
    não estava em equilibrio com a pequena. Não era, porém, necessario
    suppol-o. Sabia-se que só na provincia do Minho preponderava a ultima, e
    que nas outras províincias predominava a primeira, sendo quasi exclusivo
    esse predominio na mais extensa de todas, o Alemtejo. Cumpria, portanto,
    comparar os resultados económicos e sociaes da grande e da pequena
    propriedade. Este exame mostraria, quanto a nós, a necessidade de
    favorecer a multiplicação dos pequenos predios, sobretudo no centro e no
    sul do reino. Não se fez, porém, isto. A massa enorme de riqueza
    territorial possuida então pelo Estado, a qual na maxima parte poderia
    ter cabido em mãos laboriosas e humildes por emprasamentos de superficie
    limitada, ou que, pelo menos, poderia ser vendida depois de retalhada,
    alienou-se por um systema absolutamente contrario. Dividida a
    propriedade tornar-se-hia accessivel a todas as condições e fortunas
    pelo emprasamento, e pela venda a milhares de pequenos peculios. Em vez
    d'isso cahiu geralmente nas mãos de homens opulentos, trocou-se por
    capitaes avultados. Em muitos casos foi o rico proprietario que
    conglobou nos seus extensos predios vastos predios nacionaes, e isto
    n'um mercado onde reinava pela abundancia a depreciação do genero, e
    onde a concorrencia era difficil. Outra parte serviu para converter
    muitos capitalistas em proprietarios. Assim se annullaram os mais
    importantes resultados que se deviam ter tirado da reivindicação parcial
    dos bens da corôa para o patrimonio publico, e da extincção das
    corporações religiosas.

    Foi a ignorancia que produziu o mal? Foi a persuasão de que a grande
    propriedade era mais util do que a pequena? Não o cremos. A verdadeira
    razão era o interesse pessoal dos homens influentes. Tinham-se inventado
    as indemnisações; tinham-se taxado os exilios, as perdas effectivas, os
    lucros cessantes, as perseguições que se haviam padecido por causa de
    opiniões. A religião do juramento, a fé nos principios, a lealdade á
    dynastia legitima deixaram de ser uma herança de honra para se legar
    como exemplo a filhos e netos, e converteram-se em capital com juro: os
    heroes transformaram-se em chatins. Foi uma abdicação moral quasi
    completa, a que a historia fará justiça. Para as indemnisações a
    alienação em grande convinha por mais de um modo. O _Ha-de-haver_ da
    conta de ganhos e perdas engrossava-se prodigiosamente ao lado do _Deve_
    em branco. Os mercadores politicos, que a escripturavam, viam-se no
    governo, no parlamento, nos conselhos, nos altos cargos administrativos,
    judiciaes, e militares. Olharam para essa mole appetitosa e immensa que
    tinham ante si, e talharam a reparação pelo valor da presa cubiçada.
    Quanto mais se accumulassem e portanto se depreciassem no mercado os
    bens nacionaes, maior porção d'elles seria necessaria para satisfazer
    indemnisações exaggeradas. Com o tempo desappareceu tudo. O que não
    serviu para se trocar a honra politica por fortuna predial,
    desbaratou-se por preços insignificantes. Os capitalistas vieram
    substituir-se aos donatarios, aos commendadores e aos frades. Depois os
    heroes e os capitalistas foram ao templo dar graças aos deuses. A
    republica estava salva.

    Então seguiram-se quinze a vinte annos de revoluções tão estrondosas
    como insignificantes. Os partidos disputaram o poder, luctaram,
    digladiaram-se: houve sangue e desventuras; houve theorias dominantes,
    vencidas depois, e vencedoras de novo; houve homens turbulentos e
    cubiçosos (os ambiciosos são raros no nosso paiz) que ora se apoderaram
    do poder, ora desappareceram na obscuridade, quando não no exilio: houve
    todas as convulsões, todas as peripecias dos tempos de politica pessoal,
    de politica de odios acerbos e de interesses individuaes feridos. Só
    faltaram novos incitamentos para o progresso legitimo. Dentro da acção
    administrativa e parlamentar, o desenvolvimento do paiz, desenvolvimento
    innegavel, posto que muito inferior ao que devera ter sido, foi apenas a
    consequencia das providencias da primeira dictadura, e de alguns poucos
    actos da revolução de 1836, em que appareceu um homem de verdadeiro
    talento e de verdadeiro patriotismo, mas que, perdoe-nos elle, quasi
    compensou o bem que fez com os males cuja semente lançou á terra,
    transportando do campo da theoria para o dos factos as idéas
    proteccionistas. Ainda eram, comtudo, idéas: ainda era um reflexo de
    1832. Depois só houve politica esteril ou reaccionaria. O progresso,
    independente das instituições, das leis e da acção administrativa, que
    se realisou n'este periodo, tem-se devido ás idéas e aos esforços
    particulares, á razão e á actividade dos cidadãos, movendo-se n'um
    ambiente de liberdade intellectual; porque é preciso confessar que
    n'esta longa epocha de pequenas paixões e de turbulencias interminaveis
    a iniciativa individual e a liberdade dos espiritos, fóra da esphera
    politica, tem sido geralmente respeitada.

    O cansaço quebrou por fim a violecia das facções e trouxe o periodo do
    repoiso. Boas ou más que fossem as doutrinas dos partidos militantes,
    ellas eram bandeira, não crença. A prova ahi está na historia dos
    ultimos quatro annos. Modificaram-se e mollificaram-se as opiniões,
    porque não tinham sido senão o estandarte dos interesses particulares, e
    porque nas phases variadas da longa lucta das parcialidades aquelles
    interesses chegaram mesmo, por acaso, a uma combinação politicamente
    possivel. Mas este facto trouxe outro mais grave: o paiz, que suspeitava
    de muitos, descreu de todos. É um mal ou um bem absoluto? O futuro o
    dirá. O que é certo é que desanimou e tornou-se indifferente aos
    partidos. Entretanto é incontestavel que vivemos n'uma quadra
    tranquilla. Que os homens influentes da situação o attribuam, não á
    indifferença do paiz, ao seu tedio de conflictos mais ou menos
    sanguinolentos e devastadores, mas sim á illustração, á justiça, á
    moralidade e ao liberalismo do poder, e á sua propria philosophia
    politica, que se remonta acima da comprehensão de nós outros homens
    vulgares, que importa? É uma rixa domestica; é uma questão entre os
    labios e a voz intima do coração. Nada temos com isso. O que nos importa
    é o facto, e o facto é que gosamos de paz e de liberdade de discussão
    ácerca de todas as materias politicas e sociaes. A quem nos deixa isto
    deve-se perdoar alguma coisa. Pode-se ter qualquer sentimento a respeito
    dos homens da situação: ter-lhes odio seria impossivel. Estão abaixo e
    além d'isso.

    E no meio da paz e da liberdade da palavra e da escripta apparecem
    tendencias, e mais do que tendencias, esforços para a realisação de
    novos progressos. O governo actual é arrastado pela opinião publica,
    como o seria qualquer outro que o substituisse, a melhorar as
    communicações internas, e no Minho ergue-se o povo para tomar n'esta
    parte a iniciativa. As questões d'instrucção popular, que passavam
    desapercebidas, excitam já a attencão e o interesse: não tardará que a
    opinião reclame a sua solução practica tão imperiosamente como reclama
    as estradas. As doutrinas da liberdade da industria e do commercio não
    só combatem face a face as preoccupações contrarias, mas até são
    chamadas á prova, e legitimam-se pelos resultados. Os espiritos começam
    a comprehender que o credito rural pode deixar de ser uma utopia, a
    associação uma vã palavra. No parlamento é atacada a instituição dos
    vinculos, e parece aproximar-se a ultima ruina d'estes. O governo,
    emíim, abriu o caminho para se chegar um dia ao verdadeiro systema
    tributario, sem o qual o triumpho completo do livre commercio e da livre
    industria é impossivel. Por ora a repartição do imposto directo,
    substituida á decima, pouco mais é do que uma troca de palavras, e Deus
    queira que não deixe de o ser antes de tempo; mas o povo vai-se afazendo
    á idéa, e é essa uma grande difficuldade vencida para o futuro.

    Estes factos são importantes, e estão, em geral, no espirito da
    revolução de 1832; mas todos elles tem uma desenvolução posterior, e
    essa desenvolução é que ha-de aproximal-os ou afastal-os do systema
    d'aquella epocha. Oppõem-se-lhes as tendencias reaccionarias, algumas
    das quaes já se manifestam nas leis e traduzem-se nos factos. Quando em
    muitos animos preponderam os desejos da restauração do passado; quando
    estes desejos começam a apparecer na legislação, é preciso estar de
    sobreaviso para que a reacção se não introduza no progresso sob o manto
    da imparcialidade. É esse o perigo das doutrinas, que nos aconselham
    afastemos os olhos das questões de ordem moral para só pensarmos no
    melhoramento material. Servirão taes doutrinas a tal ou tal situação,
    porque precisará d'ellas para se absolver a si propria; mas não servem
    ao paiz, e podem ser ainda fataes áquelles mesmos que as propugnam.
    Cumpre na desenvolução de cada reforma ligal-a pelas suas condições ao
    systema da liberdade.

    Se repetidos exemplos de corrupção fizeram descrer o paiz dos homens
    publicos, o progresso material, desligado e independente das condições
    politicas da sociedade actual, pode fazel-o descrer d'essas condições. O
    governo representativo não é commodo nem barato. É preciso que o povo
    considere as vantagens do bem estar como inseparaveis dos incommodos e
    sacrificios que as instituições exigem. O triste espectaculo, que hoje
    presenceamos, de uma grande nação privada dos seus fóros é a mais
    tremenda lição que nos offerece a historia sobre as consequencias de
    converter o porco de Epicuro em symbolo exclusivo da religião social.

    III

    *Abolição dos vinculos*

    O pró e o contra

    Entre as reformas pendentes merece attenção particular a abolição dos
    vinculos. Agita-se hoje essa questão, á roda da qual vêm accumular-se
    outras mais graves. Considerada em si, e só em relação aos seus
    resultados economicos, a extincção d'esta fórma de propriedades
    realisar-se-ha de um modo. Considerada em relação a todas as
    consequencias da medida, tanto economicas como sociaes e politicas,
    ha-de realisar-se de outro. A abolição dos morgados e capellas pode, até
    certo ponto, remediar o mal que resultou do systema inconveniente
    adoptado na distribuição e alienação dos bens nacionaes, se essa
    abolição se reputar um problema subordinado, uma hypothese que entra na
    questão geral da organisação da propriedade em relação ao bem estar
    material, moral e politico da sociedade. A esta luz a solução da questão
    geral determina forçosamente a da hypothese. Não é possivel, portanto,
    separal-as. Nas considerações que vamos fazer, considerações talvez
    incompletas, mas que cremos uteis, procuraremos quanto fôr possivel
    attingir á generalidade.

    As principaes objecções que se podem oppôr á existencia dos vinculos são
    de diversa ordem: moraes, politicas e economicas. Uma parte d'ellas
    entram na questão geral da grande e da pequena propriedade. Outras
    pertencem á ordem politica e á ordem moral.

    Oppõe-se aos vinculos que, sendo estes uma fórma de propriedade em que o
    direito de testar é tirado ao possuidor d'ella, convertido em simples
    administrador, falta a este o principal estimulo para os melhoramentos
    permanentes. Tudo pelo contrario o incita a tirar dos predios que possue
    a maxima utilidade pessoal. Salvas as hypotheses de viva affeição
    áquelle, que, não elle, mas a lei e a instituição fazem seu herdeiro, ou
    de uma decisiva paixão pela agricultura, o administrador do vinculo será
    sempre o peior entre os proprietarios ruraes, e a terra vinculada será
    constantemente um modelo de atrazamento e de incuria, um obstaculo
    permanente ao progresso agricola. A historia e o estado dos vinculos em
    Portugal demonstram _a posteriori_ a verdade e o alcance d'esta
    objecção.

    A instituição vincular é injusta excluindo os irmãos menores de egual
    quinhão na herança paterna, tornando-os dependentes, por um subsidio, do
    irmão mais velho, ao passo que não podem obstar a que este annulle os
    recursos para o pagar. Aquelle incerto meio de subsistencia é, alem
    d'isso, um incentivo de preguiça e ignorancia, uma fonte de irremediavel
    miseria para o homem a quem um berço illustre poz sem culpa sua fora do
    direito commum.

    O vinculo é a negação permanente de uma das primeiras condições da
    propriedade: n'elle os dois dominios estão incorporados n'um só, mas
    esse dominio não está _actualmente_ em parte nenhuma. Ficou, digamos
    assim, chumbado na campa de um tumulo: o tumulo retem-n'o até o fim das
    gerações. O morto desmentiu o direito dos vivos. O seu herdeiro, o homem
    que lhe succedeu na posse da terra e que elle chamou a isso por um acto
    livre e espontaneo, é pouco mais que um simples usufructuario. Mas ha
    outro que deva depois d'elle succeder com pleno direito, porque o
    affecto nascido dos laços domesticos ou do sentimento da gratidão moveu
    o instituidor a tornal-o proprietario d'essa terra apoz o
    quasi-usufructuario? Não ha. Ha só uma serie de descendentes que o
    instituidor desconhece, e, na falta d'estes, os de collateraes que não
    lhe importam. O fundador de um vinculo não fez mais do que empilhar os
    corpos de individuos tirados das diversas gerações para sobre elles
    assentar o throno da sua vaidade. Decretou-se homem grande: teve pena de
    que o futuro esquecesse personagem tão importante. Certa escola
    socialista mais moderada nega no que possue o direito de testar: os que
    estabeleceram a jurisprudencia dos morgados foram os precursores d'essa
    escola. Os antigos sacrificavam ao Deus desconhecido, _ignoto deo_; os
    instituidores de vinculos sacrificam _ignoto homini_.

    Os vinculos refogem, pela condição da inalienabilidade, aos impostos
    sobre transmissão por venda. Tornam, n'esta parte, em virtude de um
    privilegio, impossivel de se realisar ácerca d'elles a proporcionalidade
    constitucional das contribuições.

    A existencia dos vinculos, derivando de um privilegio, está
    absolutamente em antinomia com a lei política, não se provando que essa
    existencia seja de utilidade publica.

    Admittidos entre nós os vinculos em epochas, nas quaes o atrazo agricola
    tornava pouco productiva a terra, esta só podia constituir um morgado ou
    capella importante, vinculando-se uma immensa extensão de solo. No meio,
    porém, de população rara e de cultura pouco intensa e pouco frequente,
    elles não ofereciam grande obstaculo á exploração da terra. Agora,
    porém, que já o agricultor arrosta com os terrenos de segunda qualidade,
    e que a população se desenvolve e cresce, cada decada, cada anno, cada
    dia estão mostrando mais claramente o absurdo de se conservarem
    terrenos, muitas vezes de primeira ordem, incultos ou mal cultivados por
    causa de uma instituição, cuja existencia não é legitimada por nenhum
    motivo attendivel.

    A propriedade d'esta especie esta em regra condemnada á ruina e ao
    atrazamento. O predio vinculado, passando livre ao successor, é uma
    pessima hypotheca. O capital não se põe em contacto com elle senão por
    meio de exorbitantes usuras. Comprehende-se como um mau administrador de
    vinculo para satisfazer os proprios appetites ou paixões sacrifique á
    agiotagem um futuro que é seu; mas não se comprehenderia egual
    sacrificio da parte de um homem cordato, que pretendesse applicar um
    capital avultado aos melhoramentos de propriedades arruinadas pelo
    desleixo e falta de economia dos seus antecessores. Embora as
    bemfeitorias sejam encargo transmissivel, é certo que o dinheiro seria
    sempre incomparavelmente mais caro para elle do que para o proprietario
    cujos bens podem ser executados, e o dinheiro caro é para a agricultura
    do nosso paiz como se não existisse.

    Na verdade, trazida sem restricções a propriedade vinculada ao direito
    commum, o mau administrador desbarataria facilmente os proprios haveres;
    mas o bom poderia com uma parte d'esses bens, por qualquer modo
    alienados, tornar solido o resto da sua fortuna: mais; poderia tirar do
    sacrificio os meios de dar á porção salva um valor egual ou maior do que
    tinha todo o vinculo. Por certo que para isso necessitava de actividade,
    de economia e de intelligencia; mas favorecer taes dotes não seria uma
    das menores vantagens da abolição.

    Se a facil divisão do solo tem em geral uma grande importancia economica
    e social; se a tem egualmente a facil transmissão pelos contratos de
    compra e venda; os vinculos, contradizendo completamente esses dois
    factos, devem cessar de existir.

    Taes são as considerações principaes que se offerecem ou podem offerecer
    para se abolir esta forma especial de propriedade. Os seus defensores
    recorrem não raro a subterfugios e a razões insignificantes. Ha todavia
    algumas considerações que parecem favorecer os vinculos. Contrapol-as às
    allegações em contrario é mostrar que se busca sinceramente a verdade.

    O direito de propriedade é virtualmente atacado na abolição dos
    vinculos. O instituidor de qualquer d'elles estabeleceu-o em bens seus
    inteiramente livres, e sem offensa das leis de successão. Se elle tinha
    o direito de testar esses bens, tinha tambem o direito de regular o modo
    de succeder, de limitar e impôr condições á fruição do que era seu.

    Nas monarchias representativas considera-se a existencia das
    aristocracias como um facto social legitimo. Pelas instituições esse
    facto é convertido em principio politico manifestado no pariato: ou,
    antes, o facto indestructivel da desegualdade social é circumscripto por
    aquellas instituições dentro da orbita politica, ficando ao mesmo tempo
    excluido das relações civis legaes. Desde que, porém, a aristocracia,
    representante da desegualdade, é considerada como elemento politico,
    torna-se necessario garantil-a. Os vinculos, destinados a manter e
    perpetuar as familias aristocraticas, estão portanto essencialmente
    ligados á existencia da monarchia representativa.

    A divisão indefinita do solo tem os inconvenientes que a França, onde as
    instituições de direito publico e de direito civil a favorecem
    excessivamente, já experimenta em larga escala. A idéa de allodialidade
    absoluta da terra, e de favor para a subdivisão contínua da propriedade,
    prevalecendo entre nós no commum dos espiritos, e manifestando-se já nas
    tendencias de certas leis, ha-de emfim vir a produzir os mesmos males
    que produz em França e em outros paizes, e contra os quaes varios
    estados de Allemanha tratam de prevenir-se por via de leis positivas e
    terminantes. A existencia dos morgados estabelece uma compensação a
    similhantes tendencias, e equilibra a grande e a pequena propriedade.

    Suppondo, porém, que em geral a grande propriedade prepondere hoje;
    suppondo ainda que a parte allodial d'ella se não transforme pelo
    decurso do tempo, e que resista ás tendencias e leis que favorecem a
    divisão do solo; nem ainda assim os vinculos devem ser abolidos por
    manterem a grande propriedade. Esta não pode ser considerada como um
    inconveniente, visto parecer demonstrado que a grande cultura produz
    mais barato, que dá em resultado maior producto liquido, e que não ha
    grande cultura sem vasta propriedade. Deduzir da situação accidental dos
    vinculos, situação que ainda se não examinou se podia ser melhorada,
    argumentos contra a essencia de uma instituição, que pode contribuir
    para a creação de importantes valores, parece pessima logica e ainda
    peior economia politica.

    Na hypothese, porém, de que a propriedade perfeitamente livre tenda sem
    remedio a subdividir-se indefinidamente, opinião que tem por si os
    factos e as previsões de distinctos economistas, abolidos os vinculos,
    que é o que fica para satisfazer á necessidade economica da existencia
    de grandes predios ruraes?

    A centralisação é o grande defeito dos governos representativos:
    centralisação da soberania; centralisação da administração pelo
    executivo; centralisação da justiça; centralisação da força publica. Mas
    todos os poderes centraes tendem a destruir a independencia ou a acção
    uns dos outros e a elevar-se acima d'elles. Não raro acontece isto, e a
    experiencia ensina-nos que por via de regra é o executivo quem triumpha,
    sobre tudo pelos meios de corrupção, triumpho tanto mais perigoso,
    quanto é certo que se mantem de ordinario as apparencias
    constitucionaes, e que esse absolutismo é mais facil de sentir do que de
    demonstrar quando acata certas formulas tornadas estereis. A força dos
    agentes administrativos é, n'esta hypothese, immensa; porque se
    multiplica de um modo incalculavel a energia da centralisação já d'antes
    exaggerada. Abolindo-se os morgados e capellas, e destruindo-se por esse
    modo a grande propriedade e as influencias dos nomes historicos, não se
    faz mais do que remover obstaculos ás demasias dos delegados do poder
    central. O _cavalheiro de provincia_, essa entidade com recursos
    materiaes e moraes para contrastar a autocracia do funccionalismo,
    cessará de existir. Retalhados os predios allodiaes pelas heranças, os
    morgados seriam o ultimo e unico refugio da resistencia legal ao
    despotismo da centralisação administrativa.

    Ainda outros argumentos a favor da manutenção dos vinculos se costumam
    deduzir de certa ordem de considerações moraes. Tal é a difficuldade de
    os abolir sem offender direitos adquiridos ou as regras da equidade. Mas
    tambem os adversarios dos vinculos vão buscar nessa mesma ordem de idéas
    considerações que se oppõem á sua conservação. Subsequentemente teremos
    de avaliar alguns d'esses encontrados argumentos quando a successão das
    idéas nol-os suggerir. Aqui só quizemos indicar as ponderações mais
    graves que mutuamente se contrapõem sobre um problema, de cuja solução
    pendem muitos interesses, não só geraes mas tambem particulares, e em
    que por isso as exaggerações e argucias são frequentes e é difficil a
    imparcialidade.

    Basta porém attender ás considerações principaes para se conhecer que a
    sua confirmação ou refutação dependem do modo de resolver os mais serios
    problemas sociaes, taes como a indole e fins das aristocracias nas
    sociedades modernas, a organisação do poder central, e o equilibrio
    politico pela descentralisação administrativa, as vantagens e os
    inconvenientes da grande e da pequena propriedade, da grande e da
    pequena cultura, as leis que determinam o augmento da riqueza publica,
    tudo, emfim, quanto mais intimamente se liga com o progresso material e
    moral do paiz. Importa ter idéas claras ácerca d'esses graves assumptos
    para dar um voto sobre a questão dos morgados. Sem isto os instinctos ou
    os interesses de classe, de partido ou de individuos influirão
    exclusivamente na abolição ou não abolição, e, supposta a primeira
    hypothese, nas disposições da lei por que forem abolidos.

    IV

    *O principio vincular considerado na sua legitimidade*

    A primeira consideração que parece favorecer a conservação dos vinculos
    é de ordem juridica; liga-se com a maxima questão social–o direito de
    propriedade. O commum dos morgados em Portugal foram instituidos em
    terças, de que os instituidores podiam livremente dispor; e quando, com
    licença do rei, então arbitro supremo, abrangiam os bens de legitima,
    resalvavam-se os alimentos, a que se entendia terem jus os filhos por
    direito natural, que ao rei não era licito infringir. Os instituidos,
    com permissão regia, em bens de corôa, em commendas, etc., ou fundados
    por individuos sem herdeiros forçados, é evidente que não offendiam
    direito algum particular, e que o instituidor não fazia senão practicar
    um acto legitimo, dando esse futuro destino a bens que podia livremente
    testar, ou de que a auctoridade suprema lhe consentia dispor para esse
    fim como de cousa propria. Assim a abolição, destruindo a fórma e
    condições impostas na transmissão da propriedade pelo proprietario,
    negaria retroactivamente o uso de um direito legitimo. A lei pode
    prohibir as novas instituições vinculares; mas não pode converter o
    administrador em proprietario, nem regular a successão dos bens de
    vinculo pelo direito commum.

    Na verdade os instituidores de morgados tinham o direito de transmittir
    a propriedade de que livremente podiam dispor com as condições que
    entendessem; mas as consequencias que d'ahi se deduzem estão longe de
    serem incontestaveis. Se admittis a doutrina que apenas estriba o
    direito de propriedade nas leis positivas, é evidente que ellas podem
    modificar, restringir e até annullar esse direito. Se, com mais razão,
    considerais a propriedade como de direito natural, ainda assim as
    difficuldades subsistem. As opiniões variam ácerca da extensão d'esse
    direito. Ha quem negue que a successão testamentaria e _ab intestato_ se
    inclua n'elle; não seja de pura instituição civil: ou, por outra, que o
    direito de propriedade possa subsistir além do tumulo. O acto, porém, de
    instituir um vinculo não é mais do que levar o exercicio d'esse direito
    não só além da morte, mas tambem á perpetuidade. Supponhamos, todavia,
    que a successão esteja envolvida no direito natural da familia. Não se
    comprehende melhor como a successão vincular se haja de fundar em tal
    direito. Que é o que transmittiu o instituidor? Apenas uma parte do
    dominio. Nenhum dos seus herdeiros tem o dominio absoluto dos bens do
    vinculo: o que tem é, digamos assim, apenas meia propriedade. Resulta
    d'aqui um facto. Pela nossa jurisprudencia os morgados extinguem-se: e
    esta extincção dimana da sua natureza. Quando ao ultimo administrador
    não restam parentes consanguineos, que tambem por consanguinidade o
    sejam do instituidor, o morgado acabou. Os bens vinculados devolvem-se
    então á corôa, á fazenda publica, á sociedade. Por mais intimos que
    sejam os laços de familia que unam o derradeiro possuidor com outros
    individuos, esses individuos são excluidos. Comtudo a legitimidade da
    successão nos vinculos, como em outra qualquer propriedade, estriba-se
    forçosamente ou na lei civil revogavel, ou no direito natural da
    familia. N'esta ultima hypothese o vinculo repugna ao principio da sua
    propria validade. Porque veiu a succeder o Estado? O dominio residia
    n'elle? Dir-se-hia que sim. A idéa de semi-propriedade é uma idéa de
    restricção, limitativa: cumpre por isso que exista a cousa restringida,
    limitada. Concebe-se, por exemplo, perfeitamente o usofructo nos bens
    não vinculados: após o usofructuario ha sempre um herdeiro definitivo.
    Nos morgados não acontece assim. Existe á limitação sem a cousa
    limitada, se não suppozermos o Estado revestido d'aquelle dominio que
    não existe no possuidor. Em relação, pois, ao direito natural da
    propriedade a existencia dos vinculos é uma cousa incoherente,
    contradictoria, inexplicavel.

    Mas ha uma consideração ainda mais grave a oppor áquelles que invocam os
    fundamentos do direito em favor d'essa instituição. É que, para
    subsistir, ella carece absolutamente das leis de privilegio. A sociedade
    deve proteger o livre uso da propriedade e as disposições testamentarias
    em quanto ellas se conformam com o direito commum. Lei de excepção para
    taes ou taes hypotheses é que não deve nem pode admittir senão por um
    motivo que virtualmente o faça entrar na regra geral–a utilidade
    publica; e a utilidade publica só pode qualificar-se por uma declaração
    legal, por uma disposição de direito positivo. Declarada não util a
    existencia dos vinculos, o direito politico faz desapparecer
    necessariamente desde logo as leis que mantêm os vinculos. Revogadas
    estas, como se não pode conceber propriedade sem proprietario, ou o
    dominio completo dos bens de morgado será considerado como _nullius_ e
    recahirá no Estado, ou esse dominio se incorporará no meio dominio,
    convertendo-se o administrador em proprietario. Seria, com effeito,
    absurdo que qualquer individuo tivesse o direito de regular a applicação
    e uso dos proprios bens _post mortem_ por tal arte que não se houvesse
    de realisar a sua vontade sem certas disposições especiaes de direito
    positivo, e que a sociedade fosse constrangida a promulgar ou a manter
    semelhantes disposições. A soberania de tal homem excederia a da razão
    publica, unica de legitimidade indubitavel.

    A abolição, pois, dos vinculos, ou, para falarmos mais exactamente, a
    revogação das leis positivas que os protegem, e sem as quaes a sua
    existencia não se comprehende, respeita o direito de propriedade. A
    questão pode versar sobre a conveniencia ou não conveniencia do
    principio vincular, e sobre a maneira da abolição ou da conservação, mas
    nunca sobre o direito que o paiz tem de retirar o seu apoio a esta
    antiga instituição.

    Tirada, porém, a base de um direito primitivo e indestructivel, os
    defensores dos morgados appellam para o direito politico. A monarchia
    representativa consagra o principio da desegualdade social, fazendo-a
    representar pela aristocracia de berço, cuja conservação forçada deriva
    da indole do pariato hereditario. Exigindo-se para este, além de outras
    habilitações, uma renda avultada, importa que as instituições e as leis
    mantenham a perpetuidade d'essa renda, em harmonia com as que consagram
    a perpetuidade das funcções. A permanencia dos vinculos assegura esse
    resultado, ao passo que a sua abolição importa a não existencia do
    pariato hereditario.

    A lei politica estabelece o pariato hereditario e o vitalicio; mas nem
    determina a proporção de um ou de outro, nem, rigorosamente, exige a
    existencia simultanea de ambos. Não a exige, porque seria absurda essa
    exigencia. Sem as leis organicas e com a Carta na mão, o rei poderia
    substituir o par fallecido sem herdeiro que o representasse por um par
    vitalicio. Esta hypothese verificada em vinte ou trinta casos teria
    acabado com o pariato hereditario. Vice-versa o rei poderia deixar de
    supprir os logares vagos por morte dos pares vitalicios, ou tornal-os
    hereditarios e acabar assim com a não hereditariedade.

    A lei de 11 de abril de 1845, exigindo, além de outras habilitações, uma
    certa renda ao individuo que succede no pariato, levou em mira a
    manutenção da dignidade e independencia dos membros da camara alta. Ora
    essas condições não podem verificar-se com uma renda imaginaria: é
    preciso que esta seja real e effectiva. Mas são justamente os vinculos
    que menos asseguram a realidade e effectividade de semelhante renda, e
    que ao mesmo tempo offerecem mais meios para ser sophismada a letra e
    desmentido o espirito da lei. O mau administrador de morgado (e a regra
    é ser mau administrador do fundo quem não passa de pouco mais de
    usufructuario) pode reduzir-se a si proprio á miseria dentro de um ou
    dous annos, e perder a independencia e a dignidade que a lei requer
    n'elle: pode, até, transmittir ao seu successor a propria miseria,
    porque são vulgarmente sabidos os alvitres de que usa o capital, ou, se
    quizerem, a agiotagem, para illudir o principio da immunidade vincular.
    Na apparencia, porém, a renda exigida pela lei continua a subsistir: o
    fundo não desapparece: o administrador actual lá possue nominalmente
    _uma casa_ de quatro, seis ou oito contos de réis. Na verdade hoje não
    tem que almoçar, ámanhã não terá que jantar; ao seu successor acontecerá
    o mesmo; mas que importa? A letra da lei está salva: o que se annullou
    completamente foi o seu intuito, o seu espirito, a razão que a
    sanctificava. Se os bens do par fossem sujeitos á lei commum, este facto
    servir-lhe-hia de poderoso incentivo para ser um cidadão economico,
    activo e bem morigerado; porque a manutenção da dignidade de par, em si
    e n'aquelle que houvesse de succeder-lhe, dependeria d'essas virtudes,
    virtudes que aliás não deixariam de influir nas suas opiniões e no seu
    procedimento politico, e de reverterem em beneficio da republica.

    Mas admittamos por um momento que o pariato hereditario seja inseparavel
    da existencia dos vinculos. Não se segue d'ahi a necessidade de os
    conservar. É facil reformar o artigo constitucional que consagra
    simultaneamente a hereditariedade e o vitalicio no pariato, reduzindo-o
    a esta ultima fórmula. Se a abolição dos vinculos involve um grande
    interesse social, a solução mais razoavel será a suppressão da
    hereditariedade do pariato, suppressão que em nosso modo de ver
    representaria um verdadeiro progresso na organisação politica, acabando
    com uma idéa falsa.

    Esta idéa, na qual se estriba o pariato por successão, é a de que a
    aristocracia, elemento politico, é forçadamente o mesmo que a
    aristocracia de linhagem: ou, por outra, que o facto indestructivel da
    desegualdade humana se ha de manifestar eterna e quasi exclusivamente na
    fórmula dos tempos feudaes.

    É uma opinião que vale a pena de se examinar.

    V

    *Desegualdade e personalidade*

    A desegualdade natural entre os homens tem sido negada de um modo
    absoluto nos tempos modernos: tem-se empregado todas as subtilezas da
    philosophia do direito para demonstrar a possibilidade de destruir um
    facto indestructivel. Tudo nasce, em nosso entender, de se confundirem
    as idéas de diversa ordem.

    A egualdade civil não é só possivel, é necessaria. Deriva do direito
    natural que cada um tem de desenvolver a sua actividade até onde não
    impede a desenvolução da actividade alheia. Esse direito suppõe deveres
    correlativos. A sociedade existe para manter aquelle e estes. É por isso
    que o estado social é inseparavel da humanidade, e que o homem da
    natureza, sonhado por alguns philosophos do seculo passado como anterior
    á sociedade, não passa de uma chimera. Um simples exemplo fará sentir
    melhor esta incontestavel doutrina do que longas dissertações. O que,
    trabalhando, deu valor a um tracto de terra desoccupado e inculto e o
    fez fructificar, desenvolveu legitimamente a propria actividade. Se
    outrem quizer colher os fructos ou substituir-se ao primeiro occupador
    do campo agricultado exorbitará da esphera legitima da propria
    actividade, e deixará de cumprir o dever de respeitar a livre acção
    alheia. N'este exemplo se resumem e symbolisam as infinitas relações
    civis que a sociedade mantém e que correspondem ás idéas de egualdade.
    As instituições que asseguram o livre movimento do individuo dentro da
    esphera da propria acção, sejam quaes forem, são instituições de
    liberdade, porque mantém a egualdade civil.

    Mas a egualdade civil importa a desegualdade social. Outro exemplo
    tornará tambem evidente esta doutrina. Se em campina illimitada e
    fertil, mas sem dono e inculta, dous individuos occuparam dous tractos
    de terra diversos, e um d'elles dotado de maiores forças physicas, de
    melhores instrumentos, de maior energia e actividade, assignalou mais
    extensa área aos proprios esforços e accumulou maior somma de trabalho
    intelligente, e por consequencia maior somma de productos, nem por isso
    o menos forte e menos habil pode queixar-se de que elle penetrou na sua
    esphera de legitima actividade. Se pretendesse que a sociedade
    repartisse com elle uma parte dos valores creados pelo seu vizinho,
    pretenderia uma injustiça–a quebra da egualdade civil. Por outro lado,
    se o mais robusto e intelligente, pretextando a incapacidade relativa,
    physica e moral, do menos energico e menos habil, pretendesse
    apoderar-se da terra e dos instrumentos do pequeno cultivador, a
    sociedade seria injusta se lhe désse razão; se tolerasse que elle
    estendesse a esphera da propria actividade até penetrar na esphera da
    acção alheia: toleraria a quebra da egualdade civil, se não mantivesse
    cada qual na orbita que lhe fôra assignalada pelo supremo direito da
    natureza.

    Se a manutenção, porém, do livre exercicio da actividade dos vizinhos
    era n'este caso equivalente á manutenção da egualdade e da justiça, as
    consequencias que derivassem d'esse facto, e só d'elle, seriam tambem
    incontroversamente legitimas. Ora uma d'ellas, a mais importante, havia
    de ser forçosamente a desegualdade social; a desegualdade d'aquellas
    relações cujas normas se estabelecem, em parte, pelas regras a que
    chamamos direito publico, direito que a razão e a historia nos
    apresentam como mais cambiante, menos conforme no espaço, e menos
    permanente no tempo, do que as regras das relações civis. A desegualdade
    social dos dois vizinhos manifestar-se-ia em muitos factos
    impreteriveis. O que por excesso de energia e de trabalho tivesse obtido
    melhores, mais numerosos, e mais variados productos, gosaria mais, e
    necessariamente, pela intelligencia e pelos recursos materiaes,
    exerceria maior influxo no animo dos outros homens. A sua generosidade
    fora mais ampla, a sua hospitalidade mais opulenta, o seu tracto mais
    aprazivel, a sua opinião mais seguida: isto é, elle seria socialmente um
    algarismo em relação ao qual o seu vizinho representaria outro bem
    inferior. E todavia a desegualdade nascida da egualdade não offenderia o
    direito, não seria senão justiça.

    O arroteador do grande predio é o symbolo da aristocracia: como emanação
    do direito fundamental que virtualmente a gera é que esta se absolve e
    legitíma. Mas d'ahi nasce o corollario de que ella é essencialmente
    individual, personalissima. A desegualdade não é de gerações, de
    linhagens predestinadas: é de individuos. Por isso as suas manifestações
    collectivas, para serem naturaes e logicas, devem ter ao mesmo tempo o
    sello da individualidade. A aristocracia, como entidade real, é uma
    concreção necessaria, mas artificial; é a generalisação da idéa das
    desegualdades individuaes; é a incorporação das maximas forças sociaes;
    é o reconhecimento e a organisação de um facto impreterivel.

    Na verdade, superioridade social herdada e derivando do direito natural
    da familia pode em alguns casos ser legitima; mas é accidental, e vem
    entrar em ultima analyse na regra da superioridade individual. Se o pae,
    que era um membro da aristocracia pela sua riqueza, a legar ao filho,
    este o será como seu pae, independentemente de todas as instituições
    positivas, do mesmo modo que deixará de o ser na realidade desde o dia
    em que perder essa herança, sejam quaes forem as leis que pretendam
    manter-lhe um caracter social que lhe desappareceu da fronte.

    A fórma por que adquiriu os valores, que o convertem em uma força de
    excepção, nada importa, uma vez que seja legitima. É indifferente que
    lh'os désse o trabalho, a intelligencia ou o berço. O importante, o
    indispensavel é que elle actualmente os possua: que exista um facto que
    a força bruta pode destruir, mas que a razão publica não pode deixar de
    reconhecer.

    O influxo moral de um nome illustre, herdado de antepassados, é tambem
    uma força social. Esse influxo constitue a nobreza, a qual, não sendo em
    rigor um facto indestructivel, é todavia uma realidade. A democracia,
    quando o condemna ou o nega, engana-se. O valor da _aristocracia de
    sangue_ assenta n'uma ordem de idéas extranha ao direito; procede do
    sentimento, digamos assim, poetico das sociedades, porque todas as
    sociedades tem a sua poesia. A esta luz nada mais legitimo do que a
    fidalguia; porque o senso esthetico é uma condição natural das
    sociedades civilisadas, e o orgulho pelas tradições gloriosas do passado
    constitue uma parte da sua vida moral. A nobreza de linhagem é um
    monumento do passado. Os que pretendem expungil-a da lista das
    manifestações da vida social devem por maioria de razão mandar destruir
    os tumulos dos heroes e dos sabios, e dispersar-lhes as cinzas ao vento,
    quebrar-lhes os bustos e as estatuas, arrazar os templos, os obeliscos,
    os monumentos, sejam quaes forem, que ligam as glorias do passado ao
    presente pelas recordações. Aquelle que affirma ser coisa absolutamente
    van a herança de um grande nome, não chame vandalo ao que derriba a
    quadrella da muralha ou a torre do castello antigo para calçar as ruas.
    Este não faz mais do que elle: nega a significação dos monumentos; nega
    tudo aquillo que só a poesia nacional sanctifica. N'este systema a unica
    maneira de ser rigorosamente logico é ir até aonde foi a revolução
    franceza de 1793. É necessario que ao lado das pedras, que desabam,
    rolem pelo chão as cabeças.

    O facto social, em que se estriba a aristocracia de linhagem, está,
    porém, ligado a uma condição que forçadamente dá a esta o mesmo caracter
    de personalidade, que é indelevel nas outras especies de aristocracia.
    Essa condição deriva do principio de que o poetico é inseparavel do
    moral, o bello do bom. Ora o que se eleva acima dos outros, porque
    herdou um nome venerado pela opinião, está adstricto a respeitar a
    moralidade dos seus actos para não perder essa _força_ herdada, que não
    póde existir sem a sua condição philosophica. Esta doutrina é confirmada
    plenamente pela observação practica. Os netos degenerados dos homens
    grandes, se os depojardes de todas as distincções facticias que servem
    de encobrir o vicio e a incapacidade, invocarão debalde o nome de seus
    avós como uma _desegualdade_, uma _força_, que os eleva _socialmente_
    acima d'aquelles que _civilmente_ são seus iguaes. O sentimento moral,
    que exteriormente se traduzia em consideração e respeito, desappareceu
    ao passo que a lei esthetica se annullou. Assim a nobreza hereditaria,
    dependendo inteiramente da acção do individuo, entra na lei geral da
    aristocracia–a personalidade.

    O erro dos escriptores democraticos, que entendem ser possivel a
    destruição _effectiva_ de uma classe aristocratica, procede de
    confundirem a fidalguia hereditaria com a do corpo aristocratico; de
    tomarem a especie pelo genero. É possivel que a especie chegue a
    desapparecer temporariamente, ou por degeneração moral dos individuos
    que representam as velhas linhagens, ou pela extincção d'estas; mas o
    tempo sanctificará as novas illustrações que se alevantam, e em quanto
    as nações tiverem o sentimento do bom e do bello, isto é, em quanto
    tiverem uma condição sem a qual não podem existir, a progenie d'esses
    homens summos herdará a força moral de seus nomes, e só a perderá
    destruindo-a pela _villania_ pessoal.

    Mas extincta ou existente, brilhante ou obumbrada, a fidalguia não é uma
    formula essencial da aristocracia. Para ser revalidado o protesto da
    desegualdade social em todas as gerações, não é necessaria a assignatura
    das castas; não é preciso que esse protesto seja firmado com sellos
    blasonados. O genero fica, embora a especie desappareça.

    Reflectiram bem os que dizem que as sociedades caminham á completa
    egualdade democratica, porque se facilita o caminho das mais elevadas
    situações, das mais poderosas influencias, a todas as vontades
    energicas, a todos os talentos fecundos, e porque, do fastigio das
    grandezas e do poderio, familias e individuos caem facilmente na
    obscuridade e na impotencia social? Esta observação, que muitos julgam
    profunda, não passa de uma trivialidade sem alcance. A questão é se esse
    fastigio, esse poderio, essas influencias, essas manifestações, em
    summa, da desegualdade humana desappareceram; se podem desapparecer ou
    se ha sempre, ou não ha, sujeitos em quem ellas se personalisem; se,
    collocados em situação identica e tendo interesses communs, elles
    constituem ou não uma entidade moral juxtaposta ou sobreposta á
    democracia. Eis a questão. Que importa se a preeminencia do individuo se
    explica por um testamento, por um berço, pelo genio, pelo trabalho, ou
    por um acaso feliz? Seja qual for a origem d'essa preeminencia, d'essa
    força, a sociedade pode negal-a, combatel-a, annullal-a temporariamente;
    o que não pode é impedir a sua reproducção. A desegualdade é a lei: a
    aristocracia a sua manifestação indestructivel.

    No mosaismo e no brahmismo o sacerdocio foi e é a herança de tribus ou
    de castas privilegiadas; no christianismo, porém, o sacerdocio acceitou
    sempre homens de todas as condições e hierarchias. Desde a dignidade do
    metropolita até ás humildes funcções do ostiario, que situação houve ou
    ha na igreja, a que igualmente não houvessem ou não hajam de ser
    chamados o nobre, o burguez, o filho da plebe? E todavia o clero foi por
    seculos a mais poderosa aristocracia conhecida. As tradições de
    influencia e predominio do corpo ecclesiastico perderam-se, alteraram-se
    acaso, porque não era a hereditariedade do berço que as mantinha? Não
    era e não é o corpo do clero a negação da familia, e por consequencia da
    hereditariedade? Houve nunca, especialmente durante a idade media, uma
    classe social mais compacta, mais distincta das outras, com interesses
    mais exclusivos, com uma acção collectiva mais irresistivel e incessante
    na vida das nações? O clero que combatia nos campos, nas conspirações, e
    nos parlamentos contra o poder central; que não raro o fazia ceder, e
    que o esmagava algumas vezes, valia bem mais do que essa fidalguia
    hereditaria dos ultimos seculos, que vivia das migalhas distribuidas
    pela côroa, e que, sem iniciativa nem vigor, comprava com genuflexões
    nos paços do rei a altanaria que ostentava nas ruas e praças do povo.

    Parece-nos evidente que a aristocracia, ao passo que é indestructivel
    como elemento social, é no concreto e em relação aos individuos
    essencialmente pessoal e por consequencia movel. Assim, na sua
    manifestação politica, não pode perder esse caracter que lhe é
    essencial.

    Pouco tardará a epocha em que a razão triumphe das preoccupações, a
    realidade de hoje das tradições de uma sociedade que deixou de existir.
    O pariato deve tornar-se em breve simplesmente vitalicio e talvez
    amissivel. Dado e não concedido que a existencia dos vinculos fosse uma
    condição impreterivel do pariato hereditario, a abolição d'elles não
    faria senão apressar n'esta parte convenientemente a reforma das
    instituições politicas.

    VI

    *Os vinculos garantia de liberdade*

    Demonstrado, como parece, que nem na abrogação do direito vincular se
    offende principio algum de justiça absoluta, nem a manifestação politica
    das desegualdades sociaes está ligada á existencia dos vinculos, antes
    de entrar nas difficeis questões economicas que este debate suscita,
    passemos a examinar o que ha mais grave nas objecções politicas que se
    offerecem contra a abolição d'esta fórma especial de propriedade. As
    considerações sobre as resistencias, que uma aristocracia territorial
    permanente e hereditaria pode oppôr ás demasias de um poder central
    excessivamente forte, parecem-nos fundadas, e nunca se poderão
    desprezar, em quanto o nosso systema administrativo fôr, como é, uma
    copia, mais ou menos mal delineada, do systema administrativo da França.
    Na verdade hoje a unica resistencia séria, que os abusos do executivo e
    dos seus delegados podem encontrar em certas provincias, é a d'essa
    especie de aristocracia rural, que vulgarmente se designa pelo nome de
    _cavalheiros_. A illustração e a riqueza, não excessiva mas solida,
    consistindo geralmente em bens territoriaes, pertencem principalmente a
    esta classe nos districtos do norte do reino, onde predomina quasi
    exclusivamente a pequena propriedade. Sem a fundação de municipios assaz
    vastos e poderosos, mas organisados de modo que a vastidão do territorio
    não faça com que a administração se difficulte aos administrados; sem as
    magistraturas municipaes recuperarem a força primitiva que
    successivamente perderam; sem um novo methodo de renovação d'essas
    magistraturas, que mantenha na administração dos concelhos a sequencia e
    unidade de systema e de idéas; sem se lhes restituirem as funcções que
    lhes são proprias e que a centralisação lhes traz alheadas; sem, em
    summa, restaurar a vida municipal, de que resta apenas um vão simulacro;
    o correctivo contra os abusos do poder central só pode consistir nas
    resistencias legaes e pacificas dos individuos que, pelo respeito
    tradicional do povo ao nome da sua familia, pelos recursos materiaes de
    que dispõem, pela maior cultura intellectual, pelos instinctos generosos
    que lhes inspira uma educação mais elevada, constituem um elemento
    poderoso de equilibrio. Quem tem residido nas provincias do norte ou por
    ellas viajado sabe que naquella classe é que principalmente se dão essas
    condições de superioridade individual, que suppre até certo ponto nas
    relações politicas a falta ou o incompleto das instituições locaes.

    É preciso notar aqui um facto, que ao diante havemos de ponderar mais
    detidamente. Os vinculos nas provincias do norte não tem em geral os
    mesmos caracteres que nas provincias do sul: aproximam-se mais, nas suas
    condições economicas, dos bens emphyteuticos, e não é raro achar
    individuos que se denominam morgados e que não passam de possuidores de
    prazos. Tão facil é neste ponto a confusão das cousas pelos accidentes
    externos. Em geral, o vinculo dos districtos do norte ou é instituido em
    uma ou mais propriedades de mediocre grandeza, ou em propriedades e em
    direitos dominicaes. Mas o que em todo o caso se pode affirmar é que as
    grandes fortunas vinculares são raras. Os poucos inconvenientes
    economicos dos vinculos mediocres havemos de avalial-os n'outra parte.
    Para o intuito presente o que importa é attender ás consequencias
    politicas da sua abolição. Ou mediocres em si, ou compostos de diversas
    e pouco vastas propriedades, e de censos e pensões senhoriaes, entrando
    esses vinculos no direito commum, as leis da successão e os accidentes
    da vida, que accumulam ou dissolvem mais rapidamente as pequenas do que
    as grandes fortunas, fariam desapparecer em breve a aristocracia
    provincial, e por conseguinte um poderoso elemento de resistencia ás
    demasias da auctoridade central, e uma importante garantia de liberdade.

    Mas, dir-se-ha, assim como a desvinculação, o livre movimento da
    propriedade, produziria a dissolução das fortunas e das familias
    patricias, tambem esse movimento elevaria, como já eleva, outras
    familias, crearia, como já cria, outras fortunas, e uma especie de
    aristocracia movel e pessoal substituiria a hereditaria como elemento de
    resistencia e equilibrio. Em these a resposta é concludente: o que não
    tem é applicação á hypothese.

    'Nesta, o argumento a favor dos vinculos estriba-se em factos
    transitorios e especiaes, factos que só o tempo e os progressos sempre
    lentos da civilisação moral e material podem destruir. De certo os
    vinculos não são de um modo absoluto obstaculo ás demasias do poder
    nesta especie de organisação plethorica, de apoplexia administrativa
    eminente em que vivemos. São-no relativamente. A restauração da vida
    municipal, a descentralisação bem caracterisada; seria o remedio natural
    e completo contra os excessos do executivo. Com elle, não só a
    aristocracia permanente e hereditaria, mas tambem a individual e movel
    seriam inuteis como obstaculos ou instrumentos de equilibrio. Mas
    tracta-se do presente, e no presente as condições da nossa sociedade dão
    todo o valor ás considerações politicas em que os defensores dos
    vinculos estribam a manutenção delles.

    A riqueza maior ou menor não basta para que o cidadão saiba, queira e
    possa defender o seu direito ou erguer a voz a favor do opprimido. É
    necessario que a educação o habituasse a uma nobre altivez ou á
    independencia moderada mas firme do homem livre, e que a cultura do
    intendimento o habilitasse para discernir e apreciar os proprios
    direitos e deveres, e os direitos e deveres dos agentes do poder. Ora
    esses dotes, nos districtos da Beira, Traz-os-Montes e Minho, dão-se
    principalmente entre os cavalheiros, que, alem das idéas que lhes
    inculcam na educação domestica, frequentam de ordinario os estudos
    juridicos, e que, ainda abandonando a cultura das letras, não perdem
    nunca, digamos assim, o verniz litterario e as idéas geraes que
    adquiriram na universidade; porque a universidade, com todos os seus
    defeitos, ainda é o foco d'onde irradia a luz da civilisação
    intellectual para a maxima porção do paiz. Os advogados, os
    facultativos, um certo numero de ecclesiasticos, e os administradores de
    vinculos, constituem quasi exclusivamente a classe illustrada das
    provincias sertanejas. Na verdade, o filho de um ou de outro lavrador
    mais abastado, de um ou de outro industrial ou commerciante, recebe a
    educação universitaria, e despido de ambições honra-se de seguir a
    condição paterna; mas o geral d'estes busca na carreira das letras uma
    situação mais elevada ou pelo fôro ou pela medicina ou pelas funcções
    publicas. Os possuidores de direitos territoriaes ou de predios assaz
    consideraveis para não serem obrigados a cultival-os pelas suas proprias
    mãos, e para não procurarem um supprimento de renda pelo exercicio de
    uma profissão scientifica, são quasi unicamente os administradores dos
    vinculos. 'Nelles reside, por tanto, e residirá por muito tempo a
    principal força de resistencia, a quasi unica barreira que encontra uma
    centralisação excessiva.

    Nos districtos sertanejos, nesses tractos do paiz onde vive a maxima
    parte da sua população, só muito excepcionalmente apparecem os grandes
    capitaes monetarios, as grandes industrias, o grande commercio, e, como
    já dissemos, nos do norte até é rara a vasta propriedade. Não ha, por
    consequencia, ahi as poderosas influencias pessoaes que resultam de
    factos puramente economicos. As grandes influencias só podem proceder de
    se darem no mesmo individuo condições de diversa ordem–a superioridade
    da intelligencia, a superioridade da fortuna, a superioridade de um nome
    illustre que o povo está costumado a venerar, e a elevação de animo
    resultado da educação domestica, elevação de que é consectario o valor
    civil indispensavel para defender a liberdade e os outros direitos, ou
    proprios ou dos pequenos e humildes. Com a ruina das familias nobres
    essas influencias salutares desapparecerão quasi completamente, e o
    imperio das portarias e das circulares não achará limites.

    O celebre dr. Johnson, fallando das substituições inglezas, dizia que
    tinham a vantagem de não produzirem senão um tolo em cada familia. O dr.
    Johnson fazia um epigramma de mau gosto, porque era falso. A historia
    diplomatica, militar, naval, administrativa e parlamentar da Inglaterra
    prova que os primogenitos da aristocracia ingleza podem ser tanto homens
    grandes como os segundo-genitos, ou como os filhos da raça puramente
    saxonia. Entre nós o epigramma do dr. Johnson é uma preoccupação
    popular, preoccupação que invade até espiritos que tinham obrigação de
    serem superiores a ella. A idéa da incapacidade dos administradores de
    vinculos é tão verdadeira como a da ignorancia e imbecilidade mental dos
    cistercienses, que não eram nem mais ignorantes nem mais imbecis do que
    outros quaesquer frades. Os que tem visitado os districtos interiores do
    reino sabem por experiencia que é no seio das familias aristocraticas
    onde se encontram mais vestigios do que o antigo caracter portuguez
    tinha generoso, elevado e bom, e onde se acha mais illustração, embora
    misturada com os preconceitos nobiliarios. É nessa categoria que
    predomina uma benevolencia efficaz e real para com as classes
    inferiores, benevolencia muito mais rara entre a duvidosa burguezia
    saída d'essas mesmas classes.

    Esta burguezia das provincias, considerada em geral, está longe por
    emquanto de ser uma forte barreira aos excessos da auctoridade central.
    Os seus destinos politicos tem de ser grandes quando existirem no paiz
    instituições congenitas com a indole das tradições primitivas d'elle;
    quando nos cançarmos de traduzir _ad usum_ administração franceza em
    portuguez bastardo. Por emquanto faltam-lhe os principaes elementos dos
    que constituem a força da opinião e o espirito publico; falta-lhe a
    cultura intellectual, que nos habilita para irmos até ás raias do nosso
    direito sem as ultrapassar; falta-lhe o orgulho da independencia, que
    está principalmente na consciencia e no caracter. Tudo isto tem
    excepções, e excepções notaveis; mas fallamos da regra geral. A
    burguezia mais ou menos opulenta das provincias, e sobretudo dos
    districtos do centro e do norte, forma-se pela pequena industria, pelo
    commercio de retalho, e pelos mediocres grangeios agricolas. Fóra das
    duas cidades mais populosas, as grandes fabricas, as vastas emprezas
    commerciaes, em summa, as applicações de avultados capitaes e a
    existencia d'estes na mão de um individuo, são cousas raras. Mas é acaso
    de esperar d'aquelle, que começou obscura e quasi pobremente a edificar
    uma fortuna modesta pelo trabalho, pela parcimonia, pelos habitos da
    obediencia passiva, quasi da subserviencia, sem educação politica, sem
    educação litteraria, sem idéas geraes, e que depois de vinte ou trinta
    annos de esforços, de prudencia, de abnegação, de sacrificios moraes e
    materiaes, creou uma riqueza, que aliás poderia servir-lhe de esteio, e
    inspirar audacia para manter a dignidade e independencia de cidadão de
    um paiz livre; é de esperar, dizemos, de tal homem que lhe chegue tão
    tarde o sentimento e a convicção profunda do seu direito e o valor
    politico para o fazer respeitar do poder? Que o leitor busque a resposta
    na sua razão, e, ainda melhor, na sua experiencia.

    Para nós é grave, pois, a questão da existencia ou não existencia de uma
    especie de aristocracia provinciana, que tenha, em geral, por titulo da
    sua preponderancia o nome, a educação, e a fortuna, em quanto o
    municipio fôr entre nós pouco mais de que um vão nome, ou de que uma
    tapeçaria das salas administrativas. É grave essa questão, porque são
    ainda graves, ao menos para nós, as questões da liberdade e da dignidade
    humanas. Quando as resistencias d'essa aristocracia aos excessos a que
    tende naturalmente uma centralisação exaggerada fossem demasiado
    egoistas, e nunca servissem de egide ás classes democraticas
    desorganisadas e opprimidas, quereriamos mantel-a como protesto, como
    laço entre as tradições do passado e a organisação do futuro. Se a
    historia serve para alguma cousa, lembremo-nos de que o absolutismo se
    erguia em Portugal á altura de uma instituição quando a um chefe da
    aristocracia do paiz rolava a cabeça pelo cadafalso, e outro cahia
    apunhalado aos pés d'aquelle monarcha, tão caro a uma democracia
    inintelligente, que substituiu a vontade real, como principio politico,
    ao rude esboço de monarchia representativa com que a sociedade
    portugueza vivera e progredira durante mais de tres seculos. Diminuir as
    resistencias individuaes ao absolutismo do executivo, em quanto se não
    criam resistencias collectivas, é um erro profundo. Direitos, que não
    tem força para se traduzirem em factos, são, por nos servirmos de uma
    phrase de Shakespeare, palavras, palavras e mais palavras. São isto, e
    nada mais.

    VII

    *Difficuldades moraes e economicas na abolição dos vinculos*

    Se considerações de ordem politica parece aconselharem a manutenção
    temporaria dos pequenos mas numerosos vinculos das provincias do norte,
    na questão practica da abolição da propriedade vincular suscitam-se
    dificuldades de ordem economica e de ordem moral, que tendem
    indirectamente a manter uma instituição, a qual, absolutamente
    considerada, não tem motivo nenhum racional de existencia. A apreciação
    d'essas difficuldades deve influir nas resoluções que se hajam de tomar
    sobre tão grave assumpto.

    Supponhamos que abolimos os vinculos; que fazemos entrar essa parte de
    propriedade territorial no direito commum; que lançamos esse capital
    immobilisado no vortice das evoluções economicas, fazendo-o mover
    livremente por toda a esphera da sua acção. Foi, em these, um
    melhoramento social importante. Falta o modo practico de conseguir esses
    resultados salutares.

    A lei proclamou que o principio vincular pereceu; que o direito commum
    rege toda a propriedade. Mas não basta proclamar a regra geral: é
    preciso ver o modo de a applicar aos factos.

    Quaes são estes factos?

    Até agora havia certa especie de propriedade, em que uma porção de
    dominio pertencia não sabemos a quem (porque o considerar como
    co-proprietarios os _successores_, entidades contingentes, não passa de
    uma subtileza juridica), e outra porção d'esse dominio, que se confunde
    quasi com o usofructo, pertencia a um individuo chamado administrador de
    morgado. É esta fórmula da propriedade a que deixou de existir.

    O administrador do morgado passou a ser proprietario d'aquillo de que
    era pouco mais que usufructuario: pode hypothecar, doar, vender,
    emprazar, testar, como outro qualquer possuidor de bens allodiaes. Este
    facto, porém, deve forçosamente produzir consequencias juridicas e
    economicas.

    A primeira é para o Estado. O Estado é sempre, ao menos potencialmente,
    um dos successores, mas successor que existe já, que não é uma entidade
    contingente. Extincta a linha chamada pelo instituidor, o herdeiro
    definitivo é o Estado, que não morre, ao passo que as linhas
    successorias vem mais tarde ou mais cedo a extinguir-se. Convertendo o
    vinculo em bens livres, a sociedade despojou-se de um direito em
    beneficio de um homem que não tem motivo nenhum especial para
    beneficiar.

    Os vinculos tem encargos pios, que, ou pela propria instituição ou por
    effeito de providencias legislativas, revertem muitas vezes em beneficio
    de instituições, cuja existencia as doutrinas economicas não podem
    condemnar. Seja qual for a resolução que se tome a este respeito
    abolindo-se os vinculos, ou a propriedade que se quiz fazer allodial
    ficará forçadamente censitica, ou serão espoliados os institutos de
    caridade.

    Embora os jurisconsultos considerem ou não os bens vinculados como
    hypotheca dos alimentos dos irmãos do administrador, o que é certo
    economicamente é que esses alimentos constituem uma renda, e que essa
    renda é representada necessariamente por um capital incluido na somma
    dos bens vinculados, porque as subtilezas juridicas não alteram a
    essencia das cousas. Desvinculados aquelles bens, ficarão as pensões dos
    segundo-genitos consideradas como onus e seguindo os bens atravez de
    todas as phases de venda, emphyteuticação e hypotheca? Qual será o valor
    de troca dos predios gravados por pensões cuja duração é indeterminada?
    Serão os segundo-genitos espoliados dos alimentos para tornar a
    propriedade inteiramente livre?

    Á luz economica, a utilidade real do administrador era poder, em quanto
    vivo, consummir a renda liquida do vinculo, excepto a parte destinada
    aos encargos. Rigorosamente, ao menos em grande numero de hypotheses, as
    pensões dos segundo-genitos representando uma renda e correspondendo a
    um capital estavam no caso da renda fruida pelo administrador. Porque,
    pois, não entregar aos segundo-genitos como allodiaes porções de bens ao
    menos equivalentes ao capital das respectivas pensões? Porque ha-de a
    lei favorecer desegualmente o mais velho convertendo-o só a elle em
    proprietario? Não repugna esse facto a um dos motivos que se invocam
    para a abolição–a desegualdade de direitos entre os irmãos? Desde que a
    lei reconhece que essa desegualdade é uma injustiça pode reservar a
    reparação d'ella para a geração seguinte?

    Mas juncto a este direito ha outro direito antinomico, inconciliavel com
    elle. É o do immediato successor. Salvos os raros casos da lenta
    devolução ao Estado, o vinculo sempre tem um successor immediato, porque
    a successão vai até o millesimo gráu de parentesco. O nascimento deu a
    esse individuo, quem quer que seja, o direito de succeder integralmente
    no morgado, embora onerado com alimentos. Desde que a obrigação de os
    solver cessar, por morte dos pensionistas ou por outra qualquer
    circumstancia, a fruição d'essa parte da renda liquida será sua. Se,
    reduzidos os bens vinculados a allodiaes, uma parte d'esses bens tiver
    passado aos irmãos do antecedente administrador, elle será espoliado do
    seu direito n'essa parte pela lei.

    Estatuindo-se, porém, que a applicação d'esta sómente se verificasse por
    morte do administrador actual, evitar-se-hiam esses inconvenientes? Não
    por certo. O direito do successor existe já durante a vida do
    administrador. Como pois serão partiveis os bens entre elle e seus
    irmãos sem offensa grave do anterior direito, sem uma espoliação? Na
    verdade, em relação á sua legitima elle passa a possuir com pleno
    dominio; mas servir-lhe-ha isso de compensação ao que perde? Estribado
    n'um direito que as leis lhe garantiam, achou-se collocado n'uma
    situação social accorde com os seus futuros recursos. Educação, habitos,
    profissão, relações de familia, tudo foi calculado para elle ou por elle
    á luz d'esse direito. Sem culpa sua, a sociedade retira-lhe, digamos
    assim, a base da sua vida civil. Será isto justo? A lei que proclamou
    como iniqua a indivisibilidade dos vinculos, e que todavia a manteve em
    beneneficio do administrador, no momento em que a morte d'este chama o
    successor a uma situação perfeitamente identica cessa de tolerar a
    iniquidade que tolerou até ahi.

    Removendo o facto da abolição para a epocha da morte do immediato
    successor, uma parte d'estes inconvenientes da ordem moral poderiam
    evitar-se; mas nem se evitariam todos, nem a abrogação do principio
    vincular teria grande importancia. Apenas indicámos aqui uma parte das
    difficuldades que cumpria resolver, conforme á consciencia e á justiça,
    em relação á familia. Muitas se apresentariam ainda quando a
    transformação do direito e do facto houvessem de verificar-se n'uma
    epocha mais remota. Legislar, porém, sobre factos economicos, que só
    poderiam realizar-se depois de quarenta ou cincoenta annos, parece-nos
    absurdo. Suppondo a media da vida humana de 30 annos, e portanto a media
    da vida que resta aos administradores actuaes de 15, pode tambem
    calcular-se a media da extincção de todos os administradores e
    immediatos successores em 45 annos. O que é incalculavel é o progresso
    que terão feito n'este periodo as idéas politicas e economicas, e a
    relação em que estaria uma lei actual de desvinculação com essas idéas e
    com o estado da sociedade: podendo-se affirmar, sem receio de erro, que
    no fim de tão largo periodo uma tal lei seria obsoleta antes de ser
    applicada.

    Depois, a solução da questão dos vinculos é uma instante necessidade.
    Este modo de ser da propriedade, conservado sem modificação, embaraça
    profundamente o progresso economico, ao menos n'uma parte do reino.
    Veremos adiante como a nossa situação exige que se pense attentamente na
    maneira por que a população está distribuida pela superficie do paiz, e
    o movimento que cumpre dar á translação e divisão da propriedade
    rustica. Os vinculos são um grande obstaculo á satisfação d'essa
    necessidade, e o unico modo legal de desvincular a propriedade–a
    subrogação–não corresponde ás exigencias da situação presente, antes a
    contraría como teremos occasião de observar.

    Mas a jurisprudencia que regula as subrogações é sobretudo immoral e
    antieconomica. A subrogacão faz-se, em regra, por inscripcões ou
    apolices de divida fundada, e o que se exige n'esse contracto é o
    equivalente não do capital mas da renda. A renda media da propriedade
    territorial não excede a tres por cento, em quanto a das inscripções é,
    ainda hoje depois de reduzido o juro, de seis a sete por cento, visto
    que o valor nominal das apolices é mais que duplo do seu valor de
    mercado. Assim 47$000 réis em dinheiro, convertidos n'uma apolice de cem
    mil réis, crearão uma renda de 3$000 réis; em quanto, convertidos em
    propriedade territorial, apenas darão 1$410 reis. Trocado por
    inscripções o predio, resta portanto um capital de mais de metade do
    valor d'esse predio, de que o administrador de vinculo parece poder
    livremente dispor. Como, porém, taes actos para serem válidos necessitam
    da acquiescencia do successor do vinculo, cumpre repartir com elle: e se
    o successor é menor, recorre-se não raro á corrupção para obter o
    consentimento dos seus tutores e curadores; porque a subrogação por
    inscripções é sempre para elle um mal. O remanescente divide-se de
    ordinario entre o novo proprietario e o administrador; porque, em regra,
    semelhantes transacções são feitas debaixo da pressão de necessidades
    urgentes: o luxo, o jogo, as devassidões, a miseria são as mais das
    vezes os conselheiros d'estes deploraveis negocios, e a situação mais ou
    menos apurada do possuidor do vinculo determina as deducções mais ou
    menos fortes a favor do capitalista. Raras vezes acontece reverter
    integralmente o agio da transacção em beneficio do primeiro.

    A lei em que se estriba esta especie de contractos não pertence á nossa
    epocha. É o alvará de 13 de maio 1797, que permitte a subrogação por
    apolices. Semelhante meio de aggredir as instituições vinculares não é
    uma transacção entre o passado e o futuro, porque estas podem e devem
    fazer-se quando grandes e radicados interesses se oppõem a uteis
    innovações: é apenas uma astucia indigna de figurar na jurisprudencia de
    nações livres. Se entendeis que não existe outro meio de libertar a
    terra vinculada se não destruindo absolutamente os vinculos, matae-os,
    mas não os _assassineis_. Os expedientes da timidez são os peiores de
    todos. N'este meio capcioso não ha, porém, só isso: ha outros
    inconvenientes não menos graves. É o primeiro o jogo de bolsa, a
    agiotagem dos fundos publicos feita pela lei; é a creação de um elemento
    de falso credito. Milhares de contos de inscripções, procurados
    successivamente no mercado, e procurados para se amortisarem, para não
    voltarem a elle, tem contribuido e contribuem de certo para a elevação
    do preço dos titulos de divida fundada. Mas essa elevação, que em regra
    é um indicio de credito, deixa de o ser n'este caso, porque a procura
    significa, não a confiança, mas a necessidade creada pela lei. Na compra
    pelo capitalista e na venda immediata que este faz ao administrador de
    vinculo a troco da propriedade territorial, ao primeiro não importa o
    que lhe custam os titulos que compra, nem a sua futura depreciação, em
    quanto o segundo, indifferente até certo ponto a isso, visto que só lhe
    interessa a manutenção do juro e a regularidade do pagamento d'este,
    considera como uma vantagem o trocar a propriedade por titulos o mais
    depreciados que for possivel, porque maior será o seu lucro individual
    n'aquella operação, operação que desmente as leis do mercado, por isso
    que é essencialmente viciosa.

    A procura dos fundos publicos, resultado de especulações livres,
    podendo, em resultado de outras especulações, converter-se brevemente em
    offerta, não incita os governos a abusarem do credito; ao passo que a
    procura das apolices para subrogações é um incitamento para novas
    emissões, e portanto um meio de facilitar o augmento da divida do
    Estado. Averbadas nos titulos dos vinculos, essas inscripções
    immobilisaram-se, e o governo pode ir substituindo-as gradualmente com
    diversos pretextos, sem que o mercado se resinta, ao menos de um modo
    facil de appreciar, do augmento da divida publica. Por ventura esse
    unico pensamento explica o alvará de 1797.

    Não são os administradores de moderados vinculos, que os cultivam por si
    proprios em todo ou em parte, e a quem o modico rendimento d'elles
    obriga a viver longe dos grandes centros da população e do luxo, os que
    de ordinario recorrem a estas transacções deploraveis. São, por via de
    regra, os donos de grandes casas, os cortesãos, os titulares, os homens
    para quem os habitos de uma vida dissipada ou luxuaria se converteram em
    segunda natureza, os opulentos possuidores dos vastos predios do sul,
    incapazes não raro de se dedicarem a uma administração complicada e
    trabalhosa, que mal se accommoda com a sua educação; são de ordinario
    estes, quando a desordem dos seus negocios os tem collocado em
    difficuldades insoluveis, que se precipitam na voragem das subrogações.
    Não faltam exemplos de ser o lavrador abastado, o proprio rendeiro do
    predio destinado á subrogação, quem se aproveita das circumstancias para
    se apoderar do solo onde exerce a sua industria. Succede isto quando
    elle casualmente vem, n'uma conjunctura de angustia, tentar com o cumulo
    das suas lentas economias a miseria ostentosa do administrador
    arruinado. 'Nesta hypothese o mal das subrogações é menor. Na verdade
    aquelle capital, accumulado por privações, por honestos e longos
    esforços, seria mais utilmente empregado em augmentar as forças
    productivas do solo; mas ao menos o industrial agricola consolida a
    propriedade com o trabalho, e as novas economias irão d'ahi ávante
    preencher fins mais positivos para a sociedade. É, todavia, commum esta
    hypothese? Não por certo. O desperdicio, o luxo, as noites febris do
    jogo, os affectos de bastidor, as vãs ambições da vaidade, os extravios
    de um sensualismo que a saciedade leva até o delirio; as paixões ruins
    em summa, que arruinam tantas familias das classes mais elevadas, só
    raramente consentem que nos cataclysmos das grandes fortunas vinculares
    aquella hypothese se verifique. É o cabedal monetario do especulador, a
    quem, não sabemos se com justiça, se dá o nome insultuoso de agiota, o
    que vai de ordinario trocar-se pela propriedade territorial. A razão é
    obvia. O capitalista está sempre prompto para empregar dinheiro n'uma
    transacção vantajosa, e elle sabe que o desleixo, a incapacidade, ou os
    vicios dos administradores dos vinculos são campos feracissimos para a
    especulação.

    Mas posto que a abolição completa dos morgados, ainda que fosse em
    virtude de uma lei irreflectida e imprevidente, valesse mais que a
    existencia d'elles com o systema da destruição lenta pelo meio indirecto
    das subrogações, é certo que a abolição traria tambem, em muitos casos,
    ou uma difficuldade insoluvel, ou uma vantagem para os mutuantes de
    capitaes, que não seria menos immoral do que as subrogações, porque
    equivaleria a uma espoliação dos mutuarios. Fallamos do que succederia a
    respeito dos vinculos, cujos administradores contrahiram dividas mais ou
    menos avultadas, ficando hypothecados á divida os rendimentos dos bens
    vinculares durante a vida d'elles, ou d'elles e dos immediatos
    successores, se os ultimos intervieram no contracto com o seu
    assentimento.

    Diz-se que a agiotagem mais infrene preside commummiente a esta especie
    de negocios. Cremos que nisto ha pelo menos exaggeração. De certo que o
    juro de ura emprestimo de tal ordem deve ser avultado; mas pode ser
    avultado sem ser excessivo. Não ha ahi só a renda do capital mutuado: ha
    um juro de risco. É evidente que a restricção legal de passarem livres
    aos successores os bens vinculados pode modificar de mil modos as
    condições do mutuo. Na hypothese de intervir no contracto o immediato
    successor, o risco é menor mas não deixa de ser grandissimo. A garantia
    é dupla, mas egualmente incerta: é a instabilidade de duas vidas em
    logar da de uma. Depois, a idade mais ou menos avançada do administrador
    do vinculo, ou d'este e do successor quando o successor intervem, os
    seus habitos de maior ou menor dissipação, a existencia de outras
    dividas, a deterioração dos bens vinculados e por consequencia a
    diminuição gradativa do rendimento; esses factos e dezenas de outros
    analogos determinam a maior ou menor elevação do juro em contractos que,
    considerados de um modo absoluto, seriam altamente usurarios, mas que as
    poucas probabilidades do pagamento integral talvez plenamente
    justifiquem.

    Mas como se representa esse juro de risco? Uma lei inepta, impotente
    sempre para impedir a usura, e que, taxando o lucro do capital, não
    discrimina as circumstancias que o devem fazer variar, fixa ao dinheiro
    determinado preço para todas as hypotheses. A necessidade, porém, e o
    capital são astutos: o capitalista e o administrador do morgado sabem
    como se illude a lei. O juro de risco representa-se no capital e no juro
    da parte nominal d'este. Quando se recebe uma somma, o contracto
    refere-se ao duplo; a mais ou menos, conforme o valor do dinheiro, a
    gravidade do risco, a necessidade do mutuario e a consciencia do
    mutuante. A transacção, respeitando na apparencia a lei, ludibria-a na
    essencia: sorte de todas as leis civis, que radicalmente contradizem as
    economicas.

    Qual é, porém, a consequencia d'estes factos, que constituem a historia
    da avultadissima divida que grava os vinculos? É que uma parte d'essa
    divida representa apenas um juro e juro de risco. No contracto que lhe
    deu existencia houve um verdadeiro jogo sobre um calculo de
    probabilidades. O capitalista arriscou-se a perder a somma que realmente
    emprestou, recebendo como premio no caso de amortisação o capital
    nominal, além dos juros legaes; a eventualidade d'esse premio
    equilibrou-se portanto com a possibilidade da não amortisação. Entre as
    vantagens e as desvantagens deu-se a mutua compensação.

    Desvinculae, porém, a propriedade vincular e sujeitae-a ao direito
    commum. Em relação ás dividas que pesam sobre ella violaes um contracto,
    irregular na verdade, mas irregular porque as leis que sanctificavam a
    exempção hereditaria dos vinculos, e as que fixavam o juro do
    emprestimo, o tornavam tal forçadamente. Supponde illicitas, criminosas
    as transacções d'esta especie: considerae, se quizerdes, o mutuante como
    usurario e o mutuario como prodigo. A desvinculação pune este e premeia
    aquelle. A divida nominal, escripta no contracto, é uma; a real é outra.
    O mutuante receberá, porém, ou por execução ou por outro qualquer modo,
    o valor expresso. O que terá desapparecido é a desvantagem do risco.

    A iniquidade é flagrante, e tem-se reconhecido que o é. Como meio de a
    evitar lembram-se varios arbitrios para restringir a acção do credor
    sobre os bens desvinculados. De todos esses arbitrios o mais simples e o
    que parece mais justo e exequivel é o de considerar taes bens como ainda
    vinculados em relação ás dividas contrahidas, limitando-se o direito do
    credor á percepção da renda, durante a vida d'aquelle ou d'aquelles que
    contrahiram o encargo, se n'este periodo não se verificar a amortisacão
    completa. Mas qual será o resultado d'esta nova situação d'aquella
    especie de propriedade? A quasi impossibilidade da alienação. Ninguem
    compraria um predio cuja renda está hypothecada por um periodo
    indeterminado (e a que, portanto, não se pode fixar o valor) senão por
    um preço infimo, que salvasse todas as eventualidades, e que o vendedor
    não acceitaria. A transacção só poderá effeituar-se com o proprio
    credor; mas este, certo de que é impossivel a competencia, ha-de levar
    as suas pretensões até onde chegar a possibilidade de se realisarem as
    vantagens que aliás lhe dá o proprio direito. Assim a transacção tem de
    ser forçosamente lesiva para o vendedor; lesiva a ponto de impedir a
    alienação, ou de se realisar a expoliação que se pretendera evitar.

    A consequencia ordinaria de tal arbitrio seria, pois, a immobilidade dos
    bens ainda depois de desvinculados; ou, por outra, a desvinculação pelo
    que respeita aos grandes morgados, sobre cujos redditos pesam
    avultadissimos encargos e que são os mais numerosos, não alteraria as
    principaes condições da sua existencia actual que justificam a abolição.
    O livre movimento do dominio territorial, a subdivisão da propriedade, o
    desenvolvimento da população e da cultura, o augmento das sizas; tudo
    isso ficaria, em regra, suspenso até á morte dos individuos pessoalmente
    responsaveis pelas dividas. É outra vez o adiamento, que parece
    tornar-se inevitavel desde que, partindo da idéa da abolição absoluta,
    se pretende legislar sobre a propriedade privilegiada, na qual o
    interesse publico exige modificações immediatas.

    VIII

    *Os vinculos considerados em relação á grande e á pequena propriedade, á
    grande e á pequena cultura*

    Antes de debater em relação a Portugal uma questão ventilada com ardor
    na Europa ha mais de um seculo, a da grande e da pequena propriedade,
    consideremol-a successivamente como resolvida em favor de um e de outro
    systema, e indaguemos que influencia possa exercer no predominio de um
    ou de outro a conservação ou a abolição dos vinculos. Vendo-os a esta
    luz, os que defendem a sua manutenção presuppõem a grande propriedade
    como ligada á grande cultura, e a grande cultura como preferivel á
    pequena. Os que sustentam a abolição presuppõem vantajosa a divisão
    indefinita da propriedade, embora acompanhada da pequena cultura, que em
    regra é a consequencia da subdivisão illimitada do solo, e ácerca de
    cujas vantagens variam as opiniões d'aquelles mesmos que mais
    ardentemente desejam a suppressão de todas as instituições tendentes a
    impedir a livre divisão do solo.

    Os que, preferindo os vastos predios e a grande lavoura aos pequenos
    casaes, cuja cultura principalmente se caracterisa pelo trabalho braçal,
    vêem nos vinculos um meio poderoso de manter o systema agricola que
    suppõem mais vantajoso, podem acaso invocar em seu abono os factos?
    Podem invocal-os os que pensam de modo contrario? Comecemos pelos
    exemplos do nosso paiz, que são os primeiros que nos importa estudar.

    Já n'outra parte nos referimos á differença profunda que se dá entre os
    vinculos das provincias septemtrionaes e os das provincias meridionaes
    do reino. Nos districtos do norte a constituição moral dos vinculos é a
    mesma dos vinculos situados nos districtos do sul; mas a sua
    constituição material é diversa. Em geral os vinculos do norte são
    constituidos, em relação á propriedade territorial, n'um maior ou menor
    numero de predios de dimensões taes que a designação de latifundios lhes
    seria inteiramente inapplicavel. São quintas, casaes, bouças, campos;
    nunca ou raramente uma granja, uma herdade analoga áquillo a que damos
    estes nomes nos districtos do sul. O senhorio directo de predios
    emphyteuticos e os censos completam para o administrador do morgado o
    cumulo da renda territorial. Todas as fórmas de exploração agricola se
    manifestam n'aquella multidão de propriedades vinculadas: a cultura
    directa, a parçaria, o arrendamento, o colonato. Discorrei pelo Minho.
    Certos edificios nas villas, nas aldeias, mais grandiosos, ornados de
    pedras-d'armas, hão-de revelar-vos a existencia de centenares de
    morgados: mas os campos e a sua cultura, as quintas e as suas dimensões
    não vos dirão nada; porque a allodialidade, a emphyteuse, o vinculo na
    sua influencia sobre a agricultura não imprimem aos campos caracteres
    especiaes que distingam estas diversas especies de propriedade, ou
    diversifiquem as culturas.

    Penetremos agora no Alemtejo, sobretudo no Alemtejo central e
    meridional. Como o Minho é o typo da propriedade e da cultura
    septemtrionaes do reino, o Alemtejo é o typo mais acabado da propriedade
    e da cultura meridionaes. As outras provincias são a transição entre os
    dous extremos. Como o Minho é a terra classica da subdivisão
    territorial, o Alemtejo é a terra classica dos latifundios. Grande parte
    d'estes latifundios pertencem a importantes morgados; mas o resto
    constitue geralmente propriedades allodiaes, sendo os prasos n'aquella
    provincia, em contradicção com o que succede no Minho, apenas uma
    excepção rara, e ainda assim caracterisados ás vezes pela indole geral
    da propriedade no Alemtejo–a extensão demasiada. Um systema de cultura
    uniforme é applicado ahi sem distincção aos predios livres e aos
    vinculados.

    Na Extremadura e na Beira occidental, mas principalmente na Extremadura,
    predomina a cultura media e a propriedade media, se exceptuarmos as
    margens do Tejo desde a Barquinha até perto de Lisboa, onde a extensão
    da propriedade, como na Beira-baixa, annuncia, por assim nos
    exprimirmos, a aproximação do Alemtejo. Mas, no meio de todos estes
    cambiantes nas dimensões dos predios rusticos, vemos os vinculos
    amoldarem-se a todas as fórmas de propriedade e de cultura, e
    amortizarem em si a quinta, o casal, a granja, o praso, a horta, o
    pinhal, o montado, a charneca interminavel; com a mesma facilidade com
    que se amoldam ás manifestações extremas da grande e da pequena
    propriedade e da pequena cultura.

    Que se infere d'estes factos? Que outras causas alheias á instituição
    vincular determinam a maior ou menor vastidão dos predios rusticos e o
    seu systema de grangeio. Umas são puramente historicas, outras
    juridicas, outras agronomicas, outras economicas. Não queremos dizer com
    isto que a instituição não influa, n'um ou n'outro caso, no facto de
    maior ou menor dimensão dos predios, e na sua situação agricola; mas
    cremos que de todas as causas esta é a menos importante. Desejariamos
    que os defensores da manutenção dos vinculos como garantia de grande
    propriedade nos explicassem a existencia dos vastos allodios do
    Alemtejo, a sua força de cohesão contra os effeitos do direito commum da
    successão, pelo engenhoso expediente dos _quinhões_, de que n'outra
    parte teremos de falar. Esses predios estão provando que não é
    necessario o principio vincular para impedir a disgregação das grandes
    propriedades rusticas; que o interesse individual bem ou mal avaliado,
    as condições do solo e clima, a natureza das culturas dependentes
    d'essas condições, o estado economico do respectivo districto, e, até,
    os habitos e preconceitos, podem assegurar a união de amplos tractos de
    terra, embora deixe de existir uma instituição que o espirito publico
    reprova, por motivos que, posto sejam especiosos ás vezes, são em grande
    parte subejamente justificados.

  • Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 02

    Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 02

    Aproximadamente 63.487 palavras.

    E não exaggero quando assim me exprimo. Prouvera a Deus que exaggerasse!
    A convenção litteraria, pelas provisões que encerra, tende a combater,
    não em especial o commercio das contrafacções, isto é, dos livros
    baratos, mas sim em geral o commercio dos livros. Qual será o livreiro
    que não trema das provisões dos artigos 9.^o e 10.^o, e que ouse fazer
    encommendas para essa mesma França, que, em vez de prégar sermões aos
    belgas, nos manda converter á moral pelo orgam de mr. Barrot? Conforme a
    doutrina daquelles artigos, a contrafacção fica equiparada ao
    contrabando, e, como meio de verificar e punir o delicto, estatue-se que
    quaesquer remessas de livros sejam acompanhadas de um attestado passado
    em França pelo prefeito ou sub-prefeito da localidade d'onde se faz a
    remessa. Essa attestado deve especificar o titulo, volumes e exemplares
    de cada obra. Se na alfandega se achar que uma dellas não vem descripta
    no attestado será confiscada, e o livreiro que fez o despacho multado em
    oitenta mil réis, afóra as perdas e damnos a que possa ser condemnado
    por demanda que sobre isso lhe movam. Estas disposições são
    inqualificaveis. Nada mais facil do que escapar ao magistrado francês o
    mencionar um dos artigos da remessa no attestado; nada mais facil do que
    haver erro na nota dada pelo livreiro francês ao mesmo magistrado; nada
    mais facil do que mão inimiga aqui, em França, ou no transito,
    introduzir na caixa que contiver a remessa um livro não incluido no
    attestado: tudo póde ser, menos ter culpa de contrabando o que tem de
    ser multado, espoliado, demandado por contrabandista, que é o livreiro
    de Portugal. As minhas idéas de justiça, sr. visconde, ficam
    inteiramente baralhadas á vista de taes disposições, na verdade
    incomprehensiveis para intelligencias fracas.

    Mas o que, sobretudo, me espanta é a severidade de taes providencias
    sobre remessas feitas directamente de França. A convenção leva-nos a
    rondar os proprios _boulevards_ de Paris para guardarmos a propriedade
    litteraria contra os communistas belgas. O objecto do tractado é
    exclusivamente manter o chamado direito dos auctores franceses e obstar
    aos contrafactores das suas obras: que, portanto, se exigissem na
    alfandega facturas que provassem vir a remessa integralmente de França,
    e que não se désse despacho aos livros não contidos na factura, ainda se
    entende; mas sujeitar o livreiro português a severo castigo, porque
    daquelle paiz lhe veio um livro ácerca do qual se não cumpriram lá
    certas formalidades, faz crer que também ahi ha belgas. Seria por isso
    prudente que o governo francês, antes de guerreiar fóra os
    contrafactores, os expulsasse de casa.

    O segundo membro do artigo 10.^o não é para mim menos incomprehensivel.
    Podem, á vista delle, vir de qualquer paiz a Portugal livros escriptos
    em francês. Hão-de, porém, diz a convenção, ser acompanhados de
    attestados analogos das _auctoridades competentes_ do paiz d'onde
    provém, declarando que são todos publicação original do dicto paiz, ou
    de qualquer outro onde as mesmas obras foram impressas e publicadas.

    Se a mentira e a fraude podessem ser remedio para alguma cousa, esta
    disposição deixaria o caminho aberto para se remediarem em boa parte os
    inconvenientes da convenção. Pelo artigo 11.^o a admissão nas alfandegas
    depende unicamente do preenchimento das formalidades do artigo 10.^o Só
    a contravenção dellas importa o delicto de contrabando, e ao que não fôr
    contrabando ha-de dar-se despacho. Se os contrafactores belgas, por
    exemplo, se accordassem com as _auctoridades competentes_ do seu paiz,
    sejam quaes forem, para os favorecerem, e imitando em tudo as edições
    originaes francesas, remettessem para aqui exemplares contrafeitos,
    acompanhados do respectivo attestado, dar-lhes-hiam, ou não, despacho?
    Mais: embora o auctor francês houvesse preenchido as formalidades dos
    artigos 2.^o e 3.^o para garantir a sua chamada propriedade, poderia
    elle fazer demandar nunca o livreiro português, ou os agentes da
    alfandega, por terem introduzido em Portugal uma contrafacção? Depois,
    quem são essas auctoridades competentes para passar attestados na
    Belgica ou na Inglaterra, na Italia ou na Allemanha? São todas, ou não é
    nenhuma. A competencia vem das funcções atrribuidas pela lei ao
    funccionario; e a convenção que estabelece um ponto de direito
    internacional unicamente entre a França e Portugal, não dá nem tira
    funcções aos magistrados de outra qualquer nação que não interveio nesse
    pacto. Como hão-de os nossos agentes fiscaes verificar se o attestado é
    de uma auctoridade competente?

    Eu já alludi n'outra parte á inexequibilidade do artigo 13.^o, e á
    flagrante injustiça que nelle se estatue; mas consinta-me v. ex.^a que
    diga ainda algumas palavras ácerca desse deploravel artigo. A
    retroactividade das suas disposições é manifesta. A entidade
    _contrafacção_ não existia legalmente para nós antes da promulgação do
    convenio: os livros franceses reimpressos na Belgica eram o mesmo que os
    legitimos: eram o mesmo que os livros italianos, allemães, hespanhoes,
    ou ingleses, impressos em Paris pelos summos sacerdotes da religião da
    propriedade litteraria. As nossas alfandegas despachavam-n'os como
    outros quaesquer: vendiam-se publicamente: compravam-n'os os magistrados
    judiciaes e administrativos, os agentes fiscaes, os membros do
    parlamento, os ministros da corôa. E todavia, ao exarar-se o tractado,
    assevera-se que existiam já detentores de uma cousa que não existia.
    Detentores?! Mas esta palavra significa _o que retem o alheio_, e eu que
    comprei os meus livros n'um logar publico, á luz do meio dia, perante a
    policia, os tribunaes e o governo, sem offender lei alguma, sou um
    detentor do alheio? Sou, e não o sou impunemente: a convenção
    castiga-me; a convenção impõem-me uma multa a titulo de sello, para me
    ensinar o respeito das leis futuras e contingentes. Se possuir mil
    volumes belgas, cuja propriedade original se haja justificado como
    francesa, custar-me-ha o _delicto_ quarenta mil réis. Isto, sr.
    visconde, affigura-se-me que não tem defesa possivel.

    Supponhamos que o homem de letras, apesar da escaceza dos seus recursos,
    e por causa dessa mesma escaceza, colligiu, á custa de sacrificios e de
    tempo, uma collecção de livros uteis, mas baratos, mas dessa
    contrafacção que legalmente não existia: supponhamos que não pôde ou não
    quis sujeitar-se dentro do praso fatal dos tres meses marcados no artigo
    13.^o a estender a bolsa para pagar um tributo que nenhum parlamento
    votou: supponhamos mais que a necessidade ou a miseria, que tão
    frequentemente visitam o talento e a sciencia n'esta terra, Babylonia do
    desterro para o engenho, obriga daqui a seis meses a converter os seus
    livros em pão? Não póde fazê-lo. Veda-lh'o a convenção; veda-lh'o a lei
    que protege a propriedade das idéas em França, e destroe em Portugal a
    propriedade material do pobre homem de letras. Nem se diga que as
    disposições do artigo 13.^o se referem exclusivamente aos mercadores de
    livros: não é isso que importa o texto, e semelhante interpretação só
    serviria para ajuntar a iniquidade á injustiça e á violencia.

    O artigo 3.^o relativo ás traducções, ao passo que revela até que ponto
    de absurdo se póde levar o principio de propriedade litteraria, é, a meu
    ver, sr. visconde, profundamente illogico. Estatue-se ahi a prohibição
    de traduzirmos as obras francesas dentro do anno immediato á sua
    publicação e ao cumprimento das formalidades que se exigem do auctor
    para se lhe garantir o seu chamado direito. Se, passado um anno, elle
    não tiver publicado a traducção em português, qualquer a póde fazer. Mas
    perguntarei uma cousa: o auctor tem a propriedade do livro: obteve o
    titulo legal de posse e dominio: o facto tornou-se indubitavel; e essa
    propriedade é sacratissima, quando a outra é apenas sagrada. No fim do
    anno acabou o direito? Anniquilou-se a propriedade? Sorveu-a a terra? Em
    virtude de que maxima juridica ou moral é auctorisado o traductor
    português a assenhoreiar-se do alheio? É porque o auctor nega a Portugal
    a utilidade das suas idéas? Mas é alguém, póde alguém ser obrigado a ir
    vender o producto do seu trabalho, a sua propriedade, no mercado de um
    paiz estrangeiro? Se em Portugal escaceiassem as victualhas durante um
    anno, convencionaria a França comnosco que os nossos armadores fossem
    aos depositos de cereaes, de legumes, de batatas das suas cidades
    maritimas, expirado esse anno, e que, carregando a bordo dos proprios
    navios o que lhes conviesse, o vendessem nos mercados portugueses,
    tomando para si o lucro? Passe, porém, esta violencia contra a
    propriedade sacratissima das idéas, que, na material e profana, sería
    intoleravel, impossivel. Recorrer-se-ha ao subterfugio da expropriação
    por utilidade publica, e á união hypostatica de portugueses e franceses,
    para fazerem bolo commum de progresso e civilisação? Mas, nesta
    hypothese, cumpre indemnisar o expropriado: cumpre dar-lhe o equivalente
    do que lhe havia de valer a versão do seu livro: é assim que se practíca
    ácêrca da propriedade material, onde quer que ella se respeite.

    Depois, o ultimo paragrapho deste artigo, deficiente e muitas vezes
    inexequivel, manifesta claramente o espirito de industrialismo grosseiro
    applicado ás obras da intelligencia, que predomina em toda a convenção.
    Previu-se ahi a publicação das obras extensas que se imprimirem
    gradualmente aos volumes, ou por fasciculos, para se contar o _anno de
    morto_ desde o cumprimento das formalidades legaes ácerca de cada um
    desses volumes ou fasciculos. Não se previu, porém, a publicação feita
    por uma vez das obras volumosas, e cuja traducção não se poderia
    concluir n'um anno. Quanto a estas, o serviço da guarda municipal de
    Lisboa não se estende até as ruas de Paris. Não se attendeu, sobretudo,
    aos livros de sciencia, entre os quaes ha, não digo obras vastas, mas
    simples volumes, mas resumidos compendios, cuja versão daria tanto
    trabalho como deu o escrevê-los, e para a qual um anno sería
    insufficiente. Não se attendeu, sequer, aos nobres filhos da musas.
    Concluir-se-hia n'um anno uma traducção, digna do original, do _Jocelyn_
    de Lamartine, ou do _Camões_ de v. ex.^a? O que estão revelando
    provisões desta ordem? Que ao exarar-se o tractado se pensava só nesses
    escriptos inuteis, frivolos, ephemeros, contra os quaes v. ex.^a com
    tanta razão declama; que se pensava só no ignobil industrialismo
    litterario que devora a intelligencia e os costumes da França; que se
    pensava só nas fabricas parisienses de novellas, dramas, viagens,
    comedias, romances, folhetins, physiologias moraes ou immoraes, e não
    sei de que outros productos; nas fabricas de Balzac, Sue, Sand, Dumas,
    Scribe, Arlincourt e C.^a.

    Eis, sr. visconde, as consequencias de um principio falso: cada phase da
    sua applicação trahe a vaidade delle. É o industrialismo litterario
    português, ainda felizmente balbuciante e debil, atirado para debaixo
    das rodas do opulento industrialismo litterario da França. É este o
    espirito, a intenção do convenio (não digo a intenção de v. ex.^a, que
    se deixou illudir pelo seu amor ás letras); o espirito, e a intenção,
    repito; porque o resultado real delle ha-de ser o entorpecimento das
    nossas relações litterarias com a Europa, a difficultação da leitura e
    do estudo, e os embaraços ao progresso intellectual, e, portanto, á
    civilisação do paiz.

    Não terminarei, ex.^{mo} sr., sem accrescentar algumas palavras
    relativas aos dous documentos publicados no _Diario_ de 7 de novembro
    ultimo, a que já me referi, isto é, ao officio de v. ex.^a de 28 de
    maio, e á representação de 29 de junho, documentos que se podem
    considerar como um commentario á convenção. Ha ahi cousas sobre que eu
    desejaria chamar a attenção de v. ex.^a Publicando uma nota official da
    alfandega ácerca das importações de livros da França e da Belgica,
    affirma v. ex.^a que, á vista della, se conhece ser _insignificante_ o
    nosso commercio de livros com este ultimo paiz, excedendo-o _no dobro_ a
    importancia do que fazemos com aquell'outro. Mas essa nota diz-nos que a
    importação de livros belgas foi em 1849 de 4:267$400 réis, e em 1850 de
    4:739$900 réis, o que produz nos dous annos a somma total de 9:027$300
    réis. A duplicação desta verba, que deve, segundo a affirmativa de v.
    ex.^a, representar a nossa importação de França, é de 18:054$600 réis.
    Ora, por essa mesma nota sabemos que a importação do ultimo paiz foi
    1849 de 4:878$600 réis, e em 1850 de 6:741$100 réis, o que perfaz um
    total de réis 11:619$700. Já se vê, pois, que a opinião de v. ex.^a está
    um pouco longe de ser exacta. Lamenta v. ex.^a que as especies
    subministradas pela alfandega não sejam de um estatisfica mais
    individuada; tambem eu o lamento, mas lamento ainda mais, que v. ex.^a
    não quizesse applicar a estes factos a natural perspicacia do seu alto
    engenho. É, na verdade, triste que, tractando-se de uma questão
    commercial assás grave, se não buscasse averiguar quaes foram as
    importações dos ultimos oito ou dez annos. D'ahi se poderia tirar um
    termo medio seguro; mas as de tres annos eram rigorosamente
    indispensaveis para o calculo ainda mais imperfeito. Os algarismos
    relativos a 1849 provam que as importações dos dous paizes são quasi
    iguaes, e os relativos a 1850 que as de França excedem quasi um terço as
    da Belgica: dos dous factos um tende a mostrar igualdade, outro excesso.
    Era, portanto, indispensavel que, pelo menos, um terceiro facto, o facto
    do terceiro anno, viesse dar razão a um delles. Mas a questão deve ser
    considerada sob um aspecto muito mais importante, que esqueceu a v.
    ex.^a Aquelles algarismos representam o dinheiro que démos, e não os
    livros que recebemos; representam o nosso passivo e não o nosso activo.
    A questão no caso presente é que porções de volumes entraram em Portugal
    nesses annos, e não que dinheiro saiu delle. Todos sabem que as
    reimpressões belgas custam metade do que custam as edições francesas, e
    por isso que, se a Belgica nos levou quatro contos de réis por seis mil
    volumes, a França levou-nos oito pelo mesmo numero delles. Á vista do
    mappa da alfandega e destas considerações, qual commercio de livros será
    mais importante para Portugal, o da França ou o da Belgica?

    Se v. ex.^a foi menos exacto na apreciação comparativa do nosso
    commercio de livros com esses dous paizes, tambem me parece que,
    declarando insignificante o que fazemos com o ultimo, não avaliou
    devidamente esta especie de trafico. Transacções de vinte ou trinta
    contos de réis sobre algodões fabricados, ou sobre cereaes seriam
    insignificantes; sobre gutta-percha ou sobre rhuibarbo seriam não só
    importantes, mas tambem excessivas. A importancia de qualquer ramo de
    commercio não depende só do valor absolutos das mercadorias. N'um paiz
    pequeno, pouco povoado, e onde a instrucção e os habitos de leitura não
    se acham diffundidos, a introducção de perto de seis mil volumes
    annualmente, que tanto representará o termo medio de 4:500$000 réis que
    damos à Belgica em troca de livros, tem alguma significação. Quero que
    destes seis mil volumes seja um terço para reexportar, e que dos que
    ficam metade pertençam á categoria das obras frivolas e absurdas, o que
    talvez seja a avaliação mais justa. Restam dous mil volumes uteis, que
    cada anno se espalham no paiz, e que n'um decennio subirão a vinte mil.
    Por cinco pessoas que, termo medio, leiam cada um desses volumes no
    mesmo decennio, imagine v. ex.^a que somma d'ideas uteis, civilisadoras,
    progressivas terão no fim delle entrado em circulação! Será este facto
    insignificante? Será indifferente um acto que o destroe, ao passo que
    longe de facilitar a importação das edições francesas, a difficulta?
    Calcular a importancia de uma mercadoria que se usa sem se consummir,
    como se calcularia a sacca de arroz ou a caixa de assucar, é, na minha
    opinião, pelo menos uma singular leveza!

    V. ex.^a, lançando immerecidamente o desfavor sobre uma parte dos
    commerciantes de livros em Portugal, aos quaes nenhum acto criminoso se
    póde attribuir, salvo se é culpa negoceiar em objectos cuja importação
    até agora nenhuma lei vedava, suppõe, todavia, que ainda haverá nesta
    terra _livreiros_ que representem as tradições dos _impressores_
    celebres dos tempos passados, como os Craesbecks, os Estevams, os
    Elzevirios, os Didots. Não me parece que elles devam apreciar demasiado
    essas comparações. V. ex.^a havia de ter algum trabalho em demonstrar,
    por exemplo, a moralidade dos Elzevirios, de cujos prelos sahiram tantos
    livros ignobeis, e que essas nitidas reimpressões dos escriptores
    franceses do seculo de Luiz XIV, feitas _jouxte l'édition de Paris_,
    eram padrões levantados por aquelles celebres typographos á sua creança
    ardente na religião da propriedade litteraria.

    Ha, finalmente, no papel dirigido á Soberana por v. ex.^a uma
    circumstancia que, se não fosse a epocha em que v. ex.^a o escreveu
    muito anterior á data do meu artigo publicado no _Paiz_, pareceria uma
    reprehensão indirecta contra a rudeza (a que sou na verdade propenso)
    com que falei do assumpto. Se não fosse o obstaculo da chronologia, eu
    imaginara que v. ex.^a me oppunha, como accusação muda contra a rustica
    sinceridade com que tractei a questão, o nome illustre do senador
    piemontês Cibrario–«cuja reputação liberal e scientifica é, diz v.
    ex.^a, tão geralmente reconhecida e confessada entre os nossos
    mesmos»–, e que fui encarregado de estipular uma convenção analoga
    entre o Piemonte e a França. Na hypothese (que se não dá) de v. ex.^a
    oppôr ás minhas phrases rudes e severas a auctoridade d'um nome por mim
    venerado, eu diria a v. ex.^a, que se o caracter um pouco intractavel
    que Deus me deu me consentisse medir as palavras quando falo de offensas
    feitas aos interesses legitimos do meu paiz, não precisaria do peso de
    altas reputações estrangeiras para guardar silencio neste caso, quando
    tinha em Portugal um nome ante o qual com mais gosto me curvaria–o nome
    de v. ex.^a Unem-me a Luiz Cibrario a amizade pessoal, e a
    confraternidade de historiadores da mesma eschola, e de membros d'um
    mesmo corpo litterario, a Academia das Sciencias de Turin. Reputo-o um
    dos grandes escriptores de Italia, e respeito-o como um nobre caracter.
    Liga-nos, até, a identidade das ideas fundamentaes das nossas crenças
    politicas; a convicção que ambos temos de que a liberdade verdadeira, o
    regimen do paiz pelo paiz, sem democracia, sem socialismo, sem repetir
    inuteis e tormentosas experiencias, só se realisará pela
    descentralisação administrativa e por uma forte organisação municipal;
    utopia horrenda para todos aquelles que sabem achar na concentração do
    poder, quando lhes cai nas mãos, incognitas doçuras, bem diversas dos
    martyrios de que certos utopistas suppoem esse poder rodeiado. Apesar,
    porém, de tantas affinidades e sympathias que deve haver e ha entre mim
    e o historiador do Piemonte e da Economia Politica da Idade-Media, se a
    situação da Sardenha em relação ao commercio de livros era analoga á de
    Portugal; se as condições do convenio negociado por Cibrario foram as
    mesmas e assentaram sobre os mesmos principios de industrialismo
    litterario que caracterisam a convenção de 12 de abril, só me resta
    accrescentar que foram dous homens eminentes, em logar d'um só, que no
    anno do Senhor de 1851 fizeram, não obstante as mais puras intenções, um
    altissimo desserviço ás suas respectivas patrias.

    Digo-o, porque estou intimamente convencido de que digo uma grande
    verdade.

    APPENDICE

    Dez annos depois de escripta e publicada a precedente carta, pertencia
    eu á commissão encarregada de rever e corrigir o projecto de codigo
    civil, que o governo intentava submetter á approvação do parlamente.
    Achava-se consagrada nesse projecto a doutrina da propriedade
    litteraria, e a commissão acceitou-a sem hesitar, modificando apenas uma
    ou outra das disposições tendentes a reduzir a theoria á praxe. Pela
    minha parte, abstive-me absolutamente de intervir na discussão, e
    limitei-me a declarar que votava pela suppressão completa de todos os
    artigos relativos ao assumpto. Esta abstenção era aconselhada pela
    prudencia. A unidade de pensamento ente tantos e tão distinctos
    jurisconsultos e publicistas fazia-me, na verdade, duvidar da solidez da
    propria opinião. O debate sobre o principio que rege no codigo esta
    materia poderia ter-me esclarecido, e até convertido, talvez; mas
    entendi que se conciliava mal com o meu dever suscitar tal debate. Não
    tinha probabilidade alguma de reduzir as intelligencias superiores dos
    meus collegas a admittirem como orthodoxa a heresia da mais fraca de
    todas as que alli concorriam, e a minha conversão era de tão pouco
    momento para o paiz, que não valia a pena de protrahir por causa della o
    longo e difficil trabalho da commissão. Continuei, pois, na heterodoxia.
    No meu modo de ver, a propriedade litteraria, emquanto reside nas
    regiões da theoria, é um paradoxo bom para se bordarem nelle periodos
    scientillantes de imagens phantasionas; paradoxo inoffensivo, como o é,
    absolutamente falando, um milagre da Virgem de Lourdes ou da Senhora da
    Rocha. Mas, bem como o milagre, que só se inventa para fins mundanos, o
    paradoxo não deixa de ter inconvenientes se transfundem no positivo, se
    o incorporam nas leis. Em tal caso, passam ambos, um a ser negocio dos
    sacerdotes do altar, outro a ser negocio dos sacerdotes da imprensa.
    Negociar, porém, com milagres ou com doutrinas é sempre mau. Como texto
    de orações _pro domu sua_, que incessantemente se reproduzem na
    republica das letras com variadas fórmas e côres variegadas, a
    propriedade litteraria tem certo valor: como dogma vale pouco mais ou
    menos o mesmo que os recentes dogmas do Vaticano. O que, porém, é certo
    é que para defendê-lo não faltam, nem faltarão nunca os Ciceros. Achar
    um unico Hortensio que o combata, eis o que parece difficil.

    Entre os milagres que voltam a habitar entre nós e o novo dogma juridico
    precursor dos novos dogmas theologicos ha, todavia, uma differença digna
    de notar-se. É que o milagre sabe para onde vai. A propriedade
    litteraria é que não sei se conhece para onde caminha. Conceber uma
    especie de propriedade que, conforme veremos, escapa á apreciação dos
    sentidos; pôr o objecto de um direito fóra do objectivo é attribuir ao
    vocabulo–propriedade–um valor por tal modo indefinivel, associar-lhe
    uma idéa tão nebulosa, que deixa atrás de si as nebulosidades da eschola
    hegeliana. De feito, nem proprio Hegel concebe o direito de propriedade
    senão como uma acção da vontade sobre qualquer cousa, que por esse facto
    se torna minha, determinando-lhe a destinação substancial, ou que por
    indole não tinha[1]. N'uma epocha em que os cortesãos das multidões
    chamam como réus ao pretorio do cesarismo analphabeto e lutulento todos
    os principios, todas as maximas fundamentaes da sociedade, é perigoso
    introduzir na noção clara, precisa, inconcussa da propriedade um desses
    gongorismos das idéas abstrusas de que vivem os seus adversarios; é
    perigoso que das fendas da sepultura do antigo direito divino brote uma
    nova e singular especie desse mesmo direito, e que ao _per me reges
    regnant_, mal interpretado, succeda o _per me scriptores scribunt_.

    Tinham passado outros dez annos sobre a minha impenitente incredulidade.
    Quasi esquecera o debate que o convenio celebrado com França sobre este
    assumpto suscitara na imprensa, debate em que a consciencia me fizera
    acceitar um papel talvez odioso; o de adversario, não da causa das
    letras, mas da causa da industria litteraria.

    No fim, porém, de tão largo periodo, uma publicação recente feita em
    Paris por um compatricio nosso[2], veio avivar-me a recordação dessa
    lucta em que tive a honra de combater com uma das mais bellas e altas
    intelligencias que Portugal ha gerado, Almeida Garrett. Li com avidez o
    novo opusculo, que o auctor me enviara com expressões mais que
    benevolas. Era possivel que ahi surgisse para mim a luz, que por
    escrupulo, talvez execessivo, eu deixara ficar debaixo do meio alqueire
    na commissão do codigo civil. Infelizmente, porém, o opusculo não
    allumiou as trevas da minha impiedade.

    Este escripto, vindo após tantos outros relativos ao assumpto, tende
    principalmente a propugnar uma idéa que me parece indubitavel, supposta
    a existencia de um direito originario de propriedade litteraria. É a
    idéa da sua perpetuidade. Todas as legislações que consagram aquelle
    singular direito restringem-no, recusando-lhe uma condição inherente a
    qualquer propriedade absoluta. O auctor combate vantajosamente as razões
    que de ordinario se allegam para tornar incompleta uma especie de
    dominio que os seus defensores reputam o mais sagrado de todos. Não era
    difficil a tarefa. Já na carta precedente havia eu feito notar tão
    evidente absurdo. Indaga depois o auctor as causas por que os
    legisladores em todos os paizes estatuem o dominio temporario em relação
    á propriedade litteraria, e acha, como origem da contradicção, não sei
    que preoccupações; não sei que concessões ao socialismo. Permitta-me o
    auctor que substitua a sua hypothese por outra. Eu explicaria o facto
    presuppondo que no espirito desses legisladores reinava a mesma
    incredulidade que reina no meu. As leis relativas ao assumpto
    affiguram-se-me leis de circumstancia ou de conveniencia. N'uma epocha
    em que a imprensa exerce immensa influencia na opinião, igual ou
    superior á que a opinião exerce em todos os corpos do estado, uma
    doutrina, ou antes pretensão, a que, com raras excepções, subscrevem o
    commum dos escriptores e que defendem com a energia do proprio
    interesse, ha-de forçosamente influir, não direi na consciencia, mas nos
    calculos e previsões dos homens publicos. Cede o legislador de mau
    grado; mas, de certo, não é ao socialismo que cede. Nas restricções, o
    que se revela é a sua repugnancia. Como que diz ao
    escriptor:–«aproveita esta ficção de direito, e que a aproveitem os
    teus herdeiros. Os herdeiros dos teus herdeiros, esses ser-te-hão
    provavelmente desconhecidos e indifferentes: sê-lo-hão tambem para a lei
    que te favorece. Toma lá isso, e cala-te.»–D'ahi nasce, a meu ver, a
    antinomia; d'ahi o illogico; d'ahi a affirmação de um direito absoluto
    para depois se affirmar o transitorio delle.

    Achar a negação da propriedade litteraria nas mesmas leis que a
    affirmam, e ver nisto uma transacção, uma condescendencia com o
    socialismo é, de feito, absolutamente infundado. Ampliar a tal ponto a
    noção de propriedade, levá-la para regiões onde ella não cabe, imaginar,
    em summa, a realisação do direito no ideal, na abstracção, é que, sob
    outro aspecto, póde dar vantagem ás doutrinas philosophicas do
    socialismo. A generalisação, que não é senão uma formula do ideal, da
    abstracção, é a sua grande arma e a fonte principal dos seus erros.
    Porque não transigem com elle os legisladores ácerca de toda a outra
    propriedade? É porque toda a outra propriedade é tangivel, real,
    positiva, e por consequencia objecto possivel do direito de propriedade.

    As leis de propriedade litteraria, consideradas correlativamente á
    legislação sobre os novos inventos, longe de conterem o menor vestigio
    das exaggerações do socialismo, não chegam sequer a respeitar um dos
    dogmas fundamentaes da eschola liberal, a igualdade civil. A idéa
    formulada, traduzida, representada no invento é manifestação
    perfeitamente analoga á da idéa formulada, traduzida, representada no
    livro. Para aproveitarem ao auctor e ao publico, a condição da
    reproducção é identica n'um e n'outro. O invento póde ter até exigido
    mais trabalho, mais energia intellectual, mais sciencia do que o livro;
    e todavia, só por privilegio, isto é, por uma excepção do direito
    commum, alcançará ser propriedade, o que radicalmente equivale a não o
    ser. Se, porém, o invento é mais humilde; se é apenas o melhoramento
    concebido pelo official mechanico em alfaia vulgar, a lei nem sequer o
    conhece, nem por privilegio entra na categoria da propriedade. Tudo isto
    faz lembrar o _desembargador ou fidalgo da minha casa_ da velha
    Ordenação, em questões de adulterio. Propriedade completa na
    intensidade, e só incompleta na duração, para os _fidalgos da minha
    casa_ das letras e das boas artes; propriedade apenas legal, determinada
    pela apreciação, ou o que vale o mesmo, pelo arbitrio do governo, para
    uma especie de burguesia, para os homens que não escrevem, mas que fazem
    servir as sciencias de applicação aos progressos da civilisação
    material; absolutamente não propriedade para as modestas manifestações
    dos entendimentos que dirigem e aperfeiçoam o trabalho vulgar e plebeu.
    De certo leis de tal indole não são socialistas: não chegam sequer a ser
    liberaes, não chegam sequer a ser mediocremente sensatas. Tem a sua
    razão de ser na soberania do alphabeto; não a tem na natureza humana.

    Até certo ponto o auctor do opusculo reconhece isto mesmo. Na serie das
    consequencias inevitaveis que derivam de se attribuir á idéa formulada
    ou á formula da idéa, em abstracto, a natureza objectiva de propriedade,
    foi logicamente muito além d'aquella em que os legisladores pararam; mas
    por fim parou tambem. E parou porque chegava a uma consequencia que
    demonstrava por absurdo quanto é van a doutrina da propriedade
    litteraria. Depois de reconhecer que o invento, em relação ao direito,
    deve entrar ineluctavelmente na mesma categoria do livro, estabelece em
    favor do invento addicional uma theoria que, no seu systema, seria o
    privilegio da espoliação, embora tente palliá-lo. Desde que a idéa,
    completa ou incompleta, realisada por fórma nova, se converta em
    propriedade, ficará immovel ou quasi immovel o progresso da civilisação.
    Parece isto obvio; mas o auctor do opusculo entende que não passa de um
    conjuncto de palavras ôcas. Na sua opinião, o progresso nada padece com
    a perpetuidade do dominio em qualquer invento. Basta que a propriedade
    páre diante do melhoramento. O melhoramento póde invadi-la sem que o
    direito seja offendido. Para isso ha uma condição extremamente simples.
    É a de se aperfeiçoar, de se corrigir _sem se copiar_. A condição não
    tem senão um defeito: o de ser theorica e practicamente impossivel.
    Aperfeiçoar, corrigir, ou melhorar significa manter a substancia ou o
    todo, e alterar o accidente ou a parte. Se a substancia e os accidentes
    forem completamente substituidos; se as partes de que se compõe o todo
    foram totalmente subrogadas, não ha melhoramento: ha uma cousa nova, um
    invento novo. Melhorar e não copiar excluem-se invencivelmente. Quando,
    para regularisar os movimentos differenciaes, Watt e Evans inventaram os
    respectivos parallelogrammos, e applicaram a sua nova idéa ás machinas
    de vapor, copiaram-nas como existiam em tudo aquillo que não interessava
    a translação do movimento. A substituição do helice ás rodas, na
    navegação a vapor, não alterou senão n'uma pequena parte a mais perfeita
    construcção dos navios. Nestas, como em milhares de hypotheses analogas,
    não se comprehende por que modo, intentado o melhoramento, se evitaria a
    copia, isto é, a offensa da propriedade dos inventos.

    Se isto é verdade; se é inevitavel que no aperfeiçoamento se reproduza o
    que se não altera na cousa aperfeiçoada, a doutrina do opusculo ou
    conduz á immobilidade no progresso, ou ha-de levar-nos a negar a
    propriedade litteraria que o auctor confessa não ser de indole diversa
    da propriedade dos inventos. Se, no livro, bem pensado e bem escripto,
    achei uma subdivisão, um artigo qualquer delle a que faltem esses
    predicados, não offendo direito algum em corrigi-lo e aprimorá-lo.
    Removida, como impossivel, a condição com que se imaginou restringir-me
    a liberdade de melhorar, é para mim acto licito reproduzi-lo, depois de
    corrigida a parte defeituosa. Mas, em tal caso, onde ficou a propriedade
    litteraria? Que se diria daquelle que, possuindo um pequeno mas fertil
    campo contiguo a vasto predio rural em que andasse incorporada
    improductiva charneca, declarasse que desaggregava esta do predio,
    substituindo-a pelo seu campo, e que em virtude desse acto arbitrario,
    exigisse uma quantia avultada na renda total da herdade? A logica
    forçar-nos-hia a dar razão ao pretensor, se o direito de propriedade
    real podesse assimilar-se ao supposto direito de propriedade litteraria.

    O auctor começando a defesa deste singular direito parece extasiar-se
    diante de uma phrase de Karr com aspirações a agudeza. Ha certa eschola
    litteraria, vulgar sobretudo em França, que, se não faz grande consumo
    de idéas, vive sempre com grande opulencia de phrases. Não são estes
    escriptores os menos ciosos dos seus suppostos direitos. Eis a
    phrase:–«É evidente que a propriedade litteraria é uma propriedade»–.
    Em consciencia, a agudeza não tinha jus a grandes admirações. Nas aulas
    de logica a uma agudeza destas chamam os rapazes _petição de principio_:
    entre os homens feitos chama-se-lhe puerilidade. A phrase vale o mesmo
    que valeria a seguinte:–«É evidente que a propriedade da quadratura do
    circulo é uma propriedade.»

    No opusculo repete-se o argumento que por diversas maneiras se tem feito
    cem vezes, e que parece impossivel ainda se repita: «Ha–diz-se ahi–no
    direito do auctor, as condições essenciaes de qualquer propriedade, a
    extensão relativa e a extensão absoluta. Que differença se dá entre o
    creador de uma casa e o creador de um livro?»–A resposta é simples e
    facil.–«Nenhuma.»–Não tem o auctor do livro o mesmo direito que tem o
    da casa de dispor da sua obra?»–A resposta nem é mais difficil, nem
    mais complexa.–«De certo.»

    Paremos aqui.

    Quer o direito de propriedade se realise unicamente, como creio, nos
    productos do trabalho intelligente do homem, quer se funde na faculdade
    que elle tem de apoderar-se dos objectos capazes de servirem á
    realisação dos seus fins racionaes, é certo que a propriedade presuppõe
    sempre dous elementos, ou antes dous factores, materia e espirito,
    objecto actuado e intelligencia actuando, indispensaveis para a sua
    manifestação no mundo real. Esta condição é necessariamente commum a
    toda a especie de propriedade: ao livro, como á casa; á alfaia, como á
    terra individualisada; ao artefacto, como ao instrumento que ajudou a
    fabricá-lo. Para que a sociedade a proteja e os individuos a respeitem,
    cumpre que exista no positivo; que os sentidos possam transmittir a sua
    existencia ás consciencias para que estas guardem com relação a ella as
    respectivas noções do dever. Os direitos em abstractos, puros, existem
    no ideal, subjectivamente: em concreto, realisados, só podem existir no
    real, objectivamente. A propriedade é a realisação de um direito: só
    póde dar-se no concreto, no existente, e não no possivel, no ideal.

    Os defensores da propriedade litteraria assentam a machina dos seus
    discursos n'uma ambiguidade. Esperem-na sempre quando elles figuram
    hypotheses; quando instituem comparações. A confusão do sentido natural
    com o metaphorico encerra toda a philosophia juridica da propriedade
    litteraria. Ás perguntas, intencionalmente fulminantes, que se fazem aos
    incredulos do direito divino dos escriptores, ficam dadas respostas tão
    simples como completas. Entre o creador de uma casa e o de um livro
    (dizem) não ha differença: um e outro tem igual direito a dispor da sua
    obra. Quem o duvida? Mas o que é um livro no mesmo sentido natural em
    que empregaes a palavra _casa_, que aliás tambem tem significações
    metaphoricas? Um _livro_ é uma porção de parallelogrammos de papel
    dobrados e cozidos de certo modo, formando folhas e paginas que
    mechanicamente se cobrem de palavras escriptas. A operação, tambem
    puramente mechanica, pela qual se repetem, em mil ou duas mil porções
    iguaes de parallelogrammos identicos e identicamente unidos, as mesmas
    palavras escriptas, constitue o que chamamos uma edição, que é o
    complexo de mil ou dois mil _livros_. A propriedade do _livro_ tem todos
    os caracteres da outra propriedade. O dono póde dispor dos exemplares a
    seu talante, como o ourives póde dispor de cem ou mil colheres de prata
    de certo feitio. O direito commum protege-a do mesmo modo; os tribunaes
    punem o roubo della como outro qualquer roubo. Os productores de
    _livros_ estão perfeitamente equiparados aos demais productores.

    A propriedade litteraria é isto? Não, por certo. Se o fosse, a expressão
    seria uma tautologia pueril. É cousa mais alta, mysteriosa, que se
    bamboleia no possivel, que não habita na terra, e que só desce a ella
    para auferir alguns lucros. Pura condescendencia com as fraquezas
    humanas. Busquemo-la, a ver se a encontramos entre os mortaes.

    É preciso não esquecer nunca o principio de que na constituição da
    propriedade intervem sempre, em grau maior ou menor, a intelligencia.
    Supposta a theoria da apropriação, não me aproprio de qualquer cousa sem
    ter achado pelo raciocinio aquillo para que serve, sem lhe dar pela
    vontade um _destino e alma_, na phrase de Hegel[3]. Na theoria
    economica, a propriedade nasce sempre do trabalho associado á
    intelligencia para produzir um valor, quer a intelligencia e o trabalho
    sejam de um individuo, quer sejam de diversos; quer o valor seja de
    utilidade quer de troca. Assim, toda a propriedade contém em si um ou
    mais actos do espirito que vem incorporar-se, manifestar-se no
    objectivo, no real.

    Que ha n'um escripto impresso, nisso a que chamamos _livro_ sem figura
    de rherica, que não entre nesta regra commum; que tenha alguma cousa
    acima ou além della?

    Na edição de um escripto ha a idea e a materia, como em todas as obras
    humanas: ha multiplicação do objecto livro, como nos productos de uma
    fabrica de tecidos ha a multiplicidade das peças de fazenda do mesmo
    padrão.

    Escuso de repetir o que disse na precedente carta. Não sou eu que
    rebaixo as inspirações do genio á altura dos productos da industria: são
    aquelles que as medem pela bitola da cousa mais positiva, mais vulgar,
    mais vezes apreciada pelo seu valor venal, a propriedade.

    Acceitemos a comparação feita pelo auctor do opusculo entre os edificios
    e os livros. Nos edificios, como nos livros, ha a concepção geral e as
    concepções das particularidades, que vem do espirito, e ha a
    incorporação na materia, que vem do trabalho material. Estabelecer
    comparações entre o edificio, manisfestação complexa da acção de dous
    factores, e o livro, quando se dá a esta palavra um sentido metaphorico
    para representar só um dos factores, isto é, as ideas concebidas por
    certa ordem e com certas fórmas subjectivas, traduzidas depois, por um
    acto material, no objectivo, é a meu ver um triste paralogismo. O que
    corresponderia ao exclusivo, a esta especie de estanco, de monopolio de
    idéas formuladas no entendimento e depois estampadas no papel, a que se
    chama propriedade litteraria, seria, no edificio, o estanco, o monopolio
    das linhas e proporções do propecto, da combinação entre a distribuição
    das janellas e portas e a dos aposentos, da collocação dos corredores e
    escadas, do tamanho e communicações das quadras, dos pés direitos dos
    andares, das inclinações dos tectos, das mil combinações, em summa, com
    que o trabalo da intelligencia deu _alma e destino_ á pedra, ao ferro,
    ao cimento, ás madeiras e aos demais elementos exigidos para a
    construcção de um edificio. Equiparado ao homem de letras, o que teria a
    reivindicar o edificador da casa sería o exclusivo, o monopolio sobre a
    combinação das suas ideas; teria o direito de obstar a que alguem
    fizesse outro predio urbano inteiramente irmão do seu, em toda a
    superficie do territorio que a lei de propriedade intellectual
    abrangesse.

    O auctor do opusculo illude-se a si proprio applicando a factos
    identicos vocabulos diversos para assim parecerem factos distinctos. «A
    differença que ha–diz elle–entre as duas propriedades (a da casa e a
    do livro) é que uma _representa_ um objecto unico e _palpavel_; ao passo
    que a outra _se manifesta ao publico_ por milhares de exemplares. Porque
    _representa_ uma, e _manifesta_ a outra? A verdade é que ambas
    _constituem_ propriedade _palpavel_. A que proposito vem ser a casa uma
    e os _livros_ mil? Mil peças de chita irman saidas de uma estamparia são
    tanto do fabricante, como os mil volumes de uma edição do editor ou
    auctor, como a casa do edificador. O dono dos volumes, como o do
    edificio, póde doá-los, trocá-los, vendê-los, legá-los, destrui-los;
    como o das peças de chita póde ajuntá-las n'um cubo ou n'um fardo, e
    alheiá-las, como se alheia um predio urbano ou rural, por qualquer
    especie de contracto. A lei reconhece e legitíma todos esses actos de
    igual modo. A propriedade movel e a de raiz distinguem-se nos seus
    effeitos economicos e portanto no seu modo de ser civil, mas, na
    essencia, e em relação ao direito absoluto de propriedade, ha entre
    ambas identidade perfeita.

    Quanto mais cavamos nas profundezas da propriedade litteraria, mais a
    noção della, desse _quid divinum_, escapa á nossa comprehensão.
    Apertemos ainda a analyse dos factos; sigamos o escripto impresso nas
    suas ultimas evoluções. Commummente o producto producto total da venda
    de uma edição distribue-se em tres quotas proporcionaes, uma para as
    despesas da publicação, outra para recompensar o trabalho do editor, o
    juro do seu capital e do risco, as commissões que paga, etc., outra
    finalmente para o auctor. Que vendeu este? Alguma cousa que era producto
    do trabalho material dirigido pela intelligencia, como o era o trabalho
    do compositor, do impressor, do fabricante do papel, do fabricante de
    typos, em que e com que se imprimiu a obra. Supponhamos a edição
    esgotada, e o seu valor liquidado e distribuido. Todos os interessados
    houveram o producto do seu tabalho; mais ou menos. Questão de mercado,
    questão de concorrecia. Parece que a propriedade do producto
    desappareceu para todos, porque todos o venderam integralmente. Pois não
    é assim. O auctor, em cujo dominio, bem como no dos seus collaboradores,
    não resta o minimo vestigio dos mil, dos dous mil volumes completamente
    alienados; o auctor que vendeu o que ahi tinha, e o que tinha era o
    trabalho de escrever palavras e phrases, dispostas e ordenadas com certo
    e determinado intuito, conservou ainda, em virtude da sua propriedade
    litteraria, um dominio extrahido da cousa alienada. Não é o _jus in re_;
    não é o _jus in rem_; mas é um _jus_ qualquer. Não se manifesta aos
    sentidos; não está em parte nenhuma na terra. É um fumosinho que se
    elevou do escripto impresso, que se adelgaçou, que se esvaiu no
    contingente, no possivel, no ideal, e que está lá.

    C'était l'ombre d'un cocher
    Avec l'ombre d'une brosse,
    Brossant l'ombre d'un carrosse.

    Não é de espantar que nós os iconoclastas, os bagaudas da propriedade
    litteraria não possamos topar com ella neste mundo sublunar. Os seus
    defensores tambem não parecem muito adiantados sobre o assumpto. O
    auctor do opusculo fluctua a cada passo: a propriedade litteraria ora
    consiste na idéa formulada, ora só na fórma da idéa. Independentemente
    da noção da propriedade, que presuppõe sempre a acção do espirito sobre
    a materia, do ideal sobre o real, não como possivel, mas como existente,
    admittamo-la no subjectivo; supponhamo-la incorporea; supponhamos que o
    seu objecto não-objecto é a concepção complexa das idéas antes e depois
    de manifestada, e de vendida a sua manifestação feita sobre o papel.
    Essa concepção formulou-se n'uma serie de vocabulos e phrases pensados e
    não escriptos. Cada vocabulo e cada phrase é o molde, a fórma de uma
    idéa simples ou complexa. A concepção disso a que metaphoricamente se
    chama uma obra, um escripto, um livro, nada mais é, pois, do que a
    juxtaposição, em tal ou tal ordem, das idéas revestidas das suas fórmas
    particulares que estão catalogadas no diccionario da lingua para uso
    commum. Ainda á luz da mais exaggerada doutrina da subjectividade, e
    admittindo que seja applicavel ás fórmas das idéas a theoria de Kant de
    que o direito de propriedade é o direito ao _uso exclusivo_
    (_Privatgebrauch_) de qualquer cousa que originariamente era do dominio
    commum, é evidente que para se ter esse direito á totalidade, quer das
    idéas formuladas, quer só das respectivas formulas, é necessario que se
    tenha igualmente direito a cada uma dellas. Donde se deduz que qualquer
    individuo que usar do termo ou da phrase que outrem já empregou rouba a
    propriedade alheia. Levar-se-ha até os apices da subtileza a defensão
    desta propriedade inaccessivel e inconcebivel, que vamos seguinte por
    entre os nevoeiros do ideal? Deixemo-la ir até lá. Supponhamos que ella
    consiste só no acto de ajunctar _successivamente_ (o espirito não póde
    operar de outro modo) as idéas formuladas, e cujas formulas (palavras ou
    phrases) se acham colligidas no diccionario da lingua. A difficuldade
    continua a subsistir e só muda de logar. Dez mil actos desses que serão
    necessarios para coordenar o _livro_ (sentido metaphorico) não
    constituirão melhor direito do que tres ou quatro. O direito não é
    questão de algarismos, nem se mede aos palmos. Quem sobre o papel
    repetir tres ou quatro phrases que succedam umas ás outras n'um livro, é
    um salteador de estrada. Taes são os absurdos a que a logica nos arrasta
    quando vamos collocar a propriedade na abstracção, no ideal.

    O auctor do opusculo diz-nos que ficaram para sempre celebres certas
    palavras de Lamartine, que transcreve. Triste celebridade. Quanto melhor
    fora que o altissimo poeta em vez de se entreter com estas questões, se
    dedicasse a illustrar ainda mais o seu nome, dando á França um novo
    Jocelyn!–«Ha homens que trabalham com as mãos–diz Lamartine–e ha
    homens que trabalham com o espirito. São differentes os resultados, mas
    é igual o jus de uns e de outros… Gasta certo individuo as forças em
    fecundar um campo: firmaes-lhe a posse delle para todo o sempre…
    Consome outro a vida inteira, descuidoso de si e dos seus, para
    opulentar o genero humano com alguma obra prima, ou com algum pensamento
    que vá transformar o mundo. Nasceu a obra prima: surgiu a idéa;
    apoderam-se delias as intelligencias; aproveita-as a industria;
    negoceia-as o commercio; convertem-se em riqueza… todos tem jus a
    ellas, menos o seu creador… Isto não tem defesa.»

    O que não tem defesa é que em tão poucas phrases se accumulem tantos
    desacertos. Em que obra humana que tenha um fim racional, e portanto um
    valor de utilidade ou de troca, se dá essa distincção completa do
    trabalho da intelligencia e do trabalho physico? Preponderará um ou
    outro; mas separá-los e omittir um delles, eis o que é impossivel. O que
    será facil é determinar as dóses, digamos assim, que a obra ha de conter
    de cada um. Para fazer um livro (sentido metaphorico) ou hei de
    escrevê-lo, ou hei de dictá-lo. No mundo real é que elle não entra sem o
    exercicio dos meus orgãos. Por outro lado, o trabalho physico sem a
    direcção da intelligencia não é trabalho: chama-se movimento. O rolar da
    pedra pela ladeira, o correr do regato, a agitação desordensada do
    febricitante, o estorcer do epileptico, o andar e murmurar do
    somnambulo, nada disso é trabalho.–Gasta as forças o individuo que
    fecunda o campo–pondera o poeta francês. Mas quaes forças? As mesmas
    que gasta o que faz o livro; as do corpo e as do espirito. A charneca ou
    o paul não se convertem em vinha, em olival, em folhas de semeadura, em
    prados, sem a direcção intelligente do arroteador. Qual custaria a
    Matheus de Dombasle mais vigilias, mais cogitações, mais dispendio de
    forças intellectuaes; converter o solo ingrato de Roville em modelo
    admiravel de boa cultura, ou escrever os Annaes daquella granja
    exemplar? Porque não havia de ser exclusivo de Dombasle e dos seus
    herdeiros o applicar o systema de transformação e cultura de Roville a
    outro qualquer solo? Nada ha mais obviamente inexacto do que affirmar
    que o auctor da obra prima litteraria é o unico que não tem direito a
    ella. Pois não vende a edição quando a publica; não a reimprimirá
    quantas vezes quizer? Não tem a vantagem de poder fazer nova edição
    melhorada que mate as edições chamadas contrafacções? Onde e como é elle
    excluido do direito de reimpressão? Agora pelo que toca a esse escriptor
    que consumiu a vida, esquecido de si e dos seus, só com o intuito de
    augmentar o thesouro commum do espirito humano, isso é poesia. Seria uma
    entidade capaz de nos subministrar um Jocelyn das letras: no mundo real
    é que duvido muito que exista. E se existe, o maior favor que lhe podem
    fazer é reproduzir-lhe o escripto. Mais depressa se realisarão os seus
    intuitos; os fins da sua incomparavel abnegação; do seu immenso
    sacrificio.

    Confundir a evolução economica da propriedade movel com as condições da
    immovel, e depois argumentar desta para aquella e daquella para esta, é
    um dos eternos paralogismos dos defensores da propriedade litteraria. Na
    propriedade do campo que o individuo fecundou ha um capital incorporado,
    capital de trabalho intellectual e physico, que, associado com a terra e
    com a renovação annual do trabalho, ajuda este e as forças naturaes e
    gratuitas da terra e da atmosphera a serem productivos. A renda
    representa a quota proporcional que no producto corresponde ao capital
    incorporado, e não a differença da qualidade da terra, como o pretende
    certa eschola de economistas ingleses. Os volumes, porém, de uma edição
    de qualquer obra são um producto completamente, forçadamente, movel e
    venal: não é possivel convertê-lo em capital immovel sem o transformar.
    Vendido o ultimo volume, o auctor póde inverter o preço da edição, no
    todo ou em parte, n'uma cousa immovel ou immobiliaria. É o que succede
    com outro qualquer producto que constitua uma propriedade movel. Mas o
    fabricante principal do livro (sentido natural) não se contenta com
    isto; quer gastar até o ultimo ceitil a sua quota do producto, e que
    todavia fique uma abstracção, a possibilidade de um acto; a reproducção
    contingente do livro (sentido figurado) constituindo uma propriedade
    analoga ao capital incorporado no baldio reduzido a solo productivo.

    Dizer isto será socialismo? É possivel que eu tenha estado a fazer
    socialismo, como mr. Jourdain fazia prosa, sem o saber. O auctor do
    opusculo lança a suspeita dessa heresia politica sobre todos os que
    combatem com vigor o phantasma de uma propriedade que se reputa capaz de
    preço fóra da esphera da apreciação, fóra do mundo real, onde, e só
    onde, se movem e actuam os direitos e os valores. Dir-se-hia que
    combater o absurdo era cousa defesa antes de surgir o socialismo, e que
    foi este que inventou a logica e a severa exposição dos factos. Não
    conheço o livro _Majorats Littéraires_ de Proudhon, citado no opusculo,
    mas se este combateu ahi a propriedade litteraria, não será por isso que
    o senso commum o condemne ás gemonias. Não se me afigura que chamar
    socialista a quem discute, que impor um labéu mais ou menos affrontoso
    desfaça um argumento, nem que seja demonstração concludente e
    irresistivel o affirmar que taes ou taes theorias são más porque são
    socialistas, e que o socialismo é mau porque propaga essas theorias. As
    escholas socialistas (nem eu sei já quantas são hoje) tem doutrinas
    positivas e critica negativa. As doutrinas positivas parecem-me longos
    rosarios de despropositos: a critica negativa, embora frequentemente
    exaggerada, é a meu ver uma cousa séria. Ha ahi indicações de males
    profundos e dolorosos no corpo social, que fazem estremecer as
    consciencias; que fazem cogitar tristemente os espiritos liberaes e
    sinceros. Não são desses males, por certo, as leis de propriedade
    litteraria: são apenas uma fraqueza; são a subserviencia dos poderes
    publicos a uma classe preponderante, mas em cujo gremio não é rara a
    pobreza, e ainda menos rara a necessidade de se rodeiar de gosos e
    esplendores, que muitas vezes accendem a imaginação e inspiram os
    arrojos do engenho. Entretanto os damnos que provêm ao mundo da doutrina
    da propriedade litteraria, não deixam de ter certa gravidade. O maior
    mal é que os livros frivolos, corruptores ou que representam pouco e
    facil trabalho são os que ella mais favoneia: o menor é o inconveniente
    moral de associar a uma cousa séria, ao complexo de direitos originarios
    do homem, uma esperteza sophistica. É por isso que me não permitte a
    consciencia, apesar do consenso dos legisladores, ver no réu de
    contrafacção um criminoso. Ha, todavia, na sua especulação o que quer
    que seja que repugna. Os sentimentos delicados não entram na esphera
    juridica, mas tem na sociedade seu preço e valia, e quem os menospreza
    faz mal. A usura não é hoje um delicto, porque os interesses legitimos
    do capital não se podem determinar _à priori_. A lei justa e sensata
    substituiu nesta parte a lei irreflectida. Mas, que homem digno e
    honrado deixaria de receber como offensa a qualificação de usurario?

    Dos defensores de propriedade litteraria só conheço um que soubesse
    evitar a confusão do ideal com o real. Foi Tommaseo[4]. O que pede para
    os escriptores é a immunidade, o _privilegio_ de só elles poderem
    reimprimir as proprias obras. Eis o que é admissível. Funda-se em razões
    de equidade, de conveniencia social, de merecida benevolencia. Se nem
    sempre os seus argumentos são concludentes, a maior parte delles são
    dignos de attenção.–«Não distingo–diz Tommaseo quasi no começo do seu
    opusculo–o pensamento da fórma que o reveste para affirmar que um é
    venal, outro não. A fórma é parte viva do pensamento em si; não é cousa
    commercial.»–Destroe assim pela base a philosophia jurídica da
    propriedade litteraria. Pouco depois prosegue:–«Por certo que se o paiz
    podesse recompensar com justiça os escriptos de merito por via de
    moderados estipendios, deixando livres para todos as reimpressões, sería
    esta a applicação mais nobre dos tributos. Mas onde ha dinheiro para
    isso? Onde se acharão os juizes? Para discernir os grandes dos mediocres
    (escriptores) seria preciso um congresso dos grandes, e que fossem, além
    disso, desapaixonados; um congresso de deuses.»

    A doutrina verdadeira é a que Tommaseo indica, e que eu indiquei na
    precedente carta; é a recompensa nacional dada ao escriptor que com um
    bom livro foi por qualquer modo util á patria. Mas o obice practico
    posto pelo critico italiano á realisação da doutrina é igualmente
    verdadeiro. Os homens de letras teriam de aquilatar as obras uns dos
    outros, e o excesso de indulgencia, ou os excessos de severidade seriam
    inevitaveis. Em todos os paizes a classe dos homens de letras está
    sujeita, como as outras, talvez mais do que as outras, á violenta das
    paixões. As malevolencias que muitas vezes gera a lucta das idéas, os
    resentimentos que deixam enraizados no coração as feridas do amor
    proprio, a mutua hostilidade das escholas e dos corrilhos, as invejas
    roedoras; tudo, emfim, quanto póde viciar as apreciações humanas
    actuaria na apreciação do livro. O indefinido progresso da civilisação
    trará porventura um estado de cousas em que se torne possivel a
    applicação da theoria. Por emquanto, sou o primeiro em reconhecer que
    ella é inexequivel.

    Entretanto, se nem a recompensa publica é realisavel, nem a invenção de
    um direito absoluto e originario de propriedade litteraria é admissivel,
    ninguem, por certo, nega a utilidade de favorecer o trabalho litterario
    e scientifico, principal elemento do progresso social. Busquem-se os
    meios de o fazer. Outros lembrarão melhores alvitres, mas seja-me
    permittido propor o que me occorre.

    Na minha opinião, o livro deve descer á categoria dos inventos. É esta a
    justiça, porque é a igualdade civil. Nessa categoria não ha o direito
    absoluto. A propriedade é ahi apenas legal, porque deriva do privilegio,
    da lei de excepção (_privata lex_), e portanto existe com as condições e
    limites que ella lhe impõe. Nas doutrinas liberaes geralmente recebidas
    o privilegio só é legitimo quando se estriba na utilidade publica. É
    pois necessario que na propriedade creada pelo privilegio se dê essa
    caracteristica. Eis a condição impreterivel de todas as leis que
    declararem propriedade privada os inventos, as obras de arte e os
    livros. A apreciação para distinguir os uteis dos inuteis, os engenhosos
    dos insignificantes, os beneficos dos nocivos, é portanto inevitavel, e
    todavia, é justamente neste ponto que surge a mais grave difficuldade.

    Como resolvê-la?

    O supposto direito de propriedade litteraria domina em todos os paizes
    _civilisados_; quer dizer, em todos os paizes onde os que escrevem e
    imprimem constituem um poder irresistivel. Esse poder tem actuado nas
    relações internacionaes, como nas legislações. Os tractados sobre o
    assumpto prosperam a olhos vistos. Nós proprios não podemos esquivar-nos
    a celebrar um que pela natureza das cousas era a negação completa da
    reciprocidade que nelle se ostentava. Creio tê-lo demonstrado na carta a
    que estas ponderações servem de appendice. Quizera eu, porém, que este
    accesso de febre diplomatica se aproveitasse para fazer em favor dos
    homens de sciencia e de letras alguma cousa mais sensata e sobretudo
    mais moral do que uma imaginaria propriedade, que por via de regra dá
    maior favor ao livro nocivo ou, pelo menos, frivolo, que ao livro util e
    grave.

    Na peninsula hispanica habitam duas nações irmans que falam duas linguas
    irmans. Navegadoras ambas, descobriram out'ora a America e
    colonisaram-na em grande parte. As colonias portuguesas vieram a
    transformar-se no vasto e opulento imperio do Brazil; as hespanholas nas
    varias e turbulentas republicas que medeiam entre o Brazil e os Estados
    Unidos. Como as indoles, a religião, os costumes e as tradições
    juridicas das duas nações peninsulares se transmittiram ás suas colonias
    de outr'ora, assim as duas linguas são as linguas faladas e escriptas
    dessas amplas regiões, onde uma população, já numerosa, cresce
    rapidamente. Na Peninsula o português mediocremente instruido lê o livro
    castelhano sem sentir mais vezes a necessidade de um diccionario
    bilingue do que sente a de consultar o do proprio idioma para conhecer a
    accepção de alguns vocabulos ou phrases dos escriptores vernaculos. Por
    muito tempo se reputou entre nós luxo litterario escusado um diccionario
    da lingua castelhana. Quantos não lêem jornaes e livros dos nossos
    vizinhos sem delles se aproveitarem, e ignorando até a sua existencia? O
    mesmo succede em Hespanha com a publicações portuguesas. Um hespanhol e
    um português, ambos com certo grau de educação, conversam horas
    inteiras, falando cada qual no proprio idioma, sem se desentenderem. Os
    mesmos phenomenos se reproduzem necessariamente na America. Podem
    fazer-se longas e eruditas dissertações sobre a indole diversa das duas
    linguas, sobre os elementos varios que intervieram na respectiva
    formação e desenvolvimento, sobre as suas distinctas primazias; mas os
    factos actuaes, positivos, practicos, observados por todos são estes.

    Uma convenção entre os diversos estados onde domina qualquer das duas
    linguas resolveria a grande difficuldade e serviria para favorecer as
    manifestações superiores da intelligencia, quer nas letras e na sciencia
    pura, quer nas boas artes, quer nos inventos. Para isto fora necessario
    que em todos elles se considerasse o exclusivo da reproducção como um
    direito positivo, instituido a favor do homem de letras, do artista, do
    inventor, mas tendo por principal motivo o progresso intellectual, moral
    e material da sociedade. A concessão do privilegio representaria então
    uma conveniencia social, que lhe daria solidos fundamentos. Em virtude
    do tractado, todo aquelle que obtivesse tal concessão na maioria dos
    paizes ligados por essa convenção, exceptuado o seu, teria direito de
    exigir immediatamente do seu governo o diploma que lhe assegurasse o
    respectivo privilegio.

    Logo que o auctor ou inventor fizesse reconhecer pelo governo do proprio
    paiz o direito exclusivo de reproducção ou a propriedade legal do seu
    livro ou invento, em virtude das concessões obtidas, ella deveria ser
    mantida no resto dos estados contractantes, embora extranhos á
    concessão. As demais provisões do tractado, como por exemplo, o gratuito
    das concessões, o encargo imposto aos consules geraes de sollicitarem
    _ex officio_ a expedição dos negocios desta especie em que interessassem
    os seus concidadãos, dando-se assim a esses negocios um caracter
    publico; tudo, em summa, que tendesse a torná-lo de facil e segura
    execução seria mais ou menos importante; mas as bases do convenio
    consistiriam necessariamente naquellas disposições fundamentaes.

    Com esta confederação, com esta especie de amaphyctionia consagrada a
    manter a religião do progresso, obter-se-hiam tres grandes resultados em
    relação ás letras: 1.^o, tornar quasi impossiveis as apreciações
    apaixonadas e injustas, aliás quasi certas no systema das recompensas
    nacionaes; 2.^o, deixar neste assumpto á legislação de cada paiz
    confederado o seu caracter autonomo; porque, repudiado o principio do
    direito absoluto de propriedade, e adoptado o da propriedade legal, a
    duração e extensão do privilegio, a escolha dos corpos scientificos e
    litterarios ou a instituição de jurys, incumbidos de resolver os
    negocios de semelhante ordem ou de propor a sua resolução, as
    solemnidades necessarias para se obter a concessão, os meios de se
    realisar o exclusivo da reproducção, tudo ficaria a arbitrio dos
    legisladores de cada estado; 3.^o, os livros frivolos ou deleterios, que
    o direito absoluto de propriedade protege tanto como os bons e uteis e
    uteis, e que infelizmente o mercado protege sem comparação mais,
    ficariam expostos sem defesa á especulação dos contrafactores, e na
    propria procura do mercado achariam para seus auctores o instrumento do
    castigo. Estas tres considerações deviam bastar, creio eu, para mover o
    governo a entabolar negociações sobre essas bases com a Hespanha, com o
    Brazil e com as republicas da antiga America hespanhola, ou ao menos com
    as principaes dellas. Seria favorecer os homens de verdadeira sciencia
    ou de verdadeiro engenho, melhor do que confundindo gratuitamente nas
    leis com o direito absoluto de propriedade a singular invenção da
    propriedade litteraria absoluta.

    CARTA Á ASSEMBLÉA GERAL DA ACADEMIA DAS SCIENCIAS RECUSANDO O AUCTOR A
    REELEIÇÃO DE VICE-PRESIDENTE

    1856

    Senhores.–Uma commissão vossa acaba de me fazer saber que me quizestes
    dar um novo testemunho de apreço, pedindo-me por intervenção della que
    volte ao vosso gremio, e reassuma o cargo de vice-presidente, de que me
    dimitti na sessão de 31 de março.

    Subsistindo ainda as causas que me inspiraram aquella resolução, era
    constrangido a resistir, não só aos desejos manifestados pela Academia,
    mas tambem aos impulsos do meu coração; era constrangido a deixar
    completo um desses asperos sacrificios, que, nas épochas de grande
    devassidão, e dadas certas circumstancias, ao homem de bem cumpre fazer,
    ao menos como um protesto de que no seu paiz não expiraram de todo as
    tradições moraes, e o sentimento da dignidade humana.

    Resolvido a manter a dimissão que dera da vice-presidencia da Academia,
    precisava comtudo de explicar o meu procedimento. Devia-o a esta
    corporação, de quem tenho recebido demonstrações de benevolencia taes,
    que o zelo com que creio havê-la servido, está longe de me libertar
    d'uma grande divida de agradecimento. Em semelhante presupposto, pedi
    licença á commissão para me abster da resposta vocal, e para a dirigir
    por escripto ao illustre gremio, ao qual, depois da sua ultima reforma,
    tanto me ufano de ter pertencido.

    É necessario que comece por uma advertencia indispensavel. Compellido a
    justificar-me perante os meus antigos collegas de desobedecer pela
    segunda vez á sua vontade, manifestada já unanimemente na sessão em que
    me dimitti, e a mostrar que não podia, sem deshonrar-me, tolerar em
    submisso silencio os recentes actos do governo em relação á Academia,
    terei de examinar e julgar esses actos conforme as minhas idéas, e
    ajudado pela maior ou menor capacidade que Deus me deu para apreciar as
    cousas. Quem d'entre vós as afferir por outras idéas, e com mais subido
    grau de intelligencia, chegará, acaso, a conclusões diversas. Taes
    conclusões serão tão legitimas como as minhas; e dessa legitimidade
    derivará a do procedimento de cada um dos membros da Academia. Em
    materias de honra e dignidade não desejaria que alguem acceitasse a
    minha opinião sem a avaliar, nem eu acceitaria sem isso nem voto alheio,
    por mais auctorisado que fosse, para me guiar por elle.

    Que se me permitta resumir aqui o negocio que me forçou a tomar uma
    resolução extrema, resolução talvez a mais custosa que na minha vida me
    tenha imposto a voz da consciencia.

    Eis os factos:

    O secretario geral perpetuo da Academia recebera desta um voto de
    censura por falta voluntaria no cumprimento dos seus deveres. Irritado
    por aquella censura, elle reincidiu, recusando exercitar seu officio nas
    assembleas geraes e nas sessões do conselho administrativo, mas
    reservando as outras attribuições do cargo. A Academia não toleraria tão
    insolita resolução em qualquer socio que exercesse funcções gratuitas:
    menos a podia tolerar ao socio que era funccionario pago. Procurou
    chamá-lo á razão, e não foi escutada. Era, portanto, indispensavel
    completar a meia suspensão que o secretario imposera a si proprio. Fê-lo
    por votação unanime. Todavia não privou o empregado suspenso do seu
    vencimento, porque procedia sem paixão. Se obrara severamente, fora a
    isso compellida pela necessidade de manter as leis e a disciplina da
    corporação.

    Seguia-se dar conta deste grave successo ao governo pelo ministerio do
    reino. A Academia fê-lo tambem. A representação de 10 de julho de 1855
    expunha lealmente o que havia occorrido, e pedia providencias decisivas
    que terminassem por uma vez os continuos embaraços que suscitava o
    secretario perpetuo. Á vista dos factos ponderados nessa representação,
    se o ministro quizesse respeitar um instituto que em todas as épochas
    foi tido na mais subida consideração pelos poderes publicos, e a quem
    elle devera a honra de ser admittido no seu seio, a unica resolução
    possivel era a aposentação do secretário. A sua provecta idade, os
    longos annos que exercera o secretariado, e os conflictos que
    diariamente se alevantavam entre aquelle funccionario e o corpo
    academico, tornavam não só plausivel, mas tambem necessaria semelhante
    providencia. A perpetuidade do officio importava vantagens e encargos
    para o secretario: a aposentação conservava-lhe as primeiras, e
    libertava-o dos segundos. O corpo academico satisfazia-se com isto:
    comprava a paz com um sacrificio pecuniario, e podia dedicar aos
    trabalhos litterarios o tempo que consummia em cohibir um empregado
    absolutamente incorrigivel.

    Alguns membros da Academia, em relações mais estreitas com o ministro do
    reino, parece terem-no aconselhado a assim proceder. Ignoro o que a este
    respeito se passou. O que sei é que, por uma grosseria singular, a
    representação de 10 de julho ficou sem resposta ou decisão durante
    alguns mezes, bem como o ficou a de 3 de dezembro, em que a Academia
    dirigia ao governo novas e vivas instancias sobre o assumpto.

    Uma circunstancia dígna de notar-se dava, porém, uma tendencia offensiva
    ao proceder do ministro.

    Havia muito que circulavam boatos pouco honrosos para o caracter moral
    do secretario perpetuo. Falava-se ácerca de abusos practicados no
    exercicio das attribuições demasiado amplas que lhe facultavam os
    estatutos e regulamentos academicos. Nunca eu tinha dado credito a taes
    boatos: eleito, porém, vice-presidente da Academia, e achando-me por
    isso membro do conselho administrativo, conheci que esses boatos não
    careciam de fundamento. Membro como eu do conselho, o digno presidente
    da primeira classe tambem sabia das circunstancias que justificavam as
    suspeitas. Amigo pessoal e politico do ministro do reino, e havendo-se
    encarregado do sollicitar extra officialmente uma resposta á
    representação de 10 de julho, falou-lhe com a lealdade e franqueza que o
    caracterisam, e ponderou-lhe as particularidades que forçavam o governo,
    por seu proprio decoro, a tomar uma resolução accorde com os desejos da
    Academia. Evitava-se assim um escandalo, e que a deshonra viesse a cahir
    algum dia sobre a cabeça encanecida d'um homem de letras, consequencia
    que a necessidade de obstar para o futuro aos desconcertos passados mais
    tarde ou mais cedo havia de produzir. O ministro pareceu tomar em conta
    essas considerações amigaveis, e s. ex.^a o sr. presidente da primeira
    classe referiu n'uma reunião de academicos o que se passara. É por isso
    que cito aqui semelhante facto. Pela sua elevada jerarchia como par do
    reino, s. ex.^a tinha direito a esperar que as palavras do ministro
    houvessem sido graves e sinceras: como membro da maioria de uma das
    camaras tinha ainda maior direito a fazer ouvir os seus conselhos, visto
    que diante do paiz acceita um quinhão de responsabilidade moral pelos
    actos do poder. Não succedeu, porém, assim. Contra a razão, contra todas
    as indicações da decencia, o secretario perpetuo da academia, suspenso
    por ella com justos fundamentos n'uma votação unanime, manchado por
    suspeitas pouco honrosas, conhecidas do ministro do reino, e que o
    ministro do reino tinha obrigação de verificar, se é que o individuo que
    lhas communicava não merecia a sua plena confiança; o secretario
    perpetuo, que, collocando-se n'uma posição illegal, respondera com o
    desprezo ás advertencias moderadas da sua corporação, e se mostrara
    alheio ao sentimento do proprio dever; esse homem, para quem a Academia
    desejava, na sua immensa indulgencia, a obscuridade e a paz dos ultimos
    dias da vida, foi nomeiado guarda-mór da Torre do Tombo, cargo
    importante, porque presuppõe, não só elevados dotes litterarios, mas
    também inconcussa probidade. Era a unica e definitiva resposta do
    governo ás respeitosas representações de 10 de julho e de 3 de dezembro,
    e aos conselhos prudentes e amigaveis de um homem que o ministro devera
    respeitar. Honrado com a confiança do supremo poder, vingado do desar
    que recebera, o successor de Gomes Eannes de Azurara, de Rui de Pina, de
    Damião de Goes, João Pinto Ribeiro, de José de Seabra, de D. Francisco
    de S. Luiz, atirou á Academia com os seus diplomas de secretario e de
    socio. O governo tinha-lhe dado outro que para elle, e talvez para o
    mundo, era de maior valia.

    Pelas minhas faces não roçaram esses diplomas; porque na sessão da
    vespera depusera perante a Academia o cargo de vice-presidente,
    convertido agora n'uma cruz de vilipendio com que os meus hombros não
    podiam: não roçaram pelas minhas faces, nem pelas dos numerosos membros
    desse respeitavel instituto, que na mesma sessão declararam estarem
    resolvidos a retirarem-se como eu, se a corporação a que pertenciam não
    fosse plenamente desaggravada de uma offensa immerecida.

    Sei que houve quem dissesse que essa dimissão voluntaria do secretario
    perpetuo, despachado pelo ministro na constancia da sua suspensão,
    importava um desaggravo para a Academia, como se a injuria do poder
    acumulada ao desprezo do agraciado equivalessem a uma reparação!
    Disse-se tambem, creio eu, que não havia lei para a aposentação do
    secretario perpetuo, como se não valessem nesta hypothese os principios
    geraes de justiça e as regras de administração; senão houvesse por um
    lado a perpetuidade do cargo e por outro a impossibilidade physica ou
    moral do individuo, e se emfim, o governo, nimiamente escrupuloso, não
    podesse obter sobre isso do parlamento qualquer declaração legislativa.
    Não qualificarei taes desculpas: só direi que deploro tamanha aberração
    d'espirito.

    Havia, porém, no acto do governo uma circumstancia que particularmente
    feria a segunda classe. Sabe a Academia quão vasto e difficil trabalho
    ella emprehendeu na publicação dos monumentos historicos do nosso paiz,
    e que a parte principalissima desse trabalho tem sido e deveria
    continuar a ser feita na Torre do Tombo. O ministro, collocando á frente
    daquelle estabelecimento o empregado suspenso pela Academia, fechava as
    portas do Archivo geral do reino, não só a mim, que mais particularmente
    estava encarregado da empresa, mas tambem a qualquer socio que houvesse
    de succeder-me; porque creio firmemente que todos elles tem bastante
    dignidade e amam assás a propria reputação, para nunca mais cruzarem os
    umbraes do archivo nacional emquanto o ex-secretario da Academia se
    achar á frente daquella repartição.

    O governo póde entregar a quem quizer a guarda dos documentos do estado,
    e de outros em que se estriba a fortuna de muitas familias, conservados
    na Torre do Tombo. Livre é a sua acção administrativa; sua a
    responsabilidade perante o parlamento e perante o paiz. Sem o aggravo
    que lhe foi feito, a Academia nada teria com esse acto. Os membros,
    porém, da segunda classe, e nomeiadamente os da secção de historia, além
    da offensa commum, receberam outra mais grave; foram virtualmente
    expulsos do archivo publico. O governo condemnou-os á inacção; porque,
    no estado actual dos conhecimentos humanos, nenhuns estudos serios sobre
    a historia de Portugal, sobre a sua jurisprudencia, e ainda sobre um
    certo numero de questões economicas e litterarias relativas ao nosso
    paiz se podem fazer dignamente sem o exame dos monumentos acumulados
    naquelle vasto repositorio, que hoje se acha ainda mais enriquecido
    pelos esforços, e até á custa da Academia. Ha perto de oitenta annos que
    todos os governos se tem mostrado sollicitos em favorecer taes estudos,
    e em facilitar aos membros da primeira sociedade litteraria do reino os
    meios de cultivarem as letras patrias. É o actual o primeiro que quebra
    essas tradições, e que os força pelos sentimentos mais nobres do homem,
    pelo pundonor, e ainda mais, pelo receio de comprometter a propria honra
    em qualquer extravio que possa occorrer de documentos publicos, a
    considerarem como vedado para elles o accesso da Torre de Tombo.

    Este procedimento é na verdade inexplicavel. O ministro do reino, socio
    da Academia Real das Sciencias, homem de letras, e entendimento claro,
    avaliava bem quão doloroso devia ser para os seus consocios, não só a
    demonstração de desprezo, que o governo lhes dava, mas tambem o verem-se
    em parte banidos da republica das letras pela coacção moral. Entre elles
    ha amigos pessoaes e politicos do ministro, ha homens inoffensivos,
    exclusivamente dedicados á sciencia, ha individuos cujos propensões os
    impellem para trabalhos litterarios sem connexão com as indagações
    historicas; mas, infelizmente, em outros davam-se, além dessas, outras
    condições. O ministro sabia-o, calculava o alcance do que fazia, a
    consciencia não podia deixar de accusá-lo, e apesar disso, não recuou
    diante de uma nomeiação, deploravel em si, e evidentemente hostil á
    Academia.

    Se a razão nos assegura que o ministro obrava mal deliberadamente, um
    facto significativo vem confirmar de mais directo modo a inducção do
    raciocinio. Se lançardes os olhos para as columnas do _Diario do
    Governo_, onde se lêem a cada passo os diplomas de nomeiação dos
    empregados ainda mais obscuros, não busqueis lá o do novo guarda-mor da
    Torre do Tombo, porque não o haveis de encontrar. Sabeis o que é este
    silencio? É a voz da consciencia do ministro.

    E depois, não ouvistes segredar pelos cantos não sei que intervenções da
    corôa neste deploravel negocio? A deslealdade e a inconstitucionalidade
    parece terem substituido a doutrina que faz responsaveis só os
    ministros. Acaso nesta quadra que vamos atravessando, e que tantas vezes
    nos recorda as paginas mais tristes da historia do Baixo Imperio, deixou
    de acatar-se já, não direi a personificação de um supremo principio
    politico, impeccavel e sancto, mas, ao menos, a innocencia e a probidade
    dos dezoito annos, em que ainda todos cremos na justiça publica e na
    lealdade dos homens? Nem sequer uma fronte pura escapará ao lodo que
    para nós espadana do charco das paixões politicas? A calumnia, murmurada
    em voz baixa, ha de negar-se a si propria. Bem o sei; porque sei que a
    certos individuos falta até o esforço das grandes covardias. Mas que me
    importa isso, se o murmurio da calumnia nem só por mim foi ouvido?

    O que me parece evidente é que se practicou um acto mau com determinada
    intenção; que a injuria que recebestes foi friamente dirigida, e que,
    tanto por dignidade propria, como por dignidade da corporação a que tive
    a honra de presidir, não posso acceitar o vosso tão apreciavel convite.

    Custa-me, e muito, pensá-lo assim. Accordes em geral n'um só vontade,
    forcejavamos todos para restituir á Academia o seu primitivo esplendor.
    Pela minha parte não poupei incommodos e esforços de mais de um genero
    para que Portugal podesse associar-se ao resto da Europa, de um modo
    digno de nós, no empenho da publicação dos seus monumentos historicos.
    Se o alcancei ou não, emquanto m'o consentiram, di-lo-ha a Academia: o
    que eu sei dizer é que a nenhum outro paiz, nem ao nosso em casos
    analogos, foi tão pouco dispendioso tanto trabalho como o que se acha
    feito. Levo saudades desta empresa, porque era um documento de pundonor
    academico e de patriotismo. Outros a continuarão melhor algum dia,
    postoque não com maior zelo. Como sabeis, ahi fica impressa a legislação
    do berço da monarchia, e ficá-lo-ha igualmente, conforme vos prometti, o
    primeiro fasciculo das antigas chronicas e memorias de Portugal, que
    neste momento se imprime. Estão colligidos e em parte promptos para
    entrarem no prelo muitos monumentos narrativos, toda a legislação patria
    até os fins do seculo XIII, os foraes primitivos do reino e o seu
    direito consuetudinario, além de muitos centenares de diplomas
    importantes do seculo VIII até o XI. Dos socios da segunda classe que
    entenderem ser-lhes licito continuar a pertencer ao quadro effectivo da
    Academia, os que se houverem de encarregar da empresa acharão sempre em
    mim boa vontade para lhes subministrar as especies de que carecerem
    relativas a esse assumpto.

    Não meu moveu á resolução que tomei, não me move a mantê-la agora nenhum
    capricho pueril, nenhum sentimento de malevolencia para com pessoa
    alguma. Move-me a convicção de que cumpro os deveres de homem honesto
    que presa o proprio caracter. Não abandono sómente por estes deveres a
    honra de vos ajudar nos vossos encargos academicos; abandono os meus
    interesses privados, materiaes e litterarios. Para mim a carreira de
    historiador cessou, e o mais provavel é que cessasse definitivamente;
    porque quando uma vez nos afastamos de certa ordem de ideas, de certos
    estudos, que requerem sobretudo paciencia e constancia, é difficil e
    raro que voltemos depois a elles. Esses em que mais me comprazia ahi
    ficam truncados, incompletos. Se o poder se gloria com isso, que folgue:
    é gloria que ha de durar mais do que eu e do que elle.

    Estareis lembrados do que vos disse depondo em vossas mãos a dignidade
    de que me havieis revestido por duas vezes, erro que, a meu ver, vos
    acarretou os dissabores do insulto official. Se o receio de um
    compromettimento de honra me não fechasse as portas da Torre do Tombo,
    fechava-m'as a minha situação especial. O accesso dos archivos do reino
    só póde ser franqueiado ou pela benevolencia e confiança do seu chefe
    responsavel, ou por ordem expressa do governo. Como membro da Academia e
    para serviço publico poderia acceitar e até sollicitar essa ordem: como
    individuo particular nem tão insignificante mercê receberia dos homens
    que nos regem. Do chefe actual do archivo, desse é obvio que não posso
    desejar nem a confiança nem a benevolencia.

    O sacrificio que impús a mim mesmo como simples cidadão abona a
    sinceridade do que faço como membro da Academia. Debaixo da affronta
    collectiva senti a aggressão individual contra o adversario politico;
    aggressão dissimulada, tortuosa, mesquinha, e todavia pungente, como
    cumpria que fosse vinda de que vinha; porque os habeis são sobretudo os
    que sabem aproveitar bem e me todas as relações as conjuncturas
    propicias. Inutil á classe por inactividade forçada, a minha conservação
    na vice-presidencia não seria senão a origem de novos aggravos a uma
    corporação tão respeitavel como inoffensiva. Bastava esta consideração
    para me afastar da vice-presidencia da Academia.

    Terminarei fazendo votos pela prosperidade desse instituto: para que
    haja de contribuir poderosamente para o progresso do espirito humano e
    para a gloria litteraria e scientifica da terra em que nasci. O que não
    sei é se isto vos será possivel n'uma epocha e n'uma situação em que por
    caminhos tenebrosos se ferem os adversarios leaes, não no corpo, mas na
    alma; em que se calcula de antemão que a honestidade e o pundonor da
    propria victima a ageitarão á ferida; em que para punir as opiniões se
    mutilam ou atrophiam as intelligencias. É a grande differença que vai da
    decadencia das sociedades antigas á decadencia das sociedades actuaes.
    Os Sejanos de Tiberio, servidos pelo ferro e pelo veneno, accordes com o
    cesar n'uma só vontade, eram materialistas e grosseiros na satisfação
    dos seus odios. Hoje a falta de um Tiberio não incommoda os Sejanos
    modernos: ser-lhes-hia inutil o velho de Caprea. Tem horror ao sangue:
    são tolerantes, espiritualistas, delicados, subtis. Ou corrompem, ou
    assassinam o espirito. Não vai mais longe a sua tyrannia. Depois, os
    Sejanos d'outrora acompanhavam com rir feroz os gemidos dos martyres: os
    de hoje respondem ao grito que nos arranca a dor da angustia moral, com
    espremer duas lagrymas sobre as faces, e com murmurar queixumes, em voz
    sentida e flebil, contra os que calumniam as suas intenções mais
    innocentes e puras.

    MOUSINHO DA SILVEIRA OU LA RÉVOLUTION PORTUGAISE

    1856

    La Providence, qui fait aux nations des origines et des destinées
    diverses, ouvre aussi à la justice et à la liberté plus d'une voie
    pour entrer dans les gouvernements.

    Guizot, _Hist. des Origin. du Gouvern. Représ., Préface_

    I

    Vous me demandez, mon cher F…, quelques notes sur Mousinho da Silveira,
    sur ce personnage, qui n'a été ni agioteur, ni baron, ni noble, ni
    général, ni académicien, ni journaliste, et que, cependant vous avez
    entendu vanter comme l'un des hommes les plus remarquables de notre
    époque, comme le plus remarquable, peut-être, de notre pays. Si je vous
    envoyais les notes réclamées, je ne pourrait vous dire que ce qu'il vous
    est loisible lire dans sa biographie, écrite, si je ne me trompe, par M.
    D'Almeida-Garrett. Je ne connais, en effet, d'autres particularités sur
    sa vie, que celles qui sont consignées, dans cet écrit. Mais ce que je
    puis, c'est essayer de vous faire comprendre, d'une manière peut-être
    plus claire et plus prècise, pourquoi ceux qui voient les choses d'une
    certaine hauteur regardent Mousinho da Silveira comme un homme
    supérieur, je dirai plus, un génie. La raison en est que Mousinho fut un
    verbe, une idée faite chair: il a été la personnification d'un grand
    fait social, d'une révolution qui est sortie de sa tête, et qui,
    bouleversant la société portugaise de fond en comble, a tué notre passé
    et créé notre avenir. Il a pris au sérieux la liberté du pays, et, en
    l'asseyant sur des bases inébranlables, il a rendu impossible le
    rétablissement du despotisme, ou tout du moins d'un despotisme durable.
    Sur un petit théâtre, il a fait plus que Robert Peel en Angleterre; car
    la révolution de Mousinho ne fut pas seulement économique; elle fut
    aussi politique et sociale. Lui et D. Pedro, voilà, pendant la première
    moitié de ce siècle, les deux hommes publics du Portugal, qui ont laissé
    sur cette terre une empreinte à jamais ineffaçable.

    L'un était la pensée, l'autre le coeur et le bras.

    Avant l'époque où le duc de Bragance prit en main les rênes d'un pouvoir
    contesté et choisit Mousinho pour ministre, les essais de gouvernement
    représentatif, chez nous, n'avaient abouti à rien, car les moyens qu'on
    employait pour l'obtenir étaient impuissans ou plutôt ridicules. Avant
    ces deux hommes, les institutions libérales en Portugal ressemblaient à
    ces arcs de triompbe qu'ont bâtit, les jours de fête, avec des branches
    d'arbres touffues, qui tombent fanées au bout d'une semaine. Les deux
    robustes pionniers firent autrement. Sur un sol imbibé de sang ils
    passèrent la charrue et, retournant les racines des bruyères parasites,
    deposèrent au fond des sillons les germes d'institutions durables.

    Entre nous soit dit, mon cher F…, avant et après les évenements de
    1831 à 1834, l'histoire du libéralisme en Portugal n'est qu'une comédie
    de mauvais goût, qui s'élève ou descend quelque-fois (je ne sais trop
    quel est le mot propre) au ton du mélodrame. Du Shakespeare de bon aloi,
    on n'en trouve qu'à cette époque, et, dans notre drame shakespearien,
    n'apparaissent que deux grandes et nobles figures: Mousinho et le fils
    de Jean VI. Le reste, et je le dis en toute humilité de coeur, ne vaut
    pas la peine qu'on en parle. Ce sont des financiers, des barons, des
    vicomtes, des comtes, des marquis de fraîche et mème d'ancienne date,
    des commandeurs, des grands cordons, des conseillers, qui glapissent,
    qui se ruent, qui se pressent, qui se culbutent, qui se renversent et se
    relèvent, qui rongent cette maigre proie qu'on appelle le budget, ou qui
    crient au voleur quand ils ne peuvent pas prendre part à la curée.

    J'écris à la hâte ces lignes, remplies probablement d'autant de fautes
    de français qu'il y a de billevesées dans la tête de nos hommes d'état.
    Je n'ai pas le temps de les corriger; il suffit que vous puissiez me
    comprendre. En vous faisant un résumé historique de la naissance et des
    progrès du système libéral dans ce pays, il est possible que le croquis
    devienne caricature: ce ne sera pas ma faute. Sous la plume de
    l'écrivain, la forme s'adapte, parfois à l'insu de l'auteur, à la nature
    du sujet. Je tâcherai de respecter les individus vivants, car la
    bienséance l'exige. Pour ce qui regarde les groupes, les coteries, les
    factions, les partis, je me moque de leurs colères! J'ai le courage de
    mes opinions, Dieu merci! Ce croquis vous fera apprécier dûment, je
    l'espère, ce que c'était que ce météore appelé Mousinho da Silveira; car
    il fût un météore, qui, apparu un moment dans les horizons politiques, a
    presque aussitôt disparu, en laissant après lui une traînée lumineuse,
    que toutes nos folies et toutes nos fautes n'ont put effacer du sol de
    la patrie.

    Je commence un peu de loin; vous verrez que ce n'est pas inutile.

    Imbus des idées libérales, que les livres et les journaux français ont,
    pendant un demi-siècle, inculquées partout dans l'esprit des hommes des
    classes moyennes, nos pères préparèrent, dans des sociétés secrètes, une
    révolution libérale, qui éclata en 1820. A dire vrai, cette révolution
    répondait à de grands besoins sociaux et politiques. Le Portugal, ce
    vieux conquérant des plages maritimes de l'Afrique et de l'Asie, ce
    colonisateur d'une partie de l'Amérique, était devenu, à son tour, une
    colonie singulière dans son genre. Économiquement parlant, nous étions
    des colons do Brésil, où un gouvernement corrompu, les ministres de Jean
    VI, espèce de roi Réné affublé du chapeau crasseux de Luiz XI,
    dépensaient sottement les impôts ou les volaient pour s'enrichir ou pour
    enrichir des parvenus sans mérite ou de nobles abâtardis. Politiquement
    parlant, nous étions des colons anglais. Notre armée était une armée
    anglaise, dont les soldats, et presqu'uniquement les soldats, étaient
    nés dans ce pays. Un général anglais nous gouvernait au moyen d'une
    régence servile, qui était censée représenter en Portugal le roi retenu
    à Rio-de-Janeiro. On avait même poussé l'impudence jusqu'au point
    d'imprimer ostensiblement au front de nos pères le sceau de la
    servitude, en mettant un diplomate anglais au nombre de ces régents de
    comédie. Un traité malheureux avait placé notre commerce à la remorque
    du commerce anglais, et notre industrie avait été absolument sacrifiée à
    l'industrie anglaise. Il ne nous manquait que d'être forcés à exprimer
    le peu d'idées que l'absolutisme regardait comme viables dans le
    baragouin celto-saxo-normand, qu'on appelle la langue anglaise et dont,
    depuis deux cents ans, on s'efforce de faire un langage humain, un moule
    littéraire. Ce n'était pas l'action, ou, si on le veut, la pression
    qu'exerce une grande, riche et puissante nation sur un peuple pauvre,
    petit et faible, quand la marche des évènements et des siècles a établi
    entre les deux sociétés des rapports intimes. Celle-là, on la souffre,
    car elle est inévitable, fatale. Non, ce n'était pas cela. C'était une
    domination insolente et brutale; c'étaient la honte, la misère,
    l'abrutissement de l'esclave. Il fallait bien sortir de là ou mourir. Si
    les idées libérales n'eussent pas engendré la révolution de 1820, une
    autre mêche quelconque eût fait sauter la mine. Même exténués et
    moribonds, les peuples, comme les individus, tressaillent toujours à
    l'aspect du trépas.

    La révolution s'accomplit, et les besoins moraux les plus pressants du
    pays furent satisfaits. Le roi revint à Lisbonne, et la tache de colonie
    brésilienne s'effaça du front de la métropole. Cela amena plus tard
    l'émancipation du Brésil. Ce fût un mal pour nous peut-être, mais notre
    avilissement antérieur était pire. Du reste, le Brésil, en
    s'affranchissant, était dans son droit. Le proconsul anglais,
    Carr-Beresford, s'en alla en Angleterre étriller ses grooms et ses
    chevaux de race, inspecter ses tonneaux de bière et défendre, au nom de
    je ne sais combien de statuts, les lièvres de ses _glens_ des
    empiétements des braconniers. Les officiers anglais de Portugal
    suivirent le noble lord. On renvoya à Jean II, dans son cercueil, la
    charle de l'absolutisme, et à Jean III, également dans le sien, la bulle
    de l'inquisition. On brùla de la cire et de l'huile à foison en des
    illuminations splendides, et l'on s'habilla de drap national
    horriblement grossier et passablement cher. Ce fut un feu croisé de
    banquets, de processions, de fusées, de discours, d'arcs-de-triomphe, de
    revues, de _Te Deum_, d'élections, d'articles de journaux, et de coups
    de canon. Chaque jour amenait sa fête nouvelle; on en raffolait. C’était
    une pluie battante d'hymnes, de sonnets, de chansons, de drames, de
    coupes d'habits, de formes de souliers libéraux. Les loges maçoniques se
    multipliaient: des sots y allaient en foule verser leur argent en
    l'honneur du _Suprême Architecte de l'Univers_, et les habiles y
    allaient aussi manger pieusement le susdit argent, toujours en l'honneur
    du susdit _Architecte_. C'ètait à en crever de plaisir et
    d'enthousiasme. Les cortès s'assemblèrent. On fit une constitution à peu
    près republicaine, mais parfaitement inapplicable au pays. On répéta,
    mot pour mot, traduits en portugais, ou peu s'en fallait, les discours
    les plus saillants du _Choix des Rapports_, ou les pages les plus
    excentriques de Rousseau et de Bentham; ce que l'on faisait avec la
    probité littéraire la plus scrupuleuse à l'ègard des idées, en
    n'omettant que le nom des auteurs. Le peuple était ébahi de se trouver
    si grand, si libre, si riche en droit théorique, car pour ce qui était
    de la réalité, c'est-à-dire les faits palpables, matériels de la vie
    économique, ils étaient restés, à bien peu de chose prés, les mêmes.

    Cela dura deux bonnes années. Tandis que les libéraux babillaient,
    l'absolutisme, qui s'était tû, pensait; et quoique, comme chacun sait,
    il ne soit point un très-fort penseur, il raisonna juste, car il en
    avait bésoin.

    La révolution, prise dans son ensemble, n'offrait qu'un côté sérieux.
    C'était ce qui avait quelque rapport avec ses causes les plus efficaces,
    ce qui était la conséquence de ces causes; l'affirmation de son idée
    negative. Il _n_'y avait plus d'anglais dans l'armée, _ni_, d'une
    manière ostensible, dans le gouvernement; le roi _n_'était plus au
    Brésil. L'inquisition, vieille mégère aux dents ébréchées, aux ongles
    brisés, qui ne faisait plus peur, quand on la tua, qu'à quelque
    femmelette assez sotte pour se croire sorcière, ou à quelque moine
    lascif assez fou pour afficher publiquement ses vices, avait cessé
    d'exister, c'est vrai; mais l'absolutisme pouvait, sans gêne, se passer
    de ses services. En laissant les anglais en Angleterre, le roi à Ajuda
    ou à Bemposta, et l'inquisition à la voirie, la réaction n'avait à
    rencontrer sur sa route aucune idée morale assez grande pour lui offrir
    un obstacle de quelque poids, aucuns intérêts matériels nouveaux créés,
    pour le peuple et parmi le peuple, qu'il fallût heurter. Quant à ces
    intérets, la révolution n'avait songé qu'aux draps, et les draps étaient
    chose morte. Nos amis d'Angleterre nous avaient fourni du drap
    _national_ meilleur et à plus bas prix. Le patriotisme _de re vestiaria_
    avait déjà déserté pour le camp anglais. Il ne restait rien à combattre
    que les criailleries des beaux parleurs. Mais la réaction, en fermant
    les cortès et en mettant à leur place la censure et la police, en aurait
    aisêment raison.

    Voilà ce qu'on pensait et ce qui était d'un bon sens admirable.

    Aussitôt que l'absolutisme trouva le fruit mur, il le détacha de l'arbre
    presque sans secousse. L'armée, qui avait fait la révolution, la défit.
    D'un coup de pied, l'on envoya la constitution rouler à la voirie où
    gîsait l'inquisition. Elles y restèrent paisiblement toutes les deux,
    côte à côte, dormant le sommeil du juste.

    Le roi se trouva maître absolu du pays. Permettez-moi que je vous parle
    un peu de ce bon Jean VI, qui étail, peut-être, le plus brave homme de
    son royaume. Quoiqu'il fût très laid, nos vieux libéraux, avec quelques
    grains de bon sens, en auraient fait l'un des plus beaux types de roi
    constitutionnel qui fût jamais. Philosophe et théologien à sa manière,
    les questions tant soit peu creuses et mystiques du droit divin et de la
    souveraineté populaire ne semblent lui avoir donné done beacoup de
    souci. Il n'était pas même en très-bonne odeur de sainteté auprès des
    véritables amis du trône et de l'autel. On l'accusait de pencher du côté
    des francs-maçons, ce qui peut faire honneur à sa bonté, mais pas du
    tout à son intelligence. Il aimait ses aimait presqu'autant que ses
    bonnes pièces d'or, qu'il encaissait avec une tendresse vraiment
    paternelle; presqu'autant que ses moines franciscains à la voix de
    Stentor, avec lesquels il psalmodiait, à Mafra, des _Oremus_. Les
    libéraux lui avaient ponctuellement payé je ne sais combien de millions
    de francs de sa dotation royale, et le chant des moines avait retenti,
    sans interruption, sous les voûtes du couvent-palais de Mafra, Il ne
    pouvait raisonablement pas garder rancune à de si honnêtes gens. Du
    reste, ces démocrates de 1820, empesés, raides, à la cravate blanche, à
    l'habit noir, aux manières respectueuses et posées, prenant énormement
    de tabac, cuirassés de droit romain, et ne parlant des rois-jadis qu'en
    faisant claquer devant leurs noms la formule sacrémentelle le _seigneur
    roi un tel_, ne pouvaient inspirer moulte crainte à Jean VI, qui avait
    toute cette finesse proverbiale des campagnards de la banlieue de
    Lisbonne, où il était né. Après la chûte de la constitution, quelques
    bonnes âmes voulaient, à toute force, qu'il tâtât un peu de la tyrannie;
    mais ce n'était pas un mêts de son goût; il préférait les poules grasses
    que ses compères, les campagnards de la banlieue, lui vendaient le plus
    cher possible, et que, bien assaisonnées, sa majesté se plaîsait à
    dépecer, sans couteau ni fourchette, de ses royales mains. C'était sa
    cruauté à lui! On insista, croyant que, parcequ'il portait un chapeau
    troué et rapiécé comme Luiz XI, il devait porter aussi un coeur de
    tyran. Le roi riait dans sa barbe de cette étrange bévue. S'il portait
    ce chapeau, c'est qu'il ne voulait pas en acheter un autre, car un
    chapeau n'est pas chose qu'on achète avec des mots. Il le portait aussi
    pour une autre raison, tout juste et absolument contraire aux désirs de
    ces bons messieurs les tyranneaux. De sa vie, il n'avait eu qu'une seule
    fois l'envie de faire le Néron. Ce fut à propôs d'un superbe manteau de
    drap bleu tout neuf, qui lui avait coûté une douzaine au moins de belles
    et bonnes pièces d'or, et qu'on lui vola dans son carrosse, un jour
    qu'il s'était rendu à l'églisse patriarchale, pour entendre beugler des
    antiennes à je ne sais plus quel _basso_ célèbre venu, tout exprès, dans
    ses états, pour chanter, moyennant un prix fabuleux, le nom du Seigneur.
    Sa colère lui avait fait mal; les idées de vengeance et de sang qui lui
    avaient trotté par la cervelle, en se trouvant volé, le remplissaient
    d'horreur. Or, s'il achetait un chapeau neuf, ne pourrait-on pas le lui
    voler aussi, et ne pourrait-il pas lui, la colère l'emportant, envoyer,
    à propos d'un chapeau volé, quelque pauvre diable au gibet? C'est là ce
    qui lui faisait passer outre le chapitre des chapeaux neufs.

    L'histoire du roi Jean VI finit comme finissent toutes les biographies:
    par la mort. Les libéraux en furent désolés. Je n'étais alors qu'un
    enfant; mais je garde encore bien vif le souvenir de cet événement. Mon
    père, libéral de vieille roche, ma mère, mon aîeule, toute la famille
    pleurait à chaudes larmes: je pleurais aussi, car j'etais né un peu
    poète et j'avais l'instinct de l'harmonie. Il est vrai que je n'y
    comprenais rien, car pour moi ces mots–«Le roi est mort!»–signifiaient
    tout bonnement que je ne verrais plus un gros et laid vieillard, à
    l'oeil terne, aux joues basanées et flasques, au dos voûté, aux jambes
    enflées, enfoncé dans un carrosse et suivi d'un escadron de cavalerie.
    Si donc je pleurais, c'était pour l'ensemble; car, pour parler
    franchement, ne pouvant apprecier le moral du roi, son physique me
    faisait horriblement peur.

    Le vieux dicton français _Le roi est mort, vive le roi!_ a, quoiqu'on
    dise, un sens profond. C'est que la monarchie, élément et symbole de
    l'unité sociale, ne peut pas plus avoir une solution de continuité dans
    la succession des temps, que s'éparpiller, dans sa vie d'actualité, aux
    mains de deux ou trois individus. La royauté, mon cher républicain, n'a
    pas de fissures. Les empereurs ne s'y glissent pas comme des chenilles:
    il faut qu'ils ouvrent une trouée bien large, en face de tout le monde
    et à beaux coups de canon, ce qui n'est pas facile, attendu que les
    vieilles royautés ont la peau et les os assez durs. C'est ce qu'on a
    compris à Lisbonne en 1825, mieux qu'à Paris en 1848: je vous en demande
    bien pardon.

    Tout le monde cria donc:–«Le roi est mort, vive le roi!»–et tout le
    monde aussi tomba d'accord que le roi était D. Pedro, le fils aîné de
    Jean VI. Cela, du moins, semblait clair. Pour les uns D. Pedro
    signifiait l'espoir du gouvernement absolu, pour les autres le retour
    aux institutions libérales. Il fallait bien que quelqu'un se trompât. On
    envoya au Brésil une députation chargée de porter au prince la vieille
    couronne portugaise et les serments d'allégeance de son peuple. D.
    Pedro, en acceptant la couronne, dérouta les espérances de ceux qui
    avaient compté sur lui ou, du moins, sur son indifférence supposée
    touchant les affaires du Portugal, pour étayer, en son nom, l'édifice
    vermoulu du passé. Il octroya une charte à ses nouveaux sujets, charte
    qui avait sur la constitution démocratique de 1822 la supériorité
    incontestable d'être possible; puis il abdiqua la couronne en faveur de
    sa fille la reine D. Maria.

    En suite de ces actes là D. Pedro devint, comme de raison, de roi on ne
    peut plus légitime, furieusement illégitime.

    Je ne sais si ce que je vais vous dire est un fait en France; chez nous,
    c'est la règle. Dans tous procès, il est d'usage que les parties fassent
    parvenir au juge chacune son factum extra-judiciaire, où elles exposent
    leur droit, et où l'on déclare avoir pleine et entière confiance dans
    les lumières, l'impartialité, la justice et les autres _incontestables_
    vertus du magistrat. La cause jugée, il faut bien que l'un des deux
    plaideurs reste sur le carreau. Alors, le moins dont le vaincu accuse le
    ci-devant intègre et savant personnage, c'est d'être un voleur ou un
    ignorant. Je trouve cela, sinon très philosophique, du moins très
    humain. En octroyant la charte, D. Pedro devint ex-légitime au même
    titre que le juge devient ex-intègre et ex-savant.

    Ce fut un fait qui porta ses fruits.

    La charte fut donc proclamée en Portugal. Les vieux libéraux reprirent
    leur cravate blanche, leur habit noir, leur tabatière, sans oublier de
    remettre également sous le bras leur digeste, leur _Choix de Rapports_,
    leur Rousseau et leur Bentham. Les illuminations, les fusées, les
    arcs-de-triomphe, les journaux, les hymnes, les revues militaires, les
    franc-maçons, les banquets, les discours patriotiques tombèrent, comme
    une rosée bienfaisante, sur le sol aride de la patrie. Même, se j'en
    garde bon souvenir, le drap _national_, fabriqué ou non en Angleterre,
    grimpa en pantalons jusques aux hanches de ces messieurs. Le drame
    allégorique alla son train sur les théâtres, et l'ode patriotique
    remplaça le vieux sonnet; car on avait fait des progrès en littérature.
    Les deux chambres, qui avaient pris la place des cortès, s'ouvrirent. On
    parla, on déclama, on fit des rapports et d'autres choses qui avaient la
    prétention de ressembler à des lois. On se garda bien, cependant, de
    toucher à la vieille machine sociale. Tous les abus, toutes les
    institutions poudreuses, vermoulues, branlantes, qui servaient, tant
    bien que mal, de béquilles à la monarchie pure dans sa lourde marche
    gouvernementale, restèrent sur pied. L'absolutisme, qui, sous le
    soufflet de D. Pedro, était tombé à la renverse, se releva, secoua les
    basques de son habit de velours, rajusta sa perruque, se tâta le pouls,
    et trouva qu'en bonne conscience il y avait loin de cette rechûte
    constitutionnelle à une apoplexie foudroyante. Il dérogea une fois
    encore à ses habitudes de non-penseur, et se mit à se creuser la tête
    comme le premier manant venu. La réflexion est la mère du bon conseil.
    Après deux années d'hymnes et de discours, on ne peut plus libéraux, les
    institutions représenlatives s'en allèrent de nouveau, chassées, cette
    fois, un peu plus rudement, car le libéralisme voulut se défendre et il
    fut battu à plate couture. Comme dans les _Templiers_ de Raynouard:

    ……les chants avaient cessé;

    car le bon roi Jean VI dormait dans son cercueil.

    Il y eut des larmes mèlées de sang.

    Je ne vous rappellarai pas ce qui se passa en Portugal pendant quatre
    années: l'Europe en a retenti. Ce fut admirable selon les uns; ce fut
    repoussant selon les autres. Chacun a ses gouts. Quelques libéraux
    persécutés, traqués comme des bêtes fauves, allèrent se cramponner sur
    un rocher au milieu de l'océan. D'autres cherchèrent un asile en France,
    en Angleterre et en Belgique. Ils oublièrent un peu les sonnets et les
    odes; ils devinrent moins éloquents et plus taciturnes. L'air de l'exil
    est bon à quelque chose; ça retrempe les nerfs. D'ailleurs, pendant dix
    ans, la mort et la vieillesse avaient éclairci les rangs des démocrates
    de 1820. Déjà la cravate noire empiétait scandaleusement sur la cravate
    blanche. La génération nouvelle surgissait grave et pensive, au milieu
    de ces bonnes gens à la face rebondie, à l'enthousiasme ronflant,
    graneis admirateurs de la fausse liberté romaine, lents, ventrus,
    solennels, comme un ancien abbé de Alcobaça ou de Clairvaux. On attaqua
    les constitutionnels dans leur île: ils se défendirent bravement et
    repoussèrent l'assaut. Après cela, ils tâchèrent d'organiser une petite
    armée. L'émigration ne cessait pas. Des hommes hardis et dévoués
    allaient, à travers des périls innombrables, et luttant avec des
    difficultés presqu'insurmontables, se réunir à eux et grossir les rangs
    de cette armée naissante. En dépit de la vigilance du gouvernement de
    Lisbonne, les constitutionnels qui étaient restés en Portugal envoyaient
    à Terceira des secours et surtout des promesses. Dès lors, on songea à
    agrandir l'asile que la liberté avait trouvé au milieu des mers et où,
    de prime abord, on avait pensé qu'elle trouverait sa tombe. On emporta
    de vive force quelques unes des autres îles des Açores. On y trouva des
    ressources en hommes et en argent. La lutte devenait sérieuse. Ce fut au
    milieu de ces événements que D. Pedro, par des causes biens connues,
    revient en Europe et prit en main la direction des affaires de la reine
    sa fille. Ce fut alors, aussi, qu'en organisant un ministère, le duc de
    Bragance jeta les yeux sur Mousinho et l'appela dans son conseil.

    II

    Si vous, mon cher F…, eussiez connu Mousinho da Silveira, vous
    l'auriez pris au premier abord pour un homme vulgaire. Il n'y avait,
    dans sa figure, dans son regard, rien qui dénonçat ce génie audacieux et
    bouillant, cette ame aux pensées mâles et énergiques, allant droit au
    but comme la balle à la cible. Ces pensées brisaient les obstacles,
    semaient la douleur à droite et à gauche, troublaient le bonheur de
    maintes familles, voire même de classes entières; mais elles étaient
    toujours rèformatrices, fècondes, pleines d'avenir. Je n'ai connu
    personnellement Mousinho que quelques années après son ministère aux
    Açores et à Porto. A cette epoque, simple soldat à l'armée de D. Pedro,
    passablement ignorant, et dépassant à peine l'âge de vingt ans, je ne me
    souciais guère des ministres de l'ex-empereur, ni de leurs ordonnances
    révolutionnaires. Pour moi, comme pour mes camarades, il n'y avait parmi
    tous ces gens qui nous menaient qu'un personnage pour lequel nous
    eussions une admiration sans bornes. C'était ce duc de Bragance, ce
    prince qui, en tombant du trône, s'était relevé héros; c'était ce fils
    de Jean VI le roi débonnaire, que le jour du combat nous voyions au
    milieu des balles qui pleuvaient, donnant des ordres avec sa voix
    vibrante, ou pointant un canon comme le plus habile artilleur; car, je
    vous le jure, mon cher républicain, cet ex-roi de Portugal, cet
    ex-empereur du Brésil, ce petit-fils de tant de rois savait se battre
    pour la liberté beaucoup mieux que bon nombre de libéraux et de
    démocrates de notre connaissance. Or Mousinho ne se battait pas, lui;
    c'était un _pékin_, qui barbouillait du papier, qui griffonnait des
    rapports et des décrets; sourd, gauche, très-peu soigné dans sa mise,
    n'ayant jamais senti l'odeur de la poudre, ni degusté le rack, et par
    dessus le marché un peu fou, à ce qu'on disait. Il est vrai qu'au
    bivouac et sous la tente dressée avec des branches de chêne et de
    marronnier recouvertes de paille, durant les longues veillées d'un hiver
    rigoureux, nous autres les soldats nous nous oubliions quelquefois au
    point de parler politique. Alors un vieux docteur de régiment en capote
    grise, à la barbe touffue, aux moustaches retroussées, se levait,
    fourrait la main gauche dans sa ceinture de cuir, tirait de sa poche la
    _Chronica_ (journal officiel), et, en secouant par saccades sa giberne
    luisante, il lisait à haute voix quelque nouveau décret de démolilion
    sociale accroché à un de ces rapports, caustiques et sérieux à la fois,
    pleins de fautes de grammaire, mais toujours graves dans leur but et
    donnant toujours à penser. Il y avait de vieux soudards, qui dérogeaient
    jusqu'au point d'épeler quelque Premier-Porto, où l'on rappelait, en
    style diablement faux et embrouillé, les lois dictatoriales déjà
    promulguées pour détruire l'ancienne organisation politique du royaume,
    en les mettant au rang de nos plus puissans moyens de triomphe. En
    écoutant ces fadaises, nous haussions les épaules de pitié, et nous
    regardions le bout de nos fusils, en frappant de la main sur nos
    gibernes. Ces décrets, ces rapports et ces longs articles nous
    inspiraient un souverain mépris. Une charge à la baïonnette, ou une
    bonne douzaine de volées de balles étaient, à notre avis, des moyens
    infiniment plus éfficaces que tout ce fatras de lois ridicules, faites
    pour un pays où nous ne possédions que trois ou quatre lieues carrées,
    et qu'il fallait conquérir sur des soldats aussi fanatiques dans leurs
    croyances que nous l'étions dans les nôtres. Et cependant c'était le
    rapport barbare de la loi; c'étaient même, helas! les bavardages du
    journaliste qui avaient raison. En effet, faites vous l'idée la plus
    exagérée que vous pourrez, du courage, du dévouement, de la discipline,
    de l'enthousiasme de ce petit corps d'armée dont le duc de Bragance
    était l'ame: sans un fort ébranlement moral du pays en sa faveur, elle
    eut pu accomplir les plus hauts faits d'armes, qu'elle n'aurait abouti
    qu'à se faire tailler en pièces. Si ce n'est en Chine, il ne sera jamais
    possible qu'une armée de moins de huit mille hommes fasse la conquête
    d'un royaume défendu par quatre vingt mille. Et quels soldats, bon Dieu,
    étaient ceux de l'armée royaliste! Nous qui les avons _vus de près_,
    nous savons ce qu'ils valaient. Leurs chefs, leurs officiers n'égalaient
    point les notres; tant s'en faut; mais les soldats nous surpassaient
    peut-être. Cependant ils se laissèrent battre presque toujours: et ces
    forces, disciplinées, superbement équipées, fanatisées par les prêtres
    et les moines, qui payaient de leur personne, et que j'ai vus moi-même
    deux ou trois fois, au milieu de la fusillade, les habits retroussés, le
    crucifix à la main, les haranguant et leur montrant la victoire ou le
    ciel au about de leurs efforts; ces forces s'amincissaient,
    s'éparpilaient, disparaissaient pendant que les nôtres grossissaient,
    s'élevant à la fin de la guerre civile jusqu'à soixante mille hommes. Ce
    fait, qui frappait les esprits, a donné carrière à des explications de
    tout genre. En général, les royalistes n'y ont vu que des trahisons; les
    libéraux que la grandeur de leurs exploits, que leur activité et leur
    courage. Pour chacun des événemens partiels dont se compose l'Iliade de
    cette époque sanglante, on trouva des motifs, bons ou mauvais, tout
    juste suffisans pour satisfaire le court raisonnement des
    petits-esprits. C'était une brigade, un régiment, une compagnie
    s'ébranlant ou ne s'ébranlant pas à propos; c'était un courier arrivant
    ou n'arrivant pas en tems et lieu; c'était un général, un colonel, un
    capitaine imprudent ou peureux. Au dessus de tous ces motifs ou d'autres
    semblables planait la trahison des chefs: la trahison expliquait tout en
    dernier ressort. J'aime autant croire que le triomphe definitif des
    libéraux a eu des causes plus hautes et plus générales. Parmi ces causes
    les lois de Mousinho furent vraiment les plus éfficaces, car ces lois
    touchaient aux plus graves questions sociales. On abolit la dîme
    ecclesiastique et les droits seigneuriaux: par là la propriété rurale et
    les travail agricole, la petite industrie et le petit-commerce se
    trouvaient libérés des deux tiers des impôts dont ils étaient grévés, et
    dont à peine un mince lambeau revenait au fisc. On sépara les fonctions
    judiciares des fonctions administratives. On organise les tribunaux de
    justice en harmonie avec la charte. On adopta le systême administratif
    français, ce qui fut, disons-le en passant, une erreur pratique, et un
    contre-sens politique. Les emplois publics devinrent personnels et
    non-transmissibles par hérédité. La deuxième et troisième lignes de
    l'armée furent abolies. On laissa à tout le monde de droit d'enseigner
    ce qu'un chacun savait, sous certaines restrictions raisonnables, mais
    sans les entraves qu'en France, même après la révolution de juillet, on
    n'a jamais osé briser. On entama la vieille et anti-économique
    institution des majorats par la suppression de tous ceux dont le revenu
    ne dépassait pas la somme de mille francs. Les corporations de
    main-morte furent attaquées par la sécularisation d'un certain nombre de
    couvens, et dans le rapport de l'ordonnance que l'on rendit à ce sujet,
    l'on jeta des bases rationnelles pour la suppression totale, et
    cependant graduelle, des établissemens de ce genre et des autres corps
    ecclésiatiques non compris dans la véritable hiérarchie de l'église.
    Cette suppression, il est vrai, fut réalisée depuis avec une
    imprévoyance et une brutalité inouies, et, ce que pis est, inutiles.
    L'impôt sur ventes et achats (_sisas_) fut limité aux transactions sur
    des biens fonds: encore dans ce cas fut-il réduit de moitié, et même de
    plus dans certaines hypothèses, car les _sisas_ étaient assez variables
    en vertu du droit coutumier. On détruisit, enfin, quelques monopoles,
    tels que ceux de la fabrication de savon, de la vente à l'étranger du
    vin de Porto, etc. Ainsi le cabinet dont Mousinho était l'âme menait de
    front la révolution politique et la révolution économique. En effet,
    presque toutes les lois dictatoriales du duc de Bragance tenaient d'un
    côté à la première, et de l'autre à seconde. Elles n'avaient pas autant
    le caractère d'une édification nouvelle, que celui d'une effrayante
    démolition. Mais la démolition, vu l'état du pays, était bien plus
    importante que l'organisation. Il faudrait avoir connu à fond la vieille
    masure où la nation s'abritait, pour savoir apprécier combien il y avait
    de force et d'audace, et surtout de bon sens, dans ce travail
    gigantesque de dèblai. Il fallait arracher la gorge du peuple aux
    griffes de l'absolutisme qui l'étreignaient. Pour y arriver, le plus sur
    et le plus certain était de les couper, et chacune des ordonnances du
    duc de Bragance était un terrible coup de hache. Si elles pouvaient une
    fois devenir lois du pays, les anciennes institutions tombaient aussitôt
    pour ne plus se relever.

  • Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 01

    Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 01

    Aproximadamente 54.592 palavras.

    E a serpente vos emprestou a sua vã sciencia, as suas corruptoras
    palavras, e alumiados por fulgor de morte, alguns vos creram illustrados
    pela luz que mana do throno de Deus.

    Mas os que foram enganados vos amaldicçoarão no dia em que patenteardes
    a hediondez das vossas intenções, e o Pae de misericordia lhes perdoará
    um erro de intelligencia.

    Eis o que diz o Senhor:–Vós sois os assassinos da republica, mas
    debaixo das suas ruinas ficarão tambem esmagadas as vossas frontes, e os
    vossos membros quebrantados e sumidos.

    Tambem vós tereis quem maldizer na hora do passamento: os dias futuros
    justificarão o Verbo de Deus.

    XIII

    Os soldados que arrastavam o Justo ao Golgotha, quando o povo de
    Jerusalém pedia o sangue innocente, poseram sobre a cabeça do Filho do
    Homem a inscripção–Este é Jesus rei dos Judeus.

    Porque o povo não sabe commetter um crime, sem, afora o crime,
    blasphemar e escarnecer da virtude.

    Assim os tribunos da plebe, depois de rasgarem o pacto social, disseram
    por irrisão:–Reuna-se o conselho dos anciãos, dos sabios e dos
    prudentes, e façam-se leis para o regimento da republica.

    Como se não houvesse ahi lei; como se os eleitos do povo não tivessem
    sido expulsos pela relé e separados uns dos outros.

    Então os malfeitores rodeiaram a urna onde d'antes os cidadãos podiam
    livres lançar o voto da sua consciencia.

    E todos os bons se afastaram dessa urna; porque a mão do crime a tinha
    collocado no templo, e á roda della sómente sussurravam ameaças de
    morte.

    E por isso os nomes que d'alli sairam foram nomes opprobriosos ou
    desconhecidos, e como extranhos no meio de nós.

    Um erro trouxe outro erro, e o punhal passou da praça para o templo, e
    houve ahi mysterios das trevas, mysterios de perversidade.

    E homens imberbes, ignorantes e ignobeis ir-se-hão assentar no conselho
    dos legisladores, no logar destinado para os velhos, para os sabios e
    para os homens virtuosos.

    Mas a plebe ahi estará também, com seu gesto hediondo, como um espectro
    de terror, como a imagem do supplicio nos ultimos dias de um criminoso
    depois da sua condemnação.

    Ella ahi estará; e o seu grito será mais alto que o das consciencias, se
    é que podem consciencias falar no conselho de homens corruptos.

    Ella ahi estará; e as leis serão feitas por ella; porque errados vão os
    que pensam que o povo larga jámais o poder que a imprudencia ou a
    maldade lhe depositaram nas mãos.

    Homens a quem a dissolução social vestiu a toga de senadores, para
    debaixo da campa levareis nas frontes duplicado o ferrete da infamia e
    do aviltamento.

    Nellas vo-lo escreveu uma eleição fraudulenta, em que votou o punhal do
    assassinio e o obulo da embriaguez, preço porque a plebe vendeu aos
    tribunos o exercicio de um direito que não era seu e que ella tinha
    roubado por noites de sedição.

    E nellas vo-lo estampará tambem o grito insultuoso do vulgacho que vos
    ergueu do pó para sanctificardes a sua rebellião, para serdes cumplices
    nos seus decretos de morte, e para depois vos quebrar em pedaços, como
    um vaso fragil quando se torna inutil.

    XIV

    De fel e de trabalho me cercou o Senhor. Esta é uma das suas visões, que
    elle me enviou em espirito.

    N'um campo extensissimo estava eu, e cerrava-se-me o coração, como
    traspassado do frio do terror. Era ao cahir das trevas.

    Havia por ahi sepulchros, mas sepulchros semelhantes a dorsos de
    montanhas: havia por ahi cyprestes, mas cyprestes seculares como o
    universo, e cujos cimos avultavam como a espessura de um bosque
    primitivo.

    O sitio em que eu estava era o cemiterio das nações e dos seculos.

    Sobre muitos desses tumulos espantosos já tinha cahido a campa; já o
    musgo e as sarças lhes dissimulavam as juncturas, e o estellio e o
    áspide passavam por cima, rangendo como as folhas seccas.

    Outros havia lá que ainda estavam abertos, e tinham as lousas erguidas
    sobre uma das bordas, juncto da qual um anjo derramava lagrymas. Jaziam
    nestes muitos seculos de nações modernas.

    Algumas sepulturas ahi estavam inteiramente descubertas e ainda
    alvejantes, como collocadas de pouco em meio do campo sancto: nem lousas
    estavam ao pé dellas.

    Mas ao longe ouvia-se como o gemido de eixos que vergavam e de homens
    que altercavam e que pareciam trabalhar em uma obra de Deus.

    E este gemido era semelhante ao do oceano revolto, e o borborinho soava
    como o clamor de milhões de vozes.

    Na frente de cada um dos jazigos estava escripta a historia do povo ou
    do seculo que lá repousava ou que lá devia cahir.

    E algumas destas inscripções eram antigas e meio gastadas, e de roda
    tinham esculpidos symbolos de gentilidade.

    Apenas sobre uma dellas estava gravado o nome de Jehovah; mas fechavam a
    campa sete sellos, cuja lenda era:–até a consummação dos seculos.

    E mais alguns monumentos ahi se erguiam, já cubertos com a lousa final:
    e em cima delles estava plantada a cruz, e a inscripção acabada.

    Juncto destes ajoelhei e derramei lagrymas: eram sepulchros das raças
    que educara o evangelho: dormiam lá irmãos meus.

    E os reinos e as republicas da idade media eram os que nesse logar
    estavam sepultados: áquelles tinham-nos anniquilado loucuras e tyranias
    de reis; a estas a licença e a corrupção popular.

    XV

    Lá estava tambem o monumento da nossa patria.

    E nelle repousavam os cadaveres de muitos seculos.

    E a historia de cada um destes lia-se na face da pedra, escripta pela
    mão do archanjo que velava o sepulchro e que forcejava por suster a
    campa, que já pendia, como para os encubrir á luz.

    E esta era a lenda sepulchral:

    Deus escolheu para si a nação do extremo occidente, e a benção do
    Altissimo desceu sobre o berço della.

    E passou glorioso o primeiro seculo da sua existência, rico de combates
    e victorias: elle herdou ao seguinte a cruz plantada nos coruchéus dos
    alcorões, e uma raça valente e virtuosa, que defendesse a terra
    conquistada.

    «De incremento e prosperidade foi o segundo seculo; e posto que ahi
    houvesse dias de turbação, o povo cresceu; porque o Senhor o abençoava.

    E na terceira era soou em paiz extranho uma voz que falava de servidão.
    O povo português lançou mão da espada e da lança, e em vinte combates
    provou a sua independencia, e que o Deus dos exercitos fora o Deus de
    seus paes.

    E na quarta era chegou a idade viril da republica: a sua estatura
    assemelhava-se á de um gigante, os seus braços aos de um athleta.

    E na quinta ella estendeu a mão para o oriente, e aferrando centenares
    de povos, metteu-os debaixo dos pés.

    Então commetteram-se crimes, a corrupção estendeu-se, e a face do Senhor
    turbou-se.

    Aqui na inscripção seguia apenas um nome de poeta, o depois uma longa
    beta negra. Esta significava que de infamia e servidão fora a sexta
    idade da republica.

    E a lenda tumular proseguia:

    Surgiu um dia o povo, e quebrando os grilhões que tyrannos estranhos lhe
    haviam lançado, açacalou de novo a sua espada esquecida, e combateu
    quasi um seculo.

    E recobrou a independencia, senão a liberdade.

    D'aqui ávante, falava o letreiro de existencias e de largos annos; mas
    de existencias sem gloria, e de annos semelhantes apenas á decrepitude
    de homem que foi robusto.

    E havia ahi guerras e victorias e leis: mas as victorias coroavam o
    general e não o soldado, porque o soldado era servo: as leis eram talvez
    justas, mas desciam do throno dos reis sem a sancção popular, e o povo
    dobrava o joelho.

    E isto era impio. O servo que acceita sê-lo é só meio-christão. Do
    evangelho deriva a liberdade, como condição impreterivel do homem,
    responsavel por seus actos perante Deus. A liberdade póde rasgar-se do
    evangelho; não separar-se delle.

    Depois lia-se o nome de um rei; e este nome era grande e honrado, como
    os dos antigos reis portugueses, e a sua historia estava escripta no
    monumento da eternidade. Após esta, seguiam-se algumas palavras de
    esperança.

    E d'alli por diante a pedra estava em branco; porque a oitava era da
    republica ainda não tinha adormecido juncto do umbral do passado.

    XVI

    E eu meditava em silencio, e o meditar era amargo para o meu coração.

    Subito senti um ruido remoto, semelhante ao ruido de bosque sacudido
    pelo vento e granizo.

    E divisei por entre os cyprestes um vulto, que se approximava da
    clareira onde estava a sepultura, e as suas passadas, posto que
    apressadas, soavam como se fossem de pés de bronze.

    E chegou. Fitando os olhos no vulto, descortinei uma figura humana de
    desmesurada altura.

    A sua cabeça tinha muitas faces e muitos olhos: do tronco saía-lhe uma
    grande multidão de braços.

    E com todas as suas linguas proferia palavras immundas e blasphemas, e
    maldizia a religião e a justiça.

    E vinha salpicado de sangue.

    E parou diante do monumento.

    Ficou immovel por algum tempo; depois, como excitado por um accesso de
    raiva infernal, procurava aluir o sepulchro.

    Mas a immutabilidade do passado era a immutabilidade delle. Tinha-o
    posto alli a mão de Deus.

    Então o vulto começou a raspar a inscripção, mas as letras cada vez mais
    se avivavam. Lá do intimo soou um longo gemido.

    E o vulto soltou uma praga tremenda, e transpoz a borda do sepulchro; e
    estava em pé dentro delle.

    E começou a afundar-se nas trevas; e estendendo os braços, os braços lhe
    ficavam hirtos.

    E nos olhos, que até alli chammejavam furor, já fluctuavam lagrymas de
    homem que morre.

    E descia, e descia!

    E quando a fronte lhe topetava com a borda, a campa escapou das mãos do
    anjo, que trabalhava por sustê-la, e cahiu dando um som profundo.

    E a face do sepulchro, abaixo da inscripção, tingiu-se de negro até o
    rez da terra.

    E as ultimas palavras, palavras de esperança, converteram-se em outras
    tão horríveis, que a minha lingua não ousa proferi-las.

    E a visão desappareceu.

    XVII

    Reprobo sería aquelle que, vendendo seu pae por preço de opprobrio, o
    entregasse á servidão de extranhos.

    Reprobo, mil vezes réprobo, sería tal homem; porque este crime fôra mil
    vezes mais negro do que o parricidio.

    Quem, por noite tempestuosa, o acolheria debaixo de tecto hospitaleiro?
    Quem, vendo-o mirrado de sêde, lhe offereceria um pucaro de agua?

    Ninguem: porque o seu hálito inficionaria o ar que respirasse: os seus
    labios empestariam o vaso por onde bebesse.

    No seu leito de morte, que sacerdote ousaria dizer-lhe:–Eu te absolvo
    em nome do Deus que perdoa? Nenhum: e o que o dissesse mentir-lhe-hia;
    porque nos thesouros da piedade divina não ha resgate para semelhante
    divida.

    Mas que é este crime, comparado ao daquelle que vende a patria? Esse,
    não vende o progenitor sómente: vende a familia, os ossos de avós, a
    fonte do baptismo, a cruz do cemiterio; vende as saudades, os affectos e
    as esperanças de todos os seus irmãos.

    E todavia, nos conciliabulos dos tribunos proclama-se que no
    anniquilamento está o segredo da nossa futura grandeza. Rebeldes de sete
    seculos, seremos applaudidos e respeitados no mundo, quando, de joelhos
    perante os nossos orgulhosos senhores, fizermos penitencia do glorioso
    delicto de mais de vinte gerações de antepassados!

    São homens destes que as turbas insensatas victoreiam!

    Cegou Deus a intelligencia do povo, porque o quer perder; porque o
    afastou de sob as azas da sua Providencia amorosa.

    E por isso a visão do sepulchro me foi mandada, e vi cerrar-se a campa
    da eternidade em cima da derradeira epocha da monarchia de Valdevez, de
    Aljubarrota, e de Montes-Claros.

    XVIII

    Povo desvairado, doe-te de ti proprio. Sabes, acaso, a quem os homens
    das trevas pretendem submetter-te e a teus filhos e netos?

    Dir-to-hei, oh povo, para que nos futuros momentos de afflicção não
    digas ao Eterno:–Senhor, salva-me, porque eu não soube o que fiz!

    Odio de sete seculos te separa desses futuros senhores: vinte batalhas,
    em que os teus cavalleiros venceram os seus, jazem não vingadas nas suas
    recordações.

    Houve tempo em que elles poseram o pé no collo de nossos maiores, e a
    vida destes foi durante esse periodo tecida de amargura e de infamia.

    Então, além do oceano, nos campos de tua gloria, sentia-se um ruido
    incessante. Eram as tuas fortalezas que desabavam; eram as tuas naus que
    se affundiam; era o teu poder que expirava.

    Nas veigas, o arado ficava esquecido no meio do sulco, e no prado e no
    monte os novilhos mugiam debalde pelo seu guardador:

    Porque os mancebos eram levados a combater em paizes remotos, para
    sustentar a tyrannia de seus senhores, e, novo genero de ludibrio,
    tambem oppressos, quinhoavam as maldicções lançadas sobre os oppressores
    da sua patria.

    Á viuva e ao orphão era arrebatado o obolo do tributo, e este ia
    accumular-se nos cofres dos extranhos e servir, depois, ao luxo e á
    devassidão.

    O soldado hespanhol estava em pé, encostado á lança, juncto ás ameias de
    nossos castellos, e o escravo português que passava ao sopé dos muros
    pregava os olhos no chão, e a dor acabrunhava-lhe o espirito.

    As cidades foram saqueiadas, os patibulos ergueram-se, os homens de
    valor e virtude derramaram-se pela face da terra.

    Mas os portugueses lembraram-se um dia de que o eram, e levantando os
    braços para o céu, com os grilhões que lh'os roxeiavam esmagaram os
    craneos dos oppressores estrangeiros.

    E breve os campos da Hespanha talados, as suas aldeias arrasadas, os
    seus valentes postos á espada, pagaram injurias de sessenta annos.

    E na terra adubada com cinzas e sangue se lançaram sementes de
    malevolencia perpetua entre as duas nações.

    Ai de nós, ai da patria, se o leão da Iberia podesse rugir solto pelas
    nossas montanhas, e vir acoutar-se debaixo de nossos tectos!

    E isto é o que pretendem os destruidores da liberdade, os suscitadores
    da anarchia.

    Saúde pois o povo os tribunos e obedeça-lhes, emquanto elles não
    consumam a sua abominavel obra; emquanto o não entregam, como um rebanho
    de ovelhas, nas mãos dos seus futuros algozes.

    Nós, os que não nascemos para a servidão, ergueremos as campas de nossos
    paes, e ricos com estes restos queridos, iremos depositá-los debaixo do
    cypreste do desterro.

    Não, o hespanhol orgulhoso não calcará as cinzas dos nossos valentes,
    embora possua esta terra corrupta e serva; embora venha riscar da face
    della todos os monumentos dos seculos da nossa gloria.

    XIX

    Tal é, oh povo, o futuro que para ti guardam os teus tribunos no
    thesouro de maldade de que são ricos os seus corações.

    Tu gemerás captivo e não ousarás queixar-te; e as orações e as lagrymas
    das tuas noites de tribulação e vigilia não romperão os céus, tornados
    para ti de bronze.

    Eis porque os filhos da perdição suscitaram no teu seio o grito da
    guerra civil: foi para que a espada da fratricidio devorasse os teus
    fortes, e se fartasse e embriagasse com o sangue delles.

    Para que, inerme e enfraquecido, estendesses os braços ás cadeias e
    curvasses o joelho ante aquelles de quem receberam o preço da tua
    liberdade.

    Acaso poderão negá-lo?–Não: porque o mysterio da iniquidade foi
    revelado, e a voz que o patenteiou era bem alta, e resoava desde o Tejo
    até as alturas dos Pyrenéus.

    Crê, agora, plebe illudida, crê que os homens que te vendem a extranhos,
    melhor te venderiam a um tyranno domestico.

    Crê que se homens taes fossem a unica barreira alevantada entre ti e
    aquelle que nós expulsámos e tu maldisseste em teus hymnos populares,
    semelhante dique fora facilmente transposto pela torrente das vinganças
    do despotismo.

    Que um pouco de ouro se espalhasse, e as comportas que rebatem o oceano
    de sua cólera seriam por elles abertas de par em par, para te
    mergulharem em um pélago de agonias.

    Tu os verias até combater por soldar o sceptro de ferro que quebrámos,
    se nessas almas mesquinhas houvesse valor para escutar o silvo do
    pelouro, para ver o lampejar da espada erguida.

    Ouvi-los-hia protestar que as suas mãos estavam puras do sangue vertido
    nas luctas da liberdade, nas luctas de um contra dez; que entre si e
    esse cantinho de Portugal revolvido durante um anno pelas bombas e
    granadas, varrido pela metralha, fustigado pelo granizo das ballas,
    visitado longamente pela fome e pela peste, tinham mantido com esmero a
    moderada distancia que medem as solidões do oceano.

    E falariam verdade; e sería porventura o unico dia da sua vida hypocrita
    em que assim o fizessem.

    XX

    N'uma visão ajuncta Deus o passado e o futuro; porque para elle não
    existem nem espaço nem tempo. Visão, pois, do Senhor foi a que se me
    representou.

    Parecia-me ver uma grande cidade: rodeiavam-na antigos muros e
    baluartes, cruzavam-se ruas estreitas e tortuosas dentro do seu ambito,
    semelhantes á rede do pescador, e, por entre uma selva de edificios
    humildes, surgiam, aqui e acolá, torres ponteagudas subtilmente
    lavradas, e templos alumiados por frestas esguias ornadas de vidros
    corados, que reflectiam o sol occidental em espectros de luz
    variadissima.

    Grande numero de cavalleiros corriam pelas praças, e iam armados de
    elmos e saios de malha e grevas de aço, que scintillavam, e nos seus
    olhos e faces assomavam espíritos valorosos.

    E os campos circumstantes estavam cultivados, e a cruz plantada em todos
    os termos dos caminhos e em todas as encruzilhadas.

    E conhecia-se nos rostos dos homens que passavam pela cidade e pelos
    campos que em seus corações havia virtude e contentamento.

    E proxima desta povoação estava outra muito mais aprazivel no primeiro
    aspecto: as suas ruas eram espaçosas: aformoseiavam-na os jardins e
    hortos, e surgiam no meio della nobres e opulentos edificios.

    Viam-se ainda ahi alguns templos, mas arruinados e solitarios, e como
    que monumentos da queda de toda a crença.

    E os campos que se dilatavam ao redor della estavam áridos e ermos. Nem
    uma só cruz lá se descobria.

    E os homens passavam silenciosos uns por outros. Das almas, turbadas por
    paixões tempestuosas e por crimes, subiam-lhes ás frontes annuviadas, em
    ondas de sombras, os escuros pensamentos.

    E estas duas cidades eram a imagem dos tempos que foram e dos tempos que
    hão de ser.

    XXI

    E na cidade do passado os coruchéus e eirados dos seus apinhados
    edificios eram para os meus olhos, que divisavam tudo quanto se passava
    no interior dos aposentos, como o crystal translucidos.

    Em uma das quadras de um desses edificios estava um velho, e derredor
    delle suas filhas, que o cercavam de amor.

    E ao canto via-se um arnez, por muitas partes falsado e roto, e um elmo
    abolado e com as enlaçaduras quebradas. Só ahi faltava uma espada.

    E quando eu considerava este velho guerreiro rodeiado dos seus e as
    alfaias e os adornos desta habitação tranquilla; quando bebia o halito
    de paz que tudo ahi espirava, um mancebo armado entrou na sala: na
    cincta trazia mettido um estoque largo e curto, espada do homem valente,
    cujo punho em cruz lhe assentava sobre o coração.

    E dos labios das donzellas partiu um grito: este grito dizia que o
    mancebo era seu irmão. Abraçando-o, os olhos se lhes arrasavam de
    lagrymas.

    O velho ergueu a cabeça e olhou com aspecto severo para o soldado, que
    se aproximou de seu pae, como se estivera perante o seu juiz.

    Fronteiro d'Africa!–disse o ancião–posso acaso abençoar-te como filho,
    ou cubriste de infamia o meu nome e a minha espada? Quaes foram teus
    feitos no serviço da patria, da religião e do rei?

    E o moço, calado, desenlaçou a couraça e, afastando as roupas que lhe
    cubriam o peito, mostrou as cicatrizes de golpes da lança do arabe e do
    alfange mourisco.

    E o velho, alevantando-se tremulo, contava-as, e as lagrymas também lhe
    banhavam o rosto, e depois apertou o filho entre os braços por largo
    tempo.

    D'ahi a pouco, armas ainda não ferrugentas estavam encostadas ás do
    ancião no angulo da sala, e afóra ellas, via-se lá uma espada.

    E esta familia era feliz; porque havia ahi virtude, honra e amor filial
    e fraterno.

    Mas esta parte da visão passou, como um sonho formoso; como os homens
    virtuosos dessas epochas, sobre os quaes dorme o silencio dos tempos que
    já não são.

    XXII

    E o espirito de Deus collocou-me sobre a moderna cidade.

    E aos meus olhos estavam patentes os segredos domesticos e a vida intima
    da sociedade, e observando-os, o coração me desfallecia á vista de
    tantas abominações.

    Via a corrupção em quasi todas as familias; crimes em grande numero
    dellas; temor de Deus quasi em nenhuma.

    E clamei ao Senhor na minha afflicção, e disse-lhe:–Oh meu Deus, porque
    abandonaste este povo?

    E dos céus me foi respondido:–O povo é que abandonou os caminhos da
    salvação e se afastou de sob as azas da piedade divina.

    O perjurio foi sanctificado pelos que se chamaram eleitos do povo, e
    este os victoriava quando elles assim quebravam o mais forte vinculo
    social, e preparavam a quéda da republica.

    A religião avíta apresentou-se ás portas do senado, pedindo a esses
    homens soberbos a deixassem subsistir neste paiz desgraçado, para
    enxugar lagrymas de desditosos e ser a ultima esperança daquelles que
    perderam todas as outras.

    Porém, como prostituta vil, a religião de nossos paes foi coberta de
    motejos, e, entre risadas, lançada fóra do sanctuario das leis.

    E houve ahi quem dissesse:–Que temos nós com Deus?–E as turbas
    approvaram o dicto.

    E o Dominador dos orbes respondeu:–Nada terei comvosco!

    E o universo tremeu a estas palavras, que logo foram escriptas no livro
    da morte.

    Ai daquelles que romperam o pacto do Creador com a creatura: ai
    daquelles por cuja bôca falou o espirito das trevas. A blasphemia cahirá
    sobre a cabeça dos blasphemadores; e o sepulchro lhes dirá onde é a
    patria dos que motejam de Deus!

    E esta voz de cima acabrunhou-me o coração; porque não sabia como
    desculpasse perante a Providencia os peccados do povo. O anáthema estava
    lançado, e a consciencia me dizia que o céu tinha sido justo: nem ousei
    implorar outra vez a misericordia divina.

    Então olhei para a cidade que me ficava debaixo dos pés, onde sussurrava
    um ruido de vida, mas ruido semelhante ao de mar procelloso e ameaçador
    de naufragios.

    E só descobri rixas e bandos civis, e assassinios atraiçoados e
    dissoluções, e o roubo e a embriaguez.

    O filho passava por juncto do feretro materno, que homens pagos levavam
    com escarneos ao campo do esquecimento, e perguntava o nome desse
    cadaver.

    Juncto ao leito de pae moribundo, as filhas entregavam-se á
    prostituição, e ao velho, morrendo, era ultimo sentimento o do
    opprobrio.

    Longa era esta scena de crimes, e parecia-me que fechava os olhos para
    não ver tão horrivel espectaculo. Neste momento a visão desvaneceu-se, e
    achei-me banhado em suor frio e repassado de amargura.

    E por impossivel tinha que tão negro futuro houvesse nunca de
    verificar-se: mas subito ouvi muitas vozes que diziam:–Guerra á
    religião do Christo!

    Então cri na visão que o Senhor me enviara, e apagou-se-me na alma o
    ultimo clarão de esperança.

    THEATRO-MORAL-CENSURA

    *1841*

    Quando, vencidas difficuldades que pareciam insuperaveis, o theatro
    parece renascer entre nós na sua parte litteraria; quando, até, se
    affiguram grandes probabilidades de vermos alevantar um edifício
    consagrado á arte dramatica, onde este genero de litteratura possa ficar
    a salvo daquella especie de ergastulo hediondo e triste a que poseram
    por irrisão a alcunha do Theatro Normal; Gerião, cuja ossada se
    esphacela debaixo da sua triplice face de taberna, de emunctorio das
    ruas, e de prostibulo; quando todos os homens de letras e todos os que
    as amam forcejam para que nesta formosa arte vamos algum dia emparelhar
    com as outras nações, nenhuma questão que venha a suscitar-se acerca do
    assumpto será insignificante ou indifferente, porque nella interessam a
    vida intellectual do paiz, a sua civilisação e o seu bom nome
    litterario. Mas se essa questão, além de importar á arte dramatica,
    envolver o interesse da moral publica, considerá-la e dar opinião sobre
    ella é obrigação daquelles a quem Deus deu intelligencia para a
    comprehender e razão para a avaliar. Ora, enquanto se forceja para
    elevar e restaurar litteraria e até materialmente o theatro nacional,
    vemos o drama decahir, prostituir-se moralmente cada vez mais. Cresce
    todos os dias a indignação da gente honrada contra os espectaculos que
    sobem á scena, orgias da arte, se arte se pode chamar a quadros onde ha,
    não o sublime de paixões mais ou menos perversas, o sublime do horrível,
    mas o torpe, o asqueroso dos vicios mais vis. Cumpre que a imprensa seja
    orgam desta indignação; que busque a origem e o remedio do mal. A sua
    mais alta missão é contribuir para que a sociedade se melhore e
    civilise, e o theatro pode ser um poderoso instrumento de civilisação.

    Mas como desempenhará a imprensa este grave dever? Como se opporá a que
    o theatro seja uma eschola de corrupção, devendo ser um logar de puro e
    innocente deleite? Como fará rasgar por uma vez esses cartazes, que,
    affixados nos logares públicos, só trazem á memoria, pelos titulos dos
    dramas que annunciam, as taboletas dos alcouces romanos desenterrados em
    Pompeia? Fulminará os desgraçados histriões, machinas de aleijar as
    verdadeiras obras d'arte, e de peiorar semsaborias; títeres de carne e
    osso, incapazes de comprehenderem a sua nobre arte, e de resistirem ao
    estragado gosto de quem os dirige, e não sei se diga, ao mais estragado
    da plateia? Não: deixae-os; porque são existencias inertes, impalpaveis
    para a imprensa, traça do drama, da linguagem, do senso commum; pagos
    para roer as concepções da intelligencia sobre quatro taboas velhas, ao
    passo que o caruncho os vai imitando na substancia destas. Deixae-os,
    pelo amor de Deus! Punirá com o açoute do epigramma os empresarios e
    directores dos theatros? Ainda menos. Um empresario é um individuo
    inexplicavel e inclassificavel: é uma abstracção de todas as idéas, de
    todas as crenças, de todos os affectos: a sua éthica é o _livro de
    razão_, o seu evangelho o da _caixa_; o seu culto o da _cruz_, mas da
    cruz dos cruzados novos; o seu destino, além do sepulchro, o _limbo_.
    Não acrediteis na possibilidade de os constranger a despregarem os olhos
    destes tres objectos, que, junctos aos farrapos dos bastidores e ao oleo
    fétido das lanternas do proscenio, constituem o seu universo. Deixae-os
    tambem; que para elles, que não querem, nem sabem, nem podem ler, a
    imprensa é como se não existisse, e as suas reprehensões mais amargas,
    as suas ironias mais pungentes não os distrahirão um momento da
    contemplação beatifica das moedas que rende em cada noite um
    estabelecimento industrial de prostituição para familias honestas. Seja
    quem for o empresario de qualquer theatro, não se abalance a imprensa ao
    louco empenho de convertê-lo. Que pessoa tentou jamais educar e instruir
    um surdo-mudo-cego de nascimento?

    Contra quem pois alevantará a imprensa a sua voz solemne? Contra as
    auctoridades propostas aos espectaculos dramaticos? Não; porque posto
    que revestidas de um poder arbitrario, acima dellas ha tambem o
    arbitrio, que lhes inutilisa a energia moral, quando tentam usar della a
    bem da decencia publica; e porque, impossibilitadas de julgar por si
    essa alluvião de asquerosidades que diariamente sobem á scena, e além
    disso obrigadas por lei a ouvir sobre cada uma dellas o parecer de tres
    censores, que podem julgar bem ou mal, não se lhes ha de lançar em conta
    uma culpa que não é sua. Nenhum homem de alguma gravidade se quizera
    submetter a passar dias, mezes e annos inteiros quasi asphyxiado n'uma
    atmosphera de sandices, pelos mais avultados proveitos do mundo, e muito
    menos gratuitamente, como servem os inspectores do theatro.

    Quem resta por tanto para accusar? Os censores?–Parece-me ouvir a
    muitos daquelles que acham mais commodo invectivar individuos do que
    avaliar instituições, dizerem que sim. Eu todavia respondo:–Não; mil
    vezes não! Brevemente se verão os fundamentos da minha negativa.

    Não sendo, porém, culpados nem os histriões, nem os bufarinheiros de
    rosalgar moral chamados empresarios, nem os inspectores, nem os
    censores, onde estará a causa de um mal de que todos se queixam, e a que
    ninguem busca o remedio nos thesouros inexgotaveis da reflexão e do
    raciocinio?

    Essa causa está n'uma instituição anachronica, absurda, insensata,
    attentatoria da liberdade intellectual do engenho humano, e além disso,
    perfeitissimamente inutil.

    O mal não vem dos homens: vem das cousas: vem de uma parvoice legal: vem
    da _censura prévia_.

    O remedio só lh'o póde dar um parlamento que queira pensar cinco minutos
    nesta materia.

    Á luz politica, a censura prévia applicada ao theatro é um attentado tão
    flagrante como applicada á imprensa. Todas as constituições existentes e
    possiveis consagram a liberdade do pensamento e a livre communicação das
    idéas. O theatro é, como a imprensa, como as artes plásticas, um meio de
    communicação. Uma representação scenica é um livro impresso em tantos
    exemplares quantos são os espectadores, com a unica differença de que
    estes exemplares se apagam acabada a sua leitura. O principio da
    liberdade do espirito é tanto ou mais sancto que o da liberdade da
    terra: não soffre excepções, porque, se as soffresse, desceria da
    categoria de principio para a classe das regras transitorias da vida
    civil. Onde quer que appareça a censura, onde quer que se aninhe esta
    irmã gémea da inquisição, ha uma quebra nos foros da independencia do
    homem, ha uma insolencia do passado contra a dignidade social da geração
    presente. Seja para o que for, a censura é um impossivel politico.

    Contra o impossivel não ha razões de utilidade. As mais evidentes
    considerações de conveniencia deveriam cahir diante da immutabilidade
    dos principios; porque não ha meio termo entre o renegar do progresso
    humano, e o respeitar sempre e em toda a parte os elementos fundamentaes
    das sociedades modernas.

    Mas existem, porventura, taes conveniencias? A censura do theatro–dizem
    os defensores dessa cópula sacrilega e bestial de uma instituição
    cadaver com as instituições vivas e actuaes–é uma necessidade: melhor é
    prevenir que castigar: o castigo dos que abusarem deste modo de
    publicação não impedirá que elle tenha já produzido a corrupção: sem
    censura póde, até, attentar-se contra a segurança do Estado: no anno de
    tal em Paris, em Bruxellas, na Haya, emfim não sei onde, um drama
    recheiado de maximas subversivas produziu tal assuada, tal motim, tal
    revolta.–Eis as excellentes razões, pouco mais ou menos, com que se
    defende a existencia de um absurdo.

    Estes argumentos são a apologia, não da censura do theatro, mas de toda
    a censura; da censura do drama, como do livro ou do jornal; e ainda mais
    destes; porque o exemplar da publicação scenica deixa de existir apenas
    cahe o panno; mas do livro ou do jornal impressos, embora sequestreis os
    volumes ou os numeros não vendidos, os exemplares derramados do primeiro
    golpe lá ficam no dominio publico; milhares de individuos os lerão, e
    com tanto maior avidez quanto mais severa houver sido contra elles a
    condemnação dos tribunaes.

    A desculpa da prevenção nos attentados legaes contra os principios vai
    mais longe: vai até a inquisição, se quizermos ser logicos. Um homem é
    conhecido por suas opiniões anti-religiosas: este homem é imprudente,
    voluntarioso, ousado: nada mais facil, mais provavel que o vermo-lo
    cahir na culpa de não respeitar a crença do Estado, de a insultar
    publicamente. Á cautella, creae-me uma inquisiçãosinha illustrada; uma
    inquisição progressiva, arejada, sem polés, nem potros, mas preventiva e
    paternal, onde o incredulo, entre sermões, pão negro arraçoado e agua
    benta, seja inhibido de commetter um crime, previsto na lei politica do
    mesmo modo que o abuso da liberdade de escrever e de falar. Apostolos da
    censura prévia, em nome da logica, dae-me a sancta inquisição.

    Deixemos, todavia, as duas bagatellas dos principios e da logica.
    Venhamos ao campo da experiencia. A censura ahi está. Que tem ella
    feito, não digo já entre nós, que palpamos todos os dias os bellos
    effeitos da instituição; mas na França, na Belgica, na Hespanha? Onde
    tem impedido a prevaricação do theatro? Respondei-me.

    É um dos argumentos mais triviaes e mais lastimosos que se fazem a favor
    desta monstruosidade inutilissima o exemplo da França. D'antes, em
    Portugal, para fazer uma lei, o que se indagava era se ella convinha ao
    paiz. Ha annos a esta parte entendemos que era mais judicioso ver se
    convinha aos outros povos. Esta abnegação completa da intelligencia
    nacional poderá conduzir-nos ao céu pelo caminho da humildade; mas
    tem-nos arrastado cá na terra a muita vergonha legal.

    A verdade é que em França os homens independentes e illustrados clamam
    tambem contra a censura prévia do theatro, porque é attentatoria e
    inutil. Quereis a prova da sua inutilidade no vosso paiz modelo?–Ahi a
    tendes á mão. D'onde nos vieram as _Torres de Nesle_, as _Proesas de
    Richelieu_, e todas as mais prostituições litterarias da nossa pocilga
    dramatica, chamada theatro normal? Vieram-nos dos repertorios dos
    theatros de Paris: atravessaram pela censura de Mr. Taylor ou dos seus
    delegados, como em Portugal passaram sans e escorreitas pela censura do
    Conservatorio. Lá, como cá, a censura é um phantasma de que todos se
    riem, e que só serve para descarregar os hombros dos empresarios,
    auctores, e traductores dramaticos da responsabilidade moral e legal dos
    seus envenenamentos litterarios.

    É realmente uma das pequices mais desmarcadas falarem-nos das commoções
    populares excitadas n'uma plateia. Quando a revolução vai assentar-se
    nos bancos do theatro, não busqueis a sua origem nas palavras energicas
    do poeta: buscae-a na frouxidão ou na maldade do poder. Sob um governo
    forte e justo, uma revolução no theatro não passaria de comedia
    representada áquem do proscenio. Mas, além disso, onde achaes os
    exemplos de semelhantes factos? Justamente em alguns dos paizes onde
    existe censura prévia. Como o capitão de Luiz de Camões, que não cabia
    em nada, sancta gente, vós não cahis em que esse argumento é uma
    punhalada na vossa querida censura?

    Donde vem a impotencia da censura? De ser uma cousa anachronica, morta,
    fétida, inintelligivel. Ao censor que respeita a inviolabilidade dos
    principios repugna o impedir a representação de um drama; porque não crê
    que o seu arbitrio possa substituir os jurados; que se possa executar
    uma lei evidentemente contraria á lei fundamental do estado. Pelo que,
    porém, toca ao que não crê nessas cousas, o aborrecimento inevitavel que
    lhe traz o desempenho de um dever tedioso, de que não tira nem honra nem
    proveito, ou o receio de attrahir odios de homens mais ou menos
    poderosos, para o que não são triviaes entre nós o valor e a
    consciencia, faz com que ou deixe de ler, ou leia essas miserias e as
    approve. Se algum ha que não reflectisse no absurdo da instituição, e
    que tenha energia bastante para lhes pôr o seu veto censorio, lá ficam
    os empenhos e os respeitos humanos para fazerem escrever no rotulo do
    boião immundo de peçonha litteraria: _passe e venda-se por dóses de 480
    réis_.

    É este o fado de todas as leis, de todas as instituições contradictorias
    com as idéas e principios capitaes de qualquer seculo. São cadaveres, em
    que a força legal opera os phenomenos que produz no corpo morto a pilha
    voltaica; visagens de terror para os circumstantes, falsos movimentos de
    vida, mas que todos sabem não passarem de joguetes de physica.

    Fazei uma lei para o theatro em harmonia com a lei politica da nação,
    com os principios eternos da liberdade intellectual, e salvareis a moral
    e a decencia publica, que a vossa ridicula censura deixa todos os dias
    impunemente affrontar.

    Constitui um jurado especial composto dos membros das corporações
    litterarias, homens que tem uma intelligencia para pensar, uma reputação
    de probidade, de litteratura, e de gravidade que perder. Ahi tendes um
    avultado numero de individuos respeitaveis na Academia das Sciencias, na
    Eschola Polytechnica, na Eschola Medico-cirurgica, na Eschola do
    Exercito, no Conservatorio e em todos os mais estabelecimentos
    litterarios. Confiae-lhes a defensão da moralidade. Os espiritos fracos,
    mas honestos, ahi julgarão sem temor; porque a sua sentença será
    collectivamente sabida, mas individualmente secreta. Ahi, quando a
    occasião do julgamento legal chegar, a causa já estará julgada e
    sentenciada pela opinião publica, e esta opinião fará tremer os juizes,
    se porventura entre elles houver algum de mais larga consciencia, ou que
    seja capaz de esquecer-se, por affeição ou por odio, da sua grave e
    importante missão.

    Fazei que o processo seja rapido. Haja um procurador especial contra os
    delictos dramaticos em offensa da moral publica. Seja o inspector dos
    theatros; seja quem vos parecer. Se faltar á sua obrigação, puni-o.

    A penalidade da lei seja severa. Por mais severa que a imaginemos, será
    sempre branda em comparação da que cabe ao ladrão matador; e eu não sei
    resolver qual besta-fera é mais damninha, se um assassino do corpo, se
    um envenenador do espirito, que assassina as almas inexpertas das
    mulheres e da mocidade, surripiando-lhes ainda em cima alguns cruzados
    novos.

    Desenganae-vos de que as formulas constitucionaes são mais efficazes que
    as molas carunchosas do absolutismo.

    Ficae certos de que os jurados não terão de vibrar o golpe da punição
    mais do que uma vez. O primeiro empresario que, sem remedio, tiver de ir
    dormir por um anno aos paços de S. Martinho, e de practicar a
    generosidade de mandar algumas dezenas de moedas para o Asylo de
    Mendicidade, ou para a Casa dos Expostos, tirará a todos os empresarios,
    presentes e futuros, o fino gosto de offerecerem no theatro ao publico
    indignado espectaculos que affrontariam um alcouce.

    Que a censura prévia é inutil, os factos tem-no sobejamente provado.
    Se-lo-ha uma lei constitucional? Não o creio. Se assim acontecesse, a
    nação portuguesa não fora uma sociedade corrompida; fora uma nação
    perdida. Nesse caso cumpriria deixar á Providencia de Deus convertê-la
    ou anniquilá-la.

    OS EGRESSOS

    *PETIÇÃO HUMILISSIMA A FAVOR DE UMA CLASSE DESGRAÇADA

    1842*

    Não sei se todos aquelles que passam os largos serões do inverno, não
    nos theatros, nem nos banquetes profusos, nem nos bailes esplendidos,
    mas em aposento de poucas varas em quadro, rodeiados de alguns livros e
    a sós com o seu pensar silencioso; não sei, digo, se a todos esses
    acontece o mesmo que a mim, quando o som do chuveiro subito, o silvo do
    vento, e o bramido do mar, quebrando lá ao longe nos rochedos da
    marinha, lhes vem toldar a serenidade do tão suave calar nocturno e as
    imagens que transitam lentas no kaleidoscopo da imaginação. Aquelles
    brados da natureza, que parece gemer angustiada, nem uma só vez deixam
    de despenhar-me do meu tão formoso universo das idéas no mundo das
    realidades. A vida actual obriga-me então a tomar por uma das suas
    estradas dolorosas, e como ao pobre judeu errante, esse bradar da
    natureza, envolto no fustigar da chuva, no sibillar da ventania e no
    rumorejar longinquo das ondas, repete-me de continuo:–Ávante! ávante!»

    O que nesses caminhos muitas vezes se encontra é o clarão que illumina e
    o clarão que deslumbra; é a sciencia que se entrevê, separada de nós
    pela insufficiencia das forças do espirito; são profundezas ennevoadas
    em que a razão se precipita e vai revoluteando até se incrustar n'um
    macisso de trevas quasi tangiveis; é o desconsolo de trocar, de noite a
    noite, o crer pelo duvidar, o duvidar pelo descrer; é aprender
    laboriosamente pouco, desaprendendo dolorosamente muito; é substituir
    pela observação e pelo raciocinio opprimidos no finito, no existente, a
    poesia que nos leva mansamente embalados atravez das suas creações
    infinitas; é consumir a brevidade da vida em esforços não raro
    inefficazes para alcançar a verdade, que além da morte, nos espera
    tranquilla nas amplidões do tempo sem fim.

    Foi n'uma destas noites procellosas, emquanto eu buscava a verdade do
    passado, que a imaginação insoffrida, como que a furto, me transportou
    das realidades que foram para uma triste realidade que é.

    Aproximava-se a meia noite. Tinha acabado de ler uma das bullas do
    violento Innocencio III contra o não menos violento Sancho I de
    Portugal, inserida nos registos daquelle digno successor de Gregorio
    VII, volumosos registos, onde ha muito que aprender ácerca da vida
    social de nossos maiores e das obscuras luctas da liberdade burguesa,
    tronco antigo das modernas revoluções populares, que tambem tem as suas
    arvores de costado, como a aristocracia de berço.

    Ao anoitecer o céu estava toldado, a terra humida, e o ar tepido com o
    bafo vaporoso do sul. Mas era mais tarde que a tempestade, como o ladrão
    nocturno, queria fazer o seu gyro por entre as habitações dos homens.

    Era, pois, já bem tarde. Subitamente a chuva fustigou as vidraças: o
    primeiro bofar do vento fez ramalhar as arvores meias calvas; e senti-o
    que se abysmava debaixo das arcarias de pedra.

    Por momentos imaginei que uma especie de demonio familiar me batia á
    porta. Dir-se-hia que viera assentado no dorso eriçado do tufão.
    Pareceu-me que me affundia diante dos olhos as visões do passado, e que,
    entre risadas, me chirriava aos ouvidos.–Ávante pelos caminhos do
    presente; ávante, sonhador de abusões».

    Obedeci: o meu espirito cahiu no mundo presente, presente na sua mais
    rigorosa data, uma noite pessima do mez de novembro do anno do Senhor de
    1842.

    Lá fóra passava o temporal desfeito. Affigurou-se-me que, levado nas
    azas delle, corria por agra e longa estrada das nossas provincias do
    norte. Os robles baixos e reforçados, cuja vida, contrahida ao cêpo pela
    mão do homem, lhes converte os topos em hydrocephalos monstruosos,
    assemelhavam-se aos renques de dolmens druídicos da Bretanha. Quando as
    nuvens, no seu curso precipitado, abriam alguma fenda passageira, por
    onde a lua golfava instantaneo clarão na terra, via-os fugir para traz
    de mim negros, hirtos, nus, como cadaveres tisnados de cousa que já
    vivera. Parei. Ao longe, a fita alvacenta da estrada, coleando por entre
    os linhares e milharaes, refrangia de quando em quando o luar fugitivo
    da superficie alagada das baixas, e depois, alçando-se, como o collo do
    cysne, sobre um outeiro, sumia-se no viso delle, ao curvar-se para o
    pendor opposto. A dilatada fileira dos robles era o que unicamente se
    alevantava da terra por um e outro lado. Pareceu-me, porém, que um vulto
    distante vinha pela estrada do lado do outeiro: era um vulto humano, que
    ora se encobria na sombra de nuvem negra que passava chuvosa, ora se
    desenhava na claridade transitoria do céu. Aproximou-se vagarosamente, e
    chegou ao pé de mim: passando, os seus vestidos roçaram-me por uma das
    mãos: eram frios e molhados. Seguiu ávante, sem reparar em mim, que não
    podia despregar os olhos d'elle. Os seus passos eram arrastados e
    tremulos, vergado o corpo, a fronte nua e calva. E eu olhava para elle
    fito. A chuva começou de novo a cahir cerrada e escura. O vulto
    encostou-se então a um dos robles da estrada, como buscando abrigar-se;
    e na cerração da saraiva que sobreveio, ouvi-lhe um gemido.

    Foi um gemido inexplicavel de desalento e agonia.

    «É mentira:–dizia comigo, tentando quebrar o feitiço daquelle pesadello
    de homem acordado.

    E quebrei-o: e era mentira. «Girei n'um circulo vicioso–pensava eu–.
    Parti do ideal para chegar ao ideal atravez da realidade.»

    E de feito, como o leitor facilmente acreditará, estava no meu gabinete,
    com um tinteiro e algumas folhas de papel diante de mim, tendo do lado
    esquerdo o segundo tomo das epistolas de Innocencio III, e da direita o
    terceiro volume da _Monarchia Lusitana_ de Fr. Antonio Brandão; isto é,
    da esquerda um papa ao mesmo tempo intractavel e astucioso; da direita
    um frade modesto e sincero; e como personalisados nelles, o mau e o bom
    anjo, que nos seguem sempre e por toda a parte.

    De resto, a chuva cahia, mas era lá fóra. Eu estava enxuto e secco,
    tanto, quasi, como a alma de um politico: estava bem, agasalhado,
    commodamente. Só a luz do candieiro é que se tornara escandalosamente
    mortiça.

    Ergui o braço para a espivitar, e a cabeça para ver se a minha obra era
    boa. Não sei se nestas palavras abuso das reminiscencias biblicas. Os
    theologos o dirão.

    O meu _fiat lux_ foi cumprido. O candieiro despediu um clarão brilhante,
    que alagou todo o aposento.

    Nunca eu tivera practicado este acto de omnipotencia! N'uma porta
    fronteira, que dava para outro aposento desalumiado, estava o vulto que
    vira no meu desvaneio de homem acordado; estava ahi, immovel, triste,
    afflictivo, como a imagem do innocente suppliciado que apparecia todas
    as noites sobre o bofete do celebre auctor da Ulissea.

    E a figura avultava lá: e eu olhava para ella sem pestanejar. Oh que se
    vós a víreis!

    Era um ancião veneravel: tinha a fronte suave e pallida sulcada
    profundamente dessas rugas horisontaes, que são como as ondas que vem
    morrer nas margens exteriores do oceano tempestuoso dos pensamentos: o
    seu olhar era esse olhar manso, agasalhador, indulgente, que em certos
    velhos nos fascina e subjuga, e que nos faz dizer a nós os moços:–Quem
    me dera ser teu filho!» Nas faces cavadas aninhava-se-lhe a fome ou a
    penitencia…

    «É a fome!–bradei eu, pondo-me em pé; porque, correndo a vista ao longo
    da barba branca do ancião, vi que esta lhe cahia sobre o escapulario
    negro de monge benedictino.

    Mas a visão desapparecera de novo: e apenas me pareceu ouvir soar ao
    longe uma voz cava e debil, como a que sáe de peito consumido por febre
    pulmonar, que recitava estas palavras do Psalmista:

    _Judica me Deus, et discerne causam meam, et a gente non sancta et ab
    homine iniquo et doloso erue me_.

    O meu circulo vicioso não existia. Cahira das idealidades do passado no
    mundo real, e ahi, n'uma das realidades mais torpes, mais ignominiosas,
    mais brutaes, mais estupida e covardemente crueis do seculo presente,
    que diante de Deus, que o vê e o condemna, ousa gabar-se de grande e
    generoso e forte; mas em cuja campa o christianismo e a philosophia
    escreverão algum dia unicamente este letreiro:

    –Aqui jaz a ultima era dos martyres.–

    E pûs-me a scismar.

    _Erue me! Erue me!_–O Senhor te resgatará, pobre monge; porque não
    tarda a bater a hora em que durmas tranquillo na terra fria e humida,
    fria e humida como a estamenha que te cobre. Queiras tu de lá
    perdoar-nos!

    E lançando os olhos em volta, perguntava a mim mesmo:–Porque possuo eu
    os commodos da vida, o pão do corpo e o pão do espirito, e porque perdeu
    elle tudo isso? Que bem tenho eu feito ao mundo? Que mal lhe havia elle
    feito?

    Á fé, que a minha consciencia não achou uma unica resposta cabal a tão
    simplices perguntas.

    A lembrança do frade velho atormentou-me toda a noite. A imaginação não
    m'o pintava já na passagem escura, onde surgira pela segunda vez: via-o
    na idéa, e ahi, encostado ao roble, procurando conchegar os membros
    inteiriçados na cogulla encharcada, e resguardar a cabeça calva ao
    abrigo do robusto madeiro. Errante e mendigo como o rei Lear, o monge
    não tinha, como elle, para o guiar na solidão e na procella a caridade
    de um truão.

    É que hoje não ha truões. Este seculo é um grave, sério e cogitador
    assassino.

    De quantos anciãos veneraveis será a historia a historia do meu
    benedictino?

    «Mas elles têem pão: os soccorros publicos…» Olé, homens grandes,
    silencio!

    Qual é o juro legal de cem milhões? São cinco.

    Quanto dizeis vós que atiraés dos vossos balcões dourados aos hélotas da
    sciencia e do sacerdocio? Uma quota diminuta dessa quantia.

    Cahiu também a arithmetica debaixo das ruinas do passado? Se é assim,
    dizei-o. Supprimamos a arithmetica. O que não fica supprimido é a
    palavra–mentira!

    Mentistes; porque a somma de que falaes existe apenas em palavras mais
    torpemente hypocritas que as da serpente tentadora de nossa primeira
    mãe, as que se escrevem nas paginas de um orçamento.

    E a realidade? A realidade é a minha visão; é que o monge, o sacerdote,
    se converteu em mendigo.

    Silencio, outra vez, homens grandes! Tambem eu nasci nesta terra, e o
    sangue ainda me não esqueceu o caminho das faces.

    E se nós, geração do progresso e da philosophia, nos envergonharmos de
    ser deshonestos, e dissermos:–Dê-se uma fatia de pão ao que morre de
    fome!» Mais; se dissermos:–Pague-se um juro modico dos valores que nos
    apropriámos?»

    Se o fizermos, em logar de sermos mil vezes uma cousa, cujo nome não
    escreverei aqui, sê-la-hemos só novecentas e noventa e nove; porque
    teremos restituido a millesima parte do que loucamente havemos
    desbaratado.

    O homem não vive só de pão. Di-lo um livro que vós nunca lestes, mas que
    nem por isso tem deixado de ser por dezoito seculos o abrigo, a
    doutrina, a crença e a consolação de innumeraveis milhões de individuos.

    Calculastes jámais quanto é insolente, atroz, diabolico, chegar a um
    velho, tomar-lhe nas mãos todas as suas affeições, todos os seus habitos
    de largos annos, todas as suas esperanças mais queridas, e despedaçá-las
    e calcá-las aos pés, e dizer-lhe depois:–Dar-te-hei um bocado de pão?»
    Prometter pão aos setenta annos!… Feita a quem esperava morrer
    abraçado com o passado; que reportava a elle o presente e o futuro; cujo
    viver intimo era só de memorias, essa promessa materialista e de
    escarneo bastaria para deshonrar-vos. Que nome, porém, se dará aos que
    nem essa mesma cumpriram?

    Quaes podiam ser as affeições de antigo monge habitador de um d'esses
    mosteiros solitarios espalhados pelas provincias, e afastados do tumulto
    das grandes cidades? As suas affeições existiam todas dentro dos muros
    do claustro: era a cella caiada e limpa; era a enxerga do seu catre; era
    a banca de pinho em que meditava e lia; era a poltrona tauxiada em que
    se assentava; era a estamenha do seu habito; eram as suas sandalias de
    peregrino; era a arvore da cerca, fronteira da janella, onde o rouxinol
    cantava na madrugada; era o crucifixo do seu oratorio; era a lagea da
    crasta, debaixo da qual dormiam seus irmãos mais velhos, aquelles que
    antes delle haviam seguido o caminho do Calvario, e donde pareciam
    chamá-lo para o seio de Deus, quando os seus passos vagarosos soavam por
    cima da pedra. Nisso, e em mil cousas como estas estavam postos o seu
    amor, os seus affectos, as suas saudades, os seus desejos. Era o seu
    mundo esse; e a vida, serena, calada, melancholica, balouçava-se-lhe
    suavemente nessas affeições do retiro. Porque lhe despedaçastes tudo
    isto? Quanto vos renderam a enxerga, as sandalias, a lagea do sepulchro
    e o crucifixo?

    Pobre velho! Pobre velho!

    «Mas nós, acudireis, não podiamos calcular essas cousas, nem cremos em
    affectos moraes. Temos cabeça, mas falta-nos coração, como convém a
    homens politicos. Os frades eram um elemento da sociedade antiga que
    cumpria annullar. Fizemo-lo. E então?»

    Então roubastes Satanaz.

    Pois Satanaz era um demente, que vos désse palacios, carruagens,
    banquetes, prostituições, embriaguez, poderio, a troco de uma alma
    inteiramente morta para os affectos; que não comprehendesse nem a dor
    moral, nem as harmonias suaves que ha entre o universo e o homem? Uma
    alma sempre em noite, e na qual nunca penetrasse a saudade mysteriosa do
    céu? De que lhe serviria para comvosco a sua terribilissima herança de
    uma eternidade de tormentos?

    Ah… deixae-me dizer tudo isto; porque a imagem do velho benedictino
    está gravada na minha alma como um remorso; e sinto lá fóra a chuva que
    lhe açouta as faces ardentes de febre, o tufão que lhe revolve as cãs
    venerandas, a torrente que lhe alaga os pés descalços. As lagrymas do
    sacerdote, só, mendigo, nú, esfaimado, são uma tremenda maldicção
    contra nós, maldicção que ha de cumprir-se.

    A arte moderna parece ter achado os mais poderosos meios de excitar a
    compaixão e o terror: tudo quanto a arte antiga tinha pathetico e
    terrivel sentimo-lo hoje frouxo e pallido. Se hoje, porém, houvesse
    engenho capaz de traduzir em palavras humanas o drama horribilissimo das
    ultimas agonias da vida monastica em Portugal, aquelle que lesse uma só
    vez esse livro monstruoso e incrivel poderia depois, ao deitar-se,
    conciliar o somno com o _Leproso de Aosta_, com o _Fausto_, com o
    _Manfredo_, ou com os _Últimos dias de um sentenceado_.

    Quando em 1834 se extinguiu o antigo e celebre cenobio de Sancta Cruz de
    Coimbra, aconteceu ahi um facto que póde, até certo ponto, dar uma idéa
    das primeiras scenas do negro drama que ha oito annos começou a passar
    ante os olhos daquelles que ainda não abnegaram de todo a humanidade e o
    pudor. Expulsos os cenobitas, e inventariados os bens do mosteiro pelos
    commissarios desta obra brutal, quasi por toda a parte brutalmente
    executada, ainda uma cella daquelle vasto edificio ficava occupada por
    um dos seus antigos habitadores. Era um velho de oitenta annos, a quem o
    tropego, o quasi morto dos membros embargavam o caminhar, e que por isso
    não podia seguir seus irmãos. Entrando no aposento, encontraram o
    cenobita deitado no seu catre humilde, em cujo topo pendia o crucifixo
    que, talvez por sessenta annos, tinha visto a seus pés consumir-se na
    meditação, nas preces e na penitencia aquella dilatada vida. Estava só o
    ancião, e o silencio que o rodeiava apenas era interrompido pelos
    gorgeios de uma avesinha, que pulava contente ao sol n'uma gaiola
    pendurada da abobada. O velho parecia pensativo, como se adivinhasse que
    era chegada para elle a hora do martyrio.

    As passadas dos que entravam moveram-no a volver os olhos: correu-os por
    aquelles rostos desacostumados: depois tornou-os a abaixar. Que lhe
    importavam os homens do seculo? Elle não os conhecia.

    Disseram-lhe então que era necessario sair d'alli.

    «Porque?–perguntou o cenobita.

    «Porque os frades acabaram:–replicou o mais eloquente e discreto dos
    verdugos, como se exprimisse a idéa mais simples e trivial deste mundo.

    «Porque os frades…: repetiu em voz baixa o velho, sem concluir. Os
    labios não podiam levantar de cima do coração o resto daquella phrase
    monstruosa: ella lh'o havia esmagado.

    Um sorriso estupido passou pelas faces estupidas de alguns dos
    circumstantes. No gesto espantado do cenobita liam elles a grandeza do
    esforço com que associavam o proprio nome á obra prima do seculo.

    E com razão. O triturar assim um coração de oitenta annos era feito que
    excedia em heroicidade todos os que haviam practicado dous cavalleiros
    portugueses, que, lá embaixo na igreja, continuavam a dormir nos seus
    leitos de pedra um somno de muitos seculos, e que se chamavam Affonso
    Henriques e Sancho Adefonsíades.

    Os olhos do ancião ficaram enxutos. Só accrescentou:–Mas para onde hei
    de eu ir?»

    «Para casa dos vossos parentes:–acudiu o philosopho.

    O cenobita correu a mão pela fronte calva, e respondeu:–Já não tenho
    parentes na terra: todos me esperam no céu».

    «Então ireis para a de algum amigo.»

    «O unico amigo meu que ainda vive é aquelle!»

    E apontava para a avesinha.

    «O frade irá pois morar na gaiola do pintasilgo:–rosnou por entre os
    dentes um dos algozes, que tinha fama de gracioso. Não quiz, porém,
    communicar aos outros tal idéa. Tudo estouraria de riso.

    Alguem, que estudava ahi perto esta scena de progresso moral, não pôde,
    todavia, continuar os seus graves e terriveis estudos. Precisava de ar,
    de luz, de ver o céu. Atravessou ligeiro o longo dormitorio, e desceu a
    quatro e quatro os degraus das extensas escadarias. As lagrymas
    rebentavam-lhe como punhos.

    Á portaria de Santa Cruz as primeiras palavras que ouviu foram, que a
    municipalidade acabava de fazer um calvario no fundo de uma petição,
    escripta em vasconço por certo doutor affamado, na qual pedia ao governo
    lhe atirasse aquelle osso do mosteiro de sete seculos, para o roer até
    os fundamentos, e construir no sitio d'elle, não me lembra ao certo se
    um espogeiro, se uma sentina.

    Era o estudo do progresso artistico após o estudo do progresso moral.

    Quantos destes factos dolorosos se passaram naquella epoclha por todos
    os ângulos de Portugal! Poderia contar-vos mil, e cada um delles fora
    uma nova scena de agonia. Os martyres primitivos morriam nos eculeos,
    nas garras das feras, nos leitos de fogo; não eram, porém, condemnados a
    assentar-se em cima das ruínas de todos os seus affectos, clamando ao
    Senhor durante annos: _Erue me! Erue me!_

    Fizestes uma cousa absurda e impossível: deixastes na terra cadaveres
    vivos, e assassinastes os espiritos.

    Ao menos que esses cadaveres não sintam traspassá-los o vento que
    sibilla nas sarças, a chuva que alaga as campinas, o frio que entorpece
    as plantas e os membros dos animaes.

    Pão para a velhice desgraçada! Pão para metade dos nossos sabios, dos
    nossos homens virtuosos, do nosso sacerdocio! Pão para os que foram
    victimas das crenças, minhas, vossas, do seculo, e que morrem de fome e
    de frio!

    Cumpri aos menos a vossa brutal promessa. Podem n'essas almas ser
    profundas as trevas, e todavia respeitardes as regras mais triviaes de
    uma probidade vulgar.

    Senão, que os pobres monges inclinem resignados a fronte na cruz do seu
    martyrio, e alevantem uma oração fervorosa ao Senhor para que perdoe aos
    algozes, que nella os pregaram. É este o exemplo que na terra lhes
    deixou o Nazareno.

    Mas que se lembrem os poderosos do mundo de que a oração de Jesus na
    hora suprema da agonia foi desattendida do Eterno. E comtudo, Jesus era
    o seu Christo.

    Que olhem para essa nação que fluctua ha dezoito seculos no pégo da sua
    infamia, maldicta de Deus, e apupada pelo genero-humano, sem nunca poder
    submergir-se nos abysmos do passado e do esquecimento.

    Que se lembrem do proprio nome, do nome de seus filhos, de que ha
    justiça no céu, e na terra a posteridade.

    Se nos seus corações restam vestigios de crenças humanas, que meditem
    uma hora, um minuto, um instante nisso tudo. Das profundezas de tal
    meditar surgirá uma idéa, que lhes fará manar da fronte o suor frio da
    morte; porque será uma idéa tenebrosa e terribilissima.

    *DA INSTITUIÇÃO

    DAS

    CAIXAS ECONOMICAS

    1844*

    I

    A origem das caixas economicas, embora imperfeitamente organisadas, como
    todas as instituições nos seus começos, remonta apenas aos fins do
    seculo passado, e a Allemanha e a Suissa foram os primeiros paizes que
    as viram nascer. Hamburgo possuia uma em 1787, e a de Berna, instituida
    só para os creados de servir, appareceu em 1789. Seguiram-se poucos
    annos depois a do ducado de Oldemburgo e a de Genebra. Todas as demais,
    nestes e n'outros paizes, foram fundadas posteriormente, e pertencem ao
    presente seculo. Em Inglaterra, dizem alguns que a idéa das caixas
    economicas occorrera primeiramente ao celebre Wilberforce; mas os
    vestigios dellas que ahi se apontam anteriores a 1810 são de natureza
    duvidosa ou apenas tentativas obscuras. Data daquella epocha o _banco de
    poupanças_ (_saving's bank_) de Ruthwel, fundado por Duncan, e que foi o
    primeiro que se constituiu naquelle paiz com estatutos publicos e
    regulares. Os seus prosperos resultados foram poderoso incentivo para a
    diffusão das caixas economicas. Dentro de sete annos contavam-se no
    Reino-unido perto de oitenta estabelecimentes analogos, e em 1833 quasi
    quinhentos, onde 470:000 individuos, pouco mais ou menos, tinham
    depositado a enorme somma de quasi 16 milhões de libras esterlinas, ou
    acima de 160 milhões de cruzados, subindo nos quatro annos immediatos o
    numero dos depositarios a 636:000 e o valor dos depositos a 20 milhões
    de libras ou mais de 200 milhões de cruzados. Ao passo que estes
    beneficos institutos cresciam e se multiplicavam na Gran-Bretanha,
    generalisavam-se e prosperavam tambem no meio das nações continentaes.
    Em 1838 o numero das caixas economicas subia na Allemanha a 257, e na
    Suissa a 100. A França, onde só foram introduzidas em 1818, conta
    actualmente (1844) perto de 300, e na Italia quasi não ha cidade que não
    possua estabelecimentos desta especie. Á porfia, os governos e os povos
    tem concorrido para arraigar uma instituição, cuja idéa fundamental é,
    talvez mais que nenhuma, civilisadora e moral. Como todas as cousas
    verdadeiramente grandes e uteis, as caixas economicas não tem encontrado
    uma unica parcialidade politica, uma unica eschola que ouse
    condemná-las, uma só crença religiosa que as repudie. As monarchias
    absolutas, os governos parlamentares, as republicas acceitam-nas,
    promovem-nas. Ao passo que o ministro protestante as aconselha como
    poderoso instrumento de morigeração e de ventura para o povo, o papa
    sanctifica esta formosa instituição, abençoando-a e propagando-a nos
    estados da igreja. Progresso verdadeiro, nascido no meio da terrivel
    lucta de idéas, de paixões e de interesses em que ha meio seculo se
    debate a Europa, as caixas economicas não tem custado á humanidade nem
    lagrymas, nem sangue. Evidentemente uteis por sua natureza; provadas
    taes pelos principios em que se estribam e pelos seus esplendidos
    resultados; simples no seu mechanismo, por toda a parte aquelles a quem
    os seus beneficios são especialmente destinados, os homens do povo,
    tem-nas comprehendido e abraçado. Simplicidade, clareza, utilidade
    reconhecida são as principaes condições de todo e qualquer pensamento
    social que tenda a popularisar-se. As caixas economicas ostentam no mais
    subido grau estes caracteres de todas as instituições que devem vir a
    encarnar-se na sociedade e a viver a larga e robusta vida das nações, a
    vida dos muitos seculos.

    Este consenso unanime, não de paizes ignorantes, mas dos que estão na
    dianteira da civilisação, e ahi, não de uma classe de individuos, mas de
    homens de todas as jerarchias; tal consenso, dizemos, é o julgamento
    mais completo, o testemunho mais irrefragavel da utilidade nunca
    desmentida das caixas economicas. Onde quer que ellas appareceram, a
    moralidade das classes inferiores e pobres melhorou em breve, e a
    miseria, perspectiva permanente que o jornaleiro e o assalariado tem
    diante dos olhos para o ultimo quartel da existencia, deixou de ser para
    elles uma fatalidade ineluctavel. A sobriedade; a poupança, as virtudes,
    em summa, de homem do povo deixaram de ser van precaução contra o seu
    negro porvir de mendicante velhice.

    A familia, sobretudo, essa imagem da sociedade e sua origem, que para o
    obreiro, ás vezes escaçamente retribuido, é, não raro, flagello e
    maldicção, póde deixar de ser desgraça, ao menos para aquelle a quem ou
    viva crença religiosa, ou a natural bondade da indole induzem a preferir
    á satisfação de vicios ignobeis o proprio bem estar futuro e o bem estar
    de seus filhos.

    Que é, pois, a caixa economica, essa arvore que produz taes fructos de
    benção? É a cousa mais conhecida e trivial. É o mealheiro; é esse velho
    alvitre de poupados que desde pequeninos todos nós temos visto usar aos
    pouco opulentos, e que nossos paes e avós já conheceram; é a astucia do
    pobre para fugir a superfluidades tentadoras (é longa a lista das
    superfluidades do pobre: encerra quasi todo o necessario do rico) e á
    custa dellas achar em si proprio soccorro nos dias de inactividade
    forçada, da carestia ou da enfermidade. É o mealheiro, mas o mealheiro
    tornado productivo, fecundado pela intelligencia e pelo principio de
    associação: é uma grandiosa, e por isso singela, invenção do senso
    commum, que durante muitas eras ficou, por assim dizer, no estado de
    sementinha perdida, até que a luz do progresso e da civilisação a fez
    rebentar, crescer, bracejar, florir e gerar fructos preciosos, que della
    colhem em abundancia as sociedades modernas.

    A este baptismo de regeneração, que, bem como ao do evangelho, são
    principalmente chamados os pequenos e humildes, só tarde nós
    concorremos. Não que ignorassemos a sua existencia, mas por essa especie
    de destino mau que nos arrasta após novidades de pouca monta ou
    contrarias á razão, ao passo que desprezamos o que nas instituições
    estranhas ha conforme com os nossos costumes ou accommodado ás nossas
    precisões reaes. Debalde um dos primeiros economistas portugueses[2]
    propôs ha annos na camara dos deputados a creação das caixas economicas,
    offerecendo a lei que as devia regular, e mostrando as suas vantagens
    n'um largo relatorio, onde á vasta sciencia se ajuncta a eloquencia que
    vem da convicção profunda. Entretidos com theorias, ou com interesses de
    partidos ou de pessoas, os homens politicos lançaram no esquecimento as
    boas e sinceras diligencias do deputado que desempenhava uma das mais
    graves obrigações do seu mandato. Até hoje nada fizeram a semelhante
    respeito aquelles a quem mais que a ninguem isso incumbia; e se a
    existencia da primeira caixa economica portuguesa se realisou, deve-se o
    facto a uma associação particular[3].

    É sabido que, por via de regra, as caixas economicas são uma especie de
    deposito, onde qualquer individuo póde ir ajunctando lentamente e em
    quantias pequenas ou grandes as sobras da sua receita, salvas das
    despesas necessarias á vida;–que, em vez de ficarem inertes as sommas
    alli depositadas, começam logo a produzir juro, o qual, passado um anno,
    se converte em capital e se accumula ao capital primitivo para com elle
    produzir novos juros;–que esta accumulação, bem como a formação do
    capital primitivo, é perfeitamente indeterminada e sem accepção nem
    excepção de tempos e de quantias, uma vez que não sejam estas inferiores
    ao diminuto minimo de cem réis;–que o depositante póde quando lhe
    aprouver levantar o juro ou o principal no todo ou em parte, ou
    transmitti-lo por testamento ou por successão a seus herdeiros ou
    legatarios;–que, finalmente, o homem laborioso e poupado tem alli as
    suas economias seguras pelas garantias positivas que lhe presta uma
    associação poderosa e respeitavel, em vez de as conservar improductivas
    e arriscadas no mealheiro domestico, ao qual, suppondo-lhe a indole
    previdente e poupada que tantas vezes falta ao operario e, em geral, a
    todos os que vivem de pequenos lucros eventuaes, teria necessariamente
    de recorrer.

    «Com razão se tem apontado, diz De Gerando, a utilidade moral que esta
    instituição produz, favorecendo as inclinações para o arranjo e
    economia. Ella é propicia ás virtudes que se ligam com essas
    inclinações, ou que d'ahi nascem. Excita ao trabalho; habitua o homem
    laborioso a cogitar; ajuda a desenvolver os affectos domesticos;
    concorre para multiplicar tanto os estabelecimentos industriaes como as
    familias, proporcionando meios de formar e conservar o cabedal
    necessario para abrir uma officina ou ajunctar um dote para casamento;
    ensina ao pouco abastado como em si proprio póde achar recursos e como
    se póde remir na miseria, na doença e na velhice. As caixas economicas,
    ao passo que diminuem o numero dos indigentes, concorrem tambem para
    nobilitar o caracter do homem pobre e para lhe dar aquella honrada
    altivez que nasce da maior independencia. Aos que vivem na estreiteza
    faz-lhes saber quanto é grato o sentimento da propriedade,
    estabelecendo-lhes uma que é real e que, apesar de modica, fructifica e
    se perpetua. Além disso, são proveitosas em subido grau á sociedade,
    porque são conjunctamente symptoma e instrumento da quietação publica.»

    Veio o successo justificar as previsões do illustre moralista. Tem-se
    observado em França e em em Inglaterra, que não ha individuo que tenha
    feito depositos nas caixas economicas que fosse accusado nunca perante
    os tribunaes, ao passo que as listas de criminosos feitas em diversas
    epochas provam que as tres quartas partes dos individuos sentenceados
    eram pessoas inclinadas ao jogo, ás loterias, ou a bebidas espirituosas.

    Os factos citados pelo virtuoso De Gerando são, de feito, as
    consequencias forçosas da idéa fundamental das caixas economicas. Das
    classes populares saem, não só absolutamente, mas tambem relativamente,
    a maior parte dos criminosos. Tem-se attribuido isto á falta de educação
    nessas classes: sob certo aspecto e até certo ponto a causa é
    verdadeira; não é, porém, a unica, nem a principal. Se indagamos quaes
    foram os primeiros passos dos mais celebres malvados, achamos que
    partiram dos simples roubos até chegarem á maxima ferocidade no crime.
    Poucos entre os assassinos famosos escreveram logo com sangue as paginas
    maldictas da historia da sua existência. Na estatistica da criminalidade
    popular predomina o roubo: é cousa trivialmente sabida, como o é que a
    miseria das classes laboriosas produz principalmente esse facto. Mas o
    que a sociedade parece ignorar ou esquecer é que ella é a culpada de que
    a pobreza do humilde se converta facilmente em miseria; miseria extrema,
    desesperada, terrivel; miseria que impelle quasi forçadamente pela
    estrada da immoralidade o homem do povo, para quem os legisladores ha
    muito inventaram as masmorras, os desterros, os supplicios, em vez de
    alevantarem barreiras moraes que lhe obstem a precipitar-se no abysmo.

    Para o individuo sem propriedade, para o obreiro, o artifice, o creado
    de servir; para aquelle, emfim, que só tem por capital os proprios
    braços, e cuja renda é apenas um salario contingente, a imprevidencia e
    o habito de procurar cada dia os meios de viver esse dia nascem
    naturalmente da sua situação precaria. Nada espera no futuro, e por isso
    nada teme delle: probabilidades, contingencias, não as calcula nem
    previne. Assim, vemo-lo acceitar com facilidade os encargos de pae de
    familia. Satisfez o appetite momentaneo; que importa o futuro áquelle
    para quem isso não existe?

    Depois vem os filhos, vem a doença, vem a falta de trabalho: as
    affeições domesticas enraizaram-se no coração do desgraçado. A natureza,
    a religião, os costumes, tudo lhe diz que esses entes que gerou, que
    essa mulher a quem se prendeu devem achar nelle o seu abrigo, a sua
    providencia. Ao passo que a má organisação da sociedade o inhabilita
    absolutamente para em certos casos poder supprir os seus, a mesma
    sociedade lhe diz, e diz bem, que nunca os deve abandonar. Desta ordem
    de cousas, falsa, violenta, contradictoria, resulta que as mais leves
    tendencias para o crime se excitam e dilatam até chegarem a produzir
    tristes fructos, cujo desenvolvimento a sociedade crê impedir com as
    algemas, carceres, grilhetas, desterros e patibulos, emquanto ella
    propria, com o seu desprezo pelas classes pobres, com a falta absoluta
    de instituições verdadeiramente moralisadoras e beneficas, alimenta a
    arvore mortifera que produz as acções criminosas.

    II

    As caixas economicas são o primeiro e agigantado passo para a solução do
    problema que as leis ainda não tentaram resolver: as caixas economicas
    são o contraste, a negação do patibulo. Matam a perversão popular nas
    suas causas, em vez de a punir nos seus effeitos. Criam o futuro para
    milhares de individuos que nunca imaginaram tê-lo, creando-lhes o goso
    da propriedade, e nesta um recurso para a hora da afflicção e escaceza,
    tão proxima, entre as almas vulgares, da hora do crime. O facto de não
    apparecer o nome de um unico depositante das caixas economicas nas
    listas dos sentenceados em França e em Inglaterra é a consequencia
    natural dos principios em que esta instituição se estriba.

    A sua influencia moral vai ainda mais longe. Os vicios são, depois da
    miseria, a origem de frequentes attentados. O jogo e a embriaguez estão
    por toda a parte mais ou menos nos habitos do povo: a embriaguez,
    sobretudo, é para o maior numero de jornaleiros como refrigerio, como
    prazer licito nos dias de repouso. Quem, todavia, ignora que estes dous
    vicios são quasi sempre a causa de rixas entre os operarios, de
    desordens domesticas, e de se aggravar cada vez mais a miseria das
    classes laboriosas? As caixas economicas guerreiam, geralmente com
    vantagem, a propensão para as bebidas fermentadas e para o jogo.
    Inimigas da penalidade feroz e sanguinaria que ainda governa a Europa,
    não o são menos da taberna, que muitas vezes é a porta fatal por onde o
    homem de trabalho enceta o caminho que tantas vezes o conduz ás galés,
    ao desterro e, até, á morte.

    Mas, dir-se-ha, como podem as caixas economicas desarreigar os vicios
    inveterados do povo? Como correrá este a depositar nos escriptorios das
    caixas a exigua quantia que ia applicar á embriaguez e ao jogo? A esta
    pergunta responde a experiencia dos paizes onde esta especie de
    depositos estão instituidos e vulgarisados ha certo numero de annos. A
    principio a concorrencia era diminuta e lenta; mas cresceu gradualmente,
    e vai tomando hoje um incremento que passa além de todas as previsões
    dos amigos da humanidade.

    Entre nós mesmos ha um triste exemplo de como o povo, quando descortina
    ainda a mais duvidosa perspectiva de melhorar a sua condição, dá de
    barato o satisfazer os outros appetites para correr após essa incerta
    esperança. São as loterias o exemplo: é exemplo essa deploravel invenção
    de especular com a cubiça e com o desejo ardente que as classes menos
    abastadas tem de conquistarem, seja como for, fortuna independente.

    É de ver a ancia, diriamos quasi o delirio, com que o vulgo concorre a
    lançar no sorvedouro das loterias quantos reaes lhe sobram do que lhe
    cumpre gastar nas mais estrictas precisões da vida. Muitos ha que até
    cortam pelo necessario a si e á família para o irem dar a devorar á
    loteria, a essa fatal banca de jogo em que se joga á luz do dia, no meio
    da praça publica, embora haja a certeza de _que a grandissima maioria
    dos que apontam hão de forçosamente perder_; circumstancia que
    caracterisa esta instituição _publica_ de modo, que, se fosse uma
    especulação particular, os tribunaes puniriam severamente o especulador.
    Mas o facto demonstra que, apenas clareia algum tanto o negro horisonte
    do porvir; apenas lá reluz uma esperança tenue, improvavel até, a de um
    premio avultado, o povo corre para essa esperança; porque antevê as
    dolorosas consequencias da sua precaria situação e busca esquivar-se a
    ellas.

    É para tornar proficua e moral esta previsão que se instituiram as
    caixas economicas. Fazendo convergir para si as sobras escaças dos pouco
    abastados, as quaes aliás se desbaratariam provavelmente em vergonhosos
    deleites, ou no que vale quasi o mesmo, na loteria, ellas não apresentam
    esses engodos fementidos, essas promessas mentirosas com que se desperta
    a cubiça popular; não promettem mil por dez com a condição de, em cem
    casos, perderem-se noventa e nove vezes os dez e não se obterem os mil.
    Não! As caixas economicas offerecem unicamente um juro modico, mas
    constante, e alèm disso a certeza de rehaver o depositante o seu
    capital, augmentado com o juro, no momento em que delle careça:
    offerecem uma cousa simples, clara, possivel: não promettem milagres,
    nem sequer maravilhas; porque o maravilhoso muitas vezes, e o milagroso
    sempre, nas cousas humanas, são a caracteristica do charlatanismo.

    Como os descobridores de thesouros encantados, como os viciosos de
    loterias, como os alchimistas, os que desenvolveram e applicaram o
    pensamento desta instituição calcularam tambem com a insaciabilidade da
    cubiça humana; com a cubiça que póde estar dormente ou subjugada por
    outros affectos, mas que existe em todos os corações. O primeiro
    sentimento que deve levar o obreiro, o familiar, o caixeiro, o artifice
    a ir entregar na caixa economica alguns tostões que forrou do producto
    do seu trabalho será a idéa de que virão de futuro as occasiões da
    enfermidade, da falta de occupação ou de outro qualquer contratempo, e a
    reflexão de que, reservando os sobejos de hoje para as faltas de amanhã
    é, sem questão, mais judicioso accumulá-los no mealheiro seguro e
    publico, onde não corre uma hora, um minuto, em que a somma poupada não
    produza seu lucro, e em que este lucro não se esteja transformando em
    capital productivo, do que mettê-los no mealheiro particular, que póde
    ser roubado, e onde, no momento da precisão, nem mais um ceitil se
    achará daquillo que ahi se metteu. É este o sentimento que, no povo,
    suscita desde logo a caixa economica, e conforme a experiencia de todos
    os paizes, basta elle para angariar extraordinario numero de
    depositantes. Ha, porém, um perigo: quando algum destes tiver accumulado
    certa quantia que repute sufficiente para occorrer a qualquer apuro
    inesperado, os costumes viciosos e desordenados que o temor do futuro e
    a esperança de remedio domaram, hão de provavelmente melhorar-se nessa
    lucta entre o bem e o mal, e o homem de trabalho voltará aos habitos de
    desleixo e dissipação que lhe absorviam as suas sobras, e que lh'as
    tornarão a absorver de novo, e quem sabe se, até, as proprias economias
    que fizera. Obviamente o perigo é real e grandissimo: ha, todavia, no
    coração humano tambem a avareza; ha essa paixão, que, ao contrario das
    outras, augmenta com a posse, radica-se com a idade, arde violenta ainda
    na penumbra fria do sepulchro. Na instituição das caixas economicas,
    contou-se com ella. Invenção que toca as raias do sublime é o aproveitar
    uma paixão má e ignobil para fazer o bem; tornar instrumento da moral e
    da civilisação a mais indomavel, a pessima entre as nossas propensões.
    Perigosa, destructiva, anti-social no rico, ella será útil ao pobre,
    que, sem deshonra, a póde alimentar onde quer que existirem as caixas
    economicas. E é o que deve succeder e succede. O creado, o jornaleiro, o
    artifice que insensivelmente se achou transformado em pequeno
    capitalista e que vê, com o decurso do tempo, engrossar os tostões em
    cruzados, os cruzados em moedas, começa a amar o seu peculio e a fazer
    sacrificios para o augmentar: esta idéa entranha-se no seu espirito, e
    não tarda a vir o exame severo das superfluidades e o córte em todas
    ellas. E fazem-no desafogadamente, porque sabem que no dia ou no
    instante em que o excesso da poupança os conduza a algum apuro, é-lhes
    licito ir levantar no todo ou em parte o juro ou o capital que possuem:
    e se tal aperto se não der, tem a certeza de que, quanto mais depressa
    ajunctarem um peculio de certo vulto, mais depressa realisarão o sonho
    constante da maioria dos individuos collocados na precaria situação de
    assalariados, a existencia independente. Um abrirá a loja de retalho,
    outro a officina de pequena industria: este irá plantar a vinha no
    outeiro escalvado; aquelle arrotear o chão baldio na planicie. Cada qual
    seguirá a senda que a sua inclinação lhe indicar, mas todos pensarão só
    n'uma cousa, a independencia; a independencia que nasce da propriedade,
    e que é o mais fertil elemento da moral, da paz e da prosperidade
    publica.

    As considerações que temos feito são geraes; applícam-se a todos os
    paizes, porque assentam sobre a indole dos affectos humanos, e sobre
    circumstancias mais ou menos communs nas sociedades modernas. Se, porém,
    ha nação cujo estado social, cujas tendencias entre as classes
    inferiores assegurem ás caixas economicas, mais que nenhuma outra, uma
    acção poderosa em melhorar a condição dessas mesmas classes, essa nação
    é a nossa.

    Em Inglaterra e em França as caixas economicas, apesar das suas
    grandissimas e innegaveis vantagens, tem apresentado alguns
    inconvenientes: tal é o de servirem para especulações de gente rica,
    que, na falta de applicações para os seus cabedaes, alli os vão
    depositar com os juros compostos que delles devem auferir, sem correrem
    riscos e sem se onerarem com as despesas de administração. Procurou-se
    em muitas partes remover este inconveniente, estabelecendo maximos para
    as entradas e para o total dos depositos de cada individuo; mas esta
    providencia nem é geral, nem impede que a frequencia das entradas supra
    a modicidade dellas, e que repartindo uma quantia avultada por diversos
    membros da propria familia, e fazendo todos estes ao mesmo tempo
    pequenos depositos em diversas caixas, o abastado venha a abusar de uma
    instituição cujo fim não é, de certo, locupletá-lo.

    Entre nós não existe e difficilmente existirá semelhante perigo.
    Portugal é um dos paizes da Europa, onde, graças á nossa antiga
    organisação social e á natureza e condições das nossas industrias, as
    fortunas são por via de regra mediocres, a propriedade territorial mui
    dividida nas provincias mais populosas, e por consequencia os capitaes
    raros e os grandes capitaes rarissimos. Fallecem elles ás applicações,
    não as applicações a elles. Se a essa limitada força de capitaes que
    possuimos faltasse o minotauro que os devora quasi todos, a agiotagem,
    quasi sempre infecunda, com o governo e com os particulares, ainda
    restavam as necessidades das industrias fabril e agricola, ás quaes por
    muitos annos não bastarão os que existem, sem que receiemos sirvam para
    perverter uma instituição quasi exclusivamente destinada ás classes
    laboriosas e menos abastadas.

    Tem-se ponderado que a acção benefica das caixas economicas é impotente
    contra a miseria do maximo numero de obreiros, isto é, contra a miseria
    de quasi todos os que pertencem á industria fabril. Nos paizes onde as
    grandes fabricas são a principal fórma, o mais commum systema da
    industria, essa observação é infelizmente verdadeira. O aperfeiçoamento
    das machinas, a concorrencia dos productos nos mercados, a desproporção
    entre o fabrico e o consumo tem feito descer os salarios a ponto que
    toda e qualquer economia é impossivel para o operario, que ganha
    exactamente só o preciso para não morrer de fome. Depois, nos grandes
    focos de industria fabril, principalmente na Gran-Bretanha, a depravação
    dos costumes é tão profunda, que, ainda quando a economia não fora
    materialmente impossível, sê-lo-hia moralmente. Ahi, portanto, as caixas
    economicas, são, sem duvida, insufficientes para libertar o povo da
    miseria e da corrupção.

    III

    Quando a organisação de um paiz é viciosa e contrafeita; quando e onde a
    propriedade está mal e, digamos até, monstruosamente dividida: onde o
    capital anda em guerra viva com o trabalho; onde a condição do obreiro é
    relativamente peior que a do servo da idade media, a caixa economica de
    certo não póde remediar os effeitos desta situação absurda. Os
    districtos ruraes da Inglaterra, nomeiadamente os da Irlanda, são
    victimas de uma constituição da propriedade territorial em que ainda
    está viva a conquista dos normandos, e nas cidades manufactoras o
    excesso dos aperfeiçoamentos mechanicos tem gerado o excesso de miseria
    dos proletarios. Para estes, que pelas fluctuações do commercio externo,
    tem repetidas vezes largas ferias de trabalho, e se vêem forçados a ir
    receber a esmola dos soccorros parochiaes; para estes, a quem
    frequentemente faltam os objectos de primeira necessidade, a caixa
    economica é como se não existisse. Em tal situação recommendar ao
    obreiro a economia e a previsão fora cruel escarneo.

    Mas que ha entre nós que tenha semelhança com tal estado de cousas? As
    nossas fabricas são poucas e acham-se ainda longe dos grandes
    aperfeiçoamentos. Por outra parte, não havendo superabundancia de
    braços, os salarios são razoaveis. N'uma nação essencialmente agricola a
    industria manufactora difficilmente preponderará sobre a agricultura. Do
    modo como a propriedade está constituida, sendo avultadissimo o numero
    dos proprietarios ruraes, e predominando a pequena cultura pela grande
    divisão do solo, essa preponderancia é e será por muito tempo
    impossivel. A supremacia industrial dos ingleses devem-na estes, talvez
    quasi exclusivamente, a que na Gran-Bretanha a terra, por assim dizer,
    foge debaixo dos pés ao homem de trabalho. Paiz classico dos
    latifundios, os possuidores de vastos predios, ou os seus opulentos
    rendeiros obtem facilmente simplificar as operações da cultura com
    engenhosos e potentes machinismos, dispensando assim um grandissimo
    numero de braços, que vão augmentar a offerta dos que a industria fabril
    utilisa. Essa, forcejando igualmente para os substituir pelas machinas,
    ao que a obrigam as luctas interminaveis da concorrencia, acceita-os,
    acceita-os sempre, mas com a condição inevitavel do abaixamento
    indefinido do salario. Em Inglaterra a agricultura, adiantadissima em
    extensão, em intensidade, em instrumentos, e em copia de capital movel,
    está restricta a operar dentro dos limites do solo cultivado. O
    principal instrumento de producção, a terra aravel, não póde
    multiplicar-se. Quando a machina ou um novo systema agricola expulsa o
    operario rural, expulsa-o para dentro das barreiras da industria fabril.
    Para esta, ao contrario, o espaço onde labora é um dos menos importantes
    elementos da sua existencia. Para produzir indefinidamente, só carece de
    uma condição essencial; é a que a faz triumphar da industria das nações
    rivaes, a do preço inferior ao do producto alheio com igual valor da
    utilidade. A machina, ou aperfeiçoada ou nova, e a reducção dos
    salarios, ou o augmento de horas de trabalho, o que é perfeitamente
    identico, são os seus meios heroicos. Não lhe importa se o instrumento
    homem se quebra, porque o renovará sem custo no meio das multidões
    famintas. Vive de produzir barato, e os seus obreiros hão de viver de se
    afadigarem em procura da morte. Cumpre que a industria inglesa triumphe
    na batalha incessante que se peleja entre as nações industriaes, batalha
    onde se não vê o fuzilar da espingardaria, nem se ouve o troar dos
    canhões, mas descortina-se o revolutear do fumo das chaminés monstruosas
    e soa o murmurar confuso da machina e do homem que lidam: terrivel
    batalha, onde não corre sangue, mas corre o suor do trabalho, e depois o
    suor da agonia.

    D'esta situação, exteriormente esplendida e interiormente violenta e
    dolorosa, estamos nós bem longe. Não receiamos dizer que em Portugal
    será raro o operario válido que por meio de severa e intelligente
    economia não possa depositar annualmente na caixa economica alguns
    cruzados, ou para occorrer a desgraça imprevista, ou para crear um meio
    de subsistencia na velhice, ou finalmente para adquirir a independencia
    de proprietario. Com o modo de ser da população portuguesa, póde-se
    prever que, diffundindo-se pelo reino as caixas economicas, a
    estatistica destas será bem differente da estatistica das de Inglaterra,
    e ainda das de França. Nestes dous paizes apenas a quarta parte das
    quantias depositadas pertence aos operarios, e a classe que predomina
    como credora dellas é a dos creados domesticos. Entre nós a proporção
    tem de vir a ser diversa. Os donos de pequenos predios, os seareiros, os
    creados de lavoura, os operarios, não só de officinas, mas tambem de
    fabricas, hão de provavelmente predominar. E se assim acontecer,
    poderemos affirmar que a nação progride largamente no caminho da
    civilisação material e moral.

    Alguém achará, talvez, que estas sinceras esperanças na futura
    regeneração economica do nosso povo são contradictas pelo facto da
    perfeita analogia que se dá entre a França e a Inglaterra, em serem
    tanto n'um como n'outro paiz as mesmas classes as dos depositantes nas
    caixas economicas. Na França, dir-se-ha, a divisão da propriedade é
    facilitada até o ultimo ponto pelas leis, e o numero dos pequenos
    proprietarios é proporcionalmente maior que em Portugal: a agricultura
    também lá predomina sobre a industria fabril; finalmente a situação do
    rendeiro e do trabalhador rural é mais semelhante á dos nossos que á dos
    de Inglaterra. Como, pois, não dão as caixas economicas na Franca
    resultados estatisticos diversos dos que subministram os _saving's
    banks_ ingleses? Não se deve concluir d'ahi que não tem a influencia que
    se lhes attribue, e vice-versa, que no seu progresso ou na sua
    decadencia não influe nem a situação relativa das classes sociaes, nem o
    estado da propriedade?

    Não. A analogia dos dous paizes na desproporção, contraria á ordem
    natural das cousas, entre os operarios e as outras profissões, em
    relação aos depositos nas caixas economicas, tem causas em parte
    semelhantes, em parte diversas, mas iguaes nos resultados. As fabricas
    francesas seguem o rapido progresso das inglesas, e nos grandes centros
    industriaes da França notam-se já em larga escala a miseria e a
    dissolução das cidades manufactoras da Gran-Bretanha. Lille, Mulhouse,
    Rheims, Ruão, reproduzem o triste quadro de perversão que apresentam as
    classes laboriosas em Manchester, Birmingham, Leeds, Glasgow, etc. A
    pobreza extrema, sem esperança e sem limites, já ahi golfa tambem das
    caldeiras de vapor. A industria individual tende rapidamente a
    converter-se na industria, digamos assim, collectiva. A officina
    desapparece diante da fabrica, o homem diante da machina. A questão de
    saber se isto é, em absoluto, um mal ou um bem, relativamente aos
    interesses geraes de qualquer paiz, não a ventilaremos aqui; mas é
    indubitavel que esse transtorno completo na forma do trabalho torna
    altamente angustiosa a situação dos operarios, e inhabilita-os para
    depositarem nas caixas economicas sobras de salarios diminutos e
    frequentes vezes interrompidos.

    Por outra parte, o modo de ser dos bens de raiz em França é exactamente
    o contrario da indole da propriedade territorial em Inglaterra. O solo
    inglês é, por assim dizer, um grande vinculo aristocratico; a França um
    vasto allodio popular. A terra neste paiz está retalhada em cento e
    vinte e cinco milhões de chãos ou courellas e tende a subdivir-se ainda
    mais. Dão-se casos já em que o preço da venda de uma parcella de terreno
    pouco excede o total das despesas necessárias para legalisar a
    transmissão. Muitos homens pensadores começam a ter serios receios de
    que a extrema divisão do solo venha a impossibilitar em certas
    circumstancias uma cultura remuneradora; e ainda os que julgam estes
    receios infundados confessam a conveniencia de uma lei que, distinguindo
    na propriedade o seu modo de ser, quando este modo de ser importa á
    causa publica, do direito do individuo á mesma propriedade, consinta em
    todas as divisões possiveis deste direito, mas prohiba que se retalhem
    indefinidamente os pequenos predios. O systema dos _quinhões_ do
    Alemtejo, que tem uma razão de ser, mas que está longe de ter a
    importancia que teria quando applicado ás glebas de moderada grandeza,
    prova que a doutrina que distingue o modo de ser da propriedade do
    direito de propriedade é reduzivel á praxe. Em França, porém, fora
    difficil entrar nesta senda que repugna a habitos inveterados da vida
    civil da nação. No estado actual das cousas alli, o lavrador
    proprietario ou ainda o simples rendeiro acha facilidade em empregar
    immediatamente na acquisição de terras as suas economias, sem que lhe
    seja necessario accumulá-las por largos annos nas caixas economicas.
    Quatrocentos, duzentos, cem francos que, lhe sobejem, deduzidas as
    despesas de cultura e domesticas, é quanto basta; lá encontra logo um
    prado, uma courella, um cerradinho, que comprado e cultivado com esmero,
    lhe produzirá um lucro maior que o limitado juro da caixa economica:
    prefere, portanto, aquelle expediente. Para elle esta bella instituição
    torna-se realmente inutil.

    Eis, quanto a nós, a explicação da analogia entre a França e a
    Inglaterra pelo que respeita á proporção das diversas classes de
    contribuintes das caixas economicas. A condição dos operarios fabris é
    semelhante nos dous paizes. Quanto á população rural, essa, em
    Inglaterra não contribue, porque a sua situação pouco melhor é que a do
    obreiro da industria, e o proprietario da pequena gleba é uma excepção
    pouco vulgar; em França, porque é facilimo para os pequenos capitaes o
    transformarem-se em propriedade territorial. Assim naturalmente
    explicada, essa analogia não invalida as considerações anteriormente
    feitas.

    Em Portugal o caso é diverso. Entre nós o modo mais commum de possuir a
    pequena propriedade é a emphyteuse. Para o sabermos não precisamos de
    estatistica: basta olhar ao redor de nós. Nas provincias do norte, pode
    dizer-se, talvez, que é rara outra especie de propriedade. Sommados os
    prazos, os vinculos, as vias publicas, os terrenos chamados _nullius_,
    pouco faltaria para ter a medida superficial dessas provincias, e ainda
    ao sul do reino são por milhares os terrenos emphyteuticos tanto ruraes
    como urbanos. Os vastos allodios só predominam no Alemtejo, se é que os
    vinculos lhes não levam a palma. Ora a caracteristica da emphyteuse é
    ser um meio termo entre o systema de propriedade em Inglaterra, que não
    passa, na essencia, de uma odiosa e anti-economica aggregação de
    morgados, e aquelle systema illimitadamente parcellario da França, que
    suscita as apprehensões dos pensadores. A emphyteuse, collocada no meio
    destes dous extremos, se for simplificada e constituída de um modo
    accorde com as idéas e costumes das sociedades modernas, será sempre uma
    das mais sensatas e beneficas instituições civis, e os seus resultados
    immensos nas crises sociaes que despontam no horisonte. Radicada nos
    habitos nacionaes, parece-nos que não corre o perigo de ser abolida; mas
    se alguem o tentasse e o obtivesse, faria um bem mau serviço ao seu
    paiz. O prazo fateusim hereditario realisa o desejo, por tantos
    manifestado em França, de que os terrenos que por successivas divisões
    desceram a um limitado perimetro, passassem indivisos, sem que por isso
    deixasse de ser divisivel o direito de propriedade sobre elles.

    É n'um paiz assim, se nos não enganamos, que a vantagem da existencia de
    caixas economicas é immensa. Em geral os prazos de certa grandeza
    excedem em valor as economias annuaes que qualquer lavrador mediocre ou
    seareiro pode realisar; mas estas economias, accumuladas por alguns
    annos, bastarão não raro para a acquisição de um desses prazos, que
    diversas causas tão frequentemente attrahem ao mercado. Quem conhece os
    habitos do homem do campo sabe que, poupado durante a maior parte do
    anno, porque os recursos lhe não sobejam, quasi sempre desbarata uma
    porção do producto do seu suor na occasião das colheitas. Pagos as
    rendas, fóros e impostos, reservadas as sementes, provida a sua parca
    dispensa, acha-se ainda com sobras mais ou menos avultadas. Illude-se
    então por alguns dias e suppõe-se rico. Quer gosar; e essas sobras, que
    poderiam constituir lentamente um peculio consideravel, vão-se em luxo e
    em festas, quando não no jogo, na embriaguez ou na devassidão. Se
    houvesse, porém, um estimulo de cubiça que lhe excitasse o animo, essas
    sobras assim malbaratadas converter-se-hiam em capitaes uteis, e tanto
    mais uteis quanto, pertencendo ao mesmo homem de trabalho, iriam
    fecundar duplicadamente a terra.

    Depois, n'um paiz cuberto de baldios, para promover cuja cultura é
    impossivel se não olhe seriamente quando posermos treguas á furia das
    nossas paixões politicas, qual não deve ser o fructo das caixas
    economicas?! Hoje, se estes baldios se offerecessem gratuitamente,
    libertando de todos os impostos directos quem os cultivasse,
    achar-se-hiam, provavelmente, muitos que se aproveitassem do beneficio.
    Mas, quem seria? Os grandes proprietarios e lavradores e alguns dos
    raros argentarios que as doçuras do agio não trazem captivos. Os
    pequenos cultivadores, os rendeiros, os seareiros, aquelles, em summa,
    que, mais que ninguem, importaria se convertessem em proprietarios do
    solo, esses justamente é que ficariam no maximo numero excluidos,
    porque, por mais diminuto que supponhamos o cabedal necessario para o
    arroteamento de poucas geiras quando é o próprio dono que o faz, sempre
    deve ser algum, e as classes trabalhadoras não possuem capitaes nem
    grandes nem pequenos. É evidente, porém, que as caixas economicas,
    estabelecidas, propagadas, favorecidas por todos aquelles que podem e
    devem fazê-lo, preparariam os elementos necessarios para, com verdadeira
    utilidade social, se poder tomar tão importante providencia.

    Hoje entende-se que o melhor instrumento de moralisação e de ventura
    social consiste em derramar entre o povo o desejo da independencia e o
    amor da propriedade, associando por esse modo o capital ao trabalho em
    vez de os conservar em mutua hostilidade, como infelizmente os vemos. Se
    os modestos peculios se forem successivamente alistando no campo do
    trabalho, este ha de frequentes vezes triumphar dos capitaes, embora de
    maior vulto, mas combatendo isolados. Supponhamos que o rico concorre
    com o homem do povo para adquirir a courella, o prazo, a pequena vinha,
    o pequeno olival que se levou ao mercado. O primeiro calcula que somma
    lhe será necessaria para instrumentos, para sementes, para pagar aos
    obreiros que hão de amanhar o predio, e é por este calculo e pelo lucro
    comparado com o de outras applicações do seu dinheiro, que se regula
    para determinar o maximo que pode offerecer. O homem de trabalho, porém,
    que tiver o sufficiente para viver até as primeiras colheitas, e
    occorrer a poucas despesas prévias que não pode evitar, não compara
    lucros com lucros, não conta com os obreiros. Dono e obreiro é elle;
    são-no a mulher e os filhos. O lavor da familia valerá o dobro do
    trabalho salariado que paga o rico, e o primeiro lucro do trabalhador
    proprietario será o seu jornal e o dos seus, ganho no proprio campo. Põe
    o signal de _mais_, por assim nos exprimirmos, onde o abastado põe o
    signal de _menos_. Do operario rural quando trabalha no seu predio
    costumam dizer os outros: «_anda comsigo_», expressão admiravel de
    exacção economica. É isto que explica o phenomeno geralmente observado,
    de, no mercado, o valor proporcional da propriedade rustica ser na razão
    inversa da respectiva grandeza. O que não sería, se o homem do campo de
    humilde condição poupasse tudo quanto desbarata!

    Sinceramente confessamos que o unico meio simples, exequivel, pacifico,
    não de cohibir os abusos do capital pela negação das suas funcções
    economicas, e pela condemnação da propriedade; mas de o cohibir nos
    excessos com que muitas vezes opprime o operario, consiste em habilitar
    este para se transformar de proletario em modesto proprietario. O
    estabelecimento e o progresso das caixas economicas é o instrumento mais
    poderoso de quantos se poderiam excogitar para obter, sem offensa de
    nenhuns direitos e sem convulsões sociaes, tão salutar resultado.

    Que, pois, todos aquelles que se condoem das miserias populares: que
    desejam ver augmentada a prosperidade publica, reformarem-se os
    costumes, enraizar-se no animo do povo o aferro ao solo natal, protejam
    por quantos modos souberem esta bella instituição. Exigem-no o
    christianismo, a philosophia, a moral e a politica. Que as tres grandes
    forças intellectuaes da sociedade, o sacerdocio do altar, o sacerdocio
    da imprensa e o sacerdocio da eschola se liguem para esta grande obra de
    civilisação. Será trahirem a sua missão negarem-se a fazê-lo; porque a
    idéa a cuja realisacão tendem as caixas economicas é, embora ao primeiro
    aspecto o não pareça, um consectario do evangelho, da philosophia e da
    boa politica. Essa idéa é a manifestação da caridade judiciosa, porque
    se encaminha a combater os vicios e a miseria, e a alargar a esphera da
    liberdade humana, contribuindo para a assegurar ás classes laboriosas,
    tantas vezes escravas da necessidade do salario. A liberdade pode
    facilmente ser theoria, pode ser doutrina proclamada na constituição de
    qualquer paiz; facto, realidade, só o pode ser onde a maioria dos
    cidadãos possuam com que serem independentes.

    Que a experiencia das nações extranhas nos aproveite; que o pudor do
    patriotismo nos incite. Já que fomos a ultima nação da raça latina em
    plantar entre nós esta instituição bemfazeja, não nos deshonremos
    deixando-a logo definhar. Passariamos aos olhos do mundo attonito por
    barbaros, e todos os nossos protestos de querermos o melhoramento moral
    e material do paiz seriam havidos por hypocrisia insigne. Sem civilisar,
    morigerar e felicitar as classes populares, todo o progresso é futil.

    Dirigimos estas ponderações especialmente á classe media e ao clero.
    Naquella reside a illustração, a riqueza e verdadeiramente o poder; nas
    mãos deste a preponderancia que dá o predominio sobre as consciencias.
    Que tanto uma como outro usem da sua influencia para attrahir o povo ao
    caminho da previsão, da economia e das legitimas ambições e esperanças.
    Não só elle, hoje rude, pobre e inclinado a vicios ignobeis, lucrará com
    isso; mas tambem as classes mais elevadas ganharão na paz e ordem
    publicas, que se irão firmando á proporção que as classes inferiores se
    melhorarem nos costumes e na ventura domestica. Empreguemos o exemplo e
    a persuasão: uns poucos de cruzados postos nas caixas economicas não
    produzirão, de certo, vantagens apreciaveis para o que possue uma
    fortuna avultada ou ainda mediana; mas fructificarão para o povo,
    gerando a confiança e despertando nelle o instincto da imitação.
    Conspiremos todos para esta grande catechese; e que n'um paiz, onde o
    habito da leitura ainda é limitadissimo, a persuasão oral, as relações
    de familia ou de dependencia ajudem as diligencias da imprensa nesta
    obra de alta moralidade. Deus abençoará os obreiros que semeiarem e
    cultivarem essa rica sementeira de regeneração na terra patria; e o
    povo, com a sua futura gratidão, dará testemunho da bençam da
    Providencia.

    [Nota de rodapé 2: O sr. Antonio de Oliveira Marreca.]

    [Nota de rodapé 3: A associação do Monte-pio geral.]

    AS FREIRAS DE LORVÃO

    *1853*

    A

    ANTONIO DE SERPA PIMENTEL

    Meu amigo.–Escrevo-lhe do fundo do estreito valle de Lorvão, defronte
    do mosteiro onde repousam as filhas de Sancho I; deste mosteiro
    melancholico e mal-assombrado como as montanhas abruptas que o rodeiam
    por todos os lados: escrevo-lhe com o coração apertado de dó e repassado
    de indignação. Descendo a examinar o archivo das pobres cistercienses,
    penetrei no claustro por ordem da auctoridade ecclesiastica. Lá dentro,
    nesses corredores humidos e sombrios, vi passar ao pé de mim muitos
    vultos, cujas faces eram pallidas, cujos cabellos eram brancos. Esses
    cabellos nem todos os destingiu o decurso dos annos: a amargura
    embranqueceu os mais delles. Quasi todas essas faces tem-nas
    empallidecido a fome. Morrem aqui lentamente umas poucas de mulheres,
    fechadas n'uma tumba de pedra e ferro. Estas mulheres ouvem de lá, do
    seu tumulo, o ruido do burgo apinhado na encosta fronteira, e dividido
    do mosteiro apenas por um riacho. Naquellas casas de telha-van, negras,
    gretadas, desaprumadas, com o aspecto miseravel da maior parte das
    aldeias da Beira, vive uma população laboriosa, que até certo ponto se
    pode chamar abastada, e a que, pelo menos, não falta o pão nem a
    alegria. No mosteiro sumptuoso, vasto, alvejante, com um aspecto
    exterior quasi indicando opulencia, é que não ha pão, mas só lagrymas.
    Lorvão é peior do que um carneiro onde se houvessem mettido vinte
    esquifes de catalepticos, sellando-se para sempre a lagea da entrada. O
    cataleptico, fechado no seu caixão, ouve, sente, tem a consciencia de
    que foi sepultado vivo. Nas trevas e na immobilidade, o terror, a
    desesperação, a falta de ar matam-no em breve: a sua agonia é tremenda,
    mas não é longa. Aqui é outra cousa: aqui vê-se, por entre as grades de
    ferro, a luz do céu, a arvore que dá os fructos, a seara que dá o pão, e
    tudo isto vê-se para se ter mais fome. Todos os dias uma esperança
    duvidosa e fugitiva atravessa aquellas grades de envolta com os
    primeiros raios do sol: todos os dias essa esperança fica sumida debaixo
    das trevas que á tarde se precipitam sobre Lorvão das ladeiras do
    poente. Depois as noites de insomnia; depois o choro; depois, sabe Deus
    se a blasphemia!

    Dez vezes que tenhamos lido o Dante, ao chegarmos á descripção da torre
    de Ugolino erriçam-se-nos sempre os cabellos. Mas Lorvão é uma torre de
    Ugolino. A differença está em que no carcere da _Divina Comedia_ havia
    um homem forte de alma e de corpo, affeito á dor e ás scenas de dôr:
    aqui ha dezoito ou vinte mulheres na idade decadente, que se affizeram
    na juventude aos commodos, aos regalos, e até ao luxo compativel com as
    condições da vida monastica. Lá o _fiero pasto_ acabava, e depois
    morria-se rapido. Aqui não: aqui ha justamente quanto basta para
    prolongar por mezes e por annos o martyrio. Dir-se-hia que existe uma
    providencia infernal para que não falte ás freiras de Lorvão o
    restrictamente indispensavel para, lento e lento, se lhes irem os
    membros mirrando n'um longo expirar, debeis e senis.

    Imagine, meu amigo, uma noite de inverno, no fundo desta especie de poço
    perdido no meio da turba de montes que o rodeiam: imagine dezoito ou
    vinte mulheres idosas, mettidas entre quatro paredes humidas e
    regeladas, sem agasalho, sem lume para se aquecerem, sem pão para se
    alimentarem, sem energia na alma, e sem forças no corpo, comparando o
    passado, sentindo o presente e antevendo o futuro. Imagine o vento que
    ruge, a chuva ou a neve fustigando as poucas vidraças que ainda restam
    no edificio; imagine essas orgias tempestuosas da natureza que passam
    por cima das lagrymas silenciosas das pobres cistercienses, e as horas
    eternas que batem na torre. Imagine tudo isto, e sentirá accender-se-lhe
    no animo uma indignação reconcentrada e inflexivel.

    Ha poucos dias passou-se em Lorvão uma scena tremenda. N'um accesso de
    desesperação, parte destas desgraçadas queriam tumultuariamente romper a
    clausura; queriam ir pedir pão pelas cercanias. Custou muito contê-las.
    Tinha-se apoderado dellas uma grande ambição; aspiravam á felicidade do
    mendigo, que póde appellar para a compaixão humana; que póde fazer-se
    escutar de porta em porta. Era uma vantagem enorme que obtinham. A sua
    voz é demasiado fraca, e os muros de Lorvão demasiado espessos. Gemidos,
    brados, prantos, tudo é devorado por esse tumulo de vivos. Ao menos,
    surgiam como Lazaro da sua sepultura.

    Gemidos, brados, prantos, nada disso chega aos ouvidos dos homens que
    exercem o poder nesta terra; nada disso os incommoda. Entretanto, se eu
    falasse com elles, dar-lhes-hia um conselho. Talvez o ouvissem, porque a
    minha voz é um pouco mais forte que a das velhas freiras. Era o de
    enviarem aqui sessenta soldados, formarem as monjas de Lorvão em linha
    no adro da igreja e mandarem-lhes dar três descargas cerradas.
    Desapparecia, a troco de poucos arrateis de polvora, um grande
    escandalo, e resolvia-se affirmativamente um problema a que nunca achei
    senão soluções negativas, o da utilidade da força armada neste paiz.

    Sim, isto era util, porque era atroz; porque era uma festa de cannibaes;
    porque se gravava na mente dos homens; porque ficava na historia, como
    um padrão maldicto, para instaurar no futuro o processo desta geração.
    Mas não era infame, não era covarde; não era o assassinio lento,
    obscuro, atraiçoado, feito com a mordaça na boca das victimas. Corria o
    sangue durante alguns minutos: não corria o suor da agonia durante
    annos. Era uma scena de delirio revolucionario; mas não era um capitulo
    inedito para ajunctar aos annaes tenebrosos do sancto officio.

    A historia recente de Lorvão é simples. Os bens acumulados naquelle
    cenobio durante dez seculos tinham-no tornado demasiadamente rico. A sua
    renda annual dizem que orçava por mais de oitenta mil cruzados. Como
    mosteiro cisterciense, Lorvão dependia dos monges brancos. Cem freiras
    de que se compunha a communidade, e que viviam opulentamente, gastavam
    muito, mas não gastavam tudo. Cinco frades bernardos, aposentados n'um
    palacete contiguo ao mosteiro, consumiam o resto. Eram elles que
    administravam as grossas rendas da casa. Os banquetes e as festas
    succediam-se alli sem interrupção. Os hospedes eram continuos. O manto
    da religião cobria todos os excessos da opulencia. A chronica dos
    bernardos em Lorvão subministra mais de um capitulo curioso para a
    historia dos _bons tempos_ que já lá vão.

    Até aqui nada ha extranho. Mas os frades entenderam que deviam comer a
    renda e o capital das cenobitas laurbanenses. Refere-se que certa vez,
    não sabendo explicar plausivelmente o dispendio de uma verba de 600$000
    réis, escreveram n'umas contas irrisorias que mostravam annualmente á
    abbadessa: _Palitos–600$000 réis_. Pode ser fabula. O que, porém, não é
    fabula é que durante muitos annos o dinheiro das decimas que o mosteiro
    devia pagar esqueceu em Alcobaça, dando-se em conta como pago. Por outro
    lado as _necessidades da casa_ tinham feito com que suas reverencias
    empenhassem a communidade em 6:000$000 ou 8:000$000 réis. Os juros desta
    divida também se não pagaram. Veio o anno de 1833. Desappareceram os
    dizimos, principal rendimento do mosteiro. Os direitos senhoriaes
    desappareceram tambem. Os frades, enxotados do seu feudo de Lorvão,
    sairam d'alli, mandando primeiramente derribar todas as arvores que
    povoavam aquellas encostas e vendendo as madeiras. Era o ultimo _vale_
    que davam a suas irmãs. Ainda assim, ficava ás monjas uma honesta
    subsistencia. Passado, porém, apenas um anno, o fisco arrebatou-lhes
    quasi tudo pela divida de 25 contos de réis de decimas, e os credores
    particulares levaram-lhes depois os demais bens. Restavam-lhes apenas
    alguns pequenos foros espalhados por diversos districtos, os quaes
    geralmente lhes são recusados, ou cuja difficil cobrança quasi consome o
    producto delles. Vacillantes entre a vida e a morte, as freiras de
    Lorvão prolongam uma existencia de dôr e miseria pendente das
    eventualidades desse tenue rendimento. Ha um ou dous annos, o governo
    deu-lhes a esmola de um subsidio: este subsidio, porém, cessou.
    Ignora-se o motivo. Por ventura alguma secretaria de estado precisava de
    novos estofos nas suas commodas poltronas, ou os felpudos tapetes das
    salas ministeriaes tinham perdido o brilho das suas côres variegadas, e
    cumpria renová-los. São despezas inevitaveis, e é necessaria a economia.
    Se assim foi, respeitemos as exigencias imperiosas da dignidade
    governativa. Alta noite, durante o inverno, vinte mulheres curvadas pela
    inedia e pela velhice podem dirigir-se ao coro, calcando quasi descalças
    as lageas humidas e frias destes claustros solitarios; mas as botas
    envernizadas de suas excellencias devem ranger mollemente sobre um
    pavimento suave, e as suas cabeças, afogueiadas pelas profundas
    cogitações, reclinarem-se em fofos espaldares. Todavia a magestade das
    secretarias e os apices da economia não excluem a tolerancia, nem a
    indulgencia. Faço essa justiça ao poder. Quando a ultima freira de
    Lorvão expirar de miseria, ou debaixo de alguma dessas paredes
    interiores do mosteiro que ameaçam desabar, os ministros soffrerão com
    animo paternal que mãos piedosas vão lançar o cadaver da pobre monja no
    ossuario de sete seculos, onde repousam as cinzas de milhares de suas
    irmãs. Depois venderão o edificio e a cerca a algum destes judeus do
    seculo XIX, a que chamamos agiotas, se algum houver a quem passe pelo
    espirito ter uma casa de campo em Lorvão.

  • Obras poéticas de Nicoláo Tolentino de Almeida, Tom. II

    Obras poéticas de Nicoláo Tolentino de Almeida, Tom. II

    Aproximadamente 17.397 palavras.

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    Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team
    at https://www.pgdp.net

    OBRAS POETICAS

    DE

    NICOLÁO TOLENTINO
    DE ALMEIDA.

    TOM. II.

    LISBOA.

    NA REGIA OFFICINA TYPOGRAFICA.

    ANNO M.DCCCI.

    _Com licença da Meza do Desembargo do Paço_.

    QUINTILHAS

    _Offerecidas ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de S.
    Lourenço_.

    Ante vós, Claro Senhor,
    Que pondes os sãos cuidados
    De bons estudos no amor,
    E que d'homens applicados
    Sois o exemplo, e o protector;

    Levanto sem pejo a voz;
    Que essa alma nunca despreza
    O pouco que encontra em nós;
    Não produz a Natureza
    Muitos homens como vós;

    Pois vi outr'ora amparado
    O discreto, e doce Brito,
    Triste moço, em flor cortado,
    Que hia alevantando o esprito,
    De vossas luzes guiado;

    Pois na vida lhe adoçastes
    De seu fado a má ventura,
    E não vos envergonhastes,
    Quando a fria sepultura
    Com as lagrimas lhe honrastes;

    Se os seus Versos sonorozos
    Inda repetis com mágoa;
    E pensamentos saudozos
    Vos trazem aos olhos agua,
    Que os deixa, Senhor, formozos;

    Hoje, outro triste vos faça
    Nascer iguaes sentimentos;
    Com os vossos pés se abraça;
    Não tem os mesmos talentos;
    Mas tem a mesma desgraça;

    Nascido em baixa pobreza,
    Quiz buscar huma Colu'na,
    Foi sempre baldada a empreza,
    Achou ingrata a fortuna,
    Inda mais, que a natureza.

    Em vão paternal ternura
    Com vivo zêlo me assiste;
    Foi trabalho sem ventura;
    Crescia no Filho triste,
    Com a idade, a desventura;

    Das boas Artes no estudo
    Bom Pai empenhar-me quiz;
    Traçava o velho sizudo
    Que fosse hum Filho feliz
    Dos outros Filhos o escudo;

    Forão seus intentos vãos;
    Zombou desgraça importuna
    Destes pensamentos sãos;
    Para vencer a fortuna
    Não ha lagrimas, nem mãos;

    Cortado então de agonias,
    Só esperei ter ventura,
    Quando envolto em cinzas frias
    Escondesse a sepultura
    Meu nome, e meus tristes dias;

    E em quanto o vento forceja,
    E no mar, que em flor rebenta,
    Meu fraco lenho veleja,
    Demando, em tanta tormenta,
    Por porto a Casa de Angeja;

    Surgi em lugar seguro,
    Onde achei mil acolhidos;
    Clareou o dia escuro;
    E meus molhados vestidos
    Pelas paredes penduro;

    De meu fado a força dura
    Foi hum pouco enfraquecendo;
    E ainda que em sombra escura,
    Vem-me ao longe apparecendo
    O bom rosto da Ventura;

    Vossos Sobrinhos me dão
    (Porque de meus males sabem)
    Principios de protecção;
    Mandai-lhe que em mim acabem
    Esta obra da sua mão.

    Mandai, que apressem o passo,
    Que inda longe a méta vejo,
    Pois nas supplicas que faço,
    Não se vence com dezejo,
    Vence-se á forca de braço;

    Mandai, pois tendes direito,
    Que o turvo mar arrostando,
    A' corrente ponhão peito;
    Fallai, Senhor, que em fallando,
    O vosso mandado he feito.

    Não vedes venal incenso
    Por astuta mão queimado;
    Fallo, Senhor, como penso;
    Eu sei quanto he respeitado
    O Erudîto São Lourenço;

    Eu sei bem o alto conceito,
    E as geraes estimações,
    Que todos de vós tem feito;
    Oiço ternas expressões,
    Filhas de amor, e respeito;

    Do bom Irmão, e Sobrinhos
    Oiço tod'ora louvar-vos;
    Oiço-lhes doces carinhos;
    De poderem agradar-vos
    Dezejão achar caminhos;

    Vosso Irmão, e pregoeiro
    Ordena, como sizudo,
    Ao Illustre Neto, e Herdeiro,
    Que das Sciencias no estudo
    Vai dar o passo primeiro,

    Se encoste a vós, sem desvio,
    Qual ao Choupo Hera silvestre;
    Que em Artes, virtude, e brio,
    Mais, do que as regras do Mestre,
    Siga os dictames do Tio;

    Com que gosto oiço, e contemplo,
    Dizer-lhe = Se ao bem te inclinas,
    Segue-o no estudo, e no Templo;
    Elle te dê as doutrinas;
    Elle te sirva de Exemplo.

    Mas sigo inutil empreza,
    Pois sabeis quaes são seus peitos,
    Mistura-se esta fineza
    Com os sagrados direitos
    Do sangue, e da natureza;

    Todo o mundo, em vosso abono,
    Põe na boca os corações,
    E delles vos chama dono;
    Oiço mil acclamações
    Desde a plebe até ao Throno;

    A geral estimação
    Nos arma de authoridade;
    Vinde pôr nesta obra a mão,
    E dai-me felicidade,
    Como me dais instrucção;

    Sabeis a fundo, e de cór,
    Tudo quanto ha bom, escrito;
    Juntai extremos, Senhor;
    Ao homem mais erudíto,
    Juntai o mais bemfeitor.

    Pois sabeis da Antiguidade
    Prozas sans, e sã poezia,
    Deveis sentir mais piedade;
    Quem tem mais filozofia,
    Vê melhor a humanidade:

    Que eu nesta fresca espessura,
    Entre estes Loiros sagrados,
    Sentado sobre a verdura,
    Cantarei Versos limados
    A quem me fez ter ventura.

    Deixarei em mil letreiros
    O vosso Nome entalhado
    Nos troncos destes Loureiros;
    Possa elle ser respeitado
    Do negro vento, e chuveiros;

    Ramos sobre elle estendendo,
    Dafne no seu peito o tome;
    E eu, doces hymnos tecendo,
    Verei ir o tronco, e o Nome
    Té ás Estrellas crescendo.

    QUINTILHAS

    _Offerecidas ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez do
    Lavradio_.

    Se os Versos, que outra ora fiz
    Escutastes prompto, e attento;
    E se aos pés, que abraçar quiz,
    Achou grato acolhimento
    A minha Muza infeliz;

    Dai-me benignos ouvidos
    A outros, em dôr traçados,
    D'arte, e de enfeite despidos;
    Pela verdade dictados,
    E a vós, Senhor, dirigidos;

    Em louvores não os fundo,
    Pois sei que sempre os pizastes;
    E co'as mais acções confundo
    As do tempo, em que tomastes
    As rédeas do Novo Mundo;

    Mas se eu disser parte dellas,
    Não me julgueis lizonjeiro;
    Que vos poupo em não dizellas?
    Se vedes, que o Mundo inteiro
    As vai erguendo ás Estrellas?

    Diz que vio a Capital
    Cheia de pompa, e grandeza;
    E que a ergueis a lustre tal
    D'entre os braços da molleza,
    Que he no Clima natural.

    Que nas mãos, onde se encerra
    Alto Poder respeitozo,
    Mostraste na nova Terra
    Ao Vizinho revoltozo,
    N'uma a paz, em outra a guerra.

    Que offreceis a vida então
    Para a palavra salvar-se,
    Que, os bons Reis não dão em vão;
    Acção digna de contar-se
    Entre as de Mario, ou Catão;

    Que a mão que as Quinas voltêa,
    Justiça ao Povo reparte;
    E que igualmente menêa,
    Ora as Bandeiras de Marte,
    Ora as Balanças de Astiéa;

    Mas já vossa austeridade
    Minha narração reprime;
    Ouvis-me contra vontade;
    Perdoai, Senhor, hum crime,
    De que foi causa a verdade;

    Pois que vos não dão desvelos
    Louvores, que préza a gente,
    Eu vou, Senhor, suspendellos;
    E vou dar-vos novamente
    Motivos de merecellos.

    A minha longa fadiga
    Já sabeis qual he, Senhor;
    Levai-me a bem, que a não diga;
    Deixai-me poupar a dôr
    De abrir huma chaga antiga.

    Pintar Irmans desgrenhadas
    Co'as creanças innocentes.
    Nos débeis braços alçadas,
    E de lagrimas ardentes,
    Quasi sem fruto, banhadas.

    Mostrar-lhe os olhos magoados,
    Onde inutil pranto assiste,
    Immoveis no chão pregados,
    Nutrindo hum silencio triste,
    Falsa paz dos desgraçados;

    Contar-vos, que entre os Irmãos,
    Diz o bom Pai, com ternura,
    Que ao Ceo levantem as mãos;
    Que assim se emenda a ventura,
    E não com queixumes vãos:

    Que he do espirito fraqueza
    Perder suspiros no vento;
    Que venção a natureza;
    Que fação co'soffrimento
    Honroza a dura pobreza;

    Não lhe ver de dor sinais;
    Ter no rosto olhos serenos,
    E no peito agudos ais;
    Que porque se escutão menos,
    Por isso me córtão mais:

    Dar-vos huma inteira idéa
    Da desgraça minha, e delles,
    Pintura de pranto chêa;
    Se he preciza, he para aquelles,
    A quem não dóe dor alhêa.

    As almas tão bem nascidas,
    Como a vossa vejo ser,
    Para serem condoîdas,
    Não tem precizão de ver
    Correr sangue das feridas;

    Sabeis, que soffro a impiedade
    De vã fortuna traidora;
    Mudai pois de heroicidade;
    Vinde pleitear agora
    A cauza da humanidade;

    Por vós tirar não podeis
    Penas, que a alma me abafárão;
    Mas ante o Throno valeis;
    E se o Sceptro vos fiárão,
    Que vos negarão os Reis?

    Reger-lhe os vastos Estados,
    Ir dar-lhe hum novo esplendor,
    São feitos famigerados;
    Mas inda o será maior
    Ir pedir por desgraçados,

    Disse a Cezar o Orador,
    Que os Soldados tinhão parte
    No perigo, e no louvor;
    Que fosse em outro Estendarte
    Elle só o Vencedor;

    Que era, de doce brandura
    O deixar-se então vencer,
    Mór victoria, e mais segura;
    Onde não tinhão poder
    Nem ferro, nem má ventura.

    Vencei vós sem ter Soldados;
    Fazei de dias de dor
    Dias bemaventurados;
    E possa essa mão, Senhor,
    Mais do que podem meus fados;

    Claros Avós imitastes,
    Que o Mundo apenas abrange;
    No berço palmas achastes;
    Dos Heróes que vio o Gange,
    O sangue, e as acções herdastes;

    Remotos Povos vencêrão,
    E mares bravos abrindo;
    As Quinas desenvolvêrão;
    Ante eles o Gange, e o Indo,
    Tintos de sangue corrêrão.

    Vós, que em obras semelhantes
    Fostes ser a Copia honroza
    Do que elles fizerão d'antes,
    Na série maravilhoza
    Das vossas acções brilhantes;

    Consenti, que a larga historia,
    Que Almeidas levanta aos Ceos,
    Lhes deixe no Altar da Gloria
    Pendente, entre os mais Troféos,
    Huma negra Palmatoria.

    _A' Illustrissima, e Excellentissima Senhora Condeça de Tarouca, na
    occasião do seu Casamento_.

    Senhora, o Forte da Estrella,
    Chorando o bem que perdeo,
    Das suas justas saudades
    Por portador me escolheo;

    Quiz que eu viesse contallas
    Ao som desta rouca Lyra,
    De longos annos affeita
    A acompanhar quem suspira;

    Não fallo nos ternos Pais;
    Nelles a alta Jerarquia
    Tempéra saudozo pranto
    Com o pranto da alegria;

    Ao nome dos seus Passados
    Planos caminhos achárão,
    Unindo ao sangue de Heróes
    O sangue de Heróes que herdárão;

    Não fallo no amavel Conde;
    Esse não faz compaixão;
    Tem seges, tem bons cavallos,
    Tem o remedio na mão;

    Sobre rápidos ginetes,
    Quebrando a dura calçada,
    Com o Francisco a reboque,
    Andará sempre na estrada;

    Tambem das caras Irmans
    Não venho as mágoas pintar;
    Co'a terna Mãi muitas vezes
    As virão desafogar;

    Fallo da triste Familia,
    Que em amoroza manîa
    Accuza o Ceo, que vos deo
    Formozura, e Fidalguia;

    Dons, de seu mal cauzadores;
    E que deixão coroado,
    Na mais illustre Conquista,
    O mais ditozo Soldado;

    Ralham delle a toda hora;
    Foi cauza do seu tormento;
    Elogião, e praguejão
    Seu alto merecimento;

    Se he Soldado, siga a Guerra,
    E as funestas glorias della;
    Ataque milhões de Fortes,
    Mas deixe em paz o da Estrella;

    Tem figura, tem talentos;
    Tem alta Estirpe preclara;
    Oxalá que assim não fosse,
    Ella então o desprezára; =

    Mas, Senhores, perdoai-lhes;
    A's vezes na grande dor
    Fallão palavras de raiva
    A linguagem de amor;

    O Silva, o Authomato honrado,[1]
    Anda mais abstracto, e mudo;
    Põe o doce antes da sôpa;
    Queima o Café, quebra tudo;

    [Nota de rodapé 1: Copeiro.]

    O hirsuto, austéro Rodrigues,
    Semblante de poucas pazes,
    Desafoga a sua dor,
    Dando murros nos rapazes;

    Vossa Aya, de tres idades,
    Em canto escuro assentada,
    Vos manda calado pranto,
    N'um cobertor abafada.

    Outras vezes esquecida
    De quanto seu Fado he crú,
    No queixo ajustando o lenço,
    E sobrepondo o bajú:

    Ergue ao ar cansados ossos;
    E sem temer ventos frios,
    Tirando-lhe Amor o pezo
    Dos gelados pés tardios;

    Do bom costume enganada,
    E com a uzada cautela,
    Para dar, e ter, bons dias,
    Vos vai abrir a janela;

    A janela a desengana;
    Renova-lhe a dor no peito;
    Chama em vão o vosso nome,
    Abraçando hum ermo leito.

    Do peito das mais Creadas
    A saudade se não risca,
    Desde as Ayas ralhadoras,
    Té á ladina Francisca.

    E pois que o sangue de Reis,
    Pois que a Augusta Ceremonia,
    Bem a pezar das Creadas,
    Vos trouxe a Santa Apollonia;

    Ide, Senhora, mil vezes
    Curar-lhes a fresca chaga;
    Seu pranto he filho de amor,
    E amor com amor se paga;

    Na rica, airoza Berlinda,
    Dando ao digno Espozo parte,
    Aos patrios lares vos leve
    Amor nos braços de Marte.

    O Téjo, abaixando as ondas,
    Vossos pés virá beijar;
    Vai das Ninfas que creou,
    Ver a Ninfa Tutelar.

    Os Prazeres com os Rizos
    Sejão a vossa equipagem;
    Revôem em torno as Graças,
    De quem sois a inveja, e a imagem:

    Entrai nos tectos dourados,
    Hoje lugar de saudade;
    Ide, dos braços do Amor,
    Lançar-vos nos da Amizade;

    Levai-nos as doces noites,
    Em que a voz que se escutava,
    Sobre as azas da harmonia,
    Nos nossos peitos entrava;

    Quando o Cómico travêsso,
    Entre geitos, e corcovos,
    Habilmente arremedava
    Todos os Muzicos novos,

    O triste, calado Cravo;
    Já não sente a déstra mão;
    Apenas he perseguido
    Pelo Senhor Dom João.[2]

    [Nota de rodapé 2: Menino.]

    Ide, Senhora, levar-nos
    No vosso rosto a alegria;
    Fazei á triste Junqueira,
    O que faz o Sol ao dia;

    Mas, Senhora, a minha Muza
    Tem talvez errado os Cultos;
    Cuidando ter feito obsequios,
    Talvez tenha feito insultos;

    Dirão, que, trocando as cordas
    Forão meus sons desiguaes;
    Que errei em fallar aos Filhos,
    Sem fallar primeiro aos Pais.

    Que podia esta Embaixada
    Se désse em mais habil mão,
    Cumprir as leis da Saudade,
    Sem violar as da razão;

    Mas, Penalvas, dito, dito;
    Defendo o meu sacrilegio;
    Sois tudo; mas não sois Noivos,
    E he este o seu privilegio.

    _No dia dos Annos da Illustrissima, e Excellentissima Senhora D. Maria
    de Noronha, hoje Condeça de Valladares_.

    Senhora, os pobres vestidos
    Do vosso humilde Compadre,
    Não o deixão ir aos Annos
    Da sua Illustre Comadre;

    O conhecido Colete
    De bordadas guarnições,
    Encartado ha longo tempo
    Em Colete das Funções;

    Sobre os seus cançados annos,
    De humido Inverno Assaltado,
    Cheio de invenciveis manchas
    Me foi hoje apresentado;

    Em vão bemfeitor miôlo
    Lhe esfrega o quarto offendido;
    A minha choroza Mana
    Dá o cazo por perdido;

    E se assim me apresentasse
    A tão alta Companhia,
    As suas nódoas serião
    Manchas da seda, e do Dia;

    Do Tempo a fôice raivoza
    Não me dá só hum revéz;
    Além de me fazer velho,
    Faz-me tambem descortez;

    Mas elle honrou hoje o Mundo;
    Sois do Mundo ornato, e inveja;
    Deo hoje mais huma paga
    A' Illustre Caza de Angêja.

    Sua mão, que aperfeiçoa
    Altos dons da Natureza,
    A huns lindos, modestos olhos
    Vai augmentando a belleza;

    Altêa a airoza figura
    Sobre a das Graças moldada;
    A huma alma a mais digna, e nobre
    Dá a mais digna morada;

    Justo Tempo, eu abençôo
    O teu poder desigual;
    E em honra de tantos bens,
    Eu te perdoo o meu mal;

    Cem vezes nas tuas azas
    Nos mande este dia o Ceo;
    As Virtudes o consagrem
    Nos altares de Hymenêo.

    E Vós, Illustre Senhora,
    Perdoai Coletes rotos;
    Valem mais, que inuteis sedas,
    Puro incenso, puros votos;

    Quiz mandallos em bons versos;
    Suou em vão meu topete;
    Fui achar a minha Muza
    Como achei o meu Colete.

    _A' Illustrissima, e Excellentissima Senhora Marqueza de Alegrete,
    quando lhe nasceo huma Filha_.

    Senhora, he couza sabida,
    Que aos Deozes não são vedados
    Os escondidos segredos
    Do escuro livro dos Fados;

    E pois que em tempos antigos
    Já tive alguma valia
    Co'aquelle, a quem coube em forte
    O governo da Poezia;

    Não esperando do Tempo
    O vagarozo progresso,
    E desejando augurar-vos
    O vosso feliz successo;

    Na raiz do alto Parnazo,
    Curvando o humilde joelho,
    Exclamei = Se aqui se escutão
    Votos de hum Poeta velho,

    Não te peço, esquivo Apollo,
    Teus verdes, sagrados loiros;
    Não aspirão a coroas
    Desta testa os velhos coiros;

    Abre, sim, a densa nevoa
    Do vindoiro tempo escuro;
    E ante meus ávidos olhos
    Rasga as sombras do futuro;

    Saiba meu justo dezejo
    Quanto o destino promette
    Aos nossos ardentes votos,
    E aos da assustada Alegrete;

    O Deos, que nunca em mim vio
    De Odes moiras a manía,
    Que sem o assumpto honrarem,
    Lhe deshonrão a Poezia;

    Que em Oiteiros de Oratorio
    Não lhe puz a Lyra ao frio,
    Arriscando-a a ter por paga
    Ou pedrada, ou assobio;

    E muito mais porque vio,
    Que da minha petição
    Erão sagrados motivos
    A amizade, e a gratidão;

    Fez fuzilar em meus olhos
    Nova luz, vedada, e pura;
    E de tudo o que então vi,
    Vos vou fazer a pintura.

    Vi, Senhora, as loiras Graças
    Com doce, e rizonho aspeito,
    Tecendo engenhozas danças
    Em torno de hum aureo leito;

    E abrindo as ricas Cortinas
    Trazerem nos castos braços
    O digno, e precioso Fruto
    De Illustres, sagrados laços.

    Sobre o mimoso semblante,
    Em que os seus dons inspiravão,
    Dos mais altos Pertendentes,
    Mil suspiros auguravão;

    Os Prazeres sobre as azas
    O berço lhe rodeavão;
    Fortuna lhe abria os cofres,
    As Virtudes a embalavão;

    Vi Penalvas, vi Angejas,
    Que aos Ceos mil hymnos mandavão;
    Aos Ceos, que as duas Familias
    Novamente abençoavão:

    Vi a roda das Creadas,
    Que á Menina dando vai,
    Humas, os olhos da Mãi,
    Outras, a boca do Pai;

    Mas Apollo aqui fechando
    As altas couzas futuras,
    E deixando o pobre velho
    Alegre, mas ás escuras;

    Me disse = Conta o que viste;
    O mais, em tempo vindoiro,
    Fiel, apurada historia,
    O dirá em letras de oiro;

    Corri: mas trémulas pernas
    Tem sempre estrada comprida;
    E pois acho a profecia,
    Gradas aos Ceos, já cumprida,

    Beijo respeitozamente
    Estas faixas, que envolvêrão
    Aquella, a quem dão a vida
    Os que a minha protejêrão;

    = Recebe, oh Recem-nascida,
    Terno amor, alto respeito;
    Teus Avós, teus claros Pais
    Te derão este direito;

    E tu, Formoza Alegrete,
    Que depois de erguida a meza,
    Ficavas co'as velhas Aias
    De mágicos filtros prêza;

    Quando eu a teus pés contava,
    Mentirozo historiador,
    Ora a do Caixão de vidro,
    Ora a das Cidras do amor;

    Quando os mesmos tenros annos
    A tua Filha contar,
    Todos os dias virei
    Meu officio exercitar,

    E em tanto, a pezar do tempo,
    Que a fronte me vai gelando,
    Com a rouca Lyra ás costas
    Pelo Parnazo trepando:

    Vou sentar-me entre os Loireiros,
    Que réga Castalia fria;
    Onde revôam em bandos
    Os genios da Poezia;

    E co'a testa descuberta
    A' viração bemfeitora,
    Traçarei mais dignos versos
    Do que estes, que ouvis agora;

    Com tempo os irei fazendo;
    O Deos também me fez ver,
    Que sobre este mesmo assumpto
    Tenho muito que escrever.

    _Na occazião em que o A. hia ver o Varatojo_.

    Meu Amigo, duro Amigo,
    Fatal, rígido Banqueiro,
    Motivo dos meus pezares,
    Herdeiro do meu dinheiro;

    Em taes termos me deixaste,
    Que sou deste rancho o nôjo;
    E co'as lagrimas nos olhos
    Parto para o Varatojo;

    Por ti filho da pobreza,
    Irei ser naquelle mato,
    Qual foi São Sebastião,
    Não na vida, mas no fato;

    Vai tu seguindo a fortuna,
    E leva a bandeira alçada,
    De tarde na laranginha,
    A' noite na Arrenegada;

    Até que voltando a roda,
    Mande teu fado inimigo,
    Que deixes crescer as barbas,
    E venhas viver comigo:

    Vem, e traze o teu baralho,
    Ministro dos meus destroços;
    Farei do vicio virtude,
    Apontando a Padres nossos;

    Vem viver entre altas brenhas;
    Vem curtir as minhas dores;
    Traze o pranto dos Parentes,
    Traze as pragas dos Crédores.

    Não falla vão Agoureiro,
    De cujas palavras rias;
    Meus trabalhos me fizerão
    Mestre nestas profecias.

    Não te fies em ventura;
    Quem joga, tem o meu fim;
    Outrem te dará os gostos,
    Que tu me tens dado a mim.

    _Resposta a huma Carta, que em boa Poezia citava o A. por huns Versos,
    que tinha promettido_.

    A tua polida Carta,
    Que honrou hum Poeta razo,
    Escrita em pura linguagem,
    E assignada no Parnazo;

    Da mais injusta ambição
    Traz testemunhos fieis;
    Possues grossos thezoiros,
    E citas-me por dez reis?

    Quem do doce Anacreonte
    Bebeo o estilo divino,
    Quer prostituir seus olhos
    Co'as Trovas do Tolentino?

    Pago, em fim, divida louca;
    Mas quem quer pontualidade,
    Cuide tambem em pagar
    As dividas da Amizade;

    Sabes que intento imprimir;
    E porque o Povo não fuja,
    Sabio Amigo, emenda, risca,
    Põe sabão na roupa suja;

    Não te vendo falso íncenso;
    Es Juiz da Confraria;
    Oxalá que altos negocios
    Se tratassem em Poezia;

    A Paz, a fugida Paz,
    Voltára seu alvo cóllo;
    E dera brandos ouvidos
    A' branda Lyra de Apollo;

    Reziste humana cabeça
    A' mais discreta razão;
    Mas ao poder da harmonia
    Não reziste o coração:

    Faze, pois, o que eu te peço;
    Que inda que ha vótos diversos,
    Se lhe pões a tua lima,
    Quem morderá nos meus Versos?

    Dá-lhe, depois, teus louvores;
    Comprará toda Lisboa,
    Se huma vez te ouvir dizer =
    Que comprem, que a Obra he boa;

    Farta-me a bolsa; e se queres
    Ver tambem minha alma farta,
    Manda riquezas de Athenas
    Embrulhadas n'outra Carta.

    _Offerecendo hum Perum em caza, aonde todos os Domingos davão ao A. este
    prato_.

    Senhora, tambem hum dia
    Entrarei co'a frente erguida;
    Não serei na vossa meza
    Dependente toda a vida;

    Nem sempre abatido pejo
    Dirá nesta cara feia
    Quanto doe a hum peito altivo
    Matar fome em caza alheia;

    Airozo, gordo Perum,
    He meu soberbo prezente;
    Traz inda as pennas molhadas
    Co'pranto da minha gente;

    No Santo Dia esperavão,
    Quebrando antigo jejum,
    Cravar inexpertos dentes
    Neste primeiro Perum;

    A russa, magra Jozefa,[3]
    Ergueo queixume sentido;
    Custou-lhe mais esta auzencia,
    Que a do defunto Marido.

    [Nota de rodapé 3: Creada.]

    O loiro, alvar galleguinho
    Chegou aos olhos seu trapo;
    Tinha vistas sobre a carne,
    E muitas mais sobre o papo.

    Seu almôço requerendo
    Em luzindo a madrugada,
    Na esquerda, grossa fatia
    D'ambas as partes barrada;

    Na dextra, com branda cana
    O seu pupîlo guiava;
    Em tenras, públicas malvas,
    Para si o apascentava;

    Quando lhe mandei trazer-vos
    O bom companheiro seu,
    Pedindo-me côxos mezes,
    Me disse, que o trouxesse eu.

    Eu o trago; a offerta he pura,
    Mas a tenção a envenena;
    Traz escondida huma uzura,
    Maior, que a da meia sena.[4]

    [Nota de rodapé 4: Partido de jogo.]

    Com hum sorrizo acceitai
    O atraiçoado convite;
    Vem a morrer huma vez,
    Porque muitas resuscite.

    Curai todos os Domingos
    A minha doença interna;
    Sobre a meza milagroza
    Seja esta ave, huma ave eterna;

    De outra, que finge a Poezia,
    Trocai em verdade a pêta;
    E seja hum negro Perum
    A Fenis deste Poeta;

    Na ondada, pia toalha,
    Co'a benção da vossa mão
    Seus frios, despidos ossos,
    De carne se cubriráõ;

    Consenti, que este ouco peito
    Ao prodígio se consagre;
    E que dentro em si colloque
    A mór parte do milagre;

    Quanto ao Padre Prégador,[5]
    Meu voto he não convidallo;
    Porque ha de comer o assumpto,
    Muito melhor que prégallo.

    [Nota de rodapé 5: Capellão da Caza.]

    _A huma Preta, que pertendia que a obsequiassem_.

    Domingas, debalde queres,
    Nesse canto da Cozinha,
    Vencer a invencivel teima
    Da rebelde carapinha;

    Em vão te arripia a frente,
    De que zomba o Deos de Amor,
    Alvo côto de pomada,
    Furtado do Toucador;

    Debalde tufado laço
    De atadeira fitta Ingleza
    Te assombra a lêveda pôpa,
    Rissada por natureza.

    Debalde altêas as ancas,
    Esguias, e enganadoras,
    Co'as velhas algibeirinhas,
    Que vão deixando as Senhoras,

    Amor, fingindo dotar-te,
    Te poz, com traidora mão,
    Junto dos dentes de neve,
    Faces tintas de carvão;

    Inda que ancião pezado,
    Desprézo teus vãos intentos;
    Debaixo de murchas cans
    Nutro altivos pensamentos.

    Vejo a quebrada madeixa
    Já tornada em gêlo frio;
    Tudo o tempo me levou,
    Mas não me levou o brio.

    Debaixo da Zona Ardente
    Jurar-te-hia amor, e fé;
    Mas não tem culto na Europa
    As Deidades de Guiné;

    Se ás vezes te ponho os olhos,
    Não he de amor sinal certo;
    São dezejos de levar-te
    A' caza de João Alberto.[6]

    [Nota de rodapé 6: Comprador.]

    A engomada cazaquinha
    Te descobre novas faltas;
    Para outro corpo foi feita,
    Dizem-no as feições mais altas.

    Já n'outros pés teus çapatos
    Soffrêrão do tempo o açoite;
    Cansada, fendida sêda,
    Mostra dedos côr da noite;

    E pois que a Amor queres dar-te,
    Eu te aponto hum Xafariz,
    Onde aches dignos amantes
    Assentados em barris;

    Acharás o Pai Francisco,
    Homem a bulhas contrario,
    Já duas vezes Juiz
    Na Irmandade do Rozario;

    Acharás o forro Antonio,
    Que o tabaco, e vinho enjôa;
    E tem nos calmozos Junhos
    Caiado meia Lisboa;

    Verás esbelto Crioilo,
    Dado ao vento o peito nû,
    Levantando airosos saltos
    No manejo do barubû;

    Que ávidos cães enxotando,
    Tem, com braço arregaçado,
    Nas êrmas praias do Téjo
    Cem cavallos esfolado;

    Nestes, vaidoza Domingas,
    Assenta bem teu amor;
    Chovão settas de teus olhos
    Em peitos da tua côr;

    Vai da janella da escada
    Acolher, com doce agrado,
    Os suspiros que te envião,
    Ao som do londum chorado;

    E deixa de atormentar-me
    Com tuas loucas idéas;
    Também sinto dores proprias,
    E escuto pouco as alhêas;

    Sim, Domingas, nós marchamos
    Na mesma infeliz estrada;
    E do amor, que eu te não pago,
    Assaz estás bem vingada;

    Tu puzeste em mim teus olhos,
    E eu fui pôr em Marcia os meus;
    Que me paga mil extremos,
    Assim como eu pago os teus;

    Marcia, que em alçando os olhos,
    Mil settas nesta alma crava;
    E em cuja caza tu tens
    A dita de ser escrava;

    Tens-me a mim por companheiro;
    Temos o mesmo Senhor;
    Tu, por cazos da fortuna,
    Eu, por castigo de Amor;

    E pois que eu não posso amar-te,
    Seguirás melhor esteira,
    Se de meus ternos suspiros
    Quizeres ser mensageira;

    Em vendo que ella está só,
    Vai-lhe expôr a paixão minha;
    Eu peço a Amor, que entretanto
    Tóme conta na cozinha;

    Amor lavará teus pratos,
    E escumará a panella,
    Em quanto tu a seus pés
    Dizes, que eu morro por ella;

    Teus grossos, trombudos beiços,
    Lhe vão expôr meus cuidados;
    Hão de ser melhor ouvidos,
    Que sendo por mim contados;

    Pinta-lhe as lagrimas tristes
    Em que meu rosto se lava;
    Por hum infeliz cativo
    Peça huma ditoza escrava;

    Dize-lhe, que não se assuste
    De meu cabello nevado;
    Jura-lhe que não são annos,
    Mas penas, que me tem dado;

    Que a cauza das minhas rugas
    He o seu desabrimento;
    E vai da minha velhice
    Fazer-me hum merecimento;

    Ah Domingas, se em seu peito
    Me fazes achar piedade,
    Tambem eu juro fazer
    A tua felicidade;

    E pois que o teu coração
    Sómente he baixo, e grosseiro,
    Em preferir liberdade
    A tão feliz cativeiro;

    Por amor serei mesquinho;
    Meus gastos verás cortar;
    Para ajuntar-te quantia
    Com que te possas forrar;

    Cheia de teus beneficios
    Minha mão agradecida
    Te irá pôr em larga praça
    Rendozo modo de vida;

    E assentada em novo estrado,
    De fasquiada madeira,
    Ondeando ao som do vento
    Trémulo tecto de esteira,

    Teus negros, airozos braços,
    Chocalhando hum assador,
    Encherão famintos peitos
    De castanhas, e de amor;

    Terás bojudas tigellas
    Sobre incendidos tições,
    Onde fêrvão em cardumes
    Saborosos mexilhões;

    Teus doces, sonóros écos,
    Sem mentir, apregoaráõ
    O azeite de Santarem,
    O cravo do Maranhão.

    Domingas, segue esse rumo;
    Que teu amor reloucado,
    Sem te fazer venturoza,
    Me deixa a mim desgraçado;

    E se sem dó dos meus ais,
    Teimas nos projectos teus,
    Fallando nos teus amores,
    Em vez de fallar nos meus;

    Trocando boa amizade
    Por entranhado rancor,
    Vou descubrir teus intentos
    A teu austéro Senhor;

    Que em zelo honrozo inflammado,
    Sem ser precizo atiçallo,
    Vai a caza do Lagoia[7]
    Trocar-te por hum cavallo.

    [Nota de rodapé 7: Comprador]

    CARTA

    _A hum Amigo, louvando-lhe o estado de cazado_.

    Foi este o ditozo dia,
    Que te deo a Espoza bella;
    Doce, sólida alegria,
    Para ti, junto com ella,
    No mesmo berço nascia;

    Por tua maior ventura,
    Natureza lhe quiz pôr,
    Entre os Dons da Formozura,
    Outro dote inda maior,
    Que he, alma innocente, e pura;

    Eu sei teu costume antigo,
    A Mulher, que he só formoza,
    Não vale tudo comtigo;
    Soubeste escolher Espoza,
    Em quem tens Espoza, e Amigo;

    Quer sempre ter hum Senhor
    Nosso humano coração;
    E na ventura maior
    Inda sente em si hum vão,
    Que só enche o casto amor;

    De quantos males te eximes,
    Dando ao teu tão bom Senhor?
    Damnozas paixões reprimes;
    Recebes das mãos do Amor
    Os prazeres, sem os crimes;

    Céga mocidade errada,
    A' conjugal união
    Quiz chamar vida cansada;
    Diz que he triste escravidão,
    De mil pensões carregada.

    Chama á paz hum dissabor;
    Diz, que de susto, e desdens
    Se alimenta o Deos de Amor;
    E que a certeza dos bens
    Lhes diminue o valor;

    Fechão olhos á verdade,
    Caminhando apôs seus erros;
    E em falsa tranquilidade,
    Ao som de pezados ferros,
    Vão cantando liberdade;

    Mil remórsos na alma estão,
    Que inda que o rosto os suffoca,
    Roendo as entranhas vão;
    Que importa rizo na boca,
    Se ha punhaes no coração?

    Amor he fogo sublime,
    Que nas almas se accendeo;
    As outras paixões reprime;
    Elle he dadiva do Ceo,
    O abuzo he que o faz ser crime;

    Beija, Amigo, os teus grilhões;
    Hum para o outro erão feitos
    Os vossos bons corações;
    Crava em vossos ternos peitos
    Santo Amor os seus farpões;

    Onde achas pessoa estranha,
    Que não contrafaça o rosto,
    Porque vê, que assim te ganha?
    Quem he que na pena, ou gosto,
    Com verdade te acompanha?

    Contas teus cazos sem medo
    A quem por amigo passa;
    Fiaste-te em rosto lêdo;
    Foste no meio da praça
    Assoalhar teu segredo;

    Mal os homens conheceo
    Pura amizade enganada,
    O santo rosto escondeo,
    E tornou-se envergonhada
    Para o Ceo, donde desceo;

    O amigo que te rodeia,
    Véste das tuas paixões;
    Com ellas te lizonjeia;
    São raros os corações,
    Em que dôa dor alheia;

    Quando acertares de ler,
    Que houve entre homens união,
    O Escritor a quiz fazer;
    Não os pintou como são;
    Mas como devião ser;

    São coizas imaginadas
    Dos _Nizos_ o amor profundo;
    São fábulas bem contadas;
    Ou os não houve no Mundo,
    Ou não deixárão pégadas;

    Puro amor, limpa verdade,
    Só entre Esposos estão;
    Desce a elles a Amizade;
    Traz-lhes co'a santa união
    Huma só alma, e vontade;

    Communica á Espoza amada
    Teus mais internos cuidados;
    E vive em paz descançada
    A vida dos bem cazados,
    Vida bemaventurada;

    Sem receio de perigo
    Dorme sono saborozo;
    Que não tens junto comtigo;
    Lisonjeiro suspeitozo,
    Traidor, com rosto de amigo;

    Tens por doce companhia
    Aquella, que o justo Ceo
    Com mil virtudes te invia;
    Tu es o cuidado seu,
    E como seu, te vigia;

    Goza em socego profundo
    Tão pura felicidade;
    Tens hum thezoiro fecundo;
    Tens amor, tens amizade,
    Tens todos os bens do Mundo.

    E se ha entre homens desvelo
    (Coiza que aqui contradigo)
    Conta com hum, que he singelo;
    E foi sempre teu amigo,
    Quanto os homens podem sêlo.

    CARTA

    _Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde D. Jozé
    de Noronha, hoje Marquez de Angeja_.

    Senhor, eu não sou culpado;
    Traçar outros Versos quiz;
    Mas tenho perdido o trilho
    Com as Trovas do Luiz;

    A Muza, que ha pouco as fez,
    Outra rima não me inspira;
    Por mais que mordo nas unhas,
    E que em vão tempéro a Lyra.

    Acceitai meus bons dezejos;
    E como homem de razão
    Não desprezeis baixos Versos,
    Quando os dicta o coração;

    Minhas fiéis expressões,
    Filhas de amor, e saudade,
    O que não tem em poezia,
    Lhe vai supprido em verdade.

    Em quanto co'as soltas vélas,
    Forçadas do vento rijo,
    Demandava a Galeota
    Os areaes do Montijo;

    Em quanto ao Principe Augusto
    O patrio Téjo se humilha,
    E sobre os rasgados hombros
    Lhe leva a soberba quilha;

    Meus olhos, meus tristes olhos,
    Nas aguas seguindo a esteira,
    De lagrimas se arrazavão
    Sobre as praias da Junqueira.

    Dentro do cansado peito
    Se ateou crua peleja;
    Senti huma guerra viva
    De saudades, e de inveja;

    Não era de baixa inveja
    Affecto grosseiro, e injusto;
    Era invejar ao Creado
    Ir junto a seu Amo Augusto.

    Senhor, não sou atrevido;
    Ha lugares derradeiros;
    O meu dezejo me punha
    Entre a chusma dos Remeiros;

    Com as faces açoitadas
    Dos agudos ventos frios,
    Entre os borrifos das ondas,
    E as pragas dos Algarvios;

    A Apóllo pedindo a Lyra,
    Que só para isto invéjo,
    Chamára das frias grutas
    As loiras Filhas do Téjo;

    Que escutando o som divino
    Entre as húmidas moradas,
    E levantando nas ondas
    Suas cabeças doiradas;

    De tal Hospede soberbas
    O lenho rodearião;
    E as aguas co'branco peito
    A' porfia lhe abririão;

    O fatídico Protêo,
    Cheio de saber divino,
    Revelára ao novo Heróe
    Os segredos do Destino;

    Famozas acções cantára,
    Levantando a sábia voz,
    Moldadas sobre as historias
    Dos Augustos Pais, e Avós:

    Mas, Senhor, a minha Muza
    Sem tino ao ar se remonta;
    E vai-se mettendo em obra,
    De que não póde dar conta;

    Esta levantada empreza
    Até a _Boileau_ deo sustos;
    Dizia que só Virgilios
    Podião louvar Augustos;

    He queimar-lhe baixo incenso,
    Cansallo com Versos frios;
    Amor respeitoso, e votos
    Serão os meus elogios:

    Vós, Illustre Villa Verde,
    Com quem sempre me hei achado,
    Fazei que seja o meu nome
    A seus ouvidos levado;

    Se lhe der acolhimento,
    Sigamos de Horacio as traças,
    Façamos que a par das Muzas
    Marchem as rizonhas Graças;

    Dizei-lhe, que na Folhinha,
    Com letras doiradas puz
    Aquelles formozos dias
    Das escadas de Quéluz;

    Aquelles dias ditozos,
    Quando a seus pés ajoelhado,
    Era ao abrigo das Muzas
    Benignamente escutado;

    Quando, tendo já traçado
    Melhorar-me os meus destinos,
    Se dignava perguntar-me
    Como estavão os meninos.

    Quando me mandou, que em verso
    Contasse como escapára
    Naquelle funesto encontro
    Dos taes Carreiros da Enxára;[8]

    [Nota de rodapé 8: Allude ás Decimas.]

    E se inda o favor mereço
    De tão alta Protecção,
    Dizei, que mudei de Officio,
    Porém de ventura, não;

    Que não me enganão zumbaias
    Dos humildes Supplicantes;
    Porque a bolsa mais sincera
    Trata-me inda como dantes.

    Que inda os cães atrás do Russo
    Esperão nelle a merenda,
    Quando eu vou para Lisboa
    Fazendo Versos, e renda;

    Que dando aos oucos ilhaes,
    Vai marchando triste, e só;
    Que as mais seges fazem sécia,
    Porém que a minha faz dó;

    Que até o boçal Gallego,
    Que eu tinha por innocente,
    Já me conhece a fraqueza,
    E já me revíra o dente;

    Depois, que as vélas de cebo
    Já cerceia no topete,
    E vai conquistar o Bairro
    De polainas, e colete;

    Depois que em chapeo de Braga,
    Que só põe em dia claro,
    Cozeo em devota rosca
    Candêa de Santo Amaro;

    Depois que em déstros meneios
    O suado corpo bole,
    E abre guerra ás Cozinheiras
    Ao som da Gaita de fole;

    Já responde focinhudo,
    E eu me cálo as mais das vezes;
    Porque, pelos meus peccados,
    Sou réo de huns poucos de mezes:

    Mas, Senhor, este Epizódio
    Vai sendo dos arrastados,
    O Gallego veio nelle,
    Como me vai aos recados;

    Se o julgardes enfadonho,
    Ao Principe o não conteis;
    Nos factos da minha vida
    A' vontade escolhereis;

    Pintai-lhe a triste familia,
    Gritando-me por dinheiro;
    Hoje o rol de hum Alfaiate,
    A' manhã o de hum Tendeiro;

    Pintai-lhe hum Procurador,
    Que aqui vem todos os dias
    Saber da minha saude
    Da parte das Senhorias;[9]

    [Nota de rodapé 9: Das Cazas.]

    Enfeitai de côr alegre
    A funesta narração;
    Marchão ás vezes os rizos
    Ao lado da compaixão;

    E pois que os vossos esforços
    Nunca me tem sido vãos,
    Acabai, benigno Conde,
    Esta obra das vossas mãos;

    De hum mal fadado Poeta
    Trocai em prazer as penas;
    Já diante d'outro Augusto
    Fez o mesmo outro Mecenas.

    CARTA

    _No dia dos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de
    Angeja D. Jozé de Noronha, estando o Author doente_.

    Senhor, se vos são acceitos
    Pobres Versos, mal limados,
    Entre vidros, e receitas,
    Em triste leito traçados;

    Se de hum sombrio doente
    A fúnebre poezia
    Os prazeres não perturba
    Deste faustissimo Dia;

    Consenti, que a branda Lyra,
    Por vós outr'ora escutada,
    E que teimoza molestia
    Tem ha muito pendurada;

    Sobre este cansado peito,
    Ferida com debil mão,
    Mande ao Ceo singelos hymnos,
    Nascidos do coração;

    Consenti, que eu louve o Dia,
    Para mim assinalado,
    Qne raia em nosso Horizonte,
    De nova luz coroado;

    Dia, que vos vio nascer;
    E que quiz trazer comsigo
    Quem une ao nome de Grande,
    O santo nome de Amigo;

    Quem não quer só a Nobreza
    De Illustres Antepassados;
    E mais ama huma virtude,
    Que cem Titulos herdados;

    Quem sabe, que o vir honrar
    Dos pequenos a baixeza,
    He entre os que nascem Grandes
    A verdadeira Grandeza;

    Quem a favor de infelizes
    Traz sempre occupada a idéa;
    E estima a fortuna propria,
    Só para fazer a alhea;

    Cem vezes, formozo Dia,
    Vem o Horizonte doirar;
    Nunca possão negros ventos
    Tuas luzes perturbar;

    Tu nos déste em peito illustre,
    Que se doe de alheios ais,
    Hum coração adornado
    De mil Virtudes Morais;

    Senhor, eu não doiro enganos,
    Que venal lizonja approva;
    Sabidas verdades digo,
    E sou dellas huima prova;

    Sou hum dos muitos exemplos
    Do vosso bom coração;
    A minha felicidade
    Foi obra da vossa mão;

    Razoando em meu favor
    Contra teimozos destinos,
    Felizmente pleiteastes
    A cauza dos meus Meninos;

    Ao bom Principe pedistes,
    Que com mão compadecida,
    Lhes concedesse humas ferias,
    Que durassem toda a vida;

    Pedistes depois, Senhor,
    Que a sua Real Grandeza
    Se dignasse de arrancar-me
    D'entre os braços da pobreza;

    Sei que nelle he natural
    Ter dó das alheias penas:
    Mas ouve-as melhor Augusto,
    Quando lhas conta Mecenas;

    Por este modo alegrastes
    A triste familia minha;
    E em caza nos levantastes
    O Interdicto da Cozinha:

    Já hum segundo Frizão,
    Pendurada a lingua velha,
    Dá reboque, como póde,
    A' antiga meia parelha;

    Já o sórdido Gallego,
    Meu antigo companheiro,
    De gravata, e carrapito
    Arvorado em Boleeiro;

    Açoitando surdas ancas
    De dois Sendeiros roazes,
    No mesmo Bairro apregôa,
    Ora barrîs; ora pazes;

    Mas, Senhor, deixando graças,
    Pois não as pede a materia,
    E pedindo á minha Muza,
    Que seja comvosco séria;

    Rogo ao Ceo vos dê mil annos,
    Já que são tão bem gastados;
    Annos que achareis depois
    Em Livro de Oiro apontados;

    E se em dia de Mercês
    Ides de Semana entrar,
    Seja a Mercê destes Annos
    O meu nome apprezentar.

    Ao Principe, ajoelhando,
    Em favoravel momento,
    Por mim, Senhor, lhe jurai
    Eterno agradecimento;

    E eu, em largando este leito,
    Já sei a hora opportuna
    De poder ajoelhar-lhe,
    Quando elle chega á Tribuna;

    E pondo-me ao pé do Ginja,
    Que na _Náo Ajuda_ falla;
    E faz a todos os _Glorias_
    Continencias co'a vengalla;

    Surdo á historia do naufragio,
    Com que elle ás vezes me afferra,
    Rezarei ao Deos do Ceo,
    E assistirei aos da Terra.

    CARTA.

    _Tendo mandado huma Senhora ao Author Vinho da Madeira com huma Carta em
    boa Poezia_.

    Hum humilde admirador
    Da vossa bondade, e estilo,
    Beija a Carta precioza,
    Que veio honrallo, e instruillo;

    Desde hoje, do Mestre Horacio
    Minha alma a lição escuza;
    Quiz a minha Bemfeitora
    Ser tambem a minha Muza;

    De fino licor mandastes
    A minha cava prover;
    A vossa mão generoza
    Sabe dar, como escrever;

    A' parca meza assentado,
    Em Vinho, e Carta pegava;
    Hia bebendo, hia lendo,
    E tudo me embebedava;

    Deixo o velho Anacreonte,
    Hoje mettido a hum cantinho;
    Sua meza nunca teve
    Tão bons Versos, tão bom Vinho;

    Se os teve, Vós o roubastes
    Por minha felicidade;
    Já cá tem o Vinho, e os Versos
    Quem delle só tinha a idade;

    Das escumas do Madeira
    Vejo nascer a alegria;
    Com as azas affugenta
    A minha melancolia;

    Já se perturba a cabeça;
    Já tenho emprestadas cores;
    Já começão a esquecer-me
    As molestias, e os Crédores;

    O tal Horacio enganou-se;
    Não conhecêo a parreira;
    Não se chamava Falerno;
    Se era bom, era Madeira;

    He bom, mas tira o juizo;
    Mandai-mo, em vez de o beber;
    Não se arrisque neste jogo
    Quem tem tanto que perder.

    CARTA.

    _Desculpando-se o Author de não ir a huns Annos_.

    Senhora, em honra do Dia,
    Esforçando a mão pezada,
    Tómo a Lyra, ha longo tempo
    Ao silencio consagrada;

    E em quanto lhe alimpo as cordas,
    Que bolor aos dedos dão,
    E atarantadas aranhas
    Despejando o bêco vão;

    C'os olhos ao ar alçados
    A' minha Muza pedia
    Me désse sonóros Versos,
    Dignos de Apollo, e do Dia;

    Que me ensinasse a louvar
    O ditozo Nascimento,
    Que ao vosso brilhante Séxo
    Trouxe mais hum ornamento;

    Que pintasse a loira Venus
    Vosso rosto bafejando;
    Que me mostrasse as tres Graças
    O rico berço embalando;

    Que me ensinasse a cantar,
    Cingida a testa de loiro,
    Huns claros, triunfantes olhos,
    Huns finos cabellos de oiro;

    Que me fizesse augurar,
    Rasgando ao futuro o véo,
    Amor consagrando as settas
    Nos Altares de Hymenêo;

    Mas as Muzas, como as Ninfas,
    Tem para mim os pés mancos;
    Fogem de trémulas vozes,
    Tremem de cabellos brancos;

    Fiquei, pois, desamparado;
    E merecendo desculpa,
    De não vos mandar bons Versos,
    Peco perdão, sem ter culpa;

    Sei que devia ir pedillo
    Respeitozo, e diligente;
    Mas impede-me essa honra
    Hum defluxo impertinente;

    E quem em caza traz botas,
    E vinte xaropes bebe;
    E quando fahe, fahe mettido
    N'uma loge de Algebebe;

    Se fosse em tempo invernozo
    Entrar na illustre Assembléa
    Com leve, ingleza cazaca,
    Fina, transparente mêa;

    Sem acabar cumprimentos,
    Logo o corpo arripiado,
    Gelada a voz sobre os beiços,
    Cahiria constipado;

    E o Marcos largando os bules,
    Pondo o Velho em quentes pannos,
    Entre os applauzos dos vossos,
    Praguejaria os meus annos;

    Vossa bondade não quer
    Pôr o Cortezão em risco,
    De ir com Habito de Christo,
    E vir no de S. Francisco;

    Acceitai dahi meus votos;
    Daqui a mão vos beijei;
    E dos doces que não como,
    Domingo me vingarei;

    Darei escumantes copos
    Ao perum, e aos môlhos seus;
    Brindarei os vossos Annos,
    Tratando mui bem dos meus.

    CARTA.

    _Aconselhando a hum Cebelleireiro, que não continuasse a fazer Versos_.

    Pois que o talento inquieto
    Até em poezia provas,
    E queres ás mais desgraças
    Ajuntar desgraças novas;

    Pois, que em galantes cantigas
    Teu Rival puzeste razo,
    E coroado de trovas
    Vás entrando no Parnazo,

    Quero em trovas avizar-te,
    Que ha baixîos nesta barra;
    Vou ser Prégador trovista,
    Vou ser hum novo Bandarra;

    A occupação de Poeta
    He nobre por natureza;
    Mas todo o Officio tem ossos,
    E os deste são, a pobreza;

    Os dentes do bom Camões
    Sejão fieis testemunhas;
    Muitas vezes esfaimados
    Não achárão senão unhas;

    Depois que seus frios olhos
    Se fechárão no Hospital
    Logo as Filhas da Memoria
    Lhe erguêrão Busto immortal;

    De que serve honra tardia?
    Bem sei, que o rifão vem torto;
    Mas faz lembrar a cevada,
    Que se deo ao asno morto;

    Só as Muzas o chorárão;
    E o enterro devia ser
    Como hoje nos pinta o Lobo
    O de João Xavier.

    Homéro, o divino Homéro,
    Honra de antigas Idades,
    Por cujos inuteis ossos
    Brigárão sete Cidades;

    Doces Versos recitando,
    Pela Grecia discorria;
    Tinha os Thezouros de Apollo,
    E esmola aos homens pedia;

    Mas se de Authores antigos
    Tens tido pouco exercicio,
    Eu te aponto hum bem moderno,
    E até do teu mesmo Officio;

    Foi este o famozo Quita,
    A quem triste fado ordena,
    Que a fome lhe traga o pentem,
    E da mão lhe tire a penna;

    Em quanto na suja banca
    Pobre tarefa tecia,
    Seu espirito sublime
    Sobre o Parnazo se erguia;

    Cozendo sobre o joelho
    Era dura, falsa cáveira,
    A sua alma conversava
    Com Bernardes, e Ferreira;

    Mil vezes travêssas Muzas
    Da baixa obra o desvião;
    E mostrando-lhe o tinteiro,
    Pós, e banha lhe escondião;

    Mas de que servem talentos
    A quem nasceo sem ventura?
    Vale mais, que cem Sonetos,
    A peior penteadura;

    Amigo, vamos errados;
    Escolhemos muito mal;
    He o fado dos Poetas
    Não professarem real;

    Péga no pardo baralho,
    E sobre a cama assentado,
    Fisga as biscas conhecidas
    Ao parceiro descuidado;

    Matando boçaes tafûes,
    Vai mexendo os papelinhos;
    Nem poupes no cadafalso
    As gargantas dos Sobrinhos;

    Em lhe vendo huma de seis,
    Arma-lhe os laços viscozos;
    Antes que lhe caia a xina
    Na ceira dos laparozos;

    Imita ondados cabellos
    Co'rubro lápis na mão;
    Estas pinturas dão xina,
    As da Poezia, não;

    Se em roda de loiras Ninfas
    Gyrão em torno teus ais,
    Em quanto lhe deres Versos,
    Acharás sempre Vestais;

    Fallo como exprimentado;
    Fallo com peito sincero,
    Póde huuma vara de fitta,
    Mais que a Ilíada de Homéro;

    No sonóro bandolim
    Fortuna as armas te deo;
    Não ha Dama, que rezista
    A' moda do Melibêo;

    Toca-lhe mil contradanças;
    Mas se não tiverem Dom,
    Entre ellas não sevandiges
    O Fidalgo Cotilhom;

    Nestas coizas he que eu creio;
    Poezia he mal fadada;
    Assenta, amigo Luiz,
    Que nunca servio de nada;

    Poucas Damas a conhecem;
    Se a pedem, e se a festejão,
    Gostão do que não entendem,
    Pedem o que não dezejão;

    Inda que por moda querem,
    Que lhes repitão Versinhos,
    Tem por modas de mais gosto
    Convulsões, e Jozézinhos;

    Huma Venus me pedio,
    Por quem inda eu hoje peno,
    Que lhe fizesse hum Soneto,
    Inda que fosse pequeno;

    Dinheiro, invisto dinheiro,
    Só em ti he que eu me fundo;
    Tens o Direito da força,
    És o Tyranno do Mundo;

    Amigo, escolhe hum Paralta,
    Corpo esbelto, perna teza,
    O chapeo tocando as nuvens,
    As fivellas á Malteza;

    Ornem-lhe loiros canudos,
    Pendentes com igualdade,
    Tenras faces, onde morão
    A Saûde, e a Mocidade;

    Chegue á bocca rubicunda
    Cheirozo lenço anilado;
    Dê bilhetinho discreto,
    De huma Novela furtado;

    Põe da outra parte hum Ginja,
    Fivella de oiro no pé,
    Bom vestido de lemiste,
    Boa meia grudifé;

    Com óculos no nariz,
    Mas com a penna na mão,
    Assignando vinte letras
    Para Londres, e Amsterdão;

    E dize-me, qual assentas,
    Que será o mais querido?
    Apósto, que as Damas todas
    Cuidão que o Velho he Cupido.

    Amigo, tenho acabado
    O meu comprido Sermão;
    Préguei-te as altas verdades,
    Que trago no coração;

    Abre mão das Poezias,
    Que nenhum prestimo tem;
    E cuida em sólidos meios
    De ganhar algum vintem;

    Se dizes, que contra os Versos,
    Em Verso huma Carta ordeno,
    E que aqui me contradigo,
    Praticando o que condemno;

    A teu forçozo argumento
    Respondo com Fr. Thomaz;
    Faze o que o Prégador diz,
    Não faças o que elle faz.

    CARTA.

    _Pedindo-se ao Author huma Gloza_.

    Menino, dizer finezas,
    Só o proprio Pertendente;
    Amor não póde imitar-se,
    Só o pinta quem o sente;

    Se adora alguma Nerina,
    Se he para ella a tal Gloza,
    Que vão fazer os meus Versos,
    Onde está a sua proza?

    Além disso, essa figura,
    Faces tenras, e córadas,
    Fallão mais discretamente,
    Que mil Cantigas glozadas;

    Lenço nas pontas bordado,
    Cipó, tízicas fivellas,
    Sobre hum corpo assim talhado,
    Se eu gósto, que farão ellas?

    Versos são mui fracas armas
    Para vencer corações;
    He clara a letra redonda,
    Leia a vida de Camões;

    Sua divina Poezia
    Teve mui curtos poderes;
    Tratarão-no mal os homens,
    E inda peior as mulheres;

    Pois entra de amor na estrada,
    Siga nella outro farol;
    Embuce-se a huma esquina,
    Soffra chuva, soffra Sol;

    Erga alli o Altar do Amor;
    Queime alli humilde incenso;
    Suba ao alto do capote
    Branco, alcoviteiro lenso;

    Que importa que os Çapateiros
    Dem assobio insultante,
    Se os negocios vão marchando
    Com passadas de Gigante?

    Cem vezes na mesma tarde
    Pize esbelto a feliz rua;
    Alheias cadeias de aço,
    Relogio de hollanda crua;

    Vá por aqui, que por Versos
    Dá em vão loucas passadas;
    São divertimento inutil,
    São as historias das Fadas;

    Inda que para cantallos
    Lhe désse Garção a Lyra,
    Como hão de crer-lhe verdades
    Na linguagem da mentira?

    Seja acérrimo chorão;
    Pranto entendem raparigas;
    Faça em lagrimas seu fundo,
    E não o faca em Cantigas;

    Palêe co'estes remedios,
    Pois não tem o verdadeiro;
    He elle (aqui em segredo)
    O mílagrozo dinheiro;

    Mas se teima em pedir Versos,
    E conselhos não supporta,
    Então perdôe, meu Menino,
    Póde bater a outra porta.

    CARTA.

    _Agradecendo alguns pratos, que despertárão a vontade de comer_.

    Senhor, a dada Perdiz,
    Acerejada, e fresquinha,
    Veio emendar os estragos
    Da enjoativa gallinha;

    Esta ave he sempre odioza
    A melancólicos dentes;
    Faz lembrar ultimos caldos
    De já perdidos doentes;

    He, além disto, hum cruzado
    Fugido do mialheiro;
    Este meu mortal fastio
    Custou rios de dinheiro;

    Mas da vossa lauta meza
    Bocados medicinais
    Forão tão bem applicados,
    Que me curárão de mais;

    Venceo vosso cozinheiro
    O tal fastio cruel;
    Meu estomago já pede
    Meças com Fr. Manoel;

    Mas, Senhor, vossa piedade
    Vai ser-vos hum dom fatal;
    Quizestes fazer hum bem,
    Que redunda em vosso mal;

    Fizestes nascer a fome,
    E a fome pede mantença;
    Se a deixais entregue a mim,
    Póde morrer á nascença;

    A vossa filha amparai;
    Não he de peitos honrados
    Pôr as suas Creaturas
    Na Roda dos Engeitados.

    Em soando as duas horas,
    Sabei que esta cara minha
    Tem longos, ávidos olhos,
    Fitos na vossa Cozinha;

    Eu não vou, porque inda fraco,
    Indo arrostar ar delgado,
    Antes de matar a fome,
    Morreria constipado.

    CARTA

    _Sobre o mesmo Assumpto_.

    Senhor, assim que eu largar
    A baetal fatiota minha,
    Vou beijar as pias lágeas
    Da vossa farta Cozinha;

    Não foi attento Hespanhol,[10]
    Receitando amarga quina,
    Quem venceo meu mal co'as armas
    Da fallivel Medicina;

    [Nota de rodapé 10: Medico.]

    Vós sabeis traçar receitas
    Mais gratas, e mais felizes:
    Curárão-me oppostos males
    Bem applicadas Perdizes;

    Humas o appetite abrírão,
    Outras socêgo lhe dão;
    Sarárão as duas chagas
    Co'pêllo do mesmo cão:

    Dizem linguas inimigas,
    Que esta doença he ficticia;
    E os Práticos do meu pulso
    A capitúlão malicia.

    Que em meu capote abafadas
    Estas goellas felizes,
    Em vez de cozerem lynfas,
    Estão armando ás Perdizes;

    Senhor, não devo atalhar
    Este conjurado assédio;
    Porque era, provar doença,
    Ingratidão ao remédio;

    Só digo, que não ganhais,
    Dando ouvido ás vozes suas;
    Aqui dais-me huma Perdiz,
    E se lá vou, tiro duas.

    CARTA.

    Bom Sobral, o que eu te disse
    He, a meu pezar, verdade;
    Sonóros, amenos versos,
    São obra da Mocidade;

    Mandaste que em Crescentini;
    Louvando a doce harmonia,
    O que o Mundo diz em proza,
    Eu lho enfeitasse em Poezia;

    Que invocando as brandas Muzas,
    Encostada ao peito a Lyra;
    Cante os ternos sentimentos,
    Que elle nas almas inspira;

    Môço Sobral, tu ignoras
    Da inerte velhice os damnos;
    Nesta fria testa brigão,
    Co'teu preceito, os meus annos:

    Que importa, que a huma orelha
    A tua voz respeitada
    Me mande afinar a Lyra
    Ha dez annos pendurada,

    Se á outra me diz Apollo,
    Que eu sou já dos reformados;
    Que em seu Tribunal não tornão
    A servir Apozentados?

    Longa idade, he longo mal;
    Velho, só he bom o Amigo;
    O teu mesmo Crescentini
    Ha de provar o que eu digo:

    Este homem, que a seu arbitrio
    Move as humanas paixões;
    Que traz na sua voz o sceptro
    Dos sensiveis corações;

    Que nos deixa duvidozos
    Quaes forças maiores são,
    Se os encantos da harmonia,
    Ou se a viveza da acção;

    Que em mim, que sou homem duro,
    E rebelde ás Leis primeiras;
    Que não chóro nos mais homens
    As desgraças verdadeiras;

    Que, insensivel, vi no Circo
    Burlesco Neto arrastado
    Deixar co'a rôta cabeça
    O terreno ensanguentado;

    Que vejo com olhos seccos,
    Com firme semblante inteiro,
    Fugir-me n'um parolim
    O meu ultimo dinheiro;

    Que em mim, digo, arranca pranto;
    Que amolga hum peito de seixo;
    Que muita vez co'chapeo
    Encubro o trêmulo queixo;

    Que quando dos tenros Filhos
    Chorava o triste destino,
    Tinha este peito de bronze
    O coração de Sabino;

    Este homem, que solto o panno,
    Vivas vem á força ouvir;
    Se cantar de hoje a déz lustros,
    Em vez de chorar, faz rir;

    Sobre os levantados áres
    A envergonhada Harmonia,
    Batendo apressadas azas,
    Do seu Filho fugiria;

    E o Jeronymo estendido[11]
    Co'as pernas nos tamboretes,
    Cabeceára entre as rimas
    Dos ociozos bilhetes;

    [Nota de rodapé 11: O Vendedor dos bilhetes.]

    E cuidavas tu, que a foice
    Que a taes dons ha de pôr fim,
    Que ha de ferir Crescentini,
    Me tinha poupado a mim?

    Se eu hoje fosse aos Oiteiros,
    Onde já tive elogios,
    Dir-me-hião crueis verdades
    Mil sinceros assobios;

    Este Genio dos Poetas
    He fugitivo, e mesquinho;
    A' primeira cam nos deixa
    Na ametade do caminho;

    Não he irmão do teu Genio,
    Este estende mão segura;
    Acompanha os seus Valídos
    A' borda da sepultura;

    Fará que sempre as desgraças
    Em tristes peitos emendes;
    Que sigas sempre os exemplos,
    Que dentro de caza aprendes;

    Lastima, pois, minhas rugas,
    Que até me cauzão o mal
    De faltar ao teu preceito,
    E a louvar hum homem tal;

    Mas vasto, cheio Theatro,
    Que elle encalma em tempo frio,
    Falla melhor, que dez Odes,
    He mais util elogio;

    E nelle estas velhas mãos
    Co'as forças que nascem d'alma,
    Darão, em lugar de Versos
    Muito pinto[12], e muito palma.

    [Nota de rodapé 12: Cruzado novo.]

    CARTA

    _A huma Senhora, que em bons Versos pedio ao A. a Sátyra do Velho_.

    Senhora, o Quadro pedido
    Não estava retocado,
    Mas brevemente o remetto,
    Deixai isto ao meu cuidado;

    Mostra os erros da velhice;
    Põe alguns Velhos á raza;
    Custou-me pouco a pintura,
    Por ter as tintas de caza;

    Que já hum Amigo o vio,
    Eu, Senhora, vos confesso,
    Porém mostrei-lho inda em calva
    Como eu tambem lhe appareço

    Vós sois de mais ceremonia,
    E pezais com mais rigor;
    Temi, que sem rir c'os Versos,
    Só vos vissem rir do Author;

    Tómo outra vez o pincel,
    Vou-lhe pôr attenta mão;
    Abençoarei meu trabalho,
    Se lhe derdes protecção;

    Pois que a deve o sangue illustre,
    Tem dois direitos meu cazo;
    Porque a peço a huma Fidalga,
    Que o he tambem no Parnazo;

    De tão alto voto espero,
    Que geral favor me traga
    A huns Versos, que antes de lidos
    Tiverão tamanha paga.

    Ao favor de mos pedirdes,
    Honra, que eu não merecia,
    Ajuntastes o thezoiro
    De mos pedir em Poezia;

    Que fáceis, que amenos Versos!
    Trazem das Muzas o bafo;
    A moral os faz ser vossos,
    Que quanto ao mais são de Sapho;

    Só na pintura dos annos
    Errou essa mestra mão;
    Porque inda que era em Poezia,
    Foi puchar muito a ficção;

    A doce, igual harmonia,
    A imaginação fogoza,
    Depuzerão contra vós,
    E vos chamão mentiroza.

    Se occulto, fyzico acazo
    Branqueou huns fios de oiro,
    Vosso vingador Apollo
    Os cobre de mirto, e loiro;

    Quem marcha ao lado das Graças,
    Não sabe o que he fria idade;
    Deixai-me dizer a mim
    Essa funesta verdade;

    He em mim que o voraz Tempo
    Já empolgou a mão forte;
    Se inda me mêcho em Poezia,
    He já co'a ansia da morte;

    Cedo raivozos Crédores,
    A quem não curei as chagas,
    Darão a meus frios ossos,
    Em lugar de pranto, pragas;

    E outros, a que a carapuça
    Mesmo, sem mira, não erra,
    Dirão com gosto ao Coveiro
    =Enche-lhe a boca de terra.=

    Mas tudo perdoaráõ
    Minhas sepultadas cans,
    Se de cypreste as cobrirdes
    Vós, e as vossas oito Irmans.

    CARTA.

    A ti, amavel Bandeira,
    Partidista da Verdade,
    E de quem tenho mil provas,
    Que o és tambem da Amizade:

    Que são Filozofo vives,
    E o mesmo morrer protestas,
    A' excepção de me dares
    Bilhete de boas festas:

    Tolentino firme amigo
    Inda quando o Mundo caia,
    E a quem obrigas a sêllo
    Desde a rua da Atalaia,[13]

    [Nota de rodapé 13: Onde tinhão morado havia muitos annos.]

    Dezeja pura alegria,
    Saûde, e muito vintem;
    Dezeja-te tudo aquillo,
    Que elle quasi nunca tem;

    Pois, que chuva, e negros ventos
    Me fechão a porta, e o dia,
    E em caza apontão cuidados,
    Redobrada bateria;

    Pois que a horrivel solidão
    Aviva a idéa cruel
    Da gaveta, vão sepulchro
    Do agonizante quartel.

    E a engenhoza Hypocondria
    Me mette no antigo empenho
    De jurar, que estou morrendo
    Das molestias, que não tenho,

    Vou ver se posso esquivar-me
    A tanto mortal immigo,
    Acolhendo-me ás lembranças
    Do nosso bom tempo antigo;

    Tem a sôlta fantazia
    Farto, milagrozo armario;
    Cura-me penas reaes
    Com prazer imaginario;

    O nosso bom tempo antigo!
    Quando alçando a tôrva fronte
    Jantava Quintiliano
    A' meza de Anacreonte;

    Quando nos brilhantes copos
    Do casto, herdado Gorizos,[14]
    Hião mergulhar as azas
    Os Prazeres com os Rizos;

    [Nota de rodapé 14: Nome de huma Quinta do Amigo, a quem o A.
    escreve, a qual produz bom vinho.]

    Quando em renhidas disputas
    Mettias traidora mão,
    Sendo o motivo da guerra
    Solapada mangação.

    E sem haver lindos olhos,
    Sem haver ondadas tranças,
    Doidos com doidos tecião
    Turbulentas contradanças.

    Quando o assustado Ministro,
    Que as margens do Doiro trilha,
    Pôde salvar da procella
    A sua estimavel bilha.

    Clama em vão por tão bom tempo
    Minha discreta saudade;
    Doce, fugitivo tempo,
    Da nossa doirada idade!

    Ante meus olhos sâudozos
    Cruas azas despregou;
    E em cambio de tantos bens,
    Cans, e rugas me deixou.

    Só tu podes, caro Amigo,
    Virar-lhe o vôo apressado;
    E fazer que elle me traga
    Outra vez o meu reinado:

    Não peço bruxos prestigios,
    Basta ouvires meu alvitre,
    Põe a rua da Atalaia
    Na Calçada do Salitre;[15]

    [Nota de rodapé 15: O A. jantava muitas vezes na rua da Atalaia em casa
    do Amigo, a quem escreve, o qual se mudou para o Salitre.]

    Prepara farta vingança
    A meus compridos jejuns;
    Lança, em nome da Amizade,
    Mais nozes aos teus peruns;

    Lance fumo a faca tinta
    Nas victimas degolladas;
    Revôem pelo quintal
    As pennas ensanguentadas;

    Tornem a dar os teus lares
    Guarida á minha desgraça;
    Tornem a ter teus amigos
    Polido Isidro de graça;[16]

    [Nota de rodapé 16: Caza de Pasto.]

    Vai na franca, lauta meza,
    Versos ouvindo, e tecendo;
    Entre as Muzas, entre as Graças
    Vai, a rir, empobrecendo;

    Correntes do Doiro, e Rheno
    Escaldem meu Estro fraco;
    Abrão-me o Templo de Apóllo
    Atrevidas mãos de Baco;

    Sólte o rozado Taful
    A falsa eloquencia sua;
    E marche pelas Sciencias
    Como marcha pela rua;[17]

    [Nota de rodapé 17: Cóxeava.]

    He alma das Companhias,
    Alegres mezas governa;
    Depois de estar assentado,
    Não conheço melhor perna;

    Tomando amolada faca
    Teu sizudo Capitão,
    Nos demonstre, sobre hum lombo,
    A guerra do Rossilhão;

    Aliza assim, caro Amigo,
    Meu velho, engelhado coiro;
    Manda ás Parcas, que o meu fio,
    Já que he curto, seja de oiro.

    Dá brando ouvido a meus rogos;
    Teu bom peito em bem os tome;
    Não te falla vil lizonja,
    Falla-te a Amizade, e a fome:

    E tu, dia tormentozo,
    Que abalas velhas trapeiras,
    Que o telhado me arripias,
    Que me ensopas as esteiras;

    Que em meus reumaticos ossos
    Assentas pezado açoite;
    E sobre medonhas nuvens,
    Me mandas de tarde a noite;

    Serás o dia mais alvo,
    Que em meus largos annos levo,
    Se for acceita esta Carta,
    Que á tua má luz escrevo;

    Chamarei Zéfiros brandos
    A teus roucos ventos frios,
    Se hoje rezolve o Bandeira
    Dar de comer a vádios.

    CARTA

    _A hum Camarista_.

    N'uma infeliz madrugada,
    Antes que o Sol esclareça,
    Mettido em pobre caleça,
    Puz peito, Senhor, á estrada:
    Sahi em hora mingoada,
    Pois negra traição me espera;
    Homens, com genios de féra,
    Me atacárão sem motivo;
    Por milagre fiquei vivo,
    E devo pezar-me a cêra.

    Vi revoltozos Carreiros
    Com duro aguilháo armados;
    Vi nuvens de páos alçados
    Pelos cumes dos oiteiros:
    Roldão, e o bravo Oliveiros,
    Que alta pena Heróes declara,
    Talvez voltassem a cara,
    Que a tantos tremer fazia,
    Se nos campos da Turquia
    Vissem Carreiros da Enxara.

    Vi os Campos inundados
    De gentes vagas, e incertas;
    Vi as estradas cobertas
    De cacheiras, e cajados:
    Não valem rogos, nem brados,
    Não valem ligeiras pernas;
    A raiva, e o Deos das Tavernas
    Accendêo tanto os Campinos,
    Que cuidei que os meus Meninos
    Terião férias eternas.[18]

    [Nota de rodapé 18: O A. era Professor de Rhetorica, e pertendia passar
    para outro emprego.]

    Em quanto no duro chão
    Meu Companheiro arquejava,
    Eu muito humilde esperava
    Tambem a minha ração;
    Bem me lembrou que esta acção
    Deslustrava a minha gloria;
    Mas não pertende vitoria,
    Nem sabe mover espada
    Mão, ha annos, costumada
    A dar só com palmatoria.

    Entre mortaes agonias,
    Da bruta gente escapando,
    Me fui na sege encaixando,
    Maldizendo as romarias;
    Praguejei meus negros dias,
    Dias de pranto, e de dor;
    Conheci então, Senhor,
    Que só me dão meus destinos,
    Ou Carreiros, ou Meninos,
    Que Deos sabe o que he peior.

    Mas a perda da vitoria
    Sirva de abrandar meus fados;
    Dem-vos motivo os Cajados
    De fallar na Palmatoria;
    Saiba o Principe esta historia;
    Contai-lha com viva côr;
    Fazei com que, em meu favor,
    Sentindo affectos diversos,
    Lhe motivem rizo os Versos,
    E lhe faça dó, o Author.

    CARTA

    _A hum Camarista, tendo o A. sido despachado_.

    A rara benignidade,
    Que quiz o Ceo conceder-vos,
    Permitta que de escrever-vos,
    Tome eu hoje a liberdade;
    Pois tendes tanta bondade,
    Peço, nella confiado,
    Que por mim ajoelhado,
    E na bocca o coração,
    Beijeis ao Principe a mão,
    E lhe deis este recado.

    =Dizei, pois, a Sua Alteza,
    Que eu, seu humilde Afilhado,
    Por elle ha pouco arrancado
    D'entre os braços da pobreza,
    Na simples, mas farta meza,
    Entre os Irmãos, e os Parentes,
    Aos Ceos, com votos ardentes,
    Pedimos, que em paga justa,
    Prosperem a Mão Augusta,
    Que nos faz viver contentes:

    E se entre as puras verdades,
    Que Vós lhe podeis contar,
    Virdes, que terão lugar
    Algumas jovialidades,
    Pintai-lhe as felicidades,
    Que vai tendo a gente minha;
    Dizei-lhe que na Cozinha
    Ardem já montões de brazas;
    Que em todas as minhas cazas,
    Era a mais fresca, que eu tinha;

    Que os enroupados Sobrinhos,
    Affrontando o vento frio,
    Vem todos mostrar ao Tio
    Os seus novos jozésinhos;
    Que então lhes conto, e aos vizinhos,
    Por quem a roupa foi dada;
    Que Mão, nunca assás louvada,
    Mão Real, piedoza, e justa,
    Me poz livre a Rua Augusta,[19]
    Por varios crimes vedada;

    [Nota de rodapé 19: Aonde se vende panno.]

    Que hum Tendeiro, que os seus bens
    Me fiava, dando arrancos,
    Veio em barrete, e támancos
    Dar-me logo os parabens;
    Espera que os meus vintens
    O fação tambem feliz;
    Porque, segundo elle diz,
    Ha de haver na sua Tenda
    Mais sahida na fazenda,
    E menos gasto no giz.[20]

    [Nota de rodapé 20: Costumão marcar com giz o que dão fiado.]

    Mas eu hum crime cometto,
    Quando de ensinar-vos trato;
    Quiz ser ao Principe grato,
    Mas fui comvosco indiscreto;
    Homem, como Vós, discreto
    Não preciza formulario;
    A Egoa do Seminario[21]
    Me deve os rompões cravar,
    Por eu querer ensinar
    O Padre nosso ao Vigario.

    [Nota de rodapé 21: Tinha alluzão particular.]

    _A' Illustrissima, Excellentissima Senhora D. Catharina Micaella de
    Souza, tendo feito a honra ao A. de lhe offerecer huma Vestia de Setim;
    e pedindo-lhe este que lembrasse o Requerimento, em que seu Irmão
    pertendia o Governo de hum Forte_.

    Minha respeitoza mão
    De seus limites não sai;
    A escritura, que aqui vai,
    Não he carta, he Petição;
    Até ante os Thronos vão
    Vozes em papel incluzas;
    As minhas não vão confuzas;
    São memorial mui claro;
    Sou Poeta, dai-me amparo,
    He obrigação das Muzas.

    Não peço hoje para mim;
    Bem cuberto anda meu peito;
    Inda beijo, inda respeito
    Huma Vestia de Setim.
    Triste Irmão tem já no fim
    Farda rôta, e chamuscada;
    Tem má côr, e he mal fadada;
    Quer que a mão piedoza, e franca,
    Que a mim me deo Vestia branca,
    Lhe dê Cazaca encarnada.

    _Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde, hoje
    Marquez de Angeja_.

    Em sege estreita entaipados,
    Sol á ilharga, Sol por cima,
    Vinha eu, e o Padre Lima
    Cheios de pó, e encalmados.
    Eis-que na estrada atacados,

    Párão as mulas baratas;
    Cuidei eu que erão Piratas,
    Que tirão vida, e dinheiro,
    Fui ver se era o Clavineiro,
    E achei duas Açafatas.

    Trazião a arma mais dura,
    Que nos peitos se tem posto,
    Trazião ambas no rosto
    O respeito, e a formozura.
    Querem sege mais segura,
    Porque a sua está quebrada;
    E em quanto o Padre na estrada
    Lhe diz palavras pompozas,
    As minhas mãos respeitozas
    Lhe affoufavão a almofada.

    Trabalho infeliz fizerão,
    Porque meus Fados são tais,
    Que acceitando tudo o mais,
    A almofada não quizerão.[22]
    Debaixo dos pés puzerão

    [Nota de rodapé 22: Por cauza dos toucados altos.]

    Minha obra desprezada
    Senhor, não fazemos nada,
    Tomar vãos trabalhos oizas,
    Tem todas as minhas coízas
    O destino da almofada.

    _No dia dos annos da Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de
    Villa Verde, hoje Marquez de Angeja, em cuja caza o Author jantou_.

    Senhor, talvez neste dia
    Já cantei Versos polidos;
    Porém em tectos cahidos
    Não mora o Deos da Poezia.
    Voou; e da testa fria
    Me tirou o verde loiro,
    E das mãos a Lyra de oiro;
    Tudo em fim se foi co'a bréca;
    Mas se a Aganippe se séca,
    Não se ha de secar o Doiro.

    Embora no velho caco
    Murche o cansado miôlo;
    Se os loiros lhe tira Apollo,
    Com parras o adorna Baccho;
    Põe mira meu peito fraco
    Nos vossos puros almudes;
    E em honra de mil virtudes,
    De mil talentos diversos,
    Em vez de fazer dois Versos,
    Farei duas mil saûdes.

    _Sahindo por sortes Compadre de huma Senhora da primeira Grandeza_.

    Devo pouco á Natureza,
    E muito a hum brinco innocente;
    Porque elle me faz parente
    Da mais distinta Nobreza.
    Embora esquiva riqueza
    Pretas fortes me não mande;
    Qne importa que ha annos ande
    Sempre a perder nas menores,
    Se nas dos premios maiores
    Me sahio o premio grande.

    _Fazendo annos o Illustrissimo, e Excelentissimo Senhor Marquez de
    Angeja, Tenente General, na occazião em que sahíra Provedor da
    Mizericordia_.

    Que fazem Versos cansados,
    Applaudindo os vossos Annos,
    Se dos nossos Soberanos
    São melhor elogiados?
    Se os trazem sempre empregados
    Em servir a Monarquia,
    Se a Real Secretaria
    Escreve em vosso favor,
    Taes prozas louvão melhor,
    Do que a melhor Poezia.

    Da vossa dexteridade
    Fião coizas encontradas;
    Dão-vos as duas estradas,
    A do Sangue, e da Piedade.
    Vivei pois comprida idade

    Sempre entre Povos amigos;
    Mas se crescerem perigos,
    Cresceráõ as acções nobres;
    E a mão que defende os Pobres,
    Cortará os Inimigos.

    _No dia dos annos do mesmo Senhor_.

    A Minha Muza cansada,
    Perdendo os vôos ligeiros,
    E ao pé de murchos loireiros
    Com razão apozentada,
    Hoje, Senhor, animada
    Do amor, e da gratidão,
    Esquecendo a multidão
    De frios cabellos brancos,
    Vem, forcejando os pés mancos,
    Metter-me a Lyra na mão.

    Gratidão seus passos rege;
    Quer que em limada Poezia
    Venha louvar neste dia
    Quem em todos me protege;
    Nas cordas de oiro, que elege,
    Quer, que invocando as Camenas,
    Eu cante as horas serenas
    Em que o Ceo piedozo, e justo
    Para o lado de hum Augusto
    Me fez nascer hum Mecenas.

    Eu respondi, que a harmonia
    Me fugio co'a mocidade;
    E que a sólida verdade
    Não depende da Poezia;
    Que em proza sempre seguia
    Seu acertado conselho;
    E que em fim Poeta velho
    Por teima querer rimar,
    He o mesmo que ir dançar
    O vosso ginja, Botelho.[23]

    [Nota de rodapá 23: Creado muito velho, tentado com minuetes.]

    _Ao mesmo Senhor em outro dia de annos_.

    Senhor, co'as minhas Poezias
    Festejava os annos teus;
    Porém mandão já os meus,
    Que eu venha co'as mãos vazias;
    Geladas madeixas frias
    Fechão do Parnazo o passo;
    Pois que já o Tempo escaço
    Esfriar meus Versos quiz,
    Quem me acceitou os que fiz,
    Me agradeça os que não faço.

    Mas he da tua Grandeza,
    E a tal dia acção adquada,
    Inda que não trago nada,
    Não perder a Caza, e a meza;
    Por culpas da Natureza
    Não perca os meus ordenados;
    Cubrão teus tectos doirados
    Inutil, mudo Jarrêta;
    Não o merece o Poeta,
    Mas he costume aos Creados.

    _Ao mesmo Senhor em outro dia de annos_.

    Neste venturozo Dia,
    Honrado, e honrador Marquez,
    Sempre eu vim a vossos pés
    Trazer a offerta em Poezia;
    Ante Vós a Lyra erguia
    Humilde, alegre, e casquilho;
    Mas hoje mudando o trilho,
    A bem, Senhor, me levai,
    Que sendo os annos do Pai,
    Dê a Colgadura ao Filho.

    Moço Illustre, eu dou conselhos,
    Filhos de, amor, e verdade;
    Permittida liberdade
    Aos fieis Creados velhos;
    Ouvi: Bons Pais são espelhos;
    Dão doutrinas sem enganos;
    E eu rogo aos Ceos Soberanos,
    Que ao vosso ouvindo as lições,
    Sejão as vosss acções
    O elogio dos seus Annos.

    _Ao Illustrissimo, e Excelentissimo Senhor Marquez de Marialva, com quem
    se tinha encontrado o A. na Caza em que estava o Embaixador de
    Marrocos_.

    Na Quinta da Praia clama,
    Que lhe tireis a Cadeira
    Hum triste, que quarta feira
    Comvosco esteve em Moirama:
    Se a Estrella, que a Vós o chama,
    Não lhe abranda os seus destinos,
    Torna para os Marroquinos;
    Porque, agoiros por agoiros,
    Antes cativo de Moiros,
    Do que Mestre de Meninos.

    _No dia dos Annos de hum Menino_.

    De plumachos emplumado,
    Manso, alegre Cavallinho,
    Ou torneado carrinho
    D'alvos Carneiros puchado,
    Devião marchar ao lado
    Deste papel que remetto;
    Mas mostrando o meu affecto
    Como póde o meu destino,
    Em obzequio de hum Menino,
    Vou dar aos outros Suéto.

    _Na despedida de hum Ministro, que partia levando seus Filhos_.

    A Lei da pura amizade
    Minhas lagrimas condemna;
    Quer que ceda a minha pena
    A' tua felicidade;
    Vai; e em quanto a vil maldade,

    E a intrigante cubiça,
    A baixa inveja, a injustiça
    Pézas na recta balança,
    Conserva de mim lembrança,
    Que he tambem fazer justiça.

    E vós, lindos Innocentes,
    Que nessas tenras idades
    Já sabeis mover saudades
    Nos amigos, nos parentes,
    Quando lhe virdes pendentes
    As balanças da razão,
    Ide internecello então
    Com rizos, com géstos novos;
    Lembrai-lhe, que aquelles Povos,
    Como vós, seus filhos são.

    _A hum Fidalgo, que pedia para o Author hum lugar na Secretaria, na
    occazião em que elle pertendia o seu proprio Despacho_.

    Se vemos rir quem chorava,
    E tantos exemplos temos,
    Senhor, não desesperemos,
    Deos ainda está onde estava:
    Água branda as pedras cava;
    Em tudo o tempo he precizo;
    Saber teimar com juizo
    Tem mil montes aplanado;
    Talvez sejais despachado,
    E talvez que eu lavre o Avizo.

    Ah Senhor, com que alvoroço,
    Na liza banca forrada,
    Eu de cazaca encarnada,
    E fitta preta ao pescoço
    Lançára o despacho vosso,
    Que tanto tempo esqueceo!
    Que grande favor do Ceo,
    Se o meu primeiro exercicio
    Fosse servir-me do Officio
    A favor de quem mo deo!

    _A respeito de hum Padre, que dizia ter sido Mestre de Rhetorica; que
    tomava triaga contra o veneno que ainda lhe havião de dar; que dizia que
    estava eleito Cardeal; e que era demaziadamente trigueiro, se deo este_

    MOTE.

    _Não tem côr de Cardeal_

    Não ajuda ao Padre a cara;
    Revolvo antigos Annaes,
    E vejo que os Cardeaes
    Tinhão a pelle mais clara;
    Será maravilha rara
    Achar hum de côr igual;
    Forão brancos como a cal
    Mazarino, e Alberoni;
    E a não ser este o Negroni,
    Não tem côr de Cardeal.

    _Respondeo em Decimas, ás quaes se fizerão as seguintes_:

    Que venhão fuscos garraios
    Metter em Versos a mão!
    Potente Jove, aonde estão
    Os teus vingadores raios?
    Hum homem de coiros baios
    Segue as Muzas tuas filhas;
    Tu, pois, que os vaidozos trilhas,
    Faze que este, em todo o cazo,
    Saia logo do Parnazo,
    E passe para Cassilhas.

    Se em rhetorico exercicio
    Já soubeste regras dar,
    Tambem eu posso fallar,
    Porque sou do mesmo officio;
    Que o teu cérebro tem vicio,
    He verdade assás notoria;
    Na Poezia, e na Oratoria
    Vaz em total decadencia;
    Collega, tem paciencia,
    Has de vir á palmatoria.

    No teu escuro Papel,
    Aos bons ouvidos ingrato;
    Achei hum vivo retrato
    Da confuzao de Babel;
    A' patria lingua infiel
    Ès da Nação o desdoiro;
    Bem sei que te chego ao coiro;
    Mas não merece passagem,
    Que a batina, e a linguagem
    Ajuntem Clerigo, e Moiro.

    A quem me queira arguir,
    Mostro, Padre, o tal Papel;
    He testemunha fiel,
    Não me deixará mentir;
    Em novos termos urdir
    Mettes a todos n'um canto;
    Que uzas palavras de encanto
    Assentão gentes maxuchas,
    Boas para ajuntar bruchas,
    Ou para tirar quebranto;

    Deixei-me, pois, de criterio,
    E tomei melhor caminho;
    Meu amigo, a hum louquinho
    He loucura fallar serio;
    Chova, pois, o vituperio
    Sobre esse tostado coiro;
    Saia o tal Cardeal Moiro,
    Que o Capinha, alvoroçado,
    Vai, por ordem do Senado,
    Metter garrochas no toiro.

    Fulla escrava Americana
    Já mandava á luz do dia
    Hum Crioilo, que seria
    Nódoa da Curia Romana;
    Carregado de banana,
    Porque no caminho coma,
    O rumo da Europa toma;
    E em terra, marchando á pata,
    Com sacco, e folha de lata,
    Deo a sua entrada em Roma.

    Assim mesmo estropeado,
    E envolvido em grosso panno,
    Foi entre o Povo Romano
    Com mil respeitos tratado;
    Do vento, e do Sol queimado,
    Semblante quebrado, e afflito,
    Tem tal dom na cara escrito,
    Que gritavão de redor,
    Huns, que he o Rei Belxior,
    Outros, que he S. Benedito.

    Tomou a Benção Papal;
    E teve tanto poder,
    Que sem o Papa o saber,
    Ficou feiro Cardeal;
    Voltou para Portugal
    Já Cardeal Protector;
    Achou cá pouco favor;
    E zombão-lhe do Capello,
    Por ter mui crespo o cabello,
    E ser muito bassa a côr.

    Erra o Vulgo os passos seus;
    He hum cego, e maldizente;
    A côr he méro accidente,
    Todos são filhos de Deos.
    Porém para os lucros teus
    O Capello te faz mal;
    No S. João, e Natal
    Terias gôrda guedelha,
    Armado de faca velha,
    Pincel, e pote de cal.

    Padre, vai-te o mundo ao pêllo;
    E c'o a lingua maldizente
    Te vai cortando igualmente
    As Poezias, e o Capello;
    Porém eu, que sou singelo,
    E meus contrarios ameigo,
    Te affirmo, piedozo, e meigo,
    Que se não tens, por teu mal,
    Em Roma o de Cardeal,
    Tens no Parnazo o de Leigo.

    Deves voltar outra vez,
    E dizem que nisso fallas;
    Mas pégão-se pelas sallas
    Teus molles tardîos pés.
    Se ajuda de custo vês,[24]
    Fazes-te côxo, e ronceiro;
    Meu Padre, és muito matreiro,
    Já todos estão de acôrdo;
    E sem te verem a bórdo,
    Não pões a mão no dinheiro.

    [Nota de rodapé 24: Pedia huma ajuda de custo.]

    Tua saude se estraga,
    Mas teu Medico condemno;
    Meu amigo, o teu veneno
    Não se cura com triaga;
    Para a tua antiga chaga
    Medicina impropria he esta;
    Muda, pois vês que não presta;
    Grita c'os olhos em braza,
    Que te fechem n'uma caza,
    E que te sangrem na testa.

    De balde em Lisboa gritas,
    Attestando a Italia inteira,
    Que regeste huma Cadeira
    Nos Claustros dos Jezuitas;
    As obras que vejo escritas
    Provão que nos tens mentido;
    Até das Ordens duvido,
    Quando as tem cabeças tontas;
    Tu, cá pelas minhas contas,
    Ès hum mulato fugido.

    Foge outra vez, se tal és,
    Qual foge apupado mono;
    Antes que venha teu dono,
    E te ponha nas Galés;
    Antes que enfeite teus pés
    Legal, sonóro fuzil;
    Não veja o patrio Brazil,
    Que os hombros do filho bello,
    Vindo buscar hum Capello,
    Só achárão hum barril.

    Dizem todos, que és fingido,
    Que ninguem louco te chame;
    Por mais que eu lhe jure, e clame,
    Que és mesmo doido varrido;
    Dizem que estás conhecido,
    E que o fazes por estudo;
    Em tal cazo prompto acudo,
    E de outro lado te ataco;
    Se não és doido, és velhaco,
    E talvez que sejas tudo.

    Mas já quem póde me ordena,
    Que armas ponhamos em terra;
    Apôs sanguinoza guerra,
    Alce a frente a Paz serena;
    Sobre essa pelle morena
    Em paz teu Capello ajusta;
    Assento que he coiza justa
    Seguires methodo novo,
    E não dares gosto ao Povo,
    Que quer rir á tua custa.

    Não te finge falso agrado
    Meu semblante contrafeito;
    Não encobre honrado peito
    Coração refalseado;
    Se me julgas disfarçado,
    Alta injustiça me fazes;
    Eu te juro eternas pazes;
    E se falto aos votos meus,
    Ah Padre, permitta Deos
    Que eu sempre ensine rapazes.

    E tu, que sem estes sustos
    Vives cheio de alegrias,
    Serenos, doirados dias,
    Aos pés de teus Reis Augustos;
    Tu, que por titulos justos
    Te chamas o novo Horacio,
    Quando entrares em Palacio
    Conserva de mim lembranças,
    Porque tenho as esperanças
    Postas em ti, e no _Estacio_.[25]

    [Nota de rodapé 25: Bobo célebre.]

    MOTE.

    _Hum suspiro de repente,
    Hum certo mudar de côr,
    São evidentes sinaes
    De que o peito occulta amor_.

    GLOZA.

    Debalde as penas, e os gostos
    Disfarçais, loucos Amantes,
    Se os attentos circumstantes
    Tem em vós os olhos postos;
    De que servem falsos rostos,
    Se o coração desmente
    N'um instante infelizmente
    Sabe perdido o longo estudo,
    Pois vem destruir-vos tudo
    Hum suspiro de repente.

    Nada faz cautella, ou medo
    N'alma que devéras ama;
    Esta turbulenta chamma
    Não sabe arder em segredo;
    Sobe ao rosto, ou tarde, ou sedo,
    Do escondido fogo o ardor;
    Basta a declarar a dor,
    Vãmente n'alma guardada,
    Huma palavra truncada,
    Hum certo mudar de côr.

    Duro amor, que coração
    Saberá nunca occultar-te?
    Que vai fazer força, ou arte,
    Onde as tuas settas vão?
    Cegos Amantes, em vão
    O vivo fogo abafais;
    Esses descuidados ais,
    Que sem tino ao vento dáveis,
    São provas incontestaveis,
    São evidentes sinais.

    De que serve estar fallando
    Sizudos, e comedidos,
    Se esses olhos insoffridos
    Vos estão sempre entregando?
    Alçados de quando em quando
    Vão dizendo a occulta dôr;
    Abaixallos, he peior;
    Que essas vistas contrafeitas
    Dão ás vezes mais suspeitas,
    De que o peito occulta amor.

    _Mandando huma gallinha a huma Pretinha bonita, que gostava de brincar
    com ellas_.

    As tuas fulas mãoszinhas,
    Que a fome já não descarna,
    E que de crearem sarna
    Passão a crear gallinhas;
    Acceitem creações minhas,
    Que eu a outros fins guardava;
    Senhora com côr de escrava,
    Alta estrella, que em ti brilha,
    Manda que se dê á Filha
    Aquillo que o Pai furtava.

    CANTIGAS

    _Feitas nas caldas com o Estribilho_.

    _Olhos meus, cansados olhos,
    O vosso officio he chorar_.

    Nas Caldas, nas tristes Caldas
    Alegria vim buscar;
    Quiz de noíte ver o Sol,
    Quiz achar fogo no mar.
    _Olhos meus, etc._

    Que importa mudar de terra,
    E baldados passos dar,
    Se a toda a parte a que os volto
    Vai comigo o meu pezar.
    _Olhos meus, etc._

    Vejo pálidos doentes
    Pela Copa passear,
    Oiço de antigas molestias
    Tristes effeitos contar.
    _Olhos meus, etc._

    Vejo nas férvidas aguas
    Mirrados corpos banhar,
    E de balde aos surdos Ceos
    Convulsos braços alçar.
    _Olhos meus, etc._

    Vejo de perdido pranto
    Tristes ais acompanhar,
    Com as lagrimas alhêas
    Vou as minhas misturar.
    _Olhos meus, etc._

    Que importa ver Ninfas bellas,
    Se accrescentão meu pezar?
    Gostão de attrahir os olhos,
    E as almas tyrannlzar.
    _Olhos meus, etc._

    Ao som de feridas cordas
    Dão doces vozes ao ar,
    Quaes enganozas Serêas,
    Que cantão para matar.
    _Olhos meus, etc._

    Se o meu pobre coração
    Se deixa huma vez tocar,
    Com escarneos, com rizadas,
    Meu pranto vejo pagar.
    _Olhos meus, etc._

    Fartai-vos, pois, olhos meus
    De lagrimas derramar;
    Vós nascestes para tristes,
    E escolhestes o lugar.
    _Olhos meus, etc._

    _A hum Leigo, que era vesgo, e que nunca teve fastio; e a quem por acazo
    tocou na cabeça a ponta de hum espadim_.

    Ferio sacrilega espada,
    Alçada por mão traidora,
    Cabeça, que sempre fôra
    Té aos Barbeiros vedada;
    D'entre a grenha profanada
    Corre o sangue á terra dura;
    Tosquiou-se a matadura;
    E o casco rebelde a ordens,
    Precizou destas desordens
    Para ter Prima Tonsura.

    Feroz Soldado imprudente,
    Que nova espada esgrimio,
    Foi o ímpio que ferio
    Esta victima innocente;
    A quem do golpe insolente
    O motivo lhe procura,
    Diz que fez compra segura;
    Pois duvidozo na escolha,
    Quiz ver que tal era a folha,
    Cortando por coiza dura.

    Homem de tenção damnada,
    Só tu conseguiste o fim
    De entrar o teu espadim
    Aonde não entra nada;
    Da repentina estocada
    Cahe o Padre desmaiado;
    Mas quando recuperado
    A ti os olhos volveo,
    Sabes o que te valeo?
    Foi teres já almoçado.

    Todo o Mundo te pragueja,
    Porque em detestavel guerra
    Hias deitando por terra
    Esta columna da Igreja;
    Mas se triunfaste a inveja,
    E o Padre morresse então,
    Dize, ó ímpío coração,
    Que tanto em furor te atiças,
    Quem ajudaria ás Missas?
    Quem tocaria ao Sermão?

    Quem nos daria a certeza
    De haver outro homem sizudo,
    Que pudesse comer tudo
    Ouanto se puzer na meza?
    Da próvida Natureza
    Quem havia as Leis seguir!
    Observante em digerir
    Qual outro havia saber
    Depois de acordar, comer,
    Depois de comer, dormir!

    Que importa, ó cruel Soldado,
    Para desculpar teu erro
    Ter sido o teu ímpio ferro
    Já pela Patria arrancado?
    Que importa que em campo armado
    Junto a si Lippe te veja,
    Que importa que o Mundo seja
    Das tuas acções o abono,
    Se a mão que defende o Throno,
    Ataca depois a Igreja?

    E tu, que segues os trilhos,
    Que S. Francisco te fez,
    E pões os teus gordos pés
    Sobre os seus santos ladrilhos;
    Pois que a seus devotos filhos
    Guarda no Ceo largas pagas,
    Nos olhos he bem que o tragas,
    E de modélo não mudes;
    E pois não he nas virtudes,
    Que o seja ao menos nas chagas.

    _Estando o A. doente, e mandando pedir algum prato á meza, aonde jantava
    o sobredito Leigo_.

    Hum estomago cansado,
    De cuja antiga ruina
    Tem sido cauzas iguaes
    A molestia, e a Medicina;

    Que tendo em si dos tres Reinos
    As perigozas heranças,
    Só não bebeo das Boticas
    Os S. Migueis, e as balanças;

    Hum estomago sem forcas,
    E ás leis geraes ínfiel,
    Que não trabalha em diamante,
    Como o de Fr. Manoel;

    Que não tem, como este Padre,
    Tanta fome obediente;
    E olha já para a gallinha
    Como elle olha para a gente;

    Para emendar semrazões,
    Que faz Arte, e Natureza,
    Vai, fugido das Boticas,
    Acoitar-se á vossa meza;

    Mil vezes por outra cauza
    Teve a honra de bussalla;
    Indo então por matar fome,
    Vai hoje por despertalla;

    Perdiz, ou branda vitella,
    São deste remedio o nome;
    Da vossa esplendida meza
    Seja elogio huma fome;

    E porque o Padre o não saiba,
    Será a melhor cautella,
    Mandar tirar a iguaria
    Quando elle olhar para ella.

    _Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez, de Ponte de Lima,
    Ministro de Estado, pedindo-lhe o A. licença para ir ao remedio de
    banhos, na occazião em que o mesmo Senhor se tinha encarregado de lhe
    promever a mercê de se imprimirem as suas Obras na Officina Regia_.

    CARTA.

    Senhor, entreguei meu livro;
    Foi esse filho mesquinho
    Co'a esteril benção do Pai
    Lançar-se aos pés do Padrinho;

    Dei-lhe em dote inuteis rimas,
    Dei-lhe vazio thezoiro;
    Mas vossas mãos milagrozas
    Convertem nadas em oiro;

    Do mal fadado Parnazo
    Quebrareis o injusto encanto;
    Nem sempre seus verdes loiros
    Serão regados com pranto;

    Impertinentes crédores
    Largar-me-hão em fim a rua;
    O meu cégo abrindo a bocca
    Lhes ha de fechar a sua;

    Até apertados genios
    Sem vontade comprarão;
    Farão focinho á Poezia,
    E obzequios á Protecçao;

    Mas, Senhor, de livro basta;
    He ínsulto ás mãos em que anda
    Passar de ser o meu livro
    A ser a minha demanda;

    Foi esse meu rogo ouvido;
    Deixai que para outro mude;
    Tem objecto inda mais alto,
    He mais do que oiro, he saude;

    Contra o mal que me tem feito
    Raivozos Caniculares
    Me off-rece a fresca Ericeira
    Seus claros, sádios mares;

    Sei que nestas ondas bravas
    O banho hum risco teria;
    Posso começallo alli,
    E ir acaballo á Bahia;

    Bramindo na vasta praia
    Enrolada vaga forte,
    Dentro do pérfido seio
    Me traz a saûde, e a morte;

    Mas com protector penedo,
    E cauto Marujo amigo,
    O impune, tónico susto,
    Tórna em remedio o perigo;

    Falta só licença vossa,
    E juro, Senhor, que vem;
    Como podeis Vós negalla,
    Se sabeis que ella he hum bem?

    He o Pindo o meu thezoiro,
    O Oceâno he meu Jordão;
    D'ambos recebo mil bens,
    Mas todos por vossa mão;

    Eu a beijo; ella receba
    Gratidão devida, e pura
    Em tributo que lhe paga
    O Creado, e a Creatura.[26]

    [Nota de rodapé 26: Tinha nomeado o A. Official da Secretaria.]

    _Ao Excellentissimo Senhor D. Lourenço de Lima, tendo promettido ao A.
    que quando chegasse das Caldas, havia lembrar a mercê de se imprimirem
    estas Obras_.

    CARTA.

    Ora do cume dos Montes,
    Ora em suas verdes fraldas,
    Hia estender os meus olhos
    Na longa estrada das Caldas;

    Sobre escumozos cavallos
    Trotando empoada sege,
    Disse quem fez os meus versos
    =Ahi vem quem os protege;=

    Alçando-me, hia a dizer-vos
    =Senhor, chegou o meu prazo;
    Honrastes hoje outros Montes,
    Honrai agora o Parnazo;

    Promettestes fazer ferteis
    Seus estereis Mirto, e Loiro;
    Promettestes que a Hypocrene
    Levaria arêas de oiro;

    Sua clara, inutil vêa
    Réga chão, que não se lavra;
    Vinde fazello fecundo,
    Vinde cumprir-me a palavra.=

    Mas, Senhor, não éreis Vós;
    Era hum Casquilho, e do Povo;
    Tornei a pegar nas Contas,
    Tomei a esperar de novo;

    Mil votos ao Céo mandava
    Este humilde orador fraco,
    Que vos não vissem Carreiros,[27]
    Nem os ladrões do Tabaco;[28]

    [Nota de rodapé 27: Allude ás Decimas da Enchára.]

    [Nota de rodapé 28: Furto célebre feito naquella estrada.]

    Então carrancuda Noite
    Me enxotou co'as negras azas;
    E em honra dos taes Amigos
    Vim como Gato por brazas;

    Sei, em fim, que já chegastes
    Chamou por Vós minha dôr,
    Venha o Illustre Conselheiro
    Honrar-se em Procurador;

    Fazer bem, he mór grandeza;
    Deo-vos, tambem esta, o Pai;
    Vós ambos d'entre os meus loiros
    Cruas silvas arrancai;

    Com piedoza Geografia
    As Paternas mãos benignas,
    Emendando ingratos Mappas,
    Ponhão o Pindo nas Minas;

    O Impressor gosta de Versos;
    Quer que os meus públicos andem;
    Mas he hum tanto acanhado,
    Não imprime sem que o mandem;

    Elle perdoa o contagio;
    Pegai-lhe a minha doença;
    Só deixarei de gemer
    Em gemendo a sua Imprensa;

    Assigne, pois, meu Avizo,
    Pia, obedecida mão;
    Mas não cuideis que com isso
    Dais férias á protecção;

    O mais ávido Leitor,
    Das Quintilhas pregoeiro,
    Ha de achallas insoffriveis
    Em lhe custando dinheiro;

    E só em nojoza Tenda
    De Braguez Chatim mesquinho
    Terão sahida os meus Versos,
    Embrulhando o seu toicinho;

    Só rapazes acharão
    Minha Muza doce, e meiga;
    Não porque tenha Poezia,
    Mas porque teve manteiga;

    Mettei, pois, Senhor, em brios
    Ricos peitos avarentos;
    Dizei, que comprem partidas,
    Que he honra honrar os talentos;

    Que serão, comigo, eternos
    Se me evitarem o mal
    De ir ao Templo da Memoria
    Pela porta do Hospital;

    E então da escondida burra
    Ouvirá a surda aldraba
    Não as vozes da Poezia,
    Mas a voz de quem lha gaba;

    Indo abrindo, juraráõ
    A duas Artes odio, e medo;
    A' da Guerra, em alta voz;
    A' da Poezia, em segredo.

    Entretanto ao digno Pai
    Pedi que me faça Author;
    Sejão públicos no Mundo
    Meus versos, e o seu favor;

    De Limas na honroza historia
    Não serão titulos falsos
    Fazer que as augustas Artes
    Não marchem cos'pés descalços;

    E Vós, firme Protector,
    Fazei que por taes favores
    Vamos beijar-vos a Mão,
    Eu, e os meus dois mil Credores.

    _Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde dos Arcos, sobre o
    mesmo assumpto_.

    CARTA.

    Bateu aos vossos Portaes
    Hum morador do outro Pólo;[29]
    Veio ao Templo de Minerva
    Dar hum recado de Apollo;

    [Nota de rodapé 29: Morava muito distante.]

    Vós sois dos seus obrigados,
    Bebeis seu licôr divino;
    Manda que lembreis na Roza[30]
    O esquecido Tolentino;

    [Nota de rodapé 30: Sitio, aonde morava o Ministro de Estado respectivo.]

    Sei que alli meu pobre livro
    Altos Protectores tem;
    Mas agora só se falla
    Nesta magica _Dutein_;[31]

    [Nota de rodapé 31: Dançarina célebre.]

    Apollo não troca as Artes;
    Mas vendo a Artifice, infia;
    Recêa que com taes braços
    A Dança affaste a Poezia;

    Tambem sois réo; mas bem póde
    A Mágia dos passos seus
    Encantar os vossos olhos,
    Sem fazer chorar os meus.

    _Ao Excellentissimo Senhor D. Fernando de Lima, sobre o mesmo assumpto_.

    CARTA.

    Forte co'a vossa promessa
    Dura voz se vai alçar;
    Não vem como das mais vezes,
    Não vem pedir, vem ralhar;

    Não he de esteril rabugem
    Raiva inutil, que em mim lavra;
    Venho brigar, e vencer-vos,
    Minha arma he vossa palavra;

    São Leis os priscos rifões;
    Na mão a Lei me mettestes;
    Sei que a ricos não deveis,
    Mas a pobre promettestes;

    Promettestes, que huma Imprensa
    Faria hum faminto farto;
    Meu livro, e as vossas promessas
    Inda estão no vosso Quarto;

    Sei que a vossa Illustre Caza
    He das que honrão Portugal;
    Mas eu quero outra melhor,
    Quero a Caza Manescal;[32]

    [Nota de rodapé 32: Administrador da Imprensa Regia.]

    Reis de Hespanha a vossa honrárão,
    E eu espero o mesmo delle;
    Fizerão-vos _Ricos Homens_,
    O mesmo me fará elle;

    Vós sois Protector das Artes,
    E dahi meu mal viria;
    Talvez que pela da Dança
    Vos esqueça a da _Poezia_;

    Por _Dutein_ esquece tudo;
    Estes grupos tão gabados,
    Não digo que são os vossos,
    Porém são os meus peccados;

    As tres Graças a fadárão,
    Mas seus dons funestos são;
    Tira ás Deozas a maçã,[33]
    E a hum triste Poeta o pão;

    [Nota de rodapé 33: Fazia a figura de Venus na Pantomima, em que se
    reprezentava a fabula de Páris, julgando-lhe o pomo de oiro, destinado á
    mais formoza.]

    Se a vosso Pai vou queixar-me,
    Juro que acceita a querella;
    Juro, que vos quer os olhos
    Antes em mim, do que nella;

    Mas, Senhor, deixando graças
    De poetica licença,
    Este brinco quer dizer
    Que apresseis a tal Imprensa;

    Até por curiozidade
    Forjai-me este mialheiro;
    Só para vermos que effeito
    Faz em mim o ter dinheiro;

    Talvez que altiva luneta
    Nos piscos olhos traidores
    Não conheça huns tantos homens,
    Principalmente os Crédores;

    Talvez que o novel Gallego,
    Que soltas bragas trazia,
    Entaipado em pantalonas
    Dê ao Amo senhoria;

    Talvez que inventando heranças
    Bisneto de grão Senhor,
    A falso espectro agradeça
    O que devo ao Protector;

    Senhor, se o oiro tal póde;
    Levantai da empreza a mão;
    Antes réo do meu tendeiro,
    Do que réo de ingratidão

    Mas inda agora he que eu vejo,
    Quanto me fui desmentindo;
    Disse que vinha ralhar,
    Por fim acho-me pedindo;

    Não pude acabar a farça;
    Costume custa a vencer;
    Comvosco a minha linguagem
    He pedir, e agradecer.

    _A' Illustrissima, e Excelentissima Senhora Dona Catharina Micaella de
    Souza, tendo o Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Luiz Pinto de
    Souza expedido Avizo para se imprimirem as Obras do Author na Officina
    Regia_.

    CARTA.

    Senhora, Apollo bem sabe
    Que sois digna companhia
    De quem em doirados annos
    Lhe honrava a doce Poezia;

    Inda de viçozo loiro
    Lhe guarda a verde coroa;
    Fez-lhe falta em sua Corte,
    Mas a bem de outra o perdoa;

    Manda, pois lhe estais ao lado,
    Canteis polidos louvores
    A quem em honra ao Parnazo
    Fez versos, e faz favores;

    Vio o prazer generozo
    Com que acabou a tenção,
    Que crua Parca arrancára
    De outra bemfeitora Mão;[34]

    [Nota de rodapé 34: O Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de
    Ponte de Lima, Ministro de Estado, tinha obtido a mercê de se imprimirem
    estes Versos a beneficio do A. cujo Avizo não chegou a assignar por seu
    repentino falecimento.]

    Vio, que apressou seus negocios
    Perante quem todos rege;
    E que amigo do seu Monte,
    Ora o sóbe, ora o protege;

    Grato ao grande beneficio
    Vos envia o estilo, e a lyra;
    Manda-vos cantar-lhe os hymnos,
    Que lhe traja, e vos inspira;

    Diz que esta empreza vos toca,
    E que não admitte escuzas;
    Que favor feito ao Parnazo
    Hão de agradecello as Muzas;

    Pulsai a lyra, enfreai
    Bravos ventos rugidores;
    Cantai agradecimentos
    A quem cantastes amores;

    Em má honra a longas cans
    Desta empreza escuzo fico;
    Fechou-me Apollo a sua Arte,
    E quer que aprenda a de rico;

    Dura, enganoza sciencia!
    Incómmoda, tumultuaria!
    Muito mais a quem andou
    Sempre na escóla contraria;

    Já em socegado somno
    Não vejo doces ficções;
    Inda a obra está na Imprensa
    E já sonho com ladrões;

    Sonho, que escalada a porta,
    Medonhas caras sem dó,
    Vem furtar a Tolentino
    O que elle furta a _Boileau_;

    Co'esse metal turbulento
    Já d'antemão me malquisto;
    Que me não fará a posse,
    Se a esperança já faz isto?

    Sei quem poz a ultima força
    Ao punhal, de que me dôo;
    Mas, em fim, nada de raivas,
    Dizei-lhe que eu lhe perdôo;

    E que he tal nesta virtude
    Meu conforme coração,
    Que não só perdoo o mal,
    Mas beijo por elle a Mão.

    _Offerecendo alguns dos Versos, que vão neste Livro ao lllustrissimo,
    Excellentissimo Senhor Marquez de Angeja, Ministro de Estado, perante o
    qual se pertendeo desabonar a Poezia, e os Poetas_.

    ILL.^MO E EXC.^MO SENHOR.

    V. Excellencia se digne de não julgar atrevimento ir eu aprezentar hum
    Livro de inuteis Versos naquellas mesmas mãos, em que se apresentão
    Papeis, que decidem dos interesses do Estado, e dos destinos dos homens.
    A Poezia, Senhor, só he odioza a quem nella não he instruido. V.
    Excellencia sabe a origem, e os progressos desta Arte divina; sabe que
    de seu berço foi consagrada ao uzo da Religião, e da Politica; que por
    meio della o homem natural, que nutria vagamente entre fragas, e
    penedîas hum coração tão contrario ao do homem civil, conheceo a
    humanidade, e tomou sobre seus hombros o jugo da Razão, e da Justiça.

    Que os primeiros Legisladores escrevião as Leis em verso, para que a
    harmonia lhes aplanasse, ou encubrisse aquelles passos escabrozos, que
    ferem, e revoltão a nossa natureza, sempre amiga da liberdade; que os
    Filosofos, e Sacerdotes do Egypto ensinavão em Poezia os seus Dogmas;
    que os bons tempos dos Gregos, modélo dos Seculos de Augusto, e de Luiz
    XIV, ao mesmo passo que se alargavão os limites do seu Imperio, vírão
    levadas á ultima perfeição, de que são capazes as obras dos homens, a
    Lirica, a Epica, e a Poezia de theatro.

    V. Excellencia sabe, que os Poetas de Augusto, mais do que as Victorias
    de Farsalia, fizerão chamar-se o seu seculo, o seculo de Oiro: que a
    passagem do Rheno, e a conquista da Hollanda jazerião no esquecimento,
    com o nome de Luiz XIV, se Corneille, e os que o seguírão, não mandassem
    ás extremidades do Mundo a fama de suas Victorias; que ainda hoje a
    França conta, com prazer, entre as acções daquelle Monarca, a protecção,
    e acolhimento, que achárão ante elle as Artes, principalmente a da
    Poezia; e que as ultimas palavras do grande Corneille moribundo, forão
    agradecimentos ás liberalidades de Luiz XIV.

    V. Excellencia sabe, que a Augusta Theologia da Escritura nos instrue
    muitas vezes dos Attributos de Deos por imagens inteiramente poeticas;
    que os Profetas, unindo maravilhosamente o simples ao sublime, fallão da
    existencia, e da Omnipotencia de Deos, com a locução, e com as figuras
    da mais alta Poezia.

    Mas, SENHOR, eu insensivelmente vou fazendo de huma Dedicatoria huma
    Dissertação. V. Excellencia se digne attribuir este erro de methodo á
    desordem de animo, em que me põe a ingrata sem-razão de ver os Poetas
    desfavorecidos de alguns homens, talvez sem mais crime, que serem
    favorecidos das Muzas.

    V. Excellencia, em cuja alma raia a razão illustrada, limpa das sombras
    do abuzo, não faz cahir sobre o Poeta os defeitos, que são do homem: a
    inconstancia de genio, o desconcerto das acções, a filozofia mal
    entendida, que caminha a passo cheio á devassidão de costumes, são os
    crimes de que o vulgo errado accuza indifferentemente todos os Poetas;
    mas se vemos que estas más qualidades brotão no coração de tantos
    homens, que não são Poetas, para que hão de elles sós levar o ferrete,
    que a Natureza corrupta põe indistinctamente sobre todos os que não
    deixão guiar-se da Religião, e da honra? Sempre houve Poetas, bem, e mal
    morigerados, assim como o resto dos outros homens: e porque lei barbara
    ha de pagar a Poezia as fraquezas da humanidade? Porque falsa Logica
    havemos inferir, que o commercio das Muzas, a suave lição dos Antigos,
    em que vemos pintada a Natureza, e explicada docemente a boa filozofia,
    ha de affogar no coração do Poeta as virtudes, que a índole, ou a
    educação talvez alli plantárão?

    V. Excellencia julga mais rectamente; sabe, que em todos os ramos da
    vida Christã, e Civil tem havido Poetas, que hum talento não exclue os
    outros; que Richilieu fazia Versos, e foi grande Ministro; que entre os
    Poetas, como entre todos os mais homens, huns são venturozos, outros
    desgraçados; huns chamados aos grandes Empregos, ontros inteiramente
    esquecidos; que se houve hum Camões, e hum Bernardes, cuja memoria
    posthuma foi a unica paga do seu merecimento; tambem, houve hum Sá e
    Menezes levantado a Camareiro Mór dos Senhores Reis D. João o III, e D.
    Sebastião; hum Pedro de Andrade Caminha, Camareiro Mór do Infante D.
    Duarte; hum Garcia de Rezende muito estimado do Senhor D. João o II;
    hum Sá de Miranda feito Commendador pelo Senhor D. João o III; e para
    não fazer hum catalogo quazi infinito, houve o grande Ferreira, e
    Gabriel Pereira de Castro, os quaes, cada hum no gosto do seu Seculo,
    misturando Bartholo, e Accureio com Homero, e com Virgilio, forão tão
    estimados pelos Versos, que fazião no seu gabinete, como pelas Sentenças
    que lançárão nos diversos Tribunaes a que forão promovidos.

    O conhecimento da Historia Portugueza, huma das lições, que recreão o
    espirito de V. Excellencia, talvez concorra junto com o gosto, que tem
    pelas Artes, a que, seguindo o exemplo de tantos Reis, se não despreze
    de ouvir os Poetas: eu sou huma prova viva de que V. Excellencia os
    ouve, e os protege: nos tempos da antiga Roma Augusto fazia o mesmo, nos
    tempos da moderna, lemos, que Benedicto XIV. não se envergonhou de fazer
    a apologia aos Versos de hum Poeta Francez com aquella mesma mão, de que
    pendião as Chaves do Ceo.

    Esta justiça, e bom acolhimento, que V. Excellencia faz á Poezia, foi
    quem me esforçou a pôr nas respeitaveis mãos de V. Excellencia hum Livro
    de Versos; o terem alguns agradado a V. Excellencia, faz o seu unico
    merecimento: hum tal voto fez com que eu julgasse bem delles, e os
    levantasse á grande honra de serem offerecidos a V. Excellencia. Não me
    acovardão alguns assumptos joviaes, que nelles trato; V. Excellencia
    sabe, que se a Tragedia castiga os costumes pelos grandes afectos da
    compaixão, e do terror, tambem a Sátyra os castiga pelo meio do rizo; e
    este trabalho de minha penna, com que eu entretinha os meus cançados
    dias, passará a ser o mais feliz, se tiver a fortuna de divertir alguns
    instantes a V. Excellencia, para que com mais força torne depois a
    metter mão nos importantes Negocios, de que os Reis, prevenindo os
    dezejos do Público, se dignárão encarregar a V. Excellencia: isto
    dezeja, Senhor

    DE V. Excellencia

    O Criado mais humilde, e mais venerador.

    _Ao mesmo Senhor no dia dos seus Annos_.

    ILL.^MO E EXC.^MO SENHOR.

    Os louvores nem sempre são filhos da lizonja, nem sempre são a linguagem
    baixa, em que os infelices fazem o seu commercio com os Poderozos;
    quando assentão em merecimento sólido, são huma paga devida ás Virtudes;
    o Ceo as dá; os Reis devem-lhe os premios; os outros homens os louvores.

    Hoje, Ill.^mo e Exc.^mo Senhor, nos apontão os Fastos de Portugal o
    feliz Nascimento de V. Excellencia; o costume consagra com Elogios estes
    dias solemnes; a Patria recompensa assim os Annos, que a ella se derão;
    e se em hum dia destinado aos obsequios, eu fosse hum méro espectador,
    hum assistente ociozo, o silencio, tantas vezes virtude, seria agora hum
    crime, seria huma prova da minha ingratidão.

    A força do agradecimento, e a abundancia, da materia me porião na boca
    huma torrente de louvores; mas V. Excellencia põe tanto cuidado em
    merecellos, como em não querer ouvillos; temo a sua modestia; e huma
    virtude de V. Excellencia me não deixa fallar-lhe nas outras; porém ao
    menos seja-me permittido, que a minha alma se encha de complacencia,
    lembrando-se de que tres Reis elogiárão a V. Excellencia, chamando-o a
    grandes coizas; não quizerão que estes talentos jazessem debaixo da
    terra; sobre ella, e sobre os mares os fizerão luzir.

    Na flor dos annos, quando as paixões, os exemplos, a natureza abrem
    guerra viva ao coração do homem, então vio a severa Magestade do Senhor
    Rei D. João o V, que V. Excellencia tão moço nos annos, era já ancião
    no conselho, e nos costumes, queria o seu voto nos Tribunaes, e o seu
    braço nas Armadas, negros ventos, mares cavados, ferro, sangue, erão os
    leitos brandos, em que V. Excellencia hia descançar das honrozas fadigas
    da terra.

    Que direi do Augusto, Piedozo, e ainda de fresco banhado das nossas
    lagrimas, o Senhor Rei D. Jozé o I.? O merecimento, junto com a
    semelhança dos genios, e de idades, puzerão sempre a V. Excellencia ao
    lado daquelle Monarca; mandou-lhe que acceitasse novos, e importantes
    Empregos; recebeo mil provas do seu poder, e da sua familiaridade, e
    entre ellas aquella, que V. Excellencia não disse, mas que todos sabem;
    aquella de que V. Excellencia nunca poderá lembrar-se sem dôr, e sem
    gloria.

    Os Benignos, e Amaveis Soberanos, que vemos sobre o Throno, puzerão o
    Sêllo na Obra, que seus Augustos Predecessores tinhão começado;
    encarregárão a V. Excellencia dos mais importantes Negocios do Estado: a
    madureza nos conselhos, o sevéro espirito de inteireza, os Reis, a Lei,
    a utilidade pública, são os objectos, que vírão sempre na frente dos
    cuidados de V. Excellencia.

    Mas, Senhor, eu vou abuzando da bondade, com que V. Excellencia se digna
    ouvir-me: eu converto a minha falla ao Throno do Todo-poderozo, que tem
    na sua mão as vidas, e os successos dos homens; alli peço ardentemente,
    que dilate, que prospére tão bem cultivados annos; que conserve em V.
    Excellencia o bom Pai, o Vassallo zelozo, o grande Ministro.

    Vós, Illustres Mortos, antigos Instituidores da Caza de Angeja, que
    trouxestes no peito o Sangue de dois Reis, não peçais conta delle;
    descançai em paz nos frios moimentos, cheios de Victorias, cheios de
    Serviços, que pagárão Deos, e os Reis por quem se fizerão. O vosso
    Herdeiro he digno de Vós; caminha sobre as vossas pizadas; herdou os
    vossos Titulos, e as vossas Virtudes.

    E Vós, Moços Illustres, seus dignos Filhos, cujos costumes, frutos do
    exemplo, são alto elogio da mão, que vos educa, já os Reis vos chamão;
    querem nos Filhos perpetuar o Pai. Os largos, e felices annos, que o Ceo
    lhe concederá de vida, serão a vossa escola. Servi os Reis, e a Patria;
    sacrificai-lhe os vossos annos, e as vossas fadigas; sede affaveis,
    justos, inteiros; sede como elle.

    FIM.

    INDICE

    Do que contém este II. Tomo.

    QUINTILHAS.

    _Ao Excellentissimo Senhor Conde de S. Lourenço_.
    _Ao Excellentissimo Senhor Marquez de Lavradio_.

    QUARTETOS.

    _A' Excelentissima Senhora Condeça de Tarouca_.
    _No dia dos Annos da Excellentissima Senhora D. Maria de Noronha_.
    _A' Excellentissima Senhora Marqueza de Alegrete, nascendo-lhe huma
    filha_.
    _Na occasião em que o A. hia ver o Varatojo_.
    _Resposta a huma Carta, que em boa Poezia citava ao A. por huns Versos,
    que tinha promettido_.
    _Offerecendo hum Perum em huma caza, aonde todos os Domingos davão ao A.
    este prato_.
    _A huma Preta, que pertendia que a obzequiassem_.

    CARTAS.

    _A hum Amigo, louvando-lhe o estado de cazado_.
    _Ao Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde D. Jozé de Noronha, hoje
    Marquez de Angeja_.
    _Ao mesmo Senhor, no dia dos seus Annos, estando o A. doente_.
    _Tendo mandado huma Senhora ao A. Vinho da Madeira com huma Carta em boa
    Poezia_.
    _Desculpando-se o A. de não ir a huns Annos_.
    _Aconselhando hum Cabelleireiro, que não continuasse a fazer versos_ .
    _Pedindo-se ao A. huma Gloza_.
    _Agradecendo o A. alguns pratos, que lhe despertárão a vontade de comer_.
    _Sobre o mesmo Assumpto_.
    _Ao Senhor Dezembargador Sebastião Antonio Sobral_.
    _A huma Senhora, que em bons Versos pedio ao A. a Sátyra do Velho_.
    _Ao Senhor Deputado Domingos Pires Monteiro Bandeira_.
    _A hum Camarista_.

    DECIMAS.

    _A' Excellentissima Senhora D. Catharina Micaella de Souza, tendo feito
    a honra ao A. de lhe offerecer huma Vestia de Setim_.
    _Ao Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde, hoje Marquez de Angeja_.
    _No dia dos Annos do mesmo Senhor_.
    _Sahindo por sortes Compadre de huma Senhora da primeira Grandeza_.
    _Fazendo Annos o Excellentissimo Senhor Marquez de Angeja_.
    _Ao mesmo Senhor_.
    _Ao mesmo Senhor_.
    _Ao mesmo Senhor_.
    _Ao Excellentissimo Senhor Marquez de Marialva_.
    _No dia dos Annos de hum Menino_.
    _Na despedida de hum Ministro, que partia levando seus filhos_.
    _A hum Fidalgo, que pedia para o A. hum lugar na Secretaria, na occazião
    em que elle pertendia o seu proprio despacho_.
    _A hum Padre, que dizia ter sido Mestre de Rhetorica, e estava eleito
    Cardeal_.
    _Mote: Hum suspiro de repente_.
    _Mandando huma galinha a huma Pretinha bonita_.
    _Cantigas feitas nas Caldas_.
    _A hum Leigo, que era vesgo_.
    _Estando o A. doente, e mandando pedir algum prato á meza, onde jantava
    o sobredito Leigo_.
    _Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Ponte de Lima,
    Ministro de Estado, pedindo-lhe o A. licença para ir ao remedio de
    banhos_.
    _Ao Excellentissimo Senhor D. Lourenço de Lima_.
    _Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde dos Arcos, sobre o
    mesmo assumpto_.
    _Ao Excellentissimo Senhor D. Fernando de Lima_.
    _A' Illustrissima, e Excellentissima Senhora Dona Catharina Micaela de
    Souza, tendo o Illustrissimo, e Excelentissimo Senhor Luiz Pinto de
    Souza expedido Avizo para se imprimirem as Obras do A. na Officina
    Regia_.

    PROZAS.

    _Ao Excellentissimo Senhor Marquez de Angeja, offerecendo alguns dos
    Versos, que vão neste Livro_.
    _Ao mesmo Senhor no dia dos seus Annos_.

  • O Mandarim

    O Mandarim

    Aproximadamente 20.685 palavras.

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    EÇA DE QUEIROZ

    O MANDARIM

    LIVRARIA INTERNACIONAL

    DE

    ERNESTO CHARDRON, EDITOR.

    Porto e Braga

    1880

    O MANDARIM

    PROLOGO

    1.^o AMIGO (_bebendo Cognac e soda, debaixo d'arvores, n'um terraço, á
    beira d'agua_)

    Camarada, por estes calores do estio que embotam a ponta da sagacidade,
    repousemos do aspero estudo da Realidade humana… Partamos para os
    campos do Sonho, vaguear por essas azuladas collinas romanticas onde se
    ergue a torre abandonada do Sobrenatural, e musgos frescos recobrem as
    ruinas do Idealismo… Façamos phantasia!…

    2.^o AMIGO

    Mas sobriamente, camarada, parcamente!… E como nas sabias e amaveis
    Allegorias da Renascença, misturando-lhe sempre uma Moralidade
    discreta…

    (COMEDIA INEDITA).

    I

    Eu chamo-me Theodoro–e fui amanuense do Ministerio do Reino.

    N'esse tempo vivia eu á travessa da Conceição n.^o 106, na casa
    d'hospedes da D. Augusta, a esplendida D. Augusta, viuva do major
    Marques. Tinha dois companheiros: o Cabrita, empregado na Administração
    do bairro central, esguio e amarello como uma tocha d'enterro; e o
    possante, o exuberante tenente Couceiro, grande tocador de viola
    franceza.

    A minha existencia era bem equilibrada e suave. Toda a semana, de mangas
    de lustrina á carteira da minha repartição, ia lançando, n'uma formosa
    letra cursiva, sobre o papel Tojal do Estado, estas phrases faceis:
    «_Ill.^{mo} e Exc.^{mo} Snr._–_Tenho a honra de communicar a V. Exc.^a…
    Tenho a honra de passar ás mãos de V. Exc.^a, Ill.^{mo} e Exc.^{mo} Snr…_»

    Aos domingos repousava: installava-me então no canapé da sala de jantar,
    de cachimbo nos dentes, e admirava a D. Augusta, que, em dias de missa,
    costumava limpar com clara d'ovo a caspa do tenente Couceiro. Esta hora,
    sobretudo no verão, era deliciosa: pelas janellas meio cerradas
    penetrava o bafo da soalheira, algum repique distante dos sinos da
    Conceição Nova, e o arrulhar das rolas na varanda; a monotona susurração
    das moscas balançava-se sobre a velha cambraia, antigo véo nupcial da
    Madame Marques, que cobria agora no aparador os pratos de cerejas
    bicaes; pouco a pouco o tenente, envolvido n'um lençol como um idolo no
    seu manto, ia adormecendo, sob a fricção molle das carinhosas mãos da D.
    Augusta; e ella, arrebitando o dedo minimo branquinho e papudo,
    sulcava-lhe as rêpas lustrosas com o pentesinho dos bichos… Eu então,
    enternecido, dizia á deleitosa senhora:

    –Ai D. Augusta, que anjo que é!

    Ella ria; chamava-me _enguiço_! Eu sorria, sem me escandalisar.
    _Enguiço_ era com effeito o nome que me davam na casa–por eu ser magro,
    entrar sempre as portas com o pé direito, tremer de ratos, ter á
    cabeceira da cama uma lithographia de Nossa Senhora das Dôres que
    pertencera á mamã, e corcovar. Infelizmente corcóvo–do muito que
    verguei o espinhaço, na Universidade, recuando como uma pêga assustada
    diante dos senhores Lentes; na repartição, dobrando a fronte ao pó
    perante os meus Directores Geraes. Esta attitude de resto convém ao
    bacharel; ella mantem a disciplina n'um Estado bem organisado; e a mim
    garantia-me a tranquillidade dos domingos, o uso d'alguma roupa branca,
    e vinte mil reis mensaes.

    Não posso negar, porém, que n'esse tempo eu era ambicioso–como o
    reconheciam sagazmente a Madame Marques e o lepido Couceiro. Não que me
    revolvesse o peito o appetite heroico de dirigir, do alto d'um throno,
    vastos rebanhos humanos; não que a minha louca alma jámais aspirasse a
    rodar pela Baixa em trem da Companhia, seguida d'um correio
    choitando;–mas pungia-me o desejo de poder jantar no Hotel Central com
    Champagne, apertar a mão mimosa de viscondessas, e, pelo menos duas
    vezes por semana, adormecer, n'um extasi mudo, sobre o seio fresco de
    Venus. Oh! moços que vos dirigieis vivamente a S. Carlos, atabafados em
    paletots caros onde alvejava a gravata de _soirée_! Oh! tipoias,
    apinhadas de andaluzas, batendo galhardamente para os touros–quantas
    vezes me fizestes suspirar! Porque a certeza de que os meus vinte mil
    reis por mez e o meu geito encolhido de enguiço me excluiam para sempre
    d'essas alegrias sociaes vinha-me então ferir o peito–como uma frecha
    que se crava n'um tronco, e fica muito tempo vibrando!

    Ainda assim, eu não me considerava sombriamente um «pária». A vida
    humilde tem doçuras: é grato, n'uma manhã de sol alegre, com o
    guardanapo ao pescoço, diante do bife de grelha, desdobrar o Diario de
    Noticias; pelas tardes de verão, nos bancos gratuitos do Passeio,
    gozam-se suavidades de idyllio; é saboroso á noite no Martinho, sorvendo
    aos goles um café, ouvir os verbosos injuriar a patria… Depois, nunca
    fui excessivamente infeliz–porque não tenho imaginação: não me
    consumia, rondando e almejando em torno de paraisos ficticios, nascidos
    da minha propria alma desejosa como nuvens da evaporação d'um lago; não
    suspirava, olhando as lucidas estrellas, por um amor á Romeo, ou por uma
    gloria social á Camors. Sou um positivo. Só aspirava ao racional, ao
    tangivel, ao que já fôra alcançado por outros no meu bairro, ao que é
    accessivel ao bacharel. E ia-me resignando, como quem a uma _table
    d'hôte_ mastiga a bucha de pão secco á espera que lhe chegue o prato
    rico da _Charlotte russe_. As felicidades haviam de vir: e para as
    apressar eu fazia tudo o que devia como portuguez e como
    constitucional:–pedia-as todas as noites a Nossa Senhora das Dôres, e
    comprava decimos da loteria.

    No entanto procurava distrahir-me. E como as circumvoluções do meu
    cerebro me não habilitavam a compôr odes, á maneira de tantos outros ao
    meu lado que se desforravam assim do tedio da profissão; como o meu
    ordenado, paga a casa e o tabaco, me não permittia um vicio–tinha
    tomado o habito discreto de comprar na feira da Ladra antigos volumes
    desirmanados, e á noite, no meu quarto, repastava-me d'essas leituras
    curiosas. Eram sempre obras de titulos ponderosos: Galera da Innocencia,
    Espelho Milagroso, Tristeza dos Mal Desherdados… O typo venerando, o
    papel amarellado com picadas de traça, a grave encadernação freiratica,
    a fitinha verde marcando a pagina–encantavam-me! Depois, aquelles
    dizeres ingenuos em letra gorda davam uma pacificação a todo o meu sêr,
    sensação comparavel á paz penetrante d'uma velha cêrca de mosteiro, na
    quebrada d'um valle, por um fim suave de tarde, ouvindo o correr d'agua
    triste…

    Uma noite, ha annos, eu começára a lêr, n'um d'esses in-folios vetustos,
    um capitulo intitulado _Brecha das Almas_; e ia cahindo n'uma
    somnolencia grata, quando este periodo singular se me destacou do tom
    neutro e apagado da pagina, com o relevo d'uma medalha d'ouro nova
    brilhando sobre um tapete escuro: copío textualmente:

    «No fundo da China existe um Mandarim mais rico que todos os reis
    de que a Fabula ou a Historia contam. D'elle nada conheces, nem o
    nome, nem o semblante, nem a sêda de que se veste. Para que tu
    herdes os seus cabedaes infindaveis, basta que toques essa
    campainha, posta a teu lado, sobre um livro. Elle soltará apenas um
    suspiro, n'esses confins da Mongolia. Será então um cadaver: e tu
    verás a teus pés mais ouro do que póde sonhar a ambição d'um avaro.
    Tu, que me lês e és um homem mortal, tocarás tu a campainha?»

    Estaquei, assombrado, diante da pagina aberta: aquella interrogação
    «homem mortal, tocarás tu a campainha?» parecia-me facêta, picaresca, e
    todavia perturbava-me prodigiosamente. Quiz lêr mais; mas as linhas
    fugiam, ondeando como cobras assustadas, e no vazio que deixavam, d'uma
    lividez de pergaminho, lá ficava, rebrilhando em negro, a interpellação
    estranha–«tocarás tu a compainha?»

    Se o volume fosse d'uma honesta edição Michel-Levy, de capa amarella,
    eu, que por fim não me achava perdido n'uma floresta de ballada allemã,
    e podia da minha sacada vêr branquejar á luz do gaz o correame da
    patrulha–teria simplesmente fechado o livro, e estava dissipada a
    allucinação nervosa. Mas aquelle sombrio in-folio parecia estalar magia;
    cada letra affectava a inquietadora configuração d'esses signaes da
    velha cabala, que encerram um attributo fatidico; as virgulas tinham o
    retorcido petulante de rabos de diabinhos, entrevistos n'uma alvura de
    luar; no _ponto d'interrogação_ final eu via o pavoroso gancho com que o
    Tentador vai fisgando as almas que adormeceram sem se refugiar na
    inviolavel cidadella da Oração!… Uma influencia sobrenatural
    apoderando-se de mim, arrebatava-me devagar para fóra da realidade, do
    raciocinio: e no meu espirito foram-se formando duas visões–d'um lado
    um Mandarim, decrepito, morrendo sem dôr, longe, n'um kiosque chinez, a
    um _ti-li-tin_ de campainha; do outro toda uma montanha de ouro
    scintillando aos meus pés! Isto era tão nitido, que eu via os olhos
    obliquos do velho personagem embaciarem-se, como cobertos d'uma tenue
    camada de pó; e sentia o fino tinir de libras rolando juntas. E immovel,
    arripiado, cravava os olhos ardentes na campainha, pousada pacatamente
    diante de mim sobre um diccionario francez–a campainha prevista, citada
    no mirifico in-folio…

    Foi então que, do outro lado da mesa, uma voz insinuante e metallica me
    disse, no silencio:

    –Vamos, Theodoro, meu amigo, estenda a mão, toque a campainha, seja um
    forte!

    O _abat-jour_ verde da vela punha uma penumbra em redor. Ergui-o, a
    tremer. E vi, muito pacificamente sentado, um individuo corpulento, todo
    vestido de preto, de chapéo alto, com as duas mãos calçadas de luvas
    negras gravemente apoiadas ao cabo d'um guarda-chuva. Não tinha nada de
    phantastico. Parecia tão contemporaneo, tão regular, tão classe-média
    como se viesse da minha repartição…

    Toda a sua originalidade estava no rosto, sem barba, de linhas fortes e
    duras; o nariz brusco, d'um aquilino formidavel, apresentava a expressão
    rapace e atacante d'um bico d'aguia; o córte dos labios, muito firme,
    fazia-lhe como uma bocca de bronze; os olhos, ao fixar-se, assemelhavam
    dois clarões de tiro, partindo subitamente d'entre as sarças tenebrosas
    das sobrancelhas unidas; era livido–mas, aqui e além na pelle,
    corriam-lhe raiações sanguineas como n'um velho marmore phenicio.

    Veio-me á idéa de repente que tinha diante de mim o Diabo: mas logo todo
    o meu raciocinio se insurgiu resolutamente contra esta imaginação. Eu
    nunca acreditei no Diabo–como nunca acreditei em Deus. Jámais o disse
    alto, ou o escrevi nas gazetas, para não descontentar os poderes
    publicos, encarregados de manter o respeito por taes entidades: mas que
    existam estes dois personagens, velhos como a Substancia, rivaes
    bonacheirões, fazendo-se mutuamente pirraças amaveis,–um de barbas
    nevadas e tunica azul, na toilette do antigo Jove, habitando os altos
    luminosos, entre uma côrte mais complicada que a de Luiz XIV; e o outro
    enfarruscado e manhoso, ornado de cornos, vivendo nas chammas
    inferiores, n'uma imitação burgueza do pitoresco Plutão–não acredito.
    Não, não acredito! Céo e Inferno são concepções sociaes para uso da
    plebe–e eu pertenço á classe-média. Rezo, é verdade, a Nossa Senhora
    das Dôres: porque, assim como pedi o favor do senhor doutor para passar
    no meu acto; assim como, para obter os meus vinte mil reis, implorei a
    benevolencia do senhor deputado; igualmente para me subtrahir á tisica,
    á angina, á navalha de ponta, á febre que vem da sargeta, á casca de
    laranja escorregadia onde se quebra a perna, a outros males publicos,
    necessito ter uma protecção extra-humana. Ou pelo rapa-pé ou pelo
    incensador o homem prudente deve ir fazendo assim uma serie de sabias
    adulações desde a Arcada até ao Paraiso. Com um compadre no bairro, e
    uma comadre mystica nas Alturas–o destino do bacharel está seguro.

    Por isso, livre de torpes superstições, disse familiarmente ao individuo
    vestido de negro:

    –Então, realmente, aconselha-me que toque a campainha?

    Elle ergueu um pouco o chapéo, descobrindo a fronte estreita, enfeitada
    d'uma gaforinha crespa e negrejante como a do fabuloso Alcides, e
    respondeu, palavra a palavra:

    –Aqui está o seu caso, estimavel Theodoro. Vinte mil reis mensaes são
    uma vergonha social! Por outro lado, ha sobre este globo coisas
    prodigiosas: ha vinhos de Borgonha, como por exemplo o _Romanée-Conti_
    de 58 e o _Chambertin_ de 61, que custam, cada garrafa, de dez a onze
    mil reis; e quem bebe o primeiro calix, não hesitará, para beber o
    segundo, em assassinar seu pai… Fabricam-se em Paris e em Londres
    carruagens de tão suaves molas, de tão mimosos estofos, que é preferivel
    percorrer n'ellas o Campo Grande, a viajar, como os antigos deuses,
    pelos céos, sobre os fôfos coxins das nuvens… Não farei á sua
    instrucção a offensa de o informar que se mobilam hoje casas, d'um
    estylo e d'um conforto, que são ellas que realisam superiormente esse
    regalo ficticio, chamado outr'ora a «Bemaventurança». Não lhe fallarei,
    Theodoro, d'outros gozos terrestres: como, por exemplo, o Theatro do
    _Palais Royal_, o _baile Laborde_, o _Café Anglais_… Só chamarei a sua
    attenção para este facto: existem sêres que se chamam
    Mulheres–differentes d'aquelles que conhece, e que se denominam Femeas.
    Estes sêres, Theodoro, no meu tempo, a paginas 3 da Biblia, apenas
    usavam exteriormente uma _folha de vinha_. Hoje, Theodoro, é toda uma
    symphonia, todo um engenhoso e delicado poema de rendas, _baptistes_,
    setins, flôres, joias, cachemiras, gazes e velludos… Comprehende a
    satísfação inenarravel que haverá, para os cinco dedos de um christão,
    em percorrer, palpar estas maravilhas macias;–mas tambem percebe que
    não é com o troco d'uma placa honesta de cinco tostões que se pagam as
    contas d'estes cherubins… Mas ellas possuem melhor, Theodoro: são os
    cabellos côr do ouro ou côr da treva, tendo assim nas suas tranças a
    apparencia emblematica das duas grandes tentações humanas–a fome do
    metal precioso e o conhecimento do absoluto transcendente. E ainda teem
    mais: são os braços côr de marmore, d'uma frescura de lirio orvalhado;
    são os seios, sobre os quaes o grande Praxiteles modelou a sua Taça, que
    é a linha mais pura e mais ídeal da Antiguidade…. Os seios, outr'ora
    (na idéa d'esse ingenuo Ancião que os formou, que fabricou o mundo, e de
    quem uma inimizade secular me veda de pronunciar o nome), eram
    destinados á nutrição augusta da humanidade; socegue porém, Theodoro;
    hoje nenhuma maman racional os expõe a essa funcção deterioradora e
    severa; servem só para resplandecer, aninhados em rendas, ao gaz das
    _soirées_,–e para outros usos secretos. As conveniencias impedem-me de
    proseguir n'esta exposição radiosa das bellezas, que constituem o _Fatal
    Feminino_… De resto as suas pupillas já rebrilham…. Ora todas estas
    coisas, Theodoro, estão para além, infinitamente para além dos seus
    vinte mil reís por mez… Confesse, ao menos, que estas palavras teem o
    veneravel sello da verdade!…

    Eu murmurei com as faces abrasadas:

    –Teem.

    E a sua voz proseguiu, paciente e suave:

    –Que me diz a cento e cinco, ou cento e seis mil contos? Bem sei, é uma
    bagatella… Mas emfim, constituem um começo; são uma ligeira
    habilitação para conquistar a felicidade. Agora pondere estes factos: o
    Mandarim, esse Mandarim do fundo da China, está decrepito e está
    gottoso: como homem, como funccionario do celeste imperio, é mais inutil
    em Pekin e na humanidade, que um seixo na bocca d'um cão esfomeado. Mas
    a transformação da substancia existe: garanto-lh'a eu, que sei o segredo
    das coisas… Porque a terra é assim: recolhe aqui um homem apodrecido,
    e restitue-o além ao conjuncto das fórmas como vegetal viçoso. Bem póde
    ser que elle, inutil como Mandarim no Imperio do Meio, vá ser util
    n'outra terra como rosa perfumada ou saboroso repôlho. Matar, meu filho,
    é quasi sempre equilibrar as necessidades universaes. É eliminar aqui a
    excrescencia para ir além supprir a falta. Penetre-se d'estas solidas
    philosophias. Uma pobre costureira de Londres anceia por vêr florir, na
    sua trapeira, um vaso cheio de terra negra: uma flôr consolaria aquella
    desherdada; mas na disposição dos sêres, infelizmente, n'esse momento, a
    substancia que lá devia ser rosa é aqui na Baixa homem d'Estado… Vem
    então o fadista de navalha aberta, e fende o estadista; o enxurro
    leva-lhe os intestinos; enterram-no, com tipoias atraz; a materia começa
    a desorganisar-se, mistura-se á vasta evolução dos atomos–e o superfluo
    homem de governo vai alegrar, sob a fórma de amor perfeito, a agua
    furtada da loura costureira. O assassino é um philanthropo! Deixe-me
    resumir, Theodoro: a morte d'esse velho Mandarim idiota traz-lhe á
    algibeira alguns milhares de contos. Póde desde esse momento dar
    pontapés nos poderes publicos: medite na intensidade d'este gozo! É
    desde logo citado nos jornaes: reveja-se n'esse maximo da gloria humana!
    E agora note: é só agarrar a campainha, e fazer _ti-li-tin._ Eu não sou
    um barbaro: comprehendo a repugnancia d'um _gentleman_ em assassinar um
    contemporaneo: o espirrar do sangue suja vergonhosamente os punhos, e é
    repulsivo o agonisar d'um corpo humano. Mas aqui, nenhum d'esses
    espectaculos torpes… É como quem chama um criado… E são cento e
    cinco ou cento e seis mil contos; não me lembro, mas tenho-o nos meus
    apontamentos… O Theodoro não duvída de mim. Sou um
    cavalheiro:–provei-o, quando, fazendo a guerra a um tyranno na primeira
    insurreição da justiça, me vi precipitado d'alturas que nem Vossa
    Senhoria concebe… Um trambulhão consideravel, meu caro senhor! Grandes
    desgostos! O que me consola é que o OUTRO está tambem muito abalado:
    porque, meu amigo, quando um Jehovah tem apenas contra si um Satanaz,
    tira-se bem de difficuldades mandando carregar mais uma legião
    d'archanjos; mas quando o inimigo é o homem, armado d'uma penna de pato
    e d'um caderno de papel branco–está perdido… Emfim são seis mil
    contos. Vamos, Theodoro, ahi tem a campainha, seja um homem.

    Eu sei o que deve a si mesmo um christão. Se este personagem me tivesse
    levado ao cume d'uma montanha na Palestina, por uma noite de lua cheia,
    e ahi, mostrando-me cidades, raças e imperios adormecidos, sombriamente
    me dissesse:–«Mata o Mandarim, e tudo o que vês em valle e collina será
    teu»,–eu saberia replicar-lhe, seguindo um exemplo illustre, e erguendo
    o dedo ás profundidades constelladas:–«O meu reino não é d'este mundo!»
    Eu conheço os meus authores. Mas eram cento e tantos mil contos,
    offerecidos á luz d'uma vela de stearina, na travessa da Conceição, por
    um sujeito de chapéo alto, apoiado a um guarda-chuva…

    Então não hesitei. E, de mão firme, repeniquei a campainha. Foi talvez
    uma illusão; mas pareceu-me que um sino, de bocca tão vasta como o mesmo
    céo, badalava na escuridão, através do Universo, n'um tom temeroso que
    decerto foi acordar sóes que faziam né-né e planetas pançudos resonando
    sobre os seus eixos…

    O individuo levou um dedo á palpebra, e limpando a lagrima que ennevoára
    um instante o seu olho rutilante:

    –Pobre Ti-Chin-Fú!…

    –Morreu?

    –Estava no seu jardim, socegado, armando, para o lançar ao ar, um
    papagaio de papel, no passatempo honesto d'um Mandarim retirado,–quando
    o surprehendeu este _ti-li-tin_ da campainha. Agora jaz á beira d'um
    arroio cantante, todo vestido de sêda amarella, morto, de pança ao ar,
    sobre a relva verde: e nos braços frios tem o seu papagaio de papel, que
    parece tão morto como elle. Ámanhã são os funeraes. Que a sabedoria de
    Confucio, penetrando-o, ajude a bem emigrar a sua alma!

    E o sujeito, erguendo-se, tirou respeitosamente o chapéo, sahiu, com o
    seu guarda-chuva debaixo do braço.

    Então, ao sentir bater a porta, afigurou-se-me que emergia d'um
    pesadêlo. Saltei ao corredor. Uma voz jovial fallava com a Madame
    Marques; e a cancella da escada cerrou-se subtilmente.

    –Quem é que sahiu agora, ó D. Augusta?–perguntei, n'um suor.

    –Foi o Cabritinha que vai um bocadinho á batota…

    Voltei ao quarto: tudo lá repousava tranquillo, identico, real. O
    in-folio ainda estava aberto na pagina temerosa. Reli-a: agora
    parecia-me apenas a prosa antiquada d'um moralista caturra; cada palavra
    se tornára como um carvão apagado…

    Deitei-me:–e sonhei que estava longe, para além de Pekin, nas
    fronteiras da Tartaria, no kìosque d'um convento de Lamas, ouvindo
    maximas prudentes e suaves que escorriam, com um aroma fino de chá, dos
    labios de um Buddha vivo.

    II

    Decorreu um mez.

    Eu, no entanto, rotineiro e triste, lá ia pondo o meu cursivo ao serviço
    dos poderes publicos, e admirando aos domingos a pericia tocante com que
    a D. Augusta lavava a caspa do Couceiro. Era agora evidente para mim
    que, n'essa noite, eu adormecera sobre o in-folio, e sonhára com uma
    «Tentação da Montanha» sob fórmas familiares. Instinctivamente, porém,
    comecei a preoccupar-me com a China. Ia lêr os telegrammas á Havaneza; e
    o que o meu interesse lá buscava, eram sempre as noticias do Imperio do
    Meio; parece porém que, a esse tempo, nada se passava na região das
    raças amarellas… A _Agencia Havas_ só tagarellava sobre a Herzegovina,
    a Bosnia, a Bulgaria e outras curiosidades barbaras….

    Pouco a pouco fui esquecendo o meu episodio phantasmagorico: e ao mesmo
    tempo, como gradualmente o meu espirito reserenava, voltaram de novo a
    mover-se as antigas ambições que lá habitavam,–um ordenado de Director
    Geral, um seio amoroso de Lola, bifes mais tenros que os da D. Augusta.
    Mas taes regalos pareciam-me tão inaccessiveis, tão nascidos do
    sonho–como os proprios milhões do Mandarim. E pelo monotono deserto da
    vida,–lá foi seguindo, lá foi marchando, a lenta caravana das minhas
    melancolias…

    Um domingo de agosto, de manhã, estirado na cama em mangas de camisa, eu
    dormitava, com o cigarro apagado no labio–quando a porta rangeu
    devagarinho, e entreabrindo a palpebra dormente, vi curvar-se ao meu
    lado uma calva respeitosa. E logo uma voz perturbada murmurou:

    –O snr. Theodoro?… O snr. Theodoro do Ministerio do Reino?…

    Ergui-me lentamente sobre o cotovêlo e respondi, n'um bocejo:

    –Sou eu, cavalheiro.

    O individuo recurvou o espinhaço: assim na presença augusta d'el-rei
    Bobeche se arquêa o cortezão… Era pequenino e obeso: a ponta das
    suiças brancas roçava-lhe as lapellas do fraque d'alpaca: veneraveis
    oculos d'oiro reluziam na sua face bochechuda, que parecia uma prospera
    personificação da Ordem: e todo elle tremia desde a calva, lustrosa até
    aos botíns de bezerro. Pigarreou, cuspilhou, balbuciou:

    –São noticias para vossa senhoria! Consideráveis noticias! O meu nome é
    Silvestre… Silvestre, Juliano & C.^a… Um serviçal criado de vossa
    excellencia… Chegaram justamente pelo paquete de Southampton… Nós
    somos correspondentes de Brito, Alves & C.^a de Macau… Correspondentes
    de Craig and Co d'Hong-Kong… As letras vem d'Hong-Kong…

    O sujeito engasgava-se; e a sua mão gordinha agitava em tremuras um
    _enveloppe_ repleto, com um sello de lacre negro.

    –Vossa excellencia–proseguiu–estava decerto prevenido… Nós é que o
    não estavamos… A atrapalhação é natural… O que esperamos é que vossa
    excellencia nos conserve a sua benevolencia… Nós sempre respeitámos
    muito o caracter de vossa excellencia… Vossa excellencia é n'esta
    terra uma flôr de virtude, e espelho de bons! Aqui estão os primeiros
    saques sobre Bhering and Brothers de Londres… Letras a trinta dias
    sobre Rothschild…

    A este nome, resoante como o mesmo oiro, saltei vorazmente do leito.

    –O que é isso, senhor?–gritei.

    E elle, gritando mais, brandindo o _enveloppe_, todo alçado no bico dos
    botins:

    –São cento e seis mil contos, senhor! Cento e seis mil contos sobre
    Londres, Paris, Hamburgo e Amsterdam, sacados a seu favor,
    excellentissimo senhor!… A seu favor, excellentissimo senhor! Pelas
    casas de Hong-Kong, de Chang-Hai e de Cantão, da herança depositada do
    Mandarim Ti-Chin-Fú!!

    Senti tremer o Globo sob os meus pés–e cerrei um momento os olhos. Mas
    comprehendi, n'um relance, que eu era, desde essa hora, como uma
    incarnação do Sobrenatural, recebendo d'elle a minha força e possuindo
    os seus attributos. Não podia comportar-me como um homem, nem
    desconsiderar-me em expansões humanas. Até, para não quebrar a linha
    hieratica–abstive-me de ir soluçar, como m'o pedia a alma, sobre o
    vasto seio da Madame Marques…

    D'ora em diante cabia-me a impassibilidade d'um Deus–ou d'um Demonio:
    dei, com naturalidade, um puxão ás calças, e disse a Silvestre, Juliano
    & C.^a estas palavras:

    –Está bem! O Mandarim… Esse Mandarim que disse portou-se com
    cavalheirismo. Eu sei de que se trata. É uma questão de familia. Deixe
    ahi os papeis… Bons dias.

    Silvestre, Juliano & C.^a retirou-se, ás arrecuas, de dorso vergado e
    fronte voltada ao chão.

    Eu então fui abrir, toda larga, a janella: e, dobrando para traz a
    cabeça, respirei o ar calido, consoladamente, como uma corça cançada…

    Depois olhei para baixo, para a rua, onde toda uma burguezia se escoava,
    n'uma pacata sahida de missa, entre duas filas de trens. Fixei, aqui e
    além, inconscientemente, algumas cuias de senhoras, alguns metaes
    brilhantes d'arreios. E de repente, veio-me esta idéa, esta triumphante
    certeza–que todas aquellas tipoias as podia eu tomar á hora ou ao anno!
    Que nenhuma das mulheres que via, deixaria de me offerecer o seu seio
    nú, a um aceno do meu desejo! Que todos esses homens, de sobrecasaca de
    domingo, se prostrariam diante de mim como diante de um Christo, de um
    Mahomet ou de um Buddha, se eu lhes sacudisse junto á face cento e seis
    mil contos sobre as praças da Europa!…

    Apoiei-me á varanda: e ri, com tedio, vendo a agitação ephemera
    d'aquella humanidade subalterna–que se considerava livre e forte, em
    quanto por cima, n'uma sacada de quarto andar, eu tinha na mão, n'um
    _enveloppe_ lacrado de negro, o principio mesmo da sua fraqueza e da sua
    escravidão!… Então, satisfações do Luxo, regalos do Amor, orgulhos do
    Poder, tudo gozei, pela imaginação, n'um instante, e d'um só sôrvo. Mas
    logo, uma grande saciedade me foi invadindo a alma: e sentindo o mundo
    aos meus pés–bocejei como um leão farto.

    De que me serviam por fim tantos milhões, senão para me trazerem, dia a
    dia, a affirmação desoladora da villeza humana?… E assim, ao choque de
    tanto oiro, ia desapparecer aos meus olhos como um fumo a belleza moral
    do Universo! Tomou-me uma tristeza mystica. Abati-me sobre uma cadeira;
    e, com a face entre as mãos, chorei abundantemente.

    D'ahi a pouco a Madame Marques abria a porta, toda vistosa nas suas
    sêdas pretas.

    –Está-se á sua espera para jantar, enguiço!…

    Emergi da minha amargura para lhe responder seccamente:

    –Não janto.

    –Mais fica!

    N'esse momento estalavam foguetes ao longe. Lembrei-me que era domingo,
    dia de touros: de repente uma visão rebrilhou, flammejou, attrahindo-me
    deliciosamente:–era a tourada vista d'um camarote; depois um jantar com
    _Champagne_; á noite a orgia, como uma iniciação! Corri á mesa. Atulhei
    as algibeiras de letras sobre Londres. Desci á rua com um furor d'abutre
    fendendo o ar contra a presa. Uma caleche passava, vazia. Detive-a,
    berrei:

    –Aos touros!

    –São dez tostões, meu amo!

    Encarei com repulsão aquelle reles pedaço de materia organisada–que
    fallava em placas de prata a um colosso d'oiro! Enterrei a mão na
    algibeira ajoujada de milhões, e tirei o meu metal: tinha setecentos e
    vinte!

    O cocheiro bateu a anca da egoa e seguiu, resmungando. Eu balbuciei:

    –Mas tenho letras!… Aqui estão! Sobre Londres! Sobre Hamburgo!…

    –Não péga.

    Setecentos e vinte!… E touros, jantar de lord, andaluzas nuas, todo
    esse sonho expirou como uma bola de sabão que bate a ponta de um prego.

    Odiei a Humanidade, abominei o Numerario. Outra tipoia, lançada a trote,
    apinhada de gente festiva, quasi me atropellou n'aquella abstracção em
    que eu ficára com os meus setecentos e vinte na palma da mão suada.

    Cabisbaixo, enchumaçado de milhões sobre Rothschild, voltei ao meu
    quarto andar; humilhei-me á Madame Marques, aceitei-lhe o bife corneo; e
    passei essa primeira noite de riqueza, bocejando sobre o leito
    solitario,–em quanto fóra o alegre Couceiro, o mesquinho tenente de
    quinze mil reis de soldo, ria com a D. Augusta, repenicando á viola o
    _Fado da Cotovia_.

    * * * * *

    Foi só na manhã seguinte, ao fazer a barba, que reflecti sobre a origem
    dos meus milhões. Ella era evidentemente sobrenatural e suspeita.

    Mas como o meu Racionalismo me impedia d'attribuir estes thesouros
    imprevistos á generosidade caprichosa de Deus ou do Diabo, ficções
    puramente escolasticas; como os fragmentos de Positivismo, que
    constituem o fundo da minha Philosophia, não me permittiam a indagação
    _das causas primarias, das origens essenciaes_–bem depressa me decidi a
    aceitar seccamente este Phenomeno; e a utilisal-o com largueza. Portanto
    corri de quinzena ao vento para o _London Brazìlian Bank_…

    Ahi, arremessei para cima do balcão um papel sobre o _Banco
    d'Inglaterra_, de mil libras; e soltei esta deliciosa palavra:

    –Oiro!

    Um caixeiro suggeriu-me com doçura:

    –Talvez lho fosse mais commodo em notas…

    Repeti seccamente:

    –Oiro!

    Atulhei as algibeiras, devagar, aos punhados: e na rua, ajoujado,
    icei-me para uma caleche. Sentía-me gordo, sentia-me obeso; tinha na
    bocca um sabor d'oiro, uma seccura de pó d'oiro na pelle das mãos: as
    paredes das casas pareciam-me faiscar como longas laminas d'oiro: e
    dentro do cerebro ia-me um rumor surdo onde retilintavam metaes–como o
    movimento d'um oceano que nas vagas rolasse barras d'oiro.

    Abandonando-me á oscillação das molas, rebolante como um odre mal firme,
    deixava cahir sobre a rua, sobre a gente, o olhar turvo e tedioso do sêr
    repleto. Emfim, atirando o chapéo para a nuca, estirando a perna,
    empinando o ventre, arrotei formidavelmente de flatulencia ricaça…

    Muito tempo rolei assim pela cidade, bestialisado n'um gozo de Nababo.

    Subitamente um brusco appetite de gastar, de dissipar oiro, veio-me
    enfunar o peito como uma rajada que incha uma véla.

    –Pára, animal!–berrei, ao cocheiro.

    A parelha estacou. Procurei em redor com a palpebra meio cerrada alguma
    coisa cara a comprar–joia de rainha ou consciencia de estadista: nada
    vi; precipitei-me então para um estanco.

    –Charutos! de tostão! de cruzado! Mais caros! de dez tostões!

    –Quantos?–perguntou servilmente o homem.

    –Todos!–respondi, com brutalidade.

    Á porta, uma pobre toda de luto, com o filho encolhido ao seio,
    estendeu-me a mão transparente. Incommodava-me procurar os trocos de
    cobre por entre os meus punhados d'oiro. Repelli-a, impaciente: e, de
    chapéo sobre o olho, encarei friamente a turba.

    Foi então que avistei, adiantando-se, o vulto ponderoso do meu Director
    Geral: immediatamente, achei-me com o dorso curvado em arco e o chapéo
    comprimentador roçando as lages. Era o habito da dependencia: os meus
    milhões não me tinham dado ainda a verticalidade á espinha…

    Em casa despejei o oiro sobre o leito, e rolei-me por cima d'elle, muito
    tempo, grunhindo n'um gozo surdo. A torre, ao lado, bateu tres horas; e
    o sol apressado já descia, levando comsigo o meu primeiro dia de
    opulencia… Então, couraçado de libras, corri a saciar-me!

    Ah, que dia! Jantei n'um gabinete do Hotel Central, solitario e egoista,
    com a mesa alastrada de Bordeus, Borgonha, Champagne, Rheno, licôres de
    todas as communidades religiosas–como para matar uma sêde de trinta
    annos! Mas só me fartei de Collares. Depois, cambaleando, arrastei-me
    para o Lupanar! Que noite! A alvorada clareou por traz das persianas; e
    achei-me estatelado no tapete, exhausto e semi-nú, sentindo o corpo e a
    alma como esvaírem-se, dissolverem-se n'aquelle ambiente abafado onde
    errava um cheiro de pó de arroz, de fêmea e de punch…

    Quando voltei á travessa da Conceição, as janellas do meu quarto estavam
    fechadas, e a véla expirava, com fogachos lividos, no castiçal de latão.
    Então ao chegar junto á cama, vi isto: estirada de través, sobre a
    coberta, jazia uma figura bojuda, de Mandarim fulminado, vestida de sêda
    amarella, com um grande rabicho solto; e entre os braços como morto
    tambem, tinha um papagaio de papel!

    Abri desesperadamente a janella: tudo desappareceu;–o que estava agora
    sobre o leito era um velho paletot alvadio.

    III

    Então começou a minha vida de milionario. Deixei bem depressa a casa da
    Madame Marques–que, desde que me sabía rico, me tratava todos os dias a
    arroz dôce, e ella mesma me servia, com o seu vestido de sêda dos
    domingos. Comprei, habitei o palacete amarello, ao Loreto: as
    magnificencias da minha installação são bem conhecidas pelas gravuras
    indiscretas da Illustração Franceza. Tornou-se famoso na Europa o meu
    leito, d'um gosto exuberante e barbaro, com a barra recoberta de laminas
    d'ouro lavrado, e cortinados d'um raro brocado negro onde ondeam,
    bordados a perolas, versos eroticos de Catullo; uma lampada, suspensa no
    interior, derrama alli a claridade lactea e amorosa d'um luar de verão.

    Os meus primeiros mezes ricos, não o occulto, passei-os a amar–a amar
    com o sincero bater de coração d'um pagem inexperiente. Tinha-a visto,
    como n'uma pagina de novella, regando os seus craveiros á varanda:
    chamava-se Candida; era pequenina, era loira; morava a Buenos-Ayres,
    n'uma casinha casta recoberta de trepadeiras; e lembrava-me pela graça e
    pelo airoso da cinta, tudo o que a Arte tem creado de mais fino e
    fragil–Mimi, Virginia, a Joanninha do Valle de Santarem.

    Todas as noites eu cahia, em extasis de mystico, aos seus pés côr de
    jaspe. Todas as manhãs lhe alastrava o regaço de notas de vinte mil
    reis: ella repellia-as primeiro com um rubor,–depois, ao guardal-as na
    gaveta, chamava-me o seu _anjo Tótó_.

    Um dia que eu me introduzira, a passos subtis, por sobre o espesso
    tapete syrio, até ao seu _boudoir_–ella estava escrevendo, muito
    enlevada, de dedinho no ar: ao vêr-me, toda tremula, toda pallida,
    escondeu o papel que tinha o seu monogramma. Eu arranquei-lh'o, n'um
    ciume insensato. Era a carta, a carta costumada, a carta necessaria, a
    carta que desde a velha antiguidade a mulher sempre escreve; começava
    por _meu idolatrado_–e era para um alferes da visinhança…

    Desarraiguei logo esse sentimento do meu peito como uma planta venenosa.
    Descri para sempre dos Anjos loiros, que conservam no olhar azul o
    reflexo dos céos atravessados: de cima do meu oiro, deixei cahir sobre a
    Innocencia, o Pudor, e outras idealisações funestas acida gargalhada de
    Mephistopheles: e organisei friamente uma existencia animal, grandiosa e
    cynica.

    * * * * *

    Ao bater do meio dia, entrava na minha tina de marmore côr de rosa, onde
    os perfumes derramados davam á agua um tom opaco de leite: depoîs pagens
    tenros, de mão macia, fríccionavam-me com o ceremonial de quem celebra
    um culto: e embrulhado n'um _robe-de-chambre_ de sêda da India, através
    da galeria, dando aqui e além um olhar aos meus Fortunys e aos meus
    Corots, entre alas silenciosas de lacaios, dirigia-me ao bife á ingleza,
    servido em Sèvres, azul e oiro.

    O resto da manhã, se havia calor, passava-o sobre coxins de setim côr de
    perola, n'um _boudoir_ em que a mobilia era de porcelana fina de Dresde
    e as flôres faziam um jardim d'Armida; ahi, saboreava o Diario de
    Noticiais, em quanto lindas raparigas vestidas á japoneza refrescavam o
    ar, agitando leques de plumas.

    De tarde ia dar uma volta a pé, até ao Pote das Almas: era a hora mais
    pesada do dia: encostado á bengala, arrastando as pernas molles, abria
    bocejos de fera saciada,—e a turba abjecta parava a contemplar, em
    extasis, o Nababo enfastiado!

    Ás vezes vinha-me como uma saudade dos meus tempos occupados da
    Repartição. Entrava em casa; e encerrado na livraria, onde o Pensamento
    da Humanidade repousava esquecido e encadernado em marroquim, aparava
    uma penna de pato, e ficava horas lançando sobre folhas do meu querido
    Tojal d'outr'ora: «_Ill.^{mo} e Exc.^{mo} Snr.–Tenho a honra de participar
    a V. Exc.^a… Tenho a honra de passar ás mãos de V. Exc.^a!…_».

    Ao começo da noite um criado, para annunciar o jantar, fazia soar pelos
    corredores na sua tuba de prata, á moda gothica, uma harmonia solemne.
    Eu erguia-me e ia comer, magestoso e solitario. Uma populaça de lacaios,
    de librés de sêda negra, servia, n'um silencio de sombras que resvalam,
    as vitualhas raras, vinhos do preço de joias: toda a mesa era um
    esplendor de flôres, luzes, crystaes, scintillações d'oiro:–e
    enrolando-se pelas pyramides de fructos, misturando-se ao vapor dos
    pratos, errava, como uma nevoa subtil, um tedio inenarravel…

    Depois, apopletico, atirava-me para o fundo do coupé–e lá ia ás
    Janellas Verdes onde nutria, n'um jardim de serralho, entre requintes
    musulmanos, um viveiro de fêmeas: revestiam-me d'uma tunica de sêda
    fresca e perfumada,–e eu abandonava-me a delirios abominaveis…
    Traziam-me semi-morto para casa, ao primeiro alvor da manhã: fazia
    machinalmente o meu signal da cruz, e d'ahi a pouco roncava de ventre ao
    ar, livido e com um suor frio, como um Tiberio exhausto.

    * * * * *

    Entretanto Lisboa rojava-se aos meus pés. O pateo do palacete estava
    constantemente invadido por uma turba: olhando-a enfastiado das janellas
    da galeria, eu via lá branquejar os peitilhos da Aristocracia, negrejar
    a sotaina do Clero, e luzîr o suor da Plebe: todos vinham supplicar, de
    labio abjecto, a honra do meu sorriso e uma participação no meu oiro. Ás
    vezes, consentia em receber algum velho de titulo historico:–elle
    adiantava-se pela sala, quasi roçando o tapete com os cabellos brancos,
    tartamudeando adulações; e immediatamente, espalmando sobre o peito a
    mão de fortes vêas onde corria um sangue de tres seculos, offerecia-me
    uma filha bem-amada para esposa ou para concubina.

    Todos os cidadãos me traziam presentes como a um Idolo sobre o
    altar–uns Odes votivas, outros o meu monogramma bordado a cabello,
    alguns chinelas ou boquilhas, cada um a sua consciencia. Se o meu olhar
    amortecido fixava, por acaso, na rua, uma mulher–era logo ao outro dia
    uma carta em que a creatura, esposa ou prostituta, me offertava a sua
    nudez, o seu amor, e todas as complacencias da lascivia.

    Os jornalistas esporeavam a imaginação para achar adjectivos dignos da
    minha grandeza; fui o _sublime snr. Theodoro_, cheguei a ser o _celeste
    snr. Theodoro_; então, desvairada, a Gazeta das Locaes chamou-me o
    _extra-celeste snr. Theodoro_! Diante de mim nenhuma cabeça ficou jámais
    coberta–ou usasse a corôa ou o côco. Todos os dias me era offerecida
    uma Presidencia de Ministerio ou uma Direcção de Confraria. Recusei
    sempre, com nojo.

    Pouco a pouco o rumor das minhas riquezas foi passando os confins da
    Monarchia. O Figaro, cortezão, em cada numero fallou de mim,
    preferindo-me a Henrique V; o grotesco immortal, que assigna
    _Saint-Genest_, dirigiu-me apostrophes convulsivas, pedindo-me para
    salvar a França; e foi então que as Illustrações estrangeiras
    publicaram, a côres, as scenas do meu viver. Recebi de todas as
    princezas da Europa enveloppes, com sêllos heraldicos, expondo-me, por
    photographias, por documentos, a fórma dos seus corpos e a antiguidade
    das suas genealogias. Duas pilherias que soltei durante esse anno foram
    telegraphadas ao Universo pelos fios da Agencia Havas; e fui considerado
    mais espirituoso que Voltaire, que Rochefort, e que esse fino
    entendimento que se chama _Todo-o-Mundo_. Quando o meu intestino se
    alliviava com estampido–a Humanidade sabia-o pelas gazetas. Fiz
    emprestimos aos Reis, subsidiei guerras civis–e fui caloteado por todas
    as Republicas latinas que orlaram o golfo do Mexico.

    E eu, no entanto, vivia triste…

    * * * * *

    Todas as vezes que entrava em casa estacava, arripiado, diante da mesma
    visão: ou estirada no limiar da porta, ou atravessada sobre o leito
    d'oiro–lá jazia a figura bojuda, de rabicho negro e tunica amarella,
    com o seu papagaio nos braços… Era o Mandarim Ti-Chin-Fú! Eu
    precipitava-me, de punho erguido: e tudo se dissipava.

    Então cahia aniquilado, todo em suor, sobre uma poltrona, e murmurava no
    silencio do quarto, onde as vélas dos candelabros davam tons
    ensaguentados aos damascos vermelhos:

    –_Preciso matar este morto_!

    E todavia, não era esta impertinencia d'um velho phantasma pançudo,
    accommodando-se nos meus moveis, sobre as minhas colchas, que me fazia
    saber mal a vida.

    O horror supremo consistia na idéa, que se me cravára então no espirito
    como um ferro inarrancavel–_que eu tinha assassinado um velho_!

    Não fôra com uma corda em torno da garganta á moda musulmana; nem com
    veneno n'um calix de vinho de Syracusa, á maneira italiana da
    Renascença; nem com algum dos methodos classicos, que na historia das
    Monarchias teem recebido consagrações augustas–a punhal como D. João
    II, á clavina como Carlos IX…

    Tinha eliminado a creatura, de longe, com uma campainha. Era absurdo,
    phantastico, faceto. Mas não diminuia a tragica negrura do facto: _eu
    assassinára um velho_!

    Pouco a pouco esta certeza ergueu-se, petrificou-se na minha alma, e
    como uma columna n'um descampado dominou toda a minha vida interior: de
    sorte que, por mais desviado caminho que tomassem os meus pensamentos
    viam sempre negrejar no horisonte aquella Memoria accusadora; por mais
    alto que se levantasse o vôo das minhas imaginações, ellas terminavam
    por ir fatalmente ferir as azas n'esse Monumento de miseria moral.

    Ah! por mais que se considere Vida e Morte como banaes transformações da
    Substancia, é pavoroso o pensamento–que se fez regelar um sangue
    quente, que se immobilisou um musculo vivo! Quando depois de jantar,
    sentindo ao lado o aroma do café, eu me estirava no sophá, enlanguecido,
    n'uma sensação de plenitude, elevava-se logo dentro em mim, melancolico
    como o côro que vem d'um ergastulo, todo um susurro de accusações:

    –E todavia tu fizeste que esse bem-estar em que te regalas, nunca mais
    fosse gozado pelo veneravel Ti-Chin-Fú!…

    Debalde eu replicava á Consciencia, lembrando-lhe a decrepitude do
    Mandarim, a sua gôta incuravel… Facunda em argumentos, gulosa de
    controversia, ella retorquia logo com furor:

    –Mas, ainda na sua actividade mais resumida, a vida é um bem supremo:
    porque o encanto d'ella reside no seu principio mesmo, e não na
    abundancia das suas manifestações!

    Eu revoltava-me contra este pedantismo rhetorico de pedagogo rigido:
    erguia alto a fronte, gritava-lhe n'uma arrogancia desesperada:

    –Pois bem! Matei-o! Melhor! Que queres tu? o teu grande nome de
    Consciencia não me assusta! És apenas uma perversão da sensibilidade
    nervosa. Posso eliminar-te com _flôr de laranja_!

    E immediatamente sentia passar-me n'alma, com uma lentidão de briza, um
    rumor humilde de murmurações ironicas:

    –Bem, então come, dorme, banha-te e ama…

    Eu assim fazia. Mas logo, os proprios lençoes de Bretanha do meu leito
    tomavam aos meus olhos apavorados os tons lividos d'uma mortalha; a agua
    perfumada em que me mergulhava arrefecia-me sobre a pelle, com a
    sensação espessa d'um sangue que coalha: e os peitos nús das minhas
    amantes entristeciam-me, como lapides de marmore que encerram um corpo
    morto.

    Depois assaltou-me uma amargura maior: comecei a pensar que Ti-Chin-Fú
    tinha de certo uma vasta familia, netos, bisnetos tenros, que,
    despojados da herança que eu comia á farta em pratos de Sèvres, n'uma
    pompa de sultão perdulario, iam atravessando na China todos os infernos
    tradicionaes da miseria humana–os dias sem arroz, o corpo sem agasalho,
    a esmola recusada, a rua lamacenta por morada…

    Comprehendi então porque me perseguia a figura obesa do velho letrado; e
    dos seus labios recobertos pelos longos pellos brancos do seu bigode de
    sombra, parecia-me sahir agora esta accusação desolada:–«Eu não me
    lamento a mim, fórma meio morta que era; chóro os tristes que
    arruinaste, e que a estas horas, quando tu vens do seio fresco das tuas
    amorosas, gemem de fome, regelam na frialdade, apinhados n'um grupo
    expirante, entre leprosos e ladrões, na _Ponte dos Mendigos_, ao pé dos
    terraços do Templo do Céo!»

    Oh tortura engenhosa! Tortura realmente chineza! Não podia levar á bocca
    um pedaço de pão sem imaginar immediatamente o bando faminto de
    criancinhas, a descendencia de Ti-Chin-Fú, penando, como passarinhos
    implumes que abrem debalde o bico e piam em ninho abandonado; se me
    abafava no meu paletot era logo a visão de desgraçadas senhoras, mimosas
    outr'ora de tepido conforto chinez, hoje rôxas de frio, sob andrajos de
    velhas sêdas, por uma manhã de neve; o tecto d'ébano do meu palacete
    lembrava-me a familia do Mandarim, dormindo á beira dos canaes, farejada
    pelos cães; e o meu coupé bem forrado fazia-me arripiar á idéa das
    longas caminhadas errantes, por estradas encharcadas, sob um duro
    inverno asiatico.

    O que eu soffria!–E era o tempo em que a populaça invejosa vinha pasmar
    para o meu palacete, commentando as felicidades inaccessiveis que lá
    deviam habitar!

    Emfim, reconhecendo que a Consciencia era dentro em mim como uma
    serpente irritada–decidi implorar o auxilio d'Aquelle que dizem ser
    superior á Consciencia porque dispõe da Graça.

    Infelizmente eu não acreditava n'Elle… Recorri pois á minha antiga
    divindade particular, ao meu dilecto idolo, padroeira da minha familia,
    Nossa Senhora das Dôres. E, regiamente pago, um povo de curas e conegos,
    pelas cathedraes de cidade e pelas capellas d'aldêa, foi pedindo a Nossa
    Senhora das Dôres que voltasse os seus olhos piedosos para o meu mal
    interior… Mas nenhum allivio desceu d'esses céos inclementes, para
    onde ha milhares d'annos debalde sobe o clamor da miseria humana.

    Então eu proprio me abysmei em praticas piedosas–e Lisboa assistiu a
    este espectaculo extraordinario: um ricaço, um Nababo, prostrando-se
    humildemente ao pé dos altares, balbuciando de mãos postas phrases de
    _Salvè-Rainha_, como se visse na Oração e no Reino do Céo que ella
    conquista, outra cousa mais que uma consolação ficticia que os que
    possuem tudo inventaram para contentar os que não possuem nada… Eu
    pertenço á Burguezia; e sei que se ella mostra á Plebe desprovída um
    paraiso distante, gozos ineffaveis a alcançar–é para lhe afastar a
    attenção dos seus cofres repletos e da abundancia das suas searas.

    Depois, mais inquieto, fiz dizer milhares de missas, simples e cantadas,
    para satisfazer a alma errante de Ti-Chin-Fú. Pueril desvario d'um
    cerebro peninsular! O velho Mandarim na sua classe de letrado, de membro
    da Academia dos Han-Lin, collaborador provavel do grande tratado
    Khou-Tsuane-Chou que já tem setenta e oito mil e setecentos e trinta
    volumes, era certamente um sectario da Doutrina, da Moral positiva de
    Confucio… Nunca elle, sequer, queimára mechas perfumadas em honra de
    Buddha: e os ceremoniaes do Sacrificio mystico deviam parecer á sua
    abominavel alma de grammatico e de sceptico como as pantomimas dos
    palhaços, no theatro de Hong-Tung!

    Então prelados astutos, com experiencia catholica, deram-me um conselho
    subtil–captar a benevolencia de Nossa Senhora das Dores com presentes,
    flôres, brocados e joias, como se quizesse alcançar os favores
    d'Aspasia: e á maneira d'um banqueiro obeso, que obtem as complacencias
    d'uma dançarina dando-lhe um _Cottage_ entre arvores–eu, por uma
    suggestão sacerdotal, tentei peitar a dôce Mãi dos Homens, erguendo-lhe
    uma cathedral toda de marmore branco. A abundancia das flôres punha
    entre os pilares lavrados perspectivas de paraisos: a multiplicidade dos
    lumes lembrava uma magnificencia sideral… Despezas vãs! O fino e
    erudito cardeal Nani veio de Roma consagrar a Igreja; mas, quando eu
    n'esse dia entrei a visitar a minha hospeda divina, o que vi, para além
    das calvas dos celebrantes, entre a mystica nevoa dos incensos, não foi
    a Rainha da Graça, loira, na sua tunica azul,–foi o velho malandro com
    o seu olho obliquo e o seu papagaio nos braços! Era a _elle_, ao seu
    branco bigode tartaro, á sua pança côr d'oca, que todo um sacerdocio
    recamado d'oiro estava offerecendo, ao roncar do orgão, a Eternidade dos
    Louvores!…

    * * * * *

    Então, pensando que Lisboa, o meio dormente em que me movia, era
    favoravel ao desenvolvimento d'estas imaginações–parti, viajei
    sobriamente, sem pompa, com um bahú e um lacaio.

    Visitei, na sua ordem, classica, Paris, a banal Suissa, Londres, os
    lagos taciturnos da Escocia; ergui a minha tenda diante das muralhas
    evangelicas de Jerusalém; e d'Alexandria a Thebas, fui ao comprido
    d'esse longo Egypto monumental e triste como o corredor d'um mausoléo.
    Conheci o enjôo dos paquetes, a monotonia das ruinas, a melancolia das
    multidões desconhecidas, as desillusões do _boulevard_: e o meu mal
    interior ia crescendo.

    Agora já não era só a amargura de ter despojado uma familia veneravel:
    assaltava-me o remorso mais vasto de ter privado toda uma sociedade d'um
    Personagem fundamental, um letrado experiente, columna da Ordem, esteio
    d'Instituições. Não se póde arrancar assim a um Estado uma personalidade
    do valor de cento e seis mil contos, sem lhe perturbar o equilibrio…
    Esta idéa pungia-me, acerbamente. Anciei por saber se na verdade a
    desapparição de Ti-Chin-Fú fôra funesta á decrepita China: li todos os
    jornaes de Hong-Kong e de Chang-Hai, velei a noite sobre Historias de
    viagens, consultei sabios missionarios:–e artigos, homens, livros, tudo
    me falla da decadencia do Imperio do Meio, provincias arruinadas,
    cidades moribundas, plebes esfomeadas, pestes e rebelliões, templos
    aluindo-se, leis perdendo a authoridade, a decomposição d'um mundo, como
    uma nau encalhada que a vaga desfaz tábua a tábua!…

    E eu attribuia-me estas desgraças da Sociedade chineza! No meu espirito
    doente Ti-Chin-Fú! tomára então o valor desproporcionado d'um Cesar, um
    Moysés, um d'esses sêres providenciaes que são a força d'uma raça. Eu
    matára-o; e com elle desapparecera a vitalidade da sua patria! O seu
    vasto cerebro poderia talvez ter salvado, a rasgos geniaes, aquella
    velha monarchia asiatica–e eu immobilisára-lhe a acção creadora! A sua
    fortuna concorreria a refazer a grandeza do Erario–e eu estava-a
    dissipando a offerecer pecegos em janeiro ás messalinas do
    Helder!…–Amigos, conheci o remorso colossal de ter arruinado um
    imperio!

    Para esquecer este tormento complicado, entreguei-me á orgia.
    Installei-me n'um palacete da avenida dos Campos-Elysios–e fui medonho.
    Dava festas á Trimalcião: e, nas horas mais asperas de furia libertina,
    quando das charangas, na estridencia brutal dos cobres, rompiam os
    _can-cans_; quando prostitutas, de seio desbragado, ganiam coplas
    canalhas; quando os meus convidados bohemios, atheus de cervejaria,
    injuriavam Deus, com a taça de _Champagne_ erguida–eu, tomado
    subitamente como Heliogabalo d'um furor de bestialidade, d'um ódio
    contra o Pensante e o Consciente, atirava-me ao chão a quatro patas e
    zurrava formidavelmente de burro…

    Depois quiz ir mais baixo, ao deboche da plebe, ás torpezas alcoólicas
    do _Assomoir_: e quantas vezes, vestido de blusa, com o casquete para a
    nuca, de braço dado com _Mes-Bottes_ ou _Bibi-la-Gaillarde_, n'um tropel
    avinhado, fui cambaleando pelos _boulevards_ exteriores, a uivar, entre
    arrotos:

    _Allons, enfants de la patrie-e-e!…
    Le jour de gloire est arrivé…_

    Foi uma manhã, depois d'um d'estes excessos, á hora em que nas trevas da
    alma do debochado se ergue uma vaga aurora espiritual–que me nasceu, de
    repente, a idéa de partir para a China! E, como soldados em acampamento
    adormecido, que ao som do clarim se erguem, e um a um se vão juntando e
    formando columna–outras idéas se foram reunindo no meu espirito,
    alinhando-se, completando um plano formidavel… Partiria para Pekin;
    descobriria a familia de Ti-Chin-Fú; esposando uma das senhoras,
    legitimaría a posse dos meus milhões; daria áquella casa letrada a
    antiga prosperidade; celebraria funeraes pomposos ao Mandarim, para lhe
    acalmar o espirito irritado; iria pelas provincias miseraveis fazendo
    colossaes distribuições d'arroz; e, obtendo do Imperador o botão de
    crystal de Mandarim, accesso facil a um bacharel, substituir-me-hia á
    personalidade desapparecida de Ti-Chin-Fú–e poderia assim restituir
    legalmente á sua patria, senão a authoridade do seu saber, ao menos a
    força do seu oiro.

    Tudo isto, por vezes, me apparecia como um programma indefinido,
    nevoento, pueril e idealista. Mas já o desejo d'esta aventura original e
    epica me envolvera; e eu ia, arrebatado por elle, como uma folha secca
    n'uma rajada.

    Anhelei, suspirei por pisar a terra da China!–Depois d'altos
    preparativos, apressados a punhados d'oiro, uma noite parti emfim para
    Marselha. Tinha alugado todo um paquete, o _Ceylão_. E na manhã
    seguinte, por um mar azul-ferrete, sob o vôo branco das gaivotas, quando
    os primeiros raios do sol ruborisavam as torres de Nossa Senhora da
    Guarda, sobre o seu rochedo escuro–puz a prôa ao Oriente.

    IV

    O Ceylão teve uma viagem calma e monotona até Chang-Hai.

    D'ahi subimos pelo rio Azul a Tien-Tsin n'um pequeno _steamer_ da
    Companhia Russel. Eu não vinha visitar a China n'uma curiosidade ociosa
    de _touriste_: toda a paizagem d'essa provincia, que se assemelha á dos
    vasos de porcelana, d'um tom azulado e vaporoso, com collinasinhas
    calvas e de longe a longe um arbusto bracejante, me deixou sombriamente
    indifferente.

    Quando o capitão do _steamer_, um _yankee_ impudente de focinho de
    chibo, ao passarmos á altura de Nankin, me propoz parar, ir percorrer as
    ruinas monumentaes da velha cidade de porcelana,–eu recusei, com um
    movimento secco de cabeça, sem mesmo desviar os olhos tristes da
    corrente barrenta do rio.

    Que pesados e soturnos me pareceram os dias de navegação de Tien-Tsin a
    Tung-Chou, em barcos chatos que o cheiro dos remadores chinezes
    empestava; ora através de terras baixas inundadas pelo Pei-hó, ora ao
    longo de pallidos e infindaveis arrozaes; passando aqui uma lugubre
    aldêa de lama negra, além um campo coberto de esquifes amarellos;
    topando a cada momento com cadaveres de mendigos, inchados e
    esverdeados, que desciam ao fio d'agua, sob um céo fusco e baixo!

    Em Tung-Chou fiquei surprehendido, ao dar com uma escolta de cossacos
    que mandava ao meu encontro o velho general Camilloff, heroico official
    das campanhas da Asia Central, e então embaixador da Russia em Pekin. Eu
    vinha-lhe recommendado como um sêr precioso e raro: e o verboso
    interprete Sá-Tó, que elle punha ao meu serviço, explicou-me que as
    cartas de sêllo imperial, avisando-o da minha chegada, recebera-as elle,
    havia semanas, pelos correios da Chancellaria que atravessam a Siberia
    em trenó, descem a dorso de camêlo até á Grande Muralha tartara, e
    entregam ahi a mala a esses corredores mongolicos, vestidos de coiro
    escarlate, que dia e noite galopam sobre Pekin.

    Camilloff enviava-me um poney da Manchouria, ajaezado de sêda, e um
    cartão de visita, com estas palavras traçadas a lapis sob o seu nome:
    «_Saúde! o animal é dôce de bocca_!»

    Montei o poney: e a um _hurrah_! dos cossacos, n'um agitar heroico de
    lanças, partimos á desfilada pela poeirenta planicie–porque já a tarde
    declinava, e as portas de Pekin fecham-se mal o ultimo raio de sol deixa
    as torres do Templo do Céo. Ao principio seguimos uma estrada, caminho
    batido do transito das caravanas, atravancado de enormes lages de
    marmore dessoldadas da antiga Via Imperial. Depois passámos a ponte de
    Pa-li-kao, toda de marmore branco, flanqueada de dragões arrogantes.
    Vamos correndo então á beira de canaes d'agua negra: começam a apparecer
    pomares, aqui e além uma aldêa de côr azulada, aninhada ao pé de um
    Pagode:–de repente, a um cotovêlo do caminho, paro assombrado…

    Pekin está diante de mim! É uma vasta muralha, monumental e barbara,
    d'um negro baço, estendendo-se a perder de vista, e, destacando, com as
    architecturas babylonicas das suas portas de tectos recurvos, sobre um
    fundo de poente de purpura ensanguentada…

    Ao longe, para o Norte, n'um vago de vapor roxo, esbatem-se, como
    suspensas no ar, as montanhas da Mongolia…

    Uma rica liteira esperava-me á porta de Tung-Tsen-Men, para eu
    atravessar Pekin até á Residencia militar de Camilloff. A muralha agora,
    ao perto, parecia erguer-se até aos céos com o horror d'uma construcção
    biblica: á sua base apinhava-se uma confusão de barracas, feira exotica,
    onde rumorejava uma multidão, e a luz de lanternas oscillantes cortava
    já o crepúsculo de vagas manchas côr de sangue; os toldos brancos faziam
    ao pé do negro muro como um bando de borboletas pousadas.

    Senti-me triste; subi á liteira, cerrei as cortinas de sêda escarlate
    todas bordadas a oiro; e cercado dos cossacos, eis-me entrando a velha
    Pekin, por essa porta babelica, na turba tumultuosa, entre carretas,
    cadeirinhas de xarão, cavalleiros mongolicos armados de flechas, bonzos
    de tunica alvejante marchando um a um, e longas filas de lentos
    dromedarios balançando a sua carga em cadencia…

    D'ahi a pouco a liteira parou. O respeitoso Sá-Tó correu as cortinas, e
    vi-me n'um jardim, escurecido e calado, onde, por entre sycomoros
    seculares, kiosques alumiados brilhavam com uma luz dôce, como colossaes
    lanternas pousadas sobre a relva: e toda a sorte de aguas correntes
    murmuravam na sombra. Sob um peristilo feito de madeiros pintados a
    vermelhão, aclarado por fios de lampadas de papel transparente,
    esperava-me um membrudo figurão, de bigodes brancos, apoiado a um grosso
    espadão. Era o general Camilloff. Ao adiantar-me para elle, eu sentia o
    passo inquieto das gazellas fugindo de leve sob as arvores…

    O velho heroe apertou-me um momento ao peito, e conduziu-me logo,
    segundo os usos chinezes, ao banho da hospitalidade, uma vasta tina de
    porcelana, onde entre rodelas finas de limão sobrenadavam esponjas
    brancas, n'um perfume forte de lilaz…

    Pouco depois a lua banhava deliciosamente os jardins: e eu, muito
    fresco, de gravata branca, entrava pelo braço de Camilloff no _boudoir_
    da generala. Era alta e loira; tinha os olhos verdes das sereias de
    Homero; no decote baixo do seu vestido de sêda branca pousava uma rosa
    escarlate; e nos dedos, que lhe beijei, errava um aroma fino de sandalo
    e de chá.

    Conversámos muito da Europa, do Nihilismo, de Zola, de Leão XIII, e da
    magreza de Sarah Bernardth…

    Pela galeria aberta penetrava um ar calido que rescendia a heliotropio.
    Depois ella sentou-se ao piano–e a sua voz de contralto quebrou até
    tarde os silencios melancolicos da cidade tartara, com as picantes arias
    de _Madame Favart_ e com as melodias afagantes do _Rei de Lahore_.

    * * * * *

    Ao outro dia cedo, encerrado com o general n'um dos kiosques do jardim,
    contei-lhe a minha lamentavel historia e os motivos fabulosos que me
    traziam a Pekin. O heroe escutava, cofiando sombriamente o seu espesso
    bigode cossaco…

    –O meu prezado hospede sabe o chinez?–perguntou-me de repente, fixando
    em mim a pupilla sagaz.

    –Sei duas palavras importantes, general: _Mandarim_ e _chá_.

    Bile passou a sua mão de fortes cordovêas sobre a medonha cicatriz que
    lhe sulcava a calva:

    –_Mandarim_, meu amigo, não é uma palavra chineza, e ninguem a entende
    na China. É o nome que no seculo XVI os navegadores do seu paiz, do seu
    bello paiz…

    –Quando nós tinhamos navegadores…–murmurei, suspirando.

    Elle suspirou tambem, por polidez, e continuou:

    –…Que os seus navegadores deram aos funccionarios chinezes. Vem do
    seu verbo, do seu lindo verbo…

    –Quando tinhamos verbos…–rosnei, no habito instinctivo de deprimir a
    patria.

    Elle esgazeou um momento o seu olho redondo de velho mocho–e proseguiu
    paciente e grave:

    –Do seu lindo verbo _mandar_ … Resta-lhe por tanto _chá_. É um
    vocabulo que tem um vasto papel na vida chineza, mas julgo-o
    insufficiente para servir a todas as relações sociaes. O meu estimavel
    hospede pretende esposar uma senhora da famillia Ti-Chin-Fú, continuar a
    grossa influencia que exercia o Mandarim, substituir, domestica e
    socialmente, esse chorado defunto… Para tudo isto dispõe da palavra
    _chá_. É pouco.

    Não pude negar–que era pouco. O venerando russo, franzindo o seu nariz
    adunco de milhafre, pôz-me ainda outras objecções que eu via erguerem-se
    diante do meu desejo–como as muralhas mesmas de Pekin: nenhuma senhora
    da familia Ti-Chin-Fú consentiria jámais em casar com um barbaro; e
    seria impossivel, terrivelmente impossivel que o Imperador, o Filho do
    Sol, concedesse a um estrangeiro as honras privilegiadas d'um
    Mandarim…

    –Mas porque m'as recusaria?–exclamei.–Eu pertenço a uma boa familia
    da provincia do Minho. Sou bacharel formado: portanto na China, como em
    Coimbra, sou um letrado! Já fiz parte d'uma repartição publica… Possuo
    milhões… Tenho a experiencia do estylo administrativo…

    O general ia-se curvando com respeito a esta abundancia dos meus
    attributos.

    –Não é–disse elle emfim–que o Imperador realmente o recusasse: é que
    o individuo que lh'o propozesse seria immediatamente decapitado. A lei
    chineza, n'este ponto, é explicita e secca.

    Baixei a cabeça, acabrunhado.

    –Mas, general–murmurei–eu quero livrar-me da presença odiosa do velho
    Ti-Chin-Fú e do seu papagaio!… Se eu entregasse metade dos meus
    milhões ao thesouro chinez, já que não me é dado pessoalmente
    applical-os, como Mandarim, á prosperidade do Estado…? Talvez
    Ti-Chin-Fú se calmasse…

    O general pousou-me paternalmente a vasta mão sobre o hombro:

    –Êrro, consideravel êrro, mancebo! Esses milhões nunca chegariam ao
    thesouro imperial. Ficariam nas algibeiras insondaveis das classes
    dirigintes: seriam dissipados em plantar jardins, colleccionar
    porcelanas, tapetar de pelles os soalhos, fornecer sêdas ás concubinas:
    não alliviariam a fome d'um só chinez, nem reparariam uma só pedra das
    estradas publicas… Iriam enriquecer a orgia asiatica. A alma de
    Ti-Chin-Fú deve conhecer bem o Imperio: e isso não a satisfaria.

    –E se eu empregasse parte da fortuna do velho malandro em fazer
    particularmente, como philanthropo, largas distribuições d'arroz á
    populaça faminta? É uma idéa…

    –Funesta–disse o general, franzindo medonhamente o sobr'olho.–A côrte
    imperial veria ahi immediatamente uma ambição politica, o tortuoso plano
    de ganhar os favores da plebe, um perigo para a Dynastia… O meu bom
    amigo seria decapitado… É grave…

    –Maldição!–berrei.—Então para que vim eu á China?

    O diplomata encolheu vagarosamente os hombros; mas logo, mostrando n'um
    sorriso astuto os seus dentes amarellos de cossaco:

    –Faça uma coisa. Procure a familia de Ti-Chin-Fú… Eu indagarei do
    primeiro ministro, sua excellencia o principe Tong, onde pára essa prole
    interessante… Reuna-os, atire-lhes uma ou duas duzias de milhões…
    Depois prepare ao defunto funeraes regios. Funeraes d'alto ceremonial,
    com um prestito d'uma legua, filas de bonzos, todo um mundo de
    estandartes, palanquins, lanças, plumas, andores escarlates, legiões de
    carpideiras ululando sinistramente, etc. etc… Se depois de tudo isto a
    sua consciencia não adormecer e o phantasma insistir…

    –Então?

    –Córte as guelas.

    –Obrigado, general.

    * * * * *

    Uma coisa porém era evidente, e n'ella concordaram Camilloff, o
    respeitoso Sá-Tó e a generala:–que, para frequentar a familia
    Ti-Chin-Fú, seguir os funeraes, misturar-me á vida de Pekin, eu devia
    desde já vestir-me como um chinez opulento, da classe letrada, para me
    ir habituando ao traje, ás maneiras, ao ceremonial mandarim…

    A minha face amarellada, o meu longo bigode pendente favoreciam a
    caracterisação:–e quando na manhã seguinte, depois d'arranjado pelos
    costureiros engenhosos da rua Chá-Coua, entrei na sala forrada de sêda
    escarlate, onde já rebrilhavam as porcelanas do almoço sobre a mesa de
    charão negro,–a generala recuou como á appariçâo do proprio Tong-Tché,
    Filho do Céo!

    Eu trazia uma tunica de brocado azul escuro abotoada ao lado, com o
    peitilho ricamente bordado de dragões e flôres d'oiro: por cima um
    casabeque de sêda de um tom azul mais claro, curto, amplo e fôfo: as
    calças de setim côr de avellã descobriam ricas babouches amarellas
    pespontadas a perolas, e um pouco da meia picada d'estrellinhas negras:
    e á cinta, n'uma linda facha franjada de prata, tinha mettido um leque
    de bambú, dos que teem o retrato do philosopho Lá-o-Tsé e são fabricados
    em Swaton.

    E, pelas mysteriosas correlações com que o vestuario influenceia o
    caracter, eu sentia já em mim idéas, instinctos chinezes:–o amor dos
    ceremoniaes meticulosos, o respeito bureocratico das fórmulas, uma ponta
    de scepticismo letrado; e tambem um abjecto terror do Imperador, o odio
    ao estrangeiro, o culto dos antepassados, o fanatismo da tradição, o
    gosto das coisas assucaradas…

    Alma e ventre, era já totalmente um Mandarim. Não disse á
    generala:–_Bon jour, Madame_. Dobrado ao meio, fazendo girar os punhos
    fechados sobre a fronte abaixada, fiz gravemente o _chin-chin_!

    –É adorável, é precioso!–dizia ella, com o seu lindo riso, batendo as
    maosinhas pallidas.

    N'essa manhã, em honra da minha nova incarnação, havia um almoço chinez.
    Que gentis guardanapos de papel de sêda escarlate, com monstros
    fabulosos desenhados a negro! O serviço começou por ostras de Ning-Pó.
    Eximias! Absorvi duas duzias com um intenso regalo chinez. Depois vieram
    deliciosas febras de barbatana de tubarão, olhos de carneiro com picado
    d'alho, um prato de nenufares em calda d'assucar, laranjas de Cantão, e
    emfim o arroz sacramental, o arroz dos avós…

    Delicado repasto, regado largamente de excellente vinho de Chão-Chigne!
    E por fim, com que gôzo recebi a minha taça d'agua a ferver, onde deitei
    uma pitada de folhas de chá imperial, da primeira colheita de março,
    colheita unica, que é celebrada como um rito santo pelas mãos puras de
    virgens!…

    Duas cantadeiras entraram, em quanto nós fumavamos; e muito tempo, n'uma
    modulação guttural, disseram velhas cantigas dos tempos da dynastia
    Ming, ao som de guitarras recobertas de pelles de serpente, que dous
    tartaros agachados repenicavam, n'uma cadencia melancolica e barbara. A
    China tem encantos d'um raro gosto…

    Depois a loira generala cantou-nos, com chiste, a _Femme à barbe_: e
    quando o general sahiu com a sua escolta cossaca para o Yamen do
    principe Tong, a informar-se da residencia da familia Ti-Chin-Fú–eu,
    repleto e bem disposto, sahi com Sá-Tó a vêr Pekin.

    * * * * *

    A habitação de Camilloff ficava na cidade tartara, nos bairros militares
    e nobres. Ha aqui uma tranquillidade austera. As ruas assemelham-se a
    largos caminhos d'aldêa sulcados pelas rodas dos carros; e quasi sempre
    se caminha ao comprido de um muro, d'onde sahem ramos horisontaes de
    sycomoros.

    Por vezes uma carreta passa rapidamente, ao trote de um poney mongol,
    com altas rodas cravejadas de pregos dourados; tudo n'ella oscilla, o
    toldo, as cortinas pendentes de sêda, os ramos de plumas aos angulos; e
    dentro entrevê-se alguma linda dama chineza, coberta de brocados claros,
    a cabeça toda cheia de flôres, fazendo girar nos pulsos dois aros de
    prata, com um ar de tedio ceremonioso. Depois é alguma aristocratica
    cadeirinha de Mandarim, que koulis vestidos d'azul, de rabicho solto,
    vão levando a um trote arquejante para os Yamens do Estado; precede-os
    uma criadagem maltrapilha que ergue ao alto rolos de seda com
    inscripções bordadas, insignias d'authoridade; e dentro o personagem
    bojudo, com enormes oculos redondos, folheia a sua papelada ou dormita
    de beiço cahido…

    A cada momento paravamos a olhar as lojas ricas, com as suas taboletas
    verticaes de letras douradas sobre fundo escarlate: os freguezes, n'um
    silencio d'igreja, subtis como sombras, vão examinando as
    preciosidades–porcelanas da dynastia Ming, bronzes, esmaltes, marfins,
    sêdas, armas marchetadas, os leques maravilhosos de Swaton: por vezes,
    uma fresca rapariga d'olho obliquo, tunica azul, e papoilas de papel nas
    tranças, desdobra algum raro brocado diante d'um grosso chinez que o
    contempla beatamente, com os dedos cruzados na pança: ao fundo o
    mercador apparatoso e immovel, escreve com um pincel sobre longas
    taboinhas de sandalo: e um perfume adocicado que sahe das coisas
    perturba e entristece…

    Eis-aqui a muralha que cérca a Cidade interdictca, morada santa do
    Imperador! Moços nobres vem descendo do terraço d'um templo onde se
    estiveram adestrando á frecha. Sá-Tó disse-me os seus nomes: eram da
    guarda selecta, que nas ceremonias escolta o guarda-sol de sêda
    amarella, com o Dragão bordado, que é o emblema sagrado do Imperador.
    Todos elles comprimentaram profundadamente um velho que ia passando, de
    barbas venerandas, com o casabeque amarello que é o privilegio do
    ancião; vinha fallando só, e trazia na mão uma vara sobre que pousavam
    cotovias domesticadas… Era um principe do Imperio.

    Estranhos bairros! Mas nada me divertia como vêr a cada instante, a uma
    porta de jardim, dois Mandarins pançudos que para entrar se trocavam
    indefinidamente salamalés, cortezias, recusas, risinhos agudos
    d'etiqueta, todo um ceremonial dogmatico–que lhes fazia oscillar d'um
    modo picaresco, sobre as costas, as longas pennas de pavão. Depois se
    erguia os olhos para o ar, lá via sempre pairar enormes papagaios de
    papel, ora em fórma de dragões, ora de cetaceos, ora d'aves
    fabulosas–enchendo o espaço d'uma inverosimil legião de monstros
    transparentes e ondeantes…

    * * * * *

    –Sá-Tó, basta de cidade tartara! Vamos vêr os bairros chinezes…

    E lá fomos penetrando na cidade chineza, pela porta monstruosa de
    Tchin-Men. Aqui habita a burguezia, o mercador, a populaça. As ruas
    alinham-se como uma pauta; e no sólo vetusto e lamacento, feito da
    immundicie de gerações recalcada desde seculos, ainda aqui e além jaz
    alguma das lages de marmore côr de rosa que outr'ora o calçavam, no
    tempo da grandeza dos Ming.

    Dos dois lados são–ora terrenos vagos onde uivam manadas de cães
    famintos, ora filas de casebres fuscos, ora pobres lojas com as suas
    taboletas esguias e sarapintadas, balouçando-se d'uma haste de ferro. A
    distancia erguem-se os arcos triumphaes feitos de barrotes côr de
    purpura, ligados no alto por um telhado oblongo de telhas azues
    envernizadas, que rebrilham como esmaltes. Uma multidão rumorosa e
    espessa, onde domina o tom pardo e azulado dos trajes, circula sem
    cessar; a poeira envolve tudo d'uma nevoa amarellada; um fedor acre
    exhala-se dos enxurros negros; e a cada momento uma longa caravana de
    camêlos fende lentamente a turba, conduzida por mongoes sombrios
    vestidos de pelle de carneiro…

    Fomos até ás entradas das pontes sobre os canaes, onde saltimbancos
    semi-nús, com mascaras simulando demonios pavorosos, fazem destrezas
    d'um picaresco barbaro e subtil; e muito tempo estive a admirar os
    astrologos de longas tunicas, com dragões de papel collados ás cóstas,
    vendendo ruidosamente horoscopos e consultas d'astros. Oh cidade
    fabulosa e singular!

    De repente ergue-se uma gritaria! Corremos: era um bando de presos, que
    um soldado, de grandes oculos, ia impellindo com o guarda-sol, amarrados
    uns aos outros pelo rabicho! Foi ahi n'essa avenida, que eu vi o
    estrepitoso cortejo de um funeral de Mandarim, todo ornado de
    auriflammas e de bandeirolas; grupos de sujeitos funebres vinham
    queimando papeis em fogareiros portateis; mulheres esfarrapadas uivavam
    de dôr espojando-se sobre tapetes; depois erguiam-se, galhofavam, e um
    kouli vestido de luto branco servia-lhes logo chá, d'um grande bule em
    fórma d'ave.

    Ao passar junto ao Templo do Céo, vejo apinhada n'um largo uma legiao de
    mendigos; tinham por vestuario um tijolo preso á cinta n'um cordel; as
    mulheres, com os cabellos entremeados de velhas flôres de papel, roiam
    ossos tranquillamente; e cadaveres de crianças apodreciam ao lado, sob o
    vôo dos moscardos. Adiante topamos com uma jaula de traves, onde um
    condemnado estendia, através das grades, as mãos descarnadas, á
    esmola… Depois Sá-Tó mostrou-me respeitosamente uma praça estreita:
    ahi, sobre pilares de pedra, poupavam pequenas gaiolas contendo cabeças
    de decapitados: e gotta a gotta ia pingando d'ellas um sangue espesso e
    negro…

    * * * * *

    –Ouf!–exclamei, fatigado e aturdido.–Sá-Tó, agora quero o repouso, o
    silencio, e um charuto caro…

    Elle curvou-se: e, por uma escadaria de granito, levou-me ás altas
    muralhas da cidade, formando uma esplanada que quatro carros de guerra a
    par podem percorrer durante leguas.

    E emquanto Sá-Tó, sentado n'um vão d'ameia, bocejava n'um desafôgo de
    _cicerone_ enfastiado, eu fumando contemplei muito tempo aos meus pés a
    vasta Pekin…

    É como uma formidavel cidade da Biblia, Babel, ou Ninive que o propheta
    Jonas levou tres dias a atravessar. O grandioso muro quadrado limita os
    quatro pontos do horisonte, com as suas portas de torres monumentaes,
    que o ar azulado, áquella distancia, faz parecer transparentes. E na
    immensidão do seu recinto agglomeram-se confusamente verduras de
    bosques, lagos artificiaes, canaes scintillantes como aço, pontes de
    marmore, terrenos alastrados de ruinas, telhados envernizados reluzindo
    ao sol; por toda a parte são pagodes heraldicos, brancos terraços de
    templos, arcos triumphaes, milhares de kiosques sahindo d'entre as
    folhagens dos jardins; depois espaços que parecem um montão de
    porcelanas, outros que se assemelham a monturos de lama; e sempre a
    intervallos regulares o olhar encontra algum dos bastiões, d'um aspecto
    heroico e fabuloso…

    A multidão, junto a essas edificações grandiosas, é apenas como grãos
    d'arêa negra que um vento brando vai trazendo e levando…

    Aqui está o vasto palacio imperial, entre arvoredos mysteriosos, com os
    seus telhados d'um amarello d'oiro vivo! Como eu desejaria penetrar-lhe
    os segredos, e ver desenrolar-se, pelas galerias sobrepostas, a
    magnificencia barbara d'essas Dynastias seculares!

    Além ergue-se a torre do Templo do Céo semelhando três guarda-soes
    sobrepostos: depois a grande columna dos Principios, hieratica e sêcca
    como o Genio mesmo da Raça: e adiante branquejam n'uma meia tinta
    sobrenatural os terraços de jaspe do Santuario da Purificação…

    Então interrogo Sá-Tó: e o seu dedo respeitoso vai-me mostrando o Templo
    dos Antepassados, o Palacio da Soberana Concordia, o Pavilhão das Flôres
    das Letras, o Kiosque dos Historiadores, fazendo brilhar, entre os
    bosques sagrados que os cercam, os seus telhados lustrosos de faianças
    azues, verdes, escarlates e côr de limão. Eu devorava, d'olho avido,
    esses monumentos da Antiguidade asiatica, n'uma curiosidade de conhecer
    as impenetraveis classes que os habitam, o principio das Instituições, a
    significação dos Cultos, o espirito das suas letras, a grammatica, o
    dogma, a estranha vida interior d'um cerebro de letrado chinez… Mas
    esse mundo é inviolavel como um Santuario…

    Sentei-me na muralha, e os meus olhos perderam-se pela planicie arenosa
    que se estira para além das portas até aos contrafortes dos montes
    mongolicos; ahi incessantemente redemoinham ondas infindaveis de poeira;
    a toda a hora negrejam filas vagarosas de caravanas… Então invadiu-me
    a alma uma melancolia, que o silencio d'quellas alturas, envolvendo
    Pekin, tornava d'um vago mais desolado: era como uma saudade de mim
    mesmo, um longo pezar de me sentir alli isolado, absorvido n'aquelle
    mundo duro e barbaro: lembrei-me, com os olhos humedecidos, da minha
    aldêa do Minho, do seu adro assombreado de carvalheiras, a venda com um
    ramo de louro á porta, o alpendre do ferrador, e os ribeiros tão frescos
    quando verdejam os linhos…

    Aquella era a época em que as pombas emigram de Pekin para o sul. Eu
    via-as reunirem-se em bandos por cima de mim, partindo dos bosques dos
    templos e dos pavilhões imperiaes; cada uma traz, para a livrar dos
    milhafres, um leve tubo de bambu que o ar faz silvar; e aquellas nuvens
    brancas passavam como impellidas d'uma aragem molle, deixando no
    silencio um lento e melancolico suspiro, uma ondulação eolia, que se
    perdia nos ares pallidos…

    Voltei para casa, pesado e pensativo.

    Ao jantar, Camilloff, desdobrando o seu guardanapo, pediu-me com
    bonhomia as minhas impressões de Pekin.

    –Pekin faz-me sentir bem, general, os versos d'um poeta nosso:

    Sôbolos rios que vão
    Por Babylonia me achei…

    –Pekin é um monstro!–disse Camilloff oscillando reflectidamente a
    calva.–E agora considere, que a esta capital, á classe tartara e
    conquistadora que a possue, obedecem trezentos milhões d'homens, uma
    raça subtil, laboriosa, soffredora, prolifica, invasora… Estudam as
    nossas sciencias… Um calice de Medoc, Theodoro?… Teem uma marinha
    formidavel! O exercito, que outr'ora julgava destroçar o estrangeiro com
    dragões de papelão d'onde sahiam bichas de fogo, tem agora tactica
    prussiana e espingarda d'agulha! Grave!

    –E todavia, general, no meu paiz, quando, a proposito de Macau, se
    falla do Imperio Celeste, os patriotas passam os dedos pela grenha, e
    dizem negligentemente: _Mandamos lá cincoenta homens, e varremos a
    China_…

    A esta sandice–fez-se um silencio. E o general, depois de tossir
    formidavelmente, murmurou, com condescendencia:

    –Portugal é um bello paiz…

    Eu exclamei com seccura e firmeza:

    –É uma choldra, general.

    A generala, collocando delicadamente á borda do prato uma aza de frango,
    e limpando o dedinho, disse:

    –É o paiz da canção de Mignon. É lá que floresce a laranjeira…

    O gordo Meriskoff, doutor allemão pela Universidade de Bonn, chanceller
    da legação, homem de poesia e de commentario, observou com respeito:

    –Generala, o dôce paiz de Mignon é a Italia: _Conheces tu a terra
    privilegiada onde a laranjeira dá flor_? O divino Goethe referia-se á
    Italia, _Italia mater_… A Italia será o eterno amor da humanidade
    sensivel!

    –Eu prefiro a França!–suspirou a esposa do primeiro secretario, uma
    bonecasinha sardenta, de cabello arruivascado.

    –Ah! a França!…–murmurou um addido, revirando um bugalho d'olho
    ternissimo.

    O gordo Meriskoff ageitou os oculos d'oiro:

    –A França tem um mal, que é a Questão social…

    –Oh! a Questão social!–rosnou sombriamente Camilloff.

    –Ah! a Questão social!…–considerou ponderosamente o addido.

    E discreteando com tanta sapiencia, chegámos por fim ao café.

    Ao descer ao jardim, a generala, apoiando-se sentimentalmente ao meu
    braço, murmurou-me, junto á face:

    –Ai, quem me dera viver n'esses paizes apaixonados, onde verdejam os
    laranjaes!…

    –É lá que se ama, generala–segredei-lhe eu, levando-a dôcemente para a
    escuridão dos sycomoros…

    V

    Foi necessario todo um longo verão para descobrir a provincia onde
    residira o defunto Ti-Chin-Fú!

    Que episodio administrativo tão pittoresco, tão chinez! O serviçal
    Camillof, que passava o dia inteiro a percorrer os Yamens do Estado,
    teve de provar primeiro que o desejo de conhecer a morada d'um velho
    Mandarim não encobria uma conspiração contra a segurança do Imperio; e
    depois foi-lhe ainda preciso jurar que não havia n'esta curiosidade um
    attentado contra os Ritos sagrados! Então, satisfeito, o principe Tong
    permittiu que se fizesse o inquerito imperial: centenares d'escribas
    empallideceram noite e dia, de pincel na mão, desenhando relatorios
    sobre papel d'arroz; mysteriosas conferencias sussurraram
    incessantemente por todas as repartições da Cidade Imperial, desde o
    Tribunal astronomico até ao Palacio da Bondade Preferida; e uma
    população de koulis transportava da legação russa para os kiosques da
    Cidade Interdicta, e d'ahi para o Pateo dos Archivos padiolas estalando
    ao peso de maços de documentos vetustos…

    Quando Camilloff perguntava _pelo resultado_, vinha-lhe a resposta,
    satisfactoria que se estavam consultando os Livros Santos de Lá-o-Tsé,
    ou que se iam explorar velhos textos do tempo de Nor-ha-chú. E para
    calmar a impaciencia bellica do russo, o principe Tong remettia, com
    estes recados subtis, algum substancial presente de confeitos recheados,
    ou de gomos de bambú em calda d'assucar…

    * * * * *

    Ora em quanto o general trabalhava com fervor para encontrar a familia
    Ti-Chin-Fú,–eu ia tecendo horas de sêda e oiro (assim diz um poeta
    japonez) aos pés pequeninos da generala…

    Havia um kiosque no jardim sob os sycomoros, que se denominava, á
    maneira chineza, do _Repouso discreto_:–ao lado um arroio fresco ia
    cantando dôcemente sob uma pontesinha rustica pintada de côr de rosa. As
    paredes eram apenas um gradeado de bambú fino forrado de sêda côr de
    ganga: o sol, passando através d'ellas, fazia uma luz sobrenatural de
    opala desmaiada. Ao centro afofava-se um divan de sêda branca, d'uma
    poesia de nuvem matutina, attrahente como um leito nupcial. Aos cantos,
    em ricas jarras transparentes da época de Yeng, erguiam-se, na sua
    gentileza aristocratica, lirios escarlates do Japão. Todo o soalho
    estava recoberto d'esteiras finas de Nankin; e junto á janella
    rendilhada, sobre um airoso pedestal de sandalo, pousava aberto ao alto
    um leque formado de laminas de crystal separadas, que a aragem entrando
    fazia vibrar, n'uma modulação melancolica e terna.

    As manhãs do fim d'agosto em Pekin são muito suaves; já erra no ar um
    enternecimento outonal. A essa hora o conselheiro Meriskoff, os
    officiaes da legação, estavam sempre na chancellaria _fazendo a mala_
    para S. Petersburgo.

    Eu então, de leque na mão, pisando subtilmente na ponta das babouches de
    setim as ruasinhas areadas do jardim, ia entreabrir a porta do _Repouso
    discreto_:

    –Mimi?

    E a voz da generala respondia, suave como um beijo:

    –_All right_…

    Como ella era linda vestida de dama chineza! Nos seus cabellos
    levantados alvejavam flôres de pecegueiro; e as sobrancelhas pareciam
    mais puras e negras avivadas a tinta de Nankin. A camisinha de gaze,
    bordada a soutache de filigrana d'oiro, collava-se aos seus seios
    pequeninos e direitos: vastas, fôfas calças de foulard côr de _côxa de
    Nympha_, que lhe davam uma graça de serralho, recahiam sobre o tornozêlo
    fino, coberto de meia de seda amarella:–e apenas tres dedos da minha
    mão cabiam na sua chinelinha…

    Chamava-se Vladimira; nascera ao pé de Nidji-Novogorod; e fôra educada
    por uma tia velha que admirava Rousseau, lia Faublas, usava o cabello
    empoado, e parecia a grossa lithographia cossaca d'uma dama galante de
    Versalhes…

    O sonho de Vladimira era habitar Paris; e fazendo ferver delicadamente
    as folhas de chá, pedia-me historias ladinas de _Cocottes_, e dizia-me o
    seu culto por Dumas filho…

    Eu arregaçava-lhe a larga manga do casabeque de sêda côr de folha morta,
    e ia fazendo viajar os meus labios devotos pela pelle fresca dos seus
    bellos braços;–e depois sobre o divan, enlaçados, peito contra peito,
    n'um extasi mudo, sentiamos as laminas de crystal resoar eoliamente, as
    pêgas azues esvoaçarem pelos platanos, o fugitivo rhythmo do arroio
    corrente…

    Os nossos olhos humedecidos encontravam ás vezes um quadro de setim
    preto, por cima do divan, onde em caracteres chinezes se desenrolavam
    sentenças do Livro Sagrado de Li-Num «sobre os deveres das esposas». Mas
    nenhum de nós percebia o chinez… E no silencio os nossos beijos
    recomeçavam, espaçados, soando dôcemente, e comparaveis (na lingua
    florida d'aquelles paizes) a perolas que cahem uma a uma sobre uma bacia
    de prata…–Oh suaves séstas dos jardins de Pekin, onde estaes vós?
    Onde estaes, folhas mortas dos lirios escarlates do Japão?…

    * * * * *

    Uma manhã Camilloff entrando na chancellaria, onde eu fumava o cachimbo
    d'amizade de companhia com Meriskoff, atirou o seu enorme sabre para um
    canapé, e contou-nos radiante as noticias que lhe dera o penetrante
    principe Tong.–Descobrira-se emfim que um opulento Mandarim, de nome
    Ti-Chin-Fú, vivera outr'ora nos confins da Mongolia, na villa de
    Tien-Hó! Tinha morrido subitamente: e a sua larga descendencia residia
    lá, em miseria, n'um casebre vil…

    Esta descoberta, é certo, não fôra devida á sagacidade da burocracia
    imperial–mas fizera-a um astrologo do templo de Faqua, que durante
    vinte noites folheára no céo o luminoso archivo dos astros…

    –Theodoro, ha-de ser o seu homem!–exclamou Camilloff.

    E Meriskoff repetiu, sacudindo a cinza do cachimbo:

    –Ha-de ser o seu homem, Theodoro!

    –O meu homem…–murmurei sombriamente.

    Era talvez o _meu homem_, sim! Mas não me seduzia ir procurar o _meu
    homem_ ou a sua familia, na monotonia d'uma caravana, por essas
    desoladas extremidades da China!… Depois, desde que chegára a Pekin,
    eu não tornára a avistar a fórma odiosa de Ti-Chin-Fú e do seu papagaio.
    A Consciencia era dentro em mim como uma pomba adormecida. Certamente, o
    alto esforço de me ter arrancado ás doçuras do _boulevard_ e do Loreto,
    de ter sulcado os mares até ao Império do Meio, parecera á Eterna
    Equidade uma expiação sufficiente e uma peregrinação reparadora.
    Certamente Ti-Chin-Fú, acalmado, recolhera-se com o seu papagaio á
    sempiterna Immobilidade… Para que iria eu, pois, a Tien-Hó? Porque não
    ficaria alli, n'aquelle amavel Pekin, comendo nenufares em calda
    d'assucar, abandonando-me ás somnolencias amorosas do _Repouso
    discreto_, e pelas tardes azuladas, dando o meu passeio pelo braço do
    bom Meriskoff, nos terraços de jaspe da Purificação ou sob os cedros do
    Templo do Céo?…

    Mas já o zeloso Camilloff, de lapis na mão, ia marcando no mappa o meu
    itinerário para Tien-Hó! E mostrando-me, n'um desagradavel
    entrelaçamento, sombras de montes, linhas tortuosas de rios, esfumados
    de lagôas:

    –Aqui está! O meu hospede sobe até Ni-ku-hé, na margem do Pei-Hó…
    D'ahi, em barcos chatos vai a My-yun. Boa cidade, ha lá um Buddha
    vivo… D'ahi, a cavallo, segue até á fortaleza de Ché-hia. Passa a
    grande muralha, famoso espectáculo!… Descança no forte de Ku-pi-hó.
    Póde lá caçar a gazella. Soberbas gazellas… E com dois dias de
    caminhada está em Tien-Hó… Brilhante, hein?… Quando quer partir?
    Ámanhã?…

    –Ámanhã–rosnei, tristonho.

    Pobre generala! N'essa noite, em quanto Meriskoff, ao fundo da sala,
    fazia com tres officiaes da embaixada o seu _whist_ sacramental; e
    Camilloff, ao canto do sophá, de braços cruzados, solemne como n'uma
    poltrona do Congresso de Vienna, dormia de bocca aberta;–ella sentou-se
    ao piano. Eu ao lado, na attitude d'um Lara, devastado pela fatalidade,
    retorcia lugubremente o bigode. E a dôce creatura, entre dois gemidos do
    teclado, d'uma saudade penetrante, cantou revirando para mim os seus
    olhos rebrilhantes e humidos:

    L'oiseau s'envole,
    Lá bas, lá bas!…
    L'oiseau s'envole…
    Ne revient pas…

    –A ave ha-de voltar ao ninho,–murmurei eu enternecido.

    E, afastando-me a esconder uma lagrima, ia resmungando furioso:

    –Canalha de Ti-Chin-Fú! Por tua causa! Velho malandro! Velho garoto!…

    * * * * *

    Ao outro dia lá vou para Tien-Hó–com o respeitoso interprete Sá-tó, uma
    longa fila de carretas, dois cossacos, toda uma populaça de koulis.

    Ao deixar a muralha da cidade tartara, seguimos muito tempo ao comprido
    dos jardins sagrados que orlam o templo de Confucio.

    Era no fim do outono; já as folhas tinham amarellecido; uma doçura
    tocante errava no ar…

    Dos kiosques santos sahia uma susurração de canticos, de nota monotona e
    triste. Pelos terraços, enormes serpentes, veneradas como deuses, iam-se
    arrastando, já entorpecidas da friagem. E aqui e além, ao passar,
    avistavamos buddhistas decrepitos, sêccos como pergaminhos e nodosos
    como raizes, encruzados no chão sob os sycomoros, n'uma immobilidade de
    idolos, contemplando incessantemente o umbigo, á espera da perfeição do
    Nirvana…

    E eu ia pensando, com uma tristeza tão pallida como aquelle mesmo céo
    d'outubro asiatico, nas duas lagrimas redondinhas que vira brilhar, á
    despedida, nos olhos verdes da generala!…

    VI

    Já a tarde declinava, e o sol descia vermelho como um escudo de metal
    candente, quando chegámos a Tien-Hó.

    As muralhas negras da villa erguem-se, do lado do sul, ao pé d'uma
    torrente que ruge entre rochas: para o nascente, a planicie livida e
    poeirenta estende-se até a um grupo escuro de collinas onde branqueja um
    vasto edificio–que é uma Missão Catholica. E para além, para o extremo
    norte são as eternas montanhas rôxas da Mongolia, suspensas sempre no ar
    como nuvens.

    Alojámo-nos n'um barracão fetido, intitulado _Estalagem da Consolação
    terrestre_. Foi-me reservado o quarto nobre, que abria sobre uma galeria
    fixada em estacas; era ornado estranhamente de dragões de papel
    recortado, suspensos por cordeis do travejamento do tecto; á menor
    aragem aquella legião de monstros fabulosos oscillava em cadencia, com
    um rumor secco de folhagem, como tomada de vida sobrenatural e grotesca.

    Antes que escurecesse fui vêr com Sá-tó a villa: mas bem depressa fugi
    ao fedor abominavel das viellas: tudo se me afigurou ser negro–os
    casebres, o chão barrento, os enxurros, os cães famintos, a populaça
    abjecta… Recolhi ao albergue–onde arreeiros mongoes e crianças
    piolhosas me miravam com assombro.

    –Toda esta gente me parece suspeita, Sá-tó–disse eu, franzindo a
    testa.

    —Tem Vossa Honra razão. É uma ralé! Mas não ha perigo: eu matei, antes
    de partirmos, um gallo negro, e a deusa Kaonine deve estar contente.
    Póde Vossa Honra dormir ao abrigo dos maus espiritos… Quer Vossa Honra
    o chá?…

    –Traze, Sá-tó.

    Bebido o chá, conversámos do _grande plano_: na manhã seguinte eu a
    levar a alegria á triste choupana da viuva de Ti-Chin-Fú,
    annunciando-lhe os milhões que lhe dava, depositados já em Pekin:
    depois, de accordo com o Mandarim governador, fariamos uma copiosa
    distribuição de arroz pela populaça: e á noite illuminações, danças como
    n'uma gala publica…

    –Que te parece, Sá-tó?

    –Nos labios de Vossa Honra habita a sabedoria de Confucio… Vai ser
    grande! Vai ser grande!

    Como vinha cançado, bem cêdo comecei a bocejar, e estirei-me sobre o
    estrado de tijolo aquecido que serve de leito nas estalagens da China;
    enrolado na minha pelliça, fiz o signal da cruz, e adormeci pensando nos
    braços brancos da generala, nos seus olhos verdes de sereia…

    Era talvez já meia noite quando despertei a um rumor lento e surdo que
    envolvia o barracão–como de forte vento n'um arvoredo, ou uma maresia
    grossa batendo um paredão. Pela galeria aberta, o luar entrava no
    quarto, um luar triste d'outono asiatico, dando aos dragões suspensos do
    tecto fórmas, semelhanças chimericas…

    Ergui-me, já nervoso–quando um vulto, alto e inquieto, appareceu na
    facha luminosa do luar…

    –Sou eu, Vossa Honra!–murmurou a voz apavorada de Sá-tó.

    E logo, agachando-se ao pé de mim, contou-me n'um fluxo de palavras
    roucas a sua afflicção:–emquanto eu dormia, espalhára-se pela villa que
    um estrangeiro, o _Diabo estrangeiro_, chegára com bagagens carregadas
    de thesouros… Já desde o começo da noite elle tinha entrevisto faces
    agudas, d'olho voraz, rondando o barracão, como chacaes impacientes… E
    ordenára logo aos koulis que entrincheirassem a porta com os carros das
    bagagens, formados em semi-circulo á velha maneira tartara… Mas pouco
    a pouco a malta crescera… Agora vinha d'espreitar por um postigo: e
    era em roda da estalagem toda a populaça de Tien-Hó, rosnando
    sinistramente… A deusa Kaonine não se satisfizera com o sangue do
    gallo preto!… Além d'isso elle vira á porta d'um Pagode uma cabra
    negra recuar!… A noite sería de terrores!… E sua mulher, o osso do
    seu osso, que estava tão longe, em Pekin!…

    –E agora, Sá-tó?–perguntei eu.

    –Agora… Vossa Honra! Agora…

    Calou-se: e a sua magra figura tremia, acaçapada como um cão que se roja
    sob o açoite.

    Eu afastei o cobarde, e adiantei-me para a galeria. Em baixo, o muro
    fronteiro, coberto d'um alpendre, projectava uma funda sombra. Ahi com
    effeito estava uma turba negra apinhada. Ás vezes uma figura,
    rastejando, adiantava-se no espaço alumiado, espreitava, farejava as
    carretas, e sentindo a lua sobre a face, recuava vivamente, fundindo-se
    na escuridão: e como o tecto do alpendre era baixo, faiscava um momento
    á luz algum ferro de lança inclinada…

    –Que querem vossês, canalha?–bradei eu em portuguez.

    A esta voz estrangeira um grunhido sahiu da treva; immediatamente uma
    pedra veio ao meu lado furar o papel encerado da gelosia; depois uma
    flecha silvou, cravou-se por cima da minha cabeça, n'um barrote…

    Desci rapidamente á cozinha da estalagem. Os meus koulis, acocorados
    sobre os calcanhares, batiam o queixo n'um terror; e os dois cossacos
    que me acompanhavam, impassiveis á lareira, cachimbavam, com o sabre nú
    nos joelhos.

    O velho estalajadeiro d'oculos, uma avó andrajosa que eu vira no pateo
    deitando ao ar um papagaio de papel, os arreeiros mongoes, as crianças
    piolhosas, esses tinham desapparecido; só ficára um velho, bebedo
    d'opio, cahido a um canto como um fardo. Fóra ouvia-se já a multidão
    vociferar.

    Interpellei então Sá-tó, que quasi desmaiava, arrimado a uma viga: nós
    estavamos sem armas; os dois cossacos, sós, não podiam repellir o
    assalto: era necessario pois ir acordar o Mandarim governador,
    revelar-lhe que eu era um amigo de Camilloff, um conviva do principe
    Tong, intimal-o a que viesse dispersar a turba, manter a lei santa da
    hospitalidade!…

    Mas Sá-tó confessou-me, n'uma voz debil como um sôpro, que o Governador
    de certo é quem estava dirigindo o assalto! Desde as authoridades até
    aos mendigos, a fama da minha riqueza, a legenda das carretas carregadas
    d'oiro inflammára todos os appetites!… A prudencia ordenava, como um
    mandamento santo, que abandonassemos parte dos thesouros, mulas, caixas
    de comestiveis…

    –E ficar aqui, n'esta aldêa maldita, sem camisas, sem dinheiro e sem
    mantimentos?…

    –Mas com a rica vida, Vossa Honra!

    Cedi. E ordenei a Sá-tó que fosse propôr á turba uma copiosa
    distribuição de sapeques,–se ella consentisse em recolher aos seus
    casebres, e respeitar em nós os hospedes enviados por Buddha…

    Sá-tó subiu á sacada da galeria, a tremer; e rompeu logo a arengar á
    malta, bracejando, atirando as palavras com a violencia d'um cão que
    ladra. Eu abrira já uma maleta, e ia-lhe passando cartuchos, saccos de
    sapeques–que elle arremessava aos punhados com um gesto de semeador…
    Em baixo havia por momentos um tumulto furioso ao chover dos metaes;
    depois um lento suspiro de gula satisfeita; e logo um silencio, n'uma
    suspensão _de quem espera mais_…

    –Mais!–murmurava Sá-tó, voltando-se para mim ancioso.

    Eu, indignado, lá lhe dava outros cartuchos, mais rôlos, mólhos de
    moedas de meio real enfiadas em cordeis… Já a maleta estava vazia. A
    turba rugia, insaciada.

    –Mais, Vossa Honra!–supplicou Sá-tó.

    –Não tenho mais, creatura! O resto está em Pekin!

    –Oh Buddha Santo! Perdidos! Perdidos!–chamou Sá-tó, abatendo-se sobre
    os joelhos.

    A populaça, calada, esperava ainda. De repente, uma ululação selvagem
    rasgou o ar. E eu senti aquella massa avida arremessar-se sobre as
    carretas que defendiam a porta em semi-circulo: ao choque todo o
    madeiramento da _Estalagem da Consolação terrestre_ rangeu e oscillou…

    Corri á varanda. Em baixo era um tropel desesperado em torno dos carros
    derrubados: os machados reluziam cahindo sobre a tampa dos caixotes: o
    coiro das malas abria-se fendido á faca por mãos innumeraveis: no
    alpendre, os cossacos debatiam-se, aos urros, sob o cutelo. Apesar da
    lua, eu via em roda do barracão errarem tochas, n'uma dispersão de
    fagulhas: um alarido rouco elevava-se, fazendo ao longe uivar os cães; e
    de todas as viellas desembocava, corria populaça, sombras ligeiras,
    agitando chuços e foices recurvas…

    Subitamente, na loja terrea, ouvi o tumulto da turba que a invadia pelas
    portas despedaçadas: de certo me procuravam, suppondo que eu teria
    commigo o melhor do thesouro, pedras preciosas ou oiros… O terror
    desvairou-me. Corri a uma grade de bambús para o lado do pateo.
    Demoli-a, saltei sobre uma camada de matto grosso, n'um cheiro acre de
    immundicies. O meu poney, preso a uma trave, relinchava, puxando
    furiosamente o cabresto: arremessei-me sobre elle, empolguei-lhe as
    crinas…

    N'esse momento, do portão da cozinha arrombada rompia uma horda com
    lanternas, lanças, n'um clamor de delirio. O poney, espantado, salta um
    regueiro; uma flecha silva a meu lado; depois um tijolo bate-me no
    hombro, outro nos rins, outro na anca do poney, outro mais grosso
    rasga-me a orelha! Agarrado desesperadamente ás crinas, archejando, com
    a lingua de fóra, o sangue a gottejar da orelha, vou despedido n'uma
    desfilada furiosa ao longo d'uma lua negra… De repente vejo diante de
    mim a muralha, um bastião, a porta da villa fechada!

    Então, allucinado, sentindo atraz rugir a turba, abandonado de todo o
    soccorro humano–_precisei de Deus_! Acreditei n'elle, gritei-lhe que me
    salvasse; e o meu espirito ia tumultuosamente arrebatando, para lhe
    offerecer, fragmentos de orações, de _Salvè-Rainhas_, que ainda me
    jaziam no fundo da memoria… Voltei-me sobre a anca do potro: d'uma
    esquina ao longe surgiu um fogacho de tochas: era a corja!… Larguei de
    golpe ao comprido da alta muralha que corria ao meu lado como uma vasta
    fita negra furiosamente desenrolada: de subito avisto uma brecha, um
    boqueirão erriçado d'esgalhos de sarças, e fóra a planicie que sob a lua
    parecia como uma vasta agua dormente! Lancei-me para lá,
    desesperadamente, sacudido aos galões do potro… E muito tempo galopei
    no descampado.

    De repente o poney, eu, rolámos com um baque surdo. Era uma lagôa.
    Entrou-me pela bocca agua putrida, e os pés enlaçaram-se-me nas raizes
    molles dos nenufares… Quando me ergui, me firmei no sólo,–vi o poney,
    correndo, muito longe, como uma sombra, com os estribos ao vento…

    Então comecei a caminhar por aquella solidão, enterrando-me nas terras
    lodosas, cortando através do matto espinhoso. O sangue da orelha ia-me
    pingando sobre o hombro: á frialdade agreste, o fato encharcado
    regelava-se-me sobre a pelle: e por vezes, na sombra, parecia-me vêr
    luzir olhos de feras.

    Emfim, encontrei um recinto de pedras soltas onde jazia, sob um arbusto
    negro, um d'aquelles montões d'esquifes amarellos que os chinezes
    abandonam nos campos, e onde apodrecem corpos. Abati-me sobre um caixão,
    prostrado: mas um cheiro abominavel pesava no ar: e ao apoiar-me sentia
    o viscoso d'um liquido que escorria pelas fendas das tábuas… Quiz
    fugir. Mas os joelhos negavam-se, tremiam-me: e arvores, rochas, hervas
    altas, todo o horisonte começou a girar em torno de mim como um disco
    muito rapido. Faiscas sanguineas vibravam-me diante dos olhos: e
    senti-me como cahindo de muito alto, devagar, á maneira d'uma penna que
    desce…

    Quando recuperei a consciencia estava estirado n'um banco de pedra, no
    pateo d'um vasto edificio semelhante a um convento, que um alto silencio
    envolvia. Dois padres lazaristas lavavam-me devagar a orelha. Um ar
    fresco circulava; a roldana d'um poço rangia lentamente; um sino tocava
    a matinas. Ergui os olhos, avistei uma fachada branca com janellinhas
    gradeadas e uma cruz no topo: então, vendo n'aquella paz de claustro
    catholico como um recanto da patria recuperada, o abrigo e a consolação,
    rolaram-me das palpebras duas lagrimas mudas.

    VII

    De madrugada, dois padres lazaristas, dirigindo-se a Tien-Hó, tinham-me
    encontrado desmaiado no caminho. E, como disse o alegre padre Loriot,
    «era já tempo»; porque em redor do meu corpo immovel um negro
    semi-circulo d'esses grossos e soturnos corvos da Tartaria já me estava
    contemplando com gula…

    Trouxeram-me sem demora para o convento n'uma padiola,–e grande foi o
    regosijo da communidade quando soube que eu era um latino, um christão e
    um subdito dos Reis Fidelissimos. O convento fórma alli o centro d'um
    pequeno burgo catholico, apinhado em torno da maciça residencia como uma
    casaria de servos á base d'um castello feudal. Existe desde os primeiros
    missionarios que percorreram a Manchouria. Porque nós estamos aqui nos
    confins da China: para além já é a Mongolia, a Terra das Hervas, immenso
    prado verde-escuro, leziria sem fim, colorida aqui e além do vivo das
    flôres silvestres…

    Ahi jaz a vasta planicie dos Nomadas. Da minha janella eu via negrejar
    os circulos de tendas cobertas de feltro, ou de pelles de carneiro; e
    por vezes assistia á partida d'uma tribu, em filas de longas caravanas,
    levando os seus rebanhos para o oeste…

    O superior lazarista era o excellente padre Giulio. A longa permanencia
    entre as raças amarellas tornára-o quasi um chinez: quando eu o
    encontrava no claustro com a sua tunica rôxa, o rabicho longo, a barba
    veneravel, agitando devagar um enorme leque–parecia-me algum sábio
    letrado mandarim commentando mentalmente, na paz de um templo, o Livro
    sacro de Chú. Era um santo: mas o cheiro d'alho que exhalava–afastaria
    as almas mais doloridas e precisadas de consolação.

    Conservo suave a memoria dos dias alli passados! O meu quarto, caiado de
    branco, com uma cruz negra, tinha um recolhimento de cella. Acordava
    sempre ao toque de matinas. Em respeito aos velhos missionarios, vinha
    ouvir a missa á capella: e enternecia-me, alli, tão longe da patria
    catholica, n'aquellas terras mongolicas, vêr á clara luz da manhã a
    casula do padre, com a sua cruz bordada, curvando-se diante do altar, e
    sentir ciciar no fresco silencio–os _Dominus vobiscum_, e os _Cum
    spiritu tuo_…

    De tarde ia á escóla, admirar os pequenos chinezes declinando _Hora,
    Horoe_… E depois do refeitorio, passeando no claustro, escutava
    historias de longiquas missões, de viagens apostolicas ao _Paiz das
    Hervagens_, as prisões supportadas, as marchas, os perigos, as Chronicas
    heroicas da Fé…

    Eu por mim não contei no convento as minhas aventuras phantasticas:
    dei-me como um _touriste_ curioso, tomando apontamentos pelo Universo. E
    esperando que a minha orelha cicatrizasse, abandonava-me, n'uma lassidão
    d'alma, áquella paz de mosteiro…

    Mas estava decidido a deixar bem depressa a China, esse Imperio barbaro,
    que eu odiava agora, prodigiosamente!

    Quando me punha a pensar que viera desde os confins do Occidente, para
    trazer a uma provincia chineza a abundancia dos meus milhões, e que
    apenas lá chegára fôra logo saqueado, apedrejado, fréchado–enchia-me um
    rancor surdo, gastava horas agitando-me pelo quarto, a revolver coisas
    feras que tentaria para me vingar do Imperio do Meio!

    Retirar-me com os meus milhões era a desforra mais pratica, mais facil!
    Demais, a minha idéa de resuscitar artificialmente, para bem da China, a
    personalidade de Ti-Chin-Fú, parecia-me agora absurda, d'uma insensatez
    de sonho. Eu não comprehendia a lingua, nem os costumes, nem os ritos,
    nem as leis, nem os sabios d'aquella raça: que vinha pois fazer alli,
    senão expôr-me, pelo apparato da minha riqueza, aos assaltos d'um povo,
    que, ha quarenta e quatro seculos, é pirata nos mares e traz as terras
    varridas de rapina!…

    Além d'isso, Ti-Chin-Fú e o seu papagaio continuavam invisiveis,
    remontados de certo ao Céo chinez dos Avós: e já o aplacamento do
    remorso visivel diminuira em mim singularmente o desejo da expiação…

    Sem duvida o velho letrado estava fatigado de deixar essas regiões
    ineffaveis para se vir estirar pelos meus moveis. Vira os meus esforços,
    o meu desejo de ser util á sua prole, á sua provincia, á sua raça–e,
    satisfeito, accommodára-se regaladamente para a sua sésta eterna. Eu
    nunca mais avistaria a sua pança amarella!…

    E então mordia-me o appetite de me achar já tranquillo e livre, no
    pacifico gozo do meu oiro, ao Loreto ou no _boulevard_, sorvendo o mel
    ás flôres da Civilisação…

    Mas a viuva de Ti-Chin-Fú, as mimosas senhoras da sua descendencia, os
    netos pequeninos?… Iria eu deixal-os barbaramente, na fome e no frio,
    pelas viellas negras de Tien-Hó? Não. Esses não eram culpados das
    pedradas que me atirára a populaça. E eu christão, asylado n'um convento
    christão, tendo á cabeceira da cama o Evangelho, cercado d'existencias
    que eram incarnações de Caridade–não podia partir do Imperio sem
    restituir áquelles que despojára, a abundancia, esse conforto honesto
    que recommenda o Classico da Piedade Filial…

    Então escrevi a Camilloff. Contava-lhe a minha abjecta fuga, sob as
    pedras da turba chineza; o abrigo christão que me dera a Missão; o vivaz
    desejo de partir do Imperio do Meio. Pedia-lhe que remettesse elle á
    viuva de Ti-Chin-Fú os milhões depositados por mim em casa do mercador
    Tsing-Fó, na avenida de Cha-Coua, ao lado do arco triumphal de Tong,
    junto ao templo da deusa Kaonine.

    O alegre padre Loriot, que ia a Pekin em missão, levou esta carta, que
    eu lacrára com o sêllo do convento–uma cruz sahindo d'um coração em
    chammas…

    Os dias passaram. As primeiras neves alvejaram nas montanhas
    septentrionaes da Manchouria: e eu occupava-me a caçar a gazella pela
    Terra das Hervas… Horas energicas e fortemente vívidas, as d'essas
    manhãs, quando eu largava á desfilada, no grande ar agreste da planicie,
    entre os monteadores mongolicos que, com um grito ululado e vibrante,
    batiam o matagal á lançada! Por vezes, uma gazella saltava: e, d'orelha
    baixa, estirada e fina, partia no fio do vento… Soltavamos o falcão
    que voava sobre ella, d'aza serena, dando-lhe a espaços regulares, com
    toda a força do bico recurvo, uma picada viva no craneo. E iamo'l-a
    abater, por fim, á beira d'alguma agua morta, coberta de nenufares…
    Então os cães negros da Tartaria amontoavam-se-lhe sobre o ventre, e,
    com as patas no sangue, iam-lhe a ponta de dente, desfiando devagar as
    entranhas…

    Uma manhã o leigo da portaria avistou emfim o alegre padre Loriot,
    galgando á lufa-lufa pelo caminho ingreme do burgo, de volta de Pekin,
    com a sua mochila ao hombro, e uma criancinha nos braços: tinha-a
    encontrado abandonada, nuasinha, morrendo á beira d'um caminho:
    baptisára-a logo n'um regato com o nome de _Bem-Achado_: e alli a
    trazia, todo enternecido, arquejando de tanto que estugára o passo, para
    dar depressa á creaturinha esfomeada o bom leite da cabra do convento…

    Depois d'abraçar os religiosos, d'enxugar as grossas bagas de suor,
    tirou da algibeira dos calções um enveloppe com o sello da aguia russa:

    –É isto que manda o papá Camilloff, amigo Theodoro. Ficou optimo. E a
    senhora tambem… Tudo rijo.

    Corri a um recanto do claustro a lêr as duas folhas de prosa. Meu bom
    Camilloff, de calva severa e olho de mocho! Como elle alliava tão
    originalmente ao senso fino d'um habil de Chancellaria as caturrices
    picarescas de diplomata bufo! A carta dizia assim:

    «Amigo, hospede, e carissimo Theodoro,

    «Ás primeiras linhas da sua carta ficámos consternados! Mas logo as
    seguintes nos deram um grato allivio, por nos certificar que estava
    com esses santos padres da Missão christã… Eu parti para o Yamen
    imperial a fazer uma severa reclamação ao principe Tong, sobre o
    escandalo de Tien-Hó. Sua excellencia mostrou um jubilo
    desordenado! Porque, se lamenta como particular a offensa, o roubo
    e as pedradas que o meu hospede soffreu, como ministro do Imperio
    vê ahi a dôce opportunidade d'extorquir á villa de Tien-Hó, em
    multa, em castigo da injuria feita a um estrangeiro, a vantajosa
    somma de _trezentos mil francos_, ou, segundo os calculos do nosso
    sagaz Meriskoff, _cincoenta e quatro contos de reis_ na moeda do
    seu bello paiz! É, como disse Meriskoff, um excellente resultado
    para o Erario imperial, e fica assim a sua orelha copiosamente
    vingada… Aqui, começam a picar os primeiros frios, e já estamos
    usando pelles. O bom Meriskoff lá vai soffrendo do figado, mas a
    dôr não lhe altera o criterio philosophico nem a sábia
    verbosidade… Tivemos um grande desgosto: o lindo cãosinho da boa
    Madame Tagarieff, a esposa do nosso amado secretario, o adoravel
    _Tu-tu_ desappareceu na manhã de 15… Fiz, na policia, instancias
    urgentes, mas o _Tu-tu_ não nos foi restituido,–e o sentimento é
    tanto maior, quanto é sabido que a populaça de Pekin aprecia
    extremamente estes cãesinhos, guisados em calda de assucar…
    Deu-se aqui um facto abominavel e de consequencias funestas: a
    ministra de França, essa petulante Madame Grijon, esse _galho
    sêcco_ (como diz o nosso Meriskoff), no ultimo jantar da legação,
    deu, em desprezo de todas as regras internacionaes, o braço, o seu
    descarnado braço, e a sua direita á mesa a um simples addido
    inglez, lord Gordon! Que me diz a isto? É crivel? É racional? É
    destruir a ordem social! O braço, a direita, a um addido, um
    escossez côr de tijolo, de vidro entalado no olho, quando havia
    presentes todos os embaixadores, os ministros, e eu! Isto tem
    causado, no corpo diplomatico, uma sensação inenarravel…
    Esperamos instrucções dos nossos governos. Como diz Meriskoff,
    oscillando tristemente a cabeça–_é grave… é muito grave_!–O que
    prova (e ninguem o duvidava) que lord Gordon é o Benjamim do _galho
    sêcco_. Que podridão! Que lodo!… A generala não tem passado bem,
    desde a sua partida para essa malfadada Tien-Hó; o doutor Pagloff
    não lhe percebe o mal; é uma languidez, um murchar, uma saudosa
    indolencia que a conserva horas e horas immovel sobre o sophá, no
    _Pavilhão do Repouso discreto_, com o olhar vago e o labio cheio de
    suspiros… Eu não me illudo: sei perfeitamente o que a mina: é a
    desgraçada doença de bexiga, que lhe veio das más aguas, quando
    estivemos na legação de Madrid… Seja feita a vontade do
    Senhor!… Ella pede-me para lhe mandar _un petit bonjour_, e
    deseja que o meu hospede apenas chegue a Paris, se fôr a Paris, lhe
    remetta pela mala da Embaixada para S. Petersburgo (d'ahi virá a
    Pekin) duas duzias de luvas de doze botões, numero _cinco e tres
    quartos_, da marca _Sol_, dos armazens do Louvre; assim como os
    ultimos romances de Zola, Mademoiselle de Maupin de Gautier, e uma
    caixa de frascos de _Opoponax_… Esquecia-me dizer-lhe que mudámos
    de padeiro: fornecemo-nos agora na padaria da Embaixada ingleza:
    deixámos a da Embaixada franceza para não ter communicações com o
    _galho sêcco_… Ahi estão os inconvenientes de não termos aqui na
    Embaixada russa uma padaria–apesar de tantos relatorios, tantas
    reclamações que, sobre esse ponto, tenho feito para a chancellaria
    de S. Petersburgo! Elles sabem bem que em Pekin não ha padarias,
    que cada legação tem a sua propria, como um elemento d'installação
    e d'influencia. Mas quê! Na côrte imperial desattendem-se os mais
    serios interesses da civilisação russa!… Creio que é tudo o que
    ha de novo em Pekin e nas legações. Meriskoff recommenda-se, e
    todos d'esta Embaixada; e tambem o condesinho Arthur, o Zizi da
    legação hespanhola, o _Focinho cahido_, e o Lulú; emfim todos; eu
    mais que ninguem, que me assigno com saudade e affeição

    «_General Camilloff_».

    «P.S. Em quanto á viuva e familia de Ti-Chin-Fú, houve um engano: o
    astrologo do templo de Faqua equivocou-se na interpretação sideral:
    não é realmente em Tien-Hó que reside essa familia… É ao sul da
    China, na provincia de Cantão. Mas também ha uma familia Ti-Chin-Fú
    para além da Grande Muralha, quasi na fronteira russa, no districto
    de Ka-ó-li. A ambas morreu o chefe, a ambas assaltou a pobreza…
    Portanto, esperando novas ordens, não levantei os dinheiros da casa
    de Tsing-Fó. Esta recente informação mandou-m'a hoje sua
    excellencia o principe Tong, com uma deliciosa compota de
    calombro… Devo annunciar-lhe que o nosso bom Sá-Tó aqui
    appareceu, de volta de Tien-Hó, com um beiço rachado e leves
    contusões no hombro, tendo apenas salvado da bagagem saqueada uma
    lithographia de Nossa Senhora das Dôres, que, pela inscripção a
    tinta, vejo que pertencera a sua respeitavel mamã… Os meus
    valentes cossacos, esses, lá ficaram n'uma poça de sangue. Sua
    excellencia o principe Tong condescende em m'os pagar a dez mil
    francos cada um, das sommas extorquidas á villa de Tien-Hó… Sá-Tó
    diz-me que se o meu hospede, como é natural, recomeçar as suas
    viagens através do imperio em busca dos Ti-Chin-Fú,–elle
    considerar-se-hia honrado e venturoso em o acompanhar, com uma
    fidelidade canina e uma docilidade cossaca…

    «_Camilloff_».

    –Não! nunca!–rugi com furor, amarrotando a carta, monologando a largas
    passadas pelo melancolico claustro.–Não, por Deus ou pelo Demonio! Ir
    de novo bater as estradas da China? Jámais! Oh sorte grotesca e
    desastrosa! Deixo os meus regalos ao Loreto, o meu ninho amoroso de
    Paris, venho rolado pela vaga enjoadôra de Marselha a Chang-Hai, soffro
    as pulgas das bateiras chinezas, o fedor das viellas, a poeirada dos
    caminhos aridos–e para quê? Tinha um plano, que se erguia até aos céos,
    grandioso e ornamentado como um trophéo: por sobre elle scintillavam,
    d'alto a baixo, toda a sorte d'acções boas: e eis que o vejo tombar ao
    chão, peça a peça, n'uma ruina! Queria dar o meu nome, os meus milhões,
    e metade do meu leito d'oiro a uma senhora Ti-Chin-Fú–e não m'o
    permittem os prejuizos sociaes d'uma raça barbara! Pretendo, com o botão
    de crystal de Mandarim, remodelar os destinos da China, trazer-lhe a
    prosperidade civil,–e veda-m'o a lei imperial! Aspiro a derramar uma
    esmola sem fim por esta populaça faminta–e corro o perigo ingrato de
    ser decapitado como instigador de rebelliões! Venho enriquecer uma
    villa–e a turba tumultuosa apedreja-me! Ia emfim dar a abundancia, o
    conforto que louva Confucio, á família Ti-Chin-Fú,–e essa familia
    some-se, evapora-se como um fumo, e outras familias Ti-Chin-Fú surgem,
    aqui e além, vagamente, ao sul, a oeste, como clarões enganadores… E
    havia d'ir a Cantão, a Ka-ó-li, expôr a outra orelha a tijolos brutaes,
    fugir ainda pelos descampados, agarrado ás crinas d'um potro? Jámais!

    Parei: e de braços erguidos, fallando ás arcadas do claustro, ás
    arvores, ao ar silencioso e fino que me envolvia:

    –Ti-Chin-Fú!–bradei–Ti-Chin-Fú, para te aplacar, fiz o que era
    racional, generoso e logico! Estás emfim satisfeito, letrado veneravel,
    tu, o teu gentil papagaio, a tua pança official? Falla-me! Falla-me!…

    Escutei, olhei: a roldana do poço, áquella hora do meio dia, rangia
    devagar, no pateo: sob as amoreiras, ao longo da arcaria do claustro,
    seccavam em papel sêda as folhas de chá da colheita d'outubro: da porta
    meio cerrada da aula vinha um susurro lento de declinações latinas: era
    uma paz severa, feita da simplicidade das occupações, da honestidade dos
    estudos, do ar pastoril d'aquella collina, onde dormia, sob um sol
    branco d'inverno, o burgo religioso… E com aquella serenidade
    ambiente, pareceu-me receber na alma, de repente, uma pacificação
    absoluta!

    Accendi com os dedos ainda tremulos um charuto, e disse, limpando na
    testa uma baga de suor, esta palavra, resumo d'um destino:

    –Bem, Ti-Chin-Fú está contente. Fui logo á cella do excellente padre
    Giulio. Elle lia o seu Breviario á janella, debicando confeitos
    d'assucar, com o gato do convento no collo.

    –Reverendissimo, volto á Europa… Algum dos nossos bons padres vai por
    acaso em missão, para os lados de Chang-Hai?…

    O veneravel superior pôz os seus oculos redondos: e folheando com uncção
    um vasto registro em letra chineza, ia assim murmurando:

    –Quinto dia da decima lua… Sim, ha o padre Anacleto para Tien-Tzin,
    para a novena dos Irmãos da Santa Creche. Duodecima lua, o padre Sanchez
    para Tien-Tzin tambem, para a obra do Catecismo aos Orphãos… Sim, caro
    hospede, tem companheiros para Léste…

    –Ámanhã?

    –Ámanhã. É dolorosa a separação n'estes confins do mundo, quando as
    almas se comprehendem bem em Jesus… O nosso padre Gutierrez que lhe
    faça um bom farnel… Nós já o amavamos como irmão, Theodoro… Coma um
    confeito, são deliciosos… As coisas estão em feliz repouso quando se
    acham no seu lugar e elemento natural: o lugar do coração do homem é o
    coração de Deus: e o seu está n'esse asylo seguro… Coma um confeito…
    Que é isso, meu filho, que é isso?

    Eu estava collocando sobre o seu Breviario aberto, n'uma pagina do
    Evangelho de pobreza, um rôlo de notas do _Banco d'Inglaterra;_ e
    balbuciei:

    –Meu reverendissimo, para os seus pobres…

    –Excellente, excellente… O nosso bom Gutierrez que lhe faça um farnel
    copioso… _Amen_, meu filho … _In Deo omnia spes_!…

    Ao outro dia, entre o padre Anacleto e o padre Sanchez, montado na mula
    branca do convento, desci o burgo, ao repique dos sinos. E ahi vamos
    para Hiang-Hiam, villa negra e murada, onde atracam os barcos que descem
    a Tien-Tzin. Já as terras ao longo do Pei-Hó estavam todas brancas de
    neve: nas enseadas baixas já a agua ia gelando: e embrulhados em pelles
    de carneiro, em roda do fogareiro, á pôpa do barco, os bons padres e eu
    iamos conversando de trabalhos de Missionarios, de coisas da China, por
    vezes dos interesses do Céo–passando em redor sem cessar o grosso
    frasco da genebra…

    Era Tien-Tzin separei-me d'aquelles santos camaradas. E d'ahi a duas
    semanas, por um meio dia de sol tepido, passeava, fumando o meu charuto
    e olhando a azafama dos caes d'Hong-Kong, no tombadilho do _Java_ que ia
    levantar ferro para a Europa.

    * * * * *

    Foi um momento commovente para mim, aquelle em que vi, ás primeiras
    voltas do helice, afastar-se a terra da China.

    Desde que acordára, n'essa manhã, uma inquietação surda recomeçava a
    pesar-me na alma. Agora, punha-me a pensar que viera áquelle vasto
    imperio para acalmar pela expiação um protesto temeroso da Consciencia:
    e por fim, impellido por uma impaciencia nervosa, ahi partia, sem ter
    feito mais que deshonrar os bigodes brancos d'um general heroico, e ter
    recebido pedradas pela orelha n'uma villa dos confins da Mongolia.

    Estranho destino, o meu!…

    * * * * *

    Até ao anoitecer estive encostado sombriamente á borda do paquete, vendo
    o mar liso, como uma vasta peça de sêda azul, dobrar-se aos lados em
    duas pregas molles: pouco a pouco grandes estrellas palpitaram na
    concavidade negra; e o helice na sombra ia trabalhando em rhythmo.
    Então, tomado d'uma fadiga molle, fui errando pelo paquete, olhando,
    aqui e além, a bussola alumiada; os montões de cabrestantes; as peças da
    machina, n'uma claridade ardente, batendo em cadencia; as fagulhas que
    fugiam do cano, n'um rôlo de fumaraça negra; os marinheiros de barba
    ruiva, immoveis á roda do leme; e as fórmas dos pilotos, sobre o pontal,
    altas e vagas na noite. Na _cabine_ do capitão, um inglez de capacete de
    cortiça, cercado de damas que bebiam Cognac, ia tocando melancolicamente
    na flauta a aria de _Bonnie Dundee_…

    Eram onze horas quando desci ao meu beliche. As luzes já estavam
    apagadas: mas a lua que se erguia ao nivel da agua, redonda e branca,
    batia o vidro da _cabine_ com um raio de claridade: e então, a essa meia
    tinta pallida, lá vi estirada sobre a maca a figura pançuda, vestida de
    sêda amarella, com o seu papagaio nos braços!

    Era _elle_, outra vez!

    E foi _elle_, perpetuamente! Foi elle em Singapura e em Ceylão. Foi elle
    erguendo-se dos areaes do deserto ao passarmos no canal de Suez;
    adiantando-se á prôa d'um barco de provisões quando parámos em Malta;
    resvalando sobre as rosadas montanhas da Sicilia; emergindo dos
    nevoeiros que cercam o morro de Gibraltar! Quando desembarquei em
    Lisboa, no caes das Columnas, a sua figura bojuda enchia todo o arco da
    rua Augusta; o seu olho obliquo fixava-me–e os dois olhos pintados do
    seu papagaio pareciam fixar-me tambem…

    VIII

    Então, certo que não poderia jámais aplacar Ti-Chin-Fú, toda essa noite
    no meu quarto ao Loreto, onde como outr'ora as velas innumeraveis das
    serpentinas davam aos damascos tons de sangue fresco, meditei sacudir de
    mim, como um adorno de peccado, esses milhões sobrenaturaes. E assim me
    libertaria talvez d'aquella pança e d'aquelle papagaio abominavel!

    Abandonei o palacete ao Loreto, a existencia de Nababo. Fui, com uma
    quinzena coçada, realugar o meu quarto na casa da Madame Marques: e
    voltei á Repartição, d'espinhaço curvo, a implorar os meus vinte mil
    reis mensaes, e a minha dôce penna de amanuense!…

    Mas um soffrimento maior veio amargurar os meus dias. Julgando-me
    arruinado,–todos aquelles, que a minha opulencia humilhára, cobriram-me
    de offensas, como se alastra de lixo uma estatua derrubada de principe
    decahido. Os jornaes, n'um triumpho de ironia, achincalharam a minha
    miseria. A aristocracia, que balbuciára adulações aos pés do Nababo,
    ordenava agora aos seus cocheiros que atropellassem nas ruas o corpo
    encolhido do plumitivo de Secretaría. O clero, que eu enriquecera,
    accusava-me de _feiticeiro_; o povo atirou-me pedras; e a Madame
    Marques, quando eu me queixava humildemente da dureza granitica dos
    bifes,–plantava as duas mãos á cinta, e gritava:

    –Ora o enguiço! Então que quer vossê mais? Aguente! Olha o pelintra!…

    E, apesar d'esta expiação, o velho Ti-Chin-Fú lá estava sempre á minha
    ilharga, obeso e côr d'óca,–porque os seus milhões, que jaziam agora
    estereis e intactos nos Bancos, ainda de facto eram meus!
    Desgraçadamente meus!

    Então, indignado, um dia subitamente reentrei com estrondo no meu
    palacete e no meu luxo. N'essa noite, de novo o resplendor das minhas
    janellas alumiou o Loreto: e pelo portão aberto viram-se como outr'ora
    negrejar, nas suas fardas de sêda negra, as longas filas de lacaios
    decorativos.

    Logo, Lisboa, sem hesitar, se rojou aos meus pés. A Madame Marques
    chamou-me, chorando, _filho do seu coração_. Os jornaes deram-me os
    qualificativos que, de antiga tradição, pertencem á Divindade: fui o
    _Omnipotente_, fui o _Omnisciente_! A aristocracia beijou-me os dedos
    como a um Tyranno: e o clero incensou-me como a um idolo. E o meu
    desprezo pela Humanidade foi tão largo,–que se estendeu ao Deus que a
    creou.

    Desde então uma saciedade enervante mantem-me semanas inteiras n'um
    sophá, mudo e soturno, pensando na felicidade do _não-ser_…

    Uma noite, recolhendo só por uma rua deserta, vi diante de mim o
    Personagem vestido de preto com o guarda-chuva debaixo do braço, o mesmo
    que no meu quarto feliz da travessa da Conceição me fizera, a um
    _ti-li-tin_ de campainha, herdar tantos milhões detestaveis. Corri para
    elle, agarrei-me ás abas da sua sobrecasaca burgueza, bradei:

    –Livra-me das minhas riquezas! Resuscita o Mandarim! Restitue-me a paz
    da miseria!

    Elle passou gravemente o seu guarda-chuva para debaixo do outro braço, e
    respondeu com bondade:

    –Não póde ser, meu prezado senhor, não póde ser…

    Eu atirei-me aos seus pés n'uma supplicação abjecta: mas só vi diante de
    mim, sob uma luz mortiça de gaz, a fórma magra de um cão farejando o
    lixo.

    Nunca mais encontrei este individuo.–E agora o mundo parece-me um
    immenso montão de ruinas onde a minha alma solitaria, como um exilado
    que erra por entre columnas tombadas, geme, sem descontinuar…

    As flôres dos meus aposentos murcham e ninguem as renova: toda a luz me
    parece uma tocha: e quando as minhas amantes véem, na brancura dos seus
    penteadores, encostar-se ao meu leito, eu chóro–como se avistasse a
    legião amortalhada das minhas alegrias defuntas…

    * * * * *

    Sinto-me morrer. Tenho o meu testamento feito. N'elle lego os meus
    milhões ao Demonio; pertencem-lhe; elle que os reclame e que os
    reparta…

    E a vós, homens, lego-vos apenas, sem commentarios, estas palavras: «_Só
    sabe bem o pão que dia a dia ganham as nossas mãos: nunca mates o
    Mandarim_!»

    E todavia, ao expirar, consola-me prodigiosamente esta idéa: que do
    Norte ao Sul e do Oeste a Léste, desde a Grande Muralha da Tartaria até
    ás ondas do Mar Amarello, em todo o vasto Imperio da China, nenhum
    Mandarim ficaria vivo, se tu, tão facilmente como eu, o pudesses
    supprimir e herdar-lhe os milhões, oh leitor, creatura improvisada por
    Deus, obra má de má argilla, meu semelhante e meu irmão!

    Angers, junho, 1880.

    PORTO–TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA

    62, Cancella Velha, 62

  • O Livro de Cesario Verde

    O Livro de Cesario Verde

    Aproximadamente 14.882 palavras.

    Produced by João Miguel Neves from images of the National
    Digital Library project from the National Library of
    Portugal.

    O LIVRO DE CESARIO VERDE

    Prefácio

    A JORGE VERDE

    Aqui deponho em suas mãos e debaixo dos seus lábios o livro do seu
    irmão. A minha «obra» terminou no dia em que elle saiu da nossa
    doce amizade para a nossa terrível amargura: morri, meu querido
    Jorge–deixe-me chamar assim ao irmão do meu querido Cesario;–morri
    para as alegrias do trabalho, para as esperanças dos enganos doces!
    O desmoronamento fez-se, a um tempo, no espírito e no coração! Dos
    restos do passado deixe-me offerecer-lhe a dedicação extremada:
    peça-me o sacrifício; e, quando no decorrer da vida, se lembrar de
    nós, tenha este pensamento consolador:–A grande alma de meu irmão
    soube impôr-se a um coração endurecido; e tenha este outro pensamento:
    –Mas não estava de todo endurecido o coração que soube amal-a.

    Adeus, meu querido Jorge!

    S.P.

    20 de julho de 1886.

    Encontrámo-nos pela primeira vez no Curso Superior de Lettras. Foi
    em 1873. Cesario Verde marticulara-se no Curso em homenagem ás
    Lettras, como se as Lettras lá estivessem–no Curso. Eu matriculara-me,
    com a esperança de habilitar-me um dia á conquista de uma cadeira
    disponivel. Encontrámo-nos e ficámos amigos–para a vida e para a
    morte.

    Para a vida e para a morte.

    Tenho de fallar de mim, se eu pretendo fallar de Cesario Verde. Elle
    não teve, desde aquelle dia–ha treze annos–maior amigo do que eu
    fui; e sobre esta mesa onde eu estou escrevendo, ás 10 horas da
    noite d'este formidavel dia glacial–20 de Julho de 1886, dia do
    seu enterro,–sobre esta mesa onde eu estou escrevendo tenho estas
    palavras suas de ha poucos dias:–«E como se dê o caso de tu seres
    o mais dedicado dos meus amigos…» Tenho aqui essas palavras:
    ellas constituem a justificação dos meus soluços de ha poucas horas,
    alli, no cemiterio visinho onde elle dorme–o Cesario!–a sua
    primeira noite redimida…

    Eu fui, pois, a luctar nas grandes batalhas da Desgraça, n'aquelle
    anno para mim terrivel de 1874. Fui-me, a dezenas de leguas de
    Lisboa. Elle ficou. E no dia em que eu medi forças com as avançadas
    do meu destino, a inquietação invadiu o espirito e o coração de
    Cesario Verde, por modo que já eu assoberbara com o meu desprezo
    a desventura pertinaz e ainda elle não vingára libertar-se do peso
    de seus cuidados e afflições. Durante annos escreveu-me centenares
    de paginas–commentarios sobre os meus infortunios, conselhos do
    seu espirito lucidissimo, sobresaltos do seu coração fraternal. Um
    dia, trocámos estas palavras:–«Como tu tens tempo, meu amigo, para
    soffrer tanto!»–«Como tu tens tempo, meu amigo, para me acompanhar
    no soffrimento!».

    É indispensavel ter conhecido intimamente Cesario Verde para
    conhecel-o um pouco. Os que apenas lhe ouviram a phrase rapida,
    imperiosa, dogmatica, mal podem imaginar o fundo de tolerancia
    espectante d'aquelle bello e poderoso espirito. Elle tinha o furor
    da discussão–a toda a hora. Eu careço de preparar-me durante horas
    para a simples comprehensão. As exigencias do meu caro polemista
    irritavam-me. Eu respondia ao acaso; mas acontecia por vezes que o
    sorriso ligeiramente ironico do perseguidor expandia-se n'um bom e
    largo sorriso de convencido; e então–meu querido amigo! meu santo
    poeta!–elle saudava com um enthusiasmo de creança amoravel o que
    elle chamava o meu triumpho! Não hesitava em confessar-se vencido;
    e congratulava-se commigo–porque eu o vencera inconscientemente.
    A generosa alma chamava áquillo a minha superioridade!

    Os campos, a verdura dos prados e dos montes; a liberdade do homem
    em meio da natureza livre: os seus sonhos amados; as suas realidades
    amadas! Quando aquelle artista delicado, quando aquelle poeta de
    primeira grandeza julgava em raros momentos sacrificar a Arte aos
    seus gostos de lavrador e de homem pratico, succedia que as cousas
    do campo, da vida pratica assimilavam a fecundante seiva artistica
    do poeta: e então dos fructos alevantavam-se aromas que disputavam
    fóros de poesia aos aromas das flôres. O mesmo sopro bondoso e
    potente agitava e fecundava os milharaes e as violetas e os trigaes
    e as rosas! A bondade summa está no poeta,–mais visivel, pelo menos,
    do que em Deus.

    Artista–e de alta plana! Eu pude vêl-o cioso de seus direitos e
    reivindicando-os com tanto de ingenuidade quanto de vigor. E pois
    que um ligeiro esboço, precedendo mais detido trabalho, estou
    elaborando sobre os traços mais salientes d'aquella individualidade,
    não me dispensarei d'esta indicripção:

    Ha dois mezes escrevia-me Cesario Verde: «O Doutor Sousa Martins
    perguntou-me qual era a minha occupação habitual. Eu respondi-lhe
    naturalmente: Empregado no commercio. Depois, elle referiu-se á
    minha vida trabalhosa que me distrahia, etc. Ora, meu querido amigo,
    o que eu te peço é que, conversando com o dr. Sousa Martins, lhe
    dês a perceber que eu não sou o sr. Verde, empregado no commercio.
    Eu não posso bem explicar-te; mas a tua amizade comprehende os meus
    escrupulos: sim?…»

    E eu fui á beira de Sousa Martins e perguntei-lhe se o poeta Cesario
    Verde podia ser salvo. O grande e illustre medico tranquilisou-me
    –e apunhalou-me em pleno peito:–Que o poeta Cesario Verde estava
    irremediavelmente perdido!

    Meu poeta! Meu amigo! Tu estavas condemnado no tribunal superior,
    quando eu te mentia e ao publico e a mim proprio: estavas condemnado,
    meu santo! Mas podia viver tranquillo o teu orgulho de artista: o
    teu medico sabia que o poeta Cesario Verde eras tu proprio, meu
    pallido agonisante illudido!

    A esthesia, o processo artistico e a individualidade d'este admiravel
    e originalissimo poeta merecem á Critica independente uma attenção
    desvelada. Eu não hesito em vincular o meu nome á promessa de um
    tributo que a obra de Cesario Verde está reclamando.

    * * * * *

    E todavia, não póde o meu espirito evadir-se á idéa consoladora de
    que é um sonho isto que o entenebrece! Não pódes evadir-te, ó meu
    espirito amargurado! mas eu vou libertar-te para a dôr!

    Foi ás cinco da tarde–ainda agora. Caía o sol a prumo sobre a
    estrada do Lumiar e nós vinhamos arrastando a nossa miseria,–nós
    os vivos; o morto arrastava a sua indifferença. Chegámos, com duas
    horas de amargura, alli ao porto de abrigo e de descanço. Veio o
    ceremonial tragico, o latim, o encerramento. Caso de uma eloquencia
    terrivel: Entre algumas dezenas de homens não houve uma phrase
    indifferente–e em dado momento explosiram soluços n'um enternecimento
    que ageitava a loira cabeça do cadaver lá dentro do caixão–como
    as mãos da mãe lh'a ageitaram infantil, no travesseiro, ha vinte
    e quatro annos, e moribunda ha vinte e quatro horas!

    Eram sete horas da tarde, ó minha alma triste! Eu fui-me a chorar
    velhas lagrimas de gelo, avocadas por lagrimas de fogo recemnascidas.
    Fui-me por entre os tumulos, a pedir ao meu Deus de ha trinta annos
    que que me désse força, que me désse força nova,–pois que se
    prolonga o captiveiro! E a sós, caminhando por entre os tumulos,
    ao cair da noite, pareceu-me comprehender que nós recebemos força
    nova em cada nova dôr, para soffrermos de novo–do mesmo modo que
    o alcatruz de uma nóra se despeja para encher-se, para despejar-se
    –sem saber porque…

    20 de Agosto

    * * * * *

    A morada nova do Cesario é de pedra e tem uma porta de ferro, com
    um respiradouro em cruz;–rua n.º 6 do cemiterio dos Prazeres. Á
    porta está um arbusto da familia dos cyprestes–um brinde ao meu
    querido morto. Eu offerecera uma palmeira que o vento esgarçou ao
    terceiro dia, e tive de escolher uma especie resistente, cá da
    minha raça–funebre e resistente. Está verdejante e vigorosa a
    pequenina arvore, e de longe é uma sentinella perdida da minha doce
    amizade religiosa. De longe vou já perguntando á nossa arvore:–Está
    bom o nosso amigo?… E ella inclina os pequeninos trocos, com a
    gravidade do cypreste:–Bem; não houve novidade em toda a noite…

    É que eu vou pelas tardes visital-o; e saber como elle passou é
    todo um meu cuidado, como é toda a minha alegria o bem-estar
    d'aquella hora em que não ha risos. Não fomos risonhos–o Cesario
    e eu. As nossas horas de convivencia foram tristes e severas. Depois
    da morte do Cesario eu deixei de viver nos dominios onde elle sentira
    consolações, alentos, esperanças, onde elle imaginára renascimentos,
    horisontes, claridades novas. Nunca mais publiquei uma palavra que
    se lhe não consagrasse–ao meu querido morto. Em face d'aquelle
    cadaver eu senti alastrar-se no meu pobre ser fatigado o bem-amado
    desprezo da vida. O meu santo está alli,–está resignado: é tudo.
    Vós todos, que o amastes, sabei que elle está resignado–o nosso
    querido morto impassivel!

    E n'uma dessas tardes, alguns dias depois da sua morte, eu aproximei
    da porta de ferro a minha pobre cabeça esbrazeada e olhei para
    dentro do jazigo, involuntariamente; e então, como quer que eu
    visse lá a dentro do jazigo alguns caixões arrumados, e como eu
    acertasse em descobrir o caixão do Cesario, os soluços despedaçaram-se
    contra a minha garganta, n'uma afflicção immensa e cruel. E foi
    então que a voz rouca e enfraquecida do Cesario–lembram-se da voz
    d'elle?–pronunciou distinctamente lá a dentro do caixão:–«Sê
    natural, meu amigo; sê natural!»

    Era a voz do Cesario; era a sua voz tremente e doce, ó meu sagrado
    horror inconsciente! Debrucei-me contra a porta do jazigo e suppliquei
    n'uma angustia:–«Fala! Dize! Falla, outra vez, meu amigo!» Não se
    reproduziu o doloroso encanto. Apenas uma especie de marulho brando,
    um arrastar de folhagem resequida–e o morto na paz da Morte!

    Vão já decorridos dez annos sobre um periodo de alguns mezes serenos
    da minha via dolorosa. Eu viera a conquistar a certeza de que não
    havia luz misericordiosa para a noite que me vem acompanhando e
    torturando os olhos ávidos, desde o berço á sepultura redemptora.
    Cheguei aqui, á cidade maldita da minha primeira hora e trazia o
    sonho de uma aurora pacifica de vida nova no meu pobre espirito
    illudido. A aurora fez-se com um desabamento de esperanças: a
    crueldade bestial que se debruçára sobre o meu primeiro dia não
    estava arrependida, nem fatigada: a perseguição renasceu. E quando
    eu, no singular desespero dos esmagados em sua crença, pensei na
    Morte como no abrigo antecipado–querido abrigo inevitavel!–a voz
    de Cesario foi a voz evocadora para a continuação do soffrimento
    –do soffrimento amparado e protegido…

    Protegido! A protecção foi a maior da grande alma serena para a
    pobre alma abatida: foi de lagrimas que se confundiram com as minhas
    lagrimas; foi aquelle sorriso triste de resignação, consagrado ás
    minhas amarguras,–que para o Cesario não foram mysteriosas; foi o
    aperto de mão robusto, na vertigem do combate; foi a voz firme e
    severa na hora dos desfallecimentos; foi o reflexo permanente que
    a minha angustia encontrou na sua.

    Ah, santo! Ah, meu santo! Ah, meu puro e meu grande! Ah, meu forte!
    Vae-se na corrente, desfallecido, se nos não troveja nos ouvidos a
    voz reanimadora! Vae-se na corrente,–que o sei eu! Mas tu, depois
    do grito salvador, tinhas um applauso vibrante lá do fundo da tua
    grandeza e da tua generosidade. E tu sabias que me salvara a tua
    mão, a tua palavra, a tua alma de justo, a tua face que eu não
    quizera vêr, contrahida e severa, retraindo-se perante o quadro
    da minha fraqueza! Tu bem o sabias,–forte, bom, generoso, nobre,
    sempre bom–e todavia sempre justo!

    A crise mais feroz atravessei-a, pois, abrigado,–abrigado pela sua
    voz amiga. Eu tive de luctar com a lenda de rebellião, com a
    desconfiança dos homens praticos, com o odio dos pequeninos malvados
    offendidos em seus orgulhos e desmascarados em suas hypocrisias:
    conseguintemente, com a suppressão do trabalho,–do pão,–com a
    calumnia, com a intriga, com todas as armadilhas á minha colera,
    com todas as ciladas á minha fé… Ah, perdidos em paiz de Cafres!
    Mal conceberieis o horror de uma lucta como aquella, de todos os
    dias de dez annos, em paiz de conta aberta no bazar da Civilisação!

    Hoje, o meu santo amigo está alli em baixo, na sua morada nova,
    esperando… Espera que eu vá dizer-lhe dos horisontes novos abertos
    á consciencia dos justos; espera que eu vá dizer-lhe as victorias da
    Justiça absoluta–da Justiça illuminada e serena;–espera que eu vá
    dizer-lhe as victorias do Trabalho, da Razão, da Sciencia, da
    Sinceridade, do Amor: os homens reconciliados, esclarecidos, a
    Natureza convertida em Progresso, Deus explicado, o Futuro illuminado,
    a Vida possível, A Mulher fortalecida, o Homem abrandado, as luctas
    supprimidas, o concerto da Terra desentranhando-se em harmonias
    reconhecidas, a Bondade convertida em nórma, os Direitos e os Deveres
    supprimidos pela Igualdade: os seus sonhos, a sua fé, o seu horisonte,
    o seu amor!

    Está alli em baixo, esperando… Eu, mensageiro triste, não saberei
    dizer-lhe o ascendêr dos espiritos, e só poderei levar-lhe no meu
    abatimento a demonstração da minha pouca fé, aggravada pela espantosa
    amargura d'estes ultimos dias,–d'estas ultimas horas. As visões
    do poeta hão de emmurchecer confundidas com as ultimas rozas que a
    minha pobre mão tremente e desfallecida lhe deporá no tumulo, e os
    restos da minha fé hão-de misturar-se com o pó accumulado á entrada
    do seu tumulo pelo Nordéste–menos frio do que a minha alma succumbida!

    * * * * *

    Silva Pinto.

    Os versos

    I

    CRISE ROMANESCA

    DESLUMBRAMENTOS

    Milady, é perigoso contemplal-a,
    Quando passa aromatica e normal,
    Com seu typo tão nobre e tão de sala,
    Com seus gestos de neve e de metal.

    Sem que n'isso a desgoste ou desenfade,
    Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,
    Eu vejo-a, com real solemnidade,
    Ir impondo toilettes complicadas!…

    Em si tudo me attrae como um thesoiro:
    O seu ar pensativo e senhoril,
    A sua voz que tem um timbre de oiro
    E o seu nevado e lucido perfil!

    Ah! Como m'estontêa e me fascina…
    E é, na graça distincta do seu porte,
    Como a Moda superflua e feminina,
    E tão alta e serena como a Morte!…

    Eu hontem encontrei-a, quando vinha,
    Britannica, e fazendo-me assombrar;
    Grande dama fatal, sempre sósinha,
    E com firmeza e musica no andar!

    O seu olhar possue, n'um fogo ardente,
    Um archanjo e um demonio a illuminal-o;
    Como um florete, fere agudamente,
    E afaga como o pello d'um regalo!

    Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
    E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
    O modo diplomatico e orgulhoso
    Que Anna d'Austria mostrava aos cortezãos.

    E emfim prosiga altiva como a Fama,
    Sem sorrisos, dramatica, cortante;
    Que eu procuro fundir na minha chamma
    Seu ermo coração, como um brilhante.

    Mas cuidado, milady, não se afoite,
    Que hão-de acabar os barabaros reaes;
    E os povos humilhados, pela noite,
    Para a vingança aguçam os punhaes.

    E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,
    Sob o setim do Azul e as andorinhas,
    Eu hei-de ver errar, allucinadas,
    E arrastando farrapos–as rainhas!

    SEPTENTRIONAL

    Talvez já te esquecesses, ó bonina,
    Que viveste no campo só commigo,
    Que te osculei a bocca purpurina,
    E que fui o teu sol e o teu abrigo.

    Que fugiste commigo da Babel,
    Mulher como não ha nem na Circassia,
    Que bebemos, nós dois, do mesmo fel,
    E regámos com prantos uma acacia.

    Talvez já te não lembres com desgosto
    D'aquellas brancas noites de mysterio,
    Em que a lua sorria no teu rosto
    E nas lages que estão no cemiterio.

    Quando, á brisa outoniça, como um manto,
    Os teus cabellos d'ambar desmanchados,
    Se prendiam nas folhas d'um acantho,
    Ou nos bicos agrestes dos silvados,

    E eu ia desprendel-os, como um pagem
    Que a cauda solevasse aos teus vestidos;
    E ouvia murmurar á doce aragem
    Uns delirios d'amor, entristecidos;

    Quando eu via, invejoso, mas sem queixas,
    Pousarem borbeletas doudejantes
    Nas tuas formosissimas madeixas,
    D'aquellas côr das messes lourejantes,

    E no pomar, nós dois, hombro com hombro,
    Caminhavamos sós e de mãos dadas,
    Beijando os nossos rostos sem assombro,
    E colorindo as faces desbotadas;

    Quando ao nascer d'aurora, unidos ambos
    N'um amor grande como um mar sem praias,
    Ouviamos os meigos dithyrambos,
    Que os rouxinoes teciam nas olaias,

    E, afastados da aldeia e dos casaes,
    Eu comtigo, abraçado como as heras,
    Escondidos nas ondas dos trigaes,
    Devolvia-te os beijos que me déras;

    Quando, se havia lama no caminho,
    Eu te levava ao collo sobre a greda,
    E o teu corpo nevado como o arminho
    Pesava menos que um papel de sêda…

    E foste sepultar-te, ó seraphim,
    No claustro das Fieis emparedadas,
    Escondeste o teu rosto de marfim
    No véu negro das freiras resignadas.

    E eu passo, tão calado como a Morte,
    N'esta velha cidade tão sombria,
    Chorando afflictamente a minha sorte
    E prelibando o calix da agonia.

    E, tristissima Helena, com verdade,
    Se podéra na terra achar supplicios,
    Eu tambem me faria gordo frade
    E cobriria a carne de cilicios.

    MERIDIONAL

    Cabellos

    Ó vagas de cabello esparsas longamente,
    Que sois o vasto espelho onde eu me vou mirar,
    E tendes o crystal d'um lago refulgente
    E a rude escuridão d'um largo e negro mar;

    Cabellos torrenciaes d'aquella que m'enleva,
    Deixae-me mergulhar as mãos e os braços nús
    No barathro febril da vossa grande treva,
    Que tem scintillações e meigos ceos de luz.

    Deixae-me navegar, morosamente, a remos,
    Quando elle estiver brando e livre de tufões,
    E, ao placido luar, ó vagas, marulhemos
    E enchamos de harmonia as amplas solidões.

    Daixae-me naufragar no cimo dos cachopos
    Occultos n'esse abysmo ebanico e tão bom
    Como um licor rhenano a fermentar nos copos,
    Abysmo que s'espraia em rendas de Alençon!

    E ó magica mulher, ó minha Inegualavel,
    Que tens o immenso bem de ter cabellos taes,
    E os pisas desdenhosa, altiva, imperturbavel,
    Entre o rumor banal dos hymnos triumphaes;

    Consente que eu aspire esse perfume raro,
    Que exhalas da cabeça erguida com fulgor,
    Perfume que estontêa um millionario avaro
    E faz morrer de febre um louco sonhador.

    Eu sei que tu possues balsamicos desejos,
    E vaes na direcção constante do querer,
    Mas ouço, ao ver-te andar, melodicos harpejos,
    Que fazem mansamente amar e elanguescer.

    E a tua cabelleira, errante pelas costas,
    Supponho que te serve, em noites de verão,
    De flaccido espaldar aonde te recostas
    Se sentes o abandono e a morna prostração.

    E ella hade, ella hade, um dia, em turbilhões insanos
    Nos rolos envolver-me e armar-me do vigor
    Que antigamente deu, nos circos dos romanos,
    Um oleo para ungir o corpo ao gladiador.

    * * * * *

    Ó mantos de veludo esplendido e sombrio,
    Na vossa vastidão posso talvez morrer!
    Mas vinde-me aquecer, que eu tenho muito frio
    E quero asphyxiar-me em ondas de prazer.

    IRONIAS DO DESGOSTO

    «Onde é que te nasceu»–dizia-me ella ás vezes–
    «O horror calado e triste ás cousas sepulcraes?
    «Porque é que não possues a verve dos Francezes
    «E aspiras, em silencio, os frascos dos meus saes?

    «Porque é que tens no olhar, moroso e persistente,
    «As sombras d'um jazigo e as fundas abstracções,
    «E abrigas tanto fel no peito, que não sente
    «O abalo feminil das minhas expansões?

    «Ha quem te julgue um velho. O teu sorriso é falso;
    «Mas quando tentas rir parece então, meu bem,
    «Que estão edificando um negro cadafalso
    «E ou vae alguem morrer ou vao matar alguem!

    «Eu vim–não sabes tu?–para gosar em maio,
    «No campo, a quietação banhada de prazer!
    «Não vês, ó descórado, as vestes com que saio,
    «E os jubilos, que abril acaba de trazer?

    «Não vês como a campina é toda embalsamada
    «E como nos alegra em cada nova flor?
    «E então porque é que tens na fronte consternada
    «Um não sei quê tocante e enternecedor?

    E eu só lhe respondia:–«Escuta-me. Conforme
    «Tu vibras os crystaes da bocca musical,
    «Vae-nos minando o tempo, o tempo–o cancro enorme
    «Que te ha de corromper o corpo de vestal.

    «E eu calmamente sei, na dôr que me amortalha,
    «Que a tua cabecinha ornada á Rabagas,
    «A pouco e pouco ha de ir tornando-se grisalha
    «E em breve ao quente sol e ao gaz alvejará!

    «E eu que daria um rei por cada teu suspiro,
    «Eu que amo a mocidade e as modas futeis, vans,
    «Eu morro de pezar, talvez, porque prefiro
    «O teu cabelo escuro ás veneraveis cans!»

    HUMILHAÇÕES
    (De todo o coração–a Silva Pinto)

    Esta aborrece quem é pobre. Eu, quasi Job,
    Acceito os seus desdens, seus odios idolatro-os;
    E espero-a nos salões dos principaes theatros,
    Todas as noites, ignorado e só.

    Lá cança-me o ranger da seda, a orchestra, o gaz;
    As damas, ao chegar, gemem nos espartilhos,
    E emquanto vão passando as cortezans e os brilhos,
    Eu analyso as peças no cartaz.

    Na representação d'um drama de Feuillet,
    Eu aguradava, junto à porta, na penumbra,
    Quando a mulher nervosa e van que me deslumbra
    Saltou soberba o estribo do coupé.

    Como ella marcha! Lembra um magnetisador.
    Roçavam no veludo as guarnições das rendas;
    E, muito embora tu, burguez, me não entendas,
    Fiquei batendo os dentes de terror.

    Sim! Por não podia abandonal-a em paz!
    Ó minha pobre bolsa, amortalhou-se a idéa
    De vel-a aproximar, sentado na platéa,
    De tel a n'um binoculo mordaz!

    Eu occultava o fraque usado nos botões;
    Cada contratador dizia em voz rouquenha:
    –Quem compra algum bilhete ou vende alguma senha?
    E ouviam-se cá fóra as ovações.

    Que desvanecimento! A perola do Tom!
    As outras ao pé d'ella imitam as bonecas;
    Tem menos melodia as harpas e as rabecas,
    Nos grandes espetaculos do Som.

    Ao mesmo tempo, eu não deixava de a abranger;
    Vi-a subir, direita, a larga escadaria
    E entrar no camarote. Antes estimaria
    Que o chão se abrisse para me abater.

    Saí; mas ao sair senti-me atropellar.
    Era um municipal sobre um cavallo. A guarda
    Espanca o povo. Irei-me; e eu, que detesto a farda,
    Cresci com raiva contra o militar.

    De subito, fanhosa, infecta, rota, má,
    Pôz-se na minha frente uma velhinha suja,
    E disse-me, piscando os olhos de coruja:
    –Meu bom senhor! Dá-me um cigarro? Dá?…

    RESPONSO

    I

    N'um castello deserto e solitario,
    Toda de preto, ás horas silenciosas,
    Envolve-se nas pregas d'um sudario
    E chora como as grandes criminosas.

    Podesse eu ser o lenço de Bruxellas
    Em que ella esconde as lagrimas singellas.

    II

    E loura como as doces escocezas,
    D'uma belleza ideal, quasi indecisa;
    Circumda-se de luto e de tristezas
    E excede a melancolica Artemisa.

    Fosse eu os seus vestidos afogados
    E havia de escutar-lhe os seus peccados.

    III

    Alta noite, os planetas argentados
    Deslisam um olhar macio e vago
    Nos seus olhos de pranto marejados
    E nas aguas mansissimas do lago

    Podesse eu ser a lua, a lua terna,
    E faria que a noite fosse eterna.

    IV

    E os abutres e os corvos fazem giros
    De roda das ameias e dos pégos,
    E nas salas resoam uns suspiros
    Dolentes como as supplicas dos cegos.

    Fosse eu aquellas aves de pilhagem
    E cercara-lhe a fronte, em homenagem.

    V

    E ella vaga nas praias rumorosas,
    Triste como as rainhas desthronadas,
    A contemplar as gondolas airosas,
    Que passam, a giorno illuminadas.

    Podesse eu ser o rude gondoleiro
    E alli é que fizera o meu cruzeiro.

    VI

    De dia, entre os veludos e entre as sedas,
    Murmurando palavras afflictivas,
    Vagueia nas umbrosas alamedas
    E acarinha, de leve, as sensitivas.

    Fosse eu aquellas arvores frondosas
    E prendera-lhe as roupas vaporosas.

    VII

    Ou domina, a rezar, no pavimento
    Da capella onde outr'ora se ouviu missa,
    A musica dulcissima do vento
    E o sussuro do mar, que s'espreguiça.

    Podesse eu ser o mar e os meus desejos
    Eram ir borrifar-lhe os pés, com beijos.

    VIII

    E ás horas do crepusculo saudosas,
    Nos parques com tapetes cultivados,
    Quando ella passa curvam-se amorosas
    As estatuas dos seus antepassados.

    Fosse eu tambem granito e a minha vida
    Era vêl-a a chorar arrependida.

    IX

    No palacio isolado como um monge,
    Erram as velhas almas dos precítos,
    E nas noites de inverno ouvem-se ao longe
    Os lamentos dos naufragos afflictos.

    Podesse eu ter tambem uma procella
    E as lentas agonias ao pé d'ella!

    X

    E ás lages, no silencio dos mosteiros,
    Ella conta o seu drama negregado,
    E o vasto carmesim dos resposteiros
    Ondula como um mar ensanguentado.

    Fossem aquellas mil tapeçarias
    Nossas mortalhas quentes e sombrias.

    XI

    E assim passa, chorando, as noites bellas,
    Sonhando nos tristes sonhos doloridos,
    E a reflectir nas gothicas janellas
    As estrellas dos ceus desconhecidos.

    Podesse eu ir sonhar tambem comtigo
    E ter as mesmas pedras no jazigo!

    XII

    Mergulha-se em angustias lacrimosas
    Nos ermos d'um castello abandonado,
    E as proximas florestas tenebrosas
    Repercutem um choro amargurado.

    Unissemos, nós dois, as nossas covas,
    Ó doce castellã das minhas trovas!

    II

    NATURAES

    CONTRARIEDADES

    Eu hoje estou cruel, frenetico, exigente;
    Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
    Incrivel! Já fumei tres massos de cigarros
    Consecutivamente.

    Doe-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
    Tanta depravação nos usos, nos costumes!
    Amo, insensatamente, os acidos, os gumes
    E os angulos agudos.

    Sentei-me á secretaria. Alli defronte móra
    Uma infeliz, sem, peito, os dois pulmões doentes;
    Soffre de falta d'ar, morreram-lhe os parentes
    E engomma para fóra.

    Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
    Tão livida! O doutor deixou-a. Mortifica.
    Lidando sempre! E deve a conta á botica!
    Mal ganha para sopas…

    O obstaculo estimula, torna-nos perversos;
    Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
    Por causa d'um jornal me regeitar, ha dias,
    Um folhetim de versos.

    Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
    No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
    Mais d'uma redacção, das que elogiam tudo,
    Me tem fechado a porta.

    A critica segundo o methodo de Taine
    Ignoram-n'a. Juntei n'uma fogueira immensa.
    Muitissimos papeis ineditos. A imprensa
    Vale um desdem solemne.

    Com raras excepções merece-me o epigramma.
    Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo,
    Um sol-e-dó. Chovisca. O populacho
    Diverte-se na lama.

    Eu nunca dediquei poemas ás fortunas,
    Mas sim, por deferencia a amigos ou a artistas,
    Independente! Só por isso os jornalistas
    Me negam as columnas.

    Receiam que o assignante ingenuo os abandone,
    Se forem publicar taes cousas, taes auctores.
    Arte? Não lhes convem, visto que os seus leitores
    Deliram por Zaccone.

    Um prosador qualquer desfructa fama honrosa,
    Obtem dinheiro, arranja a sua «coterie»;
    E a mim, não ha questão que mais me contrarie
    Do que escrever em prosa.

    A adulação repugna aos sentimentos finos;
    Eu raramente falo aos nossos litteratos,
    E apuro-me em lançar originaes e exactos,
    Os meus alexandrinos…

    E a tisica? Fechada, e com o ferro acceso!
    Ignora que a asphyxia a combustão das brazas,
    Não foge do estendal que lhe humedece as casas,
    E fina-se ao desprezo!

    Mantem-se a chá e pão! Antes de entrar na cova.
    Esvae-se; e todavia, á tarde, fracamente,
    Oiço-a cantarolar uma canção plangente
    D'uma opereta nova!

    Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
    Quem sabe se depois, eu rico e n'outros climas,
    Conseguirei reler essas antigas rimas,
    Impressas em volume?

    Nas lettras eu conheço um campo de manobras;
    Emprega-se a réclame, a intriga, o annuncio, a blague,
    E esta poesia pede um editor que pague
    Todas as minhas obras…

    E estou melhor; passou-me a colera. E a visinha?
    A pobre engommadeira ir-se-ha deitar sem ceia?
    Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia…
    Que mundo! Coitadinha!

    A DEBIL

    Eu, que sou feio, solido, leal,
    A ti, que és bella, fragil, assustada,
    Quero estimar-te, sempre, recatada
    N'uma existencia honesta, de crystal.

    Sentado á mesa d'um café devasso,
    Ao avistar-te, ha pouco, fraca e loura,
    N'esta Babel tão velha e corruptora,
    Tive tenções de offerecer-te o braço.

    E, quando soccorreste um miseravel,
    Eu, que bebia calices d'absintho,
    Mandei ir a garrafa, porque sinto
    Que me tornas prestante, bom, saudavel.

    «Ella ahi vem!» disse eu para os demais;
    E puz-me a olhar, véxado e suspirando,
    O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
    Na frescura dos linhos matinaes.

    Via-te pela porta envidraçada;
    E invejava,–talvez que o não suspeites!–
    Esse vestido simples, sem enfeites,
    N'essa cintura tenra, immaculada.

    Ia passando, a quatro, o patriarcha.
    Triste eu sahi. Doía-me a cabeça;
    Uma turba ruidosa, negra, espessa,
    Voltava das exequias d'um monarcha.

    Adoravel! Tu muito natural
    Seguias a pensar no teu bordado;
    Avultava, n'um largo arborisado,
    Uma estatua de rei n'um pedestal.

    Sorriam nos seus trens os titulares;
    E ao claro sol, guardava-te, no entanto,
    A tua boa mãe, que te ama tanto,
    Que não te morrerá sem te casares!

    Soberbo dia! Impunha-me respeito
    A limpidez do teu semblante grego;
    E uma familia, um ninho de socego,
    Desejava beijar sobre o teu peito.

    Com elegancia e sem ostentação,
    Atravessavas branca, esvelta e fina,
    Uma chusma de padres de batina,
    E d'altos funccionarios da nação.

    «Mas se a atropella o povo turbolento!
    Se fosse, por acaso, alli pisada!»
    De repente, paraste embaraçada
    Ao pé d'um numeroso ajuntamento.

    E eu, que urdia estes faceis esbocetos,
    Julguei vêr, com a vista de poeta,
    uma pombinha timida e quieta
    N'um bando ameaçador de corvos pretos.

    E foi, então, que eu homem varonil,
    Quiz dedicar-te a minha pobre vida,
    A ti, que és tenue, docil, reconhecida,
    Eu, que sou habil, pratico, viril.

    N'UM BAIRRO MODERNO

    A Manuel Ribeiro

    Dez horas da manhã; os transparentes
    Matizam uma casa apalaçada;
    Pelos jardins estancam-se os nascentes,
    E fere a vista, com brancuras quentes,
    A larga rua macadamisada.

    Rez-de-chaussée repousam socegados,
    Abriram-se, n'alguns, as persianas,
    E d'um ou d'outro, em quartos estucados,
    Ou entre a rama dos papeis pintados,
    Reluzem, n'um almoço, as porcelanas.

    Como é saudavel ter o seu conchego,
    E a sua vida facil! Eu descia,
    Sem muita pressa, para o meu emprego,
    Aonde agora quasi sempre chego
    Com as tonturas d'uma apoplexia.

    E rota, pequenina, aramafada,
    Notei de costas uma rapariga,
    Que no xadrez marmoreo d'uma escada,
    Como um retalho de horta agglomerada,
    Pousára, ajoelhando, a sua giga.

    E eu, apesar do sol, examinei-a:
    Poz-se de pé: resoam-lhe os tamancos;
    E abre-se-lhe o algodão azul da meia,
    Se ella se curva, esguedelhada, feia,
    E pendurando os seus bracinhos brancos.

    Do patamar responde-lhe um criado:
    «Se te convém, despacha; não converses.
    Eu não dou mais.» E muito descançado,
    Atira um cobre livido, oxidado,
    Que vem bater nas faces d' uns alperces.

    Subitamente,–que visão de artista!–
    Se eu transformasse os simples vegetaes,
    Á luz do sol, o intenso colorista,
    N'um ser humano que se mova e exista
    Cheio de bellas proporções carnaes?!

    Boiam aromas, fumos de cozinha;
    Com o cabaz ás costas, e vergando,
    Sobem padeiros, claros de farinha;
    E ás portas, uma ou outra campainha
    Toca, frenetica, de vez em quando.

    E eu recompunha, por anatomia,
    Um novo corpo organico, aos bocados.
    Achava os tons e as fórmas. Descobria
    Uma cabeça n'uma melancia,
    E n'uns repolhos seios injectados.

    As azeitonas, que nos dão o azeite,
    Negras e unidas, entre verdes folhos,
    São tranças d'um cabello que se ageite;
    E os nabos–ossos nus, da côr do leite,
    E os cachos d'uvas–os rosarios d'olhos.

    Ha collos, hombros, boccas, um semblante
    Nas posições de certos fructos. E entre
    As hortaliças, tumido, fragrante,
    Como d'alguem que tudo aquilo jante,
    Surge um melão, que me lembrou um ventre.

    E, como um feto, emfim, que se dilate,
    Vi nos legumes carnes tentadoras,
    Sangue na ginja vivida, escarlate,
    Bons corações pulsando no tomate
    E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.

    O sol dourava o céo. E a regateira,
    Como vendera a sua fresca alface
    E déra o ramo de hortelã que cheira,
    Voltando-se, gritou-me prazenteira:
    «Não passa mais ninguem!… Se me ajudasse?!…»

    Eu acerquei-me d'ella, sem desprezo;
    E, pelas duas azas a quebrar,
    Nós levantámos todo aquelle peso
    Que ao chão de pedra resistia preso,
    Com um enorme esforço muscular.

    «Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!»
    E recebi, náquella despedida,
    As forças, a alegria, a plenitude,
    Que brotam d'um excesso de virtude
    Ou d'uma digestão desconhecida.

    E em quanto sigo para o lado opposto,
    E ao longe rodam umas carruagens,
    A pobre afasta-se, ao calor de agosto,
    Descolorida nas maçãs do rosto,
    E sem quadris na saia de ramagens.

    Um pequerrucho rega a trepadeira
    D'uma janella azul; e, com o ralo
    Do regador, parece que joeira
    Ou que borrifa estrellas; e a poeira
    Que eleva nuvens alvas e incensal-o.

    Chegam do gigo emanações sadias,
    Oiço um canario–que infantil chilrada!–
    Lidam ménages entre as gelosias,
    E o sol estende, pelas frontarias,
    Seus raios de laranja distillada.

    E pittoresca e audaz, na sua chita,
    O peito erguido, os pulsos nas ilhargas,
    D'uma desgraça alegre que me incita,
    Ella apregôa, magra, enfezadita,
    As suas couves repolhudas, largas.

    E como as grossas pernas d'um gigante,
    Sem tronco, mas athleticas, inteiras,
    Carregam sobre a pobre caminhante,
    Sobre a verdura rustica, abundante,
    Duas frugaes aboboras carneiras.

    CRYSTALISAÇÕES

    A Bettencourt Rodrigues

    Faz frio. Mas, depois d'uns dias de aguaceiros,
    Vibra uma immensa claridade crua.
    De cocaras, em linha os calceteiros,
    Com lentidão, terrosos e grosseiros,
    Calcam de lado a lado a longa rua.

    Como as elevações seccaram do relento,
    E o descoberto sol abafa e cria!
    A frialdade exige o movimento;
    E as poças d'agua, como em chão vidrento,
    Reflectem a molhada casaria.

    Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita,
    Disseminadas, gritam as peixeiras;
    Luzem, aquecem na manhã bonita,
    Uns barracões de gente pobresita.
    E uns quintalorios velhos com parreiras.

    Não se ouvem aves; nem o choro d'uma nora!
    Tomam por outra parte os viandantes;
    E o ferro e a pedra–que união sonora!–
    Retinem alto pelo espaço fóra,
    Com choques rijos, asperos, cantantes.

    Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros, baços,
    Cuja columna nunca se endireita,
    Partem penedos; cruzam-se estilhaços.
    Pesam enormemente os grossos maços,
    Com que outros batem a calçada feita.

    A sua barba agreste! A lã dos seus barretes!
    Que espessos forros! N'uma das regueiras
    Acamam-se as japonas, os colletes:
    E elles descalçam com os picaretes,
    Que ferem lume sobre pederneiras.

    E n'esse rude mez, que não consente as flores,
    Fundêam, como a esquadra em fria paz,
    As arvores despidas. Sobrias côres!
    Mastros, enxarcias, vergas! Valladores
    Atiram terra com as largas pás.

    Eu julgo-me no Norte, ao frio–o grande agente!–
    Carros de mão, que chiam carregados,
    Conduzem saibro, vagarosamente;
    Vê se a cidade, mercantil, contente:
    Madeiras, aguas, multidões, telhados!

    Negrejam os quintaes, enxuga e alvenaria;
    Em arco, sem as nuvens fluctuantes,
    O ceu renova a tinta corredia;
    E os charcos brilham tanto, que eu diria
    Ter ante mim lagôas de brilhantes!

    E engelhem muito embora, os fracos, os tolhidos,
    Eu tudo encontro alegremente exacto.
    Lavo, refresco, limpo os meus sentidos.
    E tangem-me, excitados, sacudidos,
    O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto!

    Pede-me o corpo inteiro esforços na friagem
    De tão lavada e egual temperatura!
    Os ares, o caminho, a luz reagem;
    Cheira-me a fogo, a silex, a ferragem;
    Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura.

    Mal encarado e negro, um pára emquanto eu passo;
    Dois assobiam, altas as marretas
    Possantes, grossas, temperadas d'aço;
    E um gordo, o mestre, com um ar de ralaço
    E manso, tira o nivel das valletas.

    Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!
    Que vida tão custosa! Que diabo!
    E os cavadores pousam as enxadas,
    E cospem nas callosas mãos gretadas,
    Para que não lhes escorregue o cabo.

    Povo! No panno cru rasgado das camizas
    Uma bandeira penso que transluz!
    Com ella soffres, bebes, agonisas:
    Listrões de vinho lançam-lhe divisas,
    E os suspensorios traçam-lhe uma cruz!

    D'escuro, bruscamente, ao cimo da barroca,
    Surge um perfil direito que se aguça;
    E ar matinal de quem sahiu da toca,
    Uma figura fina, desemboca,
    Toda abafada n'um casaco á russa.

    D'onde ella vem! A actriz que tanto comprimento
    E a quem, á noite na plateia, attraio
    Os olhos lizos como polimento!
    Com seu rostinho estreito, friorento,
    Caminha agora para o seu ensaio.

    E aos outros eu admiro os dorsos, os costados
    Como lajões. Os bons trabalhadores!
    Os filhos das lezirias, dos montados;
    Os das planicies, altos, aprumados;
    Os das montanhas, baixos, trepadores!

    Mas fina de feições, o queixo hostil, distincto,
    Furtiva a tiritar em suas pelles,
    Espanta-me a actrizita que hoje pinto,
    N'este dezembro energico, succinto,
    E n'estes sitios suburbanos, reles!

    Como animaes communs, que uma picada esquente,
    Elles, bovinos, masculos, ossudos,
    Encaram-n'a sanguinea, brutamente:
    E ella vacilla, hesita impaciente
    Sobre as botinhas de tacões agudos.

    Porém, desempenhando o seu papel na peça,
    Sem que inda o publico a passagem abra,
    O demonico arrisca-se, atravessa
    Covas, entulhos, lamaçaes, depressa,
    Com seus pésinhos rapidos, de cabra!

    NOITES GELIDAS

    MERINA

    Rosto comprido, airosa, angelical, macia,
    Por vezes, a allemã que eu sigo e que me agrada,
    Mais alva que o luar de inverno que me esfria,
    Nas ruas a que o gaz dá noites de ballada;
    Sob os abafos bons que o Norte escolheria,
    Com seu passinho curto e em suas lãs forrada,
    Recorda-me a elegancia, a graça, a galhardia
    De uma ovelhinha branca, ingenua e delicada.

    SARDENTA

    Tu, n'esse corpo completo,
    Ó lactea virgem doirada,
    Tens o lymphatico aspecto
    D'uma camelia melada.

    FLORES VELHAS

    Fui hontem visitar o jardimzinho agreste,
    Aonde tanta vez a luz nos beijou,
    E em tudo vi sorrir o amor que tu me deste,
    Soberba como um sol, serena como um vôo.

    Em tudo scintillava o limpido poema
    Com osculos rimado ás luzes dos planetas;
    A abelha inda zumbia em torno da alfazema;
    E ondulava o matiz das leves borboletas.

    Em tudo eu pude ver ainda a tua imagem,
    A imagem que inspirava os castos madrugaes;
    E as virações, o rio, os astros, a pasizagem,
    Traziam-me á memoria idyllios immortaes.

    Diziam-me que tu, no florido passado,
    Detinhas sobre mim, ao pé d'aquellas rosas,
    Aquelle teu olhar moroso e delicado,
    Que fala de languor e d'emoções mimosas;

    E, ó pallida Clarisse, ó alma ardente e pura,
    Que não me desgostou nem uma vez sequer,
    Eu não sabia haurir do calix da ventura
    O nectar que nos vem dos mimos da mulher.

    Falou-me tudo, tudo, em tons commovedores,
    Do nosso amor, que uniu as almas de dois entes;
    As falas quasi irmãs do vento com as flores
    E a molle exhalação das varzeas rescendentes.

    Inda pensei ouvir aquellas coisas mansas
    No ninho de affeições creado para ti,
    Por entre o riso claro, e as vozes das creanças,
    E as nuvens que esbocei, e os sonhos que nutri.

    Lembrei-me muito, muito, ó symbolo das santas,
    Do tempo em que eu soltava as notas inspiradas,
    E sob aquelle ceo e sobre aquellas plantas
    Bebemos o elixir das tardes perfumadas.

    E nosso bom romance escripto n'um desterro,
    Com beijos sem ruido em noites sem luar,
    Fizeram-m'o reler, mais tristes que um enterro,
    Os goivos, a baunilha e as rosas de toucar.

    Mas tu agora nunca, ah! nunca mais te sentas
    Nos bancos de tijolo em musgo atapetados,
    E eu não beijarei, ás horas somnolentas,
    Os dedos de marfim, polidos e delgados…

    Eu, por não ter sabido amar os movimentos
    Da estrophe mais ideal das harmonias mudas,
    Eu sinto as decepções e os grandes desalentos
    E tenho um riso mau como o sorrir de Judas.

    E tudo emfim passou, passou como uma penna,
    Que o mar leva no dorso exposto aos vendavaes,
    E aquella doce vida, aquella vida amena,
    Ah! nunca mais virá, meu lyrio, nunca mais!

    Ó minha boa amiga, ó minha meiga amante!
    Quando hontem eu pisei, bem magro e bem curvado,
    A areia em que rangia a saia roçagante,
    Que foi na minha vida o ceo aurirosado,

    Eu tinha tão impresso o cunho da saudade,
    Que as ondas que formei das suas illusões
    Fizeram-me enganar na minha soledade
    E as azas ir abrindo ás minhas impressões.

    Soltei com devoção lembranças inda escravas,
    No espaço construi phantasticos castellos,
    No tanque debrucei-me em que te debruçavas,
    E onde o luar parava os raios amarellos.

    Cuidei até sentir, mais doce que uma prece,
    Suster a minha fé, n'um veo consolador,
    O teu divino olhar que as pedras amollece,
    E ha muito que me prendeu nos carceres do amor.

    Os teus pequenos pés, aquelles pés suaves,
    Julguei-os esconder por entre as minhas mãos,
    E imaginei ouvir ao conversar das aves
    As celicas canções dos anjos aos teus irmãos.

    NOITE FECHADA

    (L.)

    Lembras-te tu do sabbado passado,
    Do passeio que démos, devagar,
    Entre um saudoso gaz amarellado
    E as caricias leitosas do luar?

    Bem me lembro das altas ruasinhas,
    Que ambos nós percorremos de mãos dadas:
    Ás janellas palravam as visinhas;
    Tinham lividas luzes as fachadas.

    Não me esqueço das cousas que disseste,
    Ante um pesado templo com recortes;
    E os cemiterios ricos, e o cypreste
    Que vive de gorduras e de mortes!

    Nós saíramos proximo ao sol-posto,
    Mas seguiamos cheios de demoras;
    Não me esqueceu ainda o meu desgosto
    Nem o sino rachado que deu horas.

    Tenho ainda gravado no sentido,
    Porque tu caminhavas com prazer,
    Cara rapada, gordo e presumido,
    O padre que parou para te ver.

    Como uma mitra a cúpula da egreja
    Cobria parte do ventoso largo;
    E essa bocca viçosa de cereja,
    Torcia risos com sabor amargo.

    A lua dava tremulas brancuras,
    Eu ia cada vez mais magoado;
    Vi um jardim com arvores escuras,
    Como uma jaula todo gradeado!

    E para te seguir entrei comtigo
    N'um pateo velho que era d'um canteiro,
    E onde, talvez, se faça inda o jazigo
    Em que eu irei apodrecer primeiro!

    Eu sinto ainda a flôr da tua pelle,
    Tua luva, teu veu, o que tu és!
    Não sei que tentação é que te impelle
    Os pequeninos e cançados pés.

    Sei que em tudo attentavas, tudo vias!
    Eu por mim tinha pena dos marçanos,
    Como ratos, nas gordas mercearias,
    Encafunados por immensos annos!

    Tu sorriras de tudo: Os carvoeiros,
    Que apparecem ao fundo d'umas minas,
    E á crua luz os pallidos barbeiros
    Com oleos e maneiras femininas!

    Fins de semana! Que miseria em bando!
    O povo folga, estupido e grisalho!
    E os artistas d'officio iam passando,
    Com as ferias, ralados do trabalho.

    O quadro anterior, d'um que á candêa,
    Ensina a filha a ler, metteu-me dó!
    Gosto mais do plebeu que cambalêa,
    Do bebado feliz que falla só!

    De subito, na volta de uma esquina,
    Sob um bico de gaz que abria em leque,
    Vimos um militar, de barretina
    E galões marciaes de pechisbeque,

    E em quanto elle fallava ao seu namoro,
    Que morava n'um predio de azulêjo,
    Nos nossos labios retinio sonoro
    Um vigoroso e formidavel beijo!

    E assim ao meu capricho abandonada,
    Errámos por travessas, por viellas,
    E passámos por pé d'uma tapada
    E um palacio real com sentinellas.

    E eu que busco a moderna e fina arte,
    Sobre a umbrosa calçada sepulchral,
    Tive a rude intenção de violentar-te
    Imbecilmente como um animal!

    Mas ao rumor dos ramos e d'aragem,
    Como longiquos bosques muito ermos,
    Tu querias no meio da folhagem
    Um ninho enorme para nós vivermos.

    E ao passo que eu te ouvia abstractamente,
    Ó grande pomba tépida que arrulha,
    Vinham batendo o macadam fremente,
    As patadas sonoras da patrulha,

    E atravez a immortal cidadesinha,
    Nós fomos ter ás portas, ás barreiras,
    Em que uma negra multidão se apinha
    De tecelões, de fumos, de caldeiras.

    Mas a noite dormente e esbranquiçada
    Era uma esteira lucida d'amor;
    Ó jovial senhora perfumada,
    Ó terrivel creança! Que esplendor!

    E ali começaria o meu desterro!…
    Lodoso o rio, e glacial, corria;
    Sentámo-nos, os dois, n'um novo aterro
    Na muralha dos caes de cantaria.

    Nunca mais amarei, já que não me amas,
    E é preciso, decerto, que me deixes!
    Toda a maré luzida como escamas,
    Como alguidar de prateados peixes.

    E como é necessario que eu me afoite
    A perder-me de ti por quem existo,
    Eu fui passar ao campo aquella noite
    E andei leguas a pé, pensando n'isto.

    E tu que não serás sómente minha,
    Ás caricias leitosas do luar,
    Recolheste-te, pallida e sósinha
    Á gaiola do teu terceiro andar!

    MANHANS BRUMOSAS

    Aquella, cujo amor me causa alguma pena,
    Põe o chapeo ao lado, abre o cabello á banda,
    E com a forte voz cantada com que ordena,
    Lembra-me, de manhan, quando nas praias anda,
    Por entre o campo e o mar, bucolica, morena,
    Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.

    Que linguas fala? A ouvir-lhe as inflexões inglezas,
    –Na Nevoa azul, a caça, as pescas, os rebanhos!–
    Sigo-lhe os altos pés por estas asperezas;
    E o meu desejo nada em epoca de banhos,
    E, ave de arribação, elle enche de surprezas
    Seus olhos de perdiz, redondos e castanhos.

    As irlandezas teem soberbos desmazelos!
    Ella descobre assim, com lentidões ufanas,
    Alta, escorrida, abstracta, os grossos tornozelos;
    E como aquellas são maritimas, serranas,
    Suggere-me o naufragio, as musicas, os gelos
    E as redes, a manteiga, os queijos, as choupanas.

    Parece um «rural boy»! Sem brincos nas orelhas,
    Traz um vestido claro a comprimir-lhe os flancos,
    Botões a tiracollo e applicações vermelhas;
    E á roda, n'um paiz de prados e barrancos,
    Se as minhas maguas vão, mansissimas ovelhas,
    Correm os seus desdens, como vitellos brancos.

    E aquella, cujo amor me causa alguma pena,
    Põe o chapeo ao lado, abre o cabello á banda,
    E com a forte voz cantada com que ordena,
    Lembra-me, de manhan, quando nas praias anda,
    Por entre o campo e o mar, catholica, morena,
    Uma pastora de audaz da religiosa Irlanda.

    FRIGIDA

    I

    Balzac é meu rival, minha senhora ingleza!
    Eu quero-a porque odeio as carnações redondas!
    Mas elle eternisou-lhe a singular belleza
    E eu turbo-me ao deter seus olhos côr das ondas.

    II

    Admiro-a. A sua longa e placida estatura
    Expõe a magestade austera dos invernos.
    Não cora no seu todo a timida candura;
    Dansam a paz dos ceos e o assombro dos infernos.

    III

    Eu vejo-a caminhar, fleugmatica, irritante,
    N'uma das mãos franzindo um lenço de cambraia!…
    Ninguem me prende assim, funebre, extravagante,
    Quando arregaça e ondula a preguiçosa saia!

    IV

    Ouso esperar, talvez, que o seu amor me acoite,
    Mas nunca a fitarei d'uma maneira franca;
    Traz o esplendor do Dia e as pallidez da Noite,
    É, como o Sol, dourada, e, como a Lua, branca!

    V

    Podesse-me eu prostrar, n'um meditado impulso,
    Ó gelida mulher bizarramente estranha,
    E tremulo depor os labios no seu pulso,
    Entre a macia luva e o punho de bretanha!…

    VI

    Scintilla no seu rosto a lucidez das joias.
    Ao encarar comsigo a phantasia pasma;
    Pausadamente lembra o silvo das giboias
    E a marcha demorada e muda d'um phantasma.

    VII

    Metallica visão que Charles Baudelaire
    Sonhou e presentiu nos seus delirios mornos,
    Permitta que eu lhe adule a distincção que fere,
    As curvas de magreza e o lustre dos adornos!

    VIII

    Deslise como um astro, uma astro que declina;
    Tão descançada e firme é que me desvaria,
    E tem a lentidão d'uma corveta fina
    Que nobremente vá n'um mar de calmaria.

    IX

    Não me imagine um doido. Eu vivo como um monge,
    No bosque das ficções, ó grande flor do Norte!
    E, ao, perseguil-a, penso acompanhar de longe
    O socegado espectro angelico da Morte!

    X

    O seu vagar occulta uma elasticidade
    Que deve dar um gosto amargo e deleitoso,
    E a sua glacial impassibilidade
    Exalta o meu desejo e irrita o meu nervoso.

    XI

    Porem, não arderei aos seus contactos frios,
    E não me enroscará nos serpentinos braços:
    Receio supportar febrões e calefrios;
    Adoro no seu corpo os movimentos lassos.

    XII

    E se uma vez me abrisse o collo transparente,
    E me osculasse, emfim, flexivel e submisso,
    Eu julgaria ouvir alguem, agudamente,
    Nas trevas, a cortar pedaços de cortiça!

    DE VERÃO

    A Eduardo Coelho

    I

    No campo; eu acho n'elle a musa que me anima:
    A claridade, a robustez, a acção.
    Esta manhã, saí com minha prima,
    Em que eu noto a mais sincera estima
    E a mais completa e séria educação.

    II

    Creança encantadora! Eu mal esboço o quadro
    Da lyrica excursão, d'intimidade
    Não pinto a velha ermida com seu adro;
    Sei só desenho de compasso e esquadro,
    Respiro industria, paz, salubridade.

    III

    Andam cantando aos bois; vamos cortando as leiras;
    E tu dizias: «Fumas? E as fagulhas?
    Apaga o teu cachimbo junto ás eiras;
    Colhe-me uns brincos rubros nas ginjeiras!
    Quando me alegra a calma das debulhas!»

    IV

    E perguntavas sobre os ultimos inventos
    Agrícolas. Que aldeias tão lavadas!
    Bons ares! Boa luz! Bons alimentos!
    Olha: Os saloios vivos, corpulentos,
    Como nos fazem grandes barretadas!

    V

    Voltemos. Na ribeira abundam as ramagens
    Dos olivaes escuros. Onde irás?
    Regressam os rebanhos das pastagens;
    Ondeiam milhos, nuvens e miragens,
    E, silencioso, eu fico para traz.

    VI

    N'uma collina azul brilha um logar caiado.
    Bello! E arrimada ao cabo da sombrinha,
    Com teu chapéo de palha, desabado,
    Tu continúas na azinhaga; ao lado
    Verdeja, vicejante, a nossa vinha.

    VII

    N'isto, parando, como alguem que se analysa,
    Sem desprender do chão teus olhos castos,
    Tu começaste, harmonica, indecisa,
    A arregaçar a chita, alegre e lisa
    Da tua cauda um poucochinho a rastos.

    VIII

    Espreitam-te, por cima, as frestas dos celleiros;
    O sol abrasa as terras já ceifadas,
    E alvejam-te, na sombra dos pinheiros,
    Sobre os teus pés decentes, verdadeiros,
    As saias curtas, frescas, engommadas.

    IX

    E, como quem saltasse, extravagantemente,
    Um rego d'agua sem se enxovalhar,
    Tu, a austera, a gentil, a intelligente,
    Depois de bem composta, déste á frente
    Uma pernada comica, vulgar!

    X

    Exotica! E cheguei-me ao pé de ti. Que vejo!
    No atalho enxuto, e branco das espigas
    Caidas das carradas no salmejo,
    Esguio e a negrejar em um cortejo,
    Destaca-se um carreiro de formigas.

    XI

    Ellas, em sociedade, espertas, diligentes,
    Na natureza trémula de sede,
    Arrastam bichos, uvas e sementes;
    E atulha, por instincto, previdentes,
    Seus antros quasi occultos na parede.

    XII

    E eu desatei a rir como qualquer macaco!
    «Tu não as esmagares contra o solo!»
    E ria-me, eu ocioso, inutil, fraco,
    Eu de jasmim na casa do casaco
    E d'oculo deitado a tiracolo!

    XIII

    «As ladras da colheita! Eu se trouxesse agora
    Um sublimado corrosivo, uns pós
    De solimão, eu, sem maior demora,
    Envenenal-as-hia! Tu, por ora,
    Preferes o romantico ao feroz.

    XIV

    Que compaixão! Julgava até que matarias
    Esses insectos importunos! Basta.
    Merecem-te espantosas sympathias?
    Eu felicito suas senhorias,
    Que honraste com um pulo de gymnasta!»

    XV

    E emfim calei-me. Os teus cabellos muito loiros
    Luziam, com doçura, honestamente;
    De longe o trigo em monte, e os calcadoiros,
    Lembravam-me fusões d'immensos oiros,
    E o mar um prado verde e florescente.

    XVI

    Vibravam, na campina, as chocas da manada;
    Vinham uns carros a gemer no outeiro,
    E finalmente, energica, zangada,
    Tu inda assim bastante envergonhada,
    Volveste-me, apontando o formigueiro:

    XVII

    «Não me incommode, não, com ditos detestaveis!
    Não seja simplesmente um zombador!
    Estas mineiras negras, incançaveis,
    São mais economistas, mais notaveis,
    E mais trabalhoras que o senhor.»

    O SENTIMENTO D'UM OCCIDENTAL

    A Guerra Junqueiro

    I

    AVE MARIAS

    Nas nossas ruas, ao anoitecer,
    Ha tal soturnidade, ha tal melancholia,
    Que as sombras, o bulicio, o Tejo, a maresia
    Despertam-me um desejo absurdo de soffrer.

    O ceu parece baixo e de neblina,
    O gaz extravasado enjôa-me, perturba;
    E os edificios, com as chaminés, e a turba
    Toldam-se d'uma côr monotona e londrina.

    Batem os carros de aluguer, ao fundo,
    Levando á via ferrea os que se vão. Felizes!
    Occorrem-me em revista exposições, paizes:
    Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

    Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
    As edificações sómente emmadeiradas:
    Como morcegos, ao cair das badaladas,
    Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

    Voltam os calafates, aos magotes,
    De jaquetão ao hombro, enfarruscados, seccos;
    Embrenho-me, a scismar, por boqueirões, por beccos,
    Ou érro pelos caes a que se atracam botes.

    E evoco, então, as chronicas navaes:
    Mouros, baixeis, heroes, tudo resuscitado!
    Lucta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
    Singram soberbas naus que eu não verei jámais!

    E o fim da tarde inspira-me; e incommoda!
    De um couraçado inglez vogam os escaleres;
    E em terra n'um tinir de louças e talheres
    Flammejam, ao jantar, alguns hoteis da moda.

    N'um trem de praça arengam dois dentistas;
    Um tropego arlequim braceja n'umas andas;
    Os cherubins do lar fluctuam nas varandas;
    Ás portas, em cabello, enfadam-se os logistas!

    Vasam-se os arsenaes e as officinas;
    Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
    E n'um cardume negro, herculeas, galhofeiras,
    Correndo com firmeza, assomam as varinas.

    Vem sacudindo as ancas opulentas!
    Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
    E algumas, á cabeça, embalam nas canastras
    Os filhos que depois naufragam nas tormentas,

    Descalças! Nas descargas de carvão,
    Desde manhã á noite, a bórdo das fragatas;
    E apinham-se n'um bairro aonde miam gatas,
    E o peixe pôdre géra os focos de infecção!

    II

    NOITE FECHADA

    Toca-se as grades, nas cadeias. Som
    Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
    O aljube, em que hoje estão velhinhas e creanças,
    Bem raramente encerra uma mulher de «dom»!

    E eu desconfio, até, de um aneurisma
    Tão morbido me sinto, ao accender das luzes;
    Á vista das prisões, da velha sé, das cruzes,
    Chora-me o coração que se enche e que se abysma.

    A espaços, illuminam-se os andares,
    E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos
    Alastram em lençol os seus reflexos brancos;
    E a lua lembra o circo e os jogos malabares.

    Duas egrejas, n'um saudoso largo,
    Lançam a nodoa negra e funebre do clero:
    N'ellas esfumo um ermo inquisidor severo,
    Assim que pela Historia eu me aventuro e alargo.

    Na parte que abateu no terremoto,
    Muram-se as construcções rectas, eguaes, crescidas;
    Affrontam-me, no resto, as ingremes subidas,
    E os sinos d'um tanger monastico e devoto.

    Mas, n'um recinto publico e vulgar,
    Com bancos de namoro e exiguas pimenteiras,
    Bronzeo, monumental, de proporções guerreiras,
    Um épico d'outr'ora ascende, n'um pilar!

    E eu sonho o Colera, imagina a Febre,
    N'esta accumulação de corpos enfezados;
    Sombrios e espectraes recolhem os soldados;
    Inflamma-se um palacio em face de um casebre.

    Partem patrulhas de cavallaria
    Dos arcos dos quarteis que foram já conventos;
    Edade-média! A pé, outras, a passos lentos,
    Derramam-se por toda a capital, que esfria.

    Triste cidade! Eu temo que me avives
    Uma paixão defunta! Aos lampeões distantes,
    Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
    Curvadas a sorrir ás montras dos ourives.

    E mais: as costureiras, as floristas
    Descem dos magasins, causam-me sobresaltos;
    Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
    E muitas d'ellas são comparsas ou coristas.

    E eu, de luneta de uma lente só,
    Eu acho sempre assumpto a quadros revoltados:
    Entro na brasserie; ás mesas de emigrados,
    Ao riso e á crua luz joga-se o dominó.

    III

    AO GAZ

    E saio. A noite peza, esmaga. Nos
    Passeios de lagedo arrastam-se as impuras.
    Ó molles hospitaes! Sae das embocaduras
    Um sopro que arripia os hombros quasi nús.

    Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
    Ver cirios lateraes, ver filas de capellas,
    Com santos e fieis, andores, ramos, velas,
    Em uma cathedral de um comprimento immenso.

    As burguezinhas do Catholocismo
    Resvalam pelo chão minado pelos canos;
    E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
    As freiras que os jejuns matavam de hysterismo.

    N'um cutileiro, de avental, ao torno,
    Um forjador maneja um malho, rubramente;
    E de uma padaria exhala-se, inda quente,
    Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

    E eu que medito um livro que exarcebe,
    Quizera que o real e a analyse m'o dessem;
    Casas de confecções e modas resplandecem;
    Pelas vitrines ólha um ratoneiro imberbe.

    Longas descidas! Não poder pintar
    Com versos magistraes, salubres e sinceros,
    A esguia diffusão dos vossos reverberos,
    E a vossa pallidez romantica e lunar!

    Que grande cobra, a lubrica pessoa,
    Que espartilhada escolhe uns chales com debuxo!
    Sua excellencia attráe, magnetica, entre luxo,
    Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

    E aquella velha, de bandós! Por vezes,
    A sua traîne imita um leque antigo, aberto,
    Nas barras verticaes, a duas tintas. Perto,
    Escarvam, á victoria, os seus mecklemburguezes.

    Desdobram-se tecidos estrangeiros;
    Plantas ornamentaes seccam nos mostradores;
    Flócos de pós de arroz pairam suffocadores,
    E em nuvems de setins requebram-se os caixeiros,

    Mas tudo cança! Apagam-se nas frentes
    Os candelabros, como estrellas, pouco a pouco;
    Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
    Tornam-se mausoléos as armações fulgentes.

    «Dó da miseria!… Compaixão de mim!…»
    E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
    Pede-me sempre esmola um homemzinho idoso,
    Meu velho professor nas aulas de latim!

    IV

    HORAS MORTAS

    O tecto fundo de oxygenio, d'ar,
    Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
    Vem lagrimas de luz dos astros com olheiras,
    Enleva-me a chimera azul de transmigrar.

    Por baixo, que portões! Que arruamentos!
    Um parafuso cáe nas lages, ás escuras:
    Collocam-se taipaes, rangem as fechaduras,
    E os olhos d'um caleche espantam-me, sangrentos.

    E eu sigo, como as linhas de uma pauta
    A dupla correnteza augusta das fachadas;
    Pois sobem, no silencio, infaustas e trinadas,
    As notas pastoris de uma longiqua flauta.

    Se eu não morresse, nunca! E eternamente
    Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
    Esqueço-me a prever castissimas esposas,
    Que aninhem em mansões de vidro transparente!

    Ó nossos filhos! Que de sonhos ageis,
    Pousando, vos trarão a nitidez ás vidas!
    Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
    N'umas habitações translucidas e frageis.

    Ah! Como a raça ruiva do porvir,
    E as frótas dos avós, e os nómadas ardentes,
    Nós vamos explorar todos os continentes
    E pelas vastidões aquaticas seguir!

    Mas se vivemos, os emparedados,
    Sem arvores, no valle escuro das muralhas!…
    Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
    E os gritos de soccorro ouvir estrangulados.

    E n'estes nebulosos corredores
    Nauseam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
    Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
    Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

    Eu não receio, todavia, os roubos;
    Afastam-se, a distancia, os dubios caminhantes;
    E sujos, sem ladrar, osseos, febris, errantes,
    Amarelladamente, os cães parecem lobos.

    E os guardas, que revistam as escadas,
    Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
    Por cima, as immoraes, nos seus roupões ligeiros,
    Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.

    E, enorme, n'esta massa irregular
    De predios sepulchraes, com dimensões de montes,
    A Dôr humana busca os amplos horisontes,
    E tem marés, de fel, como um sinistro mar!

    DE TARDE

    N'aquelle «pic-nic» de burguezas,
    Houve uma cousa simplesmente bella,
    E que, sem ter historia nem grandezas,
    Em todo o caso dava uma aguarella.

    Foi quando tu, descendo do burrico,
    Foste colher, sem imposturas tolas,
    A um granzoal azul de grão de bico
    Um ramalhete rubro de papoulas.

    Pouco depois, em cima d'uns penhascos,
    Nós acampámos, inda o sol se via;
    E houve talhadas de melão, damascos,
    E pão de ló molhado em malvasia.

    Mas, todo purpuro a sahir da renda
    Dos teus dois seios como duas rolas,
    Era o supremo encanto da merenda
    O ramalhete rubro das papoulas!

    EM PETIZ

    I

    DE TARDE

    Mais morta do que viva, a minha companheira
    Nem força teve em si para soltar um grito;
    E eu, n'esse tempo, um destro e bravo rapazito,
    Como um homemzarrão servi-lhe de barreira!

    Em meio de arvoredo, azenhas e ruinas,
    Pulavam para a fonte as bezerrinhas brancas;
    E, têtas a abanar, as mães de largas ancas,
    Desciam mais atraz, malhadas e turinas.

    Do seio do logar–casitas com postigos–
    Vem-nos o leite. Mas baptisam-n'o primeiro.
    Leva-o, de madrugada, em bilhas, o leiteiro,
    Cujo pregão vos tira ao vosso somno, amigos!

    Nós davamos, os dois, um giro pelo valle:
    Varzeas, povoações, pégos, silencios vastos!
    E os fartos animaes, ao recolher dos pastos,
    Roçavam pelo teu «costume de percale».

    Já não receias tu essa vaquita preta,
    Que eu segurei, prendi por um chavelhoe? Juro
    Que estavas a tremer, cosida com o muro,
    Hombros em pé, medrosa, e fina, de luneta!

    II

    OS IRMÃOSINHOS

    Pois eu, que no deserto dos caminhos,
    Por ti me expunha immenso, contra as vaccas;
    Eu, que apartava as mansas das velhacas,
    Fugia com terror dos pobresinhos!

    Vejo-os no pateo, ainda! Ainda os ouço!
    Os velhos, que nos rezam padre-nossos;
    Os mandriões que rosnam, altos, grossos;
    E os cegos que se apoiam sobre o moço.

    Ah! Os ceguinhos com a côr dos barros,
    Ou que a poeira no suor mascarra,
    Chegam das feiras a tocar guitarra,
    Rolam os olhos como dois escarros!

    E os pobres mettem medo! Os de marmita,
    Para forrar, por anno, alguns patacos,
    Entrapam-se nas mantas com buracos,
    Choramingando, a voz rachada, afflicta.

    Outros pedincham pelas cinco chagas;
    E no poial, tirando as ligaduras,
    Mostram as pernas putridas, maduras,
    Com que se arrastam pelas azinhagas!

    Querem viver! E picam-se nos cardos;
    Correm as villas; sobem os outeiros;
    E ás horas de calor, nos esterqueiros,
    De roda d'elles zumbem os moscardos.

    Aos sabbados, os monstros, que eu lamento,
    Batiam ao portão com seus cajados;
    E um aleijado com os pés quadrados,
    Pedia-nos de cima de um jumento.

    O resmungão! Que barbas! Que saccolas!
    Cheirava a migas, a bafio, a arrotos;
    Dormia as noutes por telheiros rotos,
    E sustentava o burro a pão d'esmolas.

    * * * * *

    Ó minha loura e doce como um bolo!
    Affavel hospeda na nossa casa,
    Logo que a torrida cidade abraza,
    Como um enorme fôrno de tijolo!

    Tu visitavas, esmoler, garrida,
    Umas creanças n'um casal queimado;
    E eu, pela estrada, espicaçava o gado,
    N'uma attitude esperta e decidida.

    Por lobishomens, por papões, por bruxas,
    Nunca soffremos o menor receio.
    Temieis vós, porém, o meu aceio,
    Mendigasitas sordidas, gorduchas!

    Vicios, sezões, epidemias, furtos,
    De certo, fermentavam entre lixos;
    Que podridão cobria aquelles bichos!
    E que luar nos teus fatinhos curtos!

    * * * * *

    Sei de uma pobre, apenas, sem desleixos,
    Ruça, descalça, a trote nos atalhos,
    E que lavava o corpo e os seus retalhos
    No rio, ao pé dos choupos e dos freixos.

    E a douda a quem chamavam a «Ratada»
    E que fallava só! Que antipathia!
    E se com ella a malta contendia,
    Quanta indecencia! Quanta palavrada!

    Uns operarios, n'estes descampados,
    Tambem surdiam, de chapeu de côco,
    Dizendo-se, de olhar rebelde e louco,
    Artistas despedidos, desgraçados.

    Muitos! E um bebedo–o Camões–que fôra
    Rico, e morreu a mendigar, zarolho,
    Com uma pala verde sobre um olho!
    Tivera ovelhas, bois, mulher, lavoura.

    E o resto? Bandos de selvagensinhos:
    Um nú que se gabava de maroto;
    Um, que cortada a mão, coçava o coto,
    E os bons que nos tratavam por padrinhos.

    Pediam fatos, botas, cobertores!
    Outro jogava bem o pau, e vinha
    Chorar, humilde, junto da coxinha!
    «Cinco réisinhos!… Nobres bemfeitores!…

    E quando alguns ficavam nos palheiros,
    E de manhã catavam os piolhos:
    Emquanto o sol batia nos restolhos
    E os nossos cães ladravam, resingueiros!

    Hoje entristeço. Lembro-me dos coxos,
    Dos surdos, dos manhosos, dos manetas.
    Sulcavam as calçadas, de muletas;
    Cantavam, no pomar, os pintarroxos!

    III

    HISTORIAS

    Scismatico, doente, azedo, apoquentado,
    Eu agourava o crime, as facas, a enxovia,
    Assim que um besuntão dos taes se apercebia
    Da minha blusa azul e branca, de riscado.

    Minaveis, ao serão, a cabecita loira,
    Com contos de provincia, ingenuas creaditas:
    Quadrilhas assaltando as quintas mais bonitas,
    E pondo a gente fina, em postas, de salmoira!

    Na noite velha, a mim, como tições ardendo,
    Fitavam-me os olhões pesados das ciganas;
    Deitavam-n'os o fogo aos predios e arribanas;
    Cercava-me um incendio ensanguentado, horrendo.

    E eu que era um cavallão, eu que fazia pinos,
    Eu que jogava a pedra, eu que corria tanto;
    Sonhava que os ladrões–homens de quem m'espanto
    Roubavam para azeite a carne dos meninos!

    E protegia-te eu, n'aquelle outomno brando,
    Mal tu sentias, entre as serras esmoitadas,
    Gritos de maioraes, mugidos de boiadas,
    Branca de susto, meiga e miope, estacando!

    NÓS

    A A. de S. V.

    I

    Foi quando em dois verões, seguidamente, a Febre
    E o Cholera tambem andaram na cidade,
    Que esta população, com um terror de lebre,
    Fugiu da capital como da tempestade.

    Ora, meu pae, depois das nossas vidas salvas,
    (Até então nós só tiveramos sarampo),
    Tanto nos viu crescer entre uns montões de malvas
    Que elle ganhou por isso um grande amor ao campo.

    Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga:
    O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos;
    Mesmo no nosso predio, os outros inquilinos
    Morreram todos. Nós salvámo-nos na fuga.

    Na parte mercantil, foco da epidemia,
    Um panico! Nem um navio entrava a barra,
    A alfandega parou, nenhuma loja abria,
    E os turbolentos caes cessaram a algazarra.

    Pela manhã, em vez dos trens dos baptisados,
    Rodavam sem cessar as seges dos enterros.
    Que triste a sucessão dos armazens fechados!
    Como um domingo inglez na «city», que desterro!

    Sem canalisação, em muitos burgos ermos,
    Seccavam dejecções cobertas de mosqueiros.
    E os medicos, ao pé dos padres e coveiros,
    Os ultimos fieis, tremiam dos enfermos!

    Uma illuminação a azeite de purgueira,
    De noite amarellava os predios macillentos.
    Barricas d'alcatrão ardiam; de maneira
    Que tinham tons d'inferno outros arruamentos.

    Porém, lá fora, á solta, exageradamente
    Emquanto acontecia essa calamidade,
    Toda a vegetação, plethorica, potente,
    Ganhava immenso com a enorme mortandade!

    N'um impeto de seiva os arvoredos fartos,
    N'uma opulenta furia as novidades todas,
    Como uma universal celebração de bodas,
    Amaram-se! E depois houve soberbos partos.

    Por isso, o chefe antigo e bom da nossa casa,
    Triste d'ouvir fallar em orphãos e em viuvas,
    E em permanencia olhando o horizonte em brasa,
    Não quiz voltar senão depois das grandes chuvas.

    Elle d'um lado, via os filhos achacados,
    Um livido flagello e uma molestia horrenda!
    E via, do outro lado, eiras, lezirias, prados,
    E um salutar refugio e um lucro na vivenda!

    E o campo, desde então, segundo o que me lembro,
    É todo o meu amor de todos estes annos!
    Nós vamos para lá; somos provincianos,
    Desde o calor de maio aos frios de novembro!

    II

    Que de fructa! E que fresca e temporã,
    Nas duas boas quintas bem muradas,
    Em que o sol, nos talhões e nas latadas,
    Bate de chapa, logo de manhã!

    O laranjal de folhas negrejantes,
    (Porque os terrenos são resvaladiços)
    Desce em socalcos todos os macissos,
    Como uma escadaria de gigantes.

    Das courellas, que criam cereaes,
    De que os donos–ainda!–pagam foros.
    Dividem-n'o fechados pitosporos,
    Abrigos de raizes verticaes.

    Ao meio, a casaria branca assenta
    Á beira da calçada, que divide
    Os escuros pomares de pevide,
    Da vinha, n'uma encosta soalhenta!

    Entretanto, nao ha maior prazer
    Do que, na placidez das duas horas,
    Ouvir e ver, entre o chiar das noras,
    No largo tanque as bicas a correr!

    Muito ao fundo, entre olmeiros seculares,
    Secca o rio! Em trez mezes d'estiagem,
    O seu leito é um atalho de passagem,
    Pedregosissimo, entre dois logares.

    Como lhe luzem seixos e burgaus
    Roliçõs! Marinham nas ladeiras
    Os renques africanos das piteiras,
    Que como áloes espigam altos paus!

    Montanhas inda mais longiquamente,
    Com restevas, e combros como boças,
    Lembram cabeças estupendas, grossas,
    De cabello grisalho, muito rente.

    E, a contrastar, nos valles, em geral,
    Como em vidraça d'uma enorme estufa,
    Tudo se attrae, se impõe, alarga e entufa,
    D'uma vitalidade equatorial!

    Que de frugalidades nós criamos!
    Que torrão espontaneo que nós somos!
    Pela outomnal maturação dos pomos,
    Com a carga, no chão pousam os ramos.

    E assim postas, nos barros e areiaes,
    As maceiras vergadas fortemente,
    Parecem, d'uma fauna surprehendente,
    Os polypos enormes, diluviaes.

    Comtudo, nós não temos na fazenda
    Nem uma planta só de mero ornato!
    Cada pé mostra-se util, é sensato,
    Por mais finos aromas que rescenda!

    Finalmente, na fertil depressão,
    Nada se vê que a nossa mão não regre:
    A florescencias d'um matiz alegre
    Mostra um sinal–a fructificação!

    * * * * *

    Ora, ha dez annos, n'este chão de lava
    E argila e areia e alluviões dispersas,
    Entre especies botanicas diversas,
    Forte, a nossa familia radiava!

    Unicamente, a minha doce irmã,
    Como uma tenue e immaculada rosa,
    Dava a nota galante e melindrosa
    Na trabalheira rustica, aldeã.

    E foi n'um anno prodigo, excellente,
    Cuja amargura nada sei que adoce,
    Que nós perdemos essa flor precoce,
    Que cresceu e morreu rapidamente!

    Ai d'aquelles que nascem n'este cahos,
    E, sendo fracos, sejam generosos!
    As doenças assaltam os bondosos
    E–custa a crer–deixam viver os maus!

    * * * * *

    Fecho os olhos cançados, e descrevo
    Das telas da memoria retocadas,
    Biscates, hortas, batataes, latadas,
    No paiz montanhoso, com relevo!

    Ah! Que aspectos benignos e ruraes
    N'esta localidade tudo tinha,
    Ao ires, com o banco de palhinha,
    Para a sombra que faz nos parreiraes!

    Ah! Quando a calma, á sesta, nem consente
    Que uma folha se mova ou se desmanche,
    Tu, refeita e feliz com o teu «lunch»,
    Nos ajudavas, voluntariamente!…

    Era admiravel–n'este grau do Sul!–
    Entre a rama avistar o teu rosto alvo,
    Ver-te escolhendo a uva diagalvo,
    Que eu embarcava para Liverpool.

    A exportação de frutas era um jogo:
    Dependiam da sorte do mercado
    O boal, que é de perolas formado,
    E o ferral, que é ardente e côr de fogo!

    Em agosto, ao calor canicular,
    Os passaros e enxames tudo infestam;
    Tu cortavas os bagos que não prestam
    Com a tua thesoura de bordar.

    Douradas, pequeninas, as abelhas,
    E negros, volumosos, os besoiros,
    Circumdavam, com impetos de toiros,
    As tuas candidissimas orelhas.

    Se uma vespa lançava o seu ferrão
    Na tua cutis–petala de leite!–
    Nós collocavamos dez réis e azeite
    Sobre a galante, a rosea inflammação!

    E se um de nós, já farto, arrenegado,
    Com o chapeo caçava a bicharia,
    Cada zangão voando, á luz do dia,
    Lembrava o teu dedal arremessado.

    * * * * *

    Que d'encantos! Na força do calor
    Desabrochavas no padrão da bata,
    E, surgindo da gola e da gravata,
    Teu pescoço era o caule d'uma flor!

    Mas que cegueira a minha! Do teu porte
    A fina curva, a indefinida linha,
    Com bondades d'herbivora mansinha,
    Eram prenuncios de fraqueza e morte!

    Á procura da libra e do «schilling»,
    Eu andava abstracto e sem que visse
    Que o teu alvor romantico de «miss»
    Te obrigava a morrer antes de mim!

    E antes tu, ser lindissimo, nas faces
    Tivesses «panno» como as camponezas;
    E sem brancuras, sem delicadezas,
    Vigorosa e plebeia, inda durasses!

    Uns modos de carnivora feroz
    Podias ter em vez de inoffensivos;
    Tinhas caninos, tinhas incisivos,
    E podias ser rude como nós!

    Pois n'este sítio, que era de sequeiro,
    Todo o genero ardente resistia,
    E, á larguissima luz do Meio-dia,
    Tomava um tom opalico e trigueiro!

    * * * * *

    Sim! Europa do Norte, o que suppões
    Dos vergeis que abastecem teus banquetes,
    Quando ás dockas, com fructas, os paquetes
    Chegam antes das tuas estações?!

    Oh! As ricas «primeurs» da nossa terra
    E as tuas frutas acidas, tardias,
    No azedo amoniacal das queijarias
    Dos fleugmaticos «farmers» d'Inglaterra!

    Ó cidades fabris, industriaes,
    De nevoeiros, poeiradas de hulha,
    Que pensaes do paiz que vos atulha
    Com a fructa que sae dos seus quintaes?

    Todos os annos, que frescor se exhala!
    Abundancias felizes que eu recordo!
    Carradas brutas que iam para bórdo!
    Vapores por aqui fazendo escala!

    Uma alta parreira muscatel
    Por doce não servia para embarque:
    Palacios que rodeiam Hyde-Park,
    Não conheceis esse divino mel!

    Pois a Corôa, o Banco, o Almirantado,
    Não as têm nas florestas em que ha corças,
    Nem em vós que dobraes as vossas forças,
    Pradarias d'um verde illimitado!

    Anglos-Saxonios, tendes que invejar!
    Ricos suicidas, comparae comvosco!
    Aqui tudo espontaneo, alegre, tosco,
    Facilimo, evidente, salutar!

    Opponde ás regiões que dão os vinhos
    Vossos montes d'escorias inda quentes!
    E as febris officinas estridentes
    Ás nossas tecelagens e moinhos!

    E ó condados mineiros! Extensões
    Carboniferas! Fundas galerias!
    Fabricas a vapor! Cutelarias!
    E mechanicas, tristes fiações!

    Bem sei que preparaes correctamente
    O aço e a seda, as laminas e o estofo;
    Tudo o que há de mais dúctil, de mais fofo,
    Tudo o que ha de mais rijo e resistente!

    Mas isso tudo é falso, é machinal,
    Sem vida, como um circulo ou um quadrado,
    Com essa perfeição do fabricado,
    Sem o rythmo do vivo e do real!

    E cá o santo sol, sobre isso tudo,
    Faz conceber as verdes ribanceiras;
    Lança as rosaceas bellas e fructeiras
    Nas searas de trigo palhagudo!

    Uma aldeia d'aqui é mais feliz,
    Londres sombria, em que scintilla a corte!…
    Mesmo que tu, que vives a compor-te,
    Grande seio arquejante de Paris!…

    Ah! Que de gloria, que de colorido,
    quando, por meu mandado e meu conselho,
    Cá se empapelam «as maçãs d'espelho»
    Que Herbert Spencer talvez tenha comido!

    Para alguns são prosaicos, são banaes
    Estes versos de fibra succolenta;
    Como se a polpa que nos dessedenta
    Nem ao menos valesse uns madrigaes!

    Pois o que a bocca trava com surprezas
    Senão as frutas tónicas e puras!
    Ah! N'um jantar de carnes e gorduras
    A graça vegetal das sobremesas!…

    Jack, marujo inglez, tu tens razão
    Quando, ancorando em portos como os nossos,
    As laranjas com cascas e caróços
    Comes com bestial soffreguidão!…

    * * * * *

    A impressão d'outros tempos, sempre viva,
    Dá estremeções no meu passado morto,
    E inda viajo, muita vez, absorto,
    Pelas varzeas da minha retentiva.

    Então recordo a paz familiar,
    Todo um painel pacifico d'enganos!
    E a distancia fatal d'uns poucos annos
    É uma lente convexa, d'augmentar.

    Todos os typos mortos resuscito!
    Perpetuam-se assim alguns minutos!
    E eu exagéro os casos diminutos
    Dentro d'um véo de lagrimas bemdito.

    Pinto quadros por lettras, por signaes,
    Tão luminosos como os do Levante,
    Nas horas em que a calma é mais queimante,
    Na quadra em que o verão aperta mais.

    Como destacam, vivas, certas cores,
    Na vida externa cheia d'alegrias!
    Horas, vozes, locaes, physionomias,
    As ferramentas, os trabalhadores!

    Aspiro um cheiro a cosedura, e a lar
    E a rama do pinheiro! Eu adivinho
    O resinoso, o tão agreste pinho
    Serrado nos pinhaes da beira mar.

    Vinha cortada, aos feixes, a madeira,
    Cheia de nós, d'imperfeições, de rachas;
    Depois armavam-se, n'um prompto as caixas
    Sob uma calma espessa e calaceira!

    Feias e fortes! Punham-lhes papel,
    A forral-as. E em grossa serradura
    Acamava-se a uva prematura
    Que não deve servir para tonel!

    Cingiam-n'as com arcos de castanho
    Nas ribeiras cortados, nos riachos;
    E eram d'assucar e calor os cachos,
    Criados pelo esterco e pelo amanho!

    Ó pobre estrume, como tu compões
    Estes pampanos doces como afagos!
    «Dedos de dama»: transparentes bagos!
    «Tetas de cabra»: lacteas carnações!

    E não eram caixitas bem dispostas
    Como as passas de Malaga e Alicante;
    Com sua fórma estavel, ignorante,
    Estas pesavam, brutalmente, ás costas!

    Nos vinhatorios via fulgurar,
    Com tanta cal que torna as vistas cegas,
    Os parallelogramos das adegas,
    Que têm lá dentro as dornas e o lagar!

    Que rudeza! Ao ar livre dos estios.
    Que grande azafama! Apressadamente
    Como soava um martellar frequente,
    Véspera da saida dos navios!

    Ah! Ninguem entender que ao meu olhar
    Tudo tem certo espirito secreto!
    Com folhas de saudades um objecto
    Deita raizes duras de arrancar!

    As navalhas de volta, por exemplo,
    Cujo bico de passaro se arqueia,
    Forjadas no casebre d'uma aldeia,
    São antigas amigas que eu contemplo!

    Ellas, em seu labor, em seu lidar,
    Com sua ponta como a da podoas,
    Serviam próbas, uteis, dignas, boas,
    Nunca tintas de sangue e de matar.

    E as enxós de martello, que d'um lado
    Cortavam mais do que as enxadas cavam,
    Por outro lado, rápidas, pregavam,
    D'uma pancada, o prego fasquiado!

    O meu animo verga na abstracção,
    Com a espinha dorsal dobrada ao meio;
    Mas se de materiaes descubro um veio
    Ganho a musculatura d'um Sansão!

    E assim–e mais no povo a vida é corna–
    Amo os officios como o de ferreiro,
    Com seu folle arquejante, seu brazeiro,
    Seu malho retumbante na bigorna!

    E sinto, se me ponho a recordar
    Tanto utensilio, tantas perspectivas,
    As tradições antigas, primitivas,
    E a formidavel alma popular!

    Oh! Que brava alegria eu tenho quando
    Sou tal qual como os mais! E, sem talento,
    Faço um trabalho technico, violento,
    Cantando, praguejando, batalhando!

    * * * * *

    Os fruteiros, tostados pelos soes,
    Tinham passado, muita vez, a raia,
    E, espertos, entre os mais da sua laia,
    –Pobres camponios–eram uns heroes.

    E por isso, com phrases imprevistas,
    E colorido e estylo e valentia,
    As «haciendas» que ha na «Andalucia»
    Pintavam como novos paysagistas.

    De como, ás calmas, n'essas excursões,
    Tinham aguas salobras por refrescos;
    E amarellos, enormes, gigantescos,
    Lá batiam o queixo com sesões!

    Tinham corrido já na adusta Hespanha,
    Todo um fertil plató sem arvoredos,
    Onde armavam barracas nos vinhedos,
    Como tendas alegres de campanha.

    Que pragas castelhanas, que alegrão,
    Quanto contavam scenas de pousadas!
    Adoravam as cintas encarnadas
    E as côres, como os pretos do sertáo!

    E tinham, sem que a lei a tal obrigue,
    A educação vistosa das viagens!
    Uns por terra partiam e estalagens,
    Outros, aos montes, no convez d'um brigue!

    Só um havia, triste e sem fallar
    Que arrastava a maior misantropia,
    E, roxo como um figado, bebia
    O vinho tinto que eu mandava dar!

    Pobre da minha geração exangue
    De ricos! Antes, como os abrutados,
    Andar com uns sapatos encebados,
    E ter riqueza chimica no sangue!

    * * * * *

    Mas hoje a rustica lavoura, quer
    Seja o patrão, quer seja o jornaleiro,
    Que inferno! Em vão o lavrador rasteiro
    E a filharada lidam, e a mulher!…

    Desde o princípio ao fim é uma maçada
    De mil demonios! Torna-se preciso
    Ter-se muito vigor, muito juizo
    Para trazer a vida equilibrada!

    Hoje eu sei quanto custam a criar
    As cepas, desde que eu as pódo e empo.
    Ah! O campo não é um passatempo
    Com bucolismos, rouxinoes, luar.

    A nós tudo nos rouba e nos dizima:
    O rapazio, o imposto, as pardaladas,
    As osgas peçonhentas, achatadas,
    E as abelhas que engordam na vindima.

    E o pulgão, a lagarta, os caracoes,
    E ha inda, alem do mais com que se ateima,
    As intemperies, o granizo, a queima,
    E a concorrencia com os hespanhoes.

    Na vendas, os vinhateiros d'Almeria
    Competem contra os nossos fazendeiros.
    Dão frutas aos leilões dos estrangeiros,
    Por uma cotação que nos desvia!

    Pois tantos contras, rudes como são,
    Forte e teimoso, o camponez destroe-os!
    Venham de lá pesados os comboyos
    E os «buques» estivados no porão!

    Não, não é justo que eu a culpa lance
    Sobre estes nadas! Puras bagatellas!
    Nós não vivemos só de coisas bellas,
    Nem tudo corre como n'um romance!

    Para a Terra parir hade ter dor,
    E é para obter as asperas verdades,
    Que os agronomos cursam nas cidades,
    E, á sua custa, aprende o lavrador.

    Ah! Não eram insectos nem as aves
    Que nos dariam dias tão difficeis,
    Se vós, sabios, na gente descobrisseis
    Como se curam as doenças graves.

    Não valem nada a cava, a enxofra, e o mais!
    Difficultoso trato das cearas!
    Lutas constantes sobre as jornas caras!
    Compras de bois nas feiras annuaes!

    O que a alegria em nós destroe e mata,
    Não é rede arrastante d'escalracho,
    Nem é «suão» queimante como um facho,
    Nem invasões bulhosas d'herva pata.

    Podia ter seccado o poço em que eu
    Me debruçava e te pregava sustos,
    E mais as hervas, arvores e arbustos
    Que–tanta vez!–a tua mão colheu.

    «Molestia negra» nem «charbon» não era,
    Como um archote incendiando as parras!
    Tão pouco as bastas e invisiveis garras,
    Da enorme legião do phylloxera!

    Podiam mesmo, com o que contêm,
    Os muros ter caido às invernias!
    Somos fortes! As nossas energias
    Tudo vencem e domam muito bem!

    Que os rios, sim, que como touros mugem,
    Transbordando atulhassem as regueiras!
    Chorassem de resina as larangeiras!
    Ennegrecessem outras com ferrugem!

    As turvas cheias de novembro, em vez
    Do nateiro subtil que fertilisa,
    Fossem a inundação que tudo pisa,
    No rebanho afogassem muita rez!

    Ah! N'esse caso pouco se perdera,
    Pois isso tudo era um pequeno damno,
    Á vista do cruel destino humano
    Que os dedos te fazia como cera!

    Era essa tysica em terceiro grau,
    Que nos enchia a todos de cuidado,
    Te curvava e te dava um ar alado
    Como quem vae voar d'um mundo mau.

    Era a desolação que inda nos mina
    (Porque o fastio é bem peior que a fome)
    Que a meu pai deu a curva que a consome,
    E a minha mãe cabellos de platina.

    Era a chlorose, esse tremendo mal,
    Que desertou e que tornou funesta
    A nossa branca habitação em festa
    Reverberando a luz meridional.

    Não desejemos,–nós os sem defeitos,–
    Que os tysicos pereçam! Má theoria,
    Se pelos meus o apuro principia,
    Se a Morte nos procura em nossos leitos!

    A mim mesmo, que tenho a pretensão
    De ter saude, a mim que adoro a pompa
    Das forças, pode ser que se me rompa
    Uma arteria, e me mine uma lesão.

    Nós outros, teus irmãos, teus companheiros,
    Vamos abrindo um matagal de dores!
    E somos rijos como os serradores!
    E positivos como os engenheiros!

    Porém, hostis, sobresaltados, sós,
    Os homens architectam mil projectos
    De victoria! E eu duvido que os meus netos
    Morram de velhos como os meus avós!

    Porque, parece, ou fortes ou velhacos
    Serão apenas os sobreviventes;
    E ha pessoas sinceras e clementes,
    E troncos grossos com seus ramos fracos!

    E que fazer se a geração decae!
    Se a seiva genealogica se gasta!
    Tudo empobrece! Extingue-se uma casta!
    Morre o filho primeiro do que o pai!

    Mas seja como for, tudo se sente
    Da tua ausencia! Ah! como o ar nos falta,
    Ó flor cortada, susceptivel, alta,
    Que assim seccaste prematuramente!

    Eu que de vezes tenho o desprazer
    De reflectir no tumulo! E medito
    No eterno Incognoscivel infinito,
    Que as idéas não podem abranger!

    Como em paul em que nem cresça a junca
    Sei d'almas estagnadas! Nós absortos,
    Temos ainda o culto pelos Mortos,
    Esses ausentes que não voltam nunca!

    Nós ignoramos, sem religião,
    Ao rasgarmos caminho, a fé perdida,
    Se te vemos ao fim d'esta avenida
    Ou essa horrivel aniquilação!…

    E ó minha martyr, minha virgem, minha
    Infeliz e celeste creatura,
    Tu lembras-nos de longe a paz futura,
    No teu jazigo, como uma santinha!

    E emquanto a mim, és tu que substitues
    Todo o mysterio, toda a santidade,
    Quando em busca do reino da verdade
    Eu ergo o meu olhar aos ceos azues!

    III

    Tinhamos nós voltado á capital maldicta,
    Eu vinha de polir isto tranquillamente,
    Quando nos seccedeu uma cruel desdita,
    Pois um de nós caiu, de subito, doente.

    Uma tuberculose abria-lhe cavernas!
    Dá-me rebate ainda o seu tossir profundo!
    E eu sempre lembrarei, triste, as palavras ternas,
    Com que se despediu de todos e do mundo!

    Pobre rapaz robusto e cheio de futuro!
    Não sei d'um infortunio immenso como o seu!
    Vio o seu fim chegar como um medonho muro,
    E, sem querer, afflicto e attonito, morreu!

    De tal maneira que hoje, eu desgostoso e azedo
    Como tanta crueldade e tantas injustiças,
    Se inda trabalho é como os presos no degredo,
    Com planos de vingança e idéas insubmissas.

    E agora, de tal modo a minha vida é dura,
    Tenho momentos maus, tão tristes, tão perversos,
    Que sinto só desdem pela litteratura,
    E até desprézo e esqueço os meus amados versos!

    PROVINCIANAS

    I

    Olá! Bons dias! Em março
    Que mocetona e que joven
    A terra! Que amor esparso
    Corre os trigos, que se movem
    Ás vagas d'um verde garço!

    Como amanhece! Que meigas
    As horas antes de almoço!
    Fartam-se as vaccas nas veigas
    E um pasto orvalhado e moço
    Produz as novas manteigas.

    Toda a paizagem se doura;
    Tibida ainda, que frecas!
    Bella mulher, sim senhora,
    N'esta manhã pittoresca,
    Primaveral, creadora!

    Bom sol! As sebes d'encosto
    Dão madresilvas cheirosas
    Que entotecem como um mosto
    Floridas, ás espinhosas
    Subio-lhes o sangue ao rosto.

    Cresce o relevo dos montes,
    Como seios offegantes;
    Murmuram como umas fontes
    Os rios que dias antes
    Bramiam galgando pontes.

    E os campos, milhas e milhas,
    Com póvos d'espaço a espaço,
    Fazem-se ás mil maravilhas;
    Dir-se-ia o mar de sargaço
    Glauco, ondulante, com ilhas!

    Pois bem. O inverno deixou-nos.
    É certo. E os grãos e as sementes
    Que ficam d'outros outonos
    Acordam hoje frementes
    Depois d'uns poucos de somnos.

    Mas nem tudo são descantes
    Por esses longos caminhos
    Entre favaes palpitantes
    Há solos bravos, maninhos,
    Que expulsam seus habitantes!

    E n'esta quadra d'amores
    Que emigram os jornaleiros
    Ganhões e trabalhadores!
    Passam clans de forasteiros
    Nas terras de lavradores.

    Tal como existem mercados
    Ou feiras, semanalmente
    Para comprarmos os gados
    Assim ha praças de gente
    Pelos domingos calados!

    Emquanto a ovelha arredonda,
    Vão tribus de sete filhos,
    Por varzeas que fazem onda,
    Para as derregas dos milhos
    E molhadellas da monda.

    De roda pulam borregos;
    Enchem então as cardosas
    As moças d'esses labregos
    Com altas botas bartrosas
    De se atirarem aos regos!

    Eil-as que vem ás manadas
    Com caras de soffrimento,
    Nas grandes marchas forçadas!
    Vem ao trabalho, ao sustento,
    Com fouces, sachos, enchadas!

    Ai o palheiro das servas
    Se o feitor lhe tira as chaves!
    Ellas chegam ás catervas,
    Quando acasalam as aves
    E se fecundam as hervas!…

    II

    Ao meio dia na cama,
    Branca fidalga o que julga
    Das pequenas da su'ama?!
    Vivem minadas da pulga
    Negras do tempo e da lama.

    Não é caso que a commova
    Ver suas irmans de leite,
    Quer faça frio, quer chova,
    Sem uma mamã que as deite
    Na tepidez d'um alcova?!

    Nota: Incompleta esta poesia. Foram os ultimos versos do poeta.

    NOTAS

    Cesario Verde (José Joaquim Cesario Verde) nasceu em Lisboa,
    freguesia da Magdalena, em 25 de fevereiro de 1855 e falleceu no
    Paço do Lumiar em 19 de julho de 1886. Era filho do sr. José
    Anastacio Verde, negociante, e da srª. D. Maria da Piedade dos
    Santos Verde.

    * * * * *

    A estreia do poeta nos dominios da publicidade data de 1873. Foi
    o auctor d'estas notas e editor d'este livro quem fez publicar no
    Diario da Tarde do Porto, em folhetim, os primeiros versos de Cesario
    Verde, precedendo-os de uma carta de apresentação a Manoel d'Arriaga.
    Esses versos não se reproduzem no livro de Cesario Verde, porque o
    poeta os considerou muito inferiores aos que hoje se reproduzem.
    Realmente o eram–pela hesitação do neophyto.

    * * * * *

    Outros versos foram condemnados pelo auctor e a condemnação foi hoje
    respeitada: entre elles citaremos a Satyra ao Diario Illustrado, as
    poesias Vaidosa, Subindo, Desastre, e algumas outras composições de
    menos folego.

    * * * * *

    No Prefacio registra-se a promessa de um estudo critico sobre a Obra
    de Cesario Verde. Essa obra, dispersa nas columnas do Diario da
    tarde, do Porto, da Renascença, da Revista de Coimbra, da Tribuna,
    da Illustração, etc., não será discutida pelo auctor d'estas linhas.
    Não é hoje discutida, nem o será jamais. Sobeja-lhe, ao auctor da
    promessa, em enternecimento e amargura quanto lhe falta em serenidade;
    –ficam auctorizados a dizer: quanto lhe falta em competencia.

    Tambem se registrou algures a promessa de um ajuste de contas com
    os insultadores do poeta. Inutil:–nenhum d'elles sobreviveu aos
    insultos.

    * * * * *

    Os 200 exemplares d'este livro serão distribuidos pelos parentes,
    pelos amigos e pelos admiradores provados do illustre poeta, bem
    como por Bibliothecas do paiz e do estrangeiro. A lista de distribuição
    será publicada. As reclamações justificadas serão attendidas.

    1887.

    S. P.

    INDICE

    Dedicatoria
    Prefacio

    VERSOS

    CRISE ROMANESCA

    Deslumbramentos
    Septentrional
    Meridional
    Ironias do Desgosto
    Humilhações
    Responso

    NATURAES

    Contrariedades
    A debil
    N'um bairro moderno
    Crystalisações
    Noites gelidas
    Sardenta
    Flores velhas
    Noite fechada
    Manhans brumosas
    Frigida
    De verão
    O sentimento d'um occidental
    De tarde
    Em petiz
    Nós
    Provincianas

    Notas

    End of Project Gutenberg's O Livro de Cesario Verde, by Cesario Verde

  • O cancioneiro portuguez da Vaticana

    O cancioneiro portuguez da Vaticana

    Aproximadamente 12.370 palavras.

    THEOPHILO BRAGA.

    O Cancioneiro portuguez da Vaticana
    e suas relações com outros Cancioneiros dos seculos XIII e XIV.

    (Zeitschrift für Romanische Philologie, 1877)

    O apparecimento do Cancioneiro portuguez da Bibliotheca do Vaticano,
    que encerra quasi toda a poesia lyrica do fim da edade media em
    Portugal, veiu mais uma vez provar a superioridade da iniciativa
    individual sobre a estabilidade inerte das instituições collectivas
    que apenas apresentam o vigor do prestigio official; desde 1847 que a
    Academia real das Sciencias de Lisboa deixava jazer no pó do archivo
    de Roma este importante documento nacional, e foram sempre ficticios
    os esforços para obter uma copia d'elle, que de ha muito devera ter
    sido reproduzida no corpo dos _Scriptores_, que forma uma das partes
    dos _Portugaliae Monumenta historica_. No emtanto, no estrangeiro o
    interesse scientifico muitas vezes se havia occupado do passado
    historico de Portugal, e foi a esta corrente que obedeceu o illustre
    philologo romanista Ernesto Monaci coadjuvado pelo activo e
    intelligente editor Max Niemeyer, restituindo a este paiz o texto
    diplomatico do mais precioso dos seus documentos litterarios. Ao
    terminar do modo mais consciensioso a sua empreza, escreve Monaci:
    "voglia il cielo che tornato il libro in Portogallo, diventi presto
    oggetto di studj novelli. È solo nella fonte delle tradizioni patrie
    che lo spirito di una nazione si ringagliardisce." (Canz. port., p.
    XVIII.) Infelizmente na litteratura portugueza ainda se não
    comprehendeu esta verdade salutar, e por isso o talento desbarata-se
    em architectar phantasmagorias de cerebros doentes ou em fazer
    traducções de romances dissolutos. Acceitando a responsabilidade das
    palavras do editor do Cancioneiro da Vaticana dirigidas a esta nação,
    cabia primeiro do que a todos á Academia real das Sciencias de Lisboa
    responder pela seguinte forma:

    1°. Publicar o texto critico e litterario restituido sobre a lição
    diplomatica em grande parte illegivel fóra de Portugal.

    2°. Acompanhar esse texto com todos os dados bibliographicos de que se
    possa alcançar noticia, para sobre elles basear a historia externa da
    formação do Cancioneiro.

    3°. Acompanhal-o de um bom glossario das palavras empregadas na dicção
    provençalesca da poesia palaciana.

    4°. Por ultimo organisar um vasto quadro da historia litteraria de
    Portugal no periodo dos nossos trovadores, deduzido dos abundantes
    factos historicos que fornece o Cancioneiro da Vaticana.

    É para isto que existem as Academias nos paizes civilisados, que os
    governos as subsidiam, e que os seus membros têm o fôro de sabios. Em
    quanto a Academia real das Sciencias de Lisboa não cumpre este seu
    dever, cumpre-nos dar uma noticia d'este Cancioneiro, longos seculos
    perdido pelas bibliothecas estrangeiras.

    N'este codice se encontram as nossas origens litterarias, e as
    relações intimas que filiam a litteratura portugueza no grupo das
    litteraturas romanicas da edade media da Europa; aqui se acham
    representadas as duas correntes da inspiração popular e palaciana ou
    erudita, bem como os costumes intimos de uma sociedade que nos é
    desconhecida, mas d'onde proviemos; os successos historicos aí têm a
    sua nota accentuada; os nomes que figuram nas lendas genealogicas e
    nos feitos de armas no periodo da constituição da nossa nacionalidade
    aí se encontram assignando os mais saborosos cantares consagrados ás
    damas da côrte, que serviam. Finalmente, ali está o documento mais
    vasto em que a lingua portugueza se manifesta no seu esforço para de
    inconsistente dialecto romanico se tornar uma lingua escripta com uma
    grammatica fixa. Um livro assim, onde se acha representado o melhor da
    nossa antiga poesia durante os seculos XIII e XIV, é a joia de uma
    bibliotheca. Como nos mostraremos gratos ao estrangeiro que assim vem
    augmentar os nossos thezouros historicos e restituir-nos o fio perdido
    da nossa tradição nacional? Estudando-o.

    A primeira questão que o Cancioneiro portuguez do Vaticano sugere é
    determinar as suas relações com os antigos cancioneiros provençaes
    portuguezes em grande parte perdidos; esta circumstancia complica o
    problema critico, e por isso importa bem determinar aproximadamente o
    numero d'essos cancioneiros para se fazer o processo de filiação. Tal
    é o intuito d'este nosso primeiro estudo, bastante restricto, por que
    determinar o valor historico do Cancioneiro pelas correntes
    litterarias n'elle representadas, pela allusão aos grandes successos,
    pelo uso de dadas formas poeticas, pelas personalidades dos principaes
    trovadores e pelo estado da lingua portugueza, é uma exploração de tal
    forma vasta, que qualquer d'estas questões excede as proporções de uma
    noticia. Começamos pela critica externa do Cancioneiro, enumerando
    todos os cancioneiros portuguezes dos seculos XIII e XIV que
    contribuiram para a sua formação, procurando ao mesmo tempo o nexo que
    existiria entre elles, e pelas divergencias de texto quaes as
    collecções que se perderam sem chegarem a ser conhecidas.

    1. O Livro das Cantigas do Conde de Barcellos.

    No testamento do Conde D. Pedro, feito em Lalim em 30 de Março de
    1350, se lê esta clausula: "Item, mando o meu _Livro das Cantigas_ a
    el rei de Castella". Interpretando esta clausula, Varnhagem quiz por
    ella attribuir o Cancioneiro da Ajuda ao Conde de Barcellos,
    imprimindo-o em 1849 n'esse presupposto, com o titulo de _Trovas e
    Cantares… ou antes mui provavelmente o Livro das Cantigas do Conde
    de Barcellos_. Esta hypothese cedo caiu diante da evidencia dos
    factos; mas além d'este primeiro erro, existe n'esta affirmacão um
    outro, que é o julgar o _Livro das Cantigas_ formado de canções
    unicamente compostas pelo Conde de Barcellos. Era antigamente vulgar
    terem os principes cancioneiro seu, como objecto sumptuario, isto é,
    uma collecção contendo as melhores poesias de seu tempo; sabendo-se a
    tendencia compiladora e erudita do Conde Dom Pedro, e a sua amisade
    com a aristocracia portugueza e gallega por causa do seu _Nobiliario_,
    é mais no espirito da historia litteraria a hypothese, que o _Livro
    das Cantigas_ era seu pelo facto material da propriedade ou da
    colleccionação, e que este titulo designa um cancioneiro contendo
    composições de diversos trovadores. Vamos fundamentar esta hypothese:
    Primeiramente, o Conde D. Pedro, pelas canções que d'elle restam na
    collecção do Vaticano, era um mediocre trovador, e d'elle diz Affonso
    XI, a quem elle deixara em testamento _o seu Livro das Cantigas:_

    Pois se de quant'el tem errado
    _serve Dom Pedro_, nem lhi dá em grado.

    Alludia á inferioridade das canções de Bernal de Bonaval, que serviam
    ao gosto do Conde Dom Pedro. Em segundo logar, pelo Nobiliario se vê
    quanto o Conde era versado nas tradições bretans que adoptava como
    factos historicos; e no indice do Cancioneiro de Angelo Colocci se
    acham enumeradas como começo d'esse codice: "1. Elis o baço, duque de
    Sansonha, quando passou na Gram Bretanha, qual ora chamam Ingraterra,
    al tempo del Rey Arthur ad combater com Tristano por que lhi avia
    occiso o padre em uma batalha. E andando um dia em sa busca foi por
    Giososa Guarda ú era a reyna Isouda de Corualha, e enamorou-se ali
    elle, e fez por ella aquesta lais, o qual lais poemos aqui, porque era
    o melhor que fora feito.–2. Quatro donzellas, a Morouet de Irlanda,
    al tempo del rei Arthur.–3. Dom Tristan enamorado.–4. Dom
    Tristan.–5. D. Tristam para Genebra".

    Por este conteúdo do começo do Cancioneiro que pertenceu a Colocci, e
    por que no codice da Vaticana mais de uma vez se citam as formas
    poeticas bretãs dos _lais_, podemos concluir que esses cinco Lais
    pertenceriam ao _Livro das Cantigas_, o qual foi encorporado em uma
    grande collecção formando talvez a parte que vae até as canções de
    el-rei D. Diniz que eram tambem um cancioneiro avulso. Por este mesmo
    codice de Angelo Colocci, de que resta o indice, achamos que antes da
    parte que constitue a colecção de el-rei D. Diniz, estavam colligidas
    varias canções de Dom Affonso Sanches, bastardo do rei, as canções de
    Dom Affonso rei de Leão, as de D. Affonso XI de Castella, e depois
    d'estar as do proprio Conde de Barcellos, que são ao todo nove, e
    tambem as de seu irmão el rei D. Affonso IV. Não era qualquer
    compilador ocioso que poderia satisfazer a sua curiosidade obtendo
    d'estes principes e monarchas as canções mais ou menos pessoaes; o
    Conde de Barcellos estava em uma posição especial, sabia metrificar,
    era estimado na côrte de D. Diniz e na de Affonso XI, e tendo passado
    algum tempo em Hesphanha de lá podia trazer canções de varios
    trovadores que nunca estiveram em Portugal. Por tanto o seu _Livro das
    Cantigas_ fôra formado n'estas condições particulares, e o apreço que
    se lhe ligava é que o fez com que o deixasse em testamento ao elegante
    trovador Affonso XI de Castella. A posse de um livro de cantigas era
    quasi um titulo nobiliarchico; na canção 76 da Vaticana, feita á
    maneira de sirvente por Affonso XI contra o Dayão de Calez, diz que
    elle tinha um _Livro de Sons_, por meio do qual seduzia todas as
    mulheres. Foi tambem pelo seu gosto pela poesia provençalesca que o
    Conde de Barcellos manteve a sympathia de D. Affonso IV, filho
    legitimo de D. Diniz, e por isso em uma canção de louvor é chamado o
    _rimante d'el-Rei_. Por tudo isto é mais crível que o _Livro das
    Cantigas_ do Conde fosse o primeiro nucleo com que se formou por
    juxta-posição o grande cancioneiro portuguez, do qual um dos
    apographos é o codice da Vaticana; dizemos por juxta-posição, por que
    se lhe segue o de el-rei Dom Diniz, e porque muitas canções de codice
    de Roma se acham aí mesmo repetidas, indicação inevitavel de terem
    sido colligidas de fontes diversas. Quando o Conde Dom Pedro falleceu
    já era morto Affonso XI, e isto explica como poderia extraviar-se em
    Castella esse _Livro das Cantigas_, e como Pero Gonçalves de Mendoza
    viria a obter a copia que se guardava em um grande volume em casa de
    D. Mecia de Cisneros, e pela primeira vez citada por seu neto, o
    Marquez de Santillana.

    2. Livro das Trovas de El-rei Dom Diniz

    O corpo das canções de el-rei Dom Diniz occupava uma grande parte do
    codice de Dona Mecia de Cisneros; occupava tambem uma parte importante
    no apographo de Colocci, bem como no codice da Vaticana. O modo como
    esta grande quantidade de canções de el-rei Dom Diniz entrou em uma
    vasta compilação explica-se naturalmente, por isso que pelo catalogo
    dos livros de uso de el rei Dom Duarte acha-se citado o _Livro das
    Trovas de el-rei Dom Diniz_, do qual se pode inferir terem existido
    varias copias, por que o numero das canções varia entre as enumeradas
    no indice de Colocci e as contidas no codice da Vaticana, contando
    este ultimo cincoenta e uma canções a mais. Alem d'isso, na parte do
    codice que encerra as canções de D. Diniz, a canção 116 acha-se
    repetida outra vez sob o numero 174 com variantes e differente
    disposição de estrophes, o que denota que essa parte foi compilada de
    copias secundarias, mas classificadas, como vemos pelo titulo das
    _Cantigas de Amigo_ dado a um certo genero de canções, especialmente
    de imitação popular. É provavel que os autographos que serviam para os
    traslados nitidos dos amanuenses fossem por vezes aproveitados por
    outros compiladores; de el-rei Dom Diniz andava tambem um codice
    poetico em poder dos Freires de Christo de Christo de Thomar. Os
    muitos jograes da Galiza, de Castella e de Leão, que frequentavam a
    côrte de Dom Diniz, tambem colligiriam esses corpos de canções de
    _Serranilha_ e de _Mal-dizer_ que os privados dos monarchas trovaram,
    e que elles decoravam para cantarem de officio. Os jograes formaram
    collecções dos melhores cantares para recitarem ou acompanharem á
    citola, pelo que recebiam dinheiro; o costume de ter jograes de
    _Segrel_ ao serviço da casa real levava tambem a formar estes pequenos
    cancioneiros escolhidos.

    3. O Cancioneiro da Ajuda (ou do Collegio dos Nobres).

    O facto de se encontrarem _cincoenta e seis_ canções communs ao Codice
    da Ajuda e ao da Vaticana, torna indispensavel o resumir aqui o que se
    sabe da historia externa do Cancioneiro da Ajuda. As suas folhas são
    de pergaminho, a duas columnas, com pauta para a musica das canções
    que se deveria escrever em seguida, e com varias vinhetas separando os
    diversos grupos de canções de cada trovador e com letras historiadas.
    O cancioneiro está truncado, pois que começa na folha 41, e não existe
    o final, não só por incuria dos possuidores, que o baralharam
    encadernando-o tumultuariamente com o Nobiliario, grudando algumas
    folhas ás capas, mas tambem por que o estado da copia, sem assignatura
    ou designação dos trovadores, letras historiadas incompletas, e falta
    de notação musical, nos revelam que o codice não foi dado por acabado.
    Esta collecção começou-se ainda no reinado de D. Diniz, por que
    juntando-se as folhas lê-se escripto no córte d'ellas: _Rei Dom
    Diniz_, e d'isto tambem se pode deduzir, que se não perderam muitas
    folhas do principio e do fim. D'este codice foram encontradas mais 24
    folhas avulsas na Bibliotheca de Evora, e é tradição corrente que na
    de Coimbra existiam algumas outras tambem.

    A inspecção do Codice da Ajuda, confrontado com outros Codices
    europeus, mostra-nos que elle pertencia indubitavelmente a diversos
    trovadores; Varnhagem notou que existiam dezaseis vinhetas
    imperfeitamente coloridas, que estão desenhadas junto ás canções 2,
    36, 37, 149, 157, 170, 173, 184, 190, 231, 233, 249, 253, 255, 259 e
    fragmento _h_. (Notas ás _Trovas e Cantares_, p. 348.)

    Alem d'este vestigio paleographico, o confronto com o Codice da
    Vaticana levou a achar os seguintes trovadores, communs aos dois
    Cancioneiros: Pero Barroso, Affonso Lopes Baião, Mem Rodrigues
    Tenoyro, João de Guilhade Estevam Froyam, João Vasques, Fernão Velho,
    Ayres Vaz, D. João de Aboim, Pero Gomes Charrinho, Ruy Fernandes,
    Fernam Padrom, Pero da Ponte, Vasco Rodrigo de Calvelo, Pero Solaz,
    Pero d'Armêa, e João de Gaia. Todos estes nomes são de fidalgos
    grandes privados de el-rei D. Diniz, e alguns já figuram em doações de
    D. Affonso III, como D. João de Aboim e Affonso Lopes Baião; Mem
    Rodrigues Tenoyro vivia na côrte de D. Affonso IV, e foi entregue a
    Pedro cruel em troca dos assassinos de Inez de Castro.[1] A parte não
    assignada e que não se encontra no Cancioneiro da Vaticana será por
    ventura o corpo das canções escriptas durante o tempo em que a côrte
    de D. Affonso III esteve fixa em Santarem. Alem d'isso a parte commum
    tem a particularidade de conservar a mesma ordem nas canções, e ao
    mesmo tempo as variantes mais fundamentaes n'essas lições. D'aqui se
    conclue, que já existia um Cancioneiro formado, d'onde este da Ajuda
    estava sendo trasladado, mas que d'esse cancioneiro existiam
    differentes copias formadas, não directamente sobre elle, mas por meio
    dos cancioneiros particulares que o constituiram. A parte não commum
    ao codice de Roma, prova nos tambem que alguns d'esses cancioneiros
    parciaes se perderam, ou eram já tão raros que não chegaram a ser
    encorporados na collecção. Admittida a hypothese de que o Cancioneiro
    da Ajuda, pelo facto de ter pertencido a el-rei D. Diniz e de andar
    encadernado junto do Nobiliario do Conde D. Pedro, fosse o proprio
    _Livro das Cantigas_, como primeiro quiz Varnhagem, o facto de
    apparecerem aí outros trovadores prova-nos a nossa hypothese, que o
    Conde D. Pedro compilara sob esse titulo as canções dos trovadores
    seus contemporaneos. O numero de vinhetas imperfeitamente coloridas do
    cancioneiro da Ajuda são dezaseis; isto leva a inferir que esse codice
    era formado de dezeseis corpos de canções que pertenciam a dezassete
    trovadores. De facto a coincidencia aqui é pasmosa: o numero dos
    trovadores communs ao Cancioneiro da Ajuda e da Vaticana é de
    dezesete! Note-se que este numero é o que se perfaz com os nomes de
    _Fernam Padrom, João de Gaya, e Pero d'Armêa_, que achámos alem
    d'aquelles que primeiro descobriu Varnhagem. D'este numero se tira a
    conclusão que o Cancioneiro da Ajuda pertence exclusivamente a esses
    dezessete trovadores, e que as cincoenta e seis canções communs ao
    Codice da Ajuda eram as que andavam por cancioneiros parciaes, como as
    mais conhecidas, e pelas variantes que appresentam, as mais repetidas.
    Alem d'isso, pode suppor-se que o Cancioneiro da Ajuda não foi
    acabado, por que o estylo _limosino_ em que está escripto, passou de
    moda, preferindo-se os _Cantares d'amigo_, as _serranilhas_, as
    _pastorellas_, os _lais_ e as _sirventes_, mudança de gosto
    proveniente da grande affluencia de jograes gallegos, leonezes e
    castelhanos á côrte de Dom Diniz; e sob o gosto da côrte de Dom
    Affonso IV prevaleceram tambem as canções e musicas bretans, cuja
    corrente parece ainda reflectida no Cancioneiro da Ajuda, em um
    remotissimo vestigio, no fragmento de canção em que se lê a palavra
    _guarvaya_, com que o trovador allude aos seus infelices amores. Nas
    _Leges Wallice_, XXIII, I, encontra-se o dom das nupcias, _kyvarus_,
    que se pagava ao cantor da côrte: "Penkered (musicus primarius) debet
    habere mercedes de filiabus poetarum sibi subditorum; habebit quoque
    munera nuptiarum, id est _kyvarus neythans_, á feminibus nuper datis,
    scilicet XXIIIIor denarios."[2] A connexão historica e a interpretação
    litteral mostram que a _guarvaya_ do trovador portuguez é o mesmo
    facto ou costume bretão _kyvarus_; a verificação pelos processos da
    alteração phonetica pertence para outro logar. Em todo o caso este
    vestigio é um dos nexos mais intimos que se pode achar com o codice
    perdido de Colocci, em que estavam já colligidos alguns _lais_
    bretãos.

    A musica do Cancioneiro da Ajuda tambem foi abandonada, por que foram
    substituidos nos costumes outros instrumentos e outras tonadilhas; no
    poema francez de Bertrand Du Guesclin, fala-se de cantores bretãos na
    côrte de D. Pedro I de Portugal. Foi já n'esta nova corrente poetica e
    com o fervor que ella despertara que se começou a formar o vasto
    cancioneiro, de cuja existencia se sabe por quatro apographos. Crêmos
    que o compilador que trasladou ou organisou o texto authentico d'onde
    saíu o apographo do Vaticano, não soube da existencia do Cancioneiro
    da Ajuda, apezar das cincoenta e seis canções communs a ambos. Este
    facto será mais amplamente explicado.

    4. O Cancioneiro de Dona Mecia de Cisneros.

    Na sua _Carta ao Condestavel de Portugal_, escripta antes de 1449, o
    Marquez de Santillana, no § XV, diz que se recordava de ter visto,
    quando era bastante menino, em poder de sua avó Dona Mecia de
    Cisneros, entre outros livros, um grande volume de cantigas…. O
    Marquez de Santillana nasceu em 1398, e sua avó Dona Mecia, na
    companhia da qual passou a sua infancia, morreu em Dezembro de 1418,
    em Palencia. Em primeiro logar "o _grande volume de Cantigas_, e
    _outros livros_" citados na carta, existiam em casa de D. Mecia de
    Cisneros por que provinham de Garcilasso de la Vega, e de Pero
    Gonzales de Mendoza, como claramente o affirma Amador de los Rios:
    "passo su infancia en casa Doña Mencia de Cisneros, su abuela, donde
    hubo de aficionar-se à la lectura de los poetas en los codices que
    poseyeron Garcilasso de de la Vega y Pero Gonzales de Mendoza…"[3]
    Garcilasso de la Vega, bisavó do Marquez, morrera em 1351, e esta
    data, e as suas relações de parentesco com a aristocracia portugueza
    explicam como a elle ou a Pedro Gonzales de Mendoza chegou o volume
    das cantigas. Portanto esse grande cancioneiro não existia em Hespanha
    antes poucos annos de 1351 e foi pouco antes de 1418 que o joven
    Marquez de Santillana o consultou. Pedro Gonzales de Mendoza era
    tambem poeta do côrte de Don Pedro e de Don Enrique (Amador de los
    Rios, _op.cit._, p. 623), e isto mostra o interesse que o levaria pelo
    seu lado a conservar o grande cancioneiro portuguez.

    A descripção que faz o Marquez de Santillana d'esse codice, coincide
    com o que existe na Bibliotheca do Vaticano em copia do seculo XVI:
    _"un grande volume de Cantigas serranas e dizeres portuguezes e
    gallegos"_. São ao todo mil duzentas e cinco cantigas compostas no
    genero descripto por Santillana, e os poetas são em grande numero
    galegos. Em seguida accrescenta: _"dos quaes a maior parte eram do rei
    D. Diniz de Portugal"_. Effectivamente o trovador que mais canções
    appresenta no codice da Vatícana é el-rei D. Diniz, cujas composições
    estão compiladas entre o numero 80 e 208, sendo ao todo cento e vinte
    nove. Accrescenta mais o Marquez de Santillana: _"cujas obras aquelles
    que as liam, louvavam de invenções subtis, e de graciosas e doces
    palavras"_. Esta affirmação, sobendo-se que o Marquez escreve sobre
    uma recordação da sua infancia, não podia resultar se não dos gabos
    ouvidos a Pero Gonzales de Mendoza, poeta do Cancioneiro de Baena,
    gabos que fizeram com que o livro se conservasse em casa de D. Mecia
    de Cisneros, e d'onde se tirara por ventura essa outra copia que hóje
    existe em poder de um grande de Hespanha, segundo uma affirmação de
    Varnhagem. N'esta mesma carta ao Condestavel de Portugal, allude o
    Marquez aos talentos poeticos de seu avô e cita varias das suas
    composições: _"E Pero Gonzales de Mendoza, meu avô, fez boas
    canções"_. Crêmos que por esta via é que o cancioneiro foi copiado
    para Castella, copiado dizemos nós porque se conforma com um grande
    cancioneiro já organisado, de que o de Roma é um apographo terciario.
    O Marquez de Santillana cita de memoria os principaes trovadores que
    vira transcriptos n'essa vasta collecção: "Havia outras (sc. canções)
    de _Joham Soares de Paiva_, o qual se diz que morrera em Galiza por
    amores de uma infanta de Portugal; e de outro _Ferrant Gonçalves de
    Senabria"_. Pela referencia a estes dois trovadores se vê qual o
    estado do cancioneiro manuscripto ou volume de Cantigas de D. Mecia de
    Cisneros. No apographo da Vaticana se acha uma canção de _João Soares
    de Paiva_, quasi no fim da collecção, (n°. 937) ao passo que no
    cancioneiro que pertenceu a Colocci e de que apenas resta o indice dos
    trovadores (cod. vat. n°. 3217) se acha logo sob o numero 23 o nome de
    _João Soares de Paiva_ com sete canções successivas. Em seguida a este
    trovador cita _Ferrant Gonçalves de Senabria_, porem no Codice de
    Colocci acha-se sob o numero 384 citado _Gonçalves de Seaura_ com dez
    canções a seguir. Isto concorda com a phrase do Marquez, referindo-se
    a essas canções: "Havia outras….." O motivo d'esta referencia
    especial seria por ter este trovador o apellido de _Gonçalves_, de seu
    avô, e por isso ainda pertencente á sua linhagem. No Codice da
    Vaticana agora publicado, acha-se um fragmento de canções de _Fernão
    Gonçalvis_, e só sob o numero 338 outra canção de _Fernão Gonçalves de
    Seavra_, a qual corresponde segundo Monaci ao numero 737 do Codice
    perdido de Colocci.

    Portanto, o Cancioneiro de D. Mecia de Cisneros era completo pelo que
    se deduz da citação d'estes dois trovadores, cujas obras se achavam
    antes da folha 42 do actual Codice Vaticano, na qual começa. No
    Cancioneiro de Colocci, em vez de _cento e vinte nove_ canções, el-rei
    Dom Diniz é representado com _setenta e outo;_ mas ainda assim era uma
    grande collecção para o Marquez poder dizer d'ella em relação ao
    volume das Cantigas _uma maior parte_. Em seguida a estas preciosas
    referencias cita tambem na sua carta _Vasco Peres de Camões_, poeta do
    Cancioneiro de Baena e contemporaneo de Pedro Gonçalves de Mendoza por
    cuja via seria conhecido em casa de Dona Mecia de Cisneros, e pelos
    eruditos que tinham o cuidado da educação do Marquez. Por ultimo,
    infere-se que o Codice de D. Mecia era uma copia castelhana, por que
    transcreve o nome de _Fernão_ em _Ferrant_, e o de _Seavra_ em
    _Senabria_, o que se não pode attribuir a vicio de ortographia do
    Marquez de Santillana. Estes topicos bastam para considerar a copia de
    D. Mecia mais proxima do texto autographo do que a da Vaticana.

    5. Cancioneiro de Angelo Colocci. (_Catalogo di Autori portoghesi
    compilato da Angelo Colocci sopra un antico Canzoniere oggi ignoto._
    Ms. 3217 da Bibl. Vat.)

    O illustre editor Ernesto Monaci ao estudar o manuscripto do
    Cancioneiro da Bibliotheca do Vaticano, n°. 4803, pelas referencias do
    texto e paginação de um outro codice ali intercalladas, reconheceu que
    deveriam ter existido duas fontes para este apographo. Nas suas
    investigações na opulenta Bibliotheca do Vaticano teve a felicidade de
    descobrir o Catalogo dos Trovadores portuguezes no manuscripto 3217, o
    qual combina na maior parte com o dos Trovadores do Cancioneiro n°.
    4803, sendo as emendas d'este ultimo codice da mesma letra do indice
    escripto pelo philologo Angelo Colocci, erudito italiano do seculo
    XVI. É certo que o Cancioneiro da Vaticana pertenceu primeiramente a
    Colocci antes de vir a ser propriedade da Bibliotheca vaticana;
    Colocci era um d'esses distinctos eruditos italianos do fim do seculo
    XV, que colligiram manuscriptos de todos os paizes e cuja opulencia se
    distinguia pela formação de ricas livrarias, taes como Leão X, Bembo,
    Orsini, e outros tantos. Colocci morreu em 1549, tendo a sua livraria
    soffrido bastante no saque de Roma pelo Condestavel de Bourbon em
    1527. Por tanto, entre estas duas datas é que se teria perdido esse
    grande cancioneiro, do qual apenas resta o _Catalogo dos Autores
    portuguezes_, e que a Bibliotheca do Vaticano adquirira o cancioneiro
    n°. 4803, apographo de um outro perdido, mas emendado pela mão de
    Colocci sobre o exemplar hoje representado unicamente pelo indice.

    Antes de examinar qual a riqueza da Livraria de Colocci em
    manuscriptos portuguezes, surge a questão mais difficil de resolver:
    Como vieram estes varios cancioneiros portuguezes para as Livrarias
    italianas?

    Sabe-se que os pontifices mais instruidos mandavam procurar em todos
    os paizes os mais preciosos manuscriptos; de Leão X escreve Ginguené:
    "Não poupava despezas nem rodeios junto das potencias estrangeiras
    para fazer procurar nos paizes mais remotos e até nos estados do norte
    _livros antigos ainda ineditos_."[4] O modo como estes rodeios eram
    efficazes, explica-se pela prohibição de certos livros e pela
    instituição da censura, que já no século XV se exercia em Hespanha e
    em Portugal, como vêmos pelo _Leal Conselheiro_ de El-rei D. Duarte.
    Os livros eram entregues á auctoridade ecclesiastica para serem
    examinados, e sob qualquer pretexto de escrupulo não eram mais
    restituidos. Basta vêr a quantidade de canções obscenas e irreligiosas
    que o Cancioneiro portuguez da Vaticana encerra para se conhecer como
    veiu a caír na mão da auctoridade ecclesiastica e como sob ordem
    superior esse _livro antigo ainda inedito_ foi remettido para Roma.
    Alem d'isto, a paixão pela Renascença da antiguidade, que começou no
    seculo XV, fez com que nos diversos paizes decaísse repentinamente o
    amor pelos seu monumentos nacionaes. D'esta falta de amor pelo proprio
    passado proveiu para Portugal a perda de muitos manuscriptos, como o
    da novella _Amadis de Gaula_, de muitos cancioneiros manuaes, como
    relata Faria e Sousa, pelo que dizia o Dr. João de Barros no principio
    do seculo XVI, que estas cousas se secavam nas nossas mãos. D'esta
    falta de estima pelos monumentos nacionaes, veiu o dispersarem-se
    pelas bibliothecas da Europa muitos thezouros da nossa litteratura,
    como se prova pela existencia da _Demanda do santo Greal_ na
    bibliotheca de Vienna, dos livros de Valentim Fernandes na bibliotheca
    de Munich, do _Leal Conselheiro_ de D. Duarte, _Chronica de Guivé_ de
    Azurara, e _Historia geral de Hespanha_ na bibliotheca de Paris, do
    _Roteiro_ de D. João de Castro no Museu britanico, e do _Cancioneiro
    do Conde de Marialva_, da _Satyra de infelice vida_ do Condestavel de
    Portugal em Madrid. A saida do grande Cancioneiro de Portugal pertence
    a esta forte corrente de dispersão. No fim do seculo XV alguns
    portuguezes eruditos se distinguiam na Europa pelas suas riquezas
    litterarias; em uma _Memória sobre as relações que existiam
    antigamente entre os flamengos de Flandres, especialmente os de Bruges
    e os Portuguezes_, cita-se: "João Vasques, natural de Portugal,
    mordomo de D. Isabel de Portugal, Duqueza de Borgonha:–Vasques
    possuía uma Bibliotheca, ou pelo menos diversos manuscriptos de
    valor."[5] Entre esses livros figuravam _Histoire de Troie la grant_,
    e alguns tinham as armas de Portugal na encadernação, como o velino
    _Horae beatae Mariae Virginis_. Tambem no seculo XV figuravam no
    estrangeiro os eruditos Diogo Affonso de Mangaancha, Vasco Fernandes
    de Lucena, Achilles Estaço, e outros muitos amadores bibliophilos.
    Cuidava-se em comprar livros impressos, por meio das Feitorias
    portuguezas, mas os manuscriptos sobre tudo os da litteratura medieval
    perdiam-se com a mais censuravel incuria. Sabe-se por uma carta de
    João Rodrigues de Sá dirigida a Damião de Goes, que el-rei D. Affonso
    V mandou vir de Italia Frei Justo, a quem fez bispo de Ceuta, com o
    fim de escrever em latim a historia dos antigos reis de Portugal, e
    que todos os documentos que lhe foram entregues se perderam na sua
    mão, por ter repentinamente fallecido da peste. É natural que estes
    subsidios historicos constassem tambem de varios cancioneiros, por que
    a poesia fôra um facto importante nas côrtes de D. Affonso III, D.
    Diniz e D. Affonso IV; alem d'isso o espolio d'este bispo italiano
    seria arrecadado pela auctoridade ecclesiastica e remettido para Roma.
    Por todos estes factos parece justificar-se a hypothese de existir na
    bibliotheca do Vaticano, antes do saque de Roma em 1527, um d'esses
    cancioneiros portuguezes, e que d'aí se dispersaram por essa causa: "A
    bibliotheca do Vaticano, tão liberalmente enriquecida por Leão X, foi
    saqueada; os livros mais preciosos foram preza de um furor ignorante e
    barbaro, como os da bibliotheca dos Medicis em Florença."[6] Pelo
    codice 4803, publicado por Monaci, se vê que este Cancioneiro foi
    copiado de um outro cancioneiro ja bastante truncado, como observou o
    critico editor pelas siglas antigas: _"Manca da fol. II infino a fol.
    43"_; e na pagina 10: _"Fol. 97 desunt multa"_; e pela ultima pagina,
    na qual se vê que ficou interrompida a copia.

    Alem d'esta deducção, tira-se uma outra, isto é, que o Codice 4803 foi
    comparado por Colocci com um outro mais rico e completo do qual só
    resta agora o _catalogo dos trovadores_. Os biographos de Colocci
    tambem consignam o facto de parte da sua opulenta bibliotheca ter sido
    destruida no saque de Roma, em 1527. Este philologo italiano possuia
    um decidido gosto pela poesia vulgar italiana, e conhecia a
    importancia do estudo das litteraturas novolatinas, como se vê pelo
    interesse com que procurava as Canções de Foulques de Marseille, e
    pela posse de varios codices com os titulos _Libro spagnolo di
    Romanze_, e _De varie Romanze volgare_, por ventura alguns d'elles
    provenientes da acquisição de manuscriptos das collecções de Bembo e
    de Orsini; seria algum d'estes livros o Cancioneiro da Vaticana, ou
    esse outro cancioneiro de que apenas resta o catalogo dos auctores.
    N'este catalogo precioso descoberto por Monaci, sob o numero 44–
    _Bonifaz de Jenoa_ segue-se esta referencia a manuscriptos de Bembo:
    _"vide bembo Ms. bonifazio Calvo de Genoa."_ E sob o numero 456–_il
    Rey don Affonso de Leon_, segue-se esta nota: _"bembo, dice di Ragona,
    figlio di Berenghieri."_ A variante do Codice de Bembo _di Ragona_
    seria _d'Aragone_ em vez de _Leon_, isto é, um dos codices parciaes d'
    onde se formou o grande cancioneiro parece fixar-se por esta
    circumstancia. Sob este mesmo numero segue-se: _"Alia lectio i
    Portugal, rey Don Sancho deponit."_ Quer esta observação de Colocci
    significar, que este rei D. Affonso em outro codice é citado como rey
    de Portugal, o que depoz D. Sancho, facto que caracterisa el-rei Dom
    Affonso III, que depoz seu irmão D. Sancho II. N'este caso este
    monarcha tambem fôra trovador, o Colocci possuia algum cancioneiro
    parcial. No mesmo Indice dos Trovadores, sob o numero 467 onde se
    continha as canções de El-rei Dom Affonso rei de Castella e de Leão,
    accrescenta-se: _"vide nel mio lemosino"_, no qual se attribuem as
    mesmas cantigas de preferencia ao rei de Leão, isto é, em harmonia com
    o titulo _di Ragona_, do numero 456. Em uma outra nota que o illustre
    Monaci achou no Codice n°. 4817, de letra d'este erudito, se acha a
    seguinte referencia a um codice portuguez: _"Messer Octaviano di
    messer barbarino, ha il_ libro di portoghesi, _quel da_ Ribera _l'ha
    lassato."_ Sabendo-se pela bibliographia, que o manuscripto da _Menina
    e Moça_ de Bernardim Ribeiro, foi na primeira metade do seculo XVI
    levado para a Italia, imprimindo-se em Ferrara em 1544, cinco annos
    antes da morte de Colocci, parece que a phrase _quel_ (libro) _da
    Ribera_ se refere a esta novella portugueza. Seria por este tempo que
    o cancioneiro portuguez se tornou conhecido em Roma, como dá noticia
    Duarte Nunes de Leão, nas palavras _"que em Roma se achou"_, mas sem
    dizer que já pertencia á Bibliotheca do Vaticano. A epoca em que este
    codice entrou n'esta rica bibliotheca pode fixar-se depois de anno de
    1600, por que os livros e manuscriptos de Colocci foram adquiridos
    pelo erudito Fulvio Orsini, que os deixou em testamento á Vaticana.[7]
    Esta é a opinião de Monaci; não concordamos porém com a sua
    interpretação do trecho de Duarte Nunes de Leão quando este escriptor
    portuguez diz: "segundo vimos por um cancioneiro seu, que em Roma se
    achou, em tempo de el-rei Dom João III…" deduzindo que Nunes de Leão
    chegara _a vêr_ esse cancioneiro; em primeiro logar, Nunes de Leão
    refere-se a um _Cancioneiro seu_, isto é unicamente de el-rei Dom
    Diniz, e não geral, como o de que resta noticia pelo Indice de Colocci
    e pelo apographo da Vaticana; isto já é uma prova da informação vaga
    do chronista, e alem d'isso a phrase _segundo vimos_, significa: como
    se prova, como se deduz. Nunes de Leão conhecia o codice das canções
    de D. Diniz que no principio de século XVII se guardava na Torre do
    Tombo, como elle diz: _"e per outro que está na Torre do Tombo…"_ ou
    talvez pelo que pertencia aos Freires de Christo, de Thomar. Vivendo
    no meado do seculo XVII, já o cancioneiro grande havia sido recebido
    na Bibliotheca do Vaticano e poderia ter noticia da existencia do
    Codice; porém o chronista refere-se principalmente a um _Cancioneiro
    de Dom Diniz_, e as referencias de Sá de Miranda, de Ferreira e de
    Camões são unicamente aos talentos poeticos de D. Diniz. Como chegou a
    Portugal noticia do apparecimento em Roma? Sá de Miranda demorou-se na
    sua viagem á Italia, entre 1521 e 1526, e conviveu com os principaes
    eruditos italianos, Lactancio Tolomei e João Ruscula, e dava-se tambem
    por parente da casa dos Colonas; é possível que, regressando a
    Portugal en 1526, quando havia já cinco annos que D. João III reinava,
    désse a noticia da descoberta de um cancioneiro em Roma, quando
    visitara as principaes livrarias; o facto dos poetas da eschola
    italiana alludirem ao talento poetico de D. Diniz, leva a induzir esta
    noticia como communicada pelo que trouxe a Portugal esse novo gosto
    litterario.

    Em 1527 foi o saque de Roma, e a livraria de Colocci tambem soffreu
    com essa devastação; por ventura algum dos cancioneiros acima citados
    se perdeu, ou foi talvez adquirido algum d'entre os livros roubados
    por esta occasião da Vaticana. É de presumir que o _Libro di
    Portoghesi_ fosse o Cancioneiro de que só resta o Indice, e sendo
    assim, perder-se-hia em poder de Messer Octaviano de messer Barbarino;
    se o libro _da Ribera_ é o manuscripto de Bernardim Ribeiro, impresso
    mais tarde em Ferrara, então pode fixar-se a perda do Cancioneiro
    n'esse mesmo anno em que morreu Colocci. O inventario dos seus livros,
    feito a 27 de Outobro de 1558, nove annos depois da sua morte,
    explica-nos como os livros que estavam emprestados ficaram perdidos.
    Pelo Indice d'este Cancioneiro, achado por Monaci, vê-se que elle
    constava de mil seiscentas e setenta e cinco canções, mais quatro
    centas e setenta, omissas no apographo da Vaticana, hoje publicado.

    6. Il Canzoniere portoghese della Bibliotheca Vaticana, n°. 4803.
    Messo a stampa de Ernesto Monaci. Halle, 1875.

    Desde 1847, que o brasileiro Lopes de Moura publicou em Paris um
    excerpto do grande Cancioneiro portuguez da Vaticana, contendo as
    canções de el-rei Dom Diniz. Como se veiu a conhecer a existencia
    d'este precioso codice em Roma? Desde o principio do seculo XVII que
    elle entrara na Bibliotheca do Vaticano pela doação dos livros de
    Fulvio Orsini; no seculo XVIII, segundo Varnhagem, era citado por um
    bibliophilo hespanhol junto com outros codices de poesias catalans e
    valencianas; o facto de existir com encadernação moderna e com a
    insignia papal de Pio VII (1800–1823) explica-se pela reparação e ao
    mesmo tempo pelo interesse que houve em conservar o cancioneiro
    formado de cadernos differentes e incompletos, e escriptos com tinta
    corrosiva que o pulverisa. Wolf, por intervenção do slavista Kopitar,
    mandou fazer as primeiras investigações no Vaticano para descobrir
    este codice de que tinha vago conhecimento pela vaga allusão de Nunes
    de Leão; foram infructuosas as tentativas; o visconde da Carreira,
    embaixador em Roma, avisado por um franciscano (por ventura o P.
    Roquete, como se sabe pelo prologo da edição de Moura) conseguiu a
    copia da parte publicada em Paris por Aillaud. Desde 1847 até hoje,
    nunca o governo portuguez, nem a Academia real das Sciencias
    comprehenderam o valor d'este monumento. A reproducção das nossas
    riquezas litterarias têm sido sempre feita por estrangeiros, e a
    publicação d'este importantissimo cancioneiro foi agora realisada por
    um rapaz desajudado de subsidios academicos, mas animado pelo amor da
    sciencia. A edição feita em Halle, appresenta todo o rigor
    diplomatico, de modo que os erros do copista italiano do seculo XVI
    podem restituir-se á leitura do portuguez do codice primitivo; apesar
    d'este subsidio, Monaci tentou com um seguro tino critico uma tabella
    dos principaes erros systematicos, e um indice das necessarias
    restituições que se podem fazer em cada canção; em fim, tudo quanto é
    preciso para a intelligencia do texto, existe ali. Monaci conservou a
    disposição do manuscripto na reproducção typographica, já a uma ou a
    duas columnas, com todos os vestigios das differentes numerações e
    siglas referentes a outros codices analogos e mais antigos. Pelo seu
    prologo, de uma precisão rigorosa, se vê toda a historia externa do
    Cancioneiro. O Codice da Vaticana está em papel de linho, com trez
    marcas de agua differentes, tal como se empregava nas edições do
    Varisco; a letra é italiana, tal como a dos documentos do fim do
    seculo XV e principio do seculo XVI, proveniente de dois copistas, um
    que escreveu as poesias, algumas rubricas e notas, outro a maior parte
    dos nomes, as numerações e algumas postillas, contando ao todo 210
    folhas. Da descripção d'este cancioneiro conclue-se, pelo estado em
    que se acha, que outro ou outros cancioneiros foram n'elle copiados ou
    confrontados. A primeira nota que se depara ao abril-o é: "_Manca da
    fol. IJ a fol. 43_;" isto quer dizer, que o cancioneiro foi copiado de
    um outro codice que já se achava assim fragmentado, mas que mais tarde
    foi confrontado com outro que estava completo, como veremos na relação
    com o Indice de Colocci.

    Ao começar o texto acha-se outra referencia: "_A fogli 90_" e segue-se
    a canção de Fernão Gonçalves, o que parece significar, que n'este
    cancioneiro existia outra disposição das poesias á qual se refere este
    numero, que continúa a cotar successivamente outras canções,
    entremeiando-se com numeros romanos, que parecem estabelecer
    referencia a outro cancioneiro. Separemos estas duas ordens de
    numeros, por onde deduzimos o confronto com dois cancioneiros; para se
    localisar melhor a referencia que era de folhas e verso, indicaremos a
    numeração actual das canções: Fol. 91 (canc. 8), 92 (canç. 11); _Fol.
    97 desunt multa_ (canç. 43 fine); junto da canção 61, vem a sigla
    _Desunt_; junto da 63 vem _car_. 106; junto da canção 299: _"Fol. 141
    Al vo"_ (del volumen?); junto da canção 507 vem: "173 _a tergo"_ e
    algumas canções com dois nomes de auctores, como _Martin Campina_ ou
    _Pero Meogo_, como forme a attribuição de um ou outro texto (canc.
    796.). Por fim termina com esta outra rubrica: _"A fol. 290 è
    cominciata una Rubrica e non è finita di copiare"_. Tudo isto prova,
    que se fez o confronto d'este apographo existente cum um codice mais
    completo, seguindo-se o confronto até á folha 300 d'esse codice
    perdido.

    O confronto do Codice por meio da numeração romana não prosegue até ao
    fim; apenas se acha LXXXVJ junto da canção 4; LXXXVIIJ junto da Canção
    14; LXXXVIIIJ junto da canção 26 _fine;_ XCVJ junto da canção 39 a 45;
    XCVIIJ coincide com a referencia anterior, junto da canção 49; XCVIIIJ
    á canção 55; CXII á 62; CXIIIJ á canção 70; CXVIJ á canção 77. Esta
    numeração romana adianta-se aqui mais do que a arabe, signal de que
    havia divergencia entre os dois codices que serviam para confrontação
    com o apographo publicado. É certo porem, que a numeração romana
    termina antes do corpo das canções de el-rei Dom Diniz, d'onde se
    poderá inferir, que até esta parte contribuiu um cancioneiro parcial,
    e que de Dom Diniz só entrava no que era numerado em algarismos. Que
    existiam diversos cancioneiros, pelas mesmas canções d'este codice se
    pode conhecer, como pela canção de D. Affonso de Castella (canç. 76)
    em que allude ao _Livro dos Sons_, que era um cancioneiro com que o
    Dayão de Cales seduzia as mulheres. Na sua edição Monaci deixou
    apontados em um indice fundamental todas as canções repetidas no
    cancioneiro, ou aquellas que mutuamente se plagiavam. Da sua
    comparação se podem tirar poderosas inducções, para se estabelecer
    quantos pequenos cancioneiros haviam servido para formarem o
    cancioneiro grande, do qual o apographo publicado é uma copia. É o que
    vamos tentar.

    _Pequenos Cancioneiros que entraram na formação do Cancioneiro da
    Vaticano_.–A canção 4, de _Sancho Sanches_, apparece repetida com
    mais duas estrophes e assignada por _Pero da Ponte_, sob o numero 569;
    a 2ª e 3ª strophes da versão de Pero da Ponte, faltam na canção de
    Sancho Sanches. As strophes communs têm as seguintes variantes:

    _Sazom foi já_, que me teve em desdem (n°. 4)
    _Tal sazom foi_, que me teve em desdem (nº. 569).

    _Que com'é mais j'agora_ seu amor (n°. 4)
    _Quando me mays forçava_ seu amor. (n°. 569).

    E ora _já_ que pes'a mha senhor (n°. 4)
    E ora _mal_ que pes'a mha senhor (n°. 569).

    Evidentemente estas duas canções foram colligidas de dois cancioneiros
    parciaes, e elles mesmos escriptos em grande parte de memoria.

    A canção 13, de Mem Rodrigues Tenoyro, têm apenas uma estrophe, mas
    repete-se sob o numero 319 com o nome do mesmo trovador e com mais
    duas estrophes que a completam. Deve attribuir-se essa divergencia ao
    ter sido colligida de dois cancioneiros, formado por diversos
    collecctores.

    A canção 29, assignada por João de Guilhade, repete-se sob o numero 38
    com o nome do trovador Stevam Froyam; existem entre ellas leves
    variantes, mas como estão immensamente deturpadas, só pelos dois
    textos se reconstruem. Por este facto se vê, que houve compilação de
    dois cancioneiros, e que o copista mal percebia a letra e fazia
    selecção das canções.

    A canção 116 e 174, do cancioneiro de Dom Diniz, são uma e mesma,
    havendo entre estes dois numeros _variantes_, e sobretudo a 2ª e 3ª
    estrophe alternadas. Não proviria isto dos originaes, escriptos por
    esmerados copistas, que se guardaram na Bibliotheca de el-rei Dom
    Duarte; este facto prova-nos, que o corpo das canções de Dom Diniz,
    que na collecção Vaticana occupa dos n.'os 80 até 208 proveiu de
    copias avulsas de differentes palacianos, e talvez do proprio Conde D.
    Pedro.

    A canção 241, do trovador Payo Soares, apparece com o numero 413
    repetida sob o nome de Affonso Eanes de Coton (Cordu); tem apenas uma
    rapida variante ortographica, mas tanto o facto da repetição, como o
    da attribuição a dois trovadores differentes accusam duas colleções
    parciaes.

    A canções 457 e 469 pertencem a Ayres Nunes Clerigo e são uma unica,
    com a differença que as trez strophes de que constam, tem os versos
    baralhados sem systema; o que se explica pelo caracter jogralesco,
    isto é, que foram duas vezes colligidas no tempo em que eram cantadas
    a caprixo de Ayres Nunes ou de qualquer outro jogral, que as sabia de
    cór; ou então, que provieram de dois cancioneiros onde as duas canções
    se differenciavam pela razão acima indicada.

    A sirvente 472 de Martim Moxa apparece sob o numero 1036, em nome de
    Lourenço, jograr de Sarria, com variantes fundamentaes, que provam
    compilação de dois cancioneiros diversos. O caracter sirventesco fez
    talvez que varios jograes regeitassem a paternidade d'essa canção que
    verbera os privados da côrte de D. Affonso III.

    O numero 613 e 639 são uma mesma canção de João Ayres, burguez de
    Santiago; abundam as variantes entre estas duas composições, signal de
    que provieram de duas copias resultantes da monomania dos cancioneiros
    particulares. E sob o nome d'este mesmo trovador andam as duas canções
    repetidas 634 e 138, tendo esta ultima alem das variantes mais uma
    estrophe e um Cabo.

    Em nome do jogral João Servando apparecem repetidas as canções 738 e
    749 com variantes fundamentaes entre si:

    Ora vou a Sam Servando,
    donas, fazer romaria,
    e nom me leixam com elas
    hir, cá logo alá hiria
    por que vem hy meu amigo. (738)

    Donas vam a Sam Servando
    muytas hoje em romaria,
    mais nom quiz oje mha madre
    que foss' eu hi este dia
    por que vem hy meu amigo. (749)

    As outras variantes nas demais strophes são menos reparaveis, mas no
    numero 738 ha uma strophe a mais. A pequena distancia a que ficam uma
    da outra estas canções, provam-nos que o copista italiano transcreveu
    materialmente uma compilação já formada; e por tanto tudo quanto se
    pode concluir sobre estas canções identicas liga-se á formação d'esse
    cancioneiro perdido d'onde se trasladou o codice da Vaticana.

    Dois casos especiaes se davam n'essa formação do antigo cancioneiro:
    1° ou as canções se attribuiam na repetição a dois trovadores
    differentes taes como Sancho Sanches e Pero da Ponte, João de Guilhade
    e Stevam Froyam, Pay Soares e Affonso Eanes do Cotom, Martim Moxa e
    Lourenco Jograr; 2° ou se repetiam em nome do mesmo trovador, como Mem
    Rodrigues Tenoyro, el-rei D. Diniz, Ayres Nunes Clerigo, João Ayres, e
    João Servando. Para o primeiro caso conclue-se que contribuiram para a
    formação do grande cancioneiro pequenos cancioneiros trasladados de
    cantares dispersos, por curiosidade, ou tambem apanhados na corrente
    oral, porque um só collector notaria os plagiatos. Para o segundo caso
    poderiam os jograes terem contribuido com os seus cadernos de cantos e
    assim com lições differentes de um mesmo texto que se alterava pelas
    continuadas repetições.

    De todo este confronto se conhece a necessidade de estabelecer por
    todos os meios possiveis ás relações entre este apographo da Vaticana
    e os dois cancioneiros de Colocci, perdido, e o da Ajuda.

    _Relações do Cancioneiro da Vaticana com o Cancioneiro de Angelo
    Colocci_.–Antes de Monaci haver descoberto no Ms. n°. 3217 o Indice
    do Cancioneiro perdido do erudito quinhentista italiano Angelo
    Colocci, ja elle determinara pela forma por que está escripto o
    Cancioneiro da Vaticana, que deveria ter existido um original mais
    antigo e mais completo. A descoberta do Indice veiu authenticar a
    existencia d'esse Cancioneiro perdido e explicar pela letra do proprio
    Colocci, quem é que tinha feito o confronto. O illustre Monaci
    comprehendeu logo quanto util seria para a critica o comparar a lista
    dos trovadores do Cancioneiro perdido com a dos trovadores do
    Cancioneiro existente (Appendice I, p. XIX a XXIV); por uma simples
    inspecção fica o leitor habilitado a conhecer as profundas relações
    entre os dois cancioneiros; o de Colocci continha mil seis centas e
    setenta e cinco canções, e o da Vaticana contem mil duzentas e cinco,
    isto é, quatrocentas e setenta canções a menos, por ventura as que
    occupavam até a _fol_. 90. O numero das canções de cada trovador pode
    tambem ser confrontado, porque no Codice de Colocci as canções de
    Colocci eram numeradas por algarismos e cada nome de trovador é
    precedido pelo numero que limita as canções do antecedente. Assim,
    como já acima vimos, as canções de D. Diniz são no Codice da Vaticana
    cincoenta e uma a mais do que no de Colocci. Apezar d'isso as notas
    _desunt multa_ provam-nos que o Cancioneiro de Colocci era muito mais
    rico, como se vê pelos nomes dos seguintes trovadores que faltam no da
    Vaticana:

    Diego Moniz, que tinha ali uma canção; Pero Paes Bazoco, com sete
    canções; João Velaz, Dom Juano; Pero Rodrigues de Palmeyra; Dom
    Rodrigo Dias dos Conveyros; Ayres Soares; Osorio Annes; Nuno Fernandes
    de Mira-Peixe; Fernam Figueiredo de Lemos; Dom Gil Sanches; Ruy Gomes
    o Freyre; João Soares Fomesso; Nuno Eanes Cerzeo; Pero Velho de
    Taveirós; Pay Soares de Taveirós; Fernam Garcia Esgaravunha, do qual
    existiam dezessete canções; João Coelho; Pero Montaldo; duas canções
    do trovador genovez Bonifacio Calvo; o Conde D. Gonçalo Garcia; Dom
    Garcia Mendes de Eixo; El rei Dom Affonso IV, filho de el-rei D.
    Diniz, com quatro canções. No Codice de Colocci, as canções de D.
    Diniz não estavam em um corpo isolado, apresentando mais quatro
    composições destacadas no fim do cancioneiro. Esta parte tambem é
    omissa no Cancioneiro da Vaticana, por que aí se encontram outra vez
    trovadores dos supracitados, como João Garcia, D. Fernam Garcia
    Esgaravunha, Pero Mastaldo, Gil Peres Conde, Dom Ruy Gomes de
    Briteiros, Fernam Soares de Quiñones, etc. Pelo confronto do Indice de
    Colocci se conhece, que embora se sigam ao texto do Cancioneiro da
    Vaticana quatorze folhas em branco, nem por isso ficou muito distante
    do fim, por que só deixaram de ser copiadas algumas sirventes de
    Julião Bolseyro. D' este confronto se conclue: 1°. que o codice d'onde
    se extraíu a copia da Vaticana differia no numero das canções e na sua
    disposição do de Colocci; 2º. que as relações mutuas accusam fontes
    communs, mas colleccionação arbitraria no agrupamento dos differentes
    cancioneiros parciaes.

    _Relações do Cancioneiro da Vaticana com o Cancioneiro da Ajuda_. —
    Lopes de Moura foi o primeiro que encontrou na collecção da Vaticana a
    canção de João Vasques, _Muyt'ando triste no meu coraçom_, que existe
    anonyma no Cancioneiro da Ajuda. Logo depois, Varnhagem achou mais
    quarenta e nove canções communs aos dois codices, e nós mesmo ainda
    viemos a encontrar mais seis canções repetidas. São ao todo cincoenta
    e seis canções communs, facto importante para estabelecer as relações,
    que existiram entre os dois cancioneiros. Em primeiro logar, o
    Cancioneiro da Vaticana foi já copiado de um codice truncado, como por
    exemplo: a canção 43 tem a rubrica final: _"Fol.97 desunt multa"_ e a
    canção seguinte está truncada no principio; porem estas canções de
    João Vasques completam-se pelo Cancioneiro da Ajuda, canção n°. 272 e
    273 (ed. _Trovas e Cantares_). Isto prova, que embora o Cancioneiro da
    Ajuda esteja truncado e por seu turno se complete com algumas canções
    do codice de Roma (_y_, das _Trovas_ == n°. 38, _Canc. da Vat._) ambos
    provieram de fontes differentes, porque tambem nas cincoenta e seis
    canções communs existem notaveis variantes:

    _Nostro senhor_, que lhe bom prez foi dar. (Vatic.)
    _Deus_ que lhe _mui_ bom _parecer_ foi dar. (Ajuda)

    N'esta variante o original do codice vaticano mostra-se mais archaico
    na linguagem. Na canção 46, de Fernão Velho (no codice da Ajuda, n°.
    92) no primeiro verso da 2ª strophe vem uma variante que denota erro
    do copista portuguez conservado inconscientemente pelo antigo copista
    italiano:

    E _mha_ senhor fremosa de bom _parecer_ (Vatic.)
    E _mia_ senhor fremosa de bom _prez._ (Ajud.)

    _Prez_ é uma contracção de _preço_, e d'aqui resultou que o copista
    portuguez traduziu inconscientemente; como organisado no paço, o
    Cancioneiro da Ajuda seria formado directamente da contribuição dos
    muitos trovadores que o frequentavam; o Cancioneiro de Roma era já
    derivado de um apographo secundario, truncado no principio, meio e
    fim, e em certos pontos mais archaico.

    Na canção 47 da Vaticana (93 da Ajuda) pertencente a Fernão Velho,
    vem:

    Quant' eu, _mha senhor, de vós_ receei… (Vatic.)
    Quant' eu _de vós, mia senhor_ receei (Ajud.)

    E vos dix'o _mui_ grand'amor que ei (Vatic.)
    E vos dix'o grande amor que _vós_ ei (Ajud.)

    A canção 48 da Vaticana, apesar das imperfeições da copia italiana,
    pode ser reconstruida pelo typo strophico, porem a nº. 94 da Ajuda
    ficou incompleta:

    _Lição da Ajuda: Lição da Vaticana:_

    E mal dia naci, senhor, E mal dia naci, senhor,
    Pois que m'eu d'u vós sodes, vou; pois que m'eu d'u vos sodes, vou;
    Ca mui bem sou sabedor ca mui bem som sabedor
    Que morrerei u nom jaz al; que morrerey hu nom ey al;
    Pois que m'eu d'u vós sodes, vou. poys que m'eu d'u vos sodes, vou,
    …………. pois que de vos ei a partir _por mal._

    …………. E logo hu m'eu de vós partir
    …………. morrerey se me deus nom val.

    A canção 53 da Vaticana (Ajuda, nº. 99), tem uma strophe mais
    imperfeita do que no codice da Ajuda; mas en compensação tem o _Cabo_,
    que falta no codice portuguez:

    _Ajuda: Vaticana:_

    Meus amigos, muito me praz…. Meus amigos muyto mi praz _d'amor._
    Cá bem pode partir da mayor Ca bem me pode partir da mayor
    Coita de quantas eu oy falar, coyta de quantas eu oy falar,
    De que eu fuy muyt'_y_ a soffredor; do que eu fuy muyt'ha sofredor
    Esto sabe deus, que me foy mostrar _e sabe deus hu a vi bem falar_
    Uma dona que eu vi bem falar e parecer, por meu mal, eu o sey.
    E parecer por meu mal, e o sei.
    …………. Ca poys m'elles nom querem emparar
    …………. e me no seu poder querem leixar,
    …………. nunca por outra emparado serey.

    A canção 395, de Payo Gomes Charrinho, repetida no cancioneiro da
    Ajuda, n°. 276, tambem revela duas fontes diversas:

    e nom lh'ousey mays _d'atanto_ dizer (Vatic.)
    e nom lh'ousey mais _d'aquesto_ dizer. (Ajud.)

    nem _er cuidey_ que tam bem parecia (Vatic.)
    nem _cuidava_ que tambem parecia (Ajud.)

    mays _quand'_eu vi o seu bom parecer (Vatic.)
    mais _u_ eu vi o seu bom parecer. (Ajud.)

    No codice da Vaticana tem esta canção apenas trez estrophes; porem no
    da Ajuda termina com uma quarta:

    E por esto bem consellaria
    quantos oyrem-no seu bem falar
    nom a vejam, e podem-se guardar
    melhor ca m'end'eu guardei, que morria,
    e dixe mal, mais fez-me deus aver
    tal ventura, quando a fui veer
    que nunca dix'o que dizer queria. (Ajuda)

    Evidentemente as alterações de linguagem não foram do copista
    italiano, porque, comparativamente, a expletiva _er_ é mais archaica;
    e por tanto a omissão da 4ª strophe não foi casual, mas resultante do
    estado d'outra fonte.

    A canção 400, da Vaticana, tambem de Payo Gomes Charrinho, tem leves
    variantes na canção 278 da Ajuda, mas importantissimas omissões; assim
    no Codice de Roma, falta na primeira strophe o verso:

    me quer matar e guaria melhor (Vat.)

    e tambem faltam duas strophes completas com o seu Cabo.

    A canção 428, ainda de Charrinho, tambem no Codice da Ajuda, n°. 285
    offerece leves variantes; porem no Codice da Vaticana alternam-se a
    segunda com a terceira strophe, e falta este Cabo da lição da Ajuda:

    E entend'eu cá me quer a tal bem
    em que nom perde, nem gaano en rem.

    A canções 485, 486 e 487 da Vaticana, do trovador Ruy Fernandes,
    acham-se nos pequenos fragmentos legiveis nas folhas do Cancioneiro da
    Ajuda, que serviram de guardas á encadernação do Nobiliario; esses
    fragmentos, seguindo a edição do Varnhagem são _m, n, o_; ainda assim
    se conhece por elles que existiam divergencias entre os dois codices:

    _Ajuda, (m):_ _Vaticana_, n°. 485:
    A _guisa_ de vos elevar a _forza_ de vos elevar
    Por mia morte nom _aver_. por mha morte nom _aduzer_.

    _Ibid., (n):_ _Ibid._, n°. 486:
    _Amigos_, começa o meu mal. _Ora_ começa o meu mal.

    As canções de Fernão Padrom, n'os. 563, 564, 565, a que achámos as
    analogas nos numeros 126, 127 e 128 do codice da Ajuda, tambem
    apresentam variantes.

    As canções n°. 566, 567, 568, 569 e 570, que andam em nome de Pero da
    Ponte no codice da Vaticana e apparecem anonymas no Cancioneiro da
    Ajuda, n'os. 112, 113, 114, 115 e 116 não appresentam mais variantes
    que a simples modificação ortographica em _mha_ e _mia_, que poderia
    provir das differentes epocas das copias. Esta conformidade entre o
    texto da Vaticana e o da Ajuda, leva-nos a concluir que pequenos
    cancioneiros entraram na coordenação de um grande cancioneiro, e que
    as canções mais conformes são aquellas que andaram em menor numero de
    copias antes de se agruparem na collecção geral.

    Já com relação ás Canções de Vasco Rodrigues de Calvelo, apparecem
    variantes e deturpações que não provêm do copista do seculo XVI, mas
    de codices diversos ja corruptos; a canção 580 comparada com a 265 da
    Ajuda tem uma lição menos pura, incompleta, mas differente:

    _Lição da Ajuda: Lição da Vaticana:_
    Per uma dona que quero gram bem ….. que quero gram bem.

    Com'a mim _fez_; ca des _que eu_ naci Como a mim _faz_; que des _quando_ naci
    nunca vi ome _en_ tal coita _viver_ nunca vi ome tal coita _sofrer_
    como eu _vivo_ por melhor bem querer como eu _sofro_ por melhor bem querer

    Com'_a mim fez muy_ coitado d'amor Com'el _faz mim muy_ coitado d'amor.

    A lição da Ajuda termina com este Cabo, que falta no codice da
    Vaticana:

    Com'a mim fez, e nunca me quiz dar
    Bem d'essa dona, que me fez amar.

    A canção 581, tambem de Vasco Rodrigues de Calvelo, sob a designação
    _e_ da lição da Ajuda (ed. _Trov. e Cant._) alem das mutuas variantes,
    tem a 2ª e 3ª a strophes alternadas:

    E se _soubess'_em qual coyta d'amor (Vatic.)
    Se _lh'eu dissess'_em qual coita d'amor (Ajud.)

    per nulha guisa, _pero m'_ey _sabor_ (Vatic.)
    Per nulha guisa, _ca_ ey _gram pavor._ (Ajud.)

    De mais no Codice de Roma falta este Cabo:

    Mais de tod'esto nora lhi dig'eu rem,
    Nem lh'o direy, cá lhe pesará bem.

    Na Canção 582, do mesmo trovador, ha esta divergencia:

    E rogo _sempre_ por mha morte a deus (Vatic.)
    Et rogo _muito_ por mia morte a deus (Ajud.)

    Na Canção 584, tambem de Calvelos, falta esta terceira estrophe, que
    vem no codice da Ajuda:

    Como vós quiserdes será
    De me fazerdes mal e bem
    E pois é tod'em vosso sen
    Fazed'o que quizerdes já…

    A canção 677, de Pero de Armêa, acha-se imitada no codice da Ajuda,
    nº. 56, por forma que a da Vaticana apresenta um caracter de maior
    vulgarisação, e por isso de proveniencia jogralesca:

    _Lição da Ajuda:_ _Lição da Vaticana:_

    Muitos me veem preguntar, Muytos me veem preguntar,
    mia senhor, a quem quero bem; senhor, que lhes diga eu quem
    e nom lhes queró end'eu falar est a dona que eu quero bem
    com medo de vos pesar en, e com pavor de vos pesar
    nem quer'a verdade dizer, nom lhis ouso dizer per rem,
    mais jur'e faço lhes creer senhor, que vos quero bem.
    mentira, por vos lhe negar.

    Duas canções de Pedro Solás, confrontadas com as do codice da Ajuda,
    acabam de separar definitivamente estes dois cancioneiros:

    _Lição da Ajuda_ (nº. 123): _Lição da Vaticana_ (nº. 824):

    Nom est a de Nogueira _E_ nom est a de Nogueira
    A freira, que _mi poder tem;_ a freira que _eu quero bem,_
    Mays _est_ outra _a_ fremosa mays outra mais fremosa
    A que me _quer'eu mayor bem;_ _e_ a que _mim em poder tem;_
    E moyro-m'eu pola freira e moir-m'eu pola freira
    Mais nom pola de Nogueira. mais nom pola de Nogueira.
    ………………………………………………………….

    Se eu a _freira visse o dia _E_ se eu _aquella freyra
    O dia que eu quizesse_ hum dia veer podesse_
    Nom ha coita no mundo nom ha coita no mundo
    Nem _mingua_ que houvesse nem _pesar_ que _eu_ ouvesse
    E moiro-me … e moyro-me …

    _Se m' ela mi amasse _E seu aquella freyra
    Muy gram dereito faria, veer podess'um dia
    Cá lher quer'eu mui gram bem nenhuã coita do mundo
    E punh'y mais cada dia;_ nem pesar nom averia_
    E moiro-me … e moyro-me …

    Estas duas variantes são elaborações differentes do mesmo trovador em
    epocas diversas, e por tanto os dois cancioneiros provêm
    effectivamente de duas fontes. A canção 825 da Vaticana, que se acha
    sob o numero 124 do Codice da Ajuda, apenas tem a terceira e quarta
    estrophes alternadas. O ultimo paradigma entre estes dois
    cancioneiros, apresenta uma composição (1061 da Vaticana, 253 da
    Ajuda) que pertence a João de Gaya, escudeiro da côrte de D. Affonso
    IV, por onde se fixa não só a epoca da colleccionação do codice de
    Lisboa, mas em que a fonte do Codice de Roma nos apparece mais
    completa:

    _Lição da Ajuda:_ _Lição da Vaticana:_

    Conselho, e quer-_se_ matar Conselho e quer-me matar.
    E assi me tormenta amor
    de tal coyta, que nunca par
    ouv'outr'ome, a meu cuydar,
    assy morrerey pecador,
    e, senhor, muyto me praz en
    que prazer tomades por en
    non no dev'eu arrecear.

    E bem o _podedes fazer_ E bem o _devedes saber_, etc.

    Por todos estes factos se vê, que umas vezes o Codice de Roma é omisso
    com relação ao de Lisboa, o que se poderia impensadamente attribuir a
    incuria do copista; esta hypothese não pode ter logar, porque o
    Cancioneiro da Ajuda por muitissimas vezes apresenta eguaes omissões.
    Por tanto essas cincoenta e seis canções communs aos dois codices,
    entraram n'essas respectivas collecções provindo de codices parciaes e
    de differente epoca.

    _Relações do Cancioneiro da Vaticana com o apographo actualmente
    possuido por um Grande de Hespanha_. — No _Cancioneirinho de Trovas
    antigas_, Varnhagem dá noticia no prologo, de ter encontrado em 1857
    na Livraria de um fidalgo hespanhol um antigo cancioneiro portuguez,
    que, pela canções de el-rei D. Diniz que elle continha, lhe suscitou o
    procurar as analogias que teria com o Cancioneiro da Vaticana n°.
    4803; tirou copia do citado Cancioneiro, e em 1858 procedeu em Roma ao
    confronto do codice madrileno com o da Vaticana. Começavam ambas as
    copias com a trova de _Fernão Gonçalves_, seguindo-se-lhe as duas
    canções de _Pero Barroso;_ ambos os codices combinam nos mesmos nomes
    de trovadores, na ordem das canções, e em geral nos erros dos
    copistas. Poder-se-ha concluir que estes dois apographos se derivam
    ambos do mesmo original? Não; apezar de Varnhagem não ser mais
    explicito na descripção do codice madrileno e guardar no mysterio o
    nome do possuidor, comtudo pelas cincoenta composições do
    _Cancioneirinho_ se descobrem profundas _variantes_, que se não podem
    attribuir a erro de leitura, ainda assim tão frequente em Varnhagem.

    Copiamos aqui essas variantes, para que se conclua pela existencia de
    um outro codice mais antigo, tambem perdido. Na canção II, a strophe
    3ª _(Cancioneirinho)_ acha-se assim:

    Os cavalleiros e cidadãos
    d'aqueste rey aviam dizer
    e se deviam com sas mãos poer
    outrosi donas e escudeiros
    que perderam a tam bem senhor
    de quem poss'eu dizer, sem pavor,
    que não ficou dal nos christãos.

    Pelo codice de Roma vê-se a strophe construida da outro modo:

    Os cavalleiros e cidadãos
    que d' este rey aviam dinheiros
    e outrosi donas e escudeiros,
    matar se deviam por sas mãos … (Canç. n°. 708.)

    Na canção VI, a strophe segunda e terceira _(Cancioneirinho)_ estão
    incompletas e interpolladas d'esta forma:

    _Cancioneirinho:_ _Codice da Vaticana:_

    E as aves que voavam E as aves que voavam
    Quando sayam canções quando saya _l'alvor_
    Todas d'amor cantavam todas de amor cantavam
    Pelos ramos d'arredor; pelos ramos d'arredor;

    Mais eu sei tal que escrevesse mais nom sei tal que _i estevesse_
    Que em al cuidar podesse que em al cuidar podesse
    Se nom todo em amor. se nom todo em amor.

    Em pero dix'a gram medo: _Aly stive eu muy quedo
    quis falar e nom ousey_
    em pero dix'a gram medo:
    — Mha senhor, falar-vos-ey — Mha senhor, falar-vos-ey
    Hum pouco, se m' ascuitardes um pouco, se m'ascuitardes
    Mais aqui nom estarey. _e ir-m'ey quando mandardes_
    mais aqui nom estarei.

    (Canc. nº. 554.)

    Pela lição da Vaticana, onde se vêem as duas strophes completas se
    infere que o defeito no _Cancioneirinho_ provem de um texto imperfeito
    e differente, porventura tirado do apographo hespanhol.

    Na canção XV _(Cancioneirinho)_ vem uma strophe imperfeita, porque é
    formada com duas, que lhe alteram o typo:

    _Cancioneirinho:_ _Codice da Vaticana:_

    E foi-las aguardar E fui-las aguardar
    E nom a pude ver; e nom o pude achar
    e moiro-me d'amor. e moiro-me d'amor!
    E fui-las atender,
    e nom no pude veer
    E moiro-me d'amor.

    A canção XVII do _Cancioneirinho_ tem só trez strophes; na lição do
    Codice da Vaticana, ha mais esta:

    Estas doas mui belas
    el m'as deu, ay donzelas,
    nom vol-as negarey;
    mas cintas das fivelas
    eu nom as cingirei.

    Com certeza esta deficiencia proveiu do apographo madrileno. Na canção
    XXI, a strophe 4ª está interpollada, e segundo a lição da Vaticana é
    que se conhece a proveniencia de outro codice:

    _Cancioneirinho:_ _Codice da Vaticana:_

    Cá novas me disserom Ca novas me disserom
    Que vem o meu amigo ca vem o meu amado
    C'and'eu mui leda. e and' eu mui leda,
    poys migu'é tal mandado;
    _E cuido sempre no meu coraçom poys migu'é tal mandado
    Pois nom cuid'al, des que vos vi, que vem o meu amado.
    Se nom en meu amigo,
    E d'amor sei que nulh'ome tem,_
    Pois migo é, tal _mandades;_
    Que vem o meu amado.

    Os versos sublinhados do _Cancioneirinho_, são visivelmente d'outra
    canção, porque tem outro typo strophico, e essa interpolação não se
    pode attribuir a erro de leitura de Varnhagem.

    Na canção XXV, ha uma 4ª strophe, que é repetição da 1ª; na lição da
    Vaticana não existe esta forma; evidentemente o editor do
    _Cancioneirinho_ seguiu aqui o codice madrileno.

    Na canção XLV falta esta strophe, que pela lição do texto da Vaticana
    se vê que é a segunda:

    Nom ja em al d'esto som sabedor
    de m'algum tempo quizera leixar
    e leix'e juro nom a ir matar
    mays poys la matam, serey sofredor
    sempre de coyt'em quant'eu viver,
    cá sol y cuido no seu parecer
    ey muyto mais d'outra rem desejar.

    Na canção XLVI, falta esta 4ª strophe da lição da Vaticana:

    Por en na sazom em que m'eu queixey
    a deus, hu perdi quanto desejei
    oy mais poss'en coraçom deus loar;
    e por que me poz em tal cobro que ey
    por senhor a melhor de quantas sey
    eu, que poz tanto bem que nom ha par.

    A canção XLVIII encerra a prova definitiva de que o codice madrileno
    serviu de base da edição do _Cancioneirinho_, e que esse codice
    proveiu de uma fonte diversa do da Vaticana; aí se acham essas duas
    strophes, que faltam no codice de Roma:

    O que se foi comendo dos murtinhos
    E a sa terra foi bever os vinhos,
    Nom vem al Maio.

    O que da guerra se foi com espanto
    E a sa terra se foi armar manto
    Nom vem al Maio.

    Por outro lado no codice madrileno tambem faltam cinco strophes, por
    que são omissas no _Cancioneirinho:_

    O que da guerra se foi com'emigo
    pero nom veo quand'a preyto sigo
    nom vem al Maio.

    O que tragia o pendou a _aquilom_
    e vendid'é sempr'a traiçom
    nom vem al Maio.

    O que tragia o pendou sen oyto,
    e a sa gente nom dava pam coyto,
    nom vem al Maio.

    E no final da canção:

    O que tragia pendom de cadarço
    macar nom veo no mez de Março,
    nom vem al Maio.

    O que da guerra foy por recaùdo
    macar em Burgos fez pintar escudo,
    nom vem al Maio.

    Indubitavelmente o codice madrileno provém de uma outra fonte, por que
    tem omissões e accrescentamentos, que o differenciam do Codice da
    Vaticana; mas a ordem das canções e os nomes dos trovadores, communs
    aos dois, provam-nos que ambos foram copiados de cancioneiros já
    organisados dos quaes um era já apographo. A circumstancia de
    começarem ambos pela trova de _Fernão Gonçalves_, e de se lêr no
    codice do Roma a nota: _"Manca da fol. ij in fino a fol. 43"_
    provam-nos que o original primitivo já andava truncado e é isto o que
    dá a mais alta importancia ao Indice de Colocci do Cancioneiro perdido
    que era a cópia mais antiga, por que o monumento diplomatico estava
    ainda completo. Monaci não desconheceu o valor das variantes do
    _Cancioneirinho_.

    Depois de toda esta discussão sobre os diminutos vestigios que restam
    de alguns cancioneiros portuguezes dos seculos XIII e XIV, a
    aproximação de numerosos factos secundarios, e as inducções que se
    formam sobre elles, exigem uma recapitulação clara para que se possam
    tirar a limpo algumas conclusões geraes. Representamos os cancioneiros
    que são conhecidos por letras maiusculas, e aquelles cuja existencia
    se pode inferir pelas variantes são notados por letras minusculas; com
    estes signaes formaremos uma tentativa de filiação de todos esses
    cancioneiros em um schema, que poderá, ser modificado á medida que se
    descobrirem novos subsidios:

    A.] _O Livro das Cantigas do Conde de Barcellos_,–citado no seu
    testamento, e deixado a Affonso XI, tambem trovador. Tendo em vista o
    genio compilador do Conde e o andar ligado ao seu Nobiliario o Codice
    da Ajuda, cancioneiro de varios auctores, pode-se inferir que o _Livro
    das Cantigas_ não era exclusivamente do Conde, mas sim uma compilação
    sua. No Cancioneiro da Vaticana encontram-se canções do Conde, de
    Affonso XI e grupos de canções do Codice da Ajuda em numero de
    cincoenta e seis assignadas por fidalgos da côrte de D. Diniz.

    B.] _O Cancioneiro de D. Diniz (Livro das Trovas de Elrei Dom Diniz;_
    existiu separado em volume pelo que se sabe pelo Catalogo dos Livros
    de Uso de el-rei Dom Duarte. Foi encorporado no codice da Vaticana
    depois da canção 79. B¹.] Outro, dos Freires de Christo de Thomar.

    C.] _O Cancioneiro da Ajuda_, começa em folhas 41, a parte anterior
    está perdida e o final não chegou a ser terminado. Isto explica as
    pequenas relações com o Codice de Roma.–As 24 canções achadas na
    Bibliotheca de Evora e as guardas da encadernação do Nobiliario provam
    o muito que se perdeu d'este cancioneiro. Não se chegou a escrever a
    musica das canções, nem a inscrever-lhes os nomes dos auctores que as
    assignavam, e por isso conclue-se que não chegou a servir para a
    collecção de Roma, que é assignada. Não chegaram a entrar n'elle
    canções de el-rei D. Diniz, e portanto entre este e o Cancioneiro de
    Roma pode fixar-se a existencia de outro cancioneiro hoje
    desconhecido.

    D.] _O Cancioneiro de D. Mecia de Cisneros_, grande volume de cantigas
    visto pelo Marquez de Santillana, que o descreve; já continha o
    cancioneiro de D. Diniz, e os trovadores do Codice de Roma citados
    pelo Marquez. Seria a primeira compilação geral, feita mesmo em
    Hespanha?

    E.] _O apographo de Colocci_, perdido talvez pela occasião do saque de
    Roma em 1527, e do qual só se conserva o Indice dos Autores. Tinha
    intimas relações com o codice de D. Mecia. No principio apresentava
    varios _lais_ no gosto bretão e pelos _Nobiliarios_, vemos que o Conde
    Dom Pedro se refere ás tradições bretãs, e tambem el-rei Dom Diniz.
    Seria esta parte assimilada do _Livro das Cantigas_ do Conde de
    Barcellos?

    F.] _Cancioneiro da Vaticana, nº_. 4803; este é menos completo do que
    o antecedente, o que prova que foi copiado de outra fonte. Colocci por
    sua letra o emendou pelo codice hoje perdido. Tem este cancioneiro 56
    canções similhantes no Cancioneiro da Ajuda, com variantes notaveis,
    signal que ambos os Codices se derivam de duas fontes diversas. Tem
    uma parte relativa a successos da côrte de Dom Affonso IV, que provem
    de cancioneiros extranhos e posteriores ao Cancioneiro da Ajuda. A
    ordem dos trovadores não é a mesma do Indice de Colocci.

    G.] _Copia ms. de um Grande de Hespanha_.–Em cincoenta canções
    reproduzidas por Varnhagem acham-se variantes fundamentaes com
    relações á lição do codice de Roma, signal de que a copia alludida
    provém de uma fonte extranha e de epoca differente.

    Os cancioneiros desconhecidos, mas intermediarios aos supracitados são
    hypotheticamente:

    a, b.] Cancioneiros anteriores ás collecções da côrte de D. Diniz, com
    que se formou e, d'onde se trasladou o Cancioneiro da Ajuda, como se
    justifica pelas variantes dos 56 canções reproduzidas no de Roma.

    c.] Cancioneiro perdido, d'onde se não chegou a copiar nem a musica
    das canções nem o nome dos trovadores para o Cancioneiro da Ajuda.

    d.] Cancioneiro onde se encorporaram o _Livro das Cantigas_ e
    _Cancioneiro de D. Diniz_, o que justifica as differenças entre o
    Codice de Dona Mecia e o de Colocci.

    e.] Cancioneiro perdido, cuja existencia se induz das variantes entre
    o Cancioneiro da Vaticana, o de Colocci e o do grande de Hespanha.

    Eis por tanto a nossa tentativa de schema de filiação dos cancioneiros
    portuguezes dos seculos XIII e XIV:

    a b
    ——-/
    c
    C ABB¹
    ———/
    D d
    /———
    E e
    -/
    G F

    É provavel que esta connexão ache contradictores, porém aí ficam todos
    os elementos que pudemos agrupar, para que outros estabeleçam uma
    filiação mais verosímil. Só depois de estudada a historia externa do
    Cancioneiro da Vaticana é que se pode entrar com desassombro no
    desenho da grande epoca litteraria que elle representa. Bem o
    desejaramos fazel-o diante dos que estudam as producções do fim da
    edade media, para reconstruirmos de novo o livro dos _Trovadores
    galecio-portugueses_, escripto antes da posse de tamanhas riquezas. Á
    medida que em Portugal fôr renascendo o amor pela tradição nacional, o
    nome de Ernesto Monaci figurará como de um benemerito, que restituiu a
    este paiz um dos mais bellos monumentos do seu passado historico.

    [1] Fernão Lopes, _Chron. de D. Pedro_ I, cap. 31.
    [2] _Leges Wallice,_ p. 779, 861.
    [3] _Obras del Marquez de Santillana,_ p. XX.
    [4] _Hist. litter. de l'Italie,_ t.IV, p.17.
    [5] _Op. cit_, p.8.
    [6] _Ginguené, Hist. litt_, t. IV, p. 41.
    [7] _Tiraboschi, Storia della Letteratura italiana_, t. VII, 246.

  • Noções elementares de archeologia

    Noções elementares de archeologia

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    NOÇÕES ELEMENTARES

    DE

    ARCHEOLOGIA

    OBRA ILLUSTRADA COM 324 GRAVURAS

    E

    UMA INTRODUCÇÃO

    Do Sr.

    I. DE VILHENA BARBOSA

    Socio Effectivo da Academia Real das Sciencias

    DEDICADA Á MEMORIA DO ILLUSTRE ARCHEOLOGO

    MR. A. DE CAUMONT

    por

    JOAQUIM POSSIDONIO NARCISO DA SILVA

    Architecto da Casa Real, Socio correspondente do Instituto de França,
    Honorario do Instituto Real dos Architectos Britannicos, da Sociedade
    Franceza de Archeologia, da Sociedade Central dos Architectos de Paris,
    correspondente da Academia Real de S. Fernando, fundador do Museu de
    Archeologia em Lisboa, etc. etc. etc.

    MEDALHA DO CONGRESSO ARCHEOLOGICO DE LOCHES
    CONFERIDA NA SUA SESSÃO DE JUNHO DE 1869

    LISBOA

    LALLEMANT FRÈRES

    6, Rua do Thesouro Velho, 6

    1878

    A SUA ALTEZA REAL

    O SERENISSIMO PRINCIPE

    *D. Carlos Fernando Pedro d'Alcantara*

    DUQUE DE BRAGANÇA

    *Com a mais respeitosa homenagem*

    O. D. C.

    *O humilde auctor d'este compendio*

    JOAQUIM POSSIDONIO NARCISO DA SILVA.

    INTRODUCÇÃO

    I

    Não conheceram os povos da antiguidade a archeologia, pelo menos como
    uma sciencia. Foi ignorada dos proprios gregos e romanos, não obstante a
    sua brilhante civilisacão, e apezar dos primeiros lhe terem creado o
    nome, composto de dois vocabulos seus: _archaios_, que quer dizer
    antigo, e _logos_ discurso. E tanto a desconheciam, confundindo-a com a
    historia, que alguns escriptores gregos e israelitas do principio da era
    christã, deram o nome de archeologia a obras que tratavam simplesmente
    da historia de povos, embora desde tempos remotos, ou que se occupavam
    de antiguidades, mas limitando-se a descreverem os monumentos, sem
    entrarem nas apreciações e conjecturas, que levam o archeologo ao
    conhecimento do viver dos povos da antiguidade.

    Os generaes romanos, quando voltavam d'essas emprezas guerreiras que
    accrescentavam ao imperio novas provincias, traziam mil objectos
    preciosos, variadissimas manifestações da arte e da industria dos
    vencidos, curiosos utensilios e ricos ornamentos em marmore, bronze,
    prata e oiro, obra de diversos povos, e differentes seculos. Pois os
    romanos applaudiam e apreciavam essas preciosidades, que vinham
    enriquecer a sua capital, constituindo-a um verdadeiro museu
    archeologico, apreciavam-n'as, repito, sómente como despojos arrebatados
    aos vencidos pelas suas aguias triumphantes, como tropheus de victorias,
    que glorificavam o seu nome, e estendiam o seu poderio.

    Nem os vasos sagrados do templo de Jerusalem, preciosos pela materia e
    ricos de tradições antiquissimas; nem os obeliscos do Egypto, padrões de
    tão remotas eras; nem as famosas estatuas da Grecia, sublimes creacões
    do genio humano em uma das quadras mais notaveis da historia geral da
    civilisacão; nem estes, nem outros objectos archeologicos e primores
    d'arte, que eram transportados a Roma a todo o momento, nos tempos da
    sua grandeza, faziam meditar os romanos sobre as extinctas civilisações,
    que muitos d'esses objectos recordavam, com o intuito de devassarem os
    mysterios da vida d'essas nações, sumidas nos abysmos do passado.

    Pausanias, geographo e historiador grego que, nas suas longas viagens,
    visitou a maior parte do mundo então conhecido, vindo depois estabelecer
    a sua residencia em Roma, no anno 170 do nascimento de Christo, escreveu
    a _Descripção da Grecia_, na qual trata com minuciosidade de todos os
    seus monumentos. Porém limita-se a descrevel-os como historiographo, sem
    os estudar e apreciar como archeologo.

    Baqueou o imperio romano ao duro embate dos barbaros do norte; e o mesmo
    tufão, que o varreu da face da terra, apagou aquelle facho
    resplandecente, que irradiava a luz da civilisacão para todas as regiões
    do orbe antigo, onde chegavam as armas da soberba Roma.

    Succederam-se, portanto, a tamanho explendor as mais crassas trevas da
    ignorancia e da barbaridade, em que a Europa esteve mergulhada durante
    seculos, até que emfim raiou a aurora da regeneração social, renascendo
    as letras e as artes. Foi então que surgiram os primeiros ensaios da
    archeologia. Dante e Petrarca, os illustres iniciadores da litteratura
    moderna, foram tambem os creadores da sciencia archeologica, precedendo
    a todos os sabios na investigação dos manuscriptos antigos, no
    descobrimento e decifração de velhas inscripções, e no estudo das
    moedas, em que o segundo se occupou.

    Não tardaram a ter imitadores que procurassem desvendar, sob o pó dos
    seculos, os mysterios da historia. A descoberta de algumas pinturas
    antigas, em excavações casuaes, quando os espiritos já começavam a
    raciocinar sobre a theoria da arte, e quando já se principiava a
    apreciar os monumentos da antiguidade como annaes do viver das gerações
    passadas, foi um novo incentivo para os estudiosos, e um raio de luz nos
    escurissimos caminhos da nova sciencia.

    Uma coincidencia feliz veio dar maior impulso e mais auctoridade aos
    estudos archeologicos.

    Miguel Angelo Buounarotti e Raphael Sanzio d'Urbino assombravam Roma e a
    Europa culta com os explendores do seu talento na pintura, na esculptura
    e na architectura, quando Felix de Fredi descobriu n'aquella cidade, em
    1506, entre as ruinas das Thermas de Tito, o famoso grupo de Laocoonte e
    seus dois filhos envolvidos pelas serpentes. Enlevados n'este grande
    primor da esculptura antiga, aquelles dois eximios artistas procuraram
    com desvelada applicacão descobrir o nome do auctor d'esta maravilha da
    arte, e a era em que foi executada. Caminhando de investigação em
    investigação visitaram e estudaram attentamente as grandes ruinas da
    architectura grega e romana, os restos preciosos da sua admiravel
    esculptura e as inscripções lapidares.

    Estes estudos foram tão applaudidos, e tão reconhecidas as suas
    vantagens, que não tardou a fundar-se em Florença, sob o governo dos
    Médicis, a primeira escola publica d'antiguidades.

    Tal foi o começo da archeologia.

    II

    O exemplo de Miguel Angelo e de Raphael, teve imitadores pouco depois em
    França, Allemanha, e outras nações, onde alguns homens estudiosos, não
    cultores das artes, mas apreciadores das suas obras, se occuparam de
    investigações archeologicas, posto que em geral restrictas á numismatica
    e á epigraphia.

    Este segundo periodo da nova sciencia, que é denominado dos
    _antiquarios_, abrange os fins do seculo XVI, todo o XVII e a primeira
    metade do XVIII.

    Portugal não foi indifferente a este progresso. Poderia dizer que n'este
    passo, como em muitos outros, se antecipou ás mais nações, pois que no
    principio da segunda metade do século XV, D. Affonso, marquez de
    Valença, filho primogenito de D. Affonso I, duque de Bragança, indo
    acompanhar a Italia e Allemanha a imperatriz D. Leonor, filha d'el-rei
    D. Duarte, e esposa do imperador d'Allemanha Frederico III, comprou e
    reuniu durante a sua longa viagem muitos objectos d'antiguidade e de
    historia natural, com os quaes, na sua volta á patria, organisou um
    museu, que seu pae augmentou com varios cippos, lapidas e fragmentos
    d'archeologia romana, descobertos no Alemtejo. Foi este o primeiro
    museu, que se creou n'este reino, e creio que precedeu a todos os que se
    crearam na Europa.

    Todavia, apezar d'este estimulo, o estudo d'antiguidades só teve
    principio entre nós passado um seculo; e foi de fóra que então nos veio
    o incentivo.

    Graças ás intimas relações do nosso paiz com as principaes potencias
    maritimas da Europa, desde a entrada do seculo XVI, estabelecidas pelos
    descobrimentos e conquistas dos portuguezes, que fizeram de Lisboa o
    emporio das mercadorias do Oriente, o movimento scientifico, que lavrava
    n'aquellas nações, não se demorava muito em se fazer sentir entre nós.
    Porém no caso de que trato abreviou esse periodo, sem duvida, a viagem
    de um nosso compatriota, que alcançou nas letras nome illustre. André de
    Rezende, depois de ter cursado a universidade de Salamanca, e de ter
    tomado capello em theologia, levado do desejo de se instruir, percorreu
    a França e os Paizes Baixos, demorando-se em Paris e em Bruxellas. O
    trato que teve n'estas cidades com alguns sabios, suscitou-lhe o amor
    dos estudos archeologicos. Regressando á patria entregou-se com ardor e
    perseverança a esses estudos, colligindo alguns cippos e outras lapidas
    com inscripções romanas, que collocou no jardim da casa em que habitava
    na cidade d'Evora, investigando e decifrando um grande numero de
    monumentos epigraphicos do nosso paiz, e compondo por fim varias obras,
    em que dava conta d'essas locubrações predilectas. Duas viram a luz da
    imprensa, com o titulo de: _Historia das antiguidades d'Evora_,
    publicada em 1553; e _Libri quatuor de antiquitatibus Lusitàniæ_,
    impressa em 1593, vinte annos depois da sua morte. D'entre as que deixou
    manuscriptas sobre o mesmo genero d'assumptos, citarei: _Monumenta,
    romanorum in Lusitanis urbibus_.

    Assim começaram estes estudos em Portugal; e do mesmo modo continuaram
    n'esse seculo e no seguinte, restrictos todavia á época do dominio
    romano.

    As nações que percorriam as vias do progresso com passo firme e resoluto
    mostraram-se empenhadas no desenvolvimento dos estudos archeologicos,
    desde o meiado do seculo XVII, fundando academias ou escolas, onde se
    ensinava ou discursava sobre antiguidades.

    Então os adeptos da nova sciencia, sequiosos de emoções e buscando
    alargar a área dos seus estudos, visitam a Grecia, exploram o solo,
    desenterram soberbos monumentos, escrevem e publicam em muitos livros os
    resultados das suas investigações.

    Illustraram-se n'esta cruzada scientifica, principalmente, Jacob Span, e
    Bernardo de Montfaucon, francezes, e Wheler, João Augusto Ernesti, João
    Jorge Groevinus, Gronovius, allemães. Todavia nos seus vastos
    repositorios de memorias e dissertações, posto que tratem mais
    particularmente das antiguidades gregas e romanas, já se occupam de
    todas as partes da archeologia.

    III

    Este impulso fez-se sentir em o nosso paiz nos fins do primeiro quartel
    do seculo XVIII. Fundando-se em Lisboa no anno de 1720, a academia real
    de Historia Portugueza, foi-lhe commettido, juntamente com a tarefa de
    escrever a historia de Portugal, o encargo de velar pela conservação dos
    monumentos nacionaes, obstando a que se destruissem, ou fossem levados
    para fóra do reino, os objectos d'antiguidade, já descobertos, ou que
    viessem a descobrir-se. Fundaram-se em Lisboa alguns museus de
    antiguidades, sendo um no proprio edificio da academia (o palacio dos
    duques de Bragança, na rua do Thesouro Velho), e os outros particulares.
    Entre as muitas obras volumosas, escriptas pelos academicos, e impressas
    por ordem da academia, contam-se algumas consagradas exclusivamente a
    antiguidades nacionaes.

    Em geral os espiritos, que se dedicavam a este genero de litteratura,
    continuavam a concentrar todas as suas attenções nos monumentos romanos,
    de que havia então bastante copia no reino, e que estavam por
    conseguinte muito ligados com a nossa historia. Entretanto houve
    academicos que, saindo fóra d'esse apertado circulo, encetaram estudos
    inteiramente novos no paiz. Martinho de Mendonça e Pina, em 1733, leu em
    uma sessão d'aquella academia uma memoria sobre os _rudes altares_ a que
    chamam _antas_ em Portugal. Este estudo publicado nas _Memorias da
    Academia_, foi o primeiro trabalho litterario, que se fez entre nós
    relativamente a monumentos prehistoricos.

    IV

    Na segunda metade d'esse mesmo seculo teve começo o terceiro periodo da
    archeologia, no qual obteve os fóros de verdadeira sciencia. Abriu esse
    periodo um dos mais talentosos e perseverantes filhos da Allemanha. João
    Joaquim Winckelmann, nascido em 1717, e fallecido em 1768, que se elevou
    pelo seu saber, de uma posição social muito humilde, a vice-reitor da
    universidade de Halle, e a bibliothecario do Vaticano, foi o fundador da
    esthetica moderna, e o creador do estudo philosophico e consciencioso da
    arte antiga. Entre muitas obras, que lhe grangearam subida honra,
    sobresae a _Historia da Arte_, que immortalisou o seu nome. N'esta obra
    magistral, que dividiu em 6 livros, estabeleceu e sellou de um modo
    incontroverso a alliança das artes com a archeologia, marcando a esta,
    como norma e alvo a que deve mirar, seguir escrupulomente sob todos os
    aspectos, pela apreciação do trabalho humano nas artes e na industria, o
    desenvolvimento da civilisação nos seculos passados; e estabelecendo ao
    mesmo tempo o methodo racional e claro para alcançar esse fim.

    Teve grande importancia esta obra, não só por dilatar os horisontes da
    nova sciencia, e abrir amplas vias aos seus cultores; mas tambem por
    diffundir o gosto dos estudos archeologicos, graças á elegancia do seu
    estylo, á lucidez dos seus argumentos, e sobretudo ao enthusiasmo com
    que falla dos grandes primores da arte antiga, e dos evplendores da
    civilisação grega e romana. D'essa benefica influencia originaram-se
    alguns dos mais ricos museus de antiguidades, que hoje existem, e muitas
    collecções partiticulares valiosas, que promoveram e facilitaram o
    estudo.

    Seguindo ousadamente os passos do erudito auctor da _Historia da Arte_,
    assignalaram-se após elle outros archeologos por distinctos serviços
    prestados á sciencia. O conde de Caylus classifica por ordem
    chronologica os monumentos das differentes edades, e penetra o segredo
    que produziu a maior parte das artes. O archeologo italiano Morcelli
    cria um systema regular para a classificação das inscripções, conforme o
    assumpto de que tratam, e para o estudo d'ellas, segundo o seu estylo. O
    celebre numismata padre Eckhel, jesuita allemão, coordena methodicamente
    a sciencia das medalhas; á qual o douto dinamarquez Rask accrescentou a
    ordem alphabetica. O sabio philologo e antiquario padre Passeri,
    italiano, que organisou o rico museu do grã-duque de Toscana, explica a
    um numeroso auditorio sob o portico de Lanzi, em Florença, com mais
    proficiencia do que o fizera Demspter, no seculo antecedente, os idiomas
    e os monumentos da Italia, anteriores á fundação de Roma.

    O descobrimento das ruinas de Herculanum deixára ajuizar de alguns usos
    e costumes dos romanos ainda mal conhecidos. Porém quando em 1755 se
    começou a levantar a espessa mortalha, que envolveu Pompeia em seu leito
    de morte durante 17 seculos, fazendo surgir do sepulchro uma cidade
    romana com as suas praças, ruas e casas guarnecidas e adereçadas
    interiormente, como na hora fatal em que as cinzas do Vesuvio a
    sepultaram no anno 79 da era christã, revelou-se aos olhos absortos dos
    antiquarios a vida publica e privada do povo romano com todos os seus
    usos e costumes, pois que só então foi bem conhecida uma infinidade de
    coisas e circumstancias, que eram inteiramente ignoradas.

    Accentuando-se cada vez mais os progressos da archeologia, o abbade
    Barthelemy, francez, reedifica a Grecia de Pericles, e Jorge Zoega,
    antiquario dinamarquez, começa a erguer o veu que occultava á sciencia o
    antigo Egypto. Napoleão Bonaparte emprehende a conquista d'este paiz, e
    as aguias francezas triumphantes abrem ignotos caminhos á archeologia, e
    patenteiam-lhe um immenso thesouro de preciosas reliquias da mais remota
    antiguidade. Vivant-Denon reproduz com o seu lapis habil e delicado, os
    soberbos monumentos do imperio dos Pharaós, e copía com escrupulosa
    exactidão, dos muros ennegrecidos pelo embate de tantos seculos, esses
    mysteriosos caracteres, que encerram, sob mil fórmas emblematicas, senão
    os annaes, a vida intellectual do antigo povo egypcio.

    D'entre um grande numero de sabios, que illustram a archeologia com os
    seus escriptos, Champolion descobre o alphabeto dos hieroglyphicos, e
    assim preenche uma lacuna de seculos, que a historia tinha deixado no
    esquecimento. Millin funda em 1792 o jornal _Magasin Encyclopedique_,
    por meio do qual derrama e popularisa os estudos archeologicos; publíca
    varias obras importantes sobre esta sciencia, e um _Diccionario de
    Bellas Artes_. Raoul-Rochette enriquece a litteratura franceza com o seu
    excellente _Curso d'Archeologia_, e entre outras publicações não menos
    interessantes, que fazem conhecidos e devidamente apreciados alguns
    sabios inglezes, italianos e allemães, Mr. A. du Caumont facilita e
    popularisa o estudo d'esta sciencia com seu precioso _Abecedario ou
    rudimentos da archeologia_.

    Os livros d'estes homens, de espirito elevado, dão um grande incitamento
    ás investigações archeologicas; e as descobertas dos testemunhos
    authenticos da existencia do homem na remotissima época quaternaria,
    trouxeram ao campo das discussões scientificas a origem da especie
    humana, e o seu viver nos tempos prehistoricos. Colleccionaram-se e
    patentearam-se ao publico os utensilios e instrumentos de que usaram os
    homens na sua idade primitiva, e que se iam descobrindo em excavacões
    casuaes ou feitas expressamente com esse intuito. E não tardou a
    reconhecer-se a conveniencia de se reunirem em congresso os homens que
    nos differentes paizes se dedicavam a estes estudos, para que da
    exposição das suas investigações, e das discussões de uma assembléa tão
    competente e auctorisada, se projectasse luz nas trevas d'esse remoto
    passado.

    Coube a mr. Desor, distincto naturalista, a honra de ser o primeiro a
    apresentar a idéa de um congresso internacional de archeologia
    prehistorica. Este pensamento enunciado em Paris, foi abraçado com
    enthusiasmo; porém antes que podésse ser realisado na terra, onde tivera
    origem, antecipou-se a Italia a encetar estas controversias.

    No outono de 1865 a sociedade das sciencias naturaes, reunida em
    Spezzia, occupou-se dos tempos prehistoricos. No anno seguinte reunem-se
    os archeologos de differentes paizes em Neufchatel, na Suissa, celebram
    o primeiro congresso internacional de archeologia prehistorica; tratam
    largamente do assumpto; ajustam e lançam as bases para a convocação do
    segundo congresso, que dá principio ás suas sessões em Paris, no anno de
    1867, ao mesmo tempo que se abre n'essa cidade a grande exposição
    universal, com uma secção intitulada _Historia do trabalho humano_, onde
    figuram productos variadissimos da industria humana de todos os paizes
    do globo, e de todas as épocas até ás primitivas da humanidade.

    Desde então entrou a archeologia em um periodo de verdadeira actividade
    scientifica, protegida pelos governos das nações mais cultas,
    reconhecida a sua importancia e justamente apreciada por todas as
    pessoas illustradas, qualquer que seja o rumo dos seus conhecimentos.

    V

    Portugal não tem tomado a parte activa, que lhe cumpria tomar, como paiz
    civilisado, e a quem tanto deve a moderna civilisação, n'aquelle
    movimento scientifico. Todavia, não se póde dizer que lhe tenha ficado
    estranho.

    Varias memorias, publicadas pela academia real das sciencias de Lisboa,
    provam que esta corporação se occupou, desde a sua instituição, de
    assumptos archeologicos, relativos á historia do paiz. Além disso
    n'estes últimos annos tem havido entre nós não poucos escriptores que se
    tem dedicado aos estudos archeologicos, e d'entre estes, alguns zelosos
    investigadores do que diz respeito aos tempos prehistoricos.

    Temos sido muito descuidados na formação de museus archeologicos, e é
    uma vergonha que não tenhamos um unico estabelecimento d'este genero,
    digno de ser exposto aos olhos dos estrangeiros illustrados que visitam
    o nosso paiz. E maior vergonha é que não exista, podendo e devendo
    existir, independentemente do recurso ás excavacões muito dispendiosas.
    Era bastante para constituir um museu de objectos archeologicos e
    artisticos, muito rico e variado, os milhares de objectos, producto do
    trabalho humano, em diffrentes edades, de remotas eras, em oiro, prata,
    bronze, vidro, barro e pedra, descobertos nas provincias do reino,
    sobretudo na Estremadura, Alemtejo e Algarve, desde o seculo XV, em
    excavacões casuaes, e muitos objectos preciosos e alfaias dos extinctos
    conventos.

    Por iniciativa, e póde dizer-se por unico esforço do sr. J. Possidonio
    Narciso da Silva, fundador e presidente da real associação dos
    architectos e archeologos portuguezes, deu começo esta associação no
    edificio da egreja gothica e arruinada do extincto convento do Carmo,
    onde se acha estabelecida, a um museu archeologico. Carece, porém, de
    muitas condições para preencher os fins a que são destinadas similhantes
    collecções, sendo uma das principaes, a organisação scientifica e
    chronologica, e conveniente collocação dos objectos alli reunidos. Devo
    accrescentar, porém, que achando-se alli todos os objectos accumulados e
    apertados por falta absoluta d'espaço; aquella organisação e conveniente
    collocação estão dependentes de uma obra importante e despendiosa; a
    cobertura das naves da egreja.

    Guardam-se em differentes estabelecimentos publicos de Lisboa, Porto e
    Evora, diversidade de objectos archeologicos e artisticos, que se
    estivessem reunidos formariam uma collecção mui curiosa, e de certa
    importancia. Tambem são dignas de menção as collecções de fosseis,
    instrumentos e utensilios prehistoricos da secção geologica, no edificio
    do extincto convento de Jesus.

    * * * * *

    Pois que fui mais prolixo do que desejava no quadro historico, que fica
    traçado, procurarei ser conciso nas noções geraes da sciencia
    archeologica, noções que mr. Du Caumont julgou desnecessario explicar
    n'este livro.

    A archeologia é a sciencia que tendo por fim, como o indica o seu nome,
    o estudo da antiguidade, nos ensina a conhecer o viver dos povos antigos
    por meio do exame e apreciação dos monumentos, que nos deixaram, e de
    todos os objectos, que d'elles nos restam como manifestação do seu
    engenho e do seu trabalho.

    A historia narra os successos, indica-lhes as causas, e aponta-lhes as
    consequencias. Julga do caracter e indole dos povos, e dos individuos
    que mais se assignalaram; e trata dos monumentos, como provas que
    mostram o seu desenvolvimento intellectual e industrial, e tambem como
    testemunha d'aquelles successos.

    A archeologia examina attentamente todos os productos materiaes, que os
    antigos povos nos legaram, e d'esse estudo minucioso, comparativo e
    philosophico, faz resaltar o conhecimento das idéas, da religião, dos
    usos e costumes, do desenvolvimento industrial e artistico, emfim do
    viver dos povos, aos quaes esses productos pertenciam.

    Portanto a archeologia faz importantes serviços á historia, não só
    esclarecendo-a, com a luz que derrama onde tudo é trevas, mas tambem
    completando-a com uma infinidade de noções e de objectos reaes, que nos
    apresentam um quadro verdadeiro da vida intima dos povos da antiguidade,
    que sem os esforços dos archeologos seriam ignorados ou apenas
    conhecidos superficialmente.

    A archeologia divide-se em tres partes, que a seu turno se subdividem:
    1.^a _litteraria_–2.^a _artistica_–3.^a _usual_. Comprehende a
    primeira toda a sorte de monumentos em que ha inscripções, quaesquer que
    sejam os seus caracteres e a materia que os contenha. Subdivide-se em
    _paleographia_, _diplomatica_ e _epigraphia_. A _paleographia_ ensina a
    decifrar as antigas escripturas em pergaminho ou em outra substancia com
    caracteres alphabeticos, ou ediographicos, ou signaes emblematicos, como
    os hyeroglyphicos dos egypcios, ou outros convencionaes. A _diplomatica_
    indica o modo de conhecer, pelos caracteres internos e externos, a
    authenticidade dos documentos. A _epigraphia_ trata da interpretação das
    inscripções gravadas em pedra, em metal, ou em qualquer outra materia.

    A _archeologia artistica_ trata de todos os monumentos da antiguidade,
    taes como edificios religiosos, civis e militares, e todos os generos de
    obras d'arte.

    Subdivide-se em _archeologia monumental_, que diz respeito ás obras
    d'architectura, d'esculptura e de pintura; em _iconographia_, que é o
    estudo dos bustos e dos retratos dos personagens historicos; em
    _numismatica_, ramo consagrado ao exame das moedas e medalhas; em
    _glyptographia_, que trata das pedras gravadas, representando quaesquer
    figuras; e, finalmente, em _archeologia usual_, que abrange toda a
    qualidade de alfaias, utensilios e instrumentos sagrados, domesticos,
    militares, funerarios, etc.

    São estas as divisões scientificas da archeologia. Porém, considerada
    relativamente ás grandes épocas da vida da humanidade, póde dividir-se
    em _archeologia prehistorica_, dedicada ao estudo das edades primitivas
    do homem, das quaes não restam memorias escriptas, nem gravadas, nem
    tradicionaes, existindo por unicos vestigios da sua passagem na terra
    alguns rudes monumentos, e utensilios e instrumentos não menos toscos e
    grosseiros, encontrados em escavações: em _archeologia dos antigos
    imperios orientaes_; em _archeologia classica_, ou _greco-romana_; e em
    _archeologia christã_, que comprehende o periodo desde o nascimento de
    Christo até á renascença das artes e letras.

    Emfim a archeologia é uma sciencia tão lata e complexa, que ainda
    precisa, para satisfazer cabalmente a sua importante missão,
    soccorrer-se a outras sciencias accessorias como são a _linguistica_, a
    _paleontologia_, a _geologia_, a _anthropologia_, e a _ethnologia_.

    J. DE VILHENA BARBOSA.

    PROLOGO

    N'este seculo, em que a civilisação tem caminhado progressivamente nas
    principaes nações, não podia esquecer por mais tempo um estudo que
    consiste em investigar o modo como começára a existencia da raça humana
    desde o berço até o seu simultaneo desenvolvimento, não só dos objectos
    necessarios para a defeza exterior, como em relação aos usos domesticos
    e habitações: conseguindo-se por este curioso estudo formar juizo seguro
    ácerca da existencia interior do viver e dos costumes dos primitivos
    habitantes da terra.

    Depois do cataclismo que passou o planeta em que existiram, e das lutas
    encarniçadas e continuas das differentes raças, as quaes se disputavam
    tenazmente a posse do territorio mais fertil e mais ameno, tendo muitas
    d'essas raças já desapparecido do mundo por inteiramente destruidas, e
    em outros se tenham confundido os elementos das suas respectivas
    nacionalidades, pois que nenhum d'elles nos deixou a historia escripta
    d'esses tempos remotos; a sua existencia rude e aventurosa não lhes
    proporcionavam o poderem cultivar a intelligencia, nem suavisar os
    costumes, para se dedicarem ao aperfeiçoamento intellectual: portanto,
    só pelos vestigios da sua imperfeita industria, os quaes se acham
    encerrados entre as camadas successivas da terra, só por diversos
    fragmentos, elles nos poderam revelar a sua vida social, e nos mostraram
    o grau de sua nascente civilisação. Assim formulâmos a historia, ainda
    que incompleta nos primitivos tempos da terra habitada, e descobrindo os
    segredos d'essa existencia, saberemos quaes foram os esforços da
    intelligencia humana desde o seu alvorecer.

    Quando os romanos se impozeram aos outros povos, e em repetidas
    conquistas ampliaram o seu dominio no antigo mundo, invadiram o
    territorio d'essas raças indigenas, e depois de renhidas batalhas o
    povo-rei subjugou-as, hasteando entre ellas a aguia romana; porém
    n'essas épocas já havia historiadores que nos deixaram as narrações de
    taes feitos: assim o estudo d'esses acontecimentos, não é tão difficil,
    porque não precisâmos de ir inteiramente á crusta terraquea pedir-lhe os
    seus segredos.

    A invasão dos barbaros do Norte veiu depois desapossar os romanos de
    suas conquistas, e a destruição que ella causou foi total, e de tal
    modo, que aos actos do elemento da parte mais feroz d'essas hordas se
    ficou chamando _vandalismo_. Se um cataclismo terrestre havia, pois,
    feito desapparecer antes os vestigios dos povos mais antigos do mundo,
    os barbaros do Norte não foram menos prejudiciaes por aniquilarem a
    civilisacão que os romanos haviam plantado na Europa.

    Todos conhecem a decadencia do Baixo-Imperio: as guerras continuas; o
    desprezo e o esquecimento da instrucção; até que appareceu um homem de
    animo forte e de intelligencia superior, que, apoderando-se do poder,
    formou um novo imperio, e pela sua sabedoria e por suas victorias
    alcançou a gloria de haver feito reviver o explendor da civilisação na
    Europa.

    A idade media foi fecunda em acontecimentos, que prepararam os povos
    para aguardarem uma era, em que os seus direitos e a sua civilisação
    triumphassem das arbitrariedades e dos vexames que soffriam; depois
    surgiu o renascimento das lettras e das artes, que foi o prenuncio da
    nova civilisação.

    Fica, portanto, reconhecida a necessidade de um estudo especial dos
    fragmentos e das ruinas dos antigos para formarmos, como já dissemos,
    justa idéa dos usos, costumes e crenças dos primeiros habitantes do
    mundo, e principalmente dos que existiram na Europa, muito mais
    interessante para nós, por vivermos no territorio occupado por elles.
    Poderemos d'este modo dirigir os nossos especiaes estudos para a
    Lusitania, e entrar nas mais minuciosas investigações com respeito aos
    tumulos, ás fortificações, aos templos, aos ornatos, ás habitações, a
    tudo emfim que determina e constitue a sciencia da archeologia, com a
    qual supprimos a falta da historia escripta.

    Foram os allemães, os inglezes e os francezes os primeiros que trataram
    d'essas curiosas investigações; e os sabios que se dedicaram a taes e
    tão uteis estudos, principalmente Mr. de Caumont, e outros, que
    publicaram obras de grande merito, são dignos da nossa admiração e do
    nosso reconhecimento, porque, procurando as origens da industria humana,
    nos revelaram interessantes conhecimentos, que não só serviram para
    coordenar a historia das épocas mais remotas, mas tambem para estimular
    o desejo de conservar as antiguidades que estavam dispersas e
    desprezadas, attestando ignorancia e incuria.

    Em Portugal nunca se pensara n'este ramo de instrucção, posto que em
    alvará de 14 de agosto de 1721 se ordenasse que se fossem colligindo as
    informações indispensaveis e se adquirissem objectos antigos, que
    facilitassem o estudo da archeologia, porém ficou em letra morta; e
    tanto assim que só em 1864 se organisou o primeiro museu archeologico,
    por iniciativa da pessoa que escreve estas linhas, fazendo o governo
    para esse fim a concessão das ruinas da monumental egreja gothica do
    Carmo, de Lisboa, onde tambem depois estabelecemos em annos successivos
    um curso ácerca da historia geral da architectura.

    Como quer que seja, a sciencia da archeologia não fôra cultivada entre
    nós methodicamente, e por isso não deve estranhar-se que não apparecesse
    até hoje, em Portugal, alguma obra elementar que auxiliasse o seu
    estudo. Para supprir tal falta, ousamos nós mandar imprimir um resumido
    trabalho, que comprehende a descripção dos objectos antigos, desde a
    edade de pedra até ao seculo XVII, tomando para norma a notavel obra do
    sr. de Caumont, o qual, além de distinguir-nos com a sua apreciavel
    amisade, nos auctorisou a servirmo-nos dos seus admiraveis trabalhos; e
    já que nos é licito honrar-lhe aqui a memoria gloriosa, sejam estas
    paginas consagradas ao illustre fundador da sciencia archeologica em
    França, como levantado a um dos testemunhos da nossa veneração.

    No volume, que vamos publicar, e cujos fundamentos lançámos haverá sete
    annos, estão illustrados corn gravuras numerosas, mais de 300 no texto,
    as passagens em que se tornava indispensavel esse meio de observação;
    seguindo, quanto possivel, a obra do sr. de Caumont, como já indicámos,
    procuramos ao mesmo tempo amplial-a com as explicações das antiguidades
    encontradas em Portugal, interessando assim ainda mais os nossos
    compatriotas.

    Suppomos que este livro poderá ser tambem de proveito nas nossas
    escolas, onde é tão geralmente reconhecida a necessidade de livros
    especiaes, que fallem aos alumnos de assumptos que são hoje do dominio
    de uma educação liberal; assim se tornarão adeptos do estudo e da
    sciencia archeologica, que lhe fornece as primeiras bases, para que
    sejam outros tantos propagandistas da conservação da nossa arte e das
    nossas preciosidades archeologicas.

    Apezar de ser trabalho complexo e difficil, não só para a nossa limitada
    intelligencia, mas tambem pelos escassos recursos de que podemos dispor
    para uma publicação d'esta ordem, o nosso vivo desejo de divulgar o
    gosto pela archeologia, de satisfazer ao constante empenho em estimular
    o estudo d'esta sciencia indispensavel para bem avaliar a historia da
    arte em Portugal, sirva comtudo de attenuante ás faltas que houvessemos
    de commetter. E tambem, digamol-o, ficam aqui os cimentos de obra mais
    perfeita e de maior tomo para os que possam lançar-lhe hombros mais
    robustos e intelligencia mais apurada. Os que prezam o trabalho e amem o
    estudo relevem a nossa ousadia, e deitem-a á conta da boa vontade e da
    sinceridade com que sempre tentámos bem servir a patria.

    17 de Maio de 1877.

    NOÇÕES ELEMENTARES DE ARCHEOLOGIA

    * * * * *

    CAPITULO I

    *Tempos prehistoricos*

    Chamaram _prehistoricos_ aos tempos antigos de que não existe historia
    escripta.

    Desde os tempos mais remotos, apparece um longo periodo sem historia
    escripta, nem elementos positivos, durante o qual tentamos encontrar o
    progresso e o desenvolvimento da humanidade, unicamente por vestigios
    mais ou menos incompletos.

    O archeologo tem que tomar a penna do historiador e procurar deduzir
    algumas _probabilidades historicas_, com observação escrupulosa dos
    factos averiguados. Os antiquarios modernos têem-se dedicado com
    entranhado amor a este genero de investigações.

    Estabeleceram na historia pertencente á existencia do homem, _anterior
    ás épocas conhecidas_, tres grandes phases, ou estancias, a saber:

    Idade de Pedra
    Idade de Bronze
    Idade de Ferro

    A fundição, ou reducção dos metaes, é uma operação difficil, que foi de
    certo por muito tempo desconhecida: os povos atrazados na civilisação
    deviam fabricar os objectos de que tivessem necessidade para a propria
    defensa e para a caça, assim como para os usos communs da vida,
    empregando pedras rijas, como é o silex (pedreneira), os ossos dos
    animaes, ou a madeira.

    O extraordinario numero de descobrimentos feitos nos diversos paizes,
    principalmente em França, na Suissa, na Inglaterra, e na Dinamarca,
    confirmou esta supposição.

    As collecções dos museus contém quantidade consideravel de pontas de
    frechas, facas, machados, feitas com pedreneira e em rocha rija: grande
    numero de instrumentos de osso, ou de pedra, se tem achado em
    differentes partes, e esses instrumentos conservam-se quasi intactos
    dentro do solo, onde estavam occultos. O periodo secular em que os
    metaes não estavam ainda em uso recebeu, pois, a denominação de _idade
    de pedra_.

    As melhores qualidades de rochas para fabricar os instrumentos
    cortantes, eram o silex (pedreneira), _felds-pathicas_, o _petrosilex_
    verde, e algumas variedades de _porphyro_; porém o silex tem sido, como
    parece, a pedra mais constantemente empregada, e talvez a mais facil de
    preparar a forma requerida.

    Seguramente, se dermos com certa precaução uma martellada sobre um
    fragmento de silex, de forma alongada, esse silex estalará, e a pedra
    que se desligue tomará logo a forma conoidal; ficará chata de um dos
    lados, mostrando do outro uma aresta viva. Podiam-se fazer por este
    modo facas de pederneira, de que em diversas localidades se tem
    encontrado centenares de modelos.

    [Figura 1]

    Fazendo-se estalar esta qualidade de pedra repetidas vezes com certa
    habilidade, podem-se fabricar machados, pontas para flechas e outros
    instrumentos do genero d'aquelles de que apresentamos os desenhos n'esta
    pagina.

    Os objectos pertencentes á _idade de pedra_ e á _idade de bronze_ tem
    sido encontrados, principalmente nos _tumulos_, nas cidades _lacustres_,
    em algumas _cavernas_, antigamente habitadas.

    Examinemos os depósitos que indicamos, porque nos offerecerão, segundo
    recentes explorações, matéria variada e curiosa para o nosso estudo.

    *Tumulos*

    Os tumulos ou sepulchros, compõem-se d'um recinto central formado de
    pedras de rocha de grande dimensão, no qual se entra geralmente por um
    corredor de egual construcção, estando tudo encerrado em immenso montão
    de pedras e terra.

    Quer fosse porque estivesse com imperfeição o recinto central encerrado
    no meio do outeirinho factício; quer, o que parece mais natural, porque
    se servissem _da terra_ ou _das pedras dos tumulos_ em época posterior,
    muitas vezes foram encontrados os pedregulhos que formam a parte central
    sem a terra que os cobria e quasi completamente separados; então n'este
    caso chamavam-se Antas (dolmen).[1]

    [Figura 2: Vista exterior de um tumulo]

    Os defuntos eram depositados com os seus corpos inteiros e em geral
    apresentavam-os _sentados_ e encostados nas paredes do recinto central,
    tendo junto de si os machados e outras armas de pederneira; algumas
    vezes vasos de barro toscamente fabricados, e outros objectos de uso
    commum.

    Veja-se o desenho n.^o 2, de um tumulo completo; o n.^o 3, um tumulo
    aberto com dolmen; o n.^o 4, um dolmen completamente desguarnecido; e o
    n.^o 5, a perfeita Anta de Guitamães, em Vianna do Castello.

    [Figura 3: Vista interior de um tumulo]

    [Figura 4: Dolmen central de um tumulo]

    Varios antiquarios tinham tomado os dolmens desguarnecidos de tumulos
    por _altares druidicos_, porém ao presente esta ideia está quasi
    desprezada, por falta de provas positivas.

    O cobre com liga que lhe dá maior rijeza, foi empregado depois da
    pederneira, ou conjunctamente com ella, quando os nossos antepassados
    aperfeiçoaram esta industria e conheceram o modo de derreter os metaes.

    [Figura 5: Anta de Guitamães (Minho)]

    Os principaes objectos de bronze, foram os _machados_, as _pontas das
    lanças_, as _espadas_, os _punhaes_, as _facas_, os _anzoes_, as
    _fouces_, os _alfinetes_, os _anneis_, os _braceletes;_ estes objectos
    fundidos, muitas vezes com formas elegantes, apresentavam em todos os
    paizes o mesmo feitio, tanto na Dinamarca como em França, e na
    Inglaterra; e isso nos convence de que os typos tradicionaes, talvez
    imitados do mundo antigo pelas nações civilisadas, e trazidos para a
    Europa occidental em época que não se pode fixar, foram reproduzidos sem
    alteração, em moldes apropriados.

    [Figura 6: Fachada do Dolmen de Bournan]

    [Figura 7: Plano do Dolmen de Bournan]

    Esta época importante da historia dos progressos da humanidade rasgou
    bom horisonte no prolongado periodo prehistorico: d'ahi proveio a
    denominação de _idade de bronze_. O difficil era saber-se, por inducção,
    quando e como o bronze apparecera nos paizes septentrionaes.

    Ha annos, o sr. Worsaæ e os antiquarios dinamarquezes publicaram que
    os tumulos da idade de pedra continham compartimentos centraes, conforme
    descrevemos; nos quaes se depositavam os cadaveres sentados, com os
    joelhos juntos á barba e os braços cruzados no peito; em quanto os
    tumulos da idade de bronze não apresentavam esse compartimento
    reservado, sendo construidos com grandes pedras e os outeirinhos,
    compostos de terra e de pequenas pedras, não encerravam cadaveres, mas
    tamsomente as cinzas dos finados, depositadas em vasos de barro; muitas
    vezes appareciam acompanhados de objectos de bronze e ás vezes de ouro.
    Inferia-se d'estas differenças, que os instrumentos de bronze haviam
    sido trazidos por uma raça que invadira, absorvera e talvez aniquillara
    a indigena; raça que teria costumes diversos, armas superiores e
    civilisação mais adiantada que a subjugada.

    Acceitando-se este facto, a idade de bronze seria inaugurada na Europa
    occidental por um povo conquistador em época desconhecida.

    Os objectos de barro não nos guiam suficientemente n'esta exploração. Os
    que foram achados com os instrumentos de bronze são de fabrico
    grosseiro, mal cosidos, e por seu feitio, ornatos e as substancias que
    os compõem, simelham-se muito com os vasos de barro achados nos
    sepulchros que encerravam unicamente objectos de pedra. N'esses diversos
    tumulos raramente se viam vasos com azas; á forma dos gargalos parecia
    não ser conhecida, nem o seu uso; consistindo apenas a ornamentação em
    linhas em direcções diversas; ou ponteado concavo, ou emmoldurado em
    xadrez.

    Além d'isso, a pederneira era ainda de uso geral na idade de bronze, e
    muitas vezes se tem encontrado objectos de pedra e instrumentos de
    bronze nos mesmos tumulos; facto que poderia explicar-se admittindo-se
    que servira successivamente para sepultura em differentes povos.

    Acharem-se cinzas no logar dos cadaveres sentados, pareceu sufficiente
    caracteristico da idade de bronze, pois que nos tumulos, que encerravam
    objectos de metal, havia poucos exemplos de se fazer enterramento na
    posição _sentado_, e essa pratica caracterisa a idade de pedra.

    Tem-se, comtudo, encontrado na mesma sepultura esqueletos sentados na
    proporção de 20 por cento, talvez como demonstração, segundo o sr.
    Lubbock, dos ultimos representantes das gerações passadas que tivessem
    apego aos antigos usos.

    *Habitações lacustres*

    Precisamos de expôr, em primeiro logar, o que se entende por cidades
    _lacustres_.

    Ha annos notava-se em muitos lagos da Suissa, abaixo do nivel natural
    das aguas, estacarias em grupos consideraveis; o dr. Keller, de Zurich,
    socio da sociedade de archeologia franceza, estudou com attenção esses
    vestigios, que por grandissima diminuição das aguas ficaram visiveis; e
    declarou depois, que os primeiros habitantes da Suissa estabeleciam por
    vezes as suas casas em cima da agua, como praticavam algumas tribus da
    antiguidade, e até como fazem ainda alguns povos modernos. Tal
    descobrimento causou sensação entre os antiquarios; muitos observadores
    se dedicaram depois com grande solicitude a explorar o fundo dos lagos,
    nos logares das cidades lacustres indicadas pela presença da estacaria.
    Estas investigações foram proficuas. Poderam-se tirar, servindo-se de
    dragas, grande numero de fragmentos de objectos de barro, e outros
    utensilios, os quaes, comparados com os que foram encontrados nos
    tumulos, reconheceu-se pertencerem tambem a identica civilisação.

    Varias outras estancias lacustres foram depois descobertas na Suissa;
    contaram-se até 32 no lago de Constance; 46 no de Neufchâtel; além das
    que se viram nos de Genebra, de Inkwill, de Pffikon, de Luissel etc.,
    etc. Ainda que nem todas pertençam á idade de bronze ou de pedra, e que
    muitas pareçam ser do tempo da idade de _ferro_, e do periodo romano,
    todavia o maior numero é das idades de pedra e de bronze.

    Os museus de Lausanna, de Genebra, de Neufchâtel e outros, tem
    collecções completas dos objectos chamados _lacustraes_, por causa de
    terem sido conservados por séculos debaixo das aguas.

    Os habitantes das cidades lacustraes achavam sem duvida recursos
    alimentícios na pesca, mas estabeleceram as suas habitações sobre a agua
    para se collocarem ao abrigo dos ataques das feras, ou dos roubos das
    tribus visinhas. Era facil separar inteiramente essas povoações fluviaes
    levantando para isso as pontes, que lhes serviam para communicarem com
    as margens.

    Segundo o estudo das ossadas dos animaes recolhidos pela draga, e de
    diversos fragmentos, conheceu-se que então já havia seis especies de
    animaes domesticados que deviam servir para o alimento dos habitantes; e
    entre essas, encontraram-se restos de veados, bois, de duas formas,
    porcos, cães, cabras e cavallos, notando-se porém que havia poucos
    vestigios do cavallo e da cabra.

    *Cavernas*

    As excavações dirigidas por varios geologos em diversas localidades,
    deram em resultado encontrar-se nas cavernas consideravel numero de
    objectos devidos á industria das raças primitivas, incluindo as da época
    do diluvio, assim como os machados de pederneira, toscamente fabricados,
    e outros instrumentos de silex e osso, e em parte envolvidos com ossadas
    de animaes giganteos, que já hoje não se encontram.

    Os objectos de silex e osso, pela maior parte, parece pertencerem á
    idade de pedra, e provirem das epocas mais remotas da humanidade. Mas
    deve notar-se que sempre apparecem misturados com esses utensilios do
    homem, restos de animaes, que se não encontram hoje, e que pertencem á
    formação do terreno _quaternario_, considerado até então como anterior
    ao apparecimento do homem.

    O descobrimento de uma queixada humana no saibro do Moulin-Quignon,
    proximo de Abbeville, na França, veio estratigraphicamente confirmar
    taes conjecturas e indicações. Embora isto seja do dominio da geologia e
    da paleontologia, os factos novamente averiguados são de summo
    interesse, pois que comprehendem a idéa de indeterminada e espantosa
    antiguidade em que o homem vivia no estado quasi selvagem: não é
    difficil acreditar que assim acontecesse, quando pensarmos na situação
    actual dos povos de Africa central, dos naturaes da America, quando foi
    descoberta, e dos habitantes das ilhas da Oceania. O homem que vive
    isolado, sem communicação com os povos mais adiantados que elle, poderá
    ficar muito tempo no mesmo grau de civilisação; como aconteceu em o
    nosso continente antigo, em quanto os romanos levavam o luxo até o
    extremo, havia então em o Norte, onde já chegam hoje os caminhos de
    ferro, povos semi-selvagens que não tinham participado em cousa alguma
    dos progressos do povo rei; e comtudo deviam depois repartir entre si os
    seus despojos e gosar da sua civilisação.

    Podemos, portanto, admittir que houve por longos annos na Europa, nas
    margens dos rios, uma raça de caçadores e pescadores, e que nos bosques
    existiam o _mammouth_, _o rhinoceronte_, animaes que podiam resistir á
    baixa temperatura que n'essa época era propria em nossa região.
    Julga-se, com fundamento, que tal raça de homens vivia como succede hoje
    entre alguns esquimaus, e como os laponios viveram seculos antes.
    Acrescentaremos que a flora fossil parece mostrar que as modificações
    occorridas na forma por effeito das mudanças climatericas, tiveram os
    seus equivalentes no mundo vegetal antigo.

    Os principaes monumentos dos tempos prehistoricos são, conjuntamente com
    os tumulos, dos quaes já tratamos:

    Os _peulvans_ ou pedras cravadas na terra;

    Os monumentos compostos com pedras similhantes, taes como os
    _alinhamentos_;

    Os circulos formados de pedras, e os recintos simplesmente de terra.

    As pedras oscillantes são pedras de extraordinario peso sobrepostas a
    outras e collocadas em equilibrio, mas que ao menor impulso se fazem
    mover: existem algumas em França, porém na Inglaterra o maior numero. No
    Alemtejo, proximo de Alter do Chão, ha uma d'esta qualidade.

    *Pedras erguidas*

    [Figura 8: Pedras Erguidas]

    As pedras erguidas[2] que se designam egualmente com os nomes de
    _Menhirs_, _Peulvans_, _Pedras cravadas_, etc., são pedras toscas de
    forma esguia ou conica implantadas verticalmente na terra, como se
    collocam os marcos. A sua altura varia desde 2 a 6 metros, ou mais; ás
    vezes estão cravadas de maneira que a extremidade menos grossa fica para
    baixo, e a mais volumosa para cima, como se estivessem sustentadas n'um
    pião. Outras estão simplesmente postas no solo, em logar de serem
    cravadas na terra, porém, é preciso não confundir estas pedras com
    vários pedregulhos _erraticos_, ou que se encontram em posição vertical
    e podem estar assim naturalmente collocados.

    [Figura 9: Alinhamentos de pedra era Ardeven]

    _Alinhamentos_.–Os alinhamentos são formados de pedras esguias. As
    pedras, alinhadas com mais ou menos regularidade, mais ou menos
    intervallos entre si, formam algumas vezes uma única fileira. Umas
    tambem se encontram postas em duas, tres, quatro ou maior numero,
    conservando-se em linhas parallelas. Estas especies de avenidas
    pedregosas são delineadas commummente na direcção de Leste a Oeste, ou
    do Norte a Sul.

    Outras vezes as pedras são substituidas por trincheiras ou fossos de
    terra. Tem-se encontrado em algumas partes, posto que raramente,
    terrados parallelos na direcção de Leste a Oeste, e do Norte a Sul, que
    apresentam, em quanto á disposição, muita analogia com os alinhamentos
    de pedras e parece terem tido o mesmo destino.

    Os alinhamentos de pedras mais notaveis e mais vastos que se conhecem em
    França, são os de _Karnac_, de _Ardeven_, e de _Penmarch_. Compõem-se de
    mais de 1:200 pedras toscas em 11 filas parallelas com 763 toezas de
    comprimento, e 47 de largura. As mais elevadas tem 18 a 20 pés, e as
    mais pequenas 4 a 5. Ha entre ellas algumas de volume tão extraordinario
    que lhes avaliam o pezo em 70 a 80 milheiros.

    Os alinhamentos de _Ardeven_ estão dispostos regularmente em filas
    parallelas, tambem na direcção do Norte para o Sul, e no espaço de 3
    kilometros de extensão.

    *Circulos*

    Outra combinação de pedras erguidas toma a forma de circulos, que têem
    sido designados pelo nome de _cromlecks_.[3]

    [Figura 10: Circulo de pedras]

    Os maiores d'estes circulos existem em Inglaterra; um d'elles, o vasto
    circulo de Avebury, em Wiltshire, está totalmente destruido; porém ainda
    houve quem o visse quasi completo por 1713; compunha-se de 660 pedras, e
    achava-se situado no meio de uma planicie, ficando-lhe o terreno em
    declive de todos os lados, como pode vêr-se na gravura junta.

    [Figura 11: Restauração do monumento d'Avebury.]

    O circulo exterior era formado de 100 pedras de 15 a 16 pés de altura,
    collocadas a 27 pés umas das outras; tinha perto de 1:300 pés de
    diametro, e via-se cercado de profundo fôsso, contornado exteriormente
    por larga trincheira de terra.

    Este grande circulo continha dois circulos mais pequenos, compostos cada
    um de dois renques concentricos de _peulvans_, do qual um tinha 30
    pedras, apresentando um diametro de 466 pés; e o outro 12 pedras, com o
    diâmetro de 186 pés.

    O monumento de Stone-Henge[4] está situado a 6 milhas de Salisbury, em
    uma eminencia, na proximidade da qual se encontram muitos _tumulos_; é
    composto de 4 circulos concentricos, dos quaes os dois maiores são
    circulares, em quanto os outros dois mostram a forma um tanto elliptica.

    [Figura 12: Vista de Stone-Henge, proximo de Salisbury]

    O circulo exterior tinha quasi 97 pés de diâmetro; e compunha-se
    primitivamente de 30 pedras erguidas com altura de 10 a 12 pés,
    collocadas a 1 metro de distancia umas das outras; estas 30 pedras
    sustentavam egual numero de impostas ou pedras collocadas
    horizontalmente que se ligavam nas extremidades e formavam d'este modo
    uma especie de balustrada tosca.

    O segundo circulo ficava a 9 pés do precedente, era formado de 29 pedras
    esguias sem impostas, e por metade da grandeza das do circulo exterior:
    apenas 19 estavam erguidas haverá 38 annos.

    O terceiro circulo, a 13 pés do precedente, apresentava uma illipse
    tendo o pequeno eixo 52 pés, e o maior quasi 55; formado por
    _trilithos_[5] de grande dimensão, o mais elevado, dos quaes tinha 22
    pés de altura.

    Finalmente, o circulo central tambem um pouco elliptico, compunha-se de
    20 _peulvans_ com a altura de quasi 6 pés.

    [Figura 13: Disposição dos renques de pedras em Stone-Henge]

    Na extremidade oriental do oval, dentro do ultimo circulo, havia uma
    pedra medindo 16 pés de comprimento e 4 de largura, posta em plano na
    terra, e que se suppõe serviria de altar.

    As pedras esguias que compunham estes quatro circulos eram quasi todas
    mais largas na base que no vertice; tinham sido cravadas em cavidades
    abertas em rocha de natureza graphite, e havia o cuidado de as
    consolidarem calcando-as com fragmentos de pederneira em volta das
    cavidades.

    Um largo fôsso de 30 pés, collocado entre duas trincheiras, formava o
    quinto recinto circular á roda das pedras do circulo exterior.

    A Dinamarca, a Noruega e a Suecia, conteem certo numero de _cromlecks_,
    quasi todos circulares ou ellipticos, apresentando geralmente uma pedra
    no centro, que se suppõe ter servido de altar.[6]

    Acredita-se que estes monumentos nem sempre foram usados nas ceremonias
    religiosas.[7] Na infancia dos povos, os logares consagrados ao culto
    deviam servir tambem para tribunal de justiça, assim como para ponto de
    reunião dos conselhos patriarchaes ou de notaveis, que tratavam dos
    interesses da nação, das eleições, das inaugurações, etc.

    Em o Norte, os nobres reuniam-se antigamente dentro de recintos
    circulares formados de pedras, para elegerem os seus principes, até a
    promulgação da Bulla de Ouro pelo imperador Carlos IV, em 1356. O
    circulo de pedras, no qual Eric foi proclamado rei da Suecia, existe
    ainda proximo de Upsal; uma grande pedra toma o centro, como em outros
    recintos d'aquelle paiz. Outrotanto se praticava na Irlanda e na
    Escossia.

    Taes são os principaes monumentos de pedra dos tempos prehistoricos.
    Accrescentemos que o vulgo lhes attribue origens fabulosas, como obra de
    um ente colossal chamado _Gargantua_; que a tradicção os tem indicado
    como encerrando preciosos thesouros; abrigos de fadas, de almas do outro
    mundo, e dos espiritos que as acompanham!

    *Recintos formados com terra*

    Estes recintos consistem em um _vallum_ de terra, ás vezes misturada de
    seixos, circumdando extensões mais ou menos consideraveis e cujas formas
    são mui variadas. Poder-se-hia attribuir essa especie de claustros á
    outra época do que a que corresponde aos tempos prehistoricos, se não
    houvesse tumulos encerrados no _vallum_, ou levantados proximo d'elles,
    o que faz suppôr que serão contemporaneos.

    *Architectura dos tempos prehistoricos*

    Pouco sabemos acerca de qual seria a architectura anterior ao dominio
    dos romanos. Presume-se porém que nas primitivas construcções
    empregariam a madeira e o barro.

    As habitações eram circulares, construidas com madeiras e vimes
    enlaçados.

    No interior faziam as divisões com terra; o telhado formavam-n'o de
    ripas de carvalho ligadas com massa de argila e palha cortada, conforme
    os vestigios encontrados na Gallia, na Bretanha, na Germania, em
    Hespanha e Portugal.

    De investigações feitas em França e na Inglaterra, conheceu-se que
    muitas habitações dos celtas tinham antes a forma oval do que redonda, e
    algumas vezes rectangular; mostravam alicerces de pedra secca, e muitas
    eram construidas em nivel inferior ao solo que as circumdavam, quer
    fosse para se resguardarem dos rigores do clima, ou quer para não darem
    ás paredes altura consideravel.

    Estas casas estavam em relação com a simplicidade dos costumes; deviam
    ter um só andar, e apresentavam uma só abertura, que servia de porta e
    janella.

    Em todas a forma era egual, mas as dimensões divergiam. O numero e a
    grandeza das casas deviam corresponder á cathegoria e opulencia dos
    possuidores.

    Os gaulezes abastados tinham sempre junto de si séquito para o qual
    necessitavam de grandes habitações. Escolhiam portanto o terreno para
    ellas nos bosques e perto dos rios, ou em eminencias, afim de servirem
    egualmente de fortalezas para a propria defensa.

    *Utensilios e instrumentos diversos*

    Em época, que não podemos determinar, os nossos antepassados souberam,
    que o estanho combinado com o cobre produzia uma liga mais rija e mais
    pesada que estes dois metaes separados; as analyses que o celebre
    mineralogista Clarke repetidas vezes fez em Inglaterra, e aquellas que
    se fizeram em França, demonstraram que sobre 100 partes quasi todos os
    bronzes antigos contem 12 de estanho e 88 de cobre; porém que esta
    proporção não é constante, e que a quantidade de estanho ou de chumbo
    combinada com o cobre, varia ás vezes desde 4 até 15 por 100.

    Mr. Clarke verificou que os antigos bronzes descobertos na Grecia, no
    Egypto e em algumas partes da Asia,[8] continham a mesma quantidade de
    estanho (88 e 12): sendo esta a proporção necessaria para se obter o
    _maximum_ de densidade resultante d'estes dois metaes.

    Os machados de bronze, que tem sido encontrados em grandissimo numero em
    toda a parte e que se vêem em quasi todas as collecções,[9] apresentam
    entre si differenças notaveis; os typos que damos são os mais
    conhecidos. Estes machados teem um olhal nos lados, e existem de
    diversos tamanhos; as faces lateraes são de feitio de uma folha
    lanceolada sobre o comprido, na qual se vê o vestigio da juncção das
    duas peças do molde em que o instrumento foi vasado.

    Em Portugal descobriu-se um muito singular, não só por suas grandes
    dimensões, mas por ter _dois olhaes_, o que o torna raro no seu genero.

    [Figura 14a]

    [Figura 14b]

    [Figura 14c]

    [Figura 14d]

    Estes machados deviam encavar-se de duas maneiras: n'uns, o cabo entrava
    de espiga n'uma cavidade central _a_, _b_; n'outros, dar-se-lhe-hia a
    forma de palmeta para entrar nos dois lados do instrumento no logar
    preparado _c_; algumas vezes as bordas delgadas e salientes que formavam
    a parte ôcca ficavam reviradas sobre si, por modo a formar uma especie
    de calha _d_, apropriada para conservar a parte encavada.

    *Moldes para machados*

    Os machados de bronze foram sem duvida fundidos em moldes compostos de
    duas peças symetricas, pouco mais ou menos como os que ainda hoje são
    empregados na fundição das colheres de estanho.

    [Figura 15: Molde aberto]

    [Figura 16: Molde fechado]

    É provavel que alguns d'estes moldes fossem de terra ou de pedra; porém
    o maior numero dos que se conservam nos museus são de bronze, fundidos
    egualmente como os machados.

    O primeiro molde para machados celticos que chamou a attenção dos sabios
    foi descoberto na Inglaterra em 1779. Encontraram-se depois em muitas
    partes da França, principalmente na Normandia.

    Estes moldes compôem-se de duas peças ôccas, que se podem juntar e unir
    sem se desconcertar, por meio de uma parte saliente chamada _macho_ que
    está na virola do molde de uma das peças, e se encaixa na fenda
    praticada na virola da outra peça.

    _Espadas de bronze_.–As espadas de bronze compõem-se de lamina e cabo
    (punho). São de folhas direitas, chatas, mas reforçadas no centro da
    lamina, e ás vezes ainda com bojo no espaço comprehendido nos dois
    terços da folha. Cortam dos dois lados e tem ponta aguda.

    A largura de lamina quasi sempre é de pollegada e meia ou duas
    pollegadas na parte mais larga, sendo a sua maior grossura de um quarto
    de pollegada.

    No punho ainda algumas tem os pregos de bronze que haviam servido para
    segurar a guarnição.

    As espadas eram tambem fundidas, e o metal identico ao empregado nos
    machados.

    [Figura 17]

    _Punhaes de bronze_.–Estas armas parecem-se com as espadas, exceptuando
    a lamina que é mais curta. O comprimento de alguns é de 10 a 14
    pollegadas, e a largura da folha de 2 a 21/2 pollegadas na base.

    _Pontas de lança_.–Juntamente com as armas que descrevemos,
    encontram-se de vez em quando pontas de lanças e objectos que foram
    considerados como especies de virolas ou ferragens para guarnecer a
    parte inferior da hastea.

    _Rodeias ou collares (torques)_.–Affirmam alguns historiadores que os
    gaulezes traziam collares ou _torques_, como tambem braceletes e argolas
    nos braços.

    [Figura 18]

    O collar era egualmente usado pelos gregos e romanos, e outros povos;
    talvez não haja outro ornamento de uso mais antigo, nem mais geral.

    Deve-se distinguir entre os _torques_; em primeiro logar, os que são
    formados de muitas peças encadeadas e enfiadas em especie de rosarios de
    perolas grossas de ambar, de azeviche, de vidro colorido, etc., como se
    encontraram dentro de alguns _tumulos_; e depois as cadeias, cujos elos
    são de ouro ou bronze. Em segundo logar, os _torques_, compostos de uma
    unica peça de metal (ouro, bronze, etc.) arqueada de maneira a formar
    circulo do diametro mais ou menos consideravel, e muitas vezes com
    lavores. Em muitos _torques_ as duas extremidades da peça metalica não
    estão soldadas, porém o metal offerece bastante flexibilidade para
    facilitar mettel-as nos punhos, podendo-se unir ou abrir,
    independentemente do fecho; outros _torques_ não apresentam nenhuma
    d'estas formas.

    [Figura 19]

    Appareceram tambem chapas de ouro bastante delgadas com feitio de
    meias-luas, porém cujas pontas estavam arqueadas de modo a formarem
    circulo quasi perfeito. Vêem-se, aos lados e nas extremidades de algumas
    d'estas peças, festões e molduras.

    [Figura 20]

    O pequeno intervallo que separa as duas pontas do crescente não nos faz
    suppôr que este enfeite servisse para se trazer em volta do collo;
    provavelmente ficava suspenso por uma corrente.

    Alguns instrumentos achados por varias vezes nos sepulchros, ou junto
    dos dolmens, em França e mais frequentemente na Irlanda, consistiam em
    hastea de ouro arqueada tendo nas duas extremidades um disco, em alguns
    chato, em outros levemente concavo.

    [Figura 21]

    Ignora-se absolutamente para que uso seriam destinados.

    Finalmente, o objecto seguinte, uma especie de _gargantilha_ formada de
    uma folha de ouro mui delgada, foi achado em França em diversas
    localidades.

    [Figura 22: Collar de ouro descoberto em França]

    As _moedas_ chamadas _celticas_ são provavelmente em parte
    contemporaneas dos ornamentos ou enfeites que descrevemos acima.

    *Objectos de barro*

    São tanto mais difficeis de se distinguirem os _objectos de barro
    celticos_, com excepção dos que se tem encontrado nos _tumulos_, quanto
    em algumas partes estão muitas vezes misturados com outros similhantes
    aos do tempo dos romanos; visto que os mesmos sitios foram habitados
    antes e depois da conquista de Cezar na Peninsula.

    [Figura 23]

    Os objectos de barro descobertos nos _tumulos_, são formados de terra
    preta, mal preparada e com pequenos seixos, o que produziu massa pouco
    solida. Os seus fragmentos são frageis, e não foram cozidos
    sufficientemente; a parte quebrada não mostra arestas vivas, mas sempre
    cheias de cavidades. As superficies d'essas peças, tanto na parte
    interna, como na externa, tem côr quasi egual á do ferro ferrugento;
    porém na parte interna é de negro carregado. Expostas á acção do lume
    tomam exteriormente a côr avermelhada do tijolo; em quanto no interior
    ficam negras, e mais frageis depois d'esta operação.

    [Figura 24: Vasos achados nos tumulos de Inglaterra, Hollanda e outros
    paizes]

    Esses vasos não parece terem sido feitos com auxilio do torno, e não
    apresentam nenhum moldado ou borda; foram unicamente alisados na parte
    exterior com um objecto qualquer, que lhes deu lustro irregularmente, de
    maneira que mostram na superficie altos e baixos, mais ou menos lisos,
    conforme vai indicado na gravura junta.

    Os que foram encontrados nas cidades _lacustras_, mostram inteira
    similhança e caracter no fabrico. A massa não está solidamente ligada,
    por ter algumas partes de pederneira; a côr é preta ou cinzento escuro.
    Esta massa tem pouca consistencia; quando está secca quebra-se
    facilmente, e pode-se desfazer entre os dedos; se a molharmos,
    dar-nos-ha a apparencia de bocados de cortiça velha que estivesse por
    muito tempo exposta á chuva. As suas formas indicam a infancia da arte,
    excepto os fragmentos onde se descobre o uso do torno; os demais
    pertenceram a objectos que parece foram vasados em moldes e polidos á
    mão, ou lavrados com algum instrumento. Reconhece-se na superficie
    exterior de alguns fragmentos o trabalho de uma especie de plaina. Os
    ornamentos compôem-se de filetes imperfeitos, e em pequenos riscos junto
    á borda do orificio.

    [Figura 25: Outros vasos achados nos tumulos]

    Entre os objectos de arte que enumeramos, só vemos os instrumentos cuja
    materia unicamente podia resistir á acção do tempo; os moveis de madeira
    que teriam as habitações gaulezas não conseguiram chegar até os nossos
    dias. Os lagos de certo conservaram-nos muitos objectos, e até pedaços
    de tecidos que recentemente nos esclareceram alguns pontos relativos á
    industria d'esses povos, antes da occupação do territorio da Gallia
    pelos romanos, porém são ainda dados incompletos para se formar cabal
    idéa do estado da industria.

    Terminamos este rapido esboço, apresentando o quadro synoptico das
    antiguidades que servem de assumpto ao primeiro capitulo.

    *MAPPA SYNOPTICO DAS ANTIGUIDADES PREHISTORICAS*

    +———————————–+—————————————+
    | | |
    | *Nomes especificos* | *Caracteres* |
    | | |
    | | |
    | {conicos |Outeirinhos artificiaes de forma, e |
    |_Tumulos_ { |de dimensões differentes, compostos de |
    | {ovaes |pedra e de terra, com _dolmens_ no |
    | |centro. |
    | | |
    | {erguidas |De forma esguia. Firmadas verticalmente|
    | { |na terra como se fossem marcos. |
    |_Pedras_ { | |
    | {assentes |De forma indeterminada. Simplesmente |
    | { |collocadas sobre o solo sem estarem |
    | |cravadas no chão. |
    | | |
    |_Trilithos_ |Duas pedras verticaes sustendo outra |
    | |horisontalmente. |
    | { | |
    | {simples |Uma mesa de pedra collocada sobre |
    | { |pedras postas de cutello, em numero |
    | { |de 3, 4 ou 6. |
    |_Dolmens_ { | |
    | {compostos |Grande mesa de pedra composta de |
    | { |muitos pedaços, sendo, pelo menos, 6 o |
    | { |numero dos pontos de apoio. |
    | | |
    | |_Nota_. Os mais collossaes d'estes |
    | |dolmens formam galeria ficando abertos |
    | |n'uma das extremidades; costumam ser |
    | |designados de _avenidas cobertas_. |
    | | |
    | {simples |Um ou dois renques de pedras em linha |
    | { |recta. |
    |_Alinhamentos_ { | |
    | {compostos |Quatro, cinco e algumas vezes até onze |
    | { |ou doze renques de pedras formando |
    | { |avenidas parallelas. |
    | | |
    |_Pedras postas em grupo_ |Accumulação de pedras, sem ordem, |
    | |mais ou menos consideravel. |
    | | |
    | {simples |Composto d'um só renque de pedras |
    |_Circulos formados { |cravadas ou assentes. |
    |com pedras_ {compostos | |
    | { |Formados de muitos renques de pedras. |
    | | |
    |_Recintos cercados de terra, ou de |De diversas formas. |
    |pedras_. | |
    | | |
    | H { | |
    | A { Vestigios de casas |Logar de cabanas redondas, ovaes, |
    |L B { |algumas vezes rectangulares, indicadas |
    |O I { |por alicerces de pedra tosca sem |
    |G D T { |argamassa ou tão sómente pelo |
    |A E A { |abaixamento do solo. |
    |R Ç { | |
    |E Õ { Subterraneas |Galerias e casas cortadas na rocha. |
    |S E { |Excavações diversas. |
    | S { | |
    | | |
    | { { Punhaes e facas |Um pedaço de silex cortado de maneira |
    | { { |a apresentar uma folha aguda, com dois |
    | { { |gumes, e armado d'um cabo. |
    | { { |Folha de silex sem cabo. |
    | { { | |
    | { { { para frechas|Pequenos dardos, dos quaes o |
    | { { { |comprimento varia desde meia pollegada |
    | { E { _Pontas_ { |até duas |
    | { { { | |
    | I { M { {para rojões |Dardos quasi similhantes aos |
    | N { { { |precedentes, porem mais sobre o |
    | S { { { |comprido. |
    | T { { | |
    | R { P { Martellos |Peça quer redonda dos dois lados, quer |
    | U { E { |d'um lado sómente. |
    | M { D { | |
    | E { R { Pedras para fundas |Redondas ou ovoides, de 2 a 3 polegadas|
    | N { A { |de diametro. |
    | T { { | |
    | O { { Machados |Convexos para o centro, cortados em |
    | S { { |aresta viva nos bordos, acabando de um |
    | { { |lado em ponta romba, e de outro em |
    | { { |gume, o qual descreve uma porção de |
    | { { |ellipse. |
    | D { | |
    | I { { Machados |De formas diversas similhando-se mais |
    | V { { |ou menos a uma cunha. |
    | E { { | |
    | R { E { Fôrmas para machados |São duas peças symetricas, que depois |
    | S { M { |de reunidas a parte ôcca mostra o |
    | O { { |feitio do machado. |
    | S { { | |
    | { B { Espadas |Folhas direitas, chatas, de dois gumes,|
    | { R { |acabando em ponta. |
    | { O { | |
    | { N { Punhaes |Quasi similhante ás espadas na forma, |
    | { Z { |porém com menor comprimento. |
    | { E { | |
    | { { Cabeças de rojões |De forma lanceolada tendo um |
    | { { |engrossamento no meio. |
    | | |
    | { compostas de peças |Correntes metallicas.–Perolas de pedra|
    | { |de côr-alambre, formando rosario. |
    |_Torques_{ | |
    | { de uma só peça |Argolas metallicas mais ou menos |
    | { |grossas muitas vezes com |
    | { |lavrados.–Chapas do feitio de meia |
    | { |lua. |
    | | |
    |Ornamentos diversos |Em bronze e em ouro, com lavrados. |
    | | |
    |Louça de barro |Muito fragil, mal cozida, composta de |
    | |terra preta mal preparada e cheia de |
    | |pequeninos seixos. |
    | | |
    |Moedas |Em ouro, em prata e em bronze. |
    +———————————–+—————————————+

    CAPITULO II

    *Era gallo-romana*

    Entreapparece-nos um dos mais amplos horisontes da historia dos povos
    occidentaes na conquista do imperador romano Cesar. Nos _Commentarios_
    d'este grande general temos perfeita idéa do estado da Gallia na época
    da conquista; conhecem-se tanto os grandes factos que consumou, quanto
    se inferem as consequencias que d'elles advieram á civilisação.

    Cesar encontrou a Gallia dividida em tres nações principaes: os Belgas,
    os Celtas e os Aquitanios.

    O imperador Augusto, que pretendeu organisar o governo regular nos
    paizes conquistados, formou tres novas provincias d'essas tres regiões.

    Segundo esta divisão, foram desannexados e encorporados na Aquitania 14
    povos da Celtica; além de dois que passaram do Norte para a Belgica.
    Assim ficou modificado o territorio dos primitivos povos d'esta parte da
    Europa.

    *Vias de communicação*

    Começaremos a nossa revista dos monumentos da grande época romana,
    descrevendo as vias publicas ou as grandes estradas; tanto mais que
    foram as primeiras obras que o povo rei executou e de que nos deixou
    vestigios.

    As cidades e as estancias eram accessiveis por meio de estradas solidas,
    ou calçadas. Nos intervallos que separavam estes estabelecimentos uns
    dos outros, é que principalmente se encontravam vestigios das vias
    romanas. Seguiam em geral linhas rectas, excepto quando obstaculos
    naturaes, como as montanhas, os barrancos profundos, as lagôas, se
    oppunham a isso, e prolongavam-se tanto quanto possivel nas planicies,
    afim de evitar os terrenos pantanosos.

    Além das estradas principaes, que communicavam uma cidade com outra,
    havia os caminhos vicinaes, _viae vicinales_, que conduziam ás aldeias,
    e estabeleciam relações entre estas e as cidades. Não eram alinhados
    como as primeiras, nem feitos com egual esmero.

    Nas estradas mais bem executadas, a primeira camada, ou a mais funda,
    compunha-se de pedras collocadas em raso, ás vezes assentes com
    argamassa, mas em geral postas simplesmente umas sobre as outras: era o
    que chamavam _statumen_. Em algumas vias, as pedras do _statumen_ eram
    postas de cutello e com inclinação, como explicaremos quando fallarmos
    das paredes construidas em espinha de peixe.

    A largura ordinaria das vias romanas era de 15 a 20 pés. As bordas das
    partes alteadas não se conservam em muitas localidades; arruinaram-se
    por modo que não apresentam hoje sufficiente largura para um carro poder
    passar; e em certos pontos aproximam-se mais de um fôsso, que de uma
    estrada.

    Os caminhos romanos atravessavam os rios sobre pontes, e vaus calçados.
    Em grande numero de localidades, encontram-se os alicerces das pontes,
    ou dos vaus, debaixo da agua, seguindo a directriz das antigas vias. Em
    certos casos o trilho era estabelecido sobre travessas de madeira.

    _Columnas itinerarias_.–Os caminhos romanos eram divididos por marcos
    situados em espaços regulares, e com inscripções que indicavam o numero
    de leguas ou de milhas, comprehendido entre as diversas povoações.

    As capitaes serviam de ponto central para marcar as distancias em todo o
    territorio.

    _Os marcos milliares_ tinham 5 a 6 pés de altura; eram de fórma
    cylindrica; chamavam-se milliares, _milliaria_, ou simplesmente
    _lapidas_.

    D'aqui provem as phrases tão frequentes nos auctores antigos, _ad
    primum_, _secundum_, _tertium lapidem_, a primeira, a segunda e a
    terceira pedra, ou só _ad primum_, _secundum_, _tertium_, etc. ficando
    subentendido _lapidem_ ou _milliarium_.

    A segunda camada, chamada _ruderatio_, era formada de pedras britadas de
    dimensão menor que as anteriores.

    A terceira camada, _nucleus_, compunha-se, ora de cal misturada com
    fragmentos de telha pisados, ora de areia misturada com argila.

    [Figura 26: Columna milliar que existe em França]

    Seixos inteiros, apertados uns contra os outros, ou postos simplesmente
    em leito de areia grossa, _glarea_, formavam a quarta e ultima camada,
    chamada _summa crusta_.

    Era excepcionalmente nas cidades, aldeias ou nos paizes pantanosos, que
    formavam a _summa crusta_ com calçada de pedras cubicas ou polygonaes
    irregulares.

    Em geral, serviam-se para estes trabalhos dos materiaes que encontravam
    na localidade, ou a pequena distancia; sómente os mandavam buscar mais
    longe quando eram de má qualidade no terreno das obras.

    Em muitas partes, as vias antigas foram alteadas do solo, e um _agger_
    servia de base á calçada. Estes _caminhos alteados_ conservam ainda o
    seu nivel superior em espaços muito extensos, e são faceis de
    reconhecer.

    As estradas antigas eram tambem cavadas, como se as preparassem para o
    leito de um rio. As excavações em algumas partes podiam ser consequencia
    do uso prolongado de viandantes e vechiculos; porém, em outras, foi
    visivelmente praticado com o fim de tornar mais suaves as subidas muito
    ingremes.

    [Figura 27: Torre de Pirelonge]

    O uso das columnas milliares data do anno 183 antes da era christã. Foi
    determinado em lei proposta por C.S. Graccho, e depois ampliada ás
    provincias do imperio.

    As inscripções collocadas n'estas columnas foram primitivamente
    laconicas; indicavam apenas o numero de milhas comprehendidas de uma a
    outra localidade. Augusto foi o primeiro que mandou gravar os seus nomes
    e qualificações nos marcos levantados por sua ordem, e os successores
    seguiram-lhe o exemplo.

    _Pyramides_.–As vias romanas não eram sómente guarnecidas pelas
    columnas itinerarias; aos seus lados viam-se tambem torres massiças, ou
    pyramides, ora circulares, ora quadradas.[10]

    Consideravam-se essas pyramides como tumulos; mas a maior parte parecia
    terem sido levantadas para ornar os caminhos, ou antes dedicadas a
    Mercurio, como deus protector das estradas, das artes, e do commercio.
    Em algumas d'ellas abriam especies de nichos que deviam receber a
    estatua de Deus.

    Formavam-se taes construcções de bases quadradas de alvenaria, que
    sustentavam uma serie de grandes pedras de cantaria; o remate
    apresentava a configuração conica, tendo a superficie coberta de
    entalhos sobrepostos, representando folhas de arvores em camadas. A
    torre de Pirelonge, em França, de 74 pés de altura, é um especimen
    d'este genero.

    _Mansão_.–Encontravam-se nas estradas mansões, ou pousadas, mais
    especialmente destinadas para o serviço dos correios, e para os que
    viajavam com auctorisação do imperador. Eram administradas por uns
    funccionarios chamados _mancipes_, cathegoria pouco mais ou menos egual
    á dos nossos directores do correio. Os logares das mudas de menor
    importancia e situadas com pequenos intervallos, chamavam-se _mutações_.
    Denominavam-se emfim _diversoria_ as casas construidas ao longo das
    estradas, quer pertencessem a proprietarios que hospedavam ahi os seus
    amigos, quer recebessem viajantes como os nossos hospedeiros.

    As principaes estradas romanas tinham a classificação de _publicas_ ou
    _militares_, _consulares_ ou _pretorianas_, e os caminhos menos
    frequentados designavam-se com os nomes de _particulares_, _agrarios_ ou
    _vicinaes_.

    *Architectura*

    Os romanos imitavam na sua architectura os Etruscos e os Gregos, porém
    foram menos cuidadosos na pureza das formas, do que no aspecto
    grandioso; e preferiram á formosura monumental o effeito da apparencia e
    da utilidade; portanto, procuravam sempre adpotar um systema que lhes
    desse logar a utilisar nas obras publicas o trabalho dos soldados, e
    dos escravos, dirigidos sómente por limitado numero de architectos ou
    engenheiros. Comprehendiam que era poderoso meio de dominação dotar o
    paiz vencido com os monumentos que não possuissem, introduzir em toda a
    parte a civilisação, transmittindo aos subordinados as vantagens, as
    instituições e os estabelecimentos uteis, dos quaes estavam até então
    privados.

    [Figura 28: Pequeno aparelho, e de espinha como está construido o
    monumento romano de Theséo]

    Em logar, pois, de empregar, como os Gregos, materiaes de extraordinaria
    dimensão, e por consequencia difficies de se ajustarem, preferiam, salvo
    em casos excepcionaes, pôr em obra materiaes de pequena dimensão,
    alvenaria, tijolos reunidos entre si por abundante argamassa.

    Um grande facto architectonico, como foi a adopção da abobada cylindrica
    composta de peças em forma de cunhas, fez com que pudessem afastar-se do
    systema da edificação grega, no qual dominavam as architraves e os
    apoios verticaes. Com a abobada e as arcadas de volta perfeita, de que
    os romanos tiravam tão vantajoso resultado, effectuaram-se notaveis
    construcções, que não se deveram nunca ao genio dos gregos.

    _Pequeno apparelho_.–As paredes de pequeno apparelho, o modo de
    construir mais habitualmente empregado, tem as faces formadas de pedras
    symetricas, quasi quadradas, e cuja face não tem mais de 3 a 4
    pollegadas e raras vezes de 5 a 6. O centro da parede mostra um massiço
    de alvenaria irregular feito com pedra miuda imbebido de cimento.

    Notam-se em varias construcções, de pequeno apparelho, zonas horisontaes
    e continuas de grandes tijolos, destinados a sustentar o nivel das
    pedras pequenas do refôrço da alvenaria. Estas zonas compôem-se
    geralmente de dois ou tres, e tambem de cinco, seis ou sete fileiras de
    tijolos separados por camadas de cimento, cuja espessura é quasi egual á
    dos tijolos.

    Os romanos dispozeram tambem as pedras com o feitio de folhas de fetos,
    ou em espinhas, como se vê na gravura da pagina anterior.

    A argamassa era sempre applicada com grande espessura entre as pedras e
    nenhuma das quaes estava em contacto immediato, mas de certo modo
    imbebidas no cimento.

    As dimensões dos tijolos variavam muito para poder indicar-se
    absolutamente a mais usual; comtudo era entre 14 a 15 pollegadas de
    comprimento por 8 a 10 de largura; mas havia maiores, e até alguns mui
    pequenos.

    _Apparelho reticular_.–Os architectos romanos empregavam egualmente a
    _obra articulada_, ou alvenaria em forma de malhas, differente do
    pequeno apparelho ordinario, por que as pedras do revestimento eram
    cortadas com esmero, de tamanhos eguaes, e collocadas de modo que as
    juntas apresentavam linhas diagonaes, simelhando uma rede. Este genero
    de reforço de alvenaria empregavam-no geralmente como ornamento, pois
    não se encontra applicado exclusivamente, mas quasi sempre combinado e
    intercalado com o pequeno apparelho.

    [Figura 29]

    As paredes do grande apparelho encontram-se nos mais importantes e
    grandiosos edificios, como os templos, os arcos de triumpho, os
    theatros, etc.

    _Argamassa e cimento_.–As argamassas dos romanos compunham-se de cal
    viva e de areia, e frequentemente de tijolo pizado, em proporções
    variaveis, e que seria difficil determinar. A presença do tijolo pisado
    distingue-se de quasi todas as que depois foram empregadas. Todavia
    encontram-se tambem argamassas romanas que não contem nenhuma parcella
    de tijolo, assim como não apresenta nenhum caracter particular.

    _Ordens_.–chama-se _Ordem_ a combinação de diversas partes salientes
    dispostas, com proporções fixas, para compôr um conjuncto regular e
    harmonico de ornamentação das fachadas dos edificios importantes.

    Divide-se uma ordem de architectura em tres partes, ou membros, que são
    pedestal–columna–e um entablamento. Cada membro divide-se em tres
    partes d'este modo:

    { Base.
    Primeiro membro ou pedestal { Soco.
    { Cornija.

    { Base.
    Segundo membro ou columna { Fuste.
    { Capitel.

    { Architrave.
    Terceiro membro ou entablamento { Friso.
    { Cornija.

    Os romanos empregavam cinco ordens:

    A Toscana.
    A Dorica.
    A Jonica.
    A Corinthia.
    A Composita.

    A Dorica, a Jonica e a Corinthia, eram de origem grega.

    A Toscana e a Composita nasceram na Italia.

    É por isso que se designam algumas vezes as tres primeiras sob a
    denominação _ordens gregas_, e as duas outras sob a de _ordem latina_.

    Nas ordens Toscana, Dorica, Jonica e Corinthia, a columna tem proporções
    differentes; as da Corinthia e Composita são eguaes.

    Eis o quadro d'estas proporções conforme o architecto Vignola, que é o
    auctor mais seguido pela simplicidade das subdivisões:

    A altura da { Toscana, de 7 vezes. } Do diametro
    columna vem a { Dorica, de 8 idem. } inferior, isto é
    ser para a { Jonica, de 9 idem. } a grossura tomada
    ordem: { Corinthia, de 10 idem. } no fuste junto da
    { Composita, de 10 idem. } base.

    Portanto, as quatro primeiras ordens differem nas proporções; a da
    quinta ordem são eguaes ás da quarta. Os pedestaes e os entablamentos
    differem tambem nas quatro primeiras ordens.

    Em geral, o pedestal tem o _terço_ da altura da columna, e o
    entablamento a _quarta_ parte, conforme o auctor citado.

    O modulo é medida convencional que serve de escala para desenhar as
    ordens; é sempre a metade do diametro inferior do fuste da columna, o
    qual se divide em 12 partes para as tres primeiras ordens, e em 18
    partes para as duas ultimas.

    { A menos elevada e a mais simples das cinco
    Toscana { ordens.
    { Cornija sem modilhões, nem denticulos.

    { Modilhões, denticulos ou mutulos na cornija,
    { triglyphos no friso, gottas na architrave.
    Dorica { Capitel da mesma forma que o da Toscana, porém
    { um pouco mais ornado, caneluras ou estrias
    { no fuste.

    { Capitel com volutas, cornija ornada de
    Jonica { denticulos.
    { Architrave dividida em três platebandas ou faixas.

    [Figura 30: Fachada d'um templo Dorico]

    [Figura 31: Dorico]

    [Figura 32: Jonico]

    [Figura 33: Corinthio]

    { Capitel ornado de dois renques de folhas de
    { acantho e dezeseis volutas.–Dois renques de
    Corinthia { denticulos e um de modilhões na cornija.–Architrave
    { dividida em tres platebandas ou faixas
    { por baguetas ornadas de molduras.

    { Capitel imitando o das Ordens Corinthia e
    Composita { Jonica.–Cornija com denticulos.–Duas platebandas
    { ou faixas na architrave.

    [Figura 34: Portico da Ordem Toscana]

    As columnas não são sempre applicadas para decoração dos edificios;
    substituem-se ás vezes por pilastras, que, sem ter o aspecto gracioso
    das columnas, produzem não obstante um effeito agradavel á vista. As
    _pilastras_ tem em geral pouca saliencia, não excedendo a mais da metade
    da largura; e não se lhes diminue o diametro da parte superior do fuste,
    como acontece ás columnas.

    Eis a disposição de um _portico_ da ordem Toscana: quando se collocam
    muitas ordens de columnas ou pilastras em um edificio, é preciso que as
    Ordens mais delicadas fiquem sobrepostas ás mais solidas: portanto, não
    se collocam nunca as columnas Toscanas sobre as columnas Jonicas, e se o
    architecto empregar a Jonica, ou a Corinthia, seguirá a regra de
    sobrepôr a segunda á primeira.

    Não julguemos que a architectura antiga está representada pelas _cinco
    ordens_ classificadas e regularisadas pelos insignes architectos
    italianos do _Renascimento das artes_. Ficaremos muito surprehendidos
    quando, examinando os restos da architectura romana existentes nas
    antigas cidades, particularmente na Italia, e n'este paiz em especial
    Roma, virmos que não differem, quasi em parte alguma, na _rigorosa
    similhança_, as cinco celebres Ordens desenhadas e medidas por Vignola,
    Palladio, Serlio, Scamozzi e outros architectos illustres. Pelo
    contrario, os typos principaes da architectura antiga apresentam
    infinita variedade, que augmenta nos edificios cuja data se aproxima dos
    ultimos tempos do imperio, a tal ponto que vem a ser realmente mui
    difficil determinar a Ordem a que pertencem taes ou taes entablamentos,
    capiteis, bases, columnas, etc.

    Os capiteis, principalmente, apresentam diversidade de formas e
    ornamentações, que será baldada a classificação rigorosa; mostram
    todavia na composição riqueza e delicadeza de cinzel, sobejamente
    notaveis; observando-se pelo conhecimento dos effeitos pittorescos,
    produzidos no claro-escuro, o esmero do trabalho. As partes em relevo
    são conservadas com acerto e habilmente executadas.

    Os architectos modernos, creando typos unicos sob a denominação de cada
    uma das Ordens; desejando subordinar tudo a esses typos, privaram-se de
    produzir combinações graciosas, em quanto os artistas do estylo romano,
    engenhosos e fecundos, tiravam partido da liberdade de composição,
    enriquecendo a architectura em que reproduziam as formas, não punham
    peias á imaginação, e evitavam executar obras monotonas, pobres e sem
    attractivos, como succede em muitas presentemente levantadas.

    Os edificios publicos e muitas casas particulares eram durante a
    dominação romana, revestidas de marmore, ou de cimento e cal; e algumas
    tinham mosaicos, e aqueciam-n'as por meio dos hypocaustos.

    Os _mosaicos_[11] antigos, dos quaes se tem encontrado repetidamente
    fragmentos em localidades hoje inhabitaveis, compõem-se de pequeninas
    peças cubicas imbebidas em especie de massa e assentes em cimento
    misturado com tijolo moido.

    [Figura 35]

    Estas pequenas peças de diversas cores eram combinadas de maneira que
    formavam differentes desenhos. Alguns mosaicos representavam combates de
    animaes e outras scenas.

    A mais importante descoberta feita em Portugal foi a que fizemos perto
    de Leiria, em 1874, de um mosaico de cinco côres e com difficeis
    combinações de linhas geometricas, pertencente a uma _villa rustica
    romana_.

    _Hypocaustos_.–Os hypocaustos, estabelecidos no pavimento terreo das
    habitações romanas, eram empregados como os caloriferos modernos.

    Para formarmos idéa exacta do hypocausto, é preciso figurarmos um
    sobrado levantado quasi a 2 pés acima do solo, e sustentado sobre
    pequenos pilares A de egual altura, distantes uns dos outros 1 pé, por
    meio dos quaes o calor circulava e aquecia por egual o piso que cobria
    esta especie de subterraneo. Os pilares dos hypocaustos eram geralmente
    quadrados, compostos de tijolos de 7, e 8 ou 10 pollegadas de
    comprimento, uns sobre os outros, com o intervallo de uma camada de
    argamassa.

    [Figura 36]

    Os pilares do hypocausto recebiam grandes tijolos de 18 a 20 pollegadas
    em quadrado B, formando a base do pavimento das habitações.

    Em muitas localidades, os tijolos eram sobrepostos de modo que
    apresentavam o cimo menos largo que a base.

    O calorico não ficava concentrado no subterraneo onde estava o
    hypocausto: circulava nos pontos mais elevados, e entrava egualmente em
    todas as partes da atmosphera das salas, passando dor tubos quadrados de
    barro cozido 4 e 5, introduzidos na grossura da parede, 3 e 3, gravura
    de pag. 46 [fig. 37], um dos quaes, em posição vertical, penetrava no
    hypocausto, emquanto outros, collocados horisontalmente, circumdavam os
    aposentos.

    O lume que aquecia o hypocausto era acêso n'um forno posto em pequenos
    pateos ou vestibulos proximos do hypocausto.

    _Embutidos e ornamentos_.–O marmore foi frequentemente empregado para a
    decoração das paredes.

    Em geral, os architectos romanos souberam tirar grande partido dos
    materiaes que fornecia o paiz em que se faziam as obras.

    Não era raro vêr entrar em combinação os materiaes indigenas com os
    exoticos mais preciosos, taes como o porphyro, os marmores cipolino, os
    ophitos, etc., etc.

    O uso de pintar as paredes era tão geral que as simples construcções em
    taipa e os tectos revestidos de barro tambem recebiam essa ornamentação.
    A pintura era applicada sobre delgado guarnecimento de cal.

    Os methodos usados pelos romanos para a pintura das paredes são-nos
    imperfeitamente conhecidos. Comtudo, um d'elles consistia em applicar
    com a broxa cera colorida e derretida, estendendo-se ainda quente nas
    paredes.

    [Figura 37: Tubos verticaes (4 e 5) para circular o calor, mettidos nas
    paredes]

    A cêra não era empregada só, mas misturavam-n'a com azeite para a tornar
    mais liquida: todavia, a maior parte d'essas pinturas parece ter sido
    assente a frio, e a sua adherencia seria produzida, talvez, por uma
    especie de colla que lhe ajuntavam.

    As paredes e os tectos eram tambem em algumas habitações revestidos de
    mosaicos de vidro preto, azul, branco, verde escuro, etc., decorações
    que se encontravam em muitas salas de banhos.

    Plinio diz-nos que empregavam o vidro nos mosaicos das abobadas e das
    paredes, advertindo que este uso era recente, comparativamente com o dos
    mosaicos de pedra ou barro cozido. Achâmos na _villa rustica romana_,
    descoberta por nós em Leiria, duas casas com mosaicos d'este ultimo
    modo, e outra de argila cozida.

    _Telhas e telhados_.–Os telhados das casas romanas eram formados de
    telhas chatas de grande dimensão, mais compridas que largas com um
    resalto sobre os dois lados: assim como havia telhas curvas similhantes
    ás dos telhados modernos.[12] As primeiras adaptavam-se umas ás outras
    pelas extremidades que não tinham resalto; as segundas ligavam-se entre
    si no sentido da inclinação do telhado, ficando em fiadas parallelas as
    telhas chatas e para cobrir as juntas e evitar a infiltração das aguas
    da chuva.

    Os fragmentos das telhas com resalto tem resistido quatorze seculos á
    acção destruidora dos elementos, e das pancadas do arado; encontram-se
    espalhados e enterrados em grande quantidade em quasi todos os logares
    onde existiram construcções romanas.

    Em fim, estes restos são o melhor indicio para o reconhecimento das
    regiões antigamente occupadas pelos romanos.

    *Pontes*

    As pontes, obra de tamanha utilidade, tornam-se mui notaveis pelas suas
    ousadas dimensões. Existem presentemente poucos vestigios d'ellas: o
    maior numero ficou destruido, pela força das correntes, ou reconstruido
    em diversas épocas e alterado na primitiva construcção. Podemos apenas
    citar poucas das compostas na época romana.

    Nas pontes, como em outros monumentos gallo-romanos e luso-romanos,
    empregou-se o grande apparelho, e muitas vezes de alvenaria com
    argamassa (_empleton_) revestido de pequenas pedras symetricas (_opus
    incertum_).

    [Figura 38: A ponte de S. Chamas, e as suas duas portas monumentaes]

    Quando usavam os materiaes de grande dimensão, as pedras ficavam prezas
    umas ás outras com os cancros de ferro ou de bronze, e algumas vezes com
    malhetes de madeira de oliveira, previamente secca no forno.

    Nas pontes construidas com pequeno apparelho a boa qualidade da
    argamassa dava-lhes tal solidez, que os pegões que sustentavam os arcos
    não soffreram depois nenhuma alteração.

    Os pegões apresentavam algumas vezes, do lado da corrente, uma parte
    saliente triangular, para cortar assim a força da agua; e se o rio tinha
    demasiada extensão, acontecia então dividil-o em muitos braços, afim de
    construir a ponte em secções. D'este modo corrigia-se a rapidez dos rios
    pela divisão das aguas, e tornava-se menos difficil a construcção das
    pontes. Na idade media foram imitadas.

    As pontes construidas com mais esmero e regularidade eram ás vezes
    verdadeiros monumentos, que serviam tambem para aformoseamento. Algumas
    tinham portas monumentaes ou arcos de triumpho.

    _Pontes de madeira_.–Tratámos das pontes de pedra, porque só estas
    poderiam subsistir até os nossos dias; mas, durante o dominio dos
    romanos, tinham elles egualmente grande numero de pontes construidas de
    madeira.

    Passava-se tambem os rios servindo-se de barcos de passagem, com
    jangadas sustentadas em odres ou tonneis vazios, como é usado ainda hoje
    em casos urgentes. Havia tambem pontes firmadas em barcos, como se vê
    figurado na columna de Trajano em Roma.

    _Muralhas e caes_.–Os caes ou as grandes muralhas de supporte,
    construidas nas margens dos rios, vinham ligar-se ás pontes, quando
    estas existiam nas cidades.

    *Aqueductos*

    Os aqueductos, pela sua consideravel extensão e a importancia das ruinas
    que se conhecem em differentes pontos, offerecem interesse especial.

    Os romanos, como todas as nações civilisadas, gastavam grande
    quantidade de agua para os usos domesticos; sendo muito escrupulosos na
    boa qualidade da agua, embora a fossem buscar a grandes distancias para
    os centros da povoação, empregando para esse fim canaes ou aqueductos.

    [Figura 39: Restauração de um aqueduto em siphão]

    Os aqueductos antigos que ainda existem, como os que possue a Italia, e
    os vêmos em outras partes, apresentam os canos de alvenaria feitos com
    mais ou menos solidez, e mais ou menos cuidadosamente betumados.
    Serviam-se geralmente das pedras de pequenas dimensões, embebidas na
    argamassa. Os canos, sendo proporcionados ao volume de agua que deviam
    levar, eram formados com abobada em volta perfeita, se ás vezes cobertos
    com grandes lageas assentes e sobrepostas sem cimento.

    Para se obter o nivel das encostas que se encontravam na juncção dos
    encanamentos, faziam-n'os passar então sobre arcos mais ou menos
    elevados, que reuniam os dois lados do valle; outras vezes
    sobrepunham-se dois ou tres renques de arcos, com receio de que a
    demasiada altura dos pilares lhes diminuisse a solidez.

    Quando o valle era muito profundo, para por este meio poder firmar-se o
    encanamento do aqueducto em nivel conveniente, conduziam a agua em tubos
    de chumbo que subiam até o cume da collina opposta, onde a agua pudesse
    seguir a sua corrente natural, conforme Vitruvio descreve mui claramente
    no seu 8.^o livro de architectura.

    [Figura 40: Canal subterraneo do aqueducto]

    [Figura 41: Canal de aqueducto sustentado sobre arcadas]

    [Figura 42: Vista geral da ponte do Gard]

    Para evitar trabalhos sempre difficies e dispendiosos, faziam seguir aos
    encanamentos subterrâneos, rodeios, ou sinuosidades, e por esta maneira
    as aguas podiam transpôr grandes espaços sem encontrarem encostas, e sem
    ficarem impedidas pelos obstáculos das montanhas.

    Os aqueductos eram todavia mais communs soterrados, e só apparentes nos
    valles, onde necessariamente os canos passavam sobre paredões ou
    arcarias.

    Os encanamentos que distribuiam as aguas nas fontes para os banhos e
    para outros estabelecimentos publicos e particulares das cidades
    gallo-romanas, eram feitos de chumbo ou barro. Saiam de um reservatório
    commum, ou castello de agua, _castellum_, como se vê um em Évora, do
    tempo de Sertorio.

    A primeira gravura da pag. 51 [fig. 40], mostra o encanamento do
    aqueducto de Fréjo, um dos mais extensos que subsistem, tal qual se
    apresenta á vista quando se mantém subterraneo, ou collocado nas
    encostas das collinas, fig. 41. Este exemplo explica todo o systema
    empregado pelos engenheiros romanos.

    Os aqueductos seguem a construcção egual das obras de arte executadas
    nos caminhos de ferro, transpôem como ellas os valles sobre viaductos, e
    atravessam as montanhas por meio de vallas ou tUneis.

    Pontes e aqueductos serviam para transpôr os valles, e alguns tinham 90
    arcos. A ponte do Gard, em França, era formada de três renques de
    arcadas sobrepostas, servia para o transito e o ultimo conduzia a agua á
    cidade, correndo na extensão de 41:000 metros. Indica a gravura da
    pagina anterior a sua construcção.

    O numero dos aqueductos era extraordinario; não só se encontravam nas
    proximidades das grandes povoações, mas tambem das pequenas, e até junto
    das casas de campo de limitada apparencia.

    *Cloacas*

    As _cloacas_ constituiam outra especie de aqueductos subterraneos para
    receber as aguas inuteis, ou para as aguas da chuva e immundicies.

    Em Roma, estendiam-n'as por toda a cidade, e subdividiam-n'as em muitos
    ramaes que vinham desaguar no Tibre. O principal cano de despejo, com o
    qual os outros communicavam era chamado _cloaca maxima_. Tinha abobadas
    elevadas construidas com grande solidez, por debaixo das quaes se
    passava em barcos[13].

    *Praças publicas*

    _O forum_ era geralmente uma praça onde se reuniam as assembléas do
    povo, onde se administrava a justiça e onde se tratavam os negocios
    publicos. Estava em certas partes rodeado de _porticos_, edificios e
    lojas.

    Nas cidades de importancia secundaria, onde os porticos não eram
    repetidos como em Roma, achavam-se principalmente perto dos monumentos
    publicos, taes como os theatros, as thermas, os palacios, os templos,
    etc. etc.; collocavam muitas vezes os porticos do _forum_, por detraz da
    scena dos theatros, afim de que, conforme diz Vitruvio, quando
    inopinadamente chovesse durante o espectaculo, o povo pudesse abrigar-se
    ali.

    A forma das praças, ou _fora_, era a do quadrilongo. Vitruvio affirma
    que devia ter um terço em comprimento, a mais de um lado que de outro.

    *Basilicas*

    A palavra _basilica_, significa _casa real_: designava em Roma um
    edificio sumptuoso dentro do qual os magistrados faziam justiça, por
    isso a distinguiam do _forum_, onde as sessões eram celebradas ao ar
    livre. As basilicas tinham tambem a fórma de um quadrilongo.

    Parte dos porticos, interiormente decorados, ficava occupada pelos
    commerciantes: portanto, estes edificios eram ao mesmo tempo destinados
    aos negocios forenses, e uma especie de praça de commercio.

    Em quanto á disposição das basilicas as primitivas egrejas christãs
    transmittiram-nos a imitação, e conservaram o nome. As basilicas
    consistiam pois em vasto recinto, tres vezes mais comprido que largo,
    dividido em renques de columnas formando muitas naves. Não ha a certeza
    de que as basilicas fossem rodeadas de paredes por todos os lados;
    julga-se que algumas eram abertas, pelo menos de um lado, para dar mais
    facil accesso ao povo, e para que as galerias communicassem melhor com a
    praça publica.

    Não se pode duvidar de que não tivessem existido basilicas nas cidades
    gallo-romanas; porém seria difficil indicar o sitio que occupariam,
    porque desappareceram completamente os vestigios.

    *Arcos de triumpho e portas monumentaes*

    Os _arcos de triumpho_, porticos levantados á entrada das cidades, no
    logar da passagem publica, perto dos _forums_, diante dos templos, e na
    cabeça das pontes, etc. etc.; afim de indicar a memoria de uma victoria,
    de um grande serviço prestado ao imperio, e algumas vezes sem outro
    intuito mais que o de aformosear as cidades onde se erigiam.

    [Figura 43: Arco de triumpho]

    Dá-se tambem esta denominação ás portas das cidades antigas, que
    apresentavam uma disposição quasi similhante á dos arcos de triumpho.
    Estes, porém, eram monumentos isolados, formando um só corpo, e não se
    ligavam ás construções das trincheiras ou muralhas.

    Era o contrario do que succedia nas _portas da cidade_, as quaes não
    obstante patentearem por vezes nas fachadas grande magnificencia,
    todavia as extremidades lateraes ficavam encravadas nas muralhas dos
    recintos fortificados, formando-lhes assim o accessorio ou a
    ornamentação.

    [Figura 44: Portas de Santo André em Autun]

    Entre as portas, a disposição mais seguida era a que a gravura
    apresenta, copiada da de Santo André de _Autun_, em França.

    *Templos*

    Duas formas eram consagradas para estes edificios religiosos, a
    quadrilonga e a circular. Seguiam mais geralmente a primeira. Os
    _templos_ receberam differentes denominações, conforme a disposição das
    columnas que os decoravam; distinguindo-se pela seguinte maneira:

    Os templos com pilastras–Os _prostylos_, fig. 45.–Os _amphiprostylos_,
    fig. 46.–Os_ peripteros_, fig. 47.–O _monoptero_, fig. 48.–Os
    _pseudo-peripterios_, fig. 49.–Os _hypetheros_, fig. 50.–Os
    _monopteros_.

    [Figura 47: Periptero quadrado]

    [Figura 48: Periptero redondo]

    [Figura 45: Prostylos]

    [Figura 49: Pseudo-Periptero]

    [Figura 50: Hypethreos]

    [Figura 46: Amphiprostylos]

    Os primeiros não tinham senão pilastras nos cunhaes da frente, e só uma
    columna de cada lado da porta.

    Os templos _prostylos_ apresentavam quatro columnas na face exterior, e
    não tinham nenhuma aos lados, nem na parte posterior.

    Nos templos _peripteros_, as columnas rodeavam completamente o edificio;
    sendo em o numero de seis nas fachadas anterior e posterior.

    Nos templos _pseudo-peripteros_ differençavam-se dos antecedentes em que
    as columnas estavam embebidas nas paredes lateraes e na parede do fundo,
    em logar de ficarem separadas.

    Duplo renque de columnas rodeava os templos dipteros, oito das quaes
    ornavam a fachada.

    Finalmente, o templo _monoptero_ apresentava simplesmente a cupula
    sustentada sobre columnas dispostas em circumferencia; e o santuario não
    era fechado.

    Resulta pois, do que fica exposto, que em todos os templos, excepto nos
    monopteros, havia uma parte fechada que era o santuario; em muitos
    templos, corriam em roda d'esse santuario galerias abertas, como especie
    de porticos para a ornamentação externa do edificio. A parte encerrada
    era designada sob o nome de _cella_ ou _nau_. Ahi collocavam a estatua
    da divindade, em honra da qual o templo fôra erigido.

    Na frente da _cella_, e por detraz das columnas da fachada, estava o
    _pronaus_ ou vestibulo, no qual abriam a porta da entrada; á extremidade
    opposta do templo dava-se-lhe o nome de _posticum_. Algumas vezes
    reservavam, na parte posterior da _cella_, um quarto A destinado a
    guardar o thesouro do templo, e que se designava sob o nome de
    _opisthodomos_.

    As columnas eram sempre em numero par nas fachadas dos templos; e
    conforme que se contava quatro, seis, oito ou dez, os templos tomavam a
    denominação de _tetrastylos_ (4 columnas), _hexastylos_ (6 columnas),
    _octostylos_ (8 columnas), ou _decastylos_ (10 columnas).

    Finalmente, certos templos eram rodeados de uma cerca _peribobos_ ou
    antecedidos de pateo fechado, e ornados com portico, á roda do qual
    estavam os aposentos dos sacerdotes.

    A estatua da divindade, feita de bronze, marmore, ou pedra, collocava-se
    no fundo da _cella_, em pedestal um pouco mais elevado que o altar, e
    fazia face á porta da entrada. Em geral, os templos ficavam voltados
    para o oriente.

    [Figura 51: Fachada da Casa Quadrada de Nimes]

    Não se deve julgar que os templos fossem muito vastos; alguns d'elles
    tinham até pequenissimas dimensões, e isso explica-se facilmente pelo
    conhecimento dos usos religiosos antigos, porque o exercicio do culto
    era individual; cada um tinha dias proprios para o sacrificio, em
    quanto, no christianismo, o exercicio do culto é collectivo.

    O templo _pseudo-periptero_ hexastylo ha em Nimes (França), da ordem
    corinthia, o qual serve actualmente para museu de archeologia. A gravura
    mostra as suas bellas proporções e belleza.

    As dimensões e a disposição do _templo de Diana_, em Evora,
    apresenta-nos outro exemplo d'esta ordem de edificios do antigo
    paganismo, que felizmente se conserva em Portugal nas suas magestosas
    ruinas, como se vê na presente gravura.

    [Figura 52: Templo de Diana, em Evora]

    Os templos rectangulares ficavam dispostos como indica a gravura da pag.
    60 [fig. 53], rodeados de porticos; no meio d'elles havia o logar da
    cella e dentro o pedestal para a divindade.

    Os templos circulares dividiam-se em duas classes: a primeira chamada
    _monoptero_, compunha-se sómente de recinto formado por columnas
    collocadas em pedestal commum, _stylobato_; o segundo _periptero_,
    apresentava uma _cella_ á roda da qual havia columnas, pousada
    egualmente sobre um _stylobato_, com degraus para ganhar a altura do
    pedestal, e dar entrada para o templo.

    Fragmentos achados dos templos antigos, fizeram vêr que as suas
    esculpturas tinham sido pintadas de branco e amarello com traços
    encarnados, para dar mais relevo aos contornos.

    Não só havia templos nas cidades, mas tambem nos campos. Alguns d'estes
    eram de grande veneração, pois que serviam de deposito aos mais ricos
    thesouros, principalmente os dedicados a Mercurio.

  • Marilia de Dirceo

    Marilia de Dirceo

    Aproximadamente 21.475 palavras.

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    MARILIA DE DIRCEO.

    MARILIA DE DIRCEO.

    POR T.A.G.

    PRIMEIRA PARTE.

    LISBOA:

    Na Typ. de J.F.M. de Campos. 1824.

    MARILIA DE DIRCEO.

    LYRA I.

    Eu, Marilia, não sou algum vaqueiro,
    Que viva de guardar alheio gado,
    De tosco trato, de expressões grosseiro,
    Dos frios gelos, e dos sóes queimado.
    Tenho proprio casal, e nelle assisto;
    Dá-me vinho, legume, fruta, azeite,
    Das brancas ovelhinas tiro o leite,
    E mais as finas lãs, de que me visto.
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    Eu vi o meu semblante n'uma fonte,
    Dos annos inda não está cortado:
    Os Pastores, que habitão este monte,
    Respeitão o poder do meu cajado.
    Com tal destreza toco a sanfoninha,
    Que inveja até me tem o proprio Alceste:
    Ao som della concerto a voz celeste;
    Nem canto letra que não seja minha.
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    Mas tendo tantos dotes da ventura,
    Só aprêço lhes dou, gentil Pastora,
    Depois que o teu affecto me segura,
    Que queres do que tenho ser Senhora.
    He bom, minha Marilia, he bom ser dono
    De hum rebanho, que cubra monte, e prado
    Porém, gentil Pastora, o teu agrado
    Vale mais [~q] h[~u] rebanho, e mais [~q] h[~u] throno.
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    Os teus olhos espalhão luz divina,
    A quem a luz do Sol em vão se atreve:
    Papoila, ou rosa delicada, e fina,
    Te cobre as faces, que são côr da neve.
    Os teus cabellos são huns fios d'ouro;
    Teu lindo corpo balsamos vapora.
    Ah! não, não fez o Ceo, gentil Pastora,
    Para gloria de Amor igual Thesouro.
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    Leve-me a sementeira muito embora
    O rio sobre os campos levantado:
    Acabe, acabe a peste matadora,
    Sem deixar huma rez, o nedeo gado.
    Já destes bens, Marilia, não preciso:
    Nem me céga a paixão, que o mundo arrasta,
    Para viver feliz, Marilia, basta
    Que os olhos movas, e me dês hum riso.
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    Hirás a divertir-te na floresta,
    Sustentada, Marilia, no meu braço;
    Aqui descançarei a quente sésta,
    Dormindo num leve somno em teu regaço:
    Era quanto a luta jogão os Pastores,
    E emparelhados correm nas campinas,
    Toucarei teus cabellos de boninas,
    Nos troncos gravarei os teus louvores.
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    Depois que nos ferir a mão da Morte
    Ou seja neste monte, ou n'outra serra,
    Nossos corpos terão, terão a sorte
    De consumir os dous a mesma terra.
    Na campa, rodeada de cyprestes,
    Leráõ estas palavras os Pastores:
    "Quem quizer ser feliz nos seus amores,
    Siga os exemplos que nos derão estes"
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    LYRA II.

    Pintão, Marilia, os Poetas
    A hum menino vendado,
    Com huma aljava de settas,
    Arco empunhado na mão:
    Ligeiras azas nos hombros,
    O tenro corpo despido;
    E de Amor, ou de Cupido
    São os nomes que lhe dão.

    Porém eu, Marilia, nego,
    Que assim seja Amor; pois elle
    Nem he moço, nem he cégo,
    Nem settas, nem azas tem,
    Ora pois, eu vou formar-lhe
    Hum retrato mais perfeito,
    Que elle já ferio meu peito;
    Por isso o conheço bem.

    Os seus compridos cabellos;
    Que sobre as costas ondeão,
    São que os de Apollo mais bellos;
    Mas de loura côr não são.
    Tem a côr da negra noite;
    E com o branco do rosto
    Fazem, Marilia, hum composto
    Da mais formosa união.

    Tem redonda, e lisa testa;
    Arqueadas sobrancelhas;
    A voz meiga, a vista honesta,
    E seus olhos são huns sóes,
    Aqui vence Amor ao Ceo,
    Que no dia luminoso
    O Ceo tem hum Sol formoso,
    E o travesso Amor tem dous.

    Na sua face mimosa,
    Marilia, estão misturadas
    Purpureas folhas de rosa,
    Brancas folhas de jasmim.
    Dos rubins mais preciosos
    Os seus beiços são formados;
    Os seus dentes delicados
    São pedaços de marfim.

    Mal vi seu rosto perfeito
    Dei logo hum suspiro, e elle
    Conheceo haver-me feito
    Estrago no coração.
    Punha em mim os olhos, quando
    Entendia eu não olhava:
    Vendo que o via, baixava
    A modesta vista ao chão.

    Chamei-lhe hum dia formoso;
    Elle ouvindo os seus louvores
    Com hum modo desdenhoso,
    Se surrio, e não fallou.
    Pintei-lhe outra vez o estado,
    Em que estava esta alma posta;
    Não me deo tambem resposta,
    Constrangeo-se, e suspirou.

    Conheço os signaes, e logo
    Animado da esperança,
    Busco dar hum desaffogo
    Ao cansado coração.
    Pégo em seus dedos nevados,
    E querendo dar-lhe hum beijo,
    Cubrio-se todo de pejo,
    E fugio-me com a mão.

    Tu, Marilia, agora vendo
    De Amor o lindo retrato,
    Comtigo estarás dizendo,
    Que he este o retrato teu.
    Sim, Marilia, a copia he tua,
    Que Cupido he Deos supposto:
    Se ha Cupido he só teu rosto,
    Que elle foi quem me venceo.

    LYRA III.

    De amar, minha Marilia, a formosura
    Não se podem livrar humanos peitos.
    Adorão os Heróes, e os mesmos brutos
    Aos grilhões de Cupido estão sujeitos.
    Quem, Marilia, despreza huma belleza,
    A luz da razão precisa,
    E se tem discurso, pisa
    A Lei, que lhe ditou a Natureza.

    Cupido entrou no Ceo. O grande Jove
    Huma vez se mudou em chuva de ouro:
    Outras vezes tomou as varias fórmas
    De General de Thebas, velha, e touro,
    O proprio Deos da Guerra deshumano
    Não viveo de amor illeso;
    Quiz a Venus, e foi prezo
    Na rede, que lhe armou o Deos Vulcano.

    Se amar huma belleza se desculpa
    Em quem ao proprio Ceo, e terra move;
    Qual he a minha gloria, pois igualo,
    Ou excedo no amor ao mesmo Jove?
    Amou o Pai dos Deoses Soberano
    Hum semblante peregrino:
    Eu adoro o teu divino,
    O teu divino rosto, e sou humano.

    LYRA IV.

    Marilia, teus olhos
    São réos, e culpados,
    Que soffra, e que beije
    Os ferros pezados
    De injusto Senhor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Mal vi o teu rosto,
    O sangue gelou-se,
    A lingoa prendeo-se,
    Tremi, e mudou-se
    Das faces a côr.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    A vista furtiva,
    O risco imperfeito,
    Fizerão a chaga,
    Que abriste no peito
    Mais funda, e maior.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Dispuz-me a servir-te;
    Levava o teu gado
    Á fonte mais clara,
    Á vargem, e prado
    De relva melhor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Se vinha da herdade,
    Trazia nos ninhos
    As aves nascidas,
    Abrindo os biquinhos
    De fome ou temor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Se alguem te louvava
    De gosto me enchia;
    Mas sempre o ciume
    No rosto accendia
    Hum vivo calor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Se estavas alegre,
    Dirceo se alegrava;
    Se estavas sentida,
    Dirceo suspirava
    Á força da dor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Fallando com Laura,
    Marilia dizia;
    Surria-se aquella,
    E eu conhecia
    O erro de amor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Movida, Marilia,
    De tanta ternura,
    Nos braços me déste,
    Da tua fé pura
    Hum doce penhor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Tu mesma disseste
    Que tudo podia
    Mudar de figura;
    Mas nunca seria
    Teu peito traidor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Tu já te mudaste;
    E a Olaia frondoza,
    Aonde escreveste
    A jura horrorosa,
    Tem todo o vigor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Mas eu te desculpo,
    Que o fado tyranno
    Te obriga a deixar-me;
    Pois busca o meu damno
    Da sorte, que for.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    LYRA V.

    A caso são estes
    Os sitios formosos,
    Aonde passava
    Os annos gostosos?
    São estes os prados,
    Aonde brincava,
    Em quanto pastava
    O manso rebanho,
    Que Alceo me deixou?
    São estes os sitios?
    São estes; mas eu
    O mesmo não sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.

    Daquelle penhasco
    Hum rio cahia,
    Ao som do sussurro
    Que vezes dormia!
    Agora não cobrem
    Espumas nevadas
    As pedras quebradas:
    Parece que o rio
    O curso voltou.
    São estes os sitios?
    São estes; mas eu
    O mesmo não sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.

    Meus versos alegre
    Aqui repetia:
    O Eco as palavras
    Tres vezes dizia.
    Se chamo por elle
    Já não me responde;
    Parece se esconde,
    Cansado de dar-me
    Os ais que lhe dou.
    São estes os sitios?
    São estes; mas eu
    O mesmo não sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.
    Aqui hum regato
    Corria sereno,
    Por marg[~e]s cobertas
    De flores, e feno:
    Á esquerda se erguia
    Hum bosque fechado;
    E o tempo apressado,
    Que nada respeita,
    Já tudo mudou.
    São estes os sitios?
    São estes; mas eu
    O mesmo não sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.

    Mas como discorro?
    Acaso podia
    Já tudo mudar-se
    No espaço de hum dia?
    Existem as fontes,
    E os freixos copados;
    Dão flores os prados,
    E corre a cascata,
    Que nunca seccou.
    São estes os sitios?
    São estes; mas eu
    O mesmo não sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.

    Minha alma, que tinha
    Liberta a vontade,
    Agora já sente
    Amor, e saudade.
    Os sitios formosos,
    Que já me agradárão,
    Ah! não se mudárão!
    Mudárão-se os olhos,
    De triste que estou.
    São estes os sitios?
    São estes; mas eu
    O mesmo não sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.

    LYRA VI.

    Oh! quanto póde em nós a varia Estrella!
    Que diversos que são os genios nossos!
    Qual solta a branca vélla,
    E affronta sobre o pinho os mares grossos.
    Qual cinge com a malha o peito duro;
    E marchando na frente das cohortes,
    Faz a toare voar, cahir o muro.

    O sordido avarento em vão trabalha,
    Que possa o filho entrar no seu Thesouro.
    Aqui fechado estende
    Sobre a taboa, que verga, as barras de ouro.
    Sacode o jogador da copo os dados;
    E n'uma noite só, que ao somno rouba,
    Perde o resto dos bens do pai herdados.

    O que da voráz gulla o vicio adora
    Da lauta meza os prazeres fia.
    E o terno Alceste chora
    Ao som dos versos a que o genio o guia.
    O sabio Gallileo toma o compasso,
    E sem voar ao Ceo, calcula, e mede
    Das Estrellas, e Sol o immenso espaço.

    Em quanto pois, Marilia, a varia gente,
    Se deixa conduzir do proprio gosto;
    Passo as horas contente
    Notando as graças do teu lindo rosto.
    Sem cansar-me a saber se o Sol se móve,
    Ou se a terra voltea, assim conheço.
    Aonde chega a mão do grande Jove.

    Noto, gentil Marilia, os teus cabellos;
    E noto as faces de Jasmins, e rosas:
    Noto os teus olhos bellos;
    Os brancos dentes, e as feições mimosas.
    Quem fez huma obra tão perfeita, e linda,
    Minha bella Marilia, tambem póde
    Fazer os Ceos, e mais, se ha mais ainda.

    LYRA VII.

    Vou retratar a Marilia,
    A Marilia meus amores;
    Porém como, se eu não vejo
    Quem me empreste as finas cores!
    Dar-mas a terra não póde;
    Não que a sua côr mimosa
    Vence o lyrio, vence a rosa:
    O jasmim, e as outras flores.
    Ah soccorre, Amor, soccorre
    Ao mais grato empenho meu!
    Vôa sobre os Astros, vôa,
    Traze-me as tintas do Ceo.

    Mas não se esmoreça logo;
    Busquemos hum pouco mais;
    Nos mares talvez se encontrem
    Cores que sejão iguaes.
    Porém não, que em parallelo
    Da minha Ninfa adorada
    Perolas não valem nada,
    Não valem nada os coraes.
    Ah soccorre, Amor, soccorre
    Ao mais grato empenho meu!
    Vôa sobre os Astros, vôa,
    Traze-me as tintas do Ceo.

    Só no Ceo achar se podem
    Taes bellezas, como aquellas,
    Que Marilia tem nos olhos,
    E que tem nas faces bellas.
    Mas ás faces graciosas,
    Aos negros olhos, que matão,
    Não imitão, não retratão
    Nem Auroras, nem Estrellas.
    Ah soccorre, Amor, soccorre
    Ao mais grato empenho meu!
    Vôa sobre os Astros, vôa,
    Traz-me as tintas do Ceo.

    Entremos, Amor, entremos,
    Entremos na mesma Esfera.
    Venha Pallas, Venha Juno,
    Venha a Deosa de Cithera.
    Porém não, que se Marilia
    No certame antigo entrasse,
    Bem que a Paris não peitasse,
    A todas as tres vencera.
    Vai-te, Amor, em vão soccorres
    Ao mais grato empenho meu:
    Para formar-lhe o retrato
    Não bastão tintas do Ceo.

    LYRA VIII.

    Marilia, de que te queixas?
    De que te roube Dirceo
    O sincero coração?
    Não te deo tambem o seu?
    E tu, Marilia, primeiro
    Não lhe lançaste o grilhão?
    Todos amão: só Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Queria ter izenção?

    Em torno das castas pombas
    Não rulão ternos pombinhos?
    E rulão, Marilia, em vão?
    Não se afagão c'os biquinhos?
    E a provas de mais ternura
    Não os arrasta a paixão?
    Todos amão: só Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Queria, ter izenção?

    Já viste, minha Marilia,
    Avezinhas, que não fação
    Os seus ninhos no verão?
    Aquellas com quem se enlação
    Não vão cantar-lhe defronte
    Do molle pouzo em que estão?
    Todos amão: só Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Queria ter izenção?

    Se os peixes, Marilia, gerão
    Nos bravos mares, e rios,
    Tudo effeitos de Amor são.
    Amão os brutos impios,
    A serpente venenosa,
    A Onça, o Tigre, o Leão.
    Todos amão: só Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Queria ter izenção?

    As grandes Deosas do Ceo,
    Sentem a setta tyranna
    Da amorosa inclinação.
    Diana, com ser Diana,
    Não se abrasa, não suspira
    Pelo amor de Endymão?
    Todos amão: só Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Queria ter izençao?

    Desiste, Marilia bella,
    De huma queixa sustentada
    Só na altiva opinião.
    Esta chamma he inspirada
    Pelo Ceo; pois nella assenta
    A nossa conservação.
    Todos amão: só Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Não deve ter izenção.

    LYRA IX.

    Eu sou, gentil Marilia, eu sou captivo,
    Porém não me venceo a mão armada
    De ferro, e de furor:
    Huma alma sobre todas elevada
    Não cede a outra força que não seja
    Á tenra mão de Amor.

    Arrastem pois os outros muito embora
    Cadêas nas bigornas trabalhadas
    Com pezados martellos:
    Eu tenho as minhas mãos ao carro atadas
    Com duros ferros não, com fios d'ouro,
    Que são os teus cabellos.

    Occulto nos teus meigos vivos olhos
    Cupido a tudo faz tyranna guerra:
    Sacode a setta ardente;
    E sendo despedida cá da terra,
    As nuvens rompe, chega ao alto Impirio,
    E chega ainda quente.

    As abelhas nas azas suspendidas
    Tirão, Marilia, os succos saborosos
    Das orvalhadas flores:
    Pendentes dos teus beiços graciosos
    Ambrosias chupão, chupão mil feitiços
    Nunca fartos Amores.

    O vento quando parte em largas fitas
    As folhas, que menêa com brandura;
    A fonte crystallina,
    Que sobre as pedras cáe de immensa altura;
    Não fórma hum som tão doce, como fórma
    A tua voz divina.

    Em torno dos teus peitos, que palpitão;
    Exalão mil suspiros desvelados
    Enchames de desejos;
    Se encontrão os teus olhos descuidados,
    Por mais que se atropelem, voão, chegão,
    E dão furtivos beijos.

    O Cisne, quando corta o manso lago,
    Erguendo as brancas azas, e o pescoço;
    A Náo que ao longe passa,
    Quando o vento lhe infuna o panno grosso;
    O teu garbo não tem, minha Marilia,
    Não tem a tua graça.

    Estimem pois os mais a liberdade:
    Eu prézo o captiveiro: sim, nem chamo
    Á mão de Amor impia:
    Honro a virtude, e os teus dotes amo:
    Tambem o grande Achilles veste a saia
    Tambem Alcides fia.

    LYRA X.

    Se existe hum peito,
    Que izento viva
    Da chamma activa,
    Que accende Amor.
    Ah! não habite
    Neste montado;
    Fuja apressado
    Do vil traidor.

    Corra, que o Impio
    Aqui se esconde:
    Não sei aonde;
    Mas sei o que vi.
    Traz novas settas,
    Arco robusto;
    Tremi de susto;
    Em vão fugi.

    Eu vou mostrar-vos,
    Tristes mortaes,
    Quantos signaes
    O Impio tem.
    Oh! como he justo,
    Que todo o humano
    Hum tal tyranno
    Conheça bem!

    No corpo ainda
    Menino existe:
    Mas quem resiste
    Ao braço seu?
    Ao negro Inferno
    Levou a guerra:
    Vencêo a terra,
    Vencêo o Ceo.

    Já mais se cobrem
    Seus membros bellos;
    E os seus cabellos
    Que lindos são!
    Vendados olhos,
    Que tudo alcanção,
    E já mais lanção
    A setta em vão.

    As suas faces
    São côr da neve;
    E a bocca breve
    Só rizos tem.
    Mas, ah! respira
    Negros venenos,
    Que nem ao menos
    Os olhos vem.

    Aljava grande
    Dependurada,
    Sempre atacada
    De bons farpões.
    Fere com estas
    Agudas lanças,
    Pombinhas mansas,
    Bravos leões.

    Se a setta falta
    Tem outra prompta,
    Que a dura ponta
    Já mais torcêo.
    Ninguem resiste
    Aos golpes della:
    Marilia bella
    Foi quem lha dêo.

    Ah! não sustente
    Dura peleija,
    O que deseja
    Ser vencedor.
    Fuja, e não olhe,
    Que só fugindo
    De hum rosto lindo,
    Se vence Amor.

    LYRA XI.

    Naõ toques, minha Musa, não, não toques
    Na sonorosa Lyra,
    Que ás almas, como a minha, namoradas
    Doces Canções inspira:
    Assopra no clarim, que apenas sôa
    Enche de assombro a terra;
    Naquelle, a cujo som cantou Homero,
    Cantou Virgilio a Guerra.

    Busquemos, ó Musa,
    Empreza maior;
    Deixemos as ternas
    Fadigas de Amor.

    Eu já não vejo as graças, de que fórma
    Cupido o seu thesouro:
    Vivos olhos, e faces côr da neve,
    Com crespos fios de ouro;
    Meus olhos só vem gramas, e loureiros;
    Vem carvalhos, e palmas;
    Vem os ramos honrosos, que destinguem
    As vencedoras almas.

    Busquemos, ó Musa,
    Empreza maior;
    Deixemos as ternas
    Fadigas de Amor.

    Cantemos o Heróe, que já no berço
    As Serpes despedaça;
    Que fere os Cácos, que destronca as Hidras,
    Mais os leões que abraça.
    Cantemos, se isto he pouco, a dura guerra
    Dos Tritães, e Tyféos,
    Que arrancão as montanhas, e atrevidos
    Levão armas aos Ceos.

    Busquemos, ó Musa,
    Empreza maior;
    Deixemos as ternas
    Fadigas de amor.

    Anima pois, ó Musa, o instrumento,
    Que a voz tambem levanto;
    Porém tu déste muito assima o ponto,
    Dirceo não póde tanto:
    Abaixa, minha Musa, o tom, que ergueste;
    Eu já, eu já te sigo.
    Mas, ah! vou a dizer _Heróe_, e _Guerra_,
    E só _Marilia_ digo.

    Deixemos, ó Musa,
    Empreza maior,
    Só posso seguir-te
    Cantando de Amor.

    Feres as cordas d'ouro? Ah! sim, agora
    Meu canto já se afina;
    E a huma voz, parece que ao som dellas
    Se faz tambem divina.
    O mesmo que cercou de muro a Thebas
    Não canta assim tão terno;
    Nem póde competir comigo aquelle,
    Que desce ao negro Inferno.

    Deixemos, ó Musa,
    Empreza maior,
    Só posso seguir-te
    Cantando de Amor.

    Mal repito _Marilia_, as doces aves
    Mostrão signaes de espanto,
    Erguem os collos, voltão as cabeças,
    Parão o ledo canto;
    Move-se o tronco, o vento se suspende
    Pasma o gado, e não come:
    Quanto podem meus versos! Quanto póde
    Só de Marilia o nome!

    Deixemos, ó Musa,
    Empreza maior;
    Só posso seguir-te
    Cantando de Amor.

    LYRA XII.

    Topei hum dia
    Ao Deos vendado,
    Que descuidado
    Não tinha as settas
    Na impia mão.
    Mal o conheço,
    Me sóbe logo
    Ao rosto o fogo,
    Que a raiva accende
    No coração.

    _Morre, Tyranno,
    Morre, inimigo_!
    Mal isto digo,
    Raivoso o apérto
    Nos braços meus.
    Tanto que o moço
    Sente apertar-se,
    Para salvar-se
    Tambem me aperta
    Nos braços seus.

    O leve corpo
    Ao ar levanto,
    Ah! e com quanto
    Impulso o trago
    Do ar ao chão!
    Poude suster-se
    A vez primeira;
    Mas á terceira
    Nos pés, que alarga,
    Se firma em vão.

    Mal o derrubo,
    Ferro aguçado
    No já cançado
    Peito, que arqueja,
    Mil golpes deo.
    Suou seu corpo;
    Tremêo gemendo;
    E á côr perdendo,
    Batêo as azas;
    Em fim morreo.

    Qual bravo Alcides,
    Que a hirsuta pelle
    Vestio daquelle
    Grenhoso bruto,
    A quem matou.
    Para que próve
    A empreza honrada,
    C'o a mão manchada
    Recolho as settas,
    Que me deixou.

    Ouvio Marilia
    Que Amor gritava,
    E como estava
    Vizinha ao sitio
    Valer-lhe vem.
    Mas quando chega
    Espavorida,
    Nem já de vida
    O féro monstro
    Indicio tem.

    Então Marilia,
    Que o vê de perto
    De pó cuberto,
    E todo involto
    No sangue seu;
    As mãos aperta
    No peito brando,
    E afflicta dando
    Hum ai, os olhos
    Levanta ao Ceo.

    Chega-se a elle
    Compadecida;
    Lava a ferida
    C'o pranto amargo,
    Que deramou.
    Então o monstro
    Dando hum suspiro,
    Fazendo hum gyro
    C'o a baça vista,
    Resuscitou.

    Respira a Deosa;
    E vem o gosto
    Fazer no rosto
    O mesmo effeito,
    Que fez a dôr.
    Que louca idéa
    Foi a que tive!
    Em quanto vive
    Marilia bella,
    Não morre Amor.

    LYRA XIII.

    Oh! quantos riscos,
    Marilia bella,
    Não atropella
    Quem cégo arrasta
    Grilhões de Amor!
    Hum peito forte,
    De acordo falto,
    Zomba do assalto
    Do vil traidor.

    O amante de Hero
    Da luz guiado,
    C'o peito ousado
    Na escura noite
    Rompia o mar,
    Se o Helesponto
    Se encapellava,
    Ah! não deixava
    De lhe ir fallar.

    Do cantor Thracio
    A heroicidade
    Esta verdade,
    Minha Marilia,
    Prova tambem.
    Cheio de esfôrço
    Vai ao Cocyto
    Buscar afflito
    Seu doce bem.

    Que acção tão grande
    Nunca intentada!
    Ao pé da entrada
    Já tudo assusta
    O coração!
    Pendentes rochas,
    Campos adustos,
    Que nem arbustos
    Nem hervas dão.

    Na funda fralda
    De calvo monte,
    Corre Acheronte,
    Rio de ardente
    Mortal licor.
    Tem o barqueiro
    Testa enrugada,
    Vista inflammada,
    Que mete horror.

    Que seguranças!
    Que fechaduras!
    As portas duras
    Não são de lenhos;
    De ferro são.
    Por tres gargantas,
    Quando alguem bate,
    Raivoso late
    O negro cão.

    Dentro da cova
    Soão lamentos;
    E que tormentos
    Não mostra aos olhos
    A escassa luz!
    Minos a pena
    Manda se intime
    Igual ao crime,
    Que alli conduz.

    Grande penedo
    Este carrega;
    E apenas chega
    Do monte ao cume,
    O faz rolar.
    A pedra sempre
    Ao valle desce,
    Sem que elle cesse
    De a ir buscar.

    Nas limpas aguas
    Habita aquelle:
    Por cima delle
    Verdejão ramos,
    Que pomos dão.
    Debalde a bocca
    Molhar pertende;
    De balde estende
    Faminta mão.

    Tem outro o peito
    Despedaçado:
    Monstro esfaimado
    Já mais descança
    De lho roêr.
    A rôxa carne,
    Que o abutre come,
    Não se consome,
    Torna a crescer.

    Mas bem que tudo
    Pavor inspira,
    Tocando a lyra
    Desce ao Averno
    O bom Cantor.
    Não se entorpece
    A lingua, e braço;
    Não treme o passo,
    Não perde a côr.

    Ah! tambem quanto
    Dirceo obrára,
    Se precisára,
    Marilia bella,
    Do esforço seu!
    Rompêra os mares
    C'o peito terno,
    Fôra ao Inferno,
    Subíra ao Ceo.

    Aos dois amantes
    De Thracia, e Abydo
    Não deo Cupido
    Do que aos mais todos
    Maior valor.
    Por seus vassallos
    Forças reparte,
    Como lhes parte
    Os gráos de Amor.

    LYRA XIV.

    Minha bella Marilia, tudo passa;
    A sorte deste mundo he mal segura;
    Se vem depois dos males a ventura,
    Vem depois dos prazeres a desgraça.
    Estão os mesmos Deoses
    Sujeitos ao poder do impio Fado:
    Apollo já fugio do Ceo brilhante,
    Já foi Pastor de gado.

    A devorante mão da negra Morte
    Acaba de roubar o bem, que temos;
    Até na triste campa não podemos
    Zombar do braço da inconstante sorte.
    Qual fica no sepulchro,
    Que seus a vós erguêrão, descançando:
    Qual no campo, e lhe arranca os frios casos
    Ferro do torto arado.

    Ah! em quanto os Destinos impiedosos
    Não voltão contra nós a face irada,
    Façamos, sim façamos, doce amada,
    Os nossos breves dias mais ditosos.
    Hum coração que frouxo
    A grata posse de seu bem difere,
    A si, Marilia, a si proprio rouba,
    E a si proprio fere.

    Ornemos nossas testas com as flores,
    E façamos de feno hum brando leito,
    Prendamo-nos, Marilia, em laço estreito,
    Gozemos do prazer de sãos Amores.
    Sobre as nossas cabeças,
    Sem que o possão deter, o tempo corre;
    E para nós o tempo, que se passa,
    Tambem, Marilia, morre.

    Com os annos, Marilia, o gôsto falta,
    E se entorpece o corpo já cançado;
    Triste o velho cordeiro está deitado,
    E o leve filho sempre alegre salta.
    A mesma formosura
    He dote, que só goza a mocidade:
    Rugão-se as faces, o cabello alveja,
    Mal chega a longa idade.

    Que havemos d'esperar, Marilia bella?
    Que vão passando os florecentes dias?
    As glorias, que vem tarde, já vem frias;
    E póde em fim mudar-se a nossa estrella.
    Ah! não, minha Marilia,
    Aproveite-se o tempo, antes que faça
    O estrago de roubar ao corpo as forças,
    E ao semblante a graça.

    LYRA XV.

    A minha bella Marilia
    Tem de seu hum bom thesouro,
    Não he, doce Alceo, formado
    Do buscado
    Metal louro.
    He feito de huns alvos dentes,
    He feito de huns olhos bellos,
    De humas faces graciosas,
    De crespos, finos cabellos;
    E de outras graças maiores,
    Que a natureza lhe dêo:
    Bens, que valem sobre a terra,
    E que tem valor no Ceo.

    Eu posso romper os montes,
    Dar ás correntes desvios,
    Pôr cercados espaçosos
    Nos caudosos
    Turvos rios.
    Posso emendar a ventura
    Ganhando astuto a riqueza;
    Mas, ah! charo Alceo, quem póde
    Ganhar huma só belleza
    Das bellezas, que Marilia
    No seu thesouro metêo?
    Bens, que valem sobre a terra,
    E que tem valor no Ceo.

    Da sorte, que vive o rico
    Entre o fausto alegremente,
    Vive o guardador de gado
    Apoucado,
    Mas contente.
    Beije pois torpe avarento
    As arcas de barras chêas:
    Eu não beijo os vís thesouros;
    Beijo as douradas cadêas,
    Beijo as settas, beijo as armas
    Com que o cego Amor vencêo:
    Bens, que valem sobre a terra,
    E que tem valor no Ceo.

    Ama Apollo o fero Marte,
    Ama, Alceo, o mesmo Jove:
    Não he, não, a vã riqueza,
    Sim belleza,
    Quem os move.
    Posto ao lado de Marilia
    Mais que mortal me contemplo:
    Deixo os bens, que aos homens cegão,
    Sigo dos Deoses o exemplo:
    Amo virtudes, e dotes;
    Amo em fim, prezado Alceo,
    Bens, que valem sobre a terra,
    E que tem valor no Ceo.

    LYRA XVI.

    Eu, Glauceste, não duvido
    Ser a tua Eulina amada
    Pastora formosa,
    Pastora engraçada.
    Vejo a sua côr de rosa,
    Vejo o seu olhar divino,
    Vejo os seus purpùreos beiços,
    Vejo o peito crystallino;
    Nem ha cousa, que assemelhe
    Ao crespo cabello louro.
    Ah! que a tua Eulina vale,
    Vale hum immenso thesouro!

    Ella vence muito, e muito
    Á laranjeira copada,
    Estando de flores,
    E frutos ornada.
    He, Glauceste, os teus Amores;
    E nem por outra Pastora,
    Que menos dotes tivera,
    Ou que menos bella fôra,
    O meu Glauceste cançára
    As divinas cordas de ouro.
    Ah! que a tua Eulina vale,
    Val hum immenso thesouro!

    Sim, Eulina he huma Deosa;
    Mas anîma a formosura
    De huma alma de féra,
    Ou inda mais dura.
    Ah! quando Alceo pondéra
    Que o seu Glauceste suspira,
    Perde, perde o soffrimento,
    E qual enfermo delira!
    Tenha embora brancas faces,
    Meigos olhos, fios de ouro,
    A tua Eulina não vale,
    Não vale immenso thesouro.

    O fuzil, que imita a cobra,
    Tambem aos olhos he bello;
    Mas quando alumêa,
    Tu tremes de velo.
    Que importa se mostre chêa
    De mil bellezas a ingrata?
    Não se julga formosura
    A formosura, que mata.
    Evita, Glauceste, evita
    O teu estrago, e desdouro;
    A tua Eulina não vale,
    Não vale immenso thesouro.

    A minha Marilia quanto
    Á natureza não deve!
    Tem divino rosto,
    E tem mãos de neve.
    Se mostro na face o gôsto,
    Ri-se Marilia contente:
    Se canto, canta comigo;
    E apenas triste me sente,
    Limpa os olhos com as tranças
    Do fino cabello louro.
    A minha Marilia vale,
    Vale hum immenso thesouro.

    LYRA XVII.

    Minha Marilia,
    Tu enfadada?
    Que mão ousada
    Perturbar póde
    A paz sagrada
    Do peito teu?

    Porém que muito
    Que irado esteja
    O teu semblante
    Tambem troveja
    O Claro Ceo.

    Eu sei, Marilia,
    Que outra Pastora
    A toda a hora,
    Em toda a parte,
    Céga namora
    Ao teu Pastor.

    Ha sempre fumo
    Aonde ha fogo;
    Assim, Marilia,
    Ha zelos, logo
    Que existe amor.

    Olha, Marilia,
    Na fonte pura
    A tua alvura,
    A tua bocca,
    E a compostura
    Das mais feições.
    Quem tem teu rosto,
    Ah! não receia,
    Que terno amante
    Solte a cadeia,
    Quebre os grilhões.

    Não anda Laura
    Nestas campinas
    Sem as boninas
    No seu cabello,
    Sem pelles finas
    No seu jubão.

    Porém que importa?
    O rico aceio
    Não dá, Marilia,
    Ao rosto feio
    A perfeição.

    LYRA XVIII.

    Não ves aquelle velho respeitavel,
    Que á moleta encostado,
    Apenas mal se move, e mal se arrasta?
    Oh quanto estrago não lhe fez o tempo?
    O tempo arrebatado,
    Que o mesmo bronze gasta.

    Enrugárão-se as faces, e perdêrão
    Seus olhos a viveza;
    Voltou-se o seu cabello em branca neve:
    Já lhe treme a cabeça, a mão, o queixo;
    Nem tem huma belleza
    Das bellezas que teve.

    Assim tambem serei, minha Marilia
    Daqui a poucos annos;
    Que o impio tempo para todos corre.
    Os dentes cahiráõ, e os meus cabellos.
    Ah! sentirei os damnos,
    Que evita só quem morre.

    Mas sempre passarei huma velhice
    Muito menos penoza.
    Não trarei a moleta carregada:
    Descançarei o já vergado corpo
    Na tua mão piedoza,
    Na tua mão nevada.

    As frias tardes em que negra nuvem
    Os chuveiros não lance,
    Irei comtigo ao prado florescente:
    Aqui me buscarás hum sitio ameno,
    Onde os membros descance,
    E ao brando Sol me aquente.

    Apenas me sentar, então movendo
    Os olhos por aquella
    Vistoza parte, que ficar fronteira;
    Apontando direi: _Alli fallámos,
    Alli, ó minha bella,
    Te vi a vez primeira_.

    Verteráõ os meus olhos duas fontes,
    Nascidas de alegria:
    Farão teus olhos ternos outro tanto:
    Então darei, Marilia, frios beijos,
    Na mão formosa, e pia,
    Que me limpar o pranto.

    Assim irá, Marilia, docemente
    Meu corpo supportando
    Do tempo deshumano a dura guerra.
    Contente morrerei, por ser Marilia
    Quem sentida chorando,
    Meus baços olhos cerra.

    LYRA XIX.

    Em quanto pasta alegre o manso gado,
    Minha bella Marilia, nos sentemos
    Á sombra deste cedro levantado.
    Hum pouco meditemos
    Na regular belleza,
    Que em tudo quanto vive, nos descobre
    A sabia Natureza.

    Attende, como aquella vaca preta
    O novilhino seu dos mais separa,
    E o lambe, em quanto chupa a liza teta.
    Attende mais, ó chara,
    Como a ruiva cadella
    Supporta que lhe morda o filho o corpo;
    E salte em cima della.

    Repara, como cheia de ternura
    Entre as azas ao filho essa ave aquenta:
    Como aquella esgravata a terra dura,
    E os seus assim sustenta;
    Como se encoleriza,
    E salta sem receio a todo o vulto,
    Que junto delles piza.

    Que gosto não terá a esposa amante
    Quando der ao filhinho o peito brando,
    E reflectir então no seu semblante!
    Quando, Marilia, quando
    Disser comigo: _he esta
    De teu querido pai a mesma barba,
    A mesma bocca, e testa_.

    Que gosto não terá a mãi, que toca,
    Quando o tem nos seus braços, c'o dedinho
    Nas faces graciosas, e na bocca
    Do innocente filhinho!
    Quando, Marilia bella,
    O tenro infante já com risos mudos
    Começa a conhecê-la!

    Que prazer não terão os pais ao verem
    Com as mãis hum dos filhos abraçados;
    Jogar outros a luta, outros correrem
    Nos cordeiros montados!
    Que estado de ventura!
    Que até naquillo, que de pezo serve,
    Inspira Amor doçura.

    LYRA XX.

    Em huma frondosa
    Roseira se abria
    Hum negro botão.
    Marilia adorada
    O pê lhe torcia
    Com a branca mão.

    Nas folhas viçosas
    Á abelha inraivada
    O corpo escondêo.
    Tocou-lhe Marilia,
    Na mão descuidada
    A fera mordêo.

    A penas lhe morde,
    Marilia gritando,
    C'o dedo fugio.
    Amor, que nos bosques
    Estava brincando,
    Aos ais acudio.

    Mal vio a rotura,
    E o sangue espargido,
    Que a Deoza mostrou;
    Rizonho beijando
    O dedo offendido,
    Assim lhe fallou.

    _Se tu for tão pouco
    O pranto desatas,
    Ah! dá-me attençaõ;
    E como daquelle,
    Que feres, e matas,
    Naõ tens compaixaõ_?

    LYRA XXI.

    Não sei, Marilia, que tenho,
    Depois que vi o teu rosto;
    Pois quanto não he Marilia,
    Já não posso ver com gosto.
    Noutra idade me alegrava,
    Até quando conversava
    Com o mais rude vaqueiro:
    Hoje, ó bella, me aborrece
    Inda o trato lizongeiro
    Do mais discreto pastor.
    Que effeitos são os que sinto!
    Serão effeitos de amor?

    Sáio da minha cabana
    Sem reparar no que faço;
    Busco o sitio aonde moras,
    Suspendo defronte o passo.
    Fito os olhos na janella,
    Aonde, Marilia bella,
    Tu chegas ao fim do dia;
    Se alguem passa, e te saúda,
    Bem que seja cortezia,
    Se accende na face a côr.
    Que effeitos são os que sinto!
    Serão effeitos de Amor?

    Se estou, Marilia, comtigo,
    Não tenho hum leve cuidado;
    Nem me lembra, se são horas
    De levar á fonte o gado.

    Se vivo de ti distante,
    Ao minuto, ao breve instante,
    Finge hum dia o meu desgosto:
    Já mais, Pastora, te vejo
    Que em teu semblante composto
    Não veja graça maior.
    Que effeitos são os que sinto!
    Serão effeitos de Amor?

    Aonde já com o juizo;
    Marilia, tão perturbado,
    Que no mesmo aberto sulco
    Metto de novo o arado.
    Aqui no centêo pégo,
    Noutra parte em vão o cégo:
    Se alguem comigo conversa,
    Ou não respondo, ou respondo
    Noutra coiza tão diversa,
    Que nexo tão tem menor.
    Que effeitos são os que sinto!
    Serão effeitos de Amor?

    Se geme o bufo agoureiro
    Só Marilia me desvella:
    Enche-se o peito de magoa,
    E não sei a causa della.
    Mal durmo, Marilia, sonho,
    Que féro leão medonho
    Te devora nos meus braços:
    Gella-se o sangue nas veias.
    E sólto do somno os laços
    Á força da immensa dor.
    Ah! que os effeitos que sinto
    Só são effeitos de Amor.

    LYRA XXII.

    Muito embora, Marilia, muito embora
    Outra belleza, que não seja a tua,
    Com a vermelha roda, a seis puxada,
    Faça tremer a rua.

    As paredes da salla aonde habita
    Adorne a seda, e o tremó dourado;
    Pendão largas cortinas, penda o lustre
    Do této apainelado.

    Tu não habitarás Palacios grandes,
    Nem andarás nos coches voadores;
    Porém terás hum Vate, que te preze,
    Que cance os teus louvores.

    O tempo não respeita a formosura;
    E da palida morte a mão tyranna
    Arraza os edificios dos Augustos,
    E arraza a vil choupana.

    Que bellezas, Marilia, florecerão
    De quem nem se quer temos a memoria?
    Só podem conservar hum nome eterno
    Os versos, ou a historia.

    Se não houvesse Tasso, nem Petrarcha,
    Por mais que qualquer dellas fosse linda,
    Já não sabia o mundo, se existirão
    Nem Laura, nem Clorinda.

    He melhor, minha bella, ser lembrada
    Por quantos hão de vir sabios humanos,
    Que ter urcos, ter coches, e thesouros,
    Que morrem com os annos.

    LYRA XXIII.

    N'um sitio ameno
    Cheio de rosas,
    De brancos lyrios,
    Murtas viçosas;

    Dos seus amores
    Na companhia
    Dirceo passava
    Alegre o dia.

    Em tom de graça,
    Ao terno amante
    Manda Marilia
    Que toque, e cante.

    Péga na lyra,
    Sem que a tempere,
    A voz levanta,
    E as cordas fere.

    C'os doces pontos
    A mão atina,
    E a voz iguala
    A voz divina.

    Ella, que teve
    De rir-se a idéa,
    Nem move os olhos
    De assombro chêa.

    Então Cupido
    Apparecendo,
    Á bella falla
    Assim dizendo:

    _Do teu amado
    A lyra fias,
    Só porque delle
    Zombando rias_?

    _Quando n'um peito
    Assento faço,
    Do peito subo
    Á lingoa, e braço_.

    _Nem creias que outro
    Estylo tome,
    Sendo eu o mestre,
    A acção teu nome_.

    LYRA XXIV.

    Encheo, minha Marilia, o grande Jove
    De immensos animaes de toda a especie
    As terras, mais os ares,
    O grande espaço dos salobros rios,
    Dos negros, fundos mares.
    Para sua defeza,
    A todos dêo as armas, que convinha;
    Á sabia Natureza.

    Dêo as azas aos passaros ligeiros;
    Dêo ao peixe escamoso as barbatanas:
    Dêo veneno á serpente,
    Ao membrudo Elefante a enorme tromba,
    E ao Javali o dente.
    Coube ao leão a garra:
    Com leve pé saltando o servo foge;
    E o bravo touro marra.

    Ao homem dêo as armas do discurso
    Que valem muito mais que as outras armas:
    Dêo-lhe dedos ligeiros,
    Que podem converter em seu serviço
    Os ferros, e os madeiros;
    Que tecem fortes laços,
    E forjão raios com que aos brutos cortão
    Os vôos, mais os passos.

    Ás timidas donzellas pertencerão
    Outras armas, que tem dobrada força:
    Dêo-lhes a Natureza
    Além do entendimento, além dos braços
    As armas da belleza.
    Só ella ao Ceo se atreve,
    Só ella mudar póde o gello em fogo,
    Mudar o fogo em neve.

    Eu vejo, eu vejo ser a formosura
    Quem arrancou da mão de Coriolano
    A cortadora espada.
    Vejo que foi de Helena o lindo rosto
    Quem pôz em campo armada
    Toda a força de Grecia.
    E quem tirou o Sceptro aos Reis de Roma,
    Só foi, só foi Lucrecia.

    Se podem lindos rostos, mal suspirão,
    O braço desarmar do mesmo Achilles;
    Se estes rostos irados
    Podem soprar o fogo da descordia
    Em póvos alliados;
    Hes arbitra da terra;
    Tu pódes dar, Marilia, a todo o mundo
    A paz, e a dura guerra.

    LYRA XXV.

    O cego Cupido hum dia
    Com os seus Genios fallava,
    Do modo que lhe restava
    De captivar a Dirceo.
    Depois de larga disputa,
    Hum dos Genios mais sagazes
    Este conselho lhe dêo:

    As settas mais aguçadas,
    Como se em roxa batessem,
    Dão nos seus peitos, e descem
    Todas quebradas ao chão.
    Só as graças de Marilia
    Podem vencer hum tão duro,
    Tão izento coração.

    A fortuna desta empreza
    Consiste em armar-se o laço,
    Sem que sinta ser o braço,
    Que lho prepara, de Amor.
    Que elle vive como as aves,
    Que já deixárão as pennas
    No visco do Caçador.

    Na força deste conselho
    O raivoso Deos socega,
    E á tropa a honra entrega
    De o fazer executar.
    Todos pertendem ganhá-la,
    Batem as azas ligeiros,
    E vão as armas buscar.

    Os primeiros se occultárão
    Da Deosa nos olhos bellos;
    Qual se enlaçou nos cabellos;
    Qual ás faces se prendêo.
    Hum amorinho cansado
    Cahio dos labios ao seio,
    E nos peitos se escondêo.

    Outro Genio mais astuto
    Este novo ardil alcança,
    Muda-se n'uma criança
    De divino parecer.
    Esconde as azas, e a venda;
    Esconde as settas, e quanto
    Póde dá-lo a conhecer.

    Ella que vê hum menino
    Todo de graças cuberto,
    Tão risonho, e tão esperto
    Alli sózinho brincar.
    A elle endireita os passos;
    Finge Amor ter medo, e a Deosa
    Mais se empenha em lhe pegar.

    Ella corria chamando;
    Elle fugia, e chorava:
    Assim forão onde estava
    O descuidado Pastor.
    Este, mal vio a belleza,
    E o gentil menino, entende
    A malicia do traidor.

    Põe as mãos sobre os ouvidos,
    Cerra os olhos, e constante
    Não quer ver o seu semblante,
    Não o quer ouvir fallar.
    Qual Ulysses n'outra idade
    Para illudir as Serêas
    Mandou tambores tocar.

    Cupido, que a empreza via,
    Julga o intento frustrado,
    E de raiva transportado
    O corpo no chão lançou.
    Traçou a lingoa nos dentes;
    Mettêo as unas no rosto,
    E os cabellos arrancou.

    O Genio, que se escondia
    Entre os peitos da Pastora,
    Erguêo a cabeça fóra,
    E o successo conhecêo.
    Deixa o socego em que estava,
    E vai ligeiro metter-se
    No peito do bom Dirceo.

    Apenas c'o brando peito
    Lhe tocou a neve fria,
    Com o calor que trazia
    Lhe abrazou o coração.
    Dá o Pastor hum suspiro,
    Abre os seus olhos, e sólta
    Do apertado ouvido a mão.

    Logo que virão os Genios
    Ao triste Pastor disposto
    Para ver o lindo rosto,
    Para as palavras ouvir.
    Cada hum as armas toma,
    Cada hum com ellas busca
    Seu terno peito ferir.

    Com os cabellos da Deosa
    Lhe fórma hum Cupido laços,
    Que lhe segurão os braços,
    Como se fossem grilhões.
    O Pastor já não resiste;
    Antes beija satisfeito
    As suas doces prizões.

    LYRA XXVI.

    O destro Cupido hum dia
    Extrahio mimosas cores
    De frescos lyros, e rosas,
    De jasmins, e de outras flores.

    Com as mais delgadas pennas
    Usa de huma, e de outra tinta,
    E nos angulos do cobre
    A quatro bellezas pinta.

    Por fazer pensar a todos
    No seu lizo centro escreve
    Hum letreiro, que pergunta:
    _Este espaço a quem se deve_?

    Venus, que vio a pintura,
    E lêo a letra engenhosa,
    Pôz por baixo: _Eu delle cedo;
    Dê-se a Marilia formosa_.

    LYRA XXVII.

    Alexandre, Marilia, qual o rio
    Que engrossando no Inverno tudo arraza;
    Na frente das cohortes
    Cérca, vence, abraza
    As Cidades mais fortes.
    Foi na gloria das armas o primeiro,
    Morrêo na flor dos annos, e já tinha
    Vencido o mundo inteiro.

    Mas este bom Soldado, cujo nome
    Não ha poder algum, que não abata,
    Foi, Marilia, sómente
    Hum ditozo pirata,
    Hum salteador valente.
    Se não tem huma fama baixa, e escura;
    Foi por se pôr ao lado da injustiça
    A insolente ventura.

    O grande Cesar, cujo nome vôa,
    Á sua mesma Patria a fé quebranta;
    Na mão a espada toma,
    Opprime-lhe a garganta,
    Dá Senhores a Roma.
    Consegue ser heróe por hum delicto;
    Se acaso não vencesse então seria
    Hum vil traidor proscripto.

    O ser heróe, Marilia, não consiste
    Em queimar os Imperios: move a guerra,
    Espalha o sangue humano,
    E despovoa a terra
    Tambem o máo tyranno.
    Consiste o ser heróe em viver justo:
    E tanto póde ser heróe o pobre,
    Como o maior Augusto.

    Eu he que sou heróe, Marilia bella,
    Seguindo da virtude a honroza estrada.
    Ganhei, ganhei hum throno.
    Ah! não manchei a espada,
    Não a roubei ao dono.
    Ergui-o no teu peito, e nos teus braços:
    E valem muito mais que o mundo inteiro
    Huns tão ditosos laços.

    Aos barbaros, injustos vencedores
    Atormentão remorsos, e cuidados;
    Nem descanção seguros
    Nos Palacios cercados
    De tropa, e de altos muros.
    E a quantos nos não mostra a sabia historia
    A quem mudou o fado em negro opprobrio
    A mal ganhada gloria?

    Eu vivo, minha bella, sim, eu vivo
    Nos braços do descanço, e mais do gosto:
    Quando estou acordado,
    Contemplo no teu rosto
    De graças adornado;
    Se durmo logo sonho, e alli te vejo.
    Ah! nem desperto, nem dormindo sóbe
    A mais o meu desejo.

    LYRA XXVIII.

    Cupido tirando
    Dos hombros a aljava,
    N'um campo de flores
    Contente brincava.

    E o corpo tenrinho
    Depois enfadado,
    Incauto reclina
    Na relva do prado.

    Marilia formosa,
    Que ao Deos conhecia,
    Occulta espreitava
    Quanto elle fazia.

    Mal julga que dorme
    Se chega contente,
    As armas lhe furta,
    E o Deos a não sente.

    Os Faunos, mal virão
    As armas roubadas,
    Sahirão das grutas
    Soltando rizadas.

    Acorda Cupido,
    E a causa sabendo,
    A quantos o insultão
    Responde, dizendo:

    _Temieis as settas
    Nas minhas mãos cruas?
    Vereis o que podem
    Agora nas suas_.

    LYRA XXIX.

    O tyranno Amor risonho
    Me apparece, e me convida
    Para que seu jugo acceite;
    E quer que eu passe em deleite
    O resto da triste vida.

    _O sonoro Anacreonte_
    (Astuto o moço dizia)
    _Já perto da morte estava,
    Inda de amores cantava;
    Por isso alegre vivia_.

    _Aos negros, duros pezares
    Não resiste hum peito fraco,
    Se Amor o não fortalece:
    O mesmo Jove carece
    De Cupido, e mais de Baccho_.

    Eu lhe respondo: _Perjuro
    Nada creio ao que dizes;
    Porque já te fui sujeito,
    Inda conservo no peito
    Estas frescas cicatrizes_.

    Amor, vendo que da offerta
    Algum apreço não faço,
    Me diz affoito que trate
    De ir com elle a combate
    Peito a peito, braço a braço.

    Vou buscar as minhas armas;
    Cinjo primeiro que tudo
    O brilhante arnêz, e á pressa
    Ponho hum elmo na cabeça,
    Tomo a lança, e o grosso escudo.

    Mal no Campo me apresento,
    Marilia (oh Ceos!) me apparece:
    Logo os olhos me fita,
    O meu coração palpita,
    A minha mão desfallece.

    Então me diz o tyranno:
    _Confessa louco o teu erro;
    Contra as armas da belleza
    Não vale a externa defeza.
    Dessa armadura de ferro_.

    LYRA XXX.

    Junto a huma clara fonte
    A mãi de Amor se sentou:
    Encostou na mão o rosto,
    No leve somno pegou.

    Cupido, que a vio de longe,
    Contente ao lugar corrêo;
    Cuidando que era Marilia
    Na face hum beijo lhe dêo.

    Acorda Venus irada:
    Amor a conhece; e então
    Da ousadia, que teve,
    Assim lhe pede o perdão:

    _Foi facil, ó Mãe formosa,
    Foi facil o engano meu;
    Que o semblante de Marilia
    He todo o semblante teu_.

    LYRA XXXI.

    Minha Marilia,
    Se tens belleza,
    Da natureza
    He hum favor.
    Mas se aos vindouros
    Teu nome passa,
    He só por graça
    Do Deos de amor,
    Que terno inflamma
    A mente, o peito
    Do teu Pastor.

    Em vão se virão
    Perlas mimosas,
    Jasmins, e rosas
    No rosto teu.
    Em vão terias
    Essas estrellas,
    E as tranças bellas
    Que o Ceo te dêo;
    Se em doce verso
    Não as cantasse
    O bom Dirceo.

    O voraz tempo
    Ligeiro corre:
    Com elle morre
    A perfeição.
    Essa, que o Egypto
    Sábia modera,
    De Marco impera
    No coração;
    Mas já Octavio
    Não sente a força
    Do seu grilhão.

    Ah! vem, ó bella,
    E o teu querido
    Ao Deos Cupido
    Louvores dar;
    Pois faz que todos
    Com igual sorte
    Do tempo, e morte
    Possão zombar:
    Tu por formosa,
    E elle, Marilia,
    Por te cantar.

    Mas ai! Marilia,
    Que de hum amante,
    Por mais que cante,
    Gloria não vem!
    Amor se pinta
    Menino, e cego:
    No doce emprêgo
    Do charo bem
    Não vê defeitos,
    E augmenta, quantas
    Bellezas tem.

    Nenhum dos Vates,
    Em teu conceito,
    Nutrio no peito
    Nescia paixão?
    Todas aquellas,
    Que vês cantadas,
    Forão dotadas
    De perfeição?
    Forão queridas;
    Porém formosas
    Talvez que não.

    Porém que importa
    Não valha nada
    Seres cantada
    Do teu Dirceo?
    Tu tens, Marilia,
    Cantor celeste;
    O meu Glauceste
    A voz ergueo;
    Irá teu nome
    Aos fins da Terra,
    E ao mesmo Ceo.

    Quando nas azas
    Do leve vento
    Ao Firmamento
    Teu nome for:
    Mostrando Jove
    Graça extremosa,
    Mudando a Esposa
    De inveja a côr;
    De todos ha-de,
    Voltando o rosto,
    Sorrir-se Amor.

    Ah! não se manche
    Teu brando peito
    Do vil defeito
    Da ingratidão:
    Os versos beija,
    Gentil Pastora,
    A penna adora,
    Respeita a mão,
    A mão discreta,
    Que te segura
    A duração.

    LYRA XXXII.

    N'uma noite socegado
    Velhos papeis revolvia,
    E por ver de que tratavão
    Hum por hum a todos lia.

    Erão copias emendadas
    De quantos versos melhores
    Eu compuz na tenra idade
    A meus diversos amores.

    Aqui leio justas queixas
    Contra a ventura formadas,
    Leio excessos mal acceitos,
    Doces promessas quebradas.

    Vendo sem razões tamanhas
    Eu exclamo transportado:
    _Que finezas tão mal feitas!
    Que tempo tão mal passado_!

    Junto pois n'hum grande monte
    Os soltos papeis, e logo,
    Porque reliquias não fiquem,
    Os intento pôr no fogo.

    Então vejo que o Deos cego
    Com semblante carregado
    Assim me falla, e crimina
    O meu intento acertado.

    _Queres queimar esses versos?
    Dize, Pastor attrevido,
    Essas Lyras não te forão
    Inspiradas por Cupido_?

    _Achas que de taes amores
    Não deve existir memoria?
    Sepultando esses triunfos,
    Não roubas a minha gloria_?

    Disse Amor; e mal se calla,
    Nos seus hombros a mão pondo,
    Com hum semblante sereno
    Assim á queixa respondo:

    _Depois, Amor, de me dares
    A minha Marilia bella,
    Devo guardar humas Lyras,
    Que não são em honra della_?

    _E que importa, Amor, que importa
    Que a estes papeis destrua;
    Se he tua esta maõ; que os rasga,
    Se a chamma, que os queima, he tua_?

    Apenas Amor me escuta
    Manda que os lance nas brazas;
    E ergue a chamma c'o vento,
    Que formou batendo as azas.

    LYRA XXXIII.

    Péga na lyra sonora,
    Péga meu charo Glauceste;
    E ferindo as cordas de ouro,
    Mostra aos rusticos Pastores
    A formosura celeste
    De Marilia, meus amores.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Que concurso, meu Glauceste,
    Que concurso tão ditoso!
    Tu és digno de cantares
    O seu semblante divino;
    E o teu canto sonoroso
    Tambem do seu rosto he dino.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Para pintares ao vivo
    As suas faces mimosas,
    A discreta Natureza
    Que providencia não teve!
    Creou no jardim as rosas,
    Fez o lyro, e fez a neve.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    A pintar as negras tranças
    Peço que mais te desvelles:
    Pinta chusmas de amorinhos
    Pelos seus fios trepando;
    Huns tecendo cordas delles,
    Outros com elles brincando.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Para pintares, Glauceste,
    Os seus beiços graciosos,
    Entre as flores tens o cravo,
    Entre as pedras a granada;
    E para os olhos formosos,
    A estrella da madrugada.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Mal retratares do rosto
    Quanto julgares preciso,
    Não dês a cópia por feita;
    Passa a outros dotes, passa,
    Pinta da vista, e do riso
    A modestia, mais a graça.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Pinta o garbo de seu rosto
    Com expressões delicadas;
    Os seus pés, quando passeão,
    Pizando ternos amores;
    E as mesmas plantas calcadas
    Brotando viçosas flores.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Pinta mais, prezado amigo,
    Hum terno amante beijando
    Suas douradas cadeias;
    E em doce pranto desfeito,
    Ao monte, e valle ensinando
    O nome, que tem no peito.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Nem suspendas o teu canto,
    Inda que, Pastor, se veja
    Que a minha bocca suspira,
    Que se banha em pranto o rosto;
    Que os outros chorão de inveja,
    E chora Dirceo de gosto.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    FIM DA 1.^a PARTE.

    MARILIA DE DIRCEO.

    POR T.A.G.

    SEGUNDA PARTE.

    LISBOA: 1824.

    Na Typ. de J.F.M. de Campos.

    MARILIA DE DIRCEO

    LYRA I.

    Já não cínjo de loiro a minha testa,
    Nem sonoras Canções o Deos me inspira:
    Ah! que nem me resta
    Huma já quebrada,
    Mal sonora Lyra!

    Mas neste mesmo estado em que me vejo,
    Pede, Marilia, Amor que vá cantar-te:
    Cumpro o seu desejo;
    E ao que resta supra
    A paixão, e a arte.

    A fumaça, Marilia, da candêa,
    Que a molhada parede ou çuja, ou pinta;
    Bem que tosca, e fêa,
    Agora me póde
    Ministrar a tinta.

    Aos mais preparos o discurso apronta:
    Elle me diz, que faça no pé de huma
    Má laranja ponta,
    E delle me sirva
    Em lugar de pluma.

    Perder as uteis horas não, não devo
    Verás, Marilia, huma idéa nova:
    Sim, eu já te escrevo,
    Do que esta alma dita
    Quanto amor approva.

    Quem vive no regaço da ventura,
    Nada obra em te adorar, que assombro faça:
    Mostra mais ternura
    Quem te estima, e morre
    Nas mãos da desgraça.

    Nesta cruel masmorra tenebrosa
    Ainda vendo estou teus olhos bellos,
    A testa formosa,
    Os dentes nevados,
    Os negros cabellos.

    Vejo, Marilia, sim, e vejo ainda
    A chusma dos Cupidos, que pendentes
    Dessa bôcca linda,
    Nos ares espalhão
    Suspiros ardentes.

    Se alguem me perguntar onde eu te vejo,
    Responderei–no peito–que huns Amores
    De casto desejo
    Aqui te pintárão,
    E são bons Pintores.

    Mal meus olhos te virão, ah! nessa hora
    Teu Retrato fizerão, e tão forte,
    Que entendo, que agora
    Só póde apagallo
    O pulso da Morte.

    Isto escrevia, quando, ó Céos, que pejo!
    Descubro a lêr-me os versos o Deos loiro.
    Ah! dá-lhes hum beijo,
    E diz-me que valem
    Mais que letras de oiro.

    LYRA II.

    Esprema a vil calumnia muito embora
    Entre as mãos denegridas, e insolentes
    Os venenos das plantas,
    E das bravas serpentes.

    Chovão raios e raios, no meu rosto
    Não has-de ver, Marilia, o modo escrito;
    O medo perturbado,
    Que infunde o vil delicto.

    Pódem muito conheço, pódem muito,
    As Furias infernaes, que Pluto move;
    Mas póde mais que todas
    Hum dedo só de Jove.

    Este Deos convertêo em flor mimosa;
    A quem seu nome derão, a Narciso,
    Fêz d' muitos os Astros,
    Qu' inda no Ceo diviso.

    Elle póde livrar-me das injurias
    Do nescio, do atrevido ingrato povo;
    Em nova flor mudar me,
    Mudar-me em Astro novo.

    Porém se os justos Céos por fins occultos
    Em tão tyranno mal me não soccorrem,
    Verás então, que os sabios,
    Bem como vivem, morrem.

    Eu tenho hum coração maior que o mundo.
    Tu, formosa Marilia, bem o sabes:
    Hum coração, e basta,
    Onde tu mesma cabes.

    LYRA III.

    Succede, Marilia bella,
    Á medonha noite o dia:
    A estação chuvosa e fria,
    Á quente secca estação.
    Muda-se a sorte dos tempos;
    Só a rainha sorte não?

    Os troncos, nas Primaveras,
    Brotão em flores viçosos;
    Nos Invernos escabrosos
    Largão as folhas no chão.
    Muda-se a sorte dos troncos;
    Só a minha sorte não?

    Aos brutos, Marilia, cortão
    Armadas redes os passos;
    Rompem depois os seus laços,
    Fogem da dura prisão.
    Muda-se a sorte dos brutos;
    Só a minha sorte não?

    Nenhum dos homens conserva
    Alegre sempre o seu rosto;
    Depois das penas vem gosto,
    Depois do gosto afflicção.
    Muda-se a sorte dos homens;
    Só a minha sorte não?

    Aos altos Deoses movêrão
    Soberbos Gigantes guerra;
    No mais tempo o Ceo, e a Terra
    Lhes tributa adoração.
    Muda-se a sorte dos Deoses;
    Só a minha sorte não?

    Hade, Marilia, mudar-se
    Do destino a inclemencia:
    Tenho por mim a innocencia,
    Tenho por mim a razão.
    Muda-se a sorte de tudo;
    Só a minha sorte não?

    O tempo, ó bella, que gasta
    Os troncos, pedras, e o cobre,
    O véo rompe, com que encobre
    Á verdade a vil traição.
    Muda-se a sorte de tudo;
    Só a minha sorte não?

    Qual eu sou verá o mundo,
    Mais me dará do que eu tinha,
    Tornarei a ver-te minha.
    Que feliz consolação!
    Não ha de tudo mudar-se,
    Só a minha sorte não.

    LYRA IV.

    Já, já me vai, Marilia, branquejando
    Loiro cabello, que circúla a testa.
    Este mesmo, que alveja, vai cahindo,
    E pouco já me resta.

    As faces vão perdendo as vivas côres,
    E vão-se sobre os ossos enrugando,
    Vai fugindo a viveza dos meus olhos;
    Tudo se vai mudando.

    Se quero levantar-me, as costas vergão;
    As forças dos meus membros já se gastão,
    Vou a dar pela casa huns curtos passos,
    Pesão-me os pés, e arrastão.

    Se algum dia me vires desta sorte,
    Vê que assim me não pôz a mão dos annos:
    Os trabalhos, Marilia, os sentimentos,
    Fazem os meus danos.

    Mal te vir me dará em poucos dias,
    A minha mocidade o doce gosto;
    Verás burnir-se a pelle, o corpo encher-se,
    Voltar a côr ao rosto.

    No calmoso Verão as plantas seccão,
    Na Primavera, que aos mortaes encanta,
    Apenas cahe do Ceo o fresco orvalho,
    Verdeja logo a planta.

    A doença deforma a quem padece;
    Mas logo que a doença fez seu termo,
    Torna, Marilia, a ser quem era d'antes,
    O definhado enfermo.

    Suppo[~e]-me qual doente, ou qual a planta,
    No meio da desgraça, que me altera:
    Eu tambem te supponho qual saude,
    Ou qual a Primavera.

    Se dão esses teus meigos, vivos olhos
    Aos mesmos Astros luz, e vida ás flores;
    Que effeitos não farão, em quem por elles
    Sempre morrêo de amores?

    LYRA V.

    Os mares, minha bella, não se movem;
    O brando Norte assopra, nem diviso
    Huma nuvem sequer na Esfera toda,
    O destro Nauta aqui não he preciso;
    Eu só conduzo a náo, eu só modéro
    Do seu governo a roda.

    Mas ah! que o Sul carrega, o mar se empolla,
    Rasga-se a véla, o mastaréo se parte!
    Qualquer varão prudente aqui já teme
    Não tenho a necessaria força, e arte.
    Corra o sabio Piloto, corra, e venha
    Reger o duro leme.

    Como succede á náo no mar, succede
    Aos homens na ventura, e na desgraça:
    Basta ao feliz não ter total demencia,
    Mas quem de venturoso a triste passa,
    Deve entregar o leme do discurso
    Nas mãos da sã prudencia.

    Todo o Ceo se cubrio, os raios chovem;
    E esta alma, em tanta pena consternada,
    Nem sabe aonde possa achar conforto.
    Ah, não, não tardes, vem, Marilia amada,
    Toma o leme da náo, marêa o panno,
    Vai-a salvar no porto.

    Mas ouço já de Amor as sabias vozes:
    Elle me diz que soffra se não morro;
    E perco então se morro huns doces laços.
    Não quero já, Marilia, mais soccorro,
    Oh ditoso soffrer, que lucrar póde
    A gloria dos teus braços.

    LYRA VI.

    De que te queixas,
    Lingua importuna?
    De que a Fortuna
    Roubar-te queira,
    O que te deu?
    Este foi sempre
    O genio seu.

    Levou, Marilia,
    A impia sorte
    Catoens á morte;
    Nem sepultura
    Lhes concedeu.
    Este foi sempre
    O genio seu.

    A outros muitos,
    Que vís nascêrão,
    Nem merecêrão,
    A grandes thronos
    A impia ergueu.
    Este foi sempre
    O genio seu.

    Espalha a cega
    Sobre os humanos
    Os bens, e os damnos;
    E a quem se devão
    Nunca escolheu.
    Este foi sempre
    O genio seu.

    A quanto he justo,
    Já mais se dobra;
    Nem igual obra
    C'os mesmos Deoses
    Do cáro Ceo.
    Este foi sempre
    O genio seu.

    Sóbe ao Ceo Venus
    N'hum carro ufano;
    E cahe Vulcano
    Da pura esfera,
    Em que nasceu.
    Este foi sempre
    O genio seu.

    Mas não me rouba,
    Bem que se mude,
    Honra, e virtude:
    Que o mais he della,
    Mas isto he meu.
    Este foi sempre
    O genio seu.

    LYRA VII.

    Meu prezado Glauceste,
    Se fazes o conceito,
    Que bem que réo abrigo
    A candida virtude no meu peito.
    Se julgas, digo, que mereço ainda
    Da tua mão soccorro;
    Ah! vem dar-m'o agora,
    Agora sim que morro.

    Não quero, que montado
    No Pegaso fogoso,
    Venhas com dura lança
    Ao monstro infame traspassar raivoso.
    Deixa que viva a perfida calumnia,
    E forge o meu tormento:
    Com menos, meu Glauceste,
    Com menos me contento.

    Toma a lyra doirada,
    E toca hum pouco nella:
    Levanta a vóz celeste
    Em parte que te escute a minha bella;
    Enche todo o contorno de alegria;
    Não soffras, que o desgosto
    Affogue em pranto amargo
    O seu divino rosto.

    Eu sei, eu sei, Glauceste,
    Que hum bom Cantor havia,
    Que os brutos amansava;
    Que os troncos, e os penedos attrahia.
    De outro destro Cantor tambem affirma;
    A sábia Antiguidade,
    Que as muralhas erguêra
    De huma grande Cidade.

    Orfeo as cordas fere;
    O som delgado, e terno
    Ao Rei Plutão abranda,
    E o deixa que penetre o fundo Averno.
    Ah, tu a nenhum cedes, nem Glauceste;
    Na lyra, e mais no canto:
    Podes fazer prodigios;
    Obrar ou mais, ou tanto.

    Levanta pois as vozes:
    Que mais, que mais esperas?
    Consola hum peito afflito;
    Que he menos inda, que domar as féras.
    Com isto me darás no meu tormento
    Hum doce lenitivo,
    Que em quanto a bella vive,
    Tambem, Glauceste, vivo.

    LYRA VIII.

    Eu vejo, ó minha bella, aquelle Numen,
    A quem o nome derão de Fortuna,
    Pega-me pelo braço,
    E com voz importuna
    Me diz que mova o passo;
    Que entre no grande Templo, em [~q] se encerra,
    Quanto o destino manda,
    Que ella obre sobre a terra.

    Que coizas portentosas nelle encontro!
    Eu vejo a pobre fundação de Roma,
    Vejo-a queimar Carthago;
    Vejo que as gentes doma;
    E vejo o seu estrago.
    Lá florece o poder do Assyrio Povo:
    Aqui os Medos crescem
    E os perde hum braço novo.

    Então me diz a Deosa: _E que pertendes?
    Todas estas Medalhas vêr agora?
    Ah! não, não sejas louco!
    Espaço de annos fôra
    Para isto ainda pouco.
    Deixo estranhos successos; vem comigo,
    Verás quanto inda deve
    Acontecer comtigo_.

    Levou-me aonde estava a minha historia,
    Que toda me explicou com medo, e arte.
    _Tirei-te libras de oiro_
    Me diz, _e quero dar-te
    Todo aquelle thesoiro.
    Não suspira por bens hum peito nobre_:
    Sevéro lhe respondo.
    _Vivo affeito a ser pobre_.

    Aqui me enruga a Deosa irada a testa;
    E fica sem fallar hum breve espaço.
    _Alegra, alegra o rosto_,
    Prosegue, _alli te faço
    Restituir o posto_.
    Respondo com ar de mofa, e tom sereno.
    _Conheço-te, Fortuna,
    Posso morrer pequeno_.

    _Aqui te dou_, me diz, _a tua amada_.
    Então me banho todo de alegria
    _Cuidei_, me torna a cega,
    _Que essa alma não queria
    Nem esta mesma entrega.
    He esse o bem_, respondo, _que me move;
    Mas este bem he santo,
    Vem só da mão de Jove_.

    Queria mais fallar; eu insoffrido
    Desta maneira rompo os seus accentos:
    _Basta, Fortuna, basta;
    Estes breves momentos
    Lá noutras coizas gasta;
    Da minha sorte nada mais contemplo_.
    E chamando Marilia
    Suspiro, e deixo o Templo.

    LYRA IX.

    A estas horas
    Eu procurava
    Os meus Amores;
    Tinhão-me inveja
    Os mais Pastores.

    A porta abria,
    Inda esfregando
    Os olhos bellos,
    Sem flor, nem fitta
    Nos seus cabellos:

    Ah! que assim mesmo
    Sem compostura,
    He mais formosa,
    Que a estrella d'alva;
    Que a fresca rosa.

    Mal eu a via,
    Hum ar mais leve,
    (Que doce effeito!)
    Já respirava
    Meu terno peito.

    Do cerco apenas
    Soltava o gado,
    Eu lhe amimava
    Aquella ovelha
    Que mais amava.

    Dava-lhe sempre
    No rio, e fonte,
    No prado, e selva,
    Agua mais clara,
    Mais branda relva.

    No cóllo a punha,
    Então brincando
    A mim a unia;
    Mil coizas ternas
    Aqui dizia.

    Marilia vendo
    Que eu só com ella
    He que fallava;
    Ria-se a furto,
    E disfarçava.

    Desta maneira
    Nos castos peitos,
    De dia, em dia
    A nossa chamma
    Mais se accendia.

    Ah! quantas vezes
    No chão sentado,
    Eu lhe lavrava
    As finas rócas,
    Em que fiava?

    Da mesma sorte
    Que á sua amada,
    Que está no ninho,
    Fronteiro canta
    O passarinho.

    Na quente sésta,
    Della defronte,
    Eu me entretinha
    Movendo o ferro
    Da sanfoninha.

    Ella por dar-me
    De ouvir o gosto,
    Mais se chegava:
    Então vaidoso
    Assim cantava:

    Não ha Pastora,
    Que chegar possa
    Á minha bella;
    Nem quem me iguale
    Tambem na estrella:

    Se Amor concede
    Que eu me recline
    No branco peito,
    Eu não invejo
    De Jove o leito:

    Ornão seu peito
    As sãs virtudes,
    Que nos namorão;
    No seu semblante
    As Graças morão.

    Assim vivia:
    Hoje em suspiros
    O canto mudo:
    Assim, Marilia,
    Se acaba tudo.

    LYRA X.

    Arde o velho barril, arde a cabeça,
    Em honra de João na larga rua;
    O credulo Mortal agora indaga,
    Qual seja a sorte sua?

    Eu não tenho alcaxofra, que á luz chegue,
    E nella orvalhe o Ceo de madrugada,
    Para ver se rebentão novas folhas,
    Aonde foi queimada.

    Tambem não tenho hum ovo, que despeje
    Dentro de hum cópo d'agua, e possa nella
    Fingir Palacios grandes, altas Torres,
    E huma Náo á véla.

    Mas, ah! em bem me lembre: eu tenho ouvido
    Que na boca hum bochecho d'agoa tome,
    E atráz de qualquer porta attento esteja,
    Até ouvir hum nome.

    Que o nome, que primeiro ouvir, he esse
    O nome, que ha de ter a minha amada:
    Pode verdade ser, se fôr mentira,
    Tambem não custa nada.

    Vou tudo executar, e de repente
    Ouvi dizer o nome de Filena:
    Despejo logo a boca: ah! não sei como
    Não morro alli de pena!

    Apparece Cupido: então soltando
    Em ar de zombaria huma risada.
    E que tal, me pergunta, esteve a peça?
    Não foi bem pregada?

    Eu já te disse, que Marilia he tua:
    Tu fazes do meu dito tanta conta,
    Que vais acreditar, o que te ensina
    Velha mulher já tonta.

    Humilde lhe respondo: quem debaixo
    Do açoite da Fortuna afflito geme,
    Nas mesmas coisas, que só são brinquedos,
    Se agoirão males, teme.

    LYRA XI.

    Se acaso não estou no fundo Averno
    Padece, ó minha bella, sim padece
    O peito amante, e terno,
    As afflições tyrannas, que os Preceitos
    Arbîtra Rhadamantho em justa pena
    Dos barbaros delictos.

    As Furias infernaes, rangendo os dentes
    Com a mão descarnada não me applicão
    As raivosas serpentes.
    Mas cercão-me outros monstros mais irados:
    Mordem-me sem cessar as bravas serpes
    De mil, e mil cuidados.

    Eu não gasto, Marilia, a vida toda
    Em lançar o penedo da montanha;
    Ou em mover a roda.
    Mas tenho ainda mais cruel tormento:
    Por coisas que me affligem, roda, e gyra
    Cançado pensamento.

    Com retorcidas unhas agarrado
    Ás tepidas entranhas não me come
    Hum abutre esfaimado.
    Mas sinto de outro monstro a crueldade:
    Devora o coração, que mal palpita,
    O abutre da saudade.

    Não vejo os pomos, nem as aguas vejo,
    Que de mim se retirão, quando busco
    Fartar o meu desejo;
    Mas quer, Marilia, o meu destino ingrato,
    Que lograr-te não possa, estando vendo
    Nesta alma o teu retrato.

    Estou no Inferno, estou, Marilia bella;
    E n'huma coisa só he mais humana
    A minha dura estrella:
    Huns não podem mover do Inferno os passos;
    Eu pertendo vôar, e vôar cedo
    Á gloria dos teus braços.

    LYRA XII.

    Ah, Marilia, que tormento
    Não tens de sentir saudosa!
    Não podem ver os teus olhos
    A campina deleitosa,
    Nem a tua mesma Aldêa,
    Que tyrannos não proponhão
    Á inda inquieta idéa
    Huma imagem de afflição.
    Mandarás aos surdos Deoses
    Novos suspiros em vão.

    Quando levares, Marilia,
    Teu ledo rebanho ao prado
    Tu dirás: aqui trazia
    Dirceo tambem o seu gado.
    Verás os sitios ditosos
    Onde, Marilia, te dava,
    Doces beijos amorosos
    Nos dedos da branca mão.
    Mandarás aos surdos Deoses
    Novos suspiros em vão.

    Quando á janella sahires
    Sem quereres, descuidada,
    Tu verás, Marilia, a minha
    E minha pobre morada.
    Tu dirás então comtigo:
    Alli Dirceo esperava
    Para me levar comsigo:
    E alli soffreo a prisão.
    Mandarás aos surdos Deoses
    Novos suspiros em vão.

    Quando vires igualmente
    Do caro Glauceste a choça,
    Onde alegre se juntavão
    Os pouco da escolha nossa,
    Pondo os olhos na varanda
    Tu dirás, de mágoa chêa:
    Todo o congresso alli anda,
    Só o meu Amado não.
    Mandarás aos surdos Deoses
    Novos suspiros em vão.

    Quando passar pela rua
    O meu companheiro honrado,
    Sem que me vejas com elle
    Caminhar emparelhado,
    Tu dirás: não foi tyranna
    Sómente comigo a sorte;
    Tambem cortou deshumana
    A mais fiel união.
    Mandarás aos surdos Deoses
    Novos suspiros em vão.

    N'uma masmorra mettido
    Eu não vejo imagens destas,
    Imagens, que são por certo
    A quem adora funestas.
    Mas se existem separadas
    Dos inchados rôxos olhos,
    Estão, que he mais, retratadas
    No fundo do coração.
    Tambem mando aos surdos Deoses
    Tristes suspiros em vão.

    LYRA XIII.

    Ves, Marilia, hum cordeiro
    De flores enramado,
    Como alegre caminha
    A ser sacrificado?
    O Povo para o Templo já concorre:
    A Pyra sacro-santa já se accende:
    O Ministro o fere, elle bala, e morre.

    Vês agora o novilho,
    A quem segura o laço:
    No chão as mãos especa:
    Nem quer mover hum passo:
    Não conhece que sahe de hum máo terreno;
    Que o forte pulso, que a seguir o arrasta,
    O conduz a viver n'um campo ameno.

    Ignora o bruto, como
    Lhe dispomos a sorte:
    Hum vai forçado á vida,
    Vai outro alegre á morte,
    Nós temos, minha bella, igual demencia:
    Não sabemos os fins, com que nos move
    A sábia, occulta Mão da Providencia.

    De Jacob ao bom filho
    Os máos matar quizerão:
    De conselho mudárão,
    Como escravo o vendêrão:
    José não corre a ser hum servo afflito:
    Vai subindo os degráos, por onde chega
    A ser hum quasi Rei no grande Egypto.

    Quem sabe se o Destino
    Hoje, ó bella, me prende,
    Só porque nisto de outros
    Mais damnos me defende?
    Póde inda raiar hum claro dia.
    Mas quer raie, quer não, ao Ceo adoro;
    E beijo a santa mão, que assim me guia.

    LYRA XIV.

    Alma digna de mil Avós Augustos!
    Tu sentes, tu soluças
    Ao ver cahir os justos;
    Honras as santas leis da Humanidade:
    E aos teus exemplos deve
    Gravar com letras de oiro no seu Templo
    A candida Amizade.

    Não he, não he de Heróe huma alma forte,
    Que vê com rosto enchuto
    No seu igual a morte.
    Não he tambem de Heróe hum peito duro,
    Que a sua gloria firma,
    Em que lhe não resiste ao ferro, e fogo,
    Nem legião, nem muro.

    Oh! quanto ousado Chefe me namora,
    Quando vê a cabeça
    Do bom Pompeo, e chora!
    He grande para mim, quem move os passos,
    E de Dario aos filhos,
    Que como escravos seus tratar podéra,
    Recebe nos seus braços.

    Se alcança Eneas, Capitão piedoso,
    Entre os Heróes do Mundo
    Hum nome glorioso,
    Não he, porque levanta huma cidade;
    He sim, porque nos hombros
    Salvou do incendio ao Pai a quem detinha
    A mão da branca idade.

    Ah! se ao meu contrario entre as chãmas vira;
    Eu mesmo, sim, da morte
    Aos hombros o remira:
    Inda por elle muito mais obrára:
    E se nada servisse,
    Fizera então, Amigo, o que fizeste,
    Gemêra, e suspirára.

    Oh! quanto são duraveis as cadêas
    De huma amizade, quando
    Se dão iguaes idéas!
    Se a pezar dos estorvos se sustinha
    Nossa união sincera,
    Foi por ser a minha alma igual á tua,
    E a tua igual á minha.

    Se, ó caro Amigo, te merece tanto,
    Lá lhe fica a sua alma,
    Limpa-lhe o terno pranto.
    De quem eu fallo, és tu, Marilia bella.
    Ah! sim, honrado Amigo,
    Se enxugar não poderes os seus olhos;
    Prantêa então com ella.

    LYRA XV.

    Eu, Marilia, não fui nenhum Vaqueiro;
    Fui honrado Pastor da tua Aldêa;
    Vestia finas lãns, e tinha sempre
    A minha chóça do preciso chêa.
    Tirarão-me o casal, e o manso gado,
    Nem tenho a que me encoste hum só cajado.

    Para ter, que te dar, he que eu queria
    De mór rebanho ainda ser o dono;
    Prezava o teu semblante, os teus cabellos
    Ainda muito mais que hum grande Throno.
    Agora que te offerte já não vejo
    Além de hum puro amor, de hum são desejo.

    Se o rio levantado me causava
    Levando a sementeira prejuiso,
    Eu alegre ficava apenas via
    Na tua breve boca hum ar de riso.
    Tudo agora perdi; nem tenho o gosto
    De ver-te ao menos compassivo o rosto.

    Propunha-me dormir no teu regaço
    As quentes horas da comprida sésta,
    Escrever teus louvores nos olmeiros,
    Toucar-te de papoilas na floresta.
    Julgou o justo Ceo, que não covinha
    Que a tanto gráo subisse a gloria minha.

    Ah, minha bella, se a Fortuna volta,
    Se o bem que já perdi alcanço, e provo;
    Por essas brancas mãos, por essas faces
    Te juro renascer hum homem novo;
    Romper a nuvem que os meus olhos cerra,
    Amar no Ceo a Jove, e ati na terra.

    Fiadas comprarei as ovelhinhas,
    Que pagarei dos poucos do meu ganho;
    E dentro em pouco tempo nos veremos
    Senhores outra vez de hum bom rebanho.
    Para o contagio lhe não dar sobeja
    Que as affague Marilia, ou só que as veja.

    Se não tivermos lans, e pelles finas,
    Podem mui bem cobrir as carnes nossas
    As pelles dos cordeiros mal cortidas,
    E os pannos feitos com as lans mais grossas.
    Mas ao menos será o teu vestido
    Por mãos de Amor, por minhas mãos cozido.

    Nós iremos pescar na quente sésta
    Com canas, e com cêstos os peixinhos:
    Nós iremos caçar nas manhãs frias
    Com a vara envisgada os passarinhos;
    Para nos divertir faremos quanto
    Reputa o varão sabio, honesto, e santo.

    Nas noites de serão nos sentaremos
    C'os filhos se os tivermos á fogueira;
    Entre as falsas historias, que contares,
    Lhes contarás a minha verdadeira:
    Pasmados te ouviráõ; eu entre tanto
    Ainda o rosto banharei de pranto.

    Quando passarmos juntos pela rua
    Nos mostraráõ c'o dedo os mais Pastores,
    Dizendo huns para os outros: olha os nossos
    Exemplos da desgraça, e sãos amores.
    Contentes viviremos desta sorte,
    Até que chegue a hum dos dois a morte.

    LYRA XVI.

    Vejo, Marilia,
    Que o nédeo gado
    Anda disperso
    No monte, e prado;
    Que assim succede
    Ao desgraçado,
    Que a perder chega
    O seu Pastor.
    Mas inda soffro
    A viva dôr.

    Tambem conheço,
    Que os Pegureiros,
    Que apascentavão
    Os meus cordeiros,
    Darão suspiros
    E verdadeiros;
    Porque perdêrão
    Hum pai no amor.
    Mas inda soffro
    A viva dôr.

    Eu mais alcanço;
    Que a minha herdade
    Estando eu prezo,
    Soffrer não ha-de
    Nem a charrua,
    E nem a grade;
    Que a mão lhe falta
    Do Lavrador.
    Mas inda soffro
    A viva dôr.

    Mas quando sobe
    Á minha idéa,
    Que tu ficaste
    Lá nessa Aldêa.
    De mil cuidados
    E mágoa cheia;
    Das paixões minhas
    Não sou senhor.
    Eu já não soffro
    A viva dôr.

    A quanto chega
    A pena forte!
    Peza-me a vida,
    Desejo a morte,
    A Jove accuso,
    Maldigo a sorte,
    Trato a Cupido
    Por hum traidor.
    Eu já não soffro
    A viva dôr.

    Mas este excesso
    Perdão merece,
    E delle Jove
    Se compadece;
    Que Jove, ó bella,
    Mui bem conhece,
    Aonde chega
    Paixão de amor.
    Eu já não soffro
    A viva dôr.

    LYRA XVII.

    Dirceo te deixa, ó bella,
    De padecer cançado:
    Frio suor já banha
    Seu rosto descórado;
    O sangue já não gyra pela vêa,
    Seus pulsos já não batem;
    E a clara luz dos olhos se bacêa:
    A lagrima sentida já lhe corre;
    Já pára a convulsão, suspira, e morre.

    Seu espirito chega
    Onde se pune o erro:
    Late o cão, e se lhe abrem
    Grossos portões de ferro.
    Aos severos Juizes se apresenta;
    E com sentidas vozes
    Toda a sua tragedia representa:
    Enche-se de ternura, e novo espanto
    O mesmo inexoravel Rhadamantho.

    Abre hum pasmado a boca,
    E a pedra não despede;
    Outro já não se lembra
    Da fome, e mais da sede:
    Descança o curvo bico, e a garra impia
    Negro abutre esfaimado:
    Nem a roca medonha a Parca fia,
    Até as mesmas Furias inclementes
    Deixão cahir das unhas as serpentes.

    Já votão os Juizes;
    E o Rei Plutão lhe ordena
    Deixe o sitio, em que ficão
    Almas dignas de pena.
    Já sahe do escuro Reino, e da memoria
    Lhe passa tudo quanto
    Ou póde dar-lhe mágoa, ou dar-lhe gloria.
    Só, bem que o gosto as turvas agoas tome,
    Inda, Marilia, inda diz teu nome.

    Entra já nos Elysios
    Campinas venturosas,
    Que mansos rios cortão,
    Que cobrem sempre as rosas.
    Escuta o canto das sonoras aves,
    E bebe as agoas puras,
    Que o mel, e de que o leite mais suaves.
    Aqui, diz elle, espero a minha bella,
    Aqui contente viverei com ella.

    Aqui… porém aonde
    Me leva a dôr activa?
    He illusão desta alma.
    Jove inda quer que eu viva.
    Eu devo sim gosar teus doces laços;
    E em paga dos meus males
    Devo morrer, Marilia, nos teus braços.
    Então eu passarei ao Reino amigo;
    E tu irás despois lá ter comigo.

    LYRA XVIII.

    Não mólho, Marilia,
    De pranto a masmorra
    Que o terno Cupido
    Não vôe, e não corra,
    A hilo apanhar.
    Estende-o nas azas
    Sobre elle suspira,
    Por fim se retira,
    E vai-to levar.

    Se o moço não mente,
    Aos tristes gemidos,
    Aos ais lastimosos
    Não guardes unidos,
    Marilia, c'os teus:
    As lagrimas nossas
    No seio amontôa
    Fórma azas, e vôa,
    Vai pô-las nos Ceos.

    A Deosa formosa,
    Que amava aos Troianos,
    Livra-los querendo
    De riscos, e damnos
    A Jove buscou.
    As aguas, que o rosto
    Da Deosa banhárão,
    A Jove abrandárão,
    E assim os salvou.

    Confia-te, ó bella,
    Confia-te em Jove;
    Ainda se abranda,
    Ainda se move
    Com ancias de amor.
    O pranto de Venus,
    Que obrou no Pai tanto,
    Não tem que o teu pranto
    Apreço maior.

    LYRA XIX.

    Nesta triste masmorra,
    De hum semivivo corpo sepultura,
    Inda, Marilia, adoro
    A tua formosura.
    Amor na minha idéa te retrata,
    Busca extremoso, que eu assim resista
    Á dôr immensa, que me cerca, e mata.

    Quando em meu mal pondero,
    Então mais vivamente te diviso:
    Vejo o teu rosto, e escuto
    A tua voz, e riso.
    Movo ligeiro para o vulto os passos:
    Eu beijo a tibia luz em vez de face;
    E aperto sobre o peito em vão os braços.

    Conheço a illusão minha;
    A violencia da mágoa não supporto;
    Foge-me a vista, e caio
    Não sei se vivo, ou morto.
    Enternece-se Amor de estrago tanto;
    Reclina-me no peito, e com mão terna
    Me limpa os olhos do salgado pranto.

    Despois que represento
    Por largo espaço a imagem de hum defunto,
    Movo os membros, suspiro,
    E onde estou pergunto.
    Conheço então que Amor me tem comsigo;
    Ergo a cabeça, que inda mal sustento,
    E com doente voz assim lhe digo.

    Se queres ser piedoso,
    Procura o sitio em que Marilia móra,
    Pinta-lhe o meu estrago,
    E vê, Amor, se chora.
    Se as lagrimas verter a dôr a arrasta,
    Huma dellas me traze sobre as pennas,
    E para allivio meu só isto basta.

    LYRA XX.

    E me visses com teus olhos
    Nesta masmorra mettido;
    De mil idéas funestas,
    E cuidados combatido:
    Qual seria, ó minha bella,
    Qual seria o teu pezar?

    Á força da dôr cedêra;
    E nem estaria vivo,
    Se o menino Deos vendado,
    Extremoso, e compassivo,
    Com o nome de Marilia
    Não me viesse animar.

    Deixo a cama ao romper d'alva;
    O meio dia tem dado,
    E o cabello inda flutua
    Pelas costas desgrenhado.
    Não tenho valor, não tenho;
    Nem para de mim cuidar.

    Diz-me Cupido: E Marilia;
    Não estima esse cabello?
    Se o deixas perder de todo
    Não se ha de enfadar ao vêllo?
    Suspiro pego no pente,
    Vou logo o cabello atar.

    Vem hum taboleiro entrando
    De varios manjares cheio,
    Põe-se na meza a toalha,
    E eu pensativo passeio:
    De todo o comer esfria,
    Sem nelle poder tocar.

    Eu entendo que matar-te,
    Diz Amor, te tens proposto;
    Fazes bem: terá Marilia
    Desgosto sobre desgosto.
    Qual enfermo c'o remedio
    Me afflijo, mas vou jantar.

    Chegão as horas Marilia,
    Em que o Sol já se tem posto,
    Vem-me á memoria que nellas
    Via á janella o teu rosto:
    Reclino na mão a face
    E entro de novo a chorar.

    Diz-me Cupido: Já basta,
    Já basta, Dirceo, de pranto;
    Em obsequio de Marilia
    Vai erguer teu doce canto.
    Pendem as fontes dos olhos,
    Mas eu sempre vou cantar.

    Vem o Forçado accender-me
    A velha çuja candêa;
    Fica, Marilia, a masmorra
    Inda mais triste, e mais fêa.
    Nem mais canto, nem mais posso
    Huma só palavra dar.

    Diz-me Cupido: São horas
    De escrever-se o que está feito;
    Do azeite, e da fumaça
    Huma nova tinta ageito,
    Tomo o páo, que penna finge,
    Vou as Lyras copiar.

    Sem que chegue o leve sono
    Canta o Gallo a vez terceira;
    Eu digo ao Amor; que fico
    Sem deitar-me a noite inteira:
    Faço mimos, e promessas
    Para elle me acompanhar.

    Elle diz que em dormir cuide,
    Que hei-de ver Marilia em sonho;
    Não respondo huma palavra,
    A dura cama componho,
    Apago a triste candêa,
    E vou-me logo deitar.

    Como póde a taes cuidados
    Risistir, ó minha Bella,
    Quem não tem de Amor a graça?
    Se eu que vivo á sombra della
    Inda vivo desta sorte,
    Sempre triste a suspirar?

    LYRA XXI.

    Que diversas que são, Marilia, as horas
    Que passo na masmorra immunda, e fêa,
    Dessas horas felizes, já passadas
    Na tua patria Aldêa.

    Então eu me ajuntava com Glauceste;
    E á sombra de alto Cédro na Campina
    Eu versos te compunha, e elle os compunha
    Á sua cara Eulina.

    Cada qual o seu canto aos Astros leva;
    De exceder hum ao outro qualquer trata
    O ecco agora diz: _Marilia terna_;
    E logo: _Eulina ingrata_.

    Deixão os mesmos Sátyros as grutas:
    Hum para nós ligeiro move os passos;
    Ouve-nos de mais perto, e faz a flauta
    C'os pés em mil pedaços.

    Dirceo (clama hum Pastor,) ah! bem merece
    Da ternissima Marilia a formosura.
    E aonde, clama o outro, quer Eulina
    Achar maior ventura?

    Nenhum Pastor cuidava do rebanho,
    Em quanto em nós durava esta porfia.
    E ella, ó minha amada, só findava
    Depois de acabar-se o dia.

    Á noite te escrevia na cabana
    Os versos, que de tarde havia feito;
    Mal tos dava, e os lias, os guardavas
    No casto, e branco peito.

    Beijando os dedos dessa mão formosa,
    Banhados com as lagrimas do gosto,
    Jurava não cantar mais outras graças
    Que as graças do teu rosto.

    Ainda não quebrei o juramento.
    Eu agora, Marilia, não as canto;
    Mas inda vale mais que os doces versos
    A voz do triste pranto.

    LYRA XXII.

    Por morto, Marilia,
    Aqui me reputo:
    Mil vezes escuto
    O som do arrastado,
    E duro grilhão.
    Mas, ah! que não treme,
    Não treme de susto
    O meu coração.

    A chave lá sôa
    Na porta segura:
    Abre-se a escura,
    Infame masmorra
    Da minha prizão.
    Mas, ah! que não treme;
    Não treme de susto
    O meu coração.

    Eu vejo, Marilia,
    A mil innocentes
    Nas Cruzes pendentes,
    Por falsos delictos,
    Que os homens lhes dão.
    Mas, ah! que não treme,
    Não treme de susto
    O meu coração.

    Se penso que posso
    Perder o gozar-te
    A gloria de dar-te
    Abraços honestos,
    E beijos na mão.
    Marilia, já treme,
    Já treme de susto
    O meu coração.

    Repára, Marilia,
    O quanto he mais forte
    Ainda que a morte,
    N'um peito esforçado
    De amor a paixão.
    Marilia, já treme,
    Já treme de susto
    O meu coração.

    LYRA XXIII.

    Não praguejes, Marilia, não praguejes
    A justiceira mão que lança os ferros:
    Não traz de balde a vingadora espada;
    Deve punir os erros.

    Virtudes de Juiz, virtudes de homem
    As mãos se derão, e em seu peito morão.
    Mandão prender ao Réo austera a boca,
    Porém seus olhos chorão.

    Se á innocencia denigre a vil calumnia
    Que culpa aquelle tem que applica a penna.
    Não he o Julgador, he o processo,
    E a lei quem nos condemna.

    Só no Averno os Juizes não recebem
    Accusação, nem prova de outro humano;
    Aqui todos confessão suas culpas,
    Não póde haver engano.

    Eu vejo as Furias affligindo aos tristes:
    Huma o fogo chega, outra as serpes move;
    Todos maldizem sim a sua estrella,
    Nenhum accusa a Jove.

    Eu tambem inda adoro ao grande Chefe,
    Bem que a prizão me dá que eu não mereço.
    Qual eu sou, minha bella, não me trata,
    Trata-me qual pareço.

    Quem suspira, Marilia, quando pune
    Ao vassallo que julga delinquente;
    Que gosto não terá podendo dar-lhe
    As honras de innocente?

    LYRA XXIV.

    Eu vou, Marilia, vou brigar co' as feras:
    Huma soltárão, eu lhe sinto os passos,
    Aqui aqui a espero
    Nestes despidos braços.
    He hum malhado tigre; a mim já corre,
    Ao peito o aperto, estalão-lhe as costelas,
    Desfallece, cahe, urra, treme, e morre.

    Vem agora hum Leão: sacode a grenha,
    Com faminta paixão a mim se lança;
    Venha embora, que o pulso
    Ainda não se cança.
    Opprimo-lhe a garganta, a lingua estira,
    O corpo lhe fraquêa, os olhos inchão,
    Açoita o chão convulso, arqueja, e espira.

    Mas que vejo, Marilia! tu te assustas?
    Entendes que os destinos inhumanos
    Expoem a minha vida
    No cêrco dos Romanos?
    Com ursos, e com onças eu não luto.
    Luto c'o bravo monstro que me accusa;
    Que os tigres, e leões mais féro, e bruto.

    Embora contra mim raivoso esgrima
    Da vil calumnia a cortadora espada;
    Huma alma, qual eu tenho,
    Não se recêa a nada.
    Eu hei-de, sim, punir-lhe a insolencia,
    Pizar-lhe o negro cóllo, abrir-lhe o peito
    Co' as armas invenciveis da innocencia.

    Ah, quando imaginar, que vingativo
    Mando que desça ao Tartaro profundo
    Hei-de com mão honrada
    Erguer-lhe o corpo immundo.
    Eu então lhe direi: Infame, indîno,
    Obras como costuma o vil humano;
    Faço o que faz hum coraçao divino.

    LYRA XXV.

    Minha Marilia,
    O passarinho,
    A quem roubárão
    Ovos, e ninho,
    Mil vezes pousa
    No seu raminho,
    Piando finge
    Que anda a chorar.
    Mas logo vôa
    Pela espessura,
    Nem mais procura
    Este lugar.

    Se acaso a vacca
    Perde a vitéla,
    Tambem nos mostra,
    Que se desvéla,
    O pasto deixa,
    Muge por ella,
    Até na estrada
    A vem buscar.
    Em poucos dias,
    Ao que parece,
    Della se esquece,
    E vai pastar.

    O voraz Tempo,
    Que o ferro come,
    Que aos mesmos Reinos
    Devora o nome,
    Tambem, Marilia,
    Tambem consome
    Dentro do peito
    Qualquer pezar.
    Ah só não póde
    Ao meu tormento
    Por hum momento
    Allivio dar.

    Tambem, ó bella,
    Não ha quem viva
    Instantes breves
    Na chamma activa;
    Derrete ao bronze
    Sendo excessiva
    Ao mesmo seixo
    Faz estalar.
    Mas do amianto
    A fêbra dura
    Na chamma atura
    Sem se queimar.

    Tambem, Marilia,
    Não ha quem negue,
    Que bem que o fogo
    Nos oleos pegue,
    Que bem que em lingoas
    Ás nuvens chegue,
    Á força d'agoa
    Se ha de apagar.
    Se a negra pedra
    Nós accendemos,
    Com agoa a vemos
    Mais s'inflammar.

    O meu discurso,
    Marilia, he resto:
    A pena iguala
    Ao meu affecto.
    O amor que nutro
    Ao teu aspecto,
    E o teu semblante
    He singular.
    Ah! nem o tempo,
    Nem inda a morte
    A dôr tão forte
    Pode acabar.

    LYRA XXVI.

    Aquelle, a quem fêz cégo a Natureza,
    C'o bordão apalpa, e aos que vem pergunta;
    Ainda se despenha muitas vezes,
    E dois remedios junta.

    De ser céga a Fortuna eu não me queixo;
    Sim me queixo de que má céga seja
    Céga que nem pergunta, nem apalpa,
    He porque errar deseja.

    A quem gastar não sabe, nem se anima,
    Entrega as grossas chaves de hum thesoiro;
    E lança na miseria a quem conhece
    Para que serve o oiro.

    A quem fere, a quem rouba, a infame deixa
    Que a traz do vicio em liberdade corra,
    Eu honro as leis do Imperio, ella me opprime
    N'esta vil masmorra.

    Mas ah! minha Marilia, que esta queixa
    Co' a sólida razão se não coaduna,
    Como me queixo da Fortuna tanto,
    Se sei não ha Fortuna?

    Os Fados, os Destinos, essa Deosa
    Que os Sábios fingem que huma roda move
    He só a occulta mão da Providencia,
    A sábia mão de Jove.

    Nós he que somos cegos, que não vemos;
    A que fins nos conduz por estes modos;
    Por torcidas estradas, ruins varedas
    Caminha ao bem de todos.

    Alegre-se o perverso com as ditas;
    C'o seu merecimento o virtuoso;
    Parecer desgraçado, ó minha bella,
    He muito mais honroso.

    LYRA XXVII.

    A minha amada
    He mais formosa
    Que branco lyrio,
    Dobrada rosa,
    Que o cinnamomo,
    Quando matiza
    Co' a folha a flor.
    Venus não chega
    Ao meu Amor.

    Vasta campina
    De trigo chêa,
    Quando na sésta
    C'o vento ondêa,
    Ao seu cabello
    Quando flutua
    Não he igual.
    Tem a côr negra:
    Mas quanto val!

    Os astros, que andão
    Na esfera pura,
    Quando scintilão
    Na noite escura,
    Não são humanos,
    Tão lindos, como
    Seus olhos são.
    Que ao Sol excedem
    Na luz que dão.

    Ás brancas faces,
    Ah! não se atreve
    Jasmis de Italia,
    Nem inda a neve,
    Quando a desata
    O Sol brilhante
    Com seu calôr.
    São neve, e causão
    No peito ardôr.

    Na breve boca
    Vejo enlaçadas
    As finas per'las
    Com as granadas;
    A par dos beiços
    Rubins da India
    Tem preço vil.
    Nelles se agarrão
    Amores mil.

    Se não lhe désse
    Compadecido
    Tanto soccorro
    O Deos Cupido;
    Se não vivêra
    Huma esperança
    No peito seu;
    Já morto estava
    O bom Dirceo.

    Vê quanto póde
    Teu bello rosto;
    E de goza-lo
    O vivo gosto!
    Que sobmergido
    Em hum tormento
    Quasi infernal,
    Porqu' inda espero
    Resisto ao mal.

    LYRA XXVIII.

    Deten-te, vil humano,
    Não espremas cicutas
    Para fazer-me damno.
    O çumo que ellas dão he pouco forte,
    Procura outras bebidas,
    Que apressem mais a morte.

    Desce ao Reino profundo,
    Ajunta ahi venenos,
    Que nunca visse o mundo;
    Traze o negro licôr, que tem nos dentes,
    Nos dentes retorcidos
    As raivosas serpentes.

    Cachopo levantado,
    Que pôz a Natureza,
    Dentro no Mar salgado,
    Não se abala no meio da tormenta,
    Bem que huma onda, e outra onda
    Sobre elle em flor rebenta.

    Arvore, que na terra
    Ás robustas raizes,
    Buscando o centro, afferra,
    Não teme ao furacão mais violento;
    E menos se se deixa
    Vergar do rijo vento.

    Sou tronco, e rócha, ó bella,
    Que açoita o Sul que brama,
    E o Mar, que se encapella:
    Não temas que do rosto a côr se mude:
    Vence as róchas, e os troncos
    A sólida Virtude.

    A maior desventura
    He sempre a que nos lança
    No horror da sepultura:
    O cobarde a morrer tambem caminha;
    Com que males não póde
    Huma alma como a minha?

    LYRA XXIX.

    Eu descubro procurar-me
    Gentil mancebo, e loiro,
    Trazia a testa adornada
    Com folhas de verde loiro.
    Vejo ser o Pai das Musas,
    E me entrega a lyra d'oiro.

    Já basta, me diz, ó filho,
    Já basta de sentimento;
    O cançado peixe exige
    Hum breve contentamento.
    Louva a formosa Marilia
    Ao som do meu instrumento.

    Firo as cordas; mas que importa?
    A dôr não socega em tanto.
    Ergo a voz, então reparo
    Que quanto mais corre o pranto
    He mais doce, e mais sonoro
    Meu terno, e saudoso canto.

    Apollo fitou os olhos
    Na mão, que regía o braço;
    E depois de estar suspenso,
    De me houvir hum largo espaço;
    Assim diz: _o Deos Cupido
    Faz inda mais do que eu faço_.

    _Eu te dou a minha lyra,
    Louva, louva a tua Bella;
    Porém vê que ta concedo
    Com condição, e cautella_…
    Eu lhe corto a voz, dizendo,
    Que só canto em honra della.

    LYRA XXX.

    O pai das Musas,
    O Pastor loiro
    Deo-me, Marilia,
    Para cantar-te
    A lyra de oiro.

    As cordas firo,
    O brando vento
    Teus dotes leva
    Nas brancas azas
    Ao firmamento.

    O teu cabello
    Vale hum thesoiro;
    Hum só me adorna
    A sabia frente
    Melhor que o loiro.

    Nesses teus olhos
    Amor assiste;
    Delles faz guerra;
    Ninguem lhe foge;
    Ninguem resiste.

    Algumas vezes
    Eu o diviso
    Tão bem occulto
    Nas lindas cóvas,
    Que faz teu riso.

    Nesses teus peitos
    Tem os seus ninhos
    Destros Amores,
    Nelles se gerão
    Os Cupidinhos.

    Vences a Venus,
    Quando com arte
    As armas toma,
    Porque mais prenda
    Ao fero Marte.

    Eu produzia
    Estas idéas,
    Quando, Marilia;
    O som escuto
    Das vis cadêas.

    Dou hum suspiro.
    Corre o meu pranto;
    E inda bebendo
    Lagrimas tristes,
    De novo canto.

    Sou da constancia
    Hum vivo exemplo.
    E vós, ó ferros,
    Honrareis inda
    De Amor o Templo.

    LYRA XXXI.

    Roubou-me, ó minha Amada, a sorte impía,
    Quanto de meu gosava
    N'um só funesto dia.

    Honras de maioral, manada grossa,
    Fertil, extensa herdade,
    Bem reparada chóça.

    Metteo-me nesta infame sepultura,
    Que he sepulcro sem honras,
    Breve masmorra, escura.

    Aqui, ó minha Amada, nem consigo,
    Venha outro desgraçado
    Sentir tambem comigo.

    Mas se esta companhia não mereço;
    Os Deoses me dão outra,
    Inda de mais apreço.

    Não he, não, illusão o que te digo;
    Tu mesma me acompanhas;
    Peno, mas he comtigo.

    Não vejo as tuas faces graciosas,
    Os teus soltos cabellos,
    As tuas mãos mimosas.

    Se eu as visse, infeliz me não dissera,
    Bem que subira ao Porto,
    Bem que na Cruz pendêra.

    Não ouço as tuas vozes magoadas,
    Com ardentes suspiros
    Ás vezes mal formadas.

    Mas vejo, ó cara, as tuas letras bellas;
    Huma por hum beijo,
    E choro então sobre ellas.

    Tu me dizes que siga o meu destino;
    Que o teu amor na ausencia
    Será leal, e fino.

    De novo a carta ao coração aperto,
    De novo a molha o pranto
    Que de ternura verto.

    Ah! leve muito embora o duro Fado;
    A tudo quanto tenho
    Com meu suor ganhado.

    Eu juro, que do roubo nem me queixe,
    Com tanto, ó minha cara,
    Que este só bem me deixe.

    Que males voluntarios não subírão,
    Os que te amão, sómente
    Porque menos te ouvírão?

    Dê pois aos mais seus bens a Deosa céga;
    Que eu tenho aquella gloria,
    Que a mil felizes nega.

    LYRA XXXII.

    Se o vasto mar se encapella,
    E na rócha em flor rebenta,
    Grossa náo, q' não tem léme,
    Em vão sustentar-se intenta;
    Até que naufraga, e corre
    Á discrição da tormenta.

    Quem não tem huma Belleza,
    Em que ponha o seu cuidado,
    Se o Ceo se cobre de nuvens,
    E se assopra o vento irado,
    Não tem forças que resistão
    Ao impulso do seu fado.

    Nesta sombria masmorra,
    Aonde, Marilia, vivo,
    Encosto na mão o rosto,
    Fico ás vezes pensativo.
    Ah! que imagens tão funestas
    Me finge o pezar activo.

    Parece que vejo a honra,
    Marilia, toda enlutada,
    A face de hum pai rugosa,
    N'um mar de pranto banhada,
    Os amigos mascilentos,
    E a familia consternada.

    Quero voltar os meus olhos
    Para outro diverso lado,
    Vejo n'uã grande Praça
    Hum Theatro levantado.
    Vejo as Cruzes, vejo os Potros,
    Vejo o Alfanje afiado.

    Hum frio suor me cobre,
    Lação-se os membros, suspiro,
    Busco allivio ás minhas ancias,
    Não o descubro, deliro.
    Já, meu Bem, já me parece,
    Que nas mãos da morte espiro.

    Vem-me então ao pensamento
    A tua testa nevada,
    Os teus meigos, vivos olhos,
    A tua face rosada,
    Os teus dentes crystallinos,
    A tua boca engraçada.

    Qual, Marilia, a estrella d'alva,
    Que a negra noite affugenta,
    Qual o Sol, que a nevoa espalha
    Apenas a terra aquenta,
    Ou qual Iris, que o Ceo limpa,
    Quando se vê na tormenta.

    Assim, Marilia, desterro
    Triste illusão, e demencia;
    Faz de novo o seu officio,
    A razão, e a prudencia;
    E firmo esperanças doces
    Sobre a candida innocencia.

    Restauro as forças perdidas,
    Sóbe a viva côr ao rosto;
    Gyra o sangue pela vêa,
    E bate o pulso composto.
    Vê, Marilia, o quanto póde
    Contra os meus males teu rosto.

    FIM.

    MARILIA DE DIRCEO.

    POR

    F.A.G.

    TERCEIRA PARTE.

    LISBOA:

    Na Impressão Regia. Anno 1812.

    _Com licença_.

    _Vende-se na loja da Gazeta_.

    AO LEITOR.

    A geral acceitação, que a primeira, e segunda parte da Marilia de Dirceo
    tem devido ao Público, animou ao seu Editor a dar á luz huma terceira
    parte da dita Obra, a que fez juntar outras diversas Rimas do mesmo
    Author, que lhe fazem honra, e que abonão assás a distincta opinião que
    tem adquirido naquelle genero de Poesia. Adverte o Editor, que huma
    terceira parte da dita Marilia de Dirceo ha tempos publicada, he Obra de
    outro engenho, o que facilmente conhecerá ainda o Leitor menos
    intelligente.

    MARILIA DE DIRCEO.

    LYRA I.

    Convidou-me a vêr seu Templo
    O cego Cupido hum dia;
    Encheo-se de gosto o peito,
    Fiz deste Deos hum conceito
    Como delle não fazia.

    Aqui vejo descorados
    Os ternissimos amantes
    Entre as cadêas gemerem;
    Vejo nas piras arderem
    As entranhas palpitantes.

    _A quem ama quanto avista_,
    (Diz Cupido) _não aterra:
    Quem quer cingir o loureiro,
    Tambem vai soffrer primeiro
    Todo o trabalho da guerra_.

    _Com tudo que te dilates
    Neste sitio não convenho;
    Deixa a estancia lastimosa,
    Vem vêr a Salla formosa,
    Aonde o meu Solio tenho_.

    Entro n'outro grande Templo:
    Que perspectiva tão grata!
    Tudo quanto nelle vejo
    Passa além do meu desejo,
    E o discurso me arrebata.

    He de marmore, e de jaspe
    O soberbo frontespicio:
    He todo por dentro d'ouro,
    E a hum tão rico tesouro
    Inda excede o artificio.

    As janellas não se adornão
    De sedas de finas côres:
    Em lugar de cortinados
    Estão prezos, e enlaçados
    Fastões de mimosas flores.

    Em torno da Salla Augusta
    Ardem dourados brazeiros;
    Queimão rezinas, que estalão,
    E postas em fumo exalão
    Da Panchaya os gratos cheiros.

    Ao pé do Throno os seus Genios
    Alegres hymnos entoão:
    Danção as Graças formosas;
    E aqui as horas gostosas
    Em vêz de correrem, vôão.

    Estão sobre o pavimento,
    Igualmente reclinados
    Nos collos de seus amores,
    Os grandes Reis, e Pastores
    De frescas rosas coroados.

    Mal o acôrdo restauro,
    (Me diz, o Moço risonho:)
    _Como ainda não reparas
    Em tantas cousas tão raras,
    De que este Templo componho_?

    _Sabes a historia de Jove?
    Aqui tens o manso Touro;
    Tens o Cisne decantado;
    A Velha em que foi mudado,
    Com a grossa chuva d'ouro_.

    _Applica, Dirceo, agora
    Os olhos para esta parte:
    Aqui tens o verde Louro,
    Que inda estima o Pastor louro,
    E a Rede, que enlaça a Marte_.

    _Vês este Arco destramente
    De branco marfim ornado?
    Á Casta Deosa servia,
    E o perdêo quando dormia
    Do gentil Pastor ao lado_.

    _Vês esta Lyra? com ella
    Tira Orpheo ao bem querido
    Dos infernos aonde estava.
    Vês este Faról? guiava
    Ao meu nadador de Abydo_.

    _Vês estas duas Espadas
    Ainda de sangue cheias?
    A Thysbe, e a Dido matárão;
    E os fortes pulsos armárão
    De Pyramo, e mais de Eneas_.

    _Sabes quem vai no Navio,
    Que nesse mar se levanta?
    He Theseo. Vês esse Pomo?
    He de Cydippe, assim como
    São aquelles de Atalanta_.

    _Vê agora estes retratos,
    Que destros pinceis fizerão:
    Ah! que pinturas divinas!
    Todos são das Heroinas,
    Que mais victorias me dérão_.

    _Repara nesse semblante,
    He o semblante de Helena:
    Lá se avista a Grega Armada,
    E aqui de Troya abrazada
    Se mostra a funesta scena_.

    _Vês est'outra_ formosura?
    _He a bella Deidamía_;
    _Lá_ tem Achilles ao lado,
    _De huma saia disfarçado
    Como com ella vivia_.

    _Cleópatra he quem se segue:
    Alli tens lançando a linha
    Marco Antonio socegado,
    Ao tempo em que Augusto irado,
    Com armada mão caminha_.

    _Aqui Hermes se figura:
    Vê hum Sabio dos maiores,
    Qual infame delinquente,
    Ir desterrado sómente
    Por contar os seus louvores_.

    _Este he de Omphale o retrato:
    Aqui tens (quem o diria!)
    Ao grande Hercules sentado
    Com as mais damas no estrado,
    Onde em seu obsequio fia_.

    _Anda agora a est'outra parte:
    Conheces, Dirceo, aquella_?
    Onde váes? (lhe digo:) explica,
    Que belleza aqui nos fica,
    Sem fazeres caso della?

    Ergo os olhos ponho a vista
    Na imagem não explicada,
    Ó quanto he digna de appreço!
    Mal exclamo assim, conheço
    Ser a minha doce amada.

    O coração pelos olhos
    Em terno pranto sahia,
    E no meu peito saltava:
    Disfarçado Amor, olhava
    Para mim a furto, e ria.

    Depois de passado tempo,
    A mim se chega, e me aballa;
    Desperto de tanto assombro:
    Elle bate no meu hombro,
    E assim affavel me falla.

    _Sim, caro Dirceo, he esta
    A divina formosura,
    Que te destina Cupido;
    Aqui tens o laço urdido
    Da tua immortal ventura_.

    _O Numen, Dirceo, o Numen
    Que aos trabalhos de hum humano
    Desta sorte felicita,
    Não he, como se accredita,
    Não he hum Numen tyranno_.

    _Olha se a cega Fortuna
    De tudo quanto se cria,
    Ou nos mares, ou na terra,
    Em o seu thesouro encerra
    Outro bem de mais valia_?

    _Lizas faces côr de rosa,
    Brancos dentes, olhos bellos,
    Grossos beiços encarnados,
    Pescoço, e peitos nevados,
    Negros e finos cabellos_;

    _Não vale mais, que cingires
    Co' braço de sangue immundo
    Na cabeça o verde louro?
    Do que teres montes d'ouro?
    Do que dares leis ao mundo_?

    _Ah! ensina, sim ensina
    Ao vil mortal atrevido,
    E ao peito que adora terno,
    Que tem para hum Inferno,
    Para o outro hum Ceo, Cupido_.

    Ao resto Amor me convida;
    Eu chorando a mão lhe beijo:
    E lhe digo, Amor, perdôa
    Não seguir-te; pois não vôa
    A vêr mais o meu dezejo.

    LYRA II.

    Em vão do amado
    Filho que foge,
    Venus quer hoje
    Noticias ter.

    Sagaz, e astuto
    Elle se esconde
    Em parte aonde
    Ninguem o vê.

    Dos signaes dados
    Bem se conhece,
    Que elle aborrece
    A Mãi que tem.

    Se os seus defeitos
    Ella publíca,
    Razão lhe fica
    De se offender.

    Foge o Menino,
    E disfarçado
    Vive abrigado
    N'uma cruel.

    Com mil caricias
    A impia o trata;
    Nem o desata
    Do peito seu.

    Se a semelhança
    Sempre amor gera,
    Deve huma fera
    Outra accolher.

    Ah! se o teu nome,
    Marilia, calo,
    Que de ti fallo
    Bem pódes crer.

    LYRA III.

    Tu não verás, Marilia, cem captivos
    Tirarem o cascalho, e a rica terra,
    Ou dos cercos dos rios caudelosos,
    Ou da minada Serra.

    Não verás separar ao habil negro
    Do pezado esmeril a grossa arêa;
    E já brilharem os granetes de ouro,
    No fundo da batêa.

    Não verás derrubar os virgens matos,
    Queimar as capoeiras inda novas,
    Servir de adubo á terra a fertil cinza,
    Lançar os grãos nas cóvas.

    Não verás enrolar negros pacotes
    Das secas folhas do cheiroso fumo;
    Nem espremer entre as dentadas rodas
    Da doce cana o sumo.

    Verás em cima da espaçosa meza
    Altos volumes de enredados feitos;
    Ver-me-has folhear os grandes livros,
    E decidir os pleitos.

    Em quanto revolver os meus Consultos,
    Tu me farás gostosa companhia
    Lendo os fastos da sabia, mestra Historia,
    Os Cantos da Poesia.

    Lerás em alta Voz a imagem bella;
    Eu vendo que lhe dás o justo appreço;
    Gostoso tornarei a lêr de novo
    O cansado processo.

    Se encontrares louvada huma belleza,
    Marilia, não lhe envejes a ventura,
    Que tens quem leve á mais remota idade
    A tua formosura.

    LYRA IV.

    Amor por acaso
    A hum pouso chegava,
    Aonde accolhida
    A Morte se achava.

    Risonhos, e alegres
    Os braços se dérão,
    E as armas unidas
    N'um sitio pozerão.

    De emprezas tamanhas
    Cansados já vinhão,
    E em larga conversa
    A noite entretinhão.

    Hum conta que ha pouco
    A seta aguçada
    Em huma belleza
    Deixára empregada.

    Diz outro que as flexas
    Cravára no peito
    De hum grande, que teve
    O Mundo sujeito.

    Em quanto das forças
    Cada hum persumia,
    Seus membros já laços
    O somno rendia.

    Dormindo tranquillos
    A noite passárão,
    E inda antes da Aurora
    Com ancia acordárão.

    _He tempo que o leito
    Deixemos, ó Morte_;
    Amor, já erguido
    Fallou desta sorte.

    _He tempo_, em resposta
    A morte repete,
    _Que á nossa fadiga
    Dormir não compete_.

    _As armas colhamos,
    Voltemos ao giro:
    Cada hum a seu gosto
    Empregue o seu tiro_.

    Vão inda c'os olhos
    Em somno turbados,
    Ao sitio em que os ferros
    Estão pendurados.

    Amor para as setas
    Da morte se enclina:
    De amor logo a Morte
    C'o as flexas atina.

    Oh golpes tyrannos!
    Oh mãos homicidas!
    São tiros da Morte
    De Amor as feridas.

    De hum sonho, que pinto,
    Marilia conhece,
    Se amor, ou se morte
    Este alma padece.

    LYRA V.

    Eu não sou, minha Nize, pegureiro,
    Que viva de guardar alhêo gado;
    Nem sou pastor grosseiro
    Dos frios gêlos, e do Sol queimado,
    Que veste as pardas lãs do seu cordeiro.
    Graças, ó Nize bella,
    Graças á minha Estrella!

    A Cresso não igualo no thesouro:
    Mas deo-me a Sorte com que honrado viva.
    Não cinjo corôa d'ouro;
    Mas Póvos mando, e na testa altiva
    Verdeja a Corôa do Sagrado Louro.
    Graças, ó Nize bella,
    Graças á minha Estrella!

    Maldito seja aquelle, que só trata
    De contar escondido a vil riqueza!
    Que cego se arrebata
    Em buscar nos Avós a vã nobreza,
    Com que aos mais homens seus iguaes abata.
    Graças, ó Nize bella,
    Graças á minha Estrella!

    As fortunas que em torno de mim vejo,
    Por falsos bens que enganão não reputo;
    Mas antes mais desejo,
    Não para me voltar soberbo em bruto
    Por vêr-me grande quando a mão te beijo.
    Graças, ó Nize bella,
    Graças á minha Estrella!

    Pela Ninfa que jaz vertida em Louro,
    O grande Deos Apollo não delira?
    Jove mudado em Touro,
    E já mudado em Velha não suspira?
    Seguir aos Deoses nunca foi desdouro.
    Graças, ó Nize bella,
    Graças á minha Estrella.

    Pertendão Hanibaes honrar a Historia,
    E cinjão com a mão de sangue chêa
    Os louros da victoria.
    Eu revolvo os teus dons na minha idéa:
    Só dons que vem do Ceo são minha gloria.
    Graças, ó Nize bella,
    Graças á minha Estrella!

    LYRA VI.

    _Traducção_.

    Amor que seus passos
    Ligeiro movia,
    Por mil embaraços
    Que hum bosque tecia.

    Nos hombros me acena
    Com brando raminho;
    E logo me ordena
    Que siga o caminho.

    Por entre a espessura
    Do bosque me avanço:
    E a traz da ventura
    Incauto me lanço.

    Já tinha calcado
    Os montes mais duros:
    C'o peito rasgado
    Os rios escuros.

    Eis que huma serpente
    A lingua vibrando,
    Me crava o seu dente,
    Me deixa espirando.

    Então surprendida
    Da dôr que a traspassa,
    Minha alma ferida
    Aos beiços se passa.

    As iras detesta
    Amor isto vendo,
    E as azas na testa
    Me bate dizendo:

    _Tu choras, tu gemes
    Da Serpe tocado,
    E o braço não temes
    De hum Numen irado_?

    LYRA VII.

    Tu, formosa Marilia, já fizeste
    Com teus olhos ditosas as campinas,
    Do turvo Ribeirão em que nasceste:
    Deixa, Marilia, agora
    As já lavradas terras;
    Anda affoita romper os grossos mares,
    Anda encher de alegria estranhas terras.
    Ah! que por ti suspírão
    Os meus saudosos lares.

    Não corres como Sapho sem ventura
    Em seguimento de hum cruel ingrato,
    Que não sede aos encantos da ternura:
    Segues a hum fino amante,
    Que a perder-te morria.
    Quebra os grilhões do sangue, e vem, ó bella;
    Tu já foste no Sul a minha guia.
    Ah! deves ser no Norte
    Também a minha Estrella.

    Verás ao Deos Neptuno socegado
    Aplainar co' tridente as crespas ondas;
    Ficar como dormindo o mar salgado.
    Verás, verás d' alheta
    Soprar o brando vento,
    Mover-se o léme, disrinzar-se o linho,
    Seguirem os Delfins o movimento,
    Que leva na carreira
    O empavezado pinho.

    Verás como o Leão na prôa arfando
    Converte em branca espuma as negras ondas
    E as talha, e corta com murmurio brando.
    Verás, verás Marilia
    Da janella dourada,
    Que huma comprida estrada representa
    A linfa cristalina, que pizada
    Pela poupa que foge
    Em borbotões rebenta.

    Bruto peixe verás de corpo immenso,
    Tornar ao torto anzol depois de o terem
    Pela rasgada boca ao ar suspenso:
    Os pequenos peixinhos
    Quaes passaros voarem:
    De toninhas verás o mar coalhado,
    Ora surgirem, ora mergulharem,
    Fingindo ao longe as ondas
    Que fórma o vento irado.

    Verás que o grande monstro se apresenta
    Hum repuxo formando com as aguas,
    Que ao ar espalha da robusta venta.
    Verás em fim, Marilia,
    As nuvens levantadas
    Humas de côr azul, ou mais escuras,
    Outras de côr de rosa, ou prateadas
    Fazerem no Orizonte
    Mil diversas figuras.

    Mal chegares á foz do claro Téjo,
    Apenas elle vir o teu semblante
    Dará no léme do baixel hum beijo.
    Eu lhe direi vaidoso:
    Não trago, não comigo
    Nem pedras de valor, nem montes d'ouro,
    Roubei as aureas Minas, e consigo
    Trazer para os teus cofres
    Este maior Thesouro.

    LYRA VIII.

    Em cima dos viventes fatigados
    As verdes dormideiras espremia,
    Os mentirosos sonhos me cercavão.
    Na vaga fantasia
    Ao vivo me pintavão
    As glorias, que disperto
    Meu coração pedia.

    Eu vou, eu vou subindo a Náo possante
    Nos braços conduzindo a minha bella;
    Voltêa a grande roda, e a grossa amarra
    Se enlêa em torno della:
    Já ponho a prôa á barra,
    Já cáhe ao som do apito
    Ora huma, ora outra véla.

    Os arvoredos já se não distinguem:
    A longa praia ao longe não branqueija;
    E já se vão sumindo os altos montes.
    Já não ha que se veja
    Nos claros Orizontes,
    Que não sejão vapores,
    Que Ceo, e mar não seja.

    Parece vão correndo as negras ondas,
    E o pinho qual rochedo estar parado:
    Ergue-se a onda, vem á Náo direita
    E quebra no costado:
    O Navio se deita,
    E ella finge a ladeira
    Sahindo do outro lado.

    Vejo nadarem os brilhantes peixes;
    Cahir do Láes a linha, que os engana:
    Hum dourado no anzol está pendente,
    Soffre morte tyranna;
    Entre tanto que a sente
    Ao tombadilho açoita
    A cauda, e a barbatana.

    Sobre as ondas descubro huma Carroça
    De formosas conchinhas enfeitada;
    Delfins a movem, e vem Thetis nella:
    Na popa está parada:
    Nem póde a Deosa bella
    Tirar os brandos olhos
    Da minha doce amada.

    Nas costas dos Golfinhos vem montados
    Os nûz Tritões, deixando a Esfera cheia
    Co' rouco som dos buzios retorcidos.
    Recrêa, sim recrêa
    Meus attentos ouvidos
    O canto sonoroso
    Da musica Serêa.

    Já sóbe ao grande mastro o bom gageiro;
    Descobre arrumação, e grita terra:
    Á murada caminha alegre a gente;
    Alguns entendem que erra:
    Pelo immovel sómente
    Conheço não ser nuvem,
    Sim o cume de alta serra.

    De Mafra já descubro as grandes torres;
    (E que nova alegria me arrebata!)
    De Cascaes a muleta já vem perto,
    Já de abordar-nos trata:
    Já o piloro esperto
    Inda debaixo manda
    Soltar mezena, e gata.

    Eu vou entrando na espaçosa barra:
    A grossa artilheria já me atrôa.
    Lá ficão Paço de Arcos, e a Junqueira.
    Já corre pela prôa
    Huma amarra ligeira;
    E a Náo já fica surta
    Diante da grã Lisboa.

    Agora, agora sim, agora espero
    Renovar da amizade antigos laços:
    Eu vejo ao velho Pai, que lentamente
    Arrasta a mim os passos:
    Ah como vem contente!
    De longe mal me avista
    Já vem abrindo os braços.

    Dóbro os joelhos pelos pés o aperto,
    E manda que dos pés ao peito passe:
    Marilia quanto eu fiz fazer intenta;
    Antes que os pés lhe abrace
    Nos braços a sustenta;
    Dá-lhe de filha o nome,
    Beija-lhe a branca face.

    Vou a descer a escada (ó Ceos!) acórdo,
    Conheço não estar no claro Tejo.
    Abro os olhos, procuro a minha amada,
    E nem se quer a vejo.
    Venha a hora affortunada,
    Em que não fique em sonhos
    Tão ardente desejo.

    _A huma despedida_.

    Chegou-se o dia mais triste,
    Que o dia da morte fêa:
    Cahi do throno Dircéa,
    Do throno dos braços teus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Impio Fado, que não pôde
    Os doces laços quebrar-me,
    Por vingança quer levar-me
    Distante dos olhos teus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Parto em fim, e vou sem vêr-te,
    Que neste fatal instante,
    Ha de ser o teu semblante
    Mui funesto aos olhos meus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    E crês, Dircéa, que devem
    Vêr meus olhos penduradas
    Tristes lagrimas salgadas
    Correrem dos olhos teus?
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    De teus olhos engraçados,
    Que podérão piedosos,
    De tristes em venturosos
    Converter os dias meus?
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Desses teus olhos divinos,
    Que ternos, e socegados,
    Enchem de flores os prados,
    Enchem de luzes os Ceos?
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Desses teus olhos em fim,
    Que domão Tigres valentes?
    Que nem rigidas Serpentes
    Resistem aos tiros seus?
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Da maneira que serião
    Em não vêr-te criminosos
    Em quanto forão ditosos,
    Agora serião réos.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Parto em fim, Dircéa bella,
    Rasgando os ares cinzentos;
    Virão nas azas dos ventos
    Buscar-te os suspiros meus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Talvez, Dircéa adorada,
    Que os duros Fados me neguem
    A gloria de que elles cheguem
    Aos ternos ouvidos teus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Mas se ditosos chegarem,
    Pois os sólto a teu respeito;
    Dá-lhes abrigo no peito,
    Junta-os c'os suspiros teus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    E quando tornar a vêr-te
    Ajuntando rosto, a rosto,
    Entre os que dérmos de gosto;
    Restitue-me então os meus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    CANÇÃO.

    Dês que vi, formosa Elvira,
    Os teus divinos cabellos,
    Esses vivos olhos bellos,
    Que invéja dos astros são,
    Foi-se, Elvira, foi-se embora
    Toda a paz do coração.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Em quanto, Elvira, se occulta
    A meus olhos teu semblante,
    Hum minuto, hum breve instante
    Parece que fim não tem.
    Se alcanço de vêr-te a gloria,
    Então vôa o tempo bem.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando te ris por acaso
    Para outro qualquer sugeito,
    Estala dentro do peito
    De ciume o coração:
    Se me pões os olhos julgo
    Que zombas de mim então.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando ha brinco na floresta,
    E a divina Olaia canta,
    O mesmo gado levanta
    A cabeça para ouvir.
    Só por mais que Alceo forceje
    Não póde o prazer fingir.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando levo á clara fonte
    O rebanho do meu gado,
    Cáhe-me da mão o cajado,
    E com ella á testa vou:
    Fico pasmado, e ignoro
    O lugar aonde estou.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando vou segar o trigo,
    (Olha bem como ando cego.)
    N'uma parte nelle pego,
    Metto n'outra a fouce em vão;
    Dos que vem alguns se riem,
    Outros mostrão compaixão.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando me deito no colmo,
    Sempre sonho que te vejo,
    Que te fallo, e que te beijo
    A branca nevada mão.
    Acórdo, Pastora, e foges:
    Eu fico mais triste então.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando alguem meu mal pergunta,
    Bem que seja a vez primeira,
    Rompo ainda que não queira
    O segredo sem saber.
    O teu nome, Elvira, digo,
    Quando devo o seu dizer.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Fujo ao trato dos pastores,
    Para hum bosque me retiro;
    Com desafogo suspiro,
    E chamo por ti meu bem.
    Os valles que se enternecem
    Chamão-te ao longe tambem.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando escuto o triste mocho
    A gemer no meu telhado,
    Qualquer mal excogitado
    Não me deve algum temor:
    Só receio que me agoure
    Máo successo ao meu amor.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Os pastores que me avistão
    Com o dedo já me apontão,
    E á roda do fogo contão
    Da maneira que me vem.
    Sou o exemplo dos amantes
    Que esta nossa Aldêa tem.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    SONETO I.

    He gentil, he prendada a minha Altéa;
    As graças, a modestia do seu rosto
    Inspírão no meu peito maior gosto,
    Que vêr o proprio trigo quando ondêa.

    Mas vendo o lindo gesto de Dircéa
    A nova sugeição me vejo exposto;
    Ah! que he mais engraçado, mais composto,
    Que a pura Esfera de mil astros chêa.

    Prender as duas com grilhões estreitos
    He huma acção (ó Deoses!) inconstante,
    Indigna de sinceros, nobres peitos.

    Cupido, se tens dó de hum triste amante,
    Ou fórma de Lorino dous sugeitos,
    Ou fórma desses dous hum só semblante.

    SONETO II.

    N'um fertil campo do soberbo Douro,
    Dormindo sobre a relva descançava,
    Quando vi que a Fortuna me mostrava
    Com alegre semblante o seu Thesouro.

    De huma parte h[~u] montão de prata, e ouro
    Com pedras de valor o chão curvava;
    Aqui hum sceptro, alli hum trono estava,
    Pendião coroas mil de grama, e louro.

    _Acabou-se_ (diz-me então) _a desventura:
    De quantos bens te exponho qual te agrada,
    Pois benigna os concedo, vai, procura_.

    Escolhi, acordei, e não vi nada:
    Commigo assentei logo que a ventura
    Nunca chega a passar de ser sonhada.

    SONETO III.

    Enganei-me, enganei-me, paciencia;
    Accreditei as vozes, cri, Ormia,
    Que a tua singeleza igualaria
    Á tua mais que angelica apparencia.

    Enganei-me, enganei-me, paciencia;
    Ao menos conheci que não devia,
    Pôr nas mãos de huma externa galhardia
    O prazer, o socego, e a innocencia.

    Enganei-me, Cruel, com teu semblante,
    E nada me admiro de faltares,
    Que esse teu sexo nunca foi constante.

    Mas tu perdestes mais em me enganares;
    Que tu não acharás hum firme amante,
    E eu posso de traidoras ter milhares.

    SONETO IV.

    Ainda que de Laura esteja ausente,
    Ha de a chama durar no peito amante;
    Que existe retratado o seu semblante,
    Se não nos olhos meus, na minha mente.

    Mil vezes finjo vêla, e eternamente
    Abraço a sombra vã; só nesse instante
    Conheço que ella está de mim distante,
    Que tudo he illusão que esta alma sente.

    Talvez que ao bem de a vêr Amor resista;
    Porque minha paixão, que aos Ceos he grata,
    Por innocente assim melhor persista:

    Pois quando só na idéa ma retrata,
    Debuxa os dotes com que prende vista,
    Esconde as obras com que offende ingrata.

    SONETO V.

    Ao Templo do Destino fui levado:
    Sobre o Altar hum Cofre se firmava,
    Em cujo seio cada qual buscava
    Tremendo annuncio do futuro estado.

    Tiro hum papel, e leio: Ceo Sagrado!
    Com quanta causa o coração pulsava:
    Este duro Decreto escrito estava,
    Com negra tinta pela mão do Fado.

    _Adore Polidoro a bella Ormia,
    Sem della conseguir a recompensa,
    Nem quebrar-lhe os grilhões a tyrannia_.

    Das mãos, Amor mo arranca, e sem detença
    Tres vezes o levando á boca impía,
    Jurou comprir á risca a tal sentença.

    SONETO VI.

    Ergue-te, ó Pedra, e desde a margem fria,
    Que os muros banha a Lusitana Athenas,
    Mostra-me as desmaiadas assucenas
    Do rosto que me occupa a fantasia.

    Deixa [~q] eu beije a mão, [~q] pôde hum dia
    Ceder de amor ás lastimosas scenas;
    Q'entre as ancias, a dôr, a mágoa, as penas
    Renove a saudosa idolatria.

    Solto do véo mortal, oh Feliz Astro,
    Une ao cadaver a truncada testa,
    Levanta o bello cólo de alabastro:

    Huma alma grande junto a ti protesta
    Fazer a gloria da defunta Castro;
    A illustre Neta vez: Maria he esta.

    _Á Illustrissima e Excellentissima Senhora Condessa de Cavalleiros, D.
    Maria José de Eça e Bourbon_.

    SONETO VII.

    Quantas vezes Lidora me dizia,
    Ao terno peito minha mão levando,
    Conjurem-se em meu mal os Astros, quando
    Achares no meu peito aleivosia.

    Então que não chorasse lhe pedia,
    Por firme seu amor acreditando;
    Ah! que em movendo os olhos suspirando
    Ao mais acautellado enganaria.

    Hum anno assim viveo: ó Ceos! agora
    Mostrou que era mulher: a natureza
    Só por não se mudar a fez traidora.

    Não, não darei mais cultos á belleza,
    Que depois de faltar á fé, Lidora,
    Nem creio que nas Deosas ha firmeza.

    SONETO VIII.

    O Numen Tutelar da Monarquia,
    Que fez do grande Henrique a invicta espada,
    Procurou dos Destinos a morada,
    Por consultar a idade que viria.

    A mil, e mil heróes descriptos via,
    Que exaltão de Furtado a estirpe honrada,
    E na serie, que adora dilatada,
    O nome de Francisco descobria.

    Contempla huma por h[~u]a as letras d'ouro,
    Este penhor, que o tempo não consome,
    Promette ao Reino seu maior thesouro.

    Prosta-se o Genio: e sem [~q] a empreza tome
    De lhe buscar sequer mais outro agoiro,
    O sitio beija, e lhe mostra o nome.

    _Ao Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Visconde de Barbacena,
    Francisco Furtado de Mendonça_.

    SONETO IX.

    Nascer no berço da maior grandeza,
    De palmas, e de louros rodeado,
    Deve-se aos grandes Pais, ao Tronco honrado,
    Que illusrra desde longe a natureza.

    Se porém muito mais se adora, e preza
    O dom que o nobre sangue trás herdado
    Pela propria virtude sustentado,
    Feliz o objecto da presente empreza.

    De mil Heróes no Téjo vencedores
    Hum ramo nasce, hum ramo que a memoria
    Faz immortal de seus Progenitores.

    Eu leio em vaticinio a sua historia;
    Une Francisco a par de seus maiores
    Ao herdado explendor a propria gloria.

    _Ao mesmo excellentissimo Visconde_.

    SONETO X.

    Mudou-se em fim Lidora, essa Lidora
    Por quem mil vezes fé me foi jurada;
    Que vos detem (ó Ceos!) que castigada
    Ainda não deixais tão vil traidora?

    Não haja piedade: sinta agora
    A dita sem remedio em mal trocada;
    Pois se assim não succede, fica ousada
    Para ser outra vez enganadora.

    Vingai, ó justos Ceos…, mas ah! [~q] digo?
    Que maltrateis Lidora? o sentimento
    Privou-me do discurso, eu me desdigo.

    Não, não vibreis o raio violento;
    Pois sei que a compaixão do seu castigo,
    Hade augmentar depois o meu tormento.

    SONETO XI.

    A Deos cabana, a Deos; a Deos, ó gado,
    Albina ingrata, a Deos, em paz te deixo:
    A Deos doce rabil, neste alto freixo
    Te fica ao meu destino consagrado.

    Se te for meu successo perguntado,
    Não declares rabil de quem me queixo;
    Não quero que se saiba vive Aleixo
    Por causa de huma infame desterrado.

    Se vires a Pastor desconhecido,
    Lhe dize então piedoso: Ah! vaite embora,
    Atalha os damnos, que outros tem sentido.

    Habita nesta Aldêa huma Pastora
    De rosto bello, coração fingido,
    Humas vezes cruel, e as mais traidora.

    SONETO XII.

    Com pezadas cadeias maniatado,
    Ás vozes da razão insurdecido,
    Dos Ceos, de mim, dos homens esquecido
    Me vi de amor nas trévas sepultado.

    Alli aliviava o meu cuidado
    Cõ dar de quando em quando algum gemido:
    Ah tempo! que sómente reflectido
    Me fazes entre as ditas desgraçado.

    Assim vivia, quando a falsidade
    De Laura me tornou n'um breve dia
    Quanto a razão não pôde em longa idade.

    Quebrei o vil grilhão que me opprimia:
    Ó feliz de quem gosa a liberdade!
    Bem que venha por mãos da aleivosia.

    SONETO XIII.

    Obrei quanto o discurso me guiava;
    Ouvi os Sabios quando errar temia:
    Aos bons no gabinete o peito abria;
    Na rua a todos como iguaes honrava.

    Julgando os crimes nunca voto dava
    Mais duro, ou pio do que a Lei pedia;
    Mas podendo salvar o justo ria,
    E devendo punir ao réo chorava.

    Nem forão, Villa Rica, os meus intentos
    Metter em ferreo cofre copia d'ouro,
    Que chegue aos filhos, e que passe aos netos.

    Outras são as venturas que me agouro:
    Ganhei saudades, adquiri affectos,
    Vou fazer destes bens melhor thesouro.

    _Feito quando o Author acabou o Lugar de Ouvidor de Villa Rica, e foi
    despaçhado para Desembargador da Bahia_.

    SONETO XIV.

    Quando o torcido buço derramava
    Terror no aspecto ao Portuguez sisudo,
    Quando sem pó, nem oleo o pente agudo
    Duro intonso o cabello em laço atava.

    Quando contra os Irmãos o braço armava
    O forte Nuno oppondo escudo, a escudo;
    Quando a palavra que perfere a tudo
    Com a barba arrancada João firmava.

    Quando a mulher á sombra do marido
    Tremer se via: quando a Lei prudente
    Zelava o sexo do civil ruido;

    Feliz então, então só innocente
    Era de Luso o Reino: oh bem perdido!
    Ditosa condição, ditosa gente!

    SONETO XV.

    Sombras illustres dos varões famosos,
    Que á Grecia, e Roma destes Leis hum dia;
    Vós que do Elysio na região sombria
    Respiraes entre os Zefiros mimosos.

    Grande Licurgo, ó tu Solon, [~q] honrosos
    Louros cingis, que egregia companhia
    Fazeis aos Mazzarinos, eu queria
    Adorar vossos vultos magestosos.

    Vós fizesteis da vossa Patria a gloria;
    Por vós hoje he feliz a humanidade:
    Que dignos sois de huma immortal historia!

    Cesce, cesse porém vossa vaidade;
    Que basta a escurecer vossa memoria
    Hum Carvalho, que adora a nossa idade.

    _Ao Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Marquez de Pombal reformando
    a Universidade de Coimbra_.

    SONETO XVI.

    As molles azas a bater começa
    Entre as palhas o tenro passarinho,
    E largos dias por deixar o ninho
    Se cança, se fadiga, se arremeça.

    H[~u] impulso, outro impulso é vão se apresa,
    Já se firma no pé, já no biquinho,
    Nas folhas se tem, passa ao raminho
    Té que a penna se esforce, e se endureça.

    Quando emfim he capaz de movimento
    Deixa os arbustos vaga pelos ares,
    E sobre as altas faias toma assento:

    Estes sejão, Salicio, os exemplares
    Em que a vossa virtude anime o alento,
    Porque hum dia da Fama honre os Altares.

    _Ao Illustrissimo Senhor Luiz Beltrão de Gouvea_.

    ODE.

    Se entre as louras arêas
    Do meu Jaquitinhonha, hum Genio erguido
    Ás Regiões alheas
    Manda que em doce metro reppetido
    Hoje o teu Nome leve,
    Tanto á virtude, meu Beltrão, se deve.

    Vejo a sordida inveja
    De ira morder-se, e as serpes sacudindo
    Por se tragar forceja:
    De pejo, e de vergonha em vão cobrindo
    Co' as frias mãos o rosto,
    Geme a calumnia no mortal desgosto.

    Vós, Genios fortunados,
    Que do Templo da Gloria honrais a estancia,
    Os meritos sagrados
    Cantai do bom Ministro: He a constancia,
    A sabia fortaleza
    He quem o guia na maior empreza.

    Se os rigidos palmares
    Da Idumeya consulto; o bravo Noto
    Os tormentosos ares
    Não podem mais dobralos: zomba immoto,
    Nem ás ondas tem medo
    Sobranceiro ao Egeo, firme penedo.

    Tal a constancia tua
    Em meio foi dos perfidos rumores;
    A verdade, que nua
    Derramava em teu rosto as vivas côres,
    Sobre as aras decentes
    Vio por triunfo mil trofeos pendentes.

    A vigilancia, o zelo,
    A rectidão do espirito; elevada
    Ao gráo mais rico, e bello,
    Essa virtude, que nos traz provada
    Em meio dos Thesouros
    A sã virtude, que enobrece os Louros:

    Tudo, tudo apparece
    Sabio Ministro da victoria ao lado;
    Athenas, que me offerece
    No seu público Erario accreditado
    Aristides, o Justo,
    Em ti acena o seu modelo augusto.

    Mil vezes orgulhosa
    Negra calumnia o seu desterro tenta;
    A virtude preciosa
    Contra o fero Themistocles sustenta.
    Não ha força que baste,
    Não ha poder que o peito lhe contraste.

    Feliz o Rei, o Povo,
    Feliz tambem de Themis a ballança;
    De hum modo raro, e novo
    Nas tuas mãos eu vejo, que descança:
    Aos premios, ao castigo
    Se reparte sem queixa o braço amigo.

    Ah! sinta a nossa idade
    De hum sangue illustre, de hum talento raro
    A próvida igualdade!
    Melhor do que nos marmores de Pharo,
    Em memoria nos vindouros
    T'ergue o Serro h[~u] Padrão nos seus Thesouros.

    _Imitando o sonho de Scipião_.

    ODE.

    Já vou tocando, ó Licio,
    De Lustros dez o fatigado termo;
    E já meu corpo enfermo
    Se avisinha da morte ao duro officio:
    Que cedo o meu destino me promette
    Calcar as sombras do medonho Lethe!

    Eu descerei contente
    A ver os Manes dos Avós amados;
    Que bem aventurados,
    Se outro mundo tratarão, se outra gente!
    Não virão elles, como eu triste vejo,
    O velho mando peiorar sem pejo.

    Passárão da innocencia
    Pela candida estrada os pés levando;
    Inda a fera violencia
    Não corrompia da Justiça o mando;
    Praticava-se a próvida igualdade
    Entre a Santa Virtude, e a vil maldade.

    A pura fé do Amigo,
    Renovava de Orestes a memoria:
    Commum era o perigo,
    Reciproca tambem a pena, a gloria:
    Que traições, e que enganos tem disposto
    Em nossos dias hum fingido rosto!

    Tudo se vê mudado
    Nesta idade fatal em que de ferro
    O Idolo adorado
    Torpemente protege o crime, o erro:
    Como de susto, e de vergonha cheia
    Se retira de nós a bella Astrea!

    Ah! E quem de teus laços
    Deve ao pezo gemer, ó mundo cego?
    Rotos em mil pedaços
    Os teus grilhões a pendurar já chego;
    Não mais os teus encantos me deleitem,
    Estes miseros restos se aproveitem.

    Que differentes climas
    Já me finjo habitar! Os brandos ares,
    Que tu Zefiro, animas
    Que prazeres me inspirão! Dos pezares,
    Das magoas, do desgosto, e do tormento
    Aqui não sôa o tragico lamento.

    Sôlto do mortal manto
    Cuido que o centro dos Elysios piso!
    Oh quanto he bella, quanto
    A margem deste Lago! Em fresco riso
    Lirios, e rosas, quaes não colhe Flora,
    Aqui saudão a perpetua Aurora.

    Adoravel sciencia,
    Que encheste as noites, e esgotaste os dias,
    Da humana intelligencia,
    Agora sei quam longe te desvias!
    Este o seio da luz, aonde tudo
    Sem fadiga se alcança, e sem estudo!

    O número, a distancia
    Dos Orbes Celestiaes já sabio admiro:
    Noto a eterna constancia
    Do Planeta da Luz; observo o giro
    Da Terra, que regula a varia face
    Com que a proxima Lua, ou morre, ou nasce.

    Certa, e firme a carreira
    Já marco de Saturno, Marte, ou Jove,
    Da esfera derradeira
    Contemplo a força, que os mais Orbes move;
    A harmonia me encanta acorde, e rara,
    Que de Samos o Sabio já notára.

    Aqui se patentêa
    Dos errados systemas o conceito;
    E longe a minha idéa
    De vacilar, já firma o mais perfeito.
    Quem senão tu, ó Genio, sobre humano
    Libertar me podéra deste engano!

    De Massinissa o Paço
    De Carthago ao Heróe tal scena pinta:
    Ao soberbo ameaço
    Da Fortuna, elle vê clara, e distincta,
    Qual o meu Genio me retrata agora,
    A bella Patria, onde o descanço mora.

    He este, ó Licio, he este
    Sem dúvida, o Paiz bello, e sereno,
    Aonde em paz celeste
    Não respira da inveja o atroz veneno:
    E aonde livres da infeliz mudança
    Descança o teu, e o meu bom Pai descança.

    Que doce companhia
    Deveremos fazer-lhes? Ah se apresse
    O momento que hum dia
    Tão gostosa união nos lavra, e tece!
    Cheguemos a beijar as Mãos Sagradas,
    Que enchem de gloria as immortais Moradas.

    Em praticas suaves
    Alli as breves horas gastaremos;
    Nem já nos serão graves
    Na lembrança os trabalhos que aqui temos;
    Nem da pezada humanidade nossa
    Pena haverá, que atormentar-nos possa.

    Mas tu, que dos humanos
    Reges, ó Grande Deos, a dubia sorte;
    Tu, que a meta dos annos
    Firmas, descendo de teu mando a morte,
    Dilata os dias do meu Licio, em quanto,
    Douto me instrue, e me entertem seu canto.

    FIM

    End of Project Gutenberg's Marilia de Dirceo, by Tomás António Gonzaga