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  • Obras poéticas de Nicoláo Tolentino de Almeida, Tom. II

    Obras poéticas de Nicoláo Tolentino de Almeida, Tom. II

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    OBRAS POETICAS

    DE

    NICOLÁO TOLENTINO
    DE ALMEIDA.

    TOM. II.

    LISBOA.

    NA REGIA OFFICINA TYPOGRAFICA.

    ANNO M.DCCCI.

    _Com licença da Meza do Desembargo do Paço_.

    QUINTILHAS

    _Offerecidas ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de S.
    Lourenço_.

    Ante vós, Claro Senhor,
    Que pondes os sãos cuidados
    De bons estudos no amor,
    E que d'homens applicados
    Sois o exemplo, e o protector;

    Levanto sem pejo a voz;
    Que essa alma nunca despreza
    O pouco que encontra em nós;
    Não produz a Natureza
    Muitos homens como vós;

    Pois vi outr'ora amparado
    O discreto, e doce Brito,
    Triste moço, em flor cortado,
    Que hia alevantando o esprito,
    De vossas luzes guiado;

    Pois na vida lhe adoçastes
    De seu fado a má ventura,
    E não vos envergonhastes,
    Quando a fria sepultura
    Com as lagrimas lhe honrastes;

    Se os seus Versos sonorozos
    Inda repetis com mágoa;
    E pensamentos saudozos
    Vos trazem aos olhos agua,
    Que os deixa, Senhor, formozos;

    Hoje, outro triste vos faça
    Nascer iguaes sentimentos;
    Com os vossos pés se abraça;
    Não tem os mesmos talentos;
    Mas tem a mesma desgraça;

    Nascido em baixa pobreza,
    Quiz buscar huma Colu'na,
    Foi sempre baldada a empreza,
    Achou ingrata a fortuna,
    Inda mais, que a natureza.

    Em vão paternal ternura
    Com vivo zêlo me assiste;
    Foi trabalho sem ventura;
    Crescia no Filho triste,
    Com a idade, a desventura;

    Das boas Artes no estudo
    Bom Pai empenhar-me quiz;
    Traçava o velho sizudo
    Que fosse hum Filho feliz
    Dos outros Filhos o escudo;

    Forão seus intentos vãos;
    Zombou desgraça importuna
    Destes pensamentos sãos;
    Para vencer a fortuna
    Não ha lagrimas, nem mãos;

    Cortado então de agonias,
    Só esperei ter ventura,
    Quando envolto em cinzas frias
    Escondesse a sepultura
    Meu nome, e meus tristes dias;

    E em quanto o vento forceja,
    E no mar, que em flor rebenta,
    Meu fraco lenho veleja,
    Demando, em tanta tormenta,
    Por porto a Casa de Angeja;

    Surgi em lugar seguro,
    Onde achei mil acolhidos;
    Clareou o dia escuro;
    E meus molhados vestidos
    Pelas paredes penduro;

    De meu fado a força dura
    Foi hum pouco enfraquecendo;
    E ainda que em sombra escura,
    Vem-me ao longe apparecendo
    O bom rosto da Ventura;

    Vossos Sobrinhos me dão
    (Porque de meus males sabem)
    Principios de protecção;
    Mandai-lhe que em mim acabem
    Esta obra da sua mão.

    Mandai, que apressem o passo,
    Que inda longe a méta vejo,
    Pois nas supplicas que faço,
    Não se vence com dezejo,
    Vence-se á forca de braço;

    Mandai, pois tendes direito,
    Que o turvo mar arrostando,
    A' corrente ponhão peito;
    Fallai, Senhor, que em fallando,
    O vosso mandado he feito.

    Não vedes venal incenso
    Por astuta mão queimado;
    Fallo, Senhor, como penso;
    Eu sei quanto he respeitado
    O Erudîto São Lourenço;

    Eu sei bem o alto conceito,
    E as geraes estimações,
    Que todos de vós tem feito;
    Oiço ternas expressões,
    Filhas de amor, e respeito;

    Do bom Irmão, e Sobrinhos
    Oiço tod'ora louvar-vos;
    Oiço-lhes doces carinhos;
    De poderem agradar-vos
    Dezejão achar caminhos;

    Vosso Irmão, e pregoeiro
    Ordena, como sizudo,
    Ao Illustre Neto, e Herdeiro,
    Que das Sciencias no estudo
    Vai dar o passo primeiro,

    Se encoste a vós, sem desvio,
    Qual ao Choupo Hera silvestre;
    Que em Artes, virtude, e brio,
    Mais, do que as regras do Mestre,
    Siga os dictames do Tio;

    Com que gosto oiço, e contemplo,
    Dizer-lhe = Se ao bem te inclinas,
    Segue-o no estudo, e no Templo;
    Elle te dê as doutrinas;
    Elle te sirva de Exemplo.

    Mas sigo inutil empreza,
    Pois sabeis quaes são seus peitos,
    Mistura-se esta fineza
    Com os sagrados direitos
    Do sangue, e da natureza;

    Todo o mundo, em vosso abono,
    Põe na boca os corações,
    E delles vos chama dono;
    Oiço mil acclamações
    Desde a plebe até ao Throno;

    A geral estimação
    Nos arma de authoridade;
    Vinde pôr nesta obra a mão,
    E dai-me felicidade,
    Como me dais instrucção;

    Sabeis a fundo, e de cór,
    Tudo quanto ha bom, escrito;
    Juntai extremos, Senhor;
    Ao homem mais erudíto,
    Juntai o mais bemfeitor.

    Pois sabeis da Antiguidade
    Prozas sans, e sã poezia,
    Deveis sentir mais piedade;
    Quem tem mais filozofia,
    Vê melhor a humanidade:

    Que eu nesta fresca espessura,
    Entre estes Loiros sagrados,
    Sentado sobre a verdura,
    Cantarei Versos limados
    A quem me fez ter ventura.

    Deixarei em mil letreiros
    O vosso Nome entalhado
    Nos troncos destes Loureiros;
    Possa elle ser respeitado
    Do negro vento, e chuveiros;

    Ramos sobre elle estendendo,
    Dafne no seu peito o tome;
    E eu, doces hymnos tecendo,
    Verei ir o tronco, e o Nome
    Té ás Estrellas crescendo.

    QUINTILHAS

    _Offerecidas ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez do
    Lavradio_.

    Se os Versos, que outra ora fiz
    Escutastes prompto, e attento;
    E se aos pés, que abraçar quiz,
    Achou grato acolhimento
    A minha Muza infeliz;

    Dai-me benignos ouvidos
    A outros, em dôr traçados,
    D'arte, e de enfeite despidos;
    Pela verdade dictados,
    E a vós, Senhor, dirigidos;

    Em louvores não os fundo,
    Pois sei que sempre os pizastes;
    E co'as mais acções confundo
    As do tempo, em que tomastes
    As rédeas do Novo Mundo;

    Mas se eu disser parte dellas,
    Não me julgueis lizonjeiro;
    Que vos poupo em não dizellas?
    Se vedes, que o Mundo inteiro
    As vai erguendo ás Estrellas?

    Diz que vio a Capital
    Cheia de pompa, e grandeza;
    E que a ergueis a lustre tal
    D'entre os braços da molleza,
    Que he no Clima natural.

    Que nas mãos, onde se encerra
    Alto Poder respeitozo,
    Mostraste na nova Terra
    Ao Vizinho revoltozo,
    N'uma a paz, em outra a guerra.

    Que offreceis a vida então
    Para a palavra salvar-se,
    Que, os bons Reis não dão em vão;
    Acção digna de contar-se
    Entre as de Mario, ou Catão;

    Que a mão que as Quinas voltêa,
    Justiça ao Povo reparte;
    E que igualmente menêa,
    Ora as Bandeiras de Marte,
    Ora as Balanças de Astiéa;

    Mas já vossa austeridade
    Minha narração reprime;
    Ouvis-me contra vontade;
    Perdoai, Senhor, hum crime,
    De que foi causa a verdade;

    Pois que vos não dão desvelos
    Louvores, que préza a gente,
    Eu vou, Senhor, suspendellos;
    E vou dar-vos novamente
    Motivos de merecellos.

    A minha longa fadiga
    Já sabeis qual he, Senhor;
    Levai-me a bem, que a não diga;
    Deixai-me poupar a dôr
    De abrir huma chaga antiga.

    Pintar Irmans desgrenhadas
    Co'as creanças innocentes.
    Nos débeis braços alçadas,
    E de lagrimas ardentes,
    Quasi sem fruto, banhadas.

    Mostrar-lhe os olhos magoados,
    Onde inutil pranto assiste,
    Immoveis no chão pregados,
    Nutrindo hum silencio triste,
    Falsa paz dos desgraçados;

    Contar-vos, que entre os Irmãos,
    Diz o bom Pai, com ternura,
    Que ao Ceo levantem as mãos;
    Que assim se emenda a ventura,
    E não com queixumes vãos:

    Que he do espirito fraqueza
    Perder suspiros no vento;
    Que venção a natureza;
    Que fação co'soffrimento
    Honroza a dura pobreza;

    Não lhe ver de dor sinais;
    Ter no rosto olhos serenos,
    E no peito agudos ais;
    Que porque se escutão menos,
    Por isso me córtão mais:

    Dar-vos huma inteira idéa
    Da desgraça minha, e delles,
    Pintura de pranto chêa;
    Se he preciza, he para aquelles,
    A quem não dóe dor alhêa.

    As almas tão bem nascidas,
    Como a vossa vejo ser,
    Para serem condoîdas,
    Não tem precizão de ver
    Correr sangue das feridas;

    Sabeis, que soffro a impiedade
    De vã fortuna traidora;
    Mudai pois de heroicidade;
    Vinde pleitear agora
    A cauza da humanidade;

    Por vós tirar não podeis
    Penas, que a alma me abafárão;
    Mas ante o Throno valeis;
    E se o Sceptro vos fiárão,
    Que vos negarão os Reis?

    Reger-lhe os vastos Estados,
    Ir dar-lhe hum novo esplendor,
    São feitos famigerados;
    Mas inda o será maior
    Ir pedir por desgraçados,

    Disse a Cezar o Orador,
    Que os Soldados tinhão parte
    No perigo, e no louvor;
    Que fosse em outro Estendarte
    Elle só o Vencedor;

    Que era, de doce brandura
    O deixar-se então vencer,
    Mór victoria, e mais segura;
    Onde não tinhão poder
    Nem ferro, nem má ventura.

    Vencei vós sem ter Soldados;
    Fazei de dias de dor
    Dias bemaventurados;
    E possa essa mão, Senhor,
    Mais do que podem meus fados;

    Claros Avós imitastes,
    Que o Mundo apenas abrange;
    No berço palmas achastes;
    Dos Heróes que vio o Gange,
    O sangue, e as acções herdastes;

    Remotos Povos vencêrão,
    E mares bravos abrindo;
    As Quinas desenvolvêrão;
    Ante eles o Gange, e o Indo,
    Tintos de sangue corrêrão.

    Vós, que em obras semelhantes
    Fostes ser a Copia honroza
    Do que elles fizerão d'antes,
    Na série maravilhoza
    Das vossas acções brilhantes;

    Consenti, que a larga historia,
    Que Almeidas levanta aos Ceos,
    Lhes deixe no Altar da Gloria
    Pendente, entre os mais Troféos,
    Huma negra Palmatoria.

    _A' Illustrissima, e Excellentissima Senhora Condeça de Tarouca, na
    occasião do seu Casamento_.

    Senhora, o Forte da Estrella,
    Chorando o bem que perdeo,
    Das suas justas saudades
    Por portador me escolheo;

    Quiz que eu viesse contallas
    Ao som desta rouca Lyra,
    De longos annos affeita
    A acompanhar quem suspira;

    Não fallo nos ternos Pais;
    Nelles a alta Jerarquia
    Tempéra saudozo pranto
    Com o pranto da alegria;

    Ao nome dos seus Passados
    Planos caminhos achárão,
    Unindo ao sangue de Heróes
    O sangue de Heróes que herdárão;

    Não fallo no amavel Conde;
    Esse não faz compaixão;
    Tem seges, tem bons cavallos,
    Tem o remedio na mão;

    Sobre rápidos ginetes,
    Quebrando a dura calçada,
    Com o Francisco a reboque,
    Andará sempre na estrada;

    Tambem das caras Irmans
    Não venho as mágoas pintar;
    Co'a terna Mãi muitas vezes
    As virão desafogar;

    Fallo da triste Familia,
    Que em amoroza manîa
    Accuza o Ceo, que vos deo
    Formozura, e Fidalguia;

    Dons, de seu mal cauzadores;
    E que deixão coroado,
    Na mais illustre Conquista,
    O mais ditozo Soldado;

    Ralham delle a toda hora;
    Foi cauza do seu tormento;
    Elogião, e praguejão
    Seu alto merecimento;

    Se he Soldado, siga a Guerra,
    E as funestas glorias della;
    Ataque milhões de Fortes,
    Mas deixe em paz o da Estrella;

    Tem figura, tem talentos;
    Tem alta Estirpe preclara;
    Oxalá que assim não fosse,
    Ella então o desprezára; =

    Mas, Senhores, perdoai-lhes;
    A's vezes na grande dor
    Fallão palavras de raiva
    A linguagem de amor;

    O Silva, o Authomato honrado,[1]
    Anda mais abstracto, e mudo;
    Põe o doce antes da sôpa;
    Queima o Café, quebra tudo;

    [Nota de rodapé 1: Copeiro.]

    O hirsuto, austéro Rodrigues,
    Semblante de poucas pazes,
    Desafoga a sua dor,
    Dando murros nos rapazes;

    Vossa Aya, de tres idades,
    Em canto escuro assentada,
    Vos manda calado pranto,
    N'um cobertor abafada.

    Outras vezes esquecida
    De quanto seu Fado he crú,
    No queixo ajustando o lenço,
    E sobrepondo o bajú:

    Ergue ao ar cansados ossos;
    E sem temer ventos frios,
    Tirando-lhe Amor o pezo
    Dos gelados pés tardios;

    Do bom costume enganada,
    E com a uzada cautela,
    Para dar, e ter, bons dias,
    Vos vai abrir a janela;

    A janela a desengana;
    Renova-lhe a dor no peito;
    Chama em vão o vosso nome,
    Abraçando hum ermo leito.

    Do peito das mais Creadas
    A saudade se não risca,
    Desde as Ayas ralhadoras,
    Té á ladina Francisca.

    E pois que o sangue de Reis,
    Pois que a Augusta Ceremonia,
    Bem a pezar das Creadas,
    Vos trouxe a Santa Apollonia;

    Ide, Senhora, mil vezes
    Curar-lhes a fresca chaga;
    Seu pranto he filho de amor,
    E amor com amor se paga;

    Na rica, airoza Berlinda,
    Dando ao digno Espozo parte,
    Aos patrios lares vos leve
    Amor nos braços de Marte.

    O Téjo, abaixando as ondas,
    Vossos pés virá beijar;
    Vai das Ninfas que creou,
    Ver a Ninfa Tutelar.

    Os Prazeres com os Rizos
    Sejão a vossa equipagem;
    Revôem em torno as Graças,
    De quem sois a inveja, e a imagem:

    Entrai nos tectos dourados,
    Hoje lugar de saudade;
    Ide, dos braços do Amor,
    Lançar-vos nos da Amizade;

    Levai-nos as doces noites,
    Em que a voz que se escutava,
    Sobre as azas da harmonia,
    Nos nossos peitos entrava;

    Quando o Cómico travêsso,
    Entre geitos, e corcovos,
    Habilmente arremedava
    Todos os Muzicos novos,

    O triste, calado Cravo;
    Já não sente a déstra mão;
    Apenas he perseguido
    Pelo Senhor Dom João.[2]

    [Nota de rodapé 2: Menino.]

    Ide, Senhora, levar-nos
    No vosso rosto a alegria;
    Fazei á triste Junqueira,
    O que faz o Sol ao dia;

    Mas, Senhora, a minha Muza
    Tem talvez errado os Cultos;
    Cuidando ter feito obsequios,
    Talvez tenha feito insultos;

    Dirão, que, trocando as cordas
    Forão meus sons desiguaes;
    Que errei em fallar aos Filhos,
    Sem fallar primeiro aos Pais.

    Que podia esta Embaixada
    Se désse em mais habil mão,
    Cumprir as leis da Saudade,
    Sem violar as da razão;

    Mas, Penalvas, dito, dito;
    Defendo o meu sacrilegio;
    Sois tudo; mas não sois Noivos,
    E he este o seu privilegio.

    _No dia dos Annos da Illustrissima, e Excellentissima Senhora D. Maria
    de Noronha, hoje Condeça de Valladares_.

    Senhora, os pobres vestidos
    Do vosso humilde Compadre,
    Não o deixão ir aos Annos
    Da sua Illustre Comadre;

    O conhecido Colete
    De bordadas guarnições,
    Encartado ha longo tempo
    Em Colete das Funções;

    Sobre os seus cançados annos,
    De humido Inverno Assaltado,
    Cheio de invenciveis manchas
    Me foi hoje apresentado;

    Em vão bemfeitor miôlo
    Lhe esfrega o quarto offendido;
    A minha choroza Mana
    Dá o cazo por perdido;

    E se assim me apresentasse
    A tão alta Companhia,
    As suas nódoas serião
    Manchas da seda, e do Dia;

    Do Tempo a fôice raivoza
    Não me dá só hum revéz;
    Além de me fazer velho,
    Faz-me tambem descortez;

    Mas elle honrou hoje o Mundo;
    Sois do Mundo ornato, e inveja;
    Deo hoje mais huma paga
    A' Illustre Caza de Angêja.

    Sua mão, que aperfeiçoa
    Altos dons da Natureza,
    A huns lindos, modestos olhos
    Vai augmentando a belleza;

    Altêa a airoza figura
    Sobre a das Graças moldada;
    A huma alma a mais digna, e nobre
    Dá a mais digna morada;

    Justo Tempo, eu abençôo
    O teu poder desigual;
    E em honra de tantos bens,
    Eu te perdoo o meu mal;

    Cem vezes nas tuas azas
    Nos mande este dia o Ceo;
    As Virtudes o consagrem
    Nos altares de Hymenêo.

    E Vós, Illustre Senhora,
    Perdoai Coletes rotos;
    Valem mais, que inuteis sedas,
    Puro incenso, puros votos;

    Quiz mandallos em bons versos;
    Suou em vão meu topete;
    Fui achar a minha Muza
    Como achei o meu Colete.

    _A' Illustrissima, e Excellentissima Senhora Marqueza de Alegrete,
    quando lhe nasceo huma Filha_.

    Senhora, he couza sabida,
    Que aos Deozes não são vedados
    Os escondidos segredos
    Do escuro livro dos Fados;

    E pois que em tempos antigos
    Já tive alguma valia
    Co'aquelle, a quem coube em forte
    O governo da Poezia;

    Não esperando do Tempo
    O vagarozo progresso,
    E desejando augurar-vos
    O vosso feliz successo;

    Na raiz do alto Parnazo,
    Curvando o humilde joelho,
    Exclamei = Se aqui se escutão
    Votos de hum Poeta velho,

    Não te peço, esquivo Apollo,
    Teus verdes, sagrados loiros;
    Não aspirão a coroas
    Desta testa os velhos coiros;

    Abre, sim, a densa nevoa
    Do vindoiro tempo escuro;
    E ante meus ávidos olhos
    Rasga as sombras do futuro;

    Saiba meu justo dezejo
    Quanto o destino promette
    Aos nossos ardentes votos,
    E aos da assustada Alegrete;

    O Deos, que nunca em mim vio
    De Odes moiras a manía,
    Que sem o assumpto honrarem,
    Lhe deshonrão a Poezia;

    Que em Oiteiros de Oratorio
    Não lhe puz a Lyra ao frio,
    Arriscando-a a ter por paga
    Ou pedrada, ou assobio;

    E muito mais porque vio,
    Que da minha petição
    Erão sagrados motivos
    A amizade, e a gratidão;

    Fez fuzilar em meus olhos
    Nova luz, vedada, e pura;
    E de tudo o que então vi,
    Vos vou fazer a pintura.

    Vi, Senhora, as loiras Graças
    Com doce, e rizonho aspeito,
    Tecendo engenhozas danças
    Em torno de hum aureo leito;

    E abrindo as ricas Cortinas
    Trazerem nos castos braços
    O digno, e precioso Fruto
    De Illustres, sagrados laços.

    Sobre o mimoso semblante,
    Em que os seus dons inspiravão,
    Dos mais altos Pertendentes,
    Mil suspiros auguravão;

    Os Prazeres sobre as azas
    O berço lhe rodeavão;
    Fortuna lhe abria os cofres,
    As Virtudes a embalavão;

    Vi Penalvas, vi Angejas,
    Que aos Ceos mil hymnos mandavão;
    Aos Ceos, que as duas Familias
    Novamente abençoavão:

    Vi a roda das Creadas,
    Que á Menina dando vai,
    Humas, os olhos da Mãi,
    Outras, a boca do Pai;

    Mas Apollo aqui fechando
    As altas couzas futuras,
    E deixando o pobre velho
    Alegre, mas ás escuras;

    Me disse = Conta o que viste;
    O mais, em tempo vindoiro,
    Fiel, apurada historia,
    O dirá em letras de oiro;

    Corri: mas trémulas pernas
    Tem sempre estrada comprida;
    E pois acho a profecia,
    Gradas aos Ceos, já cumprida,

    Beijo respeitozamente
    Estas faixas, que envolvêrão
    Aquella, a quem dão a vida
    Os que a minha protejêrão;

    = Recebe, oh Recem-nascida,
    Terno amor, alto respeito;
    Teus Avós, teus claros Pais
    Te derão este direito;

    E tu, Formoza Alegrete,
    Que depois de erguida a meza,
    Ficavas co'as velhas Aias
    De mágicos filtros prêza;

    Quando eu a teus pés contava,
    Mentirozo historiador,
    Ora a do Caixão de vidro,
    Ora a das Cidras do amor;

    Quando os mesmos tenros annos
    A tua Filha contar,
    Todos os dias virei
    Meu officio exercitar,

    E em tanto, a pezar do tempo,
    Que a fronte me vai gelando,
    Com a rouca Lyra ás costas
    Pelo Parnazo trepando:

    Vou sentar-me entre os Loireiros,
    Que réga Castalia fria;
    Onde revôam em bandos
    Os genios da Poezia;

    E co'a testa descuberta
    A' viração bemfeitora,
    Traçarei mais dignos versos
    Do que estes, que ouvis agora;

    Com tempo os irei fazendo;
    O Deos também me fez ver,
    Que sobre este mesmo assumpto
    Tenho muito que escrever.

    _Na occazião em que o A. hia ver o Varatojo_.

    Meu Amigo, duro Amigo,
    Fatal, rígido Banqueiro,
    Motivo dos meus pezares,
    Herdeiro do meu dinheiro;

    Em taes termos me deixaste,
    Que sou deste rancho o nôjo;
    E co'as lagrimas nos olhos
    Parto para o Varatojo;

    Por ti filho da pobreza,
    Irei ser naquelle mato,
    Qual foi São Sebastião,
    Não na vida, mas no fato;

    Vai tu seguindo a fortuna,
    E leva a bandeira alçada,
    De tarde na laranginha,
    A' noite na Arrenegada;

    Até que voltando a roda,
    Mande teu fado inimigo,
    Que deixes crescer as barbas,
    E venhas viver comigo:

    Vem, e traze o teu baralho,
    Ministro dos meus destroços;
    Farei do vicio virtude,
    Apontando a Padres nossos;

    Vem viver entre altas brenhas;
    Vem curtir as minhas dores;
    Traze o pranto dos Parentes,
    Traze as pragas dos Crédores.

    Não falla vão Agoureiro,
    De cujas palavras rias;
    Meus trabalhos me fizerão
    Mestre nestas profecias.

    Não te fies em ventura;
    Quem joga, tem o meu fim;
    Outrem te dará os gostos,
    Que tu me tens dado a mim.

    _Resposta a huma Carta, que em boa Poezia citava o A. por huns Versos,
    que tinha promettido_.

    A tua polida Carta,
    Que honrou hum Poeta razo,
    Escrita em pura linguagem,
    E assignada no Parnazo;

    Da mais injusta ambição
    Traz testemunhos fieis;
    Possues grossos thezoiros,
    E citas-me por dez reis?

    Quem do doce Anacreonte
    Bebeo o estilo divino,
    Quer prostituir seus olhos
    Co'as Trovas do Tolentino?

    Pago, em fim, divida louca;
    Mas quem quer pontualidade,
    Cuide tambem em pagar
    As dividas da Amizade;

    Sabes que intento imprimir;
    E porque o Povo não fuja,
    Sabio Amigo, emenda, risca,
    Põe sabão na roupa suja;

    Não te vendo falso íncenso;
    Es Juiz da Confraria;
    Oxalá que altos negocios
    Se tratassem em Poezia;

    A Paz, a fugida Paz,
    Voltára seu alvo cóllo;
    E dera brandos ouvidos
    A' branda Lyra de Apollo;

    Reziste humana cabeça
    A' mais discreta razão;
    Mas ao poder da harmonia
    Não reziste o coração:

    Faze, pois, o que eu te peço;
    Que inda que ha vótos diversos,
    Se lhe pões a tua lima,
    Quem morderá nos meus Versos?

    Dá-lhe, depois, teus louvores;
    Comprará toda Lisboa,
    Se huma vez te ouvir dizer =
    Que comprem, que a Obra he boa;

    Farta-me a bolsa; e se queres
    Ver tambem minha alma farta,
    Manda riquezas de Athenas
    Embrulhadas n'outra Carta.

    _Offerecendo hum Perum em caza, aonde todos os Domingos davão ao A. este
    prato_.

    Senhora, tambem hum dia
    Entrarei co'a frente erguida;
    Não serei na vossa meza
    Dependente toda a vida;

    Nem sempre abatido pejo
    Dirá nesta cara feia
    Quanto doe a hum peito altivo
    Matar fome em caza alheia;

    Airozo, gordo Perum,
    He meu soberbo prezente;
    Traz inda as pennas molhadas
    Co'pranto da minha gente;

    No Santo Dia esperavão,
    Quebrando antigo jejum,
    Cravar inexpertos dentes
    Neste primeiro Perum;

    A russa, magra Jozefa,[3]
    Ergueo queixume sentido;
    Custou-lhe mais esta auzencia,
    Que a do defunto Marido.

    [Nota de rodapé 3: Creada.]

    O loiro, alvar galleguinho
    Chegou aos olhos seu trapo;
    Tinha vistas sobre a carne,
    E muitas mais sobre o papo.

    Seu almôço requerendo
    Em luzindo a madrugada,
    Na esquerda, grossa fatia
    D'ambas as partes barrada;

    Na dextra, com branda cana
    O seu pupîlo guiava;
    Em tenras, públicas malvas,
    Para si o apascentava;

    Quando lhe mandei trazer-vos
    O bom companheiro seu,
    Pedindo-me côxos mezes,
    Me disse, que o trouxesse eu.

    Eu o trago; a offerta he pura,
    Mas a tenção a envenena;
    Traz escondida huma uzura,
    Maior, que a da meia sena.[4]

    [Nota de rodapé 4: Partido de jogo.]

    Com hum sorrizo acceitai
    O atraiçoado convite;
    Vem a morrer huma vez,
    Porque muitas resuscite.

    Curai todos os Domingos
    A minha doença interna;
    Sobre a meza milagroza
    Seja esta ave, huma ave eterna;

    De outra, que finge a Poezia,
    Trocai em verdade a pêta;
    E seja hum negro Perum
    A Fenis deste Poeta;

    Na ondada, pia toalha,
    Co'a benção da vossa mão
    Seus frios, despidos ossos,
    De carne se cubriráõ;

    Consenti, que este ouco peito
    Ao prodígio se consagre;
    E que dentro em si colloque
    A mór parte do milagre;

    Quanto ao Padre Prégador,[5]
    Meu voto he não convidallo;
    Porque ha de comer o assumpto,
    Muito melhor que prégallo.

    [Nota de rodapé 5: Capellão da Caza.]

    _A huma Preta, que pertendia que a obsequiassem_.

    Domingas, debalde queres,
    Nesse canto da Cozinha,
    Vencer a invencivel teima
    Da rebelde carapinha;

    Em vão te arripia a frente,
    De que zomba o Deos de Amor,
    Alvo côto de pomada,
    Furtado do Toucador;

    Debalde tufado laço
    De atadeira fitta Ingleza
    Te assombra a lêveda pôpa,
    Rissada por natureza.

    Debalde altêas as ancas,
    Esguias, e enganadoras,
    Co'as velhas algibeirinhas,
    Que vão deixando as Senhoras,

    Amor, fingindo dotar-te,
    Te poz, com traidora mão,
    Junto dos dentes de neve,
    Faces tintas de carvão;

    Inda que ancião pezado,
    Desprézo teus vãos intentos;
    Debaixo de murchas cans
    Nutro altivos pensamentos.

    Vejo a quebrada madeixa
    Já tornada em gêlo frio;
    Tudo o tempo me levou,
    Mas não me levou o brio.

    Debaixo da Zona Ardente
    Jurar-te-hia amor, e fé;
    Mas não tem culto na Europa
    As Deidades de Guiné;

    Se ás vezes te ponho os olhos,
    Não he de amor sinal certo;
    São dezejos de levar-te
    A' caza de João Alberto.[6]

    [Nota de rodapé 6: Comprador.]

    A engomada cazaquinha
    Te descobre novas faltas;
    Para outro corpo foi feita,
    Dizem-no as feições mais altas.

    Já n'outros pés teus çapatos
    Soffrêrão do tempo o açoite;
    Cansada, fendida sêda,
    Mostra dedos côr da noite;

    E pois que a Amor queres dar-te,
    Eu te aponto hum Xafariz,
    Onde aches dignos amantes
    Assentados em barris;

    Acharás o Pai Francisco,
    Homem a bulhas contrario,
    Já duas vezes Juiz
    Na Irmandade do Rozario;

    Acharás o forro Antonio,
    Que o tabaco, e vinho enjôa;
    E tem nos calmozos Junhos
    Caiado meia Lisboa;

    Verás esbelto Crioilo,
    Dado ao vento o peito nû,
    Levantando airosos saltos
    No manejo do barubû;

    Que ávidos cães enxotando,
    Tem, com braço arregaçado,
    Nas êrmas praias do Téjo
    Cem cavallos esfolado;

    Nestes, vaidoza Domingas,
    Assenta bem teu amor;
    Chovão settas de teus olhos
    Em peitos da tua côr;

    Vai da janella da escada
    Acolher, com doce agrado,
    Os suspiros que te envião,
    Ao som do londum chorado;

    E deixa de atormentar-me
    Com tuas loucas idéas;
    Também sinto dores proprias,
    E escuto pouco as alhêas;

    Sim, Domingas, nós marchamos
    Na mesma infeliz estrada;
    E do amor, que eu te não pago,
    Assaz estás bem vingada;

    Tu puzeste em mim teus olhos,
    E eu fui pôr em Marcia os meus;
    Que me paga mil extremos,
    Assim como eu pago os teus;

    Marcia, que em alçando os olhos,
    Mil settas nesta alma crava;
    E em cuja caza tu tens
    A dita de ser escrava;

    Tens-me a mim por companheiro;
    Temos o mesmo Senhor;
    Tu, por cazos da fortuna,
    Eu, por castigo de Amor;

    E pois que eu não posso amar-te,
    Seguirás melhor esteira,
    Se de meus ternos suspiros
    Quizeres ser mensageira;

    Em vendo que ella está só,
    Vai-lhe expôr a paixão minha;
    Eu peço a Amor, que entretanto
    Tóme conta na cozinha;

    Amor lavará teus pratos,
    E escumará a panella,
    Em quanto tu a seus pés
    Dizes, que eu morro por ella;

    Teus grossos, trombudos beiços,
    Lhe vão expôr meus cuidados;
    Hão de ser melhor ouvidos,
    Que sendo por mim contados;

    Pinta-lhe as lagrimas tristes
    Em que meu rosto se lava;
    Por hum infeliz cativo
    Peça huma ditoza escrava;

    Dize-lhe, que não se assuste
    De meu cabello nevado;
    Jura-lhe que não são annos,
    Mas penas, que me tem dado;

    Que a cauza das minhas rugas
    He o seu desabrimento;
    E vai da minha velhice
    Fazer-me hum merecimento;

    Ah Domingas, se em seu peito
    Me fazes achar piedade,
    Tambem eu juro fazer
    A tua felicidade;

    E pois que o teu coração
    Sómente he baixo, e grosseiro,
    Em preferir liberdade
    A tão feliz cativeiro;

    Por amor serei mesquinho;
    Meus gastos verás cortar;
    Para ajuntar-te quantia
    Com que te possas forrar;

    Cheia de teus beneficios
    Minha mão agradecida
    Te irá pôr em larga praça
    Rendozo modo de vida;

    E assentada em novo estrado,
    De fasquiada madeira,
    Ondeando ao som do vento
    Trémulo tecto de esteira,

    Teus negros, airozos braços,
    Chocalhando hum assador,
    Encherão famintos peitos
    De castanhas, e de amor;

    Terás bojudas tigellas
    Sobre incendidos tições,
    Onde fêrvão em cardumes
    Saborosos mexilhões;

    Teus doces, sonóros écos,
    Sem mentir, apregoaráõ
    O azeite de Santarem,
    O cravo do Maranhão.

    Domingas, segue esse rumo;
    Que teu amor reloucado,
    Sem te fazer venturoza,
    Me deixa a mim desgraçado;

    E se sem dó dos meus ais,
    Teimas nos projectos teus,
    Fallando nos teus amores,
    Em vez de fallar nos meus;

    Trocando boa amizade
    Por entranhado rancor,
    Vou descubrir teus intentos
    A teu austéro Senhor;

    Que em zelo honrozo inflammado,
    Sem ser precizo atiçallo,
    Vai a caza do Lagoia[7]
    Trocar-te por hum cavallo.

    [Nota de rodapé 7: Comprador]

    CARTA

    _A hum Amigo, louvando-lhe o estado de cazado_.

    Foi este o ditozo dia,
    Que te deo a Espoza bella;
    Doce, sólida alegria,
    Para ti, junto com ella,
    No mesmo berço nascia;

    Por tua maior ventura,
    Natureza lhe quiz pôr,
    Entre os Dons da Formozura,
    Outro dote inda maior,
    Que he, alma innocente, e pura;

    Eu sei teu costume antigo,
    A Mulher, que he só formoza,
    Não vale tudo comtigo;
    Soubeste escolher Espoza,
    Em quem tens Espoza, e Amigo;

    Quer sempre ter hum Senhor
    Nosso humano coração;
    E na ventura maior
    Inda sente em si hum vão,
    Que só enche o casto amor;

    De quantos males te eximes,
    Dando ao teu tão bom Senhor?
    Damnozas paixões reprimes;
    Recebes das mãos do Amor
    Os prazeres, sem os crimes;

    Céga mocidade errada,
    A' conjugal união
    Quiz chamar vida cansada;
    Diz que he triste escravidão,
    De mil pensões carregada.

    Chama á paz hum dissabor;
    Diz, que de susto, e desdens
    Se alimenta o Deos de Amor;
    E que a certeza dos bens
    Lhes diminue o valor;

    Fechão olhos á verdade,
    Caminhando apôs seus erros;
    E em falsa tranquilidade,
    Ao som de pezados ferros,
    Vão cantando liberdade;

    Mil remórsos na alma estão,
    Que inda que o rosto os suffoca,
    Roendo as entranhas vão;
    Que importa rizo na boca,
    Se ha punhaes no coração?

    Amor he fogo sublime,
    Que nas almas se accendeo;
    As outras paixões reprime;
    Elle he dadiva do Ceo,
    O abuzo he que o faz ser crime;

    Beija, Amigo, os teus grilhões;
    Hum para o outro erão feitos
    Os vossos bons corações;
    Crava em vossos ternos peitos
    Santo Amor os seus farpões;

    Onde achas pessoa estranha,
    Que não contrafaça o rosto,
    Porque vê, que assim te ganha?
    Quem he que na pena, ou gosto,
    Com verdade te acompanha?

    Contas teus cazos sem medo
    A quem por amigo passa;
    Fiaste-te em rosto lêdo;
    Foste no meio da praça
    Assoalhar teu segredo;

    Mal os homens conheceo
    Pura amizade enganada,
    O santo rosto escondeo,
    E tornou-se envergonhada
    Para o Ceo, donde desceo;

    O amigo que te rodeia,
    Véste das tuas paixões;
    Com ellas te lizonjeia;
    São raros os corações,
    Em que dôa dor alheia;

    Quando acertares de ler,
    Que houve entre homens união,
    O Escritor a quiz fazer;
    Não os pintou como são;
    Mas como devião ser;

    São coizas imaginadas
    Dos _Nizos_ o amor profundo;
    São fábulas bem contadas;
    Ou os não houve no Mundo,
    Ou não deixárão pégadas;

    Puro amor, limpa verdade,
    Só entre Esposos estão;
    Desce a elles a Amizade;
    Traz-lhes co'a santa união
    Huma só alma, e vontade;

    Communica á Espoza amada
    Teus mais internos cuidados;
    E vive em paz descançada
    A vida dos bem cazados,
    Vida bemaventurada;

    Sem receio de perigo
    Dorme sono saborozo;
    Que não tens junto comtigo;
    Lisonjeiro suspeitozo,
    Traidor, com rosto de amigo;

    Tens por doce companhia
    Aquella, que o justo Ceo
    Com mil virtudes te invia;
    Tu es o cuidado seu,
    E como seu, te vigia;

    Goza em socego profundo
    Tão pura felicidade;
    Tens hum thezoiro fecundo;
    Tens amor, tens amizade,
    Tens todos os bens do Mundo.

    E se ha entre homens desvelo
    (Coiza que aqui contradigo)
    Conta com hum, que he singelo;
    E foi sempre teu amigo,
    Quanto os homens podem sêlo.

    CARTA

    _Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde D. Jozé
    de Noronha, hoje Marquez de Angeja_.

    Senhor, eu não sou culpado;
    Traçar outros Versos quiz;
    Mas tenho perdido o trilho
    Com as Trovas do Luiz;

    A Muza, que ha pouco as fez,
    Outra rima não me inspira;
    Por mais que mordo nas unhas,
    E que em vão tempéro a Lyra.

    Acceitai meus bons dezejos;
    E como homem de razão
    Não desprezeis baixos Versos,
    Quando os dicta o coração;

    Minhas fiéis expressões,
    Filhas de amor, e saudade,
    O que não tem em poezia,
    Lhe vai supprido em verdade.

    Em quanto co'as soltas vélas,
    Forçadas do vento rijo,
    Demandava a Galeota
    Os areaes do Montijo;

    Em quanto ao Principe Augusto
    O patrio Téjo se humilha,
    E sobre os rasgados hombros
    Lhe leva a soberba quilha;

    Meus olhos, meus tristes olhos,
    Nas aguas seguindo a esteira,
    De lagrimas se arrazavão
    Sobre as praias da Junqueira.

    Dentro do cansado peito
    Se ateou crua peleja;
    Senti huma guerra viva
    De saudades, e de inveja;

    Não era de baixa inveja
    Affecto grosseiro, e injusto;
    Era invejar ao Creado
    Ir junto a seu Amo Augusto.

    Senhor, não sou atrevido;
    Ha lugares derradeiros;
    O meu dezejo me punha
    Entre a chusma dos Remeiros;

    Com as faces açoitadas
    Dos agudos ventos frios,
    Entre os borrifos das ondas,
    E as pragas dos Algarvios;

    A Apóllo pedindo a Lyra,
    Que só para isto invéjo,
    Chamára das frias grutas
    As loiras Filhas do Téjo;

    Que escutando o som divino
    Entre as húmidas moradas,
    E levantando nas ondas
    Suas cabeças doiradas;

    De tal Hospede soberbas
    O lenho rodearião;
    E as aguas co'branco peito
    A' porfia lhe abririão;

    O fatídico Protêo,
    Cheio de saber divino,
    Revelára ao novo Heróe
    Os segredos do Destino;

    Famozas acções cantára,
    Levantando a sábia voz,
    Moldadas sobre as historias
    Dos Augustos Pais, e Avós:

    Mas, Senhor, a minha Muza
    Sem tino ao ar se remonta;
    E vai-se mettendo em obra,
    De que não póde dar conta;

    Esta levantada empreza
    Até a _Boileau_ deo sustos;
    Dizia que só Virgilios
    Podião louvar Augustos;

    He queimar-lhe baixo incenso,
    Cansallo com Versos frios;
    Amor respeitoso, e votos
    Serão os meus elogios:

    Vós, Illustre Villa Verde,
    Com quem sempre me hei achado,
    Fazei que seja o meu nome
    A seus ouvidos levado;

    Se lhe der acolhimento,
    Sigamos de Horacio as traças,
    Façamos que a par das Muzas
    Marchem as rizonhas Graças;

    Dizei-lhe, que na Folhinha,
    Com letras doiradas puz
    Aquelles formozos dias
    Das escadas de Quéluz;

    Aquelles dias ditozos,
    Quando a seus pés ajoelhado,
    Era ao abrigo das Muzas
    Benignamente escutado;

    Quando, tendo já traçado
    Melhorar-me os meus destinos,
    Se dignava perguntar-me
    Como estavão os meninos.

    Quando me mandou, que em verso
    Contasse como escapára
    Naquelle funesto encontro
    Dos taes Carreiros da Enxára;[8]

    [Nota de rodapé 8: Allude ás Decimas.]

    E se inda o favor mereço
    De tão alta Protecção,
    Dizei, que mudei de Officio,
    Porém de ventura, não;

    Que não me enganão zumbaias
    Dos humildes Supplicantes;
    Porque a bolsa mais sincera
    Trata-me inda como dantes.

    Que inda os cães atrás do Russo
    Esperão nelle a merenda,
    Quando eu vou para Lisboa
    Fazendo Versos, e renda;

    Que dando aos oucos ilhaes,
    Vai marchando triste, e só;
    Que as mais seges fazem sécia,
    Porém que a minha faz dó;

    Que até o boçal Gallego,
    Que eu tinha por innocente,
    Já me conhece a fraqueza,
    E já me revíra o dente;

    Depois, que as vélas de cebo
    Já cerceia no topete,
    E vai conquistar o Bairro
    De polainas, e colete;

    Depois que em chapeo de Braga,
    Que só põe em dia claro,
    Cozeo em devota rosca
    Candêa de Santo Amaro;

    Depois que em déstros meneios
    O suado corpo bole,
    E abre guerra ás Cozinheiras
    Ao som da Gaita de fole;

    Já responde focinhudo,
    E eu me cálo as mais das vezes;
    Porque, pelos meus peccados,
    Sou réo de huns poucos de mezes:

    Mas, Senhor, este Epizódio
    Vai sendo dos arrastados,
    O Gallego veio nelle,
    Como me vai aos recados;

    Se o julgardes enfadonho,
    Ao Principe o não conteis;
    Nos factos da minha vida
    A' vontade escolhereis;

    Pintai-lhe a triste familia,
    Gritando-me por dinheiro;
    Hoje o rol de hum Alfaiate,
    A' manhã o de hum Tendeiro;

    Pintai-lhe hum Procurador,
    Que aqui vem todos os dias
    Saber da minha saude
    Da parte das Senhorias;[9]

    [Nota de rodapé 9: Das Cazas.]

    Enfeitai de côr alegre
    A funesta narração;
    Marchão ás vezes os rizos
    Ao lado da compaixão;

    E pois que os vossos esforços
    Nunca me tem sido vãos,
    Acabai, benigno Conde,
    Esta obra das vossas mãos;

    De hum mal fadado Poeta
    Trocai em prazer as penas;
    Já diante d'outro Augusto
    Fez o mesmo outro Mecenas.

    CARTA

    _No dia dos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de
    Angeja D. Jozé de Noronha, estando o Author doente_.

    Senhor, se vos são acceitos
    Pobres Versos, mal limados,
    Entre vidros, e receitas,
    Em triste leito traçados;

    Se de hum sombrio doente
    A fúnebre poezia
    Os prazeres não perturba
    Deste faustissimo Dia;

    Consenti, que a branda Lyra,
    Por vós outr'ora escutada,
    E que teimoza molestia
    Tem ha muito pendurada;

    Sobre este cansado peito,
    Ferida com debil mão,
    Mande ao Ceo singelos hymnos,
    Nascidos do coração;

    Consenti, que eu louve o Dia,
    Para mim assinalado,
    Qne raia em nosso Horizonte,
    De nova luz coroado;

    Dia, que vos vio nascer;
    E que quiz trazer comsigo
    Quem une ao nome de Grande,
    O santo nome de Amigo;

    Quem não quer só a Nobreza
    De Illustres Antepassados;
    E mais ama huma virtude,
    Que cem Titulos herdados;

    Quem sabe, que o vir honrar
    Dos pequenos a baixeza,
    He entre os que nascem Grandes
    A verdadeira Grandeza;

    Quem a favor de infelizes
    Traz sempre occupada a idéa;
    E estima a fortuna propria,
    Só para fazer a alhea;

    Cem vezes, formozo Dia,
    Vem o Horizonte doirar;
    Nunca possão negros ventos
    Tuas luzes perturbar;

    Tu nos déste em peito illustre,
    Que se doe de alheios ais,
    Hum coração adornado
    De mil Virtudes Morais;

    Senhor, eu não doiro enganos,
    Que venal lizonja approva;
    Sabidas verdades digo,
    E sou dellas huima prova;

    Sou hum dos muitos exemplos
    Do vosso bom coração;
    A minha felicidade
    Foi obra da vossa mão;

    Razoando em meu favor
    Contra teimozos destinos,
    Felizmente pleiteastes
    A cauza dos meus Meninos;

    Ao bom Principe pedistes,
    Que com mão compadecida,
    Lhes concedesse humas ferias,
    Que durassem toda a vida;

    Pedistes depois, Senhor,
    Que a sua Real Grandeza
    Se dignasse de arrancar-me
    D'entre os braços da pobreza;

    Sei que nelle he natural
    Ter dó das alheias penas:
    Mas ouve-as melhor Augusto,
    Quando lhas conta Mecenas;

    Por este modo alegrastes
    A triste familia minha;
    E em caza nos levantastes
    O Interdicto da Cozinha:

    Já hum segundo Frizão,
    Pendurada a lingua velha,
    Dá reboque, como póde,
    A' antiga meia parelha;

    Já o sórdido Gallego,
    Meu antigo companheiro,
    De gravata, e carrapito
    Arvorado em Boleeiro;

    Açoitando surdas ancas
    De dois Sendeiros roazes,
    No mesmo Bairro apregôa,
    Ora barrîs; ora pazes;

    Mas, Senhor, deixando graças,
    Pois não as pede a materia,
    E pedindo á minha Muza,
    Que seja comvosco séria;

    Rogo ao Ceo vos dê mil annos,
    Já que são tão bem gastados;
    Annos que achareis depois
    Em Livro de Oiro apontados;

    E se em dia de Mercês
    Ides de Semana entrar,
    Seja a Mercê destes Annos
    O meu nome apprezentar.

    Ao Principe, ajoelhando,
    Em favoravel momento,
    Por mim, Senhor, lhe jurai
    Eterno agradecimento;

    E eu, em largando este leito,
    Já sei a hora opportuna
    De poder ajoelhar-lhe,
    Quando elle chega á Tribuna;

    E pondo-me ao pé do Ginja,
    Que na _Náo Ajuda_ falla;
    E faz a todos os _Glorias_
    Continencias co'a vengalla;

    Surdo á historia do naufragio,
    Com que elle ás vezes me afferra,
    Rezarei ao Deos do Ceo,
    E assistirei aos da Terra.

    CARTA.

    _Tendo mandado huma Senhora ao Author Vinho da Madeira com huma Carta em
    boa Poezia_.

    Hum humilde admirador
    Da vossa bondade, e estilo,
    Beija a Carta precioza,
    Que veio honrallo, e instruillo;

    Desde hoje, do Mestre Horacio
    Minha alma a lição escuza;
    Quiz a minha Bemfeitora
    Ser tambem a minha Muza;

    De fino licor mandastes
    A minha cava prover;
    A vossa mão generoza
    Sabe dar, como escrever;

    A' parca meza assentado,
    Em Vinho, e Carta pegava;
    Hia bebendo, hia lendo,
    E tudo me embebedava;

    Deixo o velho Anacreonte,
    Hoje mettido a hum cantinho;
    Sua meza nunca teve
    Tão bons Versos, tão bom Vinho;

    Se os teve, Vós o roubastes
    Por minha felicidade;
    Já cá tem o Vinho, e os Versos
    Quem delle só tinha a idade;

    Das escumas do Madeira
    Vejo nascer a alegria;
    Com as azas affugenta
    A minha melancolia;

    Já se perturba a cabeça;
    Já tenho emprestadas cores;
    Já começão a esquecer-me
    As molestias, e os Crédores;

    O tal Horacio enganou-se;
    Não conhecêo a parreira;
    Não se chamava Falerno;
    Se era bom, era Madeira;

    He bom, mas tira o juizo;
    Mandai-mo, em vez de o beber;
    Não se arrisque neste jogo
    Quem tem tanto que perder.

    CARTA.

    _Desculpando-se o Author de não ir a huns Annos_.

    Senhora, em honra do Dia,
    Esforçando a mão pezada,
    Tómo a Lyra, ha longo tempo
    Ao silencio consagrada;

    E em quanto lhe alimpo as cordas,
    Que bolor aos dedos dão,
    E atarantadas aranhas
    Despejando o bêco vão;

    C'os olhos ao ar alçados
    A' minha Muza pedia
    Me désse sonóros Versos,
    Dignos de Apollo, e do Dia;

    Que me ensinasse a louvar
    O ditozo Nascimento,
    Que ao vosso brilhante Séxo
    Trouxe mais hum ornamento;

    Que pintasse a loira Venus
    Vosso rosto bafejando;
    Que me mostrasse as tres Graças
    O rico berço embalando;

    Que me ensinasse a cantar,
    Cingida a testa de loiro,
    Huns claros, triunfantes olhos,
    Huns finos cabellos de oiro;

    Que me fizesse augurar,
    Rasgando ao futuro o véo,
    Amor consagrando as settas
    Nos Altares de Hymenêo;

    Mas as Muzas, como as Ninfas,
    Tem para mim os pés mancos;
    Fogem de trémulas vozes,
    Tremem de cabellos brancos;

    Fiquei, pois, desamparado;
    E merecendo desculpa,
    De não vos mandar bons Versos,
    Peco perdão, sem ter culpa;

    Sei que devia ir pedillo
    Respeitozo, e diligente;
    Mas impede-me essa honra
    Hum defluxo impertinente;

    E quem em caza traz botas,
    E vinte xaropes bebe;
    E quando fahe, fahe mettido
    N'uma loge de Algebebe;

    Se fosse em tempo invernozo
    Entrar na illustre Assembléa
    Com leve, ingleza cazaca,
    Fina, transparente mêa;

    Sem acabar cumprimentos,
    Logo o corpo arripiado,
    Gelada a voz sobre os beiços,
    Cahiria constipado;

    E o Marcos largando os bules,
    Pondo o Velho em quentes pannos,
    Entre os applauzos dos vossos,
    Praguejaria os meus annos;

    Vossa bondade não quer
    Pôr o Cortezão em risco,
    De ir com Habito de Christo,
    E vir no de S. Francisco;

    Acceitai dahi meus votos;
    Daqui a mão vos beijei;
    E dos doces que não como,
    Domingo me vingarei;

    Darei escumantes copos
    Ao perum, e aos môlhos seus;
    Brindarei os vossos Annos,
    Tratando mui bem dos meus.

    CARTA.

    _Aconselhando a hum Cebelleireiro, que não continuasse a fazer Versos_.

    Pois que o talento inquieto
    Até em poezia provas,
    E queres ás mais desgraças
    Ajuntar desgraças novas;

    Pois, que em galantes cantigas
    Teu Rival puzeste razo,
    E coroado de trovas
    Vás entrando no Parnazo,

    Quero em trovas avizar-te,
    Que ha baixîos nesta barra;
    Vou ser Prégador trovista,
    Vou ser hum novo Bandarra;

    A occupação de Poeta
    He nobre por natureza;
    Mas todo o Officio tem ossos,
    E os deste são, a pobreza;

    Os dentes do bom Camões
    Sejão fieis testemunhas;
    Muitas vezes esfaimados
    Não achárão senão unhas;

    Depois que seus frios olhos
    Se fechárão no Hospital
    Logo as Filhas da Memoria
    Lhe erguêrão Busto immortal;

    De que serve honra tardia?
    Bem sei, que o rifão vem torto;
    Mas faz lembrar a cevada,
    Que se deo ao asno morto;

    Só as Muzas o chorárão;
    E o enterro devia ser
    Como hoje nos pinta o Lobo
    O de João Xavier.

    Homéro, o divino Homéro,
    Honra de antigas Idades,
    Por cujos inuteis ossos
    Brigárão sete Cidades;

    Doces Versos recitando,
    Pela Grecia discorria;
    Tinha os Thezouros de Apollo,
    E esmola aos homens pedia;

    Mas se de Authores antigos
    Tens tido pouco exercicio,
    Eu te aponto hum bem moderno,
    E até do teu mesmo Officio;

    Foi este o famozo Quita,
    A quem triste fado ordena,
    Que a fome lhe traga o pentem,
    E da mão lhe tire a penna;

    Em quanto na suja banca
    Pobre tarefa tecia,
    Seu espirito sublime
    Sobre o Parnazo se erguia;

    Cozendo sobre o joelho
    Era dura, falsa cáveira,
    A sua alma conversava
    Com Bernardes, e Ferreira;

    Mil vezes travêssas Muzas
    Da baixa obra o desvião;
    E mostrando-lhe o tinteiro,
    Pós, e banha lhe escondião;

    Mas de que servem talentos
    A quem nasceo sem ventura?
    Vale mais, que cem Sonetos,
    A peior penteadura;

    Amigo, vamos errados;
    Escolhemos muito mal;
    He o fado dos Poetas
    Não professarem real;

    Péga no pardo baralho,
    E sobre a cama assentado,
    Fisga as biscas conhecidas
    Ao parceiro descuidado;

    Matando boçaes tafûes,
    Vai mexendo os papelinhos;
    Nem poupes no cadafalso
    As gargantas dos Sobrinhos;

    Em lhe vendo huma de seis,
    Arma-lhe os laços viscozos;
    Antes que lhe caia a xina
    Na ceira dos laparozos;

    Imita ondados cabellos
    Co'rubro lápis na mão;
    Estas pinturas dão xina,
    As da Poezia, não;

    Se em roda de loiras Ninfas
    Gyrão em torno teus ais,
    Em quanto lhe deres Versos,
    Acharás sempre Vestais;

    Fallo como exprimentado;
    Fallo com peito sincero,
    Póde huuma vara de fitta,
    Mais que a Ilíada de Homéro;

    No sonóro bandolim
    Fortuna as armas te deo;
    Não ha Dama, que rezista
    A' moda do Melibêo;

    Toca-lhe mil contradanças;
    Mas se não tiverem Dom,
    Entre ellas não sevandiges
    O Fidalgo Cotilhom;

    Nestas coizas he que eu creio;
    Poezia he mal fadada;
    Assenta, amigo Luiz,
    Que nunca servio de nada;

    Poucas Damas a conhecem;
    Se a pedem, e se a festejão,
    Gostão do que não entendem,
    Pedem o que não dezejão;

    Inda que por moda querem,
    Que lhes repitão Versinhos,
    Tem por modas de mais gosto
    Convulsões, e Jozézinhos;

    Huma Venus me pedio,
    Por quem inda eu hoje peno,
    Que lhe fizesse hum Soneto,
    Inda que fosse pequeno;

    Dinheiro, invisto dinheiro,
    Só em ti he que eu me fundo;
    Tens o Direito da força,
    És o Tyranno do Mundo;

    Amigo, escolhe hum Paralta,
    Corpo esbelto, perna teza,
    O chapeo tocando as nuvens,
    As fivellas á Malteza;

    Ornem-lhe loiros canudos,
    Pendentes com igualdade,
    Tenras faces, onde morão
    A Saûde, e a Mocidade;

    Chegue á bocca rubicunda
    Cheirozo lenço anilado;
    Dê bilhetinho discreto,
    De huma Novela furtado;

    Põe da outra parte hum Ginja,
    Fivella de oiro no pé,
    Bom vestido de lemiste,
    Boa meia grudifé;

    Com óculos no nariz,
    Mas com a penna na mão,
    Assignando vinte letras
    Para Londres, e Amsterdão;

    E dize-me, qual assentas,
    Que será o mais querido?
    Apósto, que as Damas todas
    Cuidão que o Velho he Cupido.

    Amigo, tenho acabado
    O meu comprido Sermão;
    Préguei-te as altas verdades,
    Que trago no coração;

    Abre mão das Poezias,
    Que nenhum prestimo tem;
    E cuida em sólidos meios
    De ganhar algum vintem;

    Se dizes, que contra os Versos,
    Em Verso huma Carta ordeno,
    E que aqui me contradigo,
    Praticando o que condemno;

    A teu forçozo argumento
    Respondo com Fr. Thomaz;
    Faze o que o Prégador diz,
    Não faças o que elle faz.

    CARTA.

    _Pedindo-se ao Author huma Gloza_.

    Menino, dizer finezas,
    Só o proprio Pertendente;
    Amor não póde imitar-se,
    Só o pinta quem o sente;

    Se adora alguma Nerina,
    Se he para ella a tal Gloza,
    Que vão fazer os meus Versos,
    Onde está a sua proza?

    Além disso, essa figura,
    Faces tenras, e córadas,
    Fallão mais discretamente,
    Que mil Cantigas glozadas;

    Lenço nas pontas bordado,
    Cipó, tízicas fivellas,
    Sobre hum corpo assim talhado,
    Se eu gósto, que farão ellas?

    Versos são mui fracas armas
    Para vencer corações;
    He clara a letra redonda,
    Leia a vida de Camões;

    Sua divina Poezia
    Teve mui curtos poderes;
    Tratarão-no mal os homens,
    E inda peior as mulheres;

    Pois entra de amor na estrada,
    Siga nella outro farol;
    Embuce-se a huma esquina,
    Soffra chuva, soffra Sol;

    Erga alli o Altar do Amor;
    Queime alli humilde incenso;
    Suba ao alto do capote
    Branco, alcoviteiro lenso;

    Que importa que os Çapateiros
    Dem assobio insultante,
    Se os negocios vão marchando
    Com passadas de Gigante?

    Cem vezes na mesma tarde
    Pize esbelto a feliz rua;
    Alheias cadeias de aço,
    Relogio de hollanda crua;

    Vá por aqui, que por Versos
    Dá em vão loucas passadas;
    São divertimento inutil,
    São as historias das Fadas;

    Inda que para cantallos
    Lhe désse Garção a Lyra,
    Como hão de crer-lhe verdades
    Na linguagem da mentira?

    Seja acérrimo chorão;
    Pranto entendem raparigas;
    Faça em lagrimas seu fundo,
    E não o faca em Cantigas;

    Palêe co'estes remedios,
    Pois não tem o verdadeiro;
    He elle (aqui em segredo)
    O mílagrozo dinheiro;

    Mas se teima em pedir Versos,
    E conselhos não supporta,
    Então perdôe, meu Menino,
    Póde bater a outra porta.

    CARTA.

    _Agradecendo alguns pratos, que despertárão a vontade de comer_.

    Senhor, a dada Perdiz,
    Acerejada, e fresquinha,
    Veio emendar os estragos
    Da enjoativa gallinha;

    Esta ave he sempre odioza
    A melancólicos dentes;
    Faz lembrar ultimos caldos
    De já perdidos doentes;

    He, além disto, hum cruzado
    Fugido do mialheiro;
    Este meu mortal fastio
    Custou rios de dinheiro;

    Mas da vossa lauta meza
    Bocados medicinais
    Forão tão bem applicados,
    Que me curárão de mais;

    Venceo vosso cozinheiro
    O tal fastio cruel;
    Meu estomago já pede
    Meças com Fr. Manoel;

    Mas, Senhor, vossa piedade
    Vai ser-vos hum dom fatal;
    Quizestes fazer hum bem,
    Que redunda em vosso mal;

    Fizestes nascer a fome,
    E a fome pede mantença;
    Se a deixais entregue a mim,
    Póde morrer á nascença;

    A vossa filha amparai;
    Não he de peitos honrados
    Pôr as suas Creaturas
    Na Roda dos Engeitados.

    Em soando as duas horas,
    Sabei que esta cara minha
    Tem longos, ávidos olhos,
    Fitos na vossa Cozinha;

    Eu não vou, porque inda fraco,
    Indo arrostar ar delgado,
    Antes de matar a fome,
    Morreria constipado.

    CARTA

    _Sobre o mesmo Assumpto_.

    Senhor, assim que eu largar
    A baetal fatiota minha,
    Vou beijar as pias lágeas
    Da vossa farta Cozinha;

    Não foi attento Hespanhol,[10]
    Receitando amarga quina,
    Quem venceo meu mal co'as armas
    Da fallivel Medicina;

    [Nota de rodapé 10: Medico.]

    Vós sabeis traçar receitas
    Mais gratas, e mais felizes:
    Curárão-me oppostos males
    Bem applicadas Perdizes;

    Humas o appetite abrírão,
    Outras socêgo lhe dão;
    Sarárão as duas chagas
    Co'pêllo do mesmo cão:

    Dizem linguas inimigas,
    Que esta doença he ficticia;
    E os Práticos do meu pulso
    A capitúlão malicia.

    Que em meu capote abafadas
    Estas goellas felizes,
    Em vez de cozerem lynfas,
    Estão armando ás Perdizes;

    Senhor, não devo atalhar
    Este conjurado assédio;
    Porque era, provar doença,
    Ingratidão ao remédio;

    Só digo, que não ganhais,
    Dando ouvido ás vozes suas;
    Aqui dais-me huma Perdiz,
    E se lá vou, tiro duas.

    CARTA.

    Bom Sobral, o que eu te disse
    He, a meu pezar, verdade;
    Sonóros, amenos versos,
    São obra da Mocidade;

    Mandaste que em Crescentini;
    Louvando a doce harmonia,
    O que o Mundo diz em proza,
    Eu lho enfeitasse em Poezia;

    Que invocando as brandas Muzas,
    Encostada ao peito a Lyra;
    Cante os ternos sentimentos,
    Que elle nas almas inspira;

    Môço Sobral, tu ignoras
    Da inerte velhice os damnos;
    Nesta fria testa brigão,
    Co'teu preceito, os meus annos:

    Que importa, que a huma orelha
    A tua voz respeitada
    Me mande afinar a Lyra
    Ha dez annos pendurada,

    Se á outra me diz Apollo,
    Que eu sou já dos reformados;
    Que em seu Tribunal não tornão
    A servir Apozentados?

    Longa idade, he longo mal;
    Velho, só he bom o Amigo;
    O teu mesmo Crescentini
    Ha de provar o que eu digo:

    Este homem, que a seu arbitrio
    Move as humanas paixões;
    Que traz na sua voz o sceptro
    Dos sensiveis corações;

    Que nos deixa duvidozos
    Quaes forças maiores são,
    Se os encantos da harmonia,
    Ou se a viveza da acção;

    Que em mim, que sou homem duro,
    E rebelde ás Leis primeiras;
    Que não chóro nos mais homens
    As desgraças verdadeiras;

    Que, insensivel, vi no Circo
    Burlesco Neto arrastado
    Deixar co'a rôta cabeça
    O terreno ensanguentado;

    Que vejo com olhos seccos,
    Com firme semblante inteiro,
    Fugir-me n'um parolim
    O meu ultimo dinheiro;

    Que em mim, digo, arranca pranto;
    Que amolga hum peito de seixo;
    Que muita vez co'chapeo
    Encubro o trêmulo queixo;

    Que quando dos tenros Filhos
    Chorava o triste destino,
    Tinha este peito de bronze
    O coração de Sabino;

    Este homem, que solto o panno,
    Vivas vem á força ouvir;
    Se cantar de hoje a déz lustros,
    Em vez de chorar, faz rir;

    Sobre os levantados áres
    A envergonhada Harmonia,
    Batendo apressadas azas,
    Do seu Filho fugiria;

    E o Jeronymo estendido[11]
    Co'as pernas nos tamboretes,
    Cabeceára entre as rimas
    Dos ociozos bilhetes;

    [Nota de rodapé 11: O Vendedor dos bilhetes.]

    E cuidavas tu, que a foice
    Que a taes dons ha de pôr fim,
    Que ha de ferir Crescentini,
    Me tinha poupado a mim?

    Se eu hoje fosse aos Oiteiros,
    Onde já tive elogios,
    Dir-me-hião crueis verdades
    Mil sinceros assobios;

    Este Genio dos Poetas
    He fugitivo, e mesquinho;
    A' primeira cam nos deixa
    Na ametade do caminho;

    Não he irmão do teu Genio,
    Este estende mão segura;
    Acompanha os seus Valídos
    A' borda da sepultura;

    Fará que sempre as desgraças
    Em tristes peitos emendes;
    Que sigas sempre os exemplos,
    Que dentro de caza aprendes;

    Lastima, pois, minhas rugas,
    Que até me cauzão o mal
    De faltar ao teu preceito,
    E a louvar hum homem tal;

    Mas vasto, cheio Theatro,
    Que elle encalma em tempo frio,
    Falla melhor, que dez Odes,
    He mais util elogio;

    E nelle estas velhas mãos
    Co'as forças que nascem d'alma,
    Darão, em lugar de Versos
    Muito pinto[12], e muito palma.

    [Nota de rodapé 12: Cruzado novo.]

    CARTA

    _A huma Senhora, que em bons Versos pedio ao A. a Sátyra do Velho_.

    Senhora, o Quadro pedido
    Não estava retocado,
    Mas brevemente o remetto,
    Deixai isto ao meu cuidado;

    Mostra os erros da velhice;
    Põe alguns Velhos á raza;
    Custou-me pouco a pintura,
    Por ter as tintas de caza;

    Que já hum Amigo o vio,
    Eu, Senhora, vos confesso,
    Porém mostrei-lho inda em calva
    Como eu tambem lhe appareço

    Vós sois de mais ceremonia,
    E pezais com mais rigor;
    Temi, que sem rir c'os Versos,
    Só vos vissem rir do Author;

    Tómo outra vez o pincel,
    Vou-lhe pôr attenta mão;
    Abençoarei meu trabalho,
    Se lhe derdes protecção;

    Pois que a deve o sangue illustre,
    Tem dois direitos meu cazo;
    Porque a peço a huma Fidalga,
    Que o he tambem no Parnazo;

    De tão alto voto espero,
    Que geral favor me traga
    A huns Versos, que antes de lidos
    Tiverão tamanha paga.

    Ao favor de mos pedirdes,
    Honra, que eu não merecia,
    Ajuntastes o thezoiro
    De mos pedir em Poezia;

    Que fáceis, que amenos Versos!
    Trazem das Muzas o bafo;
    A moral os faz ser vossos,
    Que quanto ao mais são de Sapho;

    Só na pintura dos annos
    Errou essa mestra mão;
    Porque inda que era em Poezia,
    Foi puchar muito a ficção;

    A doce, igual harmonia,
    A imaginação fogoza,
    Depuzerão contra vós,
    E vos chamão mentiroza.

    Se occulto, fyzico acazo
    Branqueou huns fios de oiro,
    Vosso vingador Apollo
    Os cobre de mirto, e loiro;

    Quem marcha ao lado das Graças,
    Não sabe o que he fria idade;
    Deixai-me dizer a mim
    Essa funesta verdade;

    He em mim que o voraz Tempo
    Já empolgou a mão forte;
    Se inda me mêcho em Poezia,
    He já co'a ansia da morte;

    Cedo raivozos Crédores,
    A quem não curei as chagas,
    Darão a meus frios ossos,
    Em lugar de pranto, pragas;

    E outros, a que a carapuça
    Mesmo, sem mira, não erra,
    Dirão com gosto ao Coveiro
    =Enche-lhe a boca de terra.=

    Mas tudo perdoaráõ
    Minhas sepultadas cans,
    Se de cypreste as cobrirdes
    Vós, e as vossas oito Irmans.

    CARTA.

    A ti, amavel Bandeira,
    Partidista da Verdade,
    E de quem tenho mil provas,
    Que o és tambem da Amizade:

    Que são Filozofo vives,
    E o mesmo morrer protestas,
    A' excepção de me dares
    Bilhete de boas festas:

    Tolentino firme amigo
    Inda quando o Mundo caia,
    E a quem obrigas a sêllo
    Desde a rua da Atalaia,[13]

    [Nota de rodapé 13: Onde tinhão morado havia muitos annos.]

    Dezeja pura alegria,
    Saûde, e muito vintem;
    Dezeja-te tudo aquillo,
    Que elle quasi nunca tem;

    Pois, que chuva, e negros ventos
    Me fechão a porta, e o dia,
    E em caza apontão cuidados,
    Redobrada bateria;

    Pois que a horrivel solidão
    Aviva a idéa cruel
    Da gaveta, vão sepulchro
    Do agonizante quartel.

    E a engenhoza Hypocondria
    Me mette no antigo empenho
    De jurar, que estou morrendo
    Das molestias, que não tenho,

    Vou ver se posso esquivar-me
    A tanto mortal immigo,
    Acolhendo-me ás lembranças
    Do nosso bom tempo antigo;

    Tem a sôlta fantazia
    Farto, milagrozo armario;
    Cura-me penas reaes
    Com prazer imaginario;

    O nosso bom tempo antigo!
    Quando alçando a tôrva fronte
    Jantava Quintiliano
    A' meza de Anacreonte;

    Quando nos brilhantes copos
    Do casto, herdado Gorizos,[14]
    Hião mergulhar as azas
    Os Prazeres com os Rizos;

    [Nota de rodapé 14: Nome de huma Quinta do Amigo, a quem o A.
    escreve, a qual produz bom vinho.]

    Quando em renhidas disputas
    Mettias traidora mão,
    Sendo o motivo da guerra
    Solapada mangação.

    E sem haver lindos olhos,
    Sem haver ondadas tranças,
    Doidos com doidos tecião
    Turbulentas contradanças.

    Quando o assustado Ministro,
    Que as margens do Doiro trilha,
    Pôde salvar da procella
    A sua estimavel bilha.

    Clama em vão por tão bom tempo
    Minha discreta saudade;
    Doce, fugitivo tempo,
    Da nossa doirada idade!

    Ante meus olhos sâudozos
    Cruas azas despregou;
    E em cambio de tantos bens,
    Cans, e rugas me deixou.

    Só tu podes, caro Amigo,
    Virar-lhe o vôo apressado;
    E fazer que elle me traga
    Outra vez o meu reinado:

    Não peço bruxos prestigios,
    Basta ouvires meu alvitre,
    Põe a rua da Atalaia
    Na Calçada do Salitre;[15]

    [Nota de rodapé 15: O A. jantava muitas vezes na rua da Atalaia em casa
    do Amigo, a quem escreve, o qual se mudou para o Salitre.]

    Prepara farta vingança
    A meus compridos jejuns;
    Lança, em nome da Amizade,
    Mais nozes aos teus peruns;

    Lance fumo a faca tinta
    Nas victimas degolladas;
    Revôem pelo quintal
    As pennas ensanguentadas;

    Tornem a dar os teus lares
    Guarida á minha desgraça;
    Tornem a ter teus amigos
    Polido Isidro de graça;[16]

    [Nota de rodapé 16: Caza de Pasto.]

    Vai na franca, lauta meza,
    Versos ouvindo, e tecendo;
    Entre as Muzas, entre as Graças
    Vai, a rir, empobrecendo;

    Correntes do Doiro, e Rheno
    Escaldem meu Estro fraco;
    Abrão-me o Templo de Apóllo
    Atrevidas mãos de Baco;

    Sólte o rozado Taful
    A falsa eloquencia sua;
    E marche pelas Sciencias
    Como marcha pela rua;[17]

    [Nota de rodapé 17: Cóxeava.]

    He alma das Companhias,
    Alegres mezas governa;
    Depois de estar assentado,
    Não conheço melhor perna;

    Tomando amolada faca
    Teu sizudo Capitão,
    Nos demonstre, sobre hum lombo,
    A guerra do Rossilhão;

    Aliza assim, caro Amigo,
    Meu velho, engelhado coiro;
    Manda ás Parcas, que o meu fio,
    Já que he curto, seja de oiro.

    Dá brando ouvido a meus rogos;
    Teu bom peito em bem os tome;
    Não te falla vil lizonja,
    Falla-te a Amizade, e a fome:

    E tu, dia tormentozo,
    Que abalas velhas trapeiras,
    Que o telhado me arripias,
    Que me ensopas as esteiras;

    Que em meus reumaticos ossos
    Assentas pezado açoite;
    E sobre medonhas nuvens,
    Me mandas de tarde a noite;

    Serás o dia mais alvo,
    Que em meus largos annos levo,
    Se for acceita esta Carta,
    Que á tua má luz escrevo;

    Chamarei Zéfiros brandos
    A teus roucos ventos frios,
    Se hoje rezolve o Bandeira
    Dar de comer a vádios.

    CARTA

    _A hum Camarista_.

    N'uma infeliz madrugada,
    Antes que o Sol esclareça,
    Mettido em pobre caleça,
    Puz peito, Senhor, á estrada:
    Sahi em hora mingoada,
    Pois negra traição me espera;
    Homens, com genios de féra,
    Me atacárão sem motivo;
    Por milagre fiquei vivo,
    E devo pezar-me a cêra.

    Vi revoltozos Carreiros
    Com duro aguilháo armados;
    Vi nuvens de páos alçados
    Pelos cumes dos oiteiros:
    Roldão, e o bravo Oliveiros,
    Que alta pena Heróes declara,
    Talvez voltassem a cara,
    Que a tantos tremer fazia,
    Se nos campos da Turquia
    Vissem Carreiros da Enxara.

    Vi os Campos inundados
    De gentes vagas, e incertas;
    Vi as estradas cobertas
    De cacheiras, e cajados:
    Não valem rogos, nem brados,
    Não valem ligeiras pernas;
    A raiva, e o Deos das Tavernas
    Accendêo tanto os Campinos,
    Que cuidei que os meus Meninos
    Terião férias eternas.[18]

    [Nota de rodapé 18: O A. era Professor de Rhetorica, e pertendia passar
    para outro emprego.]

    Em quanto no duro chão
    Meu Companheiro arquejava,
    Eu muito humilde esperava
    Tambem a minha ração;
    Bem me lembrou que esta acção
    Deslustrava a minha gloria;
    Mas não pertende vitoria,
    Nem sabe mover espada
    Mão, ha annos, costumada
    A dar só com palmatoria.

    Entre mortaes agonias,
    Da bruta gente escapando,
    Me fui na sege encaixando,
    Maldizendo as romarias;
    Praguejei meus negros dias,
    Dias de pranto, e de dor;
    Conheci então, Senhor,
    Que só me dão meus destinos,
    Ou Carreiros, ou Meninos,
    Que Deos sabe o que he peior.

    Mas a perda da vitoria
    Sirva de abrandar meus fados;
    Dem-vos motivo os Cajados
    De fallar na Palmatoria;
    Saiba o Principe esta historia;
    Contai-lha com viva côr;
    Fazei com que, em meu favor,
    Sentindo affectos diversos,
    Lhe motivem rizo os Versos,
    E lhe faça dó, o Author.

    CARTA

    _A hum Camarista, tendo o A. sido despachado_.

    A rara benignidade,
    Que quiz o Ceo conceder-vos,
    Permitta que de escrever-vos,
    Tome eu hoje a liberdade;
    Pois tendes tanta bondade,
    Peço, nella confiado,
    Que por mim ajoelhado,
    E na bocca o coração,
    Beijeis ao Principe a mão,
    E lhe deis este recado.

    =Dizei, pois, a Sua Alteza,
    Que eu, seu humilde Afilhado,
    Por elle ha pouco arrancado
    D'entre os braços da pobreza,
    Na simples, mas farta meza,
    Entre os Irmãos, e os Parentes,
    Aos Ceos, com votos ardentes,
    Pedimos, que em paga justa,
    Prosperem a Mão Augusta,
    Que nos faz viver contentes:

    E se entre as puras verdades,
    Que Vós lhe podeis contar,
    Virdes, que terão lugar
    Algumas jovialidades,
    Pintai-lhe as felicidades,
    Que vai tendo a gente minha;
    Dizei-lhe que na Cozinha
    Ardem já montões de brazas;
    Que em todas as minhas cazas,
    Era a mais fresca, que eu tinha;

    Que os enroupados Sobrinhos,
    Affrontando o vento frio,
    Vem todos mostrar ao Tio
    Os seus novos jozésinhos;
    Que então lhes conto, e aos vizinhos,
    Por quem a roupa foi dada;
    Que Mão, nunca assás louvada,
    Mão Real, piedoza, e justa,
    Me poz livre a Rua Augusta,[19]
    Por varios crimes vedada;

    [Nota de rodapé 19: Aonde se vende panno.]

    Que hum Tendeiro, que os seus bens
    Me fiava, dando arrancos,
    Veio em barrete, e támancos
    Dar-me logo os parabens;
    Espera que os meus vintens
    O fação tambem feliz;
    Porque, segundo elle diz,
    Ha de haver na sua Tenda
    Mais sahida na fazenda,
    E menos gasto no giz.[20]

    [Nota de rodapé 20: Costumão marcar com giz o que dão fiado.]

    Mas eu hum crime cometto,
    Quando de ensinar-vos trato;
    Quiz ser ao Principe grato,
    Mas fui comvosco indiscreto;
    Homem, como Vós, discreto
    Não preciza formulario;
    A Egoa do Seminario[21]
    Me deve os rompões cravar,
    Por eu querer ensinar
    O Padre nosso ao Vigario.

    [Nota de rodapé 21: Tinha alluzão particular.]

    _A' Illustrissima, Excellentissima Senhora D. Catharina Micaella de
    Souza, tendo feito a honra ao A. de lhe offerecer huma Vestia de Setim;
    e pedindo-lhe este que lembrasse o Requerimento, em que seu Irmão
    pertendia o Governo de hum Forte_.

    Minha respeitoza mão
    De seus limites não sai;
    A escritura, que aqui vai,
    Não he carta, he Petição;
    Até ante os Thronos vão
    Vozes em papel incluzas;
    As minhas não vão confuzas;
    São memorial mui claro;
    Sou Poeta, dai-me amparo,
    He obrigação das Muzas.

    Não peço hoje para mim;
    Bem cuberto anda meu peito;
    Inda beijo, inda respeito
    Huma Vestia de Setim.
    Triste Irmão tem já no fim
    Farda rôta, e chamuscada;
    Tem má côr, e he mal fadada;
    Quer que a mão piedoza, e franca,
    Que a mim me deo Vestia branca,
    Lhe dê Cazaca encarnada.

    _Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde, hoje
    Marquez de Angeja_.

    Em sege estreita entaipados,
    Sol á ilharga, Sol por cima,
    Vinha eu, e o Padre Lima
    Cheios de pó, e encalmados.
    Eis-que na estrada atacados,

    Párão as mulas baratas;
    Cuidei eu que erão Piratas,
    Que tirão vida, e dinheiro,
    Fui ver se era o Clavineiro,
    E achei duas Açafatas.

    Trazião a arma mais dura,
    Que nos peitos se tem posto,
    Trazião ambas no rosto
    O respeito, e a formozura.
    Querem sege mais segura,
    Porque a sua está quebrada;
    E em quanto o Padre na estrada
    Lhe diz palavras pompozas,
    As minhas mãos respeitozas
    Lhe affoufavão a almofada.

    Trabalho infeliz fizerão,
    Porque meus Fados são tais,
    Que acceitando tudo o mais,
    A almofada não quizerão.[22]
    Debaixo dos pés puzerão

    [Nota de rodapé 22: Por cauza dos toucados altos.]

    Minha obra desprezada
    Senhor, não fazemos nada,
    Tomar vãos trabalhos oizas,
    Tem todas as minhas coízas
    O destino da almofada.

    _No dia dos annos da Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de
    Villa Verde, hoje Marquez de Angeja, em cuja caza o Author jantou_.

    Senhor, talvez neste dia
    Já cantei Versos polidos;
    Porém em tectos cahidos
    Não mora o Deos da Poezia.
    Voou; e da testa fria
    Me tirou o verde loiro,
    E das mãos a Lyra de oiro;
    Tudo em fim se foi co'a bréca;
    Mas se a Aganippe se séca,
    Não se ha de secar o Doiro.

    Embora no velho caco
    Murche o cansado miôlo;
    Se os loiros lhe tira Apollo,
    Com parras o adorna Baccho;
    Põe mira meu peito fraco
    Nos vossos puros almudes;
    E em honra de mil virtudes,
    De mil talentos diversos,
    Em vez de fazer dois Versos,
    Farei duas mil saûdes.

    _Sahindo por sortes Compadre de huma Senhora da primeira Grandeza_.

    Devo pouco á Natureza,
    E muito a hum brinco innocente;
    Porque elle me faz parente
    Da mais distinta Nobreza.
    Embora esquiva riqueza
    Pretas fortes me não mande;
    Qne importa que ha annos ande
    Sempre a perder nas menores,
    Se nas dos premios maiores
    Me sahio o premio grande.

    _Fazendo annos o Illustrissimo, e Excelentissimo Senhor Marquez de
    Angeja, Tenente General, na occazião em que sahíra Provedor da
    Mizericordia_.

    Que fazem Versos cansados,
    Applaudindo os vossos Annos,
    Se dos nossos Soberanos
    São melhor elogiados?
    Se os trazem sempre empregados
    Em servir a Monarquia,
    Se a Real Secretaria
    Escreve em vosso favor,
    Taes prozas louvão melhor,
    Do que a melhor Poezia.

    Da vossa dexteridade
    Fião coizas encontradas;
    Dão-vos as duas estradas,
    A do Sangue, e da Piedade.
    Vivei pois comprida idade

    Sempre entre Povos amigos;
    Mas se crescerem perigos,
    Cresceráõ as acções nobres;
    E a mão que defende os Pobres,
    Cortará os Inimigos.

    _No dia dos annos do mesmo Senhor_.

    A Minha Muza cansada,
    Perdendo os vôos ligeiros,
    E ao pé de murchos loireiros
    Com razão apozentada,
    Hoje, Senhor, animada
    Do amor, e da gratidão,
    Esquecendo a multidão
    De frios cabellos brancos,
    Vem, forcejando os pés mancos,
    Metter-me a Lyra na mão.

    Gratidão seus passos rege;
    Quer que em limada Poezia
    Venha louvar neste dia
    Quem em todos me protege;
    Nas cordas de oiro, que elege,
    Quer, que invocando as Camenas,
    Eu cante as horas serenas
    Em que o Ceo piedozo, e justo
    Para o lado de hum Augusto
    Me fez nascer hum Mecenas.

    Eu respondi, que a harmonia
    Me fugio co'a mocidade;
    E que a sólida verdade
    Não depende da Poezia;
    Que em proza sempre seguia
    Seu acertado conselho;
    E que em fim Poeta velho
    Por teima querer rimar,
    He o mesmo que ir dançar
    O vosso ginja, Botelho.[23]

    [Nota de rodapá 23: Creado muito velho, tentado com minuetes.]

    _Ao mesmo Senhor em outro dia de annos_.

    Senhor, co'as minhas Poezias
    Festejava os annos teus;
    Porém mandão já os meus,
    Que eu venha co'as mãos vazias;
    Geladas madeixas frias
    Fechão do Parnazo o passo;
    Pois que já o Tempo escaço
    Esfriar meus Versos quiz,
    Quem me acceitou os que fiz,
    Me agradeça os que não faço.

    Mas he da tua Grandeza,
    E a tal dia acção adquada,
    Inda que não trago nada,
    Não perder a Caza, e a meza;
    Por culpas da Natureza
    Não perca os meus ordenados;
    Cubrão teus tectos doirados
    Inutil, mudo Jarrêta;
    Não o merece o Poeta,
    Mas he costume aos Creados.

    _Ao mesmo Senhor em outro dia de annos_.

    Neste venturozo Dia,
    Honrado, e honrador Marquez,
    Sempre eu vim a vossos pés
    Trazer a offerta em Poezia;
    Ante Vós a Lyra erguia
    Humilde, alegre, e casquilho;
    Mas hoje mudando o trilho,
    A bem, Senhor, me levai,
    Que sendo os annos do Pai,
    Dê a Colgadura ao Filho.

    Moço Illustre, eu dou conselhos,
    Filhos de, amor, e verdade;
    Permittida liberdade
    Aos fieis Creados velhos;
    Ouvi: Bons Pais são espelhos;
    Dão doutrinas sem enganos;
    E eu rogo aos Ceos Soberanos,
    Que ao vosso ouvindo as lições,
    Sejão as vosss acções
    O elogio dos seus Annos.

    _Ao Illustrissimo, e Excelentissimo Senhor Marquez de Marialva, com quem
    se tinha encontrado o A. na Caza em que estava o Embaixador de
    Marrocos_.

    Na Quinta da Praia clama,
    Que lhe tireis a Cadeira
    Hum triste, que quarta feira
    Comvosco esteve em Moirama:
    Se a Estrella, que a Vós o chama,
    Não lhe abranda os seus destinos,
    Torna para os Marroquinos;
    Porque, agoiros por agoiros,
    Antes cativo de Moiros,
    Do que Mestre de Meninos.

    _No dia dos Annos de hum Menino_.

    De plumachos emplumado,
    Manso, alegre Cavallinho,
    Ou torneado carrinho
    D'alvos Carneiros puchado,
    Devião marchar ao lado
    Deste papel que remetto;
    Mas mostrando o meu affecto
    Como póde o meu destino,
    Em obzequio de hum Menino,
    Vou dar aos outros Suéto.

    _Na despedida de hum Ministro, que partia levando seus Filhos_.

    A Lei da pura amizade
    Minhas lagrimas condemna;
    Quer que ceda a minha pena
    A' tua felicidade;
    Vai; e em quanto a vil maldade,

    E a intrigante cubiça,
    A baixa inveja, a injustiça
    Pézas na recta balança,
    Conserva de mim lembrança,
    Que he tambem fazer justiça.

    E vós, lindos Innocentes,
    Que nessas tenras idades
    Já sabeis mover saudades
    Nos amigos, nos parentes,
    Quando lhe virdes pendentes
    As balanças da razão,
    Ide internecello então
    Com rizos, com géstos novos;
    Lembrai-lhe, que aquelles Povos,
    Como vós, seus filhos são.

    _A hum Fidalgo, que pedia para o Author hum lugar na Secretaria, na
    occazião em que elle pertendia o seu proprio Despacho_.

    Se vemos rir quem chorava,
    E tantos exemplos temos,
    Senhor, não desesperemos,
    Deos ainda está onde estava:
    Água branda as pedras cava;
    Em tudo o tempo he precizo;
    Saber teimar com juizo
    Tem mil montes aplanado;
    Talvez sejais despachado,
    E talvez que eu lavre o Avizo.

    Ah Senhor, com que alvoroço,
    Na liza banca forrada,
    Eu de cazaca encarnada,
    E fitta preta ao pescoço
    Lançára o despacho vosso,
    Que tanto tempo esqueceo!
    Que grande favor do Ceo,
    Se o meu primeiro exercicio
    Fosse servir-me do Officio
    A favor de quem mo deo!

    _A respeito de hum Padre, que dizia ter sido Mestre de Rhetorica; que
    tomava triaga contra o veneno que ainda lhe havião de dar; que dizia que
    estava eleito Cardeal; e que era demaziadamente trigueiro, se deo este_

    MOTE.

    _Não tem côr de Cardeal_

    Não ajuda ao Padre a cara;
    Revolvo antigos Annaes,
    E vejo que os Cardeaes
    Tinhão a pelle mais clara;
    Será maravilha rara
    Achar hum de côr igual;
    Forão brancos como a cal
    Mazarino, e Alberoni;
    E a não ser este o Negroni,
    Não tem côr de Cardeal.

    _Respondeo em Decimas, ás quaes se fizerão as seguintes_:

    Que venhão fuscos garraios
    Metter em Versos a mão!
    Potente Jove, aonde estão
    Os teus vingadores raios?
    Hum homem de coiros baios
    Segue as Muzas tuas filhas;
    Tu, pois, que os vaidozos trilhas,
    Faze que este, em todo o cazo,
    Saia logo do Parnazo,
    E passe para Cassilhas.

    Se em rhetorico exercicio
    Já soubeste regras dar,
    Tambem eu posso fallar,
    Porque sou do mesmo officio;
    Que o teu cérebro tem vicio,
    He verdade assás notoria;
    Na Poezia, e na Oratoria
    Vaz em total decadencia;
    Collega, tem paciencia,
    Has de vir á palmatoria.

    No teu escuro Papel,
    Aos bons ouvidos ingrato;
    Achei hum vivo retrato
    Da confuzao de Babel;
    A' patria lingua infiel
    Ès da Nação o desdoiro;
    Bem sei que te chego ao coiro;
    Mas não merece passagem,
    Que a batina, e a linguagem
    Ajuntem Clerigo, e Moiro.

    A quem me queira arguir,
    Mostro, Padre, o tal Papel;
    He testemunha fiel,
    Não me deixará mentir;
    Em novos termos urdir
    Mettes a todos n'um canto;
    Que uzas palavras de encanto
    Assentão gentes maxuchas,
    Boas para ajuntar bruchas,
    Ou para tirar quebranto;

    Deixei-me, pois, de criterio,
    E tomei melhor caminho;
    Meu amigo, a hum louquinho
    He loucura fallar serio;
    Chova, pois, o vituperio
    Sobre esse tostado coiro;
    Saia o tal Cardeal Moiro,
    Que o Capinha, alvoroçado,
    Vai, por ordem do Senado,
    Metter garrochas no toiro.

    Fulla escrava Americana
    Já mandava á luz do dia
    Hum Crioilo, que seria
    Nódoa da Curia Romana;
    Carregado de banana,
    Porque no caminho coma,
    O rumo da Europa toma;
    E em terra, marchando á pata,
    Com sacco, e folha de lata,
    Deo a sua entrada em Roma.

    Assim mesmo estropeado,
    E envolvido em grosso panno,
    Foi entre o Povo Romano
    Com mil respeitos tratado;
    Do vento, e do Sol queimado,
    Semblante quebrado, e afflito,
    Tem tal dom na cara escrito,
    Que gritavão de redor,
    Huns, que he o Rei Belxior,
    Outros, que he S. Benedito.

    Tomou a Benção Papal;
    E teve tanto poder,
    Que sem o Papa o saber,
    Ficou feiro Cardeal;
    Voltou para Portugal
    Já Cardeal Protector;
    Achou cá pouco favor;
    E zombão-lhe do Capello,
    Por ter mui crespo o cabello,
    E ser muito bassa a côr.

    Erra o Vulgo os passos seus;
    He hum cego, e maldizente;
    A côr he méro accidente,
    Todos são filhos de Deos.
    Porém para os lucros teus
    O Capello te faz mal;
    No S. João, e Natal
    Terias gôrda guedelha,
    Armado de faca velha,
    Pincel, e pote de cal.

    Padre, vai-te o mundo ao pêllo;
    E c'o a lingua maldizente
    Te vai cortando igualmente
    As Poezias, e o Capello;
    Porém eu, que sou singelo,
    E meus contrarios ameigo,
    Te affirmo, piedozo, e meigo,
    Que se não tens, por teu mal,
    Em Roma o de Cardeal,
    Tens no Parnazo o de Leigo.

    Deves voltar outra vez,
    E dizem que nisso fallas;
    Mas pégão-se pelas sallas
    Teus molles tardîos pés.
    Se ajuda de custo vês,[24]
    Fazes-te côxo, e ronceiro;
    Meu Padre, és muito matreiro,
    Já todos estão de acôrdo;
    E sem te verem a bórdo,
    Não pões a mão no dinheiro.

    [Nota de rodapé 24: Pedia huma ajuda de custo.]

    Tua saude se estraga,
    Mas teu Medico condemno;
    Meu amigo, o teu veneno
    Não se cura com triaga;
    Para a tua antiga chaga
    Medicina impropria he esta;
    Muda, pois vês que não presta;
    Grita c'os olhos em braza,
    Que te fechem n'uma caza,
    E que te sangrem na testa.

    De balde em Lisboa gritas,
    Attestando a Italia inteira,
    Que regeste huma Cadeira
    Nos Claustros dos Jezuitas;
    As obras que vejo escritas
    Provão que nos tens mentido;
    Até das Ordens duvido,
    Quando as tem cabeças tontas;
    Tu, cá pelas minhas contas,
    Ès hum mulato fugido.

    Foge outra vez, se tal és,
    Qual foge apupado mono;
    Antes que venha teu dono,
    E te ponha nas Galés;
    Antes que enfeite teus pés
    Legal, sonóro fuzil;
    Não veja o patrio Brazil,
    Que os hombros do filho bello,
    Vindo buscar hum Capello,
    Só achárão hum barril.

    Dizem todos, que és fingido,
    Que ninguem louco te chame;
    Por mais que eu lhe jure, e clame,
    Que és mesmo doido varrido;
    Dizem que estás conhecido,
    E que o fazes por estudo;
    Em tal cazo prompto acudo,
    E de outro lado te ataco;
    Se não és doido, és velhaco,
    E talvez que sejas tudo.

    Mas já quem póde me ordena,
    Que armas ponhamos em terra;
    Apôs sanguinoza guerra,
    Alce a frente a Paz serena;
    Sobre essa pelle morena
    Em paz teu Capello ajusta;
    Assento que he coiza justa
    Seguires methodo novo,
    E não dares gosto ao Povo,
    Que quer rir á tua custa.

    Não te finge falso agrado
    Meu semblante contrafeito;
    Não encobre honrado peito
    Coração refalseado;
    Se me julgas disfarçado,
    Alta injustiça me fazes;
    Eu te juro eternas pazes;
    E se falto aos votos meus,
    Ah Padre, permitta Deos
    Que eu sempre ensine rapazes.

    E tu, que sem estes sustos
    Vives cheio de alegrias,
    Serenos, doirados dias,
    Aos pés de teus Reis Augustos;
    Tu, que por titulos justos
    Te chamas o novo Horacio,
    Quando entrares em Palacio
    Conserva de mim lembranças,
    Porque tenho as esperanças
    Postas em ti, e no _Estacio_.[25]

    [Nota de rodapé 25: Bobo célebre.]

    MOTE.

    _Hum suspiro de repente,
    Hum certo mudar de côr,
    São evidentes sinaes
    De que o peito occulta amor_.

    GLOZA.

    Debalde as penas, e os gostos
    Disfarçais, loucos Amantes,
    Se os attentos circumstantes
    Tem em vós os olhos postos;
    De que servem falsos rostos,
    Se o coração desmente
    N'um instante infelizmente
    Sabe perdido o longo estudo,
    Pois vem destruir-vos tudo
    Hum suspiro de repente.

    Nada faz cautella, ou medo
    N'alma que devéras ama;
    Esta turbulenta chamma
    Não sabe arder em segredo;
    Sobe ao rosto, ou tarde, ou sedo,
    Do escondido fogo o ardor;
    Basta a declarar a dor,
    Vãmente n'alma guardada,
    Huma palavra truncada,
    Hum certo mudar de côr.

    Duro amor, que coração
    Saberá nunca occultar-te?
    Que vai fazer força, ou arte,
    Onde as tuas settas vão?
    Cegos Amantes, em vão
    O vivo fogo abafais;
    Esses descuidados ais,
    Que sem tino ao vento dáveis,
    São provas incontestaveis,
    São evidentes sinais.

    De que serve estar fallando
    Sizudos, e comedidos,
    Se esses olhos insoffridos
    Vos estão sempre entregando?
    Alçados de quando em quando
    Vão dizendo a occulta dôr;
    Abaixallos, he peior;
    Que essas vistas contrafeitas
    Dão ás vezes mais suspeitas,
    De que o peito occulta amor.

    _Mandando huma gallinha a huma Pretinha bonita, que gostava de brincar
    com ellas_.

    As tuas fulas mãoszinhas,
    Que a fome já não descarna,
    E que de crearem sarna
    Passão a crear gallinhas;
    Acceitem creações minhas,
    Que eu a outros fins guardava;
    Senhora com côr de escrava,
    Alta estrella, que em ti brilha,
    Manda que se dê á Filha
    Aquillo que o Pai furtava.

    CANTIGAS

    _Feitas nas caldas com o Estribilho_.

    _Olhos meus, cansados olhos,
    O vosso officio he chorar_.

    Nas Caldas, nas tristes Caldas
    Alegria vim buscar;
    Quiz de noíte ver o Sol,
    Quiz achar fogo no mar.
    _Olhos meus, etc._

    Que importa mudar de terra,
    E baldados passos dar,
    Se a toda a parte a que os volto
    Vai comigo o meu pezar.
    _Olhos meus, etc._

    Vejo pálidos doentes
    Pela Copa passear,
    Oiço de antigas molestias
    Tristes effeitos contar.
    _Olhos meus, etc._

    Vejo nas férvidas aguas
    Mirrados corpos banhar,
    E de balde aos surdos Ceos
    Convulsos braços alçar.
    _Olhos meus, etc._

    Vejo de perdido pranto
    Tristes ais acompanhar,
    Com as lagrimas alhêas
    Vou as minhas misturar.
    _Olhos meus, etc._

    Que importa ver Ninfas bellas,
    Se accrescentão meu pezar?
    Gostão de attrahir os olhos,
    E as almas tyrannlzar.
    _Olhos meus, etc._

    Ao som de feridas cordas
    Dão doces vozes ao ar,
    Quaes enganozas Serêas,
    Que cantão para matar.
    _Olhos meus, etc._

    Se o meu pobre coração
    Se deixa huma vez tocar,
    Com escarneos, com rizadas,
    Meu pranto vejo pagar.
    _Olhos meus, etc._

    Fartai-vos, pois, olhos meus
    De lagrimas derramar;
    Vós nascestes para tristes,
    E escolhestes o lugar.
    _Olhos meus, etc._

    _A hum Leigo, que era vesgo, e que nunca teve fastio; e a quem por acazo
    tocou na cabeça a ponta de hum espadim_.

    Ferio sacrilega espada,
    Alçada por mão traidora,
    Cabeça, que sempre fôra
    Té aos Barbeiros vedada;
    D'entre a grenha profanada
    Corre o sangue á terra dura;
    Tosquiou-se a matadura;
    E o casco rebelde a ordens,
    Precizou destas desordens
    Para ter Prima Tonsura.

    Feroz Soldado imprudente,
    Que nova espada esgrimio,
    Foi o ímpio que ferio
    Esta victima innocente;
    A quem do golpe insolente
    O motivo lhe procura,
    Diz que fez compra segura;
    Pois duvidozo na escolha,
    Quiz ver que tal era a folha,
    Cortando por coiza dura.

    Homem de tenção damnada,
    Só tu conseguiste o fim
    De entrar o teu espadim
    Aonde não entra nada;
    Da repentina estocada
    Cahe o Padre desmaiado;
    Mas quando recuperado
    A ti os olhos volveo,
    Sabes o que te valeo?
    Foi teres já almoçado.

    Todo o Mundo te pragueja,
    Porque em detestavel guerra
    Hias deitando por terra
    Esta columna da Igreja;
    Mas se triunfaste a inveja,
    E o Padre morresse então,
    Dize, ó ímpío coração,
    Que tanto em furor te atiças,
    Quem ajudaria ás Missas?
    Quem tocaria ao Sermão?

    Quem nos daria a certeza
    De haver outro homem sizudo,
    Que pudesse comer tudo
    Ouanto se puzer na meza?
    Da próvida Natureza
    Quem havia as Leis seguir!
    Observante em digerir
    Qual outro havia saber
    Depois de acordar, comer,
    Depois de comer, dormir!

    Que importa, ó cruel Soldado,
    Para desculpar teu erro
    Ter sido o teu ímpio ferro
    Já pela Patria arrancado?
    Que importa que em campo armado
    Junto a si Lippe te veja,
    Que importa que o Mundo seja
    Das tuas acções o abono,
    Se a mão que defende o Throno,
    Ataca depois a Igreja?

    E tu, que segues os trilhos,
    Que S. Francisco te fez,
    E pões os teus gordos pés
    Sobre os seus santos ladrilhos;
    Pois que a seus devotos filhos
    Guarda no Ceo largas pagas,
    Nos olhos he bem que o tragas,
    E de modélo não mudes;
    E pois não he nas virtudes,
    Que o seja ao menos nas chagas.

    _Estando o A. doente, e mandando pedir algum prato á meza, aonde jantava
    o sobredito Leigo_.

    Hum estomago cansado,
    De cuja antiga ruina
    Tem sido cauzas iguaes
    A molestia, e a Medicina;

    Que tendo em si dos tres Reinos
    As perigozas heranças,
    Só não bebeo das Boticas
    Os S. Migueis, e as balanças;

    Hum estomago sem forcas,
    E ás leis geraes ínfiel,
    Que não trabalha em diamante,
    Como o de Fr. Manoel;

    Que não tem, como este Padre,
    Tanta fome obediente;
    E olha já para a gallinha
    Como elle olha para a gente;

    Para emendar semrazões,
    Que faz Arte, e Natureza,
    Vai, fugido das Boticas,
    Acoitar-se á vossa meza;

    Mil vezes por outra cauza
    Teve a honra de bussalla;
    Indo então por matar fome,
    Vai hoje por despertalla;

    Perdiz, ou branda vitella,
    São deste remedio o nome;
    Da vossa esplendida meza
    Seja elogio huma fome;

    E porque o Padre o não saiba,
    Será a melhor cautella,
    Mandar tirar a iguaria
    Quando elle olhar para ella.

    _Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez, de Ponte de Lima,
    Ministro de Estado, pedindo-lhe o A. licença para ir ao remedio de
    banhos, na occazião em que o mesmo Senhor se tinha encarregado de lhe
    promever a mercê de se imprimirem as suas Obras na Officina Regia_.

    CARTA.

    Senhor, entreguei meu livro;
    Foi esse filho mesquinho
    Co'a esteril benção do Pai
    Lançar-se aos pés do Padrinho;

    Dei-lhe em dote inuteis rimas,
    Dei-lhe vazio thezoiro;
    Mas vossas mãos milagrozas
    Convertem nadas em oiro;

    Do mal fadado Parnazo
    Quebrareis o injusto encanto;
    Nem sempre seus verdes loiros
    Serão regados com pranto;

    Impertinentes crédores
    Largar-me-hão em fim a rua;
    O meu cégo abrindo a bocca
    Lhes ha de fechar a sua;

    Até apertados genios
    Sem vontade comprarão;
    Farão focinho á Poezia,
    E obzequios á Protecçao;

    Mas, Senhor, de livro basta;
    He ínsulto ás mãos em que anda
    Passar de ser o meu livro
    A ser a minha demanda;

    Foi esse meu rogo ouvido;
    Deixai que para outro mude;
    Tem objecto inda mais alto,
    He mais do que oiro, he saude;

    Contra o mal que me tem feito
    Raivozos Caniculares
    Me off-rece a fresca Ericeira
    Seus claros, sádios mares;

    Sei que nestas ondas bravas
    O banho hum risco teria;
    Posso começallo alli,
    E ir acaballo á Bahia;

    Bramindo na vasta praia
    Enrolada vaga forte,
    Dentro do pérfido seio
    Me traz a saûde, e a morte;

    Mas com protector penedo,
    E cauto Marujo amigo,
    O impune, tónico susto,
    Tórna em remedio o perigo;

    Falta só licença vossa,
    E juro, Senhor, que vem;
    Como podeis Vós negalla,
    Se sabeis que ella he hum bem?

    He o Pindo o meu thezoiro,
    O Oceâno he meu Jordão;
    D'ambos recebo mil bens,
    Mas todos por vossa mão;

    Eu a beijo; ella receba
    Gratidão devida, e pura
    Em tributo que lhe paga
    O Creado, e a Creatura.[26]

    [Nota de rodapé 26: Tinha nomeado o A. Official da Secretaria.]

    _Ao Excellentissimo Senhor D. Lourenço de Lima, tendo promettido ao A.
    que quando chegasse das Caldas, havia lembrar a mercê de se imprimirem
    estas Obras_.

    CARTA.

    Ora do cume dos Montes,
    Ora em suas verdes fraldas,
    Hia estender os meus olhos
    Na longa estrada das Caldas;

    Sobre escumozos cavallos
    Trotando empoada sege,
    Disse quem fez os meus versos
    =Ahi vem quem os protege;=

    Alçando-me, hia a dizer-vos
    =Senhor, chegou o meu prazo;
    Honrastes hoje outros Montes,
    Honrai agora o Parnazo;

    Promettestes fazer ferteis
    Seus estereis Mirto, e Loiro;
    Promettestes que a Hypocrene
    Levaria arêas de oiro;

    Sua clara, inutil vêa
    Réga chão, que não se lavra;
    Vinde fazello fecundo,
    Vinde cumprir-me a palavra.=

    Mas, Senhor, não éreis Vós;
    Era hum Casquilho, e do Povo;
    Tornei a pegar nas Contas,
    Tomei a esperar de novo;

    Mil votos ao Céo mandava
    Este humilde orador fraco,
    Que vos não vissem Carreiros,[27]
    Nem os ladrões do Tabaco;[28]

    [Nota de rodapé 27: Allude ás Decimas da Enchára.]

    [Nota de rodapé 28: Furto célebre feito naquella estrada.]

    Então carrancuda Noite
    Me enxotou co'as negras azas;
    E em honra dos taes Amigos
    Vim como Gato por brazas;

    Sei, em fim, que já chegastes
    Chamou por Vós minha dôr,
    Venha o Illustre Conselheiro
    Honrar-se em Procurador;

    Fazer bem, he mór grandeza;
    Deo-vos, tambem esta, o Pai;
    Vós ambos d'entre os meus loiros
    Cruas silvas arrancai;

    Com piedoza Geografia
    As Paternas mãos benignas,
    Emendando ingratos Mappas,
    Ponhão o Pindo nas Minas;

    O Impressor gosta de Versos;
    Quer que os meus públicos andem;
    Mas he hum tanto acanhado,
    Não imprime sem que o mandem;

    Elle perdoa o contagio;
    Pegai-lhe a minha doença;
    Só deixarei de gemer
    Em gemendo a sua Imprensa;

    Assigne, pois, meu Avizo,
    Pia, obedecida mão;
    Mas não cuideis que com isso
    Dais férias á protecção;

    O mais ávido Leitor,
    Das Quintilhas pregoeiro,
    Ha de achallas insoffriveis
    Em lhe custando dinheiro;

    E só em nojoza Tenda
    De Braguez Chatim mesquinho
    Terão sahida os meus Versos,
    Embrulhando o seu toicinho;

    Só rapazes acharão
    Minha Muza doce, e meiga;
    Não porque tenha Poezia,
    Mas porque teve manteiga;

    Mettei, pois, Senhor, em brios
    Ricos peitos avarentos;
    Dizei, que comprem partidas,
    Que he honra honrar os talentos;

    Que serão, comigo, eternos
    Se me evitarem o mal
    De ir ao Templo da Memoria
    Pela porta do Hospital;

    E então da escondida burra
    Ouvirá a surda aldraba
    Não as vozes da Poezia,
    Mas a voz de quem lha gaba;

    Indo abrindo, juraráõ
    A duas Artes odio, e medo;
    A' da Guerra, em alta voz;
    A' da Poezia, em segredo.

    Entretanto ao digno Pai
    Pedi que me faça Author;
    Sejão públicos no Mundo
    Meus versos, e o seu favor;

    De Limas na honroza historia
    Não serão titulos falsos
    Fazer que as augustas Artes
    Não marchem cos'pés descalços;

    E Vós, firme Protector,
    Fazei que por taes favores
    Vamos beijar-vos a Mão,
    Eu, e os meus dois mil Credores.

    _Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde dos Arcos, sobre o
    mesmo assumpto_.

    CARTA.

    Bateu aos vossos Portaes
    Hum morador do outro Pólo;[29]
    Veio ao Templo de Minerva
    Dar hum recado de Apollo;

    [Nota de rodapé 29: Morava muito distante.]

    Vós sois dos seus obrigados,
    Bebeis seu licôr divino;
    Manda que lembreis na Roza[30]
    O esquecido Tolentino;

    [Nota de rodapé 30: Sitio, aonde morava o Ministro de Estado respectivo.]

    Sei que alli meu pobre livro
    Altos Protectores tem;
    Mas agora só se falla
    Nesta magica _Dutein_;[31]

    [Nota de rodapé 31: Dançarina célebre.]

    Apollo não troca as Artes;
    Mas vendo a Artifice, infia;
    Recêa que com taes braços
    A Dança affaste a Poezia;

    Tambem sois réo; mas bem póde
    A Mágia dos passos seus
    Encantar os vossos olhos,
    Sem fazer chorar os meus.

    _Ao Excellentissimo Senhor D. Fernando de Lima, sobre o mesmo assumpto_.

    CARTA.

    Forte co'a vossa promessa
    Dura voz se vai alçar;
    Não vem como das mais vezes,
    Não vem pedir, vem ralhar;

    Não he de esteril rabugem
    Raiva inutil, que em mim lavra;
    Venho brigar, e vencer-vos,
    Minha arma he vossa palavra;

    São Leis os priscos rifões;
    Na mão a Lei me mettestes;
    Sei que a ricos não deveis,
    Mas a pobre promettestes;

    Promettestes, que huma Imprensa
    Faria hum faminto farto;
    Meu livro, e as vossas promessas
    Inda estão no vosso Quarto;

    Sei que a vossa Illustre Caza
    He das que honrão Portugal;
    Mas eu quero outra melhor,
    Quero a Caza Manescal;[32]

    [Nota de rodapé 32: Administrador da Imprensa Regia.]

    Reis de Hespanha a vossa honrárão,
    E eu espero o mesmo delle;
    Fizerão-vos _Ricos Homens_,
    O mesmo me fará elle;

    Vós sois Protector das Artes,
    E dahi meu mal viria;
    Talvez que pela da Dança
    Vos esqueça a da _Poezia_;

    Por _Dutein_ esquece tudo;
    Estes grupos tão gabados,
    Não digo que são os vossos,
    Porém são os meus peccados;

    As tres Graças a fadárão,
    Mas seus dons funestos são;
    Tira ás Deozas a maçã,[33]
    E a hum triste Poeta o pão;

    [Nota de rodapé 33: Fazia a figura de Venus na Pantomima, em que se
    reprezentava a fabula de Páris, julgando-lhe o pomo de oiro, destinado á
    mais formoza.]

    Se a vosso Pai vou queixar-me,
    Juro que acceita a querella;
    Juro, que vos quer os olhos
    Antes em mim, do que nella;

    Mas, Senhor, deixando graças
    De poetica licença,
    Este brinco quer dizer
    Que apresseis a tal Imprensa;

    Até por curiozidade
    Forjai-me este mialheiro;
    Só para vermos que effeito
    Faz em mim o ter dinheiro;

    Talvez que altiva luneta
    Nos piscos olhos traidores
    Não conheça huns tantos homens,
    Principalmente os Crédores;

    Talvez que o novel Gallego,
    Que soltas bragas trazia,
    Entaipado em pantalonas
    Dê ao Amo senhoria;

    Talvez que inventando heranças
    Bisneto de grão Senhor,
    A falso espectro agradeça
    O que devo ao Protector;

    Senhor, se o oiro tal póde;
    Levantai da empreza a mão;
    Antes réo do meu tendeiro,
    Do que réo de ingratidão

    Mas inda agora he que eu vejo,
    Quanto me fui desmentindo;
    Disse que vinha ralhar,
    Por fim acho-me pedindo;

    Não pude acabar a farça;
    Costume custa a vencer;
    Comvosco a minha linguagem
    He pedir, e agradecer.

    _A' Illustrissima, e Excelentissima Senhora Dona Catharina Micaella de
    Souza, tendo o Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Luiz Pinto de
    Souza expedido Avizo para se imprimirem as Obras do Author na Officina
    Regia_.

    CARTA.

    Senhora, Apollo bem sabe
    Que sois digna companhia
    De quem em doirados annos
    Lhe honrava a doce Poezia;

    Inda de viçozo loiro
    Lhe guarda a verde coroa;
    Fez-lhe falta em sua Corte,
    Mas a bem de outra o perdoa;

    Manda, pois lhe estais ao lado,
    Canteis polidos louvores
    A quem em honra ao Parnazo
    Fez versos, e faz favores;

    Vio o prazer generozo
    Com que acabou a tenção,
    Que crua Parca arrancára
    De outra bemfeitora Mão;[34]

    [Nota de rodapé 34: O Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de
    Ponte de Lima, Ministro de Estado, tinha obtido a mercê de se imprimirem
    estes Versos a beneficio do A. cujo Avizo não chegou a assignar por seu
    repentino falecimento.]

    Vio, que apressou seus negocios
    Perante quem todos rege;
    E que amigo do seu Monte,
    Ora o sóbe, ora o protege;

    Grato ao grande beneficio
    Vos envia o estilo, e a lyra;
    Manda-vos cantar-lhe os hymnos,
    Que lhe traja, e vos inspira;

    Diz que esta empreza vos toca,
    E que não admitte escuzas;
    Que favor feito ao Parnazo
    Hão de agradecello as Muzas;

    Pulsai a lyra, enfreai
    Bravos ventos rugidores;
    Cantai agradecimentos
    A quem cantastes amores;

    Em má honra a longas cans
    Desta empreza escuzo fico;
    Fechou-me Apollo a sua Arte,
    E quer que aprenda a de rico;

    Dura, enganoza sciencia!
    Incómmoda, tumultuaria!
    Muito mais a quem andou
    Sempre na escóla contraria;

    Já em socegado somno
    Não vejo doces ficções;
    Inda a obra está na Imprensa
    E já sonho com ladrões;

    Sonho, que escalada a porta,
    Medonhas caras sem dó,
    Vem furtar a Tolentino
    O que elle furta a _Boileau_;

    Co'esse metal turbulento
    Já d'antemão me malquisto;
    Que me não fará a posse,
    Se a esperança já faz isto?

    Sei quem poz a ultima força
    Ao punhal, de que me dôo;
    Mas, em fim, nada de raivas,
    Dizei-lhe que eu lhe perdôo;

    E que he tal nesta virtude
    Meu conforme coração,
    Que não só perdoo o mal,
    Mas beijo por elle a Mão.

    _Offerecendo alguns dos Versos, que vão neste Livro ao lllustrissimo,
    Excellentissimo Senhor Marquez de Angeja, Ministro de Estado, perante o
    qual se pertendeo desabonar a Poezia, e os Poetas_.

    ILL.^MO E EXC.^MO SENHOR.

    V. Excellencia se digne de não julgar atrevimento ir eu aprezentar hum
    Livro de inuteis Versos naquellas mesmas mãos, em que se apresentão
    Papeis, que decidem dos interesses do Estado, e dos destinos dos homens.
    A Poezia, Senhor, só he odioza a quem nella não he instruido. V.
    Excellencia sabe a origem, e os progressos desta Arte divina; sabe que
    de seu berço foi consagrada ao uzo da Religião, e da Politica; que por
    meio della o homem natural, que nutria vagamente entre fragas, e
    penedîas hum coração tão contrario ao do homem civil, conheceo a
    humanidade, e tomou sobre seus hombros o jugo da Razão, e da Justiça.

    Que os primeiros Legisladores escrevião as Leis em verso, para que a
    harmonia lhes aplanasse, ou encubrisse aquelles passos escabrozos, que
    ferem, e revoltão a nossa natureza, sempre amiga da liberdade; que os
    Filosofos, e Sacerdotes do Egypto ensinavão em Poezia os seus Dogmas;
    que os bons tempos dos Gregos, modélo dos Seculos de Augusto, e de Luiz
    XIV, ao mesmo passo que se alargavão os limites do seu Imperio, vírão
    levadas á ultima perfeição, de que são capazes as obras dos homens, a
    Lirica, a Epica, e a Poezia de theatro.

    V. Excellencia sabe, que os Poetas de Augusto, mais do que as Victorias
    de Farsalia, fizerão chamar-se o seu seculo, o seculo de Oiro: que a
    passagem do Rheno, e a conquista da Hollanda jazerião no esquecimento,
    com o nome de Luiz XIV, se Corneille, e os que o seguírão, não mandassem
    ás extremidades do Mundo a fama de suas Victorias; que ainda hoje a
    França conta, com prazer, entre as acções daquelle Monarca, a protecção,
    e acolhimento, que achárão ante elle as Artes, principalmente a da
    Poezia; e que as ultimas palavras do grande Corneille moribundo, forão
    agradecimentos ás liberalidades de Luiz XIV.

    V. Excellencia sabe, que a Augusta Theologia da Escritura nos instrue
    muitas vezes dos Attributos de Deos por imagens inteiramente poeticas;
    que os Profetas, unindo maravilhosamente o simples ao sublime, fallão da
    existencia, e da Omnipotencia de Deos, com a locução, e com as figuras
    da mais alta Poezia.

    Mas, SENHOR, eu insensivelmente vou fazendo de huma Dedicatoria huma
    Dissertação. V. Excellencia se digne attribuir este erro de methodo á
    desordem de animo, em que me põe a ingrata sem-razão de ver os Poetas
    desfavorecidos de alguns homens, talvez sem mais crime, que serem
    favorecidos das Muzas.

    V. Excellencia, em cuja alma raia a razão illustrada, limpa das sombras
    do abuzo, não faz cahir sobre o Poeta os defeitos, que são do homem: a
    inconstancia de genio, o desconcerto das acções, a filozofia mal
    entendida, que caminha a passo cheio á devassidão de costumes, são os
    crimes de que o vulgo errado accuza indifferentemente todos os Poetas;
    mas se vemos que estas más qualidades brotão no coração de tantos
    homens, que não são Poetas, para que hão de elles sós levar o ferrete,
    que a Natureza corrupta põe indistinctamente sobre todos os que não
    deixão guiar-se da Religião, e da honra? Sempre houve Poetas, bem, e mal
    morigerados, assim como o resto dos outros homens: e porque lei barbara
    ha de pagar a Poezia as fraquezas da humanidade? Porque falsa Logica
    havemos inferir, que o commercio das Muzas, a suave lição dos Antigos,
    em que vemos pintada a Natureza, e explicada docemente a boa filozofia,
    ha de affogar no coração do Poeta as virtudes, que a índole, ou a
    educação talvez alli plantárão?

    V. Excellencia julga mais rectamente; sabe, que em todos os ramos da
    vida Christã, e Civil tem havido Poetas, que hum talento não exclue os
    outros; que Richilieu fazia Versos, e foi grande Ministro; que entre os
    Poetas, como entre todos os mais homens, huns são venturozos, outros
    desgraçados; huns chamados aos grandes Empregos, ontros inteiramente
    esquecidos; que se houve hum Camões, e hum Bernardes, cuja memoria
    posthuma foi a unica paga do seu merecimento; tambem, houve hum Sá e
    Menezes levantado a Camareiro Mór dos Senhores Reis D. João o III, e D.
    Sebastião; hum Pedro de Andrade Caminha, Camareiro Mór do Infante D.
    Duarte; hum Garcia de Rezende muito estimado do Senhor D. João o II;
    hum Sá de Miranda feito Commendador pelo Senhor D. João o III; e para
    não fazer hum catalogo quazi infinito, houve o grande Ferreira, e
    Gabriel Pereira de Castro, os quaes, cada hum no gosto do seu Seculo,
    misturando Bartholo, e Accureio com Homero, e com Virgilio, forão tão
    estimados pelos Versos, que fazião no seu gabinete, como pelas Sentenças
    que lançárão nos diversos Tribunaes a que forão promovidos.

    O conhecimento da Historia Portugueza, huma das lições, que recreão o
    espirito de V. Excellencia, talvez concorra junto com o gosto, que tem
    pelas Artes, a que, seguindo o exemplo de tantos Reis, se não despreze
    de ouvir os Poetas: eu sou huma prova viva de que V. Excellencia os
    ouve, e os protege: nos tempos da antiga Roma Augusto fazia o mesmo, nos
    tempos da moderna, lemos, que Benedicto XIV. não se envergonhou de fazer
    a apologia aos Versos de hum Poeta Francez com aquella mesma mão, de que
    pendião as Chaves do Ceo.

    Esta justiça, e bom acolhimento, que V. Excellencia faz á Poezia, foi
    quem me esforçou a pôr nas respeitaveis mãos de V. Excellencia hum Livro
    de Versos; o terem alguns agradado a V. Excellencia, faz o seu unico
    merecimento: hum tal voto fez com que eu julgasse bem delles, e os
    levantasse á grande honra de serem offerecidos a V. Excellencia. Não me
    acovardão alguns assumptos joviaes, que nelles trato; V. Excellencia
    sabe, que se a Tragedia castiga os costumes pelos grandes afectos da
    compaixão, e do terror, tambem a Sátyra os castiga pelo meio do rizo; e
    este trabalho de minha penna, com que eu entretinha os meus cançados
    dias, passará a ser o mais feliz, se tiver a fortuna de divertir alguns
    instantes a V. Excellencia, para que com mais força torne depois a
    metter mão nos importantes Negocios, de que os Reis, prevenindo os
    dezejos do Público, se dignárão encarregar a V. Excellencia: isto
    dezeja, Senhor

    DE V. Excellencia

    O Criado mais humilde, e mais venerador.

    _Ao mesmo Senhor no dia dos seus Annos_.

    ILL.^MO E EXC.^MO SENHOR.

    Os louvores nem sempre são filhos da lizonja, nem sempre são a linguagem
    baixa, em que os infelices fazem o seu commercio com os Poderozos;
    quando assentão em merecimento sólido, são huma paga devida ás Virtudes;
    o Ceo as dá; os Reis devem-lhe os premios; os outros homens os louvores.

    Hoje, Ill.^mo e Exc.^mo Senhor, nos apontão os Fastos de Portugal o
    feliz Nascimento de V. Excellencia; o costume consagra com Elogios estes
    dias solemnes; a Patria recompensa assim os Annos, que a ella se derão;
    e se em hum dia destinado aos obsequios, eu fosse hum méro espectador,
    hum assistente ociozo, o silencio, tantas vezes virtude, seria agora hum
    crime, seria huma prova da minha ingratidão.

    A força do agradecimento, e a abundancia, da materia me porião na boca
    huma torrente de louvores; mas V. Excellencia põe tanto cuidado em
    merecellos, como em não querer ouvillos; temo a sua modestia; e huma
    virtude de V. Excellencia me não deixa fallar-lhe nas outras; porém ao
    menos seja-me permittido, que a minha alma se encha de complacencia,
    lembrando-se de que tres Reis elogiárão a V. Excellencia, chamando-o a
    grandes coizas; não quizerão que estes talentos jazessem debaixo da
    terra; sobre ella, e sobre os mares os fizerão luzir.

    Na flor dos annos, quando as paixões, os exemplos, a natureza abrem
    guerra viva ao coração do homem, então vio a severa Magestade do Senhor
    Rei D. João o V, que V. Excellencia tão moço nos annos, era já ancião
    no conselho, e nos costumes, queria o seu voto nos Tribunaes, e o seu
    braço nas Armadas, negros ventos, mares cavados, ferro, sangue, erão os
    leitos brandos, em que V. Excellencia hia descançar das honrozas fadigas
    da terra.

    Que direi do Augusto, Piedozo, e ainda de fresco banhado das nossas
    lagrimas, o Senhor Rei D. Jozé o I.? O merecimento, junto com a
    semelhança dos genios, e de idades, puzerão sempre a V. Excellencia ao
    lado daquelle Monarca; mandou-lhe que acceitasse novos, e importantes
    Empregos; recebeo mil provas do seu poder, e da sua familiaridade, e
    entre ellas aquella, que V. Excellencia não disse, mas que todos sabem;
    aquella de que V. Excellencia nunca poderá lembrar-se sem dôr, e sem
    gloria.

    Os Benignos, e Amaveis Soberanos, que vemos sobre o Throno, puzerão o
    Sêllo na Obra, que seus Augustos Predecessores tinhão começado;
    encarregárão a V. Excellencia dos mais importantes Negocios do Estado: a
    madureza nos conselhos, o sevéro espirito de inteireza, os Reis, a Lei,
    a utilidade pública, são os objectos, que vírão sempre na frente dos
    cuidados de V. Excellencia.

    Mas, Senhor, eu vou abuzando da bondade, com que V. Excellencia se digna
    ouvir-me: eu converto a minha falla ao Throno do Todo-poderozo, que tem
    na sua mão as vidas, e os successos dos homens; alli peço ardentemente,
    que dilate, que prospére tão bem cultivados annos; que conserve em V.
    Excellencia o bom Pai, o Vassallo zelozo, o grande Ministro.

    Vós, Illustres Mortos, antigos Instituidores da Caza de Angeja, que
    trouxestes no peito o Sangue de dois Reis, não peçais conta delle;
    descançai em paz nos frios moimentos, cheios de Victorias, cheios de
    Serviços, que pagárão Deos, e os Reis por quem se fizerão. O vosso
    Herdeiro he digno de Vós; caminha sobre as vossas pizadas; herdou os
    vossos Titulos, e as vossas Virtudes.

    E Vós, Moços Illustres, seus dignos Filhos, cujos costumes, frutos do
    exemplo, são alto elogio da mão, que vos educa, já os Reis vos chamão;
    querem nos Filhos perpetuar o Pai. Os largos, e felices annos, que o Ceo
    lhe concederá de vida, serão a vossa escola. Servi os Reis, e a Patria;
    sacrificai-lhe os vossos annos, e as vossas fadigas; sede affaveis,
    justos, inteiros; sede como elle.

    FIM.

    INDICE

    Do que contém este II. Tomo.

    QUINTILHAS.

    _Ao Excellentissimo Senhor Conde de S. Lourenço_.
    _Ao Excellentissimo Senhor Marquez de Lavradio_.

    QUARTETOS.

    _A' Excelentissima Senhora Condeça de Tarouca_.
    _No dia dos Annos da Excellentissima Senhora D. Maria de Noronha_.
    _A' Excellentissima Senhora Marqueza de Alegrete, nascendo-lhe huma
    filha_.
    _Na occasião em que o A. hia ver o Varatojo_.
    _Resposta a huma Carta, que em boa Poezia citava ao A. por huns Versos,
    que tinha promettido_.
    _Offerecendo hum Perum em huma caza, aonde todos os Domingos davão ao A.
    este prato_.
    _A huma Preta, que pertendia que a obzequiassem_.

    CARTAS.

    _A hum Amigo, louvando-lhe o estado de cazado_.
    _Ao Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde D. Jozé de Noronha, hoje
    Marquez de Angeja_.
    _Ao mesmo Senhor, no dia dos seus Annos, estando o A. doente_.
    _Tendo mandado huma Senhora ao A. Vinho da Madeira com huma Carta em boa
    Poezia_.
    _Desculpando-se o A. de não ir a huns Annos_.
    _Aconselhando hum Cabelleireiro, que não continuasse a fazer versos_ .
    _Pedindo-se ao A. huma Gloza_.
    _Agradecendo o A. alguns pratos, que lhe despertárão a vontade de comer_.
    _Sobre o mesmo Assumpto_.
    _Ao Senhor Dezembargador Sebastião Antonio Sobral_.
    _A huma Senhora, que em bons Versos pedio ao A. a Sátyra do Velho_.
    _Ao Senhor Deputado Domingos Pires Monteiro Bandeira_.
    _A hum Camarista_.

    DECIMAS.

    _A' Excellentissima Senhora D. Catharina Micaella de Souza, tendo feito
    a honra ao A. de lhe offerecer huma Vestia de Setim_.
    _Ao Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde, hoje Marquez de Angeja_.
    _No dia dos Annos do mesmo Senhor_.
    _Sahindo por sortes Compadre de huma Senhora da primeira Grandeza_.
    _Fazendo Annos o Excellentissimo Senhor Marquez de Angeja_.
    _Ao mesmo Senhor_.
    _Ao mesmo Senhor_.
    _Ao mesmo Senhor_.
    _Ao Excellentissimo Senhor Marquez de Marialva_.
    _No dia dos Annos de hum Menino_.
    _Na despedida de hum Ministro, que partia levando seus filhos_.
    _A hum Fidalgo, que pedia para o A. hum lugar na Secretaria, na occazião
    em que elle pertendia o seu proprio despacho_.
    _A hum Padre, que dizia ter sido Mestre de Rhetorica, e estava eleito
    Cardeal_.
    _Mote: Hum suspiro de repente_.
    _Mandando huma galinha a huma Pretinha bonita_.
    _Cantigas feitas nas Caldas_.
    _A hum Leigo, que era vesgo_.
    _Estando o A. doente, e mandando pedir algum prato á meza, onde jantava
    o sobredito Leigo_.
    _Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Ponte de Lima,
    Ministro de Estado, pedindo-lhe o A. licença para ir ao remedio de
    banhos_.
    _Ao Excellentissimo Senhor D. Lourenço de Lima_.
    _Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde dos Arcos, sobre o
    mesmo assumpto_.
    _Ao Excellentissimo Senhor D. Fernando de Lima_.
    _A' Illustrissima, e Excellentissima Senhora Dona Catharina Micaela de
    Souza, tendo o Illustrissimo, e Excelentissimo Senhor Luiz Pinto de
    Souza expedido Avizo para se imprimirem as Obras do A. na Officina
    Regia_.

    PROZAS.

    _Ao Excellentissimo Senhor Marquez de Angeja, offerecendo alguns dos
    Versos, que vão neste Livro_.
    _Ao mesmo Senhor no dia dos seus Annos_.

  • O Mandarim

    O Mandarim

    Aproximadamente 20.685 palavras.

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    EÇA DE QUEIROZ

    O MANDARIM

    LIVRARIA INTERNACIONAL

    DE

    ERNESTO CHARDRON, EDITOR.

    Porto e Braga

    1880

    O MANDARIM

    PROLOGO

    1.^o AMIGO (_bebendo Cognac e soda, debaixo d'arvores, n'um terraço, á
    beira d'agua_)

    Camarada, por estes calores do estio que embotam a ponta da sagacidade,
    repousemos do aspero estudo da Realidade humana… Partamos para os
    campos do Sonho, vaguear por essas azuladas collinas romanticas onde se
    ergue a torre abandonada do Sobrenatural, e musgos frescos recobrem as
    ruinas do Idealismo… Façamos phantasia!…

    2.^o AMIGO

    Mas sobriamente, camarada, parcamente!… E como nas sabias e amaveis
    Allegorias da Renascença, misturando-lhe sempre uma Moralidade
    discreta…

    (COMEDIA INEDITA).

    I

    Eu chamo-me Theodoro–e fui amanuense do Ministerio do Reino.

    N'esse tempo vivia eu á travessa da Conceição n.^o 106, na casa
    d'hospedes da D. Augusta, a esplendida D. Augusta, viuva do major
    Marques. Tinha dois companheiros: o Cabrita, empregado na Administração
    do bairro central, esguio e amarello como uma tocha d'enterro; e o
    possante, o exuberante tenente Couceiro, grande tocador de viola
    franceza.

    A minha existencia era bem equilibrada e suave. Toda a semana, de mangas
    de lustrina á carteira da minha repartição, ia lançando, n'uma formosa
    letra cursiva, sobre o papel Tojal do Estado, estas phrases faceis:
    «_Ill.^{mo} e Exc.^{mo} Snr._–_Tenho a honra de communicar a V. Exc.^a…
    Tenho a honra de passar ás mãos de V. Exc.^a, Ill.^{mo} e Exc.^{mo} Snr…_»

    Aos domingos repousava: installava-me então no canapé da sala de jantar,
    de cachimbo nos dentes, e admirava a D. Augusta, que, em dias de missa,
    costumava limpar com clara d'ovo a caspa do tenente Couceiro. Esta hora,
    sobretudo no verão, era deliciosa: pelas janellas meio cerradas
    penetrava o bafo da soalheira, algum repique distante dos sinos da
    Conceição Nova, e o arrulhar das rolas na varanda; a monotona susurração
    das moscas balançava-se sobre a velha cambraia, antigo véo nupcial da
    Madame Marques, que cobria agora no aparador os pratos de cerejas
    bicaes; pouco a pouco o tenente, envolvido n'um lençol como um idolo no
    seu manto, ia adormecendo, sob a fricção molle das carinhosas mãos da D.
    Augusta; e ella, arrebitando o dedo minimo branquinho e papudo,
    sulcava-lhe as rêpas lustrosas com o pentesinho dos bichos… Eu então,
    enternecido, dizia á deleitosa senhora:

    –Ai D. Augusta, que anjo que é!

    Ella ria; chamava-me _enguiço_! Eu sorria, sem me escandalisar.
    _Enguiço_ era com effeito o nome que me davam na casa–por eu ser magro,
    entrar sempre as portas com o pé direito, tremer de ratos, ter á
    cabeceira da cama uma lithographia de Nossa Senhora das Dôres que
    pertencera á mamã, e corcovar. Infelizmente corcóvo–do muito que
    verguei o espinhaço, na Universidade, recuando como uma pêga assustada
    diante dos senhores Lentes; na repartição, dobrando a fronte ao pó
    perante os meus Directores Geraes. Esta attitude de resto convém ao
    bacharel; ella mantem a disciplina n'um Estado bem organisado; e a mim
    garantia-me a tranquillidade dos domingos, o uso d'alguma roupa branca,
    e vinte mil reis mensaes.

    Não posso negar, porém, que n'esse tempo eu era ambicioso–como o
    reconheciam sagazmente a Madame Marques e o lepido Couceiro. Não que me
    revolvesse o peito o appetite heroico de dirigir, do alto d'um throno,
    vastos rebanhos humanos; não que a minha louca alma jámais aspirasse a
    rodar pela Baixa em trem da Companhia, seguida d'um correio
    choitando;–mas pungia-me o desejo de poder jantar no Hotel Central com
    Champagne, apertar a mão mimosa de viscondessas, e, pelo menos duas
    vezes por semana, adormecer, n'um extasi mudo, sobre o seio fresco de
    Venus. Oh! moços que vos dirigieis vivamente a S. Carlos, atabafados em
    paletots caros onde alvejava a gravata de _soirée_! Oh! tipoias,
    apinhadas de andaluzas, batendo galhardamente para os touros–quantas
    vezes me fizestes suspirar! Porque a certeza de que os meus vinte mil
    reis por mez e o meu geito encolhido de enguiço me excluiam para sempre
    d'essas alegrias sociaes vinha-me então ferir o peito–como uma frecha
    que se crava n'um tronco, e fica muito tempo vibrando!

    Ainda assim, eu não me considerava sombriamente um «pária». A vida
    humilde tem doçuras: é grato, n'uma manhã de sol alegre, com o
    guardanapo ao pescoço, diante do bife de grelha, desdobrar o Diario de
    Noticias; pelas tardes de verão, nos bancos gratuitos do Passeio,
    gozam-se suavidades de idyllio; é saboroso á noite no Martinho, sorvendo
    aos goles um café, ouvir os verbosos injuriar a patria… Depois, nunca
    fui excessivamente infeliz–porque não tenho imaginação: não me
    consumia, rondando e almejando em torno de paraisos ficticios, nascidos
    da minha propria alma desejosa como nuvens da evaporação d'um lago; não
    suspirava, olhando as lucidas estrellas, por um amor á Romeo, ou por uma
    gloria social á Camors. Sou um positivo. Só aspirava ao racional, ao
    tangivel, ao que já fôra alcançado por outros no meu bairro, ao que é
    accessivel ao bacharel. E ia-me resignando, como quem a uma _table
    d'hôte_ mastiga a bucha de pão secco á espera que lhe chegue o prato
    rico da _Charlotte russe_. As felicidades haviam de vir: e para as
    apressar eu fazia tudo o que devia como portuguez e como
    constitucional:–pedia-as todas as noites a Nossa Senhora das Dôres, e
    comprava decimos da loteria.

    No entanto procurava distrahir-me. E como as circumvoluções do meu
    cerebro me não habilitavam a compôr odes, á maneira de tantos outros ao
    meu lado que se desforravam assim do tedio da profissão; como o meu
    ordenado, paga a casa e o tabaco, me não permittia um vicio–tinha
    tomado o habito discreto de comprar na feira da Ladra antigos volumes
    desirmanados, e á noite, no meu quarto, repastava-me d'essas leituras
    curiosas. Eram sempre obras de titulos ponderosos: Galera da Innocencia,
    Espelho Milagroso, Tristeza dos Mal Desherdados… O typo venerando, o
    papel amarellado com picadas de traça, a grave encadernação freiratica,
    a fitinha verde marcando a pagina–encantavam-me! Depois, aquelles
    dizeres ingenuos em letra gorda davam uma pacificação a todo o meu sêr,
    sensação comparavel á paz penetrante d'uma velha cêrca de mosteiro, na
    quebrada d'um valle, por um fim suave de tarde, ouvindo o correr d'agua
    triste…

    Uma noite, ha annos, eu começára a lêr, n'um d'esses in-folios vetustos,
    um capitulo intitulado _Brecha das Almas_; e ia cahindo n'uma
    somnolencia grata, quando este periodo singular se me destacou do tom
    neutro e apagado da pagina, com o relevo d'uma medalha d'ouro nova
    brilhando sobre um tapete escuro: copío textualmente:

    «No fundo da China existe um Mandarim mais rico que todos os reis
    de que a Fabula ou a Historia contam. D'elle nada conheces, nem o
    nome, nem o semblante, nem a sêda de que se veste. Para que tu
    herdes os seus cabedaes infindaveis, basta que toques essa
    campainha, posta a teu lado, sobre um livro. Elle soltará apenas um
    suspiro, n'esses confins da Mongolia. Será então um cadaver: e tu
    verás a teus pés mais ouro do que póde sonhar a ambição d'um avaro.
    Tu, que me lês e és um homem mortal, tocarás tu a campainha?»

    Estaquei, assombrado, diante da pagina aberta: aquella interrogação
    «homem mortal, tocarás tu a campainha?» parecia-me facêta, picaresca, e
    todavia perturbava-me prodigiosamente. Quiz lêr mais; mas as linhas
    fugiam, ondeando como cobras assustadas, e no vazio que deixavam, d'uma
    lividez de pergaminho, lá ficava, rebrilhando em negro, a interpellação
    estranha–«tocarás tu a compainha?»

    Se o volume fosse d'uma honesta edição Michel-Levy, de capa amarella,
    eu, que por fim não me achava perdido n'uma floresta de ballada allemã,
    e podia da minha sacada vêr branquejar á luz do gaz o correame da
    patrulha–teria simplesmente fechado o livro, e estava dissipada a
    allucinação nervosa. Mas aquelle sombrio in-folio parecia estalar magia;
    cada letra affectava a inquietadora configuração d'esses signaes da
    velha cabala, que encerram um attributo fatidico; as virgulas tinham o
    retorcido petulante de rabos de diabinhos, entrevistos n'uma alvura de
    luar; no _ponto d'interrogação_ final eu via o pavoroso gancho com que o
    Tentador vai fisgando as almas que adormeceram sem se refugiar na
    inviolavel cidadella da Oração!… Uma influencia sobrenatural
    apoderando-se de mim, arrebatava-me devagar para fóra da realidade, do
    raciocinio: e no meu espirito foram-se formando duas visões–d'um lado
    um Mandarim, decrepito, morrendo sem dôr, longe, n'um kiosque chinez, a
    um _ti-li-tin_ de campainha; do outro toda uma montanha de ouro
    scintillando aos meus pés! Isto era tão nitido, que eu via os olhos
    obliquos do velho personagem embaciarem-se, como cobertos d'uma tenue
    camada de pó; e sentia o fino tinir de libras rolando juntas. E immovel,
    arripiado, cravava os olhos ardentes na campainha, pousada pacatamente
    diante de mim sobre um diccionario francez–a campainha prevista, citada
    no mirifico in-folio…

    Foi então que, do outro lado da mesa, uma voz insinuante e metallica me
    disse, no silencio:

    –Vamos, Theodoro, meu amigo, estenda a mão, toque a campainha, seja um
    forte!

    O _abat-jour_ verde da vela punha uma penumbra em redor. Ergui-o, a
    tremer. E vi, muito pacificamente sentado, um individuo corpulento, todo
    vestido de preto, de chapéo alto, com as duas mãos calçadas de luvas
    negras gravemente apoiadas ao cabo d'um guarda-chuva. Não tinha nada de
    phantastico. Parecia tão contemporaneo, tão regular, tão classe-média
    como se viesse da minha repartição…

    Toda a sua originalidade estava no rosto, sem barba, de linhas fortes e
    duras; o nariz brusco, d'um aquilino formidavel, apresentava a expressão
    rapace e atacante d'um bico d'aguia; o córte dos labios, muito firme,
    fazia-lhe como uma bocca de bronze; os olhos, ao fixar-se, assemelhavam
    dois clarões de tiro, partindo subitamente d'entre as sarças tenebrosas
    das sobrancelhas unidas; era livido–mas, aqui e além na pelle,
    corriam-lhe raiações sanguineas como n'um velho marmore phenicio.

    Veio-me á idéa de repente que tinha diante de mim o Diabo: mas logo todo
    o meu raciocinio se insurgiu resolutamente contra esta imaginação. Eu
    nunca acreditei no Diabo–como nunca acreditei em Deus. Jámais o disse
    alto, ou o escrevi nas gazetas, para não descontentar os poderes
    publicos, encarregados de manter o respeito por taes entidades: mas que
    existam estes dois personagens, velhos como a Substancia, rivaes
    bonacheirões, fazendo-se mutuamente pirraças amaveis,–um de barbas
    nevadas e tunica azul, na toilette do antigo Jove, habitando os altos
    luminosos, entre uma côrte mais complicada que a de Luiz XIV; e o outro
    enfarruscado e manhoso, ornado de cornos, vivendo nas chammas
    inferiores, n'uma imitação burgueza do pitoresco Plutão–não acredito.
    Não, não acredito! Céo e Inferno são concepções sociaes para uso da
    plebe–e eu pertenço á classe-média. Rezo, é verdade, a Nossa Senhora
    das Dôres: porque, assim como pedi o favor do senhor doutor para passar
    no meu acto; assim como, para obter os meus vinte mil reis, implorei a
    benevolencia do senhor deputado; igualmente para me subtrahir á tisica,
    á angina, á navalha de ponta, á febre que vem da sargeta, á casca de
    laranja escorregadia onde se quebra a perna, a outros males publicos,
    necessito ter uma protecção extra-humana. Ou pelo rapa-pé ou pelo
    incensador o homem prudente deve ir fazendo assim uma serie de sabias
    adulações desde a Arcada até ao Paraiso. Com um compadre no bairro, e
    uma comadre mystica nas Alturas–o destino do bacharel está seguro.

    Por isso, livre de torpes superstições, disse familiarmente ao individuo
    vestido de negro:

    –Então, realmente, aconselha-me que toque a campainha?

    Elle ergueu um pouco o chapéo, descobrindo a fronte estreita, enfeitada
    d'uma gaforinha crespa e negrejante como a do fabuloso Alcides, e
    respondeu, palavra a palavra:

    –Aqui está o seu caso, estimavel Theodoro. Vinte mil reis mensaes são
    uma vergonha social! Por outro lado, ha sobre este globo coisas
    prodigiosas: ha vinhos de Borgonha, como por exemplo o _Romanée-Conti_
    de 58 e o _Chambertin_ de 61, que custam, cada garrafa, de dez a onze
    mil reis; e quem bebe o primeiro calix, não hesitará, para beber o
    segundo, em assassinar seu pai… Fabricam-se em Paris e em Londres
    carruagens de tão suaves molas, de tão mimosos estofos, que é preferivel
    percorrer n'ellas o Campo Grande, a viajar, como os antigos deuses,
    pelos céos, sobre os fôfos coxins das nuvens… Não farei á sua
    instrucção a offensa de o informar que se mobilam hoje casas, d'um
    estylo e d'um conforto, que são ellas que realisam superiormente esse
    regalo ficticio, chamado outr'ora a «Bemaventurança». Não lhe fallarei,
    Theodoro, d'outros gozos terrestres: como, por exemplo, o Theatro do
    _Palais Royal_, o _baile Laborde_, o _Café Anglais_… Só chamarei a sua
    attenção para este facto: existem sêres que se chamam
    Mulheres–differentes d'aquelles que conhece, e que se denominam Femeas.
    Estes sêres, Theodoro, no meu tempo, a paginas 3 da Biblia, apenas
    usavam exteriormente uma _folha de vinha_. Hoje, Theodoro, é toda uma
    symphonia, todo um engenhoso e delicado poema de rendas, _baptistes_,
    setins, flôres, joias, cachemiras, gazes e velludos… Comprehende a
    satísfação inenarravel que haverá, para os cinco dedos de um christão,
    em percorrer, palpar estas maravilhas macias;–mas tambem percebe que
    não é com o troco d'uma placa honesta de cinco tostões que se pagam as
    contas d'estes cherubins… Mas ellas possuem melhor, Theodoro: são os
    cabellos côr do ouro ou côr da treva, tendo assim nas suas tranças a
    apparencia emblematica das duas grandes tentações humanas–a fome do
    metal precioso e o conhecimento do absoluto transcendente. E ainda teem
    mais: são os braços côr de marmore, d'uma frescura de lirio orvalhado;
    são os seios, sobre os quaes o grande Praxiteles modelou a sua Taça, que
    é a linha mais pura e mais ídeal da Antiguidade…. Os seios, outr'ora
    (na idéa d'esse ingenuo Ancião que os formou, que fabricou o mundo, e de
    quem uma inimizade secular me veda de pronunciar o nome), eram
    destinados á nutrição augusta da humanidade; socegue porém, Theodoro;
    hoje nenhuma maman racional os expõe a essa funcção deterioradora e
    severa; servem só para resplandecer, aninhados em rendas, ao gaz das
    _soirées_,–e para outros usos secretos. As conveniencias impedem-me de
    proseguir n'esta exposição radiosa das bellezas, que constituem o _Fatal
    Feminino_… De resto as suas pupillas já rebrilham…. Ora todas estas
    coisas, Theodoro, estão para além, infinitamente para além dos seus
    vinte mil reís por mez… Confesse, ao menos, que estas palavras teem o
    veneravel sello da verdade!…

    Eu murmurei com as faces abrasadas:

    –Teem.

    E a sua voz proseguiu, paciente e suave:

    –Que me diz a cento e cinco, ou cento e seis mil contos? Bem sei, é uma
    bagatella… Mas emfim, constituem um começo; são uma ligeira
    habilitação para conquistar a felicidade. Agora pondere estes factos: o
    Mandarim, esse Mandarim do fundo da China, está decrepito e está
    gottoso: como homem, como funccionario do celeste imperio, é mais inutil
    em Pekin e na humanidade, que um seixo na bocca d'um cão esfomeado. Mas
    a transformação da substancia existe: garanto-lh'a eu, que sei o segredo
    das coisas… Porque a terra é assim: recolhe aqui um homem apodrecido,
    e restitue-o além ao conjuncto das fórmas como vegetal viçoso. Bem póde
    ser que elle, inutil como Mandarim no Imperio do Meio, vá ser util
    n'outra terra como rosa perfumada ou saboroso repôlho. Matar, meu filho,
    é quasi sempre equilibrar as necessidades universaes. É eliminar aqui a
    excrescencia para ir além supprir a falta. Penetre-se d'estas solidas
    philosophias. Uma pobre costureira de Londres anceia por vêr florir, na
    sua trapeira, um vaso cheio de terra negra: uma flôr consolaria aquella
    desherdada; mas na disposição dos sêres, infelizmente, n'esse momento, a
    substancia que lá devia ser rosa é aqui na Baixa homem d'Estado… Vem
    então o fadista de navalha aberta, e fende o estadista; o enxurro
    leva-lhe os intestinos; enterram-no, com tipoias atraz; a materia começa
    a desorganisar-se, mistura-se á vasta evolução dos atomos–e o superfluo
    homem de governo vai alegrar, sob a fórma de amor perfeito, a agua
    furtada da loura costureira. O assassino é um philanthropo! Deixe-me
    resumir, Theodoro: a morte d'esse velho Mandarim idiota traz-lhe á
    algibeira alguns milhares de contos. Póde desde esse momento dar
    pontapés nos poderes publicos: medite na intensidade d'este gozo! É
    desde logo citado nos jornaes: reveja-se n'esse maximo da gloria humana!
    E agora note: é só agarrar a campainha, e fazer _ti-li-tin._ Eu não sou
    um barbaro: comprehendo a repugnancia d'um _gentleman_ em assassinar um
    contemporaneo: o espirrar do sangue suja vergonhosamente os punhos, e é
    repulsivo o agonisar d'um corpo humano. Mas aqui, nenhum d'esses
    espectaculos torpes… É como quem chama um criado… E são cento e
    cinco ou cento e seis mil contos; não me lembro, mas tenho-o nos meus
    apontamentos… O Theodoro não duvída de mim. Sou um
    cavalheiro:–provei-o, quando, fazendo a guerra a um tyranno na primeira
    insurreição da justiça, me vi precipitado d'alturas que nem Vossa
    Senhoria concebe… Um trambulhão consideravel, meu caro senhor! Grandes
    desgostos! O que me consola é que o OUTRO está tambem muito abalado:
    porque, meu amigo, quando um Jehovah tem apenas contra si um Satanaz,
    tira-se bem de difficuldades mandando carregar mais uma legião
    d'archanjos; mas quando o inimigo é o homem, armado d'uma penna de pato
    e d'um caderno de papel branco–está perdido… Emfim são seis mil
    contos. Vamos, Theodoro, ahi tem a campainha, seja um homem.

    Eu sei o que deve a si mesmo um christão. Se este personagem me tivesse
    levado ao cume d'uma montanha na Palestina, por uma noite de lua cheia,
    e ahi, mostrando-me cidades, raças e imperios adormecidos, sombriamente
    me dissesse:–«Mata o Mandarim, e tudo o que vês em valle e collina será
    teu»,–eu saberia replicar-lhe, seguindo um exemplo illustre, e erguendo
    o dedo ás profundidades constelladas:–«O meu reino não é d'este mundo!»
    Eu conheço os meus authores. Mas eram cento e tantos mil contos,
    offerecidos á luz d'uma vela de stearina, na travessa da Conceição, por
    um sujeito de chapéo alto, apoiado a um guarda-chuva…

    Então não hesitei. E, de mão firme, repeniquei a campainha. Foi talvez
    uma illusão; mas pareceu-me que um sino, de bocca tão vasta como o mesmo
    céo, badalava na escuridão, através do Universo, n'um tom temeroso que
    decerto foi acordar sóes que faziam né-né e planetas pançudos resonando
    sobre os seus eixos…

    O individuo levou um dedo á palpebra, e limpando a lagrima que ennevoára
    um instante o seu olho rutilante:

    –Pobre Ti-Chin-Fú!…

    –Morreu?

    –Estava no seu jardim, socegado, armando, para o lançar ao ar, um
    papagaio de papel, no passatempo honesto d'um Mandarim retirado,–quando
    o surprehendeu este _ti-li-tin_ da campainha. Agora jaz á beira d'um
    arroio cantante, todo vestido de sêda amarella, morto, de pança ao ar,
    sobre a relva verde: e nos braços frios tem o seu papagaio de papel, que
    parece tão morto como elle. Ámanhã são os funeraes. Que a sabedoria de
    Confucio, penetrando-o, ajude a bem emigrar a sua alma!

    E o sujeito, erguendo-se, tirou respeitosamente o chapéo, sahiu, com o
    seu guarda-chuva debaixo do braço.

    Então, ao sentir bater a porta, afigurou-se-me que emergia d'um
    pesadêlo. Saltei ao corredor. Uma voz jovial fallava com a Madame
    Marques; e a cancella da escada cerrou-se subtilmente.

    –Quem é que sahiu agora, ó D. Augusta?–perguntei, n'um suor.

    –Foi o Cabritinha que vai um bocadinho á batota…

    Voltei ao quarto: tudo lá repousava tranquillo, identico, real. O
    in-folio ainda estava aberto na pagina temerosa. Reli-a: agora
    parecia-me apenas a prosa antiquada d'um moralista caturra; cada palavra
    se tornára como um carvão apagado…

    Deitei-me:–e sonhei que estava longe, para além de Pekin, nas
    fronteiras da Tartaria, no kìosque d'um convento de Lamas, ouvindo
    maximas prudentes e suaves que escorriam, com um aroma fino de chá, dos
    labios de um Buddha vivo.

    II

    Decorreu um mez.

    Eu, no entanto, rotineiro e triste, lá ia pondo o meu cursivo ao serviço
    dos poderes publicos, e admirando aos domingos a pericia tocante com que
    a D. Augusta lavava a caspa do Couceiro. Era agora evidente para mim
    que, n'essa noite, eu adormecera sobre o in-folio, e sonhára com uma
    «Tentação da Montanha» sob fórmas familiares. Instinctivamente, porém,
    comecei a preoccupar-me com a China. Ia lêr os telegrammas á Havaneza; e
    o que o meu interesse lá buscava, eram sempre as noticias do Imperio do
    Meio; parece porém que, a esse tempo, nada se passava na região das
    raças amarellas… A _Agencia Havas_ só tagarellava sobre a Herzegovina,
    a Bosnia, a Bulgaria e outras curiosidades barbaras….

    Pouco a pouco fui esquecendo o meu episodio phantasmagorico: e ao mesmo
    tempo, como gradualmente o meu espirito reserenava, voltaram de novo a
    mover-se as antigas ambições que lá habitavam,–um ordenado de Director
    Geral, um seio amoroso de Lola, bifes mais tenros que os da D. Augusta.
    Mas taes regalos pareciam-me tão inaccessiveis, tão nascidos do
    sonho–como os proprios milhões do Mandarim. E pelo monotono deserto da
    vida,–lá foi seguindo, lá foi marchando, a lenta caravana das minhas
    melancolias…

    Um domingo de agosto, de manhã, estirado na cama em mangas de camisa, eu
    dormitava, com o cigarro apagado no labio–quando a porta rangeu
    devagarinho, e entreabrindo a palpebra dormente, vi curvar-se ao meu
    lado uma calva respeitosa. E logo uma voz perturbada murmurou:

    –O snr. Theodoro?… O snr. Theodoro do Ministerio do Reino?…

    Ergui-me lentamente sobre o cotovêlo e respondi, n'um bocejo:

    –Sou eu, cavalheiro.

    O individuo recurvou o espinhaço: assim na presença augusta d'el-rei
    Bobeche se arquêa o cortezão… Era pequenino e obeso: a ponta das
    suiças brancas roçava-lhe as lapellas do fraque d'alpaca: veneraveis
    oculos d'oiro reluziam na sua face bochechuda, que parecia uma prospera
    personificação da Ordem: e todo elle tremia desde a calva, lustrosa até
    aos botíns de bezerro. Pigarreou, cuspilhou, balbuciou:

    –São noticias para vossa senhoria! Consideráveis noticias! O meu nome é
    Silvestre… Silvestre, Juliano & C.^a… Um serviçal criado de vossa
    excellencia… Chegaram justamente pelo paquete de Southampton… Nós
    somos correspondentes de Brito, Alves & C.^a de Macau… Correspondentes
    de Craig and Co d'Hong-Kong… As letras vem d'Hong-Kong…

    O sujeito engasgava-se; e a sua mão gordinha agitava em tremuras um
    _enveloppe_ repleto, com um sello de lacre negro.

    –Vossa excellencia–proseguiu–estava decerto prevenido… Nós é que o
    não estavamos… A atrapalhação é natural… O que esperamos é que vossa
    excellencia nos conserve a sua benevolencia… Nós sempre respeitámos
    muito o caracter de vossa excellencia… Vossa excellencia é n'esta
    terra uma flôr de virtude, e espelho de bons! Aqui estão os primeiros
    saques sobre Bhering and Brothers de Londres… Letras a trinta dias
    sobre Rothschild…

    A este nome, resoante como o mesmo oiro, saltei vorazmente do leito.

    –O que é isso, senhor?–gritei.

    E elle, gritando mais, brandindo o _enveloppe_, todo alçado no bico dos
    botins:

    –São cento e seis mil contos, senhor! Cento e seis mil contos sobre
    Londres, Paris, Hamburgo e Amsterdam, sacados a seu favor,
    excellentissimo senhor!… A seu favor, excellentissimo senhor! Pelas
    casas de Hong-Kong, de Chang-Hai e de Cantão, da herança depositada do
    Mandarim Ti-Chin-Fú!!

    Senti tremer o Globo sob os meus pés–e cerrei um momento os olhos. Mas
    comprehendi, n'um relance, que eu era, desde essa hora, como uma
    incarnação do Sobrenatural, recebendo d'elle a minha força e possuindo
    os seus attributos. Não podia comportar-me como um homem, nem
    desconsiderar-me em expansões humanas. Até, para não quebrar a linha
    hieratica–abstive-me de ir soluçar, como m'o pedia a alma, sobre o
    vasto seio da Madame Marques…

    D'ora em diante cabia-me a impassibilidade d'um Deus–ou d'um Demonio:
    dei, com naturalidade, um puxão ás calças, e disse a Silvestre, Juliano
    & C.^a estas palavras:

    –Está bem! O Mandarim… Esse Mandarim que disse portou-se com
    cavalheirismo. Eu sei de que se trata. É uma questão de familia. Deixe
    ahi os papeis… Bons dias.

    Silvestre, Juliano & C.^a retirou-se, ás arrecuas, de dorso vergado e
    fronte voltada ao chão.

    Eu então fui abrir, toda larga, a janella: e, dobrando para traz a
    cabeça, respirei o ar calido, consoladamente, como uma corça cançada…

    Depois olhei para baixo, para a rua, onde toda uma burguezia se escoava,
    n'uma pacata sahida de missa, entre duas filas de trens. Fixei, aqui e
    além, inconscientemente, algumas cuias de senhoras, alguns metaes
    brilhantes d'arreios. E de repente, veio-me esta idéa, esta triumphante
    certeza–que todas aquellas tipoias as podia eu tomar á hora ou ao anno!
    Que nenhuma das mulheres que via, deixaria de me offerecer o seu seio
    nú, a um aceno do meu desejo! Que todos esses homens, de sobrecasaca de
    domingo, se prostrariam diante de mim como diante de um Christo, de um
    Mahomet ou de um Buddha, se eu lhes sacudisse junto á face cento e seis
    mil contos sobre as praças da Europa!…

    Apoiei-me á varanda: e ri, com tedio, vendo a agitação ephemera
    d'aquella humanidade subalterna–que se considerava livre e forte, em
    quanto por cima, n'uma sacada de quarto andar, eu tinha na mão, n'um
    _enveloppe_ lacrado de negro, o principio mesmo da sua fraqueza e da sua
    escravidão!… Então, satisfações do Luxo, regalos do Amor, orgulhos do
    Poder, tudo gozei, pela imaginação, n'um instante, e d'um só sôrvo. Mas
    logo, uma grande saciedade me foi invadindo a alma: e sentindo o mundo
    aos meus pés–bocejei como um leão farto.

    De que me serviam por fim tantos milhões, senão para me trazerem, dia a
    dia, a affirmação desoladora da villeza humana?… E assim, ao choque de
    tanto oiro, ia desapparecer aos meus olhos como um fumo a belleza moral
    do Universo! Tomou-me uma tristeza mystica. Abati-me sobre uma cadeira;
    e, com a face entre as mãos, chorei abundantemente.

    D'ahi a pouco a Madame Marques abria a porta, toda vistosa nas suas
    sêdas pretas.

    –Está-se á sua espera para jantar, enguiço!…

    Emergi da minha amargura para lhe responder seccamente:

    –Não janto.

    –Mais fica!

    N'esse momento estalavam foguetes ao longe. Lembrei-me que era domingo,
    dia de touros: de repente uma visão rebrilhou, flammejou, attrahindo-me
    deliciosamente:–era a tourada vista d'um camarote; depois um jantar com
    _Champagne_; á noite a orgia, como uma iniciação! Corri á mesa. Atulhei
    as algibeiras de letras sobre Londres. Desci á rua com um furor d'abutre
    fendendo o ar contra a presa. Uma caleche passava, vazia. Detive-a,
    berrei:

    –Aos touros!

    –São dez tostões, meu amo!

    Encarei com repulsão aquelle reles pedaço de materia organisada–que
    fallava em placas de prata a um colosso d'oiro! Enterrei a mão na
    algibeira ajoujada de milhões, e tirei o meu metal: tinha setecentos e
    vinte!

    O cocheiro bateu a anca da egoa e seguiu, resmungando. Eu balbuciei:

    –Mas tenho letras!… Aqui estão! Sobre Londres! Sobre Hamburgo!…

    –Não péga.

    Setecentos e vinte!… E touros, jantar de lord, andaluzas nuas, todo
    esse sonho expirou como uma bola de sabão que bate a ponta de um prego.

    Odiei a Humanidade, abominei o Numerario. Outra tipoia, lançada a trote,
    apinhada de gente festiva, quasi me atropellou n'aquella abstracção em
    que eu ficára com os meus setecentos e vinte na palma da mão suada.

    Cabisbaixo, enchumaçado de milhões sobre Rothschild, voltei ao meu
    quarto andar; humilhei-me á Madame Marques, aceitei-lhe o bife corneo; e
    passei essa primeira noite de riqueza, bocejando sobre o leito
    solitario,–em quanto fóra o alegre Couceiro, o mesquinho tenente de
    quinze mil reis de soldo, ria com a D. Augusta, repenicando á viola o
    _Fado da Cotovia_.

    * * * * *

    Foi só na manhã seguinte, ao fazer a barba, que reflecti sobre a origem
    dos meus milhões. Ella era evidentemente sobrenatural e suspeita.

    Mas como o meu Racionalismo me impedia d'attribuir estes thesouros
    imprevistos á generosidade caprichosa de Deus ou do Diabo, ficções
    puramente escolasticas; como os fragmentos de Positivismo, que
    constituem o fundo da minha Philosophia, não me permittiam a indagação
    _das causas primarias, das origens essenciaes_–bem depressa me decidi a
    aceitar seccamente este Phenomeno; e a utilisal-o com largueza. Portanto
    corri de quinzena ao vento para o _London Brazìlian Bank_…

    Ahi, arremessei para cima do balcão um papel sobre o _Banco
    d'Inglaterra_, de mil libras; e soltei esta deliciosa palavra:

    –Oiro!

    Um caixeiro suggeriu-me com doçura:

    –Talvez lho fosse mais commodo em notas…

    Repeti seccamente:

    –Oiro!

    Atulhei as algibeiras, devagar, aos punhados: e na rua, ajoujado,
    icei-me para uma caleche. Sentía-me gordo, sentia-me obeso; tinha na
    bocca um sabor d'oiro, uma seccura de pó d'oiro na pelle das mãos: as
    paredes das casas pareciam-me faiscar como longas laminas d'oiro: e
    dentro do cerebro ia-me um rumor surdo onde retilintavam metaes–como o
    movimento d'um oceano que nas vagas rolasse barras d'oiro.

    Abandonando-me á oscillação das molas, rebolante como um odre mal firme,
    deixava cahir sobre a rua, sobre a gente, o olhar turvo e tedioso do sêr
    repleto. Emfim, atirando o chapéo para a nuca, estirando a perna,
    empinando o ventre, arrotei formidavelmente de flatulencia ricaça…

    Muito tempo rolei assim pela cidade, bestialisado n'um gozo de Nababo.

    Subitamente um brusco appetite de gastar, de dissipar oiro, veio-me
    enfunar o peito como uma rajada que incha uma véla.

    –Pára, animal!–berrei, ao cocheiro.

    A parelha estacou. Procurei em redor com a palpebra meio cerrada alguma
    coisa cara a comprar–joia de rainha ou consciencia de estadista: nada
    vi; precipitei-me então para um estanco.

    –Charutos! de tostão! de cruzado! Mais caros! de dez tostões!

    –Quantos?–perguntou servilmente o homem.

    –Todos!–respondi, com brutalidade.

    Á porta, uma pobre toda de luto, com o filho encolhido ao seio,
    estendeu-me a mão transparente. Incommodava-me procurar os trocos de
    cobre por entre os meus punhados d'oiro. Repelli-a, impaciente: e, de
    chapéo sobre o olho, encarei friamente a turba.

    Foi então que avistei, adiantando-se, o vulto ponderoso do meu Director
    Geral: immediatamente, achei-me com o dorso curvado em arco e o chapéo
    comprimentador roçando as lages. Era o habito da dependencia: os meus
    milhões não me tinham dado ainda a verticalidade á espinha…

    Em casa despejei o oiro sobre o leito, e rolei-me por cima d'elle, muito
    tempo, grunhindo n'um gozo surdo. A torre, ao lado, bateu tres horas; e
    o sol apressado já descia, levando comsigo o meu primeiro dia de
    opulencia… Então, couraçado de libras, corri a saciar-me!

    Ah, que dia! Jantei n'um gabinete do Hotel Central, solitario e egoista,
    com a mesa alastrada de Bordeus, Borgonha, Champagne, Rheno, licôres de
    todas as communidades religiosas–como para matar uma sêde de trinta
    annos! Mas só me fartei de Collares. Depois, cambaleando, arrastei-me
    para o Lupanar! Que noite! A alvorada clareou por traz das persianas; e
    achei-me estatelado no tapete, exhausto e semi-nú, sentindo o corpo e a
    alma como esvaírem-se, dissolverem-se n'aquelle ambiente abafado onde
    errava um cheiro de pó de arroz, de fêmea e de punch…

    Quando voltei á travessa da Conceição, as janellas do meu quarto estavam
    fechadas, e a véla expirava, com fogachos lividos, no castiçal de latão.
    Então ao chegar junto á cama, vi isto: estirada de través, sobre a
    coberta, jazia uma figura bojuda, de Mandarim fulminado, vestida de sêda
    amarella, com um grande rabicho solto; e entre os braços como morto
    tambem, tinha um papagaio de papel!

    Abri desesperadamente a janella: tudo desappareceu;–o que estava agora
    sobre o leito era um velho paletot alvadio.

    III

    Então começou a minha vida de milionario. Deixei bem depressa a casa da
    Madame Marques–que, desde que me sabía rico, me tratava todos os dias a
    arroz dôce, e ella mesma me servia, com o seu vestido de sêda dos
    domingos. Comprei, habitei o palacete amarello, ao Loreto: as
    magnificencias da minha installação são bem conhecidas pelas gravuras
    indiscretas da Illustração Franceza. Tornou-se famoso na Europa o meu
    leito, d'um gosto exuberante e barbaro, com a barra recoberta de laminas
    d'ouro lavrado, e cortinados d'um raro brocado negro onde ondeam,
    bordados a perolas, versos eroticos de Catullo; uma lampada, suspensa no
    interior, derrama alli a claridade lactea e amorosa d'um luar de verão.

    Os meus primeiros mezes ricos, não o occulto, passei-os a amar–a amar
    com o sincero bater de coração d'um pagem inexperiente. Tinha-a visto,
    como n'uma pagina de novella, regando os seus craveiros á varanda:
    chamava-se Candida; era pequenina, era loira; morava a Buenos-Ayres,
    n'uma casinha casta recoberta de trepadeiras; e lembrava-me pela graça e
    pelo airoso da cinta, tudo o que a Arte tem creado de mais fino e
    fragil–Mimi, Virginia, a Joanninha do Valle de Santarem.

    Todas as noites eu cahia, em extasis de mystico, aos seus pés côr de
    jaspe. Todas as manhãs lhe alastrava o regaço de notas de vinte mil
    reis: ella repellia-as primeiro com um rubor,–depois, ao guardal-as na
    gaveta, chamava-me o seu _anjo Tótó_.

    Um dia que eu me introduzira, a passos subtis, por sobre o espesso
    tapete syrio, até ao seu _boudoir_–ella estava escrevendo, muito
    enlevada, de dedinho no ar: ao vêr-me, toda tremula, toda pallida,
    escondeu o papel que tinha o seu monogramma. Eu arranquei-lh'o, n'um
    ciume insensato. Era a carta, a carta costumada, a carta necessaria, a
    carta que desde a velha antiguidade a mulher sempre escreve; começava
    por _meu idolatrado_–e era para um alferes da visinhança…

    Desarraiguei logo esse sentimento do meu peito como uma planta venenosa.
    Descri para sempre dos Anjos loiros, que conservam no olhar azul o
    reflexo dos céos atravessados: de cima do meu oiro, deixei cahir sobre a
    Innocencia, o Pudor, e outras idealisações funestas acida gargalhada de
    Mephistopheles: e organisei friamente uma existencia animal, grandiosa e
    cynica.

    * * * * *

    Ao bater do meio dia, entrava na minha tina de marmore côr de rosa, onde
    os perfumes derramados davam á agua um tom opaco de leite: depoîs pagens
    tenros, de mão macia, fríccionavam-me com o ceremonial de quem celebra
    um culto: e embrulhado n'um _robe-de-chambre_ de sêda da India, através
    da galeria, dando aqui e além um olhar aos meus Fortunys e aos meus
    Corots, entre alas silenciosas de lacaios, dirigia-me ao bife á ingleza,
    servido em Sèvres, azul e oiro.

    O resto da manhã, se havia calor, passava-o sobre coxins de setim côr de
    perola, n'um _boudoir_ em que a mobilia era de porcelana fina de Dresde
    e as flôres faziam um jardim d'Armida; ahi, saboreava o Diario de
    Noticiais, em quanto lindas raparigas vestidas á japoneza refrescavam o
    ar, agitando leques de plumas.

    De tarde ia dar uma volta a pé, até ao Pote das Almas: era a hora mais
    pesada do dia: encostado á bengala, arrastando as pernas molles, abria
    bocejos de fera saciada,—e a turba abjecta parava a contemplar, em
    extasis, o Nababo enfastiado!

    Ás vezes vinha-me como uma saudade dos meus tempos occupados da
    Repartição. Entrava em casa; e encerrado na livraria, onde o Pensamento
    da Humanidade repousava esquecido e encadernado em marroquim, aparava
    uma penna de pato, e ficava horas lançando sobre folhas do meu querido
    Tojal d'outr'ora: «_Ill.^{mo} e Exc.^{mo} Snr.–Tenho a honra de participar
    a V. Exc.^a… Tenho a honra de passar ás mãos de V. Exc.^a!…_».

    Ao começo da noite um criado, para annunciar o jantar, fazia soar pelos
    corredores na sua tuba de prata, á moda gothica, uma harmonia solemne.
    Eu erguia-me e ia comer, magestoso e solitario. Uma populaça de lacaios,
    de librés de sêda negra, servia, n'um silencio de sombras que resvalam,
    as vitualhas raras, vinhos do preço de joias: toda a mesa era um
    esplendor de flôres, luzes, crystaes, scintillações d'oiro:–e
    enrolando-se pelas pyramides de fructos, misturando-se ao vapor dos
    pratos, errava, como uma nevoa subtil, um tedio inenarravel…

    Depois, apopletico, atirava-me para o fundo do coupé–e lá ia ás
    Janellas Verdes onde nutria, n'um jardim de serralho, entre requintes
    musulmanos, um viveiro de fêmeas: revestiam-me d'uma tunica de sêda
    fresca e perfumada,–e eu abandonava-me a delirios abominaveis…
    Traziam-me semi-morto para casa, ao primeiro alvor da manhã: fazia
    machinalmente o meu signal da cruz, e d'ahi a pouco roncava de ventre ao
    ar, livido e com um suor frio, como um Tiberio exhausto.

    * * * * *

    Entretanto Lisboa rojava-se aos meus pés. O pateo do palacete estava
    constantemente invadido por uma turba: olhando-a enfastiado das janellas
    da galeria, eu via lá branquejar os peitilhos da Aristocracia, negrejar
    a sotaina do Clero, e luzîr o suor da Plebe: todos vinham supplicar, de
    labio abjecto, a honra do meu sorriso e uma participação no meu oiro. Ás
    vezes, consentia em receber algum velho de titulo historico:–elle
    adiantava-se pela sala, quasi roçando o tapete com os cabellos brancos,
    tartamudeando adulações; e immediatamente, espalmando sobre o peito a
    mão de fortes vêas onde corria um sangue de tres seculos, offerecia-me
    uma filha bem-amada para esposa ou para concubina.

    Todos os cidadãos me traziam presentes como a um Idolo sobre o
    altar–uns Odes votivas, outros o meu monogramma bordado a cabello,
    alguns chinelas ou boquilhas, cada um a sua consciencia. Se o meu olhar
    amortecido fixava, por acaso, na rua, uma mulher–era logo ao outro dia
    uma carta em que a creatura, esposa ou prostituta, me offertava a sua
    nudez, o seu amor, e todas as complacencias da lascivia.

    Os jornalistas esporeavam a imaginação para achar adjectivos dignos da
    minha grandeza; fui o _sublime snr. Theodoro_, cheguei a ser o _celeste
    snr. Theodoro_; então, desvairada, a Gazeta das Locaes chamou-me o
    _extra-celeste snr. Theodoro_! Diante de mim nenhuma cabeça ficou jámais
    coberta–ou usasse a corôa ou o côco. Todos os dias me era offerecida
    uma Presidencia de Ministerio ou uma Direcção de Confraria. Recusei
    sempre, com nojo.

    Pouco a pouco o rumor das minhas riquezas foi passando os confins da
    Monarchia. O Figaro, cortezão, em cada numero fallou de mim,
    preferindo-me a Henrique V; o grotesco immortal, que assigna
    _Saint-Genest_, dirigiu-me apostrophes convulsivas, pedindo-me para
    salvar a França; e foi então que as Illustrações estrangeiras
    publicaram, a côres, as scenas do meu viver. Recebi de todas as
    princezas da Europa enveloppes, com sêllos heraldicos, expondo-me, por
    photographias, por documentos, a fórma dos seus corpos e a antiguidade
    das suas genealogias. Duas pilherias que soltei durante esse anno foram
    telegraphadas ao Universo pelos fios da Agencia Havas; e fui considerado
    mais espirituoso que Voltaire, que Rochefort, e que esse fino
    entendimento que se chama _Todo-o-Mundo_. Quando o meu intestino se
    alliviava com estampido–a Humanidade sabia-o pelas gazetas. Fiz
    emprestimos aos Reis, subsidiei guerras civis–e fui caloteado por todas
    as Republicas latinas que orlaram o golfo do Mexico.

    E eu, no entanto, vivia triste…

    * * * * *

    Todas as vezes que entrava em casa estacava, arripiado, diante da mesma
    visão: ou estirada no limiar da porta, ou atravessada sobre o leito
    d'oiro–lá jazia a figura bojuda, de rabicho negro e tunica amarella,
    com o seu papagaio nos braços… Era o Mandarim Ti-Chin-Fú! Eu
    precipitava-me, de punho erguido: e tudo se dissipava.

    Então cahia aniquilado, todo em suor, sobre uma poltrona, e murmurava no
    silencio do quarto, onde as vélas dos candelabros davam tons
    ensaguentados aos damascos vermelhos:

    –_Preciso matar este morto_!

    E todavia, não era esta impertinencia d'um velho phantasma pançudo,
    accommodando-se nos meus moveis, sobre as minhas colchas, que me fazia
    saber mal a vida.

    O horror supremo consistia na idéa, que se me cravára então no espirito
    como um ferro inarrancavel–_que eu tinha assassinado um velho_!

    Não fôra com uma corda em torno da garganta á moda musulmana; nem com
    veneno n'um calix de vinho de Syracusa, á maneira italiana da
    Renascença; nem com algum dos methodos classicos, que na historia das
    Monarchias teem recebido consagrações augustas–a punhal como D. João
    II, á clavina como Carlos IX…

    Tinha eliminado a creatura, de longe, com uma campainha. Era absurdo,
    phantastico, faceto. Mas não diminuia a tragica negrura do facto: _eu
    assassinára um velho_!

    Pouco a pouco esta certeza ergueu-se, petrificou-se na minha alma, e
    como uma columna n'um descampado dominou toda a minha vida interior: de
    sorte que, por mais desviado caminho que tomassem os meus pensamentos
    viam sempre negrejar no horisonte aquella Memoria accusadora; por mais
    alto que se levantasse o vôo das minhas imaginações, ellas terminavam
    por ir fatalmente ferir as azas n'esse Monumento de miseria moral.

    Ah! por mais que se considere Vida e Morte como banaes transformações da
    Substancia, é pavoroso o pensamento–que se fez regelar um sangue
    quente, que se immobilisou um musculo vivo! Quando depois de jantar,
    sentindo ao lado o aroma do café, eu me estirava no sophá, enlanguecido,
    n'uma sensação de plenitude, elevava-se logo dentro em mim, melancolico
    como o côro que vem d'um ergastulo, todo um susurro de accusações:

    –E todavia tu fizeste que esse bem-estar em que te regalas, nunca mais
    fosse gozado pelo veneravel Ti-Chin-Fú!…

    Debalde eu replicava á Consciencia, lembrando-lhe a decrepitude do
    Mandarim, a sua gôta incuravel… Facunda em argumentos, gulosa de
    controversia, ella retorquia logo com furor:

    –Mas, ainda na sua actividade mais resumida, a vida é um bem supremo:
    porque o encanto d'ella reside no seu principio mesmo, e não na
    abundancia das suas manifestações!

    Eu revoltava-me contra este pedantismo rhetorico de pedagogo rigido:
    erguia alto a fronte, gritava-lhe n'uma arrogancia desesperada:

    –Pois bem! Matei-o! Melhor! Que queres tu? o teu grande nome de
    Consciencia não me assusta! És apenas uma perversão da sensibilidade
    nervosa. Posso eliminar-te com _flôr de laranja_!

    E immediatamente sentia passar-me n'alma, com uma lentidão de briza, um
    rumor humilde de murmurações ironicas:

    –Bem, então come, dorme, banha-te e ama…

    Eu assim fazia. Mas logo, os proprios lençoes de Bretanha do meu leito
    tomavam aos meus olhos apavorados os tons lividos d'uma mortalha; a agua
    perfumada em que me mergulhava arrefecia-me sobre a pelle, com a
    sensação espessa d'um sangue que coalha: e os peitos nús das minhas
    amantes entristeciam-me, como lapides de marmore que encerram um corpo
    morto.

    Depois assaltou-me uma amargura maior: comecei a pensar que Ti-Chin-Fú
    tinha de certo uma vasta familia, netos, bisnetos tenros, que,
    despojados da herança que eu comia á farta em pratos de Sèvres, n'uma
    pompa de sultão perdulario, iam atravessando na China todos os infernos
    tradicionaes da miseria humana–os dias sem arroz, o corpo sem agasalho,
    a esmola recusada, a rua lamacenta por morada…

    Comprehendi então porque me perseguia a figura obesa do velho letrado; e
    dos seus labios recobertos pelos longos pellos brancos do seu bigode de
    sombra, parecia-me sahir agora esta accusação desolada:–«Eu não me
    lamento a mim, fórma meio morta que era; chóro os tristes que
    arruinaste, e que a estas horas, quando tu vens do seio fresco das tuas
    amorosas, gemem de fome, regelam na frialdade, apinhados n'um grupo
    expirante, entre leprosos e ladrões, na _Ponte dos Mendigos_, ao pé dos
    terraços do Templo do Céo!»

    Oh tortura engenhosa! Tortura realmente chineza! Não podia levar á bocca
    um pedaço de pão sem imaginar immediatamente o bando faminto de
    criancinhas, a descendencia de Ti-Chin-Fú, penando, como passarinhos
    implumes que abrem debalde o bico e piam em ninho abandonado; se me
    abafava no meu paletot era logo a visão de desgraçadas senhoras, mimosas
    outr'ora de tepido conforto chinez, hoje rôxas de frio, sob andrajos de
    velhas sêdas, por uma manhã de neve; o tecto d'ébano do meu palacete
    lembrava-me a familia do Mandarim, dormindo á beira dos canaes, farejada
    pelos cães; e o meu coupé bem forrado fazia-me arripiar á idéa das
    longas caminhadas errantes, por estradas encharcadas, sob um duro
    inverno asiatico.

    O que eu soffria!–E era o tempo em que a populaça invejosa vinha pasmar
    para o meu palacete, commentando as felicidades inaccessiveis que lá
    deviam habitar!

    Emfim, reconhecendo que a Consciencia era dentro em mim como uma
    serpente irritada–decidi implorar o auxilio d'Aquelle que dizem ser
    superior á Consciencia porque dispõe da Graça.

    Infelizmente eu não acreditava n'Elle… Recorri pois á minha antiga
    divindade particular, ao meu dilecto idolo, padroeira da minha familia,
    Nossa Senhora das Dôres. E, regiamente pago, um povo de curas e conegos,
    pelas cathedraes de cidade e pelas capellas d'aldêa, foi pedindo a Nossa
    Senhora das Dôres que voltasse os seus olhos piedosos para o meu mal
    interior… Mas nenhum allivio desceu d'esses céos inclementes, para
    onde ha milhares d'annos debalde sobe o clamor da miseria humana.

    Então eu proprio me abysmei em praticas piedosas–e Lisboa assistiu a
    este espectaculo extraordinario: um ricaço, um Nababo, prostrando-se
    humildemente ao pé dos altares, balbuciando de mãos postas phrases de
    _Salvè-Rainha_, como se visse na Oração e no Reino do Céo que ella
    conquista, outra cousa mais que uma consolação ficticia que os que
    possuem tudo inventaram para contentar os que não possuem nada… Eu
    pertenço á Burguezia; e sei que se ella mostra á Plebe desprovída um
    paraiso distante, gozos ineffaveis a alcançar–é para lhe afastar a
    attenção dos seus cofres repletos e da abundancia das suas searas.

    Depois, mais inquieto, fiz dizer milhares de missas, simples e cantadas,
    para satisfazer a alma errante de Ti-Chin-Fú. Pueril desvario d'um
    cerebro peninsular! O velho Mandarim na sua classe de letrado, de membro
    da Academia dos Han-Lin, collaborador provavel do grande tratado
    Khou-Tsuane-Chou que já tem setenta e oito mil e setecentos e trinta
    volumes, era certamente um sectario da Doutrina, da Moral positiva de
    Confucio… Nunca elle, sequer, queimára mechas perfumadas em honra de
    Buddha: e os ceremoniaes do Sacrificio mystico deviam parecer á sua
    abominavel alma de grammatico e de sceptico como as pantomimas dos
    palhaços, no theatro de Hong-Tung!

    Então prelados astutos, com experiencia catholica, deram-me um conselho
    subtil–captar a benevolencia de Nossa Senhora das Dores com presentes,
    flôres, brocados e joias, como se quizesse alcançar os favores
    d'Aspasia: e á maneira d'um banqueiro obeso, que obtem as complacencias
    d'uma dançarina dando-lhe um _Cottage_ entre arvores–eu, por uma
    suggestão sacerdotal, tentei peitar a dôce Mãi dos Homens, erguendo-lhe
    uma cathedral toda de marmore branco. A abundancia das flôres punha
    entre os pilares lavrados perspectivas de paraisos: a multiplicidade dos
    lumes lembrava uma magnificencia sideral… Despezas vãs! O fino e
    erudito cardeal Nani veio de Roma consagrar a Igreja; mas, quando eu
    n'esse dia entrei a visitar a minha hospeda divina, o que vi, para além
    das calvas dos celebrantes, entre a mystica nevoa dos incensos, não foi
    a Rainha da Graça, loira, na sua tunica azul,–foi o velho malandro com
    o seu olho obliquo e o seu papagaio nos braços! Era a _elle_, ao seu
    branco bigode tartaro, á sua pança côr d'oca, que todo um sacerdocio
    recamado d'oiro estava offerecendo, ao roncar do orgão, a Eternidade dos
    Louvores!…

    * * * * *

    Então, pensando que Lisboa, o meio dormente em que me movia, era
    favoravel ao desenvolvimento d'estas imaginações–parti, viajei
    sobriamente, sem pompa, com um bahú e um lacaio.

    Visitei, na sua ordem, classica, Paris, a banal Suissa, Londres, os
    lagos taciturnos da Escocia; ergui a minha tenda diante das muralhas
    evangelicas de Jerusalém; e d'Alexandria a Thebas, fui ao comprido
    d'esse longo Egypto monumental e triste como o corredor d'um mausoléo.
    Conheci o enjôo dos paquetes, a monotonia das ruinas, a melancolia das
    multidões desconhecidas, as desillusões do _boulevard_: e o meu mal
    interior ia crescendo.

    Agora já não era só a amargura de ter despojado uma familia veneravel:
    assaltava-me o remorso mais vasto de ter privado toda uma sociedade d'um
    Personagem fundamental, um letrado experiente, columna da Ordem, esteio
    d'Instituições. Não se póde arrancar assim a um Estado uma personalidade
    do valor de cento e seis mil contos, sem lhe perturbar o equilibrio…
    Esta idéa pungia-me, acerbamente. Anciei por saber se na verdade a
    desapparição de Ti-Chin-Fú fôra funesta á decrepita China: li todos os
    jornaes de Hong-Kong e de Chang-Hai, velei a noite sobre Historias de
    viagens, consultei sabios missionarios:–e artigos, homens, livros, tudo
    me falla da decadencia do Imperio do Meio, provincias arruinadas,
    cidades moribundas, plebes esfomeadas, pestes e rebelliões, templos
    aluindo-se, leis perdendo a authoridade, a decomposição d'um mundo, como
    uma nau encalhada que a vaga desfaz tábua a tábua!…

    E eu attribuia-me estas desgraças da Sociedade chineza! No meu espirito
    doente Ti-Chin-Fú! tomára então o valor desproporcionado d'um Cesar, um
    Moysés, um d'esses sêres providenciaes que são a força d'uma raça. Eu
    matára-o; e com elle desapparecera a vitalidade da sua patria! O seu
    vasto cerebro poderia talvez ter salvado, a rasgos geniaes, aquella
    velha monarchia asiatica–e eu immobilisára-lhe a acção creadora! A sua
    fortuna concorreria a refazer a grandeza do Erario–e eu estava-a
    dissipando a offerecer pecegos em janeiro ás messalinas do
    Helder!…–Amigos, conheci o remorso colossal de ter arruinado um
    imperio!

    Para esquecer este tormento complicado, entreguei-me á orgia.
    Installei-me n'um palacete da avenida dos Campos-Elysios–e fui medonho.
    Dava festas á Trimalcião: e, nas horas mais asperas de furia libertina,
    quando das charangas, na estridencia brutal dos cobres, rompiam os
    _can-cans_; quando prostitutas, de seio desbragado, ganiam coplas
    canalhas; quando os meus convidados bohemios, atheus de cervejaria,
    injuriavam Deus, com a taça de _Champagne_ erguida–eu, tomado
    subitamente como Heliogabalo d'um furor de bestialidade, d'um ódio
    contra o Pensante e o Consciente, atirava-me ao chão a quatro patas e
    zurrava formidavelmente de burro…

    Depois quiz ir mais baixo, ao deboche da plebe, ás torpezas alcoólicas
    do _Assomoir_: e quantas vezes, vestido de blusa, com o casquete para a
    nuca, de braço dado com _Mes-Bottes_ ou _Bibi-la-Gaillarde_, n'um tropel
    avinhado, fui cambaleando pelos _boulevards_ exteriores, a uivar, entre
    arrotos:

    _Allons, enfants de la patrie-e-e!…
    Le jour de gloire est arrivé…_

    Foi uma manhã, depois d'um d'estes excessos, á hora em que nas trevas da
    alma do debochado se ergue uma vaga aurora espiritual–que me nasceu, de
    repente, a idéa de partir para a China! E, como soldados em acampamento
    adormecido, que ao som do clarim se erguem, e um a um se vão juntando e
    formando columna–outras idéas se foram reunindo no meu espirito,
    alinhando-se, completando um plano formidavel… Partiria para Pekin;
    descobriria a familia de Ti-Chin-Fú; esposando uma das senhoras,
    legitimaría a posse dos meus milhões; daria áquella casa letrada a
    antiga prosperidade; celebraria funeraes pomposos ao Mandarim, para lhe
    acalmar o espirito irritado; iria pelas provincias miseraveis fazendo
    colossaes distribuições d'arroz; e, obtendo do Imperador o botão de
    crystal de Mandarim, accesso facil a um bacharel, substituir-me-hia á
    personalidade desapparecida de Ti-Chin-Fú–e poderia assim restituir
    legalmente á sua patria, senão a authoridade do seu saber, ao menos a
    força do seu oiro.

    Tudo isto, por vezes, me apparecia como um programma indefinido,
    nevoento, pueril e idealista. Mas já o desejo d'esta aventura original e
    epica me envolvera; e eu ia, arrebatado por elle, como uma folha secca
    n'uma rajada.

    Anhelei, suspirei por pisar a terra da China!–Depois d'altos
    preparativos, apressados a punhados d'oiro, uma noite parti emfim para
    Marselha. Tinha alugado todo um paquete, o _Ceylão_. E na manhã
    seguinte, por um mar azul-ferrete, sob o vôo branco das gaivotas, quando
    os primeiros raios do sol ruborisavam as torres de Nossa Senhora da
    Guarda, sobre o seu rochedo escuro–puz a prôa ao Oriente.

    IV

    O Ceylão teve uma viagem calma e monotona até Chang-Hai.

    D'ahi subimos pelo rio Azul a Tien-Tsin n'um pequeno _steamer_ da
    Companhia Russel. Eu não vinha visitar a China n'uma curiosidade ociosa
    de _touriste_: toda a paizagem d'essa provincia, que se assemelha á dos
    vasos de porcelana, d'um tom azulado e vaporoso, com collinasinhas
    calvas e de longe a longe um arbusto bracejante, me deixou sombriamente
    indifferente.

    Quando o capitão do _steamer_, um _yankee_ impudente de focinho de
    chibo, ao passarmos á altura de Nankin, me propoz parar, ir percorrer as
    ruinas monumentaes da velha cidade de porcelana,–eu recusei, com um
    movimento secco de cabeça, sem mesmo desviar os olhos tristes da
    corrente barrenta do rio.

    Que pesados e soturnos me pareceram os dias de navegação de Tien-Tsin a
    Tung-Chou, em barcos chatos que o cheiro dos remadores chinezes
    empestava; ora através de terras baixas inundadas pelo Pei-hó, ora ao
    longo de pallidos e infindaveis arrozaes; passando aqui uma lugubre
    aldêa de lama negra, além um campo coberto de esquifes amarellos;
    topando a cada momento com cadaveres de mendigos, inchados e
    esverdeados, que desciam ao fio d'agua, sob um céo fusco e baixo!

    Em Tung-Chou fiquei surprehendido, ao dar com uma escolta de cossacos
    que mandava ao meu encontro o velho general Camilloff, heroico official
    das campanhas da Asia Central, e então embaixador da Russia em Pekin. Eu
    vinha-lhe recommendado como um sêr precioso e raro: e o verboso
    interprete Sá-Tó, que elle punha ao meu serviço, explicou-me que as
    cartas de sêllo imperial, avisando-o da minha chegada, recebera-as elle,
    havia semanas, pelos correios da Chancellaria que atravessam a Siberia
    em trenó, descem a dorso de camêlo até á Grande Muralha tartara, e
    entregam ahi a mala a esses corredores mongolicos, vestidos de coiro
    escarlate, que dia e noite galopam sobre Pekin.

    Camilloff enviava-me um poney da Manchouria, ajaezado de sêda, e um
    cartão de visita, com estas palavras traçadas a lapis sob o seu nome:
    «_Saúde! o animal é dôce de bocca_!»

    Montei o poney: e a um _hurrah_! dos cossacos, n'um agitar heroico de
    lanças, partimos á desfilada pela poeirenta planicie–porque já a tarde
    declinava, e as portas de Pekin fecham-se mal o ultimo raio de sol deixa
    as torres do Templo do Céo. Ao principio seguimos uma estrada, caminho
    batido do transito das caravanas, atravancado de enormes lages de
    marmore dessoldadas da antiga Via Imperial. Depois passámos a ponte de
    Pa-li-kao, toda de marmore branco, flanqueada de dragões arrogantes.
    Vamos correndo então á beira de canaes d'agua negra: começam a apparecer
    pomares, aqui e além uma aldêa de côr azulada, aninhada ao pé de um
    Pagode:–de repente, a um cotovêlo do caminho, paro assombrado…

    Pekin está diante de mim! É uma vasta muralha, monumental e barbara,
    d'um negro baço, estendendo-se a perder de vista, e, destacando, com as
    architecturas babylonicas das suas portas de tectos recurvos, sobre um
    fundo de poente de purpura ensanguentada…

    Ao longe, para o Norte, n'um vago de vapor roxo, esbatem-se, como
    suspensas no ar, as montanhas da Mongolia…

    Uma rica liteira esperava-me á porta de Tung-Tsen-Men, para eu
    atravessar Pekin até á Residencia militar de Camilloff. A muralha agora,
    ao perto, parecia erguer-se até aos céos com o horror d'uma construcção
    biblica: á sua base apinhava-se uma confusão de barracas, feira exotica,
    onde rumorejava uma multidão, e a luz de lanternas oscillantes cortava
    já o crepúsculo de vagas manchas côr de sangue; os toldos brancos faziam
    ao pé do negro muro como um bando de borboletas pousadas.

    Senti-me triste; subi á liteira, cerrei as cortinas de sêda escarlate
    todas bordadas a oiro; e cercado dos cossacos, eis-me entrando a velha
    Pekin, por essa porta babelica, na turba tumultuosa, entre carretas,
    cadeirinhas de xarão, cavalleiros mongolicos armados de flechas, bonzos
    de tunica alvejante marchando um a um, e longas filas de lentos
    dromedarios balançando a sua carga em cadencia…

    D'ahi a pouco a liteira parou. O respeitoso Sá-Tó correu as cortinas, e
    vi-me n'um jardim, escurecido e calado, onde, por entre sycomoros
    seculares, kiosques alumiados brilhavam com uma luz dôce, como colossaes
    lanternas pousadas sobre a relva: e toda a sorte de aguas correntes
    murmuravam na sombra. Sob um peristilo feito de madeiros pintados a
    vermelhão, aclarado por fios de lampadas de papel transparente,
    esperava-me um membrudo figurão, de bigodes brancos, apoiado a um grosso
    espadão. Era o general Camilloff. Ao adiantar-me para elle, eu sentia o
    passo inquieto das gazellas fugindo de leve sob as arvores…

    O velho heroe apertou-me um momento ao peito, e conduziu-me logo,
    segundo os usos chinezes, ao banho da hospitalidade, uma vasta tina de
    porcelana, onde entre rodelas finas de limão sobrenadavam esponjas
    brancas, n'um perfume forte de lilaz…

    Pouco depois a lua banhava deliciosamente os jardins: e eu, muito
    fresco, de gravata branca, entrava pelo braço de Camilloff no _boudoir_
    da generala. Era alta e loira; tinha os olhos verdes das sereias de
    Homero; no decote baixo do seu vestido de sêda branca pousava uma rosa
    escarlate; e nos dedos, que lhe beijei, errava um aroma fino de sandalo
    e de chá.

    Conversámos muito da Europa, do Nihilismo, de Zola, de Leão XIII, e da
    magreza de Sarah Bernardth…

    Pela galeria aberta penetrava um ar calido que rescendia a heliotropio.
    Depois ella sentou-se ao piano–e a sua voz de contralto quebrou até
    tarde os silencios melancolicos da cidade tartara, com as picantes arias
    de _Madame Favart_ e com as melodias afagantes do _Rei de Lahore_.

    * * * * *

    Ao outro dia cedo, encerrado com o general n'um dos kiosques do jardim,
    contei-lhe a minha lamentavel historia e os motivos fabulosos que me
    traziam a Pekin. O heroe escutava, cofiando sombriamente o seu espesso
    bigode cossaco…

    –O meu prezado hospede sabe o chinez?–perguntou-me de repente, fixando
    em mim a pupilla sagaz.

    –Sei duas palavras importantes, general: _Mandarim_ e _chá_.

    Bile passou a sua mão de fortes cordovêas sobre a medonha cicatriz que
    lhe sulcava a calva:

    –_Mandarim_, meu amigo, não é uma palavra chineza, e ninguem a entende
    na China. É o nome que no seculo XVI os navegadores do seu paiz, do seu
    bello paiz…

    –Quando nós tinhamos navegadores…–murmurei, suspirando.

    Elle suspirou tambem, por polidez, e continuou:

    –…Que os seus navegadores deram aos funccionarios chinezes. Vem do
    seu verbo, do seu lindo verbo…

    –Quando tinhamos verbos…–rosnei, no habito instinctivo de deprimir a
    patria.

    Elle esgazeou um momento o seu olho redondo de velho mocho–e proseguiu
    paciente e grave:

    –Do seu lindo verbo _mandar_ … Resta-lhe por tanto _chá_. É um
    vocabulo que tem um vasto papel na vida chineza, mas julgo-o
    insufficiente para servir a todas as relações sociaes. O meu estimavel
    hospede pretende esposar uma senhora da famillia Ti-Chin-Fú, continuar a
    grossa influencia que exercia o Mandarim, substituir, domestica e
    socialmente, esse chorado defunto… Para tudo isto dispõe da palavra
    _chá_. É pouco.

    Não pude negar–que era pouco. O venerando russo, franzindo o seu nariz
    adunco de milhafre, pôz-me ainda outras objecções que eu via erguerem-se
    diante do meu desejo–como as muralhas mesmas de Pekin: nenhuma senhora
    da familia Ti-Chin-Fú consentiria jámais em casar com um barbaro; e
    seria impossivel, terrivelmente impossivel que o Imperador, o Filho do
    Sol, concedesse a um estrangeiro as honras privilegiadas d'um
    Mandarim…

    –Mas porque m'as recusaria?–exclamei.–Eu pertenço a uma boa familia
    da provincia do Minho. Sou bacharel formado: portanto na China, como em
    Coimbra, sou um letrado! Já fiz parte d'uma repartição publica… Possuo
    milhões… Tenho a experiencia do estylo administrativo…

    O general ia-se curvando com respeito a esta abundancia dos meus
    attributos.

    –Não é–disse elle emfim–que o Imperador realmente o recusasse: é que
    o individuo que lh'o propozesse seria immediatamente decapitado. A lei
    chineza, n'este ponto, é explicita e secca.

    Baixei a cabeça, acabrunhado.

    –Mas, general–murmurei–eu quero livrar-me da presença odiosa do velho
    Ti-Chin-Fú e do seu papagaio!… Se eu entregasse metade dos meus
    milhões ao thesouro chinez, já que não me é dado pessoalmente
    applical-os, como Mandarim, á prosperidade do Estado…? Talvez
    Ti-Chin-Fú se calmasse…

    O general pousou-me paternalmente a vasta mão sobre o hombro:

    –Êrro, consideravel êrro, mancebo! Esses milhões nunca chegariam ao
    thesouro imperial. Ficariam nas algibeiras insondaveis das classes
    dirigintes: seriam dissipados em plantar jardins, colleccionar
    porcelanas, tapetar de pelles os soalhos, fornecer sêdas ás concubinas:
    não alliviariam a fome d'um só chinez, nem reparariam uma só pedra das
    estradas publicas… Iriam enriquecer a orgia asiatica. A alma de
    Ti-Chin-Fú deve conhecer bem o Imperio: e isso não a satisfaria.

    –E se eu empregasse parte da fortuna do velho malandro em fazer
    particularmente, como philanthropo, largas distribuições d'arroz á
    populaça faminta? É uma idéa…

    –Funesta–disse o general, franzindo medonhamente o sobr'olho.–A côrte
    imperial veria ahi immediatamente uma ambição politica, o tortuoso plano
    de ganhar os favores da plebe, um perigo para a Dynastia… O meu bom
    amigo seria decapitado… É grave…

    –Maldição!–berrei.—Então para que vim eu á China?

    O diplomata encolheu vagarosamente os hombros; mas logo, mostrando n'um
    sorriso astuto os seus dentes amarellos de cossaco:

    –Faça uma coisa. Procure a familia de Ti-Chin-Fú… Eu indagarei do
    primeiro ministro, sua excellencia o principe Tong, onde pára essa prole
    interessante… Reuna-os, atire-lhes uma ou duas duzias de milhões…
    Depois prepare ao defunto funeraes regios. Funeraes d'alto ceremonial,
    com um prestito d'uma legua, filas de bonzos, todo um mundo de
    estandartes, palanquins, lanças, plumas, andores escarlates, legiões de
    carpideiras ululando sinistramente, etc. etc… Se depois de tudo isto a
    sua consciencia não adormecer e o phantasma insistir…

    –Então?

    –Córte as guelas.

    –Obrigado, general.

    * * * * *

    Uma coisa porém era evidente, e n'ella concordaram Camilloff, o
    respeitoso Sá-Tó e a generala:–que, para frequentar a familia
    Ti-Chin-Fú, seguir os funeraes, misturar-me á vida de Pekin, eu devia
    desde já vestir-me como um chinez opulento, da classe letrada, para me
    ir habituando ao traje, ás maneiras, ao ceremonial mandarim…

    A minha face amarellada, o meu longo bigode pendente favoreciam a
    caracterisação:–e quando na manhã seguinte, depois d'arranjado pelos
    costureiros engenhosos da rua Chá-Coua, entrei na sala forrada de sêda
    escarlate, onde já rebrilhavam as porcelanas do almoço sobre a mesa de
    charão negro,–a generala recuou como á appariçâo do proprio Tong-Tché,
    Filho do Céo!

    Eu trazia uma tunica de brocado azul escuro abotoada ao lado, com o
    peitilho ricamente bordado de dragões e flôres d'oiro: por cima um
    casabeque de sêda de um tom azul mais claro, curto, amplo e fôfo: as
    calças de setim côr de avellã descobriam ricas babouches amarellas
    pespontadas a perolas, e um pouco da meia picada d'estrellinhas negras:
    e á cinta, n'uma linda facha franjada de prata, tinha mettido um leque
    de bambú, dos que teem o retrato do philosopho Lá-o-Tsé e são fabricados
    em Swaton.

    E, pelas mysteriosas correlações com que o vestuario influenceia o
    caracter, eu sentia já em mim idéas, instinctos chinezes:–o amor dos
    ceremoniaes meticulosos, o respeito bureocratico das fórmulas, uma ponta
    de scepticismo letrado; e tambem um abjecto terror do Imperador, o odio
    ao estrangeiro, o culto dos antepassados, o fanatismo da tradição, o
    gosto das coisas assucaradas…

    Alma e ventre, era já totalmente um Mandarim. Não disse á
    generala:–_Bon jour, Madame_. Dobrado ao meio, fazendo girar os punhos
    fechados sobre a fronte abaixada, fiz gravemente o _chin-chin_!

    –É adorável, é precioso!–dizia ella, com o seu lindo riso, batendo as
    maosinhas pallidas.

    N'essa manhã, em honra da minha nova incarnação, havia um almoço chinez.
    Que gentis guardanapos de papel de sêda escarlate, com monstros
    fabulosos desenhados a negro! O serviço começou por ostras de Ning-Pó.
    Eximias! Absorvi duas duzias com um intenso regalo chinez. Depois vieram
    deliciosas febras de barbatana de tubarão, olhos de carneiro com picado
    d'alho, um prato de nenufares em calda d'assucar, laranjas de Cantão, e
    emfim o arroz sacramental, o arroz dos avós…

    Delicado repasto, regado largamente de excellente vinho de Chão-Chigne!
    E por fim, com que gôzo recebi a minha taça d'agua a ferver, onde deitei
    uma pitada de folhas de chá imperial, da primeira colheita de março,
    colheita unica, que é celebrada como um rito santo pelas mãos puras de
    virgens!…

    Duas cantadeiras entraram, em quanto nós fumavamos; e muito tempo, n'uma
    modulação guttural, disseram velhas cantigas dos tempos da dynastia
    Ming, ao som de guitarras recobertas de pelles de serpente, que dous
    tartaros agachados repenicavam, n'uma cadencia melancolica e barbara. A
    China tem encantos d'um raro gosto…

    Depois a loira generala cantou-nos, com chiste, a _Femme à barbe_: e
    quando o general sahiu com a sua escolta cossaca para o Yamen do
    principe Tong, a informar-se da residencia da familia Ti-Chin-Fú–eu,
    repleto e bem disposto, sahi com Sá-Tó a vêr Pekin.

    * * * * *

    A habitação de Camilloff ficava na cidade tartara, nos bairros militares
    e nobres. Ha aqui uma tranquillidade austera. As ruas assemelham-se a
    largos caminhos d'aldêa sulcados pelas rodas dos carros; e quasi sempre
    se caminha ao comprido de um muro, d'onde sahem ramos horisontaes de
    sycomoros.

    Por vezes uma carreta passa rapidamente, ao trote de um poney mongol,
    com altas rodas cravejadas de pregos dourados; tudo n'ella oscilla, o
    toldo, as cortinas pendentes de sêda, os ramos de plumas aos angulos; e
    dentro entrevê-se alguma linda dama chineza, coberta de brocados claros,
    a cabeça toda cheia de flôres, fazendo girar nos pulsos dois aros de
    prata, com um ar de tedio ceremonioso. Depois é alguma aristocratica
    cadeirinha de Mandarim, que koulis vestidos d'azul, de rabicho solto,
    vão levando a um trote arquejante para os Yamens do Estado; precede-os
    uma criadagem maltrapilha que ergue ao alto rolos de seda com
    inscripções bordadas, insignias d'authoridade; e dentro o personagem
    bojudo, com enormes oculos redondos, folheia a sua papelada ou dormita
    de beiço cahido…

    A cada momento paravamos a olhar as lojas ricas, com as suas taboletas
    verticaes de letras douradas sobre fundo escarlate: os freguezes, n'um
    silencio d'igreja, subtis como sombras, vão examinando as
    preciosidades–porcelanas da dynastia Ming, bronzes, esmaltes, marfins,
    sêdas, armas marchetadas, os leques maravilhosos de Swaton: por vezes,
    uma fresca rapariga d'olho obliquo, tunica azul, e papoilas de papel nas
    tranças, desdobra algum raro brocado diante d'um grosso chinez que o
    contempla beatamente, com os dedos cruzados na pança: ao fundo o
    mercador apparatoso e immovel, escreve com um pincel sobre longas
    taboinhas de sandalo: e um perfume adocicado que sahe das coisas
    perturba e entristece…

    Eis-aqui a muralha que cérca a Cidade interdictca, morada santa do
    Imperador! Moços nobres vem descendo do terraço d'um templo onde se
    estiveram adestrando á frecha. Sá-Tó disse-me os seus nomes: eram da
    guarda selecta, que nas ceremonias escolta o guarda-sol de sêda
    amarella, com o Dragão bordado, que é o emblema sagrado do Imperador.
    Todos elles comprimentaram profundadamente um velho que ia passando, de
    barbas venerandas, com o casabeque amarello que é o privilegio do
    ancião; vinha fallando só, e trazia na mão uma vara sobre que pousavam
    cotovias domesticadas… Era um principe do Imperio.

    Estranhos bairros! Mas nada me divertia como vêr a cada instante, a uma
    porta de jardim, dois Mandarins pançudos que para entrar se trocavam
    indefinidamente salamalés, cortezias, recusas, risinhos agudos
    d'etiqueta, todo um ceremonial dogmatico–que lhes fazia oscillar d'um
    modo picaresco, sobre as costas, as longas pennas de pavão. Depois se
    erguia os olhos para o ar, lá via sempre pairar enormes papagaios de
    papel, ora em fórma de dragões, ora de cetaceos, ora d'aves
    fabulosas–enchendo o espaço d'uma inverosimil legião de monstros
    transparentes e ondeantes…

    * * * * *

    –Sá-Tó, basta de cidade tartara! Vamos vêr os bairros chinezes…

    E lá fomos penetrando na cidade chineza, pela porta monstruosa de
    Tchin-Men. Aqui habita a burguezia, o mercador, a populaça. As ruas
    alinham-se como uma pauta; e no sólo vetusto e lamacento, feito da
    immundicie de gerações recalcada desde seculos, ainda aqui e além jaz
    alguma das lages de marmore côr de rosa que outr'ora o calçavam, no
    tempo da grandeza dos Ming.

    Dos dois lados são–ora terrenos vagos onde uivam manadas de cães
    famintos, ora filas de casebres fuscos, ora pobres lojas com as suas
    taboletas esguias e sarapintadas, balouçando-se d'uma haste de ferro. A
    distancia erguem-se os arcos triumphaes feitos de barrotes côr de
    purpura, ligados no alto por um telhado oblongo de telhas azues
    envernizadas, que rebrilham como esmaltes. Uma multidão rumorosa e
    espessa, onde domina o tom pardo e azulado dos trajes, circula sem
    cessar; a poeira envolve tudo d'uma nevoa amarellada; um fedor acre
    exhala-se dos enxurros negros; e a cada momento uma longa caravana de
    camêlos fende lentamente a turba, conduzida por mongoes sombrios
    vestidos de pelle de carneiro…

    Fomos até ás entradas das pontes sobre os canaes, onde saltimbancos
    semi-nús, com mascaras simulando demonios pavorosos, fazem destrezas
    d'um picaresco barbaro e subtil; e muito tempo estive a admirar os
    astrologos de longas tunicas, com dragões de papel collados ás cóstas,
    vendendo ruidosamente horoscopos e consultas d'astros. Oh cidade
    fabulosa e singular!

    De repente ergue-se uma gritaria! Corremos: era um bando de presos, que
    um soldado, de grandes oculos, ia impellindo com o guarda-sol, amarrados
    uns aos outros pelo rabicho! Foi ahi n'essa avenida, que eu vi o
    estrepitoso cortejo de um funeral de Mandarim, todo ornado de
    auriflammas e de bandeirolas; grupos de sujeitos funebres vinham
    queimando papeis em fogareiros portateis; mulheres esfarrapadas uivavam
    de dôr espojando-se sobre tapetes; depois erguiam-se, galhofavam, e um
    kouli vestido de luto branco servia-lhes logo chá, d'um grande bule em
    fórma d'ave.

    Ao passar junto ao Templo do Céo, vejo apinhada n'um largo uma legiao de
    mendigos; tinham por vestuario um tijolo preso á cinta n'um cordel; as
    mulheres, com os cabellos entremeados de velhas flôres de papel, roiam
    ossos tranquillamente; e cadaveres de crianças apodreciam ao lado, sob o
    vôo dos moscardos. Adiante topamos com uma jaula de traves, onde um
    condemnado estendia, através das grades, as mãos descarnadas, á
    esmola… Depois Sá-Tó mostrou-me respeitosamente uma praça estreita:
    ahi, sobre pilares de pedra, poupavam pequenas gaiolas contendo cabeças
    de decapitados: e gotta a gotta ia pingando d'ellas um sangue espesso e
    negro…

    * * * * *

    –Ouf!–exclamei, fatigado e aturdido.–Sá-Tó, agora quero o repouso, o
    silencio, e um charuto caro…

    Elle curvou-se: e, por uma escadaria de granito, levou-me ás altas
    muralhas da cidade, formando uma esplanada que quatro carros de guerra a
    par podem percorrer durante leguas.

    E emquanto Sá-Tó, sentado n'um vão d'ameia, bocejava n'um desafôgo de
    _cicerone_ enfastiado, eu fumando contemplei muito tempo aos meus pés a
    vasta Pekin…

    É como uma formidavel cidade da Biblia, Babel, ou Ninive que o propheta
    Jonas levou tres dias a atravessar. O grandioso muro quadrado limita os
    quatro pontos do horisonte, com as suas portas de torres monumentaes,
    que o ar azulado, áquella distancia, faz parecer transparentes. E na
    immensidão do seu recinto agglomeram-se confusamente verduras de
    bosques, lagos artificiaes, canaes scintillantes como aço, pontes de
    marmore, terrenos alastrados de ruinas, telhados envernizados reluzindo
    ao sol; por toda a parte são pagodes heraldicos, brancos terraços de
    templos, arcos triumphaes, milhares de kiosques sahindo d'entre as
    folhagens dos jardins; depois espaços que parecem um montão de
    porcelanas, outros que se assemelham a monturos de lama; e sempre a
    intervallos regulares o olhar encontra algum dos bastiões, d'um aspecto
    heroico e fabuloso…

    A multidão, junto a essas edificações grandiosas, é apenas como grãos
    d'arêa negra que um vento brando vai trazendo e levando…

    Aqui está o vasto palacio imperial, entre arvoredos mysteriosos, com os
    seus telhados d'um amarello d'oiro vivo! Como eu desejaria penetrar-lhe
    os segredos, e ver desenrolar-se, pelas galerias sobrepostas, a
    magnificencia barbara d'essas Dynastias seculares!

    Além ergue-se a torre do Templo do Céo semelhando três guarda-soes
    sobrepostos: depois a grande columna dos Principios, hieratica e sêcca
    como o Genio mesmo da Raça: e adiante branquejam n'uma meia tinta
    sobrenatural os terraços de jaspe do Santuario da Purificação…

    Então interrogo Sá-Tó: e o seu dedo respeitoso vai-me mostrando o Templo
    dos Antepassados, o Palacio da Soberana Concordia, o Pavilhão das Flôres
    das Letras, o Kiosque dos Historiadores, fazendo brilhar, entre os
    bosques sagrados que os cercam, os seus telhados lustrosos de faianças
    azues, verdes, escarlates e côr de limão. Eu devorava, d'olho avido,
    esses monumentos da Antiguidade asiatica, n'uma curiosidade de conhecer
    as impenetraveis classes que os habitam, o principio das Instituições, a
    significação dos Cultos, o espirito das suas letras, a grammatica, o
    dogma, a estranha vida interior d'um cerebro de letrado chinez… Mas
    esse mundo é inviolavel como um Santuario…

    Sentei-me na muralha, e os meus olhos perderam-se pela planicie arenosa
    que se estira para além das portas até aos contrafortes dos montes
    mongolicos; ahi incessantemente redemoinham ondas infindaveis de poeira;
    a toda a hora negrejam filas vagarosas de caravanas… Então invadiu-me
    a alma uma melancolia, que o silencio d'quellas alturas, envolvendo
    Pekin, tornava d'um vago mais desolado: era como uma saudade de mim
    mesmo, um longo pezar de me sentir alli isolado, absorvido n'aquelle
    mundo duro e barbaro: lembrei-me, com os olhos humedecidos, da minha
    aldêa do Minho, do seu adro assombreado de carvalheiras, a venda com um
    ramo de louro á porta, o alpendre do ferrador, e os ribeiros tão frescos
    quando verdejam os linhos…

    Aquella era a época em que as pombas emigram de Pekin para o sul. Eu
    via-as reunirem-se em bandos por cima de mim, partindo dos bosques dos
    templos e dos pavilhões imperiaes; cada uma traz, para a livrar dos
    milhafres, um leve tubo de bambu que o ar faz silvar; e aquellas nuvens
    brancas passavam como impellidas d'uma aragem molle, deixando no
    silencio um lento e melancolico suspiro, uma ondulação eolia, que se
    perdia nos ares pallidos…

    Voltei para casa, pesado e pensativo.

    Ao jantar, Camilloff, desdobrando o seu guardanapo, pediu-me com
    bonhomia as minhas impressões de Pekin.

    –Pekin faz-me sentir bem, general, os versos d'um poeta nosso:

    Sôbolos rios que vão
    Por Babylonia me achei…

    –Pekin é um monstro!–disse Camilloff oscillando reflectidamente a
    calva.–E agora considere, que a esta capital, á classe tartara e
    conquistadora que a possue, obedecem trezentos milhões d'homens, uma
    raça subtil, laboriosa, soffredora, prolifica, invasora… Estudam as
    nossas sciencias… Um calice de Medoc, Theodoro?… Teem uma marinha
    formidavel! O exercito, que outr'ora julgava destroçar o estrangeiro com
    dragões de papelão d'onde sahiam bichas de fogo, tem agora tactica
    prussiana e espingarda d'agulha! Grave!

    –E todavia, general, no meu paiz, quando, a proposito de Macau, se
    falla do Imperio Celeste, os patriotas passam os dedos pela grenha, e
    dizem negligentemente: _Mandamos lá cincoenta homens, e varremos a
    China_…

    A esta sandice–fez-se um silencio. E o general, depois de tossir
    formidavelmente, murmurou, com condescendencia:

    –Portugal é um bello paiz…

    Eu exclamei com seccura e firmeza:

    –É uma choldra, general.

    A generala, collocando delicadamente á borda do prato uma aza de frango,
    e limpando o dedinho, disse:

    –É o paiz da canção de Mignon. É lá que floresce a laranjeira…

    O gordo Meriskoff, doutor allemão pela Universidade de Bonn, chanceller
    da legação, homem de poesia e de commentario, observou com respeito:

    –Generala, o dôce paiz de Mignon é a Italia: _Conheces tu a terra
    privilegiada onde a laranjeira dá flor_? O divino Goethe referia-se á
    Italia, _Italia mater_… A Italia será o eterno amor da humanidade
    sensivel!

    –Eu prefiro a França!–suspirou a esposa do primeiro secretario, uma
    bonecasinha sardenta, de cabello arruivascado.

    –Ah! a França!…–murmurou um addido, revirando um bugalho d'olho
    ternissimo.

    O gordo Meriskoff ageitou os oculos d'oiro:

    –A França tem um mal, que é a Questão social…

    –Oh! a Questão social!–rosnou sombriamente Camilloff.

    –Ah! a Questão social!…–considerou ponderosamente o addido.

    E discreteando com tanta sapiencia, chegámos por fim ao café.

    Ao descer ao jardim, a generala, apoiando-se sentimentalmente ao meu
    braço, murmurou-me, junto á face:

    –Ai, quem me dera viver n'esses paizes apaixonados, onde verdejam os
    laranjaes!…

    –É lá que se ama, generala–segredei-lhe eu, levando-a dôcemente para a
    escuridão dos sycomoros…

    V

    Foi necessario todo um longo verão para descobrir a provincia onde
    residira o defunto Ti-Chin-Fú!

    Que episodio administrativo tão pittoresco, tão chinez! O serviçal
    Camillof, que passava o dia inteiro a percorrer os Yamens do Estado,
    teve de provar primeiro que o desejo de conhecer a morada d'um velho
    Mandarim não encobria uma conspiração contra a segurança do Imperio; e
    depois foi-lhe ainda preciso jurar que não havia n'esta curiosidade um
    attentado contra os Ritos sagrados! Então, satisfeito, o principe Tong
    permittiu que se fizesse o inquerito imperial: centenares d'escribas
    empallideceram noite e dia, de pincel na mão, desenhando relatorios
    sobre papel d'arroz; mysteriosas conferencias sussurraram
    incessantemente por todas as repartições da Cidade Imperial, desde o
    Tribunal astronomico até ao Palacio da Bondade Preferida; e uma
    população de koulis transportava da legação russa para os kiosques da
    Cidade Interdicta, e d'ahi para o Pateo dos Archivos padiolas estalando
    ao peso de maços de documentos vetustos…

    Quando Camilloff perguntava _pelo resultado_, vinha-lhe a resposta,
    satisfactoria que se estavam consultando os Livros Santos de Lá-o-Tsé,
    ou que se iam explorar velhos textos do tempo de Nor-ha-chú. E para
    calmar a impaciencia bellica do russo, o principe Tong remettia, com
    estes recados subtis, algum substancial presente de confeitos recheados,
    ou de gomos de bambú em calda d'assucar…

    * * * * *

    Ora em quanto o general trabalhava com fervor para encontrar a familia
    Ti-Chin-Fú,–eu ia tecendo horas de sêda e oiro (assim diz um poeta
    japonez) aos pés pequeninos da generala…

    Havia um kiosque no jardim sob os sycomoros, que se denominava, á
    maneira chineza, do _Repouso discreto_:–ao lado um arroio fresco ia
    cantando dôcemente sob uma pontesinha rustica pintada de côr de rosa. As
    paredes eram apenas um gradeado de bambú fino forrado de sêda côr de
    ganga: o sol, passando através d'ellas, fazia uma luz sobrenatural de
    opala desmaiada. Ao centro afofava-se um divan de sêda branca, d'uma
    poesia de nuvem matutina, attrahente como um leito nupcial. Aos cantos,
    em ricas jarras transparentes da época de Yeng, erguiam-se, na sua
    gentileza aristocratica, lirios escarlates do Japão. Todo o soalho
    estava recoberto d'esteiras finas de Nankin; e junto á janella
    rendilhada, sobre um airoso pedestal de sandalo, pousava aberto ao alto
    um leque formado de laminas de crystal separadas, que a aragem entrando
    fazia vibrar, n'uma modulação melancolica e terna.

    As manhãs do fim d'agosto em Pekin são muito suaves; já erra no ar um
    enternecimento outonal. A essa hora o conselheiro Meriskoff, os
    officiaes da legação, estavam sempre na chancellaria _fazendo a mala_
    para S. Petersburgo.

    Eu então, de leque na mão, pisando subtilmente na ponta das babouches de
    setim as ruasinhas areadas do jardim, ia entreabrir a porta do _Repouso
    discreto_:

    –Mimi?

    E a voz da generala respondia, suave como um beijo:

    –_All right_…

    Como ella era linda vestida de dama chineza! Nos seus cabellos
    levantados alvejavam flôres de pecegueiro; e as sobrancelhas pareciam
    mais puras e negras avivadas a tinta de Nankin. A camisinha de gaze,
    bordada a soutache de filigrana d'oiro, collava-se aos seus seios
    pequeninos e direitos: vastas, fôfas calças de foulard côr de _côxa de
    Nympha_, que lhe davam uma graça de serralho, recahiam sobre o tornozêlo
    fino, coberto de meia de seda amarella:–e apenas tres dedos da minha
    mão cabiam na sua chinelinha…

    Chamava-se Vladimira; nascera ao pé de Nidji-Novogorod; e fôra educada
    por uma tia velha que admirava Rousseau, lia Faublas, usava o cabello
    empoado, e parecia a grossa lithographia cossaca d'uma dama galante de
    Versalhes…

    O sonho de Vladimira era habitar Paris; e fazendo ferver delicadamente
    as folhas de chá, pedia-me historias ladinas de _Cocottes_, e dizia-me o
    seu culto por Dumas filho…

    Eu arregaçava-lhe a larga manga do casabeque de sêda côr de folha morta,
    e ia fazendo viajar os meus labios devotos pela pelle fresca dos seus
    bellos braços;–e depois sobre o divan, enlaçados, peito contra peito,
    n'um extasi mudo, sentiamos as laminas de crystal resoar eoliamente, as
    pêgas azues esvoaçarem pelos platanos, o fugitivo rhythmo do arroio
    corrente…

    Os nossos olhos humedecidos encontravam ás vezes um quadro de setim
    preto, por cima do divan, onde em caracteres chinezes se desenrolavam
    sentenças do Livro Sagrado de Li-Num «sobre os deveres das esposas». Mas
    nenhum de nós percebia o chinez… E no silencio os nossos beijos
    recomeçavam, espaçados, soando dôcemente, e comparaveis (na lingua
    florida d'aquelles paizes) a perolas que cahem uma a uma sobre uma bacia
    de prata…–Oh suaves séstas dos jardins de Pekin, onde estaes vós?
    Onde estaes, folhas mortas dos lirios escarlates do Japão?…

    * * * * *

    Uma manhã Camilloff entrando na chancellaria, onde eu fumava o cachimbo
    d'amizade de companhia com Meriskoff, atirou o seu enorme sabre para um
    canapé, e contou-nos radiante as noticias que lhe dera o penetrante
    principe Tong.–Descobrira-se emfim que um opulento Mandarim, de nome
    Ti-Chin-Fú, vivera outr'ora nos confins da Mongolia, na villa de
    Tien-Hó! Tinha morrido subitamente: e a sua larga descendencia residia
    lá, em miseria, n'um casebre vil…

    Esta descoberta, é certo, não fôra devida á sagacidade da burocracia
    imperial–mas fizera-a um astrologo do templo de Faqua, que durante
    vinte noites folheára no céo o luminoso archivo dos astros…

    –Theodoro, ha-de ser o seu homem!–exclamou Camilloff.

    E Meriskoff repetiu, sacudindo a cinza do cachimbo:

    –Ha-de ser o seu homem, Theodoro!

    –O meu homem…–murmurei sombriamente.

    Era talvez o _meu homem_, sim! Mas não me seduzia ir procurar o _meu
    homem_ ou a sua familia, na monotonia d'uma caravana, por essas
    desoladas extremidades da China!… Depois, desde que chegára a Pekin,
    eu não tornára a avistar a fórma odiosa de Ti-Chin-Fú e do seu papagaio.
    A Consciencia era dentro em mim como uma pomba adormecida. Certamente, o
    alto esforço de me ter arrancado ás doçuras do _boulevard_ e do Loreto,
    de ter sulcado os mares até ao Império do Meio, parecera á Eterna
    Equidade uma expiação sufficiente e uma peregrinação reparadora.
    Certamente Ti-Chin-Fú, acalmado, recolhera-se com o seu papagaio á
    sempiterna Immobilidade… Para que iria eu, pois, a Tien-Hó? Porque não
    ficaria alli, n'aquelle amavel Pekin, comendo nenufares em calda
    d'assucar, abandonando-me ás somnolencias amorosas do _Repouso
    discreto_, e pelas tardes azuladas, dando o meu passeio pelo braço do
    bom Meriskoff, nos terraços de jaspe da Purificação ou sob os cedros do
    Templo do Céo?…

    Mas já o zeloso Camilloff, de lapis na mão, ia marcando no mappa o meu
    itinerário para Tien-Hó! E mostrando-me, n'um desagradavel
    entrelaçamento, sombras de montes, linhas tortuosas de rios, esfumados
    de lagôas:

    –Aqui está! O meu hospede sobe até Ni-ku-hé, na margem do Pei-Hó…
    D'ahi, em barcos chatos vai a My-yun. Boa cidade, ha lá um Buddha
    vivo… D'ahi, a cavallo, segue até á fortaleza de Ché-hia. Passa a
    grande muralha, famoso espectáculo!… Descança no forte de Ku-pi-hó.
    Póde lá caçar a gazella. Soberbas gazellas… E com dois dias de
    caminhada está em Tien-Hó… Brilhante, hein?… Quando quer partir?
    Ámanhã?…

    –Ámanhã–rosnei, tristonho.

    Pobre generala! N'essa noite, em quanto Meriskoff, ao fundo da sala,
    fazia com tres officiaes da embaixada o seu _whist_ sacramental; e
    Camilloff, ao canto do sophá, de braços cruzados, solemne como n'uma
    poltrona do Congresso de Vienna, dormia de bocca aberta;–ella sentou-se
    ao piano. Eu ao lado, na attitude d'um Lara, devastado pela fatalidade,
    retorcia lugubremente o bigode. E a dôce creatura, entre dois gemidos do
    teclado, d'uma saudade penetrante, cantou revirando para mim os seus
    olhos rebrilhantes e humidos:

    L'oiseau s'envole,
    Lá bas, lá bas!…
    L'oiseau s'envole…
    Ne revient pas…

    –A ave ha-de voltar ao ninho,–murmurei eu enternecido.

    E, afastando-me a esconder uma lagrima, ia resmungando furioso:

    –Canalha de Ti-Chin-Fú! Por tua causa! Velho malandro! Velho garoto!…

    * * * * *

    Ao outro dia lá vou para Tien-Hó–com o respeitoso interprete Sá-tó, uma
    longa fila de carretas, dois cossacos, toda uma populaça de koulis.

    Ao deixar a muralha da cidade tartara, seguimos muito tempo ao comprido
    dos jardins sagrados que orlam o templo de Confucio.

    Era no fim do outono; já as folhas tinham amarellecido; uma doçura
    tocante errava no ar…

    Dos kiosques santos sahia uma susurração de canticos, de nota monotona e
    triste. Pelos terraços, enormes serpentes, veneradas como deuses, iam-se
    arrastando, já entorpecidas da friagem. E aqui e além, ao passar,
    avistavamos buddhistas decrepitos, sêccos como pergaminhos e nodosos
    como raizes, encruzados no chão sob os sycomoros, n'uma immobilidade de
    idolos, contemplando incessantemente o umbigo, á espera da perfeição do
    Nirvana…

    E eu ia pensando, com uma tristeza tão pallida como aquelle mesmo céo
    d'outubro asiatico, nas duas lagrimas redondinhas que vira brilhar, á
    despedida, nos olhos verdes da generala!…

    VI

    Já a tarde declinava, e o sol descia vermelho como um escudo de metal
    candente, quando chegámos a Tien-Hó.

    As muralhas negras da villa erguem-se, do lado do sul, ao pé d'uma
    torrente que ruge entre rochas: para o nascente, a planicie livida e
    poeirenta estende-se até a um grupo escuro de collinas onde branqueja um
    vasto edificio–que é uma Missão Catholica. E para além, para o extremo
    norte são as eternas montanhas rôxas da Mongolia, suspensas sempre no ar
    como nuvens.

    Alojámo-nos n'um barracão fetido, intitulado _Estalagem da Consolação
    terrestre_. Foi-me reservado o quarto nobre, que abria sobre uma galeria
    fixada em estacas; era ornado estranhamente de dragões de papel
    recortado, suspensos por cordeis do travejamento do tecto; á menor
    aragem aquella legião de monstros fabulosos oscillava em cadencia, com
    um rumor secco de folhagem, como tomada de vida sobrenatural e grotesca.

    Antes que escurecesse fui vêr com Sá-tó a villa: mas bem depressa fugi
    ao fedor abominavel das viellas: tudo se me afigurou ser negro–os
    casebres, o chão barrento, os enxurros, os cães famintos, a populaça
    abjecta… Recolhi ao albergue–onde arreeiros mongoes e crianças
    piolhosas me miravam com assombro.

    –Toda esta gente me parece suspeita, Sá-tó–disse eu, franzindo a
    testa.

    —Tem Vossa Honra razão. É uma ralé! Mas não ha perigo: eu matei, antes
    de partirmos, um gallo negro, e a deusa Kaonine deve estar contente.
    Póde Vossa Honra dormir ao abrigo dos maus espiritos… Quer Vossa Honra
    o chá?…

    –Traze, Sá-tó.

    Bebido o chá, conversámos do _grande plano_: na manhã seguinte eu a
    levar a alegria á triste choupana da viuva de Ti-Chin-Fú,
    annunciando-lhe os milhões que lhe dava, depositados já em Pekin:
    depois, de accordo com o Mandarim governador, fariamos uma copiosa
    distribuição de arroz pela populaça: e á noite illuminações, danças como
    n'uma gala publica…

    –Que te parece, Sá-tó?

    –Nos labios de Vossa Honra habita a sabedoria de Confucio… Vai ser
    grande! Vai ser grande!

    Como vinha cançado, bem cêdo comecei a bocejar, e estirei-me sobre o
    estrado de tijolo aquecido que serve de leito nas estalagens da China;
    enrolado na minha pelliça, fiz o signal da cruz, e adormeci pensando nos
    braços brancos da generala, nos seus olhos verdes de sereia…

    Era talvez já meia noite quando despertei a um rumor lento e surdo que
    envolvia o barracão–como de forte vento n'um arvoredo, ou uma maresia
    grossa batendo um paredão. Pela galeria aberta, o luar entrava no
    quarto, um luar triste d'outono asiatico, dando aos dragões suspensos do
    tecto fórmas, semelhanças chimericas…

    Ergui-me, já nervoso–quando um vulto, alto e inquieto, appareceu na
    facha luminosa do luar…

    –Sou eu, Vossa Honra!–murmurou a voz apavorada de Sá-tó.

    E logo, agachando-se ao pé de mim, contou-me n'um fluxo de palavras
    roucas a sua afflicção:–emquanto eu dormia, espalhára-se pela villa que
    um estrangeiro, o _Diabo estrangeiro_, chegára com bagagens carregadas
    de thesouros… Já desde o começo da noite elle tinha entrevisto faces
    agudas, d'olho voraz, rondando o barracão, como chacaes impacientes… E
    ordenára logo aos koulis que entrincheirassem a porta com os carros das
    bagagens, formados em semi-circulo á velha maneira tartara… Mas pouco
    a pouco a malta crescera… Agora vinha d'espreitar por um postigo: e
    era em roda da estalagem toda a populaça de Tien-Hó, rosnando
    sinistramente… A deusa Kaonine não se satisfizera com o sangue do
    gallo preto!… Além d'isso elle vira á porta d'um Pagode uma cabra
    negra recuar!… A noite sería de terrores!… E sua mulher, o osso do
    seu osso, que estava tão longe, em Pekin!…

    –E agora, Sá-tó?–perguntei eu.

    –Agora… Vossa Honra! Agora…

    Calou-se: e a sua magra figura tremia, acaçapada como um cão que se roja
    sob o açoite.

    Eu afastei o cobarde, e adiantei-me para a galeria. Em baixo, o muro
    fronteiro, coberto d'um alpendre, projectava uma funda sombra. Ahi com
    effeito estava uma turba negra apinhada. Ás vezes uma figura,
    rastejando, adiantava-se no espaço alumiado, espreitava, farejava as
    carretas, e sentindo a lua sobre a face, recuava vivamente, fundindo-se
    na escuridão: e como o tecto do alpendre era baixo, faiscava um momento
    á luz algum ferro de lança inclinada…

    –Que querem vossês, canalha?–bradei eu em portuguez.

    A esta voz estrangeira um grunhido sahiu da treva; immediatamente uma
    pedra veio ao meu lado furar o papel encerado da gelosia; depois uma
    flecha silvou, cravou-se por cima da minha cabeça, n'um barrote…

    Desci rapidamente á cozinha da estalagem. Os meus koulis, acocorados
    sobre os calcanhares, batiam o queixo n'um terror; e os dois cossacos
    que me acompanhavam, impassiveis á lareira, cachimbavam, com o sabre nú
    nos joelhos.

    O velho estalajadeiro d'oculos, uma avó andrajosa que eu vira no pateo
    deitando ao ar um papagaio de papel, os arreeiros mongoes, as crianças
    piolhosas, esses tinham desapparecido; só ficára um velho, bebedo
    d'opio, cahido a um canto como um fardo. Fóra ouvia-se já a multidão
    vociferar.

    Interpellei então Sá-tó, que quasi desmaiava, arrimado a uma viga: nós
    estavamos sem armas; os dois cossacos, sós, não podiam repellir o
    assalto: era necessario pois ir acordar o Mandarim governador,
    revelar-lhe que eu era um amigo de Camilloff, um conviva do principe
    Tong, intimal-o a que viesse dispersar a turba, manter a lei santa da
    hospitalidade!…

    Mas Sá-tó confessou-me, n'uma voz debil como um sôpro, que o Governador
    de certo é quem estava dirigindo o assalto! Desde as authoridades até
    aos mendigos, a fama da minha riqueza, a legenda das carretas carregadas
    d'oiro inflammára todos os appetites!… A prudencia ordenava, como um
    mandamento santo, que abandonassemos parte dos thesouros, mulas, caixas
    de comestiveis…

    –E ficar aqui, n'esta aldêa maldita, sem camisas, sem dinheiro e sem
    mantimentos?…

    –Mas com a rica vida, Vossa Honra!

    Cedi. E ordenei a Sá-tó que fosse propôr á turba uma copiosa
    distribuição de sapeques,–se ella consentisse em recolher aos seus
    casebres, e respeitar em nós os hospedes enviados por Buddha…

    Sá-tó subiu á sacada da galeria, a tremer; e rompeu logo a arengar á
    malta, bracejando, atirando as palavras com a violencia d'um cão que
    ladra. Eu abrira já uma maleta, e ia-lhe passando cartuchos, saccos de
    sapeques–que elle arremessava aos punhados com um gesto de semeador…
    Em baixo havia por momentos um tumulto furioso ao chover dos metaes;
    depois um lento suspiro de gula satisfeita; e logo um silencio, n'uma
    suspensão _de quem espera mais_…

    –Mais!–murmurava Sá-tó, voltando-se para mim ancioso.

    Eu, indignado, lá lhe dava outros cartuchos, mais rôlos, mólhos de
    moedas de meio real enfiadas em cordeis… Já a maleta estava vazia. A
    turba rugia, insaciada.

    –Mais, Vossa Honra!–supplicou Sá-tó.

    –Não tenho mais, creatura! O resto está em Pekin!

    –Oh Buddha Santo! Perdidos! Perdidos!–chamou Sá-tó, abatendo-se sobre
    os joelhos.

    A populaça, calada, esperava ainda. De repente, uma ululação selvagem
    rasgou o ar. E eu senti aquella massa avida arremessar-se sobre as
    carretas que defendiam a porta em semi-circulo: ao choque todo o
    madeiramento da _Estalagem da Consolação terrestre_ rangeu e oscillou…

    Corri á varanda. Em baixo era um tropel desesperado em torno dos carros
    derrubados: os machados reluziam cahindo sobre a tampa dos caixotes: o
    coiro das malas abria-se fendido á faca por mãos innumeraveis: no
    alpendre, os cossacos debatiam-se, aos urros, sob o cutelo. Apesar da
    lua, eu via em roda do barracão errarem tochas, n'uma dispersão de
    fagulhas: um alarido rouco elevava-se, fazendo ao longe uivar os cães; e
    de todas as viellas desembocava, corria populaça, sombras ligeiras,
    agitando chuços e foices recurvas…

    Subitamente, na loja terrea, ouvi o tumulto da turba que a invadia pelas
    portas despedaçadas: de certo me procuravam, suppondo que eu teria
    commigo o melhor do thesouro, pedras preciosas ou oiros… O terror
    desvairou-me. Corri a uma grade de bambús para o lado do pateo.
    Demoli-a, saltei sobre uma camada de matto grosso, n'um cheiro acre de
    immundicies. O meu poney, preso a uma trave, relinchava, puxando
    furiosamente o cabresto: arremessei-me sobre elle, empolguei-lhe as
    crinas…

    N'esse momento, do portão da cozinha arrombada rompia uma horda com
    lanternas, lanças, n'um clamor de delirio. O poney, espantado, salta um
    regueiro; uma flecha silva a meu lado; depois um tijolo bate-me no
    hombro, outro nos rins, outro na anca do poney, outro mais grosso
    rasga-me a orelha! Agarrado desesperadamente ás crinas, archejando, com
    a lingua de fóra, o sangue a gottejar da orelha, vou despedido n'uma
    desfilada furiosa ao longo d'uma lua negra… De repente vejo diante de
    mim a muralha, um bastião, a porta da villa fechada!

    Então, allucinado, sentindo atraz rugir a turba, abandonado de todo o
    soccorro humano–_precisei de Deus_! Acreditei n'elle, gritei-lhe que me
    salvasse; e o meu espirito ia tumultuosamente arrebatando, para lhe
    offerecer, fragmentos de orações, de _Salvè-Rainhas_, que ainda me
    jaziam no fundo da memoria… Voltei-me sobre a anca do potro: d'uma
    esquina ao longe surgiu um fogacho de tochas: era a corja!… Larguei de
    golpe ao comprido da alta muralha que corria ao meu lado como uma vasta
    fita negra furiosamente desenrolada: de subito avisto uma brecha, um
    boqueirão erriçado d'esgalhos de sarças, e fóra a planicie que sob a lua
    parecia como uma vasta agua dormente! Lancei-me para lá,
    desesperadamente, sacudido aos galões do potro… E muito tempo galopei
    no descampado.

    De repente o poney, eu, rolámos com um baque surdo. Era uma lagôa.
    Entrou-me pela bocca agua putrida, e os pés enlaçaram-se-me nas raizes
    molles dos nenufares… Quando me ergui, me firmei no sólo,–vi o poney,
    correndo, muito longe, como uma sombra, com os estribos ao vento…

    Então comecei a caminhar por aquella solidão, enterrando-me nas terras
    lodosas, cortando através do matto espinhoso. O sangue da orelha ia-me
    pingando sobre o hombro: á frialdade agreste, o fato encharcado
    regelava-se-me sobre a pelle: e por vezes, na sombra, parecia-me vêr
    luzir olhos de feras.

    Emfim, encontrei um recinto de pedras soltas onde jazia, sob um arbusto
    negro, um d'aquelles montões d'esquifes amarellos que os chinezes
    abandonam nos campos, e onde apodrecem corpos. Abati-me sobre um caixão,
    prostrado: mas um cheiro abominavel pesava no ar: e ao apoiar-me sentia
    o viscoso d'um liquido que escorria pelas fendas das tábuas… Quiz
    fugir. Mas os joelhos negavam-se, tremiam-me: e arvores, rochas, hervas
    altas, todo o horisonte começou a girar em torno de mim como um disco
    muito rapido. Faiscas sanguineas vibravam-me diante dos olhos: e
    senti-me como cahindo de muito alto, devagar, á maneira d'uma penna que
    desce…

    Quando recuperei a consciencia estava estirado n'um banco de pedra, no
    pateo d'um vasto edificio semelhante a um convento, que um alto silencio
    envolvia. Dois padres lazaristas lavavam-me devagar a orelha. Um ar
    fresco circulava; a roldana d'um poço rangia lentamente; um sino tocava
    a matinas. Ergui os olhos, avistei uma fachada branca com janellinhas
    gradeadas e uma cruz no topo: então, vendo n'aquella paz de claustro
    catholico como um recanto da patria recuperada, o abrigo e a consolação,
    rolaram-me das palpebras duas lagrimas mudas.

    VII

    De madrugada, dois padres lazaristas, dirigindo-se a Tien-Hó, tinham-me
    encontrado desmaiado no caminho. E, como disse o alegre padre Loriot,
    «era já tempo»; porque em redor do meu corpo immovel um negro
    semi-circulo d'esses grossos e soturnos corvos da Tartaria já me estava
    contemplando com gula…

    Trouxeram-me sem demora para o convento n'uma padiola,–e grande foi o
    regosijo da communidade quando soube que eu era um latino, um christão e
    um subdito dos Reis Fidelissimos. O convento fórma alli o centro d'um
    pequeno burgo catholico, apinhado em torno da maciça residencia como uma
    casaria de servos á base d'um castello feudal. Existe desde os primeiros
    missionarios que percorreram a Manchouria. Porque nós estamos aqui nos
    confins da China: para além já é a Mongolia, a Terra das Hervas, immenso
    prado verde-escuro, leziria sem fim, colorida aqui e além do vivo das
    flôres silvestres…

    Ahi jaz a vasta planicie dos Nomadas. Da minha janella eu via negrejar
    os circulos de tendas cobertas de feltro, ou de pelles de carneiro; e
    por vezes assistia á partida d'uma tribu, em filas de longas caravanas,
    levando os seus rebanhos para o oeste…

    O superior lazarista era o excellente padre Giulio. A longa permanencia
    entre as raças amarellas tornára-o quasi um chinez: quando eu o
    encontrava no claustro com a sua tunica rôxa, o rabicho longo, a barba
    veneravel, agitando devagar um enorme leque–parecia-me algum sábio
    letrado mandarim commentando mentalmente, na paz de um templo, o Livro
    sacro de Chú. Era um santo: mas o cheiro d'alho que exhalava–afastaria
    as almas mais doloridas e precisadas de consolação.

    Conservo suave a memoria dos dias alli passados! O meu quarto, caiado de
    branco, com uma cruz negra, tinha um recolhimento de cella. Acordava
    sempre ao toque de matinas. Em respeito aos velhos missionarios, vinha
    ouvir a missa á capella: e enternecia-me, alli, tão longe da patria
    catholica, n'aquellas terras mongolicas, vêr á clara luz da manhã a
    casula do padre, com a sua cruz bordada, curvando-se diante do altar, e
    sentir ciciar no fresco silencio–os _Dominus vobiscum_, e os _Cum
    spiritu tuo_…

    De tarde ia á escóla, admirar os pequenos chinezes declinando _Hora,
    Horoe_… E depois do refeitorio, passeando no claustro, escutava
    historias de longiquas missões, de viagens apostolicas ao _Paiz das
    Hervagens_, as prisões supportadas, as marchas, os perigos, as Chronicas
    heroicas da Fé…

    Eu por mim não contei no convento as minhas aventuras phantasticas:
    dei-me como um _touriste_ curioso, tomando apontamentos pelo Universo. E
    esperando que a minha orelha cicatrizasse, abandonava-me, n'uma lassidão
    d'alma, áquella paz de mosteiro…

    Mas estava decidido a deixar bem depressa a China, esse Imperio barbaro,
    que eu odiava agora, prodigiosamente!

    Quando me punha a pensar que viera desde os confins do Occidente, para
    trazer a uma provincia chineza a abundancia dos meus milhões, e que
    apenas lá chegára fôra logo saqueado, apedrejado, fréchado–enchia-me um
    rancor surdo, gastava horas agitando-me pelo quarto, a revolver coisas
    feras que tentaria para me vingar do Imperio do Meio!

    Retirar-me com os meus milhões era a desforra mais pratica, mais facil!
    Demais, a minha idéa de resuscitar artificialmente, para bem da China, a
    personalidade de Ti-Chin-Fú, parecia-me agora absurda, d'uma insensatez
    de sonho. Eu não comprehendia a lingua, nem os costumes, nem os ritos,
    nem as leis, nem os sabios d'aquella raça: que vinha pois fazer alli,
    senão expôr-me, pelo apparato da minha riqueza, aos assaltos d'um povo,
    que, ha quarenta e quatro seculos, é pirata nos mares e traz as terras
    varridas de rapina!…

    Além d'isso, Ti-Chin-Fú e o seu papagaio continuavam invisiveis,
    remontados de certo ao Céo chinez dos Avós: e já o aplacamento do
    remorso visivel diminuira em mim singularmente o desejo da expiação…

    Sem duvida o velho letrado estava fatigado de deixar essas regiões
    ineffaveis para se vir estirar pelos meus moveis. Vira os meus esforços,
    o meu desejo de ser util á sua prole, á sua provincia, á sua raça–e,
    satisfeito, accommodára-se regaladamente para a sua sésta eterna. Eu
    nunca mais avistaria a sua pança amarella!…

    E então mordia-me o appetite de me achar já tranquillo e livre, no
    pacifico gozo do meu oiro, ao Loreto ou no _boulevard_, sorvendo o mel
    ás flôres da Civilisação…

    Mas a viuva de Ti-Chin-Fú, as mimosas senhoras da sua descendencia, os
    netos pequeninos?… Iria eu deixal-os barbaramente, na fome e no frio,
    pelas viellas negras de Tien-Hó? Não. Esses não eram culpados das
    pedradas que me atirára a populaça. E eu christão, asylado n'um convento
    christão, tendo á cabeceira da cama o Evangelho, cercado d'existencias
    que eram incarnações de Caridade–não podia partir do Imperio sem
    restituir áquelles que despojára, a abundancia, esse conforto honesto
    que recommenda o Classico da Piedade Filial…

    Então escrevi a Camilloff. Contava-lhe a minha abjecta fuga, sob as
    pedras da turba chineza; o abrigo christão que me dera a Missão; o vivaz
    desejo de partir do Imperio do Meio. Pedia-lhe que remettesse elle á
    viuva de Ti-Chin-Fú os milhões depositados por mim em casa do mercador
    Tsing-Fó, na avenida de Cha-Coua, ao lado do arco triumphal de Tong,
    junto ao templo da deusa Kaonine.

    O alegre padre Loriot, que ia a Pekin em missão, levou esta carta, que
    eu lacrára com o sêllo do convento–uma cruz sahindo d'um coração em
    chammas…

    Os dias passaram. As primeiras neves alvejaram nas montanhas
    septentrionaes da Manchouria: e eu occupava-me a caçar a gazella pela
    Terra das Hervas… Horas energicas e fortemente vívidas, as d'essas
    manhãs, quando eu largava á desfilada, no grande ar agreste da planicie,
    entre os monteadores mongolicos que, com um grito ululado e vibrante,
    batiam o matagal á lançada! Por vezes, uma gazella saltava: e, d'orelha
    baixa, estirada e fina, partia no fio do vento… Soltavamos o falcão
    que voava sobre ella, d'aza serena, dando-lhe a espaços regulares, com
    toda a força do bico recurvo, uma picada viva no craneo. E iamo'l-a
    abater, por fim, á beira d'alguma agua morta, coberta de nenufares…
    Então os cães negros da Tartaria amontoavam-se-lhe sobre o ventre, e,
    com as patas no sangue, iam-lhe a ponta de dente, desfiando devagar as
    entranhas…

    Uma manhã o leigo da portaria avistou emfim o alegre padre Loriot,
    galgando á lufa-lufa pelo caminho ingreme do burgo, de volta de Pekin,
    com a sua mochila ao hombro, e uma criancinha nos braços: tinha-a
    encontrado abandonada, nuasinha, morrendo á beira d'um caminho:
    baptisára-a logo n'um regato com o nome de _Bem-Achado_: e alli a
    trazia, todo enternecido, arquejando de tanto que estugára o passo, para
    dar depressa á creaturinha esfomeada o bom leite da cabra do convento…

    Depois d'abraçar os religiosos, d'enxugar as grossas bagas de suor,
    tirou da algibeira dos calções um enveloppe com o sello da aguia russa:

    –É isto que manda o papá Camilloff, amigo Theodoro. Ficou optimo. E a
    senhora tambem… Tudo rijo.

    Corri a um recanto do claustro a lêr as duas folhas de prosa. Meu bom
    Camilloff, de calva severa e olho de mocho! Como elle alliava tão
    originalmente ao senso fino d'um habil de Chancellaria as caturrices
    picarescas de diplomata bufo! A carta dizia assim:

    «Amigo, hospede, e carissimo Theodoro,

    «Ás primeiras linhas da sua carta ficámos consternados! Mas logo as
    seguintes nos deram um grato allivio, por nos certificar que estava
    com esses santos padres da Missão christã… Eu parti para o Yamen
    imperial a fazer uma severa reclamação ao principe Tong, sobre o
    escandalo de Tien-Hó. Sua excellencia mostrou um jubilo
    desordenado! Porque, se lamenta como particular a offensa, o roubo
    e as pedradas que o meu hospede soffreu, como ministro do Imperio
    vê ahi a dôce opportunidade d'extorquir á villa de Tien-Hó, em
    multa, em castigo da injuria feita a um estrangeiro, a vantajosa
    somma de _trezentos mil francos_, ou, segundo os calculos do nosso
    sagaz Meriskoff, _cincoenta e quatro contos de reis_ na moeda do
    seu bello paiz! É, como disse Meriskoff, um excellente resultado
    para o Erario imperial, e fica assim a sua orelha copiosamente
    vingada… Aqui, começam a picar os primeiros frios, e já estamos
    usando pelles. O bom Meriskoff lá vai soffrendo do figado, mas a
    dôr não lhe altera o criterio philosophico nem a sábia
    verbosidade… Tivemos um grande desgosto: o lindo cãosinho da boa
    Madame Tagarieff, a esposa do nosso amado secretario, o adoravel
    _Tu-tu_ desappareceu na manhã de 15… Fiz, na policia, instancias
    urgentes, mas o _Tu-tu_ não nos foi restituido,–e o sentimento é
    tanto maior, quanto é sabido que a populaça de Pekin aprecia
    extremamente estes cãesinhos, guisados em calda de assucar…
    Deu-se aqui um facto abominavel e de consequencias funestas: a
    ministra de França, essa petulante Madame Grijon, esse _galho
    sêcco_ (como diz o nosso Meriskoff), no ultimo jantar da legação,
    deu, em desprezo de todas as regras internacionaes, o braço, o seu
    descarnado braço, e a sua direita á mesa a um simples addido
    inglez, lord Gordon! Que me diz a isto? É crivel? É racional? É
    destruir a ordem social! O braço, a direita, a um addido, um
    escossez côr de tijolo, de vidro entalado no olho, quando havia
    presentes todos os embaixadores, os ministros, e eu! Isto tem
    causado, no corpo diplomatico, uma sensação inenarravel…
    Esperamos instrucções dos nossos governos. Como diz Meriskoff,
    oscillando tristemente a cabeça–_é grave… é muito grave_!–O que
    prova (e ninguem o duvidava) que lord Gordon é o Benjamim do _galho
    sêcco_. Que podridão! Que lodo!… A generala não tem passado bem,
    desde a sua partida para essa malfadada Tien-Hó; o doutor Pagloff
    não lhe percebe o mal; é uma languidez, um murchar, uma saudosa
    indolencia que a conserva horas e horas immovel sobre o sophá, no
    _Pavilhão do Repouso discreto_, com o olhar vago e o labio cheio de
    suspiros… Eu não me illudo: sei perfeitamente o que a mina: é a
    desgraçada doença de bexiga, que lhe veio das más aguas, quando
    estivemos na legação de Madrid… Seja feita a vontade do
    Senhor!… Ella pede-me para lhe mandar _un petit bonjour_, e
    deseja que o meu hospede apenas chegue a Paris, se fôr a Paris, lhe
    remetta pela mala da Embaixada para S. Petersburgo (d'ahi virá a
    Pekin) duas duzias de luvas de doze botões, numero _cinco e tres
    quartos_, da marca _Sol_, dos armazens do Louvre; assim como os
    ultimos romances de Zola, Mademoiselle de Maupin de Gautier, e uma
    caixa de frascos de _Opoponax_… Esquecia-me dizer-lhe que mudámos
    de padeiro: fornecemo-nos agora na padaria da Embaixada ingleza:
    deixámos a da Embaixada franceza para não ter communicações com o
    _galho sêcco_… Ahi estão os inconvenientes de não termos aqui na
    Embaixada russa uma padaria–apesar de tantos relatorios, tantas
    reclamações que, sobre esse ponto, tenho feito para a chancellaria
    de S. Petersburgo! Elles sabem bem que em Pekin não ha padarias,
    que cada legação tem a sua propria, como um elemento d'installação
    e d'influencia. Mas quê! Na côrte imperial desattendem-se os mais
    serios interesses da civilisação russa!… Creio que é tudo o que
    ha de novo em Pekin e nas legações. Meriskoff recommenda-se, e
    todos d'esta Embaixada; e tambem o condesinho Arthur, o Zizi da
    legação hespanhola, o _Focinho cahido_, e o Lulú; emfim todos; eu
    mais que ninguem, que me assigno com saudade e affeição

    «_General Camilloff_».

    «P.S. Em quanto á viuva e familia de Ti-Chin-Fú, houve um engano: o
    astrologo do templo de Faqua equivocou-se na interpretação sideral:
    não é realmente em Tien-Hó que reside essa familia… É ao sul da
    China, na provincia de Cantão. Mas também ha uma familia Ti-Chin-Fú
    para além da Grande Muralha, quasi na fronteira russa, no districto
    de Ka-ó-li. A ambas morreu o chefe, a ambas assaltou a pobreza…
    Portanto, esperando novas ordens, não levantei os dinheiros da casa
    de Tsing-Fó. Esta recente informação mandou-m'a hoje sua
    excellencia o principe Tong, com uma deliciosa compota de
    calombro… Devo annunciar-lhe que o nosso bom Sá-Tó aqui
    appareceu, de volta de Tien-Hó, com um beiço rachado e leves
    contusões no hombro, tendo apenas salvado da bagagem saqueada uma
    lithographia de Nossa Senhora das Dôres, que, pela inscripção a
    tinta, vejo que pertencera a sua respeitavel mamã… Os meus
    valentes cossacos, esses, lá ficaram n'uma poça de sangue. Sua
    excellencia o principe Tong condescende em m'os pagar a dez mil
    francos cada um, das sommas extorquidas á villa de Tien-Hó… Sá-Tó
    diz-me que se o meu hospede, como é natural, recomeçar as suas
    viagens através do imperio em busca dos Ti-Chin-Fú,–elle
    considerar-se-hia honrado e venturoso em o acompanhar, com uma
    fidelidade canina e uma docilidade cossaca…

    «_Camilloff_».

    –Não! nunca!–rugi com furor, amarrotando a carta, monologando a largas
    passadas pelo melancolico claustro.–Não, por Deus ou pelo Demonio! Ir
    de novo bater as estradas da China? Jámais! Oh sorte grotesca e
    desastrosa! Deixo os meus regalos ao Loreto, o meu ninho amoroso de
    Paris, venho rolado pela vaga enjoadôra de Marselha a Chang-Hai, soffro
    as pulgas das bateiras chinezas, o fedor das viellas, a poeirada dos
    caminhos aridos–e para quê? Tinha um plano, que se erguia até aos céos,
    grandioso e ornamentado como um trophéo: por sobre elle scintillavam,
    d'alto a baixo, toda a sorte d'acções boas: e eis que o vejo tombar ao
    chão, peça a peça, n'uma ruina! Queria dar o meu nome, os meus milhões,
    e metade do meu leito d'oiro a uma senhora Ti-Chin-Fú–e não m'o
    permittem os prejuizos sociaes d'uma raça barbara! Pretendo, com o botão
    de crystal de Mandarim, remodelar os destinos da China, trazer-lhe a
    prosperidade civil,–e veda-m'o a lei imperial! Aspiro a derramar uma
    esmola sem fim por esta populaça faminta–e corro o perigo ingrato de
    ser decapitado como instigador de rebelliões! Venho enriquecer uma
    villa–e a turba tumultuosa apedreja-me! Ia emfim dar a abundancia, o
    conforto que louva Confucio, á família Ti-Chin-Fú,–e essa familia
    some-se, evapora-se como um fumo, e outras familias Ti-Chin-Fú surgem,
    aqui e além, vagamente, ao sul, a oeste, como clarões enganadores… E
    havia d'ir a Cantão, a Ka-ó-li, expôr a outra orelha a tijolos brutaes,
    fugir ainda pelos descampados, agarrado ás crinas d'um potro? Jámais!

    Parei: e de braços erguidos, fallando ás arcadas do claustro, ás
    arvores, ao ar silencioso e fino que me envolvia:

    –Ti-Chin-Fú!–bradei–Ti-Chin-Fú, para te aplacar, fiz o que era
    racional, generoso e logico! Estás emfim satisfeito, letrado veneravel,
    tu, o teu gentil papagaio, a tua pança official? Falla-me! Falla-me!…

    Escutei, olhei: a roldana do poço, áquella hora do meio dia, rangia
    devagar, no pateo: sob as amoreiras, ao longo da arcaria do claustro,
    seccavam em papel sêda as folhas de chá da colheita d'outubro: da porta
    meio cerrada da aula vinha um susurro lento de declinações latinas: era
    uma paz severa, feita da simplicidade das occupações, da honestidade dos
    estudos, do ar pastoril d'aquella collina, onde dormia, sob um sol
    branco d'inverno, o burgo religioso… E com aquella serenidade
    ambiente, pareceu-me receber na alma, de repente, uma pacificação
    absoluta!

    Accendi com os dedos ainda tremulos um charuto, e disse, limpando na
    testa uma baga de suor, esta palavra, resumo d'um destino:

    –Bem, Ti-Chin-Fú está contente. Fui logo á cella do excellente padre
    Giulio. Elle lia o seu Breviario á janella, debicando confeitos
    d'assucar, com o gato do convento no collo.

    –Reverendissimo, volto á Europa… Algum dos nossos bons padres vai por
    acaso em missão, para os lados de Chang-Hai?…

    O veneravel superior pôz os seus oculos redondos: e folheando com uncção
    um vasto registro em letra chineza, ia assim murmurando:

    –Quinto dia da decima lua… Sim, ha o padre Anacleto para Tien-Tzin,
    para a novena dos Irmãos da Santa Creche. Duodecima lua, o padre Sanchez
    para Tien-Tzin tambem, para a obra do Catecismo aos Orphãos… Sim, caro
    hospede, tem companheiros para Léste…

    –Ámanhã?

    –Ámanhã. É dolorosa a separação n'estes confins do mundo, quando as
    almas se comprehendem bem em Jesus… O nosso padre Gutierrez que lhe
    faça um bom farnel… Nós já o amavamos como irmão, Theodoro… Coma um
    confeito, são deliciosos… As coisas estão em feliz repouso quando se
    acham no seu lugar e elemento natural: o lugar do coração do homem é o
    coração de Deus: e o seu está n'esse asylo seguro… Coma um confeito…
    Que é isso, meu filho, que é isso?

    Eu estava collocando sobre o seu Breviario aberto, n'uma pagina do
    Evangelho de pobreza, um rôlo de notas do _Banco d'Inglaterra;_ e
    balbuciei:

    –Meu reverendissimo, para os seus pobres…

    –Excellente, excellente… O nosso bom Gutierrez que lhe faça um farnel
    copioso… _Amen_, meu filho … _In Deo omnia spes_!…

    Ao outro dia, entre o padre Anacleto e o padre Sanchez, montado na mula
    branca do convento, desci o burgo, ao repique dos sinos. E ahi vamos
    para Hiang-Hiam, villa negra e murada, onde atracam os barcos que descem
    a Tien-Tzin. Já as terras ao longo do Pei-Hó estavam todas brancas de
    neve: nas enseadas baixas já a agua ia gelando: e embrulhados em pelles
    de carneiro, em roda do fogareiro, á pôpa do barco, os bons padres e eu
    iamos conversando de trabalhos de Missionarios, de coisas da China, por
    vezes dos interesses do Céo–passando em redor sem cessar o grosso
    frasco da genebra…

    Era Tien-Tzin separei-me d'aquelles santos camaradas. E d'ahi a duas
    semanas, por um meio dia de sol tepido, passeava, fumando o meu charuto
    e olhando a azafama dos caes d'Hong-Kong, no tombadilho do _Java_ que ia
    levantar ferro para a Europa.

    * * * * *

    Foi um momento commovente para mim, aquelle em que vi, ás primeiras
    voltas do helice, afastar-se a terra da China.

    Desde que acordára, n'essa manhã, uma inquietação surda recomeçava a
    pesar-me na alma. Agora, punha-me a pensar que viera áquelle vasto
    imperio para acalmar pela expiação um protesto temeroso da Consciencia:
    e por fim, impellido por uma impaciencia nervosa, ahi partia, sem ter
    feito mais que deshonrar os bigodes brancos d'um general heroico, e ter
    recebido pedradas pela orelha n'uma villa dos confins da Mongolia.

    Estranho destino, o meu!…

    * * * * *

    Até ao anoitecer estive encostado sombriamente á borda do paquete, vendo
    o mar liso, como uma vasta peça de sêda azul, dobrar-se aos lados em
    duas pregas molles: pouco a pouco grandes estrellas palpitaram na
    concavidade negra; e o helice na sombra ia trabalhando em rhythmo.
    Então, tomado d'uma fadiga molle, fui errando pelo paquete, olhando,
    aqui e além, a bussola alumiada; os montões de cabrestantes; as peças da
    machina, n'uma claridade ardente, batendo em cadencia; as fagulhas que
    fugiam do cano, n'um rôlo de fumaraça negra; os marinheiros de barba
    ruiva, immoveis á roda do leme; e as fórmas dos pilotos, sobre o pontal,
    altas e vagas na noite. Na _cabine_ do capitão, um inglez de capacete de
    cortiça, cercado de damas que bebiam Cognac, ia tocando melancolicamente
    na flauta a aria de _Bonnie Dundee_…

    Eram onze horas quando desci ao meu beliche. As luzes já estavam
    apagadas: mas a lua que se erguia ao nivel da agua, redonda e branca,
    batia o vidro da _cabine_ com um raio de claridade: e então, a essa meia
    tinta pallida, lá vi estirada sobre a maca a figura pançuda, vestida de
    sêda amarella, com o seu papagaio nos braços!

    Era _elle_, outra vez!

    E foi _elle_, perpetuamente! Foi elle em Singapura e em Ceylão. Foi elle
    erguendo-se dos areaes do deserto ao passarmos no canal de Suez;
    adiantando-se á prôa d'um barco de provisões quando parámos em Malta;
    resvalando sobre as rosadas montanhas da Sicilia; emergindo dos
    nevoeiros que cercam o morro de Gibraltar! Quando desembarquei em
    Lisboa, no caes das Columnas, a sua figura bojuda enchia todo o arco da
    rua Augusta; o seu olho obliquo fixava-me–e os dois olhos pintados do
    seu papagaio pareciam fixar-me tambem…

    VIII

    Então, certo que não poderia jámais aplacar Ti-Chin-Fú, toda essa noite
    no meu quarto ao Loreto, onde como outr'ora as velas innumeraveis das
    serpentinas davam aos damascos tons de sangue fresco, meditei sacudir de
    mim, como um adorno de peccado, esses milhões sobrenaturaes. E assim me
    libertaria talvez d'aquella pança e d'aquelle papagaio abominavel!

    Abandonei o palacete ao Loreto, a existencia de Nababo. Fui, com uma
    quinzena coçada, realugar o meu quarto na casa da Madame Marques: e
    voltei á Repartição, d'espinhaço curvo, a implorar os meus vinte mil
    reis mensaes, e a minha dôce penna de amanuense!…

    Mas um soffrimento maior veio amargurar os meus dias. Julgando-me
    arruinado,–todos aquelles, que a minha opulencia humilhára, cobriram-me
    de offensas, como se alastra de lixo uma estatua derrubada de principe
    decahido. Os jornaes, n'um triumpho de ironia, achincalharam a minha
    miseria. A aristocracia, que balbuciára adulações aos pés do Nababo,
    ordenava agora aos seus cocheiros que atropellassem nas ruas o corpo
    encolhido do plumitivo de Secretaría. O clero, que eu enriquecera,
    accusava-me de _feiticeiro_; o povo atirou-me pedras; e a Madame
    Marques, quando eu me queixava humildemente da dureza granitica dos
    bifes,–plantava as duas mãos á cinta, e gritava:

    –Ora o enguiço! Então que quer vossê mais? Aguente! Olha o pelintra!…

    E, apesar d'esta expiação, o velho Ti-Chin-Fú lá estava sempre á minha
    ilharga, obeso e côr d'óca,–porque os seus milhões, que jaziam agora
    estereis e intactos nos Bancos, ainda de facto eram meus!
    Desgraçadamente meus!

    Então, indignado, um dia subitamente reentrei com estrondo no meu
    palacete e no meu luxo. N'essa noite, de novo o resplendor das minhas
    janellas alumiou o Loreto: e pelo portão aberto viram-se como outr'ora
    negrejar, nas suas fardas de sêda negra, as longas filas de lacaios
    decorativos.

    Logo, Lisboa, sem hesitar, se rojou aos meus pés. A Madame Marques
    chamou-me, chorando, _filho do seu coração_. Os jornaes deram-me os
    qualificativos que, de antiga tradição, pertencem á Divindade: fui o
    _Omnipotente_, fui o _Omnisciente_! A aristocracia beijou-me os dedos
    como a um Tyranno: e o clero incensou-me como a um idolo. E o meu
    desprezo pela Humanidade foi tão largo,–que se estendeu ao Deus que a
    creou.

    Desde então uma saciedade enervante mantem-me semanas inteiras n'um
    sophá, mudo e soturno, pensando na felicidade do _não-ser_…

    Uma noite, recolhendo só por uma rua deserta, vi diante de mim o
    Personagem vestido de preto com o guarda-chuva debaixo do braço, o mesmo
    que no meu quarto feliz da travessa da Conceição me fizera, a um
    _ti-li-tin_ de campainha, herdar tantos milhões detestaveis. Corri para
    elle, agarrei-me ás abas da sua sobrecasaca burgueza, bradei:

    –Livra-me das minhas riquezas! Resuscita o Mandarim! Restitue-me a paz
    da miseria!

    Elle passou gravemente o seu guarda-chuva para debaixo do outro braço, e
    respondeu com bondade:

    –Não póde ser, meu prezado senhor, não póde ser…

    Eu atirei-me aos seus pés n'uma supplicação abjecta: mas só vi diante de
    mim, sob uma luz mortiça de gaz, a fórma magra de um cão farejando o
    lixo.

    Nunca mais encontrei este individuo.–E agora o mundo parece-me um
    immenso montão de ruinas onde a minha alma solitaria, como um exilado
    que erra por entre columnas tombadas, geme, sem descontinuar…

    As flôres dos meus aposentos murcham e ninguem as renova: toda a luz me
    parece uma tocha: e quando as minhas amantes véem, na brancura dos seus
    penteadores, encostar-se ao meu leito, eu chóro–como se avistasse a
    legião amortalhada das minhas alegrias defuntas…

    * * * * *

    Sinto-me morrer. Tenho o meu testamento feito. N'elle lego os meus
    milhões ao Demonio; pertencem-lhe; elle que os reclame e que os
    reparta…

    E a vós, homens, lego-vos apenas, sem commentarios, estas palavras: «_Só
    sabe bem o pão que dia a dia ganham as nossas mãos: nunca mates o
    Mandarim_!»

    E todavia, ao expirar, consola-me prodigiosamente esta idéa: que do
    Norte ao Sul e do Oeste a Léste, desde a Grande Muralha da Tartaria até
    ás ondas do Mar Amarello, em todo o vasto Imperio da China, nenhum
    Mandarim ficaria vivo, se tu, tão facilmente como eu, o pudesses
    supprimir e herdar-lhe os milhões, oh leitor, creatura improvisada por
    Deus, obra má de má argilla, meu semelhante e meu irmão!

    Angers, junho, 1880.

    PORTO–TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA

    62, Cancella Velha, 62

  • O Livro de Cesario Verde

    O Livro de Cesario Verde

    Aproximadamente 14.882 palavras.

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    Digital Library project from the National Library of
    Portugal.

    O LIVRO DE CESARIO VERDE

    Prefácio

    A JORGE VERDE

    Aqui deponho em suas mãos e debaixo dos seus lábios o livro do seu
    irmão. A minha «obra» terminou no dia em que elle saiu da nossa
    doce amizade para a nossa terrível amargura: morri, meu querido
    Jorge–deixe-me chamar assim ao irmão do meu querido Cesario;–morri
    para as alegrias do trabalho, para as esperanças dos enganos doces!
    O desmoronamento fez-se, a um tempo, no espírito e no coração! Dos
    restos do passado deixe-me offerecer-lhe a dedicação extremada:
    peça-me o sacrifício; e, quando no decorrer da vida, se lembrar de
    nós, tenha este pensamento consolador:–A grande alma de meu irmão
    soube impôr-se a um coração endurecido; e tenha este outro pensamento:
    –Mas não estava de todo endurecido o coração que soube amal-a.

    Adeus, meu querido Jorge!

    S.P.

    20 de julho de 1886.

    Encontrámo-nos pela primeira vez no Curso Superior de Lettras. Foi
    em 1873. Cesario Verde marticulara-se no Curso em homenagem ás
    Lettras, como se as Lettras lá estivessem–no Curso. Eu matriculara-me,
    com a esperança de habilitar-me um dia á conquista de uma cadeira
    disponivel. Encontrámo-nos e ficámos amigos–para a vida e para a
    morte.

    Para a vida e para a morte.

    Tenho de fallar de mim, se eu pretendo fallar de Cesario Verde. Elle
    não teve, desde aquelle dia–ha treze annos–maior amigo do que eu
    fui; e sobre esta mesa onde eu estou escrevendo, ás 10 horas da
    noite d'este formidavel dia glacial–20 de Julho de 1886, dia do
    seu enterro,–sobre esta mesa onde eu estou escrevendo tenho estas
    palavras suas de ha poucos dias:–«E como se dê o caso de tu seres
    o mais dedicado dos meus amigos…» Tenho aqui essas palavras:
    ellas constituem a justificação dos meus soluços de ha poucas horas,
    alli, no cemiterio visinho onde elle dorme–o Cesario!–a sua
    primeira noite redimida…

    Eu fui, pois, a luctar nas grandes batalhas da Desgraça, n'aquelle
    anno para mim terrivel de 1874. Fui-me, a dezenas de leguas de
    Lisboa. Elle ficou. E no dia em que eu medi forças com as avançadas
    do meu destino, a inquietação invadiu o espirito e o coração de
    Cesario Verde, por modo que já eu assoberbara com o meu desprezo
    a desventura pertinaz e ainda elle não vingára libertar-se do peso
    de seus cuidados e afflições. Durante annos escreveu-me centenares
    de paginas–commentarios sobre os meus infortunios, conselhos do
    seu espirito lucidissimo, sobresaltos do seu coração fraternal. Um
    dia, trocámos estas palavras:–«Como tu tens tempo, meu amigo, para
    soffrer tanto!»–«Como tu tens tempo, meu amigo, para me acompanhar
    no soffrimento!».

    É indispensavel ter conhecido intimamente Cesario Verde para
    conhecel-o um pouco. Os que apenas lhe ouviram a phrase rapida,
    imperiosa, dogmatica, mal podem imaginar o fundo de tolerancia
    espectante d'aquelle bello e poderoso espirito. Elle tinha o furor
    da discussão–a toda a hora. Eu careço de preparar-me durante horas
    para a simples comprehensão. As exigencias do meu caro polemista
    irritavam-me. Eu respondia ao acaso; mas acontecia por vezes que o
    sorriso ligeiramente ironico do perseguidor expandia-se n'um bom e
    largo sorriso de convencido; e então–meu querido amigo! meu santo
    poeta!–elle saudava com um enthusiasmo de creança amoravel o que
    elle chamava o meu triumpho! Não hesitava em confessar-se vencido;
    e congratulava-se commigo–porque eu o vencera inconscientemente.
    A generosa alma chamava áquillo a minha superioridade!

    Os campos, a verdura dos prados e dos montes; a liberdade do homem
    em meio da natureza livre: os seus sonhos amados; as suas realidades
    amadas! Quando aquelle artista delicado, quando aquelle poeta de
    primeira grandeza julgava em raros momentos sacrificar a Arte aos
    seus gostos de lavrador e de homem pratico, succedia que as cousas
    do campo, da vida pratica assimilavam a fecundante seiva artistica
    do poeta: e então dos fructos alevantavam-se aromas que disputavam
    fóros de poesia aos aromas das flôres. O mesmo sopro bondoso e
    potente agitava e fecundava os milharaes e as violetas e os trigaes
    e as rosas! A bondade summa está no poeta,–mais visivel, pelo menos,
    do que em Deus.

    Artista–e de alta plana! Eu pude vêl-o cioso de seus direitos e
    reivindicando-os com tanto de ingenuidade quanto de vigor. E pois
    que um ligeiro esboço, precedendo mais detido trabalho, estou
    elaborando sobre os traços mais salientes d'aquella individualidade,
    não me dispensarei d'esta indicripção:

    Ha dois mezes escrevia-me Cesario Verde: «O Doutor Sousa Martins
    perguntou-me qual era a minha occupação habitual. Eu respondi-lhe
    naturalmente: Empregado no commercio. Depois, elle referiu-se á
    minha vida trabalhosa que me distrahia, etc. Ora, meu querido amigo,
    o que eu te peço é que, conversando com o dr. Sousa Martins, lhe
    dês a perceber que eu não sou o sr. Verde, empregado no commercio.
    Eu não posso bem explicar-te; mas a tua amizade comprehende os meus
    escrupulos: sim?…»

    E eu fui á beira de Sousa Martins e perguntei-lhe se o poeta Cesario
    Verde podia ser salvo. O grande e illustre medico tranquilisou-me
    –e apunhalou-me em pleno peito:–Que o poeta Cesario Verde estava
    irremediavelmente perdido!

    Meu poeta! Meu amigo! Tu estavas condemnado no tribunal superior,
    quando eu te mentia e ao publico e a mim proprio: estavas condemnado,
    meu santo! Mas podia viver tranquillo o teu orgulho de artista: o
    teu medico sabia que o poeta Cesario Verde eras tu proprio, meu
    pallido agonisante illudido!

    A esthesia, o processo artistico e a individualidade d'este admiravel
    e originalissimo poeta merecem á Critica independente uma attenção
    desvelada. Eu não hesito em vincular o meu nome á promessa de um
    tributo que a obra de Cesario Verde está reclamando.

    * * * * *

    E todavia, não póde o meu espirito evadir-se á idéa consoladora de
    que é um sonho isto que o entenebrece! Não pódes evadir-te, ó meu
    espirito amargurado! mas eu vou libertar-te para a dôr!

    Foi ás cinco da tarde–ainda agora. Caía o sol a prumo sobre a
    estrada do Lumiar e nós vinhamos arrastando a nossa miseria,–nós
    os vivos; o morto arrastava a sua indifferença. Chegámos, com duas
    horas de amargura, alli ao porto de abrigo e de descanço. Veio o
    ceremonial tragico, o latim, o encerramento. Caso de uma eloquencia
    terrivel: Entre algumas dezenas de homens não houve uma phrase
    indifferente–e em dado momento explosiram soluços n'um enternecimento
    que ageitava a loira cabeça do cadaver lá dentro do caixão–como
    as mãos da mãe lh'a ageitaram infantil, no travesseiro, ha vinte
    e quatro annos, e moribunda ha vinte e quatro horas!

    Eram sete horas da tarde, ó minha alma triste! Eu fui-me a chorar
    velhas lagrimas de gelo, avocadas por lagrimas de fogo recemnascidas.
    Fui-me por entre os tumulos, a pedir ao meu Deus de ha trinta annos
    que que me désse força, que me désse força nova,–pois que se
    prolonga o captiveiro! E a sós, caminhando por entre os tumulos,
    ao cair da noite, pareceu-me comprehender que nós recebemos força
    nova em cada nova dôr, para soffrermos de novo–do mesmo modo que
    o alcatruz de uma nóra se despeja para encher-se, para despejar-se
    –sem saber porque…

    20 de Agosto

    * * * * *

    A morada nova do Cesario é de pedra e tem uma porta de ferro, com
    um respiradouro em cruz;–rua n.º 6 do cemiterio dos Prazeres. Á
    porta está um arbusto da familia dos cyprestes–um brinde ao meu
    querido morto. Eu offerecera uma palmeira que o vento esgarçou ao
    terceiro dia, e tive de escolher uma especie resistente, cá da
    minha raça–funebre e resistente. Está verdejante e vigorosa a
    pequenina arvore, e de longe é uma sentinella perdida da minha doce
    amizade religiosa. De longe vou já perguntando á nossa arvore:–Está
    bom o nosso amigo?… E ella inclina os pequeninos trocos, com a
    gravidade do cypreste:–Bem; não houve novidade em toda a noite…

    É que eu vou pelas tardes visital-o; e saber como elle passou é
    todo um meu cuidado, como é toda a minha alegria o bem-estar
    d'aquella hora em que não ha risos. Não fomos risonhos–o Cesario
    e eu. As nossas horas de convivencia foram tristes e severas. Depois
    da morte do Cesario eu deixei de viver nos dominios onde elle sentira
    consolações, alentos, esperanças, onde elle imaginára renascimentos,
    horisontes, claridades novas. Nunca mais publiquei uma palavra que
    se lhe não consagrasse–ao meu querido morto. Em face d'aquelle
    cadaver eu senti alastrar-se no meu pobre ser fatigado o bem-amado
    desprezo da vida. O meu santo está alli,–está resignado: é tudo.
    Vós todos, que o amastes, sabei que elle está resignado–o nosso
    querido morto impassivel!

    E n'uma dessas tardes, alguns dias depois da sua morte, eu aproximei
    da porta de ferro a minha pobre cabeça esbrazeada e olhei para
    dentro do jazigo, involuntariamente; e então, como quer que eu
    visse lá a dentro do jazigo alguns caixões arrumados, e como eu
    acertasse em descobrir o caixão do Cesario, os soluços despedaçaram-se
    contra a minha garganta, n'uma afflicção immensa e cruel. E foi
    então que a voz rouca e enfraquecida do Cesario–lembram-se da voz
    d'elle?–pronunciou distinctamente lá a dentro do caixão:–«Sê
    natural, meu amigo; sê natural!»

    Era a voz do Cesario; era a sua voz tremente e doce, ó meu sagrado
    horror inconsciente! Debrucei-me contra a porta do jazigo e suppliquei
    n'uma angustia:–«Fala! Dize! Falla, outra vez, meu amigo!» Não se
    reproduziu o doloroso encanto. Apenas uma especie de marulho brando,
    um arrastar de folhagem resequida–e o morto na paz da Morte!

    Vão já decorridos dez annos sobre um periodo de alguns mezes serenos
    da minha via dolorosa. Eu viera a conquistar a certeza de que não
    havia luz misericordiosa para a noite que me vem acompanhando e
    torturando os olhos ávidos, desde o berço á sepultura redemptora.
    Cheguei aqui, á cidade maldita da minha primeira hora e trazia o
    sonho de uma aurora pacifica de vida nova no meu pobre espirito
    illudido. A aurora fez-se com um desabamento de esperanças: a
    crueldade bestial que se debruçára sobre o meu primeiro dia não
    estava arrependida, nem fatigada: a perseguição renasceu. E quando
    eu, no singular desespero dos esmagados em sua crença, pensei na
    Morte como no abrigo antecipado–querido abrigo inevitavel!–a voz
    de Cesario foi a voz evocadora para a continuação do soffrimento
    –do soffrimento amparado e protegido…

    Protegido! A protecção foi a maior da grande alma serena para a
    pobre alma abatida: foi de lagrimas que se confundiram com as minhas
    lagrimas; foi aquelle sorriso triste de resignação, consagrado ás
    minhas amarguras,–que para o Cesario não foram mysteriosas; foi o
    aperto de mão robusto, na vertigem do combate; foi a voz firme e
    severa na hora dos desfallecimentos; foi o reflexo permanente que
    a minha angustia encontrou na sua.

    Ah, santo! Ah, meu santo! Ah, meu puro e meu grande! Ah, meu forte!
    Vae-se na corrente, desfallecido, se nos não troveja nos ouvidos a
    voz reanimadora! Vae-se na corrente,–que o sei eu! Mas tu, depois
    do grito salvador, tinhas um applauso vibrante lá do fundo da tua
    grandeza e da tua generosidade. E tu sabias que me salvara a tua
    mão, a tua palavra, a tua alma de justo, a tua face que eu não
    quizera vêr, contrahida e severa, retraindo-se perante o quadro
    da minha fraqueza! Tu bem o sabias,–forte, bom, generoso, nobre,
    sempre bom–e todavia sempre justo!

    A crise mais feroz atravessei-a, pois, abrigado,–abrigado pela sua
    voz amiga. Eu tive de luctar com a lenda de rebellião, com a
    desconfiança dos homens praticos, com o odio dos pequeninos malvados
    offendidos em seus orgulhos e desmascarados em suas hypocrisias:
    conseguintemente, com a suppressão do trabalho,–do pão,–com a
    calumnia, com a intriga, com todas as armadilhas á minha colera,
    com todas as ciladas á minha fé… Ah, perdidos em paiz de Cafres!
    Mal conceberieis o horror de uma lucta como aquella, de todos os
    dias de dez annos, em paiz de conta aberta no bazar da Civilisação!

    Hoje, o meu santo amigo está alli em baixo, na sua morada nova,
    esperando… Espera que eu vá dizer-lhe dos horisontes novos abertos
    á consciencia dos justos; espera que eu vá dizer-lhe as victorias da
    Justiça absoluta–da Justiça illuminada e serena;–espera que eu vá
    dizer-lhe as victorias do Trabalho, da Razão, da Sciencia, da
    Sinceridade, do Amor: os homens reconciliados, esclarecidos, a
    Natureza convertida em Progresso, Deus explicado, o Futuro illuminado,
    a Vida possível, A Mulher fortalecida, o Homem abrandado, as luctas
    supprimidas, o concerto da Terra desentranhando-se em harmonias
    reconhecidas, a Bondade convertida em nórma, os Direitos e os Deveres
    supprimidos pela Igualdade: os seus sonhos, a sua fé, o seu horisonte,
    o seu amor!

    Está alli em baixo, esperando… Eu, mensageiro triste, não saberei
    dizer-lhe o ascendêr dos espiritos, e só poderei levar-lhe no meu
    abatimento a demonstração da minha pouca fé, aggravada pela espantosa
    amargura d'estes ultimos dias,–d'estas ultimas horas. As visões
    do poeta hão de emmurchecer confundidas com as ultimas rozas que a
    minha pobre mão tremente e desfallecida lhe deporá no tumulo, e os
    restos da minha fé hão-de misturar-se com o pó accumulado á entrada
    do seu tumulo pelo Nordéste–menos frio do que a minha alma succumbida!

    * * * * *

    Silva Pinto.

    Os versos

    I

    CRISE ROMANESCA

    DESLUMBRAMENTOS

    Milady, é perigoso contemplal-a,
    Quando passa aromatica e normal,
    Com seu typo tão nobre e tão de sala,
    Com seus gestos de neve e de metal.

    Sem que n'isso a desgoste ou desenfade,
    Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,
    Eu vejo-a, com real solemnidade,
    Ir impondo toilettes complicadas!…

    Em si tudo me attrae como um thesoiro:
    O seu ar pensativo e senhoril,
    A sua voz que tem um timbre de oiro
    E o seu nevado e lucido perfil!

    Ah! Como m'estontêa e me fascina…
    E é, na graça distincta do seu porte,
    Como a Moda superflua e feminina,
    E tão alta e serena como a Morte!…

    Eu hontem encontrei-a, quando vinha,
    Britannica, e fazendo-me assombrar;
    Grande dama fatal, sempre sósinha,
    E com firmeza e musica no andar!

    O seu olhar possue, n'um fogo ardente,
    Um archanjo e um demonio a illuminal-o;
    Como um florete, fere agudamente,
    E afaga como o pello d'um regalo!

    Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
    E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
    O modo diplomatico e orgulhoso
    Que Anna d'Austria mostrava aos cortezãos.

    E emfim prosiga altiva como a Fama,
    Sem sorrisos, dramatica, cortante;
    Que eu procuro fundir na minha chamma
    Seu ermo coração, como um brilhante.

    Mas cuidado, milady, não se afoite,
    Que hão-de acabar os barabaros reaes;
    E os povos humilhados, pela noite,
    Para a vingança aguçam os punhaes.

    E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,
    Sob o setim do Azul e as andorinhas,
    Eu hei-de ver errar, allucinadas,
    E arrastando farrapos–as rainhas!

    SEPTENTRIONAL

    Talvez já te esquecesses, ó bonina,
    Que viveste no campo só commigo,
    Que te osculei a bocca purpurina,
    E que fui o teu sol e o teu abrigo.

    Que fugiste commigo da Babel,
    Mulher como não ha nem na Circassia,
    Que bebemos, nós dois, do mesmo fel,
    E regámos com prantos uma acacia.

    Talvez já te não lembres com desgosto
    D'aquellas brancas noites de mysterio,
    Em que a lua sorria no teu rosto
    E nas lages que estão no cemiterio.

    Quando, á brisa outoniça, como um manto,
    Os teus cabellos d'ambar desmanchados,
    Se prendiam nas folhas d'um acantho,
    Ou nos bicos agrestes dos silvados,

    E eu ia desprendel-os, como um pagem
    Que a cauda solevasse aos teus vestidos;
    E ouvia murmurar á doce aragem
    Uns delirios d'amor, entristecidos;

    Quando eu via, invejoso, mas sem queixas,
    Pousarem borbeletas doudejantes
    Nas tuas formosissimas madeixas,
    D'aquellas côr das messes lourejantes,

    E no pomar, nós dois, hombro com hombro,
    Caminhavamos sós e de mãos dadas,
    Beijando os nossos rostos sem assombro,
    E colorindo as faces desbotadas;

    Quando ao nascer d'aurora, unidos ambos
    N'um amor grande como um mar sem praias,
    Ouviamos os meigos dithyrambos,
    Que os rouxinoes teciam nas olaias,

    E, afastados da aldeia e dos casaes,
    Eu comtigo, abraçado como as heras,
    Escondidos nas ondas dos trigaes,
    Devolvia-te os beijos que me déras;

    Quando, se havia lama no caminho,
    Eu te levava ao collo sobre a greda,
    E o teu corpo nevado como o arminho
    Pesava menos que um papel de sêda…

    E foste sepultar-te, ó seraphim,
    No claustro das Fieis emparedadas,
    Escondeste o teu rosto de marfim
    No véu negro das freiras resignadas.

    E eu passo, tão calado como a Morte,
    N'esta velha cidade tão sombria,
    Chorando afflictamente a minha sorte
    E prelibando o calix da agonia.

    E, tristissima Helena, com verdade,
    Se podéra na terra achar supplicios,
    Eu tambem me faria gordo frade
    E cobriria a carne de cilicios.

    MERIDIONAL

    Cabellos

    Ó vagas de cabello esparsas longamente,
    Que sois o vasto espelho onde eu me vou mirar,
    E tendes o crystal d'um lago refulgente
    E a rude escuridão d'um largo e negro mar;

    Cabellos torrenciaes d'aquella que m'enleva,
    Deixae-me mergulhar as mãos e os braços nús
    No barathro febril da vossa grande treva,
    Que tem scintillações e meigos ceos de luz.

    Deixae-me navegar, morosamente, a remos,
    Quando elle estiver brando e livre de tufões,
    E, ao placido luar, ó vagas, marulhemos
    E enchamos de harmonia as amplas solidões.

    Daixae-me naufragar no cimo dos cachopos
    Occultos n'esse abysmo ebanico e tão bom
    Como um licor rhenano a fermentar nos copos,
    Abysmo que s'espraia em rendas de Alençon!

    E ó magica mulher, ó minha Inegualavel,
    Que tens o immenso bem de ter cabellos taes,
    E os pisas desdenhosa, altiva, imperturbavel,
    Entre o rumor banal dos hymnos triumphaes;

    Consente que eu aspire esse perfume raro,
    Que exhalas da cabeça erguida com fulgor,
    Perfume que estontêa um millionario avaro
    E faz morrer de febre um louco sonhador.

    Eu sei que tu possues balsamicos desejos,
    E vaes na direcção constante do querer,
    Mas ouço, ao ver-te andar, melodicos harpejos,
    Que fazem mansamente amar e elanguescer.

    E a tua cabelleira, errante pelas costas,
    Supponho que te serve, em noites de verão,
    De flaccido espaldar aonde te recostas
    Se sentes o abandono e a morna prostração.

    E ella hade, ella hade, um dia, em turbilhões insanos
    Nos rolos envolver-me e armar-me do vigor
    Que antigamente deu, nos circos dos romanos,
    Um oleo para ungir o corpo ao gladiador.

    * * * * *

    Ó mantos de veludo esplendido e sombrio,
    Na vossa vastidão posso talvez morrer!
    Mas vinde-me aquecer, que eu tenho muito frio
    E quero asphyxiar-me em ondas de prazer.

    IRONIAS DO DESGOSTO

    «Onde é que te nasceu»–dizia-me ella ás vezes–
    «O horror calado e triste ás cousas sepulcraes?
    «Porque é que não possues a verve dos Francezes
    «E aspiras, em silencio, os frascos dos meus saes?

    «Porque é que tens no olhar, moroso e persistente,
    «As sombras d'um jazigo e as fundas abstracções,
    «E abrigas tanto fel no peito, que não sente
    «O abalo feminil das minhas expansões?

    «Ha quem te julgue um velho. O teu sorriso é falso;
    «Mas quando tentas rir parece então, meu bem,
    «Que estão edificando um negro cadafalso
    «E ou vae alguem morrer ou vao matar alguem!

    «Eu vim–não sabes tu?–para gosar em maio,
    «No campo, a quietação banhada de prazer!
    «Não vês, ó descórado, as vestes com que saio,
    «E os jubilos, que abril acaba de trazer?

    «Não vês como a campina é toda embalsamada
    «E como nos alegra em cada nova flor?
    «E então porque é que tens na fronte consternada
    «Um não sei quê tocante e enternecedor?

    E eu só lhe respondia:–«Escuta-me. Conforme
    «Tu vibras os crystaes da bocca musical,
    «Vae-nos minando o tempo, o tempo–o cancro enorme
    «Que te ha de corromper o corpo de vestal.

    «E eu calmamente sei, na dôr que me amortalha,
    «Que a tua cabecinha ornada á Rabagas,
    «A pouco e pouco ha de ir tornando-se grisalha
    «E em breve ao quente sol e ao gaz alvejará!

    «E eu que daria um rei por cada teu suspiro,
    «Eu que amo a mocidade e as modas futeis, vans,
    «Eu morro de pezar, talvez, porque prefiro
    «O teu cabelo escuro ás veneraveis cans!»

    HUMILHAÇÕES
    (De todo o coração–a Silva Pinto)

    Esta aborrece quem é pobre. Eu, quasi Job,
    Acceito os seus desdens, seus odios idolatro-os;
    E espero-a nos salões dos principaes theatros,
    Todas as noites, ignorado e só.

    Lá cança-me o ranger da seda, a orchestra, o gaz;
    As damas, ao chegar, gemem nos espartilhos,
    E emquanto vão passando as cortezans e os brilhos,
    Eu analyso as peças no cartaz.

    Na representação d'um drama de Feuillet,
    Eu aguradava, junto à porta, na penumbra,
    Quando a mulher nervosa e van que me deslumbra
    Saltou soberba o estribo do coupé.

    Como ella marcha! Lembra um magnetisador.
    Roçavam no veludo as guarnições das rendas;
    E, muito embora tu, burguez, me não entendas,
    Fiquei batendo os dentes de terror.

    Sim! Por não podia abandonal-a em paz!
    Ó minha pobre bolsa, amortalhou-se a idéa
    De vel-a aproximar, sentado na platéa,
    De tel a n'um binoculo mordaz!

    Eu occultava o fraque usado nos botões;
    Cada contratador dizia em voz rouquenha:
    –Quem compra algum bilhete ou vende alguma senha?
    E ouviam-se cá fóra as ovações.

    Que desvanecimento! A perola do Tom!
    As outras ao pé d'ella imitam as bonecas;
    Tem menos melodia as harpas e as rabecas,
    Nos grandes espetaculos do Som.

    Ao mesmo tempo, eu não deixava de a abranger;
    Vi-a subir, direita, a larga escadaria
    E entrar no camarote. Antes estimaria
    Que o chão se abrisse para me abater.

    Saí; mas ao sair senti-me atropellar.
    Era um municipal sobre um cavallo. A guarda
    Espanca o povo. Irei-me; e eu, que detesto a farda,
    Cresci com raiva contra o militar.

    De subito, fanhosa, infecta, rota, má,
    Pôz-se na minha frente uma velhinha suja,
    E disse-me, piscando os olhos de coruja:
    –Meu bom senhor! Dá-me um cigarro? Dá?…

    RESPONSO

    I

    N'um castello deserto e solitario,
    Toda de preto, ás horas silenciosas,
    Envolve-se nas pregas d'um sudario
    E chora como as grandes criminosas.

    Podesse eu ser o lenço de Bruxellas
    Em que ella esconde as lagrimas singellas.

    II

    E loura como as doces escocezas,
    D'uma belleza ideal, quasi indecisa;
    Circumda-se de luto e de tristezas
    E excede a melancolica Artemisa.

    Fosse eu os seus vestidos afogados
    E havia de escutar-lhe os seus peccados.

    III

    Alta noite, os planetas argentados
    Deslisam um olhar macio e vago
    Nos seus olhos de pranto marejados
    E nas aguas mansissimas do lago

    Podesse eu ser a lua, a lua terna,
    E faria que a noite fosse eterna.

    IV

    E os abutres e os corvos fazem giros
    De roda das ameias e dos pégos,
    E nas salas resoam uns suspiros
    Dolentes como as supplicas dos cegos.

    Fosse eu aquellas aves de pilhagem
    E cercara-lhe a fronte, em homenagem.

    V

    E ella vaga nas praias rumorosas,
    Triste como as rainhas desthronadas,
    A contemplar as gondolas airosas,
    Que passam, a giorno illuminadas.

    Podesse eu ser o rude gondoleiro
    E alli é que fizera o meu cruzeiro.

    VI

    De dia, entre os veludos e entre as sedas,
    Murmurando palavras afflictivas,
    Vagueia nas umbrosas alamedas
    E acarinha, de leve, as sensitivas.

    Fosse eu aquellas arvores frondosas
    E prendera-lhe as roupas vaporosas.

    VII

    Ou domina, a rezar, no pavimento
    Da capella onde outr'ora se ouviu missa,
    A musica dulcissima do vento
    E o sussuro do mar, que s'espreguiça.

    Podesse eu ser o mar e os meus desejos
    Eram ir borrifar-lhe os pés, com beijos.

    VIII

    E ás horas do crepusculo saudosas,
    Nos parques com tapetes cultivados,
    Quando ella passa curvam-se amorosas
    As estatuas dos seus antepassados.

    Fosse eu tambem granito e a minha vida
    Era vêl-a a chorar arrependida.

    IX

    No palacio isolado como um monge,
    Erram as velhas almas dos precítos,
    E nas noites de inverno ouvem-se ao longe
    Os lamentos dos naufragos afflictos.

    Podesse eu ter tambem uma procella
    E as lentas agonias ao pé d'ella!

    X

    E ás lages, no silencio dos mosteiros,
    Ella conta o seu drama negregado,
    E o vasto carmesim dos resposteiros
    Ondula como um mar ensanguentado.

    Fossem aquellas mil tapeçarias
    Nossas mortalhas quentes e sombrias.

    XI

    E assim passa, chorando, as noites bellas,
    Sonhando nos tristes sonhos doloridos,
    E a reflectir nas gothicas janellas
    As estrellas dos ceus desconhecidos.

    Podesse eu ir sonhar tambem comtigo
    E ter as mesmas pedras no jazigo!

    XII

    Mergulha-se em angustias lacrimosas
    Nos ermos d'um castello abandonado,
    E as proximas florestas tenebrosas
    Repercutem um choro amargurado.

    Unissemos, nós dois, as nossas covas,
    Ó doce castellã das minhas trovas!

    II

    NATURAES

    CONTRARIEDADES

    Eu hoje estou cruel, frenetico, exigente;
    Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
    Incrivel! Já fumei tres massos de cigarros
    Consecutivamente.

    Doe-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
    Tanta depravação nos usos, nos costumes!
    Amo, insensatamente, os acidos, os gumes
    E os angulos agudos.

    Sentei-me á secretaria. Alli defronte móra
    Uma infeliz, sem, peito, os dois pulmões doentes;
    Soffre de falta d'ar, morreram-lhe os parentes
    E engomma para fóra.

    Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
    Tão livida! O doutor deixou-a. Mortifica.
    Lidando sempre! E deve a conta á botica!
    Mal ganha para sopas…

    O obstaculo estimula, torna-nos perversos;
    Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
    Por causa d'um jornal me regeitar, ha dias,
    Um folhetim de versos.

    Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
    No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
    Mais d'uma redacção, das que elogiam tudo,
    Me tem fechado a porta.

    A critica segundo o methodo de Taine
    Ignoram-n'a. Juntei n'uma fogueira immensa.
    Muitissimos papeis ineditos. A imprensa
    Vale um desdem solemne.

    Com raras excepções merece-me o epigramma.
    Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo,
    Um sol-e-dó. Chovisca. O populacho
    Diverte-se na lama.

    Eu nunca dediquei poemas ás fortunas,
    Mas sim, por deferencia a amigos ou a artistas,
    Independente! Só por isso os jornalistas
    Me negam as columnas.

    Receiam que o assignante ingenuo os abandone,
    Se forem publicar taes cousas, taes auctores.
    Arte? Não lhes convem, visto que os seus leitores
    Deliram por Zaccone.

    Um prosador qualquer desfructa fama honrosa,
    Obtem dinheiro, arranja a sua «coterie»;
    E a mim, não ha questão que mais me contrarie
    Do que escrever em prosa.

    A adulação repugna aos sentimentos finos;
    Eu raramente falo aos nossos litteratos,
    E apuro-me em lançar originaes e exactos,
    Os meus alexandrinos…

    E a tisica? Fechada, e com o ferro acceso!
    Ignora que a asphyxia a combustão das brazas,
    Não foge do estendal que lhe humedece as casas,
    E fina-se ao desprezo!

    Mantem-se a chá e pão! Antes de entrar na cova.
    Esvae-se; e todavia, á tarde, fracamente,
    Oiço-a cantarolar uma canção plangente
    D'uma opereta nova!

    Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
    Quem sabe se depois, eu rico e n'outros climas,
    Conseguirei reler essas antigas rimas,
    Impressas em volume?

    Nas lettras eu conheço um campo de manobras;
    Emprega-se a réclame, a intriga, o annuncio, a blague,
    E esta poesia pede um editor que pague
    Todas as minhas obras…

    E estou melhor; passou-me a colera. E a visinha?
    A pobre engommadeira ir-se-ha deitar sem ceia?
    Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia…
    Que mundo! Coitadinha!

    A DEBIL

    Eu, que sou feio, solido, leal,
    A ti, que és bella, fragil, assustada,
    Quero estimar-te, sempre, recatada
    N'uma existencia honesta, de crystal.

    Sentado á mesa d'um café devasso,
    Ao avistar-te, ha pouco, fraca e loura,
    N'esta Babel tão velha e corruptora,
    Tive tenções de offerecer-te o braço.

    E, quando soccorreste um miseravel,
    Eu, que bebia calices d'absintho,
    Mandei ir a garrafa, porque sinto
    Que me tornas prestante, bom, saudavel.

    «Ella ahi vem!» disse eu para os demais;
    E puz-me a olhar, véxado e suspirando,
    O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
    Na frescura dos linhos matinaes.

    Via-te pela porta envidraçada;
    E invejava,–talvez que o não suspeites!–
    Esse vestido simples, sem enfeites,
    N'essa cintura tenra, immaculada.

    Ia passando, a quatro, o patriarcha.
    Triste eu sahi. Doía-me a cabeça;
    Uma turba ruidosa, negra, espessa,
    Voltava das exequias d'um monarcha.

    Adoravel! Tu muito natural
    Seguias a pensar no teu bordado;
    Avultava, n'um largo arborisado,
    Uma estatua de rei n'um pedestal.

    Sorriam nos seus trens os titulares;
    E ao claro sol, guardava-te, no entanto,
    A tua boa mãe, que te ama tanto,
    Que não te morrerá sem te casares!

    Soberbo dia! Impunha-me respeito
    A limpidez do teu semblante grego;
    E uma familia, um ninho de socego,
    Desejava beijar sobre o teu peito.

    Com elegancia e sem ostentação,
    Atravessavas branca, esvelta e fina,
    Uma chusma de padres de batina,
    E d'altos funccionarios da nação.

    «Mas se a atropella o povo turbolento!
    Se fosse, por acaso, alli pisada!»
    De repente, paraste embaraçada
    Ao pé d'um numeroso ajuntamento.

    E eu, que urdia estes faceis esbocetos,
    Julguei vêr, com a vista de poeta,
    uma pombinha timida e quieta
    N'um bando ameaçador de corvos pretos.

    E foi, então, que eu homem varonil,
    Quiz dedicar-te a minha pobre vida,
    A ti, que és tenue, docil, reconhecida,
    Eu, que sou habil, pratico, viril.

    N'UM BAIRRO MODERNO

    A Manuel Ribeiro

    Dez horas da manhã; os transparentes
    Matizam uma casa apalaçada;
    Pelos jardins estancam-se os nascentes,
    E fere a vista, com brancuras quentes,
    A larga rua macadamisada.

    Rez-de-chaussée repousam socegados,
    Abriram-se, n'alguns, as persianas,
    E d'um ou d'outro, em quartos estucados,
    Ou entre a rama dos papeis pintados,
    Reluzem, n'um almoço, as porcelanas.

    Como é saudavel ter o seu conchego,
    E a sua vida facil! Eu descia,
    Sem muita pressa, para o meu emprego,
    Aonde agora quasi sempre chego
    Com as tonturas d'uma apoplexia.

    E rota, pequenina, aramafada,
    Notei de costas uma rapariga,
    Que no xadrez marmoreo d'uma escada,
    Como um retalho de horta agglomerada,
    Pousára, ajoelhando, a sua giga.

    E eu, apesar do sol, examinei-a:
    Poz-se de pé: resoam-lhe os tamancos;
    E abre-se-lhe o algodão azul da meia,
    Se ella se curva, esguedelhada, feia,
    E pendurando os seus bracinhos brancos.

    Do patamar responde-lhe um criado:
    «Se te convém, despacha; não converses.
    Eu não dou mais.» E muito descançado,
    Atira um cobre livido, oxidado,
    Que vem bater nas faces d' uns alperces.

    Subitamente,–que visão de artista!–
    Se eu transformasse os simples vegetaes,
    Á luz do sol, o intenso colorista,
    N'um ser humano que se mova e exista
    Cheio de bellas proporções carnaes?!

    Boiam aromas, fumos de cozinha;
    Com o cabaz ás costas, e vergando,
    Sobem padeiros, claros de farinha;
    E ás portas, uma ou outra campainha
    Toca, frenetica, de vez em quando.

    E eu recompunha, por anatomia,
    Um novo corpo organico, aos bocados.
    Achava os tons e as fórmas. Descobria
    Uma cabeça n'uma melancia,
    E n'uns repolhos seios injectados.

    As azeitonas, que nos dão o azeite,
    Negras e unidas, entre verdes folhos,
    São tranças d'um cabello que se ageite;
    E os nabos–ossos nus, da côr do leite,
    E os cachos d'uvas–os rosarios d'olhos.

    Ha collos, hombros, boccas, um semblante
    Nas posições de certos fructos. E entre
    As hortaliças, tumido, fragrante,
    Como d'alguem que tudo aquilo jante,
    Surge um melão, que me lembrou um ventre.

    E, como um feto, emfim, que se dilate,
    Vi nos legumes carnes tentadoras,
    Sangue na ginja vivida, escarlate,
    Bons corações pulsando no tomate
    E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.

    O sol dourava o céo. E a regateira,
    Como vendera a sua fresca alface
    E déra o ramo de hortelã que cheira,
    Voltando-se, gritou-me prazenteira:
    «Não passa mais ninguem!… Se me ajudasse?!…»

    Eu acerquei-me d'ella, sem desprezo;
    E, pelas duas azas a quebrar,
    Nós levantámos todo aquelle peso
    Que ao chão de pedra resistia preso,
    Com um enorme esforço muscular.

    «Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!»
    E recebi, náquella despedida,
    As forças, a alegria, a plenitude,
    Que brotam d'um excesso de virtude
    Ou d'uma digestão desconhecida.

    E em quanto sigo para o lado opposto,
    E ao longe rodam umas carruagens,
    A pobre afasta-se, ao calor de agosto,
    Descolorida nas maçãs do rosto,
    E sem quadris na saia de ramagens.

    Um pequerrucho rega a trepadeira
    D'uma janella azul; e, com o ralo
    Do regador, parece que joeira
    Ou que borrifa estrellas; e a poeira
    Que eleva nuvens alvas e incensal-o.

    Chegam do gigo emanações sadias,
    Oiço um canario–que infantil chilrada!–
    Lidam ménages entre as gelosias,
    E o sol estende, pelas frontarias,
    Seus raios de laranja distillada.

    E pittoresca e audaz, na sua chita,
    O peito erguido, os pulsos nas ilhargas,
    D'uma desgraça alegre que me incita,
    Ella apregôa, magra, enfezadita,
    As suas couves repolhudas, largas.

    E como as grossas pernas d'um gigante,
    Sem tronco, mas athleticas, inteiras,
    Carregam sobre a pobre caminhante,
    Sobre a verdura rustica, abundante,
    Duas frugaes aboboras carneiras.

    CRYSTALISAÇÕES

    A Bettencourt Rodrigues

    Faz frio. Mas, depois d'uns dias de aguaceiros,
    Vibra uma immensa claridade crua.
    De cocaras, em linha os calceteiros,
    Com lentidão, terrosos e grosseiros,
    Calcam de lado a lado a longa rua.

    Como as elevações seccaram do relento,
    E o descoberto sol abafa e cria!
    A frialdade exige o movimento;
    E as poças d'agua, como em chão vidrento,
    Reflectem a molhada casaria.

    Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita,
    Disseminadas, gritam as peixeiras;
    Luzem, aquecem na manhã bonita,
    Uns barracões de gente pobresita.
    E uns quintalorios velhos com parreiras.

    Não se ouvem aves; nem o choro d'uma nora!
    Tomam por outra parte os viandantes;
    E o ferro e a pedra–que união sonora!–
    Retinem alto pelo espaço fóra,
    Com choques rijos, asperos, cantantes.

    Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros, baços,
    Cuja columna nunca se endireita,
    Partem penedos; cruzam-se estilhaços.
    Pesam enormemente os grossos maços,
    Com que outros batem a calçada feita.

    A sua barba agreste! A lã dos seus barretes!
    Que espessos forros! N'uma das regueiras
    Acamam-se as japonas, os colletes:
    E elles descalçam com os picaretes,
    Que ferem lume sobre pederneiras.

    E n'esse rude mez, que não consente as flores,
    Fundêam, como a esquadra em fria paz,
    As arvores despidas. Sobrias côres!
    Mastros, enxarcias, vergas! Valladores
    Atiram terra com as largas pás.

    Eu julgo-me no Norte, ao frio–o grande agente!–
    Carros de mão, que chiam carregados,
    Conduzem saibro, vagarosamente;
    Vê se a cidade, mercantil, contente:
    Madeiras, aguas, multidões, telhados!

    Negrejam os quintaes, enxuga e alvenaria;
    Em arco, sem as nuvens fluctuantes,
    O ceu renova a tinta corredia;
    E os charcos brilham tanto, que eu diria
    Ter ante mim lagôas de brilhantes!

    E engelhem muito embora, os fracos, os tolhidos,
    Eu tudo encontro alegremente exacto.
    Lavo, refresco, limpo os meus sentidos.
    E tangem-me, excitados, sacudidos,
    O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto!

    Pede-me o corpo inteiro esforços na friagem
    De tão lavada e egual temperatura!
    Os ares, o caminho, a luz reagem;
    Cheira-me a fogo, a silex, a ferragem;
    Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura.

    Mal encarado e negro, um pára emquanto eu passo;
    Dois assobiam, altas as marretas
    Possantes, grossas, temperadas d'aço;
    E um gordo, o mestre, com um ar de ralaço
    E manso, tira o nivel das valletas.

    Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!
    Que vida tão custosa! Que diabo!
    E os cavadores pousam as enxadas,
    E cospem nas callosas mãos gretadas,
    Para que não lhes escorregue o cabo.

    Povo! No panno cru rasgado das camizas
    Uma bandeira penso que transluz!
    Com ella soffres, bebes, agonisas:
    Listrões de vinho lançam-lhe divisas,
    E os suspensorios traçam-lhe uma cruz!

    D'escuro, bruscamente, ao cimo da barroca,
    Surge um perfil direito que se aguça;
    E ar matinal de quem sahiu da toca,
    Uma figura fina, desemboca,
    Toda abafada n'um casaco á russa.

    D'onde ella vem! A actriz que tanto comprimento
    E a quem, á noite na plateia, attraio
    Os olhos lizos como polimento!
    Com seu rostinho estreito, friorento,
    Caminha agora para o seu ensaio.

    E aos outros eu admiro os dorsos, os costados
    Como lajões. Os bons trabalhadores!
    Os filhos das lezirias, dos montados;
    Os das planicies, altos, aprumados;
    Os das montanhas, baixos, trepadores!

    Mas fina de feições, o queixo hostil, distincto,
    Furtiva a tiritar em suas pelles,
    Espanta-me a actrizita que hoje pinto,
    N'este dezembro energico, succinto,
    E n'estes sitios suburbanos, reles!

    Como animaes communs, que uma picada esquente,
    Elles, bovinos, masculos, ossudos,
    Encaram-n'a sanguinea, brutamente:
    E ella vacilla, hesita impaciente
    Sobre as botinhas de tacões agudos.

    Porém, desempenhando o seu papel na peça,
    Sem que inda o publico a passagem abra,
    O demonico arrisca-se, atravessa
    Covas, entulhos, lamaçaes, depressa,
    Com seus pésinhos rapidos, de cabra!

    NOITES GELIDAS

    MERINA

    Rosto comprido, airosa, angelical, macia,
    Por vezes, a allemã que eu sigo e que me agrada,
    Mais alva que o luar de inverno que me esfria,
    Nas ruas a que o gaz dá noites de ballada;
    Sob os abafos bons que o Norte escolheria,
    Com seu passinho curto e em suas lãs forrada,
    Recorda-me a elegancia, a graça, a galhardia
    De uma ovelhinha branca, ingenua e delicada.

    SARDENTA

    Tu, n'esse corpo completo,
    Ó lactea virgem doirada,
    Tens o lymphatico aspecto
    D'uma camelia melada.

    FLORES VELHAS

    Fui hontem visitar o jardimzinho agreste,
    Aonde tanta vez a luz nos beijou,
    E em tudo vi sorrir o amor que tu me deste,
    Soberba como um sol, serena como um vôo.

    Em tudo scintillava o limpido poema
    Com osculos rimado ás luzes dos planetas;
    A abelha inda zumbia em torno da alfazema;
    E ondulava o matiz das leves borboletas.

    Em tudo eu pude ver ainda a tua imagem,
    A imagem que inspirava os castos madrugaes;
    E as virações, o rio, os astros, a pasizagem,
    Traziam-me á memoria idyllios immortaes.

    Diziam-me que tu, no florido passado,
    Detinhas sobre mim, ao pé d'aquellas rosas,
    Aquelle teu olhar moroso e delicado,
    Que fala de languor e d'emoções mimosas;

    E, ó pallida Clarisse, ó alma ardente e pura,
    Que não me desgostou nem uma vez sequer,
    Eu não sabia haurir do calix da ventura
    O nectar que nos vem dos mimos da mulher.

    Falou-me tudo, tudo, em tons commovedores,
    Do nosso amor, que uniu as almas de dois entes;
    As falas quasi irmãs do vento com as flores
    E a molle exhalação das varzeas rescendentes.

    Inda pensei ouvir aquellas coisas mansas
    No ninho de affeições creado para ti,
    Por entre o riso claro, e as vozes das creanças,
    E as nuvens que esbocei, e os sonhos que nutri.

    Lembrei-me muito, muito, ó symbolo das santas,
    Do tempo em que eu soltava as notas inspiradas,
    E sob aquelle ceo e sobre aquellas plantas
    Bebemos o elixir das tardes perfumadas.

    E nosso bom romance escripto n'um desterro,
    Com beijos sem ruido em noites sem luar,
    Fizeram-m'o reler, mais tristes que um enterro,
    Os goivos, a baunilha e as rosas de toucar.

    Mas tu agora nunca, ah! nunca mais te sentas
    Nos bancos de tijolo em musgo atapetados,
    E eu não beijarei, ás horas somnolentas,
    Os dedos de marfim, polidos e delgados…

    Eu, por não ter sabido amar os movimentos
    Da estrophe mais ideal das harmonias mudas,
    Eu sinto as decepções e os grandes desalentos
    E tenho um riso mau como o sorrir de Judas.

    E tudo emfim passou, passou como uma penna,
    Que o mar leva no dorso exposto aos vendavaes,
    E aquella doce vida, aquella vida amena,
    Ah! nunca mais virá, meu lyrio, nunca mais!

    Ó minha boa amiga, ó minha meiga amante!
    Quando hontem eu pisei, bem magro e bem curvado,
    A areia em que rangia a saia roçagante,
    Que foi na minha vida o ceo aurirosado,

    Eu tinha tão impresso o cunho da saudade,
    Que as ondas que formei das suas illusões
    Fizeram-me enganar na minha soledade
    E as azas ir abrindo ás minhas impressões.

    Soltei com devoção lembranças inda escravas,
    No espaço construi phantasticos castellos,
    No tanque debrucei-me em que te debruçavas,
    E onde o luar parava os raios amarellos.

    Cuidei até sentir, mais doce que uma prece,
    Suster a minha fé, n'um veo consolador,
    O teu divino olhar que as pedras amollece,
    E ha muito que me prendeu nos carceres do amor.

    Os teus pequenos pés, aquelles pés suaves,
    Julguei-os esconder por entre as minhas mãos,
    E imaginei ouvir ao conversar das aves
    As celicas canções dos anjos aos teus irmãos.

    NOITE FECHADA

    (L.)

    Lembras-te tu do sabbado passado,
    Do passeio que démos, devagar,
    Entre um saudoso gaz amarellado
    E as caricias leitosas do luar?

    Bem me lembro das altas ruasinhas,
    Que ambos nós percorremos de mãos dadas:
    Ás janellas palravam as visinhas;
    Tinham lividas luzes as fachadas.

    Não me esqueço das cousas que disseste,
    Ante um pesado templo com recortes;
    E os cemiterios ricos, e o cypreste
    Que vive de gorduras e de mortes!

    Nós saíramos proximo ao sol-posto,
    Mas seguiamos cheios de demoras;
    Não me esqueceu ainda o meu desgosto
    Nem o sino rachado que deu horas.

    Tenho ainda gravado no sentido,
    Porque tu caminhavas com prazer,
    Cara rapada, gordo e presumido,
    O padre que parou para te ver.

    Como uma mitra a cúpula da egreja
    Cobria parte do ventoso largo;
    E essa bocca viçosa de cereja,
    Torcia risos com sabor amargo.

    A lua dava tremulas brancuras,
    Eu ia cada vez mais magoado;
    Vi um jardim com arvores escuras,
    Como uma jaula todo gradeado!

    E para te seguir entrei comtigo
    N'um pateo velho que era d'um canteiro,
    E onde, talvez, se faça inda o jazigo
    Em que eu irei apodrecer primeiro!

    Eu sinto ainda a flôr da tua pelle,
    Tua luva, teu veu, o que tu és!
    Não sei que tentação é que te impelle
    Os pequeninos e cançados pés.

    Sei que em tudo attentavas, tudo vias!
    Eu por mim tinha pena dos marçanos,
    Como ratos, nas gordas mercearias,
    Encafunados por immensos annos!

    Tu sorriras de tudo: Os carvoeiros,
    Que apparecem ao fundo d'umas minas,
    E á crua luz os pallidos barbeiros
    Com oleos e maneiras femininas!

    Fins de semana! Que miseria em bando!
    O povo folga, estupido e grisalho!
    E os artistas d'officio iam passando,
    Com as ferias, ralados do trabalho.

    O quadro anterior, d'um que á candêa,
    Ensina a filha a ler, metteu-me dó!
    Gosto mais do plebeu que cambalêa,
    Do bebado feliz que falla só!

    De subito, na volta de uma esquina,
    Sob um bico de gaz que abria em leque,
    Vimos um militar, de barretina
    E galões marciaes de pechisbeque,

    E em quanto elle fallava ao seu namoro,
    Que morava n'um predio de azulêjo,
    Nos nossos labios retinio sonoro
    Um vigoroso e formidavel beijo!

    E assim ao meu capricho abandonada,
    Errámos por travessas, por viellas,
    E passámos por pé d'uma tapada
    E um palacio real com sentinellas.

    E eu que busco a moderna e fina arte,
    Sobre a umbrosa calçada sepulchral,
    Tive a rude intenção de violentar-te
    Imbecilmente como um animal!

    Mas ao rumor dos ramos e d'aragem,
    Como longiquos bosques muito ermos,
    Tu querias no meio da folhagem
    Um ninho enorme para nós vivermos.

    E ao passo que eu te ouvia abstractamente,
    Ó grande pomba tépida que arrulha,
    Vinham batendo o macadam fremente,
    As patadas sonoras da patrulha,

    E atravez a immortal cidadesinha,
    Nós fomos ter ás portas, ás barreiras,
    Em que uma negra multidão se apinha
    De tecelões, de fumos, de caldeiras.

    Mas a noite dormente e esbranquiçada
    Era uma esteira lucida d'amor;
    Ó jovial senhora perfumada,
    Ó terrivel creança! Que esplendor!

    E ali começaria o meu desterro!…
    Lodoso o rio, e glacial, corria;
    Sentámo-nos, os dois, n'um novo aterro
    Na muralha dos caes de cantaria.

    Nunca mais amarei, já que não me amas,
    E é preciso, decerto, que me deixes!
    Toda a maré luzida como escamas,
    Como alguidar de prateados peixes.

    E como é necessario que eu me afoite
    A perder-me de ti por quem existo,
    Eu fui passar ao campo aquella noite
    E andei leguas a pé, pensando n'isto.

    E tu que não serás sómente minha,
    Ás caricias leitosas do luar,
    Recolheste-te, pallida e sósinha
    Á gaiola do teu terceiro andar!

    MANHANS BRUMOSAS

    Aquella, cujo amor me causa alguma pena,
    Põe o chapeo ao lado, abre o cabello á banda,
    E com a forte voz cantada com que ordena,
    Lembra-me, de manhan, quando nas praias anda,
    Por entre o campo e o mar, bucolica, morena,
    Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.

    Que linguas fala? A ouvir-lhe as inflexões inglezas,
    –Na Nevoa azul, a caça, as pescas, os rebanhos!–
    Sigo-lhe os altos pés por estas asperezas;
    E o meu desejo nada em epoca de banhos,
    E, ave de arribação, elle enche de surprezas
    Seus olhos de perdiz, redondos e castanhos.

    As irlandezas teem soberbos desmazelos!
    Ella descobre assim, com lentidões ufanas,
    Alta, escorrida, abstracta, os grossos tornozelos;
    E como aquellas são maritimas, serranas,
    Suggere-me o naufragio, as musicas, os gelos
    E as redes, a manteiga, os queijos, as choupanas.

    Parece um «rural boy»! Sem brincos nas orelhas,
    Traz um vestido claro a comprimir-lhe os flancos,
    Botões a tiracollo e applicações vermelhas;
    E á roda, n'um paiz de prados e barrancos,
    Se as minhas maguas vão, mansissimas ovelhas,
    Correm os seus desdens, como vitellos brancos.

    E aquella, cujo amor me causa alguma pena,
    Põe o chapeo ao lado, abre o cabello á banda,
    E com a forte voz cantada com que ordena,
    Lembra-me, de manhan, quando nas praias anda,
    Por entre o campo e o mar, catholica, morena,
    Uma pastora de audaz da religiosa Irlanda.

    FRIGIDA

    I

    Balzac é meu rival, minha senhora ingleza!
    Eu quero-a porque odeio as carnações redondas!
    Mas elle eternisou-lhe a singular belleza
    E eu turbo-me ao deter seus olhos côr das ondas.

    II

    Admiro-a. A sua longa e placida estatura
    Expõe a magestade austera dos invernos.
    Não cora no seu todo a timida candura;
    Dansam a paz dos ceos e o assombro dos infernos.

    III

    Eu vejo-a caminhar, fleugmatica, irritante,
    N'uma das mãos franzindo um lenço de cambraia!…
    Ninguem me prende assim, funebre, extravagante,
    Quando arregaça e ondula a preguiçosa saia!

    IV

    Ouso esperar, talvez, que o seu amor me acoite,
    Mas nunca a fitarei d'uma maneira franca;
    Traz o esplendor do Dia e as pallidez da Noite,
    É, como o Sol, dourada, e, como a Lua, branca!

    V

    Podesse-me eu prostrar, n'um meditado impulso,
    Ó gelida mulher bizarramente estranha,
    E tremulo depor os labios no seu pulso,
    Entre a macia luva e o punho de bretanha!…

    VI

    Scintilla no seu rosto a lucidez das joias.
    Ao encarar comsigo a phantasia pasma;
    Pausadamente lembra o silvo das giboias
    E a marcha demorada e muda d'um phantasma.

    VII

    Metallica visão que Charles Baudelaire
    Sonhou e presentiu nos seus delirios mornos,
    Permitta que eu lhe adule a distincção que fere,
    As curvas de magreza e o lustre dos adornos!

    VIII

    Deslise como um astro, uma astro que declina;
    Tão descançada e firme é que me desvaria,
    E tem a lentidão d'uma corveta fina
    Que nobremente vá n'um mar de calmaria.

    IX

    Não me imagine um doido. Eu vivo como um monge,
    No bosque das ficções, ó grande flor do Norte!
    E, ao, perseguil-a, penso acompanhar de longe
    O socegado espectro angelico da Morte!

    X

    O seu vagar occulta uma elasticidade
    Que deve dar um gosto amargo e deleitoso,
    E a sua glacial impassibilidade
    Exalta o meu desejo e irrita o meu nervoso.

    XI

    Porem, não arderei aos seus contactos frios,
    E não me enroscará nos serpentinos braços:
    Receio supportar febrões e calefrios;
    Adoro no seu corpo os movimentos lassos.

    XII

    E se uma vez me abrisse o collo transparente,
    E me osculasse, emfim, flexivel e submisso,
    Eu julgaria ouvir alguem, agudamente,
    Nas trevas, a cortar pedaços de cortiça!

    DE VERÃO

    A Eduardo Coelho

    I

    No campo; eu acho n'elle a musa que me anima:
    A claridade, a robustez, a acção.
    Esta manhã, saí com minha prima,
    Em que eu noto a mais sincera estima
    E a mais completa e séria educação.

    II

    Creança encantadora! Eu mal esboço o quadro
    Da lyrica excursão, d'intimidade
    Não pinto a velha ermida com seu adro;
    Sei só desenho de compasso e esquadro,
    Respiro industria, paz, salubridade.

    III

    Andam cantando aos bois; vamos cortando as leiras;
    E tu dizias: «Fumas? E as fagulhas?
    Apaga o teu cachimbo junto ás eiras;
    Colhe-me uns brincos rubros nas ginjeiras!
    Quando me alegra a calma das debulhas!»

    IV

    E perguntavas sobre os ultimos inventos
    Agrícolas. Que aldeias tão lavadas!
    Bons ares! Boa luz! Bons alimentos!
    Olha: Os saloios vivos, corpulentos,
    Como nos fazem grandes barretadas!

    V

    Voltemos. Na ribeira abundam as ramagens
    Dos olivaes escuros. Onde irás?
    Regressam os rebanhos das pastagens;
    Ondeiam milhos, nuvens e miragens,
    E, silencioso, eu fico para traz.

    VI

    N'uma collina azul brilha um logar caiado.
    Bello! E arrimada ao cabo da sombrinha,
    Com teu chapéo de palha, desabado,
    Tu continúas na azinhaga; ao lado
    Verdeja, vicejante, a nossa vinha.

    VII

    N'isto, parando, como alguem que se analysa,
    Sem desprender do chão teus olhos castos,
    Tu começaste, harmonica, indecisa,
    A arregaçar a chita, alegre e lisa
    Da tua cauda um poucochinho a rastos.

    VIII

    Espreitam-te, por cima, as frestas dos celleiros;
    O sol abrasa as terras já ceifadas,
    E alvejam-te, na sombra dos pinheiros,
    Sobre os teus pés decentes, verdadeiros,
    As saias curtas, frescas, engommadas.

    IX

    E, como quem saltasse, extravagantemente,
    Um rego d'agua sem se enxovalhar,
    Tu, a austera, a gentil, a intelligente,
    Depois de bem composta, déste á frente
    Uma pernada comica, vulgar!

    X

    Exotica! E cheguei-me ao pé de ti. Que vejo!
    No atalho enxuto, e branco das espigas
    Caidas das carradas no salmejo,
    Esguio e a negrejar em um cortejo,
    Destaca-se um carreiro de formigas.

    XI

    Ellas, em sociedade, espertas, diligentes,
    Na natureza trémula de sede,
    Arrastam bichos, uvas e sementes;
    E atulha, por instincto, previdentes,
    Seus antros quasi occultos na parede.

    XII

    E eu desatei a rir como qualquer macaco!
    «Tu não as esmagares contra o solo!»
    E ria-me, eu ocioso, inutil, fraco,
    Eu de jasmim na casa do casaco
    E d'oculo deitado a tiracolo!

    XIII

    «As ladras da colheita! Eu se trouxesse agora
    Um sublimado corrosivo, uns pós
    De solimão, eu, sem maior demora,
    Envenenal-as-hia! Tu, por ora,
    Preferes o romantico ao feroz.

    XIV

    Que compaixão! Julgava até que matarias
    Esses insectos importunos! Basta.
    Merecem-te espantosas sympathias?
    Eu felicito suas senhorias,
    Que honraste com um pulo de gymnasta!»

    XV

    E emfim calei-me. Os teus cabellos muito loiros
    Luziam, com doçura, honestamente;
    De longe o trigo em monte, e os calcadoiros,
    Lembravam-me fusões d'immensos oiros,
    E o mar um prado verde e florescente.

    XVI

    Vibravam, na campina, as chocas da manada;
    Vinham uns carros a gemer no outeiro,
    E finalmente, energica, zangada,
    Tu inda assim bastante envergonhada,
    Volveste-me, apontando o formigueiro:

    XVII

    «Não me incommode, não, com ditos detestaveis!
    Não seja simplesmente um zombador!
    Estas mineiras negras, incançaveis,
    São mais economistas, mais notaveis,
    E mais trabalhoras que o senhor.»

    O SENTIMENTO D'UM OCCIDENTAL

    A Guerra Junqueiro

    I

    AVE MARIAS

    Nas nossas ruas, ao anoitecer,
    Ha tal soturnidade, ha tal melancholia,
    Que as sombras, o bulicio, o Tejo, a maresia
    Despertam-me um desejo absurdo de soffrer.

    O ceu parece baixo e de neblina,
    O gaz extravasado enjôa-me, perturba;
    E os edificios, com as chaminés, e a turba
    Toldam-se d'uma côr monotona e londrina.

    Batem os carros de aluguer, ao fundo,
    Levando á via ferrea os que se vão. Felizes!
    Occorrem-me em revista exposições, paizes:
    Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

    Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
    As edificações sómente emmadeiradas:
    Como morcegos, ao cair das badaladas,
    Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

    Voltam os calafates, aos magotes,
    De jaquetão ao hombro, enfarruscados, seccos;
    Embrenho-me, a scismar, por boqueirões, por beccos,
    Ou érro pelos caes a que se atracam botes.

    E evoco, então, as chronicas navaes:
    Mouros, baixeis, heroes, tudo resuscitado!
    Lucta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
    Singram soberbas naus que eu não verei jámais!

    E o fim da tarde inspira-me; e incommoda!
    De um couraçado inglez vogam os escaleres;
    E em terra n'um tinir de louças e talheres
    Flammejam, ao jantar, alguns hoteis da moda.

    N'um trem de praça arengam dois dentistas;
    Um tropego arlequim braceja n'umas andas;
    Os cherubins do lar fluctuam nas varandas;
    Ás portas, em cabello, enfadam-se os logistas!

    Vasam-se os arsenaes e as officinas;
    Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
    E n'um cardume negro, herculeas, galhofeiras,
    Correndo com firmeza, assomam as varinas.

    Vem sacudindo as ancas opulentas!
    Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
    E algumas, á cabeça, embalam nas canastras
    Os filhos que depois naufragam nas tormentas,

    Descalças! Nas descargas de carvão,
    Desde manhã á noite, a bórdo das fragatas;
    E apinham-se n'um bairro aonde miam gatas,
    E o peixe pôdre géra os focos de infecção!

    II

    NOITE FECHADA

    Toca-se as grades, nas cadeias. Som
    Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
    O aljube, em que hoje estão velhinhas e creanças,
    Bem raramente encerra uma mulher de «dom»!

    E eu desconfio, até, de um aneurisma
    Tão morbido me sinto, ao accender das luzes;
    Á vista das prisões, da velha sé, das cruzes,
    Chora-me o coração que se enche e que se abysma.

    A espaços, illuminam-se os andares,
    E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos
    Alastram em lençol os seus reflexos brancos;
    E a lua lembra o circo e os jogos malabares.

    Duas egrejas, n'um saudoso largo,
    Lançam a nodoa negra e funebre do clero:
    N'ellas esfumo um ermo inquisidor severo,
    Assim que pela Historia eu me aventuro e alargo.

    Na parte que abateu no terremoto,
    Muram-se as construcções rectas, eguaes, crescidas;
    Affrontam-me, no resto, as ingremes subidas,
    E os sinos d'um tanger monastico e devoto.

    Mas, n'um recinto publico e vulgar,
    Com bancos de namoro e exiguas pimenteiras,
    Bronzeo, monumental, de proporções guerreiras,
    Um épico d'outr'ora ascende, n'um pilar!

    E eu sonho o Colera, imagina a Febre,
    N'esta accumulação de corpos enfezados;
    Sombrios e espectraes recolhem os soldados;
    Inflamma-se um palacio em face de um casebre.

    Partem patrulhas de cavallaria
    Dos arcos dos quarteis que foram já conventos;
    Edade-média! A pé, outras, a passos lentos,
    Derramam-se por toda a capital, que esfria.

    Triste cidade! Eu temo que me avives
    Uma paixão defunta! Aos lampeões distantes,
    Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
    Curvadas a sorrir ás montras dos ourives.

    E mais: as costureiras, as floristas
    Descem dos magasins, causam-me sobresaltos;
    Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
    E muitas d'ellas são comparsas ou coristas.

    E eu, de luneta de uma lente só,
    Eu acho sempre assumpto a quadros revoltados:
    Entro na brasserie; ás mesas de emigrados,
    Ao riso e á crua luz joga-se o dominó.

    III

    AO GAZ

    E saio. A noite peza, esmaga. Nos
    Passeios de lagedo arrastam-se as impuras.
    Ó molles hospitaes! Sae das embocaduras
    Um sopro que arripia os hombros quasi nús.

    Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
    Ver cirios lateraes, ver filas de capellas,
    Com santos e fieis, andores, ramos, velas,
    Em uma cathedral de um comprimento immenso.

    As burguezinhas do Catholocismo
    Resvalam pelo chão minado pelos canos;
    E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
    As freiras que os jejuns matavam de hysterismo.

    N'um cutileiro, de avental, ao torno,
    Um forjador maneja um malho, rubramente;
    E de uma padaria exhala-se, inda quente,
    Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

    E eu que medito um livro que exarcebe,
    Quizera que o real e a analyse m'o dessem;
    Casas de confecções e modas resplandecem;
    Pelas vitrines ólha um ratoneiro imberbe.

    Longas descidas! Não poder pintar
    Com versos magistraes, salubres e sinceros,
    A esguia diffusão dos vossos reverberos,
    E a vossa pallidez romantica e lunar!

    Que grande cobra, a lubrica pessoa,
    Que espartilhada escolhe uns chales com debuxo!
    Sua excellencia attráe, magnetica, entre luxo,
    Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

    E aquella velha, de bandós! Por vezes,
    A sua traîne imita um leque antigo, aberto,
    Nas barras verticaes, a duas tintas. Perto,
    Escarvam, á victoria, os seus mecklemburguezes.

    Desdobram-se tecidos estrangeiros;
    Plantas ornamentaes seccam nos mostradores;
    Flócos de pós de arroz pairam suffocadores,
    E em nuvems de setins requebram-se os caixeiros,

    Mas tudo cança! Apagam-se nas frentes
    Os candelabros, como estrellas, pouco a pouco;
    Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
    Tornam-se mausoléos as armações fulgentes.

    «Dó da miseria!… Compaixão de mim!…»
    E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
    Pede-me sempre esmola um homemzinho idoso,
    Meu velho professor nas aulas de latim!

    IV

    HORAS MORTAS

    O tecto fundo de oxygenio, d'ar,
    Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
    Vem lagrimas de luz dos astros com olheiras,
    Enleva-me a chimera azul de transmigrar.

    Por baixo, que portões! Que arruamentos!
    Um parafuso cáe nas lages, ás escuras:
    Collocam-se taipaes, rangem as fechaduras,
    E os olhos d'um caleche espantam-me, sangrentos.

    E eu sigo, como as linhas de uma pauta
    A dupla correnteza augusta das fachadas;
    Pois sobem, no silencio, infaustas e trinadas,
    As notas pastoris de uma longiqua flauta.

    Se eu não morresse, nunca! E eternamente
    Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
    Esqueço-me a prever castissimas esposas,
    Que aninhem em mansões de vidro transparente!

    Ó nossos filhos! Que de sonhos ageis,
    Pousando, vos trarão a nitidez ás vidas!
    Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
    N'umas habitações translucidas e frageis.

    Ah! Como a raça ruiva do porvir,
    E as frótas dos avós, e os nómadas ardentes,
    Nós vamos explorar todos os continentes
    E pelas vastidões aquaticas seguir!

    Mas se vivemos, os emparedados,
    Sem arvores, no valle escuro das muralhas!…
    Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
    E os gritos de soccorro ouvir estrangulados.

    E n'estes nebulosos corredores
    Nauseam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
    Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
    Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

    Eu não receio, todavia, os roubos;
    Afastam-se, a distancia, os dubios caminhantes;
    E sujos, sem ladrar, osseos, febris, errantes,
    Amarelladamente, os cães parecem lobos.

    E os guardas, que revistam as escadas,
    Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
    Por cima, as immoraes, nos seus roupões ligeiros,
    Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.

    E, enorme, n'esta massa irregular
    De predios sepulchraes, com dimensões de montes,
    A Dôr humana busca os amplos horisontes,
    E tem marés, de fel, como um sinistro mar!

    DE TARDE

    N'aquelle «pic-nic» de burguezas,
    Houve uma cousa simplesmente bella,
    E que, sem ter historia nem grandezas,
    Em todo o caso dava uma aguarella.

    Foi quando tu, descendo do burrico,
    Foste colher, sem imposturas tolas,
    A um granzoal azul de grão de bico
    Um ramalhete rubro de papoulas.

    Pouco depois, em cima d'uns penhascos,
    Nós acampámos, inda o sol se via;
    E houve talhadas de melão, damascos,
    E pão de ló molhado em malvasia.

    Mas, todo purpuro a sahir da renda
    Dos teus dois seios como duas rolas,
    Era o supremo encanto da merenda
    O ramalhete rubro das papoulas!

    EM PETIZ

    I

    DE TARDE

    Mais morta do que viva, a minha companheira
    Nem força teve em si para soltar um grito;
    E eu, n'esse tempo, um destro e bravo rapazito,
    Como um homemzarrão servi-lhe de barreira!

    Em meio de arvoredo, azenhas e ruinas,
    Pulavam para a fonte as bezerrinhas brancas;
    E, têtas a abanar, as mães de largas ancas,
    Desciam mais atraz, malhadas e turinas.

    Do seio do logar–casitas com postigos–
    Vem-nos o leite. Mas baptisam-n'o primeiro.
    Leva-o, de madrugada, em bilhas, o leiteiro,
    Cujo pregão vos tira ao vosso somno, amigos!

    Nós davamos, os dois, um giro pelo valle:
    Varzeas, povoações, pégos, silencios vastos!
    E os fartos animaes, ao recolher dos pastos,
    Roçavam pelo teu «costume de percale».

    Já não receias tu essa vaquita preta,
    Que eu segurei, prendi por um chavelhoe? Juro
    Que estavas a tremer, cosida com o muro,
    Hombros em pé, medrosa, e fina, de luneta!

    II

    OS IRMÃOSINHOS

    Pois eu, que no deserto dos caminhos,
    Por ti me expunha immenso, contra as vaccas;
    Eu, que apartava as mansas das velhacas,
    Fugia com terror dos pobresinhos!

    Vejo-os no pateo, ainda! Ainda os ouço!
    Os velhos, que nos rezam padre-nossos;
    Os mandriões que rosnam, altos, grossos;
    E os cegos que se apoiam sobre o moço.

    Ah! Os ceguinhos com a côr dos barros,
    Ou que a poeira no suor mascarra,
    Chegam das feiras a tocar guitarra,
    Rolam os olhos como dois escarros!

    E os pobres mettem medo! Os de marmita,
    Para forrar, por anno, alguns patacos,
    Entrapam-se nas mantas com buracos,
    Choramingando, a voz rachada, afflicta.

    Outros pedincham pelas cinco chagas;
    E no poial, tirando as ligaduras,
    Mostram as pernas putridas, maduras,
    Com que se arrastam pelas azinhagas!

    Querem viver! E picam-se nos cardos;
    Correm as villas; sobem os outeiros;
    E ás horas de calor, nos esterqueiros,
    De roda d'elles zumbem os moscardos.

    Aos sabbados, os monstros, que eu lamento,
    Batiam ao portão com seus cajados;
    E um aleijado com os pés quadrados,
    Pedia-nos de cima de um jumento.

    O resmungão! Que barbas! Que saccolas!
    Cheirava a migas, a bafio, a arrotos;
    Dormia as noutes por telheiros rotos,
    E sustentava o burro a pão d'esmolas.

    * * * * *

    Ó minha loura e doce como um bolo!
    Affavel hospeda na nossa casa,
    Logo que a torrida cidade abraza,
    Como um enorme fôrno de tijolo!

    Tu visitavas, esmoler, garrida,
    Umas creanças n'um casal queimado;
    E eu, pela estrada, espicaçava o gado,
    N'uma attitude esperta e decidida.

    Por lobishomens, por papões, por bruxas,
    Nunca soffremos o menor receio.
    Temieis vós, porém, o meu aceio,
    Mendigasitas sordidas, gorduchas!

    Vicios, sezões, epidemias, furtos,
    De certo, fermentavam entre lixos;
    Que podridão cobria aquelles bichos!
    E que luar nos teus fatinhos curtos!

    * * * * *

    Sei de uma pobre, apenas, sem desleixos,
    Ruça, descalça, a trote nos atalhos,
    E que lavava o corpo e os seus retalhos
    No rio, ao pé dos choupos e dos freixos.

    E a douda a quem chamavam a «Ratada»
    E que fallava só! Que antipathia!
    E se com ella a malta contendia,
    Quanta indecencia! Quanta palavrada!

    Uns operarios, n'estes descampados,
    Tambem surdiam, de chapeu de côco,
    Dizendo-se, de olhar rebelde e louco,
    Artistas despedidos, desgraçados.

    Muitos! E um bebedo–o Camões–que fôra
    Rico, e morreu a mendigar, zarolho,
    Com uma pala verde sobre um olho!
    Tivera ovelhas, bois, mulher, lavoura.

    E o resto? Bandos de selvagensinhos:
    Um nú que se gabava de maroto;
    Um, que cortada a mão, coçava o coto,
    E os bons que nos tratavam por padrinhos.

    Pediam fatos, botas, cobertores!
    Outro jogava bem o pau, e vinha
    Chorar, humilde, junto da coxinha!
    «Cinco réisinhos!… Nobres bemfeitores!…

    E quando alguns ficavam nos palheiros,
    E de manhã catavam os piolhos:
    Emquanto o sol batia nos restolhos
    E os nossos cães ladravam, resingueiros!

    Hoje entristeço. Lembro-me dos coxos,
    Dos surdos, dos manhosos, dos manetas.
    Sulcavam as calçadas, de muletas;
    Cantavam, no pomar, os pintarroxos!

    III

    HISTORIAS

    Scismatico, doente, azedo, apoquentado,
    Eu agourava o crime, as facas, a enxovia,
    Assim que um besuntão dos taes se apercebia
    Da minha blusa azul e branca, de riscado.

    Minaveis, ao serão, a cabecita loira,
    Com contos de provincia, ingenuas creaditas:
    Quadrilhas assaltando as quintas mais bonitas,
    E pondo a gente fina, em postas, de salmoira!

    Na noite velha, a mim, como tições ardendo,
    Fitavam-me os olhões pesados das ciganas;
    Deitavam-n'os o fogo aos predios e arribanas;
    Cercava-me um incendio ensanguentado, horrendo.

    E eu que era um cavallão, eu que fazia pinos,
    Eu que jogava a pedra, eu que corria tanto;
    Sonhava que os ladrões–homens de quem m'espanto
    Roubavam para azeite a carne dos meninos!

    E protegia-te eu, n'aquelle outomno brando,
    Mal tu sentias, entre as serras esmoitadas,
    Gritos de maioraes, mugidos de boiadas,
    Branca de susto, meiga e miope, estacando!

    NÓS

    A A. de S. V.

    I

    Foi quando em dois verões, seguidamente, a Febre
    E o Cholera tambem andaram na cidade,
    Que esta população, com um terror de lebre,
    Fugiu da capital como da tempestade.

    Ora, meu pae, depois das nossas vidas salvas,
    (Até então nós só tiveramos sarampo),
    Tanto nos viu crescer entre uns montões de malvas
    Que elle ganhou por isso um grande amor ao campo.

    Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga:
    O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos;
    Mesmo no nosso predio, os outros inquilinos
    Morreram todos. Nós salvámo-nos na fuga.

    Na parte mercantil, foco da epidemia,
    Um panico! Nem um navio entrava a barra,
    A alfandega parou, nenhuma loja abria,
    E os turbolentos caes cessaram a algazarra.

    Pela manhã, em vez dos trens dos baptisados,
    Rodavam sem cessar as seges dos enterros.
    Que triste a sucessão dos armazens fechados!
    Como um domingo inglez na «city», que desterro!

    Sem canalisação, em muitos burgos ermos,
    Seccavam dejecções cobertas de mosqueiros.
    E os medicos, ao pé dos padres e coveiros,
    Os ultimos fieis, tremiam dos enfermos!

    Uma illuminação a azeite de purgueira,
    De noite amarellava os predios macillentos.
    Barricas d'alcatrão ardiam; de maneira
    Que tinham tons d'inferno outros arruamentos.

    Porém, lá fora, á solta, exageradamente
    Emquanto acontecia essa calamidade,
    Toda a vegetação, plethorica, potente,
    Ganhava immenso com a enorme mortandade!

    N'um impeto de seiva os arvoredos fartos,
    N'uma opulenta furia as novidades todas,
    Como uma universal celebração de bodas,
    Amaram-se! E depois houve soberbos partos.

    Por isso, o chefe antigo e bom da nossa casa,
    Triste d'ouvir fallar em orphãos e em viuvas,
    E em permanencia olhando o horizonte em brasa,
    Não quiz voltar senão depois das grandes chuvas.

    Elle d'um lado, via os filhos achacados,
    Um livido flagello e uma molestia horrenda!
    E via, do outro lado, eiras, lezirias, prados,
    E um salutar refugio e um lucro na vivenda!

    E o campo, desde então, segundo o que me lembro,
    É todo o meu amor de todos estes annos!
    Nós vamos para lá; somos provincianos,
    Desde o calor de maio aos frios de novembro!

    II

    Que de fructa! E que fresca e temporã,
    Nas duas boas quintas bem muradas,
    Em que o sol, nos talhões e nas latadas,
    Bate de chapa, logo de manhã!

    O laranjal de folhas negrejantes,
    (Porque os terrenos são resvaladiços)
    Desce em socalcos todos os macissos,
    Como uma escadaria de gigantes.

    Das courellas, que criam cereaes,
    De que os donos–ainda!–pagam foros.
    Dividem-n'o fechados pitosporos,
    Abrigos de raizes verticaes.

    Ao meio, a casaria branca assenta
    Á beira da calçada, que divide
    Os escuros pomares de pevide,
    Da vinha, n'uma encosta soalhenta!

    Entretanto, nao ha maior prazer
    Do que, na placidez das duas horas,
    Ouvir e ver, entre o chiar das noras,
    No largo tanque as bicas a correr!

    Muito ao fundo, entre olmeiros seculares,
    Secca o rio! Em trez mezes d'estiagem,
    O seu leito é um atalho de passagem,
    Pedregosissimo, entre dois logares.

    Como lhe luzem seixos e burgaus
    Roliçõs! Marinham nas ladeiras
    Os renques africanos das piteiras,
    Que como áloes espigam altos paus!

    Montanhas inda mais longiquamente,
    Com restevas, e combros como boças,
    Lembram cabeças estupendas, grossas,
    De cabello grisalho, muito rente.

    E, a contrastar, nos valles, em geral,
    Como em vidraça d'uma enorme estufa,
    Tudo se attrae, se impõe, alarga e entufa,
    D'uma vitalidade equatorial!

    Que de frugalidades nós criamos!
    Que torrão espontaneo que nós somos!
    Pela outomnal maturação dos pomos,
    Com a carga, no chão pousam os ramos.

    E assim postas, nos barros e areiaes,
    As maceiras vergadas fortemente,
    Parecem, d'uma fauna surprehendente,
    Os polypos enormes, diluviaes.

    Comtudo, nós não temos na fazenda
    Nem uma planta só de mero ornato!
    Cada pé mostra-se util, é sensato,
    Por mais finos aromas que rescenda!

    Finalmente, na fertil depressão,
    Nada se vê que a nossa mão não regre:
    A florescencias d'um matiz alegre
    Mostra um sinal–a fructificação!

    * * * * *

    Ora, ha dez annos, n'este chão de lava
    E argila e areia e alluviões dispersas,
    Entre especies botanicas diversas,
    Forte, a nossa familia radiava!

    Unicamente, a minha doce irmã,
    Como uma tenue e immaculada rosa,
    Dava a nota galante e melindrosa
    Na trabalheira rustica, aldeã.

    E foi n'um anno prodigo, excellente,
    Cuja amargura nada sei que adoce,
    Que nós perdemos essa flor precoce,
    Que cresceu e morreu rapidamente!

    Ai d'aquelles que nascem n'este cahos,
    E, sendo fracos, sejam generosos!
    As doenças assaltam os bondosos
    E–custa a crer–deixam viver os maus!

    * * * * *

    Fecho os olhos cançados, e descrevo
    Das telas da memoria retocadas,
    Biscates, hortas, batataes, latadas,
    No paiz montanhoso, com relevo!

    Ah! Que aspectos benignos e ruraes
    N'esta localidade tudo tinha,
    Ao ires, com o banco de palhinha,
    Para a sombra que faz nos parreiraes!

    Ah! Quando a calma, á sesta, nem consente
    Que uma folha se mova ou se desmanche,
    Tu, refeita e feliz com o teu «lunch»,
    Nos ajudavas, voluntariamente!…

    Era admiravel–n'este grau do Sul!–
    Entre a rama avistar o teu rosto alvo,
    Ver-te escolhendo a uva diagalvo,
    Que eu embarcava para Liverpool.

    A exportação de frutas era um jogo:
    Dependiam da sorte do mercado
    O boal, que é de perolas formado,
    E o ferral, que é ardente e côr de fogo!

    Em agosto, ao calor canicular,
    Os passaros e enxames tudo infestam;
    Tu cortavas os bagos que não prestam
    Com a tua thesoura de bordar.

    Douradas, pequeninas, as abelhas,
    E negros, volumosos, os besoiros,
    Circumdavam, com impetos de toiros,
    As tuas candidissimas orelhas.

    Se uma vespa lançava o seu ferrão
    Na tua cutis–petala de leite!–
    Nós collocavamos dez réis e azeite
    Sobre a galante, a rosea inflammação!

    E se um de nós, já farto, arrenegado,
    Com o chapeo caçava a bicharia,
    Cada zangão voando, á luz do dia,
    Lembrava o teu dedal arremessado.

    * * * * *

    Que d'encantos! Na força do calor
    Desabrochavas no padrão da bata,
    E, surgindo da gola e da gravata,
    Teu pescoço era o caule d'uma flor!

    Mas que cegueira a minha! Do teu porte
    A fina curva, a indefinida linha,
    Com bondades d'herbivora mansinha,
    Eram prenuncios de fraqueza e morte!

    Á procura da libra e do «schilling»,
    Eu andava abstracto e sem que visse
    Que o teu alvor romantico de «miss»
    Te obrigava a morrer antes de mim!

    E antes tu, ser lindissimo, nas faces
    Tivesses «panno» como as camponezas;
    E sem brancuras, sem delicadezas,
    Vigorosa e plebeia, inda durasses!

    Uns modos de carnivora feroz
    Podias ter em vez de inoffensivos;
    Tinhas caninos, tinhas incisivos,
    E podias ser rude como nós!

    Pois n'este sítio, que era de sequeiro,
    Todo o genero ardente resistia,
    E, á larguissima luz do Meio-dia,
    Tomava um tom opalico e trigueiro!

    * * * * *

    Sim! Europa do Norte, o que suppões
    Dos vergeis que abastecem teus banquetes,
    Quando ás dockas, com fructas, os paquetes
    Chegam antes das tuas estações?!

    Oh! As ricas «primeurs» da nossa terra
    E as tuas frutas acidas, tardias,
    No azedo amoniacal das queijarias
    Dos fleugmaticos «farmers» d'Inglaterra!

    Ó cidades fabris, industriaes,
    De nevoeiros, poeiradas de hulha,
    Que pensaes do paiz que vos atulha
    Com a fructa que sae dos seus quintaes?

    Todos os annos, que frescor se exhala!
    Abundancias felizes que eu recordo!
    Carradas brutas que iam para bórdo!
    Vapores por aqui fazendo escala!

    Uma alta parreira muscatel
    Por doce não servia para embarque:
    Palacios que rodeiam Hyde-Park,
    Não conheceis esse divino mel!

    Pois a Corôa, o Banco, o Almirantado,
    Não as têm nas florestas em que ha corças,
    Nem em vós que dobraes as vossas forças,
    Pradarias d'um verde illimitado!

    Anglos-Saxonios, tendes que invejar!
    Ricos suicidas, comparae comvosco!
    Aqui tudo espontaneo, alegre, tosco,
    Facilimo, evidente, salutar!

    Opponde ás regiões que dão os vinhos
    Vossos montes d'escorias inda quentes!
    E as febris officinas estridentes
    Ás nossas tecelagens e moinhos!

    E ó condados mineiros! Extensões
    Carboniferas! Fundas galerias!
    Fabricas a vapor! Cutelarias!
    E mechanicas, tristes fiações!

    Bem sei que preparaes correctamente
    O aço e a seda, as laminas e o estofo;
    Tudo o que há de mais dúctil, de mais fofo,
    Tudo o que ha de mais rijo e resistente!

    Mas isso tudo é falso, é machinal,
    Sem vida, como um circulo ou um quadrado,
    Com essa perfeição do fabricado,
    Sem o rythmo do vivo e do real!

    E cá o santo sol, sobre isso tudo,
    Faz conceber as verdes ribanceiras;
    Lança as rosaceas bellas e fructeiras
    Nas searas de trigo palhagudo!

    Uma aldeia d'aqui é mais feliz,
    Londres sombria, em que scintilla a corte!…
    Mesmo que tu, que vives a compor-te,
    Grande seio arquejante de Paris!…

    Ah! Que de gloria, que de colorido,
    quando, por meu mandado e meu conselho,
    Cá se empapelam «as maçãs d'espelho»
    Que Herbert Spencer talvez tenha comido!

    Para alguns são prosaicos, são banaes
    Estes versos de fibra succolenta;
    Como se a polpa que nos dessedenta
    Nem ao menos valesse uns madrigaes!

    Pois o que a bocca trava com surprezas
    Senão as frutas tónicas e puras!
    Ah! N'um jantar de carnes e gorduras
    A graça vegetal das sobremesas!…

    Jack, marujo inglez, tu tens razão
    Quando, ancorando em portos como os nossos,
    As laranjas com cascas e caróços
    Comes com bestial soffreguidão!…

    * * * * *

    A impressão d'outros tempos, sempre viva,
    Dá estremeções no meu passado morto,
    E inda viajo, muita vez, absorto,
    Pelas varzeas da minha retentiva.

    Então recordo a paz familiar,
    Todo um painel pacifico d'enganos!
    E a distancia fatal d'uns poucos annos
    É uma lente convexa, d'augmentar.

    Todos os typos mortos resuscito!
    Perpetuam-se assim alguns minutos!
    E eu exagéro os casos diminutos
    Dentro d'um véo de lagrimas bemdito.

    Pinto quadros por lettras, por signaes,
    Tão luminosos como os do Levante,
    Nas horas em que a calma é mais queimante,
    Na quadra em que o verão aperta mais.

    Como destacam, vivas, certas cores,
    Na vida externa cheia d'alegrias!
    Horas, vozes, locaes, physionomias,
    As ferramentas, os trabalhadores!

    Aspiro um cheiro a cosedura, e a lar
    E a rama do pinheiro! Eu adivinho
    O resinoso, o tão agreste pinho
    Serrado nos pinhaes da beira mar.

    Vinha cortada, aos feixes, a madeira,
    Cheia de nós, d'imperfeições, de rachas;
    Depois armavam-se, n'um prompto as caixas
    Sob uma calma espessa e calaceira!

    Feias e fortes! Punham-lhes papel,
    A forral-as. E em grossa serradura
    Acamava-se a uva prematura
    Que não deve servir para tonel!

    Cingiam-n'as com arcos de castanho
    Nas ribeiras cortados, nos riachos;
    E eram d'assucar e calor os cachos,
    Criados pelo esterco e pelo amanho!

    Ó pobre estrume, como tu compões
    Estes pampanos doces como afagos!
    «Dedos de dama»: transparentes bagos!
    «Tetas de cabra»: lacteas carnações!

    E não eram caixitas bem dispostas
    Como as passas de Malaga e Alicante;
    Com sua fórma estavel, ignorante,
    Estas pesavam, brutalmente, ás costas!

    Nos vinhatorios via fulgurar,
    Com tanta cal que torna as vistas cegas,
    Os parallelogramos das adegas,
    Que têm lá dentro as dornas e o lagar!

    Que rudeza! Ao ar livre dos estios.
    Que grande azafama! Apressadamente
    Como soava um martellar frequente,
    Véspera da saida dos navios!

    Ah! Ninguem entender que ao meu olhar
    Tudo tem certo espirito secreto!
    Com folhas de saudades um objecto
    Deita raizes duras de arrancar!

    As navalhas de volta, por exemplo,
    Cujo bico de passaro se arqueia,
    Forjadas no casebre d'uma aldeia,
    São antigas amigas que eu contemplo!

    Ellas, em seu labor, em seu lidar,
    Com sua ponta como a da podoas,
    Serviam próbas, uteis, dignas, boas,
    Nunca tintas de sangue e de matar.

    E as enxós de martello, que d'um lado
    Cortavam mais do que as enxadas cavam,
    Por outro lado, rápidas, pregavam,
    D'uma pancada, o prego fasquiado!

    O meu animo verga na abstracção,
    Com a espinha dorsal dobrada ao meio;
    Mas se de materiaes descubro um veio
    Ganho a musculatura d'um Sansão!

    E assim–e mais no povo a vida é corna–
    Amo os officios como o de ferreiro,
    Com seu folle arquejante, seu brazeiro,
    Seu malho retumbante na bigorna!

    E sinto, se me ponho a recordar
    Tanto utensilio, tantas perspectivas,
    As tradições antigas, primitivas,
    E a formidavel alma popular!

    Oh! Que brava alegria eu tenho quando
    Sou tal qual como os mais! E, sem talento,
    Faço um trabalho technico, violento,
    Cantando, praguejando, batalhando!

    * * * * *

    Os fruteiros, tostados pelos soes,
    Tinham passado, muita vez, a raia,
    E, espertos, entre os mais da sua laia,
    –Pobres camponios–eram uns heroes.

    E por isso, com phrases imprevistas,
    E colorido e estylo e valentia,
    As «haciendas» que ha na «Andalucia»
    Pintavam como novos paysagistas.

    De como, ás calmas, n'essas excursões,
    Tinham aguas salobras por refrescos;
    E amarellos, enormes, gigantescos,
    Lá batiam o queixo com sesões!

    Tinham corrido já na adusta Hespanha,
    Todo um fertil plató sem arvoredos,
    Onde armavam barracas nos vinhedos,
    Como tendas alegres de campanha.

    Que pragas castelhanas, que alegrão,
    Quanto contavam scenas de pousadas!
    Adoravam as cintas encarnadas
    E as côres, como os pretos do sertáo!

    E tinham, sem que a lei a tal obrigue,
    A educação vistosa das viagens!
    Uns por terra partiam e estalagens,
    Outros, aos montes, no convez d'um brigue!

    Só um havia, triste e sem fallar
    Que arrastava a maior misantropia,
    E, roxo como um figado, bebia
    O vinho tinto que eu mandava dar!

    Pobre da minha geração exangue
    De ricos! Antes, como os abrutados,
    Andar com uns sapatos encebados,
    E ter riqueza chimica no sangue!

    * * * * *

    Mas hoje a rustica lavoura, quer
    Seja o patrão, quer seja o jornaleiro,
    Que inferno! Em vão o lavrador rasteiro
    E a filharada lidam, e a mulher!…

    Desde o princípio ao fim é uma maçada
    De mil demonios! Torna-se preciso
    Ter-se muito vigor, muito juizo
    Para trazer a vida equilibrada!

    Hoje eu sei quanto custam a criar
    As cepas, desde que eu as pódo e empo.
    Ah! O campo não é um passatempo
    Com bucolismos, rouxinoes, luar.

    A nós tudo nos rouba e nos dizima:
    O rapazio, o imposto, as pardaladas,
    As osgas peçonhentas, achatadas,
    E as abelhas que engordam na vindima.

    E o pulgão, a lagarta, os caracoes,
    E ha inda, alem do mais com que se ateima,
    As intemperies, o granizo, a queima,
    E a concorrencia com os hespanhoes.

    Na vendas, os vinhateiros d'Almeria
    Competem contra os nossos fazendeiros.
    Dão frutas aos leilões dos estrangeiros,
    Por uma cotação que nos desvia!

    Pois tantos contras, rudes como são,
    Forte e teimoso, o camponez destroe-os!
    Venham de lá pesados os comboyos
    E os «buques» estivados no porão!

    Não, não é justo que eu a culpa lance
    Sobre estes nadas! Puras bagatellas!
    Nós não vivemos só de coisas bellas,
    Nem tudo corre como n'um romance!

    Para a Terra parir hade ter dor,
    E é para obter as asperas verdades,
    Que os agronomos cursam nas cidades,
    E, á sua custa, aprende o lavrador.

    Ah! Não eram insectos nem as aves
    Que nos dariam dias tão difficeis,
    Se vós, sabios, na gente descobrisseis
    Como se curam as doenças graves.

    Não valem nada a cava, a enxofra, e o mais!
    Difficultoso trato das cearas!
    Lutas constantes sobre as jornas caras!
    Compras de bois nas feiras annuaes!

    O que a alegria em nós destroe e mata,
    Não é rede arrastante d'escalracho,
    Nem é «suão» queimante como um facho,
    Nem invasões bulhosas d'herva pata.

    Podia ter seccado o poço em que eu
    Me debruçava e te pregava sustos,
    E mais as hervas, arvores e arbustos
    Que–tanta vez!–a tua mão colheu.

    «Molestia negra» nem «charbon» não era,
    Como um archote incendiando as parras!
    Tão pouco as bastas e invisiveis garras,
    Da enorme legião do phylloxera!

    Podiam mesmo, com o que contêm,
    Os muros ter caido às invernias!
    Somos fortes! As nossas energias
    Tudo vencem e domam muito bem!

    Que os rios, sim, que como touros mugem,
    Transbordando atulhassem as regueiras!
    Chorassem de resina as larangeiras!
    Ennegrecessem outras com ferrugem!

    As turvas cheias de novembro, em vez
    Do nateiro subtil que fertilisa,
    Fossem a inundação que tudo pisa,
    No rebanho afogassem muita rez!

    Ah! N'esse caso pouco se perdera,
    Pois isso tudo era um pequeno damno,
    Á vista do cruel destino humano
    Que os dedos te fazia como cera!

    Era essa tysica em terceiro grau,
    Que nos enchia a todos de cuidado,
    Te curvava e te dava um ar alado
    Como quem vae voar d'um mundo mau.

    Era a desolação que inda nos mina
    (Porque o fastio é bem peior que a fome)
    Que a meu pai deu a curva que a consome,
    E a minha mãe cabellos de platina.

    Era a chlorose, esse tremendo mal,
    Que desertou e que tornou funesta
    A nossa branca habitação em festa
    Reverberando a luz meridional.

    Não desejemos,–nós os sem defeitos,–
    Que os tysicos pereçam! Má theoria,
    Se pelos meus o apuro principia,
    Se a Morte nos procura em nossos leitos!

    A mim mesmo, que tenho a pretensão
    De ter saude, a mim que adoro a pompa
    Das forças, pode ser que se me rompa
    Uma arteria, e me mine uma lesão.

    Nós outros, teus irmãos, teus companheiros,
    Vamos abrindo um matagal de dores!
    E somos rijos como os serradores!
    E positivos como os engenheiros!

    Porém, hostis, sobresaltados, sós,
    Os homens architectam mil projectos
    De victoria! E eu duvido que os meus netos
    Morram de velhos como os meus avós!

    Porque, parece, ou fortes ou velhacos
    Serão apenas os sobreviventes;
    E ha pessoas sinceras e clementes,
    E troncos grossos com seus ramos fracos!

    E que fazer se a geração decae!
    Se a seiva genealogica se gasta!
    Tudo empobrece! Extingue-se uma casta!
    Morre o filho primeiro do que o pai!

    Mas seja como for, tudo se sente
    Da tua ausencia! Ah! como o ar nos falta,
    Ó flor cortada, susceptivel, alta,
    Que assim seccaste prematuramente!

    Eu que de vezes tenho o desprazer
    De reflectir no tumulo! E medito
    No eterno Incognoscivel infinito,
    Que as idéas não podem abranger!

    Como em paul em que nem cresça a junca
    Sei d'almas estagnadas! Nós absortos,
    Temos ainda o culto pelos Mortos,
    Esses ausentes que não voltam nunca!

    Nós ignoramos, sem religião,
    Ao rasgarmos caminho, a fé perdida,
    Se te vemos ao fim d'esta avenida
    Ou essa horrivel aniquilação!…

    E ó minha martyr, minha virgem, minha
    Infeliz e celeste creatura,
    Tu lembras-nos de longe a paz futura,
    No teu jazigo, como uma santinha!

    E emquanto a mim, és tu que substitues
    Todo o mysterio, toda a santidade,
    Quando em busca do reino da verdade
    Eu ergo o meu olhar aos ceos azues!

    III

    Tinhamos nós voltado á capital maldicta,
    Eu vinha de polir isto tranquillamente,
    Quando nos seccedeu uma cruel desdita,
    Pois um de nós caiu, de subito, doente.

    Uma tuberculose abria-lhe cavernas!
    Dá-me rebate ainda o seu tossir profundo!
    E eu sempre lembrarei, triste, as palavras ternas,
    Com que se despediu de todos e do mundo!

    Pobre rapaz robusto e cheio de futuro!
    Não sei d'um infortunio immenso como o seu!
    Vio o seu fim chegar como um medonho muro,
    E, sem querer, afflicto e attonito, morreu!

    De tal maneira que hoje, eu desgostoso e azedo
    Como tanta crueldade e tantas injustiças,
    Se inda trabalho é como os presos no degredo,
    Com planos de vingança e idéas insubmissas.

    E agora, de tal modo a minha vida é dura,
    Tenho momentos maus, tão tristes, tão perversos,
    Que sinto só desdem pela litteratura,
    E até desprézo e esqueço os meus amados versos!

    PROVINCIANAS

    I

    Olá! Bons dias! Em março
    Que mocetona e que joven
    A terra! Que amor esparso
    Corre os trigos, que se movem
    Ás vagas d'um verde garço!

    Como amanhece! Que meigas
    As horas antes de almoço!
    Fartam-se as vaccas nas veigas
    E um pasto orvalhado e moço
    Produz as novas manteigas.

    Toda a paizagem se doura;
    Tibida ainda, que frecas!
    Bella mulher, sim senhora,
    N'esta manhã pittoresca,
    Primaveral, creadora!

    Bom sol! As sebes d'encosto
    Dão madresilvas cheirosas
    Que entotecem como um mosto
    Floridas, ás espinhosas
    Subio-lhes o sangue ao rosto.

    Cresce o relevo dos montes,
    Como seios offegantes;
    Murmuram como umas fontes
    Os rios que dias antes
    Bramiam galgando pontes.

    E os campos, milhas e milhas,
    Com póvos d'espaço a espaço,
    Fazem-se ás mil maravilhas;
    Dir-se-ia o mar de sargaço
    Glauco, ondulante, com ilhas!

    Pois bem. O inverno deixou-nos.
    É certo. E os grãos e as sementes
    Que ficam d'outros outonos
    Acordam hoje frementes
    Depois d'uns poucos de somnos.

    Mas nem tudo são descantes
    Por esses longos caminhos
    Entre favaes palpitantes
    Há solos bravos, maninhos,
    Que expulsam seus habitantes!

    E n'esta quadra d'amores
    Que emigram os jornaleiros
    Ganhões e trabalhadores!
    Passam clans de forasteiros
    Nas terras de lavradores.

    Tal como existem mercados
    Ou feiras, semanalmente
    Para comprarmos os gados
    Assim ha praças de gente
    Pelos domingos calados!

    Emquanto a ovelha arredonda,
    Vão tribus de sete filhos,
    Por varzeas que fazem onda,
    Para as derregas dos milhos
    E molhadellas da monda.

    De roda pulam borregos;
    Enchem então as cardosas
    As moças d'esses labregos
    Com altas botas bartrosas
    De se atirarem aos regos!

    Eil-as que vem ás manadas
    Com caras de soffrimento,
    Nas grandes marchas forçadas!
    Vem ao trabalho, ao sustento,
    Com fouces, sachos, enchadas!

    Ai o palheiro das servas
    Se o feitor lhe tira as chaves!
    Ellas chegam ás catervas,
    Quando acasalam as aves
    E se fecundam as hervas!…

    II

    Ao meio dia na cama,
    Branca fidalga o que julga
    Das pequenas da su'ama?!
    Vivem minadas da pulga
    Negras do tempo e da lama.

    Não é caso que a commova
    Ver suas irmans de leite,
    Quer faça frio, quer chova,
    Sem uma mamã que as deite
    Na tepidez d'um alcova?!

    Nota: Incompleta esta poesia. Foram os ultimos versos do poeta.

    NOTAS

    Cesario Verde (José Joaquim Cesario Verde) nasceu em Lisboa,
    freguesia da Magdalena, em 25 de fevereiro de 1855 e falleceu no
    Paço do Lumiar em 19 de julho de 1886. Era filho do sr. José
    Anastacio Verde, negociante, e da srª. D. Maria da Piedade dos
    Santos Verde.

    * * * * *

    A estreia do poeta nos dominios da publicidade data de 1873. Foi
    o auctor d'estas notas e editor d'este livro quem fez publicar no
    Diario da Tarde do Porto, em folhetim, os primeiros versos de Cesario
    Verde, precedendo-os de uma carta de apresentação a Manoel d'Arriaga.
    Esses versos não se reproduzem no livro de Cesario Verde, porque o
    poeta os considerou muito inferiores aos que hoje se reproduzem.
    Realmente o eram–pela hesitação do neophyto.

    * * * * *

    Outros versos foram condemnados pelo auctor e a condemnação foi hoje
    respeitada: entre elles citaremos a Satyra ao Diario Illustrado, as
    poesias Vaidosa, Subindo, Desastre, e algumas outras composições de
    menos folego.

    * * * * *

    No Prefacio registra-se a promessa de um estudo critico sobre a Obra
    de Cesario Verde. Essa obra, dispersa nas columnas do Diario da
    tarde, do Porto, da Renascença, da Revista de Coimbra, da Tribuna,
    da Illustração, etc., não será discutida pelo auctor d'estas linhas.
    Não é hoje discutida, nem o será jamais. Sobeja-lhe, ao auctor da
    promessa, em enternecimento e amargura quanto lhe falta em serenidade;
    –ficam auctorizados a dizer: quanto lhe falta em competencia.

    Tambem se registrou algures a promessa de um ajuste de contas com
    os insultadores do poeta. Inutil:–nenhum d'elles sobreviveu aos
    insultos.

    * * * * *

    Os 200 exemplares d'este livro serão distribuidos pelos parentes,
    pelos amigos e pelos admiradores provados do illustre poeta, bem
    como por Bibliothecas do paiz e do estrangeiro. A lista de distribuição
    será publicada. As reclamações justificadas serão attendidas.

    1887.

    S. P.

    INDICE

    Dedicatoria
    Prefacio

    VERSOS

    CRISE ROMANESCA

    Deslumbramentos
    Septentrional
    Meridional
    Ironias do Desgosto
    Humilhações
    Responso

    NATURAES

    Contrariedades
    A debil
    N'um bairro moderno
    Crystalisações
    Noites gelidas
    Sardenta
    Flores velhas
    Noite fechada
    Manhans brumosas
    Frigida
    De verão
    O sentimento d'um occidental
    De tarde
    Em petiz
    Nós
    Provincianas

    Notas

    End of Project Gutenberg's O Livro de Cesario Verde, by Cesario Verde

  • O cancioneiro portuguez da Vaticana

    O cancioneiro portuguez da Vaticana

    Aproximadamente 12.370 palavras.

    THEOPHILO BRAGA.

    O Cancioneiro portuguez da Vaticana
    e suas relações com outros Cancioneiros dos seculos XIII e XIV.

    (Zeitschrift für Romanische Philologie, 1877)

    O apparecimento do Cancioneiro portuguez da Bibliotheca do Vaticano,
    que encerra quasi toda a poesia lyrica do fim da edade media em
    Portugal, veiu mais uma vez provar a superioridade da iniciativa
    individual sobre a estabilidade inerte das instituições collectivas
    que apenas apresentam o vigor do prestigio official; desde 1847 que a
    Academia real das Sciencias de Lisboa deixava jazer no pó do archivo
    de Roma este importante documento nacional, e foram sempre ficticios
    os esforços para obter uma copia d'elle, que de ha muito devera ter
    sido reproduzida no corpo dos _Scriptores_, que forma uma das partes
    dos _Portugaliae Monumenta historica_. No emtanto, no estrangeiro o
    interesse scientifico muitas vezes se havia occupado do passado
    historico de Portugal, e foi a esta corrente que obedeceu o illustre
    philologo romanista Ernesto Monaci coadjuvado pelo activo e
    intelligente editor Max Niemeyer, restituindo a este paiz o texto
    diplomatico do mais precioso dos seus documentos litterarios. Ao
    terminar do modo mais consciensioso a sua empreza, escreve Monaci:
    "voglia il cielo che tornato il libro in Portogallo, diventi presto
    oggetto di studj novelli. È solo nella fonte delle tradizioni patrie
    che lo spirito di una nazione si ringagliardisce." (Canz. port., p.
    XVIII.) Infelizmente na litteratura portugueza ainda se não
    comprehendeu esta verdade salutar, e por isso o talento desbarata-se
    em architectar phantasmagorias de cerebros doentes ou em fazer
    traducções de romances dissolutos. Acceitando a responsabilidade das
    palavras do editor do Cancioneiro da Vaticana dirigidas a esta nação,
    cabia primeiro do que a todos á Academia real das Sciencias de Lisboa
    responder pela seguinte forma:

    1°. Publicar o texto critico e litterario restituido sobre a lição
    diplomatica em grande parte illegivel fóra de Portugal.

    2°. Acompanhar esse texto com todos os dados bibliographicos de que se
    possa alcançar noticia, para sobre elles basear a historia externa da
    formação do Cancioneiro.

    3°. Acompanhal-o de um bom glossario das palavras empregadas na dicção
    provençalesca da poesia palaciana.

    4°. Por ultimo organisar um vasto quadro da historia litteraria de
    Portugal no periodo dos nossos trovadores, deduzido dos abundantes
    factos historicos que fornece o Cancioneiro da Vaticana.

    É para isto que existem as Academias nos paizes civilisados, que os
    governos as subsidiam, e que os seus membros têm o fôro de sabios. Em
    quanto a Academia real das Sciencias de Lisboa não cumpre este seu
    dever, cumpre-nos dar uma noticia d'este Cancioneiro, longos seculos
    perdido pelas bibliothecas estrangeiras.

    N'este codice se encontram as nossas origens litterarias, e as
    relações intimas que filiam a litteratura portugueza no grupo das
    litteraturas romanicas da edade media da Europa; aqui se acham
    representadas as duas correntes da inspiração popular e palaciana ou
    erudita, bem como os costumes intimos de uma sociedade que nos é
    desconhecida, mas d'onde proviemos; os successos historicos aí têm a
    sua nota accentuada; os nomes que figuram nas lendas genealogicas e
    nos feitos de armas no periodo da constituição da nossa nacionalidade
    aí se encontram assignando os mais saborosos cantares consagrados ás
    damas da côrte, que serviam. Finalmente, ali está o documento mais
    vasto em que a lingua portugueza se manifesta no seu esforço para de
    inconsistente dialecto romanico se tornar uma lingua escripta com uma
    grammatica fixa. Um livro assim, onde se acha representado o melhor da
    nossa antiga poesia durante os seculos XIII e XIV, é a joia de uma
    bibliotheca. Como nos mostraremos gratos ao estrangeiro que assim vem
    augmentar os nossos thezouros historicos e restituir-nos o fio perdido
    da nossa tradição nacional? Estudando-o.

    A primeira questão que o Cancioneiro portuguez do Vaticano sugere é
    determinar as suas relações com os antigos cancioneiros provençaes
    portuguezes em grande parte perdidos; esta circumstancia complica o
    problema critico, e por isso importa bem determinar aproximadamente o
    numero d'essos cancioneiros para se fazer o processo de filiação. Tal
    é o intuito d'este nosso primeiro estudo, bastante restricto, por que
    determinar o valor historico do Cancioneiro pelas correntes
    litterarias n'elle representadas, pela allusão aos grandes successos,
    pelo uso de dadas formas poeticas, pelas personalidades dos principaes
    trovadores e pelo estado da lingua portugueza, é uma exploração de tal
    forma vasta, que qualquer d'estas questões excede as proporções de uma
    noticia. Começamos pela critica externa do Cancioneiro, enumerando
    todos os cancioneiros portuguezes dos seculos XIII e XIV que
    contribuiram para a sua formação, procurando ao mesmo tempo o nexo que
    existiria entre elles, e pelas divergencias de texto quaes as
    collecções que se perderam sem chegarem a ser conhecidas.

    1. O Livro das Cantigas do Conde de Barcellos.

    No testamento do Conde D. Pedro, feito em Lalim em 30 de Março de
    1350, se lê esta clausula: "Item, mando o meu _Livro das Cantigas_ a
    el rei de Castella". Interpretando esta clausula, Varnhagem quiz por
    ella attribuir o Cancioneiro da Ajuda ao Conde de Barcellos,
    imprimindo-o em 1849 n'esse presupposto, com o titulo de _Trovas e
    Cantares… ou antes mui provavelmente o Livro das Cantigas do Conde
    de Barcellos_. Esta hypothese cedo caiu diante da evidencia dos
    factos; mas além d'este primeiro erro, existe n'esta affirmacão um
    outro, que é o julgar o _Livro das Cantigas_ formado de canções
    unicamente compostas pelo Conde de Barcellos. Era antigamente vulgar
    terem os principes cancioneiro seu, como objecto sumptuario, isto é,
    uma collecção contendo as melhores poesias de seu tempo; sabendo-se a
    tendencia compiladora e erudita do Conde Dom Pedro, e a sua amisade
    com a aristocracia portugueza e gallega por causa do seu _Nobiliario_,
    é mais no espirito da historia litteraria a hypothese, que o _Livro
    das Cantigas_ era seu pelo facto material da propriedade ou da
    colleccionação, e que este titulo designa um cancioneiro contendo
    composições de diversos trovadores. Vamos fundamentar esta hypothese:
    Primeiramente, o Conde D. Pedro, pelas canções que d'elle restam na
    collecção do Vaticano, era um mediocre trovador, e d'elle diz Affonso
    XI, a quem elle deixara em testamento _o seu Livro das Cantigas:_

    Pois se de quant'el tem errado
    _serve Dom Pedro_, nem lhi dá em grado.

    Alludia á inferioridade das canções de Bernal de Bonaval, que serviam
    ao gosto do Conde Dom Pedro. Em segundo logar, pelo Nobiliario se vê
    quanto o Conde era versado nas tradições bretans que adoptava como
    factos historicos; e no indice do Cancioneiro de Angelo Colocci se
    acham enumeradas como começo d'esse codice: "1. Elis o baço, duque de
    Sansonha, quando passou na Gram Bretanha, qual ora chamam Ingraterra,
    al tempo del Rey Arthur ad combater com Tristano por que lhi avia
    occiso o padre em uma batalha. E andando um dia em sa busca foi por
    Giososa Guarda ú era a reyna Isouda de Corualha, e enamorou-se ali
    elle, e fez por ella aquesta lais, o qual lais poemos aqui, porque era
    o melhor que fora feito.–2. Quatro donzellas, a Morouet de Irlanda,
    al tempo del rei Arthur.–3. Dom Tristan enamorado.–4. Dom
    Tristan.–5. D. Tristam para Genebra".

    Por este conteúdo do começo do Cancioneiro que pertenceu a Colocci, e
    por que no codice da Vaticana mais de uma vez se citam as formas
    poeticas bretãs dos _lais_, podemos concluir que esses cinco Lais
    pertenceriam ao _Livro das Cantigas_, o qual foi encorporado em uma
    grande collecção formando talvez a parte que vae até as canções de
    el-rei D. Diniz que eram tambem um cancioneiro avulso. Por este mesmo
    codice de Angelo Colocci, de que resta o indice, achamos que antes da
    parte que constitue a colecção de el-rei D. Diniz, estavam colligidas
    varias canções de Dom Affonso Sanches, bastardo do rei, as canções de
    Dom Affonso rei de Leão, as de D. Affonso XI de Castella, e depois
    d'estar as do proprio Conde de Barcellos, que são ao todo nove, e
    tambem as de seu irmão el rei D. Affonso IV. Não era qualquer
    compilador ocioso que poderia satisfazer a sua curiosidade obtendo
    d'estes principes e monarchas as canções mais ou menos pessoaes; o
    Conde de Barcellos estava em uma posição especial, sabia metrificar,
    era estimado na côrte de D. Diniz e na de Affonso XI, e tendo passado
    algum tempo em Hesphanha de lá podia trazer canções de varios
    trovadores que nunca estiveram em Portugal. Por tanto o seu _Livro das
    Cantigas_ fôra formado n'estas condições particulares, e o apreço que
    se lhe ligava é que o fez com que o deixasse em testamento ao elegante
    trovador Affonso XI de Castella. A posse de um livro de cantigas era
    quasi um titulo nobiliarchico; na canção 76 da Vaticana, feita á
    maneira de sirvente por Affonso XI contra o Dayão de Calez, diz que
    elle tinha um _Livro de Sons_, por meio do qual seduzia todas as
    mulheres. Foi tambem pelo seu gosto pela poesia provençalesca que o
    Conde de Barcellos manteve a sympathia de D. Affonso IV, filho
    legitimo de D. Diniz, e por isso em uma canção de louvor é chamado o
    _rimante d'el-Rei_. Por tudo isto é mais crível que o _Livro das
    Cantigas_ do Conde fosse o primeiro nucleo com que se formou por
    juxta-posição o grande cancioneiro portuguez, do qual um dos
    apographos é o codice da Vaticana; dizemos por juxta-posição, por que
    se lhe segue o de el-rei Dom Diniz, e porque muitas canções de codice
    de Roma se acham aí mesmo repetidas, indicação inevitavel de terem
    sido colligidas de fontes diversas. Quando o Conde Dom Pedro falleceu
    já era morto Affonso XI, e isto explica como poderia extraviar-se em
    Castella esse _Livro das Cantigas_, e como Pero Gonçalves de Mendoza
    viria a obter a copia que se guardava em um grande volume em casa de
    D. Mecia de Cisneros, e pela primeira vez citada por seu neto, o
    Marquez de Santillana.

    2. Livro das Trovas de El-rei Dom Diniz

    O corpo das canções de el-rei Dom Diniz occupava uma grande parte do
    codice de Dona Mecia de Cisneros; occupava tambem uma parte importante
    no apographo de Colocci, bem como no codice da Vaticana. O modo como
    esta grande quantidade de canções de el-rei Dom Diniz entrou em uma
    vasta compilação explica-se naturalmente, por isso que pelo catalogo
    dos livros de uso de el rei Dom Duarte acha-se citado o _Livro das
    Trovas de el-rei Dom Diniz_, do qual se pode inferir terem existido
    varias copias, por que o numero das canções varia entre as enumeradas
    no indice de Colocci e as contidas no codice da Vaticana, contando
    este ultimo cincoenta e uma canções a mais. Alem d'isso, na parte do
    codice que encerra as canções de D. Diniz, a canção 116 acha-se
    repetida outra vez sob o numero 174 com variantes e differente
    disposição de estrophes, o que denota que essa parte foi compilada de
    copias secundarias, mas classificadas, como vemos pelo titulo das
    _Cantigas de Amigo_ dado a um certo genero de canções, especialmente
    de imitação popular. É provavel que os autographos que serviam para os
    traslados nitidos dos amanuenses fossem por vezes aproveitados por
    outros compiladores; de el-rei Dom Diniz andava tambem um codice
    poetico em poder dos Freires de Christo de Christo de Thomar. Os
    muitos jograes da Galiza, de Castella e de Leão, que frequentavam a
    côrte de Dom Diniz, tambem colligiriam esses corpos de canções de
    _Serranilha_ e de _Mal-dizer_ que os privados dos monarchas trovaram,
    e que elles decoravam para cantarem de officio. Os jograes formaram
    collecções dos melhores cantares para recitarem ou acompanharem á
    citola, pelo que recebiam dinheiro; o costume de ter jograes de
    _Segrel_ ao serviço da casa real levava tambem a formar estes pequenos
    cancioneiros escolhidos.

    3. O Cancioneiro da Ajuda (ou do Collegio dos Nobres).

    O facto de se encontrarem _cincoenta e seis_ canções communs ao Codice
    da Ajuda e ao da Vaticana, torna indispensavel o resumir aqui o que se
    sabe da historia externa do Cancioneiro da Ajuda. As suas folhas são
    de pergaminho, a duas columnas, com pauta para a musica das canções
    que se deveria escrever em seguida, e com varias vinhetas separando os
    diversos grupos de canções de cada trovador e com letras historiadas.
    O cancioneiro está truncado, pois que começa na folha 41, e não existe
    o final, não só por incuria dos possuidores, que o baralharam
    encadernando-o tumultuariamente com o Nobiliario, grudando algumas
    folhas ás capas, mas tambem por que o estado da copia, sem assignatura
    ou designação dos trovadores, letras historiadas incompletas, e falta
    de notação musical, nos revelam que o codice não foi dado por acabado.
    Esta collecção começou-se ainda no reinado de D. Diniz, por que
    juntando-se as folhas lê-se escripto no córte d'ellas: _Rei Dom
    Diniz_, e d'isto tambem se pode deduzir, que se não perderam muitas
    folhas do principio e do fim. D'este codice foram encontradas mais 24
    folhas avulsas na Bibliotheca de Evora, e é tradição corrente que na
    de Coimbra existiam algumas outras tambem.

    A inspecção do Codice da Ajuda, confrontado com outros Codices
    europeus, mostra-nos que elle pertencia indubitavelmente a diversos
    trovadores; Varnhagem notou que existiam dezaseis vinhetas
    imperfeitamente coloridas, que estão desenhadas junto ás canções 2,
    36, 37, 149, 157, 170, 173, 184, 190, 231, 233, 249, 253, 255, 259 e
    fragmento _h_. (Notas ás _Trovas e Cantares_, p. 348.)

    Alem d'este vestigio paleographico, o confronto com o Codice da
    Vaticana levou a achar os seguintes trovadores, communs aos dois
    Cancioneiros: Pero Barroso, Affonso Lopes Baião, Mem Rodrigues
    Tenoyro, João de Guilhade Estevam Froyam, João Vasques, Fernão Velho,
    Ayres Vaz, D. João de Aboim, Pero Gomes Charrinho, Ruy Fernandes,
    Fernam Padrom, Pero da Ponte, Vasco Rodrigo de Calvelo, Pero Solaz,
    Pero d'Armêa, e João de Gaia. Todos estes nomes são de fidalgos
    grandes privados de el-rei D. Diniz, e alguns já figuram em doações de
    D. Affonso III, como D. João de Aboim e Affonso Lopes Baião; Mem
    Rodrigues Tenoyro vivia na côrte de D. Affonso IV, e foi entregue a
    Pedro cruel em troca dos assassinos de Inez de Castro.[1] A parte não
    assignada e que não se encontra no Cancioneiro da Vaticana será por
    ventura o corpo das canções escriptas durante o tempo em que a côrte
    de D. Affonso III esteve fixa em Santarem. Alem d'isso a parte commum
    tem a particularidade de conservar a mesma ordem nas canções, e ao
    mesmo tempo as variantes mais fundamentaes n'essas lições. D'aqui se
    conclue, que já existia um Cancioneiro formado, d'onde este da Ajuda
    estava sendo trasladado, mas que d'esse cancioneiro existiam
    differentes copias formadas, não directamente sobre elle, mas por meio
    dos cancioneiros particulares que o constituiram. A parte não commum
    ao codice de Roma, prova nos tambem que alguns d'esses cancioneiros
    parciaes se perderam, ou eram já tão raros que não chegaram a ser
    encorporados na collecção. Admittida a hypothese de que o Cancioneiro
    da Ajuda, pelo facto de ter pertencido a el-rei D. Diniz e de andar
    encadernado junto do Nobiliario do Conde D. Pedro, fosse o proprio
    _Livro das Cantigas_, como primeiro quiz Varnhagem, o facto de
    apparecerem aí outros trovadores prova-nos a nossa hypothese, que o
    Conde D. Pedro compilara sob esse titulo as canções dos trovadores
    seus contemporaneos. O numero de vinhetas imperfeitamente coloridas do
    cancioneiro da Ajuda são dezaseis; isto leva a inferir que esse codice
    era formado de dezeseis corpos de canções que pertenciam a dezassete
    trovadores. De facto a coincidencia aqui é pasmosa: o numero dos
    trovadores communs ao Cancioneiro da Ajuda e da Vaticana é de
    dezesete! Note-se que este numero é o que se perfaz com os nomes de
    _Fernam Padrom, João de Gaya, e Pero d'Armêa_, que achámos alem
    d'aquelles que primeiro descobriu Varnhagem. D'este numero se tira a
    conclusão que o Cancioneiro da Ajuda pertence exclusivamente a esses
    dezessete trovadores, e que as cincoenta e seis canções communs ao
    Codice da Ajuda eram as que andavam por cancioneiros parciaes, como as
    mais conhecidas, e pelas variantes que appresentam, as mais repetidas.
    Alem d'isso, pode suppor-se que o Cancioneiro da Ajuda não foi
    acabado, por que o estylo _limosino_ em que está escripto, passou de
    moda, preferindo-se os _Cantares d'amigo_, as _serranilhas_, as
    _pastorellas_, os _lais_ e as _sirventes_, mudança de gosto
    proveniente da grande affluencia de jograes gallegos, leonezes e
    castelhanos á côrte de Dom Diniz; e sob o gosto da côrte de Dom
    Affonso IV prevaleceram tambem as canções e musicas bretans, cuja
    corrente parece ainda reflectida no Cancioneiro da Ajuda, em um
    remotissimo vestigio, no fragmento de canção em que se lê a palavra
    _guarvaya_, com que o trovador allude aos seus infelices amores. Nas
    _Leges Wallice_, XXIII, I, encontra-se o dom das nupcias, _kyvarus_,
    que se pagava ao cantor da côrte: "Penkered (musicus primarius) debet
    habere mercedes de filiabus poetarum sibi subditorum; habebit quoque
    munera nuptiarum, id est _kyvarus neythans_, á feminibus nuper datis,
    scilicet XXIIIIor denarios."[2] A connexão historica e a interpretação
    litteral mostram que a _guarvaya_ do trovador portuguez é o mesmo
    facto ou costume bretão _kyvarus_; a verificação pelos processos da
    alteração phonetica pertence para outro logar. Em todo o caso este
    vestigio é um dos nexos mais intimos que se pode achar com o codice
    perdido de Colocci, em que estavam já colligidos alguns _lais_
    bretãos.

    A musica do Cancioneiro da Ajuda tambem foi abandonada, por que foram
    substituidos nos costumes outros instrumentos e outras tonadilhas; no
    poema francez de Bertrand Du Guesclin, fala-se de cantores bretãos na
    côrte de D. Pedro I de Portugal. Foi já n'esta nova corrente poetica e
    com o fervor que ella despertara que se começou a formar o vasto
    cancioneiro, de cuja existencia se sabe por quatro apographos. Crêmos
    que o compilador que trasladou ou organisou o texto authentico d'onde
    saíu o apographo do Vaticano, não soube da existencia do Cancioneiro
    da Ajuda, apezar das cincoenta e seis canções communs a ambos. Este
    facto será mais amplamente explicado.

    4. O Cancioneiro de Dona Mecia de Cisneros.

    Na sua _Carta ao Condestavel de Portugal_, escripta antes de 1449, o
    Marquez de Santillana, no § XV, diz que se recordava de ter visto,
    quando era bastante menino, em poder de sua avó Dona Mecia de
    Cisneros, entre outros livros, um grande volume de cantigas…. O
    Marquez de Santillana nasceu em 1398, e sua avó Dona Mecia, na
    companhia da qual passou a sua infancia, morreu em Dezembro de 1418,
    em Palencia. Em primeiro logar "o _grande volume de Cantigas_, e
    _outros livros_" citados na carta, existiam em casa de D. Mecia de
    Cisneros por que provinham de Garcilasso de la Vega, e de Pero
    Gonzales de Mendoza, como claramente o affirma Amador de los Rios:
    "passo su infancia en casa Doña Mencia de Cisneros, su abuela, donde
    hubo de aficionar-se à la lectura de los poetas en los codices que
    poseyeron Garcilasso de de la Vega y Pero Gonzales de Mendoza…"[3]
    Garcilasso de la Vega, bisavó do Marquez, morrera em 1351, e esta
    data, e as suas relações de parentesco com a aristocracia portugueza
    explicam como a elle ou a Pedro Gonzales de Mendoza chegou o volume
    das cantigas. Portanto esse grande cancioneiro não existia em Hespanha
    antes poucos annos de 1351 e foi pouco antes de 1418 que o joven
    Marquez de Santillana o consultou. Pedro Gonzales de Mendoza era
    tambem poeta do côrte de Don Pedro e de Don Enrique (Amador de los
    Rios, _op.cit._, p. 623), e isto mostra o interesse que o levaria pelo
    seu lado a conservar o grande cancioneiro portuguez.

    A descripção que faz o Marquez de Santillana d'esse codice, coincide
    com o que existe na Bibliotheca do Vaticano em copia do seculo XVI:
    _"un grande volume de Cantigas serranas e dizeres portuguezes e
    gallegos"_. São ao todo mil duzentas e cinco cantigas compostas no
    genero descripto por Santillana, e os poetas são em grande numero
    galegos. Em seguida accrescenta: _"dos quaes a maior parte eram do rei
    D. Diniz de Portugal"_. Effectivamente o trovador que mais canções
    appresenta no codice da Vatícana é el-rei D. Diniz, cujas composições
    estão compiladas entre o numero 80 e 208, sendo ao todo cento e vinte
    nove. Accrescenta mais o Marquez de Santillana: _"cujas obras aquelles
    que as liam, louvavam de invenções subtis, e de graciosas e doces
    palavras"_. Esta affirmação, sobendo-se que o Marquez escreve sobre
    uma recordação da sua infancia, não podia resultar se não dos gabos
    ouvidos a Pero Gonzales de Mendoza, poeta do Cancioneiro de Baena,
    gabos que fizeram com que o livro se conservasse em casa de D. Mecia
    de Cisneros, e d'onde se tirara por ventura essa outra copia que hóje
    existe em poder de um grande de Hespanha, segundo uma affirmação de
    Varnhagem. N'esta mesma carta ao Condestavel de Portugal, allude o
    Marquez aos talentos poeticos de seu avô e cita varias das suas
    composições: _"E Pero Gonzales de Mendoza, meu avô, fez boas
    canções"_. Crêmos que por esta via é que o cancioneiro foi copiado
    para Castella, copiado dizemos nós porque se conforma com um grande
    cancioneiro já organisado, de que o de Roma é um apographo terciario.
    O Marquez de Santillana cita de memoria os principaes trovadores que
    vira transcriptos n'essa vasta collecção: "Havia outras (sc. canções)
    de _Joham Soares de Paiva_, o qual se diz que morrera em Galiza por
    amores de uma infanta de Portugal; e de outro _Ferrant Gonçalves de
    Senabria"_. Pela referencia a estes dois trovadores se vê qual o
    estado do cancioneiro manuscripto ou volume de Cantigas de D. Mecia de
    Cisneros. No apographo da Vaticana se acha uma canção de _João Soares
    de Paiva_, quasi no fim da collecção, (n°. 937) ao passo que no
    cancioneiro que pertenceu a Colocci e de que apenas resta o indice dos
    trovadores (cod. vat. n°. 3217) se acha logo sob o numero 23 o nome de
    _João Soares de Paiva_ com sete canções successivas. Em seguida a este
    trovador cita _Ferrant Gonçalves de Senabria_, porem no Codice de
    Colocci acha-se sob o numero 384 citado _Gonçalves de Seaura_ com dez
    canções a seguir. Isto concorda com a phrase do Marquez, referindo-se
    a essas canções: "Havia outras….." O motivo d'esta referencia
    especial seria por ter este trovador o apellido de _Gonçalves_, de seu
    avô, e por isso ainda pertencente á sua linhagem. No Codice da
    Vaticana agora publicado, acha-se um fragmento de canções de _Fernão
    Gonçalvis_, e só sob o numero 338 outra canção de _Fernão Gonçalves de
    Seavra_, a qual corresponde segundo Monaci ao numero 737 do Codice
    perdido de Colocci.

    Portanto, o Cancioneiro de D. Mecia de Cisneros era completo pelo que
    se deduz da citação d'estes dois trovadores, cujas obras se achavam
    antes da folha 42 do actual Codice Vaticano, na qual começa. No
    Cancioneiro de Colocci, em vez de _cento e vinte nove_ canções, el-rei
    Dom Diniz é representado com _setenta e outo;_ mas ainda assim era uma
    grande collecção para o Marquez poder dizer d'ella em relação ao
    volume das Cantigas _uma maior parte_. Em seguida a estas preciosas
    referencias cita tambem na sua carta _Vasco Peres de Camões_, poeta do
    Cancioneiro de Baena e contemporaneo de Pedro Gonçalves de Mendoza por
    cuja via seria conhecido em casa de Dona Mecia de Cisneros, e pelos
    eruditos que tinham o cuidado da educação do Marquez. Por ultimo,
    infere-se que o Codice de D. Mecia era uma copia castelhana, por que
    transcreve o nome de _Fernão_ em _Ferrant_, e o de _Seavra_ em
    _Senabria_, o que se não pode attribuir a vicio de ortographia do
    Marquez de Santillana. Estes topicos bastam para considerar a copia de
    D. Mecia mais proxima do texto autographo do que a da Vaticana.

    5. Cancioneiro de Angelo Colocci. (_Catalogo di Autori portoghesi
    compilato da Angelo Colocci sopra un antico Canzoniere oggi ignoto._
    Ms. 3217 da Bibl. Vat.)

    O illustre editor Ernesto Monaci ao estudar o manuscripto do
    Cancioneiro da Bibliotheca do Vaticano, n°. 4803, pelas referencias do
    texto e paginação de um outro codice ali intercalladas, reconheceu que
    deveriam ter existido duas fontes para este apographo. Nas suas
    investigações na opulenta Bibliotheca do Vaticano teve a felicidade de
    descobrir o Catalogo dos Trovadores portuguezes no manuscripto 3217, o
    qual combina na maior parte com o dos Trovadores do Cancioneiro n°.
    4803, sendo as emendas d'este ultimo codice da mesma letra do indice
    escripto pelo philologo Angelo Colocci, erudito italiano do seculo
    XVI. É certo que o Cancioneiro da Vaticana pertenceu primeiramente a
    Colocci antes de vir a ser propriedade da Bibliotheca vaticana;
    Colocci era um d'esses distinctos eruditos italianos do fim do seculo
    XV, que colligiram manuscriptos de todos os paizes e cuja opulencia se
    distinguia pela formação de ricas livrarias, taes como Leão X, Bembo,
    Orsini, e outros tantos. Colocci morreu em 1549, tendo a sua livraria
    soffrido bastante no saque de Roma pelo Condestavel de Bourbon em
    1527. Por tanto, entre estas duas datas é que se teria perdido esse
    grande cancioneiro, do qual apenas resta o _Catalogo dos Autores
    portuguezes_, e que a Bibliotheca do Vaticano adquirira o cancioneiro
    n°. 4803, apographo de um outro perdido, mas emendado pela mão de
    Colocci sobre o exemplar hoje representado unicamente pelo indice.

    Antes de examinar qual a riqueza da Livraria de Colocci em
    manuscriptos portuguezes, surge a questão mais difficil de resolver:
    Como vieram estes varios cancioneiros portuguezes para as Livrarias
    italianas?

    Sabe-se que os pontifices mais instruidos mandavam procurar em todos
    os paizes os mais preciosos manuscriptos; de Leão X escreve Ginguené:
    "Não poupava despezas nem rodeios junto das potencias estrangeiras
    para fazer procurar nos paizes mais remotos e até nos estados do norte
    _livros antigos ainda ineditos_."[4] O modo como estes rodeios eram
    efficazes, explica-se pela prohibição de certos livros e pela
    instituição da censura, que já no século XV se exercia em Hespanha e
    em Portugal, como vêmos pelo _Leal Conselheiro_ de El-rei D. Duarte.
    Os livros eram entregues á auctoridade ecclesiastica para serem
    examinados, e sob qualquer pretexto de escrupulo não eram mais
    restituidos. Basta vêr a quantidade de canções obscenas e irreligiosas
    que o Cancioneiro portuguez da Vaticana encerra para se conhecer como
    veiu a caír na mão da auctoridade ecclesiastica e como sob ordem
    superior esse _livro antigo ainda inedito_ foi remettido para Roma.
    Alem d'isto, a paixão pela Renascença da antiguidade, que começou no
    seculo XV, fez com que nos diversos paizes decaísse repentinamente o
    amor pelos seu monumentos nacionaes. D'esta falta de amor pelo proprio
    passado proveiu para Portugal a perda de muitos manuscriptos, como o
    da novella _Amadis de Gaula_, de muitos cancioneiros manuaes, como
    relata Faria e Sousa, pelo que dizia o Dr. João de Barros no principio
    do seculo XVI, que estas cousas se secavam nas nossas mãos. D'esta
    falta de estima pelos monumentos nacionaes, veiu o dispersarem-se
    pelas bibliothecas da Europa muitos thezouros da nossa litteratura,
    como se prova pela existencia da _Demanda do santo Greal_ na
    bibliotheca de Vienna, dos livros de Valentim Fernandes na bibliotheca
    de Munich, do _Leal Conselheiro_ de D. Duarte, _Chronica de Guivé_ de
    Azurara, e _Historia geral de Hespanha_ na bibliotheca de Paris, do
    _Roteiro_ de D. João de Castro no Museu britanico, e do _Cancioneiro
    do Conde de Marialva_, da _Satyra de infelice vida_ do Condestavel de
    Portugal em Madrid. A saida do grande Cancioneiro de Portugal pertence
    a esta forte corrente de dispersão. No fim do seculo XV alguns
    portuguezes eruditos se distinguiam na Europa pelas suas riquezas
    litterarias; em uma _Memória sobre as relações que existiam
    antigamente entre os flamengos de Flandres, especialmente os de Bruges
    e os Portuguezes_, cita-se: "João Vasques, natural de Portugal,
    mordomo de D. Isabel de Portugal, Duqueza de Borgonha:–Vasques
    possuía uma Bibliotheca, ou pelo menos diversos manuscriptos de
    valor."[5] Entre esses livros figuravam _Histoire de Troie la grant_,
    e alguns tinham as armas de Portugal na encadernação, como o velino
    _Horae beatae Mariae Virginis_. Tambem no seculo XV figuravam no
    estrangeiro os eruditos Diogo Affonso de Mangaancha, Vasco Fernandes
    de Lucena, Achilles Estaço, e outros muitos amadores bibliophilos.
    Cuidava-se em comprar livros impressos, por meio das Feitorias
    portuguezas, mas os manuscriptos sobre tudo os da litteratura medieval
    perdiam-se com a mais censuravel incuria. Sabe-se por uma carta de
    João Rodrigues de Sá dirigida a Damião de Goes, que el-rei D. Affonso
    V mandou vir de Italia Frei Justo, a quem fez bispo de Ceuta, com o
    fim de escrever em latim a historia dos antigos reis de Portugal, e
    que todos os documentos que lhe foram entregues se perderam na sua
    mão, por ter repentinamente fallecido da peste. É natural que estes
    subsidios historicos constassem tambem de varios cancioneiros, por que
    a poesia fôra um facto importante nas côrtes de D. Affonso III, D.
    Diniz e D. Affonso IV; alem d'isso o espolio d'este bispo italiano
    seria arrecadado pela auctoridade ecclesiastica e remettido para Roma.
    Por todos estes factos parece justificar-se a hypothese de existir na
    bibliotheca do Vaticano, antes do saque de Roma em 1527, um d'esses
    cancioneiros portuguezes, e que d'aí se dispersaram por essa causa: "A
    bibliotheca do Vaticano, tão liberalmente enriquecida por Leão X, foi
    saqueada; os livros mais preciosos foram preza de um furor ignorante e
    barbaro, como os da bibliotheca dos Medicis em Florença."[6] Pelo
    codice 4803, publicado por Monaci, se vê que este Cancioneiro foi
    copiado de um outro cancioneiro ja bastante truncado, como observou o
    critico editor pelas siglas antigas: _"Manca da fol. II infino a fol.
    43"_; e na pagina 10: _"Fol. 97 desunt multa"_; e pela ultima pagina,
    na qual se vê que ficou interrompida a copia.

    Alem d'esta deducção, tira-se uma outra, isto é, que o Codice 4803 foi
    comparado por Colocci com um outro mais rico e completo do qual só
    resta agora o _catalogo dos trovadores_. Os biographos de Colocci
    tambem consignam o facto de parte da sua opulenta bibliotheca ter sido
    destruida no saque de Roma, em 1527. Este philologo italiano possuia
    um decidido gosto pela poesia vulgar italiana, e conhecia a
    importancia do estudo das litteraturas novolatinas, como se vê pelo
    interesse com que procurava as Canções de Foulques de Marseille, e
    pela posse de varios codices com os titulos _Libro spagnolo di
    Romanze_, e _De varie Romanze volgare_, por ventura alguns d'elles
    provenientes da acquisição de manuscriptos das collecções de Bembo e
    de Orsini; seria algum d'estes livros o Cancioneiro da Vaticana, ou
    esse outro cancioneiro de que apenas resta o catalogo dos auctores.
    N'este catalogo precioso descoberto por Monaci, sob o numero 44–
    _Bonifaz de Jenoa_ segue-se esta referencia a manuscriptos de Bembo:
    _"vide bembo Ms. bonifazio Calvo de Genoa."_ E sob o numero 456–_il
    Rey don Affonso de Leon_, segue-se esta nota: _"bembo, dice di Ragona,
    figlio di Berenghieri."_ A variante do Codice de Bembo _di Ragona_
    seria _d'Aragone_ em vez de _Leon_, isto é, um dos codices parciaes d'
    onde se formou o grande cancioneiro parece fixar-se por esta
    circumstancia. Sob este mesmo numero segue-se: _"Alia lectio i
    Portugal, rey Don Sancho deponit."_ Quer esta observação de Colocci
    significar, que este rei D. Affonso em outro codice é citado como rey
    de Portugal, o que depoz D. Sancho, facto que caracterisa el-rei Dom
    Affonso III, que depoz seu irmão D. Sancho II. N'este caso este
    monarcha tambem fôra trovador, o Colocci possuia algum cancioneiro
    parcial. No mesmo Indice dos Trovadores, sob o numero 467 onde se
    continha as canções de El-rei Dom Affonso rei de Castella e de Leão,
    accrescenta-se: _"vide nel mio lemosino"_, no qual se attribuem as
    mesmas cantigas de preferencia ao rei de Leão, isto é, em harmonia com
    o titulo _di Ragona_, do numero 456. Em uma outra nota que o illustre
    Monaci achou no Codice n°. 4817, de letra d'este erudito, se acha a
    seguinte referencia a um codice portuguez: _"Messer Octaviano di
    messer barbarino, ha il_ libro di portoghesi, _quel da_ Ribera _l'ha
    lassato."_ Sabendo-se pela bibliographia, que o manuscripto da _Menina
    e Moça_ de Bernardim Ribeiro, foi na primeira metade do seculo XVI
    levado para a Italia, imprimindo-se em Ferrara em 1544, cinco annos
    antes da morte de Colocci, parece que a phrase _quel_ (libro) _da
    Ribera_ se refere a esta novella portugueza. Seria por este tempo que
    o cancioneiro portuguez se tornou conhecido em Roma, como dá noticia
    Duarte Nunes de Leão, nas palavras _"que em Roma se achou"_, mas sem
    dizer que já pertencia á Bibliotheca do Vaticano. A epoca em que este
    codice entrou n'esta rica bibliotheca pode fixar-se depois de anno de
    1600, por que os livros e manuscriptos de Colocci foram adquiridos
    pelo erudito Fulvio Orsini, que os deixou em testamento á Vaticana.[7]
    Esta é a opinião de Monaci; não concordamos porém com a sua
    interpretação do trecho de Duarte Nunes de Leão quando este escriptor
    portuguez diz: "segundo vimos por um cancioneiro seu, que em Roma se
    achou, em tempo de el-rei Dom João III…" deduzindo que Nunes de Leão
    chegara _a vêr_ esse cancioneiro; em primeiro logar, Nunes de Leão
    refere-se a um _Cancioneiro seu_, isto é unicamente de el-rei Dom
    Diniz, e não geral, como o de que resta noticia pelo Indice de Colocci
    e pelo apographo da Vaticana; isto já é uma prova da informação vaga
    do chronista, e alem d'isso a phrase _segundo vimos_, significa: como
    se prova, como se deduz. Nunes de Leão conhecia o codice das canções
    de D. Diniz que no principio de século XVII se guardava na Torre do
    Tombo, como elle diz: _"e per outro que está na Torre do Tombo…"_ ou
    talvez pelo que pertencia aos Freires de Christo, de Thomar. Vivendo
    no meado do seculo XVII, já o cancioneiro grande havia sido recebido
    na Bibliotheca do Vaticano e poderia ter noticia da existencia do
    Codice; porém o chronista refere-se principalmente a um _Cancioneiro
    de Dom Diniz_, e as referencias de Sá de Miranda, de Ferreira e de
    Camões são unicamente aos talentos poeticos de D. Diniz. Como chegou a
    Portugal noticia do apparecimento em Roma? Sá de Miranda demorou-se na
    sua viagem á Italia, entre 1521 e 1526, e conviveu com os principaes
    eruditos italianos, Lactancio Tolomei e João Ruscula, e dava-se tambem
    por parente da casa dos Colonas; é possível que, regressando a
    Portugal en 1526, quando havia já cinco annos que D. João III reinava,
    désse a noticia da descoberta de um cancioneiro em Roma, quando
    visitara as principaes livrarias; o facto dos poetas da eschola
    italiana alludirem ao talento poetico de D. Diniz, leva a induzir esta
    noticia como communicada pelo que trouxe a Portugal esse novo gosto
    litterario.

    Em 1527 foi o saque de Roma, e a livraria de Colocci tambem soffreu
    com essa devastação; por ventura algum dos cancioneiros acima citados
    se perdeu, ou foi talvez adquirido algum d'entre os livros roubados
    por esta occasião da Vaticana. É de presumir que o _Libro di
    Portoghesi_ fosse o Cancioneiro de que só resta o Indice, e sendo
    assim, perder-se-hia em poder de Messer Octaviano de messer Barbarino;
    se o libro _da Ribera_ é o manuscripto de Bernardim Ribeiro, impresso
    mais tarde em Ferrara, então pode fixar-se a perda do Cancioneiro
    n'esse mesmo anno em que morreu Colocci. O inventario dos seus livros,
    feito a 27 de Outobro de 1558, nove annos depois da sua morte,
    explica-nos como os livros que estavam emprestados ficaram perdidos.
    Pelo Indice d'este Cancioneiro, achado por Monaci, vê-se que elle
    constava de mil seiscentas e setenta e cinco canções, mais quatro
    centas e setenta, omissas no apographo da Vaticana, hoje publicado.

    6. Il Canzoniere portoghese della Bibliotheca Vaticana, n°. 4803.
    Messo a stampa de Ernesto Monaci. Halle, 1875.

    Desde 1847, que o brasileiro Lopes de Moura publicou em Paris um
    excerpto do grande Cancioneiro portuguez da Vaticana, contendo as
    canções de el-rei Dom Diniz. Como se veiu a conhecer a existencia
    d'este precioso codice em Roma? Desde o principio do seculo XVII que
    elle entrara na Bibliotheca do Vaticano pela doação dos livros de
    Fulvio Orsini; no seculo XVIII, segundo Varnhagem, era citado por um
    bibliophilo hespanhol junto com outros codices de poesias catalans e
    valencianas; o facto de existir com encadernação moderna e com a
    insignia papal de Pio VII (1800–1823) explica-se pela reparação e ao
    mesmo tempo pelo interesse que houve em conservar o cancioneiro
    formado de cadernos differentes e incompletos, e escriptos com tinta
    corrosiva que o pulverisa. Wolf, por intervenção do slavista Kopitar,
    mandou fazer as primeiras investigações no Vaticano para descobrir
    este codice de que tinha vago conhecimento pela vaga allusão de Nunes
    de Leão; foram infructuosas as tentativas; o visconde da Carreira,
    embaixador em Roma, avisado por um franciscano (por ventura o P.
    Roquete, como se sabe pelo prologo da edição de Moura) conseguiu a
    copia da parte publicada em Paris por Aillaud. Desde 1847 até hoje,
    nunca o governo portuguez, nem a Academia real das Sciencias
    comprehenderam o valor d'este monumento. A reproducção das nossas
    riquezas litterarias têm sido sempre feita por estrangeiros, e a
    publicação d'este importantissimo cancioneiro foi agora realisada por
    um rapaz desajudado de subsidios academicos, mas animado pelo amor da
    sciencia. A edição feita em Halle, appresenta todo o rigor
    diplomatico, de modo que os erros do copista italiano do seculo XVI
    podem restituir-se á leitura do portuguez do codice primitivo; apesar
    d'este subsidio, Monaci tentou com um seguro tino critico uma tabella
    dos principaes erros systematicos, e um indice das necessarias
    restituições que se podem fazer em cada canção; em fim, tudo quanto é
    preciso para a intelligencia do texto, existe ali. Monaci conservou a
    disposição do manuscripto na reproducção typographica, já a uma ou a
    duas columnas, com todos os vestigios das differentes numerações e
    siglas referentes a outros codices analogos e mais antigos. Pelo seu
    prologo, de uma precisão rigorosa, se vê toda a historia externa do
    Cancioneiro. O Codice da Vaticana está em papel de linho, com trez
    marcas de agua differentes, tal como se empregava nas edições do
    Varisco; a letra é italiana, tal como a dos documentos do fim do
    seculo XV e principio do seculo XVI, proveniente de dois copistas, um
    que escreveu as poesias, algumas rubricas e notas, outro a maior parte
    dos nomes, as numerações e algumas postillas, contando ao todo 210
    folhas. Da descripção d'este cancioneiro conclue-se, pelo estado em
    que se acha, que outro ou outros cancioneiros foram n'elle copiados ou
    confrontados. A primeira nota que se depara ao abril-o é: "_Manca da
    fol. IJ a fol. 43_;" isto quer dizer, que o cancioneiro foi copiado de
    um outro codice que já se achava assim fragmentado, mas que mais tarde
    foi confrontado com outro que estava completo, como veremos na relação
    com o Indice de Colocci.

    Ao começar o texto acha-se outra referencia: "_A fogli 90_" e segue-se
    a canção de Fernão Gonçalves, o que parece significar, que n'este
    cancioneiro existia outra disposição das poesias á qual se refere este
    numero, que continúa a cotar successivamente outras canções,
    entremeiando-se com numeros romanos, que parecem estabelecer
    referencia a outro cancioneiro. Separemos estas duas ordens de
    numeros, por onde deduzimos o confronto com dois cancioneiros; para se
    localisar melhor a referencia que era de folhas e verso, indicaremos a
    numeração actual das canções: Fol. 91 (canc. 8), 92 (canç. 11); _Fol.
    97 desunt multa_ (canç. 43 fine); junto da canção 61, vem a sigla
    _Desunt_; junto da 63 vem _car_. 106; junto da canção 299: _"Fol. 141
    Al vo"_ (del volumen?); junto da canção 507 vem: "173 _a tergo"_ e
    algumas canções com dois nomes de auctores, como _Martin Campina_ ou
    _Pero Meogo_, como forme a attribuição de um ou outro texto (canc.
    796.). Por fim termina com esta outra rubrica: _"A fol. 290 è
    cominciata una Rubrica e non è finita di copiare"_. Tudo isto prova,
    que se fez o confronto d'este apographo existente cum um codice mais
    completo, seguindo-se o confronto até á folha 300 d'esse codice
    perdido.

    O confronto do Codice por meio da numeração romana não prosegue até ao
    fim; apenas se acha LXXXVJ junto da canção 4; LXXXVIIJ junto da Canção
    14; LXXXVIIIJ junto da canção 26 _fine;_ XCVJ junto da canção 39 a 45;
    XCVIIJ coincide com a referencia anterior, junto da canção 49; XCVIIIJ
    á canção 55; CXII á 62; CXIIIJ á canção 70; CXVIJ á canção 77. Esta
    numeração romana adianta-se aqui mais do que a arabe, signal de que
    havia divergencia entre os dois codices que serviam para confrontação
    com o apographo publicado. É certo porem, que a numeração romana
    termina antes do corpo das canções de el-rei Dom Diniz, d'onde se
    poderá inferir, que até esta parte contribuiu um cancioneiro parcial,
    e que de Dom Diniz só entrava no que era numerado em algarismos. Que
    existiam diversos cancioneiros, pelas mesmas canções d'este codice se
    pode conhecer, como pela canção de D. Affonso de Castella (canç. 76)
    em que allude ao _Livro dos Sons_, que era um cancioneiro com que o
    Dayão de Cales seduzia as mulheres. Na sua edição Monaci deixou
    apontados em um indice fundamental todas as canções repetidas no
    cancioneiro, ou aquellas que mutuamente se plagiavam. Da sua
    comparação se podem tirar poderosas inducções, para se estabelecer
    quantos pequenos cancioneiros haviam servido para formarem o
    cancioneiro grande, do qual o apographo publicado é uma copia. É o que
    vamos tentar.

    _Pequenos Cancioneiros que entraram na formação do Cancioneiro da
    Vaticano_.–A canção 4, de _Sancho Sanches_, apparece repetida com
    mais duas estrophes e assignada por _Pero da Ponte_, sob o numero 569;
    a 2ª e 3ª strophes da versão de Pero da Ponte, faltam na canção de
    Sancho Sanches. As strophes communs têm as seguintes variantes:

    _Sazom foi já_, que me teve em desdem (n°. 4)
    _Tal sazom foi_, que me teve em desdem (nº. 569).

    _Que com'é mais j'agora_ seu amor (n°. 4)
    _Quando me mays forçava_ seu amor. (n°. 569).

    E ora _já_ que pes'a mha senhor (n°. 4)
    E ora _mal_ que pes'a mha senhor (n°. 569).

    Evidentemente estas duas canções foram colligidas de dois cancioneiros
    parciaes, e elles mesmos escriptos em grande parte de memoria.

    A canção 13, de Mem Rodrigues Tenoyro, têm apenas uma estrophe, mas
    repete-se sob o numero 319 com o nome do mesmo trovador e com mais
    duas estrophes que a completam. Deve attribuir-se essa divergencia ao
    ter sido colligida de dois cancioneiros, formado por diversos
    collecctores.

    A canção 29, assignada por João de Guilhade, repete-se sob o numero 38
    com o nome do trovador Stevam Froyam; existem entre ellas leves
    variantes, mas como estão immensamente deturpadas, só pelos dois
    textos se reconstruem. Por este facto se vê, que houve compilação de
    dois cancioneiros, e que o copista mal percebia a letra e fazia
    selecção das canções.

    A canção 116 e 174, do cancioneiro de Dom Diniz, são uma e mesma,
    havendo entre estes dois numeros _variantes_, e sobretudo a 2ª e 3ª
    estrophe alternadas. Não proviria isto dos originaes, escriptos por
    esmerados copistas, que se guardaram na Bibliotheca de el-rei Dom
    Duarte; este facto prova-nos, que o corpo das canções de Dom Diniz,
    que na collecção Vaticana occupa dos n.'os 80 até 208 proveiu de
    copias avulsas de differentes palacianos, e talvez do proprio Conde D.
    Pedro.

    A canção 241, do trovador Payo Soares, apparece com o numero 413
    repetida sob o nome de Affonso Eanes de Coton (Cordu); tem apenas uma
    rapida variante ortographica, mas tanto o facto da repetição, como o
    da attribuição a dois trovadores differentes accusam duas colleções
    parciaes.

    A canções 457 e 469 pertencem a Ayres Nunes Clerigo e são uma unica,
    com a differença que as trez strophes de que constam, tem os versos
    baralhados sem systema; o que se explica pelo caracter jogralesco,
    isto é, que foram duas vezes colligidas no tempo em que eram cantadas
    a caprixo de Ayres Nunes ou de qualquer outro jogral, que as sabia de
    cór; ou então, que provieram de dois cancioneiros onde as duas canções
    se differenciavam pela razão acima indicada.

    A sirvente 472 de Martim Moxa apparece sob o numero 1036, em nome de
    Lourenço, jograr de Sarria, com variantes fundamentaes, que provam
    compilação de dois cancioneiros diversos. O caracter sirventesco fez
    talvez que varios jograes regeitassem a paternidade d'essa canção que
    verbera os privados da côrte de D. Affonso III.

    O numero 613 e 639 são uma mesma canção de João Ayres, burguez de
    Santiago; abundam as variantes entre estas duas composições, signal de
    que provieram de duas copias resultantes da monomania dos cancioneiros
    particulares. E sob o nome d'este mesmo trovador andam as duas canções
    repetidas 634 e 138, tendo esta ultima alem das variantes mais uma
    estrophe e um Cabo.

    Em nome do jogral João Servando apparecem repetidas as canções 738 e
    749 com variantes fundamentaes entre si:

    Ora vou a Sam Servando,
    donas, fazer romaria,
    e nom me leixam com elas
    hir, cá logo alá hiria
    por que vem hy meu amigo. (738)

    Donas vam a Sam Servando
    muytas hoje em romaria,
    mais nom quiz oje mha madre
    que foss' eu hi este dia
    por que vem hy meu amigo. (749)

    As outras variantes nas demais strophes são menos reparaveis, mas no
    numero 738 ha uma strophe a mais. A pequena distancia a que ficam uma
    da outra estas canções, provam-nos que o copista italiano transcreveu
    materialmente uma compilação já formada; e por tanto tudo quanto se
    pode concluir sobre estas canções identicas liga-se á formação d'esse
    cancioneiro perdido d'onde se trasladou o codice da Vaticana.

    Dois casos especiaes se davam n'essa formação do antigo cancioneiro:
    1° ou as canções se attribuiam na repetição a dois trovadores
    differentes taes como Sancho Sanches e Pero da Ponte, João de Guilhade
    e Stevam Froyam, Pay Soares e Affonso Eanes do Cotom, Martim Moxa e
    Lourenco Jograr; 2° ou se repetiam em nome do mesmo trovador, como Mem
    Rodrigues Tenoyro, el-rei D. Diniz, Ayres Nunes Clerigo, João Ayres, e
    João Servando. Para o primeiro caso conclue-se que contribuiram para a
    formação do grande cancioneiro pequenos cancioneiros trasladados de
    cantares dispersos, por curiosidade, ou tambem apanhados na corrente
    oral, porque um só collector notaria os plagiatos. Para o segundo caso
    poderiam os jograes terem contribuido com os seus cadernos de cantos e
    assim com lições differentes de um mesmo texto que se alterava pelas
    continuadas repetições.

    De todo este confronto se conhece a necessidade de estabelecer por
    todos os meios possiveis ás relações entre este apographo da Vaticana
    e os dois cancioneiros de Colocci, perdido, e o da Ajuda.

    _Relações do Cancioneiro da Vaticana com o Cancioneiro de Angelo
    Colocci_.–Antes de Monaci haver descoberto no Ms. n°. 3217 o Indice
    do Cancioneiro perdido do erudito quinhentista italiano Angelo
    Colocci, ja elle determinara pela forma por que está escripto o
    Cancioneiro da Vaticana, que deveria ter existido um original mais
    antigo e mais completo. A descoberta do Indice veiu authenticar a
    existencia d'esse Cancioneiro perdido e explicar pela letra do proprio
    Colocci, quem é que tinha feito o confronto. O illustre Monaci
    comprehendeu logo quanto util seria para a critica o comparar a lista
    dos trovadores do Cancioneiro perdido com a dos trovadores do
    Cancioneiro existente (Appendice I, p. XIX a XXIV); por uma simples
    inspecção fica o leitor habilitado a conhecer as profundas relações
    entre os dois cancioneiros; o de Colocci continha mil seis centas e
    setenta e cinco canções, e o da Vaticana contem mil duzentas e cinco,
    isto é, quatrocentas e setenta canções a menos, por ventura as que
    occupavam até a _fol_. 90. O numero das canções de cada trovador pode
    tambem ser confrontado, porque no Codice de Colocci as canções de
    Colocci eram numeradas por algarismos e cada nome de trovador é
    precedido pelo numero que limita as canções do antecedente. Assim,
    como já acima vimos, as canções de D. Diniz são no Codice da Vaticana
    cincoenta e uma a mais do que no de Colocci. Apezar d'isso as notas
    _desunt multa_ provam-nos que o Cancioneiro de Colocci era muito mais
    rico, como se vê pelos nomes dos seguintes trovadores que faltam no da
    Vaticana:

    Diego Moniz, que tinha ali uma canção; Pero Paes Bazoco, com sete
    canções; João Velaz, Dom Juano; Pero Rodrigues de Palmeyra; Dom
    Rodrigo Dias dos Conveyros; Ayres Soares; Osorio Annes; Nuno Fernandes
    de Mira-Peixe; Fernam Figueiredo de Lemos; Dom Gil Sanches; Ruy Gomes
    o Freyre; João Soares Fomesso; Nuno Eanes Cerzeo; Pero Velho de
    Taveirós; Pay Soares de Taveirós; Fernam Garcia Esgaravunha, do qual
    existiam dezessete canções; João Coelho; Pero Montaldo; duas canções
    do trovador genovez Bonifacio Calvo; o Conde D. Gonçalo Garcia; Dom
    Garcia Mendes de Eixo; El rei Dom Affonso IV, filho de el-rei D.
    Diniz, com quatro canções. No Codice de Colocci, as canções de D.
    Diniz não estavam em um corpo isolado, apresentando mais quatro
    composições destacadas no fim do cancioneiro. Esta parte tambem é
    omissa no Cancioneiro da Vaticana, por que aí se encontram outra vez
    trovadores dos supracitados, como João Garcia, D. Fernam Garcia
    Esgaravunha, Pero Mastaldo, Gil Peres Conde, Dom Ruy Gomes de
    Briteiros, Fernam Soares de Quiñones, etc. Pelo confronto do Indice de
    Colocci se conhece, que embora se sigam ao texto do Cancioneiro da
    Vaticana quatorze folhas em branco, nem por isso ficou muito distante
    do fim, por que só deixaram de ser copiadas algumas sirventes de
    Julião Bolseyro. D' este confronto se conclue: 1°. que o codice d'onde
    se extraíu a copia da Vaticana differia no numero das canções e na sua
    disposição do de Colocci; 2º. que as relações mutuas accusam fontes
    communs, mas colleccionação arbitraria no agrupamento dos differentes
    cancioneiros parciaes.

    _Relações do Cancioneiro da Vaticana com o Cancioneiro da Ajuda_. —
    Lopes de Moura foi o primeiro que encontrou na collecção da Vaticana a
    canção de João Vasques, _Muyt'ando triste no meu coraçom_, que existe
    anonyma no Cancioneiro da Ajuda. Logo depois, Varnhagem achou mais
    quarenta e nove canções communs aos dois codices, e nós mesmo ainda
    viemos a encontrar mais seis canções repetidas. São ao todo cincoenta
    e seis canções communs, facto importante para estabelecer as relações,
    que existiram entre os dois cancioneiros. Em primeiro logar, o
    Cancioneiro da Vaticana foi já copiado de um codice truncado, como por
    exemplo: a canção 43 tem a rubrica final: _"Fol.97 desunt multa"_ e a
    canção seguinte está truncada no principio; porem estas canções de
    João Vasques completam-se pelo Cancioneiro da Ajuda, canção n°. 272 e
    273 (ed. _Trovas e Cantares_). Isto prova, que embora o Cancioneiro da
    Ajuda esteja truncado e por seu turno se complete com algumas canções
    do codice de Roma (_y_, das _Trovas_ == n°. 38, _Canc. da Vat._) ambos
    provieram de fontes differentes, porque tambem nas cincoenta e seis
    canções communs existem notaveis variantes:

    _Nostro senhor_, que lhe bom prez foi dar. (Vatic.)
    _Deus_ que lhe _mui_ bom _parecer_ foi dar. (Ajuda)

    N'esta variante o original do codice vaticano mostra-se mais archaico
    na linguagem. Na canção 46, de Fernão Velho (no codice da Ajuda, n°.
    92) no primeiro verso da 2ª strophe vem uma variante que denota erro
    do copista portuguez conservado inconscientemente pelo antigo copista
    italiano:

    E _mha_ senhor fremosa de bom _parecer_ (Vatic.)
    E _mia_ senhor fremosa de bom _prez._ (Ajud.)

    _Prez_ é uma contracção de _preço_, e d'aqui resultou que o copista
    portuguez traduziu inconscientemente; como organisado no paço, o
    Cancioneiro da Ajuda seria formado directamente da contribuição dos
    muitos trovadores que o frequentavam; o Cancioneiro de Roma era já
    derivado de um apographo secundario, truncado no principio, meio e
    fim, e em certos pontos mais archaico.

    Na canção 47 da Vaticana (93 da Ajuda) pertencente a Fernão Velho,
    vem:

    Quant' eu, _mha senhor, de vós_ receei… (Vatic.)
    Quant' eu _de vós, mia senhor_ receei (Ajud.)

    E vos dix'o _mui_ grand'amor que ei (Vatic.)
    E vos dix'o grande amor que _vós_ ei (Ajud.)

    A canção 48 da Vaticana, apesar das imperfeições da copia italiana,
    pode ser reconstruida pelo typo strophico, porem a nº. 94 da Ajuda
    ficou incompleta:

    _Lição da Ajuda: Lição da Vaticana:_

    E mal dia naci, senhor, E mal dia naci, senhor,
    Pois que m'eu d'u vós sodes, vou; pois que m'eu d'u vos sodes, vou;
    Ca mui bem sou sabedor ca mui bem som sabedor
    Que morrerei u nom jaz al; que morrerey hu nom ey al;
    Pois que m'eu d'u vós sodes, vou. poys que m'eu d'u vos sodes, vou,
    …………. pois que de vos ei a partir _por mal._

    …………. E logo hu m'eu de vós partir
    …………. morrerey se me deus nom val.

    A canção 53 da Vaticana (Ajuda, nº. 99), tem uma strophe mais
    imperfeita do que no codice da Ajuda; mas en compensação tem o _Cabo_,
    que falta no codice portuguez:

    _Ajuda: Vaticana:_

    Meus amigos, muito me praz…. Meus amigos muyto mi praz _d'amor._
    Cá bem pode partir da mayor Ca bem me pode partir da mayor
    Coita de quantas eu oy falar, coyta de quantas eu oy falar,
    De que eu fuy muyt'_y_ a soffredor; do que eu fuy muyt'ha sofredor
    Esto sabe deus, que me foy mostrar _e sabe deus hu a vi bem falar_
    Uma dona que eu vi bem falar e parecer, por meu mal, eu o sey.
    E parecer por meu mal, e o sei.
    …………. Ca poys m'elles nom querem emparar
    …………. e me no seu poder querem leixar,
    …………. nunca por outra emparado serey.

    A canção 395, de Payo Gomes Charrinho, repetida no cancioneiro da
    Ajuda, n°. 276, tambem revela duas fontes diversas:

    e nom lh'ousey mays _d'atanto_ dizer (Vatic.)
    e nom lh'ousey mais _d'aquesto_ dizer. (Ajud.)

    nem _er cuidey_ que tam bem parecia (Vatic.)
    nem _cuidava_ que tambem parecia (Ajud.)

    mays _quand'_eu vi o seu bom parecer (Vatic.)
    mais _u_ eu vi o seu bom parecer. (Ajud.)

    No codice da Vaticana tem esta canção apenas trez estrophes; porem no
    da Ajuda termina com uma quarta:

    E por esto bem consellaria
    quantos oyrem-no seu bem falar
    nom a vejam, e podem-se guardar
    melhor ca m'end'eu guardei, que morria,
    e dixe mal, mais fez-me deus aver
    tal ventura, quando a fui veer
    que nunca dix'o que dizer queria. (Ajuda)

    Evidentemente as alterações de linguagem não foram do copista
    italiano, porque, comparativamente, a expletiva _er_ é mais archaica;
    e por tanto a omissão da 4ª strophe não foi casual, mas resultante do
    estado d'outra fonte.

    A canção 400, da Vaticana, tambem de Payo Gomes Charrinho, tem leves
    variantes na canção 278 da Ajuda, mas importantissimas omissões; assim
    no Codice de Roma, falta na primeira strophe o verso:

    me quer matar e guaria melhor (Vat.)

    e tambem faltam duas strophes completas com o seu Cabo.

    A canção 428, ainda de Charrinho, tambem no Codice da Ajuda, n°. 285
    offerece leves variantes; porem no Codice da Vaticana alternam-se a
    segunda com a terceira strophe, e falta este Cabo da lição da Ajuda:

    E entend'eu cá me quer a tal bem
    em que nom perde, nem gaano en rem.

    A canções 485, 486 e 487 da Vaticana, do trovador Ruy Fernandes,
    acham-se nos pequenos fragmentos legiveis nas folhas do Cancioneiro da
    Ajuda, que serviram de guardas á encadernação do Nobiliario; esses
    fragmentos, seguindo a edição do Varnhagem são _m, n, o_; ainda assim
    se conhece por elles que existiam divergencias entre os dois codices:

    _Ajuda, (m):_ _Vaticana_, n°. 485:
    A _guisa_ de vos elevar a _forza_ de vos elevar
    Por mia morte nom _aver_. por mha morte nom _aduzer_.

    _Ibid., (n):_ _Ibid._, n°. 486:
    _Amigos_, começa o meu mal. _Ora_ começa o meu mal.

    As canções de Fernão Padrom, n'os. 563, 564, 565, a que achámos as
    analogas nos numeros 126, 127 e 128 do codice da Ajuda, tambem
    apresentam variantes.

    As canções n°. 566, 567, 568, 569 e 570, que andam em nome de Pero da
    Ponte no codice da Vaticana e apparecem anonymas no Cancioneiro da
    Ajuda, n'os. 112, 113, 114, 115 e 116 não appresentam mais variantes
    que a simples modificação ortographica em _mha_ e _mia_, que poderia
    provir das differentes epocas das copias. Esta conformidade entre o
    texto da Vaticana e o da Ajuda, leva-nos a concluir que pequenos
    cancioneiros entraram na coordenação de um grande cancioneiro, e que
    as canções mais conformes são aquellas que andaram em menor numero de
    copias antes de se agruparem na collecção geral.

    Já com relação ás Canções de Vasco Rodrigues de Calvelo, apparecem
    variantes e deturpações que não provêm do copista do seculo XVI, mas
    de codices diversos ja corruptos; a canção 580 comparada com a 265 da
    Ajuda tem uma lição menos pura, incompleta, mas differente:

    _Lição da Ajuda: Lição da Vaticana:_
    Per uma dona que quero gram bem ….. que quero gram bem.

    Com'a mim _fez_; ca des _que eu_ naci Como a mim _faz_; que des _quando_ naci
    nunca vi ome _en_ tal coita _viver_ nunca vi ome tal coita _sofrer_
    como eu _vivo_ por melhor bem querer como eu _sofro_ por melhor bem querer

    Com'_a mim fez muy_ coitado d'amor Com'el _faz mim muy_ coitado d'amor.

    A lição da Ajuda termina com este Cabo, que falta no codice da
    Vaticana:

    Com'a mim fez, e nunca me quiz dar
    Bem d'essa dona, que me fez amar.

    A canção 581, tambem de Vasco Rodrigues de Calvelo, sob a designação
    _e_ da lição da Ajuda (ed. _Trov. e Cant._) alem das mutuas variantes,
    tem a 2ª e 3ª a strophes alternadas:

    E se _soubess'_em qual coyta d'amor (Vatic.)
    Se _lh'eu dissess'_em qual coita d'amor (Ajud.)

    per nulha guisa, _pero m'_ey _sabor_ (Vatic.)
    Per nulha guisa, _ca_ ey _gram pavor._ (Ajud.)

    De mais no Codice de Roma falta este Cabo:

    Mais de tod'esto nora lhi dig'eu rem,
    Nem lh'o direy, cá lhe pesará bem.

    Na Canção 582, do mesmo trovador, ha esta divergencia:

    E rogo _sempre_ por mha morte a deus (Vatic.)
    Et rogo _muito_ por mia morte a deus (Ajud.)

    Na Canção 584, tambem de Calvelos, falta esta terceira estrophe, que
    vem no codice da Ajuda:

    Como vós quiserdes será
    De me fazerdes mal e bem
    E pois é tod'em vosso sen
    Fazed'o que quizerdes já…

    A canção 677, de Pero de Armêa, acha-se imitada no codice da Ajuda,
    nº. 56, por forma que a da Vaticana apresenta um caracter de maior
    vulgarisação, e por isso de proveniencia jogralesca:

    _Lição da Ajuda:_ _Lição da Vaticana:_

    Muitos me veem preguntar, Muytos me veem preguntar,
    mia senhor, a quem quero bem; senhor, que lhes diga eu quem
    e nom lhes queró end'eu falar est a dona que eu quero bem
    com medo de vos pesar en, e com pavor de vos pesar
    nem quer'a verdade dizer, nom lhis ouso dizer per rem,
    mais jur'e faço lhes creer senhor, que vos quero bem.
    mentira, por vos lhe negar.

    Duas canções de Pedro Solás, confrontadas com as do codice da Ajuda,
    acabam de separar definitivamente estes dois cancioneiros:

    _Lição da Ajuda_ (nº. 123): _Lição da Vaticana_ (nº. 824):

    Nom est a de Nogueira _E_ nom est a de Nogueira
    A freira, que _mi poder tem;_ a freira que _eu quero bem,_
    Mays _est_ outra _a_ fremosa mays outra mais fremosa
    A que me _quer'eu mayor bem;_ _e_ a que _mim em poder tem;_
    E moyro-m'eu pola freira e moir-m'eu pola freira
    Mais nom pola de Nogueira. mais nom pola de Nogueira.
    ………………………………………………………….

    Se eu a _freira visse o dia _E_ se eu _aquella freyra
    O dia que eu quizesse_ hum dia veer podesse_
    Nom ha coita no mundo nom ha coita no mundo
    Nem _mingua_ que houvesse nem _pesar_ que _eu_ ouvesse
    E moiro-me … e moyro-me …

    _Se m' ela mi amasse _E seu aquella freyra
    Muy gram dereito faria, veer podess'um dia
    Cá lher quer'eu mui gram bem nenhuã coita do mundo
    E punh'y mais cada dia;_ nem pesar nom averia_
    E moiro-me … e moyro-me …

    Estas duas variantes são elaborações differentes do mesmo trovador em
    epocas diversas, e por tanto os dois cancioneiros provêm
    effectivamente de duas fontes. A canção 825 da Vaticana, que se acha
    sob o numero 124 do Codice da Ajuda, apenas tem a terceira e quarta
    estrophes alternadas. O ultimo paradigma entre estes dois
    cancioneiros, apresenta uma composição (1061 da Vaticana, 253 da
    Ajuda) que pertence a João de Gaya, escudeiro da côrte de D. Affonso
    IV, por onde se fixa não só a epoca da colleccionação do codice de
    Lisboa, mas em que a fonte do Codice de Roma nos apparece mais
    completa:

    _Lição da Ajuda:_ _Lição da Vaticana:_

    Conselho, e quer-_se_ matar Conselho e quer-me matar.
    E assi me tormenta amor
    de tal coyta, que nunca par
    ouv'outr'ome, a meu cuydar,
    assy morrerey pecador,
    e, senhor, muyto me praz en
    que prazer tomades por en
    non no dev'eu arrecear.

    E bem o _podedes fazer_ E bem o _devedes saber_, etc.

    Por todos estes factos se vê, que umas vezes o Codice de Roma é omisso
    com relação ao de Lisboa, o que se poderia impensadamente attribuir a
    incuria do copista; esta hypothese não pode ter logar, porque o
    Cancioneiro da Ajuda por muitissimas vezes apresenta eguaes omissões.
    Por tanto essas cincoenta e seis canções communs aos dois codices,
    entraram n'essas respectivas collecções provindo de codices parciaes e
    de differente epoca.

    _Relações do Cancioneiro da Vaticana com o apographo actualmente
    possuido por um Grande de Hespanha_. — No _Cancioneirinho de Trovas
    antigas_, Varnhagem dá noticia no prologo, de ter encontrado em 1857
    na Livraria de um fidalgo hespanhol um antigo cancioneiro portuguez,
    que, pela canções de el-rei D. Diniz que elle continha, lhe suscitou o
    procurar as analogias que teria com o Cancioneiro da Vaticana n°.
    4803; tirou copia do citado Cancioneiro, e em 1858 procedeu em Roma ao
    confronto do codice madrileno com o da Vaticana. Começavam ambas as
    copias com a trova de _Fernão Gonçalves_, seguindo-se-lhe as duas
    canções de _Pero Barroso;_ ambos os codices combinam nos mesmos nomes
    de trovadores, na ordem das canções, e em geral nos erros dos
    copistas. Poder-se-ha concluir que estes dois apographos se derivam
    ambos do mesmo original? Não; apezar de Varnhagem não ser mais
    explicito na descripção do codice madrileno e guardar no mysterio o
    nome do possuidor, comtudo pelas cincoenta composições do
    _Cancioneirinho_ se descobrem profundas _variantes_, que se não podem
    attribuir a erro de leitura, ainda assim tão frequente em Varnhagem.

    Copiamos aqui essas variantes, para que se conclua pela existencia de
    um outro codice mais antigo, tambem perdido. Na canção II, a strophe
    3ª _(Cancioneirinho)_ acha-se assim:

    Os cavalleiros e cidadãos
    d'aqueste rey aviam dizer
    e se deviam com sas mãos poer
    outrosi donas e escudeiros
    que perderam a tam bem senhor
    de quem poss'eu dizer, sem pavor,
    que não ficou dal nos christãos.

    Pelo codice de Roma vê-se a strophe construida da outro modo:

    Os cavalleiros e cidadãos
    que d' este rey aviam dinheiros
    e outrosi donas e escudeiros,
    matar se deviam por sas mãos … (Canç. n°. 708.)

    Na canção VI, a strophe segunda e terceira _(Cancioneirinho)_ estão
    incompletas e interpolladas d'esta forma:

    _Cancioneirinho:_ _Codice da Vaticana:_

    E as aves que voavam E as aves que voavam
    Quando sayam canções quando saya _l'alvor_
    Todas d'amor cantavam todas de amor cantavam
    Pelos ramos d'arredor; pelos ramos d'arredor;

    Mais eu sei tal que escrevesse mais nom sei tal que _i estevesse_
    Que em al cuidar podesse que em al cuidar podesse
    Se nom todo em amor. se nom todo em amor.

    Em pero dix'a gram medo: _Aly stive eu muy quedo
    quis falar e nom ousey_
    em pero dix'a gram medo:
    — Mha senhor, falar-vos-ey — Mha senhor, falar-vos-ey
    Hum pouco, se m' ascuitardes um pouco, se m'ascuitardes
    Mais aqui nom estarey. _e ir-m'ey quando mandardes_
    mais aqui nom estarei.

    (Canc. nº. 554.)

    Pela lição da Vaticana, onde se vêem as duas strophes completas se
    infere que o defeito no _Cancioneirinho_ provem de um texto imperfeito
    e differente, porventura tirado do apographo hespanhol.

    Na canção XV _(Cancioneirinho)_ vem uma strophe imperfeita, porque é
    formada com duas, que lhe alteram o typo:

    _Cancioneirinho:_ _Codice da Vaticana:_

    E foi-las aguardar E fui-las aguardar
    E nom a pude ver; e nom o pude achar
    e moiro-me d'amor. e moiro-me d'amor!
    E fui-las atender,
    e nom no pude veer
    E moiro-me d'amor.

    A canção XVII do _Cancioneirinho_ tem só trez strophes; na lição do
    Codice da Vaticana, ha mais esta:

    Estas doas mui belas
    el m'as deu, ay donzelas,
    nom vol-as negarey;
    mas cintas das fivelas
    eu nom as cingirei.

    Com certeza esta deficiencia proveiu do apographo madrileno. Na canção
    XXI, a strophe 4ª está interpollada, e segundo a lição da Vaticana é
    que se conhece a proveniencia de outro codice:

    _Cancioneirinho:_ _Codice da Vaticana:_

    Cá novas me disserom Ca novas me disserom
    Que vem o meu amigo ca vem o meu amado
    C'and'eu mui leda. e and' eu mui leda,
    poys migu'é tal mandado;
    _E cuido sempre no meu coraçom poys migu'é tal mandado
    Pois nom cuid'al, des que vos vi, que vem o meu amado.
    Se nom en meu amigo,
    E d'amor sei que nulh'ome tem,_
    Pois migo é, tal _mandades;_
    Que vem o meu amado.

    Os versos sublinhados do _Cancioneirinho_, são visivelmente d'outra
    canção, porque tem outro typo strophico, e essa interpolação não se
    pode attribuir a erro de leitura de Varnhagem.

    Na canção XXV, ha uma 4ª strophe, que é repetição da 1ª; na lição da
    Vaticana não existe esta forma; evidentemente o editor do
    _Cancioneirinho_ seguiu aqui o codice madrileno.

    Na canção XLV falta esta strophe, que pela lição do texto da Vaticana
    se vê que é a segunda:

    Nom ja em al d'esto som sabedor
    de m'algum tempo quizera leixar
    e leix'e juro nom a ir matar
    mays poys la matam, serey sofredor
    sempre de coyt'em quant'eu viver,
    cá sol y cuido no seu parecer
    ey muyto mais d'outra rem desejar.

    Na canção XLVI, falta esta 4ª strophe da lição da Vaticana:

    Por en na sazom em que m'eu queixey
    a deus, hu perdi quanto desejei
    oy mais poss'en coraçom deus loar;
    e por que me poz em tal cobro que ey
    por senhor a melhor de quantas sey
    eu, que poz tanto bem que nom ha par.

    A canção XLVIII encerra a prova definitiva de que o codice madrileno
    serviu de base da edição do _Cancioneirinho_, e que esse codice
    proveiu de uma fonte diversa do da Vaticana; aí se acham essas duas
    strophes, que faltam no codice de Roma:

    O que se foi comendo dos murtinhos
    E a sa terra foi bever os vinhos,
    Nom vem al Maio.

    O que da guerra se foi com espanto
    E a sa terra se foi armar manto
    Nom vem al Maio.

    Por outro lado no codice madrileno tambem faltam cinco strophes, por
    que são omissas no _Cancioneirinho:_

    O que da guerra se foi com'emigo
    pero nom veo quand'a preyto sigo
    nom vem al Maio.

    O que tragia o pendou a _aquilom_
    e vendid'é sempr'a traiçom
    nom vem al Maio.

    O que tragia o pendou sen oyto,
    e a sa gente nom dava pam coyto,
    nom vem al Maio.

    E no final da canção:

    O que tragia pendom de cadarço
    macar nom veo no mez de Março,
    nom vem al Maio.

    O que da guerra foy por recaùdo
    macar em Burgos fez pintar escudo,
    nom vem al Maio.

    Indubitavelmente o codice madrileno provém de uma outra fonte, por que
    tem omissões e accrescentamentos, que o differenciam do Codice da
    Vaticana; mas a ordem das canções e os nomes dos trovadores, communs
    aos dois, provam-nos que ambos foram copiados de cancioneiros já
    organisados dos quaes um era já apographo. A circumstancia de
    começarem ambos pela trova de _Fernão Gonçalves_, e de se lêr no
    codice do Roma a nota: _"Manca da fol. ij in fino a fol. 43"_
    provam-nos que o original primitivo já andava truncado e é isto o que
    dá a mais alta importancia ao Indice de Colocci do Cancioneiro perdido
    que era a cópia mais antiga, por que o monumento diplomatico estava
    ainda completo. Monaci não desconheceu o valor das variantes do
    _Cancioneirinho_.

    Depois de toda esta discussão sobre os diminutos vestigios que restam
    de alguns cancioneiros portuguezes dos seculos XIII e XIV, a
    aproximação de numerosos factos secundarios, e as inducções que se
    formam sobre elles, exigem uma recapitulação clara para que se possam
    tirar a limpo algumas conclusões geraes. Representamos os cancioneiros
    que são conhecidos por letras maiusculas, e aquelles cuja existencia
    se pode inferir pelas variantes são notados por letras minusculas; com
    estes signaes formaremos uma tentativa de filiação de todos esses
    cancioneiros em um schema, que poderá, ser modificado á medida que se
    descobrirem novos subsidios:

    A.] _O Livro das Cantigas do Conde de Barcellos_,–citado no seu
    testamento, e deixado a Affonso XI, tambem trovador. Tendo em vista o
    genio compilador do Conde e o andar ligado ao seu Nobiliario o Codice
    da Ajuda, cancioneiro de varios auctores, pode-se inferir que o _Livro
    das Cantigas_ não era exclusivamente do Conde, mas sim uma compilação
    sua. No Cancioneiro da Vaticana encontram-se canções do Conde, de
    Affonso XI e grupos de canções do Codice da Ajuda em numero de
    cincoenta e seis assignadas por fidalgos da côrte de D. Diniz.

    B.] _O Cancioneiro de D. Diniz (Livro das Trovas de Elrei Dom Diniz;_
    existiu separado em volume pelo que se sabe pelo Catalogo dos Livros
    de Uso de el-rei Dom Duarte. Foi encorporado no codice da Vaticana
    depois da canção 79. B¹.] Outro, dos Freires de Christo de Thomar.

    C.] _O Cancioneiro da Ajuda_, começa em folhas 41, a parte anterior
    está perdida e o final não chegou a ser terminado. Isto explica as
    pequenas relações com o Codice de Roma.–As 24 canções achadas na
    Bibliotheca de Evora e as guardas da encadernação do Nobiliario provam
    o muito que se perdeu d'este cancioneiro. Não se chegou a escrever a
    musica das canções, nem a inscrever-lhes os nomes dos auctores que as
    assignavam, e por isso conclue-se que não chegou a servir para a
    collecção de Roma, que é assignada. Não chegaram a entrar n'elle
    canções de el-rei D. Diniz, e portanto entre este e o Cancioneiro de
    Roma pode fixar-se a existencia de outro cancioneiro hoje
    desconhecido.

    D.] _O Cancioneiro de D. Mecia de Cisneros_, grande volume de cantigas
    visto pelo Marquez de Santillana, que o descreve; já continha o
    cancioneiro de D. Diniz, e os trovadores do Codice de Roma citados
    pelo Marquez. Seria a primeira compilação geral, feita mesmo em
    Hespanha?

    E.] _O apographo de Colocci_, perdido talvez pela occasião do saque de
    Roma em 1527, e do qual só se conserva o Indice dos Autores. Tinha
    intimas relações com o codice de D. Mecia. No principio apresentava
    varios _lais_ no gosto bretão e pelos _Nobiliarios_, vemos que o Conde
    Dom Pedro se refere ás tradições bretãs, e tambem el-rei Dom Diniz.
    Seria esta parte assimilada do _Livro das Cantigas_ do Conde de
    Barcellos?

    F.] _Cancioneiro da Vaticana, nº_. 4803; este é menos completo do que
    o antecedente, o que prova que foi copiado de outra fonte. Colocci por
    sua letra o emendou pelo codice hoje perdido. Tem este cancioneiro 56
    canções similhantes no Cancioneiro da Ajuda, com variantes notaveis,
    signal que ambos os Codices se derivam de duas fontes diversas. Tem
    uma parte relativa a successos da côrte de Dom Affonso IV, que provem
    de cancioneiros extranhos e posteriores ao Cancioneiro da Ajuda. A
    ordem dos trovadores não é a mesma do Indice de Colocci.

    G.] _Copia ms. de um Grande de Hespanha_.–Em cincoenta canções
    reproduzidas por Varnhagem acham-se variantes fundamentaes com
    relações á lição do codice de Roma, signal de que a copia alludida
    provém de uma fonte extranha e de epoca differente.

    Os cancioneiros desconhecidos, mas intermediarios aos supracitados são
    hypotheticamente:

    a, b.] Cancioneiros anteriores ás collecções da côrte de D. Diniz, com
    que se formou e, d'onde se trasladou o Cancioneiro da Ajuda, como se
    justifica pelas variantes dos 56 canções reproduzidas no de Roma.

    c.] Cancioneiro perdido, d'onde se não chegou a copiar nem a musica
    das canções nem o nome dos trovadores para o Cancioneiro da Ajuda.

    d.] Cancioneiro onde se encorporaram o _Livro das Cantigas_ e
    _Cancioneiro de D. Diniz_, o que justifica as differenças entre o
    Codice de Dona Mecia e o de Colocci.

    e.] Cancioneiro perdido, cuja existencia se induz das variantes entre
    o Cancioneiro da Vaticana, o de Colocci e o do grande de Hespanha.

    Eis por tanto a nossa tentativa de schema de filiação dos cancioneiros
    portuguezes dos seculos XIII e XIV:

    a b
    ——-/
    c
    C ABB¹
    ———/
    D d
    /———
    E e
    -/
    G F

    É provavel que esta connexão ache contradictores, porém aí ficam todos
    os elementos que pudemos agrupar, para que outros estabeleçam uma
    filiação mais verosímil. Só depois de estudada a historia externa do
    Cancioneiro da Vaticana é que se pode entrar com desassombro no
    desenho da grande epoca litteraria que elle representa. Bem o
    desejaramos fazel-o diante dos que estudam as producções do fim da
    edade media, para reconstruirmos de novo o livro dos _Trovadores
    galecio-portugueses_, escripto antes da posse de tamanhas riquezas. Á
    medida que em Portugal fôr renascendo o amor pela tradição nacional, o
    nome de Ernesto Monaci figurará como de um benemerito, que restituiu a
    este paiz um dos mais bellos monumentos do seu passado historico.

    [1] Fernão Lopes, _Chron. de D. Pedro_ I, cap. 31.
    [2] _Leges Wallice,_ p. 779, 861.
    [3] _Obras del Marquez de Santillana,_ p. XX.
    [4] _Hist. litter. de l'Italie,_ t.IV, p.17.
    [5] _Op. cit_, p.8.
    [6] _Ginguené, Hist. litt_, t. IV, p. 41.
    [7] _Tiraboschi, Storia della Letteratura italiana_, t. VII, 246.

  • Noções elementares de archeologia

    Noções elementares de archeologia

    Aproximadamente 49.550 palavras.

    [Figura 53: Plano do templo rectangular de Izernore (França)]

    _Altares_.–Já dissemos em que parte do templo se collocavam as estatuas
    das divindades; agora nos occuparemos da forma dos _altares_.

    Havia entre elles differença de forma e de materia, proporções e usos.

    A maior parte dos que se conservaram até hoje mostra a construcção de
    marmore ou cantaria simples; havia-os tambem de madeira; mas em menor
    numero. Os altares de metal apresentavam o feitio de tripode; os altares
    de marmore ou madeira eram quadrados, redondos, e ás vezes triangulares.

    Os ornatos mais usados nos altares antigos eram os que representavam as
    cabeças das victimas, taças, e outros vasos e instrumentos para os
    sacrifícios, entrelaçados de grinaldas de flores e folhas[14]. Liam-se
    em alguns altares inscripções indicando a data da consagração, o nome do
    fundador, e as razões da devoção. Os mais bellos e custosos tinham
    ornamentações em baixo-relevo representando a divindade que se queria
    venerar e os seus attributos.

    [Figura 54]

    Costumavam fazer em cima dos altares e no meio d'elles, uma cavidade
    para receber as _libações_ ou o sangue das victimas.

    Alguns altares eram fundados nas encruzilhadas, junto das estradas mais
    frequentadas, onde depois se ergueram cruzeiros, nos tempos modernos,
    para memoria.

    *Edificios destinados aos jogos publicos*

    Tinham os povos antigos tres especies de edificios destinados aos jogos
    publicos: o _circo_, o _theatro_, e o _amphitheatro_. Muitas vezes teem
    confundido os três sob a mesma denominação, de _circos_; porém a forma,
    as dimensões, e o destino estabelecem entre elles diferenças notaveis.

    Os _circos_ eram mais bem considerados que os amphitheatros e os
    theatros; a forma d'aquelles edificios era de um parallelogrammo
    prolongado, circular em um dos topos, e quadrado ou levemente convexo do
    lado opposto. Os dois lados maiores apresentavam exteriormente duas
    ordens de architectura sobrepostas, limitadas por uma attica e cobertas
    com terraço. _Lojas_ e _passagens cobertas_ conduziam ao interior do
    circo, e occupavam o primeiro renque das arcadas. _Seis torres
    quadradas_, quatro d'estas nos pontos de juncção dos grandes e pequenos
    lados do circo, e duas nas extremidades, sobresaiam aos terraços; as
    quaes torres eram ornadas de quadrigos, ou grupos de andarilhos.

    [Figura 55: Circo Maximo de Roma]

    A entrada para os carros destinados ás corridas era pela extremidade
    convexa do circo; doze arcadas, não comprehendida a que se achava
    debaixo da torre, fechadas por grades de ferro, serviam de cocheiras,
    _carceres_, onde os cavallos eram guardados antes do começo das
    corridas.

    É fácil comprehender a disposição dos assentos postos no interior de um
    circo: sobre os dois grandes lados e no hemiscyclo opposto aos
    _carceres_, levantavam-se os palanques, tendo acima a galeria ornada de
    columnas correspondentes ás paredes que separavam as arcadas exteriores
    da _segunda ordem_, e por meio das quaes podiam circular os
    espectadores.

    Havia tambem, por cima dos carceres, outros palanques, e era ahi,
    superior á entrada principal na torre collocada ao centro das cocheiras,
    que estava a tribuna reservada para o imperador ou para o magistrado que
    presidia aos jogos.

    [Figura 56: Tribuna de um circo]

    Entre os assentos dos espectadores e o espaço destinado para os jogos
    (_area_), havia, em alguns circos, um canal, de largura de 10 pés, cheio
    de agua (_euripus_), resguardado por engradamento do lado da _area_.
    Porém os circos não eram rodeados de tal fosso: ainda não se encontrou
    nenhum vestigio no de Caracalla em Roma, embora fosse um dos principaes,
    assim como em outros explorados depois.

    O _euripus_ não se abria nunca do lado dos _carceres_, para não
    interromper a entrada para o circo.

    No centro da _area_ dos circos levantavam uma parede de 4 pés de altura
    e 12 de largura, prolongando-se em quasi todo o comprimento do recinto.
    A esta construcção, que dividia o circo longitudinalmente, davam o nome
    de _spina_. O imperador Augusto foi o primeiro que fez levantar sobre a
    _spina_ um obelisco dedicado ao Sol.

    Havia também sobre a _spina_ dos circos pequenos templos, altares,
    estatuas e sete bolas, _ova_, sustentadas em eixos, que serviam para
    indicar o numero de voltas executadas pelos carros, _ova ad metas
    curriculis numerandis_, e sete delphins postos em pedestaes, ou em
    architrave sustentada por columnas. Os delphins tinham sido escolhidos
    em veneração de Neptuno, porque se suppunha serem estes os animaes mais
    ageis do mar. Nas duas extremidades, e na parte exterior da _spina_,
    havia sempre tres pyramides firmadas na mesma base, e servindo de ponto
    de limite. Era junto d'estes marcos (_metoe_) que os carros deviam
    voltar para as extremidades do circo, evitando tocar no marco. O ponto
    de partida era collocado de modo que os concorrentes tinham sempre á
    esquerda a _spina_ e os marcos.

    Os conductores de carros (_aurigæ_) traziam um vestuario como especie
    de librés de côres differentes e formavam partidos ou facções.
    Primeiramente houve quatro librés: a branca, _alba_; a encarnada,
    _russea_; a azul, _veneta_, e a verde, _prasina_. O imperador Domiciano
    juntou a estas mais duas: a purpura, _purpurala_; e dourada, _aurata_.

    Quando os espectadores se enthusiasmavam faziam apostas para que
    alcançasse triumpho outra facção, ou côr. Tempos depois, as côres usadas
    nos circos deram logar a formarem-se verdadeiras facções politicas, a
    que pertenciam milhares de cidadãos.[15]

    _Naumachia_.–Suppõem-se que os _circos_ serviam ás vezes de
    _naumachia_. A _naumachia_ era para a simulação de combates navaes, que
    se davam em grandes caldeiras cheias de agua, rodeadas de construcções
    análogas ás dos circos; todavia, concebe-se difficilmente como um circo
    podia estar apropriado para este genero de divertimentos sem grandes
    inconvenientes e sem obras preparatorias. A transformação da _area_ dos
    circos em lagos devia acontecer raras vezes, porque em algumas cidades
    mandavam abrir lagos apropriados para os combates navaes.

    *Theatros*

    Quasi todas as cidades importantes da Gallia possuiam theatros
    edificados no reinado de Adriano e Antonio, o _Piedoso;_ esses
    monumentos eram encostados ás collinas sobre o declive das quaes se
    dispunham os assentos de cantaria em semi-circulo. Na parte inferior
    d'estas bancadas estava a orchestra, que correspondia ao que chamâmos
    platéa nos actuaes theatros, e que ficava sobre um terreno plano, assim
    como a scena.

    [Figura 57: Plano de um theatro antigo]

    Esta ultima disposição do theatro dividia-se em tres partes, a saber: o
    _proscenium_, ou _pulpitum_, o palco em que representavam os dramas; a
    _scena_, grande fachada muitas vezes ornada com as diversas ordens de
    architectura, e o _post cenium_, onde os actores se preparavam para
    entrar em scena.

    _A scena_ apresentava tres portas no fundo: a do centro, mais alta e
    ornada que as outras, chamava-se _porta real_; entrava por ali o
    personagem principal da peça, que representasse o dono do palacio; as
    figuras secundarias entravam pelas outras portas que se designavam
    _hospitalia_, porque de certo representavam os hospedes ou familiares do
    dono do palacio.

    A parede do fundo da scena formava dois lados ou alas (_versuræ_,)
    onde havia outras duas portas, uma á direita e outra á esquerda, as
    quaes faziam suppôr darem saida para o campo e para a praça publica. A
    configuração de um theatro apresentava pois de um lado a forma
    semi-circular, do outro a de quadrado. Para chegar ao logar dos
    espectadores havia muitas escadas partindo do circuito e dirigindo-se da
    circumferencia para o centro, afim de estabelecer muitas divisões que,
    pela rasão de sua forma de cunha, eram designadas com o nome de _cunei_.

    Havia, além d'isso, na elevação do amphitheatro (_cavea_) que cercava a
    orchestra, duas ou tres divisões principaes, indicadas por separações
    chamadas _præcinctions_ e ficavam parallelas ás filas dos
    assentos.[16] Estas divisões tinham o nome de _cavea prima_, _cavea
    media_, _cavea maxima_ ou ultima, conforme estivessem mais ou menos
    proximas da orchestra.[17]

    Havia tambem, em muitos theatros, aberturas quadradas, correspondentes a
    corredores abobadados dispostos sob os degraus do theatro, e por onde
    cada qual podia passar para occupar o seu logar, sem ser obrigado a
    subir da orchestra ou a descer da summa, _summa cavea_. Estas aberturas
    chamavam-se vomitorios (_vomitoria_,) porque parecia que lançavam fóra
    os espectadores, quando estes entravam em multidão para os seus logares.

    Tinham os antigos tres especies de scenas, a scena tragica, a scena
    comica e a scena satyrica.

    As vistas do theatro eram diversas, conforme o genero das peças que se
    representavam.

    As mudanças da decoração praticavam-se por varios systemas. Chamava-se
    aos bastidores _ductiles_, quando giravam em corrediças; _versatiles_,
    quando se viravam sobre pião.

    Muitas machinas fraccionavam na scena e coadjuvavam os papeis dos
    actores.

    Como os theatros não eram cobertos, estendia-se acima das paredes um
    grande toldo para dar sombra aos espectadores. Este _velarium_[18]
    estava fixo ou suspenso em mastros cravados no alto das paredes.
    Vitruvio recommenda que não exponham os theatros do lado do sul, para
    evitar que os raios do sol aqueçam demasiadamente o ar.

    [Figura 58: Plano do theatro de Champlieu]

    O theatro de Orange, em França, é uma ruina digna de ser contemplada, e
    poucas ainda ha que se lhe possam comparar. As suas columnas tinham 18
    pés de altura e 2 pés e 4 pollegadas de diametro; a altura das paredes
    era de 108 pés com tres ordens de columnas. A fachada exterior era
    decorada por duas fileiras de arcadas sobre as quaes havia um attico. O
    theatro fôra construido com cantaria de extraordinarias dimensões;
    notando-se n'estas pedras vestigios de incendio violento.

    [Figura 59: Exterior da scena do theatro de Orange]

    *Amphitheatros*

    De todos os monumentos romanos existentes são os _amphitheatros_ os que
    offerecem ainda as ruinas mais collossaes e magestosas. Eram, como
    indica a etymologia da palavra _amphitheatro_, dous theatros collocados
    em frente um do outro, e separados por um espaço livre de forma oval
    destinado para os combates dos gladiadores e animaes ferozes.

    A este espaço davam o nome de arena _arena_, por causa da areia que
    espalhavam pelo chão, afim de fazer desapparecer o sangue dos homens e
    dos animaes derramado durante a luta.

    [Figura 60: Plano de um amphitheatro]

    Os palanques eram dispostos á roda da _arena_, de maneira que de todos
    os lados os espectadores podessem gosar o espectaculo. Nos
    amphitheatros, como nos theatros, esses logares eram divididos
    horisontalmente por cintas curvas ou _baltei_; e verticalmente pelas
    escadas em subdivisões cuneiformes, como explicamos acima. Os degraus
    apoiavam-se nas abobadas, que iam estreitando para o lado da _arena_,
    alargando-se e elevando-se á medida que se aproximavam do portico ou
    galeria, contornando o edificio. Estas abobadas, inclinadas para o
    centro e alargando para o exterior, eram sobrepostas umas ás outras, e
    formavam muitas ordens, onde havia muitas cintas curvas.

    [Figura 61]

    A vista do corte de um grande amphitheatro mostra claramente esta
    disposição, com as cintas e o effeito produzido no meio dos palanques
    pelos _vomitorios da cavea_. Outro corte apresenta parte do amphitheatro
    de Aries, mostrando como as grandes escadas, partindo das galerias,
    conduziam ao interior da _cavea_.

    [Figura 62: Corte do amphitheatro de Aries]

    Na _arena_ havia combates de gladiadores,[19] de homens e animaes, e só
    de animaes.

    Nos dias de combate eram os gladiadores conduzidos processionalmente em
    volta da _arena_; depois punham-n'os aos pares, juntando os de força
    egual. O signal do combate era dado por uma banda de trombetas.

    [Figura 63: Fachada exterior do amphitheatro de Arles (França)]

    Havia diversas classes de gladiadores, conforme as armas que empregavam
    no ataque e na defeza.

    O amphitheatro de Arles, ruina das mais pittorescas que existem n'este
    genero em França, tinha de comprimento do grande eixo 420 pés de Norte
    ao Sul; e do pequeno eixo 309 de Leste a Oeste. A arena tinha no grande
    diametro 209 pés, e no pequeno diametro 119: gravura da pag. 71 [fig.
    63].

    [Figura 64: Uma das principaes entradas do amphitheatro de Bordeos]

    Uma cousa particular, que não existe nos outros amphitheatros, é que as
    galerias subterraneas giravam por baixo e á roda do _podium_.

    O _podium_ estava a 14 pés acima do solo da arena. A parede do sucalco
    que o levantava a esta altura, era furada na parte inferior, com oito
    passagens, conduzindo das galerias subterraneas para a arena, passagens
    que saiam da galeria exterior.

    [Figura 65: Plano do amphitheatro de Chenevières (Loiret)]

    O amphitheatro era construido com boa cantaria de grande apparelho,
    posta sem cimento algum, e era tal a grandeza das pedras que, apesar de
    tantos seculos decorridos, ainda se conservam solidas nos seus leitos.

    O plano da gravura da pag. 73 [fig. 64] mostra a disposição de outro
    amphitheatro, que pelo seu genero custava muito menos a construir, que
    outros compostos de dois lados, porque sendo marcada a inclinação para a
    encosta, bastava edificar o _podium_ do lado aberto. Podia-se também
    facilmente transformar os amphitheatros em theatros com outras
    disposições para o scenario e então constituíam monumentos mixtos, que
    foram numerosos durante a dominação romana.

    *Banhos publicos*

    Os romanos tinham muitas especies d'estes estabelecimentos, que se
    conheciam com os nomes de _thermæ_, _lavacra_ e _balnea_.

    As _thermas_[20] eram vastos edificios que continham não só os banhos,
    mas tambem porticos e passeios arborisados, salas onde os philosophos e
    os rhetoricos davam lições publicas e liam as suas obras; onde se
    exercitavam na luta: chamavam-lhes _gymnasios_.

    Citavam, entre as mais sumptuosas de Roma, as de Agrippa, Nero, Tito,
    Caracalla,[21] Antonino e Diocleciano, das quaes existiam ainda
    consideraveis vestigios.

    Não se deve suppôr comtudo que haveria similhantes estabelecimentos em
    todas as cidades onde os romanos dominaram. O mais geral era construir
    _lavacra_ ou _balnea_, de limitada dimensão, á qual estavam ás vezes
    reunidas algumas dependencias dos _gymnasios_.

    Taes edificios eram mais ou menos espaçosos conforme deviam ser francos
    ao publico de uma cidade bastante povoada, ou simplesmente destinados
    ao uso de pequena localidade, ou de uma unica familia.

    O _apodyterium_ era a sala de vestir, ou em que ficavam depositados os
    fatos antes do banho.

    O _aquarium_ continha os reservatorios, nos quaes a agua era recebida e
    podia clarificar-se antes de distribuida no edificio.

    O _vasarium_, tirava este nome de tres grandes vasos, ou depositos
    cheios de agua quente, de agua tepida e de agua fria.

    O _laconicum_, estufa aquecida por um _hypocausto_, tinha ás vezes uma
    das extremidades em semicirculo, onde havia um _disco de bronze_, pelo
    movimento do qual, abaixando-se ou levantando-se, podia augmentar-se a
    intensidade do calor, ou diminuir a temperatura.

    O _tepidarium_ era, segundo Vitruvio, a estufa menos quente que a
    antecedente, e em contacto com ella.

    Havia outra casa destinada para o banho de agua quente, que se tomava
    n'uma especie de tina, _labra_.

    O pequeno pateo ou vestibulo que precedia o forno do hypocausto
    chamava-se o _propnigeum_ ou o _proefurnium_.

    A parte destinada ao banho frio era o _frigidarium_, ou sala não
    aquecida, onde os banhistas descançavam alguns instantes antes de sairem
    para a rua, afim de evitarem o perigo da mudança rapida da temperatura.

    A _piscina natatilis_ ou _frigida lavatio_, reservatorio de agua fria em
    que as pessoas robustas podiam banhar-se depois do banho quente, e de
    que se fazia uso principalmente no verão.

    O _eleothesium_, onde os banhistas podiam esfregar o corpo com oleo ou
    perfumes[22].

    Uma curiosa pintura a fresco, copiada das thermas de Tito, em Roma, e
    que representava o interior de uma casa de banhos, faz comprehender
    muito bem a disposição geral de taes estabelecimentos, como se vê na
    gravura da pag. 76 [fig. 66].

    Distinguem-se, no primeiro plano, duas salas sob as quaes arde o fogo do
    hypocausto.

    [Figura 66: Vista de uma pintura a fresco tirada dos banhos de Tito.]

    Uma d'estas salas devia ser a _concamerata sudatio_, ou a estufa
    abobadada para fazer transpiração.

    Ha n'esta sala um pequeno forno, cuja abobada fecha em escudo de bronze
    que se movia por meio de corrente, afim de deixar sair mais ou menos o
    vapor da agua quente.

    Junto do _laconicum_ está a sala do banho, separada por um corredor.
    Vêem-se muitas pessoas n'uma grande tina _labrum_, em volta da qual
    estão assentos encostados á parede.

    Mais afastado apparece representado o _vasarium_, com os tres grandes
    vasos collocados em diversos niveis: o primeiro menos elevado contem
    agua a ferver; o segundo agua tepida, e o terceiro agua fria.

    No segundo plano, e por detraz da estufa para suar, vê-se a sala chamada
    _tepidarium_.

    Passado o _tepidarium_, distingue-se a sala fria, _frigidarium_, que em
    alguns banhos servia tambem ao _apoditerium_. Em ultimo plano está o
    _eleothesium_, ou sala dos perfumes.

    Para se formar idéa exacta d'estes monumentos, convem examinar e
    comparar entre elles que se têem descoberto em differentes partes; para
    o que apresentamos as gravuras dos banhos de Verdes e de Landunum.

    *Explicações crestas casas de banhos*

    Entrava-se por dois pateos sobre o comprido ou corredores G, K, nos
    banhos de Verdes, para os salões P, S, os quaes tem ainda no chão
    mosaicos. D'estes dois salões passava-se para o vestibulo B, e d'ahi
    para a sala D, cujo piso estava sobre hypocausto.

    A sala imediata C, devia ser de temperatura mais elevada á antecedente;
    pois o forno collocado em F, no pequeno pateo proximo, recebia d'elle o
    calor que circulava primeiro debaixo do piso da referida sala C.

    Havia outras casas que não eram aquecidas pelo hypocausto, especie de
    saletas pelas quaes se entrava e saía P, A, B, S.

    [Figura 67: Banhos de Verdes (França), vistos de alto.]

    [Figura 68: Plano dos banhos de Landunum (França).]

    Duas bandeiras muito notáveis que serviriam para banhos frios ML,
    tinham communicação por uma passagem com a sala D; cada uma d'ellas
    tinha em S e em R um reservatorio para agua.

    Os pateos H e I serviam de deposito para o combustivel.

    Em cada uma das salas O e P havia um nicho para uma estatua.

    Nos banhos de Laudunum (pag. 79 [fig. 68]), no vestibulo D, o chão tinha
    mosaicos. D'aqui passava-se á bella sala (n.^o 8), tambem com mosaico.
    Seguiam-se outras casas com o solo suspenso e aquecido pelo hypocausto;
    em uma (n.^o 7) de um lado tem um nicho circular, e do outro, quadrado
    _d c_, que serviam para as banheiras.

    A sala n.^o 6 seria a reservada para conservar maior gráo de calor,
    porque o forno do hypocausto tinha a boca d'elle no centro d'esta casa.

    O forno tinha serventia pelo pequeno pateo n.^o 4. Antes de atravessar a
    sala n.^o 6 aquecia tres reservatorios revestidos de cimento _f. f._

    As salas E, e os n.^{os} 9, 10, 11 eram casas para depositos do
    estabelecimento.

    *Palacios*

    Quasi todas as cidades de pequena importancia tinham palacio destinado
    para os aposentos dos imperadores, quando as visitavam; porem antes
    serviam para os seus representantes, os intendentes ou funccionarios
    encarregados da administração do paiz.

    Os palacios que deviam offerecer as disposições analogas ás das casas
    nobres dos particulares, differençavam-se principalmente pela extensão,
    pelos peristylos, pateos e diversas dependencias. Os de maiores
    dimensões, como o de Trajano, eram ligados ao _forum_, junto do qual
    havia basilica, onde se julgavam os criminosos, e tambem _thermas_.

    Tal era a grandesa do palacio de Diocleciano, em Spalatro (na Dalmacia),
    cujas columnas e paredes estão ainda de pé, comprehendendo grandes
    divisões: templo, basilica, pretorio, independentemente dos aposentos
    imperiaes.

    *Casas particulares*

    Daremos algumas explicações a respeito das construcções particulares.

    Chamavam _prothyrum_, nas casas das cidades, á passagem por onde se
    entrava no interior d'ellas.

    Era n'esta passagem o quarto do porteiro _cella ostiarii_, e ás vezes a
    parte que servia de vestibulo, com habitação de mediana extensão.

    O _atrium_ era a galeria quadrada (3)[23] tendo ao centro um pateo
    descoberto (_impluvium_), no meio do qual havia um tanque á superficie
    do chão (_compluvium_) para receber as aguas da chuva (D).

    O _atrium_ era ornado com os retratos da familia; o dono da casa recebia
    n'elle os seus clientes. Havia muitas especies de _atrium_.

    O _atrium_ toscano, que se encontrou em Pompeia em grande numero de
    casas e usado unicamente nos primitivos tempos, tinha o telhado
    sustentado por madeiros cruzados em angulos rectos: o telhado tinha
    escoantes para todos os lados e para o centro do pateo.

    Existia a mesma disposição no _atrium tetrastylo_; apenas quatro pilares
    ou columnas, collocadas nos angulos do _impluvium_, sustentavam as vigas
    do tecto nos pontos de juncção.

    No _atrium_ corinthio, as columnas para ponto de apoio eram mais
    numerosas, e o _impluvium_ era também mais espaçôso. Construiram o
    _atrium_ só para as grandes habitações.

    O _atrium displuviatum_ tinha os telhados inclinados em sentido inverso
    dos precedentes, de modo que lançavam as aguas da chuva para fora da
    casa, em logar de as conduzir para o _impluvium_.

    Finalmente, no _atrium testudinatum_, o pateo central era coberto de
    telhado um tanto mais elevado, que os das galerias.

    [Figura 69: Plano de uma casa nobre na cidade romana.]

    Nos predios importantes, como é representado no plano junto, havia em
    roda da galeria do _atrium_ aposentos destinados a diversos usos, com
    saidas para a galeria, e alguns dos quaes serviam de _tribuna_ ou sala
    de festim (C, C, C).

    Na extremidade do _atrium_, e em frente do _prothyrum_, estavam o
    _tablinum_ (4) e duas casas mais pequenas, chamadas _azas_, communicando
    com elle (5-6).

    O _tablinum_ e as azas encerravam a imagem dos parentes fallecidos, os
    livros, archivos e papeis pertencentes aos negocios do proprietario,
    assim como os documentos relativos ao emprego que exercia.

    O _peristylo_ apresentava, além do _tablinum_, uma galeria ornada de
    columnas, como a do _atrium_ corinthio (17-17), cuja extensão porém era
    mais consideravel.

    Os aposentos eram distribuidos á roda d'estas galerias (18-19); um
    espaço quadrado, inteiramente descoberto e plantado de flôres e arbustos
    no centro, devia parecer a imitação da parte central de alguns
    claustros.

    Os _oeci_ correspondiam aos nossos salões.

    A _exedra_ era outra grande sala para conversação, tendo n'um dos lados
    a parede curvilinea, como se fosse construida para nicho.

    Encontravam-se tambem, ás vezes, nas habitações das pessoas abastadas,
    jogos de péla, _sphæristerium_, e salas destinadas para outros jogos.

    O _banho_ era composto em geral de _apodyterium_, _frigidarium_,
    _tepidarium_, _sudatorium_ e _eleothesium_:

    A _basilica_;

    A _pinacothéca_ ou galeria para quadros;

    As _cosinhas_ e as officinas dependentes para o fabrico do pão;

    As cavalhariças, cocheiras e armazens;

    Finalmente, havia um numero mais ou menos consideravel de quartos para
    dormir e para acommodar os creados.[24]

    Eis agora o plano de outra casa de muito menor importancia que a
    anterior, na qual não encontrâmos nem as commodidades nem a regularidade
    das grandes habitações particulares; mas veremos que as residencias se
    modificam conforme a necessidade da familia e as suas posses
    pecuniarias. Examinemos a disposição de uma das casas descobertas nas
    minas de Pompeia.

    A entrada ou _prothyrum_ n.^o l, conduz ao _atrium_ n.^o 2, chamado
    _displuviatum_, isto é que servia para o despejo das aguas da chuva para
    fora da habitação. Tinha na grossura da parede o _impluvium_ n.^{os} 3 e
    4, e os alegretes para as flôres.

    [Figura 70]

    Uma escada de madeira n.^o 5, conduzia ao aposento que occupava o dono
    da casa e a sua familia. Posto que a escada estivesse inteiramente
    destruida, era facil observar o feitio do corrimão, porque o artista a
    riscara na parede que lhe servia de caixa.

    Os quartos 6 e 7 eram destinados para receber os estrangeiros e os
    amigos. O escravo que guardava a porta da rua devia dormir no quarto
    n.^o 8, onde se conservava tambem de dia. Era pequena a cosinha n.^o 9
    collocada ao lado do corredor.

    *Casa de campo (villæ)*

    Suppõe-se que as mais bellas casas de campo romanas tinham só um andar;
    tambem não se differençavam essencialmente das da cidade, e continham
    pouco mais ou menos as mesmas divisões, mais arbitrarias, conforme
    exigia o terreno, a belleza do sitio, a importancia da exploração rural
    e outras circumstancias da edificação.

    _Columella_,[25] distingue tres partes em uma casa de campo occupando-se
    de trabalhos ruraes, e o maior numero das _villæ_ gallo-romanas e
    luso-romanas estavam n'este caso. As tres partes eram:

    A _villa urbana_, ou habitação do proprietario;

    A _agraria_, ou habitação dos lavradores, e dos animaes necessarios para
    a lavoura;

    A _villa fructuaria_, onde se recolhiam as colheitas e os outros fructos
    das terras.

    As casas anuesas ao segundo pateo, chamadas _agrariæ_, ou
    _fructuariæ_, apresentavam menos interesse com relação á arte, que a
    _villa urbana_. Eram pertenças do casal ou dos trabalhos ruraes, _villa
    agraria_.

    No centro do pateo da villa via-se, como se pratica ainda hoje, um
    tanque ou lagôa _compluvium_, para se banhar o gado. Á roda do pateo
    estavam dispostos, a cosinha, o abrigo para os escravos, a abegoaria
    (_bubilia_), o curral das ovelhas (_ovilia_), as cavallariças
    (_equilia_). Achava-se tambem ali o gallinheiro (_gallinaria_) e o
    chiqueiro para os porcos (_haræ_).

    Pode-se citar como pertenças da _villa fructuaria_, que estava ora
    separada ora junta da _agraria_, a adega (_cellæ_) o palheiro
    (_horrea_), a casa da fructa (_apothecæ_), etc.

    Tem-se encontrado numerosos vestigios das _villæ_ ou casas de campo
    fabricadas durante a dominação romana. Em 1874 descobrimos em Portugal
    uma proximo de Leiria, no logar de Martim Gil, na profundidade de 1^m,
    59; havia ali differentes casas com mosaicos, e na principal achámol-o
    de cinco côres. Fizemol-o transportar para o museu da archeologia, que
    fundáramos em Lisboa em 1866. Não tem acontecido outrotanto com essas
    casas antigas edificadas nas cidades, pois foi arrasado o solo que ellas
    occupavam, e isso deu logar a aproveitarem-se os alicerces que ficaram
    enterrados.

    Para darmos idéa mais completa, descreveremos a _villa_ de Bignor em
    Sussex (Inglaterra), por ser a mais bem conservada que existe.[26]

    Compõe-se de dois pateos: um (A) mais vasto que o outro, rodeado de
    muros bastante grossos, não formava angulo recto com os do segundo
    pateo. O muro de leste tinha 277 pés de comprimento, o do norte 385 pés,
    e o do sul 322.

    Este pateo, que representava a _villa rustica_, comprehendia muitas e
    amplas construcções, mas nenhuma tinha vestigios de pintura nem de
    pavimentos de mosaicos.

    O outro pateo (B), que formava propriamente a _villa urbana_, estava
    cercado de casas ricamente ornadas e quasi todas tinham mosaicos.

    Um corredor ou _crypto-portico_ (1, 2, 3, 4), que era construido á roda
    do quadrado do pateo servia para communicar com os aposentos; o
    comprimento do corredor era de 160 pés, de leste a oeste.

    [Figura 71: Villa de Bignor em Sussex.]

    Uma grande parte d'estes corredores tinha mosaicos.

    Ao longo do _crypto-portico_ septentrional estavam dispostos os
    aposentos (n.^{os} 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13).

    No n.^o 14 via-se um mosaico de 8 pés de quadrado dividido em formas de
    rhomboides e triangulos.

    O n.^o 15, era uma das melhores casas da _villa_, tinha 19 pés por 30,
    com uma grande camara de 12 pés, o que lhe dava 32 pés por todo o
    comprimento do norte ao sul; o pavimento era formado de mosaico muito
    notavel, porque um dos desenhos representava o rapto de Ganymedes.

    No meio do aposento, e ao centro da maior composição circular de
    mosaico, via-se uma cisterna de pedra branca e de 4 pés de diametro, no
    fundo da qual existia um orificio com tubo de chumbo.

    Esla sala e o aposento immediato eram aquecidos por um hypocausto, cujo
    forno se abria pela parte exterior da casa na base da parede.

    O n.^o 19 era um _atriolum_, ou pequeno pateo ornado de columnas. Os
    aposentos do pateo do norte e do sul (21, 22, 23, 24, 25), eram em geral
    ornados de pinturas, e com o chão de mosaicos.

    No n.^o 22 encontrou-se um fogão de 31 pollegadas de boca, e 17
    pollegadas de fundo; tijolos ligados com ferro ao fogão formavam-lhe as
    paredes lateraes. Outro fogão similhante foi achado no quarto n.^o 23.

    Os aposentos menos importantes occupavam o lado sul até o n.^o 35.
    Aquelles que se lhe seguiam haviam feito parte de um banho.

    Depois da sala das estufas, vinha a que era destinada para o banho frio
    (n.^o 40), que tinha 35 pés por 30. O chão estava menos mal conservado e
    compunha-se de pedras brancas e pretas de 6 pollegadas em todos os
    sentidos, dispostas em xadrez.

    O sitio do banho achava-se pouco mais ou menos no meio do aposento. Era
    um reservatorio com aproximadamente 18 pés de leste ao oeste, de 3 pés e
    2 pollegadas de profundidade. Descia-se por tres degraus do lado de
    leste, do oeste e do norte.

    A bella sala (n.^o 41), situada a leste da precedente, apresentava um
    quadrado de 35 pés, porém era um tanto irregular por causa da direcção
    diagonal da parede de leste. Admirava-se um mosaico mais bem conservado
    que os restantes.

    A maior parte destas _villæ_ teria sido construida nos tres primeiros
    seculos da era christã, julgando-se assim pelas medalhas encontradas nas
    suas ruinas, e que algumas datam do seculo IV.

    *Monumentos funereos*

    Depois de descrevermos os edificios, onde os antigos passavam a vida de
    confortos da civilisação romana, a ordem natural nos conduz aos
    monumentos que encerravam os despojos mortaes.

    Ainda que algumas familias mandassem enterrar os corpos, todavia o uso
    de queimal-os foi quasi geral em Roma antes da conquista da Gallia, e
    n'este ultimo paiz, nos dois primeiros seculos da era christã.[27]

    A fogueira funebre (_rogus_ ou _pyra_) era formada de lenha de facil
    combustão e faziam-n'a mais ou menos alta conforme a cathegoria das
    pessoas finadas. O corpo era posto sobre uma especie de leito de ferro
    ou maca, e os parentes do defuncto, depois de lhe terem dirigido o
    ultimo adeus, voltavam o rosto e acendiam a fogueira com uma acha.

    Quando a fogueira estava extincta, lançavam vinho nas cinzas do
    defuncto, e então estas eram cuidadosamente encerradas em uma urna que
    mettiam em seguida na terra com certo numero de vasos de differentes
    formas e tamanhos, que se collocavam em roda, os quaes estavam cheios de
    liquidos ou algum manjar offerecido aos _deuses manes_.

    As urnas de barro descobertas em grande numero de cemiterios são em
    geral do feitio simples, e muitas apresentam côr cinzenta; comtudo,
    notam-se por suas formas perfeitas e graciosas. As mais ornadas tem
    filetes, entre os quaes se traçaram riscos parallelos. Algumas tem
    estrias ao alto, outras molduras entrelaçadas, em zig-zags, etc. etc.
    As formas mais geraes são as das gravuras seguintes _a_, _b_, que se
    encontram nos antigos cemiterios.

    [Figura 72: Urnas de vidro, do museu de Tours.]

    As urnas de vidro, muito mais raras que as de barro, eram reservadas
    para os finados de familias abastadas. Tem um tanto o feitio das urnas
    de barro, porém o mais é apresentarem a configuração de um grande frasco
    com gargallo redondo com uma ou duas azas, sendo o corpo ora cylindrico,
    ora quadrado.

    As urnas mais notaveis são de cobre batido e lavrado, e tambem estas
    difficilmente se encontram.

    Em Alcacer do Sal fez-se em 1874 o descobrimento de um necropole romano,
    no qual se acharam quatro urnas cinerarias com pinturas, imitando o
    genero etrusco, obra executada por artista grego. Eram de differentes
    tamanhos, tendo a maior 0,59 de altura, 0,34 de largura; esta rara
    descoberta feita em Portugal causou bastante admiração entre os
    archeologos estrangeiros.

    [Figura 73]

    O orificio das urnas era tapado, ou com um prato voltado, ou com um
    pedaço de tijolo, ou ardozia, e até com um bocado de lagea.

    Encontram-se geralmente junto d'estas urnas, taças de differentes
    generos e pequenos vidros com gargallo estreito e sobre o comprido,
    especie de galheta com feitios variados; mas o maior numero é de barro
    encarnado, e suppõe-se terem servido para conservar o vinho, o leite,
    ou algum licor offertado aos _manes_ do finado.

    [Figura 74]

    A maior parte das urnas, foram mettidas dentro da terra sem caixas de
    resguardo; porém muitas tiveram esses cofres para a conservação. Se a
    madeira que serviu para isso apodreceu a primitiva existencia parece
    provada pelos pregos que ligavam as taboas, que se encontram ás vezes em
    roda das urnas. É possivel que as urnas de vidro ou crystal, que
    pertenciam a defunctos de cathegoria, fossem mettidas nos cofres de
    madeira ou de pedra. Alguns d'estes ultimos, encontrados em varios
    cemiterios, eram compostos de duas peças e bastante espaçosas para
    conterem a urna _cineraria_, e os vasos accessorios de que já fallámos.
    Finalmente, construiam ás vezes, no proprio local, e no momento do
    enterro, o cofre ou resguardo que devia conservar a urna _cineraria_.

    Em quanto ás cinzas do finado de humilde condição e pobre eram mettidas
    em vasos de formas simples, e accumuladas nos cemiterios sem cousa
    alguma que as indicasse; as que pertenciam á classe media da sociedade
    tinham por cima da urna um _cippo_, e os mais opulentos apresentavam um
    monumento ainda mais importante.[28]

    Em geral, os monumentos mais sumptuosos estavam postos em fileira nas
    _vias_ que davam entrada nas cidades.

    As pedras sepulchraes, ou _estélas_,[29] tomavam differentes feitios e
    algumas apresentavam inscripções e a effigie do finado. [fig. 75]

    [Figura 75: Estéla.]

    Não se deve cessar de recommendar as explorações dos cemiterios romanos.
    Quando se procede a obras publicas, ou particulares, descobre-se a sua
    existencia no meio dos campos, principalmente nos terrenos incultos,
    onde as urnas tem sido conservadas por faltas de convenientes
    excavações.

    Algumas sepulturas, destinados á classe inferior, são tambem monumentos
    importantes como se vê na presente gravura.

    [Figura 76: Monumento de S. Ramiro.]

    O monumento pyramidal de S. Ramiro, é um edificio composto de tres
    ordens de andares sobrepostos, com aproximadamente 50 pés de altura. O
    primeiro andar é quadrado, e serve de pedestal, com baixos relevos nas
    quatro faces; pilastras sem pedestaes ornam-lhe os angulos.

    O segundo andar é egualmente quadrado com quatro arcos de archivolta que
    assentam em pilastras; nos angulos tem quatro columnas corinthias com
    estrias; o friso é ornado de arabescos em que se distinguem cavallos
    marinhos alados, sereias, etc.

    O terceiro de fórma circular, mostra uma cobertura conica sustentada por
    columnas corinthias, semelhando d'este modo o lanternim do pequeno
    templo circular _monoptero_: debaixo d'esta especie de cupula estão
    collocadas duas estatuas em pé, uma de homem, outra de mulher.

    Não pode haver duvida de que esta pyramide seja monumento sepulchral;
    pois sobre o friso do segundo andar, ficando orientado ao Nordeste,
    vê-se a seguinte inscripcão:

    SEX L M IVLIEI C F PARENTIBVS SVEIS

    que se tem lido d'este modo:

    _Sextus Lucius Marcus Julii curaverunt fieri parentibus suis_. As duas
    estatuas representariam pois o pae e a mãe de _Julius_, os quaes
    erigiram a pyramide.

    [Figura 77: Sarcophago do museu de Ruão.]

    _Enterramentos_.–Os corpos que não eram queimados, enterravam-n'os em
    sarcophago de pedra ou em caixões de chumbo, resguardados em outro cofre
    de madeira, ou de pedra, como se vê na gravura da pag. 93 [fig. 77].

    [Figura 78: Sarcophago com inscripção e a ascia, (_está collocada por
    cima do M_).]

    Em numerosos sarcophagos dos pagãos está representada a _ascia_,[30] e o
    nivel, em esculptura. Alguns tem uma inscripção na tampa, porém esta
    vê-se mais geralmente no meio do cofre, como indicamos na gravura da
    pag. 94 [fig. 79].

    As inscripções eram mui interessantes por quanto expressavam o maior
    sentimento das familias. Os antigos nada tinham que invejar aos povos
    modernos a este respeito: e é facil comproval-o. Eis um epitaphio que
    patenteia o profundo affecto de uma infeliz mãe chorando a perda da
    filha querida:

    _Ó dôr! quão amargas tem sido as lagrimas derramadas n'esta
    sepultura em que jaz Lucinia… Lucinia, suave alegria de tua mãe.
    Sim! aqui está sob este gelido marmore. Prouvesse aos Deuses que o
    espirito de novo se animasse porque ella conheceria quão dolorosa é
    a minha afflicão. Viveu 27 annos, 10 mezes e 25 dias. Parthenoca,
    mãe infeliz, lhe mandou erigir este monumento_.

    Os Aliscamps deixaram-nos outros que se distinguem por sua philosophia,
    e a cujo sentido se dá muitas vezes a interpretação da philosophia
    christã. Taes são as duas inscripções seguintes:

    *D. M. FVI, NON SVM; ESTIS, NON ERITIS; NEMO IMMORTALIS*

    _Fui, não sou; sois, não sereis; ninguem é immortal_.

    Por outra vemos que entre os romanos, _como entre nós_, os herdeiros
    eram mais solicitos em apoderarem-se dos bens dos paes, que dispostos a
    levantarem-lhes jazigos; de modo que os homens avisados mandavam
    construir os tumulos em vida, para terem a certeza de que não se lhes
    perdia a memoria.

    *D. M. LVCIVS GRATIVS EVTICHES DOMVM AETERNAM VIVVS SIBI CVRAVIT NE
    HAEREDEM ROGARET TAVTA*

    _Lucio Grado Eutichis erigiu, ainda vivo, esta morada eterna, para
    não pedir ao seu herdeiro que lhe prestasse este serviço_.

    Ao findar a dominação romana, quando o christianismo estava solidamente
    estabelecido na Gallia, _a incineração dos mortos já não se
    praticava_.[31]

    Os sarcophagos christãos em marmores são faceis de distinguir dos
    sarcophagos pagãos por causa das esculpturas symbolicas, ou das scenas
    biblicas que os ornam.

    *Objectos de barro*

    Os objectos de barro são, na maior parte, fragmentos que se encontram
    nas localidades habitadas no tempo da dominação romana.

    As peças mais notaveis pela fórma delicada e pela conservação, são de
    barro vermelho envernisadas com bastante brilho, e ornadas com figuras
    em relevo. Encontram-se em grande quantidade nos logares que tiveram
    importancia sob o dominio romano. É raro, sem duvida, acharem-se vasos
    inteiros; mas pode julgar-se pelos fragmentos encontrados quaes seriam a
    forma e as dimensões dos objectos a que pertenciam.

    Os vasos de barro encarnado apresentavam quasi o mesmo feitio, vasos
    bojudos, tijelas ou gamellas de differentes tamanhos [fig. 79], taças
    com pé, compoteiras, pequenas taças, travessas redondas de diferentes
    tamanhos com borda saliente [fig. 80], pratos, pires, etc, etc.

    Pode suppôr-se que a boa louça encarnada servia principalmente para o
    serviço da mesa, e para o de toucador.

    [Figura 79]

    [Figura 80]

    A forma dos vasos era geralmente perfeita: os que tinham figuras eram
    fabricados com moldes, e isto explica a apparencia gasta de alguns; o
    interior era liso, notando-se apenas alguns circulos concentricos
    formados pelo torno. Por baixo do fundo do vaso achava-se, quasi sempre,
    o nome do operario ou do fabricante, gravado com uma especie de
    estampilha ou sinete.

    Estes nomes estão umas vezes no genitivo, outras antecididos ou seguidos
    das lettras _o_ ou _of_, para designar _officina_, assim: _of Severi_;
    _Bassi_; _of o_, _Croci_, _Crassi o_; o que quer dizer que os vasos
    sairam da officina ou da fabrica de Severo, de Basso, de Croco, de
    Crasso, etc, etc.

    [Figura 81]

    A palavra _manu_, escripta com todas as lettras ou em abreviatura, como
    nas inscripções de: _Priscilli manu_, _Silvani m_, significa da mão de
    Priscillio, de Silvanos, etc.

    Alguns d'estes vasos eram inteiriços, não podendo sair do molde senão
    depois do barro ter seccado para que o relevo se tirasse sem damno do
    concavo do molde.

    A maior parte porém era tirada de duas ou mais peças, porque seria
    impossivel formar um molde de uma só peça para os vasos bojudos.

    Se os fabricantes de louça de barro imprimiam os seus nomes no fundo
    d'esses vasos, os artistas que fariam as formas e compunham os assumptos
    que deviam apparecer nos relevos exteriores, inscreviam tambem os seus
    nomes nos moldes, entre as figuras.

    _Barro preto_.–As peças de barro preto são mais raras que as
    encarnadas, embora se encontrem misturadas com estas.

    Tem-se encontrado cobertas com bom verniz côr de ébano, e mostrando
    argila, menos compacta que a dos vasos encarnados; ora cinzenta, ora
    esbranquiçada, ou avermelhada.

    _Objectos de barro bronzeado_.–Apparecem tambem em muitas localidades
    pequenos vasos muito leves, de barro encarnado ou amarellento, misturado
    de quartzo cobertos de verniz de furta-côres, suavemente applicado.

    [Figura 82]

    _Barros avermelhados, cinzentos escuros, ou esbranquiçados_, etc.–São
    mais ou menos apurados; a massa ou argila de differentes côres foi
    empregada para fabricar travessas, pratos, vasos de diversos feitios
    destinados para varios usos, botijas, etc.

    [Figura 83]

    Nos vasos destinados para os liquidos, como são as nossas garrafas,
    encontram-se, quer de barro vermelhado, quer cinzento ou esbranquiçado,
    formas mui elegantes, das quaes se conservaram algumas até o presente.

    Os vasos, como os que se vêem em seguida, ora de barro encarnado, ora
    cinzento, apreciam-se um tanto com as saladeiras, ou tijelas grandes, de
    que ainda se faz uso.

    [Figura 84]

    Encontram-se, egualmente, em terrenos cultivados, onde se acham também
    telhas e vestigios de habitações romanas.

    *Figurinhas de barro*

    As estatuetas de barro cozido de côr alvacenta acompanham, muitas vezes,
    os fragmentos que assignalam o logar occupado pelas construcções
    gallo-romanas, e ainda constituem objectos pertencentes á arte de
    oleiro.

    Encontra-se sobre tudo, frequentemente entre ellas, a figura de _Venus_
    Anadyomena,[32] e taes estatuetas são tão similhantes, que parece terem
    saido do mesmo molde; estão completamente nuas, com a cabeça coberta de
    abundantes cabellos, a mão direita apanhando-os, e a esquerda tomando a
    roupagem.

    As outras figurinhas que se encontram mais vezes junto das Venus,
    representam uma mulher amamentando uma ou duas creanças, sentada n'uma
    cadeira de braços feita de vime encanastrado. Alguns archeologos
    suppôem ser esta a imagem de Latona,[33] outros a de Lucina:[34] porém,
    julga-se que estas figuras serviam para _ex-voto_, tanto das mulheres
    que desejavam obter feliz parto, como d'aquellas que mostravam a sua
    gratidão pelo terem alcançado, ou em fim das mães que creavam os filhos,
    e que o offereciam á deusa invocada por ellas n'esta circumstancia.

    [Figura 85]

    A imagem de Mercurio encontra-se em grande numero entre as estatuetas de
    barro cozido.

    Mas nem todas as figurinhas antigas que se encontram eram destinadas
    para reproduzir a imagem das divindades. Eram vazadas nas formas como se
    faz presentemente um grande numero de objectos profanos, caricaturas,
    brinquedos para creanças, etc.

    [Figura 86]

    Entre estes ultimos, podem citar-se as figuras de aves, animaes
    diversos, carneiro, javali, etc., e também chocalhos como os achados em
    tantas localidades diversas, e que se compôem d'um pequeno globo de
    barro cozido tendo dentro seixosinhos que produzem o effeito de um
    cascavel.

    *Objectos em metal, joias e utensilios*

    Havia egualmente reproduzido em cobre grande parte dos vasos que se
    faziam de barro, principalmente as travessas, bacias, garrafas e baldes
    para sacrificios.

    Fizeram-se até magnificos de prata, com figuras em relevo batido: a
    prova d'isto são os utensilios de todas as formas, em bronze, que
    existem em tantas collecções publicas e particulares: broches, fivelas,
    e joias tão variadas como as que ahi se vêem, mostram a que ponto os
    romanos tinham alcançado a perfeição no trabalho dos metaes, nas pedras
    preciosas, no marfim, etc., etc. A descripção de todas estas riquezas
    artisticas, não pode figurar n'este resumido compendio.

    Os objectos de metal, e os restos mais preciosos pertencentes á
    antiguidade, foram descriptos por Caylus, Winckelmann, Chabonillet,
    etc., sabios antiquarios que deram a mais completa explicação a este
    respeito.

    Pela mesma razão, não nos devemos occupar das medalhas romanas, não
    obstante o estudo ser util e importante, porém necessitaria augmentar
    demasiadamente este livro, e o nosso intuito foi unicamente apresentar
    resumida apreciação da architectura pertencente á época gallo-romana, e
    descrever os vestigios dessiminados no solo habitado pelo povo-rei.

    *Muralhas de defeza ou forticações*

    Sem discutir aqui sobre qual seria a época a que pertencem as muralhas
    que defendiam as cidades gallo-romanas, devemos comtudo fazer menção
    d'ellas, porque constituem ainda provas muito importantes d'essa grande
    época.

    Quasi sempre estas muralhas foram construidas com pedra miuda, mostrando
    na face exterior o pequeno apparelho, separado por cadeias de tijolos, e
    cuja base formada por pedras de grande apparelho deviam já ter servido
    nos monumentos da architectura, que provavelmente foi preciso sacrificar
    para lhe aproveitar o material afim de se fortificarem em momento de
    apuro.

    O sabio Mr. de Caumont já tinha ha muitos annos insistido sobre um
    grande facto, que nenhum historiador indicára, e que ainda ignoram quasi
    todos, e é a existencia em differentes localidades d'um _castrum_, cujas
    muralhas estão em grande parte formadas de cantaria mostrando obra de
    esculptura dos seculos II e III, taes como os fustes de columnas,
    frisos, capiteis, tumulos, pedras com inscripções; e por isso o illustre
    archeologo julgou poder determinal-o como obra dos fins do seculo IV,
    sendo a execução d'essas fortificações em todos os logares apropriados
    para tal fim.

    Seja como fôr, tendo-se as cidades concentrado cada vez mais, era
    preciso restringir o perimetro do recinto á parte mais facil para ser
    defendido, e na possivel extensão com os materiaes disponiveis, cercado
    de muralhas. Podiamos citar diversos recintos fortificados com 3 a 10
    hectares sómente, em quanto essas cidades onde os havia, occupavam antes
    100 e até 200, durante o tempo que disfructavam a paz.

    No fim de tres seculos de espantosa prosperidade, a Gallia viu, no
    seculo IV, a desorganisação e o enfraquecimento gradual das instituições
    romanas. Custa a comprehender a que grande aviltamento chegaram no
    seculo V.

    Um esboço rapido sobre os acontecimentos politicos da Gallia, no quarto
    quartel do seculo III explicará claramente a marcha progressiva da
    decadencia das artes do seculo IV. Depois das invasões, a miseria
    publica augmentou, os abusos mutiplicaram-se, a energia moral diminuiu,
    as grandes obras da architectura cessaram, e o gosto foi-se alterando
    cada vez mais.

    As artes, para prosperarem, tem necessidade de paz e liberdade: estas
    condições essenciaes faltaram-lhe no seculo IV; vê-se portanto declinar
    tanto mais rapidamente quanto os lapsos da paz eram mais curtos e raros.

    Todavia, assim como as instituições romanas não desappareceram com a
    quéda do governo romano, assim tambem as artes trazidas para a Gallia
    pelo grande povo sobreviveram ao imperio.

    «Tal era a robustez da organisação romana, diz Michelet, que, quando a
    existencia parecia desemparal-a, quando até os barbaros estavam prestes
    a distruil-a, sujeitaram-se a ella sem o quererem. Foram obrigados, de
    boa ou má vontade, a habitar sob as abobadas invenciveis que não podiam
    abalar; a curvar a cabeça e receber ainda por cima, embora vencedores, a
    lei de Roma vencida.»

    O que expressa Michelet com relação ás instituições romanas, poderemos
    applical-o ás artes, com que o povo-rei dotou a Gallia. Os monumentos em
    ruinas serviram em breve de modelos aos barbaros que apparecem armados
    com o facho de incendio. Os barbaros começaram a trabalhar tambem, a
    edificarem templos, palacios, mosteiros, etc, etc; foram procurar nas
    tradicções dos antepassados os conhecimentos para repararem as proprias
    devastações. A architectura gallo-romana, mais ou menos alterada nos
    seculos V e VI, seguiram seu caminho, até que uma grande revolução, no
    fim do XII seculo, substituiu por principios inteiramente novos as
    antigas tradições. É o que nós propomos demonstrar nos capitulos que vão
    seguir-se.

    [Figura 87]

    * * * * *

    *ADDITAMENTO*

    *Inscripções Latinas*

    Como o estylo lapidar tem certas formulas, abreviaturas especiaes e
    signaes particulares, sem adquirir algumas explicações a este respeito,
    a interpretação ficaria baldada para quem não as possuisse; embora seja
    tambem preciso não ignorar os acontecimentos historicos, todavia
    julgamos conveniente ajuntar a este compendio alguns esclarecimentos
    epigraphicos afim de facilitar aos principiantes a leitura das lapidas:
    portanto, acrescentamos a esta publicação um quadro succinto das
    principaes abreviaturas que se encontram nas inscripções luso-romana,
    por serem estas as de mais difficil interpretação.

    Ainda que a mesma lettra inicial corresponda a diversas palavras, o
    sentido geral da inscripção indicará a que fôr mais apropriada á sua
    significação. É pois facil distinguir, com alguma sagacidade, os nomes
    proprios dos nomes substantivos.

    A palavra _tribu_, á qual as familias romanas pertenciam, fica sempre
    subentendida, e só se menciona o nome.

    As datas, em geral, sabem-se pela indicação do anno do reinado do
    imperador, ao tempo do qual o monumento foi erigido. Finalmente, deu-se
    o epitheto de _Divus_, a cada um dos imperadores, depois da sua morte.

    A.–ager; augustales: augustatis.–A. A.–apud agrum.

    AB. AC. SEN.–ab actis senatus.

    [AE]. CVR.–ædilis curulis. A. FRVM.–a frumento.

    A. H. D. M.–amico hoc dedit monumentum.

    A. K.–ante kalendas.–A. O. F. C.–amico optimo faciendum curavit.

    A. P.–ædilitia potestate; amico posuit.

    A. S. L.–animo solvit libens; a signis legionis.

    A. T. V.–aram testamento vovit.

    A. XX. H. EST.–annorum viginti hic est.

    B. A.–bixit (pro vixit) annis.

    B. DE. SE. M.–bene de se meritæ, _vel_ merito.

    B. M. D. S.–bene merenti, _vel_ bene merito de se.

    B. P. D.–bono publico datum.

    B. Q.–bene quiescat.–B. V.–bene vale.

    BX. ANOS. VII. ME. V. DI. XVII.–vixit annos septem, menses, sex,
    dies decem septem.

    7.–centuria; centurio.–C.–centurio.

    C. B. M.–conjugi bene merenti; et F.–conjugi bene merenti fecit.

    CENS. PERP. P. P., _vel_ CENS. PERP. p. r., _vel_ CENS. P. P.
    P.–censor perpetuus; pater patriæ

    COH. I. AFR. C. R.–cohors prima africanorum civium romanorum.–FL.
    BF.—flavia beneficiariorium.

    C. I. O. N. B. M. F.–civium illius omnium nomine bene merenti
    fecit.

    C. K. L. C. S. L. F. C.–conjugi carissimo loco concesso sibi
    libenter fieri curavit.

    C. P. T.–curavit poni titulum.

    C. R.–civis romanus; civium romanorum; curaverunt refici.

    C. S. H. S. T. T. L.–communi sumptu hæredum, sit tibi terra
    levis.

    D.–Decimus; decuria; decurio; dedicavit; dedit; devotus; dies;
    diis; divus; dominus; domo; domus; quinquaginta.

    D. C. D. P.–decuriones coloniæ dederunt publice.

    D. D.–dedit, dedicavit.

    D. D. D. S.–decreto decurionum datum sibi; dono dedit de suo.

    D. K. OCT.–dedicatum kalendis octobris.

    D. M. ET. M.–diis manibus et memoriæ.

    D. N. M. E.–devotus numini majestati ejus.

    D. O. S.–deo optimo sacrum; diis omnibus sacrum.

    D. P. P. D. D.–de propria pecunia dedicaverunt; de pecunia publica
    dono dedit.

    D. S. F. C. H. S. E.–de suo faciundum curavit, hic situs est.

    D. T. S. P.–dedit tumulum sumptu proprio.

    E. CVR.–erigi curavit.–EDV. P. D.–edulium populo dedit.

    E. E.–ex edicto; ejus ætas.

    E. H. T. N. N. S.–exterum hæredem titulus nostre non sequitur.

    E. I. M. C. V.–ex jure manium consertum voco.

    E. S. ET. LIB. M. E.–et sibi et libertis monumentum erexit.

    E. T. F. I. S.–ex testamento fieri jussit sibi.

    E. V. L. S.–ei votum libens solvit.

    FAC. C.–faciendum curavit.

    F. C.–facere curavit; faciendum curavit; fevit conditorium; felix
    constans; fidei commissum: fieri curavit.

    F. H. F.–fieri hæres fecit: fieri hæredes fecerunt.

    F. I. D. P. S.–fieri jussit de pecunia sua.

    F. M. D. D. D.–fecit monumentum datum decreto decurionum.

    F. P. D. D. L. M.–fecit publice decreto decurionum locum monumenti.

    F. Q.–flamen quirinalis.

    F. T. C.–fieri testamento curavit.

    F. V. F.–fieri vivens fecit.

    G. L.–genio loci.–G. M.–genio maio.

    G. P. R.–genio _seu_ gloria, populi romani.

    G. R. D.–gratis datus, _vel_ dedit.

    G. S.–genio sacrum; genio senatus.

    G. V. S.–genio urbis sacrum; gratis votum solvit.

    H.–habet; hac hastatus; hæres; hic; homo; honesta; honor; hora;
    horis; hostis.

    H. B. M. F.–hæres bene merenti fecit.–F. C.–faciendum curavit.

    H. C. CV.–hic condi curavit; hoc cinerarium constituit.

    H. D. D.–hæredes dono dedere; honori domns divinæ.

    HE. M. F. S. P.–hæres monumentum fecit sua pecunia.

    HIC. LOC. HER. N. S.–_vel_ HIC. LOC. HER. NON. SEQ.–hic locus
    hæredum non sequitur.

    H. L. H. N. T.–hunc locum hæres non teneat.

    H. M. AD. H. N. T.–_vel_ H. M. AD. H. N. TRAN.–hoc monumentum ad
    hæredes non transit.

    H. N. S. N. L. S.–hæres non sequitur nostrum locum sepulturæ,
    _vel_ hæredem … locus, etc.

    HOC. M. H. N. F. P.–hoc monumentum hæredes nostri fecerunt
    ponere.

    H. P. C.–hæres ponendum curavit; hic ponendum curavit;–L. D. D.
    D.–hæres ponendum curavit loco, dato decreto decurionum.

    H. S. C. P. S.–hic curavit poni sepulcrum; hoc sepulcrum condidit
    pecunia sua; hoc sibi condidit proprio sumptu.

    H. T. V. P.–hæres titulum vivus posuit, hunc titulum vivus
    posuit.

    I. AG.–in agro.—I. C.—judex cognitionum.

    I. D. M.–inferis diis maledictis: Jovi deo magno.

    I. F. P. LAT.–in fronte pedes latum.

    II. V. DD.–duumviris dedicantibus.

    II. VIR. AVG.–duumvir Augustalis.

    II. VIR. COL.–duumvir coloniæ.

    II. VIR. L. D.–duumvir juri dicundo.

    II. VIR. QQ. Q. R. P. O. PEC. ALMENT.–duumviro quinquennali
    qætori reipublicæ operum pecuniæ alimentariæ.

    III. VIR. AED. CER.–triumvir ædilis cerealis.

    IIII. V.–quatuorviratus.

    IIII. V. A. P. F.–quatuorviri argento publico feriundo, _vel_ auro.

    IIII. VIREI. IOVR. DEIC.–quatuorviri juri dicundo.

    IIIIII. VIR. QQ. L. D.–sexvir quinquennalis juri dicundo.

    IN. AG. P. XV. IN. F. P. XXV.–in agro pedes quindecim in fronte
    pedes viginti quinque.

    I. O. M. D. D. SAC.–Jov. optimo maximo, diis deabus sacrum.

    I. P.–indulgentissimo patrono; innocentissimo puero; in pace;
    jussit poni.

    I. S. V. P.–impensa sua vivus posuit, _vel_ vivi posuere.

    K. B. M.–carissimæ bene merenti, _vel_ carissimo.

    K. CON. D.–carissimæ conjugi defunctæ.

    K. D.–kalendis decembris; capite diminutus.

    L.–liberta; lucia.–L. B. M. D.–libens bene merito dicavit; locuno
    bene merenti dedit, _vel_ libertæ, _seu_ liberto.

    L. F. C.–libens fieri curavit; libertis faciendum curavit; libertis
    fieri curavit, _vel_ locum _aut_ lugens.

    LIB. ANIM. VOT.–libero animo votum.

    L. L. FA. Q. L.–liberlis libertabus familiisque libertorum.

    L. M. T. J.–locum monumenti testamento fieri jussit.

    LOC. D. EX. D. D.–locus datus ex decreto decurionum.

    L. P. C. D. D.–locus publice concessus, datus decreto decurionum.

    L. Q. ET. LIB.–libertisque et libertabus.

    L. XX. N. P.–sestertiis vigenti nummum pendit.

    MAN. IRAT. H.–manes iratos habeat.

    M. B.–memoriæ bonæ; merenti bene; mulier bona.

    M. D. M. SACR.–magnæ deum matri sacrum.

    MIL. K. PR.–milites cohortis prætoriæ.

    M. P. V.–millia passuum quinque; monumentum posuit vivens, _vel_
    memoriam.

    NAT. ALEX.–natione Alexandrinus.

    NB. G.–nobili genere.–N. D. F. E.–ne de familia exeat.

    N. H. V. N. AVG–nuncupavit hoc votum numini augusto.

    N. N. AVGG. IMPP.–nostri Augusti imperatores.

    NON. TRAS. H. L.–non transilias hunc locum.

    N. T. M.–numini tutelari mumicipii.

    N. V. N. D. N. P. O.–neque vendetur, neque donabitur, neque pignori
    obligabitur.

    OB. HON. AVGVR.–ob honorem auguratus; … H. VIR.–duumviratus

    O. C.–ordo clarissimus.

    O. E. B. Q. C.–ossa ejus bene quiescant condita.

    O. H. IN. R. S. F.–omnibus honoribus in republica sua functus.

    O. LIB. LIB.–omnibus libertis libertabus.

    O. O.–ordo optimus.–OP. DOL.–opus doliare, _seu_ doliatum

    P. B. M.–patri bene merenti, _vel_ patrono, _seu_ posuit.

    P. C. ET. S. AS. D.–ponendum curavit et sub ascia dedicavit.

    PED. Q. BIN.–pedes quadrati bini.

    P. GAL.–præfectus Galliarum, _vel_ præses.

    PIA. M. H. S. E. S. T. T. L.–pia mater hic sita est: sit tibi terra
    levis.

    P. M.–passus mille; patronus mnnicipii; pedes mille: plus minus;
    pontifex maximus; post mortem; posuit merenti; posuit mærens;
    posuit monumentum.

    P. P.–pater patriæ; pater patratus; pater patrum; patrono
    posuit; pecunia publica; perpetuus populus: posuit præfectus;
    prætorio præpositus; propria pecunia; pro portione;
    proprætor; provincia Pannoniæ; publice posuit; publice
    propositum; publii _duo_.

    P. Q. E, _vel_ P. Q. EOR.–posterisque corum.

    P. S. D. N.–pro salute domini nostri.

    P. V. S. T. L. M.–posuit, voto suscepto, titulum libens merito.

    Q. K.–quæstor candidatus.

    Q. PR. _vel_ Q. PROV.–quæstor provinciæ.

    Q. R. _vel_ Q. RP.–quæstor reipublicæ.

    Q. V. A. I.–qui vixit annum unum, _vel_ quæ. A. III. M.
    II.–annos tres, menses duos.

    A. L. M. IIII. D. V.–onnos quinquagnita, menses quatuor, dies
    quinque. A. P. M.–qui vixit… annos plus minus.

    R. C.–romana civitas; romani cives.

    R. N. L. ONG. P. X.–retro non longe pedes decem.

    ROM. ET. AVG. COM. ASI.–Romæ et Augusto communitates Asiæ.

    R. P. C.–reipublicæ causa; reipublicæ conservator;
    reipublicæ constituendæ, retro pedes centum.

    R. R. PROX. CIPP. P. CLXXIIII.–rejectis ruderbusi proxime cippum
    pedes centum septuaginta quatuor.

    R. S. P.–requictorium sibi posuit.

    S.–sacellum; sacrum; scriptus; semis; senatus; sepulcrum; sequitur;
    serva; sibi: singuli; situs: solvit; stipendium.

    S.–uncia.–S.–centuria.

    S.–semuncia.–SB.–sibi; sub.

    S. D. D.–simul dederunt, _vel_ dedicaverunt.

    S. ET. L. L. P. E.–sibi et libertis libertabus posteris ejus.

    S. F. S.–sine fraude sua.–SGN. signum.

    S. M. P. I.–sibi monumentum poni jussit.

    SOLO. PVB. S. P. D. D. D.–solo publico posuit, dato decreto
    decurionum

    S. P. C.–sua pecunia constitut; sumptu proprio caravit.

    S. T. T. L.–sit tibi terra levis.

    S. V. L. D.–sibi vivens locum dedit.

    TABVL. P. H. C.–tabularius provinciae Hispaniae citerioris.

    T. C.–testamento constituit, _vel_ curavit.

    T. T. F. V.–titulum testamentum fieri voluit.

    V. C. P. V.–vir clclarissimus praefectus urbi.

    V. D. P. S.–vivens dedit proprio sumptu; vivens de pecunia sua.

    V. E. D. N. M. Q. E.–vir egregius devotus numini majestatique ejus.

    VI. ID. SEP.–sexto idus septembris.

    VII. VIR. EPVL.–septemvir epulonum.

    V. L. A. S.–votum libens animo solvit.

    VO. DE.–vota decennalia.

    V. S. A. L. P.–voto suscepto animo libens posuit.

    V. S. L. M.–votum solvit libens merito.

    V. V. C. C.–viri clarissimi.

    VX. B. M. F. H. S. E. S. T. L.–uxor bene merenti fecit, hic situs
    est. sit bibi terra levis.

    X.–mille.–X. ANNALIB.–decennalibus.

    X. IIII. K. F.–decimo quarto kalendas februarii.

    X. VIR. AGR. DAND. ADTR. IUD.–decemvir agris dandis attribuendis
    judicandis.

    XV. VIR. SAC. FAC.–quindecemvir sacris faciendis.

    XXX. P. IN. F.–triginta pedes in fronte.

    XXX. S. S.–trigesimo stipendio sepultus.

    [Figura 88]

    CAPITULO III

    *IDADE MEDIA*

    ERA ROMANICA

    Chama-se idade-media o periodo comprehendido desde a quéda do imperio
    romano (V seculo), até o principio do seculo XVI.

    A architectura dos primeiros seculos da idade-meia apresenta os
    caracteres da architectura romana degenerada, e a designam com o nome de
    _architectura Roman_: o typo roman persistiu até ao seculo XII.
    Examinaremos este longo periodo da historia da arte, subdividindo em
    duas epocas; o _roman primitivo_, que comprehende do V seculo ao XI; e o
    _roman secundario_, que pertence aos seculos XI e XII.

    PERIODO ROMAN PRIMITIVO

    Depois das invasões dos barbaros, as artes e as lettras acharam amparo
    nas cidades, e depois nos mosteiros. Os architectos apropriaram ás
    necessidades da epoca parte dos edificios gallo-romanos; e exploraram a
    outra parte como se o fizessem em uma pedreira; acharam nas columnas,
    nos entablamentos, nas esculpturas diversas, e nos outros materiaes que
    cobriam o solo, mina que por muito tempo lhes forneceu pedras já
    lavradas: não tendo outro trabalho, o maior numero de vezes, senão
    ajustal-os ao logar para que os destinavam: portanto a duração do _roman
    primitivo_, pois, propriamente fallando, é a continuação do periodo
    artistico antecedente, apenas com a alteração nas formas, pela
    inhabilidade progressiva dos operarios e architectos.

    Os elementos de decoração ficaram como estavam; as esculpturas, os
    mosaicos, as pinturas, foram empregadas como no seculo IV; as
    composições foram copiadas ou reproduzidas com insignificantes
    variantes.

    Infelizmente, possuimos bem poucos d'esses restos authenticos dos
    edificios do _primeiro periodo roman_; é preciso recorrer aos ultimos
    tempos do imperio, reunir mentalmente os mosaicos, as molduras das
    decorações, as pinturas decorativas, então usadas, para completar a
    escala da ornamentação durante os seculos V, VI, VII e VIII.

    [Figura 89: Tumulo de marmore dos primeiros seculos christãos]

    Ao passo que se aproveitaram os fragmentos preexistentes nos edificios,
    que resistiram ás devastações dos barbaros, fazia-se um trabalho de
    assimilação que devemos ter em conta: além de construir bastantes
    edificios novos que lhes deviam ser indispensaveis, precisavam tambem de
    supprir as faltas de outros, reparar as paredes e as esculpturas,
    construir e ornar as igrejas novas. O elemento christão, com o seu
    symbolismo novo, seus especiaes assumptos, fez nascer _uma nova escola_
    de esculptura e de pintura, posto que se inspirassem dos modelos
    romanos. Basta citar para prova d'isto os tumulos dos primeiros seculos
    da idade media com as suas scenas biblicas, e as figuras cujos typos
    existiam nas pinturas das catacumbas.

    As primeiras igrejas christãs foram copiadas das basilicas romanas. As
    basilicas eram como edificios para os tribunaes, centros commerciaes
    (bolsas) ou bazares. Dois renques parallelos de columnas dividiam o
    edificio em tres partes, no sentido da largura. A grande nave central
    era mais larga e mais elevada que as outras duas. Na extremidade das
    tres galerias, e na central havia um espaço pouco profundo, e de fórma
    circular, onde se assentava o presidente ou o primeiro juiz, tendo aos
    lados todos os juizes accessores; o bispo ahi collocava a sua cadeira, e
    as ceremonias religiosas eram apropriadas á disposição do local.

    [Figura 90]

    Ha em Abrantes uma igreja que é perfeito especimen d'esta disposição; é
    a unica que suppômos haver em Portugal com este typo.

    As abbadias, ou communidades religiosas, foram egualmente imitadas das
    grandes habitações romanas, tanto da cidade como do campo, de que
    apresentâmos um specimen na pagina 82 [fig. 69]; o antigo _atrium_, o
    perystilo, tem sido representado na disposição dos claustros.

    O _tablium_, ou grande sala, foi representada na casa do capitulo.

    No mais foi tudo imitado das outras partes das habitações romanas com as
    modificações que necessitava a vida commum dos religiosos. A igreja veio
    sómente trazer novo elemento á composição da parte central dos
    conventos; porém o pateo externo, com os seus celeiros, curraes,
    lagares, etc., apresentava a similhança de uma _villa rustica_ dos
    romanos reunida á habitação do proprietario.

    [Figura 91: Fragmento de um tabernaculo, ornado de pedras peciosas, de
    pombas, palmeiras carregadas de fructas, symbolisando as graças
    espirituaes. Esculptura mérovingia do museu d'Arles]

    Os palacios tiveram disposição identica á das grandes casas romanas; os
    seus pateos ornados de columnas ou de arcadas como os claustros, eram,
    como estes, a reproducção exacta do _atrium_ e do _perystilo_. (Veja-se
    a pag. 82. [fig. 69])

    [Figura 92: O interior da crypta de Saint-Avit, em Orleans (IX seculo)]

    [Figura 93: Columnas e pilastras da crypta com os capiteis]

    As habitações ruraes dos proprietarios abastados reproduziam tambem as
    disposições principaes das _villæ_ gallo-romanas.

    [Figura 94: A igreja de Vieux-Pont-en-Auge (Calvados), construida com
    pequeno apparelho]

    Passemos rapidamente sobre esta primeira parte do periodo roman, do qual
    existe mui pouco para citar, e vamos já occupar-nos do segundo periodo,
    que nos apresenta grande numero de monumentos notaveis, dando porém
    alguns fragmentos de architectura e esculptura pertencentes ao periodo
    roman primitivo, n'esta pagina e nas seguintes para se formar melhor
    idéa, posto que succinta, do estado da arte nos seculos IX e X.

    [Figura 95: Capitel da igreja de Jouarre (VII seculo)]

    [Figura 96: Frontão do baptisterio de Poitiers]

    [Figura 97: Pavões e animaes symbolicos]

    PERIODO ROMAN SECUNDARIO

    O seculo IX, de tão crueis provações, vira desapparecer grande numero de
    edificios pertencentes aos seculos anteriores. Estes edificios não
    teriam grande solidez, porque os normandos facilmente os destruiram e
    incendiaram, na occasião dos seus saques e vandalismos, e os que não
    ficaram expostos a esta barbaria apresentam já o aspecto vetusto.

    Quando quizeram reparar similhantes damnos, reconstruiram o que já
    estava destruido, e não encontraram, como succedera no V e nos seguintes
    seculos, senão fustes de columnas, capiteis, esculpturas provenientes
    dos monumentos em ruinas dos gallo-romanos: foi preciso, no seculo X,
    cortar nova cantaria, extrahir outros materiaes, executar esculpturas,
    ainda que grosseiramente, para os ornamentos com que desejavam dar
    realce ás igrejas, aos palacios, e outros edificios publicos, ou
    particulares: portanto, nova ordem de cousas devia resultar das novas
    exigencias e necessidades. Viu-se, pois, no ultimo quartel do seculo X,
    e principalmente no XI, a architectura em via de transformação, depois
    caminhar gradualmente para o estado de esplendor a que attingiu no
    seculo XII.

    As esculpturas provenientes dos monumentos romanos, ou muito bem
    imitados, deram certo brilho ao interior das grandes construcções dos
    seculos intermediarios: os mosaicos, as pinturas e estuques, occultavam
    a pobreza dos materiaes empregados.

    No seculo XI dispensaram os ornamentos no interior das habitações, porém
    exigiram mais solidez e mais segurança contra os incendios; construiram
    mais frequentemente com pedra, pensaram em substituir com abobadas os
    tectos de madeira, que haviam sido até então quasi exclusivamente
    empregados.

    Os frades architectos, e os demais artistas, em plena liberdade para
    innovar, construiram as igrejas e os edificios, onde havia necessidade
    de taes obras, combinando novos planos e disposições inteiramente
    desconhecidas.

    As proporções antigas exigidas na architeclura não continuaram a ser
    observadas quanto ao _modulo_ das columnas, e suas subdivisões. O
    _colorete_ fez então sempre parte do capitel, de certo contrario ás
    regras da architectura romana, porque o colorete andava ligado com o
    corpo da columna.

    As esculpturas mais rudimentares apresentavam series de figuras
    repetidas, que se agrupavam, seguindo, conforme as escolas, systemas
    differentes.

    Estes factos, que o seculo XI apresenta ao observador prespicaz, fazem
    de certo modo, d'esta época, que vamos tratar, o ponto de partida dos
    desenvolvimentos da architectura tal como se nos apresenta hoje á vista,
    examinado o extraordinario numero dos edificios antigos que existem na
    Europa.

    Passamos portanto a apresentar, seculo por seculo, comparativamente, os
    typos dos edificios religiosos, civis, e as fortificações, e indicaremos
    successivamente os seus caracteres principaes, por modo que possa
    demonstrar-se claramente a marcha e o desenvolvimento da architectura e
    das artes accessorias durante o periodo indicado.

    *ARCHITECTURA RELIGIOSA*

    Descrevendo os caracteres principaes da architectura religiosa do
    periodo _roman secundario_, comprehenderemos ao mesmo tempo os seculos
    XI e XII.

    Os ornatos do seculo XI teem mui pouco relevo, e estão executados com
    bastante rudeza; mas os do seculo XII já apresentam os contornos mais
    correctos, com ornamentação mais variada, e de acabamento infinitamente
    mais superior; pode affirmar-se que a architectura roman chegára á
    maxima perfeição.

    *Forma das igrejas*

    Como já dissemos, as igrejas foram imitadas primitivamente das basilicas
    romanas, porém algumas, logo desde os primeiros tempos, tiveram no risco
    a fórma da cruz, pelo augmento da parte a que chamamos cruzeiro.

    A fórma geral das igrejas um pouco vastas no seculo XI, e nos seguintes,
    era a da cruz, cujos braços se estendiam de Norte ao Sul, e cuja cabeça
    estava figurada pelo côro voltado para Leste. A entrada principal era do
    lado occidental; ás vezes nas paredes lateraes da nave havia frestas. O
    comprimento da nave comparado com o do côro e capella mór, o maior ou
    menor desenvolvimento dos cruzeiros, estabeleceu nas fórmas geraes das
    igrejas mudanças importantissimas. O côro, menos compridó que a nave,
    apresentava quasi sempre a terça ou quarta parte do comprimento total do
    edificio.

    [Figura 98]

    Umas vezes as naves lateraes terminavam onde principiava a curva da
    abside, como se vê na figura 101, pag. 124; outras vezes prolongavam-se
    em volta do côro como na figura 100. Havia tambem igrejas rectangulares,
    ou com o fundo do côro recto.

    [Figura 99]

    Nos paizes do Norte, as igrejas acabavam a Leste e a Oeste, por absides
    semicirculares, figura B, como egualmente existem em algumas igrejas
    antigas, principalmente em S. Lourenço de Grenoble, como indica a planta
    junta; assim como outras muito mais antigas eram compostas sempre d'uma
    nave terminando em fórma circular, fig. 98; ou com os lados polygonaes,
    cercada por naves lateraes ou galerias; havendo a Leste, um altar
    collocado n'um appendice encostado sobre as paredes circulares. Esta
    fórma foi imitada pelo imperador Carlos Magno, na celebre igreja de
    Aix-la-Chapelle, a qual tambem depois imitaram na igreja d'Ottmarsheim,
    na Allemanha.

    [Figura 100: Naves lateraes contornando a abside]

    [Figura 101: Igreja com duas absides]

    [Figura 102: Córte da igreja de Ottmarsheim (Alto Rheno)]

    Dava-se em algumas igrejas a fórma redonda ou octogona, para imitar a do
    Santo Sepulchro de Jerusalem.

    Por baixo do côro de muitas igrejas existiam cryptas ou capellas
    subterraneas; quando tinham maiores dimensões, as suas abobadas eram
    sustentadas por dois renques de columnas.

    [Figura 103: Plano da igreja de Ottmarsheim]

    Algumas cryptas prolongam-se por baixo do cruzeiro; desce-se para as
    cryptas por escadas que saem das naves, ou da nave principal junto da
    entrada[35] para o côro, ou dos cruzeiros.

    *Apparelhos das construcções*

    Encontram-se nos seculos XI e XII os principaes apparelhos em uso na
    architectura _roman primitiva_. O pequeno apparelho e o medio vê-se
    frequentemente applicado.

    Quando se serviram de cantaria liza para cobrirem as faces das paredes,
    assentavam-n'a de lado, com inclinação alternada para a direita e
    esquerda (_opus spiscatum_). Os romanos usavam tambem pôr as pedras
    d'este modo.

    [Figura 104]

    No seculo XI, os apparelhos tinham larga facha de cimento nos
    intersticios, ao passo que no seculo seguinte, as juntas mostravam menos
    espessura.

    Em alguns apparelhos medios vêem-se diversas figuras profundamente
    gravadas, parecendo signaes dos canteiros, que teriam por este meio
    reconhecido as pedras que tivessem preparado para se lhes pagar os
    salarios.[36]

    [Figura 105]

    *Contrafortes*

    Os contrafortes tiveram no seculo XI muito pouca saliencia,
    comparativamente com a que depois se lhes deu. No seculo XII, apparecem
    muitas vezes os pilares ornados de columnas mettidas nos angulos com os
    esbarros revestidos de curvas com imbricados [fig. 106].

    [Figura 106]

    [Figura 107]

    [Figura 108]

    Na Italia, na Allemanha e em outras nações, os contrafortes são mui
    pouco salientes, e só permittem os de ressaltos separados por distancias
    eguaes uns dos outros [fig. 107 e 108].

    *Ornamentações*

    Para abreviarmos as explicações sobre este ponto, daremos os desenhos de
    algumas molduras ornamentadas, que eram mais vulgares nas construcções
    religiosas dos seculos XI e XII.

    [Figura 109: Zigue-zagues oppostos]

    [Figura 110: Filêtes desencontrados]

    [Figura 111: Zigue-zagues alternados]

    Mr. de Caumont emprehendeu repetidas viagens por differentes paizes, com
    o louvavel intuito de indagar quaes seriam as modificações que o genio
    dos architectos introduzira em tal ou tal provincia; assim como para
    examinar se haveria synchronismo entre os edificios, apresentando a
    grandes distancias uns dos outros identidade de typos architectonicos.

    [Figura 112: Escamas]

    [Figura 113: Carrâncas]

    [Figura 114: Pontas de diamante]

    [Figura 115: Estrellas]

    [Figura 116: Torçal]

    [Figura 117: Zigue-zagues dentados]

    [Figura 118: Folhagem com serpes]

    [Figura 119: Entrelaçados]

    [Figura 120: Ornamento dentado]

    [Figura 121: Molduras entrançadas e carrancas/Molduras com rhombos]

    [Figura 122: Florões ornados de perolas]

    [Figura 123: Faixas e molduras com perolas]

    [Figura 124: Entrançados com perolas]

    [Figura 125: Discos e molduras com lavor]

    [Figura 126: Palmas e quadrupedes]

    Este trabalho scientifico de summo interesse para a historia da arte,
    era mais um importante serviço prestado aos estudos archeologicos por
    pessoa já afeita por seu saber e dedicação.

    *Arcadas fingidas*

    [Figura 127: Do seculo XII]

    As grandes superficies foram muitas vezes guarnecidas arcadas fingidas,
    assentes em pilastras ou em columnas embebidas na parede, e dava-se-lhes
    o nome de _arcaturas_: faz-se idéa do effeito que produziriam vendo o
    _especimen_ que apresentamos.

    [Figura 128: Archivoltas dos seculos XI e XII.]

    *Portas*

    De todas as partes dos edificios, são sem duvida as portas que tem sido
    mais ornadas de molduras no seculo XII, e até em alguns edificios com
    aspecto simples. Porém no seculo XI conservam ainda, no maior numero,
    grande simplicidade nas fórmas. Foi no seculo XII que mais se
    multiplicaram as archivoltas, e o que obrigou depois a proporcionar o
    numero das columnas que serviam de apoio á queda d'essas curvas, e dar
    maior grossura aos pés direitos interiores: algumas portas não
    apresentam nem columnas nem pilastras, apenas tem ornatos desde o cimo á
    base, com aformoseamentos de mais ou menos profusão.

    [Figura 129: Porta da igreja de Mortain]

    Os tympanos (é assim que se chama o espaço semicircular comprehendido
    entre a abertura e as archivoltas bem como o espaço triangular entre as
    mulduras do frontão e as do entablamento do perystilo), são compostos de
    peças symetricas com molduras ou sem ellas; ha outros que estão cheios
    de baixos-relevos; como se vê n'este tympano da igreja de S. Miguel,
    proximo d'Angoulème (França), no qual o archanjo representa vencer o
    inimigo do genero humano, prostrado aos pés sob a fórma de gigante
    dragão. É nos tympanos das portas que se encontra principalmente a
    representação de Christo entre os symbolos dos quatro evangelistas, o
    boi,[37] a aguia, o leão e o anjo.

    [Figura 130]

    Muitas portas tiveram primitivamente alpendre coberto com telhas; d'este
    modo poderam ornal-as com baixos-relevos e molduras, posto que fossem de
    cantaria, pois sem o que ficariam expostas á intemperie das estações, e
    perder-se-hia o trabalho. Nas igrejas e nas cathedraes existem
    egualmente grandes alpendres, que figuram vestibulos diante das portas,
    como em Santarem, na igreja de S. Francisco.

    [Figura 131: Jesus Christo n'uma aureola, no meio dos symbolos dos
    quatro evangelistas]

    [Figura 132: Portico-vestibulo em Moissac]

    *Fachadas*

    [Figura 133]

    A disposição das fachadas varia conforme a grandeza das igrejas. Na
    representada pela gravura junta de uma igreja rural, a porta tem duas
    archivoltas guarnecida de rhômbos e de zigue-zágues, tendo no cimo um
    renque de arcadas fingidas; uma unica abertura occupa o centro do
    frontão com uma janella de volta perfeita. A outra figura representa uma
    igreja, mostrando os lados indicados conforme a posição das naves
    lateraes, tendo já maior fachada que a precedente. Por cima da porta
    veêm-se tres archivoltas sustentadas por columnas e ornadas de diversas
    molduras; mais acima a janella de volta com archivolta e columnasinhas;
    e a sua parte superior cornija com modilhões e frontão triangular. Esta
    combinação é frequente nas igrejas do seculo XII.

    [Figura 134: Fachada da igreja de Jort (Calvados).]

    *Janellas*

    As janellas de maiores dimensões são estreitas e sem columnas. No seculo
    XII, principalmente, são maiores e ornadas de archivoltas sustentadas
    por columnasinhas, e por vezes acompanhadas de arcadas fingidas.

    [Figura 135]

    [Figura 136: Janella guarnecida de duas _arcaturas_]

    As aberturas são circulares, e usam chamar-lhes _espelhos_ ou _oculos_;
    principiaram a ser empregadas no seculo XII, divididas em raios do
    centro para a circumferencia. Apresentavam tal ou qual similhança com as
    rodas das carruagens. O logar dos espelhos era escolhido nas
    extremidades da nave principal, ficando por cima da porta occidental, e
    ás vezes tambem no centro da abside ou do côro.

    [Figura 137]

    Temos ainda felizmente, em Portugal, um edificio religioso que conserva
    o typo completo da architectura do seculo XII, e é o que pertence á
    profanada igreja de S. João de Alporão, em Santarem. Todas as formas e
    detalhes, que caracterisam a architectura roman, se conservam ainda na
    dita construcção. Os seus dois portaes com o feitio de volta
    semicircular; as columnas sem lavor, sustentando archivoltas; o tympano
    liso por cima da verga do portal; os butareos singelos; a cimalha
    composta de carrancas; o espelho aberto na extremidade da nave e
    radiado; a fachada principal voltada para o lado do poente, conforme a
    orientação adoptada no culto christão; apparelho pequeno applicado á
    construcção, conservando muita largura nas juntas da cantaria; tudo
    emfim nos offerece o completo modelo das primitivas igrejas d'aquella
    época, que o fundador da monarchia portugueza mandou construir no reino.
    E além de apresentar a mais evidente prova do estylo da architectura do
    seculo XII, tambem nos confirma ter pertencido esta fabrica ao reinado
    de D. Affonso Henriques, mostrarem igualmente as pedras da edificação
    _as siglas com que na idade media os canteiros marcavam o trabalho
    executado_,[38] signaes necessarios para reconhecer a qual dos operarios
    pertencia, e saber-se tambem quanto se deveria pagar a cada um: pois que
    esses signaes são similhantes aos demais gravados na cantaria dos
    monumentos coevos do paiz, notando-se esta particularidade não só nas
    ruinas dos castellos, mas tambem nos edificios religiosos. A nossa
    satisfação aqui sobe de ponto por sermos o primeiro que apresentâmos tal
    gravura e tão precioso e completo especimen da archeologia patria da
    referida epoca.

    [Figura 138: Igreja de S. João d'Alporão (Santarem)]

    *Arcadas*

    As arcadas, dispostas para communicar a nave principal com os lados da
    igreja, eram construidas pela mesma forma como as portas; suas
    archivoltas poucas vezes tinham molduras, e por isso ficavam quasi
    sempre ligadas.

    *Entablamentos*

    [Figura 139]

    O entablamento que corôa as paredes dos edificios é geralmente posto
    sobre modilhões figurando cabeças grotescas, carrancas, ou outras
    figuras de feitios variados; como se nota nas fachadas posteriores da sé
    velha de Coimbra, do convento de Santa Clara de Santarem, da igreja de
    Cedofeita, e capella-mór de Odivellas.

    [Figura 140]

    Á proporção que nos aproximâmos do fim do seculo XII, as cornijas
    mostram-se-nos mais leves, e no seculo XIII apresentam-nos guarnição
    imitando dentes de serra.

    *Columnas*

    Os pontos de apoio que tinham sido muitas vezes _monocylindricos_ no
    principio do seculo XII, até quando eram compostos de pilastras, foram
    depois, quasi meado este seculo, formados por um conjuncto de columnas
    enfeixadas, innovação que devia depois produzir as columnas inteiriças
    desde o solo até ao nascimento da abobada, concorrendo assim para a
    creação do estylo ogival.

    [Figura 141]

    *Capiteis e diversas bases das columnas nos seculos XI e XII*

    Chama-se capitel historiado ao que é formado por composições relativas a
    assumptos religiosos ou historicos, executados em baixo-relevo.[39]

    *Abobadas*

    Durante o seculo XI, as abobadas de cantaria eram raras, e
    principalmente applicadas ás grandes naves; em geral não se viam as
    abobadas senão nas naves lateraes e nas absides, ficando visiveis os
    madeiramentos, ou então cobertos com taboado.

    Foi no seculo XII que os mais ousados architectos lançaram as primeiras
    abobadas de cantaria sobre as grandes naves; mas para esta construcção
    foi preciso modificar a antiga disposição afim de receber os pontos de
    apoio dos arcos encruzados em diagonal, que contribuem tanto para
    consolidar essas abobadas.

    Nas igrejas do estylo roman, notam-se facilmente estas estructuras, e as
    mudanças que isso motivou nas suas construcções.

    [Figura 142: Vista interior da igreja de Souillac]

    Existe certo numero de igrejas com a abobada construida em cupula.
    Representa uma cupula a metade de uma esphera. Para se poderem firmar as
    cupulas nas paredes, cujas divisões apresentavam a fórma quadrada, era
    necessario collocar entre os seus arcos _abobadas pendentes_
    (pendantifs), de maneira a formar com elles (na parte superior) o
    circulo horisontal, sobre o qual caia o peso da cupula: este modo de
    construir a cupula tirava a sua origem da architectura Bysantina.

    Ha tambem outras abobadas ogivaes _cupuliformes_, que se firmam não nas
    paredes lateraes, mas egualmenle na archivolta dos arcos de cada vão, na
    direcção longitudinal. De sorte que, se suppozermos uma cupula ou
    espheroide, que se transforme com as suas abobadas pendentes,
    formar-se-ha a idéa primitiva que produziu o systema que expozemos, e ao
    qual o distinctissimo architecto Mr. Viollet-le-Duc deu a seguinte
    significação: _É uma cupula hemispherica furada com quatro arcos em
    ponto subido traçados por tres pontos_. Fortificavam-se estas abobadas
    esphericas achatadas com as nervuras ou arcos cruzados, descançando-as
    nos angulos do quadrado, e com outros que se cruzavam no intervallo dos
    primeiros, e rematavam no cimo de cada arco maior.

    As abobadas esphericas com duplo cruzamento de nervura foram muito
    applicadas nos seculos XII e XIII.

    Porém, para voltarmos á descripção das abobadas dos seculos XI e XII em
    geral, basta dizer que ha muitas que foram construidas da fórma de
    semi-cylindros continuos, descançando nas paredes ou pilares, e que se
    reforçaram com arcos duplos de cantaria parallelos á dita abobada como
    apresentâmos na gravura da pagina seguinte; porém, o peso d'estas
    abobadas era muito grande, e causava ruinas frequentes. Então, para
    remediar este inconveniente, cruzavam-se os arcos duplos, afim de
    dividir a pressão e dirigil-a nos pilares regularmente separados. As
    paredes lateraes ficaram por este modo consideravelmente alliviadas do
    grande peso que d'antes tinham sobre si, o que se verá perfeitamente na
    gravura seguinte. Este systema originou o enfeixarem-se as columnas
    conforme as combinações que serão facilmente comprehendidas, e que
    tinham por fim sustentar os arcos duplos.

    [Figura 143: Abobadas do seculo XII, com arcos duplos cruzados]

    *Torres isoladas*

    Presume-se que as torres para sinos não foram construidas antes do
    seculo VIII, e por muito tempo seriam apenas um simples campanario,
    ficando superior ao telhado da igreja e proximo do sanctuario, para
    facilitar os toques durante a missa, sem que o acolyto se afastasse do
    altar. Depois apparece a torre da igreja entre o côro e a nave
    principal. Nas grandes igrejas collocaram uma torre sobre o centro do
    cruzeiro, e passado tempo levantaram outras nas extremidades occidentaes
    das naves. Esta nova disposição das torres era já usada no seculo XII e
    antes dos fins do XI, mas applicada sómente para as igrejas dos
    conventos.

    [Figura 144: Torre do seculo XII]

    As torres romans eram, além da fórma quadrada, limitadas por uma
    pyramide de grandes faces, quer fosse construida de pedra, quer de
    madeira: esta pyramide terminava muitas vezes com a extremidade de fórma
    romba; tal assim foi construida a torre quadrada e isolada da igreja de
    N. Senhora das Dôres, em Dornes, na provincia da Extremadura.

    O grande numero de pyramides que ornam as torres antigas romans foi obra
    executada depois nos seculos XIII e XIV. Ha tambem algumas torres de
    fórma octogona e terminando por um telhado que obedece á mesma fórma.

    *Iconographia[40] christã*

    Ainda que este assumpto nos conduziria muito longe, todavia para não
    ficar incompleto, em parte, tão importante estudo da arte n'este
    periodo, tambem resumidamente daremos succintas explicações.

    *Pinturas decorativas*

    As pinturas decorativas foram muito usadas no seculo XII. As ocres
    encarnadas e amarellas, o azul, o verde e o branco, formam a escala mais
    commum das côres. As figuras eram imitadas das que se executavam na
    esculptura da mesma época.

    [Figura 145: Pinturas do seculo XII]

    *Pavimentos*

    Os sanctuarios mais elegantes tinham o piso executado em mosaico, ou
    marchetados de côres. Principiaram no século XII a usar nos pavimentos
    das igrejas os tijolos;[41]porém os revestidos com cimento, ou lageados,
    eram usuaes em as naves.

    *Altares*

    Os altares e pias baptismaes pertencentes ao seculo XII são raros hoje;
    eram de estylo inteiramente analogo ao das igrejas d'esse tempo,
    conforme se vê nos especimens que damos.

    [Figura 146: Altar roman, em Saint-Germer]

    *Tumulos*

    Posto que a interessante obra que nos serve de poderoso guia não traga
    explicações sobre os tumulos do periodo, de que tratâmos, pareceu-nos
    conveniente dizer alguma cousa, para não omittirmos as essenciaes noções
    ácerca dos diversos trabalhos.

    [Figura 147: Pias de baptismo roman de Chéreng (França)]

    Foi no seculo IX, que consentiram em que os cadaveres tivessem
    sepulturas no interior das igrejas, mas d'esta prerogativa só podiam
    gosar os reis, os bispos e os abbades, que por suas virtudes estiressem
    no caso de receber canonisação; por quanto os cemiterios christãos, nos
    primitivos tempos, eram situados fora das cidades; e no concilio
    celebrado em 660 se permittiram os enterros unicamente nos adros das
    igrejas.

    Os christãos costumavam amortalhar os defuntos com os fatos usuaes e as
    insignias do cargo ou profissão; os parentes mais proximos transportavam
    os despojos mortaes, que eram depois encerrados em caixão de pedra,
    marmore, ou de madeira e chumbo, ficando o cadaver com o rosto voltado
    para o céo e os pés para o Oriente. Manteve-se este uso até o seculo
    XIII.

    Os sarcophagos eram collocados sobre o solo em renques parallelos, na
    direcção do norte para o sul. Tinham a fórma de parallelipedo, sendo
    mais estreitos aos pés que do lado da cabeça; e alguns tomavam na
    cabeceira a fórma curvilinea.

    Fazendo investigações archeologicas ainda este anno (1876), em
    Alvaizerere, no antigo cemiterio e sitio chamado da _Igreja-Velha_, da
    qual já não existem nenhuns vestigios, descobrimos sepulturas d'esse
    feitio pertencentes ao seculo XI; o que nos fez conhecer a época da
    fundação da remota igreja, de que só se conservou o nome.

    N'essa época tambem costumavam collocar dentro do caixão dois vasos de
    barro, um com agua benta, e outro com brazas e incenso.

    Havia em muitos cemiterios, no seculo XII, além de uma cruz de pedra,
    uma columna ôca, ou pilar quadrado, no qual punham de noite uma lanterna
    em signal de veneração para o logar sagrado, e como indicação para que
    os transeuntes pudessem rezar pelo eterno descanço dos finados.

    Os tumulos em vulto ficavam collocados nas cryptas, ou nos porticos ou
    em capellas das igrejas, separados das paredes ou mettidos dentro de
    arcadas no grosso da construcção; e estas arcadas eram ornadas com
    diversas molduras proprias do estylo ao qual pertencia a época do
    tumulo:[42] porém, no seculo XIV, acompanhadas dos dois lados por
    contrafortes e pinaculos. Emquanto ao feitio do cofre sepulchral,
    imitaram a fórma quadrangular da decadencia romana. Os que eram
    construidos em marmore estavam decorados por arcadas ou baixos-relevos.
    A campa era composta de uma grande lagea horisontal, ou duas inclinadas,
    formando um angulo agudo, e ornada de arabescos. No final do seculo XII,
    começaram de empregar a fórma das campas com lados inclinados.

    Nos tres seculos seguintes, apresentavam a estatua do defunto deitada de
    costas sobre a tampa do sarcophago. Viam-se ás vezes o marido e a mulher
    ao lado um do outro, no mesmo tumulo.

    No museu de archeologia do Carmo, em Lisboa, ha um singular exemplo da
    estatua de uma pessoa real _deitada de ilharga_, que podemos considerar
    raro, porque ha só outro exemplo no jazigo real de S. Diniz, em França.

    Os reis e os fidalgos eram representados com os seus uniformes, os
    bispos e os abbades com as suas vestimentas sacerdotaes, com as mãos
    juntas, ou os braços cruzados no peito.[43]

    Os tumulos mais modestos da idade media, são os rasos, collocados nas
    igrejas e nos claustros. Os mais antigos datam do seculo XII. N'essas
    campas acham-se gravados em traços concavos, a effigie e o corpo inteiro
    do finado, com inscripção em latim; o mais notavel exemplo d'este genero
    existe em um claustro de Alcobaça, tendo a campa assente entre a porta
    da casa do capitulo e a galeria do claustro.[44]

    As pedras tumulares eram tambem ornadas de incrustações de cobre, e
    d'este género apparecera no anno de 1875 em Portugal metade de uma campa
    pertencente a um tumulo, o qual estava entaipado na parede da igreja de
    S. Domingos em Santarem: representava apenas as pernas de duas figuras
    de homem e outra de mulher, e uma pequena parte da inscripção já com
    falta de algumas letras.[45]

    Nas igrejas da Belgica ha grande numero de campas d'este genero com
    embutidos de metal.

    É de grande auxilio para a historia o estudo de taes tumulos,
    principalmente para se conhecer certos brazões e usos do vestuario na
    idade-media.

    *ARCHITECTURA CIVIL*

    As construcções destinadas aos conventos, aos hospitaes, palacios,
    mercados, pontes, ás casas particulares, constituem emfim a architectura
    civil. As construcções civis dos seculos XI e XII mostram no apparelho,
    na fórma das aberturas, molduras e ornamentações, que eram identicas das
    construcções religiosas.

    [Figura 148: Janellas de diversas construcções civis]

    As vergas das janellas de volta perfeita, e ás vezes de fórma recta,
    eram subdivididas em duas aberturas, como as usadas nas igrejas.

    Aos respiradouros das chaminés davam-lhes a fórma cylindrica na parte
    superior, ficando mais ou menos elevados.

    [Figura 149]

    A frente dos fogões no interior dos aposentos era sustentada com
    columnas e pilastras, ou arcos abatidos.

    *Edificios monasticos*

    As construcções civis mais importantes pertenciam ás casas religiosas. A
    sua architectura era simples e severa no seculo XI; porém no XII, o sem
    numero de legados destinados aos mosteiros facilitaram o emprego de
    quantias avultadas para a construcção de claustros e de casas de
    habitação. Existem ainda em Portugal, não obstante a destruição e
    abandono que se dá ha cincoenta annos n'esses edificios religiosos, como
    em Alcobaça, Santarem e Coimbra, bellos especimens da architectura
    monastica do seculo XII. Já dissemos [na pag. 116] que as abbadias
    haviam copiado as principaes distribuições das casas de campo, e das
    cidades usadas pelos romanos.

    [Figura 150: Plano d'uma abbadia do seculo XII (parte central)

    1, igreja. 3, sala capitular. 2, 4, 5, salas abobadadas, com os
    dormitorios em volta. 9, refeitorio. 11, salas de recepção. 12, pateo
    rodeado pela galeria do claustro.]

    O claustro representava o peristylo que os romanos tinham nas casas das
    cidades, sendo esta a parte reservada para a vida privada; tambem
    imitavam as officinas que cercavam a _villa urbana_, ou pateo principal
    d'essas _villas:_ o plano que apresentamos mostra as principaes
    disposições das casas que guarneciam o claustro.

    _Dormitorios_.–O dormitorio ficava quasi sempre contiguo ao claustro e
    em frente da igreja: esta sala não acontecia ficar parallela á galeria
    do claustro, mas estendia-se do norte ao sul ou do sul ao norte,
    conforme a posição do pateo do convento, relativamente ao logar occupado
    pela igreja.

    _Cosinhas_.–No seculo XII as cosinhas apresentavam em muitas abbadias a
    fórma redonda, octogona ou quadrada, formando uma casa em separado,
    posto que ficando sempre na proximidade do refeitorio. Estas cosinhas,
    de que ha bom exemplo em Alcobaça,[46] tinham em roda muitas fornalhas
    com chaminés, e cada uma d'ellas com uma columna ôca de pedra, que saía
    do telhado conico do edificio, no cimo do qual havia respiradouros em
    fórma de laternins, para darem saída ao fumo e estabelecer a ventilação.

    [Figura 151: Cosinha de Saint-Père (Chartres)]

    Será comprehendida esta construcção pela gravura acima, que representa
    as antigas cosinhas de Saint-Père de Chartres (França), de que já não ha
    vestigios.

    _Albergarias_.–As casas para hospedes, pois quasi todas as congregações
    religiosas exerciam franca hospitalidade, recebendo os viajantes de
    diversas procedencias, occupam em muitos mosteiros a parte occidental
    das casas claustraes. Na parte de fóra do claustro, encontrava-se a
    _area interior_, ou pateo interno, reservado para os leigos ou criados;
    a _area communis_, grande pateo onde as carretas circulavam para
    descarregarem os productos dos dizimos. Á roda d'este grande pateo
    estavam os celeiros, armazens e curraes. A _area communis_ comprehendia
    ainda a grande porta da entrada, _porta maior_, o pretorio onde se
    julgavam os delictos, a prisão, finalmente o pombal, o forno para cozer
    o pão, e n'alguns tambem o moinho.

    _Celleiros_.–Os celleiros, annexos á _area communis_, eram verdadeiros
    edificios monumentaes. Os carros entravam carregados com os cereaes por
    uma extremidade e saíam descarregados pela extremidade opposta.

    Os armazens e adegas eram tambem edificios bem construidos e vastos.

    *Mercados*

    Os mercados assimilhavam-se no seculo XI aos celleiros que eram formados
    de galerias em roda do recinto murado.

    *Hospicios*

    Os hospicios tinham bastante importancia em certas cidades. A principal
    parte do edificio continha o salão destinado aos viajantes, e as
    enfermarias para os doentes eram geralmente divididas em tres naves,
    ficando a nave central devolúta e as lateraes para as camas. Havia
    tambem hospicios com claustros, pouco mais ou menos como os dos
    conventos, emquanto ás disposições geraes.

    *Casas particulares*

    As casas particulares do seculo XII apresentavam, na frente principal,
    empenas, isto é, para o lado da rua mostravam a forma do telhado com
    duas aguas; as vergas das janellas eram geralmente de volta perfeita nas
    casas construidas de cantaria, e quadradas nas casas construidas de
    madeira, que eram mais usadas.

    [Figura 152: Plano do celleiro de Perrières]

    [Figura 153: Perfil longitudinal do celleiro de Perrières]

    *ARCHITECTURA MILITAR*

    As cidades que tinham sido antigamente fortificadas haviam conservado,
    pela maior parte, as muralhas e torres do recinto; porém a creação do
    novo systema da defensa feudal, deu origem a se construirem em muito
    maior numero os novos castellos, que fizeram mudar o aspecto guerreiro
    dos paizes desde o fim do seculo X até o XI.

    [Figura 154: Casa do seculo XII, em Chartres]

    No seculo XI os castellos compunham-se de duas partes: d'um pateo
    inferior e d'um segundo recinto, dentro do qual havia a torre ou o
    torreão, como fôra edificado o castello de Leiria.

    A extensão do pateo inferior, ou primeiro recinto, ficava proporcionado
    á importancia da praça fortificada.

    Muitos castellos do seculo XI não tinham senão trincheiras, defendidas
    por estacadas e fosso mais ou menos profundo.

    N'uma das extremidades do pateo, ás vezes até o centro, faziam uma
    construcção muito elevada e circular, ora artificial, ora aproveitando a
    altura natural, e sobre a qual estava firmado o torreão.

    [Figura 155]

    A gravura fará comprehender melhor a disposiçao d'um d'estes castellos,
    em mouchão, com estacaria. A torre quadrada, ou torreão firmava-se n'um
    mouchão B: o fosso _c c_ formava um circulo na base da eminencia e a
    separava do pateo C, ao centro do qual estava collocada. N'este pateo
    encontravam-se as construcções E E, que serviam de deposito de guerra, e
    cavallariças, ou habitações para o pessoal ao serviço do nobre
    proprietario do castello. As estacarias enterradas e muito unidas F F,
    formavam um cerrado solido defendido pelo fosso exterior G.

    Pode comparar-se este torreão, e na eminencia que lhe servia de base, á
    imitação mais ou menos alterada do _pretorio_ dos romanos.

    Os castellos, cuja construcção interior era de pedra, offerecem mais
    interesse que os antecedentes, quando conservam ainda alguns lanços de
    muralha no meio dos recintos. Os torreões de cantaria tinham quasi todos
    typos uniformes. O mais commum apresentava torre quadrada separada das
    outras edificações da praça, na qual ninguem entraria senão pela porta
    alta da muralha, correspondendo ao nivel do primeiro andar, e para esse
    fim era mister servir-se da ponte-levadiça, ou escada movel.

    [Figura 156: Plano do castello de Grimbosq]

    Algumas vezes o torreão ligava-se ás fortificações que cercavam o
    recinto fazendo de certo modo corpo com elle: então servia de torre de
    observação, e era mais alta que as outras construcções; não ficava por
    isso sem communicação, como podiamos demonstrar na construcção dos
    torreões de Leiria, Beja e Thomar.

    Todavia, no seculo XII, pelas modificações que se operaram tanto na
    architectura militar, como na religiosa, adoptaram para o torreão a
    fórma cylindrica ou polygonal, de preferencia á fórma quadrada; d'esta
    maneira é o torreão de Gisors. Em Portugal não existe nenhum com esta
    configuração.

    [Figura 157: Torreões do seculo XII]

    Esta parte antiga do castello de Gisors, ainda ao presente muito bem
    conservada, avulta no cimo de uma eminencia artificial, a sua muralha
    com contrafortes cinge a plata-forma disposta n'essa elevação. Ha uma
    torre polygonal mui alta que está em contacto com a muralha do recinto,
    fazendo frente para a parte da entrada do pequeno pateo, que talvez
    podesse ficar rodeado de aposentos, e no qual se notam ainda as ruinas
    de uma capella.

    [Figura 158: Muralha e torreão de Gisors, vistos de dois lados]

    [Figura 159: Torreão de Houdan]

    O torreão de Houdan apresenta quatro torres cylindricas ligadas ao corpo
    principal.

    [Figura 160: Plano do torreão d'Étampes]

    O torreão d'Étampes mostra-nos um typo _quadrilobular_ na maxima
    perfeição, isto é, quatro _lobulos_ eguaes com divisões symetricas.

    Estas diversas experiencias vieram a dar afinal na construcção da torre
    cylindrica que no fim dos seculos XII e XIII preferiram nos paizes do
    norte. Continuando comtudo a servirem-se, nos do sul, da fórma quadrada
    durante o seculo XIII, e no seguinte, como foi construido o castello de
    Leiria em Portugal.

    [Figura 161: Ruinas do torreão cylindrico de Néaufle (França)]

    Damos em primeiro logar o desenho do torreão cylindrico do estylo roman,
    pertencente ao castello de Laval, porque conserva ainda o remate do
    parapeito de madeira, como era então uso, ficando saliente na muralha, o
    que dava logar á guarnição poder percorrel-a sem perigo, e lançar os
    projectis sobre os sitiadores pelos intervallos do vigamento. Mui
    raramente poderá encontrar-se hoje uma torre d'este feitio, e talvez
    seja o unico exemplo que exista de época tão remota.

    [Figura 162: Torreão de Laval, rematado por uma cupula do madeira
    fazendo saliencia sobre a torre (As duas janellas são de construcção do
    seculo XVI)]

    CAPITULO IV

    *ERA OGIVAL*

    Grande revolução artistica se effectuou no fim do XII seculo, tanto pela
    applicação do arco descripto de tres centros, e o abandono da volta
    perfeita; como pelo novo systema de construcção e decoração, isto é,
    pela introducção do estylo ogival.

    Todavia, o estylo ogival não substituiu repentinamente o estylo roman; o
    emprego da ogiva só veio a ser commum no decurso do seculo XII, e depois
    de ter sido applicado conjunctamente á volta perfeita, que lhe era
    preferido. Esta época de transformação chama-se tambem de _transição_;
    teve por limite o seculo XIII: então o arco com tres centros foi
    geralmente empregado, e o estylo ogival completamente formado.

    [Figura 163: Duas ogivas encaixilhadas em um arco]

    Ainda edificaram igrejas no estylo roman em certas localidades, quando a
    architectura ogival dominava em outras. Comtudo, em algumas provincias
    do meio-dia, conservaram o estylo de transição durante o seculo XIII. As
    causas que determinaram a creação do estylo ogival são complexas. O arco
    de tres centros teve a sua origem em a necessidade de tornar mais
    solidas as novas fórmas de construcção.

    Já vimos como as abobadas se aperfeiçoaram pelo uso do encruzamento dos
    arcos. Encontraram logo em seguida ao emprego do arco descripto por dois
    centros, novo meio de diminuir o esforço das abobadas, e fazer convergir
    todo o peso d'ellas sobre os pontos em que havia os contrafortes. D'esta
    innovação derivou um sem numero de outras innovações, que produziram o
    estylo ogival tal como se observa nas construcções do XIII seculo.

    *ARCHITECTURA RELIGIOSA*

    *Forma das igrejas*

    Fizeram-se algumas modificações no plano das igrejas edificadas no XIII
    seculo; taes como o _côro_, _mais comprido_ que fôra antes; as naves
    lateraes, que se prolongavam em roda do santuario (capella-mór), ficaram
    depois aformoseadas com outras capellas, excepto quando as igrejas
    terminavam na curva da abside; e n'esse caso as naves limitavam-se aos
    dois lados do santuario.

    Em algumas das cathedraes de maior grandeza, as naves lateraes corriam
    em fórma de galeria, em logar de uma em roda do côro, como teve a Sé de
    Lisboa. Muitas vezes davam á capella central atrás do côro, maior
    extensão que ás outras que circundavam a nave, e a qual era consagrada a
    Nossa Senhora; todavia foi no seculo XIV que mais se generalisou esta
    disposição.

    Não se collocavam ainda no seculo XIII capellas nas naves lateraes, e se
    algumas cathedraes d'essa época apparecem com esta disposição, foram
    construidas nos seculos seguintes (XIV e XV).

    [Figura 164: Plano do côro da cathedral de Reims]

    As pequenas igrejas do seculo XIII apresentavam sempre um côro de fórma
    recta no fundo da nave.

    [Figura 165]

    Em algumas igrejas adoptaram na edificação, raras vezes, a fórma
    circular.

    Quando faziam radiar as capellas em roda da abside, não as collocavam
    então em as naves lateraes; pois as que existem d'este modo nas igrejas
    do seculo XIII, provieram d'uma addicção mui facil de se reconhecer.

    Em muitas partes do sul da França, nas igrejas de transição e do seculo
    XIII, e até nas maiores não apresentam naves lateraes, mostrando,
    emquanto ao plano, uma traça particular, da qual trataremos mais
    adiante. Este plano com uma só nave provém do estylo bysantino; pois a
    maior parte d'essas igrejas _com cupula_ não tinham naves lateraes e
    sómente a principal.

    [Figura 166: Arcos da cathedral de Bayeux]

    *Apparelhos*

    Desapparecendo as construcções com as pedras dispostas em escamas, e com
    o pequeno apparelho assim chamado, as pedras foram escolhidas com
    maiores dimensões e fórmas mais regulares.

    *Contrafortes*

    Os _contrafortes_ apparecem com maior sacada. Um rasgo ousado do novo
    estylo foi collocar _arcos-bolantes_, fig. 166 (A), sobre os
    contrafortes. Estes coroavam-se de _agulhas_ (C), e como os arcos iam
    neutralisar a esforço das abobadas no cimo das paredes; tambem se
    serviam d'elles para aqueductos dando o escoante ás aguas das chuvas,
    provenientes do telhado principal da igreja. As aguas eram encaminhadas
    por um canal cavado no extradoz do arco-bolante, depois lançadas fóra
    por canos salientes (B), que se chamam _gargulhas_.

    *Ornamentos*

    Já se não faziam folhas de fórma carnuda, adornadas de perolas e galões,
    nem ornamentos com feitios geometricos; como eram os arcos dentados nas
    ameias, os zig-zags, os rhombos. Principiaram então a imitar, no seculo
    XIII, os vegetaes indigenas, como mostram os seguintes especimens.

    [Figura 167: Florões]

    [Figura 168: Ornamentação vegetal do portal da igreja de Nossa Senhora
    de Trier]

    [Figura 169: Grinalda de rosas]

    [Figura 170: Ramos de rosas sobre um capitel]

    [Figura 171: Folhas de hera]

    *Columnas*

    As columnas mui delgadas e _enfeixadas_ formam um dos caracteres mais
    distinctos da architectura do seculo XIII. Esses fustes, esculpidos
    inteiriços na mesma pedra, apresentavam, não obstante, muitas vezes,
    faixas ou engrossamentos que os dividiam por partes eguaes. Em muitas
    igrejas, a primeira ordem era composta de grossas columnas cylindricas.
    As columnas enfeixadas occupavam os corpos superiores.

    [Figura 172: Grupo de columnas do seculo XIII]

    *Janellas*

    As janellas eram _estreitas_ e _esguias_: o seu extremo similhava ponta
    de lança; os inglezes deram-lhes o nome de _lancetas_;[47] viam-se
    muitas com bastante altura, e outras de acanhadas porporções, nos
    monumentos da mesma época.

    No meado seculo XIII já as janellas se alargaram e se subdividiram em
    muitas aberturas; o cimo da ogiva da empena pôde então ser ornado com um
    espelho ou _rosaceo_, R.

    As janellas circulares tambem com espelho, no seculo XIII, tiveram
    maiores dimensões, que no seculo precedente, e foram muito mais
    frequentemente empregadas, até nas igrejas ruraes.

    [Figura 173: Janellas com feitio de lancetas]

    [Figura 174: Janellas compostas de duas aberturas, tendo no cimo um
    espelho]

    No interior dos edificios que apresentam tres andares sobrepostos, a
    parte média é constantemente occupada pelas tribunas, formando um andar
    com a mesma largura que a arcaria inferior das naves lateraes, ou
    formando simples galeria. Estas galerias compunham-se unicamente de uma
    continuação de arcadas sustentadas por columnasinhas; os antiquarios
    inglezes chamam-lhes _triforium_; e designam, pelo contrario, com a
    denominação de _clerestory_, a correnteza das janellas que está superior
    ao _triforium_, e que effectivamente dão luz á nave principal; gravura
    da pag. 175 [fig. 176].

    [Figura 175]

    *Portas*

    As portas das egrejas, com as suas aberturas curvas, são ornadas de
    molduras com o feitio de tóros, e ás vezes tem representados diversos
    personagens em esculptura; nos lados ordinariamente vêem-se
    columnasinhas e estatuetas.

    [Figura 176]

    No tympano representavam o dia de Juizo; ou Christo, sem que o rodeassem
    os symbolos dos Evangelistas, segundo o costume do seculo XII; está o
    Christo com as mãos levantadas, tendo aos lados anjos, além de Nossa
    Senhora e S. João ajoelhados, como se lhe implorassem clemencia. Os
    anjos seguram a cruz, a corôa de espinhos, os cravos e a lança,
    instrumentos da Paixão.

    [Figura 177: Representação do Juizo Final sobre um tympano do seculo
    XIII]

    A resurreição dos mortos e a separação dos bons e dos maus, apparece
    representada por baixo do Tribunal Celeste.

    Nas igrejas dedicadas a Nossa Senhora, a imagem do Christo é reconhecida
    pela aureola sobre a cruz, e algumas vezes a corôa na cabeça da Mãe de
    Deus, como na igreja de Nossa Senhora de Trèves.

    Em alguns portaes estão passos da vida de Jesus Christo, de Nossa
    Senhora, sua morte, e enterro pelos Apostolos, e a sua Assumpção;
    differentes assumptos do Antigo Testamento, etc. Algumas vezes nos
    tympanos representavam Jesus Christo e sua Santissima Mãe, sentados em
    duas cadeiras quasi iguaes, o que nunca se vê quando o Salvador preside
    ao dia de Juizo.

  • Marilia de Dirceo

    Marilia de Dirceo

    Aproximadamente 21.475 palavras.

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    MARILIA DE DIRCEO.

    MARILIA DE DIRCEO.

    POR T.A.G.

    PRIMEIRA PARTE.

    LISBOA:

    Na Typ. de J.F.M. de Campos. 1824.

    MARILIA DE DIRCEO.

    LYRA I.

    Eu, Marilia, não sou algum vaqueiro,
    Que viva de guardar alheio gado,
    De tosco trato, de expressões grosseiro,
    Dos frios gelos, e dos sóes queimado.
    Tenho proprio casal, e nelle assisto;
    Dá-me vinho, legume, fruta, azeite,
    Das brancas ovelhinas tiro o leite,
    E mais as finas lãs, de que me visto.
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    Eu vi o meu semblante n'uma fonte,
    Dos annos inda não está cortado:
    Os Pastores, que habitão este monte,
    Respeitão o poder do meu cajado.
    Com tal destreza toco a sanfoninha,
    Que inveja até me tem o proprio Alceste:
    Ao som della concerto a voz celeste;
    Nem canto letra que não seja minha.
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    Mas tendo tantos dotes da ventura,
    Só aprêço lhes dou, gentil Pastora,
    Depois que o teu affecto me segura,
    Que queres do que tenho ser Senhora.
    He bom, minha Marilia, he bom ser dono
    De hum rebanho, que cubra monte, e prado
    Porém, gentil Pastora, o teu agrado
    Vale mais [~q] h[~u] rebanho, e mais [~q] h[~u] throno.
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    Os teus olhos espalhão luz divina,
    A quem a luz do Sol em vão se atreve:
    Papoila, ou rosa delicada, e fina,
    Te cobre as faces, que são côr da neve.
    Os teus cabellos são huns fios d'ouro;
    Teu lindo corpo balsamos vapora.
    Ah! não, não fez o Ceo, gentil Pastora,
    Para gloria de Amor igual Thesouro.
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    Leve-me a sementeira muito embora
    O rio sobre os campos levantado:
    Acabe, acabe a peste matadora,
    Sem deixar huma rez, o nedeo gado.
    Já destes bens, Marilia, não preciso:
    Nem me céga a paixão, que o mundo arrasta,
    Para viver feliz, Marilia, basta
    Que os olhos movas, e me dês hum riso.
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    Hirás a divertir-te na floresta,
    Sustentada, Marilia, no meu braço;
    Aqui descançarei a quente sésta,
    Dormindo num leve somno em teu regaço:
    Era quanto a luta jogão os Pastores,
    E emparelhados correm nas campinas,
    Toucarei teus cabellos de boninas,
    Nos troncos gravarei os teus louvores.
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    Depois que nos ferir a mão da Morte
    Ou seja neste monte, ou n'outra serra,
    Nossos corpos terão, terão a sorte
    De consumir os dous a mesma terra.
    Na campa, rodeada de cyprestes,
    Leráõ estas palavras os Pastores:
    "Quem quizer ser feliz nos seus amores,
    Siga os exemplos que nos derão estes"
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    LYRA II.

    Pintão, Marilia, os Poetas
    A hum menino vendado,
    Com huma aljava de settas,
    Arco empunhado na mão:
    Ligeiras azas nos hombros,
    O tenro corpo despido;
    E de Amor, ou de Cupido
    São os nomes que lhe dão.

    Porém eu, Marilia, nego,
    Que assim seja Amor; pois elle
    Nem he moço, nem he cégo,
    Nem settas, nem azas tem,
    Ora pois, eu vou formar-lhe
    Hum retrato mais perfeito,
    Que elle já ferio meu peito;
    Por isso o conheço bem.

    Os seus compridos cabellos;
    Que sobre as costas ondeão,
    São que os de Apollo mais bellos;
    Mas de loura côr não são.
    Tem a côr da negra noite;
    E com o branco do rosto
    Fazem, Marilia, hum composto
    Da mais formosa união.

    Tem redonda, e lisa testa;
    Arqueadas sobrancelhas;
    A voz meiga, a vista honesta,
    E seus olhos são huns sóes,
    Aqui vence Amor ao Ceo,
    Que no dia luminoso
    O Ceo tem hum Sol formoso,
    E o travesso Amor tem dous.

    Na sua face mimosa,
    Marilia, estão misturadas
    Purpureas folhas de rosa,
    Brancas folhas de jasmim.
    Dos rubins mais preciosos
    Os seus beiços são formados;
    Os seus dentes delicados
    São pedaços de marfim.

    Mal vi seu rosto perfeito
    Dei logo hum suspiro, e elle
    Conheceo haver-me feito
    Estrago no coração.
    Punha em mim os olhos, quando
    Entendia eu não olhava:
    Vendo que o via, baixava
    A modesta vista ao chão.

    Chamei-lhe hum dia formoso;
    Elle ouvindo os seus louvores
    Com hum modo desdenhoso,
    Se surrio, e não fallou.
    Pintei-lhe outra vez o estado,
    Em que estava esta alma posta;
    Não me deo tambem resposta,
    Constrangeo-se, e suspirou.

    Conheço os signaes, e logo
    Animado da esperança,
    Busco dar hum desaffogo
    Ao cansado coração.
    Pégo em seus dedos nevados,
    E querendo dar-lhe hum beijo,
    Cubrio-se todo de pejo,
    E fugio-me com a mão.

    Tu, Marilia, agora vendo
    De Amor o lindo retrato,
    Comtigo estarás dizendo,
    Que he este o retrato teu.
    Sim, Marilia, a copia he tua,
    Que Cupido he Deos supposto:
    Se ha Cupido he só teu rosto,
    Que elle foi quem me venceo.

    LYRA III.

    De amar, minha Marilia, a formosura
    Não se podem livrar humanos peitos.
    Adorão os Heróes, e os mesmos brutos
    Aos grilhões de Cupido estão sujeitos.
    Quem, Marilia, despreza huma belleza,
    A luz da razão precisa,
    E se tem discurso, pisa
    A Lei, que lhe ditou a Natureza.

    Cupido entrou no Ceo. O grande Jove
    Huma vez se mudou em chuva de ouro:
    Outras vezes tomou as varias fórmas
    De General de Thebas, velha, e touro,
    O proprio Deos da Guerra deshumano
    Não viveo de amor illeso;
    Quiz a Venus, e foi prezo
    Na rede, que lhe armou o Deos Vulcano.

    Se amar huma belleza se desculpa
    Em quem ao proprio Ceo, e terra move;
    Qual he a minha gloria, pois igualo,
    Ou excedo no amor ao mesmo Jove?
    Amou o Pai dos Deoses Soberano
    Hum semblante peregrino:
    Eu adoro o teu divino,
    O teu divino rosto, e sou humano.

    LYRA IV.

    Marilia, teus olhos
    São réos, e culpados,
    Que soffra, e que beije
    Os ferros pezados
    De injusto Senhor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Mal vi o teu rosto,
    O sangue gelou-se,
    A lingoa prendeo-se,
    Tremi, e mudou-se
    Das faces a côr.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    A vista furtiva,
    O risco imperfeito,
    Fizerão a chaga,
    Que abriste no peito
    Mais funda, e maior.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Dispuz-me a servir-te;
    Levava o teu gado
    Á fonte mais clara,
    Á vargem, e prado
    De relva melhor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Se vinha da herdade,
    Trazia nos ninhos
    As aves nascidas,
    Abrindo os biquinhos
    De fome ou temor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Se alguem te louvava
    De gosto me enchia;
    Mas sempre o ciume
    No rosto accendia
    Hum vivo calor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Se estavas alegre,
    Dirceo se alegrava;
    Se estavas sentida,
    Dirceo suspirava
    Á força da dor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Fallando com Laura,
    Marilia dizia;
    Surria-se aquella,
    E eu conhecia
    O erro de amor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Movida, Marilia,
    De tanta ternura,
    Nos braços me déste,
    Da tua fé pura
    Hum doce penhor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Tu mesma disseste
    Que tudo podia
    Mudar de figura;
    Mas nunca seria
    Teu peito traidor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Tu já te mudaste;
    E a Olaia frondoza,
    Aonde escreveste
    A jura horrorosa,
    Tem todo o vigor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Mas eu te desculpo,
    Que o fado tyranno
    Te obriga a deixar-me;
    Pois busca o meu damno
    Da sorte, que for.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    LYRA V.

    A caso são estes
    Os sitios formosos,
    Aonde passava
    Os annos gostosos?
    São estes os prados,
    Aonde brincava,
    Em quanto pastava
    O manso rebanho,
    Que Alceo me deixou?
    São estes os sitios?
    São estes; mas eu
    O mesmo não sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.

    Daquelle penhasco
    Hum rio cahia,
    Ao som do sussurro
    Que vezes dormia!
    Agora não cobrem
    Espumas nevadas
    As pedras quebradas:
    Parece que o rio
    O curso voltou.
    São estes os sitios?
    São estes; mas eu
    O mesmo não sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.

    Meus versos alegre
    Aqui repetia:
    O Eco as palavras
    Tres vezes dizia.
    Se chamo por elle
    Já não me responde;
    Parece se esconde,
    Cansado de dar-me
    Os ais que lhe dou.
    São estes os sitios?
    São estes; mas eu
    O mesmo não sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.
    Aqui hum regato
    Corria sereno,
    Por marg[~e]s cobertas
    De flores, e feno:
    Á esquerda se erguia
    Hum bosque fechado;
    E o tempo apressado,
    Que nada respeita,
    Já tudo mudou.
    São estes os sitios?
    São estes; mas eu
    O mesmo não sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.

    Mas como discorro?
    Acaso podia
    Já tudo mudar-se
    No espaço de hum dia?
    Existem as fontes,
    E os freixos copados;
    Dão flores os prados,
    E corre a cascata,
    Que nunca seccou.
    São estes os sitios?
    São estes; mas eu
    O mesmo não sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.

    Minha alma, que tinha
    Liberta a vontade,
    Agora já sente
    Amor, e saudade.
    Os sitios formosos,
    Que já me agradárão,
    Ah! não se mudárão!
    Mudárão-se os olhos,
    De triste que estou.
    São estes os sitios?
    São estes; mas eu
    O mesmo não sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.

    LYRA VI.

    Oh! quanto póde em nós a varia Estrella!
    Que diversos que são os genios nossos!
    Qual solta a branca vélla,
    E affronta sobre o pinho os mares grossos.
    Qual cinge com a malha o peito duro;
    E marchando na frente das cohortes,
    Faz a toare voar, cahir o muro.

    O sordido avarento em vão trabalha,
    Que possa o filho entrar no seu Thesouro.
    Aqui fechado estende
    Sobre a taboa, que verga, as barras de ouro.
    Sacode o jogador da copo os dados;
    E n'uma noite só, que ao somno rouba,
    Perde o resto dos bens do pai herdados.

    O que da voráz gulla o vicio adora
    Da lauta meza os prazeres fia.
    E o terno Alceste chora
    Ao som dos versos a que o genio o guia.
    O sabio Gallileo toma o compasso,
    E sem voar ao Ceo, calcula, e mede
    Das Estrellas, e Sol o immenso espaço.

    Em quanto pois, Marilia, a varia gente,
    Se deixa conduzir do proprio gosto;
    Passo as horas contente
    Notando as graças do teu lindo rosto.
    Sem cansar-me a saber se o Sol se móve,
    Ou se a terra voltea, assim conheço.
    Aonde chega a mão do grande Jove.

    Noto, gentil Marilia, os teus cabellos;
    E noto as faces de Jasmins, e rosas:
    Noto os teus olhos bellos;
    Os brancos dentes, e as feições mimosas.
    Quem fez huma obra tão perfeita, e linda,
    Minha bella Marilia, tambem póde
    Fazer os Ceos, e mais, se ha mais ainda.

    LYRA VII.

    Vou retratar a Marilia,
    A Marilia meus amores;
    Porém como, se eu não vejo
    Quem me empreste as finas cores!
    Dar-mas a terra não póde;
    Não que a sua côr mimosa
    Vence o lyrio, vence a rosa:
    O jasmim, e as outras flores.
    Ah soccorre, Amor, soccorre
    Ao mais grato empenho meu!
    Vôa sobre os Astros, vôa,
    Traze-me as tintas do Ceo.

    Mas não se esmoreça logo;
    Busquemos hum pouco mais;
    Nos mares talvez se encontrem
    Cores que sejão iguaes.
    Porém não, que em parallelo
    Da minha Ninfa adorada
    Perolas não valem nada,
    Não valem nada os coraes.
    Ah soccorre, Amor, soccorre
    Ao mais grato empenho meu!
    Vôa sobre os Astros, vôa,
    Traze-me as tintas do Ceo.

    Só no Ceo achar se podem
    Taes bellezas, como aquellas,
    Que Marilia tem nos olhos,
    E que tem nas faces bellas.
    Mas ás faces graciosas,
    Aos negros olhos, que matão,
    Não imitão, não retratão
    Nem Auroras, nem Estrellas.
    Ah soccorre, Amor, soccorre
    Ao mais grato empenho meu!
    Vôa sobre os Astros, vôa,
    Traz-me as tintas do Ceo.

    Entremos, Amor, entremos,
    Entremos na mesma Esfera.
    Venha Pallas, Venha Juno,
    Venha a Deosa de Cithera.
    Porém não, que se Marilia
    No certame antigo entrasse,
    Bem que a Paris não peitasse,
    A todas as tres vencera.
    Vai-te, Amor, em vão soccorres
    Ao mais grato empenho meu:
    Para formar-lhe o retrato
    Não bastão tintas do Ceo.

    LYRA VIII.

    Marilia, de que te queixas?
    De que te roube Dirceo
    O sincero coração?
    Não te deo tambem o seu?
    E tu, Marilia, primeiro
    Não lhe lançaste o grilhão?
    Todos amão: só Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Queria ter izenção?

    Em torno das castas pombas
    Não rulão ternos pombinhos?
    E rulão, Marilia, em vão?
    Não se afagão c'os biquinhos?
    E a provas de mais ternura
    Não os arrasta a paixão?
    Todos amão: só Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Queria, ter izenção?

    Já viste, minha Marilia,
    Avezinhas, que não fação
    Os seus ninhos no verão?
    Aquellas com quem se enlação
    Não vão cantar-lhe defronte
    Do molle pouzo em que estão?
    Todos amão: só Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Queria ter izenção?

    Se os peixes, Marilia, gerão
    Nos bravos mares, e rios,
    Tudo effeitos de Amor são.
    Amão os brutos impios,
    A serpente venenosa,
    A Onça, o Tigre, o Leão.
    Todos amão: só Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Queria ter izenção?

    As grandes Deosas do Ceo,
    Sentem a setta tyranna
    Da amorosa inclinação.
    Diana, com ser Diana,
    Não se abrasa, não suspira
    Pelo amor de Endymão?
    Todos amão: só Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Queria ter izençao?

    Desiste, Marilia bella,
    De huma queixa sustentada
    Só na altiva opinião.
    Esta chamma he inspirada
    Pelo Ceo; pois nella assenta
    A nossa conservação.
    Todos amão: só Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Não deve ter izenção.

    LYRA IX.

    Eu sou, gentil Marilia, eu sou captivo,
    Porém não me venceo a mão armada
    De ferro, e de furor:
    Huma alma sobre todas elevada
    Não cede a outra força que não seja
    Á tenra mão de Amor.

    Arrastem pois os outros muito embora
    Cadêas nas bigornas trabalhadas
    Com pezados martellos:
    Eu tenho as minhas mãos ao carro atadas
    Com duros ferros não, com fios d'ouro,
    Que são os teus cabellos.

    Occulto nos teus meigos vivos olhos
    Cupido a tudo faz tyranna guerra:
    Sacode a setta ardente;
    E sendo despedida cá da terra,
    As nuvens rompe, chega ao alto Impirio,
    E chega ainda quente.

    As abelhas nas azas suspendidas
    Tirão, Marilia, os succos saborosos
    Das orvalhadas flores:
    Pendentes dos teus beiços graciosos
    Ambrosias chupão, chupão mil feitiços
    Nunca fartos Amores.

    O vento quando parte em largas fitas
    As folhas, que menêa com brandura;
    A fonte crystallina,
    Que sobre as pedras cáe de immensa altura;
    Não fórma hum som tão doce, como fórma
    A tua voz divina.

    Em torno dos teus peitos, que palpitão;
    Exalão mil suspiros desvelados
    Enchames de desejos;
    Se encontrão os teus olhos descuidados,
    Por mais que se atropelem, voão, chegão,
    E dão furtivos beijos.

    O Cisne, quando corta o manso lago,
    Erguendo as brancas azas, e o pescoço;
    A Náo que ao longe passa,
    Quando o vento lhe infuna o panno grosso;
    O teu garbo não tem, minha Marilia,
    Não tem a tua graça.

    Estimem pois os mais a liberdade:
    Eu prézo o captiveiro: sim, nem chamo
    Á mão de Amor impia:
    Honro a virtude, e os teus dotes amo:
    Tambem o grande Achilles veste a saia
    Tambem Alcides fia.

    LYRA X.

    Se existe hum peito,
    Que izento viva
    Da chamma activa,
    Que accende Amor.
    Ah! não habite
    Neste montado;
    Fuja apressado
    Do vil traidor.

    Corra, que o Impio
    Aqui se esconde:
    Não sei aonde;
    Mas sei o que vi.
    Traz novas settas,
    Arco robusto;
    Tremi de susto;
    Em vão fugi.

    Eu vou mostrar-vos,
    Tristes mortaes,
    Quantos signaes
    O Impio tem.
    Oh! como he justo,
    Que todo o humano
    Hum tal tyranno
    Conheça bem!

    No corpo ainda
    Menino existe:
    Mas quem resiste
    Ao braço seu?
    Ao negro Inferno
    Levou a guerra:
    Vencêo a terra,
    Vencêo o Ceo.

    Já mais se cobrem
    Seus membros bellos;
    E os seus cabellos
    Que lindos são!
    Vendados olhos,
    Que tudo alcanção,
    E já mais lanção
    A setta em vão.

    As suas faces
    São côr da neve;
    E a bocca breve
    Só rizos tem.
    Mas, ah! respira
    Negros venenos,
    Que nem ao menos
    Os olhos vem.

    Aljava grande
    Dependurada,
    Sempre atacada
    De bons farpões.
    Fere com estas
    Agudas lanças,
    Pombinhas mansas,
    Bravos leões.

    Se a setta falta
    Tem outra prompta,
    Que a dura ponta
    Já mais torcêo.
    Ninguem resiste
    Aos golpes della:
    Marilia bella
    Foi quem lha dêo.

    Ah! não sustente
    Dura peleija,
    O que deseja
    Ser vencedor.
    Fuja, e não olhe,
    Que só fugindo
    De hum rosto lindo,
    Se vence Amor.

    LYRA XI.

    Naõ toques, minha Musa, não, não toques
    Na sonorosa Lyra,
    Que ás almas, como a minha, namoradas
    Doces Canções inspira:
    Assopra no clarim, que apenas sôa
    Enche de assombro a terra;
    Naquelle, a cujo som cantou Homero,
    Cantou Virgilio a Guerra.

    Busquemos, ó Musa,
    Empreza maior;
    Deixemos as ternas
    Fadigas de Amor.

    Eu já não vejo as graças, de que fórma
    Cupido o seu thesouro:
    Vivos olhos, e faces côr da neve,
    Com crespos fios de ouro;
    Meus olhos só vem gramas, e loureiros;
    Vem carvalhos, e palmas;
    Vem os ramos honrosos, que destinguem
    As vencedoras almas.

    Busquemos, ó Musa,
    Empreza maior;
    Deixemos as ternas
    Fadigas de Amor.

    Cantemos o Heróe, que já no berço
    As Serpes despedaça;
    Que fere os Cácos, que destronca as Hidras,
    Mais os leões que abraça.
    Cantemos, se isto he pouco, a dura guerra
    Dos Tritães, e Tyféos,
    Que arrancão as montanhas, e atrevidos
    Levão armas aos Ceos.

    Busquemos, ó Musa,
    Empreza maior;
    Deixemos as ternas
    Fadigas de amor.

    Anima pois, ó Musa, o instrumento,
    Que a voz tambem levanto;
    Porém tu déste muito assima o ponto,
    Dirceo não póde tanto:
    Abaixa, minha Musa, o tom, que ergueste;
    Eu já, eu já te sigo.
    Mas, ah! vou a dizer _Heróe_, e _Guerra_,
    E só _Marilia_ digo.

    Deixemos, ó Musa,
    Empreza maior,
    Só posso seguir-te
    Cantando de Amor.

    Feres as cordas d'ouro? Ah! sim, agora
    Meu canto já se afina;
    E a huma voz, parece que ao som dellas
    Se faz tambem divina.
    O mesmo que cercou de muro a Thebas
    Não canta assim tão terno;
    Nem póde competir comigo aquelle,
    Que desce ao negro Inferno.

    Deixemos, ó Musa,
    Empreza maior,
    Só posso seguir-te
    Cantando de Amor.

    Mal repito _Marilia_, as doces aves
    Mostrão signaes de espanto,
    Erguem os collos, voltão as cabeças,
    Parão o ledo canto;
    Move-se o tronco, o vento se suspende
    Pasma o gado, e não come:
    Quanto podem meus versos! Quanto póde
    Só de Marilia o nome!

    Deixemos, ó Musa,
    Empreza maior;
    Só posso seguir-te
    Cantando de Amor.

    LYRA XII.

    Topei hum dia
    Ao Deos vendado,
    Que descuidado
    Não tinha as settas
    Na impia mão.
    Mal o conheço,
    Me sóbe logo
    Ao rosto o fogo,
    Que a raiva accende
    No coração.

    _Morre, Tyranno,
    Morre, inimigo_!
    Mal isto digo,
    Raivoso o apérto
    Nos braços meus.
    Tanto que o moço
    Sente apertar-se,
    Para salvar-se
    Tambem me aperta
    Nos braços seus.

    O leve corpo
    Ao ar levanto,
    Ah! e com quanto
    Impulso o trago
    Do ar ao chão!
    Poude suster-se
    A vez primeira;
    Mas á terceira
    Nos pés, que alarga,
    Se firma em vão.

    Mal o derrubo,
    Ferro aguçado
    No já cançado
    Peito, que arqueja,
    Mil golpes deo.
    Suou seu corpo;
    Tremêo gemendo;
    E á côr perdendo,
    Batêo as azas;
    Em fim morreo.

    Qual bravo Alcides,
    Que a hirsuta pelle
    Vestio daquelle
    Grenhoso bruto,
    A quem matou.
    Para que próve
    A empreza honrada,
    C'o a mão manchada
    Recolho as settas,
    Que me deixou.

    Ouvio Marilia
    Que Amor gritava,
    E como estava
    Vizinha ao sitio
    Valer-lhe vem.
    Mas quando chega
    Espavorida,
    Nem já de vida
    O féro monstro
    Indicio tem.

    Então Marilia,
    Que o vê de perto
    De pó cuberto,
    E todo involto
    No sangue seu;
    As mãos aperta
    No peito brando,
    E afflicta dando
    Hum ai, os olhos
    Levanta ao Ceo.

    Chega-se a elle
    Compadecida;
    Lava a ferida
    C'o pranto amargo,
    Que deramou.
    Então o monstro
    Dando hum suspiro,
    Fazendo hum gyro
    C'o a baça vista,
    Resuscitou.

    Respira a Deosa;
    E vem o gosto
    Fazer no rosto
    O mesmo effeito,
    Que fez a dôr.
    Que louca idéa
    Foi a que tive!
    Em quanto vive
    Marilia bella,
    Não morre Amor.

    LYRA XIII.

    Oh! quantos riscos,
    Marilia bella,
    Não atropella
    Quem cégo arrasta
    Grilhões de Amor!
    Hum peito forte,
    De acordo falto,
    Zomba do assalto
    Do vil traidor.

    O amante de Hero
    Da luz guiado,
    C'o peito ousado
    Na escura noite
    Rompia o mar,
    Se o Helesponto
    Se encapellava,
    Ah! não deixava
    De lhe ir fallar.

    Do cantor Thracio
    A heroicidade
    Esta verdade,
    Minha Marilia,
    Prova tambem.
    Cheio de esfôrço
    Vai ao Cocyto
    Buscar afflito
    Seu doce bem.

    Que acção tão grande
    Nunca intentada!
    Ao pé da entrada
    Já tudo assusta
    O coração!
    Pendentes rochas,
    Campos adustos,
    Que nem arbustos
    Nem hervas dão.

    Na funda fralda
    De calvo monte,
    Corre Acheronte,
    Rio de ardente
    Mortal licor.
    Tem o barqueiro
    Testa enrugada,
    Vista inflammada,
    Que mete horror.

    Que seguranças!
    Que fechaduras!
    As portas duras
    Não são de lenhos;
    De ferro são.
    Por tres gargantas,
    Quando alguem bate,
    Raivoso late
    O negro cão.

    Dentro da cova
    Soão lamentos;
    E que tormentos
    Não mostra aos olhos
    A escassa luz!
    Minos a pena
    Manda se intime
    Igual ao crime,
    Que alli conduz.

    Grande penedo
    Este carrega;
    E apenas chega
    Do monte ao cume,
    O faz rolar.
    A pedra sempre
    Ao valle desce,
    Sem que elle cesse
    De a ir buscar.

    Nas limpas aguas
    Habita aquelle:
    Por cima delle
    Verdejão ramos,
    Que pomos dão.
    Debalde a bocca
    Molhar pertende;
    De balde estende
    Faminta mão.

    Tem outro o peito
    Despedaçado:
    Monstro esfaimado
    Já mais descança
    De lho roêr.
    A rôxa carne,
    Que o abutre come,
    Não se consome,
    Torna a crescer.

    Mas bem que tudo
    Pavor inspira,
    Tocando a lyra
    Desce ao Averno
    O bom Cantor.
    Não se entorpece
    A lingua, e braço;
    Não treme o passo,
    Não perde a côr.

    Ah! tambem quanto
    Dirceo obrára,
    Se precisára,
    Marilia bella,
    Do esforço seu!
    Rompêra os mares
    C'o peito terno,
    Fôra ao Inferno,
    Subíra ao Ceo.

    Aos dois amantes
    De Thracia, e Abydo
    Não deo Cupido
    Do que aos mais todos
    Maior valor.
    Por seus vassallos
    Forças reparte,
    Como lhes parte
    Os gráos de Amor.

    LYRA XIV.

    Minha bella Marilia, tudo passa;
    A sorte deste mundo he mal segura;
    Se vem depois dos males a ventura,
    Vem depois dos prazeres a desgraça.
    Estão os mesmos Deoses
    Sujeitos ao poder do impio Fado:
    Apollo já fugio do Ceo brilhante,
    Já foi Pastor de gado.

    A devorante mão da negra Morte
    Acaba de roubar o bem, que temos;
    Até na triste campa não podemos
    Zombar do braço da inconstante sorte.
    Qual fica no sepulchro,
    Que seus a vós erguêrão, descançando:
    Qual no campo, e lhe arranca os frios casos
    Ferro do torto arado.

    Ah! em quanto os Destinos impiedosos
    Não voltão contra nós a face irada,
    Façamos, sim façamos, doce amada,
    Os nossos breves dias mais ditosos.
    Hum coração que frouxo
    A grata posse de seu bem difere,
    A si, Marilia, a si proprio rouba,
    E a si proprio fere.

    Ornemos nossas testas com as flores,
    E façamos de feno hum brando leito,
    Prendamo-nos, Marilia, em laço estreito,
    Gozemos do prazer de sãos Amores.
    Sobre as nossas cabeças,
    Sem que o possão deter, o tempo corre;
    E para nós o tempo, que se passa,
    Tambem, Marilia, morre.

    Com os annos, Marilia, o gôsto falta,
    E se entorpece o corpo já cançado;
    Triste o velho cordeiro está deitado,
    E o leve filho sempre alegre salta.
    A mesma formosura
    He dote, que só goza a mocidade:
    Rugão-se as faces, o cabello alveja,
    Mal chega a longa idade.

    Que havemos d'esperar, Marilia bella?
    Que vão passando os florecentes dias?
    As glorias, que vem tarde, já vem frias;
    E póde em fim mudar-se a nossa estrella.
    Ah! não, minha Marilia,
    Aproveite-se o tempo, antes que faça
    O estrago de roubar ao corpo as forças,
    E ao semblante a graça.

    LYRA XV.

    A minha bella Marilia
    Tem de seu hum bom thesouro,
    Não he, doce Alceo, formado
    Do buscado
    Metal louro.
    He feito de huns alvos dentes,
    He feito de huns olhos bellos,
    De humas faces graciosas,
    De crespos, finos cabellos;
    E de outras graças maiores,
    Que a natureza lhe dêo:
    Bens, que valem sobre a terra,
    E que tem valor no Ceo.

    Eu posso romper os montes,
    Dar ás correntes desvios,
    Pôr cercados espaçosos
    Nos caudosos
    Turvos rios.
    Posso emendar a ventura
    Ganhando astuto a riqueza;
    Mas, ah! charo Alceo, quem póde
    Ganhar huma só belleza
    Das bellezas, que Marilia
    No seu thesouro metêo?
    Bens, que valem sobre a terra,
    E que tem valor no Ceo.

    Da sorte, que vive o rico
    Entre o fausto alegremente,
    Vive o guardador de gado
    Apoucado,
    Mas contente.
    Beije pois torpe avarento
    As arcas de barras chêas:
    Eu não beijo os vís thesouros;
    Beijo as douradas cadêas,
    Beijo as settas, beijo as armas
    Com que o cego Amor vencêo:
    Bens, que valem sobre a terra,
    E que tem valor no Ceo.

    Ama Apollo o fero Marte,
    Ama, Alceo, o mesmo Jove:
    Não he, não, a vã riqueza,
    Sim belleza,
    Quem os move.
    Posto ao lado de Marilia
    Mais que mortal me contemplo:
    Deixo os bens, que aos homens cegão,
    Sigo dos Deoses o exemplo:
    Amo virtudes, e dotes;
    Amo em fim, prezado Alceo,
    Bens, que valem sobre a terra,
    E que tem valor no Ceo.

    LYRA XVI.

    Eu, Glauceste, não duvido
    Ser a tua Eulina amada
    Pastora formosa,
    Pastora engraçada.
    Vejo a sua côr de rosa,
    Vejo o seu olhar divino,
    Vejo os seus purpùreos beiços,
    Vejo o peito crystallino;
    Nem ha cousa, que assemelhe
    Ao crespo cabello louro.
    Ah! que a tua Eulina vale,
    Vale hum immenso thesouro!

    Ella vence muito, e muito
    Á laranjeira copada,
    Estando de flores,
    E frutos ornada.
    He, Glauceste, os teus Amores;
    E nem por outra Pastora,
    Que menos dotes tivera,
    Ou que menos bella fôra,
    O meu Glauceste cançára
    As divinas cordas de ouro.
    Ah! que a tua Eulina vale,
    Val hum immenso thesouro!

    Sim, Eulina he huma Deosa;
    Mas anîma a formosura
    De huma alma de féra,
    Ou inda mais dura.
    Ah! quando Alceo pondéra
    Que o seu Glauceste suspira,
    Perde, perde o soffrimento,
    E qual enfermo delira!
    Tenha embora brancas faces,
    Meigos olhos, fios de ouro,
    A tua Eulina não vale,
    Não vale immenso thesouro.

    O fuzil, que imita a cobra,
    Tambem aos olhos he bello;
    Mas quando alumêa,
    Tu tremes de velo.
    Que importa se mostre chêa
    De mil bellezas a ingrata?
    Não se julga formosura
    A formosura, que mata.
    Evita, Glauceste, evita
    O teu estrago, e desdouro;
    A tua Eulina não vale,
    Não vale immenso thesouro.

    A minha Marilia quanto
    Á natureza não deve!
    Tem divino rosto,
    E tem mãos de neve.
    Se mostro na face o gôsto,
    Ri-se Marilia contente:
    Se canto, canta comigo;
    E apenas triste me sente,
    Limpa os olhos com as tranças
    Do fino cabello louro.
    A minha Marilia vale,
    Vale hum immenso thesouro.

    LYRA XVII.

    Minha Marilia,
    Tu enfadada?
    Que mão ousada
    Perturbar póde
    A paz sagrada
    Do peito teu?

    Porém que muito
    Que irado esteja
    O teu semblante
    Tambem troveja
    O Claro Ceo.

    Eu sei, Marilia,
    Que outra Pastora
    A toda a hora,
    Em toda a parte,
    Céga namora
    Ao teu Pastor.

    Ha sempre fumo
    Aonde ha fogo;
    Assim, Marilia,
    Ha zelos, logo
    Que existe amor.

    Olha, Marilia,
    Na fonte pura
    A tua alvura,
    A tua bocca,
    E a compostura
    Das mais feições.
    Quem tem teu rosto,
    Ah! não receia,
    Que terno amante
    Solte a cadeia,
    Quebre os grilhões.

    Não anda Laura
    Nestas campinas
    Sem as boninas
    No seu cabello,
    Sem pelles finas
    No seu jubão.

    Porém que importa?
    O rico aceio
    Não dá, Marilia,
    Ao rosto feio
    A perfeição.

    LYRA XVIII.

    Não ves aquelle velho respeitavel,
    Que á moleta encostado,
    Apenas mal se move, e mal se arrasta?
    Oh quanto estrago não lhe fez o tempo?
    O tempo arrebatado,
    Que o mesmo bronze gasta.

    Enrugárão-se as faces, e perdêrão
    Seus olhos a viveza;
    Voltou-se o seu cabello em branca neve:
    Já lhe treme a cabeça, a mão, o queixo;
    Nem tem huma belleza
    Das bellezas que teve.

    Assim tambem serei, minha Marilia
    Daqui a poucos annos;
    Que o impio tempo para todos corre.
    Os dentes cahiráõ, e os meus cabellos.
    Ah! sentirei os damnos,
    Que evita só quem morre.

    Mas sempre passarei huma velhice
    Muito menos penoza.
    Não trarei a moleta carregada:
    Descançarei o já vergado corpo
    Na tua mão piedoza,
    Na tua mão nevada.

    As frias tardes em que negra nuvem
    Os chuveiros não lance,
    Irei comtigo ao prado florescente:
    Aqui me buscarás hum sitio ameno,
    Onde os membros descance,
    E ao brando Sol me aquente.

    Apenas me sentar, então movendo
    Os olhos por aquella
    Vistoza parte, que ficar fronteira;
    Apontando direi: _Alli fallámos,
    Alli, ó minha bella,
    Te vi a vez primeira_.

    Verteráõ os meus olhos duas fontes,
    Nascidas de alegria:
    Farão teus olhos ternos outro tanto:
    Então darei, Marilia, frios beijos,
    Na mão formosa, e pia,
    Que me limpar o pranto.

    Assim irá, Marilia, docemente
    Meu corpo supportando
    Do tempo deshumano a dura guerra.
    Contente morrerei, por ser Marilia
    Quem sentida chorando,
    Meus baços olhos cerra.

    LYRA XIX.

    Em quanto pasta alegre o manso gado,
    Minha bella Marilia, nos sentemos
    Á sombra deste cedro levantado.
    Hum pouco meditemos
    Na regular belleza,
    Que em tudo quanto vive, nos descobre
    A sabia Natureza.

    Attende, como aquella vaca preta
    O novilhino seu dos mais separa,
    E o lambe, em quanto chupa a liza teta.
    Attende mais, ó chara,
    Como a ruiva cadella
    Supporta que lhe morda o filho o corpo;
    E salte em cima della.

    Repara, como cheia de ternura
    Entre as azas ao filho essa ave aquenta:
    Como aquella esgravata a terra dura,
    E os seus assim sustenta;
    Como se encoleriza,
    E salta sem receio a todo o vulto,
    Que junto delles piza.

    Que gosto não terá a esposa amante
    Quando der ao filhinho o peito brando,
    E reflectir então no seu semblante!
    Quando, Marilia, quando
    Disser comigo: _he esta
    De teu querido pai a mesma barba,
    A mesma bocca, e testa_.

    Que gosto não terá a mãi, que toca,
    Quando o tem nos seus braços, c'o dedinho
    Nas faces graciosas, e na bocca
    Do innocente filhinho!
    Quando, Marilia bella,
    O tenro infante já com risos mudos
    Começa a conhecê-la!

    Que prazer não terão os pais ao verem
    Com as mãis hum dos filhos abraçados;
    Jogar outros a luta, outros correrem
    Nos cordeiros montados!
    Que estado de ventura!
    Que até naquillo, que de pezo serve,
    Inspira Amor doçura.

    LYRA XX.

    Em huma frondosa
    Roseira se abria
    Hum negro botão.
    Marilia adorada
    O pê lhe torcia
    Com a branca mão.

    Nas folhas viçosas
    Á abelha inraivada
    O corpo escondêo.
    Tocou-lhe Marilia,
    Na mão descuidada
    A fera mordêo.

    A penas lhe morde,
    Marilia gritando,
    C'o dedo fugio.
    Amor, que nos bosques
    Estava brincando,
    Aos ais acudio.

    Mal vio a rotura,
    E o sangue espargido,
    Que a Deoza mostrou;
    Rizonho beijando
    O dedo offendido,
    Assim lhe fallou.

    _Se tu for tão pouco
    O pranto desatas,
    Ah! dá-me attençaõ;
    E como daquelle,
    Que feres, e matas,
    Naõ tens compaixaõ_?

    LYRA XXI.

    Não sei, Marilia, que tenho,
    Depois que vi o teu rosto;
    Pois quanto não he Marilia,
    Já não posso ver com gosto.
    Noutra idade me alegrava,
    Até quando conversava
    Com o mais rude vaqueiro:
    Hoje, ó bella, me aborrece
    Inda o trato lizongeiro
    Do mais discreto pastor.
    Que effeitos são os que sinto!
    Serão effeitos de amor?

    Sáio da minha cabana
    Sem reparar no que faço;
    Busco o sitio aonde moras,
    Suspendo defronte o passo.
    Fito os olhos na janella,
    Aonde, Marilia bella,
    Tu chegas ao fim do dia;
    Se alguem passa, e te saúda,
    Bem que seja cortezia,
    Se accende na face a côr.
    Que effeitos são os que sinto!
    Serão effeitos de Amor?

    Se estou, Marilia, comtigo,
    Não tenho hum leve cuidado;
    Nem me lembra, se são horas
    De levar á fonte o gado.

    Se vivo de ti distante,
    Ao minuto, ao breve instante,
    Finge hum dia o meu desgosto:
    Já mais, Pastora, te vejo
    Que em teu semblante composto
    Não veja graça maior.
    Que effeitos são os que sinto!
    Serão effeitos de Amor?

    Aonde já com o juizo;
    Marilia, tão perturbado,
    Que no mesmo aberto sulco
    Metto de novo o arado.
    Aqui no centêo pégo,
    Noutra parte em vão o cégo:
    Se alguem comigo conversa,
    Ou não respondo, ou respondo
    Noutra coiza tão diversa,
    Que nexo tão tem menor.
    Que effeitos são os que sinto!
    Serão effeitos de Amor?

    Se geme o bufo agoureiro
    Só Marilia me desvella:
    Enche-se o peito de magoa,
    E não sei a causa della.
    Mal durmo, Marilia, sonho,
    Que féro leão medonho
    Te devora nos meus braços:
    Gella-se o sangue nas veias.
    E sólto do somno os laços
    Á força da immensa dor.
    Ah! que os effeitos que sinto
    Só são effeitos de Amor.

    LYRA XXII.

    Muito embora, Marilia, muito embora
    Outra belleza, que não seja a tua,
    Com a vermelha roda, a seis puxada,
    Faça tremer a rua.

    As paredes da salla aonde habita
    Adorne a seda, e o tremó dourado;
    Pendão largas cortinas, penda o lustre
    Do této apainelado.

    Tu não habitarás Palacios grandes,
    Nem andarás nos coches voadores;
    Porém terás hum Vate, que te preze,
    Que cance os teus louvores.

    O tempo não respeita a formosura;
    E da palida morte a mão tyranna
    Arraza os edificios dos Augustos,
    E arraza a vil choupana.

    Que bellezas, Marilia, florecerão
    De quem nem se quer temos a memoria?
    Só podem conservar hum nome eterno
    Os versos, ou a historia.

    Se não houvesse Tasso, nem Petrarcha,
    Por mais que qualquer dellas fosse linda,
    Já não sabia o mundo, se existirão
    Nem Laura, nem Clorinda.

    He melhor, minha bella, ser lembrada
    Por quantos hão de vir sabios humanos,
    Que ter urcos, ter coches, e thesouros,
    Que morrem com os annos.

    LYRA XXIII.

    N'um sitio ameno
    Cheio de rosas,
    De brancos lyrios,
    Murtas viçosas;

    Dos seus amores
    Na companhia
    Dirceo passava
    Alegre o dia.

    Em tom de graça,
    Ao terno amante
    Manda Marilia
    Que toque, e cante.

    Péga na lyra,
    Sem que a tempere,
    A voz levanta,
    E as cordas fere.

    C'os doces pontos
    A mão atina,
    E a voz iguala
    A voz divina.

    Ella, que teve
    De rir-se a idéa,
    Nem move os olhos
    De assombro chêa.

    Então Cupido
    Apparecendo,
    Á bella falla
    Assim dizendo:

    _Do teu amado
    A lyra fias,
    Só porque delle
    Zombando rias_?

    _Quando n'um peito
    Assento faço,
    Do peito subo
    Á lingoa, e braço_.

    _Nem creias que outro
    Estylo tome,
    Sendo eu o mestre,
    A acção teu nome_.

    LYRA XXIV.

    Encheo, minha Marilia, o grande Jove
    De immensos animaes de toda a especie
    As terras, mais os ares,
    O grande espaço dos salobros rios,
    Dos negros, fundos mares.
    Para sua defeza,
    A todos dêo as armas, que convinha;
    Á sabia Natureza.

    Dêo as azas aos passaros ligeiros;
    Dêo ao peixe escamoso as barbatanas:
    Dêo veneno á serpente,
    Ao membrudo Elefante a enorme tromba,
    E ao Javali o dente.
    Coube ao leão a garra:
    Com leve pé saltando o servo foge;
    E o bravo touro marra.

    Ao homem dêo as armas do discurso
    Que valem muito mais que as outras armas:
    Dêo-lhe dedos ligeiros,
    Que podem converter em seu serviço
    Os ferros, e os madeiros;
    Que tecem fortes laços,
    E forjão raios com que aos brutos cortão
    Os vôos, mais os passos.

    Ás timidas donzellas pertencerão
    Outras armas, que tem dobrada força:
    Dêo-lhes a Natureza
    Além do entendimento, além dos braços
    As armas da belleza.
    Só ella ao Ceo se atreve,
    Só ella mudar póde o gello em fogo,
    Mudar o fogo em neve.

    Eu vejo, eu vejo ser a formosura
    Quem arrancou da mão de Coriolano
    A cortadora espada.
    Vejo que foi de Helena o lindo rosto
    Quem pôz em campo armada
    Toda a força de Grecia.
    E quem tirou o Sceptro aos Reis de Roma,
    Só foi, só foi Lucrecia.

    Se podem lindos rostos, mal suspirão,
    O braço desarmar do mesmo Achilles;
    Se estes rostos irados
    Podem soprar o fogo da descordia
    Em póvos alliados;
    Hes arbitra da terra;
    Tu pódes dar, Marilia, a todo o mundo
    A paz, e a dura guerra.

    LYRA XXV.

    O cego Cupido hum dia
    Com os seus Genios fallava,
    Do modo que lhe restava
    De captivar a Dirceo.
    Depois de larga disputa,
    Hum dos Genios mais sagazes
    Este conselho lhe dêo:

    As settas mais aguçadas,
    Como se em roxa batessem,
    Dão nos seus peitos, e descem
    Todas quebradas ao chão.
    Só as graças de Marilia
    Podem vencer hum tão duro,
    Tão izento coração.

    A fortuna desta empreza
    Consiste em armar-se o laço,
    Sem que sinta ser o braço,
    Que lho prepara, de Amor.
    Que elle vive como as aves,
    Que já deixárão as pennas
    No visco do Caçador.

    Na força deste conselho
    O raivoso Deos socega,
    E á tropa a honra entrega
    De o fazer executar.
    Todos pertendem ganhá-la,
    Batem as azas ligeiros,
    E vão as armas buscar.

    Os primeiros se occultárão
    Da Deosa nos olhos bellos;
    Qual se enlaçou nos cabellos;
    Qual ás faces se prendêo.
    Hum amorinho cansado
    Cahio dos labios ao seio,
    E nos peitos se escondêo.

    Outro Genio mais astuto
    Este novo ardil alcança,
    Muda-se n'uma criança
    De divino parecer.
    Esconde as azas, e a venda;
    Esconde as settas, e quanto
    Póde dá-lo a conhecer.

    Ella que vê hum menino
    Todo de graças cuberto,
    Tão risonho, e tão esperto
    Alli sózinho brincar.
    A elle endireita os passos;
    Finge Amor ter medo, e a Deosa
    Mais se empenha em lhe pegar.

    Ella corria chamando;
    Elle fugia, e chorava:
    Assim forão onde estava
    O descuidado Pastor.
    Este, mal vio a belleza,
    E o gentil menino, entende
    A malicia do traidor.

    Põe as mãos sobre os ouvidos,
    Cerra os olhos, e constante
    Não quer ver o seu semblante,
    Não o quer ouvir fallar.
    Qual Ulysses n'outra idade
    Para illudir as Serêas
    Mandou tambores tocar.

    Cupido, que a empreza via,
    Julga o intento frustrado,
    E de raiva transportado
    O corpo no chão lançou.
    Traçou a lingoa nos dentes;
    Mettêo as unas no rosto,
    E os cabellos arrancou.

    O Genio, que se escondia
    Entre os peitos da Pastora,
    Erguêo a cabeça fóra,
    E o successo conhecêo.
    Deixa o socego em que estava,
    E vai ligeiro metter-se
    No peito do bom Dirceo.

    Apenas c'o brando peito
    Lhe tocou a neve fria,
    Com o calor que trazia
    Lhe abrazou o coração.
    Dá o Pastor hum suspiro,
    Abre os seus olhos, e sólta
    Do apertado ouvido a mão.

    Logo que virão os Genios
    Ao triste Pastor disposto
    Para ver o lindo rosto,
    Para as palavras ouvir.
    Cada hum as armas toma,
    Cada hum com ellas busca
    Seu terno peito ferir.

    Com os cabellos da Deosa
    Lhe fórma hum Cupido laços,
    Que lhe segurão os braços,
    Como se fossem grilhões.
    O Pastor já não resiste;
    Antes beija satisfeito
    As suas doces prizões.

    LYRA XXVI.

    O destro Cupido hum dia
    Extrahio mimosas cores
    De frescos lyros, e rosas,
    De jasmins, e de outras flores.

    Com as mais delgadas pennas
    Usa de huma, e de outra tinta,
    E nos angulos do cobre
    A quatro bellezas pinta.

    Por fazer pensar a todos
    No seu lizo centro escreve
    Hum letreiro, que pergunta:
    _Este espaço a quem se deve_?

    Venus, que vio a pintura,
    E lêo a letra engenhosa,
    Pôz por baixo: _Eu delle cedo;
    Dê-se a Marilia formosa_.

    LYRA XXVII.

    Alexandre, Marilia, qual o rio
    Que engrossando no Inverno tudo arraza;
    Na frente das cohortes
    Cérca, vence, abraza
    As Cidades mais fortes.
    Foi na gloria das armas o primeiro,
    Morrêo na flor dos annos, e já tinha
    Vencido o mundo inteiro.

    Mas este bom Soldado, cujo nome
    Não ha poder algum, que não abata,
    Foi, Marilia, sómente
    Hum ditozo pirata,
    Hum salteador valente.
    Se não tem huma fama baixa, e escura;
    Foi por se pôr ao lado da injustiça
    A insolente ventura.

    O grande Cesar, cujo nome vôa,
    Á sua mesma Patria a fé quebranta;
    Na mão a espada toma,
    Opprime-lhe a garganta,
    Dá Senhores a Roma.
    Consegue ser heróe por hum delicto;
    Se acaso não vencesse então seria
    Hum vil traidor proscripto.

    O ser heróe, Marilia, não consiste
    Em queimar os Imperios: move a guerra,
    Espalha o sangue humano,
    E despovoa a terra
    Tambem o máo tyranno.
    Consiste o ser heróe em viver justo:
    E tanto póde ser heróe o pobre,
    Como o maior Augusto.

    Eu he que sou heróe, Marilia bella,
    Seguindo da virtude a honroza estrada.
    Ganhei, ganhei hum throno.
    Ah! não manchei a espada,
    Não a roubei ao dono.
    Ergui-o no teu peito, e nos teus braços:
    E valem muito mais que o mundo inteiro
    Huns tão ditosos laços.

    Aos barbaros, injustos vencedores
    Atormentão remorsos, e cuidados;
    Nem descanção seguros
    Nos Palacios cercados
    De tropa, e de altos muros.
    E a quantos nos não mostra a sabia historia
    A quem mudou o fado em negro opprobrio
    A mal ganhada gloria?

    Eu vivo, minha bella, sim, eu vivo
    Nos braços do descanço, e mais do gosto:
    Quando estou acordado,
    Contemplo no teu rosto
    De graças adornado;
    Se durmo logo sonho, e alli te vejo.
    Ah! nem desperto, nem dormindo sóbe
    A mais o meu desejo.

    LYRA XXVIII.

    Cupido tirando
    Dos hombros a aljava,
    N'um campo de flores
    Contente brincava.

    E o corpo tenrinho
    Depois enfadado,
    Incauto reclina
    Na relva do prado.

    Marilia formosa,
    Que ao Deos conhecia,
    Occulta espreitava
    Quanto elle fazia.

    Mal julga que dorme
    Se chega contente,
    As armas lhe furta,
    E o Deos a não sente.

    Os Faunos, mal virão
    As armas roubadas,
    Sahirão das grutas
    Soltando rizadas.

    Acorda Cupido,
    E a causa sabendo,
    A quantos o insultão
    Responde, dizendo:

    _Temieis as settas
    Nas minhas mãos cruas?
    Vereis o que podem
    Agora nas suas_.

    LYRA XXIX.

    O tyranno Amor risonho
    Me apparece, e me convida
    Para que seu jugo acceite;
    E quer que eu passe em deleite
    O resto da triste vida.

    _O sonoro Anacreonte_
    (Astuto o moço dizia)
    _Já perto da morte estava,
    Inda de amores cantava;
    Por isso alegre vivia_.

    _Aos negros, duros pezares
    Não resiste hum peito fraco,
    Se Amor o não fortalece:
    O mesmo Jove carece
    De Cupido, e mais de Baccho_.

    Eu lhe respondo: _Perjuro
    Nada creio ao que dizes;
    Porque já te fui sujeito,
    Inda conservo no peito
    Estas frescas cicatrizes_.

    Amor, vendo que da offerta
    Algum apreço não faço,
    Me diz affoito que trate
    De ir com elle a combate
    Peito a peito, braço a braço.

    Vou buscar as minhas armas;
    Cinjo primeiro que tudo
    O brilhante arnêz, e á pressa
    Ponho hum elmo na cabeça,
    Tomo a lança, e o grosso escudo.

    Mal no Campo me apresento,
    Marilia (oh Ceos!) me apparece:
    Logo os olhos me fita,
    O meu coração palpita,
    A minha mão desfallece.

    Então me diz o tyranno:
    _Confessa louco o teu erro;
    Contra as armas da belleza
    Não vale a externa defeza.
    Dessa armadura de ferro_.

    LYRA XXX.

    Junto a huma clara fonte
    A mãi de Amor se sentou:
    Encostou na mão o rosto,
    No leve somno pegou.

    Cupido, que a vio de longe,
    Contente ao lugar corrêo;
    Cuidando que era Marilia
    Na face hum beijo lhe dêo.

    Acorda Venus irada:
    Amor a conhece; e então
    Da ousadia, que teve,
    Assim lhe pede o perdão:

    _Foi facil, ó Mãe formosa,
    Foi facil o engano meu;
    Que o semblante de Marilia
    He todo o semblante teu_.

    LYRA XXXI.

    Minha Marilia,
    Se tens belleza,
    Da natureza
    He hum favor.
    Mas se aos vindouros
    Teu nome passa,
    He só por graça
    Do Deos de amor,
    Que terno inflamma
    A mente, o peito
    Do teu Pastor.

    Em vão se virão
    Perlas mimosas,
    Jasmins, e rosas
    No rosto teu.
    Em vão terias
    Essas estrellas,
    E as tranças bellas
    Que o Ceo te dêo;
    Se em doce verso
    Não as cantasse
    O bom Dirceo.

    O voraz tempo
    Ligeiro corre:
    Com elle morre
    A perfeição.
    Essa, que o Egypto
    Sábia modera,
    De Marco impera
    No coração;
    Mas já Octavio
    Não sente a força
    Do seu grilhão.

    Ah! vem, ó bella,
    E o teu querido
    Ao Deos Cupido
    Louvores dar;
    Pois faz que todos
    Com igual sorte
    Do tempo, e morte
    Possão zombar:
    Tu por formosa,
    E elle, Marilia,
    Por te cantar.

    Mas ai! Marilia,
    Que de hum amante,
    Por mais que cante,
    Gloria não vem!
    Amor se pinta
    Menino, e cego:
    No doce emprêgo
    Do charo bem
    Não vê defeitos,
    E augmenta, quantas
    Bellezas tem.

    Nenhum dos Vates,
    Em teu conceito,
    Nutrio no peito
    Nescia paixão?
    Todas aquellas,
    Que vês cantadas,
    Forão dotadas
    De perfeição?
    Forão queridas;
    Porém formosas
    Talvez que não.

    Porém que importa
    Não valha nada
    Seres cantada
    Do teu Dirceo?
    Tu tens, Marilia,
    Cantor celeste;
    O meu Glauceste
    A voz ergueo;
    Irá teu nome
    Aos fins da Terra,
    E ao mesmo Ceo.

    Quando nas azas
    Do leve vento
    Ao Firmamento
    Teu nome for:
    Mostrando Jove
    Graça extremosa,
    Mudando a Esposa
    De inveja a côr;
    De todos ha-de,
    Voltando o rosto,
    Sorrir-se Amor.

    Ah! não se manche
    Teu brando peito
    Do vil defeito
    Da ingratidão:
    Os versos beija,
    Gentil Pastora,
    A penna adora,
    Respeita a mão,
    A mão discreta,
    Que te segura
    A duração.

    LYRA XXXII.

    N'uma noite socegado
    Velhos papeis revolvia,
    E por ver de que tratavão
    Hum por hum a todos lia.

    Erão copias emendadas
    De quantos versos melhores
    Eu compuz na tenra idade
    A meus diversos amores.

    Aqui leio justas queixas
    Contra a ventura formadas,
    Leio excessos mal acceitos,
    Doces promessas quebradas.

    Vendo sem razões tamanhas
    Eu exclamo transportado:
    _Que finezas tão mal feitas!
    Que tempo tão mal passado_!

    Junto pois n'hum grande monte
    Os soltos papeis, e logo,
    Porque reliquias não fiquem,
    Os intento pôr no fogo.

    Então vejo que o Deos cego
    Com semblante carregado
    Assim me falla, e crimina
    O meu intento acertado.

    _Queres queimar esses versos?
    Dize, Pastor attrevido,
    Essas Lyras não te forão
    Inspiradas por Cupido_?

    _Achas que de taes amores
    Não deve existir memoria?
    Sepultando esses triunfos,
    Não roubas a minha gloria_?

    Disse Amor; e mal se calla,
    Nos seus hombros a mão pondo,
    Com hum semblante sereno
    Assim á queixa respondo:

    _Depois, Amor, de me dares
    A minha Marilia bella,
    Devo guardar humas Lyras,
    Que não são em honra della_?

    _E que importa, Amor, que importa
    Que a estes papeis destrua;
    Se he tua esta maõ; que os rasga,
    Se a chamma, que os queima, he tua_?

    Apenas Amor me escuta
    Manda que os lance nas brazas;
    E ergue a chamma c'o vento,
    Que formou batendo as azas.

    LYRA XXXIII.

    Péga na lyra sonora,
    Péga meu charo Glauceste;
    E ferindo as cordas de ouro,
    Mostra aos rusticos Pastores
    A formosura celeste
    De Marilia, meus amores.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Que concurso, meu Glauceste,
    Que concurso tão ditoso!
    Tu és digno de cantares
    O seu semblante divino;
    E o teu canto sonoroso
    Tambem do seu rosto he dino.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Para pintares ao vivo
    As suas faces mimosas,
    A discreta Natureza
    Que providencia não teve!
    Creou no jardim as rosas,
    Fez o lyro, e fez a neve.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    A pintar as negras tranças
    Peço que mais te desvelles:
    Pinta chusmas de amorinhos
    Pelos seus fios trepando;
    Huns tecendo cordas delles,
    Outros com elles brincando.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Para pintares, Glauceste,
    Os seus beiços graciosos,
    Entre as flores tens o cravo,
    Entre as pedras a granada;
    E para os olhos formosos,
    A estrella da madrugada.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Mal retratares do rosto
    Quanto julgares preciso,
    Não dês a cópia por feita;
    Passa a outros dotes, passa,
    Pinta da vista, e do riso
    A modestia, mais a graça.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Pinta o garbo de seu rosto
    Com expressões delicadas;
    Os seus pés, quando passeão,
    Pizando ternos amores;
    E as mesmas plantas calcadas
    Brotando viçosas flores.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Pinta mais, prezado amigo,
    Hum terno amante beijando
    Suas douradas cadeias;
    E em doce pranto desfeito,
    Ao monte, e valle ensinando
    O nome, que tem no peito.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Nem suspendas o teu canto,
    Inda que, Pastor, se veja
    Que a minha bocca suspira,
    Que se banha em pranto o rosto;
    Que os outros chorão de inveja,
    E chora Dirceo de gosto.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    FIM DA 1.^a PARTE.

    MARILIA DE DIRCEO.

    POR T.A.G.

    SEGUNDA PARTE.

    LISBOA: 1824.

    Na Typ. de J.F.M. de Campos.

    MARILIA DE DIRCEO

    LYRA I.

    Já não cínjo de loiro a minha testa,
    Nem sonoras Canções o Deos me inspira:
    Ah! que nem me resta
    Huma já quebrada,
    Mal sonora Lyra!

    Mas neste mesmo estado em que me vejo,
    Pede, Marilia, Amor que vá cantar-te:
    Cumpro o seu desejo;
    E ao que resta supra
    A paixão, e a arte.

    A fumaça, Marilia, da candêa,
    Que a molhada parede ou çuja, ou pinta;
    Bem que tosca, e fêa,
    Agora me póde
    Ministrar a tinta.

    Aos mais preparos o discurso apronta:
    Elle me diz, que faça no pé de huma
    Má laranja ponta,
    E delle me sirva
    Em lugar de pluma.

    Perder as uteis horas não, não devo
    Verás, Marilia, huma idéa nova:
    Sim, eu já te escrevo,
    Do que esta alma dita
    Quanto amor approva.

    Quem vive no regaço da ventura,
    Nada obra em te adorar, que assombro faça:
    Mostra mais ternura
    Quem te estima, e morre
    Nas mãos da desgraça.

    Nesta cruel masmorra tenebrosa
    Ainda vendo estou teus olhos bellos,
    A testa formosa,
    Os dentes nevados,
    Os negros cabellos.

    Vejo, Marilia, sim, e vejo ainda
    A chusma dos Cupidos, que pendentes
    Dessa bôcca linda,
    Nos ares espalhão
    Suspiros ardentes.

    Se alguem me perguntar onde eu te vejo,
    Responderei–no peito–que huns Amores
    De casto desejo
    Aqui te pintárão,
    E são bons Pintores.

    Mal meus olhos te virão, ah! nessa hora
    Teu Retrato fizerão, e tão forte,
    Que entendo, que agora
    Só póde apagallo
    O pulso da Morte.

    Isto escrevia, quando, ó Céos, que pejo!
    Descubro a lêr-me os versos o Deos loiro.
    Ah! dá-lhes hum beijo,
    E diz-me que valem
    Mais que letras de oiro.

    LYRA II.

    Esprema a vil calumnia muito embora
    Entre as mãos denegridas, e insolentes
    Os venenos das plantas,
    E das bravas serpentes.

    Chovão raios e raios, no meu rosto
    Não has-de ver, Marilia, o modo escrito;
    O medo perturbado,
    Que infunde o vil delicto.

    Pódem muito conheço, pódem muito,
    As Furias infernaes, que Pluto move;
    Mas póde mais que todas
    Hum dedo só de Jove.

    Este Deos convertêo em flor mimosa;
    A quem seu nome derão, a Narciso,
    Fêz d' muitos os Astros,
    Qu' inda no Ceo diviso.

    Elle póde livrar-me das injurias
    Do nescio, do atrevido ingrato povo;
    Em nova flor mudar me,
    Mudar-me em Astro novo.

    Porém se os justos Céos por fins occultos
    Em tão tyranno mal me não soccorrem,
    Verás então, que os sabios,
    Bem como vivem, morrem.

    Eu tenho hum coração maior que o mundo.
    Tu, formosa Marilia, bem o sabes:
    Hum coração, e basta,
    Onde tu mesma cabes.

    LYRA III.

    Succede, Marilia bella,
    Á medonha noite o dia:
    A estação chuvosa e fria,
    Á quente secca estação.
    Muda-se a sorte dos tempos;
    Só a rainha sorte não?

    Os troncos, nas Primaveras,
    Brotão em flores viçosos;
    Nos Invernos escabrosos
    Largão as folhas no chão.
    Muda-se a sorte dos troncos;
    Só a minha sorte não?

    Aos brutos, Marilia, cortão
    Armadas redes os passos;
    Rompem depois os seus laços,
    Fogem da dura prisão.
    Muda-se a sorte dos brutos;
    Só a minha sorte não?

    Nenhum dos homens conserva
    Alegre sempre o seu rosto;
    Depois das penas vem gosto,
    Depois do gosto afflicção.
    Muda-se a sorte dos homens;
    Só a minha sorte não?

    Aos altos Deoses movêrão
    Soberbos Gigantes guerra;
    No mais tempo o Ceo, e a Terra
    Lhes tributa adoração.
    Muda-se a sorte dos Deoses;
    Só a minha sorte não?

    Hade, Marilia, mudar-se
    Do destino a inclemencia:
    Tenho por mim a innocencia,
    Tenho por mim a razão.
    Muda-se a sorte de tudo;
    Só a minha sorte não?

    O tempo, ó bella, que gasta
    Os troncos, pedras, e o cobre,
    O véo rompe, com que encobre
    Á verdade a vil traição.
    Muda-se a sorte de tudo;
    Só a minha sorte não?

    Qual eu sou verá o mundo,
    Mais me dará do que eu tinha,
    Tornarei a ver-te minha.
    Que feliz consolação!
    Não ha de tudo mudar-se,
    Só a minha sorte não.

    LYRA IV.

    Já, já me vai, Marilia, branquejando
    Loiro cabello, que circúla a testa.
    Este mesmo, que alveja, vai cahindo,
    E pouco já me resta.

    As faces vão perdendo as vivas côres,
    E vão-se sobre os ossos enrugando,
    Vai fugindo a viveza dos meus olhos;
    Tudo se vai mudando.

    Se quero levantar-me, as costas vergão;
    As forças dos meus membros já se gastão,
    Vou a dar pela casa huns curtos passos,
    Pesão-me os pés, e arrastão.

    Se algum dia me vires desta sorte,
    Vê que assim me não pôz a mão dos annos:
    Os trabalhos, Marilia, os sentimentos,
    Fazem os meus danos.

    Mal te vir me dará em poucos dias,
    A minha mocidade o doce gosto;
    Verás burnir-se a pelle, o corpo encher-se,
    Voltar a côr ao rosto.

    No calmoso Verão as plantas seccão,
    Na Primavera, que aos mortaes encanta,
    Apenas cahe do Ceo o fresco orvalho,
    Verdeja logo a planta.

    A doença deforma a quem padece;
    Mas logo que a doença fez seu termo,
    Torna, Marilia, a ser quem era d'antes,
    O definhado enfermo.

    Suppo[~e]-me qual doente, ou qual a planta,
    No meio da desgraça, que me altera:
    Eu tambem te supponho qual saude,
    Ou qual a Primavera.

    Se dão esses teus meigos, vivos olhos
    Aos mesmos Astros luz, e vida ás flores;
    Que effeitos não farão, em quem por elles
    Sempre morrêo de amores?

    LYRA V.

    Os mares, minha bella, não se movem;
    O brando Norte assopra, nem diviso
    Huma nuvem sequer na Esfera toda,
    O destro Nauta aqui não he preciso;
    Eu só conduzo a náo, eu só modéro
    Do seu governo a roda.

    Mas ah! que o Sul carrega, o mar se empolla,
    Rasga-se a véla, o mastaréo se parte!
    Qualquer varão prudente aqui já teme
    Não tenho a necessaria força, e arte.
    Corra o sabio Piloto, corra, e venha
    Reger o duro leme.

    Como succede á náo no mar, succede
    Aos homens na ventura, e na desgraça:
    Basta ao feliz não ter total demencia,
    Mas quem de venturoso a triste passa,
    Deve entregar o leme do discurso
    Nas mãos da sã prudencia.

    Todo o Ceo se cubrio, os raios chovem;
    E esta alma, em tanta pena consternada,
    Nem sabe aonde possa achar conforto.
    Ah, não, não tardes, vem, Marilia amada,
    Toma o leme da náo, marêa o panno,
    Vai-a salvar no porto.

    Mas ouço já de Amor as sabias vozes:
    Elle me diz que soffra se não morro;
    E perco então se morro huns doces laços.
    Não quero já, Marilia, mais soccorro,
    Oh ditoso soffrer, que lucrar póde
    A gloria dos teus braços.

    LYRA VI.

    De que te queixas,
    Lingua importuna?
    De que a Fortuna
    Roubar-te queira,
    O que te deu?
    Este foi sempre
    O genio seu.

    Levou, Marilia,
    A impia sorte
    Catoens á morte;
    Nem sepultura
    Lhes concedeu.
    Este foi sempre
    O genio seu.

    A outros muitos,
    Que vís nascêrão,
    Nem merecêrão,
    A grandes thronos
    A impia ergueu.
    Este foi sempre
    O genio seu.

    Espalha a cega
    Sobre os humanos
    Os bens, e os damnos;
    E a quem se devão
    Nunca escolheu.
    Este foi sempre
    O genio seu.

    A quanto he justo,
    Já mais se dobra;
    Nem igual obra
    C'os mesmos Deoses
    Do cáro Ceo.
    Este foi sempre
    O genio seu.

    Sóbe ao Ceo Venus
    N'hum carro ufano;
    E cahe Vulcano
    Da pura esfera,
    Em que nasceu.
    Este foi sempre
    O genio seu.

    Mas não me rouba,
    Bem que se mude,
    Honra, e virtude:
    Que o mais he della,
    Mas isto he meu.
    Este foi sempre
    O genio seu.

    LYRA VII.

    Meu prezado Glauceste,
    Se fazes o conceito,
    Que bem que réo abrigo
    A candida virtude no meu peito.
    Se julgas, digo, que mereço ainda
    Da tua mão soccorro;
    Ah! vem dar-m'o agora,
    Agora sim que morro.

    Não quero, que montado
    No Pegaso fogoso,
    Venhas com dura lança
    Ao monstro infame traspassar raivoso.
    Deixa que viva a perfida calumnia,
    E forge o meu tormento:
    Com menos, meu Glauceste,
    Com menos me contento.

    Toma a lyra doirada,
    E toca hum pouco nella:
    Levanta a vóz celeste
    Em parte que te escute a minha bella;
    Enche todo o contorno de alegria;
    Não soffras, que o desgosto
    Affogue em pranto amargo
    O seu divino rosto.

    Eu sei, eu sei, Glauceste,
    Que hum bom Cantor havia,
    Que os brutos amansava;
    Que os troncos, e os penedos attrahia.
    De outro destro Cantor tambem affirma;
    A sábia Antiguidade,
    Que as muralhas erguêra
    De huma grande Cidade.

    Orfeo as cordas fere;
    O som delgado, e terno
    Ao Rei Plutão abranda,
    E o deixa que penetre o fundo Averno.
    Ah, tu a nenhum cedes, nem Glauceste;
    Na lyra, e mais no canto:
    Podes fazer prodigios;
    Obrar ou mais, ou tanto.

    Levanta pois as vozes:
    Que mais, que mais esperas?
    Consola hum peito afflito;
    Que he menos inda, que domar as féras.
    Com isto me darás no meu tormento
    Hum doce lenitivo,
    Que em quanto a bella vive,
    Tambem, Glauceste, vivo.

    LYRA VIII.

    Eu vejo, ó minha bella, aquelle Numen,
    A quem o nome derão de Fortuna,
    Pega-me pelo braço,
    E com voz importuna
    Me diz que mova o passo;
    Que entre no grande Templo, em [~q] se encerra,
    Quanto o destino manda,
    Que ella obre sobre a terra.

    Que coizas portentosas nelle encontro!
    Eu vejo a pobre fundação de Roma,
    Vejo-a queimar Carthago;
    Vejo que as gentes doma;
    E vejo o seu estrago.
    Lá florece o poder do Assyrio Povo:
    Aqui os Medos crescem
    E os perde hum braço novo.

    Então me diz a Deosa: _E que pertendes?
    Todas estas Medalhas vêr agora?
    Ah! não, não sejas louco!
    Espaço de annos fôra
    Para isto ainda pouco.
    Deixo estranhos successos; vem comigo,
    Verás quanto inda deve
    Acontecer comtigo_.

    Levou-me aonde estava a minha historia,
    Que toda me explicou com medo, e arte.
    _Tirei-te libras de oiro_
    Me diz, _e quero dar-te
    Todo aquelle thesoiro.
    Não suspira por bens hum peito nobre_:
    Sevéro lhe respondo.
    _Vivo affeito a ser pobre_.

    Aqui me enruga a Deosa irada a testa;
    E fica sem fallar hum breve espaço.
    _Alegra, alegra o rosto_,
    Prosegue, _alli te faço
    Restituir o posto_.
    Respondo com ar de mofa, e tom sereno.
    _Conheço-te, Fortuna,
    Posso morrer pequeno_.

    _Aqui te dou_, me diz, _a tua amada_.
    Então me banho todo de alegria
    _Cuidei_, me torna a cega,
    _Que essa alma não queria
    Nem esta mesma entrega.
    He esse o bem_, respondo, _que me move;
    Mas este bem he santo,
    Vem só da mão de Jove_.

    Queria mais fallar; eu insoffrido
    Desta maneira rompo os seus accentos:
    _Basta, Fortuna, basta;
    Estes breves momentos
    Lá noutras coizas gasta;
    Da minha sorte nada mais contemplo_.
    E chamando Marilia
    Suspiro, e deixo o Templo.

    LYRA IX.

    A estas horas
    Eu procurava
    Os meus Amores;
    Tinhão-me inveja
    Os mais Pastores.

    A porta abria,
    Inda esfregando
    Os olhos bellos,
    Sem flor, nem fitta
    Nos seus cabellos:

    Ah! que assim mesmo
    Sem compostura,
    He mais formosa,
    Que a estrella d'alva;
    Que a fresca rosa.

    Mal eu a via,
    Hum ar mais leve,
    (Que doce effeito!)
    Já respirava
    Meu terno peito.

    Do cerco apenas
    Soltava o gado,
    Eu lhe amimava
    Aquella ovelha
    Que mais amava.

    Dava-lhe sempre
    No rio, e fonte,
    No prado, e selva,
    Agua mais clara,
    Mais branda relva.

    No cóllo a punha,
    Então brincando
    A mim a unia;
    Mil coizas ternas
    Aqui dizia.

    Marilia vendo
    Que eu só com ella
    He que fallava;
    Ria-se a furto,
    E disfarçava.

    Desta maneira
    Nos castos peitos,
    De dia, em dia
    A nossa chamma
    Mais se accendia.

    Ah! quantas vezes
    No chão sentado,
    Eu lhe lavrava
    As finas rócas,
    Em que fiava?

    Da mesma sorte
    Que á sua amada,
    Que está no ninho,
    Fronteiro canta
    O passarinho.

    Na quente sésta,
    Della defronte,
    Eu me entretinha
    Movendo o ferro
    Da sanfoninha.

    Ella por dar-me
    De ouvir o gosto,
    Mais se chegava:
    Então vaidoso
    Assim cantava:

    Não ha Pastora,
    Que chegar possa
    Á minha bella;
    Nem quem me iguale
    Tambem na estrella:

    Se Amor concede
    Que eu me recline
    No branco peito,
    Eu não invejo
    De Jove o leito:

    Ornão seu peito
    As sãs virtudes,
    Que nos namorão;
    No seu semblante
    As Graças morão.

    Assim vivia:
    Hoje em suspiros
    O canto mudo:
    Assim, Marilia,
    Se acaba tudo.

    LYRA X.

    Arde o velho barril, arde a cabeça,
    Em honra de João na larga rua;
    O credulo Mortal agora indaga,
    Qual seja a sorte sua?

    Eu não tenho alcaxofra, que á luz chegue,
    E nella orvalhe o Ceo de madrugada,
    Para ver se rebentão novas folhas,
    Aonde foi queimada.

    Tambem não tenho hum ovo, que despeje
    Dentro de hum cópo d'agua, e possa nella
    Fingir Palacios grandes, altas Torres,
    E huma Náo á véla.

    Mas, ah! em bem me lembre: eu tenho ouvido
    Que na boca hum bochecho d'agoa tome,
    E atráz de qualquer porta attento esteja,
    Até ouvir hum nome.

    Que o nome, que primeiro ouvir, he esse
    O nome, que ha de ter a minha amada:
    Pode verdade ser, se fôr mentira,
    Tambem não custa nada.

    Vou tudo executar, e de repente
    Ouvi dizer o nome de Filena:
    Despejo logo a boca: ah! não sei como
    Não morro alli de pena!

    Apparece Cupido: então soltando
    Em ar de zombaria huma risada.
    E que tal, me pergunta, esteve a peça?
    Não foi bem pregada?

    Eu já te disse, que Marilia he tua:
    Tu fazes do meu dito tanta conta,
    Que vais acreditar, o que te ensina
    Velha mulher já tonta.

    Humilde lhe respondo: quem debaixo
    Do açoite da Fortuna afflito geme,
    Nas mesmas coisas, que só são brinquedos,
    Se agoirão males, teme.

    LYRA XI.

    Se acaso não estou no fundo Averno
    Padece, ó minha bella, sim padece
    O peito amante, e terno,
    As afflições tyrannas, que os Preceitos
    Arbîtra Rhadamantho em justa pena
    Dos barbaros delictos.

    As Furias infernaes, rangendo os dentes
    Com a mão descarnada não me applicão
    As raivosas serpentes.
    Mas cercão-me outros monstros mais irados:
    Mordem-me sem cessar as bravas serpes
    De mil, e mil cuidados.

    Eu não gasto, Marilia, a vida toda
    Em lançar o penedo da montanha;
    Ou em mover a roda.
    Mas tenho ainda mais cruel tormento:
    Por coisas que me affligem, roda, e gyra
    Cançado pensamento.

    Com retorcidas unhas agarrado
    Ás tepidas entranhas não me come
    Hum abutre esfaimado.
    Mas sinto de outro monstro a crueldade:
    Devora o coração, que mal palpita,
    O abutre da saudade.

    Não vejo os pomos, nem as aguas vejo,
    Que de mim se retirão, quando busco
    Fartar o meu desejo;
    Mas quer, Marilia, o meu destino ingrato,
    Que lograr-te não possa, estando vendo
    Nesta alma o teu retrato.

    Estou no Inferno, estou, Marilia bella;
    E n'huma coisa só he mais humana
    A minha dura estrella:
    Huns não podem mover do Inferno os passos;
    Eu pertendo vôar, e vôar cedo
    Á gloria dos teus braços.

    LYRA XII.

    Ah, Marilia, que tormento
    Não tens de sentir saudosa!
    Não podem ver os teus olhos
    A campina deleitosa,
    Nem a tua mesma Aldêa,
    Que tyrannos não proponhão
    Á inda inquieta idéa
    Huma imagem de afflição.
    Mandarás aos surdos Deoses
    Novos suspiros em vão.

    Quando levares, Marilia,
    Teu ledo rebanho ao prado
    Tu dirás: aqui trazia
    Dirceo tambem o seu gado.
    Verás os sitios ditosos
    Onde, Marilia, te dava,
    Doces beijos amorosos
    Nos dedos da branca mão.
    Mandarás aos surdos Deoses
    Novos suspiros em vão.

    Quando á janella sahires
    Sem quereres, descuidada,
    Tu verás, Marilia, a minha
    E minha pobre morada.
    Tu dirás então comtigo:
    Alli Dirceo esperava
    Para me levar comsigo:
    E alli soffreo a prisão.
    Mandarás aos surdos Deoses
    Novos suspiros em vão.

    Quando vires igualmente
    Do caro Glauceste a choça,
    Onde alegre se juntavão
    Os pouco da escolha nossa,
    Pondo os olhos na varanda
    Tu dirás, de mágoa chêa:
    Todo o congresso alli anda,
    Só o meu Amado não.
    Mandarás aos surdos Deoses
    Novos suspiros em vão.

    Quando passar pela rua
    O meu companheiro honrado,
    Sem que me vejas com elle
    Caminhar emparelhado,
    Tu dirás: não foi tyranna
    Sómente comigo a sorte;
    Tambem cortou deshumana
    A mais fiel união.
    Mandarás aos surdos Deoses
    Novos suspiros em vão.

    N'uma masmorra mettido
    Eu não vejo imagens destas,
    Imagens, que são por certo
    A quem adora funestas.
    Mas se existem separadas
    Dos inchados rôxos olhos,
    Estão, que he mais, retratadas
    No fundo do coração.
    Tambem mando aos surdos Deoses
    Tristes suspiros em vão.

    LYRA XIII.

    Ves, Marilia, hum cordeiro
    De flores enramado,
    Como alegre caminha
    A ser sacrificado?
    O Povo para o Templo já concorre:
    A Pyra sacro-santa já se accende:
    O Ministro o fere, elle bala, e morre.

    Vês agora o novilho,
    A quem segura o laço:
    No chão as mãos especa:
    Nem quer mover hum passo:
    Não conhece que sahe de hum máo terreno;
    Que o forte pulso, que a seguir o arrasta,
    O conduz a viver n'um campo ameno.

    Ignora o bruto, como
    Lhe dispomos a sorte:
    Hum vai forçado á vida,
    Vai outro alegre á morte,
    Nós temos, minha bella, igual demencia:
    Não sabemos os fins, com que nos move
    A sábia, occulta Mão da Providencia.

    De Jacob ao bom filho
    Os máos matar quizerão:
    De conselho mudárão,
    Como escravo o vendêrão:
    José não corre a ser hum servo afflito:
    Vai subindo os degráos, por onde chega
    A ser hum quasi Rei no grande Egypto.

    Quem sabe se o Destino
    Hoje, ó bella, me prende,
    Só porque nisto de outros
    Mais damnos me defende?
    Póde inda raiar hum claro dia.
    Mas quer raie, quer não, ao Ceo adoro;
    E beijo a santa mão, que assim me guia.

    LYRA XIV.

    Alma digna de mil Avós Augustos!
    Tu sentes, tu soluças
    Ao ver cahir os justos;
    Honras as santas leis da Humanidade:
    E aos teus exemplos deve
    Gravar com letras de oiro no seu Templo
    A candida Amizade.

    Não he, não he de Heróe huma alma forte,
    Que vê com rosto enchuto
    No seu igual a morte.
    Não he tambem de Heróe hum peito duro,
    Que a sua gloria firma,
    Em que lhe não resiste ao ferro, e fogo,
    Nem legião, nem muro.

    Oh! quanto ousado Chefe me namora,
    Quando vê a cabeça
    Do bom Pompeo, e chora!
    He grande para mim, quem move os passos,
    E de Dario aos filhos,
    Que como escravos seus tratar podéra,
    Recebe nos seus braços.

    Se alcança Eneas, Capitão piedoso,
    Entre os Heróes do Mundo
    Hum nome glorioso,
    Não he, porque levanta huma cidade;
    He sim, porque nos hombros
    Salvou do incendio ao Pai a quem detinha
    A mão da branca idade.

    Ah! se ao meu contrario entre as chãmas vira;
    Eu mesmo, sim, da morte
    Aos hombros o remira:
    Inda por elle muito mais obrára:
    E se nada servisse,
    Fizera então, Amigo, o que fizeste,
    Gemêra, e suspirára.

    Oh! quanto são duraveis as cadêas
    De huma amizade, quando
    Se dão iguaes idéas!
    Se a pezar dos estorvos se sustinha
    Nossa união sincera,
    Foi por ser a minha alma igual á tua,
    E a tua igual á minha.

    Se, ó caro Amigo, te merece tanto,
    Lá lhe fica a sua alma,
    Limpa-lhe o terno pranto.
    De quem eu fallo, és tu, Marilia bella.
    Ah! sim, honrado Amigo,
    Se enxugar não poderes os seus olhos;
    Prantêa então com ella.

    LYRA XV.

    Eu, Marilia, não fui nenhum Vaqueiro;
    Fui honrado Pastor da tua Aldêa;
    Vestia finas lãns, e tinha sempre
    A minha chóça do preciso chêa.
    Tirarão-me o casal, e o manso gado,
    Nem tenho a que me encoste hum só cajado.

    Para ter, que te dar, he que eu queria
    De mór rebanho ainda ser o dono;
    Prezava o teu semblante, os teus cabellos
    Ainda muito mais que hum grande Throno.
    Agora que te offerte já não vejo
    Além de hum puro amor, de hum são desejo.

    Se o rio levantado me causava
    Levando a sementeira prejuiso,
    Eu alegre ficava apenas via
    Na tua breve boca hum ar de riso.
    Tudo agora perdi; nem tenho o gosto
    De ver-te ao menos compassivo o rosto.

    Propunha-me dormir no teu regaço
    As quentes horas da comprida sésta,
    Escrever teus louvores nos olmeiros,
    Toucar-te de papoilas na floresta.
    Julgou o justo Ceo, que não covinha
    Que a tanto gráo subisse a gloria minha.

    Ah, minha bella, se a Fortuna volta,
    Se o bem que já perdi alcanço, e provo;
    Por essas brancas mãos, por essas faces
    Te juro renascer hum homem novo;
    Romper a nuvem que os meus olhos cerra,
    Amar no Ceo a Jove, e ati na terra.

    Fiadas comprarei as ovelhinhas,
    Que pagarei dos poucos do meu ganho;
    E dentro em pouco tempo nos veremos
    Senhores outra vez de hum bom rebanho.
    Para o contagio lhe não dar sobeja
    Que as affague Marilia, ou só que as veja.

    Se não tivermos lans, e pelles finas,
    Podem mui bem cobrir as carnes nossas
    As pelles dos cordeiros mal cortidas,
    E os pannos feitos com as lans mais grossas.
    Mas ao menos será o teu vestido
    Por mãos de Amor, por minhas mãos cozido.

    Nós iremos pescar na quente sésta
    Com canas, e com cêstos os peixinhos:
    Nós iremos caçar nas manhãs frias
    Com a vara envisgada os passarinhos;
    Para nos divertir faremos quanto
    Reputa o varão sabio, honesto, e santo.

    Nas noites de serão nos sentaremos
    C'os filhos se os tivermos á fogueira;
    Entre as falsas historias, que contares,
    Lhes contarás a minha verdadeira:
    Pasmados te ouviráõ; eu entre tanto
    Ainda o rosto banharei de pranto.

    Quando passarmos juntos pela rua
    Nos mostraráõ c'o dedo os mais Pastores,
    Dizendo huns para os outros: olha os nossos
    Exemplos da desgraça, e sãos amores.
    Contentes viviremos desta sorte,
    Até que chegue a hum dos dois a morte.

    LYRA XVI.

    Vejo, Marilia,
    Que o nédeo gado
    Anda disperso
    No monte, e prado;
    Que assim succede
    Ao desgraçado,
    Que a perder chega
    O seu Pastor.
    Mas inda soffro
    A viva dôr.

    Tambem conheço,
    Que os Pegureiros,
    Que apascentavão
    Os meus cordeiros,
    Darão suspiros
    E verdadeiros;
    Porque perdêrão
    Hum pai no amor.
    Mas inda soffro
    A viva dôr.

    Eu mais alcanço;
    Que a minha herdade
    Estando eu prezo,
    Soffrer não ha-de
    Nem a charrua,
    E nem a grade;
    Que a mão lhe falta
    Do Lavrador.
    Mas inda soffro
    A viva dôr.

    Mas quando sobe
    Á minha idéa,
    Que tu ficaste
    Lá nessa Aldêa.
    De mil cuidados
    E mágoa cheia;
    Das paixões minhas
    Não sou senhor.
    Eu já não soffro
    A viva dôr.

    A quanto chega
    A pena forte!
    Peza-me a vida,
    Desejo a morte,
    A Jove accuso,
    Maldigo a sorte,
    Trato a Cupido
    Por hum traidor.
    Eu já não soffro
    A viva dôr.

    Mas este excesso
    Perdão merece,
    E delle Jove
    Se compadece;
    Que Jove, ó bella,
    Mui bem conhece,
    Aonde chega
    Paixão de amor.
    Eu já não soffro
    A viva dôr.

    LYRA XVII.

    Dirceo te deixa, ó bella,
    De padecer cançado:
    Frio suor já banha
    Seu rosto descórado;
    O sangue já não gyra pela vêa,
    Seus pulsos já não batem;
    E a clara luz dos olhos se bacêa:
    A lagrima sentida já lhe corre;
    Já pára a convulsão, suspira, e morre.

    Seu espirito chega
    Onde se pune o erro:
    Late o cão, e se lhe abrem
    Grossos portões de ferro.
    Aos severos Juizes se apresenta;
    E com sentidas vozes
    Toda a sua tragedia representa:
    Enche-se de ternura, e novo espanto
    O mesmo inexoravel Rhadamantho.

    Abre hum pasmado a boca,
    E a pedra não despede;
    Outro já não se lembra
    Da fome, e mais da sede:
    Descança o curvo bico, e a garra impia
    Negro abutre esfaimado:
    Nem a roca medonha a Parca fia,
    Até as mesmas Furias inclementes
    Deixão cahir das unhas as serpentes.

    Já votão os Juizes;
    E o Rei Plutão lhe ordena
    Deixe o sitio, em que ficão
    Almas dignas de pena.
    Já sahe do escuro Reino, e da memoria
    Lhe passa tudo quanto
    Ou póde dar-lhe mágoa, ou dar-lhe gloria.
    Só, bem que o gosto as turvas agoas tome,
    Inda, Marilia, inda diz teu nome.

    Entra já nos Elysios
    Campinas venturosas,
    Que mansos rios cortão,
    Que cobrem sempre as rosas.
    Escuta o canto das sonoras aves,
    E bebe as agoas puras,
    Que o mel, e de que o leite mais suaves.
    Aqui, diz elle, espero a minha bella,
    Aqui contente viverei com ella.

    Aqui… porém aonde
    Me leva a dôr activa?
    He illusão desta alma.
    Jove inda quer que eu viva.
    Eu devo sim gosar teus doces laços;
    E em paga dos meus males
    Devo morrer, Marilia, nos teus braços.
    Então eu passarei ao Reino amigo;
    E tu irás despois lá ter comigo.

    LYRA XVIII.

    Não mólho, Marilia,
    De pranto a masmorra
    Que o terno Cupido
    Não vôe, e não corra,
    A hilo apanhar.
    Estende-o nas azas
    Sobre elle suspira,
    Por fim se retira,
    E vai-to levar.

    Se o moço não mente,
    Aos tristes gemidos,
    Aos ais lastimosos
    Não guardes unidos,
    Marilia, c'os teus:
    As lagrimas nossas
    No seio amontôa
    Fórma azas, e vôa,
    Vai pô-las nos Ceos.

    A Deosa formosa,
    Que amava aos Troianos,
    Livra-los querendo
    De riscos, e damnos
    A Jove buscou.
    As aguas, que o rosto
    Da Deosa banhárão,
    A Jove abrandárão,
    E assim os salvou.

    Confia-te, ó bella,
    Confia-te em Jove;
    Ainda se abranda,
    Ainda se move
    Com ancias de amor.
    O pranto de Venus,
    Que obrou no Pai tanto,
    Não tem que o teu pranto
    Apreço maior.

    LYRA XIX.

    Nesta triste masmorra,
    De hum semivivo corpo sepultura,
    Inda, Marilia, adoro
    A tua formosura.
    Amor na minha idéa te retrata,
    Busca extremoso, que eu assim resista
    Á dôr immensa, que me cerca, e mata.

    Quando em meu mal pondero,
    Então mais vivamente te diviso:
    Vejo o teu rosto, e escuto
    A tua voz, e riso.
    Movo ligeiro para o vulto os passos:
    Eu beijo a tibia luz em vez de face;
    E aperto sobre o peito em vão os braços.

    Conheço a illusão minha;
    A violencia da mágoa não supporto;
    Foge-me a vista, e caio
    Não sei se vivo, ou morto.
    Enternece-se Amor de estrago tanto;
    Reclina-me no peito, e com mão terna
    Me limpa os olhos do salgado pranto.

    Despois que represento
    Por largo espaço a imagem de hum defunto,
    Movo os membros, suspiro,
    E onde estou pergunto.
    Conheço então que Amor me tem comsigo;
    Ergo a cabeça, que inda mal sustento,
    E com doente voz assim lhe digo.

    Se queres ser piedoso,
    Procura o sitio em que Marilia móra,
    Pinta-lhe o meu estrago,
    E vê, Amor, se chora.
    Se as lagrimas verter a dôr a arrasta,
    Huma dellas me traze sobre as pennas,
    E para allivio meu só isto basta.

    LYRA XX.

    E me visses com teus olhos
    Nesta masmorra mettido;
    De mil idéas funestas,
    E cuidados combatido:
    Qual seria, ó minha bella,
    Qual seria o teu pezar?

    Á força da dôr cedêra;
    E nem estaria vivo,
    Se o menino Deos vendado,
    Extremoso, e compassivo,
    Com o nome de Marilia
    Não me viesse animar.

    Deixo a cama ao romper d'alva;
    O meio dia tem dado,
    E o cabello inda flutua
    Pelas costas desgrenhado.
    Não tenho valor, não tenho;
    Nem para de mim cuidar.

    Diz-me Cupido: E Marilia;
    Não estima esse cabello?
    Se o deixas perder de todo
    Não se ha de enfadar ao vêllo?
    Suspiro pego no pente,
    Vou logo o cabello atar.

    Vem hum taboleiro entrando
    De varios manjares cheio,
    Põe-se na meza a toalha,
    E eu pensativo passeio:
    De todo o comer esfria,
    Sem nelle poder tocar.

    Eu entendo que matar-te,
    Diz Amor, te tens proposto;
    Fazes bem: terá Marilia
    Desgosto sobre desgosto.
    Qual enfermo c'o remedio
    Me afflijo, mas vou jantar.

    Chegão as horas Marilia,
    Em que o Sol já se tem posto,
    Vem-me á memoria que nellas
    Via á janella o teu rosto:
    Reclino na mão a face
    E entro de novo a chorar.

    Diz-me Cupido: Já basta,
    Já basta, Dirceo, de pranto;
    Em obsequio de Marilia
    Vai erguer teu doce canto.
    Pendem as fontes dos olhos,
    Mas eu sempre vou cantar.

    Vem o Forçado accender-me
    A velha çuja candêa;
    Fica, Marilia, a masmorra
    Inda mais triste, e mais fêa.
    Nem mais canto, nem mais posso
    Huma só palavra dar.

    Diz-me Cupido: São horas
    De escrever-se o que está feito;
    Do azeite, e da fumaça
    Huma nova tinta ageito,
    Tomo o páo, que penna finge,
    Vou as Lyras copiar.

    Sem que chegue o leve sono
    Canta o Gallo a vez terceira;
    Eu digo ao Amor; que fico
    Sem deitar-me a noite inteira:
    Faço mimos, e promessas
    Para elle me acompanhar.

    Elle diz que em dormir cuide,
    Que hei-de ver Marilia em sonho;
    Não respondo huma palavra,
    A dura cama componho,
    Apago a triste candêa,
    E vou-me logo deitar.

    Como póde a taes cuidados
    Risistir, ó minha Bella,
    Quem não tem de Amor a graça?
    Se eu que vivo á sombra della
    Inda vivo desta sorte,
    Sempre triste a suspirar?

    LYRA XXI.

    Que diversas que são, Marilia, as horas
    Que passo na masmorra immunda, e fêa,
    Dessas horas felizes, já passadas
    Na tua patria Aldêa.

    Então eu me ajuntava com Glauceste;
    E á sombra de alto Cédro na Campina
    Eu versos te compunha, e elle os compunha
    Á sua cara Eulina.

    Cada qual o seu canto aos Astros leva;
    De exceder hum ao outro qualquer trata
    O ecco agora diz: _Marilia terna_;
    E logo: _Eulina ingrata_.

    Deixão os mesmos Sátyros as grutas:
    Hum para nós ligeiro move os passos;
    Ouve-nos de mais perto, e faz a flauta
    C'os pés em mil pedaços.

    Dirceo (clama hum Pastor,) ah! bem merece
    Da ternissima Marilia a formosura.
    E aonde, clama o outro, quer Eulina
    Achar maior ventura?

    Nenhum Pastor cuidava do rebanho,
    Em quanto em nós durava esta porfia.
    E ella, ó minha amada, só findava
    Depois de acabar-se o dia.

    Á noite te escrevia na cabana
    Os versos, que de tarde havia feito;
    Mal tos dava, e os lias, os guardavas
    No casto, e branco peito.

    Beijando os dedos dessa mão formosa,
    Banhados com as lagrimas do gosto,
    Jurava não cantar mais outras graças
    Que as graças do teu rosto.

    Ainda não quebrei o juramento.
    Eu agora, Marilia, não as canto;
    Mas inda vale mais que os doces versos
    A voz do triste pranto.

    LYRA XXII.

    Por morto, Marilia,
    Aqui me reputo:
    Mil vezes escuto
    O som do arrastado,
    E duro grilhão.
    Mas, ah! que não treme,
    Não treme de susto
    O meu coração.

    A chave lá sôa
    Na porta segura:
    Abre-se a escura,
    Infame masmorra
    Da minha prizão.
    Mas, ah! que não treme;
    Não treme de susto
    O meu coração.

    Eu vejo, Marilia,
    A mil innocentes
    Nas Cruzes pendentes,
    Por falsos delictos,
    Que os homens lhes dão.
    Mas, ah! que não treme,
    Não treme de susto
    O meu coração.

    Se penso que posso
    Perder o gozar-te
    A gloria de dar-te
    Abraços honestos,
    E beijos na mão.
    Marilia, já treme,
    Já treme de susto
    O meu coração.

    Repára, Marilia,
    O quanto he mais forte
    Ainda que a morte,
    N'um peito esforçado
    De amor a paixão.
    Marilia, já treme,
    Já treme de susto
    O meu coração.

    LYRA XXIII.

    Não praguejes, Marilia, não praguejes
    A justiceira mão que lança os ferros:
    Não traz de balde a vingadora espada;
    Deve punir os erros.

    Virtudes de Juiz, virtudes de homem
    As mãos se derão, e em seu peito morão.
    Mandão prender ao Réo austera a boca,
    Porém seus olhos chorão.

    Se á innocencia denigre a vil calumnia
    Que culpa aquelle tem que applica a penna.
    Não he o Julgador, he o processo,
    E a lei quem nos condemna.

    Só no Averno os Juizes não recebem
    Accusação, nem prova de outro humano;
    Aqui todos confessão suas culpas,
    Não póde haver engano.

    Eu vejo as Furias affligindo aos tristes:
    Huma o fogo chega, outra as serpes move;
    Todos maldizem sim a sua estrella,
    Nenhum accusa a Jove.

    Eu tambem inda adoro ao grande Chefe,
    Bem que a prizão me dá que eu não mereço.
    Qual eu sou, minha bella, não me trata,
    Trata-me qual pareço.

    Quem suspira, Marilia, quando pune
    Ao vassallo que julga delinquente;
    Que gosto não terá podendo dar-lhe
    As honras de innocente?

    LYRA XXIV.

    Eu vou, Marilia, vou brigar co' as feras:
    Huma soltárão, eu lhe sinto os passos,
    Aqui aqui a espero
    Nestes despidos braços.
    He hum malhado tigre; a mim já corre,
    Ao peito o aperto, estalão-lhe as costelas,
    Desfallece, cahe, urra, treme, e morre.

    Vem agora hum Leão: sacode a grenha,
    Com faminta paixão a mim se lança;
    Venha embora, que o pulso
    Ainda não se cança.
    Opprimo-lhe a garganta, a lingua estira,
    O corpo lhe fraquêa, os olhos inchão,
    Açoita o chão convulso, arqueja, e espira.

    Mas que vejo, Marilia! tu te assustas?
    Entendes que os destinos inhumanos
    Expoem a minha vida
    No cêrco dos Romanos?
    Com ursos, e com onças eu não luto.
    Luto c'o bravo monstro que me accusa;
    Que os tigres, e leões mais féro, e bruto.

    Embora contra mim raivoso esgrima
    Da vil calumnia a cortadora espada;
    Huma alma, qual eu tenho,
    Não se recêa a nada.
    Eu hei-de, sim, punir-lhe a insolencia,
    Pizar-lhe o negro cóllo, abrir-lhe o peito
    Co' as armas invenciveis da innocencia.

    Ah, quando imaginar, que vingativo
    Mando que desça ao Tartaro profundo
    Hei-de com mão honrada
    Erguer-lhe o corpo immundo.
    Eu então lhe direi: Infame, indîno,
    Obras como costuma o vil humano;
    Faço o que faz hum coraçao divino.

    LYRA XXV.

    Minha Marilia,
    O passarinho,
    A quem roubárão
    Ovos, e ninho,
    Mil vezes pousa
    No seu raminho,
    Piando finge
    Que anda a chorar.
    Mas logo vôa
    Pela espessura,
    Nem mais procura
    Este lugar.

    Se acaso a vacca
    Perde a vitéla,
    Tambem nos mostra,
    Que se desvéla,
    O pasto deixa,
    Muge por ella,
    Até na estrada
    A vem buscar.
    Em poucos dias,
    Ao que parece,
    Della se esquece,
    E vai pastar.

    O voraz Tempo,
    Que o ferro come,
    Que aos mesmos Reinos
    Devora o nome,
    Tambem, Marilia,
    Tambem consome
    Dentro do peito
    Qualquer pezar.
    Ah só não póde
    Ao meu tormento
    Por hum momento
    Allivio dar.

    Tambem, ó bella,
    Não ha quem viva
    Instantes breves
    Na chamma activa;
    Derrete ao bronze
    Sendo excessiva
    Ao mesmo seixo
    Faz estalar.
    Mas do amianto
    A fêbra dura
    Na chamma atura
    Sem se queimar.

    Tambem, Marilia,
    Não ha quem negue,
    Que bem que o fogo
    Nos oleos pegue,
    Que bem que em lingoas
    Ás nuvens chegue,
    Á força d'agoa
    Se ha de apagar.
    Se a negra pedra
    Nós accendemos,
    Com agoa a vemos
    Mais s'inflammar.

    O meu discurso,
    Marilia, he resto:
    A pena iguala
    Ao meu affecto.
    O amor que nutro
    Ao teu aspecto,
    E o teu semblante
    He singular.
    Ah! nem o tempo,
    Nem inda a morte
    A dôr tão forte
    Pode acabar.

    LYRA XXVI.

    Aquelle, a quem fêz cégo a Natureza,
    C'o bordão apalpa, e aos que vem pergunta;
    Ainda se despenha muitas vezes,
    E dois remedios junta.

    De ser céga a Fortuna eu não me queixo;
    Sim me queixo de que má céga seja
    Céga que nem pergunta, nem apalpa,
    He porque errar deseja.

    A quem gastar não sabe, nem se anima,
    Entrega as grossas chaves de hum thesoiro;
    E lança na miseria a quem conhece
    Para que serve o oiro.

    A quem fere, a quem rouba, a infame deixa
    Que a traz do vicio em liberdade corra,
    Eu honro as leis do Imperio, ella me opprime
    N'esta vil masmorra.

    Mas ah! minha Marilia, que esta queixa
    Co' a sólida razão se não coaduna,
    Como me queixo da Fortuna tanto,
    Se sei não ha Fortuna?

    Os Fados, os Destinos, essa Deosa
    Que os Sábios fingem que huma roda move
    He só a occulta mão da Providencia,
    A sábia mão de Jove.

    Nós he que somos cegos, que não vemos;
    A que fins nos conduz por estes modos;
    Por torcidas estradas, ruins varedas
    Caminha ao bem de todos.

    Alegre-se o perverso com as ditas;
    C'o seu merecimento o virtuoso;
    Parecer desgraçado, ó minha bella,
    He muito mais honroso.

    LYRA XXVII.

    A minha amada
    He mais formosa
    Que branco lyrio,
    Dobrada rosa,
    Que o cinnamomo,
    Quando matiza
    Co' a folha a flor.
    Venus não chega
    Ao meu Amor.

    Vasta campina
    De trigo chêa,
    Quando na sésta
    C'o vento ondêa,
    Ao seu cabello
    Quando flutua
    Não he igual.
    Tem a côr negra:
    Mas quanto val!

    Os astros, que andão
    Na esfera pura,
    Quando scintilão
    Na noite escura,
    Não são humanos,
    Tão lindos, como
    Seus olhos são.
    Que ao Sol excedem
    Na luz que dão.

    Ás brancas faces,
    Ah! não se atreve
    Jasmis de Italia,
    Nem inda a neve,
    Quando a desata
    O Sol brilhante
    Com seu calôr.
    São neve, e causão
    No peito ardôr.

    Na breve boca
    Vejo enlaçadas
    As finas per'las
    Com as granadas;
    A par dos beiços
    Rubins da India
    Tem preço vil.
    Nelles se agarrão
    Amores mil.

    Se não lhe désse
    Compadecido
    Tanto soccorro
    O Deos Cupido;
    Se não vivêra
    Huma esperança
    No peito seu;
    Já morto estava
    O bom Dirceo.

    Vê quanto póde
    Teu bello rosto;
    E de goza-lo
    O vivo gosto!
    Que sobmergido
    Em hum tormento
    Quasi infernal,
    Porqu' inda espero
    Resisto ao mal.

    LYRA XXVIII.

    Deten-te, vil humano,
    Não espremas cicutas
    Para fazer-me damno.
    O çumo que ellas dão he pouco forte,
    Procura outras bebidas,
    Que apressem mais a morte.

    Desce ao Reino profundo,
    Ajunta ahi venenos,
    Que nunca visse o mundo;
    Traze o negro licôr, que tem nos dentes,
    Nos dentes retorcidos
    As raivosas serpentes.

    Cachopo levantado,
    Que pôz a Natureza,
    Dentro no Mar salgado,
    Não se abala no meio da tormenta,
    Bem que huma onda, e outra onda
    Sobre elle em flor rebenta.

    Arvore, que na terra
    Ás robustas raizes,
    Buscando o centro, afferra,
    Não teme ao furacão mais violento;
    E menos se se deixa
    Vergar do rijo vento.

    Sou tronco, e rócha, ó bella,
    Que açoita o Sul que brama,
    E o Mar, que se encapella:
    Não temas que do rosto a côr se mude:
    Vence as róchas, e os troncos
    A sólida Virtude.

    A maior desventura
    He sempre a que nos lança
    No horror da sepultura:
    O cobarde a morrer tambem caminha;
    Com que males não póde
    Huma alma como a minha?

    LYRA XXIX.

    Eu descubro procurar-me
    Gentil mancebo, e loiro,
    Trazia a testa adornada
    Com folhas de verde loiro.
    Vejo ser o Pai das Musas,
    E me entrega a lyra d'oiro.

    Já basta, me diz, ó filho,
    Já basta de sentimento;
    O cançado peixe exige
    Hum breve contentamento.
    Louva a formosa Marilia
    Ao som do meu instrumento.

    Firo as cordas; mas que importa?
    A dôr não socega em tanto.
    Ergo a voz, então reparo
    Que quanto mais corre o pranto
    He mais doce, e mais sonoro
    Meu terno, e saudoso canto.

    Apollo fitou os olhos
    Na mão, que regía o braço;
    E depois de estar suspenso,
    De me houvir hum largo espaço;
    Assim diz: _o Deos Cupido
    Faz inda mais do que eu faço_.

    _Eu te dou a minha lyra,
    Louva, louva a tua Bella;
    Porém vê que ta concedo
    Com condição, e cautella_…
    Eu lhe corto a voz, dizendo,
    Que só canto em honra della.

    LYRA XXX.

    O pai das Musas,
    O Pastor loiro
    Deo-me, Marilia,
    Para cantar-te
    A lyra de oiro.

    As cordas firo,
    O brando vento
    Teus dotes leva
    Nas brancas azas
    Ao firmamento.

    O teu cabello
    Vale hum thesoiro;
    Hum só me adorna
    A sabia frente
    Melhor que o loiro.

    Nesses teus olhos
    Amor assiste;
    Delles faz guerra;
    Ninguem lhe foge;
    Ninguem resiste.

    Algumas vezes
    Eu o diviso
    Tão bem occulto
    Nas lindas cóvas,
    Que faz teu riso.

    Nesses teus peitos
    Tem os seus ninhos
    Destros Amores,
    Nelles se gerão
    Os Cupidinhos.

    Vences a Venus,
    Quando com arte
    As armas toma,
    Porque mais prenda
    Ao fero Marte.

    Eu produzia
    Estas idéas,
    Quando, Marilia;
    O som escuto
    Das vis cadêas.

    Dou hum suspiro.
    Corre o meu pranto;
    E inda bebendo
    Lagrimas tristes,
    De novo canto.

    Sou da constancia
    Hum vivo exemplo.
    E vós, ó ferros,
    Honrareis inda
    De Amor o Templo.

    LYRA XXXI.

    Roubou-me, ó minha Amada, a sorte impía,
    Quanto de meu gosava
    N'um só funesto dia.

    Honras de maioral, manada grossa,
    Fertil, extensa herdade,
    Bem reparada chóça.

    Metteo-me nesta infame sepultura,
    Que he sepulcro sem honras,
    Breve masmorra, escura.

    Aqui, ó minha Amada, nem consigo,
    Venha outro desgraçado
    Sentir tambem comigo.

    Mas se esta companhia não mereço;
    Os Deoses me dão outra,
    Inda de mais apreço.

    Não he, não, illusão o que te digo;
    Tu mesma me acompanhas;
    Peno, mas he comtigo.

    Não vejo as tuas faces graciosas,
    Os teus soltos cabellos,
    As tuas mãos mimosas.

    Se eu as visse, infeliz me não dissera,
    Bem que subira ao Porto,
    Bem que na Cruz pendêra.

    Não ouço as tuas vozes magoadas,
    Com ardentes suspiros
    Ás vezes mal formadas.

    Mas vejo, ó cara, as tuas letras bellas;
    Huma por hum beijo,
    E choro então sobre ellas.

    Tu me dizes que siga o meu destino;
    Que o teu amor na ausencia
    Será leal, e fino.

    De novo a carta ao coração aperto,
    De novo a molha o pranto
    Que de ternura verto.

    Ah! leve muito embora o duro Fado;
    A tudo quanto tenho
    Com meu suor ganhado.

    Eu juro, que do roubo nem me queixe,
    Com tanto, ó minha cara,
    Que este só bem me deixe.

    Que males voluntarios não subírão,
    Os que te amão, sómente
    Porque menos te ouvírão?

    Dê pois aos mais seus bens a Deosa céga;
    Que eu tenho aquella gloria,
    Que a mil felizes nega.

    LYRA XXXII.

    Se o vasto mar se encapella,
    E na rócha em flor rebenta,
    Grossa náo, q' não tem léme,
    Em vão sustentar-se intenta;
    Até que naufraga, e corre
    Á discrição da tormenta.

    Quem não tem huma Belleza,
    Em que ponha o seu cuidado,
    Se o Ceo se cobre de nuvens,
    E se assopra o vento irado,
    Não tem forças que resistão
    Ao impulso do seu fado.

    Nesta sombria masmorra,
    Aonde, Marilia, vivo,
    Encosto na mão o rosto,
    Fico ás vezes pensativo.
    Ah! que imagens tão funestas
    Me finge o pezar activo.

    Parece que vejo a honra,
    Marilia, toda enlutada,
    A face de hum pai rugosa,
    N'um mar de pranto banhada,
    Os amigos mascilentos,
    E a familia consternada.

    Quero voltar os meus olhos
    Para outro diverso lado,
    Vejo n'uã grande Praça
    Hum Theatro levantado.
    Vejo as Cruzes, vejo os Potros,
    Vejo o Alfanje afiado.

    Hum frio suor me cobre,
    Lação-se os membros, suspiro,
    Busco allivio ás minhas ancias,
    Não o descubro, deliro.
    Já, meu Bem, já me parece,
    Que nas mãos da morte espiro.

    Vem-me então ao pensamento
    A tua testa nevada,
    Os teus meigos, vivos olhos,
    A tua face rosada,
    Os teus dentes crystallinos,
    A tua boca engraçada.

    Qual, Marilia, a estrella d'alva,
    Que a negra noite affugenta,
    Qual o Sol, que a nevoa espalha
    Apenas a terra aquenta,
    Ou qual Iris, que o Ceo limpa,
    Quando se vê na tormenta.

    Assim, Marilia, desterro
    Triste illusão, e demencia;
    Faz de novo o seu officio,
    A razão, e a prudencia;
    E firmo esperanças doces
    Sobre a candida innocencia.

    Restauro as forças perdidas,
    Sóbe a viva côr ao rosto;
    Gyra o sangue pela vêa,
    E bate o pulso composto.
    Vê, Marilia, o quanto póde
    Contra os meus males teu rosto.

    FIM.

    MARILIA DE DIRCEO.

    POR

    F.A.G.

    TERCEIRA PARTE.

    LISBOA:

    Na Impressão Regia. Anno 1812.

    _Com licença_.

    _Vende-se na loja da Gazeta_.

    AO LEITOR.

    A geral acceitação, que a primeira, e segunda parte da Marilia de Dirceo
    tem devido ao Público, animou ao seu Editor a dar á luz huma terceira
    parte da dita Obra, a que fez juntar outras diversas Rimas do mesmo
    Author, que lhe fazem honra, e que abonão assás a distincta opinião que
    tem adquirido naquelle genero de Poesia. Adverte o Editor, que huma
    terceira parte da dita Marilia de Dirceo ha tempos publicada, he Obra de
    outro engenho, o que facilmente conhecerá ainda o Leitor menos
    intelligente.

    MARILIA DE DIRCEO.

    LYRA I.

    Convidou-me a vêr seu Templo
    O cego Cupido hum dia;
    Encheo-se de gosto o peito,
    Fiz deste Deos hum conceito
    Como delle não fazia.

    Aqui vejo descorados
    Os ternissimos amantes
    Entre as cadêas gemerem;
    Vejo nas piras arderem
    As entranhas palpitantes.

    _A quem ama quanto avista_,
    (Diz Cupido) _não aterra:
    Quem quer cingir o loureiro,
    Tambem vai soffrer primeiro
    Todo o trabalho da guerra_.

    _Com tudo que te dilates
    Neste sitio não convenho;
    Deixa a estancia lastimosa,
    Vem vêr a Salla formosa,
    Aonde o meu Solio tenho_.

    Entro n'outro grande Templo:
    Que perspectiva tão grata!
    Tudo quanto nelle vejo
    Passa além do meu desejo,
    E o discurso me arrebata.

    He de marmore, e de jaspe
    O soberbo frontespicio:
    He todo por dentro d'ouro,
    E a hum tão rico tesouro
    Inda excede o artificio.

    As janellas não se adornão
    De sedas de finas côres:
    Em lugar de cortinados
    Estão prezos, e enlaçados
    Fastões de mimosas flores.

    Em torno da Salla Augusta
    Ardem dourados brazeiros;
    Queimão rezinas, que estalão,
    E postas em fumo exalão
    Da Panchaya os gratos cheiros.

    Ao pé do Throno os seus Genios
    Alegres hymnos entoão:
    Danção as Graças formosas;
    E aqui as horas gostosas
    Em vêz de correrem, vôão.

    Estão sobre o pavimento,
    Igualmente reclinados
    Nos collos de seus amores,
    Os grandes Reis, e Pastores
    De frescas rosas coroados.

    Mal o acôrdo restauro,
    (Me diz, o Moço risonho:)
    _Como ainda não reparas
    Em tantas cousas tão raras,
    De que este Templo componho_?

    _Sabes a historia de Jove?
    Aqui tens o manso Touro;
    Tens o Cisne decantado;
    A Velha em que foi mudado,
    Com a grossa chuva d'ouro_.

    _Applica, Dirceo, agora
    Os olhos para esta parte:
    Aqui tens o verde Louro,
    Que inda estima o Pastor louro,
    E a Rede, que enlaça a Marte_.

    _Vês este Arco destramente
    De branco marfim ornado?
    Á Casta Deosa servia,
    E o perdêo quando dormia
    Do gentil Pastor ao lado_.

    _Vês esta Lyra? com ella
    Tira Orpheo ao bem querido
    Dos infernos aonde estava.
    Vês este Faról? guiava
    Ao meu nadador de Abydo_.

    _Vês estas duas Espadas
    Ainda de sangue cheias?
    A Thysbe, e a Dido matárão;
    E os fortes pulsos armárão
    De Pyramo, e mais de Eneas_.

    _Sabes quem vai no Navio,
    Que nesse mar se levanta?
    He Theseo. Vês esse Pomo?
    He de Cydippe, assim como
    São aquelles de Atalanta_.

    _Vê agora estes retratos,
    Que destros pinceis fizerão:
    Ah! que pinturas divinas!
    Todos são das Heroinas,
    Que mais victorias me dérão_.

    _Repara nesse semblante,
    He o semblante de Helena:
    Lá se avista a Grega Armada,
    E aqui de Troya abrazada
    Se mostra a funesta scena_.

    _Vês est'outra_ formosura?
    _He a bella Deidamía_;
    _Lá_ tem Achilles ao lado,
    _De huma saia disfarçado
    Como com ella vivia_.

    _Cleópatra he quem se segue:
    Alli tens lançando a linha
    Marco Antonio socegado,
    Ao tempo em que Augusto irado,
    Com armada mão caminha_.

    _Aqui Hermes se figura:
    Vê hum Sabio dos maiores,
    Qual infame delinquente,
    Ir desterrado sómente
    Por contar os seus louvores_.

    _Este he de Omphale o retrato:
    Aqui tens (quem o diria!)
    Ao grande Hercules sentado
    Com as mais damas no estrado,
    Onde em seu obsequio fia_.

    _Anda agora a est'outra parte:
    Conheces, Dirceo, aquella_?
    Onde váes? (lhe digo:) explica,
    Que belleza aqui nos fica,
    Sem fazeres caso della?

    Ergo os olhos ponho a vista
    Na imagem não explicada,
    Ó quanto he digna de appreço!
    Mal exclamo assim, conheço
    Ser a minha doce amada.

    O coração pelos olhos
    Em terno pranto sahia,
    E no meu peito saltava:
    Disfarçado Amor, olhava
    Para mim a furto, e ria.

    Depois de passado tempo,
    A mim se chega, e me aballa;
    Desperto de tanto assombro:
    Elle bate no meu hombro,
    E assim affavel me falla.

    _Sim, caro Dirceo, he esta
    A divina formosura,
    Que te destina Cupido;
    Aqui tens o laço urdido
    Da tua immortal ventura_.

    _O Numen, Dirceo, o Numen
    Que aos trabalhos de hum humano
    Desta sorte felicita,
    Não he, como se accredita,
    Não he hum Numen tyranno_.

    _Olha se a cega Fortuna
    De tudo quanto se cria,
    Ou nos mares, ou na terra,
    Em o seu thesouro encerra
    Outro bem de mais valia_?

    _Lizas faces côr de rosa,
    Brancos dentes, olhos bellos,
    Grossos beiços encarnados,
    Pescoço, e peitos nevados,
    Negros e finos cabellos_;

    _Não vale mais, que cingires
    Co' braço de sangue immundo
    Na cabeça o verde louro?
    Do que teres montes d'ouro?
    Do que dares leis ao mundo_?

    _Ah! ensina, sim ensina
    Ao vil mortal atrevido,
    E ao peito que adora terno,
    Que tem para hum Inferno,
    Para o outro hum Ceo, Cupido_.

    Ao resto Amor me convida;
    Eu chorando a mão lhe beijo:
    E lhe digo, Amor, perdôa
    Não seguir-te; pois não vôa
    A vêr mais o meu dezejo.

    LYRA II.

    Em vão do amado
    Filho que foge,
    Venus quer hoje
    Noticias ter.

    Sagaz, e astuto
    Elle se esconde
    Em parte aonde
    Ninguem o vê.

    Dos signaes dados
    Bem se conhece,
    Que elle aborrece
    A Mãi que tem.

    Se os seus defeitos
    Ella publíca,
    Razão lhe fica
    De se offender.

    Foge o Menino,
    E disfarçado
    Vive abrigado
    N'uma cruel.

    Com mil caricias
    A impia o trata;
    Nem o desata
    Do peito seu.

    Se a semelhança
    Sempre amor gera,
    Deve huma fera
    Outra accolher.

    Ah! se o teu nome,
    Marilia, calo,
    Que de ti fallo
    Bem pódes crer.

    LYRA III.

    Tu não verás, Marilia, cem captivos
    Tirarem o cascalho, e a rica terra,
    Ou dos cercos dos rios caudelosos,
    Ou da minada Serra.

    Não verás separar ao habil negro
    Do pezado esmeril a grossa arêa;
    E já brilharem os granetes de ouro,
    No fundo da batêa.

    Não verás derrubar os virgens matos,
    Queimar as capoeiras inda novas,
    Servir de adubo á terra a fertil cinza,
    Lançar os grãos nas cóvas.

    Não verás enrolar negros pacotes
    Das secas folhas do cheiroso fumo;
    Nem espremer entre as dentadas rodas
    Da doce cana o sumo.

    Verás em cima da espaçosa meza
    Altos volumes de enredados feitos;
    Ver-me-has folhear os grandes livros,
    E decidir os pleitos.

    Em quanto revolver os meus Consultos,
    Tu me farás gostosa companhia
    Lendo os fastos da sabia, mestra Historia,
    Os Cantos da Poesia.

    Lerás em alta Voz a imagem bella;
    Eu vendo que lhe dás o justo appreço;
    Gostoso tornarei a lêr de novo
    O cansado processo.

    Se encontrares louvada huma belleza,
    Marilia, não lhe envejes a ventura,
    Que tens quem leve á mais remota idade
    A tua formosura.

    LYRA IV.

    Amor por acaso
    A hum pouso chegava,
    Aonde accolhida
    A Morte se achava.

    Risonhos, e alegres
    Os braços se dérão,
    E as armas unidas
    N'um sitio pozerão.

    De emprezas tamanhas
    Cansados já vinhão,
    E em larga conversa
    A noite entretinhão.

    Hum conta que ha pouco
    A seta aguçada
    Em huma belleza
    Deixára empregada.

    Diz outro que as flexas
    Cravára no peito
    De hum grande, que teve
    O Mundo sujeito.

    Em quanto das forças
    Cada hum persumia,
    Seus membros já laços
    O somno rendia.

    Dormindo tranquillos
    A noite passárão,
    E inda antes da Aurora
    Com ancia acordárão.

    _He tempo que o leito
    Deixemos, ó Morte_;
    Amor, já erguido
    Fallou desta sorte.

    _He tempo_, em resposta
    A morte repete,
    _Que á nossa fadiga
    Dormir não compete_.

    _As armas colhamos,
    Voltemos ao giro:
    Cada hum a seu gosto
    Empregue o seu tiro_.

    Vão inda c'os olhos
    Em somno turbados,
    Ao sitio em que os ferros
    Estão pendurados.

    Amor para as setas
    Da morte se enclina:
    De amor logo a Morte
    C'o as flexas atina.

    Oh golpes tyrannos!
    Oh mãos homicidas!
    São tiros da Morte
    De Amor as feridas.

    De hum sonho, que pinto,
    Marilia conhece,
    Se amor, ou se morte
    Este alma padece.

    LYRA V.

    Eu não sou, minha Nize, pegureiro,
    Que viva de guardar alhêo gado;
    Nem sou pastor grosseiro
    Dos frios gêlos, e do Sol queimado,
    Que veste as pardas lãs do seu cordeiro.
    Graças, ó Nize bella,
    Graças á minha Estrella!

    A Cresso não igualo no thesouro:
    Mas deo-me a Sorte com que honrado viva.
    Não cinjo corôa d'ouro;
    Mas Póvos mando, e na testa altiva
    Verdeja a Corôa do Sagrado Louro.
    Graças, ó Nize bella,
    Graças á minha Estrella!

    Maldito seja aquelle, que só trata
    De contar escondido a vil riqueza!
    Que cego se arrebata
    Em buscar nos Avós a vã nobreza,
    Com que aos mais homens seus iguaes abata.
    Graças, ó Nize bella,
    Graças á minha Estrella!

    As fortunas que em torno de mim vejo,
    Por falsos bens que enganão não reputo;
    Mas antes mais desejo,
    Não para me voltar soberbo em bruto
    Por vêr-me grande quando a mão te beijo.
    Graças, ó Nize bella,
    Graças á minha Estrella!

    Pela Ninfa que jaz vertida em Louro,
    O grande Deos Apollo não delira?
    Jove mudado em Touro,
    E já mudado em Velha não suspira?
    Seguir aos Deoses nunca foi desdouro.
    Graças, ó Nize bella,
    Graças á minha Estrella.

    Pertendão Hanibaes honrar a Historia,
    E cinjão com a mão de sangue chêa
    Os louros da victoria.
    Eu revolvo os teus dons na minha idéa:
    Só dons que vem do Ceo são minha gloria.
    Graças, ó Nize bella,
    Graças á minha Estrella!

    LYRA VI.

    _Traducção_.

    Amor que seus passos
    Ligeiro movia,
    Por mil embaraços
    Que hum bosque tecia.

    Nos hombros me acena
    Com brando raminho;
    E logo me ordena
    Que siga o caminho.

    Por entre a espessura
    Do bosque me avanço:
    E a traz da ventura
    Incauto me lanço.

    Já tinha calcado
    Os montes mais duros:
    C'o peito rasgado
    Os rios escuros.

    Eis que huma serpente
    A lingua vibrando,
    Me crava o seu dente,
    Me deixa espirando.

    Então surprendida
    Da dôr que a traspassa,
    Minha alma ferida
    Aos beiços se passa.

    As iras detesta
    Amor isto vendo,
    E as azas na testa
    Me bate dizendo:

    _Tu choras, tu gemes
    Da Serpe tocado,
    E o braço não temes
    De hum Numen irado_?

    LYRA VII.

    Tu, formosa Marilia, já fizeste
    Com teus olhos ditosas as campinas,
    Do turvo Ribeirão em que nasceste:
    Deixa, Marilia, agora
    As já lavradas terras;
    Anda affoita romper os grossos mares,
    Anda encher de alegria estranhas terras.
    Ah! que por ti suspírão
    Os meus saudosos lares.

    Não corres como Sapho sem ventura
    Em seguimento de hum cruel ingrato,
    Que não sede aos encantos da ternura:
    Segues a hum fino amante,
    Que a perder-te morria.
    Quebra os grilhões do sangue, e vem, ó bella;
    Tu já foste no Sul a minha guia.
    Ah! deves ser no Norte
    Também a minha Estrella.

    Verás ao Deos Neptuno socegado
    Aplainar co' tridente as crespas ondas;
    Ficar como dormindo o mar salgado.
    Verás, verás d' alheta
    Soprar o brando vento,
    Mover-se o léme, disrinzar-se o linho,
    Seguirem os Delfins o movimento,
    Que leva na carreira
    O empavezado pinho.

    Verás como o Leão na prôa arfando
    Converte em branca espuma as negras ondas
    E as talha, e corta com murmurio brando.
    Verás, verás Marilia
    Da janella dourada,
    Que huma comprida estrada representa
    A linfa cristalina, que pizada
    Pela poupa que foge
    Em borbotões rebenta.

    Bruto peixe verás de corpo immenso,
    Tornar ao torto anzol depois de o terem
    Pela rasgada boca ao ar suspenso:
    Os pequenos peixinhos
    Quaes passaros voarem:
    De toninhas verás o mar coalhado,
    Ora surgirem, ora mergulharem,
    Fingindo ao longe as ondas
    Que fórma o vento irado.

    Verás que o grande monstro se apresenta
    Hum repuxo formando com as aguas,
    Que ao ar espalha da robusta venta.
    Verás em fim, Marilia,
    As nuvens levantadas
    Humas de côr azul, ou mais escuras,
    Outras de côr de rosa, ou prateadas
    Fazerem no Orizonte
    Mil diversas figuras.

    Mal chegares á foz do claro Téjo,
    Apenas elle vir o teu semblante
    Dará no léme do baixel hum beijo.
    Eu lhe direi vaidoso:
    Não trago, não comigo
    Nem pedras de valor, nem montes d'ouro,
    Roubei as aureas Minas, e consigo
    Trazer para os teus cofres
    Este maior Thesouro.

    LYRA VIII.

    Em cima dos viventes fatigados
    As verdes dormideiras espremia,
    Os mentirosos sonhos me cercavão.
    Na vaga fantasia
    Ao vivo me pintavão
    As glorias, que disperto
    Meu coração pedia.

    Eu vou, eu vou subindo a Náo possante
    Nos braços conduzindo a minha bella;
    Voltêa a grande roda, e a grossa amarra
    Se enlêa em torno della:
    Já ponho a prôa á barra,
    Já cáhe ao som do apito
    Ora huma, ora outra véla.

    Os arvoredos já se não distinguem:
    A longa praia ao longe não branqueija;
    E já se vão sumindo os altos montes.
    Já não ha que se veja
    Nos claros Orizontes,
    Que não sejão vapores,
    Que Ceo, e mar não seja.

    Parece vão correndo as negras ondas,
    E o pinho qual rochedo estar parado:
    Ergue-se a onda, vem á Náo direita
    E quebra no costado:
    O Navio se deita,
    E ella finge a ladeira
    Sahindo do outro lado.

    Vejo nadarem os brilhantes peixes;
    Cahir do Láes a linha, que os engana:
    Hum dourado no anzol está pendente,
    Soffre morte tyranna;
    Entre tanto que a sente
    Ao tombadilho açoita
    A cauda, e a barbatana.

    Sobre as ondas descubro huma Carroça
    De formosas conchinhas enfeitada;
    Delfins a movem, e vem Thetis nella:
    Na popa está parada:
    Nem póde a Deosa bella
    Tirar os brandos olhos
    Da minha doce amada.

    Nas costas dos Golfinhos vem montados
    Os nûz Tritões, deixando a Esfera cheia
    Co' rouco som dos buzios retorcidos.
    Recrêa, sim recrêa
    Meus attentos ouvidos
    O canto sonoroso
    Da musica Serêa.

    Já sóbe ao grande mastro o bom gageiro;
    Descobre arrumação, e grita terra:
    Á murada caminha alegre a gente;
    Alguns entendem que erra:
    Pelo immovel sómente
    Conheço não ser nuvem,
    Sim o cume de alta serra.

    De Mafra já descubro as grandes torres;
    (E que nova alegria me arrebata!)
    De Cascaes a muleta já vem perto,
    Já de abordar-nos trata:
    Já o piloro esperto
    Inda debaixo manda
    Soltar mezena, e gata.

    Eu vou entrando na espaçosa barra:
    A grossa artilheria já me atrôa.
    Lá ficão Paço de Arcos, e a Junqueira.
    Já corre pela prôa
    Huma amarra ligeira;
    E a Náo já fica surta
    Diante da grã Lisboa.

    Agora, agora sim, agora espero
    Renovar da amizade antigos laços:
    Eu vejo ao velho Pai, que lentamente
    Arrasta a mim os passos:
    Ah como vem contente!
    De longe mal me avista
    Já vem abrindo os braços.

    Dóbro os joelhos pelos pés o aperto,
    E manda que dos pés ao peito passe:
    Marilia quanto eu fiz fazer intenta;
    Antes que os pés lhe abrace
    Nos braços a sustenta;
    Dá-lhe de filha o nome,
    Beija-lhe a branca face.

    Vou a descer a escada (ó Ceos!) acórdo,
    Conheço não estar no claro Tejo.
    Abro os olhos, procuro a minha amada,
    E nem se quer a vejo.
    Venha a hora affortunada,
    Em que não fique em sonhos
    Tão ardente desejo.

    _A huma despedida_.

    Chegou-se o dia mais triste,
    Que o dia da morte fêa:
    Cahi do throno Dircéa,
    Do throno dos braços teus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Impio Fado, que não pôde
    Os doces laços quebrar-me,
    Por vingança quer levar-me
    Distante dos olhos teus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Parto em fim, e vou sem vêr-te,
    Que neste fatal instante,
    Ha de ser o teu semblante
    Mui funesto aos olhos meus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    E crês, Dircéa, que devem
    Vêr meus olhos penduradas
    Tristes lagrimas salgadas
    Correrem dos olhos teus?
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    De teus olhos engraçados,
    Que podérão piedosos,
    De tristes em venturosos
    Converter os dias meus?
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Desses teus olhos divinos,
    Que ternos, e socegados,
    Enchem de flores os prados,
    Enchem de luzes os Ceos?
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Desses teus olhos em fim,
    Que domão Tigres valentes?
    Que nem rigidas Serpentes
    Resistem aos tiros seus?
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Da maneira que serião
    Em não vêr-te criminosos
    Em quanto forão ditosos,
    Agora serião réos.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Parto em fim, Dircéa bella,
    Rasgando os ares cinzentos;
    Virão nas azas dos ventos
    Buscar-te os suspiros meus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Talvez, Dircéa adorada,
    Que os duros Fados me neguem
    A gloria de que elles cheguem
    Aos ternos ouvidos teus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Mas se ditosos chegarem,
    Pois os sólto a teu respeito;
    Dá-lhes abrigo no peito,
    Junta-os c'os suspiros teus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    E quando tornar a vêr-te
    Ajuntando rosto, a rosto,
    Entre os que dérmos de gosto;
    Restitue-me então os meus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    CANÇÃO.

    Dês que vi, formosa Elvira,
    Os teus divinos cabellos,
    Esses vivos olhos bellos,
    Que invéja dos astros são,
    Foi-se, Elvira, foi-se embora
    Toda a paz do coração.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Em quanto, Elvira, se occulta
    A meus olhos teu semblante,
    Hum minuto, hum breve instante
    Parece que fim não tem.
    Se alcanço de vêr-te a gloria,
    Então vôa o tempo bem.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando te ris por acaso
    Para outro qualquer sugeito,
    Estala dentro do peito
    De ciume o coração:
    Se me pões os olhos julgo
    Que zombas de mim então.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando ha brinco na floresta,
    E a divina Olaia canta,
    O mesmo gado levanta
    A cabeça para ouvir.
    Só por mais que Alceo forceje
    Não póde o prazer fingir.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando levo á clara fonte
    O rebanho do meu gado,
    Cáhe-me da mão o cajado,
    E com ella á testa vou:
    Fico pasmado, e ignoro
    O lugar aonde estou.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando vou segar o trigo,
    (Olha bem como ando cego.)
    N'uma parte nelle pego,
    Metto n'outra a fouce em vão;
    Dos que vem alguns se riem,
    Outros mostrão compaixão.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando me deito no colmo,
    Sempre sonho que te vejo,
    Que te fallo, e que te beijo
    A branca nevada mão.
    Acórdo, Pastora, e foges:
    Eu fico mais triste então.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando alguem meu mal pergunta,
    Bem que seja a vez primeira,
    Rompo ainda que não queira
    O segredo sem saber.
    O teu nome, Elvira, digo,
    Quando devo o seu dizer.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Fujo ao trato dos pastores,
    Para hum bosque me retiro;
    Com desafogo suspiro,
    E chamo por ti meu bem.
    Os valles que se enternecem
    Chamão-te ao longe tambem.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando escuto o triste mocho
    A gemer no meu telhado,
    Qualquer mal excogitado
    Não me deve algum temor:
    Só receio que me agoure
    Máo successo ao meu amor.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Os pastores que me avistão
    Com o dedo já me apontão,
    E á roda do fogo contão
    Da maneira que me vem.
    Sou o exemplo dos amantes
    Que esta nossa Aldêa tem.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    SONETO I.

    He gentil, he prendada a minha Altéa;
    As graças, a modestia do seu rosto
    Inspírão no meu peito maior gosto,
    Que vêr o proprio trigo quando ondêa.

    Mas vendo o lindo gesto de Dircéa
    A nova sugeição me vejo exposto;
    Ah! que he mais engraçado, mais composto,
    Que a pura Esfera de mil astros chêa.

    Prender as duas com grilhões estreitos
    He huma acção (ó Deoses!) inconstante,
    Indigna de sinceros, nobres peitos.

    Cupido, se tens dó de hum triste amante,
    Ou fórma de Lorino dous sugeitos,
    Ou fórma desses dous hum só semblante.

    SONETO II.

    N'um fertil campo do soberbo Douro,
    Dormindo sobre a relva descançava,
    Quando vi que a Fortuna me mostrava
    Com alegre semblante o seu Thesouro.

    De huma parte h[~u] montão de prata, e ouro
    Com pedras de valor o chão curvava;
    Aqui hum sceptro, alli hum trono estava,
    Pendião coroas mil de grama, e louro.

    _Acabou-se_ (diz-me então) _a desventura:
    De quantos bens te exponho qual te agrada,
    Pois benigna os concedo, vai, procura_.

    Escolhi, acordei, e não vi nada:
    Commigo assentei logo que a ventura
    Nunca chega a passar de ser sonhada.

    SONETO III.

    Enganei-me, enganei-me, paciencia;
    Accreditei as vozes, cri, Ormia,
    Que a tua singeleza igualaria
    Á tua mais que angelica apparencia.

    Enganei-me, enganei-me, paciencia;
    Ao menos conheci que não devia,
    Pôr nas mãos de huma externa galhardia
    O prazer, o socego, e a innocencia.

    Enganei-me, Cruel, com teu semblante,
    E nada me admiro de faltares,
    Que esse teu sexo nunca foi constante.

    Mas tu perdestes mais em me enganares;
    Que tu não acharás hum firme amante,
    E eu posso de traidoras ter milhares.

    SONETO IV.

    Ainda que de Laura esteja ausente,
    Ha de a chama durar no peito amante;
    Que existe retratado o seu semblante,
    Se não nos olhos meus, na minha mente.

    Mil vezes finjo vêla, e eternamente
    Abraço a sombra vã; só nesse instante
    Conheço que ella está de mim distante,
    Que tudo he illusão que esta alma sente.

    Talvez que ao bem de a vêr Amor resista;
    Porque minha paixão, que aos Ceos he grata,
    Por innocente assim melhor persista:

    Pois quando só na idéa ma retrata,
    Debuxa os dotes com que prende vista,
    Esconde as obras com que offende ingrata.

    SONETO V.

    Ao Templo do Destino fui levado:
    Sobre o Altar hum Cofre se firmava,
    Em cujo seio cada qual buscava
    Tremendo annuncio do futuro estado.

    Tiro hum papel, e leio: Ceo Sagrado!
    Com quanta causa o coração pulsava:
    Este duro Decreto escrito estava,
    Com negra tinta pela mão do Fado.

    _Adore Polidoro a bella Ormia,
    Sem della conseguir a recompensa,
    Nem quebrar-lhe os grilhões a tyrannia_.

    Das mãos, Amor mo arranca, e sem detença
    Tres vezes o levando á boca impía,
    Jurou comprir á risca a tal sentença.

    SONETO VI.

    Ergue-te, ó Pedra, e desde a margem fria,
    Que os muros banha a Lusitana Athenas,
    Mostra-me as desmaiadas assucenas
    Do rosto que me occupa a fantasia.

    Deixa [~q] eu beije a mão, [~q] pôde hum dia
    Ceder de amor ás lastimosas scenas;
    Q'entre as ancias, a dôr, a mágoa, as penas
    Renove a saudosa idolatria.

    Solto do véo mortal, oh Feliz Astro,
    Une ao cadaver a truncada testa,
    Levanta o bello cólo de alabastro:

    Huma alma grande junto a ti protesta
    Fazer a gloria da defunta Castro;
    A illustre Neta vez: Maria he esta.

    _Á Illustrissima e Excellentissima Senhora Condessa de Cavalleiros, D.
    Maria José de Eça e Bourbon_.

    SONETO VII.

    Quantas vezes Lidora me dizia,
    Ao terno peito minha mão levando,
    Conjurem-se em meu mal os Astros, quando
    Achares no meu peito aleivosia.

    Então que não chorasse lhe pedia,
    Por firme seu amor acreditando;
    Ah! que em movendo os olhos suspirando
    Ao mais acautellado enganaria.

    Hum anno assim viveo: ó Ceos! agora
    Mostrou que era mulher: a natureza
    Só por não se mudar a fez traidora.

    Não, não darei mais cultos á belleza,
    Que depois de faltar á fé, Lidora,
    Nem creio que nas Deosas ha firmeza.

    SONETO VIII.

    O Numen Tutelar da Monarquia,
    Que fez do grande Henrique a invicta espada,
    Procurou dos Destinos a morada,
    Por consultar a idade que viria.

    A mil, e mil heróes descriptos via,
    Que exaltão de Furtado a estirpe honrada,
    E na serie, que adora dilatada,
    O nome de Francisco descobria.

    Contempla huma por h[~u]a as letras d'ouro,
    Este penhor, que o tempo não consome,
    Promette ao Reino seu maior thesouro.

    Prosta-se o Genio: e sem [~q] a empreza tome
    De lhe buscar sequer mais outro agoiro,
    O sitio beija, e lhe mostra o nome.

    _Ao Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Visconde de Barbacena,
    Francisco Furtado de Mendonça_.

    SONETO IX.

    Nascer no berço da maior grandeza,
    De palmas, e de louros rodeado,
    Deve-se aos grandes Pais, ao Tronco honrado,
    Que illusrra desde longe a natureza.

    Se porém muito mais se adora, e preza
    O dom que o nobre sangue trás herdado
    Pela propria virtude sustentado,
    Feliz o objecto da presente empreza.

    De mil Heróes no Téjo vencedores
    Hum ramo nasce, hum ramo que a memoria
    Faz immortal de seus Progenitores.

    Eu leio em vaticinio a sua historia;
    Une Francisco a par de seus maiores
    Ao herdado explendor a propria gloria.

    _Ao mesmo excellentissimo Visconde_.

    SONETO X.

    Mudou-se em fim Lidora, essa Lidora
    Por quem mil vezes fé me foi jurada;
    Que vos detem (ó Ceos!) que castigada
    Ainda não deixais tão vil traidora?

    Não haja piedade: sinta agora
    A dita sem remedio em mal trocada;
    Pois se assim não succede, fica ousada
    Para ser outra vez enganadora.

    Vingai, ó justos Ceos…, mas ah! [~q] digo?
    Que maltrateis Lidora? o sentimento
    Privou-me do discurso, eu me desdigo.

    Não, não vibreis o raio violento;
    Pois sei que a compaixão do seu castigo,
    Hade augmentar depois o meu tormento.

    SONETO XI.

    A Deos cabana, a Deos; a Deos, ó gado,
    Albina ingrata, a Deos, em paz te deixo:
    A Deos doce rabil, neste alto freixo
    Te fica ao meu destino consagrado.

    Se te for meu successo perguntado,
    Não declares rabil de quem me queixo;
    Não quero que se saiba vive Aleixo
    Por causa de huma infame desterrado.

    Se vires a Pastor desconhecido,
    Lhe dize então piedoso: Ah! vaite embora,
    Atalha os damnos, que outros tem sentido.

    Habita nesta Aldêa huma Pastora
    De rosto bello, coração fingido,
    Humas vezes cruel, e as mais traidora.

    SONETO XII.

    Com pezadas cadeias maniatado,
    Ás vozes da razão insurdecido,
    Dos Ceos, de mim, dos homens esquecido
    Me vi de amor nas trévas sepultado.

    Alli aliviava o meu cuidado
    Cõ dar de quando em quando algum gemido:
    Ah tempo! que sómente reflectido
    Me fazes entre as ditas desgraçado.

    Assim vivia, quando a falsidade
    De Laura me tornou n'um breve dia
    Quanto a razão não pôde em longa idade.

    Quebrei o vil grilhão que me opprimia:
    Ó feliz de quem gosa a liberdade!
    Bem que venha por mãos da aleivosia.

    SONETO XIII.

    Obrei quanto o discurso me guiava;
    Ouvi os Sabios quando errar temia:
    Aos bons no gabinete o peito abria;
    Na rua a todos como iguaes honrava.

    Julgando os crimes nunca voto dava
    Mais duro, ou pio do que a Lei pedia;
    Mas podendo salvar o justo ria,
    E devendo punir ao réo chorava.

    Nem forão, Villa Rica, os meus intentos
    Metter em ferreo cofre copia d'ouro,
    Que chegue aos filhos, e que passe aos netos.

    Outras são as venturas que me agouro:
    Ganhei saudades, adquiri affectos,
    Vou fazer destes bens melhor thesouro.

    _Feito quando o Author acabou o Lugar de Ouvidor de Villa Rica, e foi
    despaçhado para Desembargador da Bahia_.

    SONETO XIV.

    Quando o torcido buço derramava
    Terror no aspecto ao Portuguez sisudo,
    Quando sem pó, nem oleo o pente agudo
    Duro intonso o cabello em laço atava.

    Quando contra os Irmãos o braço armava
    O forte Nuno oppondo escudo, a escudo;
    Quando a palavra que perfere a tudo
    Com a barba arrancada João firmava.

    Quando a mulher á sombra do marido
    Tremer se via: quando a Lei prudente
    Zelava o sexo do civil ruido;

    Feliz então, então só innocente
    Era de Luso o Reino: oh bem perdido!
    Ditosa condição, ditosa gente!

    SONETO XV.

    Sombras illustres dos varões famosos,
    Que á Grecia, e Roma destes Leis hum dia;
    Vós que do Elysio na região sombria
    Respiraes entre os Zefiros mimosos.

    Grande Licurgo, ó tu Solon, [~q] honrosos
    Louros cingis, que egregia companhia
    Fazeis aos Mazzarinos, eu queria
    Adorar vossos vultos magestosos.

    Vós fizesteis da vossa Patria a gloria;
    Por vós hoje he feliz a humanidade:
    Que dignos sois de huma immortal historia!

    Cesce, cesse porém vossa vaidade;
    Que basta a escurecer vossa memoria
    Hum Carvalho, que adora a nossa idade.

    _Ao Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Marquez de Pombal reformando
    a Universidade de Coimbra_.

    SONETO XVI.

    As molles azas a bater começa
    Entre as palhas o tenro passarinho,
    E largos dias por deixar o ninho
    Se cança, se fadiga, se arremeça.

    H[~u] impulso, outro impulso é vão se apresa,
    Já se firma no pé, já no biquinho,
    Nas folhas se tem, passa ao raminho
    Té que a penna se esforce, e se endureça.

    Quando emfim he capaz de movimento
    Deixa os arbustos vaga pelos ares,
    E sobre as altas faias toma assento:

    Estes sejão, Salicio, os exemplares
    Em que a vossa virtude anime o alento,
    Porque hum dia da Fama honre os Altares.

    _Ao Illustrissimo Senhor Luiz Beltrão de Gouvea_.

    ODE.

    Se entre as louras arêas
    Do meu Jaquitinhonha, hum Genio erguido
    Ás Regiões alheas
    Manda que em doce metro reppetido
    Hoje o teu Nome leve,
    Tanto á virtude, meu Beltrão, se deve.

    Vejo a sordida inveja
    De ira morder-se, e as serpes sacudindo
    Por se tragar forceja:
    De pejo, e de vergonha em vão cobrindo
    Co' as frias mãos o rosto,
    Geme a calumnia no mortal desgosto.

    Vós, Genios fortunados,
    Que do Templo da Gloria honrais a estancia,
    Os meritos sagrados
    Cantai do bom Ministro: He a constancia,
    A sabia fortaleza
    He quem o guia na maior empreza.

    Se os rigidos palmares
    Da Idumeya consulto; o bravo Noto
    Os tormentosos ares
    Não podem mais dobralos: zomba immoto,
    Nem ás ondas tem medo
    Sobranceiro ao Egeo, firme penedo.

    Tal a constancia tua
    Em meio foi dos perfidos rumores;
    A verdade, que nua
    Derramava em teu rosto as vivas côres,
    Sobre as aras decentes
    Vio por triunfo mil trofeos pendentes.

    A vigilancia, o zelo,
    A rectidão do espirito; elevada
    Ao gráo mais rico, e bello,
    Essa virtude, que nos traz provada
    Em meio dos Thesouros
    A sã virtude, que enobrece os Louros:

    Tudo, tudo apparece
    Sabio Ministro da victoria ao lado;
    Athenas, que me offerece
    No seu público Erario accreditado
    Aristides, o Justo,
    Em ti acena o seu modelo augusto.

    Mil vezes orgulhosa
    Negra calumnia o seu desterro tenta;
    A virtude preciosa
    Contra o fero Themistocles sustenta.
    Não ha força que baste,
    Não ha poder que o peito lhe contraste.

    Feliz o Rei, o Povo,
    Feliz tambem de Themis a ballança;
    De hum modo raro, e novo
    Nas tuas mãos eu vejo, que descança:
    Aos premios, ao castigo
    Se reparte sem queixa o braço amigo.

    Ah! sinta a nossa idade
    De hum sangue illustre, de hum talento raro
    A próvida igualdade!
    Melhor do que nos marmores de Pharo,
    Em memoria nos vindouros
    T'ergue o Serro h[~u] Padrão nos seus Thesouros.

    _Imitando o sonho de Scipião_.

    ODE.

    Já vou tocando, ó Licio,
    De Lustros dez o fatigado termo;
    E já meu corpo enfermo
    Se avisinha da morte ao duro officio:
    Que cedo o meu destino me promette
    Calcar as sombras do medonho Lethe!

    Eu descerei contente
    A ver os Manes dos Avós amados;
    Que bem aventurados,
    Se outro mundo tratarão, se outra gente!
    Não virão elles, como eu triste vejo,
    O velho mando peiorar sem pejo.

    Passárão da innocencia
    Pela candida estrada os pés levando;
    Inda a fera violencia
    Não corrompia da Justiça o mando;
    Praticava-se a próvida igualdade
    Entre a Santa Virtude, e a vil maldade.

    A pura fé do Amigo,
    Renovava de Orestes a memoria:
    Commum era o perigo,
    Reciproca tambem a pena, a gloria:
    Que traições, e que enganos tem disposto
    Em nossos dias hum fingido rosto!

    Tudo se vê mudado
    Nesta idade fatal em que de ferro
    O Idolo adorado
    Torpemente protege o crime, o erro:
    Como de susto, e de vergonha cheia
    Se retira de nós a bella Astrea!

    Ah! E quem de teus laços
    Deve ao pezo gemer, ó mundo cego?
    Rotos em mil pedaços
    Os teus grilhões a pendurar já chego;
    Não mais os teus encantos me deleitem,
    Estes miseros restos se aproveitem.

    Que differentes climas
    Já me finjo habitar! Os brandos ares,
    Que tu Zefiro, animas
    Que prazeres me inspirão! Dos pezares,
    Das magoas, do desgosto, e do tormento
    Aqui não sôa o tragico lamento.

    Sôlto do mortal manto
    Cuido que o centro dos Elysios piso!
    Oh quanto he bella, quanto
    A margem deste Lago! Em fresco riso
    Lirios, e rosas, quaes não colhe Flora,
    Aqui saudão a perpetua Aurora.

    Adoravel sciencia,
    Que encheste as noites, e esgotaste os dias,
    Da humana intelligencia,
    Agora sei quam longe te desvias!
    Este o seio da luz, aonde tudo
    Sem fadiga se alcança, e sem estudo!

    O número, a distancia
    Dos Orbes Celestiaes já sabio admiro:
    Noto a eterna constancia
    Do Planeta da Luz; observo o giro
    Da Terra, que regula a varia face
    Com que a proxima Lua, ou morre, ou nasce.

    Certa, e firme a carreira
    Já marco de Saturno, Marte, ou Jove,
    Da esfera derradeira
    Contemplo a força, que os mais Orbes move;
    A harmonia me encanta acorde, e rara,
    Que de Samos o Sabio já notára.

    Aqui se patentêa
    Dos errados systemas o conceito;
    E longe a minha idéa
    De vacilar, já firma o mais perfeito.
    Quem senão tu, ó Genio, sobre humano
    Libertar me podéra deste engano!

    De Massinissa o Paço
    De Carthago ao Heróe tal scena pinta:
    Ao soberbo ameaço
    Da Fortuna, elle vê clara, e distincta,
    Qual o meu Genio me retrata agora,
    A bella Patria, onde o descanço mora.

    He este, ó Licio, he este
    Sem dúvida, o Paiz bello, e sereno,
    Aonde em paz celeste
    Não respira da inveja o atroz veneno:
    E aonde livres da infeliz mudança
    Descança o teu, e o meu bom Pai descança.

    Que doce companhia
    Deveremos fazer-lhes? Ah se apresse
    O momento que hum dia
    Tão gostosa união nos lavra, e tece!
    Cheguemos a beijar as Mãos Sagradas,
    Que enchem de gloria as immortais Moradas.

    Em praticas suaves
    Alli as breves horas gastaremos;
    Nem já nos serão graves
    Na lembrança os trabalhos que aqui temos;
    Nem da pezada humanidade nossa
    Pena haverá, que atormentar-nos possa.

    Mas tu, que dos humanos
    Reges, ó Grande Deos, a dubia sorte;
    Tu, que a meta dos annos
    Firmas, descendo de teu mando a morte,
    Dilata os dias do meu Licio, em quanto,
    Douto me instrue, e me entertem seu canto.

    FIM

    End of Project Gutenberg's Marilia de Dirceo, by Tomás António Gonzaga

  • Luar de Janeiro

    Luar de Janeiro

    Aproximadamente 6.229 palavras.

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    Augusto Gil

    Luar de Janeiro

    [Figura: Olhos Olhae a Direito]

    Luar de Janeiro

    AUGUSTO GIL

    *Luar de Janeiro*

    LISBOA

    1909

    Edição da empreza d'A Lanterna–Escriptorios, rua das Gaveas, 45, 2.^o

    Typ. do Commercio, rua da Oliveira, ao Carmo, 10, Lisboa

    Áquelles que virem, neste volume de liricas, uma reviravolta effectuada
    sobre a génese d'_O Canto da Cigarra_ objectarei, com antecipada promessa
    de facil prova, que os dois livros teem uma tão intima ligação como a
    existente entre os pontos extremos da curva d'amplitude dum pêndulo.

    Aos que me censurem pela circumstancia de não ter logrado, na minha
    subalterna categoria de poeta menor, firmar-me numa posição d'equilibrio
    estavel, pergunto, em tom humilde, quem é que neste confuso seculo de
    latente misticismo humanitario, de demolidora negação e d'anciedade
    conjunctamente afflictiva e sceptica, terá a coragem de dizer que o
    encontrou–já não quero como artista, porque a esse as influencias
    ambientes lhe communicam entre-cruzadas e descoordenadas vibrações–mas
    na propria e mais serena esphera do pensamento. Se algum de vós me
    retorquir com o _eureka_ do antigo geometra, ou é um sectario, ou um
    caturra,–ou um simples.

    Sabio, como o de Syracusa, é que não é…

    Adeante.

    Novembro de (1)909.

    O auctor

    De la musique encore et toujours

    * * * * *

    Que ton vers soit la bonne aventure
    Éparse au vent crispé du matin
    Qui va fleurant la menthe et le thym,
    _Et tout le reste est litterature_.

    Verlaine

    Et c'est pourquoi ce livre-ci (qu'il était peut-être bon d'écrire) nous
    savons, toi et moi, a quels mysterieux balbutiements le réduirait le
    tête-à-tête–et tout ce que je n'ai pas dit, qu'il ne fallait pas dire.
    Et tu sais combien de pages menteuses devront, pour des motifs de
    faiblesse personnelle ou de nécessité invencible, accompagner la bonne
    page, celle que ce livre encore annonce et ordone–_tu sais, tu
    comprends et tu pardonnes_…

    Charles Morice.

    _A Coelho de Carvalho_

    _Tout court_, porque não ha adjectivos que não empallideçam ante a
    claridade dos seus talentos.

    Luar de janeiro,
    Fria claridade

    Á luz delle foi talvez
    Que primeiro
    A bocca dum português
    Disse a palavra saudade…

    Luar de platina,
    Luar que allumia
    Mas que não aquece,
    Photographia
    D'alegre menina
    Que ha muitos annos já… envelhecesse.

    Luar de janeiro,
    O gelo tornado
    Luminosidade…
    Rosa sem cheiro,
    Amor passado
    De que ficasse apenas a amizade…

    Luar das nevadas,
    Algido e lindo,
    Janellas fechadas,
    Fechadas as portas
    E elle fulgindo,
    Limpido e lindo,
    Como boquinhas de creanças mortas,
    Na morte geladas
    –E ainda sorrindo…

    Luar de janeiro,
    Luzente candeia
    De quem não tem nada,
    –Nem o calor dum brazeiro,
    Nem pão duro para a ceia,
    Nem uma pobre morada…

    Luar dos poetas e dos miseraveis,
    Como se um laço estreito nos unisse,
    São similhaveis
    O nosso mau destino e o que tens…

    De nós, da nossa dôr, a turba–ri-se
    –E a ti, sagrado ladram-te os cães!

    [Figura: A linda imagem pertence ao arruinado Mosteiro do Calvario,
    d'Evora, e constitue a unica mas encantadora manifestação d'arte desse
    pobrissimo convento. Foi doado ás monjas que o occupavam, por D. Izabel
    Juliana de Souza Coutinho, forçada noiva de José de Carvalho, filho do
    Marquez de Pombal. D. Izabel esteve enclausurada no Mosteiro do
    Calvario, por ordem do duro ministro, até se resolver a acceitar a mão
    do filho. Depois da morte do rei D. José, foi o matrimonio annullado,
    vindo D. Izabel a formar o tronco da casa Palmella pelo casamento com D.
    Alexandre de Souza. (Notas extrahidas dum artigo do erudito antiquario
    eborense Sr. José Barata. In _Serões_, Junho de (1)907)

    O menino Jesus será obra de Machado de Castro?]

    SEXTILHAS A UM MENINO JESUS D'EVORA

    _A João Barreira_

    «Em Evora vi um menino…
    …Que a dois annos não chegava
    …Era de maravilhar»…

    Garcia de Rezende. _Miscellanea._

    Num convento solitario
    D'Evora, cidade clara,
    Claro celleiro de pão,
    Existe uma imagem rara
    Obra dum imaginario
    Dos tempos que já lá vão…

    É um menino Jesus,
    De bochechinha brunida
    Côr de maçã camoeza,
    Mas no seu rosto transluz
    Uma expressão dolorida
    Que enche a gente de tristeza…

    De tantissimas imagens
    Nenhuma vi que mais prenda,
    Que maior ternura expanda,
    Com suas calças de renda,
    Seu vestido de ramagens,
    –E corôa posta á banda…

    Gordo, nedio, bem trajado,
    Deveria ser feliz,
    Deveria estar sorrindo;
    Mas o seu olhar maguado,
    Tão maguado, tão lindo,
    Que não o é, bem n'o diz…

    Se não fosse por ser Deus
    E o seu poder infinito
    Ter sempre que o demonstrar,
    Cá na terra e lá nos ceus,
    Estenderia o beicito
    –E desatava a chorar!…

    Corre o tempo descuidado,
    Passa uma hora, outra hora,
    Atraz desta outras se vão
    E, quem o vê, encantado,
    Sem se poder ir embora
    Numa perpetua attração…

    Eu entrei com sol a pino.
    Pouco depois da chegada
    (Pouco a mim me pareceu)
    Deixei de ver o Menino…
    Não era a vista cançada,
    –Foi a noite que desceu…

    Mesmo assim lá ficaria
    Absorto em muda prece
    De quem mal sabe rezar,
    Se o sacristão não viesse,
    Com rodas de Senhoria,
    Dizer-me que ia fechar…

    Pudesse tel-o trazido
    E não fosse eu rico, apenas
    De phantasias, d'esp'ranças,
    Punha-o num nicho florido
    Por sobre as camas pequenas
    Dum hospital de creanças…

    Dum hospital modelar
    Sustentado por meus bens,
    Entre olaias e roseiras,
    Cheio de sol, cheio d'ar,
    E em que as boas enfermeiras
    –Seriam as proprias mães…

    A mais ampla enfermaria
    Desse escolhido local
    De bondade e soffrimento
    –Era o fundo natural
    Da funda melancolia
    Do Menino do convento…

    BALLADA DA NEVE

    Il pleure dans mon coeur
    Comme il pleut sur la ville.

    Verlaine

    _A Vicente Arnoso_

    Batem leve, levemente
    Como quem chama por mim…
    Será chuva? Será gente?
    Gente não é certamente
    E a chuva não bate assim…

    É talvez a ventania;
    Mas ha pouco, ha poucochinho,
    Nem uma agulha bolia
    Na quieta melancolia
    Dos pinheiros do caminho…

    Quem bate assim levemente
    Com tão estranha leveza
    Que mal se ouve, mal se sente?…
    Não é chuva, nem é gente,
    Nem é vento com certeza.

    Fui ver. A neve cahia
    Do azul cinzento do ceu
    Branca e leve, branca e fria…
    –Ha quanto tempo a não via!
    E que saudades, Deus meu!

    Olho-a atravez da vidraça.
    Poz tudo da côr do linho.
    Passa gente e quando passa
    Os passos imprime e traça
    Na brancura do caminho…

    Fico olhando esses signaes
    Da pobre gente que avança
    E noto, por entre os mais,
    Os traços miniaturais
    Duns pézitos de creança…

    E descalcinhos, doridos…
    A neve deixa inda vel-os
    Primeiro bem definidos,
    –Depois em sulcos compridos,
    Porque não podia erguel-os!…

    Que quem já é peccador
    Soffra tormentos, emfim!
    Mas as creanças, Senhor,
    Porque lhes daes tanta dôr?!…
    Porque padecem assim?!…

    E uma infinita tristeza
    Uma funda turbação
    Entra em mim, fica em mim prêsa.
    Cae neve na natureza…
    –E cae no meu coração.

    TOADA PARA AS MÃES ACALENTAREM OS FILHOS

    _A Bertha Cayolla Gil Vianna_, minha sobrinha

    Oh Desgraça! vae-te embora,
    Que esta linda criancinha
    Andou no meu ventre e agora
    Trago-a nos braços. É minha!…

    Do berço, segue-me os passos;
    Onde eu vou, seus olhos vão…
    E quando a aperto nos braços
    –Abraço o meu coração.

    Quando o seu chôro receio,
    Embalo-a, faço que acceite
    A alegria do meu seio
    Na brancura do meu leite…

    E quando assim não descança,
    Que tristezas me consomem!
    –Mas antes chore em creança
    Que depois, quando fôr homem…

    Se ao dal-o ao mundo soffri
    Tormentos, ancias mortaes,
    Desgraça, vae-te d'aqui,
    O que pretendes tu mais?!

    Bate as azas, mas ao voares,
    Não me apagues esta estrella.
    Se alguem d'aqui precisares,
    –Aqui me tens, em vez della!

    Tocam ás ave-marias.
    Foi-se o sol. Não vem a lua.
    Luzinha que me allumias,
    Que sorte será a tua?…

    Riquezas tenhas tão grandes,
    E tal bondade tambem,
    Que ao redor d'onde tu andes
    Não fique pobre ninguem.

    Que a todos chegue a ventura:
    Toda a bocca tenha pão,
    Toda a nudez cobertura,
    Toda a dôr, consolação…

    Mas se o oiro é mau caminho,
    –Antes tu venhas a ser
    O pobre mais pobrezinho
    De quantos pobres houver.

    Iremos por esses montes
    Altos e azues, como os céus…
    Que onde ha fructos e onde ha fontes,
    –Está a meza de Deus!

    E, quando a neve cahir
    E as seivas adormecerem,
    Iremos então pedir…
    (Acceitar o que nos derem!)

    Andaremos á mercê
    Dos genios bons, e dos falsos,
    Leguas e leguas a pé,
    Rotinhos, magros, descalços…

    E onde houver urzes e tojos,
    Pedras que rasgam a pelle,
    Porei o corpo de rôjos
    –Passarás por cima delle!

    Dorme, dorme, meu menino,
    Foi-se o sol. Nasceu a lua.
    Qual será o teu destino?
    Que sorte será a tua?…

    Se um crime tens de fazer,
    Antes fique vago um throno,
    Antes um palacio a arder,
    –Do que uma enxada sem dono…

    Se, porém, no teu destino,
    Ha tão cruentos signaes,
    Dorme, dorme, meu menino,
    –Não tornes a acordar mais!

    O NOSSO LAR

    _A Antonio Arroyo_

    «Sonhar a vida é apenas entretel-a.
    Partamos della para nós, senão
    Lá vae o coração para uma estrella
    E fica a gente sem o coração!»

    _GUEDES TEIXEIRA_. _Esperança Nossa_

    Quem vir–como eu os vejo–decorrer
    Annos e annos duma vida rasa
    Em miseraveis quartos d'aluguer,

    Frios no inverno e no estío em braza,
    –A um amôr sonhado de mulher
    Allía sempre o sonho duma casa…

    O aspecto duma casa raro mente,
    A côr, as linhas duma frontaria
    Dão logo a perceber nitidamente,

    Melhor do que um vizinho o contaria,
    O genio e a indole da gente
    Que nella tem o lar, a moradia.

    Vejam esses _cottages_ tanto em moda
    Entre os inglezes e os capitalistas,
    Com grades no jardim, a toda a roda…

    Impenetraveis ás alheias vistas…
    Não abrem nunca uma janella toda…
    São mudos, graves, individualistas.

    E aquelles caixotões de pedra e cal
    Que surgem ao formar-se um bairro novo,
    No constante engordar da Capital,

    (O que eu, aliás, muito aprecio e louvo…)
    –Não mostram bem, com o seu ar banal,
    A falta de caracter deste povo?

    Quando uma santa e pobre rapariga,
    Em cujo olhar se abranda o meu soffrer
    E a cujo coração o meu se liga,

    Puder chegar a ser minha mulher,
    Eu quero então que a nossa casa diga
    Bondade e alegria de viver.

    Terá um só andar. Grandes alturas
    Causam vertigens, trazem ambições.
    Os sonhos de riqueza e d'aventuras

    Enchem as almas de desillusões.
    A f'licidade vem ás creaturas
    Da pacificação dos corações.

    As portas sem degraus. Que sejam rentes
    Da terra. Portas largas e rasgadas,
    Convidativas, francas, attrahentes;

    Ao rez da terra, para as aleijadas
    e os tropegos velhinhos indigentes
    Se não cançarem a subir escadas…

    Amplas janellas para a natureza.
    Que o sol na sua clara irradiação
    Dissipe atravez dellas a tristeza;

    Amplas–e baixas. Quem precise pão,
    E o vir da rua sobre a nossa meza,
    Que estenda o braço, que lhe lance a mão…

    Ao lado um horto e um jardim fragrante,
    Sem grades aguçadas para o céu.
    A grade é agressiva, hostilisante,

    E sempre a impressão cruel me deu
    Dum dono que bradasse ao caminhante:
    –Tudo isto aqui é meu, sómente meu…

    Sem gradeamento. Um murosito apenas
    Revestido de rosas de toucar,
    De ariolas, de glicinias, de verbenas.

    Muro d'onde os que forem a passar
    Vejam lilazes, cravos, assucenas…
    –E a paz, a doce paz do nosso lar.

    O QUE O FOGO POUPOU DUM POEMETO QUEIMADO

    _Ao Conego Manuel do Nascimento Simão_

    I

    Escrevo em testamento este poema
    Que elle tenha, na angustia com que o ligo,
    O brilho rutilante duma gemma
    Achada nos farrapos dum mendigo…

    Ao vesperal crepusculo da vida
    E sob o olhar da morte é que o componho;
    Erguendo assim, por minha despedida,
    O ultimo escalão dum alto sonho.

    Nesse degrau que d'entre os soes dispersos
    Hade attingir a cúpula dos céus,
    Direi ao mundo os derradeiros versos,
    Porei o coração nas mãos de Deus!

    E as mãos de Deus que os astros têm guiado
    Como se leve pluma cada um fôra,
    Hão de o sentir pesar, sollicitado
    Pelo logar da terra onde ella móra…

    II

    …Sei lá pintar!
    Se eu soubesse pintar, era pintor.

    _Guedes Teixeira_

    Na mais alta cidade portuguêsa
    Nasceu, para abrandar meu fundo mal,
    A mais santa, a mais cheia de pureza
    Das moças deste lindo Portugal.

    Os seus olhos são tristes e suggerem
    Todo um passado de resignação.
    São tristes, certamente por não verem
    O rosto incomparavel onde estão…

    A voz é clara como as assucenas
    E dolorida, candida, modesta.
    É dolorida, porque sente penas
    D'abandonar a sua bocca honesta…

    O riso, que é em nótulas delidas
    Vibra em seus labios tão rapidamente
    Como um beijo d'amor, ás escondidas,
    Na curva duma estrada em que vem gente…

    A mão della, uma vez, poisou na minha;
    Pareceu-me ao sentir-lhe a commoção,
    Que era o seu proprio coração que eu tinha
    A palpitar dentro da minha mão…

    Se passa, ás tardes, e de traz cahindo,
    O sol abraza os longes da paizagem,
    A sombra que em sua frente vae seguindo
    É a luz–a abrir-se, p'ra lhe dar passagem…

    Se passa, acalma os corações maguados
    Como outr'ora as parabolas de Christo
    Acalmavam a dôr aos desgraçados.
    Acalma os corações?! Não… não é isto.

    As estrophes d'amor, a quem o sinta,
    Dão um trabalho cheio de tormento;
    O tenebroso liquido da tinta
    Apaga, rouba a côr ao sentimento.

    Quiz celebrar dum modo original
    As finas graças do seu corpo. Errei-as.
    Oh Fórma! És como um fato d'hospital.
    Palavras! Sois a nevoa das ideias…

    MELODIA CONFIDENCIAL

    (De Albert Samain)

    _A L.C._

    Num andamento
    Discreto, lento,
    Mal se ouve o pêndulo lavrado e antigo.

    Vamos vogando
    No lago brando
    E sem limites do silencio amigo…

    O ultimo e cavo
    Accorde do cravo
    Ficou vibrando exclamativamente.

    E, em espiral
    Ascencional,
    Cingiu-nos num abraço enlanguescente.

    Na alcatifa macia
    Entrou na agonia
    Uma rosa sedenta e abandonada,

    E a ambos nos invade
    A mistica vontade
    D'entrar na morte, no não ser, no nada…

    Com seu docel vermelho
    Forrado d'oiro velho,
    Que evoca velhas eras d'esplendor,

    O leito pesado,
    Como um deus concentrado,
    Remembra obscuramente o nosso amor…

    Na atmosphera morna
    O teu corpo entorna
    Um perfume subtil, sensual, complexo,

    Aroma inapagavel,
    Philtro informulavel
    Gerado á chama clara do teu sexo.

    Teus olhos silentes
    E transparentes
    Teem, no fundo, verdes melancolicos,

    E as brazas do fogão,
    Já quasi extinctas, dão
    Clarões hypnotisantes e symbolicos…

    Amêmo-nos assim
    Com um amor sem fim,
    Verdadeiro na carne e nas ideias;

    P'los dedos enlaçados
    Sejamos penetrados
    D'amor, até ás mais miudinhas veias.

    Em extasis intensos
    Quedemo-nos suspensos
    Por sobre a terra ironica e brutal

    Sem nada saber,
    Sem nada ver,
    –Numa vida isolada e musical…

    Não fales. Não?
    Ou se o fizer's, então
    Que seja de vagar, muito baixinho,

    Numa toada, leve
    Como o halito breve
    Duns labios d'anjo numa pel' d'arminho…

    O PASSEIO DE SANTO ANTONIO

    _A Columbano_

    La fleur des traditions nationales est flétrie. Mais libre a tous
    de puiser, dans l'herbier cosmopolite des legendes, les admirables
    pretextes à fiction qu'il recèle.

    (_Litterature à Tout á L'Heure_.)

    Sahira Santo Antonio do convento,
    A dar o seu passeio costumado
    E a decorar, num tom rezado e lento,
    Um candido sermão sobre o peccado.

    Andando, andando sempre, repetia
    O divino sermão piedoso e brando,
    E nem notou que a tarde esmorecia,
    Que vinha a noite placida baixando…

    E andando, andando, viu-se num outeiro,
    Com arvores e casas espalhadas,
    Que ficava distante do mosteiro
    Uma legua das fartas, das puxadas.

    Surprehendido por se vêr tão longe,
    E fraco por haver andado tanto,
    Sentou-se a descançar o bom do monge,
    Com a resignação de quem é santo…

    O luar, um luar clarissimo nasceu.
    Num raio dessa linda claridade
    O Menino Jesus baixou do céu,
    Poz-se a brincar com o capuz do frade.

    Perto, uma bica d'agua murmurante
    Juntava o seu murmurio ao dos pinhaes.
    Os rouxinoes ouviam-se distante.
    O luar, mais alto, illuminava mais.

    De braço dado, para a fonte, vinha
    Um par de noivos todo satisfeito.
    Ella trazia ao hombro a cantarinha,
    Elle trazia… o coração no peito.

    Sem suspeitarem de que alguem os visse,
    Trocaram beijos ao luar tranquillo.
    O menino, porém, ouviu e disse:
    –Oh Frei Antonio, o que foi aquillo?…

    O santo, erguendo a manga de burel
    Para tapar o noivo e a namorada,
    Mentiu numa voz doce como o mel:
    –Não sei que fosse. Eu cá não ouvi nada…

    Uma risada limpida, sonora,
    Vibrou com timbres d'oiro no caminho.
    –Ouviste, Frei Antonio? Ouviste agora?
    –Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho…

    –Tu não estás com a cabeça boa…
    Um passarinho a cantar assim!…
    E o pobre Santo Antonio de Lisboa
    Calou-se embaraçado, mas por fim,

    Córado como as véstes dos cardeaes,
    Achou esta sahida redemptora:
    –Se o Menino Jesus pregunta mais,
    …Queixo-me á sua mãe, Nossa Senhora!

    Voltando-lhe a carinha contra a luz
    E contra aquelle amôr sem casamento,
    Pegou-lhe ao collo e acrescentou: Jesus,
    São horas…
    –E abalaram p'r'ó convento.

    UM GRÃO DE INCENSO

    _A Lourenço Cayolla_

    Entraste com ar cançado
    Numa egreja fria e triste.
    Ajoelhei-me ao teu lado
    –E nem ao menos me viste…

    Ficaste a rezar alli,
    Naquella immensa tristeza.
    Rezei tambem, mas a ti,
    –Que aos anjos tambem se reza…

    Ficaste a rezar até
    Manhã dentro, manhã alta.
    Como é que tens tanta fé
    –E a caridade te falta?…

    A MÁSCARA

    _A Santos Tavares_

    Por acaso, parou na minha frente,
    De _loup_ e dóminó de seda negra,
    Uma mulher d'olhar resplandecente
    E mento breve de figura grega.

    Tomei-lhe as mãos esguias entre as minhas…

    E os seus olhos doirados reluziram
    Como os punhaes ao sol, quando se tiram,
    Aguçados e frios, das bainhas.

    –Máscara, quem és tu?

    –E tu quem és?…

    –Um homem que te viu e te deseja…

    E um riso vago, de desdem talvez,
    Floriu na sua bocca de cereja.

    Ergui-lhe as mãos asceticas. Beijei-as.

    Em vibrações entrecortadas, sêccas,
    Tiniam taças irisadas, cheias.
    E uma phrase d'amôr, toda em colcheias,
    Vibrava nas arcadas das rebecas.

    Levei-a para o vão duma janella.
    –Máscara, quem és tu?

    –Para que insistes?…

    Outro riso subiu da bocca della
    Aos olhos enigmaticos e tristes.

    E descobriu a face. No capuz
    Emoldurou-se um rosto lindo e sério.

    Que differente porém do que eu supuz!

    A gente nunca deve entrar com luz
    Nos divinos recantos do misterio…

    IN PROMPTUM PASTORAL

    _A Amadeu de Freitas_

    «Muito vence quem se vence
    Muito diz quem não diz tudo,
    Porque a um discreto pertence
    A tempo fazer-se mudo.»

    (_Copla do Infante D. Luiz_.)

    Sob este céu creador
    De manhã vergiliana,
    Apetece ser pastor
    E tocar frauta de cana;

    Não, pastor d'autos d'amor,
    D'eclogas frias e velhas,
    Mas verdadeiro pastor
    De verdadeiras ovelhas…

    Não conhecer o talento
    Nem nada do que se ensina.
    Esta dôr do entendimento
    É peor do que se imagina…

    Guiar o meu coração
    Num ingenuo christianismo.
    Esta civilisação
    É cheia de pessimismo…

    Comer pão negro, pão duro,
    Beber o leite das peáras.
    Pão de centeio é escuro,
    –Mas põe as almas ás claras…

    Amar alguma pastora
    Com palavras e com obras.
    Estas senhoras d'agora
    São mais falsas do que as cóbras…

    E vêr crear com carinho,
    Com cuidados infinitos,
    Á companheira, um filhinho…
    E ás ovelhas, borreguitos…

    MEDITAÇÕES SOBRE THEMAS DO ECCLESIASTES

    I

    _A Celestino Steffanina_

    Vaidade de vaidades, disse o Ecclesiastes: vaidade de vaidades, e
    tudo vaidade.

    (_Capit. I, v. 1_).

    Semeador de iniquidades,
    Porque é que mandas sobre os teus eguaes?!
    O mando o que é? _Vaidade de vaidades_,
    Fumo que ao desfazer-se engrossa mais…

    Oh minha vista o que é que foi que viste
    Cá neste mundo impiedoso e rudo?

    _Que só a vaidade existe_
    –Em todos nós, e em tudo!…

    II

    _A Israel Anahory_

    Todas as coisas são difficeis; o homem não as póde explicar com
    palavras. Os olhos não se fartam de vêr nem o ouvido se enche de
    escutar.

    (_Capit. I, v. 8_).

    Palavras são palavras… Nada dizem.
    Teias d'aranha que jámais impedem
    Que as ideias se escapem e deslizem…

    Nescios os homens são quando procedem
    Como quem a verdade sempre traja
    E nunca della se encontrou despido…

    Difficil é… o que mais simples haja
    –Quanto mais o que fôr mais escondido!…

    Para que uma verdade vá julgar,
    Para que um sentimento vá sentir,
    Olhos: não vos canceis nunca d'olhar
    E vós, ouvidos, não deixeis d'ouvir.

    Mas por fim
    Nem assim…

    O mais profundo pensamento
    É sempre insubsistente e aerio,
    Por que a todo o momento
    –Se perde no misterio…

    III

    _A José Barbosa_

    Que é o que foi? É o mesmo que hade ser. Que é o que se fez? É o
    mesmo que o que se hade fazer.

    Que é o que foi?
    –O mesmo que hade ser…

    A vida é como o passo egual dum boi
    Que vem dos campos ao anoitecer;
    Com o seu lento e resignado aspeito,
    Andou um passo, e logo um outro dá.

    _Tudo quanto foi feito
    De novo se fará_…

    IV

    _A Ladislau Patricio_

    Os olhos do sabio estão na sua cabeça: o insensato anda em trevas:
    e aprendi que era uma e mesma a morte dum e doutro.

    (_Capit. II, v. 14_)

    O sabio tem os olhos da razão
    Além desses que tu na fronte levas,
    Oh nescio que sem guia e sem bordão
    Vaes pela vida a caminhar nas trevas…

    (_E d'ahi? E depois?
    Se surge um incidente,
    Fere indistinctamente
    Ou ambos elles, ou qualquer dos dois_…)

    V

    _A Adelaide Gil, minha irmã_

    Todas as coisas caminham a um logar: de terra foram feitas e em
    terra se hão de tornar do mesmo modo.

    (_Capit. III, v. 3_).

    Mas o que é, afinal, a perfeição?
    Como é que tudo, oh sabios, evolue
    _Se as coisas todas caminhando vão
    Para um egual e unico logar,
    Se o pó que as constitue
    Em pó se hade tornar_?

    VI

    _A Eduardo Graça_

    Todas as coisas teem seu tempo e todas ellas passam debaixo do céu
    segundo o termo que a cada uma foi prescripto.

    (_Capit. III, v. 2_).

    Socega, coração attribulado,
    De toda a dôr se apaga todo o traço.
    Pois quanto ao mundo vem, traz já marcado
    _O seu tempo e tambem o seu espaço_…

    E queira Deus, coração,
    Que esta hora de anciedade
    E de pranto e d'afflicção
    –Nunca te cause saudade!…

    A CANÇÃO DAS PERDIDAS

    _A Vianna da Motta_

    I

    Quem por amôr se perdeu
    Não chore, não tenha pena.
    Uma das santas do céu
    –É Maria Magdalena…

    II

    Minha mãe foi o que eu sou.
    Eu sou o que tantas são.
    Que triste herança te dou,
    Filha do meu coração!

    III

    Meu pae foi para o degredo
    Era eu inda pequena.
    Se não morresse tão cedo,
    Morria agora–de pena…

    IV

    E ha no mundo quem afronte
    Uma mulher quando cae!
    Nasce agua limpa na fonte,
    Quem a suja é quem lá vae…

    V

    Aquelle que me roubou
    A virtude de donzella
    Se outra honra lhe não dou,
    –É porque só tive aquella!…

    VI

    Nós temos o mesmo fado,
    Oh fonte d'agua cantante,
    Quem te quer, pára um boccado.
    Quem não quer, pássa adeante…

    VII

    O meu amôr, por amal-o,
    Poz-me o peito numa chaga:
    Deu-me facadas. Deixal-o.
    Mas ao menos não me paga!

    VIII

    Nem toda a agua do mar
    Por estes olhos chorada
    Daria bem a mostrar
    O que eu sou de desgraçada!

    IX

    Como querem vêr contente
    Este paiz desgraçado,
    Se dão só livros á gente
    Nas escolas do peccado…

    X

    Dormia o meu coração
    Cançado de fingimento.
    Bateste-me, e vae então
    Acordou nesse momento.

    XI

    Se aquillo que a gente sente,
    Cá dentro, tivesse vóz,
    Muita gente… toda a gente
    Teria pena de nós!

    CARTA A UM RAPAZ SENTIMENTAL

    «Um mover d'olhos brando e piedoso
    Sem vêr de quê; um riso brando e honesto
    Quasi forçado; um doce e humilde gesto
    De qualquer alegria duvidoso

    * * * * *

    Um encolhido ousar; uma brandura,
    Um medo sem ter culpa; um ar sereno,
    Um longo e obediente soffrimento.

    * * * * *

    Camões

    Num quente e perturbante fim de tarde,
    Cujo magnetico e profundo enlevo
    Ainda agora em mim crepita e arde,
    Como se fosse a tarde em que te escrevo,

    Ergui os olhos distrahidamente,
    A ver se já brilhava alguma estrella
    No concavo do céu opalescente
    –E vi, numa varanda, os olhos della…

    Do episodio que acabo de contar-te
    Tão simples, tão banal, que dá vontade,
    Para lhe pôr um boccadinho d'arte,
    De lhe roubar um pouco de verdade,

    Foi que este amor espiritual nasceu,
    Nasceu, cresceu e se tornou eterno…
    Repara, amigo, como olhando o céu
    A gente, ás vezes, póde achar o inferno.

    Mas quem podia então adivinhal-o?
    O olhar dessa mulher era tão lindo
    Que deslumbrado me fiquei a olhal-o.
    Descera a noite. A lua ia subindo…

    Era lua cheia e, para mais, d'agosto;
    Dava em toda a varanda. Assim, eu via
    As fórmas portuguêsas do seu rosto
    Nitidamente, como á luz do dia.

    E cá dentro de mim senti nascer
    A dúvida, a incerteza, a hesitação
    Sobre o que mais desejaria ser:
    Se o noivo della, se o primeiro irmão…

    Uma estrella cadente reluziu
    Por sobre as torres da vizinha egreja,
    Pensei commigo: Deus o decidiu:
    É minha noiva que Elle quer que seja.

    Não dizia ventura, mas desgraça,
    A claridade do signal aereo.
    (Na mesma direcção da egreja, passa
    A rua que vae dar ao cemiterio…)

    Porém, como querendo agradecer-me
    A decisão que attribuira a Deus,
    Inclinou-se de leve para ver-me
    E os doces olhos demorou nos meus.

    Sob a caricia desse olhar cinzento,
    Que ao abaixar-se parecia negro,
    O coração que me batia lento,
    Mudou o andamento para alegro.

    Uma hora decorreu. Outras passaram.
    Passaram, foram-se; e naquelle enleio
    Que tempo os nossos olhos conversaram!…
    Estava a noite já em mais de meio.

    Vinha dos montes uma brisa ardente.
    O céu ganhára tons d'azul cobalto.
    O luar cahia silenciosamente.
    Na sombra, os rouxinoes cantavam alto.

    Arrependidos, ou então, cançados
    De se fitarem com demora em mim,
    Os seus olhos piedosos e sagrados
    Ao dialogo d'amor puzeram fim.

    Desviára-os; e entre as palpebras discretas,
    Poisára-os nas mãos claras e pequenas,
    Como se foram duas borboletas
    Voando para duas assucenas.

    Ergueu-se. O busto delicado e fino
    Tinha os suaves, religiosos traços
    Da Virgem num altar. Só o Menino
    Faltava na doçura dos seus braços…

    Num olhar impregnado de candura,
    Disse-me adeus e recolheu. Depois…
    A luminosa noite fez-se escura.
    Calaram-se na sombra os rouxinoes.

    Entrei em casa e quiz dormir. Raiára
    A madrugada sem que o conseguisse.
    Quem um sonho tão limpido sonhára,
    Inutil se tornava que dormisse…

    Annos felizes neste amor gastei.
    Vieram em seguida as horas más.
    O que nellas soffri, o que passei,
    Um dia, noutra carta, o saberás.

    MÃOS FRIAS CORAÇÃO QUENTE

    Dez da manhã. Vento da
    serra. Tres graus negativos

    _Mãos frias, coração quente_!
    Quanta vez isto dizias
    Com o teu ar sorridente,
    Apertando-me as mãos frias…

    Agora decerto o tenho
    Num brazeiro, num vulcão.
    O frio é tanto, é tamanho
    Que a penna cae-me da mão…

    Q'ria dizer-te o que penso
    E o que faço e premedito,
    Mas posso lá ser extenso
    Com este frio maldito!

    Tu perdoas certamente,
    Tu não te zangas, pois não?
    _Mãos frias, coração quente_
    –Lá diz o velho rifão…

    NOIVA

    _A João da Silva_

    «Anda a dôr dissimulada
    Mas ella dará seu fruito.»

    Crisfal

    «_Vae ser pedida. Casa qualquer dia._»

    (_Trecho duma carta_)

    Tive noticias hoje a teu respeito:
    «Vae ser pedida. Casa qualquer dia».
    E o coração tranquillo no meu peito
    –Continuou a bater como batia…

    Surpreso duma tal serenidade,
    Todo eu, intimamente, me sondava:
    Pois nem ciume? Nem sequer saudade?!
    –E nem ciumes, nem saudade achava…

    Saudades, não; que o teu amor antigo
    Guardam-no as cinzas (neste coração)
    Como em Pompeia aquelles grãos de trigo
    Que após centenas d'annos deram pão…

    Saudades! Mas de quê?! Pois não sei eu
    A lei antiga como o proprio mundo
    De que o prazer mal chega, já morreu,
    E só a dôr nas almas cava fundo?

    Causei-te longas horas d'amargura,
    Não consegues voltar a ser feliz;
    A chaga que te abri não terá cura,
    E se curar–lá fica a cicatriz.

    Á luz dum juramento que trahiste
    Tu has de vêr-me toda a vida pois.
    Ergueste-o a Deus num dia amargo e triste
    E Deus casou-nos esse dia, aos dois…

    Ciumes tambem não, por te venderes.
    Desgraçadinha! Antes te houvesses dado;
    Não descerias tanto entre as mulheres,
    Seria mais humano o teu peccado.

    Porém, embora a tua falta aponte,
    P'ra mim és a que foste (ou que eu suppuz);
    O sol desapparece no horisonte
    –E a gente vê-o ainda a dar-nos luz…

    Póde a desgraça erguer em frente a mim
    Altas montanhas d'elevados cumes.
    O sol do amôr doiral-as-ha, e assim,
    Vendo-o tão alto, não terei ciumes.

    Ciumes! _Elle_ é que hade tel-os, quando,
    Em claras noites de luar silente,
    Ouvir vibrar alguma voz, cantando
    Os versos que te fiz devotamente.

    Versos para te ungirem os ouvidos
    E os labios d'anemica e de santa,
    Tão pobres, tão ingenuos, tão sentidos,
    Que o povo humilde os acolheu e os canta.

    Então, se te olhar bem, logo adivinha…
    Logo sombriamente se convence
    De que a tua alma se fundiu na minha
    –E apenas o teu corpo lhe pertence.

    DE PROFUNDIS CLAMAVI AD TE DOMINE

    _Á Leo_

    Ao charco mais escuso e mais immundo
    Chega uma hora no correr do dia
    Em que um raio de sol, claro e jocundo,
    O visita, o alegra, o alumía;

    Pois eu, nesta desgraça em que me afundo,
    Nesta contínua e intérmina agonia,
    Nem tenho uma hora só dessa alegria
    Que chega ás coisas infimas do mundo!…

    Deus meu, acaso a roda do destino
    A movimentam vossas mãos leaes
    Num aceno impulsivo e repentino,

    Sem que na cega turbulencia a domem?!
    Senhor! Não é um seixo o que esmagaes;
    Olhae que é–_o coração dum homem_!…

    JOANNINHA

    _A Mayer Garção_

    Descance de quando em quando…
    Passar assim toda a tarde
    Sempre bordando, bordando,
    Sem que um momento desista,
    Até faz pena! Não lhe arde
    Nem se lhe perturba a vista?…

    Descance de quando em quando…
    Erga os olhos do bordado
    E veja quem vae passando.
    O trabalho alegra a gente,
    Mas assim, tão aturado,
    –Não lhe faz bem certamente.

    Erga a carinha tranquilla,
    Erga esse rosto tão lindo
    E veja os moços da villa
    A passarem por aqui,
    Uns descendo, outros subindo,
    –E todos d'olhos em si…

    Descance de quando em quando
    E veja se escolhe algum;
    Já é tempo d'ir pensando
    Em casar. Não é assim?…
    Se não lhe agrada nenhum,
    –Diga se gosta de mim.

    Desde os começos do outono
    Que eu a trago no sentido,
    Não como, não tenho sono,
    Tudo me dá ralação?
    Quer-me para seu marido?
    –Diga que sim ou que não…

    QUANDO AS ANDORINHAS PARTIAM…

    _A Cassianno Neves_

    Bocca talhada em milagrosas linhas,
    A luz augmenta com o seu falar.

    Esta manhã um bando de andorinhas
    Ia-se embora, atravessava o mar.

    Chegou-lhes ás alturas, pela aragem,
    Um adeus suave que ella lhes dissera,

    –E suspenderam todas a viagem,
    Julgando que voltára a primavera…

    A PARÁBOLA DO PUCARO D'AGUA

    Acreditaram os romanticos que a arte residia principalmente na
    disformidade. Se atravez das proprias dores descessem ás profundas
    realidades da vida, teriam observado que… o viver do povo encerra
    em si uma poesia sagrada. Sentil-a e mostral-a não é tarefa de
    machinista; para tal, não é necessario juntar-lhe effeitos
    theatraes.

    … O que é preciso é ter olhos para vêr na sombra, na pequenez e
    na humildade, é um coração que auxilie a vista nestes recessos do
    lar, nestas sombras de Rembrandt.

    _MICHELET_. _O Povo_

    _A Manuel Penteado_

    Buscava em algum assunto adrede
    A versos que inculcassem novidade,
    Quando uma intensa e irreprimivel sêde
    Me fez voltar do sonho á realidade.

    E pedi agua (já se vê) que veio
    Consoante é d'uzo cá por entre o povo
    Num pucaro de barro ingenuo e feio,
    Servindo-lhe de salva um prato côvo.

    Bebi o liquido dum trago só;
    E dito o «Deus te pague» habitual,
    Subi de novo a escada de Jacob
    No heroico intuito de escalar o ideal…

    Mas o idealismo é como a nevoa ondeante
    Que os rios erguem pela madrugada;
    O olhar destingue-a, quando está distante,
    E da que nos rodeia–não vê nada…

    De que serve afinal tentar a gente
    Reter, dentro das mãos, fumo de palha,
    Se aqui, aos nossos olhos, no existente,
    Ha tanta coisa que os attráia e valha?…

    A agua vinda neste vaso fragil
    Que um ignorado artista modelou
    Num gesto–já mechanisado e agil–
    Á força d'imitar o que encontrou,

    É um assunto cheio de belleza,
    Cheio de claro e alto ensinamento.
    Assim na branda fala portuguêsa
    O désse eu, como o tenho em pensamento!…

    A agua é como a esp'rança
    Que a tudo se sujeita…
    Onde quer que se deita
    Lá fica humildemente acommodada,
    Seja a concha da mão duma creança,
    Ou a taça lendaria da ballada…

    Tanto sacia
    Num vaso tyrrêno dos da antiga Roma
    (Que um só valia
    O rútilo oiro d'avaro banqueiro)
    Como a que se toma
    Na argilla porosa,
    Alegre trabalho dum simples oleiro…

    E é
    Até
    Bem mais saborosa
    No barro suarento
    Deixado á janella,
    Que num opulento
    Copo lavrado
    Que seja pertença de rica baixella
    E sonho gentil, cinzel phantasista
    Dalgum grande artista
    Dos raros d'agora, ou do tempo afastado…

    Bichos humanos, féras em pé,
    Sêde bondosos como a agua o é…

    No luzente alcantil da magnitude,
    Ou no áspero declive da pobreza,
    Nunca cerreis o espirito á virtude,
    Nunca fecheis os olhos á belleza.
    Que todo o coração,
    Desde o sabio de genio ao cavador,
    Seja o Calix de paz e de perdão
    Contendo a agua limpida e lustral
    Dum irmanado e perpetuo amôr…

    Agua que limpe a mácula do mal
    E mitigue a miseria, a ancia, a magua
    Desta cruenta e impiedosa guerra
    Em que tantas creaturas se consomem.

    Nem só da agua
    Que vem da terra
    Tem sêde o homem…

    Nasce uma fonte
    Rumurejante
    Na encosta dum monte;

    E mal que do seio
    Da terra brotou,
    Logo o seu veio
    Transparente
    E diligente
    Buscou e achou
    Mais baixo logar…

    E sempre descendo,
    E sempre a cantar,
    Vae andando,
    Galgando,
    Vencendo,
    (Ou tenta vencer…)
    Folha, raíz, areia, o que tolher
    A sua descida…

    Ao brotar da dura frágoa
    –É uma lagrima d'agua…

    Mas esse humilde fiozinho,
    Que um destino bom impelle,
    Encontra pelo caminho
    Um outro que é como elle…

    Reunem-se, fundem-se os dois,
    Proseguem de companhia,
    E fica dupla depois
    A força que os leva e guia…

    Junta-se aos dois um terceiro,
    Outros confluindo vão,
    E o regato é já ribeiro
    E o ribeiro é rio então…

    E nada agora o domina
    Ao fiozinho da fonte.
    Entre collina e collina,
    Ou entre um monte e outro monte,

    Caminha sem descançar,
    Circula atravez do mundo
    –Até á beira do mar
    Omnipotente e profundo…

    Da altura em que estejaes (ou vos pareça;
    A vaidade é uma amante enganadora)
    Que o mais alto de vós se humilhe e desça
    Como se humilde e pobre sempre fôra…

    E que os demais desçam tambem de todo
    O orgulho e mando sobre escravas gentes
    Até ao valle, de lagrimas e lôdo
    Onde a miseria brada e range os dentes.

    E como as aguas que se vão juntando
    E juntas, e cantando, vão descendo,
    Reuni o choro derramado, quando
    Atravessardes esse valle horrendo.

    E o atoleiro que se havia feito
    No val, dantesco, pútrido, sombrio,
    Mudar-se-ha no irrigante leito
    Dum fertilisador e claro rio;

    E o rio, andando, andando, hade alargar
    –Com biliões de lagrimas vertidas–
    Num infinito e luminoso mar
    De novas e amplas e cantantes vidas!

    Outubro de 1909.

    INDICE

    Prefacio
    Dedicatoria
    Luar de Janeiro
    Sextilhas a um menino Jesus d'Evora
    Ballada da Neve
    Toada para as mães acalentarem os filhos
    O nosso lar
    O que o fogo poupou dum poemeto queimado
    Melodia confidencial
    O passeio de Santo Antonio
    Um grão de incenso
    A máscara
    In promptum pastoral
    Meditações sobre themas do Ecclesiastes
    A canção das perdidas
    Carta a um rapaz sentimental
    Mãos frias coração quente
    Noiva
    De profundis clamavi ad te domine
    Joanninha
    Quando as andorinhas partiam
    A parábola do pucaro d'agua

    Acabado de imprimir aos trinta e um de dezembro de 1909 em Lisboa, na
    Typographia do Commercio, Rua da Oliveira, 10, ao Carmo.

  • Livro de Máguas

    Livro de Máguas

    Aproximadamente 3.482 palavras.

    Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
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    Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)

    FLORBELA ESPANCA

    Livro de Máguas

    MCMXIX

    LIVRO DE MÁGUAS

    FLORBELA ESPANCA

    LIVRO DE MÁGUAS

    MCMXIX

    _A meu Pai_

    Ao meu melhor amigo

    Á querida Alma irmã da minha,

    _Ao meu Irmão_

    Procuremos sòmente a Beleza, que a vida
    É um punhado infantil de areia resequida,
    Um som dágua ou de bronze e uma sombra que passa…

    Eugénio de Castro.

    Isolés dans l'amour ainsi qu'en un bois noir,
    Nos deux coeurs, exalant leur tendresse paisible,
    Seront deux rossignols qui chantent dans le soir.

    Verlaine.

    *Êste livro*…

    ÊSTE LIVRO…

    Êste livro é de máguas. Desgraçados
    Que no mundo passais, chorae ao lê-lo!
    Sòmente a vossa dor de Torturados
    Pode, talvez, senti-lo… e compreendê-lo…

    Este livro é p'ra vós, Abençoados
    Os que o sentirem, sem sêr bom nem belo!
    Bíblia de tristes… Ó Desventurados,
    Que a vossa imensa dôr se acalme ao vê-lo!

    Livro de Máguas… Dôres… Ansiedades!
    Livro de Sombras… Névoas… e Saudades!
    Vai pelo mundo… (Trouxe-o no meu seio…)

    Irmãos na Dôr, os olhos razos de agua,
    Chorae comigo a minha imensa mágua,
    Lendo o meu livro só de máguas cheio!…

    *Vaidade*

    VAIDADE

    Sonho que sou a Poetisa eleita,
    Aquela que diz tudo e tudo sabe,
    Que tem a inspiração pura e perfeita,
    Que reúne num verso a imensidade!

    Sonho que um verso meu tem claridade
    Para encher todo o mundo! E que deleita
    Mesmo aqueles que morrem de saudade!
    Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

    Sonho que sou Alguem cá neste mundo…
    Aquela de saber vasto e profundo,
    Aos pés de quem a terra anda curvada!

    E quando mais no ceu eu vou sonhando,
    E quando mais no alto ando voando,
    Acordo do meu sonho…
    E não sou nada!…

    *Eu*…

    EU…

    Eu sou a que no mundo anda perdida,
    Eu sou a que na vida não tem norte,
    Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
    Sou a crucificada… a dolorida…

    Sombra de névoa ténue e esvaecida,
    E que o destino amargo, triste e forte,
    Impele brutalmente para a morte!
    Alma de luto sempre incompreendida!…

    Sou aquela que passa e ninguem vê…
    Sou a que chamam triste sem o sêr…
    Sou a que chora sem saber porquê…

    Sou talvez a visão que Alguem sonhou,
    Alguem que veio ao mundo p'ra me vêr,
    E que nunca na vida me encontrou!

    *Castelã da Tristêsa*

    CASTELÃ DA TRISTÊSA

    Altiva e couraçada de desdem,
    Vivo sòsinha em meu castelo: a Dôr!
    Passa por êle a luz de todo o amôr….
    E nunca em meu castelo entrou alguem!

    Castelã da Tristêsa, vês?… A quem?!…
    –E o meu olhar é interrogadôr–
    Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pôr…
    Chora o silêncio… nada… ninguem vem…

    Castelã da Tristêsa, porque choras
    Lendo, toda de branco, um livro de oras,
    Á sombra rendilhada dos vitrais?…

    Á noite, debruçada p'las ameias,
    Porque rezas baixinho?… Porque anseias?…
    Que sonho afagam tuas mãos reais?…

    *Tortura*

    TORTURA

    Tirar dentro do peito a Emoção,
    A lucida Verdade, o Sentimento!
    –E ser, depois de vir do coração,
    Um punhado de cinza esparso ao vento!…

    Sonhar um verso d'alto pensamento,
    E puro como um rythmo d'oração!
    –E ser, depois de vir do coração,
    O pó, o nada, o sonho dum momento!…

    São assim ôcos, rudes, os meus versos:
    Rimas perdidas, vendavaes dispersos,
    Com que eu iludo os outros, com que minto!

    Quem me déra encontrar o verso puro,
    O verso altivo e forte, extranho e duro,
    Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!

    *Lágrimas ocultas*

    LÁGRIMAS OCULTAS

    Se me ponho a scismar em outras éras
    Em que ri e cantei, em que era qu'rida,
    Parece-me que foi noutras esféras,
    Parece-me que foi numa outra vida…

    E a minha triste bôca dolorida
    Que dantes tinha o rir das primavéras,
    Esbate as linhas graves e severas
    E cae num abandôno de esquecida!

    E fico, pensativa, olhando o vago…
    Toma a brandura plácida dum lago
    O meu rôsto de monja de marfim…

    E as lágrimas que choro, branca e calma,
    Ninguem as vê brotar dentro da alma!
    Ninguem as vê cair dentro de mim!

    *Torre de névoa*

    TORRE DE NÉVOA

    Subi ao alto, á minha Torre esguia,
    Feita de fumo, névoas e luar,
    E puz-me, comovida, a conversar
    Com os poetas mortos, todo o dia.

    Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
    Dos versos que são meus, do meu sonhar,
    E todos os poetas, a chorar,
    Responderam-me então: «Que fantasia,

    Creança doida e crente! Nós tambêm
    Tivemos ilusões, como ninguem,
    E tudo nos fugiu, tudo morreu!…»

    Calaram-se os poetas, tristemente…
    E é desde então que eu choro amargamente
    Na minha Torre esguia junto ao Ceu!…

    *A minha Dôr*

    A MINHA DÔR

    _A Você_

    A minha Dôr é um convento ideal
    Cheio de claustros, sombras, arcarias,
    Aonde a pedra em convulsões sombrias
    Tem linhas dum requinte escultural.

    Os sinos teem dobres d'agonias
    Ao gemer, comovidos, o seu mal…
    E todos teem sons de funeral
    Ao bater horas, no correr dos dias…

    A minha Dôr é um convento. Ha lírios
    Dum roxo macerado de martírios,
    Tão belos como nunca os viu alguem!

    Nesse triste convento aonde eu móro,
    Noites e dias reso e grito e chóro!
    E ninguem ouve… ninguem vê… ninguem…

    *Dizêres íntimos*

    DIZÊRES INTIMOS

    É tão triste morrer na minha idade!
    E vou ver os meus olhos, penitentes
    Vestidinhos de rôxo, como crentes
    Do soturno convento da Saudade!

    E logo vou olhar (com que ansiedade!…)
    As minhas mãos esguias, languescentes,
    De brancos dedos, uns bébés doentes
    Que hão de morrer em plena mocidade!

    E ser-se novo é ter-se o Paraiso,
    É ter-se a estrada larga, ao sol, florida,
    Aonde tudo é luz e graça e riso!

    E os meus vinte e tres anos… (Sou tão nova!)
    Dizem baixinho a rir: «Que linda a vida!…»
    Responde a minha Dôr: «Que linda a cova!»

    *As minhas Ilusões*

    AS MINHAS ILUSÕES

    Hora sagrada dum entardecer
    D'Outono, á beira mar, côr de safira.
    Sôa no ar uma invisivel lira…
    O sol é um doente a enlanguescer…

    A vaga estende os braços a suster,
    Numa dôr de revolta cheia de ira,
    A doirada cabeça que delira
    Num último suspiro, a estremecer!

    O sol morreu… e veste luto o mar…
    E eu vejo a urna d'oiro, a baloiçar,
    Á flôr das ondas, num lençol d'espuma!

    As minhas Ilusões, dôce tesoiro,
    Tambem as vi levar em urna d'oiro,
    No Mar da Vida, assim… uma por uma…

    *Neurastenia*

    NEURASTENIA

    Sinto hoje a alma cheia de tristesa!
    Um sino dobra em mim, Ave Marias!
    Lá fôra, a chuva, brancas mãos esguias,
    Faz na vidraça rendas de Venesa…

    O vento desgrenhado, chora e resa
    Por alma dos que estão nas agonias!
    E flocos de neve, aves brancas, frias,
    Batem as azas pela Natureza…

    Chuva… tenho tristesa! Mas porquê?!
    Vento… tenho saudades! Mas de quê?!
    Ó neve que destino triste o nosso!

    Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!
    Gritem ao mundo inteiro esta amargura,
    Digam isto que sinto que eu não posso!!…

    *Pequenina*

    PEQUENINA

    _Á Maria Helena Falcão Risques_

    És pequenina e ris… A bôca breve
    É um pequeno idílio côr de rosa…
    Haste de lírio frágil e mimosa!
    Cofre de beijos feito sonho e neve!

    Dôce quimera que a nossa alma deve
    Ao Ceu que assim te fez tão graciosa!
    Que nesta vida amarga e tormentosa
    Te fez nascer como um perfume leve!

    O ver o teu olhar faz bem á gente…
    E cheira e sabe, a nossa bôca, a flôres
    Quando o teu nome diz, suavemente…

    Pequenina que a Mãe de Deus sonhou,
    Que ela afaste de ti aquelas dôres
    Que fizeram de mim isto que sou!

    *A Maior Tortura*

    A MAIOR TORTURA

    _A um grande poeta de Portugal_

    Na vida, para mim, não ha deleite.
    Ando a chorar convulsa noite e dia…
    E não tenho uma sombra fugidía
    Onde poise a cabeça, onde me deite!

    E nem flôr de lilaz tenho que enfeite
    A minha atroz, imensa nostalgia!…
    A minha pobre Mãe tão branca e fria
    Deu-me a beber a Magua no seu leite!

    Poeta, eu sou um cardo despresado,
    A urze que se pisa sob os pés.
    Sou, como tu, um riso desgraçado!

    Mas a minha tortura inda é maior:
    Não ser poeta assim como tu és,
    Para gritar num verso a minha Dôr!…

    *A Flôr do Sonho*

    A FLÔR DO SONHO

    A Flôr do Sonho alvissima, divina
    Miraculosamente abriu em mim,
    Como se uma magnolia de setim
    Fosse florir num muro todo em ruina.

    Pende em meio seio a haste branda e fina
    E não posso entender como é que, emfim,
    Essa tão rara flôr abriu assim!…
    Milagre… fantasia… ou talvez, sina…

    Ó Flôr que em mim nascêste sem abrolhos,
    Que tem que sejam tristes os meus olhos
    Se eles são tristes pelo amôr de ti?!…

    Desde que em mim nascêste em noite calma,
    Voou ao longe a aza da minh'alma
    E nunca, nunca mais eu me entendi…

    *Noite de Saudade*

    NOITE DE SAUDADE

    A Noite vem poisando devagar
    Sobre a terra que inunda de amargura…
    E nem sequer a benção do luar
    A quiz tornar divinamente pura…

    Ninguem vem atraz dela a acompanhar
    A sua dôr que é cheia de tortura…
    E eu oiço a Noite imensa soluçar!
    E eu oiço soluçar a Noite escura!

    Porque és assim tão 'scura, assim tão triste?!
    É que, talvez, ó Noite, em ti existe
    Uma Saudade egual á que eu contenho!

    Saudade que eu nem sei donde me vem…
    Talvez de ti, ó Noite!… Ou de ninguem!…
    Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!!

    *Angustia*

    ANGUSTIA

    Tortura do pensar! Triste lamento!
    Quem nos déra calar a tua voz!
    Quem nos déra cá dentro, muito a sós,
    Estrangular a hidra num momento!

    E não se quer pensar!… E o pensamento
    Sempre a morder-nos bem, dentro de nós…
    Qu'rer apagar no Ceu–Ó sonho atroz!–
    O brilho duma estrela, com o vento!…

    E não se apaga, não… nada se apaga!
    Vem sempre rastejando como a vaga…
    Vem sempre perguntando. «O que te resta?…»

    Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
    Ser pedaço de gelo, ser granito,
    Ser rugido de tigre na floresta!

    *Amiga*

    AMIGA

    Deixa-me ser a tua amiga, Amôr;
    A tua amiga só, já que não queres
    Que pelo teu amôr seja a melhor
    A mais triste de todas as mulheres.

    Que só, de ti, me venha mágua e dôr
    O que me importa a mim?! O que quiséres
    É sempre um sonho bom! Seja o que fôr
    Bemdito sejas tu por m'o dizêres!

    Beija-me as mãos, Amôr, devagarinho…
    Como se os dois nascessemos irmãos,
    Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho…

    Beija-mas bem!… Que fantasia louca
    Guardar assim, fechados, nestas mãos,
    Os beijos que sonhei p'rá minha bôca!…

    *Desejos vãos*

    DESEJOS VÃOS

    Eu qu'ria ser o Mar d'altivo porte
    Que ri e canta, a vastidão imensa!
    Eu qu'ria ser a pedra que não pensa,
    A Pedra do caminho, rude e forte!

    Eu qu'ria ser o Sol, a luz intensa,
    O bem do que é humilde e não tem sorte!
    Eu qu'ria ser a arvore tôsca e densa
    Que ri do mundo vão e até da morte!

    Mas o Mar tambêm chora de tristesa…
    As Arvores tambêm, como quem resa,
    Abrem, aos Ceus, os braços, como um crente!

    E o Sol altivo e forte, ao fim dum dia,
    Tem lágrimas de sangue na agonia!
    E as Pedras… essas… pisa-as toda a gente!…

    *Peor velhice*

    PEOR VELHICE

    Sou velha e triste. Nunca o alvorecer
    Dum riso são andou na minha bôca!
    Gritando que me acudam, em voz rouca,
    Eu, naufraga da Vida, ando a morrer!

    A Vida que ao nascer enfeita e touca
    D'alvas rosas, a fronte da mulher,
    Na minha fronte mística de louca
    Martírios só poisou a emurchecer!

    E dizem que sou nova… A mocidade
    Estará só, então, na nossa idade,
    Ou está em nós e em nosso peito mora?!…

    Tenho a peor velhice, a que é mais triste,
    Aquela onde nem sequer existe
    Lembrança de ter sido nova… outróra…

    *A um livro*

    A UM LIVRO

    No silêncio de cinzas do meu Ser
    Agita-se uma sombra de cypreste.
    Sombra roubada ao livro que ando a ler,
    A esse livro de máguas que me deste.

    Extranho livro aquele que escreveste
    Artista da saudade e do sofrer!
    Extranho livro aquele em que puzéste
    Tudo o que eu sinto, sem poder dizer!

    Leio-o e folhêio, assim, toda a minh'alma!
    O livro que me déste é meu e psalma
    As orações que choro e rio e canto!…

    Poeta egual a mim, ai quem me déra
    Dizer o que tu dizes!… Quem soubéra
    Velar a minha Dôr desse teu manto!…

    *Alma perdida*

    ALMA PERDIDA

    Toda esta noite o rouxinol chorou,
    Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
    Alma de rouxinol, alma da gente,
    Tu és, talvez, alguem que se finou!

    Tu és, talvez, um sonho que passou,
    Que se fundiu na Dôr, suavemente…
    Talvez sejas a alma, alma doente
    D'alguem que quiz amar e nunca amou!

    Toda a noite choraste… e eu chorei
    Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
    Que ninguem é mais triste do que nós!

    Contaste tanta coisa á noite calma,
    Que eu pensei que tu eras a minh'alma
    Que chorasse perdida em tua voz!…

    *De joelhos*

    DE JOELHOS

    «Bendita seja a Mãe que te gerou.»
    Bendito o leite que te fez crescer.
    Bendito o berço aonde te embalou
    A tua ama, p'ra te adormecer!

    Bendita essa canção que acalentou
    Da tua vida o dôce alvorecer…
    Bendita seja a lua que inundou
    De luz, a terra, só para te vêr…

    Benditos sejam todos que te amarem,
    As que em volta de ti ajoelharem,
    Numa grande paixão fervente e louca!

    E se mais que eu, um dia, te quiser
    Alguem, bendita seja essa Mulher,
    Bendito seja o beijo dessa bôca!!

    *Languidez*

    LANGUIDEZ

    Tardes da minha terra, dôce encanto,
    Tardes duma puresa d'açucenas,
    Tardes de sonho, as tardes de novenas,
    Tardes de Portugal, as tardes d'Anto.

    Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!…
    Horas benditas, leves como pênas,
    Horas de fumo e cinza, horas serênas,
    Minhas horas de dôr em que eu sou santo!

    Fecho as palpebras rôxas, quasi pretas,
    Que poisam sôbre duas violetas,
    Azas leves cançadas de voar…

    E a minha bôca tem uns beijos mudos…
    E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
    Traçam gestos de sonho pelo ar…

    *Para quê?!*

    PARA QUÊ?!

    Tudo é vaidade neste mundo vão…
    Tudo é tristesa; tudo é pó, é nada!
    E mal desponta em nós a madrugada,
    Vem logo a noite encher o coração!

    Até o amôr nos mente, essa canção
    Que o nosso peito ri á gargalhada,
    Flôr que é nascida e logo desfolhada,
    Pétalas que se pisam pelo chão!…

    Beijos d'amôr! P'ra quê?!… Tristes vaidades!
    Sonhos que logo são realidades,
    Que nos deixam a alma como morta!

    Só acredita neles quem é louca!
    Beijos d'amor que vão de bôca em bôca,
    Como pobres que vão de porta em porta!…

    *Ao vento*

    AO VENTO

    O vento passa a rir, torna a passar,
    Em gargalhadas asp'ras de demente;
    E esta minh'alma trágica e doente
    Não sabe se ha de rir, se ha de chorar!

    Vento de voz tristonha, voz plangente,
    Vento que ris de mim, sempre a troçar,
    Vento que ris do mundo e do amar,
    A tua voz tortura toda a gente!…

    Vale-te mais chorar, meu pobre amigo!
    Desabafa essa dôr a sós comigo,
    E não rias assim!… Ó vento, chóra!

    Que eu bem conheço, amigo, êsse fadário
    Do nosso peito ser como um Calvario,
    E a gente andar a rir p'la vida fóra!!…

    *Tédio*

    TÉDIO

    Passo pálida e triste. Oiço dizer
    «Que branca que ela é! Parece morta!»
    E eu que vou sonhando, vaga, absorta,
    Não tenho um gesto, ou um olhar sequer…

    Que diga o mundo e a gente o que quizer!
    –O que é que isso me faz?… O que me importa?…
    O frio que trago dentro gela e corta
    Tudo que é sonho e graça na mulher!

    O que é que isso me importa?! Essa tristesa
    É menos dôr intensa que friesa,
    É um tédio profundo de viver!

    E é tudo sempre o mesmo, eternamente…
    O mesmo lago plácido, dormente…
    E os dias, sempre os mesmos, a correr…

    *A minha Tragédia*

    A MINHA TRAGÉDIA

    Tenho ódio á luz e raiva á claridade
    Do sol, alegre, quente, na subida.
    Parece que a minh'alma é perseguida
    Por um carrasco cheio de maldade!

    Ó minha vã, inutil mocidade
    Trazes-me embriagada, entontecida!…
    Duns beijos que me déste, noutra vida,
    Trago em meus lábios rôxos, a saudade!…

    Eu não gosto do sol, eu tenho medo
    Que me leiam nos olhos o segrêdo
    De não amar ninguem, de ser assim!

    Gosto da Noite imensa, triste, preta,
    Como esta extranha e doida borboleta
    Que eu sinto sempre a voltejar em mim!…

    *Sem remédio*

    SEM REMÉDIO

    Aqueles que me teem muito amôr
    Não sabem o que sinto e o que sou…
    Não sabem que passou, um dia, a Dôr,
    Á minha porta e, nesse dia, entrou.

    E é desde então que eu sinto êste pavôr,
    Este frio que anda em mim, e que gelou
    O que de bom me deu Nosso Senhor!
    Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

    Sinto os passos da Dôr, essa cadência
    Que é já tortura infinda, que é demência!
    Que é já vontade doida de gritar!

    E é sempre a mesma mágua, o mesmo tédio,
    A mesma angústia funda, sem remédio,
    Andando atraz de mim, sem me largar!…

    *Mais triste*

    MAIS TRISTE

    É triste, diz a gente, a vastidão
    Do Mar imenso! E aquela voz fatal
    Com que êle fala, agita o nosso mal!
    E a Noite é triste como a Extrema Unção!

    É triste e dilacera o coração
    Um poente do nosso Portugal!
    E não veem que eu sou… eu… afinal,
    A coisa mais maguada das que o são?!…

    Poentes d'agonia trago-os eu
    Dentro de mim e tudo quanto é meu
    É um triste poente d'amargura!

    E a vastidão do Mar, toda essa agua
    Trago-a dentro de mim num Mar de Mágua!
    E a Noite sou eu própria! A Noite escura!!

    *Velhinha*

    VELHINHA

    Se os que me viram já cheia de graça
    Olharem bem de frente para mim,
    Talvez, cheios de dôr, digam assim:
    «Já ela é velha! Como o tempo passa!…»

    Não sei rir e cantar por mais que faça!
    Ó minhas mãos talhadas em marfim,
    Deixem esse fio d'oiro que esvoaça!
    Deixem correr a vida até ao fim!

    Tenho vinte e tres anos! Sou velhinha!
    Tenho cabelos brancos e sou crente…
    Já murmuro orações… falo sòsinha…

    E o bando côr de rosa dos carinhos
    Que tu me fazes, olho-os indulgente,
    Como se fosse um bando de nètinhos…

    *Em busca do Amôr*

    EM BUSCA DO AMOR

    O meu Destino disse-me a chorar:
    «Pela estrada da Vida vae andando;
    E, aos que vires passar, interrogando
    Acerca do Amôr que has de êncontrar.»

    Fui pela estrada a rir e a cantar,
    As contas do meu sonho desfiando…
    E noite e dia, á chuva e ao luar,
    Fuí sempre caminhando e perguntando…

    Mesmo a um velho eu perguntei: «Velhinho,
    Viste o Amôr acaso em teu caminho?»
    E o velho estremeceu… olhou… e riu…

    Agora pela estrada, já cançados
    Voltam todos p'ra traz, desanimados…
    E eu paro a murmurar: Ninguem o viu!…»

    *Impossivel*

    IMPOSSIVEL

    Disseram-me hoje, assim, ao vêr-me triste:
    «Parece Sexta Feira de Paixão.
    Sempre a scismar, scismar, d'olhos no chão,
    Sempre a pensar na dôr que não existe…

    O que é que tem?! Tão nova e sempre triste!
    Faça por 'star contente! Pois então?!…»
    Quando se sofre o que se diz é vão…
    Meu coração, tudo, calado ouviste…

    Os meus males ninguem mos adivinha…
    A minha Dôr não fala, anda sòsinha…
    Dissesse ela o que sente! Ai quem me déra!…

    Os males d'Anto toda a gente os sabe!
    Os meus… ninguem… A minha Dôr não cabe
    Nos cem milhões de versos que eu fizéra!…

    ÍNDICE

    Êste livro
    Vaidade
    Eu…
    Castelã da Tristesa
    Tortura
    Lágrimas ocultas
    Torre de névoa
    A minha dôr
    Dizêres íntimos
    As minhas ilusões
    Neurastenia
    Pequenina
    A maior tortura
    A flôr do sonho
    Noite de saudade
    Angustia
    Amiga
    Desejos vãos
    Peor velhice
    A um livro
    Alma perdida
    De joelhos
    Languidez
    Para quê?!
    Ao vento
    Tédio
    A minha tragédia
    Sem remédio
    Mais triste
    Velhinha
    Em busca do amôr
    Impossivel

    ACABOU-SE DE IMPRIMIR ÊSTE LIVRO
    NO MÊS DE JUNHO DE 1919 NA
    TIPOGRAFIA MAURICIO, RUA
    DO SALITRE, 102-A
    LISBOA